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Paixões em ebulição... Scout Ritland é o tipo de homem que significa "problema", e Chantal Dupont deveria saber disso. No entanto, lá está ela, na exótica Ilha Parrish, lançando olhares para o charmoso arquiteto. Mas é por uma boa causa: Scout é o único que pode ajudar a salvar o vilarejo onde ela mora... e Chantal não deixará que ele se aproveite dela... por mais que seja exatamente isso o que gostaria que ele fizesse! Depois de concluir seu trabalho na ilha. Scout está pronto para se divertir e relaxar... embora ser vitima de seqüestro não faça parte de seus planos! Ser seqüestrado por uma mulher linda e encantadora como Chantal não é o pior dos infortúnios, e logo ele se contagia pelo empenho de Chantal em ajudar seu povo. Entretanto, à medida que o plano é posto em prática, a intriga, a aventura... e o desejo... fervilham mais do que a lava que ameaça derramar do vulcão daquela ilha paradisíaca... Digitalização: Silvia Revisão: Crysty


Querida leitora, Ao ler este romance, eu me transportei para uma ilha paradisíaca no Pacífico. O cenário perfeito para um tórrido caso de amor, misturado com maestria à aventura que prende a leitura até o último parágrafo. Os personagens são apaixonantes, embora nada têm em comum, além de estarem envolvidos numa missão pela qual correm risco de morte... e ligados por uma atração que pode ser ainda mais perigosa... Leonice Pomponio Editora

Número Total de paginas 159 Copyright © 1989 by Sandra Brown Originalmente publicado em 2007 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY - USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja qual for o meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa da Editora Nova Cultural Ltda. TÍTULO ORIGINAL: Temperatures Rising EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patricia Chaves Paula Rotta Silvia Moreira EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Camillo Garcia Revisão: Giacomo Leone ARTE Mônica Maldonado ILUSTRAÇÃO Robert Garvey / Corbis / LatinStock MARKETING/COMERCIAL Andrea Riccelli PRODUÇÃO GRÁFICA Sonia Sassi PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda. © 2008 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Paes Leme, 524 - 10º andar - CEP 05424-010 - São Paulo - SP www.novacultural.com.br Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley


Capítulo I Olhos escuros, amendoados. Cabelos lisos. Figura esbelta. Scout Ritland resumiu, mentalmente, a primeira impressão sobre a mulher que havia acabado de avistar, no salão de festas. Decididamente, ela possuía uma beleza fora do comum. Entre ambos havia uma verdadeira multidão de black-ties que celebravam, congratulavam-se e embriagavam-se, graças a um ponche de frutas tropicais, capaz de fazer com que o mais tímido dos convidados se sentisse livre o suficiente para tomar um banho de mar, completamente nu. Scout não estava tão alto assim, mas experimentava um agradável sentimento de euforia... Uma espécie de burburinho interior, quase tão alto quanto o som dos pássaros noturnos na mata que circundava o Coral Reef, o maravilhoso resort que estava sendo inaugurado em grande estilo, naquela noite. O forte ponche causava nas pessoas uma tendência a anular as inibições, a suprimir os conceitos morais e idéias de igualdade sexual... Com os olhos vitrificados pela intemperança, e por um incomum chauvinismo, Scout observou a mulher, que usava um vestido branco, muito justo. Sem nenhum remorso, permitiu-se considerá-la apenas como um objeto sexual. A ilha Parrish causava aquele efeito nas pessoas... Apesar de ser representada no mapa do sul do Pacífico apenas como um ponto, em meio a tantos outros, era um local inebriante. Havia flores perfumadas, figueiras e coqueiros em abundância... Mas não a ostentação ianque. Fazia apenas umas poucas horas que Scout havia, finalmente, sucumbido aos encantos da ilha. Pela primeira vez, desde sua chegada, meses atrás, ele tinha estendido o olhar para além das paredes de mármore rosa do hotel. Até então, aquele projeto havia consumido a maior parte do seu tempo, energia e pensamento. Assim, Scout não tivera oportunidade de desfrutar da ilha, onde a natureza permanecia quase intacta, bem como da cordialidade de seus habitantes. Um habitante, em particular... A mulher de branco! E como era deslumbrante! Reservada... Até mesmo um tanto orgulhosa. Percebendo ser observada, ela o tinha olhado de volta, como se o avaliasse, com uma expressão impassível. Então, como ele não despertou seu interesse, passou a ignorá-lo. Scout estava intrigado. Jamais vira aquela mulher no resort, durante a fase de construção. Isso significava, portanto, que ela não trabalhava no hotel... Seria esposa de algum funcionário?


Por ser um pensamento desanimador. Scout resolveu descartá-lo, junto com o copo que acabara de esvaziar. Se aquela mulher fosse casada, então onde estaria seu marido? Que homem, em seu juízo perfeito, deixaria uma beldade daquelas, sozinha, num salão cheio de homens, que estavam longe de suas casas e famílias havia meses? Não. Com certeza não era casada ou seriamente comprometida com alguém, pois não havia nenhum olhar de posse sobre ela. Mas, então, quem seria aquela mulher? Ele se perguntou, lançando um olhar desinteressado aos pratos exóticos, expostos numa mesa do bufê. — Belo trabalho, sr. Scout Ritland — alguém comentou, de passagem. — Obrigado. Boa parte do resort havia sido construída sobre as águas plácidas de uma laguna. Scout havia trabalhado no projeto, juntamente com o arquiteto responsável. Por isso, ele agora recebia sua parcela de glória. As pessoas já haviam apertado tanto a sua mão, causando cãibras inclusive. E seu ombro estava levemente dolorido, devido aos muitos tapinhas de congratulações, que havia recebido. Mais tocado pelo sucesso do que pelo ponche de frutas, ele caminhou entre a multidão. Seu destino era se aproximar daquela mulher deslumbrante que estava junto a uma porta em arco, que conduzia ao jardim. Por fim, conseguiu alcançá-la... Voltando-se, ela o fitou diretamente. Scout esperou, com a respiração suspensa. Os olhos amendoados não eram tão escuros quanto havia imaginado, e sim de azul capaz de eletrificar e entorpecer. — Scout, onde você estava? Ainda bem que o alcancei, antes de você partir — disse alguém, puxando-o pelo braço. Ele ainda tentou manter os olhos fixos na mulher, mas por fim teve de apertar a mão que um homem lhe estendia: — Olá, sr. Reynolds — cumprimentou-o, educadamente. — Pode me chamar apenas de Corey — disse o magnata, que era também um dos proprietários do hotel. — Você fez um trabalho maravilhoso... Ou será que já se cansou de ouvir o mesmo elogio? —De modo algum — ele respondeu, meneando a cabeça, com ar zombeteiro.


— Eu não poderia deixar de dizer o quanto estou satisfeito, assim como meus sócios. — Obrigado, senhor. — Scout não queria ser rude com o homem que, afinal, era quem assinava seus polpudos cheques. Mas lançou um rápido olhar por cima do ombro, na direção da mulher... Que já não estava lá. Havia desaparecido. Droga, pensou, aborrecido. — Sei que não foi um empreendimento fácil... — disse Corey. — Sobretudo se considerarmos todas as dificuldades com as quais você se defrontou, durante a construção. — O senhor está se referindo ao comportamento dos habitantes da ilha, durante as obras? O homem fez um gesto de assentimento. E Scout comentou, com pesar: — Pois é... Definitivamente, eles não compreendem o que significam as expressões como prazo ou jornada de oito horas diárias. Mesmo o pagamento de horas extras nunca serviu para convencê-los a desistir de uma festa, por exemplo. E são cerca de dez festas por mês! No entanto, isso nunca chegou a me aborrecer... Ao menos não tanto quanto os roubos. Peço desculpas por ter estourado o orçamento do material. — Sei que parte do material se perdeu, não foi por sua culpa. E estou ciente de que você fez de tudo para capturar os ladrões — constatou Corey, tranqüilizando-o. — Aqueles bastardos! Fiquei montando vigília durante quatro noites, para ver se conseguia apanhá-los... Por fim, justo quando desisti, eles atacaram de novo. Com o canto do olho, Scout notou um movimento à sua esquerda e virou-se na direção do terraço. Não havia nada, ali, exceto a luz do luar e o perfume de flores silvestres, trazido pela brisa marinha. Será que a mulher misteriosa estaria ali, espreitando por entre as sombras do jardim tropical? — ...da ilha? — Corey terminava uma pergunta. frase:

E ele respondeu, concluindo o que deveria ter sido a primeira parte da

— Não, senhor, só conheci mesmo esta área onde estive trabalhando. Por isso estou pensando em tirar uma semana para me perder pela ilha, antes de voltar para casa.


— Ótima idéia. Dê a si mesmo um tempo para relaxar e espairecer, antes do casamento... Que, se não me engano, será em breve, não? — Sim, no final do próximo mês. Corey sorriu, ao perguntar: — Como vai a srta, Colfax? Scout havia apresentado Jennifer Colfax a Corey durante um jantar, em Boston, onde ficava a sede do Grupo Reynolds. Aquela altura, o Coral Reef Resort ainda nem existia, era apenas um projeto arquitetônico. Agora, Scout sentia-se satisfeito ao constatar que sua noiva havia sido lembrada. — Jennifer está bem — ele respondeu, por fim. — Ela me escreve regularmente. — Você tem autoconfiança. Caso contrário, não a deixaria sozinha por todo esse tempo. — Fizemos um trato, antes de eu vir para cá. Afinal, não poderia esperar que ela passasse todas as noites em casa, durante minha ausência. Assim, conversamos bastante e a deixei livre para sair com quem bem entendesse, sem passar dos limites. — Você não é apenas confiante, mas compreensivo — comentou Corey. E depois de sorver um gole de ponche, acrescentou; — Ela é adorável, não? Scout observou que a razão do estudo criterioso era uma bela garçonete, nativa da ilha. Ela usava um sarongue curto, florido, envolvia o corpo pequeno e delicado. Tal como a maioria das mulheres da ilha, era do tipo mignon, tinha cabelos negros e brilhantes, assim como os olhos, e um sorriso luminoso. — Embora esteja prestes a me casar, não deixei de notar que uma das maiores belezas naturais da ilha Parrish é sua adorável população feminina. — O que você planeja fazer aqui, na ilha, durante sua semana de férias? — perguntou Corey, voltando a atenção para a conversa. — Não quero pensar em prazos, trabalhadores lerdos, não quero pensar nem mesmo no telefone. Vou pescar, talvez até pratique um pouco de surf. Quero me deitar na praia e não fazer absolutamente nada, a não ser relaxar. — Scout lançou um olhar na direção da bela garçonete, antes de concluir: — E se eu for seqüestrado por uma dessas belas nativas, de corpo escultural e seios à mostra, por favor, não mande ninguém me procurar... Corey desatou a rir. — Que malandro! Gosto do seu senso de humor. — Apertou a mão de Scout e voltou a elogiar o desempenho, na construção do hotel. — Nós nos veremos em Boston. Quero conversar com você sobre alguns projetos, que pretendo realizar no futuro. Vamos almoçar juntos, qualquer dia desses? Jennifer, você e eu...


— Teremos imenso prazer em aceitar seu convite, senhor. Muito obrigado. Corey despediu-se e afastou-se. Scout observou-o por algum tempo, mal cabendo em si de entusiasmo. Não que desejasse fazer parte do Grupo Reynolds. Sua personalidade não se adaptava ao ambiente sufocante e opressivo do mundo corporativo... Mas certamente desejava fechar um novo contrato daquele porte. E, ao que tudo indicava, era isso que Corey tinha em mente. O projeto do Coral Reef Resort tinha sido o primeiro grande trabalho de Scout, nos últimos tempos. E ele sabia da importância de se firmar como um profissional de sucesso, enquanto os poderosos, os tomadores de decisão, ainda se lembrassem daquele empreendimento. Depois da conversa com Corey, ele sentia que tinha motivos para comemorar. Uma garçonete passou a seu lado, com uma bandeja de prata cheia de copos de ponche. Scout pegou um e saiu pela porta em arco, que conduzia ao terraço. Os muros do resort eram decorados com trepadeiras de primaveras das mais variadas cores. Nenhum gasto fora poupado para decorar o hotel, por dentro e por fora. Havia grandes vasos orientais, de valor incalculável, com samambaias e palmeiras ornamentais. As plumérias estavam floridas, dando um toque de perfeição ao ambiente. Como gigantescos vaga-lumes, tochas dispostas ao longo dos muros de pedra ardiam na noite, iluminando as trilhas por entre os canteiros. Do terraço principal partiam escadas que conduziam a outro nível, mais baixo. Um caminho à esquerda levava à piscina de três níveis, com sua cascata artificial e fontes. Um segundo caminho levava à praia, onde a areia era como uma suave faixa dourada entre o gramado bem cuidado e a orla marítima. Um grupo deixou o salão de festas e seguiu pelo caminho, certamente em busca de um pouco do privacidade. Outro grupo de homens, em sua maioria asiáticos, discutiam negócios e tomavam drinques, acomodados a uma mesa no terraço mais baixo. Encostado a uma palmeira, no centro do gramado, um jovem casal trocava beijos apaixonados. Outro casal passeava, abraçado, à beira-mar, ainda usando roupas sociais, os sapatos pendendo das mãos. No centro da paisagem iluminada pela lua, havia uma figura solitária... Como que hipnotizado, Scout caminhou em sua direção. O luar, incidindo sobre o vestido branco da mulher, tornava-a tão visível como se ela estivesse sendo iluminada por um refletor. E ali estava ela, imóvel, voltada para o oceano, contemplando-o como se estivesse se comunicando secretamente com ele.


Que vestido! pensou ele, aproximando-se. Jennifer não aprovaria aquele modelo. Na verdade, poucas mulheres de New England o aprovariam... Pois o vestido era simples demais, embora terrivelmente sexy. Tinha uma longa abertura lateral, apenas no lado direito. Um dos ombros, o esquerdo, estava inteiramente nu. A brisa, rica em fragrâncias, fazia com que o tecido se amoldasse ao corpo curvilíneo, delineando os seios e os quadris. Os pensamentos de Scout não eram muito diferentes dos que tivera pouco antes, no salão de festas, ao avistar a mulher... Por um instante, ele sentiu uma ponta de culpa em relação à noiva. Mas, Jennifer estava do outro lado do mundo. E aquela ilha parecia tão longe dela e de Boston! As regras e códigos de comportamento que regiam a vida em Boston eram tão inúteis, ali na ilha, como seria um grosso casaco de lã. Havia trabalhado durante meses a fio, sem descanso. Então se julgou merecedor de ao menos uma noite de prazer. Conceitos puramente racionais desfilavam pela mente de Scout, justificando seus desejos. Os meses de abstinência sexual, a bebida forte que havia ingerido, a paisagem tropical, a bela mulher... Formavam uma poderosa combinação afrodisíaca à qual seria impossível resistir. Percebendo a aproximação do estranho, a mulher voltou o rosto para fitálo com aqueles olhos azuis que eram de uma beleza de tirar o fôlego. Os cabelos escuros agora estavam presos num coque sobre a nuca, adornados com dois hibiscos brancos. A única jóia que ela usava era um par de brincos de pérolas, do tamanho de bolas de gude. A despeito de serem belas e perfeitas, as pérolas não podiam competir com a beleza e suavidade da pele daquela mulher, Scout concluiu. E apesar de ela estar vestida, boa parte de seu corpo estava à mostra: o pescoço, o colo, a curva de um seio. As pernas bem torneadas pareciam ainda mais longilíneas por conta das sandálias de salto alto. Seus pés também eram belos, assim como as mãos. De uma delas pendia uma pequena bolsa de cetim. O corpo de Scout reagia ao desejo de possuir aquela mulher adorável e seu corpo perfeito. Ela estava em pé, ao lado de uma escultura que representava algum deus pagão da Antigüidade, ostentando um sorriso maroto e exibindo um grande falo. Scout lembrou-se da ocasião em que aquela escultura fora colocada ali... Tinha virado o assunto do dia e provocado comentários divertidos, cada um mais picante do que o outro.


Agora, ele poderia jurar que o sorriso insolente da estátua era dirigido a ele. Até parecia que aquele pequeno demônio sabia de sua condição física... E que se deliciava, maliciosamente, com a situação. Aproximando-se da mulher, Scout apontou a estátua com um gesto de cabeça, indagando: — Ele é seu amigo? Esperava uma reação favorável, mas de algum modo também que ela o rejeitasse pela insolência. Foi com uma sensação de alívio que a viu sorrir, com seus lábios brilhantes e bem delineados, exibindo dentes perfeitos. — Ele é amigo de todo mundo — ela respondeu. — Afinal, é um deus do erotismo. — Eu deveria ter adivinhado... Qual é o nome dele? — perguntou ele sorrindo. — Eros. Não acredito que você não sabia... Este pequeno deus não é páreo para mim, em questão de excitação... Estou duro como uma rocha, querida, e tudo por sua causa. Aquelas palavras certamente não eram adequadas para iniciar uma conversa. — Meu nome é Scout Ritland. — Estendeu a mão. — Chantal duPont. — Retirando a mão, acrescentou: — Foi um prazer conhecê-lo, sr. Ritland. — E dando as costas, fez menção de se afastar. Scout precisou de alguns momentos para se recuperar da sensação do contato daquela mão pequena e quente junto à sua... Quando conseguiu, apressouse a acompanhá-la por um caminho de cascalho, que conduzia para fora da propriedade. — Você vai trabalhar aqui, no resort? — indagou, numa tentativa de prolongar a conversa. — Não, sr. Ritland — respondeu ela, com um sorriso divertido. — Então, o que estava fazendo, na festa? — Fui convidada. Scout segurou-a pelo braço. Parando, ela voltou-se para fitá-lo. O luar, filtrando-se por entre as árvores, iluminava o rosto delicado. — Não tive intenção de ser rude — ele explicou. — Claro que você deve ter sido convidada... Mas como nunca a vi por aqui antes, pensei que... — Eu não fiquei ofendida — ela o interrompeu, num tom suave.


Ainda inebriado pelo magnetismo de Chantal, Scout não soltou o braço, prolongando ao máximo o contato com a pele suave. Mas ela o lembrou, olhando para a mão forte que a impedia de seguir seu caminho. Scout relaxou a pressão. E foi somente quando deixou o braço cair ao longo do corpo que se deu conta de que ainda segurava a taça de ponche. — Está servida a tomar um drinque? — indagou, sentindo-se um tanto ridículo. — Não, obrigada. — Bem, não a condeno por recusar. Esta bebida é tão forte que é capaz de derrubar um leão. Esboçando um sorriso, Chantal pegou a taça, levando-a à boca. Mantendo os olhos fixos em Scout, sorveu todo o ponche e, no final, passou sensualmente a ponta da língua pelos lábios, como se não quisesse perder sequer uma gota... — Tem razão, sr. Ritland. A menos que se desenvolva uma resistência contra a bebida, é forte mesmo — constatou ela, devolvendo o copo vazio e, apressando o passo, entrou no bosque. Ele ficou parado e perplexo. A dose de bebida que aquela mulher havia tomado seria suficiente para embriagar qualquer um. No entanto, ela o saboreara como se estivesse tomando um copo de leite. E ela continuara em pé! E acabava de entrar no bosque, silenciosa e ágil como uma pantera negra. Deixando o copo sobre uma mesa rústica, ele a seguiu bosque adentro, por entre um estreito caminho de densas folhagens, pouco se importando com o fato de que aquilo arruinaria seu smoking. Por um instante, um inseto passou zumbindo perto de seu ouvido. Scout afastou-o com um gesto veemente. — Chantal? — Oui? Scout voltou-se. Ali estava ela, bem perto, como se houvesse se materializado de repente. Sentindo-se um completo tolo, tirou a gravataborboleta, com um gesto desajeitado. — Quem é você? — perguntou. — Uma ninfa, ou algo parecido...? Ela respondeu com um riso cristalino: — Sou totalmente humana, feita de carne e osso, assim como você. Scout abriu o primeiro botão de sua camisa, agora com um gesto mais calmo. Uma vez mais, sentia-se fascinado pela incrível beleza e singularidade daquela mulher. Seus olhos a observaram, começando pelo alto da cabeça,


passando pela face, pelo pescoço gracioso, pelos seios generosos. Detendo-se no centro do corpo escultural. Precisava tocá-la novamente para confirmar que não estava sonhando. Então, com a ponta dos dedos, ele delineou a curva dos seios, subindo até a gola do vestido e, dali, cobrindo o ombro nu com a mão inteira. Sentir a pele macia era tão maravilhoso quanto admirá-la, Scout pensou. E seguiu explorando o corpo perfeito, deslizando os dedos para cima e para baixo, ao longo do pescoço, e depois subindo até a linha do queixo. Ao tocar a nuca, sentiu que ela relaxou, deixando a cabeça pender levemente para o lado, oferecendo os lábios para que fossem tocados, também. Um hálito de frutas mescladas ao álcool exalava da boca de Chantal, que ele aspirou com prazer. Era um perfume embriagante, que invadia sua mente, excitava o corpo, inflamava ainda mais o desejo. Com a ponta da língua, ele desenhou-lhe os lábios enquanto murmurava seu nome, tão encantador quanto ela. Como resposta, ela insinuou a mão por dentro da jaqueta de Scout, fazendo-a repousar contra o peito musculoso. Abrindo-lhe os lábios com os seus, ele beijou-a com intensidade, enquanto enlaçava-a pela cintura, atraindo-a para si. Ela era tão maleável quanto a areia úmida da praia, adaptando o corpo de encontro ao seu. Scout sentiu o volume firme dos seios se espremerem contra seu tórax. Foi então que os acariciou por sobre o vestido, com movimentos circulares, sentindo os mamilos se enrijecerem sob o tecido fino do vestido à medida que ia intensificando a carícia. Com a língua, ele explorava avidamente a boca de Chantal. Enquanto ela em doces movimentos serpenteava pelo corpo másculo, já em estado de plena excitação, Scout gemia de prazer, pressionando-se contra seu ventre. A mão delicada se movia afoita, entre os corpos de ambos, na altura da cintura, obviamente buscando o zíper da calça dele. Ele reagiu atordoado, ao sentir algo duro e frio contra seu estômago. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, ela se desvencilhou dos braços fortes e recuou, colocando-se fora de alcance. — O que é isso? A pergunta congelou-se nos lábios de Scout, no momento em que viu a pistola, apontada diretamente para seu peito. Boquiaberto, ele indagou:


— O que está fazendo? — Apontando-lhe uma pistola, sr. Ritland — ela respondeu, calmamente, num inglês carregado de sotaque. — E estou preparada para atirar, caso se recuse a obedecer. A expressão de Chantal era severa, mas Scout não conseguia levar a ameaça a sério. Afinal, havia muitos adjetivos que poderiam descrever aquela mulher, mas perigosa não se encontrava entre eles. — Atirar em mim? E por quê? — ele retrucou, rindo. — Por tê-la beijado? — Por presumir, erroneamente, que eu queria ser beijada... E tratada como uma prostituta de beira de cais. — O que eu deveria pensar, depois de você ter me atraído até aqui? — Eu não o atraí. — Como não? — ele insistiu, indignado. — Você me seguiu até aqui. Eu não o encorajei. — Não me venha com esse discurso moralista, princesa. Você queria que eu a seguisse. Sua rejeição era, na verdade, um convite de boas-vindas. Você gostou do beijo e de tudo o mais — ele afirmou, observando os seios arfantes de relance. Você não conseguiria fingir a esse ponto. Os olhos de Chantal tornaram-se perigosamente brilhantes. E ela enrijeceu o corpo, assumindo uma postura militar, enquanto dizia: — Isso não tem nada a ver com seus beijos. — Não? Mas então por que... — Você descobrirá logo. Agora, vire-se e comece a andar. Ele riu novamente, enquanto observava a mata que os circundava: — Não é por nada, mas estamos no limiar de uma floresta fechada. — Ande, sr. Ritland. Será que ainda preciso lembrá-lo de que tenho uma arma apontada para suas costas? Com um sorriso de desafio, ele murmurou: — Oh, estou morrendo de medo. Uma mulher que parece uma deusa e que sabe beijar como uma prostituta de luxo realmente deve ser muito perigosa. Mas a arma que ela sabe usar melhor não é de fogo... — Como ousa?! — gritou ela indignada.


Num movimento rápido, Scout atirou-se sobre ela. Ambos lutaram por alguns instantes pela posse da arma. Chantal exclamou surpresa no momento em que a pistola caiu de sua mão, e disparou. Scout deu um passo atrás e sentiu uma dor aguda. Olhou para a perna e constatou que a coxa jorrava sangue. — Você me acertou! — disse, constatando o óbvio. A dor, que havia retardado, enfim o abateu. Luzes explodiram a seu redor. Scout olhou para o ferimento, sentindo-se novamente invadido pela fúria. Voltouse para Chantal e precipitou-se em sua direção. Contudo foi atingido por uma forte dor na cabeça e caiu sobre o chão úmido do bosque. Com os olhos fixos na copa das árvores, viu luzes coloridas piscando e se movimentando, como num caleidoscópio. Então a noite o envolveu, apagando tudo ao redor. Chantal estava horrorizada com o rumo dos acontecimentos. — Mon Dieu! Por que você o acertou, André? O homem, que havia se aproximado por trás de Scout, ajoelhou-se ao lado de Scout enquanto respondia: — Fiquei com medo que ele a machucasse. — Eu estava me saindo bem. Ele está muito ferido? — Eu o golpeei com a força suficiente para fazê-lo desmaiar. Chantal percebeu a dúvida nas palavras de André. E retomou o tom crítico, ao dizer; — Sei que você reagiu para me proteger. E sou grata por isso. Mas, agora, temos de lidar com esta nova situação. Ela também ajoelhou-se ao lado do corpo inerte de Scout. Vasculhou os bolsos até encontrar um lenço, com o qual improvisou um torniquete para o ferimento. — Ele está sangrando muito. — O jipe não está longe. Posso carregá-lo até lá. O jovem nativo era ágil e forte, apesar da baixa estatura. Na verdade, Scout Ritland era muito mais alto do que ele. Com visível esforço, André conseguiu erguê-lo e jogá-lo sobre um ombro. — Ele não é tão pesado quanto parecia — disse. — Ele é muito musculoso, André.


O rapaz reagiu, surpreso, diante daquele comentário. Chantal desviou o rosto. Sabia que Scout era musculoso porque o havia acariciado, havia lhe tocado o tórax, sentido seu poder, inalado seu perfume. Antes de entrar no bosque fechado, ela examinou o galo que se formava na parte posterior da cabeça de Scout, perto da nuca. Enquanto tocava os cabelos castanhos, ele se mexeu e murmurou algo. salto.

— Temos de nos apressar, André — ela disse, tirando as sandálias de — Oui.

Moveram-se silenciosamente pelo bosque, afastando-se do resort, de onde vinha a música alta. Fogos de artifício explodiam na laguna, num espetáculo pirotécnico e barulhento. Por aquela razão provavelmente ninguém no hotel ouvira o disparo da pistola. — Vou atrás, com ele — disse ela, aproximando-se de um jipe e abrindo a porta. Acomodou-se no assento traseiro e, então, André colocou o corpo inerte de Scout a seu lado. Chantal puxou a cabeça de Scout para fazê-lo repousar sobre seu ombro. As pernas dele mal cabiam no pequeno espaço entre os assentos. André acionou o motor e, em segundos, estavam a caminho. Felizmente Scout continuava inconsciente, embora resmungasse de dor cada vez que o jipe passava por um buraco, na trilha acidentada. Chantal observou o rosto de linhas fortes. Não gostou nem um pouco da palidez excessiva que ali se instalava, fazendo cora que a barba dele parecesse ainda mais escura. As calças dele estavam empapadas de sangue. Sem pensar no que fazia, ela rasgou um pedaço do vestido, improvisou uma espécie de bandagem e, pressionou-a contra o ferimento, numa tentativa de estancar o sangue. Só então tomou consciência de que estava seminua, com os seios praticamente à mostra, quando Scout moveu a cabeça. Sentiu a barba roçando sua pele macia, a boca de encontro aos mamilos. Alarmada pela onda de sensações que a invadiu, Chantal tirou os hibiscos que adornavam os cabelos e, meneando a cabeça, soltou-os. Eles caíram, uma cascata lisa e negra, cobrindo-a dos ombros até a cintura, como uma blusa de tecido fino. Quando por fim chegaram à ponte, André estacionou o veículo. Com a ajuda de Chantal, puxou Scout para fora. Apoiando-o pelos ombros, enquanto ela o segurava pelos pés. Iniciaram a travessia da ponte suspensa sobre um profundo desfiladeiro. Na verdade, era uma espécie de passarela, exclusiva para pedestres.


Apesar de já ser madrugada, os habitantes do vilarejo, que estavam alertas, começaram a surgir de todos os lados, saindo de suas cabanas. Elevando a voz, Chantal pediu ajuda. No momento em que os três alcançaram o outro lado do desfiladeiro, foram circundados pelos moradores, que falavam o tempo todo e olhavam curiosos para o ferido. Voltando-se para um dos homens, Chantal pediu que assumisse seu lugar e segurasse Scout pelos pés. — Leve-o o mais rápido que puder — disse, em francês. O homem obedeceu e ela começou a correr em direção a uma casa, no alto de uma ladeira, separada do resto do vilarejo. Atravessou a varanda, empurrou a porta e alcançou uma lanterna que pendia da parede. Enquanto isso, André e o outro homem acabavam de entrar na casa, pela porta principal. — Tragam-no para cá... — Chantal ordenou. — Rápido! Scout foi cuidadosamente colocado sobre uma grande mesa, numa sala situada nos fundos da casa, usada com freqüência para emergências médicas. Movendo a cabeça de Scout para um lado, ela examinou o calombo que havia se formado em sua nuca. Era sólido, mas não havia crescido muito. — Ele ficará bem, desde que eu consiga remover a bala, sem complicações. E desde que não perca muito sangue, durante o procedimento. O problema é que se a artéria femoral... — interrompendo-se, disse aos dois homens que haviam trazido Scout: — Tirem as roupas dele, enquanto me preparo. Chantal lavou as mãos e os braços. Depois esfregou-os com uma solução anti-séptica, como vira seu pai fazer tantas vezes. Em seguida vestiu um avental branco sobre a calcinha. A única peça de roupa que ainda conservava. Contudo, nenhum dos habitantes do vilarejo parecia ter se dado conta daquilo. Quando dirigiu-se para a mesa, Scout estava nu. O orifício em sua coxa esquerda, por onde o sangue continuava a vazar, era uma visão aterradora. Foi com uma expressão de alívio que viu uma mulher nativa, que muitas vezes ajudara seu pai nas cirurgias, entrar na sala e começar a passar um produto desinfetante em Scout, desde os joelhos até as costelas. Chantal encheu uma seringa com morfina, injetando-a na veia do paciente. — Não posso dar uma dose menor do que esta — avisou ao grupo de nativos que assistia ao procedimento com semblantes taciturnos. A um sinal de André, todos fizeram menção de sair.


— Por favor, fique, André — ela pediu. — Talvez eu precise de você, para me ajudar a segurar o paciente. Quanto a você, Nikki, cuide de manter as lanternas acesas. Preciso de luz suficiente, nesta mesa, o tempo inteiro. — Oui, mademoiselle. Chantal pegou uma bandeja de metal com vários utensílios esterilizados e deixou-a a seu alcance. Em seguida colocou uma máscara e ordenou aos assistentes que fizessem o mesmo. Depois delimitou o campo cirúrgico com toalhas limpas. Respirou fundo, procurando se acalmar. Afinal a vida de Scout Ritland corria perigo. Aquele era, de longe, o procedimento cirúrgico mais arriscado que já fizera em sua vida. Contudo, ele morreria se ela não tentasse. Scout estava deitado numa cama estreita, num quarto improvisado especialmente para ele. Durante vários dias, Chantal permanecera à sua cabeceira, saindo apenas quando estritamente necessário. Ainda agora, ela continuava ali, monitorando os resmungos e gemidos de Scout, enxugando o suor, verificando o curativo em busca de qualquer sinal de infecção. Embora várias pessoas houvessem se oferecido para revezar na vigília, ela fizera questão de ficar ali. O homem que jazia sobre aquela cama, coberto apenas por um lençol, consumia seu tempo e seus pensamentos. Chantal havia aplicado injeções de penicilina, para evitar complicações. O fato de ter aplicado apenas uma injeção de morfina, para aliviar a dor a angustiava terrivelmente. Quando o efeito da droga começou a passar, ele começou a se debater, murmurando palavras ininteligíveis, agitando os braços e mexendo as pálpebras. Para acalmá-lo, ela ministrou um licor de alto teor alcoólico, produzido ali mesmo no vilarejo. Erguendo a cabeça de Scout, ela levava a xícara de bebida aos lábios carnudos. Lábios que ela mantinha hidratados, com aplicações constantes de manteiga de cacau. Com extrema paciência, vertia lentamente o licor na boca de Scout, até que ele sorvesse a dose suficiente para voltar a dormir. Depois, limpava o rosto suado e o resto do corpo com compressas de água fresca. Durante esse processo todo, Chantal havia tentado não pensar no poder de atração que se estabelecera entre eles e sim na gravidade da situação. Mas era difícil... Passando manteiga de cacau nos lábios dele, com gestos suaves, era natural que se recordasse do beijo que havia trocado, do prazer que experimentara... E também do ódio com que ele a fitara, ao descobrir que fora enganado.


Era em momentos como aqueles que ela se sentia assaltada por várias dúvidas, relativas às suas ações. O que fizera fora ousado, arriscado e, sem dúvida, ilegal. Mas não havia outra alternativa, daí o desespero da situação. Sentada ao lado do leito de Scout, fitando a face de linhas fortes, esperava ansiosamente que, ao acordar, ele ao menos a deixasse explicar o ocorrido. Mais que isso: que compreendesse seu desespero e, talvez tivesse compaixão. Na terceira noite de vigília Chantal constatou, temerosa, que Scout não mexera, nem sequer por uma vez, a perna ferida. O medo de ter lesado algum nervo, ao extrair a bala, assaltou-a novamente. Para tirar a dúvida, espetou-lhe o dedão do pé esquerdo com uma agulha. A reação foi imediata: ele recolheu a perna, levando o joelho até quase a altura do peito, enquanto resmungava um palavrão. Depois relaxou. Chantal decidiu que já era hora de deixá-lo acordar. Com os olhos muito abertos, Scout fitou o teto por vários momentos. Sentada na cadeira ao lado da cama, Chantal observou-o com atenção e logo concluiu que ele estava tentando se orientar. Por fim, ele virou a cabeça em sua direção. E conseguiu reconhecê-la, através do fino mosqueteiro que protegia a cama. Piscando os olhos, disse num tom abafado: — Quem é você? — Chantal duPont — ela disse, num tom ligeiramente mais alto. Mesmo assim, ele estremeceu: — Não é preciso gritar. — Ao passar a língua pelos lábios, ele, obviamente, sentiu o gosto da manteiga de cacau, com que ela os umedecera. — Onde estou? — Você não se lembra do que aconteceu? Com esforço, Scout meneou a cabeça, num gesto de negação. Depois voltou a fitá-la e tentou se sentar. Resmungando, caiu de volta sobre o travesseiro. — Nossa... — murmurou, erguendo a mão para cobrir os olhos. — Minha cabeça está péssima... Acho que tivemos uma festa infernal, a noite passada. Ele não se lembrava, Chantal concluiu. Mas, com o tempo, acabaria recobrando a memória. De súbito, Scout esticou o corpo. Depois, num movimento lento, afastou a mão dos olhos injetados e tornou a fitá-la, dessa vez com uma expressão cruel.


— Não acho que eu esteja aqui, nu, deitado nesta cama, por ter passado uma noite de orgia com você... — Realmente, não — ela respondeu, ajeitando os longos cabelos negros, que caíram em suas costas, como uma cortina de ébano. Murmurando uma imprecação ele tentou se mexer, uma vez mais. Porém, sentiu dor. E só então pareceu se dar conta de que estava ferido. Movendo a mão sob o lençol, conseguiu localizar a fonte da dor... Ao tocar a bandagem que lhe cobria a coxa esquerda, voltou-se para Chantal com uma expressão ainda mais feroz: — Agora me lembro. Você atirou em mim. — Foi um acidente — ela apressou-se a explicar. — Mentira! — Eu o estava mantendo sob a mira de uma arma, mas não tinha intenção de alvejá-lo. Só queria assustá-lo. Na verdade, eu nem mesmo sabia que a arma estava carregada. — Como não, se a arma era sua? Vi quando você a retirou da bolsa. — Pedi a André que me arranjasse uma arma. E quando ele me deu aquela pistola, não me avisou que estava carregada. Levando a mão á testa, Scout murmurou: — Quem diabos é esse... — André — Chantal completou. — É o homem que acertou sua cabeça. — Bem, ele fez um ótimo trabalho — Scout resmungou. — Está doendo muito. — Sua dor de cabeça se deve, em parte, ao licor que lhe dei durante o período em que ficou inconsciente. — Por quê? aqui.

— Porque eu sabia que você estava sofrendo. Temos pouca morfina, por

Ele ergueu a mão, mostrando que não queria mais ouvir explicações. Em seguida fechou os olhos. Chantal levantou-se da cadeira e ergueu o mosquiteiro. E tocando a testa de Scout, sentiu que estava sem febre. Sua pele estava fresca, até mesmo um pouco úmida. Ele tornou a abrir os olhos. — Meu ferimento é grave? — Não muito. Eu removi a bala.


Pegando um bule que estava sobre uma bandeja, no criado-mudo, ela serviu uma xícara. — Beba isto. Ele cheirou a bebida, com ar de desconfiança: — O que é? Droga? Licor? — É um caldo com ervas e outros ingredientes curativos. Beba, para recuperar as forças. Você perdeu muito sangue. E não tive como lhe fazer uma transfusão. — Chantal levou-lhe a xícara aos lábios, mas ele recusou-se a beber. — Por que você não me levou para o hospital? — Eu não podia fazer isso! — exclamou ela. — Seria preciso dar explicações sobre o tiro e eu seria presa. — Bem, esse é um risco que você corre ao seqüestrar e atirar em alguém, princesa. — Quero arcar com as conseqüências do que fiz. Mais tarde, quando eu não precisar mais de você. Agora, por favor, beba... Isso vai ajudá-lo a se recuperar. Com uma queixa, ele afastou a xícara: — Por que você me dopou? — Eu já lhe disse: porque preciso de você. — Por quê? O que há de errado com você? Ela meneou a cabeça, com ar de perplexidade: — Eu não entendo. — Você precisou atirar num homem para tê-lo nu, a seu lado, na cama... Os olhos azuis de Chantal tomaram-se sombrios, em sinal de desaprovação. Por um momento ela se sentiu tentada a emasculá-lo, jogando o conteúdo da xícara no colo. Apenas seu interesse nas condições físicas gerais de Scout a impediu de fazê-lo. — Tome isto ou terei de forçá-lo a me obedecer — ordenou ela, no mesmo tom imperioso que usara, alguns dias atrás. Sustentando o olhar ferino, ele tomou um pequeno gole. Em seguida cuspiu, praguejando: — Que diabos é isso? — Um caldo de proteínas. Beba e não discuta. — Está bem — ele consentiu, depois de um breve silêncio. — Eu beberei... Mas somente porque desejo me recuperar e ficar suficientemente forte para sair desta cama e estrangular você.


Scout bebeu todo o conteúdo, estremecendo vez por outra, devido ao sabor desagradável. — Mais um pouco? — Isso é tudo que posso engolir, no momento. — Antes que Chantal se afastasse, ele agarrou-a pela blusa e puxou-a para perto de si, a poucos centímetros de sua face raivosa. — Acho que estou prestes a desmaiar novamente. Antes que isso aconteça, diga-me por que fez isso comigo. Ela o fitou diretamente nos olhos: — Quero que construa uma ponte para mim, sr. Ritland. Chantal viu a expressão de incredulidade assomar às feições de Scout, apenas alguns segundos antes que os olhos dele se fechassem. Seus dedos, que ainda seguravam-lhe o fino tecido da blusa, relaxaram, libertando-a. A cabeça de Scout caiu com força sobre o travesseiro. Bem, agora ele sabia.

Capítulo II Um leve aroma de alfazema pairava na sala, quando Scout acordou. Não havia vidros nas janelas, apenas persianas, e todas estavam abertas. Uma brisa leve soprava. Era possível sentir a maresia, ouvir o movimento do oceano. O ferimento provocado pela bala já não mais causava a sensação de um ferro ardente perfurando a coxa, mas doía com freqüência. Sentiu sede. O caldo havia deixado em sua boca a sensação de ter engolido um monte de pêlos... Ou talvez aquela textura desagradável resultasse das várias doses de licor que havia tomado, voluntária ou involuntariamente. Sentia-se confuso, mas já não tão atordoado como estivera, pela manhã... Ou fora na véspera? Ele não sabia em que dia estava, nem quanto tempo havia se passado, desde o baile de gala no Coral Reef Resort. Afinal, onde estava? E ao virar a cabeça para o lado, reagiu, com espanto. Havia três mulheres aos pés de sua cama, do lado de fora do mosquiteiro. Uma era jovem, esguia e muito bonita. A outra robusta, simpática e não tão bela. A terceira era terrivelmente feia. Elas usavam sarongues curtos e coloridos ao


redor dos quadris, mas estavam nuas da cintura para cima. Ver aqueles pares de seios à mostra o desconcertou. Quando se deram conta de que ele as observava, começaram a rir e a conversar entre si, num francês apenas sussurrado e cheio de excitação. Um tanto embaraçado, ele puxou o lençol para cima, para cobrir o tórax nu. — Onde está... Como é mesmo o nome daquela princesa...? Chantal? — perguntou com a voz rouca. A simples pergunta causou um novo acesso de risos. Foi então que compreendeu ser ele o centro da conversa das mulheres, que continuavam a observá-lo timidamente, seguido de novas explosões de riso, que só serviam para piorar sua dor de cabeça. — Por favor, posso beber alguma coisa? — Pode. Ele voltou-se na direção da porta, a tempo de ver sua seqüestradora entrar, trazendo uma bandeja com um jarro de água e um copo. — Eu já imaginava que você estaria com sede. — Voltando-se para as mulheres, Chantal agradeceu. — Merci. — E continuou falando com elas, em francês. — O que está acontecendo? — Elas insistiram em que eu precisava descansar — respondeu ela, enquanto puxava o mosquiteiro para um lado. — Por isso, se ofereceram para ficar com você, enquanto fui tomar um banho e tirar um cochilo. Estou agradecendo a elas, por terem cuidado tão bem de você. Scout concluiu que o inebriante aroma de flores que acompanhou a entrada de Chantal, no quarto, devia-se ao banho recém-tomado. Os cabelos mais sedosos que ele já havia acariciado ainda estavam úmidos. Chantal foi até ao criado-mudo e, pegando a jarra, encheu um copo com água. Parecia tranqüila, mas havia um sinal de rubor em suas faces. — Gostaria de um copo de água? Scout pegou o copo e bebeu, fitando-a com franca admiração. Ela era capaz de manter o controle o tempo inteiro... Seria mesmo? Ele então resolveu fazer um teste, para comprovar. Conhecer os pontos fracos e fortes do inimigo era o primeiro passo para vencê-lo. Ao devolver o copo, tocou-a nos dedos e perguntou, num tom suave: — Quem cuidou de mim, com esponjas úmidas e toalhas, antes daquelas três malucas?


— Fui eu — ela sentenciou, encarando-o em desafio. — Oh, é mesmo? — Lançou um olhar sensual sob a sobrancelha arqueada. — Por que não poupa suas tentativas de sedução? Aqui elas não vão funcionar. Tomei medidas desesperadas, para tê-lo aqui. Não posso nem pensar em deixá-lo partir sem terminar o que deve fazer. Scout ficou mais aborrecido com a calma e o sangue-frio de Chantal do que com suas palavras. Afastou o lençol e colocou as pernas para fora da cama. A dor que percorreu a coxa ferida, expandindo-se por todas as terminações nervosas de seu corpo, chegou a causar náuseas. Travando os dentes, ele se inclinou para o lado, tomado por uma sensação de vertigem. Estava tão fraco que teve de se segurar na beira do colchão, para se manter ereto. — Vou embora daqui — afirmou, contraindo o maxilar. — Suas chances são mínimas... Você não está em condições de caminhar. Scout quase podia sentir um toque de compaixão na voz melodiosa de Chantal. — Você não se lembra do caminho que fizemos, para chegar aqui. Mas o Coral Reef Resort fica do outro lado da ilha. Entre aqui e lá o terreno é montanhoso, selvagem e despovoado. As estradas não passam de trilhas usadas por bodes. O vilarejo só tem um jipe, que pertence a meu pai e foi cuidadosamente escondido, por sua causa. Duvido que consiga subornar ou convencer os moradores a mostrar o esconderijo do jipe. Aliás, por favor, nem tente fazer isso, pois eles ficariam ofendidos. Somente a pé e, no seu caso, somente com um único pé, seria possível fazer o caminho de volta ao que você chama de civilização. — Então, trate de me vigiar, princesa. Ela apenas sorriu: — Faça como achar melhor. Você está com fome? — Eu devoraria qualquer coisa, inclusive esses caldos horríveis. — Ótimo, porque é exatamente o que vai ter. Chantal dirigiu-se à porta, deixando-o boquiaberto. Com um suspiro, Scout maldisse a dor, a fraqueza e a culpa que, a princípio, o havia jogado naquela situação. Como fora idiota! Se não tivesse bebido tanto, ou se embriagado com aquela bebida típica da ilha, teria sido mais cauteloso. Mas não... Como um grande tolo, tomara aquela bebida aos borbotões... E, agora, a situação estava fora de controle.


Ainda estava sentado na beira da cama, embora isso custasse um esforço, uma energia que ele não possuía. Contudo, ficar sentado, de algum modo, fazia com que se sentisse menos desamparado. Pois, quando deitado, ficava realmente à mercê de Chantal. Ela voltou, trazendo outra bandeja, o mesmo bule e um copo contendo uma substância leitosa. — Não vou beber nem mais um gole dessa lavagem — ele declarou, num tom resoluto, esperando que sua voz fosse mais convincente do que possuía. — Nesse caso, terei de forçá-lo a se alimentar. Scout fitou-a com severidade, enquanto ela despejava um pouco do caldo fumegante numa xícara. E para dissuadi-lo lançou um sorriso encantador, enquanto dizia: — Você gostaria de ter energia suficiente para me estrangular, não é mesmo? Ou será que mudou de idéia? Ele puxou-lhe a xícara das mãos e, ao sorver o caldo, deixou que parte dele escorresse para fora. — Ai! Droga! Chantal reagiu rapidamente, pegando um guardanapo da bandeja e secando, com ele, as gotas que haviam caído sobre o peito de Scout. Enquanto Chantal se inclinava, algumas mechas de cabelos negros, que ela trazia soltos, caíram sobre o colo dele que enrijeceu de desejo. Sentir o contato dos cabelos sedosos em sua barriga e coxas dava a sensação de ser acariciado por negras tiras de cetim. Ela podia até ser perigosa, mas ele ainda desejava acariciar sua pele macia, e beijá-la da cabeça aos pés. De repente, os olhos de ambos se encontraram. Os rostos estavam muito próximos. Um podia sentir a respiração acelerada do outro, escapando pelos lábios entreabertos e úmidos. Como desejava aquela boca de encontro à sua, novamente! — Está tudo bem com meu peito — ele disse, num tom firme. Endireitando o corpo, jogou o guardanapo de volta na bandeja. Rapidamente ele terminou de tomar o caldo, fazendo uma careta horrível ao sorver o último gole. — Quando poderei comer alguma coisa sólida? Ou faz parte de seu plano me deixar debilitado de fome, dando-me apenas caldo de proteínas, para me manter vivo? — Não. Quero que você se fortaleça o mais rápido possível... — Para que eu possa... O que, mesmo? Construir uma ponte para você? — Isso — ela respondeu, muito séria.


— Você tomou sol por tempo demais, princesa — Scout zombou. — Só pode estar delirando que vou fazer alguma coisa... Quer dizer, anão ser abrir um processo. Desde o final da Segunda Guerra, a ilha Parrish passou a pertencer aos Estados Unidos. Por ser um local pagão e primitivo... — ele lançou um olhar na direção da lanterna de querosene — está submetido às leis americanas. Você irá para a cadeia tão logo eu esteja em condições de mandá-la para lá. — Talvez... Mas, antes, você construirá minha ponte. — Que ponte? E que diabos significa isso? — ele exigiu, de mau humor, enquanto Chantal lhe oferecia outro copo que havia trazido. — Isto é leite de coco. Você vai gostar. Scout bebeu. Depois do caldo, aquilo parecia tão bom e saboroso quanto um milk-shake. — Agora preciso um pouco de privacidade... — insinuou ele, tirando um bacio debaixo da cama. Sem discutir, ela dirigiu-se à porta. Belas pernas, Scout pensou, acompanhando-a com o olhar. Chantal usava short comum, em vez de sarongue, como as mulheres nativas. E ele sentiu-se quase aliviado pelo fato de ela trazer os seios cobertos. Porém a blusa, de tecido fino, amarrada na cintura, insinuava o movimento dos seios, ao caminhar. Na certa, ela não usava nada, sob a blusa. Mas havia a blusa e isso o deixava contente... Seria difícil continuar furioso com uma mulher esplendorosa, se ela estivesse com os seios à mostra. Diante de seus pés e pernas, já era suficientemente difícil manter o desejo, que vez por outra se evidenciava sob o lençol. — Acho que é melhor repousar, agora — sugeriu ela ao voltar. — Você está ficando pálido. — Chantal pressionou os ombros largos, numa tentativa de ajudálo a se deitar. Com um braço, Scout enlaçou-a pela cintura. Com a outra mão, capturoulhe uma mecha de cabelos negros, bem perto do couro cabeludo. Sentiu-a estremecer de medo e então afrouxou a pressão... apenas ligeiramente. — Você me seqüestrou sem motivo? — ele indagou, enquanto seus lábios se tornavam pálidos de dor, raiva e frustração. — Não. — Esses olhares que vem me lançando não têm nada a ver com o fato de você gostar de minha aparência... Ou será que têm? Você não me seqüestrou, no meio daquela multidão, apenas por ter me achado atraente.


— Sei que será um duro golpe para o seu ego, mas não, não teve nada a ver com sua aparência. — Você me escolheu de antemão. E antes tratou de ter a maldita certeza de que eu a havia notado sua presença encantadora na festa. — Isso mesmo. Scout apertou-lhe ainda mais a cintura, puxando-a para mais perto. As pernas bem torneadas se chocaram com as dele. Mas Scout quase não se deu conta da dor... Tudo o que pôde perceber foi o quanto a pele daquela mulher era fresca e suave. — Fale de uma vez! — exclamou ele. — Por que me trouxe até aqui? — Eu já lhe disse: foi por causa da ponte. — Que droga de ponte? Com um só movimento, ela se desvencilhou, jogando os cabelos para trás. — Eu explicarei melhor, quando você estiver mais forte... Talvez amanhã cedo. Sem desviar o olhar de Chantal, ele se deixou ajudar a deitar. Em seguida, ela verificou se a jarra de água fresca estava perto da cama e apagou a lamparina. Scout ouviu os pés descalços deslizando pelo chão de madeira polida, enquanto a observava sair do quarto. Ficou com os olhos abertos, no escuro, por um longo tempo ainda. Sabia que seria difícil relaxar, quanto mais dormir... E nem poderia, devido à agitação de sua mente. Num dado momento, repreendeu-se severamente, por ser tão tolo. Por que diabos estava permitindo que aquela situação continuasse? Aquela mulher podia ser ardilosa, mas ele também não era tolo. Na verdade, muitas pessoas o consideravam bem astuto. Os dois eram muito inteligentes, assim a competição estava nivelada. De repente passou a considerar os atributos físicos de Chantal, esquecendo da batalha emocional que pretendia derrotá-la. Desde que a vira, havia ficado encantado. Agora, comparando com as outras mulheres da ilha, ela era bem mais alta, mas Scout se lembrava de que, mesmo usando saltos altos, ela chegava apenas à altura do seu queixo. Os saltos complementavam a estatura, o que combinava perfeitamente com um beijo... — Droga — ele praguejou, na obscuridade quebrada apenas pela luz do luar que entrava pela janela. Não queria pensar na sensualidade daquele beijo, ou


acabaria confirmando o que as mulheres haviam pensado a seu respeito, comparando-o à pequena estátua de Eros. Além do mais, tinha que se concentrar na difícil situação em que se encontrava. Considerou que Chantal duPont tinha grande poder e prestígio naquele vilarejo. Mas não vira guardas armados, vigiando a porta. O quanto seria difícil dominá-la, exigir que ela pegasse o jipe do pai e o levasse de volta ao lado civilizado da ilha? E onde estaria a pistola com a qual ela o acertara? Ele estava decidido a sair daquela cama que, aliás, combinaria muito melhor com um liliputiano. Com esses pensamentos em mente, Scout afastou o lençol, ergueu o mosquiteiro e sentou-se. Dessa vez foi mais fácil colocar as pernas para fora, embora a esquerda ainda latejasse e queimasse. Foi somente quando se endireitou, deixando a perna ferida a poucos centímetros do chão, que ele se deu conta de que estava nu. Pegou uma toalha sobre o criado-mudo e enrolou-a ao redor da cintura... Não era muito, mas era melhor que nada. Tinha visto uma vassoura a um canto do quarto, pouco antes. E foi para lá que se dirigiu, saltando sobre o pé direito, apoiando-se na mobília. Quando chegou ao canto do quarto, o suor já havia ensopado seu rosto inteiro. Scout respirava pela boca, como se tivesse corrido por mais de quinze quilômetros, numa ladeira íngreme. Usando a vassoura como muleta, conseguiu chegar à porta, tomado por uma sensação de vertigem. A casa estava silenciosa. O único som que se ouvia era o do movimento incessante do oceano, que não estava longe. Scout procurou por sinais de eletricidade. Mas, tal como esperava, não encontrou nada. Não havia nem mesmo um telefone, por ali. No entanto, a casa era bem mobiliada, muito limpa e decorada com objetos pessoais. Havia livros por toda parte, empilhados em mesas, prateleiras e até mesmo no chão. Alguns eram escritos em francês, outros em inglês. Tão silencioso quanto possível, Scout conseguiu avançar, dolorosamente, pela ampla sala de estar, até que saiu num corredor. Passou por um dormitório, onde havia uma cama arrumada, mas vazia. Passou por um segundo dormitório, maior, onde um biombo dividia o ambiente em dois: quarto e estúdio. A grande cama estava vazia, mas Chantal estava sentada, sozinha, no estúdio. Uma lamparina de querosene, queimando lentamente, fazia com que sombras dançassem pelo rosto delicado. Ela estava reclinada numa cadeira de


couro, os pés descalços apoiados no canto de uma escrivaninha coberta de papéis espalhados. Ela usava óculos e tinha um livro aberto no colo. Sua concentração na leitura era tão intensa, que não o viu nem o ouviu aproximar-se. Algumas mechas do cabelo escuro emolduravam o rosto perfeito, destacando o nariz afilado e a boca sensual. Ela havia desabotoado a blusa e soltado o nó com que a prendera à cintura. Era como se tivesse começado a se despir e, depois, mudado de idéia. Scout observou o contorno dos seios perfeitos, os mamilos firmes, desenhados para a boca de um homem desfrutar... E seu corpo inteiro reagiu. Um misto de pressão e calor o invadiu, pouco acima do ferimento causado pela bala. Tentou colocar os pensamentos lascivos de lado... Mas ao retomar a conversa iniciada pouco antes, sua voz soou rouca e densa: — Você tem que me explicar agora. Chantal deu um pulo da cadeira. Seus pés golpearam o chão com força. O livro escorregou de seu colo e ela ergueu a cabeça bruscamente. Através das grandes lentes dos óculos, ela distinguiu a forma de Scout, na penumbra do estúdio. Foi somente depois de vários minutos, e do olhar ardente que a estudava, que ela se deu conta de que sua blusa estava aberta. Em uma fração de segundos, ela conseguiu amarrar a blusa novamente e tirar os óculos. — Sr. Ritland, como conseguiu... — Por que essa formalidade agora? Não sou um hóspede de honra em sua casa. Sou um prisioneiro. Você já me viu nu e eu gostaria que também estivesse nua, quando minha língua explorou sua boca e mais ainda quando suguei seus mamilos. Acho que isso significa que podemos dispensar gentilezas desnecessárias. Scout experimentou uma satisfação perversa ao constatar o quanto seu tom sarcástico a ofendia. Ao mesmo tempo, estava perplexo com a própria crueldade. Em geral, ele jamais sequer sonharia em tratar uma mulher daquele jeito. Certa vez tinha lido um artigo sobre homens que revertiam ao estado selvagem, quando separados da civilização e da sociedade em que viviam. Mas nunca esperara ter uma reação semelhante. Nunca... e não tão rápido. Mas, também, ele fora duramente provocado por aquela mulher que, agora, com seus belos olhos azuis, parecia vasculhar-lhe a face, procurando e esperando por um pedido de desculpas. Frustrado, ele deu um profundo suspiro. A expressão de Chantal fazia com que se sentisse o pior dos homens. — Ao menos admita que tenho uma boa razão para estar furioso.


— É verdade — ela concedeu, num tom calmo. — Sinceramente, não foi minha intenção atirar em você. Sinto muito. — Bem, já está feito, não é mesmo? E quanto à ponte? — Então, por favor, sente-se... — sorrindo, ela acrescentou: — Scout. Mesmo sob a fraca luminosidade da lamparina, Chantal podia ver o quanto os lábios de Scout estavam pálidos. Sabia de sua dor. Na condição de fraqueza em que se encontrava, o esforço que despendera para transpor a distância do quarto até ali fora equivalente a uma longa caminhada. Sua pele estava cinzenta e úmida. E a testa coberta de suor, a ponto de umedecer as mechas de cabelos castanhos que caíam sobre as sobrancelhas. No entanto, mais do que cansaço e sofrimento, ele denotava determinação. Chantal reconheceu que havia demorado muito para dar explicações. E, agora, por onde começar? — Você não se recorda, pois estava inconsciente — ela disse. — Mas André e eu o carregamos por uma ponte suspensa sobre um profundo despenhadeiro, que separa a vila do resto da ilha. A ponte está em péssimas condições e precisa ser substituída, com urgência. Eu o trouxe até aqui para que construísse uma nova ponte para o meu povo. Chantal o observava com atenção, enquanto ele tentava absorver suas palavras, com uma expressão impassível. Mas notou que havia uma centelha de interesse em seus olhos belos e luminosos, de tom castanho-dourado. Desviando o olhar, ela o flagrou massageando a coxa, ao redor do ferimento. — Está com dor? Interrompendo o gesto, Scout fitou-a com uma expressão de angústia: — Não — ele mentiu. — Quer uma aspirina? — Fale sobre a ponte — ele pediu, impaciente. — Pelo que pude deduzir, não se trata de uma obra pequena. Num tom casual, ela respondeu: — Teria mais ou menos sessenta metros. — Nossa! — Scout começou a rir, meneando a cabeça. Aborrecida, Chantal retrucou: — Fico feliz por vê-lo achar tudo tão engraçado. Mas posso garantir que, para meu povo, essa ponte significa muito. Meu povo...


— Seu povo? — ele a interrompeu. — Quem diabos é você, afinal? Boa pergunta, ela pensou, antes de responder: — Chantal duPont. — Isso eu já sei. — Scout estava esfregando a perna novamente, mas parecia não se dar conta disso. Ao notar que lera observado, parou. — Você é uma espécie de sacerdotisa, por aqui? Uma rainha? Uma missionária? O quê? As suposições de Scout a fizeram sorrir: — Nada de tão grandioso. Eu nasci aqui, neste vilarejo. Scout se remexeu na cadeira, visivelmente incomodado. — Sei que está curioso... Mas imagino que sua educação o impeça de fazer perguntas. Ele se remexeu uma vez mais, indicando que ela havia acertado em sua suposição. — Meu pai... — ela começou — o dr. George duPont, serviu na Marinha francesa. Foi designado para trabalhar aqui, antes da Segunda Guerra Mundial. Após a guerra, a instabilidade na França era tão grande, que ele preferiu voltar para cá. Foi então que ele conheceu minha mãe, Lili terminaram se casando. — Pela expressão melancólica de seu rosto, suponho que eles não viveram felizes para sempre — disse Scout. — Minha mãe se converteu ao catolicismo. Mesmo assim, quando acompanhou meu pai na volta à França, sofreu muito com a discriminação. Os duPont eram uma família tradicional e aristocrática. — E, portanto, acolher uma mulher polinésia, no seio da família, estava fora de questão. — Mesmo sendo parcialmente francesa. — Chantal baixou a cabeça. — Sempre que se lembrava da discriminação sofrida pela mãe, sentia-se terrivelmente angustiada. Havia experimentado o preconceito, mas num grau muito mais brando. — Assim... — Chantal prosseguiu, com um profundo suspiro — eles retornaram à ilha Parrish. Meu pai deu prosseguimento ao trabalho e às pesquisas que havia iniciado aqui. Construiu esta casa, tornando-a tão confortável e moderna quanto foi possível, com os recursos de que dispunha. Também introduziu certas comodidades modernas, no vilarejo. Como resultado, o povo daqui passou a confiar nele, como seu protetor. — Ele se tomou uma espécie de patriarca. — Exatamente.


— Quando tudo isso aconteceu? Você ainda é tão jovem. — Depois de casada, minha mãe passou vários anos sem engravidar, até eu nascer. — Chantal contraiu o rosto. — Mas minha mãe já estava numa idade em que uma gravidez, sem os devidos cuidados e sem os exames pré-natal, poderia ser arriscada. Na verdade, a gravidez foi muito difícil e ela jamais se recuperou totalmente. E morreu quando eu ainda era criança. Ambos ficaram em silêncio por vários momentos. Chantal estava perdida em suas recordações, a um só tempo doces e amargas. Scout por fim a trouxe de volta ao presente, ao perguntar: — Por que seu pai não foi embora com você, para a França, depois da morte de Lili? — Porque, naquela época, esta ilha já representava um lar para meu pai, muito mais do que Paris. O trabalho dele estava aqui. Os habitantes do vilarejo o estimavam e precisavam dele. Além disso... — Chantal acrescentou, com um sorriso triste. — Ele não queria se separar de minha mãe. — Mas ele precisou passar por isso, quando você partiu. — Como você sabe? — ela indagou, surpresa. Com um gesto de cabeça, ele apontou para a parede onde pendiam vários diplomas emoldurados. — O orgulho de um pai — ela comentou, dando de ombros. — Eu freqüentei um colégio inglês, na base militar. — Isso explica seu domínio da língua inglesa. — Obrigada. Quando terminei o curso secundário, fui mandada para uma universidade na Califórnia. — Mandada? — Sim, sob muitos protestos. — Por quê? Achei que você desejasse conhecer o outro lado do mundo. Chantal inclinou a cabeça para o lado, perplexa pelas palavras de Scout. — Por que eu desejaria? Este é o paraíso. Eu havia aprendido, nas aulas de História, que o resto do mundo estava mergulhado em terríveis guerras e rebeliões, opressão, escravidão. — Isso é verdade — ele concordou, num tom severo. — Mas por que os Estados Unidos e não a França? — Eu tinha dupla cidadania. Por alguma razão, meu pai achava que a América seria melhor, para mim, do que a Europa.


— E foi? Sorrindo, Chantal ergueu-se. Abrindo um gabinete, pegou uma garrafa de conhaque e ofereceu: — Você aceita? — Não, obrigado. Estou em abstinência. — Depois que cheguei aos Estados Unidos, descobri que a vida não era lá tão ruim assim. Descobri os cheeseburgers, o rock, os cinemas. Para minha surpresa, comecei a gostar de me vestir na moda. — Chantal rolava o copo entre as mãos, apreciando o bouquet da bebida. — Eu não ignorava totalmente essas coisas, claro, pois tinha passado um bom tempo no colégio da base militar. — Aposto que os soldados e marinheiros fervilhavam à sua volta, como zangões em torno da abelha-rainha. Em vez de responder, ela sorveu alguns goles de conhaque, diretamente da garrafa. Parecia calma, apesar das insinuações que acabara de ouvir. Claro que muitos rapazes a haviam cortejado. Porém, não demorou a aprender que era melhor ter cuidado com aqueles convites aparentemente inocentes. Tal como as outras garotas da ilha, ela fora considerada uma presa fácil para homens que estavam longe de casa e ansiavam por uma companhia feminina. As experiências desagradáveis resultaram em uma justificada descrença com relação aos homens caucasianos. Mas aquelas memórias eram muito dolorosas. E, assim, Chantal voltou novamente a atenção para Scout, que a fitava com espanto. — Por que está me olhando assim? — A maioria dos homens que conheço não seria capaz de tomar um conhaque desse jeito. Foi seu pai quem a ensinou a beber? — Ele me ensinou isso e tudo o mais — respondeu ela, colocando o conhaque de lado. — É engraçado que em um momento, você parece tão sofisticada. E, no outro... — Ele fez uma pausa, como se quisesse organizar os pensamentos. — Mas por que você voltou para cá, depois de passar tanto tempo nos Estados Unidos? — Eu queria voltar. — Não gostou da Califórnia? — Muito... — Seu pai queria que você retomasse?


— Ele certamente ficou feliz por me ter de volta — ela respondeu, num tom evasivo, incomodada por discutir sua vida pessoal com Scout. — Isso não teria sido muito egoísmo da parte de seu pai? Afinal, ele decidiu viver aqui. Mas se você tinha a chance de exercer a Medicina nos Estados Unidos, acho que... — Medicina? A expressão confusa de um era o reflexo da expressão do outro... — Medicina — repetiu ele, apontando com um gesto de cabeça os diplomas da dra. Chantal Louise duPont, que pendiam da parede. — Você não seguiu os passos de seu pai, ao se tornar uma doutora? — De fato, segui os passos dele e me tornei uma doutora... Somos ambos Ph.D em Geologia — respondeu rindo. As faces de Scout perderam o pouco de cor que ainda restava. — Geologia? — ele repetiu, num tom áspero e baixo, lançando um olhar aos diplomas emoldurados. Então, voltando-se para ela com um olhar raivoso, repetiu, em voz bem alta; — Geologia! Scout ergueu-se bruscamente da cadeira. Com o coração aos saltos, Chantal avisou: — Tome cuidado... — Você não é médica... E mesmo assim operou minha — O que você queria que eu fizesse? Que deixasse a bala onde estava? Que o deixasse sangrar até morrer? Apontando a bandagem que envolvia sua coxa esquerda, ele gritou: — Você me operou! Eu poderia ter perdido a perna... Poderia ter ficado aleijado pelo resto da vida! — Furioso, concluiu: — Minha nossa! Você é louca! — Acalme-se. Não foi uma operação séria. Vi meu pai tratar de ferimentos muito piores do que o seu e conseguir ótimos resultados. Eu sabia o que estava fazendo, apesar de nunca ter operado ninguém, antes. — Então seu pai também é um charlatão. — Ele ministrava antibióticos, quando podia consegui-los. E fez tudo o que era necessário para salvar a vida das pessoas, incluindo cirurgias. Ele removia amídalas, apêndices, prestava assistência em partos complicados... Quando o hospital mais próximo fica do outro lado de uma montanha, uma pessoa acaba aprendendo a enfrentar as dificuldades e a improvisar.


— Ninguém tinha o direito de improvisar com minha perna, princesa! — Scout respirava aceleradamente. — Onde está seu pai? Quero falar com ele. Quero vê-lo... Agora! — exigiu, ríspido. — Só pode ser outro lunático, também. Parece que a insanidade é a marca da família, não? Mas, a esta altura, minhas opções são limitadas. Agora, me diga, onde ele está? — Não está aqui. Aproximando-se, Scout segurou-a pelos ombros: — Onde está ele? — Em algum ponto, nas montanhas. Incomunicável. Mas se ele estivesse aqui, quando extraí a bala de sua perna, teria aprovado o procedimento. E, em meu lugar, teria feito exatamente o mesmo. Ele assoviou baixinho e murmurou uma série de imprecações, com o rosto muito próximo ao dela. Por fim, disse: — Eu não teria levado um tiro na perna, nem teria sido trazido para cá, se não fosse por você. — Não é bom, para você, perder o controle desse jeito. Embora ele não tivesse percebido, era evidente que aquela explosão de fúria havia feito com que a dor no ferimento aumentasse. — Deixe-me ajudá-lo a voltar para a cama — continuou ela. E antes de qualquer réplica, ela enlaçou-o pela cintura, e passou uma das mãos dele sobre seu ombro. — Posso ir para a cama por mim mesmo — ele resmungou. Chantal fitou-o de perto e percebeu que ele ainda estava com os lábios muito descorados. O maxilar continuava tenso, tornando o semblante forte ainda mais contundente. Apesar de o sofrimento estar visível, por conta do suor que o banhava até o peito, ele continuava extremamente teimoso e orgulhoso. — Estou certa de que você pode voltar sozinho — ela disse, num tom suave. — Mas levaria vários e dolorosos minutos para conseguir. E não há necessidade, já que estou aqui para ajudar. — Minha perna dói terrivelmente — respondeu ele, com um suspiro. — Você não deveria ter se levantado. — Bem, eu não podia mais continuar lá, deitado, deixando que você me tratasse com essa total falta de consideração. Sem querer, ele apoiou-se na perna esquerda. Com um gemido de dor, jogou todo o seu peso sobre Chantal. Desequilibrando-se, ela o segurou com mais


força, a mão deslizando pelo peito musculoso. Na tentativa de retomar o equilíbrio, Scout acabou por roçar os seios dela. Ambos ficaram imóveis, os olhos fixos no chão. Durante vários segundos, nenhum deles foi capaz de pensar, respirar ou se mover. Chantal fechou os olhos, esperando que aquela onda de sensações, desencadeadas pelo toque sensual e expandidas por todo o seu corpo, cessasse. Sob sua mão, a pele do peito de Scout era morna e agradável, evidenciando as batidas do coração descompassado. Quando por fim, recomeçaram a andar, não trocaram uma só palavra. Erguendo os olhos, Chantal percebeu que ele olhava fixamente na direção do quarto de seu pai, mais precisamente para o criado-mudo, ou melhor: para a pistola que lá se encontrava. — O esforço que você teria de fazer, para pegar aquela arma, não valeria a pena — ela argumentou, adivinhando as intenções dele. — Quando André me deu aquela pistola, eu não sabia que estava carregada. Fiquei mais apavorada quando atirei em você do que quando tive de extrair a bala. Com um suspiro e um ar derrotado, Scout se apoiou ainda mais sobre o corpo frágil, relaxando todo o seu peso. Não demoraram a chegar ao quarto. Chantal ajudou-o a deitar-se e, virando-se de costas, acendeu a lamparina. Ao se voltar, o viu tirando a faixa do ferimento na coxa. — O que está fazendo? — ela gritou. — O que eu deveria ter feito no instante em que readquiri a consciência, depois de ter sido dopado por você por vários dias. — Por favor, não faça isso — suplicou ela, tentando impedi-lo. Mas ele afastou suas mãos com firmeza e continuou tirando o curativo até o fim. Surpreso, ele observou a cicatriz, os pontos regulares e bem-feitos, fechando a incisão. O local estava limpo e não mostrava sinais de infecção, apesar de um leve inchaço ao redor. — Acho que você ficará com essa marca para sempre — Chantal comentou, num tom brando. — Mas uma cicatriz pode ser um tema interessante, numa conversa. Com uma expressão de contrariedade, ele retrucou: — Posso viver com uma cicatriz. Com uma gangrena, seria um pouco mais difícil. — Bem, já que você tirou a bandagem, acho melhor limpar o ferimento e fazer um novo curativo. Você poderia se deitar?


Quando Scout ergueu os olhos para lentamente estudá-la, ela sentiu uma onda de calor penetrando-a, causando prazer, tal como ocorria quando os raios do sol tropical incidiam sobre seu corpo. Seus joelhos fraquejaram, diante da intensidade daquele olhar. O convite para o baile de inauguração do Coral Reef Resort fora endereçado a ela e ao pai. Mas Chantal não fora até lá para participar da festa e sim para cumprir uma missão: seqüestrar um engenheiro chamado Scout Ritland. No entanto, quando André disfarçadamente apontara para o refém, entre os convidados, ela sentira o coração disparar e o estômago se contrair. O fato de ele ser belo e atraente certamente tornara aquela tarefa difícil um pouco mais fácil de ser cumprida... Por várias vezes, naquela noite, ela disse a si mesma que a atração imediata que tinha sentido por aquele homem não era real... Reforçando o pensamento de que estava lá apenas para cumprir uma missão, cujo sucesso dependeria o futuro do vilarejo. Mesmo assim, por várias vezes, naquela noite, sentira-se apenas como uma mulher comum, tentando chamar a atenção do homem mais belo da festa... Mas, infelizmente, as coisas entre eles não poderiam desaguar num breve romance. Além do mais, ela sabia que romances geralmente resultavam num terrível sofrimento. Desde o fiasco sofrido, na Califórnia, passara a evitar os homens. E tinha de continuar assim, embora o modo como Scout a olhava, agora, a fizesse pulsar de desejo... E também recordar do quanto se sentia frustrada como mulher. Assumindo um ar profissional, ela por fim conseguiu ignorar o olhar de Scout e ajudá-lo a recostar-se nos travesseiros. Mesmo assim, ele continuava a fitá-la, enquanto ela se concentrava em limpar o ferimento com um produto antiséptico. Depois, pediu que ele dobrasse o joelho e enfaixou-lhe a coxa com gaze. — Você deveria tomar um analgésico. — Esqueça. Preciso ter a mente limpa e estar de posse de t,()das as minhas faculdades mentais, para lidar com você. — Quer um conhaque? Ele ergueu as sobrancelhas, com ar de suspeita: — Um conhaque... puro? Sem drogas? Franzindo o cenho, ela saiu do quarto e retomou, logo depois, com a garrafa de bebida. Scout pegou a garrafa e sorveu alguns goles. Fechou os olhos enquanto bebia e então suspirou, com evidente prazer:


— Seu pai tem um gosto refinado — comentou, estalando os lábios, com ar satisfeito. Em seguida, distraído, afagou o peito nu na altura do abdômen onde algumas gotas do conhaque havia caído. Os dedos se moviam sobre a suave penugem desde o esterno até o umbigo... E um pouco mais abaixo. Chantal sabia o quanto aquela penugem era macia, pois, certa vez, ao enxugar o suor que descia por ali em pequenos riachos, permitira-se tocá-la, movida apenas pelo desejo de fazer uma carícia. A lembrança fez com que sua voz se tornasse um tanto rouca. — Todos os anos, na época do Natal, nós recebemos uma caixa desse conhaque francês, enviada por um amigo de papai, um dos poucos que se manteve fiel a ele. Em pé, ao lado da cama, ela observou-o sorver mais um pouco da bebida, em lentos goles. Depois, ele pediu: — Ajude-me aqui... Ela pegou a garrafa e colocou-a sobre o criado-mudo. Em seguida apoiou a cabeça dele com uma das mãos e, com a outra, mudou a posição dos travesseiros, para que o lado mais fresco ficasse para cima. Para sua surpresa, ele ergueu a cabeça, aproximando-se do decote da blusa de Chantal; deixando-a sentir sua respiração quente contra a pele sensível. Para provocá-la ainda mais roçou a ponta do nariz no vale entre os seios macios. Se, em um breve momento, por puro instinto, ela se retraiu; no outro, cedeu à tentação, e pressionou-se contra aquela boca ávida. Porém, Scout parecia tão atônito com sua própria atitude quanto com a dela. E o breve momento de lucidez foi o que bastou para quebrar a magia do momento. Ambos se afastaram e se fitaram, longamente. Ele foi o primeiro a falar; — Eu não sei... Estou com uma estranha sensação de que isso já nos aconteceu, antes... Sem consciência do que fazia, ela passou a língua pelos lábios e correu as palmas das mãos suadas pelos quadris. — Durante nosso trajeto para cá — ela murmurou —, apoiei sua cabeça no meu colo. Antes de responder, ele passeou o olhar pelas curvas sinuosas do quadril feminino, detendo-se na junção das coxas bem torneadas, visível através do tecido fino da roupa, antes de fitá-la nos olhos, novamente: — Por quê?


— Eu temia que você morresse. Para diminuir a tensão e proteger-se daquele olhar devastador, Chantal apagou a lamparina. — Boa noite. — Ela virou-se para sair, mas ele a segurou pela mão. — Escute... Quando a segui, para fora do salão de festas, eu não estava pensando em trabalho... você sabe. — Sei. — Você bem sabia o que eu queria... — Claro que sim. — Então, saiba que ainda a desejo. A luz do luar, que se infiltrava pela janela, fez realçar a toalha branca que o cobria da cintura para baixo, porém não era suficiente para ocultar a ereção. — Não — ela pediu, em tom de súplica, com a respiração suspensa. — Escute, esse seu plano de construir a ponte é absurdo. — Não me parece, nem para meu povo... — Seja razoável. Eu não posso... Não vou continuar aqui, para construir a sua maldita ponte. — Você fará isso, sim. Ele deu um longo suspiro de frustração. — Você é uma mulher inteligente, educada e refinada. Minha nossa, você parece uma deusa pagã; uma mulher fantástica; um sonho que se torna realidade diante de olhos desprevenidos como os meus. Por que não me pede alguma coisa lógica... como por exemplo... fecundá-la e, assim, perpetuar sua tribo. Ficarei muito feliz por ajudá-la. Mas essa história de ponte... é loucura. Impossível que você não ache o mesmo. — Tenho certeza que depois que vir a ponte amanhã, mudará de idéia, — Amanhã estarei buscando um jeito de fugir daqui e voltar para a civilização. — Vamos ver... — comentou ela com um tom misterioso na voz, enquanto ajeitava o mosquiteiro ao redor da cama. — Boa noite. Você vai dormir muito bem. — Como pode saber do meu sono? — Ele sentou-se bruscamente. Chantal o viu vacilar e apoiar a cabeça sobre a mão. Murmurando um palavrão, ele se deixou cair novamente sobre os travesseiros. — Você me drogou de novo, não foi? Você colocou alguma coisa naquele conhaque! Droga! Quando será que vou aprender?


— Sinto muito, mas eu não conseguiria continuar vendo você sofrer desnecessariamente. — Então, por que não deu um tiro em minha cabeça, em vez de operar minha perna? — Não seja ridículo. Preciso muito de você e jamais cometeria esse desperdício. Boa noite. As imprecações de Scout acompanharam-na pela casa que, se não fosse por isso, estaria silenciosa. Mas o suave sedativo, extraído das plantas da região, logo começou a fazer efeito. Em seu quarto, Chantal livrou-se das roupas e deitou-se. Em geral o quarto era sempre muito fresco, graças aos ventos que vinham do mar. Mas, naquela noite, apesar da brisa que soprava suave, ela continuava afogueada e inquieta... Podia sentir cada centímetro de seu corpo nu contra os lençóis. E nada, nem contar carneiros, nem o projeto da ponte, nem as orações que conhecia... Nada poderia livrá-la da lembrança do beijo de Scout.

Capítulo III Chantal estava ao lado da cama de Scout, quando ele acordou, na manhã seguinte. Por vários minutos, ela havia se deleitado ao contemplar as réstias de sol brincando nas feições daquele homem tão bonito. A parte inferior do rosto estava coberta pela barba escura, por fazer, o que era um complemento perfeito para suas densas sobrancelhas. Dentro de um ou dois dias ele precisaria de um corte de cabelo... Ao menos no que dizia respeito aos padrões normais. Ela gostava das mechas que haviam crescido delineando o rosto másculo como se fossem largas cerdas de um pincel artístico. Num dado momento, a luz do sol imprimiu profundos tons avermelhados sobre os cabelos castanhos. Como não havia nem sequer um fio grisalho, ela calculou que Scout teria em tomo de quarenta anos de idade... Cerca de dez anos a mais que ela. Porém havia algumas linhas mais profundas sob os olhos, que poderiam denotar um pouco mais de vivência. Observando um pouco mais atentamente, Chantal concluiu que aquelas rugas prematuras poderiam ter sido causadas, pelo trabalho ao ar livre... O que o tornava ainda mais atraente sob a pele bronzeada. Ele suspirou e passou a mão pelo peito, enquanto despertava lentamente. Seus olhos se abriram e logo se fecharam, devido à forte luz do sol. Depois


tornaram a se abrir, devagar e cautelosamente. E quando a viu ao lado da cama, acompanhada por um garoto, sentou em sobressalto. — Quem é ele? — perguntou, a voz ainda rouca de sono, enquanto fazia um movimento de cabeça na direção da criança. — Jean — ela respondeu, mencionando o nome em francês. — Mas nós o chamamos de Johnny. Scout mirou-o de cima a baixo. — Belo garoto. É seu filho? — Não! — Não precisa ser tão reativa. Eu estava apenas perguntando — declarou, sorrindo para o menino. — Olá, Johnny. Tudo bem? — Bonjour, monsieur — respondeu o garoto, timidamente. — Acho que Johnny é a única palavra que ele conhece em inglês — comentou ela. — Mas vocês saberão se comunicar, assim que se acostumarem um ao outro. Por enquanto, Johnny será suas pernas... Basta dizer o que deseja e ele tratará de atendê-lo. — Ele pode me arranjar um táxi? Compreendendo a provocação, mas sem entrar no jogo, Chantal sorriu, como se tivesse ouvido uma piada. — Você gostaria de tomar café antes ou depois de se barbear? — Barbear? Ela afastou-se para o lado, mostrando os objetos de toalete sobre o criado-mudo, ao lado de um tacho com água e uma bacia. — Essas coisas são minhas! — ele exclamou. — Como conseguiu? — Estavam no seu trailer, no canteiro de obras. — Não acredito que tenha arrombado a porta... — Eu não. André se ofereceu e eu aceitei. Na verdade, não foi preciso arrombar, pois a porta não estava trancada. — Chantal apontou uma mala de viagem. — Achei que você gostaria de ter alguns objetos pessoais aqui. Scout estava grato, mas a encarou com um misto de astúcia e complacência, ao dizer: — A esta altura, o pessoal do resort já se deu conta de minha ausência... Como você bem pode imaginar. Todos já tiveram tempo de ficar novamente sóbrios, depois daquela festa. Com certeza já investigaram o local e sabem que


desapareci. E provavelmente vasculharão a ilha, usando helicópteros, cães farejadores e tudo o mais que houver à disposição para me encontrar. Cedo ou tarde, descobrirão que estou aqui. — Cães farejadores? — Chantal riu. — Bela tentativa, mas trate de poupar seu fôlego. Ouvi quando você disse ao sr. Reynolds que ia se perder na ilha, por tempo indeterminado... E não queria que ninguém o procurasse. O rosto de Scout corou de raiva. — Pode colocar a bisbilhotice na sua lista de pecados, — E em um tom zangado, perguntou: — Você disse alguma coisa sobre o café da manhã? — Sim. E hoje já iniciaremos com uma dieta sólida. — Eu realmente deveria me barbear, para comemorar este momento significativo. Mas, antes, preciso de um banho. — Erguendo o queixo com determinação, acrescentou: — Não vou mais usar aquela maldita comadre. — Aqui, não temos o tipo de banheiro luxuoso ao qual você está acostumado. Mas temos um toalete simples. Johnny o ajudará, enquanto preparo sua bandeja com o café da manhã. Já perto da porta, ela voltou-se para dizer: — Claro que você não vai tomar nenhuma atitude covarde, enquanto estiver a cargo de um garoto... Como, por exemplo, tentar uma fuga, que seria considerada uma falha imperdoável, que marcaria Johnny pelo resto da vida. O menino, que sabia que Chantal estava falando a seu respeito, embora não compreendesse uma palavra, olhou para o estranho alto e cabeludo. O sorriso inocente do menino, ainda mais cativante por conta de uma falha nos dentes da frente, enterneceu o coração de Scout. — Prometo que não tentarei escapar, enquanto estiver com Johnny — garantiu ele, escondendo um laivo de emoção. Chantal saiu do quarto confiante de que a reputação de Johnny na comunidade não estava em risco. O ferimento deixara Scout debilitado fisicamente. Mas por certo não havia afetado sua determinação. Ou seja, era evidente que ele se arriscaria ao máximo para escapar daquele seqüestro temporário. A chance de impedir uma fuga teria que ser por meio de um embate emocional, já que ele era mais vigoroso do que todos os homens do vilarejo. Quando ela retornou, trazendo a bandeja com o café da manhã, encontrou-o tirando o resto da barba, com um aparelho descartável. A perna direita estava dobrada, sob os quadris, enquanto a esquerda pendia para fora da cama. Johnny, que segurava um espelho de mão, estava sentado de pernas


cruzadas aos pés da cama, fitando-o atentamente. Seu queixo estava coberto de flocos brancos, de creme de barbear. — Mas às vezes os cremes de barbear mentolados fazem a pele arder — explicava Scout. — Pessoalmente, prefiro os que têm essência de limão-galego. Essa fragrância deixa as mulheres loucas... Bem, que tal? — Ele ofereceu o rosto para que Johnny o inspecionasse. O garoto respondeu com um gesto de aprovação carregado de entusiasmo. Scout removeu o resto do creme de barbear com uma toalha: — Ok, vamos fazer a sua barba, agora. — Virou o aparelho descartável ao contrário, de modo que a lâmina não pudesse tocar a pele de Johnny, e raspoulhe o rosto, removendo o que restava de creme. — Aqui está, meu rapaz — disse, momentos depois, devolvendo o espelho. Johnny riu, deliciado. — Eu sabia que vocês dois se dariam bem — comentou Chantal. — Johnny é meu parceiro. Graças à ajuda dele, pude vestir roupas limpas; as primeiras, depois de vários dias. Ela o havia notado de short ao entrar, embora ainda estivesse sem camisa. O peito musculoso ainda úmido rescendendo perfume do banho recém-tomado. A mistura das fragrâncias do sabonete e do creme pós-barba, resultou em um perfume extraordinário e tentador. Ao se aproximar para colocar a bandeja na mesinha-de-cabeceira, Chantal sentiu-o entorpecida pela essência que se misturava à aura poderosa daquele homem. — O que temos para o café da manhã? Waffles e lingüiça? — ele indagou, esperançoso. — Ovos e bacon? — Arroz e peixe. — Para o café da manhã?! Quando ela levantou a tampa do prato, ele descobriu que havia dois pequenos peixes grelhados, uma tigela de arroz e metade de um mamão-papaia. Depois do choque inicial, Scout devorou a refeição e tomou duas xícaras de café, com incrível rapidez. Deu o último pedaço de mamão para Johnny. Limpando os lábios com um guardanapo, olhou para Chantal e perguntou: — E agora? Nada de voltar para a cama, eu espero... — Você gostaria de ver a ponte? — Sim! — A resposta espontânea e imediata deixou-a surpresa.


Mas, a alegria de tê-lo convencido tão facilmente durou pouco, pois ele logo retrucou: — Só irei porque este é o único jeito de eu sair daqui... Chantal deu algumas instruções a Johnny, em francês, que imediatamente, saiu do quarto. Tal como havia feito na noite anterior, ela ajudou Scout a andar pela casa, apoiado em seu ombro. Quando passaram pela porta do quarto de eu pai, Chantal olhou para dentro: — Johnny...? De repente, deu um grito e, deixando Scout, correu em direção ao garoto, que estava girando a pistola em volta do dedo indicador. — Mon Dieu! — exclamou, tirando a arma da mão do menino. Por um momento, manteve a arma junto a si, experimentando um profundo alívio. Em seguida abriu o tambor e retirou as cinco balas que ali restavam, antes de guardar a pistola na gaveta do criado-mudo. Apoiado ao batente da porta, Scout fitou-a, enquanto ela baixava os olhos. — Filha da mãe... — ele murmurou pausadamente. — Tive de mentir para você, ontem à noite — Chantal se defendeu. — Fiquei preocupada que o seu ferimento piorasse, caso tentasse procurar a arma... — Mas perdi a chance de fugir, tendo você sobre a mira da pistola... — É... tem razão — ela concedeu. Depois caminhou até uma janela, abriu-a de par em par e jogou as balas, que se perderam entre as rochas, no caminho que levava à praia. — Pronto. O problema da pistola está resolvido. Acabou. Não existe outra em todo o vilarejo. Com a perna nessas condições, você não conseguiria vasculhar aquelas rochas, em busca das balas. Portanto, assunto encerrado. Johnny, que estava encolhido contra uma parede, aproximou-se hesitante. Segurava, nas mãos, um chapéu de palha de abas largas, que ela havia pedido para buscar. Ao entregar o chapéu, ele murmurou, com uma expressão de arrependimento: — Filha da mãe... No mesmo instante ela voltou-se para Scout com um olhar de reprovação: — Viu? Você deveria ser mais cuidadoso com sua linguagem. — Em seguida, ela acariciou os cabelos do garoto. — Merci, Johnny. — E pôs o chapéu na cabeça. Quando chegou ao lado de Scout, ele segurou-a pelo queixo, estreitando a distância dos rostos.


— Tem razão, não dá mais para recuperar as balas. Mas fique certa de que não esquecerei de como fui enganado. Fique alerta, princesa. Você pagará por todas as suas mentiras. — Sem dúvida... — Ela afastou o rosto, levantando a sobrancelha em desafio. — Mas só depois que você construir uma ponte para o meu povo. A hostilidade entre ambos atingia seu ponto máximo, Scout pensou. Segundos depois, um estrondo ensurdecedor reverberou por todo o vilarejo. Na casa, os objetos de vidro tremeram. Portas bateram violentamente. Os livros das estantes caíram ao chão. Scout teve a nítida sensação de que um trem estava passando exatamente abaixo de seus pés. A fúria que o dominava desvaneceu-se. Assustado, ele olhou ao redor e indagou: — Que foi isso? — Foi o Voix de Tonnerre — Chantal respondeu, friamente. — Era inglês! — ele gritou, para fazer-se ouvir sobre o ruído ensurdecedor. — É o nome do nosso vulcão, significa Voz do Trovão. A expressão de Scout era de total incredulidade, e por isso Chantal riu: — Você certamente já ouviu falar dele. — Sim, droga, sei do que se trata. Mas não pensei que... — O som e a vibração cessaram, de modo tão repentino quanto haviam começado. Ele ficou imóvel, a cabeça erguida, em sinal de expectativa. Quando se convenceu de que o tremor havia terminado, indagou: — Onde fica esse vulcão? É próximo daqui? Está prestes ;t ter uma erupção? Sem a ajuda de Chantal, ele caminhou até a porta principal da casa e saiu na ampla varanda que a circundava, era três lados. Johnny correu para ajudá-lo. E puxou a mão de Scout, para que ele se segurasse em seu ombro. Apoiando-se no garoto, ele conseguiu descer os degraus para contemplar a nuvem de fumaça que se elevava, de um pico distante. — Pelo amor de Deus! Aquela coisa está prestes a explodir! Trate de reunir todo os habitantes do vilarejo. Precisamos evacuar a área. Mulheres e crianças primeiro. Diga-lhes para... — Scout interrompeu-se, ao ver que ela estava rindo.


— Mas o que há com você? — indagou, furioso. — Será que perdeu o juízo? Caso não tenha notado, temos um vulcão prestes a entrar em erupção, a uma distância não muito grande deste vilarejo! — Eu sei. Cresci vendo-o todos os dias do meu quintal. — Que coisa agradável! — ele retrucou, sarcástico. — Você pode considerá-lo um vizinho amigo e muito querido, mas lava derretida e chuva de cinzas não me parecem nada amáveis. — A lava esfria e endurece, muito antes de chegar até aqui. E se houver cinzas durante a erupção, elas serão levadas pelo vento, para o alto-mar. — Como sabe de tudo isso? Está tentando me dizer que já o viu entrar em erupção antes? — perguntou ele incrédulo. — Muitas vezes. Embora seja considerado como um vulcão havaiano inofensivo, ele é intermitente. Algumas erupções são mais violentas, ocorrendo a intervalos de poucos anos. Uma delas foi anunciada há algumas semanas... E não tardará a acontecer. A incredulidade de Scout era óbvia, o que divertiu Chantal. Mesmo assim, apressou-se a tranqüilizá-lo; — vilarejo. Elas até gritando

As erupções são um sinal de que os deuses estão satisfeitos com o As pessoas acreditam que essas explosões periódicas sejam bênçãos. as aguardam, esperançosas. Tanto, que você não viu ninguém correndo, ou procurando se esconder por aí... Viu?

Quando olhou ao redor notou que toda a população estava reunida no sopé da montanha. Fitou aquela gente com curiosidade. Todos pareciam muito tranqüilos. Sentiu-se o maior dos tolos, sendo o único a estar em pânico. — É... Bem, eles provavelmente acreditam em fantasmas, também — comentou. — Isso não me convence de que estão certos. O sorriso de Chantal sumiu no mesmo instante: — Não é preciso insultá-los. — Sinto muito. — Num gesto irônico, ele pôs a mão sobre o peito. — Pela primeira vez em minha vida, acabo de sentir... Portanto, tenho outras coisas em mente, além da diplomacia. — Eu lhe garanto que o vulcão é inofensivo. — Quem é você... Uma expert no assunto? — Sim. — A resposta curta e incisiva o tomou de surpresa, tanto que ele conteve as palavras irônicas que estava prestes a pronunciar. Aproveitando a


vantagem momentânea, ela continuou: — Meu pai previu que o Voix de Tonnerre não terá qualquer erupção significativa, durante os próximos mil anos. — Oh, que maravilha! — ele exclamou, voltando os olhos para o alto. — Seu pai disse isso... Bem, por que não me contou antes? Assim eu teria me sentido bem mais tranqüilo. — Com todo esse sarcasmo, você está insultando meu povo. — Bem, o que a faz pensar que eu deva acreditar em qualquer coisa que seu pai disser? Estou certo de que vocês dois são desequilibrados. — Pois saiba que meu pai é um renomado especialista em vulcões — ela afirmou, rispidamente. — É verdade que nunca chegou a fazer um estudo tão elaborado quanto o já realizado nas encostas do monte Kilauea... Mas posso assegurar que a opinião dele no assunto é de peso e reconhecida tanto quanto a minha. E se estou tão preocupada com as condições de uma simples ponte... você acha que deixaria meu povo continuar aqui, se acreditasse que o vulcão entraria em erupção, arriscando tantas vidas e propriedades? Inquieto, Scout considerou as palavras de Chantal que, para enfatizar, concluiu: — O pessoal do Grupo Reynolds também sabe da existência do vulcão. Eles pediram conselhos a meu pai, antes de se decidirem pela construção do resort aqui na ilha. Com certeza você, que é um dos projetistas, também foi informado a esse respeito. — Sim — Scout respondeu, num tom áspero. — Disseram-me que eu poderia ver uma nuvem de fumaça branca, surgindo da cratera. E que isso só serviria para incrementar a romântica atmosfera da ilha. Mas obviamente eu não esperava por um estrondo, ou um terremoto... nada semelhante ao que acaba de acontecer. — Você se sentiu assim, apenas porque está perto do vulcão. O próximo tremor não o deixará tão surpreso. E, agora, será que você gostaria de ver a ponte? Depois de um longo suspiro, Scout passou a mão pelos cabelos, num gesto de frustração e desânimo. — Claro... Mal posso esperar. — Tenha cuidado, ao andar pela trilha pedregosa. Apóie-se em Johnny. Ele espera que você faça isso. — Prometo não desapontá-lo.


Juntos, os três fizeram lentamente o trajeto até o centro do vilarejo. Os habitantes, muito sorridentes, estavam diante de suas cabanas cobertas de palha, aos pés da ladeira, e os saudavam. Quando se aproximaram, Scout murmurou: — Você está vestida demais para a ocasião. Todas as outras pessoas usam apenas flores, na parte superior do corpo. As mulheres usavam saias de tecido ou palha, e guirlandas de flores sobre os seios, á maneira tradicional dos havaianos. Os homens estavam de tangas confeccionadas em algodão e traziam coroas de flores na cabeça. Entre as crian ças, poucas estavam vestidas, mas muito enfeitadas com grandes flores coloridas. — As flores significam que hoje é dia de festa — explicou Chantal. — E qual é o motivo da comemoração? — Você... — respondeu ela, fitando-o por baixo da aba do chapéu. — Eu? — perguntou, parando ao lado dela. — Você é a resposta às preces dessa gente. Os deuses o enviaram para construir uma nova ponte. Um tanto embaraçado, ele assimilou aquelas palavras. — Pensei que seu povo tivesse se convertido ao Cristianismo. — Scout fez um gesto de cabeça em direção a uma cabana, semelhante a uma igreja. Havia uma cruz de madeira fixada no teto de palha. — De fato, foi. Mas é difícil abandonar as tradições... — Fui enganado, alvejado, seqüestrado e drogado — ele lembrou. — Este não é, nem de longe, o jeito correto de se tratar uma divindade. ponte.

— Não importa como chegou aqui. O que importa é que vai construir a — Em outras palavras, o que os olhos não vêem o coração não sente.

— Não é isso... Apenas, não vejo por que aborrecer minha gente com esses detalhes. Os três se aproximaram da multidão. Vários colares de flores foram colocados em volta do pescoço de Scout. As pessoas o abraçavam, beijavam e tocavam com admiração e respeito. Ele foi adornado, adorado e admirado por velhos e jovens. Chantal poderia dizer, por sua expressão atônita, que aquele derramamento de afeição o estava deixando maravilhado... Tanto quanto os trajes das mulheres da ilha.


— Não se esqueça de que elas têm um rosto também — repreendeu ela com um sorriso malicioso. Scout, que estava olhando para os seios de uma jovem incrivelmente bela, voltou-se para ela, que o fitava com ar de censura. — Desculpe. Sou uma vítima de minha própria cultura. E, assim como essa gente, não posso ignorar as tradições de minha tribo... Para mim, uma garota de topless ainda é uma garota de seios de fora. Depois de algum tempo, você nem vai notar mais. — Não tenha tanta certeza. Chantal franziu o cenho, em sinal de desaprovação. Depois dirigiu-se ao povo que, após ouvi-la, imediatamente começou a se dispersar. — Estraga-prazeres — Scout murmurou. — Eles o estão tratando como um ídolo, mas lembre-se do que esperam de você, em troca. — Uma nova ponte para substituir a antiga. — E lá está ela. Ele acompanhou o gesto que apontava para uma ponte suspensa, em péssimas condições, sobre um profundo despenhadeiro. — Na verdade, esta área onde estamos se formou quando parte de uma rocha do alto da montanha se soltou e rolou até aqui, há centenas de anos — Chantal explicou, apontando para o topo da montanha, que ficava do outro lado do despenhadeiro. — O abismo ficou menos profundo, devido à vegetação densa e a floresta que cresceu, cobrindo-o quase totalmente. Mas lá embaixo, no solo mais fundo, há um riacho que corre entre as pedras, lançando respingos para cima. Desses respingos, à luz do sol, nascem centenas de minúsculos arco-íris. É dali que vem nosso suprimento de água fresca, pois meu pai represou parte de seu curso, transformando-o em um pequeno lago... Que fica bem ali, depois daquela curva. Scout fez um gesto de assentimento, mas continuou observando a ponte, por onde um nativo da ilha vinha passando, tentando puxar um bode, por uma corda. O animal refugava e a ponte balançava perigosamente. — Você me carregou por toda aquela extensão? — ele indagou, com voz rouca. Uma queda dali seria fatal. Qualquer pessoa que despencasse dali seria destroçada pelas pedras, lá embaixo.


— Acho que agora você pode entender o motivo pelo qual tive de tomar medidas tão arriscadas — explicou ela. — Nem mesmo o mais velho habitante do vilarejo consegue se lembrar do tempo em que não havia ponte. Isso indica que ela está ali há pelo menos noventa anos. Precisamos que seja substituída por outra, mais segura. — Nesse ponto eu concordo com você. — Sente-se. — Chantal apontou para um banco, cavado na rocha. Scout sentou-se e Johnny acomodou-se a seus pés, fitando-o com profundo respeito. Ela também tomou seu lugar na rocha. E antes que ele começasse a contestar o seu plano, argumentou: — Imagine o que significará, para o vilarejo, ter uma ponte que possa suportar o peso de veículos motorizados. As pessoas se sentirão mais seguras e confiantes, terão acesso rápido ao resto da ilha, a escolas e hospitais. — Compreendo seu ponto de vista, Chantal — ele concordou, num tom moderado. — Aquela ponte é um perigo, pode acreditar nisso. — Abrindo os braços, indagou: — Mas que diabos você quer que eu faça, a esse respeito? — Construa outra ponte. — Ah, simples assim... — Ele estalou os dedos. — E quer que eu a faça sozinho? — Claro que não. Você terá um contingente de trabalhadores à sua disposição. — Aqui? — Ele riu e lançou um olhar, sobre os ombros, na direção do vilarejo. — Você está se referindo aos nativos? — Eles são capazes... — retorquiu ela, ofendida. — Eles sabem do trabalho árduo que será necessário e estão ansiosos para realizá-lo. — Não fique irritada. Não tive intenção de menosprezá-los. O caso é que... — Scout passou a mão pelo rosto. — Esse trabalho envolve muito mais do que lidar com martelos e pregos... Você pode não entender, mas seu pai certamente saberá que digo a verdade. E, a propósito, por que ele não veio falar comigo? Por que delegou essa responsabilidade a você? — Eu e ele traçamos este plano juntos. — Até mesmo o seqüestro? — Bem... eu acrescentei essa parte. E não culpe ninguém daqui porque são inocentes. Eu disse a elas que você veio por livre e espontânea vontade, mas que houve um acidente, no caminho. — Escute, princesa, você não pode simplesmente seqüestrar um engenheiro e... Abracadabra! Fazer surgir uma ponte do nada.


— Não estou pedindo para construir outra Golden Gate. — Oh, que bom! Folgo em saber. Por um momento, fiquei preocupado. — Tudo o que desejo é uma ponte que seja útil... — Que se estenda sobre um desfiladeiro que mais parece um pesadelo, para quem sofre de vertigens. — Eu não disse que seria fácil. — Que ódio! — Scout bradou em frustração, que só serviu como desabafo pessoal, mas que nem chegou a intimidar Chantal... Embora ecoasse pela encosta da montanha, fazendo com que os habitantes do vilarejo interrompessem por um instante o que estavam fazendo. Chantal se levantou imperiosa, o queixo erguido em desafio, porém com os olhos muito calmos. Scout abraçou os joelhos, apertando-os com força. E assim permaneceu, por um longo momento. Por fim ergueu a cabeça e, em um tom conciliatório, sugeriu: — Por que não arrumamos outra solução? Eu poderia voltar aos Estados Unidos e tentar levantar uma verba, para a construção dessa ponte... Tenho uma amiga que trabalha muito bem quando se trata de erguer fundos para causas beneficentes. Ela faz isso como um hobby. E é muito competente. Quando eu explicar a situação, ela concordará de imediato e colocará esse projeto no topo de suas prioridades. O que você acha? No final de todo aquele discurso paternalista, Chantal já estava terrivelmente irritada. Detestava o sorriso condescendente e o tom de voz dele, que a estava tratando como se fosse uma pessoa simplória. Aliás, ele não merecia sequer uma contestação. Em segundo lugar, não queria que a noiva de Scout em Boston, que certamente era a amiga a quem ele havia se referido, tivesse algo a ver com a ponte. Na realidade, ele ignorava que ela sabia da existência de Jennifer. E, ao menos por enquanto, era melhor que as coisas continuassem daquele jeito. Mas o que mais a condoía era o fato de ele considerar o vilarejo e seu povo como um caso de caridade. E foi este o ponto que ela refutou: — Os habitantes deste lugar querem construir a ponte por eles mesmos. Não desejam que nenhuma organização beneficente faça isso por eles. Se fosse esse o caso, eu já teria pedido ajuda ao governo dos Estados Unidos. Eles precisam de alguém que faça o projeto da construção e administre o trabalho, que será realizado por eles. Somente assim poderão se sentir realmente donos da ponte. E terão orgulho da obra. Pois eles não se consideram estúpidos, nem incapazes... Embora, obviamente, você pense assim.


— Eu não disse que... — Além do mais, precisamos da ponte agora. E você está aqui, agora. Se eu o deixar partir, nunca mais o verei, nem ouvirei falar da sua pessoa. Ele ergueu-se de uma vez, distribuindo o peso do corpo entre ambos os pés. Tinha se esquecido de que estava ferido e estremeceu com a dor que agulhou sua perna esquerda. — Como ousa questionar minha integridade, depois de ter quebrado sua palavra tantas vezes? — Isso não é verdade — ela retrucou, com um vigoroso meneio de cabeça. — Bem, lembre-me de que, daqui por diante, devo exigir sua palavra de honra em tudo o que combinarmos, está bem? Pois você tem demonstrado uma forte tendência para enganar e mentir. — Porque eu estava desesperada! — Eu também. Estou desesperado para sair daqui. — Você está recusando meu pedido? — Droga, claro que sim. Sou pago para construir pontes. E se você se sente responsável perante o povo deste vilarejo... Por que eu também deveria me sentir assim? — Por simples decência. — Sentimentos nobres não pagam minhas contas. Eu me esforcei durante anos para fazer, da minha profissão, um negócio lucrativo. Por fim consegui o reconhecimento de uma das maiores corporações do país, cujo presidente quer contratar novamente meus serviços. E não vou deixar passar essa oportunidade ficando aqui, trabalhando em sua ridícula ponte. Os olhos azuis de Chantal estreitaram-se perigosamente. — Então você está se recusando a trabalhar apenas porque não tenho como pagar, é isso? Que capitalista desprezível! Scout passou os dedos pelos cabelos, soltando um suspiro de raiva. — Não, não se trata apenas do dinheiro. Não sou tão arrogante assim. — Será que não é? Ele fitou-a com severidade: — Agora, quem está insultando quem? — Então, está certo. Dê-me apenas um motivo para não construir a ponte — ela insistiu, com um gesto largo, que parecia abranger todo o vilarejo.


— Ok, eu vou lhe dizer... — Ele apontou para o topo da montanha. — Em algum lugar daquela montanha há um francês velho e maluco que autorizou sua filha a sair por aí, seduzindo e seqüestrando idiotas como eu, sobre a mira de uma arma de fogo. A simples idéia de me associar a esse lunático já me deixa nervoso. Isso para não mencionar a filha, que é também uma charlatã, mentirosa, especialista em drogar as pessoas. Tenho um vulcão ativo prestes a explodir sobre minha cabeça. Um vulcão capaz de arrasar qualquer ponte que eu possa construir, o que já seria uma loucura, um plano impossível de se realizar, considerando-se o material e o contingente de trabalhadores disponíveis. E ainda me resta um buraco de bala na perna esquerda, que dói terrivelmente. A raiva de Scout havia se tomado mais intensa a cada palavra, até que as últimas foram pronunciadas aos berros, causando em Johnny, que o ouvia atentamente, uma expressão de preocupação. Por outro lado, Chantal permanecia impassível, fitando-o com o mais calmo dos olhares. Praguejando, ele olhou para longe, depois voltou-se para ela: — Escute, você é uma mulher corajosa. Como ser humano, posso apreciar tudo o que você fez pelos moradores do vilarejo, no passado... E também seu cuidado com o futuro deles. Uma abnegação desse tipo é muito rara, em nossos dias. E eu a admiro por isso. Compreendo a necessidade de construir uma ponte melhor, mas não sou a pessoa indicada para isso. Você me obrigou a ser rude. — Scout fez uma pausa e suspirou profundamente. Com um sorriso complacente, concluiu: — Entenda que isso, realmente, não é problema meu. Sem uma palavra, ela virou-se e acenou para um homem que estava bem perto da ponte. Ele e vários outros jovens do vilarejo acenderam as tochas que traziam. Depois, cada um aproximou sua tocha das cordas que sustentavam a ponte. Em segundos, a velha estrutura de cânhamo e madeira foi tragada pelas chamas, Scout olhava para tudo com indignação e perplexidade. Voltando-se para ele, Chantal disse calmamente: — Agora é um problema seu, — Você enlouqueceu! — Scout aproximou-se, mancando, da ponte em chamas. — Não posso acreditar no que vejo! — gritou, batendo as mãos contra as coxas, pouco se importando com o ferimento. — Você é totalmente maluca! O calor do fogo era intenso. Passava por eles, tornando-se visível através de ondas de fumaça. Mas quase tão rapidamente quanto havia começado, o incêndio se extinguiu, depois de consumir a ponte em menos de um minuto. Fragmentos incandescentes pairavam sobre o abismo e depois caíam no córrego, lá embaixo, lançando ao céu nuvens de vapor.


Um clamor de alegria soou no centro do vilarejo. Para os moradores, o incêndio da ponte antiga significava a confirmação de que logo teriam uma nova, que não mais colocaria suas vidas em risco. Todos começaram a celebrar intensamente aquele momento, com música e dança. Tambores soaram, em meio ao entusiasmo geral. Scout, que não prestava atenção a nada, exceto aos restos de ponte que queimavam, de cada lado do despenhadeiro, virou-se para Chantal. Arrancou bruscamente as guirlandas de flores que lhe adornavam o pescoço e a cabeça, lançando-as ao chão. Seus olhos luziam de fúria, tanto quanto as chamas que haviam destruído a ponte. — Vou matar você. — Penosamente, começou a avançar na direção dela. Havia falado com tanta veemência e convicção, que ela estremeceu de medo, temendo que ele pudesse cumprir a ameaça. Porém, antes que a alcançasse, seus braços foram subjugados e dobrados atrás das costas. — Solte-me! — ele gritou, movendo furiosamente a cabeça de um lado para o outro. — Ele machucou você? — Um rapaz musculoso correu na direção de Chantal, enquanto dois outros mantinham Scout imobilizado. — Não, André. — André... — Scout repetiu, em tom de desprezo, debatendo-se para se soltar. — Quando terminar meu assunto com ela, cuidarei de você. — Não se preocupe — Chantal disse a André. — Ele está apenas um pouco nervoso porque nós queimamos a ponte e, assim, cortamos sua via de escape. — Um pouco nervoso? — Scout bradou, enquanto continuava a lutar contra os homens que o seguravam. — Isso não serve, nem de longe, para descrever o estado em que me encontro, princesa. Quando puser minhas mãos em você, eu a matarei. — Quer que eu bata nele, para deixá-lo inconsciente de novo? — André ofereceu. — Não! — Chantal gritou, segurando-o pelo braço. — Vamos dar chance para que ele se acostume com a idéia de que, agora, não resta outra alternativa a não ser construir uma nova ponte. Scout olhou fixamente para André: — Será que já não vi você antes? — Eu fazia parte da equipe de trabalhadores, na construção do hotel.


— Sim, agora me lembro. Você era um bom e forte trabalhador, mas tinha um comportamento problemático... Mas não me admiro. Você estava apenas agindo como lacaio e espião, sob as ordens dela. André avançou pronto para lutar. Mais uma vez, Chantal o segurou. Voltando-se para Scout, disse: — É melhor ser amável com André. Ele será bastante precioso para você, durante a construção da ponte. A resposta veio em forma de uma obscena sugestão sobre ela e a ponte... Dessa vez, Chantal não teve tempo de agir rápido. Pois, antes que pudesse impedir, André acertou Scout na boca. Fortalecido pelo impulso da raiva, Scout conseguiu se livrar dos homens que o seguravam. Com o punho fechado, acertou um murro em André, que revidou, acertando-o no queixo e jogando-o ao chão. — Parem com isso! — Chantal colocou-se entre ambos. — Parem com isso agora mesmo! Vocês querem que as pessoas os vejam brigando desse jeito? Hoje é um dia de celebração. E eu não vou permitir que seus estúpidos egos feridos arruínem a festa. Johnny! — chamou ela. O menino correu para o lado de Scout e, tomando-lhe a mão, colocou-a sobre seu ombro franzino. Erguendo o queixo, Chantal apontou a casa, no alto da colina. Scout estava furioso, mas seu rosto havia empalidecido, devido à dor. Relutante, ele se apoiou no menino e começou a subir a ladeira. Chantal virou-se para segui-los. Então, para sua surpresa, André segurou-a pelo braço. Jamais a tocara assim antes, nem a fitara de modo tão severo. — Aquele homem pode ser perigoso para você. Não acho que ele deva ficar em sua casa. Chantal desvencilhou-se: — Mas Scout tem que ficar lá. Preciso cuidar daquele ferimento. Se ele tiver uma infecção, já não será útil para nós. Além do mais, você não precisa se preocupar comigo. Ele rosna, mas não morde. André não respondeu à tentativa de gracejo dela. Apenas fitou-a com um olhar implacável, por alguns momentos. Depois, sem uma palavra, fez sinal aos dois homens para que o acompanhassem. Quando Chantal chegou em casa, encontrou Scout sentado na cama, tirando a bandagem do ferimento. Johnny o observava com uma expressão sombria. Ela deu algumas instruções e o menino saiu para cumpri-las. — Um dos pontos se abriu, durante aquela ridícula briga — ela comentou, inspecionando o ferimento.


— Foi seu cão de guarda quem começou. Johnny retomou, trazendo uma garrafa de conhaque. Chantal serviu uma dose num copo e o estendeu a Scout. — Não, obrigado. Não quero dormir pelo resto da semana. — Isto é apenas conhaque. E você me viu servir. — Como vou saber se você não jogou uma droga na garrafa inteira? Ela agitou levemente o copo e sorveu conhaque de uma só vez. Servindo outra dose, ofereceu-a a ele, que bebeu tão rápido quanto ela. — Obrigado — resmungou. Passando a língua pelos lábios, deteve-se no ponto onde sofrera um corte. O local sangrava e estava inchado. Quase que imediatamente, ela pegou uma toalha que estava sobre o criado-mudo, umedeceu a ponta na bacia de água e tentou limpar o corte. — Droga! Pare com isso. — Mas... e se infeccionar? Scout alcançou a garrafa e serviu-se de outra dose. Antes de beber, mergulhou o dedo no conhaque e levou-o ao corte no lábio. — Pronto. Já está desinfetado — retrucou, disfarçando a forte ardência que sentiu. — Muito bem. Agora, terei que dar outro ponto... — Você não vai mais colocar as mãos em mim, dra. duPont. De hoje em diante, eu cuidarei de minha saúde geral, confiando no poder de regeneração do corpo humano, que se cura sozinho. — Você parece febril. Talvez devesse se deitar. — Talvez você devesse parar com esse tom de médico profissional e me dizer qual é. — Qual é... o quê? — O outro caminho para sair deste vilarejo. — Ele jogou a garrafa na cama e tentou ficar em pé. — Pois até mesmo você não faria algo tão absurdo como destruir a única via de acesso para o resto da ilha. — Não sei onde quer chegar... Segurando-a pelos ombros, ele a empurrou. Em reação, ela o golpeou no peito. Ambos ficaram parados, olhos nos olhos, fitando-se com hostilidade. Johnny soltou uma exclamação de medo, trazendo-os de volta à razão.


Chantal afastou-se da cama. Em voz baixa, tranqüilizou o menino, afagando o rosto assustado. Mais calmo, Johnny murmurou um au revoir a Scout e dirigiuse à porta. — Estou esperando — disse Scout, num tom áspero, assim que o garoto saiu do quarto. Chantal tirou o chapéu de palha e soltou os longos cabelos, que, ao caírem, rescenderam um delicioso perfume de ervas. — Há uma trilha em declive, que serpenteia ao longo do desfiladeiro, e vai sair do outro lado. Um homem em condições normais levaria quase uma hora para transpô-la, isso sem contar o tempo que ele despenderia, para atravessar o córrego. Em seu estado, esse tempo teria de ser multiplicado por quatro... Em todo caso, você não sabe onde começa a trilha. É melhor resignar-se a construir outra ponte ou... Ele fitou-a como se calculasse suas chances, antes de indagar: — Ou o quê? Recuando um passo, ela retrucou: — Não entendi a ameaça... Segurando-a pela nuca, Scout puxou-a para si, enquanto caía sobre os travesseiros. Em seguida enlaçou-a pela cintura. — Sabe de uma coisa? Quanto mais eu penso na possibilidade de ficar preso aqui, mais gosto da idéia — ele murmurou, com os lábios colados aos dela. — Qualquer homem veria este lugar como um paraíso... E eu bem que poderia tirar vantagem daquilo que você me contou, na outra noite. — Beijando-a com certa agressividade, ele deixou que as mãos escorregassem pelo corpo curvilíneo, até os quadris, e depois subissem de volta à cintura. —Aposto que assim que você se excitar começará a agir como uma gata selvagem. André provavelmente já sabe disso. Pois não foi por ciúme que ele lutou comigo? Mas claro que não há motivos para se preocupar. Pois quando eu me cansar de você, vou devolvê-la para ele. Então poderei escolher uma entre as muitas beldades do vilarejo que me cortejaram, hoje de manhã. Não terei de trabalhar nem mais um dia em minha vida. Não terei de usar gravata nunca mais. Não terei de enfrentar o trânsito na hora do rush. E apertando-a com mais força, ele espalmou as mãos fortes, apertando as nádegas macias. — Por que eu deveria sofrer todos os problemas relativos à construção de uma ponte, quando posso muito bem passar o resto dos meus dias aqui, como seu


pai fez, engordando e vadiando? Quanto mais penso nisso, princesa, mais gosto dessa idéia. Conforme falava, o sorriso naqueles lábios grossos ficava cada vez mais malicioso, afetado e ofensivo. Naquele exato momento, Chantal desejou cravar uma faca naquele coração insensível. No entanto, em vez disso, optou por golpear o ferimento com o joelho. Instintivamente, ele se retraiu. Foi quando ela aproveitou e se desvencilhou do abraço e se afastou. — Você já se cansou demais nesta manhã — ela retrucou, friamente. — Pedirei a Johnny que traga seu almoço. Depois disso, sugiro que descanse. Depois de sair e fechar a porta, Chantal encostou-se na madeira e só então deixou que as lágrimas represadas escorressem por seu rosto delicado. Scout a havia magoado, ferindo-a profundamente e do modo mais doloroso possível. E se houvesse revidado, teria apenas dado mais munição ao ofensor... Não, era preferível morrer antes de deixá-lo saber o quanto a havia atingido. Chantal voltou ao quarto dele somente algumas horas mais tarde. Scout estava sentado na cama, com um bloco de papel sobre o joelho direito, fazendo anotações. Terminou o que estava escrevendo, antes de notar a presença dela. Parada na soleira da porta, ela usava apenas um biquíni. Não notou o olhar de admiração que percorreu seu corpo escultural, porque ela mesma estava admirada com a própria coragem. Pedaços de papel amassado espalhavam-se pelo chão, como bolas de neve. — Pedirei a Johnny que os recolha, mais tarde — anunciou ele. — O que está fazendo? — Esboços. Scout teve dificuldades em encará-la, conforme ela se aproximava. As curvas perfeitas da cintura e quadril, terminando nas coxas bem torneadas, o deixavam fascinado, assim como os seios, que se moviam sensualmente sob a parte superior do biquíni. — São apenas algumas idéias — ele respondeu, numa voz tão densa quanto a emoção que o dominava. — É uma ponte! — exclamou assustada, ao olhar a primeira página do bloco. — Claro que é. Foi para isso que você me trouxe aqui, não? Para construir uma ponte. Ou será que mudou de idéia? — Não, mas obviamente você mudou. — Fitando-o com uma expressão nada amigável, ela indagou: — Devo me sentir ofendida ou lisonjeada por você não mais me desejar em sua cama? Pondo o bloco e o lápis de lado, Scout suspirou e ergueu os olhos para ela. — Aquilo foi um acesso de raiva e frustração, que não teve nada a ver comigo.


Normalmente, não sou assim... Mas tenho estado sob pressão, nesses últimos dias, entendeu? Eu estava me sentindo irascível e... — Odioso. — Odioso — ele admitiu. — Tentei atingir você no ponto que eu imaginava ser mais vulnerável. — Então você é muito intuitivo, pois tudo o que me disse... Interrompendose, ela concluiu: — Na verdade, sua atitude, foi desprezível. — Será que ganharei alguns pontos se mostrar minhas idéias? Fiz alguns esboços... Johnny me trouxe este bloco e caneta, que ele pegou do estúdio de George... Você não se importa se eu chamar seu pai assim, não é mesmo? — Por que está fazendo isso? — Não é o que você queria que eu fizesse? — Sim. Mas você cedeu rápido demais. Por quê? Scout contraiu os lábios para não responder conforme sua vontade. Estava diante da mulher mais irritante que já encontrara. Ali estava ele, tentando ser agradável, fazendo exatamente o que era esperado... E ela ainda exigia razões e explicações! — Acredite ou não, sou uma pessoa querida, em vários lugares — ele contou. — Até então, minha relação profissional com as pessoas tem sido satisfatória. Evito confrontos, sempre que possível. Desde meus tempos de escola que não me envolvo em brigas como a de hoje cedo — acrescentou, tocando o corte do lábio com a ponta da língua. — Sinto muito por André tê-lo agredido, embora ele tivesse razão pela maneira como você falou comigo. — Bem, você esqueceu que me provocou — ele a lembrou, num tom suave. A voz de Chantal soou no mesmo tom: — Então, por que mudou de idéia? — Porque de repente me senti muito egoísta. Nos últimos tempos, tive muito sucesso. — Ele deu de ombros. — E achei que talvez fosse o momento de distribuir um pouco da sorte que tive. Se eu puder ajudar as pessoas do vilarejo, por que não fazê-lo? O que ele deixou de dizer foi que, de súbito, havia se dado conta de que mais de uma semana havia se passado, desde a inauguração do Coral Reef Resort... Isso significava que ele estava uma semana mais próximo da data de seu casamento. Jennifer esperava que ele voltasse para casa o mais rápido possível, embora ele nunca houvesse dado uma data precisa sobre seu regresso. Mas sabia


que se Jennifer ficasse sem notícias suas, por um período além do razoável, começaria a se sentir confusa. Seria possível compreender a vontade de pescar e até mesmo de fazer uma excursão turística, pela ilha Parrish. Mas se ele lhe dissesse que não pudera voltar porque ficara preso num ponto remoto da ilha, com uma mulher como Chantal... Bem, isso seria demais para sua futura esposa. Em todo caso, Scout não queria abusar da sorte. Quanto mais cedo construísse a ponte, mais cedo poderia partir. Até aquele momento, ela fora mais esperta. Já não era sem tempo de mudar de estratégia. Com os braços cruzados sobre o ventre nu, ela o fitava com ceticismo: — Quanto altruísmo de sua parte! — Você não acredita em mim? — Não — ela respondeu, abruptamente. — Mas suas razões para cooperar não são tão importantes quanto a construção da ponte. Não quer sair um pouco? — Você não quer ver meus esboços e saber das minhas idéias? A falta de entusiasmo dela era perturbadora. Era de se esperar uma reação de gratidão, surpresa, qualquer coisa, menos aquele aparente desinteresse. — Mais tarde. Acho que você precisa de um pouco de ar fresco. Venha. Vou chamar Johnny. Acho que, juntos, conseguiremos levar você até a praia. Foi um processo demorado, mas por fim os três chegaram ao alto do caminho de pedras, que partia dos fundos da casa e levava até a praia. Na verdade, Scout sentia que poderia ir bem mais longe, sem se queixar. A caminhada havia dado um bom pretexto para tocar em Chantal. Apoiando-se nela, ele deixou que a mão escorregasse até a cintura. Não sabia se aquela sensação de vertigem resultava do fato de ter ficado deitado por tanto tempo sem fazer exercícios, do sol forte, ou do fato de poder contemplar a beleza daqueles seios majestosos, de um ângulo vantajoso... — Sente-se aqui. — Chantal apontou uma piscina natural, de água salgada, formada pelo movimento da maré. — A água do mar fará bem ao seu ferimento. Ele olhou para o local com ar de dúvida, mas acabou sentando-se à beira da piscina e mergulhando a perna na água. Tão logo sentiu o contato do sal, puxou a perna para fora. — Está quente! E, além do mais, dói muito. — Não seja tão chorão — ela o repreendeu, puxando-lhe a perna de volta para dentro da água.


O cenário era digno de um cartão-postal. A areia tinha a cor e a textura do açúcar. A água era límpida. Espumando, as ondas iam até a praia e então recuavam, deixando um rastro rendado, luminoso. Uns poucos homens do vilarejo pescavam com arpão. Mulheres brincavam com os filhos, á beira-mar. Ninguém vestia nada, exceto uma versão dos Mares do Sul de uma tanga convencional. Ninguém parecia se dar conta daquela beleza, exceto Scout que nunca estivera diante de beleza tão exuberante. Mas mesmo com tanta nudez ao redor, a única pessoa que prendia seu olhar era a que mais estava vestida... Pois vê-la brincando com Johnny e outras crianças, pulando as ondas, espirrando água, compunha uma cena, que aproximava opostos como sensualidade e ingenuidade, digna de ser admirada. Um quadro ainda mais estonteante foi o que viu quando Chantal emergiu da água com os cabelos lisos em torno do rosto exótico. A pele de cetim salpicada por pequeninas gotas, os olhos brilhando de prazer, deixaram-no fascinado, tomando-o dolorosamente consciente de que fazia muito tempo que não se deitava com uma mulher. Ainda bem que seu corpo estava coberto pela água da piscina, até a cintura... — Como está o corte? — indagou ela, sentando-se a seu lado na areia. — Vejo que ainda está um pouco inchado. Scout pigarreou: — Como disse? — Seu lábio... — Chantal tocou o corte delicadamente com o dedo mindinho. E ele sentiu o gesto como uma carícia. — Está tudo bem. — E o ferimento na coxa? A água do mar está ajudando? Ela passou a ponta da língua nos lábios, para tirar dali as gotas de água salgada... E Scout sentiu como se aquela língua sequiosa pavimentasse também a sua boca. — Ah, sim, o banho na piscina está me renovando. — Ótimo. Imaginei que seria assim. — Envolvendo os cabelos nos pulsos, ela os torceu, tirando o excesso de água. Depois jogou-os para trás, sobre os ombros. — Tenho a nítida impressão de que sou a atração desta tarde — Scout comentou, esforçando-se para desviar os olhos das gotas que escorriam do vale do seio, descendo pelo ventre, represando-se por entre as coxas perfeitas. — Como assim?


— Bem, todas as vezes que alguém olha em nossa direção, começa a rir. Não entendo qual seja a graça. A essa altura, eles certamente já se acostumaram aos pêlos do meu peito. Chantal baixou os olhos. Scout admirou-lhe os longos cílios, que se fecharam por um momento. — Eles não estão rindo de você, mas de mim. — Bem, continuo não achando graça... — Engraçado, não. Apenas... diferente. Ela o fitou de relance, depois desviou os olhos. — Eles não estão acostumados a me ver na praia... de top. No mesmo instante o olhar ávido caiu sobre os seios volumosos. Ele notou então que a parte superior do biquíni parecia nova. A cor era de um tom um pouco mais firme do que a parte de baixo, obviamente era a primeira vez que usava a peça. Para uma mulher tão esguia, Chantal tinha seios grandes, belos, cujos bicos se delineavam sob o fino tecido azul do top. Scout lembrou-se de como aqueles seios haviam respondido às carícias de seus dedos, e imaginou que textura eles teriam, sob sua língua... A fantasia, embora breve, resultou em uma explosão de desejo que ficou evidente por meio do membro enrijecido sob a água. — Por favor, não mude os costumes nativos por minha causa... Lentamente, ele ergueu os olhos e encontrou os dela, brilhantes como o reflexo do sol nas águas do oceano. Durante vários momentos, enquanto os corações se aceleravam, os olhos comunicaram o que os corpos sentiam. baixo.

— Por favor...? — ele pediu quase em súplica, empregando um tom mais

Por um momento ela pareceu considerar, mas em seguida, recuperou a postura altiva. — Se você fosse europeu, talvez... Mas, como você mesmo admitiu, os homens norte-americanos são obcecados por seios. — Ela fez um gesto vago, encerrando a discussão. — Por que você não me mostra os esboços agora? Scout esforçou-se para relaxar, mas por outro lado recusava-se, obstinadamente, a deixá-la escapar tão facilmente assim... Num gesto espontâneo, ele colheu um hibisco de um arbusto próximo. E sustentando o olhar de surpresa, Scout introduziu a haste da flor entre os seios dela, de modo que as pétalas se espalhassem abertas sobre eles.


— Agora podemos ir ver os esboços. — A voz de Scout soou muito calma, e isso o surpreendeu. Tinha como lema não se envolver demais com o trabalho. Havia decidido também não mais provocá-la, mas o tiro saíra pela culatra. E se alguém ali fora seduzido, esse alguém era ele. Johnny havia trazido o bloco de notas para a praia, guardando-o sob uma pedra. Desajeitadamente, Scout tentou pegá-lo, e quando conseguiu estava totalmente amassado. Assim, ele teve de alisar várias folhas, antes de mostrar os desenhos. — A princípio pensei numa ponte suspensa, tal como a antiga. No entanto, isso envolveria cabos e suportes... E, bem, nós não dispomos desses recursos. — Scout folheou o bloco, pulando várias páginas riscadas com um "X", de lado a lado. — Esta ponte... — disse, mostrando outro esboço é do tipo padrão e bastante viável... A menos que o despenhadeiro seja muito profundo. Além do mais, não dispomos de uma grande quantidade de concreto. Assim... — ele prosseguiu, olhando-a enquanto apontava para outro esboço. — Voltei ao ponto de partida, o conceito básico da armação da ponte... Algo no estilo de um western de John Wayne. — Você pode construir essa ponte aqui? Scout coçou a cabeça e olhou na direção do oceano: — Talvez... se houver material suficiente. — Ele colocou o bloco de lado e tomou-a pela mão em um gesto de consolo. Pressionando-a entre as suas, fitou-a e sentenciou: — Você está me pedindo o impossível. Mesmo que eu concordasse em ficar, mesmo jogando com várias idéias, simplesmente não posso fazer essa ponte. — Venha comigo — convidou ela, erguendo-se em um movimento gracioso. — Onde? — Scout sentiu-se feliz por notar que, ao levantar-se, sua perna já não doía tanto. Contudo, ainda não podia colocar seu peso sobre ela. Com um salto, Johnny colocou-se a seu lado. — Obrigado, amigo. A senhorita quer que nós a acompanhemos. Johnny pareceu entender. Seguiram pela encosta, até que ela desapareceu por uma fenda, entre uma formação rochosa. Ali as ondas quebravam, lançando nuvens de espuma para o alto. Johnny, que conhecia o caminho, guiou Scout pela pequena piscina que se formava entre as rochas. Quando os dois saíram do outro lado da fenda, viram Chantal retirando uma lona, do tipo usado pelos militares, como camuflagem. Sob a lona havia material de construção suficiente para encher um pequeno armazém. Havia vários sacos de cimento empilhados. As pilhas eram tão sólidas, que poderiam


servir como uma casamata. Havia também do tipo de ferramentas elétricas imagináveis e até um gerador. Quilômetros de cabos de aço estavam enrolados, parecendo gigantescas serpentes ao sol. Todo o material estava ruidosamente arrumado e envolvido em plástico, que o protegeria contra a maresia. Scout ficou boquiaberto. Havia um logotipo vermelho estampado em todos os produtos e ferramentas... Mas, mesmo que não houvesse, não era difícil de concluir de onde viera aquele material. — Então... você... — ele balbuciou. — Foi você... — Isso mesmo — Chantal respondeu, calmamente. — Eu sou o astuto bastardo que roubou seu material.

Capítulo IV — Como você conseguiu? Scout indagou, tentando levar à boca um punhado de arroz, que acabava de retirar de uma pequena tigela. Ambos estavam comendo ao ar livre, na praia, tendo o oceano como cenário de fundo para aquele jantar cerimonial. Chantal o tinha avisado que provavelmente não haveria talheres. E ele achou que isso não traria muitos problemas. Mas seus dedos ainda não dominavam aquela habilidade... E grande parte do arroz caía em seu colo. — Aprendi a comer desse modo, muito antes de conhecer um garfo ou uma colher — contou ela. Os vãos esforços e a exasperação de Scout eram cômicos, e a faziam rir. — Desse jeito, uma pessoa poderia morrer de fome. — Quer que eu ensine de novo? — Colocando sua própria tigela de lado, ela lambeu os dedos e voltou-se para ele. — O truque é manter a tigela próxima à boca, e reter o alimento entre os dedos. Coloque o que puder na boca e deixe cair o resto... Assim. Com os dedos em forma de concha, ela pegou uma porção de arroz e porco assado, levando-a aos lábios dele. Ele comeu e em seguida mordiscou o que restava nos dedos de Chantal. Observando o movimento sensual daquela boca bem desenhada, ela se perguntou como um gesto tão inocente podia causar tanta emoção... Quando a língua de Scout correu mais atrevida pela ponta dos dedos alongados, ela retirou a mão.


— Acho que agora você pegou o jeito. — Eu ainda não terminei a lição... Os sentidos dela reagiram ao brilho maroto nos olhos de Scout, mas conseguiu reagir. — Tente por você mesmo. — Obrigado pela lição de boas maneiras à mesa no estilo da ilha Parrish — ele disse, recomeçando a comer. — Mas quando perguntei como você conseguiu, eu estava me referindo ao roubo. — Que palavra desagradável! — Se você fosse apanhada, a sentença também não seria das melhores. — Mas não fui... — Até agora... — Você está zangado apenas porque não pôde me apanhar. O fato de eu ter saído ilesa o aborrece mais do que a perda do material, não é mesmo? Endireitando os ombros, ele fitou-a com hostilidade: — Você tem idéia de quanto roubou do Grupo Reynolds? — Não, e aposto que eles também não sabem, com a possível exceção de um contador, que talvez tenha reivindicado a cobertura do prejuízo, na companhia de seguros. Ele provavelmente nos diria, com exatidão, em quanto o material roubado foi avaliado, pois a companhia de seguros reembolsaria a quantia. — Então você roubou... — Quanto você acha que o Grupo Reynolds paga, por ano, às companhias de seguro? — ela o interrompeu. — O que eu tirei acrescenta apenas uma ínfima fração a essa quantia. Assim, todos ficam bem. Scout meneou a cabeça, com incredulidade. — Sabe o que me deixa mais espantado? Acho que você realmente acredita no que está dizendo... Para você, esse tipo de lógica faz sentido. — E por que não faria? Além do mais, você com certeza não iria usar todo aquele material. Tenho certeza de que você encomendou mais material do que precisava. Eu o poupei da despesa de mandar o material excedente de volta aos Estados Unidos, por mar. E, ao mesmo tempo, o material será muito bem aproveitado. — Então acha que é correto roubar, só porque você precisava do material, e nós não?


Ofendida, ela retrucou: — Por acaso está sugerindo que eu roubaria alguma coisa de que não necessitasse! Chantal realmente achava que seu raciocínio além de lógico era mais do que justo. E sua convicção era tamanha que ele ficou sem argumentos, tamanha sua perplexidade. — Pelo jeito, sou voto vencido... — disse por fim. — Alegre-se. Aí vem a sobremesa. A população do vilarejo continuava em festa por conta da construção. Todos pareciam estar se divertindo muito... Exceto André, que virava uma taça de bebida atrás da outra. Por várias vezes, no decorrer da noite, ela o havia flagrado olhando para Scout, com uma visível expressão de ressentimento e maldade. André era o mais forte e, apesar de muito educado, o mais jovem entre os homens do vilarejo. George duPont tinha reconhecido sua inteligência, quando garoto, e o enviara a uma escola americana. Embora tivesse detestado a idéia de deixar o vilarejo, fora um excelente aluno. Os duPont confiavam a ele tarefas que não poderiam delegar aos outros habitantes, menos experientes e menos brilhantes. Freqüentemente ele servia como uma espécie de embaixador entre o vilarejo e os habitantes do outro lado da ilha, pois falava inglês fluentemente e, quando necessário, sabia lidar bem com essa cultura. Assim, foi natural que o escolhessem para trabalhar no canteiro de obras do Coral Reef Resort. Chantal lamentava apenas que ele tivesse mudado de opinião a respeito de Scout. A mudança ocorrera na noite o seqüestro. Antes do evento, André costumava falar bem do engenheiro, considerando-o um chefe severo, porém justo. Dissera também que o sr. Ritland era, definitivamente, a pessoa certa para conceber e supervisionar a construção da nova ponte. O fato de o rapaz ter mudado de opinião, de maneira tão drástica, deixoua confusa. Segundo a teoria de Scout, que ela achava absurda, a razão para tudo era o ciúme. Ela e André haviam crescido no vilarejo e costumavam brincar juntos, quando crianças. Jamais houve qualquer demonstração de carinho além daquele existente entre dois amigos. O desentendimento entre os dois homens a preocupava terrivelmente, não somente porque ela não tolerava a desarmonia em qualquer setor de sua vida, mas sobretudo porque eles teriam de trabalhar juntos, na ponte, juntando forças... E não lutando entre si.


Todos aqueles pensamentos finalmente a levaram de volta à ponte... Scout alegava que ainda não tinha um projeto definitivo. E recusava-se a discutir sobre os esboços, porque a intenção era concluí-los antes de apresentar. Não importava o quanto fosse pressionado, havia decidido permanecer calado a respeito do assunto, desde que descobrira que fora ela o ladrão astuto que prejudicara o projeto do Coral Reef Resort. Chantal estava ansiosa para que o trabalho começasse. E se ele deixasse a ponte inacabada, já que precisava voltar aos Estados Unidos para se casar? Seria praticamente impossível detê-lo ali, indefinidamente. Quando a data se aproximasse, ela teria de se confrontar com a própria consciência e se perguntar por quem o estava detendo... Pelo seu povo, ou por si mesma? O fato era que a despeito do clima hostil, que freqüentemente explodia entre ambos, gostava de tê-lo por perto. Fitando-o, agora, ela se deliciava ao ver a luz das tochas acesas incidindo sobre as feições masculinas, emprestando tons avermelhados ao cabelo farto. — Delicioso! — ele dizia, lambendo uma substância grudenta entre os dedos. — O que é isso? — É uma espécie de pudim, feito com frutas amassadas, pedaços de coco e leite de cabra. Abruptamente, Scout parou de comer e olhou com repugnância para a tigela rasa, cujo conteúdo havia acabado de raspar, com os dedos. — Eu não deveria ter contado, para não arruinar seu prazer. Mas, sorria, por favor — pediu ela, rindo. — Margot fez esse pudim para você. — Quem é Margot? — Olhe para trás... É aquela que está agitando ansiosamente as mãos. Obedecendo a ordem, ele olhou em direção à garota, ergueu sua tigela vazia e bateu na barriga em sinal de aprovação. Margot abriu um sorriso radiante. — Quantos anos ela tem? — Dezoito. E ainda não se casou... — A imagem que tenho sobre solteironas é bem diferente... — Margot é bonita — Chantal concedeu. — É muito cortejada, também. Seus pais estão loucos para vê-la casada. Eles querem protegê-la. — De quem?


— Dos estrangeiros que vêm para a ilha, que costumam considerar nossas mulheres como mercadoria consumível — informou ela, lentamente, desviando o rosto. — Garotas como Margot são presas fáceis, pois com freqüência, se deixam seduzir. Quando eles se cansam, resta a elas bem pouco a fazer, exceto trabalhar como prostitutas nos bares do porto ou perto das bases militares. A alegria de Scout se desvaneceu. — Quer dizer que, depois de uma escorregadela, que provavelmente não ocorre por culpa delas, uma garota terá sua vida arruinada para sempre? Isso é injusto, não? — Para esse povo, uma noiva virgem ainda é altamente valorizada. O vulcão escolheu aquele momento para lançar um gêiser de fumaça. O céu noturno tingiu-se com um brilho avermelhado. A terra tremeu. Um som semelhante ao de um trovão reverberou, ecoando nas montanhas vizinhas. No susto, ele se levantou, esquecendo-se de poupar a perna esquerda. Uma aclamação de alegria brotou entre os nativos. Tambores começaram a soar alto, num acelerado ritmo pagão. Jarros de bebida alcoólica foram passados de mão em mão, liberando as inibições. Scout bebeu de sua própria xícara, enquanto voltava a sentar na esteira de palha que dividia com Chantal. Em seguida fez um gesto em direção à cratera e à nuvem de fumaça. — Você tem certeza do que diz sobre esse vulcão? — Sem dúvida. Meu pai estudou o vulcão durante toda sua vida profissional. Nós comparamos e juntamos nossos estudos. Uma erupção está se formando... Mas sem gravidade e sem poder destrutivo. Confie em mim. E se isso for muito difícil, confie em meu pai. Poucos homens no mundo são considerados peritos no assunto como ele. — E seu pai está lá em cima agora? Em meio a todo esse caos? Ele não tem medo de ficar encurralado, quando vier a grande erupção? Chantal olhou para a montanha com uma expressão respeitosa. — Está, mas ele não tem medo do Voix de Tonnerre. Scout a segurou pelo queixo, fazendo-a virar a cabeça. Os olhos dele observavam atentamente o rosto bonito. — Acho que você é meio pagã, Chantal duPont. Os lábios dela se curvaram em um sorriso reticente: — A cultura desse povo é por demais sedutora, não? — Admito que tenha seus atrativos.


Meneando a cabeça para o lado, ele desceu o olhar, até fixar a faixa que cobria os seios fartos, combinando com o sarongue curto, que envolvia os quadris acentuados. Entre as duas peças uma pele suave e bronzeada se desnudava e encantava os olhos desavisados de Scout. — Não resisto a um umbigo bonito... — elogiou ele, com voz rouca. — Então você vai gostar, realmente, desta parte da celebração. — Chantal conseguiu desviar a atenção dele para um grupo de garotas, incluindo Margot. — Elas estão prestes a dançar para você. Tente parecer impressionado. — Imagine se precisarei de tamanho esforço... As dançarinas começaram a se movimentar ao ritmo dos tambores. Seus pés levantavam minúsculas partículas de areia. As coxas bem torneadas reluziam à luz das tochas. Os quadris descreviam movimentos rotativos, que pareciam desafiar a natureza. Ventres macios mexiam os músculos treinados, contraindo-os e soltando-os de maneira sensual... Num dado momento, cada garota ergueu uma cesta cheia de flores e frutas acima da cabeça. — Elas estão fazendo uma oferenda ao deus do vulcão — Chantal explicou. E ao notar que ele havia tomado o restante da bebida em um só gole, comentou: — Você está desenvolvendo uma tolerância maior à nossa bebida alcoólica. Scout sorveu o que restava em sua taça. — Na verdade, não. Dois ou três tragos disto e tudo começa a parecer ou soar como um trem de carga rugindo dentro de minha cabeça. — Então, por que está bebendo? — Porque tenho menos medo de trens do que de vulcões. — Ele sorriu. Chantal sentiu o coração bater com força. Não havia como negar o encanto daquele sorriso, que tinha o poder de tragar suas emoções. Foram necessários poucos dias de convivência com aquele homem incrível, apesar de teimoso, para que ela se pegasse sonhando em como seria sua vida se o tivesse Conhecido em circunstâncias diferentes. Talvez então se fizesse valer apenas a forte atração física, evidente entre eles. E, quem sabe, fosse um começo de uma paixão. Porém não fora Scout que havia conhecido na Califórnia, e sim outra pessoa. Contudo, independentemente de quem houvesse recebido seu amor inocente, as conseqüências não teriam sido muito diferentes. O fato inalterável era que, aos olhos do outro lado do mundo, ela seria sempre uma garota da ilha... Nem mesmo o diploma da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, nem o reconhecimento profissional haviam mudado a triste realidade.


De repente, os tambores cessaram, trazendo-a de volta de seus devaneios. O silêncio que se seguiu causou um impacto quase que palpável. As dançarinas ficaram imóveis, como estátuas vivas, por vários minutos, deixando os espectadores, e principalmente Scout, como que hipnotizados. Quando desfizeram a pose, a maioria delas voltou para junto das suas famílias. Algumas, porém, continuaram ali, ocupando o centro das atenções. A ocasião parecia exigir que se falasse em voz baixa. Inclinando-se para Chantal, Scout sussurrou: — O que vai acontecer, agora? — perguntou, deixando-a sentir o hálito tão perfumado quanto a brisa marinha. A pele do pescoço de Chantal reagiu imediatamente, levantando-se em pequenas dunas de arrepios. A noite havia se tornado excepcionalmente quente, depois da erupção do vulcão. Um fio de suor descia da testa de Scout em direção à maçã do rosto. — Elas vão executar outro tipo de dança, da qual apenas garotas solteiras podem participar. — Por quê? — Porque o propósito da dança é atrair um bom partido. — É mesmo? E por que você não está dançando? — Porque esse não é o meu objetivo. Os olhos de Scout percorreram-lhe o corpo lentamente, detendo-se nos seios por um longo momento. Só então ele disse: — Não? Chantal sentiu um forte calor interior, como se em seu íntimo fervesse o magma das profundezas do vulcão... Mas nada demonstrou. Sua expressão permaneceu impassível e, seu olhar, muito calmo. — Se eu estivesse ali você saberia que eu estava tentando atraí-lo, — Seria um bom indício, sim. — Mas não estou. Portanto, não pense em mim em termos sexuais. Um riso breve e cético brotou dos lábios de Scout, enquanto ele tocava levemente o umbigo dela com a ponta do dedo: — Impossível... Os tambores voltavam a soar e, assim, Chantal podia sentir os pensamentos que o acometiam, e de algum modo aquilo a excitava. Porém, procurava fingir-se concentrada nas bailarinas. No entanto, o esforço se provava quase que em vão, quando vez por outra, o braço forte roçava seu corpo. A brisa parecia brincar com os cabelos de um e de outro. Em um dado momento, o vento fez com que os longos cabelos dela


tampassem o rosto de Scout, que demorou para afastá-los, como que prolongando o efeito inebriante do perfume do xampu. Enquanto isso, Margot havia se aproximado de André e dançava bem a sua frente. Seus quadris subiam, desciam, faziam movimentos lentos, circulares, numa bela coreografia ostensivamente sensual. André a fitava com seus escuros olhos repuxados. Braços e pernas moviam-se sinuosamente como se fossem uma serpente. Corpos perfeitos, agora brilhantes de suor, convidavam às carícias e beijos dos escolhidos. O ritmo dos tambores tornou-se mais forte, rápido e alto. Parecia ultrapassar os limites da audição humana, provocando a consciência, libertando-a dos laços puritanos que a subjugavam. Embora Chantal costumasse assistir àquele ritual desde criança, naquela noite os tambores pareciam retumbar somente para ela, e de um jeito muito peculiar. Também queria que seu corpo se libertasse das rédeas do passado, deixando-a à mercê dos desejos entoados pela música. O calor crescia por entre as coxas macias, incitando seus quadris a dançar na cadência dos tambores. Seus seios pareciam prisioneiros da faixa que os cobria, ansiosos pela liberdade. Queria deixá-los expostos ao céu, ao mar, ao vulcão... ao homem a seu lado. Se ao menos pudesse permitir a cabeça girar, inclinando-a sobre os ombros, jogando os cabelos para trás, em movimentos livres e espontâneos. Com os lábios entreabertos, ela começava a ofegar. Podia ver a si mesma sendo tomada pelo êxtase, mal conseguindo manter os olhos abertos. Rendendose à tentação, manteve-os fechados, enquanto oscilava ao ritmo da música. Os tambores soaram num crescendo ainda mais rápido, atingindo um limite inimaginável e, de súbito, silenciaram. Chantal arregalou os olhos para deparar-se com os de Scout que refletiam a dança das chamas das tochas, ao mesmo tempo em que irradiavam o calor que o estava consumindo. O rosto brilhava com as gotículas de suor. Ela então percebeu-o em estado tão inquietante quanto o seu. De repente, ele a segurou pela nuca, cobrindo seus lábios com um beijo impetuoso. A língua insinuante ordenava que ela abrisse a boca sem reservas. Assim que percebeu que seu carinho era correspondido, ousou aprofundar o beijo, ao mesmo tempo em que entremeava os dedos pelos fartos cabelos longos. Instintivamente, as mãos de Chantal buscaram por um apoio... Seus dedos mergulharam na macia penugem do peito largo e então escorregaram até o abdômen musculoso. Com a mesma intensidade com que a tomou nos braços, Scout afastou-se, fitando-a com se pudesse enxergar-lhe a alma. — É melhor nos afastarmos antes que eu não consiga mais responder por mim — sentenciou ele, com veemência.


A dança fora o ponto alto da celebração. Rapazes tomavam sua garota preferida e saíam em busca de locais onde pudessem ficar mais à vontade. Famílias começavam a subir a encosta rochosa em direção às cabanas. Uma a uma, as tochas foram se apagando. Por fim, restaram somente a luz do luar e o brilho róseo do vulcão, envolvendo a praia numa luminosidade surreal. — Johnny? — Chantal chamou, num tom suave. — Ali está ele. — Scout apontou o garoto que dormia encolhido, aos pés de um coqueiro. — Ele deve estar exausto, andamos muito por hoje. — É uma pena ter que acordá-lo. — Não faça isso — advertiu antes que ela tocasse o menino. — Deixe-o dormir. Eu me arranjo sozinho. Com um braço, ela o envolveu pela cintura, ao mesmo tempo em que ele apoiou-se em seu ombro. Desse modo, que já ia se tornando costumeiro, ambos começaram a caminhar lentamente pela praia, parando vez por outra para um merecido breve descanso. Entre a praia e a ladeira havia uma linha de vegetação. E foi ali, entre um grupo de palmeiras, que Scout tropeçou e caiu, levando-a consigo. No instante seguinte, viram-se de costas sobre um leito de frescas samambaias. — Scout? — ela chamou, ofegante. Sua preocupação principal era com a perna ferida. — Você se machucou? — Ele respondeu com um sorriso, alertando-a para a verdade, já se virando de lado. — Você fez isso de propósito! Um beijo intenso foi a única explicação que ele se dignou a dar. Mas, com as mãos apoiadas nos ombros largos, ela tentou afastá-lo. — Escute... — ele disse, tocando o rosto delicado com a ponta dos dedos — não importa quantas vezes você negue, é evidente que você gosta de meus beijos. Eu sei por que você me enganou, naquela noite da festa, obrigando-me a segui-la. Mas o que houve entre nós, antes de você atirar em mim, não foi um engano... Foi? A determinação de Chantal lutava contra o desejo que a queimava. Mas, por fim, seus olhos fixaram a bela boca máscula tão próxima da sua. Então, movendo a cabeça lenta e silenciosamente, ela respondeu "não". Parte da tensão abandonou o corpo de Scout, que se sentou a seu lado confortavelmente. Com os dedos, ele desenhou o contorno dos lábios dela. — Você quis me beijar, naquela noite... E também agora, não é? — Sim... — confessou ela, relutante. Então, correndo os dedos pelos cabelos dele, repetiu com mais ênfase: — Sim.


As bocas se encontraram, com mais paixão do que antes, dessa vez em um beijo calmo, profundo, úmido... Por fim, erguendo a cabeça, ele gemeu de desejo, enquanto mergulhava o rosto na delgada curvatura entre o pescoço e o ombro desnudo de Chantal. Insaciável, seguiu provando-a, pavimentando seu colo com a língua. Quando finalmente mordiscou os mamilos retesados sobre o tecido, ela deixou escapar um murmúrio de prazer. Deslizando os dedos pelo ventre feminino, ele murmurou: — Nunca toquei uma pele como a sua. Como é suave... Delicadamente, ele removeu a faixa que o separava daqueles seios magistrais. Ela, que estava tão acostumada a andar seminua, de súbito sentiu-se embaraçada, embora estivesse coberta pelo manto dos cabelos sedosos. Não demorou para que ele os afastasse, expondo a pele alva á luz do luar. Com um murmúrio de admiração, tocou-a com a mão em forma de concha. — Como você é linda... — Scout massageou levemente um seio, depois o outro, como se redesenhasse cada um deles... Então acariciou os mamilos, que se enrijeceram em resposta. A cada toque mais íntimo, ela provava uma sensação desconhecida, que emanava do baixo-ventre, espalhando-se pelo resto do corpo. — Há areia nos seus dedos — ela balbuciou. — Desculpe. Está arranhando, não? Chantal meneou a cabeça. A areia apenas acrescentava outra dimensão, outra textura às carícias enlouquecedoras. As mãos de Scout passeava por todo o seu corpo com movimentos circulares, detendo-se vez ou outra em seus seios. Foi somente quando percebeu-a no limiar entre a razão e a entrega total, que ele com um sopro gentil, foi tirando toda a areia que cobria o corpo curvelíneo, estimulando-a ainda mais. Em sua mente, ela gritou o nome de Scout, mas quando tentou pronunciá-lo sua voz soou rouca, em tom de súplica. Ele respondeu sugando um dos mamilos com a boca, circundando-o com a língua quente, úmida, ansiosa... Chantal agarrou com força os músculos firmes das costas largas. Sem perceber como haviam se encaixado de maneira tão perfeita e natural, entrou no ritmo alucinante dos quadris. Erguendo-se ligeiramente, ele a beijou com volúpia. Os mamilos, ainda úmidos das carícias, perderam-se em meio à penugem do tórax vigoroso. Ambos


gemeram, ante ao prazer compartilhado. Num movimento suave, Chantal correu as unhas pela lateral do corpo viril, desde as axilas até a linha da cintura. Com um murmúrio, ele capturou sua mão e levou-a até mais abaixo, para que ela sentisse o volume rígido que se formava sob o short. Ela gemeu, a princípio de susto, depois de prazer e, por fim, de temor. No mesmo instante, o laivo de lucidez que ainda restava ultrapassou o desejo, fazendo-a lembrar-se da condição de possível garota da ilha aos olhos daquele estrangeiro. Assim com um movimento firme, ela o afastou, enquanto rolava para o lado. Ao se recuperar da surpresa, ela já estava em pé, recostada a uma palmeira, tentando controlar a respiração e cobrindo os seios com os cabelos. — O que houve dessa vez? — ele indagou, ofegante, piscando os olhos, como se tivesse dificuldade para focá-la. — Eu tinha de parar com isso. Scout suspirou várias vezes, antes de perguntar: — Por quê? — Porque não escolhi fazer amor com você. — Mas me pareceu ser exatamente essa a sua vontade. — A voz de Scout soava contida, indicando uma raiva controlada. — Desculpe — ela murmurou, sinceramente. — E você vai me deixar nesse estado... — Como ousa insinuar-se dessa forma? — Como você ousou ir tão longe para, de repente, arrepender-se? — rebateu ele. — Quem você pensa que é? — Quem você pensa que sou? — ela retorquiu, furiosa. — Uma garota da ilha, que você pode usar durante as férias? — Férias?! — Movendo-se com dificuldade, ele ergueu-se sobre um joelho e depois ficou em pé. — Você chama o fato de eu ter sido enganado, dopado e forçado a construir uma ponte de... férias? Depois de tudo o que você me fez, será que não mereço alguma compensação? Ela cruzou os braços sobre o ventre, como se tivesse sido atingida por um duro golpe. — Você tinha esperanças de me usar durante a construção da ponte, não é mesmo? Uma ponte em troca do meu corpo!


Entender que aquele homem apaixonante a tinha em tão baixa consideração desapontou-a profundamente. — Muito bem... Se construir uma ponte, dormirei com você durante sua estada aqui. Mas... — acrescentou, depois de uma pausa. — Cada vez que você penetrar meu corpo, saberá ser esta a única razão pela qual estarei me entregando. Eu o odiarei e o desprezarei. E como acredito em sua integridade, sei que você também se odiará e se desprezará por isso. — Fitando-o com ar de desafio, concluiu: — É isso que você quer? Uma mulher que não tenha o menor respeito por você? E vice-versa? Scout soltou o ar por entre os dentes, num longo suspiro. Então ordenou, ríspido: — Suma da minha frente, antes que eu resolva aceitar sua generosa oferta — ordenou, ríspido. Ambos se fitaram com uma expressão tensa, angustiada. Então Chantal voltou-se e começou a subir a ladeira, sozinha. Na manhã seguinte, Chantal estava preparando o desjejum, na cozinha de casa, quando Scout apareceu à porta, apoiado numa muleta improvisada. Imediatamente, percebeu que ele havia removido a bandagem que cobria o ferimento da coxa. A cicatriz rosada ainda era bem visível, mas o inchaço ao redor havia diminuído sensivelmente. Os cabe-os estavam em desalinho e, seu short, amarrotado. Como ainda não havia se barbeado e, obviamente, dormira na praia, parecia muito mal-ajambrado. Embora incrivelmente viril... E de péssimo humor. Chantal perguntou-se como teria conseguido resistir a fazer amor com ele, na noite anterior. — O café já está pronto? — Scout indagou, num tom ríspido. — Quase. — Ela sorriu para o garoto, parado ao lado dele, como se fosse sua sombra. — Bonjour, Jean. — Bonjour... — respondeu um sonolento garoto. Chantal servia o café, enquanto Scout deixava-se cair numa cadeira. Nem pensou em ajudá-lo, já prevendo que ele não aceitaria. Assim que ele se sentou, Johnny apoiou a muleta contra a mesa. — Onde você conseguiu essa muleta? — ela perguntou, sentando-se à mesa e servindo-se de café. — Eu a fiz nesta manhã, bem cedo. Johnny me arranjou uma faca, depois de me ajudar a encontrar um bom pedaço e madeira. — Ele sorriu para o garoto, que ficou feliz por receber aprovação de seu ídolo. — Ela está muito bem-feita.


Com um gesto de assentimento, Scout começou a beber o café. Os dois evitavam olhar-se de frente. Por certo que cada um relembrava a noite anterior, nos beijos que haviam dado recebido, nas carícias que os haviam deixado febris e vulneráveis. Para quebrar o denso silêncio, ela indagou: — Você gostaria de tomar o desjejum agora? — Não, obrigado. Na verdade, não estou com tanta fome. Basta este café. E talvez algumas frutas, mais tarde. Ela respondeu com um gesto afirmativo de cabeça. Aquele clima tenso a estava torturando. Era difícil manter uma conversa... Ainda que fosse uma conversa fiada, o que seria bem melhor que suportar o silêncio. — Vejo que os pontos de seu ferimento foram removidos. — Eu mesmo os tirei. Isso era óbvio. Chantal esperou que Scout dissesse mais alguma coisa na seqüência. Dando de ombros, com ar negligente, ele comentou: — Eu... Não dormi muito bem e acordei assim que amanheceu. Como não tinha outra coisa a fazer, resolvi tirar os pontos. — Você fez uma careta, ao se sentar. Não está com dor? — Apenas porque ainda tenho dificuldades em certos movimentos. — Sim, eu sei. Sinto muito. — É o que você diz... como se adiantasse alguma coisa. Mais uma vez, o silêncio caiu entre ambos. Chantal resolveu se levantar para buscar a cafeteira e quando voltou ele a segurou antes que sentasse. — Nunca considerei você como um divertimento. Através do vapor que subia da cafeteira esmaltada, ambos se olharam nos olhos. Quando a cafeteira tornou-se tão pesada, a ponto de fazer seu braço doer, ela colocou-a sobre a mesa e sentou-se em frente a Scout e, por um longo momento, permaneceu com os olhos fixos na bebida escura de sua xícara. — Chantal? Ela ergueu a cabeça. — Como você pôde pensar que eu seria capaz de tratá-la com tamanho desrespeito? — inquiriu ele, num tom suave. Em vez de responder, ela continuou cabisbaixa. Por alguns momentos, Scout fez o mesmo, com uma expressão de desânimo. Depois fitou-a:


— Não estou convencido de que tenha me contado tudo a seu respeito. Existe uma aura de mistério nisso tudo. Um tanto tímida, ela fixou o vazio por alguns instantes, antes de começar a falar. — Sou produto de três culturas. Polinésia por parte de mãe, francesa por parte de pai e americana por ter estudado nos Estados Unidos. Eu sabia o que esperar da América por que já tinha notado o modo como as pessoas me olhavam, na base militar. Era óbvio que me olhavam daquele jeito por que sou mestiça. — Você também é muito bonita, de uma maneira exótica e original. Esses olhares que você interpretou como ofensivos eram, provavelmente, olhares de admiração e respeito. — Obrigada. Talvez alguns fossem... Mas aprendi a ser desconfiada. As pessoas se afastam do que não entendem. E se alguém me admirou, foi a distância. — E o que acontecia, quando um rapaz se aproximava? — Normalmente, ele esperava que eu fosse alguém que não sou. — Não costumava sair com amigos quando estava na universidade? — Não muito... — ela respondeu, num tom reservado. — Por isso ganhei fama de ser descortês e indiferente. Na verdade, estava apenas sendo cautelosa. — Chantal levantou-se e caminhou até uma janela, abrindo-a de par em par, para que a brisa invadisse a sala. — Durante o último ano, conheci um estudante que fazia pós-graduação em Geologia. Seu nome era Patrick. Nossos encontros foram se tomando mais do que simples passeios... — E você... se apaixonou? A pergunta foi feita de maneira relutante. Mas Chantal deu uma resposta inequívoca: — Eu me apaixonei perdidamente. Fiquei com a cabeça nas nuvens... E todos os outros clichês que poderiam ser ditos. Um clima de pura felicidade nos envolvia. A vida era maravilhosa, nosso futuro era brilhante. E, assim, planejamos nos casar. Scout deu uma tossidela e remexeu-se, inquieto, na cadeira. Johnny fitouo com preocupação, mas Scout meneou a cabeça, demonstrando que seu desconforto não vinha do ferimento na coxa. Por mais estranho que fosse, estava achando deveras desagradável ouvi-la contar sobre seu amor por outro homem.


— Então, o que aconteceu com Patrick e esse clima de perfeita felicidade? — perguntou, tentando esconder os mínimos sinais do ciúme que o corroia. — Ele me levou para conhecer seus pais. — Chantal voltou a sentar-se. As sobrancelhas, franzidas, demonstravam o nível de sua angústia. Um breve riso, amargo, brotou dos lábios sensuais. — Aparentemente, quando Patrick falou de mim, seus pais ficaram encantados com a idéia de ter uma nora com um sobrenome francês tão singular. Mas ele não contou que eu era apenas meio francesa. — Ela pressionou os lábios um contra o outro, para que não fosse perceptível o quanto tremiam. A memória daquela noite sempre a fazia chorar de humilhação. — Aquele foi o jantar mais longo de toda a minha vida. Os pais de Patrick eram discretos, mas eu podia sentir a desaprovação e o horror pairando no ar. Não houve nenhuma cena, nenhuma quebra de etiqueta, apenas uma frieza evidente. Ainda naquele momento, Chantal podia ver o espanto no rosto da mãe de Patrick, no momento em que ela abrira a porta e se deparara com a noiva que o filho havia escolhido. Na ocasião, ela usava seu melhor vestido e trazia os cabelos arrumados. O fato de seu nome estar na lista dos melhores alunos da faculdade, ou falar três idiomas com fluência, incluindo um dialeto regional polinésio... não pesou em nada. O preconceito prevaleceu acima de tudo, embora a família do noivo jamais o admitira. — Patrick rompeu nosso noivado, duas semanas depois — Chantal concluiu, numa voz comedida, introspectiva. — Covarde. — Ele foi muito pressionado. — Mas, se a amasse, teria enfrentado os pais. Chantal esforçava-se para permanecer calma. Aquela pergunta era a mesma que ela já se fizera mil vezes. Mas, de algum modo, sentia-se ofendida ao ouvi-la da boca de outra pessoa. — A desaprovação dos pais de Patrick não era a única razão. Havia outros fatores envolvidos. — Como, por exemplo...? — Crianças. Patrick achava que não deveríamos ter filhos. — Por que não? — Achava que não seria justo impor a eles esse estigma. — Que absurdo! Pelo amor de Deus! E você ainda defende esse cretino! — Erguendo a voz, Scout bateu na mesa com força, fazendo a louça balançar. — Pelo jeito, acho que você linda está apaixonada por ele.


— Você não sabe nada a respeito dos meus sentimentos. — Então, ótimo! — A explosão de Scout terminou abruptamente. Correu os dedos pelos cabelos, com uma expressão frustrada. O resultado não foi dos melhores. — Acredite, Chantal você está melhor sem aquele idiota do que com ele. Esse homem não teria sido um bom marido para você. Ainda bem que o envolvimento físico não chegou a acontecer e... — Scout se interrompeu diante da expressão de Chantal. — Não acredito! Ele primeiro aproveitou da situação e depois a deixou, não foi? — Patrick agiu como a maioria dos homens. Recostando-se com força na cadeira, Scout deixou que os braços caíssem ao longo do corpo. — Ah, agora entendo. Você costuma atirar em todos os cães, e, no meu caso, literalmente, só porque um deles é um vira-latas sarnento e cheio de pulgas. — Que modo interessante de falar. Mas nesse caso a vira-latas era eu. — Você entendeu o que eu quis dizer — ele retrucou, impaciente. — Patrick não se importou de dormir com você, mas descartou-a porque não conseguiu a aprovação dos pais. Agora, a cada vez que você encontra uma pessoa, seu sistema e segurança interno começa a funcionar. — E o seu, não? — Não se eu estiver seguro do que quero. — Ora, mas também sou assim. Só não tenho a mesma segurança a respeito das outras pessoas. Enquanto eu não for totalmente aceita pelo que sou... — Você se recusará a ir para a cama com qualquer homem que tente uma aproximação. — Você poderia ser mais delicado, não? — E você poderia confiar um pouco mais em mim. Por acaso eu a tratei de maneira desrespeitosa, como se a julgasse um ser inferior, só porque sua mãe era polinésia? — Agiu como qualquer outro homem. — Mentira! Quando eu fiz isso? — inquiriu ele perplexo. — "Se eu for seqüestrado por uma dessas belas nativas, de corpo escultural e seios à mostra, por favor, não mande ninguém me procurar... Ao menos não tão rápido." Não foi mais ou menos isso que disse ao sr. Reynolds na noite da festa? Scout ficou boquiaberto e sem ter como refutar. Chantal tirou vantagem do breve silêncio:


— Pelo que deduzi, enquanto puder se divertir com uma dessas belas nativas, seu desejo é mesmo ficar perdido... Concluindo, portanto, que as garotas da ilha Parrish são imorais e promíscuas, ansiosas para irem para a cama com qualquer homem, enquanto ele as quiser. Scout havia se recuperado do embaraço. E respondeu com um gemido de irritação: — Ora, repense suas conclusões. Eu estava usando uma figura de retórica. Dois homens falando bobagens, do jeito que todos os outros conversam sobre as mulheres, quando estão sozinhos. — Bem, eu não apreciei isso, nem como nativa, nem como mulher. Exasperado, ele ergueu as mãos, num gesto de entrega de pontos ao final de uma partida de jogo de palavras. — Tudo bem. Eu peço desculpas. O comentário não era para ser ouvido. Fui insensível. Perdoarei você por sua bisbilhotice e você me perdoará por ter sido um repugnante idiota chauvinista, estamos combinados? — Agora você está zombando de mim. Além de ter me considerado uma boa caça, ainda me acha estúpida. Scout golpeou a mesa com um soco. — Será que não passou por sua cabeça que me aproximei de você por razões muito mais simples e honestas? Como, por exemplo, o fato de eu tê-la achado bonita? Ou porque você é única e parece envolvida por essa aura de mistério incrivelmente sexy? — Tomando a mão de Chantal por sobre a mesa, ele começou a massagear-lhe a palma, com a ponta do polegar. — Eu não quis beijá-la, desde o primeiro momento em que a vi, por causa ou a despeito de quem seus pais eram... Mas sim porque você tem a boca mais sedutora que á vi. E uma pele com perfume de pétalas de flores. E uns cabelos escuros como a noite, e olhos como lagos sem fundo. E caso você pense que estou usando este recurso poético apenas para conquistá-la, posso recorrer a um modo mais direto e mais sexy... peito.

Ele inclinou-se e, trazendo a mão de Chantal para si, pressionou-a contra o

— Fiz muitas fantasias, imaginando como seria ter você ma e quente, movendo-se sob meu corpo, deixando-me possuí-la por inteira. Os lábios de Chantal se abriram, em parte por surpresa, parte por excitação. Lentamente, ela soltou o suspiro que estivera contendo... — Você não deveria falar assim comigo. — Por que não? Acho que você sabe como me sinto e o quanto a desejo. E isso não tem nada a ver com conveniência. Não é porque eu a acho uma mulher


fácil. Imagine só... — ele disse, com um riso rouco. — Neste pouco tempo em que nos conhecemos você já me fez passar por apuros que valeriam por uma vida. Como então posso considerá-la fácil? — Pressionando a mão delicada com força, ele indagou, muito sério: — Por que não confia em mim? Embora não fosse sua vontade, Chantal finalmente livrou-se do contato quente das mãos grandes, aprisionando as suas. E para enfatizar ainda mais a resposta que estava para dar, ergueu o rosto lentamente para fitá-lo friamente no fundo dos olhos. — Por causa da sua noiva.

Capítulo V — Jennifer? — Scout indagou, sem acreditar no que acabara de ouvir. — É esse o nome de sua noiva, não é? Sem demonstrar a enorme aflição, Chantal levantou-se e começou a recolher as xícaras e pires. Livrando-se assim do mal-estar que se instalou entre eles. — Já que você ouviu toda a minha conversa com Reynolds, é natural que tenha me ouvido falar também de Jennifer. Forçando-se a ser corajosa, ela voltou-se para confrontá-lo. — A data de seu casamento está se aproximando rapidamente. A srta. Colfax é uma mulher adorável, que gosta de lidar com antiguidades. — Espere, escute... — Não importa — ela disse, num tom de cansaço. — Por favor, não insulte minha inteligência com explicações desnecessárias. E não me envolva em seu jogo duplo. Apesar do que disse ontem em um momento de raiva. Fique certo de que não serei um diversão temporária, até que você retorne à sua ingênua noiva. Ele teve a dignidade de se mostrar embaraçado, um homem pego em flagrante, tentando escapar com o velho truque... — Eu jamais imaginei envolvê-la numa situação difícil. Honestamente, não tenho pensado muito sobre meu casamento... menos ainda ontem à noite. — Você espera que eu acredite nisso? Pesaroso, ele baixou a cabeça.


— Claro que não, mas é a pura verdade. — Nós dois estamos errados. Confesso que também não pensei nela — Chantal disse, num tom brando. Scout ergueu a cabeça. E os olhares de ambos voltaram a se encontrar. Ouviram-se ruídos vindos do vilarejo, sinal que as pessoas estavam despertando. Os ruídos familiares pareciam remotos, distantes... Incapazes de distrair Chantal e Scout, envolvidos em uma névoa de desejo e culpa. De repente, um som alto brotou do estômago de Johnny, arrancando-os bruscamente do seu enlevo. Depois de consultar Scout silenciosamente, pedindo sua permissão, Johnny saiu para tomar o café da manhã. — A despeito de tudo que tenho feito, e que você considera errado, eu jamais o impediria de se casar — confidenciou ela. — Por isso, o trabalho tem de começar o mais depressa possível. A menos, é claro, que você se recuse a construir a ponte, agora que sabe que a oferta que fiz ontem foi pura tolice. — Eu disse que ia fazer e vou — ele respondeu, com aspereza. O nó de apreensão que ela trazia no peito se desfez... Contudo, preferiu manter o alívio em segredo. — Você está preparado para me mostrar alguns esboços, agora? — Antes disso, quero saber a verdade. — A respeito de quê? — Barcos. Quando eu estava sentado na praia, hoje, percebi que há uma linha de fuga pelo mar. Mas não vi nenhuma embarcação no horizonte. — O canal navegável fica do outro lado da ilha. — Foi o que pensei — ele resmungou. — Quando Johnny entendeu o que eu estava perguntando, ficou tão desanimado que não tive coragem de continuar insistindo. — O vilarejo tem vários barcos, que são usados para a pesca. Nós os escondemos... Fizemos isso mais por você do que por nós. Fiquei com medo que você cometesse alguma estupidez. Scout fitou-a com ar de desagrado, mas nada disse. — Raramente esses barcos são levados ao outro lado da ilha, pois as correntes entre aqui e lá são perigosas. Até mesmo os remadores mais experientes consideram o trajeto como um desafio. Um homem sozinho não poderia fazê-lo. Seria necessário um barco a motor, que não temos. — Como você conseguiu trazer todo aquele material de construção para cá? Certamente não foi numa canoa de pesca.


— Nós tomamos emprestado um pequeno cargueiro que estava nas docas. — Emprestado? De quem...? Não importa. Não quero saber. — Bem, a Marinha não o estava usando. E nós o devolvemos exatamente onde o encontramos. Ele riu, meneando a cabeça. Depois estudou aquele belo rosto minuciosamente, com um misto de incredulidade e admiração. Por fim, disse: — Sente-se, por favor. Depois de uma breve hesitação, ela acomodou-se na cadeira em frente a ele. Temia que o cenho franzido significasse más notícias, mas aguardou-o falar. — Você não vai gostar disso... — Passando as mãos pela barba por fazer, ele murmurou: — Acredite, Chantal, eu nem estava pensando na proximidade do meu casamento quando encontrei esta alternativa. — Qual? — Não tire conclusões precipitadas — ele pediu, percebendo a desconfiança. Levando a mão ao bolso do short, retirou várias folhas de papel, que obviamente já haviam sido abertas e dobradas muitas vezes. — Encontrei um modo viável de ligar os dois lados do despenhadeiro... E, ao menos teoricamente, deve funcionar. — E por que eu não gostaria da idéia? — Porque o projeto vai exigir algumas concessões. E, pelo que pude perceber, concessões não são o seu forte. — Não comece com as provocações. Não sou tão inflexível quanto você pensa. — Está bem... — Ele espalhou as folhas de papel sobre a mesa. Chantal notou o quanto as mãos eram bronzeadas e fortes. E os pêlos castanhos que encobriam a pele haviam sido clareados pelo sol. Sem querer, sua mente acolheu a lembrança daquelas mãos se movendo por sua pele, acariciando seu corpo, remodelando-o sob suas palmas, usando as pontas dos dedos para dar um prazer tão sensual, que ela pensou que seu coração explodiria. Depois que Scout voltasse para Boston e para sua Jennifer, será que não se arrependeria por não ter feito amor com ele, enquanto tivera chance? — ...sem dificuldades. — Desculpe — disse ela, concentrando-se de novo nos desenhos. — Não faço idéia do que esteja falando.


— Então venha para cá, a fim de que você possa vê-los sob a mesma perspectiva que eu. Tal como sugerido, moveu a cadeira ao redor da mesa e na passagem, sua perna roçou na dele, mas ela fingiu não perceber o contato: — O que significam todos esses traços? — indagou, apontando para a série de marcas a lápis que ele fizera no papel. — Como eu estava dizendo, quando você se distraiu, construir uma ponte não será viável, a menos que você queria começar trançando cordas com fibras de cânhamo e fixando uma a uma, como na ponte que você queimou. — O quê? Ainda ontem você falava sobre vigas, arcos e... — Espere um minuto. Deixe-me explicar, sim? Chantal ficou em silêncio, e ele suspirou profundamente antes de continuar: — Pretendo construir uma ponte suspensa, mas não com b mesma extensão da antiga. Ela será muito mais baixa e ficará bem aqui, onde o desfiladeiro se estreita, formando um "V" — ele explicou, fazendo uma marca de cerca de dois centímetros e meio sobre uma curva pequena e irregular, que ela supôs, corretamente, ser o córrego. — A ponte ficará a uma altura de nove a doze metros deste ponto. — Não entendo. Como as pessoas farão para descer até lá? — Aí é que entram os traços... Eles representam uma série de degraus de concreto que serão fixados em cada lado do despenhadeiro. — Degraus que levarão à ponte — Chantal pensou, em voz alta. — Uma ponte menor, fácil de ser construída, e que não requer muito material. — Nem muita mão-de-obra. — Nem muito tempo. — Os olhos expressivos dos dois se encontraram, antes que ela se voltasse novamente para os desenhos. — Esses degraus serão muito íngremes? — Se forem construídos em linha reta, sim. Por isso pensei em colocá-los em ziguezague. Eles não serão tão inclinados quanto o próprio despenhadeiro. Provavelmente será necessário fazer uma manutenção constante, no local, para impedir que a vegetação os cubra. — Isso não seria problema. Mas você falou em concessões... Scout coçou a cabeça. — Em primeiro lugar, a nova ponte poderá suportar um número maior de transeuntes do que a antiga. Será também um exercício aeróbico, para seus usuários.


— E será muito mais segura do que a outra. — Sem dúvida. — E o que mais? — Chantal perguntou. — Nenhuma pessoa enferma conseguirá atravessar a ponte. — Nenhuma pessoa enferma conseguia atravessar essa, que temos. Acontecia o mesmo com a antiga. Além do que, o vilarejo continuará inacessível aos veículos motores. Com um profundo suspiro, Scout jogou o lápis sobre a mesa. — Este é o grande problema. Passei boa parte da noite tentando encontrar um modo de construir uma ponte útil e durável, com os recursos limitados de que disponho. Simplesmente não há outro jeito. Sinto muito, mas não posso fazer milagres. Só poderia fazer uma ponte assim, tão grande, sobre um despenhadeiro, se pudesse contar com escavadeiras, guindastes, materiais modernos e meses de trabalho árduo com uma equipe de engenheiros experientes. Os homens do vilarejo, por mais que estejam dispostos a trabalhar, não têm experiência. E não falo assim para desmerecê-los. Isto é um fato. Acho que posso construir para você uma ponte de pedestres, suspensa, próxima ao fundo do despenhadeiro. Uma ponte firmada sobre pilares de concreto e cabos de aço... É o melhor que posso fazer. Ela o ouvia em silêncio. Scout parecia estar sendo sincero, e realmente pesaroso por não poder oferecer algo melhor. — Tudo o que pedi foi que fizesse o melhor possível. — Então você quer que eu dê prosseguimento a esse projeto? — indagou ele, animado. — Sem dúvida. Por onde começamos? — ela quis saber, já arregaçando as mangas da blusa. Ele levantou-se, devagar e com muito esforço. Colocando os papéis debaixo do braço, disse: — Reúna as tropas, princesa. Seu comandante vai dar as ordens. — Desde quando você começou a usar óculos? Scout perguntou, sentado numa cadeira no lado oposto da tala, de onde estivera observando Chantal por algum tempo. A sala era iluminada apenas por lamparinas, colocadas sobre as mesas. A expressão dela era de total


concentração. A lua frente, havia vários pedaços de rocha vulcânica, alinha-as sobre uma mesa baixa. Ela as estudava e fazia anotações num diário. Erguendo os olhos, observou-o através das lentes dos óculos. — Desde os tempos de colégio. Mas só para ler. — Hum... E no que você está trabalhando? — Dados sobre o vulcão. — Para quê? Ela não respondeu. Em vez disso, ergueu os óculos, deixando-os sobre a cabeça, e fitou-o com preocupação: — Você parece cansado. — E estou. — Por que não vai dormir? — Minha cabeça está fervilhando. Ela estava sentada com uma das pernas dobradas. Colocando o diário de lado, levantou-se do sofá e caminhou em direção a Scout. Os pés descalços moviam-se silenciosamente sobre o piso. — Meu pai costumava dizer que sei fazer boas massagens no pescoço. Assim, talvez eu possa ajudá-lo a relaxar. — Ótimo. Em pé, atrás da cadeira, ela começou a massagear o pescoço e os ombros largos, com firmeza e habilidade. A sensação era maravilhosa, mas Scout não acreditava que aquela massagem pudesse ajudá-lo a se acalmar... Pois, estar perto daquela mulher incrível não o deixaria relaxado jamais. Mais de uma semana havia se passado desde a noite da celebração e do ato de amor interrompido na praia. Até então, ele continuava excitado e impaciente. Parecia tomado por uma febre constante, não muito alta, da qual não conseguia se livrar. Estava tomando aspirinas a intervalos, mas a febre persistia. — Os dias têm sido mais quentes, nesses últimos dias, do que quando cheguei, não é mesmo? — É por causa do vulcão — ela explicou, pressionando os músculos tensos entre os dedos. — As duas erupções de hoje aumentaram ainda mais a temperatura. Acontecia o mesmo quando ele a encarava. Chantal aparecia na obra todas as manhãs, vestindo short e blusas não muito finas, e juntava-se às equipes de trabalho. Mas seus seios faziam muito pelas blusas... E o que suas longas pernas nuas faziam pelo short mantinha-o prestes a explodir, tal como o vulcão. Mesmo


quando Chantal usava botas pesadas e meias grossas, suas pernas continuavam lindas. As noites eram calmas. Os dois compartilhavam as dependências da casa, iluminadas apenas por lamparinas e tochas. Durante os primeiros dias, sempre que entrava ou saía de algum cômodo, Scout tateava a parede, em busca de um interruptor. Agora, ele nem reparava na falta de eletricidade. Havia um rádio, movido a bateria, no escritório de George. Ambos ouviam o noticiário por meia hora, depois do jantar. Mas todos os acontecimentos do mundo pareciam ter pouca ou nenhuma conseqüência para o vilarejo. Curiosamente, Scout não sentia falta de sua tevê, de seu aparelho de DVD, nem de quaisquer outros brinquedos eletrônicos que tinha em casa. Gostava de passar as noites lendo, na vasta biblioteca dos duPont, ou simplesmente observando-a estudar tabelas geológicas que, para ele, pareciam grego. As fotos eram outro mistério. No segundo dia da construção, enquanto os homens do vilarejo transportavam o material do esconderijo da praia até o canteiro de obras, Scout a vira entrar por uma trilha muito bem camuflada, do outro lado do despenhadeiro. — Aonde ela está indo? — ele perguntara a Johnny, casualmente. Não esperava por uma resposta. Mas o garoto, que também a tinha visto desaparecer por entre a densa vegetação a selva, começara a falar. — Como? Mais devagar, mais devagar — instruíra Scout, tentando entender as palavras do menino, que falava em francês. — Photographie. — Photographie? Ela está tirando fotografias? — Oui, oui — dissera o garoto, euforicamente, feliz por se fazer entender. Em seguida encenara um fotógrafo olhando por uma câmera e batendo uma foto. — Fotografias. — Scout balançava a cabeça, consternado. Mas fotos de quê? Chantal retornara várias horas mais tarde. Entregara um tubo de filme a André, que depois de ouvir suas instruções afastara-se rapidamente. — De quem é essa câmera? — Scout perguntou, ao entrar na casa, surpreendendo-a no momento em que retirava a câmera do pescoço. — É... do meu pai. A muleta caíra com um baque surdo, no chão. Scout pegara a câmera e examinara-a detalhadamente, avaliando-a: — Boa câmera. Onde você foi, com ela?


— Até o contraforte. — O que você estava fotografando? — O vulcão. — Ah... E você pediu a André que levasse o filme a algum lugar, para ser revelado. — O que há de errado com isso? — Nada... Só para saber. Como está seu pai? — Do mesmo jeito. — O que ele está fazendo, lá em cima? Será que não se sente nem um pouquinho curioso sobre tudo o que está acontecendo por aqui? Será que ele não quer saber como vai o projeto da nova ponte? Quando terei o prazer de conhecêlo? Chantal havia tirado o chapéu, usando-o para se abanar: — Assim que as fotos forem reveladas, eu as mostro. Aposto que você vai achá-las fascinantes. Mas, agora, terá que me dar licença. Estou com muito calor, preciso de um banho. Scout passou os olhos pelo corpo dela e notou que a blusa estava colada à pele, evidenciando o corpo perfeito. O suor brotava na testa, correndo pelo rosto delicado, descendo em pequenas gostas pelo pescoço, que iam se alojar no vão entre os seios. Foi preciso um extremo autocontrole para que ele não se deixasse empolgar e sorver cada gota daquelas com a língua. Nenhum dos dois havia mais tocado no assunto, até aquele momento presente. — As fotos chegaram? — perguntou ele, sentindo as mãos delicadas interrompendo a massagem em seu ombro. — Aquelas que você bateu, outro dia... — Oh, sim, e ficaram muito boas. Você gostaria de vê-las? — Numa outra hora. Não pare o que está fazendo. Aliás, se possível, não pare nunca. Com um sorriso nos lábios, Chantal pressionou-lhe a testa com uma das mãos, enquanto com a outra massageava o pescoço, subindo por todo o couro cabeludo. Um murmúrio de satisfação brotou dos lábios de Scout. — Não é à toa que seu pai recomenda suas massagens. Eu me sinto ótimo! Escute, o que ele acha de você dividir a casa com um homem, enquanto ele está fora?


— Nada. Ele confia em mim. — O que ele achou de seu romance com Patrick? — Acho que todo pai quer ver a filha feliz, o que infelizmente não foi o caso... — respondeu ela, dando de ombros. — Ele soube o motivo do rompimento? — Para fitá-la nos olhos, ele deitou a cabeça para trás. Ao vê-la transtornada, compadeceu-se. A dor era visível naqueles olhos amendoados. — Não, preferi poupá-lo... Scout sentiu uma forte aversão pelo rapaz californiano que sequer conhecia. Via-o como um indivíduo arrogante e afetado. Cada vez que pensava naquelas mãos branquelas tocando a pele de Chantal, em carícias sensuais, tinha vontade de bater em alguma coisa... E com força! Sempre considerara o ciúme como um sentimento estúpido ao extremo. Ter ciúme de um homem a quem jamais conhecera era ridículo. No entanto, não existiria melhor explicação para a raiva que estava sentindo. — Eu não queria que Patrick sentisse qualquer tipo de obrigação em relação a mim. Por isso aceitei o rompimento sem objeções... Scout decidiu não ouvir mais sobre aquele assunto para não evidenciar o sentimento que o estava dominando. Em vez disso, preferiu fechar os olhos e continuar deliciando-se sob o toque dos dedos gentis, que agora comprimiam seus ombros. Entretanto, o que não esperava era que o ciúme se transformaria em desejo, manifestando-se pela visível ereção. — Você gosta de me enlouquecer, não é? — perguntou ele, em tom de malícia. — Acho esse assunto muito cansativo — ela comentou, ainda pensando no antigo noivado. — Bem, terminou a sessão massagem. Chantal afastou-se, e, levantando-se rapidamente, ele a seguiu manquitolando até o quarto dela. Fingindo não percebê-lo, ela sentou-se diante de uma penteadeira de design francês, a peça mais feminina, entre toda a mobília da casa. O quarto estava iluminado por velas, que lançavam reflexos cálidos ao redor... Um calor que se perdeu, quando ela sentenciou: — Gostaria de ir para a cama, agora. — Eu também. — Scout, por favor. Achei que isso já estivesse resolvido entre nós. — Resolvido? — Ele riu, com uma expressão de zombaria. — A palavra resolvido não é a melhor palavra para me definir agora. — Ele segurou-se com


ambas as mãos no batente da porta, para aliviar a pressão sobre a perna esquerda. — Como você reagiria se eu ignorasse seus protestos, se me aproximasse e começasse a beijá-la? — Você não faria isso. — Não tenha tanta certeza. — Scout surpreendeu-se com o tom de ameaça na própria voz. Mas sua frustração era tamanha, que chegava a justificálo. Ele não a havia tocado, mas também não tinha esquecido da sensação que era deslizar as mãos por aquela pele macia... E desejava-a mais do que nunca. Jennifer, que ele considerara tão bonita, ia se tornando uma imagem cada vez mais apagada, a cada dia que passava. Aquela altura, ela devia estar às voltas com os preparativos da cerimônia, da recepção, do jantar e tudo o mais que se referisse ao casamento de ambos. Jennifer devia estar preocupada... E não merecia que seu noivo desejasse outra mulher, com tamanha intensidade, debatendo-se a noite inteira na poça do próprio suor, por não conseguir realizar suas fantasias. Scout tinha, agora, quase quarenta anos. Sua vida amorosa nunca fora tão fascinante quanto diziam, mas ele tinha conhecido um número suficiente de mulheres, o que permitia que se fizesse comparações. Nada do que havia experimentado antes poderia se comparar ao febril, louco, absoluto desejo que sentia por aquela mulher. Era mais do que atração passageira... Queria entrar naquele corpo esplêndido, sim, mas também queria conhecer a mente ardilosa que o comandava. Chantal era a pessoa mais excitante que já vira... Queria sondar aqueles olhos azuis até conhecer, na intimidade, a mente e a alma da mulher que eles refletiam. Olhando para Chantal, agora, percebeu uma centelha de apreensão naqueles belos olhos. Com um suspiro, soltou os braços ao longo do corpo. — Não vou assediá-la, nem beijá-la — resmungou. — Não pretendo ser morto por uma seta envenenada, por uma faca ou por um arpão. — De onde tirou esse absurdo agora? — Do seu cão de guarda... André. Ele ressente por demais o fato de eu estar aqui, nesta casa, com você, noite após noite. Eu não me surpreenderia se ele estivesse acampado lá fora, aos pés de uma palmeira, esperando que você gritasse por socorro. Chantal afastou a hipótese, com um firme meneio de cabeça. — André obedece as suas ordens, no trabalho. — Com muito rancor... Ele faz o que mandam apenas porque você pediu. E também porque sabe que estou fazendo algo de bom para o vilarejo. Mas ele não


gosta de receber ordens minhas. Aliás, imagino que desde que me conheceu, André me considerou como uma ameaça, um concorrente no que diz respeito à sua afeição, Chantal. — Não seja bobo! — Pois diga isso a André. Ele se considera seu dono. E adoraria ter uma razão, mínima que fosse, para acabar comigo. Ao mesmo tempo em que falava sobre um assunto, Scout pensava em outro. A figura feminina a sua frente era o mais perfeito exemplo da essência da mulher: suave, mas forte. Decidida, mas misteriosa. Simples, mas complexa. Elegante e sexy. No entanto, o olhar penetrante a deixou constrangida. Ele a viu engolir em seco e, nervosamente, umedecer os lábios. Em meio às sombras, a voz dela soou rouca e insegura ao perguntar: — O que foi? — Nada — ele respondeu, voltando-se para sair. — Eu estava apenas pensando que valeria a pena morrer por você. Chantal avistou-o descendo a ladeira em direção à praia. Mesmo a distância, percebeu que ele estava de péssimo humor, soltando fumaça, como a cratera do vulcão... Com a diferença que a explosão de Scout era iminente. Usando botas de trabalho, ele parou abruptamente em frente a ela, salpicando areia em seus joelhos. — Que diabos está acontecendo? Com um sorriso inocente, Chantal fitou-o por sob a aba larga do chapéu. — Olá, Scout. Estou feliz por você se juntar a nós. Que tal nadar um pouco? — Na... nadar? — ele balbuciou, incrédulo. — Lá estou eu, me matando de trabalhar, e os meus supostos ajudantes resolvem vir à praia para brincar ou fazer colares de flores! — gritou, chutando uma guirlanda para o lado. — Resolveram tirar o dia de folga?! — Comecei a reparar que a pausa para o almoço estava se prolongando muito... E como sou uma administradora gentil e também estava morrendo de calor, pensei em dar mais alguns minutos. Mas daí aqueles que deveriam voltar após o almoço, começaram a desaparecer, um a um. Quando dei por mim, eu era a única que estava trabalhando... Então, acho que está na hora de você juntar-se a nós. Sente-se aqui, nessa sombra fresca e agradável, antes de...


— Não quero me sentar. Não quero me refrescar. Estamos quase terminando a ponte. Quase todos os degraus já foram colocados no lugar. Estamos prestes a concluir o trabalho! — Então, não fará mal algum tirar uma tarde de folga. Uma vez mais a lógica de Chantal levou-o além do limite, deixando-o vermelho de raiva. Erguendo os punhos fechados, ele golpeou as têmporas, praguejando sem parar. — Desse jeito, você está apenas ficando mais nervoso — comentou ela com voz suave e coerente. — E você bem poderia relaxar, pois os homens só voltarão ao trabalho amanhã. Hoje foi declarado feriado. — Por quem? Por você? Sua autoridade suplanta a minha? Enfim ele havia conseguido tirá-la do sério. Chantal esticou as pernas e se levantou. Seus pés descalços, cheios de areia, se chocaram contra as pesadas solas das botas de Scout. Um minúsculo biquíni dificilmente seria considerado um traje adequado a um confronto... Mas seus olhos reluziam, prontos para o combate. — Quando se trata da felicidade e bem-estar de meu povo, sim, minha autoridade suplanta a sua. E o mesmo ocorre com a autoridade dos líderes do vilarejo. O alto conselho notou que os trabalhadores pareciam cansados e que precisavam de um dia de descanso. Eles não estão acostumados a trabalhar por tantas horas seguidas, como você bem sabe. — E eu não estou aqui exatamente para me divertir, como você bem sabe. — Por favor, baixe a voz. Você os está deixando aflitos. — Aflitos? Eles? — Scout repetiu, encolerizado. — Não estou ligando a mínima para o modo como vão se sentir. — Ele bateu no peito, com o indicador. — Preciso de cada homem,trabalhando em período integral, para que eu possa cumprir o prazo. Para concluir sua argumentação, ele inclinou-se sobre Chantal. Aproximouse tanto, que ela voltou a se sentar, para não ser pressionada por ele. — Talvez eles não estejam acostumados a trabalhar durante muitas horas seguidas. Mas eu também não estou acostumado a homens que largam o trabalho inacabado apenas porque estão com vontade de fazê-lo, droga! — Não estamos nos Estados Unidos. — Não diga! — ele retrucou, sarcástico. Determinada a permanecer calma, Chantal falou num tom rigidamente controlado:


— Eles não vivem submetidos a prazos, não se preocupam com atrasos. Amanhã será exatamente como hoje... Ao contrário da maioria dos homens americanos, eles não são guiados pela sede de sucesso. Trabalham apenas para conseguir o que precisam para subsistência. Pessoalmente, acho que esta é uma ótima filosofia de vida. E sinto muito, mas, enquanto você estiver aqui, na ilha, terá de acatar essa filosofia. Ele apertou os lábios... E esse era um claro indicador de sua fúria. Seus cabelos estavam grudados na testa. O suor escorria pela face contraída, coberta de pó. A camisa, aberta, estava grudada no peito musculoso, deixando-o ainda mais atraente. Ele estava furioso, ela bem o sabia. Mas mesmo assim enfrentou-o, recusando-se a baixar o rosto. Os homens do vilarejo estavam contentes por ganhar um dia de folga, aliás bem merecido. Ela não ia voltar atrás e forçá-los a retomar o trabalho. E se Scout não conseguisse entender, então teria de tolerar. — Está bem, serei razoável... — ele concedeu e anunciou o horário: — Uma hora da tarde. Os trabalhadores podem descansar durante a parte mais quente do dia. Mas o recreio acabará às quatro. Quero todo mundo de volta ao canteiro de obras, nesse horário. Assim teremos algumas horas de trabalho, até o anoitecer. — Eles não vão voltar ao trabalho hoje e ponto final! — exclamou ela. Scout ergueu a mão, levando-a até bem perto dos olhos dela, a ponto de quase roçar-lhe a ponta do nariz com o cristal do relógio. — Às quatro horas — ele repetiu. — Nem um segundo a mais. Ela agiu antes de pensar. Num gesto mais rápido do que um olho humano poderia acompanhar, abriu a pulseira do relógio, tirou-o do pulso dele e atirou-o em direção ao mar. O relógio bateu na rocha mais próxima e caiu na água. — Agora será difícil controlar os segundos. Ele saiu em disparada em direção às ondas que ali quebravam, mas já eram tragadas novamente pelo mar, pelo refluxo, levando o relógio com elas. Quando voltou frustrado pela tentativa, fez questão de parar bem diante dela, com as pontas dos pés quase se tocando. — Vou estrangular você agora — ameaçou ele por entre os dentes. Pendendo a cabeça para trás, ela ofereceu o pescoço, desafiando-o a cumprir a ameaça. Aceitando o desafio, os dedos de Scout se fecharam em tomo do pescoço delicado.


Por um longo momento, ambos se encararam. Por fim Scout desceu os olhos até a boca de Chantal. Involuntariamente, ela respondeu, entreabrindo os lábios, num mudo apelo. Um gemido grave brotou do fundo do peito de Scout, emergindo na forma de uma imprecação. Ele oscilava entre puxá-la para si, ou empurrá-la para longe... Por fim, optou por afastá-la. Com passos trôpegos, começou a caminhar pela praia, apoiado em Johnny, que devotadamente havia corrido para auxiliá-lo. Chantal, sem fôlego e ainda perturbada, ficou observando-o, até que ele desapareceu na distância. Depois recostou-se no tronco de uma palmeira, fechou tos olhos, tentando regularizar as batidas do coração e a respiração. Resistir a Scout estava se tornando cada vez mais difícil. Durante a noite, quando sentia aquele o olhar penetrante, ansiava em responder do modo que seu corpo exigia. Queria reagir como mulher, desejava dar prazer, saciar a fome que, ela sabia, o devorava. Mas aquilo era só um lindo sonho, que o orgulho a impedia de realizar. Afinal, ele logo voltaria para a civilização e para Jennifer. No entanto, teria que descobrir uma forma de lidar com o próprio desejo. E sua consciência oferecia bem pouca proteção contra isso... — Quanto falta? — Scout parou no meio da trilha, para enxugar o rosto com um lenço, que já estava encharcado. — Alguns quilômetros? Johnny fitou-o preocupado. — O calor está afetando os meus neurônios... Estou falando com uma criança que não entende uma palavra do que digo! Johnny sorriu, vagamente. Com um suspiro, retomaram a caminhada. Tinham deixado o vilarejo para trás, várias horas antes. Scout decidira que, já que não conseguia se entender com Chantal, talvez pudesse fazê-lo com seu pai. Já previa que George era tão louco quanto a filha. Caso contrário, por que escolheria ficar naquele contraforte coberto de mato, onde proliferava toda espécie de insetos? O calor era insuportável. Ele sentia-se como um peru no Dia de Ação de Graças, cozinhando em seu próprio suor. O vulcão estava, sempre, à sua direita. A intervalos, o vulcão expelia lava derretida e vapores, como se para lembrá-lo de que a ameaça continuava presente... E não poderia ser ignorada. Como um ser humano podia viver nesse clima? Ao que tudo indicava, George duPont podia. Agora quase no limite de sua resistência, Scout começava a se perguntar se fora acertado obedecer ao impulso de empreender aquela caminhada. A


princípio, não imaginara que iriam tão longe. Agora estava com calor, com sede, e a perna ferida começava a doer. Ao chegar ao ponto mais alto, do outro lado do despenhadeiro, Scout avistou o jipe, coberto por uma lona com camuflagem militar. Com o coração aos saltos, fez uma rápida verificação. Não havia chaves na ignição, mas não seria difícil fazer uma ligação direta. No entanto, bastou um olhar para Johnny, que o fitava condoído, com os lábios trêmulos, persuadindo-o em silêncio para que desistisse da idéia. Não podia deixar que o peso de sua fuga recaísse sobre os ombros do garoto. Além do mais, não podia deixar a ponte inacabada. Se assim o fizesse, o senso de ética profissional jamais o permitiria ter um momento de paz. De qualquer modo, estava curioso para conhecer George duPont, que provavelmente era um homem brilhante, apesar de excêntrico. Corey havia confiado na opinião dele sobre o Voix de Tonnerre, investindo milhões para construir o resort. Portanto, devia acreditar que o geólogo, especialista em vulcões, sabia do que estava falando. Havia também outra razão pela qual resistiu à tentação de roubar o jipe. Chantal... Que confiava nele, para terminar construção da ponte. E ele havia prometido que assim o faria. Agora, não podia faltar com a palavra. Se fizesse isso, ela perderia o prestígio com seu povo, que obviamente a adorava. E, bem, ele não poderia partir, simplesmente, sem nem mesmo dizer "adeus". — Estou sendo honrado, em função do meu próprio bem comunicou a Johnny, que acenou em concordância, com um olhar sombrio... E mostrou-se aliviado quando Scout fez sinal para seguir adiante, deixando o jipe exatamente no mesmo lugar. Depois de mais algumas horas de caminhada e litros de suor, Johnny de súbito saiu da trilha e entrou na selva, falando em francês e apontando em direção a um platô. — Lá em cima? — Oui. — Ótimo! — Com um profundo suspiro, Scout começou a escalar o caminho tortuoso, de pedras, que levava ao local. A certa altura, ambos pararam para descansar. Com as mãos em concha, ao redor da boca, Scout chamou em voz sem alta: — George duPont? Pios e gritos soaram na selva. Os pássaros pareciam protestar contra a interrupção da paz que ali reinava.


— Sr. George duPont, meu nome é Scout Ritland. Gostaria de conhecê-lo. Estou certo de que sua filha já falou a meu respeito. Scout esperou. Não houve resposta. Quem sabe George tivesse dificuldades para ouvir... ou talvez falasse apenas francês. Depois de mais alguns minutos de espera, continuaram a subir até o platô, Scout dobrou o tronco para a frente e colocou as mãos nos joelhos, enquanto tentava recuperar o ritmo da respiração. O suor banhava seu rosto, gotejando pela ponta do nariz correndo em direção ao colarinho da camisa já encharcada. Algumas gotas entravam em seus olhos, fazendo-os arder. Endireitando-se, Scout enxugou-os com as costas das mãos. Seus olhos estavam enevoados e ardentes. Talvez por isso, a princípio ele duvidou do que via. Piscou várias vezes e meneou a cabeça diante do malogro. Havia dois, no topo do platô, que oferecia uma bela visão do oceano Pacífico. Cada um deles estava coberto de flores... E cada um tinha uma pequena cruz branca: túmulos. No final da tarde, Chantal começou a se preocupar com Scout e Johnny. Não os tinha visto desde quando se afastaram pela praia, juntos. Ao voltar para casa, ela esperara encontrá-lo, resmungando, mal-humorado... Não teria se surpreendido se, no caminho, o tivesse visto na ponte, trabalhando sozinho. Mas ele não estava em lugar algum. Ao entardecer, ela mandou que André reunisse alguns homens e saíssem à procura dos dois desaparecidos. Quanto mais ele demorava, mais Chantal se preocupava. O tempo foi passando em minutos de agonia sem notícia alguma. Para se distrair e a fim de ajudar a passar o tempo, ela resolveu dar uma volta pelo vilarejo e acabou por jantar na casa de amigos. A noite caíra. Voltando para casa, observou o solo pedregoso e irregular da ilha, que podia ser perigoso, mesmo para os nativos. Lembrou-se que Scout não tinha noção dos locais mais acidentados, que representariam obstáculos ainda maiores para a perna ferida. A casa estava ás escuras quando chegou. Nenhuma lâmpada fora acesa, em sua ausência. Isso significava que ele não havia voltado, concluiu. Mas, então, percebeu um vago aroma, bastante familiar. Sentiu o coração bater em descompasso... Com a respiração suspensa, caminhou na direção do aroma, que vinha da cozinha. Mesmo dizendo a si mesma que não havia motivos para ter medo, que


fantasmas fumantes não existiam, ela ainda hesitou por um momento, antes de abrir a porta de bambu. A brasa de um charuto brilhou na escuridão. Chantal engoliu em seco: — O que está fazendo? — Tomando banho, oras. Scout estava languidamente acomodado numa tina, os joelhos dobrados emergindo acima da água. Seus cabelos estavam úmidos. Pareciam ter sido lavados, enxaguados e enteados com os dedos. — Eu perguntei sobre... — O charuto? — ele a interrompeu, com ar de desafio, tragando e lançando vários pequenos anéis de fumaça em direção ao teto. — George não se importaria por eu tomar este emprestado... Você não acha? Respirando com dificuldade, Chantal respondeu com um gesto negativo de cabeça. — Minha doce mentirosa! Ele colocou o charuto acesso sobre um cinzeiro de cerâmica. Depois esticou os braços sobre a água, deixando as mãos sobre a superfície, lançando borrifos para os lados... borrifos que ela mais podia ouvir do que ver. Apesar de tão inocentes, eles pareciam agourentos, quase tão sinistros quanto a voz cortante de Scout. — Tive uma ótima tarde — ele disse. — Muito esclarecedora. Acho até que devo agradecê-la... Pois você insistiu para que eu tirasse o dia de folga. Assim, pude conhecer uma parte da ilha onde nunca havia estado antes. Pegando o charuto, Scout voltou a soltar baforadas. — Claro que transpirei uns cinco litros, forcei minha perna esquerda até que ela começou a doer terrivelmente, fui atacado por um enxame de insetos carnívoros, fiquei frente a frente com uma serpente e quase não sobrevivi a um escorregão, numa rocha. Mas, afora isso, tive um dia maravilhoso aqui no paraíso... E valeu a pena passar por todas essas dificuldades para, enfim, descobrir o paradeiro de seu pai. A voz de Scout, que havia começado num tom baixo, ia aumentando de volume... Tanto, que a última frase foi pronunciada quase aos berros. Chantal estremeceu de pavor. Fechando os olhos, tentou recuperar o equilíbrio e pensar no melhor jeito de aplacar um homem que, com certeza, tinha um homicídio em mente.


— Eu explicarei tudo... Vá para a sala, assim que terminar seu banho. Nós nos veremos lá. — Exijo uma explicação agora. — Scout ergueu-se, de súbito, deslocando uma boa quantidade de água, ao fazê-lo. Despejando água e palavrões em igual proporção, parou em frente a ela, totalmente nu. Chantal não pôde conter uma exclamação de susto. Olhando ao redor, buscou uma rota de fuga... E correu em direção à sala. Mas não foi rápida o suficiente e, assim, ele a alcançou. Puxando-a para bem perto de si, obrigando-a a fitá-lo de frente, perguntou: — Por que você não me contou que ele estava morto? — Achei que não seria prudente. — Porque você poderia me controlar melhor, se eu pensasse que seu pai estava por perto... Certo? — Certo. Achei que você confiaria mais nele do que em mim. Ou seja: você acreditaria mais nas opiniões de meu pai, do que nas minhas. E, nesse ponto, acho que acertei, pois você realmente passou a confiar nele, não? — Você acha a palavra confiar muito divertida, já que vive brincando com ela — Scout retrucou, em tom de zombaria. — Quando ele morreu? — Cerca de uma semana antes do seqüestro. — Chantal notou que sua resposta o pegou de surpresa. Obviamente, ele não pensava que a morte de George fosse tão recente. Ela gostou de vê-lo ficar em silêncio, com ar respeitoso, por alguns instantes, antes de voltar a questioná-la. — Como foi que aconteceu? — Ele... simplesmente... — Chantal fez uma pausa. Um nó se instalou em sua garganta, enquanto lágrimas assomavam-lhe aos olhos. — Ele estava voltando de uma caminhada até a cratera do vulcão e simplesmente... morreu. Acho que sofreu um ataque cardíaco. — E por que você não avisou ninguém? — Porque a morte dele não interessava a ninguém, exceto a mim e aos moradores do vilarejo. Meu pai queria ser enterrado perto de minha mãe. Eventualmente, informarei a morte dele às autoridades. Chantal podia sentir o olhar duro de Scout em seu rosto... Um olhar que sustentava, com firmeza. Era verdade que tinha agido de maneira nada ortodoxa... Mas sua consciência havia ordenado que fosse assim. Por isso, não fazia sentido se desdobrar em justificativas ou desculpas. Por fim, Scout disse:


— Acho que devo cumprimentá-la. Você é muito esperta. — Esperta, não... Desesperada. — Quem traçou o plano para me trazer aqui? Você ou seu pai? De quem foi a idéia de usá-la como chamariz, para me atrair? Ela baixou os olhos, depois ergueu-os para encará-lo: — A idéia foi minha. — E quanto à pistola? — Meu pai era contra o uso de violência de qualquer espécie. Ele achava que poderíamos convencê-lo, usando apenas nossos argumentos. E, assim, você se disporia a nos ajudar. Mas eu e André tínhamos nossas dúvidas... — Então, quando seu pai morreu, você resolveu pôr seu plano em ação. — Sim. E pedi a André que levasse a pistola. — Erguendo o rosto, com uma expressão altiva, ela acrescentou: — Eu estava certa em pensar assim. Você jamais teria se disposto a nos ajudar, se não o houvéssemos forçado. — Está certo, você me trouxe para cá e eu concordei em ajudá-la. Só não entendi por que manteve a morte de seu pai em segredo, durante esse tempo. A expressão desafiadora de Chantal atenuou-se: — Se você acreditasse que ele estava por perto, se você achasse que ele poderia aparecer a qualquer momento... então... Um rasgo de compreensão assomou aos olhos de Scout: — Então você estaria a salvo de mim. — É. Admita que o recurso funcionou. — Até agora, princesa. O beijo a pegou totalmente desarmada. Enlaçou-a pela cintura, erguendo-a do chão, fazendo-a sentir toda a sua nudez... E desejo. Chantal ficou atordoada quando suas coxas tocaram a rígida masculinidade protuberante... Uma nova avalanche de sensações surpreendentes a acometeu, quando sentiu a língua exigente entre os lábios. A boca de Scout tinha um hálito refrescante, a pele cheirava a sabonete, tabaco e... excitação. A fome que sentia por ele, uma fome acalentada numa combustão lenta, como a lava no coração do vulcão, explodiu em uma vontade de responder àquelas carícias, de obedecer à voz do desejo e não à voz da consciência... Afinal, seu corpo faminto não mostrava outra alternativa.


Por tudo isso, pressionou a língua contra a dele. Scout reagiu, surpreso. Recuou um passo. Esperou. Então, com um murmúrio de desejo, voltou a tomá-la com um beijo caudaloso. Enlaçando-o pela cintura, ela acariciou as costas musculosas e macias, onde gotas de água ainda escorriam, molhando as pontas dos dedos que agora passeavam pela pele suave dos quadris... Febril e selvagem, ele escorregou a boca na pele alva do pescoço dela, arranhando-a de leve com a barba por fazer. O tecido fino da blusa de Chantal estava encharcado, moldando os seios perfeitos. Erguendo a cabeça, Scout fitou-a para em seguida tomar os lábios. As mãos passaram lentamente pela curva da cintura fina, subindo até roçar a lateral dos seios firmes. Em seguida, com movimentos circulares, começou a acariciá-los, desenhando-lhes o contorno. Inclinando-se, beijou um e depois outro, por sobre o tecido molhado, mordiscando-os suavemente. Como resposta, ela arqueou o corpo ainda mais, erguendo os seios num convite excitante. — Minha deusa... — Apertando-lhe as nádegas firmes, ele puxou-a, como se quisesse fundir seu corpo ao dela. Mergulhando o rosto no espaço entre o ombro e o pescoço de Chantal, ele murmurou, com voz rouca: — Eu quero você. Durma comigo... Por favor. Se nada tivesse sido dito... Se não a tivesse lembrado de que a relação de ambos era passageira e estritamente física... Talvez ela houvesse levado aquele momento adiante. Em vez disso, contraiu-se inteira quando ele, segurando o rosto bonito entre as mãos, tornou a beijá-la, dessa vez lentamente... Sentindo interrogativa.

que

ela

não

correspondia,

fitou-a

com

uma

expressão

— Não posso — declarou ela, com a voz trêmula de emoção. — Sinto muito, mas não posso. Antes que pudesse ser dissuadida, ou detida, e ele faria isso sem dificuldades, ela correu em direção à porta dos fundos, abrindo-a e precipitando-se para fora. Ele a seguiu, mas parou abruptamente ao sentir, no abdômen, a ponta fina e fria de uma lança. — Que droga está ocorrendo aqui?


Chantal, que corria em direção à praia, estacou e fez meia-volta. Ao ver o que acontecia, gritou, alarmada: — Oh, não! — E retomou, o mais rápido que pode. Junto com vários outros rapazes do vilarejo, André cercava Scout. Todos estavam armados com facas e lanças, em postura de luta, com a expressão atenta. — Mande seus cães de guarda embora, Chantal — disse Scout, num tom áspero. Ela fez um sinal aos homens em círculo. Um a um, todos se afastaram. Facas foram guardadas na bainha. Lanças foram baixadas. André foi o último a baixar a sua. E, quando o fez, foi com visível relutância. — Nós o seguimos até aqui — ele disse a Chantal. — Você mandou que eles me vigiassem? — Scout perguntou. Apenas poucos minutos atrás, seu rosto estava corado pela paixão... Agora, estava pálido de raiva. — Eu não sabia onde você se encontrava — ela justificou-se. — Pensei que pudesse estar em perigo. — Pensou nada! — ele retrucou, ríspido. — Você pensou que eu podia escapar antes que aquela droga de ponte ficasse pronta... E se eu tivesse um pingo de bom senso, certamente teria sumido daqui. — Apontando o dedo, acrescentou: — Eu jamais a tocaria, mesmo que você fosse a última mulher, nesta ilha... E eu estivesse condenado a ficar aqui por toda a eternidade. Felizmente, não é este o caso. Com isso, Scout empurrou o homem parado a sua frente e caminhou em direção à casa, batendo a porta com violência, depois de entrar.

Capítulo VI Uma erupção do vulcão acordou Chantal, na manhã seguinte. O clima ainda estava quente e úmido. Explosivo. Inquieta, ela se perguntou se aquilo não seria um mau presságio para o resto do dia. Levantando-se, caminhou até o banheiro, tomou um banho e vestiu-se. Estava sozinha, na casa. Scout não se encontrava na cozinha, onde geralmente ficava, àquela hora do dia, bebendo uma xícara de café atrás da outra.


Na noite anterior, ao voltar para casa, não o havia visto. Ao que tudo indicava, ele passara a noite fora... Depois de desfrutar um desjejum delicioso, Chantal saiu de casa. O sol acabava de nascer, por trás das montanhas. De repente o som de uma picareta batendo contra um metal se fez ouvir. Apesar de ser muito cedo, o vilarejo estava estranhamente quieto. A caminho do canteiro de obras, parando à beira do rochedo íngreme, avistou Scout, um pouco mais abaixo. Não era fácil detectá-lo como um perfeccionista, exigente consigo mesmo e com os outros. Ele era capaz de ir até muito além do limite, para realizar um trabalho ou um objetivo... E era exatamente o que estava fazendo naquele momento. Antes que qualquer habitante do vilarejo chegasse ao canteiro de obras, ele já estava ali, trabalhando duramente, tomando a responsabilidade inteira para si. Não era à toa que o pacato estilo de vida da ilha o irritava. Interrompendo o que fazia, Scout tirou um lenço do bolso para enxugar o suor do rosto. Foi nesse momento que a viu... E assumiu uma expressão hostil. Chantal estremeceu, como se atingida por um golpe. Pois aquele olhar rude a magoava por demais. Não que ela o culpasse pelos acontecimentos da noite anterior. Afinal, rejeitara-o firmemente... E a rejeição era um dos piores insultos ao ego de um homem. Fora dela a prerrogativa de dizer "não". Porém, não gostara nem um pouco de agir assim. Teria preferido mil vezes que, agora, fosse observada com desejo e não com raiva. — Mademoiselle? Chantal voltou-se, surpresa. Quando alguém a chamava assim, sabia que se tratava de algo importante. Membros do conselho administrativo do vilarejo a rodearam, com uma expressão severa. Poucos deles a fitavam diretamente nos olhos. — O que houve? — perguntou, embora soubesse que eles deviam ter algum assunto sério a tratar com ela... Mas não pensou que fosse tão grave. Enquanto os ouvia, começou a se sentir abatida, como se levasse um duro golpe. No final da narrativa, indagou: — Os senhores têm certeza? Eles responderam com uma expressão afirmativa. — O que está acontecendo? — Scout perguntou, subindo os últimos degraus que ele havia fixado dias antes, com a ajuda dos trabalhadores. — Onde está todo mundo?


Chantal fitou-o, ansiosa por encontrar um brilho de honestidade, integridade, de moral irrepreensível em seus olhos. Só então disse: — Os trabalhadores não virão trabalhar, hoje. — Como assim? Não me diga que resolveram tirar mais um dia de folga! — Eles não virão hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Por vários segundos, Scout fitou-a com uma expressão confusa. Depois, voltou-se para os membros do conselho: — Alguém pode me dizer que diabos está acontecendo aqui? Podemos terminar a ponte, com apenas mais uns poucos dias de trabalho árduo, mas todo mundo tem que colaborar. Qual é o problema, afinal? Chantal foi a única a entender suas palavras. Coube a ela responder: — Você, Scout... Você é o problema. — Eu? — ele exclamou, levando a mão ao peito coberto de suor. — Eu me esforcei ao máximo para me adaptar a essa gente e seus costumes. Eu dei o dia de folga ontem e... — Também seduziu uma das garotas do vilarejo e tirou sua virgindade. As acusações o atingiram como pesadas pedras. Boquiaberto, ele fitou-a por um longo momento, com uma expressão de total incredulidade. Depois esboçou um sorriso: — Isso é uma piada... certo? — Eles parecem estar brincando? — As lágrimas ameaçavam inundar os olhos de Chantal que, apontando os membros do conselho, retrucou em tom de raiva: — Eles não consideram a sedução e a manipulação como um assunto divertido, sr. Ritland. — Eu também não acho nada engraçada uma acusação falsa como esta — ele rebateu. — Então você nega a acusação? — Claro que sim! Quando essa suposta sedução aconteceu? — Ontem à noite. — Chantal ofegava. O ar lhe faltava a ponto de fazer sua voz falhar. Com terrível nitidez, ela recordou a saída intempestiva de Scout, na véspera. — Eu me recusei a dormir em sua companhia. Então você encontrou Margot e resolveu seduzi-la... Sente-se melhor, agora? Seus desejos foram satisfeitos? — Se eu tenho algum desejo, ele foi incitado por você, princesa.


— Eu me ofereci a você em troca da construção da ponte. Você bem que podia ter me lembrado dessa promessa e ter deixado Margot em paz — vociferou ela. Scout soltou as mãos ao longo do corpo. — Pelo amor de Deus, ela é apenas uma criança! — Era, até ontem à noite. — Eu nem sequer estive com ela. — Segundo Margot, foi isso que você fez. — Então, ela está mentindo. — Margot não mentiria. — Nem eu! A única mentirosa notória, aqui, é você! A sensação de ser traída era tão dolorosa, que Chantal nem se deixou abalar pelo insulto. Queria vê-lo negar, com veemência, aquela acusação... Mas só se fosse realmente inocente. Por que Margot mentiria? Chantal pensou. E colocou a questão para Scout, que argumentou: — Eu não sei, mas o fato é que ela mentiu. Ao menos você poderia acreditar em mim... — O que eu acredito não importa. A opinião deles é a única que conta. — Não para mim. Encarando-o por um longo momento, ela desejou ardentemente acreditar nele. Mesmo porque, o brilho naqueles olhos fixos nos seus não traziam o menor traço de falsidade. O instinto avisou-a de que os membros do conselho poderiam estar errados... Embora isso fosse muito raro acontecer. Por fim, ela voltou-se para os membros do conselho e disse-lhes que Scout estava negando a acusação de Margot. Os membros, em sua maioria homens idosos, conversaram entre si, lançando vez por outra olhares carregados de suspeita na direção de Scout. — O que estão falando? — ele perguntou. — Aquele é o pai de Margot. — Chantal apontou para um homem que gesticulava com veemência. — Está dizendo que ele e a mãe de Margot a encontraram chorando, hoje cedo. Quando perguntaram o que havia de errado, ela confessou que estava envergonhada por ter dado sua virgindade ao americano... A você. Agora, eles estão tentando decidir um jeito de testar sua honestidade.


— Testar? Mas como? Chantal ergueu a mão, pedindo que ele se calasse. Assim, poderia ouvir a decisão do conselho. De comum acordo, oh membros resolveram que o pai de Margot escolheria o teste que achasse mais conveniente. — E então? — Scout perguntou. — Estão pensando em cortar minha cabeça? Erguendo-se na ponta dos pés, para ficar à altura dele, Chantal fitou-o nos olhos, antes de responder: — Não. Estão pensando em mandá-lo escalar o vulcão, até a cratera. — Isso é uma estupidez! — Scout afastou com violência o galho de um arbusto, que tivera o azar de estar no lugar errado, na hora errada. — Não posso aceitar que meu destino seja ditado por um bando de feiticeiros de tangas! — Com um tapa, ele esmagou um inseto que zumbia em volta de seu rosto. — Quando voltar aos Estados Unidos, venderei essa história a um produtor de Hollywood. Mas, pensando bem, acho que ninguém vai querer comprá-la, já que ela é simplesmente inverossímil. — Essa tagarelice só está servindo para deixá-lo com falta de ar. Por que não poupa seu fôlego? Ele voltou-se para encará-la, na estreita trilha que levava ao alto da montanha. — Você sabe que tudo não passa de uma grande palhaçada, não é mesmo? Uma perda de tempo e energia. Então, por que deixou que eles a envolvessem nisso? — Pela mesma razão que fiz todo o resto: a ponte. Você não pode terminála sozinho. E as pessoas não voltarão a trabalhar, enquanto você não provar sua inocência... E isso significa receber a bênção do vulcão. Com um resmungo, Scout proferiu sua opinião a respeito daquela absurda missão. Ao chegar ao vilarejo, havia sido reverenciado e respeitado, como um enviado dos deuses. A acusação de Margot questionara sua divindade. O conselho decidira que ele teria de ir até o Voix de Tonnerre e deixar algumas oferendas. Se conseguisse voltar sem ferimentos, então o povo do vilarejo voltaria a acreditar na sua palavra... Pois esse seria um sinal inequívoco de que sua presença ali era do agrado dos deuses. — Acho que você mesma incitou o povo do vilarejo contra mira, só para ter companhia nessa interminável escalada e tirar fotos de perto do vulcão — ele retrucou, fitando-a e apontando a pesada bolsa térmica que ela trazia a tiracolo, com seu equipamento fotográfico.


— Alguém tinha de acompanhá-lo para certificar-se de que você deixará as oferendas no lugar correto. E acontece que, além de meu pai, sou eu a pessoa que mais conhece esse vulcão. — Chantal mudou a posição da bolsa, procurando um modo mais confortável de carregá-la. — Você não está desperdiçando apenas o seu fôlego, mas também o meu. Por favor, continue andando. Blasfemando baixinho, ele prosseguiu. Ambos caminharam durante horas pela densa selva do contraforte, até que por fim começaram a escalar a montanha mais próxima da cratera do vulcão. Com o peso da câmera e do equipamento, os músculos do pescoço, dos ombros e das costas de Chantal começaram a doer, a ponto de queimar. Scout carregava as provisões numa mochila, juntamente com os presentes enviados pelos habitantes do vilarejo. A carga se tornava cada vez mais pesada, à medida que o cansaço aumentava. Inconscientemente, ele poupava a perna esquerda. Ambos paravam, a intervalos, para tomar a água dos cantis, mas acabavam por perdê-la, na transpiração, quase tão rápido quanto a haviam bebido... Por fim, deixaram a selva para trás. O solo ficou mais pedregoso e íngreme, com pouca vegetação. Soprava uma brisa, mas o ar era cada vez mais rarefeito e quente. Quando parecia que a situação continuaria do mesmo jeito, indefinidamente, sem nenhuma promessa de alívio, a trilha tomou um rumo diferente, conduzindo a um platô. Uma cascata corria sobre as rochas, formando uma piscina, mais abaixo. Chantal colocou a câmera e o equipamento no chão, tirou o chapéu, as botas, e foi a primeira a se atirar á água. E ele não titubeou em fazer o mesmo. Ambos nadaram por algum tempo. Sentada numa rocha arredondada, ela sacudiu e torceu os cabelos, para tirar o excesso de água. Então tomou a colocar o chapéu, cuja aba sombreava sua face. Foi nesse momento que flagrou Scout fitando-a com intensidade. — O chapéu era de seu pai? — Sim. Sabia que as botas dele nunca me serviriam — constatou, com um sorriso melancólico. — Por isso, resolvi me conformar com este chapéu. — Era o que eu imaginava. E quanto àquelas anotações que você costuma fazer, todas as noites? — É o ultimo capítulo de um livro que ele estava escrevendo. — Você está terminando o trabalho... Chantal não via razões para mentir:


— É por isso que não quero informar a data exata da morte dele às autoridades. Os editores não precisam saber que meu pai deixou o livro inacabado. — Mas, se assim for, você não terá crédito algum sobre a obra. — Não é esse meu objetivo — ela replicou, surpresa por percebê-lo imaginando o contrário. — Era dele a paixão pelo vulcão. Ele podia senti-lo, como um coração pulsando em seu peito. Scout continuava a fitá-la cheio de emoção, transformando o olhar em uma carícia. — Nunca toquei naquela menina, Chantal. Certamente você não duvida disso. Erguendo as sobrancelhas, com ar de dúvida, ela comentou; — Na sua condição... — Eu poderia ter relações com uma centena de mulheres, mas isso não me faria bem algum. Só existe uma mulher a quem desejo: você. Ao ouvir aquelas palavras, ela prendeu a respiração em choque. Teve vontade de explodir de alegria, mas não era simples assim. Aliás, todos os últimos acontecimentos haviam sido intensos demais. Já não acreditava que Scout pudesse ter seduzido a garota. Mas o ciúme era, na verdade, o motivo de sua reação exacerbada... Não suportava imaginá-lo desejando Margot... Ou qualquer outra mulher. Era aquele sentimento que a estava deixando louca, pois era difícil controlar e pior ainda aceitar que estava apaixonada. A resposta que se formou em sua mente era, no mínimo, inquietante... E ela preferiu ignorá-la, ao menos naquele momento. — É melhor continuarmos — anunciou enquanto calçava as botas. Quando recolocava a bolsa no ombro, Scout ofereceu: — Deixe-me carregá-la para você. — Está muito pesada. — É por isso que quero levá-la. — Scout dividiu o peso da mochila e da bolsa entre os ombros. — Pronto. Agora está tudo em equilíbrio. Quanto falta para chegarmos à cratera? — Pouco mais de um quilômetro e meio. O terreno será bastante acidentado, daqui por diante. — Mais do que foi até agora? — Receio que sim. A encosta se tomará cada vez mais íngreme.


— Siga adiante — disse Scout, num tom de cansaço. — Estarei bem atrás de você. Não havia trilha. Os dois escalaram o terreno pedregoso, até alcançar o pico da montanha mais próxima do vulcão... O que já significava um grande ponto de vantagem. Fazia muito calor. O próprio ar que ambos exalavam parecia queimar-lhes os pulmões. No entanto, havia um toque de alegria e divertimento, naquela escalada. O coração de Chantal pulsava acelerado, por uma razão que ia além do mero cansaço físico... O forte retumbar refletia uma excitação que ela bem conhecia: a expectativa de estar perto da cratera do vulcão. Olhando por sobre o ombro, notou que Scout compartilhava daquele sentimento... Pois contemplava com fascínio e respeito aquela força poderosa da natureza, que parecia ter uma personalidade própria... A cratera cuspia fogo. A lava que brotava ia formando minúsculos riachos incandescentes, que corriam encosta abaixo. Um estrondo pairava no ar, a cada rajada de fogo. O chão vibrava sob os pés de ambos. — Minha nossa! — exclamou ele, maravilhado. — É magnífico, não? — É emocionante... — Pense bem... O material que o vulcão está expelindo, agora, continuará aqui durante milhões de anos... E nós estamos testemunhando este momento! Chantal, grata pela sensibilidade e compreensão de Scout, sentou-se no rochedo. Sua silhueta destacou-se, nítida, contra o céu avermelhado. O vento moldava as roupas ao corpo esguio. Ao tirar o chapéu, os longos cabelos esvoaçavam livres. A luz que reinava naquele momento fazia com que sua pele reluzisse como bronze polido. Quem a visse assim, certamente poderia tomá-la por uma sacerdotisa de alta linhagem, prestes a fazer uma oferenda a uma divindade pagã. Maravilhado pelo quadro de beleza singular, ele sentou-se a seu lado. — Obrigado por compartilhar tudo isso comigo. Ambos ficaram se olhando, como que hipnotizados um pelo outro, até que a terra voltou a tremer, com outra forte erupção. Pedaços de rocha desprenderam-se e rolaram pela encosta, rumo ao despenhadeiro, lá embaixo. Chantal sorriu ao ver o conhecido semblante de força, mostrar sinais de medo. — Se você é inocente, se de fato não seduziu Margot, não há por que temer o Voix de Tonnerre.


— Sou inocente, mas me sentirei bem melhor depois de fazer as oferendas e depois que você bater as fotos... Daí, poderemos ir embora daqui. Como ambos estavam ansiosos, resolveram recorrer ao humor para aliviar o clima. — Sua atitude não me parece a de um penitente — afirmou Chantal, divertida. — Sou inexperiente nessas questões, você sabe... O que devo fazer agora? Cuspir nas mãos, bater palmas e dar três voltas seguidas, enquanto prometo que daqui por diante serei um bom menino? — Falando assim, você está zombando de nós, da nossa cultura. — Você se refere à cultura deles... Você não acredita nisso mais do que eu... Apenas finge acreditar, para me provocar. — Scout abriu a mochila com as oferendas, que começou a espalhar ao redor. — Bata algumas fotos — pediu. — Acho o vulcão maravilhoso, mas não sei como ele se sente a nosso respeito. Levantando-se, ela armou um tripé e instalou a câmera. Metodicamente, começou a bater fotos, cada uma mais fantástica do que a outra. Gastou um rolo inteiro de filme, e depois outro. O sol se punha. A noite não tardaria em chegar, o que não faria muita diferença, uma vez que o Voix de Tonnerre continuava expelindo fogo, banhando todo o cenário com um belo reflexo rosado, — Está na hora de irmos, você não acha? — disse ele, num tom cauteloso. — Sim, embora eu não queira partir... Muitos anos se passarão, antes que ocorra outra erupção tão importante quanto essa. — A voz dela traduzia tristeza. Com rapidez e eficiência, Scout guardou a câmera e o equipamento fotográfico na bolsa, enquanto ela contemplava a montanha com um misto de reverência e pesar. Ele a tocou no braço e em seguida, erguendo a mão, enxugou com a ponta do polegar uma lágrima que escorria pelo rosto fragilizado pela emoção. — Princesa... Eu sei que você detesta a idéia de sair daqui... E eu também detesto apressá-la. Mas temos que descer a encosta, antes que a noite caia de vez. — Au revoir — despediu-se, voltando-se para aceitar a ajuda da mão estendida. Como ele agora carregava uma carga bem menor, e a gravidade trabalhava a favor de ambos, fizeram o caminho de volta muito mais rápido... Apesar das agulhadas na perna, sentidas vez por outra, Scout procurou não demonstrar dor para não preocupá-la.


Por várias vezes, durante a descida, Chantal escorregou. E teria rolado pela encosta, se ele não a salvasse, impedindo a queda com o próprio corpo. — O vulcão sabe que aquelas oferendas foram feitas por nós, não? — Scout perguntou, voltando-se para olhar para trás, com uma expressão de apreensão, enquanto o vulcão soltava um gêiser de fogo e lava derretida contra o céu noturno. As erupções se sucediam a intervalos cada vez menores. Os rios de lava incandescente pareciam prestes a alcançá-los. — Eu não estou com medo — disse Chantal. — E você? — Droga, não! Então ambos desataram a rir e apressaram o ritmo da descida, com o objetivo único de salvar a própria vida. As erupções se tomaram ainda mais violentas. A fumaça envolvia a montanha. As brasas caíam bem perto dos dois. — Rápido, para a água! — Scout gritou, quando chegaram perto da piscina natural. — Espere! Isto é fabuloso! — exclamou ela, retirando a bolsa do ombro de Scout e, pegando a câmera, começando a bater fotos, tão rapidamente quanto a máquina permitia. — Veja só que lindo! — Chantal... — Se papai pudesse ver... Tirando-a daquele estado de fascínio, ele tomou a câmera, jogou-a apressadamente na bolsa e juntos caíram na água. Scout encontrou o fundo primeiro e, dobrando os joelhos, conseguiu subir à superfície, sempre de mãos dadas com Chantal. Quando ambos emergiram, o vulcão estava explodindo como nunca. Nada poderia se comparar àquela erupção. Chovia fogo do céu. Pedaços de brasa chocavam-se contra a água, com um chiado, depois se apagavam. Aos dois nada restava senão permanecer em silêncio, boquiabertos, com o deslumbre suplantando o pavor... Por longos minutos, permaneceram submersos, até o queixo. Finalmente, ele começou a sair. Ainda estavam de mãos dadas. Agora, o vulcão expelia apenas pequenas nuvens de fumaça branca, inofensivas. Exaustos deixaram-se cair sobre uma rocha. Seguindo um instinto natural de proteção, ele a puxou para perto de si, abraçando-a. Qualquer palavra que pudesse ser dita esvaiu-se com a fumaça, não maculando assim o momento de paz. Embalados pelo som da água da cachoeira acabaram adormecendo...


Chantal acordou e tentou se desvencilhar dos braços que a envolviam. Assim que fez um movimento mais brusco ele a segurou. Os olhos se abriram e fitaram-na com intensidade, enquanto acariciava-lhe os cabelos. A vontade de se inclinar e dar um beijo de bom dia era incontrolável. Mas, se acendesse a fagulha do desejo, a paixão explodiria com uma força semelhante à do vulcão. Reunindo todas as reservas de disciplina de que ainda dispunha... Disciplina, aliás, digna de um monge, ela conseguiu enfim se desvencilhar do abraço afetuoso e se erguer. Verificou a câmera e concluiu que esta não sofrera danos sérios, na noite anterior. Os rolos de filme continuavam intactos, em suas embalagens. Scout não demorou muito para se levantar, mas logo sentiu a perna ferida repuxar dolorosamente. Chantal flagrou-o esfregando o local do ferimento, enquanto se aproximava da piscina, para encher os cantis. Ambos pouco falavam, durante a caminhada. Mas, na verdade, comunicavam-se muito melhor do que jamais tinham feito antes. Estavam em perfeita sintonia. Por vezes sem conta, paravam ao mesmo tempo, apenas para se olhar, como se os laços que os uniam os deixassem momentaneamente imobilizados. Haviam compartilhado algo único, que os manteria unidos para sempre, de maneira irreversível. Ou talvez esse senso de proximidade resultasse do fato de terem passado a noite inteira abraçados. Algo muito significativo havia ocorrido. Algo que ia além do contato sexual e que chegava às raias do contato espiritual. Chantal e Scout haviam sentido essa mudança... Apenas, não conseguiam defini-la. E, no momento, sentiam-se satisfeitos em preservá-la, sem se preocupar em rotulá-la. A chegada ao vilarejo foi anunciada em grande estilo. Tambores começaram a tocar, antes mesmo que eles alcançassem o despenhadeiro... Quando enfim apareceram, deixando para trás a densa vegetação, uma aclamação se ergueu em meio ao povo que os aguardava, reunido. — Parece que você é o herói do dia — anunciou ela sorrindo. Ambos desceram os degraus da encosta do desfiladeiro, até a ponte inacabada, que transpuseram com cuidado. Depois, subiram os degraus do outro lado. E foram cercados por um grupo de habitantes falando todos ao mesmo tempo. — O que eles estão dizendo? — Scout quis saber.


Johnny estava a seu lado. Havia lutado com outras crianças pelo privilégio de caminhar ao lado de seu herói, com uma expressão de orgulho. — A erupção de ontem à noite foi um sinal de que você continua abençoado pelo vulcão. E isso dá, a eles, a certeza de que não confiaram em você em vão. — Graças a Deus. Eu detestaria ter que dinamitar aqueles degraus — respondeu feliz, desfrutando a homenagem. Com uma expressão afável, aceitou os buquês, guirlandas e outros presentes que eram oferecidos. Mas, de súbito, o silêncio caiu sobre a multidão exultante. No momento seguinte, as pessoas abriram caminho para uma pequena figura... Os dois observaram, curiosos, a aproximação de Margot, que por fim parou diante de ambos, com a cabeça tão baixa, que era impossível ver-lhe os olhos, cobertos pelos cabelos; muito menos o que disse em um tom quase inaudível. — E então? — indagou Scout. — Margot diz que mentiu sobre você. — Chantal limpou a garganta, pois estava emocionada demais para falar. — Ao que tudo indica, o namorado dela pediu para acusar você pelo que ele mesmo tinha feito. Margot estava assustada, mas é apaixonada pelo rapaz e não negou o pedido. Ontem à noite, com medo da fúria do vulcão, ela acabou confessando a verdade aos pais. Com um olhar de compaixão, e não de censura, Scout observou a garota que, obviamente, estava arrependida. — Diga a ela que aceito o pedido de desculpas e que vou esquecer o assunto. — Não é tão simples assim, Scout. Os dois devem ser punidos. — O que vai acontecer com Margot? — ele perguntou. — O conselho decidiu que o pior castigo é a vergonha que ela já está sentindo. — Ótimo. Mas e quanto ao rapaz? — A punição caberá a você, já que foi ele quem instigou Margot a caluniálo. — Quem é o rapaz? Chantal repetiu a pergunta a Margot. Com lágrimas nos olhos, e lábios trêmulos, ela respondeu: — André. Mal o nome foi pronunciado, outra comoção brotou em meio ao povo. Conduzido por dois homens, André foi levado, com as mãos atadas, diante de Scout. Mas, apesar de tudo, fitou-o com ar de desafio.


— O que você vai fazer com ele? Scout estava trocando olhares hostis com o rapaz. Mas diante da pergunta de Chantal, reagiu com apreensão. Ela repetiu a pergunta, antes de acrescentar: — Você foi vítima de um engodo armado por ele. Cabe a você definir e aplicar o castigo. — Se eu quisesse ser um juiz, teria feito uma faculdade de Direito. Não posso simplesmente apertar a mão de André, fazer as pazes e esquecer o assunto? — Não — ela respondeu, com firmeza, meneando a cabeça. — O povo espera que você o castigue. Se não fizer isso, será pior para ele... Pois ele teria que conviver com a vergonha. Tenho certeza de que ele preferiria morrer. André estava em silêncio, mas seus olhos confirmavam as palavras de Chantal. — Muito bem — disse Scout, num tom severo. — Alguém pode me arrumar uma faca? Chantal estremeceu de espanto. A faca foi passada de mão em mão, até chegar à dela, que sem demora, depositou-a na palma da mão de Scout. — Lembre-se de que foi você quem me envolveu nisso — ele disse, em voz baixa. Em seguida voltou-se para confrontar o adversário. Pressionou a ponta da faca contra o ventre do rapaz, tal como ele mesmo fizera, duas noites atrás. — Seu castigo por ter tirado a virgindade de Margot será casar-se com ela. André não havia recuado ao sentir a ponta da faca contra o abdômen... Mas, agora, sim. Piscando os olhos, virou-se para Chantal, certo de que não tinha entendido bem a sentença de punição. Os moradores pediram a Chantal que as traduzisse para eles. Quando ela o fez, a reação foi imediata. Margot, que trazia um rosário entre as mãos, parou de rezar e ergueu a cabeça. — Pergunte-lhe se ela o ama — Scout pediu. Com o rosto banhado em lágrimas, Margot ouviu a pergunta, a respiração contida devido à expectativa e não demorou em responder: — Oui, oui. Scout voltou-se para André: — Você ouviu... Margot o ama. Portanto, case-se com ela,


— Aproximando-se do rapaz, pressionou novamente o ventre, com a ponta da faca. — Se você maltratá-la, ou fizê-la infeliz, eu voltarei e então o transformarei num pobre eunuco. — Afrouxando ligeiramente a pressão, indagou: — Você aceita este castigo? André assentiu perplexo. — Ótimo. — Com um movimento rápido e preciso, que provocou um novo clamor na multidão, Scout cortou a corda que atava os pulsos de André. Então jogou a faca para o alto, pegou-a pela ponta da lâmina e entregou-a a ele que, ainda confuso, aceitou. ponte.

— Agora, que tudo já acabou, vamos trabalhar. Precisamos terminar a

— Você agora os tem na palma da mão. Depois de dar a faca para André, voltou-lhe as costas. Isso acabou por conquistá-los de vez. Se antes os habitantes deste vilarejo o admiravam, agora eles o veneram. Chantal e Scout estavam sentados, juntos, num tapete de palha trançada, que bem poderia ser um trono. A festa para comemorar a conclusão da ponte havia começado ao anoitecer. Desde o início da celebração, os moradores vinham trazendo presentes para Scout. — Foi um golpe de sorte — Scout comentou, laconicamente, em resposta à acurada observação de Chantal. — E parece que o castigo que dei aos dois funcionou — disse, apontando com a cabeça, na direção de André e Margot, que conversavam, abraçados. — Nem mesmo o rei Salomão teria sido tão sábio em um julgamento. — Você já ouviu falar do rei Salomão? — Não sou uma bárbara. — É o que eu me pergunto, às vezes... — A voz de Scout tornou-se mais baixa e branda. — Lembro-me de você contemplando o céu, em meio àquelas explosões... Eu estava apavorado, mas você parecia louvar a fúria do vulcão. — Mas ele é, de fato, digno de glória — Chantal afirmou, com simplicidade. Então, retomando o assunto anterior, acrescentou: — Os homens do vilarejo respeitam sua bravura. As mulheres estão em êxtase por causa de sua beleza. Enfim, todos estão apaixonados por você. — Todos? A festa continuou animada por um grupo de dançarinos, que foram longamente aplaudidos. Mas Chantal e Scout só tinham olhos um para o outro... Desde o retorno do Voix de Tonnerre, a atração que os unia era mais forte do que o fluxo das marés, e tão incessante quanto.


Chantal adorava aquele homem. E, finalmente, sentia-se capaz de admitir o amor que dominava seu coração. Mas teriam que se separar, em breve... E ela não tinha noção de como faria para lidar com aquela realidade. — É melhor beber um pouco mais — ela sugeriu, decidida a quebrar o encantamento que os havia mantido imóveis, olhos nos olhos, por um longo momento. — Se você não demonstrar que está gostando da festa, ferirá os sentimentos deles. — Se eu beber mais, acabarei perdendo a noção até mesmo dos meus próprios sentimentos. — A despeito de suas palavras, Scout levou o coco até os lábios e sorveu a bebida ali contida... Uma bebida que, agora ele sabia, não era tão inofensiva quanto seu suave sabor sugeria. — Fale-me de sua família — Chantal puxou o assunto, começando a descascar um mamão. — Sou tudo o que resta dela. Meus pais já morreram. — E não querendo prolongar a conversa, ele brincou: — Você vai tomar um banho de mamão... Com um gesto sensual, Scout passou os dedos no queixo delicado, lambendo-os em seguida. Ainda havia resquícios da fruta suculenta em torno dos lábios bem desenhados... que ele não resistiu em limpar com a língua. Imediatamente, ela entreabriu a boca, para desfrutar daquele contato delicioso. Mas recuou em seguida. — Minha querida... — ele sussurrou, percorrendo o rosto suave com os olhos, como se quisesse memorizar cada traço. — Você é incrivelmente linda. — Você está perdendo a dança em sua homenagem — constatou, sabendo que ela mesma mal conseguia se concentrar nos movimentos dos dançarinos, no som dos tambores e flautas. — Não preciso ver a dança. Posso sentir o ritmo... Em minha cabeça. Em meu coração. Em meu... — Ele interrompeu-se. Sorveu um longo gole de bebida e fechou os olhos. — Se soubesse o quanto a desejo. Você não imagina a agonia que passei, noite após noite... Dormindo sob o mesmo teto que você e ansiando tê-la junto a mim... — Scout... — Não me interrompa. Escute... Algo de muito significativo aconteceu, na noite em que dormimos aos pés do vulcão... Não sei explicar de maneira exata, mas naquele instante cheguei a pensar que talvez eu estivesse sendo seduzido pelo encanto deste lugar... E que você simplesmente fazia parte do cenário. Mas depois compreendi que não, e que estava mesmo apaixonado por você...


A música parou abruptamente. Todos permaneceram em silêncio. A dança havia terminado. As atenções, que até então haviam se concentrado em Scout, voltavam-se agora para Chantal. Scout notou que o círculo onde as danças eram executadas estava vazio. Houve apenas um furtivo movimento, nas sombras. Mas nada aconteceu. Ao voltar o rosto, para continuar conversando, percebeu que ela já não se encontrava a seu lado... Mas como, se não a tinha visto levantar-se? Lançando um olhar à multidão, tentou avistá-la. Mas ela parecia ter simplesmente se desvanecido, no ar.

Capítulo VII — Mas o que está...? Os tambores voltavam a soar, num ritmo bem mais lento. Scout não estava interessado em assistir à outra dança. Queria encontrar Chantal e concluir a conversa que haviam começado. Mas, afinal, aquela celebração estava sendo feita em sua homenagem. Seria rude, de sua parte, ofender seus amáveis anfitriões. Assim, ele voltou a se concentrar no círculo, onde um grupo de garotas agora começava a dançar, caminhando em sua direção. As garotas se dividiram em duas filas. As saias de palha esvoaçavam ao redor das pernas. Os quadris se moviam com graça e precisão. Tal como antes, a dança era sensual e sedutora, sem ser lasciva. As dançarinas se aproximaram até ficar frente a frente com ele. Então as filas se abriram, para a direita e para a esquerda. As dançarinas foram se retirando, uma a uma, com movimentos sincronizados, até que restaram apenas duas, no círculo. Uma delas saiu em seguida, tal como haviam feito as outras. A última permaneceu e, aproximando-se ainda mais, fixou nele seus deslumbrantes olhos azuis. Só então Scout se deu conta de quem era ela... Seu coração disparou. Fascinado, ele constatou o inequívoco convite estampado naquela silhueta divina. Chantal havia tirado a parte de cima do biquíni. Os seios estavam livres, parcialmente ocultos por uma guirlanda de plumérias. O corpo inteiro parecia reluzir, à luz das tochas. Os cabelos se espalhavam ao redor do rosto e, como uma cortina negra, fustigava o tronco, enquanto ela dançava... Até que, com um firme movimento de cabeça, ela jogou-os para trás das costas. Em sincronia com o evocativo ritmo dos tambores, ela ergueu os braços acima da cabeça. Braços esguios e graciosos... Mãos delgadas e expressivas. Sem dúvida, Scout admirava a beleza e habilidade daquela mulher... Mas estava


absolutamente fascinado pela capacidade de sedução que ela possuía. Seus olhos desceram até o ventre que descrevia movimentos circulares, enlouquecedores. A saia de palha girava e se erguia em torno dos quadris, permitindo a visão do corpo firme e macio. Tal qual o vulcão, ele sentiu-se à beira da erupção, acentuado ainda mais pela entorpecente bebida nativa. O sangue fervia em suas veias, concentrando-se na região dos quadris, até que ele gemeu, deliciado, esticando as pernas, relaxando a pressão. Com as pontas dos dedos voltadas para o céu, a cabeça inclinada para trás e as costas arqueadas, Chantal girava loucamente. Os tambores atingiram uma intensidade ainda maior, num crescendo, e então ela se ajoelhou diante de Scout, a cabeça pendida sobre os joelhos. Em seguida ergueu-a e, jogando os cabelos para trás, como uma densa cortina de cetim, fitou-o com a força de uma mulher faminta e o orgulho de uma leoa. Sentando-se sobre os pés, Scout estendeu-lhe a mão, que ela apoiou levemente para se levantar. Em seguida ergueu-a nos braços e começou a subir a ladeira que conduzia à casa. O perfume das flores impregnava o ar. A luz da lua se infiltrava pela casa e estava tão forte que não foi necessário acender as lamparinas. Ele a carregou até o dormitório, guiado apenas por uma força poderosa, pois não tirava os olhos dela. Erguendo o mosquiteiro, ele a colocou gentilmente sobre a cama... E cobriu-a com seu corpo, enquanto a beijava. As línguas se buscavam na pressa de se consumirem com voracidade. Num dado momento, ele puxou a saia de palha, jogando-a no chão. Chantal usava, agora, apenas a parte inferior do biquíni e um colar de flores. Erguendo-se ligeiramente, ele contemplou os seios, firmes e macios, depois desceu os olhos até a pele lisa e suave do abdômen. Insinuando os dedos por entre o minúsculo tecido do biquíni, tirou-o lentamente. Então pôde admirar o minúsculo triângulo, coberto por uma penugem escura, acenando com misteriosas promessas de prazer. Baixando a cabeça, ele afastou as flores do colar para um lado e beijou um seio por vez. Languidamente, umedeceu os mamilos com a ponta da língua, sentindo-os enrijecerem ao contato... E estremeceu de emoção ao ouvi-la murmurar seu nome. Deixando que a mão deslizasse por entre as coxas bem torneadas, sentiu a feminilidade úmida em resposta ás suas carícias. Num movimento ágil, ele sentou-se à beira da cama e começou a desabotoar a camisa. Liberta da rede de sensualidade na qual caíra, presa de tanto carinho, Chantal aproximou-se dele, afastando as mãos para o lado.


— Deixe-me fazer isso. — Não sei se posso esperar... E ela assumiu a tarefa de desabotoar a camisa, do modo mais lento possível. Quando por fim abriu-a por completo, mergulhou nos músculos do peito de Scout, delineando com a língua cada um deles... até tocar novamente a penugem de cetim que dividia o tronco forte. Inclinando-se, começou a beijá-lo ali, também... Tomado pelo êxtase, Scout fechou os olhos. Seus lábios se apertaram, de puro prazer. Quando ela começou a beijá-lo mais abaixo ele abriu os olhos e fitou-a. disse:

Tocando-lhe o queixo com um dedo, ele a fez erguer a cabeça e então — Não estou exigindo nada... Você não tem que fazer nada.

— Eu sei... É por isso que quero fazer. — E esquecendo-se da vergonha envolveu o membro com as mãos. — Chantal... — ele gemeu. Ela o amava, usando a boca... Totalmente. Languidamente. Com prazer. E Scout entregou-se a um torpor que o consumia lentamente... Maravilhosamente. — Você tem certeza? As mãos delicadas acariciaram-lhe os quadris, puxando-o para mais perto. — Sim. — Ah, isso é maravilhoso. Chantal fechou os olhos, desfrutando a sensação que crescia em seu interior. As flores de seu colar, esmagadas entre os corpos de ambos, impregnavam a atmosfera sensual com um perfume diferente. O contato do peito de Scout contra seus seios era excitante por demais. Era maravilhoso deixar que as mãos corressem pelos músculos firmes das costas daquele homem. — Eu... não posso... não posso me conter mais — sussurrou. E alucinado, ele saltou do mundo e mergulhou fundo na intimidade mais preciosa que se abria em convite, louca para ser preenchida por toda a masculinidade intumescida, invadindo-a com estocadas firmes. E ela respondeu ao ritmo, imposto por ele, tomando-o ainda mais alucinante. Ele murmurou palavras roucas, eróticas, em seu ouvido... e ouviu respostas sussurradas em uma mescla de francês e inglês.


Todas as sensações que Chantal havia experimentado ou imaginado convergiam, agora, para o centro do seu ser... Até que explodiram, espalhando mais luz e calor ao redor do que parecia uma estrela que acabasse de nascer... Melhor que isso, só mesmo a explosão de vida que agora brotava do corpo de Scout, diretamente para dentro do seu, completando-a. — Seus pais não apoiavam seus sonhos? — Com o rosto apoiado no peito de Scout, Chantal acariciava lentamente seus mamilos, feliz por tê-lo a seu lado. — Sim, claro. Mas meus pais não podiam me oferecer nenhum tipo de suporte financeiro. Tanto que, enquanto estudava, trabalhei em vários empregos. — Esse esforço deve ter valido a pena. Obviamente, você se saiu muito bem. — Ganhei experiência, trabalhando em várias firmas, antes de abrir a minha própria. Comecei com um escritório pequeno e modesto. Por isso, o trabalho no resort foi um grande impulso, em minha carreira. Até chegar aqui eu imaginava que o mundo girasse em torno do relógio. Era obcecado por horários, prazos e projetos. — Scout tomou-lhe a mão e, pressionou os lábios contra a palma, depositou ali um beijo. — Você me ensinou que as coisas têm seu jeito próprio de acontecer... E que acontecem na hora certa. Eu nem sinto falta do meu relógio! Ela podia senti-lo sorrir, embora não o estivesse vendo. — Como fui criada nessa cultura, sempre me choquei com o ritmo acelerado dos Estados Unidos. Eu sei, claro, que o ritmo que temos aqui não pode se aplicar a todos os lugares. Mas deve haver uma média que seja satisfatória, não? — ela comentou, com ar melancólico. — Admito que sinto um certo desprezo pela assim chamada civilização, quando a comparo à vida simples aqui da ilha. Mas aprendi, nessa semana mesmo, que nenhuma cultura é perfeita. — Como assim? — Estou falando do problema com André... Depois disso, concluí que todas as sociedades podem ser passíveis de corrupção e engodos. — Porque as sociedades são formadas por seres humanos... E seres humanos são passíveis de falhas. Você, por exemplo, tem uma inclinação para a mentira. — Oh! — Chantal ergueu-se, fingindo-se indignada. Rindo, ele a abraçou com força. Mas quando soltou-a, o riso se desvanecera. — Eu gostaria de saber o que você pensa sobre nós, princesa. — Não. — Chantal tocou-lhe os lábios com a ponta dos dedos. Não queria que nada estragasse aquele momento... Nada, nem mesmo a consciência de ambos.


Margot não hesitara em sacrificar-se, para demonstrar seu amor por André. Mas ela sabia que Scout jamais lhe pertenceria. Havia outra mulher que ela jamais conheceria, e uma sociedade onde jamais seria aceita. Não, não podia viver daquele jeito... Mas, temporariamente, poderia desfrutar daquele amor incrível. Enquanto ele estivesse disposto a isso, ela o aceitaria... Embora tivesse de pagar um duro preço, mais tarde. — Não diga nada. Não quero justificativas nem explicações... Por favor! Um suspiro de resignação brotou do peito de Scout. — Está bem, mas não me impeça de dizer que, sem nenhuma sombra de dúvida, jamais conheci uma mulher tão linda e maravilhosa quanto você. Seu rosto, seu corpo... — ele murmurou, enquanto a percorria com a ponta dos dedos até onde podia alcançar. — Você é perfeita e inigualável. Mas tem algo que vai bem além da beleza. Você é exótica e rara e misteriosa e caprichosa e indescritivelmente sexy. E todos esses adjetivos ainda não são suficientes para traçar um quadro exato de Chantal Louise duPont. Hoje, enquanto você estava envolvida com os últimos preparativos para a celebração, li alguns de seus manuscritos... Aqueles nos quais você está trabalhando, para completar o livro de seu pai. Você é brilhante, sabia? Beleza, inteligência, sensibilidade, um senso de individualidade bem desenvolvido e uma preocupação sincera com o bem-estar das outras pessoas. Em resumo, você é o que toda mulher gostaria de ser. Depois de beijá-lo longamente, ela concluiu; — Você falou de um jeito... Não sei se sou tão ideal assim. — Estou apenas sendo justo. — Devo então confessar que quando André me apontou você, no baile de gala do resort, senti meu coração disparar. Fiquei contente por saber que era você quem eu teria de seduzir. — Com as pontas dos dedos, ela desenhou o contorno daquele queixo angular. — Você é inflexível... E costuma perder a paciência consigo mesmo, facilmente. Mas admiro sua força de vontade. E também é criterioso e nunca se recusa a enfrentar um problema ou uma responsabilidade. Acima de tudo, é sensível e costuma respeitar o sentimento das outras pessoas. — Os dedos ágeis de Chantal desciam agora pelo tórax, em direção à cintura. — Gosto de seu peito cabeludo... É muito sexy. — Gosto de ser admirado — ele murmurou, lisonjeado. Cruzando as mãos por trás da cabeça, pediu: — Continue... As mãos delicadas então brincaram no abdômen e nas coxas de Scout. Delicadamente, ela tocou a cicatriz: — Quando a pistola me escapou das mãos... Quando vi todo aquele sangue, mal pude acreditar. Juro que não tive a menor intenção de atirar em você.


— Eu sei... — Quando você recuperou a consciência, ficou tão furioso ao saber o que havia acontecido... — Fiquei, sim... — O desejo voltava a instigar os dois. — Porém, a atração que eu sentia por você me doía mais do que o tiro. Era como se eu tivesse nascido apenas para desejá-la. — Ele puxou-a para si. Depois de beijá-la muitas vezes, explorando cada recanto do corpo, murmurou de encontro a seus lábios: — Quero tocar você. — Assim? — Tomando-lhe a mão, ela levou-a até os seios. Ele os envolveu com ambas as mãos... Depois, inclinando-se, brincou com a língua ao redor dos mamilos, até que começou a sugá-los com voracidade. Em poucos segundos, ele a penetrava com paixão. Chantal movia-se sobre ele, ao compasso das mais puras emoções. Com a ponta dos dedos, Scout acariciava, o ventre, o triângulo do sexo, coberto por uma penugem macia. Insinuando os dedos, ele acariciou-a intimamente enquanto a fitava... O rosto de Chantal contorcia-se de prazer. A respiração tornava-se difícil. Milhares de sensações a invadiam... Sensações que lembravam ondas de calor, ondas quebrando contra as pedras, cobrindo-as com o véu branco. E ela submergiu nelas, sem restrições. Quando ambos atingiram o clímax, ela sentiu que sua alma gritava "Eu te amo"... Embora não tivesse certeza de que essas palavras haviam chegado, realmente, a seus lábios. Depois, deixou-se cair sobre o lençol, exausta e satisfeita. — Você disse que a alma do vulcão habitava seu pai — ele murmurou. — Mas acho que ela vive também dentro de você. Posso senti-la pulsando agora, a meu redor, como um enorme coração que tem a incrível capacidade de retumbar mais alto do que todos os tambores. Chegou o dia da partida. Chantal não estava surpresa. Afinal, sempre soubera que aquele momento viria. Fingiu estar dormindo, enquanto Scout desvencilhava-se delicadamente, separando braços e pernas, retirando os dedos infiltrados em seus cabelos... E, finalmente, deixando a cama. Em silêncio, ele recolheu suas roupas e esgueirouse para fora do quarto. Com os olhos fechados, ela permaneceu imóvel, ouvindo os sons dos cadeados da mala. Os passos firmes ecoaram no hall.


Embora continuasse imóvel, ela sabia que naquele momento a silhueta máscula se recostava contra a porta do quarto e que sua sombra se desenhava no piso de madeira... E sentiu, também, o momento em que ele mentalmente disse "adeus" à sua garota nativa... Pois um vasto vazio a invadiu... Um vazio que nunca mais poderia ser preenchido. Em silêncio, Scout saiu da casa, sem ver as lágrimas que escorriam pelo rosto de Chantal para cair no travesseiro que ambos haviam compartilhado. Fazia frio em Boston. Scout quase havia se esquecido daquele clima frio e úmido, que parecia enregelar a medula. O aquecimento, no interior do carro de Jennifer, estava ligado ao máximo... Assim como suas cordas vocais, ele pensou. Pois ela não havia parado de falar, desde o momento em que o apanhara, no aeroporto. — Eu realmente deveria estar furiosa com você. — Com extrema habilidade, ela desviou de um táxi que vinha em sentido contrário, na pista. — Quando recebi sua ligação, da Califórnia, quase bati o telefone na sua cara, depois de ouvir suas explicações sobre onde você tinha estado. Ela o havia esperado junto ao meio-fio, na saída do aeroporto. Havia acenado alegremente, ao vê-lo passar pelo portão, carregando apenas uma mala e tremendo de frio, pois suas roupas não eram apropriadas ao clima de Boston. — Desculpe se não o esperei no portão de desembarque, mas para isso eu teria de pagar o estacionamento e caminhar por todo o saguão do aeroporto e... Bem, acho que não era necessário — ela resumira, inclinando-se e oferecendo os lábios, que Scout havia beijado de maneira superficial. Agora, ela comentava: — Não acredito que você foi alvejado por uma nativa! Minha nossa, Scout, deve ter sido terrível! Você terá que me contar essa história, em detalhes. Mas, primeiro, quero colocá-lo a par de tudo o que aconteceu durante sua ausência. disse:

E uma interminável ladainha começou a ser desfiada... A certa altura, ela

— Antes que eu me esqueça, o sr. Reynolds me telefonou ontem. Contei que você estava a caminho de casa e então ele nos convidou para jantar, amanhã à noite, em sua casa. Eu aceitei. — A voz dela mudou para um tom confidencial. — Acho que ele quer fazer uma oferta irrecusável... Isso não é maravilhoso? Será que Jennifer sempre fora tão tagarela assim?


Cerimônia. Casamento. Scout olhou para a mulher que, por ele, estava enfrentando o intenso tráfego de Boston... E se perguntou por que, afinal, a havia pedido em casamento. Ela era bonita, educada, culta, mas... Depois de se dedicar quase que exclusivamente à construção de sua carreira, e diante da perspectiva de completar quarenta anos, ele havia resolvido pensar em sua vida pessoal... Queria formar uma família. Queria ter filhos. Havia sido naquela época em que a conhecera, que tinha tudo para ser uma boa esposa: era brilhante, bem relacionada e apresentável. — Papai acha que deve ser no Havaí, mas mamãe acha que lá está muito batido... blá... blá... blá... Chovia forte. Scout já não mais ouvia a noiva falar, estava mais interessado em observar as gotas de água que batiam no pára-brisas e escorriam apressadas. A brisa recendendo a flores, o som das ondas do mar, o canto dos pássaros da floresta... Parecia tudo tão longe, a anos-luz de distância. E já estava morto de saudade... E fazia apenas três dias que partira da ilha... Ou seriam quatro? — Decididamente, você parece exausto, querido — comentou Jennifer, ao vê-lo esfregar as têmporas. — Vou levá-lo para minha casa, hoje, pois com certeza será preciso arejar e limpar seu apartamento, antes que você vá para lá e blá... blá... blá... Quando estacionaram, ele a encarou sério. — Jennifer. Ela o fitou, surpresa: — Nossa, esta é a primeira vez que você fala, desde que entrou neste carro. Já se deu conta disso? Bem, mas não se preocupe. — Num gesto de consolo, ela o apertou levemente no braço. — Depois dessa longa viagem, é natural que se sinta exausto. Portanto, tem todo o direito de ficar mal-humorado. Ela era uma mulher adorável; daria uma perfeita esposa para um homem que tivesse vontade de vencer, Scout pensou. Chegara a pensar que Jennifer era tudo o que ele próprio desejava. Eficiente. Organizada. Animada... Talvez fosse esse o problema: Jennifer era animada demais. — Jennifer, vou ligar para Corey, cancelando o jantar de amanhã. Os lábios de Jennifer se entreabriram, numa expressão de espanto, mas Scout continuou, antes que ela o interrompesse:


— Tenho de discutir negócios com ele, mas prefiro que nossa relação se mantenha num campo estritamente profissional. — Não entendo por que, mas se você prefere assim, tudo bem. — Havia um toque de petulância naquelas palavras, que detestava ver seus planos modificados, depois de tê-los armado cuidadosamente. — E você cancelará o casamento. Scout não pretendia romper tão rápido... Havia planejado fazê-lo de um modo mais brando. Mas também não via motivos para adiar o inevitável. Isso não seria justo com Jennifer. E ele não podia continuar com aquela tensão, por mais um segundo que fosse. A rapidez com que a tensão diminuiu, em seu peito, foi espantosa. Depois daquelas primeiras palavras, foi fácil dizer o resto... — Sei que minha atitude pode parecer terrível. Chame-me de cretino insensível, se quiser, e você estará certa... Mas eu seria ainda pior do que isso, se levasse adiante o nosso casamento. Veja só... — Ele fez uma pausa para suspirar. — Eu não amo você. Na verdade, amo outra pessoa. Scout levara um mês, um longo e doloroso mês, para responder às centenas de mensagens gravadas em sua secretária eletrônica, bem como para responder os e-mails que se acumulavam em sua caixa postal, pagar contas e fazer alguns contatos profissionais. Corey ficara desapontado ao saber de seu rompimento com a noiva encantadora, mas ofereceu três contratos bastante lucrativos, que o manteriam em franca atividade durante os próximos dois anos. Antes de assinar os contratos, ele fizera questão de avisá-lo de que tinha alguns assuntos pessoais e urgentes, para resolver. E que só depois começaria a trabalhar. Em seguida, tomara o primeiro avião para Honolulu. Finalmente, ao chegar à ilha Parrish, alugara um jipe e tomara a direção do vilarejo. Mas tivera dificuldades para encontrar o caminho certo. As estradas, estreitas, serpenteavam entre as montanhas e muitas vezes terminavam em precipícios que davam para o mar. Num dado momento, ele havia chegado a pensar que tudo não passara de um sonho. O vilarejo, assim como aquela mulher deslumbrante, tinham sido parte de um devaneio... Nada mais. Mas então avistara o vulcão, à sua direita. E, finalmente, chegara ao despenhadeiro. A visão das cabanas cobertas de palha confirmava que tudo fora real e não uma projeção de sua imaginação.


Os primeiros habitantes do vilarejo que o viram correram a avisar os outros. Porém, ela não estava entre eles, mas sabia que a encontraria dentro de apenas alguns instantes. Transpondo com agilidade os degraus que ele mesmo instalara, havia tão pouco tempo, Scout atravessou a ponte correndo. Depois subiu os degraus do outro lado e finalmente chegou diante dos moradores, que o aguardavam. Johnny aproximou-se correndo e abraçou suas pernas com força, numa comovente demonstração de afeto. André caminhou ao seu encontro, tendo a seu lado uma sorridente Margot. Depois de cumprimentar todos, ele percorreu o grupo com um olhar ansioso... Mas não viu quem mais desejava. Perguntou por Chantal... E a resposta que André deu soou como um toque fúnebre em sua mente. — Ela foi embora para a América. — América? — Scout repetiu, ofegante. — Quando? — Há algumas semanas. André não soube responder. Abrindo caminho entre a multidão, Scout correu até a casa, no alto da ladeira. — Chantal! — chamou, transpondo a varanda e abrindo a porta. Mas foi recebido apenas pelo silêncio ensurdecedor. A mobília da casa permanecia no lugar, mas os objetos pessoais tinham sido removidos. Não havia mais livros. Não havia mais fotos. Ele correu pela casa como um homem enlouquecido, abrindo portas e gavetas... Mas, ao que tudo indicava, ela de fato havia partido. *** — Srta. duPont — disse Scout, contendo a impaciência. — Ela está aqui, na faculdade, ou não? Depois de retornar aos Estados Unidos, ele começara a procurar por Chantal na Universidade da Califórnia, onde ela havia se formado e mantinha uma sala. A secretária do departamento pessoal da faculdade de Geologia lançou um olhar condescendente e passou o endereço. Tomando seu carro alugado, Scout dirigiu velozmente até o local, e correu em direção à porta do edifício. Tomou o elevador até o terceiro andar e seguiu a passos largos pelo corredor, os olhos atentos aos números das portas. Quando alcançou a porta do escritório de Chantal, entrou sem bater.


Ela estava em pé, junto a uma ampla janela, de costas para ele. Era curioso vê-la usando um tailleur, pensou ele, observando os longos cabelos negros, presos num coque frouxo, sobre a nuca. — Chantal! Ela voltou-se... E Scout descobriu que estava olhando para uma perfeita estranha. A visão espetacular do crepúsculo no Pacífico, que Chantal até então estava desfrutando, foi bloqueada por um par de pernas com pés descalços e calças com a barra arregaçada até as canelas. Posicionando melhor a cabeça, ela protegeu os olhos contra o sol, que estava prestes a ser tragado pelo horizonte. — Scout! — O nome que jamais conseguira esquecer chegou aos seus lábios num sussurro. — O que está fazendo aqui? — Ora, procurando por você, é claro. Por que você foi embora? — Da ilha? — Um tanto confusa, ela meneou a cabeça. — Eu planejava mesmo partir, depois que meu pai morresse. Havia apenas duas coisas que eu deveria fazer, antes: concluir o livro que ele estava escrevendo e... — Construir a ponte. — Então... Quando tudo terminou, eu já não tinha nada que me prendesse à ilha. — Pensei que lá fosse o seu lar. Chantal contemplou as ondas, com uma expressão pensativa. — Meu pai via a ilha de um modo bem diferente do meu. Ele tinha minha mãe e eu. Sua vida estava completa. Mas, de minha parte, eu não tenho mais família, e sim um trabalho importante, à minha espera... Aqui. — Seus olhos fixaram os de Scout. — Você tem noção de tudo o que passei, para encontrá-la? Voei para a ilha Parrish, dirigi durante muitos quilômetros por dentro da selva, suportando o calor, os insetos, tudo... Para então descobrir que você tinha partido. Com um suspiro, ele continuou: — Hoje segui direto do aeroporto para a universidade. Virei aquele lugar de pernas para o ar. Consegui descobrir o endereço de seu escritório e quase matei sua assistente de susto, pois julguei que fosse você. Afinal, ela tem a mesma estatura, os mesmos cabelos... Oh, não importa. Então eu a fiz ligar para sua casa pelo menos uma centena de vezes... Ninguém atendeu e, assim, imaginei que você estivesse aqui fora. — Venho sentar aqui todas as tardes, para assistir ao pôr-do-sol.


Scout observou a casa pequena, clara, limpa, no alto de um barranco, com vista para o mar. — Este lugar é bonito... Faz-me lembrar da ilha. — Foi por isso que comprei esta propriedade. Bem, continue com sua história, Scout. — Eu atormentei sua assistente até que, uma hora e meia depois de muita conversa e muita insistência, ela finalmente cedeu. — Você enfrentou todos esses problemas só para me encontrar? Por quê? — Por que você dormiu comigo? — ele retrucou. Devido ao estado de agitação em que ele se encontrava, Chantal achou que seria prudente responder de maneira franca e direta: — Porque te amo. Ele fitou-a com uma expressão de incredulidade. Isso a tocou mais do que tudo. Tomando a mão delicada, ela pressionou-a, enquanto dizia: — Pois eu já sabia que amava você, na noite em que passamos juntos depois da erupção do Voix de Tonnerre. Um longo momento se passou, antes que ele dissesse: — Então, por que você não me contou? — Porque eu sabia que você ia partir, de qualquer jeito. — E você não queria me deixar constrangido. — Isso mesmo. — Eu tive de partir. — Ele reverteu a posição das mãos, de modo que agora era ele quem pressionava a de Chantal. — Tentei explicar isso, na véspera, mas você não deixou, lembra-se? Você pensou que eu a considerasse como uma garota da ilha, um objeto com o qual eu poderia me divertir, antes de voltar para casa. E, mesmo acreditando nisso, ainda fez amor comigo... Incapaz de falar, ela acenou em concordância. — Imagino o quanto isso tenha custado — ele comentou, com um suspiro. — Escute, Jennifer faz parte do passado. Eu rompi nosso relacionamento. — Não posso acreditar... E o que ela disse? — Muitas coisas. Mas o que realmente importa não foi o que Jennifer disse e sim o que deixou de dizer... Ela rezou uma verdadeira ladainha a respeito da inconveniência e do embaraço que nosso rompimento causaria. Mas nem por uma vez declarou que me amava profundamente... Não me sinto orgulhoso por ter


rompido com ela na última hora. Mas nosso casamento seria, de fato, um erro. Em poucos anos, se tanto, acabaríamos pedindo o divórcio. Menos mau que descobri a tempo. Se ela fosse a mulher da minha vida, eu não teria seguido você para fora daquele salão de baile. Mas ela ainda não estava convencida: — Jennifer parecia tão sob medida para você. — De fato, ela era... Mas eu não a amei. Eu amei você, Chantal... Na hora errada. No lugar errado. Com tudo errado! Mas é você a mulher a quem tanto amo. — Erguendo o rosto bonito, ele beijou-a nas faces. — Você me ama? — Você ainda duvida? O coração de Chantal pulsava de amor e alegria. Contudo, ela ainda não sabia quais seriam os planos dele para o futuro. Por mais que o amasse, não poderia ser sua amante, um passatempo exótico, uma novidade... — O que vai acontecer, agora? — Você vai se casar comigo, princesa. E nós vamos ter filhos... Existe coisa mais linda do que crianças de olhos puxados... O sorriso radiante de Chantal durou apenas alguns segundos, antes de começar a se desvanecer: — Mas e quanto a seu trabalho? E quanto ao meu? Onde iremos morar? — Nós daremos um jeito — ele prometeu, num tom suave. — Se nos amamos de verdade, conseguiremos administrar nossas vidas e nossas carreiras. Os olhos de Chantal brilhavam, agora inundados de lágrimas. Depois de várias semanas imaginando que jamais voltaria a revê-lo, mal conseguia acreditar que o homem dos seus sonhos estava ajoelhado à sua frente, professando um amor tão intenso quanto o que ela sentia. Ela acariciou os cabelos fartos, as sobrancelhas espessas, os ombros... Como que para assegurar-se de que aquele momento era real, de que não estava vivendo uma fantasia. — Gostaria de voltar à ilha, periodicamente. — Uma vez por ano — ele afirmou, como se tivesse pensado exatamente o mesmo. — Ficaremos por lá durante um mês. Serão nossas férias anuais. Nossos filhos brincarão nus na praia, aprenderão uma cultura diferente, observarão o vulcão, ouvirão histórias sobre o avô francês e a avó polinésia. Além do mais, eu prometi a Johnny que iria visitá-lo. — Scout... — ela murmurou, segurando-lhe o rosto. — Será que vai dar certo?


— Você me ama? — Com todo o meu ser. — Então, vai dar certo. — E o beijo que se seguiu transmitia ainda mais confiança do que as palavras. Em seguida, ele abriu a blusa de Chantal... E surpreendeu-se ao vê-la usando um sutiã. — É a civilização... — ela disse, docemente. — Ao inferno com isso. Quando os seios fartos ficaram totalmente expostos ao céu... e a seus lábios, Scout a fez deitar-se na areia. Momentos depois, ele se deitava ao lado dela, nu, atraindo-a para si. — Eu amo você inteira... Mas acho que você é mais bonita assim, como está agora, natural e desinibida. Inspirado pelo momento e pelo desejo, ele a despiu do short, ajoelhou-se entre suas pernas e beijou-a suavemente no umbigo, delineando-o com a ponta da língua, e, antes de chegar ao centro da feminilidade, sorriu e ergueu o rosto ligeiramente para fitá-la. — Durante todo o tempo que passei no paraíso a seu lado, nunca fizemos amor na praia. — Nem eu — respondeu ela em um doce sussurro.

Sandra brown o fogo do desejo (sabrina 1552)  
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