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Editoriall

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o princípio era o verbo e o verbo se fez carne. A carne evoluiu, desenvolveu a escrita, a imprensa e a revista feminina. Antes da revista feminina, as mulheres conquistaram pouco a pouco os direitos que antes eram privativos dos homens. Queimados os sutiãs, elas achavam que estavam livres. Nem tudo são flores e dizemos isso porque a maioria das publicações para mulheres são chefiadas por homens. Esta em suas mãos é feita da capa à quarta capa por mulheres. O conteúdo é feito por mulheres. Cada detalhe foi pensado por elas. Sob uma estética retrô, a discussão de temas polêmicos, ou mesmo cotidianos, se deslancha com leveza e sensibilidade, porém não menos racional. Nestes tempos difíceis, ainda é possível ler e se interessar sem se aborrecer em meio a textos longos que possam, à primeira vista, parecer enfadonhos. Nesta primeira edição, você se inspirará em musas nada convencionais, vai aprender a dar mais atenção à sua vó, entre outras coisas guardadas nos versículos dos próximos livros deste manual de exorcismo. Que demos início ao novo conceito de revista feminina.

Amém


Expediente

Editoras: Diana Yukari Raquel Câmara Conselho Editorial: Célia Matsunaga Editoras de Arte: Diana Yukari Raquel Câmara Redação: Alannah Tobias Diana Yukari Marcela Rocha Raquel Câmara Jornalistas: Alannah Tobias Marcela Rocha Raquel Câmara

Assistentes de redação: Alannah Tobias Diana Yukari Marcela Rocha Raquel Câmara Revisora: Alannah Tobias

Projeto Revista Planejamento Gráfico

Colaboradores: Bethania Maia Camila Menezes Gabriel Braga Maria Elisa Nívea Ribeiro


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Texto & Diagramação: Raquel Câmara

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Mulheres, vocês não vivem no mesmo mundo em que suas avós e bisavós viveram onde escolhas de carreira eram limitadas e os preconceitos relacionados à mulher eram muito maiores do que os de hoje. Podemos dizer, de maneira geral, que o mundo está diferente. E isso se deu em grande parte graças às conquistas femininas que ultrapassaram os limites domésticos e alcançaram o mundo. Com isso criou-se toda uma atmosfera de interesse e curiosidade em volta da nova mulher que cruzava os caminhos da sua emancipação. Mas afinal, hoje, quem é essa mulher? Como ela foi e é capaz de inverter o mundo de tal forma que os valores que pareciam consolidados tornaram-se instáveis?


Sacrilégio “Hoje ela vai ao trabalho, toma decisões, exige e assume responsabilidades.”

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anos permaneceram ocultos e alheios à sociedade e hoje procuram conquistar o seu lugar, como a conscientização quanto à diversidade sexual, liberdade de expressão, liberdade de direitos dentre vários outros que como a questão de gênero e dos papeis atribuídos ao homem e mulher são cada vez mais discutidos. Dentro desse contexto, é difícil conseguir delinear contornos sobre o que se pensa em relação ao feminino e mesmo ao masculino. Torna-se frequente o surgimento de questões cada vez mais subjetivas que dizem respeito ao que querem as mulheres e o que querem os homens. Em um mundo que parece estar novamente em construção é quase impossível existirem respostas acabadas. Sem desmerecer os avanços conquistados pelas mulheres ao longo das últimas décadas, que permitiram chegarmos hoje ao ponto de discutirmos o seu papel cada vez mais forte na sociedade, a ideia aqui levantada é ir pela contramão do que frequentemente se vê estampado em capas de revista, recortes de jornais ou imagens televisivas. Diante de um mundo que abre espaços ao pluralismo de ideias e a novas concepções do que parecia consumado, por que não experimentar novas configurações? Antes de tudo, é preciso não precipitar - se pela urgência de dar contornos pré-estabelecidos a figuras que se caracterizam pela sua mutabilidade. Hoje ela vai ao trabalho, toma decisões, exige e assume responsabilidades. Ele cuida dos filhos, vai ao supermercado e escolhe o jantar. Se o mundo parece estar invertido, talvez tenha sido nós que nunca quisemos mudar de posição. π

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s tempos de hoje parecem dizer que eles perderam o que elas ganharam. Com o mercado de trabalho cada vez mais acirrado, os homens enfrentam novas situações onde a forte concorrência feminina está presente e prestes a conquistar uma vaga. A vitória das mulheres nem sempre é certa, na verdade, em muitos casos ainda prefere-se a figura masculina. Porém, o que se percebe é que a cada dia se torna mais comum a presença dos homens em outros ambientes fora da esfera de trabalho como, por exemplo, na casa exercendo atividades antes apenas atribuídas à mulher e mulheres presentes em outras salas que não a da sua casa. Ainda que se reconheça todo o valor dado a essa fase de ambos os gêneros, é impossível no que diz respeito a essa discussão não cair em inversões simétricas – homens frágeis, mulheres poderosas- ou até mesmo nos típicos clichês que dizem ser o novo mercado de trabalho mais afeito ao mundo feminino (intuitivo e flexível) que ao masculino (agressivo e menos propenso ao diálogo). A questão suscita diversos pontos, dentre eles: O que é ser homem? O que é ser mulher? Estariam essas duas perguntas respondidas apenas por palavras que remetessem a virilidade masculina e enfadonha delicadeza feminina? Ou até mesmo a inversão desses papéis? É preciso ir além. É preciso enxergar que o homem e a mulher de hoje se encaixam em um contexto diferente de qualquer outro vivido e que há alguns anos seria impossível de se imaginar. Ele abre espaço para diversos temas que por

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Texto & Diagramação: Marcela Rocha Fotografia & Arte: Raquel Câmara

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A moda sempre foi considerada algo que se renova e, aos seus fiéis seguidores, cabe o dever de notar as próximas tendências. Mas e quando o novo é um velho reinterpretado? Associado a uma ideia de aparência ora romântica ora ousada, o retrô ganha destaque nos dias de hoje. Calças, saias e vestidos de cintura alta, óculos grandes e curvilíneos, lenços estampados, dentre tantas outras opções fazem o seu guarda-roupa parecer o mesmo da época da sua avó. Busque esse estilo e reinvente-se. Afinal, sua avó está na moda!


Mess$ina

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“Sempre que eu canso de usar as minhas roupas, vou no armário da minha vó, pego uma camisa e crio um look diferente”. Bruna Lunardi, estudante.

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Texto: Bethania Maia Diagramação: Diana Yukari

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As musas são, por definição, entidades mitológicas inspiradoras de criações artísticas e científicas. Ainda que não estejamos na Grécia Antiga, a utilização deste termo não pode ser descartada quando se trata de definir o que foram algumas personagens femininas na história. Mulheres cujo comportamento afrontoso foi a faísca necessária para começar um fogaréu de discussões acerca de assuntos proibidos em sua sociedade.


Filhas de Eva

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"A aparição de uma loura notável, com curvas provocantes e palavreado sujo, não poderia causar nada menos que um grande rendez-vous"

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s Estados Unidos dos anos 20 e 30 eram de longe a maior potência mundial. Enquanto a Europa pósguerra ainda andava a passos lentos, a economia e a sociedade estadounidense deslanchava. O american way of life tornou-se utopia de muitos países. Neste clima de suposto progresso, os direitos das mulheres também foram pauta; em 1920, o direito de mulherse maiores de 21 anos votarem e se elegerem foi constitucionalizado. A plasticidade deste pretenso desenvolvimento mascarava, porém, um grave atraso desta sociedade quando o tema era sexo. A discussão ou mesmo menção deste assunto simplesmente não se encaixava aos moldes de perfeição do qual eles tanto se orgulhavam. Neste contexto, a aparição de uma loura notável, com curvas provocantes e palavreado sujo, não poderia causar nada menos que um grande rendezvous. Foi assim que Mae West ganhou visibilidade: o teor sensual inédito de suas peças lhe rendeu mais de uma semana de prisão por “corrupção da juventude”. A sensualidade era mote recorrente em suas obras. Por essa razão, ela se tornou um ícone da beleza, povoando, envolvida por uma pele branca de raposa, com seu decote avantajado, o imaginário de homens (e porque não também de mulheres?). Envolveu-se com teatro muito cedo, mas apenas em 1926, aos 33 nos, foi realmente aclamada, estrelando a peça “Sex”, de sua autoria. Quatro anos depois, migraria para o cinema, ao assinar um contrato com a Paramount. Protagonizou filme após filme até ser afastada das grandes telas nos anos 50. A partir deste momento, sua relação com o público se dava em night clubs, onde cantava seus sucessos antigos. Mary Jane West foi polêmica tanto em suas obras quanto em sua vida. Não se sabe ao certo qual a duração de seus matrimônios, ou se eles sequer existiram. O que se sabe é que ela nunca abriu mão de ter um quarto só para si. É muito conhecida por suas citações de cunho libertário, onde engrandece a autonomia da mulher em questões sexuais e amorosas.

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ercedes Sosa nasceu no mesmo dia no qual, muitos anos antes, foi declarada a independência da Argentina. Talvez seja esta a razão para que se envolvesse tanto no ativismo social. Seu patriotismo estava estampado em sua música, seu discurso e seu mais do que conhecido desejo de ver uma América Latina unida. De origem indígena, a cantora respondia pelo apelido La Negra. Também ficou conhecida como a “voz dos sem voz”, por cantar a tristeza dos que têm que lutar para sobreviver. Porém sua notoriedade advém da intensidade com a qual vivia sua condição de cantora. Acreditava que algumas pessoas não somente possuem habilidade para cantar, mas não têm outra opção que não fazê-lo. Sentia-se assim, como se seu cantar fosse maior que seu ser, e fosse ela nada mais que uma via por onde essa tão bela arte passava para atingir as pessoas. Sua obra teve maior visibilidade a partir de sua participação como precursora do Movimiento de la Nueva Canción, movimento musical que visava a rejeição da massificação da música e almejava a criação desta integrando as diversas vertentes de música popular de seu país. Foi um marco não só na história da música argentina, mas latinoamericana. Manteve-se fiel aos princípios artísticos deste movimento durante toda sua carreira, passando por cima de diversos tipos de preconceitos. Sua morte em abril de 2009 causou tamanha comoção na América Latina que vários presidentes declararam luto oficial. É possível entender toda a força de Mercedes Sosa ao escutar sua voz, ao mesmo tempo dura e doce, da que ama e da que sofre. E é pelo que esta mulher conseguia fazer sentir com um microfone em mãos que tornou-se a lenda que é.

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scassas são as mulheres que têm papel de destaque nos livros de História do Brasil. Pouquíssimas vezes são sequer mencionadas, e quando o são, se encontram constantemente no papel de coadjuvantes de fortes figuras masculinas. Em contraposição a esta postura de passividade feminina histórica, eis que surge em meados do século 19 a catarinense Anita Garibaldi, notória por sua intrepidez e força. Desquitada aos 17 anos, Anita se envolveu com a luta pela independência gaúcha e de outros estados ao apaixonar-se pelo guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi. Desde então, passaram toda a vida juntos, militando por esta causa em diversos territórios. O diferencial de Anita Garibaldi foi posicionar-se como guerrilheira sem deixar de lado sua condição de mulher. Pouco depois do nascimento de seu primeiro filho, teve sua casa cercada pelo exército imperial, que tinha o intuito de prender o casal. Com o filho em seus braços, ela fugiu a cavalo e escondeu-se por quatro dias até ser encontrada por Giuseppe. Esta é a imagem mais emblemática de Anita: um indomável animal selvagem fugindo do predador por entre as matas com sua cria no colo. A mãe e a guerreira, uma só. Os tempos eram de anáguas e saias longas, de espera na janela por um bom partido, de repressão absoluta dos quereres da mulher. Numa época onde a figura feminina praticamente não existia fora do âmbito privado, o tipo de comportamento adotado por Anita era considerado altamente ultrajante perante a sociedade. Por intrigar de tamanha maneira as fêmeas e causar tamanho desconcerto aos machos alfa de sua geração, sagrou-se como quase lenda no Brasil e em parte da Europa.

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“Escassas são as mulheres que têm papel de destaque nos livros de História do Brasil. Pouquíssimas vezes são sequer mencionadas”

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ode parecer deveras desconexo colocar Mae West, Mercedes Sosa e Anita Garibaldi lado a lado. Para que o que parece desarmônico se encaixe com mais facilidade, é necessário explicar o conceito de musa aqui explorado. Musas não são apenas aquelas tão distantes semi-deusas gregas. Musas não são somente as mulheres intocáveis tão presentes no Romantismo. Musas são mais que Garotas de Ipanema e seus balançados de poema. Musa inspiradora é aquela que, passe o tempo que for, será olhada com admiração, lembrada pela mudança que fomentou. Inspirar aqui é sinônimo de inovar, de causar mudança. E sua beleza não é somente esta efêmera, venerada pela sociedade. É uma beleza de espírito, que as torna imortais. π

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Maria da Penha Maia Fernandes é farmacêutica bioquímica formada pela Universidade Federal do Ceará e mestre em parasitologia pela USP. Começou a namorar aos 12 anos e foi essa precocidade que a tornou forte e persistente em sua luta: ela teve de levar o caso à justiça internacional para conseguir colocar seu ex-marido atrás das grades. Professor universitário, estrangeiro. Dificilmente imaginaríamos que tais características descreveriam um agressor capaz de tentar matar a própria esposa duas vezes. A primeira, um tiro de espingarda pelas costas enquanto dormia; resultado: a paraplegia. Dias antes da segunda emboscada – eletrocução debaixo do chuveiro –, o homem tentara convencê-la a fazer um seguro de vida a seu favor. Depois de tudo isso, Maria se separou e ele foi para o Rio Grande do Norte viver com a amante. Um absurdo atrás do outro e sem punição alguma? Maria, mesmo sem poder andar e sem o amparo da legislação brasileira, conseguiu a sanção do presidente Lula em 2006 e agora temos a lei 11.340 que cria mecanismos para coibir a violência familiar contra a mulher e prevê que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada. De acordo com Texto: Alannah Tobias a OMS, em 61,5% das denúncias registradas Diagramação: Diana Yukari no Ligue 180, as usuárias do serviço declaste ano comemora-se 5 anos de ram sofrer agressões diariamente. Os dados uma das maiores conquistas da ainda são alarmantes, mas, aos poucos as mulher brasileira: a Lei Maria da mulheres deste Brasil ganham confiança e, Penha (Lei 11.340/06). Quase vinte anos agora protegidas pela lei, conseguem mudar de luta, a lei revoluciona estatísticas a cada uma situação que antes poderia não ser ano que passa e muda a vida de mulheres resolvida a tempo. que não agüentam mais sofrer caladas. InAinda bem que deu tempo para Maria da felizmente, para que muitas vidas pudesPenha se salvar e salvar a todas nós. A lei é sem caminhar com dignidade novamente, tão notável que é utilizada por homens que uma vida teve de ser penalizada: Maria da sofrem violência doméstica; por trás de tudo Penha, como é de conhecimento da maioisto há uma discussão sobre a redação da lei ria, ficou paraplégica após tentativa de – o uso do termo “mulher” como forma de assassinato do companheiro. Com alguns especificar a vítima. Feminismos à parte, só outros detalhes, você passará a admirar uma mulher para mudar a vida de alguém mais ainda essa incrível mulher. (ou de algumas). π

A mulher que virou nome de lei

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Salve Rainha

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Vade retro satana!



Revista Vade Retro