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Capítulo um 10 DE OUTUBRO DE 1990 — Cat, acorda! Temos um coração! Cat Delaney saiu pouco a pouco do torpor produzido pela medicação e recuperou o conhecimento. Ao abrir os olhos tentou centrar o olhar em Dean. A imagem tinha o contorno borrado, mas o sorriso era claro, amplo e radiante. —Temos um coração para ti — repetiu. — Para valer? —perguntou ela com voz áspera, debilitada. Tinha ingressado no hospital com a convicção de que sairia com um coração transplantado ou em um carro fúnebre. —A equipe de recuperação de órgãos está em caminho. O doutor Dean Spicer apartou-se de seu lado para falar com o pessoal do hospital que tinha entrado com ele na UTI. Ela ouvia sua voz, mas suas palavras pareciam sem sentido. Estava sonhando? Não: Dean tinha afirmado com toda clareza que estava a caminho o coração de um doador. Um coração novo para ela! Uma vida! De repente experimentou dentro de sim um surto de energia que não havia sentido á meses. Sentouse na cama e encheu de queixas às enfermeiras e auxiliares sanitários que a rodeavam com agulhas e cateteres para furá-la e sonda-la. A violação médica de tecidos e orifícios tinha-se convertido em uma prática diária que já nem sequer notava. Durante os vários meses foi extraido fluídos corporais que dava pára preencher uma piscina olímpica. Tinha perdido muito peso e pouca carne ficava em seu pequeno esqueleto. —Dean? Aonde você foi? —Estou aqui. O cardiologista abriu passo até a cabeceira da cama e tomou-lhe a mão. —Disse que teríamos um coração a tempo, verdade? —Não seja presunçoso. Todos os médicos são iguais. Imbecis e convencidos. —Protesto. O doutor Jeffries, o cirurgião cardíaco encarregado de fazer o transplante, entrou na habitação como se estivesse dando um passeio vespertino. Dava água na boca. Encaixava perfeitamente dentro do


estereotipo que Cat tinha mencionado. Ela reconhecia seu talento, confiava em seu profissionalismo, mas como pessoa era deplorável. —Que faz você aqui? —perguntou—. Não deveria estar na sala de cirurgia esterilizando os instrumentos? —É uma indireta? —Supõe-se que o gênio é você. Averiguarei. —Tão antipática como sempre. Quem acha que é? Uma estrela de TV? —Exato. Determinado, o cirurgião dirigiu-se à enfermeira chefe da UTI e perguntoulhe: —Tem febre a paciente? —Não. —Resfriado? Algum vírus? Alguma infecção? —Qual o motivo tudo isto? —perguntou Cat, incomodada—. Você quer dar para trás? Quer a noite livre, doutor? Tem outros planos? —Só estou me assegurando de que está você bem. —Estou bem. Apanhe esse coração, troque e faça em troca. A anestesia é opcional. O homem deu a volta e saiu caminhando devagar. —Presuntuoso — murmurou ela. —É melhor que não o insulte — disse Dean com uma risadinha—. Vai sernos muito útil esta noite. —Quanto terei que esperar? —Um pouco. Cat tentou que concentrar-se mais, mas não conseguiu. Recomendaram que descansasse, mas, carregada de adrenalina, permaneceu acordada observando o relougio enquanto as horas passavam lentamente. Estava mais esperançosa que nervosa. As notícias do iminente transplante estenderam-se pelo hospital. Transplantes de órgãos eram já bastante freqüentes, mas seguiam inspirando respeito. E mais ainda os de coração. Durante a noite passaram por sua habitação muitas pessoas para desejar-lhe boa sorte. A banharam em iodo, um líquido pegajoso, repugnante, que lhe deixou a pele manchada de uma desagradável cor amarelada. Engoliu-se a primeira dose de ciclosporina, o medicamento vital para


evitar a rejeição. Tinham misturado o líquido com leite e chocolate, uma intenção inútil de disfarçar o sabor de azeite de oliva. Ainda estava comentando quando irrompeu Dean com a notícia que esperava ouvir. —Já vêm com teu coração novo, preparada? —Que te parece? Inclinou-se e a beijou na frente. —Vou sair para me lavar e pôr as luvas. Não me separarei de Jeffries. Estarei a teu lado. Ela o agarrou pela manga. —Quando acordar, eu quero saber em seguida se tenho um coração novo. — Com certeza. Tinha ouvido falar de outros pacientes de transplante a quem disseram que tinham conseguido um coração adequado para eles. Um homem que ela conhecia inclusive estava já preparado e anestesiado. Quando chegou o coração, o doutor Jeffries o examinou e se negou ao transplante dizendo que não era o bastante são. O paciente ainda não tinha recuperado do desgosto pelo atraso em saber, e que estava piorando o estado crítico de seu coração. Agora, com uma força surpreendente, Cat segurou a manga da jaqueta Armani de Dean. —Quando sair da anestesia, eu quero saber se tenho outro coração. De acordo? O doutor tampou a mão dela com a sua e assentiu. —Tens minha palavra de honra. —Doutor Spicer, faz favor — solicitou uma enfermeira. —Te verei na sala de cirurgia, querida. Quando ele saiu, tudo aconteceu com uma rapidez surpreendente. Cat agarrou-se às braços da maca enquanto empurravam-na pelos corredores. Ao entrar pela porta de dupla não esperava a luz forte da sala de cirurgia, onde o pessoal com máscaras se movia com rapidez e segurança, engajados em seu trabalho. Para além dos focos suspensos sobre a mesa de operações, Cat viu caras que olhavam desde o alto através do vidro que rodeava a galeria de observação. —Vejo que tenho uma multidão. Têm entradas e programas impressos? Quem são? Bom, que alguém tenha algo a declarar. Eh, garotos! Que fazeis aí?


Uma das pessoas com luvas e máscaras resmungou: -Onde está o doutor Ashford? —Aqui — disse o anestesista ao entrar. —Graças a Deus que chegou. Ponha-a fora de combate, para que possamos trabalhar. —É uma falante, um pé no saco. Cat não se ofendeu, já sabia que não era essa a intenção. Os olhos que assomavam acima das máscaras sorriam. O ambiente na sala de cirurgia era de otimismo; melhor assim. —Se dedicam a insultar aos pacientes, não de se estranhar que levem máscaras para ocultar suas identidade. Covardes. O anestesista ocupou seu lugar a um lado da mesa. —Segundo parece, está você um pouco excitada e armando bronca, senhorita Delaney. —É minha grande cena. A interpretarei a minha maneira. —Pois vai estar sensacional. —Tem visto meu novo coração? —Não estou a cargo do material. Limito-me a jogar gasolina. Agora relaxe. Esfregou-lhe o dorso da mão com um algodão empapado em álcool. —Vai sentir uma pontada. —Estou muito acostumada com pontadas. Todos riram. Chegou o doutor Jeffries com Dean e o doutor Sholden, o cardiologista ao que Dean a tinha enviado quando renunciou a ser seu medico por motivos pessoais. —Tudo bem, vamos? — perguntou Jeffries. —Seu roteirista equivocou-se, doutor — contou Cat com desdém—. Isso teria que ser minha entrada. — Examinamos o coração — replicou sem alterar-se. Ela conteve o fôlego e depois o olhou com o cenho franzido. —Nós utilizamos essas pausas cheias de expectativas para criar suspense. É um truque barato. Fale do coração. —É precioso — contou Sholden — E como feito a sob medida. Pelo rabo do olho, Cat observou a um grupo de auxiliares de sala de cirurgia que manipulavam uma geladeira portátil. —Quando acordar ele baterá em teu peito — disse Dean. —Preparada? —perguntou o doutor Jeffries. Estava-o? Como era lógico, tinha tido alguns receios quando se insinuou a idéia de um transplante. Mas


achava que já estavam dissipados. Entrou em um lento processo de debilitação pouco depois de que Dean lhe diagnosticara seu problema cardíaco. A medicação era um remédio em curto prazo para sua enorme fadiga e falta de energias, mas anunciou que, à longo prazo, não tinha solução para seu estado. Inclusive ao ouvir isto se tinha negado a aceitar a gravidade de sua doença. Só quando começou a se sentir mal para valer, quando tomar uma ducha se converteu em uma tortura e comer um prato era agonizante, teve que aceitar que seu coração estava em fase terminal. —Preciso um transplante de coração. Ao comunicar aos executivos da emissora de TV, estes se mostraram surpreendidos. Seus colegas de partilha e os técnicos da telenovela Passages, com quem trabalhava a diariamente, nunca tinham visto sua reveladora palidez embaixo da maquiagem. Eles, junto aos redatores da emissora, se tinham negado ao crer. Ninguém podia aceitar que Cat Delaney, ganhadora de três prêmios Emmy, sua estrela, cujo papel de Laura Madison era fundamental para o desenvolvimento da série Passages, estivesse tão doente. Com seu apoio incondicional, e utilizando sua habilidade como atriz e a sua exuberante personalidade, tinha continuado trabalhando. Mas chegou o momento em que, apesar de sua força de vontade, já não pôde cumprir as exigências do plano de filmagem e teve que pedir a afastamento do programa. Conforme sua saúde ia se deteriorando, perdeu tanto peso que suas legiões de admiradores não a teriam reconhecido. Tinha olheiras escuras porque não podia dormir, por estar sempre esgotada. Os dedos e os lábios eram agora de cor azul. Os jornais publicaram que padecia diversas doenças, desde rubéola a aids. Em outras circunstâncias, essa classe de exploração cruel dos meios de comunicação a teria enfurecido e preocupado, mas carecia da energia necessária para isso, de modo que não fez caso e se concentrou em sobreviver. Seu estado chegou a ser tão perigoso e sua depressão tão profunda que uma tarde disse a Dean:


—Estou tão farta de sentir-me débil e inútil que preferiria colocar fim ao filme. Dean rara vez aceitava seus comentários sobre a morte, nem sequer em tom humorístico, mas nesse dia percebeu a necessidade que tinha Cat de expressar seus medos em voz alta. —Que passa por tua cabeça? —Tenho conversas diárias com a morte — disse - pacto com ela. A cada dia, ao sair o sol, digo-lhe: «Dá-me em outro dia, faz favor, só um mais.» Qualquer coisa que faço, penso se será por última vez. É esta a última vez que vejo chover? Ou que como abacaxi? Que escuto uma canção dos Beatles? Olhou-o um momento. E concluiu: —Tenho feito as pazes com Deus, não me assusta morrer, mas não quisesse que fosse com dor e angústia. Quando chegue a hora, como será? Dean não mentiu para mitigar seus temores, senão que contou com franqueza: —Teu coração, simplesmente, deixará de bater, Cat. —Sem um toque de corneta nem um soar de tambor? —Sem nada. Não será traumático como um infarto. Nem terá o anúncio preliminar de um formigamento no braço. O coração, simplesmente... —Se parará. —Sim. Esta conversa teve lugar poucos dias atrás. Agora, por um capricho do destino, seu futuro tinha mudado e tinha uma possibilidade de seguir vivendo. Mas de repente passou pela sua cabeça que para lhe colocar um coração novo tinham que lhe tirar o velho. Era uma idéia era uma de dar medo. Ainda que guardasse rancor ao débil órgão que durante os últimos dois anos tinha assumido o controle de sua vida, lhe tinha também um inexplicável amor. Na verdade, estava angustiada por desprender desse coração doente, mas advertia que todos pareciam muito desejosos de lhe o tirar. Já era demasiado tarde para entreter-se com remorsos. Além do mais podia dizer-se que esta operação era singela comparada com outras a coração aberto. Corta-se, tirase, muda-se, costura.


Enquanto esperava um doador, a equipe de transplantes havia dito que perguntasse o que quisesse. Ela os tinha inundado de discussões intermináveis ao mesmo tempo em que recolhia informação por conta própria. Seu grupo de apoio, composto por outros pacientes doentes de coração que esperavam transplante, expôs e compartilhou seus temores durante as reuniões. Suas trocas de opiniões eram interessantes e convidavam à reflexão, já que o transplante de órgãos era um tema muito controvertido. Os pontos de vista variavam segundo a pessoa e tinham em conta sentimentos, crenças religiosas, questões éticas e complicações legais. Durante os meses de espera, Cat tinha feito uma lista de ambigüidades e estava satisfeita com sua decisão. Sabia muito bem os riscos que assumia e estava disposta a suportar o sofrimento que lhe esperava na sala de recuperação da UTI. Aceitava a possibilidade de uma rejeição. Mas a única alternativa ao transplante era a morte segura... e muito cedo. De modo que não lhe ficava outra opção. —Estou preparada — anunciou segura—. Oh, esperem, só uma coisa. Quando estiver sob os efeitos da anestesia e comecem a cantar os louvores de meu fibrilador, não criam nem uma palavra. Os risos ficaram amortecidos pelas máscaras. Segundos depois o líquido morno da anestesia começou a apoderar-se dela, incutindo uma serena lassitude. Olhou a Dean, sorriu e fechou os olhos, quem sabia se por última vez. E, justo ao perder o sentido, teve uma última idéia que resplandeceu um segundo somente, como o surto de uma estrela antes de desintregar-se. Quem era seu doador? Capítulo dois 10 DE OUTUBRO DE 1990 —Como pode ser o divórcio mais pecado que isto? —perguntou ele. Estavam estendidos na cama que ela compartilhava normalmente com seu marido, quem há essa hora fazia em troca de turno na área de embalagem de carne. Devido a uma fuga na instalação de


gás, o edifício de escritórios onde ambos trabalhavam tinha sido desalojado até o dia seguinte. Estavam aproveitando aquelas inesperadas horas livres. O dormitório, pequeno e desordenado, cheirava a neblina essencial do sexo. O suor estava secando em sua pele com a colaboração do ventilador de teto que dava voltas lentamente sobre suas cabeças. As lençóis estavam úmidas e arrugadas e as persianas jogadas impediam a passagem do sol da tarde. As velas de incenso ardiam no criado-mudo e piscavam ante o crucifixo que pendurava sobre o envelhecido papel floreado das paredes. O clima sonolento era enganoso. Tinham um limite, o tempo corria e não tinha que desperdiçar nem um só instante de prazer. Suas duas filhas não demorariam em voltar da escola e ela não suportava perder os momentos que ficavam em discussões repetitivas e dolorosas. Não era a primeira vez que ele implorava que se divorciasse de seu marido e se casasse com ele. Ela era católica e não podia propor o divórcio. —Sim, é verdade, sou culpada de adultério, mas meu pecado só afeta a nós dois. Somos os únicos que sabem fora o meu confessor. —Teu confessor sabe o nós? —Dei-me conta de que sempre me confessava do mesmo e já não vou. Sinto vergonha. Se levantou e sentou de costas na borda da cama, para não olhar seu amante. O espelho de canto dobrava a imagem que via. Mata-a de cabelo negro chegava-lhe até as costas, e esta se estreitava na cintura antes de se alargar nos esplêndidos quadris. E tinha duas covinhas na face. Ela não estava contente de seu corpo, pensava que sobravam quadris e coxa. Mas ele parecia gostar da exuberância de curvas e sua cor torrada. Inclusive sabia a morena, tinhalhe dito uma vez. Claro que os sussurros de travesseiro no calor da paixão não significam nada. No entanto, tinha-se sentido lisonjeada pelo elogio. Ele alongou a mão e acariciou as suas costas. —Não sente vergonha do que fazemos. Deixa-me magoado quando diz que se envergonha de nosso amor.


O assunto começou quatro meses atrás. Antes tinham passado outros em vários meses de angústia lutando com sua consciência. Não trabalhavam no mesmo andar, mas se viam nos elevadores do arranha-céus. Encontraram-se pela primeira vez na cafeteira do térreo quando, por acidente, ele a empurrou, fazendo com que ela derramasse o café. Tinham sorrido enquanto desculpavam-se. Muito cedo fizeram coincidir as horas do almoço e do café, E os encontros foram o primeiro, um costume e depois uma necessidade. Seu bem-estar dependia de que se vissem. Os fins de semana era uma tortura: eternidades que tinha que suportar até a segunda-feira, quando voltavam a se encontrar. Ambos começaram a trabalhar horas extras para dispor de uns poucos minutos a sozinhos antes de irem para casa. Uma noite, enquanto saíam juntos, começou a chover. Ele se ofereceu para acompanhá-la. Ela recusou com a cabeça. —Tomarei o ônibus como sempre. Mas obrigado de todas as formas. Olharam-se nos olhos com pena e ansiedade ao despedir-se. Segurando a bolsa contra o peito com uma mão e o guarda-chuva na outra, correu sob o temporal em direção à parada de ônibus da esquina. Ainda seguia ali, com sua capa de chuva, quando ele parou seu carro e abriu a janela. —Faz favor, sobe. —O ônibus não demorará em chegar. —Estás empapada. Sobe. —Só se está atrasando uns minutos. —Faz favor. Estava-lhe pedindo algo mais que a oportunidade da levar a casa, e ambos o sabiam. Incapaz de resistir à tentação subiu. quando ele abriu a porta do carro. Sem mais palavras, se dirigiram a um lugar solitário do parque municipal, não muito longe do centro da cidade. Assim que parou o motor, se beijaram com paixão. Ao primeiro roce de seus lábios, ela se esqueceu de seu marido, de suas filhas e de suas crenças religiosas. Estava dominada pelo desejo, longe das


normas de conduta pelas que se governava desde que foi capaz de discernir entre o bem e o mau. Com impaciência, abriram botões e abriram zíperes e colchetes até libertarse das úmidas roupas e ficar pele contra pele. Primeiro com suas mãos e depois com sua boca, ele lhe fez coisas que a estremeceram e a surpreenderam. Quando a penetrou, sua consciência já não contava para nada. Aquela paixão inicial não tinha apagado. Mais sim tinha acentuado durante as horas roubadas que passavam juntos. Agora, ela voltou à cabeça e o olhou acima do ombro esboçando um tímido sorriso. —Não estou tão envergonhada como para terminar nossas relações. Ainda que sei que é pecado, mas morreria só de pensar que já não faria amor contigo. Com um gemido de renovado desejo, atraiu-a para si. Ela deu a volta até ficar em cima dele, com as pernas abertas junto a seus quadris. Ele a penetrou e depois levantou a cabeça do travesseiro para beijar os mamilos e, depois, a boca. Esta postura era uma experiência ainda insólita, e muito estimulante, para ela. Fez seguir ao homem seu ritmo até que ambos atingiram um novo orgasmo simultâneo que os deixou rendidos e ofegantes. —Deixe-o — a instado —. Hoje. Agora. Não passes nem uma noite mais com ele. —Não posso. —Sim pode. Fico louco a idéia de que esteja com ele. Quero-te. —Eu também te quero — disse ela entre lágrimas—. Mas não posso deixar meu lar. Não posso abandonar as minhas filhas. —Agora teu lar está comigo. Não tens que deixar a tuas filhas. Traga-as. Eu serei seu pai. —Ele é seu pai e o querem. É meu marido e, ante Deus, pertenço-lhe e não posso lhe deixar. —Não o amas. —Não, não como amo a ti. Mas é um bom homem e ocupa-se de mim e das meninas. —Isso não é amor. Limita-se a cumprir com sua obrigação. -Para ele vem a ser o mesmo. A mulher apoiou a cabeça sobre seu ombro, desejando que ele entendesse.


-Crescemos na mesma comunidade. Ficamos noivos no colegial. Nossas vidas estão entrelaçadas, faz parte de mim e eu dele. Se o abandonasse, nunca entenderia o porque. O destruiria. -Mas destruirá a mim se não o fizer. —Não, tu és mais inteligente que ele, mais seguro de si mesmo e mais forte. Tu sobreviverás passe o que passe. Ele não. —Não te ama como eu. —Não me faz o amor como tu. Nunca lhe ocorreria... Baixou a cabeça. Para ela, a sexualidade era ainda um tema reservado, vetado à conversa franca. Nunca tinha tratado abertamente, nem em sua família quando era jovenzinha nem quando já estava casada. Era algo que se fazia na escuridão, um mal necessário permitido e perdoado por Deus a fim de perpetuar a espécie humana. —Não se dá conta de meus desejos — disse ruborizando. Você se surpreenderia saber que os tenho. Tu me estimulas a te acariciar como nunca faria com ele porque se ofenderia. Nossa sensualidade pareceria aberrante. Não o educaram para se entregar e ser terno na cama. -Machismo — disse ele com amargura—. Quer suportar isso durante o resto de tua vida? Ela o olhou com tristeza. —Quero-te mais que a nada; mas é meu marido, temos filhos e uma herança comum. —Podemos ter filhos. Ela lhe acariciou a bochecha com amor e pena. Às vezes era como um menino pouco razoável pedindo coisas inalcansáveis. —O casamento é um sacramento. Ante Deus, jurei dedicar-lhe minha vida até a morte; e só a morte nos separará. Tenho rompido meu juramento de fidelidade por ti. Não romperei os outros — se jogou a chorar. —Não chores. O último que quero é que sejas infeliz. —Abraça-me. Se encostou ao seu lado e ele lhe acariciou o cabelo. —Sei que comigo violas tuas crenças religiosas, mas isso é uma prova da intensidade de teu amor,


verdade? Teu sentido da moral não te permitiria te deitar comigo não me quisesses com toda a alma. —Quero-te com toda a alma. —Sei-o — secou-lhe as lágrimas—. Deixa de chorar, Judy, já o solucionaremos. E agora não te separes de mim durante o tempo que ficaremos juntos. Abraçaram-se, com uma pena por sua situação tão intensa como a felicidade por seu amor. Os corpos, nus e fundidos. Assim foram como os encontrou seu marido uns minutos mais tarde. Ela foi à primeira a vê-lo de pé na ombreira, tremendo de justa indignação. Incorporou-se inesperadamente tentando cobrir-se com o lençol. Tratou de pronunciar seu nome, mas tinha a boca seca pelo medo e a vergonha. Amaldiçoando e blasfemando, com profusão de palavras obscenas para os dois, seu marido chegou a grandes passadas até a cama, levantou um taco de beisebol sobre sua cabeça, descreveu um arco mortal e mirou o golpe. Mais tarde, inclusive os técnicos sanitários, acostumados a ver palcos de delitos truculentos, tiveram que fazer grandes esforços para não vomitar. Tinha um pequeno feixe de cérebros e sangue espalhado pelo papel floreado de por trás da cama. Sem intenção de ser desrespeitoso com o crucifixo salpicado de sangue que estava pendurado na parede, um dos homens murmurou: —Jesus. Seu colega ajoelhou-se. —Maldita seja, ainda tem pulso! O outro olhou, incrédulo, a massa que saia do crânio aberto. —Achas que tem alguma possibilidade? —Não, mas a levaremos. Pode ser doador de órgãos. Capítulo três 10 DE OUTUBRO DE 1990 —Aconteceu algo com as panquecas? Ele levantou a cabeça e a olhou sem compreender. —Que? —No livro te asseguram jogar panquecas ao ar que nunca falha. Devo de ter feito algo errado.


Estava brincando com o café da manhã durante cinco minutos sem provar bocado. Introduziu o garfo na massa macia e espessa e sorriu para desculpar-se. —Não é nada com a tua forma de cozinhar. Estava sendo amável. Amanda era uma cozinheira horrível. —E que tal o café? —Estupendo. Tomarei outra caneca. Ela olhou o relougio da cozinha. —Tens tempo? —O buscarei. Rara as vezes que se permitia o luxo de chegar tarde ao trabalho. Fora o que fosse o que estivesse preocupando a vários dias, tinha que ser muito importante, pensou ela. Com certa dificuldade, levantou-se e chegou à máquina situada sobre o mármore da cozinha. Apanhou a jarra, voltou à mesa e encheu a caneca dele. —Temos que falar. A conversa poderia ser umem troca agradável - disse acomodando na cadeira—. Esteve em outro mundo. —Eu sei. Me perdoa. Via a carranca franzida enquanto contemplava a caneca de café fumegante, que ela sabia que não lhe apetecia. Era só uma desculpa. —Assustas-me. Seja o que for que te preocupa, por que não me diz de uma vez? De que se trata? Outra mulher? Ele lhe dedicou um olhar retraído, indicando com clareza que como se não acontecia nem sequer devia sugerir. —Isso é — disse Amanda dando um soco sobre a mesa—. Está desgostoso comigo porque pareço à mamãe do Dumbo. Os tornozelos inchados pela retenção de líquido dão náuseas, verdade? Tem saudades das tetas pequenas e erguidas com as que tanto me chupava. Meu ventre plano é só uma lembrança e o barrigão te parece repugnante. A gravidez tirou-me todo o encanto, de modo que perdeu a cabeça por alguma mocinha com boas curvas e não te atreves a me dizer. Estou enganada? —Está louca. Rodeou a mesinha redonda e fez que ela se levantasse. Então acariciou o dilatado abdômen. —Adoro-te igual com ou sem barrigão.


E o beijou através da fina vestido. Alguns dos cabelos mais grossos do bigode atravessaram o tecido e fizeram cócegas. —Adoro ao bebê e adoro-te a ti. Não há outra mulher em minha vida e nunca a terá. —Bobagem. —Fatos. —Michelle Pfeiffer? Sorriu enquanto simulava pensá-lo. —Bom, isso é muito forte. Tudo bem se ficar sem as panquecas? —É que te importarias? Rindo, a fez sentar em seu colo e abraçou-a. —Cuidado — advertiu-lhe ela—. Eu esmagarei as tuas partes íntimas. —Correrei esse risco. Se beijaram com paixão e, quando a libertou, ela observou seu semblante preocupado. Apesar de ser cedo, tomou banho e se barbeou, estava abatido, como se tivesse tido um dia cansativo. —Se não é minha forma de cozinhar, nem outra mulher, e também não te desagrada meu aspecto, qual é o problema? —Não suporto que tenhas tido que deixar tua carreira em suspenso. Com a idéia de que tivesse podido ser algo bem mais sério, ela sentiu uma grande sensação de alívio. —Isso era isso que tem te consumindo? —É injusto. —Pára quem? —Para ti, certamente. Amanda olhou-o com suspeita: -Ou talvez planejasse se aposentar antecipadamente, converter-se em um vadio e viver a minha costa? —Não é má idéia — disse ele esboçando um sorriso—. É sério, penso só em ti. Como a biologia favorece ao homem... -Totalmente de acordo. —Tu tens que te sacrificar. -Quantas vezes eu te disse que estou fazendo exatamente o que quero fazer? Vou ter um filho, nosso filho. E isso me faz muito feliz. Ele tinha recebido a notícia da gravidez com emoções confusas. A princípio ficou atônita. Ela


deixou de tomar a pílula sem lhe consultar. Mas, depois da surpresa inicial e se acostumar à idéia de ser pai, estava contente. Após o primeiro trimestre, ela tinha anunciado a seus sócios do escritório de advogados que tomaria um afastamento para ficar em casa durante os meses mais críticos. Naquele momento, eles não puseram nenhuma objeção. Agora estranhavam seus receios. —Faz só duas semanas que não vais ao escritório e já te vejo nervosa. Reconheço os sintomas. Sei quando está inquieta. Amanda apartou alguns cabelos que lhe caíam sobre a frente. —Só porque fiquei sem nada que fazer aqui. Tenho esfregado os soquetes, as latas de conservas estão colocadas por ordem alfabética e a roupa na gaveta correspondente. E tenho terminado a lista de possíveis projetos. Mas quando chegar o bebê, terei mais trabalho que possa pensar. A expressão de remorso do homem não mudou. —Enquanto brinca de dona-de-casa feliz, teus sócios vão te despedir. —E daí se fazerem? —contou ela rindo—. Ter nosso filho é a coisa mais importante que tenho feito e que farei. Estou te dizendo de todo coração. Tomou-lhe a mão e colocou sobre seu umbigo. O bebê se movia. —Está sentido? Como quer que me importe que me mandem embora pelo não cumprimento do trabalho? Tomei uma decisão e estou tranqüila. E quero que você também esteja. —Isso talvez seja pedir demais. Em silêncio, ela assentiu. Não estaria nunca completamente tranqüilo, mas tinha encontrado sossego em seu amor por ela e no iminente nascimento de seu filho. Acariciou a zona onde o pequeno tinha dado um chute. —Achava que o ideal masculino era ter à mulherzinha em casa, de chinelos e grávida. Que ocorre contigo? —Não quero que chegue no dia em que lamentes ter deixado tua carreira em suspenso. Tranqüilizou-o com um sorriso. —Isso não vai ocorrer. —Então, por que me sinto como se tivesse uma espada suspendida sobre a cabeça?


—Porque sempre que olhas o copo você o vê meio vazio. —E tu meio cheio. —Vejo-o cheio e a ponto de derramar-se. —Sim, já; sou o eterno pessimista. —Admite-lo? —Não, mas já temos falado muito deste tema. —Ad nauseam. Sorriram e ele voltou a abraçá-la. —Já tens sacrificado muito por mim. Não te mereço. —Pois estarei presente se alguma vez Michelle Pfeiffer se insinuar. Acomodou-se em seus braços enquanto ele a beijava e lhe acariciava os peitos com a ponta do vestido. Estavam duros e completos, preparando-se para a lactação. Então deslizou a camisola e lambeu-lhe os mamilos. Quando lhe fez cócegas com o bigode, disse: —Não joga limpo. —Quanto teremos que esperar? —Pelo menos seis semanas após o parto. Ele choramingou. —É melhor não começar algo que não poderemos parar. —Já é demasiado tarde — disse ele com uma careta de dor. Rindo, ela voltou a subir a camisola e levantou de seu colo. —É melhor que te vás. —Sim, é melhor. Pôs-se em pé, apanhou a jaqueta e caminhou para a porta. —Encontras-te bem? Ela embalou o ventre com os braços. —Nós dois estamos bem. —Dormes mal. —Tenta dormir com alguém que joga ao futebol com todos teus órgãos internos. Na porta deram-se o beijo de despedida. —O que quer para o jantar? —Iremos a jantar fora. —A um chinês? —Seguro. A maioria de dias despedia-o na porta. Hoje, pendurou-se de seu braço e acompanhou-o até o carro. Quando chegou o momento deixa-lo ir, sentiu um desassossego inexplicável, como se o pessimismo dele fosse contagioso. Devia de ter-lhe imbuído algum pressentimento, já que seu instinto pedia-lhe que chamasse ao trabalho dizendo que estava doente e ficasse com ela.


Para dissimular o que com toda probabilidade não era nada mais que uma simples instabilidade emocional relacionada com a gravidez, disse: —Não aches que vou ser uma escrava da maternidade. Quando tivermos a menino, vai ter que trocar as fraldas. —Estou-o desejando — disse ele sorrindo. Moderou seu entusiasmo, pôs as mãos sobre os ombros de sua mulher e obrigou-a a acercar-se. —Faz com que seja muito fácil te querer. E sabes quanto? Ela inclinou a cabeça e lhe sorriu. —Sei-o. A luz do sol era muito forte. Talvez por isso que encheram os olhos de lágrimas. —Eu também te quero. Antes de beijá-la, apanhou-a pelo queixo e olhou-a. Sua voz estava cheia de emoção ao dizer: —Tentarei voltar cedo. Ao pôr ao volante acrescentou: —Chama-me se precisar. —O farei. Quando chegou à esquina, ela agitou a mão para se despedir. Começou a sentir dores na parte baixa das costas momentos depois de lavar os pratos do café da manhã. Deitou por um momento antes de fazer a cama, mas as pontadas persistiam. A meio dia já tinha pontadas mais fortes no abdômen. Pensou em chamar seu marido, mas desistiu. Podia ter contrações semanas antes do parto, e ainda lhe ficavam um par de semanas. Podia ser um falso alarme. Não queria molestar em seu lugar de trabalho se não era absolutamente necessário. Pouco depois das quatro rompeu a bolsa e começou o parto em sério Telefonou ao ginecologista. O médico disse-lhe que não tinha necessidade de sair correndo, o primeiro filho demora às vezes horas em chegar, mas lhe recomendou que fosse ao hospital. Já não podia atrasar o aviso a seu marido. Chamou no seu escritório, mas não estava localizá-lo. Bom, não importava. Ainda tinha coisas por fazer antes de sair para o hospital. Se banhou, se depilou as pernas e lavou-se o cabelo, já que não sabia quando voltaria a ter outra


oportunidade do fazer. A mala já estava preparada com camisolas, uma calcinha nova e chinelos. E o enxoval unisex com todo o necessário para o bebê. Acrescentou um necesser pessoal e deixou a bagagem ao lado da porta. As dores ficaram mais intensas e mais seguidas. Voltou a telefonar perguntando por ele. —Tem saído — foi a resposta—. Mas posso tentar localiza-lo se trata-se de uma urgência. Era uma urgência? Em realidade, não. As mulheres têm a seus filhos em qualquer circunstância imaginável. Era capaz de chegar por seus próprios meios ao hospital. Além do mais, ele teria que cruzar a cidade para chegar a casa e depois desfazer o caminho de novo até o hospital. Desejava com toda sua alma ouvir sua voz, que lhe teria dado forças. Mas teve que se contentar com lhe deixar o recado de que se reunisse com ela no hospital o antes possível. Compreendeu que não fazia sentido se fazer de valente e dirigir ela mesma, mas não tinha a mão, parentes nem amigos. Chamou ao serviço de ambulâncias de urgência. —Estou em trabalho parto e preciso que me levem ao hospital. A ambulância chegou depois de poucos minutos. O enfermeiro examinou-a. —Pressão um pouco alta — anunciou ao tirar-lhe a pulseira—. Quando começou a sentir dores? —Faz umas horas. As contrações já eram intensas. Os exercícios de respiração e concentração aprendidos nas classes de maternidade às que tinha assistido com seu marido eram menos eficazes. Intentou realizá-los, mas não aliviavam sua dor. —Falta muito? —Estamos perto. Tolerância. Tudo vai bem. Mas não ia bem. Soube-o ao ver a cara do médico após o exame preliminar. —O pequeno vem de costas. —Deus meu! —gemeu. —Não se alarme. Ocorre continuamente. Tentaremos dar-lhe a volta e, se não funcionar, faremos uma cesárea. —Tenho chamado ao telefone que me deu — lhe disse a enfermeira ao se dar conta de seu pânico—.


Vem de caminho. —Graças a Deus. —Amanda suspirou e se relaxou um pouco. Cedo estaria ali. —É seu monitor de maternidade? —Ele o é tudo para mim. A enfermeira apertou-lhe a mão e seguiu falando-lhe enquanto padecia a manipulação do médico tentando colocar ao bebê na posição correta. Controlavam os batidos do coração por computador. A enfermeira tomava-lhe a pressão a intervalos a cada vez mais curtos. Por fim, o médico disse: -Preparem uma cesárea. Os minutos seguintes foram como vistos através de um calendoscópio borrado. Levaram-na a toda pressa à sala de partos. Onde estava ele? Não deixou de pronunciar seu nome em tom lastimoso antes de apertar os dentes como esforço supremo para atenuar o martírio que passava seu útero. Então ouviu como em sonhos uma conversa entre duas das enfermeiras. —Aconteceu um tremendo choque múltiplo no cruzamento. —Já ia comentar com você. Passei pela sala de urgências quando subia. E parece um circo. Muitos mortos e a maioria com lesões na cabeça. Há equipes de retirada de órgãos e tecidos esperando para falar com os familiares quando cheguem. Amanda sentiu um ferrão nas costas e o abdômen frio por algum líquido. E notou que lhe cobriam as pernas com lençóis estéReyes. Um choque múltiplo no cruzamento primeiramente à cidade. Ele devia de ter pressa por chegar antes de que nascesse seu filho. Conduzia a muita velocidade. Fez manobras impróprias dele. Não! —Tranqüila, dentro de muito pouco terá ao menino nos braços. Era uma voz agradável, mas não a dele. Não a que ela morria de vontades de ouvir. De repente, soube que já nunca mais voltaria a escutar sua voz. Em um instante de percepção extrasensorial soube, de forma inexplicável, que jamais voltaria ao ver. Aquela manhã, quando em seus olhos teve lágrimas sem motivo, tinha tido a premonição de que seu beijo de despedida seria o último. De alguma forma, sabia que jamais voltaria a tocar a seu marido.


Por isso se tinha mostrado tão relutante ao sair. Lembrou seu olhar intenso, como se quisesse memorizar os matizes de sua cara. Também ele teria pressentido que era o último adeus? —Não! —soluçou. Mas o destino estava selado e nada podia o mudar. —Amor meu, te quero. Seu soluço fez eco na sala de partos, mas ele não estava ali Para o ouvir. Tinha-se ido. Para sempre. Capítulo quatro 10 DE OUTUBRO DE 1990 —Cyc é um asqueroso filho da puta. Petey tirou o sangue da unha e limpou a ponta da navalha na perna do vaqueiro. E acrescentou: —E um imbecil. Sobretudo, um imbecil. Eu, em teu lugar, lhe devolveria a garota. Tua vida seria bem mais fácil Sparky. —Não estás em meu lugar — tossiu e cuspiu um catarro ao lado das desgastadas botas negras de seu amigo—. E a Cyclops não vou dar nada, fora uma surra se voltar a chegar perto dela. —Não te esqueças de que Kismet era sua garota muito antes que tu aparecesses em cena. Não vai deixar as coisas assim. —Tratava-a como a uma droga. Petey encolheu de ombros. —Se atreve a pôr-lhe a mão em cima.., e muito parece-me que essa é sua intenção, não saberá onde se buscar as pelotas — disse Sparky. —Tio, tu estás louco — exclamou Petey— Um bom cú é legal, mas é mais fácil passar. Não vale a pena morrer por isso. Vai-te com olho. Cyc está acostumado a sair-se com a sua. Por isso tem cheguei a ser o líder. Sparky murmurou: —Líder..., e um ovo. É só um porra cheguei. —Isso também. —Bom, pois não me assusta. Não vou deixar que passe nem um cabelo. E, desde agora em adiante, ela também não.


Olhou para o grupo de garotas que se estavam passando na área da entrada raquítica do motel. O edifício estava situado ao pé das colinas de uma estrada muito pouco freqüentada desde que a estrada passava perto. Era um lugar apartado. Nos velhos tempos teria sido o refúgio de contrabandistas de licor, putas, jogadores e gangsters. Agora era o ponto de reunião de motoristas, delinqüentes de pouco renome e outros marginalizados. A cada noite produzia no mínimo uma bronca, mas inclusive às briga em que ocorria sangue se solucionavam sem a intervenção da polícia. Entre as mulheres da entrada, Kismet resplandecia como um diamante entre cinzas. Tinha uma mata de cabelo encaracolado e cor negra, olhos penetrantes e uma esbelta figura que exibia com orgulho com jeans cingidos como uma segunda pele. Levava um cinto de couro negro com pregas prateadas e uma camiseta tão decotada que deixava ver a lua crescente tatuada à altura do coração. Ele gostou de ver que levava no antebraço a pulseira de cobre que tinha trazido de México um par de semanas atrás. De suas orelhas pendiam diversos aros. Kismet notou sua olhar e respondeu a ele com um movimento de cabeça e abrindo os lábios, insinuante. Riu por algo que disse uma de suas amigas, mas seus olhos escuros não se apartaram dele. —Vale, tio, está azedo - disse Petey com resignação. Molestou o comentário, mas não contou. Esse descerebrado não merecia um desgaste de energia. Além do mais, Sparky não estava seguro de poder explicar com palavras o que sentia por Kismet, mas ia bem mais longe do que tinha sentido por nenhuma outra mulher. Sparky mostrava-se reservado com respeito a seu passado e pouco disposto a revelar seu verdadeiro nome. A outros motoristas se teriam ficado de pedra se soubessem que se tinha licenciado em literatura em uma das melhores universidades. Entre essa liga, a inteligência e os conhecimentos aprendidos em livros eram mais bem motivos de deboche e desdém. Quanto menos soubessem dele, melhor.


Era evidente que Kismet também não era partidária de falar de sua vida antes de se unir a Cyclops, já que nunca tinha abordado o tema. E ele não tinha perguntado. Como almas gêmeas, tinham reconhecido o um no outro uma 1nquietu comum, umas ânsias de ver mundo, que era mais uma fuga que uma busca. Ambos escapavam de uma situação que já não podiam suportar. Talvez sem saber, se tinham estado buscando o um ao outro. Talvez a busca tivesse terminado. Ele gostava de refletir Sobre esta explicação metafísica. A Primeira vez que a viu, ela levava um olho preto e inchado e o lábio partido. —O Que você está olhando? —disse Kismet com agressividade ao notar sua olhar —Perguntava-me quem te bateu. -tu que te importas? —Pensei que poderia dar uma resposta. Ela o olhou de acima abaixo e sorriu com desdém. —Sou mais forte do que pareço. —E eu a rainha de Sabá. Além do mais, sei cuidar-me sozinha. Mas resultou que não. Depois de poucos dias voltava a aparecer com novos ferimentos na cara e o pescoço. Então ele já sabia que pertencia a Cyclops, apelidado assim porque tinha um olho de cristal. O defeito não contribuía a suavizar seu aspecto sinistro. O olho são era tão frio e sem vida como o de cristal. Quando fixava a vista em alguém que tinha caído em desgraça, lhe bastava e sobrava com um sozinho olho. A suas costas todos o chamavam «o mestiço». Além do sangue branco, corria por suas veias sangue mexicano ou índio, nada estava muito seguro. Era provável que nem o mesmo Cyc conhecia suas origens. E seguro que também não se importava. Tinha a pele morena, era magro e mais duro que o aço. A navalha era sua arma e, de não ter sido por Kismet, Sparky se teria mantido afastado dele. Por desgraça, interveio o destino. Tinha-se sentido atraído no instante pelo corpo voluptuoso de Kismet, seus olhos negros, seu cabelo indomável. A um nível mais profundo, tinha percebido o medo


e a vulnerabilidade por trás de sua olhar desafiante e sua expressão hostil. De forma milagrosa, ela correspondeu a seus sentimentos. Ele nunca tinha dado um passo, nunca a convidou a subir a sua moto. No entanto, Kismet deve ter lido os sinais silenciosos. Uma manhã, enquanto estavam indo subir nas motos, ela saltou no assento de atrás e rodeou sua cintura com seus de delgados braços nus. Produziu um sussurro expectante entre a liga quando Cyc avançou para sua moto. Olhou a seu ao redor, buscando-a. Ao vê-la sentada por trás de Sparky, o olho são de Cyc se diminuído, ameaçador, e os lábios delgados se tensos em uma careta feroz. A seguir deu gás à moto e saiu disparado. Essa noite, Kismet reuniu-se com ele. Pensei tratá-la com delicadeza devido às recentes surras que ela tinha recebido de Cyclops. Ante sua surpresa, a agressora foi ela, atacando-o com unhas e dentes e um apetite sexual ao que parece insaciável que ele era mais que capaz de satisfazer. Desde então foram amantes e eram considerados casal. Mas os que estavam na liga desde fazia mais tempo que ele, quem conheciam bem a Cyc e tinham presenciado sua vingança por ofensas reais ou imaginarias, sabiam que o rancor de seu líder estava fervendo a fogo lento e de repente, chegaria à ebulição. Ninguém levava nada que pertencesse a Cyc saía impune. As palavras de advertência de Petey eram desnecessárias. Sparky já ia com pés de chumbo com Cyc, cuja indiferença pelo abandono de Kismet era provavelmente uma posse, uma tentativa de salvar a cara ante os outros membros da liga. Não se fiava de sua aparente tranqüilidade e estava sempre alerta ante um ataque por surpresa. Por isso se arrepiaram os cabelos da nuca quando Cyc chegou cambaleando pela porta do bar até a entrada. Apoiou-se com uma mão na jamba da porta para recuperar o equilíbrio, enquanto com a outra levava uma garrafa de vodka à boca. Inclusive desde certa distância, observando entre as som¬bras enganosas do crepúsculo, Sparky viu o olho do energúmeno fixo em Kismet.


Cyc avançou cambaleando para ela e alongou a mão para lhe acariciar o pescoço, mas a rapariga lha apartou de um bofetada. Dobrado pela estreita cintura disse-lhe algo e a obscena réplica de Kismet fez rir às outras garotas. A Cyc não lhe fez graça. Deixou cair a garrafa de vodka e sacou uma navalha de funda-a de couro que levava sempre no bolsos dos jeans. As outras garotas apartaram-se, mas Kismet não se moveu nem sequer quando brandiu a lençol adiante de sua cara. Não piscou até que Cyc fez um movimento rápido com a arma. Ele riu a gargalhadas pelo espontâneo retrocesso da menina. Sem prestar atenção aos conselhos de Petey e dos demais, Sparky correu para ele. Cyc deu-se conta de sua presença, girou em redondo e agachou-se, adotando uma posição de ataque. Passou a navalha de uma mão a outra enquanto incitava-o. —Vêem a apanhá-la. Sparky esquivou diversos golpes do lençol, qualquer deles capaz do partir em duas. Cyc era superior fisicamente. Confiando só em seu serenidade, rapidez e destreza, Sparky planificou o contra ataque. Esperou o momento oportuno e deu um chute à boneca de seu adversário. A bota golpeou em pleno osso e Cyc deixou cair a navalha enquanto gritava de dor. Imediatamente o soco bem situado no queixo lhe fez cambalear para trás, chocar Contra a parede e aterrissar no solo, onde ficou como uma marionete desmantaada. Sparky recolheu a navalha caída do chão e lançou-a tão longe como pôde. À luz do anúncio de néon, todos observaram pasmados como descrevia uma curva no ar e desaparecia entre os arbustos. Custava-lhe recuperar o fôlego, mas, com toda dignidade, tensionou sua mão a Kismet, quem a aceitou sem duvidar nem um segundo. Saíram Juntos e subiram à moto. Ele não olhou para trás. Ela sim. Cyc tinha recuperado o conhecimento e sacudia a cabeça, aturdido. Kismet fez-lhe um corte de mangas antes que a moto se perdesse na escuridão. O vento assobiava nos ouvidos e a conversa era impossível, de modo que comunicavam por outros


meios. Apertou suas coxas contra os quadris dele, esfregou os seios contra suas costas e o acariciou a entre as pernas com mãos ansiosas. Seus dentes se fincaram na parte carnosa do ombro. Sparky gemeu de prazer, dor e alegria. Já era sua sem a menor dúvida. Se a ela lhe tivesse ficado ainda algum tipo de sentimento pelo derrotado Cyclops, se teria ficado junto a ele. Agora era seu prêmio: como vencedor, tinha ganhado o direito à reclamar. Tão cedo como tivessem posto terra de por médio entre eles e Cyc... —Droga. Segue-nos, Sparky. Um segundo antes que ela falasse já tinha observado o faro que atravessava a escuridão a suas costas brilhando como o único olho de um monstro; uma comparação que lhe parecia apropriada, mas inquietante. O faro crescia no retrovisor conforme Cyc a cercava em uma alarmante velocidade. Tomando curvas fechadas demasiado rápido, acelerou para manter uma distância relativamente segura. Sabia que Cyc estava enlouquecido pela vodka e a raiva, de modo que tentou concentrar na carreira de desafio à morte pelas curvas fechadas até que chegassem à cidade, onde confiava em despistá-lo. Manter o controle da moto era um repto implacável. Gritou a Kismet que se agarrasse forte e tomou uma curva em um ângulo aterrorizante, com as pernas quase tocando o solo. Quando recuperou a situação vertical, jogou uma olhada ao retrovisor e viu que a curva não tinha feito perder terreno a Cyc. —Mais depressa! —gritou ela—. Está nos alcançando. Se nos alcançar, nos matará. Deu mais gás e a paisagem era a cada vez mais borrada. Não queria pensar que pudesse vir algum veículo de frente. Até agora não tinham encontrado nenhum, mas... —Cuidado! Cyc quase se tinha posto a sua altura e Sparky passou ao carril contrário por adiante dele para poder seguir levando vantagem. Se permitisse que os atingisse ou os adiantasse, já estavam mortos. A estrada não tinha agora tanta pendente, mas seguia cortando as montanhas. Já não faltava


muito para chegar à cidade. Ali despistariam a esse filho da puta. Estava criando sua estratégia quando tomaram outra curva. Ao sair dela, se sentiram como transportados a outro mundo. De repente as colinas tinham desaparecido e abria-se um trecho de estrada reta que conduzia ao centro da cidade. Se a sorte tivesse-lhes favorecido teria sido uma visão agradável. Mas Kismet gritou e ele amaldiçoou. Iam diretos a um cruzamento e um caminhão de gado entrava em seu carril. A essa velocidade não podiam girar. Cyc já tocava seu tubo de escape. O caminhão de gado não pôde se apartar do cruzamento. Não teve tempo de pensar em nada. Meia hora mais tarde, um dos jovens médicos residentes corria por um corredor do hospital para a sala de espera da sala de cirurgia de urgências, onde um grupo de motoristas esperava conhecer o estado de seus amigos. Inclusive os mais duros ficaram pálidos ao ver o sangue que estavam nas luvas dos funcionários. Ofegante, disse: —Sinto-o, temos feito todo o possível. Agora precisamos falar com o familiar mais próximo para tratar da doação dos órgãos. E rápido. Capítulo cinco MAIO DE 1991 —Ouça, Pierce, isto é um edifício público. Como tal, merece algum respeito. Tira os malditos pés da parede. Aquela voz teria feito acordar aos mortos. E, desde depois, fez reagir a Alex Pierce. Seu semblante adusto alumiou-se com um sorriso quando a servidora pública se acercou. Arrependido e obediente, colocou suas botas de cowboy no chão. —Olá, Linda. —Isso é tudo? «Olá, Linda. » Depois do que significamos um para o outro? Pôs-se em guarda e olhou-o irada, mas a seguir abandonou pose e deu-lhe uma palmada afetuosa no ombro. —Tudo bem como vai, amor? —Não posso me queixar. E a ti?


—Como sempre. Olhou, carrancuda, a sala atestada, onde vários possíveis membros do júri esperavam ser excluídos de sua obrigação Cívica. —Aqui não muda nada fora as caras. Sempre as mesmas desculpas para evitar ser eleito membro do júri. De novo voltou a olhá-lo. —Onde esteve escondido? Tenho ouvido dizer que tinha ido embora de Houston. Antes do Quatro de Julho passado, costumava freqüentar o Palácio de Justiça do Condado de Harris para se declarar como testemunha em julgamentos que tinham como protagonistas os delinqüentes que tinha ajudado a deter. —Sigo recebendo o correio aqui. Em geral tenho viajado. E pescando em México. —Pescaste algo? -Nada que valha a pena. -Espero que não fosse uma gonorréia. Ele sorriu com ironia. —Nos tempos que correm, podes estar contente se só tratar de uma gonorréia. - Verdade que sim? A corpulenta mulher agitou sua cabeça roliça. —Ontem li no jornal que o desodorante faz buracos na camada de ozônio. Os absorventes podem causar um ataque tóxico. O que comemos, ou nos tampa as artérias ou provoca câncer de cólon. Inclusive têm conseguido tiram a vontade de transar por aí. Alex riu de boa vontade, sem ligar para sua linguagem vulgar. Conheciamse desde os tempos em que ele era um policial novato armado com escopeta que percorria Houston em um carro patrulha. Linda era uma instituição no Palácio de Justiça e sabia sempre os últimos rumores e as fofocas mais frescas. Seu talanto mal humorado e seus tacos eram uma armadura para sua ternura, que só mostrava a uns poucos. Alex estava entre eles. —Para valer estás bem? —Muito bem. —Não tem saudade do trabalho? —Céus, não!


—Já sei que não sente falta nem da politicagem nem as porcaria. Mas a ação? —Agora deixo que minhas personagens esquivem as balas. —Tuas personagens? —Sim — disse, algo envergonhado—. Escrevo, mais ou menos. —Não me tomas o cabelo? —parecia impressionada—. Escreves um livro sobre os assuntos internos do Departamento de Policia de uma grande cidade? —Em realidade é uma novela. Ainda que baseada em minhas experiências. —Tens alguma possibilidade? —De publicar? —negou com a cabeça—. Isso é outro cantar. Não sei se alguma vez o conseguirei. —O conseguirás. —Não sei. Meus antecedentes não são muito bons. —Eu confio em ti. De verdade, saí com alguém? —Com uma mulher? —A não ser que tenha mudado de gosto. —Não, não tenho mudado de gosto. Mas também não saio com a alguém em especial. Ela o olhou de acima abaixo. —Pois talvez devesse fazer. Teu vestuário deixa muito que desejar e viria bem um toque feminino. —Que há com minha roupa? Deu uma olhada e não viu nada especial. —Essa camisa não sabe o que é estar passada. —Está limpa. E também os jeans. —Recordas-me a época em que deixaste o corpo e te voltaste preguiçoso e descuidado. —Agora sou meu próprio chefe. Visto-me com roupa cômoda e, se não tenho vontade de me barbear, não me barbeio. —Estás delgado como um espantalho. —Estou em forma. Ela levantou as sobrancelhas com ceticismo. —OK. Incomodou-me um desse vírus mexicano e estive vomitando durante dias. Ainda não me recuperei. Compreendeu por sua expressão que não a tinha convencido. —Estou bem. Às vezes esqueço-me de comer, mas isso é tudo. Ponho-me a escrever quando anoitece e me dou conta ao amanhecer de que não jantei. Em minha nova profissão, às vezes há que optar por comer ou dormir.


—Ocorre o mesmo com o alcoolismo, segundo tenho ouvido dizer. Alex esquivou sua olhar e contou com raiva: —Tenho-o controlado. —Não é isso o que me disseram. Talvez eu deveria deixar. —Sim, mamãe. —Ouve imbecil, eu me considero sua amiga, não que possa presumir que tenha muitos — parecia molesta e preocupada—. Tenho ouvido dizer que te ficaste fritado em mais de uma ocasião. As malditas fofocas. Já nem sequer estava dentro do jogo, mas seu nome ainda provocava falatório. —Há algum tempo que não — mentiu. —Só tenho mencionado tua relação amorosa com Johnny Walker porque me preocupo por ti. —Pois, então, és a única. Ao ouvir o que parecia auto-compaixão em sua voz, baixou a guarda e suavizou sua expressão. —Eu te agradeço, Linda. Sei que estava fora quando veio á tona toda essa droga, mas agora estou bem. Para valer. Não faças caso de rumores que digam o contrário. A mulher olhou-o cética, mas mudou de tema. —Bom, que te traz por aqui? —Ver se encontro tema para um livro. O julgamento de Reyes parece ter possibilidades. Os olhos da servidora pública expressaram receio. -Algum motivo especial para que você se interessar pelo caso Reyes tendo tantos para eleger? Alex esteve seguindo aquele caso tão intrigante durante vários meses. —Tem todos os ingredientes para uma novela de intriga. Sexo ilícito. Conotações religiosas. Os amantes surpreendidos por um marido enfurecido. Um taco de beisebol como arma... Muito mais original que uma bala na cabeça. Sangue e cérebros nas paredes. Um cadáver a caminho do depósito. —Um cadáver ainda não cadáver. —Morte cerebral — rebateu. —Isso é um termo médico, não jurídico — ela recordou. —O advogado de Reyes alega que ele não matou à vítima, já que mantiveram o coração com vida para um transplante. —Transplantes - disse Linda com desdém—. Razões para os médicos brilharem. Alex assentiu.


—O caso é que se abriu toda uma série de vazios legais. Se o morto ainda não era morto quando retiraram o coração, é Reyes culpado de assassinato? —argumentou ela. —Por sorte, nem tu nem eu temos que decidir — contou Alex—. É assunto do júri. —Se fosses membro do júri o que votaria? —Não sei, ainda não tenho ouvido as declarações. Mas tenho a intenção de fazê-lo. Sabe em que sala será o julgamento? —Sim — sorriu mostrando um par de dentes de ouro — Qual é tua oferta? Qualquer empregado do Palácio de Justiça podia indicar a sala, mas continuou o jogo. —Um par de cervejas após o trabalho? —Estava pensando em algo parecido a um jantar em minha casa. E, depois, quem sabe? —Ah, sim? —Um filé, batatas e sexo. Não necessariamente por esta ordem. Admite-o, amigo: é a melhor oferta do dia. Alex riu, sem tomar em sério o convite e sabendo que ela também não. —Sinto-o, Linda, esta noite já tenho outros planos. —Sei que não sou nenhuma beleza, mas não deixes que meu aspecto te engane. Conheço como a palma da mão a anatomia masculina e Poderia fazer-te chorar de gratidão. Juro. Não sabe o que perde. —Estou seguro disso. Tens muito encanto, Linda, acredito sempre —É mentira, mas tens muita habilidade para enganar. Às vezes Inclusive tem me feito crer. Por isso estou segura de que terá sucesso como escritor. Faz a gente acreditar no que diz. Apanhou-o pelo braço. —Vamos, amor, acompanho-te à sala. Cedo vai começar a seleção do júri. E tenta portar-te bem, ok? Se tomar um copo a mais, e armar escândalo e expulsam-te, não penso em dar a cara por ti. —Prometo-te que serei bom. E pôs-se a mão no coração. A funcionaria Sorriu —Como acabo de dizer: mentira. O julgamento por assassinato de Paul Reyes tinha grandes espectativas. Alex tinha que chegar ao Palácio de Justiça cada dia mais cedo para conseguir assento. Os familiares e amigos de Reyes


ocupavam grande parte do lugar disponível. O promotor tinha baseado sua acusação na declaração dos primeiros Policias que entraram no local do crime, que se descreveu com todo luxo de detalhes. Quando os membros do júri viram as fotos de 8 x 10 tiradas, estremeceram. A defesa tinha organizado um pelotão de colegas de trabalho e amigos do acusado, incluindo a um padre, que fiz questão do caráter pacífico de Reyes. Só o adultério de sua amada esposa o pôde levar a cometer uma ação violenta . O júri escutou a declaração dos paramédicos a quem o mesmo Reyes tinha telefonado desde o lugar dos fatos. Quando chegaram, a vítima ainda tinha pulso, disse um. O médico de urgências tinha diagnosticado que não existia atividade cerebral, mas manteve com vida o coração e os pulmões com meios artificios em espera de conseguir permissão para conservar órgãos e tecido. O cirurgião que tinha realizado a intervenção declarou que o coração ainda batia quando o terminou. Este depoimento causou comoção na sala. O juiz pediu silêncio a multidão. O ajudante do promotor tentou dar a impressão de estar tranqüilo, mas fracassou. Alex opinava que tinha que ter apresentado o cargo por homicídio e não por assassinato. O assassinato implica premeditação, que neste caso não podia se provar. E o pior era que o sobrevivente do ataque não podia declarar. Por estes obstáculos, o promotor fez um brilhante discurso final, pedindo ao júri um veredicto de culpa. Tanto se vítima tinha morrido no momento do golpe como se não, Paul Reyes era o responsável pela morte de um ser humano e tinha que o declarar culpado. O defensor só teve que recordar aos membros do júri, uma e outra vez, que Paul Reyes estava no cárcere quando a vitima faleceu. O caso ficou em mãos do júri após três dias de declarações. Quatro horas e dezoito minutos depois anunciou-se que o júri tinha seu veredicto e Alex foi um de primeiros em voltar à sala. Tentou averiguar a decisão do júri conforme seus componentes iam entrando, mas era impossível


decifrar sua expressão. A sala guardou silêncio quando se pediu ao acusado que pusesse em pé. Não culpado. A Reyes dobraram-se os joelhos, mas seu advogado sustentou-o. Os parentes e amigos precipitaramse a abraçá-lo. O juiz deu as graças aos membros do júri e terminou a sessão. Os jornalistas esperavam ansiosos as declarações, mas o advogado de Reyes não prestou atenção e o fez avançar pelo corredor central para a saída. Quando Reyes chegou à fila de Alex, pareceu advertir sua olhar. De repente parou, voltou a cabeça e, durante um segundo seus olhos encontraram-se. Capítulo seis MAIO DE 1991 Comer. Dormir. Respirar. Essas funções que sustentam a vida as realizavam agora maquinalmente. Pára que se molestar? A vida já não fazia sentido. Não tinha forma de encontrar conchão. Nem na religião, nem na meditação, nem no trabalho, nem no exercício físico esgotante. Também não nos arrebatos de cólera. Tudo o tinha intentado como médio de suavizar a desgarradora aflição da perdida. No entanto, aí seguia. A paz era inalcansável. A cada suspiro estava impregnado de dor. O mundo tinha ficado reduzido a uma pequena esfera de suprema tristeza. Muito poucos estímulos atravessavam a cápsula onde a pena estava encerrada. Para alguém tão imerso na aflição, o mundo carecia de cores, de sons, de sabores. O intenso pesar paralisava-o tudo. A morte prematura tinha sido injusta. Enloquecedora. Por que tinha ocorrido a eles? Não existiam outras duas pessoas que se tivessem amado tanto. Seu amor era excepcional e charuto: tinha que ter perdurado durante anos e, depois, prolongar-se até para além da morte. Falavam disso, se tinham jurado amor eterno. Agora a imortalidade de seu amor era impossível porque tinham roubado o espaço onde este estava guardado e o tinham entregado a outra pessoa. Que horrível, esse vandalismo pós mortem. Primeiro tiram sua vida, depois a alma da existência, o recinto onde esse espírito tinha morado.


Agora, em alguma parte, dentro de um estranho, esse amado coração ainda seguia pulsando. Os gemidos fizeram eco na pequena habitação. -Não posso o suportar nem em um dia mais. Não posso. -Ainda que a pessoa amada estivesse sob terra no cemitério, seu coração vivia. Seu coração seguia vivo. Esta era uma idéia inevitável, obstinada, permanente. O bisturí do cirurgião foi rápido e seguro. Por doloroso que fosse o aceitar, o que tinha feito era irreversível. O coração seguia vivendo enquanto a alma estava injustamente condenada a ficar incompleta pára toda a eternidade. A alma vagaria sempre, e em vão, seu lar, ao mesmo tempo em que o coração, ainda pulsando, seguiria debochando da integridade da morte. A menos que... Tinha uma forma! De repente, os lamentos cessaram. A respiração fez-se mais agitada, entrecortada pela excitação. Prestou atenção aos pensamentos breves, velozes, que, de repente, se desencadearam. A idéia cobrou vida, perfilou suas formas, dividiu-se, se expandiu com rapidez, como um óvulo que acabasse de ser fecundado. Uma vez nascida, brincou dentro de seu cérebro, imobilizado durante meses pelo desespero. Tinha uma forma de libertar-se desse insuportável tormento. Só uma. Uma solução que, com rapidez, evoluíram de uma simples célula de idéia a um embrião já formado. Converteu-se em palavras musitadas com exatidão, com a adoração de um discípulo a quem foi á noite uma missão divina: —Sim. Desde depois, desde depois. Buscarei esse coração amado. E quando o encontre, a fim de unir nossas almas e ficar em paz, farei, com misericordia e amor, que se pare. Capítulo sete 10 DE OUTUBRO DE 1991 Cat Delaney movia-se pelo salão dando voltas como uma borboleta para saudar aos grupinhos de convidados. Todos se têm perplexos por sua energia e vitalidade. —É incrível.


O doutor Dean Spicer, que a observava a um lado, se deu a volta para o homem que assim falava. Dean tinha sido o acompanhante de Cat em inumeráveis festas sociais e conhecia a muitas das pessoas com as que ela trabalhava. Não obstante aquele cavaleiro alto e elegante era um desconhecido para ele. —Sim, é incrível — respondeu em tom familiar. —Chamo-me Bill Webster. Dean também se apresentou enquanto se estreitavan a —Você era o cardiologista de Cat, não? —Ao princípio — contou Dean, conformado por ser reconhecido pelo apelido—. Antes que nossa relação começar. Webster sorriu comprensivo e voltou a olhar a Cat. —É uma mulher encantadora. Dean perguntou-se quem seria Webster e por que teria convidado à festa de gala patrocinada pela cadeia de televisão para celebrar o primeiro aniversário do transplante de Cat. Estavam ali os executivos de outras emissoras associadas e também patrocinadores comerciais, representante do meio comunicação, agentes artísticos, atores e outras pessoas tinham intervindo em Passages. Dean sentia curiosidade por Webster e perguntou-lhe: —Como sabe quem sou? —Não subestime sua fama, doutor Spicer; já é você quase tão conhecido como sua colega. -De verdade tipo de revistas — replicou Dean com falsa modestia. Gostava do reconhecimento público que recebia por ser o «asiduo acompanhante» de Cat Delaney como o tinha etiquetado uma das colunistas de Hollywood. -A publicidade gerada pela imprensa não resta méritos a seu talento como cardiologista — disse Webster. -Obrigado. Oxalá pudesse dar a todos meus pacientes um diagnóstico tão acertado como no caso de Cat. Sua recuperação tem sido sensacional. —Surpreende-lhe? —Em absoluto. Esperava isso dela. Não só é uma paciente excepcional, senão também uma pessoa


excepcional. Quando superou as primeiras semanas de difícil recuperação, decidiu viver muitos anos. E o conseguirá. Sua grande vantagem é o otimismo. É o orgulho do departamento de transplantes do hospital. —Tenho entendido que agora é uma firme defensora dos transplantes. —Apela à consciência dos doadores e costuma visitar a pacientes em espera de ser operados. Quando se deprimem, os anima a não perder a esperança. Têm-na como a um anjo salvador — sorriu comovido—. Eles não a conhecem tão bem como eu. Tem o temperamento fogoso das ruivas. —Pois, por seu temperamento, é evidente que a admira. —Mais que isso. Pensamos nos casar o mais cedo possível. Isso não era totalmente verdadeiro. Ele pensava se casar com Cat, mas ela continuava sem querer se comprometer. Dean tinha a pedido muitas vezes que se mudasse para sua casa de Beverly Hills, mas Cat seguia ainda em sua casa da praia, em Malibú, alegando que o oceano causava efeitos terapêuticos, vitais para sua saúde física e mental. —Só com o olhar, já recargo pilhas. Também sustentava que a independência era essencial para SEU bem-estar. A independência era uma débil desculpa para não contrair matrimonio. Dean não tinha a intenção de trancá-la na cozinha quando fosse sua mulher. De fato, queria que continuasse sua carreira. Uma dona-de-casa não entrava em seus planos de uma vida feliz. Simplesmente saíam juntos e sem preocupar dos fantasmas de suas relações anteriores. Quando ela se recuperou totalmente, descobriram que sua sexualidade se adaptava à perfeção. Ambos tinham seus próprios rendimentos seguros, de modo que não se tratava de uma união por interesse econômico. Ele não via nenhuma desculpa plausível para a contínua rejeição de Cat a suas propostas. Com paciência, ia-se rendendo a suas negativas, mas agora que o transplante tinha sido um sucesso e tinha recuperado seu papel de protagonista em Passages, tinha a intenção de forçá-la a se comprometer. Não pararia até que Cat Delaney fosse completamente sua. —Então suponho que devo lhe felicitar — disse Webster enquanto levantava a copa de


champanhe. Dean devolveu o sorriso a Bill Webster e fizeram um brinde. Enquanto escutava a um executivo publicitário lhe que dava mão dizendo o valente que era e que nunca antes tinha apertado a mão de alguém com coração transplantado, Cat olhava acima de seu ombro a Dean e ao homem com quem estava falando. Não o conhecia e tinha acordado sua curiosidade. —Obrigado por todos os cartões que me enviou durante a convalecencia. Com a menor brusquedade possível, desprendeu-se do aperto de mãos do executivo. —Agora, me perdoe; mas acabo de localizar a um amigo a que não via desde faz tempo. Com a maior naturalidade abriu-se passo entre a multidão. Várias pessoas tentaram engaja-la em uma conversa, mas só se deteve o tempo necessário para trocar saudações e responder a felicitações e elogios. Como tinha tido tão mau aspecto durante tanto tempo, antes do transplante, acreditava quase justificada sua vaidade pelo radiante que estava esta noite. O cabelo tinha recuperado o brilho, ainda que os esteroides que teve de tomar após a operação tivesse dado uma tonalidade mais roliça. Para a festa, tinha-o recolhido em um laço alto a fim de ter um aspecto mais sofisticado. A maquiagem destacava ainda mais seus olhos, descritos como «Um raio laser azul» quase a cada vez que seu nome aparecia impresso, e não se recatava de exibir sua formosa pele com um vestido negro de lentejoulas, muito curto e cingido, que lhe deixava os braços e as costas ao ar. Por suposto, o vestido ia fechado até o pescoço pela frente. Não tinha a menor intenção de mostrar sua «zíper», a cicatriz que percorria a extensão em sentido vertical. Todo seu novo vestuário tinha sido elegido de maneira que ocultasse a cicatriz. Dean fazia questão de que mal se via e que a cada dia se borrava um pouco mais, mas para ela era bem visível. Sabia que era o pequeno preço que tinha que pagar por seu coração novo. Sua timidez pela cicatriz


era sem dúvida um reminiscencia da infância, quando, com freqüência, se tinha sentido ferida por comentários irreflexivos ou crueis de suas colegas de classe. Então, sua falta de saúde tinha-a feito objeto de curiosidade, igual que o transplante agora. Nunca tinha querido inspirar lástima nem curiosidade; por isso escondia a cicatriz. Por a que esta noite se sentia estupendamente, ela nunca daria por segura a boa saúde. As lembranças de sua doença estavam ainda demasiado vivo. Dava obrigado por seguir vivendo e poder trabalhar. Recuperar o papel de Laura Madison, e as exigencias físicas que isso comportava, não lhe tinha ocasionado nenhum problema. Agora, em um ano após a operação, se sentia melhor que nunca. Esboçando um sorriso, caminhou até chegar ao lado de Dean e pendurou-se em seu braço. —Como é possível que os dois homens mais atraentes do salão estejam aqui parados e nos privem de sua companhia às mulheres? Dean sorriu. —Obrigado. —O mesmo digo — acrescentou o outro homem—. O elogio vale o duplo vindo da beleza da festa. Ela fez uma reverência zombadora e lhe tendeu a mão. —Sou Cat Delaney. —Encantado Bill Webster. —De onde é você? —De San Antonio, Texas. —Ah, a WWSA! De modo que você é esse Webster. Olhou a Dean e, com um sussurro teatral, acrescentou: —Um peixe gordo. O proprietário e manda mais. Em poucas palavras: trata-o bem. Webster soltou uma risadinha. Seu nome era conhecido e respeitado em toda a indústria. Devia ter uns cinquenta anos, apresentava un traços muito atraentes na face e seu moreno rosto resistia bem a madurez. A Cat gostou do que via. —Mas não nasceu em Texas, verdade? —perguntou ela—. Ou dissimula o acento. —Tem bom ouvido. —E boas pernas — contou Cat virando um olho.


—Estou de acordo — acrescentou Dean. Webster voltou a rir. —Sou do centro-oeste; mas faz quinze anos que vivo em Texas. Converteuse em meu lar. Agradeço-lhe que se tenha molestado em vir desde tão longe para assistir à festa – disse ela sinceramente. -Não tivesse gostado de perder-me o doutor Spicer e eu estávamos falando de sua excelente recuperação. —Todo o mérito é seu - disse ela sorrindo a Dean—. E os médicos e enfermeiras da equipe de transplantes. Eles fizeram o trabalho, eu só era a paciente. Dean rodeou-lhe a cintura com seus braços e disse orgulhoso: —Tem sido a paciente ideal, primeiro para mim e depois para Sholden, que se fez cargo de seu caso quando nossa relação e a medicina podiam ser incompatíveis. Já vê que tudo saiu bem. Cat suspirou. —Tudo vai bem desde que os hormônios se assentaram. Bom, tenho saudades o bigode e as bochechas com pêlos, mas não se pode ter tudo. Os efeitos desagradáveis da medicação tinham desaparecido ao reduzir a dose. Também tinha recuperado seu peso ideal. Mas inclusive antes que a «zíper» fizesse parte seu corpo, sua delgada figura não era seu ponto forte. A adolescência não se tinha mostrado com ela tão generosa como outras garotas; as tão desejadas curvas não se desenvolveram. Seu mayor encanto residia na angulosa estrutura do rosto e a formosa tonalidade de sua pele. Tinha aprendido a potenciar ambas as qualidades e a câmera a adorava. —Sou um admirador incondicional, senhorita Delaney – disse Bill Webster. —Faz favor, chame-me Cat. Encantam-me os admiradores condicionais. —Só me perco o episódio diário se tenho um almoço importante. —Sento-me lisonjeada. —Atribuo o grande sucesso da série a você e a sua personagem. —Obrigado, mas acho que exagera. Passages já tinha aceitação antes que aparecesse Laura Madison. E manteve-se nos primeiros lugares de audiência quando eu estava de fora. O sucesso é produto de um labor de equipe.


Webster olhou a Dean. —É sempre tão modesta? — temo que Muito até transforma-se em um defeito. —É você um homem afortunado. —Rapazes, eu acho que é meu dever avisar-lhes que não que falem como se eu fosse invisível. —Sinto muito - disse Webster - Retomo o fio da conversa que sustentávamos quando você chegou. Estava felicitando ao doutor Spicer por seu próximo casamento. A Cat apagou o sorriso e, por dentro, estava furiosa. Não era a primeira vez que Dean se tinha montado por sua conta noivado em sério. Tinha tanto amor próprio que não podia se permitir aceitar suas negativas ao casamento. Ao princípio, a amizade tinha posto em perigo sua objetividade para ser seu cardiologista. Durante sua doença e após o depois transplante. Cat tinha-se apoiado nele. A relação era mais íntima desde fazia em um ano e ele importar muito, mas Dean seguia confundindo a natureza de seus sentimentos. -Obrigado, Bill, mas ainda não temos concretado uma data. Ainda que tentasse ocultar seu enfado com Dean, Webster deve tê-lo notado. Tossiu e disse: —Cat, aqui há muitas pessoas que requerem sua atenção e eu tenho que me ir. Ela estendeu a mão. —Tem sido um prazer conhecer-lhe. Confio em que voltaremos a nos ver. Ele lha abraçou. —Sem dúvida. Cat estava convencida de que o dizia para valer. Capítulo oito 10 DE OUTUBRO DE 1991 Amanhecia quando decidiram que já estava bem de caça-niqueis. Acostumados à escuridão da sala, onde os traços de um indivíduo mal se distinguiam dos de outro, os fluorescentes do complexo comercial os deslumbravam. Riram enquanto davam tempo aos olhos se adaptassem. As lojas e bares há horas que tinham fechado. Suas vozes ressoavam na praça; era um alívio poder manter conversa sem ter que gritar para se fazer ouvir por cima os cacofônicos ruídos da sala de


jogos. —Seguro que não terá problemas? Jerry Ward dedicou a seu novo amigo um sorriso aberto e seguro dos garotos de dezesseis anos felizes e bem adaptados. —Meus pais já estarão dormidos. Não esperam que eu levante —Não sei, me parece estranho que me convides sem mais. Mal nos conhecemos. —Que outra forma melhor para nos conhecer? Acaba de perder teu emprego e precisa um trabalho, não? Meu pai tem um negócio e sempre contrata gente. Algo te encontrará. E esta noite precisa um lugar onde dormir. Você poupará uns dólares ficando no quarto de convidados. Não te agrada o que possam pensar meus pais, te acordo cedo pela manhã, você tem sair sem que eles o vejam e os apresento depois. Não têm por que saber que dormiu em casa. De modo que fique tranqüilo — riu e estendeu os braços—. Vale? Estás tranqüilo? A cordialidade de Jerry era contagiosa e provocou um sorriso. —Estou tranqüilo. —Genial. Guau! Olha esses patins! Jerry deteve-se diante da vitrine de uma loja de esportes onde estavam expostos patins de rodas em linha com toda sua parafernalia. Tens visto esses com as rodas verdes? São demasiado. É o que quero como presente de Natal. E o capacete também. O jogo. Nunca patinei com isso. Parece-me perigoso. —É o que diz minha mãe, mas acho que para Natal já a terei convencido. Está tão contente de que eu faça coisas normais que é fácil de amolecer. Jerry deu um último e cobiçoso olhar ao objeto de seu desejo antes de seguir andando. - Que queres dizer com isso de coisas normais? - Como? Oh, não importa. -Perdoa, não tentava meter o nariz em assuntos privados. Jerry não tinha a intenção de ofender ao seu novo amigo, mas tinha sido um inútil durante tantos anos e estava tão contente de já não o ser que odiava as lembranças de sua doença. —Verás, é que estive doente de menino. Grave para valer. Desde os cinco anos até o ano passado.


De fato, amanhã é o aniversário e mamãe dará uma festa para celebrá-lo. —Celebrar que? Não se importar que eu pergunte. Tinham chegado à porta de saída e o guarda de serviço estava amontoado em um banco. Roncava. Jerry olhou de frente ao seu colega com expressão de dúvida. —Promete que se eu digo não pensarás que sou anormal. —Não pensarei que és anormal. —Bom, é que muitas pessoas acham estranho — Jerry suspirou—. Levo um coração transplantado. A declaração foi recebida com uma gargalhada de incredulidade. —Já. Vale. —Juro-to. Estava a ponto de morrer e encontraram um coração a tempo. —Em sério? Não está arrepiado? Deus meu! Jerry riu. —Sim, meus pais acham que Deus teve algo a ver. Vamos. Empurrou a porta e deu-lhe na cara uma ragada de vento frio e úmido. —Droga volta a chover. A cada vez que cai um pingo transborda o rio perto de casa. Onde tens o Carro? —Ali. —O meu está também por essa zona. Queres que te acompanhe? —Não. Espera-me adiante de Sears e desde ali te seguirei. Jerry levantou o polegar, pôs-se a capucha do anorak e saiu ao temporal. Não se fixou na olhar de seu colega ao guarda que seguia dormindo. Após a operação de transplante, os Ward tinham-lhe comprado a Jerry um carro. Dobrou o beco, diante da Sears e fez soar a buzina duas vezes. Viu através do retrovisor que o outro carro se situava por trás dele. Tocava a canção da rádio e acompanhava com alguma percussão enquanto ia circulando pelas ruas que comunicavam os suburbios de Memphis com a zona rural. Manteve a velocidade moderada para não se distanciar demasiado do carro o seguia. Não se conhecia o caminho que se adentrava, e de noite era fácil se perder. Ao chergar a uma ponte estreita, Jerry diminuiu. Tal como tinha previsto, o rio descia rápido e crescia Quase tinha chegado à metade da ponte quando o carro sofreu uma investida por detrás. —Que diabos...?


Jerry notou uma sacudida para diante, mas o cinto segurança o segurou. Então sua cabeça caiu para trás por retrocesso e sentiu como se alguém tivesse metido uma faca quente na nuca. Gritou de dor e, de maneira instintiva, levou as mãos á cabeça. Quando soltou o volante, o outro carro investiu de novo contra seu parachoque traseiro. Saltaram pedeços de madeira quando o utilitario bateu contra a débil barricada. Por instante, o pequeno veículo voou pelos ares; depois, caiu na negra água que formava redemoinhos e que, em matéria de segundos, golpeava o parabrisas. Gritando como um possesso, buscou o fecho do cinto e soltou. Em seguida, buscou às apalpadelas, frenético, a alça da porta antes de recordar que esta se fechava de forma automática com o motor ligado. Droga. A água chegava até o joelho, levantou as pernas e chutou com todas suas forças a janela até que o vidro se rompeu. Mas o rompimento tinha sido pela força da água, que entrou aos montes e inundou o veículo. Jerry conteve o fôlego. Sabia que sua vida tinha acabado. A morte, à que em um ano antes pôde debochar, vinha agora a cobrar sua dívida. Estava a ponto de reunir-se com Deus. Melhor dito, um desconhecido tinha-o enviado a reunir-se com Deus. O último pensamento de Jerry Ward foi de raiva e de perplexidade. Por que? Capítulo nove VERÃO DE 1992 —Está chateada. Dean não fazia uma pergunta. Afirmava. Cat continuou com a olhar fixo no parabrisas do Jaguar. —Qual foi a primeira pista? —Faz vinte minutos que não me dirige a palavra. —Porque sempre fala por mim. Outra vez, quase voltou a pôr anúncios. —Cat, dei conversa a uma colega de mesa. —E faltou tempo para cercar-me no banheiro e pedir-me os detalhes do casamento. Suponho que deste a entender que era um fato. O curioso é que não temos a intenção de nos casar.


—Claro que sim. Cat não estava de acordo, mas ele deu a volta à entrada da casa e estacionou. A chaveiro de Dean abriu a porta. Cat sorriu ao entrar no vestíbulo. Não gostava nada que dos serventes os esperassem Dean já a tinha apanhado desprevinida. Oxalá não tivesse aceitado passar a noite em casa dele, pensou Cat. Mas não lhe apetecia nada, após o que prometia ser uma longa viagem até Malibú e, pela manhã, desfazer o caminho até os estúdios. Se a discussão piorasse chamaria ao hotel Bel Air para que lhe enviassem um carro. Entrou no escritório, já que era a habitação mais acolhedora e menos séria. -Quer beber algo? —perguntou ele. —Não, obrigado. -E algo para comer? Mal tem jantado. Estava muito ocupada falando com Bill Webster. Ela não fez caso do comentário Desde que o conheceu, varias vezes tinha perdido a oportunidade de conversar com o executivo de Texas. Dean tinha interpretado mal seu interesse. —Obrigado, não tenho apetite. —Celesta pode preparar-te algo. —Não é necessário a molestar. —Para isso lhe pago. Que te apetece? —Nada! Lamentou seu tom de voz cortante e suspirou profundamente para conter seu mau humor. —Dean, não me assedie. Se quisesse algo o pediria. Ele saiu do escritório o tempo suficiente para dizer ao mordomo que seus serviços já não eram necessários. Ao voltar a entrar, Cat contemplava da janela o bem cuidado jardim. Ouviu que ele voltava, mas não se deu a volta. Dean apoiou as mãos sobre seus ombros. —Perdoa, não achava era que um comentário circunstancial problemas. Por que não nos casamos e assim evitamos este tema de controvérsia? —Não me parece um motivo para se casar. —Cat. Não é esse o motivo pelo qual quero me casar contigo. Podiam falar de qualquer coisa. Do tempo, de seu postre favorito, do detaco sobre o estado da


nação: sempre terminavam igual. —Dean, não voltemos ao mesmo. —Tive paciência, Cat. —Sei-o. —O casamento não tem por que ser um acontecimento jornalístico. Podemos ir a México ou às Vegas antes que um jornalista se inteire. —Não se trata disso. —De que, se não? Não voltes a me dizer que não queres a casa de Malibú ou de teu medo a perder a independência. Já são desculpas muito fracas. Se continuas negando-te, terás inventar algo mais sólido. —Só faz em um ano e meio desde o transplante. - E? —Poderias ter que carregar com uma esposa que tem que passar grande parte de sua vida, e da tua, em guarda. —Não tens tido nem um só sintoma de rejeição. Nem um. —Não é nenhuma garantia de que não o tenha. Algumas pessoas com transplante vivem bem com seu coração durante anos e de repente... sem motivo aparente, sofrem uma rejeição. —E outras morrem por causas que não têm nada que ver seu coração. Em realidade, há uma possibilidade entre um milhão de que morra por um raio. -Estou falando em sério. -Eu também — suavizou seu tom de voz. Cat, muitas pessoas com transplantes têm vivido vinte anos ou mais sem problemas. Esses pacientes receberam corações quando o sistema era ainda experimental. E a tecnologia tem melhorado muito. Tem muitas garantias de uma expectativa de vida normal. —E a cada dia dessa vida normal estará controlando meus sinais vitais. Dean ficou perplexo. —Dean, era tua paciente antes de ser sua amiga e amante. Tenho a sensação de que sempre vou ser tua paciente. —Não - contou sem duvidar. Mas ela sabia que sim. Tentava protegê-la, e era uma lembrança contínua de que esteve muito


delicada de saúde. Ainda a tratava com um cuidado infinito. Inclusive quando faziam o amor era de uma delicadeza extrema. Seu crispante autodominio ofendia-a e limitava sua paixão. Por medo a ferir, suportava sua frustração em silêncio enquanto morria de vontade de que a tratassem como a uma mulher e não como a uma transplantada. Duvidava que com Dean fosse possível. Mas sabia que, no fundo, isto era uma desculpa e que o verdadeiro problema consistia em que não estava apaixonada por ele. Não da forma que deveria o estar para se casar. A vida eria sido bem mais singela se estivesse apaixonada, e às vezes desejava que assim fosse. Tinha tentado esconder seus sentimentos, mas agora sabia que tinha que ser sincera. —Não quero me casar contigo, Dean. Quero-te muito e jamais teria ído adiante sem ti — lhe sorriu com ternura—. Mas não estou apaixonada. —Dou-me conta disso, e também não o esperava. Isso é para as crianças; nós vamos para além do absurdo romantismo. Por outra parte, formamos uma boa equipe. —Uma equipe — repetiu ela — Também não isso me atrai. Não tenho pertencido a ninguém desde que tinha oito anos, quando meus pais.. morreram. —Motivo a mais para que me deixes cuidar de ti. —Não quero que ninguém me cuide! Quero ser Cat. A nova Cat. A cada dia, desde a operação, tenho ido fazendo novos descobrimentos. Ainda estou me familiarizando com esta mulher que Sobe a escada em vez de utilizar o elevador. Que pode lavar o cabelo em três minutos em vez de precisar trinta. Pôs a mão sobre o coração. —O tempo tem uma nova dimensão para mim, Dean; quero proteger o tempo que passo comigo mesma. Até que não conheça do tudo à nova Cat Delaney, não quero a compartilhar com ninguém. —Compreendo — contou ele, mais enojado que apenado. Ela riu. —Deixa de lamentar. Não acredito. Também não vais sofrer muito se não nos casamos. O que mais


gostas de mim é a celebridade, te encanta compartilhar os focos, assistir às estréias de Hollywood, entrar em Spargo do braço de uma estrela do tv. Adotou uma pose sofisticada, com uma mão na nuca outra na cadeira. O sorriso tímido dele supunha quase uma confessão. Mas seguiu pressionando: —Admite-o, Dean. Se fosse caixa de um supermercado, Pedirias minha mão? —É uma mulher fria, Cat Delaney. —Digo a verdade. Se a natureza do amor de Dean fosse diferente, ela já teria terminado suas relações a muito tempo atrás para não o machucar. Mas ele admitia que a queria somente todo o era capaz de amar. Abraçou-a e a beijou na frente. —A minha maneira quero-te, Cat, e sigo desejando casar-me contigo, mas, por agora, não insistirei, te parece bem? Não tinham resolvido nada, mas ao menos garantia uma trégua. —Parece-me bem. —Estupendo. Vamos dormir? —Antes nadarei um pouco. —Queres companhia? Não é que a Dean gostasse muito nadar, o que era uma pena, já que tinha uma piscina preciosa rodeada de verdes plantas, como um lago tropical. —Sobe. Não demorarei. Ele subiu a escada até o segundo andar. Cat saiu pela porta do terraço e caminhou pelo caminho de pedra do formoso jardim até a piscina. De forma maquinal, se desabotoou o vestido, tirou e, a seguir, deixou cair o sutiã e as calcinhas. Entrou nua na deliciosa água fresca. Era como um banho purificador. Talvez lavasse a inquietante insatisfação que a corroía há meses, não só por Dean, senão por todo o que rodeava sua vida. Fez três longos braçadas antes de tender-se de costas e ficar flutuando. Ainda lhe maravilhava poder nadar sem ofegar e sem medo que o coração parasse. Em um ano e meio atrás, lhe teria parecido impossível tamanha proeza. Estava preparada para morrer. E teria morrido se alguém não tivesse perdido a vida antes que ela.


Essa idéia estava guardada em sua mente e, quando a assaltava, era inquietante. Agora a fez sair da água. Tremendo, caminhou de em pontas do pé até o vestuário e envolveu-se em uma toalha. O pensamento espreitava-a: a morte de alguém lhe tinha presenteado a vida. Deixou claro a Dean e à equipe médica que não queria saber nada do doador. Muito rara vez se permitia pensar nesse ser anônimo como em uma pessoa, alguém com uma família que tinha feito um enorme sacrifício para que ela pudesse viver. Quando lhe assaltava a idéia desse alguém sem nome, seu ambiguo descontentamento lhe parecia uma montanha de egoísmo e autocompaixão. Tinham ceifado uma vida e tinham-lhe garantido outra a ela. Tendeu-se em uma das espriguiçadeiras, fechou os olhos e concentrou-se em reconhecer a afortunada que era. Tinha superado as desventajens de sua desgraçada infância, tinha perseguido um sonho e tinha-o feito realidade. Estava no ápice de sua carreira e trabalhava com pessoas de talento que a queriam e a admiravam. Tinha mais dinheiro do que precisava. Um cardiologista muito respeitado, com cultura, bem parecido, que vivia como um príncipe, a adorava e a desejava. E, então, por que esse inconcreto desassossego, essa incerta inquietude que não podia nem explicar nem desvanecer? Sua vida, tão duramente ganhada, parecia agora sem sentido nem rumo. Padecia por algo que não podia descrever nem identificar, algo que ia bem mais lá de seu alcance e de seu entendimento. Que mais podia querer que não tivesse? Que mais podia pedir se já lhe tinham dado a vida? Cat incorporou-se inesperadamente, com uma idéia repentina que lhe infundiu energia. A falta de confiança em um mesmo podia ser uma motivação Positiva e o exame de consciência não tinha nada de mau. Era o enfoque do autoanálises o que estava mal proposto. Em vez de indagar que mais podia querer talvez devesse se perguntar que podia dar.


Capítulo dez 10 DE OUTUBRO DE 1992 Sua casa sempre cheirava como se algo acabasse de sair do forno. Esta manhã eram massas de chá. Douradas e polvilhadas com açúcar, estavam enfriando sobre uma parte da mesa da cozinha, ao lado de um pastel de chocolate e duas tortas de frutas. As cortinas com volante flutuavam na janela aberta. Na geladeira, os imãs seguravam corações de san Valentín de papel vermelho, toalhas de enfeito e desenhos de perus e de anjos que pareciam morcegos. Todo obra dos netos. Respondeu ao telefonema na porta traseira com uma olhar, um sorriso e uma indicação de que passasse. —A toda a comunidade fica de água na boca. Tenho cheirado as bolachas nada mais sai de casa. Sua cara roliça estava ruborizada pelo calor do forno. Ao sorrir, os olhos vivazes e calorosos se inclinavam. —Apanha uma, agora que estão quentinhas — indicou as massas de chá. —Não, são para a festa. —Só uma, preciso tua opinião. Mas diga-me a verdade. Apanhou uma das massas e a alongou expectante. Teria sido de má educação negar-se, de modo que o recém chegado aceitou-a. —Hummm. São deliciosas e se desfaz na boca. Igual que as fazia minha avó. —Nunca me falou de tua família. E já está vivendo três meses na casa da o lado. Deu a volta e começou a lavar os cacharros no tanque. —Não há muito que contar. Papai estava no exército e mandavam de uma a outra cidade. Doze mudanças, doze escolas. -Devia de ser duro para um menino. -Isto é uma celebração! Não falemos de coisas tristes. É tua festa. Ela riu como uma criança, ainda que fosse uma cinquentona. -Tenho tantas coisas que fazer... Fred pediu permissão para sair antes. Chegará sobre as duas. E os meninos e a família às cinco. -Não podes fazer tudo sozinha. Tenho o dia livre para ajudar-te. -Não deveria o ter feito isso! O seu chefe não se zangou?


—Se enfadou má sorte. Disse que tenho como vizinha uma senhora muito especial e que, tanto gosto e a ajudaria a preparar sua festa de dois anos com um coração novo. Sentiu-se comovida e saltaram-se as lágrimas. —Tenho sido tão afortunada... Quando penso o perto que... —Vamos, vamos, esquece isso agora. É dia de festa. Por onde começamos? A mulher secou os olhos com um lenço bordado e devolveu-o ao bolso do avental. —Poderia começar a colocar as cadeiras de plástico enquanto rego as plantas. —Diante, pois. Entraram no salão, claro e acolhedor. Uma das paredes era uma porta de vidro com saída ao pátio. Para que lhe desse o sol, tinha uma samambaia pendurada no braço. —Suponho que seja Fred quem rega essa planta. Tu não alcanças. —Isso não é nenhum problema — contou —. Utilizo uma escada. Tinha passado um ano desde que o garoto dos Ward teve aquele desafortunado acidente em Memphis. Tinham decorrido doze meses de cuidadoso planejamento. Saber esperar, ainda que causasse angústia, era necessário. O procedimento era essencial em Sua missão. Sem ordem e disciplina, teria sido uma loucura. A parte mais longa do ano foi às últimas horas, desde meia-noite Tinham parecido tão longo como todas as do ano anterior juntas. Contava a cada segundo com impaciência. A longa espera já quase tinha terminado: estava a poucos minutos de ser gratificada Amor meu, estou fazendo isto por ti. É uma prova do amor que nem sequer a morte pode derrotar. —Uma escada Que bem. Capítulo onze NOVEMBRO DE 1993 Alguém tocou a campainha. —Eu ouvi um carro. Cat se afastou convidando Dean para que a companhasse ao salão de sua casa de Malibú. Tinha três prêmios Emmy em uma estante feita especialmente para eles. As paredes brancas estavam decoradas com retratos de revistas que aparecia sua imagem. Era uma habitação muito pessoal, cálida e acolhedora ao alto teto e os enormes janelas. A casa era de construção moderna, sobre um


alcantilado, e sob à praia uma empinada escada em zigzag. O fogo, na chaminé, diminuia o frio do dia. Desde a janela com vistas ao Pacífico, a paisagem era sem cor; e o horizonte, invisível. A água tinha a mesma cor cinza das nuvens. Inclusive com o mais desprezível clima, a Cat encantava paisagem marinha de sua casa. O oceano nunca deixava de assombrar. A cada vez que o olhava, era como se fosse a primeira de suas mudanças incessantes que inspiravam respeito, a desconcertava e a faziam se sentir insignificante comparada com aquele impeto selvagem. Costumava passear pela orla. Passava horas contemplando as enquanto pensava em suas opções, buscando respostas em puma. —Quer tomar algo? —perguntou. —Nada, obrigado. Retornou a cadeira confortável em que deixou cair uma manta ao ouvir o carro. No extremo da mesa tinha uma caneca de chá com menta e uma luz focava seu colo. Dean sentou diante dela. -Que é isso? -Rascunhos de roteiros. Todos os roteiristas da equipe têm apresentado uma idéia sobre o destino de Laura Madison. Todas são muito boas e muito tristes. Em vez de fazê-la desaparecer, sugeri-lhes que contratassem a outra atriz para o papel — suspirou e dêslizou os dedos entre os cachos —. Mas estão decididos a eliminá-la. —Não há outra atriz que possa interpretar o papel — disse Dean—. Nem sequer Meryl Streep poderia salvá-lo. Laura Madison és tu. Reconheceu no rosto de Dean sinais de frustração e ansiedade que teriam passado desapercebido para quem não o conhecia bem. Ela era a causadora de sua infelicidade, e isso a abalava. —Bom, já é coisa feita, não? —disse Dean—. Entertainment Tonight publicou-o ontem. Deixas Passages. Quando termina o contrato; pouco depois de primeiros de ano, segundo parece. Ela assentiu, mas não disse nada. O vento golpeava contra as paredes de vidro como se quisessem


apagar as velas da prateleira. Brinquei com a franja da manta. Quando levantou a vista, Dean olhava pela janela, com uma expressão tão turbulenta como as ondas. —Até que ponto tem influído Bill Webster em tua decisão? Demorou em responder. —A WWSA é sua cadeia de televisão. —Não é isso o que te estou perguntando. —Se insinuas que nossa relação é algo mais que profissional, estás muito equivocado. Tenho muitos defeitos, Dean, mas mentir não é um deles. Em todo caso, sou demasiado sincera inclusive quando não me convém. Além do mais, Bill é um homem felizmente casado com uma mulher tão atraente e encantadora Como ele. Ele seguia com as feições tensas. —Em uma tentativa desesperada por entender por que dá as costas a tua carreira, a tudo pelo que tanto tens lutado, tenho estudado tua decisão de todos os ângulos. Como é lógico, me ocorreu que um idilio podia ter influído. —Pois não — respondeu de forma categórica. —Os Webster têm seis filhos. Tinham também uma filha que morreu faz em alguns anos. Era a primeira e sua morte afetou-os muito —Faz já tempo, não me sento feliz com minha vida. Mas Só Quando Bill me falou de sua filha, faz uns seis meses, soube que tinha que começar de novo. A vida é demasiado valiosa Para perder nem em um só dia. »Essa noite, Bill e eu tivemos uma conversa muito séria sobre a perda de sua filha e, antes de me dar conta, estava na minha infância. Expliquei o que se sente ao ser uma órfã, e estar sob a tutela do Estado, passar de um orfanato a outro sem chegar a encaixar. »A conversa derivou para um grande programa que Bill tinha visto em várias grandes cidades, onde passa reportagens de meninos que precisavam pais adotivos por intermedio do telenoticias. Estava interessado em fazer o mesmo na WWSA como um serviço à comunidade. Então viu um novo ponto de partida para mim mesma. »Não tinha a intenção de manter à margem, Dean. Muitas vezes quis dizerto, mas sabia que tu não


podias ser objetivo. Nem entenderia meus motivos para querer, para precisar fazer isto. Esboçou um sorriso. —Não estou muito segura dos entender eu mesma. Mas aí. Lutei contra eles, tentei escapar, mas eles já tinham se fixado e não se foram embora. Quanto mais penso no alcance que pode ter o programa, mais esperançosa estou. »Tenho recordado todas as vezes que recusaram minha adoção pela idade, pelo sexo, por meu historico clínico. Inclusive o vermelho era um impedimento, segundo parece. »Há muitos meninos com problemas especiais, que não têm pais que os queiram. Começam a ficar obssessivos, Dean. Não posso dormir ao os ouvir chorar na escuridão, sozinhos, aterrorizem sem amor. Tenho que fazer algo por eles. É assim de simples. —Admiro teu altruismo, Cat. Se quiser adotar um menino mais de um, estou perfeitamente disposto. Cat não pôde evitar o riso. —Não me digas! Dean, faz favor, seja realista. É um médico extraordinário, mas falta-te a flexibilidade necessária para ser pai. —Se isso fosse a diferença entre te ter ou não... —Não o é. Crê-me: se pensasse que um juiz ia conceder a custodia de um menino a uma mulher solteira e com transplante o teria. Mas não se trata de que eu adote. Os Meninos de Cat é para convencer a outras pessoas que o façam. —Os Meninos de Cat? —O nome é idéia de Nancy Webster. Gostas? —Não parece muito original. Oxalá Dean pudesse compartilhar seu entusiasmo, mas era evidente que toda a idéia lhe parecia absurda. -Cat, para valer quer... degradar dessa forma? Deixar tua carreira e mudarse para Texas? -Será diferente — aceitou, com uma risadinha. -Não poderia te limitar a patrocinar o programa, ser a porta-voz oficial, sem ter que te envolver em pessoa? -Quer dizer ser uma figura decorativa?


- Algo parecido. -Seria um engano. Se leva meu nome, é meu programa. Quero trabalhar nele a minha maneira. Olhou a Dean com tristeza. -Além do mais, não o vejo como uma «degradação». Acho que não dou um passo atrás, senão vários passos à frente. Espero grandes recompensas. Inquieta pela emoção, tirou a manta e levantou da cadeira. —Isto é o que você não entende — deu a volta para olhá-lo e pôs uma mão no peito—. Faço isto porque não teria a consciência tranqüila se não o fizesse. —Tens razão — disse ele, ao mesmo tempo em que se levantava—. Não o entendo. Tiveste uma infância difícil; e quem não? Deixa-te de contos de fadas, Cat. Na vida real, quem mais quem menos, cresceu sentindo-se não querido. —Sim! Especialmente se teu pai e tua mãe preferem morrer a viver contigo! Sua resposta irada causou efeito. Olhou-a atônito. —Suicídio? Disseste-me que teus pais tinham morrido em um acidente. —Pois não. Agora lamentava ter dito a amarga verdade sobre a morte de seus pais, já que ele a observava com a mesma mescla de fascinação e horror com que as assistentes sociais comtemplaravam a Catherine Delaney, aquela criatura magra, perigosa e obstinada. —Por isso aprendi a contar piadas em vez de chorar. Ou me virava ou convertia-me em um caso perdido. De modo que não sinta Pena por mim, Dean Foi terrível quando ocorreu, mas me fez forte me deu, por exemplo, a coragem suficiente para superar um transplante. Espero que possas compreender por que tenho que seguir adiante meu projeto. »Sei por experiência própria o que é estar afastada de outros meninos. Se teus pais morrem, se doente, ou pobre, você é discriminada. Estas desvantagens fazem de um menino um bicho raro. E sabes tão bem como eu que se é diferente está fora. Ponto »Centos de milhares de meninos sofrem e têm problemas inimagináveis. Só passar o dia já lhes supõe um tormento. Não podem brincar, nem aprender, nem relacionar com outros meninos, porque têm


que suportar o ônus de ser maltratados, ou de ser órfãos, ou de estar doentes, ou qualquer combinação das coisas. »Há famílias capazes e ansiosas de poder ajudar a estes meninos se soubessem como os encontrar. Eu vou ajudar ao unir, um repto que agradeço. Marcou um objetivo e estou convencida de que por isso se me tem dado uma segunda vida. —Cat, não me venha com filosofias. Tens uma segunda vida porque a tecnologia médica tornou possível. —Tu tens tua explicação eu, a minha —contou ela- o único que sei é que deveria pagar de alguma forma minha boa sorte. Ser uma estrela da tv, amasar uma fortuna, estar rodeada de gente encantadora.. - não o é tudo na vida. Ao menos para mim. Quero mais, e não me refiro a mais dinheiro nem fama. Quero algo autêntico. Apanhou-lhe as mãos. —Tens para mim um valor inestimável. Foste um amigo incondicional durante a pior época de minha vida. Quero-te, admiro-te, e vou ter-te saudades. Mas não podes seguir sendo minha tábua de salvação. —Preferida ser teu marido. —Por agora não encaixam em meus planos nem idilios nem casamentos. O que vou fazer requer toda minha atenção. Faz favor, deseja-me sorte. Olhou-a fixamente aos olhos suplicantes. A seguir, sorriu com tristeza. -Estou convencido de que converterás o programa em um sucesso da noite para o dia. Tens o talento, a ambição e o modo de conseguir todo o que queres. —Agradeço-te o voto de confiança. —Sou, no entanto, um perdedor doído. Sigo pensando que Bill Webster te deslumbrou com toda essa retórica do programa como serviço à comunidade, É muito triste que tenha perdido a uma filha, mas acho que se aproveitou de tua compaixão para levar a sua emissora. »Contigo ali, o nível de audiência se porá pelas nuvens e ele o sabe. Duvido muito que seu interesse neste programa seja só altruísta. Atrevo-me a dizer que descobrirá que é um ser humano com as mesmas virtudes e defeitos que todos nós.


—Bill deu-me uma oportunidade, mas ele não é o motivo de minha decisão. Seus motivos não têm nada que ver com os meus. Eu queria mudar minha vida e, de não ter sido Os Meninos de Cat teria sido outra coisa. Dean declinou fazer nenhum comentário ao respecto e disse: Tenho a impressão de que vai sentir minha falta. A mim e a esta classe de vida. E sei que voltará logo — acariciou a bochecha—. Quando acontecer, estarei te esperando. —Rogo-te que não faça isso. -Em qualquer dia aparecerás por aqui. Porquanto, tal e como me pediste, te desejo muita sorte. Capítulo doze JANEIRO DE 1994 O relógio de em cima da mesa era antigo, com a esfera redonda e branca e os números grandes e negros. Tinha um segundo braço vermelho que marcava os segundos com um tictac compasso que recordava os batidos do coração. As tampas do álbum de recortes eram uma imitação de pele, mas bem feita, com o grão em relevo. Pesado e sólido, o tomo era agradável à palma da mão, que o acariciava como se fosse um animal doméstico. Em certa forma, isso era. Um mascote. Um amigo que pode estar seguro que guardará os segredos. Como alguém a quem cuidar com quem jogar em momentos de lazer ou a quem ir quando há necessidade de conchão e companhia. E com sua aprovação incondicional. As páginas estavam cheias de recortes de jornais. Muitas davam um resumo da vida do jovem Jerry Ward, sua valente luta contra um defeito congênito do coração, o transplante e a recuperação e sua morte prematura, acidental, ao afogar-se. Essa tragédia em plena adolescencia. Depois estava a avó na Flórida. Tão elogiada por familiares e amigos, desolados por sua inesperada morte. Ao que parece a mulher não tinha um só inimigo. Todos a queriam. Após o transplante, o cirurgião afirmou que a adaptação era boa. Teria vivido muitos mais anos a não ser pelo pedaço de vidro que se fincou no pulmão ao cair e atravessar a porta enquanto regava uma samambaia. E o


desgraçado acidente tinha ocorrido nada menos que no dia do segundo aniversário do transplante. Voltou a página. O seguinte aniversário: o 10 de outubro de 1993. Fazia três meses. Outro estado, outra cidade, outro transplantado. Outro desgraçado acidente. Se atrapalhou, este último, com a motossera. Tinha sido uma má idéia. Mas era um tipo que costumava estar ao ar livre, de modo que... Sua missão tinha uma falha evidente. Não tinha forma de saber com exatidão quando a teria cumprido. Era possível que já o tivesse feito, com a morte de Jerry Ward ou com qualquer dos outros dois. Mas não podia a dar por concluída até que todos aqueles receptores de um coração tivessem sido eliminados. Só então teria a segurança de que o coração e o espírito do ser amado se tinham reunido. Fechou o álbum com respeito. A tampa posterior recebeu uma caricia antes de ficar depositado na gaveta da mesa e fechado sob chave, ainda que não tivesse perigo de que alguém pudesse o ver. Ali nunca entrava ninguém. Antes de fechar a gaveta, sacou um grosso envelope e espalhou seu conteúdo sobre a mesa. A cada artigo, fotografia e recorte haviam sido etiquetados para facilitar seu estudo. Tinha memorizado e analisado todos os fatos relacionados com essa informação. Sabia a estatura, o peso, a talha de roupa, os gostos e manías, sua crença religiosa, o perfume favorito, os amigos especiais, o número da carteira de motorista, o da Seguro Social, suas tendências políticas, a medida do anel e o número de telefone do serviço doméstico que limpava sua casa de Malibú. Tinha demorado meses em reunir a informação, mas era surpreendente o que pode chegar, a saber, de uma pessoa quando se dedicava o tempo só a essa tarefa. Por suposto, como era famosa, os meios de comunicação lhe facilitavam o trabalho, ainda que essa informação não sempre fosse cofiável. Tinha que verifica-la. Era curioso em troca que tinha experimentado há pouco tempo. Abandonava sua fabulosa vida em


Hollywood pelo que parecia um trabalho de beneficencia em San Antonio, Texas. Seria interessante conhecer a Cat Delaney. E, matá-la, um verdadero desafio. Capítulo treze MAIO DE 1994 —Ouça, talvez ache que estou louco, mas tenho olhado você a algum tempo pensando que o conheço de a1gum lugar. Inesperadamente, veio-me à cabeça. É você Alex Pearson? —Não. —Seguro? —Seguro. —Vá. Teria jurado que era ele. Parece-se muito. Esse escritor, sabe? Tem escrito uma livros policiais que todo mundo lê. É você seu duplo. Já tinha ido demasiado longe. Alex tendeu-lhe a mão. —Sou Alex Pierce. —Droga! Sabia-o! Reconheci-o pela foto do livro. Chamo-me Lester Dobbs — o amistoso desconhecido apertou a mão—. Alegro-me de o conhecer, Alex. Posso chamar-lhe assim? —Claro. Sem ser convidado, Dobbs sentou-se enfrente de Alex. Era a hora do café da manhã em Denny’s. A cafeteria estava cheia de gente disposta a ir ao trabalho ou que acabava de terminar o turno de noite. Dobbs fez um sinal à garçonete para que voltasse às canecas de café. —Não sei por que parece tão puto — murmurou quando mulher deu a volta —. Afinal de contas deixei livre uma mesa. Alex dobrou o jornal e deixou-o sobre o assento contiguo. Ao que parece, demoraria a voltar a abrílo. —Tenho lido que é você de Texas. Não sei se vive ainda em Houston. —Não. Isto é, não sempre. Movo-me bastante. - Suponho que seu trabalho lhe dá essa liberdade. -Posso ligar o computador em qualquer parte enquanto tenha um escritório de correios e um telefone. .—Não me faria nenhum bem que me desse por ver o mundo - disse Dobbs com pesar—. Trabalho em uma refinaria. Desde os vinte e dois anos. Ela não vai ir a nenhuma parte e eu também não. Você faz a vida, mas isso é tudo. Os supervisores costumam ser uns filhos de puta à hora de marcar,


sabe o que quero dizer? —Sim, já conheço a esses tipos — respondeu Alex, solidario. -Você era policia verdade? -Sim. —E tem mudado a pistola pelo disco duro. Alex olhou-o assombrado. —Sou pronto, eh? Não é mérito meu. Li-o em um artigo sobre você no suplemento dominical, faz um par de meses. E ficou gravado. Estamos na seção de não fumantes? Droga. Bom, minha mulher e eu o admiramos. —Alegra-me ouvir-lo dizer isso. —Não leio muito, a verdade. Mas ela tem sempre o nariz metido em um livro. Compra-os de segunda mão, por dúzias. Eu gosto só do tipo de novela que você escreve. Quanto mais sangue, melhor. Alex assentiu e tomou um gole de café. Dobbs inclinou-se para diante e baixou a voz até um tom confidencial. —E, também, quanto mais porno, melhor. Cara, as coisas que saem nesse livro seu. Quase a cada vinte páginas empinava-me. Minha mulher também o agradece. Acrescentou um sussurro. Alex tentava manter-se tranqüilo. —Alegro-me de que se sentisse tão envolvido no relato. —Conhece tias como as que saem no livro? Alguma lhe fez um trabalhinho como o que descreve no livro? Os homens como Lester Dobbs ficam achar que escrevia suas próprias experiências. —São relatos de ficção. —Sim, já, mas algo para valer terá, não? Alex não podia contar que sua vida era solitária para não decepcionar o seu admirador, de modo que ficou calado e deixou que Dobbs tirasse suas próprias conclusões. Este escolheu a que mais lhe gostava e se ria ao mesmo tempo em que tossia. -Alguns filhos de puta têm sorte. Nenhuma mulher vai me fazer isso, seguro Suponho que melhor para mim — acrescentou com filosofía-. O mais provável é que me morresse de um infarto esparramado na cama, nu e preso como uma vela e... -Mais café, senhor Pierce?


A garçonete tinha a jarra sobre a caneca. —Não, obrigado. Traga-me a conta e acrescente a consumação do senhor Dobbs. —Oh, é você muito amável. Obrigado. —Não há de que. —A minha mulher ficará babando quando contar que o vi em pessoa. Quando sairá o próximo livro? —Dentro de um mês. —Será tão bom como o primeiro? —Acho que melhor, ainda que é difícil que um escritor ser juiz unânime de seu trabalho. —Bom, já me morro de vontades do ler. —Obrigado — Alex recolheu a conta e o jornal—. Perdoe, mas tenho pressa. Encantado de conhecer-lhe. Pagou na caixa e saiu do café, ainda que tivesse gostado de tomar-se outra caneca. Em realidade estava trabalhando quando Dobbs o interrompeu. Queria absorver o ambiente, observar às pessoas, seus gestos e traços faciais, anotando-os mentalmente para futuras personagens. Fazia-o com discrição e surpreendeu-lhe que Dobb tivesse consertado nele. Ainda se assombrava que seus leitores o reconhecessem, o que não sucedia muito com freqüência. Sua primeira novela, foi publicada no ano passado a duras penas, tinha tido um mediocre sucesso comercial. Mas quando saiu a edição de bolsos, com umas quantas boas críticas e um pouco de publicidade, as vendas dispararam. Agora estava em diversas listas dos livros mais vendidos e Hollywood tinha interessado em fazer um filme com ele para televisão. Os leitores esperavam ansiosa sua segunda novela, que sairia dentro de um mês. Para a terceira novela, seu agente pediu uma antecipação muito substanciosa, que a editora tinha pagado. O livro foi acolhido com entusiasmo pelo editor, que se tinha virado em desenhar uma portada atraente e em preparar uma campanha de promoção. Mas, por a este sucesso, Alex Pierce estava ainda longe fama. Seguia sendo um desconhecido para quem não liam ou seus gostos se apartavam de seu gênero.


Suas novelas policiais descreviam homens e mulheres a duas em situações perigosas, às vezes brutais. As personagens - eram narcotraficantes, capangas, cafetões, prostitutas, membros de gangues, assassinos, credores, incendiários, estupradores, ladrões, chantagistas, delatores: o pior da sociedade. Os heróis eram policias que tratavam com eles dentro ou fora da lei. Em seus relatos, a linha divisória entre o bem e o mau era tão sutil que mal se distinguia.. Suas novelas tinham um argumento duro e um fundo ainda mais duro. Escrevia com a olhar desesperançoso e o estômago de aço, sem poupar detalhes truculentos aos leitores e compondo uma narrativa e os diálogos com o maior realismo possível. Ainda que às vezes não há suficientes palavras para descrever um crime horrendo, ele tentava reproduzir sobre o papel as visões,sons e cheiros das atrocidades que um ser humano é capaz de infligir a outro e a psicologia escondida por trás de tais delitos. Costumava empregar a linguagem da rua e escrevia os episódios sexuais de forma tão gráfica como os que detalhavam autópsias. Seus livros causavam impacto. Não eram para pessoas demasiado sensíveis. Por a seu crudeza, um crítico disse que seu estilo tinha “.... coração. Pierce possui uma extraordinária percepção da experiencia humana. Chega até a medula para mostrar a alma». Alex mostrava-se cético pelos elogios. Temia que esses três primeiros livros fossem uma onda de boa sorte. Questionava seu talento diáriamente. Não era tão bom como queria ser e tinha chegado à triste conclusão de que ser um bom escritor e ter sucesso eram duas coisas incompatíveis. Por a estas dúvidas, seu círculo de leitores ia-se ampliando. O editor considerava-o um novo talento, mas ele não deixava que os elogios se lhe subissem à cabeça. Desconfiava da fama. Sua experiência anterior como centro de atenção dos meios de comunicação tinha sido a época mais turbulenta de sua vida. Por muito que quisesse triunfar como novelista, estava contente de viver agora no anonimato. Já tinha sido mais famoso do que tivesse querido.


Subiu ao esportivo e em matéria de minutos entrava na estrada, uma das mais temidas pelos motoristas pouco experiência. Deixou as janelas abertas, escutando o ruído do tráfico, flutuando o vento no cabelo, inclusive desfrutando do cheiro persistente dos tubos de escape. Deleitava-se com as sensações mais simples. Assombrava-lhe descobrir o estimulante que era o mundo agora que não tem os sentidos atrapalhados pelo álcool. Deixou a bebida ao ingressar em um hospital para alcoólicos. Após passar um verdadeiro inferno, saiu pálido, ésquelético e com tremores; mas sobrio. E não tinha provado uma gota desde fazia dois anos. Não se importava com o tipo de pressões que tivesse que suportar no futuro: estava decidido a não voltar a cair nesse poço. As perdas de conhecimento tinham-no desiludido para o resto de sua vida. Chegou ao apartamento, mas não era como voltar a casa. As espartanas habitações estavam cheias de caixas de viagem. Sua investigação obrigava-o a viajar com freqüência e a ter que alojar-se em lugares muito diversos. Não fazia sentido viver lugar fixo. De fato, já tinha realizado gerenciamentos para umem troca. Abriu-se passo entre as caixas, caminho do dormitório que servia também como escritório. Era a única dependência que parecia habitada. Uma cama sem fazer ao lado e uma mesa de trabalho ocupavam a maior parte do espaço. E tinha papel por toda partes. Montões de matéria1 impresso acumulavamse no chão e nas paredes, como uma improvisada e caótica biblioteca que era o macabro recordação de sua data limite. Olhou o calendário da parede. Maio. O tempo passava rápido, demasiado rápido. E tinha muito que fazer. Capítulo catorze —Até quando teremos que esperar para fazer uma reportagem deste menino e conseguir um lar estável? Cat, exasperada, repassava o expediente. Aos quatro anos, Danny já tinha recebido mais surras que a maioria de gente em toda sua vida.


Lia os relatórios em voz alta: —O amigo de sua mãe o surra com freqüência, assim que retirarmos a cústodia de sua mãe e proporcionaremos um lar acolhedor onde estão vários meninos. Levantou a vista e continuou falando com Sherry Parks, uma especialista em proteção da infância do Departamento de Serviços Humanitários de Texas. —Graças a Deus, o amigo já não lhe bate, mas Danny precisa atenção personalizada. Precisa que o adotem, Sherry. —Sua mãe quer se livrar dele. —Pois qual é o problema? Façamos uma reportagem, a ver se conseguimos que algumas famílias se interessem por sua adoção. —O problema é o juiz, Cat. Se quizer volto a apresentar o caso de Danny, mas não acho que sua decisão seja diferente agora. A assistente social de Danny insiste em afirmar que a criança deve estar em um orfanato. Até agora, o juiz decidiu a seu favor. Desde o começo do programa, Sherry Parks, uma mulher de meia idade e sentimentos maternais, tinha sido o elo de Cat com a agência governamental. Ela se desdobrava para tirar os meninos maltratados ou com problemas especiais do sistema de orfanato e, aspirava a encontrar-lhes pais adotivos. Não era empresa fácil. Tinha intermináveis trâmites burocráticos e, com freqüência, topava com os assistentes sociais dos meninos maltratados e com juízes que, como qualquer outra pessoa tinham preconceitos e opiniões que influíam em sua decisão. O menino, antes vítima em sua casa, convertiase muitas vezes em vítima do inoperante sistema. Cat disse: —Estou segura de que a assistente trabalha com boa fé, mas acho que Danny precisa um lar estável. Falta a ele segurança e pais que sinta como seus. —A assistente faz questão de que ainda precisa ajuda psicológica antes de estar preparado para a adoção — contou Sherry Parks atuando como advogado do diabo-. Esteve abandonado desde o dia em que saiu da maternidade. Tem que aprender a viver dentro de uma estrutura familiar.


Recomendá-lo para adoção seria prematuro e destinado ao fracasso, segundo diz. Queremos inseri-lo dentro do sistema demasiado rápido As sobrancelhas roliças de Cat franziram-se. —Enquanto, a mensagem que chega é bem clara: ninguém te quer. Esta no orfanato até que demonstres apto para ser adotado. Não se dão conta da responsabilidade que recae nos ombros de Danny? A sensação de fracasso e impotencia são cada vez mais fortes. É um círculo vicioso do que não pode escapar. —Com franqueza, Cat: o menino é um pesadelo. Morde a torto e a direito, faz birras diariamente, destroça todo o que cai em suas mãos. Cat jogou a cabeça para trás e levantou as mãos em sinal de rendição. —Sei-o, sei-o, tenho lido o relatório. Mas o mau comportamento é sintomático, uma tentativa de chamar a atenção. Lembrança alguns dos truques que eu utilizava só para demonstrar o quanto indesejável e rebelde que era. Após boas perspectivas que, ao final, eram rejeições. »Sei de onde vem, e será um menino insuportável até que alguém se sente com ele e lhe diga: “Não me importo tuas birras Danny, te quererei de todas formas. Nada pode evitar que te queira. Nada. E também não te baterei nem te deixarei. Pertencemos-nos o um ao outro.” »E esse alguém tem que o abraçar até que a mensagem atravesse a droga que tem armazenado em seu coração e em sua cabeça até lhe fazer social e emocionalmente um desajustado. Jeff Doyle aplaudiu. —Tem sido um discurso comovedor, Cat. Deveríamos aproveitá-lo para publicidade. Sorriu ao jovem que fazia parte da equipe. No pouco tempo que levavam trabalhando juntos, se tinha convertido em um colaborador imprescindível. Nenhum trabalho eralhe grande, mas também não se importava realizar tarefas menores. Era tão importante para o sucesso do programa que, ultimamente, Cat tinha pedido que assistisse às reuniões com ela e Sherry. Tinha tomado interesse não só pela qualidade das reportagens, senão também pelo bem-estar dos meninos que intervinham.


-Obrigado, Jeff — disse—. Mas não estava fazendo propaganda. Falava sério. Então se dirigiu a Sherry. -Não te importas voltar a apresentar ao juiz o caso de Danny? —Não me importo, mas vejo-o negro. De todas as formas, o farei. Apanhou o expediente e pô-lo dentro da maleta. —Já te comunicarei no dia e hora da vista. Cat assentiu. —Se eu não estiver, deixa o recado com Jeff ou Melia. —Será melhor que o deixe comigo — interveio Jeff—. Ou pode ser que Cat não o receba. Sherry olhou a ambos, mas Cat fez caso omisso. Jeff tinha mordido a língua: já disse a você em partucular. Roupa suja se lava em casa. Sherry recolheu suas coisas. —Suponho que isto é tudo por agora. Manteremos contato. Na porta, deteve-se para acrescentar: —De verdade, a reportagem de ontem à noite esteve muito bem. —Obrigado em nome de toda a equipe. A câmera de vídeo Conseguiu estupendas imagens de Sally. A pequena, de cinco anos, tinha dificuldades de dicção como resultado de maus tratos físicos. A incapacidade, igual ao seu retraimento, podia se solucionar com amor e atenção. —Claro que seus olhos diziam tudo. Só tivemos que fazer primeiros planos. Seus olhos já explicavam sua história, de maneira que a Voz em off quase estava a mais. É uma criatura com vontades de dar amor Espero que esta manhã o quadro de seu escritório tenha sido bloqueado. —Eu também — contou Sherry—. Seguro que não te importa em me fazer esse favor? -Me ofereci como voluntária. Após marcar uma entrevista com um casal que tinha solicitado uma adoção, Sherry se deu conta que tinha um erro em sua agenda. Cat tinha-a convencido a deixá-la ocupar seu lugar. —Pois obrigado de novo Te chamarei esta tarde para saber como foi. Sherry saiu e Jeff voltou a encher a caneca de café de Cat. —Que temos hoje? —Faz favor, vá ver se Melia já chegou. E, de agora em diante, guarde a sua opinião, sobre ela ou sobre qualquer pessoa da WWSA, diante de estranhos. De acordo?


—Sinto-o, sei que tinha que me ter calar, mas foi inconsciente. Além do mais é verdadeiro. Há muitas possibilidades de que qualquer recado que deixem com Melia se perca antes de chegar a teu escritório. —Esse é meu problema, não o teu. —Mas... —É meu problema. E já o solucionarei. De acordo? —De acordo. Saiu e voltou, segundos depois com Melia King. Não se diferenciavam apenas no sexo. Jeff era loiro, de olhos azuis e vestia-se como os universitários imaculados. Melia tinha as pálpebras pesadas, olhos negros que acentuava com sombreado escuro e lábios carnudos e sensuais. Sentia preDigalheção pelas cores chamativas, que destacavam sua cor de pele morena e seu cabelo moreno. —Bons dias, Melia. —Olá. Esta manhã levava um cingido vestido de ponto de cor vermelha ignição. Sentou-se e cruzou as pernas longas e torneadas. Seu sorriso era desdenhoso, arrogante, afetado, e Cat não a suportava. Seu ressentimento tinha-se convertido em uma fonte de mal-estar no escritório. Por desgraça, as más vibrações não eram motivo de demissão; caso contrário, Cat já a teria demitido. Por outra parte, também não podia tomar essa decisão por sua conta. Bill Webster tinha selecionado à equipe antes de sua chegada e os «candidatos» tinham sido apresentados para que desse seu visto bom. Jeff Doyle tinha solicitado passar a ser realizador de noticiários, mas ofereceu-se a oportunidade de trabalhar no programa de Cat e pareceu um posto de maior creatividadade. Melia King já estava na equipe de redação e também tinha expressado vontade de ter mais variedade, mais responsabilidade e mais dinheiro. Os Meninos de Cat lhe caíram como uma luva. Cat pensou que teria sido uma grosería deixar de lado o pessoal eleito por Bill, ainda que tivesse notado a antipatía de Melia no mesmo momento em que apertaram a mão. Não tinha outra


explicação da hostilidade da jovem, imaginou que Melia estivesse nervosa ao conhecer a sua chefa e que cedo romperia o gelo. No entanto, seis meses após trabalharem juntas, sua relação era ainda glacial. Melia nunca chegava tarde, por enquanto cometia pequenos erros e alguma que outra negligencia. Sempre se desculpava com alguma desculpa. Em poucas palavras: cobria as costas. —Que tenho para hoje? —perguntou-lhe Cat. Melia abriu com displicencia a agenda. -Entrevista com o senhor e a senhora Walters por conta da senhorita Parks. —A que hora? —perguntou Cat olhando o relógio de pulso. —Às onze. Deixou o expediente em cima de minha mesa. —O recolherei quando sair. —Vivem em uma zona rural perto de Kerrville. Sabe por onde vai? —Não. Melia olhou-a como se a ignorância de Cat da geografia de Texas fosse o cúmulo da estupidez. - Terei que lhe fazer um mapa. —Me seria de grande ajuda. Algo mais? —Sessão de montagem às três. —Estarei de volta muito antes. —E o senhor Webster quer vê-la a qualquer hora, quando estiver bem para você. —Chama-lhe e pergunta se posso ir agora. Sem dizer uma palavra, Melia levantou-se e caminhou para a porta com andares felinos. Era evidente que a Jeff não impressionava, já que fez uma careta de desagrado. Cat simulou que não se tinha dado conta. Não gostava dos Comentários maledicientes entre colegas de trabalho nem queria tomar partido por um ou outro. —Temos confirmação de onde filmaremos a reportagem de Tony? Sempre chamava aos meninos pelo nome de pilha, recordando quanto odiava que se referissem a ela como «a menina», Como se por estar sob a tutela do Estado não fosse uma pessoa. -Que te parece Brackenridge Park? —sugeriu Jeff—. Poderiamos tomar imagens de Tony montado no trem em miniatura. Ficaria simpático -Tony desfrutaria. A que menino de seis anos não gosta de trens? Melia colocou a cabeça pela porta. - O senhor Webster diz que pode ir.


E voltou a desaparecer. Cat levantou-se da mesa e disse a Jeff: —Enquanto estou fora, vá ao parque e faz os gerenciamentos precisos. Diga ao encarregado que gostaríamos de filmar na quarta-feira pela manhã e que te confirme que o trem funcionara a que horas. E ligue ao escritório de Sherry para dizer-lhes a que horas têm que levar ao Tony. E pede a produção uma equipe de video. Jeff tomava notas com rapidez. —A1go mais? —Sim, anima-te. A vida é demasiado curta para levá-la tão a sério. Ele levantou a cabeça do bloco e a olhou desconcertado... —Crê-me: eu o sei. O escritório de Cat comunicava-se com a redação através de um corredor. Bill Webster tinha-lhe oferecido um escritório maior e melhor situado na planta de executivos, mas ela o tinha recusado. Seu programa pertencia à área de noticiários. Parecia-lhe importante que sua equipe estivesse integrada com as câmeras de vídeo, os montadores e o pessoal dos estúdios. Tinha-lhe dito a Webster: —Dependo deles para ficar bem em tela e não me derei ao luxo de sua inimizade. Teve certa prevenção contra ela por parte do pessoal de redação. Cat Delaney não tinha ganhado o posto a pulso como eles. Era atriz e não jornalista. Cat admitia não ter conhecimentos jornalísticos e sabia que seria mal recebida no departamento. Sem dúvida esperavam que os olhasse acima do ombro, já que vinha de Hollywood, e se comportasse como a sabe-tudo mandona. Contudo, pedia sempre conselho. Por ter passado anos diante das câmeras, desconhecia todo o referente aos informativos. A força de perguntar, de equivocar-se em palavras e gestos que requeriam repetições, e de caçoar sobre sua torpeza, ia ganhando sua simpatia. A secretária do presidente recebeu-a com cordialidade. —O senhor Webster está-a esperando, senhorita Delaney. Faça o favor de passar. —Não poderia estar mais contente por como vão as coisas - disse Bill quando Cat se sentou à mesa lacada em negro que brilhava como um espelho.


—Já o disseste muitas vezes. Se continuar com teus elogios, sou capaz de ruborizar-me. - Não são elogios, tenho as cifras que o ratificam. Os Meninos de Cat é um sucesso esmagador. - Não é o que opina Truitt. Rum Truitt era um jornalista do San Antonio Light que criticava ao programa desde o princípio. -Esteve especialmente sarcástico em seu último artigo. A ver, como o dizia? «Estas reportagens são ingênuas e sensíveis, não têm mais sentido em um telediário que um intermedio musical». Esse tipo sabe como esmagar com uma frase, eh? Webster não se tomou a mal a crítica do jornalista. -Por desgraça, San Antonio é conhecida nos círculos de televisão como «o mercado sangrento». Como qualquer outra cidade, temos nossa ração de violência. E os informativos, a tendência sempre tem sido: quanto mais sangue, melhor. A política da WWSA não é uma exceção. Temos tido que nos adaptar para seguir sendo competitivos. Não gosto, mas assim são das coisas — disse estendendo as mãos, resignado-. Comparados com nossos titulares, que quase sempre se referem aos crimes violentos, tuas reportagens são como um sopro de ar fresco. Recordam aos telespectadores que ainda existe bondade no mundo. De modo que esquece das críticas de Truitt e considera-as como publicidade gratuita. Cat não compartilhava a falta de preocupação de Webster pelas críticas. Uma má crítica era uma má crítica. Não lhe teria molestado tanto se censurase sua atuação, mas atacava a seu «filho» e, como uma loba, defendia a suas crias. —Se querem ver violência e crueldade deveíamos ensiná-lo as situações que têm vivido estes meninos — contou com amargura. —Motivo a mais para que não te importes com as críticas. Diga a Truitt que sua opinião te traz sem cuidado. —Tentei-o, mas esse covarde não se atende ao telefone — encolheu de ombros - Suponho que é melhor; não gostaría de dar a satisfação de saber que seus artigos tendenciosos me Preocupam.


Webster perguntou-lhe se queria tomar algo, mas ela declinou o convite dizendo que tinha uma entrevista com uns possíveis pais adotivos. —Isso não encaixa dentro de tuas responsabilidades. —Não, mas Sherry se tinha comprometido e surgiu um imprevisto. Em vez de anular entrevista, ofereci-me a ir. Além do mais, parece que há boas perspectivas A verdade, Bill, gostaria de conhecer pessoalmente a todos os solicitantes, já que me daria a oportunidade de explicar com exatidão com o que vão a encontrar. O posso dar desde uma perspectiva especial. —A de alguém que tem passou por orfanato. —Exato. Ainda que tenham que fazer o cursinho de Paternidade Positiva, dois meses e meio de formação não preparam para os problemas que se apresentam ao relacionar com um menino especial. Também teriam ocasião de comprovar que tanto o programa como eu sou sério. —Já trabalhas o suficiente. —Encanta-me estar ocupada. —E é uma fanática do controle. Queres supervisionar Culpado — contou com um sorriso. —Deverias cuidar-te. O conselho irritou-a. Não suportava um tratamento deferente pelo transplante. —Não me venhas com essas, Bill. —Cat, digo-lhes o mesmo a todas as pessoas com responsabilidade. Que não trabalhem até o ponto de jogar com a sua saúde. Eles não têm um coração transplantado, acho que é um bom conselho para todo mundo. —Admito-o. —Entende-se bem com teus colaboradores? Ao ver que ela vacilava, Webster levantou as sobrancelhas. —Algum problema? —Sempre que se trabalha em equipe é provável que tenha algum problema —c ontestou com diplomacia. Webster se reclinou na cadeira. —A controvérsia pode conduzir com freqüência a um intercâmbio de idéia muito beneficioso. Pensava que tua equipe estava bem eleita. Optou por abordar seus problemas com Melia dando um rodeio.


—Jeff é um trabalhador incansável e muito eficiente. Mas às vezes se sobreexcita. —É homossexual? —É que isso importa? —Em absoluto; simples curiosidade. É o rumor que corre. Tanto faz; pessoalmente, penso que encaixa mais em teu programa que no esquema rígido de noticiários. Tudo bom com Melia? —Tem suas mudanças de humor. —Como todos, não? —Desde depois. Mas às vezes suas mudanças de humor e estão a ponto de chocar. Não quis insinuar que toda a culpa era de Melia. Talvez o era. A antipatía era mútua, ainda que Cat tinha feito o possível para conceder-lhe o benefício da dúvida. Tinha mais paciência com ela da que merecia. Webster não recolheu a indireta. - Tal e como disse, sempre que há que trabalhar com outras pessoas o mais provável é que tenha controvérsias. - Bil tinha-se preocupado de que suem troca à WWSA fosse fácil e agradável. Não queria parecer uma quejica, por isso guardou suas queixas. -Estou convencida de que, com o tempo, tudo se acertará. -Isso creio eu, algo mais? Olhou o relógio e viu que ainda dispunha de uns minutos. —Gostaria que pensasses em de a possibilidade de uma arrecadação de fundos. -Arrecadação de fundos? —Para os meninos, os que estão em orfanato e os já adotados. Aos pais, o Estado paga-lhes duzentos dólares mensais por menino. A Segurança Social faz-se cargo da atenção médica. Mas isso não o cobre tudo. Não seria boa publicidade para a emissora, e também beneficioso para os meninos, se a WWSA patrocinasse um concerto, ou um torneio de golf, ou algo parecido, a fim de arrecadar fundos para os extras? Extras como a ortodontia, óculos e acampamentos de verão? —É uma grande idéia. Faz o que te pareça. —Obrigado, mas preciso ajuda. Ainda sou uma recém chegada e não conheço a muita gente. Acha


que Nancy gostaria de me ajudar? —Estará encantada. Nada gosta mais que das obras de bêneficencia. —Estupendo. A chamarei — se levantou—. Tenho que ir. Ele a acompanhou até a porta. —Está fazendo um bom trabalho, Cat; é uma sorte que esteja aqui. Deste à emissora credibilidade, carisma e classe. Tem sido igualmente proveitoso para ti? Não te arrependes de ter deixado Califórnia? És feliz? -Arrepender-me? Nem o um pouco. Adoro aos meninos, estou fazendo algo que vale a pena e me sinto recompensada. Bill esperou mas, quando ela não disse nada mais, sondou: —Isso só responde uma parte de minha pergunta. -Se sou feliz? Desde depois, por que não teria do ser? —E o doutor Spicer? Cat se dava bem com os colegas de trabalho, mas não tinha tido tempo de cultivar amizades. Além do mais, tinha como norma não misturar o trabalho e os assuntos pessoais. As longas e apertadas jornadas trabalhistas não deixavam muito tempo para relacionar com outras pessoas. Portanto Dean seguia sendo seu melhor amigo; assim disse a Bill. —Telefonamos-nos muita com freqüência. Isso preocupou a Bill. —Existe a possibilidade de que possa te convencer para que volte a Califórnia? —Nenhuma. Tenho muito que fazer aqui — olhou o relógio de pulsera — Para começar, uma entrevista às onze. Capítulo quinze Tocou a campainha do rancho. Através da teia metálica da porta principal, Cat viu um amplo vestíbulo que chegava até a parte posterior da casa. Várias habitações comunicavam com este repartidor central, mas desde onde olhava não via ninguém. Por ali perto latiu um cão; grande, supôs a julgar pelos fortes latidos. Por sorte, parecia mais curioso que feroz. Voltou a chamar e olhou a suas costas. A casa estava situada por trás de uma colina que a ocultava a estrada governamental. Uma cerca marcava os limites da propriedade e dividia-a em diversos


pastos, onde pastavam cavalos e gado de corte. O edifício, de uma só planta, estava construído com pedra calcária. Uma grade de madeira coberta de frondosas dlicinias dava sombra ao terraço e nos tetos cresciam geranios vermelhos. Tudo tinha um aspecto bem cuidado, incluído o dourado perdiguero que se assomou por uma esquina e subiu os degraus de pedra. —Olá, cachorrinho. O animal inalou a mão que ela oferecia e depois deu uma lambida amistosa. —É o único que está em casa? Pensava que me estavam esperando Bem, a Sherry. Voltou a chamar. Os Walters têm que estar em alguma parte da Casa, raciocinou Parecia pouco provável que se tivessem ido sem fechar a Porta de madeira. Voltou a olhar através da teia metálica e gritou: -Olá! Há alguém? Da parte posterior da casa, uma porta abriu e um homem saiu ao vestíbulo. Cat retrocedeu, envergonhada de ter sido surpreendida espiando pela janela. Era alto, delgado, e estava descalço. Levava barba de dois dias e, enquanto avançava para a porta, tentou levantar o zíper do Levi’s, mas deixou-o após um par de botões. Arrumou o cabelo desordenado, bocejou e coçou o torso nu. —Posso ajudá-la em algo? Estudou-a através da janela. Cat estava perplexa. Se teria equivocado Melia ao desenhar o mapa? Ou Sherry tinha-se confundido de número de propriedade ou de hora? Era evidente que o senhor Walters não esperava a ninguém. Saía diretamente da cama. Estaria sua esposa com ele? Teria interrompido algo? —Olá, sou... Cat Delaney. Ficou olhando para ela durante uns momentos. A seguir abriu a porta de janela e observou-a inclusive com maior curiosidade. —Olá. Seu nome costumava suscitar alguma reação. Quando os vendedores se davam conta da quem tinham devolvido o cartão de crédito, ou ficavam mudos ou falavam demasiado. Os garçons


gaguejavam cordiais cumpridos enquanto acompanhavam-na à melhor mesa. Sua presença em algum lugar público provocava sussurros. O senhor Walters nem sequer piscou. Ao que parece, seu nome não significava nada para ele. —A senhorita Parks, Sherry Parks, não pode vir, e eu... —Calado! —gritou ele se dando uma palmada na coxa. Cat ficou boquiabierta, mas logo compreendeu que não dizia a ela. Falava ao cão, que ainda seguia lambendo a mão com sua língua longa e rosada. —Senta-te, Bandit — ordenou com dureza. Cat olhou ao cão com simpatia quando o animal se retirou a um extremo da entrada e fez o que lhe tinham ordenado, apoiando a cabeça sobre as patas traseiras, mas sem apartar seus olhos tristes dela. Ao voltar à cabeça advertiu que o homem levava aberta com o braço estendido e tenso, o qual permitia ver sua axila. Uma só gota de suor escorregava-lhe pela superfície ondulada desde as costas até a cintura e perdia-se em um umbigo dentro do jeans a meio aberto. Ela engoliu saliva. —Temo-me que há algum erro. —Vou tomar café. Entre. Deu a volta e desapareceu. Cat apoiou a mão na porta antes que se fechasse e vacilou pensando se era prudente entrar. O homem não parecia muito predisposto a atender visitas. Sua mulher ainda não tinha aparecido. Mas não era seu estilo retirar ante a adversidade. Tinha enpenhado uma hora de seu valioso tempo para chegar até ali. Se agora abandonasse, a viagem teria sido em vão. Além do mais, tinha que fazer um relatório completo para Sherry. Estava ofendida pela grosería do senhor Walters, mas, ao mesmo tempo, sentia curiosidade. Tinha lido a solicitação do casal e tinha gostado. Ambos tinham títulos universitários, quarenta e poucos anos, e, após quinze de casamento, seguiam sem filhos. A senhora Walters estava disposta a abandonar seu emprego como bibliotecaria para se converter em mãe, com plena dedicação, de um menino especial. A perda de seu salário não supunha nenhum


problema já que o senhor Walters se ganhava muito bem a vida como proprietário de uma empresa de cimento. Pareciam ideais para adotar a um dos meninos. Por que teriam tomado o tempo e a moléstia de encher a solicitação e depois não tinham feito o mínimo esforço de se preparar para a primeira entrevista? A pergunta era demasiado intrigante como para deixar sem resposta. «A curiosidade matou ao gato», recordou ao entrar. O ditado podia ser um bom titular se não saía com vida, pensou com ironia. A arcada pela que tinha desaparecido o homem se abria um grande salão e amplas janelas permitiam a entrada do sol e a contemplação da formosa paisagem campestre. Os móveis eram confortáveis e acolhedores. Uma habitação preciosa, mas imperava a desordem. Uma camisa de homem pendurada num dos braços da cadeira, as botas de vaqueiro e um par de meias estavam atiradas no chão. A televisão estava em ligada, mas sem som, o qual o poupou de escutar os berros dos desenhos animados. Tinha jornais espalhados por todas as partes e um travesseiro jogado em um lado do sofá ainda guardava a forma de uma cabeça. Dois copos de limonada ocupavam uma esquina da mesinha, ao lado de um saco de batatas fritas amassado e o que pareciam os restos de um sanduíche de mortadela. Cat ficou justo à entrada do salão, desagradada pelo que via, no outro lado do balcão que separava as duas habitações estava a cozinha, onde o senhor Walters tirava copos de um armário. Soprou para tirar-lhes o pó. -Não está a senhora Walters? —perguntou Cat, duvidosa. —Não. —Quando voltará? —Não o sei. Suponho que dentro de um par de dias. O café já está. Programei a cafeteira para que se pusesse em começar às sete. Tem repousado umas quantas horas, mas quanto mais forte melhor, não? Leite ou açúcar?


—A verdade é que... —Vá! Esqueça do leite. Tinha uma caixa aberta da geladeira. E cheirava azedo. —Tinha um açucareiro em alguma parte — murmurou buscava—. Vi-o faz dois ou três dias. —Não quero açúcar. —Melhor, já que não o encontro. Não lhe estranhava. A cozinha estava em piores condições que o salão. O tanque transbordava de pratos sujos, no forno tinha duas ou três bandejas grudentas, a superfície da mesa estava coberta a mais pratos sujos, correio sem abrir, revistas, papéis e o recepiente gorduroso de tortinhaas mexicanas «prontas para assar». Algo amarelo e gelatinoso tinha caído ao chão. O exterior idílico da casa era enganoso. Quem morava ali eram uns desastrados. —Aqui tem. Fez escorregar um copo pela bar para ela. Chapinou nas baldosas, mas pareceu não se dar conta. Ele já bebia seu copo. Após uns tragos, suspirou: —Bom, que vende? Riu, incrédula. —Não vendo nada. Sherry Parks achava que tinha uma entrevista com vocês esta manhã. —Já, e como tem dito que se chama? —Cat Delaney. —Cat... Olhou-a de soslaio através do vapor que emanava de café. Deu uma revista de acima abaixo. —Maldita seja! É você a estrela de televisão, não? —De certo modo —contou com friamente—. Agora substituo à senhorita Parks, que tinha uma entrevista com vocês esta manhã às onze. —Uma entrevista? Esta manhã? Negou com a cabeça, aturdido. Cat fez um gesto de despedida com a mão. —Não importa. Deve de ter algum malentendido, mas dá igual — jogou uma olhada à sujeira que a rodeava e, 1ogo o olhou cara a cara—. Não acho que servisse. Bebeu um gole de café. -Servir pára que?


Ou era doido da cabeça ou muito idiota. Não sabia se batia da cabeça ou se para valer não tinha nem a menor idéia de sua visita. A senhora Walters nos enviou uma solicitação e concordando com a entrevista pelas costas de seu marido para enfrentar aos fatos consumados. Ocorria algumas vezes. Um membro do casal, no geral a esposa, queria ser mãe e o marido não; em ocasiões, inclusive opunha-se redondamente. Esse podia ser o caso e Cat não queria se ver no meio de uma disputa conjugal. -Têm estudado o assunto em todos os aspectos? Ele deu a volta para se servir outro copo de café e, por em cima do ombro, perguntou: -Os aspectos de que? —De adotar um menino — respondeu, a ponto de perder a paciência. O homem dedicou-lhe uma olhar perspicaz, baixou a cabeça, fechou os olhos e mexeu o nariz. —Devo de estar sonhando — balbuceou —— Você está aqui para falar sobre a adoção de um menino? —Por suposto, que se imaginava? —E eu que sei - contou enojado—. Para mim, você é a que faz propaganda das bolachas Girl Scout. —Pois não. —De modo que... Calou-se quando se lhe acendeu uma bombilla. Deixou o copo em cima do balcão. —Droga! Que dia é hoje? —Segunda-feira. Olhou o calendário pendurado em cima da geladeira e deu um soco na parede. —Maldita seja. Começou a passear-se acima e abaixo enquanto mexia os escuros cabelos com aspecto contrariado. -Tinha que chamar uma tal senhorita Parks na sexta-feira para adiar a entrevista Tudo é culpa minha, me esqueci de olhar o calendário a cada dia tal e como me disse ela. De verdade! Olhe, sinto-o poderia ter-lhe poupado a viagem. Terá que marcar outra entrevista. —Não acho que será necessário — disse Cat em tom seco—. Diga a sua esposa...


-Minha esposa? —Não está casado? —Não Ela se considera a senhora Walters. —E o é. Irene Walters está casada com Charlie Walters. Não gostariam que me tivessem confundido com dele. Como resposta a sua olhar de assombro, negou e explicou: —Estou cuidando da casa. Na semana passada que viajar as pressas quando um dos parentes de Charlie teve um acidente em Georgia. Eu precisava um lugar tranqüilo para trabalhar enquanto pintavam meu apartamento. De modo que era uma boa troca. —Deixaram-no ao cuidado de sua casa? Olhou com toda intenção o tanque repleto de pratos sujos. Ele seguiu sua olhar e pareceu surpreendido, como se os visse pela primeira vez. —Terei que limpar antes que voltem. Faz um par ou três de dias veio uma faxineira, mas a pus porta a fora. Estava feito louco tirando o pó e passando o aspirador enquanto eu tentava escrever. Parece-me que a insultei, não sei, o caso é que saiu com muita uma fúria. Irene terá que a acalmar, e também ficará chateada comigo por isso. —Escreve? Parecia absorto. —Como diz? —Disse que tentava escrever. Passou junto a Cat e chegou da estante do salão. Sacou um livro e o lançou. —Alex Pierce. Ela leu o título do livro; depois, deu a volta para fotografia da contracapa. O homem da foto levava terno e gravata e eram bem diferentes. Mas os olhos eram os mesmos: cinzas e penetrantes sob espessas sobrancelhas; uma delas, partida por uma cicatriz. Nariz reto. Boca sensual. Mandíbula quadrada. Era um rosto muito masculino, duro e atrativo. Manteve a cabeça baixa, já que era mais fácil olhar os olhos da foto que os reais. Sentia um calor inexplicável e vontade de voar. —Tenho ouvido falar de você, mas não o teria reconhecido. —Me adecenté para a foto. Arnie, meu agente, insistiu. —Quantos livros tem publicado, senhor Pierce?


—Dois. O terceiro está previsto para o ano que vem. —Novela policial, verdade? Ou algo parecido? —Algo parecido. —Me desculpe, não os li. —Não gostaria. Isso fez que levantasse a cabeça. —Por que não? _Não é seu tipo — se encolheu de ombros—. Meus livros falam de tripas e pistolas, de sangue e cérebros, de assassinato e violência. Não são agradáveis. -Mas devem de ser realistas. Ele levantou a sobrancelha partida. -Por que acha que não gostaria? Olhou-a de novo com insolência e, a seguir, apanhou uma mecha de seu cabelo. -Porque, neles, as ruivas sempre são mulheres fáceis. Sentia o estômago na garganta, o qual a pôs furiosa, já que suspeitava que fosse a reação que ele queria. Apartou a mão. —E de gênio vivo — acrescentou com um sorriso arrogante. Devolveu-lhe o livro. —Tem razão, não gostaria. Lutando contra sua indignação, só conseguiu se dominar, porque não queria estar à altura do estereotipo. —Quando acha que voltarão os Walters? —Disseram que me chamariam quando saíssem de Georgia. Até que dêem sinais de vida, qualquer sabe. —Quando voltem lhes diga que se ponham em contato com o escritório da senhorita Parks para outra entrevista. —Irene e Charlie são grandes pessoas. Serão uns bons pais para um desses meninos. —Isso o decidirá o juiz. —Mas a aprovação de você conta muito, não? Suponho que pode influir na decisão da senhorita Parks e demais autoridades. - Aonde quer chegar senhor Pierce? —O que quero dizer é que não incomode a Irene e a Charlie por uns quantos pratos sujos. Não os julgue por mim. —Ofende-me sua suposição. Não vim a julgar a ninguém.


- E um corno. Já tem dito que eu não servia. —Você não serve. —Dá-se conta? Tem sua opinião em muito alta estima e gosta de impo-la Por que, se não, uma estrela da pequena grandeza estaria visitando os bairros baixos de San Antonio? Cat jogava faíscas, mas sabia que em uma guerra de palavras perderia. —Adeus, senhor Pierce. Seguiu-a até a porta principal. Ela sabia que seu traseiro era o ponto de olha de seus olhos penetrantes. —Adeus, Bandit. O cão incorporou-se e olhou quando Cat passou por diante. Era provável que fosse infeliz porque seus amos o tinham deixado ao cuidado de um energumeno quem azedava o leite. Alex Pierce era mais abrasivo que o papel de lija. A tinha arrepiado, tinha-a acovardado, tinha-a insultado. Não obstante, estava mais furiosa consigo mesma que com ele. Por que tinha dado vantagem? Em vez de sentir-se envergonhada por sua trapalahada, por que não tinha feito uma piada? O humor era seu antídoto para a maioria de situações comprometedoras. Mas desta vez tinha-se tornado alvo. Tinha-se ruborizado como uma criança nervosa e agora só ficavam restos de seu orgulho e verdadeiro ressentimento contra um autor de novelas sórdidas que vivia como um porco e bebia café requentado como se fosse água da torneira. O objeto de seu desprezo saiu tranqüilamente da entrada e deixou-se cair no sofá-columpio, que chiou por seu peso. Apalpou o espaço livre a seu lado e Bandit, feliz pelo inesperado convite, saltou e apoiou o nariz no coxa do novelista.. Cat abandonou o lugar com a visão de Alex Pierce balançando-se no columpio, bebendo café e acariciando o lombo de Bandit. Capítulo dezesseis -Você parece esgotada. Melia, fresca como uma rosa sainda da câmera frigorífica da floricultura, os saudou de sua mesa. —Estávamos em uma sauna. Também se chama Brackenridge Park.


Cat soltando da pesada bolsa. —Não corria nem uma gota de ar. Durante o verão, não colocarei mais blusa de seda em San Antonio. Separou com dois dedos o tecido de sua pele suada. —Saiu tudo bem? —Muito bem. —O vídeo de Tony ficou sensacional — disse Jeff ao cair em uma cadeira —. Não é nada tímido ante a câmera. Melia passou a Cat diversas mensagens telefônicas. —Sherry Parks quer que a chame em seguida. Ao que parece, o juiz está disposto a conceder a adoção de Danny. —Estupendo! —exclamou Cat esquecendo a fadiga—. Faz o favor de chamá-la. Voltou a apanhar a bolsa e entrou em seu escritório. Tirou os sapatos e sentou-se à mesa. Ainda que não tivesse esse costume, olhou o relógio e abriu a última gaveta. Soou o telefone. Desligou o aparelho ao mesmo tempo em que olhava a Gaveta. —A senhorita Parks na um. A gaveta estava vazia -Passo passar? A gaveta estava vazia. -Cat? Ouve-me? —Sim, mas o... Melia onde estão meus medicamentos? —Como? —Minhas pílulas. Meus remédios. Onde estão? —Não as guarda na gaveta de sua mesa? —perguntou Melia que parecia não entender nada. —Claro, mas não estão. Fechou a gaveta e, de imediato, voltou a abri-la como para comprovar que não tinha sido uma ilusão ótica. A gaveta seguia vazia. Suas pílulas tinham desaparecido. Melia apareceu na porta. —Disse à senhorita Parks que voltaria a chamar. Que ocorre? —O que acabo de dizer! Sem dar conta tinha gritado e, de imediato, recuperou o controle de seu tom de voz. —Têm desaparecido meus medicamentos. Sempre os guardo na última gaveta, sempre. Mas agora


não estão. A1guém os pegou. —A quem poderia interessar suas pílulas? —Isso gostaria de saber. Então entrou Jeff. —Que ocorre? —Alguém levou meus medicamentos. —Que? —Os dois estão surdos? —gritou—. Tenho que voltar a repetir? Alguém entrou e roubou minhas pílulas! Sabia que se comportava de forma pouco razoável, mas a medicação era sua salvavidas. Jeff olhou a gaveta vazio. A quem poderia interessar suas pílulas? Cat alisou o cabelo com a mão. —Foi isso mesmo que perguntei —disse Melia baixinho- e a irritou. -Não é possível que as tenhas extraviado? —sugeriu Jeff Seu tom de voz suave, sua intenção de ajudar, só contribuiram para exasperá-la. —Pode-se perder uma aspirina e encontrar depois de um mês no bolso de um abrigo. É difícil perder catorze frascos de pílulas. —Não os levou para casa ontem à noite? —Jamais faço isso —já voltava a levantar o tom de voz- Os tenho em duplicidade. Uns ficam em casa e os outros no escritório. Assim posso tomar a dose do meio dia e meio a tarde, é complicada a minha jornada de trabalho. Três dos catorze medicamentos eram básicos para evitar a rejeição e os outros onze evitavam os efeitos secundários dos primeiros. Seguia religiosamente a prescrição de tomá-las três vezes ao dia. - Se ontem à noite as tivesse levado até em casa catorze frascos de pílulas, coisa que não fiz, me lembraria. Alguém entrou aqui e as roubou. Quem esteve aqui esta manhã? -Eu e o senhor Webster — contou Melia—. Deixou um vídeo que queria que visse — indicou um cassete depositado em cima da mesa—. Eu não vi ninguém mais. Esteve muito tempo fora de teu lugar? —perguntou Jeff. A Melia molestou a pergunta e respondeu-a na defensiva. -Quer dizer sentada atrás da mesa? Sai para fazer alguns serviços várias vezes e saí para comer. Desde quando é isso um delito?


Cat negava-se a suspeitar que fosse malícia de Melia. Se acusasse de que serviria? Se fosse culpado, o negaria. Se fosse inocente, a acusação ampliaria a brecha entre ambas. O mais importante, de todos os modos, era que, em mãos equivocadas, as pílulas podiam ser perigosas. —Melia, faz favor, ligue ao doutor Sullivan. O cardiologista recomendado por Dean tinha o consultorio perto. —Se não está, o busca. Diga-lhe que chame à farmácia e peça que me traga a medicação o antes possível. Melia deu a volta e saiu do escritório sem dizer uma palavra. —Posso ir a tua casa a buscar os remédios — sugeriu Jeff. —Obrigado; se fosse esse o caso, eu mesma iria. —Está muito nervosa para conduzir. Não gostava de reconhecê-lo, mas estava muito nervosa. Cedo teria os medicamentos; não era por isso. O que lhe inquietava era que tinham roubado algo bem mais valioso que jóias, peles ou dinheiro. Sua vida dependia dessas pílulas. —Agradeço-to, Jeff — disse, aparentando tranqüilidade—. Mas quando o doutor Sullivan falar com o farmacêutico tudo estará solucionado. -Aonde vais? Jeff saiu depois dela. —Estou esperando que o doutor Sullivan atenda ao telefone. Está com uma paciente, mas a enfermeira diz que lhe passará o telefonema — informou Melia. -Obrigado Olhou a Jeff. - Se algum filho da puta acha que isto é muito divertido, vai ver. Na redação sempre estavam fazendo piadas. Tentavam superar uns a outros inventando a melhor ou a pior ocorrência. Desde pôr carteiras de plástico com algo repugnante na geladeira a informar que o presidente dos Estados Unidos tinha sido assassinado no serviço de cavaleiros de um Texaco da estrada 35. Cat chegou à mesa do redator chefe. Era um homem arisco, mal humorado, um fumante empedernido com enfisema pulmonar que lamentava que na redação estivesse proibido fumar. Costumava estar amuado, mas seu olfato para as notícias fazia-o merecedor do máximo respeito. Se dissesse «salta»,


inclusive os jornalistas mais egocêntricos perguntavam a que altura. Teve um sobressalto quando Cat apertou o botão do interfone. —Olá, garotos. Sua voz ressoou nos altos-falantes da grande sala dividida por painéis de vidro. —Quero dizer-lhe que é um cúmulo terem pensado que seria divertido mais não é. —Mas de que droga ela está falando? —perguntou o redator chefe com voz asmática. Sem fazer caso, Cat continuou: —Foi muito gracioso quando vocês utilizaram papel higiênico como guardanapo. E ri-me muito quando apareceu essa fotografia minha com bigodes ao Dalí e uma teta a mais. Mas isto não me pareceu divertido. Não pretendo descobrir ao culpado: só digo que não volte a fazê-lo. —Saía daí. —O redator chefe reclamava o aparelho que nunca ninguém antes tinha atrevido a tocar—. De que está falando? —Alguém roubou meus remédios. Os jornalistas saíam de seus cubículos e olhavam-na com curiosidade. Então chegou o diretor de noticiários com o cenho franzido. —Que diabos está passando? Ela repetiu a acusação. —Estou segura de que alguém entrou em meu escritório e as pegou não queria me prejudicar. Não obstante, foi um ato estúpido e perigoso. —Como sabe que tem sido alguém da redação - perguntou o diretor. —Não sei — reconheceu — Mas alguém deste prédio tem maior possibilidade de entrar em meu escritório sem chamar a atenção. E a todos estes garotos lhes adoram fazer piadas. Quanto mais pesadas melhor. Mas com os medicamentos não se pode brincar. - E estou convencido de que todo o pessoal de redação é consciente disso, senhorita Delaney. - A confiança em seus subordinados provocou que Cat reconsiderasse sua atuação. Talvez tivesse se precipitado. - Perdoem a interrupção — disse sentindo-se ridícula. E, para limpar a discussão, voltou ao seu escritório. -O envio vem a caminho — anunciou Melia - Disseram-me que demorará uns vinte minutos, esta


bem? -Muito bem, obrigado. Faz o favor de voltar a chamar a Sherry. Jeff me traga o expediente de Danny. Precisava um minuto de intimidade e fechou a porta. Apoiou-se nela e respirou profundamente. Levava a blusa colada pelo suor nervoso E tremiam-lhe os joelhos. Durante três anos tinha tentado convencer-se de que era uma pessoa normal. Mas o fato era que levava um coração transplantado. Isso significava que era alguém fora do comum, com necessidades compartilhadas por muito poucas pessoas, o quisesse ou não. E assim seria durante o resto de sua vida. A crise de hoje tinha sido curta e a situação não chegou a comportar nenhum risco. No entanto, tinha sido uma cruel recordação do frágil que era. Capítulo dezessete Cat tinha já a primeira mostra da ira contida de Bill Webster. Tinha ouvido dizer que rara vez perdia a acalma, mas que quando se dava o caso todo mundo tremia. Esta manhã ia dirigida contra ela. —Estão muito indignados, Cat. Sua resposta foi submissa. —Têm todo o direito ao estar. —Sentem-se enganados com a menina. —Assim é, mas não era essa nossa intenção. Webster emitiu um suspiro. Parecia mais tranqüilo, mas ainda estava corado. —Os Meninos de Cat é uma contribuição à comunidade e grande parte do sucesso deve-se a sua credibilidade. O programa converteu-se no carro chefe da WWSA. —Mas também tem todo o potencial para ser seu Aquiles — disse ela sabendo por aonde iam os tiros. —Exato. Sigo apoiando o programa, não enho esfriado, mas estamos desprotegidos diante dos processos judiciais. Somos o ponto de olha do Estado, os pais adotivos, os pais naturais... Em realidade, de qualquer que busque os três pés ao gato. Esta emissora está em uma situação precária no meio de uma batalha. —Onde se podem receber tiros de ambos os lados.


Assentiu. —Para começar, nós sabíamos que nos expunhoriamos a estes riscos; e como presidente eu os assumo, porque são menores que os benefícios. Mas há que extremar as precauções para evitar que voltem a se produzir outros incidentes como este. Cat passou a mão pela frente. No dia anterior, os O’Connor haviam telefonado a Sherry Parks para anular sua recente adoção de uma menina, solicitada após que tivesse aparecido no programa. A pequena tinha tentado acariciar os genitais do senhor O’Connor. -Afirmam que se ocultou deliberadamente sua precocidade sexual para facilitar a adoção. -Não é verdadeiro, Bill. Viram-na diversos psicólogos infantis. A menina enganou aos médicos, às assistentes sociais, aos outros, a todos os que tivemos relação com ela. —Não entendo como ninguém se deu conta. -Tem sete anos! —exclamou Cat—. Tem covinhas e leva tranças; não rabo e cornos! Quem podia pensar que tinha problemas sexuais? Mas o caso é que, desde muito pequena, seu padrastro a tinha ensinado como dar prazer. Ensinou-lhe a excitar-lo e a... —Por todos os santos! —exclamou Bill—. Poupa-me dos detalhes. —Pois todos deveriam conhecer - contou em tom seco—. Dessa forma, estes abusos não seriam tão grandes em nossa sociedade. —Entendido. Segue diante. —Tendo em conta seus antecedentes, aos psicólogos assombrou-lhes ao princípio que estivesse tão pouco traumatizada. Agora sabemos a gravidade do problema. Utiliza sua sexualidade para manipular a quem a rodeia; melhor dizendo: para conseguir o que quer dos homens, de qualquer homem. Tem razão, Bill: não podemos imaginar que uma menina de aspecto tão inocente seja uma mulher fatal. Mas também não podemos imaginar o que se fez para converter nisso. —No entanto, não podemos culpar aos O’Connor por querer anular a adoção. —Por suposto que não. Mas disse-lhes que tinha sofrido abusos sexuais e aceitaram se fazer cargo das conseqüências. Então ninguém conhecia a gravidade do problema. E ignorávamos com que


astúcia tinha manipulado aos experientes. Sabia a respostas corretas a todas as perguntas, contestava o que queriam ouvir; tudo com o fim de dormir na cama cor de rosa. Agora confessou a Sherry. BiU negou com a cabeça, incrédulo. -Não é a Primeira vez que tenho ouvido falar de casos parecidos - disse Cat-. São uma tragédia para todos. - Verdadeiro; e por isso mesmo, não temos necessidade de nos envolver neles. Não pode se repetir um erro assim, Cat. - Não posso te dar nenhuma garantia, mas assumo toda a responsabilidade pela seleção de meninos que aparecem e grama. Se tiver alguma dúvida... —Deixa-los de lado. Não gostou da ordem. Estava dizendo que escolhesse os meninos com menos feridas. Mas assentiu. —Esta manhã eu enviei aos O’Connor uma carta desculpando-me. Lamento-o muito. Como é lógico, estão horrorizados pelo comportamento da menina, mas tinham chegado a afeiçoar-se a ela. Tem sido um grande desgosto. —Espero que não apresentem uma demanda de vários milhões — disse Webster, falando agora como homem de negócios. —Sinto que a empresa tenha que encaixar o golpe. Mais acalmado, aceitou sua desculpa. —Tu és a que está na trinchera, Cat, mas todos nós fazemos parte do projeto. Ocorra o que ocorra, te apoiarei ao cem por cem. Temos advogados e são como aves de rapina. A Cat desagradou a imagem dos corvos bicando o casal, que já tinha sofrido uma pena imerecida. —Confio que não tenha que chegar a isso. —Eu também. —Assumiu o ar de um juiz a ponto de ditar sentença—. Não obstante, após este caso talvez devesses reconsiderar teu interesse pessoal por esses meninos. Tomas-te teus problemas como próprios e perde a objetividade. —Graças a Deus. Não quero ser objetiva. São meninos, números nem estatísticas. São seres humanos, com coração alma e mente, que têm sido esmagados de uma ou outra forma. Tu podes os


ver como um truque publicitário, uma forma de aumentar a audiência. E para os que trabalham no programa só são os protagonistas de uma reportagem: gente para a que há que enfocar a câmera. Se reclinou sobre a mesa com os braços cruzados. —Mas, para mim, eles, os meninos, são meus únicos objetivos, e todos os demais são meios para chegar a um fim. De quesesse fama e dinheiro eu teria ficado em Passages. Em mudança, vim aqui com um propósito que nunca perco de vista. Para consegui-lo tenho que estar pessoalmente envolvida. —Não estou de acordo, mas confio em que saibas o que estás fazendo. —Eu não o decepcionarei. Bill alongou o jornal, mas ela já tinha lido o artigo marcado com um círculo vermelho. —Agora que já temos falado do assunto O´Connor gostaria de saber como pensas solucionar isto. Nada mais entrar no escritório, Cat chamou a Jeff e a Melia. - Com o fim de poupar tempo e energia, vou saltar-me as normas do manual do bom chefe e irei diretamente ao ponto. Ontem pela tarde os dois estavam a par da situação com O´Connor. Algum dos dois deu o sopro aos jornalistas? Não contestaram. Cat indicou o jornal que tinha levado do escritório de Bill. -Rum Truitt ataca de novo. Mas desta vez facilitaram a munição. É impossível que se inteirasse do assunto por acaso. “Ninguém de Serviços Humanitários estava interessado na publicação do incidente. Aos O´Connor preocupa-lhes tanto a violação de sua intimidade como o desgosto em si. Truitt não o soube por eles. Todos os dedos acusam à WWSA e, para precisar, a este escritório. -Quem é o responsável? E, junto à confissão, agradeceria uma explicação. Se o programa deixa de emitir-se, nos ficamos sem emprego; portanto, que se ganha o desprestígiando? Ambos seguiam calados e com o olhar baixo. —Jeff -disse Cat após uns momentos—. Quer fazer o favor de deixar-nos a sós? Jeff tossiu e olhou a Melía. —Desde depois.


Saiu e fechou a porta. Cat permitiu uns instantes de silêncio. Tinha que reconhecer que Melia King tinha estômago. Seus olhos negros nunca piscavam e, agora, a olhavam fixamente. —Melia, dou-te a última oportunidade de reconhecer que passou a nóticia a Truitt. Receberás uma sanção, mas prometer que não voltarás a revelar assuntos internos, isso será tudo. —Não chamei a esse jornalista nem a ninguém. Cat abriu o último gaveta, sacou uma carteira de papel de McDonald’s e deixou-a em cima da mesa. Provocou na estoica jovem uma reação que fazia muito tempo que esperava. Melia olhou a carteira, boquiabierta. —Após o misterioso desaparecimento de meus medicamentos, um dos garotos de informativos venho me ver. Viu-te atravessar a Zona de estacionamento à hora do almoço e atirar isto no lixo. Ele achou estranho que alguém saísse de um edifício com ar acondicionado às doze do meio dia e atravessasse o tórrido asfalto do estacionamento só para atirar uma saco com restos de comida. “Eu mesma revolví essa lixeira e encontrei o saco. Tinha quatro batatas fritas, um sachê de ketchup sem abrir e catorze frascos de pílulas. Ao ver-se pega, Melia jogou os cabelos para tráz em atitude desafiante. —Aquela manhã eu tinha me irritado. Estava chateada por ter-me equivocado ao tomar um número de telefone. —E essa é a sua desculpa? -disse Cat. —Não ia morrer. Sabia que trariam outro lote a tempo. —Isso não importa. O fato sim implica rancor. —Você mereceu! —gritou Melia—. Por me colocar esse maricas na minha frente, como se eu fosse estúpida! Não sou estúpida! Cat levantou-se. —Não, nunca pensei que fosse estúpida; ao invés acho que é inteligente. Mas não tanto como para evitar que te tenham descoberto. Ergueu os ombros. —Faz favor, deixa livre de imediato tua mesa. —Está-me despedindo? —falou incrédula.


—Darei ordem de que te paguem nos dias trabalhados e a indenização estipulada, o qual, dadas as circunstâncias, é mais que generoso. Melia cerrou os olhos com malícia, mas Cat manteve-se firme. Por fim, a jovem deu a volta e caminhou para a porta. —Se arrependerá disto — disse antes de sair. Às doze tinha retirado todos os objetos pessoais de sua mesa e abandonado o edifício. Cat solicitou ao diretor de noticiários uma secretária substituta até que encontrasse a alguém para substituir a Melia. Estava contente de tê-la perdido de vista, mas todo o assunto, começando pelo incidente O´Connor no dia anterior, a deixou esgotada. Seu estado de ânimo não era o adequado para receber visitas quando chegou a casa ao anoitecer. E, depois, não estava em condições de se enfrentar a Alex Pierce. —Que está fazendo aqui? —perguntou pela janela do carro—. Como sabe onde vivo? Alex estava montado sobre uma moto estacionada na calçada. —Com um simples «olá, tudo bom?» me conformaria. Cat estacionou e, ao descer, ele saiu ao passo para apanhar a maleta. —Já posso, obrigado — disse mal-humorada. Subiu a escada e recolheu o correio; a maior parte, propaganda. —Por que me enviam este lixo? Têm sacrificado árvores só para que eu encha a lixeira. Alex parecia divertido por sua rabugiçe. - Tem tido em um mau dia? - Horrível. - Já. Tenho visto seu nome no jornal. - Não é precisamente como para ficar a saltar. - Duro o dessa menina. Muito. Teve que fazer malabarismos com o correio, a bolsa, a maleta e as chaves para abrir a porta. Outra mão teria sido útil, mas se negava a pedir sua ajuda. Deixou cair a correspondencia na mesa da entrada, abandonou a mala e a bolsa no chão E deu a volta para impedir que entrasse. Ele olhava acima do ombro de Cat para o interior da casa. -Parece um lugar agradável. —Não para as visitas inesperadas.


—Gostaria de comprová-lo — e acrescentou-: Tem que ter dois para este jogo. E sou bom em jogos de palavras. —Disso estou segura. Pôs-se uma mão na cintura como para reforçar o bloqueio. —Que está fazendo aqui, senhor Pierce? —Agora que tem lido meu livro, por que não me chama Alex? —Como sabe que...? Cat deu-se conta de que tinha caído na armadilha. —De acordo, um ponto a seu favor. Li-os. —Os dois? —Sentia curiosidade. Mas ainda gostaria de saber como me encontrou e por que se tomou a moléstia. -Tem apetite? —Como diz? —Que tal um hamburguer? —Com você? Pierce mostrou-lhe as palmas. —Lavei as mãos Inclusive tenho feito as unhas. Por estar decidida a resistir a seu encanto, abachou a cabeça e riu. Ele relaxou sua postura e apoiou as costas contra o marco da Porta. -Segundo parece, no outro dia começamos com o pé errado. -Não o parece; assim foi. -As manhãs não são meu forte. E menos ainda uma noite de maratona -Escrevendo? A pergunta tinha-lhe escapado. Não estava muito segura de que atividade era uma maratona. Deve ter lido seus pensamentos, já que sorriu com ar travesso. Trabalho de investigação. Que não é, nem de longe, tão apaixonante como escrever. —Como é isso? —Porque são fatos e não ficção. —Prefere a ficção à realidade? —Pela experiência que tenho sobre a realidade, sim. Após uma pausa acrescentou: —Bom, o caso é que não me considero responsável por nada que diga ou faça antes da primeira caneca de café. Era cedo e... —Eram as onze. —E você parecia se ter engolido um pau. Dispunha-se a protestar, mas mudou de idéia.


—Estive bastante atarantada, verdade? —Pois sim. —Me desculpe. Apanhou-me desprevenida e reagi. Aceitou sua desculpa encolhendo os ombros. —Vê-se que tenho um dom especial para sacar uma doida — disse com um matiz de tristeza—. Bem, tudo bom se nos damos uma segunda oportunidade? Cat não tinha tido vida social desde suem troca a San Antonio. Na WWSA não tinha ninguém que lhe interessasse, mas ainda que tivesse tido algum homem atraente e disponível pouco o teria animado. Era contrária a sair com colegas de trabalho, já que se o idilio naufragava também pioravam as relações trabalhistas. Queria aceitar o convite de Alex Pierce? Parecia culto e inteligente. Em casa dos Walters tinha-se mostrado irascível, mas agora percebia nele traços de um humor sutil e ingenioso. Podia ser estimulante o desafio verbal com um oponente a sua altura. Ia melhor vestido que a vez anterior, mas ainda se chegava mais aos maus de suas novelas que aos bons. Tinha nele algo perigoso; seu encanto escondia um lado escuro que lhe intrigava e a assustava. Era um homem muito bem parecido e não tinha mostrado timidez ao se encontrar com um estranho, uma mulher, vestido sozinho com uns jeans a meio abertos. Com toda probabilidade, sabia que lhe sentavam bem, igual que sabia o efeito inquietante que causava nela. Cat valorizou os prós e os contras e chegou à conclusão de que era a classe de homem que tinha que esquivar. Mas disse: —Você se importa de esperar um momento enquanto troco de roupa? Capítulo dezoito O restaurante não era o tipo de local que teria escolhido, nem tam¬pouco ao que tivesse ido sozinha. O estacionamento estava cheio de furgonetas e caminhões. Dentro, as bolas de billar chocavam na mesa situada ao fundo e soava música country. O estabelecimento servia os melhores hamburguers e a cerveja mais gelada de Texas. O hamburguer era duplo, efetivamente, duplo; e riquísima. Despois de algumas mordidas, disse: ao


diabo os bons modos; e devorou-o a grandes bocados. Molhei uma batata frita no ketchup antes de levar-lha à boca. —Ainda não está perdoado pelo insulto do outro dia as ruivas. —Não me lembro. Olhou-o com sarcásmo. —Claro que se lembra. Disse que as ruivas de suas novelas eram garotas fáceis. —Uma piada barata — admitiu; mas fracassou ao querer simular arrepentimiento. —Por desgraça é verdadeiro - disse Cat—. Mas também o são as loiras, as morenas... As personagens femininas sempre estão Dispostas. - Sim, Os heróis nunca pedem permissão e elas nunca dizem não. - Há muita fantasía em toda obra de ficção. - E neste caso, fantasía sexual. - Trabalho como Ian Fleming. James Bond dizia «posso»? Alguma vez a garota recusava-o? Amassou o papel do hamburguer, limpou os lábios com um guardanapo de papel e apoiou os braços em cima da mesa como se dispusesse a uma conversa a sério. —Fora o sexo agressivo, e deixando a um lado os personagens femininos nus e com as pernas abertas, que opina de meus livros? Molestava ter que lhe dizer que eram boas, mas se sentia obrigada a ser sincera. Tinha pedido a sua opinião e uma resposta clara. —São boas, Alex. Duras, sem concessões, realistas até o insuportável. Tive que saltar as cenas mais violentas, mas são bons livros. Por mais difícil que seja reconhecê-lo a cada vez que uma mulher está nua e com as pernas abertas, faz sentido. —Obrigado. —Mas... —Deveria ser crítico literário, Cat. Lançam-te flores e a seguir um pé na bunda. Ela riu a gargalhadas. —Não ia criticar nada. Para valer. Acho que tem talento como escritor. —E onde está o mas? Ela vacilou. —São tristes suas novelas. —Tristes? —Não encontro a palavra. Há desesperança nelas, seu enfoque é fatalista. Pierce refletiu durante uns minutos.


—Deve de ser porque tenho visto muita violência em primeira fila. — Quando era policial? Tem-lhe ficado colado o pior. —Isso é. Demasiado com freqüência, o crime não se paga e os maus ganham. Se sou fatalista suponho que seja por isso. —Acertei na mosca porque assim é como me senti quando... Voltou a duvidar. Era a primeira vez que saíam juntos Até onde estava disposta a chegar? —Quando que? Cat fixou a olhar na bandeja de plástico que continha os restos do jantar. —Não sei se você sabe. Publicou-se, mas não acostumo falar disso. Algumas pessoas têm um comportamento estranho, não é que seja algo extraordinário, mas... Levantou a cabeça e olhou a Alex com toda intenção. —Fiz um transplante de coração. Pierce piscou um par de vezes, mas isso foi tudo. Claro que era impossível averiguar o que passava por trás de seus olhos cinzas e profundos. Depois de um momento, seu olhar posou nos seios de Cat e notou que engolia saliva. A seguir, olhoua fixamente à cara. -Quanto tempo faz? —Quase quatro anos. - E está bem? Cat riu para aliviar a pressão. -Claro que estou bem. Acha que vou cair desmaiada e você terá que carregar com o morto? Era imprevisível a reação da gente ante alguém com um transplante. A alguns causava repulsa. Estremeciam-se e negavam-se a falar disso. Outros sentiam respeito e a tocavam como se estivesse dotada de poderes mágicos. Chegavam-se a ela como se fosse água milagrosa ou uma imagem da Virgem Maria que chorasse lágrimas de sangue. Não sabia que milagres esperavam dela. E tinha outras pessoas cuja curiosidade era enervante, gente que a acossavam a perguntas pessoais; impertinentes com freqüência. —Tem alguma limitação? —Sim — contou em tom pessimista—. Não posso assinar cheques que excedam de certa quantia sem que o banco me cobre interesses. Olhou-a com retraimento.


—Já sabe ao que me refiro. Sim, sabia ao que se referia, mas essa era a parte que odiava: ter que se classificar. —Tenho que tomar um punhado de pílulas três vezes ao dia. Supõe-se que devo fazer exercício e comer alimentos saudáveis, como todo mundo. Baixas em gordura e em colesterol. Pierce levantou a sobrancelha e indicou as bandeijas vazias do hamburguers e das batatas fritas. —Mas não provei a cerveja mais gelada de Texas. —Nada de álcool? -Incompatível com a medicação. E você? Tem tomado limonada enquanto todos os demais enguliam cerveja. A pergunta o deixou nervoso, mas Cat apoiou a cara na palma da mão e seguiu olhando-o até que ele se tranqüilizou. Incompatível com minha mente. Fizemos um contato em uns anos atrás. Não cheguei a cair ao chão do ringueue, fiquei cambaleante. - Ainda se cambaleia? —Não sei. Me falta segurança em mim mesmo para voltar ao ringueue. Ao que parece, esperava a reação dela, comprovar se seus problemas passados com a bebida a fariam mudar sobre ele. Cat queria perguntar se tinham começado após deixar a policia ou se tinha sido o motivo de sua saída. Decidiu que era melhor não questionar. Não era assunto seu, ainda que estivesse quase segura de que o álcool tinha muito a ver com esse aspecto sombrio de sua personalidade. —Voltar ao ringueue —repetiu ela mudando de conversa- Gosto conversar com um novelista. O diálogo está carregado de metáforas e analogias. Além das semelhanças com a realidade. —Não volte a começar com isso. Quando deixou em cima da mesa o dinheiro da conta mais uma generosa gorjeta, ela ofereceu para pagar sua parte. —Não, a convidei. Além do mais me vai bem para deduzir os impostos. —Não foi um jantar de negócios. —Equivoca-se. Mas ainda não tenho abordado esse aspecto.


Uma vez fora, ajudou-a a pôr o capacete. Cat saltou ao banco traseiro e Alex calcou a embreagem. Ao sair a toda velocidade do estacionamento, ela rodeou sua cintura. Conduzia rápido, mas com prudência. No entanto, não pôde evitar recordar que Dean sempre dizia que os motoristas são doador em potencial. A idéia desvaneceu-se cedo. Ao chegar a sua casa, lamentava que o trajeto tivesse sido tão curto. Alex deve ter percebido sua pouca vontade de descer da moto. —Que passa? —perguntou enquanto tirava o capacete. —Nada — respondeu ela ao devolver o seu. —Algo. —Quero lhe agradacer por não dar muita importância. Olhou-a sem compreender. —Ao meu transplante. Não ficou branco como o papel ao levar na moto e tem conduzido tão rápido como sempre. —E por que não? —Muitas pessoas pensam que sou frágil e não se arriscam a muita coisa. E tanta consideração é uma droga. Agradeço-lhe que não me trate com luva de seda. Seus olhos encontraram e ela sabia que algo estava passando. Esse homem atraía-a tanto que era impossível não se dar conta. E não tinha começado agora. Tinha sentido um frio em seu interior no momento em que o tinha visto na porta da casa dos Walters e a tinha olhado. Esses olhos eram uma tentação, mas tinha resistido. Agora já não e estudou sua cara. Tinha cenas assim em Passages, situações que davam a entender que produzia umem troca na vida da protagonista: um momento que dividia um antes e um depois. Para delícia dos telespectadores, ela interpretava esse impulso; mas não o tinha experimentado. Não dessa forma. Alex interrompeu o feitiço. -Tenho que lhe pedir um favor. Caminharam para a casa. - É este o assunto de negócios que fazia parte do jantar? —Sim. Quero que pense na possibilidade de ajudar nos trabalhos de investigação para meu novo livro.


—Como poderia lhe ajudar? Ao chegar à porta, deu a volta para olhá-la cara a cara. —Cedendo na primeira entrevista. —Que? —Se deitaria comigo esta noite? —Não! —Pois já está. Negócio terminado. Pedi que me ajudasse no trabalho de investigação Tem dito que não, como esperava; mas tem sido uma petição legítima e direta. Cat tentou manter a raiva, mas escapou-lhe um sorriso. —Acha que Fazenda o aceitará como uma operação comercial? —Não me pedem que especifique. Passou um carro que chamou a atenção. —Não esperava que vivesse em um lugar assim. -Que esperava? —Algo mais sofisticado. -Tenho Uma casa mais sofisticada em Malibú Isto é justo o que buscava quando me mudei. Uma avenida com árvores em um bairro tranqüilo. Uma casa construída faz trinta anos, com chão de madeira, espaciosa e cômoda. -Uma casa que gostaria a sua mãe. —Sim, é Possível. De imediato percebeu sua tristeza. Falei besteira, verdade? Ambiente familiar ruim? Nenhum ambiente familiar. Meus pais morreram quando eu tinha oito anos. -Céu santo que ocorreu? Evitou contestar aparentando não entender o significado da pergunta. Absorveu-me o sistema. -Orfanato? Ninguém me adotou porque estava doente. —Todos os meninos têm doenças. —Não se tratava de doenças infantis; eu tinha o mau de Hodgkins. Detectou-se a tempo e comecei o tratamento, mas as pessoas pensavam que era arriscado adotar a uma ruiva escuálida com um historico clínico tão penoso. A partir daí, tudo ficou ruim. Quer mesmo que eu explique? —Ainda não tenho saído correndo. —Pode fazê-lo quando quizer. Ele ficou. Cat suspirou e continuou: —Passava de um orfanato a outro. Devido às contínuas rejeições, adotei uma atitude negativa.


Portava-me mau para chamar a atenção. Em poucas palavras: era um verdadeiro terror. —É compreensível. —Sempre fui diferente dos demais meninos; primeiro porque estava gravemente doente e depois porque não tinha pais. É uma sorte que sobrevivesse sem demasiados traumas. —Creio-o. Tem a olhar de uma lutadora feroz. O que lhe causou os problemas de coração? —A quimioterapia para linfoma de Hodgkins. Matou o câncer, mas produziu lesões no coração. Fazia anos que me consumia. -E não o sabia? —Não, fazia uma vida normal. Mas o coração ia-se pretrificando... Quando já ficava pouca musculatura, comecei a notar a falta de energia. Atribuía-o a que trabalhava demasiado, mas nem o descanso nem as vitaminas aliviavam a fadiga. »Fui a uma revisão de rotina e, para meu desespero, o cardiologista anunciou que grande parte do músculo cardíaco era tão dura e pouco flexível como uma pedra. Não podia bombear o sangue necessário, trabalhava a um terço de sua capacidade, o qual me fazia merecedora de um transplante. Ou, pior ainda: estava condenada. —Sentiu medo? —Não tanto como raiva. Tinha conseguido superar todas minhas carências infantis e era uma estrela do tv. Milhões de pessoas admiravam-me. Minha vida era fantástica, e então... Teria querido agarrar a Deus pela gola e dizer-lhe: “Ouve, não gosto de queixar-me, mas me parece que já é suficiente” Suponho que recebeu a mensagem, já que me deixou viver. - E daí Os Meninos de Cat. - E daí Os Meninos de Cat — repetiu em um susurro, sorrindo, contente de que Alex fosse o bastante intuitivo como para ver a conexão Olharam-se aos olhos entre as sombras e o silêncio da noite. Passou outro carro, mas não prestaram atenção. Um mosquito aterrissou em seu braço e Cat espantou-o. Pierce levantou a mão e deslizou-a pelo decote dela. As pontas dos dedos avançaram desde o pescoço até a extensão enquanto seguia o processo com a vista.


-Esperava ver uma cicatriz. Sua voz de barítono incitou-a a uma resposta sincera. -Tem desaparecido, mas eu ainda a vejo. -Sim? —Sim. Ainda que já não esteja. -Dói? —A cicatriz? -Todo o processo. —Uma parte foi... difícil. —É você muito valente. —Na UTI não. Os tubos, os cateteres, a sensação de asfixia. Ainda que tinham-me advertido do que me esperava, tinha pânico. Era uma câmera de torturas. —Imagino. —Não, não pode imaginar até você passar por isso. —Seguro que tem razão. —A única coisa que me dava ânimos era o saber que tinha um coração novo. Sintia-o pulsar com tanta força! —Como agora? Ele pressionou a mão contra o seio. —Não, agora está ainda mais forte. Falavam baixinho e Alex continuava acariciando a zona da cicatriz. Cat estava adorando que o permitisse a tocar, mas, de alguma forma, não parecia incorrecto. Sua caricia era suave. E, intencionalmente ou não, erótica. Estava-se derretendo. Uma deliciosa languidez apoderou-se dela, tão irresistível como a anestesia. Sentia formigamento e cócegas nas terminações nervosas e a sensibilidade exacerbada. Alex observava o ponto de contato entre seus dedos e a pele de Cat, mas, pouco a pouco, seus olhos voltaram a encontrar-se com os dela. Comunicavam desejo. Necessidade. -Me convidas entrar? —perguntou com voz rouca. —Não. Ficará chateado? —Não. Só decepcionado. Então atraiu-a para si e a beijou, buscando sua língua. Quando se encontraram, emitiu um gemido viril. Ela estremeceu e pôs a mão em sua nuca, estreitando os dedos entre os cabelos. Alex deslizou uma mão até o traseiro dos jeans da mulher e a apertou mais contra sua pelvis. Cat jogou a cabeça para atrás Ofegante.


—Alex. —Hum. A beijava no pescoço com avidez. —Tenho que entrar. Ele levantou a cabeça e piscou. —Bom. Apartou, arrumou o cabelo e deu a volta para ir embora. Desceu os três degraus em um salto. Cat sentiu remorsos. —você me ligará? Alex girou sobre seus pés. —Quer que o faça? Ela sentia seus pés à beira de um abismo. Cairia em pecado para o desconhecido até aterrissar sobre algo que podia ser maravilhoso ou um pesadelo. Não o saberia até que saltasse, por mais perigoso que fosse, queria correr o risco e averiguar o tinha abaixo. —Sim. Quero que me chames. —O farei. Demorou um momento para acalmar-se. Aturdida, vagava pela casa sem saber por que tinha entrado em uma habitação, incapaz de se concentrar em nada que não fosse a boca e as mãos de Alex sobre seu corpo. Despiu-se e tomou uma ducha e uma caneca de chá para relajar e baixar da nuvem erótica. Por fim, pensando que já poderia dormir, caminhou pela casa apagando as luzes. Após passar os pés da primeira porta, viu o correio sem abrir que deixou em cima da mesa. Tinha vontade de deitar e reviver os momentos junto a Alex, mas sim deixava a correspondência, amanhã teria o duplo. Recolheu-a e levou à cama. Fez uma seleção rápida atirando a propaganda ao chão e deixando as faturas no criado-mudo. O último envelope chamou-lhe a atenção por seu asseio. Seu nome e endereço escritos no centro. Não levava nem remetente, ainda que sim o selo do escritório dos correios. O abriu intrigada e encontrou um recorte de jornal de uma coluna e quatro parágrafos. Nenhuma nota nem explicação. Leu o artigo com crescente interesse. Em Memphis, Tennessee, Jerry Ward, um rapaz de dezesseis


anos, tinha morrido afogado ao não poder sair do carro. Ao que parece, tinha perdido o controle do veículo em uma ponte escorregadia pela chuva e caiu ao rio. Passaram horas entre o acidente e a recuperação do cadáver. Cat olhou de novo o envelope. Podia ser uma notícia de qualquer jornal do país; qualquer leitor teria dado uma olhada antes de passar a algo mais interessante. Mas o anônimo remitente sabia que acordaria o interesse de Cat Delaney, já que ela e o garoto de Memphis tinham algo em comum. Jerry Ward tinha um coração transplantado. Após lutar contra uma doença cardíaca desde a infância, tinha uma vida nova tirada por um trágico acidente. A Cat, a cruel ironia não passou desapercebido. Suspeitava que essa era a intenção do remitente. Capítulo dezenove Nancy Webster deitou ao lado de seu marido. Pôs sua mão em seu estômago, um gesto habitual para concluir no dia. Ele acariciou distraído. —Que passa por tua cabeça esta noite? Bill sorriu. —Montões de coisas. —Como que? —Nada em concreto. No começo de seu casamento costumava comentar com ela todos os aspectos de seu trabalho cotidiano. Falavam baixinho para não acordar aos meninos, que dormiam na habitação contigua. Ao longo dos anos, outras obrigações tinham às vezes ocupando o lugar das conversas de travesseiro. Nancy tinha saudades e sentia falta dos tempos em que ele valorizava sua opinião acima de qualquer outra. Ainda era assim, estava segura disso, mas já não pedia tão com freqüência como antes que seu sucesso estivesse consolidado. —Os novos índices de audiência publicam-se amanhã - comentou Bill. —A última vez, a WWSA era o líder. E a concorrência estava a anos luz no segundo lugar. Seguro que agora ganhado mais pontos. —Confio em que tenhas razão. Chegou e apoiou a cabeça em seu ombro. —E daí mais? —Bom... Nada e tudo.


—Cat Delaney? Notou de imediato sua reação. Era sutil... Um músculo mais tenso; um retraimento da mão; algo que a ela não escapava. - Por que deveria estar pensando em Cat e não em Dirk Preston ou em Wally Seymour ou em Jane Jesco? —disse, mencionando outros nomes importantes da WWSA. -Isso é precisamente o que te estou perguntando. Por alguma razão especial pensas em Cat? - Faz um excelente trabalho, mas na semana passada pôs-nos em um compromisso quando esse casal voltou atrás na adoção. Ainda bem que não colocaram a culpa em nós. Acomodou-se embaixo dos lençóis e seu pé roçou o dela, mas o apartou. -Cat é muito responsável, às vezes demasiado, mas admiro-a e gosto. —A mim também. Nancy apoiou-se no cotovelo e olhou-o. —Mas não penso compartilhar meu marido com ela. —De que estás falando? —Bill, algo não funciona entre nós. —Não é verdade. —Noto-o. Estamos casados mais de trinta anos e a cada noite dormimos juntos. Vi-te feliz, triste, frustrado, alegre e inquieto. Eu o conheço com a palma da mão teus estados de ânimo. E adoro-te. Avariou-lhe a voz e isso lhe molestava, já que não queria converter-se em uma esposa queixosa que lança seu marido aos braços de outra mulher mais compreensiva e menos propensa a interrogar. Bill acariciou-lhe o cabelo. —Eu também te adoro. Juro-te por Deus que não mantenho um idilio com Cat. —Mas era obcecado. Inclusive antes de a conhecer. —A queria para a WWSA. —Não me venhas com essas. É algo mais que interesse profissional. Já tens buscado pessoas outras vezes, mas não com a insistencia empregada com ela. Atrai-te sexualmente? -Não! A seguir baixou a voz e repetiu: -Não, Nancy. Ela olhou-o, buscando a verdade, mas seus olhos não revelavam nada. Isso lhe tinha ajudado a ser


um excelente homem de negócios. Se seus olhos não queriam falar, ninguém podia ler neles. Prosseguir a discussão equivalia a chamar-lhe mentiroso e só contribuiria os afastar ainda mais. - Creio-te. Bill passou-lhe o braço pelo ombro. —Sabes que te quero. Sabe-lo. Ela assentiu. Mas para ficar tranqüila precisava provas físicas. Tomou-lhe a mão e pô-la sobre seu seio. Ele respondeu. Se beijaram e acariciaram-se. Quando a penetrou, o abraçou com as pernas, possessiva. Depois, se aconchegou ao seu lado, escutando sua respiração profunda e compassada. Por estar pele contra pe1e, por à união sensual e apaixonada, faltava a intimidade espiritual que tinham compartilhado durante anos. Algo interferia. Cat Delaney não parecia o tipo de mulher que teria um caso com um homem casado, mas, afinal de contas, era uma atriz. Sua cordialidade com ela podia ser só aparente. Nancy não confiava em nenhuma mulher. Bill era lindissimo, agradável e rico: uma presa apetecível para muitas mulheres cuja moral não impediria romper um casamento. Por boa que fosse sua relação, podia ocorrer. Ela e Bill tinham se conhecido e casado enquanto estavam na universidade, mas muitos casais rompiam depois de trinta anos. O sentimentalismo não bastaria para os manter juntos. Nem os seis filhos o reteriam a seu lado para sempre. Nancy só dependia do amor que tinha resistido três décadas e dela mesma. Mantinha-se em boa forma física e, aos cinquenta e quatro anos, tinha a pele elástica e quase sem rugas. Um banho de cor lhe dissimulava os poucos cabelos brancos. Ia ao ginasio três vezes por semana e jogava ao golf e tênis, tudo o qual contribuía a combater a fraqueza da maturidade. Quando se olhava ao espelho, sem falsa modéstia se via com melhor aspecto que a maioria de mulheres de sua idade. Nunca tinha tido uma carreira própria, dedicando toda sua energia a apoiar a de Bill. Webster


começou como câmera de estúdios aos vinte e poucos anos e tinha escalado postos até chegar a diretor, mudando de emissora a emissora, de cidade em cidade, de estado a estado. Os primeiros quinze anos de casamento mudaram tantas vezes de domicílio que Nancy tinha perdido a conta. Não importava as mudanças, já que com cada novo emprego melhorava sua posição dentro da indústria televisiva e ela sabia o importante que era para ele. Enquanto era diretor geral em uma emissora de Michigan tinha gerenciado sua venda a uma multinacional, ganhando uma importante comissão. Os novos proprietários pediram-lhe que ficasse, mas optou por utilizar a comissão como primeiro pagamento de sua própria emissora. A WWSA tinha-se convertido para eles em outro filho. Bill dedicava-se à emissora e ela se dedicava a ele. Tinha planejado permanecer em seu papel de confidente, esposa, amiga e amante até o final de seus dias. Amava a William Webster e faria o que fosse com tal do reter. Apoiou a bochecha no travesseiro e observou seu marido enquanto dormia. Com esse homem tinha experimentado um amor que nunca imaginou que pudesse existir. Era um amor complexo e que tinha muitos aspectos, marcado por episódios fundamentais em suas vidas. No dia de seu casamento. A cada passo de sua carreira. A cada êxito e a cada fracasso. O nascimento dos filhos. A morte de uma filha. Nancy ficou sem fôlego. Era possível que Bill dissesse a verdade? E se sua obssessão por Cat Delaney não fosse de tipo sexual? Teria algo que ver com Carla? Essa possibilidade encheu-a de temor. —Bons dias, senhorita Delaney. Cat ficou de pedra ao ver a Melia King por trás da mesa de recepção, ao lado do escritório do diretor de noticiários. —Perdoe. —Melia contou ao telefone—. Bons dias. WWSA. Diga-me. Passou o telefonema a um dos jornalistas e a seguir ofereceu a Cat seu melhor sorriso. —Agora trabalho aqui.


Cat deu a volta. Em vez de subir no elevador, optou pela escada. Chegou ao departamento pessoal em matéria de minutos e chegou à secretária. Sem preâmbulos, perguntou se Melia King seguia em nómina. —Agora é a recepcionista de noticiários. —Como é possível? Despedi-a faz duas semanas. —Têm voltado a contratá-la. Quando? Por que? —Não estou em situação de informar, senhorita Delaney. Disseram-me que voltasse à empregar; isso é o único que sei. Cat olhou a porta fechada do escritório da chefa de pessoal. -Quero falar com ela. Faça o favor de anunciar-me. -Não está, senhorita Delaney Lhe deixarei o recado. -Não faz falta, obrigado. Isto não pode esperar. Virou para ir-se, mas antes disse: - Não se preocupe; a manterei à margem do assunto. - Saiu do escritório de pessoal, caminhou até o final do corredor e entrou e a antessala do diretor Geral. - Esta ele? O ajudante de Webster olhou-a entre ofendido e temeroso como se esta fera com cabelo vermelho e olhos cintilantes lhe tivesse pedido a carteira ou a vida. —Sim, mas... —Obrigado. Bill falava por telefone quando ela abriu a porta. Levantou á vista contrariado, mas ao ver que era Cat sorriu e indicou que entrasse. —Sim, sim, lhe chamarei na próxima semana. Sim, obrigado. Adeus. Pendurou e levantou sorrindo. —Alegro-me de ver-te, Cat; queria conversar um pouco contigo. —Não vim para conversar. Seu tom áspero surpreendeu-lhe e apagou seu sorriso. —Já o vejo. Senta-te. —Prefiro estar de pé. Sabes que Melia King voltou a trabalhar aqui? —Ah, trata-se disso. —A chefa de pessoal voltou a empregá-la depois que eu a despedi. Não tenho nem idéia de por que o fez, mas quero e espero que intervenhas e respaldes minha decisão. —Não posso, Cat. —És o diretor geral; por suposto que podes.


—Não posso porque tenho autorizado a volta ao trabalho da senhorita King. Ao ouvir isto se sentou, mas sem ter consciência disso. O assombro fazia que tremessem os joelhos e teve que se deixar cair na cadeira. Após olhá-lo com incredulidade uns segundos, apoiou as mãos em cima da mesa. —Por que, Bill? —Estes assuntos são delicados, Cat. Podem parecer fáceis, mas asseguro-te que são complicados. Sua condescendência pô-la furiosa. —Não me vai dizer que não é nada que deva preocupar a esta linda cabecinha, verdade? Ele franziu o cenho. —Não te estou falando com superioridade. —Sim, está fazendo. E deixa de rodeos e vai ao ponto. Por complicado que seja, acho que poderei entender. Por que anulou a demissão de Melia? —Por dois motivos. Um: é hispana e temos que ter cuidado com as demissões de minorias étnicas. Leva tempo suficiente neste negócio como para saber que se violas de alguma forma a Ata de Igualdade de Oportunidades de Emprego, ou inclusive se a alguém lhe parece que a violaste, a Direção geral de Telecomunicações te olha com lupa. Pelo preço de um selo de correios qualquer pode apresentar uma queixa e te fecham a emissora. -Minha demissão não tem nada que ver com a origem étnica, e o sabes muito bem. - Sei-o, mas se nos abrem uma investigação minha opinião não contará para nada. Olha Cat, sê que tens tido problemas com essa empregada. Mas não apresentastes queixas por escrito dos incidentes. - Não queria te trazer problemas. - Agradeço-to, mas, por desgraça, desta vez tua consideração não te fez nenhum favor. Se tivesse relatórios por escrito da negligencia ou incompetência da senhorita King, teria provas sólidas para sua demissão. Mas não as há e dá a impressão de que a despediste sem motivo, que se tratava de uma incompatibilidade de carater e nada mais. O organismo competente nos sancionaria. A


senhorita King sabia-o e lho comentou à chefa de pessoal, quem expôs-me o caso. A sutil mensagem da senhorita King era claro. —Atira-se um farol e tu lhe ensinas as cartas. —Tomei a decisão de readmitir-la pelo bem da WWSA. Era um fato consumado e Webster não voltaria atrás. Cat sábia que não ganharia nada explicando o assunto dos medicamentos e a confessão de Melia. —Não é que custo, mas qual é o outro motivo para seu readmissão? Disse que tinha dois. —É diminuída. —Diminuída? —repetiu Cat com uma gargalhada—. Se há a alguma empregada sem nenhuma tara física, essa é Melia King. —É disléxica. —Deus meu. Cat suspirou recordando todas as vezes que a tinha repreendido por apontar mal os números de telefone. —Não tinha nem a menor idéia. —Nem tu nem ninguém. Não constava em seu histórico trabalhista. Tem aprendido a colocar bem as vogais, ainda que não sempre com sucesso. Talvez por isso cometesse tantos erros. —Talvez. A dislexia não era uma desculpa para o que tinha feito com os medicamentos Cat lamentava seu defeito e não teria importado perdoar erros pretéritos e os passar por alto no futuro se Melia tivesse tido uma atitude mais cordial. -Não deveria fazer outros trabalhos em lugar dos administrativos que requerem apontar nomes, números? - Faz questão de que se defende bem. Além do mais, é o único já que temos podido dar-lhe. Inclusive nisso tivemos que fazer malabarismos. —Vá, vá; foi muito cômodo. —O sarcasmo não te vai, Cat. Chateada, levantou-se e dispôs-se a sair. —Compreendo que estava em uma situação comprometedora, Bill. Inclusive aceito que, pelo bem da emissora, tinhas pouca eleição. O que para valer me deixa chateada é que não se me consultasse. Me


fez parecer ridícula e sem autoridade. —Não é verdade, Cat. —Temo que sim. Se eu ou alguém que se supõe um cargo executivo, vê como suas decisões são revogadas por que nos faz achar que temos poder? Deixando fora a dislexia, Melia merecia que a despedisse. —É muito possível, mas assim é a natureza de nosso negócio. —Bom, pois essa parte da natureza do negócio não presta. Bill levantou-se. —Acho que está exagerando, Cat. Há algo mais que te preocupa? Sim, pensou. Esse inquietante recorte de jornal. Ainda estava dentro do envelope, na gaveta de seu criado-mudo. Tentou tomá-lo como obra de um louco e o jogar à lixeira, mas algo a tinha impulsionado ao guardar. Mais inquietante ainda que o artigo em si, era o fato de que o tivessem enviado como um anônimo. Mas isso não significava necessariamente um perigo; talvez só indicasse que o remitente era insensível e tinha um péssimo sentido do humor. Não tinha chegado a nenhuma conclusão e era prematuro falar disso ao Bill, que, sem dúvida, pensaria que tinha manía de perseguição. E teria razão. —Tudo vai muito bem — disse. Esboçou um sorriso e mudou de tema: —Não te comentei o último sucesso? Chantal. Lembras-te dela? —A menina que precisava um transplante de rins? —Exato. Seus pais adotivos têm assumido toda a responsabilidade de sua assistência médica. Ontem encontraram um doador e ontem à noite operaram-na. Até agora não tem tido nenhum problema. —Isso é estupendo, Cat. E nos dará boa imagem. —Sim, já lhe pedi a Jeff que redija e distribua um comunicado de imprensa. E que o primeiro seja para Rum Truit. Se não faz um artigo sobre isto poderemos lhe acusar de jornalismo partidário. Bill pôs as mãos sobre seus ombros. - Não penses mais nesse outro assunto; não tem importância, comparado com o excelente trabalho que estás fazendo. Segue assim e deixa as tarefas rotineiras da WWSA para mim.


- Farei o que possa para recordar. Mas quando me ponho furiosa fica nublada a minha memória. - Bill riu e acompanhou-a até a porta. -Tinha motivos para ficar chateada. Verá como isso passa. Nancy está planejando um jantar para apresentar-te a pessoas que podem contribuir a uma arrecadação de fundos com famosos, tal e como falamos. Vai-te bem no sábado? -Fantástico. Posso trazer meu famoso? —Por suposto. Quem é? -Alex Pierce. —O escritor? —Tenho ouvido falar dele? —E quem não? Já se considera uma grande revelação. Não sabia que vivia em San Antonio. —Tenho a impressão de que não tem casa em nenhuma parte, mas agora está aqui escrevendo sua próxima novela. —Tragá-o. Nancy ficará encantada. Capítulo vinte —Que me dizes? Queres ir? —Que tenho que levar? —Para começar, sapatos e meias. Através do telefone escutou sua gargalhada que fazia cócegas na orelha e lhe punha a pele de galinha. Isto é ridículo pensou. Estava se comportando como uma colegial em pleno idilio. Sempre pensava nele, sua imagem a distraía no trabalho e se alegrava ao ouvir sua voz. Era absurdo! —Buscarei. Verei se encontro um par de meias. —Não é um jantar de gala, mas não gostaria que de meu acompanhante se pusesse em evidência. Terá pessoas muito importantes. Nancy Webster organiza uma arrecadação de fundos para os meninos, de modo que não voltarei a te dirigir a palavra se der um passo em falso que ponha em perigo o dinheiro para eles. —Prometo que não arranhar e nem torcer o nariz. —Oh, obrigado pela garantia. Então, ou me humilharás ou te esquecerás de aparecer. —O marcarei no calendário.


—Mas é que te esqueces de olhar o calendado. Foi Assim que nos conhecemos. — Foi o melhor erro que cometi. Se ruborizou de prazer e pensou que ainda bem que ele não via seu sorriso embobado. —Para evitar mal entendidos te chamarei um par de horas antes e passarei para pegá-lo. —Boa idéia. —Vais escrever esta noite? —Sim, mas ultimamente custa-me concentrar-me sabes o que distrai minha atenção? De novo sentiu cócegas... Era agradável ser motivo de sua distração... Tinham saído duas vezes desde aquela primeira. Uma delas se encontraram em um restaurante para jantar e depois foi cada um para o seu lado. A outra, ele a tinha passado a buscar... De carro. Foram ao Riverwalk, onde comeram uma horrível comida mexicana em num terraço e a seguir deram um passeio pela famosa alameda que flanquea o rio San Antonio até o centro da cidade. Depois de um momento deixaram as lojas para os turistas e subiram ao nível da rua, onde estava mais fresco, era mais tranqüilo e estava menos freqüentado. Cruzaram a rua, compraram sorvetes com sabor de abacaxi de um vendedor sonolento e sentaram em um banco apartado e à sombra na praça Alamo. Começava o crepúsculo e o ônibus de turistas já tinham saído. O forte, iluminado, majestoso e imponente, era uma lembrança da batalha que teve lugar ali cento cinquenta anos atrás. -Eles tiveram escolha, não? —disse Alex masticando o gelo triturado-. Você teria ficado? Lutando até a morte? —É difícil dizê-lo. Suponho que sim, se não pensar que pode perder a vida. Passei por isso, em verdadeiro modo. Interrogou-a com a olhar. —Justo antes do transplante dei-me conta de repente de que ia tirar meu coração. Não me interprete mal queria um novo, mas, por um momento, experimentei certa angústia. Alguém teria que morrer para seguir vivendo. Foi um instante aterrador — olhou-o e sorriu — mas já passou e


tenho um coração novo e uma segunda vida. Continuaram saboreando os sorvetes em silêncio. Passou uma carroça atirado por um cavalo, sem passageiros; só ia a carroça com as costas encorvadas e um aspecto tão cansado como o do cavalo. —Cat. —Dime. -Sabes quem era teu doador? - Não. - Não sabes nada dele? —Não, nem quero o saber. Ele assentiu, mas era evidente que não estava satisfeito com suas respostas lacônicas. -Como é isso? Quero dizer, é o emissor entre pessoas com transplantes? -Não. Alguns querem conhecer à família do doador para lhes dar as obrigado. Desejam fazer-lhes saber que são conscientes do sacrifício que têm feito. Não é meu caso; não fui capaz do fazer. —Em que sentido? —E se aos familiares causava-lhes uma pena desnecessaria? —Duvido muito que assim fosse. —Há muitas zonas em penumbra implicadas. Em vez de mexer na ferida de quem o fez possível, prefiro fazer que minha vida sirva para algo. Então, seu sacrifício não tenha sido em vão. A conversa terminou aqui; ele não fez questão do tema e ela lho agradeceu. Era um assunto delicado e, fora de Dean, não tinha falado disso com tanta franqueza com ninguém mais. Agora, com a olhar fixa na gaveta do criado-mudo, pensou se deveria comentar o assunto que a inquietava... O correio que tinha recebido. Pensaria ele que o artigo datado em Memphis tinha algum significado? E se não, por que o teriam enviado? Queria saber a opinião de Alex a respeito, mas não era o momento mais oportuno. —Bem, te deixo. Perdoa que te tenha interrompido. —Não importa. Levava horas trabalhando e não me foi mau um descanso. Obrigado pelo convite. —Obrigado por aceitá-lo. —Me portarei bem. —Só estava caçoando. —Já o sei.


—Boas noites. Até o sábado. Ao desligar, ainda sorria. Sim, isto estava escapando das mãos. Não era próprio dela, ser tão imprudente com suas emoções. Devido a sua infância, era relutante a implicar em uma relação. Muitas vezes tinha tido que deixar pessoas com que estava apaixonada. No entanto, estava se apaixonando por Alex Pierce. O Que ele sentia? Queria deitar-se com ela; isso seguro. Tinha uma sexualidade transbordante: não tinha mais que ler as descrições de seus livros. E Cat tinha-os lido. Várias vezes. Por suposto, não aprovava a atitude de suas personagens masculinas com as mulheres. Qualificá-la de machista seria pouco. Com honrosas exceções, tratavam às mulheres como se fosse um kleenex. Mas Alex não dava a impressão de compartilhar o critério de suas personagens. Tinha-a em alta estima, a ela e a seu trabalho; tinha-lho dito. Ainda que pudesse rir e caçoar, por natureza era sério, às vezes inclusive demasiado. Tinha pouca paciência para banalidades e também não falava muito de seu anterior emprego na policia. Quando alguma vez o fazia, sua voz tinha um matiz de amargura. Cat suspeitava que não houvesse abandonado o corpo por vontade própria. Ainda que imaginasse como amante, também o desejava como amigo… Dean seguia sendo seu melhor amigo, mas estava bem longe e precisava a alguém em quem confiar e não a longa distância. Seus olhos seguiam fixos na gaveta do criado-mudo, onde guardava o recorte misterioso... Junto ao que tinha chegado hoje. Ia dentro de um envelope idêntico ao anterior, que não continha nada mais que outro recorte de jornal, desta vez, datado em Boca Raton, Flórida. Tinham encontrado uma mulher morta após uma queda acidental. Estava em casa sozinha e, ao tentar regar uma planta pendurada do teto, a escada escorregou e a infortunada mulher havia atravessado a porta que dava ao pátio. Os vidros rompidos perfuraram o pulmão. Igual que o garoto de Memphis, tinha um coração trasplantado.


Cat não sabia que pensar destas enigmáticas mensagens. Como ex-policiall, qual seria a opinião de Alex? Pensaria que eram um motivo de alarme ou os consideraria obra de um louco? Quase tinha chegado a essa conclusão com respeito ao primeiro, mas depois recebeu o segundo. Era uma estranha coincidência que duas pessoas com transplante de coração tivessem morrido em acidentes tão peculiares. E mais estranho ainda que alguém se tomasse a moléstia de avisar dessas mortes. —Bobagens — exclamou. Voltou a pôr recorte dentro do envelope e fechou a gaveta. O mais provável era que os tivessem enviado para inquietar-la e a incomodar Não o permitiria. Se perdesse um momento se preocupando por isso, deixaria que um perturbado controlasse sua mente. As cartas enviadas por loucos eram um dos riscos de sua profissão. Uma chegava a se acostumar. A não ser que fossem ameaçadoras, não tinha que as tomar em sério. Além do mais, tinha coisas mais urgentes em que pensar. Por exemplo, o que poria para o jantar dos Webster. -Joder! - Cat chegou ao apartamento de Alex cinco minutos antes do previsto. Abriu a porta vestido com calças pretas e uma camisa cinza pálida para fora. Os punhos sem abotuaduras estavam dobrados sobre os punhos e só levava desabotoados dois botões. Ia descalço. - Sua exclamação espontánea tinha sido quase um gemido. Cat notou que as pernas estavam feito gelatina. —Obrigado. —Estás preciosa. —Obrigado de novo. Perdoa que tenha vindo antes, mas não tinha tanto tráfico como supunha. Em vez de ficar no carro, tenho preferido comprovar se já estavas preparado. Vejo que não, mas não há pressa. —Porque está tão nervosa? Já te disse que levaria meias e sapatos. Era muito intuitivo. Ela estava falando a toda pressa para dissimular as borboletas que se notava


no estômago. Pôs-se mais nervosa ainda ao comprovar que ele tinha dado conta. Mas tinha a perspicacia de um escritor: se estivesse escrevendo essa cena teria descrito à personagem assim, nervoso e falando como um papagaio. Seu conhecimento do comportamento humano e suas motivações deixavam-na em desventagem. Teria que se controlar, falar com cara de póquer e não dar tantas pistas. Ele se fez a um lado. —Passa. —Disse a aranha à mosca. —Não como ninguém — fechou a porta—. Bom, não tudo. Cat riu mais tranqüila e jogou uma olhada ao dúplex. Cheirava ainda a recém pintado. O teto alto e as janelas recordaram a sua casa de Malibú. Acima, tinha outras duas portas. —Os dormitórios — disse ele—. E aí está a cozinha. —Gosto. —Não está mau. Mas já sabes que as tarefas domésticas não são meu forte. Em realidade tinha-lhe surpreendido que o apartamento estivesse tão ordenado, mas então viu que embaixo das almofadas do sofá assomava um pedaço de uma camisa. As revistas empilhadas em cima da mesa davam a impressão de que tinham sido recolhidas a toda pressa. Na brilhante superfície tinha círculos úmidos enlaçados como os aros olímpicos. —Digo-o em sério, Delaney: esta noite estás impressionante. Seu elogio fez-lhe dar a volta. A olhar era penetrante e abrasadora. —Ainda que tenha entendido que às ruivas não lhes senta bem a laranja. - Não é laranja; é cor cobre. - É laranja. O vestido, curto e com alças estreitas, estava coberto com lentejoulas que brilhavam como espelhos. Desde o transplante não tinha levado nada com decote e teria parecido impensável poucas semanas atrás, mas Alex tinha tirado a timidez por sua cicatriz. -Seja a cor que seja, é o mesmo de teu cabelo e resplandece como o fogo. -Fala como um escritor. É poeta e não sabe. —Já sei que é uma metáfora barata. Faz favor, fique a vontade. Volto em seguida. Subiu os degraus de dois em dois. Ao chegar acima colocou a camisa dentro das calças. —É possível que na geladeira tenha algo para beber. Sirva-se se quiser.


—Obrigado. Onde está a moto? Não a vi aí fora. —Levei-a à oficina para uma revisão completa. —Lástima; gostava. —Quando tem tanta potência entre as pernas você fica viciado. —Muito gracioso. —Tenho saudades. O mecânico disse-me que demoraria bastante na deixar em condições. —E o livro vai bem? —Fatal. —Não o creio. Os escritores sempre têm um pobre conceito do trabalho que levam entre mãos. Passeou pelo salão, em busca de pistas para descobrir algo mais sobre o homem. Não tinha nenhuma. Dava a impressão de um lugar de passagem, não via nenhuma foto familiar, nem objetos perssoais, nem correspondência, nem faturas. Os móveis eram os típicos de um apartamento alugado. Estava decepcionada. Embaixo da escada tinha duas caixas de embalagem com os títulos de suas duas novelas escritos com rotulos. Sem abrir. Por que não tinha repartido exemplares de seus livros entre familiares e amigos? Talvez o tivesse feito e estes tinham sobrado. Ou talvez não tivesse família nem amigos. - E talvez ela estivesse deixando voar sua imaginação. Caminho da cozinha viu uma porta fechada. Um armário? Outro banheiro? Sem dar-se conta, já tinha a mão no tirador da porta. Parou-se um momento a pensá-lo. Alex não lhe tinha mencionado outra habitação. A propósito? Girou o pomo e a porta abriu-se sem fazer ruído. Fora da escuridão, não via nada. Abriu-a mais e assomou o nariz. Através das persianas jogadas entrava um pouco de luz, mas mal distinguia algo que parecia uma mesa... Uma mão segurou seu pulso. —Que diabos estás fazendo? Capítulo vinte e um -Maldito seja, Alex! Fouçou até soltar sua mão e deu a volta. —Deste-me um susto de morte. Que te ocorre? Alex fechou a porta. —Esta habitação é terra de ninguém. Proibida para as visitas.


—Pois por que não tens pendurado um cartaz com o sinal? É que aqui falsificas moeda? Voltou a apanhar pelo pulso, desta vez com menos força. —Perdoa que te tenha assustado, não era minha intenção. Mas quero proteger meu lugar de trabalho. —Isso no mínimo — disse mal humorada. —Rogo-te que o compreendas. O que faço aqui é muito pessoal. Observou a porta fechada como se pudesse ver através dela — Esta habitação é a testemunha de minhas melhores ou piores estado de ânimo. Aqui dou a luz a cada porra de palavra, e parir é doloroso. Aqui abençoo e amaldiçoo o processo criativo; é minha sala de torturas, privada e masoquista. Sorrio com ironia. -Sei que parece uma extravagancia para outras pessoas, mas deixar que alguém entre em meu lugar de criação seria como se violassem meu subconsciente. Nunca voltaria a me pertencer em exclusiva. Nem meus pensamentos. Tinha bem merecida a reprimenda. Por que tinha que meter o nariz em uma porta fechada? Os pintores e escultores mantinham suas obras inacabadas embaixo de trapos até que as dão por concluídas. Ninguém escuta a música de um compositor até que a dá por boa. Tinha que ter suposto que não era diferente de outros artistas. —Não o sabia — se desculpou arrependida. —Fora desta habitação, pode ficar curiosa aonde quiser. Dou-te permissão para abrir a despensa, a geladeira e cesto de roupa suja. Inclusive podes olhar minha coleção de revistas eróticas, o que quizer; mas esta habitação é sagrada. —Uma das assistentes sociais predisse-me que a curiosidade seria minha perdição. E também pensava que o chocolate era veneno e me aconselhou que não o provasse. Não parecia muito compungida. —Parece-me que nunca tenho seguido seus conselhos. Alex apoiou um antebraço contra a parede, segurando-a ali. —Perdoo-te a curiosidade. Perdoas-me tu por minha reação exagerada? Levava a gravata ao redor do pescoço, ainda que sem colocar. Cheirava a sabonete, a pele masculina


limpa, bem mais incitante para ela que o aroma a colônia de marca. Estava ainda sem pentear e com o cabelo úmido. Para resumir: jamais um homem a tinha excitado tanto. —Colecionas revistas eróticas? Desde quando? —Desde que soube que eram obscenas. —Deve fazer muito tempo. Gostaria de vê-las. —Cat Delaney: parece-me que tens uma veia perversa. —Também isso molestava às assistentes sociais. Alex estudava seu rosto e depois centrou em seu pescoço. Não resistia ao seu olhar nem seu fôlego. Apoiou o pulso dela, que ainda segurava, contra a parede e beijou a zona onde batia o pulso. Roçou seus lábios. —A que horas temos que estar ali? —Faz dez minutos. —Vá. Alex passou a língua por seu pescoço. —Mas pensava que chegaríamos tarde. —Achava que não estaria pronto a tempo? —Não, mas por talvez... Era difícil pensar enquanto ele lhe acariciava o lóbulo da orelha. —Sabe algo que possa nos atrasar. —Que podia ser esse «algo»? —O tráfico. —Ah, já, o tráfico. Dispôs-se a começar, mas Cat segurou-o pela gravata. —Não nos perdemos nada. Antes há um cocktail que durará uma hora. - E nós não tomamos álcool. Pôs a mão embaixo do seio e levantou-o até que assomou pelo decote e inclinou a cabeça para acariciar com a língua. Cat gemeu de prazer e remédio o corpo contra ele. Á1ex levantou a cabeça e a beijou na boca. A seguir Ofegante, disse: - Bom. Que? Que? - Vamos a trepar? A inesperada vulgaridade apagou seu desejo como um jarro de água fria. Apartou-o. Ele levantou as mãos com um gesto de inocência e rendição. Acusas aos protagonistas de minhas novelas de que nunca pedem permissão. Eu o fiz. -Podias ter sido um pouco mais delicado! —Muito bem. Faz favor, senhora, quer você trepar?


—Que gracioso. Tentou afastar-se, mas rodeou-a pela cintura e voltou a segura-la entre ele e a parede. Não tinha a menor dúvida de que queria excitá-la quando a beijou de novo, mais possessivo que sedutor, e Cat não teve mais remédio que responder com o mesmo ardor, Quando por fim se apartou, a Cat queimavam os lábios e todo seu corpo se estremecia. —Quero deitar-me contigo — disse ele—. Mas não se tenho que me preocupar de não te estragar o penteado e a maquiagem. Nem se tenho que me dar pressa porque há um limite de tempo. E não quando nos estão esperando para um jantar que te reportará dinhero para os meninos. Muito pareceme que, contigo, uma vez não será suficiente. Entendeste-o? Sem fôlego, e envergonhada pelo discurso, ela assentiu. —Tenho utilizado uma linguagem crua em plano de coña, mas o convite segue em pé. Nas condições expostas. Trata-se só de que escolhas a hora e o lugar. De acordo? De novo assentiu. Alex manteve sua olhar durante uns instantes e depois deu a volta. - Vou terminar de vestir. -Olá, Cat! —Nancy Webster a beijou—. Todo mundo quer te conhecer. - Uma donzela uniformada tinha-os acompanhado até o salão da suntuosa casa, que essa noite estava abarrotada com as pessoas mais ricas e influentes da cidade. O ruído imperante indicava a habilidade de Nancy para que seus convidados se sentissem cômodos. —Sinto ter chegado tarde — disse Cat—, mas... —Tem sido culpa minha. Surgiu um imprevisto. —Senhor Pierce, bem vindo. —Chame-me Alex, faz favor. —Bill deu-me uma agradável surpresa quando me disse que seria o acompanhante de Cat. É uma honra e um prazer tê-lo em casa. —Estou encantado de estar aqui. —Lhe apresentarei meu marido. O que quer tomar? Nancy era uma anfitriã impecável. Depois de um momento tinha Perrier com lima na mão de Alex e já tinha feito as apresentações. —Li sua primeira novela e encontrei-a muito boa para um principiante — comentou Bill.


Era um desses elogios ambiguos para os que não há resposta. Alex pensou se Webster era consciente disso e chegou à conclusão de que sim. O homem tentava desacreditá-lo sem que resultasse evidente. Tentou tomá-lo a broma. —Obrigado pelo elogio e pelos direitos de autor. —Está escrevendo outra novela? —Sim, estou nisso. —Está ambientada em San Antonio? —Em parte. Cat pendurou-se em seu braço. —Pode poupar-te as perguntas, Bill; não conseguirá nada. Quando se trata de seu trabalho, se fecha em banda. Webster olhou-o com curiosidade. —Por que? —Falar da história antes que esteja escrita estraga as surpresas. Não para o leitor, senão para mim. —Escreve e não sabe o que ocorrerá depois? —Não sempre. Webster levantou as sobrancelhas. —Temo-me que não sou demasiado proclive a trabalhar dessa forma. Importo-me com um ovo, pensou Alex. Cat rompeu o silêncio. —Não gosto presumir, mas Alex me pediu que lhe ajudasse em um trabalho de investigação. —Deveras? —disse Webster. —As cenas de cama eram complicadas, de modo que contei histórias e episódios de meu passado em Hollywod e dei permissão para... Fez um gesto como de buscar a palavra adequada. - Exagerá-las? —disse Nancy para ajudar. - Não, para que moderasse o tom. Todos riram. E Nancy disse: -Bill, não podemos prendê-los. Os demais convidados não nos perdoaria. Pôs-se no meio de Cat e Alex e tomou-os do braço. -Primeiro quero apresentar-vos à nova prefeita e a seu marido. Acompanhou-os pelo salão para fazer as apresentações. Alex estava encantado em saber que tinha tantos seguidores e Cat uma legião de admiradores do programa Os Meninos de Cat. Ela costumava comentar que não todo o mérito era seu. - Desde Bill Webster até o último colaborador, todos na WWSA compartilhamos o sucesso do


projeto. Uma das convidadas mencionou um artigo publicado no domingo do San Antonio Light. Tratava de uma menina adotada que tinha tido que se submeter a um transplante de rim. — Sim, a história de Chantal é comovedora — contou Cat. Então olhou a Webster e, baixinho, disse: —Que lhe parecerá a Truitt o sabor da derrota? Durante vários dias o jornalista de espetáculos tinha ido atrás da história dos O´Connor sem conseguir nada. Após que o departamento de relações públicas da emissora distribuira um comunicado, já não teve mais comentários por parte da WWSA. Por conselho de seu advogado, os O´Connor negaram a conceder entrevistas. Por último, quando a psicóloga os convenceu de que a menina tinha ocultado a todos a sua depravação emocional, o compungido casal decidiu se combinar com ela. Tanto a agência governamental como o programa tinha se livrado do desastre por um fio. Cat confiava em que este último artigo no jornal dissipasse as dúvidas sobre a validade dos Meninos de Cat. —O ocorrido na vida de Chantal é um milagre —disse— Por desgraça há muitos outros meninos que também se merecem seu milagre. —O sistema de orfanato demonstra que as pessoas que se ocupam deles são gente boa e carinhosa. Mas o que precisam é um lar permanente. O jantar consistia em sete pratos e prolongou-se durante mais de duas horas. Alex teria se fechado como uma ostra se não fosse por Cat, quem, a petição dos outros comensales, explicava as vidas de alguns dos meninos. Certas histórias provocavam risos; outras lágrimas; todas elas narradas de forma apaixonada. Quando serviram a mousse de chocolate, a mesa plena animação planejando uma fundação para os meninos. O jantar chegou a seu fim e Alex levantou-se para apartar a cadeira de Cat. Murmurou-lhe ao ouvido:


—Estão no saco. Os convidados se foram, mas os Webster pediram-lhes que ficassem a tomar uma última caneca de café. —No gabinete de Bill estaremos mais cômodos - sugeriu Nancy. Uma vez ali, entrou uma donzela com um serviço de prata, mas serviu Nancy. — Apetece-lhe um brandy, Alex? — Só café, obrigado. —Observei que não tem tomado vinho durante o jantar - disse Bill ao apanhar a caneca de café com umas gotas de brandy que Nancy lhe alongava—. É abstemio? —Sim. Não se sentia obrigado a dar mais explicações. Não obstante, isso provocou certa pressão. De novo, Cat foi a tábua de salvação. — São fotos familiares? Indicou um álbum forrado de pele que estava em cima da mesa de café e se sentou no chão. — Posso vê-las? — Por suposto - contou Nancy—. Poderíamos aborrecê-los durante horas com fotografias dos garotos. — Quantos têm? —perguntou Alex. — Seis. — Seis! Ninguém o diria vendo à mãe. — Obrigado. — Conserva-se muito bem — acrescentou Webster, sorrindo com orgulho. — Vivem com vocês? Enquanto Nancy resumia onde estavam e o que faziam seus filhos, Cat continuava olhando as páginas do álbum. De vez em quando, Alex jogava uma olhada. Os filhos dos Webster pareciam-se muito a seus pais, eram lindos, com aspecto saudável, e também devemr triunfadores, já que sempre apareciam com um troféu ou uma medalha. —Agora o único que vive conosco é o pequeno, ainda que rara vez está em casa —dizia Nancy—. É o editor do periódico escolar e... — Deus meu! A exclamação de Cat interrompeu as palavras de Nancy. Todos os olhos se centraram nela. Capítulo vinte e dois


-Sabia que é a viva imagem de sua filha Carla? Consciente de que Alex não tirava os olhos de cima dela, Cat se concentrou em conduzir e olhar à frente. —Somos muito parecidas — reconheceu. —Isso é pouco. —Seus olhos eram castanhos, não azuis. —Mas era ruiva, com o cabelo encaracolado, e tinha o mesmo tipo de cara. Analisou seu perfil. —Sua estrutura óssea não era tão angulosa, mas a semelhança é extraordinária. Cat seguia com os olhos fixos na estrada, apegada ao volante. —Sabes que é verdadeiro — insistia ele—. Ao ver a foto quase desmaiou. Você ficou pálida. —É muito observador. —É meu trabalho. Observar às pessoas e colocar no papel o que vi. -Bom, pois não gosto que me observem. —É uma lástima, pois você é fascinante. E também Webster. -Bill? Por quê? -Para começar não gostou de mim desde o princípio. Não que me importe, mas é curioso. - Curioso? É que a toda pessoa que o conheça gosta de você automáticamente? -Não diga que não percebeu. Para começar você contou que me ajuda no trabalho de investigação. Ele quase teve um infarto quando você pegou o álbum; não queria que visse as fotos de sua filha. Cat teve que fazer grandes esforços para continuar impassível. Não tinha observado a Bill como Alex, de modo que não podia dizer com exatidão qual foi sua reação quando ela pediu ver o álbum. No entanto, não passou despercebido que ele permaneceu em silêncio, deixando Nancy a cargo da situação. Nancy reconheceu a espantosa semelhança entre sua filha e Cat comentando: —Bill e eu nos demos conta a primeira vez que apareceu em Passages. Caçoamos com Carla acusando-a de ter uma dupla vida. Você se lembra, querido? Bill assentiu com um rosnado. Após isso, ela e Alex recusaram outra caneca e fizeram questão de se retirar. Cat agradeceu o jantar


e Nancy disse que estava segura de que com o apoio de seus assistentes se poderiam organizar algo para arrecadarem fundos. —Passem bem — disse Alex a seus anfitriões – Obrigado por me incluir. Na porta, Nancy tinha-os abraçado sem perder a compostura, ainda que Bill parecesse estar inquieto e... Culpado? E por que esteve tão antipático com Alex? —Sabia de Carla antes desta noite? —perguntou ele. —Sabia que tinham perdido a sua filha maior. E que tinha morrido em um acidente de tráfico quando voltava à Universidade de Austin. —Webster falou para você? —Sim, inclusive antes que me mudasse aqui. Ao que parece, não o tinham superado. E quem poderia? Tua filha vem a casa a passar o fim de semana, lavar suas roupas, escutar suas confidencias, lamentar-se do professor ao que não suportava. Dás-lhe um beijo de despedida recomendando que seja prudente. Quando voltar a vê-la, é para identificar seu cadáver no depósito. Não posso imaginar nada pior que enterrar a um filho. Alex guardou um silêncio respetuoso e, a seguir, lançou um olhar assassino: —Webster se apaixonou por você? -Não! —Sim. —Não, de verdade — insistiu ela—. Seria doentio, tendo em conta minha semelhança com sua filha. —Talvez fosse isso que acordou seu interesse. Sua atração por ti era inocente quando te conheceu. Mas, com o tempo, tem evoluido para algo mais. —Não acredito. Alex manteve seu silêncio cético. Por fim, ela tinha meditado sua resposta. - Se fosseassim, nunca fez a menor insinuação. - Não acho que te persiga pelo escritório nem tente se esfregar quando ninguém vos vê. Tem demasiado orgulho para isso. - Nunca deu um passo; nem com subterfugios nem abertamente. - Mas sua relação é algo mais que a de diretor-empregada. - Considero-o um amigo, mas nada mais. Por outra parte, tudo indica que sua relação com Nancy é


perfeita. - Nenhuma relação é perfeita. - Diz isso por experiência própria? - Por desgraça sim. Demasiado. - Já o supunha. - Mas você e Bill Webster... - Nada de eu e Bill Webster — protestou—. Deu-me uma oportunidade, aprecio-o e respeito-o. Isso é tudo. - Parece-me que não, Cat. Não estou chamando você de mentirosa. É ele, há algo nele que me incomoda. —É um homem atraente, distinto e com muito prestígio. É uma pessoa influente e emana autoridade. —Ouve, ouve, espera, não está insinuando que estou com ciúmes dele? —Foi você quem disse. —Pensou errado, querida. Era ele quem estava com ciúmes de mim por ser teu acompanhante. —Bobagem! —De acordo; Bobagem. Mas esse Webster esconde algo. Tinham chegado a um cruzamento. Cat não queria admitir o que pensaa; que Bill tinha se comportado de forma estranha e preocupante essa noite. Precisava tempo para refletir sobre isso. Mas Alex não estava disposto a mudar de tema. —Por que acha que estava tão contrariado quando viste a foto de sua filha? —Porque se nossa semelhança foi o motivo de seu interesse por mim, se sentiu envergonhado. A veia sentimental não encaixa com a imagem de executivo duro; uma imagem que tem cuidado e mantido a intransigente. - Talvez. Cat diu um Soco no volante. - Sempre tem razão? Não te ocorre pensar que você olha as coisas de um ângulo que pode estar errado? - Desta vez não. Há algo falso nesse homem, o instinto me diz, é tudo muito perfeito, sua vida é a ilustração perfeita de um moderno conto de fadas. Eu busco o duende camuflado. —Tens caído em teus vícios de policial.


—É provável. É um costume difícil de romper. Observo com verdadeiro grau de suspeita a todo mundo. —Por que? —Porque as pessoas são suspeitas por natureza. Todos nós temos algo que ocultar. —Como um segredo? Seu sorriso malicioso não mudou a séria expressão de Alex. —Exatamente: como um segredo. Todos nós temos algo que guardamos sob chave. —Eu não; minha vida é um livro aberto. Podem me olhar com raios X por dentro e por fora. Se tivesse algo que ocultar já o teriam descoberto faz tempo. Alex negou com a cabeça. —Tu tens um segredo, Cat. Talvez tão profundo que está encerrado no subconsciente. Ainda que não saibas o que é, não quer revelar a ti mesma porque teria que ir em frente. Todos ocultam os aspectos negativos de nós mesmos porque não suportamos enfrentar a eles. —Céu, alegra-me de ter-te convidado: é de morrer de rir. —Antes eu quisesse brincar com você. E não me pareceu que apreciasse meu sentido do humor. Olhou-o carrancuda. —Acho que está levando a psicologia policial muito a sério. —Pode ser, mas nós escritores também somos psicólogos. Hora depois de hora, dia depois de dia, descrevo vidas de pessoas, estudo suas pautas de comportamento e tentativa descobrir o que as faz reagir. Pensa nisto: dás-te um golpe no dedo com um martelo. Que fazes a seguir? —O mais seguro é que grite, diga um palavrão e dê pulos segurando o dedo. —Exato. Causa e efeito. Dado esse estímulo, todos nos comportamos basicamente igual. Por outra parte, ocorrem coisas em nossa vida que para nós são únicas, mas, já sejam acidentais ou preconcebidas, nossas respostas estão também programadas. E a cada qual está programado de forma diferente segundo o sexo, o coeficiente mental, o nível econômico, seu meio ao nascer, etcétera. Todos nós temos razões para reagir como o fazemos. Isto é a motivação. Como escritor, tenho que


saber o que motiva um determinado personagem a responder a uma situação determinada e de uma forma determinada. - Estudas o comportamento humano. - Em todas suas facetas. - E está na natureza humana esconder os segredos? - Como um cão esconde um osso. Ainda que rara vez queira desenterrá-los e roê-los. - E qual é teu segredo, Sigmund Freud? - Não posso o revelar. É um segredo. Cat parou em outro cruzamento e voltou à cabeça para o olhar. - Acho que tem mais de um. Alex não picou o anzol. Limitou-se a perguntar: -Nos deitaremos juntos esta noite? Ela sustentou sua olhar até que mudou o semáforo e o motorista que ia detrás fez soar o buzina. —Não o creio — contou ao calcar o acelerador. -Por que não? —Porque tens falado tanto de estudar-me que me sinto insegura. Serei a primeira estrela do tv que você leva para cama? A primeira mulher com um coração transplantado? A primeira ruiva que calça um trinta e sete? Quer deitar comigo para poder armazenar a experiência em tua enciclopedia mental sobre o comportamento humano? Alex não negou e a Cat molestou que não o fizesse. Queria que recusasse a acusação de plano, mas seguia calado. Isso confirmou sua decisão. —Me desculpe, Alex: não quero me ver retratada na cena da sedução de tua próxima novela. Alex afastou os olhos dela com a mandíbula desencajada. Cat temia que fora pelo fato de que tinha dado no finco. Ainda que, ao menos, tinha a decencia de não mentir sobre seus motivos. Não obstante, estava muito desesperançosa. -Fazes que pareça um autêntico porco. —É provável que o seja. Então viu que Cat sorria. - Bom, tens razão. Mas inclusive aos porcos se concede o benefício da dúvida, algumas vezes. - De acordo. Um café em minha casa? - Sim, desde ali pedirei um táxi para voltar à minha. - Café e nada mais.


- Não sou nenhum selvagem, sabes? Posso controlar meus impulsos quando tenho que o fazer. Estava caçoando, mas voltou a falar em sério. - Cat, gosto de falar contigo; para valer. - É uma nova táctica? -Não. É geniosa, inteligente, competitiva. Uma boa oponente. —Vá, vá; ainda que não seja verdadeiro é muito lisonjeiro. Seguiram conversando e rindo enquanto recordava episódios do jantar. Ao dobrar a esquina, Cat freou inesperadamente. —De quem é esse carro? Tinha um sedán escuro estacionado diante de sua casa, oculto em parte pelas sombras dos ramos dos carvalhos. —Não o reconheces? Ela negou com a cabeça. —Esperava alguém? —Não. Disse a si mesma que os dois recortes de jornal não tinham que a inquietar, mas sabia que era uma imprudencia os descartar por completo. Mais de um demente tinha cometido horríveis assassinatos devido a seu obssessão por alguma pessoa famosa. Costumava extremar as precauções assegurando-se de que as portas e as janelas estivessem fechadas, observando os estacionamentos ao sair dos edifícios e comprovando que não tivesse ninguém no assento posterior antes de subir ao carro. Não estava histérica, mas o sentido comum não faria nenhum dano. —Que te assustou? —perguntou Alex. —Não estou assustada; só... —Não minta. Suas mãos estão tremendo e seu pulso acelerou na carótida. Que passa? —Nada. —Cat! —Nada. —Mentirosa. Estaciona. —Mas... —Estaciona! Saiu do carro, mas deixou o motor ligado. —Apaga as luzes, não faças ruído, te fica aqui. Abriu a porta e saiu.


—Alex, que vai fazer? Sem dar atenção, andou em direção a sua casa. Logo o perdeu nas sombras e não podia o ver. Sua ansiedade inicial tinha-se mitigado. Sim, tinha-se assustado, mas só durante um momento, e agora parecia uma tolice. O carro podia ser de alguém que visitasse um vizinho. Impaciente, tocou com os dedos sobre o volante. ”Não faças ruído, te fica aqui, faz isto, faz o outro”, murmurou ofendida. Não precisava que ele a resgatasse. Saiu do carro e seguiu o mesmo caminho que Alex tinha tomado. Correu de em pontas do pé, colando às sombras. Quanto mais perto estava de casa, mais ridícula sentia-se. É que alguém que quisesse fazer mal estacionaria diante de sua casa, anunciando sua visita? Por outra parte, como podia explicar a estranha sensação de se sentir vigiada? Esses malditos envelopes e seus misteriosos avisos estavam-lhe fazendo mal. Sempre tinha odiado a covardia, não era seu estilo sobressaltar-se nem imaginar fantasmas escondidos a ponto de atacar. Mas SEU nervosismo intensificou-se ao chegar à casa. Fora da luz da entrada da porta, tudo estava escuro e não se ouvia nem se movia nada. Então, ouviu vozes que vinham do jardim traseiro. Um grito. Um rosnado. Ruído de uma briga. Dois siluetas apareceram na escuridão. Alex lutava com outro homem e levava-o praticamente à força até a entrada da casa. -Tentava entrar pela porta de trás. -Solta-me, filho de puta — rosnava o homem. —Nada disso. Alex atirou-o ao chão de bruços e ficou sentado em cima dele, pressionando o joelho contra os rins. Segurando o braço contra as costas. —Se mover-te romperei a porra braço. Cat, ligue para 911. Aturdida, correu para a porta, mas esteve a ponto de dar tropeçar nos degraus ao ouvir que voltavam a dizer seu nome, agora com uma voz entrecortada pela indignação e a dor, mas, ainda assim, inconfundível. —Cat, pelo amor de Deus: tira este filho da puta de cima de mim.


Ela se deu a volta com os olhos arregalados pela perplexidade. —Dean Capítulo vinte e três Cat limpou com álcool a ferida da bochecha de Dean. O cardiologista fazia caretas de dor e amaldiçoava. Alex, sentado numa cadeira, tentava dissimular seu sorriso. Estavam ao redor da mesa da cozinha. Era justo o tipo de cozinha que Alex teria atribuído a Cat se fosse um de seus personagens. A era branca, com algumas pinceladas de cor: uma amapola de Georgia O ´Keefe em uma das paredes, violetas africanas no alféizar da janela, uma fruteira com manchas brancas e negras como a pele de uma vaca leiteira. Spicer apartou a mão de Cat. —Já estou bem — resmungou - Tem algo para beber? —Se você se refere a bebida alcoólica? Não. —E uma aspirina? Cat negou com a cabeça, compungida. Dean suspirou. —Claro, suponho que não esperava ter uma visita atacada e arrastada pelo chão. Olhou a Alex. —Acho que você me deve uma desculpa. —Não penso me desculpar por reagir ao que eu vi que era você tentando entrar pela porta de trás. Era verdade que o tinha maltratado sem saber que era amigo, mas na realidade não lhe tinha feito dano. O único que estava ferido era seu orgulho, e isso a Alex não importava. —Não deveria estar rodeando na escuridão tentando entrar. —E você deveria ter pedido que me identificasse antes de saltar em cima de mim. Alex disse em tom zombador: - Essa é uma boa maneira de morrer. Não se pede a um suspeito que se identifique. Primeiro o imobiliza e depois faz as perguntas. Você não duraria nem dez minutos na rua. -Não sabia. Ao contrário de você, não me criei na rua. Alex levantou inesperadamente e derrubou a cadeira. - Teve sorte de que Cat o reconhecesse á tempo. Estava a ponto de esmagálo por me chamar filho da puta.


-Garotos, já chega! —exclamou Cat—. Foi um erro, daqui a pouco nos parecerá gracioso. Alex duvidava que ele ou Spicer o encontrassem gracioso, mas não queria discutir com Cat, que já estava bastante nervosa. Levantou a cadeira e sentou-se enquanto trocava olhares rancorosos com Dean. Cat fechou a garrafa de álcool e disse: —Dean, se tivesse telefonado, isto não teria ocorrido. —Queria fazer uma surpresa. —Pois conseguiu! —disse risonha. Demasiado risonha. Seu sorriso parecia forçado e Alex pensou que não estava muito contente de ver ao doutor Spicer, a quem tem¬bía fosse só como um amigo. Mas não passou por sua cabeça que talvez entre eles fosse algo mais que isso. —Você comeu no avião? Quer que eu te prepare algo? —Não comi essa bazofia e já provei os teus pratos. De todas as formas, obrigado. —Quer café? —Não. —Eu também não. —Pois será melhor que passemos ao salão. Nem um nem outro se moveram, de modo que se sentou com eles à mesa da cozinha. —Não posso acreditar que esteja em San Antonio, Dean; achava que morreria antes de se deslocar a províncias. —O que tenho visto até agora se ajusta a minhas piores expectativas. —Muito obrigado! Cat disse-o em brincadeira, mas ele o tomou em sério. —Não me expressei bem. Tua casa é bonita, ainda que não pode se comparar à de Malibú. —É verdade. Em San Antonio andam escassos de terrenos com vistas à praia. Cat riu com nervosismo sua própria piada, mas nem Alex nem Dean esboçaram um sorriso. Deixaram que ela continuasse a conversa. —Quando decidiste vir, Dean? —Foi uma idéia repentina. Tenho poucas consultas nos próximos dias e foi fácil remarca-las. —Alegro-me de que esteja aqui. Estava mentindo e Alex sabia-o. E também Spicer.


—Ainda que não o pareça, você chegou em um momento oportuno. Viemos de um jantar em casa dos Webster. Spicer emitiu um rosnado. —Nancy está organizando uma arrecadação de fundos para Os Meninos de Cat. —Que amável. —Esta noite estava ali a flor e nata da alta sociedade de San Antonio. —Não acho que seja grande coisa. Alex admirava o autodominio que demonstrava Cat ao não se incomodar com o comentário ofensivo. Inclusive conservou o riso. —As senhoras estavam encantadas de conhecer a Alex em pessoa. Spicer perguntou: —Você é policial, não? —Ex-policial. Spicer tossiu e olhou-o com desdém. —Alex escreve livros policiais e é quase uma celebridade. Você já leu alguma? Spicer olhou-a como se tivesse falado uma besteira. —Não. —Pois talvez devesse fazer — disse Alex. —Não vejo por que. —Poderia aprender algo útil; por exemplo, defesa pessoal. Spicer levantouse. A seguir sentiu-se enjoado e teve que se apoiar no braço da cadeira. Alex disimulou outro sorriso de satisfação. Cat precipitou-se a ajudar ao cardiologista a sentar-se. Depois pôs-se em pé e disse: —Estou tentando fazer de árbitro e o não gosto dele. Basta já! Vocês estão se comportando como um par de estúpidos por nada. —Isto não é nada? — disse Spicer indicando a ferida da bochecha. —Já está bem, homem — murmurou Alex. —E ameaçou-me de quebrar o meu braço. —Dean... - Porque o tomei por um ladrão, mas era só um louco passeando na escuridão e... -Alex... ALEX pôs-se em pé. - Deixa-o, Cat, não vale a pena. Parece que ouvi chegar um táxi. - Pediu um? - Quando foi buscar a caixa de primeiros socorros.


- Oh, pensei ficaria para conversar conosco. - Não, atende a teu convidado. Foi um prazer, doutor. Spicer olhou-o furioso. Cat disse: —Te acompanharei, Alex. Caminharam para a porta principal. Cat tinha tirado os sapatos de salto e seus passos eram silenciosos no chão da calçada, ainda que este rangesse um pouco sob o peso de Alex. As habitações eram espacosas, iluminadas por lustres de pé. A suave luz caía como fotografias emolduradas, revistas e jarros com flores. Os sofás e cadeiras eram grandes, fofos e com almofadas de cores diversas. O ambiente era, despretencioso, amável e acolhedor. Cat abriu a porta. —Tênias razão; aqui está o táxi. Estava estacionado em frente, por trás do carro de alugado de Spicer. Deu a volta e disse: —Obrigado por acompanhar ao jantar. —Obrigado por ter-me convidado. Se Cat tivesse sido prudente, o teria deixado assim, dando boa noite. Mas não era e, rindo, comentou: —Temos tido uma surpresa ao final da noite, eh? —Sim. —Foi mais divertido que uma tranqüila caneca de café. —E menos divertido que fazer amor com você. —Por que és tão bruto? —E tu tão inibida? Sabe muito bem que íamos transar. —Já te disse que não. —E dizia á sério? Cat baixou a cabeça. Ele levantou seu queixo. —Somos adultos, os dois sabemos o que nos levamos entre mãos, de modo que te deixa de tolices comigo. Desde que a vi na Casa de Irene e Charlie você me deixou doido e sabe disso. E você sentiu o mesmo. Tudo o que temos dito e feito desde então foram preliminares. Cat olhou nervosa em direção à cozinha e isso lhe molestou. —Captei a indireta. Boa noite, Cat. Saiu. E estava já a meio caminho quando se virou. Ela seguia na porta, silueteada pela luz da casa. Parecia triste e desabrigada. Ainda que ainda estivesse furioso por súbito aparecimento do ex


amante de Cat, não queria se comportar como um insensato. Voltou sobre seus passos e, sem dizer uma palavra, apanhou-a pela cintura e a apertou contra si. A beijou apaixonadamente e, com a mesma rapidez que tinha começado, terminou. Ela o olhou boquiaberta. Deixou-a atónita e excitada, faminta de sexo. Quando voltou a empreender o caminho pela segunda vez, estava ainda mais enfurecido que antes. Com Spicer, com ela, com ele mesmo. Com tudo. —Quanto tempo faz que dura isto? Dean não fez rodeios. Assim que ela voltou a cozinha, abordou o tema que Cat tinha esperado poder esquivar... —O que? —Não se faça de tonta, Cat. O caso com esse policial e escritor. Seu olhar inquisidor exigia uma resposta. —Não há nenhum assunto entre Alex e eu. Explicou o mal-entendido ocorrido em casa dos Walters. —Desde então nos vimos algumas vezes. É um homem agradável. Não há nada mais. Dean fez uma careta de ceticismo. Ela ainda conservava na boca o sabor de Alex e passou à ofensiva: —Olha, Dean, alegro-me de que tenha vindo me ver, mas quem te deu permissão para entrar em minha casa quando eu não estou? —Não achei que se importasse. Já expliquei, a você e a esse troglodita. Como não estava, pensei entrar e te esperar. Não entendo por que te molesta. Tenho as chaves de tua casa de Malibú. Qual é a diferença? —A diferença é que te dei as chaves da casa de Malibú e sabia que as tinhas. Deverias ter-me telefonado; não gosto das surpresas. Já te disse muitas vezes. —Pois teu desagrado pelas surpresas deve de ser uma das poucas coisas que não mudou desde que estás aqui. Levantou-se e começou a passear pela cozinha sem tirar seus olhos dela, como se quisesse a observar por diversas perspectivas. —Não sei o que provocou em troca. Se é a tua relação com esse gorila ou pelo trabalho. Algo mudou. -Em que sentido?


-Está agitada, nervosa. Á ponto se assustar por qualquer coisa. -Não sei do que está falando. Se o sabia e preocupava-lhe que fosse tão evidente. -Dei-me conta assim que a vi. Se algo vai mau... De repente ficou pálida. —Oh, Deus meu, estás bem? O coração? Algum sintoma de rejeição? Ela levantou as mãos ante seu alarme. —Não, Dean, estou uma maravilha. Não posso acreditar quão bem estou. A cada dia descubro que posso fazer coisas que antes eram impossíveis. Após tanto tempo, ainda não me acostumo à idéia. —Não seja imprudente — aconselhou com voz de médico—. Alegro-me de que esteja bem, mas se notar algum sintoma de rejeição tem que me avisar de imediato. — Eu Prometo. —Sei que não gosta, mas alguém tem que lembrá-la que não é igual que qualquer outra pessoa. Levas um coração transplantado. —Sou igual que qualquer outra pessoa. Não gosto que me tratem como a uma doente. Não parecia ouvir seus protestos. —você trabalha muito. —Encanta-me trabalhar. Entreguei-me aos Meninos de Cat em corpo e alma. —Por isso está tão nervosa? Ela gostaria de mostrar os misteriosos recortes. Sua opinião teria sido valiosa. Mas, conhecendo-o, o mais provável era que aconselhasse ir à policia, e fazer isso seria admitir que tinham alguma importância. Ainda tentava se convencer de que os velados avisos não significavam nada. —Talvez eu pareça tensa porque o jantar desta noite foi algo mais que uma festa convencional. Tinha que causar boa impressão a muitas pessoas, e isso cansa. Adoro o trabalho e os meninos, mas um programa assim te dá muitas dores de cabeça, a problemas relacionados com a produção e outros com a burocracia. Ter que tratar com a administração esgota a qualquer. Quando chega a noite, estou cansada. Poderia deixá-lo. Ela sorriu e negou com a cabeça.


—Inclusive com todos os inconvenietes, gosto. Vale a pena quando conseguimos que adotem a um menino e que isso mude sua vida, convertendo seu pesadelo em um sonho. Não, Dean, não penso em deixar. —Se o trabalho é tão estupendo, deve de ser outra coisa. Olhou-a fixamente aos olhos. —É por Pierce? Fica nervosa por ele? —Outra vez com isso? —Até onde chega vossa relação? Não podia contestar com franqueza, pois a verdade era que queria que sua relação com Alex se fizesse mais profunda e dar o seguinte passo. —É um homem inteligente e interessante — disse - Se expressa bem, mas é pouco comunicativo. Uma pessoa complexa. Quanto mais vemos-nos, parece que o conheço menos. Ele Me intriga. —Cat, não se engane. É um macho duro e aposto o que intriga. Não se deu conta? —É um garoto mau e que nenhuma mulher pode resistir — disse ela baixinho. —Se você já sabe, por que vai atrás dele? Por que te atrai? É um selvagem, vê-se a simples vista. E essa cicatriz na sobrancelha? —Um delinqüente o golpeou com uma garrafa de cerveja. —Ah, vejo que já te contou. Tem outras cicatrizes? Já as viu? Dormiu com ele? —Isso não é assunto teu! —É claro que é. —Se fosse assim ou não, não tenho que te dar satisfação. Não queria ferir mais o ego de Dean, por isso conteve a ira. —Dean, não quero discutir com você. Faz favor, entende-o. —Entendo-o perfeitamente. Quer a excitação e o ardor, cuja carência lamentava em nossa relação. Se apaixonou por um homem duro com jeans tingidos. —Sim — admitiu com verdadeiro ar de desafio. E continuou—: tanto faz com quem seja, gosto de me apaixonar. —Pelo amor de Deus, Cat. Parece-me tão pueril... —Sei que pensa que sou alocada e idealista. —Tens razão. Eu sou um pragmático. Não tenho nem fé nem ideais. A vida é uma série de realidades; no geral, muito duras.


—Ninguém sabe melhor que eu, Dean. Por isso quero seguir diante com algo bom quando o encontrar. Na relação mais importante de minha vida nego-me a conformarme com menos. A amizade e a camaradagem são básicas, mas se apaixono quero tudo. Quero também sexo ardente e romantismo. —E acha que esse tipo pode dar isso? —É prematuro especular. Além do mais, ele não é o caso. —E um corno. Se eu não estivesse aqui, não estaria flertando com ele neste momento? Cat não queria contestar, mas sabia que tinha que fazer. -Com franqueza, não sei. Talvez. Ao recordar o beijo de despedida de Alex acrescentou: -É provável. Dean apanhou a jaqueta dobrada sobre a cadeira. -Talvez devesse chamá-lo de volta para se certificar. -Dean, não vá embora assim — suplicou por trás dele ao atingir a porta. Não vá embora chateaso, não me culpe por não estar apaixonada por você. Você ainda é o meu melhor amigo e preciso de ti. Ninguém pode romper nossa amizade. Dean! Ele não cedeu, saiu e fechou de uma portada. Cat ouviu quando os chiaram os pneus do carro alugado. Capítulo vinte e quatro George Murphy estava enfurecido enquanto caminha pela rua cheia de lixo em direção a sua pequena moradia de aluguel. Ao subir a escada, o chão de madeira ameaçava afundar sob seus pés. A pintura azul da porta estava desgastada e quando a abriu as dobradiças chiaram... A sala cheirava a ensopados e a maconha. Murphy apartou de um chute um boneco de pelucia e amaldiçoou ao tropeçar com um caminhão de brinquedo. A mulher saiu do dormitório com a cara amarrotada. Ainda que fossem quase as doze, continuava de camisola. Passou a língua pelos lábios ressecados. —O que está fazendo aqui? —Bom, eu vivo aqui. Ela se rodeou a cintura com os braços. —Quando te soltaram?


—Faz como uma hora. Não tinham provas e não podiam me reter em chirona. Queriam plantar evidências nele. Um par de policiais com vontade de fazer méritos, seu aspecto diferente os tinham incomodado. Nada importante, mas a detenção interferiu no que gostava de fazer. Adorava tomar uma cerveja e trepar. Olhou-a com ar de inquisidor. Parecia especialmente nervosa. —Que te ocorre? Não fica contente em me ver? Entornou os olhos com perspicacia e olhou para ele —Filha da puta, se há um homem aí dentro te matarei. —Não há... A colocou de lado e entrou no quarto sem ventilação. Deitado sobre os lençóis, dormia um menino. O pequeno tinha adotado a postura fetal e tinha o polegar na boca. Murphy sentiu-se ridículo por sentir ciumes, mas buscou também no banheiro. Não tinha ninguém. Ao sair, olhou o menino dormido. —Devolveram-no? Ela assentiu. Esta manhã. Passei duas noites chorando e sem vontade de fazer nada que não fosse pensar em Michael. Achava que desta vez o tinham levado para sempre. Estava a ponto de chorar, mas engoliu as lágrimas. —A assistente social disse que... Se voltasse a ter problemas o levariam definitivamente. É a nossa última oportunide. Faz favor, não faças nada que... —Traga-me uma cerveja... Ela vacilou e olhou ao menino. Murphy deu-lhe uma bofetada. —Eu disse para me trazer uma cerveja! Você é surda ou é idiota? Ela saiu a toda pressa da sala e voltou num instante com uma lata de Coors. - É a última. Quando Michael acordar irei comprar mais, e também algo para jantar. Que te apetece? Ele resmungou, satisfeito; a atitude servil era mais de seu agrado. Às vezes, a puta esquecia, e tinha que lembrá-la quem era o amo da casa. —Não quero essa droga que me deste na semana passada. —Era frango guisado ao estilo mexicano. —Não sei que droga tinha nesse molho. — Te farei umas batatas fritas. Engoliu a cerveja e suspirou. Agora, seu desejo de satisfazê-lo o deixava exasperado. As mulheres


deveriam nascer mudas, pensou. -E hamburguers com cebola, como você gosta. Já não a escutava. Amassou a lata de cerveja, atirou-a ao chão e se agitou entre a desordem da cômoda. - Que fez com ela? -Não, faz favor. Não pode, aqui não. Se a assistente social souber... Em cima da cômoda tinha uma caixa de plástico com compartimentos que continham missangas de diversos tipos, tamanhos e cores. Com um violento puxão de braço atirou-a ao chão. Reprimindo um grito de desespero, ela olhou as missangas espalhadas pelo chão de linóleo rasgado. Segurou-a pelos braços e sacudiu-a. -Deixa-te de Bobagem! Onde está minha mercadoria? A mulher estava indecisa, mas o começo de rebelião apagou-se logo. —Na última gaveta. —Pegue-a para mim. Quando se inclinou, a camisola colou em seus quadris. Ele olhou as nádegas, apertando a carne com seus fortes dedos. —Após um par de dias na cadeia, até o teu cu me deixa excitado. Ela se incorporou, mas ele seguiu com as mãos no lugar e, depois, levantou a camisola. —Não, faz favor — choramingou à imagem de Murphy no espelho—. Michael pode acordar. —Fecha o bico e corta-me um par de raias. A mulher ia começar a protestar, de modo que a beliscou na coxa. —Que não tenha que repetir. Com mãos trémulas abriu a carteira de plástico, derramou um pouco de cocaína e, com um naipe, cortou duas linhas sobre um pedaço de vidro. Murphy agachou a cabeça e cheirou com um caninho. Com o que sobrou esfregou nas gengivas. A dose era potente. —Ah, isto já está melhor. Pôs a mão no meio das costas, obrigando-a se inclinar sobre a cómoda, e desabotoou as calças. —Não! —Cala-te. Tentou deslizar a mão entre suas pernas, mas ela as mantinha apertadas. Deu-lhe outra bofetada, desta vez mais forte, e ela gritou. —Abre as pernas.


—Não quero o fazer assim. —Muito bem. Seu tom de voz era suave, mas tinha o rosto distorsido. Agarrou-a pelo cabelo e deu a volta, forçando ela a ajoelhar-se e esfregou o pênis ereto em sua cara. — Gostas mais assim? Tens visto que macho sou? E se me machucar te arrancarei a cabeça. —Sim, sim, o farei bem. Lágrimas de dor e humilhação rodaram por suas bochechas enquanto olhava ao menino dormindo. —Mas na outra habitação. —Gosto desta. —Eu te imploro. Pelo menino. —Deus, como você fica feia quando choraminga. —Deixarei de chorar, juro-to, mas não me obrigues a... -O menino dorme — murmurou Murphy—. Mas posso despertá-lo. Poderia te servir de lição. Fez a menção de ir à cama, mas ela abraçou a suas pernas. -Não, não. -Pois mãos à obra. A metade de sua satisfação vinha do fato de vê-la ajoelhada e o masturbando com a boca, ávida e rápida. Ela tentava que ejaculasse o mais rápido possível para terminar de uma vez. Mas ele era muito esperto para essa idiotice, pensava. Tinha descoberto conta o truque e agüentava tanto como podia. Ao terminar, gritou como um asno. Foi um milagre que Michael não acordasse. Após jantar, sentou-se a ver o tv. Era a hora do telediário em todos os canais. Mudava de um canal para o outro esperando seu programa favorito. Uma ruiva chamou-lhe a atenção. Tinha-a visto antes, mas não deu muita atenção. Era bonita, mas mal tinha tetas. A suas costas via-se a foto gigante de um menino e a mulher falava para a câmera com desenvoltura: -... Estava abandonado. Seus pais são drogados. Terá certas dificuldades de adaptação, mas tem capacidade para coverter se em um menino inteligente, são e emocionalmente estável. Com a família adequada, que lhe proporcione o amor e a educação que precisa... Murphy escutava a cada vez com maior interesse. Quando terminou a reportagem e a ruiva deu


continuidade ao apresentador, Murphy contemplou com desdém ao menino que jogava na esquina com seu asqueroso coelho de pelúcia. A criança era um incomodo. Claro que não fazia muito ruído e havia aprendido a golpes que não tinha que o incomodar, mas sempre era um estorvo para qualquer coisa que quisesse fazer: trepar, cheirar; o que fosse. Tinha que se andar com olho em sua própria casa. Por esse piralho, ela resmungava: Michael pode nos ver, Michael pode nos ouvir. Era de enlouquecer. E essa maldita assistente social, que a cada duas semanas metia os narizes em sua vida! Tinha certeza que foi ela que falou com a policia. A última vez teve de sacudir a fulana. Ela tinha apertado seu pulso. Ele tinha voltado a casa e ela não estava. Quando por fim apareceu, não deu uma resposta clara de onde esteve. Supunha-se que tinha que o tolerar? E também não havia permitido que fizesse esse trabalho de criar colares. Dava a ela muita independência. Mas o principal problema era o piralho. Quase a cada vez que ela reclamava era por ele. Se esse merdinha não estivesse ali, a vida seria bem mais fácil. Adoção disse a ruiva. Não só para órfãos senão também para meninos cujos pais se tinham fartado deles e queriam se livrar deles. Meninos de saldo. Não estava mau. Olhou à mulher quando se sentou com a caixa de missangas. Ficaria histérica se levassem Michael para sempre, mas tarde ou cedo se conformaria. Que outra coisa podia fazer? Ou talvez não se importasse tanto se soubesse que Michael tinha sido adotado por um lar decente. Fora o que fosse isso. Murphy apressou a cerveja enquanto começavam os títulos de seu programa favorito, mas sua mente estava na ruiva. Podia ser a solução a seu problema. Valia a pena pensá-lo. Capítulo vinte e cinco -Cat? —Céus! Teve um sobresalto e levou a mão ao coração: —Pensava que não tinha ninguém.


Os estúdios de televisão estavam escuros e ela achava que estavam desertos. —E não há ninguém. Só eu, que te esperava. Alex levantou-se da cadeira do apresentador do telediário e caminhou para ela. O medo tinha-a deixado resgardada. Na escuridão, as câmeras pareciam formas humanas de outro planeta, com seus cabos enrolados e serpenteando pelo chão como cordões umbilicais eletrônicos. As telas dos monitores eram olhos cegos e imperturbáveis... A essas horas, quando já não realizavam suas funções de alta tecnología, os aparelhos do estúdio assumiam as formas de criaturas monstruosas. Até pouco tempo antes, uma idéia tão peregrina não passaria por sua cabeça. Mas tal e como estavam as coisas, via fantasmas e duendes por todas as partes. —Como soubia que me encontraria aqui? —perguntou Cat. —Disseram-me que é por onde costuma sair. —Quem te disse? E como você conseguiu entrar? —Negociei-o com o segurança. —Supõe-se que não têm que deixar entrar no edifício a ninguém que não tenha autorização. —Meu amigo Bob proporcionou-me um passe. —Meu amigo Bob? —Já nos chamamos pelo nome. Quando lhe disse que sou ex-policial não pode ser mais amável. Tinha sido do corpo de policia de San Antonio antes de aposentar-se e converter-se em segurança. —Essa camaradagem entre ex-policias deve de ser muito útil. —Abre portas — disse encolhendo-se de ombros—. Você está com frio? Tinha os braços cruzados sobre o peito e as mãos nos cotovelos, mas não se tinha dado conta. —Talvez um pouco, não sei. —Ou sente calofríos pelo que aconteceu? Olhou-o fixamente aos olhos. —Como você soube? —Estava aqui. —Aqui? Por quê? —Tinha vindo vê-la. Cheguei após o carro de bombeiros. No meio de toda a confusão consegui o passe de Bob, mas não consegui chegar aos estúdios, já que estavam isolados. Perguntei o que estava


acontecendo um dos policias e ele me explicou. Identifiquei-me como amigo e disse que venha te ver, mas tinha ordens estritas de não deixar ninguém passar. Oxalá tivesse sabido que Alex estava no edifício. Todos olhavam para ela, mas sua presença a teria reconfortado. Baixou a vista e murmurou: —Acidentes que acontecem. —tem certeza de que foi um acidente? Seu riso nervoso não demonstrava muito convincente. —Por suposto que tem sido um acidente. Foi coincidência eu estar sentada nessa cadeira quando caíu o holofote. —Me mostra o lugar. Seguiu-a até a mesa do telediário. Tinha ali quatro cadeiras giratorias: duas delas eram para os apresentadores, outra para o homem do tempo, que conversava com o apresentador antes de passar ao mapa do tempo situado no outro extremo dos estúdios e a quarta para o comentarista de esportes. —Como você sabe, são raras as vezes estou no balcão durante a emissão, já que meus aparecimentos são gravados. Quando as rodamos, costumo estar sentada aqui — apoiou as mãos na cadeira do comentarista de esportes— Hoje estava fazendo a apresentação quando aconteceu. Indicou para acima. O holofote rompido tinha sido trocado por outro novo. —O terceiro pela esquerda — disse a Alex. —Caíu do suporte e bateu contra a mesa. —Aqui. Os sinais recentes na mesa de formica eram bem visíveis. Faltava um pedaço em forma em meia lua em um extremo, como se tivesse sido mordido. - Tive sorte de que isso não caísse sobre a minha cabeça - disse passando com o dedo no pedaço cortado — O holofote passou-me tocando e quase cai no meu colo. Fez um ruído de mil demônios, com os vidros rompidos e os ferros retorcidos. Esboçou um sorriso. —Nem preciso te dizer que tive de fazer uma nova tomada. -Deram-te alguma explicação? —Em matéria de minutos o estúdio estava cheio de gente. Bill deixou uma reunião e veio em


seguida. Alguém chamou o 911. Por isso chegou também o carro de bombeiros e a ambulancia, ainda que não tivesse ninguém ferido, o que foi um milagre. »Depois de um momento, a policia e os seguranças terem evacuado o estúdio para retirar os vidros e tudo mais. Bill subia pelas paredes e exigiu uma explicação aos técnicos de iluminação. -E? —Não a tinham. Ameaçou despedir a todos, mas o convenci para que não o fizesse. Não pode provar de quem foi a negligencia que provocou a queda, e seria injusto despedir a todos. —Alguém inspecionou o holofote? —Sim. Segundo parece, o suporte estava solto. —Portanto foi uma negligencia. —Ou o soltaram. —Ou se soltou sozinho? —Algo assim. Molestavam-lhe seu ceticismo e seu temor, já que coincidiam com os seus. —Já. —Eu odeio quando diz isso! -Que digo? —Esse «já» insinua que o que digo é... —Uma estupidez. —Bom, pois o que acha que aconteceu? —Que levou um enorme susto e que não foi um acidente Voltou a cruzar os braços, como se protegendo inconscientemente -É uma loucura. Quem ia querer fazer machucar a Kurt? -A Kurt? —O comentarista esportivo. —O holofote não caíu quando Kurt estava sentado, só quando você estava. —Está me dizendo que o holofote estava preparado para que caísse em cima de mim? —Sim; e isso é também o que tu pensas. —Não sabe o que penso. —É fácil adivinhar. Pareces a ponto de derrubar-te como um castelo de naipes. Sabia que não fazia sentido negar que estava assustada, de modo que decidiu atuar como advogado do diabo. —Supondo que tenha razão, quem gostaria de me machucar? —Só você sabe. —Não sei!


—Mas suspeita de alguém — pôs um dedo nos lábios para calar seu protesto — Notei que algo ia mal à outra quando viu o carro estacionado diante de tua casa. —Eu estranhei. Qualquer um teria estranhado. —Inquietou-te muito, como se já esperasse problemas inclusive antes dessa noite já se comportava dessa maneira. Tens algum motivo? —Não. —Mentirosa. De repente sentiu que ia desmaiar, abaixou a cabeça e esfregou os olhos. —Você venceu Alex; não estou com vontade de brigar. —Por que não me diz o que te está atormentando? —Por que... Vou para casa. Deu a volta para sair, mas ele a atingiu. —Segue teu amante em tua casa? —Não é meu amante. Ele parou. Ela também e o olhou nos olhos. —Não é mais. —Compreendo. De forma tácita lembraram de não falar mais de sua relação com Dean Spicer e saíram do edifício, parando para se despedir de Bob. O homem sorriu de orelha a orelha. —Obrigado de novo pelo autógrafo. É o tipo de livro que gosto — mostrou o livro de Alex aberto sobre a mesinha. —Que a desfrute - disse Alex a seu novo admirador enquanto este abria a pesada porta de aço. —Você o subornou. -É algo ao que se pode recorrer se lembranças de velhos não funcionar. -Como sabia que estava aqui esta noite? No geral não costumo trabalhar até tão tarde. O estacionamento estava quase vazio. Inclusive o pessoal de fechamento tinha-se ido. -Outra intuição. Não estava em casa. -Esteve lá primeiro? -E arriscar a encontrar Spicer novamente? Não, obrigado. Telefonei e ninguém respondeu. -Por que queria me ver? -Para que me desse a sua versão sobre o acidente no estúdio... Chegaram ao seu carro. Alex apoiou o braço sobre o teto e olhou-a cara a cara. -Queria desculpar-me por ter atacado a teu... a Spicer.


—Não tem importância; para ele, o pior foi seu orgulho ferido. Alex estava a ponto de acrescentar algo, mas não o fez. Cat abriu a porta do carro. —Aceito as desculpas. Boas noites, Alex. —Cat, esse cara é um idiota. Como o encontrou? —Pois, para começar, salvou-me a vida. —E sentes-te em dívida com ele. —Não disse que... —Até onde chega a dívida? —Basta já, Alex. Deixa-me em paz. Já te disse que não tenho vontade de discutir. E hoje... tu... Mortificada, rompeu a chorar. —Maldita seja - disse ele a atraindo para si. Queria resistir, mas não tinha força física nem moral para parar. O homem abraçou-a enquanto soluçava. Depois, Cat levantou a cabeça e aceitou o lenço que lhe oferecia. —O incidente com o holofote afetou mais do que acredita, Cat. —Não - disse negando com a cabeça—. Não choro por isso. É outra coisa. —Que é? —Não me tenho ânimos para falar disso. —Olha que chegas a ser terca. Apartou-a de lado e fechou a porta do carro. Fez-lhe dar a volta e caminhar em sentido contrário. —Vamos. -Aonde? Só tenho vontade de ir a casa. —Não quero ser grosseiro, mas vi espantalho com mais carne que tu. Vou tentar que coma algo. —Não tenho apetite. Não estava disposto a aceitar sua negativa. Depois de uma hora chegaram ao apartamento de Alex com comida de Kentucky Fried Chicken. Em vez de sentar à mesa levaram duas bandejas ao salão. Alex sentou-se em uma lado do sofá e Cat no chão, diante da mesinha. —Tenho que reconhecer que está delicioso — disse ela-. É um sabotador da nutrição. Hamburguers, batatas fritas e frango frito. —Os policias sobrevivem a base de comida rápida. Apresenta-me a um policial ao que goste o yogurte e a soja. Cat riu ao mesmo tempo em que levantava uma colher de plástico cheia de puré de batatas e molho. Alex não ria. Estudava suas reações. —Que olhas? —perguntou incómoda.


Ele piscou, como se saísse de um transe. —Estava pensando que tuas mudanças de humor são muito bruscas. Eu não. A mim as depressões duram dias, semanas, e inclusive meses, se o livro não avança. Você se desafogou chorando e está como nova. Os homens deveríam aprender a chorar. —Não deixes que meu apetite te engane. Meu corpo pedia alimentação que eu estava negando faz alguns dias, mas ainda estou deprimida. —Por quê? Spicer saiu chateado? —Sim, mas Dean não tem a culpa de que eu esteja deprimida. Apanhou um pedaço de bolacha e brincou com ela. —Chantal, a pequena com um transplante de rim, morreu esta manhã. Alex soltou um palavrão, cruzou os dedos e disse: —Me desculpe, Cat. —Eu também. —Que tem passado? —Por sorte foi rápido. Uma rejeição, a interrupção súbita da função renal. Nada funcionava. Deixou cair as migalhas. —Os pais adotivos estão destroçados, e também Sherry. Jeff pôs-se a chorar como um menino ao saber. E toda a equipe que fez a reportagem sobre ela está feito pó. Tinha-se convertido em nossa mascote, o exemplo de como o futuro desesperançador de um menino pode se endireitar. —Que siga sendo sua mascote. — Alex, ela está morta. —Mas... —Intrometi-me na vida dessas pessoas – interrompeu em voz mais alta—. Fiz que Chantal os quisesse e eles a ela. Levaram-na a casa, passaram por essa tortura, vira como sofria e sofreram com ela... E o que têm agora? Um funeral televisado. Jornalistas ao redor do caixão atormentando-os para que façam algum comentário. Sua dor é uma notícia dos meios de comunicação. Tudo graças a mim. Apoiou as mãos na mesinha e ocultou sua cara. - Esta noite refugiei-me no trabalho tentando tirar da cabeça a morte de Chantal e dedicar-me a algo positivo. Mas não podia pensar em nada mais que na pena dessa pobre gente.


-Você acredita mesmo que os fez me amarem? Tem uma opinião muito alta de tua influência sobre as pessoas e seus sentimentos... Cat levantou a cabeça e olhou-o com olhos cintilantes. -Não os obrigou à aceitar. Eles solicitaram, fizeram cursos de capacitação, eles queriam ter Chantal. -Viva. Queriam uma menina viva e não uma tumba à que levar flores... Queriam compartilhar sua infância e vê-la crescer. —Por desgraça, uma criança adotada não tem uma data de válidade; nenhuma criança. Às vezes morrem, e não há que dar mais voltas. —Faz favor, poupa-te a lógica de supermercado. Não faz que me sinta melhor. —Não, já que te afoga na autocompaixão. Furiosa, respondeu: —A única que sei é que, é que se não fosse por mim, esse casal não estaria chorando esta noite. —Eles te disseram isso? —Claro que não. —Disseram isso: «Senhorita Delaney, por que diabos você nos fez isto? Éramos muito felizes até que chegou você e nos fez carregar essa menina doente». Disseram isso? —Não sejas absurdo. Chamaram-me para... -Alex inclinou-se para diante. - Pára que, Cat? Vamos, continua. Pára que? Tossiu e esquivou sua olhar. -Para me agradecer por ajudá-los a conseguir a adoção de Chantal -Seguramente porque o tempo que esteve com eles foi o mais gratificante de sua vida. -Disseram que para ele foi uma benção. - Então por que faz outras suposições? O programa é uma iniciativa valiosa. O que lhe ocorreu a Chantal é uma pena, mas teve amor e cuidado quando mais os necesitava. Correto? - Se tivesses a oportunidade, mudaria o que fez? Desfarias o fez? Apagaria o tempo em que estiveram juntas? Deixaria que Chantal morresse sozinha e sem amor? Tirarias dessas pessoas o direito de se sentir úteis? Cat abaixou a cabeça e a resposta foi quase inaudível. —Não. —Pois então...


—Tens razão — sorriu com tristeza—. A tragédia deixou-me pasmada, tinha dúvidas e precisava que alguém com um ponto de vista objetivo as dissipassem. Também precisava uma crise de choro. Obrigado. Secou os olhos úmidos com um guardanapo de papel. Alex fez um gesto para mostrar a importância a sua gratidão. A luz da cozinha caía sobre o escuro cabelo do homem e deixava entrever suas facções. Dean disse que era um gorila e, efetivamente, tinha um talante áspero e brusco. Seguro que era capaz de causar dor, mas também devia do ter experimentado em carne própria. Caso contrário, como poderia o compreender tão bem? Seus olhos penetrantes e a expressão adusta era o resultado disso. Com uma simples palavra podia ferir. Mas, também, com uma simples palavra contribuía com carinho e solidariedade. Não era terno, mas sim amável. Um amigo quando se precisava. —Vaio Tudo bem no livro? —perguntou ela para romper o silêncio. —A passo de tartaruga, mesmo tendo alguns dias produtivos. —Estupendo. Com esse exiguo intercâmbio de palavras, deram o tema por esgotado. Não diria nada mais sobre seu trabalho, e ela também não o esperava. Não falavam, mas isso não significava deixar de se comunicar através dos olhos, e o silêncio estava carregado de mudas mensagens. Depois de um momento, Alex levantou a bandeja de seu colo e deixou-a em cima da mesa. Sentou-se no chão, a seu lado, pôs-lhe a mão na nuca e acercou-a até que seus lábios estiveram quase tocando os dele. —Já temos chegado o mais longe possível com a roupa posta. Capítulo vinte e seis Seus pensamentos atormentadores desapareceram como se fosse mágica, deixando sua mente livre para concentrar no beijo. Nada mais importava nesse momento. Precisava da força desse homem, sua intensidade, seu desenfreado desejo por ela. Cat estava acesa como uma chama. Por que tinha que reprimir?


Rodeou a nuca de Alex com os braços, uniram os lábios; ele apertou sua cintura e sussurrou em seu ouvido uma grosseria. A urgência que revelava era tão erótica que se esfregou contra ele pelo simples prazer de ouvi-lo repetir. Seguiam beijando-se enquanto tirava a blusa e Cat levantava a camisa para acariciar o torso forte e peludo. Soltou-a o tempo suficiente para tirar a camisa e atirar ao lado e, a seguir, voltou a abraçála. —Não pode ser — falou ele ao deslizar as mãos por baixo da saia. Tinha um tom zombador em sua voz rouca. —Ambientação — contou ela—. Sempre que Laura Madison tinha cenas de sexo colocava cintaliga e meia-calça para entrar melhor na personagem. Tornou-se um costume. Alex acariciou as coxas nuas mais acima das meias. —É muito excitante. -Alguma semelhança a uma cena de cama em um de teus livros? -Muito melhor. Ele tirou sua saia, a combinação e as calcinhas. Cat tendeu-se de costas sobre o tapete. As taças do sutiã mal cobriam a metade da cada seio, o pubis ficava marcado pela cinta-liga de seda com encaixes e as pernas permaneciam vestidas pelas meias de seda. Assutou o seu próprio descaramento. Alex não deixava de olhar enquanto desabotoava o cinto e abria o zíper. Tirou as calças e a cueca. Sua nudez deixou-a sem fôlego. O estômago era plano e duro; as pernas, longas e esbeltas. Era musculoso, mas sem exageração, e as veias em braços e as mãos estavam tensas. Sem poder conter-se dominada pelo desejo, o acariciou desde as plantas dos pés, passando pelo pênis em ereção e a boca, até a sobrancelha partida. Encostado ao seu lado, Alex beijava os seios que saiam do sutiã. Depois, baixou o encaixe e passou a língua pelos mamilos. Ao levantar a cabeça olhou-a nos olhos enquanto círculava com o polegar ao redor da zona rosada. —Poderia escrever esta cena mil vezes e jamais dar este realismo — contemplou a pele, que respondia a suas caricias — Não se pode descrever as sensações do corpo de uma mulher.


Levou o mamilo à boca e o sugou. Ela sentiu que um estremecimento no seu corpo. A língua do homem tinha destreza; seu apetite, incontenível. Deslizou a mão pelo ventre e as coxas e obrigou-o a colocá-la por cima. E beijaram de novo apaixonadamente. —Alex, não se contenha. Não seja amável comigo. —Não tenho essa intenção. —Quero sentir-me uma mulher, preciso um homem que me possua. Quero... —Quer que se dane a consciência. Colocou uma mão entre ambos os joelhos e as separou. Mas em vez de deslizar uma mão por entre as coxas como ela esperava, baixou a cabeça e sua língua buscou o clítoris. Estava muito aturdida para gritar, inclusive quando um instante depois chegou ao orgasmo. Afogava-se, tinha o lábio superior sudoroso e o cabelo úmido na nuca. Também na pele de Alex escorregava o suor quando ficou a sua altura e levantou seu corpo com os braços. Com os olhos fechados e o rosto em pressão, penetrou-a. Tinha a sensação de que o corpo de Cat o engulia, se ajustavam como uma luva e seu rosto refletiu um prazer imenso quando começou a mover os quadris para frente e para atrás. Pouco a pouco, mas a cada vez com maior intensidade. Cat pensava que já tinha terminado, mas voltou a excitar-se com os compassados empurrões. Nunca tinha experimentado uma penetração sexual e mental tão intensa e se abandonou a ela. Alex deslizou as mãos embaixo das nádegas e a levantou segurando-as com força. Concentrava-se em cada movimento de penetração e retirada lenta, mas o ritmo ia aumentando. Sua respiração fezse rápida e ofegante; quase eram soluços. De repente seus braços relaxaram e derrubou-se sobre ela. Enquanto Cat tinha o segundo orgasmo. Demoraram um bom momento para se recuperarem, mas Cat poderia ficar ali para sempre, com os dedos entrelaçados no amontoado de cabelo de Alex e bebendo as salgadas gotas de suor de sua face. Seu peso a esmagava, mas não se importava; ele havia se entregado e isso a emocionava.


Conhecia os mecanismos da mútua satisfação e escrevia sobre isso: não era surpreendente que fosse um amante experiente, ardente e entregue Além do mais, era extremamente sensual. Tinha provocado em Cat reações puramente animais, sem que interviesse nelas o intelecto, ditadas só pelos sentidos, descontroladas. No entanto, ocorrido também entre eles uma comunicação espiritual. Ambos adivinhavam os desejos e necessidades do outro e os satisfaziam. Por isso desfrutava agora Cat do sossego: esses momentos silenciosos em que os fôlegos e suores se misturam e parecem emanar de um só corpo. Ele devia de sentir o mesmo, pois fez algo muito formoso: um momento antes de separar-se dela, depositou um beijo muito suave entre os seios, onde esteve á cicatriz. Ela acordou primeiro. Como sabia que Alex costumava dormir até tarde, não fez ruído. Olhou seu cabelo despenteado e muito negro em contraste com o travesseiro. Tinha uma sombra de barba e alguns pêlos grisalhos nas têmporas. O cenho, um pouco franzido, indicava que nunca estava completamente tranqüilo. Suas inquietudes perseguiam-no inclusive durante o sonho. O relógio do criado-mudo anunciou que era hora sair. Beijou seu ombro nu e saiu sem fazer ruído. No andar de baixo se vestiu, recolhendo roupas que foi tirando com o maior descaramento. Baixinho, pediu um táxi. Enquanto esperava que chegasse, retirou os restos do jantar. A caminho da cozinha para jogar do lixo, passou diante da habitação proibida, mas não parou. Fechou a lixeira, lavou os copos e tomou um zumo de laranja. Apoiada no balcão enquanto tomava o suco, pensou em abrir essa porta e dar uma olhada. A proibição tinha aumentado sua curiosidade. Ontem à noite haviam entregado seus corpos para explorá-los e tirar o máximo partido com uma liberdade ilimitada. Tinham realizado o ato mais íntimo entre duas pessoas. Agora que sua relação tinha chegado ao ponto máximo, certeza que Alex não se importaria compartilhar com ela esse aspecto de sua vida.


E se importar? Valia a pena arriscar-se? Não esperaria que ele a convidasse ao fazer. Chegou o táxi e saiu sem que Alex tivesse acordado. Recolheu o carro no estacionamento dos estúdios e foi a casa onde se banhou e mudou de roupa enquanto tentava memorizar a agenda do dia. Mas sua mente regressava à noite anterior. As imagens eróticas aglomeravam em sua cabeça e deixava pouco espaço para outras coisas. Sua euforia evia de ser evidente, já que, ao entrar no escritório, Jeff comentou: —O que aconteceu? Ganhou na lotería? Cat riu e aceitou a caneca de café que ele oferecia. —Por que diz isso? —Dá para notar que você está nas nuvens. Esperava vê-la deprimida por Chantal. Seu sorriso desapareceu. —Como é natural, estou triste; mas já não me sinto tão negativa como ontem. Um amigo recordoume que viver é maravilhoso. —Por acaso não seria o escritor gostoso? —Gostoso, eh? -disse com uma risadinha. —Isso me pareceu quando ontem o vi. —Você o viu? —Com jeans e botas. —Esse mesmo. —Ele tem aquele olhar de lençóis amassados, sabe? O Ricardão; que ama todas as mulheres. Dean tinha criticado o aspecto de Alex, mas era evidente que Jeff o aprovava. —Ontem não me disse nada. —Foi durante toda aquela bagunça — falou, envergonhado— Tenho que admitir que fiquei paralisado. Tenho lido suas novelas e sei que você sai com ele, mas não achei que tivesse a oportunidade do conhecê-lo. —Devia ter-me avisado que ele estava aqui. —Você estava rodeada de policiais e com o senhor Webster em pé guerra. Depois, parecia tão impressionada que não quis incomodá-lamais. Suponho que o encontrou a noite e, pelo teu sorriso, imagino que tive uma noite... Terapêutica. —Não é assunto teu — replicou ao notar que ruborizava.


Jeff não era um idiota e sorriu de orelha a orelha. —Bom, espero que tenha provado todo tipo de perverssão. Você tem trabalhado muito. Na verdade... Posso falar com franqueza? Não como teu ajudante, mas como amigo. Cat indicou que se sentasse. - Diante, Jeff. - Bom, pois durante nas duas últimas semanas parecia preocupada. Não é que deixasse de lado o trabalho, não. Já sei que nada impediria de trabalhar, como sempre. É que... Pergunto-me se tens algo na sua cabeça. Fora de Alex Pierce, claro. Será que seu nervosismo tinha sido tão transparente? Várias pessoas tinham comentado: Dean, Alex e, agora, Jeff. Não queria que nada manchasse seu bom humor, mas agradecia a oportunidade de poder falar sobre os dois recortes que tinha recebido. Queria que Jeff confirmasse sua opinião de que era obra de um louco e não tinha por que se preocupar. -É muito observador, Jeff. É verdade que, faz algum tempo, que tenho estado desconcentrada. Retirou da bolsa os dois envelopes e os entregou. Fazia alguns dias que os levava consigo, talvez com a esperança subconsciente de ter a oportunidade de mostrar a alguém. -Leia-os e diga-me o que pensa. E seja sincero. Após comparar os dois envelopes idênticos, observou recortes. —Diabos - murmurou depois de lê-los duas vezes—. Ambos morreram em estranhos acidentes e ambos tinham um coração trasplantado. —Curiosa coincidência, não? —Isso parece. Mas que significa? Tens alguma idéia de quem os enviou? —Não. —Abro todo o correio que recebe e não recordo os ter visto, ainda que receba tantas cartas que pode ser que nem as veja. Ou chegaram quando Melia ainda trabalhava para nós? —Enviaram para casa. Olhou para ela com estranheza. - Como poderia um... Admirador saber seu endereço? Cat encolheu os ombros. —Este é um dos motivos que me preocupam. Jeff voltou a olhar os envelopes e a releer os recortes. Cat observava-o enquanto seus olhos


percorriam as linhas impressas. Sua reação inicial e seus comentários não resultavam muito alentadores. Esperava que dissesse desde o princípio que não deveria se importar. Em mudança, perguntou: —Você mostrou isso a alguém mais? Ao senhor Webters? À policia? —Não. —Talvez devesse fazer. —Não quero ser uma alarmista. —Ninguém poderia te acusar disso. —Não sei, Jeff — suspirou — Não quero chamar a atenção sobre algo que, seguramente, não é nada. Jeff esboçou um sorriso forçado e devolveu envelopes. —É provável que tenha razão. Seguro que não há que se preocupar. Pelo visto há gente que não sabe como perder o tempo, verdade? —Há pessoas que acreditam em sua própria história intrometendo nas vidas de pessoas famosas. Vivem através de elas. —Sim, mas... Se receber outra, acho que deveria reconsiderar e comunicar à policia. Esquece-te do que possam pensar. Não se importe que te considerem uma histérica. —Tenho medo de que seja isso que pensariam. —Ao menos deverias avisar e guarda-los em segurança na emissora, dizerlhes que não deixem entrar no edifício a tipos bizarros. —Com isso excluiriam à terceira parte dos empregados — caçoou. —É verdade. Jeff sorriu, mas voltou a falar em sério: —Tem cuidado, Cat; há montões de maníacos soltos. —Sei-o. Guardou envelopes na bolsa e a fechou, dando por terminada a conversa e voltando a ocupar o papel de chefa. —Preciso saber os detalhes do funeral de Chantal. - Na sexta-feira às catorze horas. Para tua informação, tem telefonado Rum Truitt. Queria um comunicado. —Suponho que disse que tome um trem bala direto para o inferno. —Não com essas palavras, mas algo semelhante. Disse que não estava nem estaria disponível para nenhuma declaração.


—Obrigado, eu não teria sido tão diplomática. Esse homem um chacal, sempre procurando sangue fresco. Não queria perder tempo falando do jornalista idiota. —Faz favor, te ocupa de que mandem uma coroa de flores da WWSA à funerária. Quero enviar também algo pessoal, mas isso farei eu mesma. Quando Jeff saiu, tinha instruções de informar a Sherry e adiantar o horário de filmagem. As dúvidas da noite anterior sobre a utilidade do programa, agora pareciam absurdas. Tinham perdido a Chantal, mas existiam muitos outros meninos que precisavam de ajuda. Não importavam os obstáculos que encontrasse; fosse a burocracia, a imprensa negativa ou a desconfiança em si, não ia atirar a toalha. Os Meninos de Cat era uma iniciativa bem mais importante que ela mesma; Alex tinha-a ajudado a ver essa perspectiva. Dentro do marco geral, seus contratempos pessoais eram insignificantes. Pouco antes das doze, Jeff voltou a seu escritório com um recado. -Telefonema de teu novelista. O coração deu um salto ao pôr a mão no telefone. - Em que linha? - Me desculpe, não podia esperar. Disse que te dissesse que só dispunha de tempo para deixar um recado. Tão nervoso como o pajem portador da má notícia à rainha mal-humorada, Jeff alongou o recado. -Chamava do aeroporto e já tinham anunciado seu vôo. -Seu vôo? Notou seu coração na garganta. —Saia da cidade? Aonde vai? Por quanto tempo? Tudo estava escrito na nota, mas Jeff comunicou de viva VOZ. —Estará fora em uns dias e chamará quando volte. —Isso é tudo? Jeff assentiu. Tentou permanecer impassível e com a voz serena. Era um enorme esforço. —Obrigado, Jeff. Com atitude servil, seu ajudante saiu do escritório e fechou a porta. Cat dobrou a nota e olhou-a como se pudesse lhe oferecer uma explicação até então oculta. Mas não. Era um metiroso. Tinham feito ilusões de jantar juntos nessa noite. Só umas horas sem o ver e já


sentia falta. Sua própria debilidade a deixou furiosa. Alex não dava sinais de ter saudades e ali estava ela, melancólica como única garota do colégiosem par para a formatura. Seu desánimo transformou-se em raiva. Que teria feito sair da cidade tão apressado? Os negócios ou a diversão? Que era tão importante que não teve tempo de se despedir? Capítulo vinte e sete Alex não era um apaixonado por Nova York, mas fascinava uma cidade cheia de contrastes: um compêndio da desesperança, a sujeira e a miséria, por uma parte, o luxo e a sofisticação por outra. Suas reações ao que via ali eram extremas; nunca moderadas. Dentro da mesma maçã, tinha coisas que faziam rir e outras que o enojavam. Ele e seu agente jantavam em um pequeno restaurante do West Side. Nos primeiros tempos de sua relação com Arnold Villela na terceira viagem à Grande Maçã, Alex tinha mostrado seu desprezo pelos pratos ofensivamente caros do The Four seasons e do Lhe Cirque. —Se não posso pronunciar seu nome ou ignoro sua procedência, não penso em comer. Villella chamou-o de rústico, mas a partir de então permitiu que Alex escolhesse o local para jantar. De vez em quando, tinham algo que celebrar, Alex tolerava que Villella o convidasse a um restaurante de tipo meio, mas o Oswald’s Cafe, propriedade de um húngaro robusto que atendia a seus clientes pessoalmente, tinha convertido em seu lugar favorito. Os sanduíches de rosbif servido com vários acompanhamentos de semente de mostarda, tão picante que fazia saltar as lágrimas. Esta noite devorava o sanduíche enquanto Villela degustava um goulash. —Vejo que tem fome —disse o agente— Não te deram de jantar no avião? —Suponho que não. Não me lembro. Recordava pouco do curto vôo de San Antonio a Dallas - Fort Worth, em troca de avião com destino à La Guardia, do trajeto em táxi até Manhattan ou de qualquer outra coisa ocorrido desde a noite passada. Sua memória estava fixa na sessão de sexo com a ruiva ao vivo, ruidosa, terna, exacerbada, carinhosa, frenética, selvagem e maravilhosa.


Apartou o prato e quando chegou o garçom com os cafés se deu conta que levava cinco minutos sem trocar uma palavra com seu agente. Villela permanecia em silêncio. Quando tratava com editores que tentavam poupar um dólar, era ávido como um tibarão, mas com os autores era um confessor paciente e disciplinado que se adaptava às necessidades de seus clientes. Arnold Villella aceitou ser agente de Alex antes de ele publicar algo. A maioria de agentes literários que esteve em contato havia devolvido o original sem ler, já que sua política era não representar a autores novelas. O círculo vicioso da indústria editorial: não publicam nada se não tiver um agente e não consegue um agente se não algo publicado. Mas Villella telefonou a Houston em uma sexta-feira pela manhã durante uma tormenta. Alex tinha uma ressaca imponente e Villella teve que repetir várias vezes o que dizia antes que Alex pudesse ouvir a mensagem acima dos trovões do exterior e dos que esmagavam sua cabeça. —Sua novela parece-me prometedora. Tem um estilo sem pudor, mas muito interessante. Se interessar, aceito ser seu agente. Alex não perdeu um minuto em voar a Nova York para conhecer à única pessoa que mostrava fé nele. Villella era astuto e intuitivo, terco, e não mordia a língua, mas tinha um coração de ouro. Quando soube do problema de Alex com a bebida, em vez de passar um sermão limitou a dizer que tinha conhecido a alguns escritores de talento que eram alcoólicos. —O álcool estimulava sua criatividade, mas ao longo do tempo arruinava sua carreira de escritores. Ao voltar a Houston, Alex ingressou em uma clínica para se desintoxicar e, enquanto trabalhava na revisão da novela, novas palavras saíam de seus poros junto com o álcool que o tinha envenenado Villella tinha ganhado sua lealdade e sua confiança ilimitada; era a única pessoa que confiava, a única que podia censurá-lo sem que ele se sentisse ofendido. Villella sabia quase tudo sobre Alex, mas nunca tinha emitido uma sentença sobre ele nem sobre seu comportamento.


-Perdoa Arnie. Já sei que esta noite não sou boa companhia. —Deveria me dizer. —Dizer o que? —Por que veio até aqui para jantar comigo. —Esperava que não tivesse outros planos. —Tinha-os, mas sempre posso os mudar quando se trata de meu cliente mais importante. —Seguro que diz isso a todos. —Por suposto. São como meninos mimados. —Eu devo de ser o que pior se comporta. Villella era muito educado para dizer que sim, mas levantou as mãos em sinal de aprovação. —Tudo bem com a novela? —Bem. — Tão mau? Alex riu, ainda que algo desagradado. —Tento vê-lo com perspectiva; não deixo de me dizer que só é um rascunho. —Não o vou ler como definitivo. —Espero que não. Vacilou, mas a seguir, com timidez rara nele, acrescentou: —Tem parágrafos que não gosto, masa acho que pode ser boa, Arnie. —Será excelente. Supõe para ti um desafio e cheira a best-seller. —Se eu não a estragar. —Não o farás. Tranqüilo, diverte-te com ela; tudo chegará. —Estamos falando da novela ou de sexo? —Eu da novela. E tu? A pergunta intencionada de Arnie surpreendeu. Fez uma indicação para pedir outro café e, depois, ficou pensativo olhando a caneca. —Estás mais hermético que uma câmera fechada. Qual é o problema? Outra depressão? —insinuou Arnie. —Não. —Não voltou a ter ausências? —Graças a Deus, não. Villella referia-se às horas, inclusive nos dias, durante os quais Alex tinha perdido a consciência pelo abuso do álcool. Quando voltava em si, era incapaz de explicar durante quanto tempo esteve «fora». Não recordava nem onde esteve nem o que disse ou feito. Uma sensação aterradora. —Não tem nada que ver com a bebida. Não tenho provado uma gota.


Observou que Arnie mostrava alívio. —Se não estás angustiado pelo livro e também não garrafa, que é? - Uma mulher. Villella piscou, incrédulo, Alex sabia por que. Seu confidente conhecia suas numerosas histórias sexuais. Algumas delas. -Isto é diferente — balbuciou. - Não me diga. Essa mulher tem elevado teu nível habitual de tetosterona? -Sim; bom, não -Vamos ver, de que se trata? -Não é uma puta. Nem também sexo por telefone. Não é só um assunto sexo. É... Bom, não o sei. Villella dobrou uma de suas mãos sobre a outra na borda da mesa, parecia muito interessado escutando. -Não é teu estilo. -Droga, não. —Já vejo que está preocupado. Nunca te definiria como um temperamento alegre, mas observo algo em ti muito semelhante ao desespero de nosso primeiro encontro. Recusa-te essa mulher? As imagens de Cat passaram por sua mente: um sorriso insinuante, uma olhar intencionada, uma atitude alentadora. Doçura e sensualidadee, malícia e timidez. E, também, coquetería e ansiedade. Não podia tocá-la sem que gemesse de prazer. —Não, em absoluto. —Então não entendo que uma relação, ao que parece gratificante, seja tão traumática. —Não sabe quem é. —Bom, pois me diga. —É Cat Delaney, Arnie. Deitei-me com Cat Delaney. Villella olhou-o fixamente aos olhos, pálido pela impressão. —Céu santo, Alex. Achei que já estava farto de imprensa. E agora resulta que saia com uma mulher que atrai aos meios de comunicação como um ímã. Alguém que... —Eu sei. É uma loucura. —Não, amigo, não só é uma loucura. É muito perigoso. Capítulo vinte e oito Para Cat estava difícil manter a calma. Ao entrar na rua onde vivia viu Alex na calçada e esteve a ponto de pisar no acelerador, mas pensou mostrar dignidade e orgulho. Estacionou e disse:


—Fez uma boa viagem? —Não muito bem. —Aonde você foi? —A Nova York. —Assim, por quê? —Gosto de Nova York. —Aconteceu assim de repente? —Negócios urgentes. —Claro, sabe que os editores distinguem por suas emergências. Cat abriu a porta e entrou. A seguir olhou-o cara a cara, bloqueando sua entrada tal e como tinha feito a primeira vez que ele apareceu na ombreira. Após aquela noite tinha sentido a vertigem única do idilio recém iniciado. Mas ele tinha saído da cidade. Uma emergência podia ter impedido que a chamasse para se despedir, mas não podia ter chamado depois? E ele Não tinha feito. E não é que agora despregasse o entusiasmo de Gene Kelly em Cantando sob a chuva. Parecia cansado e abatido, como se não tivesse dormido desde que o deixou na cama três dias atrás. Seu impulso pedia para abraçá-lo até que essa olhar cansado cedesse, mas se conteve. —Foi ao funeral da menina. —É uma pergunta ou uma afirmação? -Telefonei à emissora e disseram que não voltaria. Foi triste? - Muito. Durante o oficio não deixei de pensar no dia em que Chantal se converteu legalmente em sua filha. Todos estavam contentes, tinham preparado um churrasco para apresentá-la aos familiares e amigos. Os mesmos que hoje estavam na casa para enterrá-la. Hoje não tinha balões nem serpentinas. Nada era o mesmo. Que te traz por aqui, Alex? - Temos que falar. O tom de voz e a expressão solene eram avisos inequívocos de que era algo que ela não queria ouvir. - Importa-se que falemos em outro dia? Com o funeral fiquei destroçada. Preferiria deixá-lo para mais diante. - Não terá melhor oportunidade para o que tenho que te dizer. A Cat só ocorreu que pudesse um problema ser tão urgente e o vestido negro que levava pesou como uma armadura...


- Deixa-me adivinhá-lo. Esqueceu um detalhe sem importância a outra noite. Você é casado. —Não estou casado. E não penso seguir falando na porta. Passou por diante de seu nariz e entrou. Ela fechou a porta e disse: —Se não é casado, mas já esteve. —Não. —Bom, é pior do que me imaginava. Quando fiz a última análise de sangue? Alex pôs-se em jarras e disse: —Não me irrite. Se não tinha uma mulher em alguma parte, nenhuma ex esposa o atazanava exigindo a pensão nem tinha contraído um vírus, só ficava uma explicação. Estava-se preparando a clássica fugida honrosa. Até parece que daria essa satisfação a ele. Entrou, jogou os cabelos para trás e passou à ofensiva. —Alex, eu tenho a impressão de que sei o que vai dizer, de modo que não faz falta que me azede. A outra noite estava muito baixa de moral e precisava caricias amorosas. Tu mas deste. Somos adultos e está tudo bem. Ponto. Fez uma pausa para suspirar profundamente e não gostou que aparecesse de verdade tremor em sua voz. -Mas não quer uma relação estável, nem um compromisso, nem te sentir atado. Bom, não é o que você quer; eu também não. Tirou os pendentes e os sapatos, como se esses gestos simples e cotidianos fizessem sua indiferença mais convincente. -Portanto, não coloque essa cara de estar a ponto de vomitar sobre meu tapete oriental. Não vou pedir explicações. Nem tenho um pai que te obrigue a ir ao altar te apontando com uma escopeta. Também não vou cortar as veias nem a perseguir com uma faca de açougueiro. Isto não se vai converter em uma atração fatal. Conseguiu esboçar um sorriso irônico. —Assim fique tranqüilo? —Senta-te, Cat. —Por quê? É que me deixei algo de teu discurso tão bem ensaiado?


—Faz favor. Deixou cair os pendentes na mesa e entrou na sala de estar, acendeu um lustre de sobremesa e sentou-se sobre as pernas em uma esquina do sofá. Apanhou umuma almofada e a abraçou contra o peito, como se fosse um ursinho de pelucia. Alex sentou-se na cadeira defronte do sofá, estendeu os joelhos e olhou ao chão, entre os pés. Parecia um réu como instalavam a forca no pátio. Apoiou os cotovelos nos joelhos, esfregou os olhos e permaneceram uns momentos nessa postura antes de baixar as mãos e observá-la. —Quis deitar-me contigo desde o mesmo momento em que te vi. Cat analisou a afirmação de todos os ângulos. Soava muito romântico, mas não era uma ingênua. —Suponho que deveria me sentir lisonjeada, mas estou esperando a que me dispensa. De que se trata? Não estive à altura de tuas expectativas? —Não digas tolices. Alex levantou-se e começou a passear acima e abaixo. Outro mau sinal. Quando os homens se dispõem a comunicar uma má notícia começam a dar voltas. Parou em seco diante dela. —Aqui há muito lixo — assinalou sua própria cabeça-. Entrou muita droga antes que deixasse o corpo de policia de Houston. —Já conhecia teu problema com a bebida. —Isso foi o efeito, não a causa. Ainda não limpei tudo. Estou fazendo, mas não seria justo... —Não me venha com a lista de desculpa que não seria justo! Vá diretamente ao ponto. —De acordo. Em poucas palavras: por enquanto não posso envolver em uma relação séria. Pensei que devia saber antes que a coisa fosse mais longe. Durante uns momentos ficou recostada e abraçando a almofada. Depois o atirou ao lado, levantou e abriu a porta. Alex suspirou. - Estás chateada. - Equivocas-te. Deveria importar-me algo para estar chateada. - Então, por que quer que eu vá? - Porque nesta casa não há espaço para mim, para ti e para teu gigantesco ego. Vocês dois tem que


sair. Agora mesmo. - Fecha a porta. Fechou-a inesperadamente. - Achas que estou destroçada? Supõe que por ter dormido contigo significa para mim algo mais que isso? Que te fez pensar que eu queira algum tipo de relação séria» contigo? - Não disse que... - Teria muito que ensinar aos aspirantes a estrelas de Hollywood sobre o ego. Nunca tinha conhecido a nada tão apegago a si mesmo, guardando o trabalho inacabado sob chave como se fosse um tesouro nacional. Seria realmente um fenômeno se teu pênis fosse tão grande como tua arrogância. —Muito gracioso. —Em absoluto. É muito triste. Alex estava perdendo a paciência. —Não queria que esperasse algo que não posso te dar. —Pois conseguiu, já que de ti esperava menos que nada. Uma noite de festa; nossos genitais passaram de medo. Isso é tudo. —Não diga mais Bobagem. —Você brincou com fogo e eu também. —Com várias labaredas. Ele a estava tirando do sério, mas seguiu diante: —Nós dois conseguimos o que queríamos. Fim da história. —Não é verdade e nós dois sabemos — gritou Alex — Se não houvesse significado nada, eu não estaria aqui tentando dar explicações e você não estaria a ponto de explodir. —Geralmente dorme com elas e as deixa após de estar satisfeito e se a ver novamente finge que não se lembrar, algo assim? —Sim. Levantou as sonbrancelhas e pôs a mão no coração. - Bom, que grande honra, senhor Pierce, estou comovida por sua consideração. Para valer. —Cat, já basta. -Vai ao inferno Alex. Olhou-a furioso e frustrado, amaldiçoando baixinho. Na continuação disse: - Não estaríamos aqui discutindo se... se... —Deixa de gaguejar e diga logo e sem rodeios. Já é um pouco tarde para a diplomacia.


Chegou até que esteve a poucos centímetros dela e, com voz rouca e sensual, murmurou: —Se não tivesse sido a maratona sexual do século. Cat tinha já o pulso acelerado pela ira e seu comentário a acendeu ainda mais. Como era possível que quisesse arrancar seus olhos e, ao mesmo tempo, tivesse excitada entre as pernas? Retrocedeu uns passos e, quando esteve a uma distância segura, disse: —Tem uma segurança ilimitada em teu atrativo verdade? Espera que eu caia em teus braços falando dessa forma? Acha que é um desses personagens asquerosos de teus livros? Alex deu um soco contra a outra mão. —Arnie não podia estar mais equivocado. — Teu agente? O que ele tem a ver com isto? —Aconselhou-me que fosse sincero contigo, que pusesse as cartas em cima da mesa. Disse que é a melhor forma de abordar o problema. — Perguntou ao seu agente como deveria me tratar? Este problema já foi resolvido! Inclusive farei eu o discurso final. Apontando o dedo índice sobre o peito de Alex disse: —Não me chames, não volte a aparecer por esta casa, não tente entrar em contato comigo de nenhuma forma. Você é um imbecil, não vale nem a décima parte do que acredita. Não quero te ver nem pintado. Suspirou profundamente antes de concluir: — Entendeu, seu filho de puta? Capítulo vinte e nove Tinha maré alta, mas Cat estava sentada longe das ondas. Tinha o queixo apoiado nos joelhos e abraçava suas pernas. Contemplava o horizonte, onde o sol colocava colorindo o céu de uma cor avermelhada que, pouco a pouco, ia se degradando até chegar ao añil. Notou a presença de alguém, voltou a cabeça e se surpreendeu ao ver Dean, que caminhava para ela. Sentou-se a seu lado sobre a areia. Quando recuperou a fala perguntou: —Como sabia que eu estava aqui? —Liguei para o seu escritório de San Antonio esta tarde e tua ajudante disse-me que estava passando alguns dias em Malibú. Você ficaria aqui e voltaria me visitar?


—Sim. A última vez que nos vimos a despedida não foi muito amistosa. Um resquício de tristeza apareceu no rosto de Dean. —Vim para me desculpar. Eu me comportei como um idiota naquela noite. —São águas passadas, não se preocupe. Notou que ele estudava seu perfil. A seguir disse: —Perdoa o vou dizer, Cat, mas você não está com um aspecto muito bom. De fato, parece uma morta-viva. —Pois obrigado. -O que ele te fez? -Quem? Dean permaneceu calado e ela o olhou. Seus olhos a recriminavan por se fazer de tonta. Cat voltou a contemplar o mar. -Deitei-me com ele. —Isso já o sabia, mas qual é o problema? Há outra mulher? —Ele diz que não, e eu não tenho provas de que a tenha. —Um passado escuro? —Algo que ele chamou lixo, mas sem dizer ao certo. Acho que tem algo que ver com seu abandono do corpo de policia. Em poucas palavras: colocou mel em minha boca e conseguiu me encantar, mas só quer sexo sem compromisso. —E ainda se sente atraída por ele? Cat sempre dizia a verdade, por pior que fosse, contra o seu amor próprio. —Eu estaria mentindo se dissesse que não. —Compreendo. Está apaixonada por ele? Como se a tivessem pinchado, soluçou e escondeu a cara entre os joelhos. —Devo entender que sim. -E ele sabe? —disse Dean. —Claro que não. Acho que fiz uma boa cena. Eu o deixei em farrapos e o expulsei de casa. Inclusive o ameaçei com meu vaso Lalique. Duvido que acredite que eu pudesse fazer dano físico, mas saiu. Levantou a cabeça. Com o olhar fixo nas ondas, sentia-se tão desolada que nem sequer era consciente de que estava chorando. —Me desculpe, Dean, isto deve de ser muito duro para ti. Agradeço-te que me escutes. Dean passou um dedo pela fissura dos 1abios, onde tinha uma lágrima. —Esse homem não sabe o que perde. O que mais ele quer? —Acho que Alex não sabe o que quer. Está desasosegado, buscando algo.


—Ou fugindo de algo. —É possível. Ou talvez só é por natureza, e, sem ter consciência disso, é um egoísta. Por dizê-lo em voz alta, não estava muito segura disso. A noite que passaram juntos, Alex tinha sido terno, carinhoso e apaixonado, tão preocupado em satisfazê-la como por sua própria. Ou talvez enganasse a si mesma para salvaguardar um pouco sua dignidade? Talvez. Alex sabia como enganar e seduzir, seguro de que conseguia o que quisesse de uma mulher e, ao mesmo tempo, que sentisse mimada. Esticou as pernas e ficou olhando as sapatilhas esportivas, rememorando o momento em que o viu por vez primeira. A química tinha sido explosiva, algo indescritível que nunca tinha experimentado antes. Só de pensar ficava excitada. - Entremos, esta ficando frio. Sentados na cozinha e bebendo café, Dean deixou-se levar pela intuição. — Em tua cabeça há algo mais que o novelista. - Contigo não há forma como manter um segredo. - Podes atuar bem de cara à maioria, mas eu sei quando tem um problema. Já me dei conta de que algo não andava bem naquela noite em San Antonio. Você negou, mas sabia que estava mentindo. Quando vai confiar em mim, Cat? Do bolso da camisola Tirou três envelopes e os entregou. Após ler os recortes, olhou-a perplexo. - Enviarams para a sua casa? —O primeiro e o segundo chegaram com um intervalo de poucas semanas. O terceiro, no dia que viajei. Dean observou os envelopes. —Não dão nenhuma pista. —Fora que levam o carimbo dos correios de San Antonio. —Três transplantados de diferentes partes do país. Três mortes acidentais estranhas. Uma mulher cai e atravessa uma porta de vidro, um rapaz afoga-se dentro do automóvel, um homem tem um descuido com uma serra-elétrica. Céus. —Parece um filme de Brian DePalma, verdade? Com garantía de muito susto.


Dean deixou recortes em cima da mesa, mostrando desdém. —Algum neurótico com um macabro senso do humor deve ter enviado. —É o mais provável. —Não parece muito convencida. —Não estou. —Eu também não — confessou ele — Você mostrou isso para alguém mais? —A Jeff. Os dois primeiros. Não sabe nada do terceiro. - Qual é sua Opinião? — Igual que a tua: um louco fazendo uma piada de péssimo gosto. Aconselhou-me a não me preocupar, mas também me disse que se recebesse mais recortes que comunicasse à policia. — Fizeste-o? — Não, o fui adiando; ainda espero uma explicação. - Seguro que não há motivo de alarme, Cat, mas sempre cabe a possibilidade de que um 7louco que envia cartas anônimas seja capaz de cometer algum disparate. - Já me dou conta. Além de inquietá-la, os recortes ressuscitavam dúvidas e ambigüedades que deixou para trás fazia muito tempo. —Dean, você me conhece desde antes do transplante, muito melhor que qualquer outra pessoa. Você ficou ao meu lado em todo o processo, ficou comigo em meus momentos mais eufóricos e nas horas mais baixas. E me conhece igualmente bem após o transplante. Ficou ao meu lado na doença e na saúde e é a pessoa que melhor poderia descrever minha personalidade. —Aonde quer chegar? —Eu estou diferente? —olhou-o aos olhos—. O que estou te perguntando é: Eu mudei após o transplante? —Sim, antes estavas morrendo. Agora não. —Não me refiro a isso. ���Já sei ao que se refere. Queres saber se experimentou umem troca de personalidade após a operação. O qual nos leva a uma questão inevitável. É possível que matizes do caráter do doador se transmitam ao transplantado através do coração? É isso? Cat assentiu. Dean suspirou. —Não é possível que acredite nessas Bobagens.


—São Bobagens? —Sem a menor dúvida. Céu santo, Cat, seja razoável. —Ocorrem coisas estranhas que não têm explicação lógica nem científica. —Neste caso, não. Você é uma mulher inteligente e é provável que saiba mais de anatomia que muitos estudantes de medicina. O coração é uma válvula, uma parte mecânica do corpo humano. Se estragar, pode arrumar ou mudar. Tenho visto inumeráveis corações abertos durante as operações. São feitos de tecido. Nenhum deles tinha lacunas onde se guardavam medos e aspirações, gostos e fobias, amor e ódio. O conceito de que o coração é um tesouro escondido de emoções e sentimentos inspiram a muitos poetas, mas, do ponto de vista médico, não tem nenhum sentido. -Não obstante, se esses recortes te impressionaram até o ponto de querer conhecer à família do doador, farei o que posso para te ajudar. —Deixei bem claro que nunca quereria saber nada sobre o doador. Dean ignorava, mas na noite da operação, Cat tinha-se inteirado de algo. Oxalá não tivesse nem essa pequena pista. Mas era uma pedra no sapato, não a deixava em paz. E, nos últimos tempos, era inclusive mais inquietante. —Talvez devesse mudar de idéia — disse não muito convencida. Dean levantou-se e abraçou-a. —Estou convencido de que esses acidentes são simples coincidências. Alguém se deu conta e está fazendo uma piada cruel. - É o que disse a mim mesmo quando recebi a primeira. E após a segunda. Depois chegou a terceira. Então me dei conta de um detalhe que antes me tinha escapado. Ao que parece, também passou desapercibido para você. Ainda que não sei como pudemos deixar passar por alto um detalhe tão importante. - Que é? - Olha as datas, Dean. Todos os acidentes fatídicos ocorreram no dia do aniversário do transplante da vítima. Baixinho acrescentou: —E é também a data do aniversário de meu transplante. Capítulo trinta


Alex observava a tela negra do computador. O cursor não se movia fazia tempo. A condenada marca seguia no mesmo lugar desde o dia da discussão com Cat. Tinha-se defendido como uma gata, pensou recordando que esteve a ponto de lhe arranhar. Uma mulher com esse temperamento não suportava que a manipulassem, e isso era o que ele tinha feito para levá-la à cama. Sua reação tinha sido mais ou menos a que esperava. Massageou a nuca e situou os dedos sobre o teclado, como se pondo mãos à obra e desta vez em sério. O cursor seguia piscando, como se risse dele e o notificasse que tinha um típico bloqueio de escritor. Fazia dias que tentava escrever uma cena de amor; melhor dizendo, de sexo. Até esse ponto, o livro tinha avançando num ritmo bom; inclusive tinha comentado a Arnie. A trama foi tomando corpo e a ambientação estava tão bem descrita que quase podia ouvir a água que corria pelas tubulações embaixo do asfalto das ruas. As personagens iam sendo conduzidas para situações perigosas. De repente, e sem prévio aviso, tinham parado. Todos e a cada um deles se mantiveram em seus treze e anunciaram: “ não penso interpretar mais. » O protagonista já não realizava atos heroicos e tinha se convertido em um imbecil. O criminoso era macio como uma manteiga. Os delatores estavam mudos. Os policias eram uns ineptos. A principal personagem feminina... Alex apoiou os cotovelos na borda da mesa de trabalho e passou ambas as mãos no cabelo. Era ela que tinha encabeçado o motim. De repente, descontente com o papel que Alex tinha creditado para ela, decidiu se desmitir e não mais interpretaria. Essa tia não mordia a língua: tinha a boca tão descarada como o cu, que ele tinha descrito com todo luxo de detalhes para seus leitores ao apresentar na página quinze. Mas, ao mesmo tempo, era muito feminina e vulnerável, bem mais do que ele ao princípio queria. Suspeitava que, quando ele não a via, tomava liberdades com esse aspecto de sua personalidade. Em um momento de debilidade, deixou que ela liberasse a sua. Agora era muito tarde para ratificar.


Tinha chegado o momento em que o protagonista a seduziria, mas a cena de cama não se estava desenvolvendo como Alex tinha previsto. Em alguma parte situada entre o cérebro e o depois, os impulsos criativos tinham sido desviados como um comboio a uma zona morta. Uma força alheia a ele estava mudando as agulhas. Supunha que o herói tinha que levantar a saia, arrancar as calcinhas, entrar, correr, sair e a deixar gritando insultos e ameaçando dizer a um fulano, que ruim era seu livro. O herói, desdenhoso e sarcástico, devolvia insulto por insulto e ameaça por ameaça, e a abandonava na sórdida habitação do motel com as calcinhas rasgadas e um sofoco orgásmico como mudos depoimentos de sua degradação moral. Em mudança, a cada vez que Alex tentava escrever a cena, seu olho mental a via de outro modo. O protagonista acariciava-a por baixo da saia e, em vez de arrancar as calcinhas, deslizava os dedos em seu interior. Tocá-la ali punha em órbita ao pobre membro. Seguia fazendo um trabalhinho até notá-la excitada e úmida e só então tirava as calcinhas. Uma vez dentro dela, não tinha nenhuma pressa em sair. A garota não era o que ele esperava; era mais suave, mais doce, mais, mais cálida. O homem se negava a cumprir as ordens de Alex de meter até o fundo e acabar de uma vez. Aturdido pelas emoções que o assaltavam, e ao invés do que era seu costume, o herói levantava a cabeça para a olhar. Uma lágrima deslizava pela bochecha da garota. Ele perguntava que ocorria. A estava machucado? A estava machucando? - Gritou a mente de Alex. De onde saíu isso? Supõe que o herói não se importasse se a estivesse machucando. Não, não lhe fazia dano. Da única forma que poderia machucá-la era se o dizia a seu fulano, o mau, e ele sim que lhe faria dano. Era vítima de contínuos maus tratos, dizia a garota. Achava que seguiria com esse repugnante baboso se tivesse outra saída? Não. As circunstâncias obrigavam-na a suportá-lo.


Está uma droga!, pensava Alex. É uma puta. É que não te dá conta, espantalho? Estão-te tomando o cabelo. Têm-te porra por partida dupla. O protagonista olhava seus límpidos olhos azuis e adentrava mais na sedosa gruta, aspirando a fragancia do ondulado e ruivos cabelos... Um momento. Ela era loira! Loira oxigenada. Assim a tinha descrito na página 16. Que tinha ocorrido entre a página 16 e a 104 para mudar a cor do cabelo e a personalidade? E desde quando empregava palavras como límpidos e sedosa gruta? Desde que tinha perdido o controle do livro. O cursor seguia piscando. Alex levantou da cadeira e abandonou a mesa. Seus dedos se negavam a tocar as teclas necessárias e não tinha nada mais que falar. Bom, isto ocorria às vezes. Inclusive aos melhores escritores. Até prêmios Pulitzer, de vez em quando ficavam bloqueados. E não digamos o bom que teria sido As vinhas da ira se Steinbeck não tivesse tido lapsos criativos de vez em quando. Era provável que Stephen King ficasse uns dias de descanso quando falhava a inspiração. Caminho da janela, Alex viu a garrafa de whisky quase vazia na prateleira, como se fizesse «elis, elis. Ao sair de casa de Cat, ela o estava ameaçando com o vaso de vidro emplomado. Sabia que seu furor estava mais que justificado e se encaminhou diretamente a uma loja de bebidas alcoólicas. O primeiro gole soube a mil demônios. O segundo passou melhor. O terceiro e o quarto começou a gostar. Não recordava os seguintes. Tinha vomitado, mas não tinha nem a menor idéia de onde. Acordou com a claridade, com vontades de mijar que era uma tortura, e seu fôlego teria derrubado um elefante. Estava tão atordoado que nem sequer recordava como tinha chegado ao estacionamento dos armazenes Krnart. Era um milagre que não tivesse se matado ou tivesse atropelado alguém enquanto conduzia. Por sorte ninguém tinha chamado à policia para denunciar um bêbado que estava dormindo dentro


do carro estacionado ao lado da zona de carroças de compra do supermercado, e também não tinham roubado sua carteira. Voltou a casa e libertou-se de um par de litros de urina. Após se banhar e barbear-se, tomou várias aspirinas até que os sons de tambores dentro da cabeça desapareceram. Voltou a ler a documentação que tinha facilitado sua saída da clínica de desintoxicação e recitou a prece dos Alcoólicos Anônimos. Estava disposto a atirar o resto de whisky no ralo mas decidiu conservá-lo como recordação de que era reabilitado, de que um gole podia ser letal e de que as respostas não se encontram em uma garrafa. Se assim fora, já teria aniquilado as suas bestas negras a muito tempo atrás. Tinha bebido um mar de álcool buscando motivos pelos que pudesse ter ocorrido aquilo. Suas orações ao Sumo Hacedor costumavam ser em forma de perguntas. Por que decidiste te fixar de repente em Alex Pierce? Por algo que fiz? Por algo que não fiz? Ele pagava seus impostos, contribuía com seu dízimo ao Exército de Salvação e era considerado com os idosos. Se era pelo incidente do Quatro de Julho... tinha pedido perdão mil vezes. Não podia ter mais remorsos dos que tinha. Tinha feito o que tinha que fazer. Mas, ao que parece, O não tinha atendido a seus pensamentos, como também não os tinham escutado seus superiores do departamento. Ao sentir-se abandonado pelo mesmo Deus, começou a ceder à pressão. Seu estado de ânimo estava pelos chãos; e suas perspectivas ante a vida, nas cloacas. O álcool converteu-se em seu melhor amigo. Agora, Arnie era seu único amigo. Arnie. Nesse momento, suas mãos desejavam agarrar o pescoço de Arnie. Seu bem intencionado agente o tinha aconselhado a ser sincero com Cat. O resultado foi que ela quase o deixa descerebrado com um vaso. Não importa o que afirmem as mulheres, pensou; Na verdade, não querem saber a verdade. Não teria sido mais fácil para ambos seguir se deitando, aceitar o prazer que isso proporcionava e


deixar o resto nas mãos do destino? Mas, segundo disse Arnie, isso seria um comportamento imbecil. Amaldiçoando, apoiou a frente na janela. Cat o tinha tirado a vontade de comer, de dormir, de controlar-se e de trabalhar. Temia repensar sobre o porque; agora suspeitava de seu instinto. Quanto mais tentava esclarecer as coisas, mais se complicavam. Só tinha uma certeza: desde sua discussão com Cat, não tinha sido capaz de escrever nem uma só linha aceitável. Sua relação sexual com ela tinha sido a melhor de sua vida. E isso era o que lhe carcomía e agora estava convertendo sua novela em uma droga. Decidido a recuperar o controle da situação antes de se ver obrigado a devolver o adiantamento à editora, voltou ao computador. Já que a cena não estava saindo como tinha previsto, deixaria que seguisse seu caminho e veria aonde conduzia. Que mais dava? Não estava esculpindo as palavras em pedra. Vantagens do computador. —Que maricas — murmurou ao começar a digitar com seu rápido sistema: a dois dedos. Depois de escrever uma hora sem parar, já tinha cinco páginas. Devem estar boas, pensou confiante. Tinha o pênis tão duro que poderia furar uma parede com ele. Capítulo trinta e um -Pelo que vejo você voltou novinha em folha. Sherry Parks sentou-se na frente de Cat. Jeff ocupou a outra cadeira e disse: —É verdade? Fazia tempo que merecia umas férias. —Foi muito bom — disse Cat— Comi três vezes ao dia, dormi até tão tarde que era uma vergonha e caminhei pela praia. Em poucas palavras: portei-me como uma preguiçosa. —Não tanto. Um passeio pela praia pode ser esgotador — comentou Sherry. —Já estava cansada ao terminar de me vestir. A gente tira a roupa na praia, mas eu tenho que me tampar. Devido à medicação era muito sensível às queimaduras solares. Voltando ao trabalho, abriu o expediente que Jeff deixou em cima da mesa. A foto a impressionou. —Que menino lindo!


Sherry estava de acordo. —Sim. Michael é uma preciosidade. Tem três anos e nesta semana o Serviço de Assistência à Infância o colocou em um orfanato. —Em que circunstâncias? —perguntou Cat. —Seu pai é um homem encantador que se chama George Murphy Ao que parece é um suposto pedreiro incapaz de manter um posto de trabalho devido a seu temperamento e ao consumo de drogas. Despedem-no depois de dois dias. A família vive do auxilio desemprego e do pouco que a mãe contribui. —Murphy maltrata-os? —Segundo os vizinhos, sim. Têm chamado várias vezes à policia para denunciar brigas domésticas. Prenderam-no, mas ela não apresenta denúncia porque ele a aterroriza — explicou Sherry. —No mês passado, a assistente social levou Michael, mas o devolveu a sua mãe quando Murphy foi detido por porte de drogas. Por desgraça, soltaram-no por falta de provas. —Que de sorte — comentou Cat. —É o que pensaria qualquer, mas ele não toma jeito. Seus arranques de violência são a cada vez piores e mais freqüentes. E de repente, ataca mais ao menino que à mãe. »Na semana passada, Michael «caiu». Passou por raios X na sala de urgências, mas o liberaram porque não tinha nenhum osso rompido. Anteontem, sua mãe levou-o ao hospital de novo. Murphy o tinha jogado contra a parede. O menino era incapaz de chorar e sua mãe achou que tinha lesões cerebrais irrecuperáveis. — E é assim? —Não, só se tratava de uma concussão. Os médicos o mantiveram em observação durante a noite e ontem entregaram ao Serviço, que o ingressou em um orfanato. —Como está? —Chora e quer sua mãe, mas porta-se muito bem, já que mal tem meios de estabelecer comunicação. Esta manhã disse que gostaria de comer uma banana após os cereais, mas não sabia como se chamava. —Pobre criança — sussurrou Jeff.


—Está tão aterrorizado por seu pai que não se atreve a falar — acrescentou Sherry com tristeza. Cat voltou a olhar a foto. O menino tinha o cabelo escuro; os olhos, grandes, azuis e expressivos, e longas pestanas. Os lábios eram grossos e marcados por covinhas. Uma preciosidade com traços quase femininos. Todos os meninos lhe interessavam: sem ter em conta a raça, a idade ou o sexo. Sentia-se solidaria com eles e tolerava inclusive aos que pior se comportavam. O mau comportamento era, no geral, o termômetro do nível de maus tratos que tinham sofrido. Suas vidas comoviam, enfureciam e, às vezes, faziam envergonhar-se de pertencer à raça humana, que tanto dor causava a inocentes. Mas esse rosto tinha-a fascinado sem saber por que. —Querido que prestasse atenção neste caso — disse Sherry— Parece que podemos incluir no programa. Sua mãe adora-o, mas está dominada pelo medo a Murphy. Temo que não vai se opôr para proteger Michael, e só Deus sabe o que deve estar suportando essa pobre mulher. Já conheci outros tipos como ele: são capazes de destroçar qualquer um, física E emocionalmente. “O caso é que desta vez vão a incriminar a ambos por maus tratos a um menor. O advogado de oficio, mal pago, com trabalho até as orelhas e que cobra por caso fechado, já está pedindo um acordo para não chegar a julgamento. Jeff interveio dizendo: Se declararão culpados de um cargo menor em troca de perder a custodia do menino. Ocorria com freqüência. Alguns pais cediam a seus filhos se podiam acolher a uma redução de condenação. Por estranho que pudesse parecer às vezes era isso o único que se importavam. Sberry olhou a Jeff e disse: —Acho que nem ligam. Murphy aproveitará a oportunidade de livrar do menino e, tendo em conta que as prisões estão cheias, é provável que cumpra só uma parte da condenação. Inclusive é possível que fique livre porque a condenação seja menor ao mesmo tempo em que já tem cumprido. Uma


ganga para ele. —Mas uma tragédia para a mãe do menino — afirmou Cat. Se esse menino fosse seu, mataria a qualquer que tentasse levá-lo; Mas não podia julgar a outra mulher. O medo era um fator muito importante. E também o amor. —Se quer seu filho tanto como parece, é possível que tenha optado pelo ceder a adoção. E, depois, será o melhor para ele. Sherry fez uma pausa, mas prosseguiu: —O programa encontrará um lar para ele, mas por enquanto necessita do contato com outros meninos. Pensei que seria bom levá-lo ao piquenique. —A Um piquenique? Jeff tossiu e esboçou um sorriso tímido. — Aguardava a sua volta para te dizer. Cat estava esperando uma explicação. —Nancy Webster tem se metido entre sobrancelha e sobrancelha. Chamou ao menos uma dúzia de vezes enquanto estava fora. Não disse o senhor Webster que quando pede algo se converte em um rolo compressor? — Algo semelhante. — Pois conhece muito bem a sua mulher. Nancy me explicou que se demora meses para se organizar uma arrecadação de fundos como é devido. De modo que, enquanto, convidou alguns contribuintes a uma pequena festa. Este fim de semana. — Este fim de semana! —Perguntei por que Tanta pressa para este fim de semana, ela disse não havia nenhum acontecimento social, mas nos próximos meses o estaria lotado. Portanto, é agora ou nunca. Cat suspirou. —Boas-vindas ao furacão, Cat. —Na verdade não tirará muito seu tempo. Só tem que comparecer ali no sábado. Eu já anunciei aos meios de comunicação e Sherry contou a meu SOS. Tem feito os preparativos para recolher aos meninos. —Incluíndo os que já foram adotados? —perguntou Cat — É importante que assistam como depoimento palpável de nossos sucessos. Mais ainda tendo em conta a publicidade negativa com que


nos obsequiou Truitt após a morte de Chantal. —Jeff e eu já pensamos nisso. Incluímos a famílias adotivas e a casais que têm apresentado solicitações de adoção. Nancy disse que não tinha limite no número de convidados sempre que antes da quinta-feira lhe disséssemos aproximadamente quantos seriam para fazer seus cálculos. Terá churrasco para os adultos e cachorro-quentes para os meninos. —Nancy pensa em tudo — comentou Cat com ironia. —Inclusive contratou uma banda de música country de Austin. É possível que na última hora chegue Willie Nelson, mas não é seguro. —Willie Nelson? Deves de estar caçoando. —Em absoluto. — E terá tudo isto organizado para o sábado? —Essa senhora é capaz de qualquer coisa. Sherry levantou para sair. —A todos nos faz muita ilusão e sou fã de Willie Nelson ainda que use tranças e colares. Após despedir a Sherry, Jeff deu-lhe os últimos detalhes. —Como vê, não tem que fazer grande coisa. — E se tivesse prolongado minhas férias? O que mais teria perdido? —Nancy já pensei nisso. Ela ia enviar um avião particular e, depois, devolvê-la à Califórnia. —O dinheiro não só fala: grita. —É o que dizem. Jeff recolheu os expedentes, pôs-lhos sob o braço. —Chefa, está de ótimo aspecto. Não é um elogio. —Obrigado. Pensei muito, mas dediquei-me mais a descansar. Não estava decidida a lhe falar do terceiro recorte, Mas chegou à conclusão de que se já tinha confiado nele tinha que saber os últimos acontecimentos. Jeff mostrou seu enojo. —Que diabos é esta droga? —Não sei. E Dean também não sabe que pensar. —Você já falou com o senhor Webster? — Não, mas penso o fazer. Se aparece por aqui algum tarado e começa a disparar, Bill tem que estar prevenido. Isso poderia pôr em perigo a segurança da emissora. —Não acho que chegue a tanto. -Eu também não. Tenho a impressão de que esse indivíduo seria bem mais sutil. Então fez ver a coincidência de datas nas mortes acidentais.


—É como um enigma que quisesse que eu resolvesse. —E quando foi teu...? —Faltam poucas semanas para o quarto aniversário de meu transplante. —Céu santo, Cat, isto já deixou de ser uma piada de mau gosto. Os recortes podem ser ameaças diretas. Não achas que chegou o momento de ir à policia? —Dean disse o mesmo, mas enquanto não existam ameaças reais, que podem fazer? Não sabemos quem é a pessoa que envia os recortes. —Mas seguro que podem fazer algo. —Pensei muito nisso. Posso contar com tua ajuda? —Não deveria perguntar. —Obrigado. Ligue ao arquivo destes jornais e pede cópias de todos os artigos relacionados com estes casos. Se tiver mais informação sobre estes acidentes mortais, quero lê-la. —Busca algo concreto? —Não. Gostaria de saber se abriram investigações em resultado das mortes, Ou se publicaram notas biográficas sobre as vítimas Esse tipo de coisas. Em pessoa era inclusive mais lindo. Quando Cat o viu ficou pasmada Tinha o cabelo negro e rebelde. Levava camisa texana, jeans e botas lustrosas. Cat se ajoelhou diante dele. O menino tinha o dedo índice na boca. —Olá Michael. Meu nome é Cat. Me Alegra em conhecê-lo. Sherry levava ao menino da mão. —Eu Tinha que vir. Foi o que a mãe do orfanato me disse. Sherry moveu negativamente a cabeça: a contrasenha lembrada com Cat para dizer que Michael não se adaptava à convivência com outros meninos. —É a senhora que comprou a roupa nova para você, Michael, deveria lhe agradecer. O menino não tirava seus olhos do chão. —Não importa — disse Cat— Me agradecerá em outra hora. Ainda não comi nada. Vamos comer um cachorro-quente? O pequeno levantou a cabeça e olhou-a sem expressão em seus olhos azuis, como se não entendesse nada. Cat estendeu a mão. Michael pensou antes de tirar o dedo da boca e aceitar o convite. —Bem, Sherry: depois nos reuniremos contigo. Cat adaptou seu passo ao de Michael. —Gosto muito destas botas. São como as minhas, vê?


Parou e mostrou suas botas de cowboy. Tinha-as comprado em uma boutique de Rodeio Drive, em Beverly Hills, mas Michael não notaria a diferença. O menino comparou umas com outras e fez uma careta que parecia um sorriso. Cat tomou-o como sinal alentador e apertou a mão. —Vamos ser bons amigos. O churrasco acontecia nos jardins. A banda de música tocava na rotunda situada a orlas do lago, onde os patos comiam migalhas de pão lançadas pelos meninos. O ar estava impregnado do suculento aroma a carne assada. Embaixo das árvores tinham instalado mesas com mantas de quadros brancos e vermelhos. Animadores e palhaços circulavam entre a multidão repartindo balões e caramelos, e três jogadores dos Dallas Cowboys davam autógrafos em bolas infantis. As cabeças de dois membros da equipe de basquete local destacavam acima de todas as demais. Após apanhar os pratos, Cat e Michael sentaram-se a uma das mesas. Enquanto comiam os cachorros-quentes, ela o sondou em busca de alguma resposta, mas Michael não dizia nada, nem sequer quando o apresentou a Jeff, que era irresistível para os meninos. Estava a vários passos praa traz ao irem para o lago. Jeff convidou-o a acompanhá-los a dar de comer aos patos, mas o menino negou com a cabeça e Cat não pressionou. Não obstante, deu-se conta de que alguma outra coisa tinha chamado a sua atenção. Seguiu a direção de seu olhar absorto. —Ah, gosta dos cavalos. Quer montar? Olhou-a sem responder, mas seus olhos mostravam um fio de curiosidade. — Vamos vê-los de perto. Limpou a boca com um guardanapo de papel, pegou a mão do menino e andaram para o recinto fechado onde quatro pôneis caminhavam em círculo, um por trás de outro. Ao chegar ali, Cat notou a prevenção de Michael e deu-lhe tempo para que se acostumasse. Observaram aos animais e, quando desmontou o terceiro grupo de quatro meninos, Michael a olhou fixamente.


—Quer montar? O menino assentiu. —Vá adiante. Cat abriu a grade e entraram na pista. Michael escolheu o menor pônei. —Também é meu favorito: é o que tem a crina e a fila mais bonitas. Parece que ele tambemgostou de voce; estava te olhando de relance. Michael sorriu e Cat sentiu uma grande alegria. Um homem vestido de cowboy ajudava aos outros meninos a montar. Cat inclinou-se para subir ao menino à cadeira. —Deixa que eu faço isso. Ele deve pesar mais do que parece. Umas mãos, das que conhecia muito bem o aspecto e o tato, a tiraram a um lado, apanharam a Michael e o depositaram na sela. —Bom, garoto, aqui esta as rédias. Segure-as assim — disse Alex. Mostrou-lhe a forma de fazê-lo e, a seguir, apoiou ambas mãos no pomo da sela. —Agora pensa que já fez isso outras vezes — dando uma amistosa palmada no ombro. —Tudo bem? O encarregado comprovou que Michael estivesse bem sentado na sela. Cat pôs uma mão na pantorrilla. —Michael, está pronto? O menino assentiu com a cabeça. —Te esperarei aí. Saiu da pista e saudou-o com a mão. O encarregado fez chasquear a boca e os quatro pôneis começaram a caminhar. A princípio a cara do menino mostrou terror, mas este desapareceu cedo. Olhava a Cat pela ponta do olho, com medo de mover a cabeça. Ela sorriu, alentadora, e não deixou de olhar nem quando Alex se pôs a seu lado. —Um menino precioso. —O que está fazendo aqui, Alex? —Convidaram-me. —É um ato social que podia ter recusado. —Vim porque queria contribuir com os meninos de Cat. —Não me digas. —É verdade. —Por que não enviou um cheque? —Porque queria ver-te.


Ela deu a volta para o olhar diretamente aos olhos. O que foi um erro, já que estava mais atraente que nunca. Foram a sua mente imagens que queria ter apagado. Desviou os olhos para Michael. —Pois perdeu seu tempo. Não recordas o último que te disse? —Que deixasse de fodê-la. Cat baixou a cabeça e emitiu uma pequena risada. —Não acho que utilizei essas palavras, mas a mensagem era a mesma. —Tentei pôr-me em contato contigo dúzias de vezes. Onde esteve? —Fui a Califórnia. —A chorar sobre o ombro do doutor? —Dean é um amigo leal. —Que comovedor. —Com ele sei, ao menos, onde estou. —Claro que sim. E eu também. Estás-lhe agradecida e o idiotas aproveitase disso. —Não é nenhum idiota; e minha relação com ele... Estavam nos olhando; algumas pessoas com sorrisos de complicidade Quem tinham assistido àquele jantar de Nancy Webster na que ele era seu acompanhante, deviam pensar que tinham um romance. Não querendo dar o espetáculo, Cat sorriu e voltou a centrar sua atenção em Michael, quem agora já se atrevia a balançar nas costas do pônei, imitando ao garoto que montava sobre o animal que os precedia. —Vá embora, Alex - disse ela baixinho— Você Deixou clara a sua posição e eu a minha. Já não temos nada mais que nos dizer. —Temo que não seja tão fácil assim, Cat. Charlie e Irene Walters querem conhecê-la E não demorarão em chegar. Prometi que os apresentaria eu mesmo. Foi muita bondade de sua parte os convidar. —Como nossa primeira entrevista não pôde acontecer pensei que, ao menos, tinha que lhes fazer chegar um convite pessoal. —Também me disseram que alguém da agência os chamou para fixar outra entrevista. Também crédito seu? — Sherry pensava que eram candidatos idôneos para uma adoção e ficou desiludida quando expliquei o mal entendido. Seguro que não os descartou.


— Mas tu falaste em seu favor. Cat deu de ombros. —Obrigado. Deu a volta, quase incapaz de conter sua raiva: -Tu não tem que me agradecer de nada. Não o fiz por você, senão pelos Walters. Tal e como me disse na manhã em que nos conhecemos, não deviam julgá-los pelas amizades que tenham. Estarei encantada de conhecê-los quando cheguem, mas queri que você suma. Agora desculpa, mas o passeio a cavalo terminou e tenho que recolher Michael. Passou por diante de Alex e entrou na pista. Capítulo trinta e dois Alex deixou-a sair. Compreendia sua posição, e mais ainda em uma festa onde tudo o que dissesse e fizesse poderia ocasionar publicidade negativa. Assim que Cat recolheu Michael, Nancy a instado a ir à glorieta, onde já tinha uma multidão congregada. Alex captou a mensagem: tinha chegado Willie Nelson. Cantou umas quantas baladas e Cat, como convidada de honra, teve que ficar no estrado. Tinha a Michael sobre os joelhos e inclusive conseguiu que desse palmadas compassadas. Foi com ele ao microfone para agradecer a presença dos assistentes e sua contribuição para ajudar aos meninos. Quando Willíe terminou sua atuação, Cat se acercou para lhe agradecer e riu com alguma de suas ocorrências. Alex sentia umas fisgadas inexplicáveis. O cantor saiu com seu séquito, um montão de esfarrapados com aspecto de ter sido encontrado em uma praia duas semanas após o naufrágio. Alex observou, ao mesmo tempo em Cat, que Michael fechava as pernas e movia os pés. Cat agachou-se e disse-lhe algo ao ouvido. O menino assentiu. Segurando sua mão, entraram na casa. Alex seguiu os seus passos. Longe de espectadores, talvez pudessem chegar a um entendimento. Tentaria que ela aceitasse encontrá-lo mais tarde. Talvez pensasse que sua efêmera relação tinha terminado, mas estava equivocada. Vagou pelo salão, simulando jogar uma olhada às figuritas de porcelana enquanto esperava cortar o passo quando saísse com Michael do serviço.


Amaldiçoou para seus adentros ao ver que Bill Webster se adiantava. — Cat! Ainda bem que tive sorte. Não te vi em toda a tarde. — Olá Bill. Apresento-te a Michael. Tinha que fazer xixi e tinha fila nos banheiros portáteis. Pensei que não se importaria que usássemos um da casa. — Por suposto que não. Quando um jovenzinho tem uma urgência não pode esperar. Bem, que te parece a festa? — Uma maravilha — confirmou — Não me explicou como Nancy pode organizar tudo tão rápido. — Não é nada comparado com a que tem em perspectiva para a primavera. — Não posso imaginar. Alex divisou as sonrridentes expressões de Cat. Mas não pôde ouvir o que dizia. — Bill eu preciso falar contigo sobre algo que me parece importante. Podes dedicar-me cinco minutos na segunda-feira a primeira hora? — Teu tom de voz inquieta-me; e não me esqueço de que voltou da Califórnia. Não estarás pensando em nos deixar? —Não. — Qual é o problema? — Pode esperar até a segunda-feira. —Me desculpe, Cat, mas na segunda-feira estarei em Saint Louis, em uma reunião de diretores. Vou-me manhã pela noite e não voltarei até a quinta-feira. —Suponho que posso esperar até então. —Não sejas tão comedida. Se pensas que é algo sério... —É que não sei. Queria saber tua opinião. —Dispomos de cinco minutos. Vamos a meu escritório. —Não queria deixar a Michael sozinho. —Que entre. Pode entreter-se com minhas miniaturas. —De acordo. Parece-me melhor não esperar outra semana. Alex ouviu como se fechava a porta do escritório. Entrou no vestíbulo e olhou a seu ao redor. Ao que parece não tinha ninguém. Acercou a orelha à porta. —Os originais estão em casa, dentro de uma gaveta — dizia Cat — Levo as cópias em cima. Rogote que as leias e me digas o que pensas. Webster seguia silencioso. Alex ouviu que Cat falava a Michael de uns animais em miniatura. —Cat! —exclamou Webster—. Quanto tempo faz que dura isto? —Em umas semanas. Que te parece?


—Minha primeira impressão é que quem os tenha é um demente. Alex franziu o cenho. —Jeff tem feito algumas averiguações. Tinha um par de notícias breves sobre o acidente em Flórida. Mas nada dos outros dois. Consideraram mortes acidentais, o qual me leva achar que estou fazendo uma montanha de um grão de areia. Se a policia não tem suspeito, por que deveria as ter eu? Mas confesso que estou intranqüila. Acho que você tinha que estar inteirado porque, se algo ocorresse, poderia pôr em perigo a segurança de todo o pessoal. —Pensas que o remitente anônimo se atreveria a te atacar? Alex não pôde ouvir qual era a resposta de Cat. Mas alguém tinha pronunciado seu nome. Virou. Nancy Webster tinha entrado na sala. Sorriu por compromisso para dissimular que estava escutando. —Olá, Nancy. —Você viu Cat? —Entrou na casa e segui-a até aqui. Acompanhava ao menino ao banheiro. Mas agora me pareceu ouvir sua voz aí e me dispunha a chamar. Nancy entrou sem chamar no escritório de Bill. —Olá, garotos. A abertura da porta permitiu que Alex visse Bill sentado em um cadeirão de couro. Tinha patos em miniatura em fila no sofá de defronte e Michael fazia-os avançar sobre a suave pele. Cat estava sentada sobre o tapete, aos pés de Webster. Bill meteu-se a toda pressa uns papéis nos bolsos. Parecia surpreendido e preocupado. —Que há, amor? A expressão de Nancy era tão dura como se levasse uma - carilla de cemento armado. Alex sabia que não tinha passado nada, mas se sentia obrigado a calar. —Estão a ponto de começar os fogos artificios. Deveríeis sair. —Obrigado, Nancy. Webster levantou-se e ofereceu sua mão a Cat, que fez caso omisso e apanhou ao menino entre seus braços. —Vamos, Michael. Não se devemos perder os fogos artificios. Quando viu que Alex estava por trás de Nancy e intuiu que devia de ter escutado a conversa com Webster, seu sorriso forçado gelou nos lábios.


Cat e Michael saíram. Ela fez grandes exclamações de emoção ante a pirotecnia para animar ao pequeno, mas fingia. Nancy tinha a seu marido apanhado amorosamente do braço, mas seu entusiasmo comentário sobre os fogos artificios também soava falso. Webster estava tão ausente que mal se dava conta de nada. E Alex não via nada nem a ninguém que não fosse Cat Delaney. Pela segunda vez nessa noite, Nancy encontrou a Bill enclausurado em seu escritório. Todos tinham saído. E o serviço de limpeza não chegaria até a manhã seguinte. Quando entrou, seu marido levantou o copo para brindar. —Conseguiu que tudo saísse de primeira, como sempre. Toma um copo comigo para celebrar. —Não, obrigado. Bill tinha tomado mais de um. Outro seria excessivo. Estava sofocado e tinha as órbitas dos olhos de cor rosado. Eram raras as vezes que se embebedava. Portanto, quando isso ocorria era evidente. —Estou muito cansada, vamos dormir? —disse ela alargando a mão. —Vai aindo que eu já subo. Beberei outro copo. Serviu outro escocês e fez uma careta ao tomar um gole. Não bebia por gosto. Nancy olhou-o e disse: —Bill, que está acontedendo? —Não é nada. —Acha que sou idiota! Bill estava a ponto de protestar, mas mudou de ideia. Fechou os olhos, levantou o copo até a frente e deslizou-o entre a face, como se quisessem alisar as rugas. —Observei a expressão de tua cara ao ver-me aqui com Cat. Não deveria te dar explicações, mas o farei. Falávamos de um assunto privado. —Isso é o que me preocupa. —Não é o que você pensa, Nancy. Pelo amor de Deus, confie em mim. Você me faz sentir como se quisesse converter a Cat em minha amante porque me recorda a Carla. —Portanto tenta substituir Carla por ela? Olhou-a com olhos de centella. — É isso o que pensa? Nancy baixou a cabeça e contemplou a aliança de casamento. —Já não sei que pensar. Nada foi igual entre nós desde que perdemos Carla. Em vez de nos unir


para superar a perda, foi-se abrindo um abismo que não sei como voltar a fechar. E não quero cair nele, já que ignoro aonde pode nos levar. Levantou a cabeça e olhou-o angustiada. —Por que já não vem a mim, Bill? —Faço-o. —Não com tanta freqüência. E quando o faz, não tanto faz que antes. Noto a diferença e quero saber que é o que se interpõe entre nós. Se não tem um assunto com Cat, que é? —Quantas vezes eu terei que repetir? Nada. Tenho responsabilidades e quando volto a casa estou cansado. Não consigo que me levante dando uma ordem. O sarcasmo e seu vocabulario grosseiro contrariaram-na. Encaminhou-se para a porta. —Não vale a pena falar contigo agora; está bêbado. Outro sinal de que algo anda muito ruim. Ainda que não saiba o que é, não me diga que são imaginações minhas. -Carla era uma garota maravilhosa e sempre a amaremos. Você tem uma boa relação com todos nossos filhos, mas você e ela eram muito unidos. Quando morreu, sentiu que morria também uma parte de ti. Bill: se pudesse devolvê-la, o faria. -Mas não posso. E nego-me a perder mais do que já me tiraram. Toda minha vida gira ao redor da sua porque te adoro. Tenho intenção de ficar seu lado e conseguir que nossa relação seja como antes. Não me importo o que tenha que fazer. Cat dormiu muito pouco essa noite. Pensava em Michael. Estava tão fechado em si mesmo que conseguir que se abrisse requeria muita paciência e dedicação. No entanto, com os pais adequados chegaria a ser um menino normal e o esforço valeria a pena. Só precisava que o quisessem e o amassem. Mas tinha também outra coisa que ocupava sua mente. Após ver Alex dubidava de todas as resoluções que tomou na Califórnia. Morria de vontade de vê-lo. Irene e Charlie Walters eram tão encantadores como ele disse. Seguro que após assistir ao curso de capacitação obrigatório seriam pais perfeitos para algum de meninos. Em qualquer outro momento teria desfrutado falando um momento com eles, mas a apresentação


tinha acontecido pouco depois dos fogos artificios e ainda via a expressão na cara de Nancy Webster ao abrir a porta do escritório. Era evidente que tinha interpretado erradamente o sentido da conversa privada. Estas preocupações deixariam em suspense, além das cartas anônimas. Precisava de distração, de modo que dedicou no domingo pela tarde a ir às compras, e, depois, a ver um filme. Na segunda-feira, ela e Jeff enviaram cartas de agradecimiento às pessoas que tinham entregado um cheque durante o piquenique a benefício dos Meninos de Cat. Na terçafeira realizaram um vídeo de uma menina de cinco anos com um defeito auditivo que tinha perdido a seus pais em acidente de carro. Essa noite, quando Cat voltou a casa encontrou entre o correio um envelope idêntico aos três anteriores. Mas o conteúdo era diferente. Dentro tinha um lenço de papel. Escrito em forma de artigo de jornal, era um resumo biográfico da ex-atriz de telenovelas Cat Delaney, que tinha sofrido um transplante de coração. Era seu obtuário. Capítulo trinta e três —Eu Compreendo que seja um incomodo, mas não pode falar de delito, entende o que quero dizer? O tenente Bud Hunsaker, do Departamento de Policia de San Antonio, levava calças xadrez e botas de pele de lagarto negras com pontas brancas. A camisa branca, de manga curta, cingia-se sobre seu ventre de bebedor de cerveja rodeado por cinto de couro com tachinhas. A gravata, curta e com agulha, repousava, torcida, sobre o peito. A obesidade, as bochechas roliças e a pesada respiração faziam-no o perfeito candidato a um infarto. Desde o momento em que Cat entrou em seu escritório masticava um charuto apagado e, pela direção de sua olhar, parecia manter um diálogo com os joelhos de Cat. Agora apoiou os rechochudos antebraços sobre a mesa e inclinou para frente. —E diga-me, como é Doug Speer? Como pessoa, quero dizer. Não acho engraçado ele errar na


previsão meteorológica e, e ainda por cima, ficar fazendo piada. —Doug Speer está em outra emissora; não o conheço — contou Cat com um débil sorriso. —Ah, já. Com os homens do tempo sempre me ocorre o mesmo. Confundo uns com outros. —Faz favor, tenente, poderíamos voltar a isto? Indicou recortes que estavam sobre a mesa. Hunsaker manuseou o charuto. —Senhorita Delaney: uma mulher famosa como você já deveria contar com este tipo de coisas. —Já o sei, tenente. Quando interpretava Passages recebia toneladas de correio, incluindo diversas propostas de casamento. Um homem chegou a escrever-me cem cartas. — Vê-o? Sorrindo de orelha a orelha, se reclinou no assento como se ela lhe desse a razão. —Mas uma proposta de casamento não é uma ameaça. Nem também não as cartas que alabam ou criticam minha atuação. Eu acho que isto são ameaças de mortes. Especialmente a última. Separou o obituário. —Que pensa fazer? O tenente se mexeu, incômodo, na cadeira, que fez barulho em protesto. Apanhou o papel datilografado num gesto só e voltou a lê-la. A Cat percebeu que seu interesse era fingido; estava seguindo a emissora. Já tinha formado uma opinião e nada que não fosse uma ameaça direta ia o faria mudar de ideia. O homem tossiu e disse: —Tal e como eu vejo, se trata de algum demente que quer a pôr nervosa. —Bom, pois ele está conseguindo, já que estou nervosa. Vim aqui para que vocês descubram o demente e deixe de me molestar. —Não é tão fácil como parece. —Não parece fácil. Se fosse, faria eu mesma. A policia dispõe de meios para solucionar este tipo de situações. As pessoas comuns, não. —Que acha que devemos fazer? —Eu que sei! Não podem seguir a pista do carimbo dos correios? Ou buscar a máquina de escrever? Ou a marca do papel? Ou se há impressões no papel? O tenente sorriu e piscou um olho.


—Senhora, você tem visto muitos filmes de policiais. Cat sentia vontade de insultá-lo até que levantasse seu gordo cu e deixasse de andar pelos ramos. Mas dar a impressão de uma histérica só confirmaria sua opinião de que estava ficando histérica por três ou quatro ridículas cartas anônimas. —Tenente, não me trate com essa condescendência. A Hunsaker apagou o sorriso. —Ouça, eu não... —Só faltou me dar uma palmadinha no ombro. Sou uma pessoa adulta, sensata e com capacidade de dedução, já que, fora de útero, tenho cérebro. Não estou com síndrome premenstrual, nem tomo álcool ou drogas. A diferença entre você e eu são tantas que poderíamos encher uma enciclopedia, mas a menos importante é que eu levo saias e você, calças. -E, agora, ou atira esse asqueroso charuto e começa a tomar meu problema em sério ou apresentarei uma queixa a seu superior. Tem que ter algum sistema para descobrir ao responsável por isto. O tenente tinha o rosto da cor da cera; sabia que tinha atrapado. Endireitou a nuca para aliviar a rigidez pescoço da camisa, esticou a gravata e Tirou o charuto de boca, guardando-o dentro de uma gaveta. —Sabe de alguém que possa guardar rancor? —Não, a não ser que... Vacilou antes de informar de suas suspeitas, já que não tinha nada que as apoiasse. —A não ser que...? —Há uma empregada na WWSA, uma jovem. Foi antipática desde o primeiro dia que comecei a trabalhar na emissora. Explicou suas más relações com Melia King. —Confessou que tinha pegado os remédios, mas não acho que possa ter manipulado um foco do estúdio para que caísse. Voltaram a contratá-la pouco depois de que eu a despedisse e, segundo parece, está contente em seu novo posto. Vejo todos os dias, ainda que mal nos dirigamos a palavra. Não me cai bem, mas estou quase segura de que seu ressentimento não tem nada que ver com meu transplante.


—É uma moça feia? —Como diz? —Que aspecto tem? Poderia ser um monstro. Cat negou com a cabeça. —É uma garota espléndida e atrai aos homens. —Talvez não queira concorrência. Sua expressão era maliciosa. Cat evitou que seguisse por esse caminho com um gélido olhar de seus olhos azuis. O tenente voltou a se mexer na cadeira. Apanhou a obituário. —A linguagem é algo... Inculto. —Já me dei conta; não parece de jornal. —E também não explica a causa da morte. —Porque isso poderia me pôr em alerta. Saberia o que esperar. —Ninguém chegou a ameaçar, nem tem visto a rodeando por sua casa ou algo semelhante? —Ainda não. Hunsaker resmungou, franziu os lábios e exalou um suspiro. Para ganhar tempo releu os outros recortes e, antes de falar, tossiu. —São de diversas partes do país. O filho de puta esteve muito ocupado. —O qual me parece que o faz ainda mais perigoso — disse Cat— É evidente que está obssecado com o destino desses transplantados. Seja ou não o responsável por sua morte, percorreu muitos quilômetros para seguir suas pistas. —Acha que ele está por trás desses supostos acidentes? O tom de voz do tenente dava a entender que ele não apoiava essa teoria. Cat não estava também não muito segura, pelo que evitou uma resposta direta. —Parece significativo que as datas de suas mortes coincidam com o aniversário dos transplantes, que também coincide com o do meu. É muita casualidade que seja uma simples coincidência. Franziu o cenho, pensativo. —Conhece à família de seu doador? —Pensa que possa ter uma relação? —É uma suposição tão aceitável como qualquer outra. Que sabe de seu doador? —Nada. Até faz pouco, nunca quis saber nada. Mas ontem entrei em contato com o banco de órgãos que conseguiu meu coração e perguntei se a família do doador tinha feito averiguações sobre


mim. Estão buscando nos arquivos da agência que recolheu o coração, de modo que passarão em uns dias antes que tenha uma resposta. Se ninguém perguntou por minha identidade, saberemos que essa é uma pista falsa. —Por quê? —São as normas. A identidade de doador e receptores é estritamente confidencial a não ser que ambas partes perguntem pela outra. Só então as agências proporcionam informação. Corresponde aos indivíduos decidir se entram ou não em contato entre eles. —É essa a única forma de que alguém possa saber quem recebeu um coração específico? —A não ser que seja capaz de entrar no computador central da Virginia e averiguar o número de UNS. —Que é isso? Explicou o que Dean lhe tinha explicado poucos dias antes: —UNS é a rede de agências que compartilha e troca órgãos. À cada doador de órgãos e tecidos é atribuido um número imediatamente após a extirpação. O número se codifica com o ano, dia, mês e a cronología de quando os retiraram e foram aceitos por um banco de órgãos. É um mecanismo de segurança para evitar o mercado negro. O homem esfregou a cara. —Droga, esse homem tem que ser esperto. —É o que tenho tentado dizer. Enquanto mais hipóteses apareciam, mais assustada estava. —Tenente, nós estamos num círculo vicioso. Que pensa fazer para encontrá-lo antes que ele me encontre? —Com toda franqueza, senhorita Delaney: não há muito que possamos fazer. —Até que ocorra um estranho acidente, verdade? —calma tranqüila. —Estou tranqüila — levantou-se para sair — E, por desgraça, você também. O policial moveu-se com maior rapidez que ela acreditava que fosse capaz, rodeou a mesa e bloqueou a saída. —Tenho que admitir que é incompreensível, mas por agora sua vida não tem corrido perigo nem se


cometeu nenhum delito. E nem sequer sabemos se nessas outras mortes interveio uma mão estranha, não? —Não — admitiu lacónica. —Ainda assim não quero que se vá pensando que não a tomo em sério. A ver que parece isto. Tudo bem se eu designar um carro patrulha para que vigie sua rua durante as próximas semanas e não perca de vista sua casa? Era para dar risada. Esse homem não entendia nada. A pessoa que a espreitava era muito inteligente como para se deixar apanhar por um carro patrulha. —Muito obrigado, tenente. Eu agradecerei qualquer tipo de ajuda que possa me proporcionar. —Para isso estamos. O mais provável é que alguém queira assustá-la. Já sabe. Com vontade de sair correndo, assentiu. O tenente acreditava ter resolvido o problema e fez um gesto galante ao dispor-se a abrir a porta. —Não duvide em me chamar se precisar. Claro que chamarei. E de que me servirá? —Agradeço que tenha recebido tão rápido, tenente Hunsaker. —Em pessoa você é ainda mais bonita que na tv. —Obrigado. —Ah, antes que se vá... Não é todo dia que entra uma pessoa famosa em meu escritório. Importar dar-me seu autógrafo para minha mulher? Estará encantada. A nome de Doris, faz favor. E não estaria a mais que acrescentasse Bud, se não é muito pedir. Capítulo trinta e quatro —Que diabos estás fazendo? —Fritando bacon. Utilizava um garfo ao não conseguir encontrar umas pinças em algum das gavetas do armário de cozinha, Cat levantava uma massa sem forma da panela fumegante. Após sua enervante experiência na delegacia, voltou a casa e mudou de roupa. Muito nervosa para ir trabalhar, chamou Jeff e disse que precisava em um dia livre para refletir. Demorou quase uma hora em chegar a uma conclusão e, sem dar-se conta, estava empurrando um carro: fazendo compras para alguém a quem assegurava desprezar. —Espero que goste de estaladiço.


Depositou a tira de bacon junto às outras que se escurríam sobre um papel de cozinha. —Como quer os ovos? —Como entrou? —Pela porta. Estava aberta. O coçou a cabeça. —Devo ter esquecido de fechar com chave antes de entrar. —Claro. Fritos ou mexidos? Não respondeu e ela jogou um olhar acima do ombro. Tinha o mesmo aspecto que a manhã em que se conheceram, Mas agora, em vez de jeans, só levava cuecas. O becon não estava para comer, mas ele sim. —Fritos ou mexidos? Saem um pouco melhor mexidos. —Ele apoiou as mãos nos quadris. —Devo entender que há algum motivo especial para que tenha vindo aqui e esteja preparando o café da manhã? —Sim. Coloque umas calças, senta à mesa e te explicarei. Sacudiu a cabeça, aturdido, e deu a volta. Ao regressar à cozinha com uns Levi’s gastados e uma camiseta branca, o café da manhã estava sobre a mesa. Cat serviu duas canecas de café e sentou-se, indicando-lhe que ocupasse a cadeira de frente. Obedeceu-a. Por enquanto não provou a comida, ainda bebia goles de café. —Terá algo a ver por ser o caminho mais curto para ganhar o coração de um homem seja através do estômago? —Essa teoria caiu por seu próprio peso quando nos vimos obrigada fazer jornada completa. Alex sorriu e, a seguir, soltou uma gargalhada. Empunhou o garfo e dispôsse a engulir ovos mexidos. Partiu um pedaço de bacon e engoliu com um longo gole de suco de laranja. —Desde quando não come algo? —Parece que ontem pedi uma pizza. Talvez foi anteontem. —Muito ocupado no trabalho? —Soboru alguma torrada? Cat pôs outras duas na tostadeira. Enquanto esperava que saltassem serviuo outra caneca de café. Alex segurou-a pelo pulso e olhou-a fixamente. —Cat, passou por sua cabeça a ideia de dona de casa? —Não.


—Estás fazendo comigo uma caridade? —Você não é desse tipo. —Está me oferecendo trégua? —Não a qualquer custo. —Terei que pagar algo? —Claro. —Sairá muito caro? —A não ser que queiras que te batize com café fervendo será melhor que solte meu pulso. Assim o fez e ela devolveu a cafeteira ao seu lugar. A tostadeira expulsou as duas fatias. Cat apanhou-as e as colocou no prato sem nenhuma cerimônia. —De modo que ainda não somos amigos — comentou enquanto untava a torrada com manteiga. —Não. —Então ser amantes fica descartado. Afundou os brancos dentes na torrada. Cat levou os outros pratos ao tanque, lavou-os e deixou-os no escorredor. Ordenou a cozinha enquanto ele terminava de comer. Levou depois o prato dele ao tanque, se serviu outra caneca de café e voltou à mesa. Cat estava limpando as migalhas com uma esponja úmida quando Alex a rodeou pela cintura e a atraiu para si. Afundou a cara entre os seios e os beijou com avidez através da blusa. Ela se negou a responder e manteve as mãos em alto, sem a menor intenção de lhe tocar. Por fim, ele levantou a cabeça. —Não gostas? —Gosto de muitíssimo, és muito hábil, mas não vim aqui por isso. Alex abandonou e sua expressão voltou dura e irada. —Se não veio fazer as pazes... —Não. —Por que veio? —Por isso. —Mais vale, já que tenho um montão de trabalho. Cat não disse nada, lavou as mãos, serviu outra caneca de café e se sentou à mesa, onde deixou a bolsa. Abriu-o, Tirou as copias de recortes e do obituário e entregou. —É esta a documentação secreta que mostrou a Webster a outra noite? —De modo que estava escutando. Já supeitava. —Um vício de meus tempos de policia. —Ou simples má educação.


—Pode ser — admitiu encolhendo de ombros — Nancy Webster pensou que tu e seu marido tínham uma conversa íntima. —Você sabe que não. —Por que deixou que pensasse o pior? Não podias dizer a verdade? —Quanto menos pessoa souber, melhor. Alex apanhou os papéis e começou a lê-los. Ao chegar ao segundo, esfregou pensativa a cicatriz que partia a sobrancelha. Quando terminou de ler o terceiro, a olhou intrigado. Leu de novo o obituário, amaldiçoou, apartou a cadeira e sentou de lado com as pernas cruzadas. Releu os xerox. —Tens os originais? —E os envelopes. —Ouvi que dizia a Webster que tinhas começado a recebê-los há algumas semanas. —Assim é. —E não achou conveniente me dizer? —Não era assunto teu. Alex soltou um palavrão. —De acordo, foi de mau gosto — admitiu — Não mencionei a ninguém até que recebi o terceiro. —E a quem contou então? Fora de Spicer. Porque que estou seguro de que contou ao querido Dean. —Contei a Jeff — contou, passando por alto o comentário sarcástico — E depois a Bill. —Porque podia pôr em perigo a segurança da emissora. Ouvi como dizias. Quem mais sabe? —Ninguém. O falso obituário chegou ontem. E isso foi a gota que encheu o copo. Esta manhã, às oito, tive uma entrevista com um oficial de policia. Para o caso que me fez, podia ter dedicado esse tempo a tomar um banho de espuma. —Que te disse? Quase ao pé da letra explicou a conversa com o tenente Hunsaker. —Minha vida pode estar em perigo, mas ele estava mais interessado em olhar minhas pernas. Bom, o caso é que tentava acalmar com um montão de tolices sobre os ossos do oficio de ser uma pessoa famosa, como se eu não o soubesse. Cheirava a cigarro, a colônia barata e a machismo ao velho estilo.


Parei aos pés, mas a única coisa que entendi é que, até que não me ocorra algo terrível, a policia não pode fazer grande coisa fora de patrulhar por minha rua umas quantas noites à semana. Não te parece incrível? —Por desgraça, não. Contemplou-a durante uns instantes. —Por isso se assustou aquela noite que encontramos Spicer em tua casa, verdade? E ainda está assustada. Cat mordeu os lábios e secou as palmas das mãos suadas nas pernas dos jeans. Agora que tinha preparado o café da manhã e tinha confiado suas preocupações se sentia nervosa, em parte porque podia adivinhar seu pensamento. Alex seguia impassível, estudando-a com esses olhos que não perdiam nada. —O que quer de mim, Cat? —Ajuda. Ele se assustou. —Minha ajuda? —É a única pessoa que conheço com uma mentalidade criminosa. Trabalhou com delinqüentes, estudou seu comportamento, conhece o perfil de uma pessoa que faria uma coisa assim. Preciso de sua opinião. É obra de um comediante ou de um psicopáta? Devo descartálo como lixo ou tomar como um aviso? Deixando de lado o orgulho acrescentou: —Estou aterrorizada, Alex. —Isso eu já vi. E é um alvo fácil. Cat agitou os cabelos com nervosismo. —Sei-o, mas nego-me a viver em uma torre de marfim e a me converter em prisioneira de minha popularidade. Sempre existe a possibilidade de que um admirador se volte louco. A maioria só quer seu autógrafo, mas algum pode te matar. Assisti ao funeral de uma jovem atriz à que um admirador, que assegurava adorá-la, atirou nela quatro vezes. Moveu a cabeça negativamente e disse com tristeza: —Alex, já deve aprendender que quanto mais famoso você é, menos privada e segurança é a sua vida.


—Os escritores desfrutam de maior anonimato que as estrelas da tv. Aceitou sua afirmação, mas seguiu pensando em voz alta. —Gosto de ser popular, mentiria se dissesse o contrário, mas o pagamento um preço muito alto por isso. — Tinha-te sucedido antes algo similar? Explicou o que disse a Hunsaker sobre a correspondencia gerada por Passages. —Aprendi a distinguir entre cartas de admiradores normais e as que estavam escritas por pessoas desequilibradas. Às vezes ficava nervosa, mas em geral não fazia caso. Nenhuma me tinha inquietado tanto como estes recortes. Talvez seja uma tolice e estou exagerando, mas... —Aqui não há nenhuma ameaça direta — disse Alex. —Se tivesse, seria mais fácil descartá-la. Mas, desta forma, como se pode lutar contra o que não se vê? E ainda que não veja o perigo, o pressinto. Talvez seja que minha imaginação está trabalhando a passo forçado, mas ultimamente estou dêstroçada e não deixo de olhar a minhas costas. Sinto-me... —Espreitada. —Sim. Alex refletiu. —Que achas que significa tudo isto, Cat? —O que você acha? Vim para saber tua opinião. Em troca desses horríveis ovos mexidos. —Já comi piores. —Obrigado. Ficou calada, dando-lhe tempo para que ordenasse seus pensamentos. Não a tinha ridiculizado por ter medo, ainda que, em verdade, desejava que o tivesse feito. Queria que dissesse que não era necessário se preocupar pelas misteriosas mensagens. —Te direi o que penso, mas é só uma suposição — disse ele. —Faço-me cargo. —A pior hipótese... Cat assentiu. —Tantas coincidências mereceriam aparecer no livro Guiness dos recordes. —Nisso eu acredito também. —Separadas, as causas das mortes eram estranhas, mas acreditáveis. Agrupadas, começam a feder. —Entendo.


—Tendo em conta o tempo e a distância, a pessoa que te enviou os recortes não os encontrou por acaso. —Conhecia as mortes. —Inclusive é possível que fosse o responsável. Se dá por suposto que foram homicídios e não vontade divina. —Aonde nos leva isso? —Se é o culpado dessas mortes, e neste ponto não está nada claro, não é o assassino em série habitual. Não tem escolhido a suas vítimas a esmo. O destino tem escolhido suas vítimas. Não obstante, teve muitos obstáculos para encontrá-las e matá-las de forma muito ingeniosa. —Qual o motivo? —Isto é simples, Cat. O coração do doador. Disse o que ela temia. A hipótese de Alex coincidia com a sua ao pé da letra. —Essas três pessoas transplantadas receberam o coração no mesmo dia que tu. O psicópata conhecia a um dos doadores por alguma razão, não pode suportar que esse coração siga pulsando. É evidente que não sabe quem é o receptor, de modo que está eliminando todas as possibilidades. Um depois de outro, vai matando aos transplantados que receberam o coração nesse dia concreto, e sabe que, tarde ou cedo, acertará. —Mas por quê? —Para que o coração deixe de bater. —Isso eu já sei, mas por quê? Se for alguém tão próximo ao doador é mais que provável que fosse quem deu a permissão para o transplante. Por que teria mudado de ideia? —Qualquer sabe. Talvez acordasse uma manhã, meses após o transplante, e pensou: «Deus meu, que fiz» Aos familiares de doador obriga-se a tomar uma decisão a toda pressa e nas piores condições. Talvez sentisse pressionado para a doação. A idéia começou a obcecá-lo e já não podia seguir vivendo com seu sentido de culpa. Não leu O coração delator, de Poe? —Esse coração não está enterrado. Segue pulsando. —Bem, igual que a personagem do relato, a pessoa que te espreita o escuta continuamente. Isso o


atormenta e o está ficando louco. Não pode o suportar e quer o silenciar para sempre. —Faz favor... —gemeu Cat. Alex acariciou sua mão. —Ou podemos estar equivocados de cabo a rabo. Você pediu a minha opinião e esta é a que tenho. Espero estar equivocado. —Mas não acredita. Não contou, mas não fazia falta. Ela leu a afirmação em seus olhos. —Digamos que estamos na verdade. Como pode seguir a pista dessas pessoas, e chegar a você? Deu a mesma explicação que a Hunsaker a respeito do número de UNS. Após pensar sobre isso, disse: —Transplantes de coração ainda são notícia. É possível que encontrou as pistas que tinha tirando de aqui e de lá. Quem sabe? Até que não sabe que classe de tipo é, não sabes como atua. —Tem que ter dinheiro — disse ela. —Por quê? —Porque durante os últimos quatro anos viajou por todo o país. —Não podia pedir carona? Viajar num trem de cargas? Dispunha de um ano entre crime e crime, de modo que podia conseguir empregos temporários para manter-se enquanto, pouco a pouco, se aproximava da sua próxima vítima. —Não tinha me ocorrido isso. Pode ser qualquer um. —Um homem de negócios que só viaja em primeira classe ou um vagabundo. Seja quem for, esse filho de puta é inteligente e astuto. Uma pessoa adaptável, um camaleão. Pois, não teria conseguido se aproximar o suficiente dessas pessoas para assassiná-las sem levantar suspeita? —Como a mulher de Flórida. Atravessa uma porta de vidro em sua própria casa. Se a empurraram, tinha que estar com ela dentro da casa. - Ele pode ter se passado por encanador ou eletricista — aventurou Cat. — E ela ficou regando as plantas enquanto tem um funcionário em casa? —É possível. —Mas pouco provável. Eu imagino pedindo a alguém, a quem conhece e confie, que segure a escada enquanto ela rega a samambaia. Cat estremeceu. —Tem que ser um monstro.


—Mas não mata por prazer nem ao louco. Controla e está totalmente concentrado em sua missão, impulsionado pela vingança pela religião ou por qualquer outra motivação muito arraigada. —É curioso o que motiva às pessoas a fazer o que fazem, que às vezes parece não fazer sentido. Ela não se importa como possa afetar a outros seres humanos sempre que conseguem seus propósitos. Suas palavras tinham um duplo significado que Alex captou de imediato. —Continua achando que sou um imbecil. —Sim. Sem a menor dúvida. Disse com a mesma convicção que se tivesse perguntado se há que erradicar a fome no mundo. —Não mereço um pouco de consideração por ter sido sincero contigo? —Seguro que tua sinceridade era interessada. —Cat, não me julgue com tanta severidade. Não poderia tentar me entender? —Entendo-te perfeitamente. Estava com vontade e ali estava eu. —Não te precisava a ti para trepar! —gritou. —Pois devia ter se jogado em outra! Por que tinha tanta pressa, fez eu me apaixonar e o fez a propósito! Ia contestar, mas mudou de ideia. Coçou a cabeça e amaldiçoou para suas adentros. Por fim, disse: —Declaro-me culpado. Fiz-te achar que o impossível era possível. —Por que é impossível? Não queria contestar. —Alex, que é o que te corroe? —Não posso falar disso. —Tenta-o comigo. —Para valer, Cat, não gostaria de sabê-lo. —Seja o que for, o sexo não te vai ajudar a te sentir melhor. Olhou-a irritado. —Algum dos dois está lembrando erradamente. Eu não só me senti melhor, senão no sétimo céu. —Não quero dizer fisicamente. Claro que foi estupendo nesse sentido. Mas essa mentalidade masculina é incomprensível para as mulheres. Ao menos para mim. Não sabem distinguir o físico do emocional. Se vai bem de cintura para baixo, que mais dá o demais? As mulheres... —Poderia ser uma mulher — disse ele de repente. —Que?


—A pessoa que te ameaça pode ser uma mulher. —Melia. —Por que? Cat nem sequer deu conta ao dizer o nome em voz alta Agora já era muito tarde. —Uma garota da emissora. Tivemos vários confrontos Era a segunda vez que explicava esta manhã. —Me parece que a vi — disse Alex— Boas tetas, melena negra, lábios carnudos e longas pernas. —Vejo que não te escapaou nenhum detalhe. —É difícil que passe desapercebida. —Também é malintencionada e odiosa, mas não me imagino que possa ser uma assassina. —Qualquer pessoa é suspeita, Cat. Qualquer um capaz de matar —Não o creio. —Uma vez prendi uma criança de treze anos por ter liquidado a sua mãe enquanto dormia. O motivo? Tinha-a repreendido por colcocar muita sombra nos olhos. Era uma criatura de aspecto inocente com aparelhos nos dentes e um póster de Mickey Mouse em seu dormitório. Há assassinos entre nós dois que não suspeitamos. E este é mais esperto que um esquilo. —Supondo que tenha um assassino. Alex olhou as cópias de recortes. —Teria que denunciar ao Departamento de Justiça O que faltava. Devia de ser mais grave do que dava a entender. —E o que vão fazer? —Designar a alguém para que pesquise as mortes. —Isso supõe muito tempo e muita burocracia, não? —Seria a primeira vez que qualquer assunto que implique ao governo federal se movesse com agilidade. —Falta menos de um mês para o aniversário de meu transplante, E tenho o pressentimento de que serei a próxima vítima. Alex leu uma vez mais a xérox do obituário. —Quer que o encontre. Caso contrário não os enviaria. Existe uma finalidade por trás de seus crimes, mas não a segue nem por instinto nem por prazer; sente-se obrigado a seu retorcido ideal, mas sabe que está equivocado. Roga que o detenham. —Espero que o consigamos a tempo. —Por que fala no plural?


—Sou incapaz de fazê-lo sozinha, Alex. Não tenho contatos nem experiência. Tu sim. —O café da manhã está-me saindo caro. E se renuncio? —Não o creio; ainda há muito policial dentro de ti, Juraste cumprir com teu dever. Entregar uma placa não te libertou do compromisso. Se eu fosse uma desconhecida não me deixarias de lado; e se morresse de forma misteriosa nunca to perdoarias. Alex assobiou. —Sabes jogar sujo. —Estou-me pondo a tua altura. —Com sua habitual franqueza, Cat não se cortou—. És a última pessoa à que quisesse ter pedido ajuda, e não foi fácil vir aqui. Se tivesse outra opção, não teria recorrido a ti. —Vale. Farei o que posso. Por onde sugere que comece? —Aqui. Em Texas. Era evidente que não esperava uma resposta tão rotunda. —Por quê? —Não disse a ninguém, mas tenho uma pista sobre a origem de meu coração prestado. Na noite de meu transplante ouvi que uma enfermeira dizia que vinha de Texas. Sempre achei que meu coração é de aqui. Quis que parecesse só uma ideia sem definição e acrescentou: —Talvez foi isso o que me trouxe aqui. —Esta manhã você lançou a isca e é lógico que me fisgou. Insinuas que vieste a Texas porque teu doador vivia aqui? —Dean acha que esta classe de transferência espiritual é absurda. —Tu que pensas? —Estou de acordo. Levantou a sobrancelha para indicar que havia notado falta de convicção em sua voz. —Mas seguro que é um tema estimulante para um debate. —Talvez algum dia possa abrir um debate. Agora o que preciso é descobrir à pessoa que me ameaça. Texas é a única referência que tenho. —Bem. Há que seguir o procedimento habitual. —Alex: outra coisa. Pretendo saber se a família do doador tem tentado pôrse em contato comigo. —Em sério? Vai na contramão de tua decisão, não? Você me disse que não queria saber nada sobre


teu doador. —Já não tenho outra oportunidade. Estão pesquisando nos arquivos. To comunicarei, se é que há algo. —De acordo. Enquanto começarei por Texas e seguirei a pista. Também tentarei averiguar algo sobre essas mortes acidentais. Poderia ter outro denominador comum entre essas vitimas. Mas não posso te prometer nada. —Te agradecerei qualquer coisa que faças. Cat levantou-se e mostrou a geladeira. —Deixei alguma coisa para você comer. Acompanhou-a até a porta. —Cat, não vá embora. —Já terminamos de falar de negócios. —Mas não de nós. —Não há mais que falar, Alex. Reconheceu que é um imbecil e sabe que não quero só sexo. Ainda que haja algo que me intriga. Por que foste sincero tão cedo? Podia ter-me tido o que quisesse. Sofreu um ataque de culpa? Ou Arnie ameaçou em retirar os adiantamentos se você não se comportasse como um bom garoto? Em vez de responder à cáustica pergunta, apoiou a cara no dorso da mão. —Há um refrão que diz: «Tem cuidado com o que quer.» Eu queria me deitar contigo e esquecer do mundo. Assim foi, mas também consegui outra coisa com a que não contava. Deu-me medo. Algo que não sabia como solucionar Resiguiu o perfil de seus lábios com o polegar. —E que ainda não sei. Capítulo trinta e cinco —Assim é como estamos. Queria que você soubesse. Cat explicou tudo a Jeff Doyle e a Bill Webster e agora esperava sua reação. O escritório de Webster era tranqüilo, afastado da caótica atividade dos escritórios de noticiários. Ela e Jeff estavam sentados no sofá de couro cor creme e o presidente da emissora na cadeira do jogo. Sua postura relaxada era enganosa: o homem estava molesto. —Esse oficial de policia... —Hunsaker. —Não te fez caso?


—Mais ou menos — contou Cat — Especialmente após que o banco de órgãos me informasse de que a família do doador nunca tentou me localizar. Isto a deixou desiludida e alegre ao mesmo tempo. Contente por não ter que saber detalhes pessoais do doador. E desiludida porque já não poderia identificar quem podia ser seu assassino. —A indiferença do tenente Hunsaker é exasperante. Mas quando disse a Alex não lhe surpreendeu. A não ser que cometa-se um delito, que pode fazer a policia? Não há nenhuma causa de detenção, nem ainda que soubéssemos quem prender, coisa que não sabemos. —Algo poderá se fazer — insistia Jeff. —Estamos fazendo tudo o que podemos —contou Cat— Alex ainda tem amizades no Departamento de Policia de Houston, antigos colegas que olharão no computador e coisas pelo estilo. Alex dispõe de recursos que os cidadãos comuns, como nós, não temos acesso. Às vezes esquece-se de mencionar já que nem a policia nem a gente fala. Pode ser convincente. —Confias nele? —perguntou Bill. — Por que não teria que o fazer? Bill mostrou o envelope marrom que Cat levava as cópias dos recortes e do obituário. —Parece-me que esse envelope é motivo suficiente para estar alerta ante qualquer desconhecido que apareça em tua vida. —Alex Pierce não é um desconhecido — verbalizou Jeff. —Que sabes dele, Cat? —insistiu Bill—. Fora o evidente; isto é: que fisicamente seja atraente. —Ofende a sua insinuação, Bill. Não me fiquei babando por um homem lindo. Não estou cega pela paixão. —Não te enfades; só queria dizer... —Queria dizer que nós mulheres pensamos com o coração e não com a cabeça. Somos o sexo débil: nossa inteligência não dá para reconhecer a um lobo disfarçado de cordeiro. Levantou-se e dirigiu-se à janela. Do terceiro andar ela contemplava o tráfico para tentar acalmarse. Quando conseguiu deu a volta. —Me desculpe, Bill. Você se preocupa comigo e eu salto à primera de mudança.


—É lógico: está submetida a uma grande pressão. Isso está te afetando físicamente? —Fora algumas noites de insônia, não. —Poderíamos suspender o programa durante umas semanas. Até que este assunto se solucione. —Seguro que Sherry o entenderia — disse Jeff apoiando a sugestão de Bill. —De nenhuma forma. Não terá nada em troca da minha vida; seguirei fazendo o mesmo de sempre. Nenhum louco dirigirá minha existência. —Mas se a pressão emocional chega a pôr em perigo tua saúde... —Encontro-me estupendamente, em sério. Bill: quero deixar uma coisa bem clara. Pode guardar para você a sua opinião sobre Alex. Preciso de sua ajuda. Isso é tudo. Caminhou até o móvel onde a secretária deixou um serviço de café. —Quer uma caneca? Ambos declinarão o oferecimento. Cat serviu-se uma caneca sem pressas. Recordava a despedida na casa de Alex. Tinha tentado beijála, mas ela não permitiu. E saiu antes que os hormônios brincassem com ela e ofuscar sua mente. As insinuações de Bill não iam desencaminadas; talvez por isso a tinha molestado. Olhou a Bill e a Jeff e comentou: —Segundo parece, alguém decidiu me parar meu relógio. —Não é coisa de piada — disse Jeff. —Estou de acordo, Jeff — acrescentou Bill enquanto esfregava as mãos como um general a ponto de dar ordens às tropas. Enviarei uma circular para que não entre ninguém no edifício sem crachá e acompanhado de identificação. Cat de agora em diante, alguém te acompanhará quando entrars e sair do carro até a entrada de pessoal. —Bill, acho que... —Está fora de discussão. Jeff: quando tiver que filmar em externas, que um dos guardas os acompanhe. Podem ficar na van dos técnicos. —É preciso que alguém vá armado? —Boa ideia, senhor Webster — disse Jeff sem fazer caso do comentário de Cat. Sabia que protestar não serviria de nada, mas se negou redondamente quando Bill sugeriu colocar um vigilante em sua casa vinte e quatro horas por dia. —Isso sim que não.


—Séria a cargo da empresa. É um objeto valioso: não consertaremos em despesas com tal de te proteger. —Não sou uma obra de arte. Sou uma pessoa e nego-me a ter um gorila com traje barato rodeando em minha casa. Não quero viver como uma prisioneira em meu próprio lar. Se fizer isso, irei viver num hotel e ninguém saberá onde estou. Estou falando sério, Bill. Não penso em permitir que esse neurótico controle minha vida mais do que já exerce. Depois de uns minutos de acalorada discussão, Bill cedeu a imposição. Pouco depois, ela e Jeff saíram do escritório. Enquanto baixavam no elevador, Jeff disse: —Só quer te proteger, Cat. —Agradeço, mas temos que manter isto dentro dos limites e não exagerar. É provável que Hunsaker tenha razão. Deixei voar a imaginação e minha histeria foi contagiosa. —Não é histérica. Sairam e dirigiram-se à redação. —Talvez a palavra histeria seja muito forte. Não obstante, estou deixando que umas cartas anônimas me atemorizadar. —O senhor Pierce não deu achou que fosse obra de um louco. —É novelista. Talvez deva pensar melhor antes de falar com ele; tem muita imaginação. Seu trabalho diário é inventar crimes e violência. Aproveitou uma ideia minha e a enfeitou até converter em um filme de suspense. —Boa ideia. Escreverei um roteiro e o enviarei a Hollywood. Cat e Jeff deram-se a volta ao ouvir a voz de Alex. —Mas tens que interpretar o principal papel — disse a Cat em tom cordial. —Olá, Jeff. Ambos estavam surpreendidos do ver. Cat se recuperou primeiro. —Não te esperava. Falavam várias vezes por telefone desde a manhã do café da manhã em sua casa, mas não tinham se visto. Ele esteve em Houston e Cat não sabia que já voltara. —Encontrei algo que talvez valha a pena pesquisar. Nesta tarde tenho uma entrevista com um tipo que aceitou falar comigo. Talvez não saque nada, mas precisará sair da emissora. —Jeff, que temos para esta tarde?


—Pouca coisa. —Nada que não se possa adiar? Jeff negou com a cabeça. —Um momento, Cat. Siga seu plano de trabalho. Não vá a nenhuma parte. —Claro que sim. Vou ir contigo. —Não é uma boa ideia. Quando souber de algo te direi. —Não é suficiente. Ficaria louca esperando. Vou ir. —Não será divertido e pode ser perigoso. —Também o é ficar sentada esperando a que um demente pule sobre você. Vou tomar a medicação e volto. Caminhou até a porta do escritório e deu a volta. —Se foi sem mim saira te custar muito. Deixou-o esperando. Jeff recolheu os recados e os entregou a secretaria que ocupava o lugar de Melia e entrou no escritório. —Ligou para Sherry. —Que diz? Cat devolveu os medicamentos a gaveta e fechou com chave. —você Não irá gostar. Jeff franziu o cenho ao deixar a nota em cima da mesa. —Michael volta a estar com seus pais. —Deus meu! —Seu advogado convenceu um promotor influenciável para que retirasse os cargos. George Murphy voltou a se livrar da prisão Por um fio. Cat via a cara do menino e sentiu raiva e angústia ante a ideia de que voltasse a ser maltratado física e emocionalmente. — O Que falta para retirar a custodia do menino? Até que o desmenbrem? Como é possível que uma assistente social o permita? —Sherry disse-nos que ocuparia pessoalmente do caso. Outro indício de maus tratos e o menino não voltará a essa casa. —Sherry não pode fazer guarda as vinte e quatro horas do dia. —Não obstante, a assistente social disse que Michael correu aos braços de sua mãe quando a viu. E que ela chorava e se beijaram. Segundo parece, estão muito unidos. —Limita-se a sobreviver. A verdade é que sinto algo por Michael. Algum outro telefonema? —O doutor Spicer de Los Angeles. Quer ligue o antes possível. —O chamarei esta noite.


—Melhor agora. Disse à secretária que era urgente. —De acordo. Diga que ligue para ele. E vigia a Alex. Não deixe que se vá sem mim ainda que tenhas que o atar a uma cadeira. Enquanto esperava que passassem a ligação de Dean, separou o expediente de Michael dos demais. Ainda estava olhando sua fotografia quando a secretária anunciou que tinha a Dean ao aparelho. —Tudo bom? —disse com forçada alegria — Quanto me alegra te ouvir! —Como estás? —Muito bem. —Pois não o parece. —Bom, tive um desgosto. Resumiu o assunto de Michael. —Os advogados fizeram um trato enquanto tomavam um par de cervejas sem ter em conta o bemestar do menino. Deixemos isso. Tu és a voz tranquilizadora em um mundo incomprensível. —Não chegue a conclusões precipitadas. —Vá. Tu também tens más notícias? Parece-me que por hoje já tenho coberto a cota. Não podes esperar? —Não. —Pois adiante; não disponho de muito tempo. Na verdade já tinha que ter saído. —Trata-se de Alex Pierce. O coração deu um viro. —De Alex Pierce? —Ainda bem que já não sai com ele. Suponho que não lhe disse nada dos recortes. Cat vacilou, mas, a seguir, disse: —A verdade é que sim o fiz. E agora realiza uma espécie de trabalho de detetive para mim. —Deve de estar caçoando! —Pensei que com sua experiência como policia... —Cat, não confie nele. Não queria voltar de novo à mesma história. Como mimnimo, um noventa por cento da antipatía de Dean estava baseada nas ciúme. —Precisava sua opinião profissional; de modo que engoli meu orgulho e pedi sua ajuda. Aceitou em me ajudar a encontrar meu amigo anónimo antes que apareça morta por acidente.


—Cat, escuta-me. Fiz algumas averiguações sobre o passado de Pierce. Na biografia que aparece na contra-capa de seus livros deixaram muitas coisas. —Você fez averiguações? Por quê? —Não te enfades. —Não estou chateada; estou indignada. Não sou uma menina, Dean, nem você é meu anjo da guarda. —Alguém tem que o ser. Você se deitou com esse homem sem saber nada dele. —Sabia que queria me deitar com ele. Após um silêncio hostil, Dean disse: —Há algo mais que terias que saber. Algo que deveria saber da próxima vez que se meter em sua cama. Fez uma pausa. —Alex Pierce é um assassino sem escrúpulos. Capítulo trinta e seis Alex conduzia bem. Metido no intenso tráfico, fazia circular o esportivo a boa velocidade e com destreza. O veículo era pequeno, com assentos baioxs e fofod que convidavam à intimidade. O desejo sexual que Cat sentia por ele era como erupção permanente. Quanto mais consciente era disso, mais se enfurecia. —Estás muito calada — disse Alex ao adiantar a um caminhão. —O gato comeu minha língua. —Já. —Pois sim. —Ocorre algo ruim? —Fora o fato de um psicópata queira me arrancar o coração. Não. Cat suspirou e tirou umas mechas da frente. —Não tenho vontade de falar. —Vale. Alex concentrou-se no volante e na estrada. Cat estava irada. Após a informação de Dean, tinha saído do escritório para encontrar a Alex flertando com Melia. Caminho da saída, ele perguntou: —É essa a moça? —É essa a moça. —Parece inofensiva. Cat olhou-o com desdenho.


—Você estava deslumbrado mexendo o rabo. Mas foi ela que atirou Meus remédios na lixeira. —Não acho que seja um anjo, mas não dá o tipo de uma assassina Sabes onde trabalhou antes? —Não. — E algo de seu passado? —Não. —Terei que pesquisar a fundo. Por suposto, pensou Cat. De modo que, além de estar dominada pelo medo, em cima também pelo ciúme. Após o que Dean lhe disse de Alex, estava zelosa de Melia? Seu futuro era desolador. Depois de um momento em silêncio, ela disse: —Não me disse aonde vamos. —A um povoado ao oeste de Austin. Nas montanhas. Não esteve nunca ali? Cat negou com a cabeça. —É muito bonito. Parece-me que gostarás. —Não é uma visita turística. —Oxalá fosse-o. Estavam a ponto de entrar em Austin pela estrada 35, mas desviaram-se para o oeste por uma estrada nacional. Após outra meia hora deixaram atrás Wimberly. Durante os últimos vinte anos, a pequena população tinha atraído a turistas. Durante os fins de semana, os mercadinhos e artesãos faziam que a população se triplicasse. Quando regressavam a suas casas, as ruas voltavam a ficar vazias e o povo recuperava a vida a passo de caracol até o próximo fim de semana. Após deixar atrás o cartaz que marcava o limite do povoado, Alex tomou uma estrada que corría ao longo do Blanco River. —Que árvores são essas que crescem na orla? —perguntou Cat. —Cipreses. —Tens razão. É uma paisagem muito bonita. —Pensei em comprar um pedaço de terra por aqui e Construir uma casa. —O Que te impede? —Suponho que a falta de iniciativa. A estrada fez-se mais estreita e estava cheia de buracos. O esportivo deixava uma nuvem de poeira a seu passo. A certa distancia da estrada e dentro de um bosque de pecans, havia um edifício, no outro


lado do rio, onde as águas transparentes serpenteavam entre cantos rodados. O edifício não se ajustava precisamente à beleza natural da paisagem; Na verdade era antiestético. As paredes de láminas metálicas onduladas estavam oxidadas e, em uma delas, tinha pintada uma caveira com duas mornas cruzadas. Uma bandeira dos confederados empoeirada e maltratada, pendurava, lánguida, no mastro. Não tinha janelas. Nem nenhum cartaz, fora de um anúncio luminoso de cerveja que piscava sobre a porta primeiramente. Fora estavam estacionados dois caminhões e uma Harley-Davidson. Cat dispunha-se a fazer um comentário jocoso sobre o motel de má nota quando Alex entrou no estacionamento. Os pneus chiaram sobre a grama ao estacionar ao lado da moto. —Está de piada? —Vale mais que te cales. Inclinou-se sobre ela e abriu o porta-luvas. Um revólver esteve a ponto de cair no seu colo. Alex apanhou-o, abriu o tambor para assegurar-se de que estava carregado e voltou a fechar. —Já te adverti que não seria divertido. Se não quiser não precisa nem dizer. Cat olhou a entrada do edifício, duvidosa. —Não. Se aí dentro alguém pode esclarecer o assunto, quero o saber. —De acordo, mas terá que ficar calada e seguir o jogo, passe o que passe. Se começar a gritar não vai ser a única prejudicada. Entendido? Cat não suportava que lhe dessem ordens e abriu a porta do carro, furiosa. Alex agarrou-a pelo braço. —Entendido? —Entendido — contou no mesmo tom áspero. Acercaram-se à entrada e ela murmurou: —Se eu soubesse, teria posto algo mais adequado. Por exemplo, jaqueta de couro e emissoras. —Outra vez será. Estaria melhor se fingisse de verdade nervosismo. —Fingir nervosismo? Alex abriu a porta. Dentro, a atmosfera era tão densa que podia se cortar. Durante uns segundos mal pôde ver nada, mas os olhos de Alex devem ter acostumado de imediato, já que a empurrou até uma mesa e se dirigiu à bar.


Atendia-a um tipo gordo com olhos legañosos e uma barba negra e cheia que chegava até metade do peito. Os braços peludos como um urso repousavm sobre a tripa. Mascava chiclete enquanto olhava uma jogo de futebol em alvo e negro no televisor situado no ângulo da bar. —Duas cervejas — disse Alex—. Da que tenha no barril. O homem olhou-o fixamente, sem mover-se, durante uns segundos. Depois, como se buscasse aprovação dirigiu a vista ao outro extremo do balcão, onde outros dois clientes estavam sentados com a cabeça abaixada. Por fim, cuspiu o chiclete ao chão, agarrou as asas de duas jarras com uma mão, abriu a espita e encheu-as. Alex os agradeceu, pagou e voltou à mesa. Sentou-se ao lado de Cat. —Finge que toma uns goles. — Não darão conta de que não bebemos? —Sabem que não viemos beber. — Pois sabem mais que eu. Que estamos fazendo aqui? — Por agora, esperar. Rodeou-a com o braço e fez que se chegasse mais. Simulando que a mordiscava disse ao ouvido: —Não deixarei que te ocorra nada mau, prometo. Ela assentiu, mas jogou uma olhada aos outros dois clientes. Tinham dado meia volta no taburete e olhavam para nós trocando comentários baixinhos. Um terceiro cliente, no que Cat não tinha fixado, estava diante da máquina de jogos, no outro extremo do balcão. Só via as costas. Era esquelético e os magros jeans faziam sobras no traseiro. Tinha o cabelo reto, sujo e longo até o meio das costas. Dava a impressão de que jogava mais por aborrecimento que por ânsias de ganhar. Quando o último foguete se estrelou emitindo um som, deu a volta, levou a jarra aos lábios e caminhou a passo lento até a bar. Olhou-os, sentou-se em um dos taburetes e dedicou a contemplar a jogo de futebol. Cat murmurou: —Quanto tempo teremos...? — Silêncio! —Quero saber. — Disse para fechar o bico e me deixe fazer isto a meu modo!


A repentina alteração do tom de voz de Alex deixou-a pasmada. Olhou-o enquanto ele amaldiçoava baixinho e observava nervoso, acima do ombro, aos outros paroquianos e ao encarregado do bar. Alex tomou um gole de cerveja e dirigiu uma olhar de advertência ao levantar da mesa. Cat viu que se chegava o tipo cadavérico que esteve jogando. Alex pediu outras duas cervejas e sentou-se no taburete contiguo. —Perdoa, é Petey? Os olhos do tipo não sairam do televisor. —E tu que te importas? Alex inclinou-se sobre ele e disse algo que Cat não pôde ouvir, Petey soltou uma gargalhada. — Achas que sou estúpido? Olhou à bar. O encarregado emitiu uma pequena risada. —Saia — disse Petey a Alex indicando a porta. —Eh, ouve, tenho que... Petey deu a volta gritando como um gato que tirado da fila. —Saia da minha vista, tio. Apestas a bofia. —Pensa que sou policial! —exclamou Alex. —Importa-me um carajo se você é policial. Tu e eu não temos nada de que falar. Voltou a dedicar sua atenção à tela. Alex, como se estivesse desesperado, secou as mãos, nas pernas da calça. -Dixie disse-me... Petey voltou a cabeça, tocando quase na bochecha de Alex com sua mão cheia. —Conhece Dixie? Droga, por que não disse logo? Tu és o... —Sobrinho. —Droga. Petey fez uma indicação ao encarregado do bar. —Dá-me outra. Esperou ter a jarra e, então, indicou para Alex que apanhasse as outras duas. Caminharam até a mesa e Petey sentou-se diante de Cat. —Olá, nena. Enquanto olhava-a, bebeu a espuma da cerveja. —É teu fulana? —Sim. Cat não disse nada enquanto Petey e Alex trocavam episódios do Tio Dixie. O tom de suas vozes foi


apagando de forma tão gradual que Cat não se deu conta até que Alex. —Obrigado por ter aceitado me ver. —Se não fosse que você é, eu teria te matado. —Sei-o. Isto é importante. Se não fosse, não pediria a Dixie que preparasse o encontro. —Poderia dizer alguém o que é tudo isto? —protestou Cat. —Tranqüila, nena. Petey alongou a mão e beliscou a bochecha. Ela deu bofetada. Ele riu e a agitou no ar como se tivessem chamuscado os dedos amarelados de nicotina. —Com esse temperamento deve de ser uma fera na cama. —Acalma de uma vez, sim? —disse Mex o bastante alto cone para que os demais o ouvissem. Já tinham entrado outros dois clientes: um homem e uma mulher de aspecto tosco e duro que trocavam insultos amistosos com o encarregado do bar. —Explicou-te Tio Dixie de que quero que me fales? Petey assentiu. —Recordo-o como se fosse ontem. São coisas que não se esquece. Faz quase quatro anos um membro da liga bateu em um caminhão. Quase arrancou sua cabeça. Cat engasgou e Petey olhou-a. —0ye, seguro que é de confiança? —perguntou, preocupado a Alex —É de confiança. Segue. —Nós o conhecíamos como Sparky. Não sei qual era seu verdadeiro nome, mas era um tio legal. E sempre estava lendo. Poesia, filosofia, essas coisas. Tinha curso superior e acho que era do Leste. Imagino-me que vinha de família rica. Por seus gestos refinados, sabes? —E daí fazia na liga? —Talvez os pais se intimidaram por algo e o jogaram de casa. Ou surpreendeu a sua garota na cama com outro. Quem sabe. O caso é que esqueceu de seu nome, veio a Texas e nos encontrou. Todos nós gostávamos dele, exceto a Cyc. Nesse dia, ele e Cyc brigaram. —Cyc? —perguntou Cat. —O chefe da liga. Se chamava Cyclops porque tinha um olho de vidro. —Por que foi a briga? —perguntou Alex. —Por que ia ser? Por uma gata chamada Kismet, que tinha sido a garota de Cyc antes de aparecer Sparky. Fazia um par muito bonito e acho que tinha algo entre eles. Algo mais que sexo; essas coisas notam-se. O caso é que Cyc não gostava de perder.


-É curioso - disse baixando mais a voz — Cyc suspeitava que Sparky era um camelo. Ele não tomava drogas; só fumava maconha de vez em quando, mas nada de droga forte. —Era um camelo? —Que eu saiba, não. —O Que conduziu ao acidente e o que causou a morte? —Cyc ameaçou a Kismet e Sparky partiu para cima. Brigaram e ganhou Sparky. Fez saltar à garota à moto e partiram. Mas Cyc saiu depois deles e franca perseguição. Sparky estava a cento vinte quando chocou contra o caminhão, já que não tinha visto nada igual nem antes nem depois. O cabelo sujo mal se moveu quando agitou a cabeça negativamente. —Eu os tinha seguido colina abaixo. Imaginava que Cyc seria o primeiro em derramar sangue, mas o caminhão se adiantou. Sparky era uma enorme mancha de sangue pegajosa na estrada. Cat sentiu um estremecimiento, mas guardou silêncio. —Os enfermeiros recolheram os restos e os amontonaram na ambulancia. Os demais seguiram até o hospital. Para salvar a Kismet, Sparky tinha-a empurrado fora da moto antes do choque. Estava ferida, tinha um par de ossos rompidos e a cara destroçada. Cyc tinha conseguido esquivar do caminhão, mas perdeu o controle da moto. Também tinha ferida e contusões, mas estava consciente. -O tio de urgências falou-nos de que Sparky podia ser um doador e queria ficar em contato com o familiar mais próximo. Dissemos que, pelo que nós sabiamos, Sparky não tinha família. Mencionou algo de suposto, não sei; algo para se combinar com os órgãos. —Suposto consentimento — disse Cat baixinho. —Sim, isso. Mas um de nós tinha que assinar. A liga decidiu que, como Cyc era o líder, tinha ele que tomar a decisão. Disse: «Sim, já podem tirar o coração desse filho de puta e o jogar aos cães se quiser - Portanto, suponho que o fizeram. Sedento por causa do monólogo, Petey enguliu a cerveja antes de acabar seu relato. —Kismet esteve um par de dias inconsciente. Quando acordou estava histérica. Primeiro porque


Sparky havia morrido; depois, porque o haviam mutilado antes de enterrálo, Cyc dizia que o tio já não tinha cabeça e, portanto, que mais dava? Mas ela não deixava de gritar como uma louca. —Que ocorreu com ela? —perguntou Cat. Ele negou com a cabeça. —Após isso, a liga se dispersou. Mudei de ares. Olhou a Alex com toda intenção. —Vais dizer-me por que te interessa a história? —Ela tem um coração transplantado. Os olhos de Petey desviaram-se a Cat com renovado interesse. —Em sério? Você acha que tem o coração de Sparky? Cat não teve que o pensar duas vezes. —Não. Sei que não. Capítulo trinta e sete —Tinha entendido que não tinhas averiguado nada de teu doador —disse Alex. —É verdade, mas inclusive sem o relatório da agência teria sabido que Sparky não era meu doador. Cat olhou a Petey, que estava inclinado para diante escutando com atenção. —Não me puseram o coração de teu amigo. Verás: além do tipo sangüíneo, o tamanho é básico para um bom ajuste. Fechou sua pequena mão em um puno. —Precisava um coração deste tamanho. Sou pouca coisa para ter recebido o de um homem corpulento. Petey sorriu, mostrando os amarelados dentes. —Sparky não era corpulento. —Que? —Não me ocorre que tivesse em conta o tamanho do coração antes de seguir diante com isto? —a recriminou Mex — Petey, Diga-lhe o que disse a Dixie. —Sparky era quase um anão, uma miniatura. Não seria mais baixo se o tivessem serrado pelos joelhos. Sempre faziamos piadas por seu tamanho, especialmente Cyc, que por trás dizia que: como era possível que o lápis devia de ter entre as pernas fosse capaz de satisfazer a Kismet? Mas a verdade é que Sparky tinha o pênis de um cavalo de corrida. O que faltava de estatura o compensava por esse lado. —Como era de grande? — Ao menos um palmo — contou muito sério.


Cat negou com a cabeça. —Como era de alto? —Ah, metro cinquenta e cinco, metro sessenta, como máximo. —Grosso? —Droga, não. Ouve nena, é que não escutas? —Rara vez – disse Alex. —Estou dizendo que era magro. Ainda que, isso sim: forte e rápido. Sabia defender-se e colocou de costas a Cyc. Olhou, nervoso, acima do ombro de Alex. —É isso tudo? Temos que cobrir isto, me entende? —Obrigado, amigo. —Pelo Tio Dixie o que seja. Cat observou incrédula como Alex trocava várias notas dobradas por uma bolsinha de plástico cheia de pó branco. Colocou-a no bolso da jaqueta. Depois levantou e indicou que fizesse o mesmo. A modo de despedida, Petey disse: —Importar que me beba vossas cervejas? O sol tinha descido entre a linha de árvores das longínquas colinas. Era um formoso crepúsculo, sobretudo em comparação com o sinistro interior do bar. Cat inspirou profundamente para limpar as fosas nasais do cheiro de álcool, a fumo e corpos sem lavar. Entrou no carro e baixou a janela, ainda com vontades de ar puro. Alex se colocou ao volante e, sem pronunciar palavra, percorreram alguns quilômetros até chegar ao cruzamento. Cat observou assombrada como tirava a bolsinha do bolso, a abria e metia o dedo. A seguir esfregou as gengivas com o pó branco. Alex voltou a cara. — Por que me olhas dessa forma? Não é possível que te surpreenda; tu vens de Hollywood. —Conheci muitas pessoas que tomavam drogas como passatempo, mas sempre evitei qualquer contato com essa porcaria. —Não quer compartilhar comigo? —Não, muito obrigado. —Seguro? Pensei que depois, quando cheguemos a tua casa, podias fazer um pouco de chá. —Chá? —Sim, e adoça-lo com isto.


Derramou um pouco em seu colo. Ela olhou o pó branco com asco e a seguir a ele. Alex estava tomando o cabelo. Molhou o dedo no polvillo e levou à boca. Era a açúcar em pó. —Mentiroso — murmurou enquanto sacudia o açúcar da saia. Alex ria ao mesmo tempo em que calcava o acelerador. —Petey é um camelo. Mas é também agente secreto, e faz anos. Não estranharia que estivesse enganchado à neve, mas jamais venderia a um policial. Nem sequer a um ex-policial. —Como o encontrou? —Comecei a buscar certificados de morte e encontrei que no Texas ocorrreu diversas mortes por acidente durante as doze horas anteriores ao seu transplante. O da moto era um bom ponto de partida. Não me equivoquei, pois após pesquisar mais a fundo descobri que a vítima tinha sido doador de órgãos. »Então perguntei a um antigo camarada do Departamento de Policia de Houston se sabia de alguma agência que se tivesse infiltrado em uma liga de motoristas durante os últimos cinco anos. Comprovou-o e apareceu Tio Dixie, que se supõe que é o provedor de Petey, mas que, Na verdade, é o código de uma brigada especial antinarcóticos de Austin. »Falei com o chefe da brigada, que era relutante em preparar um encontro com Petey; só aceitou porque eu tinha sido policial. Corri um risco ao levar-te, de modo que espero que mantenha a boca fechada e não abra sua boca. Cat olhou-o com receio. —Teu encontro com Petey não tinha nada que ver com o tráfico de drogas. Por que tínha que interpretar essa cena? E por que ali? —De ter-nos encontrado em outro lugar, se alguém o tivesse visto falando com uma pessoa como eu, não drogada, levantaria suspeita. E não pode permitir. Perderia sua credibilidade, seus contatos, e é provável que a vida. Era melhor que eu parecesse um idiota que se atrevia a entrar em seu território para comprar cocaína. —Bom, pois sim parecia um idiota. —Obrigado. Tens apetite?


Cinco minutos depois estavam sentados frente a frente numa mesa quadrada com manta a quadros brancos e azuis. No centro tinha garrafas de tabasco e de Kectchup, um saleiro, um vidro de pimienta e um açucareiro. No jukebox soava a voz de Tanya Tucker. Na cozinha, à vista do público, estavam assando diversos pedaços de carne. Cat retomou a conversa onde a tinham deixado. —Não tens nenhum problema para te acomodar às circunstancias, verdade, Alex? Depositou uma rodela de limão no copo de água. —Em meu antigo trabalho era uma necessidade. —Hoje terias utilizado o revólver? —Com tal de salvar-nos? Desde depois. Como tirando importância, perguntou: —Já teve que disparar em alguém? Olhou-a uns instantes antes de contestar: —Quando se é policial pensa que está treinado para enfrentar qualquer situação. Mas não é assim. Ao surgir algo desesperado, faz o que pode. Sabia que não tiraria nada mais, de modo que ficou calada enquanto ele colocava açúcar no chá frio. —Cat, por que não me conta algo de tua vida? Sei que é órfã e que viveu em orfanatos, mas nada mais. Pensou que se contasse algo de sua vida anterior estaria mais predisposto a falar da sua. O que Dean tinha contado a preocupava, mas não pensava que fosse tão premeditado como ele pretendia fazer crer. Queria saber a versão de Alex sobre o ocorrido naquele fatídico Quatro de Julho, mas se perguntasse, ele não diria. A iniciativa tinha que sair dele. —Criei-me no sul. Sim, assim é — acrescentou ao ver sua cara de surpresa — No Alabama. Após anos de exercícios de dicção perdi o acento. —Como era a pequena Cat Delaney? —Magra e ruiva. —Fora isso. Cat apanhou a faca e começou a resseguir os quadros da manta com o fio. —Não é uma história agradável. —Não acho que tire o apetite. —Eu não estaria tão seguro. Começou por falar de sua doença.


—Curei-me do câncer, mas estive débil durante mais de um ano. Em um dia, encontrava-me tão mau que a professora me disse para ir para casa. O carro de meu pai estava estacionado, o que era raro a essas horas. Entrei... A garçonete serviu as saladas. —Entrei pela porta de atrás, esperando encontrar meus pais na cozinha. Mas a casa estava muito silenciosa. Mais tarde lembrei esse raro silêncio, mas naquele momento não pensei nisso. Em sua mente cobrava vida de novo aquela menina esquelética, de cabelo vermelho e indomável, pálida, as pernas escuá1idas assomando pelas calças curtos e as sapatilhas esportivas azuis movendo-se sem fazer ruído pelo corredor onde fotografias de quando era um bebê sorriam. —Estavam no dormitório. Alex removeu-se na cadeira e apoiou os cotovelos na mesa, mas ela continuava resiguiendo com a faca os quadros da manta, como um menino tentando pintar sem sair da margem. —Tendidos na cama. Pensei que dormiam, pois não era domingo. Depois de um momento compreendi o que passava. Corri a casa dos vizinhos gritando que algo horrível tinha ocorrido a meus pais. —Maricas! —exclamou Alex—. Ladrões? Cat deixou cair a faca. —Não. Papai disparou contra ela e depois de um tiro na nuca. Observou Alex com a mesma provocação com que tinha enfrentado às assistentes sociais, contestando a que se atrevesse a ter piedade. —Passei os oito anos seguintes em orfanato, enviada de uma casa a outra, até que pude me defender sozinha. —Como o fizeste? —Após o instituto, encontrei um emprego como datilografa em uma importante empresa, mas não ia chegar a nenhuma parte. As ascensões eram por idade e não por méritos. Tão injusto como o sistema de orfanato. —Que tinha de mau?


—Que tinha de bom? Não, isso é geralizar muito. A maioria de pais são carinhosos e entregues. É o conceito o que precisa uma reforma. —Evita que os meninos vão a orfanatos. —Sei-o. A salada já não lhe apetecia e apartou o prato. —Mas um orfanato é temporário, e os meninos, mais ainda os maorcinhtos, o sabem. Está em uma casa, mas não é tua casa. Permitem-te viver ali, mas só durante um tempo. Só está de passagem até que te fazes maior, ou te portas mau, ou as circunstancias mudam, e então o mudam para outra parte. »A mensagem que percebes é: «Ninguém te quer o suficiente como para ficar contigo para sempre», e depois de pouco tempo começa a achar que não vale nada. Como mecanismo de defesa se dedica a se comportar cada vez pior, a recusar pessoas e oportunidades antes que elas recusem a ti. —Esta é a análise de uma pessoa adulta. —Claro. Então não dava conta de por que fazia assim. Era só uma menina solitária que se sentia abandonada e que havia feito qualquer coisa por reclamar um pouco de atenção. Sorriu com tristeza. —Fiz verdadeiras diabruras. Não suportava depender da caridade. Por outra parte há gente, inclusive com boas intenções, que não tem nem a menor ideia de como tratar a um menino. »E isso inclui aos pais naturais. São pessoas que não sabem que estão fazendo dano. Uma palavra, uma olhar, inclusive uma atitude autoritaria, podem destroçar a autoestima de um menino. Nem tudo termina nos maus tratos físicos. —Por exemplo? —Poderia aborrecê-lo durante horas. —Não me aborrece. Olhou-o com suspeita. —Está tomando notas para tua próxima novela? As desventuras do Cat Delaney. Alex, a realidade é pior que qualquer ficção. —E dizisso para mim, que fui policial? Segue. Isto não é para publicar.


—Recordo alguns Natais - disse Cat, após pensar — Eu tinha treze anos e já sabia como funciona o sistema. Não devia confiar nele. Mas tinha outra menina no orfanato, de uns sete anos. E, além do mais, o casal que nos cuidava tinha uma filha da mesma idade. »As duas queriam uma Barbie como presente de Natal, e não falavam de outra coisa. Para ganhar os favores de Papai Noel faziam suas tarefas, deitavam cedo e comiam as verduras que colocavam diante. No dia de Natal, a filha do casal abriu sua caixa marca Mattel e apareceu a boneca loira, com um vestido de festa cor rosa e saltos altos. »A menina adotiva teve que conformar com uma cópia de Barbie muito inferior à original. Para ela, isto significava que nem sequer Papai Noel a considerava o bastante boa para ter uma Barbie para valer. »Eu pensei: Como podem fazer tanto dano a uma criança? Contavam mais dois ou três dólares de diferença de preço entre duas bonecas que a felicidade da menina? »Não estou em situação de julgar a ninguém, já que não sou mãe. Imagino que é um trabalho duro, mas não é tão difícil entender que penosa imagem de Papai Noel deve de ter menina. »Tenho visto exemplos como este muitas vezes. Revolta-me as injustiças contra os meninos, mas também aprendi que o mundo dos adultos não é melhor. A garçonete levou os restos da salada e serviu os lombinhos. —Céu santo! —exclamou Cat—. Isto se merece um aplauso. No prato tinha um clombinho envolvido em massa dourada. E a carne desfazia-se na boca. —E após sair do orfanato? Há um longo caminho até chegar a protagonista de um serie de televisão — disse Alex. —Era evidente que precisava de mais estudos e, ainda que economizasse até o último céntavo, não podia pagar uma faculdade. Apresentei-me a um concurso de beleza. O garfo de Alex ficou a meio caminho entre o prato e a boca. — Um concurso de beleza? Cat sentiu-se ofendida. —É tão espantoso? —Imaginava que alguém como voce considerasse que esses concursos são machistas e exploram à


mulher. —Nesse momento de minha vida, desejava sentir-me explorada conseguisse vinte mil dólares para poder estudar. De modo que comprei o melhor sutiã com aros que pude encontrar e acrescentei meu nome à lista de candidatas. Me passa os pãeszinhos? O pão era terno e mantecoso. —Pura delícia, quase um pecado — disse fechando os olhos e lambendo um pouco de manteiga que tinha ficado nos lábios. —Se o pãozinho parece-te quase um pecado, teria que ver a expressão de tua cara. Capítulo trinta e oito Alex não tirava a vista de seus lábios. —Dás-te conta de que todos teus movimentos são sensuais? —Dás-te conta de que tens uma mente fértil? —Sem dúvida. Mas tu és uma bomba ambulante. Por isso os homens se apaixonam por você. A frase, em vez de alegrá-la, molestou-a. —Não é verdade. —Posso dar três nomes. Não, quatro. —Diante. —Dean Spicer. —Desde que sai de Califórnia não somos mais que bons amigos. —Porquevoce quer assim. Ele segue apaixonado por você. O segundo é Bill Webster. —Aqui se engana. Bill adora a sua esposa. —Ela compartilha minha teoria. Cat negou com a cabeça. —Não é verdade, se Nancy acha que há algo fora de e respeito mútuo, também se equivoca. Quem mais? Não tomando isto a sério, mas sinto curiosidade. —Jeff Doyle. Cat soltou uma gargalhada. —Se não fosse homossexual, estaria apaixonado por você. Como é, se limita a beijar o chão que pisa. —Ouve, tens muita imaginação. Quem é o quarto?. Deixou que seu olhar penetrante respondesse por ele. —Esperas que eu acredite? —Não. —Estupendo, já que é mentira e os dois sabemos. A única coisa que quer é que volte a meter na cama contigo.


—Que possibilidades tenho? —Zero. Alex sorriu, como dizendo que não acreditava. —Ganhaste? —Que? Ah, o Concurso. Não. —Muito magra? —Muito estúpida. —Há uma explicação, não? Cat assentiu. —Durante os dias anteriores pediam que falássemos com os juízes. Um deles era um tipo empalagoso, ao que parece fotógrafo, mas com aspecto de vendedor de carros de segunda mão. Nos apalpava sempre que podia e falava com a cada uma de nós por separado para nos dizer mais ou menos o mesmo: pequena, você tem muita possibilidade de ganhar. Depois, anos fazíamos confidencias e chegamos à mesma conclusão unânime de que era um velho verde e um desgraçado. Mas, conforme chegava o sábado, dia do concurso, era a cada vez mais agressivo. »Já não nos fazia nenhuma graça, mas nenhuma das garotas queria ser a primeira no denunciar por medo a pôr em perigo sua puntuação. O muito baboso sabia-o, claro, e estava-nos fazendo chantagem. De modo que decidi... —Não me diga. Saístes como defensora de causas justas. —Sim. Pensei que tinha que desmascarar àquele tipo. Durante o ensaio com traje de noite me acurralou em uma esquina oferecendo-me sua ajuda para ganhar. Fiz ver que estava muito agradecida e, então, sugeriu que fora a ver a sua habitação Para discutir os detalhes. » Ficamos de nos encontrar a determinada hora, mas antes de entrar em sua habitação deixei um recado à presidenta do comitê dizendo que aquele homem tinha que a ver o antes possível. —Preparaste uma armadilha. —Sim, mas, por desgraça, voltou-se contra mim. A presidenta apareceu na porta e surpreendeu-o tentando desabotoar minha blusa. Ele inverteu os papéis dizendo que eu tinha me apresentado em sua habitação para lhe oferecer meu corpo em troca de uma puntuação alta.


»Disse à presidenta que, se não acreditasse, perguntasse às demais garotas às que esteve toqueteando durante toda a semana. Fazer, mas todas o negaram. Suponho que a coroa de pacotilla era mais importante que a verdade. »De modo que me consideraram uma puta que tinha comprometido a integridade moral do concurso e me desqualificaram. —Imaginei que dirias quatro coisas. —Na verdade fui muito concisa. O único que disse foi: voa se foder vocês todos? Eu serei uma atriz. Durante o resto da comida, e enquanto voltavam a San Antonio, explicou outros detalhes de sua vida. Após o fracasso do concurso de beleza vendeu tudo o que tinha exceto algumas preças de roupa e comprou um bilhete de ônibus para Los Angeles. Trabalhou como vendedora de perfumes de grandes lojas, ganhando o justo para pagar classes de interpretação e um apartamento infestado de baratas. Quando pôde, fez um álbum de fotos e se dedicou a visitar agências de jovens talentos. —Por fim, como caído do céu, me chamou um agente para me dizer que lhe interessava ser meu representante. Ao princípio pensei que era uma piada. —Já conheço essa sensação — disse Alex. Tinham chegado às redondezas da cidade e saíram da estrada —É exatamente o que pensei quando me chamou Arni Villella. Qual foi teu primeiro trabalho? — Um anúncio para o tv. Encerava um parqué. Pagaram-me bem. Depois fiz mais anúncios e interpretei algumas obras de teatro. Então meu agente inteirou-se de que tinha uma nova personagem em Passages e me preparou uma prova para o papel de Laura Madison. Já sabes o resto. — Aonde vamos? —perguntou ele. —Aos estúdios de televisão. Tenho o carro ali. — Estás segura? Sabia o que Alex estava perguntando e, se deixasse que o desejo sexual decidisse por ela, a eleição teria fácil. —Sim estou segura.


Enquanto dirigiam-se para ali, Alex a colocou a par dos resultados de sua viagem a Houston. —O Departamento de Justiça não se mostrou muito disposto a pesquisar as mortes dos três transplantados. O agente com que falei parecia hostil e indiferente. —De modo que estamos sozinhos. —Mais ou menos. Tal e como estão as coisas, nem sequer vão solicitar informação confidencial aos bancos de órgãos, os números UNS, etcétera. Até que não se determine que se cometeram crimes, não vão fazer nada. Por isso, como não podia seguir diante, comecei a revisar certificados de morte. —Obrigado, Alex. Fez verdadeiros milagres com o pouco tinhas Eu seria incapaz de encontrar a Petey. —Após o que disse sobre a estatura de Sparky, acho que vale a pena continuar, não te parece? —Por suposto. —Tentarei localizar a membros da liga, ainda que seja provável que seja uma busca inútil. Primeiro tenho que encontrar algum deles. E, se tenho sorte, teria importado tanto sparky a essa pessoa como para seguir o rastro de seu coração? As possibilidades são escassas. —Essa garota, Kismet, se pudesse encontrá-la, é possível que saiba algo. —Sim, mas estou seguro de que Kismet é um nome inventado. Também não acho que Cyclops seja o nome com o que foi batizado o líder. —Duvido que Cyclops esteja batizado. Cat ficou olhando ao vazio. Tal e como ele acabava de dizer, tinham poucas possibilidades de que pudessem identificar o seu perseguidor a tempo de evitar uma desgraça. Mas seguiria buscando qualquer via de saída: não podia cruzar os braços a espera de um acidente fatal. —Alex, disse que revisou os certificados de morte acidentais cujas vítimas eram doador. Como foi as outras? —Uma em um choque múltiplo na estrada de Houston durante no horário de pico. Ocorreram várias mortes, mas não sei se entre as vítimas teve algum doador. Paguei a um informente que está se ocupando disso. É ordem de um dos hospitais mais importantes.


»A outra foi um caso que tinha seguido de perto. Quando li o relatório forense lembrei que ocorrido pouco antes de seu transplante. Interessada, Cat o instou a continuar. —Durante meses foi uma notícia muito comentada a nível nacional. Como novelista me interessava porque o crime acarretou sequelas. Ocorreu em Fort Worth. Paul Reyes encontrou a sua mulher, Judy, e a seu amante, na cama. Reyes destroçou o crânio de Judy com um taco de beisebol, mas a equipe médica da ambulancia conseguiu que o coração seguisse pulsando até chegar ao hospital, onde diagnosticaram morte cerebral. Reyes tinha sido preso e, da cela, concedeu permissão para que tirasse os órgãos de sua mulher. — Condenaram-no? —Não. Aí vem o melhor. Seu advogado pediu mudança de jurisdição e o julgamento celebrou-se em Houston, onde o absolveram. —Por que? —Tecnicamente, retiraram o coração de Judy Reyes antes que deixasse de bater. Portanto, ele não a matou. O erro judicial, terem processado a Reyes por assassinato e não por homicídio não premeditado, teve muito que ver. E também os truques da defesa. Total: absolvido. — E não podiam o acusar de tentativa de homicídio? Ou de ataque com uma arma mortal? —Não se pode julgar a uma pessoa duas vezes pelo mesmo delito. Após o julgamento, Reyes desapareceu. Desde então não se soube nada dele. Cat estava intrigada: —Ajusta-se, verdade? Paul Reyes não suporta que sua mulher o enganasse com outro e está obssecado com a ideia de parar esse coração. —Tem-me passado pela cabeça. Observei-o enquanto liam o veredicto. Seus olhos tinham a olhar um possesso. Acho que queria matar a Judy e seu remorso era não conseguir. —A gente não desaparece sem deixar rastro. Alguém tem que saber onde está. —Já tenho começado a buscar a algum membro da fami1ia que queira falar comigo, mas a


comunidade mexicana se fecha diante os desconhecidos. Além do mais eles são contrários a transplantes. Cat assentiu. —A cultura hispana recusa a ideia. Sua crença é que um corpo tem que se enterrar intacto ou o difunto não encontrará paz nem descanso na outra vida. Tinha vários hispanos entre a população de transplantados em Califórnia. Estão trabalhando para romper essa barreira, mas o sucesso é ainda muito limitado. De modo que é provável que a decisão de Reyes não fora bem adotado pela família de sua esposa. —Seguirei buscando. —Meu grupo sangüíneo coincide com o de Judy? —Sim. —Portanto, pude receber seu coração. —É possível, mas há que ter em conta o fator tempo. Chegaram ao estacionamento e estacionaram ao lado do carro de Cat. AIex parou o motor, passou o braço pelo respaldo do assento e olhou-a cara a cara. —Reyes agrediu a sua esposa ao meio dia. Teu transplante levou-se a cabo a primeiras horas da manhã seguinte. —Mas quanto tempo seguiu pulsando o coração de Judy Reyes antes que declarassem sua morte cerebral? Puderam ser horas, não? Qual a hora exata que retiraram os órgãos e a hora do meu transplante. —É só uma especulação. Desagradada por seu pouco entusiasmo, disse: —Isto tem muitas possibilidades, por que te negas ao admitir? —Estamos buscando fatos e não possibilidades. Não chegues a uma conclusão só porque te convém. Há que pesquisar a fundo. —Bom, pois então não percas o tempo. O relógio avança para a data de meu aniversário. —Sou muito consciente disso, Cat. Estás assustada? - Claro que estou assustada. —Vêem viver comigo até que o encontremos. —Parece incrível que tenhas o valor do insinuar. Nem pensar, senhor Pierce. —Por que não?


—Porque não quero. —Mentirosa. Cat viu o sinal de alerta. Reconhecia que tinha muitos defeitos, mas mentir não era um deles. Na verdade, desprezava as mentiras e aos mentirosos. Não teria podido a ofender mais. —Dás muito valor a isso que tens entre as pernas, verdade? Nós, pobrecitas e frágeis mulheres, nos pomos a tremer ante a ideia de ficamos nisso. É isso o que pensas? —riu com desdém—. Seguro que foi o estúpido orgulho machista de seu marido o que levou Judy Reyes a buscar um amante. Com a rapidez do raio, Alex Tirou o revólver da camiseta e apontou à cabeça de Cat. Capítulo trinta e nove Cat pensava que tinha disparado até que se deu conta de que os três golpes secos não eram tiros, senão alguém que chamava à janela do carro. Voltou a cabeça e viu um segurança com o nariz quase pregado no vidro. Apressou-se a abrir a janela. —Oh, senhorita Delaney, é você — disse surpreendido e aliviado— Pareceu estranho ver um carro desconhecido ao lado do seu e vim dar uma olhada. Está tudo bem? —Tudo está bem, obrigado. —O senhor Webster deu ordens de que estejamos alerta a qualquer coisa suspeita. Acima do ombro de Cat olhou a Alex. Tinha escondido o revólver? —É você amigo da senhorita Delaney? —perguntou o guarda. —Sim — contou Cat antes que Alex respondesse — Acompanhou-me a recolher meu carro. —Ouça, amigo, já nos vamos. Importar se nos deixar a sós? —disse Alex. —Sim, só estávamos falando — acrescentou Cat — Nos iremos em seguida. —Bom, de acordo. Com ares de importância, o guarda ajustou o cinturão e a pistola, como para recordar Alex, ou a si mesmo, que ia armado e era perigoso. A piada em toda a emissora era que os guardas só tinham uma bala e faziam rodízio para a levar. O mais seguro era que a arma não estivesse carregada. A de Alex sim. —Estarei aí. Chame-me se precisar, senhorita Delaney.


Olhou de novo a Alex e depois voltou ao edifício. Cat subiu o vidro. Tinha conseguido conter-se diante do guarda, mas agora ajustaria contas com Alex. —Estás louco? Como te atreves a apontar com uma pistola carregada! Deste-me um susto de morte! —Não apontava a ti. Só tentava te proteger. —De que? —De uma sombra que tenho visto sair da escuridão e acercarse à janela. Não sabia que fosse um guarda. —Terias podido esperar a sabê-lo antes de sacar uma pistola. —Que é a melhor maneira de que te matem: esperar e deixar que o outro se diante. —Claro, teu sistema é melhor. Primeiro disparar e depois fazer perguntas. Não é bem como o fizeste o Quatro de Julho? Quando mataste àquele homem em Houston? Suas palavras ressoaram dentro do carro e, a seguir, seguiu um silêncio sepulcral só interrompido por sua ofegante respiração. O rosto de Alex parecia talhado em pedra e seus olhos cintilavam. —Quem te disse isso? Cat lamentou no instante em que pronunciou a frase. —Alex, eu não... —Quem te tem dito? —Dean. Esta tarde. —Seguro que o filho de puta tem carregado as tintas. Deu-te todo luxo de detalhes, verdade? —Ao contrário, foram bem escassos. Alex emitiu um bufido desdenhoso. —Gostaria de conhecer tua versão, Alex. —Outra vez será. Alongou a mão e abriu a porta para que ela saísse. —Alex, perdoa. Não deveria ter falado do tema. Não desta forma. —Já é muito tarde. Será melhor que te vás. Cat vacilou, mas era evidente que estava furioso e sem nenhuma vontade de se defender. Saiu e fechou a porta. Ele pôs o carro em começar e saiu do estacionamento, a deixando sozinha. A Cat acordavam-na de um sonho profundo, mas inquieto. Antes que pudesse gritar, puseram uma mão na boca. —Sou eu.


Falava baixinho e rouco, mas ela a reconheceu no mesmo instante. —Preciso-te. Estava deitado ao seu lado, cobrindo o corpo dela com o seu. —Cat, dou-te medo? Ela negou com a cabeça. Apartou a mão de sua boca e a substituiu pelos lábios. Ao princípio a beijou com macieza; depois, com maior intensidade. A seguir, apoiou os lábios em seu pescoço. —Não me recuses. -desabotoou o cinto e as calças e conduziu a mão dela até o interior. —Foi uma noite péssima. Morro de vontade de ti, querida. Utilizava a mão de Cat para acariciar o pênis já em ereção e gemia de prazer enquanto o polegar deslizava pela pele tensa. Baixou a cabeça e acariciou os seios acima da camisola. —Desejas-me e sabe-lo muito bem. Verdade, Cat? Não é assim? Ela balbuceava, misturando protestos e assentimento, até que, com os pés, apartou a roupa de cama. Enquanto desabotoava a camisa, notava a pele ardente do homem ao tato das pontas dos dedos, dos lábios. Quando por fim esteve nu ainda por cima dela, o envolveu com um acolhedor abraço. Alex levantou a camisola centímetro a centímetro até a tirar pela cabeça e atirar a um lado. Suas mãos percorriam o torso desde o pescoço até os quadris com os dez dedos abertos, acariciando o máximo de superfície ao mesmo tempo. Afundou a cabeça na macieza do ventre. Ela apanhou a cabeça e fechou as pernas ao redor de suas nádegas. Alex beijava o umbigo e esfregava a bochecha contra o espesso ninho de cabelos encaracolados. Com a língua desenhou a estría que separa o ventre da ingle. Ela fincou os pés no colchão enquanto arqueava as costas e levantava os quadris. A mão separou as pernas e introduziu dois dedos. Cat gemeu de surpresa e prazer. —Agüenta — murmurou ele — Ainda não. Quero estar dentro ti quando chegues. Mas já estava úmida e os dedos de Alex eram hábeis. Tentou controlar a excitação desbordada até que já não pôde mais. Dava a impressão de que ele sabia o momento justo de sua rendição, já que a penetrou às primeiras


contrações. As paredes vaginais fecharam-se em torno de seu sexo. —Oh, Deus, sim! Instantes depois, saciado, derrubou-se sobre ela; ambos banhados em suor. Depois de um momento, ele se ajoelhou, mas ela não estava disposta ao deixar sair. Incorporou-se de cintura para acima a fim de beijar o pubis do homem. Entrelaçando seu cabelo, ele se colocou de costas e a levou consigo. Os mamilos de Cat se ergueram ao contato de sua língua e baixou a mão para comprovar que Alex já voltava a estar preparado. Pouco a pouco, ela introduziu o membro viril em seu interior enquanto ele a olhava com os olhos entrecerrados, Cat, sentada galopava, com os seios erguidos e sem falso pudor, estava extasiada. Ele umedeceu os dedos com saliva e traçou um círculo ao redor dos mamilos de Cat, que se endureceram ainda mais pela caricia. A outra mão de Alex voltou a brincar com os cabelos do pubis até encontrar seu centro. Foi, para ela, como cair fulminada por uma descarga elétrica. A cabeça caiu para atrás e não podia deixar de empurrar os quadris. O dedo do homem continuava esfregando a pequena e escorregadiça protuberância. Ela já tinha perdido o mundo de vista, e Alex a segurou pelas nádegas para mantê-la colada a ele até que, uníssosso, conseguiram um orgasmo violento e demolidor. Caiu sobre o torso do homem, Ofegante e com o coração a ponto de saltar do peito. Alex manteve-a abraçada e falou ao ouvido ainda que ela não sabia que ele estava dizendo. Cat acordou com a cabeça aos pés da cama. Tinha-a tampado com um lençol e uma manta, mas o resto de roupa formava um bagunça no centro. Sentou, tirou os cabelos da cara e olhou a seu redor. O dormitório só estava iluminado pela grisácea luz da manhã. A casa permanecia silenciosa. Sabia que estava sozinha. Em algum momento, entre o êxtase e o sonho, Alex tinha saído Ou ela o tinha sonhado? Não. O interludio erótico tinha sido real, já que, em seu corpo tinha ainda agridoces impressões para demonstrar. Capítulo quarenta


Passou-se três dias antes que voltasse, a saber, dele. Nem tinha chamado nem tinha tentado vê-la. Com freqüência, durante esses três dias, pensou que talvez a pressão das últimas semanas tivesse sido ruins, e a presença de Alex em sua cama, que provocou ser a experiência sexual mais intensa de toda sua vida, era só produto de sua imaginação. Mas ela sabia que tinha ocorrido. Se havia alguma dúvida, dissipou-se quando ele colocou a cabeça dentro da unidade móvel onde Cat estava sentada com Jeff discutindo os detalhes da reportagem que filmariam. Golpeou na porta aberta do caminhão e ela levantou o olhar do papel que estava lendo. Jeff se virou. —Olá, senhor Pierce — disse mostrando surpresa. Alex devolveu a saudação, mas sem deixar de olhar a Cat. Sua reação ao vê-lo foi de vinheta cômica. Ficou boquiabierta e a caneta de Jeff escorregou dentre os dedos, caindo de seu colo até chegar ao chão. —Tenho que... Jeff balbuciou uma desculpa e deixou-os sozinhos. Alex seguia olhando-a. Levava jeans, uma camisa de algodão sem passar com as mangas dobradas e o cabelo despenteado. —Olá, Alex, que te traz por aqui? Alex voltou a cabeça e olhou para a equipe de produção que instalava a câmera de vídeo no parque. O realizador e Jeff estudavam os ângulos de filmagem, o ajudante testava os microfones, e o guarda, sobre o que tanto tinha insistido Bill, estava apoiado em uma árvore, fumando. —Não te tinha visto trabalhando em externas. —Não é tão divertido como pode parecer quando assistem em casa. —Gostaria de ficar por aqui, se não te importar. De modo que não iam falar disso. Vale. Se ele queria dar a impressão de que a orgía jamais tinha existido, pois muito bem. Era provável que fosse melhor assim. Tinha ido a ela em plena noite, desesperado e rogando libertação física e emocional: um sinal de que tinha debilidades como qualquer outro ser humano. Ela respondeu sem a menor resistência: um sinal de sua vulnerabilidade.


Ambos tinham demonstrado uma ausência total de autocontrole e sentido comum. Não podia o condenar por usá-la sem condenar a si mesma por se deixar usar com tanta facilidade. Pára que abrir um debate? Não era melhor aparentar que não havia acontecido e poupar a discussão? Além do mais, não estava muito segura de poder falar com franqueza a plena luz do dia do que tinham feito na escuridão. Se ruborizava só do pensar. —Não me importo — disse — Mas seguro que estará farto antes que terminemos. —Parece que não. Chegou Jeff. —Cat, acaba de chegar Sherry com Joseph. Colocou o tênis que antes tinha tirado. Alex ajudou-a a descer do caminhão. —Obrigado. Cat tentou comportar-se com naturalidade diante de Sherry, Jeff e a equipe de produção, ainda que ainda seu joelhos estivessem tremendo pela presença inesperada de Alex. Joseph a fez esquecer-se dele. A paralisia tinha detido o crescimento do garoto; tinha sete anos, mas aparentava quatro. Levava aparelhos ortopédicos, ainda que caminhasse sem ajuda de ninguém. Tinha as orelhas de soplillo e óculos com lentes grossas distorciam o tamanho de seus olhos. Sorria enquanto avançava para Cat. —Vou sair na tv —anunciou muito orgulhoso. Sherry Parks soltou uma gargalhada. —É melhor que avisá-la, Cat. É um sedutor nato. Vai-te com olho ou te roubará os planos. —Alegro-me de voltar a ver-te, Joseph. Tinham sido apresentados na festa de Nancy Webster. Agora o olhou risonha e acrescentou: -Mas se tentar me ofuscar, vais ver o que é bom. Eu sou a estrela, não o esqueças! —Vale — contou Joseph, rindo—. Ele move a câmera? —Indicou a Alex. —Não, tem vindo a ver como rodamos. É Alex Pierce, Joseph. Escreve livros. —Livros? Para valer? —Muito gosto, Joseph. Alex apertou a mão como se fosse um adulto.


—É você muito alto. —Não tanto. Olha as botas. Levantou o pé e mostrou o salto. —Se as tirar meço um e sessenta. O riso de Joseph surgiu como as borbulhas de uma garrafa de champanhe. Cat fez uma nota mental para que seu riso aparecesse na reportagem. Quem poderia resistir a essas gargalhadas? Fez as apresentações oportunas e Jeff anunciou que iam começar. Cat tomou a mão de Joseph e sentaram-se um ao lado do outro no banco. O ajudante de direção colocou os microfones e, primeiro, gravaram a entrevista. Conversou com o menino de coisas intrascendentes até que se esqueceu da câmera e esteve relaxado. —Gostaria que alguém o adotasse, Joseph? —Claro. Poderia ter irmãos e irmãs? —É possível. —Seria estupendo. Todas suas respostas eram simpáticas e entrañáveis. Voltaram a filmar a entrevista de outro ângulo, de forma que ao montá-la desse a impressão de que tinha ao menos duas câmeras. Depois caminharam entre as árvores, enquanto outro técnico seguia-os com a câmera ao ombro, até que Jeff anunciou que já tinham todo o material que precisavam. —Joseph, toca aqui. Se alguma vez pensar em dedicar ao mundo do espetáculo eu serei seu agente. Trato feito? O sorriso do menino era radiante. Cat agachou-se e abraçou-o. —Esperemos que tudo saia bem. —Sim, mas não se preocupe, Cat. Se ninguém me adota, não me chatearei contigo. A Cat formou-se um nó na garganta. O pai de Joseph tinha desaparecera antes que ele nascesse; sua mãe era uma drogada depressiva a quem tinham retirado a custodia quando ele tinha três anos. Desde então tinha vívido em centros de adotivo. Merecia o amor de uma família, e com seu caráter e senso do humor seria a alegria de qualquer casal. Enquanto Sherry o levava, Cat seguiu saudando com a mão até que se perderam de vista.


Alex secou o suor da frente com a manga da camisa. —Tens razão; não é tão divertido nem tão fácil como parece. Duas horas de trabalho para um programa de dois minutos? —Sem contar a montagem. E ainda bem que Cat rara vez necessita mais de uma tomada. Ofereceu um sorriso coqueta. —Vamos? —gritaram do caminhão. A equipe já estava carregada, e a câmera, ao volante,haviam ligado o ar acondicionado. O guarda de segurança apressava o cigarro, disposto a saltar ao veículo. Nem tinha acercado a Alex nem tinha perguntado o porque de sua presença ali. Bill estava jogando fora o dinheiro, pensou Cat. Jeff caminhou para o caminhão, mas ela ficou e olhou a Alex com perspicacia. —Não veio aqui com este calor sofocante só para ver uma filmagem, verdade? —Foi interessante. Cat pôs-se em jarras. —É um pouco crescido para excursões instrutivas. Vamos, Pierce. Que passa? —Encontrei a Cyclops. Estava abaixado ao lado da Harley, mudando uma bujía. Na verdade não fazia falta, mas era uma forma de se distrair. Se tudo na vida funcionasse tão bem como sua moto, seria um homem feliz. A Harley era a única que acatava suas ordens sem reclamar. Montar nela nunca deixava de excitá-lo. Kismet era outro assunto. Olhou-a com desprezo acima do ombro. Estava sentada ao lado de uma carteira de plástico amarelo que tinha arrastado até a sombra de um cedro esquelético. Poucos anos atrás, a garota era rainha e ele era a inveja de todos os tios. Tinha um temperamento ardente e salvagem e não temia a nada. Nem sequer a ele. Naqueles tempos, se ele fazia algo que não gostava, se jogava em cima, às vezes arranhando e mordendo. Seguiam brigando até acabar na cama. A violência punha-a a cem; quanto mais, melhor. Retorcia-se, empurrava e gritava como uma louca quando acontecia. Agora, os olhos negros que antes queimavam estavam apagados, mortos. E era como trepar com um


cadáver: suportava-o mas não participava. Inclusive seu aspecto era diferente. Escondia as tatuagens, o cabelo preso, e não recordava a última vez que colocou algo que realçasse suas curvas. Também não falava igual. Tentar ressuscitar o anterior Kismet tinha-se convertido o objetivo da vida dele. Ela era um desafio constante. A tigresa estava ali dentro, em alguma parte, e, por trás de sua expressão vazia, a verdadeira Kismet ainda se troçava do mundo. Ele o sábia; o único que tinha que fazer era encontrar a maneira da acordar. Valia a pena tudo o que ela o tinha feito passar? Não. Já a havia tirado de cima anos atrás de não ser por um motivo de força maior: é o que ela queria. Ela teria gostado que brincasse, e só por de isso tinha decidido ter até que as ranas acreditassem cabelo. Já a deixou escapar uma vez e o tinha posto em ridículo. Mas ele tinha rido o último e melhor. Quando Sparky saiu de suas vidas, voltaram a começar onde o tinham deixado. Bom, não tudo, já que não era a mesma. No geral, olhava-o como se não existisse, e o único que a tirava de sua indiferença era o medo. Quando estava aterrorizada era tão maleável como a argila. De modo que assustá-la converteu em seu passatempo favorito. Levantou e limpou as mãos com um trapo vermelho. —Entrem em casa. Sua brusca ordem a sobresaltou. Essa era outra coisa que o fastidiava... Quando ficava ensimismada. Tinha um mundo diferente, fechado para ele. —Dentro faz calor, Cyc. Aqui, ao menos corre um pouco de brisa. —Disse-te que entres. —Pára que? —Não to imaginas? —perguntou em tom cantado. Atirou-a do braço com força para obrigá-la a levantar-se. Ela gritou de dor. Naquele momento, estacionou um carro ao lado da Harley. Desceu um homem e olhou-os. Cyc soltou o braço. —Quem é esse? —Não sei. Era um tipo alto e delgado caminhou para eles. Tinha os olhos calculistas e um sorriso forçado na


boca. Um policial. Cyclops reconhecia-os a uma légua. Seguro que levava uma arma embaixo do banco. —Quem é e o que quer? —perguntou Cyc enfrentando ao visitante com agressividade. —Busco a alguém chamado Cyclops. És tu? Cyc cruzou os braços tatuados sobre o peito. Ao sorrir, mexeu a cabeça, fazendo tintinear a cruz de prata que pendurava da orelha. —E daí se o sou? —Tu és Kismet? —Sim. —Fecha o bico. Não diga nem uma palavra. Olhou ao homem e sabia por intuição que traria problemas. —Quem é você? —Alex Pierce. —Não sei quem é. —É lógico. Mas vem comigo alguém que quer te conhecer. Voltou ao carro e abriu a porta do passageiro, onde trocou algumas palavras com alguém antes de que saísse. O último sol da tarde iluminou seu cabelo e Cyc reconheceu-a num instante. —Por todos os santos! —exclamou Cyc deixando a um lado sua agressividade. O tipo não saia de perto da ruiva. Ela não parecia tão cautelosa. Uma moça com garras, pensou Cyc. Pequena mas valente. Via-se a simples vista. —Chamo-me Cat Delaney. —Já sei quem és. Veio buscar a menino? Kismet levantou inesperadamente, deixando cair a bandeja com missangas que tinha sobre os joelhos. —Não vou permitir que voltem a lhe o levar! —gritou. —Mamãe? Cyc olhou a suas costas. O menino estava por trás da porta de vidro com o dedo na boca. Olhava-os com aqueles olhos abertos e frios que Cyc dava arrepios. Dispunha-se a dizer-lhe que entrasse quando a ruiva afogou um grito de surpresa. — Michael! Capítulo quarenta e um Cat ficou pasma. O menino abriu a janela e correu a esconder a cara na saia de sua mãe.


—É você é a mãe dele? —perguntou Cat. Ela assentiu. Cat olhou o motorista. —Pois você deve de ser George Murphy. —Não veio por isso? Levar ao menino para que o adotem? Kismet começou a gimotear e Cat acariciou seu braço. —Não estou aqui por Michael. Cyclops franziu o cenho. — E a que veio? Tal e como disse Sherry, Michael e sua mãe pareciam estar muito unidos. O menino se lembrou de Cat e olhava-a com um tímido sorriso enquanto seguia abraçado às pernas de sua mãe. Cat olhou ao motorista de cima abaixo. —Enviou-me cartas ameaçadoras? Se for assim, vim para advertir que coloquei o assunto nas mãos da policia. Se receber outra... —Ouve, cabrona... —Cuidado com o que diz. Alex não levantou a voz, mas esta era bastante ameaçadora como para silenciar a Cyclops. Ainda que até aquele momento não houvesse intervindo, Cat sabia que não lhe escapava nada. —Isto não tem por que se complicar — disse — Limita-te a rêsponder à senhora. Enviou por correio recortes de jornal? —Não sei de que caralho está falando. Recortes de periodico? Deixe-me em paz ou... —Vocês eram amigos de um garoto chamado Sparky — interrompeu Cat. Kismet murmurou baixinho: —Sparky? Que passa com Sparky? —Fecha o bico de uma vez — gritou Cyc. Dirigiu seu olhar hostil a Cat. —Se está buscando a esse anão, é melhor que esqueça. Faz anos que ele morreu. —Sei-o. —Pois por que então veio encher meu saco? —você deu a permissão para que tirassem o coração para transplante. Fizeram-me um transplante poucas horas após que ele morresse. É possível que seja o mesmo. Kismet deixou escapar um grito sofocado antes de tampar a boca. E saltaram-lhe as lágrimas. —Fiquei sabendo que era muito unida a ele.


Kismet assentiu. —Isso são águas passadas. Que quer de mim? —disse Cyc. Contou Alex: —Três pessoas que receberam um novo coração no mesmo dia que ela, morreram. Achamos que o assassino era membro da família do doador, que mudou de ideia. —O assassino deixou claro que sou a próxima da lista — acrescentou Cat. —Vá, que pena — contou Cyc com sarcasmo. Alex ia dar um passo à frente, mas Cat segurou-o pela manga. —Não acho que saibam nada, Alex. —Ele a reconheceu de imediato. Vi em sua cara. —Você apararece na tv! Pensa que sou idiota e cego? —gritou Cyclops. —Penso que é uma droga — respondeu Alex. —Tranqüilos. Os dois. Michael está assustado. Cat desviou o olhar a Kismet. —Tetou alguma vez entrar em contato com a pessoa que recebeu o coração de Sparky? —Sim. Cyc se virou. —Que droga está dizendo? Como se não tivesse ouvido, Kismet continuou dialogando com Cat: —Um ano após a morte de Sparky fui ao hospital. Disseram-me que chamasse ao banco de órgãos. E deram-me o número de telefone. Cyc levantou um dedo e ordenou: —Cala-te. Não diga nada. E onde estava eu enquanto escapaste para ir ao hospital? Ela seguiu sem lhe fazer caso. —Chamei ao número que me deram. A mulher que se pôs ao telefone era amável, mas, como eu não era um familiar de Sparky, não podia me informar. Implorei. Queria saber se... —Já está bem! Cyc levantou a mão e a esbofeteou. Ainda que Cat quisesse, não poderia ter evitado. Alex lançou-se sobre Cyc, agarrou-o pelo pescoço e lançou-o contra a parede exterior da casa. —Se voltar a batê-la eu o enviarei a prisão, camarada. Mas antes vamos ter a briga que está buscando. Arrancarei seu olho bom e mejarei no oco. Quando terminar contigo, além de idiota será cego. Preferirá que te encerrem a voltar a se ver comigo.


A cara de Cyc estava torcida pela dor. O joelho de Alex pressionava suas genitais. —Vale já, tio. Não a vou sacudir. Cat observou que Michael voltava a esconder a cara entre as saias de sua mãe. —Alex, o menino. As palavras fizeram o efeito de uma varinha mágica. Alex soltou a Cyc e retrocedeu até pôr ao lado de Cat, mas sem baixar á guarda. Durante o altercado, Kismet não se moveu, como se já estivesse acostumada à violência e a ter suportado muitas vezes. —Faz favor - disse Cat — Sabes algo da pessoa que recebeu o coração de Sparky? Aonde o enviaram? Ela negou com a cabeça, olhou a Cyc e depois ao chão. Cat estava segura de poder conseguir mais informação, não queria incrementar a ira de Cyc, que, sem dúvida, cairia sobre ela e o menino. Deu a volta e não ocultou seu desprezo ao perguntar ao energúmeno: —Não terá problemas? —Por que teria que os ter? —Porque já os enviaste várias vezes ao hospital. É patético. Acha que tem que demonstrar sua virilidade batendo em mulheres e meninos. —Cat. Alex advertiu entre dentes que tivesse cuidado. Cyc se massageou os pulsos. —Não sabemos nada de teu coração, nem do de Sparky, nem de cartas. E ainda menos de assassinos. Saiam daqui antes que fique bravo para valer. Alex apanhou-a do braço. —Vamos-nos. Subiram ao carro, Alex ligou-o e saíram a toda velocidade, pondo terra de por meio entre eles e Murphy. —Não posso o crer. Todo este tempo esteve em meu escritório - disse assombrada—: Cyclops e Kismet. Como os encontraste? —Tio Dixie tem bons arquivos e Murphy é fichado por vários delitos menores. Os departamentos de policia do Leste seguiram a pista, e o de San Antonio tinha sua direção atual.


—Quando Michael apareceu na porta... É um menino tão sensível e indefeso que não posso suportar que viva com esse animal. —E a mulher? —Parece que quer muito a seu filho, mas Cyc1ops a tem em seu dominio. —Quando a esbofeteou... —Tinha vontade de o pulverizarar. Alex apartou os olhos da estrada para dar um olhar irônico. —E você me acusa de disparar primeiro e perguntar depois. Como o prefere? Decidade-se. —Não começemos, Alex. Já tive bastantes discussões esta tarde. Preciso pensar antes do próximo assalto. —Deves estar esgotada. Nunca abandonas tão facilmente. Kismet e Cyclops viviam em uma pequena população ao sul de San Antonio. Era meia hora de viagem que Cat dedicou a olhar para o vazio. Quando chegaram à cidade, já estava anoitecendo e as casas e estabelecimentos comerciais tinham as luzes acendidas. Os anúncios de neón atraíam clientes a restaurantes e cinemas. —Oxalá não tivesse outro problema que decidir que filme gostaria de ver esta noite - disse Cat. —Está morta de medo, verdade? —Parece que tenho motivos para estar. Encontramos Cyclops, mas não estamos mais perto de meu perseguidor. — Não acha que seja obra de George? —E tu? —Gostaria que fosse, mas acho que não. —Por que gostaria? —Porque tenho uma vontade louca de colocá-lo na cadeia. É só questão de tempo que coloquem neles umas algemas. Cedo ou tarde estará encerrado na prisão de Huntsville, e préferiría que fosse antes que faça dano a alguém, especialmente a Michael. »Além do mais, por seu bem quero que isto termine. Que possa dormir tranqüila, sem te preocupar por saber se chegará ao dia seguinte. —Homem, obrigado por animar-me e levantar-me a moral. Ao cabo de um momento perguntou: —Por que não acha que possa ser Cyclops?


—É muito estúpido; para começar. Este assunto tem um esquema complexo, bem planejado e bem realizado por alguém com inteligência e paciência. Cyclops não tem nem uma coisa nem outra. —É provável que tenha razão, mas suponhamos que há outra possibilidade. Cyclops vive de forma muito precária, de modo que viajar durante certos períodos de tempo não suporia nenhum problema. —Com Kismet e Michael a reboque? —Não, claro. Além do mais: chegamos à conclusão de que quem me ameaça torna-se amigo de suas vítimas. Ninguém em seu são consciência deixaria que Cyclops se chegasse. —Que me dizes dela? Poderia servir como isca para atrair às vítimas. Ela ganha sua confiança, talvez sua piedade; Cyclops mata-as. Cat recusou esta hipótese negando com a cabeça. —Não me deu a impressão de que sua tristeza fosse fingida. Não a vejo capaz de artimanhas. E Petey disse-nos que estava apaixonada por Sparky. Por que ia querer parar seu coração? Pareceu que ainda o segue querendo. —Sim, e isso a Cyc não gosta nada; —Se era ciumento quando Sparky vivia... —Pode continuar ciumento. Kismet não pode o esquecer nem sequer após tanto tempo — disse Alex acabando sua frase. —Não se livrou de seu rival. —Sua garota segue pendurada pelo pequeno grande homem que o derrotou não só na cama, senão também em uma briga com navalhas. Quer vingar-se matando qualquer um que possa levar o coração de Sparky. Ela olhou-o ilusionada, como se acabassem de descobrir o remédio contra o câncer. Mas sua borbulha de alegria desvaneceu-se em seguida. —Isso nos volta a remeter a como pôde infiltrar-se na vida das vítimas. Cyclops não é uma pessoa que inspire confiança. Se alguém que o conhece morre em estranhas circunstâncias levantaría suspeitas. Cat suspirou derrotada.


—Céu santo, quem teria pensado que, por receber o coração de um doador, teria a um psicópata no meu encalço? E sabe qual é a graça? Bom, graça no sentido irônico. Nunca quis que se me tratasse de forma especial por ter sofrido um transplante. —Isso faz que te saias do comum — recordou Alex. —Mas não quero um trato de preferêncial. Desejo que a gente se esqueça de que não tenho o coração com o que nasci. Em mudança, parece ser que é a única coisa que pensam quando estão comigo. O guarda do estacionamento da WWSA reconheceu desta vez o carro de Alex e saudou-os com a mão quando entravam. Sorria com reserva, como se ele fosse uma personagem fictício de uma intriga amorosa. Alex parou o motor e voltou-se para ela. —Não é o que eu penso, Cat. Nem de longe. Ela resistiu a tentação de sua proximidade com uma piada. —Pensa fazer poesia sobre meus cabelos, meus olhos e meus lábios? —Se quer. Ou poderia ser mais carnal e descrever as zonas erógenas de teu corpo, que, em teu caso, incluem até o último centímetro de pele. Sei-o por experiência própria. Era um alarde arrogante que provocou uma resposta à inversa no interior de Cat. Lutou por ignorála. —Guarda-te a linguagem forte para tuas novelas. Não suportaria que desperdiçasse essa pornografía barata comigo. Alex sorriu. —Achei que gostasse. —O que? —A pornografía barata. Tinha lembranças vivas dos susurros em seu ouvido umas noites atrás. Antes que voltassem à seduzir, abriu a porta do carro. —Obrigado encontrar a Cyclops. —Vou fazer mais averiguações antes de descartá-lo —Já me dirás algo. Boas noites, Alex. —Cat. Virou. Parecia estar em conflito consigo mesmo sobre se devia dizer o que pensava. Por fim, disse somente: —Boas noites.


Foram-se por caminhos diferentes. Cat dirigia-se a sua casa com ideia confusas. Ele pudesse se esforçar um pouco mais para derrubar suas defesas. Ela teria dito que não, mas ele insistisse um pouco mais a convenceria em passar uma noite com ele. Sua mente continuava dando voltas no assunto enquanto dispunha-se a deitar-se. Saiu da ducha quando soou o alarme. Haviam seguido até casa! Colocou o roupão e correu para a porta principal. A ilusão burbujeava em seu interior como um vinho espumoso. Quando olhou através da janela, esperando ver a Alex, teve uma grande decepção. Capítulo quarenta e dois —Que quer, Murphy? —Falar contigo - disse Cyclops—. Abre. Cat forçou uma gargalhada. —Não penso em abrir. —Se quero entrar, nada vai me impedir. Por que não me poupa de jogar sua porta abaixo? —Se não for chamarei à policia. —Faça-o e o pagará o piralho. Apoiou a frente na porta. Era uma loucura abrir em plena noite, mas, tal e como disse, uma porta fechada não o deteria. Era evidente que a tinha seguido desde os estúdios de televisão. De que outra forma podia saber onde vivia? A não ser que tivesse estado enviando as cartas durante os últimos dois meses. Fosse como fosse, por que estava duvidando entre abrir ou não? Por que não corria ao telefone e marcava o 911 com a esperança que chegassem antes que pudesse causar despedaços? Por Michael. Sabia que Cyclops cumpriria sua ameaça. Talvez Kismet não fora completamente inocente, mas o menino sim. Podia ser tarde para salvár a ela, mas valia a pena lutar por ele. Girou a chave e abriu. Seu físico impunha. Alex tinha sido muito valente ou muito estúpido para enfrentá-lo. Tentou não se amedrontar por seu tamanho nem pelo cheiro que desprendia quando passou ao seu lado e entrou.


Jogou uma olhada ao seu redor e fixou-se em um vaso de vidro com ervas aromáticas que tinha em cima da mesinha. O levantou para cheirá-lo. —Não é nada que se possa fumar — disse Cat. Ele esboçou um sorriso de reptil. —Muito gracioso. Voltou a deixar em seu lugar. —Assim é como vivem as estrelas do tv. Muito elegante. Muito melhor que a pocilga que compartilho com minha mulher e o menino verdade? Cat não respondeu, pois era óbvio. —Que está fazendo aqui a esta hora? Que é tão urgente para vir me ver hoje? O homem entrou no salão e deixou-se cair no sofá branco, apoiando as botas na cadeira a jogo. —Eh! Tranqüila. Foste tu quem começou tudo isto; não eu. —Começei o que? —Essa droga sobre Sparky. Não me lembrava desse anão e chegou você com esse policial a remover o passado. Enquanto sorria, olhou-a de cima a baixo com seu olho são. —Seu cu não levantava dois palmos do chão, igual que o teu. Ele a deixava nervosa e sentia-se mais vulnerável ainda vêstida só com o roupão. Qual dos telefones da casa estava mais perto? Com que rapidez podia marcar o 911? Tinha um trinco resistente em seu dormitório? Não o sabia; nunca o tinha precisado. Recorreu a seu domínio da interpretação para dissimular o medo. —Pierce não é policia. Soltou uma risotada. —A quem quer enganar, monada? —Rendo-me ante tantos conhecimentos sobre a policia. Mas, por que se irrita tanto que façamos umas perguntas sobre seu amigo? —Sparky não era amigo meu. —Então, por que se importar? —Não me importo; mas fez-me pensar. Deve de ter sido um grande esforço. —Sobre que? Brincava com um botão prateado da jaqueta de couro. —Acha que leva o coração desse cabrito, não? —É uma possibilidade. Mas, a não ser que tenha vindo para confessar três assassinatos e ameaças


por correio, não vejo que seja assunto seu. Por que não tira seus asquerosos pés de meus móveis e se longa com vento fresco? Lhe guiñó um olho. —Ouve, ruiva, você se irrita com facilidade e tens a língua muito longa. Transa tão bem como falas? Se tolerasse que a provocasse, cairia dentro de suas mãos. Optou por cruzar de braços e aparentar incomodo. —Murphy: é tarde. Diga o que quer e vá embora. Ele recostou a cabeça nas almofadas do sofá, mudou a postura dos pés na cadeira e se mexeu no assento. Vou ter que queimar esses móveis, pensou Cat. —O pequeno bastardo não é meu. —Como? —O filho de Kismet não é filho meu. Sparky deixou-a grávida. A preocupação pelo mobiliário e o medo desapareceram inesperadamente. Sem dar-se conta, sentouse no braço do outro cadeirão. —Você não é o pai de Michael? —É o que acabo de dizer. —O pai era Sparky. —Sim. Por puro milagre, Kismet não abortou após o acidente, ferida como estava. Para mim seria muito melhor, mas o piralho agüentou. Oito meses após a morte de Sparky, nasceu seu bastardinho. Agora, a mente de Cat ia por diante da de Murphy. Não precisava que explicasse a importância deste fato, mas ele o fez de todas as formas. —Quando você apareceu, a criança murmurou que te conheceu em um piquenique. Ele gosta de você... Igual que ti. A caiu em sua bochecha quando baixou a cabeça e simulou pensar nos mistérios da natureza. —Não é curioso? Talvez fosse mais esperto do que ela e Alex imaginavam. Era horrível pensar que fosse tão inteligente como mesquinho. —Não sê aonde quer ir parar — mentiu. —E um ovo. Não é nenhuma casualidade que exista essa simpatia mútua. Tu levas o coração de seu


papai. Tu... Qual é a palavra adequada?... Ligaste com a criança. Essas coisas de espirituais, afinidade, o karma, ou o que seja. A foto de Michael no expediente de Sherry tinha causado um impacto inexplicável. Ou é que, realmente, era inexplicável? —Não tenho a segurança de levar o coração de Sparky. —Digo que sim. —Dida o que quiser — levantou para insinuar que a visita tinha terminado, mas em outra parte Já deu a sua mensagem, parece que não há nada mais a dizer. —Aí é que se enganas. Falta o principal. —Que é? —Dinheiro. Isso era o último que esperava ouvir. —Que dinheiro? —O que me deve. Voltou a sentar no braço do sofá e olhou-o incrédula. —Não entendo nada. —Pois deixa que to explique. Se Sparky tivesse vivido, teria que suportar tudo o que eu passei. Fizme cargo de seu filho, criei-o... —Porque tem você um bom coração — disse com sarcasmo —Exato. Cat se carcajeó. —Aceitou a Michael porque ia no lote com Kismet e queria recupera-la após a morte de Sparky. Não por amor, senão porque não podia tolerar que outro homem o tivesse humilhado. Desde então está a castigando por isso. Apartou o sofá de um chute e levantou-se. —A maldita filha de puta me suplicou que a aceitasse. Cat estava decidida a não retroceder. Era um miserável que desfrutava vendo o medo nos olhos de suas vítimas. Podia quebrar seu pescoço, ou atravessar o coração, com a navalha que levava no cinto, mas não daria o gosto da ver intimidada. —Faz quatro anos que agüento a essa moça e a sua criança. Acho que mereço algo em troca. —Parece que vai receber em troca não vai gostar. —Escuta-me bem, ruiva — fincou o índice no peito-. Graças a mim não estás morta. Disse a esse


médico que podia levar o coração de Sparky. Estarias no outro bairro se tivesse dito que não. —Pode que sim, pode que não. —Digo que sim. E quero algo em troca de ter salvado esse seu rabo. —Ah. Aí é onde entra o dinheiro. —Vamos-nos entendendo. —Quer que te pague pelo coração? Seus delgados lábios separaram em um sorriso lento e malicioso. Alongou a mão e manuseou uma mecha do cabelo de Cat. —Já sabia desde o momento que te vi que é uma mulher inteligente. Capítulo quarenta e três Alex estava em plena veia criativa. Os dedos não se moviam tão rápido como as palavras e idéias que fluíam a seu cérebro, mas não importava nada essa frustração desde que seguissem chegando. Por fim tinha superado o bloqueio do escritor. Voltava ao ônus e melhor que nunca. Pensava as frases e apareciam em pantalha. Soou o telefone. —Filho de puta. Tentou não escutar o telefone e seguiu digitando. A essas horas da noite devia ser alguém que se equivocava de número. Ou Arnie, que o chamava quase a cada dia para perguntar se seguia saindo com Cat. Quando dizia que sim, já que não podia mentir a seu agente, o recriminava por sua vontade de se buscar problemas. Soou de novo. Não pare, se ordenou. Termina a frase antes que escape. Se a deixa agora, a terá perdido para sempre. Desaparecerá nesse vazio que absorve palavras idôneas e frases inspiradas que se assomam no subconsciente antes que possa as agarrar. O telefone soou por quarta vez. Como se nada. Fazia semanas que esperava uma noite como esta. Está-te saindo redondo. A trama está bem fechada, não como esperava, por suposto, mas desta forma tem maior força. A ação desenvolve-se com dinamismo, os diálogos são ingeniosos, causam impacto. Não apanhes o telefone, estúpido! Levantou o auricular.


—Diga. —Alex... não queria te molestar, mas... —Cat? Encontras-te bem? —Não. —Demorarei quinze minutos. Pendurou ao mesmo tempo em que pulsava a tecla para salvar o que havia escrito e desligava o computador. Colocou o tênis, apagou as luzes e saiu correndo. Era provável que Tom Clancy tivesse tido que suportar interrupções constantes. Teria vendido outro milhão de exemplares de Jogo de Patriotas de não ter sido pelos pequenos imprevistos da vida. E Danielle Steel teve nove filhos; imagine quantas vezes ao dia a interrompiam. Cat tinha ouvido o carro e abriu a porta. —Agradeço que tenhas vindo. —Estás branca como um papel. Que tem aconteceu? Por que está com cabelo molhado? —Por que o lavei. —Lavou o cabelo? Após chamar-me para o que parecia uma situação de emergência te lavaste o cabelo? —Não me grites! Indicou que passasse ao salão. —Tive uma visita. Cyclops. O motorista deixou suas impressões no sofá e na cadeira. Alex suspirou e mexeu o cabelo. —Como entrou? —Deixei-o passar. —Que? —Se eu não abrisse machucaria Michael. —Ele te agrediu. —Não o fez! —Agora é você que está gritando. O que ele queria? —Vamos à cozinha — disse ela— gastei todo um aerosol de ambientador, mas ainda posso sentir seu cheiro. Ela entrou primeiro. Em cima do mármore tinha uma panela fumegante. Perguntou se queria uma caneca. Alex achou que el tivesse bebido algumas doses de whiskies, mas chá não, obrigado. Cat serviu uma caneca, acrescentou uma colher de açúcar e sentou enfrente dele à mesa da cozinha.


As suas mãos tremiam. —Que queria? —Dinheiro. —Em troca do coração de Sparky. —Como o sabes? —Tenho lido casos semelhantes. Uma pessoa recebe um transplante de córnea, de fígado ou de tecido. Quando está bem, um membro da família do doador se apresenta e pede dinheiro. —Eu também tinha ouvido. Citava-se nas sessões de terapia de grupo como um dos motivos para que os doadores e os receptores ficassem no anonimato. Cruzou os braços. —Mas não achava que ninguém fora tão miserável. —Cyclops é. —É repugnante. Quando colocou a mão em meu peito e os seus asquerosos dedos em meu cabelo me senti violada. Tomei outro banho. Levou a caneca aos lábios, mas mal podia a manter firme enquanto bebia. —Perdoa que te tenha molestado, Alex. —Não me molestou — mentiu. —Não sabia a quem recorrer. Podia telefonar a esse tenente Hunsaker, mas inspira muito pouca confiança. Alex supôs que devia tomar como um elogio. —Fez bem em me chamar. Não pode ficar sozinha. Teve problemas para que ele saisse? —Na verdade não. Disse que para conseguir o dinheiro teria que passar sob meu cadáver. Contou que isso tem fácil arranjo. —Ele pode te matar. —Repliquei que me matar seria uma tolice se o que quer é dinheiro. Alex pensou que tinha sido um milagre que Cyclops não a tivesse maltratado; e, ao mesmo tempo, estava enfadado com ela. —Foi graciosa, verdade? Sempre com suas ocorrências. Por que diabo tinha que provocar? —Que sugeres que deveria ter feito? Encolher-me de medo, chorar e deixar que ele visse o quão assustada que estava? E também tenho que pensar em Michael e em Kismet. É provável que eles paguem seu furor. —Estava furioso quando saiu?


—No mínimo. Suponho que estava convencido de poder me intimidar para que desse um cheque. Neguei-me e ele subiu pelas paredes quando deixei bem claro que não daria nem um centavo. —E depois ele a ameaçou? —Disse que eu o lamentaria. Alex também estava preocupado por Michael e sua mãe, Mas queria aliviar a preocupação de Cat. —O pensará duas vezes antes de voltar a pôr a mão em cima a Michael. Faz poucas semanas que escapou por um fio de ir a prisão. —Confio em que isso seja decisivo, já que os vínculos de sangue não o deterão. Michael não é filho seu Explicou o que Cyclops lhe disse. —Talvez isso explique por que me impressionei com a foto do menino inclusive antes do ver. Alex apoiou-se na mesa. —Que queres dizer? —Nada. —Vamos, Cat, corri para salva-la. Não mereço todos os detalhes? —É uma bobagem. Esboçou um tímido sorriso, encolheu os ombros e brincou com a colher; todos os sinais inequívocos de que estava buscando evasivas. Por fim, disse: —Desde o momento em que começaram a se realizar transplantes de coração, existe a polêmica sobre algumas das características do doador podem ser transmitidas ao receptor. Alex esperou um momento até assimilar a frase. —Continua. —É ridículo, por suposto. O coração é um órgão, um aparelho, maquina fisiológica. A «alma» de uma pessoa é algo completamente diferente. —Pois, por que relaciona a sua atração por Michael com a possibilidade de que seu pai fosse teu doador? —Não o fiz. —Sim, o fez. E também Cyclops. —Ele não se importa com quem recebia o coração. Só vê forma tirar dinheiro. Odeia a Michael porque é a herança viva que Sparky deixou em Kismet. Castiga-a por ter preferido a Sparky e tem


convertido sua vida em um inferno. Não me estranha que pareça tão assustada. —Cat, eles não são responsabilidade tua. Olhou-o com ar de que sentia tão ultrajada como se tivesse urinado na bandeira norte-americana. —Claro que sim! São seres humanos e correm perigo! —Admiro teu altruismo, mas não podes salvar a todos os desgraçados do mundo. —Se Cyclops os machucar, não poderia resistir. Poderias tu? É que uma vida não significa nada para ti? Alex sentiu que uma onda de calor subia à cara. —Vou passá-lo por alto porque estás nervosa e confio em que não sabes o que dizes. Nada gostaria mais que fazer picadinho desse animal e me assegurar que não voltasse a tocar um cabelo. Mas há milhões de vítimas como eles em todo o país. —Sei que não posso salvar a esses milhões, mas queria ajudar a eles. —Não estarás pensando em dar dinheiro? A discussão tinha-a deixado sem forças. Inclinou-se para frente e apoiou a cabeça em ambas as mãos. —Nunca teria cedido a chantagem, mas deixou bem claro que se eu não pagasse, eu o lamentaria. De uma forma ou de outra. Então olhou. Pela primeira vez desde que conhecia-a, via-a aterrorizada. —Alex, quero que eixemos. —Que deixemos? —Esta busca infernal. Faz quase duas semanas que não recebi nenhuma carta anônima. Estou segura de que alguém com um senso de humor perverso estava fazendo uma piada. Isso é tudo. »A falso obituário era a cartada final. Fez o que tinha planejado... Desconcertar-me e me deixar nervosa. Mas já terminou de jogar. —Estás segura? —Não, não estou, mas já não quero levantar outra pedra. A cada vez que o faço, embaixo há um verme asqueroso. Tenho medo de abrir o correio. Um motorista tatuado, com um olho de vidro e tendências homicidas, ao que nunca antes tinha visto, tenta me fazer chantagem e me ameaça de me matar.


»Tenho um sobresalto a cada vez que vejo minha própria sombra, já não me sinto segura em minha casa, não posso concentrar no trabalho. Tenho perdido a vontade de comer e já não recordo quando dormi toda a noite de uma só vez. Já não posso mais. —Não é tão fácil, Cat. Não atires a toalha. —Já o fiz. —Bom, pois eu nem posso nem quero. Não se dá um caso por fechado só porque não gostas do aspecto das provas que descobres. —Oh, deixa já sua conversa de policia. Já não o é e esta não é uma investigação oficial. Nem também o argumento de uma de tuas novelas. É minha vida! —De acordo. E estou tentando protegê-la. Quero que vivas para celebrar o quarto aniversário do transplante. —Eu também. Fez uma pausa e suspirou. Sentia um nó no estômago. O que vinha a seguir não ia gostar. —Por isso me vou a Califórnia e ficarei com Dean até que passe a data. Já está tudo arranjado. Alex se levantou. —Ah, sim? E quando o arranjaste? —Antes que chegasses. —Já. Chamas-me para que vá a te resgatar, mas sou só uma asa protetora até que possa voltar com papai Dean, não é isso? E acusavas-me de utilizar-te sexualmente. Não tinha intenção de ofender, mas o fez. As lágrimas assomaram a seus olhos, mas ela era Cat e não se ia derrubar. —Te acompanharei à porta. A melhor atriz de caráter da cena britânica não seria capaz de aparentar mais indignação regia quando se levantou da cadeira e saiu da cozinha. Ele a seguiu, mas só até a entrada, onde fechou a porta inesperadamente. —Não te vou deixar sozinha esta noite, Cat — levantou as mãos para pedir silêncio antes que ela pudesse protestar — Dormirei no sofá. Jogou um olhar à tapecaría suja. —Tenho dormido em lugares piores, crê-me. Agora pode reagir, replicar e insultar tudo o que quiser, mas será uma perda de energia. E não tem muita. Cat, faça o que quiser: chore, prepare a mala,


pinte as unhas, o que seja; mas até que saibamos a próxima jogada de Cyclops não te vou perder de vista. Capítulo quarenta e quatro Cyc não podia crer o que viam seus olhos quando entrou na cozinha para tomar café. Kismet já estava sentada à mesa e aspecto quase o colocou de costas. Tinha-se maquiado como na primeira vez que a viu com sombras que acentuavam seus olhos escuros, e os cabelos cheios caíam sobre os ombros. Também não levava as longas saias e as blusas amplas que tinham sido seu único vestuário durante os últimos quatro anos. Os jeans rasgados ajustavam ao seu corpo como uma luva cirúrgica. E, pela cingida camiseta, aparecia em cima do seio a tatuagem. Era como uma morta viva desde a morte de Sparky e, de repente, acordasse. A transformação ocorreu da noite para o dia. E não era só uma questão de aparência. Sua expressão era da antiga Kismet. Quando entrou na cozinha, ela se levantou e serviu uma caneca de café com gestos rápidos e bruscos; tinha recuperado a inquietude de anos atrás. Cyc pensou que tinha metido algo, mas sabia que não tomava drogas desde a gravidez. —Quer comer? Receioso pela súbitem troca, disse: —Se quisesse comer diria. —Não seja imbecil. Serviu outra caneca de café e voltou à mesa. Recuperou o cigarro que se consumia no cinzeiro, levou aos lábios e exalou a fumaça para o teto. Quando estava grávida deixou o fumo e não tinha voltado a fumar. Agora, quando observava seus lábios carnudos chupando o filtro do cigarro, Cyc sentia uma cosquinha na entre as pernas. Tinha-a visto assim milhares de vezes, enojada e desafiante, mas fazia já muito tempo. Até esse momento não se deu conta do que precisava sua agressividade. Mas Cyc era desconfiado por natureza e rara vez aceitava o que via. —Que mosca te picou? Kismet apagou o cigarro. —Pode ser que ontem à noite você abriu meus olhos.


—Merecias-to. Cyc tinha-a golpeado por tê-lo posto em ridículo diante de Cat Delaney e seu amigo. Mas as marcas não eram visíveis embaixo da maquiagem. —Não posso acreditar que se negou a pagar. Após uma garrafa de álcool e umas feleiras de coca ele havia contado sobre sua visita a Cat. —Não te preocupes. Terá que apoquinar.. —Quando? —Tão cedo como se me ocorra algo — pegou o café. —Quem ela acha que é? Graças a Sparky não está morta. —Diz que pode levar o coração de outra pessoa. —Dá igual, ela nos deve - disse Kismet tirando o cabelo da cara— Mal temos tido para comer durante estes últimos quatro anos e ela vive a todo luxo. Não é justo. —Nos dará dinheiro; só tenho que pensar como. —Tenho uma ideia. O olho bom a olhou intrigado. —Não me digas. Qual é? —Temos que nos mover antes que seu amigo o policial coma o seu estomago. Pode estragar tudo. Levantou como se a tivessem beliscado. Carregada de café e nicotina, começou a passear. Cyc estava de acordo com o que ela dizia, mas seria uma debilidade aceitar em seguida. —Ficas fora. Tenho tudo sob controle. Ela deu a volta e o olhou cara a cara. —E uma droga! Deixaste-te levar por sua cara bonita e seus olhos azuis. Tanta ameaça para voltar de vazio. Levantou-se e a esbofeteou. Ante sua surpresa, ela devolveu o golpe e a palma da mão aterrissou na orelha, destroçando o tímpano. Não obstante, ouviu o que ela lhe dizia: —Vou tirar-te esse costume, filho de puta; é a última vez que me bate. Seu ataque de gênio era excitante, mas o que podia tolerar tinha um limite. Queria algo a meio caminho entre a fera que tinha sido e o cordeirinho em que se converteu. —Tenho algo para ti. Segurou-a pelos antebraços e empurrou-a contra a parede, encurralando-a ali com seu corpo. Ela dava socos no seu peito para que a soltasse, o qual teve que fazer para desabotoar os jeans e deslizar até os pés nus.


Tentou escapar, mas agarrou-a pelos cabelos e atirou-a em cima da mesa, segurando-a ali com uma mão enquanto com a outra abria o zíper. Cyc gemeu de prazer e surpresa quando ela começou a masturbá-lo com força e ansiedade, como costumava fazer anos atrás, quando nunca tinha bastante, quando o sexo era uma competição de resistência na que quase sempre ganhava ela. Levantou-a de cintura para acima e apertou-lhe os seios, beliscando os grandes mamilos. Ela inclinou a cabeça e o mordeu no braço. Cyc deu um bofetão, se colocou em cima e sugou o peito como se sua vida dependesse disso. Kismet retorcia-se embaixo dele, lhe arranhava as costas nuas e gritava obscenidades. Cyc penetrou-a com tanta força que as patas da mesa levantaram do chão e esteve a ponto de perder o equilíbrio. Ela rodeava os seus quadris com suas potentes coxas, cruzou os tornozelos na face e fincou as unhas nas nádegas. O orgasmo chegou quase no mesmo instante e Kismet jogou os braços para trás acima da cabeça, fazendo cair ao chão as canecas de café e o cinzeiro. Agitava a cabeça e mordeu o lábio inferior até rasgar a pele. Inclusive após ter terminado, seus seios continuavam subindo e baixando. Cyc esfregou-os com suas calosas mãos. —Boas tetas. Murmurou e começou a remover-se inquieta, arqueando as costas e mudando a posição das pernas. Estava em vermelho vivo, tinha os lábios roxos e inchados e no inferior tinha uma gota de sangue. Entre o cabelo úmido olhava-o com os olhos sonolentos e entrecerrados, e sorria com aquela malícia que ele tão bem recordava. —Sempre disse que esse seu corpo é pura dinamite. Ela riu com cobiça. —Vamos ser ricos, Cyc. Ricos. —Sim. Tentou sair, mas ela o impediu sigurando-o entre suas coxas. —Aonde vais? O coração de Cyc acelerou. Voltava a ser a antiga Kismet que sempre queria mais.


—Você deixou uma porcaria aqui embaixo. Limpa-a. Apanhou a cabeça do homem com ambas as mãos e a afundou entre as suas pernas. Capítulo quarenta e cinco Bateu devagar na porta do dormitório. —Cat? —Wstou quase pronta. Chegou o táxi? —Não. Mas Cyclops, sim. Abriu a porta. Alex estava verificando o tambor do revólver. Sentiu um calofrío ao vê-lo carregado. —Passou aqui na frente e deve estar dando voltas no quarteirão -disse Alex — Eu os vi dobrar a esquina ao final da rua. Vêm para aqui. —Não está sozinho? —Leva a Kismet e a Michael na moto. —Deus meu! —Suponho que os quer utilizar como reféns para chantagea-la. Após a discussão da noite anterior, Cat foi para o seu dormitório e fez a bagagem para sua viagem a Califórnia. Mais tarde, apagou a luz e se deitou, mas não pôde dormir. Ouvia Alex se mover pelos outros quartos, certamente para certificar-se de que portas e janelas estivessem fechadas. Ainda que estivesse furiosa, ela estava grat por ele ter ficado. Sentia-se bem mais tranqüila sabendo que tinha uma sentinela. Essa manhã, quando se encontraram na cozinha, tinham se comportado como dois desconhecidos. Alex ofereceu uma caneca de café recém feito, ela aceitou e agradeceu. E perguntou a hora do vôo e ofereceu-se para levá-la ao aeroporto. —Eu Agradeço, mas pedi um táxi. —Muito bem. Voltou ao dormitório para se banhar e vestir-se. Não tinham voltado a se falar. Agora o seguia pelo corredor caminho do salão. —Talvez não parem se vêem teu carro estacionado na frente. —Eu o coloquei na garagem quando foi dormir. —Oh. —É melhor para nós que pensam que está sozinha. Temos o fator surpresa a favor nosso. Cat abriu um pouco as cortinas da janela e viu a moto que avançava devagar para a casa. Da outra janela, Alex disse:


—Volta para o teu quarto, Cat. Espera conseguir solucionar esta situação. —De jeito nenhum. —Não é momento de... Essa é Kismet? Cat teve que esquecer das roupas e da maquiagem para estar segura. Se não levasse Michael nos braços não a teria reconhecido. Caminhava movendo os quadris, provocativa e descaradamente. Ontem podiam acovardá-la com uma olhar e hoje parecia disposta a levar-se por diante a qualquer que se cruzasse em seu caminho. Tocou a campainha três vezes. Cat olhou a Alex, quem fez um sinal para que abrisse a porta enquanto ele colocava detrás, de forma que ao a abrir não o vissem. Com cautela, Cat correu o trinco e entreabriu. O primeiro que viu foram os olhos chorosos de Kismet. Eram uma incongruencia em relação a maquiagem de buscona e os andares sinuosos e seguros com que se tinha acercado à casa. Tremiam seus lábios. —Faz favor, faz favor, ajude-me. Por à descrição pouco lisonjeira que Cat tinha feito do tenente Hunsaker, Alex queria conceder a seu colega o bêneficio da dúvida. Por desgraça, Hunsaker esteve à altura das expectativas. Desde o momento em que pôs os pés no salão de Cat, o identificou como um palhaço. Tinha o ego tão inchado como a barriga. —Ao parece, o destino voltou a reunir-nos — disse a Cat com um amplo sorriso e restos de fumo nas mãos. —Isso parece. —Minha mulher ficou muito contente com o autógrafo. —Obrigado. Tenente Hunsaker, eu apresento Patricia Holmes e a seu filho, Michael. O tenente olhou a Kismet e fez uma ligeira inclinação de cabeça. Enquanto esperavam que chegasse a policia. Cat tinha ficado no dormitório com a mulher e o menino. Quando saíram, Kismet já não levava nem sinal de maquiagem e havia prendido o cabelo. Ia vestida com um vestido, que devia de ser a única roupa do armário de Cat bastante grande para ela. Cat mostrou a Alex.


—E ele é Alex Pierce. O policial apertou sua mão. —Alex é ex-policial. —Sim? De onde? —De Houston. —Houston eh? — olhou-o de cima a baixo — Como é que deixou o corpo? —Não é assunto seu. Apanhado por surpresa, Hunsaker gritou: —Não é necessário ficar na defensiva. —Não o faço; limito-me a expor um fato. Tossiu e colocou a mão sobre o revólver. —Bom, quem me vai explicar o que tem passado? —Alex, tu tens visto mais que nós - disse Cat. Alex explicou o ocorrido no dia anterior e essa mesma manhã, concluindo o relato com a petição de ajuda de Kismet na ombreira de Cat. —Cat não perguntou nada. Deixei-a entrar e fechei a porta com o trinco. Patricia estava aterrorizada. Disse que Cyclops a mataria por traí-lo. Michael também tinha medo. Ainda que não soubesse o que estava acontecendo, via o pânico de sua mãe. Disse a Cat que os levasse ao seu dormitório. —Então telefonei para o senhor, tenente — interveio Cat— Mas não sabia o que Cyclops podia fazer. —Disse que estivesse tranqüila, que o deixaria frito antes que entrasse. Hunsaker olhou de relance o revólver colocado em cima da mesa. —Já não está carregada — disse Alex. —E o motorista? Esse tal Cyclops. Que tem feito? —Ele não esperava que Cat deixasse passar a Kismet e ao menino e fechasse a porta, de modo que percebeu que algo dera errado. Gritou atordoadoperguntando o que tinha acontecido. Ao não receber resposta, começou a ficar nervoso. —Não me explico por que demorou tanto, Hunsaker. Se tivesse apressado a vir, Cyclops podia estar agora entre grades e esperando ser acusado por agressão e chantagem. O policial passou por alto a crítica e dirigiu-se a Cat. —Ontem à noite tentou extorqui-la? —Sim. Cat explicou a visita de Cyclops.


—Não parece o tipo de pessoa da que possa confiar. Por que não me chamou? —Porque chamou a mim. E passei a noite aqui — declarou Alex. Hunsaker tirou suas próprias conclusões. —E esta manhã? Por que voltou? —Patricia convenceu-o pára que os trouxesse com o fim de amolecê-la — disse Alex— Quando ela entrou na casa, seu instinto deve tê-la advertido que o haviam enganado e que teria problemas se não o largasse. —foi-se? —Sim, após gritar que mataria a Kismet e ao menino. Não posso citar suas palavras ao pé da letra porque o menino está escutando, mas só tenho omitido uns quantos adjetivos. Agora esse delinqüente anda solto — acrescentou a modo de reprovação pelo atraso do policial. Hunsaker perguntou a Cat: —Tem algo que acrescentar? —Só que Alex e eu vimos como Murphy golpeava à senhora Holmes ontem pela tarde, em sua casa. A coisa ia-se complicando muito para ele. E coçou a cabeça. —Não entendo que faziam vocês ali. —Estávamos seguindo uma pista do outro assunto que falei a você em seu escritório — disse Cat. —Refere-se aos recortes de jornal? —Sim. Pensei que podia ser Cyclops quem os tivesse enviado. —Era ele? Cat olhou a Kismet, quem negou com a cabeça. —Não creio, mas de todas as formas merece estar na prisão. Pode perguntar ao Serviço de Proteção à Infância; já têm várias denúncias contra ele por maus tratos a um menor. Ficou em liberdade por uma falha do fiscal. —E ela? —mostrou a Kismet. —Também estava implicada, mas só porque não podia enfrentar Cyclops por medo a suas represálias. Hunsaker mostrou o sofá manchado. —Importa-se que me sente? —Em absoluto. Acomodou-se na borda e olhou a Kismet, que estava sentada em uma cadeira com Michael sobre os


joelhos. —E você que tem a me dizer? Kismet desviou o olhar a Cat, que tomou sua mão para animá-la. —Fale o que me contou. Conteve as lágrimas e umideceu os lábios roxos e inchados. —Ontem, quando eles se sairam, me explicou seu plano para conseguir dinheiro pelo coração de Sparky. —Quem é Sparky? Alex o colocou a par. Hunsaker escutava com atenção. — minha Mãe, que complicado é tudo isto — murmurou - De modo que Cyclops queria dinheiro em troca do coração desse Sparky, que era o pai de seu garoto, correto? Kismet assentiu e acariciou a cabeça de Michael. O menino não tinha movido de seu lado desde que Cat os tinha feito entrar. Não cabia a menor dúvida de que queria a seu filho. —Ontem à noite, Cyc voltou a casa muito tarde. Estava furioso porque a senhorita Delaney tinhase negado a dar o dinheiro. Tinha brincado com ele — disse ao oficial. Alex estava horrorizado. —Você debochou dele? Isso não tinha me dito. Você está louca? —Não, não estou louca. —Calado! —ordenou Hunsaker olhando, a Alex e depois a Kismet. —Desculpe a interrupção, senhorita Holmes, não? Diante. —Cyc cheirou umas linhas e ficou muito desagradável. Tentei manter-me afastada dele, mas me deu uma surra. Quando dormiu, fiquei pensando em uma forma de escapar. Em seus olhos escuros caíram algumas lágrimas. —A senhorita Delaney parecia uma boa pessoa. Tinha-a visto na tv, ajudando a esses meninos. E na festa simpatizou com Michael. —Que festa? —Não tem nenhuma importância — disse Alex— Deixe-a que termine, quer? —Não sou eu que faz as interrupções, não você. Hunsaker fez uma indicação a Kismet para que continuasse. —Não queria que Cyc a molestasse. Mas senti-me feliz ao saber que talvez o coração de Sparky salvasse a vida de alguém como ela. E a forma dela o enfrentar me deu coragem. Decidi que eu também o faria.


—Mas não tinha dinheiro, nem meios de transporte, nem ninguém a quem ir — interveio Cat— Se tentasse escapar, não chegaria tão longe antes que a encontrasse. —E me machucado, possivelmente, também ao menino - disse Kismet. —Sabia que minha única possibilidade era o enganar. De modo que esta manhã, eu... Estallou em soluços. Cat pôs uma mão no seu ombro. —Vamos, Patricia, segue; está quase terminando. Kismet assentiu. —Ontem à noite dei a Michael um tranquilizante para que dormisse até tarde. Sei que o que fiz foi ruim, mas não podia correr o risco de que se acordasse e visse... Consegui que Cyc se excitasse e tive que fingir que gostava. Tinha que o convencer de que voltava a ser a que era antes de me apaixonar de Sparky. Chorava em abundância. —Fez o que tinha que fazer, Patricia. Ninguém dos presentes tem direito de te julgar. O tom de voz suave, comprensivo, de mulher para mulher, silenciou a Alex e a Hunsaker. Kismet tinha utilizado o sexo em troca de sua vida. Alguns homens podiam entendê-lo, mas só outra mulher era capaz de entender a absoluta degradação desse ato. Nesse momento, só o fato de ser um homem fez que Alex se sentisse culpado. Perguntou se Hunsaker sentia o mesmo. Não era provável. Hunsaker era muito obtuso para captar algo tão abstrato. Mas, ao menos, teve a sensibilidade de olhar para outra parte e permanecer calado até que Kismet esteve em condições de continuar. —Depois o convenci para que me trouxesse. Eu falaria com a senhorita Delaney e poria ao menino como escudo, já que sabia que tocaria a sua alma. Ele não gostou da ideia, mas disse que com ameaças não tinha conseguido nada e que tinha de tentar de outra forma. Por fim, cedeu. Abraçou a Michael. —O caminho do quintal à entrada da casa pareceu uma eternidade. Estava morta de medo que Cyc descobrisse meu plano antes que chegasse à porta. Olhou a Cat com expressão de idolatria.


—Não sei o que teria feito se você tivesse fechado a porta nos nossos rostos. Nunca poderei te agradecer. —O único que quero é que esteja a salvo desse animal. —Vai apresentar denúncia? — perguntou Hunsaker. —Sim. —Está segura? Às vezes as mulheres dão para trás quando chega o momento. —Ela não - disse Alex. —Nem eu tão pouco — acrescentou Cat— Ameaçou me matar, e também a eles, se não entregasse o dinheiro. É extorsão. Testemunharei contra ele, pode estar seguro. —Mas antes terá que o encontrar. Enquanto, já que garantimos a Patricia e a Michael um lugar seguro para viver — disse Alex. O policial se levantou. —Terei que fazer muita papelada. Poderiam vir esta tarde a meu escritório para prestar declaração? Todos disseram que sim. —Estenderei uma ordem de busca e captura de George Murphy. Já tenho sua descrição e a da Harley. Daqui a pouco lhe jogaremos a luva. —Não o encontrará — disse Kismet, muito segura — Tem dezenas de lugares onde se esconder e pessoas que o encobrirão. Não o encontrará. Alex temia que tivesse razão, mas se guardou seu parecer. Se alguma vez capturavam a Cyclops, seria mais por descuido do motorista que por eficácia da policia. Hunsaker, por sua vez, fez grandes promessas de que cedo o encerrariam. —Você tranqüila; deixe o assunto em nossas mãos — acariciou a cabeça de Michael— Um menino muito lindo. —Agradeço que tenha vindo - disse Cat enquanto o acompanhava à porta. —Não chegou a saber quem lhe enviou os recortes? —Não. Era o que queria averiguar quando removi estes obstáculos. Por suposto alegro-me de tê-lo fato, já que agora Patricia e Michael são livres. Alex deu-se conta de que, como sinal de respeito, agora se referia a Patricia por seu verdadeiro nome. Kismet era algo que já pertencia ao passado. —Tem recebido mais correspondência deste tipo depois que veio me ver? —Não.


—Vê-o? — disse muito satisfeito de si mesmo — É provável que nunca saiba quem a enviava. Já sabia eu desde o principio que não era nada importante. Cat tinha mais paciência da que Alex podia se imaginar. Por ao trato paternalista do tenente, o agradeceu por ter dedicado seu tempo e sua ajuda. —Esqueci-me de dizer. Enquanto esperávamos a Hunsaker chegou o táxi. Dei-lhe dez dólares de propina e despedi-o - disse Alex. —Obrigado. Não tinha voltado a pensar nisso. —Ainda pensas ir a Califórnia? —Primeiro tenho que me certificar que Patricia e Michael estejam a salvo. Chamei Sherry e já se está ocupando disso. Chegou meia hora mais tarde. —Encontrei uma casa que me parece que gostara - disse a Patricia e a Michael — Há outras três mulheres com seus filhos e uma assistente com plena dedicação. Dois dos meninos têm mais ou menos a idade de Michael, de modo que terá parceiros jogo. Terá vossa habitação com banho próprio e toda a intimidade que quiser. Mas é obrigatório comer todos juntos e colaborar nas tarefas domésticas. Patricia não podia crer em sua boa sorte. Estava tão agradecida que exclamou: —Estarei encantada de fazer qualquer coisa contanto que Ciclops não nos encontre. Pouco depois estavam na porta para despedir-se. Cat disse: —Vocês ficaram bem. Se precisar de algo, ou quiser conversar, me chama. Já te dei o número. —Tenho-o no bolso. Cat, que tinha apanhado a mão de Michael, o abraçou e o entregou a sua mãe. —Cedo irei visitar-vos, te parece bem. —Ficaremos encantados, verdade, Michael? O pequeno assentiu com timidez. Cat começava a emocionar-se. —Bom, até a vista. Sherry se ocupará de vocês. —A acompanharei até o carro — ofereceu Alex ao ver que Patricia parecia ter medo de sair. E, a seguir, sugeriu a Sherry — Não custaria nada em dar um rodeio e buscar ruas possa ver se as estão


seguindo. —Em situações como esta, é o procedimento que seguimos — contou Sherry com um sorriso. Alex saiu, jogou uma olhada aos arredores e indicou com a mão que podiam sair. Patricia se virou e apertou a mão de Cat. As palavras seguintes foram atropeladas, como se, de outra forma, não tivesse tido o valor de pronuncia! —Cat, é você a única pessoa que conheci tão bondosa e altruísta como Sparky. Acho que merecia levar seu coração. Capítulo quarenta e seis O trabalho era a alegria de Cat. Inclusive quando esteve doente, não deixou de dedicar ás horas que fossem necessárias a Passages. Se estivesse deprimida, trabalhava; se estivesse feliz, trabalhava. Em seu estado atual, seguir trabalhando a aliviava. Tinha chamado a Jeff para explicar por que não estaria ali até após o almoço. —Já te porei a par dos detalhes quando chegar. Na intimidade do escritório de Cat, Jeff esteve escutando a história com crescente incredulidade. —Por todos os santos, Cat; esse George Murphy é um selvagem. Ele poderia ter te matado. —Pois não o fez. —Por que não seguio o plano previsto e te vais a Los Angeles? Talvez fosse conveniente que estivesses em uns dias fora. —Já liguei a Dean e anulando a viagem. Sair agora seria fugir covardemente. Não inspiraria muita confiança a Michael e Patricia que, após terem se assegurado que estariam a salvo de Cyclops, fugisse com o rabo entre as pernas para a Costa Oeste. Em vez de escapar, trabalharia. —Ao menos fique com a tarde livre. Nós terminaremos tudo aqui — disse Jeff. —Aqui é onde preciso estar. Perdi algo importante esta manhã? Vamos, mãos à obra. Fez umas quantas telefonemas, ditou várias cartas e fez dublagem em duas filmações em exteriores com a equipe de produção para a semana seguinte. —Para a filmagem da quarta-feira entrei em contato com o velho cowboy que levou os pôneis à


festa de Nancy Webster. Gosta dos meninos e disse que está a nossa posição, e grátis. —Estupendo. Encantou Aos meninos e Michael desfrutou lindamente. —Cat, o que fez por ele e sua mãe. Não terminou a frase até que ela levantou a cabeça. —Foi muito generoso por tua parte que tenha tomado um interesse pessoal — vacilou — Pensa que leva o coração de seu pai? —Não o sei nem quero o saber. Teria ajudado a qualquer mulher e a qualquer menino em uma situação similar. Basta-me com saber que estão a salvo e com a oportunidade de começar de novo. Após deixá-los em seu novo lar, Sherry tinha telefonado para dizer que tinham sido muito bem recebidos pelas outras famílias que viviam ali. Cat informou a Jeff. —Patricia ofereceu-se para contribuir dinheiro para a comunidade fazendo colares e pulseiras. Vende-os a alguém que tem uma banca no mercadinho. Com o tempo e algo mais de prática, se converterá em uma artista. —Sem ti nunca seria possível — comentou Jeff. Cat franziu os lábios, pensativa. —Se Sparky tivesse sobrevivido ao acidente suas vidas teriam tomado outro rumo. Talvez ao saber que estava grávida teriam deixado a liga de motoristas. Tivessem criado juntos a Michael com amor e ela teria podido aperfeiçoar seu talento para o artesanato. Segundo parece, Sparky era muito inteligente e se interessava por literatura e a filosofia. Teria podido ser mestre ou escritor. —Isso é uma novela rosa, Cat. O mais provável é que as coisas não tivessem ido assim. —Mas nunca o saberemos, verdade? —E outra pessoa viveu. Cat saiu de seus sonhos e desatou o nó que sentia na garganta. —Sim, outra pessoa viveu. Nessa mesma tarde, Jeff colocou a cabeça pela porta do escritório. —O senhor Webster acaba de chamar. —Agora? Estou até o pescoço de assuntos por resolver. —Tem dito que agora mesmo. Há algum motivo para ele estar preocupado? —Parecia preocupado? —Muito.


Fazia dias que não via Bill. Quando sua secretária os acompanhou até o escritório, ele demonstrou uma total falta de cordialidade. E acomodados no sofá de couro, Bill apresentou ao seu outro visitante. —Ronald Truitt. Como sabem, é o comentarista de televisão do Light. De modo que esse quarentão gordinho com calvicie incipiente era o seu némesis jornalísta, o crítico saído do inferno. Tinha cheiro de nicotina, já que, pelo bolso da camisa, aparecia um pacote de Camel que, de vez em quando, tateava como para se certificar de que seus cigarros seguiam ali ainda que não pudesse fumá-los. Queria aparentar que estava cômodo e despreocupado, mas não o estava fazendo bem. Balançava uma perna e piscava com muita freqüência. Cat fez caso omisso de Truitt, perguntou a Bill: —Oué ocorre? —Como cortesía profissional, o senhor Truitt veio nos avisar do conteúdo do artigo que aparecerá amanhã no jornal. Pensei que você também tinha direito de se avisada. —Avisar-me? Isso implica algo pouco agradável. —Por desgraça, o artigo tem Conotações pouco agradáveis. —Com respeito ao programa Os Meninos de Cat? — perguntou Jeff. —Exato. Bill olhou ao jornalista e indicou que era a sua vez. — Tem a palavra, senhor Truitt, mas tem de ficar claro que tudo o que for dito nesta habitação não será publicado. Truit sentou mais erguido e, sem que fosse necessário, abriu suas anotações. Cat sabia reconhecer quando alguém estava atuando. — A últimas horas desta manhã tenho recebido um telefonema de alguém chamado Cyclops — disse. — Ciclops ligou para você? —exclamou Cat. —Você o Conhece? —perguntou Bill. — Sim. Seu nome verdadeiro é George Murphy e está sendo procurado pela policia. Disse de onde chamava? — Não — esboçou um sorriso— Disse que o mais provável era que você mudasse os papéis e o fizesse aparecer como o delinquente.


—É que é o delinquente. Tem uma longa lista de delitos como meu braço, começando por maus tratos a um menor e terminando por extorsão. —É possível — disse Truitt— Mas alega que você não é nenhuma santa. —Nunca disse que o era, mas isso é invenção. Não tem nada melhor além de escrever um monte de insultos entre um motorista dependente químico buscado pela policia e eu? —Trata-se de algo mais sério que um monte de insultos — disse Bill. Fez uma pausa e deixou cair a bomba. —Cat, o senhor Murphy a acusa de abusos a menores. Estava muito atônita para poder falar. Olhou a Bill e depois a Truitt. —Assim é. Cyclops disse que tinha abusado de seu filho durante uma festa em casa do senhor Webster. —Não tem nenhum filho — gritou em tom áspero. —Um menino chamado Michael? —A mãe de Michael não está casada com Murphy. Legalmente não é o padrastro do menino. —Bom, isso dá igual, mas tem dado pé de perguntar se esse menino é o único do que você tem abusado. Não me negará que está em uma situação privilegiada para poder se aproveitar de vários. —Não é possível. Se carcajeó, incrédula, mas ninguém mais sorria, e menos ainda Webster. —Bill, dei algo, não acho que penses que... —O que eu pense não importa. Cat dirigiu-se ao jornalista. —Seguro que não vai publicar isso. Em primeiro lugar, é absurdo; em segundo lugar, sem uma confirmação expõe-se a uma demanda por quantias de proporções astronómicas. —Tenho algo no que corroborar. De novo ficou pasmada. —Quem? —Não estou autorizado para o dizer. Minha segunda fonte de informação quer ficar no anonimato, mas asseguro-lhe que está em situação de saber de que vai a coisa. —Não sabe nada de nada! — gritou — De onde saíu essa segunda fonte de informação? —Movi-me, falei com gente. —Está cometendo um terrível erro, senhor Truitt. Se publicar esse artigo vai sair-lhes caro a você e


a seu jornal. Qualquer pessoa que me conheça sabe que faço tudo o que posso dentro de minhas possibilidades para resgatar a meninos de qualquer forma de abusos, que seja físicos, sexuais ou psicológicos. Se George Murphy quer acusar-me de algo, deveria ter inventado algo mais palpável. —Mas você está em uma excelente situação para ganhar a confiança dos meninos, não? —Parece-me uma insinuação despreciável e que não merece resposta. Truitt adiantou-se até a borda de seu assento. Era como um tubarão que tinha cheirado o sangue e avançava em busca de sua presa. —Por que abandonou uma brilhante carreira como atriz de telenovelas para fazer um programa local como Os Meninos de Cat? —Porque me deu vontade. —Por quê? —insistiu o jornalista. —Porque de outra forma não teria tido provisão de meninos de quem abusar! —Cat. —Bom, não é aí aonde quer chegar? Lamentou ter gritado com Jeff, que só tentava acalma-la. Após uns momentos, falou a Truitt com um tom de voz mais razoável: —Deixei minha carreira porque queria fazer algo que valesse a pena durante o resto de minha vida. A careta de Truitt mostrava ceticismo. —Deixe-me ver se entendo. Renuncia a uns rendimentos fabulosos, à fama, por uma quantidade muito inferior e quatro miseráveis minutos em tela? —negou com a cabeça —. Não acredito. Ninguém é tão altruísta. Cat não ia revelar seus motivos, que eram muito íntimos. Além do mais, esse mesquinho gacetillero não merecia nenhuma explicação. Teria gostado de cuspir em sua cara, mas, pelo bem da WWSA, respondeu com diplomacia. —Não tem nada que apoie esta ridícula acusação. Cyclops é um delinqüente que mal sabe articular uma palavra por trás de outra. —Tenho duas fontes. A outra é digna de crédito e sabe sim como articular as palavras.


—Uma de suas fontes é esse cheguei; e a outra é alguém que não tem coragem para me acusar cara a cara. —Woodward e Bernstein, já sabem os do Watergate, escreveram com menos e terminaram tirando a droga de um presidente e passando à história. —A compaixão impede-me de explicar o quão longe que está de Woodward ou de Bernstein, senhor Truitt. Ele se limitou a sorrir, fechou o bloco e levantou. —Se deixasse de publicar uma notícia tão jugosa como esta me expulsariam do colégio de jornalistas. —É mentira. Descabelada e sem fundamento. —Posso publicar isso? —Não — disse Webster ao se levantar — Segue sendo uma conversação que não deve se publicar. A senhorita Delaney não está fazendo uma declaração oficial. —Bill, não me importo... —Faz favor, Cat. O departamento de relações públicas se ocupará disso. Acompanhou a Truitt até a porta. Depois, o silêncio na habitação era próprio de um funeral. Cat estava furiosa e olhava a Bill com olhos cintilantes quando regressou a sua mesa e sentou. —Estou esperando uma explicação, Bill. Por que cruzou de braços e deixou que me difamassem? Por que o recebeste? —Cat, volta a sentar-se, controla-se e escuta-me. Sentou-se, mas não podia morder a língua. —Acha que sou capaz de abusar dos meninos? —Claro que não! Mas tenho que pensar no que convém à emissora. —Ah, claro, a emissora. Enquanto a emissora fique à margem, minha reputação pode arrastar pelos chãos. Durante um momento, Bill parecia apenado. —Não podemos evitar que escreva e publique sua coluna, mas é preciso se apressar a atalhar a polêmica que este assunto vai gerar. Já dei ordem ao departamento de relações públicas para que começam já. Pode elaborar com eles uma declaração oficial. —Não tenho a menor intenção de desmentir uma mentira tão atroz. Como pode alguém me crer capaz de fazer dano a um menino?


Não conseguia conter as lágrimas. —O público do programa não o crerá, Cat — disse Jeff, muito convencido. —Penso o mesmo — acrescentou Bill — Lerão o artigo e aí terminará tudo. Teus admiradores o tomarão corno o que é: um ataque malicioso por parte de alguém que te odeia. »Depois de umas semanas ninguém se lembrará. Enquanto, o programa fica suspenso. Cat não dava crédito a seus ouvidos. —Não está falando sério. —Me desculpe. Já está decidido. —Equivale a admitir a culpa. Rogo-te que o reconsidere, Bill. —Sabes que apoio firmemente o trabalho que faz. Foi um empurrão para a emissora e uma contribuição importante à comunidade. O programa voltará em seu momento oportuno. »Não faz falta que te diga o respeito e o amor que sento por ti, Cat, e o que lamento te desagradar. Sou consciente de que te parece uma traição, mas, como responsável pela WWSA, eu tenho a obrigação de pensar no melhor para todos, inclusive para ti. »Até que este incidente se tenha esquecido, não me parece conveniente que apareças em tela. Sua expressão sombria e seu imperioso tom de voz diziam que sua decisão era irrevogável. Cat contemplou o chão e, depois, levantou a cabeça. —Muito bem, Bill; entendo tua postura. Terá minha demissão antes que acabe no dia. —Que? —exclamou Jeff. —Cat... —Escutem-me bem os dois. Se essa história for publicada, o programa morrerá para sempre. Poderia negar as acusações até ficar afónica e não serviria de nada. As pessoas têm a tendência de acreditar no pior; mais ainda se o lemos. Se está escrito, deve de ser verdade, não? »Bill, acaba de dizer que tem de pensar no melhor para a WWSA. Eu tenho que pensar no que é melhor para os meninos. Seja o que for o que acredita Truitt ou qualquer outra pessoa, seu bem-estar foi a única coisa que me impulsionou a me dedicar de corpo e alma ao programa. E eles seguem sendo minha principal preocupação.


»Já são vítimas inocentes e não quero que sofram mais eliminando o que poderia ser sua última esperança. Eu me vou, mas podem mudar o nome e seguir emitindo o programa. E recomendo que não perca tempo para buscar a alguém que me substitua. Capítulo quarenta e sete —Olá, o que quer? —Me ocorreu que cairia bem um pouco de mimo. Trouxe hamburguers com queijo. Jeff levantou o pacote para que ela pudesse ver pelo vidro. —Com muitas calorías? —Quase não posso levantar o pacote. —Em todo caso... Cat abriu a porta, saudou a alguém com a mão, fez passar a Jeff e voltou à fechar. —Quem você saudou? —Não te fixaste no carro estacionado ao final da rua? É meu anjo da guarda. O tenente Hunsaker deixou a casa vigiada vinte e quatro horas por dia até que detenham a Cyclops. —Boa ideia. —É ideia de Alex. Eu me sinto uma idiota com todo este assunto de agentes secretos. Entraram na cozinha e tiraram a comida rápida dos sacos. —A primeiras horas desta tarde, quando fomos a delegacia apresentar a denúncia, Alex convenceu a Hunsaker a colocar um policial á paisana no caso de Cyclops regressar. Ouve, estão maravilhosas — disse devorando outra batata frita — Obrigada. —Imaginei que não teria comido. —Não comi. Nem sequer notei que tinha fome. —Onde está o senhor Pierce agora? —Como vou saber? Não nos seguimos a pista. Parecia estar à defensiva porque assim era como se sentia. Alex não tinha telefonado. Ainda que sabia que ela não ia mais para a California, suspeitava que ainda estava enfadado por lhe pedir ajuda e depois comunicar que voltava para Dean. Não tinha sido essa sua intenção, mas ele notou. Após deixá-la sob a tutela de Hunsaker, tinha lavado as mãos. Cat queria saber sua opinião sobre os últimos acontecimentos, mas não o chamaria. Ele teria que dar o primeiro passo... se é que queria o


dar. —Eu pensei que talvez estivesse contigo — disse Jeff. —Ontem à noite ficou aqui. Massageou a frente para tirar a jaqueta que parecia assaltar a cada vez que tentava encontrar algum sentido a sua estranha relação com Alex. —Se não te importas preferiria não falar dele. —Como queiras. Tens ketchup? —Na geladeira. Mas usa-o com moderação, já está tarde e estou desempregada. —Você não vai se manter firme na sua demissão, verdade? Ao princípio, a hamburguer e as batatas hitas pareciam apetitosos. Agora, pensando na deserção de Alex e no artigo de Truitt, a comida dava náuseas. —Estou num Dilema sobre o que tenho que fazer, Jeff. Tudo é tão complicado... Com senso do humor acrescentou: —Sabes? Era melhor quando meu único problema era um coração em fase terminal. »Agora minha vida amorosa é uma verdadeira bagunça, um motorista quer me matar, minha reputação vai ficar pelos chãos graças a um jornalista-vampiro e não posso fazer nada para evitar. Claro que, se o olhamos pelo lado otimista, dentro de dois dias um psicópata pode surgir dentre as sombras e me liquidar, poupando assim todas as demais preocupações. —Dois dias? Já não me lembrava. —O tempo passou voando desde que conheci a Cyclops e envolvi-me no assunto de Patricia e Michael. Na verdade a data do aniversário foi chegando sem que eu desse conta. —O senhor Pierce não tem averiguado nada sobre os recortes? —Passou pela sua cabeça a ideia de que pudesse ser Ciclops. Mas, após refletir sobre isso, o descartamos. Não é bastante inteligente. —E Paul Reyes? Tinha explicado a Jeff o que sabiam de três incidentes ocorridos pouco antes de seu transplante, e tinha pedido que buscassem na hemeroteca artigos de jornais relacionados com os três casos. Como resultado de sua investigação, leram tudo o que encontraram do julgamento a Reyes. —Alex tenta localizar algum familiar disposto a falar com ele.


—E o amante? —O amante? —repetiu perplexa—. Não sei. —Também não tem saído nenhuma informação do acidente múltiplo na estrada de Houston? —Que eu saiba, não. Nem lembrava-me. Soou o telefone. —Diga? —Onde estão? O coração disparou. —Cyclops? Os olhos de Jeff saíam das órbitas. Deixou cair o hamburguer e levantou da cadeira. —Chamo a policia? —perguntou em um susurro. Ela negou com a cabeça e indicou que permanecesse calado. Mal podia ouvir a Cyclops pelo ruído de fundo. —Advirto-to, zorra, será melhor que me digas onde estão. —Em um lugar onde não os encontrará. Cat falava tranqüila e sem medo, ainda que o coração batesse acelerado. —Estão a salvo e não voltará a machucá-los. —Talvez sim, talvez não. Mas a ti sei que posso encontrar. Sei onde trabalha e onde vive. Nada disso teria ocorrido se você tivesse ocupado de teus assuntos. —Já não trabalho para a WWSA, graças a você. —Que? —Não se faça de idiota, ainda que já sei que é pedir muito. Mas, por outra parte, talvez seja mais idiota do que parece. Só uma mente tacanha, mas torta podia inventar uma mentira como a que contou ao senhor Truitt. —A quem? —Ao jornalista do Light. —De que caralho está falando? Tem o telefone grampeado? Claro, me entretem dizendo porcaria. E desligou. Cat seguiu com o telefone na mão. Por fim devolveu-o a seu suporte e ficou pensativa. —O Que ele disse? —perguntou Jeff. —Pois... —Sabe onde está? Cat? Que te ocorre? Precisava um momento para recuperar-se. —Segue ameaçando. —Quer dizer acusá-la de abusos a menores não era suficiente?


—Cyclops diz que não sabe nada disso. Por estranho que possa parecer, acho que diz a verdade. Jeff negou com a cabeça, perplexo. —Não entendo nada. —Eu também não. —Truitt disse que Cyclops o chamou. Não podem inventar esse nome. —Não inventou. —Pois mente então? —Não; alguém telefonou a Truitt e se identificou como Cyclops. A Jeff acendeu uma bombilla: —E pôde ter sido qualquer. É possível que a mesma pesssoa que te enviou os recortes. —Exato. Esta pessoa está em todas as partes. Tenho a impressão que se meteu dentro de minha pele. Sabe o que está passando quase ao mesmo tempo em que eu, inclusive minha relação com Cyclops. Ou talvez esteja precipitando em minhas conclusões. Jeff, já não sei, nem que fazer nem que pensar. —Tranqüila, Cat, sejamos práticos. Supondo que a pessoa que te persegue inventou a história do abuso de meninos e chamou a Truitt, quem a corroboraría? Truitt é ambicioso e repugnante, mas não me parece um imbecil. —A mim também não. —Portanto, não acho que colocaria seu pescoço em risco a não ser que tivesse essa segunda fonte que apoia as acusações. Seguiram buscando os prós e os contras. A cabeça de Cat estava a ponto de estalar. Após dormir só um par de horas a noite anterior, tinha tido que se enfrentar à chegada inesperada de Patricia, a Truitt com suas más notícias, à traição de Bill, e, agora, isto. Sua cabeça não dava pára mais nada. —Jeff, estamos dando voltas num círculo vicioso. Perdoa, mas amanhã será outro dia. Talvez um banho quente me ajude a dormir. —Se quiser ficarei contigo. —Obrigado, mas já tenho alguém que me faz companhia ao final da rua. Diante da porta, Jeff abraçou-a. —Rogo-te que reconsideres tua renúncia. —Já está apresentada.


—Mas Webster tinha saído quando a levou. Não é oficial até que a firme. Espera a ver os efeitos do artigo de Truitt. Talvez não sejam os que esperamos. Cat, não pode ir; você é o programa. —É o que diziam todos quando eu era Laura Madison. A personagem já não existe, mas a telenovela está aí a cada dia às doze. —Isto é diferente. Os Meninos de Cat é tua missão na vida, importa-te muito. E também a todos nós. Cat quis aliviar a pressão com uma piada. —Doyle, não me engana: só tenta conservar teu emprego. Olhou-o enquanto entrava no carro e, a seguir, comprovou que o carro de policia sem identificação seguia ali. Ao princípio tinha-se oposto a ter alguém que vigiasse a casa, mas agora tranqüilizava saber que dispunha de ajuda ali mesmo. Cyclops podia voltar, ainda estava ávido de sangue, mas estava convencida de que o desgraçado não sabia nada da história que tinham explicado a Truitt. O estilo de Cyclops era o ataque direto, talvez com uma navalha, mas não os subterfugios. Se ele não tinha telefonado a Truitt, quem o teria feito? E como sabia que o nome de seu inimigo era Cyclops? Quem era a segunda fonte de Truitt? Cat, buscando respostas, submergiu-se no banho de borbulhas. Capítulo quarenta e oito Seu rosto contraía-se enquanto aumentava o ritmo e o sangue fervia nas veias. Tinha a frente banhada em suor e algumas gotas caíam em seus olhos e lhe escorriam. Mexia-se como se corresse colina acima, esforçando até o limite de suas forças, buscando um meio de esquecer seu sentido de culpa e absoluta por seus pecados. Não se enganava pensando que isto era fazer o amor: sabia que era se autoflagelar. Aproveitava com todo cinismo da sensualidadee desta mulher que nunca dizia que não. Cedia a seus desejos sem uma palavra de afeto nem uma caricia terna, e jamais se queixava. Obedecia as suas ordens e quanto mais pedia mais ela dava. Sua submissão também não estava baseada no amor; e também não era desinteresada. Tinha


motivos egoístas para mantê-lo contente e para que seguisse sendo seu amante. Os dois obtinham de sua relação sexual o que queriam. Imperava sempre entre eles o sexo lascivo e sujo: quanto mais degenerado, melhor. Já que era uma relação ilícita, não perdiam nada ao satisfazer seus instintos primitivos e solta a imaginação a qualquer fantasía. Alongou as mãos e agarrou ambos os seios. Seu ventre tinha deixado manchas de suor nas nádegas. A ela não gostava dessa postura, mas seu erotismo a dominava e levantou o lombo como se fosse um gato, propriedadendo as unhas no lençol. Amaldiçoou-o inclusive Quando começou a ter convulsões perto do clímax, quando ele já ejaculaba. A mulher deixou-se cair o rosto e ele se derrubou em cima dela. Depois de uns momentos disse ela entre dentes: —Aparta-te, estás-me apertando. Tendeu-se de costas abrindo os braços, Ofegante ainda. Ela avançou a quatro patas até os pés da cama, se levantou e pôs um vestido. —Fiz-te dano? —Faz parte do jogo, não? —Sei que preferes não fazer dessa forma. —Seguro que às mulheres das cavernas devia de parecer muito romântico. Esperava encontrar sarcasmo em sua expressão, mas estava seria. Rara vez o recriminava. Soou a campainha e os surpreendendo. Ele se levantou sobre os cotovelos. —Quem pode ser? —Nem ideia. —Não faças caso. —Poderia ser meu irmão pequeno buscando um lugar onde passar a noite. —Estando eu aqui? —perguntou alarmado. A ideia de que alguem pudesse o encontrar no apartamento dela o punha nervoso. —Tranqüilo; ele não faz perguntas. O que eu faço é assunto meu. Se anudó o cinto de vestido, baixou a escada e abriu a porta. —Que diabos faz você aqui? —ouviu que exclamava. —Olá, Melia, posso passar? —Que quer? —perguntou Melia sem a menor cortesía. O homem esfregou a cara. O suor estava esfriando em seu corpo produziu um estremecimiento.


—Temos que esclarecer algumas coisas. Posso passar? Ouviu que a porta se fechava e imaginou às duas mulheres cara a cara. —Já está você dentro. E agora que? —Foi você,não é verdade? Você é a pessoa que esteve jogando sujo. —Não sei de que está falando — disse Melia — Apresenta-se aqui em plena noite, sem que ninguém a tenha convidado e dizendo tolices. Jesus! Deve de estar paranoica; acho que você precisa de um psiquiatra. Cat não se amilanó. —A pista esteve sempre diante de meus narizes, ainda que não a via. Mas esta noite, enquanto estava tomando um banho, veio-me à cabeça teu apelido: King. —Sei muito bem como me chamo — contou Melia em tom brincalhão. —Mas não é o apelido de nascimento. O de nascimento é Reyes, mas mudaste-o por King, que em inglês significa o mesmo. —Ah, sim? —Aposto a que sim. E tens um parente chamado Paul Reyes. —Como? —Paul Reyes. —É possível. Não conheço todos os ramos da minha árvore genealógica. —Deste ramo sim te lembrarás. Apareceu nos jornais depois de ter matado a sua mulher com um taco de beisebol. Foi julgado, mas saiu absolvido. —Ouça, não tenho nem a mais remota ideia do que me está dizendo. Não conheço a ninguém chamado Reyes. Por que não se longa e me deixa em paz? Cat não estava disposta a abandonar. —Paul Reyes doou o coração de sua mulher para transplante. —Eu que me importo? —Parece-me que muito. E a ele também; tanto que quer parar o coração de sua mulher infiel. Como funciona? Vejamos. Tu localizas aos transplantados e ele os mata, não é assim? —Mas, que...? —Claro que és tu! Tinhas acesso a qualquer coisa de meu escritório, estavas inteirada de todos os telefonemas, o sabias tudo sobre minha vida. —O único que sei é que é você um caso clínico! —gritou Melia. —Todo o pessoal da emissora estava convidado para o churrasco, e ali me viu com Michael. Hoje


ouviu falar de meu incidente com Cyclops. Sabia que Truitt não é um admirador meu nem do programa, e que encantaria saber qualquer coisa que me prejudicasse. »De modo que fez alguém o chamar, é provável que os mesmo Reyes, que se identificasse como Cyclops e que explicara essa história descabelada. Depois, quando Truitt começou a pesquisar as acusações, estava mais que disposta a corroborar. Não podia ter nada pior. Um programa destinado a ajudar aos meninos é, Na verdade, uma tampa para abusos sexuais. —Tem você uma imaginação incrível. —Não foi imaginação que me caísse um foco em cima. —Não tive nada que ver com isso! —Não são imaginações que atirassem meus medicamentos ao cubo do lixo. —Estava farta de você. —Por quê? —Por ser tão quejica! —Ou por levar um coração que tu e tua família queríeis que deixasse de bater. —Já lho disse; nem sequer conheço a ninguém chamado Reyes. —Judy Reyes era uma esposa infiel e toda a família estava ofendida. Ofereceste-te como vingadora. —Não posso crer o que estou ouvindo! —Eu sim. Quando tive a pista sobre teu apelido, todos os demais têm encaixado. Tens-me estado hostigando. O foco, os recortes cartas anônimas, o conto que lhe explicaram a Truitt; tudo estava planejado para me debilitar. Para que me derrubasse e fosse mais vulnerável. »Depois, quando aparecesse morta, talvez um suicídio?, depois diriam que já fazia tempo que me comportava de uma forma estranha e que estava à beira da loucura. »Dime, Melia, como planejaram me matar tu e Paul Reyes? Atropelandome no meio da rua e que parecesse um acidente? Enchendo-me de pílulas para que eu me dar conta morreria de overdose? Outro acidente no estúdio? —Basta já! Não sei nada de tudo isto. —E tanto que sim. —Sei que tem recebido correio anônimo, mas não o enviei eu. Nem manipulei o foco para que caísse. Vê-me escondida ali acima com uma chave de fenda? Volte à realidade.


—Isto é real. Começou a trabalhar na WWSA pouco depois de eu anunciei que me mudaria para cá. Você moveu os fios para que te contratassem. E odia-me desde o mesmo momento em que me viste. —Não o nego. Mas não tem nada que ver com seu coração. —Pois com que? —Pensava que eu tinha alguma taxa de juro sentimental por ti. Bill Webster observava-as do alto da escada quando Cat levantou a cabeça. Ao vê-lo, mudou o semblante e seus olhos azuis não saíram dele enquanto descia. Tinha posto os calças e a camisa, mas ia descalço. Sabia que era evidente que acabava de levantar da cama de Melia e que não tinha nem a menor possibilidade de autodefesa. Balbucear desculpas ou negá-lo custaria os últimos fios de dignidade que ficaram. —Só puder chegar a uma conclusão lógica do que vê, Cat. Nesta ocasião, as aparências não enganam. São exatamente o que parecem. Chegou ao bar. —Preciso um copo. E vocês? Serviu-se um escocês no seco e bebeu-o de um gole. Melia acomodou-se em um extremo do sofá e dedicou-se a olhar as unhas, feitas. Dava a impressão de que Cat tinha jogado raízes no centro da sala. —Repreendí a Melia pelo que fez com teus remédios. Foi uma manobra estúpida e infantil e adverti-lhe que não voltasse nunca mais a fazer nada semelhante. —Jogou-me uma bronca — disse Melia mal humorada. A acusação nos olhos de Cat era sofocante, mas se própôs não piscar. —Lamento que te tenhas inteirado disto — disse — Mas fez uma acusação falsa contra Melia e vi-me obrigado a sair em sua defesa. Cat, por fim, falou. —Isto é incrível. E, no entanto, explica muitas coisas. Como por que a readmitiste após que eu a despedisse. Suspirou asqueada; uma reação que a ele não surpreendeu. —Sabes que Nancy pensa que tem uma aventura comigo? —disse Cat. —Não o falámos — mentiu ele. —Por que vocer se deita com ela se está casado com uma mulher maravilhosa?


—Se é tão maravilhosa, que faz ele em minha cama? —perguntou Melia — O direi: porque aqui fode como gosta. —Melia, faz favor, deixa a mim. Cat, isto é assunto meu. Deixou claro em diversas ocasiões que não querias que me intrometesse em tua vida privada. Mereço a mesma cortesía. —De acordo. Mas acho que tua fulana é quem tem-me estado acossando. —Equivocas-te. —Não tive tempo de comprovar seu expediente para saber onde esteve e daí tem feito durante os últimos anos, mas tenho a intenção do fazer. E se descubro que esteve cerca desses três transplantados que morreram o notificarei ao Departamento de Justiça. —Tenho vivido toda minha vida em Texas — disse Melia—. E, para sua informação, o nome de meu pai é King. Só tenho uma quarta parte de sangue hispana; de modo que isto manda sua teoria ao carajo. Além do mais, noa me importo de quem seja seu coração. O único que eu queria é que não se achasse que aterrissando aqui ia levar Bill. —Não te pertence. Melia sorriu com desdem. —Não? Teria que ter visto faz cinco minutos. Tinha-o de joelhos. Bill sentiu ardor no rosto. —Ao princípio, quando chegaste, Melia estava zelosa porque pensava que eu a ia trocá-la por ti. Assegurei que não era essa a natureza de nossa relação. Cat olhou a Melia, que se peinaba com os dedos. —Não acho que seja tão inocente. No mínimo, corroborou essa ridícula história sobre abusos a menores, não é verdade? Os olhos escuros piscaram. Bill chegou mais a ela. —Melia, fez isso? Sua expressão era de culpa. Bill parecia sentir um imenso desejo de esbofeteá-la. —Melia, contesta-me! Levantou-se do sofá. —Hoje ele homem me ligou? Repetiu-me o que um motorista chamado Cyclops disse por telefone e me perguntou se eu sabia algo. Falei que a tinha visto com esse menino no churrasco e que não havia


se separado dele. Então Truitt perguntou-me se ela havia tido a oportunidade de estar a sós com o menino. Contei que sim e que tinha visto com meus próprios olhos como entrava com ele na casa quando dentro não tinha ninguém mais. »Depois me perguntou se isto podia estar relacionado com o outro incidente, o do casal que voltou atrás na adoção. Podia essa menina ser outra das vítimas de Cat? Disse que era melhor não o mencionar, já que eu estava na equipe do programa quando ocorreu e não queria me ver incriminada com ela. —Deus meu — murmurou Cat com uma mistura de asco e surpresa. Então se dirigiu ao Bill: —Será melhor que a tenhas contente. Se alguma vez você rompesr esta sórdida relação, só Deus sabe os estragos que ela provocará em tua vida. E não será por não tê-la merecido. Sua ira ia aumentando. —Seus ciúmes infundados estiveram a ponto de afundar o programa. Teria destruído tudo o que tínhamos conseguido. Sua mentira pode afetar as vidas de dúzias de meninos. E privá-los de um futuro, e tudo por essa... Vale a pena, Bill? —Não permito que faça julgamentos sobre Melia e sobre mim, Cat — disse em uma débil tentativa de se defender — De todas as formas, lamento que hoje te tenham causado problemas. —Problemas? —repetiu sublinhando o absurdo da palavra — E lamentá-lo não é suficiente. Não vai arranjar isto como uma desculpa. Levantou o telefone da mesinha e alongou-lho. —Acredito que conhece o diretor do Light. Chama-o e evita que publiquem esse artigo. —É impossível, Cat, é muito tarde. Seguro que já está em maquinas. —Então será melhor que saia correndo e aperte você o botão para as parar. Se publicarem a matéria, juro-te que amanhã terá outro artigo que eclipsará o meu. Não gostaria de fazer isso a Nancy, mas o farei para salvar Os Meninos de Cat. Conheces-me e sabes que não é um blefe. Olhou a Melia com olhos cintilantes. —Tu não é mais que uma puta. Uma puta estúpida, maliciosa e barata.


Então se virou para Bill. —E você me dá pena. É patético; o típico velho verde que tenta recuperar sua juventude fazendo guarradas. Sorriu com desdem e caminhou para a porta. —Aconselho-te que faças esse telefonema antes que seja tarde demais. Capítulo quarenta e nove Faltava quase uma hora para que amanhecesse quando Cat voltou a casa. Ao sair do apartamento de Melia estava muito nervosa para dormir, mas já tinham passado horas e tinha a sensação de que poderia dormir durante todo um mês. Tirou os sapatos, Tirou as mangas blusa dos jeans e dirigiu-se ao dormitório. —De onde vens a estas horas? A voz chegou-lhe da escuridão do salão. —Maldito seja, Alex! —Levo meia noite te esperando. Alex acendeu o abajur e piscou, deslumbrado pela luz repentina. Estava jogado em uma cadeira, mas levantou-se. —Que esteve fazendo? —dirigindo. —Dirigindo? —San Antonio não tem praia. Busquei uma. — E isso tem algum sentido? —Para ti não, para mim sim. Que fazes em minha casa? Não vi seu carro lá fora. E como entrou? —Deixei-o na outra rua, vim pelos pátios traseiros e entrei pela janela da cozinha foi fácil, igual que a outra vez. Deveria mudar esse trinco de brinquedo. E por que não ligou o alarme? —Não me pareceu necessário, com um policial vigiando a casa. —Esquivar foi muito fácil. Qualquer pode fazê-lo. —Pois vá uma vigilância — murmurou ela. —Por que não te seguiu? —Queria fazê-lo quando saí, mas disse que ia comprar pão e leite e voltava em seguida. Agora o surpreendi bocejando e suponho que acordava de uma longa siesta. —Já. Estás bem? Ela assentiu. —Pois não o parece. Teu aspecto é deplorável. Até onde foi nessa viagem que tem durado horas?


—A nenhuma parte e a todas. E deixa de interrogar-me. Você é o intruso. Tenho fome. Tinha-se desvanecido suas esperanças de dormir, de modo que decidiu apaziguá-las comendo. Desde o hamburguer com Jeff não tinha comido nada. Alex a seguiu à cozinha. Cat apanhou uma caixa de cereais do armário e encheu um prato. —Queres? —Não, obrigado. —Por que estava esperando? —Falaremos disso depois. Aonde foi e por quê? O Que aconteceu desde que saíu do escritório de Hunsaker? Enquanto apanhava uma colherada de cereais, passas e amêndoas fatiadas, disse: —Não vai acreditar. —Prova. Indicou que se sentasse e ele arrastou uma das cadeiras da cozinha. Explicou tudo o referente a Rum Truitt. —E resultou que não era Cyclops que o tinha chamado. —Como o sabe? —Ontem à noite, enquanto Jeff e eu estávamos aqui sentados e me lamentava por me ter ficado sem trabalho, chamou o motorista. Está furioso comigo, mas assegurou que não sabia nada da noticia que tinham facilitado a Truitt. —Podia estar mentindo. —Sim, mas não me deu essa impressão. —Se não foi ele, quem foi? —Segue sendo um mistério. Mas sei quem respondeu a historia. Melia King. Já sabe quem é; esse sonho úmido ambulante. Para Alex a observação não fez graça. —Faz sentido — disse ele— Desde o princípio vocês não se deram bem. —E agora sei o por que! Ela se deita com o homem que se supõe ia pra cama comigo. —Webster! —Não pode imaginar a bofetada moral que recebeu meu ego ao ver que prefere a ela — disse em tom cáustico. Contou o ocorrido no apartamento de Melia. Alex deu um soco sobre a mesa e disse:


—Esse filho de puta! Já sabia eu que era um imbecil. Não disse? —Sempre pensei que Bill é muito astuto, sagaz inclusive, mas em um sentido construtivo. Agora resulta que é um adúltero mentiroso e mesquinho, e, para mim, essa é a forma mais rasteira de viver. Não entendo por que é um mandamento tão difícil de guardar. Se quer andar transando por aí não se case. Alex fez uma careta. —Não está de acordo? —Estou de acordo em que no papel parece muito bonito, mas quase nunca é tão simples. Às vezes há circunstâncias atenuantes. —Quer dizer que se podem justificar. Mas não vejo como Bill pode justificar este assunto. Estava furiosa com ele, mas também sentia uma estranha sensação de perda. Bill Webster não tinha que prestar contas do que fizesse em sua vida privada, mas se sentia traída por um homem ao que tinha admirado e respeitado. A traição doía-lhe. —Por que teria que pôr em perigo seu casamento com uma mulher tão encantadora como Nancy por essa puta ressentida? —Talvez Melia aceite seus caprichos. —Disso estou segura, mas o que para valer me preocupa é que Nancy pense que sou eu. Já tinha terminado de comer os cereais e se levantou para fazer café. —Queria estrangulá-lo. Estive a ponto de acabar com meu programa por não ser capaz de controlar seus mais baixos instintos. Durante nossa conversa tentou manter sua dignidade, mas via-se que estava envergonhado. Confio em que estivesse mortificado e espero que suem as mãos a próxima vez que ele, Nancy e eu estejamos na mesma habitação. Quer café? —Sim, obrigado. Voltou à mesa com duas canecas. —Ao sair de casa de Melia estava muito nervosa para dormir, de modo que estive dirigindo durante horas tratando de encontrar uma explicação. —Pensa que Webster pode evitar que publique á matéria? —Penso que fará o possível, mas não conseguir pedirá uma retratação e exigirá que o jornal assuma toda a responsabilidade pelo erro.


Sorriu com tristeza. —Agora só tenho que me preocupar de seguir vivendo depois de passar a manhã. —Não é para fazer piada. —E diz isso a mim? —Tenho boas notícias. —Me virão muito bem. —Esta tarde chamou-me Irene Walters. Sabe quem passará o fim de semana com eles? Joseph. —É estupendo! Oh, espero que funcione. É um garoto tão inteligente e carinhoso... Não me esqueço que me disse que não se enfadaria comigo se não o adotassem. —Parece-me que isso está feito. Disseram que viram a reportagem e gostaram dele no mesmo instante. Têm que fazer o curso, entretanto os irá visitar. Charlie quer ensinar-lhe a jogar xadrez e Irene já tem uma lista de seus pratos favoritos. Inclusive levou Bandit à salão para que cause boa impressão. Ao alongar a mão para acariciar-lhe a bochecha, Alex deu-se conta que chorava. —É uma boa notícia. Obrigado por animar-me. Secou as lágrimas com um guardanapo de papel e depois olhou-a aos olhos. —Quem chamou ao jornal, Cat? —Não o sei. —Eu acho que a mesma pessoa que quer te matar. —Eu também. E segue por aí solto, jogando comigo. Mas, como pode saber o de Cyclops? —É possível que tenhas o telefone grampeado, ou microfones ocultos — fez uma pausa—. Ou pode ser alguém muito próximo a ti, alguém em quem confias e de quem nunca suspeitarias. O café tinha lhe feito mal: Alex tinha chegado à mesma conclusão que ela. Levantou-se inesperadamente. —Vou tomar banho. —Que seja rápido. O avião sai dentro de duas horas. —O avião? —Por isso vim. Dizer que localizei à irmã de Paul Reyes. Vive em Fort Worth e está disposta a falar conosco. Capítulo cinquenta Era horário de pico e chegaram ao aeroporto no tempo certo de subir no avião. Depois de três


quartos de hora desembarcaram em Love Field, em Dallas, onde Alex alugou um carro. —Vão ser mais longos estes trinta e cinco quilômetros até Fort Worth que o vôo — disse ao sair do aeroporto. —Sabes aonde vamos? Cat contemplava a cidade ao longe. Nunca esteve em Dallas. Oxalá a viagem tivesse sido só turística. —A senhora Reyes-Dunne deu-me umas indicações, mas de todas as formas já conheço a área. —Como a localizaste? —Uma vez colaborei em um caso com a policia de Dallas e fiquei amigo de um dos detetives. Faz em alguns dias chamei-o para perguntar se recordava o caso Reyes. Contou que era difícil de esquecer, ainda mais quando mudaram o julgamento a Houston já não o tinha seguido muito. »Como um favor, pedi que localizasse à família de Paul Reyes e expliquei o motivo. Destaquei que não era um assunto relacionado com a policia. »Depois de um par de dias telefonou-me para informar-me que tinha localizado à irmã de Reyes. Disse que não estava muito disposta, de modo que deixou que ela decidisse. Deu meu número de telefone quando se decidisse. Aqui está resultado: ontem, quando voltei do escritório de Hunsaker, havia deixado uma mensagem na secretária eletrônica. Chamei-a e aceitou uma entrevista. —Deu-te alguma informação por telefone? —Não; só me confirmou que era a irmã do Paul Reyes que estava buscando. Todas suas respostas as minhas perguntas eram cautelosas, mas se mostrou interessada ante a possibilidade de que tivesse recebido o coração de Judy Reyes. Seguindo tanto o mapa de estradas como seu instinto, entrou no labirinto de estradas que ligava ambas as cidades. Uma comunidade fundia-se com outra para formar uma interminável expressão de bairros periféricos. Alex encontrou a rua que estavam buscando em uma área antiga no centro de Fort Worth, ao lado


de Camp Bowie Boulevard. Estacionou diante da casa de tijolo. O jardim estava à sombra de um sicomoro e as folhas caídas cruzavam embaixo de seus pés enquanto avançavam para a entrada. Uma formosa mulher de aspecto hispano saiu a recebê-los. Usava um uniforme de enfermeira. —É você o senhor Pierce? —Sim. Senhora Dunne, apresento-lhe a Cat Delaney. —Encantada. A mulher apertou suas mãos. Observou com atenção a cara de Cat. —Acha que leva o coração de Judy? —É possível. A mulher não tirava a vista de em cima. De repente, recordou que tinha que fazer as honras e mostrou as cadeiras de vime da entrada. —Se preferirem, podemos entrar. —Não, aqui está bem — disse Cat ao mesmo tempo em que se sentava. —Gosto de estar ao ar livre sempre que posso. —É você enfermeira? —Sim, do John Peter Smith, o hospital do condado, e meu marido é radiólogo. Agora trabalho no turno de noite e tenho saudades da luz do sol. Olhou a Alex e disse: —Não sei exatamente por que quer me ver. Por telefone não me deu muitas explicações. —Interessa-nos localizar seu irmão. —Era o que me temia. Tem feito algo errado? Cat olhou a Alex para saber se tinha dado importância às duas inocentes frases. Era evidente que sim. —Tem tido problemas desde que foi absolvido do assassinato de sua mulher? A senhora Dunne respondeu à pergunta de Cat com outra: —Pára que querem o ver? Não direi nada até saber que os trouxe aqui. De um envelope marrom, Alex Tirou recortes de jornal e os mostrou. —Tinha visto antes estas resenhas? Enquanto lia recortes, era a cada vez mais evidente que a inquietavam. Ao outro lado dos óculos, seus olhos demonstravam apreensão. —Que têm que ver com Paul? —É possível que não seja nada — disse Cat— Mas faça o favor de fixar nas datas. É amanhã. É


o dia em que essas mortes, se supõem que sem nenhuma relação entre si, ocorreram. É também o aniversário do assassinato de sua cunhada e de meu transplante. »Nós, o senhor Pierce e eu, não achamos que os três depois transplantados morressem acidentalmente. Pensamos que puderam ser assassinados por um membro da família de um doador que quer parar o coração na data em que se terminou. A senhora Dunne Tirou do bolso um lenço de papel e secou as lágrimas. —Meu irmão adorava a Judy. O que fez foi horrível e não o perdoo. Deixou-se levar por um ataque de ciúme... A queria tanto que quando a viu com outro homem... Fez uma pausa para assoar o nariz. —Judy era preciosa. Tinha sido o amor de sua vida desde a infância. Era inteligente, bem mais que Paul; por isso a tinha em um pedestal. —Um pedestal pode ser um lugar muito solitário — sublinhou Cat. —Sim, tem você razão — assentiu a enfermeira— Não justifico o adultério de Judy, mas posso o entender. Era uma mulher decente e muito religiosa. Ao se apaixonar por outro homem deve ter sido um tremendo conflito pessoal. »Estou segura de que se pudéssemos o perguntar diria que a ação de Paul estava justificada e que o tinha perdoado. Mas duvido que perdoasse a si mesma por todo o dano que causou a ele e a suas filhas. Tossiu. —E creio também que Judy ainda seguiria amando a esse homem. Não era uma simples aventura: queria-o o suficiente como para morrer por ele. Cat recordou que Jeff tinha perguntado pelo amante e isso tinha acordado seu interesse. —Que foi dele? —Oxalá soubesse-o — a voz da senhora Dunne encheu-se de antipatía— O muito covarde fugiu. Nunca deu a cara. Nem Paul nem nenhum de nós soubemos nem sequer seu nome. Cat acariciou sua mão. —Senhora Dunne, sabe onde está seu irmão? Dividiu entre ambos um olhar receiosa. —Sim. —Poderá conseguir que falássemos com ele?


Nenhuma resposta. Alex inclinou-se para ela. —Existe uma remota possibilidade de que ele enviasse à senhorita Delaney os recortes e o falso obituário como uma éspecie de aviso? Sei que não quer acusar seu irmão, mas existe algum ligeiro indício de que ele cometesse os três assassinatos para parar o coração de Judy? —Não! Paul não é um homem violento. Ao dar-se conta do absurdo dessa afirmação tendo em conta o crime que tinha cometido, retificou: —Só aquela vez. O engano de Judy voltou-o louco. Caso contrário, nunca teria posto a mão em cima. —Quem pediu que doasse seu coração para um transplante? —perguntou Cat. —Eu. A alguns membros da família não gostaram nada. Paul... —Que disse? —Que pelo que ela tinha feito merecia que tirassem seu coração. Alex olhou a Cat com toda intenção. —E agora não pode suportar que seu coração infiel siga batendo. —Meu irmão não persegue à senhorita Delaney. Disso estou segura. Não castigaria a outra pessoa pelos pecados de Judy e seu amante. Pôs-se em pé. —Me desculpe, mas tenho que ir trabalhar. Cat levantou-se e apanhou-lhe a mão. —Faz favor: se sabe onde está seu irmão, me diga. —Desapareceu do mapa após o julgamento em Houston. Por que foi absolvido? —a instado Alex. —Pelo bem das meninas. Suas filhas. Não queria que se envergonhassem dele — Girou a cabeça em direção a uma janela aberta — Vivem comigo e meu marido. Temos custodia-a legal. —Vem Paul a vê-las? —Às vezes. —De que vive? Pôde ter viajado a essas outras partes do país? Tem tido temporadas em que você não soubesse onde éstava? —Se sabe algo, o diga, faz favor. Poderia salvar vidas. A minha e a dele. Eu te imploro. A senhora Dunne voltou a sentar-se, abaixou a cabeça e começou a chorar.


—Meu irmão tem sofrido muito. Quando matou a Judy, e assim foi ainda que o júri o absolvesse, também matou a si mesmo. Ainda está muito trastornado, mas vocês estão insinuando que é capaz de fazer algo tão horrível... —Esteve recentemente em San Antonio? Encolheu de ombros com tristeza. —Não sei. Suponho que é possível. Cat e Alex olharam-se excitados. —Mas faz pouco veio aqui — acrescentou. —Está aqui? Na casa? —Não. Está em Fort Worth. —Poderíamos vê-lo? —Faz favor, não me peça isso. Deixem-no em paz. A cada dia, durante o resto de sua vida, terá que viver com o remorso pelo que fez. —E se faz algum dano à senhorita Delaney? Seria você capaz de viver com esse remorso? —Não lhe fará dano. —Como o sabe? —Sei-o. Tirou-se as óculos e secou os olhos. A seguir, com andar muito dignos, voltou a pôr-se as óculos e levantou-se. —Se tanto insistem, vingam comigo. Inclusive visto de fora, o edifício não parecia nada bom. As maiorias das janelas tinham proteção. Tiveram que passar uma série de controles antes de entrar no pavilhão. —Não me parece uma boa ideia — disse o psiquiatra. Tinham explicado a situação e pediam permissão para falar com Paul Reyes. —Não tive tempo de terminar meu diagnóstico e o bem-estar de meu paciente vem primeiro. —Seu paciente pode estar implicado em três assassinatos — declarou Alex. —Se está encerrado aqui, não pode fazer nada à senhorita Delaney. E, depois, não amanhã. —Precisamos saber se Reyes é a pessoa que a esteve incomodando. —Ou descartá-lo como suspeito. —Exato. —Você já não é policial, não é verdade, senhor Píerce? Que jurisdição tem? —Absolutamente nenhuma. —Só queremos fazer umas perguntas — disse Cat — e observar sua reação ao me ver. Não


faríamos nada que pusesse em perigo sua saúde mental. O psiquiatra dirigiu-se à irmã de Reyes. —Você o conhece melhor, senhora Dunne, que lhe parece? Fiava-se de sua opinião porque era enfermeira na seção de psiquiatría de mulheres do hospital. Tinha-lho dito a Cat e a Alex quando se dirigiam para ali. —Se pensasse que pode causar algum dano não os teria trazido. Acho que ao vê-lo se dissiparão suas suspeitas. O doutor sospesou sua decisão e, por fim, acedeu: —Dois ou três minutos como máximo. E nada muito comprometedor. Burt irá com vocês. Burt, um homemzarrão negro com calças brancos e camiseta, impressionava tanto como um defesa de rugby. —Tudo bom está hoje meu irmão? —perguntou a senhora Dunne. —Esta manhã esteve lendo um momento — contou por em cima do ombro enquanto seguiam-no pelo corredor — Parece-me que agora está jogando a cartas na sala. Entraram em uma habitação, ampla e iluminada, onde os pacientes olhavam a televisão, se entretiam com jogos de mesa, liam e passeavam. —É Esse — Alex o mostrou com o dedo a Cat—. Reconheço-o do julgamento em Houston. Reyes era delgado e um pouco calvo. Estava sentado fora dos demais, olhando ao vazio, ao que parece em seu mundo, e tinha as mãos entre os joelhos. —Demos a medicação — disse Burt — De modo que estará tranqüilo mas, tal e como tem dito o doutor, se o paciente começar a se excitar terão que sair em seguida. —De acordo — disse a senhora Dunne. Burt ficou ao lado da porta. Cat observou que tinha pessoal uniformado entre os pacientes Olhando a seu ao redor, sentiu compaixão por todos eles. Eram adultos, mas indefesos como meninos. Viviam confinados dentro de quatro paredes e com sua miséria espiritual. A senhora Dunne pareceu ler os depressivos pensamentos de Cat. —Dentro deste tipo de estabelecimentos é um hospital moderno, e temos médicos excelentes e muito entregados. Seu irmão ainda não a tinha visto e ela o olhou com piedade. —Paul chegou a casa de forma inesperada faz três dias. Nunca sabemos quando se vai apresentar


nem em que condições. Às vezes fica uns dias e tudo vai bem. Se lhe empañaron os olhos. —Outras nos vemos obrigados a ingressar no hospital até que melhora. Como desta vez. Apresentava um estado de depressão total quando chegou. E atribuí-o à data. Amanhã fazem quatro anos de... Já sabem. Cat assentiu. —Começou a se comportar de forma irracional. As garotas querem-no muito, mas estavam assustadas. Meu marido e eu o trouxemos e nos recomendou que o deixássemos para fazer um exame completo. É necessário molestá-lo? —Temo-me que sim — contou Alex sem dar a Cat oportunidade de falar—. Ainda que só seja um minuto. O faremos tão breve e fácil como seja possível. A senhora Dunne levou os dedos aos lábios para que deixassem de tremer. —Quando éramos meninos era um encanto. Nunca dava problemas; era todo doçura e amor. Se tivesse matado a essas pessoas, sei que seria sem querer. Outra personalidade vivendo dentro dele; não meu querido Paul. Alex apoiou uma mão em seu ombro. —Nós ainda não sabemos. A senhora Dunne guiou-os até seu irmão. Apoiou as mãos em seus ombros e murmurou seu nome. Ele levantou a cabeça e a olhou, mas seus olhos estavam vazios. —Olá, Paul, está tudo bem? Sentou-se a seu lado e cobriu as mãos do doente com as suas. —Amanhã é o dia — tinha a voz rouca, como se a garganta estivesse seca por falta de uso — No dia que a encontrei com ele. —Não penses nisso. —Não penso em outra coisa. A senhora Dunne umideceu os lábios, nervosa. —Há alguém que quer falar contigo, Paul. Apresento-te ao senhor Pierce e à senhorita Delaney. Ao mesmo tempo em que ela falava, Paul olhou a Alex com indiferença, mas ao ver a Cat saltou da cadeira. —Recebeu o que lhe enviei? Recebeu-o? De forma instintiva, Cat retrocedeu. Alex interpôs entre ela e Reyes. Sua irmã segurou-o pelo braço.


Burt foi correndo, mas Cat evitou que submetesse ao paciente. —Faz favor - disse saindo de por trás de Alex—, deixem-o falar. — você Enviou-me esses recortes? —Sim. —Por quê? Cat não tinha medo, mas Burt ainda cingia a mão no antebraço de Reyes e a senhora Dunne segurava o outro. —Vai morrer. Como os demais. Como a velha, como o garoto. Afogou-se, passou horas na água até que o encontraram. O outro... —Cortou-se a femoral com uma serra elétrica — disse Alex. —Sim, sim. Os salpicou de saliva. Tinha os olhos febris. —E, agora, você. Vai morrer porque leva seu coração! —Deus meu! —gemeu sua irmã—. Paul, que fez? —Reyes, matou você a essas pessoas? —perguntou Alex. Fez um movimento rápido com a cabeça e fixou seus olhos em Alex. —Quem é você? Conheço-o? Conheço-o? —Responda a minha pergunta. Matou a esses transplantados? —Matei à puta de minha esposa! — gritou — Estava na cama com ele! Eu os vi. Matei-a; e alegro-me porque ela merecia. E voltaria a fazê-lo. Oxalá pudesse tê-lo matado também a ele e lamber seu sangue das mãos. A cada vez estava mais agitado e começou a forçar para se libertar da mão de Burt, quem chamou em busca de ajuda. Devido ao tumulto que estava creditando Reyes, outros doentes se mostravam inquietos. Entrou o médico. —Era o que eu temia. — gritou. —Espere! Só um segundo, faz favor. Cat chegou a Reyes. —Por que se molestou em me avisar? —Transplantaram-lhe um coração, li-o. É o de Judy? Conseguiu soltar-se e pôs a mão sobre o peito de Cat. —Céu santo! —soluçou ao notar as batidas — Minha Judy. Amor meu, por que?, por que o fizeste? Eu te adorava, mas tinha que morrer. —Paul - disse sua irmã com voz entrecortada — Que Deus te perdoe. Os braços de Burt tinham-se fechado sobre ele e o levava. Alex apartou a Cat a um lado. Tinha


ficado pasmada pela reação de Reyes. Esse homem sofria o indecritivelmente. Tinha enloquecido por amor, remorso e raiva. Dava mais lástima que medo. Alex rodeou-a com o braço. —Estás bem? Assentiu, contemplando com piedade e horror como Reyes se debatia com Burt, quem tinha dificuldades para segurá-lo enquanto gritava: —Vai morrer! Via-se a pressão das veias de seu pescoço e tinha a cara enrojecida e torcida. —Amanhã é o dia. Igual que os outros, morrerá. O médico fincou-lhe uma seringa no bíceps, mas ele não se deu conta da picada. Quase de imediato, deixou-se cair sobre Burt. —Morrerá — teve tempo ainda de dizer. E sucumbiu aos efeitos da droga. Capítulo cinquenta e um —Em que está pensando? Alex alongou um copo de limonada e colocou ao seu lado. Estavam no terraço. O sol Tinha-se posto, mas ainda tinha luz. Na churrasqueira assavam pedaços de carne e, de vez em quando, a gordura gotejava sobre o carvão e crepitava, enviando uma nuvem de fumaça aromática. Cat não tinha falado muito durante o vôo de regresso desde San Antonio. Quando ele sugeriu comprar algo para cozinhar em casa, assentiu sem prestar muita atenção. Compreendia que precisava meditar e não a tinha pressionado até agora. Cat bebeu um pouco de limonada e depois, com um suspiro, reclinou a cabeça e contemplou o céu azul intenso. —Não posso achar que tudo isto tenha terminado. Pensava que me sentiria mais... Aliviada. E estou, mas não tiro da cabeça a imagem desse homem gritando. —Não pode cumprir suas ameaças, Cat. Já não tens motivos para estar assustada. Após o que ouvimos que foi quase uma confissão, Paul Reyes não sairá de quatro paredes. »O Departamento de Justiça comprovará suas atividades durante os últimos anos. Acho que descobrirão que seu caminho cruzou com os desses transplantados que morreram.


»Se é processado, o mais provável é que o considere incompetente para ser julgado. Mas se seu estado mental melhorar ele irá a julgamento, será declarado culpado e sentenciado a prisão perpetua. Em ambos os casos, estarão salva. —Na verdade ele não me deu medo, Alex; eu me compadeci. Devia querêla muito. —Como para abrir seu crânio? —Exato — respondeu com seriedade a sua cáustica pergunta — Quando pôs a mão sobre meu coração, vi em seus olhos mais dor que ódio. Não pôde suportar a infidelidade de sua esposa. Estava fora de si quando pegou o taco de beisebol. Matou-a, mas ainda a quer e sofre por ela. Talvez por isso... —Que? —Não importa. É uma loucura. —Dize-mo. —Talvez por isso desse seu consentimento para que tirassem o coração. Queria matá-la, mas Na verdade não queria que éstivesse morta. —E então, por que matou a três pessoas para deter seu coração? Sorriu e encolheu os ombros. —Isso é uma falha em minha teoria. Já te disse que era uma loucura. Alex sentou-se na cadeira para olhá-la cara a cara. —Sabes? Em outra vida, poderia ser policial, Cat Delaney. Tens talento para a dedução — baixou o tom de voz— Me alegro de que tudo tenha terminado. —Eu também. —Preparada para jantar? —Estou morrendo de fome. A comida apagaria sua ansiedade. Desejava que existisse uma borracha instantânea para apagar a memória, já que a cena do hospital ficaria em sua mente durante muito tempo. A senhora Reyes-Dunne estava desesperada. Confessou chorando que mentiu sobre os recortes. Tinha-os visto antes. —Abri sua mala para lavar a roupa suja e ali estavam. Então pensei de onde os teria tirado, já que eram de deversas partes do país. Mas não disse nada. Quanto menos falasse de transplantes, melhor.


»Alguns membros da família estavam enfadados com ele por ter doado o coração de Judy tanto como por ter matado. Outros pensavam que ela merecia. Machismo compreende? Cat e Alex assentiram. —Sua mulher o traía: portanto, tinha motivos para matá-la. Mas tirar os órgãos e enterrá-la sem que éstivesse completa, violava nossa cultura e nossas crenças religiosas. Conforme ia falando, a cada vez mostrava-se mais agoniada. —Talvez se tivesse perguntado a Paul ao encontrar os recortes, vocês seriam poupados de todo este pesadelo. Se eu tovesse dado conta antes de sua demência, essas pessoas não estariam mortas. Sei o que levou a matar a Judy, mas não posso achar que meu irmão pode assassinar a sangue frio. —Voltava a matar a Judy; não a outras pessoas — disse Alex. —Já o sei. Mas, de todas as formas, não acho que Paul seja capaz de algo semelhante. Tanto Cat como Alex, tentaram consolá-la, mas com pouco sucesso. Sabia, e eles também, que Reyes estaria enclausurado durante o resto de sua vida. Nunca se recuperaria da traição de Judy e suas filhas cresceriam sem pais e com o estigma de seu crime. Cat entendia-o muito bem e sofria pelas meninas, às que não conhecia. Ela e Alex se sentaram à mesa para jantar e devoraram a carne, as batatas assadas, a salada e um pastel de nozes que Cat tinha comprado no supermercado. Alex apartou seu prato vazio e se reclinou na cadeira esticando as longas pernas. —Quer saber o que mais me impressiona em você? —A comida que posso engulir — caçoou Cat dando palmadinhas no estômago. —Isso também. Por ser tão magra você deve ter um metabolismo. —Muito obrigado. Não recordo um elogio tão galanteador. Alex deixou de rir e disse em sério: —Estou impressionado por sua coragem. Hoje se mantive firme inclusive quando Reyes a tocou. Deve ser traumático, e qualquer pessoa teria se afastado. Não conheci nenhuma mulher, e a muito poucos homens, tão valentes como tu. Digo-to para valer, Cat. Ela fincou o garfo no resto do pastel. —Alex: não sou valente. —Não estou de acordo. Deixou o garfo e olhou-o.


—Não sou valente; ao contrário. Se eu fosse, meus pais não teriam morrido. Alex abaixou a cabeça. —Qual o motivo isso? Nunca havia explicado a ninguém o que tinha ocorrido naquela tarde ao voltar da escola antes da hora. Nem ao serviço de ajuda à infância. Nem às assistentes que tentavam averiguar até que ponto aquilo tinha afetado à menina. Nem aos pais do orfanato. Nem a Dean. A ninguém. Mas agora sentia a necessidade imperiosa de se desafogar com Alex. —Não sucedeu exatamente como te disse. A assistente social levou-me a casa e estranhou-me que o carro de meu pai estivesse estacionado na frente. Àquela hora tinha que estar no trabalho. O pobre, rara vez faltava, e inclusive fazia horas extras nos fins de semana para pagar minhas faturas. Mas, inclusive assim, estava endividado e estava no limite de suas forças. »Eu não entendia as palavras. Segunda hipoteca, encargo, empréstimos colaterais: não estavam em meu vocabulario. Mas ouvia-as nas agoniadas conversas de meus pais. Dobrou a guardanapo de papel ao lado do prato. —Naquele dia, ao entrar em casa soube que algo estava errado. Tive uma sensação estranha, um calofrío que não era pela temperatura. Suponho que se tratava de um pressentimento, mas tinha pânico enquanto avançava pelo corredor para o dormitório de meus pais. »Mas tinha que fazer. A porta estava entreaberta e meti o nariz. Não estavam mortos, como te disse. A ti e a todos. Não. Minha mãe estava na cama, apoiada no travesseiro, e chorava. »Papai estava de pé, ao lado da cama, com uma pistola na mão, e falava. Não compreendi até muito tempo depois o que estava dizendo. »Falava de matar e pensei que se referia a mim. »“É a única forma e será o melhor para Cathy.” »Nunca outra pessoa me chamou assim. »Eu sabia que era uma ruína para eles, mas, fora disso, tinham tido que suportar um inferno. Mamãe fazia filigranas para ocultar minha calvicie após a quimioterapia e sofria muito mais que eu. Recuperei-me rápido, mas ela não.


»Quando ouvi que papai falava de uma solução rápida a todos os problemas, imaginei que achariam um meio para se salvar e deixar de sofrer penalidades e despesas. Sem fazer ruído, entrei em minha habitação e me escondi no armário. Fez uma pausa e mordeu o lábio inferior. —Ali, abaixada na escuridão, ouvi os disparos e soube que me tinha equivocado. E muito. Então decidi ficar dentro daquele buraco para sempre. Morreria, não comia nem bebia. Inclusive tão pequena, já tinha uma veia dramática. »Por fim, veio uma vizinha. Quando ninguém veio atender a campainha supôs que tinha algo errado e entrou. Encontrou meus pais mortos. Eu nem me movia; nem sequer quando chegou o carro de policía e a ambulancia. Alguém chamou à escola e ali disse que haviam me acompanhado a casa. Encontraram-me dentro do armario. Fingi que ao chegar já os tinha encontrado mortos. Não disse a verdade... Que podai ter evitado. —Isso não é a verdade, Cat. Agitou a cabeça. —Se tivesse entrado no dormitório... —Eles teriam te matado também. —Mas jamais saberei, e eu pude evitar. Podia ter saido correndo e pedir ajuda; qualquer coisa menos esconder-me. Devia dar-me conta do que queriam fazer, e talvez meu subconsciente soubesse. Alex rodeou a mesa e fez que ela se levantasse. —Tinha oito anos. —Tinha que entender o que passava. De não tivesse sido tão covarde, os teria salvado. —E por isso quer salvar todo mundo? Pôs as mãos sobre seus ombros. —Cat — disse ao ouvido enquanto secava suas lágrimas com os polegares — você se lembra com sua mente de pessoa adulta, mas era uma menina. Teus pais foram idiotas; não você. Abraçou-a. —Quando era policial, vi coisas assim montões de vezes. Alguém que tinha chegado ao limite de suas forças se suicidava e arrastava aos demais consigo. Se teu pai soubesse que estava em casa,


também te teria matado. Crê-me. Esconder-se no armário a salvou. Não estava muito convencida, mas queria acreditar. Durante todos esses anos precisava de que alguém lhe dissesse que fez o correto. Seguiu abraçada a Alex até que seus lábios a fizeram reagir. Capítulo cinquenta e dois O desejo era mais que eles e se beijaram com paixão. Cat adorava o roçar da barba rala em seu rosto, encantava a forma dos fios do cabelo do homem entre seus dedos, deixavaa louca seu aroma e seu sabor. Queria a Alex. Ficavam coisas que tinha que esclarecer, mas estava segura de que era o homem de sua vida. Quando ele disse: —Subimos? Apanhou sua mão e deixou-se levar. Ao chegar ao pé da escada, fizeram uma pausa para se beijarem e tudo se descontrolou. Em matéria de segundos estavam contra a parede, desprendendo da roupa e ele dentro dela. Acabou rápido. Levou-a em braços até o dormitório e atirou-a sobre a cama. Suas mãos não deixavam de acariciar seu corpo nu. Acariciava-lhe o ventre, mas suas mãos pareciam mover-se por todas as partes. Quando levantou suas nádegas e deslizou os dedos para acariciar o interior das coxas, ela implorou: —Alex, já não posso mais. Separou os lábios de seu sexo e introduziu a língua ávida até que a sucção suave de sua boca provocou outro orgasmo cegador. Mudou de postura e colocou na boca o pênis ereto. Gostava desse sabor a almiscar, sua textura aveludada na lingua, a firmeza na boca. Estava-se entregando para comprazê-lo, mas ele se afastou, se colocou por cima e a penetrou com um movimento rápido. De repente parou e ela ficou pasmada ante a trégua. —Não há que ter pressa — disse ao mesmo tempo em que mantinha Seu olhar e entrava agora até o fundo. Cat engasgou. —Quero-te, Alex. Não, não diga se não sintir. Beija-me.


Suas bocas uniram-se enquanto os corpos moviam-se ao unissono. Quando terminaram, Alex permaneceu dentro e abraçado a ela. —Nunca tinha experimentado nada igual — disse Cat — Só contigo. Pela primeira vez, sinto uma união tão profunda com outra pessoa. Esta fusão de corpo, mente e alma. É incrível. Ele entreabriu os olhos e, com voz rouca, contou: —Sim, o é. —Sabe? —disse com voz uma sufocada pelo travesseiro — Se isto continuar assim terei que acrescentar uma nova pílula às que já estou tomando. Sob o lençol, Cat tinha o traseiro contra seu ventre e ele rodeava sua cintura com o braço. —Referes-te ao controle de natalidade? —Sim. —Não se preocupe; eu me ocuparei de que não fique grávida. —Ou poderíamos esquecer de tomar precauções. Olhou-o por cima do ombro e sorriu com malícia. —Não precisa ficar pálido, senhor Pierce. Se eu ficar grávida, o bebê será responsabilidade minha. —Nada disso. Esse não é o motivo de minha palidez. Eu achava que não deveria ter filhos, verdade? —Não recomendam, mas muitas transplantadas os têm e, até agora, tanto as mães como os filhos estão de maravilha. —Não se arrisque. Há muitas coisas que poderiam sair erradas. —É um pessimista. —Sou realista. —Pareces enfadado. Por quê? Só estava caçoando. E se chegou mais a ele. —Não estou enfadado, mas não quero que você corra risco desnecessário. Não é coisa de piada. —Sempre quis ter um filho. Mas não pode ter tudo, recordou. Além do mais, já te foram concedidas muitas bênçãos; uma delas a está abraçando. Notava o fôlego em seu cabelo, e também isso era reconfortante. Era um homem tão atraente, tão viril, tão... Tudo... E apareceram imagens da cada momento que tinham passado juntos.


Ele deve ter notado seu riso silencioso, já que bateu seu bubum no joelho dela. —Que é tão gracioso? —Estava pensando na ameaça que fez a Cyclops. É a coisa mais grosseira que jamais tinha ouvido. —Isso de arrancar o olho e...? —Não repita, faz favor. De onde tirou semelhante vocabulario? —De onde vai ser? Da rua. Ou dos vestuários. Se tratar com policias durante tanto tempo sua boca começa a vomitar lixo. Alex tinha aberto uma brecha. Após um momento de silêncio, perguntou: —Que ocorreu, Alex? Por que deixou a policia? —Spicer já disse a você. Matei alguém. —Dou por certo que disparaste contra alguém enquanto estavas de serviço. Esperou um momento antes de dizer nada. Já não estava relaxado; tinha todos os músculos tensos. —Esse alguém era policial. Não era estranho que o tivesse gravado na memória. Os policiais eram como uma irmandade. Consideravam-se entre eles como irmãos. —Queres falar disso? —Não, mas o farei. —Hunsaker à fala. —Tenente, sou Baker. —Que horas são? Acendeu o lustre do criado-mudo e sua mulher gruñiu e afundou-se mais no travesseiro. Ele não havia dormido. O chille que tinha comido no jantar ardia no estômago; e seguia mijando as seis cervejas que tinha acompanhado. Estava a ponto de levantar-se para tomar um antiácido quando soou o telefone. —Perdoe que o chame tão tarde — se desculpou seu subordinado — Mas você me disse que quando terminasse o relatório deveria ligar para você. Baker era um novato, mal saído do ovo e com vontades de comprazer. Tratava a cada missão como se fosse uma investigação sobre o assassinato de John F. Kennedy. —Que relatório? —perguntou Hunsaker contendo uma ereção. —Sobre os amigos de Cat Delaney. Deu-me uma lista e disse-me que fizesse averiguações. Bom, já está terminado e não sabia se tinha que deixar o expediente em cima da mesa ou não.


—Diabos. Me desculpe, Baker, esqueci de lhe dizer: já o engavetamos. O garoto estava desiludido. —Sim, a senhorita Delaney ligou a última hora da tarde porque tem encontrado ao tipo que a molestava em um manicomio de Fort Worth. Confessou-o. Retirei a vigilância, mas esqueci-me do relatório que te encarreguei. Me desculpe, mas ao menos cobrarás horas extras. Vale? —Vale. Hunsaker teve uma nova ereção e tinha vontade de urinar. —Algo mais, Baker? —Não... bom... algo. —Solta-o, Baker. —É algo... um paradoxo acho que é a palavra correta. Trata-se desse novelista. Pierce. E quando Baker lhe informou o que tinha descoberto também Hunsaker pensou que era um paradoxo. Na verdade, se tratava de um fato trascendental. —Céu santo — exclamou passando a mão pela cara — Não te movas. Estarei aí dentro de vinte minutos. —Se for muito doloroso falar disso não tens que o fazer, Alex. —Não quero que penses que é pior do que parece. Já é bastante ruim. Dedicou uns momentos a pôr em ordem suas idéias. —Fazia anos que tentávamos desarticular uma rede de traficantes de droga, mas sempre estavam um passo por diante dos nossos. Várias vezes tinham-se escapulido. Quando chegávamos ao lugar da distribuição já tinham levantado o vôo. »Por fim recebemos um sopro digno de confiança, mas tinha que atuar com rapidez. Planejamos uma armadilha para o Quatro de Julho, já que não a esperariam em dia de festa. »A operação levava-se em segredo que só a conheciam os oficiais diretamente implicados. Estávamos nervosos, mas impacientes por apanhar aqueles sacanas. »Chegamos à casa e desta vez não os tinham avisado. Os chicos irromperam e apanharam-nos desprevenidos. Eu corri pelo corredor para os dormitórios, dei um chute a uma das portas e me encontrei cara a cara com um de nossos policiais. Tinha sido meu colega quando éramos patrulheiros. É difícil dizer qual dos dois ficou mais assombrado.


»Perguntei que droga estava fazendo ali se não estava atribuído àquela missão. Contou-me que, efetivamente, não o estava. »De repente vi claramente e, no mesmo momento, apontei a arma. Atireime ao chão rodando e apontei-lhe. Não ao meu antigo camarada, não ao homem que acredita meu amigo, senão a um policial corrupto, a um maldito traficante de drogas. Disparei na cabeça. A suas costas, Cat notava sua pesada respiração e o coração acelerado, e sabia o difícil que era falar disso. —Fez o que devia fazer, Alex. —Podia tê-lo ferido. Mas atirei a matar. —É provável que ele tivesse te matado. —Talvez. É provável. —Suponho que te consideraram inocente de qualquer delito. —Oficialmente. Armadilhas como essa, saem errado às vezes, já que podem se apresentar situações inesperadas. Quando dissipou a fumaça, um policial estava morto e eu o tinha matado. Se a operação saiu errada, alguém tem que pagar o pato. »Na declaração do departamento afirmava-se que aquele policial estava atribuído à operação de forma clandestina. E que eu o confundi com um dos traficantes e disparei antes do identificar. —Foi uma grande injustiça! —Cobriram-se as costas. Não queriam que soubesse que um de seus homens era traficante de drogas. Fizeram um funeral de herói, com salva de vinte e um tiros e todas as honras. —Por que não falaste? —Dizer a verdade? Seria o mesmo que inventar uma mentira para tampar meu engano. Era minha palavra contra a do departamento de policia. Por outra parte, a mulher desse tipo estava grávida do primeiro filho e não podia jogar droga em cima dele sem que caísse neles também. Sua esposa não sabia nada do segundo emprego. —Como o sabe? —Sei-o. Além do mais nunca tentou retirar o dinheiro que ele tinha acumulado. Ficou na caixa de segurança do banco enquanto ela e o bebê foram viver a Tennessee com seus pais.


Cat virou para olhá-lo e acariciou com ternura a sobrancelha partida. —Me desculpe muito, Alex. Oxalá pudesse-se apagar o que te aconteceu. —Eu que o diga. Após isso me converti em um grande furúnculo no cu do departamento que não deixava de ulcerar-se. Odiava sair para trabalhar. Os policiais que não sabiam o ocorrido me desprezavam pelo que fiz; os que sim o sabiam se perguntavam se teria atirado para matar, após tudo. Eu era um paria e, para todos os efeitos, minha carreira estava acabada. De modo que dei a eles o que queriam: meu distintivo. —Tua primeira carreira estava acabada — ratificou — Já que então é quando começaste a escrever. Agora entendia por que suas novelas descreviam situações pouco lisonjeras dos assuntos internos do departamento de policía. Seus heróis eram inconformistas que denunciavam os políticos com as mãos sujas e policiais comprados, no geral à custa de sacrifícios pessoais. Cat o beijou no peito e ele deslizou seus dedos pelo cabelo emaranhado e levantou sua cabeça. —A vida é dura, mas também te dá compensações. —Como que? —perguntou ela, mimosa. —A de ter te conhecido. Segurou-a pela nuca e roçou seus lábios com ternura. Acordou de repente, como se alguém tivesse gritado seu nome. Durante uns momentos ficou tendida e imóvel; a única coisa que ouvia era a respiração acompasada de Alex. Pouco a pouco se tranqüilizou. Desfrutava de sua proximidade cálida e protetora. Recordando como tinham feito amor, sua falta de pudor a ruborizou. Com ele se convertia em uma mulher dominada pelos instintos, livre para expressar sua sensualidade... E era magnífico. Observou-o enquanto dormia. O cenho não estava franzido e tinha suavizado a expressão nos lábios. O sonho libertava-o do pesadelo que o perseguia. Se ela podia perdoar à menina assustada que tinha se escondido em um armário, Alex podia se perdoar por ter disparado a um ex-camarada. Juntos, seriam capazes de superar traumas pessoais. Tinha que ir ao banheiro saiu da cama, pôs a camisa de Alex e desceu. Não queria o acordar tirandoo


da cama. Através das persianas filtrava a luz das luzes da rua, que a guiaram até o lavabo situado sob o oco da escada. Ao sair, deu-se conta que estava de noite. A noite anterior não tinha dormido; o dia foi longo e esgotante. Tinham feito o amor até ficar extenuados. Sem embargo, após ter dormido três ou quatro horas estava fresca como uma rosa. Faltavam horas para que amanhecesse, mas não tinha sono. Tinha fome? Não. Sejam? Também não. Seus olhos moveram-se até ficarem fixos na habitação proibida. Sabia que podia resistir sua atração magnética. Mas sua curiosidade inata não permitiria. Se entrasse agora, o que aconteceria? A Alex não tinha gostado sua intromissão anterior, mas éstabam na primeira fase de sua relação; mal se conheciam. Agora a situação tinha mudado: já tinham intimidade física e emocional. Compartilhavam secredos. Seguro que o absurdo «Proibido a entrada» já não fazia sentido. Tentou abrir a porta, mas estava fechada com chave. Melhor. Sabia que não tinha que entrar sem sua permissão. Não obstante, pôs-se de em pontas do pé e passou a mão até a parte superior da porta, onde encontrou uma chave. O considerou um bom presságio. De não ter querido que entrasse, não a teria deixado tão à vista. Introduziu-a na fechadura e abriu. Fez uma pausa para escutar, mas acima não havia nenhum ruído. Entrou e fechou a porta a suas costas antes de acender a luz. A habitação foi um desengano. Imaginava que o refúgio de um escritor seriam acolhedor e interessante. Devia ter paredes com estantes, tapetes turcos e sofá de couro. Talvez um balão terráqueo em uma esquina e a biblioteca cheia de edições limitadas e de colecões iluminadas por lustres éstilo Tiffany. O lugar de trabalho de Alex era isso: um lugar de trabalho. Prático, sem nenhuma graça, sem personalidade, sem estética. O computador e a impresora repousavam em cima de uma mesa plegável com patas metálicas e superfície de formica. Ao lado tinha um fax.


As enciclopedias e novelas não tinham o lombo de pele nem se alinhavam em peças de madeira, senão que se empilhavam em estantes metálicas. O telefone estava em cima das guias telefónicas. Em uma esquina, estava situada a mesa que, sem dúvida, utilizava para os papéis. Estava abarrotada de correspondência, faxes, estratos de contas do banco, um bloco manchado de café com letras ilegíveis, setas e asteriscos; e um montão de expedientes, etiquetados a mão e muito usados, que tinham a margem dobrada. A Cat chamou a atenção uma fotografia marcada. Apanhou-a para ver de perto ao casal que sorria. Alex levava um bigode espetacular. Quando tivesse ocasião, o aproveitaria para caçoá-lo. A seu lado tinha uma jovem muito bonita. Igual a ele, levava calças curtas e botas de excursionista, e estava apoiada em uma enorme pedra. Ao fundo tinha uma cordilheira que parecia as Montanhas Rochosas. Fotos de férias. Tinha compartilhado umas férias com essa mulher. Cat se recriminou por sentir ciúmes. Como era lógico, Alex tinha tido outras relações amorosas, e era provável que algumas tivessem sido sérias. Não podia deixar que uma foto a fazê-la reagir como se fosse uma adolescente. Voltou a deixar a foto onde estava. A parede de por trás da mesa estava coberta com painéis de cortiça ainda que mal se visse, já que estava cheia de papéis éscritos, tanto a mão como a máquina, e artigos recortados de jornais e revistas. Pensou que devia de ser material para o livro que estava escrevendo, pelo que viu com uma olhada a esmo. Depois de poucos minutos se deu conta que todos os artigos estavam relacionados com um tema. E não era com um crime, nem com policiais corruptos. Tratava-se do transplante de órgãos; concretamente de transplantes de coração. Uma coisa em particular a intrigou. A duplicata de um dos recortes que Paul Reyes tinha enviado. Mas não era a foto-cópia que ela tinha dado semanas atrás, mas um original. Éstava amarelado.


Claro: era de dois anos atrás. Tremiam os seus joelhos e deixou-se cair no assento. Cat: controla-te, disse. Não chegue a conclusões precipitadas. Tem que ter uma explicação lógica e ainda não a encontrou. Alex estava investigando a vida dela para um de seus livros. Sim, isso devia de ser. Não queria dizer nada por que... Por quê? Por que não o tinha mencionado? A que vinha tanto secredo? A resposta podia estar nos expedientes. O de acima de tudo estava etiquetado como AMANDA. Abriu-o e o coração disparou. Sorria um primeiro plano da mesma mulher que tinha visto na outra foto. Seus olhos eram preciosos e tinha uma expressão inteligente. Qual devia de ser sua relação com Alex? Morria de vontade de sabê-lo, mas também lhe dava medo. Apartou a foto para ler outro arquivo. O certificado de função de Amanda. Sua relação tinha terminado com a morte dessa mulher. Pobre Alex. Se tinha significado algo para ele, a perder deve ter sido uma tragédia e explicava parte de seu cinismo. Sua morte prématura, unida ao de ter disparado contra um camarada, tinha muito que ver com que tivesse refugiado no álcool. Havia perdido Amanda antes ou após o tiroteio? Cat buscou a data do certificado e levou a mão à boca para evitar um grito. Quando se recuperou, o coração seguia seu próprio caminho. Frenética, saui no arquivo de Amanda e leu a etiqueta do seguinte, ainda que já estivesse quase segura do que leria. DANIEL L. LUCAS, alias SPARKY. Já sabia de quem era o expediente que vinha a seguir. Não se equivocou. JUDITH REYES. Tremiam as mãos, mas abriu os outros arquivos, que tinham o nome dos transplantados mortos em estranhas circunstancias. Tinha informação exaustiva, descrições detalhadas dos acidentes fatais, cópias dos relatórios dos forenses e da policia, documentação à que só um policial, ou um ex-policial muito inteligente, podia ter acesso. O último arquivo levava seu nome. Estava a ponto de desmaiar, mas abriuo: sua vida, especialmente ápos o transplante. Dúzias de fotografias, algumas de anos atrás, outras da semana


anterior, umas posando, outras tomadas com teleobjetiva. Jogou um olhada aos outros arquivos. Todos tinham necessitado um trabalho meticuloso. Era impossível que o tivesse iniciado semanas atrás, quando ela havia pedido ajuda para encontrar à pessoa que a ameaçava. O que tinha diante representava horas, dias, anos de investigação minuciosa. Tinha feito um estudo a fundo dessas mortes. Negava-se a aceitar o que isso implicava. A porta abriu-se a suas costas. Cat teve um sobressalto e virou em sua cadeira. Alex olhava-a com olhos acusadores. Capítulo cinquenta e três —Eu te Disse que não entrar aqui. Cat tinha a boca seca, mas em vez de demonstrar seu medo passou à ofensiva. —Que é tudo isto? Como o tens compilado? Que significa? Já te interessavam os transplantes de coração muito antes de me conhecer? Quem era Amanda? —Não deveria meter o nariz em meus arquivos pessoais. —Quero saber por que os tem, Alex. Quem era Amanda? —Uma mulher à que quis. —Intimamente unida a ti. —Sim. —E morreu. —Sim. Pelas costas, agarrava a quina da mesa. —Segundo o certificado de morte morreu horas antes de meu transplante. Era uma doadora de coração? Depois de uns instantes assentiu. —Por que nunca me falou dela? Espera! Estava tão confunsa que era um enorme esforço coordenar seus pensamentos. Algo tinha disparado em sua memoria com respeito a uma conversa de um par de noites atrás. —O choque múltiplo na estrada — exclamou — Jeff mencionou-o quando eu já o tinha esquecido. Amanda foi uma das vítimas? —Não. —Alex, quem era? Diga-me! Vocês tiraram férias juntos. Devia ser uma relação estável. —Era, e muito. As lágrimas caiam dos olhod de Cat.


—Teve uma relação muito estável com uma doadora e nunca me disse nada. Por quê? —Agora já não importa. —Pois eu acho que importa muito. Caso contrário teria me falado dela, igual ao que fez no caso de Sparky e Judy Reyes. Por que não sei quem era Amanda? Cat já não suportava mais a situação. —Como morreu? —Cat... —Conta-me! Como morreu? —De uma embolia cerebral, durante o parto. —Parto? Cat estava à beira da histeria. —E o bebê? —Meu filho nasceu morto. Estrangulou-se com o cordão umbilical. Cat não pôde evitar um gemido. —Teu filho. Amanda era tua esposa? —Não chegamos a nos casar. —Bem, isso era uma formalidade. Tínheis um compromisso mutuo. —Total e absoluta. —Você a amva. —Teria dado minha vida por ela. Cat apartou as lágrimas que a rodavam pelas bochechas. —E acha que levo seu coração. Alex avançou com os braços estendidos, mas ela voltou a retroceder. —Cat, já está bem, não tenha medo. Acalme-se e escuta. —Mas o que vou escutar! Sou uma ingênua que acredito em tudo o que me dizem. Nunca busco dobros significados nem agendas ocultas. Confio às cegas — disse com uma pequena risada sarcástica. Sentia uma opressão no peito; estava ferida no mais prófundo de seu ser. —É um miserável filho de puta que esteve transando comigo porque fazia com Amanda! —Escuta-me... —Não! Já estou farta de te escutar! Quando penso que você tinha tudo planejado... Foi uma charada de primeiro prêmio. Nosso encontro e o que tem vindo depois. —Sim — admitiu Alex. Cat estava suportando o insuportável. —Irene e Charlie Walters tinham solicitado a adoção de um dos meninos — apressou a acrescentar


— Confiava em conhecer-te através deles. Mas não tinha previsto que o irmão de Irene, que vive em Atlanta, ficasse doente, nem que apareceria aquela manhã. —Eu não acredito. —Mas ali estava e, ao instante, senti algo... E tu também. —Já. Amor a primeira vista. Achas que o coração de Amanda fez-te uma indicação quando te vi? Removeu os cabelos. —Pois já não sei o que pensar. Mas estou apaixonado por você. —Não. Continua apaixonado por Amanda. —O que fiz foi... —Despreciável, jogo sujo, repugnante. Uma cachorrada! —Verdade! Sim, sou um imbecil; já o admiti faz tempo. Já não disse mais. Abaxou a cabeça e ficou olhando ao chão. Depois de uns minutos levantou os olhos e, baixinho, disse: —Para que possas me perdoar, primeiro terás que entender quanto a quis. Cat estava muito transtornada para poder falar e ele aproveitou seu silêncio para se defender. —Amanda pressionava-me pára que nos casássemos, mas eu me negava devido a meu trabalho. Às vezes passava em vários dias seguidos fora de casa. Quando saía pela porta, ela não sabia se voltaria a me ver vivo. Essa classe de vida é um inferno para a relação do casal. Queria que se sentisse livre para que pudesse sair quando quisesse. Sem papel. »Pouco depois de que ocorresse esse feio assunto no departamento, ficou grávida. Eu, ao princípio, estava contrariado; depois, assustado. Mas ela estava tão alegre que, pouco a pouco, comecei a gostar a ideia: essa nova vida era como um começo de esperança. »Quando me comunicaram que estava em trabalho de parto, saí correndo para o hospital, mas fiquei retido pelo choque múltiplo na estrada. Quando consegui chegar ali... Esfregou os olhos antes de seguir. —Fiqei louco quando o médico me comunicou que havíam diagnosticado morte cerebral. Cat ainda tinha os olhos chorosos, mas já não estava furiosa, senão comovida pela trágica história. De vez em quando, soluçava. —Então se apresentou a empregada do banco de órgãos. Não me pressionou, devo reconhecer.


Desculpou-se pela intromissão em um dos momentos mais difícil, mas recordou-me que Amanda na sua carteira de motorista constava que, se acontecesse alguma coisa, queria ser doadora de órgãos. »Isso está considerado um documento legal, mas, inclusive assim, me disse que não procederiam a retirada dos órgãos sem meu consentimento. Amanda não tinha familiares vivos, por isso a decisão era só minha. »Alguém precisava do coração de Amanda. Se eu negasse, outra pessoa ia morrer. Tinham que tirar o órgão o quanto antes possível; o fator tempo era primordial. Se desse a permissão... Avariou a voz. Cat sabia que já não estava ali com ela, senão no corredor daquele hospital, paralisado pela dor enquanto pediam permissão para arrancar o coração a sua amada. —Fazia cinco anos que vivíamos juntos e nunca dei a ela o que mais queria, que era meu sobrenome. Em Houston, naqueles tempos, a gente costumava virar o nariz ao ouvir meu nome, e pensei que era melhor que seguisse com o seu. Ou talvez fosse muito egoísta. »Queria-a; sabia que queria viver com ela e com nosso filho durante o resto de minha vida. Mas não compreendi o quanto precisava dela até que já não estava neste mundo. »Por ironia do destino, nesse dia havia entregado o meu distintivo: o que ela estava pedindo desde o tiroteio. Queria que me dedicasse a escrever; acreditava no meu talento. Ou, ao menos, é o que me dizia — sorriu com amargura. »Após enterrá-la, esvaziei nosso apartamento, presenteei as roupas do bebê e estive bêbado dia e noite durante vários meses. Quando deixei de beber e começou minha amizade com Arnie, pensei em perguntar pelo receptor de seu coração. Fiquei obcecado com a ideia do encontrar eu mesmo. Não podia tirar da cabeça que seu coração seguisse vivendo dentro de outra pessoa. »Comecei a ler jornais das principais cidades publicados desde o dia de sua morte até várias semanas depois. Buscava artigos sobre transplantes de coração. Se os receptores são mediamente inteligentes,


às vezes podem descobrir quem foram seus doadores só lendo os jornais. Era possível que também funcionasse ao inverso. »Li todo o que pude encontrar relacionado com o tema. Assim descobri quais são os requisitos necessários para evitar rechazos. Escrevia os requisitos e fazia um perfil da pessoa receptora, igual que o faria para a personagem de um de meus livros. »Teu transplante tinha sido todo um acontecimento para a imprensa. Aproveitando meus anteriores contatos com a policia, ou com subornos, ou utilizando qualquer artimanha que me ocorria, através de um empregado do hospital de Califórnia soube a hora em que tinham realizado teu transplante. O tempo decorrido entre uma operação e a outra era muito pequena, mas seguia sendo possível. Teu grupo sangüíneo e o dela coincidiam, tínham quase o mesmo tamanho. Quanto mais pesquisava, mais convencido estava de que levava seu coração. »Tinha a intenção de me mudar para Los Angeles para conhecê-la quando publicaram que vinha para San Antonio. E, de imediato, deixei Houston e vim para cá — fez uma pausa — Já sabes o resto. —O único que sei é que é um asqueroso farsante. —No princípio, sim. Ao vê-la nessa porta senti um golpe e soube que tinha atingido na mosca. Sabia que estava no caminho certo, conforme ai te conhecendo, mais me convencia. Tinha traços de caráter semelhante aos seus. —Não quero continuar escutando. —Tua forma de ser me faz lembrar dela, seus gostos e manías são os mesmos. Tem inclusive seu senso do humor e seu otimismo. —Basta já! — tampou os ouvidos. —Tinha que fazer o amor contigo, Cat; precisava. —Utilizou-me como médium. —Sim. Tinha que saber se podia me comunicar com ela. Sentí-la. Tocá-la uma vez mais. —Céu santo! —gritou destroçada ao ouvi-lo. —E senti uma conexão cósmica. Mas, era Amanda? Ou eras tu? O ocorrido entre nós tinha sido tão extraordinário que comecei a me sentir culpado por tê-la traído.


—Não me irá dizer que, em quatro anos, eu era a primeira mulher com a que tinha estado? —Não, mas é a primeira que significou algo para mim, da que sei o nome quando acordei. Por isso deixei de te ver, porque já não confiava de minhas intenções. Estava me apaixonando por você e não tinha nada que ver com Amanda. »Já não queria saber se levava seu coração. Quase enrolei a língua na manhã que me diss que tinha chamado ao banco de órgãos para fazer averiguações sobre teu doador. Quando começou, telefonei à agência que tinha retirado o coração de Amanda e anulei a solicitação de informação. Se levasse seu coração, não queria saber. A única coisa que queria saber era que te amava. —Espera que eu acredite neste conto de fadas! E, quanto a isto... Deu um golpe com o braço aos arquivos, que caíram ao chão e esparramarm seu conteúdo. —Você teve vários problemas para nada. Pelo que ambos sabemos, nem sequer levo seu coração! —Estou seguro ao noventa por cento. Não tinha experimentado esse impacto demolidor com os outros. —Mesmo assim... Calou-se inesperadamente ao dar-se conta do que ele acabava de dizer. —Os outros? Os outros transplantados? Também chegou a conhecê-los? De imediato, deixou de chorar e viu a verdade com uma clareza vidroina. —Deus meu! És tu! —Cat... Lançou-se sobre ele, golpeando no peito com os punhos. Alex perdeu o equilíbrio, retrocedeu até a estante e alguns livros caíram ao chão. Cat correu para a porta e fechou-a inesperadamente a suas costas. Sem deter-se um minuto, entrou na sala e apanhou as chaves do carro de Alex, que estavam em cima do criado-mudo. A porta estava fechada e, com dedos nervosos, manipulou o trinco. Ouvia os pés nus de Alex correndo depois dela. Abriu e subiu ao carro. —Cat, espera! —gritou. —Pára que possas me matar como aos outros? Ligou o carro e pisou no acelerador. Os pneus chiaram e giraram sobre si mesmos. Alex quase tinha chegado ao carro quando Cat conseguiu o controlar e se perdeu na noite.


Capítulo cinquenta e quatro Onde estava essa estúpida? Mas Kismet não era tão estúpida, teve que recordar Cyclops já que ele tinha caído em sua armadilha. Durante dias esteve pensando como poderia a encontrar e, até agora, não tinha ocorrido nenhuma ideia, o que seria um milagre. Tinha o cérebro podre por viver a base de álcool e drogas. Tinha perguntado, mas nenhum de seus conhecidos sabia onde tinha albergues para mulheres. O único que conseguiu foram comentários sarcásticos e deboches por não poder reter a sua mulher. Maldita seja! Tinha que encontra-la e a trazer à força, ainda que só fosse para salvar a cara diante de seus amigos. Inclusive estava perdendo o respeito de seus inimigos, o que ainda era pior. Quando colocasse as mãos em cima dela, e certamente era só questão de tempo, lamentaria por tê-lo enganado. Não seria tão valente de não fosse por essa Delaney, que era a culpada de tudo. Tinha saído do nada para ressuscitar a Sparky. Meter a Kismet na linha era fácil; só tinha que a ameaçar em bater no menino e se convertia num corderinho, faria qualquer coisa para proteger ao asqueroso bastardo de Sparky. Mas não podia a controlar, nem muito menos castigá-la como merecia, se não a encontrava. Só uma pessoa podia dizer onde estavam escondidos Kismet e o piralho. Bom, Na verdade duas pessoas, mas prefería não ter que falar com esse Pierce a não ser que fosse absolutamente necessário. Em qualquer caso, ficar sentado e dando volta no assunto não serviria para nada. Já tinha refletido sobre a Situação até cansar e era o momento de passar à ação. Agora os ânimos já estariam calmos, a policia devia de ter outros assuntos em que se ocupar e já não o buscaria. Levantou cambaleando, ébrio, antes de recuperar o equilibrio para sair do bar. O ar da noite era fresco e tonificante e o respirou um pouco. Ao montar na Harley, a tocou como se fosse um objeto vivente. Quando pôs a potente máquina para


andar, agradeceu a vibração entre as coxas e o sexo, que lhe fez recuperar a virilidade e a segurança em si mesmo, muito abalada após o fracasso com Cat Delaney. Se deixasse que essa ruiva saísse livre após ter fodido a sua vida, ele mesmo forneceria uma faca para que o açougueiro o capasse. — Isso não é nada, querida — disse com uma pequena risada enquanto saía a todo gás. Bill Webster não tinha tirado o olho. Pela enésima vez olhou o relógio do criado-mudo. Jogou a roupa a um lado e saltou da cama. Suas calças estavam bem dobradas em cima da cadeira. Ele a Estava colocando quando Melia se levantou e, sonolenta, murmurou seu nome. —Sinto tê-la acordado — disse – continue dormindo. —Aonde vai? —Já está na hora de eu ir embora. —Agora? Achei que tinha dito a Nancy que estaria fosse toda a noite. —Fiz-o. —E por que não esperas até amanhã? —Já é amanhã. Melia estava amuada; não gostava do diálogo trivial a horas tão intempestivas. —Odeio acordar sozinha. —Hoje não poderá evitar. —Qual o motivo de tanta pressa? —Há algo que tenho que fazer. —A estas horas? —O quanto antes, melhor. Utilizou todos seus encantos para fazê-lo voltar à cama, mas não conseguiu dissuadi-lo. Saiu a toda pressa, sem sequer lhe dar um beijo de despedida. Alex amaldiçou enquanto contemplava a parte posterior de seu carro que desaparecia pela esquina, mas não perdeu o tempo em lamentações. Voltou a entrar na casa, subiu de dois em dois os degraus até o dormitório e vestiu-se. Tirou o revólver da primeira gaveta da mesa, apanhou um punhado de balas e meteu-lhas no bolso da camisa ao mesmo tempo em que baixava a escada. Caminho da porta, olhou o relógio e soltou outro palavrão.


A moto seguia na oficina e ela tinha levado o carro. Com a coronha do revólver rompeu a janela do BMW de seu vizinho. Em matéria de segundos fez uma ligação elétrica e saiu a toda velocidade. Voltou a olhar o relógio. Cat só estava a cinco minutos de vantagem. Estava muito assustada para chorar; mas o faria depois. Quando ele estivesse entre grades e ela a salvo, derramaria até a última lágrima por seu colossal engano. Agora tinha que se concentrar em sobreviver. Tinha sido Alex desde o princípio. Existia a possibilidade de que levasse o coração de sua querida Amanda, de modo que planejou matá-la como aos demais. Hoje era o dia, o aniversário do dia que tinha dado uma nova vida para ela, mas uma dor insuportável para ele. Disse que estava obssecado pela ideia de que o coração de Amanda seguisse pulsando dentro de outro corpo. Tinha seguido a pista dos possíveis receptores utilizando sua habilidade para o engano, ficando intimo deles o suficiente para matá-los sem levantar suspeita. Depois, passava para vítima seguinte para a te-la em sua armadilha. Quem melhor para cometer crimes tão perfeitos, que a policía nem sequer tinha considerado crimes, que um ex-policial escritor de ingeniosas novelas? Sabia como eliminar provas e tapar buracos em uma maquinação. Estremeceu-se porque tudo o que usava era a camisa de Alex. Notava a fria tapecaria de couro sob o traseiro e estava arrepiada. Assim que chegasse a casa chamaria ao tenente Hunsaker. Mas antes tinha que chegar. Mantinha um olho no retrovisor. Ainda que tivesse deixado sem carro, ele tinha muitos recursos. Quase esperava que outro veículo a adiantasse. Isso seria perfeito, não? Podia fazê-la cair de um viaduto e fugir. Sua morte seria considerada um acidente e ninguém suspeitaria dele, já que ela teria morrido ao volante de seu carro. Sim. Seria uma história convincente. Após passar a noite com ele, tinha saído a primeiras horas da manhã para sua casa. Ele tinha emprestado seu carro.


—Não posso o crer — diria ele quando o notificasse sua morte. Simularia dor e todos acreditariam em sua inocência. Igual que tinha feito ela. Por que não quis escutar a Dean? Nem a Bill? Os dois puseram-na em guarda, tinha intuido sua duplicidade. Por que ela não? Seu lado escuro, como preferia o chamar, era tão escuro que era um assassino. Tinha interpretado muito bem seu papel, com a habilidade e o refinamento de um maestro. Primeiro tinha seguido a pista; depois, tinha-a seduzido. A seguir desapareceu, para que ela tivesse saudades. Voltou para converter-se em amigo e confidente quando mais o precisava. E, por fim, fizeram-se amantes no sentido mais estrito da palavra. Ela tinha declarado seu amor em voz alta; e o tempo todo... Soluçava ao entrar, com excesso de velocidade, na rampa. Aferrada ao volante, enfilou os últimos metros que a separavam de sua casa sem deixar de recordar que não era o momento de desejar levar pelas emoções. Se vivesse para isso, teria tempo para se lamentar. Estacionou diante de um sinal de pare, abriu a porta e correu para a casa. No primeiro degrau tropeçou com alguém sentado ali e gritou. O intruso ficou de pé e segurou-a pelos ombros: —Cat, onde esteve? Quase desmaiou. Primeiro de medo; depois, de alívio. —Jeff! Agarrou-o pela manga da jaqueta, apoiou-se contra seu peito e tentou recuperar o fôlego. —Tem que me ajudar! —Cat, quase vai... Onde deixou sua roupa? —É uma longa história. Cat abriu a porta e desligou o alarme. Jeff tinha-a seguido até o interior da casa. —Tenho que chamar à policia. Alex Pierce é a pessoa que tenta me matar. —Que? —Pela mulher a quem queria. Morreu quando dava a luz e doou seu coração. Enquanto explicava os motivos de Alex, derramou o conteúdo da bolsa em cima da mesa buscando o


cartão de Hunsaker. —Onde estará? Tenho que o chamar. Hoje é o aniversário. —Eu sei. A meia-noite me deu conta; e não sabia nada de você durante todo dia. Vim para te fazer companhia. —Virá a buscar-me, Jeff. Tem que fechar o círculo e depois de muitos recursos. Não tens nem ideia do metódico que foi seu plano. Soou a campainha e, a seguir, uns socos na porta. —Cat! Ficaram gelados. Jeff saiu diante dela, utilizando seu corpo como escudo. Em qualquer outra circunstância, teria rido de sua tentativa, heroica, mas cômica, para a proteger. —A policia vem a caminho — gritou Jeff. —Sou Bill. Cat apartou a Jeff a um lado e abriu a porta. Bill Webster entrou. —Que passa? Doyle, que faz aqui? Cat, por que está vestida assim. —Alex é a pessoa que enviou os recortes — disse Jeff — Matou aos outros transplantados e agora quer fazer o mesmo com Cat. Bill estava assombrado. —Como sabem que é Pierce? Onde está agora? —Acabo de deixá-lo. Os dois homens trocaram olhadas após jogar uma olhada a suas pernas nuas. Nada importava menos que se justificar. —Vou chamar ao tenente Hunsaker. Descreveu a grandes traços o lugar de trabalho de Alex, os arquivos, a grande quantidade de informação que tinha conseguido. —Agora tudo faz sentido. Ele deve ter se vangloriado quando pedi que me ajudasse a encontrar a meu inimigo. Deu-me as pistas sobre Sparky, encontrou a Paul Reyes e fez passar um calvario a esse desgraçado e a sua irmã. —Quem é Reyes? —perguntou Bill. Cat explicou a viagem a Fort Worth. Ficaram perplexos ao saber até onde tinha chegado Alex para encontrá-la. —Aqui está. Cat encontrou o cartão de Hunsaker e chegou ao telefone. —Eu o farei; é melhor que te vistas — sugeriu Jeff.


—Obrigado. Cat encaminhou-se para o dormitório, mas Bill a seguiu. —Consideras-me ainda um amigo? Podes perdoar por meu assunto com Melia? Era curioso como uma experiência ameaçadora para sua vida dava a todos os demais uma nova perspectiva. —Bill, estava chateada e desiludida, mas eu não sou quem deve te julgar. Claro que seguimos sendo amigos. De repente, ficou curiosa. —Por que veio até aqui a estas horas? Antes que ele pudesse contestar, Jeff disse que Hunsaker já vinha. —Ficará até que chegue? Ambos assentiram. Cat os agradeceu e foi para o seu quarto. O doutor Dean Spicer deixou o cartão de plástico na cómoda e abandonou a habitação. Era cedo e os corredores estavam desertos. Não tinha ninguém mais no elevador. Ao atravessar o vestíbulo, só viu a um recepcionista dormindo no balcão. O garoto não o viu. Tinha chegado a San Antonio justo antes de meia-noite, em um vôo desde Los Angeles que fazia parada em Dallas. Chamou desde o aeroporto e, depois, quando chegou a San Antonio. Ela não tinha respondido aos seus telefonemas. Pensou em deixar uma mensagem na secretária eletrônica, mas não o fez. Se Pierce estava com ela, não queria ser um intruso deixando ouvir sua voz no dormitório enquanto faziam o amor. Também não estava seguro da acolhida de Cat. A última vez que falavam bateu o telefone em sua cara. Tinha falado do disparo mortal a um policial atribuído a Pierce. Quando se tratava de Pierce, ela pensava com o coração e não com a cabeça. É que existia alguma mulher que não fizesse o mesmo? Após pensá-lo muito, chegou à conclusão de que talvez tivesse sido melhor avisar por telefone. Sua visita seria uma surpresa, ainda que não devesse o ser. Hoje era o aniversário de seu transplante. A rua estava escura e silenciosa. Cyc estacionou a moto à sombra de uma árvore, ao outro extremo da maçã, e não perdia de vista a


casa de Cat Delaney. Reconheceu o carro postado diante da entrada: era o de Pierce. Mas tinha outro sobre a rua com as luzes enfocadas para os dormitórios. —Droga. Ultimamente nada saía bem. Era óbvio que seria uma estupidez entrar enquanto seu amigo o policial estivesse com ela. Planejava seu movimento seguinte quando um homem ao que nunca tinha visto abriu a porta, disse algo acima do ombro, saiu e a fechou a suas costas. Olhou a seu ao redor. Cyclops conteve o fôlego, ainda que de seu lugar não pudesse o ver. O homem caminhou com passo apressado até o carro de Pierce e introduziu-o na garagem. Saiu depois de uns momentos e derrubou a pesada porta. A contínuação chegou o outro carro estacionado na acera e, após manipular um jogo de chaves, entrou e saiu em direção contrária a seu esconderijo. Essa atividade deixou-o perplexo. Não estava seguro de que aquele carro fosse o de Pierce, verdade? Só tinha visto que ele o conduzia. Podia ser dela. E era possível que tivesse outro assunto com outro, fora Pierce. Por que, se não, sairia a essas horas? Já que ele tinha saído, estaria sozinha? Cyc deixou a moto por trás da árvore e avançou as escondidas. Cat sentia a necessidade de tirar dela cada toque, do cheiro, de qualquer coisa que lembrar-se dele. Relaxaria alguns minutos na banheira enquanto esperava a chegada de Hunsaker. Ninguém sabia o que podia ocorrer depois. Com um profundo suspiro entrou no banho de bolhas quentes e apoiou a cabeça na borda da banheira. Morria de vontade de afogar também em seu desespero e chorar até ficar sem lágrimas, mas agora não podia se deixar levar por suas emoções. Tinha que ser pragmática, fria, dura; tão despiadada como ele o tinha sido. Sem escrúpulos. Fechou os olhos para apagar as imagens de Alex, mas seguia vendo sua cara em diversas atitudes.


Quando faziam o amor, enquanto falava de seu trabalho, explicando sua devoção por Amanda. Sentia um nó na garganta, mas fez um esforço e conteve-se. Talvez por isso não ouviu que a porta do banho se abria. Na realidade não fosse por uma leve corrente de ar da rua nem sequer teria aberto os olhos. Quando o fez, o sobresalto fez que se sentasse, derramando água acima da borda da banheira. —Que estás fazendo? —Você se assustou? Estava estupefata; muito, inclusive, para gritar. Atônita, observou como apanhava o secador de cabelo do suporte de parede. Quando o ligou, começou a emitir um barulho. —Me desculpe, Cat. Vai ser vítima de um trágico acidente. O sorriso agridoce gelou seu sangue. Capítulo cinquenta e cinco —Droga! Alex deu um soco ao volante. Tinha ficado sem gasolina! Já era ruim roubar um carro ainda mais com tanque vazio. Fez girar o volante com força para deixar o carro no acostamento da estrada. Abriu a porta, saiu e empreendeu uma louca carreira. O seu vizinho, o yuppie, estaria bem empregado se roubassem seu “bebezinho” e o desxaisse Sem gasolina, por todos os santos! Tinha pouco tráfico. Levantou o dedo a alguns veículos que passavam, mas duvidava que alguém se detivesse. Seu aspecto não inspirava muita confiança, com o cabelo despenteado, sem barbear e com a camisa para fora da calça. Tomou a rampa de saída, correndo pesadamente sobre o pavimento enquanto contava os metros que faltavam até a casa de Cat. Essa manhã tinha encontrado a solução para o seu enigma. Durante o sonho, o subconsciente tinhao descifrado. Desde o Princípio esteve perdida a peça final do quebra-cabeça e o espaço vazio saltava à vista. Por que não o tinha visto antes que assassinassem a três inocentes? Amaldiçoou-se por sua éstupidez. Todas as faturas que se tinham apresentado neste labirinto de vidas


intercruzadas tinham sido liquidadas; menos uma. Por desgraça era a letal. Correndo ao limite de suas forças, dobrou a esquina e esquivou justo a tempo uma boca de incêndios. —Vive, Cat. Não me deixe você também. A Cat tremia os dentes. —Por que faz isto? Não entendo nada. —Pois não é difícil. Morrerá electrocutada e terá sido um fatal acidente, igual aos demais. —Bom, não podia ter deixado tuas intenções mais claras. —Cat Delaney: sempre tão piadista. —Desta vez não te sairás com a tua. O tenente Hunsaker vem de caminho. Jeff Doyle sorriu. —Chamei o serviço meteorológico; não à policia. —Bill... —Enviei-o a um recado. Sua chegada inesperada foi um contratempo, mas encontrei a forma de livrar-me dele. O Aconselhei que tirasse o carro de frente da casa, de forma que quando apareçer Pierce para te matar não o alertasse. —Muito inteligente. —Sim. Aprendi a apagar bem minhas impressões. Quando Bill voltar, me encontrará falando por telefone perguntando por que Hunsaker ainda não chegou. Nós nos preocuparemos por que não saiu ainda do banho e encontraremos teu cadáver. »Eu terei um ataque histérico, como fazem os gays nestas situações. Me culparei por não ter te aconselhado a atualizar a instalação elétrica desta casa antiga. Deveria ter um interruptor de segurança para evitar este tipo de acidentes. »Minha conjectura será que estava tão trastornada pela traição de Pierce que não pensava bem ou apanhaou o secador. Webster confirmará minha teoria. Ele a viu quão nervosa você estava após descobrir que teu amante planejava te matar. —Alex o negará. —Sem dúvida, mas também estará implicado nas outras mortes quando a policia encontrar provas acusadoras em seu apartamento. Obrigado por falar de seu estúdio privado, Cat. Ao que parece, guarda arquivos exaustivos de suas entrevistas. —Entrevistas?


—Suas entrevistas com os transplantados de coração. Causa muita impressão às pessoas, sabes? Todas elas me disseram. Estavam muito orgulhosos de que os tivesse entrevistado para seu livro. O senhor Pierce é muito inteligente e hábil. Nenhum deles suspeitou que, Na verdade, buscava o coração de Amanda. »Inclusive eu achei que estava investigando para um livro. Isto é, até quando ele começou a pesquisar você e descobri que sua amada tinha sido doadora de coração. »Quando a policia encontrar os arquivos, terá alguma explicação, verdadeira? — emitiu uma pequena risada — Devo reconhecer que supôs uma contrariedade quando, de repente, ele apareceu em cena. Temia que estragasse tudo se me descobrisse. É evidente que começou a suspeitar que tinha alguma coisa errada quando os trasplantados de coração que tinha entrevistado iam aparecendo mortos. Por suposto a intervalos de um ano, mas para um ex-detetive a coincidência era muito curiosa. Caiu na conta. »Fora o fato de querer encontrar a sua Amanda em ti, é provável que quisesse salvar do destino fatal dos outros. Seu desejo de protegê-la era sincero. »Inclusive cheguei a suspeitar que fosse ele quem tinha enviado os recortes. Tive um sobressalto. Me deixou nervoso ao saber que alguém tinha descoberto meu plano, ainda que isso não teria feito desistir. »Não obstante, Pierce acrescentou um pouco de emoção. Com ele a situação era mais complexa e, portanto, mais interessante. As outras mortes tinham sido muito fáceis; esta suporia um desafio. Agora será uma excelente cabeça de turco com a que não tinha contado. Negou com a cabeça e limpou os lábios. —As coisas não pintam bem para nosso novelista, verdade? E menos ainda tendo em conta todos esses arquivos que tem, tão bem guardados. Dá a impressão de que o homem está obssecado, não? Adotando uma expressão pensativa, acrescentou: —Na verdade, Pierce e eu temos motivações similares. —Referes-te a encontrar o coração de Amanda? Também a conheceu?


—Cat — disse em tom de deboche — Onde está tua imaginação? Ainda não se deu conta? Deveria ter vergonha. Sua tranqüilidade aterrorizava-a. Se tivesse despotricado e jogado espuma pela boca a teria assustado menos. Mas sua lógica fria e calculista e o suave tom de voz indicavam sua loucura. Estava totalmente separado da realidade. —Como sempre, ninguém suspeitará de meus crimes. Você culpava Melia de todo o que estava mau, nunca a mim. Fui eu quem vazou a história dos O´Connor a Rum Truitt. E também o chamei, me fazendo passar por Cyclops, para que engolisse essa historia sobre os abusos a menores. Durante a reunião no escritório de Webster, tive medo de que reconhecesse minha voz, mas estava muito absorto em te atacar e não prestou nenhuma atenção em mim. »Derrubar o foco foi complicado, mas também foi obra minha. Essa brincadeira quase a mata antes do previsto; a única coisa que devia fazer era se alarmar. Seus lábios formaram uma compungida careta. —Após tantos reveses, tantas pessoas como professionais, será comprensível que no dia do aniversário de teu transplante estivesses descontrolada e quase à beira do suicídio. »viajarei para outra parte do país, conseguirei um novo emprego e voltarei a me perder no anonimato. Posso interpretar quase qualquer papel e passar desapercibido. Sou muito camaleônico. Muito anônimo. Muito pouca coisa. As pessoas raramente olham para mim. Só Judy pensava que eu era especial. —Judy? Judith Reyes? Era o seu amante! —Ah, por fim entendeu. Sim, sou o desconhecido que éscapou desse cretino. De repente, sua expressão mudou e seus olhos encheram-se de lágrimas. —A matou com um taco de beisebol. —Como conseguiue fugir? —Ficou imóvel olhando-a; parecia hipnotizado pelo sangue encharcado embaixo de sua cabeça. Estava em transe e não prestou atenção em mim. Apanhei a roupa e fugi. Sabia que não podia fazer nada por Judy: estava morta; e eu com ela.


Passeava ao recordar aquela tarde de bochorno em Fort Worth. —Judy era muito religiosa e estava apegada à cultura hispana. Seu marido sabia como se teria sentido se mutilavam seu corpo. —Ela não teria aceitado uma doação de órgãos — disse Cat. Tinha que entretê-lo falando até que Bill voltasse. Seus olhos fizeram uma varredura pelo banheiro, buscando formas de poder escapar ou um instrumento para defender-se. Mas, enquanto ele seguisse segurando o secador, não podia nem se mover. Se o fizesse, o deixaria cair e ela passaria desta para melhor. —A ideia a teria ofendido — dizia Jeff — Queria que a enterrasse intacta. E Reyes sabia-o. Doar seus órgãos era a forma de castigar por nosso amor, uma tortura perpétua para toda a eternidade. A única forma de poder libertar-nos é parar seu coração. —Matando ao receptor. —Sim. Enquanto seu coração segue pulsando, sua alma vagará atormentada. Jurei sobre sua tumba que daria a ela o descanso e a paz que merece, de modo que tive que matar ao garoto. —O adolescente de Memphis. Como o localizou? Ele encolheu os ombros, como se isso tivesse sido a parte mais fácil. —Consegui um emprego em um banco de órgãos. Muito cedo soube o número atribuído ao coração de Judy e isso me levou até ele. —Se você já tinha cumprido a promessa que fez a Judy, por que matou aos demais? E por que quer me matar? —Os computadores falham por erros humanos. E se tivesse ocorrido alguma confusão com os números? Não podia me arriscar. »Tinha que eliminar qualquer paciente que tivesse recebido um coração nesse dia. Era a única forma de garantir o cumprimento da minha missão. Cat sentiu um calafrio, mas tentou não demonstrar seu terror. —Por que esperava o dia do aniversário? —De outra forma seriam simples assassinatos. Não sou um psicópata. Eu os matei no dia do aniversário é como um ritual que Judy teria gostado. Assistia só a missas solenes, com toda a pompa e circunstância da tradição. Assim é que ela teria querido.


—Acredita para valer que estaria orgulhosa de você por ter matado a essas pessoas? —Ela iria querer se reunir ao seu coração. E é o que vou fazer. Para que sua alma encontre a paz eterna. Secou as lágrimas com o dorso da mão. —Quero-a muito para deixar que sua alma siga atormentada. Cat, eu lamento que tenha que morrer porque te aprecio, mas não tenho outra saída. Beijou as pontas de seus dedos e pressionou-as contra o peito de Cat. —Judy, amor meu, descansa em paz. Eu te amarei sempre. Cat agarrou sua mão justo quando a outra deixava cair o secador. Gritou com todas suas forças. Ficaram a escuras. O secador caiu na água, mas apenas respingou. Jeff gemia pelo fracasso. Cat quis sair da banheira, mas ele a impediu. Ouviu que seus joelhos colidiram contra o assoalho do piso ao mesmo tempo em que colocava sua cabeça dentro da água. Manteve-a ali abaixo enquanto ela se debatia agitando os braços e pernas, balançando a cabeça de lado para o outro e arranhando seus braços. Mas não a soltava. Sem perceber, abriu a boca para gritar que se encheu de água espumante. Ao longe ouviu passos barulhentos pelo corredor. A porta do banho abriuse e, de repente, ficou livre. Tirou a cabeça em busca de ar, sufocada pela água que obstruía sua garganta e as fossas nasais. O cabelo molhado colava-se à cara e impedia sua visão, ainda que estivesse tudo tão escuro que também não teria visto grande coisa. —Cat? —Era Alex. —Estou aqui dentro. —Não se mova — gritou. Colocou Jeff no chão. Não teria briga, já que Alex era, de longe, o mais forte. —Filho de cadela: se a machucou... Sua ameaça foi interrompida com um grito de surpresa. —Está bem? — Era Bill, de pé na porta aberta. Do revólver de Alex surgiu num flash. O tiro ricocheteou nas paredes do banheiro. Bill se apavorou. Alex gritava furioso.


Os olhos de Cat tinham-se adaptado à escuridão e viu que Jeff tinha conseguido segurar o pulso de Alex e lutavam pela posse da arma. As paredes da banheira de porcelana estavam escorregadias e úmidas, mas Cat saiu engatinhando e lançou-se sobre Jeff. Dando socos na cara, arranhava-o e arrancava seu cabelo. Gritou de dor e soltou a pistola, com a que Alex apontou na nuca ao mesmo tempo em que o levantou com um puxão. Deu um chute no traseiro de Jeff e ordenou: —Vamos, caminha — disse enquanto recuperava o fôlego — Faz favor, já que nada gostaria mais que te voar da cabeça. —Me mate — soluçou Jeff — Eu falhei com Judy e quero morrer. —Não me atente. Cat avançou cambaleando para a porta e tropeçou com os pés de Webster. —Bill? À débil luz, viu-o estendido de costas. Tinha uma mancha vermelha sobre o peito. —Deus meu, não! Não! -exclamou soluçando. Mal se mantinha em pé, mas chegou até o criado-mudo, levantou o telefone do gancho e marcou o 911. Depois voltou ao lado de Bill, ajoelhou-se a seu lado e apanhou sua mão. —O socorro Já vêm — disse a Alex. —Como está Webster? —perguntou. —Não se moveu. —Talvez possa anotar outra morte, Doyle. Jeff balbuceava incoerências. Cat estava trastornada. Agarrou um pedaço da colcha, mas, em vez de envolver-se nela, tampou a Bill. O som das sirenas era o melhor que tinha ouvido. Inclinou-se sobre Bill e o instado: —Agüenta, Bill. O socorro Já chegou. Pode ouvir-me? Você ficará bem. Ele não respondeu, mas Cat confiava em ele que notava sua presença. O tenente Hunsaker foi o primeiro que entrou na casa. —Que passa com a luz? —A caixa de fusíveis está na despensa da cozinha — gritou Alex desde o banheiro — Ligue o interruptor do centro. —Preciso ajuda no dormitório. Um homem recebeu um disparo no peito — gritou Cat.


Em matéria de segundos voltou a luz. Cat fechou os olhos, deslumbrada. Quando voltou aos abrir, dois enfermeiros e Hunsaker entravam pela porta do dormitório. Hunsaker tinha desembainhado sua arma. —Bom, Pierce, você está preso. Saia com as mãos para cima. —De que diabo está falando? —gritou Alex. —Não foi Alex. Ele o capturou a... Incapaz de seguir falando, Cat indicou a porta aberta do banheiro. Um dos enfermeiros pôs a mão no seu ombro. —Esse homem está muito ruim, senhora. Afaste-se e deixe que nós o ajudaremos. —Ele Se salvará? —Faremos o possível. Com certa cautela, Hunsaker chegou à porta do banheiro segurando a pistola com ambas as mãos. —Atire a arma, Pierce. —Com muito gosto, imbecil. Assim você atira nele. —Quem é esse? —Jeff Doyle. —É o filho da puta que chamou o serviço meteorológico simulando falar comigo? —O telefone ainda está pinchado, verdade? —perguntou Alex. —Exato. E foi uma sorte. Bom, quem é esse maricas? —É uma longa história. Coloquem as algemas e leia os seus direitos. —Um momento, Pierce. Não me diga o que tenho de fazer. Eu vim aqui por você. —Faça-o — disse Alex apartando a um lado. Caminhou para os enfermeiros inclinados em cima de Webster que lutavam para salvar sua vida. Cat estava de pé, rígida, olhando. Alex apanhou o vestido do respaldo da cadeira e a ajudou a colocar. Abraçou-a. —Você está bem? Ela assentiu. —De verdade? —Sim. Só tenho medo por Bill, está...? —Ainda vive. Ele pegou seu queixo e a obrigou a levantar a cabeça. —Você foi muito valente. Podia ter disparado em mim também. Obrigado. Agora que tudo havia terminado, seus joelhos dobravam e estava tremendo. —Não sou valente. —Eu acho que sim. Cat. Se tivesse acontecido alguma coisa com você...


A beijou na frente. —Quero-te. —A mim, Alex? Para valer é a mim a quem quer? Capítulo cinquenta e seis —Que disse? —perguntou Dean. Agradeceu à aeromoça que tinha servido o segundo Scott com água. —Nada — contou Cat — Então você chegou. Em pleno caos. Alex e eu não tivemos outra oportunidade para falar a sós. —Pensei em te fazer uma surpresa e trazia uma garrafa de champanhe para celebrar o quarto ano de tua segunda vida. E, ao chegar á sua casa, a encontro rodeado pela policia enquanto colocavam alguém em uma ambulancia. Estava morto de medo. Ela apertou sua mão e apoiou a cabeça no respaldo. —Estou tão cansada... Não quero falar mais disso, mas tenho que o fazer. Preciso desafogar-me. Depois de uns momentos de reflexão, acrescentou: —Aprendi que não é bom manter más recordações reprimidas. É melhor deixá-las sair, clareá-las, analisá-las, esclarecê-las e, depois, enterrá-las para sempre. —Quem te enxinou essa gota de sabedoria? —disse em tom sarcástico — Ou não é necessário que pergunte? —Dean, você prometeu. Nada de críticas a Pierce. —De acordo, mas aceitei a revelia — bebeu um gole — Já quase esclarecemos tudo, mas ainda há coisas que não entendo. Disse que Bill voltou a tua casa a pé após ter mudado o carro de lugar. Chegou ao mesmo tempo que Alex. —Sim. Bill viu-o correr e saiu correndo seguindo Pierce. Ele advertiu a Pierce estava indo atrás dele e que ele e Jeff estavam ali para me proteger. Alex explicou que ia me salvar de Jeff, que tinha sido o amante de Judy Reyes. —Deve ter sido muito convincente. —Para isso, ele tem talento de sobra. Bom, o caso é que Alex o fez ver que o carro de Jeff não estava ali. Era evidente que o tinha escondido para que ninguém soubesse que ele estava em minha casa. Nem sequer eu, até que estivesse dentro e ser muito tarde. »Isso convenceu Bill e perguntou que podia fazer para ajudar. Rodearam a casa espiando pelas


janelas e tratando de averiguar o que estava acontecendo. Queriam que fosse um ataque por surpresa. O cardiologista continuou escutando o relato: —E quando Alex viu Jeff segurando o secador ao lado da banheira correu à parte posterior da casa, entrou pela janela da cozinha, localizou a caixa de fusíveis e desligou a electricidade. Ele teve rápido reflexos. —Por sorte sabia onde estava a caixa. Evitou dizer que foi desta forma que Alex entrou em sua casa outras duas vezes. —Graças a Deus, já que outros dois minutos e... —Não me recorde. Pobre Bill. No final da manhã me deixaram vê-lo. Segue na UTI e muito debilitado, mas ficará bem. Nancy não se moveu de seu lado. —Que o levou a tua casa a essas horas da madrugada? —Uma ideia genial para Os Meninos de Cat. Disse uma mentira piedosa para proteger a intimidade dos Webster. Tinha sido um milagre que a bala perdida não tivesse atravessado nenhum órgão vital. Tinha sofrido traumatismo e perda de sangue com orificio de entrada e saída, mas se recuperaria perfeitamente. Essa manhã havia pedido à enfermeira da UTI que o deixasse um momento a sós com Cat. Queria agradecê-la por fazê-lo ver que era vergonhosa a sua relação com Melia. —Eu rompi com ela. Quero a Nancy. Sem seu amor e seu apoio... Fez uma pausa, como se falhassem as forças. —Até a morte de Carla nossa vida era um paraíso, era como se estivéssemos isentos do sofrimento de outras pessoas. Quando ela morreu, soubemos que não éramos diferentes. »Estava trastornado e sentia-me incapaz de superá-lo. Busquei algo que aliviasse minha dor. Cometi a estupidez de envolver-me em uma relação sórdida com uma mulher que não chega nem a sola do sapato da Nancy. Achava que não merecia outra coisa. Estava-me castigando por não ter podido salvar a minha filha. »Melia me paquerou até que a contratei. Depois, fez questão de trabalhar em teu programa. Já sabe o resto. Na noite que me encontrou em sua casa você me disse coisas que abriram meus olhos.


Compreendi que tinha que acabar com ela. Uma vez decidido, não fiquei ali nem um minuto mais. Alongou a mão para apanhar a sua. —Fui a tua casa para agradecer-te que tivesse salvado o que mais importa para mim no mundo: minha família. —O que tem que fazer agora é melhorar; ainda temos que fazer muitas coisas juntos. O beijou na frente. No corredor encontrou com Nancy, que a abraçou. —Obrigado, Cat. —Por quê? Se não fosse por mim, Bill não teria recebido o disparo. Nancy olhou-a comunicando uma complicidade mais profunda. —Ele me explicou tudo. Eu o perdoei, mas você poderá me perdoar? Fui muito injusta ao suspeitar que... —Não importa — interrompeu Cat — Aprecio muito tua amizade e tem toda minha admiração por teu talento para organizar arrecadações de fundos. Posso seguir confiando em tua ajuda? —Tão cedo como Bill esteja recuperado. Dean a fez voltar ao presente. —Segundo parece, Webster e Pierce agora se admiram mútuamente. Ela riu. —O que é curioso, já que não gostaram um do outro da primeira vez que se viram. Alex estava furioso consigo mesmo por ter deixado que Jeff se apoderasse da arma durante a luta. Bill disse que não tinha que se culpar de nada, pois se ele tivesse ficado na cozinha, como ele pediu, não teria ficado na linha de fogo. —Que vai ser desse Doyle? Cat tinha visto como o levavam algemado e o faziam subir à parte posterior do furgón. Ainda custava relacionar ao homem sensível e arduo trabalhador com um assassino a sangue frio. —Quando a policia registrou seu apartamento encontrou álbuns de recortes e velhos jornais que faziam parecer insignificante a recopilação de Alex. Era óbvio que, desde a morte de Judy Reyes, estava obssecado. Alex diz que ele enfrentará três julgamentos por assassinato e dois por tentativa


de assassinato. Mas, como aconteceram em quatro estados, terá mudanças. E deferimentos. Segundo parece, é uma salada legal. Não importa como se resolva: passará o resto de seus dias entre grades. Ela Ficou pensativa um instante. —São três. —Três que? —As pessoas que estão entre grades. Jeff, Paul Reyes e George Murphy. —Cyclops. Não posso achar que o prendessem a um par de metros de tua casa. Pergunto-me quais seriam suas intenções. —Não seriam boas. Resistiu à prisão e insultou a um policial. Não parece ser um bom futuro. Cat sorriu feliz. —Graças a Deus, Patricia e Michael já não terão que suportá-lo. Patricia trabalha como aprendiz em uma empresa de joías. Poderá ganhar a vida e aperfeiçoar seu oficio. Um psicólogo infantil ocupa-se de Michael e, agora que já não está aterrorizado por Cyclops, sairá da casca rapidamente. —E Reyes? —Eu Lamento por ele e sua família. Sua irmã estava comovida quando a chamei para avisar que ele não tinha matado aos outros transplantados. »Quando estávamos no sanatorio, não me ameaçava, mas me avisava. Segundo a declaração de Jeff à policia, ele tinha enviado os recortes a Reyes. Queria que soubesse que tinha encontrado um sistema genial para sua diabólica vingança. Jeff nunca imaginou que esses recortes aparecessem em minha correspondencia como aviso. »Por a sua instabilidade mental, Reyes captou seu significado. Em algum momento, tinha chegado à conclusão de que a atriz de telenovelas Cat Delaney levava o coração de sua mulher. Quando compreendeu a pauta dos assassinatos, imaginou que eu era a seguinte na lista, igual que fez Alex. »Alex também estava seguindo a pista com a esperança de me salvar. A intenção de Reyes era mais ou menos a mesma. Foi a San Antonio para vigiar-me. Suponho que soube meu endereço me seguindo a casa desde a emissora de televisão. —Por que não se identificou e disse o que suspeitava?


—Ainda que o absolvessem por uma falha legal, tinha matado a sua esposa em um ataque de ciúme. Era considerado um doente menta1. Eu teria acreditado ou qualquer outra pessoa? —Boa pergunta. —Conforme chegava a data do aniversário, sua inquietude ia aumentando e voltou à cena do crime, por dizer de alguma forma. Esta era, ao menos, a hipótese de sua irmã. Ontem escrevi uma carta explicando todo o ocorrido e lhe agradecendo por tentar me advertir. Não estou segura de que o entenda, mas eu achava que tinha que o fazer e me sinto melhor. Agitou os cubos de gelo da limonada, que seguia intacta. —Quantas tragédias se produziram como resultado desse único dia, quatro anos atrás. —E também sei muito bem - disse Dean apanhando sua mão. —Essas pessoas morreram sem nenhum motivo. —Mas também tinham vivido com seu novo coração. Seus transplantes valeram a pena e, se tivessem que o repetir, teriam feito a mesma eleição. Marcaram sua vida. Isso é o que tentamos: dar mais tempo ao paciente. Depois, o destino toma o controle e ninguém pode o prever nem o alterar. —Todo isso é verdade e, aqui, o sei — indicou sua cabeça — mas tenho que o assimilar aqui — tocou seu coração. —E o melhor lugar para conseguír será em tua praia privada. Alegro-me de voltar a vela de perto. Fiquei com saudades. —Vou voltar, Dean. O programa foi suspenso até que possa formar outra equipe, mas não é um assunto fechado. Nem pensá-lo. Estamos discutindo a possibilidade de associarmos á emissoras de outras cidades e isso suporá bem mais trabalho, mas pensa na quantidade de meninos que poderíamos ajudar - disse esperançosa — Ficarei em Malibú duas ou três de semanas e depois voltarei. —O que aconteceu com dele? Entra no esquema? —Alex. O nome tinha escapado dos seus lábios sem perceber. Invadiu nela uma nostalgia. Tinha arriscado sua vida para salvá-la e nunca o esqueceria.


Mas também não esqueceria seu engano. Toda sua relação se tinha baseado em uma mentira por omissão. Quando ele disse que a queria, tinha sido também uma mentira? Só tinha uma forma de turar as dúvidas. —Tenho que te pedir um favor, Dean. —Teus desejos são ordens, Cat. —Não caçoes. Você não vai gostar. Suspirou perguntando se, por estar decidida, teria coragem de seguir diante. —Quero saber se levo o coração de Amanda. Ficou perplexo. —Sei que sempre disse que não queria saber nada do doador. E não quero, a não ser que fosse Amanda. Isso eu tenho que saber. —Cat... Levantou ambas as mãos recusando seus argumentos. —Não me importo o que faça para conseguir. Pede favores, faça jogo sujo, rompe qualquer norma ética, mente, suplique, soborna, rouba. Tens os contatos e a forma de saber obter a resposta. —Você percebeu que me convém negar? —Mas não o fará. —Também poderia mentir sobre munha averiguação para te proteger a mais angústias. Também isso seriaa uma vantagem para mim. —Também não fará isso. Você Me dirá a verdade. —Como está tão segura? —Porque faz quatro anos que você teve coragem de olhar nos olhos e dizer-me que não duraria muito. Via sua imagem borrada pelas lágrimas e acariciou suas mãos. —Nunca falou com evasivas, por mais dolorosa que seja a verdade. Dean, eu preciso que volte a ser esse tipo de amigo necessito que seja tão honesto comigo como quando me disse que estava morrendo. —E compara viver sem ele com morrer? —O pior seria viver com ele e me perguntar sempre se me quer por mim mesma ou por ser outra pessoa. E apertou sua mão com força. —Faz favor, descobre se levo o coração de Amanda. Capítulo cinquenta e sete Algo obrigou a Cat a levantar a vista para a casa no mesmo momento em que Dean saía na varanda


e a saudava com a mão. Ela devolveu a saudação e continuou contemplando a maré baixa quando outra pessoa apareceu ao seu lado. O vento levantava a aba do chapéu e a segurou com uma mão. Ainda que sua silueta esta contra o sol, reconheceu sua figura alta e esbelta, a forma da cabeça, sua pose. Disse algo a Dean. E apertaram a mão. Dean olhou-a, dizendo adeus com a mão e entrou na casa. Teve o impulso de correr para ele, mas ficou imóvel vendo como baixava os degraus da empinada escada. Ao colocar os pés na areia, suas botas de cowboy afundaram até o cano, mas não se deu conta. Sua atenção estava concentrada nela, igual à Cat que não podia tirar seus olhos dele. —Olá. —Olá. —Bonito chapéu. —Obrigado. Seguiam olhando-se até que, finalmente, ela disse: —Esta área está reservada aos residentes. Como entrou? —Utilizando meus poderes persuasivos. —Têm funcionado. —Como uma varinha mágica. —E aqui está. —E aqui estou. E de muito mau gosto porque Spicer abriu-me a porta. —Ficou comigo. Só como amigo. —Isso ele me disse. É uma boa pessoa. —Custou algo esse elogio? —Sim. O privilégio de dormir aqui. Ontem à noite passou sua última noite contigo; inclusive como amigo. A partir de hoje, todas tuas noites serão ao meu lado. —Ah, sim? —Sim. Não aceitarei um não como resposta, Cat. Dei há você tempo para que clareasse suas idéias, tenho agüentado durante três longas semanas e a cada um desses vinte e um dias foi um inferno. —Conseguiu escrever? —Como um imbecil. Dia e noite. Até que terminei. —Acabou o livro? —Todas as suas seiscentas trinta e duas páginas. Enviei a Arnie e ontem me telefonou para dizer que era o melhor que havia escrito. E que vai vender como rosquinhas.


Marcou a mão e apanhou uma mecha de cabelo que escapava do chapéu. Estudou-o com atenção enquanto o entrelaçava entre seus dedos. —Arnie tinha curiosidade de saber por que tinha mudado o esquema inicial e tinha acrescentado um idilio. —E o que você disse? —Que tinha tido uma inspiração. Não podia escrever uma história de amor antes de te conhecer, Cat. Pensava que essa parte de mim tinha morrido com Amanda, mas estava equivocado. Apanhou-a pela nuca. —Te seguirei até que se renda por esgotamento, se essa é a forma de te conseguir. »Quero estar com Cat Delaney hoje, manhã e sempre. Não me importo se leve o coração de um chimpanzé. Quero ver teu cabelo vermelho no travesseiro ao lado a cada amanhã. Eu te Amo. »E com respeito ao que fiz... Nunca teve um fechamento a minha vida com Amanda. Não pude pedir perdão por ser um maldito egoísta e não me casar com ela, nem agradecer por todas as vezes que tinha agüentado meus lamentos por meus problemas. Nem chorar com ela pela perda de nosso filho. Fechou os olhos, como se quisesse que ela entendesse. Depois olhou-a compungido. —Não pude me despedir dela, Cat. Gostaria de ter me despedido. —Compreendo-o — disse Cat baixinho — Na verdade, acho que sou afortunada ao ser querida por um homem que antes soube amar tão bem. Alex apanhou suas mãos e as levou aos lábios. —Cat, pode perdoar-me? —Quero-te. Inclinou-se com intenção de beijá-la, mas, pelo rabo do olho, viu movimento e virou. Chegava-se uma jovem. —Olá, Sarah — disse Cat — Tem desfrutado do passeio? —Muito. Tudo isto é precioso. A jovem olhou a Alex por baixo da asa do chapéu. Usava jeans, tênis e um moletom com o emblema dos Bruins. Tinha o cabelo liso e escuro e os olhos castanhos.


—Apresento-te a Sarah Choate. Sarah, ele é Alex Pierce. Alex, Sarah é uma grande admiradora tua. —Sempre é agradável conhecer a uma admiradora. Muito gosto, Sarah. —O mesmo digo. Alex mostrou seu moletom. —Estuda na Universidade de Los Angeles? —Sim. Para especializar-me em Literatura Inglesa. —Estupendo. Que ano está? —Segundo. —Sarah é muito modesta para dizer que é um gênio — disse Cat — Tem escrito alguns relatos que têm ganhado prêmios e têm sido publicados. —Estou muito impressionado. Felicito-te. Sarah se ruborizou. —Obrigado, mas nunca chegarei a ser tão boa como você. —Escreves novelas de ficção? —Mais bem de não ficção. Então interveio Cat: —Tem escrito artigos sobre sua experiência como transplantada de coração. Alex, que até então tinha tomado seu olhar de adoração como a de um admirador diante de seu ídolo, ficou tenso. Fixou seus olhos nos da rapariga, depois nos de Cat e, de novo, nos de Sarah, que agora estavam velados pelas lágrimas. —Eu ficarei eternamente agradecida. O som das ondas e do vento amorteceu suas palavras, mas Cat e Alex leram-nas nos lábios e nos olhos. Sarah apanhou a mão de Alex e a apertou com força. —Lamento muito o ocorreu com Amanda e o bebê. Cat contou-me seu calvario quando morreram. Mas eu te agradeço pela decisão que tomou. Sei que Amanda tinha feito constar na carteira de motorista sua intenção de ser doador de órgãos, mas você a fez possível. Sem seu coração, eu teria morrido. Devo-lhe a vida e jamais poderei pagar. Jamais. Cat conteve o fôlego; não muito segura de qual seria sua reação. Contemplou os olhos da rapariga e, a seguir, colocou a mão no centro do peito. Ela, em vez de retroceder, sorriu. Nesse momento abraçou-a, e assim permaneceram durante uns minutos enquanto o vento soprava a seu ao redor. Quando a soltou, tinha a voz rouca e os olhos úmidos. —Amanda estaria muito feliz de que tivesse sido você. Seja feliz.


—Obrigado. Durante muito tempo não quis saber nada de meu doador nem de sua família. Sentia o mesmo que Cat. Ela ainda não sabe nem quer o saber. »Mas faz pouco mudei de ideia. Não sei explicar por que. De repente, tive a necessidade imperiosa de localizar à pessoa rêsponsável de meu novo coração e agradecer. Solicitei informação ao banco de órgãos e estava esperando contestação quando o doutor Spicer se pôs em contato comigo. »Explicou-me que a situação era diferente, mas me pediu que falasse com Cat antes de conhecer à família de meu doador. Por suposto, já sabia quem era Cat e disse que estaria encantada. »Fiquei nervosa quando me informou de que, precisamente, meu escritor favorito era... Bom, já sabe. Cat me convidou para ficar alguns dias com ela e conversamos muito. Estou sabendo de tudo. Estava segura de que você não se importaría que me contasse sua história com Amanda. —Não, não me importo. A verdade é que estou muito contente de tê-la encontrado, Sarah. Significou mais do que imagina. Alex olhou a Cat de tal maneira que deu um nó na garganta. Rodeou-a com o braço. Sarah compreendeu que estava sobrando. —Bom, tenho que sair. O doutor Spicer me deixará no campus antes de voltar ao seu trabalho no hospital. —Alex, não parece que estávamos predestinados nos conhecer? —Sim. —você se Importaria se eu escrevesse de vez em quando? Não quero atrapalhar, mas... —Você não atrapalha, eu ficaria triste se não escrevesse. E também Amanda. Teria gostado que fôssemos amigos. O radiante sorriso de Sarah saiu do coração. Observaram-na enquanto subia os degraus até a varanda, onde se deteve para os saudar antes de entrar na casa. — Ela É maravilhosa - disse Alex. —Sabia que iria gostar. —Sei que parece uma loucura, mas queria que Amanda pudesse conhecêla.


—Não me parece uma loucura. Colocou suas mãos sobre os ombros. —Obrigado. —Fiz-o também por mim, Alex. Tinha que saber a quem ama realmente. —você sabe a quem quero — murmurou. A beijou durante um longo momento e, quando fez uma pausa para respirar, ela dedicou um momento a observar os ângulos de sua cara, o cabelo despenteado, a sobrancelha partida. Via amor em seus olhos. —Amanda tem toda minha gratidão. Levantou a cabeça, perplexo. —Não teve nada que ver com teu coração. —Mas muito com o teu. Fim


Charada sandra brown