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THE FIDELITY FILES © 2008 by Jessica Brody. All rights reserved. Printed in the United States of America. For information, adress St. Martin’s Press, 175 Fifth Avenue, New York, NY.10010. Copyright © 2013 by Novo Século Editora

COORDENAÇÃO Equipe Novo Século TRADUÇÃO Carolina Huang DIAGRAMAÇÃO Ana Gameiro REVISÃO Débora Donadel CAPA Gabriel Calou

TEXTO DE ACORDO COM AS NORMAS DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA (DECRETO LEGISLATIVO Nº 54, DE 1995)

E-ISBN: 978-85-428-0156-9

Edição digital 2013 DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À NOVO SÉCULO EDITORA LTDA. CEA – Centro Empresarial Araguaia II Alameda Araguaia, 2190 – 11º Andar Bloco A – Conjunto 1111 CEP 06455-000 – Alphaville – SP Tel. (11) 2321-5080 – Fax (11) 2321-5099 www.novoseculo.com.br atendimento@novoseculo.com.br


DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Brody, Jessica A amante infiel / Jessica Brody ; [tradução Carolina Huang]. -- Barueri, SP : Novo Século Editora, 2013. Título original: The fidelity files. 1. Ficção norte-americana I. Título.

13-02803 CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813


Aos meus pais, cujos corações sempre foram fiéis.


Agradecimentos Ontem à noite, enquanto eu estava assistindo à cerimônia do Oscar e ouvindo todas as vencedoras de Gucci e Versace agradecerem suas mães, pais, esposos, empresários, maquiadores e gatos caolhos, de repente me lembrei (por causa de todos os agradecimentos, não porque também tenho um gato caolho) que eu ainda não tinha escrito os agradecimentos para A amante infiel. E, sim, escrever um romance não é exatamente a mesma coisa que ganhar um Oscar. Para começar, eu só tenho vestido barato, e Ryan Seacrest não tem interesse em me entrevistar. Mas, como verão nas páginas seguintes, também há muita gente para agradecer. A única diferença é que posso fazê-lo de pijama, sem a ameaça da música chata que toca quando o tempo acaba. Claro que você pode simplesmente fechar o livro e calar a minha boca, mas é um risco que estou disposta a correr. E, como este é meu primeiro livro, eu praticamente tenho que agradecer todas as pessoas que conheço, porque, sinceramente, há grandes chances de as pessoas que eu deixar de fora não comprarem o segundo livro. Portanto, este é o momento em que aqueles que não me conhecem e, francamente, não se importam a quem agradeço podem respeitosamente se retirar, virar a página e seguir com suas vidas. Em primeiríssimo lugar, quero agradecer a Laura e Michael Brody, minhas inspirações, meus heróis vivos, meus maiores incentivadores. Ah, e eles também são meus pais. Se não fosse por eles, eu não estaria aqui hoje... literalmente. Obrigada, mãe, por me criar com a mentalidade de ser livre e por me deixar despejar o leite no meu cereal sozinha. Acho que nós duas sabemos que aquela porçãozinha de liberdade foi o que acabou me dando a coragem de me tornar escritora. E, obrigada, pai, por plantar em mim a “semente da escrita” e por ser meu primeiríssimo editor, por ler e reler cada uma das trezentas páginas do rascunho (e nós dois sabemos que houve vários). Sei como deve estar cansado desta história a essa altura e, por essa razão, não vou deixá-lo ler esta página até que o livro seja lançado. Você vai ficar muito animado por ter algo novo para ler! A única desvantagem é que não vou poder incluir nenhum de seus comentários espirituosos. Agradeço à minha muito estilosa irmã mais nova, Terra, por ter sido a “consultora de moda” oficial do livro. A imagem da minha personagem principal teria sofrido enormemente se você não tivesse ajudado e salvado com seu conhecimento sobre estilistas. Agradeço a Charlie, meu maravilhoso namorado/companheiro/melhor amigo/alma gêmea. Eu sou o balão, e você é a pedra à qual estou amarrada, e amo-o por isso... mais do que imagina. A Walter Brody, por ter passado seus genes talentosos e por ser a primeira pessoa a


merecer o título de “o homem mais inteligente do mundo”. E a Roslyn Brody: gostaria que estivesse aqui para ver meu livro publicado, mas já sei exatamente o que diria: “Oy veh, espero que estejam te pagando bem!”. Não se preocupe, vovó, paguei todas as minhas dívidas (quase). A Steve e Cathy Brody, por me deixarem seguir seus passos editoriais. Obrigada à minha brilhante e incentivadora empresária, Beth Fisher, da Levine Greenberg, por acreditar neste conceito desde o início e por ser tão paciente com minha enxurrada interminável de perguntas sobre o processo editorial. E a Monika Verma, Stephanie Kip Rostan e todos que compareceram a essas reuniões editoriais misteriosas de vocês. Agradeço às minhas editoras maravilhosamente talentosas, Jennifer Weis e Hilary Rubin, por entenderem o impasse de Jennifer/Ashlyn e por me ajudarem a tornar a história dela o mais forte possível. E obrigada, Hilary, por ter salvado este livro com o título perfeito! A Anne Marie Tallberg, Ellis Trevor, John Karl e todo o pessoal do marketing e da publicidade da St. Martin, por ouvirem todas as minhas ideias e não rirem de nenhuma delas (pelo menos, não na minha frente). Agradeço ao meu misterioso preparador de texto (você sabe quem é, mesmo que eu não saiba), que me conscientizou sobre meu problema de pôr hífen em tudo. Não-se-preocupe-estou-buscando-ajuda. E a todas as outras pessoas incríveis da St. Martin que ajudaram a transformar o que era um documento do Word de quatrocentas páginas em algo que se pode pegar na prateleira. Jerry Brunskill, você acreditou neste conceito desde o instante que saiu da minha boca, e tenho uma dívida eterna com você, pelo seu apoio e estímulo. Obrigada pelas horas e horas de trabalho no trailer. Devo-lhe uma grande e complicada planilha! Deus ama planilhas. Agradeço a Megan Beatie, a Kathleen Carter e a todos da Goldberg McDuffie por todas as suas brilhantes ideias, entusiasmo e conhecimento de propaganda. A todos os meus maravilhosos amigos: Ella, por ler tudo o que eu já escrevi... e por inspirar os acessos de raiva de Zoë; Brad Gottfred, por ser minha alma gêmea de produção; Katherine Carlson, minha mentora espiritual e consultora de O Segredo; Leslie, minha amiga “mais velha” e rainha do chick lit! Shalini, por inspirar a “Ilha da Terapia” (embora não tenha entrado na versão final, ainda acho que somos engraçadíssimas); Allison, Kristin e Alicia, por serem meu primeiro público-alvo; Tina, por ser minha “gerente de marketing”; Holly, por ser o rosto de “Ashlyn” na internet; Lindsay Wray, por dar a voz à linha direta; Hilary e Jen, minhas representantes em Nova York e Los Angeles; Megan, minha colega de “Girl at Play”; Angie, por sua legítima animação em relação a tudo que faço; e Blair, por nunca se entediar pela minha contínua chateação e por ser minha inspiração para paz interior... e uma dieta 99,9% alcalina. Agradeço a George, Vicki e Jennifer, minha família do Texas, e a Bob e Kitty, por provarem que os públicos-alvo foram feitos para serem quebrados.


A Sylvia Peck, minha primeira empresária. Juliet sempre será sua. Brian Braff, obrigada pela linda foto de autora e por me manter humilde com suas transcrições. Obrigada a todos os talentosos atores que agraciaram as cenas do trailer com seus lindos rostos (e pés): Deprise Brescia, Holly Karrol Clark, Katharine Horsman, Katie Hein, Chad Chiniquy, Elizabeth Weisbaum, Jeremy Pack, Kip Tribble, Sherry Zerwin, Keith Burke, Jason Rosell, Tye Nelson, Amy Warren, Lois Larimore, Nicholas Hosking, Rick Lundgren, Fabienne Mauer e Cameron Daddo. E a toda a equipe técnica que dedicou seu tempo e criatividade a produzi-lo: Ryan Rees (som), Adam O’Connor (cinematografia), Karen Stein (maquiagem), Chahn Chung (design gráfico). E, por último, mas não menos importante, obrigada a você, a pessoa que está segurando este livro. Estou enormemente agradecida. Um escritor sem leitor é só um louco com uma caneta. E, se você aguentou essa seção inteira de agradecimentos, definitivamente merece a minha gratidão.


1 Trocando de canal O homem que eu procurava estava confortavelmente sentado no fundo do bar do hotel. Cabelo escuro, terno escuro, gravata afrouxada, camisa com o primeiro botão aberto. Ele estava sozinho em uma mesa de assento de veludo vermelho com o braço estendido por cima do banco, bem à vontade. Seus dedos batucavam suavemente no tecido ao ritmo da agradável música que tocava, enquanto a outra mão levava metodicamente seu copo à boca para um outro gole. Fiquei observando-o, discretamente, do vão que ligava ao saguão do hotel. Ele estava à procura de alguma coisa, nada em especial, mas algo para distraí-lo – pelo menos, por essa noite. Continuei observando, enquanto seus olhos habilmente encontravam a única presença feminina no bar. Ele a examinou a partir do outro lado do salão e, vendo sua calça de cós alto e a conservadora blusa de gola alta que a desfavorecia, desviou o olhar, desestimulado, e tomou outro gole de sua bebida. E aí, bem nessa hora, estava minha deixa. Afastei uma mecha de cabelo dos meus olhos e entrei no bar, certificando-me de andar devagar o suficiente para que os olhos dele pudessem me notar. Porém, com a combinação de seus olhos errantes e a notável escassez de clientes hoje, não foi uma tarefa difícil. Certas noites são simplesmente mais fáceis que outras. Eles geralmente começam com as pernas. A maioria dos homens gosta de pernas. É um fato. Dois anos atrás, eu achava que a população masculina estava igualmente dividida em três tipos: os que gostam de pernas, os que gostam de bundas e os que gostam de peitos – ou o que eu chamava de a Santíssima Trindade Masculina. Mas agora, eu sabia da verdade: a maioria dos homens gosta de pernas. Mesmo assim, eu geralmente levava três modelos de roupa diferentes, por via das dúvidas. Cada um era voltado para uma, e somente uma, das três características associadas à Trindade. Mas eu sempre começava com as pernas – era uma aposta segura. Hoje, eu estava vestindo um terninho preto com minissaia e sandálias de salto alto sem meia-calça. É o que chamo de visual Vadia Empresarial. É empresarial o bastante para ser levada a sério e vadia o suficiente para que saibam que você gosta de ser notada. Para mim, não tem a ver com gostar de ser notada. É meu trabalho fazê-los me notar e, mesmo que algumas pessoas escolham me criticar neste aspecto, na minha opinião, só estou fazendo o meu trabalho. Se esse cara em particular gostava ou não de pernas, tornou-se irrelevante para mim assim que seus olhos passaram dos meus tornozelos para as minhas coxas, chegando à


elevada barra da minha saia. É claro que ele não parou por aí; isso raramente acontece. Só que, depois que eles chegam à barra da saia, não podem mais depender da visão. Daí em diante, é só imaginação. Passei pela mesa dele, agindo completamente alheia à sua atenção, e fui em direção ao balcão do bar, onde tranquilamente me sentei em uma das banquetas com encosto. – Um gimlet com vodca Grey Goose, por favor. O barman, contente por finalmente ter algo para fazer em uma noite vazia de quartafeira além de polir copos de martíni, assentiu cordialmente e colocou um guardanapo de coquetel na minha frente antes de se virar para preparar meu drinque. Com um suspiro cansado, apoiei meu queixo na palma da minha mão e descansei meu cotovelo no balcão revestido de madeira. O movimento teve o objetivo de me fazer parecer entediada: um longo dia, uma longa viagem e uma longa e solitária noite à minha frente. Deu certo. Enquanto o barman colocava meu drinque em cima do guardanapo e eu pegava minha carteira, com o canto do olho vi uma nota novinha de cem dólares deslizar no balcão. – Tome, deixe que eu cuido disso – uma voz masculina se ofereceu. Olhei e vi que era o homem da mesa, parado ao meu lado. Pareci levemente surpresa com sua presença. Por que não estaria? Eu nem estava esperando que ele viesse. – Que gentileza sua – falei agradecida. Um sorriso malicioso apareceu em seus lábios. – Não tem de quê.

Eu estava aqui por causa de uma ligação que tinha recebido cerca de uma semana atrás. A mulher que me ligou precisava da minha ajuda. Todo mundo que liga especificamente para esse número precisa da minha ajuda. Afinal de contas, é por isso que o tenho. Aceitei encontrá-la na manhã seguinte. – Vou até sua casa – falei, proporcionando a mesma garantia reconfortante que dava a todo mundo que ligava para esse número. Sentei-me na sua enorme e elegantemente decorada sala de estar e ouvi sua história, que era familiar. Eu já a tinha ouvido, no mínimo, duzentas vezes – às vezes com pequenas variações, às vezes quase literalmente igual –, mas sempre com a mesma motivação principal: medo. – A empregada achou isso no bolso da calça do meu marido enquanto estava lavando as roupas. Ela esticou a mão até a mesa de centro e pegou uma pedacinho de papel amassado. Olhou para ele pensativa, esperando que, se lesse pela 102ª vez, dissesse algo diferente, ou talvez uma nova e melhor explicação finalmente lhe viesse à cabeça e pudesse me


mandar embora. Não foi desta vez. Relutante, ela me entregou o pedaço de papel com um suspiro desolado e enxugou o nariz com um lenço de papel esmigalhado e usado ao extremo. – Me desculpe, estou péssima. Simplesmente não consigo acreditar que estou fazendo isto. Olhei para o bilhete escrito à mão e assenti de maneira compreensiva. – Bem, você fez a coisa certa ao me ligar. É melhor saber com certeza do que ficar imaginando, não é? Ela olhou para mim com incerteza. – Acho que sim. – É sim – garanti. – Acredite. Eu tinha garantido a mesmíssima coisa para muitas mulheres. Às vezes, quando se está no lugar delas, nem sempre é fácil enxergar. Melhor dizendo, nem sempre é do jeito que se quer enxergar. A cabeça e o coração são conhecidos por discordarem em assuntos como esse. – O que você acha que quer dizer? – ela me perguntou, apontando com a cabeça para o papelzinho amassado na minha mão. Olhei de novo, passando meu dedo por cima da tinta preta. – É difícil dizer – admiti com sinceridade. – Já vi muitos bilhetes como este: às vezes não é nada, mas às vezes acaba sendo... – fiz uma pausa, esperando que o silêncio suavizasse as palavras – ... alguma coisa. Ela desviou o olhar; lágrimas de medo ameaçavam encher seus olhos. Então, por fim, ela se rendeu com um profundo suspiro. – Minha amiga que indicou você disse que você faz uma espécie de teste.

Olhei nos olhos do homem ao meu lado enquanto brindávamos com os nossos copos e dávamos um gole ao mesmo tempo. – Então, o que você está fazendo em Denver? – perguntei, mordendo meu lábio inferior. A técnica de morder o lábio funcionava muito bem para sugerir que meu nível de confiança estava no ponto para fazer a pergunta, mas não o suficiente para segurar o nervosismo enquanto a fazia. Afinal, apesar das aparências, eu realmente sabia mais sobre esse homem do que parecia, mais do que ele gostaria que eu soubesse e certamente mais do que qualquer mulher num bar de hotel. Por exemplo, eu sabia que esse homem em especial gostava de confiança, mas não muita, porque, se houvesse demais, não haveria senso de conquista da parte dele. Ficava fácil demais. Se ela for um pouco tímida, o desafio é maior. Ele gostava quando as mulheres tomavam a iniciativa, mas só para demonstrar


um interesse inicial; depois gostava de tomar as rédeas. Eu via muitos homens como ele. – Minha empresa está adquirindo uma firma menor que tem sede aqui – explicou. Assenti com curiosidade, como se nada no mundo pudesse ser mais interessante. – E que empresa seria? O homem levantou um dedo, fazendo gesto para eu esperar, depois enfiou a mão no bolso do terno e retirou um cartão de visita. Ele o colocou em cima do balcão, na minha frente, como se estivesse dizendo “por que gastar preciosas palavras quando o cartão diz tudo?”. Deslizei o cartão, aproximando-o de mim, e inclinei minha cabeça para o lado ao lê-lo em voz alta com verdadeira curiosidade, como se estivesse lendo o nome pela primeira vez. – Indústrias Kelen. Aí olhei para ele, enquanto minha cara mudava de um inocente interesse para um vago reconhecimento. – Espere aí – falei, olhando novamente para o cartão e batucando meu dedo nele. – Conheço esta empresa – e fiz uma pausa, fingindo pensar bastante e demoradamente, vasculhando no fundo da minha memória. O homem riu quase com pena de mim. – Duvido muito. Fabricamos... – Motores de carro! – interrompi com o entusiasmo de uma fã de celebridade. Ele olhou para mim perplexo. – Isso mesmo. – Vocês acabaram de lançar um novo motor de dez cilindradas, 5,2 litros, para competir com o S8 japonês. Ele piscou sem poder acreditar e depois olhou para mim com tanta vontade que poderia ter me devorado ali naquele momento. – Como é que uma moça como você – ele começou, olhando novamente de cima a baixo, certificando-se de que no bolso do meu terninho não havia um par de óculos de nerd colados com fita adesiva pendurado ou uma calculadora gráfica saindo da minha bolsa – sabe sobre motores de carro? Corei, como se ele tivesse acabado de descobrir meu ponto fraco secreto, um segredo embaraçoso que eu tinha trancado dentro de mim, mas que, ao conhecer alguém do status dele, não aguentava mais escondê-lo. – É só um hobby – falei timidamente. Ele sorriu e rapidamente acrescentou: – Estou sentado naquela mesa ali. Quer se sentar comigo? O convite surgiu rápido, tão rápido quanto eu havia calculado. Ele foi um código fácil de decifrar. Não achei que ia ter trabalho com esse aí. Esse homem era obviamente experiente. Eu certamente não era a primeira mulher que ele convidava para se sentar, mas, por sorte, eu não era ciumenta. Era meu trabalho me sentar com ele.


O convite é sempre necessário, independente da rapidez ou da demora com que surge. É obrigatório. Eu não posso convidar, apenas aceitar. É uma das regras e, já que eu mesma as tinha inventado, seria bobagem quebrar uma. Para mim, as regras não foram feitas para serem quebradas, mas criadas por uma razão, que geralmente era boa. – Bem... – hesitei, olhando para o meu relógio. – Só um pouquinho – ele disse, tentando me persuadir com um sorriso cativante. Fiquei pensando por um instante, apenas o suficiente para dar a ele a adrenalina de uma possível rejeição e, como resultado, a adrenalina subsequente de uma pequena primeira vitória. Homens como ele vivem em função dessa adrenalina, algo que não conseguem mais em casa e, com toda a sinceridade, a julgar pelo tamanho da sua conta bancária, algo que também não conseguia fora de casa. Um homem tão rico raramente é recusado – e ele sabia disso. Porém, a única coisa que me diferenciava das outras mulheres era que eu não queria nada dele em troca. Eu só estava ali para observar e, claro, tomar boas notas. No seu subconsciente, ele queria a caça. Também queria o triunfo no final, mas esforçar-se para isso tornava aquilo muito mais divertido. Portanto, essa noite, eu tinha que ser meio acanhada, incerta sobre o tempo ou o desejo de ficar bebendo com alguém. Não podia ser o tipo de mulher que simplesmente se sentava com qualquer estranho que encontra num bar. Sua proposta tinha que parecer, de certa forma, mais intrigante que a maioria. Mas também, essa mulher era apenas uma projeção, uma concepção de sua mulher perfeita. – Acho que pode ser – falei por fim. Ele sorriu e, com cavalheirismo, pegou os nossos copos, e atravessamos a pequena distância até sua mesa com assentos vermelhos e aveludados que parecia poder acomodar cinco pessoas ou até seis que tivessem afinidade. Ele esperou eu me sentar e aí pousou meu copo na mesa antes de se sentar ao meu lado. – Então, de onde você é? – perguntou, tomando um gole de seu drinque. – Los Angeles – declarei sem rodeios, deslizando meus dedos para cima e para baixo na lateral do meu copo. – E você? Foi nessa etapa do processo que optei por me abaixar e ajustar a tira da minha sandália, enquanto ele digeria minha pergunta. Não que a pergunta fosse difícil, mas, a essa altura, havia cada vez menos sangue fluindo para o cérebro. Por isso, as perguntas ficavam mais difíceis – até mesmo as simples, como essa. Porém, o ajuste da sandália nunca era um simples ajuste: era um lento deslizar até a perna, certificando-me que eu tocasse todas as zonas erógenas, e um proposital desvio de minha atenção. O desvio era sempre longo o suficiente para que eles, caso quisessem, retirassem a aliança do dedo. E foi o que ele fez. Quando me levantei e olhei naturalmente para a sua mão esquerda com o rabo do olho, já não estava mais lá. – Orange County – ele disse sem hesitar. – Pelo jeito, somos vizinhos. Tenho uma casa


em Newport. Sua resposta casual nada disse sobre o fato de que agora estava sem uma importantíssima joia, como se a retirada de sua aliança não o tivesse perturbado nem um pouco. Como alguém que tirava o relógio ao final do dia, este homem claramente retirava sua aliança quando conhecia mulheres em bares. Sorri encantadoramente. – Ah, eu adoro esse lugar! As praias são maravilhosas. Minha melhor amiga mora perto, em Huntington. – Bem, então você vai ter que ir para o Sul fazer uma visita – ele propôs sugestivamente. – Tenho uma ótima piscina com vista para o mar. Soltei uma risada nervosa e perfeitamente cronometrada, do tipo que deixa a outra pessoa sabendo que ela está lhe deixando sem jeito, mas, ao mesmo tempo, implica que você não se importa tanto assim. – Talvez eu vá – respondi suavemente. Entretanto, a única coisa que ambos sabíamos era que, independente do que acontecesse nas próximas horas, eu não iria fazer viagem nenhuma à Newport Beach num futuro próximo. Porém, meu entendimento daquele acordo tácito era apenas um pouco mais esclarecido do que o dele.

– Chama-se inspeção de fidelidade – expliquei calmamente à mulher sentada à minha frente com lágrimas nos cantos dos olhos. – E é assim que funciona: você e eu decidimos sobre o local onde seu marido vai estar num futuro próximo, de preferência um lugar fora da cidade. Minha pesquisa mostrou que a maioria dos casos de infidelidade masculina acontece longe de casa. Então, eu viajarei para esse local pré-determinado e me apresentarei como uma “oportunidade”. Ela assentiu lentamente, absorvendo todas as informações, um doloroso detalhe de cada vez. – Não vou instigar nada: apenas seguirei as propostas de seu marido. – E depois? – ela perguntou, querendo desesperadamente que eu desse todas as respostas perfeitamente embrulhadas em um lindo pacotinho, um kit de conserto de casamento dentro de uma caixa. Infelizmente, não funcionava desse jeito. No que se referia à infidelidade, nunca havia um rápido reparo, mas havia uma solução. Por isso, eu estava lá. – Senhora Jacobs – comecei gentilmente –, apenas forneço informações. Cabe totalmente a você escolher o que fazer depois. Ela assentiu e tentou sorrir. O pedaço de papel na minha mão era a primeira pista – sempre havia uma. A questão era o que a pessoa escolhia fazer com aquilo: ignorá-la e seguir em frente, sempre duvidando e imaginando, ou tomar alguma atitude a respeito.


Essa pista em particular veio na forma de um nome e uma série de números. “Alexis” estava escrito no papel em uma indiscutível letra feminina e, logo abaixo, havia um número de telefone, seguido da frase “Roupa de banho opcional!”. Embora eu não quisesse admitir à mulher que estava diante de mim, aquilo parecia exatamente o que eu suspeitava ser. Minhas amigas davam seus números a caras o tempo todo, e era isso que escreviam: um nome e um número, e às vezes uma piadinha engraçada e particular, algo para lembrá-lo da conversa que tiveram naquela noite. – E você tem certeza de que seu marido não conhece nenhuma pessoa chamada Alexis? – perguntei honestamente. Ela fez que não. – Não que eu saiba. A filha de nossos amigos se chama Alexis, mas só tem dez anos. Duvido que ela tenha escrito isso. Concordei com a cabeça e abri um sorriso reconfortante. – Sim, também duvido. Ela se mostrou incomodada. Tinha esperado que não chegasse a esse ponto. Olhou para o seu colo: suas mãos estavam se apertando com firmeza, e ela começou a massageá-las como se fossem uma massa de pão. Ficamos sentadas em silêncio por um instante até que ela finalmente levantou a cabeça e olhou bem nos meus olhos. – Se fosse eu, o que você faria? – ela perguntou calmamente. Olhei para ela com compaixão, pronta e disposta a ajudar de qualquer maneira possível. – Eu iria querer paz de espírito – falei com toda a sinceridade.

– Aliás, como você se chama? – perguntou o homem do bar. – Ashlyn – respondi, virando-me para ele e estendendo minha mão. É claro que era um nome falso: eu nunca usava meu nome verdadeiro. “Ashlyn” não existia de verdade, era um holograma, uma personagem de uma peça que eu havia representado centenas de vezes, em centenas de bares de hotel diferentes, que, mesmo assim, pareciam estranhamente familiares: o mesmo show repetido várias vezes nos últimos dois anos. – Que nome bonito – observou ele, ficando visivelmente mais confortável na mesa. Agradeci gentilmente. Não era a primeira vez que ouvia isso. Sim, era um nome bonito; afinal de contas, foi por isso que o escolhi. Se ia lutar por uma causa, precisava fazê-lo com um bom codinome. – Prazer em conhecê-la, Ashlyn. Me chamo Raymond. Mas eu já sabia o nome dele. Era um dos aspectos básicos. Na verdade, eu sabia muito mais sobre o homem ao meu lado do que estava escrito em seu pequeno cartão de visita


branco. Raymond Jacobs, diretor-presidente das Indústrias Kelen, a segunda maior fabricante de motores de carro da América do Norte. Com quase 38 anos, morava em Newport Beach, na Califórnia, com sua esposa Anne e seus dois filhos. Seus hobbies incluíam velejar, jogar golfe, esquiar e degustar vinhos, embora ele raramente conseguisse praticá-los por causa de sua agitada agenda de trabalho. Ele gostava de sushi, mas só se fosse caro, tipo atum-azul (ele duvidava de peixe cru barato). Assistia a hóquei e basquete toda vez que um time do Texas estivesse jogando, porque foi onde cresceu. Formou-se pela Universidade do Texas em Engenharia, pediu a namorada em casamento um ano depois e jurou fidelidade eterna à fraternidade Sigma Phi Epsilon. Eu sempre pesquisava: facilitava muito mais o meu trabalho. – É, eu sei – falei com um sorriso fraco que deixou minha boca meio aberta, para que ele visse minha língua massageando ludicamente a parte de trás dos meus dentes. Porém, assim que ele começou a olhar, fechei rapidamente a boca e pressionei bem os meus lábios. Afinal, hoje, com Raymond Jacobs, diretor-presidente das Indústrias Kelen, eu ficava constrangida ao ser pega fazendo qualquer coisa erótica demais, principalmente quando as pessoas estavam olhando. Eu praticava a manobra da língua contra os dentes na frente do espelho pelo menos duas vezes por semana, quando não havia ninguém por perto. Mas quando chegava a hora de usá-la de verdade com alguém, eu ficava um pouquinho menos corajosa. – Raymond Jacobs – pronunciei seu nome inteiro e cheio de importância. – Como é que você sabe? – ele perguntou, subitamente paranoico ao se lembrar que ainda não tinha me falado seu nome completo. Apontei timidamente para o cartão de visita na minha frente, em cima da mesa. – Claro. Ele riu de si mesmo, aparentemente aliviado, porque, por um pequeníssimo momento, houve uma leve sensação de pânico, que eu talvez não fosse exatamente quem dizia ser. E a verdade era... que eu não era. Mas a cabeça enxerga o que escolhe enxergar. – Então, o que você está fazendo na cidade? – perguntou Raymond rapidamente, desviando a conversa de volta ao seu percurso normal até... bem, exatamente onde ele queria que chegasse. – Negócios ou diversão? A entonação de Raymond com a palavra “diversão” estava muito longe de ser discreta. Ele não ia perder uma oportunidade perfeita para insinuar. Ashlyn poderia até ser tímida, mas certamente não era idiota. Entendi sua sugestão e gargalhei nervosa com a insinuação. Ele observou minha boca atentamente, esperando que a gargalhada de desconforto se transformasse em uma de paquera recíproca. E querem saber? Transformou-se mesmo. – Negócios – falei com um suspiro para despistar, como querendo sugerir o tédio da minha viagem e o desejo incandescente de torná-la um pouco mais interessante. – O que você faz da vida? Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha.


– Sou gerente de pesquisa para um escritório de advocacia. Ashlyn já havia tido vários empregos. Hoje, porém, seu trabalho era ser interessante e importante, não um que fosse chamativo demais, mas um que exigisse uma quantidade significativa de neurônios. Com certos indivíduos, o emprego de Ashlyn era um componente importante da missão. Contudo, hoje estava ficando cada vez mais claro que, com pernas como aquelas, Raymond Jacobs não se importava nem um pouco com o que ela fazia durante o dia, contanto que as atividades noturnas dela incluíssem um espaço para ele. – Uau, deve ser emocionante – ele disse com uma séria tentativa de sinceridade. Ele queria que isso acontecesse e sabia o preço para consegui-lo: interesse e atenção. Afinal, por experiência própria, era o que normalmente custava para persuadir mulheres como Ashlyn. Abri o tipo de sorriso que irradia de alguém que gosta do seu trabalho. – Sim, é bem emocionante – comecei. – Tem sempre alguma coisa diferente... muitas viagens. Conheço gente nova o tempo todo, e a pesquisa que faço geralmente é muito interessante e educativa. A melhor parte é aprender sobre coisas que eu nunca teria escolhido aprender por conta própria. Ri sozinha ao perceber que todo o discurso era, na verdade, razoavelmente preciso: eu acabava viajando muito, conhecendo muita gente nova, não necessariamente pessoas das mais íntegras, mas eram pessoas assim mesmo. E, de vez em quando, a pesquisa exigida para esse trabalho podia ser muito fascinante. Por exemplo: nos últimos dois anos, eu tinha aprendido a falar francês, espanhol, italiano, japonês, alemão, russo e um pouco de árabe. Não me incomodava muito o fato de as únicas conversas que eu podia ter nessas línguas eram todas voltadas a fazer com que os homens me convidassem para subir ao seu quarto. Mas não dava para reclamar. O trabalho braçal fazia parte de qualquer emprego. O meu trabalho braçal era apenas um pouco mais... literal. Quanto mais eu conversava com Raymond Jacobs, mais confiante ficava de que ele era o que chamava de “zapeador”, alguém que não sente culpa. Esses eram os que me deixavam alerta, os que caíam com muita facilidade, como se só estivessem trocando o canal de TV durante o comercial, só para ver se tinha outra coisa para assistir. Era um bom teste para qualquer homem. Será que ele podia assistir a uma pausa comercial inteira sem trocar de canal? Se pudesse, talvez tivesse potencial; se não, era de se jogar fora. É claro que, com o advento dos gravadores digitais, as capacidades de teste ficaram meio limitadas. Porém, a única coisa da qual eu estava bem confiante que ele ia sentir era remorso, arrependimento, embora provavelmente não viesse na forma de “como pude fazer uma coisa dessas?”, mas mais de algo como “como é que consegui ser pego?”. Homens bemsucedidos não são pegos com a boca na botija, por assim dizer. Se isso ia ou não transformá-los, era tema para uma reportagem comovente. Depois de três drinques e o que pareceram horas de conversa inútil, virei meu pulso e olhei para o relógio.


– Oh – falei, aparentando estar surpresa que alguém como eu pudesse ter perdido a noção do tempo tão facilmente –, é quase meia-noite. Preciso ir dormir. Tenho que levantar cedo amanhã. Levei o copo à minha boca e lentamente deixei minha cabeça inclinar-se para trás, deixando o restinho do meu drinque deslizar pela minha garganta. Eu também estava permitindo que a realidade das minhas palavras de despedida penetrassem a cabeça dele. Ashlyn estava indo embora, e não havia dúvida de que ele queria mais dela. Era um método garantido para lidar com qualquer homem: casado, solteiro, divorciado, gay, hétero, bissexual. Sempre deixá-los querendo mais, nunca dar o suficiente. Peguei minha bolsinha preta e coloquei no ombro, preparando-me para sair e levantando-me lentamente. Virei-me para ele e fiz uma pausa antes de voltar a falar. Isso deu tempo aos olhos dele, que agora estavam na altura das minhas pernas, se erguerem até meu rosto. – Foi um prazer conhecê-lo, Raymond. Ele pigarreou. – Você tem que ir mesmo? Sua decepção era transparente de propósito, tentando a sorte ao fingir estar com o “coração partido” – porque as mulheres gostam de causar esse efeito nos homens. Assenti solenemente, fingindo sentir os efeitos do álcool que eu havia acabado de consumir. – Sim, acho que tenho. Mas, mais uma vez, obrigada pelos drinques – falei, dando uma risadinha. – Pelos três. Estendi minha mão, deixando ele apertá-la, senti-la, absorvê-la, desejá-la. – Boa sorte com as suas reuniões – eu disse suavemente, começando a me virar. – Para você também – ele falou, confuso. Pude ver sua mente se esforçando para pensar na sua próxima jogada de xadrez. Sabendo muito bem que ainda precisava capturar a rainha, ele não estava pronto para me deixar ir tão facilmente, e era exatamente por isso que eu me sentia à vontade para blefar a minha saída. – Sabe – ele começou a dizer, com a mão posicionada de maneira pensativa no bispo metafórico do nosso tabuleiro imaginário. Voltei a me virar com curiosidade, como se não tivesse a menor ideia do que estava por vir, como se eu já não tivesse previsto as minhas próximas cinco jogadas, como qualquer bom jogador de xadrez faria. – Tenho um excelente frigobar no meu quarto e nem encostei nele ainda. Quer subir para tomar outro drinque? Xeque-mate. Hesitei um pouco, pensando na sua proposta. Eu tinha que pensar nisso. Aceitar na hora não era coisa da personagem – e Ashlyn nunca se desviava da personagem. Eu tinha que ficar lisonjeada pelo convite dele, mas também tinha que morder meu lábio com hesitação enquanto pensava nisso. Foi o que fiz. Porém, na verdade, a indecisão era acrescentada por dois motivos: 1) a óbvia: para


aludir ao fato de que eu não tinha certeza se queria subir com um estranho; e 2) a não óbvia: dar-lhe a chance de recuar. Sim, essencialmente, era contraproducente para a minha “missão”, mas eu tinha que ter certeza de que ele realmente queria. Há uma linha tênue entre testar alguém e armar uma cilada, que são duas coisas fundamentalmente diferentes, e eu não faço a segunda. Não armo ciladas nem faço os homens caírem nelas depois. Deixo eles mostrarem o caminho e observo o que fazem com uma “voluntária”, porque, na realidade, a tentação está em toda parte. Nós dois sabíamos que ele não estava. Ele tirou seus olhos de mim o tempo suficiente para checar suas duas cartas e então rapidamente escanear as cincos cartas na mesa. Depois ele voltou a me estudar. – Sim, acho que gostaria – falei, baixando um pouco minha cabeça. Ele se levantou, com uma extraordinária sensação de dever cumprido, deixando a adrenalina que ele desejava todo santo dia pulsar em suas veias e alimentar sua animação. E, juntos, percorremos o caminho através do bar, por entre as outras mesas, em direção ao saguão. Já no elevador, ele apertou o último andar, da cobertura, e as portas se fecharam. Seus lábios imediatamente foram encontrar os meus. Seu beijo não foi carinhoso ou suave, mas determinado. Eu tinha aceitado o convite e, ao mesmo tempo, tinha conscientemente aceitado muito mais. Era uma regra implícita com a qual Raymond aparentemente estava bem familiarizado. Quando nos beijamos, minha cabeça se encheu da mesma coisa de sempre: nada. Levei um tempo para dominar a arte de pensar em nada. Sempre pensava que era quase impossível, principalmente para mulheres. Nossas mentes estão sempre correndo, analisando, planejando. Porém, depois de várias aulas de meditação, inúmeros livros sobre a arte Zen e horas de treino, eu finalmente tinha me transformado na mestre do nada, um espaço vazio na minha cabeça – e, acreditem, é a única coisa que se quer pensar numa hora dessas. Afinal, certamente há várias outras opções. Sua esposa, seus filhos, a linda mansão numa cidade de nome impressionante onde ele escolheu morar, a aliança de casamento, que já teve sentido e virtude, agora inerte dentro do bolso da camisa dele. Olhar para um homem como Raymond Jacobs pode ser bem decepcionante, porque, para alguém inexperiente, sua família, sua vida, suas realizações provavelmente pareceriam coisas de seriado, o padrão americano perfeito. Porém, para uma especialista como eu, parecia bastante diferente. Engraçado. Nunca, quando eu era pequena e assistia a Caras & Caretas ou Anos Incríveis, me imaginei encontrando os maridos e pais desses programas nessas circunstâncias, mas aprendi bem rápido que os seriados nunca refletiam a vida real. Eram apenas uma criação idealista, uma utopia na mente de um produtor qualquer que queria sensibilizar a nós que vivemos no mundo real, um mundo que, não é de surpreender, em nada se parece com aquilo – pelo menos ainda não se parece, mas tenho esperanças. O elevador tocou, e as portas se abriram. Ele agarrou minha mão com força e começou


a me conduzir pelo corredor até seu quarto, e um sorriso agradável estava artificialmente estampado na minha cara. Esse era um momento crucial do processo: o jogo estava quase terminado. Porém, eu não podia ficar desatenta: um engano qualquer, uma mudança na personagem, uma palavra equivocada poderiam desencadear uma suspeita e, inevitavelmente, uma missão abortada. Raymond estava distraído demais para desconfiar, mas nunca é possível ter absoluta certeza. Por mais previsível que uma pessoa seja, ela sempre pode surpreender e, portanto, eu não podia de jeito nenhum perder minha concentração. Minha verdadeira identidade tinha que estar sempre escondida. Dar para trás era uma coisa, mas descobrirem o disfarce era bem diferente. Ele soltou minha mão apenas por tempo suficiente para pegar a chave do quarto no bolso de trás da calça. Dei uma risadinha nervosa ao observar ele lutar contra a tranca eletrônica: tentou uma vez e acendeu a luz vermelha de erro; depois tentou de novo. Podia ter parado por um tempo para interpretar a luz vermelha e reagir à sua óbvia sugestão. Sempre há sinais: a maioria apenas fracassa em vê-los. A luz verde finalmente acendeu. Ele virou a maçaneta e abriu a porta, empurrando-a com as costas. Estendeu suas mãos e me pegou pela cintura, puxando-me para dentro.

– Só mais uma coisinha... – disse a senhora Jacobs enquanto eu arrumava minhas coisas para ir embora. Enfiei a foto de Raymond Jacobs que ela tinha me dado dentro do bolso do meu caderno, que coloquei na bolsa. Depois, olhei para ela: – O quê? Ela demonstrou inquietação, e a inevitabilidade de sua iminente pergunta estava deixando-a visivelmente incomodada. Mas precisava ser feita, e ela sabia que teria de acabar perguntando. Eu, no entanto, já sabia qual era, porque era a mesma pergunta que sempre surgia a essa altura da reunião, a mesma imagem perturbadora que iria assombrá-la pelo resto da semana – e possivelmente pelo resto da vida –, a menos que fosse esclarecida. – E quanto ao sexo? – ela finalmente conseguiu soltar. – Você faz sexo com o... hã... – disse com a voz sumindo. Ela não conseguia nem pensar nisso, muito menos dizê-lo em voz alta. – De jeito nenhum – falei sem o menor sinal de vacilo na minha voz. Esse ponto sempre esteve fora de cogitação, por isso era importante que eu o apresentasse como tal. Ela deu um grande suspiro de alívio. – Ah, ainda bem. Abri um sorriso acolhedor.


– Senhora Jacobs, garanto que meu teste se baseia apenas numa intenção de trair. Não tem sexo no meio. Ela voltou a demonstrar inquietação. – Intenção de trair – repetiu para si mesma. – É – confirmei com um aceno firme da cabeça. – Então, como é que isso funciona exatamente?

Raymond e eu entramos desajeitadamente aos tropeços pela extravagante suíte de cobertura, com os lábios dele colados na minha boca, no meu pescoço, no meu rosto – qualquer lugar que pudessem encontrar. Ao cairmos na cama, eu me assegurava de ficar por cima. Facilitaria muito a rota de fuga, quando chegasse a hora de fugir. As mãos dele imediatamente pousaram na minha bunda. Gemi de prazer. Ele gostou; eles geralmente gostam. Ele continuou me beijando enquanto tirava o meu terninho. Depois, foi para minha saia, desabotoando os botões um por um. Não protestei. A camisa foi tirada. Ele deu uma olhada no meu sutiã de renda lilás e soltou um suspiro de admiração. Claro que era lisonjeiro. Por que não seria? Porém, na noite de hoje, como em todas as outras, o foco não era eu e, portanto, eu geralmente dava pouca importância para a “admiração” deles. Em seguida, minha saia estava sendo tirada, revelando meu caleçon que combinava com o sutiã. Ele tocou meus quadris e apertou. Tremi com uma excitação crível. Depois, meus dedos começaram a desabotoar a camisa dele, acariciando seu peito e deslizando sedutoramente até seus ombros. Ele estremeceu de ansiedade. – Nossa, te quero tanto. – É mesmo? – perguntei suavemente, ainda acanhada e incerta. – É, sim – respondeu. – Você é tão sensual. – Ótimo – cochichei. E, assim, saí de cima dele, deslizei até a beirada da cama e, friamente, comecei a juntar minhas roupas. Sem dizer nada, rapidamente localizei minha saia no chão, abaixeime para catá-la e depois me levantei para vesti-la. – O que está fazendo? – perguntou com mais do que um toque de aborrecimento em sua voz. – Estou indo embora – respondi apaticamente, ao colocar minha saia e puxá-la para os quadris. Ele se sentou, aparentemente rápido demais, talvez por causa do excesso de bebida ou por falta de sangue no cérebro, talvez os dois. Ele colocou a mão na cabeça para estabilizar a visão, com perplexidade total estampada na cara. – Por quê?


Eu sabia exatamente o que ele estava pensando: que essa parte definitivamente não estava no manual que ele havia decorado. O menino paga um drinque para a menina, o menino convida a menina para ir até o quarto, a menina aceita, mas certamente não muda de ideia e vai embora sem motivo. – Porque já terminei por aqui – falei sem rodeios, enfiando meus braços nas mangas da minha camisa e abotoando-a em seguida. E eu já tinha terminado mesmo. Ele balançou a cabeça. – Não estou entendendo. Fiz algo errado? Encolhi os ombros. – Acho que dá para dizer que sim. Isso o deixou ainda mais confuso. O olhar em seu rosto era um que eu já vira várias vezes. Era uma expressão de alguém recapitulando seus passos na cabeça, tentando montar de novo uma pilha de peças de quebra-cabeça amorfas que não tinham como se encaixar. Terminei de abotoar minha camisa e aí me abaixei para fazer meus pés entrarem nos sapatos. – Espere – implorou ele suavemente, na expectativa de voltar a me convencer com seu desespero obstinado por mim. Porém, as táticas dele não tinham efeito sobre mim agora. Eu já não era mais a mesma pessoa que ele havia conhecido no bar. – Sente-se, vamos apenas conversar. Podemos falar de motores de carro se quiser – propôs com uma demonstração artificial de consideração. Sorri sem um indício de sentimento sequer. – Não sou quem você quer que eu seja, Raymond. Sua testa franziu com ainda mais confusão. – Hein? Agora eu só queria saber de negócios. – Fui contratada pela senhora Anne Jacobs, que desconfiava que você tinha tendências de infidelidade e, portanto, solicitou meus serviços como inspetora de fidelidade. Os olhos dele se arregalaram ao ouvir o nome dela. – Que porra é essa? E é nessa hora que o remorso bate. Ele baixou a cabeça até os joelhos, seus dedos corriam pelo cabelo e pela parte de trás da nuca. Ele levantou o queixo por tempo suficiente para perguntar: – Ela a contratou? Fiquei parada, indiferente, e olhei bem nos olhos dele. – Sim. Agora era minha tarefa ficar completamente impassível, sem piedade, sem compaixão, nada. Ele grunhiu alto e voltou a fechar os olhos. Era minha hora de ir embora. Peguei minha


bolsa e paletó e fui até a porta, mas não sem antes deixar um cartãozinho preto em cima da cômoda: a única coisa que eu deixava para trás depois de uma missão. Acho que dá para dizer que era minha marca, mas não gosto de pensar nele como uma prova de que estive lá, mas, sim, de que algo precisava mudar. – Espere – ouvi Raymond dizer novamente. Com o canto do olho, vi ele se levantar e se abaixar para pegar sua calça, que havia sido atirada para o meio do quarto no calor semiverídico do momento. Ele tirou uma carteira de couro preta do bolso de trás e a abriu. – Quanto ela está te pagando? Mil, mil e quinhentos? Olhe, eu dobro o valor – disse, retirando um maço de dentro e começando a contar notas de cem dólares. Virei-me e observei friamente ele examinar seu maço como um avarento com sua adorada pilha de dinheiro. – Não é uma questão de dinheiro – respondi secamente, antes de seguir até a porta. – Sempre é uma questão de dinheiro – insistiu indignado. – Quanto é que você quer? Parei, contemplei por um momento e aí virei o rosto para ele. Raymond abriu um sorriso triunfante ao que parecia uma mudança de ideia minha. – Me desculpe – falei com sinceridade –, mas minha lealdade não está à venda. O sorriso se transformou numa demonstração de complacência. – Querida, acredite, tenho dinheiro suficiente para comprar a lealdade de qualquer um. Nesse momento, um objeto pequeno e brilhante no chão chamou minha atenção. Imediatamente, reconheci como sendo a aliança de Raymond Jacobs, que evidentemente havia caído do bolso da camisa durante nossa corrida para tirar a roupa. Abaixei-me para pegá-la e depois, com a delicadeza de um cirurgião que costura um coração, coloquei-a cuidadosamente em cima da cômoda. – Pelo jeito, não – respondi. Nunca sei o que acontece depois disso, porque saber não se enquadra no meu trabalho. Minha parte já tinha terminado. A intenção havia sido confirmada, e foi só isso que vim fazer: confirmar ou refutar. Agora era hora de eu ir embora – e foi o que fiz.


2 Uma salvação promissora Na oitava série, li a história da Caixa de Pandora e nunca mais fui a mesma. De certa forma, eu me identifiquei com ela, não por ter ficado extremamente obcecada com o fato de uma única mulher ter conseguido soltar todos os crimes, pecados e doenças no mundo (que é ironicamente a mesma história de Adão e Eva), mas por causa da maneira com que a história lançava uma luz positiva no tema do sofrimento humano. Os deuses pediram a Pandora para vigiar uma misteriosa caixa sobre a qual ela foi orientada a nunca abrir. Porém, sua implacável curiosidade foi muito maior que sua diminuta disciplina e, quando abriu a tampa, involuntariamente lançou o mal no mundo na forma de horrendas criaturas aladas que saíram de sua “prisão” em uma explosão de luz e vento. Ao ver esses seres medonhos que escaparam, ela entrou em pânico e voltou a tampar a caixa, imaginando imediatamente se abri-la tinha sido a melhor das decisões. Mas aí ela ouviu uma pequena voz gritando de dentro da caixa: – Abra, abra! Por favor, deixe-me sair! Eu vou curá-los! – berrava. Ela abriu a caixa mais uma vez e descobriu que os deuses, de última hora, cheios de compaixão, haviam colocado uma criatura benevolente em uma caixa cheia de demônios. Essa criatura se chamava “esperança”, e sua tarefa era curar as feridas causadas pelos maus espíritos que agora estavam espalhando destruição em nosso paraíso outrora perfeito. Ler essa história me trouxe conforto ao saber que mesmo milhares e milhares de anos atrás, quando histórias como essa eram escritas e passadas de geração em geração, um conceito universal continuava sendo verdade, exatamente como é hoje: a esperança cura o desastre. Minha missão era clara desde o início: revelar a verdade, trazer paz às pessoas, dar às mulheres uma chance de continuar com suas vidas. Porém, nem todo mundo vê esse trabalho como uma causa digna, e é por isso que poucas pessoas sabem sobre ele. Na verdade, é por isso que ninguém sabe sobre ele, nem minhas melhores amigas, nem mesmo minha família. Para todo mundo da minha vida, sou Jennifer Hunter, funcionária trabalhadora e bem-sucedida do banco de investimento Stanley Marshall. A transição foi relativamente invisível: um novo telefone, devido a uma promoção há muito aguardada e, consequentemente, um novo celular da empresa; muitas horas de trabalho e muitas viagens por causa dos clientes importantes e de um chefe exigente; sigilo quanto aos detalhes do meu trabalho por causa dos contratos de confidencialidade. Realmente dava um ótimo disfarce.


Acho que isso me tornava uma espécie de “agente duplo”, levando uma vida paralela sobre a qual ninguém sabia, e outra sobre a qual todos sabiam. Eu até contaria à minha família e amigos sobre o que faço, mas não tinha jeito de entenderem. Minha amiga Sophie me chamaria de destruidora de lares e minha amiga Zoë provavelmente nunca mais me veria do mesmo jeito. Elas simplesmente não seriam capazes de ver meu trabalho da mesma maneira que eu. Elas me veriam como uma mulher que conscientemente paquera homens casados e depois acaba com seus relacionamentos, estraga famílias, despedaça as pessoas – do jeito que todo mundo vê. Para mim, porém, isso é só a aparência. Quando se olha mais a fundo, há muito mais que isso, mas acho que, para realmente entender, seria preciso saber o que sei, ver o que já vi. E é por isso que guardo segredo. Além disso, o anonimato é o que me permite fazê-lo tão bem. Algumas pessoas podem imaginar como sou capaz de ir a fundo a cada vez. Como posso ser tão objetiva? Tão distanciada? E como posso não querer que sejam aprovados? Bem, a resposta é simples: não se trata do que eu quero. Se você perguntar a qualquer pessoa na rua se querem que um crime deixe de existir, provavelmente diriam “claro, não é o que todos querem?”. Ainda assim, isso não muda o fato de ele continuar existindo. A mesma coisa acontece com a infidelidade. É assim mesmo, ela existe. Posso ficar sentada, passar o dia desejando que não existisse, mas isso certamente não vai mudar nada. Ou posso sair e revelar o fato de que ela de fato existe – esperando poder fazer a diferença. A forma como enxergo é: já mudei a vida de mais de duzentas pessoas e tenho orgulho disso. A dúvida pode causar destruição num relacionamento, a insegurança pode atormentar a sua vida e, no fim das contas, a maioria das pessoas só quer ter certeza. Mais de duzentas mulheres receberam a verdade em seus relacionamentos, sobre suas pessoas amadas e, até onde sei, isso é melhor que viver no escuro, melhor que viver em estado de negação. Afinal, não estamos todos vivendo em estado de negação? A infidelidade está por toda parte. É o assunto mais falado nos programas de TV, nas capas das revistas, está no centro dos escândalos políticos. Mesmo assim, não parece que as pessoas estejam fazendo algo a respeito, a não ser reclamando e apontando culpados. Bem, meus dedos estão ficando cansados. Prefiro agir. Raymond Jacobs foi o tipo de missão que me faz sentir bem com o que faço. “Ashlyn” definitivamente não era a primeira mulher com quem tinha traído (ou pretendido trair), mas agora, pelo menos, eu podia voltar para Los Angeles sabendo que ela provavelmente seria a última. E era isso que me deixava com a consciência limpa. – Estou tendo um treco! – disse minha melhor amiga Sophie em voz alta e frenética pelo fone do celular enquanto eu estava dirigindo do aeroporto até minha casa. – Qual é o problema? – perguntei. – Estou perdendo-o, dá para notar – disse ela com um suspiro de irritação.


Sophie tinha uma tendência para reagir com exagero. Isso vinha de suas inseguranças e, como resultado, ela tinha dificuldade de confiar em homens. Ela está sempre com medo de que a abandonem, provavelmente porque todos a abandonaram. – Você não o está perdendo – garanti a ela pacientemente. – O que aconteceu? – Ele não vai vir – disse ela simplesmente. – Como assim ele não vai vir? – Significa que era para ele vir este fim de semana, lembra? Era para você finalmente conhecê-lo, e agora ele tem um compromisso idiota de trabalho! – Bem, não dá para culpá-lo por isso – falei para ela. – Trabalho é trabalho. Sophie e Eric estiveram namorando à distância pelos últimos oito meses. Ele era residente do terceiro ano num hospital de Chicago e, por causa de seus horários malucos, ele geralmente pagava para Sophie ir para lá. Nas poucas vezes em que tinha vindo a Los Angeles, eu estava fora da cidade a “trabalho” e, mesmo não o tendo conhecido, pude reparar pelo jeito como ela falava que ele era louco por ela. Eric era diferente do resto dos homens. Não sei dizer como eu sabia disso, mas era simplesmente uma sensação minha – e eu tinha aprendido a confiar nesses instintos sem restrições. Eu só queria poder convencer Sophie a fazer o mesmo. Toda vez em que ela começava a ter um ataque de pânico, eu queria sentar com ela e dizer que já tinha visto muitos homens que estavam prestes a “se perder”, e o Eric definitivamente não era um deles. Ele não mostrava nenhum sinal de um cara infiel. E eu, mais do que ninguém, conhecia os sinais, mas isso provavelmente exigia uma explicação muito maior, que eu não estava preparada para contar a ela. Por isso, geralmente recorria a métodos tradicionais para acalmá-la. – Tudo o que sei é que, quando começam a cancelar encontros, o negócio começa a ir ladeira abaixo – disse ela num tom desanimado. – Sophie – comecei em tom de advertência –, isso não é um “encontro”. Ele mora em Chicago, vocês se falam pelo telefone pelo menos duas vezes por dia e você tem se encontrado com ele a cada quinze dias por oito meses! Acho que dá para dizer com segurança que vocês já passaram da fase dos “encontros”. – Mas eu realmente queria que você o conhecesse... finalmente. – E eu também queria conhecê-lo – tranquilizei-a. – Mas tenho uma sensação de que esta não será a última chance para que isso aconteça. Ela fez uma pausa e pensou. – Bem, com os seus horários e os dele, nunca se sabe. – Bem, acho que vou ter que simplesmente conhecê-lo no casamento então – brinquei. – Shhh! – apressou-se a dizer. – Dá azar! Segundo a Marie Claire, o oitavo mês é o início da “época primordial de pedido de casamento” ao mesmo tempo em que está se esgotando o clima de novidade. É um cruzamento perigoso. Tenho que ter cuidado com o que digo. Revirei meus olhos enquanto virava meu carro na Wilshire.


– Me desculpe. – Você está na cidade? – ela perguntou. – Sim, acabei de chegar de Denver há uma hora. Vou ficar até às nove da manhã de amanhã. Por quê? Meus amigos já tinham se acostumado com meus horários malucos. Bem, tinham se acostumado com os horários malucos de Jennifer, a analista do banco de investimento. Ficar na cidade por pouquíssimas horas de cada vez não era novidade para ninguém e, até onde eu sabia, era um trabalho tão normal quanto o de qualquer outra pessoa que viajava a negócios. Vender pacotes de consultoria, negociar acordos de milhões de dólares, puxar o saco de clientes figurões, o de sempre. Tenho certeza de que a imagem de mim vestida como uma executiva gostosona para ver se algum marido rico era capaz de cometer adultério era a última coisa que passava na cabeça deles quando pensavam em mim “na estrada”. Embora essa coisa toda tenha começado meio como uma mini-investigação, ser inspetora de fidelidade tinha, de fato, virado uma carreira bem lucrativa. Eu trabalhava apenas no boca a boca, mas, quando a informação sobre meus serviços começou a se espalhar, não havia horas suficientes no dia para dar conta de todas as missões solicitadas. O foco nunca foi o dinheiro, mas ele certamente não piorava as coisas. – Podemos nos encontrar hoje à noite? – perguntou Sophie. – Preciso muito de uma “sessão”. – Me desculpe, querida, não posso – falei com pesar. – Tenho que trabalhar. Sophie voltou a suspirar. Era uma frase que ela tinha ouvido várias vezes. – Tudo bem, mas é bom que esses seus chefes capatazes lhe deem o fim de semana de folga. Você trabalhou nos últimos dois fins de semana. Ninguém é tão importante assim. Dei risada. – Sim, estou com o fim de semana livre – falei, o que era mesmo uma coisa pela qual eu vinha ansiando a semana toda. – Vamos reunir todo mundo. Será uma sessão em grupo. – É, certamente – ela disse, tentando soar animada, mas eu sabia que estava decepcionada. – Não se preocupe – voltei a tranquilizá-la. – Eric é um cara bom. Tenho certeza de que você está exagerando. É um caso típico de paranoia de relacionamento de longa distância. – Tudo bem, obrigada – ela cedeu. – É melhor eu voltar ao trabalho. Te amo. – Também te amo. Desliguei meu celular e tirei os fones do ouvido. Eu me senti mal por não poder dar uma força para Sophie hoje. Não era a primeira vez que meu trabalho me tirava o tempo que passava com minhas amigas, e eu ficava triste toda vez que tinha que mentir para elas. Como se já não bastasse não poder dar apoio quando precisavam de mim, elas


sequer sabiam o verdadeiro motivo pelo qual eu não podia. Eu tinha certeza de que analisaríamos o drama do namorado de Sophie com muitos detalhes no fim de semana, quando o grupo se reunisse para a “sessão” dela. Sophie e eu adotamos o termo quando estávamos no ensino fundamental. O pai dela era psicólogo e, quando éramos pequenas, ele atendia a maioria dos pacientes no escritório de casa. Ele vinha ao quarto de Sophie à tarde e nos dizia para ficarmos quietas porque estava “numa sessão”. Sempre gostamos do jeito como a expressão soava: importante e confidencial. Por isso, resolvemos tomá-la para nós. Depois do jantar, Sophie e eu entrávamos sorrateiramente no escritório do pai dela e nos revezávamos na sua grande cadeira de couro marrom enquanto a outra se estirava no sofá e inventava problemas ridículos como “não consigo parar de fazer barulhos de peido durante a aula, isso está acabando com a minha vida social.”. Aí a “psicóloga” abria um dos grandes e pesados livros de uma estante próxima, abria numa página qualquer e, na melhor voz de encenação, dizia “parece um caso típico de ‘erro fundamental de atribuição’” ou qualquer termo comprido com aspecto importante que estivesse escrito ali. Com o passar dos anos, nossas “sessões” acabaram saindo do escritório do pai de Sophie e evoluíram de problemas bobos e imaginários para assuntos adolescentes e reais. Porém, ainda conseguíamos inventar uma referência “de um caso típico” para todo problema com que nos deparávamos, o que proporcionava um certo consolo. Saber que todos os nossos problemas estavam documentados em algum livro grande e pretensioso nos fazia sentir melhor com as situações que encontrávamos, como se, apesar do sofrimento e das dificuldades, não houvesse nada que pudéssemos dizer ou fazer que já não tivesse sido solucionado, pensado e propriamente taxado por algum psicólogo figurão em algum lugar no tempo. Entretanto, nos últimos anos, era Sophie quem pedia mais as “sessões”. Não sei por que o drama parece ter uma estranha atração por essa menina. Ao sair da alameda Wilshire, comecei minha rotina de seis conversões. Como regra geral, eu nunca dirigia diretamente para casa, independente do que acontecesse. Eu virava em cinco ruas diferentes antes de finalmente virar na minha e entrar na garagem do meu prédio. Ficava mais fácil de ver se alguém estava me seguindo. A Wilshire era uma rua grande e era facilmente possível que alguém seguisse de trás de alguns carros. Porém, as cinco vezes que eu virava facilitava a volta para casa por meio de ruas menores e mais calmas. Alguém que virasse tantas vezes desnecessárias atrás de mim certamente seria notado. Na minha área, eu não podia dar bandeira. A última coisa de que precisava era um marido raivoso e lunático batendo à minha porta às duas da manhã. Aguardei pacientemente num semáforo para que o carro de trás passasse pela minha esquerda, olhando feio para mim, e depois virei à minha rua. Entrei na garagem do condomínio e estacionei meu Range Rover na minha vaga. Peguei as coisas rapidamente


e entrei apressada. Eu tinha apenas dez minutos em casa antes de sair novamente para encontrar minha cliente, a mulher de Raymond Jacobs. Arrastando minha mala com rodinhas, virei minha chave na fechadura e entrei, encontrando a casa exatamente como havia deixado: impecavelmente limpa. Meu emprego me dava o luxo de contratar uma doméstica, Marta, que vinha duas vezes por semana. Ela fazia um excelente trabalho ao deixar minha casa parecer e cheirar como nova toda vez que entrava nela, e eu sabia como era difícil manter limpa uma casa que era decorada totalmente em branco: carpete branco, paredes brancas, lençóis brancos, edredons brancos, almofadas brancas, bancadas brancas. Lembro-me de quando minha amiga Zoë veio conhecer meu apartamento pela primeira vez depois que o decorador tinha transformado o apartamento velho e acabado na obraprima chique que era agora. – Ficou bem... branco – ela observou brincando. – Pois é. Não é uma beleza? Ela confirmou com a cabeça. – Ficou maravilhoso. Você deve ter ganhado um aumento e tanto. Aumentos e promoções tinham rapidamente se tornado meu disfarce preferido assim que o negócio da inspeção de fidelidade começou a deslanchar e, de repente, passei a poder comprar muito além das necessidades básicas. Marta me recebeu na porta e pegou a mala da minha mão. – Obrigada – falei educadamente. – Tenho que trocar de roupa bem rápido e depois volto a sair – eu disse, correndo pela sala de estar até meu quarto. – Alguém deixou algum recado? – Não, senhorita Hunter – respondeu Marta cordialmente com seu forte sotaque hispânico, parada, observando eu andar freneticamente pela casa. – Acho que telefone toca enquanto passo aspirador, mas não tenho certeza, por isso não desligo o aspirador para atender. Sorri e entrei no meu quarto. – Não tem problema. – Lavagem normal? – ela perguntou atrás de mim, fazendo um gesto para a mala que estava segurando. Estiquei a cabeça na porta do quarto. – Sim, por favor. Muito obrigada. Marta assentiu e começou a se dirigir à lavanderia enquanto eu fechava a porta para trocar de roupa. Rapidamente, desabotoei minha calça jeans e tirei a camiseta. Quando estava passando a gola da camiseta pelo queixo, reparei que minha secretária eletrônica estava piscando. Eu sempre ficava curiosa quando as pessoas ligavam para a minha casa, porque pouca gente tinha o número, e a maioria sabia que deveria ligar para o meu celular. Meu celular do trabalho era o terceiro número que eu tinha, mas estava estritamente reservado para clientes atuais e novas clientes encaminhadas por indicação.


Apertei o botão para a secretária tocar a mensagem enquanto eu corria para o meu closet, atirando minhas roupas no cesto de roupa suja e examinando os cabides na seção “profissional casual”. – Você tem uma nova mensagem – anunciou a voz eletrônica. – Oi, Jen. É... seu pai. De repente, meu corpo todo congelou. Minha mão parou numa blusa vermelha de cashmere, caindo mole em seguida, fazendo a blusa escorregar do cabide e cair no chão. Fiquei tão parada quanto pude, como se qualquer movimento pudesse ativar uma mina emocional, fazendo o quarto todo explodir em chamas. Ouvi atentamente a voz do meu pai sair pelo pequeno alto-falante. – Olhe, sei que faz muito tempo, mas pensei que talvez devêssemos tentar conversar de novo. Houve um suspiro alto e abafado, seguido de uma longa pausa. Pude sentir a raiva fervendo no meu estômago, pronta para transbordar. Virei minha cabeça e olhei para a entrada do meu closet, aguardando a palavra seguinte – e foi aí que ela veio. – Querida, vou me casar – e novamente uma pausa. – Ela é muito legal, quero que a conheça. Eu gostaria muito que você viesse ao casamento. Significaria muito para mim, para nós dois... Como se tivesse sido libertada de um feitiço maligno, meu corpo descongelou na hora e me dirigi até o quarto. Atirei-me com violência em cima da máquina. Minha mão causou um grande baque na cômoda e consegui localizar o botão de apagar. Com uma raiva impetuosa, bati meu dedo nele pelo menos uma dezena de vezes e aí acabei segurando o botão pelo que pareceu uma eternidade. Confiante de que a mensagem havia sido meticulosamente apagada e que todos os seus resquícios foram efetivamente destruídos pela simples força do meu dedo, voltei para o closet, determinada a escolher a roupa perfeita para minha reunião com a senhora Jacobs. Meu closet, de acordo com Sophie, a invejosa e obcecada por grifes, era um paraíso fashion. Cada marca estava propriamente representada: Gucci, Dior, Dolce & Gabbana, Marc Jacobs, Fendi e qualquer marca que as revistas recomendassem ter no armário. Para ser sincera, eu sabia muito pouco de moda. Nunca tive talento para isso e, na minha área, isso sempre foi um empecilho. A maioria das minhas roupas exigia muita pesquisa e preparo. Ressurgi do meu quarto cinco minutos depois em um terno verde conservador, com uma regata marfim por baixo e um lenço colorido em volta do pescoço. Era um visual que uma revista chamou de “chique do subúrbio” e, como eu estava prestes a entrar na zona traiçoeira do subúrbio chique (isto é, Orange County), achei que a roupa combinava perfeitamente. Coloquei minha sacola da academia em um dos ombros, peguei minha bolsa Birkin preferida com uma mão e, com a outra, puxei uma pequena mala preta que eu tinha comprado essa semana, contendo minha “fantasia” e outros “materiais” para a missão da noite.


Meti minha cabeça na lavanderia e vi Marta terminando sua rotina de sempre. Parecia que ela já tinha colocado todo o conteúdo da minha outra mala dentro da máquina de lavar roupas e agora estava esfregando-a por dentro com um potente desinfetante. – Obrigada, Marta. Tenha uma ótima noite. – De nada, senhorita Hunter. Você estará em casa quando eu estiver aqui amanhã? Retorci a boca ao pensar nos meus horários de sexta. – Provavelmente, não – respondi. – Vou para São Francisco pela manhã, por isso acho que não vou vê-la. Vou me lembrar de lhe deixar um cheque antes de sair. Marta abriu um sorriso caloroso e me agradeceu. Aposto como ela tinha todo tipo de perguntas interessantes a meu respeito: quem é essa moça? Que tipo de trabalho a mantém longe de casa por praticamente cinco dias por semana? Como ela conseguiu comprar uma casa tão boa sendo tão jovem (aos 28 anos, eu era a proprietária mais jovem do condomínio)? E, o mais importante, por que é que eu tenho que desinfetar a mala dela toda vez que volta de viagem? Entretanto, ela nunca me perguntou essas coisas, por isso nunca me senti obrigada a inventar histórias para responder. Até onde sei, ela deve achar que visito depósitos de resíduos tóxicos e passo meu tempo livre circulando pelos corredores do Centro de Controle de Doenças sem proteção contra agentes biológicos. Porém, era assim que eu tratava tudo o que entrava em contato com os infiéis que encontrava, como vírus perigosos: transmissíveis pelo ar, extremamente letais e sem cura. Parei na frente do espelho pendurado perto da entrada. Meu cabelo comprido e escuro estava amarrado em um rabo de cavalo frouxo. Analisei o reflexo. Alguma coisa estava faltando. Será que esqueci de retocar o rímel? Aproximei-me para examinar meus cílios. Estavam mais pretos do que nunca, contrastando com meus olhos verdes. Talvez estivesse apenas cansada do voo da manhã. Também não tinha dormido muito bem na noite passada. Dei uma última olhada, estampei um sorriso animado no rosto e saí, mas não sem antes demorar o olhar na minha sala impecável. Por mais que gostasse da vida de viajante, era meio que uma pena manter uma casa tão boa quando mal podia ficar nela. Peguei a alameda Wilshire e entrei na estrada, preparando-me para uma longa viagem até Newport Beach, no coração de Orange County (o mesmo do seriado The O.C. e também nome do condado). A casa de Anne Jacobs poderia facilmente ter entrado nos episódios do programa, com sua aparência de mansão e, nos fundos, a reluzente piscina com borda infinita e vista para o mar. Anne era minha terceira cliente de Newport Beach no último mês. O boca a boca se espalha rápido nessa cidade, principalmente quando se é uma dona de casa rica descansando num spa o dia inteiro, trocando fofocas e, pelo jeito, o telefone de inspetoras de fidelidade com outras donas de casa ricas. O preço que eu cobrava era muito alto. Era incrível o quanto as pessoas estavam dispostas a pagar pela verdade. Para mim, nunca teve preço, e acho que muita gente


achava o mesmo. A cliente também pagava todas as minhas despesas: passagens aéreas, hotel, transporte, alimentação, qualquer coisa que ajudasse a conseguir as informações que estavam buscando. O preço geralmente não era problema. Por isso, não era de surpreender que a maioria das minhas clientes tivesse dinheiro para morar em casas do tamanho de um hotel. Paz de espírito era uma raridade ultimamente, e a realidade era que a maioria das pessoas estava disposta a pagar por ela – e era por isso que eu tinha trabalho. Virei na rua de Anne Jacobs, segui até o final da rua sem saída e parei na frente do longo caminho ladrilhado que levava à casa, que ali estava, em todo o seu esplendor. Eu já tinha estado ali uma vez, uma semana atrás, quando aceitei a missão. A casa ainda era magnífica como antes, mas, de certa forma, parecia ter perdido seu brilho. A maioria das casas em que eu entrava eram bonitas, mas aprendi que a casa geralmente é uma fachada, uma máscara que faz a gente acreditar que, por dentro, é tudo tão bonito quanto do lado de fora. E, sim, os móveis de luxo e as bancadas de mármore são lindos, mas o verdadeiro interior, as coisas internas, os relacionamentos nunca são igualmente glamorosos. Na verdade, são uma vergonha. Quer-se tanto crer que os interiores dessas residências multimilionárias com vista para o mar são cheios de amor, felicidade e confiança, mas, na maioria das vezes, simplesmente não são. Meu trabalho busca retirar essa máscara. – Senhora Jacobs – comecei calmamente, após nos sentarmos na já conhecida sala de estar. – Estamos a sós na casa? – perguntei. – Sim – ela garantiu. – As crianças estão na escola. No meu trabalho, tenho uma regra muito rígida de não envolver crianças. Elas não podem estar presentes em nenhuma parte do processo, não por não gostar de crianças – eu gosto –, mas porque, se há uma circunstância em que defendo a alegria na forma da ignorância, é durante a infância. Não há exceções. As crianças não devem nunca carregar o fardo dos relacionamentos adultos, principalmente de seus próprios pais. Já é difícil ser criança no mundo de hoje. Elas já veem mais coisas do que deveriam. Eu não queria ser responsável por macular a irreparável inocência do filho de alguém. – Ótimo – respondi. Ela assentiu com nervosismo. Era uma mulher bonita, pequenina e razoavelmente em forma. As rugas de seu rosto representavam anos de reuniões na escola, caronas e noites em claro esperando seu marido voltar do trabalho. Eu podia sentir a ansiedade irradiando dela como o calor de um aquecedor. Senti pena dela, de verdade. Colocar-se no lugar dela era uma coisa complicada, mas eu sabia que, ao me contratar, ela tinha dado o primeiro e mais difícil passo, em direção a uma existência mais feliz e mais honesta. Estendi minha mão e a pousei delicadamente na dela. – Não tem problema, vai ficar tudo bem – acalmei-a. Ela respirou fundo e se esforçou para acreditar em mim. Não soltei a mão dela; continuei segurando-a enquanto eu inspirava profundamente e


começava a falar. – É assim que funciona... A senhora Jacobs virou sua mão e agarrou a minha. Engoli em seco e abri outro sorriso caloroso. Essa era sempre a parte mais difícil: nunca é fácil ser a pessoa que traz más notícias. – Como conversamos na semana passada, quando nos conhecemos, a seu pedido, realizei uma inspeção de fidelidade no seu marido com base numa “intenção de trair”, o que significa que, para que ele fosse reprovado, teria que demonstrar uma óbvia intenção de participar de uma infidelidade sexual – falei, fazendo uma pausa e respirando fundo. – Infelizmente, seu marido foi reprovado na inspeção. – Não – lamentou ela, balançando a cabeça lentamente. – Sinto muito – eu disse. – Não, não – ela repetiu suavemente, implorando para eu mudar minha resposta, para, de alguma forma, reverter o passado. É nesses momentos difíceis, quando o coração quer afundar na escuridão, que preciso ficar concentrada, sempre me lembrando do resultado final, do objetivo, de por que estou fazendo isso. Não dá para se envolver muito quando o propósito é tão grandioso assim. Não dá para se concentrar nas etapas dolorosas que nos levaram até ali, senão a gente se perde no meio do caminho. Eu retiro as vendas que mantêm as pessoas no escuro, e quase todas têm a mesma reação inicial à estranha e ofuscante luz: elas a rejeitam, querem cortar a eletricidade e voltar à sua confortável escuridão. Porém, esse é o negócio dessa situação particular: uma vez que se vê a luz, não tem volta. Elas sabem que está lá, e a ideia mais consoladora para mim é saber que, no fim das contas, vão acabar gostando dela, que, um dia, acordarão e se darão conta de que a vida é simplesmente curta demais para viver no escuro. – Éramos felizes – ela sussurrou. – Tenho certeza de que eram – falei com sinceridade enquanto esticava a mão para a mesinha ao lado, puxava um lenço de papel da caixa e o entregava para ela. Ela agradeceu com um aceno de cabeça, pegou-o e enxugou o nariz. – Sempre achei que éramos diferentes, que não éramos aquele tipo de casal. Afinal, assisti a todos os nossos amigos passarem por divórcios, casos, terapia... sabe como as coisas podem ser nesta cidade. Apenas nunca imaginei que aconteceria conosco, nunca. – Você fez a coisa certa ao me contratar, senhora Jacobs. Ela assentiu, claramente não convencida disso, e se levantou para me acompanhar até a porta. – Sei que não parece a coisa certa agora – prossegui –, mas vai parecer, acredite. Ela enxugou os olhos com o lenço amassado e sorriu educadamente, em parte acreditando, em parte questionando, em parte simplesmente estarrecida. Abri a bolsa e retirei um cheque cujo valor eu tinha calculado no avião e pego no banco a caminho da


casa de Anne. Coloquei-o em cima da mesa de centro na frente dela. – Vou deixar este cheque para você. É o saldo do seu adiantamento. As taxas e despesas sobre as quais falamos foram deduzidas. Ela me agradeceu, e nos dirigimos ao hall de entrada. Ela fungava ao mesmo tempo que abria a grande porta de mogno para mim. Comecei a sair, mas aí parei e me virei. Anne estava ali parada, me analisando, presumindo que eu fosse falar. Porém, não falei. Apenas abri meus braços e a puxei para um abraço. No começo, seu corpo se enrijeceu devido à minha inesperada demonstração de afeto, mas não levou muito tempo para ela se comover e romper em soluços baixos no meu ombro. Passei a mão no cabelo dela como faria com uma menininha que havia caído da bicicleta e machucado o joelho – e, nesse momento, ela certamente se sentia como uma. Entretanto, como qualquer mãe sábia, com experiência de vida, eu sabia de algo que ela não sabia: com o tempo, o machucado iria sarar, a casquinha da ferida iria desaparecer e o curativo acabaria sendo retirado; e, cedo ou tarde, ela já estaria pronta para subir na bicicleta novamente. Após alguns segundos, Anne finalmente se soltou do abraço e voltou a enxugar os olhos, aparentando estar envergonhada e agradecida ao mesmo tempo. – Me desculpe – disse ela timidamente, rindo de si mesma. – Não precisa se desculpar. Por mais fácil que fosse, eu nunca me culpava, não havia razão para isso. Eu estava apenas transmitindo uma mensagem, e sabemos que não se culpa o mensageiro. – Sabe – comecei calmamente. Ela olhou nos meus olhos com ansiedade e aguardou minhas palavras como se fossem sagradas, algo que pudesse levar consigo para a cama à noite e com a qual pudesse acordar na manhã seguinte. – A alma humana não foi feita para viver em estado de negação. Ela sempre buscará a verdade. E pouco antes de me virar para ir embora, vi algo nos olhos dela, algo que eu podia levar comigo para a cama e com a qual podia acordar na manhã seguinte. Era um pequeno indício de esperança, lutando para se libertar e cumprir sua única missão na vida: curar. Para Anne Jacobs, era a esperança de que eu talvez estivesse certa, que talvez ela tivesse feito a coisa certa – e era só isso que eu gostaria de levar comigo.


3 O pai da noiva Dois dias atrás, meu celular do trabalho tocou enquanto eu estava no meio de um episódio de Extreme Makeover: Reconstrução Total . Era o meu programa preferido, porque sempre conseguia me deixar de bom humor. Zoë dizia que era o tipo de programa para se sentir bem. Para mim, porém, os motivos eram muito mais profundos do que querer “se sentir bem”. Afinal, eu acreditava em segredo que toda cliente que visitava, cada casa em que entrava e da qual saía, cada família que eu transformava era como o meu próprio projetinho de Extreme Makeover – com uma abordagem muito menos ortodoxa. – Alô? – falei ao telefone. Quando atendia o celular do trabalho, eu sempre optava por um cumprimento padrão e informal, em vez do típico “quem fala é Ashlyn” ou algo personalizado. Essa abordagem mantinha tudo muito mais discreto. Quem liga sabe para quem está ligando – e, se for uma ligação que quero atender, posso seguir com ela. Do contrário, posso simplesmente dizer que ligaram para o número errado e desligar. De vez em quando, um ex-marido ou ex-namorado furioso se depara com o número e disca, esperando obter mais informações sobre o teste no qual acabaram de ser reprovados lamentavelmente. E, é claro, procurando um bode expiatório para soltar sua raiva entalada, qualquer coisa que evitasse que olhassem para si mesmos e encarassem o verdadeiro problema. – Poderia falar com Ashlyn? Era uma voz masculina. Embora eu já houvesse tido alguns clientes homens no passado, contratando-me por motivos variados, eu sempre ficava com um pé atrás quando um homem ligava para esse número. – Do que se trata? – Meu nome é Roger Ireland. Recebi seu número de uma amiga próxima, Audrey Robbins. Ela disse que você poderia me ajudar. Pensei, avaliando a voz dele num esforço para decidir se esse seria um caso para “engano” ou uma conversa mais longa. O homem do outro lado da linha parecia verdadeiro e quase adoravelmente constrangido. Esse tipo de ligação claramente não fazia parte do dia a dia dele. – Que tipo de ajuda você está procurando? – perguntei. Ele pigarreou. – Bem, minha filha vai se casar em alguns meses e não sei se confio no cara – disse,


fazendo uma pausa e rapidamente acrescentando. – Posso estar totalmente enganado, mas tenho uma sensação ruim em relação à história toda. Estou muito preocupado com ela. – Entendo. – Prefiro saber agora se ele vai magoá-la para que não precisemos realizar o casamento. – Bem, é compreensível – falei. – Você já falou de sua preocupação com sua filha? – Tentei, mas não pareceu dar certo. Ela ficou muito chateada e não falou comigo por uma semana. – Tá – respondi. Fazia sentido. Jovens futuras noivas raramente queriam ouvir qualquer coisa que não fosse “o branco fica bem em você”. – Amo minha filha, apenas quero que ela seja feliz. Mas se esse cara não presta, quero provar para ela para evitar que se magoe mais adiante – disse ele, com uma dificuldade momentânea para prosseguir. E aí finalmente falou ��� Você pode me ajudar? Aceitei me reunir com ele para obter mais informações. Eu raramente aceitava missões pelo telefone. Insistia em me encontrar cara a cara primeiro para que pudesse ter uma ideia melhor da pessoa que estava me contratando e do que a missão envolveria. Essa ligação aconteceu dois dias atrás. Por isso, hoje, depois de sair da casa de Anne Jacobs, voltei a Los Angeles para me encontrar com Roger Ireland em seu escritório em Century City. Cheguei no prédio de vinte andares na Avenida das Estrelas e peguei o elevador até o 11º andar, onde havia uma placa que dizia “Escritório de Advocacia Ireland, Hammerl & Welch”. A recepcionista obviamente tinha recebido instruções específicas em relação à minha chegada, pois sorriu cordialmente ao ouvir o nome “Ashlyn” e me levou diretamente à sala dele. Roger Ireland era um homem bonito, com cabelo grisalho e olhos cansados, provavelmente com cinquenta anos ou pouco mais de sessenta. Sua grande sala estava repleta de móveis de madeira escuros que se combinavam e caixas de papelão. – Vou me aposentar dentro de algumas semanas – disse ele, depois de apertar minha mão e apontar para as caixas e outras coisas empilhadas. Abri um sorriso. – Parabéns. Ele apontou para um sofá de couro marrom-chocolate perto da janela e nos sentamos. Retirei meu caderno preto da Louis Vuitton e abri numa página em branco. – Então, vamos começar com algumas perguntas e aí vou determinar se posso ou não pegar o seu caso. Roger assentiu, aparentemente aliviado por eu ter iniciado o diálogo. Tenho certeza de que ele estava imaginando como é que alguém começaria uma conversa como essa: “Então, você vai tentar transar com meu futuro genro?”. Comecei fazendo as perguntas iniciais de praxe, a parte fácil: o nome do indivíduo,


profissão, hobbies e interesses de que tivesse conhecimento. O nome do noivo era Parker Colman, analista de risco da LDS Valores Mobiliários. Ele tinha pedido Lauren Ireland em casamento havia mais ou menos nove meses. O requintado casamento de cem mil dólares iria acontecer em três semanas, e a despedida de solteiro estava marcada para o próximo fim de semana na terra das despedidas de solteiro: Las Vegas, Nevada. Eu tinha ido lá pessoalmente no mínimo umas vinte vezes desde que comecei neste emprego. Até onde o senhor Ireland sabia, Parker gostava de basquete, pôquer, churrascos, beber e, pelas suas suspeitas, mulheres. – E como sua filha se sente a respeito da despedida de solteiro? – perguntei. – Como assim? – Bem, as festas podem ser complicadas – expliquei. – Algumas mulheres acreditam que tudo é permitido na despedida de solteiro, tipo a última aventura, só não querem ficar sabendo. Lauren é assim? Roger fez que não. – Não, não – respondeu sem rodeios. – Sei que está tensa em relação a isso. Segundo minha esposa, ela só aceitou a despedida porque ele prometeu não ir a nenhuma boate de striptease. E, claro, não... você sabe, ficar com nenhuma outra mulher. – Tudo bem, então parece que a despedida de solteiro é o melhor lugar para realizar a inspeção – declarei, anotando alguns detalhes no meu caderno. Roger concordou com um aceno de cabeça. É raro que um cliente discuta comigo sobre minhas sugestões do local, assim como não se discute com um médico quando ele receita um remédio. A gente confia no que estão fazendo, como se dissesse “é, tanto faz, apenas faça seu trabalho para que pare de coçar”. – Sua filha joga pôquer? – perguntei. – Não – ele respondeu. – Não que eu saiba. O gene do jogo de azar nunca esteve na nossa família. Tomei nota e voltei a olhar para ele. – E o nível de confiança? Sua filha é do tipo tímida ou confiante? O senhor Ireland pensou na resposta antes de falar. Ele estava levando todas as minhas perguntas muito a sério, e gostei de seu esforço. Mas também, pelo dinheiro que iria me pagar, não era hora de começar a chutar as respostas. – Bem, ela é muito confiante com relação ao trabalho. É diretora de tecnologia da East Global Tech – declarou com um orgulho paterno radiante. Ficou óbvio que essa moça significava muito para ele. – Ela se formou com louvor pelo M.I.T. Sempre gostou de engenhocas. Quando era pequena, não conseguíamos fazê-la brincar com bonecas nem ursos de pelúcia como as outras coleguinhas. Tudo o que ela queria era desmontar as coisas: a secretária eletrônica, o telefone, meu computador novinho em folha – contou, rindo afetuosamente com a lembrança e depois acrescentando solenemente – Ela é muito inteligente. – E em relação aos homens? Ela é confiante quando está com eles?


Roger se mexeu inquieto no assento: a pergunta o deixou visivelmente constrangido. Provavelmente não estava acostumado a ficar tão envolvido na vida amorosa da filha, e imaginei que eu era a única pessoa do escritório que já o tinha visto demonstrar constrangimento. – Na verdade, não – hesitou. – Pelo menos, eu acho que não. Acho que ela sempre foi meio reservada quando se trata de homens, tanto para conhecer quanto conversar com eles. A gente acha que estando numa área dominada por homens facilitaria as coisas, mas também ela nunca conversou de verdade comigo sobre esse assunto, por isso estou apenas especulando. Assenti com a cabeça. – Tudo bem então. Acho que vou começar com um encontro por acaso na mesa de pôquer e depois seguir com outro encontro “acidental” na boate que estão planejando ir. Minha experiência mostra que, quando os homens traem, geralmente é com alguém que é o extremo oposto da esposa ou namorada. É o complexo “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Por isso, acredito que a isca ideal para Parker seja alguém confiante em sua capacidade de conversar com homens e que jogue pôquer... bem. O senhor Ireland se espantou. – Você joga? Joga bem pôquer? Abri um sorriso confiante. – Não, mas vou jogar. Roger deu risada e se recostou no assento, divertindo-se com a minha confiança, mas claramente sem duvidar dela. Essa era uma das partes divertidas do meu trabalho: transformar-me em especialista de quase tudo em um curtíssimo período de tempo. Não há muitas profissões que pagam para fazer isso. Prossegui: – As despedidas de solteiro são mais moderadas nas sextas-feiras e aí, no sábado, é quando todos saem bebendo e fazendo festa, é quando os “erros” tendem a ser cometidos. Por isso, vou realizar o teste no sábado. Roger coçou atrás da cabeça. Pude notar que estava começando a titubear em relação ao processo. Agora era meu trabalho tranquilizá-lo. – Acho que foi bom você ter me ligado – comecei em tom de consolo. – O ideal é testálos antes que se casem. Se todas as minhas clientes tivessem feito isso, talvez eu não tivesse visto metade das coisas que vi. E era verdade. Eu realmente desejava que minhas missões fossem todas despedidas de solteiro e noivos suspeitos. Eram muito mais limpas: sem filhos, sem vínculos jurídicos, sem casas para destruir e reconstruir. Seria melhor se todo mundo pensasse em me contratar antes do casamento. Mas é como dizem: é muito fácil olhar para o passado; do futuro, ninguém pode ter certeza. – Você tem razão, me desculpe. É que é muito difícil. Não quero que ela se magoe. – Entendo. E vamos torcer para que isso não aconteça – falei com solidariedade. Era uma situação em que todos ganhavam; sempre era. A primeira vitória era óbvia:


ele não trai. Parabéns, você achou um cara bom. Mas a segunda vitória não seria tão evidente a princípio. Levaria tempo. E era uma situação em que eu não perderia de jeito nenhum também. Se Parker Colman fracassasse no próximo fim de semana, seria apenas um casamento decepcionante a menos que pediriam para eu revelar no futuro. – Quantos já foram reprovados nesse... teste? – perguntou Roger com insegurança, provavelmente duvidando se queria mesmo saber a resposta. – É mais ou menos meio a meio – falei de modo convincente. Era a mesma mentira que eu contava a cada cliente. Todo mundo queria saber, mas eu não via motivo para contar a estatística verdadeira. Isso apenas os assustaria, e os próximos dias de espera seriam dificílimos com as probabilidades jogando contra eles, ameaçando prevalecer. Meio a meio era uma mentira eficiente. Não era suficiente para dar grandes esperanças ou dúvidas e, se o indivíduo fosse reprovado, não pareceria totalmente anormal. – Ah, não é tão ruim assim – admitiu o Roger. – Achei que seria pior – falou, rindo um pouco consigo mesmo. – Acho que só sou meio cínico. Segurei uma reação. – Então, se está pronto para seguir adiante, podemos conversar sobre meus honorários e alguns outros detalhes importantes. Ele assentiu. – Sim, estou pronto. Vamos lá. Continuei explicando a Roger Ireland os aspectos básicos de uma inspeção de fidelidade, incluindo os honorários associados à missão e o adiantamento que eu exigia para todas as despesas. Ele concordou com a cabeça, mais do que disposto a pagar qualquer preço para conseguir exatamente o que havia me pedido. A exemplo da maioria dos clientes, dinheiro não era problema. Por fim, expliquei o que testar uma “intenção para trair” realmente significava. Para as minhas clientes, significava tudo, menos sexo. Significava não haver dúvida de que, se eu não tivesse interrompido as coisas, o indivíduo teria transado comigo. Porém, para mim, o conceito era muito mais definido, muito mais restrito; ele tinha que ser, para o meu próprio alívio e sanidade mental. Resumindo, eu me recusava a me envolver em qualquer coisa que fosse censurada na televisão (bem, obviamente com a devida classificação etária do programa). Se não fosse uma coisa que se veria no horário nobre de um canal aberto, então não me veriam fazendo aquilo. Pode parecer simplista demais, mas mantinha tudo seguro, legal e consistente. Depois de voltar para o meu carro, coloquei o cheque de Roger Ireland dentro da minha carteira e, dentro do caderno, a foto de Parker que ele tinha me dado. Da minha bolsa, retirei meu smartphone Treo, que funcionava como telefone de trabalho, agenda diária, agenda de telefones e caixa de e-mail, o que é útil por eu estar viajando o tempo todo, pois posso receber meus e-mails, ligações e mensagens de texto num único aparelho. E tenho a minha vida inteira programada nele também. Em outras palavras, se


eu o perdesse, estaria ferrada... de verdade. Retirei a canetinha de metal e marquei todo o sábado seguinte e metade do domingo para minha viagem a Las Vegas. Depois, verifiquei o relógio na tela: estava tudo dentro do horário, com tempo suficiente para um pulo rápido na academia para um pouco de exercício, um banho no vestiário e sair para a minha próxima missão. Coloquei o fone de ouvido e liguei o bluetooth. Depois de uma série de rápidos bipes, pronunciei o nome de minha agente de viagens no microfone. Aguardei o celular discar. – Oi, Lenore. Preciso de um voo para Las Vegas – falei amigavelmente no celular ao sair da garagem e entrar na Avenida das Estrelas. – Oi, senhorita Hunter. Sem problemas. Ouvi uma digitação pelo fone. – Mas você não estava em Las Vegas há pouco? – ela perguntou, iniciando uma conversinha enquanto buscava um voo disponível. Dei a minha risada do tipo “sou tão ocupada” e respondi: – Sim, muitos clientes me mandam para Las Vegas. Parece que tem sido um local popular para fazer negócios. – Isso é – ela concordou. – Um monte de investimentos estão sendo feito naqueles hotéis enormes! – Exato. Como eu provavelmente era uma de suas maiores clientes, Lenore sempre foi boa em lembrar os detalhes do meu trabalho – bem, meu trabalho de mentira. – Tudo bem, a que horas precisa chegar? Depois de um rápido cálculo de cabeça, falei 19h, o que me dava um grande espaço de tempo para dar conta de atrasos, trânsito, problemas na fantasia etc. Depois de mais um pouco de digitação, ela disse: – Tudo bem, tenho um assento de primeira classe num voo que sai de Los Angeles às 17h45, chegando às 18h50 em Las Vegas. Pode ser? – Perfeito. Pode marcar. – E você vai ficar no Wynn de novo desta vez? Lembrei-me da minha conversa com o senhor Ireland. – Não, meu cliente vai ficar no Bellagio. Gostaria de me hospedar lá também. – Sem problemas. Vou cuidar disso e lhe mandar o itinerário hoje no final do dia. – Obrigada, Lenore. – Com todas essas viagens recentes, talvez você tenha acumulado mais milhas que o Super-Homem – observou ela brincando. Ri no telefone. – Talvez tenha razão. Desliguei o celular e peguei a saída para a estrada, preparando-me para o trânsito carregado que enfrentaria nos próximos 45 minutos. Com toda a sinceridade, às vezes eu me sentia como uma pequena versão do Super-


Homem: usando fantasias arrasadoras que acentuavam o corpo, voando de cidade em cidade para lutar contra o mal da infidelidade. Eu tinha até a minha própria identidade secreta. Só faltava a capacidade de enxergar através das paredes e, pelo jeito, passar por cima dos engarrafamentos. Descansei minha cabeça no apoio do banco e massageei minha testa com a mão. Estava começando a sentir os efeitos do meu longo dia. Neste trabalho, os dias nunca eram curtos, e eu ficava exausta na maior parte do tempo, mas me recusava a reclamar. Afinal de contas, tinha sido uma escolha totalmente minha – e nunca ouvi o SuperHomem se queixando dos dias longuíssimos dele.


4 Futebol e fantasia Às 18h, a academia estava lotada: um monte de gente tentando compensar as gulodices do dia, homens mais velhos tentando perder alguns centímetros na cintura, homens mais jovens tentando acrescentar centímetros à circunferência de seus bíceps, e donas de casa de quarenta anos com milhares de dólares em cirurgia plástica tentando desesperadamente competir com as de vinte anos, magras e animadas, que haviam conseguido dominar a arte de suar apenas o bastante nos aparelhos elípticos para fazer seus abdômens brilharem, mas não o suficiente para fazer escorrer as camadas de maquiagem de aparência natural de seus rostos. Coloquei meu iPod na capinha e acomodei-o no elástico do meu short. Ao abrir a porta do vestiário, preparei-me para a multidão que iria enfrentar. Baixei minha cabeça e tentei me jogar na música que estava tocando nos meus fones de ouvido, enquanto passava pela fila (digna de um parque de diversões) das pessoas que aguardavam para usar os aparelhos elípticos e seguia para as esteiras. Minha rotina semanal de exercícios consistia em dois dias de aeróbica por trinta minutos e dois dias de Pilates em um estúdio em Santa Monica. Achei que hoje só teria tempo para uma corrida de vinte minutos se quisesse chegar ao meu próximo destino na hora. Enquanto me aquecia em uma corrida leve, pude sentir alguém me olhando. Eu sabia que, para todo o resto, parecia apenas mais uma frequentadora de vinte e poucos anos, passando fome para entrar numa forma inalcançável a fim de atrair um marido rico e, depois de uns cinco anos, outro ainda mais rico. Porém, eu não era nem um pouco como elas. Na verdade, era bem o contrário. Eu estava tão em forma quanto elas, e minha pele naturalmente cor de oliva brilhava como a delas quando suava, mas minhas intenções estavam muito longe do seu mundo. Sim, eu também me exercitava para poder atrair homens, mas não para achar um marido rico, e sim para revelar um infiel. Na verdade, eu tinha que parecer como todas as outras mulheres, porque, na maioria das vezes, era com elas que esses maridos trairiam se tivessem a chance. Passei as músicas do meu iPod até achar uma bem animada e aí aumentei a velocidade da minha esteira. Corri ao ritmo da música e, depois de dois minutinhos, pude sentir as gotas de suor se formando na minha testa. O desprendimento foi incrível, como uma onda de energia e força correndo pelo meu corpo todo. Depois de vinte minutos de corrida forte, pressionei o botão para diminuir a


velocidade e passei para uma caminhada rápida. Peguei minha toalha no porta-toalhas e enxuguei o rosto. Enquanto a esteira diminuía gradativamente a velocidade, apertei o elástico que prendia o meu rabo de cavalo. Foi nessa hora que reparei no homem que estava na esteira ao lado. Virei minha cabeça e olhei para ele. Ele já estava olhando na minha direção e, quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu para mim. Retribuí o sorriso educadamente. Ele era bonito, tinha provavelmente uns 25 anos, com cabelo castanho claro, olhos serenos e um corpo malhado. Quando fui voltar minha atenção para o janelão à minha frente, vi sua boca se mexer. Ele estava falando alguma coisa para mim, mas tudo o que eu conseguia ouvir era a letra de uma música punk berrando nos meus ouvidos. Por um momento, pensei em simplesmente ignorá-lo, culpando o fato de eu estar usando fones de ouvido, o que, portanto, me isentava de ter que entrar em qualquer espécie de conversinha de academia. Porém, achei que talvez fosse grosseiro virar minha cabeça e fingir que não o vira falar. Por isso, tirei os fones e disse: – Me desculpe, o que disse? Ele riu. – Ah, eu só estava dizendo que nunca vi ninguém correr com tanta vontade antes. Parecia que você estava fugindo de um monstro ou coisa do gênero. Dei risada e coloquei uma mecha de cabelo suado atrás da orelha. – É, nunca fui muito fã de monstros. – Está treinando para alguma coisa? – Sim, para a vida – respondi tirando sarro. – Boa. Vou ter que me lembrar dessa. Sorri. – Nunca te vi aqui antes. Peguei minha garrafa de água do suporte da esteira e dei um gole. – Geralmente não venho para cá. Aconteceu de estar perto do trabalho. Minha esteira foi parando lentamente e observei a dele também parando, quase como se estivessem em perfeita sincronia para parar uma depois da outra. Ele olhou para mim e sorriu para a coincidência enquanto nós dois saíamos das esteiras. – Você trabalha aqui perto? O que faz da vida? – perguntou ele. Encolhi os ombros. – Trabalho num banco de investimentos. Estou avaliando uma firma que fica localizada a alguns quarteirões daqui. – Uau, banco de investimentos. Não é pouca coisa. Então você é inteligente e bonita, uma combinação mortal. Corei e mexi no meu iPod. – Obrigada. O que você faz da vida? – perguntei imediatamente, ansiosa para desviar do assunto sobre eu e meu trabalho de mentira. – Sou programador de vídeo game.


– Sério? Algum jogo que eu conheça? Ele fez que não de um jeito tristonho. – Provavelmente não. Trabalho para uma empresa pequena. Ainda não tivemos nenhum grande lançamento. Acabamos de terminar um jogo chamado “Sem Poder”. É tipo um Sim City político. Assenti com a cabeça. – Já ouvi falar de Sim City. Ele riu. – Bem, isso é um bom começo. – Na verdade, ainda estou esperando que Carmen Sandiego e Oregon Trail façam seu retorno. Ele deu risada. – Minha nossa, você lembra do Oregon Trail? – Como poderia esquecer? Jogávamos aquilo todo dia durante o recreio na quarta série. “Becky está com cólera”. Imitei a franqueza apática das atualizações memoráveis da tela do jogo. – “Becky morreu” – seguiu ele com uma voz igualmente enfadonha. Ambos rimos. – Ei – começou com uma charmosa timidez –, posso te pagar um smoothie lá na lanchonete? Enxuguei a nuca com minha toalha. – Hã... – gaguejei sem jeito. – Quem sabe uma barrinha de cereais? – Na verdade, tenho compromisso hoje à noite – falei com pena. – Preciso tomar um banho e sair. Ele assentiu e disfarçou sua evidente decepção com outro sorriso. – Tudo bem. Quem sabe outra hora então? – Claro – eu disse educadamente. – Outra hora. Sorri para ele e, em seguida, comecei a ir para o vestiário. Ouvi seus passos apertarem para me alcançar. – Mas se você não vem sempre aqui – falou ele ao me acompanhar –, talvez eu não te veja da próxima vez. Ri com a persistência dele, depois parei e virei meu rosto para ele, cruzando meus braços em uma debochada provocação. – O que está sugerindo exatamente? Seus pés se mexeram sem jeito e ele olhou para o chão. – Só estou dizendo que talvez você devesse me dar seu telefone, só para o caso de eu não vê-la da próxima vez. A abordagem dele não foi exatamente discreta, mas foi algo agradável. Geralmente não saio dando meu telefone, principalmente para um cara que acabei de conhecer na esteira. Porém, o homem diante de mim não era como a maioria dos caras que me


chamava para sair. Ele se destacava, e foi por isso que respondi: – Está bem, claro. Por que não? Aí recitei meu prestigioso número de Westside enquanto ele ansiosamente tirava o celular da mochila e digitava os números correspondentes. Olhou para mim e sorriu. – Aliás, meu nome é Clayton, para que saiba quem é quando eu for ligar. Soltei uma risadinha tímida ao apertar a mão dele. – Prazer em conhecê-lo. Depois de um bom banho no chuveiro do vestiário, eu me sequei e verifiquei meu celular. Tinha três e-mails novos. Rapidamente, dei uma olhada na caixa de entrada: um era da minha mãe, falando de um teste na internet para determinar seu conhecimento geral de botânica; outro era de Sophie me agradecendo por ter aguentado o drama dela (um e-mail que eu recebia com bastante frequência); e o terceiro era o itinerário para a minha viagem a Las Vegas, conforme prometido pela agente de viagens. Coloquei depressa uma roupa casual, peguei minha sacola da academia e segui direto para a saída. Chega dessas paqueras que lembram a época da escola. Era hora de ficar séria de novo. Havia trabalho a ser feito. Dei partida no meu carro e digitei meu próximo destino no sistema de navegação. Por sugestão da moça do GPS, virei à esquerda na saída e, em menos de um quilômetro, entrei na alameda Century. Hoje, um homem chamado Andrew Thompson iria conhecer a garota de seus sonhos – só que ele ainda não sabia disso. De acordo com sua esposa, Andrew sempre teve uma queda por comissárias de bordo e futebol. – Começou como uma brincadeira entre nós – explicou ela na nossa primeira reunião na semana passada. – Se ele visse uma na TV ou no aeroporto, cochichava para mim algo do tipo “querida, precisamos conseguir um desses uniformes”. Era bonitinho. – Ela balançou a cabeça melancolicamente. – Muitas coisas costumavam ser bonitinhas, inclusive eu. Por isso, hoje, eu tinha inventado o que acreditava ser a mulher ideal de Andrew Thompson: uma comissária de bordo viciada em futebol. Bonita e arrumada no ar, mas baixa e obscena quando estava bebendo cerveja e assistindo ao time do coração jogar na TV. A verdade era que a maioria dos homens que iam trair provavelmente iriam fazê-lo independente do que você estivesse vestindo ou que tipo de estatística esportiva você conseguisse soltar numa conversa – mas nem sempre era o caso. Alguns caras traem com qualquer coisa, ao passo que outros são mais específicos, mais peculiares. Eu tinha que estar preparada para os dois. Por isso, realizar uma fantasia era sempre a aposta mais segura. Porém, no fim das contas, para mim era tudo a mesma coisa: trair é trair, não importa quão exigente você seja quando trai. Grande parte do meu trabalho era sempre a pesquisa, o preparo. Eu gostava de reunir o máximo de informações possível antes de partir para uma missão, porque, quanto mais


conhecimento levasse comigo, mais rápido poderia sair da situação. Criar a mulher ideal de alguém, contudo, não era só saber de antemão que eles tinham uma queda por comissárias ou jogadoras de pôquer, assim como para ser um bom vendedor de aspiradores que vai de porta em porta não é apenas preciso saber recitar o poder de sucção do modelo mais novo. Assim que a porta se abre, é preciso ser capaz de analisar na hora a pessoa que veio atendê-lo, “saber” imediatamente o que a pessoa quer ouvir sobre aspiradores. Do contrário, acabará com uma porta na cara. Acho que se eu fosse uma espécie de heroína, esse seria considerado o meu “superpoder”, embora eu deva dizer que, na verdade, era mais um “dom”. Levei alguns anos para aperfeiçoá-lo, mas agora ele aparecia naturalmente. Sabem aqueles gênios da matemática que conseguem decifrar qualquer código supersecreto em questão de segundos? Bem, não sei fazer isso, mas o que sei fazer é muito mais difícil: decifrar qualquer homem que colocarem na minha frente, em menos de trinta segundos. Isso mesmo: como um livro aberto. Não sei de onde isso surgiu. Acho que nasci assim. Minhas amigas chamam de “dom divino”, mas eu não chegaria a tanto. Mal sabem elas no que é realmente usado. Porém, devo admitir que ser capaz de decifrar os homens com a velocidade com que um criptólogo decifra códigos supersecretos certamente pode ser útil quando se tem que encontrar um homem diferente toda noite sendo sua “suposta” mulher ideal. Andrew Thompson morava em São Francisco com a esposa, mas hoje ele estava em Los Angeles a trabalho e se hospedaria no Hotel Westin perto do aeroporto. Pedi ao manobrista para me acompanhar de fininho até a entrada dos fundos do prédio, dandolhe discretamente uma boa gorjeta para incentivar a conivência. Ele aceitou de bom grado e me ajudou a fazer a volta até uma portinha de vidro discreta que ele respeitosamente abriu para mim. Puxando minha mala preta, localizei um toalete público vazio no térreo e fui até a cabine para deficientes físicos na ponta. Tirei rapidamente minhas roupas e retirei da mala meu uniforme de comissária. Na verdade, ele pertencia a uma amiga minha que era comissária de verdade da Continental Airlines. Eu tinha explicado para ela que iria a uma festa à fantasia na qual deveríamos ir vestidas de uma fantasia sexual conhecida. Falei que eu queria mostrar que era adepta do sexo em aviões e esperava que o uniforme transmitisse essa mensagem. Ela achou a ideia engraçada e prontamente concordou em me emprestar. Fechei o zíper da saia azul-marinho e vesti o blazer, ajustando as asinhas douradas presas à lapela. Em seguida, guardei minha bolsa Birkin dentro da mala e a substituí por uma bolsinha preta menor, muito mais condizente com o salário de uma comissária de bordo. Arrumei meu cabelo e retoquei a maquiagem no espelho do banheiro, respirando fundo antes de abrir a porta. Andrew Thompson estaria no bar do hotel assistindo a um jogo de futebol americano da liga universitária, porque, segundo disse sua mulher, “ele não perdia nenhum jogo”. O jogo era USC contra Michigan, a antiga universidade de Andrew e hoje, por coincidência,


a de Ashlyn também. Eu não podia me dar ao luxo de sondar o bar e localizar o indivíduo antes de entrar. Eu tinha que fazer uma grande entrada: era parte da farsa de hoje e, portanto, eu tinha que confiar na informação de Emily Thompson sobre a noite do marido e suas atividades póstrabalho. Senão, minha farsa seria desperdiçada em um punhado de fãs de futebol universitário gordos e meio bêbados. Ao me aproximar do saguão, pude ver a entrada do bar do hotel cerca de trinta metros à minha frente. Apertei o passo, caminhando freneticamente pelo relativamente agitado saguão, puxando minha mala e tentando me desviar de outros clientes do hotel enquanto me dirigia desesperadamente até os longínquos sons de torcida. Irrompi no bar sem fôlego, desacelerando o passo e enxugando a sobrancelha com a mão. – O que eu perdi? Qual é o placar? – eu disse, respirando fundo com vontade. Havia aproximadamente cinco caras sentados no balcão, olhando para a TV. Os cinco se viraram para mim. A grande entrada fora um sucesso. Vi Andrew Thompson na outra ponta e, felizmente, havia um banco vazio ao lado dele. Fui imediatamente até lá, cuidando para manter meus olhos colados na tela. Com naturalidade, sentei-me ao lado de Andrew, colocando a mala ao lado e minha bolsa em cima do balcão. Alheia, olhei para a frente, enquanto Andrew me olhava sutilmente de cima a baixo. Virei rapidamente para ele e sorri. – Oi – falei de um jeito distante, voltando minha atenção para o jogo. Ele levou um minuto para sair de seu transe e aí finalmente respondeu: – Treze a zero para o USC. – Droga! – xinguei, balançando minha cabeça em reprovação. – O Smith tem subestimado sua lesão. Eu sabia que deveriam ter colocado o Wilde. Com o rabo do olho, vi Andrew por um momento ignorar totalmente o jogo e olhar para mim completamente perplexo, tentando digerir as palavras que saíram da minha boca, porque, como eu, ele sabia que elas faziam perfeito sentido. Que Deus abençoe a internet. Lentamente, ele voltou sua atenção à tela da TV, ainda com espanto estampado na cara. Era como se não acreditasse que esse tipo de mulher realmente existia, ainda mais sentada ao lado dele num balcão de bar. Só nas suas fantasias mais ousadas. Continuei concentrada apenas no jogo, tendo conseguido pedir uma cerveja para o barman sem nem mesmo desviar o olhar. O timer do meu celular tocou às 19h15, exatamente como eu tinha programado. E, para qualquer outra pessoa, principalmente Andrew Thompson, o toque programado como alarme soaria exatamente como o toque de uma ligação. Sem tirar os olhos da TV, remexi na minha bolsa, tirei o aparelho e o levei ao ouvido. – É, eu vi – falei informalmente, como se nem tivesse que olhar o identificador de chamadas para saber exatamente quem estava me ligando a essa hora. Era o que acontecia quando estava passando um jogo do Michigan na TV: eu assistia, e a pessoa


me ligava para comentar o jogo. Fiquei com o ouvido no celular mudo. – Porra, falei para você que o Grady não conseguia fazer jogadas como essa – falei, fazendo mais uma pausa para ouvir, com meus olhos colados na tela. – Não, não, não – discuti com o interlocutor imaginário. – Ele é uma porra de um novato. O que você esperava? Ele não pode se gabar das jogadas que faz. Ouvi uma pequena risada vinda de Andrew. Olhei para ele com o canto do olho e abri um sorriso espertalhão, como se estivéssemos compartilhando o mesmo aborrecimento por alguém que tinha fé num jogador como o Grady (seja lá quem fosse esse cara). Ele retribuiu o sorriso, e eu sabia que minha pesquisa estava surtindo efeito. – Olhe, te ligo amanhã, está bem? – falei e aguardei uma resposta, aí rapidamente acrescentei – É, tanto faz, tchau. E desliguei o celular. Soltei um suspiro de frustração e atirei o telefone no balcão. – Otário de merda – murmurei baixinho. Chegou a hora da pausa comercial e, de repente, reparei na cerveja que estava na minha frente. Peguei-a agradecida e tomei um longo e refrescante gole. – Meu Deus, que dia. – Então você deve ter frequentado a Universidade de Michigan – disse Andrew, observando-me atentamente. Virei-me e sorri. – É claro! – Sou da turma de 1985 – disse ele com orgulho. – Turma de 1999 – respondi como se estivesse competindo. – Uau! Será que sou velho? Olhei para ele de cima a baixo, avaliando de um jeito debochado, e aí encolhi os ombros. – Não parece – falei sem rodeios. – Obrigado. Você é comissária de bordo? Olhei para ele, cética. – Não, apenas gosto de vestir essa roupa para pegar homens em bares. Ele riu. Hoje eu era uma pessoa durona e, segundo Andrew, uma bem intrigante. Até ali, minha “análise instantânea” tinha acertado tudo. Tomei o resto da minha cerveja, e ele se apressou para pedir outra para mim. – Uma moça que gosta de futebol americano e sabe beber cerveja. Não tem como eu não gostar. – Se toda mulher tivesse que ser meiga e animada com os canalhas com que lido diariamente, também teriam que beber cerveja. Ele riu de novo. – É tão ruim assim? – É muita zoação o dia todo. Me irrita demais. O barman trouxe minha cerveja, e nós brindamos, oferecendo um brinde de esperança


ao desgraçado destino do nosso time, bem a tempo de voltarmos nossa atenção para a tela ao término dos comerciais.

Duas horas e sete cervejas depois, Andrew e eu estávamos bêbados.Bem, na verdade, Andrew e Ashlyn estavam bêbados. Eu estava bem, pois nunca me permitia ficar bêbada durante uma missão. Tinha passado os últimos dois anos aumentando meu nível de tolerância ao álcool especialmente por isso. O álcool faz a gente perder o foco, fazer besteiras. Por exemplo: 75% dos homens que haviam sido reprovados na minha inspeção estavam sob influência de pelo menos uma quantidade de álcool, quando não uma quantidade enorme. Algumas pessoas podiam tentar questionar a legitimidade da inspeção por causa deste fator. Minha opinião pública e profissional: a decisão da legitimidade ficava totalmente a critério da cliente. Porém, minha opinião particular e pessoal que eu nunca compartilharia com ninguém era: danem-se os problemas de legitimidade. O álcool faz parte do dia a dia. Se a pessoa não consegue beber e ainda permanecer fiel à sua esposa que está em casa, então ou não deveria estar bebendo ou não deveria ter uma esposa em casa. Mas essa era apenas uma das minhas modestas opiniões, que guardava para mim. Andrew e eu mudamos do balcão para uma mesa no canto, onde nos lamentávamos juntos e esquecíamos a amarga derrota para o USC. – Acho que é melhor perdermos para um time invicto do que para um timeco qualquer – falei, segurando minha cabeça numa cena que apenas poderia ser interpretada como embriaguez misturada com um lamento desesperado. Andrew terminou sua cerveja com um gole definitivo, bateu o copo vazio na mesa e depois se debruçou, olhando diretamente nos meus olhos. – Alguém já te disse que você é muito gostosa? – disse ele, com os olhos começando a perder seu brilho. – Tudo bem, esse aqui não pode mais beber! – gritei para o bar, já vazio, levantando a mão e apontando para a cabeça dele. Ele estendeu a mão e puxou a minha para baixo, segurando-a. – Estou falando sério. Você não tem a menor ideia, não é? Eu me ative à personagem, desprezando seu comentário como se fosse ridículo. – Pare. Você está parecendo um garoto meloso. Ele puxou a minha mão para mais perto dele e imediatamente senti sua aliança no dedo anelar. Ele nem tinha se dado ao trabalho de tirá-la. Ou melhor, não tinha se lembrado de tirá-la. Isso me fez crer que talvez fosse sua primeira vez, que não era um profissional como Raymond Jacobs, que punha e tirava a aliança como se fosse seu chinelo.


Porém, não importava se eram estreantes, experientes, veteranos: no fim, eram todos a mesma coisa dentro da minha cabeça. De qualquer forma, não cabia a mim julgar. Se uma esposa ou namorada ou noiva escolhia perdoá-lo com o pretexto de que era a “primeira vez” e que talvez tenha aprendido a lição, isso era uma escolha dela. Eu apenas passava a informação que havia sido solicitada. Não dizia a elas como usá-la e não fazia recomendações. – Seria estranho se eu pedisse permissão para te beijar? – perguntou ele, com a cara ficando séria de repente. Pensei nisso por um instante, colocando a ponta do dedo, pensativa, no meu queixo, esforçando-me para continuar minha cena de embriaguez abobada. – Hã, não, mas seria estranho se você pedisse para me cheirar. Ele deu risada. – Ah, eu já te cheirei no balcão, e seu cheiro é delicioso. – Hmmm, tipo comida de avião? – perguntei, tentando ficar com uma cara séria e, ao fim, caindo em uma risada de bêbada descontrolada. Andrew riu comigo. – Quer sair daqui? – Boa ideia. – Vamos para o meu quarto? Assenti com vontade, como se fosse a melhor ideia que tinha ouvido nos últimos anos e que ele tinha demorado demais para sugeri-la. Ele se levantou da cadeira como um foguete e, com a mão ainda agarrando a minha com força, me puxou para ir junto. No fim das contas, Andrew Thompson não chegou a me pedir para me beijar. Quando já estávamos entre quatro paredes, ele simplesmente partiu para cima. Ele me beijou como um menino bêbado numa festa da faculdade, desajeitado e excitado. Era quase como se o jogo o tivesse levado de volta à juventude, e agora estava revivendo seus dias felizes de festa como aluno da Universidade de Michigan. E, para completar, com uma comissária de bordo. Enquanto continuava me beijando, tirando lentamente cada peça da fantasia de seus sonhos, ele admirou em silêncio o fato de ser tão maravilhoso quanto sempre imaginara. Andrew não chegou a tirar sua aliança. Era quase como se a tivesse simplesmente esquecido ali, como se ela tivesse se tornado parte dele e do seu dia a dia, mas, em algum momento, seu significado simbólico parecia ter-se evaporado no ar de um casamento monótono. Contudo, eu não tinha me esquecido dela. Sentia-a cada vez que sua mão se esfregava na minha pele, aquele metal duro e frio atrapalhando cada centímetro de seu toque como um constante lembrete daquilo que eu estava fazendo – e, o mais importante, do que ele estava fazendo. Porém, não me opus. Deixei seus lábios explorarem e suas mãos perambularem, com


aliança e tudo. Afinal, meu trabalho era não me opor. Eu sempre aceitava tudo, independente de quão nojento ou repugnante fosse. Era por isso que eu sempre abstraía a situação: eu nunca era Jennifer Hunter no momento, beijando um estranho, deixando suas mãos explorarem meu corpo. Eu sempre era Ashlyn. Entretanto, Ashlyn nunca ia para casa comigo, nunca usava meu pijama de algodão branco que cheirava a amaciante, resultado da lavagem aplicada de Marta. Ashlyn nunca se aconchegava nos lençóis brancos acetinados, com o elefante de pelúcia com que eu dormia há anos. E Ashlyn nunca acordava e via seu reflexo no espelho do meu banheiro na manhã seguinte. Aquela era Jennifer e, portanto, era importante mantê-las o mais separado possível. Afinal, se essa linha começasse a ficar borrada, então tudo começaria a se desintegrar, iria para o lado pessoal – e, neste negócio, nada podia ser pessoal. Era como embeber suas emoções com combustível e depois ficar perigosamente perto de uma fogueira. E, por mais que eu desejasse que meus braços, pernas e coração fossem de aço, eu ainda era humana, não era um robô. Ashlyn, porém, era o meu escudo. – Eu sempre quis transar com uma comissária – disse a voz dele, abafada por estar com os lábios enterrados no meu pescoço. – Então acho que hoje é o seu dia de sorte. – Certamente é – ele soltou. E foi aí que interrompi subitamente a mais sonhada fantasia de Andrew Thompson. Talvez ele nunca fosse entender completamente as palavras que saíram da minha boca quando eu lhe contei quem realmente era e talvez nunca fosse apreciar a luz que lancei no estado atual de seu casamento, mas havia uma coisa certa: ele nunca mais olharia para uma comissária de bordo do mesmo jeito.


5 A origem das espécies (parte I) Quando entrei no meu apartamento no final da noite, o contraste com o quarto escuro do hotel do qual eu tinha acabado de sair era arrebatador. Parecia que eu tinha saído de um mundo completamente diferente e entrado nesse. O outro mundo era sombrio, cheio de desconfianças e mentiras. Este era bonito, espaçoso, brilhante e branco, como um comercial de desinfetante. Era um lugar onde eu podia ser eu mesma, e mais ninguém. Só esta semana, Ashlyn tinha sido advogada, aluna de pós-graduação, universitária festeira, gerente de pesquisas e comissária de bordo. Era bom voltar a ser eu mesma: Jennifer Hunter. Só havia um problema. Ao me olhar no espelho depois de tirar todo o rímel que cobria meus cílios e toda a base que transformava meu rosto, não pude deixar de sentir que a mulher do reflexo estava virando uma estranha, cada dia menos conhecida – e isso era difícil de ignorar. Suspirei com força e desliguei a luz, deixando o rosto desconhecido no escuro. Subi na cama e me aconcheguei nos meus lençóis brancos. Ao tocar minha pele, eram macios como pétalas de flores. Olhei pensativa para o travesseiro do outro lado da cama. Com exceção das mãos suaves de Marta, ele permanecera intocado por mais de dois anos. Estiquei minha mão por baixo dele e peguei meu esfarrapado elefante roxo de pelúcia, com o qual eu dormia toda noite desde que tinha doze anos de idade. E eu me lembrava daquela primeira noite como se fosse ontem. O elefante Funga nunca fora meu bichinho de pelúcia preferido. Ele havia permanecido no banco perto da janela do meu quarto desde que nasci, mas eu nunca tinha gostado dele de verdade. Sem querer, dei-lhe o nome Funga quando tinha dois anos porque eu o via no meu quarto depois de assistir à Vila Sésamo e, astuta, dizia que ele se parecia muito com o Sr. Funga-Funga. Só que eu não conseguia pronunciar o nome completo do Sr. FungaFunga, por isso apenas apontava para o elefante roxo e dizia “Fun”, que mais tarde virou “Funga”. Porém, eu sempre tinha dado preferência a outros brinquedos: meu urso Leo, meu coelho Floco, meu peixe Frank. Toda noite eu os revezava, curtindo a variedade e a animação de um novo companheiro de cama ao adormecer. Funga nunca entrou na roda. Quando minha mãe vinha me dar um beijo de boa-noite, sempre passávamos pela mesma rotina: gostávamos de chamá-la de “Jogo da hora de dormir”. Eu subia contente


na cama e me aninhava embaixo dos cobertores com meu edredom da Rainbow Brite ou lençóis do Meu Querido Pônei (dependendo da idade), e ela andava até a janela e parava intencionalmente na frente de cada brinquedo como um sargento que fazia sua inspeção diária. Sua mão pairava a quinze centímetros da cabeça de cada animal, e ela aguardava pacientemente a minha série de negativas decididas até que meus olhos finalmente brilhassem e minha cabeça acenasse positivamente ao vê-la se aproximar do escolhido. Aí minha mãe pegava o brinquedo privilegiado o bastante para ser escolhido para o dever do aconchego e cuidadosamente o entregava aos meus braços abertos. – Por que você nunca escolhe o Funga? – ela me perguntava de vez em quando, pois, noite após noite, eu fazia a mão dela passar reto pelo elefante roxo, que nunca recebia meu lendário aceno de aprovação. Minha resposta era encolher os ombros e dizer: – Não sei. Apenas gosto mais dos outros. E aí, de tempos em tempos, ela pegava o solitário e esquecido elefante roxo e o segurava perto de seu rosto, cheirando sua pelúcia macia. – Mas você o está fazendo se sentir sozinho. Eu simplesmente revirava meus olhos e dizia: – Ah, mãe, ele vai superar. Depois, minha mãe e eu dávamos risada enquanto ela levava para mim meu amigo escolhido e amorosamente colocava-o ao meu lado antes de me dar um beijo de boa noite. Com o passar dos anos, comecei a perder o interesse por animais de pelúcia e, quando fiz doze anos, não dormia mais com nenhum nem que minha mãe me pagasse. – Mãe – eu dizia em tom de advertência quando, vez ou outra, ela me perguntava se eu queria voltar a jogar o nosso adorado jogo da hora de dormir, só para relembrar os velhos tempos –, se alguém ficar sabendo que eu durmo com um peixe de pelúcia chamado Frank, minha reputação vai ficar arruinada. Aí minha mãe balançava a cabeça e dava risada. – Aposto como todas as meninas da sua escola têm um bicho secreto com o qual dormem. Porém, nunca acreditei nela. Não tinha jeito de eu me dar bem com as meninas populares da oitava série no ano seguinte se eu continuasse agindo como uma menina de cinco anos em casa. Contudo, uma noite, tudo mudou, tudo ficou diferente – e tudo permaneceria diferente dali em diante. Minha mãe viajou para visitar minha avó em Chicago e me disse que ela ia operar o joelho. – O joelho dela está ficando velho demais, por isso vão lhe dar um novo – explicou minha mãe enquanto íamos ao aeroporto. – Um novo? – perguntei com uma voz arrogante, tentando manter minha atitude de quem não se importa com o que os pais dizem. – É, vão retirar o joelho dela e substituir por um de metal.


– É possível fazer isso? – soltei maravilhada, mas depois recuei. – Quero dizer, é meio estranho. – Felizmente, para a vovó, é possível – disse minha mãe, estendendo o braço para trás e acariciando meu joelho saudável. – Bem, por que não posso ir junto? – perguntei, cruzando os braços de modo desafiador. Por mais que eu quisesse ser a pré-adolescente “descolada” que não se importava que sua mãe viajasse ou quanto tempo iria ficar fora, ainda assim não gostava da ideia de ficar longe dela. – Porque o papai precisa que fique aqui e lhe faça companhia. Revirei meus olhos e grunhi alto o suficiente para os dois ouvirem. Eu queria muito que meus pais começassem a conversar comigo como uma adulta, e não uma menina de doze anos. Porém, no fundo, o comentário da minha mãe me fez sentir útil – e eu gostava disso. Sem dizer mais nada, eu sosseguei com a decisão de que talvez devesse ficar e cumprir meu dever cívico de filha única. Meu pai já havia se casado outra vez, muito tempo atrás. Ele teve uma filha com a primeira mulher, mas eu raramente via minha meia-irmã Julia, exceto em grandes reuniões de família. Contudo, eu não me importava com a falta de contato. Sempre tive a sensação de que ela não gostava muito de mim, o que provavelmente era verdade. Ela era dez anos mais velha que eu e, ao relembrar agora, podia entender como o bebê novo da nova mulher podia ser deprimente. Por isso, até onde eu sabia, só havia minha mãe, meu pai e eu – e eu não tinha nenhuma reclamação quanto a isso. Gostava de ser filha única. A maioria das crianças imploram para ter um irmão, mas depois de ver como Julia guardava rancor de mim, eu estava contente por não ter nenhum. Porém, no fim das contas, meu pai não precisava de mim para fazer companhia. Ele teve que ir a um jantar de negócios naquela mesma noite e eu acabei ficando com a babá, uma estudante universitária de vinte anos chamada Elizabeth que minha mãe tinha conhecido no meu acampamento dois anos antes. Ela era monitora lá e, conforme minha mãe me explicou um dia depois de uma longa discussão com o diretor do acampamento, também “muito responsável e confiável”. – Por que tenho que ficar com uma babá? – questionei meu pai. – Já conversamos sobre isso, Jenny – ele advertiu. – Você poderá ficar sozinha em casa quando tiver treze anos, mas não doze. – Vou fazer treze daqui a nove meses! – gritei em resposta. – Não vejo como nove meses podem fazer tanta diferença. Entretanto, geralmente não se contrariava meu pai, e eu teria ligado para minha mãe e a deixado discutir por mim, mas sabia que ela não ficaria do meu lado desta vez. Treze sempre foi a idade mágica que eu aguardei na minha vida. Era quando eu ganharia minha própria linha telefônica, minha própria TV e a permissão para ficar em casa sem uma babá horrorosa para mandar em mim.


Na maior parte do tempo, Elizabeth era perfeitamente boazinha e legal de se ter por perto, e eu sempre admirava sua boa aparência e seu estilo, esperando que, quando crescesse, fosse parecer e me vestir assim, mas, a essa altura da minha vida, ela representava outra corrente que me prendia à minha infância enquanto todos os meus amigos podiam crescer. Para piorar as coisas, Elizabeth me mandava dormir às 22h. Ela nunca me deixava ficar acordada até tarde. Até parece que, por ela mesma não ter saído da pré-adolescência há muito tempo, ela seria solidária à minha batalha e entenderia a pura satisfação pela qual se passa quando a gente pode ficar acordada além do horário de dormir. Era como se cada cinco minutos a mais acordada equivalesse a mais cinco anos acrescentados à idade. Porém, ela simplesmente aguardava à porta enquanto eu ia para a cama, desligava a luz e depois corria de volta para o andar de baixo, ansiosa para voltar a assistir o que quer que estivesse passando na TV e, claro, tagarelar no telefone. Depois que ela saía, eu geralmente ficava emburrada na cama por uns cinco minutos antes de cair no sono, ouvindo os sons longínquos de sua risada e fofoca misturados com o barulho incômodo da TV. A noite em que minha mãe viajou para Chicago começou como uma noite qualquer em que Elizabeth tinha sido contratada para cuidar de mim. Ela ficava na porta, esperando eu ir para a cama e puxar meus cobertores até o queixo. – Mais cinco minutos – tentei negociar pela décima vez. – Boa noite, Jenny – disse ela com indiferença, desligando a luz e fechando a porta. Fiquei deitada, mas acordada, olhando para o teto, de braços cruzados, com meu mundo prestes a desmoronar e, na realidade, com muitas saudades da minha mãe. Eu sabia que ela não voltaria para casa nos próximos três dias e pensar nisso me deixava triste. Soltei um grande suspiro de frustração e depois, relutante, virei-me de lado, enfiei minhas mãos embaixo do travesseiro e tentei cair no sono. Devo ter cochilado por, no mínimo, duas horas, porque, quando fui acordada por vozes distantes e risadas abafadas, o relógio da minha cabeceira acusava meia-noite. Virei meu ouvido na direção da porta e fiquei ouvindo os sons ficarem cada vez mais altos. Revirei meus olhos e grunhi baixinho. Outra sessão de falatório de Elizabeth. Na maior parte do tempo, eu voltava a cair no sono apesar do barulho, mas essa noite foi diferente: parecia incessante e excepcionalmente irritante. Por isso, saí da cama, abri minha porta silenciosamente e desci a escada nas pontas dos pés, determinada a dar fim a essa interferência chata. Contudo, à medida que me aproximava da sala de estar, ouvi algo que nunca tinha ouvido antes. Parei e prestei atenção. Era o som distinto de uma voz masculina, vinda dali. Sorri maliciosamente ao continuar pé ante pé pelo corredor, esperando pegar minha babá tão “responsável e confiável” se engraçando com um visitante indesejável no meio da sala dos meus pais. Senti um fluxo de satisfação proibida correr pelo meu corpo,


sabendo muito bem que, quando eu a pegasse fazendo algo impróprio enquanto estava sob sua responsabilidade, seria o seu fim. Isso certamente ensinaria meus pais a não me deixarem sozinha com uma universitária cheia de amor para dar. Talvez eles finalmente decidissem maneirar seu controle mortal na regra idiota de “não até completar treze anos” e, da próxima vez, eu finalmente poderia ficar em casa sozinha. Apoiei as palmas da mão na parede do corredor e sorrateiramente estiquei minha cabeça no canto da sala, pronta para dar um pulo e assustar o suficiente para botar o convidado indesejado para correr. Porém, o que vi naquela sala me deixou mais do que chocada: era uma dormência cruel como eu nunca havia sentido antes, nem quando minha amiga Sophie e eu achamos aquela fita no armário do pai dela, uma com mulheres e homens pelados fazendo o que presumimos ser coisas que eram feitas apenas na TV e em mais lugar nenhum. Entretanto, ao contrário da fita que encontramos, que nenhuma de nós tinha vontade de interromper, eu não tive problemas em parar de olhar para a cena à minha frente. Em um acesso de pânico puro, recolhi minha cabeça e disparei pela escada, tomando cuidado para pisar leve a fim de que o som dos meus pés descalços sobre o chão de madeira não chamasse atenção. A última coisa que eu queria era ser pega, tendo visto o que vi. A escada parecia não acabar mais, como se estivesse dez vezes mais comprida do que quando desci menos de um minuto atrás. Quando finalmente cheguei ao andar de cima, fui de fininho até meu quarto e fechei a porta sem fazer barulho. O quarto estava silencioso, e consegui abstrair os cochichos e gemidos abafados que entravam sem permissão pela minha porta concentrando-me no som do meu coração batendo com força no meu peito. Senti lágrimas de medo e descrença se acumularem nos meus olhos enquanto deixava meu corpo rolar para o chão, tentando desesperadamente entender o que havia acabado de testemunhar, tentando descobrir o que significava e o que significaria para o futuro. Na escuridão do meu quarto, a mesma imagem se repetia na minha cabeça, como a cena de um filme, voltando e passando várias vezes ininterruptamente, sem indícios de que ia parar. Era Elizabeth, no sofá, com a cabeça deitada em uma das almofadas, e sua blusa fora atirada de qualquer jeito para perto da mesa de centro. Seu sutiã era vermelho e preto, como o tipo que eu via nos catálogos da Victoria’s Secret que roubava do lixo depois que minha mãe os pegava da caixa do correio e os jogava fora. E a mão que a estava acariciando prazerosamente toda a sua barriga nua e avidamente as laterais de sua cintura fina... era do meu pai. Ele estava beijando-a de um jeito que nunca vi beijar minha mãe, como se estivesse devorando-a. Ainda assim, os gemidos de prazer dela eram dolorosamente semelhantes aos que eu e Sophie ouvimos na fita, e isso me fez crer que ela não se importava exatamente em ser devorada. Quando meus pais se beijavam, era carinhoso e meigo, um suave selinho que talvez durasse um ou dois segundos; três se estivessem se despedindo antes de uma das


viagens de negócios do meu pai. Porém, não havia nada de carinhoso nem meigo no que meu pai estava fazendo lá embaixo. Os lábios dele não estavam fechados: assim como os dela, estavam abertos. Era quase o jeito como o pessoal da oitava série se beijava no corredor, mas com muito mais experiência. Sophie e eu tínhamos descoberto alguns anos antes que se chamava “beijo de língua”, e eu lembro de ter perguntado à minha mãe sobre isso quando tinha nove anos. Ela riu e explicou: – É que algumas pessoas gostam de beijar com a boca aberta. – Por quê? – perguntei, obviamente sem entender por que diabos alguém iria querer fazer isso. Aos nove, dentro da boca era apenas o lugar onde comida mastigada ficava antes de ser engolida (muito longe de ser uma zona “erógena”). Minha mãe não deu importância e achou graça na minha curiosidade. – Não sei. Talvez porque, para algumas pessoas, é uma sensação boa. Agora, de repente, a ideia de minha babá Elizabeth fazendo meu pai se sentir bem com seu beijo de boca aberta me fez levantar subitamente e procurar desesperadamente o interruptor na parede. A luz brilhante foi uma salvação bem-vinda, afugentando todas as imagens remanescentes e concentrando atenção nas referências de alegria e felicidade espalhadas pelo meu quarto. Os pôsteres da minha parede revelavam as invejáveis influências de Paula Abdul, Janet Jackson e The Party; a coleção de bonecas da Madame Alexander que minha mãe e eu tínhamos iniciado três anos antes, quando ela me dera a primeira de Natal; meu rádio rosa com a última fita cassete de Debbie Gibson dentro, exatamente onde eu havia deixado depois de Sophie e eu termos coreografado uma dança para a música “Electric Youth”. Depois, meus olhos foram até minha cabeceira com o porta-retrato que tinha uma foto da minha mãe. Era uma foto que meu pai tinha tirado quando ela estava grávida de mim. Ela estava sentada no quintal de nossa primeira casa, descansando em uma das cadeiras. Nosso cachorro Casey, que, na época, era só um filhote, estava fazendo-a rir ao ficar tentando subir com determinação no colo dela. Não era uma foto particularmente especial, mas eu a tinha achado dentro da caixa de fotos da minha mãe alguns anos antes e perguntado se podia colocá-la num porta-retrato e deixá-la no meu quarto. Peguei o porta-retrato e fiquei segurando-o. Naquela noite, senti uma emoção pela minha mãe que nunca tinha sentido antes: pena. Ela sempre fora a sábia, a que conhecia tudo sobre o mundo e todas as coisas de que precisava me proteger. E, nesse dia, ao olhar para a foto, ficou claro para mim que nossos papéis tinham subitamente se invertido. Agora, era ela que precisaria de proteção – e eu era a pessoa que podia lhe dar. Naquela noite, cresci, com uma espiada acidental que revelou um lado da vida dos meus pais que eu nem sabia existir. Com esse vislumbre nos meandros de um relacionamento adulto, eu sabia que tinha dado um passo gigante rumo a ficar mais adulta, um passo que eu sempre imaginara ingenuamente que vinha com uma linha telefônica privada e a permissão para dormir mais tarde.


Coloquei o porta-retrato de volta e subi novamente na cama. Sem coragem para desligar a luz, tentei desesperadamente ignorar os sons distantes que continuavam a sair da penumbra da sala de estar, subir a escada e entrar pela pequena fresta embaixo da minha porta fechada. Três noites depois, minha mãe entrou no meu quarto para me dar um beijo de boanoite pela primeira vez desde que viajara. – Sonhe com os anjos – ela disse, indo para a porta e pousando a mão no interruptor. De repente, sentei-me na cama. – Mãe? – Sim? – Vamos jogar o jogo – pedi calmamente. Ela inclinou a cabeça para o lado e sorriu para mim. – O Jogo da hora de dormir? Confirmei com a cabeça. – Mas achei que você estava crescida demais para isso – ela brincou, dirigindo-se à janela. Olhei para baixo e fiquei cutucando a ponta do meu edredom. Aí, em um acesso de força inesperada, levantei a cabeça e olhei bem nos olhos dela. – Não estou – falei confiante. O sorriso estampado em seu rosto iluminou o quarto todo enquanto ela se posicionava na frente do primeiro participante. Foi exatamente como eu me lembrava: minha mãe jogou o jogo com a mesma impecável dedicação de sempre, como se nunca tivéssemos parado de jogar uma única noite durante todos esses anos. Ela começou diante do urso Leo. Decidida, recusei com a cabeça. Ela se espantou com curiosidade e, com um passo à esquerda, passou para o participante seguinte. O peixe Frank? Fiz que não. O coelho Floco? Era sempre uma escolha frequente. Fiz que não novamente. Eu sabia exatamente de quem era vez, e ele já tinha esperado o bastante. Quando ela chegou ao elefante Funga, assenti triunfante e abri meus braços para que ele fosse trazido até mim. – Bem, que mudança de ideia interessante – disse minha mãe com verdadeira surpresa ao levá-lo e colocá-lo carinhosamente nos meus braços. Abracei-o com força e enterrei meu rosto em sua pelúcia roxa macia. Ele tinha um cheiro de novo, intocado e... imaculado. Voltei a me deitar embaixo dos cobertores e o ajeitei no cobiçadíssimo cantinho envolvido pelo meu braço. Minha mãe me beijou de novo na testa; aí se debruçou e beijou o Funga também. Quando se levantou, olhou para mim com os olhos cheios de perguntas – que eu sabia que nunca poderia responder, não por não saber as respostas, mas porque eu escolhia não responder. – Você está bem? – ela perguntou.


Fiz que sim, segurando as lágrimas que ameaçavam jorrar. – Então, por que o Funga? Por que agora? Respirei fundo e o aproximei ainda mais de mim. – Eu só queria garantir que não ficasse sozinho.


6 O ciclo se completa No sábado de manhã, acordei às 9h30 ao ouvir o telefone de casa tocar. Era meu primeiro dia de folga no que parecia meses. Puxei o outro travesseiro para tapar minha cabeça e tentei abstrair o som até, depois de tocar cinco vezes, ele parar. Procurei o Funga no meio do mar de lençóis e cobertores e finalmente o encontrei no chão ao lado da minha cama, aparentando estar abandonado e rejeitado. Estiquei o braço e o levei de volta à cama, envolvendo-o novamente com meu braço e cochichando desculpas carinhosas no ouvido dele antes de voltar a cair no sono. O telefone tocou novamente trinta segundos depois. Grunhi bem alto e olhei para o identificador de chamadas: era Zoë. – Quê? – falei sonolenta ao telefone. – Que porra você acha que está fazendo, sua imbecil?! – disse ela gritando do outro lado da linha. Sim, era Zoë mesmo. Ela tinha o costume de dirigir ao celular, o que não fazia das conversas as melhores, pois ela também tinha o costume de xingar no trânsito. Afastei o telefone do ouvido até que ela terminasse de gritar com o idiota que teve a ousadia de cortar a frente de seu carro. – Me desculpe – ela falou com a voz voltando ao tom normal mal-humorado. – Estou na Sunset. Parece que não ensinam preferência de passagem em West Hollywood. – Qual é o motivo de você me acordar num sábado? – Ah, sim. Temos brunch em uma hora. Esfreguei meus olhos e olhei para o relógio. – O quê? – Ei, não desconte em mim. Foi Sophie que marcou. Parece que é uma “emergência”. Estava claro que Zoë também não estava animada por estar sendo arrastada a um brunch, principalmente por sabermos o que significa quando Sophie usa a palavra “emergência”. Geralmente consiste numa sessão em grupo no qual Sophie entra em pânico, faz uma tempestade em copo d’água e ficamos tentando consolá-la. E, por mais que eu gostasse de consolar minha melhor amiga em momentos de necessidade, essa era a primeira manhã que eu podia dormir até mais tarde em mais de duas semanas. Por isso, não preciso dizer que eu não estava exatamente empolgada com o fato de ser interrompida por causa de um brunch de “emergência”. – Ela falou qual era o assunto? – Não, ela não quis contar. Disse que era S.E.P.


– Sociedade de Economia Política? – tentou chutar minha cabeça de analista de investimentos em relação à sigla pronunciada por Zoë. – Somente Em Pessoa, mas ela nem precisa dizer qual é o assunto. Você sabe que vai ser sobre... PORRA! Essa não é a faixa para virar, seu merdinha estúpido! Esperei as longas buzinadas pararem antes de perguntar onde se realizaria esse brunch de emergência. – No Café Montana. Resmunguei e tirei os cobertores de cima de mim. – Está bem. Estarei lá. – É bom que esteja. Não quero ser obrigada a dizer a Sophie que você não vai. Zoë e eu aprendemos muito tempo atrás que não se podia contrariar Sophie quando ela se fixava em alguma coisa. Ela podia fazer a gente se sentir como a amiga mais baixa e negligente do mundo se tivesse a ousadia de dizer não a um de seus pedidos urgentes. Bocejei e me sentei na cama. – Não posso prometer animação. – Ótimo. Estou indo pegar John. Te vejo daqui a pouco. E, antes que eu pudesse responder, ela desligou. Coloquei o telefone ao meu lado e permaneci na beira da cama por um instante, tentando juntar energia para me levantar. Eu me sentia cansada demais. Minha reunião pós-missão com a esposa de Andrew Thompson na manhã do dia anterior em São Francisco tinha me esgotado. A maioria das reuniões levava cerca de uma hora. As mulheres geralmente queriam a notícia e, se ela fosse ruim, queriam me ver longe logo. E não é culpa delas. Suponho que seu reconhecimento pelos meus serviços vem muito mais tarde e, quando isso ocorre, já estou fora da vida delas há tempos. Porém, eu não me importava. Foi uma coisa que acabei aceitando com o passsar dos anos. Aceitei o fato de que esse simplesmente não é o tipo de trabalho em que se pode esperar flores e um cartão de agradecimento como símbolo de gratidão. Contudo, Emily Thompson grudou em mim como uma camiseta de algodão que secou sem amaciante. Fiquei lá por mais de três horas e acabei perdendo o voo de volta e tive que ficar aguardando o voo seguinte para Los Angeles. Quando saí de lá, ela já tinha me mostrado três álbuns de família, mais de uma hora de vídeos caseiros de Andrew com os filhos representando cenas favoritas dos filmes da Disney e inúmeras histórias de seus tempos a dois durante a faculdade, quando tudo era só diversão, festa, álcool e sexo. Momentos como esse são, de longe, a parte mais difícil do meu trabalho, porque, quando entro na casa dessas pessoas, consigo sentir os olhares críticos vindos dos retratos de família pendurados na parede. E, quando se está no meu lugar, a pessoa não olha para essas fotos: as fotos olham para a gente. E elas não observam simplesmente a gente entrar na casa, mas julgam-nos por estarmos lá. Sem me dar ao trabalho de tomar um banho ou lavar o rosto, arrastei-me para a seção “casual” do meu closet e, apática, peguei uma calça jeans e um moletom roxo com


capuz. Eu tinha certeza de que Sophie criticaria meu modelito informal num lugar como o Café Montana, mas, a essa altura, eu não dava a mínima. Ela estava me roubando meu único dia de sono decente em semanas, por isso teria de sofrer com meu moletom e jeans rasgado – e o Café Montana também sofreria. Além do mais, isso aqui é Los Angeles. Vestir-se casualmente em um lugar chique não faz a gente parecer um lixo, mas, sim, uma celebridade. Escovei meu cabelo, prendendo-o num rabo de cavalo frouxo na nuca e coloquei um boné do Lakers. Peguei meus dois celulares e as chaves, soquei na minha bolsa Fendi e saí. Eu andava com dois celulares o tempo inteiro: um Treo para o trabalho e um Razr para uso pessoal. O celular do trabalho, segundo minhas amigas, era o “aparelho de controle da mente que me mantinha presa ao império do mal que era o meu super exigente banco de investimento”. Porém, para dizer a verdade, era um número secreto que era passado entre as ricas donas de casa, mães, namoradas e qualquer pessoa que estivesse precisando da minha ajuda: a rede secreta de mulheres desconfiadas do mundo. Se tivessem suas próprias páginas amarelas, eu estaria listada na categoria “serviços essenciais”. O número não era publicado em lugar algum. Eu simplesmente não iria permitir. Meus serviços eram oferecidos apenas por indicação. Propaganda popular, boca a boca, chamem do que quiserem, era assim que funcionava. A partir do momento em que se começa a anunciar o número num ponto de ônibus, começa-se a perder a credibilidade, a confidencialidade e certamente o ar de mistério, sendo todos os três importantíssimos aspectos deste trabalho. A caminho do restaurante, meu celular pessoal tocou. Quando eu estava prestes a desligar aquela droga e ignorar o mundo pelas próximas horas, vi no identificador de chamadas que era minha sobrinha Hannah. Meu humor mudou na hora, num passe de mágica. – Oi, querida! – falei ao telefone. – Você vai vir na sexta que vem, né? Hannah ia fazer doze anos na próxima semana. A mãe dela (minha meia-irmã Julia) tinha organizado um jantar em família com algumas das amigas mais chegadas de Hannah na sexta à noite, e ela estava super empolgada. – Claro que vou! – falei com uma voz leve e animada. Em parte, era resultado do efeito animador que Hannah tinha sobre mim; em parte, uma invenção especialmente criada para camuflar a natureza e a dura realidade da minha vida verdadeira. Se houvesse um jeito de protegê-la de tudo o que eu já vira no mundo, eu protegeria, sem pestanejar. Porém, eu sabia que era impossível. Cedo ou tarde, ela iria se deparar com isso. Ainda que eu nunca dormisse, comesse, nem assistisse a outro minuto de TV e simplesmente dedicasse cada hora acordada da minha vida derrotando os caras malvados, mesmo assim não haveria jeito de mudar o mundo a tempo para ela crescer.


– Ótimo – ela respondeu satisfeita. – Porque eu contei para as minhas melhores amigas que você vai vir e que você tem as roupas mais maravilhosas do mundo. Olhei para o meu atual modelito de jeans rasgado e moletom e pude imaginar na hora a cara de reprovação de Hannah. – Bem, estou ansiosa para conhecê-las, mas, na verdade, preciso desligar. Estou indo para um brunch com alguns amigos. Te vejo na semana que vem. – Você tem tanta sorte. Quero ir ao brunch com você e seus amigos. Eu ri com a vontade dela, que lembrou a mim mesma quando eu tinha sua idade. Bem, pelo menos, antes da noite em que tudo mudou. – Juro que você iria ficar super entediada – garanti. – Não mesmo – disse ela, determinada. – Aposto como vocês conversam sobre coisas super legais. Imaginei qual seria a nossa conversa “legal” de hoje. Sophie iria ficar falando sem parar sobre cada mínimo detalhezinho de seu suposto “drama” com Eric na noite anterior e depois eu tentando convencê-la desesperadamente de todas as razões pelas quais ele não iria querer dar o fora, enquanto Zoë tentaria manter sua compostura e John tentaria mudar de assunto para que conversássemos sobre ele. – Você se surpreenderia – falei para ela. Cheguei ao restaurante e encontrei Sophie sentada sozinha em uma mesa no fundo. Ela abanou para mim; dei um jeito de passar pelas mesas dispostas bem próximas umas das outras e me sentei na cadeira ao lado dela. – Está bem, qual é o grande drama? Típico relacionamento problemático entre homem e telefone? Ou seleção natural de atividades noturnas? – Não vou falar até todo mundo chegar – ela insistiu. Inclinei a cabeça para o lado e examinei seu rosto. Havia algo que eu não esperava ver. Minha expectativa era um mergulho num mar de lenços de papel, lágrimas e incerteza, seguido de uma longa história choramingada sobre Eric e como as coisas de repente ficaram completamente diferentes entre eles e que ela não tinha certeza se o relacionamento deles voltaria a se recuperar. Porém, não foi isso que vi nos seus olhos ao observá-la. Ela parecia... será que arrisco dizer? Feliz, quase em êxtase. Eu estava prestes a abrir a boca e comentar seu aspecto inusitado quando fui interrompida por um som alto e anasalado vindo da entrada do restaurante. – Lá estão elas – John praticamente gritou para Zoë enquanto eles se dirigiam ao fundo. John era o único homem que podia se infiltrar em nosso círculo fechado de meninas. Claro que ajudava o fato de ser gay e, portanto, podia entrar em todas as conversas e dar valiosíssimos conselhos sobre homens, moda, fofocas de celebridade e sexo oral (não necessariamente nessa ordem, claro). Porém, pessoalmente, acho que ele preferia andar conosco, mais porque ele simplesmente não gostava dos outros caras gays, exceto


aqueles com quem estava transando. – Estou com tanta fome que poderia comer minha própria cabeça – disse ele dramaticamente enquanto puxava sua cadeira e se sentava. – Que ridículo – falou Zoë visivelmente irritada. – O que você usaria para mastigar? John olhou feio para ela, que soltou uma risada de escárnio. Os dois estavam quase sempre no meio de uma competição de deboche para ver quem conseguia ser o mais esperto e chato ao mesmo tempo. Às vezes, era engraçado assistir, mas, na maioria das vezes, ficava chato – e bem rápido. – Devem haver zilhões de restaurantes em Los Angeles e sempre viemos aqui – disse Zoë, abrindo o menu, completamente alheia ao inconfundível entusiasmo de Sophie. – Gosto daqui – defendeu-se Sophie timidamente, com as mãos escondidas sob a mesa, como uma criança retraída ao comer pela primeira vez na mesa dos adultos. – Você sabia que levaria pelo menos cinco vidas para comer em cada um dos restaurantes na cidade de Los Angeles sem repetir? – declarou Zoë toda sabida, com os olhos colados no menu. – E isso se você começar aos cinco anos! – Por acaso você saiu com o herdeiro do guia de restaurantes Zagat ontem à noite? – perguntou John. Zoë ignorou. – Li em algum lugar. – É, mas você precisaria de cinco vidas por causa de todo o lixo que estaria comendo. Provavelmente viveria apenas até os cinquenta – retrucou John. – Afinal, lugares como as lanchonetes de fast food não vão exatamente mantê-la viva. – Gente! – implorou Sophie bem alto, fazendo Zoë tirar os olhos do menu, desconfiada. – Não estão esquecendo alguma coisa? Zoë e John trocaram olhares alheios entre si. – Bem, não sei a que você está se referindo – começou John todo pomposo. – Mas adivinhem quem ficou com o segundo finalista da segunda temporada de So You Think You Can Dance ontem à noite? – falou com o rosto radiante de orgulho, como se tivesse acabado de anunciar que tinha sido aceito numa sociedade secreta de groupies de celebridade. – Segundo finalista? – espantou-se Zoë. – Ei, queridinha, é melhor que a sua desculpa idiota para ficar com celebridades. Ela revirou os olhos. – Não fiquei com ele porque tinha participado do Na Real – argumentou ela em defesa. – Fiquei com ele porque achei que tínhamos uma conexão muito profunda. – Então! – interrompeu Sophie novamente, redirecionando a atenção do grupo para o assunto do dia. – Não reuni vocês aqui para falar das conquistas alcoolizadas de John. – Não? – perguntou John, fingindo estar confuso. – Vocês não estão esquecendo que eu tinha um assunto sobre o qual gostaria de conversar?


Zoë encolheu os ombros e tomou outro gole de sua água. – Não, não esqueci. É que você não parece tão chateada, por isso achei que já tinha superado quando chegamos aqui – disse, esticando seu braço por trás da minha cadeira e dando tapinhas carinhosos no ombro de Sophie. – Como você sempre faz. Sophie concordou com a cabeça. – Eu sei, eu sei. Às vezes, exagero. John olhou para o lado e deixou escapar as palavras “exagero é pouco”. – Na verdade – começou Sophie, atraindo nossa atenção –, chamei vocês aqui hoje porque eu tenho uma boa notícia. Olhamos para ela com curiosidade. Meu primeiro pensamento foi que tinha sido promovida. Ela vinha aguardando isso no trabalho há mais de um ano, e era sempre adiado por causa de... – Eric e eu ficamos noivos! Meus pensamentos foram subitamente interrompidos quando as palavras dela me atropelaram com a força de um caminhão gigante. Eu não conseguia digeri-las, muito menos entender o que estavam sugerindo. Fiquei olhando, incrédula, imaginando se tinha entendido mal. Não, na verdade, eu certamente tinha entendido mal. Aí ouvi John e Zoë gritarem e, pelo menos, outras cinco mesas se viraram para ver se alguém tinha sido assassinado ou visto uma celebridade. Afinal, num restaurante de Los Angeles, nada além disso justificaria a interrupção de um brunch. Continuei pasma, com o queixo completamente caído, sem saber o que pensar. Tentei descobrir do que diabos ela estava falando. Pensei ter ouvido a palavra “noivos”, mas não podia ter sido isso. Meus amigos não ficavam noivos. Ela tirou a mão direita de baixo da mesa, onde, pelo jeito, vinha escondendo-a desde que entramos e mostrou-a para que todo mundo pudesse ver o enorme diamante que brilhava quase tanto quanto o rosto dela. Zoë agiu na hora, inclinando-se por cima de mim para ver melhor a aliança, empurrando meu corpo contra minha cadeira. Fiquei parada, afastando-me o máximo possível da mesa para evitar uma chicotada do cabelo loiro, comprido e solto de Zoë. Porém, o mais importante era evitar a grande pedra ameaçadora que parecia estar se aproximando a cada gesto da mão de Sophie. Fiquei observando todo o espetáculo se realizar na minha frente como um velho filme preto e branco passando num cinema silencioso: imagens sem sons, rostos mudos articulando palavras de felicitação e alegria. Contudo, por algum motivo, fiquei totalmente incapaz de participar. – Jen – ouvi a voz de Sophie vir de um grande túnel de vento e, de repente, todos os murmúrios e zumbidos que eu estava ouvindo desapareceram. Pisquei. – Quê? – O que houve? Olhei para a frente e vi os rostos de Zoë e Sophie olhando para mim de trás do


gigantesco diamante. Zoë estava agora atrás da cadeira de Sophie para ver mais de perto. – Eu... hã, achei que você não ia conseguir vê-lo este fim de semana – falei sem força. O rosto de Sophie brilhou ainda mais. – Pois é! Mas foi tudo tramado para me pegar de surpresa. Ele apareceu ontem à noite e me surpreendeu! – Nossa – soltou Zoë, lacônica. Ela geralmente falava pouco quando queria ser mais dramática ou expressar algo extremamente grotesco ou impressionante; ou também para economizar tempo. – Como ele fez o pedido? O rosto radiante de Sophie não se apagou por um instante sequer. – Bem, eu estava sentada em casa, sozinha, bravíssima porque ele não atendia o celular, que estava desligado. E achei que ele tinha desligado porque havia saído para beber com os amigos idiotas do hospital. Zoë e John assentiram com ansiedade, querendo mais, como se estivessem presos numa ilha deserta e os detalhes do pedido de casamento fossem sua única esperança de sobreviver. – E aí a campainha tocou. Eu não tinha a menor ideia de quem podia ser. Ninguém nunca toca minha campainha, a não ser a zeladora quando vem entregar um pacote – contou com a voz rápida e animada. A cada palavra, seus olhos se iluminavam como fogos de artifício. – E eu quase não abri, porque quando espiei pelo olho mágico, não havia ninguém do lado de fora. – Isso está ficando bom – confirmou Zoë, incitando-a. Sophie sorriu e prosseguiu. – Mas não dei bola, talvez fosse um pacote que ela esquecera de me entregar antes. Por isso, abri a porta. – E ele estava lá! – exclamou Zoë, bastante orgulhosa de sua capacidade analítica e investigativa para concluir a história antes que fosse totalmente revelada ao público. – Sim! – exclamou Sophie. – Ele estava lá! Ajoelhado, segurando a aliança! John e Zoë trocaram um olhar sentimental digno de um verdadeiro romance de Hollywood. – Foi por isso que não vi ninguém pelo olho mágico – explicou Sophie. – Porque ele estava ajoelhado! – Zoë declarou o óbvio em tom super piegas que eu raramente ouvia dela a não ser que estivesse debochando de uma novela, um reality show ou de uma colega de trabalho que detestava por ser “feminina demais”. – Exato – respondeu Sophie no mesmo tom. Os três soltaram simultaneamente um suspiro emocionado e, então, ao perceber minha falta de participação, viraram-se e olharam para mim, com a mesma expressão irritante e questionadora estampada na cara. Era como se fossem um grupo de cientistas que examinavam uma nova espécie alienígena de um planeta onde, evidentemente, a palavra “noivado” não existia na língua nativa ou na forma de comunicação telepática.


Olhei indiferente para o menu fechado na minha frente. – Jen? – implorou Sophie. – Qual é o problema? Olhei para ela, espantada. – Hã? Nada. – Como assim “nada”? Vou me casar e você não teve reação nenhuma! A verdade era que eu não sabia como reagir, como pensar. Até então, os únicos casamentos e noivados da minha vida foram os que eu tinha revelado como sendo fraudes – não o que estava sendo planejado pela minha melhor amiga. Porém, para a conversa atual, essa certamente não era uma explicação viável para o meu comportamento estranho. – Me desculpe – falei, tentando dissipar o espanto. – Acho que eu estava simplesmente em choque. Parabéns! A careta de confusão de Sophie lentamente se transformou em outro sorriso radiante quando dei um abraço nela. – Fantástico, querida. Que bom para você. Você conseguiu amarrar o bode nele – parabenizou John. – Obrigada – disse Sophie, virando-se para cada um de nós, com seu sorriso bobo e apaixonado mais evidente do que nunca. Admito que foi maravilhoso vê-la tão feliz. Porém, alguma coisa não me permitia ficar feliz por ela – e isso estava me corroendo por dentro. Eu queria dar pulinhos e gritinhos com o mesmo contentamento de Zoë, e até de John. Afinal de contas, eu era a melhor amiga dela. Éramos as melhores amigas desde a 3ª série. Se alguém tinha que ter manifestado algum tipo de ritual de pulos de comemoração, era eu. Contudo, parecia que havia pesos nos meus pés e tijolos nos meus ombros, prendendo-me ao chão, obrigandome a demonstrar uma performance hábil e muito bem sincronizada de emoções forjadas, como qualquer outro dia da minha vida, desempenhando o papel de comissária, empresária solitária, universitária festeira, nerd irresistível, sedutora implacável – e agora, pelo jeito, também a melhor amiga contentíssima. Porém, o problema era por aquilo ser uma coisa que nunca achei ter que fingir. Embora meus amigos não soubessem o que eu realmente fazia em todas essas viagens a negócios, eu ainda me sentia como se pudesse ser eu mesma com eles. Eu ainda me sentia como se fossem os únicos que realmente me conheciam. Sempre houve uma mentira ou outra, um punhado de desculpas inofensivas para explicar por que minha empregada limpava minha mala com desinfetante ou por que eu nunca podia falar no celular do trabalho quando estavam por perto, mas nunca tive que agir como outra pessoa; com eles, nunca tive que fingir. Logo, o garçom chegou à mesa e, enquanto eu observava Sophie pedir seus ovos beneditinos de sempre, percebi que uma coisa havia mudado em todos nós, que nosso grupo nunca mais seria o mesmo: Sophie estava noiva, ela ia se casar e tinha uma aliança para provar. Tudo ficaria diferente dali em diante. Ela iria morar com ele, eles


comprariam uma casa juntos. E aí, do nada, viraria “nós” gostaríamos que viesse para um churrasco; “nós” adoraríamos que nos encontrasse para tomar uns drinques; “nós” ainda não decidimos em qual creche colocar o bebê. Entretanto, por mais que eu quisesse acreditar, sabia que um medo de mudança não era o verdadeiro motivo de eu não conseguir ficar feliz por ela. Era outra coisa, algo muito mais obscuro, e eu certamente não ia deixá-lo transparecer e estragar o brunch animado de todos. Por isso, assim que o garçom se foi, estampei um sorriso de melhor amiga contente na minha cara e, em tom de ansiedade, consegui ajudar Zoë a fazer todas as perguntas obrigatórias depois de um anúncio de noivado. Uma hora depois, eu me despedi de Zoë e de John enquanto o manobrista trazia o carro dela, observando-a entregar o ticket e uma gorjeta antes de ir embora. Sophie e eu ficamos paradas, em silêncio, esperando nossa vez de repetir a conhecida rotina dos estacionamentos de Los Angeles. Fiquei olhando para os meus pés, tentando desesperadamente evitar reconhecer o silêncio que havia ficado constrangedor pela primeira vez em vinte anos. De dentro da bolsa, tirei uma nota de cinco dólares, pronta para dar a gorjeta ao manobrista assim que ele apareceu com o meu Range Rover. E, quando não aguentava mais o silêncio, resolvi quebrar o gelo: – Então, quando é que vou finalmente conhecer esse seu bom moço judeu? – perguntei com um forte sotaque de Nova York, imitando a avó autoritária de Sophie como fazíamos desde o ensino fundamental. Normalmente, nessa hora, Sophie costumava rir histericamente do que ela chamava de meu “sotaque judeu gói” ou também fazer uma imitação muito boa da avó. Mas hoje não foi assim. Em vez disso, ela soltou ansiosamente: – Preciso conversar com você. E ali estava: a urgência, a paranoia, a Sophie neurótica que eu conhecia e amava finalmente tinha voltado depois de umas curtas férias durante um brunch na ilha da felicidade despreocupada pós-noivado. – O que foi? Ela me puxou para nos afastarmos do meio-fio. Seus olhos viravam de um lado a outro como se estivesse verificando a proximidade de espiões ou grampos escondidos. – É meio, bem... pouco convencional – ela começou cautelosamente. – E, quando eu lhe contar, não quero que surte. Estive pensando nisso por um tempo e, desde o noivado ontem à noite, tomei uma decisão e vou até o fim com ela. Franzi minha testa e olhei para ela, intrigada. – Do que diabos está falando? Você vai entrar para a CIA? Sophie olhou novamente em volta, desconfiada. – Não. É que você sabe como eu sou paranoica... com Eric e tal. Suspirei.


– Sim, mas ele a pediu em casamento ontem. Você disse que ele vai se mudar para cá depois que terminar a residência. Acho que as intenções dele já devem estar bem claras a essa altura. As palavras estavam saindo da minha boca, perfeitamente ensaiadas com impecável pronúncia e indiscutível sinceridade e, mesmo assim, pela primeira vez, tive muita dificuldade de acreditar nelas. – O que apenas torna isso mais crítico – afirmou. – Você está falando em código. Não estou entendendo aonde quer chegar. Ela baixou os olhos, quase com vergonha, e depois tirou lentamente da bolsa um pequenino pedaço de papel dobrado. – Tem uma mulher no trabalho – começou ela, relutante. – Eu estava conversando com ela um dia no almoço... sobre Eric. Assenti com a cabeça. – E ela me contou uma história... – ela fez uma pausa e começou a abrir o papel – ... sobre uma grande amiga dela que contratou uma pessoa, uma... especialista. Senti o sangue das minhas veias congelarem. Cada centímetro da minha pele se arrepiou na hora. De repente, fiquei contente por ter escolhido uma roupa larga e frouxa. Era a única coisa que ocultava o repentino terror que tomara conta de mim. – Que tipo de especialista? – perguntei vagamente, embora tivesse uma leve suspeita de que sabia exatamente a que tipo ela estava se referindo, um tipo que eu conhecia bem, muito bem. Bem demais. Sophie respirou fundo e olhou para mim com olhos cheios de remorso, como se estivesse se desculpando antecipadamente pela inevitável decepção que eu ia ter com ela, como se ela finalmente tivesse cedido à pressão das curiosidades de sua insegurança – e ela sabia disso. – Bem, ela chamou de “inspetora de fidelidade”. Fechei meus olhos e assenti dolorosamente, pois o conhecido título subitamente parecia... bem, não tão conhecido, chegava a ser estranho – e frio, muito, muito frio. Quando abri meus olhos novamente, Sophie tinha terminado de abrir o pedaço de papel que estava segurando. Eu nem tinha notado o valet parado na frente do meu Range Rover, abanando para mim, tentando chamar minha atenção, porque eu estava completamente enfeitiçada pelas letras e números que pareciam saltar do papel na minha frente, atacando o centro do meu sistema nervoso. Chegava a ser engraçado. Na verdade, eu nunca tinha visto com meus próprios olhos antes, embora soubesse que pedaços de papel como esse existiam por toda a cidade, até mesmo pelo país. Contudo, ironicamente, eu estava vendo um pela primeiríssima vez. Ashlyn 310-555-2120


7 Intervenção – Jen! – a voz de Sophie me acordou do que eu torcia para ser um sonho. Pisquei e olhei para o pedaço de papel na minha mão pela terceira vez. Não era um sonho. Ali estava meu nome, minha identidade secreta, clara como o dia. E logo abaixo estava o número do meu celular de trabalho. Ele tinha voltado para me assombrar. Meu negócio “exclusivamente por indicação” não estava só ali na minha cara: ele estava tocando fundo em mim, na minha melhor amiga, na minha vida. Para mim, era tudo tão surreal que nem dava para tentar digerir. Eu tinha certeza de apenas uma coisa a fazer. – Está doida? Você não está pensando em ligar para essa pessoa, né? – perguntei com a voz tensa e aflita. – Você nem sabe o que ela faz. Minha amiga disse que os serviços dela são valiosíssimos. Ri com deboche. – Dá para imaginar o que ela faz. Assim que as palavras saíram da minha boca, eu me senti culpada por trair a mim mesma. Sophie pegou o papel das minhas mãos e o examinou. – É uma espécie de teste disfarçado. Observei ela entrar num estado de meditação enquanto passava os dedos pelas letras escritas no papel. – Ashlyn – leu em voz alta. – É um nome bonito. Ouvir aquele nome sair dos lábios de Sophie me deu calafrios. Ela olhou para mim. – Parece que ela é muito boa em... Imediatamente arranquei o papel dela e o amassei. – Isso é loucura! – Ei! – disse ela tentando pegar o papelzinho. Parecia que éramos duas criancinhas disputando o último pedaço de chocolate do pote da vovó. – O que está fazendo? Pela confusão nos olhos de Sophie, pude notar que ela estava pensando que eu era a louca – e a verdade era que, naquele momento, ela provavelmente tinha razão. Meu coração estava disparado e pude sentir meu corpo começando a entrar em pânico. Meus olhos voltaram-se ao balcão do valet, onde vi uma pequena lata de lixo preta. Dei um passo largo e joguei o papel no lixo. – Estou evitando que faça algo de que vai se arrepender. Sophie colocou as mãos na cintura e olhou para mim. – Algo de que vou me arrepender? Você não acha que vou me arrepender se me casar


com alguém que talvez um dia me traia? As palavras dela voltaram a congelar meu sangue e parecia que alguém tinha me trancado dentro de um frigorífico. Esse era exatamente o motivo pelo qual eu fazia esse trabalho: para evitar o arrependimento, oferecer respostas àquelas que queriam, àquelas que precisavam – mulheres como Sophie. Porém, essas mulheres não eram Sophie. Essa era a diferença. Elas não tinham nome, praticamente não tinham rosto. Eram fáceis de esquecer – bem, quase. Eu não podia deixar minha melhor amiga passar pelo que eu tinha visto tantas mulheres passarem. Sem chance. Além do mais, Eric nem era do tipo que traía. Eu tinha quase certeza disso. Era verdade que não o conhecia em pessoa, mas eu tinha um sexto sentido quanto a esse tipo de coisa, mesmo à distância. Eu tinha um superpoder, pô! Entretanto, quanto mais eu tentava ignorar o fato, mais ele me assombrava: o verdadeiro motivo de eu ter jogado aquele número fora, que era um motivo muito egoísta. Sophie não podia saber nem descobrir. Eu tinha que manter o segredo, e jogar aquela coisa no lixo mais próximo era o único jeito que eu conhecia. – Senhorita – veio uma voz da minha esquerda. Olhei e vi que era um dos manobristas em seu casaco vermelho fazendo gesto para o meu carro. – Seu carro está aqui – disse em tom aborrecido. – Um minuto! – devolvi, fazendo-o se retrair um pouco e se afastar. Sophie lançou um olhar de preocupação. – Jen, o que está acontecendo com você? Mordi meu lábio e tentei sorrir. – Como assim? Mas quem é que eu estava querendo enganar? Sabia muito bem que não estava tapeando ninguém. – Primeiro, você não reage ao anúncio do meu noivado, depois surta quando conto que quero contratar alguém para me certificar de que Eric é um cara confiável antes de me casar com ele, e agora está gritando com um pobre e inocente manobristas por nenhum motivo aparente. Essa definitivamente não é você. Ela tinha razão. Não era eu. Eu não sabia quem diabos era. Respirei fundo. – Me desculpe, tenho andado muito estressada no trabalho – menti rapidamente. Ah, sim, o bode expiatório do trabalho volta a salvar o dia. – Olhe, vamos conversar mais sobre isso depois. É muita informação para digerir de uma só vez. Preciso de tempo. – Tudo bem... – a voz dela se esvaiu com incerteza. – Apenas prometa que não fará nada nem ligará para ninguém até que tenhamos conversado sobre isso. Sophie baixou a cabeça e ficou mexendo em seu ticket do valet. – Prometa! – Está bem, eu prometo – ela finalmente cedeu. Houve um momento de silêncio constrangedor entre nós enquanto eu tentava me


recompor. – Já sei! Vamos nos reunir para uns drinques hoje à noite e comemorar seu noivado! A menção de seu noivado imediatamente voltou a iluminar seu rosto, e ela sorriu. – Excelente! Estou dentro! – Ótimo! – exclamei, forçando cada pitada de animação que pude reunir na minha voz. – Você pode trazer Eric! Finalmente vou poder conhecê-lo... Seu rosto se fechou de novo, e ela balançou a cabeça negativamente. – Eric foi embora hoje de manhã. Ele tinha mesmo que trabalhar este fim de semana. – Oh. – Mas ele vai me pagar uma passagem para ir lá no próximo fim de semana – acrescentou esperançosa. Pousei minha mão no ombro dela. – Bem, isso é uma notícia boa. Ela concordou com a cabeça. – Mas nós ainda podemos sair. – Claro. Vou ligar para Zoë e John a caminho de casa e vamos nos encontrar. Porém, eu não liguei para eles a caminho de casa. Minha cabeça estava girando mais rápido que um furacão, e meus pensamentos pareciam tão destruidores quanto um. Uma grande crise tinha sido evitada, pelo menos temporariamente. Como é que eu convenceria Sophie de não levar essa ideia adiante? Ou será que eu deveria ao menos tentar? Meu encontro com Roger Ireland alguns dias atrás estava se repetindo sem parar dentro da minha cabeça. Ouvi minha própria voz tocando infinitamente: “o ideal é testálos antes que se casem. Se todas as minhas clientes tivessem feito isso, talvez eu não veria metade das coisas que vi”. Sophie estava fazendo exatamente o que eu a teria aconselhado a fazer se ela fosse, bem, outra pessoa. Pensei nas minha opções. A primeira era simplesmente contar a verdade. Esse é o meu trabalho. Aquele número naquele pedaço de papel é meu, e tenho levado uma vida dupla: a minha e a de uma mulher imaginária chamada “Ashlyn”. Isso certamente resolveria o problema de ter que assistir à minha amiga levar adiante algo tão estressante quanto uma prova de fidelidade. De jeito nenhum ela iria querer que eu testasse seu noivo. Isso era óbvio. Mas será que eu estava preparada para que ela soubesse? Será que ela entenderia? Será que me perdoaria por guardar isso em segredo por mais de dois anos? E será que eu teria de contar aos outros também? A Zoë? A John? Só essa ideia já me deixava mal. Segui para a segunda opção: convencê-la a não levar a ideia adiante. Eric é um homem confiável; ele nunca a trairia. É uma ideia ridícula! Essa parecia ser uma opção mais viável, mas exigiria mais mentiras, e não das pequenininhas e inofensivas do tipo “estou em Boston porque uma empresa está no meio de uma aquisição bilionária e seus


investidores acabaram de dar para trás”. Não mesmo. Essas mentiras seriam muito maiores, porque iam contra tudo em que eu acreditava, tudo o que eu defendia. E, mesmo que eu tentasse persuadi-la a simplesmente abandonar a ideia, quem disse que ela ia me dar ouvidos? Ninguém sabe melhor que eu que a confiança não é uma coisa que dá para convencer alguém a ter. É algo que se deve procurar dentro de si e, no fim das contas, a maioria das pessoas simplesmente contrata alguém como eu. É claro que eu poderia usar a terceira opção, mas acho que exigiria que eu criasse uma terceira opção – e, até então, eu não tinha nada, por isso essa ideia fracassou. Quando cheguei em casa, já tinha tomado uma decisão. Aquele papelzinho destrutivo estava no lixo, mas isso não significava nada. Ela tinha conseguido o número uma vez; se quisesse, poderia facilmente consegui-lo de novo. Eu só tinha que falar com ela primeiro, explicar e torcer para que entendesse – e hoje à noite era o momento perfeito para fazêlo. Liguei para Zoë e John e falei para nos encontrarem no nosso bar preferido às 22h. Depois, liguei para Sophie e falei para ela me encontrar às 21h. Uma hora seria suficiente para ter sucesso. Ei, se eu posso convencer um diretor-presidente de quarenta anos de um famoso fabricante de motores que eu sabia como uma vela de ignição funcionava, deveria ser capaz de convencer minha melhor amiga do que estava prestes a lhe contar. “Deveria”, é claro, era a palavra-chave. Sophie e eu encontramos uma mesa tranquila no fundo do Jayes Martini Lounge, um bar chique em Brentwood que recentemente havia substituído o nosso antigo ponto de encontro depois que Zoë insistiu que ele tinha sido invadido por “HFBTs” (Homens Festeiros, Bêbados e Tarados). Além do mais, o Jayes oferecia um leque muito mais amplo de bebidinhas divertidas cheias de fru-frus que certamente faria James Bond ter arrepios. Sophie sentou-se na mesa e olhou desconcertada para a entrada. Verificou o relógio. – Por que será que eles não chegaram ainda? – Na verdade – falei, sentando-me à sua frente –, falei para virem mais tarde. Tem uma coisa que quero conversar com você. Sophie colocou sua bolsinha verde-limão ao lado, depois colocou seu drinque na mesa e arrumou-o perfeitamente para que ficasse bem centralizado entre seus ombros. Por fim, olhou para mim, pronta para o que quer que estivesse por vir... ou, pelo menos, ela achou que era isso. – O que foi? – É sobre antes – comecei –, o nome e o número que você me mostrou. Ela assentiu. – Que você jogou no lixo. Sorri. – É, esse mesmo.


– O que tem? – Bem... – engoli em seco, seja o que Deus quiser. – Tem uma coisa que você não sabe sobre mim. Sophie riu alto, o que soou mais como um deboche. – Jen, eu a conheço desde que tínhamos oito anos. Sei tudo sobre você. Quase tremi. Suas palavras doeram e dificultaram muito mais o que eu estava prestes a fazer. – Bem, você não sabe disso – falei com sinceridade. A seriedade na minha voz imediatamente chamou sua atenção e a prendeu. Ela se inclinou mais perto e aguardou. – Sabe aquela, bem, habilidade que eu tenho? – De decifrar os homens? – disse Sophie prontamente. Foi assim que ela e Zoë a apelidaram carinhosamente muito tempo atrás, quando descobri que eu tinha esse dom, embora hoje parecesse mais uma maldição. – Sim, isso – falei, respirando fundo. – Bem, ultimamente, ela tem sido, digamos, “aprimorada”. E agora é mais do que apenas um, sabe, truque de festa. Ela é, bem, é muito precisa. Pude sentir um grunhido crescendo na minha garganta. Eu parecia uma daquelas videntes malucas que andam em Venice Beach tentando convencer algum turista ingênuo a acreditar nas minhas habilidades de leitura da mente. Era patético. Sophie franziu a testa. – Como assim? Gaguejei, buscando as palavras certas, mas elas não vinham. Era quase como se nem existissem. A língua simplesmente não fora projetada para explicar uma coisa dessas para a melhor amiga. – Foda-se! – eu finalmente disse. – Sei com certeza que Eric não é o tipo que trai, e é só. Soltei uma grande suspiro e depois observei cuidadosamente a reação de Sophie, esperando algum indício de convicção. Ela olhou para baixo e encostou o dedo na espuma de seu Orange Dream Martini. Sua ausência de palavras me fez sentir obrigada a acrescentar mais das minhas, muito mais: – Apenas confie em mim. Como eu disse, dificilmente erro em relação a homens, você sabe disso! Você não precisa levar adiante essa bobagem de coisa de fidelidade. É totalmente inútil – eu estava começando a tagarelar. – Ele vai passar nesse suposto “teste disfarçado” com louvor, e aí você vai ter de esconder para sempre o fato de ter mandado uma profissional espioná-lo porque não confiava nele! Você não vai querer começar esse casamento com o pé esquerdo, não é? – Você nem o conheceu ainda. Como pode ter tanta certeza? Hesitei, procurando por ajuda no recinto, qualquer tipo de ajuda. – Eu... eu... eu... nunca conheci... aquele cara – falei, rapidamente apontando para um


homem que estava no balcão tentando conversar com uma moça oriental alta e bonita, sem sucesso. – E aposto como consigo decifrá-lo. Sophie olhou para o homem do balcão, depois voltou a se virar para mim e, incrédula, cruzou os braços. – Está bem. Virei-me na cadeira e observei o indivíduo de calça preta e camisa cinza. Examinei-o exatamente como analisaria o marido ou namorado de uma cliente, procurando cada mínimo detalhe, gestos pequenos e imperceptíveis. Geralmente não tinha método para essa loucura; as respostas simplesmente vinham a mim, quase como mágica. – Bem, para começar, ele gosta de mulheres orientais. Sophie revirou os olhos. – Ah, vá. Isso é meio óbvio. Eu poderia ter falado isso, e não sei nada sobre homens. Ergui uma mão. – Sim, mas você seria capaz de me dizer que ele nunca saiu com uma antes? A expressão de suspeita de Sophie foi se transformando em um fascínio dissimulado, e eu sabia que tinha que continuar falando. – Essa é uma obsessão relativamente nova dele. Ele sempre gostou de mulheres brancas de aparência clássica: loira, olhos azuis, o de sempre. Na verdade, ele nunca tinha dado atenção para orientais, mas é provável que tenha assistido recentemente a Memórias de uma Gueixa ou algum outro filme que tivesse uma linda mulher oriental e aí, do nada, ficou pensando por que nunca havia reparado nelas antes. Por isso, pouco tempo depois, resolveu que começaria a tentar a sorte com orientais, em parte porque agora enxergava como eram lindas, mas mais porque ele nunca teve nenhum sucesso com as loiras. Ele frequenta bares pelo menos duas vezes por semana para tentar conhecer mulheres, mas, na maioria das vezes, é um esforço em vão, pois não sabe conversar com elas. Ao tentar impressionar as mulheres, ele acaba soando ansioso ou arrogante demais, porque essas são as únicas estratégias que conhece. Respirei fundo e me recostei na cadeira. Eu sabia que estava certa. Só esperava que Sophie também soubesse disso. Ela ficou olhando para mim, com o queixo caído. – Você tem treinado? – ela falou lenta e cautelosamente, como se eu fosse uma bruxa maluca e instável conhecida por retalhar as pessoas e usá-las como recheio de tortas quando provocada. Dei um gole no meu Chocolate Mint Martini e evitei contato visual. – Não, acho que é só uma coisa que avançou com a idade, como calvície. Sophie continuou olhando para o homem, que agora estava sozinho no balcão depois de a oriental prontamente tê-lo rejeitado e ido para a sala ao lado. – Mas como é que você sabe que está certa? E, assim, levantei-me do meu assento, sem nada a perder; exceto, talvez, minha melhor amiga, se esse plano não desse certo. – Vou provar para você.


Incrédula, Sophie observou a partir da mesa eu me dirigir até o homem, cutucar o ombro dele, apresentar-me para ele e educadamente convidá-lo para se sentar à nossa mesa com um sorriso singelo. Ele me seguiu prontamente e fiquei em pé, ao lado dele, na frente da mesa. – Sophie, este é Brad. Brad, esta é minha amiga Sophie. Eles trocaram um aperto de mão, e Sophie me olhou, dando a entender que não tinha confiança na minha sanidade mental. – Brad – comecei animada –, Sophie e eu estávamos pensando se podíamos lhe fazer uma pergunta. Sabe, para ter uma opinião masculina. O homem olhou apreensivo para mim e depois para Sophie, sem saber do que se tratava, mas relativamente seguro de que não queria se afastar de duas mulheres bonitas que, por algum motivo, o escolheram na multidão para ajudá-las a satisfazer sua curiosidade. – Claro – respondeu ele cautelosamente. – Ótimo – falei, dando uma apertadinha sedutora no braço dele. – Bem, vimos você conversando com aquela linda oriental alguns minutos atrás e começamos a falar sobre caras que gostam de orientais. Estávamos pensando no motivo, se era por causa de sua aparência exótica ou por causa de... – minha voz foi sumindo, sabendo muito bem que ele me interromperia. E foi o que fez. – Na verdade – ele começou. – Sim? – Talvez eu não seja a melhor pessoa para responder. Minha atração por orientais é recente e, a julgar pelo jeito como aquela me rejeitou, não sei se isso vai durar muito tempo – ele riu, tentando esconder seu sentimento de rejeição. Olhei para Sophie com uma cara de “não falei?” e aí minha atenção voltou para minha inocente cobaia. – Sério? Por quê? O homem ficou passando seu drinque de uma mão para outra. – Bem, a verdade é que... eu aluguei O Clã das Adagas Voadoras e... Eu me espantei e agarrei o braço de Brad. – Zhang Ziyi não é lindíssima? Sophie olhou para mim desconfiada e aí Brad soltou um suspiro orgásmico. – Sim! Ela é... maravilhosa. Na verdade, não conte para ninguém, mas Memórias de uma Gueixa está na minha fila de filmes a assistir. O queixo de Sophie caiu novamente, e ela balançou a cabeça para mim sem acreditar. Brad continuou falando. – Não é o tipo de filme a que costumo assistir, mas... – Bem, isso é tudo o que queríamos saber – falei, dando um grande tapa nas costas dele e voltando a me sentar na frente de Sophie. – Obrigada por nos ajudar. Brad nos observou, certo de que não sabia parte da história. Ele abriu a boca para


falar, mas, ao pensar duas vezes, resolveu que talvez não quisesse saber, e ele definitivamente não entenderia. Na cabeça dele, ele atribuiria a “Mulheres são de Vênus” e seria o fim da história. Ele acenou positivamente com a cabeça. – Que bom que pude ajudar – ele disse, meio aborrecido, e aí voltou para o balcão para outra rodada de rejeição. – E aí? – falei para Sophie depois que Brad já estava longe. Sophie fechou os olhos e se rendeu com uma risada: – Uau, Jen. Tudo o que posso dizer é “uau”! – Então agora você acredita em mim quando digo que Eric é confiável e que você deveria repensar nesse negócio ridículo de teste? – Que negócio de teste? – nessa hora, a voz de Zoë surgiu acima da mesa. Olhei e vi que ela estava em pé a alguns centímetros de onde o confuso Brad estivera alguns instantes atrás. Verifiquei meu relógio. Droga, ela tinha chegado cedo. – Nada – respondi rapidamente. – Pensei que iríamos nos encontrar às 22h. Zoë se sentou ao lado de Sophie. – Me desculpe – disse ela, soando ofendida. – Não sabia que esta conversa era E.C. (exclusiva para convidados). Suspirei e olhei para Sophie. – Não era. Sophie e eu acabamos de chegar. Zoë sorriu para nós, completamente alheia a qualquer coisa que tenha acontecido antes de ela chegar. Ela esticou a cabeça e deu uma olhada pelo bar. – Cadê o garçom? Quero pedir um drinque. Lancei um olhar de súplica para Sophie. – Vou pensar no caso – ela falou baixinho. Zoë virou-se de volta e imediatamente pediu para ver a aliança de Sophie de novo, como se pudesse ter mudado de cor ou forma desde que a viu pela manhã. Eu sabia que nossa conversa reservada tinha oficialmente terminado. Agora estava tudo nas mãos de Sophie. Eu apenas esperava ter surtido efeito, grande o suficiente para manter o segredo. John chegou pouco depois das 22h e, depois de Sophie ter contado exageradamente a minha história “notável” de decifrar os homens, passaram o resto da noite apontando pessoas no bar e pedindo para eu descrever relutantemente suas histórias de vida. Eu me senti como uma espécie de espetáculo num circo dos horrores. – Ela conseguiu de novo! – exclamou Zoë, depois de voltar do balcão, enviada por John e Sophie para confirmar ou desmentir minha mais recente análise, do alto e sensual barman. – Ele é estudante de pós-graduação? – perguntou Sophie ansiosa. Zoë fez que sim.


– Está fazendo Mestrado em Psicologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Eles se viraram para mim, olhando com espanto. – Como sabia que era nessa universidade? – perguntou Sophie maravilhada. De repente, fiquei imaginando se contar sobre meu “superpoder” aprimorado para Sophie tinha sido uma boa ideia. Minha intenção era que fosse simplesmente uma ferramenta de persuasão para convencê-la a não contratar, bem, a mim para testar seu noivo, mas agora estava fugindo do controle. Eu estava começando a me preocupar que meus amigos soubessem demais e talvez começassem a ficar desconfiados. – E como sabia que ele não era apenas um ator? – perguntou John rapidamente em seguida. – Achei que todos os barmen de Los Angeles fossem atores. Suspirei profundamente e comecei outra explicação, a quarta da noite. – Olhe para ele. Ele definitivamente não é ator. Veja a maneira como se porta. Não está aqui para aparecer: ele tem um propósito. Tem muito mais para oferecer ao mundo do que um rosto bonito e a capacidade de tirar a camisa na frente da câmera. Trabalhar como barman também é o emprego perfeito para estudantes, porque permite que trabalhem à noite, e ele é velho demais para ser aluno de graduação. Sobrou a pósgraduação. Simultaneamente, meus três amigos se viraram e observaram o barman enquanto ele servia um drinque para um homem. – E o fato de trabalhar aqui – continuei –, em Brentwood, em vez de trabalhar no centro ou em Hollywood, significa que provavelmente não estuda na Universidade do Sul da Califórnia. É um trajeto grande demais para chegar no trabalho às 18h. Sobrou a UCLA. Eles se viraram de novo e olharam para mim. Tentei minimizar o fato. – Na verdade, é só um processo básico de eliminação. – PQP, amiga! – disse Zoë, balançando a cabeça sem acreditar. Sophie olhou para mim buscando uma tradução. – Puta que o pariu – esclareceu Zoë, erguendo as sobrancelhas com impaciência. Ela odiava ter que falar frases completas; gastava muito de seu precioso tempo. As siglas eram muito mais eficientes; bem, pressupondo que todo mundo sabia o que significavam. – Afinal, eu sempre soube que você tinha um dom, mas isso é realmente impressionante – prosseguiu Zoë, com os olhos arregalados de entusiasmo. Não dei importância e tentei pensar num jeito inteligente de mudar de assunto. Porém, a julgar pelas caras de assombro dos meus amigos, eu sabia que não seria fácil. – Acho que é uma coisa que aprendi – falei, inclinando a cabeça para trás e mandando o resto do meu martíni goela abaixo. – Podia ter pelo menos um jeito de você ganhar dinheiro fazendo isso – observou Zoë, fazendo a cabeça funcionar. Soltei uma risada fraca. – É, podia.


– Ou pelo menos achar alguém com quem sair de vez em quando – disse John bebendo seu Bahama-Mama Martini e piscando para mim. – Rá! Como se eu tivesse tempo para namorar. Sophie se esticou por cima da mesa e pousou sua mão suavemente sobre a minha. Senti o calor contrastando com meus dedos frios e suados. – Mas ele tem razão, Jen. Estamos mesmo começando a ficar preocupados. O clima da conversa subitamente ficou muito sombrio quando vi meus amigos concordando com a cabeça. Eu tinha uma leve suspeita de que uma emboscada estava por vir. – Como assim, preocupados? Até a voz de Zoë baixou para uma calma afetuosa. – Queremos dizer que você nunca sai com ninguém, isto é, nunca mesmo e sabemos que não é por falta de oportunidade. Já vi o jeito como os caras olham para você – falou, apontando para o resto do grupo. – Todos nós vimos, e estamos começando a pensar se isso tem a ver com algo além de não ter tempo. Fiquei defensiva na hora. – Tipo o quê? Sophie encolheu os ombros inocentemente. – É isso que estamos tentando descobrir. Pude sentir a raiva fervilhando no meu estômago. Eu estava começando a imaginar se sabia exatamente como George Washington se sentiu quando descobriu que Benedict Arnold estava trabalhando para os britânicos. – E daí? Vocês ficam sentados discutindo o motivo de eu não sair com ninguém? E aí ficam lançando ideias como uma equipe de redatores de seriado? Não têm nada melhor para fazer com o seu tempo do que analisar a minha ausência de vida amorosa? Sophie olhou para Zoë, indicando que havia suspeitado que eu fosse reagir desse jeito. – Tenho uma agenda muito ocupada, como todos vocês deveriam saber – eu me defendi. – E meu trabalho é muito importante para mim. Namorar é, de longe, a última coisa que passa pela minha cabeça. – Jen, querida, só estamos de olho porque nos importamos com você – interveio John com seu jeito tranquilizador de um gay no mundo de uma mulher hétero. – E é tarefa sua cuidar para não acabar como uma solteirona. Zoë segurou uma risada enquanto eu suspirava de frustração e revirava meus olhos. – Sério – pediu-me Sophie. – Você não sai com ninguém desde... desde... bem, eu nem lembro. Baixei meus olhos e fiquei olhando para o guardanapo encharcado embaixo do meu copo. – Você já parou para pensar que o fato de você não sair com ninguém tem a ver com outra coisa? – perguntou Sophie. Apoiei meu queixo na minha mão.


– Tipo...? Ela olhou para Zoë, que a encorajou com um aceno de cabeça. Sophie respirou fundo. – Tipo seus pais. Um caroço se formou quase que instantaneamente na minha garganta. Pude sentir as lágrimas se formando nos meus olhos. Rapidamente, olhei para o outro lado, piscando para evitar que escorressem. Ela tinha metido o dedo na ferida, bem no meio, e nem sabia disso. Ela nem sabia o que realmente significava. Se eu ia vencer essa discussão, teria de mantê-los afastados de tudo o que tinha a ver com a verdade, com aquele dia fatídico, quando minha vida normal de pré-adolescente tinha se transformado em outra coisa, algo com que nunca sonhara. Ouvi o som fraco do meu celular tocando e imediatamente meti a mão na bolsa para silenciá-lo, aborrecida com a bruta interrupção. Pude sentir minhas mãos começarem a tremer. Coloquei as mãos em cima da mesa e segurei com força o meu copo vazio para firmá-las. – Não tem nada a ver com os meus pais – falei baixo, mas com firmeza. Sabíamos que era mentira, um evidente e inconfundível desvio da verdadeira história. Porém, só eu sabia até onde ia a mentira. – Pense nisso, Jen – começou Sophie. – Três anos atrás, sua mãe se sentou com você e contou que seu pai a havia traído e que iriam se divorciar. E, do nada, você fica sem tempo para namorar. É um típico caso de... – Estou dizendo que não tem nada a ver com eles – interrompi, com a voz ficando severa. Sophie voltou a pegar na minha mão. – Jen, nem todos os homens traem. – Você está dizendo isso? – explodi, puxando minha mão. – Bem, pelo menos namorei! – ela respondeu, surpreendendo-me com o alto volume de sua voz. – Pelo menos, saí e me abri à possibilidade de ser vulnerável com alguém. – É, você é vulnerável mesmo, tão vulnerável que precisa contratar alguém para provar a si mesma de quão vulnerável realmente é! Zoë e John haviam sido oficialmente excluídos da conversa. Com o rabo do olho, pude ver suas cabeças indo e vindo como espectadores de uma partida de tênis. Não estavam mais alheios: definitivamente haviam perdido um fato importante. Porém, agora era bastante óbvio que nenhuma de nós queria que soubessem. Precisava ser idiota para querer se meter no que quer que isso fosse. – E você? – gritou Sophie. – Você não beija um cara há... nem sei há quanto tempo! Grunhi e mordi minha língua. Para o meu desgosto, eu ainda podia sentir o gosto de Andrew Thompson de algumas noites atrás. Sophie baixou o tom: – Jen, o que tanto a assusta? – Pelo jeito, não sou tão assustada tanto quanto você – murmurei meio baixinho. – Bem, seja o que for, acho que está impedindo que seja realmente feliz.


Pude sentir a raiva, o ressentimento e a frustração continuarem a crescer dentro de mim; e a pior parte era que eu sabia que não podia manifestar um décimo do que realmente queria dizer. – Como você sabe o que me deixa feliz? – resmunguei. Ainda bem que o burburinho de fundo do bar tinha suavizado minha explosão aparentemente injustificada. – Só porque não vivo para pôr uma pedra no meu dedo como você fez, não significa que não sou feliz! Sophie baixou a cabeça e ficou olhando para a mesa. Eu estava preocupada por talvez ter passado dos limites, ter falado demais. E, quando estava prestes a abrir minha boca para murmurar uma desculpa, ela cochichou: – Jen, você nem fala com o seu próprio pai... – Esta conversa acabou! Levantei e passei espremida por John até sair da mesa. Meus três amigos olhavam para mim com espanto, como se nem conseguissem me reconhecer. Mas eu não estava nem aí. Tinha um problema muito maior na cabeça: eu mal conseguia reconhecer a mim mesma. – Pela última vez: isso não tem nada a ver com meus pais. Depois disso, saí furiosa do bar. Fiquei sentada dentro do carro no estacionamento, pensando se deveria voltar e me desculpar pela minha explosão, me desculpar pelo que tinha dito a Sophie. Afinal de contas, eles só estavam preocupados comigo, não é mesmo? Não tinham como saber o que realmente estava acontecendo, pois não lhes contei. Fiquei olhando para a porta pelo meu para-brisas manchado, esperando que um rosto conhecido saísse, atravessasse a rua correndo até o estacionamento e entrasse no meu carro, exigindo uma explicação, a verdade. E eu tinha uma leve suspeita de que, naquele momento, eu lhes daria a verdade. Mas ninguém apareceu. Um grupo de mulheres bêbadas saiu, seguidas pelo mais novo membro do fã-clube de Zhang Ziyi; e depois nada, ninguém. Acho que uma terceira opção acabou existindo: gritar com Sophie na frente de todo mundo, acusá-la de ser vulnerável e medrosa demais e depois esperar que a dura abordagem surtisse efeito nela e ela mudasse de ideia quanto a buscar “ajuda” externa. Suspirei e dei partida no carro. Foi aí que notei uma luz vermelha piscando, vinda de dentro da minha bolsa. Era meu celular: eu tinha uma mensagem de voz. Com meu pé firme no freio, peguei meu celular e liguei para o correio de voz. Uma voz vagamente conhecida tocou: – Oi, é Clayton. Espero que se lembre de mim. Nós nos conhecemos na academia alguns dias atrás. Lembra, você estava fugindo do monstro. Bem, eu gostaria de lhe levar para tomar aquele smoothie... ou comer a barrinha de cereais... ou até mesmo uma refeição completa, se você estiver a fim. Retorne a ligação quando puder. Meu número é... Desliguei meu telefone e ri alto com toda a ironia da situação. O destino certamente


tinha um jeito engraçado de fazer lembrar o que precisava de conserto na vida – embora hoje tivesse sido mais uma chateação do que um delicado lembrete. Bem, quem diria?, pensei ao tirar o carro do estacionamento. Parece que, no fim das contas, vou acabar saindo com alguém.


8 Jogue adoçante em mim Não consegui dormir naquela noite. A voz de Sophie estava ecoando dentro da minha cabeça. Liguei o abajur do quarto e fiquei olhando para o meu telefone. Será que deveria ligar para ela? Afinal, não foi a primeira vez que brigamos em nossos vinte anos de amizade. Porém, esta vez era diferente: destacava-se de todas as vezes em que nos desentendemos sobre saias emprestadas, ligações não retornadas e abandonos de planos para sair com meninos. Ela tinha cutucado uma ferida e, por mais que eu tentasse, não conseguia me esquecer disso. Olhei para o relógio do celular. Era tarde demais para ligar mesmo. Além disso, por que seria eu a ligar? Ela também estava sendo insensata e insensível. Era ela quem deveria se desculpar primeiro. Não é? Ao deitar minha cabeça no travesseiro e olhar para o estuque branco do teto do meu apartamento de três quartos, comprado com meu próprio dinheiro suado, decorado com o meu intenso desejo de viver num mundo de brancura e clareza, a confusão começou aos poucos a aumentar, e as paredes começaram a se estreitar. Procurei me distrair tentando ver formas na organização aparentemente aleatória de cimento branco que cobria meu teto, como eu havia feito tantas vezes quando menina ao dormir com as luzes ligadas, buscando qualquer coisa que parecesse reconhecível e, portanto, significativo. Porém, após alguns minutos, eu sabia que não estava dando certo – e também sabia da única coisa que daria. Eu teria que dar mais uma olhada dentro da caixa. Virei de lado e abri a última gaveta da minha cômoda, a que servia para um único propósito: guardar o recipiente trancado a chave que estava ali dentro. Pus a mão na gaveta e retirei a pequena caixa de madeira que fora da minha mãe e, antes disso, da minha avó. Ela a guardava numa estante, num nicho no fundo do closet dos meus pais. Sempre gostei de sua aparência, sua textura e seu cheiro, do aroma distinto de cedro que saía toda vez que eu a abria. Era velha, gasta e macia ao toque. Eu não sabia que madeira podia ser tão macia. Quando era pequena, eu entrava de fininho no closet dos meus pais, girava cuidadosamente a chavezinha de latão que minha mãe deixava na fechadura e abria a caixa, revelando seu conteúdo. Minha mãe nunca guardou nada particularmente especial ou secreto na caixa. Havia algumas joias antigas, uma foto da minha bisavó e uma moeda velha cujo significado nunca foi totalmente explicado a mim. Porém, eu gostava do que sentia quando entrava sorrateiramente no closet para olhar dentro da caixa, como se estivesse revelando algo que não deveria ver. Eu fingia ser uma arqueóloga que se deparava com um grande


artefato perdido que, caso fosse revelado ao mundo, forneceria uma solução para anos de perguntas não respondidas e mistérios sem solução. Uma vez, minha mãe me pegou olhando dentro dela. E, conforme minha fantasia irreal, eu tinha certeza de que estaria em algum tipo de apuro, por ter sido pega no flagra, algo a ver com ser nova demais para conhecer essas verdades, inocente demais para ficar exposta a essas histórias que a caixa certamente continha. Contudo, ela apenas riu carinhosamente de mim e perguntou: – Mas por que está obcecada por essa caixa velha? Rapidamente fechei a tampa e encolhi os ombros, sentindo-me idiota e infantil por transformá-la em algo que obviamente não era. – Não sei. Apenas gosto dela – foi minha acanhada resposta. Posteriormente, minha mãe me deu a caixa de presente quando me formei na faculdade. – Sempre pareceu ter mais significado para você do que para mim – ela disse. Quando aceitei o presente com um sorriso de gratidão, o simples contato com ela trazia à tona todas as lembranças e sensações que suscitava quando era mais nova, uma sensação de santidade, um baú de segredos. Cinco anos depois, eu tinha encontrado a coisa ideal para guardar lá dentro. Ela tinha se tornado minha caixa de Pandora: quase vazia, exceto pela gota de esperança. Eu não deixava mais a chave na fechadura como minha mãe fazia, mas a escondia embaixo de um pedaço de veludo que forrava toda a parte de dentro da minha cômoda. Eu levantava cuidadosamente a borda do tecido e colocava a chave sob ele, deixando o segredo trancado lá dentro. Agora eu estava retirando a adorada chave de latão de baixo do tecido e colocando-a na fechadura e, ao girar a chave e abrir a tampa, as calorosas sensações passaram pelos meus dedos. Eram sensações diferentes agora que eu era mais velha e tinha meus próprios segredos para guardar. Não sentia mais o friozinho de um jogo imaginário da infância, salvando o mundo com a descoberta de uma relíquia mágica. Porém, o friozinho que passou por mim ao olhar lá dentro e ver o conteúdo do amado baú do tesouro era igualmente animador, e a sensação tranquilizadora de realização que tomou conta de mim ao fechar a tampa e colocar a caixa de volta na última gaveta da cômoda foi igualmente satisfatória – e, como num passe de mágica, dois minutos depois, eu estava dormindo profundamente. No dia seguinte, enquanto estava deitada na minha cama, resolvi que era uma boa hora de retornar a ligação do meu novo amigo da academia. – Alô, Clayton? – falei ao telefone. – Sim. – Oi, estou retornando sua ligação de ontem à noite. Nós nos conhecemos na academia dia desses. Meu nome é...


– Claro, oi! Tudo bem? Sorri. – Tudo. Só um pouco estressada com o trabalho, mas estou bem. – É, nem me fale. No que você trabalha mesmo? Pigarreei e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. Se alguém se desse ao trabalho de me analisar cuidadosamente, não levaria muito tempo para perceber que estou entregando o jogo, o indiscutível sinal de que o que estava prestes a dizer era um blefe, uma mentira. Porém, felizmente, ninguém tinha motivos para suspeitar que eu mentia. – Banco de investimento – respondi. – Ah, é. Virei-me de lado e apoiei a cabeça na minha mão. – Então, como vai você? Como está o mundo dos jogos? Ele suspirou. – Agitado, embora eu tenha sugerido a sua ideia de um relançamento do Oregon Trail para os meus chefes. Dei risada. – E aí? Eles gostaram? – Infelizmente, não. Foi brutalmente rejeitada. Estalei meus dedos. – Oh, que pena. Mas acho que vou sobreviver. Clayton riu. – Que bom. Nesse caso, você tem compromisso na quarta à noite? Por acaso, eu não tinha compromisso e estava com uma forte impressão de que sair de casa seria uma boa ideia. Depois de passar quase meia hora no meu closet à procura de uma roupa adequada para o meu tão aguardado “primeiro encontro”, examinando os cabides e xingando o arquiteto que teve a ousadia de projetar um closet tão grande e, portanto, capaz de guardar uma seleção de roupas exagerada demais para que uma mente humana pudesse escolher, finalmente resolvi ir com uma calça jeans que, segundo minha sobrinha Hannah, estava muito na moda agora e uma blusa marrom que deixava um ombro à mostra. Prendi meu cabelo num rabo de cavalo que caía levemente no lado esquerdo do meu pescoço. De acordo com a revista Cosmopolitan, esse penteado deveria fazer o seu cabelo parecer meio bagunçado e ajeitado às pressas, coisa que, depois de passar tempo demais dentro do meu closet, não estava longe da verdade. – Devo admitir – disse Clayton encabulado, quando estávamos sentados num tranquilo café italiano em Santa Monica – que faz muito tempo que não chamo uma garota para sair. Fiquei muito aliviado quando você aceitou. Tomei um gole do meu Chianti.


– Bem, então devo admitir que quase não aceitei. Ele abriu um sorrisinho. – Por quê? Pousei minha taça e cutuquei com nervosismo a borda do guardanapo que havia embaixo dela. – Não costumo sair muito. – Acho que eu também não – ele disse, olhando constrangido para baixo. – Meus amigos sempre ficam me criticando por isso. Por isso, desta vez, pensei, por que não? Ele ergueu sua taça de vinho. – Bem, então vamos brindar ao fato de você ter seguido o conselho de seus amigos. Brindamos, e reparei em silêncio como Clayton ficava bonito à suave luz de velas. Ele estava usando calça jeans escura e camisa vermelha que ressaltava perfeitamente seu cabelo loiro de praia. Na hora, especulei que talvez ele fosse do Meio-Oeste. Los Angeles estava inundada por pessoas de lá, tomando as ruas com seus rostinhos bonitos e corpos robustos do interior, embora a maioria fosse ator, esperando se tornar o próximo Chris Klein ou Ashton Kutcher. Zoë os chamava de MDIs (menino do interior), mas dada sua irresistível aparência, nem ela podia reclamar, porque não havia absolutamente do que reclamar. Eles eram, de certo modo, impecáveis: tinham ótima aparência, bom caráter e boas maneiras invejáveis. Isto é, até os valores superficiais e garras egoístas de Hollywood conseguirem penetrar neles. Entretanto, Clayton, com seu talento para desenhar mundos futuristas e cidades simuladas, felizmente não era um dos aspirantes a ator e, portanto, talvez pudesse conservar sua boa aparência e sua encantadora personalidade. A noite passou enquanto compartilhávamos lembranças de infância, histórias terríveis do colégio, programas de TV favoritos, lanchonetes, bebidas, todos os assuntos essenciais para nos conhecermos. Fiquei muito contente por ter identificado corretamente o fato de ser um MDI quando ele me contou que havia crescido em Iowa. E ele ficou muito contente em saber que ambos tínhamos um amor comum por karaokê. – Acho que sabemos onde o próximo encontro vai ser, né? Sorri. – Tem um bar do outro lado da rua que tem karaokê até as duas da manhã. – Pobres vizinhos. Rimos e nos levantamos da mesa. Clayton deixou algumas notas para pagar a conta e aí pegou minha mão para sairmos do restaurante e atravessarmos a rua correndo como crianças bobas até um bar escuro com um neon vermelho que iluminava a entrada. O bar era um muquifo. Estive ali uma vez com Sophie e Zoë quando, impulsivamente, sentimos a necessidade de cantar os sucessos de Britney Spears na frente de estranhos – um impulso que, felizmente para os estranhos, não voltou desde então. Entramos e ouvimos o som de uma voz desafinada cantando “I Love Rock’n’Roll” e


encontramos lugar para sentar perto do palco. Clayton abriu o catálogo de músicas e ansiosamente começou a examinar os títulos com os dedos. – Na verdade, acho que você deveria escolher nossa primeira música – ele disse, empurrando o catálogo para mim. – Ah, então a música vai ser um dueto? Clayton ergueu as sobrancelhas. – A não ser que você queira subir no palco sozinha. Abri rapidamente o catálogo. – Sabe, sempre fui fã de duetos. Ele riu novamente. – Ótimo, então escolha. Com o canto do olho, pude vê-lo me observando enquanto meus dedos passavam pela lista de músicas. – Está bem, já escolhi – falei, chegando a um título e agradecendo em silêncio aos deuses do karaokê por estar disponível. – Quê? Virei o catálogo para que ele pudesse ler minha escolha. – “Pour Some Sugar On Me” [Jogue Açúcar em Mim]? Franzi a testa. – Não gostou? – Está falando sério? Peguei o catálogo de volta possessivamente. – Está bem, está bem. Vou escolher outra coisa. Ele arrancou o catálogo de mim. – Não! Adoro essa música! É meu clássico de karaokê! Dei risada e me levantei. – Então, ótimo. Vou colocar na lista de espera. Duas horas depois, eu tinha descoberto o segredo para o sucesso de um primeiro encontro: Def Leppard. O público finalmente nos vaiou depois de três homenagens ao Def Leppard (embora eu tivesse certeza de que os membros da banda questionariam o uso da palavra “homenagem”), insistindo que mudássemos de artista e ampliássemos nossos horizontes. – Então, você já esgotou sua cota de Def Leppard da noite? – perguntou ele após voltarmos à nossa mesa. Peguei ansiosamente o catálogo de músicas. – Sim, vamos mudar para Bon Jovi! Clayton riu. – Não sei. Acho que estou bem cansado. Olhei para o meu relógio: eram 23h45. Minha cara se transformou em decepção.


– Já? Mas ainda está tão cedo. – Podíamos ir para a minha casa e assistir TV – disse ele, encolhendo os ombros, como se estivesse dando a entender que minha resposta ao seu convite era completamente irrelevante, embora nós dois soubéssemos que não era. Também encolhi os ombros. – Claro, por que não? Tem Uma Família da Pesada? Ele sorriu satisfeito. – Tenho as três temporadas em DVD. Eu sabia que gostava de você. Sorri com aprovação. Talvez eu já pudesse ter contado a vocês que ele tinha as três temporadas de Uma Família da Pesada em DVD; aliás, talvez tivesse o filme também. Porém, imaginei que os primeiros encontros eram mais divertidos quando a gente não era capaz de ler a outra pessoa como um livro aberto e, por mais que Sophie ou Zoë me matassem por causa desse tipo de habilidade em algum dos encontros delas, para mim a novidade já tinha passado há algum tempo. E, na maioria das vezes, eu desejava poder ser mais como minhas amigas, para poder entrar num restaurante e não apontar instintivamente todos os homens lá dentro que estavam traindo suas esposas – ou com o potencial de fazê-lo –, para poder fazer um pedido ao garçom e não ser capaz de saber a história de vida dele só pelo jeito como diz “quer algo para beber?”, nada de decifrar homens, nada de opiniões entediantes; só ser... normal. Porém, essa era uma palavra obviamente relativa. E, por hoje, eu apenas teria que continuar fingindo. Clayton e eu conseguimos assistir a cerca de quinze minutos de nosso episódio preferido de Uma Família da Pesada antes de ele se aproximar para me beijar. Eu não ofereci resistência. Ele beijava suavemente, com mais paixão do que impaciência. Sua língua brincava com meu lábio inferior e, depois de alguns segundos, já conseguia adaptar a minha parte do beijo para combinar perfeitamente com a dele, outra habilidade útil que aprendi com o tempo. Beijar é um jogo de poder, como dançar. Os homens geralmente conduzem, mas, em alguns casos, gostam de seguir. Normalmente, consigo perceber, em cinco a dez segundos de beijo, se ele quer ficar no controle, e o quanto de controle isso implica. Afinal, não é tudo preto no branco, você segue e eu sigo. Penso em percentagens: a maioria dos homens beija em uma razão de 80/20, 80% do beijo controlado e ditado por ele, 20% fica a seu critério, o que significa que a gente pode introduzir uma pressão de língua ou uma mordiscada de vez em quando, mas, na maior parte do tempo, são eles quem mandam. Posso imaginar que esse seja o motivo de alguns primeiros beijos serem tão constrangedores: as duas partes tentando ditar a razão ao mesmo tempo. Ele quer 80/20, mas ela só está acostumada a dar 60/40, uma bagunça. Sou a favor de direitos iguais, liberdade feminina etc., mas, com o passar dos anos, aprendi umas coisinhas sobre Marte e os homens que moram lá: quando se trata de beijar, é como dançar tango – a gente só segue.


Vai ver foi por isso que hoje o nosso beijo foi muito longe de ser constrangedor. Ficou muito próximo da perfeição. Se eu tivesse que chutar, seria um 55/45. Mas não houve tempo para chutar, não quando os lábios dele estavam daquele jeito. Era o tipo de beijo que uma mulher pode sentir nas coxas, que a faz sentir contente por estar sentada, porque, se estivesse de pé, talvez os joelhos cedessem. Os leves gemidos que escapavam dos meus lábios ao se misturarem levemente com os dele lhe diziam que tipo de beijo era e também lhe diziam que eu queria mais. Ele também gemeu e pressionou sua língua levemente mais adentro da minha boca. Passei minha mão por trás da cabeça dele e o puxei para mais perto. Aí as mãos dele passaram para a minha blusa e ali ficaram, hesitantes, perto da barra. Estendi meus braços para o alto, indicando que eu queria que a tirasse tanto quanto ele. A blusa voou para fora do corpo. Meu rabo de cavalo propositalmente bagunçado foi puxado para cima e depois caiu de volta no lugar, agora extremamente mais “desarrumado” do que a revista havia originalmente sugerido. A blusa do ombro à mostra (agora oficialmente do corpo à mostra) foi atirada para o lado, e observei Clayton reagir ao meu sutiã vermelho tomara-que-caia. Claro, esse era exatamente para isso que a roupa fora escolhida: para gerar uma reação. Afinal, na minha vida, a verdade era que nada acontecia por acaso, tudo era premeditado. Isso me deixava no controle o tempo todo. Se eu pudesse prever, eu podia controlar. Se pudesse calcular, podia manipular. Afinal de contas, Clayton era apenas um homem como todos os outros, e os homens eram a minha especialidade, independente de onde ou quando eu aplicava o meu conhecimento. Eu sabia que acabaríamos aqui. Sabia que ele tiraria a minha blusa e eu sabia que, nos próximos cinco minutos, ele tentaria desabotoar minha calça e baixar o zíper. Também sabia que, nesses cinco minutos, eu o deixaria fazê-lo. Afinal, eu era uma mulher que nunca saía com ninguém, portanto, não transava há muito tempo – e, portanto, não recusaria isso. Até que ouvi o som de uma chave numa fechadura. Era fraco, quase silencioso. Clayton estava ocupado demais apertando seus dedos na minha barriga para ter notado. Mas eu notei. Eu notava tudo. Acho que também eram ossos do ofício. Olhei para a porta a tempo de ver a maçaneta girar lentamente e a porta se abrir. Clayton substituiu os dedos pela boca, beijando minha barriga e parando na minha calça, passando os lábios pelo tecido. Ele estava alheio ao visitante misterioso, até que fez sua presença ser notada, de um jeito muito espalhafatoso. – QUE PORRA VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – ouvi um grito vindo da porta, que bateu. A cabeça de Clayton se levantou como um foguete. – Rani? – falou, com os olhos vidrados de medo. – Eu... eu pensei que você tinha viajado com as meninas. – Eu sabia! – ela berrou, com lágrimas se formando nos olhos. – Eu sabia que você faria isso! Seu merda!


De repente, uma pequena bolsa veio voando. Consegui me esquivar, permitindo que caísse bem no meio da cara de Clayton. Essa era minha deixa nada sutil para ir embora. Eu me levantei e me esforcei para abstrair as vozes deles, enquanto pegava minha blusa no chão e a vestia. Clayton se levantou rapidamente e foi até a pequenina moça indiana que estava de pé, imóvel, no meio da sala de estar, sem bolsa. – Rani, eu só quis... – Não encoste em mim. Não encoste em mim, porra! – disse ela, afastando-se e batendo na mão dele. – Querida, me desculpe, me desculpe mesmo – implorou Clayton. – Eu só vou... – minha voz desapareceu intencionalmente enquanto eu pegava minha bolsa e me dirigia em silêncio até a porta, mantendo a cabeça baixa para evitar contato visual. Clayton me ignorou, como eu imaginara. Eu já não tinha tanta importância, agora que ela aparecera repentinamente, mas acho que eu já estava acostumada com isso: cair em desgraça em questão de segundos. Em uma semana normal, passei de mulher mais sensual do mundo a, bem, praticamente o demônio num piscar de olhos pelo menos três vezes. Aprendi a não levar para o lado pessoal. Na verdade, aprendi a não levar muita coisa para o lado pessoal. Observei a discussão aumentar e transferir-se para a cozinha. Rani saiu da sala de jantar com Clayton indo atrás como um cachorrinho, implorando por perdão por ter roído seu par preferido de sapatos. Eu conseguia ouvir suas vozes: a dela era alta e cheia de raiva; a dele era suave e repleta de pedidos de desculpas. Ao colocar minha mão na maçaneta, ouvi na hora o som de passos se aproximando, vindos da cozinha. Virei minha cabeça e vi uma mulher furiosa caminhando na minha direção, com raiva nos olhos e vingança em seus passos. Olhei ansiosamente para a segurança que a porta da casa prometia me oferecer quando eu estivesse do outro lado dela. Virei a maçaneta e puxei para abrir a porta, mas consegui apenas um centímetro. A mão dela pousou sobre a minha e, com um rápido movimento e uma grande batida, a porta voltara a se fechar. Congelei e olhei para ela, com o rosto apático e a cabeça a mil. – Ashlyn – ela falou calmamente, com o rosto suavizando-se por um instante. Retribuí com um sorriso e perguntei modestamente: – Sim? Ela tirou a mão de cima da minha e passei a ficar livre. – Obrigada – disse ela com um doloroso suspiro. Soltei a porta, que agora estava úmida com o suor da minha mão e dei tapinhas suaves no ombro de Rani. – De nada. Ela enxugou seu rosto cheio de lágrimas e fungou. – Eu estava certa – falou com a voz cheia de perguntas contraditórias, como “será que eu me sentiria melhor se estivesse certa... ou errada?”. Tentar respondê-las era como


atear fogo na mente e vê-la se incendiar. Respirei fundo. – Infelizmente, vocês geralmente estão. Ela confirmou com a cabeça e segurou um soluço baixo. – Então fiz a coisa certa? Estiquei minha cabeça para olhar para a cozinha. Clayton havia se sentado à mesa, com a cabeça entre os joelhos, passando as mãos no cabelo. Seu arrependimento estava penetrando cada poro de sua pele. Em seguida, olhei para Rani, que estava com os cílios úmidos de lágrimas e suas feições arrebatadoramente exóticas cheias de incerteza. Ela parecia uma princesa, do tipo que se lê em contos de fada de terras longínquas e culturas desconhecidas. Porém, aqui e agora, infelizmente, a princesa sentiria a dor do mundo real, a agonia da vida real e a amargura de um final infeliz. Eu estava acostumada a responder perguntas como a dela, um consolo que me acostumei a dar, e a resposta seria a mesma de sempre: – Sim, Rani, você fez a coisa certa ao me contratar.


9 A arte de blefar Tudo bem, eu tive uma ajudinha. Rani havia me contado que Clayton gostava de karaokê. Ela até mencionou Def Leppard e Uma Família da Pesada e todas as outras coisas que “deveríamos” ter em comum, coisas que ela suspeitava existirem na mulher com quem ele trairia. E o último detalhe: ela seria branca. Rani não queria o final normal, o cartão de visitas preto sobre o aparador, a verdade nua e crua explicada enquanto eu vestia minha blusa e ia embora com um olhar demorado e patético. Não era o bastante para ela, que queria ver, pegá-lo no flagra. Ela queria olhar nos olhos dele durante o momento da traição, no momento em que ele se desse conta. Ela queria que ele soubesse que ela sabia, e sempre saberia. Não é o jeito como costumo concluir minhas missões, mas Rani também não era uma cliente padrão. Eu a tinha conhecido na seção de autoajuda de uma livraria de um calçadão da cidade. Ela parecia ter a mesma sede de conhecimento que eu, mas sua sede, naquele dia, acabou sendo uma bem diferente da minha. Enquanto eu dava uma olhada nos títulos no fundo da seção, tomada de cima a baixo por livros que prometiam curar todos os medos internos, eu a vi com o rabo do olho. Ela parecia perdida, tirando livros da prateleira, folheando algumas páginas e depois, visivelmente abatida, colocando-os de volta com um suspiro de desânimo. Embora estivesse vestida com simplicidade com calça de moletom, botas Ugg e blusa de moletom com capuz, sua beleza exótica irradiava pelo pequeno recinto. Como quem não quer nada, fui me aproximando dela, fingindo examinar os autores pelos quais passava. À medida que fui chegando perto, consegui enxergar alguns dos títulos que ela estava olhando: ele está te traindo? – 829 maneiras de desvendar, como apanhar um homem infiel, 28 sinais evidentes de um cônjuge infiel. Eu podia ver a ânsia nos olhos dela ao olhar os títulos. Era uma ânsia por algo que esses livros simplesmente não podiam lhe dar. Eu sabia disso e, no fundo, ela também sabia, mas era só nisso que conseguia pensar. Não era de estranhar que parecesse tão perdida. Eu me solidarizei com ela. Seu rosto impecável mostrava sinais de noites mal dormidas, olhando para o amado, observando ele respirar, fazendo perguntas dentro da cabeça para as quais torcia ter as respostas pela manhã, ou no dia seguinte ou no outro, qualquer coisa que lhe permitisse voltar a dormir. – Posso fazer uma sugestão? – perguntei tranquilamente, apontando para o livro que ela estava segurando no momento.


Ela olhou para mim, primeiro com vergonha, como se fora pega olhando pornografia na casa da avó, mas depois suas feições se transformaram num apreço inusitado. – Este não é bom? – perguntou, com a voz pedindo ajuda. Uma especialista nesta área era algo que ela vinha desejando, mas duvidava que o atendente nervosinho com cinto e sapatos que não combinavam que estava trabalhando no balcão da livraria daria conta disso. Balancei a cabeça negativamente com pesar. – Não sei, não li. Ela rapidamente pegou outro livro da prateleira e me mostrou. – Que tal esse? Balancei minha cabeça de novo. – Na verdade, eu não li nenhum. Ela me examinou, confusa. Eu certamente parecia perfeitamente normal, mas talvez fosse apenas outra doida perambulando pelas ruas de Santa Monica, dando conselhos sobre relacionamentos. – Então, o que sugere? Rani era uma das minhas clientes “gratuitas”. Não cobrei um centavo dela, mais porque ela não tinha. Ela trabalhava à noite no Starbucks para pagar a faculdade de Direito. – Estamos juntos desde o colégio – ela explicou, ao nos sentarmos em um café na rua para tomar limonada. – Nunca havia ficado com outra pessoa, nem ele. – Você não tem cara de quem veio do Meio-Oeste – brinquei. Sorri e observei um pedestre passar na calçada. – Minha família se mudou da Índia para Iowa quando eu tinha quatorze anos. Meu pai havia conseguido um emprego para administrar o escritório local de sua firma de tecnologia e era a oportunidade perfeita para “começarmos uma vida melhor”. Pelo menos foi assim que me explicaram – ela fez uma pausa e refletiu. – Eu era popular na Índia, tinha muitos amigos. Não queria sair de lá. As crianças de Iowa eram malvadas, muito malvadas. Estavam sempre debochando do meu sotaque e da minha aparência. Eu estava cercada de loiros de olhos azuis. Aquilo era beleza, aquilo era considerado “bonito”, o que dava amigos e namorado, eu acho. Ninguém me queria em sua mesa durante o almoço, por isso eu ficava lendo na biblioteca. Em geral, não deixavam entrar comida lá, mas a bibliotecária abriu uma exceção para mim – ela riu sozinha. – Acho que sentia pena de mim. Assenti com a cabeça e tomei um gole da minha limonada, esperando que ela prosseguisse. – Aí, um dia, Clayton entrou na minha vida. Eu já o tinha visto antes. Ele era do time de futebol e era tão lindo. Achei que ele tinha entrado na biblioteca para procurar um livro, mas seus olhos acabaram me encontrando, e ele foi direto à minha mesa e se


sentou na minha frente. Ele disse que sabia que eu ia lá todo dia e queria ver qual era o motivo, por que a biblioteca era o novo point, ou coisa do tipo. – Que meigo – falei. Ela concordou. – Ele sempre foi meigo. Chegava e almoçava comigo todos os dias. Nunca perguntou por que eu estava lá ou por que eu me recusava a almoçar no refeitório com o resto das pessoas. Acho que não precisava perguntar. Fiquei totalmente concentrada na história dela. – E aí? – E aí aconteceu. Estamos juntos desde então. – Então por que os livros? Por que a dúvida? Ela suspirou e ajeitou o rabo de cavalo com a mão. – Porque estamos juntos desde então. Acho que ele quer mais, acho que está curioso para saber o que está perdendo. Acho que ele quer uma mulher branca. Quase cuspi minha limonada. – O quê? Está falando sério? Você é linda! Deslumbrante! E ele a escolheu num mar de meninas brancas, porque você era diferente. Por que, do nada, ele iria mudar de ideia? Ela deu de ombros e balançou a cabeça, desamparada. – Não sei, é só uma sensação. Às vezes, pego ele olhando. Só não sei se me tornei a mulher com quem ele deveria ficar. Depois de dez anos, como é que dá para saber? Como é que alguém pode escolher a alma gêmea aos quinze anos de idade? Apertei meus lábios e olhei para o outro lado. – Não dá – cedi. – Ele não vai trair com alguém que acabou de conhecer no bar, disso tenho certeza. Não é o estilo dele. Quando muito, vai conhecer uma pessoa, sair com ela, ver quais são as outras verdadeiras opções. Assenti e toquei na mão dela. – Deixe-me lhe ajudar. Ela inclinou a cabeça para o lado. – Como vai me ajudar? – Trabalho com um serviço muito especial, para mulheres como você. Não é uma coisa que vai achar em livros. Pude perceber, pela cara de Rani, que ela ficara intrigada. Por isso, continuei contandolhe exatamente o que eu fazia e vinha fazendo nos últimos dois anos. A reação dela foi interessante. Não estou acostumada a explicar essa situação a alguém que não faz a menor ideia do que está prestes a ser apresentado. A maioria das minhas clientes geralmente está, pelo menos, um pouco preparada para o que vou lhes contar. Afinal de contas, ligaram para mim. E eu meio que esperava que Rani se levantasse da cadeira, enojada, e saísse em disparada pela rua, deixando-me com a conta e um copo de limonada esparramado na minha cara. Mas ela não o fez. Simplesmente ficou olhando


para mim do mesmo jeito que um religioso fanático olharia para uma antiga relíquia que acabou de encontrar: primeiro, com descrença, duvidando que fosse realmente autêntica; e depois, finalmente com um espanto extremo que mudava todas as suas crenças. – Mas não tenho dinheiro para... – Só quero ajudar – tranquilizei. Pude ver seus olhos se enchendo de lágrimas: lágrimas de gratidão, medo e alívio, porque ela finalmente conseguiria a resposta que estivera buscando – e não precisaria depender de um livro. Fiquei parada do lado de fora do apartamento de Clayton e Rani. Ainda podia ouvir vagamente as vozes lá dentro, discutindo. Imaginei que aquilo iria durar um tempo. Rani estava certa. Não dá para achar a alma gêmea aos quinze anos, mas uma pequena parte de mim quis torcer por eles, para que dessem um jeito, fossem capazes de ver esse incidente como uma situação-limite e uma referência para seguir adiante, um obstáculo a ser superado e eliminado antes que o caminho voltasse a ficar tranquilo. Porém, eu tinha uma regra de não torcer por ninguém e também determinei como regra não abrir exceções. Por isso, antes de ir embora, minha mão pousou suavemente na porta de madeira enquanto me despedia da Princesa Rani. No dia seguinte, tive minha terceira e última aula de pôquer antes da minha missão em Las Vegas no sábado. Eu tinha achado um professor de pôquer nos classificados na semana passada depois de ter me encontrado com Roger Ireland para conversar sobre sua filha e o noivo dela e, devido à recente moda do pôquer que havia invadido o país, não foi uma coisa difícil de achar. Quando liguei pela primeira vez para o professor, falei que queria um intensivo para me tornar mestre em pôquer. Precisava ser capaz de impressionar um cliente durante uma futura viagem de negócios a Las Vegas, o que era bem crível. Meu professor, Ethan (ou “Caubói”, como preferia ser chamado), não pareceu se importar com o motivo de eu querer aprender o jogo, contanto que meu cheque fosse descontado na sua conta de pôquer online. – Então, nas duas últimas aulas – ele começou, embaralhando habilmente um deque de cartas –, concentramo-nos nas regras do jogo, nas rodadas, nas estratégias para calcular suas chances com base na quantia de dinheiro em jogo e, é claro, em como determinar as mãos dos outros jogadores. Eu estava no porão da casa de Ethan, onde ele havia montado um pequeno templo do pôquer: fotos de jogadores famosos decoravam as paredes, três mesas profissionais dominavam o centro da sala, e o carpete parecia idêntico aos carpetes coloridos e espalhafatosos dos cassinos de Las Vegas. Peguei quatro das fichas que estavam na minha frente e comecei a praticar o giro das fichas. Ethan o havia demonstrado rapidamente na última aula, e eu andara assistindo a


jogadores na TV girarem graciosamente as fichas entre os dedos enquanto contemplavam sua próxima jogada. Percebi, depois de assistir na TV, que os truques com as fichas eram quase tão importantes para parecer saber o que se está fazendo quanto o próprio jogo – e, por mais que eu soubesse que precisava jogar bem, também sabia que a noite de sábado se basearia toda em aparências. – Mas hoje vamos acrescentar o passo final deste processo... – continuou o Caubói. – O giro das fichas? – perguntei ansiosamente. – O blefe – declarou com seriedade, claramente curtindo o clima de suspense. – Ah. – É a parte mais difícil de dominar no pôquer, mas, uma vez que você consegue, o resto do jogo fica fácil. – Mentir? – busquei a confirmação. – Enganar os outros jogadores fazendo-os acreditar que você tem algo quando não tem ou que você não tem algo quando tem – respondeu cheio de si. – Então, mentir – voltei a repetir. Ethan respirou fundo, aparentemente frustrado com a minha simplificação de seu grande momento de suspense. – Sim, acho que dá para chamar de mentira, mas o blefe é muito mais do que contar uma mentirinha inofensiva. Estas são fáceis, simples e críveis, porque as pessoas não têm motivo para não acreditar em você. O blefe no pôquer é uma habilidade totalmente diferente. É uma arte. Tem que fazer a pessoa acreditar em você quando ela tem todas as razões do mundo para não acreditar. Assenti e sorri sozinha. – Sinceramente, não acho que isso vá ser um problema. Ethan observou minha confiança e, em seguida, ajeitou o baralho na mesa e começou a dar as cartas. – Está bem, sabichona. Vamos ver como se sai. A noite de sexta tinha chegado, e eu, é claro, estava atrasada, como sempre. Desta vez, porém, não era para uma missão, mas para o jantar de aniversário da minha sobrinha, Hannah, em Westlake Village. Rapidamente vesti a calça jeans preferida de Hannah e uma regata e passei rímel nos cílios. Dirigi até a saída para a estrada e entrei na rodovia engarrafada, que mais parecia um estacionamento. Os pais de Hannah e minha mãe moravam em Thousand Oaks, que ficava 48 quilômetros ao norte. Contudo, no Sul da Califórnia, nada era calculado em quilômetros, mas em tempo estimado de trajeto, que era calculado levando-se em conta diversas variáveis, sendo a mais importante: horário do dia e dia da semana. Por exemplo: se alguém perguntar “a que distância você mora de Thousand Oaks?”, imediatamente retruco com duas perguntas: “a que horas? E em que dia da semana?”. Porque às 11h de uma terça, moro aproximadamente a uma hora de Thousand Oaks,


mas às 17h de uma sexta (como hoje), eu morava a cerca de duas horas e meia de Thousand Oaks. E, por último, às 2h da madrugada de um sábado, eu morava a 25 minutos de Thousand Oaks (dirigindo à imprudente velocidade de 145 km/h). Aliás, a maioria das pessoas de Los Angeles nem entendia o conceito de distância medida em quilômetros. Se você dissesse “fica a oito quilômetros a leste daqui” para um morador de Los Angeles, ele provavelmente vai olhar como se você fosse estrangeira e aí perguntaria “bem, se eu sair às 16h30, quanto tempo vai levar?”. A maioria das pessoas pensa que o mundo é dividido em dois padrões de medida: o sistema métrico, que quase o mundo inteiro usa, e o sistema americano chato e inconsistente que nem nós conseguimos dominar. Porém, na realidade, o mundo é dividido em três padrões: o sistema métrico, o sistema americano chato e o sistema do Sul da Califórnia – ou, como gosto de chamar, “o descontínuo espaço-tempo”. Parecia que o sistema do Sul da Califórnia estava correto mais uma vez. Saí da rodovia cerca de duas horas depois e desacelerei ao entrar na alameda da cidadezinha em direção ao restaurante. Olhei para o relógio do painel: eu estava oficialmente atrasada. Minha meia-irmã, Julia, certamente diria umas poucas e boas. Botei o pé no acelerador. Quando estava me preparando para desacelerar e virar na rua certa, vi luzes piscantes pelo retrovisor. Olhei e resmunguei. Era exatamente o que precisava agora, ter que lidar com policiais da cidadezinha que não tinham nada melhor para fazer do que aplicar multas para pessoas que estavam dirigindo a três quilômetros acima da velocidade permitida – embora eu tenha que admitir que estava a mais de trinta quilômetros acima do limite. Parei meu carro no meio-fio e comecei a elaborar um plano de fuga, não do tipo em que se salta do carro, corre para os arbustos e se acaba no noticiário da manhã, mas uma fuga psicológica, que era muito mais eficiente. Observei pelo retrovisor lateral e, em silêncio, agradeci a Deus quando vi que o policial era um homem, o que facilitaria muito a minha vida. Baixei a janela, liguei a luz do teto e me sentei direito. – Boa noite, senhora – ele disse ao se aproximar da minha janela aberta. – Senhorita – eu o corrigi em um tom que não era tanto aborrecido pelo pronome de tratamento errado, mas mais para lhe dar a permissão de usar o pronome correto. – Senhorita – ele enfatizou, mas sem sinais de perdão. “Metade do blefe é afirmar algo que não é verdade e a outra metade, analisar seu oponente”. Hoje, meu oponente era casado. Sua aliança brilhava à luz do teto do carro. Entreguei-lhe minha carteira de motorista e o seguro do veículo, e ele os examinou. Agora, o truque era descobrir que tipo de homem casado ele era: eternamente fiel à esposa ou o tipo com que eu normalmente lidava. O fato de ele estar usando a aliança durante o trabalho era prova do primeiro tipo, mas não era suficiente. E foi aí que notei a manchinha branca no bolso da camisa de seu uniforme. Estava desbotada e parecia que alguém havia tentado limpá-la às pressas com um pano molhado, mas não teve tempo de retirá-la completamente.


“Depois de analisar o oponente, então estará pronta. Pode pensar na sua jogada”. O policial Kendall, conforme li no seu crachá, era feliz no casamento, ou, pelo menos, por enquanto, o que significava que eu não ia dar uma de sedutora hoje. Ele não iria morder a isca. A maioria dos casais que tem um bebê pequeno – pelo menos, um pequeno o bastante para ainda regurgitar no uniforme do pai antes de ele sair para trabalhar – está num estado de felicidade matrimonial renovada. Seu relacionamento, bem como sua existência como seres humanos, deu um passo adiante. Eles trouxeram uma vida ao mundo. Com isso, mais a orgulhosa ostentação da aliança, o policial Kendall não iria permitir que uma moça sensual em um jipe caro fosse obstáculo para essa felicidade, o que significava que eu tinha que achar outro gancho. Ele prendeu minha carteira em sua prancheta e apontou a lanterna acesa pela minha janela aberta. – O motivo por eu ter lhe parado hoje, senhorita Hunter, é... A luz ofuscou meus olhos. – Eu sei, eu sei, a velocidade. Me desculpe – falei em tom de desculpas, verdadeiro e sem nenhum indício de deboche. – Você estava indo bem rápido – ele apontou, abrindo sua caderneta de multas. Sutilmente, inclinei a cabeça para o lado para dar uma olhada na caneta que ele estava tirando do bolso da camisa. Bingo: meu gancho.Suavizei bastante o tom da minha voz. – Sabe, você me parece bem familiar. Será que já o vi antes? Ele não se abalou nem um pouco. – Não. Ele começou a copiar as informações da minha carteira. Enquanto isso, fingi estar fazendo um esforço para me lembrar, observando, com o canto do olho, sua caneta rabiscando no papel. – Sim! Você está tentando mudar de carreira, não é? Minha colega está com o seu caso na Lex Harrison. Seu rosto se iluminou. – Você trabalha com Mona Pietrik? – Claro. Lembro de tê-lo visto lá dia desses – dei uma risadinha de menina. – Você é o cara que recentemente teve filho, né? Pude ver suas feições se suavizarem e eu sabia que estava no caminho certo, quase chegando lá – ou melhor, quase chegando no restaurante. Todas as peças estavam se encaixando: bebê novo, vida nova, carreira nova e mais segura que permitisse que ele chegasse em casa para o jantar todos os dias, e sem um ferimento de bala na cabeça. – Sim, era eu. Sorri como se estivesse cumprimentando um velho amigo. – Eu não sabia que você era policial.


Ele suspirou. – Espero que não por muito tempo. Aplicar multas de velocidade definitivamente não é uma coisa que quero fazer para sempre. Grunhi. – Sei o que está querendo dizer. Antes de eu entrar no escritório de carreiras, eu tinha um emprego terrível catando toalhas usadas numa academia. Chegava em casa todos os dias cheirando a suor dos outros! Ele riu alto. – Que horrível! – Nem me fale – fiz uma pausa. – Bem, Mona é excelente no seu trabalho. Tenho certeza de que ela vai encontrar algo perfeito para você! – Obrigado – ele disse, destacando a multa meio preenchida de sua caderneta e amassando-a com as mãos. – Diga-lhe que mandei lembranças. – Claro! Ele devolveu minha carteira e o cartão do seguro e fechou a caderneta com uma piscadela amigável. – Tenha uma boa noite... e vá devagar. Dez minutos depois, parei meu carro no estacionamento de um restaurante de uma cadeia cafona de comida italiana em Westlake Village. Fui a última a chegar. Hannah berrou meu nome e veio correndo, atravessando o restaurante para me cumprimentar. Abracei bem seu corpo magro e passei a mão em seu cabelo loiro cacheado enquanto ela enterrava sua cabeça no meu colo. – Oi, querida! Feliz aniversário! – Obrigada! – disse Hannah, apertando-me antes de voltar para a mesa e retomando seu assento na cabeceira. Ao segui-la, vi minha mãe sentada no lado oposto. Parei por um instante, fingindo admirar as paredes vívidas do restaurante, repletas de fotos de pessoas que eu não conhecia, mas achei que devia conhecer. Na realidade, eu estava juntando coragem para falar com ela. Não tinha certeza do quanto ela sabia do noivado do meu pai e, francamente, isso me colocava numa saia justa... de novo. Certamente, eu não seria a pessoa que ia lhe contar, porque não dava mínima para o que meu pai andava fazendo ultimamente, mas também não queria receber mais detalhes do que já sabia. Ele ia se casar, e isso já era o bastante. Porém, minha mãe não era o tipo de pessoa que guardava suas emoções e, desde o divórcio, dois anos e meio atrás, com meu pai amargamente fora da vida dela, eu passara a receber involuntariamente essas emoções. E eu não sabia se podia lidar com outra explosão hoje, não com tudo o que estava acontecendo na minha vida, não quando eu tinha que guardar tantas emoções minhas, como vinha fazendo nos últimos dezesseis anos, para protegê-la. Apontei para uma foto em preto e branco de uma mulher corpulenta segurando duas


melancias na frente dos seios e soltei uma pequena risada. – Que bonitinho – eu disse, indo até minha mãe e lhe dando um beijo no rosto. – Oi, mãe. Ela estendeu os braços para trás e me abraçou de um jeito estranho em volta do pescoço. – Oi, Jenny. Você recebeu meu último e-mail sobre o teste de botânica? – Sim, está no meu celular. Me desculpe, tenho andado ocupada. Não tive tempo de fazê-lo ainda. Desde que minha mãe descobriu a internet alguns meses atrás, ela praticamente se transformou em uma estudante de quinze anos, passando a maior parte do tempo fazendo testes de personalidade, baixando músicas e programas de TV, compartilhando fotos, conversando em chats até tarde da noite. Acho que ela chegou até a mencionar algo sobre mensagens instantâneas há algumas semanas. Só a ideia de minha mãe estar na internet, conversando com estranhos de todo o país sobre sua receita favorita de lasanha, era absurda demais para eu entender. Puxei a cadeira que estava ao seu lado. – Não, aqui! – ouvi Hannah gritar do outro lado da mesa. – Guardei um lugar aqui para você! Virei para minha mãe e lancei um olhar que não apenas expressava minhas desculpas, mas também dizia “fazer o quê? Ela tem doze anos”. Ela sorriu e concordou com a cabeça. Ao me sentar entre Hannah e uma de suas amigas, não pude deixar de sentir uma pequena sensação de alívio, seguida rapidamente de culpa. Eu deveria querer me sentar com minha mãe, querer ouvir cada detalhezinho meticuloso do que ela estava passando; afinal, era minha mãe, e ela passou por muita coisa, coisa demais. Porém, ao me acomodar para ouvir histórias de maquiagem, aulas chatas e meninas que claramente botavam enchimento no sutiã porque seus seios eram completamente desiguais e irregulares, senti-me imperdoavelmente agradecida pela minha designação involuntária de assento. Desculpei-me pelo atraso, deixando intencionalmente de fora a parte em que quase recebi uma multa. Minha mãe me repreenderia por dirigir rápido demais e colocar minha vida em risco, e o resto da mesa iria querer saber como consegui me safar. Eu realmente não estava a fim de explicar. Além do mais, iria levantar suspeitas. Jennifer Hunter não se safa de multas de velocidade – ou, se sim, então como é que ela não conseguiu convencer alguém a se casar com ela? – Não tínhamos certeza de quando você finalmente iria aparecer, por isso resolvemos fazer os pedidos para a mesa – disse Julia em um tom acusatório que me dava nos nervos. Mordi meu lábio e me segurei para não dar uma resposta sarcástica, resolvendo guardar minha energia para depois, quando começassem as perguntas e eu fosse obrigada a lembrar de todas as minhas histórias fictícias impecavelmente. Afinal, um


mínimo detalhe errado era sempre pego por alguém, e aí eu teria que inventar histórias para disfarçar o fato de não lembrar as minhas histórias originais. E, uma vez alteradas as histórias originais, era como quebrar uma torneira: as perguntas começavam a jorrar descontroladamente e sem previsão de terminar. Eu ainda não conseguia entender por que Julia insistia em andar com o lado materno da minha família. Ela era filha do meu pai do primeiro casamento dele. Eu sabia que sua primeira mulher, mãe de Julia, morava em algum estado longínquo, como Connecticut, e Hannah só a via uma vez por ano. Mas por que diabos ela não fez um jantar de família com nosso pai e sua nova noiva? Por que ela sempre tinha que andar com a minha mãe? Quando eu era menor, ela sempre pareceu odiá-la, e a mim também. E, depois que se casou, mal a víamos. Foi só recentemente que ela misteriosamente se mudou a três ruas de distância da minha mãe e, de repente, virou a melhor amiga dela. Hannah imediatamente tomou as rédeas da conversa e me apresentou para as duas meninas entre as quais eu estava sentada, Olivia e Rachel. Cumprimentei educadamente e aguardei com paciência o interrogatório começar. E, menos de cinco minutos depois de me sentar, como se estivesse cronometrado, começou. As perguntas apareceram pontualmente. – Então, Jen, quais são as novidades na área dos namoros? Naquele instante, era como se todo mundo da mesa tivesse parado o que estava fazendo: conversas se dissiparam, quem estava se mexendo parou, todos os olhos miraram em mim, até Olivia e Rachel – e elas nem me conheciam. “O blefe deve ser sempre verossímil. Use as cartas que já estão na mesa para inventar uma história verossímil.” – Bem – comecei –, saí com um cara que conheci na academia, Clayton... Vi os rostos da mesa se iluminarem um por um, como luzes de Natal. Julia, seu marido, minha mãe, Hannah, suas duas amigas pré-adolescentes. Estavam todos aguardando. Será que esse era o cara? Seria ele? Gosto do nome Clayton. Talvez ele seja meu novo tio/cunhado/genro. Talvez ele salve Jen dos perigos sombrios da vida de solteira eterna. Afinal de contas, ela está com quase trinta anos de idade. – ... mas acabou que ele tinha uma namorada – completei a breve história. Os lamentos de decepção tomaram conta do ar. Tentei não rir, porque, para mim, era meio cômico o fato de serem previsíveis, de a menção do nome de um novo homem os deixara salivando. – Que canalha! – exclamou Hannah. Acariciei sua mão, agradecendo-a pela observação consoladora. – Que pena – disse minha mãe. – Desejo sorte da próxima vez. – É – concordei, e aí, para completar, acrescentei –, meu cara está em algum lugar – esperando pôr fim à conversa, um ponto final. Ela é otimista, acho que é tudo que podemos pedir a essa altura. Vamos mudar de assunto? – Bem, então como está o trabalho? – perguntou o marido de Julia.


Dei de ombros. – Bem, sabe como é, o de sempre. – O banco está lhe deixando muito ocupada? – perguntou minha mãe. Assenti e tomei um gole da minha água gelada. – Super-ocupada. Acabei de voltar de Denver alguns dias atrás e vou para Las Vegas no próximo fim de semana. – Uau, Jen, sua vida é tão legal. Estou com tanta inveja! – disse Hannah. Forcei um sorriso modesto enquanto pegava um pedaço de pão e o enfiava na minha boca, qualquer coisa que me impedisse de mastigar meu lábio inferior. Hoje eu iria me esforçar muito para garantir que esta reunião de família não terminasse como a maioria: com gosto do meu próprio sangue na boca. No meio da refeição, pude notar que Hannah e suas amigas começaram a ficar inquietas. Ficaram cutucando seus pratos de macarrão pelos últimos dez minutos enquanto Julia conversava sem parar com minha mãe sobre seu mais recente projeto de redecorar a sala de estar. Por isso, aproximei-me de Hannah e sugeri que ela e suas amigas fossem comigo ao banheiro para uma conversa entre meninas. As três se animaram na hora, levantando-se das cadeiras ansiosamente. Assim que entramos no banheiro feminino, retirei um pacotinho da minha bolsa e entreguei para Hannah. – Não conte à sua mãe que ganhou de mim – falei com uma piscadinha. Ela não perdeu tempo para arrancar o papel e revelar o gloss de grife que eu havia comprado para ela de aniversário. – Eba! – ela exclamou, abrindo a caixa e retirando o conteúdo. – Era exatamente o que eu queria! Hannah se virou para o espelho e aplicou uma camada fina do gloss e depois passou o tubo para Olivia, que prontamente também aplicou uma camada proibida. – Nick vai pirar quando a vir com isso – Rachel disse para Hannah, admirando a cor. De repente, senti meu estômago se revirar de leve. – Nick? Quem é Nick? – tentei parecer natural e curiosa, como faria qualquer participante de uma conversa entre meninas. Hannah se virou para mim, com os olhos se iluminando imediatamente. – Um menino da escola de que gosto, mas mal sabe quem sou. – Ela não apenas gosta dele, mas é obcecada por ele! – esclareceu Olivia, que passou o gloss para Rachel. – A aula do terceiro período dele fica do lado do armário dela, por isso ela sempre leva um tempão “a mais” para pegar seus livros daquele período. Olhei para Hannah buscando um sinal de confirmação. Ela baixou a cabeça envergonhada ao admitir a verdade. – Acho que ele é o cara. Quase engasguei na minha própria saliva. – O quê?


– Sabe, a única pessoa perfeita com quem devo passar o resto da minha vida. – Como Big e Carrie em Sex and the City – explicou Rachel, como se o conceito do “cara certo” fosse uma nova invenção que ainda não havia atingido as massas. – Vocês assistem a Sex and the City? – minha voz começou a se levantar. Pude sentir um caroço se formando na minha garganta. Hannah confirmou com a cabeça, olhando estranhamente para mim, como se estivesse insinuando “o que deu em você? Está começando a soar como minha mãe”. – Os pais de Rachel têm todas as temporadas em DVD – informou-me Olivia. – Assistimos no quarto dela quando a mãe está no trabalho. De repente, passei a dar muito mais valor para a regra dos meus pais de não ter TV no quarto até os treze anos. – Ah – falei baixinho, mas minha cabeça estava longe de estar silenciosa. Eu estava relembrando rapidamente cada cena de sexo na série inteira, e aí meu estômago se contorceu ao pensar na minha inocente sobrinha assistindo a uma delas. Porém, eu estava presa entre ser a “tia legal” que compra gloss ilegal e a tia inspetora de fidelidade, amargurada e acabada, que quer, de alguma forma, convencê-la a ir para um convento e nunca confiar em nenhum homem no mundo a não ser em Deus – e até isso era questionável. – De qualquer forma – continuou Hannah –, Nick é meu Mr. Big. Ele é alto e bonito e... – E provavelmente um cafajeste? – soltei subitamente. – Como metade dos homens deste planeta. Acredite, Hannah: num dia, estão lhe prometendo o mundo e, no dia seguinte, é “oh, me desculpe, mas acho que não sou do tipo monogâmico”. Ouvi um pequeno estalo quando Rachel deixou o tubo de gloss escapar de suas mãos e cair no chão de azulejo do banheiro. E aí, silêncio. Elas ficaram olhando para mim, incrédulas, de queixo caído e olhos arregalados. Depois, Olivia e Rachel olharam para Hannah de um jeito acusatório. Achei que você tinha dito que ela era legal. Olivia se aproximou de Rachel e cochichou: – O que significa monogâmico? Ao que Rachel apenas negou sutilmente com a cabeça, num esforço para dizer “não sei” ou “não faça isso agora, a mulher é louca!”. Rapidamente coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, pigarreei e estampei um sorriso na cara. Depois, soltei uma risada que rezei para que parecesse um deboche, como se eu não acreditasse que essas meninas tinham acreditado de verdade na minha performance pateticamente canastrona. – Estou brincando, meninas! Relaxem. Abaixei-me para pegar o gloss e depois apliquei tranquilamente uma camada bem grossa, esperando que o líquido pegajoso do tubo disfarçasse o que havia escapado da minha boca. Seu constrangimento transformou-se, com hesitação, em sorrisos, mas ainda me olhavam com cautela, prontas e esperando que eu voltasse a explodir. Hannah olhou confusa para mim, por isso dei um tapinha tranquilizador em seu ombro e dei meu


melhor conselho de menina: – A melhor coisa que pode fazer é agir naturalmente. Não o deixe ficar sabendo que você gosta demais dele. Os homens são esquisitos. A partir do momento que sabem que você gosta deles, perdem o interesse. Por isso, finja que não gosta dele e, assim, vai levá-lo à loucura! – Sério? – disse Rachel, olhando para mim espantada, como se eu tivesse acabado de revelar o 11º mandamento, uma nova regra que nunca existira em seu mundo até então, aquela que vinha logo depois de “não tomarás o nome de American Idol em vão”. Eu não podia impedir minha sobrinha de namorar e certamente não podia impedi-la de amar. Por isso, pensei, a melhor coisa que podia fazer era, no mínimo, garantir que estava bem armada antes de mandá-la para a batalha das Cruzadas emocionais. – Sério – confirmei com determinação, aliviada por ter conseguido desviar sua atenção do fato de que eu simplesmente tinha perdido a paciência... pela segunda vez em uma semana. Ao observar Hannah e suas duas amigas saírem do banheiro na minha frente, imaginei como eu conseguiria continuar preparando-a para o mundo real. Obviamente, minha tática improvisada anterior não tinha dado muito certo. Hoje, era só um gloss rosa e uma paixonite de colégio. Mas e amanhã? E no dia seguinte? O que esses dias trariam? Ela estava muito ansiosa para crescer, assim como eu estivera. Apenas rezei para que isso não acontecesse com a velocidade que acontecera para mim. – Jen – ouvi a voz da minha mãe me chamar quando voltamos para a mesa. – Jenny, preciso falar com você. Ela deu um tapinha na cadeira vazia ao seu lado, e eu caminhei apaticamente para o lado dela na mesa e me sentei. Lá vem o drama familiar. Ela pousou sua mão suavemente na minha perna. – Tem notícias de seu pai? Eu quis fechar meus olhos e sumir. A última coisa de que precisava agora era entrar numa discussão sobre minha mãe e meu pai, mas eu sabia que, mesmo que fechasse os olhos, quando eu os abrisse de novo, ela ainda estaria ali – e o ponto de interrogação ainda estaria estampado no rosto dela. – Sim, tenho. Ele deixou um recado na minha secretária eletrônica – falei, contorcendome levemente, esperando pela explosão, pela enxurrada de lágrimas e pela agressão... e, é claro, pela culpa que nunca seria mencionada. Porém, não houve, não desta vez. Em vez disso, minha mãe simplesmente apertou minha mão e disse: – Como você está lidando com isso? Você está bem? Olhei estranho para ela. Isso era muito incomum. Eu tinha me acostumado a abastecer minha bolsa com um estoque extra de lenços de papel toda vez que sabia que iria ver minha mãe, porque sempre acabava numa discussão sobre meu pai, o que quase sempre acabava em lágrimas correndo pelo rosto dela e eu tentando consolá-la. Pisquei sem


conseguir acreditar. – Sim, estou bem. Só evito pensar nisso. Minha mãe franziu a testa. – Não sei se é a maneira mais saudável de lidar com isso, Jenny. – Mãe, estou bem, sério. Não precisa se preocupar comigo. Ela suspirou e tirou a mão da minha perna. – Mas eu me preocupo com você, querida, mesmo. Esse negócio de namoro está começando a me preocupar. Fiz uma cara de estranheza. – Que negócio de “namoro”? Minha mãe ficou mexendo em seu guardanapo e baixou a voz. Ela se aproximou. – Bem, sabe, você está ficando com mais idade agora, e só estou preocupada que talvez o fato de você ainda estar solteira tem a ver com... – Oh, você também! – resmunguei. Minha mãe não entendeu a referência. – O que quer dizer com eu também? – Deixe para lá – falei rapidamente. – Olhe, mãe, sinceramente não quero falar sobre isso. E posso lhe garantir: o único motivo de eu não estar num relacionamento é porque não tenho tempo. Meu trabalho me mantém muito ocupada. O amor pode vir depois. Era uma coisa que minha mãe estava acostumada a ouvir, porque minha vida amorosa era um assunto que ela costumava abordar com frequência. Embora o fato de ela ter acabado de comparar a vida amorosa de meu pai com a minha ausência de uma era algo irritante. A óbvia decepção no rosto dela era evidente. – Bem, sabe, as mulheres não têm o luxo que os homens têm de dar baixa prioridade para o amor. Temos relógios biológicos a respeitar. E, quanto mais se espera, mais provável é que o corpo irá se desgastar. Levantei minha mão. – Mãe, eu me recuso a ter sempre a mesma conversa com você. Quando o homem certo aparecer, é aí que irá acontecer. Até lá, não vou namorar só por causa do meu relógio biológico. Havia muito mais coisas que eu queria lhe dizer, sobre Sophie e Eric, e a fantasia de comissária de Andrew Thompson e a aliança de Raymond Jacobs, e o verdadeiro motivo de meu encontro naquela outra noite ter sido um completo desastre. Mas eu não podia. Minha mãe não podia conhecer esse lado da minha frustração, porque ela não sabia nada sobre este lado da minha vida, que mantive escondido de todos por mais de dois anos. Minha família não sabia nada sobre Ashlyn, o que ela representava ou o que esperava alcançar. Porém, a ironia era que ela tinha nascido de um caso de família.


10 A origem das espécies (parte II) Quando eu tinha doze anos, meu pai se tornou um estranho para mim. Levou apenas uma noite, um instante, um olhar na direção errada para os meus sentimentos em relação a ele mudarem completamente. Naquela idade, eu não consegui entender totalmente o que vi ou o que significava exatamente. E, naquele exato momento, ao ter visto meu pai com minha babá de vinte anos, não tomei nenhuma decisão consciente para me sentir diferente em relação a ele. Contudo, quando finalmente caí no sono várias horas depois e acordei pela manhã com a imagem ainda fresca na minha memória, como se eu estivesse vendo-a acontecer novamente, alguma coisa em mim tinha mudado. Meu pai e eu fomos buscar minha mãe no aeroporto e não falei com ele durante o trajeto todo, não porque eu estava optando por ficar brava: aquele tipo de emoção premeditada era complexa demais para eu entender, muito menos produzir. Era porque eu não tinha a menor ideia do que dizer a ele. Temia que qualquer coisa que saísse da minha boca, qualquer coisinha, acabasse com um relato involuntário da verdade, seguido de lágrimas, muitas e muitas lágrimas. – Tem alguma coisa errada? – perguntou meu pai enquanto virávamos para a área de desembarque do aeroporto de Los Angeles. Fiz que não com a cabeça, olhando atentamente pela janela para os carros que passavam e para os viajantes do mundo. Até hoje, eu ainda podia visualizar os letreiros do aeroporto acima, separando meticulosamente aqueles que vinham daqueles que iam, porque eu me lembro claramente de estar no banco da frente, concentrando toda a minha atenção para o outro lado daquela janela e temendo completamente a “chegada” da minha mãe e tudo o que ela acarretaria: as escolhas que eu não sabia fazer, as responsabilidades com as quais eu não sabia lidar. Eu desejava desesperadamente poder escapar, fugir para a terra dos gloriosos “embarques”, voar para Hong Kong ou para o Taiti ou algum lugar longínquo e nunca mais voltar. – Você está quieta demais – observou meu pai sobre meu silêncio. Apenas dei de ombros. Ele parou o carro no meio-fio e seus olhos rapidamente procuraram um rosto conhecido na área de desembarque de passageiros. – Chegamos meio cedo – disse ele, verificando o relógio. Continuei olhando pela janela, com medo de admitir a existência dele. – Sabe – começou meu pai depois de um instante de silêncio –, às vezes, há coisas que queremos contar a alguém, mas é difícil.


Não respondi. Podia sentir lágrimas se formando atrás das minhas pálpebras. Rapidamente pisquei para dissipá-las. Então, meu pai continuou falando: – E, às vezes, há coisas que queremos contar às pessoas, mas provavelmente não deveríamos. Subitamente, virei-me para ele, com a cara cheia de perguntas que nunca seriam respondidas. Será que ele sabia? Será que me viu? Ao relembrar aquela terrível noite sem parar dentro da minha cabeça, podia jurar que fugi pela escada sem ser vista. Tinha me certificado disso, mas seria possível que ele tivesse me ouvido? – Como assim? – perguntei, tentando esconder a curiosidade na minha voz e atendome a um tom mais casual e distante. Meu pai pensou cuidadosamente nas suas próximas palavras, ponderando todas as opções como uma busca em um dicionário mental. – O que estou querendo dizer é que, às vezes, há coisas que é melhor não falar. – Por quê? – devolvi, quase na defensiva. Ele tocou suavemente no meu rosto, mas eu instintivamente recuei. Meu pai tentou não dar importância e deu uma risada leve ao retirar sua mão e pousá-la no câmbio. – Por vários motivos – disse ele, encolhendo os ombros levemente, como se não se importasse de verdade se eu estava prestando atenção ou não. – Na maioria das vezes, é quando você sabe que a verdade vai magoar alguém. Com a mão, cutuquei meu lábio inferior, tentando digerir tudo o que ele estava me dizendo, mas, ao mesmo tempo, tentando descobrir se havia alguma motivação oculta por trás disso – e, para dizer a verdade, era coisa demais para o meu cérebro de doze anos processar. Aí, meu pai virou o corpo todo para mim e mirou-me bem nos olhos. – Principalmente se é alguém que a gente ama – acrescentou em tom crítico. Rapidamente desviei o olhar, querendo desesperadamente ler a mente dele, dissecar seus pensamentos, fazer uma busca em suas lembranças como num acervo bibliográfico. Mas não houve tempo. Olhei para a frente e vi minha mãe saindo do terminal e correndo para o carro. Sem dizer mais nada, tirei imediatamente o cinto de segurança e fui para o banco de trás. Meu pai voltou-se para a frente, como se nada tivesse acontecido, como se estivéssemos conversando sobre o último episódio de um seriado, e agora a conversa havia acabado. Porém, a conversa estava longe de ser esquecida dentro da minha cabeça. Na verdade, estava se repetindo sem parar, tentando localizar pistas, palavras-chave, qualquer coisa que se destacasse como anormal; mas, infelizmente, não encontrei nada. E não pude deixar de pensar que aquilo tudo pareceu um conselho paterno qualquer que surgiu em uma hora muito inadequada. A porta de trás da nossa minivan se abriu e o rosto redondo e alegre da minha mãe se abaixou e me beijou na bochecha. Depois, ela abriu a porta da frente e se sentou no banco do carona, esticando o braço para trás e pousando sua mão carinhosamente no meu joelho.


– E então? Como foram as coisas enquanto estive fora? – perguntou ela animadamente. Alegremente. Inocentemente. Completamente alheia. E isso era como uma faca enfiada no meu peito. Retribuí com um sorriso. – Bem. Naquele momento, a confusão desapareceu. Tudo o que havia acabado de sair da boca do meu pai subitamente passou a fazer sentido para mim. Por que eu iria magoar intencionalmente alguém que amava? Ou, mais importante, alguém que me amava incondicionalmente? A resposta era: eu não magoaria. Foi aí que fiz a escolha de nunca falar uma palavra sobre isso com ninguém, nem minha mãe, nem meu pai, nem Julia, nem mesmo Sophie, minha melhor amiga. E, na verdade, quanto menos eu falasse, mais fácil era me convencer efetivamente de que aquilo não havia acontecido. E, quanto mais eu me convencia, mais fácil ficava para não ter que lidar com isso, nunca processar o fato, não ter de ceder à súplica da minha mente de pensar nisso novamente. Deste modo, eu poderia tocar minha vida adiante, conversar sobre meninos com Sophie, reclamar de não ter um telefone no meu quarto, sentir-me deliciosamente travessa ao passar um batom e uma sombra quando eu sabia que minha mãe reprovaria. Contudo, não me dei conta, ao tomar essa decisão consciente de guardar o segredo em um cofre sem combinação, de que minha vida não passaria assim: não seria tão ingenuamente simples como eu esperava. Claro que eu podia conversar sobre meninos, maquiagem e telefones no meu quarto, mas nunca sentiria as palavras que estavam saindo da minha boca, nunca saborearia a inocência de ser uma criança que se transformou em adolescente. E, quando crescesse e fizesse quinze anos, e depois dezesseis e dezessete, eu sairia com meninos, beijaria-os, até compartilharia meu corpo com eles, mas nunca os amaria, nunca seria vulnerável a eles. Pelo menos, não do jeito que eu queria amá-los e ser vulnerável a eles – não do mesmo jeito que Sophie. E, assim, começou minha vida de faz de conta. Quando minha mãe voltou de Chicago, depois de ter visitado meus avós, consegui usá-la como escudo. Enquanto ela estivesse presente, eu nunca teria de estar sozinha no mesmo recinto que meu pai. Não teria que ficar sentada em silêncio com ele enquanto lutava contra a tentação de fazer a premente pergunta que não queria calar: por quê? Por que você beijaria outra mulher quando tinha minha mãe? Por que esperaria ela viajar para fazê-lo? Por que não a ama do jeito que deveria? Todas essas perguntas acabariam se resumindo em um insolúvel e essencial quebra-cabeça: por que as pessoas traem? O divórcio aconteceu quando eu tinha 25 anos. Minha mãe descobriu que meu pai vinha traindo-a há vários meses com uma mulher do escritório dele. Exatamente como ela descobriu, não sei, não cheguei a perguntar. Era um detalhe que eu não sabia se aguentaria. Era engraçado, pois alguém podia pensar que, depois de todo o fardo que eu


vinha carregando por todos esses anos, uma pequenina informação a mais seria uma coisa fácil para eu digerir; mas era exatamente o contrário. Se eu tivesse que internalizar mais um elemento do decadente relacionamento dos meus pais, certamente perderia a cabeça, seria a gota d’água. Porém, independente do motivo, do método, ela descobriu essa traição e terminou com ele. Dizer que fiquei aliviada seria o mesmo que dizer “estou com sede” no meio do deserto, a declaração mais subestimada de todas – e nem chegaria a fazer jus aos meus verdadeiros sentimentos. – Jennifer – disse minha mãe, chorosa, depois de me fazer sentar no pequeno apartamento de um quarto que eu alugava na época –, preciso conversar com você sobre uma coisa. Sentei-me ao lado dela e lhe dei toda a minha atenção. – Sim, mãe? Era raro que ela viesse ao meu apartamento sozinha, que dirá com a introdução “tenho que conversar com você sobre uma coisa”. Por isso, fiquei preocupada na hora. – Seu pai e eu resolvemos que nosso casamento não está indo do mesmo jeito que antes e achamos que é melhor nos separarmos e nos divorciarmos. A reação foi fácil de forjar. As lágrimas eram verdadeiras, mas, de acordo com minha mãe, eram lágrimas dolorosas de mágoa de uma criança que tinha acabado de perder a única família que conheceu. Entretanto, na realidade, eram lágrimas de alegria, de alívio e, principalmente, de libertação do lar problemático que tinha me aprisionado por tempo demais. Parecia que alguém havia aberto uma porta que eu vinha apoiando, forçando, empurrando por anos, que me mantinha presa dentro de uma sala escura cheia de segredos, e eu tinha medo do escuro. Mas agora estava tudo acabado. Tudo ficaria bem. Eu podia confessar tudo, contar-lhe o que vinha guardando dentro de mim esse tempo todo, porque não tinha mais importância. Ela tinha visto a luz e estava seguindo em frente. O passado ficaria no passado, e eu finalmente podia soltar os demônios que estiveram me assombrando pela maior parte da minha vida. – Por quê? – perguntei, com a voz cheia de curiosidade, mas a cabeça cheia de expectativa, pois já sabia a resposta. Ela fungou de leve e tocou no meu rosto. Vi a dificuldade em seus olhos, sua luta para continuar forte para uma filha que não tinha como entender as complicações de um casamento adúltero. – Sinceramente, querida, seu pai não foi fiel a mim – ela engoliu em seco e tentou recuperar sua coragem e compostura. – E, quando eu o confrontei a respeito, ele admitiu que não vinha sendo fiel há um tempo. Mais lágrimas escorreram. Minha mãe estendeu os braços e me puxou para perto de si. Ela acariciou meu cabelo como se eu fosse uma criança e, ironicamente, eu me sentia como uma. Era exatamente o tipo de consolo de que precisava, com treze anos de


atraso. Eu sabia que ali era a hora de contar. Bastava apenas um simples “eu sei” e meu mundo inteiro iria mudar. Minha vida recomeçaria do zero. Podia até tentar achar um pouco da infância que eu tinha perdido em noites maldormidas e na cruel ansiedade. Abri minha boca para dizer as palavras que prometiam me curar, mas, em vez disso, ouvi minha mãe dizer: – Eu apenas queria ter ficado sabendo antes. – Quê? – perguntei, com pânico tomando conta dos meus olhos. Eu não conseguia nem começar a entender a lógica por trás de sua afirmação. Aos doze anos de idade, a única coisa que fazia sentido era protegê-la da verdade. Longe dos olhos, longe do coração. “Há coisas que é melhor não dizer”, como meu pai disse tão incisivamente. E esse raciocínio me seguiu até a vida adulta. Eu nunca me permiti reavaliá-lo. Ela sorriu carinhosamente e colocou minha mão entre as suas. – Sabe, para que pudesse seguir em frente, para não ter perdido todos esses anos casada com um homem que não era fiel. E essas foram as palavras mágicas, não apenas porque faziam perfeito sentido, mas por serem desafiadoramente o oposto das palavras que me levaram tão longe nesse caminho perdido. E o fato de fazerem perfeito sentido era o motivo de eu ter voltado a fechar a porta. Não podia deixar minha mãe saber que fui responsável pela perda de sua felicidade. Minhas escolhas imaturas e ingênuas haviam lhe privado de anos de sua vida... literalmente. E, esse tempo todo, achei que estava protegendo-a, mas, na verdade, estava protegendo-o, a pessoa que passei a detestar e desprezar tinha se beneficiado do meu silêncio. Como é que alguém poderia perdoar uma coisa dessa? Por isso, o segredo permaneceu trancado lá dentro, até hoje. Parei de falar com meu pai. Não havia mais motivo para fingir. Eu já sabia da verdade e agora tinha todo direito de odiá-lo. Toda a raiva e hostilidade que vinha acumulando ao longo dos anos finalmente podia ser liberada – e com razão. Eu não tinha mais que achar maneiras inteligentes de disfarçar meu ressentimento reprimido em relação a ele. Não precisava mais brigar por causa de coisas banais como mudar o canal da TV, comida pronta e tarefa de casa só para evitar que eu perdesse a cabeça só de pensar em como ele tinha desrespeitado minha mãe. Ele havia transformado num deboche a minha família, a vida que eu conhecia, e tinha que me obrigar até a olhar nos olhos dele. Porém, agora, felizmente, não precisaria mais tentar. Pelos últimos três anos, meu pai tentou várias vezes, sem sucesso, restabelecer a comunicação entre nós: e-mails sem resposta, ligações não retornadas, escondendo-me na penumbra da minha sala de estar, fingindo não estar em casa toda vez que ele tentava “passar para fazer uma visita”. Eu não queria nada com ele e, agora, pelo menos, não precisava perguntar o porquê.


11 A rainha de copas Reconheci Parker da foto logo de cara. Ao passar os olhos nas mesas da sala de pôquer do Bellagio, presumi que os outros caras de trinta e poucos anos espalhados pela sala eram amigos dele, a julgar pelo jeito como estavam vestidos, prontos para se jogar nas boates assim que o pôquer perdesse a graça. Dei meu nome ao gerente da sala de pôquer na entrada, junto com uma das várias notas de cem dólares que eu tinha socado dentro da minha bolsa de couro branca Versace. – Mesa treze, por favor – falei calma, apontando discretamente para a mesa onde meu alvo estava sentado. Ele confirmou sua compreensão e discrição, pegando sorrateiramente a nota de cem. Segui-o pela sala de pôquer e deram-me um lugar bem na frente de Parker. Senti os olhos deles me observando ao me aproximar da mesa e me sentar. A blusa decotada, que combinava com meu sutiã que valorizava os seios, foi claramente uma boa escolha. Pude notar de cara que estava dando certo. Ele gostava de seios. Depois de ouvir a descrição que o senhor Ireland fizera dele, tive uma leve suspeita de que ele era desse tipo. Acho que é o resultado de dois anos de experiência nesse jogo: leves suspeitas. Fiz contato visual especificamente com ele, sem deixar dúvidas para a cabeça dele de que minha primeira impressão desse cara desconhecido foi boa. Um delicado sorriso se abriu nos meus lábios. Ele o retribuiu rapidamente antes de retornar ao jogo enquanto as cartas eram distribuídas. Joguei cuidadosamente minhas cartas, abandonando a maioria imediatamente, aguardando boas cartas aparecerem, como Ethan, meu professor de pôquer, havia me orientado durante nossas aulas. Usei o tempo de espera entre uma mão e outra para seguir com meu outro jogo, o que consistia em paquera intencional com o outro lado da mesa: olhares, sorrisinhos, apreciações visuais de suas habilidades no pôquer e vitórias resultantes. Hoje eu estava jogando, e não era só pôquer. Afinal, esta era, de fato, a despedida de solteiro dele. Se Parker fosse trair hoje, seria obviamente com uma transa sem compromisso: uma aventura, com alguém que sabia se divertir e sabia que aquilo não significaria nada na manhã seguinte, com uma mulher que não fazia isso necessariamente com todo mundo que encontrava, mas, quando conhecia alguém bem fascinante, não havia como prever o que ela faria com ele... ou para ele. Por isso, eu era exatamente essa mulher. Vinte minutos depois de me sentar, recebi um ás, uma dama de copas e resolvi ir em slow play, isto é, não aumentei a aposta logo de cara. Simplesmente acompanhei todas


as apostas que já haviam sido feitas e fingi ter uma mão medíocre e esperar pacientemente para receber uma carta que a melhorasse. O slow play era uma estratégia que Ethan supostamente tinha me ensinado em nossas aulas, mas, na realidade, eu vinha usando-a regularmente nos últimos dois anos. Mais duas cartas de copas apareceram no flop, junto com o rei de ouros. Agora eu tinha quatro cartas para um flush. Precisava de mais uma de copas para completar a mão. Parker apostou, e presumi que ele devia ter, pelo menos, um par de reis, se não três. Ele vinha apostando agressivamente desde antes do flop, o que significava que provavelmente tinha coisa boa na mão. O sete de copas veio no river, e agora eu estava com o flush. Parei meu jogo de paquera por um instante para relembrar minhas aulas de pôquer. Analisei as cartas que estavam na mesa e levei alguns segundos para confirmar que eu tinha a mão mais alta possível, o que, segundo Ethan havia me informado, também era conhecido como “nuts”. E, foi somente nesse momento que entendi totalmente o sentido, pois parecia exatamente que Parker estava sob meu controle. Ele apostou vinte dólares. Todos depois dele saíram, e a ação coube a mim. Só havia nós dois agora. Senti os olhos dele observando cada movimento meu. Ele queria ver se eu era tão boa no pôquer quanto em lançar olhares sedutores para pessoas relativamente estranhas. Isso diria muita coisa sobre a qualidade da minha “performance” mais tarde, se chegássemos lá. E, agora, eu estava cada vez mais confiante de que chegaríamos. Geralmente, posso dizer, em dez minutos de interação com o alvo, se ele vai fracassar ou não no teste. Acho que faz parte daquele superpoder de decifrar os homens. Parker já estava no ponto – e nem estava bebendo ainda. Parecia que a intuição paterna do senhor Ireland tinha acertado na mosca. Embora eu soubesse que estava com a mão mais valiosa do jogo, fingi pensar na minha decisão de acompanhar a aposta dele. Apertei meus lábios com força, dei mais uma olhada nas minhas cartas e mexi com nervosismo nas minhas fichas. Ele me observou atentamente, meio esperando que eu saísse do jogo para poder ter um pouco de senso de conquista sobre mim, meio esperando que eu pagasse a aposta para ele poder continuar sentindo a animação de jogar esses dois jogos simultaneamente, apesar de sabermos que eles praticamente haviam se fundido em um só. Avaliei com cuidado, duplicando perfeitamente sua aposta e empurrei as fichas para o centro da mesa. – Aumento a aposta – falei, olhando para ele e fixando meus olhos nos dele. Meu olhar tinha dois significados: 1) não tenho medo de você; e 2) não tenho medo de você. – Aumentando, quarenta dólares – confirmou o dealer. Ele se espantou, analisando-me, assimilando-me, usando este momento único para me olhar de cima a baixo como se estivesse apenas contemplando minha ousada jogada de pôquer. Nós dois sabíamos que ele não estava. Ele tirou seus olhos de mim o tempo


suficiente para checar suas duas cartas e então rapidamente escanear as cinco cartas na mesa. Depois ele voltou a me estudar. – Ou você fez um flush no river, ou está escondendo alguma coisa de mim – falou. Passei meus dedos na lateral da minha pilha de fichas. – Definitivamente, estou escondendo – confirmei com uma sinceridade crua no meu tom de voz. – Mas estou cansada de esperar. Os outros sete jogadores nos observavam, com os olhos virando de um lado para outro, de Parker para mim, de mim para Parker. Eles podiam sentir a tensão sexual no ar, que se alimentava de um amor mútuo pelo jogo e uma emoção mútua pela caça. Hoje, eu era o par perfeito para Parker Colman. Ele olhou para suas fichas. – Bem, você não é a única – ele disse, empurrando mais vinte dólares para a frente. – Aumento mais. – Aumentando mais, sessenta dólares – anunciou o dealer. Era como ter o próprio juiz para o jogo: a única função do dealer era garantir que soubéssemos as regras, o que estava em jogo e que nenhum de nós se machucasse durante o processo – bem, pelo menos, não fisicamente. Mal sabia o dealer que ele estava acompanhando a troca de coisas muito mais valiosas do que apenas sessenta dólares. A jogada de Parker foi exatamente como eu tinha previsto. Ele tinha visto minha hesitação de antes e interpretou-a como medo, medo de que minha mão não fosse boa o suficiente. Era, claro, exatamente assim que eu queria que ele interpretasse. Agora, sem hesitar, empurrei imediatamente todas as minhas fichas para o centro da mesa. – Aposto tudo – declarei. – Aumentando mais a aposta, trezentos dólares – divulgou o dealer depois de contar minhas fichas. Aumentando mais a aposta, sua noiva, pensei. Parker me examinou minuciosamente, como também o fez o resto da mesa. Quem era essa mulher? Ela se sentou, com um jeito relativamente ignorante, usando jeans apertado e uma blusa reveladora, e, em apenas vinte minutos, ela conseguiu abocanhar um pote de quase seiscentos dólares. Manti meu rosto inabalado, revelando apenas uma pequena e seleta parte das minhas intenções, só o suficiente para manter as coisas interessantes. A essa altura, dois amigos de Parker tinham vindo de uma mesa próxima e estavam atrás dele, observando a ação. Eu tinha certeza de que ele estava com três reis. Se não, ele teria desistido, principalmente com a possibilidade do flush na roda, o que significava que ele iria me derrotar até a última carta. Três reis era uma mão muito difícil para desistir; mas não significava que não devesse desistir, e eu tinha certeza de que, ao final da noite, ele iria desejar ter desistido. Parker acompanhou meu aumento e empurrou uma grande pilha de fichas para o meio.


O dealer nos orientou a mostrar nossas cartas. O olhar no rosto dele era de puro terror. A única mão que poderia tê-lo derrotado estava no meu lado da mesa. Não pude deixar de notar o interessante prenúncio da situação. – Ela conseguiu a carta de copas na porra do river! – ele reclamou para um dos amigos. Sorri enquanto o dealer empurrava a grande pilha de fichas para mim. – Lamento, essa é a natureza do jogo – respondi, meio com pena, meio me gabando. Era exatamente a combinação a que ele reagiria. Ele engoliu seu orgulho masculino e, com uma voz sincera e levando na esportiva, falou simpaticamente: – Boa mão. – Obrigada – respondi, enquanto tentava empilhar todas as minhas fichas recémganhadas. Fingi não notar que Parker e seus amigos tinham tomado uma decisão conjunta de encerrar a noite nas mesas de pôquer e seguir para uma boate. Tentei prestar muita atenção para ouvir onde estavam planejando ir, mas infelizmente não pude interceptar o nome do local. – Bem, foi bom jogar com vocês – ele disse para a mesa, mas mais especificamente para mim. Houve alguns sussurros de outros jogadores expressando o mesmo sentimento, e eu olhei para a frente e falei: – Sim, foi mesmo um prazer. Antes de ir embora, ele se virou como se fosse dizer mais alguma coisa, mas tudo o que falou foi: – Quem sabe a gente se vê por aí. Sorri. – Quem sabe. E ele me veria. Assim que os rapazes foram embora, apressei-me para jogar todas as minhas fichas dentro de um rack, peguei minhas coisas e fui até o caixa. Retirei exatamente 650 dólares a mais do que tinha no começo. Enquanto socava as notas na minha bolsa e me dirigia para a porta principal do cassino, procurei me lembrar de começar a aceitar mais missões em que pudesse lucrar 650 dólares. Não era um mau negócio. Fiquei escondida observando Parker e seus cerca de dez amigos entrarem em uma série de táxis consecutivos na frente do hotel. Eu teria que descobrir seu destino antes de subir para o quarto e vestir meu uniforme de “balada”. Depois que o último táxi saiu, saí para a rua e abordei o operador de táxi. – Poderia me dizer para onde aqueles caras foram? – perguntei, passando uma nota de cem da minha bolsa para a mão dele.


Ele não deu importância para a nota, reação que deu a entender que esse tipo de pedido não era raro por ali. – Para o Palms – respondeu calma e astutamente, como se eu tivesse apenas perguntado onde era o caixa eletrônico mais próximo. – E qual é o nome da boate de lá? Ele olhou para minha bolsa, a direção de onde tinha saído sua nota de cem dólares. Reclamei: – Acho que não – falei, dando as costas e voltando para a entrada do cassino. Era quase certo que a portaria me diria prontamente o nome da boate que havia dentro do Hotel Palms... de graça. – A boate se chama Rain – ele gritou atrás de mim. Virei-me e disse: – Obrigada pela sua ajuda. – Meu trabalho termina à meia-noite. Posso procurá-la ali mais tarde? – perguntou ele, paquerando-me com as sobrancelhas erguidas. – Acho que não – falei novamente, antes de voltar para o cassino. Uma hora depois, ressurgi no ar fresco noturno do deserto em um vestido azulturquesa justo, um par de saltos com “intenção de foder” e uma maquiagem nos olhos digna de editorial da Vogue (mais porque eu copiei de lá). – Cassino Palms? – perguntou o operador de táxi com um tom espertalhão e um sorriso malicioso. – Sim, obrigada – falei com irreverência, como se o encontro de antes nunca tivesse acontecido. Ele me colocou no táxi seguinte e fui, pronta para topar por acaso com Parker Colman pela segunda vez naquela noite. Hoje, como Ashlyn, eu estaria supostamente saindo com algumas amigas na boate Rain no Cassino Palms. O resto da minha turma já tinha resolvido ir para a pista de dança, mas eu estava muito mais a fim de beber. Por isso, fui me espremer por entre um grupo de caras de trinta e poucos anos na minha saga para chegar ao balcão do bar. Entre eles, estava um moreno alto, másculo, bonito, que obviamente estava ali para comemorar sua despedida de solteiro porque estava usando vários colares coloridos no pescoço e um chapéu gigante com estampa de leopardo na cabeça. Ao forçar a passagem pelo grupo, meu senso de reconhecimento passou pelo rosto do homem. – Ei, eu te conheço – ele falou. Estava claro que andou bebendo, dava para sentir o cheiro do álcool no bafo dele. Não sei por que isso me fez sorrir. O reconhecimento havia passado pelo pequeno espaço que havia entre nós e estampou meu rosto. – Sim, conhece. Que coincidência. Duas vezes numa noite só. Sorte minha. – Não, sorte minha – ele insistiu. Ele se virou para os amigos. – Olhem, é a menina que


pegou todo o meu dinheiro. Alguns amigos dele me reconheceram na hora e cochicharam algo inaudível no ouvido do solteiro. – Meu nome é Parker – ele estendeu a mão. Apertei-a com firmeza, deixando minha palma deslizar sedutoramente na dele ao terminar o cumprimento. – Ashlyn. – Nome bonito. Posso lhe pagar um drinque? – ele propôs. – Não sei. Você pode? Depois que peguei todo o seu dinheiro? Ele riu. – Bem, tecnicamente, você deveria me pagar um drinque, mas não seria nada cavalheiro da minha parte. Por isso, acho que vou ter que dar um jeito. – Uísque com Coca-Cola – respondi com um sorriso, claramente intrigada pela sua boa aparência e cavalheirismo, e não fiz nenhum esforço para escondê-lo. – Ei, é isso que estou bebendo! – ele disse, mostrando seu copo pela metade. Evidentemente, não era o primeiro drinque dele. – Você tem bom gosto – observei. – Você também, é claro. Ele era bom nisso. Fiquei impressionada. O barman serviu meu drinque, e levantei meu copo perto do dele. – Um brinde a Las Vegas? – sugeri. – Às coisas que acontecem em Las Vegas – ele insistiu. – ... e ficam aqui. Brindamos, e dei um grande gole do meu drinque. O solteiro assistiu, mais uma vez impressionado com a lindíssima e misteriosa mulher na sua frente, praticamente emanando sexo. Mas também, isso era Las Vegas: tudo emana sexo nessa cidade. – Quer dançar? – ele me convidou. Esse era o convite, aquela solicitação obrigatória, necessária e onipotente. Ele tinha iniciado, e agora eu podia seguir. Sem dizer mais nada, passei meu dedo elegantemente pintado por um de seus colares e comecei a puxá-lo para a pista de dança. Enquanto o futuro noivo vinha atrás, ele estava sentindo seu pulso aumentar. Sua mão queria pousar nas minhas costas e acariciar o contorno dos meus quadris. Sua boca queria se perder pelo meu pescoço, afastar meu cabelo e sentir minha pele em seus lábios. Ele podia ouvir as vozes dos amigos cada vez mais distantes, torcendo por ele enquanto ia para a batalha. Ele podia se sentir ficando duro com a expectativa, e aí seu corpo se endireitou. Alguma coisa chamou sua atenção para o fundo da boate, a música, as luzes, a lembrança de algo que o esperava em casa, alguém que contava com a palavra dele. Ele negociou com sua voz interior: é só uma dança, disse a si mesmo, e essa é a minha despedida de solteiro.


Se um indivíduo estivesse bebendo, isso facilitava meu trabalho, não apenas da maneira óbvia com que o álcool deixa as pessoas desinibidas, mais sexuais, mais propensas a trair, mas também da maneira não óbvia, pois eu tinha menos precauções a tomar. Os homens que estavam sob influência do álcool eram menos desconfiados por natureza: não notavam coincidências, não prestavam atenção nos deslizes, simplesmente aproveitavam seu estado de desinibição. Embora a personalidade de Ashlyn hoje ainda estivesse bem definida e premeditada, senti-me relaxar na pista de dança. Eu sabia que tinha poucas preocupações. Não havia dúvidas de que essa noite terminaria no quarto de Parker Colman. A inspeção já estava reprovada. A música estava alta e sensual. A pressão das mãos dele no meu corpo se intensificou enquanto a música continuava. Seu toque começou suave, uma vaga exploração da minha silhueta externa e, aos poucos, foi me pressionando, cada vez mais forte, mais vigoroso, como se estivesse massageando a tensão sexual dentro dos meus músculos. Seus dedos envolveram minha cintura e me puxaram para ele. Seu corpo se apertou contra o meu, e pude sentir seus músculos do peito. Seus peitorais eram fortes e definidos. Como se tivesse saído do meu corpo, vi minhas mãos se levantarem, agarrando-os e apertando-os. A música começou a pulsar nas minhas veias, cada vez mais alta, até eu sentir se tornar parte de mim, controlando meus movimentos, guiando cada passo meu. Suas poderosas mãos viraram meu corpo e pousaram acima da minha barriga. Ele apertou minhas costas contra ele. Seus dedos correram para cima e para baixo nas laterais da minha cintura, escapando por pouco das curvas dos meus seios e parando nos meus quadris apenas por tempo suficiente para saber que a calcinha que eu estava usando não era muito grande. Enquanto ele tirava meu cabelo do caminho e começava a beijar carinhosamente a minha nuca, senti algo que não sentia há muito tempo, uma coisa que nunca senti numa missão: um formigamento entre as pernas. Fechei meus olhos, deixando o toque de seus lábios arrepiar minhas costas e meu corpo inteiro. Com agressividade, ele virou meu corpo de volta, e seus lábios foram ao encontro dos meus. Não ofereci resistência, não que isso já tenha acontecido. Desta vez, porém, alguma coisa estava diferente. Eu não queria oferecer resistência, não estava presente aquela reação natural de afastá-lo contra a qual eu tinha que lutar em toda missão. Seu beijo era forte, másculo, com gosto de uísque e Coca. Deixou meus joelhos bambos. O que há de errado comigo?, pensei. Será que é o álcool? Era ridículo. Em missões anteriores, eu já bebera três vezes mais do que hoje e teria passado no teste de sobriedade com louvor. Não, havia outra coisa acontecendo aqui, algo inexplicável e definitivamente aterrorizante. Certamente não havia um manual para este trabalho, pelo menos não um que tivesse sido publicado. Porém, se existisse, isto estaria na primeira página como a maior infração


de todas, a regra básica das inspeções de fidelidade. Quanto ao que ele pensa, você está louca por ele e por todas as coisas escandalosas que ele está fazendo com você. Quanto a você, é melhor ficar insensível da testa para baixo: não sentir, não se envolver e certamente não curtir. Porém, havia algo na boca e nas mãos de Parker: eram intoxicantes. Meu nível de tolerância deveria ser altíssimo, tanto para o álcool como para esse tipo de coisa. Hoje, contudo, eu me sentia levíssima, ficando bêbada com uma dança, um toque, um beijo maravilhoso. – Vamos sair daqui – ele cochichou no meu ouvido. Concordei com a cabeça. Nem precisei dizer nada. E eu estava com medo de que, se dissesse, seria algo de que me arrependeria e possivelmente algo que acabaria com meu trabalho, e minha reputação como profissional honesta seria destruída. Não conduza, só siga, lembrei a mim mesma. Mas uma pergunta ficava repetindo na minha cabeça: se eu gostar, será que ainda conta? Ele me puxou para a frente dele e andou logo atrás, com os braços envolvidos no meu corpo, suas pernas sincronizadas com as minhas, seus lábios ainda causando arrepios das costas até os pés. Tentei desesperadamente me ater à personagem; Ashlyn era perita nisso, não era uma estranha que saía de bares com homens quaisquer. Ashlyn daria risada dos avanços dele. E foi o que fiz. – Seu cheiro é incrível – ele disse, parando os lábios por tempo suficiente para cheirar meu pescoço. – E os seus amigos? – perguntei, olhando na direção do bar, onde essa noite descontrolada havia começado. – Eles vão ficar bem – ele me garantiu. – É minha despedida de solteiro. E foram essas palavras que finalmente me deixaram sóbria na hora, não porque fui lembrada que ele era noivo de alguém e que eu definitivamente estava passando dos limites ao ficar um pouco excitada com o toque dele, mas por causa do que as palavras davam a entender: “é minha despedida de solteiro”. Meus amigos esperam isso de mim. Eu teria traído com qualquer pessoa. Aconteceu de você aparecer... duas vezes. – Tudo bem para você? – ele perguntou, provavelmente por ter sentido meus ombros se enrijecerem de repente. Imediatamente, relaxei meu corpo e voltei para a personagem. Pude sentir Ashlyn aos poucos, mais uma vez, tomar as rédeas. Passei um dedo da bochecha ao queixo dele. – Claro. Você ainda não é casado, né? A dormência voltou para minhas pernas, depois para os quadris, seguido da barriga, braços e seios. Ao sairmos do Hotel Palms, ele virou e beijou meus lábios. Sim, eles também estavam dormentes de novo. Tudo havia voltado ao normal – ou, pelo menos, era o que eu esperava.


Parker me atirou animadamente na cama e praticamente caiu por cima de mim. Gemi de prazer enquanto suas mãos massageavam minhas coxas por cima do meu vestido. Preparei-me para o que vinha a seguir: mais beijos, mais toques, mais gemidos falsos saindo dos meus lábios. Mas não aconteceu. Nada disso aconteceu. Sem aviso prévio, suas mãos subitamente se amoleceram perto das minhas pernas e acabaram se afastando. Eu não sabia o que havia acontecido. Procurei uma pista no rosto dele. Ele estava quieto, pensativo, contemplativo. Olhou nos meus olhos, preparando-se para dizer alguma coisa, algo importante. – Espere um pouco – ele começou. Meu primeiro pensamento foi de que ele estava com dúvidas, de que fosse me rejeitar. O efeito do álcool tinha passado, alguma coisa lembrou sua noiva, qualquer motivo. Esse candidato improvável parecia estar endireitado e pronto para se tornar um dos poucos que passavam na inspeção. Esforcei-me para evitar o sorriso que estava tentando aparecer no meu rosto. A ideia de alguém ser aprovado era sempre animadora. Sim, isso significaria ao que minha análise inicial dele estivera errada, mas nesse trabalho deixava-se o orgulho de lado. Na maioria das vezes, quase torcia para estar enganada. – Qual é o problema? – perguntei ingenuamente. – Tem algo errado – ele respondeu. Meu coração disparou. Pronto, isso iria acontecer. – É mesmo? – meu tom de voz beirava a ignorância. – Você mudou – ele disse sem rodeios. Minha gota de esperança começou a se fundir aos poucos com uma grande poça de confusão. – Do que está falando? – Você estava com tudo na pista de dança e, assim que saímos da boate, foi como se tivesse se fechado. Meu estômago deu um nó ao começar a me dar conta de onde vinha a hesitação dele. Era eu. Eu tinha fodido tudo, tinha perdido o controle, só por um instante. E agora estava prestes a sabotar uma missão por causa disso. – Eu, hã, não sei do que está falando. Ele se sentou. – Parece que você só está seguindo a correnteza, como se estivesse em piloto automático, mas sua cabeça está em outro lugar. Ai, meu Deus. Comecei a entrar em pânico. Isso serve para mostrar que nada de bom resulta de perder a concentração neste trabalho. Não se pode nunca baixar a guarda,


nem por um minuto sequer. Meus pensamentos ficaram borrados. Será que ele estava realmente questionando minhas motivações ou era só uma desculpa? Ironicamente, essa gota de esperança estava atrapalhando minha visão da realidade. Eu não conseguia parar de pensar que talvez ele estivesse mudando de ideia no fim das contas, e meu comportamento anormal de hoje era apenas um pretexto conveniente, uma solução mágica para dissolver a cola que lhe prendia a essa situação complicada. – Que loucura – respondi na defensiva. – É mesmo? De repente, eu me dei conta: se ele me rejeitar agora, nunca vou ficar sabendo o verdadeiro motivo. Será porque ele realmente queria permanecer fiel à sua noiva ou porque pisei na bola? O resultado de confundir essas duas diferentes hipóteses era cruel. Eu, é claro, presumiria a segunda. Como é que eu relataria para Roger Ireland que não tinha 100% de certeza sobre o resultado? “Hã, ele foi aprovado... bem, mais ou menos. É complicado, sabe”. De jeito nenhum, isso nunca colaria. Eu tinha que saber com certeza antes de sair desse quarto. – Parker – eu me sentei e fiquei de frente para ele, tentando parecer séria e provocante ao mesmo tempo –, não estou seguindo nenhuma correnteza. Eu quero o que você quer. Acho que você tem que simplesmente decidir o que você quer. Pronto. Agora a decisão voltava para as mãos dele. Não era o reparo ideal, mas eu esperava que lhe desse algo para pensar por um tempo. Depois, tive outra ideia, uma muito mais sóbria do que as outras: e se alguém tivesse lhe avisado? E se ele tivesse sido interceptado por alguém no decorrer da noite, mostrando minhas verdadeiras intenções, revelando tudo. Se esse fosse o caso, significaria que Parker estava apenas entrando no jogo, “seguindo a correnteza”, armando para eu fracassar, jogando em slow play comigo! Houve um silêncio constrangedor entre nós. Ele olhou para mim, obviamente imaginando o que estava passando pela minha cabeça. Engraçado, eu estava pensando a mesma coisa que ele. Eu não sabia quem de nós estava mais desesperado por um aparelho que lesse a mente neste exato momento, principalmente quando o meu aparelho interno estava falhando tão desgraçadamente. Meus “poderes” especiais nunca estiveram tão fora de sintonia na minha vida, como se Parker Colman, de todas as pessoas do mundo, fosse a minha criptonita. Tudo parecia um caos, como se alguém tivesse colocado um ímã perto da minha bússola, cuja agulha estava agora girando adoidada. Afinal, pela primeira vez hoje, eu não tinha a menor ideia do que estava na mão dele, as cartas que estavam na mesa não estavam me dizendo nada. Não estava sendo tão fácil quanto ter a mão mais alta com absoluta certeza de que seu adversário tem três reis. E, quando não se tem a menor ideia do que a pessoa do outro lado tem nas mãos, não há jeito de saber quanto apostar. Tentei disfaçar minha ansiedade enquanto ele continuava analisando meu rosto, como se estivesse tentando avaliar sua próxima jogada com base no que eu poderia estar


escondendo, tentando descobrir se eu ainda tinha aquelas duas cartas de copas no meu bolso. E foi aí que se deu conta, e seu rosto expressou alívio. – Espere um pouco – ele falou com um sorriso espertalhão. – Está bem, quanto é que meus amigos estão te pagando? Segurei um sobressalto. – Como é que é? – Você é uma prostituta, né? Meus amigos te pagaram, mas eles tinham certeza de que eu não transaria com você se soubesse que era, por isso mandaram você fingir que estava a fim de mim e tal, né? Meus olhos se arregalaram e, quando eu estava prestes a chutar o balde, desistir da minha mão, sair da mesa e, pela primeira vez, abandonar o trabalho pela metade por puro orgulho, tive um estalo. Parker tinha acabado de cometer a maior das violações do pôquer: havia me mostrado sua mão antes de o jogo acabar. E, do nada, eu estava com a vantagem que vinha buscando: eu sabia exatamente como jogar. Levantei-me bruscamente da cama e saí batendo o pé e bufando pelo quarto, à procura dos meus sapatos. Eu assegurei que cada fio de cabelo irritado, ofendido e emocionalmente ferido do meu corpo estivesse visível e audível. – Nossa! Nunca fui tão ultrajada em toda minha vida! O rosto de Parker imediatamente ficou vermelho-vivo, ao perceber que havia cometido um engano absurdamente terrível. Ele entrou em pânico e saltou da cama, estendendo o braço para me pegar e me puxar para perto dele. – Espere, não vá. Me desculpe. Não sei por que falei isso. Eu o empurrei. – Você acha que sou uma prostituta? Ele hesitou. – Me desculpe. Eu senti uma mudança em você, não sabia o que era. Exagerei na reação, fiquei paranoico. Era o álcool falando, não eu. Por favor, não vá! Quero mesmo passar mais tempo com você. Pus as mãos na cintura e olhei feio para ele, aparentando estar decidindo se queria perdoá-lo, decidindo o quanto eu queria transar esta noite. E aí minha voz ficou levemente mais suave, quase um sussurro vulnerável. – Eu pareço uma prostituta? – perguntei, com esperança de reconciliação nos olhos. – Claro que não! Você é tão bonita, sensual e elegante. Meu Deus, eu te quero tanto que está me levando à loucura. Ele voltou a me envolver com os braços, desta vez suave e carinhosamente, com uma adoração forçada que ele esperava ser convincente o bastante para impedir que eu fosse embora, para me manter na sua cama de aluguel. Deu certo. De certa forma, eu sabia que daria. O beiço nos meus lábios aos poucos se transformou num sorriso de perdão e, mais uma vez, ele pousou seus lábios nos meus. Não ofereci resistência. Seu beijo foi carinhoso no início. Tinha que ser, e ele sabia disso.


Mas ele voltou rapidamente à intensidade de meia hora atrás, e eu logo correspondi. Afinal de contas, estava cansada e pronta para ir dormir. Tinha sido uma longa noite. Minha performance dali em diante não teve importância. Ele acreditou em mim, não tinha outra escolha. Roger Ireland e sua filha teriam, pelo menos, uma resposta clara quando eu voltasse a Los Angeles – ainda que fosse uma resposta triste. Afinal, quando Parker ultrapassou o limite que não tinha mais volta, eu tinha certeza por que ele tinha sido reprovado. E certamente não foi por falha minha. Porém, dessa vez, nesse jogo, quando finalmente revelei essas duas cartas de copas da minha manga, ele não manifestou nenhuma atitude de educação do tipo “boa mão”. Acho que não estava mais levando na esportiva, mas eu não me importei. Essa era apenas a natureza do jogo.


12 Iniciais Eu só deixo uma coisa depois de uma missão, apenas um pequeno lembrete dos eventos que aconteceram; uma lembrança, por assim dizer. Ao fechar a porta do quarto de hotel, eu sabia que seria apenas uma questão de tempo até Parker Colman encontrar o pequeno cartão de visita preto que eu havia deixado em cima da cômoda. Não havia dúvidas de que ele veria a partir do outro lado do quarto, exatamente onde eu lhe deixara, sentado na beira da cama, com a cabeça entre os joelhos e uma culpa bem clara, e, pela primeira vez em sua vida, sentindo-se vulnerável. Ele levantaria sua cabeça por um instante, e a superfície preta e brilhosa do cartão chamaria sua atenção. Certamente não se lembrava de aquilo estar ali antes. Depois de alguns momentos, sua curiosidade venceria, e ele juntaria energia suficiente para se levantar da cama e se aproximar do misterioso e estranho objeto. Ele franziria a testa, perplexo, ao olhar para a minha pequena lembrança, não sabendo como interpretá-la. Na parte frontal do cartão, ele veria apenas uma letra “A”, impressa em uma fonte vermelha e ornamentada, quase caligráfica. Em seguida, ele iria pegar o cartão, sentindo com os dedos a superfície em relevo da elegante letra. E, só ao virar o cartão, discar o número gratuito impresso no verso, entrar seu ramal próprio de três dígitos e ouvir cuidadosamente a gravação personalizada é que ele iria finalmente compreender. O remorso tomaria conta dele novamente; dessa vez, inacreditavelmente, com uma força dez vezes maior, fazendo-o cambalear de volta para a cama, deitando seu corpo lentamente em cima do edredom, usando sua mão para estabilizar a tremedeira. O gancho preto do telefone do hotel ficaria pendurado, inerte, na beira da cômoda, com uma voz feminina automatizada tocando sem parar, ainda vagamente audível de onde ele estava, a apenas alguns metros de distância. A linha gratuita era a quarta e última do meu repertório de telefones, embora não tocasse em nenhum telefone fixo nem celular. Este número nunca conectava a pessoa que ligava a nenhum serviço de mensagem de voz e era, de longe, o número mais indetectável que eu tinha. A voz feminina do outro lado da linha não era minha. Era de um programa de computador que gerava vozes humanas o bastante para deixar as pessoas confortáveis, mas, ao mesmo tempo, digital o suficiente para informar ao interlocutor que a mensagem não havia sido gravada por uma pessoa de verdade e, portanto, era inútil tentar identificá-la em qualquer banco de vozes do mundo.


E, até que Parker Colman conseguisse energia para se levantar e fisicamente desligar o telefone, a gravação ficaria tocando sem parar. “O cartão que você acaba de receber aponta seu envolvimento numa inspeção de fidelidade, conduzida em nome de... Roger Ireland”. Todo cartão era preparado com meu número gratuito e um ramal personalizado. O serviço online que adquiri pouco mais de um ano atrás me fornecia um número ilimitado de ramais aos quais eu podia designar qualquer gravação que quisesse fazer o interlocutor ouvir. E, embora eu duvidasse que Parker Colman ou qualquer outra pessoa pudesse dar valor à complexidade e personalização dos meus serviços, sempre me orgulhei muito dos meus cartõezinhos pretos. Muitas vezes, eu ficava imaginando se alguém guardava o cartão, embora duvidasse disso. Não era exatamente o tipo de lembrança à qual se apegar e guardar na gaveta da cabeceira só para ter a recordação. O procedimento com o cartão dependia do meu humor. Às vezes, eu lhes contava exatamente quem eu era e por que estava lá, depois entregava o cartão: um baque duplo. E, às vezes, simplesmente ia embora e deixava o cartão para eles acharem: em cima da TV, da cômoda ou enfiado por baixo da porta. Eu considerava a prática bem branda. Afinal de contas, eu podia costurar a letra na camisa deles antes de ir embora, mas achei que esse ritual podia ser meio ultrapassado. Com Parker, optei por falar na cara dele, mais porque hoje não houve oportunidades convenientes de sair de fininho. Por isso, simplesmente parei a mão dele quando ela começou a subir pelo meu vestido, saí da cama, parei na frente dele e, olhando direto nos olhos dele, confessei a verdade: que a noite de hoje havia sido uma armação, uma inspeção, e os resultados eram “desfavoráveis”. Aí, peguei minha bolsa e saí do quarto. Acho que ele nem notou eu colocar o cartão em cima da cômoda. Mas uma coisa era certa: era a pior cartada para cima dele nos últimos tempos. Andei pelo corredor do hotel, hipnotizada com o carpete de cores vivas que parecia interminável. Cheguei ao elevador e apertei o botão para chamá-lo. Respirei fundo e suspirei profundamente. Ainda bem que acabou, pensei comigo mesma ao olhar para o meu relógio. Eram 2h15. Cedo para Las Vegas, imaginei. As portas se abriram, e eu entrei, passando os olhos rapidamente pela assustadora lista de números até encontrar o número 24º. Após apertá-lo, encostei-me no fundo do elevador enquanto as portas se fechavam. Pensei na suíte do 24º andar que estava me aguardando: os lençóis brancos, os travesseiros leves e fofos, o... De repente, uma mão se inseriu entre as portas do elevador, quase sendo amputada. Num sobressalto, voltei a ficar ereta, meio irritada pela companhia inesperada no que era para ser uma viagem muito tranquila de elevador. A essa hora da noite, era mais provável que fosse um grupo de pessoas de vinte e poucos anos que mal conseguia ficar


de pé e começaria a apertar todos os botões como uma criança com DDA e sem Ritalina; ou, pior, outra despedida de solteiro. Porém, quando as portas se abriram, havia apenas uma pessoa do lado de fora, que agora estava mais sóbria do que nunca: era Parker, e ele certamente não parecia contente em me ver. Engoli em seco e olhei para a porta, imaginando se seria mais seguro lá fora ou dentro do elevador. A lógica espacial me dizia que um corredor aberto com um estoque interminável de portas para bater era uma aposta muito mais segura do que um elevador de 2,5 m2 com um botão de emergência vermelho piscando. – Precisamos conversar – disse ele sem rodeios, com a mão ainda apoiada na porta. Esforcei-me para manter a compostura, olhando bem nos olhos dele, como havia feito poucas horas atrás na mesa de pôquer. Não tenho medo de você, dizia minha cara. Mas a verdade era provavelmente muito menos heroica. Eu não tinha exatamente cogitado a hipótese de Parker Colman ver o cartão, ligar para o número, desligar o telefone e depois correr bravo até o elevador. Eu não disse nada, deixando o silêncio falar. – Amo Lauren. Vamos nos casar daqui a três semanas, e não vou deixar você e sua merda estúpida de... seja o que for de fidelidade vire um obstáculo. – Talvez você devesse ter pensado nisso antes de tentar colocar sua mão na minha virilha – respondi, arrependendo-me na hora. A melhor maneira de lidar com um marido ou, neste caso, noivo indignado era não dizer nada, manter a calma e não acrescentar nada que pudesse atiçar sua fúria. – É minha despedida de solteiro! – ele gritou em resposta, como se isso fosse me convencer a ir embora e esquecer a história toda. – Infelizmente, acho que meu cliente não enxerga do mesmo jeito que você – respondi inabalada e equilibrada. Parker resmungou. – Roger Ireland é um velho arrogante que nunca vai achar ninguém bom o bastante para sua preciosa filha. Mantive-me firme na frente dele, com postura confiante e olhar impassível. – Gostaria que fizesse a gentileza de tirar sua mão da porta para eu ir embora agora. Com o canto do olho, pude ver o número 24 ainda aceso como um farol, guiando todo mundo até meu quarto. Rezei para ele não entrar no elevador e reparar no número aceso. Ele não podia saber que eu estava hospedada no mesmo hotel ou, pior, em que andar eu estava. Ele tinha que pensar o que todos os homens pensavam: que eu desaparecia misteriosamente no meio da noite, como fruto de sua imaginação, para nunca mais ser vista. A irritação reservada de Parker subitamente explodiu em fúria total. – Tá, isso é ridículo – sua voz tinha se levantado, no mínimo, uns trinta decibéis. – Não vou deixar você simplesmente sair daqui deste hotel e ir correndo contar à minha noiva e àquele pai estúpido dela que eu “quase” transei com você. Seu tom de deboche na palavra “quase” não deixava dúvidas quanto ao que pensava


deste procedimento. Felizmente, o que ele não notou foi que, durante sua miniexplosão, ele tinha levantado bruscamente os braços, soltando as portas – mas eu reparei nisso imediatamente. Dei um passo até o meio do elevador e apertei com força o botão de fechar as portas. – Com todo o respeito, senhor Colman, você não tem escolha. As portas começaram a se fechar bem na hora e, quando eu achei estar livre, sua mão voltou a se interpor na fenda e obrigou-as a se abrirem, e ele se aproximou de modo ameaçador para entrar no elevador, agora mais enfurecido do que antes. Foi aí que meu coração começou a se acelerar. Eu tinha lidado com homens furiosos no passado. Para falar a verdade, era uma parte óbvia do trabalho. Um marido que era reprovado na inspeção não ia falar algo do tipo “oh, que pena. Obrigado por me ajudar a me dar conta de que havia algo de errado com meu casamento”. Na maioria das vezes, eles ficavam furiosos, por isso, não era surpresa quando isso acontecia. Porém, esse cara estava passando dos limites, e eu não ia ficar num espaço pequeno com ele nessas condições. Além disso, ele passara a noite inteira bebendo. O excesso de álcool, mais o fato de saber que sua noiva iria cancelar seu casamento em questão de horas, mais, bem, uma transa frustrada, não eram uma boa combinação. Parker se aproximou e agarrou meu braço. O aperto era firme e cheio de advertências. Parecia que estavam tirando minha pressão num consultório médico, e a nova enfermeira não sabia quando parar de bombear o ar para a faixa. – Acho que você não está entendendo o que estou dizendo – falou ele suave, mas ameaçadoramente. Meu próximo movimento tinha que ser rápido para que ele não pudesse antecipar. Assim que ele deu mais um passo na minha direção, levantei meu braço livre, agarrei o pulso da mão que ele estava usando para segurar meu braço e torci com rapidez e força para o lado contrário. Seu punho se afrouxou imediatamente, e seu corpo caiu para a frente. Assim que meu outro braço ficou livre, dei um soco por baixo, atingindo totalmente seu nariz. Ele cambaleou de dor e, principalmente, de choque. – Que diabos... – ele gritou, tocando em seu nariz, sangrando e esforçando-se para ficar em posição vertical, mas o impacto no nariz não estava ajudando no equilíbrio. Ele tropeçou na minha direção. Eu sabia que, com os 1,90m dele e aproximadamente 90kg e os meus 1,70m de altura, mal passando a marca dos 50kg, fisicamente eu não era páreo para ele. Por isso, tive que tirar vantagem da minha atual posição. Meu joelho avançou, atingindo diretamente o meio de suas pernas. Ele cambaleou para fora do elevador com o golpe e bateu na parede que estava atrás, curvado devido à dor lancinante. Pude ver a nuvem de raiva e humilhação lentamente começando a cobrir o rosto dele, mas, na hora em que a tontura tinha passado e ele até já podia entender o que tinha acabado de acontecer, as portas do elevador estavam se fechando novamente – e, desta vez, sua mão não foi veloz o bastante para pará-lo.


Na manhã seguinte, acordei com o som do serviço de despertador do hotel. Eu ainda estava usando o roupão de algodão do Bellagio que eu tinha colocado depois do meu banho de vinte minutos na noite anterior, uma tentativa meticulosa de retirar Parker Colman da minha cabeça e de todas as partes do meu corpo. Depois de toda a lavagem de rotina pós-missão, duvidei que ainda houvesse células no meu corpo que tivessem entrado em contato com ele, embora a bucha não tivesse tido muita utilidade para limpar a lembrança. Mas também, isso não era possível. Fiz o checkout do quarto na recepção, onde podia pagar a conta em dinheiro. A maioria dos hotéis exigiam um cartão de crédito para reservar o quarto, mas uma caução de cem dólares por diária geralmente resolvia o assunto. Isso também permitia que eu me registrasse com um nome falso, pois os cartões de crédito podiam trazer problemas, principalmente se alguém como Parker Colman encontrasse um gerente homem com uma atenção solidária; e aí, do nada, meu disfarce acabaria sendo descoberto. Já dentro do avião, num assento de janela da primeira classe, tirei meus fones da bolsa, coloquei nos ouvidos e fechei os olhos. As missões em Las Vegas sempre eram agradáveis, pois a volta era um voo curto de 45 minutos. As missões em Nova York eram as piores: seis horas torturantes num avião depois de uma longa noite lidando com empresários corruptos (e não estou falando de sonegação de impostos). Eu geralmente usava fones no avião. Se havia música tocando neles ou não, dependia do meu humor. Eu odeio conversinha de avião, é perda de tempo. Os voos são minha hora de relaxar, pensar em nada, ler minhas revistas de fofoca preferidas. É minha pausa para o descanso. Com o passar do anos, aprendi que as pessoas dos aviões irão tentar conversar com você, mesmo que claramente esteja lendo alguma coisa. Mas elas deixam a gente em paz quando se dão conta de que não podemos ouvi-las. Foi por isso que comprei fones de ouvido enormes com isolamento de ruído. Nenhuma conversinha com estranhos iria passar por eles. Na verdade, deveriam se chamar fones “de isolar conversinhas inúteis”. Não é que eu não seja sociável. É que eu já tenho amigos suficientes. Não estou procurando mais. E, para um estranho, minha vida é sempre uma grande mentira mesmo; por isso, por que trazer mais uma vítima para a minha teia de embromações? Eu já gostei de conversar com as pessoas no avião, quando Jennifer Hunter era só Jennifer Hunter e, portanto, eu podia ser qualquer pessoa que quisesse. Era irônico o fato de eu ter inventado histórias sobre quem eu era, aonde estava indo, no que trabalhava, por quem tinha acabado de me apaixonar. Mas agora que minha vida era uma única e grande mentira, já não era mais tão divertido. Eu devo ter cochilado ao som de Joss Stone tocando no meu ouvido, porque, quando acordei, já estávamos voando. Fiquei meio surpresa pelo fato de a comissária de bordo não ter me acordado para me lembrar de desligar meu “aparelho eletrônico portátil”. Talvez ela tenha percebido que eu tivera uma noite dura e resolveu me dar um desconto. Pude sentir a presença de uma pessoa ao meu lado, mas não dei bola. Era mais fácil


fingir que não estava ali. Olhei pela janela enquanto os grandes prédios da avenida principal de Las Vegas iam ficando cada vez menores: estruturas gigantescas semelhantes aos monumentos de Paris, Nova York, Antigo Egito e até reinos medievais. A ideia de Las Vegas sempre me fazia rir. Dá para imaginar o que arqueólogos daqui a milhões de anos vão pensar quando inesperadamente descobrirem a cidade de Las Vegas? Vão ficar confusos para caramba. Escavando, procurando pistas que pudessem ajudá-los a compreender a antiga e misteriosa espécie chamada “seres humanos”, que foi avassaladoramente exterminada por uma tragédia causada por si mesma. E aí, de repente, o que é isso? Parece uma de suas cidades. Mas espere: não vimos esse mesmo artefato quando escavamos aquilo que na época era referido como o país “França”? E este aqui? Encontramos algo notavelmente semelhante no que já foi conhecido como “Nova York”. E a espécie humana continuaria a ser um mistério para sempre, com uma questão implícita a ponderar: por que uma espécie escolheria construir monumentos idênticos em dois lugares muito diferentes? Isso que é uma maravilha do mundo. De repente, senti um tapinha no meu ombro. Fui arrancada dos meus pensamentos ao ver a comissária de bordo recolhendo pedidos de bebidas. Tirei meus fones por tempo suficiente para pedir uma Coca Diet e, quando eu estava prestes a colocá-los de volta... – E aí, você ganhou? Virei-me para o meu vizinho, que, agora eu notava, era um homem aparentando estar na metade dos trinta anos, bonito, com olhos suaves que revelavam uma vida de experiências, algumas boas, algumas ruins. – Como é? – Você ganhou? – ele repetiu. – Ou acho que deveria lhe perguntar primeiro: você jogou? Coloquei meus fones no colo e reprimi um grunhido. Lá vamos nós, que venha a conversinha de avião. A gente tira os fones de isolar conversinhas por dois segundos e acaba encurralada. Sorri educadamente. – Sim, joguei um pouco de pôquer. – E ganhou? Leitura inicial: rico, solteiro, mas não é contra casar-se nem formar uma família. Esteve em Las Vegas a negócios e, como ótima surpresa, provavelmente não é do tipo que trai. Conhecer um dos poucos homens fiéis que sobraram no mundo era sempre uma surpresa agradável, quase como ver uma espécie em extinção ao fazer uma expedição na selva. Dá vontade de tirar a câmera na hora e documentar a visão. Senão, como é que as pessoas vão acreditar em você? Abri um sorriso cordial. – Ganhei uma mão aqui, outra ali. A comissária colocou nossas bebidas na nossa frente. Meu vizinho bonito e fiel tinha pedido suco de tomate, uma bebida honesta. Eu sempre desconfio de passageiros que pedem bebidas alcoólicas fortes às onze da manhã.


– Que bom. Uma mulher que joga pôquer é raro. Acho que éramos duas espécies em extinção sentadas lado a lado no mesmo voo, saindo de Las Vegas. Quais eram as probabilidades? – É, bem, o que posso dizer? Sou fã de qualquer método de ganhar dinheiro que não precise ser declarado no Imposto de Renda. Ele riu. – E o que você faz quando não está arrancando os salários dos outros? Agora vêm as mentiras. – Trabalho num banco de investimento. E você? – Eu trabalho na Receita Federal – falou em tom de desculpas, baixando a cabeça. Um pequeno pânico tomou conta de mim junto com um mar de constrangimento. Tomei um gole da minha Coca Diet. – Hã, eu estava apenas brincando quanto a... – Acho que vou ter de prendê-la por anos de impostos retroativos de ganhos em jogos de azar não declarados. Um sorriso no rosto dele permitiu que eu soltasse um grande suspiro e, é claro, uma risada de alívio. – Boa essa. – Hmm, uma jogadora de pôquer que não consegue ver um blefe óbvio. Já não estou tão confiante quanto às suas habilidades. Hesitei. – Bem, para falar a verdade, isso não foi exatamente um blefe óbvio. – Pô, tirei zero na aula de teatro na oitava série! Não conseguia nem sair de uma caixa de papelão. – Bem, não tenho absoluta certeza, mas acho que colocar crianças dentro de caixas de papelão pode estar beirando a abuso infantil – fingi estar refletindo sobre a ideia. – É, bom, isso foi há 25 anos. Naquele tempo, isso não estava bem definido. – E isso faz com que tenha trinta... – Ah, ela também é uma calculadora humana. – E você é um aluno que tira zero, ao que parece – respondi. Ele balançou a cabeça enquanto tomava um gole de seu suco. – Falei que tirei zero em teatro. Isso não faz de mim um aluno nota zero, só um ator nota zero. Ao pousar seu copo, eu instintivamente olhei para a mão esquerda: nada de anel, como eu suspeitava. Solteiro. Minha análise, como sempre, acertara na mosca. – Então, o que você faz quando não está fingindo ser um fiscal disfarçado da Receita? Se eu fosse chutar, diria marketing ou publicidade. Ele era inteligente demais para ser um contador e pouco ardiloso para ser um vendedor. Por isso, não fiquei surpresa quando disse: – Sou consultor de marketing. Os Cassinos Harrah’s são um de nossos clientes.


Acertei de novo. Era quase fácil demais. Nossa conversa continuou por mais vinte minutos e, quando eu estava prestes a mudar de ideia sobre a minha aversão geral a conversinhas de avião, a voz do piloto anunciou: – Bom dia, senhoras e senhores. Acabo de receber uma informação da torre do aeroporto de Los Angeles de que há fortes tempestades em volta da região de Los Angeles. Vamos ter que pousar em Palm Springs e aguardar as chuvas passarem. Peço desculpas pelo transtorno, mas queremos garantir a segurança para o pouso antes de levá-los a seu destino.Olhei para o meu vizinho e soltamos um resmungo simultâneo. – Achei que nunca chovia em Los Angeles – reclamei. – Não chove – ele confirmou. – Mas tenho alguns contatos. Dei risada. – Então você é fazedor de milagres? Ele se virou para mim e estendeu a mão. – Meu nome é Jamie, Jamie Richards. Apertei a mão dele. – Jennifer. – Só Jennifer? Como Cher ou Madonna? – Se não se importar, prefiro ser comparada a Michelangelo. – E Rafael? – sugeriu. Dei de ombros. – Pode ser. Jamie riu. Foi bom que alguém risse de verdade de uma das minhas piadas, alguém que não tivesse uma esposa em casa, alguém que não estivesse rindo demais com segundas intenções – e, para ser sincera, foi bom rir também, sem segundas intenções. – Está bem. Vou aceitar o lance do nome único, mas apenas como sugestão: você poderia escolher algo mais diferente que “Jennifer” se vai andar por aí sem sobrenome. – Tem razão. Está bem. É Jennifer... H. – falei discretamente. Ele pareceu impressionado. – Uau, nome e inicial do sobrenome. Estamos progredindo. Você está bem? Esta conversa está indo muito rápido para você? Quer fazer uma pausa e depois continuar? Olhei pela janela para a pista de aterrissagem de Palm Springs. – Bem, parece que não vamos a lugar algum nas próximas horas. – Então você resolveu revelar a letra? Eu ganho uma a cada hora? Abri um sorrisinho. – Se Jennifer H. foi suficiente para me distinguir no colégio, também bastaria a você nas próximas horas. Pelo menos, até voltarmos a Los Angeles. – Achei justo, Jennifer H. – Ei, considere-se sortudo. É uma letra a mais do que consegue a maioria dos estranhos dos aviões... ou qualquer estranho que seja. – Ah, eu me considero.


Olhei para ele com curiosidade. – Eu me considero sortudo – esclareceu. Corei e virei minha cabeça para a janela, subitamente muito interessada em assistir ao nosso pouso. Depois de um cansativo voo de 45 minutos que se transformou num de quatro horas, meu celular pessoal tocou ao sair do avião em Los Angeles. – Sophie está muito chateada. Você tem que ligar para ela – disse a voz de Zoë ofegante pelo telefone. – O que você está fazendo? Parece que está correndo uma maratona. – Estou tentando virar na San Vicente e não há sinalização. Pelo jeito, todos os motoristas de Santa Monica compraram suas carteiras. Saí do terminal, puxando minha mala de rodinhas e fui até o atendente do serviço de valet. – Se Sophie está chateada, por que ela não me liga? – Ah, vá! Tenha um pouco de compaixão, sua puta egoísta! Parei na hora. – Hein? Aí ouvi as infames buzinadas e continuei caminhando. – Me desculpe. Tem uma mulher que não sabe a hora de passar. Sabe como é. Olhe, já faz uma semana. Você não acha que está exagerando? Entreguei meu ticket para o valet. – Não posso conversar sobre isso agora. Estou pegando meu carro no aeroporto e estou completamente exausta. Quem sabe eu te ligo amanhã? – Está bem – disse Zoë sem fôlego. – Tem certeza de que está bem? – Já falei, estou tentando virar à esquerda em um cruzamento sem sinalização. Claro que não estou bem. Me ligue amanhã! Desliguei o celular e tirei o fone do Bluetooth do ouvido. – Bem, você saiu bem rápido daquele avião. A voz me assustou e deixei o fone cair no chão. Ao me abaixar para pegá-lo, virei-me e vi Jamie atrás de mim, com seu ticket do valet na mão. Rapidamente, pus-me de pé, quase perdendo o equilíbrio ao fazê-lo. Eu me agarrei numa cerca para me firmar. Forcei uma risada. – É, acho que já estourei minha cota de aviões por hoje. Ele olhou para mim com um sorriso alegre, e imediatamente me senti insegura. Eu estava acostumada com os homens sorrindo para mim, mas não sorrisos “alegres” e certamente não os que vinham logo depois de eu quase dar com a cara no chão na calçada do aeroporto. Tentei compensar me apoiando casualmente na cerca e cruzando os tornozelos, convencida de que esse era um lado meu muito mais atraente – não que


eu ligasse para o que esse cara pensava. – Você nem se despediu. Eu me senti tão usado. Dei risada. – Por quê? Pela conversinha no avião? – É, exatamente. Por ter sido uma distração rápida e fácil enquanto aguardávamos na pista do aeroporto de Palm Springs sem nada para fazer. Baixei minha cabeça. – Assumo a culpa. Então você também usa o valet, hein? – falei, apontando para o ticket. Ele confirmou com a cabeça. – Vale os dólares a mais. Além disso, é minha empresa que paga. – Claro – declarei. – A minha também – e era verdade. Quase sempre alguém pagava por isso. – Bem, fiquei contente por ter topado com você de novo, porque eu queria fazer uma pergunta, mas você saiu com tanta rapidez e não deixou sapatinho de cristal nem nada que fosse útil para encontrá-la depois. – Quão realista é um sapato que cabe em uma única menina num reino de pessoas? Nunca entendi isso. – Bem, ela tinha pés muito pequenos – explicou ele, olhando para os meus. – É, os seus parecem bem normais. Eu teria tido dificuldade mesmo com o sapatinho. Eu ri, e um silêncio constrangedor pairou sobre nós; constrangedor porque eu geralmente sabia o que dizer às pessoas, principalmente homens. Porém, ao estar ali de pé com Jamie, eu me senti desconfortável, quase com a língua presa, como se eu não trabalhasse com isso quase todas as noites da minha vida. Mas agora, havia desaparecido toda aquela confiança de Ashlyn que tinha me tornado tão bem-sucedida no que faço. O fato de Jamie parecer ficar mais bonito a cada minuto que passava também não ajudava muito. – Então, o que eu ia lhe perguntar era se você gostaria de jantar comigo amanhã à noite. A declaração me pegou de surpresa. Eu definitivamente não esperava por isso. Homens como Jamie não convidavam mulheres como Jen para sair. Ele parecia tão sofisticado, tão maduro, tão diferente de tudo o que eu era. Ashlyn atraía caras como Jamie o tempo todo... bem, as versões casadas e infiéis dele. Mas eu não, não desse jeito, quando não havia ninguém para me pagar depois do serviço. Fiquei me mexendo ansiosamente, ainda incapaz de responder, como se, de repente, as palavras estivessem presas na minha boca. – Uau, não me dei conta de que era uma pergunta tão difícil. Talvez eu devesse ter dito de um jeito mais simples. Soltei uma risada nervosa. – Não, Jamie, não é isso. É só que não acho que seria uma ideia muito boa.


Ele assentiu, demonstrando entender. – Não é uma boa ideia porque você tem namorado ou porque você tem uma doença infecciosa? Vi o manobrista se aproximando com meu carro e mordi o lábio inferior. – Não, não tenho namorado. – Droga. Tinha que ser a doença. Qual é? Cólera? Ebola? Peste Negra? Dei risada e neguei com a cabeça. – Não. É que é complicado. – Bem, é bom ouvir isso, porque adoro complicação. Me dê uma coisa simples e vou cair no sono. Sorri. Ele era meigo, quase meigo demais. Grande parte de mim queria simplesmente aceitar o encontro, um encontro de verdade, sem namoradas desconfiadas aguardando do lado de fora para arrombar a porta. Nada de letras vermelhas. Nada de listas intermináveis de coisas a dizer, filmes a gostar, músicas de karaokê a cantar. Porém, outra parte de mim gritava “Não! Não vá!”, porque tinha uma impressão arrebatadora de que sabia onde isso daria, como acabaria. Por que ler o livro se você já sabe como ele termina? – Me desculpe – falei, indo para o meio-fio em direção ao manobrista que aguardava. – Mas foi muito bom conhecê-lo. E, de repente, senti uma tristeza profunda tomar conta de mim, do tipo que surge por já saber como o livro acaba, de saber que você nunca terá a mesma emoção da aventura, empolgação e suspense que as pessoas normais sentem quando compram o último romance de sucesso com aquele final “felizes para sempre” e estão ansiosas para devorar suas páginas. – Bem, se você mudar de ideia ou precisar de alguém para ligar e confessar a segunda letra do seu sobrenome... – disse Jamie, colocando a mão no bolso do casaco e tirando um cartão de visita. – Acho que é o último. Estava guardando para você – ele virou e olhou a parte de trás. – Veja, tem até uns rabiscos meus de quando fiquei sem papel. Ele ofereceu o cartão, e eu peguei. Coloquei no bolso de trás da minha calça jeans enquanto pegava uma nota de vinte dólares e entregava ao valet. – Obrigada – eu disse aos dois. – Bem, sempre teremos Palm Springs – falou Jamie em uma patética imitação de Humphrey Bogart. Revirei meus olhos e disse: – Agora entendi por que você tirou zero em teatro. Ele riu e depois, com uma voz sincera e um sorriso que quase fez meu coração derreter, falou: – Foi bom conhecê-la, Jennifer H. Contudo, eu não sabia se meu coração ia derreter de adoração ou de medo de talvez ter cometido um erro.


Ao entrar no meu carro e ir embora, meu mundo cotidiano voltou a me envolver como um velho cobertor: o volante, o rádio, o sistema de navegação. E, mais importante, o arquivo de Roger Ireland, quase invisível dentro da minha bolsa. Amanhã de manhã, eu lhe contaria o que havia acontecido durante minha fatídica viagem a Las Vegas; depois ele contaria à sua filha, e mais um casamento seria cancelado – outro final feliz de mentira frustrado pela realidade cruel do mundo real. Talvez eu não devesse ler livros mesmo.


13 Intenções controversas – Marta! – gritei do meu quarto. – Você viu minha blusa branca da Dolce & Gabbana? Fui me aventurar no meu closet pela terceira vez naquela manhã de segunda e passei os olhos, mais uma vez, pelas blusas penduradas, como se, num passe de mágica, quando eu terminasse de esvaziar todo o conteúdo do cesto de roupa suja no chão, a blusa perdida fosse se materializar do nada e se pendurar direitinho no seu lugar. Mas não foi o que aconteceu. Por outro lado, Marta tinha conseguido, pelo jeito, se materializar do nada. Ela ficou parada na porta do meu quarto, com um sorriso espertalhão no rosto e a blusa recémpassada delicadamente pendurada em seu dedo esticado. Soltei um suspiro de alívio. – Oh! Obrigada, obrigada, obrigada! Você é demais! Peguei a blusa da mão dela e a coloquei por cima do meu sutiã bege. Eu já estava dez minutos atrasada para o meu encontro pós-missão com Roger Ireland e fiquei muito contente quando Marta apareceu meia hora antes e começou sua rotina normal de limpeza. Saber que ela estava aqui sempre me deixava mais à vontade, e eu ainda não sabia se era por causa da limpeza que eu veria e sentiria na casa depois que ela terminasse ou se era só a presença dela. – De nada, senhora Hunter. Muy bonita. Trabalha hoje? Sorri e tirei meu cabelo de dentro da blusa. – Como sempre. Ela retribuiu o sorriso e, em seguida, se virou rapidamente para voltar ao trabalho. Verifiquei minha maquiagem no espelho do banheiro, dei uma rápida ajeitada nas ondas leves do meu cabelo e apareci na cozinha. Marta estava ocupada, esfregando a parte interna do forno. Ela estava abaixada em um ângulo de noventa graus com a metade de cima do corpo toda dentro dele. Eu só conseguia ver suas pernas apoiadas no chão de madeira enquanto seu grande bumbum se sacudia de um lado a outro ao limpar. – Vou deixar seu cheque aqui – falei para ela ao destacar a folha do talão e colocá-la em cima da bancada. Depois, comecei a encher minha bolsa Gucci com todas as “ferramentas” apropriadas que eu precisaria para o dia: carteira, dois celulares, pastilhas de menta e óculos de sol. Fechei a bolsa, coloquei-a no ombro e peguei minhas chaves. – Pessoal do carro ligou ontem quando você não está aqui! – gritou Marta de dentro do forno. Parei e me virei. – O que disseram?


– Disse que você tem recall. Suspirei. Era tudo o que eu queria agora: outra parte da minha vida necessitando de conserto. Pena que não dá para fazer recall em outras partes da vida: uma passada rápida no mecânico e, de repente, tudo que estava errado na vida seria magicamente reparado. – Um recall? Do quê? – Não sei – sua voz ecoou. – Me deu hora marcada de 11h. – Hoje? – entrei em pânico, instintivamente pegando meu celular para verificar minha agenda. – Não – disse, com a cabeça reaparecendo de dentro do forno, afastando uma mecha de cabelo suado da testa. – Disse quarta-feira. Cliquei na quarta. Felizmente, a tarde estava vazia, e registrei o compromisso. – Tudo bem, levarei o carro. Obrigada, Marta. Ao subir em silêncio no elevador vazio até o escritório de Roger Ireland, minha cabeça estava cheia de todo tipo de ruído. Fiquei olhando para mim mesma nas portas espelhadas do elevador, para os meus olhos cansados e sérios. Apesar de fazer o melhor possível para usar a mágica da maquiagem, meu reflexo estava pálido, exausto, visivelmente perturbado. Quando é que tudo isso ficou tão complicado? Minha melhor amiga e eu não estávamos nos falando, eu tinha praticamente soltado os cachorros em cima da minha ingênua sobrinha de doze anos, e Parker Colman quase acabou comigo num elevador. Acho que a Revlon não faz corretivos para esse tipo de coisa. Mesmo assim, por mais que eu tentasse, não conseguia achar um jeito de apagar a imagem do rosto de Jamie da minha mente complicada e altamente compartimentada, coisa que eu sempre conseguia fazer antes. Eu estava ansiosa para que essa reunião terminasse logo para finalmente poder me concentrar em resolver minha vida. Só Deus sabia como eu precisava disso. As portas se abriram e endireitei minha postura, ajeitei o cabelo e a blusa e puxei uma das grandes portas de vidro que levavam à firma de advocacia de Roger Ireland. – Vamos acabar com isso rápido – murmurei para mim mesma. Eu tinha quase certeza de que Roger Ireland era um homem razoável, conciso e direto. E, como ele não era esposa nem namorada, esse seria um “anúncio” fácil. A recepcionista me levou até ele imediatamente. – Bom dia, Ashlyn – começou ela, conduzindo-me pelo corredor principal. – O senhor e a senhorita Ireland a estão aguardando no escritório dele. – Obrigada – comecei a dizer, parando subitamente. – Espere, você disse senhorita Ireland? A recepcionista sorriu ingenuamente. – Sim, a filha dele, Lauren. De repente, meus pés pareciam estar presos em lama. Que diabos ela estava fazendo


aqui? O senhor Ireland disse que ele mesmo ia contar a ela, bem depois, isto é, depois de eu ter saído do prédio e das áreas próximas. Eu não tinha me preparado mentalmente para lidar com uma futura noiva, a duas semanas de seu casamento – principalmente uma que estava prestes a descobrir que seu noivo não era o cara que ela pensava ser. Tentei impedir que o olhar de puro terror se espalhasse pelo meu rosto ao continuar seguindo a recepcionista pelo corredor até a sala do sr. Ireland, mas eu não conseguia deixar de sentir como se estivesse caminhando para o meu próprio funeral. Ela abriu a porta para mim, e me preparei para o pior. – Ashlyn! – cumprimentou Roger cordialmente, aproximando-se para um aperto de mão enquanto eu entrava com hesitação na sala. – É bom vê-la novamente. Dei uma olhada no escritório e reparei numa morena bonita sentada à mesa do senhor Ireland, digitando freneticamente no computador. – Pai, suas pastas estão uma bagunça. É por isso que não consegue achar a fonte dos dados. Roger sorriu para mim. – Esta é minha filha Lauren. Lauren deu uma última olhada, desanimada, para o monitor do computador do pai e aí se levantou. Ela sorriu intensamente ao se aproximar de mim e estender a mão. – Prazer em conhecê-la, Ashlyn. Obrigada por ter vindo. Sente-se – disse ela, fazendo um gesto para o sofá e sentando-se em uma poltrona próxima. Olhei para ela com estranheza. Ela estava bem animada com essa história toda. Será que estava em estado de negação? Bem, não seria a primeira noiva desse tipo com quem eu lidaria. Analisei a única filha do sr. Ireland ao me sentar num lugar seguro na frente dela. Definitivamente, ela era mais bonita do que imaginava, não que eu costumasse estabelecer um estereótipo, mas, depois da extensa explicação de Roger Ireland a respeito das grandes habilidades de informática de sua filha, eu meio que imaginei alguém um pouco menos, bem, elegante. Ela era alta e magra e tinha cabelo comprido e escuro que havia prendido em um rabo de cavalo com um ar bem profissional. Suas roupas eram meio tediosas: calça marrom com paletó combinando, e uma blusa de gola alta bege por baixo que tapava tudo. Olhei para a própria roupa que eu estava usando: saia-lápis cinza levemente justa e a blusa branca que Marta havia fornecido. A blusa estava desabotoada o suficiente para sugerir a existência de um decote. Do nada, desejei poder me virar e abotoar mais um pouco. Imaginei que ela devia estar pensando na minha roupa. Não que isso importasse, mas presumi que ela devia estar formando, no mínimo, algum tipo de opinião sobre uma mulher cujo trabalho é seduzir homens comprometidos. Roger parecia bastante nervoso. Eu poderia jurar que cheguei a enxergar gotículas de suor aparecendo na sua testa. Lauren, porém, era exatamente o contrário: calma, serena


e extremamente agradável. Fiquei muito impressionada. A maioria das mulheres que estavam na posição dela ficavam andando para cima e para baixo nos corredores, apertando as mãos, roendo suas unhas bem-feitas; mas Lauren, não. Comecei a duvidar da avaliação inicial do senhor Ireland quanto à filha. Ele estava bem confiante de que ela era do tipo ciumenta, meio insegura em relação aos homens. Não era a pessoa que estava sendo representada nessa sala hoje. Eu tinha imaginado uma mulher parecida com Sophie: desconfiada, apreensiva e, acima de tudo, receosa. Relaxei um pouco. Talvez não fosse ser tão ruim quanto eu pensava. – Então, meu pai me contou que eu simplesmente tinha que vir aqui hoje e ver pessoalmente uns arranjos de flores – falou ela, olhando para minhas mãos vazias. – Você trouxe fotos delas? A repentina compreensão da situação me varreu como uma onda violenta. Quase caí do assento. Lauren ficou olhando com dúvida, primeiro para meu rosto desconhecido e depois para o pai, agora totalmente ciente de que algo não estava batendo. – Pai? O senhor Ireland enxugou sua testa devagar com a mão e veio até o sofá sentar-se perto de sua filha. Ele colocou o braço sobre os ombros dela. – Lauren, querida, Ashlyn não está aqui para falar das flores do casamento. Ela se endireitou e virou os olhos para mim, com uma súbita e nova sensação de desconfiança se formando nos olhos. – Então por que ela está aqui? Ele pigarreou e olhou para mim, buscando ajuda. Fiquei sem reação. Não tinha ideia do que dizer. Donas de casa comedidas, noivas esperançosas, empresárias megeras... eu já tinha confrontado todas elas. Porém, uma futura noiva aliciada a comparecer a uma reunião desta natureza? Era minha primeira vez. Ele olhou nos meus olhos como se pedisse desculpas. – Achei que seria melhor se ela ouvisse o resultado diretamente de você. Não sabia se ela ia acreditar em mim. O rosto de Lauren se encheu de pânico. – Que resultado? Do que estão falando? Tentei sorrir com tanta cordialidade quanto ela no momento em que entrei, mas certamente não tive sucesso. E aí uma coisa me ocorreu: Roger Ireland estava altamente confiante de que Parker havia sido reprovado no teste. Senão, ele não teria resolvido envolver Lauren. Afinal, se Parker tivesse sido aprovado, ele provavelmente não teria contado nada a respeito dessa história. Apesar da estatística otimista de 50% que eu havia lhe dado no nosso primeiro encontro, o sr. Ireland parecia estar apostando num resultado muito mais preciso. Ele mudou de posição para ficar cara a cara com a filha, cujos olhos estavam implorando por respostas. Ela estava incomodada, não apenas por estar por fora da história, mas também com uma crescente desconfiança de que a história tinha a ver com


ela. – Querida, Ashlyn é uma inspetora de fidelidade profissional. Ela contorceu o rosto no que eu podia apenas descrever como uma confusão horrorizada. – Uma o quê? – Ela testa homens, como Parker, para revelar tendências de infidelidade. O corpo de Lauren se levantou imediatamente. – Você contratou essa mulher para testar Parker? Agora eu é que estava incomodada, e a ênfase de repulsa que ela colocou nas palavras “essa mulher” certamente não estava ajudando. Não apenas eu iria ter que transmitir esses resultados decepcionantes para Roger e sua filha, mas parecia que eu também ia ter que ficar para o seu processo tardio de aceitação. – Não acredito que você fez isso! – gritou Lauren ao pai, afastando-se do sofá e caminhando para a mesa dele. A linguagem corporal dela estava começando a ficar mais parecida com a atitude típica de uma “futura noiva”. Eu deveria ter adivinhado que ela não sabia de nada. Qual é a noiva que cumprimenta uma inspetora de fidelidade como se fosse uma especialista em flores que veio para conversar sobre arranjos de casamento? Eu sempre disse que as mulheres eram mais difíceis de decifrar que os homens. – Lauren, só fiz isso porque a amo e me importo com você. E eu estava preocupado que Parker não fosse tratá-la do jeito que merecia. – Você nunca gostou dele, pai! NUNCA! Pensando bem, você nunca gostou de nenhum cara com quem namorei! E lá estava eu, bem no meio de uma discussão entre pai e filha que eu provavelmente nunca teria. – Não é verdade! Querida, por favor, sente-se e apenas ouça o que ela tem a dizer. – Não! Não vou me sentar e ouvir ela falar. E foi assim que me transformei de uma convidada aguardada em “ela”. Não era um título que eu desconhecia, mas não também não era algo com que eu queria lidar no momento, principalmente quando tinha vindo para essa reunião esperando não ter de lidar com isso. – Querida, por favor... Lauren continuou caminhando. – Onde é que se acha uma pessoa dessas? Por acaso ela anuncia nas Páginas Amarelas na seção “Serviços de Vagabunda”? – Lauren Marie Ireland! Isso foi totalmente desnecessário! – gritou Roger em tom severo de pai. – Ashlyn é uma profissional e recebi o nome dela de uma amiga próxima. Comecei a me levantar. – Talvez eu deva ir embora e voltar quando vocês tiverem mais tempo para conversar sobre isso.


Ele baixou o tom e falou calmamente para mim: – Não, espere. Por favor, fique. Ela não falou sério. Está brava comigo, não com você. – Depois, com firmeza, falou para Lauren – Querida, sente-se agora. Ashlyn vai nos contar o resultado deste teste e aí ela vai embora. Depois disso, você pode me odiar o quanto quiser. Lauren olhou feio para mim e cruzou os braços. – Obrigada, mas vou ficar de pé. Assenti com a cabeça compreensivamente e voltei a me sentar. – Contanto que esteja confortável – consegui falar com pouca animação. O senhor Ireland respirou fundo e, sentado, inclinou-se para a frente, aguardando minhas próximas palavras com grande ansiedade. Forcei um sorriso e comecei meu discurso de sempre: – Está bem, é assim que esta parte do processo funciona: eu divulgo o resultado da inspeção e vocês podem decidir o quanto de detalhe sobre a noite querem ouvir. Estou disposta a contar a quantidade que quiserem. Essa parte cabe inteiramente a vocês. Lauren grunhiu alto e revirou os olhos. Seu pai lançou um olhar de alerta para ela enquanto eu tentava ignorar os dois. Olhei para Roger. – Conforme solicitado na nossa reunião da semana passada, realizei uma inspeção de fidelidade em Parker Colman. – Dei uma olhada em Lauren e falei com cuidado. – Isso significa que, para que ele fosse reprovado, teria que demonstrar uma clara intenção de se envolver em... infidelidade sexual. – Ai, meu Deus! – resmungou Lauren, com nojo. Roger a ignorou e me fez um aceno de incentivo. Fiz uma pausa e respirei fundo, olhando para Lauren, para Roger e depois para Lauren de novo. – Seu noivo, Parker Colman, infelizmente, não passou na inspeção. Roger voltou a se recostar na poltrona, aparentando alívio. E eu não sabia se o alívio era mais voltado ao fato de que agora (ou, pelo menos, no fim das contas) não tinha mais pendências com a filha ou ao fato de felizmente não haver chance de ele ser obrigado a deixar esse canalha entrar para a família. Lauren ficou congelada em choque, tentando absorver toda essa cadeia inesperada de eventos e a notícia altamente desconcertante que veio junto. Ela olhou para mim, intrigada e confusa, antes de se encostar na mesa atrás dela em busca de apoio. Roger levantou-se imediatamente e correu até ela, abraçando bem seu corpo magro. Ela o empurrou. – Não encoste em mim. – Lauren, sei que deve estar chateada comigo agora e eu compreendo, mas espero que um dia me agradeça por isso. – Isso é ridículo! – exclamou Lauren, afastando-se do pai. – Como sabemos que essa mulher está dizendo a verdade? Afinal, quem é ela para me dizer que Parker é infiel? Ela nem conhece Parker.


Eu já havia lidado com muitas mulheres em estado de negação antes e tinha aprendido que a melhor maneira de rebater uma acusação de fraude é não rebatê-la. – Lauren – comecei calma e suavemente –, não é meu trabalho convencê-la de nada. Minha função é contar exatamente o que aconteceu com seu noivo quando ele teve a oportunidade de ser infiel a você. Só isso. – Então, o que aconteceu? – perguntou ela em tom sarcástico, como se tudo o que eu dissesse dali em diante fosse ser considerado uma tremenda besteira. Porém, eu sabia que ela não teria perguntado se não estivesse curiosa. – Bem, nós nos conhecemos na sala de pôquer do Bellagio e, mais tarde, nos encontramos na boate Rain no Cassino Palms. Vi seus olhos se arregalarem um pouco com a menção dos locais bem familiares, paradas reconhecíveis do itinerário do fim de semana que haviam sido bem pregadas ou coladas na geladeira para uma rápida verificação. – Ele me pagou um drinque na boate; na verdade, vários. Me perguntou se eu queria dançar e depois me convidou para subir ao quarto dele. – Ele a convidou? – ela quis esclarecer. É por isso que eu sempre insistia em seguir, e não conduzir. Conduzir pode facilmente dar problema. – Sim – confirmei. – Querida, eu tentei lhe falar. Ele é um cafajeste – explicou Roger com calma. – Ele não é o cara certo para você. Fiz isso para que visse com seus próprios olhos, para que não cometesse um grande erro ao se casar com ele. Lauren continou olhando feio para mim, ignorando o discurso do pai. – E depois? Depois vocês transaram? – disse ela em tom não apenas acusatório, mas cheio de repulsa. Fechei meus olhos e juntei minhas forças. – Não, não é o que faço. Testo somente a “intenção” de trair. – Que diabos isso significa? – respondeu Lauren em tom esnobe. Eu estava com dificuldade de ficar sentada. Pela primeira vez na vida, senti vontade de estrangular alguém. Não sabia se era porque Lauren Ireland estava me aborrecendo demais ou se era por ela ser o alvo mais próximo e aparentemente mais merecedor para descarregar toda a minha raiva e frustração reprimidas. Felizmente, Roger interveio. – Significa que Ashlyn provou que Parker tem tendências de infidelidade, que, se houver a oportunidade de transar com outra pessoa, ele a aceitará. – Como é que ela tem certeza se não transou de verdade com ele? Roger suspirou alto, obviamente perdendo a paciência, e rápido. Desta vez, eu o ajudei. – Lauren, evito que a transa aconteça no último momento possível, mas estou mais do que confiante de que Parker teria transado se eu não tivesse parado por ali. Roger olhou ansioso para Lauren, observando sua expressão, imaginando se ela


finalmente mudaria de opinião. Ela ficou sentada na beira da sua mesa e voltou a cruzar os braços. – Bem, isso não quer dizer nada. Você não sabe se ele teria ido adiante. Conhecendo Parker, ele teria se dado conta de que o que estava fazendo era errado bem na hora e teria parado. Eu quis saltar da minha cadeira, colocar minhas mãos nos ombros dela e sacudi-la violentamente enquanto gritava “acorde e sinta o cheiro da merda, sua idiota! Ele me beijou, passou a mão em mim, as mãos dele estavam em toda parte. Ele me queria tanto que provavelmente teria pago por isso! Se você é idiota demais para ver que tipo de otário está defendendo, então talvez não mereça saber”. Contudo, em vez disso, levantei-me calmamente, peguei minha bolsa e fui em silêncio até a porta. Eu não sabia por quanto tempo poderia ficar ali sentada sem fazer nem dizer nada. – Meu trabalho terminou aqui. Abri minha bolsa, retirei um pequeno envelope e entreguei ao sr. Ireland. – Este é o restante de seu adiantamento. Se tiver outras perguntas sobre a missão, pode me ligar. Passei reto por Lauren, sentindo seu olhar furioso fazendo um buraco imaginário na minha blusa. Ela me olhou de cima a baixo, julgando-me, tentando encontrar um motivo para me odiar, algo que pudesse usar como pretexto para perdoar seu noivo infiel. Parei perto da porta e me virei. No tom mais compadecido que pude emitir, eu disse: – Sei que é difícil, e não cabe a mim julgar ou lhe dizer o que fazer. O que você escolhe fazer com a informação que acabei de passar fica inteiramente por sua conta, mas apenas saiba... – baixei minha cabeça e me preparei para algo que nunca havia dito a uma cliente antes. Desta vez, porém, de alguma forma, eu sabia que precisava ser dito. Lauren Ireland me encarou, esperando eu falar. A expressão em seu rosto dizia “Não me importa o que você vai falar”, mas seu olhar dizia “Por favor, me diga. Estou muito perdida agora”. – Parker Colman é do tipo infiel – comecei. – Eu soube disso no instante em que o vi. E, acredite, o que você acha que ele tenha ou não feito comigo, ele vai fazer com outra pessoa. Vi tantos casamentos desmoronarem por causa de maridos infiéis e mulheres que escolhem fazer vista grossa para a verdade por tempo demais. O que lhe dei hoje é uma pista do futuro e do que você pode mudar. Acredite em mim quando eu lhe digo que é um dom. Pousei minha mão na maçaneta e comecei a girá-la, olhando para trás uma vez mais antes de sair. – A vida é curta demais para viver no escuro – falei para Lauren e, talvez, de certa forma, para mim mesma também.


14 Enc: Enc: Acordei na manhã seguinte ao som de batidas muito altas. A cada segundo que eu tentava abstrair o barulho intrusivo, mais difícil ficou. Depois, vieram os toques melódicos da campainha. Olhei para o relógio da cômoda: 7h42. Resmunguei alto. As pessoas têm que parar de me acordar de manhã. Saí da cama e me arrastei lentamente até a porta. A julgar pela urgência de quem quer que fosse do outro lado, abrir aquela porta era, pelo jeito, a única coisa que faria parar as incessantes batidas e toques de campainha. As suaves badaladas que eu havia escolhido para minha campainha na esperança de que acalmassem os ouvidos certamente não estavam alcançando seu propósito reconfortante nesse momento. Espiei pelo olho mágico e imediatamente soltei um suspiro de irritação. Eu deveria ter adivinhado. Quem mais seria tão persistente? – Estou vendo seu olho no olho mágico! – disse a voz de John bem alta através da madeira grossa. – Já estou abrindo! – gritei em resposta, destravando a tranca de cima, seguida pela de baixo e depois abrindo a porta. John já estava a caminho da minha sala de estar quando a porta foi totalmente aberta. – Já estava na hora! Fiquei ali fora por cinco minutos. – Eu sei – declarei aborrecida. – Eu ouvi. – Olhe, senhorita Zangada, não sei o que deu em você no último fim de semana e, verdade seja dita, não dou a mínima. Temos coisas muito mais importantes para fazer esta manhã. – Desde quando fazemos coisas importantes pela manhã? – perguntei, cansada e ainda meio sonolenta. Ficou claro que John não tinha achado graça. – O que estou querendo dizer é que estamos com um problema. – Sei, sei – falei com um bocejo e fechei a porta. – Zoë já me ligou. Olhe, ela tem tanta culpa quanto eu. Não sei por que sou eu que... – Do que está falando? – gritou John enquanto começava a vasculhar minha casa em busca de um objeto desconhecido como um cão de caça farejando uma pessoa desaparecida. – Estou falando de Sophie – respondi, com bastante certeza de que estava se referindo ao fato de eu não estar falando com minha melhor amiga. – O que tem ela?


John enfiou a cabeça no canto atrás da mesa de jantar e depois, aparentemente insatisfeito, foi para a cozinha. Inclinei a cabeça para o lado. – Isso não é sobre... – minha voz foi diminuindo. Obviamente não era. Então do que se tratava? Observei John abrir o armário acima da mesinha da cozinha. – Você tem um mandado de busca? O que está procurando? John saiu da cozinha e saiu pelo corredor até os quartos. – Seu laptop. Corri atrás dele, não exatamente empolgada com a ideia de ele estar bisbilhotando minhas coisas. – Por quê? Ele se virou e me encarou, com as mãos na cintura. – Você me deve algumas explicações. Neguei com a cabeça. – Do que está falando? – E fiz uma pausa, pensando no horário. – Espere um minuto, você não tinha que estar no trabalho? John era assistente de um agente de talentos figurão de Hollywood que insistia que ele chegasse, no máximo, às sete da manhã todo dia para fazer uma triagem nos e-mails, procurar nas revistas do ramo artigos adequados para a sua linha de trabalho e, o mais importante, deixar seu escritório arrumado e preparar um café perfeito. John foi até meu escritório e, ao ver meu laptop aberto em cima da mesa, disparou até ele e começou a mexer no mouse. – Eu estava no trabalho, mas falei para eles que tinha que sair para ir ao médico. Fiquei de pé atrás dele e passei meus dedos pelo meu cabelo sujo e despenteado. – Por que faria isso? Você nunca sai do trabalho. – Você vai ver... – disse ele com um suspense medonho, digitando um endereço no navegador recém-aberto. Suspirei. John estava exagerando no drama, como sempre, transformando tudo em um pequeno capítulo de novela. Às vezes, era divertido assistir, mas às 7h45 da manhã, era simplesmente chato e irritante. E, de jeito nenhum, eu conseguia entender o que poderia ser tão importante para ele sair do trabalho. Isto é, até ver o que agora estava na tela do meu computador. E, de repente, entendi. Tive um sobressalto, alto e doloroso. Meus olhos se arregalaram até onde minhas pálpebras sonolentas permitiram. Eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava vendo. John me observou, e seus olhos, suas mãos, cada parte do seu corpo estavam pedindo uma explicação. Pedindo, não, exigindo uma. Eu o ignorei, olhando pasma para a tela, analisando-a. Meu corpo todo pareceu entrar em choque. – Onde você achou isso? – falei com a voz trêmula. – Que importa onde achei, Jen? Que porra significa isso?


Cocei minha cabeça enquanto meu instinto natural entrava em ação: achar a mentira, a distração, pensar numa explicação simples e depois construir uma história em volta dela. Porém, me deu um branco. Não havia explicação, nem mentira, e era só. John me analisou enquanto eu continuava olhando para a tela, completamente muda. Na tela, havia... eu. Era uma foto minha, andando na rua de calça de moletom e regata branca, tomando um gole de café. Eu me lembrava daquela roupa, que tinha usado apenas alguns dias antes quando fui até Brentwood Village tomar um café e ir à pedicure antes de me encontrar com uma cliente. Eu não tinha a menor ideia de que a foto estava sendo tirada – e isso ficou óbvio, porque eu não estava olhando para a câmera. Quase me lembrou aquelas fotos de paparazzi que se vê em revistas de fofoca, que valem milhares de dólares. Sempre havia uma legenda embaixo dizendo que as celebridades eram como as pessoas normais, porque tomavam café enquanto caminhavam, obviamente dando a entender que o público americano pensa que as celebridades são incapazes de caminhar e beber ao mesmo tempo. Entretanto, essa não era a legenda da foto, que não se concentrava no fato de eu estar habilmente caminhando e consumindo uma bebida quente ao mesmo tempo. Na verdade, não estava concentrada em nada do que eu estava fazendo quando a foto foi tirada, mas claramente em algo que eu havia feito antes de ela ser tirada. Embaixo dela, havia o seguinte texto: Acha essa mulher gostosa? Cuidado! Ela atende pelo nome de Ashlyn e, se tentar seduzi-lo, provavelmente foi contratada pela sua esposa. Não deixe que o que aconteceu comigo aconteça com você... Perguntas cheias de pânico passaram pela minha cabeça, sendo a mais imediata: como me encontraram? Como sabiam onde eu estaria? A chance de um alvo de uma antiga missão estar ali por acaso quando eu estava comprando café ter me reconhecido e, por acaso, ter à mão uma câmera muito profissional – pelo jeito – e conseguir tirar uma foto sem o meu conhecimento parecia ridícula e fora de cogitação. Não. Essa pessoa sabia claramente onde eu morava. Fui a Brentwood Village naquele dia. Ela já devia ter essa informação. Mas como? Eu sempre tomei muito cuidado para apagar meus rastros para diminuir as chances de exatamente esse tipo de coisa acontecer. Se a pessoa me seguiu até em casa aquele dia, eu teria notado, principalmente pelo trajeto adoidado que eu tinha o costume de fazer. A menos que uma cliente tenha me denunciado, em um momento de fraqueza, talvez numa última tentativa desesperada de reconciliação. Mesmo assim, nem elas sabiam onde eu morava, nem meu nome verdadeiro para rastrear meu endereço. Será que cometi um deslize em algum lugar? Usei um cartão de crédito quando deveria


ter pago em dinheiro? Dirigi direto para casa em vez de fazer as seis conversões de sempre? Assinei meu nome verdadeiro num recibo de hotel? Respirei fundo e olhei para John. – Olhe – falei séria –, preciso saber onde você achou isso. Ele sentiu a urgência na minha voz, desviou o olhar de mim para a tela e para o rosto conhecido na foto que, subitamente, já não era mais tão conhecido para ele. – O link veio num e-mail que um amigo encaminhou. Meus olhos voltaram a se arregalar, com a certeza de ter ouvido errado. – Um e-mail encaminhado? John assentiu solenemente. – Pois seu amigo sabia que você me conhecia? Ele fez que não. – Não – ele hesitou. – Porque ele achou engraçado. Engraçado. A palavra doeu em mim. Minha carreira profissional era... engraçada. Minha obra, minha missão, minha única saga e propósito neste planeta eram considerados... engraçados. – É tipo um desses e-mails encaminhados que se manda para os amigos e, de alguma forma, acaba circulando pelo mundo todo em questão de dias? Ele assentiu novamente, e eu senti o lugar começar a girar. Apoiei-me na mesa. – Como é que conseguiram essa foto? – Ah, dá para contratar pessoas que fazem esse tipo de coisa, querida – explicou John. – Fotógrafos-espiões ou coisa parecida. Meu braço cedeu e caí sem força na minha cadeira de couro. Apoiei a cabeça entre minhas mãos. John se ajoelhou no chão ao meu lado e passou a mão na minha cabeça. Ele ainda não sabia como interpretar tudo isso, mas de uma coisa sabia: certamente não estava sendo engraçado para mim. – Mas como o fotógrafo saberia que era eu? – falei, mais para mim mesma. John permaneceu em silêncio, aguardando o choque inicial passar. – É verdade? – ele perguntou por fim. Ergui minha cabeça e olhei nos olhos dele. Estavam suaves e concentrados. Porém, a visão mais consoladora de todas era que não havia nem o menor indício de julgamento. Assenti com a cabeça. John respondeu com outro aceno, absorvendo a verdade em silêncio. Observei ele reagir, vendo as engrenagens girando dentro de sua cabeça. As peças do quebra-cabeça estavam se encaixando, as lacunas misteriosamente vazias, que já passaram despercebidas e eram rapidamente esquecidas, estavam repentinamente adquirindo significados e explicações que faziam todo sentido. – Eles a contratam? – perguntou John em tom leve e curioso. Confirmei com a cabeça. – Para testar os maridos? Suspirei.


– Chamo de “inspeção de fidelidade”. Tenho trabalhado com isso pelos últimos dois anos. Eu queria contar para vocês, juro, mas estava certa de que iriam me julgar, principalmente Sophie. John riu e se levantou, olhando para mim. – Julgar? Querida, eu a idolatro! – Hein? – Você está acabando com eles, com os infiéis, libertando o mundo do mal. Isso é coisa séria. De repente, eu me peguei rindo também. – Bem, acho que isso é um pouco de exagero, mas... – Foda-se! – disse John de um jeito triunfal. – Sou totalmente a favor. Na verdade, acho brilhante. Você é praticamente a Mulher Maravilha – falou, colocando a mão no queixo e ficando pensativo. – Hmm, talvez eu deva entrar nesse negócio. Aposto que dá para conseguir um monte de bundas. – John! – explodi, levantando-me e arrancando sua mão do queixo. – Não transo com nenhum deles! – Você não, mas eu transaria – continuou ele em sua falsa contemplação profunda. – Sim, já posso ver os anúncios: “Empresa Pega-Infiéis do John”. Vai ser um grande sucesso. Revirei os olhos e voltei a me sentar na cadeira, puxando-a para perto da mesa. – “Infidelidade gay” não seria redundante? Volte para o escritório. Tenho trabalho a fazer. John se debruçou sobre meu ombro, subitamente muito interessado no que eu estava fazendo no computador. – Que tipo de coisas secretas legais de espionagem você tem que fazer? Conversas quentes via internet com maridos adúlteros? Extrair informações de donas de casa desesperadas? – Não – declarei com firmeza, empurrando a cara dele e digitando loucamente no teclado. – Ah, vá, preciso de mais detalhes. Você se veste com roupas provocantes? Fala com sotaques fofos? Você... – John – interrompi, apertando meus olhos. Ele bateu o pé no chão como uma criança petulante que se recusa a comer verdura. Simplesmente fiz que não com a cabeça, tentando não abrir um sorriso. John tinha um jeito único de me fazer rir independente do que estava acontecendo na minha vida, e acho que nem ele sabia disso. – Preciso dar uma pesquisada nesse site – mirei a tela e li o endereço em voz alta: www.naocaianacilada.com. Grunhi. – Uau. Bem, quanta esperteza – falei sarcasticamente. – Nem armo ciladas. Eu sigo, não conduzo. O cara que fez este site provavelmente é algum merda que nem consegue assumir a responsabilidade por suas


próprias ações estúpidas. John, ainda sem desistir de sua busca por detalhes, agarrou a minha camiseta e começou a puxá-la. – Jennnnnn, por favor. Preciiiiiso de alguma coisa! – ele resmungou. Soltei um suspiro e virei minha cadeira para ele. – Está bem – comecei a contragosto. – Sim, uma vez tive que falar com sotaque britânico porque uma cliente disse que o marido tinha uma queda por mulheres com sotaque. John assentiu, meio satisfeito. – E...? – ele pediu. Soltei uma risada incrédula. – E outro dia me vesti de comissária de bordo. – É DISSO que estou falando! Balancei minha cabeça com assombro enquanto voltava para a tela. Rolei a página para cima e para baixo, em busca de informações, pistas que pudessem ajudar a resolver esse mistério repugnante. Franzi a testa. – Não tem absolutamente nada aqui que possa dar uma pista de quem está por trás disso. John deu de ombros. – Você pode olhar num desses sites de registros de domínio para ver quem é o proprietário. Virei-me e olhei para ele com curiosidade. – O quê? – Existem bancos de dados online que possuem todos os registros públicos para compras de domínios. – Como você sabe disso? – Eu persegui um cara do trabalho uma vez. – Ah – assenti e virei de volta para o computador. – E como você se saiu? Ele encolheu os ombros novamente. – Saímos por uma semana. Abri outra janela do navegador e fui até o site que John havia mencionado. Digitei o nome do site que estava divulgando meu segredo muito bem guardado (até agora) para o mundo e cliquei em “Buscar”. Outra janela se abriu cheia de linhas de coisas incompreensíveis. Passei os olhos no texto procurando reconhecer um nome de pessoa ou empresa, mas a única coisa que fez algum sentido foi a repetição da palavra “anônimo”. – Que diabos significa isso tudo? Anônimo? John se inclinou sobre meu ombro e leu a tela. – É, foi o que aconteceu comigo. Significa que a pessoa que é dona do site optou por não divulgar sua identidade para o mundo dos perseguidores. Na minha opinião, é uma


afronta. Afinal, isso tira o direito de todo homem de perseguir inofensivamente. O que aconteceu com a liberdade de expressão? – John, não estou perseguindo ninguém. Ele foi até o sofá do escritório e se sentou. – Dá na mesma. Com um suspiro de frustração, fechei meu laptop e virei minha cadeira para ele. – Isso é terrível. – Veja pelo lado positivo. Você é o próximo “Garoto do Guerra nas Estrelas”. – Hã? John cruzou as pernas e se recostou, aproveitando a minha atenção. – Lembra daquele menino que filmou a si mesmo em uma batalha com um sabre de luz na sua garagem e alguém conseguiu o vídeo e pôs na internet? – Vagamente. – Chama-se marketing viral. As companhias de entretenimento usam isso o tempo todo para fazer propaganda. É quando uma coisa digna de atenção acaba na internet e se espalha como uma praga só no boca a boca, geralmente por e-mails encaminhados, como no seu caso. – Ótimo – resmunguei. – Então agora sou a nova cara do marketing viral. – É assim que se fala! Esfreguei minha testa com meus dedos e resmunguei alto. – Que manhã. – Posso fazer uma sugestão? – perguntou John com toda a seriedade. – Não vou imitar sotaque algum. John se levantou, veio caminhando e pôs a mão no meu ombro. – Especifique sua busca. Mordi meu lábio. – Eu sei, mas nem sei por onde começar. – Tenho que voltar ao trabalho, mas você deveria começar pensando sobre quem poderia querer fazer um site desses. – Hã, John, poderiam ser mais de duzentas pessoas. Nenhum desses homens fica exatamente contente depois que vou embora. Afinal, outro dia mesmo, eu... De repente, parei, com a boca aberta, minha cabeça a mil. – Quê? – Parker Colman! – berrei, completamente enojada. – Fiz o teste com ele em Las Vegas outro dia e, quando ele foi reprovado, praticamente partiu para cima de mim no elevador. – Então acha que foi ele? – perguntou John determinado. – Tem que ser. Ele veio atrás de mim como um psicopata! – E ele tem dinheiro para um esquema desses? A pergunta de John me deixou confusa. Todos as minhas clientes eram ricas. Quando


eu conversava sobre meus honorários e despesas, nunca ouvia ninguém reclamar ou questionar o custo. Claro que às vezes eu pegava algumas missões gratuitas, como favores para mulheres que estavam necessitando desesperadamente de algum tipo de orientação, mas que não tinham dinheiro para pagar. Porém, na maioria das vezes, minhas clientes sempre pareciam bem dispostas a pagar qualquer preço para conseguir as respostas e a paz de espírito que estavam buscando. Dinheiro nunca foi problema. A verdade não tinha preço. Foi sempre assim que enxerguei. – Como assim? – perguntei. – Estou querendo dizer – começou John – que fotógrafos-espiões, sites anônimos, emails em massa, esse tipo de coisa requer grana. Pense bem. Não é coisa de amador. É coisa de exposição nacional. Alguém definitivamente está levando isso a sério e tem muita grana sobrando para garantir que aconteça. Mas acho que qualquer pessoa que tenha dinheiro para contratá-la... Balancei a cabeça. – Não, não foi ele. Afinal, a noiva dele não me contratou; foi o pai dela. Não tenho certeza se Parker tem algum dinheiro. Acho que foi um dos motivos para o pai dela desconfiar dele para começo de conversa, que ele estava só interessado na fortuna da família. John assentiu. – Hmmm. E, quanto mais eu pensava nisso, mais me dava conta de que esse site não tinha sido elaborado nas últimas 48 horas. Isso foi planejado, premeditado, organizado; fotos foram tiradas, e-mails foram enviados. Isso era mais antigo que Parker Colman. – Então voltamos à estaca zero? – perguntou John enquanto eu o acompanhava à porta da casa. Suspirei. – Acho que sim. Ele me deu um grande abraço e me apertou um pouco mais do que de costume. – Apenas pense – sugeriu solidariamente. – Esse cara tem que ter algo a perder, algo importante, mais do que a maioria. – É – concordei –, mas você tem que me jurar que não vai contar a ninguém – pedi para ele antes de fechar a porta. – Principalmente para Sophie ou Zoë. De certa forma, não acho que elas enxergariam do mesmo jeito que você. – Não vou contar – prometeu John. – Agora você jurou sigilo absoluto. Ele confirmou com a cabeça. – Minha boca é um túmulo, querida. – Ótimo. Ao fechar a porta, imediatamente comecei a quebrar a cabeça. Meu banco mental de nomes parecia interminável, cada um contendo uma história diferente, uma motivação


diferente, uma interpretação diferente da palavra “amor”. Mesmo assim, todos eles se misturavam dentro da minha cabeça. – Exposição nacional – falei em voz alta. Que pesadelo. Na minha saga para revelar a verdade a qualquer custo, falhei cegamente em considerar uma verdade diferente, uma que agora parecia mais óbvia do que nunca: a vingança, pelo jeito, também não tinha preço.


15 Rendição geral Mais tarde, à noite, fiquei sentada, olhando para a tela do meu computador, esperando que alguma ideia brilhante viesse à mente, para que eu pudesse descobrir como identificar o proprietário ainda anônimo daquele site “desanonimador”, quando ouvi a porta do apartamento se destrancar e se abrir. Fiquei bem parada na minha cadeira. Olhei para a tela, onde a minha foto na rua estava me encarando, debochando de mim, rindo da minha desgraça. E agora a pessoa que havia tirado aquela foto não só sabia onde eu morava e comprava meu café, mas também tinha a chave da minha casa! Mas como? Como teria conseguido a chave? Ouvi passos caminhando pela sala de estar, ecoando no piso de madeira e aproximando-se do corredor. Comecei a entrar em pânico. Eu tinha spray de pimenta e uma arma de choque, mas estavam no quarto, onde eu sempre presumi que estaria durante uma situação dessas. Afinal de contas, não é lá que os ataques sempre acontecem nos filmes de terror? Quando a vítima está deitada na cama? Por isso, naturalmente, eu os deixava na minha cômoda. Agora não estavam servindo para nada. Pude ouvir o intruso vindo pelo corredor. Fui pegar o telefone sem fio em cima da minha mesa, mas a base estava vazia. Droga! Devo ter deixado em cima da mesa de centro. Eu estava presa. Se tentasse correr até o quarto para pegar a arma de choque, eu certamente ficaria cara a cara com ele e, se estivesse armado (provavelmente estaria), poderia me atingir primeiro. Olhei para a janela à minha frente. Eu estava no último andar do prédio: havia quatro andares entre eu e o térreo. Eu nunca sobreviveria a um pulo. Mais passos. Depois lembrei-me da escada de incêndio. Ela ficava do lado de fora da janela do quarto, a apenas alguns passos curtos e angustiados. Eu poderia me agarrar no cano da calha que vinha do telhado e ir me equilibrando até a janela do quarto. Depois, quando chegasse na escada de incêndio, poderia descer em segurança até o térreo. Pude ouvir os passos se aproximando. Se a pessoa estivesse me procurando, iria olhar o quarto de hóspedes antes de entrar no escritório. Eu tinha cerca de dez segundos; doze, se a pessoa parasse no armário do corredor. Levantei-me silenciosamente da cadeira e estiquei o braço para a frente, abrindo a janela. Dei uma batida na tela com a palma da mão e ela se soltou na hora. Observei ela voar lentamente até o chão, ouvindo, em seguida, o estalo de seu choque contra a calçada. Engoli em seco, confiante de que eu faria um “estalo” muito maior se fizesse o mesmo caminho até o chão. O espaço que a janela aberta me oferecia era pequeno, para


não dizer outra coisa. Eu teria que me espremer. Estiquei a metade de cima do corpo para fora, procurando algo em que me apoiar. Foi aí que ouvi os passos atrás de mim, entrando no escritório. Congelei. – Você não me ligou de volta ontem, sua vadia! – ouvi a voz estridente de Zoë gritar do outro lado do recinto e reverberar pela janela aberta. Soltei um suspiro de alívio audível e rapidamente voltei para dentro, tirando a sujeira do parapeito das minhas mãos. – O que está fazendo? – ela perguntou, vendo meu atual estado. Olhei constrangida para a janela. – Achei ter ouvido um pássaro morrendo – respondi vagamente. – E você ia fazer um boca a boca nele? Dei uma risada nervosa e logo fechei meu laptop, escondendo da vista de Zoë a prova fotográfica do meu trabalho. – Eu tinha esquecido que tinha lhe dado a chave – falei, arrependendo-me imediatamente do dia em que tive a boa vontade de oferecer livre acesso à minha casa para Zoë e Sophie. Ela não deu importância e saiu do escritório, seguindo pelo corredor até a cozinha. Fui atrás dela. Ela pegou uma lata de Coca Zero, colocou-a em cima da bancada e tomou um gole. Depois, pegou uma tortinha de dentro da bolsa. – Importa-se se eu esquentar? Sentei-me no sofá e liguei a TV. – Não tem problema – respondi, ainda tentando me acalmar depois da minha experiência de quase morte. – Aposto como você ainda nem ligou para Sophie, né? Relutante, falei que ainda não tinha ligado. Não que eu não quisesse ligar, mas ainda não tinha tido a chance de pensar sobre minha vida pessoal, já que minha vida profissional secreta estava esparramada na internet para todo mundo ver. – Não. Zoë jogou sua tortinha no forno elétrico e apoiou os cotovelos na bancada da cozinha. – Sabe, você a magoou bastante. Ela só estava tentando ajudar. Olhei feio para ela. – Desde quando você toma partido? – Não estou tomando partido. Só estou tentando amenizar as coisas para que eu não tenha que ficar no meio do fogo cruzado. Além disso, geralmente é para você que ela liga com as neuroses e agora eu me tornei sua substituta involuntariamente. E, para ser sincera, não acho que consigo aguentar essa função por muito tempo. Era verdade. Sophie geralmente me ligava primeiro quando tinha um problema, um surto ou simplesmente para desabafar. E, do nada, eu estava sentindo falta de verdade de receber essas ligações tarde da noite. E eu daria tudo para poder contar a Sophie o que havia acontecido comigo nos últimos dias: aquele homem lindo que conheci no


avião, aquele site terrível, o ataque no elevador. Ou, mesmo que eu não pudesse lhe contar as versões verdadeiras de todas essas histórias, pelo menos eu teria alguém a quem contar alguma coisa. De repente, minha vida parecia incompleta sem Sophie, com suas neuroses e tudo mais. – Ela também me magoou, sabe? O forno tocou, e Zoë retirou a tortinha, colocando-a sobre uma toalha de papel. Ela veio e se sentou comigo no sofá. – Eu sei. Todo mundo se magoa, mas não dá para esquecer tudo isso e seguir em frente com nossas vidas como adultos? – ela disse, dando uma mordida. Fiquei observando-a. – E quem está falando é a pessoa que está comendo uma tortinha com cobertura azul e recheada de frutas. – É um sabor novo – Zoë se defendeu. – E ainda não tive tempo de jantar. – Mmmm, nutritivo. – Por favor – implorou –, seja a pessoa superior. Sabe como Sophie fica sensível. Cruzei meus braços e fiquei olhando para a tela em branco da TV. – Eu sempre sou a pessoa superior. Uma vez na vida, eu gostaria que ela pedisse desculpas. – Ela tinha razão – disse Zoë calmamente. Minha cabeça se virou tão rápido para ela que juro ter ouvido um estalo no meu pescoço. – Quê? – E essa sua seca prolongada, Jen? Está claro que está com medo de alguma coisa. – Meu trabalho me mantém muito... – Ocupada, nós sabemos – falou Zoë, dando outra mordida e oferecendo para mim. Recusei com a cabeça. – Me desculpe, mas ninguém é tão ocupada assim. Tem que haver outro motivo. As mentiras começaram a girar dentro da minha cabeça, como sempre faziam, um caça-níqueis de pretextos. Qual vai ser o prêmio desta vez? Sem tempo para homens? Nenhum interesse por homens? Um desejo de me concentrar na carreira? Talvez uma piada banal sobre como não havia sentido namorar, depois de ter ouvido todas as histórias assustadoras dos meus amigos sobre o assunto. Porém, as engrenagens continuaram girando, as mentiras ficaram rodando rápido demais para que eu pudesse pegar uma. Era como se, do nada, depois de uma vida inteira cheia de blefes simples e histórias acessíveis, já não estava mais tão fácil. Abri minha boca para falar, mas não saiu nada. – E aí? – perguntou Zoë, jogando o último pedaço da tortinha na boca. Ela amassou a toalha de papel, levantou-se e foi até a cozinha para jogá-la no lixo. Fiquei em silêncio, esperando que minha ausência de resposta a fizesse desistir e perder o foco. Depois, talvez mudasse de assunto.


– O que é isso? – ela perguntou, examinando um cartãozinho branco em cima da bancada da cozinha. Acho que deu certo. Sentei-me direito e estiquei o pescoço para olhar por cima do sofá. – O quê? – Jamie Richards – Zoë leu o cartão em voz alta. Voltei a me atirar no sofá. – Ah, é um cara que conheci no avião. Marta deve ter encontrado o cartão no bolso da minha calça quando estava lavando a roupa. Zoë correu de volta ao sofá e se sentou ao meu lado. – Um cara? Conte. Encolhi os ombros. – Não há nada para contar. Nós nos conhecemos, conversamos e aterrissamos. Foi só. – Mas você vai ligar para ele? Neguei firmemente com a cabeça. – Não. Por que ligaria? – Ele era bonitinho? Assim que a pergunta saiu de sua boca, um sorrisinho se abriu nos meus lábios. Na verdade, eu nem tinha me dado conta disso até que Zoë exclamou: – Oh! Ele é! Dá para ver pela sua cara! Rapidamente apaguei o sorriso. – Do que está falando? Ele era engraçado. E só. – Bonitinho e engraçado. Agora você tem que ligar para ele. Olhei para ela sem conseguir acreditar. – Por quê? Zoë virou uma sábia na hora. Era a cara com que ficava quando estava prestes a comunicar uma sabedoria perdida a você que ela tem certeza de que vai mudar sua vida para sempre e, por isso, você deveria ser eternamente grata e, ao mesmo tempo, tentar desesperadamente descobrir como conseguiu sobreviver por tanto tempo sem ela. – Porque não se deixa escapar caras tão legais, é por isso! É ruim para o carma. – Ruim para o carma? – provoquei. – Sim. O universo lhe mandou um presente: um cara gostoso e disponível. E, quando o universo lhe manda um presente como esse, você aceita. Acredite, você não vai querer irritar o universo, porque, quando você fode com o universo, o universo te fode. – Bem, se eu não o quiser, não posso repassá-lo, como faço com todos os presentes que não quero? Talvez eu o dê para você. Zoë olhou feio para mim. Interpretei como sendo um “não”. – Não foda com o universo, Jen. Nem brinque de foder com o universo. Você nunca vai ganhar esse jogo. Aí ela se levantou, pegou sua Coca Zero da mesa de centro e deu um grande e último gole. Sorri educamente.


– Você é quem sabe, Zô. – Bem, se você não está com um medo terrível do implacável e vingativo Deus dos Homens Gostosos, então pelo menos tenha medo de mim. Se não ligar para ele, vou te catar e socar no meu porta-malas. Não se esqueça: sei onde você mora e tenho a chave da sua casa! Tirei os farelos de tortinha azul do sofá e espanei para o chão, tentando esconder o pequeno arrepio que correu na minha coluna. – Sim, como poderia esquecer? Zoë abriu a porta da casa o suficiente para um desfile de elefantes passar. Ela deu uma paradinha dramática, olhou-me bem nos olhos como se estivesse prestes a revelar finalmente o ingrediente secreto da Coca-cola para uma sala cheia de mentes intrigadas e aí falou: – E ligue para Sophie! – E bateu a porta dramaticamente após sair. Zoë sempre fora fã de grandes entradas; e, ao que parece, de grandes saídas também.

Em um dia qualquer, sua partida dramática teria me deixado repreendendo introspectivamente a mim mesma por ter demorado tanto para ligar para minha melhor amiga depois de uma briga idiota num bar e depois finalmente pegando o telefone, discando o número de Sophie e iniciando humildemente a extensa troca de desculpas mútuas e cada uma assumindo sua culpa sem parar. Mas este não era um dia normal. E, pensando bem, qual dia era normal para mim? Racionalizei que estaria num estado mental e emocional muito melhor para resolver efetivamente tudo com Sophie depois de ter resolvido com sucesso todo o resto na minha vida; principalmente, capturar meu vingador desconhecido e malvado da internet. E, enquanto Zoë ficava falando sem parar, bancando a poetisa em relação às leis do universo e seu respeito aos relacionamentos, eu estava tendo uma revelação. Tá, revelação é uma palavra muito forte. Vamos chamar de ideia, uma que, pela primeira vez desde que vi meu próprio rosto naquele computador, me deu uma gota de esperança. Voltei para o meu escritório e abri meu laptop de novo. Na tela, estava a mesma página inútil de informações que eu vinha olhando pela última hora. Este site pertence a... “não te interessa” é o que deveria estar escrito, pois era praticamente o que dava a entender. Agora, porém, ao olhar de novo, com minha nova minirrevelação fresca na cabeça, subitamente não parecia mais tão inútil. Rolei para o final da página de registros que John havia me recomendado e encontrei uma linha que dizia “Servidor de Nome”, seguida do nome: “NS2.Fiztech.net”. Eu certamente nunca fui um gênio da informática e, desde a invenção da internet, era como se as pessoas à minha volta tivessem sido


atualizadas com um chip de língua estrangeira que eu, de alguma forma, não recebi pelo correio. Porém, felizmente para mim, agora, pouco mais de três meses atrás, eu tinha aceitado uma missão que me obrigou a me sentar e aprender um pouco desse negócio. Um diretor de tecnologia do Vale do Silício havia se casado com a primeira mulher por quem se apaixonou por estar convencido de que era a única que se casaria com ele. E, na época, sendo um modesto e pouco atraente administrador de redes em uma empresa de material de escritório, ela provavelmente era. Mas aí o tempo passou, ele ficou um pouco mais bonito e, o mais importante, sua conta bancária e sua função ficaram um pouco mais impressionantes; do nada, mulheres com quem ele nunca havia sonhado conversar, muito menos se casar, passaram a ficar bastante interessadas em aprender sobre a emocionante área de Tecnologia da Informação. Mulheres como Ashlyn, uma analista de sistemas motivada e experiente em TI tentando subir num mundo cruelmente dominado por homens. Quem diria que aquela Tecnologia da Informação seria útil bem agora? Na verdade, graças à minha pesquisa anterior, eu tinha mais do que uma noção do que se tratava um “Servidor de Nome” e, ao contrário do que eu teria pensado quatro meses atrás, aquilo não estava se referindo a uma pessoa ou à sua reputação. Era o nome da empresa onde o site estava hospedado. Ou, em outras palavras, era a empresa que vendia ciberespaço para a pessoa que estava me aterrorizando na internet; um depósito digital alugado, por assim dizer. Basicamente, essa empresa possuía o núcleo da minha chantagem digital. Digitei rapidamente o nome da empresa no Google. Os resultados foram definitivamente favoráveis, era exatamente o que eu esperava. A pequena empresa de hospedagem Fiztech.net pertencia a uma única e solitária pessoa – e, felizmente, essa pessoa era um homem, que, muito em breve, estaria recebendo uma visita inesperada. Contudo, antes de eu fazer minha inesperada visita a Jason Trotting, da Fiztech.net, eu tinha que cuidar da minha inesperada visita à concessionária da Range Rover para um suposto “recall” de uma parte problemática do meu carro. Parei na área de manutenção, na extremidade da concessionária, e saí do carro. Um homem de camisa polo preta enfiada dentro de uma calça cáqui me abordou com uma prancheta. – Bom dia – ele disse. – Você tem hora marcada? – Sim – falei, debruçando-me dentro do carro para pegar minha bolsa. – Onze horas, Jennifer Hunter. Ele passou os olhos na prancheta. – Lamento, você não está na minha lista. Tem certeza de que era hoje? Franzi a testa e estiquei o pescoço para dar uma olhada na lista dele. – Tenho certeza. Eu tinha quase certeza de que Marta havia dito hoje às onze da manhã. Ele negou com a cabeça. – Hmm. Então não sei por que seu nome não está aqui.


Soltei um grunhido de irritação. – Ótimo, então vou ter que voltar uma outra hora? Ele sorriu e fez que não. – Claro que não. Vamos lá dentro para registrá-la no computador. Podemos cuidar disso hoje. Eu lhe agradeci e, em seguida, fui atrás dele pela porta de vidro que levava até o departamento de manutenção. – Qual é o motivo de você ter vindo? Troca de óleo? – perguntou, sentando-se atrás de uma mesa alta com um computador em cima. Sentei-me do outro lado da mesa. – Não. Hã, recall de alguma coisa. Não sei bem por quê, foi minha empregada quem anotou o recado. Ele assentiu e começou a digitar. – E seu carro é de 2007? Confirmei com a cabeça. Ele olhou com estranheza para a tela. – Que estranho. Alguém lhe contatou para um recall? – Sim. – Bem, acho que houve um engano. Não está havendo recalls para este modelo agora. – Hein? – Não estou vendo recalls no sistema. Alguém deve ter ligado para você por engano. As pessoas se enganam com as listas de chamada o tempo todo. Me desculpe pelo transtorno. Não dei importância; peguei minha bolsa e óculos de sol da mesa. – Tudo bem. Já que estou aqui, é melhor trocar o óleo. Acho que faltam apenas alguns quilômetros para fazê-lo. Ele digitou novamente. – Está bem. E que tal um carro alugado de brinde para compensar sua vinda até aqui? Assim, você pode voltar amanhã para pegar seu carro. Sorri. – Perfeito. Enquanto eu estava de quatro no banco de trás do meu carro, procurando por coisas de que iria precisar no carro alugado, ouvi a voz do funcionário chamar do lado de fora. – Jennifer? – Sim! – berrou minha voz enquanto eu tentava recuar para sair, com uma pilha de papéis na mão, e pisar no chão. Porém, infelizmente, não consegui evitar uma topada acidental e muito dolorosa no alto da cabeça. Massageei o ponto latejante com a mão, procurando pela fonte da voz. E foi aí que o vi, e era a última pessoa que eu esperava ver, que dirá chamar meu nome enquanto eu estava engatinhando no banco de trás do meu carro. – Oi – falei constrangida, ajeitando o cabelo que, tinha quase certeza, desarrumei ao


tentar apaziguar o galo do tamanho de um tumor que estava inchando. Jamie Richards saiu do sol ofuscante e foi para a sombra reconfortante do toldo do departamento de manutenção. – Sua cabeça está bem? Essa batida pareceu bem feia. – Quê? Não, tudo bem. Não foi nada. Acontece o tempo todo. Acontece o tempo todo? Que diabos ele estava fazendo ali? E por que diabos eu estava falando coisas idiotas como essa? – Jamie – ele relembrou, colocando a mão no peito. Tentei soltar uma risadinha, que saiu mais como um gargarejo. – É, não, eu me lembro. – Lá se vai minha autoestima – ele falou brincando. – Está vendo, eu tinha me convencido de que você tinha se esquecido do meu nome e que meu cartão de visita tinha ido para a máquina de lavar roupas e para a secadora, duas vezes, e tinha ficado ilegível. Isso me fazia sentir melhor sobre o fato de você não ter ligado. Dei risada. – É, me desculpe. Foi exatamente isso que aconteceu, só que foi na máquina de lavar com muito alvejante. Ele assentiu. – Obrigado. Estou me sentindo bem melhor. – Eu não sabia que você dirigia um Range Rover. – Não dirijo – disse, apontando para o letreiro, que dizia “Concessionária Exclusiva Range Rover/Jaguar”. – Um Jaguar, hein? – Isso mesmo. Hora de fazer a revisão dos 25 mil quilômetros. – E você realmente pronuncia o nome como a menina britânica do comercial, “jag-iuar”? – perguntei no meu melhor sotaque elitista debochado. Ele riu. – Não, pronuncio do jeito idiota americano, e todos os caras do trabalho tiram sarro da minha cara e me dizem que não posso ter um carro cujo nome não sei pronunciar. – Eles têm razão. Você deveria ter comprado um BMW. – Quem sabe a gente troca? Você pode levar meu carro para casa, e eu levo o seu. Eu sei falar “Range Rover”. Fiz que não. – De jeito nenhum. Adoro meu carro e os 75 dólares que pago para encher o tanque toda semana. – Setenta e cinco dólares! – Pois é – falei, balançando a cabeça. – Eu deveria ter comprado um híbrido. Achei que este carro me faria parecer “descolada”, até me dar conta de que a fumaça e a poluição não eram nem um pouco descolados. – Bem, você não sabe o que está perdendo. O Jaguar é “descolado” para caramba.


– Aí você me pegou – admiti. – Nunca entrei em um. – É por isso que vai jantar comigo esta semana, estritamente para o bem da nossa negociação. Você precisa se sentar de verdade num Jaguar para gostar dele. E lá estava ela novamente, aquela angústia, aquele desejo de dizer “sim” a ele. Essa era minha chance de provar para Sophie que ela estava errada, que eu não tinha medo de nada. Veja, consigo aceitar sair com um cara, deixar que ele me leve. Posso até achálo bonitinho, muito bonitinho. Não há nada de errado comigo. – Você não pode recusar uma troca perfeitamente boa a menos que esteja a par de todos os fatos – continuou Jamie. – Como funcionária de um banco de investimento, você deveria saber bem disso. E ali estava aquilo de novo: a mentira, a verdade que eu manteria escondida por todo o encontro. As histórias que eu teria que regurgitar com animação e entusiasmo. Que tipo de conversa pós-sexo consistia em uma existência fabricada? Como é que eu deveria criar laço com um cara que nem sabia do aspecto mais importante da minha vida? Parecia tão completamente impossível... para não dizer... deprimente. – Então, o que me diz? Jantar? Amanhã? – Sim – eu soltei na hora, antes que meu coração continuasse dando pontadas e minha cabeça pudesse continuar racionalizando. E, por mais que eu odiasse admitir, a teoria universal de Zoë parecia ter acertado na mosca. Aqui estava o universo, colocando o mesmo cara na minha frente, duas vezes em uma semana. A repetição geralmente é sinal de um tipo de insistência. E quem sou eu para contrariar um universo insistente? Primeiro, Jamie quase pareceu surpreso, mas depois ele sorriu e disse: – Ótimo. A que horas devo ir lhe buscar? Tirei meu Treo da bolsa e olhei a agenda da quinta-feira. – Que tal às oito? – Você não está consultando um Palm Pilot, não é? – perguntou ele, horrorizado. Abri um sorrisinho. – É melhor que consultar um vidente, não? – Tem razão. Lamento, mas acho que vou ter que cancelar meu convite. Eu nunca jantaria com uma mulher que possui um Palm Pilot. – Ei, sou ocupada. Quer jantar ou não? Ele fez uma pausa e apalpou o bolso da camisa. – Espere, acho que vou ter de consultar sobre o assunto no meu Palm Pilot. Ele retirou do bolso um aparelho semelhante tipo celular/agenda e começou a digitar de um jeito afetado, como uma criança que tinha pego o aparelho do pai e estava se fazendo de “importante”. Dei risada e, brincando, cruzei meus braços. – Tudo bem – ele finalmente disse. – O meu Palm Pilot e eu conversamos sobre o assunto e resolvemos que iríamos gostar do prazer de sua companhia para um jantar na noite de quinta. – Sério? Então será uma mesa para três?


– Ah, não faço nada sem ele. Eu estava dando o número do meu telefone para Jamie para ele me ligar e saber como chegar à minha casa quando uma voz feminina me chamou de dentro do departamento de manutenção. – Senhorita Hunter? Eu me virei. – Sim? – Seu carro alugado já está pronto. Poderia entrar para assinar alguns papéis para nós? – Claro – respondi e me virei para Jamie. – Então te vejo às oito? – Ah, a misteriosa letra H finalmente foi revelada! Eu ri. – Então agora você sabe. O segredo foi descoberto. Nem todos os segredos, lembravam irritantemente as vozes da minha cabeça. Optei por ignorá-las, silenciando com determinação todas as persistentes premonições de que essa história toda era um grande erro. – Agora, por acaso o sobrenome “Hunter” [caçador] simboliza algum traço de sua personalidade? – perguntou Jamie. – Assim como os índios americanos costumavam colocar os nomes de acordo com o que eles gostavam de fazer? “Touro Sentado”, “Dança com Lobos”, “Nadar Pelado”... “Caçadora de Homens”? Dei risada de novo; desta vez, tentando mascarar minha inquietação. – Bem, acho que você vai ter que descobrir, não é mesmo? – Vou torcer pelo “Nadar Pelado”. – Não abuse da sua sorte – alertei. Mas não pude deixar de observar que ele estava mais certo quanto à sugestão “Caçadora de Homens”, embora eu preferisse a versão qualificada “Caçadora de Homens Malvados”. Acenei para Jamie ao me despedir, desejei-lhe sorte com seu Jaguar e segui a mulher que me forneceria o meu “bat-móvel” de aluguel. Meu automóvel substituto de super-heroína não era tão bom quanto o meu meio de transporte normal; mesmo assim, ele conseguiu me levar ao meu destino inteira. Mas eu tinha que admitir: as atividades heroicas de hoje não eram exatamente “um dia típico de trabalho”. A agenda de hoje consistia em um tipo de desafio bem diferente. Sim, basicamente usei as mesmas habilidades e fantasias, mas o resultado final foi de natureza muito diferente. Racionalizei, contudo, que isso recaía no campo da mesma saga e, portanto, era permitido. Além disso, tenho certeza de que, às vezes, o Super-Homem tinha que vencer o mal de jeitos diferentes. Por mais que ele quisesse, às vezes não podia ir direto atrás do malvado, tinha que ir atrás da fonte que estava ajudando o malvado, da conta bancária, dos cúmplices, do cientista maluco que passava as noites em claro no laboratório fabricando uma substância pegajosa que dava ao malvado sua força sobre-humana – ou,


no meu caso, o cara que está hospedando o site do malvado. Eu tinha mandado um e-mail para Jason Trotting uma noite antes, posando como um riquíssimo empresário persa que, se ele conseguisse como cliente, certamente garantiria seu futuro financeiro pelo resto de sua vida – e de seus familiares. É claro que ele aceitou me encontrar (ou “Armen”, conforme me apresentei) hoje à noite no bar de um hotel chique em Westwood. Não preciso dizer que Armen não apareceria. Infelizmente, a internet não foi bondosa o bastante para me fornecer uma foto identificando Jason Trotting. Por isso, tive que testar minha sorte e procurar pelo único cara sozinho no balcão, esperando por alguém. E, por sorte, havia três. Merda!, xinguei em silêncio ao entrar e examinar o público esparso. Uma mesa de colegas de trabalho, conversando sobre planos de marketing; outra mesa com um casal adorável que certamente estaria pedindo uma das suítes de quinhentos dólares ao final da noite, se é que já não o fizeram; duas meninas de vinte e poucos anos típicas de Los Angeles, sentadas no balcão, arrumadíssimas para o caso de algum figurão do cinema aparecer procurando pela próxima estrela de Hollywood ou talvez até ir como acompanhante para a sua próxima estreia. E três homens, cada um ocupando sua mesa, espalhados pelo salão. Usando uma peruca loira surpreendentemente realista e bem dramática, com maquiagem escura nos olhos, consegui chegar a um canto escondido onde eu podia fazer um inventário. Sabendo que esse cara provavelmente tinha visto minha foto na internet mais de uma vez, eu tinha que tomar as devidas precauções. A peruca loira era uma peça de fantasia caríssima que eu tinha comprado nove meses atrás quando conheci uma mulher que estava convencida de que seu marido era um desses cavalheiros que preferiam as loiras. A parte das loiras era verdade, mas a do cavalheiro era questionável. Sutilmente, ajeitei minha peruca e comecei minha exploração. Tudo bem, solitário número 1: meia-idade, sem aliança, tomando uísque e olhando de um jeito não muito discreto para as duas meninas metidas do balcão. Havia 95% de chance de não ser ele. Jason provavelmente estaria perto dos 30 até 35, dada a área em que escolheu trabalhar, e certamente não arriscaria arruinar sua oportunidade de negócio multimilionário olhando para mulheres. Ele estaria vigiando a porta. Os solitários número 2 e 3 se encaixavam nos critérios. Ambos tinham trinta e poucos anos, eram pouco estilosos e estavam com os olhos atentos e colados na entrada do bar. Analisei-os com mais demora, observando com cuidado como reagiam a cada cliente novo que entrava. Sabendo que o homem que eu estava procurando estaria basicamente aguardando um persa chamado Armen, eu apenas esperava que esse raciocínio dedutivo fizesse efeito quando o outro reagisse à entrada de uma mulher. Não deu certo. Ambos eram praticamente indecifráveis. Por isso, eu tinha que me arriscar. Esperei até que Armen estivesse meia hora atrasado e aí abordei o solitário número 2. – Oi – falei timidamente –, está esperando uma pessoa?


Ele olhou para cima e abriu um sorriso sedutor. – Esperei por toda a vida, e acho que acabei de encontrá-la. Esforcei-me para me ater à personagem e segurei a vontade revirar os olhos. Dei uma risada animada, como se fosse o comentário mais elogioso que eu já tinha recebido na vida. – Não, quero dizer, alguém em especial. Ele confirmou com a cabeça. – Sim, na verdade, um parceiro comercial. Sorri. Provavelmente era ele, mas eu tinha que representar com cautela. Franzi a testa. – Ah, tudo bem. Com o canto do olho, vi o solitário número 3 tirar a carteira e colocar uma nota de vinte dólares na mesa, perto da conta. Ele estava se preparando para ir embora. Eu tinha que ser rápida e descobrir se o homem na minha frente era Jason Trotting ou só um cara qualquer com cantadas ruins. – Você está esperando alguém? – ele me perguntou. Comecei a me virar para responder à pergunta quando um objeto branco e brilhoso chamou minha atenção do outro lado do salão. O solitário número 3 tinha pegado uma pasta branca e brilhosa e estava colocando-a embaixo do braço ao se levantar. Inclinei minha cabeça para o lado e apertei os olhos para enxergar o logotipo: Fiztech.net. Bingo. Agitada, meus olhos dispararam de um lado a outro, entre o solitário número 3 e a porta. Eu tinha cerca de vinte passos para impedir que ele saísse. – Sim, e acho que é ele ali – falei para o homem que estava na minha frente e depois corri logo para o outro lado do salão. Mantendo o olhar agitado no rosto, parei bem na frente do homem da pasta branca, que agora estava com uma mochila de computador no ombro. – Oi, me desculpe pelo atraso! Você deve ser Charlie. Ele olhou para mim, completamente desnorteado. Será que lhe escapou alguma coisa? Será que Armen era, na verdade, uma mulher? Ou ele simplesmente mandou essa mulher para tratar de negócios em seu lugar. Mas por que ela pensava que seu nome era Charlie? – Não, sou Jason – ele esclareceu, meio que esperando que a mulher se desse um tapa na testa e dissesse “ah, tudo bem. Me desculpe, foi engano meu”. Mas não fiz isso. Meus ombros caíram e minha cara se fechou de decepção. – Oh – comecei –, droga. Você também é bonitinho. Isso o deixou nervoso e, claramente, mais confuso ainda. – Como é? Dei uma risadinha. – Me desculpe. Estou aqui para um encontro às escuras e não sei como é a aparência dele. Eu meio que esperava que fosse você, mas parece que me deram bolo – eu disse, torcendo a boca, expressando não apenas minha decepção, mas agora também um ego


ferido. Os olhos dele se solidarizaram. – Bem, se serve de consolo, também me deram bolo. – Encontro às escuras? Ele fez que não. – Não, reunião de negócios às escuras, um grande cliente potencial. Parece que vou ter que economizar na comida por mais oito meses. Dei risada. – Boa. Que tal uma bebida para consolar nossos egos feridos? Achei que, como esta não era uma missão normal e Jason não era marido, namorado ou noivo de ninguém – até onde eu sabia –, não havia mal em tomar a iniciativa para variar. E este era um indivíduo que eu simplesmente não podia me dar ao luxo de deixar escapar, não quando ele tinha informações tão valiosas dentro daquele cérebro. Já no segundo drinque, eu finalmente me senti pronta para o ataque. Jason havia me contado sobre sua empresa de hospedagem de sites e como mal conseguia pagar as contas e que, se não conseguisse um cliente como Armen em breve, ele teria que voltar a trabalhar em um pequeno cubículo escrevendo códigos sessenta horas por semana. – Ah, vamos – tentei animá-lo. – Você deve ter pelo menos um cliente importante que o mantém de pé. Ele encolheu os ombros e tomou outro gole de sua cerveja. – É, acho que sim – ele falou como quem não quer nada. – Acabei de conseguir uma conta grande, um figurão local que alugou algumas centenas de gigas de espaço, mas não acho que ele vá manter esse contrato por muito tempo. Não parecia que ele precisava de algo permanente quando nos falamos pelo telefone. Tinha que ser ele: local, recente, curto prazo. Como não podia ser? – Bem, parece promissor – encorajei. – Qual é a história dele? Ele encolheu os ombros novamente. – Não sei muito. Ele se recusou a dar o nome. Era um espécie de operação altamente secreta, eu acho. E você? Qual é a sua história? – Ele não falou nada a respeito de si? – retruquei, com um desespero tomando conta da minha voz. Disfarcei logo com um sorriso de paquera. – Quero dizer, parece muito estranho. Jason olhou para mim com um pouco de estranheza. – É – começou com cautela. – Acho que eu poderia ter procurado a partir do nome da empresa dele, mas não importava muito para mim – falou e tentou mudar de assunto novamente. – Então você estava aqui para um encontro às escuras, né? Acho que isso significa que é solteira? Eu ri e tomei um gole do meu drinque. – É, solteira. Essa vida de solteira é muito boa. – Bem, eu adoraria pegar seu telefone e quem sabe te levar para sair um dia desses. Espero que goste de lanchonetes.


Eu ri de novo, por fora. Por dentro, porém, eu estava gritando. – Talvez eu o conheça – sugeri naturalmente. – Talvez conheça quem? – perguntou. – O cara, seu cliente. Se você me disser o nome da empresa, talvez eu possa lhe dizer quem é o dono. Estou no ramo de Relações Públicas, trabalho com muitas empresas. Jason voltou a olhar para mim com estranheza. Eu sabia que ele estava começando a ter dúvidas sobre esse convite para comer fast-food, mas, a essa altura do campeonato, eu não dava a mínima para o que ele pensava. Ele obviamente não tinha me reconhecido por baixo do disfarce ou talvez nem se deu ao trabalho de ver o site que o cliente pôs no ar. Mas de uma coisa eu sabia: não iria embora sem um nome. – Hã, Indústrias Kelen, eu acho – Jason finalmente se rendeu. A mão que estava passando futilmente pelo meu cabelo artificial congelou e aí foi caindo devagar. Ao absorver as palavras dele, não consegui de jeito nenhum pensar no que dizer. Será que ele tinha acabado dizer o que eu achava ter ouvido? – Então, você o conhece? – perguntou Jason praticamente duvidando. Confirmei com a cabeça lentamente, como se estivesse em transe. – Sério? – disse espantado. – Impressionante. Claro que não havia motivo para não conhecê-lo. Eu tinha lido no mínimo vinte artigos de jornal sobre todas as mudanças maravilhosas que a empresa dele estava fazendo no mundo dos motores de carro. Eu tinha visto o interior de sua suíte num hotel em Denver. Eu tinha acariciado o cabelo da esposa dele enquanto ela chorava no meu ombro. Ele até tentou me subornar para ficar quieta. Ah, sim, eu certamente o conhecia. Fiquei maravilhada como John estivera correto desde o começo. Agora eu me dava conta de que, se tivesse que fazer uma lista mental de todos os homens que tentariam fazer uma coisa desse tipo, esse cara certamente estaria no topo. Respirei fundo enquanto o sentido voltava aos poucos para minha língua e eu finalmente podia falar. – O nome dele é Raymond Jacobs.


16 Linha de apoio Depois de agradecer a Jason Trotting pelas bebidas e deixá-lo com um telefone falso, desapareci na noite com apenas a informação que tinha ido buscar. Não sei por quê, mas acho que, de certa forma, pensei que uma vez sabendo quem era responsável pelo site, eu passaria a me sentir melhor, que toda a ansiedade simplesmente desapareceria. Acho que não percebi que, uma vez sabendo a identidade do meu arquinimigo malvado, eu teria que bolar um plano para pôr fim às suas ações. E, infelizmente, eu não tinha pensado tão longe. De todas as pessoas, por que tinha que ser ele? Raymond Jacobs, o cara que bebia gimlet com vodca e, há duas semanas, havia acreditado no meu impressionante conhecimento sobre motores de carro sem uma única reserva. Porém, eu tinha que reconhecer seu mérito, pois armou esse golpe bem rápido. Minha viagem a Denver parecia ter acontecido há dois dias; e parecia que foi ontem a minha ida à casa de Anne Jacobs, segurando sua mão, dizendo-lhe que tinha feito a coisa certa. De repente, eu me vi imaginando se eu tinha feito a coisa certa ao aceitar a missão. Raymond Jacobs claramente não era o tipo de homem que era atropelado por um caminhão e ficava na estrada para morrer. Não mesmo. Ele se levantaria e sairia correndo para comprar um caminhão ainda maior. Enquanto eu voltava para casa, a sensação de ansiedade começou a me consumir. Eu queria me enfiar na cama, tapar-me com os cobertores e nunca mais sair de lá. Cansada, arrastei-me pelas escadas do meu prédio e entrei no apartamento. Caí na cama como uma tonelada de tijolos. Parecia que as paredes estavam se estreitando, e a única pessoa com quem eu realmente queria conversar não falaria comigo. Era sempre numa hora dessas que eu ligava para Sophie, inventava uma história qualquer sobre alguma coisa que me chateou no trabalho e ela me tranquilizava. Ela me acalmava com suas palavras e sua voz consoladora. Era a voz de alguém que me conhecia desde sempre e me dava apoio em tudo – bem, quase tudo. Afinal, mesmo que as soluções que ela criava apenas se aplicassem a um problema de mentira e as palavras que usava geralmente nada tinham a ver com o que realmente estava acontecendo na minha vida, não importava. Era o fato de ela me dar apoio, ouvir e acudir. E eu sabia que tinha que ligar para ela. Sabia que não poderia continuar a não tê-la presente na minha vida. Ela era importante demais para mim. Não parece que a gente nunca dá valor para uma coisa até perdê-la? Fui até a cômoda e peguei o telefone da base. Comecei a discar, mas, antes de apertar


o último número, fui interrompida pelo som de um telefone diferente tocando. Era meu celular do trabalho. Desliguei o telefone fixo, peguei minha bolsa na beira da cama e retirei o celular que tocava. Na tela, estava escrito “Número Desconhecido”. Até aí nada de novo. A maioria das pessoas bloqueava esse tipo de chamada. Bem, a maioria das pessoas bloqueava toda essa parte de suas vidas. Apertei o botão verde para atender a chamada e aproximei o telefone do ouvido. – Alô? Houve uma voz abafada do outro lado da linha e não consegui entender uma única palavra que a pessoa estava falando. – Alô? – repeti ao telefone. Houve mais ruído. – Alô? Não consigo te ouvir. Você consegue me ouvir? – fiz uma pausa e aguardei. Nada ainda. – A ligação está ruim, acho que você precisa ligar de novo. E, quando eu estava prestes a desligar, o ruído passou e uma voz suave e muito confusa falou do outro lado. – Jen? Fiquei imóvel no meu edredom de algodão branco. E aí, convencida de que eu tinha simplesmente pego o celular errado, afastei o telefone da orelha e o segurei na minha frente, procurando confirmar que este era, de fato, meu celular do trabalho. A palavra “Treo” estava incontestavelmente estampada no celular. Meu celular pessoal era um Razr rosa. Acho que a simples diferença de peso teria sido suficiente para distinguir os dois, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. – Jen, é você? Eu conhecia a voz há anos. Não havia mais interferência. A ligação estava bem clara, e a voz era inconfundível. A ironia estava mais clara que o dia, mas não tão bonita quanto ele. Era a mesma voz que eu vinha esperando escutar do outro lado da linha havia mais de uma semana. Mas e daí? Estava vindo pela porra do telefone errado. – Alô? – a voz pedia uma resposta e, em pouco tempo, estaria, sem dúvida, pedindo uma explicação também. Pigarreei e tentei imitar uma mulher de oitenta anos que vinha batalhando o vício do cigarro há muito tempo. – Sim? Posso lhe ajudar? Eu deveria simplesmente ter desligado, ali naquele momento. Deveria ter largado o celular, filtrado as ligações pelo resto da noite – ou pelo resto da vida talvez – e ficar por isso mesmo. Eu deveria ter feito um monte de coisas, mas não fiz. E agora aquela voz sabia. – Jen, é você? – ela repetiu, levemente mais irritada e extremamente mais insistente. Suspirei e me rendi. – Sim, Sophie, sou eu. Houve um longo silêncio, seguido de um curto, mas bem distinto “clique”. Tirei o celular do ouvido e olhei para tela, que informava “Chamada Encerrada”. Ele escapou


devagar dos meus dedos suados e observei ele desaparecer no mar de algodão branco. Levei a mão à testa e fechei os olhos, porque eu sabia, com certeza, que a ligação não era a única coisa que havia acabado de se encerrar. Mordi meu lábio e aguardei a inevitável segunda ligação. Se eu conhecia bem Sophie, ela precisava de um momento para absorver tudo, para processar as informações e para o mundo voltar a fazer sentido. Ela era como um computador lento, um desses modelos antigos que precisavam de um pouco mais de tempo para realizar tarefas simples, como abrir um documento no Word ou mudar de aplicativos. Era quase possível ver aquela ampulheta frustrantemente lenta acima da cabeça dela. Desta vez, porém, a tarefa não era simples e, depois que aquele momento passou, e mesmo um pouco depois, o mundo continuaria não fazendo sentido. O programa continuaria não rodando, e o disco rígido inevitavelmente travaria. Minha casa nunca pareceu tão silenciosa em todos esses dezoito meses em que estive morando ali. E aí o telefone tocou: não o celular do trabalho, nem meu celular pessoal, mas o telefone fixo, o da minha casa – e foi mais do que conveniente. O número já não estava mais bloqueado. A chamada definitivamente estava identificada. – Oi – falei suavamente ao telefone sem fio. Houve mais silêncio. Ela havia discado meu número antes de terminar de processar. Haveria silêncio, e eu aguardaria. – Oi – ela finalmente respondeu. Quase dava para ouvir as engrenagens da cabeça dela girando. As perguntas estavam surgindo tão rápido que ela não conseguia classificá-las e dar prioridade. As iminentes “operações ilegais” estavam ameaçando desligar o sistema inteiro se as respostas não começassem a aparecer, e rápido. E aí, de alguma forma, extraordinariamente, Sophie conseguiu classificar os dados e gerar com sucesso uma única e simples pergunta que resumia todas as funções que insistiam em rodar ao mesmo tempo. – É você? – ela perguntou fracamente. Confirmei com a cabeça, sabendo muito bem que ela não podia me ver, mas também, meio contente por isso ao mesmo tempo. Eu não estava preparada para que ela soubesse, para parar de inventar histórias mentirosas sobre o trabalho e fazer com que ela me consolasse; e certamente não estava preparada para que ela descobrisse desse jeito. Esse era o resultado dos meus métodos bem-sucedidos de dissuasão: Sophie voltou a falar com aquela mulher no escritório e pediu o número de novo, o meu número. Eu deveria ter adivinhado, eu é que deveria ser a primeira pessoa a lembrar que uma mulher que busca conhecimento é tão incontrolável quanto um homem que busca sexo. – Sim, sou eu – confirmei, quase envergonhada. Eu sabia a reação que ia receber, o julgamento que teria que aguentar. Por isso, respirei fundo e me preparei para o golpe. – Você é... Ashlyn? Ela ainda estava esperando que eu caísse na risada e dissesse que tudo era uma grande piada, que eu tinha trocado os números e estava tentando ensinar uma lição a


ela, que nunca existiu uma Ashlyn. Eu tinha inventado tudo. Surpresa! Você caiu numa pegadinha! E acho que eu poderia ter dito isso, mas tudo o que acabei dizendo foi: – Sim. – Como pode? Você trabalha num banco de investimento! – Trabalhava num banco – expliquei. – Não trabalho mais no Stanley Marshall há cerca de dois anos. Mais silêncio, mais cálculos cuidadosos. – Lembra da promoção que consegui, pouco mais de dois anos atrás? Uma sala maior? Celular novo? O segredo estava finalmente sendo decifrado e já não eram mais linhas de código incompreensíveis. Era toda uma história, uma vida inteira de que ela não tinha conhecimento, mas agora, do nada, não conseguia acreditar ter perdido. – Sim... – ela disse com hesitação. – Bem, não foi uma promoção. – Mas quantos? E por que você não me contou? E... – Eu não podia lhe contar! – insisti. – Não podia contar a ninguém. Ninguém sabe. Foi só uma decisão que tomei sozinha, uma coisa que tive que fazer por mim. Além do mais, achei que você não aprovaria. – Claro que não teria aprovado! Homens casados, Jen! Casados! E você os beija? Fiz que sim com a cabeça. – Arrã. – E deixa eles te tocarem? Eu podia ouvir o nojo no meio das sílabas de suas palavras. As imagens de sua cabeça estavam sendo projetadas nas paredes brancas do meu quarto como uma tela gigante de cinema. E, nesse instante, éramos uma: uma cabeça, um pensamento, uma visão. Eu me via do jeito que ela me via – e não gostei nada disso. – Arrã – consegui soltar, segurando as lágrimas. – Eu nem sei o que dizer. Fechei meus olhos. – Sophie, por que não vem para cá? A gente abre uma garrafa de vinho e conversa sobre isso. Eu te conto tudo. Vou começar do começo e não vou parar até que você entenda o porquê de tudo isso, todas as minhas motivações, as minhas razões. Juro que elas existem e são boas. Posso provar para você. – Não posso te ver agora. Suas palavras foram rápidas, e seu tom era distante. Sophie morava a apenas cinco minutos de carro da minha casa, a quase qualquer hora do dia, mas hoje ela estava a um milhão de quilômetros de distância – e essa era finalmente uma distância que esta pessoa do Sul da Califórnia podia entender. – Tudo bem – falei calmamente, enquanto a primeira lágrima conseguia escapar de baixo das minhas pálpebras fechadas, desfilando triunfalmente sua vitória pela minha


bochecha. – Parece que eu nem te conheço. Abri meus olhos, e várias lágrimas se seguiram. – Mas ainda sou eu, Sô! Ainda sou a mesma pessoa. Não mudei nos últimos dois anos; não teria mudado nos últimos dois minutos! – Mas você mudou! – ela respondeu. – Você nem é quem diz ser. É uma pessoa totalmente diferente, até com um nome completamente diferente! Funguei. – É só um nome artístico – sugeri esperançosa. – Como uma personagem de uma peça ou de um programa de TV. Ellen Pompeo representa Meredith em Grey’s Anatomy; Evangeline Lilly representa Kate em Lost; eu represento Ashlyn num programa semanal sobre uma mulher cujo trabalho é desmascarar homens infiéis para as mulheres que os amam! Porém, Sophie não estava convencida. – Esses são programas de TV! Não são reais. Isso, sim, é real, Jen! São pessoas reais! Não é de mentira. Não é a mesma coisa quando éramos pequenas, brincando com os livros de Psicologia do meu pai ou brincando de casinha – ela fez uma pausa. – Embora eu nunca tenha achado que você ia crescer e brincar de destruidora de lares. – Você quis me contratar! – devolvi, enxugando com a minha mão meu nariz que escorria. – Você ia ligar para a destruidora de lares e contratá-la para destruir o seu lar! – Isso quando não era você! – Que diferença faz se sou eu ou a vizinha ou a porra da Marilyn Monroe? Você queria a mesma coisa que todas as minhas clientes queriam, uma coisa que eu dou: paz de espírito. – Minha voz se acalmou e acariciei a colcha branca embaixo do meu joelho. – E agora você vai me odiar por dar isso às outras pessoas? Sophie não respondeu de imediato. Eu podia ouvir ela respirando. Seu fôlego sempre começava a encurtar e a ficar mais alto quando estava chateada. – Apenas preciso de um tempo para pensar. – Está bem – murmurei. Afinal, quem era eu para contrariar? Não havia mais nada que pudesse dizer para convencê-la a não me odiar. E certamente não havia nada que eu pudesse acrescentar para convencê-la a aceitar a mim ou o meu trabalho. Porém, ao desligar o telefone, senti um pequeno conforto por saber que, apesar de tudo, pelo menos eu finalmente podia ter a certeza de tê-la convencido a não seguir adiante com essa história. Ela nunca mais iria sequer pensar em contratar alguém para seduzir seu noivo, descobrindo isso do jeito mais difícil e complicado. Mas aconteceu, estava tudo esclarecido. Sophie sabia. Acabaram-se os segredos, as desculpas, as mentiras. E, embora eu nunca tivesse sentido um vazio tão perturbador, em algum lugar lá no fundo, por baixo da frustração, do medo terrível de perder a melhor amiga, senti o primeiro gostinho de serenidade – até meia hora depois, quando ouvi alguém bater à


minha porta. Espiei pelo olho mágico e vi Sophie despenteada, de calça de moletom rosa, sem maquiagem e sem enfeites. Tentei estampar um sorriso corajoso no rosto ao abrir a porta. Ela estava de pé, em cima do capacho, completamente imóvel, e estava claro que sua cabeça ainda não tinha resolvido se ia ou não entrar, como se o GPS a tivesse levado só até ali. O que vinha depois, ela não sabia. Por isso, descansei minha cabeça na soleira da porta e olhei nos seus olhos, implorando não por perdão, mas por compreensão, apoio, amizade incondicional. Mas o que eu não sabia naquele momento era que o que ela tinha vindo dizer acabaria sendo não uma confirmação de sua amizade, mas da minha. Olhando para trás, eu tinha subestimado sua capacidade de se adaptar, de se atualizar para uma velocidade maior de processamento e, no fim das contas, de não apenas aceitar a informação que lhe havia sido fornecida, mas deixá-la corromper por completo cada pedacinho de lógica de seu sistema inteiro – como um vírus. Ela ficou reta e olhou diretamente nos meus olhos. Sua voz não hesitou ao recitar a mesma fala que havia ensaiado sem parar no trajeto de cinco minutos até o meu prédio: – Eu ainda quero que você vá testar Eric.


17 A origem das espécies (parte III) Acho que dá para dizer que comecei por acaso no meu atual trabalho como inspetora de fidelidade. Não foi uma coisa que planejei. Não acordei um dia com a brilhante ideia de querer passar o resto da minha vida seduzindo homens casados. A primeira vez foi, para todos os efeitos, um acidente. Era um happy hour do trabalho. O público havia finalmente diminuído até sobrarem apenas eu e algumas colegas do banco de investimento. Depois de alguns drinques a mais, começamos o que no início era um inocente, mas divertido, jogo de verdade ou consequência, que acabou se transformando em apenas “consequência”. Era tudo muito inofensivo. “Te desafio a fingir que conhecia o barman do colégio e depois agir como se estivesse ofendida por ele não se lembrar de você” ou “te desafio a ir até aquela mesa e perguntar se estão gostando da comida”. Porém, após mais algumas cervejas, começou a tomar um rumo mais escandaloso, quando consequências como dizer “bonitas bolas” para as pessoas que estavam jogando sinuca ou mostrar partes do corpo para transeuntes pareciam cada vez mais divertidas e populares do que as versões menos ousadas que nos haviam entretido antes. As oportunidades de cada uma passaram várias vezes pelo círculo e, perto das 23h30, parou em mim pela última vez. – Está bem, Jen – minha colega Rebecca apontou seu dedo longo e bem pintado na minha direção. Sorri e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Sim – respondi confiante e destemida. Eu tinha completado com sucesso e louvor minha última consequência, na qual fui até o banheiro masculino, apontei confusa para o urinol e disse “que pia esquisita” para o homem que estava dentro. As meninas tinha assistido do corredor, rindo histericamente e comemorando entre si como festeiros de faculdade. Rebecca olhou para suas duas vizinhas com cumplicidade e trocaram sorrisos. – Quê? – perguntei, querendo participar do segredo. Seus olhos se desviaram para um homem na extremidade do balcão do bar, que usava um terno alinhado e conversava com um grupo de outros profissionais bem vestidos. – Aquele segurando o copo de uísque? O rosto de Rebecca demonstrou sua clara repugnância à escolha da bebida, assentindo com a cabeça. – Sim.


– Tudo bem – confirmei. Ela trocou outro olhar de confirmação com Hilary e Tina, uma de cada lado. – Bem, você tem que ir até lá, conversar com ele e, sem sugerir nadinha, conseguir que ele a convide para ir à casa dele. Caí na gargalhada. – Tá bom. Porém, quando olhei para elas, ao esperar ver três rostos rindo junto comigo, retribuíram-me com nada além de expressões pasmas. – Estão brincando, né? Rebecca fez que não. – Não. As apostas estão aumentando, mostre que está à altura. Olhei novamente para o homem. – Não! Não posso fazer isso. – Se tem alguém que pode, é você – acrescentou Hilary. – O que isso quer dizer? – perguntei. – Quer dizer – começou Tina – que você é de longe a mais bonita de nós, e nós temos uma pequena teoria de que, independente do lugar ou da hora ou até da roupa que estiver usando, qualquer homem agarraria a chance de levá-la para casa. Soltei um riso sarcástico. – Isso é ridículo! – Acho que não – respondeu Hilary sem rodeios. – O quê? Vocês planejaram isso? Antes de virmos aqui? Hilary olhou para Rebecca. Estava óbvio que tinham planejado. – Não exatamente – esclareceu Rebecca. – Conversamos sobre isso algumas vezes, tipo no almoço. Afinal, vemos como todos os caras do escritório olham para você. Torci a cara. – Não! – insisti. – Não é verdade. – Prove – desafiou Rebecca. – Mas ele é casado – protestei, reparando na aliança dele. – Isso não vai impedi-lo – disse Rebecca cinicamente. – Ele é um homem mesmo assim. Olhei desesperadamente para Hilary e Tina, esperando uma contraproposta. Não recebi nada. Pelo jeito, este ia ser um espetáculo que todo mundo queria presenciar. Até hoje não sei se foi a emboscada ou a bebida, mas depois de um longo e hesitante olhar para as três, levantei-me em silêncio, coloquei a bolsa no ombro e caminhei devagar os três passos até o meu primeiríssimo alvo. O resto da história foi praticamente a mesma de todas: paquera, sorrisinhos, conversinhas espirituosas, um leve exagero no meu nível de intoxicação. E, no fim das contas, Rebecca, Tina e Hilary estavam certas. Eu não fui exatamente convidada a ir à casa dele, mas não passou muito tempo até ele me convidar para ir a um lugar mais


reservado e, de acordo com a minha banca de juradas, isso já bastava. Quando eu disse que essa história toda tinha sido um “acidente”, tecnicamente eu estava me referindo ao dia seguinte, quando descobri a verdade sobre essas “conversas durante o almoço” que ocorriam pelas minhas costas. No dia seguinte, no trabalho, Miranda Keyton, vice-presidente de fusões e aquisições, me chamou à sua sala para uma reunião de última hora. Achei meio estranho que ela quisesse se reunir sozinha comigo. Por ser apenas uma analista da firma, as solicitações geralmente partiam dela e passavam por vários níveis de burocracia e depois finalmente alcançavam meu baixo nível depois de terem sido separadas, analisadas e alteradas pelos vários escalões da cadeia alimentar corporativa. Portanto, eu só podia imaginar que receber um pedido direto de Miranda era sinal de péssima notícia, do tipo “pegue suas coisas, você está demitida” ou ótima notícia como “pegue suas coisas, você vai para uma sala só sua. Foi promovida”. Ao entrar timidamente em sua sala, Miranda tirou os olhos da tela do computador, colocou os óculos para o topo da cabeça e abriu um sorriso agradável, mas reservado. Retribuí o sorriso. – Por favor, feche a porta, Jennifer. Definitivamente não é boa notícia. Fechei a porta e me sentei em uma das cadeiras na frente da mesa. – Obrigada por ter vindo – ela disse, enquanto se recostava em sua cadeira executiva de couro preto e me analisava. – Tudo bem. – Bem – ela começou, pousando as mãos no colo –, eu chamei você aqui para agradecer pessoalmente pelo que fez. Assenti, vasculhando mentalmente os e-mails que eu tinha enviado nas últimas 24 horas que poderiam ter parado na caixa de entrada de Miranda. – Você está se referindo hã... à, hã, à análise do mercado de DVDs? – arrisquei. Miranda sorriu, quase carinhosamente, mas não muito. – Não, Jennifer. Refiro-me à análise do meu marido. Franzi a cara, confusa. Certamente não me lembrava de nenhuma solicitação a respeito do marido dela. Será que alguma análise de dados recente havia partido do marido dela? Será que ele estivera usando os recursos internos do banco para fazer pesquisa própria? – Me desculpe – falei, tentando não soar completamente alheia, mas mais como se essa análise específica tivesse me escapado momentaneamente e uma simples palavrachave certamente desencadeasse a porção correta da memória no meu cérebro e me colocasse a par da conversa. – Que solicitação foi essa? – A da noite passada – declarou ela abertamente. Isso me deixou completamente confusa e, agora, eu certamente aparentava estar ainda mais por fora do que antes. Eu nem estava no escritório na noite passada, mas no


bar com um bando de gente do trabalho. Os analistas de bancos de investimento eram conhecidos por trabalhar até tarde da noite, até mesmo a noite toda. Na verdade, na noite passada, estávamos comemorando o fato de termos saído do trabalho antes das 19h no que pareciam meses. – Me desculpe – comecei novamente, agora convencida de que parecia totalmente idiota, mas, a essa altura do campeonato, não estava me importando muito. Só queria saber do que diabos ela estava falando e informá-la gentilmente que era óbvio que estava me confundindo com outra pessoa. – Eu não estava trabalhando na noite passada. – Bem, pelo menos não na sua função normal – ela brincou. – Mas você certamente me ajudou. Fiquei em silêncio, aguardando uma explicação. Eu não ia continuar olhando para ela estarrecida, falando coisas do tipo “hein?”, “o quê?” e “me desculpe” várias vezes como uma imbecil incompetente. – Você deu em cima do meu marido na noite passada... no bar. Meu queixo caiu. Pisquei quase umas doze vezes, completamente boquiaberta. Senti meu rosto esquentando. Vinte horas seguidas debaixo de um sol escaldante não seriam páreo para o vermelhão que minha pele estava exibindo agora. Eu não sabia o que dizer. Se eu estava com medo de parecer uma idiota alguns segundos atrás, certamente não era nada comparado aos sons balbuciantes que estavam saindo da minha boca involuntariamente nesse momento. – Hã... hum... mas... o lance é... que eu... hã... não sabia que ele era seu... – Claro que não sabia! – ela exclamou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Se soubesse, de jeito nenhum você teria ido até o fim! Ela riu alegremente, meio que se divertindo com a história. Na minha cabeça, ela estava começando a se parecer muito com o Dr. Evil de Austin Powers, tramando um complô sádico para destruir o planeta a menos que alguém aceitasse lhe pagar um bilhão de dólares. – Está querendo dizer...? Ela assentiu com tristeza. – Acho que sim. Lamento muito tê-la envolvido nessa bagunça. Sei que não é da sua conta e certamente não é problema seu, mas eu tinha que confirmar minhas suspeitas. Parecia que alguém tinha batido na minha cabeça com uma marreta, mas eu milagrosamente havia sobrevivido para contar. Não sabia como reagir ou o que dizer a ela. Que tipo de resposta se elabora para uma situação dessas? Não existe uma seção sobre esse tipo de coisa em livros de etiqueta, e a disciplina da faculdade sobre Relações Empresariais certamente não tinha ensinado isso. Se fiquei sem saber o que dizer, dá para imaginar minha reação quando recebi um telefonema algumas semanas depois de uma mulher que se apresentou como “uma amiga próxima de Miranda Keyton” perguntando se ela podia me pagar para fornecer o mesmo valiosíssimo serviço que eu tinha feito a Miranda.


– Preciso saber a verdade – ela explicou ao meu silêncio estupefato do outro lado da linha. – Preciso confirmar minhas suspeitas para que possa parar de ficar imaginando e seguir em frente. Suas palavras cutucaram uma ferida profunda dentro de mim, que eu nunca pensei poder curar completamente. Porém, pela primeira vez em meses, depois de ver minha mãe lamentar a perda de tantos anos de felicidade devido a uma vida inteira de triste inocência, senti uma pontada de reparação. Eu não podia voltar no tempo e apagar as escolhas que privaram minha mãe do seu direito de saber, mas talvez pudesse, pelo menos, ajudar essa mulher a revelar o dela. E depois veio outra. E outra. Até chegar ao dia de hoje, agora, diante da busca por iluminação de outra mulher. Só que, desta vez, a mulher era minha melhor amiga: a pessoa que me dava carona com o carro dos pais, a que foi a primeira a ficar menstruada, a beijar um menino, a tirar a carteira, a perder a virgindade e ainda encontrava tempo para contar tudo para mim; a pessoa que me procurou com cada problema, cada questão, cada dilema, cada surto, cada medo e cada decisão. E sempre lhe dei apoio, sempre fui seu porto seguro, sua solução, sua resposta, sua voz da razão, seu equilíbrio, seu apaziguamento... e sua amiga. E agora ela estava me procurando para isso, mesmo que não tenha começado desse jeito. Agora era isso. E quem seria eu para recusar? Principalmente quando dediquei a minha vida para eliminar o estado de negação. – Está bem – falei para os olhos suplicantes de Sophie. – Farei o teste. E, no momento em que disse isso, sabia que tinha cometido um grande erro.


18 Passageiros e motoristas Como que inabalada pela noção de que eu, sua melhor amiga, estaria em breve tentando seduzir seu noivo, Sophie imediatamente se lançou nos detalhes da preparação. – Ótimo, está bem – ela começou, enfiando a mão na bolsa e tirando sua agenda preta. – Eric virá daqui a uma semana. Ele diz que quer encontrar alguns velhos amigos da faculdade. Por isso, eles irão a um bar, beber, agir como idiotas; sabe, coisa de homem. Acho que esse seria o momento perfeito para fazer o teste. Ela fez uma pequena anotação em sua agenda. Observei-a, completamente chocada. Se eu não a conhecesse, teria pensado que estava planejando uma festa surpresa para o aniversário do namorado, não sua inspeção de fidelidade. Ela certamente era a cliente mais ambiciosa e organizada que eu relutantemente já havia pego. – Tudo bem – falei com cautela. Ela começou a fazer anotações alucinadamente numa página em branco. Eu me inclinei para tentar ler o que ela estava escrevendo, sem sucesso. E aí, num gesto rápido, ela destacou a página, que não estava mais em branco, e me entregou. – O que é isso? – perguntei, pegando a folha dela e me esforçando para ler a letra confusa. – Uma lista de coisas de que Eric gosta: seus hobbies, pratos preferidos, filmes etc. Achei que poderia ser útil. Fiquei olhando para a lista, completamente muda. Uma parte de mim quis rir, mas eu sabia, lá no fundo, que não seria adequado. Ela basicamente estava fazendo meu trabalho por mim. Esses eram todos os detalhes exatos que eu praticamente tinha que sugar das mulheres que me contratavam. Mas Sophie não. Ela estava tão aplicada nesse processo quanto uma compradora de carro numa concessionária, armada com uma pilha de relatórios da indústria, preços dos modelos e ofertas de jornais para contrapropostas. Não que eu estivesse reclamando; eu aceitaria qualquer coisa para diminuir o peso do que havia acabado de aceitar. – Que dia é melhor para você? – perguntou Sophie, tirando minha atenção das palavras “hambúguer White Castle” que haviam sido impetuosamente escritas abaixo do título “Fast-Food Preferido”. – Arrã – confirmei vagamente. – Jen! – Sophie praticamente gritou. Reagi com uma careta ao som. – Você não deveria estar registrando tudo isso nesse seu celular idiota que leva para


todo canto? – falou. E aí, baixinho, ela completou: – E agora eu sei o porquê. Levantei-me do sofá. – Está bem. Vou fazê-lo agora. Sophie olhou para mim com receio. – Sabe, eu meio que pensava que você estaria mais comprometida com isso. Parece estar indiferente a essa história. Por acaso é tão pouco profissional com todas as suas clientes? Peguei meu Treo da bolsa e voltei para o sofá, onde ficamos sentadas discutindo esse erro de julgamento gritante da minha parte por uma hora. – Bem, sinceramente, Sô – comecei –, você não é uma cliente normal, não é mesmo? Sophie contorceu sua boca ao pensar na minha pergunta. – Bem, não. Eu sei disso. Mas veja: para esse propósito em especial, quero que me trate como uma cliente qualquer. Não quero preço nem tratamento especial. Faça exatamente o que faria com qualquer outro cara que paquera. – Ah, então agora você não se opõe a que eu paquere homens casados? Ela encolheu os ombros e fechou sua agenda, enfiando-a desajeitadamente dentro da bolsa. – Por que não? Você tem um propósito, não é? – Um propósito que também lhe convém? Sophie revirou os olhos. – Tanto faz. Eu ri dela. – Você sabe o que isso significa, né? Ela se virou para mim. – O quê? Recostei-me no sofá e apertei minhas mãos ansiosamente nas coxas. – Significa que vou ter que contar a Zoë. – Por quê? – Porque John sabe, e agora você sabe, e era relativamente fácil para mim esconder um segredo de todos vocês, mas quais são as chances de vocês dois conseguirem escondê-lo dela? – John sabe? – perguntou Sophie, surpresa; e, sinceramente, aparentando estar meio magoada. – Por que é que John sabe? – Acredite, não fui eu que contei. Ela olhou para mim, curiosa, e passei a lhe contar a versão resumida do meu pequeno status de celebridade da internet, até o ponto em que, hoje mesmo, eu tinha descoberto que Raymond Jacobs era o responsável por trás disso tudo. – Então o que vai fazer? – perguntou Sophie depois que terminei. Dei de ombros e soltei um suspiro doloroso. – Ainda não sei. Acho que vou tentar falar com ele.


– Você acha que vai dar certo? – ela perguntou com a mesma dúvida que eu estava sentindo por dentro. Sentei-me em posição de índio e fiquei mexendo na barra desfiada da minha calça jeans. – Não tenho certeza. Acho que vale a pena tentar. – Bem, fico contente pelo fato de que Zoë vai ficar sabendo – afirmou depois de um silêncio curto, mas carregado. Sorri. – E por quê? Sophie se sentou altiva. – Porque agora, pelo menos, ela vai ter certeza de que eu tinha razão. Franzi minha testa. – A respeito do quê? – De você! – ela exclamou. – Sabe quanto tempo levei para convencê-la de que seu problema de falta de namoro era um problema de verdade? Ela insistia que era só por causa do trabalho, mas eu sabia que era algo mais... e acabou que... – Sua voz foi diminuindo enquanto seu raciocínio se completava. – Era por causa do trabalho? – declarei com um sorriso espirituoso. Sophie ignorou meu comentário. – Você sabe do que estou falando. A campainha tocou quando eu estava saindo do banho na quinta à noite. Um breve pânico bateu ao dar uma segunda olhada no relógio: eram quase 18h30. Jamie só ia me buscar para o nosso encontro às 20h. Na hora, fiquei preocupada por talvez ter marcado o horário errado. Espiei pelo olho mágico da porta e vi Sophie e Zoë em pé, ansiosas, do outro lado. Relutante, abri a porta. – O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei, meio irritada pela visita surpresa. – Bom te ver também, sua vaca! – Zoë fingiu estar ofendida. – É, você não é muito boa em receber, né? – acrescentou Sophie. Segurei a toalha que estava me envolvendo com uma mão e, com a outra, fiquei segurando a maçaneta. – Me desculpem. – Então, qual é o grande segredo que todo mundo sabe menos eu? Olhei para Sophie. – Me desculpe! – ela se defendeu. – Achei que a essa altura você já teria contado! – Só passou um dia! Zoë ficou olhando para mim e para Sophie, impaciente. – E aí? – ela perguntou. – Aqui estou. Então me conte de uma vez! Abri mais a porta e fiz um gesto para entrarem. Elas passaram por mim e, sem hesitar, sentaram-se no sofá, como convidadas de um programa de TV, esperando serem


entrevistadas. Fechei a porta e comecei a ir para o quarto. – Vou me vestir antes. – Não! – insistiu Zoë. – Não tem nada que eu já não tenha visto aí. Me conte agora. Revirei meus olhos e prendi a ponta da toalha embaixo da axila. Sentei-me ao lado de Sophie. – Está bem, o que você já contou a ela? – Nada! – ela gritou se defendendo. – Só perguntei o que ela achava das suas novidades e ela olhou para mim como se eu fosse louca. Aí me dei conta de que você não tinha falado nada ainda e insisti que você mesma contasse. Zoë ficou batendo seu salto agulha no piso de madeira. – Estou esperando. Soltei um grande suspiro. – Eu não queria contar para você desse jeito. Eu estava esperando pela hora certa de me sentar com você e explicar tudo. Zoë fez um gesto para o sofá. – Bem, certamente não estamos de pé. Passei a mão no meu cabelo molhado. – Está bem. Em poucas palavras, não sou exatamente uma analista de um banco de investimento. O rosto de Zoë permaneceu inexpressivo, esperando eu prosseguir. – Na verdade, não sou nem um pouco uma analista de banco. Pelos últimos dois anos, tenho trabalhado num emprego bem diferente. Também não houve reação. Por isso, continuei: – Eu, hã, mulheres me contratam para “testar” seus maridos e namorados e para desmascarar, digamos, “tendências de infidelidade”. A língua de Zoë correu para a frente dos dentes enquanto ela contemplava intensamente a minha última frase. Entretanto, se ela tivesse formado alguma opinião sobre o assunto, seu rosto ainda não demonstrava, quase como se eu tivesse acabado de informar minha decisão de trocar de lavanderia – embora, conhecendo Zoë como conheço, ela provavelmente teria uma opinião a esse respeito também. Talvez precisasse de mais tempo para absorver todas as informações. – Sabe, Zô – resolvi tentar outra abordagem –, eu saio e paquero esses homens, finjo estar interessada neles para ver se vão tentar transar comigo. Pronto, isso vai ser suficiente. Não dava para ser mais direta e ilustrativa que isso. Porém, a cara dela continuava sendo apenas de alguém que estava tentando se lembrar de onde tinha deixado suas chaves. Ela estava completamente sem reação a tudo o que eu estava dizendo. Sophie a observou atentamente e depois se virou para mim, com os olhos em busca de respostas, mas infelizmente os meus estavam fazendo as mesmíssimas perguntas. Nós duas estávamos totalmente perdidas. Zoë finalmente olhou para Sophie, depois para mim e, encolhendo levemente os


ombros, perguntou: – É só isso? Sophie ficou olhando sem poder acreditar. – Como assim “é só isso”? Não acha meio chocante, Zoë? Ela também deu uma pensada nisso e aí, dando de ombros novamente e balançando a cabeça, respondeu: – Não, na verdade, não. Afinal, era bem óbvio que Jen não vinha mais trabalhando como analista de investimento há um tempo. – Era? – disparei, estupefata. Zoë riu carinhosamente de mim. – Hã, é, Jen. Me desculpe, mas você não mente tão bem assim. – Então você sabia esse tempo todo? – perguntou Sophie. Zoë se recostou no sofá. – Bem – ela admitiu –, eu não sabia exatamente o que ela vinha fazendo, mas sabia que algo havia mudado. Ela não tem sido a mesma há alguns anos. Sentada, fiquei olhando para minha amiga, completamente pasma. Esse tempo todo, achei que estava enganando todo mundo, e quase estava mesmo – isto é, todo mundo menos Zoë. – Além do mais – ela prosseguiu –, topei com aquele cara, Nate Evans, ano passado, no cinema. Lembra do cara da Stanley Marshall que você quis me apresentar há alguns anos? Bem, ele me contou que você tinha se demitido meses atrás. – Mas... – Eu nem conseguia sequer começar a dar sentido ao que ela estava dizendo. Aqui estava eu achando que ia passar por mais uma rodada de intermináveis perguntas de outra grande amiga, mas, na realidade, foi o contrário. – Por que você não me perguntou a respeito? Por que não me confrontou quando soube que eu não trabalhava mais lá? Zoë respirou fundo. – Não sei. Achei que você estava fazendo uma coisa sua e que, quando quisesse conversar sobre ela, nos procuraria. Por isso, deixei estar. – Uau – espantou-se Sophie, aparentando estar com um pouco de inveja por Zoë ter solucionado com tanta facilidade e decifrado o segredo ao passo que ela estivera no escuro esse tempo todo. – Mas que bom para você – falou Zoë. – Devo admitir que é até bom não ter que especular mais sobre o que você anda fazendo. Por um tempo, eu estava convencida de que você estava fazendo striptease naquela boate no final da rua. Mas sinceramente eu parei de tentar descobrir uns seis meses atrás. – Então você acha bom? – busquei confirmar. Ela assentiu com a cabeça. – Claro. Afinal, você não tem culpa de querer trabalhar nisso, depois do que aconteceu com seus pais.


Um desânimo bateu e assenti de leve. – Claro. Sentindo meu incômodo, Zoë rapidamente mudou de assunto. – Então, por que está se arrumando agora? – ela perguntou, apontando para a toalha molhada em volta do meu corpo. – Outra noite paquerando desavisados? Levantei-me e ajeitei a toalha em volta do meu peito. – Não – falei baixinho. – Eu... bem, na verdade, vou sair com um cara. Minhas duas amigas pularam do sofá ao mesmo tempo mais coreografadas do que a equipe olímpica de nado sincronizado. – O quê? – gritou Sophie. – É o cara do avião, né? – especulou Zoë, eufórica. Sophie se virou para ela. – Que cara do avião? – Jen conheceu um cara bonitinho no avião quando estava voltando de Las Vegas e eles se deram muito bem e ela me disse que não ia ligar para ele, mas eu sabia que iria. – Bem, você anda sabendo de tudo ultimamente, não é mesmo? – perguntei, andando até meu quarto. As meninas foram atrás em seguida, como dois cães perseguindo uma criancinha que está comendo biscoitos e soltando farelos. – Eu a conheço, Jen – Zoë declarou com orgulho. – Você acha que ninguém a conhece, mas está muito enganada. Você é mais previsível do que gostaria. – Não para os homens que ela seduz – observou Sophie maliciosamente, com muita vontade de entrar para o que agora percebia como a competição “quem conhece melhor Jen”. – Isso não conta – respondeu Zoë. – Eles têm tanta testosterona correndo nas veias que duvido que fossem notar mesmo que ela escrevesse “isso é uma cilada” com batom vermelho na testa. Enganar um idiota de pau duro que transa com a mesma mulher há vinte anos não é exatamente um desafio. – Bem, sabichona – comecei toda convencida enquanto entrava no meu closet e começava a sondar minhas dez mil roupas. – Acontece que você está errada. Eu não liguei para ele. Eu o encontrei por acaso na concessionária da Range Rover. – E finalmente resolveu dar ouvidos ao universo – argumentou Zoë. Derrotada, eu não podia falar nada. – Está bem, você estava certa sobre isso. Zoë se sentou na cama com um pulo e sorriu orgulhosa. Sophie, levemente tristonha e sentindo-se muito por fora, sentou-se com menos empolgação ao lado dela. – Sô – falei, detectando sua sensação de exclusão –, sou tão inútil com essas coisas. Por favor, escolha alguma coisa para eu usar? Ou vou passar a noite inteira aqui. O rosto de Sophie se iluminou na hora, enquanto ela se levantava prontamente e seguia até meu closet para cumprir o dever cívico como a amiga que entende de moda.


Quando Jamie ligou para o meu celular pessoal para me informar que havia acabado de chegar na frente do meu prédio, logo o interrompi: – Vou descer – soltei, antes que ele pudesse terminar a frase, o que deve ter deixado suspeitas óbvias de que eu tinha que esconder uns cadáveres, uma variedade de drogas ilegais que iam ser pesadas e embaladas na mesa da sala ou até um marido alienado que pensou que eu ia sair com as meninas essa noite. Porém, para dizer a verdade, eu ainda não estava pronta para deixá-lo entrar na minha casa. Dar meu endereço já tinha sido difícil, mas a ideia de vê-lo andando dentro de casa simplesmente me deixava meio enjoada. Comecei a abastecer minha bolsa Marc Jacobs com todos os itens essenciais: pastilhas de menta, chaves, gloss, cartões de crédito, dinheiro, identidade e, finalmente, meu celular pessoal. Parei e olhei para o meu Treo, atirado inerte em cima da mesa da cozinha. Fui pegá-lo, mas recuei lentamente, como se o pequeno aparelho metálico estivesse ameaçando queimar minha pele ao entrar em contato com ele. Não sei por que, nesse momento, essa decisão aparentemente insignificante parecia um momento crítico da minha vida. Dei uma última olhada no celular e aí, triunfante, fechei minha bolsa e a coloquei no ombro. Ela parecia muito mais leve, como se eu não tivesse deixado para trás um aparelho de comunicação de 250 gramas, mas um fardo de 90 quilos. Ao pegar o elevador até o térreo, comecei a ficar nervosa. De jeito nenhum era o meu primeiro encontro. Tecnicamente, compareço a “primeiros encontros” três ou quatro vezes por semana. Era verdade que não tinham exatamente intenções “sinceras”, mas eu já deveria ter experiência nisso, em lidar com homens, fazê-los gostarem de mim, jogar seu jogo, ler suas mentes. Porém, esse era o forte de Ashlyn, não o meu. E, quando as portas do elevador se abriram de um jeito ameaçador, em câmera lenta, senti como se estivesse entrando em um território inexplorado. Verifiquei meu reflexo nas paredes espelhadas do saguão do prédio. Sophie tinha feito um trabalho maravilhoso ao navegar na selva traiçoeira que era meu closet. Depois de apenas alguns minutos olhando fileiras e mais fileiras de cabides, descartando roupas em velocidade recorde, ela finalmente decidiu por uma regata de renda rosa com um casaquinho creme e um par de calça jeans skinny. Em seguida, Sophie seguiu para o meu banheiro, onde passou a fazer uma bagunça total na minha gaveta de acessórios e completou o modelito com uma pulseira de cerâmica e um par de brincos cascata rosa escuro e cromado. Saí e imediatamente enxerguei o Jaguar branco conversível de Jamie me aguardando na frente do prédio, com a capota fechada, faróis acesos e motor ligado. Aproximei-me dele. A porta do motorista se abriu, e Jamie saiu para me cumprimentar. Ele estava maravilhoso, mais do que era na minha memória. Ele estava usando calça cáqui clara, uma blusa de malha preta e um casaco preto sem gola por cima. Ele me beijou carinhosamente na bochecha, e eu senti um pequeno arrepio no meu corpo. Pigarreei.


– Então esse é o Jaguar? – É ele. Tem que te impressionar. Está funcionando? Dei risada e fiz que não. – Na verdade, não. – Droga, vou ter que pedir meu dinheiro de volta – ele disse, fazendo a volta até o lado do carona e abrindo a porta para mim. – O cara que me vendeu disse que servia para impressionar todas as moças. Jamie se sentou ao volante e apertou um botão no console. A capota do carro começou a descer lentamente, e senti o ar noturno fresco de outubro bater no meu rosto. – E agora? Está impressionada? Pensei um pouco. – Quase. – Faltam cinco anos para eu completar quarenta. Achei melhor começar a crise de meia-idade agora com um conversível. – Uau! – exclamei. – Quase quarenta! Você parece tão... Ele lançou um olhar de aviso. – ... jovem para a sua idade – falei com um sorriso. Jamie agradeceu com um aceno de cabeça. – Vou deixar as janelas fechadas para não bagunçar seu cabelo. – É muita gentileza sua – brinquei. Porém, na verdade, foi a primeira preocupação que passou pela minha cabeça quando a capota baixou. – Então – começou Jamie, colocando o cinto de segurança –, acho que uma mulher como você provavelmente vai a muitos encontros. – Sério? E o que isso quer dizer? Uma mulher como eu? Ele ajustou o rádio. – Quero dizer, uma mulher bonita como você. Engoli em seco e olhei pela janela para esconder o calor que eu estava sentindo tomar conta do meu rosto. – Oh, obrigada. – Por isso, achei que hoje eu podia pensar numa maneira de me “diferenciar”. Ri de nervosismo, pensando sobre como essa noite já tinha ficado “diferenciada” e nem tínhamos saído de Brentwood ainda. – E no que você pensou? – Golfe. Olhei para ele, incrédula. – Golfe? Ele confirmou com a cabeça. – Sim, golfe. – Você pensou em golfe? Ele sorriu orgulhoso.


– Sim. Voce já jogou? Virei minha cabeça novamente. Na verdade, eu já tinha jogado golfe várias vezes e, depois de um punhado de aulas para me deixar no nível dos maridos que eu inspecionava nos campos de golfe, até que era boa no jogo. – Sim, algumas vezes – falei modestamente. – Mas eu não trouxe meus tacos. – Não tem problema, podemos alugar. – Então, vamos jogar golfe? – perguntei de novo, ainda imaginando quando ele ia dizer que era brincadeira. – Você gosta de dizer a palavra “golfe”, não? Quero dizer, podemos fazer outra coisa se você... – Não, não! Tudo bem. Eu gosto de... golfe. – Ótimo – ele disse com uma risada. – Agora, qual é o jeito mais rápido de voltar à alameda Wilshire daqui? Sem pensar, orientei Jamie para virar à direita na placa de “Pare”, depois à esquerda na rua seguinte, e à direita na outra. Depois à esquerda, à direita, até finalmente chegarmos na Wilshire. Jamie aguardou no semáforo e me olhou com estranheza. – Quê? – falei, sentindo-me insegura e ajeitando meu cabelo instintivamente. – Sei que este não é meu bairro, mas aquela não era a rota mais comprida até a Wilshire? Meu estômago virou um carocinho. É nisso que dá parecer uma mulher “normal” que vai a encontros o tempo todo. Eu não tinha me dado conta de que havia acabado de levar Jamie na minha rota de segurança, embora, agora que minha cara estava estampada na internet, eu estivesse com dificuldades de considerá-la “segura”. Tentei disfarçar com uma risada fraca. – Foi uma rota turística. Jamie olhou pelo retrovisor as fileiras de prédios e condomínios que pareciam praticamente iguais. – Bem, obrigado por isso – ele falou sinceramente, com um pequenino traço de sarcasmo amigável. Dez minutos depois chegamos a um campo popular em Rancho Park. Eu o reconheci na hora. Foi o local da missão de Oliver Hender, um alto executivo que tinha vindo de Nova York e queria dar uma jogadinha antes de sua importantíssima reunião com um grupo de investidores japoneses. A mulher dele tinha me contatado por telefone algumas semanas antes, e eu aceitei a missão. Dei uma gorjeta bem gorda para o funcionário do campo para ficar sozinha com o sr. Hender. Dois jogadores solitários que só estavam tentando aproveitar o ótimo clima de Los Angeles antes de ir às suas reuniões. Por acaso, um dos jogadores era uma jovem e sensual advogada chamada Ashlyn, que, pelo jeito, era tão boa no golfe quanto no tribunal. Oliver ficou extremamente impressionado. E, com os olhares sedutores que ela


lançava na direção dele entre um treino de tacada e outro e aquela saia minúscula de golfe que mal cobria suas pernas perfeitamente bronzeadas, como ele podia deixar de pegá-la bem ali? Afinal de contas, foi um dia bem lento no campo. Saí do carro e inspirei o ar noturno. Era uma noite bonita, cerca de 20 graus, quase sem vento: uma noite perfeita para uma rodada de golfe, apesar de eu não estar esperando jogar hoje, senão teria trocado de roupa. Eu nem podia imaginar como seria jogar golfe usando espadrilhas com salto anabela. Jamie abriu o porta-malas e começou a retirar um jogo de tacos de golfe. – Espere um pouco – interrompi. – Está querendo dizer que eu vou ter que alugar tacos e você vai poder usar os seus? Isso parece lhe dar uma vantagem muito injusta, não? Ele pensou um pouco e aí colocou os tacos cuidadosamente de volta no porta-malas. – Tem razão. Eu também tenho que alugar os tacos. Assim, estaremos em condição de igualdade. Isso não existe, pensei. Começamos a andar até a sede social do clube, e Jamie olhou para os meus pés. – Talvez tenhamos que alugar uns sapatos para você também. Depois do quarto buraco, ficou bem claro qual de nós jogava melhor. – Então – começou Jamie, colocando a bandeira de volta no buraco. – Eu tinha escolhido essa atividade especificamente porque eu ia impressioná-la com minhas extraordinárias habilidades no golfe, mas não parece estar funcionando como eu havia planejado, né? Balancei a cabeça. – Não muito. – Sabe – prosseguiu ele enquanto caminhávamos de volta ao carrinho –, acho que você não recebeu uma educação adequada a respeito do “propósito” de um primeiro encontro. – Bem, então acho que é melhor você me esclarecer. – Eu vou – ele afirmou. – Sabe, o propósito do primeiro encontro serve para o homem, neste caso, eu... – Sei... – ... impressionar a mulher – ele enfatizou a palavra “impressionar” como se eu fosse uma estrangeira que estava ouvindo a palavra pela primeira vez e ele queria garantir que eu conseguisse pronunciá-la depois. – Sabe, mostrar suas penas coloridas, balançar a cabeça para cima e para baixo, jogar golfe muito bem. É tudo parte de um antigo ritual de encontros. Fingi estar extremamente intrigada pelo seu discurso enquanto nos aproximávamos do carrinho de golfe e eu me sentava no banco do passageiro. – Entendo. Jamie foi para o volante e rapidamente marcou nossas tacadas no cartão de pontuação.


– E a mulher, neste caso, você, deveria ficar tão espantada com essas impressionantes demonstrações que não poderia deixar de... – De quê? – interrompi com um sorrisinho brincalhão. Ele olhou para mim com esperteza. – Desfalecer, é claro, desmaiar, não conseguir ficar de pé sem perder o equilíbrio. Dei risada. – Uau, você pensou em tudo mesmo, não é? Jamie parou o carrinho na trilha de cimento. – Não há nada para pensar. É apenas assim que funciona. É a ordem natural das coisas que você, senhorita Jennifer H., está abalando com seus três pares e um birdie. – Ei, eu deixei você dirigir o carrinho, não deixei? Ele confirmou com a cabeça. – Isso, sim. Agarrei-me na barra da parte de fora do carrinho enquanto Jamie fazia uma curva fechada. – Me desculpe. Acho que venho de uma escola de pensamento completamente diferente. – E que escola seria? Por favor, me esclareça. Bem, tecnicamente, era a minha própria escola de pensamento, algo como não se deixar abalar por nenhum cara, não interessa se ele é bom em golfe ou se suas penas são coloridas. Porém, nesse momento, de repente, não conseguia me lembrar de onde vinham essas regras – e eu gostava que fosse assim. – Bem, basicamente acontece assim: rituais antigos de encontros estão completamente ultrapassados. As mulheres podem ser as melhores em qualquer coisa, até no golfe. Jamie concordou. – Bem, parece que vou ter que contar com meu charme então, já que o golfe não parece estar dando certo. Sorri. – Acho que sim. Ele parou o carrinho de golfe na frente de uma barraquinha de lanches que ficava à beira do caminho. – O que estamos fazendo aqui? O quinto buraco é para lá – falei, apontando para o local de onde viemos. – Talvez eu devesse dirigir. – Bem, eu lhe prometi um jantar – ele lembrou, apontando para a barraca de lanches. Dei risada. – Está falando sério? Ele ficou sério. – Muito. Levo muito a sério minhas pausas de cachorro-quente no golfe. Como você já deve imaginar, é costume ir à barraca de lanches depois de nove buracos. Mas já que


estamos em um percurso de nove buracos, achei que o quarto buraco seria a melhor hora para fazer uma pausa. – Bem, teoricamente, seria depois de 4,5 buracos – observei. – E lá vem de novo a calculadora humana. Eu ri. A verdade era que eu nunca tinha chegado à pausa do nono buraco. Nenhum dos meus “parceiros” de golfe tinha durado tanto tempo. Olhei com ceticismo para a “barraca” diante de mim. – Então, cachorros-quentes? – Você tem alguma coisa contra cachorros-quentes? Alguma problema pessoal? Porque aposto como eu poderia fazer com que preparassem um misto quente para você. – Não, adoro cachorros-quentes. Jamie fingiu estar rabiscando num placar invisível. – Jamie, um; outros encontros, zero. Soltei uma risadinha, desejando poder tranquilizá-lo e lhe contar que não havia outros encontros com que comparar. Este era, para todos os efeitos, meu primeiro encontro, embora eu estivesse bem confiante de que, se tivessem existido outros, o placar não mudaria muito. Aproximamo-nos do balcão e pedimos dois cachorros-quentes e duas Cocas. Jamie pagou e, em troca, o caixa nos entregou nossa comida e bebidas. – Que tal este serviço rápido? – perguntou Jamie com uma piscadela. Fui até onde os condimentos estavam e comecei a colocar catchup no meu cachorroquente. Jamie chegou do meu lado e apertou a embalagem de mostarda. – Prefiro mostarda. Fiz uma careta. – Para mim, só catchup. Jamie deu uma mordida em seu cachorro-quente recém-temperado. – Então poderíamos comprar aquelas embalagens de catchup e mostarda do supermercado e nunca brigar para ver quem fica com o quê. – Diferente daqueles pacotes com versões míni de cereais. Minha meia-irmã e eu sempre brigávamos por causa deles. Sentamo-nos num banco próximo e coloquei meu prato de papel no colo. – Eu tenho que ficar com o Sucrilhos de chocolate – disse Jamie, abrindo a sua Coca. – Não! Eu fico com o Sucrilhos de chocolate! – insisti, dando outra mordida no meu cachorro-quente e aí, com a boca cheia de salsicha e pão, murmurei – É o meu preferido! – É, isso nunca vai dar certo. É melhor terminarmos tudo agora. Acenei com a cabeça solenemente enquanto mastigava e engolia. – Provavelmente tem razão. É melhor assim. Não vamos precisar lidar com o problema de quem vai comer o Froot Loops. É sempre a caixa que sobra. – Tem razão. Bem, que bom que resolvemos esse problema. Você sabe quantas caixas de Froot Loops sobradas acabamos de economizar?


– Centenas – respondi rapidamente. Ele concordou e ficamos os dois olhando para a escuridão do campo de golfe. Os postes de luz acima de nós eram brilhantes o bastante apenas para iluminar parte do percurso. Jamie olhou para os meus novos e brilhosíssimos sapatos de golfe brancos. – Esse sapatos combinam com a sua roupa. – Você acha? – perguntei, esticando minhas pernas e virando meus tornozelos para exibir meus sapatos novos. – Claro. Só não entendo por que não alugam sapatos aqui. Afinal, as casas de boliche alugam. – Pois é. Por que isso? Afinal, as casas de boliche e os campos de golfe certamente têm uma clientela bem parecida – observei enquanto colocava o último pedaço de cachorroquente na boca. – Como é que estou me saindo nesse negócio de me diferenciar? – ele perguntou. Tomei um gole da minha Coca. – Na verdade, muito bem. Você é a primeira pessoa a comprar sapatos para mim durante um encontro. – Ótimo. Então, a gente vai deixar essa diferença em relação aos cereais nos impedir de terminar o nosso jogo? – disse Jamie, amassando seu guardanapo e atirando-o numa lixeira próxima. Pensei um pouco. – Seria uma pena desperdiçar meus sapatos novos. Uma hora depois, devolvemos nossos tacos alugados à loja e fomos até o estacionamento. Jamie caminhou junto a mim e pude sentir o calor de seu corpo perto dos meus braços. Uma vez, li que todo mundo é feito de energia e, se você se deixa sintonizar com essa energia, pode literalmente senti-la pulsando de qualquer pessoa à sua volta. Quanto mais receptiva for à presença de outros seres humanos, maior será a distância com que poderá sentir a energia irradiando deles. Naquele momento, eu tinha quase certeza de que poderia ter sentido Jamie lá do meio do campo de golfe. Enquanto caminhávamos sincronizados, sua mão se encostou na minha, e ele imediatamente a pegou e entrelaçou nossos dedos. Eu já tinha sentido muitas mãos antes daquela noite, tantos dedos se entrelaçarem com os meus, tinha fingido ter arrepios por causa de muitos toques casuais como este. Porém, o calor que corria da pele dele até a minha era algo que eu nunca havia sentido antes, e estava me deixando quase sem forças. Com cautela, fiquei observando o chão à minha frente, com medo de que qualquer desnível na calçada fosse me fazer tropeçar. Era exatamente como Jamie havia previsto: de repente, me senti incapaz de ficar em pé sem perder o equilíbrio. Ele me acompanhou até a porta do carona e parou antes de abri-la. – Já lhe falei que você está deslumbrante? Abri minha boca para falar, mas nada saiu. Por isso, acabei negando com a cabeça.


– Bem, eu acho que está. Eu sorri e engoli em seco, imaginando na hora se ele me beijaria. E depois imaginei quando foi a última vez que imaginei como seria isso. Certamente não há pouco tempo. Eu sempre sabia quando o beijo aconteceria. Meu trabalho era cronometrar o evento. Mas não hoje, não com Jamie. Quase podia sentir seus lábios a menos de trinta centímetros de distância dos meus e, subitamente, uma sensação de urgência tomou conta de mim. Era como se eu simplesmente tivesse que beijá-lo, senão implodiria. Mas ele manteve a mesma distância. – Pensei a mesma coisa quando a vi no avião – ele admitiu. Finalmente consegui falar: – É mesmo? Ele estendeu a mão e passou seus dedos suavamente pela superfície dos meus lábios. Pude sentir o cheiro remanescente do couro de sua luva de golfe. Lutei contra o desejo ardente de fechar meus olhos. – Deslumbrante – ele repetiu calmamente. – Obrigada – foi tudo o que consegui dizer. – Então, o que a sua escola de pensamento diz a respeito de beijos? – ele cochichou baixinho; seu hálito morno levaria pouco tempo para alcançar meu rosto. Mordi meu lábio. – Hã, o que tem ela? Ele aproximou o rosto ainda mais e, pela primeira vez na noite, pude sentir o leve cheiro de sua loção pós-barba. – Bem, tecnicamente, de acordo com o seu manual mais “moderno”, a mulher deve iniciar qualquer ação entre lábios. Sorri. – Eu não disse isso. – Eu só estava especulando – ele falou, afastando suavemente uma mecha de cabelo da minha testa. – Não – cochichei. Ele se aproximou ainda mais; as pontas de nossos narizes estavam a milímetros de distância. – Não o quê? – Especule. Aí ele me beijou. Foi suave e delicado. Ele tinha gosto de cachorro-quente e Coca-Cola, mas eu estava adorando. Até o leve gostinho de mostarda parecia um paraíso na minha boca. Sua mão pousou delicadamente na minha bochecha e depois foi devagar até a parte de trás da minha cabeça. Ele me levou para mais perto, e o beijo se intensificou, mas só um pouco, nada mais. Não havia cálculos de beijos passando pela minha cabeça, nenhuma razão para


computar. A conexão era impecável e completamente espontânea. Meu corpo inteiro parecia estar pegando fogo. Eu só queria tirar toda a minha roupa e fazer amor com ele ali mesmo, no estacionamento do campo de golfe. Eu não sabia se era Jamie ou o fato de eu não transar há muito tempo, mas eu o queria tanto que estava me levando à loucura. Talvez fossem as duas coisas. Felizmente, ele estava mais controlado que eu, chegando a se afastar e deixar que sua boca ficasse próxima à minha. Com a mão ainda atrás da minha cabeça, ele encostou sua testa na minha, como se estivesse se rendendo a mim. Fechei meus olhos novamente. – De onde você apareceu? – ele sussurrou com uma risada fraca e depois, antes que eu pudesse responder, me beijou na testa e foi abrir a porta do carro. Quando paramos na frente do meu prédio, Jamie me perguntou se poderíamos sair juntos de novo no sábado à noite. Sem nem pensar, aceitei. Afinal, naquele momento perfeito, não havia nada a pensar, nada a ponderar. Porém, ao destrancar a porta do meu apartamento, eu não sabia como iria lidar com o que havia do outro lado: silêncio, um silêncio ensurdecedor, do tipo que nos faz pensar, nos obriga a encarar a realidade, implora por respostas, esclarecimentos e decisões. E eu sabia com certeza de que não queria tomar nenhuma. Eu não queria definir nada, nem responder às perguntas que certamente começariam a chover de cada canto do meu cérebro a partir do momento em que fechasse aquela porta. Eu sempre havia morado sozinha, mas hoje minha casa parecia mais vazia do que nunca. Fui rapidamente até o quarto, sem me dar ao trabalho de acender as luzes do corredor. Caí na cama, relaxei e deixei meus olhos se fecharem, mas só por um instante, enquanto eu respirava longa, profunda e decididamente, tentando me recompor com todas as minhas forças, acalmar meus batimentos cardíacos, retomar o controle. Meus pensamentos estavam confusos. Eu não conseguia parar de pensar nos acontecimentos da noite. Cada palavra que saiu da boca dele estava se repetindo sem parar na minha cabeça. Eu ainda podia sentir o toque suave de seus lábios como se tivessem se tornado parte de mim definitivamente. E aí uma imagem perturbadora começou a rodar na minha cabeça, recusando-se a sumir. Era uma imagem de Jamie, acordando amanhã de manhã, o Sol entrando radiante pelas janelas, com a ideia do nosso beijo ainda na cabeça dele, um pedaço de papel com meu telefone escrito em cima da mesa perto do computador. Ele se sentaria com seu café e, enquanto ligava seu laptop, ele veria meu telefone e sorriria, ansioso para que o sábado à noite chegasse, ansioso por outra noite como a de ontem – melhor que ontem. E aí ele abriria seu aplicativo de e-mail e esperaria o servidor baixar as milhões de mensagens que ele havia acumulado desde que saíra do escritório na noite anterior. Ele passaria os olhos lentamente nelas, apagando o lixo, salvando as que necessitariam de resposta e sorrindo para as piadas enviadas por amigos. Depois, ele chegaria num e-mail muito especial, de um conhecido, amigo ou talvez um ex-colega. O que tornaria especial esse e-mail específico era o fato de não haver texto


nele: apenas um link misterioso. Intrigado, ele clicaria naquele link e, depois de um singelo gole de café, ele olharia casualmente o conteúdo do site que havia aparecido num passe de mágica na tela. E, quando estivesse prestes a ignorar a informação como se fosse outro e-mail inútil encaminhado, seus dedos parariam, sua mão congelaria em cima do mouse, seus olhos se colariam à tela. Ele piscaria, uma, duas vezes, e mais uma vez. “Será que é ela?”, ele pensaria. Não pode ser! Mas é muito parecida com ela. E o que diz embaixo? Que ela é contratada por esposas para seduzir maridos? Em seguida, ele pensaria “que tipo de mulher faz uma coisa dessa?”. E aí estaria tudo terminado. A noite de hoje não existiria mais, a não ser na minha cabeça. Até a lembrança dela logo se misturaria à poluição de desonestidade e mentiras, onde as linhas entre o claro e o escuro estão borradas. As lembranças das coisas boas e ruins se fundiriam lentamente em uma só – e a parte mais triste era que não havia nada a fazer, a não ser torcer para que Jamie nunca abrisse e-mails encaminhados.


19 Combatendo o inimigo Na manhã seguinte, acordei inspirada. Meu primeiro encontro quase perfeito com Jamie havia me motivado a tomar uma atitude em relação a Raymond Jacobs, apesar de, na realidade, ser menos uma “inspiração” e mais um “medo terrível” de que, a qualquer momento, Jamie receberia aquele e-mail, e eu me transformaria em apenas uma lembrança distante e desagradável na cabeça dele. Achei o endereço da sede das Indústrias Kelen no site da empresa e, depois de passálo para o meu Treo, escolhi a roupa mais sóbria que pude encontrar no meu closet. Desta vez, nada de blusas decotadas, minissaias curtíssimas, camisetas recortadas, nada disso. Hoje eu seria um símbolo de classe e refinamento, representaria o papel da empresária furiosa e séria. Ao digitar o endereço no meu sistema de navegação, prometi ficar concentrada na situação atual. Não gastaria tempo pensando ou lembrando de Jamie ou do nosso beijo maravilhoso da noite passada, porque nada de bom resultava de ficar obcecada (a menos que se esteja fazendo uma dieta). E, quanto mais eu não lembrasse dele, melhor. Porém, quanto mais eu tentava esquecer, mais difícil ficava. Além do mais, o estresse insuportável de tudo mais que estava me assombrando ameaçava me atingir de todas as direções – e eu não tinha certeza de como priorizar o fluxo. Será que eu deveria me preocupar com o modo como iria esconder minha carreira de Jamie? Ou será que deveria me preocupar em esconder minha carreira e ponto final? Esse parecia o caminho lógico, já que, sem a natureza sigilosa da minha carreira, eu teria de abandoná-la. Para completar, hoje à tarde eu teria uma reunião com outra esposa desconfiada para discutir os pontos obscuros da possível infidelidade de seu marido. A motivação para comparecer era, é claro, a principal razão por eu ter uma carreira sigilosa, sem falar no fato de que a intensidade dessa alegada “motivação” estava diminuindo a cada dia. O que começou como uma missão de “salvar o mundo” estava parecendo cada vez menos uma nobre saga e cada vez mais uma nobre chateação. Por exemplo: a temida missão da semana que vem com Eric, o noivo de Sophie, para a qual eu ainda não tinha certeza se tinha coragem para levar adiante. A situação toda era uma grande confusão, e a única coisa de que eu tinha certeza, a essa altura do campeonato, era que eu não estava a fim de lidar com isso. Minha vida estava lentamente se transformando numa rotatória confusa de motivações e eu não sabia por onde sair. Porém, a melhor coisa de uma rotatória é que se pode ficar circulando sem parar até descobrir como sair de lá – e era exatamente isso que eu pretendia fazer.


Ao passar de uma faixa para outra na rodovia 405, atipicamente vazia, não pude deixar de sofrer com o fato de eu estar prestes a entrar numa batalha completamente desarmada. Eu ainda não tinha um plano de ação sobre como iria lidar com Raymond Jacobs dentro de alguns minutos, a não ser aparecer lá sem hora marcada e simplesmente exigir que ele tirasse aquele site horrível do ar. É, esse plano parecia infalível. Eu meio que esperava que, só de aparecer, já contasse alguma coisa, e ele revelaria, num passe de mágica, seu lado afável oculto que havia sido disfarçado a vida inteira e possivelmente me dar um desconto. Porém, o medidor de realismo dentro da minha cabeça definitivamente não apontava valor nenhum para essa ideia. Será que eu conseguiria convencê-lo? Ameaçá-lo? Mas com o quê? Eu não tinha nenhum poder de barganha. Ele já tinha sido desmascarado. Eu não podia entrar no escritório dele e dizer “tire esse site ridículo do ar ou vou contar para a sua mulher o que você fez comigo”. O lance era que eu não estava acostumada a estar tão despreparada. Eu tinha construído minha vida em torno do fato de estar sempre preparada para tudo, sempre estar um passo à frente da presa, um nível adiante no jogo. Mas hoje eu certamente estaria por baixo. Não era segredo que ele estava com a vantagem nesta situação e, pela primeira vez, eu não estava. Eu teria que fazer o que sabia melhor: fingir. Saí do elevador no nono andar na sede das Indústrias Kelen em Long Beach. Ajeitei meu terninho roxo escuro e, com a cabeça erguida, marchei em direção ao balcão da recepção. – Por favor, preciso falar com Raymond Jacobs – falei com voz séria, mas educada. Eu meio que esperava que a recepcionista fosse uma menina de vinte e poucos anos, peituda, usando batom vermelho, cabelo loiro descolorido e blusa decotada – alguém que parecia ter sido rejeitada nos testes para Coelhinha da Playboy. Mas eu fui laconicamente recebida por uma mulher mais velha, gordinha, de uns cinquenta anos, que provavelmente trabalhava lá há mais tempo que o próprio Raymond e, a julgar pelo seu jeito pouco caloroso, ela estava tão contente quanto eu de estar lá. – Tem hora marcada? – ela cuspiu as palavras enquanto folheava uma revista e atendia uma série de toques agudos persistentes vindo da tela do computador. Ajeitei minha postura. – Não, mas você pode dizer ao senhor Jacobs que Ashlyn está aqui para vê-lo e tenho certeza de que ele saberá do que se trata. – Lamento – disse a mulher sem nem fingir um pingo de sinceridade –, mas o senhor Jacobs não atende ninguém sem hora marcada. Resolvi que teria de explorar seus pontos fortes – ou, melhor dizendo, suas fraquezas óbvias. Abri um sorriso falso e me debrucei no balcão alto da recepcionista. Ela recuou instintivamente, como se esperasse que meus dentes crescessem e eu começasse a morder sua cara. Baixei minha voz até quase virar um cochicho. – Detesto ter que envolvê-la nessa confusão grosseira, mas seu, hã, “chefe” está


tentando me chantagear porque a esposa dele, que agora presumo estar se tornando “ex-mulher”, descobriu que ele tentou me seduzir num bar de hotel em Denver. E agora estou aqui para falar com ele. Com naturalidade, eu me afastei e inspirei, relaxada, como se eu tivesse me debruçado apenas para fazer a gentileza de dizer que ela tinha comida nos dentes. Porém, a julgar pelo sorriso maldoso de satisfação na cara dela, eu sabia que tinha feito a jogada certa: era a funcionária descontente cuja única alegria na vida vinha diretamente do fato de testemunhar qualquer coisa desagradável que acontecesse com seu chefe malvado e ingrato – e uma boa fofoca no escritório. Desconfiei que a minha informação contava como as duas coisas. Ela pegou o interfone e pôs o gancho no ouvido. – Ashlyn, não é? – ela perguntou delicadamente. Confirmei com um sorriso satisfeito e aguardei enquanto ela falava calmamente no interfone. Depois de uma rápida reação de espanto, ela desligou e disse: – Pode entrar. Uau, mais rápido do que eu pensava. Respirei fundo e contornei o balcão. – Vá reto no corredor, a última porta à esquerda – ela informou. – Obrigada. – Boa sorte! – ela sussurou meio alto. Sorri e fiz o sinal politicamente correto de polegares erguidos, antes de entrar no longo e sombrio corredor. Meu inimigo estava sentado numa grande cadeira de executivo, virado para a janela, berrando num fone sem fio. – Falei para você que queria esses números ontem! – ele gritou para o nada. – Não dou a mínima para o horário daí! Aqui são 10 da manhã e isso te deixa com doze horas de atraso! Ah, sim, Raymond Jacobs. Lembro-me bem dele, da voz grave, da grande e temida presença, da tentativa de suborno no momento da derrota. Jogar dinheiro em qualquer situação infeliz talvez não tenha sido a única coisa que o levou aonde está hoje, mas certamente estava lhe ajudando a permanecer ali. Eu soube, na hora em que o vi naquele bar em Denver, que ele certamente não era o tipo de homem com quem se mexe. Mas eu mexi, porque estava sendo paga para isso, e agora definitivamente estava pagando por isso. Em silêncio, fechei a porta e esperei o homem assustador da cadeira grande se virar e revelar seu rosto terrível. E, quando o fez, havia um sorrisinho estampado nele. Era quase arrepiante, como se ele estivera esperando eu entrar naquela sala, a qualquer dia, aguardando sua revanche no xadrez, porque ele sabia tanto quanto eu que, desta vez, ele estava várias jogadas à minha frente. – Eu estava esperando que passasse aqui – ele disse, recostando-se na cadeira, sem se dar ao trabalho de se levantar e me cumprimentar, o que até achei bom. Preferia manter a maior distância possível entre nós.


Lembrei que eu tinha que ficar calma, inabalável e, acima de tudo, implacável. Esse homem não podia sequer imaginar que podia me aborrecer e tinha que entender que eu não ia recuar, embora estivesse com vontade de me enfiar embaixo da mesa e nunca mais sair dali. Minha meta era obter o máximo de informações possível e ir embora. Eu não estava em condições de vencer a essa altura, precisava de mais dados, mais conhecimento sobre o próprio jogo. Aí eu poderia ir para casa e bolar a estratégia para o meu próximo ato. De trás da mesa, ele me analisou, com seus olhinhos pervertidos percorrendo meu corpo de cima a baixo. – Ashlyn, se me lembro bem. Sorri insensivelmente e me sentei no sofá do outro lado. – Boa memória. – Mas tenho certeza de que não é seu nome verdadeiro – ele arriscou. – Vamos ao que interessa – falei, impressionada com o fato de parecer muito uma pessoa daqueles filmes de mistério em preto e branco. Ele sorriu para mim, quase como se tivesse pena. – Acho que não há interesse aqui, querida. Não vou tirar o site do ar. Retribuí seu sorriso complacente. – Claro que não vai. Por que iria? Raymond deu uma risadinha, achando muita graça na situação. – E eu nem sonharia em lhe pedir para tirar. Estou até muito honrada por você ter gastado tanto tempo e recursos para me desmascarar. E aquela também é uma foto minha muito boa. Você tem que me dar o nome do seu fotógrafo. Quem sabe eu o contrato para tirar algumas fotos para divulgação... Raymond sorriu novamente e apontou seu dedo para mim. – Você é bem atrevida, não? – Me diga se sou. É você que anda com todas as informações privilegiadas ultimamente. Raymond ficou me encarando; eu me mantive firme, sem piscar, sem vacilar, sem revelar que, no fim das contas, eu não tinha nada – e tinha tudo a perder. – Que droga, não? – ele perguntou. Fingi pensar na pergunta dele com toda a seriedade, como se tivesse uma resposta para um dos mistérios mais insolúveis da vida. Enquanto isso, eu estava quebrando a cabeça para pensar no meu próximo passo. Eu tinha que obter respostas para as minhas perguntas. Como ele me encontrou? Quem tirou aquelas fotos? Quanto ele realmente sabia sobre mim? – Na verdade, estou bem impressionada – comecei. – Sou uma pessoa difícil de achar. Estou surpresa que seus “espiões” tenham conseguido me encontrar. Raymond riu com desprezo da minha observação. – Você não é tão difícil de achar. Tudo bem, sei que você fez esforços significativos para apagar seus rastros para evitar encontros desagradáveis com pessoas como eu. E


talvez eu não soubesse exatamente onde você compra sua comida ou que loja frequenta para estocar todas essas suas roupas “bonitinhas”, mas depois de ter saído grosseiramente do meu quarto aquela noite, eu sabia de um lugar que você visitaria sem dúvida. Enquanto meus ouvidos seguiam sua série sinistra de palavras, minha cabeça estava chegando à conclusão mais terrível de todas. Eu não acreditava que não tinha pensado nisso antes. Apesar de todas as precauções que tomava diariamente (números fora da lista telefônica, rotas indiretas indo e vindo da minha casa, empregos falsos que divulgava à família), eu não tinha pensado nisso. Ele vinha me seguindo desde o momento que eu botei os pés na sua propriedade, na sua própria casa! Enquanto eu estava lá dentro consolando Anne Jacobs com abraços, lenços de papel e palavras gentis sobre seguir adiante e conhecer a verdade, o espiãozinho miserável de Raymond estava do lado de fora anotando minha placa e fazendo sabe-se lá o quê. Era quase brilhante demais para eu ficar brava. Quase. – Que esperteza – consegui falar, apesar das batidas ensurdecedoras do meu coração nos meus ouvidos. – Então, o que você escolheu corromper? O Departamento de Trânsito ou o FBI? Raymond negou com a cabeça. – Um mágico nunca revela seus segredos. Minha cabeça disparou. Se ele teve acesso a arquivos como registros dos condutores e das placas dos veículos, seu potencial de conhecimento seria interminável. Aquelas informações não eram públicas. Não dá para entrar uma placa de carro no Google e achar uma biografiazinha da pessoa. Até onde eu sabia, ele tinha algum contato no governo; não que isso me surpreendesse. Os empresários com quem eu lidava raramente eram corretos e honestos. Eu precisava de algo para barganhar e, agora, algo que pudesse jogar na cara dele. Mas eu não tinha nada! Por isso, eu me arrisquei: – E a sua namorada nova? Tenho certeza de que ela vai adorar conhecer o seu “passado”. Disso ele deu outra risada, desta vez foi alta e transbordante de desprezo. – Não existe “namorada nova”, querida – ele começou. – Só uma ex-mulher, algumas contas caríssimas de advogados e uma grande divisão de bens, graças a você. Engoli em seco. Eu sabia que estava encurralada. A essa altura, não havia mais nada a fazer. Eu tinha que ir embora e repensar a estratégia. Com o tempo suficiente, eu certamente poderia tomar uma atitude. Esse homem malvado tinha que ser detido! – Bem – falei, pegando minhas coisas –, parece que você tem muito a fazer. Vou deixá-lo em paz. Foi aí que Raymond se levantou e andou até o sofá. Subitamente, senti-me pequenina perto de seus 1,90m. Ele se sentou ao meu lado, perigosamente próximo, deixando-me dolorosamente incomodada. Porém, sua estatura assustadora pareceu se suavizar um


pouco quando ele aproximou seu rosto do meu. Pude sentir seu hálito na minha pele, o que me deu arrepios, mas me esforcei para permanecer contida e controlada, sem titubear nem por um segundo. Afinal, eu não podia lhe dar essa satisfação, não podia deixar que soubesse o efeito que estava tendo sobre mim. Contudo, a verdade era que eu não tinha a menor ideia do que estava por vir, do que ele iria dizer ou que outras surpresas ele tinha na manga. Aí, ele colocou sua mão calmamente na minha coxa, se aproximou e cochichou: – Não chegamos a terminar o que começamos lá no hotel. Eu me esforcei ao máximo para abafar o susto que estava preso na minha boca. Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Será que estava dando a entender o que eu achava que era? De repente, eu me senti pequena e perdida, sentada naquele sofá de couro vermelho, naquela sala assustadoramente grande. Fechei meus olhos, juntando forças nos recônditos mais profundos da minha alma. – Sou um homem razoável. Eu provavelmente estaria disposto a negociar alguma coisa – disse em tom suave, quase amigável. Porém, pude sentir as entonações de raiva no fundo. Elas estavam saindo de seus olhos e entravam queimando na minha pele; uma irritação persistente e promessas de vingança. A mão dele subiu mais na minha perna. – Sabe, suspender meus “espiões”. Olhei para a mão dele, repousando perigosamente próxima à barra da minha saia. Pareciam mil aranhas subindo na minha pele, fazendo eu querer pular e gritar e tirá-las de cima de mim com movimentos rápidos e implacáveis. Eu sabia exatamente o que fazer – e agora era a hora certa. Levantei-me, empurrando violentamente a mão imunda de Raymond da minha perna. – Você é nojento – falei com veemência antes de irromper porta afora, com a bolsa na mão e pose de dignidade. Porém, ao encostar a mão na maçaneta e puxar a grande porta de madeira, revelando um pequeno centímetro de espaço entre eu e a salvação do mundo exterior, ele voltou a abrir a boca e, desta vez, as palavras que saíram eram surpreendentemente muito piores. – Fico imaginando como sua mãe vai reagir quando descobrir no que você trabalha. Parei, com a mão ainda na maçaneta, o coração na boca, e a complexidade inesperada e mais profunda da situação apareceu imediatamente no meu rosto. – Principalmente depois do jeito muito semelhante que o próprio casamento dela desmoronou – ele continuou, recostando-se no sofá, relaxado na segurança de sua posição vantajosa. Fechei meus olhos novamente, desta vez com muito mais força. Pude sentir o peso do mundo cair lentamente nos meus ombros. Não era para acontecer deste jeito. Essa era a parte em que eu irrompia porta afora, vitoriosa na minha determinação, alertando-o para tomar cuidado, pois eu também tinha alguns truques na manga, e ele logo veria com seus próprios olhos do que eu era capaz. Aí eu bateria a porta depois de sair, deixando-o


se remoer em sua evidente derrota. Mas eu estava longe da vitória; e ele estava claramente longe da derrota. – Como você acha que ela reagiria... Jennifer Hunter? Ouvir sua voz pronunciando as sílabas do meu nome era como arranhar uma lousa. Pude sentir meu corpo inteiro se arrepiando de repulsa. E, de repente, ficou muito claro até onde sua corrupção tinha ido, o quanto sabia e até onde chegaria para garantir que eu sofresse tanto quanto ele havia sofrido, que a minha vida fosse arruinada como a dele. E aí percebi que eu tinha muito mais a perder do que imaginava. Com minha mão na maçaneta e o coração na boca, fechei a porta devagar. Mais uma vez presa nos confins obscuros e imorais da sala de Raymond Jacobs. Posteriormente, naquela tarde, enquanto eu ia de carro até meu próximo destino, acrescentei outro item na minha crescente lista de coisas a não pensar hoje: o que aconteceu no escritório de Raymond Jacobs. Eu teria que digerir totalmente a mudança imprevista no rumo dos acontecimentos outra hora. Ultimamente, parecia que eu estava ficando boa em armazenar as coisas para serem resolvidas depois. Este caso não seria diferente. Havia trabalho a ser feito, mais mulheres precisavam da minha ajuda – e o que eu havia prometido fazer por todas elas, séculos atrás, seria feito, apesar da existência de empresários assustadores com sede de poder e escritórios sombrios que escondiam seus pecados. Depois de parar numa mecânica qualquer e persuadir o mecânico altamente cético a inspecionar meu Range Rover em busca de grampos ou dispositivos de rastreamento suspeitos que os espiões de Raymond Jacobs poderiam ter colocado no meu carro, convenci a mim mesma de que felizmente eu não estava sob vigilância permanente. Sentindo-me mais à vontade, segui as direções detalhadas da moça do GPS para o bairro afastado de Topanga Canyon, situado nas montanhas de Santa Monica na parte mais para o interior da praia de Malibu. Noventa minutos depois, entrei numa longo e sinuoso caminho que segui por quase quatrocentos metros até chegar a uma mansão isolada, cuidadosamente escondida em meio a uma floresta de pinheiros. Esta era a casa de Sarah e Daniel Austin, potenciais futuros beneficiários do meu serviço único. – Ashlyn, eu presumo? Uma mulher alta e elegante, usando um tailleur rosa estilo Jackie Onassis atendeu a porta. Quase tive que rir de sua presença exageradamente afetada, como se ela tivesse sido contratada para representar o papel de uma esposa influente, respeitável e cheia de si – e ela certamente aparentava isso com seu cabelo chanel perfeitamente arrumado. Eu me obriguei a manter a cara séria. – Sim, eu mesma. – Entre, por favor – ela disse simpaticamente, com a porta aberta para eu entrar. – Quer beber chá ou café?


Meus olhos percorreram de um lado a outro, procurando uma câmera escondida. Isso tinha que ser uma pegadinha, daquelas que passam nos programas de TV. Será que esse tipo de mulher ainda existia depois de 1962? Afinal, eu já havia visto muitas donas de casa antes, mas isso era quase um exagero. Parecia que eu tinha chegado em Stepford, Connecticut, apesar de, depois de ler o livro e assistir aos dois filmes, eu saber que as mulheres perfeitas nunca teriam contratado uma inspetora de fidelidade. Seria contra a programação delas. – Não, obrigada. – Que tal um bolinho? Acabaram de sair do forno. Segurei uma risada. – Não, obrigada. – Tudo bem então – ela falou calmamente. – Quem sabe nos sentamos na sala de estar? Segui seu corpo pequeno, passando pela casa impecável e entrando na sala de estar. Era um lugar sombrio, vazio e sem vida, quase como se ninguém morasse ali. Onde estavam todas as fotos? Os pelos de gato? Meias sujas e brinquedos que as crianças se esqueciam de guardar. Não havia uma única marca de aspirador no carpete. – É uma linda casa – observei, esperando que a resposta dela fosse me dar uma desejada pista sobre sua misteriosa perfeição. – Obrigada – ela respondeu sem se virar. – Gostamos muito daqui. Não tive sorte. – Há quanto tempo moram aqui? – indaguei. Duas semanas? Duas horas? Ainda não nos mudamos para cá. – Cerca de três anos – ela falou mecanicamente, quase como se estivesse lendo um roteiro. Ela fez um gesto para que eu me sentasse no sofá e aí sentou-se na minha frente, mantendo suas pernas bem juntas e as mãos devidamente descansadas no colo. Ela sorriu amigavelmente, e fiz o possível para retribuir o gesto. Essa mulher não me parecia alguém que estava prestes a contratar uma inspetora de fidelidade. Mas também, ultimamente não havia como dizer: se as pessoas eram estranhas, as casadas eram mais estranhas ainda. – Estou preocupada demais com meu marido – começou a falar com pouca emoção na voz. – Estamos casados há dez anos e sempre fomos felizes, mas ultimamente tenho sentido uma mudança nele. Ele ficou distante, indiferente, em seu próprio mundo. Nem fazemos mais amor. Segurei outra risada inadequada e mordi meu lábio para esconder minha expressão. Eu sabia que a situação desta mulher não era motivo de riso. Nenhuma cliente que me contratava está a fim de comédia, e eu certamente perderia toda a minha credibilidade se caísse de repente na risada enquanto uma cliente estivesse explicando suas preocupações matrimoniais para mim. Porém, desta vez, estava sendo difícil.


Eu me repreendi em silêncio por ser tão insensível e atribuí o fato prudentemente à quantidade anormal de estresse que eu estava sofrendo ultimamente. – Bem, certamente entendo sua preocupação. – Uma amiga minha me contou que você realiza uma coisa chamada “inspeção de fidelidade”. Pode me explicar o que é? Comecei minha explicação de sempre sobre o teste: os locais que as pessoas costumavam escolher, meus honorários, as despesas etc. A senhora Austin ouviu atentamente, aparentando estar muito interessada nos detalhes. – Então não há relações sexuais? – Não – confirmei. – É um negócio baseado somente na intenção. – E você abre exceções? – ela perguntou, quase ansiosamente. A pergunta me pegou de surpresa, principalmente vinda dela. Nenhuma mulher quis que eu chegasse a transar com seu marido. Estavam bem satisfeitas em parar nas “intenções”. Pigarreei. – Não – falei, sem saber o que mais podia acrescentar. – Oh, tudo bem – ela respondeu. – Eu só quis perguntar. Gostaria de saber com certeza se meu marido me trairia. Forcei um sorriso. – Entendo, senhora Austin, mas é extremamente seguro pressupor que, com o nível de intimidade da minha inspeção, resta pouco espaço para dúvidas. Ela assentiu com a cabeça. – Sim, sim, claro. Bem, eu gostaria de cuidar disso imediatamente. Pago extra se você realizar o teste amanhã à noite. E, de repente, pensei em Jamie pela primeira vez desde que saí do escritório de Raymond Jacobs. Amanhã à noite seria nosso segundo encontro, e eu não poderia ter um motivo melhor para recusar essa proposta. – Lamento, senhora Austin, mas já tenho compromisso amanhã. – Que tal segunda à noite então? – ela perguntou com pressa. A mulher certamente estava ansiosa para acabar com essa história. – Daniel marcou de tomar uns drinques no W nessa noite; a hora é perfeita. Hesitei. Eu normalmente prefiro ter, no mínimo, o espaço de uma semana entre a primeira reunião e a missão. – Bem... – comecei. – Triplico o pagamento – ela propôs. Olhei para ela com estranheza. O que havia com essa mulher? Ela não estava batendo muito bem da cabeça e estava precisando seriamente de uma boa dose de realidade. Mesmo assim, senti uma vontade enorme de aceitar sua proposta. Eu provavelmente precisaria do dinheiro extra. Depois da reunião anterior, não sabia quanto tempo eu duraria no ramo. Aceitei. – Excelente – ela disse. – Ele vai tomar drinques com parceiros de negócios, mas quase


sempre fica um pouco mais para um último drinque. É o jeito de ele relaxar e processar todos os detalhes da reunião antes de voltar para casa. Anotei a informação no meu caderno. – Tudo bem. Vou precisar que me empreste uma foto do senhor Austin. – Claro – ela respondeu, levantando-se e indo até uma mesa de canto ao lado do sofá. Ela abriu delicadamente a gaveta e dali retirou uma foto do tamanho de uma carteira. Ao observá-la, não pude deixar de notar que era a única coisa que havia na gaveta. Não havia mais nada lá dentro, estava completamente vazia. Fiquei olhando para a gaveta aberta com curiosidade até ela fechá-la e me entregar a foto. O homem da foto parecia vagamente familiar, embora eu tivesse certeza de não tê-lo conhecido antes. – Algo errado? Neguei com a cabeça. – Não, não. É que seu marido se parece com alguém que conheço. Ela sorriu, como se já tivesse ouvido essa fala várias vezes. – Ah. – E o que o senhor Austin faz da vida? A senhora Austin pareceu ficar incomodada, como se a pergunta a tivesse constrangido. Achei aquilo pouco condizente com sua aparência impenetrável. – Bem, na verdade – ela começou, puxando suavemente o lóbulo da orelha, gesto esse que não condizia com a pessoa, como se essa fosse a única pergunta que a deixasse nervosa –, meu marido está desempregado atualmente. Assenti e anotei no meu caderno. – Ele acabou de ser demitido e está procurando um novo trabalho. Acredito que seja o motivo de sua reunião de segunda à noite. – Entendi – falei, continuando a escrever. – Mas não toque nesse assunto! – ela praticamente gritou. Sua explosão inesperada fez minha mão tremer, deixando um rabisco feio na folha do meu caderno. – Tudo bem – respondi com cautela. – Não tem problema. Essa mulher era uma aberração: aparentemente tão preocupada em magoar o marido desempregado que ela resolveu contratar uma inspetora de fidelidade? Não era o melhor timing da parte dela, não é? Revisei os detalhes finais com a senhora Austin e finalmente cheguei na parte sobre o adiantamento que eu exigia para todas as minhas missões. Ela assentiu simpaticamente, levantou-se e foi até uma escrivaninha de madeira escura no canto da sala. De outra gaveta vazia, ela tirou um grande envelope branco, do qual retirou um maço grosso de notas de cem dólares. – Suponho que pode ser em dinheiro vivo? – ela perguntou, contando o número correto de notas. Senti meus olhos se espremerem de tremenda perplexidade ao observá-la do outro


lado da sala. Que tipo de pessoa guarda tanto dinheiro vivo? Ela olhou para mim. – Pode ser? Confirmei com a cabeça, sem conseguir falar. Essa mulher tinha acabado de me pagar o triplo dos meus honorários e, para completar, era em dinheiro vivo! Dinheiro que saiu de outra gaveta vazia no meio de uma casa vazia. Eu só oferecia duas formas de pagamento pelos meus serviços: dinheiro ou cheque ao portador. A maioria das clientes optava pelo método mais limpo, seguro, com menos cara de ilegalidade, mas, a julgar pela quantia de dinheiro que ainda sobrara no envelope depois que ela separou a minha parte, essa mulher tinha claramente se preparado para me pagar mais que o triplo do preço normal. Quem é que guarda tanto dinheiro vivo em casa? Eu estava começando a pensar se esse suposto “emprego” dele, sobre o qual eu não podia falar, envolvia, por acaso, contrabando de artigos de vestuário ou tráfico de imigrantes ilegais. Ao segurar o dinheiro, ele parecia quase sujo e imoral, como se eu tivesse sido paga por saber e guardar um segredo muito destrutivo – e eu não estava gostando disso. Tentei ignorar a sensação enquanto pegava minhas coisas para ir embora, convencendo-me de que Sarah Austin, apesar de sua peculiaridade óbvia, simplesmente se sentia melhor ao me pagar em dinheiro vivo e que eu tinha que respeitar isso. Porém, alguns minutos depois, eu me senti extremamente aliviada por finalmente estar saindo do lugar anormal que era a casa de Sarah e Daniel Austin, um misto de Mulheres perfeitas e Além da Imaginação. Entrei no meu carro e relaxei no encosto do banco. Estava contente por meu longo dia finalmente ter acabado. Contudo, ao dirigir pela estrada sinuosa, de volta às ruas retas e familiares de Los Angeles, eu sabia que meu dia podia ter acabado, mas meus problemas estavam longe de ser resolvidos. Não fui para casa. Eu não aguentava a ideia de entrar naquela casa vazia sozinha e encarar meu silêncio julgador. Só havia uma pessoa que eu queria ver agora. Sophie atendeu a porta de jeans e camiseta. – Oi, querida. Que surpresa boa. E, depois de ver minha cara estressada, ela me perguntou o que havia de errado. – Quanto tempo você tem? – perguntei, subitamente muito agradecida que minha melhor amiga sabia da verdade, porque, pela primeira vez na vida, eu podia conversar sobre tudo que nunca pudera antes. Ela deu de ombros e olhou para o relógio. – O quanto você precisar. Entrei, larguei minhas coisas na mesa de centro e caí no sofá com um suspiro de irritação. – Ótimo, porque finalmente vai ser minha vez de fazer uma sessão, e acho que você não vai achar este problema em nenhum manual.


20 Hora de cair fora... e alguns jatinhos – Ai, meu Deus! – disse Sophie, imóvel no sofá depois que lhe contei os terríveis detalhes da minha vida até então, terminando com o ponto alto: minha visita ao escritório de Raymond Jacobs hoje. – Bem, o que você disse? – ela perguntou, com os olhos arregalados como se estivesse assistindo ao episódio final de 24 Horas, embora, com o recente drama na minha vida, não estava muito longe disso. Olhei para o chão, onde o gato de Sophie, Pollo, estava brincando com uma linha presa a uma vareta. – Eu não sabia o que dizer. Fiquei muda. Sophie, ele sabe quem minha mãe é, sabe onde ela mora, o que ela faz. Se eu não fizer o que ele está pedindo, ele vai garantir que ela descubra... – Fiz uma pausa e engoli em seco, mal conseguindo suportar a ideia. – Tudo – terminei suavemente. – Mas você não fez – ela buscou confirmar, apreensiva. – Não! Claro que não – respirei fundo. – Pelo menos, ainda não. – Jen! – Quê? Que mais posso fazer? – E ele lhe deu um prazo ou alguma coisa do tipo? Fiquei olhando para a frente, com uma expressão de derrota no rosto. – Mais ou menos. Ele me disse para tirar um tempo para pensar no assunto – tremi. – Essa história toda é simplesmente muito assustadora. – Ele vai tirar o site do ar enquanto você está “pensando no assunto���? Fiz que não com a cabeça. – Acho que não. – Bem, quanto tempo você tem para decidir? – Duas semanas. Fechei meus olhos. – E depois disso? Você se autodestrói? – Sophie tentou brincar. – Acho que vou precisar de um barco maior – falei, fazendo referência à fala de Richard Dreyfuss na cena em que viu o tubarão pela primeira vez no filme Tubarão. Sophie concordou com a cabeça. – Mas tenho que resolver isso antes do prazo ou alguém vai ver o site, descobri-lo, e tenho medo que seja Jamie. Ou, pior, minha mãe! Se ele sabe onde ela mora, tenho certeza de que não terá dificuldade para mandar seus escravos descobrirem o e-mail dela.


– Sua mãe usa e-mail? – Está aprendendo – expliquei. – Desde o divórcio, ela assumiu uma missão de aumentar seu conhecimento tecnológico. – Uau, minha mãe mal sabe ligar o aparelho de DVD. Suspirei e coloquei minha cabeça entre as mãos. – Não tem jeito! – Shhh – Sophie me acalmou, acariciando minhas costas. – Vai ficar tudo bem. Vamos pensar em alguma coisa. Apesar da perspectiva sombria da minha atual situação, notei em silêncio como era bom Sophie estar a par de tudo. Eu sentia falta de sua capacidade natural de me consolar. – E se – começou Sophie, pensativa – você simplesmente contasse à sua mãe? Levantei minha cabeça e olhei para ela como se estivesse louca. – Assim – ela prosseguiu, ignorando meu ceticismo –, não importaria que e-mail ela receberia ou quem enfiasse recadinhos no correio dela. Ela já saberia. – Acho que não – falei, balançando a cabeça. – Pense nisso – Sophie continuou. – Você não queria que eu descobrisse, não é? Provavelmente passaria pela mesma agonia tentando pensar num jeito de esconder de mim. E, agora que sei, está tudo bem. Você não está aliviada? Pensei um pouco. – Sim, mas... – Talvez aconteça o mesmo com sua mãe. Quem sabe se você... – Não – interrompi, tentando espantar a ideia perturbadora da minha cabeça e dos lábios de Sophie. – Ela finalmente começou a superar o divórcio e voltar ao normal, depois de dois anos. E aí vai descobrir que sua filha está acabando com casamentos por todo o país. Ela nunca vai entender direito. Ela mal consegue entender qualquer coisa direito agora. Sophie concordou com a cabeça, desistindo silenciosamente de seu argumento. – Tudo bem, a maioria das pessoas nem abre e-mails encaminhados mesmo. Eu não abro. Geralmente apago na hora só de aborrecimento. – Está brincando? Minha mãe vive para os e-mails encaminhados. Ela gosta de receber qualquer tipo de e-mail. Ela até se cadastra nos avisos de ofertas das lojas só para ter o prazer de receber um e-mail. Eu me abaixei e peguei a vareta de brinquedo do gato no chão. Sacudi-a no ar, fazendo com que a linha presa a ela dançasse alucinadamente em volta dos meus pés. Pollo ficou batendo nela curiosamente com a pata. Sophie recostou-se no sofá. – Bem, eu poderia dizer uma coisa que nós duas estamos nos recusando a falar ou posso simplesmente calar a boca e deixar você contemplá-la sozinha. Eu me levantei e olhei para ela. – E o que seria?


– Largar o trabalho. E lá estava, balançando na minha frente como uma linha presa a uma vareta, implorando para ser ponderada, a expressão que eu vinha me recusando a reconhecer por quase um mês: – Largar o trabalho. Largar, largar, largar. Recomeçar do zero, deixar tudo para trás. Eu tinha pensado nisso casualmente em raras ocasiões, como alguém que, do nada, fala sobre querer escrever um romance ou aprender dança de salão. Todas as pessoas próximas sabem que a pessoa não vai levar adiante, assim como eu sempre soube que estava bem longe de levar isso adiante. Até o dia de hoje. – No que eu trabalharia? – perguntei calmamente. Os olhos de Sophie se arregalaram ao olhar para mim. Ela não conseguia acreditar que eu estava levando a sério sua sugestão. – Bem – ela disse, depois de ver a verdadeira dor do meu dilema tomando conta do meu rosto –, quanto dinheiro você economizou? Encolhi os ombros. – Um pouco, talvez o suficiente para me manter por alguns meses. Mas eu não poderia ficar no meu apartamento. Teria que me mudar. Sophie concordou com a cabeça. – É, provavelmente. – Além do mais, eu nem sei o que gostaria de fazer. Nem sei quem sou sem este trabalho, que tem sido a minha vida há dois anos. E ele me transformou numa pessoa completamente diferente. Eu nem saberia por onde começar. Não existe um manual para isso: “Opções de carreira para ex-inspetoras de fidelidade: encontre a mais apropriada para você”. Sophie deu risada. – Você poderia voltar ao banco de investimento. – É, será que não resolveria um monte de coisas? – Bem, se você largar o trabalho – ela começou delicadamente –, apenas certifique-se de completar minha missão primeiro! Eu ri, embora estivesse com vontade de chorar. – Tá – falei, levantando-me e olhando desoladamente para a porta. – Bem, acho que vou para casa e tentar dormir. – Está bem. Estendi os braços e puxei Sophie para um abraço, apertando-a bem. – Obrigada – cochichei no ouvido dela. Ela se afastou e olhou para mim. – Por quê? Não fiz nada. – Não, você fez – garanti. – Acredite.


Na noite seguinte, Jamie Richards chegou à minha porta. Eu meio que esperava que ele me ligasse de novo, para encontrá-lo lá embaixo como fiz da última vez. Não tive tempo de pensar se estava pronta ou não para deixá-lo entrar na minha casa, mas, pelo jeito, eu não tinha escolha. Não poderia abrir a porta, botar a cabeça para fora e dizer “espere um pouco, já vou sair” e depois bater a porta na cara dele enquanto terminava de pegar minhas coisas. Disfarcei minha relutância com um sorriso afetuoso e abri a porta para ele. – Olá, pode entrar – falei, com as palavras praticamente entaladas na minha garganta. Ele me deu um beijo rápido na bochecha e me disse que eu estava linda. Eu lhe agradeci, sentindo minhas bochechas corarem mais uma vez. – Então esta é sua casa? – ele perguntou, ao entrar e passar os olhos na sala de estar. Acenando com a cabeça, ele demonstrou ter gostado. – Nada mau. Você está bem de vida. É muito... branca. Soltei uma risada de nervosismo. – É, hã, gosto de branco. – Acho que o termo politicamente correto é “decorativamente incolor”. – Ei, espere um momento, hã... – pude sentir a bolha de pânico na minha garganta, mas consegui falar – fique à vontade. Fui até meu quarto e peguei uma bolsinha branca de tricô da Chanel no meu closet. Dei uma última olhada no espelho do banheiro. Eu tinha montado um modelito que consistia numa saia preta enviesada que terminava um pouco acima dos joelhos e uma blusa de gola canoa e mangas ¾ com listras horizontais em preto e branco. Meu cabelo estava bem preso num rabo de cavalo e eu tinha optado por usar brinquinhos de argola prateada. Por fim, combinei o traje todo com meus escarpins pretos Michael Kors com detalhes prateados e bico redondo. Tive que admitir que, para alguém que geralmente achava difícil se vestir, eu estava bem orgulhosa da minha seleção. Ao voltar à sala, encontrei Jamie passeando, observando casualmente o ambiente. Observei-o de perto, do corredor, enquanto ele passava os olhos nos pequenos detalhes da minha sala de estar. Ele andou até a TV e aprovou com a cabeça os aparelhos que eu comprara. Depois, foi até a sala de jantar e passou os dedos pela madeira das cadeiras. A princípio, observá-lo me deixou extremamente nervosa. Senti um desejo repentino de tirá-lo imediatamente da minha sala, para acabar com esse mal-estar de qualquer jeito. Porém, foi apenas quando ele parou na lareira e prestou uma atenção especial aos portaretratos alinhados na parte de cima que senti outra coisa, uma sensação totalmente nova e desconhecida. Notei um sorriso aparecer nos seus lábios quando examinou a foto que eu havia tirado com minha mãe num cruzeiro alguns anos atrás e depois uma foto de mim, Sophie, Zoë e John, tirada no Jayes Martini Lounge. E foi aí que me dei conta: Jamie era o primeiro homem a entrar nesta casa (além de John, é claro, mas ele seria o primeiro a pedir para não ser colocado nessa categoria). Eu certamente nunca tinha trazido clientes e, como eu


não saía com ninguém há dois anos, não houve outro homem para trazer aqui. Jamie era o primeiro. E, de repente, vendo-o dentro da minha casa, observando minha vida, não parecia mais angustiante; parecia... natural. Era uma sensação que eu nunca tinha tido antes, uma espécie de pontada, carinhosa e tranquila, mas completamente aterrorizante, tudo ao mesmo tempo. E ela não desapareceu depois que saímos, nem quando partimos no carro de Jamie e viramos na alameda Wilshire. Na verdade, essa pontada dentro de mim, essa fisgada de algo desconhecido, cresceu, ganhando cada vez mais força: tanto a caminho do jantar quanto no restaurante francês chique para o qual ele insistiu em me levar para provar que não jantava apenas cachorros-quentes e Cocas – e, quando nossas sobremesas chegaram, eu não tinha certeza do que diabos estava acontecendo dentro de mim. Parecia que alguém tinha soltado um bando de beija-flores dentro do meu estômago que não paravam de zunir. Meia hora depois, Jamie e eu estávamos deitados no capô do carro dele perto do Aeroporto de Santa Monica e ficamos olhando os jatinhos e outros aviões aterrissarem na pista à nossa frente. A mão dele estava envolvendo firmemente a minha, e sua perna estava tão perto da minha que, toda vez que um de nós se mexia, mesmo que um pouquinho, elas se encostavam. Havia uma brisa gelada, mas eu mal senti. Eu me senti mais quentinha do que nunca. – Então, aviões, hein? – perguntei, achando graça. – Achei que podia ser uma espécie de tema para nós – respondeu Jamie, apertando minha mão. Sorri para o céu. – Faz sentido. – Me conte sobre o seu trabalho – ele disse, virando o rosto para mim. Continuei olhando para o céu. Não conseguia olhar para ele, não ao responder uma pergunta como essa, não quando eu estava prestes a mentir para alguém por quem sentia uma grande e repentina vontade de não mentir. Eu queria desesperadamente lhe contar a verdade, ser honesta com ele assim como eu sabia que ele estava sendo comigo desde que nos conhecemos. Eu queria lhe contar tudo: Raymond Jacobs e a sua cruel chantagem; Andrew Thompson e sua fraqueza por comissárias beberronas; Parker Colman e sua tentativa de “intervenção” no elevador; Sarah Austin e sua aparência robótica; até Sophie, minha melhor amiga e seu pedido inconcebível; até Miranda Keyton lá atrás, minha primeira inspeção por acaso. Havia algo nele, por estar deitada ao lado dele, segurando sua mão e observando jatinhos particulares passar por cima de nossas cabeças, que tornava impossível mentir para ele. Bem, quase impossível. – O que você quer saber? – perguntei naturalmente. – Bem, você me disse que é analista num banco de investimento. Com que tipo de


negócios você lida? Continuei olhando para o céu e encolhi os ombros. – Todos os tipos. – Chega de detalhes! Pare! Já ouvi o suficiente. Eu ri. – Sabe, fusões e aquisições, aquisições hostis, capitais privados, gerenciamento de risco. – Uau, você é uma verdadeira faz-tudo. – É – falei, ansiosa para mudar de assunto. – E você? Conte-me mais sobre o seu trabalho. Eu só queria ser eu mesma e senti uma frustração insuportável ao saber que não podia. Jamie me olhou confuso, quase como se estivesse sentindo meu mal-estar, e tenho certeza de que isso o confundiu à beça. Por que essa mulher não gosta de falar do trabalho? Qual é o problema dela? Mas felizmente ele não insistiu no assunto. – As empresas nos contratam para ajudá-las a desenvolver estratégias de marketing, redesenhar logotipos, pesquisar novas maneiras de atingir os consumidores, esse tipo de coisa. Virei-me e sorri para ele. – Parece interessante. Ele confirmou com a cabeça. – É, na maior parte do tempo. Ficamos em silêncio por um instante enquanto um avião barulhento passava por cima. – Você acha que eles ficaram esperando numa pista em Palm Springs por quatro horas antes de aterrissar? – perguntei olhando para o céu. Ele fez que não com a cabeça. – De jeito nenhum. Aquela pista está reservada para nós. Sorri. – Você já ouviu falar num saco de avião? – Quer dizer, aquele que dão a bordo para vomitar? Eu ri e dei um tapa de brincadeira na perna dele. – Não! Tipo um saco com um monte de coisas dentro. Sabe, coisas de avião. Jamie virou a cabeça. – Coisas de avião? – ele perguntou com uma expressão confusa no rosto. – É, comida, palavras-cruzadas e baralhos, massinha de modelar, coisas desse tipo. Eu montava sacos para mim e meus pais antes de viajar. Sempre me divertia escolhendo o conteúdo. Assim que meus pais anunciavam uma viagem de férias, eu começava a planejar o saco de avião de cada um. – Ah, então eram personalizados? Assenti com orgulho. – Claro. Eu não era amadora. Era a mestre em fazer sacos de avião.


– É estranho eu ter ficado pensando em você? – ele perguntou depois de um instante. Não pude evitar um sorriso. – Bem, depende de como pensou em mim. Se foi, tipo, eu andando num elefante pelo deserto com um palhaço e uma líder de torcida, então, é, talvez seja estranho. Jamie concordou alegremente, e aí sua cara ficou séria de novo. – Não, quero dizer, um monte. Pensei um monte em você. Olhei nos olhos dele tentando retribuir o doce sentimento. Eu me esforcei tanto para abrir minha boca e dizer que tinha pensado nele também, mas, com isso, viriam tantas outras verdades, como “pensei em você, porque não quero que saiba do meu trabalho”, “pensei em você, porque tenho um medo mortal de que descubra tudo e nunca mais queira me ver na vida”. E, é claro, a mais nova: “pensei em você, porque, a cada dois minutos, eu penso em largar tudo: o trabalho, o dinheiro, os homens infiéis, a saga, o ceticismo; tudo isso por você”. Porém, tudo o que consegui dizer foi: – Não, não é estranho. E não era. Era exatamente o que eu queria ouvir e, ao mesmo tempo, exatamente o que não queria ouvir. Minha vida não seria muito mais fácil se Jamie não existisse? Se eu não o tivesse conhecido? Ou se ele simplesmente resolvesse que não haveria futuro com uma mulher que comia todos os cereais dele? Ele se aproximou e me beijou. Era tão maravilhoso como na minha memória, talvez ainda mais. O som do seu rádio tocando dentro do conversível aberto se misturava ao som do próximo avião a alguns quilômetros. Parecia que estávamos nos beijando há muito tempo, mas, ao mesmo tempo, quando terminou, eu só queria mais. – Também pensei em você – eu me ouvi dizer enquanto ele se afastava e voltava a deitar a cabeça no capô do carro. Eu não sabia a origem disso ou se alguma coisa remotamente parecida seria dita novamente, mas foi bom dizer mesmo assim. Ele olhou para mim e sorriu. Depois, voltou a me beijar. Desta vez, ele apertou seu corpo contra o meu, e parecia que o incrível calor que irradiava dele e passava facilmente através de suas roupas podia me derreter na hora. Não havia estrelas naquela noite, não que elas apareçam nesta cidade: há muita fumaça, muitas luzes brilhantes. Contudo, não sei como, hoje, eu não estava sentindo falta delas. Ao final da noite, Jamie me acompanhou até a porta de casa. – Obrigado por ter saído comigo de novo hoje – ele disse suavemente, passando seus lábios nos meus. Fechei meus olhos e deixei a dormência voltar a invadir meu corpo todo. – Gosto de você – ele cochichou, ao afastar o rosto apenas o bastante para olhar nos meus olhos. Engoli em seco. – Não deveria – eu me ouvi dizer calmamente em voz alta. Eu esperava que a ideia estivesse apenas na minha cabeça, mas era óbvio que escapou. – Por quê? – ele perguntou, beijando delicadamente o meu pescoço.


Porque não sou quem você pensa que sou, pensei. Porque sou uma farsa. Felizmente, essa ideia ficou na minha cabeça. E aí, a única coisa em que consegui pensar, a única coisa que veio à cabeça: – Quer entrar? Vi-o hesitar e, por puro pânico, acrescentei: – Para um drinque. Era engraçado. De repente, percebi que eu nunca tinha dito as palavras “quer entrar?” antes. Em todas as minhas missões, eu seguia estritamente a regra de que o indivíduo tinha que tomar a iniciativa, tinha que convidar; eu apenas iria atrás, não conduziria. Era para evitar acusações de flagrante preparado, para garantir que as tendências de infidelidade fossem autênticas. E agora eu estava no outro extremo, morrendo de vontade que ele entrasse. Não estava mais nervosa nem apreensiva em deixá-lo entrar na minha casa, na minha vida, mas queria apenas prendê-lo lá dentro e nunca mais deixá-lo sair. – Acho que não devo – ele disse, quase dolorosamente, como se fosse óbvio que quisesse, mas algo o estava impedindo. – A não ser que você tenha um uísque Macallan envelhecido 25 anos. Dei risada, aliviada por ele ter feito a brincadeira e conseguido mascarar meu sentimento de rejeição gritante. – Você acha mesmo que uma moça de 28 anos envelhece uísque em seu apartamento? – Ah! Então essa é a sua idade – falou Jamie com um sorriso animado que iluminou seu rosto. – Você é jovem demais para mim. – Pois é – falei brincando. – Estou praticamente pagando a sua aposentadoria. – Uh, isso me atiça – disse, beijando-me novamente e enterrando sua cabeça no meu pescoço. Minha mão pousou na parte de trás de sua cabeça. Seu cabelo castanho-escuro era macio ao toque enquanto eu passava meus dedos por ele. Será que ele ia dizer mais alguma coisa ou ia ficar no “acho que não devo”? Obviamente, uma resposta como essa precisava de explicação, mas eu não queria tocar no assunto de novo. Por que deveria? Fui eu quem acabou de ser rejeitada, uma sensação com a qual eu não estava muito familiarizada – e acho que não estava gostando muito dela. Ele levantou a cabeça. – Gosto mesmo de você, Jen. Só acho que deveríamos ir devagar. Devagar? Repeti a palavra na minha cabeça, embora não tivesse a menor ideia do que significava. Quando é que um cara quer ir devagar? No meu mundo, os homens transavam (ou pensavam que transariam) depois de duas horas de paquera, talvez três. Alguns esperavam apenas meia hora. A minha versão de ir devagar era dar uns amassos por vinte minutos antes de o cara tentar tirar a minha calça. Mas eu sabia que meu mundo estava longe da regra, por isso falei: – É, parece uma boa ideia. Jamie assentiu e sorriu, aparentando estar aliviado.


– Não quero apressar nada e, sinceramente – disse, tocando no meu rosto de novo –, não quero parecer atrevido, mas tenho a impressão de que vou ficar na roda por um tempo. Não resisti em abrir um sorrisinho de menina. – Sério? – perguntei, achando graça. – É isso que pensa? Jamie ergueu as sobrancelhas. – Sim – e me beijou nos lábios novamente. – Vou para Nova York a negócios na semana que vem, mas quero vê-la assim que voltar. Que tal na terça? Encolhi os ombros com indiferença. – Não sei. Estou ficando enjoada de você. – falei. Os olhos de Jamie imploraram. – Está bem. Que dia? Ele fingiu procurar nos bolsos. – Droga, esqueci meu Palm Pilot. Vou ter que te dar uma resposta depois. Eu ri e o empurrei para o elevador, tateando dentro da bolsa para achar as chaves de casa. – Vá embora. – Vou consultar minha secretária e pedir para minha equipe ligar para a sua equipe – ele falou, tropeçando pelo corredor. – Você tem uma equipe, né? Coloquei a chave na fechadura. – Ah, sim. A gente almoça. Jamie correu de volta para um último beijo antes de entrar no elevador. – Tchau – ele disse, vendo meu rosto desaparecer atrás das portas que se fechavam lentamente. Quando entrei, encostei em silêncio a minha testa na porta. Isso é loucura, pensei. Ninguém deveria se apaixonar tão rápido. Eu não deveria me apaixonar de jeito nenhum, principalmente quando fazia parte do meu trabalho não me envolver, independente do que acontecesse. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo, por que estava sentindo coisas que jurei que nunca sentiria. Prometi a mim mesma que nunca sentiria, porque eu tinha muita certeza de que não havia razão para senti-las. Minha nossa, como eu estava enganada.


21 Status de celebridade Eu tive pouco tempo para me preparar para a missão de hoje, e o único motivo foi porque Sarah Austin tinha me dado pouco tempo, ao insistir que essa inspeção fosse hoje, apenas três dias depois de nossa reunião inicial. A abordagem rápida foi extremamente pouco ortodoxa para o meu ramo, e eu não estava gostando da sensação de exceção. Como eu sabia pouco sobre Daniel Austin, optei por uma roupa bem genérica: uma calça social preta com uma regata bege de gola alta e mules vermelhas Manolo. Um dos maiores erros que se pode cometer é se arrumar demais. Como essa inspeção ocorreria num bar chique de Westwood, minha roupa tinha que ser adequada. Aparecer nesse bar usando um vestido de grife chamativo que atraísse a atenção de todos os homens e mulheres do lugar não daria certo. Aí só ia parecer que eu queria dar o golpe do baú, dando em cima de homens mais velhos que pareciam ricos. Era a última imagem que eu queria passar. Os homens não traem com mulheres que dão o golpe do baú, porque elas não são confiáveis. Bem, pelo menos, a maioria dos homens não o faz. Raymond Jacobs provavelmente trairia com qualquer coisa com duas pernas e um par de seios... um canalha asqueroso e baixo. Verifiquei meu reflexo no espelho e decidi que a roupa era perfeita para a ocasião: sensual o bastante para chamar atenção, mas com classe suficiente para parecer que a sensualidade não era minha intenção. Hoje, a chave era ser uma moça qualquer num bar, sem procurar nada em especial, mas também sem descartar nada. Corri até meu escritório enquanto tentava colocar meu segundo brinco de diamante na orelha. A pasta com a etiqueta “Daniel Austin” estava em cima da minha mesa. Eu tinha juntado algumas páginas da biografia dele, com base em algumas informações que sua esposa fornecera, mas não tinha tido muito tempo para fazer uma pesquisa adicional. Isso iria exigir um tremendo esforço do superpoder de leitura da mente. Folheei as páginas, lembrando a mim mesma de alguns dos detalhes menores, e abri a última gaveta da minha mesa. Tirei um dos meus cartões de visita pretos, passando meus dedos no “A” vermelho levemente em relevo. Fui até o laptop e abri uma planilha do Excel que eu tinha denominado “ramais”. O último registro era o número 235 – Parker Colman. Apertei a tecla “enter” para ir à linha seguinte, onde digitei 236 – Daniel Austin. Depois, abri o navegador e fui até a página de Gerenciamento de Conta do meu número gratuito. Cliquei no botão que dizia “Adicionar Novo Ramal” e registrei todas as informações que acabariam levando à ligação de Daniel Austin hoje à noite, se ele optasse por ser reprovado na inspeção. Apertei o botão


“Salvar” e recebi uma confirmação das minhas alterações. Dali em diante, qualquer pessoa que discasse o ramal 236 receberia um aviso automático de uma inspeção de fidelidade reprovada em nome de Sarah Austin. Em seguida, virei o cartão e, com minha caneta prateada de sempre, escrevi cuidadosamente o ramal 236 depois do meu número gratuito. Agora o cartão estava completo e, toda vez que eu completava um, torcia em silêncio para não ter de usá-lo. Toda vez que preenchia outra série de números aparentemente insignificantes, eu me imaginava jogando o cartão solenemente numa lata de lixo ao sair do bar ou do hotel, ou qualquer lugar onde tivesse sido “rejeitada”. Infelizmente, porém, esses cartões, na maioria das vezes, acabavam nas mãos de outra pessoa ao final da noite, e não na minha lata de lixo imaginária. Sacudi o cartão no ar como uma foto Polaroid, querendo que a tinta secasse, enquanto saía correndo para a sala e enchia minha bolsinha vermelha Louis Vuitton com todos os itens necessários: chaves, cartão de crédito, dinheiro, RG, celulares. Em seguida, saí de casa. Quando cheguei ao bar, vi Daniel Austin numa mesa nos fundos, bebericando um drinque e olhando para o nada como se estivesse observando o infinito – ou alguma coisa flutuando no infinito. Seu copo meio vazio em cima da mesa estava preso com firmeza entre suas mãos. Ele parecia preocupado, solitário, contemplativo. Porém, o próprio copo não estava tão solitário quanto o homem que o segurava. Em volta dele, havia vários outros copos vazios, que foram dos outros parceiros do senhor Austin. Para qualquer outra pessoa, poderia parecer que ele tinha acabado de falar algo repugnante, fazendo com que todo mundo da mesa fosse embora de repente e o deixasse sozinho. Mas, para mim, era exatamente o que a senhora Austin havia descrito. Ele quase sempre fica um pouco mais para um último drinque depois de encontrar os colegas de trabalho. Ou melhor, ex-colegas. Lembrei do que ela tinha dito sobre sua recente demissão e procurei ficar atenta para não tocar no assunto do emprego. Andei na direção da mesa dele, emanando confiança, enquanto meu cartão de inspeção reprovada fazia um buraco na minha bolsa Louis Vuitton. Tudo o que eu tinha que fazer era conseguir que ele me convidasse para ir ao quarto. De acordo com a esposa, não era raro que ele bebesse demais e simplesmente pedisse um quarto no hotel em vez de voltar dirigindo pelo longo e perigoso caminho através do cânion. Marido que bebe demais e frequentes hospedagens na cidade em que ele mora? Não é de estranhar que ela tenha me contratado. Isso pareceria suspeito a qualquer um. Caminhar até o local de uma missão era muito parecido com subir num palco bem iluminado. Preparada e pronta para atuar numa peça cujo personagem principal era Ashlyn. Porém, para qualquer pessoa de fora e, em breve, para Daniel Austin também, Ashlyn não seria um personagem de uma peça. Ela seria real, apenas outra moça num bar.


Respirei fundo, lembrando-me do papel exato que teria de representar hoje à noite, e subi no palco, caminhando lentamente ao passar pela mesa de Daniel na minha tentativa costumeira de chamar a atenção do meu seleto público. Mas hoje, meu público estava distraído e, apesar do meu desfile lento e intencional e da minha roupa cuidadosamente selecionada, Daniel Austin nem piscou quando passei. Por isso, parei a uns trinta centímetros da mesa dele e olhei para a minha bolsa, sentindo uma necessidade repentina de verificar algo que podia ter perdido e, como resultado, conseguindo mais tempo na frente da minha plateia distraída. E, depois de confirmar que tudo parecia estar no seu lugar, continuei andando. Daniel Austin, porém, ainda não tinha olhado. Foi aí que soube que tinha que fazer uma manobra descarada, a que eu raramente tinha que recorrer, mas admiti que hoje teria que ser um desses raros momentos. Afinal de contas, eu não podia voltar para o meu carro, vestir uma minissaia e andar até a mesa dele de novo, esperando que sua preferência por pernas finalmente conseguisse fazê-lo prestar atenção. Não, eu teria que tropeçar; e foi isso que fiz. E, sem surpresas, caí em cima do homem que estava sozinho na mesa dos fundos – e ele me pegou. – Oh! – exclamei graciosamente, tentando usar a cadeira para me firmar. – Me desculpe! – Você está bem? – o homem perguntou, pegando educadamente o meu braço e me ajudando a retomar o equilíbrio. – Sim – respondi, obviamente envergonhada com o incidente. – Obrigada – falei e apontei para os sapatos. – São novos. Daniel assentiu com compreensão e riu educadamente. – Não tem problema nenhum. Eu estava prestes a ir embora quando, de repente, um pequeno vestígio de reconhecimento tomou conta do meu rosto. – Ei, já não o vi na marina? – perguntei. Referência: Seção 2A da biografia de Daniel Austin. Ele tem um barco ancorado na marina. O ânimo angustiado de Daniel pareceu mudar um pouco com a menção da marina, e seus lábios abriram um sorriso modesto. Se não tomasse cuidado, poderia pensar que essa linda e jovem desconhecida sabia exatamente o que o animaria e o faria esquecer de coisas menos felizes. Mas isso, é claro, seria impossível. – Pode ser – ele respondeu. – Vou muito lá. Tenho um barco ancorado. Franzi minha testa e mordi meu lábio inferior perfeitamente brilhoso, como se estivesse tentando resolver um problema de lógica dificílimo, quando, de repente, o nome do barco me veio à cabeça, como se estivera rodando no fundo da minha memória nebulosa e eu consegui apanhá-lo quando passou. – Os Cinco Ventos – falei, confirmando com minha cabeça orgulhosamente. Referência: Seção 2B da biografia de Daniel Austin. O nome do barco é “Os Cinco Ventos”.


Essas palavras o animaram ainda mais. – Sim! Você conhece o meu barco? Sorri alegremente. – Oh, claro! É um dos barcos mais bonitos de lá. Um Morgan Classic 2000, 41 pés com 4,5m de boca, quilha barbatana, leme ligado a skeg. Aposto que dá para navegar à bolina com ele a 35 graus. Referência: Página 3 do catálogo de vendas do barco Morgan Classic 2000, disponível na maioria dos sites de vela. Daniel confirmou com a cabeça, completamente impressionado. – Uau, você entende bastante de barcos. E, pela minha aparência, ele nunca teria adivinhado. Encolhi os ombros modestamente. – Meu pai me ensinou tudo sobre barcos. Vou com frequência à marina com a minha família. Eu sabia que você me era familiar. Ele estendeu a mão. – Meu nome é Daniel. Apertei-a com vontade. – Ashlyn. – Prazer em conhecê-la. – Obrigada. O prazer é meu – falei, em pé, sem jeito e olhando para o balcão do bar, aparentemente pensando se deveria ir até lá e pedir um drinque ou continuar ali parada, conversando sobre barcos. A essa altura, eu tinha que fazer parecer que realmente queria que ele me convidasse para sentar, mas que eu era educada demais para pedir. Por isso, resolvi parecer entediada; e, para minha evidente surpresa, ele também parecia. Daniel olhou para o relógio. – Bem, é melhor eu ir para casa. Está tarde e tenho um longo trajeto pela frente – falou, saindo da mesa e estendendo a mão para mim novamente. – Foi um prazer conhecê-la, Amy. – Ashlyn – corrigi, estarrecida na frente dele e apertando sua mão lentamente. – É mesmo, me desculpe. Bem, quem sabe a vejo no cais – ele disse, tirando uma nota grande de sua carteira e largando-a na mesa. – É, quem sabe – respondi calmamente. Fiquei em pé, muda, no fundo do bar, enquanto meus olhos seguiam Daniel Austin se dirigir até o vão que levava ao saguão do hotel. Assim que ele desapareceu de vista, fui atrás a uma distância segura e o observei com grande curiosidade, como uma pesquisadora de animais que havia acabado de ver um golfinho andando em terra firme. Ele saiu pela porta do hotel e não voltou. Ele se foi, tinha ido embora. Para todas as outras pessoas do bar, provavelmente parecia que eu tinha acabado de topar com uma celebridade e, como uma deslumbrada qualquer, continuei olhando obsessivamente para ele enquanto saía. Na verdade, ao acompanhar meu olhar


inabalável, alguns dos outros clientes do bar se viraram com curiosidade e observaram Daniel sair também, imaginando por que não o haviam reconhecido como uma pessoa famosa quando ele entrou. Eu, porém, sabia muito bem que Daniel Austin não era ninguém famoso. Ele não seria visto na capa – ou mesmo na parte de dentro – de uma revista de fofoca. Não haveria um destaque de trinta segundos sobre ele num programa de TV sobre celebridades e certamente ele não estaria promovendo seu último álbum ou filme em uma estação de rádio badalada de Los Angeles. Mas, depois de hoje, Daniel Austin passaria a ser eternamente uma celebridade para mim. Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi correr até minha cômoda – e, quando digo “correr”, é para valer. Literalmente, atirei minha bolsa no sofá, disparei pela sala e fui para o quarto como uma criança que corre para alcançar o vendedor de sorvete. Ajoelhei-me ao lado da cômoda e, com a mesma ansiedade e empolgação geralmente reservada para a manhã de Natal, abri a última gaveta e retirei a caixa. Segurei-a nas minhas mãos, acariciando a madeira suave com meus dedos. Esse era meu momento atemporal, o mesmo que ouvir a música que não sai da sua cabeça tocar no rádio de repente, ver seu prato preferido no menu de especiais de um restaurante, colocar a última peça do quebra-cabeça, a euforia do primeiro beijo, o cheiro e o toque de roupa fresquinha, recém-saída da secadora, a paz serena das três da madrugada, tudo junto nesta caixinha aparentemente insignificante, a única coisa que me era sagrada. Retirei a chave do forro de veludo da gaveta e a girei na fechadura. Desta vez, não olhei apenas, porque este seria um daqueles raros momentos em que eu poderia fazer mais do que olhar, poderia contribuir. Meti a mão na caixa e retirei um pedacinho de papel e uma caneta tinteiro preta. Esta era minha lista. Havia exatamente nove nomes nela, que li em voz alta, lentamente, um por um, enquanto passava meus dedos por cada um deles. E aí, coloquei o papel em cima da caixa, tirei a tampa da caneta e delicadamente escrevi o nome “Daniel Austin” no pé da lista. Daniel era meu número 10, a décima razão para acreditar que o amor era possível, apesar de tudo o que acontecia no mundo e das milhares e milhares de razões para não acreditar – e eu tinha uma impressão de que era exatamente disso que eu precisava agora. A caneta tinha me custado quinhentos dólares. Comprei numa daquelas lojas chiques que vendem canetas para secretárias de executivos que dão de presentes a clientes especiais e funcionários. Nunca pensei, em um milhão de anos, que gastaria quinhentos dólares numa caneta, nem que entraria numa loja dessas. Porém, pareceu adequado, dada a natureza desta cerimônia. Não preciso dizer que ainda havia muita tinta dentro dela. Depois de alguns instantes para absorver a glória inicial do mais novo nome que agora passaria pela minha cabeça no mínimo cinco vezes por dia durante minha batalha interna


do bem contra o mal, voltei para a sala, boba como uma colegial apaixonada, e peguei minha bolsa no sofá onde eu tinha deixado às pressas ao entrar. Peguei meu cartão preto de inspeção não usado e fiquei olhando para ele. Se eu fosse uma colegial apaixonada, então esta seria a carta de amor proibida que me passaram no segundo período. Abri a lixeira da cozinha, dei uma última olhada no cartão e, em silêncio, rasguei-o em tantos pedacinhos quanto pude fisicamente, que, depois, observei caírem graciosamente na lixeira, como uma tempestade de dúvidas dirimidas. E, em câmera lenta, elas pousaram em cima de uma caixa de cereais vazia e uma casca de banana – exatamente onde deveriam ficar. Fechei o compactador de lixo e liguei o interruptor. Ele ligou com uma vibração leve e começou sua única busca na vida: comprimir todo o lixo em um pedaço irreconhecível de resíduos. Voltei para o meu quarto e troquei minha roupa de trabalho pelo conforto do meu pijama de seda rosa Victoria’s Secret. Eu gostava do seu toque na minha pele e, lá no fundo, por baixo do medo, da ansiedade e de todo o lixo que eu tinha compactado com o passar do tempo, me senti muito bem com o mundo à minha volta.


22 Repetição Na vida adulta, posso contar nos dedos as vezes em que pude definir meu atual estado como sendo de “alegria”. Para mim, esse tipo de euforia geralmente era observado em outras pessoas, e não normalmente vivenciada por mim mesma. A manhã de hoje foi um desses momentos raros e únicos em que eu estava, se posso me arriscar a dizer, feliz. Daniel Austin havia sido o primeiro “aprovado” em mais de dois meses, e isso era motivo de comemoração. Bem, não uma comemoração de verdade, com champanhe e aquelas coisinhas de papel que se esticam quando assopradas, mas uma comemoraçãozinha pessoal dentro da minha cabeça. Servi uma grande tigela de cereais de mel e caí no sofá para aproveitar meu café da manhã de carboidratos. Enquanto mastigava uma colherada de cereais, com os pés na mesa de centro e o Sol quente e brilhante entrando pelas minhas cortinas brancas de cetim, eu me senti como se estivesse num comercial de cereais. Com a ajuda dessa nutritiva refeição, eu estava pronta para enfrentar o mundo. Só o que faltava era uma abelhinha entrando na minha sala para despejar leite de um jeito fofo na minha tigela e dar uma risadinha quando eu cutucasse sua barriga. Ou seria outro personagem? Eu confundo todos eles. Era um dia lindo, que estava prestes a melhorar ainda mais, pois, dentro de poucas horas, eu estaria dirigindo pelo longo e sinuoso caminho até a casa de Sarah Austin para anunciar as boas novas pessoalmente. Se havia alguma coisa melhor do que provar que um marido era fiel, era informar o fato à esposa que estava com dúvidas. E, para ser sincera, infelizmente, não foi uma notícia que eu pude dar muito no passado. Apenas nove vezes, para ser exata. Sei que não parece muito, pode até parecer completamente deprimente. Porém, do jeito que eu enxergava (ou, pelo menos, a teoria que inventei para impedir de me atirar na frente de um carro): nove homens de duzentos era 4,5%. E, sim, essa era uma estatística deprimente, mas é preciso pensar que o número de duzentos homens com os quais estou lidando não é uma amostragem exata de todos os homens. Esses não eram maridos, namorados e noivos de mulheres normais e confiantes. Esses eram os maridos, namorados e noivos de duzentas mulheres receosas e muito desconfiadas. E, fosse dado o benefício da dúvida para a intuição feminina, então esses duzentos homens estavam praticamente condenados desde o início. Isso não significa que 95,5% dos homens vão trair se tiverem a oportunidade. Na minha opinião, significa que 95,5% das mulheres estão certas quando têm a “impressão” de que seus homens são capazes de cometer adultério. E é por isso que faço esse


trabalho – ou, pelo menos, foi assim que tudo começou, para dar a essas mulheres a chance de confirmar ou refutar suas suspeitas. Entretanto, hoje era um dia diferente. Se havia alguma suspeita da qual se queria estar enganada, acho que seria essa. E eu tinha mais do que certeza de que levar a boa notícia para Sarah Austin, independente de quão estranha ela era, seria o ponto alto da minha semana – e, felizmente, o ponto alto do século dela. Nem a ideia da futura inspeção de fidelidade do noivo de Sophie poderia me deixar para baixo agora. Na verdade, eu nem sei por que relutei tanto em aceitar. Ele obviamente seria aprovado. A noite de sexta seria fácil. Eric nem iria olhar duas vezes para mim. Por que deveria? Ele tinha uma noiva maravilhosa, sensual, meiga e inteligente esperando por ele em casa. Que diabos iria querer comigo? E aí uma ideia perturbadora me veio à cabeça. Eu, que estava mastigando um cereal crocante, passei a ruminar um mingau empapado. E se ele não fosse aprovado? E se ele mordesse a isca, paquerasse, pagasse drinques, olhasse para o meu decote, me beijasse, baixasse o zíper do meu vestido, tocasse meus... de repente, fiquei enjoada. Coloquei a tigela de cereais na mesa da sala com uma grande batida. Esse era o amor da vida de Sophie, e eu estava prestes a me atirar na frente dele com um vestidinho curto e a cara cheia de maquiagem sedutora? Será que fiquei louca? Que tipo de amiga faz uma coisa dessas? Peguei o telefone e disquei o número de Sophie, que eu sabia de cor. O número dela estava armazenado no meu telefone, mas, não sei por quê, digitar as teclas parecia mais dramático, mais proativo. Ela atendeu depois de um toque. – E aí? – Tem certeza de que quer levar isso adiante? – mantive meu tom leve e natural, como se fosse praxe eu ligar para todas as minhas clientes na terça antes da inspeção. Era apenas parte do protocolo característico da inspetora de fidelidade: certificar-se de que suas clientes estavam totalmente cientes antes de você se jogar na toca do lobo vestida de ovelha. Sophie suspirou alto pelo telefone. Pareceu uma respiração abafada de Darth Vader. – Sim, Jen. Já falamos sobre isso. Eu preciso saber. – Posso dizer agora mesmo o que precisa saber – pude sentir o desespero tomando conta da minha voz. Tentei disfarçar. – Ele vai me recusar, vai ser aprovado. Por isso, não tem por que você passar por todo esse trabalho. Ou eu ter que passar por todo esse trabalho, pensei. – Bem, se você tem tanta certeza – ela começou com ponderação –, então não seria problema você ir lá e acabar logo com isso. Droga, ela estava usando lógica. Odeio quando faz isso. – Além do mais, você está me devendo. – Por quê? – perguntei com insistência. – Por ter mantido sua vida inteira em segredo pelos últimos dois anos – disse Sophie


sem rodeios. Fiquei em silêncio. – Ah, por isso. Ela riu. – Sim, isso. E agora é sua chance de me compensar, e devo admitir que a punição é bem adequada, não acha? Murmurei algo concordando e desliguei o telefone. Isso que dá tentar sair dessa. Apenas espero que eu esteja certa e meu radar de homem infiel não esteja apontando falsas esperanças. Naquela manhã, mais tarde, parei na entrada da casa dos Austin e saí do carro. Quando eu ia tocar a campainha, a porta se abriu. Sarah Austin estava ali, com um sorriso de orelha a orelha com uma aparência anormal; mas, desta vez, eu já tinha me preparado para isso. – Biscoitos fresquinhos? – ela me ofereceu quando eu me sentei no sofá. Que tipo de esposa oferece um biscoito fresquinho para a mulher que talvez tenha conseguido levar seu marido para a cama? A verdade era que eu não tinha conseguido, mas ela não sabia ainda, porque, se soubesse, o que eu estaria fazendo ali? Acho que essa senhora passou tempo demais na frente de um forno preaquecido aberto. – Não, obrigada – recusei educadamente. Prometi permanecer completamente profissional e esconder minha animação quanto ao resultado positivo da missão. Sarah sorriu e se sentou à minha frente. – Meu marido chegou em casa bem cedo ontem à noite. Você é muito eficiente – ela disse com uma piscadela assustadora. – Bem, senhora Austin – comecei, ignorando sua atitude perturbadora. – É assim que funciona – iniciei meu discurso pré-resultado de costume sobre a oportunidade de ouvir os mínimos ou os máximos detalhes conforme sua vontade. Ela assentiu ansiosamente. – Sim, sim, entendi. O que aconteceu? Respirei fundo. – É com satisfação que lhe informo que seu marido foi aprovado na inspeção de fidelidade. Uau, aquilo soava ainda melhor em voz alta do que na minha cabeça. Observei-a com ansiedade, prevendo o suspiro de alívio, lágrimas de alegria, o respiro fundo que estava preso há quase cinco dias – e talvez até um abraço de agradecimento. Mas isso não aconteceu. Sarah Austin olhou para mim com uma cara de espanto e um pouco de desânimo. – Como assim, ele foi aprovado? Presumi que ela simplesmente não tinha entendido a terminologia e eu estava bem confiante de que, depois que explicasse, veria a reação que estava esperando. – Quero dizer – comecei com disposição – que seu marido não se envolveu em


nenhuma ação que implicasse sua propensão a um comportamento adúltero. Seu rosto continuou pasmo, como talvez um daqueles emoticons que as pessoas usam para indicar confusão nas conversas de mensagens instantâneas, como um :s bem no meio da cara. – Não estou entendendo – ela falou. Quase parecia que estava discutindo comigo, como se estivesse questionando o resultado. – Como ele pode ter sido aprovado? Eu não sabia bem como proceder a partir dali. Nunca pensei que uma inspeção “aprovada” ganharia esse tipo de questionamento. Pelo jeito, ao descrever o resultado de uma missão, a palavra “positivo” era um termo subjetivo. – Bem – declarei com cautela –, ele, hã... Mas ela não me deixou terminar. – Você deve tê-lo pego num dia ruim – ela especulou acusatoriamente. Meu queixo caiu. Ela não podia estar falando sério. – Quero dizer, ele parecia estar distraído? – continuou. – Tem que haver algum motivo. Estou muito convencida de que meu marido é infiel. Peço gentilmente que volte a testálo. Ela nem pestanejou. Era como se estivesse no balcão do McDonald’s simplesmente dizendo “pedi este Quarterão com queijo sem mostarda. Peço a gentileza de refazê-lo”. – Hã, senhora Austin – tentei –, não acho que testar seu marido de novo irá mudar o resultado. Estou plenamente convicta da minha avaliação. Ficou claro que ele não estava interessado em nenhum tipo de atividade extraconjugal. Porém, ela não ficou satisfeita com a resposta. Juntou suas mãos no colo, apertandoas, e eu podia jurar ter visto a pele ficar esbranquiçada com a força. – Sim, bem, pelo que me lembro, ele chegou em casa essa noite muito cansado e preocupado. Não era ele mesmo. Acho que, dadas as circunstâncias, um novo teste é necessário. Ele vai estar no cais no sábado à tarde. Você pode “topar” com ele lá. – Mas... – protestei. – Tenho certeza de que ele estará mais do que disposto a convidá-la para entrar naquele barco dele, bonita do jeito que você é. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Estava levando a melhor notícia que existia para uma esposa desconfiada e, em vez de ficar super feliz e abrir um champanhe ou sair correndo para comprar uma nova lingerie sensual para recompensar seu marido fiel, ela simplesmente estava exigindo um novo teste? Tentei escapar. – Sinceramente, acho que não vai servir para nada, senhora Austin – eu disse o mais suavemente possível. – Eu vou pagar por uma segunda inspeção, se é com isso que está preocupada – ela disse imediatamente. – O mesmo valor de antes – falou. Em seguida, ela se levantou e foi para a escrivaninha de madeira no canto. Observei-a novamente com fascínio, enquanto ela contava notas altas que tirara do mesmo envelope branco, e depois caminhou até mim e as enfiou na minha mão. – Para o sábado à tarde – esclareceu.


Examinei o maço igualmente grande que agora estava segurando. A quantia era impressionante. Eu mal conseguia compreender o que estava passando pela cabeça dessa mulher e, antes que pudesse dizer outra palavra ou pensar bem, ela estava literalmente me expulsando pela porta. – Bem, tenho muitos afazeres, por isso acho que nos falamos na semana que vem. E foi isso. Quando vi, eu estava do lado de fora da casa, imaginando o que diabos havia acabado de acontecer lá dentro.

– Você tem que me deixar ir! – John falou na hora em que lhe contei sobre a misteriosa “repetição” da inspeção de Daniel Austin. Estávamos sentados no chão da minha sala, comendo comida de tele-entrega do restaurante indiano do outro lado da rua, assistindo TV sem prestar atenção. De repente, desejei ter escolhido Zoë para desabafar em vez de John. – Está maluco? Claro que não pode vir junto. Por que iria querer? – Porque estou louco para assistir a uma coisa dessas desde que vi seu rosto naquele site. – Ugh – falei, dando uma mordida num pedaço de naan. – Nem me fale. Ontem, o link foi encaminhado para mim num e-mail de uma pessoa que foi meu colega de colégio, perguntando se era mesmo eu. Morri de vergonha. Agora, literalmente estou com medo de e-mail. E, acredite, esta não é a época ideal para ficar com medo de e-mail. Toda vez que meu Treo apita com uma mensagem nova, começo a entrar em pânico na hora. Fico convencida de que vai ser o e-mail que vai acabar comigo, vindo da minha mãe ou de Jamie ou quem sabe do meu professor de inglês da 5ª série. – Marketing viral é mesmo demais. Balancei a cabeça. – Bem, acho que isso responde à minha pergunta se devo ir ou não à reunião dos dez anos de formatura do colégio. John deu risada. – Jennifer Hunter, eleita como a mais provável a transar com homens casados. – Pela última vez, John, eu não transo com eles! – Ah, por favor, deixe eu ir. Quero aprender a manha. – O que acha que é? “Dia de Levar Seu Amigo Gay ao Trabalho”? – Estou falando sério! – ele reclamou. – Adoro ir ao cais. – Você só gosta de falar “cais”. Lambi o resto do molho do meu garfo e me levantei para levar o prato até a cozinha. – Por favooooor. Ele se ajoelhou na minha frente e me implorou com os olhos; eu revirei os meus.


– Está bem. – Eba! John se levantou e comemorou com uma dança da vitória afetada no meio da minha sala. – Mas você tem que ser discreto. Meu disfarce não pode ser descoberto, principalmente porque isso já vai parecer bem suspeito, topar com ele pela segunda vez. Ele esfregou suas mãos ansiosamente. – Oh, não se preocupe, mocinha. Meu disfarce vai ser ótimo; nem você vai me reconhecer. Lancei um olhar de advertência. – Jonathan, não se anime demais. Ele olhou para mim inocentemente. – Quê? Desde quando eu me animo demais? Parecia que o relógio não se mexia há duas horas, mas isso não me impediu de ficar olhando para ele: 21h13. Desejei em silêncio que acelerasse até a meia-noite, como Cinderela, só que ao contrário, por saber muito bem que, à meia-noite, tudo estaria acabado: a carruagem viraria abóbora, o vestido se desintegraria em farrapos e eu voltaria mais uma vez a ficar sozinha, no meu quarto. A diferença entre eu e Cinderela, contudo, era que ela queria ir ao baile. Ela queria tanto que materializou, num passe de mágica, uma fada-madrinha que lhe concedeu o desejo com a varinha de condão. E, se eu soubesse que haveria um príncipe encantado me esperando no meu destino esta noite, eu também iria querer ir. Mas hoje o objetivo não era príncipes encantados – pelo menos, não para mim. Para mim, era encantar o príncipe de outra pessoa, alguém de que eu gostava muito e por quem faria qualquer coisa para lhe dar segurança e felicidade; pelo jeito, até mesmo isso. O relógio foi para 21h14. Exatamente 14 minutos atrás, Eric Fornell, o amor da vida de Sophie, deveria ter entrado num bar da cidade a alguns minutos da minha casa com um grupo de amigos que ele não via desde a faculdade. Em exatamente 46 minutos, “Ashlyn” estaria, por coincidência, entrando no mesmo bar – ou, pelo menos, esse era o plano. Sair de casa às 21h45 para chegar ao bar às 22h, o que me daria tempo suficiente para determinar se Eric era ou não do tipo infiel, e aí me mandar de lá. Depois disso, eu ligaria para Sophie à meia-noite com o resultado tão esperado. Até lá, ela ficaria aguardando ao lado do telefone. 21h15. Suspirei alto e tirei os olhos do relógio digital da minha cômoda. Levantei-me e fui até meu banheiro para começar a me maquiar. – Nada muito dramático – Sophie me orientou um dia antes. – Eric gosta de meninas com beleza natural, mas certifique-se de mostrar o decote. Ele é um típico homem que gosta de seios, embora nunca tenha admitido isso, mas uma mulher consegue simplesmente sentir esse tipo de coisa.


Olhei para o meu reflexo no espelho e ajustei o sutiã que valorizava o decote até que meus seios estivessem pressionados um contra o outro para formar um vinco perfeito no meio do peito. Abri minha gaveta de maquiagem e peguei meus tons terrosos. – E não se finja de boba com ele – ela prosseguiu seriamente. – Eric gosta de mulheres cultas que têm algo a contribuir para a conversa, não apenas rostinhos bonitos. Parte de mim queria fazer e dizer o exato oposto das instruções de Sophie. Maquiagem dramática nos olhos, a camisa larga que está no closet e uma conversa cheia de comentários que me fizessem parecer completamente abobada. “Se isso é uma cerveja alemã, por que o rótulo está em inglês?”. Mas eu sabia que seria desonesto da minha parte. Se eu realmente levaria isso adiante, faria direito. Sem atalhos, sem furar fila, sem trair os potenciais infiéis. Eu daria a Sophie o mesmo foco dedicado e a mesma ética de trabalho que proporcionava a qualquer outra cliente. 21h34. Meu Deus, odeio esse relógio. Sentei na minha cama e voltei a olhar para ele. Isso é ridículo, pensei comigo mesma. Apenas levante-se e saia. É muito simples. Você abre a porta, passa por ela e a fecha depois. O que tem de tão complicado? 21h40. Mas meu corpo não se mexia. Minhas pernas estavam presas ao edredom branco. Meus pés estavam fundidos ao chão. Meus olhos estavam fixos no relógio. 21h42. LEVANTE-SE! Tentei dizer a mim mesma que essa noite seria fácil, rápida e simples. Eu provavelmente iria embora em questão de minutos. Eu entraria, pediria um drinque no balcão e, ao localizar o indivíduo em questão, mostraria meus cílios sedutores, manteria meus seios à vista e aí faria o máximo para juntar minhas falas inteligentes e espirituosas no que certamente seria uma conversa curta de cinco minutos, quando muito. Sophie finalmente poderia ter paz hoje – e por todas as noites pelo resto de sua vida. E eu voltaria a sentir o surto de adrenalina e satisfação que me inspirou a começar este trabalho, sabendo que tinha acabado de ajudar uma pessoa. 21h45. Está bem, chegou a hora, falei para mim mesma. É agora que você entra em ação. Se não puder fazer isso por Sophie, então qual é a moral de fazê-lo? Talvez fosse o enchimento do meu sutiã, talvez fossem as correntes de ouro em volta do meu pescoço ou talvez fosse a carga de alguma coisa muito mais pesada – e muito menos palpável –, mas senti como se meu corpo pesasse um zilhão de quilos. E, mais uma vez, não consegui me mexer. Não me mexi às 21h46 e não me mexi às 22h30. Também não me mexi quando o relógio marcou 23h. Estava paralisada: completa, total e involutariamente paralisada, sem movimento algum. Mal conseguia sentir que estava respirando. Fiquei imaginando se essa era a sensação de uma experiência extracorpórea, mas não tive exatamente a sensação de olhar para baixo, para o meu corpo; era mais como se meu corpo estivesse me mantendo presa. Quando a meia-noite finalmente chegou no meu quarto branco e solitário, meus braços se libertaram de sua camisa de força invisível e fui pegar o telefone, exatamente como


havia planejado. Disquei o número de Sophie e aguardei. O telefone pareceu ter levado uma eternidade para tocar – e, como eu havia suspeitado, tocou apenas uma vez. – Oi – a voz dela parecia ofegante, e eu tinha quase certeza de que não era por ter corrido ao telefone, mas mais por não ter conseguido respirar direito até esse momento. E, infelizmente, eu sabia exatamente como ela estava se sentindo. – Oi – falei com cautela, cuidando para não deixar minha voz revelar nada. Porém, eu sabia que, independente da minha cautela ao falar, do meu cuidado ao escolher as palavras, o fato ainda era o mesmo: o que estava prestes a sair da minha boca era mentira, apesar de todos os esforços que eu tinha feito para transformar minha vida forjada e fictícia numa vida sobre a qual podia contar aos meus amigos. – Bem, o que aconteceu? – ela perguntou sem demora. Parecia que eu tinha completado um ciclo. Três semanas antes, eu teria dado tudo para contar a verdade a Sophie, para dar um fim ao meu mundo falso – e, por um breve momento, consegui. Mas agora as coisas eram diferentes, seria hora de mentir novamente, porque a verdade era complicada demais para até mesmo eu ouvi-la em voz alta. E, de certa forma, a mentira era mais fácil... sempre fora. – Ele foi aprovado – sussurrei.


23 Navegando para o outro lado Houve silêncio do outro lado da linha. – Sophie? – perguntei, imediatamente estarrecida por achar que a ligação tinha caído e que eu teria que juntar forças para mentir pela segunda vez. E aí sua voz trêmula e baixa falou: – Ele foi aprovado? Assenti com a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia me ver, mas ainda desejando que a ideia passaria pela linha para que eu pudesse evitar que outras farsas saíssem da minha boca. – Sim – finalmente admiti. – Oh, ainda bem! – Sophie suspirou bem alto. – Ainda BEM! – Sim – falei novamente, não conseguindo pensar em outra coisa para dizer. – Então o que aconteceu? O que você fez? O que ele disse? Como aconteceu? Tremi. Não tenho detalhes! Não consigo inventar nenhum detalhe! É doloroso demais. – Bem – comecei –, ele, hã... – e aí parei e fiz uma pausa. – Sabe, não importa muito como aconteceu. Por que insistir nisso? Ele foi aprovado e pronto. Hora de seguir em frente e deixar isso no... “passado” – falei, forçando uma risada fraca. Ela ignorou minha tentativa de ser engraçada. – Mas foi na hora? Ou ele conversou com você por um tempo e depois te recusou? Afinal, que coisa, Jen, quero uns detalhes pelo amor de Deus. Estou morrendo de ansiedade aqui! Fiz uma careta, sabendo muito bem que eu não poderia me livrar disso sem dar, no mínimo, alguns pormenores. Por isso, resolvi contar a história mais simples e mais gratificante. Se eu ia inventar essa história toda do zero, não havia motivo para complicála ou deixar espaço para dúvidas. – Não – eu disse. – Ele me recusou de cara. Não queria nada comigo. – Sério? – ela gritou contente. – O que ele disse? – Bem – comecei –, fui até ele, tentei puxar uma conversa e ele disse “me desculpe, só estou aqui com uns amigos meus, tentando botar a conversa em dia. Além do mais, estou noivo”. Houve silêncio do outro lado da linha. – Que estranho – Sophie observou cautelosamente. Imediatamente, fiquei na defensiva. – Por quê?


– Hã, é que, por que ele lhe diria que tinha uma noiva assim logo de cara? Ele nem sabia por que você estava falando com ele. Não acha um pouco estranho? Merda. – Não – me apressei a falar. – Não é nem um pouco estranho. Bem, tá, estou parafraseando um pouco. Afinal, algumas coisas foram ditas antes de ele falar que estava noivo. Não foi a primeira coisa que saiu da boca dele. – Oh – ela disse, e logo voltou a ficar em silêncio. – Acredite – interrompi a pausa –, eu conheço as situações estranhas, e essa certamente não era uma delas. Era um caso típico de estar loucamente apaixonado pela pessoa e não estar interessado em conhecer, conversar, paquerar, beijar ou ir para casa com outra pessoa, pura e simplesmente. Ouvi outro suspiro, e eu estava bem confiante de que tinha conseguido me esquivar com sucesso. Mas aí ela perguntou: – Então, o que devo falar para Eric? Como se fosse o próximo passo mais óbvio do mundo. – Você não deve! – soltei rapidamente; talvez rápido demais. Esse era um daqueles detalhes pequeninos em que eu não tinha pensado totalmente ainda. É como aquilo que dizem sobre cometer um assassinato: todo mundo comete, pelo menos, três erros, três detalhes que nunca passam pela sua cabeça enquanto a adrenalina de cometer um crime está pulsando nas suas veias. Este seria um desses detalhes. Na euforia da minha adrenalina de me recusar completamente a levar adiante a promessa que tinha feito à minha melhor amiga e depois mentir a ela sobre isso, eu nem tinha pensado no que ela poderia querer contar a Eric sobre a inspeção bem-sucedida. – Como assim, “não devo”? – ela perguntou com dúvidas. – Por que não deveria? Ele merece saber. Quero que sejamos sinceros um com o outro. Além disso, quero parabenizá-lo por ter sido aprovado, um estímulo positivo. – Sô, ele não é um cachorro – tentei soltar uma risada de deboche, mas soou mais como sarcasmo. – Eu sei, mas apenas pense... – Não há razão para ele saber – interrompi. – Mas por quê? Minha cabeça ficou a mil. Eu tinha que inventar algo bom, e rápido. – Bem, Sophie – expliquei –, raciocine. Você não pode contar ao seu noivo, o homem que lhe pediu para se casar com ele, para ficar com ele pelo resto de suas vidas, que você não tinha absolutamente confiança nenhuma nele, tanto é que contratou uma pessoa para dar em cima dele num bar! E não era qualquer pessoa... mas sua melhor amiga! Ele vai achar que você é louca. Seguiu-se um silêncio do outro lado da linha. Ela estava pensando nisso. – Acho que você tem razão – ela disse com hesitação. – Claro que tenho! Afinal, por ora, para ele, sou apenas uma garota idiota de um bar.


Não precisa ser mais que isso. – Sim, mas e quando ele a encontrar de novo? Engoli em seco. Boa pergunta. Segundo detalhe ignorado do assassinato. – Bem, aí é que está – fiz uma pausa, tirando uma asneira da cachola. – Acho que devemos aguardar pelo menos um ou dois meses antes de ele me encontrar de novo. Assim, ele certamente vai se esquecer da noite de hoje e vou ser apenas um rosto novo. Nada mau. Ai, meu Deus, por favor, acredite. por favor, acredite. – Você acha mesmo que ele não vai te reconhecer? Ela não estava acreditando. Engoli em seco, recusando-me a desistir. – Sophie, seja razoável – comecei com um tom que, sem dúvida, dava a entender que ela estava sendo ridícula. Não há nada pior do que mentir para alguém e aí fazer a pessoa se sentir idiota por questionar sua balela. – O bar estava escuro, ele tinha bebido um pouco, tenho certeza de que meu rosto vai se misturar com todas as outras mulheres do público. Prendi a respiração e aguardei a resposta dela. – É verdade – ela admitiu, pensativa. Soltei a respiração. – É que eu não quero que ele a reconheça e depois fique bravo comigo por eu não ter contado sobre o teste. Talvez eu deva simplesmente contar; afinal, a sinceridade é a melhor atitude, não é mesmo? – Não, não é – retruquei. Falando como uma verdadeira profissional. – Não é? – Sophie questionou. – Jen, você está estranha. Se tem alguém que deve defender a sinceridade nos relacionamentos, é você. – Eu sei, eu sei. Só acho que, às vezes, existem coisas que as pessoas não precisam saber, principalmente as pessoas importantes para você. Não acho que ele precise saber disso. Contar para ele só vai causar mais problemas do que vale a sinceridade. Ela pensou de novo. – Talvez tenha razão. – E, acredite, ele certamente não vai me reconhecer. E, dessa vez, eu não precisava do meu superpoder de leitura da mente para saber com 100% de certeza que eu estava certa. Após desligar o telefone, o silêncio do meu quarto me oprimiu. Fiquei deitada, no escuro, pensando no que havia acabado de fazer, no que significaria amanhã quando acordasse, e no dia depois desse. Será que eu conseguiria olhar Sophie nos olhos novamente? Afinal, claro que menti várias vezes no passado. Os últimos dois anos foram uma grande mentira, mas eram praticamente mentiras inofensivas, não? Nem a afetaram diretamente. Isso aqui era muito maior, era uma informação importantíssima que eu


tinha prometido passar a ela e aí fracassei. E agora ela estaria tomando uma decisão com base na informação possivelmente falsa que eu passei para ela e que poderia afetar o resto de sua vida! Bateu um enjoo. Pensei em ligar de volta e contar a verdade, mas ela certamente me pediria para tentar de novo. “Tudo bem”, ela diria. “Ele vai estar na cidade amanhã também, aí você poderá fazer o teste”. Se eu não consegui fazer o teste algumas horas atrás, por que isso mudaria da noite para o dia? Não mudaria. Então essa ideia não funcionava. Continuei deitada no escuro, tentando dissipar a náusea que estava tomando conta do meu estômago e seguindo para a minha garganta. Nesse momento, meu celular apitou. Sem mexer o corpo, virei a cabeça e olhei para a cômoda. O celular estava aceso, e a mensagem na tela estava me informando que eu tinha um novo e-mail na caixa de entrada. Fiquei olhando para ele por uns bons trinta segundos antes de finalmente me entregar e pegá-lo. Cliquei no programa de e-mail, e meu rosto ficou pálido de terror. Ali estava um e-mail de Jamie, e o assunto era simplesmente: “Enc:” Na hora, eu me sentei. É agora, pensei. O e-mail que eu vinha temendo desde o nosso primeiro encontro, desde que ele pediu meu e-mail para que pudesse me escrever durante sua viagem. O famigerado e-mail encaminhado que me expôs para o mundo como a verdadeira “destruidora de lares” que eu supostamente era tinha finalmente chegado à porta de Jamie – ou melhor, à sua caixa de entrada. Meu coração se apertou no peito enquanto eu respirava fundo e clicava no e-mail. Preparei-me para o que certamente iria acontecer: aquele link conhecido seguido da inevitável pergunta “é você mesmo?”, com algumas variações, dependendo da minha relação com o remetente e seu nível de dúvida se a Jennifer Hunter que conheciam poderia se envolver num absurdo desses. Meu Treo parecia estar atipicamente lento hoje. – Vamos! – pedi à telinha, mas ela permaneceu em branco. Sacudi violentamente, como se estivesse tentando fazer as engrenagens andarem. Aí a tela ficou preta. Com um suspiro de frustração, joguei-o na cama e me pus de pé. Meu celular escolheu uma péssima hora para travar, pensei, disparando pelo corredor até meu escritório. Abri meu laptop e rapidamente encontrei o mesmo e-mail ali. Cliquei nele, desejando em segredo que meu computador também travasse. Aí não teria que lidar com isso, não teria que encarar o que, no fundo, eu sabia que estava por vir. Mas ele abriu e, assim que o fez, meus olhos foram imediatamente atraídos para as distintas letras azuis e sublinhadas que ficaram conhecidas em todos os países como um convite para clicar e ler mais: um link, um sinalizador que levava a um endereço na internet que seria eternamente conhecido como o site que acabou com a minha vida. Meus olhos subitamente começaram desfocar, e minha visão ficou borrada. Eu mal conseguia ver o link com clareza suficiente para clicar nele. Não que eu precisasse ver alguma coisa. Eu sabia que estava lá, sabia qual informação meus olhos passariam para


mim se estivessem funcionando direito. Através da minha visão nebulosa, consegui posicionar o cursor em cima das letras azuis e sublinhadas e apertar o botão do mouse. Na hora, minha cabeça começou a buscar possíveis histórias, dissimulações, uma desculpa acreditável, algo para me tirar dessa. Uma irmã gêmea do mal, um cientista louco que está clonando as pessoas da cidade e, por acaso, fui uma delas. Ou eu podia simplesmente dizer que era uma brincadeira, uma pegadinha. As pessoas fazem sites falsos o tempo todo para tirar um sarro, não é? Primeiro de abril! Em outubro. Sim, eu apenas me sentaria com Jamie e, com o rosto sério, explicaria a ele que todo esse negócio era só uma... – Câmera do panda? – falei em voz alta enquanto meus olhos retomavam o foco na tela. – Que diabos é uma Câmera do Panda? Pisquei e olhei de novo. No meu laptop, estava passando um vídeo ao vivo de um bebê panda andando pelo seu habitat no Zoológico de San Diego. Confusa, voltei para o email. Embaixo do link, Jamie tinha digitado: Achei que você ia gostar disso. Saudades, Jamie Suspirei dramaticamente e recostei-me na cadeira, sentindo-me como uma agente do contraterrorismo que havia acabado de impedir que uma bomba nuclear explodisse em Los Angeles. Ele me mandou um link para uma droga de câmera que estava apontada para um filhote de urso asiático. Só isso! Mais nada. Soltei um grande suspiro de alívio enquanto voltava para a minha cama. Eu me deitei e procurei no meio do mar de lençóis e cobertores até achar Funga e acomodá-lo embaixo do meu queixo. Depois de mais um olhar cauteloso para o meu celular travado, caí no sono. Quando acordei de manhã, eu sabia o que tinha de fazer: cancelar meu terceiro encontro com Jamie. Não havia escolha. Eu não podia passar o resto da minha vida correndo até o computador para ver se minha vida tinha acabado toda vez que ouvia o aviso de e-mail apitar. O que viria depois? Um infarto por causa de um link que, no fim das contas, era um vídeo de acasalamento de coalas? Era óbvio que minha vida estava complicada demais para começar um relacionamento. Eu tinha acabado de mentir para minha melhor amiga sobre uma coisa que facilmente poderia afetar o resto da vida dela. Quem eu estava tentando enganar querendo namorar agora? Vasculhei a primeira gaveta da minha cômoda até achar o cartão de Jamie. Peguei-o e fiquei olhando para o número marcado como “celular” enquanto ia até a cômoda e tirava meu Razr rosa do carregador. Sem tirar os olhos do cartão, comecei a discar. – Senhorita Hunter – disse Marta aparecendo no quarto, assustando-me tanto que


deixei o celular cair no chão acarpetado com uma pancada surda. Olhei para a frente e vi seu corpo volumoso na porta do meu quarto. – Marta, você me assustou – falei, ofegante, e abaixando-me para pegar o celular caído. Quando olhei para a tela, o número havia se apagado. – Me desculpe, senhorita Hunter. Eu venho quando você dorme. Começo a lavar as roupas. – Muito bem – falei, pegando o cartão novamente e preparando-me para discar os números pela segunda vez. – O problema é... – continuou Marta – ... não tem mais sabão em pó. – Não? – perguntei com curiosidade, largando o celular e indo para o corredor. – Achei ter comprado no supermercado na semana passada. Marta me acompanhou pelo corredor até a área de serviço, onde entrei e não pude achar nenhum detergente para lavar roupa. – Bem, que estranho – eu disse, examinando o lugar. – Acho que apenas pensei ter comprado, mas não comprei. Me desculpe, andei muito atarefada ultimamente. Marta entendeu, acenando com a cabeça. – Então você compra agora? Olhei para o meu pijama; eu ainda não queria sair de casa. Em poucas horas, tinha que me arrumar para encontrar John no cais para a reprise da missão de Daniel Austin. – Não – falei, sem dar importância. – Eu compro mais tarde quando estiver voltando para casa. Marta encolheu os ombros. – Está bem, eu lavo a roupa semana que vem quando voltar. Segui o olhar dela até dar de cara com a pilha de roupa suja no chão. Apertei os olhos, conseguindo visualizar apenas a camisa que havia usado no dia em que fui ao escritório de Raymond Jacobs, quando ele sugeriu que transássemos; abaixo dela, pude ver a roupa que usei para ir à casa de Sarah Austin quando ela me entregou um maço de dinheiro e me mandou testar o marido pela segunda vez; e, bem no topo da pilha, estava a camisa que eu havia escolhido usar para a missão de Eric na noite passada, aquela que eu não realizei. Se eu ficasse olhando para a pilha por bastante tempo, podia quase “ver” as más vibrações e os germes apavorantes saindo das roupas, indo para o piso vinílico da área de serviço e arrastando-se até a porta, onde eu estava. Recuei um pouco. – Semana que vem? – perguntei meio tensa. – Sim – ela respondeu –, volta na terça. Por mais idiota que parecesse, parte da minha capacidade de zerar e recomeçar toda manhã se devia à lavanderia – bem, na verdade, às habilidades especiais de lavar roupa de Marta. Era como se ela tivesse um toque especial, um superpoder especial de descontaminação que me permitia usar uma roupa para ir jantar com meus amigos muito embora ela tivesse sido tirada por um marido infiel apenas dois dias antes. Marta retirava


toda a sujeira e imundície que eu pegava durante o dia. Ela livrava a minha vida de todas as coisas relacionadas a traição e outras forças negativas. Eu tinha passado a depender dessa descontaminação para fins de sobrevivência. E a ideia de essa roupa suja ficar empilhada e largada ali por mais três dias me fazia não querer dormir na minha própria cama à noite. – Não, não – respondi rapidamente. – Vou comprar agora mesmo. Marta apenas abriu um sorriso de satisfação e entrou na cozinha para começar a lavar a louça. Peguei uma calça de moletom e uma camiseta de manga comprida e corri até meu carro. Além do sabão em pó, comprei um café da manhã no Café Coral Tree. Depois, passei no banco para depositar o resto do dinheiro que Sarah Austin havia me dado. Resolvi depositar o valor em “parcelas” desiguais nos últimos cinco dias para não chamar atenção nem ser indagada no banco. E, por fim, passei na Apple Store para comprar um novo carregador para o meu iPod. Quando cheguei em casa, já era hora de começar a me preparar para a missão do dia. Eu não tinha me esquecido completamente da minha quase ligação para Jamie para cancelar nosso encontro. Eu tinha optado por ignorá-la. Além disso, eu tinha coisas a fazer: comprar sabão em pó, carregar o iPod e depositar quantias ridiculamente altas de dinheiro. E agora eu tinha que trabalhar. John me encontraria no “cais” em menos de uma hora. Eu certamente não iria mudar toda minha agenda por causa de um cara. Quando cheguei ao ponto de encontro previamente marcado na marina, vi John andando ansiosamente na frente de um grande iate, usando calça branca, camisa branca e um lenço azul amarrado meticulosamente em volta do pescoço. Ele jogou a cabeça para trás para tomar a última gota de café de seu copo de papel. – Que roupa é essa? – perguntei, tentando segurar uma risada ao me aproximar e olhar incrédula para o modelito. John olhou para suas roupas e cuidadosamente pressionou seu dedo num fiapo vermelho preso em sua calça, jogando-o na brisa morna do mar. – Oi? É um estilo marinheiro chique – informou-me com complacência, como se estivesse tentando explicar um quadro de Renoir para uma adolescente inculta. Sorri. – Ah. – Então, qual é o plano? Onde ele está? O que devo fazer? – perguntou ansioso. Dei uma olhada no cais e tentei achar um barco parecido com o da foto que a mulher de Daniel Austin tinha me dado. Ia ser difícil, já que todos eram meio semelhantes. Agora eu estava desejando que ela tivesse me dado algo como o número da vaga. Será que se chamam assim? Vagas? Locais designados para barcos? Zonas de atracação? Eu não entendia nada de docas, mas “Ashlyn” supostamente era uma figurinha carimbada do local, conforme o que foi dito no último encontro com Daniel Austin.


– Bem – comecei. – Veja o que eu estava pensando – ele interrompeu logo, atirando seu copo de café vazio no lixo mais próximo. Dei risada. – Prossiga. – Está bem. Aqui estamos nós, só passeando casualmente nas docas. Ashlyn e seu grande amigo Wallace só estão passeando pelas docas. E aí, de repente, “vejam só, quem está aqui?”, um amigo de Ashlyn. “Ei, você é o cara daquele lugar ou bar” etc. etc. Você nos apresenta, e eu digo uma coisa brilhante do tipo “está friozinho aqui. Acho que vou pegar meu blusão no barco”, e aí você faz sua jogada, ou seja lá o que for, feche o negócio, jogue a isca, você sabe. John ficou parado, com os braços cruzados, esperando pacientemente meu elogio. Mordi meu lábio, segurando um sorriso que quase se recusava a ser reprimido. – Em primeiro lugar – falei –, Wallace? – Eu precisava de um codinome, e acho que parece o nome de alguém que passa a tarde de sábado no cais, não? – Está bem – respondi, não querendo perder tempo com isso. – E, em segundo lugar, está fazendo mais de 25 graus aqui. Não acho que sua historinha “brilhante” e espertalhona do blusão vá colar. John não deu importância à minha observação. – Bem, tanto faz, é como trocar duas notas de cinquenta por uma de cem. Vou comprar um café então. Olhei para ele com estranheza. – Você não quis dizer “trocar seis por meia dúzia”? John franziu a cara. – São detalhes, Jen, detalhes inúteis. Você está desperdiçando tempo precioso de inspeção. Balancei a cabeça negativamente. – Está bem, vamos lá. Eu tinha uma impressão de que seria um desastre, mas, a essa altura do campeonato, eu nem ligava. Sarah Austin estava em estado de negação. Claro que era uma espécie de negação inusitada, de psicologia inversa, mas era negação mesmo assim. O marido dela já tinha passado no meu teste. Até onde eu sabia, ele não era do tipo que traía. Nem cheguei a fazer outro cartão de inspeção. O fato de ela querer me pagar uma quantia exorbitante, além do triplo dos honorários que já tinha pago da primeira vez, para vir aqui e confirmar o que eu já sabia ser verdade era, eu acho, problema dela. John, todo cheio de si, esticou o cotovelo e me deu uma cutucada até eu passar a mão pelo seu braço, e andamos de braços dados pelo cais, de olho no barco da foto. – Você está ridículo – comentei baixinho com o canto da boca. – Eu pareço alguém que anda aqui entre os ricos e famosos – ele insistiu. – Você parece uma menina fútil e desleixada.


– John, isso aqui não é um baile de gala, é a marina Del Rey. Vi um mendigo dormindo num banco com um boneco do Ursinho Pooh há uns três minutos. John pigarreou bem alto. – Você não quis dizer “Wallace, isso aqui não é um baile de gala”? Olhei feio para ele, que ignorou. – E, sim, você tem razão, senhorita Ashlyn. Eles realmente precisam tomar alguma atitude quanto ao terrível problema dos sem-teto aqui. Onde acham que estão? Venice Beach? – ele pronunciou o nome do lugar como se as próprias palavras estivessem sujas ou cheias de lixo da praia. Segurei uma risadinha e continuamos andando. Alguns metros adiante, vi um homem debruçado para fora de um barco, esfregando cuidadosamente a sujeira com um pano branco. Andei mais devagar. – É ele – cochichei, apontando com a cabeça para John, perdão... para Wallace ver. John parou na hora, como se estivéssemos seguindo um veado na floresta, e o mínimo de barulho ou movimento fosse assustar a presa. Pude sentir seu corpo ficar tenso. – Relaxe – tranquilizei, e até que achei meiga a hesitação dele. – Essa vai ser fácil. John respirou fundo e nos aproximamos do barco. – Daniel? – falei em tom bastante surpreso enquanto protegia meus olhos do Sol e olhava para o homem a bordo do barco diante de nós. Ele olhou para mim e sorriu. – Sim? Pude reparar que eu lhe parecia familiar, mas que ele não conseguia se lembrar do meu nome ou de quem diabos era eu. Mais uma vez, eu soube que isso se daria do jeito como suspeitava: uma fácil confirmação do que eu já sabia ser verdade. – Sou Ashlyn. Nós nos conhecemos outro dia no bar do Hotel W. O cérebro dele girou como as bobinas de máquina caça-níqueis, procurando a combinação certa do nome, rosto e local. Dava para ver nos olhos dele. E aí, de repente... ding, ding, ding. Jackpot. – Ah, sim, a amante de barcos – ele chutou, esperando desesperadamente ter acertado. – Então você se lembra mesmo de mim – falei com um falso suspiro de alívio, como se sua lembrança de nossa outra noite juntos significasse muito para mim. – Claro. Ele desceu do barco, veio até o cais e estendeu a mão para mim. Eu a apertei e depois me virei para John. – Este é meu amigo... – forcei uma cara séria – Wallace. Wallace, Daniel. – Prazer em conhecê-lo – disse John, apertando a mão dele com vontade. – O prazer é meu – Daniel falou. Fiquei ao lado e observei os dois se cumprimentarem. Olhei para John e depois para Daniel e, por um segundo, podia ter jurado que seu aperto de mão durou um pouco


demais. Mas antes que eu pudesse pensar nisso, Daniel se virou para mim. – Então, o que os traz à marina hoje? – Bem – começou John, sem me dar a chance de abrir a boca –, Ashlyn e eu sempre caminhamos pelas docas à tarde quando o tempo está bom. Ela adora vir para ver os barcos, e eu gosto de vir ver as... bem, você sabe, pessoas dos barcos. Sutilmente, cutuquei John para alertá-lo sobre paqueras e insinuações sexuais. – Sim – falei, tentando disfarçar –, o dia está tão bonito que simplesmente não pudemos resistir. Daniel olhou em volta e apreciou o sol da tarde de sábado. Seu olhar voltou para a nossa direção e pareceu demorar-se em John, mas era difícil dizer, pois ele estava usando óculos de sol. John observou-o atentamente, como se estivesse tentando extrair um mundo de fofocas sobre o homem com apenas um breve olhar. A situação estava começando a ficar constrangedora, e eu sabia que tinha que acelerar o processo. – Ei, Wallace. Você não ia comprar um café? Acho que vou querer um café com leite se você ainda for comprar. John olhou para mim com olhos suplicantes que diziam “por favor, mamãezinha, posso ficar para assistir mais um pouquinho?”. Balancei a cabeça discretamente, mas a decepção que tomou conta do seu rosto foi muito menos sutil. – Sim – ele finalmente respondeu, emburrado. – Eu ia comprar café. Você vai querer, Daniel? Daniel sorriu gentilmente. – Sim, gostaria de um café gelado, por favor. Obrigado. – Pode deixar. Ele se virou para mim e, sem Daniel ver, fez uma careta debochada. Sorri educadamente para ele. John foi rapidamente até a barraca na ponta do cais, e retornei minha atenção para Daniel. Era hora de trabalhar e acabar logo com isso. Porém, assim que virei minha cabeça, reparei que a atenção de Daniel certamente não estava concentrada em mim. Ao acompanhar o olhar dele, desta vez, era incontestável. Com ou sem óculos, não havia dúvidas de que seus olhos estavam diretamente apontados para John, isto é, Wallace, que caminhava alegremente até a barraca de madeira do cais. Seu lenço azul estava balançando com a brisa do mar. E, como um sopro de ar quente, eu me dei conta de tudo ao mesmo tempo. De repente, tudo passou a fazer sentido: o motivo pelo qual Daniel Austin parecia não querer nada comigo, o motivo pelo qual Sarah Austin insistiu para eu tentar novamente e me esforçar, porque trair com outra mulher era melhor do que a outra alternativa, aquela que ela vinha suspeitando esse tempo todo. E, tão rápido quanto isso me ocorreu, uma ideia surgiu também. – Pode aguardar um minuto? – perguntei a Daniel educadamente. – Esqueci de dizer a


Wallace que eu queria leite de soja no meu café. E, assim, disparei nos meus saltos e praticamente corri para alcançar John. – Espere! – gritei atrás dele. Ele se virou demonstrando estar confuso. – O quê? Ele já recusou a sua pobre pessoa? Balancei a cabeça enquanto tentava respirar. Dei tapinhas no ombro de John e sorri. – Foi bom você ter vindo no fim das contas. Ele franziu a testa. – E por quê? Sorri para ele, sabendo que o que ia lhe pedir certamente o alegraria pelo resto do dia, e talvez do ano. – Porque tive uma ideia melhor. Tomei um gole do meu café e dei uma olhada no meu relógio pela terceira vez nos últimos 45 minutos. O banco de madeira do parque onde eu estava sentada estava começando a ficar bem desconfortável, e também não ajudava o fato de eu ter de me sentar na beiradinha do banco para evitar que minhas pernas à mostra ficassem marcadas. A minissaia branca “estilo marinheiro” foi minha última tentativa de chamar a atenção de Daniel Austin. Porém, ao que parecia, não havia pele de mulher que bastasse. Na hora, eu me senti mal pela esposa. Lá estava ela, sentada em sua casa perfeita no cânion, querendo muito acreditar que talvez ele só estivesse entediado com a vida sexual deles, não com o sexo com mulheres em geral. Afinal, se esse fosse o caso, eu tinha certeza de que ela se culparia, achando que o tinha literalmente afastado de toda a espécie feminina. Era uma coisa terrível com que conviver. E por que ela não viu isso antes? Por exemplo, quinze anos antes, quando se conheceram? Ou treze anos antes, quando trocaram votos no casamento? Como é que alguém consegue esconder uma coisa dessas por tanto tempo? Na hora em que me levantei para esticar as pernas, vi John andando em direção ao meu banco. Rapidamente, corri até ele, e a primeira coisa que notei foi que aquele lenço azul infame estava virado para o outro lado do seu pescoço e seu cabelo estava levemente bagunçado – ou tão bagunçado quanto John permitiria. – E aí? – perguntei com ansiedade. Seu rosto ficou sério, e ele olhou para mim, dizendo: – Esta não é a hora nem o lugar... Em seguida, ele pegou meu braço e foi me levando até o estacionamento. – Vamos conversar num lugar reservado – falou no seu melhor tom de detetive dos anos 1940. – Ah, vá, John. Conte o que aconteceu! Ele apontou com a cabeça para a entrada do cais, e eu resolvi entrar no jogo e deixar


John aproveitar seu momento de glória artificial. Ele me levou pelas escadas, passando pelo estacionamento, cujos carros custavam, no mínimo, cinquenta mil dólares, e aí chegamos perto de um grande carvalho, plantado intencionalmente no canto do estacionamento para enfeitar. John se virou e me encarou, fechando os olhos como se estivesse tentando juntar coragem para dar uma notícia ruim. Soltei um suspiro de impaciência. Ele respirou fundo. – Hã, é... ele é gay – falou sem rodeios. Soltei uma risada. – Todo esse espetáculo só por isso? – Ei, sou um profissional. Não poderia arriscar que alguém do público de elite do cais ouvisse e possivelmente arruinasse sua reputação. Ele obviamente não saiu do armário ainda – e fez um pausa por um momento, acrescentando depois –, mas deveria. Afinal, alguém que beija daquele jeito não deveria ficar preso no armário! Dei risada de novo. – Você o beijou? – Ele me beijou! – John corrigiu. – Como você tinha dito. Não tomei nenhuma iniciativa! Foi ele. – Sério? Até eu estava gostando desse pequeno drama digno de novela. John assentiu com orgulho. – Sim, falei para ele que você ia comprar o café porque achou que eu ia errar no seu pedido. Aí ele me convidou para ver seu barco. Conversamos, paqueramos etc. E aí ele se aproximou e simplesmente avançou. Balancei a cabeça, incrédula. – Não consigo acreditar nisso. – É, nem eu – John inclinou a cabeça para o lado. – Afinal, como é que ele sabia que eu era gay? Olhei para ele sem acreditar. – Você não está falando sério. Olhei para a roupa dele de novo. – Quê? É tão óbvio assim? Resolvi não discutir mais. Além disso, eu tinha coisas mais importantes com que me preocupar do que se John achava ou não que parecia gay a olho nu. – Então, acho que agora o único problema é: como é que vou relatar uma coisa dessas para a minha cliente? John balançou a cabeça e abriu um sorriso solidário. – É, aí é só com você, querida.


24 A inquietação dos dois encontros Sentei-me na frente de Sarah Austin e, pela primeira vez em muito tempo, eu estava inquieta, não consegui ficar parada. Tive que literalmente juntar minhas mãos no colo para evitar que perambulassem pelo meu cabelo, meus brincos, minha boca. Este tipo de relatório pós-missão era certamente o primeiro da história. – Biscoitinho? – ofereceu a senhora Austin, empurrando um pratinho de nacos não identificados de chocolate na minha direção. Eu normalmente não teria aceitado, mas, do nada, me senti mal por ela, fazendo comidas deliciosas, tentando desesperadamente chamar a atenção do marido ao se transformar na dona de casa perfeita, quando, na verdade, tudo o que ele queria era encontrar um dono de casa. Por isso, peguei um naco do prato e dei uma mordidinha. – Obrigada. Está delicioso. – De nada – disse Sarah, sentada em postura reta e suas mãos perfeitamente descansadas em seu colo. – Não sei como lhe contar, senhora Austin, por isso vou ser direta e falar. – Ele traiu, não é? – ela perguntou em tom esperançoso. Inclinei a cabeça para o lado. – Bem, na verdade, não do jeito que pensava. Isso pareceu tê-la deixado confusa. Ela coçou delicadamente o canto do couro cabeludo e olhou para mim esperando mais explicações. – Como já sabíamos, seu marido não queria mesmo nada comigo, no sentido íntimo. Ela assentiu com a cabeça, sem saber no que daria, e fez um gesto para eu prosseguir. – Na verdade, ele estava mais interessado no meu amigo... meu amigo homem. A sra. Austin apertou os lábios com força e pude ver sua expressão confusa transparecer no rosto. – Como assim? Num sentido profissional? Fiz que não com a cabeça. – Não. Meu amigo é, hã, gay. Ela levou alguns instantes, mas acabou entendendo. – Meu Deus – disse, apertando os olhos e curvando os lábios, formando uma carranca solene. De repente, senti meu corpo ser varrido por solidariedade. Pobre mulher. Eu nem podia imaginar o que ela devia estar sentindo agora, mas, ao examinar seu rosto, não sei por quê, tive a impressão de que sua reação à notícia não foi exatamente sincera. Não


parecia nem um pouco uma pessoa que vinha temendo esse tipo de verdade, tentando provar que estava errada, tentando ignorar até não conseguir mais. Parecia mais alguém que estava tentando esconder algum tipo de prazer egoísta com uma falsa máscara de surpresa, o que me deixava ainda mais confusa. Quando achei que a estava entendendo, exatamente o que ela estava passando entre essas quatro paredes, senti que tinha voltado à estaca zero: diante de uma esposa robótica que gostava de usar aventais e cantarolar quando estava lavando a louça. – Lamento ser eu a lhe dar essa notícia – falei, quase como se estivesse cutucando uma ferida, tentando ver se conseguia despertar alguma reação previsível. – Sim, sim – ela repetiu calmamente, mas foi como se estivesse pensando em outra coisa, algo bem diferente do assunto em pauta. Ao me acompanhar educamente para fora da casa menos de cinco minutos depois, tentei me lembrar de que as pessoas se lamentavam de maneiras diferentes e que não cabia a mim julgar o modo como a senhora Austin reagia a notícias revoltantes. Afinal de contas, eu não estava sendo paga para contemplar as várias emoções que toda pessoa sentia, mas para relatar minhas constatações e ir embora, que foi exatamente o que fiz. Porém, isso não me impediu de imaginar que diabos estava acontecendo naquela casa depois que ela fechou a porta. Quando cheguei em casa e tirei minha calça e o twin set, notei o cartão de visita de Jamie, ainda em cima da minha cômoda, onde eu havia deixado no dia anterior. Ah, é mesmo, lembrei a mim mesma, como se eu não tivesse socado insistentemente a ideia no fundo da minha cabeça pelas últimas 24 horas. Eu ia cancelar nosso encontro. Peguei o cartão novamente e fiquei olhando para o número. Peguei meu celular e fiquei segurando-o com força. Vá em frente, repeti para mim mesma. Você sabe que é o melhor a fazer. Comecei a discar o código de área, mas meus dedos pareciam pesados e quase dormentes. Eu estava com dificuldade de apertar as teclas certas. Quando ia digitar o número 4, meu dedo escapava para o 5. Quando é que as teclas deste celular ficaram tão próximas umas das outras? Apertei em “limpar” e comecei de novo. Depois de entrar o último dígito, examinei o número completo na tela do meu celular. Meu dedo estava a postos e pronto para apertar a tecla verde “ligar” como um dedo no gatilho. É fácil, falei para mim mesma. Eu apenas pressionaria “ligar”, ele atenderia e eu simplesmente diria algo do tipo “lamento, minha mãe está doente... em Guam, e vou me mudar para lá por sabe-se lá quanto tempo...”. – Não! – falei em voz alta. – Chega de mentiras. “Me desculpe, minha vida está complicada demais agora. Acho que não devo lhe arrastar para dentro dela”. Perfeito: sincero, verdadeiro, indolor... teoricamente. Respirei fundo e comecei a pressionar a tecla verde. E foi aí que a campainha tocou. Soltei meu dedo e olhei com curiosidade para o corredor. Enquanto ia até a porta, verifiquei meu relógio e aí lembrei que minha mãe, Julia e Hannah viriam hoje para me


levar para almoçar. Rapidamente, larguei meu celular e o cartão de Jamie na mesa da sala de jantar e fui até a porta. – Olá! – falei, tentando parecer animada e descansada. Afinal de contas, é assim que as pessoas normais ficam aos domingos de manhã, não é mesmo? Relaxadas, calmas, curtindo o fim de semana, lendo o jornal, talvez até assistindo a um filme na TV. Hannah me deu um abraço rápido e depois passou por mim para fazer o que sempre fazia quando vinha à minha casa: explorar meu closet. – Nossa – ouvi ela gritar do meu quarto alguns segundos depois enquanto eu abraçava minha mãe e Julia. – Adorei essa saia! – Ótimo – disse Julia, revirando os olhos. – Agora é só o que vamos ouvir no caminho para casa. Sorri educadamente para ela. Julia entrou e deu uma olhada em volta, julgando tudo em silêncio com seus olhos. – Hmm. É maravilhoso. Eu sempre me esqueço como este lugar é branco. Mordi meu lábio para não soltar uma resposta sarcástica, sabendo que não seria bom e não daria em nada. – Quem é Jamie Richards? – ouvi minha mãe perguntar em um tom muito interessado. Virei minha cabeça na hora e vi minha mãe segurando o cartão de visita de Jamie, examinando-o com grande interesse. – Calloway Consultoria – ela leu o cartão em voz alta e, em seguida, levantou a cabeça. – Um parceiro de negócios? Encolhi os ombros e resolvi não dar importância. – Não, é só um cara com quem estou saindo. Os rostos delas se iluminaram imediatamente. Quase dava para ver as silhuetas de futuros filhos aparecendo nas pupilas da minha mãe. De repente, desejei ter simplesmente mentido e dito que era um parceiro de negócios. Tentei disfarçar. – Não é nada sério. Não acho que tenha futuro. Onde vocês querem almoçar? – Quantas vezes vocês saíram? – perguntou Hannah, sentando-se no sofá. Ela se ajeitou para ficar confortável, como se estivesse se preparando para assistir a filme que queria ver há meses. Só o que faltava era um grande balde de pipoca. – Sabem, não quero falar sobre isso – respondi, indo até minha mãe e retirando calmamente o cartão branco de seus dedos bem agarrados, que instintivamente apertaram o que agora tinha se tornado um raio de esperança pequenino, mas otimista. Eu não via nada bom em lhes contar sobre Jamie já que, sem dúvida, iria terminar com ele. Por que deixá-las empolgadas? Minha vida não tinha espaço para um homem. Na verdade, eu nem sabia por que tinha aceitado sair com ele para começo de conversa. Seria uma distração bonita para a minha atribulada existência? Que coisa patética de se fazer. Mas eu sabia que minha família nunca entenderia meu raciocínio. “O que tem de tão complicado na sua vida?”, Julia debocharia. “Você não pode ignorar seus problemas com seu pai para sempre”, alertaria minha mãe em tom materno. “Ele é feio, não é? Esse


é o verdadeiro motivo, né?”, Hannah especularia com ingenuidade, extremamente orgulhosa por ter revelado a verdade por trás do grande mistério que era minha vida amorosa. Elas ficaram olhando para mim. Uma mulher sendo julgada por sua vida. Será que agradaria ao júri com sua resposta aceitável? Ou seria mandada para a câmara de gás? Suspirei e ergui minhas mãos. – Duas vezes, está bem? Saímos duas vezes. E acho que não está dando certo. Agora podemos ir almoçar? – Sabe – começou Julia, pensativa. O olhar em seu rosto dava a entender que estava elaborando algo que, na cabeça dela, seria tão significativo quanto o mais novo avanço científico na pesquisa contra o câncer. – Dois encontros me parece um número muito familiar. – Como assim? – perguntei com verdadeira curiosidade. – Bem, todos os seus supostos “relacionamentos” duram cerca de dois encontros, não é? Os membros do júri olharam para mim com caras que diziam “ela tem razão, Jen”. Pega no flagra! Julia tinha acertado na mosca. Todos os meus supostos “relacionamentos” realmente duravam dois encontros, mas eu não podia lhes dizer que eles nunca existiram. Os homens fictícios do meu passado geralmente passavam por dois encontros até eu inventar um motivo para tirá-los da roda, pois sempre achei que dois encontros era um tempo longo o suficiente para que ninguém argumentasse que eu não tinha dado tempo o bastante para causar uma boa impressão e curto o bastante para ninguém se magoar. Enquanto eu pensava na observação de Julia, subitamente me senti muito mal por querer cancelar meu terceiro encontro com Jamie. Ele era o primeiro cara “de verdade” de quem falei para elas e parecia que meu estigma artificial dos “dois encontros” tinha mesmo se manifestado na minha vida amorosa real. Isso não podia ser saudável. Mas também, estava começando a ficar óbvio que “saudável” definitivamente não era a melhor palavra para descrever nenhum aspecto da minha vida. – Não sei do que ela está falando – respondi descaradamente. – Jamie é diferente. Ele não é como os outros. Isto é, ele é real. – Para começar – continuei, à beira da divagação –, ele me levou para jogar golfe no nosso primeiro encontro, e comemos cachorros-quentes. Só não acho que eu... – Que fofo! – interrompeu Hannah. – Não é fofo? – ela indagou ao resto do grupo. Sorri comigo mesma. Na verdade, era fofo, sim. Tive um flashback instantâneo de nós dois sentados naquele banco perto da barraca de lanches, comendo nossos cachorrosquentes e fazendo piadas sobre suas habilidades no golfe (ou a ausência delas). Quase soltei uma risadinha ao lembrar. – Parece encantador – minha mãe observou com satisfação.


– É – admiti suavemente, sentando-me ao lado de Hannah. – Ele também é muito engraçado – continuei enquanto um surto de entusiasmo inesperadamente tomava conta da minha voz. – Ele brinca de me chamar de Jennifer H., como faziam comigo na escola, porque, quando o conheci, eu não queria lhe dizer meu sobrenome. Ri sozinha, como se não houvesse mais ninguém na sala e, por um instante, não havia ninguém. Não sei quanto tempo passei ali falando de Jamie para aparentemente ninguém, mas repeti tudo: sua idade, seu emprego, como nos conhecemos, nossa “permanência” prolongada na pista do aeroporto, como era fofo ele me provocar por eu ter um Palm Pilot, tudo. E, quando finalmente parei, eu me dei conta de que todos os olhos estavam em mim. Elas queriam, desejavam mais. Corei ao ser inundada por uma sensação estranha e desconhecida. Era sinceridade. Tinha que ser, não podia ser outra coisa. Eu tinha conversado com minha família por uns bons dez minutos direto sem uma única mentira sair da minha boca. Foi maravilhoso conversar com as pessoas que amava e lhes contar tudo, sem histórias, sem detalhes inventados, só eu. Foi libertador. Respirei fundo e arrisquei olhar para seus rostos pasmos. Eu sabia que minha mãe estava pensando no casamento, Hannah estava pensando no nosso primeiro beijo e como era a sensação de ter a língua de outra pessoa na sua boca, e Julia ainda estava se gabando em silêncio por ter acertado ao apontar um dos meus defeitos inerentes. Porém, não importava no que estavam pensando, mas, sim, que eu finalmente tinha lhes contado a verdade, toda a verdade e nada além da verdade. E tudo o que eu queria era lhes contar mais, mas não podia – não ainda. Talvez nunca. Eu não podia perder o controle. Dizem que tudo pode ser viciante. Agora eu acreditava. A verdade foi a droga mais viciante que experimentei. Minha família podia lidar com alguns encontros; uma carreira de inspeções de fidelidade, nem tanto. Por isso, guardei essa parte comigo e tentei aproveitar o meu momento de pura honestidade, enquanto durasse. – Então, conte: por que não está dando certo? – minha mãe perguntou, completamente confusa. Depois de me ouvir falar sem parar por tanto tempo, eu sabia que as coisas não estavam batendo. Na verdade, as coisas também não estavam batendo para mim. Quando pensava em Jamie, eu queria estar com ele o tempo todo. Mas quando pensava no resto, meu trabalho, as mentiras, a chantagem, a desonestidade, eu sabia que não deveria voltar a sair com ele. Agora, o único jeito de evitar uma longa discussão, que acabaria acalorada, sobre o futuro da minha vida amorosa era me esquivar completamente da pergunta. – Não sei – respondi. – Acho que teremos que ver. Isso pareceu satisfazê-las. A esperança em seus corações prevalecia sobre todo o meu cinismo. Nessa hora, meu celular do trabalho tocou. Todo mundo olhou e ficou observando o celular tocar como se nunca tivesse visto uma engenhoca tão futurista


antes. – Trabalho – falei, fingindo estar aborrecida ao atender; fui logo para outra sala. Como eu disse, enquanto durasse. – Alô? – eu disse o mais baixo que pude no telefone sem parecer estar tentando cochichar. – Sim, alô, Ashlyn? Era uma voz feminina, gentil e sensível com apenas um pequeno indício de mágoa. – Quem fala? Houve uma pausa do outro lado da linha. – Hã, meu nome é Karen... Howard – disse ela, com a voz hesitando um pouco, que era um tom comum entre as mulheres que ligavam para este número. – Peguei seu número com uma amiga. – Sim, senhora Howard. Como posso lhe ajudar? – Bem, como pode imaginar: é sobre meu marido. Porém, eu preferia discutir isso pessoalmente. Os telefones me deixam nervosa. Pode me encontrar? – Eu geralmente pego mais detalhes pelo telefone antes de aceitar me encontrar em pessoa. – Certo – ela disse com um ar de decepção. – Claro. – Depois de respirar fundo, falou – Acho que ele está diferente, distante, sempre volta para casa tarde, às vezes nem volta. E só achei... – sua voz foi sumindo, como se estivesse perturbada demais para continuar ou não estivesse pronta para ouvir a si mesma falando aquilo em voz alta, porque significaria que estava admitindo derrota. – Claro, posso me encontrar com você – preenchi solidariamente o silêncio constrangedor da conversa. Ela soltou um grande suspiro, aliviada por eu não tê-la forçado a completar aquele pensamento terrível. – Obrigada. – Quando fica bom para você? Houve um instante de silêncio do outro lado, e presumi que ela estava verificando a agenda. – Bem, meu marido tem uma viagem de negócios daqui a algumas semanas, por isso algum dia antes disso, imagino. – Tenho um dia livre no final da semana. Sexta fica bom? – Oh, seria perfeito – ela respondeu. – Pode ser às oito? – Da noite? Seu marido não vai estar em casa? – Hã, não – ela respondeu rapidamente. – Ele vai trabalhar até tarde. – E soltou um suspiro pelo telefone. – De novo. – Entendo. Está bem. Às 20h então. Anotei os contatos e o endereço de Karen Howard e desliguei. Voltei para a sala e vi que a conversa tinha continuado sem mim. Julia, é claro, estava no controle e estava discutindo com exaltação o fato de os reality shows estarem corrompendo a juventude do


país. Hannah parecia estar mais do que entediada. Registrei em silêncio meu compromisso com a senhora Howard no meu celular e o coloquei dentro da minha bolsa. – Então, onde vamos almoçar? – perguntei, batendo palmas para chamar a atenção de todas. Hannah deu um pulo, animada, como se eu tivesse acabado de salvá-la de uma ida ao dentista. Minha mãe e Julia também se levantaram e esticaram as pernas. – Sim – minha mãe respondeu vindo até mim e colocando seu braço em volta dos meus ombros. – Aonde vamos, Jen? Afinal, esta é a sua... quebrada. – Os reality shows estão corrompendo nossa juventude? – falei sarcasticamente para Julia. – Estão corrompendo nossos pais, isso sim. Mãe, você não pode mais assistir. Tranquei a porta e levei todo mundo para o elevador. – Que tal comida mexicana? Quando Julia começou a nos contar a história sobre a última vez que ela comeu comida mexicana estragada, Hannah fez um gesto para eu me aproximar dela. Sorri e me abaixei para alcançar o rosto dela, para que pudesse contar o segredo picante que ela tinha guardado para a semana. – Tenho uma pergunta – ela falou timidamente. As portas do elevador se abriram, e minha mãe e Julia foram na frente enquanto fui devagar para ficar atrás de Hannah. – O que é? – cochichei, esperando uma pergunta sobre sexo em geral ou uma pergunta sobre a minha vida sexual especificamente. Esses geralmente eram os assuntos das perguntas “secretas” de Hannah. Ela olhou para as nossas mães à frente, certificando-se de que estavam a uma distância segura e aí cochichou de volta: – Quem é Ashlyn?


25 Peixe cru... problemão na certa Congelei na hora. O resto do grupo continuou na frente sem desconfiar, mas Hannah e eu ficamos para trás enquanto eu me esforçava para inventar algo para dizer. Ela devia ter ouvido parte da minha conversa telefônica. Eu tinha que inventar uma mentira, e rápido. A essa altura do campeonato, eu já deveria estar craque nisso, mas raramente era cobrada tão inesperadamente, sobretudo pela sobrinha que eu amava tanto e para quem, mais do que ninguém, eu detestava ter que mentir. – Hã – hesitei. – Ashlyn é... minha chefe do trabalho. Ela saiu de férias este fim de semana, mas não quer que nenhum cliente saiba, por isso pediu para eu atender suas ligações como se fosse ela. Suspirei alto. Nada mau, nada mau mesmo. Olhei para a frente, por cima da cabeça de Hannah e vi Julia e minha mãe aproximando-se do Chrysler de Julia estacionado na rua. Comecei a andar na direção delas até que vi o rosto de Hannah, que agora parecia estar mais confusa do que nunca, como se minha resposta não tivesse esclarecido nada sobre o assunto, mas tinha deixado as coisas ainda mais obscuras. O que havia de errado com ela? Aquela era uma explicação perfeitamente verossímil do motivo de eu me chamar Ashlyn ao telefone. Aí parei novamente. Um calafrio passou pelo meu corpo todo, minhas pernas e braços pareciam pesar uma tonelada. Eu não cheguei a dizer o nome “Ashlyn” ao telefone. Aliás, eu procuro não mencioná-lo. Em um pânico mudo, rapidamente relembrei a conversa com Karen Howard na minha cabeça. “Sim, alô, Ashlyn?” foi o que ela disse, ao que eu respondi “Quem fala?”. O nome “Ashlyn” não chegou a sair da minha boca. Olhei para Hannah, que estava obviamente relembrando os fatos em sua cabeça também, tentando entender minha explicação falsa e encaixar nas peças desconhecidas que estavam boiando em volta dela. Ela sabia que minha explicação tinha que se encaixar de algum jeito. Afinal, por que eu mentiria para ela? Minha mão estava tremendo e carinhosamente pousei-a no ombro dela e fingi que não havia nada errado, como se eu respondesse a perguntas sobre identidades secretas todos os dias. – Hã, Hannah, onde você ouviu esse nome? – perguntei, com medo da resposta. Ela mordeu o lábio e olhou para mim, apertando os olhos por causa do Sol que estava entrando pelas janelas do saguão do meu prédio. – Na carta. De repente, parecia que eu ia vomitar. A mão que eu havia pousado suavamente no ombro dela para tranquilizá-la agora estava sendo usada como suporte para evitar que


eu caísse no chão. Respirei profundamente e tentei me recompor. – Que carta? – consegui perguntar com uma falsa despreocupação. – Recebi uma carta outro dia, uma de verdade, do correio. – De quem? – soltei desesperadamente. Lá se foi minha calma e serenidade. Ela encolheu os ombros com indiferença, certamente sem entender o terror total dessa situação. – Não sei – ela falou, mas estava começando a sentir que havia algo de errado. Ela olhou para mim novamente. – Qual é o problema? – O que dizia a carta? – insisti com extrema urgência. Ela torceu a boca ao tentar se lembrar da carta misteriosa. – Hã, era uma foto, tipo cópia de uma foto. Sabe, de uma máquina de fotocópias. Assenti com a cabeça. – De quem? – De você – ela disse como se fosse óbvio; afinal, de que outra pessoa seria a foto? Assenti novamente e prestei atenção, tentando manter minha respiração estável e equilibrada. Agora não era a hora nem o lugar para começar a hiperventilar. – Você estava, tipo, conversando com um cara, parecia que você estava num restaurante ou num bar – ela acrescentou, contente com suas excelentes habilidades de lembrança. – Arrã – falei, com a garganta mais seca a cada segundo que passava. – E atrás dela dizia “O nome dessa mulher é Ashlyn. Ela se parece muito com a sua tia Jennifer, não acha?”. Passei os dedos nos meus cabelos e fechei meus olhos. – Ashlyn é um nome bonito – disse Hannah, como se isso fosse ajudar a me animar. – Você mostrou a foto para sua mãe? – perguntei desesperadamente. – Não – respondeu Hannah, ofendida com a simples sugestão de que ela mostraria sua correspondência particular para a mãe. – Ótimo – falei, dando um tapinha em seu braço. – Não vamos mostrar isso nem contar para ninguém, está bem? – Minha voz estava esganiçada, como se fosse surtar a qualquer momento. E talvez surtasse mesmo. – Está bem – concordou Hannah ao sairmos do prédio e começarmos a ir até o carro. – Mas como é que ela pode ser sua chefe? – perguntou. Parei e olhei para ela. – Não é. Ela não é... ninguém. É que eu gosto de usar esse nome às vezes – falei, fingindo não dar importância, esperando que esse raciocínio fosse suficiente, mas sabendo muito bem que nunca seria. Hannah olhou para mim como se estívessemos nos conhecendo pela primeira vez. Seus olhos imploravam por mais uma explicação, que traria de volta a Jennifer Hunter que ela conhecia e amava. – Mas por que alguém enviaria uma...


– Sabe de uma coisa? – comecei, com minha voz falhando levemente. Eu sabia que precisava de mais tempo para forjar uma história acreditável que colocasse os pingos nos “is” da cabeça de Hannah... e da minha. E foi exatamente o que consegui quando falei: – Eu te explico depois. É um segredo importante e picante que não quero que a minha mãe nem a sua fiquem sabendo ou ouçam sem querer. Isso pareceu deixá-la contente: um grande sorriso apareceu em seus lábios e ela prontamente os selou, fingindo estar fechando um zíper neles e trancando com uma chave. Depois, ela colocou a “chave” no bolso para guardar em segurança. Tentei agir como se também estivesse me divertindo com esse momento imaturo de segredinhos ao aprovar o gesto dela com a cabeça, mas minha mente estava a mil. Raymond Jacobs já estava começando a fase seguinte de seu “plano”. Mal se passara uma semana! Achei que ia ganhar mais tempo, mas parece que essa era a regra número um da chantagem: não havia regras. Entramos no carro e seguimos até meu restaurante mexicano preferido para almoçar. Hannah parecia satisfeita em seu assento à janela, olhando distante as ruas de Brentwood que passavam e talvez fantasiando sobre o que poderia ser meu grande segredo: talvez um caso secreto com o jardineiro que ela viu quando assistimos à Desperate Housewives juntas na minha casa, porque a mãe dela nunca a deixava assistir em sua casa; ou que eu estava levando uma vida paralela com um marido e dois filhos que moravam em Oregon e que eu via somente duas vezes por mês. Independente do que fosse, ela sabia que seria interessante. Ao olhar pela minha janela, meus pensamentos estavam bem longe de jardineiros e donas de casa desesperadas. Tudo o que eu conseguia pensar era se Raymond Jacobs tinha ou não conhecimento sobre Jamie. E, se não soubesse ainda, certamente não levaria muito tempo até descobrir. – Então, terça ainda está de pé? – Jamie perguntou ao ligar mais tarde, à noite. Pensei em seu cartão de visita em cima da minha mesa de jantar, nas minhas tentativas fracassadas de cancelar nosso encontro porque eu sabia que minha vida era complicada demais para incluí-lo e no meu medo de que Raymond Jacobs fosse descobrir que havia uma outra criptonita e explorá-la também. Mas eu sabia que havia apenas uma resposta para a sua pergunta, que era sim, porque Jamie era minha fuga. Estava ficando cada vez mais claro, a cada momento que eu passava com ele e quando vi seu rosto ao abrir a porta de casa na terça à noite, que isso se confirmava. Eu nunca tinha tido uma fuga antes. Passei os últimos dois anos dentro de uma prisão dos meus próprios medos e pensamentos, plenamente consciente de que havia uma chave para destrancar a porta, mas com tanto medo do que havia do outro lado que simplesmente optei por ficar trancada. E, assim que percebi o que era essa estranha sensação de libertação, eu sabia que queria mais dela, sabia que a queria o tempo todo. As peças estavam se encaixando. As placas das ruas estavam levando a uma única coisa:


eu queria sair. Havia um nome para essa minha doença: estar nas nuvens. Imagino que tenha esse nome porque a gente sente que está flutuando, e eu estava. Eu estava flutuando, bem acima da minha vida cotidiana, que parecia tão pequenina daqui de cima, tão tranquila, tão serena. Por um instante, realmente achei que era. Porém, esse era o problema de estar nas nuvens: podia ser decepcionante. O simples estado de êxtase extremo podia fazer com que a gente ignorasse coisas que normalmente não ignoraria. Por exemplo, os vários olhares curiosos quando Jamie e eu entramos no restaurante japonês naquela noite. Eu mal os tinha notado. E os cochichos que se espalharam pelo recinto enquanto nos sentávamos? Mal os ouvia. Eu tinha que estar me perguntando por que estavam olhando. Sobre o que estavam cochichando? Será que tem alguma coisa presa no meu vestido? Mas, como eu disse, tudo era benigno quando a gente observava do alto de uma nuvem. E, na minha opinião, estavam simplesmente comentando como eu e Jamie formávamos um casal bonito e como parecíamos felizes juntos, como eu vinha fazendo a cada minuto da noite. Por isso, simplesmente notei a existência das pessoas e me esqueci de tudo assim que Jamie olhou para mim do outro lado da mesa e sorriu. – Você gosta de sushi, né? – Não confio em ninguém que não goste – respondi. – É assim que se fala, minha garota. Meu coração se revirou. Minha garota? Isso é posse? Propriedade? Exclusividade? Duas semanas atrás, um comentário desses teria me feito fugir na hora, mas hoje o som de suas palavras me faziam querer pular em seus braços, envolvê-lo com minhas pernas e nunca mais descer. Claro que eu não faria isso, pois ficaria com cara de idiota. Com Jamie, eu não precisava ser outra pessoa a não ser eu mesma. Afinal, convenhamos, eu nunca entendia os homens. Esse era o ponto forte de Ashlyn. Eu ficava em casa nas noites de sábado e assistia a um programa ruim qualquer na TV que os canais programavam para mulheres solitárias que ficavam em casa nas noites de sábado. Ashlyn era a que atraía os olhares, ao passo que eu mal era notada. Ashlyn conversava sobre todos os assuntos interessantes, tinha histórias impressionantes para contar. Meu emprego era fazer contas. Entretanto, Jamie gostava de mim. Ele ria das minhas piadas, elogiava minhas roupas e me deixava com as pernas bambas quando me beijava. Na cabeça dele, aquela outra pessoa, aquela que havia me metido em tantos problemas nas últimas semanas, nem existia. – Então, do que você gosta? – Jamie me perguntou olhando o menu. – Hã, vejamos: homens altos, carros velozes, música alta e drogas alucinógenas – respondi, contando a lista nos meus dedos. Ele olhou por cima do menu. – Droga – disse ele com um toque debochado de decepção na voz. – E esqueci os cogumelos na outra calça.


Suspirei alto. – Acho que vou querer um sushi de atum picante então. Larguei meu menu na mesa e olhei para ele, mas, não sei por quê, meus olhos passaram reto por ele e pararam nos dois homens da mesa ao lado. Eles estavam olhando para nós e trocando comentários entre si. Aí um dos homens tirou o celular, digitou algumas teclas, mostrou a tela para o outro homem e ambos olharam para mim, assentindo com a cabeça um para o outro. Meu coração disparou. Como eu não tinha pensado nisso antes? Os olhares? Os cochichos? Era tão óbvio. Todas essas pessoas tinham visto a porra do site! Todas elas haviam recebido aquele temível link e agora estavam me reconhecendo da foto e me viram entrando no restaurante, pasmas e com os olhos esbugalhados, como se estivessem apaixonadas, e elas... Ai, meu Deus! Uma ideia preocupante me ocorreu. Elas acham que eu estou numa missão... com Jamie! – O que houve? – perguntou Jamie, sentindo minha alteração de humor e virando-se para trás para ver o que eu estava olhando. – Tem uma celebridade aqui? Porém, eu mal o ouvia. Fiquei paralisada na minha cadeira, congelada, em pânico. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Como é que eu ia conseguir sair dessa? E, se conseguisse, o que esperava fazer? Comer em casa pelo resto da vida? Usar uma peruca toda vez que saísse na rua com Jamie para que ninguém o parasse e lhe contasse a verdade? Meus olhos se arregalaram ainda mais: um dos homens estava se levantando e vindo na direção da nossa mesa! Pisquei, esperando, – esperando, não, torcendo – que alguém tivesse posto uma droga alucinógena no meu chá verde. Isso não podia estar acontecendo. Eu sabia que tinha duas escolhas: esconder-me atrás do menu a noite toda e torcer para que não fosse notada... ou fugir. E achei que, como as garçonetes geralmente vinham e anotavam nossos pedidos, eu não tinha escolha. – Sabe, por falar em celebridades, eu estava almoçando com um colega, e Jennifer Garner estava sentada na mesa ao lado – continuou Jamie, alheio a tudo. – E uns turistas entraram no restaurante e... – Sabe de uma coisa? Não estou me sentindo muito bem – interrompi repentinamente, acrescentando um tossida clichê para dar mais credibilidade. – É mesmo? – perguntou Jamie, preocupado. – Tem alguma nova epidemia por aí? Agarrei minha barriga. – Talvez. Acho melhor eu ir embora. O peixe cru provavelmente não vai ajudar. – Claro, se é o que quer – sua voz foi extremamente amável. Antes que ele pudesse terminar a frase, eu estava de pé, empurrando a cadeira, arrastando-a ruidosamente no chão. – Ótimo, vamos embora – falei com uma voz que eu esperava parecer calma e serena, mas o mais provável era que estivesse à beira de um ataque.


Jamie tirou o guardanapo do colo rapidamente e se levantou. – Tem certeza de que está bem? Devo levá-la ao hospital? – Não! Vou ficar bem. Só preciso deitar um pouquinho. Peguei o braço dele e literalmente puxei-o para a porta dos fundos do restaurante, a direção oposta do homem ameaçador que estava indo à nossa mesa. – Mas a porta fica para aquele lado – apontou Jamie, colocando a mão delicadamente no meu braço e conduzindo-me suavemente para a outra direção. Minha respiração se acelerou quando vi o homem chegando mais perto. Eu precisava inventar um motivo para sair pelos fundos ou até pela janela do banheiro, mas não havia. Pelo menos, nenhum que parecesse lógico e convincente. Não havia escapatória. Nós iríamos ficar cara a cara. Os olhos do homem miraram os meus, e um sorrisinho apareceu em seu rosto. Ele sabia quem eu era – e que eu estava tentando fugir. – Com licença – ele parou na nossa frente. – Você me parece muito familiar – ele disse, olhando bem para mim. – Sério? – falei como quem não quer nada, tentando passar por ele, com Jamie a tiracolo. – Ouço isso o tempo todo – apontei de qualquer jeito para minha cara. – Um rosto comum. Mas ele voltou a ficar na nossa frente. Ele olhou para Jamie com cautela, como se estivesse alertando-o com um olhar. Cuidado, essa mulher não é quem ela alega ser. – Ashlyn, não é mesmo? – o homem perguntou. Puta merda. Jamie olhou para mim, para o homem e depois para mim de novo. A perplexidade no rosto dele era evidente. Afinal, convenhamos, não é todo dia que se sai com uma mulher que é confundida com outra de nome totalmente diferente. Tentei respirar profunda e pausadamente enquanto estampava uma expressão de ignorância no rosto, como se o nome “Ashlyn” fosse tão estranho quanto o de uma bailarina russa desconhecida citada no programa de O Lago dos Cisnes. – Lamento – falei, pedindo desculpas com um sorriso. – Você deve ter me confundido com outra pessoa. Dei outro passo rumo à segurança da porta. Jamie seguiu logo atrás, claramente meio confuso com a situação toda e provavelmente ansioso para sair dali para poder me perguntar a respeito. – Acho que não – disse o homem, pegando meu braço. Fechei meus olhos numa derrota silenciosa. Era agora, o fim estava próximo. O Sushi Haku da Rua Principal seria eternamente conhecido como a minha Waterloo. Ele olhou para Jamie. – Lamento ter que lhe contar isso, mas... Aí, de um jeito inesperado, a mão de Jamie foi diretamente para a dele e começou a retirá-la “gentilmente” do meu braço. – Acho que você se enganou – repetiu Jamie, olhando seriamente para o homem. – Por que não a deixa em paz?


O homem deu um passo para trás e levantou as mãos. – Tudo bem, cara. É você que está ferrado, mas não diga que ninguém tentou lhe avisar. E, assim, ele se virou, enfiou as mãos no bolso e voltou para sua mesa. – Uau, o ar fresco está bom. Já estou me sentindo melhor – falei para Jamie depois que saímos do restaurante e andamos até o estacionamento. Eu esperava que houvesse uma chancezinha minúscula de que talvez ele não perguntasse. – O que foi aquilo? É, eu sabia que era uma possibilidade remota. Olhei nos olhos dele, cheios de uma curiosidade inocente, desejando saber tudo sobre mim, principalmente as coisas que explicassem por que alguém me confundiria com uma mulher chamada Ashlyn e depois tentasse soltar uma espécie de alerta sobre a minha pessoa. Senti uma pontada de culpa, seguida de um pensamento inevitável. Eu tinha que contar para ele. Se nossa relação fosse continuar, se eu fosse dar uma chance, ele teria que saber. Eu teria que ser 100% honesta com ele. Engoli em seco e encostei na lateral do carro dele. – Jamie – comecei. Pude sentir a verdade se intensificar dentro de mim. Havia chegado a hora de tirar tudo a limpo, de revelar tudo e finalmente começar um relacionamento sincero e verdadeiro que eu sabia que teríamos se tívessemos a oportunidade. – Sinceramente, não sei quem era ele – terminei com um suspiro. Tudo bem, acho que ainda não. – É verdade, eu tenho um rosto comum. As pessoas me confundem o tempo todo. Olhei para ele buscando um sinal de convicção. Ou Jamie estava satisfeito com a minha mentira descarada ou não estava a fim de insistir no assunto. – Hmm – respondeu. – Interessante. Então, como está se sentindo? Quer que a leve para casa? Por mais que odiasse ter que terminar cedo a minha noite com Jamie, resolvi que seria inteligente continuar com a farsa “estou ficando doente”, para que não lhe desse outros motivos para ficar desconfiado de mim. Assenti fracamente e falei: – Acho que seria uma boa ideia. Ele me deu um beijo rápido na bochecha e tocou meu rosto. – Tudo bem, linda, mas tenho que perguntar uma coisa primeiro. Ah, ótimo, pensei. Ele não vai deixar passar tão fácil. Vai ficar insistindo até eu me entregar, até eu ceder à pressão e contar tudo aqui e agora. – O que é? – indaguei sem pretensão. – Bem, minha empresa vai me mandar para Paris daqui a algumas semanas e... – E você quer que eu regue suas plantas? – perguntei com um sorrisinho sarcástico. Ele riu. – Não, mas não seria estranho se eu pedisse? Sorri, sentindo-me muito aliviada com a mudança de assunto. – Na verdade, quero que venha comigo.


Esses são os momentos da vida em que você espera que a expressão do seu rosto manifeste algo como entusiasmo, empolgação, euforia, uma dessas palavras começadas pela letra “e”. Mas comigo não foi assim. Eu fiquei mais muda de choque, pasma, como se estivesse esperando que fosse uma piada, uma pegadinha. – I-i-ir com você a Paris? – finalmente falei. Ele sorriu e confirmou animado com a cabeça. – Oui. – Está falando sério? – falei com uma voz transbordando de dúvida. – Sim, estou. Quer vir junto? – Hã, claro! – respondi imediatamente, sem pensar, sem refletir; na verdade, sem fazer nada. De repente, minha maladie imaginaire [doença imaginária] havia desaparecido. Fiquei pulando empolgadíssima, como uma menininha que acabou de ficar sabendo que vai para a Disney pela primeira vez. E, francamente, não conseguia me lembrar da última vez que fiquei pulando... bem, sem uma corda nas mãos. – Não acredito! Paris? – Estou contente por você estar animada – Jamie declarou. – Está brincando? É Paris! Adoro Paris! Tradução: Adoro Paris quando não estou lá com o marido de outra pessoa. Jamie pegou minha mão e disse: – Ótimo. Ele olhou nos meus olhos por um longo instante e aí acrescentou: – Sinceramente, quando me falaram que eu ia, pensei em você. Não sei por que não conseguia me imaginar estar lá sem você. É estranho? Em silêncio, fiz que não. Essa era a parte mais estranha de todas: não era estranho. E, acredite, eu sei o que é estranho. – Vamos – ele falou, dando uma apertada na minha mão. – Vou levá-la para casa e colocá-la na cama. Eu estava radiante ao me sentar no carro de Jamie, que fechou a porta para mim. Era o sorriso de uma pessoa que não estava sendo perseguida por todos os espíritos malignos da caixa de Pandora, que podia simplesmente sorrir, sabendo que o homem por quem estava se apaixonando iria levá-la a Paris. E, nessa hora, nesse momento, no estacionamento de um restaurante japonês da moda em Santa Monica, o mundo desacelerou, a porta da minha prisão foi destrancada... e meu coração finalmente se abriu.


26 O último tango antes de Paris O momento não poderia ter sido mais perfeito. Eu tinha um segredo para contar a Jamie, e ele tinha me convidado para ir à cidade mais romântica do mundo. Não havia lugar e hora melhores para contar. Afinal, caminhar à beira do Sena na cidade do amor, sob a luz da Lua e a água correndo ao lado, fazia qualquer segredo sujo e obscuro parecer poesia, até o meu – ou, pelo menos, era o que eu esperava. Além do mais, ele não ficaria bravo comigo, não se, depois de contar a história chocante e desconcertante do meu passado questionável, contasse a decisão ainda mais chocante e desconcertante que eu tinha acabado de tomar em relação ao meu futuro, que eu agora tinha orgulho de poder compartilhar com meus três amigos. – Acabou – falei para um John impaciente, uma Sophie ansiosa e uma Zoë aparentemente entediada no Urth Café, almoçando sanduíches e saladas caros. – Você quer dizer com Jamie? – perguntou Zoë em pânico, saindo do tédio. – Mas achei que você ia a Paris com ele! Balancei a cabeça. – Não, a gente vai. E, por um breve momento, eu me perdi em mais um dos meus devaneios sobre eu e Jamie em Paris, tomando vinho e comendo queijo num piquenique no gramado da Torre Eiffel. Eu vinha sonhando assim desde que ele me convidara para ir, mas tenho que admitir que a maioria dos sonhos era mais excitante do que queijos e vinhos. – Então o que acabou? – perguntou Sophie, preocupada, puxando-me de volta ao presente. – Vou largar o trabalho – declarei. O som da minha própria voz, anunciando aquilo em voz alta, criou um surto de energia vibrante que correu pelo meu corpo. Foi a primeira vez que me ouvi falando aquilo. Apesar de ter tomado a decisão algumas noites antes, eu não tinha certeza de tê-la absorvido totalmente. Fiquei parada, esperando pacientemente pela rodada previsível de “o quê?”, “hein?”, “está falando sério?”. Contudo, para a minha surpresa, isso não aconteceu. Os três ficaram ali, parados, olhando para mim, completamente confusos. Aí, meio que se entreolharam, esperando que um membro do grupo esclarecesse alguma coisa sobre essa decisão aparentemente inesperada, como se talvez eu tivesse contado para que estava guardando segredo. Porém, eles balançaram negativamente a cabeça e encolheram os ombros, dando a entender que era novidade. Sophie foi a primeira a falar. – Você vai largar para valer? Tipo...


Confirmei com a cabeça. – Tipo não vou aceitar mais missões. Não quero mais maridos, noivos ou namorados infiéis. Estou pondo um fim. Em tudo. – Mas e a sua saga? A missão da sua vida? Toda aquela pretensão de ser uma superheroína que você me contou? Sophie, que agora era uma beneficiária direta da minha batalha contra o mal, tinha se tornado uma ávida defensora recentemente. Claro que a sua pergunta havia passado pela minha cabeça. Aliás, era a coisa que mais me segurava durante meu processo de tomada de decisão. Na verdade, foi a única coisa que me segurou. Balancei minha cabeça. – É que ficou excessivo, não aguento mais. Até o Super-Homem tem que se aposentar um dia e dizer “bem, dei o meu melhor. Espero ter feito diferença.” – Você certamente fez uma grande diferença! – disse Sophie com todo o apoio. Sorri. – Obrigada. Só que percebi que passar a minha vida toda cercada por homens infiéis não ia me dar a chance para me concentrar no fato de que há outros homens por aí que não traem. A gente atrai aquilo em que se concentra, sabem? – Como Eric – Sophie ficou radiante. Tomei um gole da minha água gelada e engoli com dificuldade, com a água ardendo na minha garganta. – Sim – falei rouca. – Como Eric. – Então é por causa de Jamie? – perguntou Zoë com ansiedade. Pude notar que ela estava tentando juntar todos os detalhes antes de se permitir ficar animada. Ela provavelmente teria dado uma excelente advogada. Provas primeiro; depois, um veredito emocionado. – Não totalmente – respondi, dando uma mordida no meu sanduíche de cogumelos portobello. – Não totalmente? – John implorou por um esclarecimento. Dei de ombros, como se tudo isso fosse manchetes do passado e, portanto, não era mais digno de fofoca. – Bem, quero dizer, tem um monte de coisas que anda acontecendo ultimamente. E aí, com todo o estresse e os segredos... – Que segredos? – Sophie perguntou. – Achei que você tinha nos contado todos os seus segredos. A culpa tomou conta de mim na hora, sabendo que ainda havia alguns segredos que nunca poderiam ser revelados. Não havia jeito de eu contar a Sophie que não realizei a inspeção de Eric. Olhei para o meu prato, evitando encará-la. – Contei. Estou querendo dizer os segredos que escondo da minha mãe, de Jamie, de todo o resto. – Então você vai contar tudo a eles? – confirmou Zoë com uma entonação de dúvida.


Hesitei um pouco. Eu não estava querendo contar. Tinha feito uma promessa a mim mesma para contar a Jamie quando estívessemos em Paris, mas, para o resto, eu meio que esperava que, se passasse a contar a verdade dali em diante, todas as mentiras do passado seriam absolvidas. Eu não queria começar a ser franca com todas as pessoas da minha vida. Bem, porque, sinceramente, eu queria que elas continuassem na minha vida. – Não sei. Acho que não – respondi com hesitação. – Seria legal não ter que contar mais nenhuma mentira... sabem, de agora em diante. – Bem, o que você vai fazer? – perguntou Sophie. – Para ganhar dinheiro e tal? Ah, ali estava: a pergunta de um milhão de dólares... literalmente. Eu ainda não sabia. Suspirei e dei outra mordida no meu sanduíche caríssimo, imaginando por mais quanto tempo eu poderia continuar mordendo sanduíches caríssimos. – Não sei. Tenho dinheiro poupado suficiente para me manter por uns seis meses. Acho que vou usar esse tempo para pensar. Os três assentiram com a cabeça quase simultaneamente. Pude notar que esse território era um mistério para todos. Meus problemas reais ainda eram bem novos e desconhecidos. Eles estavam acostumados a ouvir as conversas falsas de sempre, do tipo “tem uma pessoa do meu escritório que me dá nos nervos”, mas agora era diferente – e eles não faziam a menor ideia do que dizer. Por isso, falei novamente, listando todas as coisas em que estive pensando desde a outra noite. – Eu vou pegar uma última missão, e depois... – fiz uma pausa, deixando a ansiedade, a euforia e o puro terror da minha próxima palavra tomar conta de mim – ... acabou. Sophie tomou um gole de sua Coca Diet em silêncio. – O que vai acontecer quando as pessoas ligarem? Ah, sim, outro detalhe que eu tinha deixado passar. – Acho que vou jogar o celular fora, desligar o serviço, sei lá. Vou ficar com ele até resolver tudo, mas depois, vai direto para o lixo, junto com muitas outras coisas. Eu estava orgulhosa de como eu estava com tudo sob controle. Eu duvidava que houvesse uma pergunta que eles fizessem para a qual eu já não tivesse uma resposta e tomado uma decisão a respeito. – E aquele cara, Raymond Jacobs? – perguntou Zoë. – Você já pensou no que vai fazer com relação a ele? OK. Bem, esse era o único assunto que eu não tinha resolvido ainda. Baixei minha cabeça. – Ainda não sei o que fazer. Afinal, vou largar o trabalho, então ele não vai poder acabar com minhas futuras missões, mas ele sabe onde minha família mora. Ele até já entrou em contato com Hannah. – Você podia confessar tudo à sua família – Sophie sugeriu novamente, ainda se fixando na sua ideia de que a sinceridade é a melhor atitude. Fiz que não. – Não, de jeito nenhum. Eu seria deserdada. E eu nunca poderia explicar a Hannah. Ela


é muito ingênua e está começando a gostar de meninos. Além disso, um dos motivos mais importantes de eu estar largando o trabalho é para evitar que acabem descobrindo. Por isso, seria contraproducente contar. Sophie assentiu, relutante; ainda não estava totalmente convencida. Soltei um suspiro bem alto. – Bem, sei que vou pensar em alguma coisa, preciso pensar. Assim que pronunciei as palavras, senti-me desanimada. Será que eu teria realmente que transar com aquele asqueroso só para proteger minha família da verdade? E quem garantiria que ele cumpriria sua parte? Tinha que haver outro jeito – e eu estava determinada a achá-lo. – Então, qual é a última missão? – Zoë indagou. As palavras “última missão” soaram nos meus ouvidos como sinos de igreja num domingo de manhã. Será que realmente ia acontecer? Será que seria mesmo a última missão? A história toda parecia muito surreal. – Ainda não sei – respondi. – Vou me encontrar com ela amanhã, uma mulher chamada Karen Howard, uma coisa assim. Ela foi muito vaga no telefone, por isso vou ter que descobrir. No dia seguinte, minha mãe me ligou quando eu estava indo para a casa de Karen Howard para a nossa reunião pré-missão. – Você está ocupada? – ela perguntou carinhosamente. Olhei para a tela de navegação, que dizia “Tempo estimado até o destino: aprox. 7 minutos”. – Tenho alguns minutos – respondi ao fone. – Bem, estive pensando – ela começou. Assim que as palavras saíram da boca dela, eu sabia que coisa boa não era. Ultimamente, toda vez que minha mãe passava um tempo “pensando”, quase sempre acabava num ataque histérico: culpando-se pelos vários casos do meu pai, questionando sua capacidade de amar novamente, duvidando da possibilidade de alguém um dia amála. Nunca era uma coisa alegre quando minha mãe me ligava para pensar, e eu temia que hoje não seria diferente. – Sobre o quê? – perguntei como quem não quer nada, torcendo para que estivesse pensando apenas em entrar para uma academia e queria minha opinião sobre qual era a melhor. Hoje era para ser um dia feliz, um caso a comemorar, por assim dizer. Eu estava a caminho da minha última reunião com uma cliente e, de forma egoísta, eu não queria levar os problemas da minha mãe comigo. – Sobre o seu pai – ela falou sem jeito. E lá vamos nós. Respirei fundo. – Mãe, me desculpe. Estou indo para uma reunião, não acho que seja uma boa hora para falar disso. Vou ter que...


– Acho que você devia ligar para ele – interrompeu calmamente. Jurei ter ouvido mal. – Hein? – Seu pai, você devia ligar para ele, voltar a falar com ele, tentar reconstruir uma relação com ele. Minha cabeça viajou um pouco nessa hora e tive que pisar fundo nos freios para evitar bater no carro da frente. – Por que eu faria isso? – perguntei. – Porque você já ficou brava por muito tempo, e acredito que isso está causando um efeito colateral em você. Agora é hora de perdoar. – Perdoar? Depois de tudo o que ele fez? Minha mãe soltou um grande suspiro. – Ele não fez nada a você, querida. Ele a ama, sente saudade. Foi injusto cortá-lo da sua vida como você fez. Independente do marido ruim que foi para mim, ele ainda é seu pai, e sempre foi um bom pai. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Minha própria mãe! Ela estava defendendo-o. Qual era o problema dela? Será que não tinha nenhum amor próprio? – Mãe – comecei, determinada a convencê-la das minhas motivações, obviamente sem revelar todas as reais motivações –, ele a magoou e, ao fazê-lo, também me magoou, e isso é motivo suficiente para mantê-lo fora da minha vida. – Jen – disse minha mãe, alertando –, não acho que seja uma atitude saudável. Você precisa abandonar sua raiva. Não vai querer acabar como Julia, não é? – O quê? – respondi imediatamente. Como é que Julia conseguiu entrar na conversa? Essa era uma conversa sobre mim, minha mãe e meu pai, não a filha da primeira mulher do meu pai. Como é que ela foi incluída? – O que Julia tem a ver com isso? – perguntei de um jeito arrogante. – Bem, sabe como ela é – minha mãe explicou calmamente. – Ela é amargurada, superprotetora quanto à filha e, bem, na maioria das vezes, é raivosa e infeliz, porque nunca aprendeu a esquecer. Quer realmente acabar como ela? Porque é o que acontece quando a gente se prende ao rancor. Espere um pouco, pensei. Julia é raivosa e infeliz? Com o quê? E de quem guarda rancor? Afinal, sei que ela nunca gostou de mim, mas sempre presumi que era por ser a meia-irmã, a irmã indesejada da nova esposa de seu pai. Ela realmente não tinha culpa. Se meu pai tivesse um filho ou filha com a próxima esposa, eu provavelmente teria dificuldade em gostar dele ou dela também. E seria ainda pior neste caso, porque a nova esposa é a última mulher com quem ele traiu minha mãe quando ainda estavam casados, e... Ai... meu... Deus. Meu pé pisou no freio e parei o carro no meio-fio. Tive dificuldade para respirar fundo. Como é que não percebi isso antes? Como é que não encaixei todas as peças? Principalmente por terem estado ali o tempo todo, espalhadas na minha frente.


– Jen? – a voz da minha mãe falou do outro lado da linha. – Você está bem? Ignorei a pergunta. Minha cabeça estava presa em um percurso completamente diferente. – Mãe – comecei com uma voz trêmula. – Sim? – Meu pai também traiu a mãe de Julia? – Sim – ela disse sem rodeios. – Achei que você soubesse disso. – Não! – quase gritei. – Como poderia saber? Ninguém nunca me contou. Como saberia? Minha mãe riu um pouco da minha percepção tardia. – Por que você acha que Julia foi tão má com você quando criança? E ela nunca gostou de mim também até depois do divórcio. – Quer dizer que ele a traiu... COM VOCÊ? – gritei. Tomei o silêncio da minha mãe como um sim e, na verdade, eu preferia a resposta silenciosa. Fiquei muda. Parecia que uma cortina tinha sido levantada, revelando uma sala da minha casa que eu nem sabia existir. E estava cheia de coisas novas e interessantes para explorar, brincar... e analisar! – Mas, se foi com você que ele traiu, por que ela quer se relacionar conosco agora? Ela anda com você o tempo todo! Minha mãe deu uma risada leve. – Já ouviu falar na frase “uma tristeza dividida é meia tristeza”? Ela se prendeu a mim depois que o meu divórcio saiu. Acho que sentiu que finalmente estávamos em sintonia. Debaixo daquela casca grossa, ela é uma menininha magoada. Fico contente em poder lhe dar apoio. – Então é por isso que ela anda com você em vez de com meu pai? – perguntei com ceticismo. – Querida – minha mãe começou em tom suave –, Julia não fala com seu pai há dez anos. – Quê? – minha voz se esganiçou ao tentar condensar dez anos de memórias em um momento efêmero de pensamento. – Achei que você soubesse. Só não queria que sua relação com seu pai fosse pelo mesmo caminho. Acenei levemente com a cabeça e fiquei olhando para a placa do carro que estava na minha frente. – Está bem – me rendi baixinho. – Talvez eu ligue para ele. Afinal de contas, eu já havia cedido tanto esta semana. Que diferença faria uma coisa a mais? Desliguei o telefone e voltei com o carro para a estrada. Tudo estava ficando mais claro agora. O motivo de Julia ser tão superprotetora com sua própria filha passou a fazer todo o sentido. Ela estava tentando proteger Hannah do mundo que ela nunca havia aprendido a perdoar, como eu havia acabado de fazer. De repente, percebi que


Julia e eu tínhamos mais coisas em comum do que eu pensava, mas eu estava desesperada para que as decisões que tinha tomado na última semana, e mesmo nos últimos dois minutos, finalmente me diferenciassem dela. A maior delas estava prestes a começar agora. Ao estacionar na frente da casa de Karen Howard, pude sentir o nervosismo bater. Era agora, a derradeira, a última mansão milionária na qual entraria, a última esposa desconfiada que eu tentaria consolar e, dentro de poucos dias, o último marido infiel que eu permitiria que me beijasse. Para meu grande alívio – e da minha mãe também –, eu estava finalmente cedendo. Entrei nesse negócio achando que podia ajudar as pessoas. Eu sabia que tinha ajudado muitas. Mesmo não tendo a satisfação de saber com certeza se elas estavam melhores, eu acreditava, do fundo do coração, que sim, porque eu vi o que acontece quando não se sabe. Eu tinha passado pessoalmente pela experiência do que acontece quando uma família vive em estado de negação. E, sim, eu tinha pensando em todas as consequências de largar o trabalho. Significaria que mais mulheres teriam de passar pelo que minha mãe passou – e, pelo jeito, a mãe de Julia também. Mas chega uma hora em que o vilão está correndo atrás de você, em que o bonzinho não consegue entrar na sua vida, em que um mundo de dissimulações e mentiras parece que vai desmoronar em cima de você, e aí se dá conta: às vezes, é preciso parar, recuar um pouco, aliviar seus ombros cansados do peso do resto do mundo e tirar um tempo para ajudar a si mesma. Afinal, verdade seja dita, eu não era uma super-heroína: não podia voar, não podia soltar teias complicadas e escalar paredes, nem saltar de um prédio a outro. Eu era apenas uma menina comum tentando fazer a diferença; e eu acreditava que tinha feito. Agora era hora de me tornar diferente – e era exatamente o que eu faria, depois desta última e derradeira missão. Eu estava prestes a sair do carro e ir até a porta da casa, quando meu celular pessoal tocou. Peguei-o na minha bolsa e, ao ver o nome e o número de Jamie no identificador de chamadas, atendi animada. A voz do anjo. – Oi – falei. Ele pigarreou e falou com uma voz profunda e esnobe. – Sim, hã, é o senhor Jamie Richards ligando para a senhorita Jennifer H., por favor. Entrei no jogo, baixando minha voz para um tom profissional e sedutor. – Lamento, a senhorita Jennifer H. não conhece ninguém chamado Jamie Richards. – Hmm. Deve haver algum erro aqui na minha papelada. Eu estava ligando para confirmar uma passagem aérea para Paris e, bem, acho que disquei o número errado. Me desculpe pelo engano, senhorita. Tenha um bom... – Não, espere! – interrompi. Ele riu da minha pressa e, com a voz normal, perguntou: – Então, você já começou a arrumar as malas?


– Só vamos viajar no sábado que vem! – Mas você pensou no assunto. – Talvez um pouquinho – admiti despreocupadamente, sem querer confessar que praticamente já tinha planejado todo o conteúdo da minha mala, sem mencionar que, a cada minuto que eu passava em casa, tinha que me segurar para não tirar minha grande mala do armário do corredor e enchê-la toda com roupas bonitas e que não eram para uma missão. Ela estava escondida atrás de todas as vassouras, os esfregões e outras coisas de Marta. Imagino que, em breve, eu teria que começar a usá-los. Não havia jeito de continuar contratando-a com meu salário de desempregada, de pessoa que não sabe o que fazer da vida, mas muito contente mesmo assim. – Você está em casa? – perguntou ele. Pelo parabrisa, olhei para a grande e imponente casa de dois andares de Karen Howard na minha frente, e preparando-me para a última e derradeira mentira. – Na verdade, estou trabalhando agora. Eu estava morrendo de vontade de contar a Jamie sobre a natureza conclusiva do meu suposto “trabalho” hoje, para permitir minha euforia transbordar pelo telefone e lhe dar todo o crédito que merecia. “Você me fez voltar a acreditar, você me deu fé, algo que eu não conhecia desde que tinha doze anos!”. Mas eu sabia que: 1) era coisa séria demais para um relacionamento que não havia nem passado do quarto encontro ainda; e 2) exigiria muitas explicações. E, dado o fato de que agora eu já estava com dez minutos de atraso para a reunião, isso teria que ser adiado. Por isso, me segurei e não disse nada. – Uh, trabalhando muito, hein? Ficando até tarde numa sexta à noite, não é? Senhorita Importante? Olhei para a linda casa na minha frente. Trabalhando até tarde? Não exatamente. Talvez incendiando o castelo de decepções metafórico de um homem desonesto até virar cinzas. Estava mais para isso. – Isso – respondi. – E o que você está fazendo? Ele suspirou profundamente. – Acho que também vou trabalhar até tarde, vou ficar aqui por, no mínimo, mais algumas horas. Estamos nos preparando para a viagem a Paris. Meu estômago deu uma revirada, mas sorri para o telefone. – É mesmo? – É, mas eu só queria te ligar para dar um alô. Meu estômago revirou de novo, e meu corpo parecia estar derretendo no assento do carro. – Que fofo – falei, olhando para meu relógio. Já eram 20h12. – Bem, preciso voltar ao trabalho – acrescentei. – Eu também. A gente se fala amanhã? – Claro. Terminei a ligação e encostei o celular nos meus lábios, como se estivesse tentando


sugar a conversa do metal rosa para dentro do banco fotográfico na minha cabeça. Coloquei o celular de volta na bolsa, abri a porta do carro e saí para o ar noturno fresco de outubro. Caminhei solenemente para os degraus da frente, parando com frequência para lembrar a sensação que tinha a cada passo, pois iam se tornar meus últimos. A casa de Karen Howard era quase tão bonita quanto ela: arrumada, elegante e enfeitada com acessórios caros. Ela me recebeu com nervosismo na sala de estar e tentei me concentrar na tarefa. Eu só tinha que passar por esse encontro, pela missão e aí eu já estaria livre. E aí iria a Paris. Eu me segurei rapidamente antes de entrar num outro devaneio. – Muito obrigada por me encontrar – disse Karen amavelmente ao nos sentarmos na sala. – De nada. Por que não me conta o motivo de ter me ligado – respondi, tentando gentilmente avançar o processo e eliminar as conversinhas. – Está bem – ela começou com cautela. – Bem, meu marido... – O senhor Howard? – presumi, escrevendo o nome nas minhas anotações. – Na verdade, não. Howard é meu nome de solteira. Eu lhe dei pelo telefone, porque eu... não sei, acho que estava nervosa com o processo e não queria dar meu nome verdadeiro só por via das dúvidas... – Entendo – falei rapidamente, riscando o nome que tinha acabado de escrever no papel. – Muitas mulheres fazem isso. É bem normal. Já vi várias vezes. Eu me esforcei para manter meu tom calmo e estável. A pior coisa que podia fazer para essa mulher era fazê-la pensar que eu estava tentando apressá-la. Ela certamente não precisava saber que eu estava com pressa de acabar logo com essa reunião, principalmente no estado em que se encontrava. Aprendi, com o passar dos anos, que as mulheres na condição dela precisavam de toda a paciência e atenção que eu podia lhes dar. Provavelmente, foi essa falta de atenção que as fez chegar a esse ponto. – Então qual é o nome do seu marido? – perguntei. Karen engoliu em seco e ficou mexendo os dedos. Era como se dizer o nome dele em voz alta fosse tornar todo esse processo ainda mais real – um pouco real demais. – Tudo bem – falei solidariamente. – Podemos retomar essa parte depois se quiser. – Não, não – ela insistiu. – Estou bem – disse, juntando as mãos com força em cima do colo. – O nome do meu marido é Jamie... Jamie Richards.


27 Cicatrizes de batalha Distraída, comecei a anotar o nome que Karen Howard havia acabado de me passar até chegar na letra R do sobrenome. Congelei. – Jamie Richards? – eu quis confirmar, certa de que tinha ouvido errado. – Sim – ela repetiu. Meu coração começou a bater forte. Esforcei-me para manter minha respiração estável. Certamente, havia vários Jamie Richards na cidade de Los Angeles. Certamente. Quero dizer, tinha que ter. Tentei sorrir, mas saiu mais como um espasmo labial demoníaco. – Qual é a profissão do senhor Richards? – perguntei de um jeito profissional. – Construção civil? Medicina? Direito? As especulações estavam saindo da minha boca descontroladamente como água saindo de uma mangueira que alguém largou no chão e parecia ter adquirido vida própria. – Oh, não – disse Karen, com um sorriso comedido. – Jamie odeia advogados. Assenti lentamente, praticamente encarando a boca dela, ao prever, com desespero, as próximas palavras a saírem dali. – Jamie é consultor de marketing – ela disse, recostando-se na cadeira, com os olhos perambulando até o teto – da Calloway Consultoria. E foi aí que vomitei. Não ali naquela hora, em cima do carpete felpudo de casado de Jamie Richards, embora eu gostasse da ideia de deixar esse presentinho para ele. O que fiz foi pedir licença rapidamente, perguntando... não, foi mais como exigindo saber onde era o banheiro, e corri até lá. Vomitei duas vezes na privada, puxei a descarga e depois limpei minha boca com água. Fiquei olhando para o espelho. Todas as cores haviam desaparecido do meu rosto, até dos meus olhos, que, geralmente de um verde vibrante, pareciam ter ficado cinza e sem vida. Meus lábios, apesar da dupla camada de gloss que eu havia passado antes de sair de casa, estavam pálidos e desbotados. Engoli em seco. Isso não estava acontecendo, não era real, estava tudo na minha cabeça. Eu iria até lá, confirmaria todos os detalhes e depois tranquilamente ouviria uma risada alegre de Karen ecoar pela sala, dizendo “Você achou que eu disse Jamie Richards? Hahahaha. Não, não, não. Eu disse Maley Pichards!”. Sim, isso era exatamente o que iria acontecer. Enxuguei uma gota de suor da minha sobrancelha e outra do meu lábio superior, desliguei a luz e, com a cabeça erguida, voltei à sala de estar para pôr um fim nessa pequena e boba confusão. Porém, ao me sentar de


novo em silêncio, estava claro que não havia risadas alegres por ali. Em vez disso, ela ficou me olhando com curiosidade, imaginando se sair da sala ao citar o nome do marido fosse parte normal do processo. Afinal de contas, esse negócio de inspeção de fidelidade era completamente novo para ela. – Está tudo bem? – perguntou cautelosamente. Tentei sorrir. – Sim, acredito que sim. Me desculpe. Karen soltou um suspiro. – Que bom. Bem, em todo caso, Jamie trabalha muito. Sua ênfase na palavra não deixava dúvidas de que sua agenda do trabalho devia ter sido uma parte problemática do casamento deles. O casamento deles! Então isso estava acontecendo mesmo! Eu não conseguia acreditar. Jamie Richards... o Jamie Richards perfeito, adorável, charmoso, que me convidara para ir a Paris era casado! Do tipo, “aceito”, “até que a morte os separe”, ou tipo “até eu conhecer uma menina no avião que seja burra o bastante para acreditar que sou solteiro!”. Cada conversa que tínhamos, cada movimento que ele fazia estava rodopiando na minha cabeça. Tentei desesperadamente desacelerar as imagens e procurar pistas: uma marca de bronzeado da aliança, uma menção de um “nós”, nervosismo no assunto casamento. Eu tinha deixado alguma coisa passar, mas não sabia o que era. Não sabia! Só que... De repente, lembrei do momento que tivemos do lado de fora da porta de casa depois do nosso segundo encontro. “Gosto mesmo de você, Jen. Só acho que deveríamos ir devagar. (...) Não quero apressar nada”. Era esse o motivo pelo qual ele não queria transar comigo? Porque era casado? E esse tempo todo achei que ele só estava sendo meigo, verdadeiro, cheio de consideração. Porém, na realidade, era só um código para “na verdade, sou casado e não quero trair de verdade”? “Já estou perfeitamente contente só com a traição meia-boca de amassos”? Pelo amor de Deus, ele me convidou para ir a Paris! Mas por que se dar ao trabalho com um lance meia-boca? Se você vai trair, por que não trai e acaba logo com isso? Por que arrastar a história? – Tem certeza de que está bem? – a voz de Karen me puxou de volta para o momento e foi aí que percebi que minha boca estava meio aberta e minha cabeça, inclinada para o lado. Rapidamente ajeitei minha postura e fechei a boca. – É, me desculpe. O que você estava dizendo? Ela me olhou de um jeito estranho, mas depois pareceu ignorar. – Eu estava dizendo que meu marido trabalha muito. Ele está sempre viajando a negócios. Só não sei o que faz quando está fora. Fico preocupada que talvez, sabe... – a voz dela foi desaparecendo. Oh, eu sabia! Se eu sabia! Eu queria me intrometer ali naquela hora e informar-lhe o quanto eu sabia sobre as viagenzinhas de negócios do marido; mas apenas assenti com a


cabeça. – Ele vai a Paris na semana que vem – ela continuou. – E não sei até onde você costuma viajar para esse tipo de coisa, mas achei que talvez fosse uma boa hora de... – ela engoliu em seco – ... testá-lo... ou seja lá o que você faz. – Sim! – exclamei bem alto. Karen deu um pulo com meu entusiasmo inesperado. Pigarreei e fingi não dar importância. – Quero dizer, sim, seria uma ótima oportunidade para testar seu marido. Ora, vejam se isso não era a mãe de todas as últimas missões. Na verdade, nem era mais apenas uma missão. Era uma coisa pessoal. De uma só vez, de um jeito imprevisto, isso tinha transformado mais um dia de trabalho na, hã, minha vida! – É claro que vou pagar todas as suas despesas de viagem – propôs. – Só quero muito saber, preciso saber. Então somos duas, pensei. – Entendo – falei calmamente. Eu podia sentir o calor subindo no meu estômago. Sabia que, depois de mais alguns segundos naquela cadeira, a raiva provavelmente transbordaria e sairia da minha boca na forma de muitos palavrões e gestos impróprios. Eu tinha que sair dali. Por isso, ouvi com impaciência Karen descrever todos os detalhes da viagem. Fingi anotar todos eles, embora, na verdade, eu os tivesse decorado desde o dia em que Jamie me mandou um e-mail com o nosso itinerário. Que idiota apaixonada que fui. Enquanto Karen me acompanhava até a porta, ela terminou de listar todos os hobbies de Jamie, seus interesses, seu passado, coisas de que gostava e de que não gostava. Ao ouvir todas essas coisas conhecidas que eu havia apenas acabado de começar a saber a respeito do homem sobre o qual eu tinha me enganado muito, a raiva começou a se dissolver devagar em uma enxurrada de lágrimas, que me esforcei para segurar. Eu só tinha que sair daquela casa. Quando a porta se fechou, a primeira lágrima caiu e, assim que me sentei no carro, as comportas se abriram. Baixei minha cabeça no volante e chorei descontroladamente. Nem conseguia me lembrar da última vez que tinha chorado tanto. Nessa hora, eu estava me odiando por acreditar, por confiar, por sentir. Não queria sentir nada nunca mais. Nada tinha que ser melhor do que isso. “É melhor ter amado e ter perdido o amor do que nunca ter amado”? Foda-se Shakespeare! Que monte de asneira. Enxuguei algumas lágrimas, dei partida no carro e fui embora. Normalmente, eu iria até o apartamento de Sophie... ou até de Zoë. Mas, não sei por quê, não achei que uma “sessão” normal iria resolver alguma coisa desta vez. Eu não queria ver ninguém, conversar com ninguém. Só queria ir para casa, cair na cama e chorar. E foi o que fiz. Não atendi meu telefone por 24 horas completas. Observei ele tocar. No espaço de um dia, recebi três ligações “preocupadas” de Sophie, duas de Zoë, nas quais ela chamou eu ou a pessoa que estava dirigindo perto dela de “puta” e “imbecil”, uma de John, duas de


números bloqueados e duas de Jamie. Sophie acabou batendo à minha porta. Como não atendi, ela usou sua chave. Ela me encontrou deitada na cama com as mesmas roupas que eu havia usado no dia anterior quando me encontrei com Karen Richards, esposa do canalha infiel antes conhecido como Jamie Richards. – O que aconteceu? – ela perguntou, correndo para a cama e sentando-se na beirada. Ela acariciou carinhosamente meu cabelo. Olhei para ela com olhos cansados e insones. Fazia mais de um dia que eu não comia, e minha energia estava mais baixa do que nunca. – Jamie é casado – falei sem forças. – O quê? A mão dela congelou no meio da minha cabeça. Minha voz estava monótona e esgotada. – Minha última missão, Karen Howard; na verdade, Karen Richards. Sophie ficou olhando para mim completamente chocada. – Talvez não seja o mesmo Jamie. Olhei bem nos olhos dela. – Ela vai me mandar para Paris, porque ele vai para lá a negócios na semana que vem. – Oh. Virei-me de lado, de costas para ela, e enfiei minhas mãos embaixo da bochecha. Sophie estava em silêncio. Eu sabia que ela não tinha a menor ideia do que dizer, e fiquei quase agradecida pelo seu silêncio. Pelo menos, era sincero. Ficamos ali por muito tempo, até alguns minutos. Depois, ela finalmente perguntou: – Então, você vai? Sem me virar para ela, respondi: – Sim. Quero que esse canalha seja pego e levado à justiça. Sophie abriu um sorriso. – Você parece uma promotora. – Bem, agora sei como é ser uma. – Mas por que ir? Por que passar por isso? Você sabe que ele é infiel. Cancele a viagem com ele e conte à esposa que ele foi reprovado. – Porque eu preciso saber – insisti. – Saber o quê? – perguntou Sophie, confusa. – Se ele realmente faria isso, realmente trairia. Sophie refletiu por um instante. – Você quer dizer, transar? Girei meu pescoço e virei a cabeça na direção dela, esforçando-me para assentir. – Hã, é! Ainda não transamos! Ele fica dizendo que quer esperar, que não há motivo para apressar as coisas, vamos devagar... blablablá... cafajeste. – E você acha que ele fez isso por ser casado? – perguntou Sophie.


– Você consegue pensar num outro motivo? Ela respirou fundo. – Com ou sem sexo, ele traiu mesmo assim. – Traiu? Ela olhou para mim, e ficamos nos encarando. Eu sabia aonde ela queria chegar. Era a pergunta que todas nós, mulheres, nos fazíamos, a velha pergunta dos relacionamentos, tão velha quanto a própria instituição do casamento: o que constitui traição? É a retirada da aliança? É não mencionar a esposa? É beijar? Paquerar? Tocar? Conversar? Qual é o limite? E quando é que se passa dele? Quando se considera que o marido tem tendências de infidelidade? Quando se confirma que ele tem uma “intenção” de ser infiel? E será que uma intenção é suficiente? Mas essas eram perguntas que eu deixava a cabo das minhas clientes, perguntas que eu mesma nunca tinha que responder. Até agora. Porque agora era eu quem precisava saber, era eu quem tinha que definir o ato de trair e, de repente, a situação ficou completamente diferente. – Então você vai transar com ele? Fechei bem meus olhos. – Agora não posso! – praticamente gritei. – Eu queria. Afinal, o que é mais perfeito do que transar com alguém pela primeira vez em Paris? É como um filme. Sophie concordou com a cabeça. – É. – Mas agora, se eu transar com ele para provar alguma coisa, para mim mesma ou para outra pessoa, aí eu vou ser tão ruim quanto ele! Estaria transando com um homem casado, um homem que eu sei que é casado. É simplesmente muito errado. – Mas e aí? – Sophie indagou. – O que você vai fazer? Eu me deitei e fiquei olhando para o teto. – Acho que a mesma coisa que sempre faço. – Intenção? As lágrimas começaram a se formar de novo. – Um nível altíssimo de intenção. – E depois? Balancei a cabeça. – Não sei, mas preciso ter certeza. Preciso saber se ele iria até o fim. Se não pela... – fiz uma pausa e me esforcei para minha voz não embargar – ... esposa, então vai ser por mim. Sophie olhou para mim e calmamente estendeu a mão para enxugar uma lágrima que havia escorrido no meu rosto. – Mas, Jen – ela começou –, e se ele não for? E se ele não for até o fim? Soltei uma risada de frustração. – Pensei nisso – admiti. – E acho que esse é o resultado mais assustador de todos.


E se ele não fosse até o fim? Será que isso o tornaria honesto? Fiel? O quê? Será que eu poderia acrescentá-lo à minha lista sagrada da minha caixa de madeira secreta e comemorar por todos os casais fiéis do universo? Espero que sejam todos muito felizes. Quem sabe possam formar um clube e comemorar juntos, todos os dez, ou nove, ou seja qual for o número verdadeiro. Eu não sabia mais. Eu nem sabia se o futuro marido da minha melhor amiga era do tipo infiel. Não sabia mais nada ultimamente. E as coisas que pensei que sabia, as coisas sobre as quais pensei ter certeza, acabaram se revelando um monte de porcaria também. Simplesmente não era justo. A primeira vez, a única vez em que baixei minha guarda, fiquei com um canalha total que desfila por aí como um cara decente, me convidando para ir a Paris e ir devagar com as coisas, depois de ter sido tão cuidadosa por dois anos para não me cair de amores por ninguém, porque, como eu havia provado, chama-se “cair” por um bom motivo. Se me lembro bem, desde os cinco anos: se você cai, se machuca, arranha o joelho ou o cotovelo e é obrigada a usar um curativo colorido e espalhafatoso para exibir seu machucado para todo mundo! Olhem para mim! Eu me machuquei. Estava correndo em volta da piscina, muito embora me dissesse para não fazê-lo, e olhem só como acabou. Depois que Sophie foi embora, prometendo voltar em algumas horas para ver como eu estava, Jamie ligou pela terceira vez e, depois do quarto toque, resolvi atender, por motivos de trabalho. Se eu iria conseguir fingir com perfeição de que não havia nada de errado e que não tinha a menor ideia de que ele era casado enquanto estivéssemos em Paris, teria que acabar atendendo às ligações dele. Senão, ele começaria a desconfiar, e eu não poderia permitir que nada interferisse na minha importantíssima e sigilosa missão ultrassecreta. Por isso, tentei não deixar transparecer nem um pouco de amargura na minha voz quando atendi, mas certamente não foi uma coisa fácil de fazer. Devo admitir que não estava fazendo um bom trabalho. – Você está bem? – Jamie perguntou menos de um minuto depois do início da conversa. – Sim, estou bem – respondi rapidamente. – Só tive um dia difícil no trabalho. – Ah – ele disse. – O banco está abusando de você? Revirei os olhos. – É, certamente tem gente abusando de mim. – Lamento, querida – falou com uma ternura tão verdadeira que quase tive vontade de vomitar... de novo. Esse cara era um ator e tanto. Zero em teatro? Tá bom! Fiquei surpresa por ele não estar trabalhando com isso. Quem precisa de consultoria de marketing quando consegue fazer uma performance digna de Oscar? – É, bem, acho que é a natureza do emprego – respondi. – Mas eles vão te deixar ir a Paris, né? – perguntou preocupado. – Sim – falei. – Talvez eu acabe levando um pouco de trabalho comigo para compensar


o tempo perdido. – Está bem, então. Eu queria enfiar minha mão pelo telefone e estrangulá-lo, mas a parte mais difícil disso era que, embora minha perspectiva tivesse mudado completamente, Jamie ainda era exatamente o mesmo. Ele era o mesmo cara fofo de sempre: carinhoso, atencioso, verdadeiro. Fiquei perplexa. Por mais que o detestasse agora, não havia nada realmente detestável nele, nem um pouco (bem, menos a parte da esposa escondida). Ele era o contrário: nada além de amável, e isso me fazia odiá-lo ainda mais! – Então, quer sair para jantar esta semana? Uma última vez antes de sairmos do país. – Bem, até parece que a gente não vai voltar – falei sem rodeios. E aí quase acrescentei “embora talvez você volte dentro de um saco para cadáver”. Jamie riu. – Eu sei. Achei que seria engraçado. Sim, muito engraçado!, pensei. Eu olhando para o seu dedo anelar a noite toda enquanto a aliança fantasma fica aparecendo e desaparecendo da minha imaginação e então eu vou ficar imaginando você na cama com Karen Richards depois que você me deixar em casa com seu beijo de boa noite e o “vamos devagar” de sempre. Parece que vai ser um arraso. Melhor do que o ginecologista cutucando meu colo do útero, se isso for possível. Respirei fundo e acalmei minha voz. – Acho que não vai dar... querido – segurei um pequeno vômito que estava subindo pela garganta. – Tenho muito trabalho para compensar o tempo em que estiver fora. – Ah, está bem. Faz sentido – ele cedeu; e aí um silêncio constrangedor se seguiu. Para ser sincera, foi o momento mais constrangedor que tive com ele. Sempre estávamos em sintonia, as coisas sempre foram muito fáceis entre nós. – Tem certeza de que tudo está bem? – ele finalmente quebrou o silêncio. Por um breve momento, quase senti pena dele. Ele não fazia a menor ideia de por que as coisas ficaram diferentes tão de repente. Ele não sabia por que eu estava diferente. Afinal, por mais que me esforçasse para disfarçar a raiva, certas coisas simplesmente podiam ser sentidas. Não é preciso ser vidente para sentir a mudança de energia óbvia entre nós, mas esse breve momento passou rápido quando lembrei a mim mesma do motivo de eu estar diferente. – Sim, está tudo bem – respondi, deitando na cama. – Me desculpe. O trabalho está uma loucura. A que horas você vai me buscar para ir ao aeroporto no sábado? Jamie pigarreou. – Bem, o voo é às 13h30 e, como é internacional, temos que chegar duas horas antes, por isso vou passar na sua casa por volta das 10h. Que tal? – Para mim, está bom – falei rápido. – Ótimo. – É, bem, é melhor eu correr. Tenho muita coisa para fazer. Acho que nos vemos no


sábado. – É, está bem. Até mais – ele respondeu com insegurança. Desliguei o telefone e o coloquei em cima da minha barriga. – Não tenho escolha – repeti baixinho comigo mesma. – Preciso saber a verdade. Mereço saber a verdade, não mereço? Fechei os olhos e tentei imaginar como seria quando eu entrasse naquele carro e naquele avião e naquele quarto de hotel. Subitamente, a dúvida escureceu minha cabeça. Será que eu iria até o fim com essa história? Eu mal conseguia aguentar três minutos de conversa ao telefone. Não tinha jeito de conseguir manter essa farsa infeliz por cinco dias, passeando em Paris, observando arte impressionista e tomando café com leite caro. Era muita mágoa, muita comoção, muito envolvimento. Talvez este curativo não fosse colorido e espalhafatoso, mas certamente chamava atenção. Realmente não havia escolha. Se eu quisesse passar os próximos cinco dias sem que Jamie desconfiasse que havia alguma coisa errada, eu teria que trazer uma especialista, alguém que podia passar por isso sem se envolver emocionalmente, uma pessoa fria, imparcial, indiferente, alguém que não dava a mínima se Jamie era casado ou não e que não tinha me contado nada sobre isso. Afinal, sinceramente, ela já se importou alguma vez com o estado civil de algum homem? Por mais que eu não quisesse que esse momento chegasse, era a única opção que eu tinha. Era hora de Jamie finalmente conhecer Ashlyn.


28 Sacos e bagagens A hora de arrumar as malas para a minha viagem a Paris acabou virando uma montanha-russa emocional. Todas as roupas bonitas e a lingerie sensual que tinha escolhido mentalmente na última semana com animação e euforia agora estavam sendo atiradas dentro da minha mala, e eu sabia que não seriam usadas como acessórios na nossa escapada a Paris, mas mais como uniformes de uma missão desafiadora e repugnante que me aguardava na cidade do amor fraudulento. Agora, eram apenas figurinos de uma peça que eu representaria praticamente a contragosto. Era um papel que eu já tive o prazer de representar, porque sabia que cada um dos membros da plateia sairia do teatro como uma pessoa transformada – para melhor. Era uma peça que teria um impacto nas pessoas. Porém, agora, era como se eu estivesse sendo empurrada para o palco para dar vida a uma produção que não parecia mais ter sentido, porque tudo o que eu sentia era dor. E essa performance estava começando agora. Sobe a cortina. Jamie chegou no horário. Abri a porta e sorri como se ele fosse a única pessoa que eu queria ver do outro lado dela. – Bem – ele começou, com o rosto se iluminando rapidamente –, alguém está bem animada. – É Paris! Quem não ficaria animada? Ele deu risada e se aproximou para me abraçar; depois do abraço, começou a dar um beijo. Fechei meus olhos e tentei fazer de conta que estava beijando Josh Duhamel, e não um marido canalha e infiel em pé, na minha sala de estar, prestes a levar sua namorada para Paris. Porém, na hora em que seus lábios tocaram os meus, lembrei novamente como era beijá-lo: o cheiro, o gosto, a maciez de seus lábios, o calor que começava a aumentar no fundo do meu estômago. Rapidamente me afastei, perturbada com minha reação involuntária. – Vamos indo. A gente vai se atrasar! – falei, puxando minha grande mala e, ao mesmo tempo, usando minha mão livre para empurrar Jamie para fora da porta. Eu me virei e tranquei a porta. Havia uma limusine preta e comprida estacionada na frente do meu prédio e, assim que saímos pela porta, o chofer apareceu e pegou minha bagagem. Fui para o banco traseiro, e Jamie veio logo atrás. Alguns instantes depois, estávamos partindo. Seguimos o trajeto em silêncio. Na hora, fiquei imaginando se deveria começar a


conversar sobre alguma coisa, iniciar um papo, acabar com o silêncio. É o que eu normalmente faria se estivesse em uma outra missão qualquer – ou, pelo menos, era o que Ashlyn, a profissional, faria. Nunca deixar o silêncio perdurar muito tempo, sempre manter a conversa leve e fluindo sem problemas. Comecei a abrir minha boca para falar sobre algum fato desconhecido e insignificante sobre a história da cidade para onde iríamos, quando Jamie disse: – Ah, quase me esqueci. Ele abriu um pequeno armário que ficava embaixo do bar da limusine, retirou de dentro uma sacola azul com papel vermelho e branco saindo para fora e me entregou. – Pour toi [para você] – ele disse com um forte sotaque americano. Olhei confusa para a sacola. Claro que eu reconhecia as cores: azul, branco e vermelho, as cores da bandeira francesa. Mas não tinha a menor ideia do que podia haver dentro. – O que é? – É seu saco de avião – ele falou como se fosse óbvio. A mão que estava segurando a sacola subitamente pareceu perder força e ela caiu com força no meu colo, levando a sacola junto. – Meu o quê? – Seu saco de avião. Lembra, “um saco com um monte de coisas dentro... coisas de avião”. Acho que essa era a descrição oficial. Fiquei olhando para ela em silêncio, completamente muda. Ele tinha se lembrado da minha história sobre sacos de avião? De que, quando eu era pequena, fazia-os em todas as viagens de família? Eu tinha lhe contado sobre isso no nosso segundo encontro, quando estávamos deitados no capô do seu carro e observávamos os aviões aterrissarem. E ele se lembrou. – Tive que ir até o site oficial para saber o protocolo exato para montar um saco de avião profissional – disse Jamie, recostando-se no assento e descansando sua mão na minha perna inocentemente. Olhei para a mão dele e forcei uma risada fraca. Ele não era o único que se lembrava daquela conversa. Eu lembrava de todas as nossas conversas, porque realmente foram importantes para mim, porque achei que um dia eu lembraria delas e sorriria. Agora eu só me lembrava delas e tentava imaginar como é que pudera ficar tão alheia a todos os sinais, isto é, de que ele era casado, que havia outra pessoa na história. Eles deviam estar lá em algum lugar; eu só não os tinha encontrado ainda. Era como numa figura de Onde Está Wally?. A gente sabe que ele está escondido ali em algum lugar: atrás do barco, ao lado da jaula dos leões, embaixo da ponte. É preciso ficar procurando. E foi o que fiz, para o bem da minha própria sanidade mental. – Bem, você não vai abrir? – ele perguntou. Eu quis negar com minha cabeça decididamente, como uma criança que se recusava a tomar banho. A verdade era que eu não queria abrir: tinha medo do que poderia haver


dentro, de que os conteúdos do saco pudessem me magoar ainda mais do que a própria ideia do saco. Mas eu não podia deixar de abrir, porque era o que deveria fazer. Eu deveria ficar muito emocionada com essa consideração a ponto de não conseguir evitar arrancar ansiosamente os papéis vermelho e branco e vasculhar lá dentro. Devagar, puxei o papel. – Espero que goste do conteúdo – observou Jamie em tom empolado. – Sou novato na fina arte da Confecção de Sacos de Avião. A primeira coisa que tirei foi um pote com massinha de modelar. Eu sorri e o coloquei ao meu lado. – Você lembrou até da massinha de modelar – declarei distraída, com a cabeça aturdida. – O que fez? Gravou a nossa conversa? – E isso nem era tanto uma piada. – Apenas para fins de treinamento – Jamie disse, enquanto eu enfiava minha mão dentro do saco novamente. Havia um saco de salgadinhos, seguido de dois pacotes de chiclete: um de bola e uma goma de mascar. – Eu não sabia de que tipo de chiclete você gostava. Achei que não podia errar com um de bola e uma goma de mascar. – Gosto do de bola – falei baixinho, colocando os pacotes de chiclete junto à minha crescente coleção de coisas no assento. – Que bom, porque eu gosto de goma de mascar – falou Jamie com uma piscadinha. Engoli em seco. – Acho que é perfeito, então. – Tem mais, tem mais – Jamie incitou, apontando para o saco. A cada item que eu retirava, minhas mãos ficavam mais trêmulas: palavras-cruzadas, baralho, chocolates, minigarrafas de bebidas alcoólicas. – É, achei que isso provavelmente não fazia parte dos seus sacos quando você era pequena – disse Jamie, apontando para as garrafinhas. – Mas resolvi que o ritual de confecção do saco precisava ficar um pouco mais adulto. Em seguida, enfiei a mão no fundo da sacola e retirei uma caixa média azul-claro da Tiffany. Meu coração deu um pulo. – Bem, isso aí não é exatamente para o avião. Quero dizer, você pode usar no avião, mas achei que seria mais apropriado para Paris. Um sorriso fraco apareceu no meu rosto ao retirar a tampa e me preparar para ver o que havia dentro. Era uma corrente de prata com um pequenino pingente redondo com uma rosa no meio. Tive um sobressalto quando vi, simplesmente não consegui evitar. Infiel ou não, era lindo demais. Parecia exatamente um daqueles vitrais rosados na Catedral de Notre Dame, e eu não tinha dúvidas de que ele tinha escolhido justamente por esse motivo. – Acho que isso significa que você gostou – arriscou Jamie. Eu não conseguia falar. Tentei, mas nada saiu. Mal conseguia mexer a cabeça. Meu


corpo todo estava em choque. O saco de avião foi o presente mais cheio de consideração que alguém havia me dado. – Ou é isso ou você já tem dois desses – ele continuou depois de o meu momento de silêncio ter se estendido um pouco demais. Minha cabeça saiu do transe e assenti bastante com a cabeça; os lábios entraram em ação: – Sim. – Sim, você tem dois deles? – Jamie riu. Apática, fiz que não com a cabeça. – Não, gostei. Quero dizer, adorei. Jamie tirou a mão da minha perna e entrelaçou seus dedos nos meus. Aí levou minha mão aos seus lábios e beijou-a carinhosamente. – Que bom. Pensei em você assim que o vi. Seu comentário tocou fundo. Meu único consolo naquele instante era a esperança de que talvez tivesse mandado sua secretária comprar ou talvez a Calloway Consultoria tivesse um departamento especial de presentes para esse tipo de coisa. Eu estava torcendo para que ele tivesse ligado dizendo “estou ocupado demais conciliando minha esposa, minha nova namorada e o meu trabalho, por isso peço a gentileza de montarem um “saco de avião” legal para minha viagem a Paris, para a qual ainda não fiz as malas”. E presumi que tinha ligado em seguida para o serviço de arrumação de malas da empresa. Porém, lá no fundo, eu sabia que não era verdade. Sabia que ele tinha comprado pessoalmente, isto é, gastou MAIS tempo longe de sua esposa do que já passava só para ir comprar coisas para um saco de avião idiota para mim. Não parecia justo e certamente não parecia correto eu ter gostado tanto disso. Não deveria ser assim. Por que ele estava dificultando tanto? Por mais que soubesse que deveria abraçá-lo, beijá-lo e agradecer intensamente por ser um cara tão querido, não consegui. E o motivo por não ter conseguido foi porque eu quis. Minha cabeça estava rodando como a seta de uma bússola quebrada. Eu não sabia onde era o norte e para onde meus sentimentos verdadeiros estavam apontando. Ao olhar para o rosto dele, iluminado pela expectativa da minha aprovação, e depois para o conteúdo do meu saco de avião personalizado, esparramado ao meu lado, eu quis amálo, quis que tudo fosse um engano, quis tomar a droga da pílula azul e apagar tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Contudo, quando a limusine parou na calçada do terminal do check-in do Aeroporto Internacional de Los Angeles, eu sabia que não podia esquecer o que havia acontecido, não podia apagar o fato de que estava entrando num avião que ia a Paris com o marido de outra mulher. E, se Jamie continuasse a aparecer com essas surpresas desagradáveis, eu sabia que seria uma viagem longuíssima. Ao sair da limusine, eu não sabia no que estava me metendo – e nós nem tínhamos embarcado ainda.


Logo, descobri que trabalhar para uma empresa de consultoria que permitia que todas as despesas de viagem fossem colocadas na conta do cliente multimilionário não era tão ruim assim. Tudo era de primeira classe: check-in, bebidas no lounge dos voos internacionais, os assentos do voo direto Los Angeles-Paris e reservas no Hotel Ritz no 1º arrondissement de Paris. Até eu, uma viajante frequente da primeira classe graças ao meu antigo trabalho (agora atual), fiquei impressionada. Pude notar que Jamie estava tentando me impressionar. Toda vez que entrávamos numa nova e animada etapa de nossa viagem, ele observava minha reação. Eu podia sentir seus olhos no meu rosto ao entrarmos no lounge da primeira classe internacional e olhei para as TVs de plasma, três bares com bebidas grátis e bufês arrumados com comidas variadas. Fiz sinal com a cabeça indicando levemente minha aprovação e me virei para ele e sorri. Depois, ele me observou novamente ao embarcarmos no avião, e a comissária de bordo gentilmente nos orientou passando pela classe executiva, até o andar de cima para a exclusiva cabine da primeira classe. Cada assento era como um pequeno apartamento com uma TV, uma escrivaninha, uma mesa retrátil, uma poltrona giratória totalmente reclinável e até uma salinha de estar complementar próxima ao banco. Jamie e eu sentamos lado a lado enquanto ele, como uma criança querendo exibir um brinquedo novo, demonstrava todas as facilidades de nossos apartamentos. – Está vendo, se você apertar esse botão, a poltrona gira e você pode se virar para essa escrivaninha e, sabe, fazer coisas importantes. Dei risada. – Como o quê? – Sabe, salvar o mundo, começar uma guerra, pagar a dívida externa, o que quiser! – Então posso pegar seu talão de cheques emprestado? Ele sorriu. – E aí, se você apertar esse botão e ficar pressionando-o, a poltrona inteira reclina até virar uma cama. Observei sua demonstração e, novamente, assenti com a cabeça. – Sim, senhor Richards, eu já estive na primeira classe antes. Ele franziu a cara por um instante, como se a alegria de poder tirar minha virgindade de primeira classe tivesse sumido de repente. – Ah, sim, imagino que o misterioso banco de investimento te trate bem. Confirmei com a cabeça enquanto lembrava o que realmente estava acontecendo naquelas viagens internacionais na primeira classe. – Deseja algo para beber? – perguntou a comissária. Se quero! Assenti delicadamente. – Sim, por favor. Gostaria de uma vodca com tônica. Obrigada. A comissária sorriu e voltou para a cozinha. Enquanto Jamie descansava a cabeça na poltrona e fechava os olhos, peguei minha bolsa Dior em silêncio e a coloquei no meu


colo. Abri o compartimento principal e enfiei o dedo no bolsinho com zíper que havia dentro da bolsa. Meus dedos passaram suavemente pela superfície fria e brilhosa do cartão de visita preto que havia dentro, aquele que continha o número designado a Jamie já escrito no verso, que representava o fim do casamento de Jamie Richards. E essa ideia trouxe imediatamente sentimentos conflitantes. Eu podia sentir a superfície em relevo da letra A decorada na frente do cartão. Parecia muito difícil até mesmo começar a comparar Jamie com todos os vergonhosos adúlteros do meu passado. Olhei para ele, que ainda estava com os olhos fechados. Um sentimento de culpa me varreu como um maremoto. Ele era diferente, tinha que ser. Não era um Raymond Jacobs ou Parker Colman da vida, nem mesmo um Andrew Thompson. Eu achava que eram todos iguais, apenas “infiéis” na minha cabeça e nada mais que isso. Porém, o homem que estava ao meu lado não era a mesma coisa. Ele era Jamie Richards, o primeiro homem a conseguir passar pelo portão de ferro que protegia meu coração, cuja presença eu mal notava. Até que tudo desmoronou, e aí tive certeza de que o coração sempre estivera lá, dando-me segurança, sanidade mental, solidão. E, desesperada, temi que Jamie não fosse só o único a entrar nele, mas também o último. Afinal, uma vez que sua fortaleza é destruída, apenas uma idiota a reconstruiria exatamente do mesmo jeito. Da próxima vez, você usa concreto, aço, as substâncias mais impenetráveis conhecidas pelo homem – para garantir que o calcanhar de Aquiles desapareça. – Em nome da Air France, gostaríamos de ser os primeiros a lhes dar boas-vindas a Paris – anunciou a comissária de bordo com um forte sotaque francês depois de pousarmos no Aeroporto Internacional Charles de Gaulle. Jamie se virou para mim com olhos cansados e sorriu. – Bem-vinda a Paris. Olhei para ele por cima da minha revista. – Me desculpe, já me deram boas-vindas. Você está atrasado demais. Ele estalou os dedos. – Droga, e também só por uma questão de segundos. – Você tem que melhorar o seu timing. Passamos pela alfândega e pela imigração até encontrarmos um francês alto, todo vestido de preto, aguardando-nos do lado de fora do ponto de inspeção. – Monsieur Richards – ele anunciou aos nos aproximarmos. – Sim, sou eu – respondeu Jamie. – O quê? Nada de plaquinha com seu nome? – perguntei enquanto o motorista arrastava a mala de Jamie para fora. Ele fez que não com a cabeça. – Todos me conhecem aqui. – Impressionante. O homem voltou para dentro e se abaixou para pegar a alça da minha mala.


– E você deve ser mademoiselle Jennifer H. – ele declarou sério. Soltei uma risada alta, chamando a atenção de algumas pessoas à volta, que ficaram olhando. O homem olhou para mim como se eu estivesse louca. Jamie pediu para não dar importância. – Me desculpe, piada americana idiota. – Ah, oui – respondeu o motorista, assentindo, como se essa simples explicação pudesse esclarecer todo e qualquer desentendimento na história e no futuro próximo das relações franco-americanas. – E, pelo jeito, você também é conhecida por aqui – observou Jamie enquanto seguíamos o homem, passando pelas portas automáticas do prédio até o carro que nos aguardava. – Sim. Eles sabem meu nome e a inicial do sobrenome. Me sinto tão especial – falei sarcasticamente. Jamie encolheu os ombros. – Bem, até uns dias atrás, também era só o que eu sabia de você. Você é uma mulher bem misteriosa, senhorita H. – Mais do que você imagina – respondi toda convencida. Fomos de carro por meia hora ao longo de quilômetros de subúrbios parisienses e aí, ao longe, pude enxergar o impecável domo branco da Sacré Coeur, despontando em meio a uma camada de nuvens negras. Na hora, senti uma pontada de empolgação na barriga. Eu não podia acreditar que realmente estava em Paris de novo. Era realmente uma das minhas cidades preferidas no mundo inteiro. E, mesmo depois de tudo o que vi nos últimos dois anos, a vista da cidade que se esparramava diante de mim ainda era o suficiente para me deixar boba. A empolgação verdadeira que eu sentia certamente me ajudava a manter minha fachada de inocência: a velha Jennifer Hunter, contente por estar em Paris com seu namorado – ou seja lá o que Jamie era meu.Eu ainda não tinha aprendido toda a terminologia adequada. Se eu era sua amante, o que ele era? Além de um canalha mentiroso? – Então, o que você quer fazer primeiro? – perguntei, desviando meu olhar fixo da janela para Jamie. – Dormir – respondeu imediatamente. Eu o cutuquei com a mão. – Não! Você não pode dormir. Não vai conseguir se adaptar ao fuso de Paris se dormir agora. – Olhei para o meu relógio. – São quase onze da manhã. Você vai ter que esperar, no mínimo, até as oito da noite para poder dormir. Sem se convencer, ele olhou para mim. – É uma regra – garanti a ele. – Quem disse?


– Eu. – E quem é você? Cruzei meus braços de um jeito petulante. – Até parece que não sabe. Jamie sorriu e entrou no jogo. – Não sei. – Excusez-moi, monsieur – falei para a parte frontal do carro. – Oui, mademoiselle – respondeu o motorista. – Est-ce que vous pouvez me dire exactement qui je suis, s’il vous plaît? Confuso, o motorista olhou para mim pelo retrovisor. Esses americanos eram um mistério. – Acho que isso responde à sua pergunta sobre se você sabe ou não falar francês – Jamie disse para mim. Confirmei com a cabeça. – Qui vous êtes? – confirmou o motorista, quase certo de que havia me entendido mal ou meu esforço para falar francês havia fracassado. – Oui – confirmei. – S’il vous plaît. – Aí me virei para Jamie. – Perguntei a ele quem eu era, já que você parece ter se esquecido. Jamie estava se divertindo muito com a conversa. Ele virou sua cabeça para o banco da frente e esperou a resposta. – Vous êtes mademoiselle Jennifer H. – respondeu o motorista com hesitação, aparentando estar preocupado que o fracasso em resolver o mistério dessa dupla dinâmica pudesse lhe custar o emprego. – Merci beaucoup – falei para ele e depois me virei para Jamie, com um sorriso de satisfação. – Pronto, aí está: Jennifer H., especialista em táticas de salvamento de jet lags internacionais. Até ele sabe quem eu sou. Jamie deu risada. – Está bem, está bem. Vamos ficar acordados. Faremos o que você quiser, mas é bom que você me mantenha entretido, senão posso acabar dormindo dentro de um chafariz ou nos degraus de alguma igreja. Eu sorri. – Não se preocupe. Conheço o lugar certo. – Para me manter entretido? Ou com degraus confortáveis?


29 Vigiando o prisioneiro Depois de um rápido almoço parisiense, que incluiu saladas e sanduíches de presunto à beira do Sena, Jamie e eu passamos a tarde passeando por um dos meus monumentos preferidos, e mais ignorados, de Paris. – Acho que devo ser a reencarnação de Maria Antonieta – expliquei enquanto caminhávamos pela Conciergerie, a antiga prisão francesa. – Foi aqui mesmo que ela ficou aprisionada antes de morrer? – perguntou Jamie passando as mãos nas paredes frias de pedra do corredor principal. – Antes de ser executada – corrigi. Jamie olhou para o teto escuro e mal-iluminado. – Não é um lugar muito feliz. Concordei com a cabeça. – Nem um pouco, principalmente se comparado aos que eu estava acostumada. – E por que acha que você é a reencarnação dela? Encolhi os ombros e continuei caminhando pelo corredor. – Não sei. Toda vez que leio alguma coisa sobre ela, sempre sinto uma estranha conexão, um fascínio inegável pela vida dela. – Talvez seja só porque você gosta de brioches. Dei risada. – Ah, olha só quem sabe um pouco sobre a Revolução Francesa. Jamie tentou parecer indiferente. – Eu prestava atenção nas aulas de História. – Está querendo dizer que prestou atenção durante A História do Mundo – Parte I? Ele não deu importância ao meu comentário. – O romance – respondeu na defensiva. – Mel Brooks também está nele? Ele desdenhou. – Bem – prossegui, contente em fazer o papel da guia turística para o turista americano amador –, Maria Antonieta foi capturada e trazida aqui para aguardar seu julgamento, o que eu acho ter sido uma piada. Até parece que realmente iam lhe dar um julgamento justo. Ela foi acusada de traição só porque era da realeza. Jamie se aproximou de mim sorrateiramente e colocou um dedo contra os lábios. – Shhh. Acho que suas convicções monarquistas não vão ser bem recebidas aqui – disse, apontando para uma estátua de cera de um guarda revolucionário que estava


posicionado para vigiar a entrada da cela da rainha. Revirei meus olhos. – Ei, é um país livre. Jamie pensou no meu comentário. – Será? Sorri e balancei a cabeça negativamente. – Na verdade, é. Ele pegou minha mão e me puxou para perto dele para que nossos corpos se tocassem. Pude sentir meu coração bater cada vez mais rápido e fiquei imaginando se ele também o sentia. – Então será que devo chamá-la de Maria de agora em diante? – ele perguntou. Engoli em seco e tentei forçar um sorriso. – Na verdade – comecei suavemente –, a maioria das amigas e dos parentes dela chamavam-na apenas de “Antoine”. Jamie se aproximou mais de mim. Seus lábios estavam a centímetros dos meus. – Está bem, Antoine – disse ele e, em seguida, me beijou. No meio de uma prisão revolucionária escura e sombria, nossos lábios se encontraram e nossos olhos se fixaram uns nos outros. Meu corpo ficou quente e tentei contrabalançar o calor preenchendo minha cabeça com imagens frias e enfurecedoras da esposa de Jamie, mas foi inútil. O rosto dela sumia assim que entrava na minha cabeça. De jeito nenhum eu conseguia me concentrar num pensamento negativo. Por isso, me afastei dele. – Venha cá, quero lhe mostrar a cela dela – falei, pegando a mão de Jamie e passando com ele pelo “guarda” imóvel. Jamie fingiu estar tirando um chapéu ao passarmos. – Monsieur – saudou educadamente. – Como pode ver – eu disse, rindo e fazendo um gesto para o quartinho de pedra –, comparada às celas dos outros prisioneiros que vimos antes, esta aqui era como um quarto no Plaza. A cela era aproximadamente a metade do tamanho de um típico quarto de motel com uma cama pequena no canto, quase da altura do chão, e uma modesta mesa de madeira ao lado. Atrás de uma janela baixa e coberta com tecido, estava outra estátua de cera de um guarda, vigiando a cela atentamente, como se, a qualquer minuto, a rainha pudesse, do nada, lutar kung fu e tentar fugir. – Qual é o problema dele? – Jamie apontou para o guarda. Olhei para ele. – Ele está garantindo que ela não escape. Ela e o rei tentaram fugir uma vez, sabe. Jamie olhou incrédulo para a estátua. – De jeito nenhum. Não acredito nisso. Ele não está esperando ela tentar fugir, mas, sim, que ela tire a roupa para ele dar uma olhadela nos seios da rainha. Exclamei atordoada: – Ele não está!


Jamie concordou com pesar. – Aposto que era o turno mais cobiçado. Todos os guardas ficavam à toa, jogando cartas ou dados, tentando conseguir a posição de “guarda” da rainha. E o turno da noite? Nem se fala! Esse estava reservado para o carcereiro em pessoa. A verdade era que não só Maria Antonieta que me fascinava. Todos os reis e rainhas da velha monarquia francesa me impressionavam. Suas vidas me intrigavam: o sexo, os escândalos, o drama. Eu me espantava como dava para relembrar as histórias entrelaçadas de seus relacionamentos e ver claramente que nada havia mudado desde então. Se compararmos o enredo básico de um episódio do seriado The O.C. com a história real de um aristocrata francês, sua família e todas as suas relações pessoais, veremos que é praticamente a mesma história. A obsessão das pessoas com drama e fofoca não é novidade. Naquela época, as pessoas ainda fofocavam sobre os ricos e famosos. O sexo adúltero ainda podia cativar um público, e a desonestidade era praticamente um esporte de espectadores. A única diferença entre aquela época e agora é que, hoje em dia, os adúlteros fazem mais esforço para esconder suas amantes – ou, pelo menos, é o que pensam. Observei Jamie examinar alguns resquícios antigos da Revolução Francesa, protegidos por camadas grossas de vidro inquebrável e, de repente, me ouvi dizer: – Sabia que o rei, Luís XVI, teve uma amante? Ele prestou atenção em mim e no meu comentário fortuito que pareceu sem motivo, e logo tentei disfarçar com mais fatos inesperados. – Na verdade, a maioria dos reis tinha amantes. No mínimo, uma; às vezes, mais de uma; às vezes, sete, uma para cada dia da semana – tentei forçar uma risada. Eu estava falando à toa, não havia dúvidas disso. Porém, Jamie apenas assentiu, receptivo, sem nenhum sinal de remorso ou desconforto, como se estivesse ouvindo atentamente a uma interessante palestra, mas sem sentir afinidade com o assunto. O silêncio dele me pressionou a continuar falando. – Na verdade – prossegui vergonhosamente –, eu não ficaria surpresa se Maria Antonieta também tivesse um amante. Sabe, tipo, para um lanchinho noturno. Talvez uma caixa de torradinhas. Afinal, ninguém era fiel naquela época. Estava praticamente fora de moda. Eu esperava que alguma coisa suscitasse um efeito, cutucasse uma ferida, mexesse com alguma emoção. Eu só tinha que continuar procurando até achar a palavra certa, o jeito certo de dizê-la. Porém, ele apenas riu educadamente e disse: – Bem, sabe como era naquela época: o casamento era somente um arranjo político, principalmente para reis e rainhas. Eles não se casavam por amor. Observei atentamente ele falar, buscando sinais de significados ocultos, segundas intenções, mensagens subliminares tentando me converter para o culto aos adúlteros e confiar em seus atos malvados e infiéis. Mas não havia. Ele simplesmente sabia de


história política – e, aliás, sabia bastante. – Você se casava com quem fazia mais sentido – ele continuou –, social, econômica e politicamente. E depois se apaixonava pela pessoa que lhe deixava mais feliz. Nessa hora, quase senti lágrimas se acumularem nos meus olhos. Eu quis correr para ele, me envolver em seus braços e lhe dizer que queria ser a pessoa a lhe fazer feliz, que o resto não importava. A gente podia fugir, recomeçar, esquecer tudo o que havia acontecido até agora. Mas senti meus pés começando a pesar, prendendo-me no lugar onde estava. E, apesar da minha filosofia como inspetora de fidelidade experiente, treinada para não abordar o assunto do adultério durante uma missão, eu não consegui evitar perguntar: – Você acha que isso ainda acontece hoje em dia? Ele veio a mim e pousou a mão na cerca de madeira que separava os turistas da réplica da cela da rainha. – Quer dizer, os arranjos matrimoniais políticos? – ele perguntou incredulamente, como querendo dizer “por acaso você tem vivido em outro planeta ou te acertaram com uma pedra?”. – Isso – falei com cautela – e as amantes – pronunciei a palavra cuidadosamente e esperei uma reação, que não veio. Por isso, prossegui. – Você acha que as pessoas ainda têm amantes? Escondidas por aí? Ele riu. – Como em contas suíças? Tentei retribuir a risada, mas estava começando a ficar extremamente irritada. Será que ele estava brincando com isso? Será que não estava levando minhas perguntas a sério? Bem que deveria! Ele vinha me mantendo escondida esse tempo todo e eu não via a porra da graça nisso. – Estou falando sério – insisti calmamente. Ele tirou o sorriso do rosto e olhou bem nos meus olhos. – Sim, claro que as pessoas ainda têm amantes. Onde houver promessas, haverá promessas quebradas. É só a natureza do ser humano. Pisquei sem poder acreditar. Que diabos aquilo significava? As regras eram feitas para serem desrepeitadas, por isso não havia motivo para punir os transgressores? Que monte de merda! Contudo, ao nos voltarmos para a caixa de vidro e continuarmos a observar os vários itens contidos nela, como o jarro de água de Maria Antonieta e um papel assinado, documentando sua prisão, fiquei imaginando se talvez Jamie estivesse fazendo uma afirmação sobre o casamento, que talvez fosse apenas um princípio, um pedaço de papel respaldado pelo governo, aprovado pela sociedade mais do que pelo comportamento humano. Portanto, quase pedindo para ser insultado. Ele olhou para mim e sorriu, completamente alheio aos pensamentos desenfreados da minha cabeça. Não, falei para mim mesma. Essa não é a parte importante, não se trata de um pedaço de papel ou um


comportamento social. Trata-se de honestidade. Um dos poucos aspectos de humanidade que não pode ser controlado por uma sociedade de regras e sugestões comportamentais. Ele mentiu para mim e para a mulher dele – e isso o tornava tão culpado quanto um rei francês com um quarto cheio de amantes proibidas. Respirei fundo e olhei em volta e, de repente, me lembrei de que, mais uma vez, eu tinha vindo com um propósito, um trabalho a fazer. Talvez Jamie também não fosse ganhar um julgamento justo, mas, se os revolucionários franceses nos ensinaram uma coisa, era que, quando se está lutando por uma causa, não há espaço para sentimentos, não há espaço para dúvida. Traição é traição. Na antiga prisão francesa, fiquei imaginando se a história estava fadada a se repetir. Trezentos anos depois, como uma potencial Maria Antonieta reencarnada, será que era outra prisioneira de mim mesma? Mas aí pensei se era realmente eu quem estava presa. Essa viagem inteira parecia uma grande armadilha e, olhando de fora, tenho certeza de que parecia que Jamie era quem estava prestes a entrar nela. Porém, olhando de dentro, eu sabia que estava tão condenada quanto ele. Quando chegou a hora do jantar, Jamie e eu nos sentamos num romântico bistrô ao ar livre na Avenue de L’Opéra perto do nosso hotel. Olhei para a rua agitada e, apesar das razões que tinham me levado até lá, senti uma pontada de animação. Afinal de contas, eu estava em Paris. As luzes, o barulho, até o cheiro traziam muitas memórias de minha última visita. Eu tinha vindo para uma missão mais de um ano atrás. Era para uma mulher que tinha um marido francês (um daqueles romances parisienses de verão que ficaram sérios) que fora transferido para os Estados Unidos. Ele ia voltar para a França para visitar a família, e ela estava preocupada que aquelas tendências francesas de ser mulherengo pudessem voltar à tona quando ele voltasse à terra natal. – Sabia que a maioria dos homens franceses não acredita na monogamia? – ela me disse na nossa reunião inicial. E ela estava certa. Para Pierre LeFavre, monogamia era uma palavra que não dizia nada. Eu era supostamente uma empresária americana culta que estava viajando para a França para fechar uma importante transação. Meu francês tinha que ser “passable”, e meu gosto por vinhos e gastronomia, impecável. O francês que eu tinha estudado na escola não ia dar para o gasto. Cursei três semanas de francês intensivo para me preparar para a missão. Depois que a missão terminou, fiquei por mais duas semanas. Eu tinha me apaixonado, não em Paris, mas por Paris. Foi aí que minha obsessão pela história da França começou. E, agora, mais de um ano depois, fiquei contentíssima em ver que meu francês ainda estava, bem, passable. – Quando é que você tem que começar a trabalhar? – perguntei, fechando meu menu e colocando-o na mesa, ao lado do meu prato. Jamie também fechou o dele e respondeu solenemente: – Vamos fazer a primeira reunião amanhã de manhã. Por isso, acho que vou ter que deixá-la sozinha o dia inteiro.


Sorri. – Você acha mesmo que consegue dar conta desta cidade sozinha? – Sinceramente, estou mais preocupada com você – falei com um sorriso terno. Jamie baixou a cabeça de vergonha. – É, então somos dois. O garçom chegou, e eu pedi por nós dois. O francês de Jamie beirava entre o patético e o simplesmente vergonhoso. Seu rosto parecia refletir uma mistura de alívio e excitação, ao observar a língua do amor flutuar dos meus lábios para o ar vivo da noite de Paris. – Você já se deu conta de que não estaríamos aqui se não fosse pelos nossos carros? – perguntou Jamie depois que o garçom desapareceu. – Quê? – Se você não dirigisse um Range Rover e eu não dirigisse um Jaguar. Não estaríamos aqui. Duvido que você fosse me ligar. Por isso, topar com você na concessionária aquele dia é essencialmente o motivo por estarmos juntos em Paris. É engraçado como o destino funciona, não é? Fiquei me mexendo de nervosismo na minha cadeira. Droga de destino inútil e intrometido! Olha só como isso ficou bom! – É, meio engraçado – consegui murmurar. Ele levantou sua taça de vinho. – Brindamos aos carros beberrões de gasolina? Sorri e ergui a minha também. Por que não comprei um híbrido? – Sim – falei, encostando minha taça na dele. – Aos carros, que nos reuniram em Paris pelos próximos cinco dias. Ao tomar um gole do meu Bordeaux, notei que Jamie estava se mexendo, nervoso, na cadeira. Observei-o atentamente; do nada, ele parecia extremamente incomodado. – Está tudo bem? – perguntei. – Preciso lhe contar uma coisa – respondeu Jamie imediatamente, como se nem tivesse ouvido minha pergunta. Senti minha respiração acelerar. A seriedade da voz dele me deixou alarmada. Na verdade, ela me assustou horrores. – O que foi? Jamie se mexeu de novo, ajeitando-se na cadeira como se estivesse tentando ficar confortável para começar a assistir três horas de Senhor dos Anéis. – Estive pensando em lhe contar já faz um tempo. Engoli em seco. – Por quê? – Porque acho que pode lhe deixar chateada. – Tudo bem – respondi suavemente, preparando-me para o que eu já sabia que ele ia dizer. Eu soube na hora. Ele ia se confessar, ia me contar a verdade. Chega de mentiras,


de farsas. Chega de fingir que não tinha uma esposa em casa. A hora era agora. A única coisa que não seria encontrada na história de um famoso rei francês e sua amante: honestidade. Porém, a pergunta que girava na minha cabeça a mil era: será que eu quero ouvir? A essa altura do campeonato, será que contar a verdade livraria sua cara? Será que ele poderia ser perdoado? Faria tudo ficar bem? Ou já era tarde demais? Isso certamente destruiria a missão. Mas também, em qualquer outra missão, quando o indivíduo interrompe as coisas para admitir que tem uma esposa e depois educadamente se retira, deixo passar. É motivo para rasgar seu cartão de inspeção reprovada. Francamente, isso aconteceu apenas algumas vezes. A maioria admite que tem uma esposa e aí, ao ver uma expressão no meu rosto dizendo “e daí?”, seguem em frente mesmo assim. Porém, como disse antes, eu não compararia Jamie aos outros. Ele não era como eles, e eu certamente não era a mesma mulher que estivera com eles. Era como se Ashlyn tivesse sido convidada para vir nesta viagem, porque eu queria desesperadamente que ela estivesse lá para me ajudar, mas ela mal havia aparecido. Ela não parecia se encaixar na equação. Jamie respirou fundo e depois coçou a lateral do rosto. Sua cabeça estava procurando as palavras; dava para notar. Ele finalmente olhou bem nos meus olhos e disse: – Há uma possibilidade de termos que voltar antes. Fiquei olhando pasma. O que ele acabou de dizer? Não ouvi nenhuma menção da esposa naquela frase. Talvez a parte da esposa viesse depois, por exemplo “tenho que voltar antes porque minha esposa está me esperando” ou “... porque minha esposa precisa que eu vá a uma festa com ela”, talvez até “... porque minha esposa me pediu para pegar umas coisas na lavanderia e eu me esqueci”. Por isso, estampei uma expressão de decepção e mordi a isca. – Oh, não! Por quê? – perguntei. Ele puxou sua orelha de nervosismo. Lá vem, pensei. – Porque o cliente está hesitando em contratar nossa firma. Parece que apareceu uma contraproposta de última hora de outra empresa que é bem abaixo da nossa oferta. Talvez eles nos recusem e escolham outra empresa. E não há motivo para eu ficar aqui se não vão nos contratar. Meu queixo caiu ao ouvir ele continuar a tagarelar sem parar sobre os detalhes de conseguir novos clientes e pedidos de propostas e outras bobagens que eu consegui abstrair. – E eles têm razão. Afinal, há, no mínimo, três outros clientes em Los Angeles que precisam da minha atenção. Sabe como as pessoas são, completamente instáveis, especialmente quando estão gastando tanto dinheiro numa coisa. Uma hora, você é a empresa mais quente do mercado e, quando vê, está mais gelado que um cadáver. – Quê? – finalmente consegui falar. Jamie inclinou a cabeça para o lado, aparentando estar confuso sobre a parte dessa


história toda que eu ainda não tinha entendido. – Era isso que você queria me contar? Ele franziu a testa. – Sim. Por quê? Tentei fazer sumir o espanto do meu rosto, mas era como tentar limpar o para-brisas com um limpador quebrado. – Então vamos voltar mais cedo? Jamie suspirou. – Olhe, eu sabia que ia ficar chateada. Sinto muito mesmo. Eu vou saber com certeza amanhã. Eu diria que podemos ficar, só nós dois, mas, se eles derem para trás, minha firma vai precisar de mim no escritório imediatamente. Assenti apaticamente. – Claro. – Nada está certo ainda. Só estou avisando. Não quis falar antes, pois achei que podíamos pelo menos passar um dia legal juntos. Consegui fechar minha boca e começar a juntar minhas ideias. – Quando teríamos que ir? – perguntei, tentando parecer compreensiva. – Depois de amanhã – ele respondeu triste. – Claro, você pode ficar se quiser. É que eu tenho que voltar; não tenho escolha. Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer – e sem saber se diria do jeito que queria se eu tivesse algo importante com que contribuir. Por mais que eu trabalhasse decifrando as mentes dos homens e prevendo certos comportamentos, eu sempre dizia que as pessoas nunca eram 100% previsíveis, e Jamie tinha provado isso para mim várias vezes. Eu tinha errado em quase tudo sobre ele e, cada vez que tentei prever, ficava com a mesma sequência de sentimentos que sentia borbulhando dentro de mim neste exato momento: surpresa, confusão, desilusão e, no fim, perda total de controle. É por isso que se deve permanecer impassível, indiferente ao resultado, completamente neutra ao fato de suas habilidades de leitura da mente serem precisas ou não, porque, se não houver expectativa nem esperança, não se será pega de surpresa. Era uma lição que eu me orgulhava de ter aprendido, entregado à memória, e seguido como um mandamento. Mas, de alguma forma, hoje, e a cada minuto que passava com Jamie desde a fatídica viagem de Las Vegas, eu tinha conseguido esquecê-la. Tinha conseguido esquecer um monte de coisas ultimamente, e não fiquei contente com os resultados. Nunca fui muito fã da incerteza e achei que tinha descoberto um jeito de evitá-la. Agora ela estava me perseguindo por um corredor escuro sem portas, sem janelas, sem interruptores. Jamie estendeu a mão e acariciou a minha. Eu me esquivei, algo que nunca havia feito numa missão. Tentei disfarçar virando minha mão para que nossas palmas se encostassem. – Me desculpe ter falado disso – ele disse, entrelaçando seus dedos nos meus –, mas


não vamos nos preocupar até que esteja tudo certo, está bem? Sorri com simpatia, como se estivesse me rendendo em uma batalha longa e sangrenta. – Está bem. Jamie se aproximou por cima da mesa e me beijou carinhosamente na bochecha. – Então, me conte, como sabe falar francês tão bem? Olhei para o outro lado, evitando contato visual com ele. Fingi estar distraída com a vida noturna de Paris que começava a tomar conta da rua. Sempre detestei ter que mentir para ele, mas hoje, agora, havia algo diferente. Uma voz lá no fundo estava me dizendo para não dar bola: era a voz da hostilidade, da amargura e até do ressentimento. Ele já tinha mentido para mim. Vinha mentindo desde o primeiro dia. Cada momento que passamos juntos sem tocar no assunto da esposa foi uma mentira. A confiança já estava esmagada em pedacinhos, e ele estava segurando a marreta. Então por que se importar? – Estudei na escola – respondi casualmente. – Uau – respondeu ele –, impressionante. A maioria que aprende na escola não se lembra, mas você parece ter bom domínio da língua. Ouvi dizer que é extremamente difícil quando não se tem aplicação prática para ela. – Bem, eu uso, está bem? Por que o interrogatório? – soltei violentamente. Minha explosão repentina surpreendeu a nós dois. Eu me encolhi na cadeira de vergonha. Jamie piscou e ficou olhando para mim, esperando que eu arrematasse a piada. Afinal, era o que fazíamos: piadas, brincadeiras, tirando sarro um do outro, completando um ao outro, inspirando um ao outro. Mas o arremate da piada não veio. Eu simplesmente fiquei sentada na cadeira com as mãos rendidas no colo. – Me desculpe, eu não quis... – ele começou cautelosamente. – Não – rapidamente interrompi, frustrada comigo mesma por ter deixado minhas emoções escaparem, principalmente porque nunca escapavam, sempre eram tão bem contidas, guardadas, 24 horas por dia, 7 dias por semana, porque, é claro, como membros da monarquia francesa, elas não podiam ficar sem vigilância. – Fui eu – insisti gentilmente. – Quero me desculpar. Acho que só estou com um pouco de jetlag. Jamie olhou para mim com dúvida. – Tudo bem. Tem certeza? Demonstrei não dar importância. – Sim, absoluta. – Por acaso isso se trata... – Não se trata de nada – falei rapidamente; e disfarcei com um sorriso bem disposto. Jamie assentiu devagar e olhou para mim com carinho. Seus olhos tinham tanta ternura legítima que quase me fizeram largar meu guardanapo e sair furiosa da mesa, gritando algo do tipo “você é um cara infiel, então comece a agir como um, porra!”. O


garçom trouxe nossas entradas e, em silêncio, peguei meu garfo e comecei a enfiar pequenas porções de steak tartare na minha boca. – Bem, acho que nós dois estamos cansados – ele admitiu, observando-me encher minha boca freneticamente com carne crua. – Mmm hmm – falei com a boca cheia de carne vermelha. Engoli. – Estou exausta. Acho que, no fundo, sempre achei que Jamie nos salvaria, que ele me contaria a verdade antes que fosse tarde demais. E, talvez, houvesse espaço para perdão. Afinal de contas, parecia ser a palavra da semana, mas era óbvio para mim agora que só havia um único jeito de sair dessa viagem: Jamie ser reprovado na sua inspeção de fidelidade. A honestidade não era mais uma opção, já que ele não fazia a menor ideia do que a palavra significava. Jamie estava certo que a viagem teria que se abreviada, porque hoje à noite seria a hora do show. O conjunto de sutiã e calcinha de renda preta e rosa que eu estava usando por baixo da saia e do blusão certamente seriam suficientes. Se tudo acontecesse conforme planejado, eu estaria dormindo no meu próprio quarto de hotel hoje e pegaria o próximo voo para casa pela manhã. – Bem, vamos comer logo e voltar direto para o hotel – propôs Jamie solidariamente. Peguei um pedaço de pão da cesta em cima da mesa e dei uma enorme mordida enquanto respondia ao seu comentário com um sorriso vazio. – Perfeito – falei docemente.


30 A verdade nua e crua Jamie me beijou assim que entramos no quarto do hotel. Foi um alívio muito desejado depois do trajeto de táxi relativamente silencioso. Acho que tínhamos muito o que pensar. Eu estava pensando em voltar para o hotel, tirar minha roupa para mostrar meu conjunto de lingerie sensual e acabar logo com essa droga de inspeção. Ironicamente, ele também devia estar pensando em sutiãs e calcinhas – ou na ausência delas. Tenho certeza de que interpretou meu silêncio como um sinal de que estava chateada com a possibilidade de ter a viagem encurtada. Mal sabia ele que a viagem abreviada era a última coisa da minha lista de chateações. Seu beijo foi apaixonado e determinado. Ao pressionar seu corpo contra o meu e cairmos na cama, não foi difícil especular qual era o seu propósito. E minha cabeça ficou imediatamente à vontade. Está vendo, falei para mim mesma. Ele é infiel. Passei todo esse tempo me preocupando com o que eu sentiria se ele se recusasse a transar comigo. Era bem óbvio pelo volume que estava se formando dentro de sua calça que ele estava longe de recusar. Avidamente, ele pegou a barra do meu blusão e começou a puxar para cima. Nossos beijos pararam por tempo suficiente para o blusão passar por cima da minha cabeça e depois seus lábios desesperadamente se avançaram nos meus, como se não nos beijássemos há um ano ou mais. Comecei a desabotoar a camiseta dele de cima. Os dedos dele começaram por baixo e, quando nossas mãos se encontraram no meio, tirei logo a camisa do corpo, que ele contorceu para facilitar a retirada. Cada ação, cada retirada, cada toque não podia ser feito com mais impaciência. Nós dois tínhamos aguardado tanto tempo para chegar a este exato momento, mas por razões diferentes. E agora que ele finalmente tinha chegado, não havia dúvida de que nenhum de nós queria esperar mais. As roupas eram apenas um grande obstáculo a essa altura. Quando eu estava, enfim, só de sutiã e calcinha, ele foi mais devagar, muito mais devagar. Ele afastou seus lábios de mim e olhou com admiração para o meu corpo, estirado diante dele. Pude sentir seus olhos em mim tanto quanto sentia suas mãos. Quando olhava para mim, era como se eles estivessem me acariciando também e, por mais que eu detestasse admitir, a sensação dos olhos em mim era igualmente boa. Fiquei deitada, com Jamie pertinho ao meu lado e a cabeça apoiada na mão, a perna entrelaçada com a minha. Cuidadosamente, ele passou as pontas do dedos na parte de cima dos meus seios e depois aproximou a cabeça para beijá-los. Estavam perfeitamente redondos graças ao enchimento do sutiã; levantei meu queixo e gemi de prazer. A parte


mais assustadora foi que o gemido era real, não foi fingido. Onde estava Ashlyn? Ela me deixou aqui me defendendo sozinha e estava claro que eu não estava fazendo um bom trabalho. Tudo estava maravilhoso. A excepcionalidade desse momento era inegável. Ele me beijou novamente e, com delicadeza, se colocou por cima de mim. O beijo se aprofundou, e pude sentir ele ficando duro. Seu corpo desceu até o meu e, devagar, balançamos juntos enquanto nossos lábios se tocavam, se afastavam, se separavam e depois se tocavam de novo. Meus olhos estavam fechados, mas parecia que eu podia enxergar tudo, como se não precisasse que se abrissem nunca mais. A sensação do corpo de Jamie sobre o meu era tudo o que precisava sentir pelo resto da vida. E aí, de repente, o pânico bateu. O que você está fazendo?, perguntei a mim mesma. Estávamos prestes a transar, e eu ia deixar acontecer. Eu queria que acontecesse, mas não podia. Não estava nos planos. As regras eram e sempre foram muito simples: testar apenas uma “intenção de trair”. Não envolvia sexo. Nunca envolveu e nunca envolveria. Senão, seria simplesmente prostituição. Sim, prostituição. Eu tinha que manter um fato sensato e muito importante na cabeça: eu estava sendo paga para estar ali. Sem falar que eu estaria transando conscientemente com o marido de outra mulher. Novamente, senti o incrível desejo pela alegria da ignorância, a droga que apaga a memória, algo a limpar todas as lembranças das últimas duas semanas, para que eu pudesse voltar para aquele dia perfeito em que ela ainda não existia: a senhora Jamie Richards. Não seria maravilhoso esse momento se eu pudesse? Jamie parou de me beijar e tocou no meu rosto com a mão. – Ei – ele disse suavemente. Abri meus olhos e sorri para ele, um sorriso autêntico, real, legítimo. – Sim? Ele continuou acariciando minha bochecha e aí colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. – Não consigo acreditar no que vou dizer, mas talvez não devêssemos fazer isso agora. Meus olhos se arregalaram e olhei para ele, incrédula. – Por quê? Qual é o problema? – Nada – ele falou apressadamente. – É que... – sua voz sumiu, e ele se deitou. – Só não sei se já estamos prontos para isso. Eu não sabia como reagir. Certamente, era um novo tipo de rejeição, do qual eu nunca tinha ouvido falar. E, na maioria das vezes, diferente das outras mulheres, sou muito a favor das rejeições, mas essa trouxe um punhado de sentimentos ambíguos. Por que ele não queria? Será que era eu? A lingerie não era sensual o bastante? O sutiã com enchimento não estava enchendo o suficiente? Que diabos era? – Bem, você certamente demonstrou estar pronto – brinquei um pouco, tentando esconder meu ego ferido. Ele riu. – É, bem, isso é natural. Afinal, você é inacreditavelmente sedutora.


– Mas você não quer transar comigo – lembrei categoricamente. Ele esticou a mão e pegou a minha com força. – Quero. Acredite, eu quero. Por favor, não fique ofendida. Só não sei se deveríamos... ainda. Assenti com apreensão. – Está bem. – Não pareço gay? – ele perguntou, deitando-se novamente e olhando para o teto. Dei uma risadinha. – Você não é gay. Acredite, um dos meus melhores amigos é gay, e você certamente não se parece nem um pouco com ele. Ele riu. – Obrigado, vou ficar me lembrando disso. Observei-o enquanto ele olhava para o teto. Ele parecia perturbado. – Está tudo bem? – arrisquei. Ele se virou para mim e se desculpou com um suspiro. – Sim, está tudo bem. Me desculpe, querida. Estou apenas... preocupado. Peguei a mão dele e a beijei. – Entendo. Eu me levantei e saí da cama. – Acho que vou me preparar para dormir então. Caminhei pela grande área da suíte até o banheiro e fechei a porta. Por um instante, fiquei parada no escuro, com medo de acender a luz, com medo do que ela me revelaria e do que essa revelação significaria. Estiquei a mão devagar e liguei o interruptor. Dei uma longa e boa olhada em mim mesma no espelho. Meu reflexo dizia tudo: eu estava radiante. Sei que a maioria das mulheres se sentiria confusa, magoada, rejeitada, mas não eu. A rejeição de Jamie era o melhor presente que ele podia ter me dado, porque eu conhecia exatamente a origem, as razões por trás dela, que eram boas. Porém, um pensamento me ocorreu. Ele disse “não sei se deveríamos... “ainda”. O que exatamente significava ainda? Será que deveríamos amanhã? Ou depois de amanhã? Quando é que deveríamos? E será que esta missão teria que seguir até a outra semana? O outro mês? Ano? Até que ele finalmente estivesse pronto para trair a esposa? A princípio, achei que a rejeição fosse uma coisa boa, mas, pensando melhor, seria ela apenas um prolongamento dessa missão horrorosa? Poderia apenas significar que meu trabalho “ainda” estava para ser concluído? – Ei, Jen – gritou a voz de Jamie atrás da porta. – Sim? – respondi, com os olhos ainda grudados no meu reflexo confuso. – Acho que deixei meu cartão de crédito na recepção. Vou descer até o saguão e verificar. Você vai precisar de alguma coisa de lá? – Não, obrigada. Estou bem! Abri a torneira de água quente e botei meu dedo embaixo, esperando a água


esquentar. Rapidamente, molhei meu rosto, peguei um punhado de gel de limpeza facial e passei por toda a pele. – Ei, não consigo achar minha chave – ouvi a voz de Jamie dizer por trás da porta de novo. – Você está com a sua? – Claro – respondi, com os olhos fechados e o rosto coberto por um creme branco. – Está na minha bolsa. – Está bem, obrigado! Enxaguei meu rosto, sequei-o com a toalha macia e fofa do Ritz Paris e aí vasculhei minha nécessaire à procura da escova de dente. Apressei minha rotina de escovação, que geralmente durava três minutos, e, com um grande suspiro, desliguei a luz e abri a porta. A primeira coisa que vi quando voltei para o quarto foi o estrado branco e dourado e os lençóis bagunçados de nosso quase caso de amor francês. A ideia das suas palavras de recusa mais uma vez me encheram de confusão – que eu desesperadamente queria resolver, mas, francamente, não sabia como. A segunda coisa que vi foi Jamie, em pé, parado, no meio da suíte. Numa das mãos, ele estava com o celular no ouvido, ouvindo atentamente, com os olhos estranhamente cheios do que apenas podia ser descrito como dolorosa decepção. O que quer que estivesse ouvindo do outro lado da linha era má notícia, muito má. E foi aí que vi o que estava segurando na outra mão: meu cartão de inspeção de fidelidade reprovada, aquele que eu tinha enfiado com segurança no bolso interno da minha bolsa, aquele que ele só deveria ver se e quando realmente fosse reprovado. De onde eu estava, a pelo menos cinco metros de distância, pude apenas enxergar a letra A vermelha na superfície preta, reluzindo intensamente no quarto, iluminando a penumbra da suíte enluarada como um farol vermelho. Aquela visão fez um buraco nas minhas íris, o mesmo efeito, imagino, que a letra tinha que ter quando costurada na roupa de Hester Prynne. Congelei. Nossos olhos se encontraram e se fixaram. Ele olhou para mim com tanta tristeza e denúncia que meu coração se quebrou em um milhão de pedacinhos. Sem mexer um centímetro sequer da linha de visão, ele afastou o celular do ouvido e o fechou com um estalo que ecoou pelo quarto vazio como um tiro. Ficamos parados no que pareceu uma eternidade, olhando um nos olhos do outro, enquanto perguntas e acusações silenciosas iam e voltavam entre nós como ondas invisíveis. Jamie foi o primeiro a falar. – É uma armação? – perguntou baixinho, felizmente sem indício de raiva na voz, apenas dor: uma dor confusa e profunda. – Foi tudo uma armação? Fechei meus olhos e me esforcei para pensar nas palavras certas – até me dar conta de que não existiam. Não se elabora discursos para momentos como esse. – Jamie, eu... – Desde o começo! – sua voz se levantou, e a raiva finalmente tomou conta. – Desde o começo, porra!?


– Não! – gritei desesperadamente. – Não desde o começo. Não até alguns dias atrás! – E é nisso que você trabalha? Arma para cima das pessoas? Para serem reprovadas? Fiz que não; as lágrimas já estavam ardendo nos meus olhos. – Não com você! Não começou desse jeito. Eu quis te contar. Eu tinha resolvido contar para você e aí... – Aquele homem no restaurante japonês. Ele estava tentando me alertar sobre você. E eu, como um merda idiota, te defendi! – falou, largando as duas coisas das mãos: o celular caiu fazendo um forte ruído e o cartão flutuou e girou elegantemente até o chão, pousando, muito adequadamente, com o A virado para cima. – Você mentiu para mim! – Eu? – berrei, sentindo a exaltação crescer dentro de mim. – Você é o mentiroso aqui! Por acaso tenho que te lembrar que você tem uma porra duma esposa? Acho que tenho, porque você parece ter esquecido. Parece ter fugido à cabeça, porque você convenientemente esqueceu de mencioná-la esse tempo todo! – É, uma esposa que te contratou! Para agir como se estivesse se apaixonando por mim tanto quanto eu estava por você! – Jamie, eu me apaixonei por você de verdade – praticamente implorei. Porém, ele se recusava a ouvir. Acreditava no que queria, acho que do mesmo jeito que eu. – Então você vinha a Paris com um monte de caras? – provocou ele de maneira sádica. – Ou eu fui o único idiota o suficiente para te convidar para vir junto? Você provavelmente fez um monte de viagens legais no seu trabalho! São muitos benefícios para um funcionário, Jen, e aposto que cada um deles também fez um saco de avião para você. As lágrimas corriam pelo meu rosto, mas eu não ligava. Nem me dei ao trabalho de enxugá-las. Simplesmente me concentrei nele, como se fosse derrubá-lo com uma das minhas manobras de autodefesa. Em vez disso, passei a mão por trás dele e peguei minha bolsa na cômoda, coloquei-a no ombro. Depois, abaixei-me e peguei o cartão preto. Levantei e entreguei-o para ele. – Acho que isso pertence a você. Jamie levantou as mãos. – Não vou encostar nessa coisa. – Ótimo! – gritei, batendo o cartão na cômoda. – Vou deixar aqui onde sempre deixo. – Saí em direção à porta. – Porque você é exatamente como todo o resto da escória infiel que encontro! Abri a porta e fui para o corredor. Eu sabia que tinha apenas que continuar andando e não olhar para trás, mas algo me fez virar, só para ver o que estava estampado no rosto dele. A cabeça de Jamie estava baixa, olhando para o chão. A batalha tinha terminado. Agora tudo o que sobrou foram as consequências, e ele podia senti-las; elas o envolviam. Ele foi recuando devagar até suas pernas baterem suavemente numa poltrona antiga estilo Luís XV e deixou-se desabar nela.


– Não fui eu quem traiu – falou baixinho, para o caso de alguém estar ouvindo. Mas eu não estava. Eu estava ocupada demais batendo a porta. Foi só quando saí do elevador para o saguão do hotel que percebi que ainda estava de lingerie. Sim, eu estava com minha bolsa estilosa da Dior no ombro, mas estava de lingerie mesmo assim. Houve olhares de alguns hóspedes, e alguns funcionários do hotel tentaram não olhar. Olhei para o meu modelito e, em vez de tentar me cobrir como sempre fazem nos filmes quando uma mulher está sem algumas peças de roupa necessárias, resolvi que minha nudez virtual era o menor dos meus problemas agora. Por isso, levantei minha cabeça e andei determinada até a recepção. Acho que eu podia, pelo menos, ficar contente por estar usando um conjunto. – Preciso de um outro quarto – anunciei com firmeza para o atendente da recepção. O homem nem piscou. Acho que, trabalhando no Hotel Ritz em Paris, ele já tinha visto de tudo – e, provavelmente, coisas piores do que uma mulher com roupas íntimas, lágrimas secas nas bochechas, pedindo um segundo quarto. – Me desculpe, mademoiselle, mas os quartos estão lotados para esta noite. Soltei um grunhido alto. Isso era uma coisa que eu certamente não tinha previsto e isso também era o motivo de eu sempre reservar com antecedência. Mas com Jamie, não o fiz. Acho que foi fé, uma fé cega e idiota de que ele fosse ser aprovado no teste e eu nunca me encontraria na situação de ter que reservar outro quarto às 22h. Obviamente, eu não havia exatamente previsto esse quadro em especial. – Não, você tem que ter um quarto, uma suíte, um armário, qualquer coisa! Eu aceito qualquer coisa que tiver. Vou embora pela manhã mesmo, então é só por uma noite. O atendente verificou o relógio e depois olhou com solidariedade para mim. – Bem, estamos segurando um quarto para um hóspede que ainda não chegou. – Aceito! – falei ansiosamente. Ele sorriu educadamente, como querendo dizer “e se você deixar eu terminar de falar...”. – Me desculpe – eu disse. – Mas a regra do hotel diz que não podemos liberar o quarto antes das 23h. Ansiosa, olhei em volta em busca de alguma coisa que me dissesse as horas. – Bem, que horas são agora? – São 22h, mademoiselle. Olhei para ele sem acreditar. – Você espera que eu fique aguardando neste saguão vestida desse jeito por uma hora? Foi nesse momento que o atendente se deu conta da minha vestimenta pouco ortodoxa. Ele abriu um sorrisinho e depois rapidamente disfarçou com uma pigarreada. – Claro que não, mademoiselle... Soltei um suspiro de alívio e comecei a vasculhar minha bolsa à procura da minha carteira, para lhe dar meu cartão de crédito.


– ... você pode fazer a gentileza de aguardar no bar – ele falou com toda a seriedade. Congelei e olhei para ele, cuja expressão nada revelava além de completa sinceridade. – Está brincando? – Não posso lhe dar o quarto antes das 23h. Lamento muito. Se fizer a gentileza de aguardar no lounge, posso ir chamá-la quando o quarto ficar disponível. Resmunguei, enfiando a carteira de volta na minha bolsa. – Ótimo então – respondi o mais elegante que pude por entre meus dentes cerrados. – Vou estar no bar. – Virei-me a contragosto, com os pés descalços, e irrompi pelo saguão. Ninguém no bar Hemingway (o famigerado lounge do Hotel Ritz) pareceu reparar em mim quando entrei. Em silêncio, peguei um lugar numa mesa ao fundo, contente por ter optado pelo conjunto com modelagem biquíni em vez de um fio dental. Pedi uma vodca com gelo para a garçonete e, quando ela estava se retirando, eu a interrompi e disse: – Na verdade, pode me trazer duas de uma vez? Vai economizar o tempo de nós duas. – Duas? – disse um homem com sotaque americano. Olhei ansiosamente esperando que fosse Jamie. Vi um desconhecido alto, parado na minha frente, segurando um copo meio vazio de gelo e um líquido marrom. Ele sorriu para mim e, delicadamente, começou a girar a bebida dentro de seu copo. Desviei o olhar e revirei os olhos. – Posso me sentar? – ele perguntou, nem chegando a esperar minha resposta e tomando um lugar ao meu lado. – Agora não é mesmo uma boa hora – alertei. – Uma compatriota – ele arriscou, ignorando meu comentário e colocando seu copo na mesa. – É, isso mesmo – falei friamente. – Noite ruim? – ele perguntou com uma preocupação falsa tão óbvia que me fez querer soltar uma risada alta e sádica. – Olhe, eu não estou a fim de companhia, por isso, você poderia... – Posso melhorar as coisas – ele propôs rapidamente. Olhei incrédula. – E como é que poderia fazê-lo? Seus olhos vasculharam cautelosamente o recinto e depois ele se aproximou de mim. Pude sentir o bafo de álcool; parecia uísque. – Quero dizer, posso compensar seu tempo perdido. Afastei minha cabeça para evitar respirar mais uma lufada do bafo e levantei minhas mãos, irritada. – De que merda está falando? O homem abriu um sorriso paciente. – Quero dizer, posso lhe pagar o dobro, até o triplo. Olhei novamente para o meu traje e, na hora, soube aonde ele queria chegar. Revirei


os olhos. Certamente não era a primeira vez que alguém me confundia com uma prostituta. – NÃO sou uma prostituta! – gritei bem alto, frustrada, fazendo com que o bar inteiro se virasse e ficasse olhando. Mas não dei bola, nem um pouco. Não parecia mais ter importância, nem estando num dos bares de hotel mais classudos e elegantes de Paris com minha lingerie de renda preta, anunciando para todo mundo que o homem ao meu lado pensou que eu era prostituta (e, provavelmente, com razão, dada a maneira como eu estava vestida). Eu só queria que as 23h chegassem logo, para que eu pudesse subir na cama branca e fofa do hotel e chorar até dormir. Será que era pedir muito? O homem se virou para mim, horrorizado e mudo; depois, rapidamente, levantou-se e desapareceu do lugar. Recostei-me no assento e cruzei meus braços. Essa seria uma noite e tanto. – Achei que isso lhe deixaria mais à vontade, mademoiselle. Olhei para cima e vi o atendente da recepção parado na minha frente, com um roupão branco do hotel pendurado no dedo. Sorri e agradeci delicadamente, com as palavras e os olhos. Ele parecia entender explicitamente meu apreço, pois curvou a cabeça. – Estamos ao seu dispor. Vesti o roupão e me senti imediatamente mais confortável. Deixei minha cabeça descansar no encosto da cadeira e relaxei meus braços. A garçonete chegou logo com meus dois drinques. Meti a mão dentro da bolsa e retirei uma nota de cinquenta euros. Ela a pegou e sumiu. Virei o primeiro drinque de uma vez só e depois me recostei, segurando o segundo, olhando para ele, esperando que se transformasse na salvação de que precisava. Quando o relógio marcou 23h e o atendente voltou a entrar no lounge, eu ainda estava segurando meu drinque intocado, firme como uma rocha. Não havia uma única ondinha na superfície do líquido transparente. – Mademoiselle? – a voz do atendente me acordou de um transe, fazendo minha mão se tremer repentinamente, derramando um pouco de álcool nos meus dedos e no roupão do hotel. Coloquei o dedo na boca e chupei o delicioso sabor da vodca. – Sim? – perguntei ansiosa. – Conforme solicitou, seu quarto está pronto. – Ainda bem! – exclamei, levantando-me e tomando rapidamente meu drinque. Peguei minha bolsa e saí do bar, ignorando de propósito a reação meio estarrecida do atendente quanto ao meu desrespeito descarado pela ótima vodca francesa. Assim que fiquei sozinha no meu quarto, vasculhei o frigobar. Eu tinha mandado o carregador de malas ir ao quarto de Jamie pegar minhas coisas e, quando a aguardada batida chegou à porta, eu já estava rodeada por três garrafinhas vazias de Grey Goose, o melhor produto de exportação da França, pela parte que me tocava no momento. Abri a


porta para ele e o observei trazer minhas malas e deixá-las perto do closet. – Tem alguma mensagem? – perguntei esperançosa. Ele claramente não entendeu o que eu estava perguntando. – Uma mensagem, madame? – ele repetiu com um sotaque forte. – Do homem do quarto. Ele falou para você me falar alguma coisa? Ele fez que não com a cabeça, confuso. – Não, madame, o quarto estava vazio. – Vazio? – perguntei sem acreditar, aproximando-me dele. – Quer dizer que não tinha ninguém lá? Dava para notar que minha cara de desespero meio embriagada estava deixando-o constrangido, sem falar da minha proximidade ao corpo dele. – Ninguém e nada – ele disse cautelosamente, balançando a cabeça. – Como assim? – minha voz tremeu de medo. – Hã, vazio? – ele voltou a repetir, aparentando estar preocupado por talvez não ter traduzido seu pensamento na palavra certa. – Vide – reafirmou em francês. Lá estava. Eu sabia o que ambas palavras significavam, nas duas línguas, porque queriam dizer a mesma coisa. Jamie tinha ido embora, tinha levado tudo menos as minhas coisas. E sabe-se lá aonde ele tinha ido. Senti mais lágrimas se juntando nos meus olhos ao me afastar do carregador assustado e começar a fechar a porta. – Merci beaucoup – falei suavemente. – Je vous en prie – o homem respondeu, visivelmente aliviado por eu deixá-lo ir. Ele se curvou de leve e se afastou, indo em direção à porta. Empurrei as garrafinhas vazias para fora da cama e caí em cima dela, deixando minhas lágrimas correrem livremente pelo meu rosto. Tirei o edredom de cima. Os lençóis brancos e acetinados estavam me convidando: “venha para nós, Jen”, diziam. “Nós lhe daremos a mesma segurança de sempre”. Entrei embaixo dos cobertores, peguei um segundo travesseiro e abracei-o com força. Fechei bem os meus olhos e tentei meditar, pensar em lugares felizes, distantes, campos verdes e céus azuis. Porém, ao me deixar ser tragada para um mundo de branco celestial e caloroso, não senti nada além de uma fria e implacável escuridão.


31 Meu coração partido é meu lar Posso pensar em várias pessoas famosas que, em algum momento, estavam tentando entrar em Paris: Charles Lindbergh, Lance Armstrong, Audrey Hepburn, Ernest Hemingway, até Hitler. Eu, contudo, permanecendo fiel à minha Maria Antonieta reencarnada, estava tentando fugir. – Acho que você não está entendendo o que estou dizendo! – praticamente gritei ao telefone enquanto caminhava de um lado a outro no meu quarto. – Eu já tenho uma passagem para Los Angeles, mas o voo só sai na sexta. Eu estava na linha com o “serviço” de atendimento ao consumidor da Air France havia uma hora, tentando conseguir voltar para casa mais cedo. Diferente da última vez que estive em Paris, em que optei por passear por três semanas depois da minha missão, desta vez, eu não estava muito a fim de ficar mais tempo. Eu já tinha visto coisas demais. – Sim, mas o que tenho tentado lhe dizer, senhorita Hunter, é que todos os nossos voos já estão lotados – a atendente falou com pouco sotaque. – Bem, e se eu ficar na lista de espera? Ou isso não existe aqui? A paciência dela estava se esgotando quase tão rápido quanto a minha. – Nós temos lista de espera, senhorita Hunter, e você pode incluir seu nome nela, mas não posso garantir que possamos encaixá-la na primeira classe. Suspirei. – Não me importo se tiver que ficar no bagageiro com as malas e os cachorros. EU PRECISO SAIR DAQUI! – Muito bem, senhorita Hunter. Por favor, aguarde um momento, eu vou... – Não, não, por favor, não me deixe aguardando de novo! Mas ela já não estava mais na linha. E, mais uma vez, fiquei ouvindo os sons supostamente calmantes de clássicos franceses convertidos em música de elevador. Suspirei e olhei em volta para procurar o controle remoto da televisão. Fui trocando os canais até finalmente achar um em inglês: era a CNN. Atirei o controle na cama e tentei mergulhar nos problemas das outras pessoas enquanto aguardava a Air France resolver o meu. De forma egoísta, eu esperava que a guerra no Iraque, os homens-bomba em Israel e o total desrespeito pelas leis internacionais de combate ao trabalho infantil no México fizessem minha vida parecer um mar de rosas. Infelizmente, a CNN estava passando uma espécie de programa especial sobre escândalos políticos americanos, o que nada fez para aliviar minha desgraça atual.


– Senhorita Hunter? – falou uma voz masculina do outro lado da linha. – Sim? – Como posso lhe ajudar? – Fui transferida de novo? – Acho que sim – o homem respondeu. – Como posso lhe ajudar? Grunhi bem alto ao telefone e comecei a contar minha história pela décima vez. – Estou tentando conseguir um assento num voo para Los Angeles hoje. Já tenho uma reserva para um voo na sexta, mas preciso mudar a data. Ouvi uma digitação pelo telefone. – Lamento, mas todos os nossos voos para Los Angeles estão lotados hoje. Posso lhe conseguir um voo para a quarta de manhã. Porém, eu mal conseguia ouvir o que ele estava dizendo. Meus olhos estavam grudados na tela e estavam arregaladíssimos. – Minha nossa! – Sinto muito pelo inconveniente, Senhorita Hunter. Peguei o controle remoto e botei o volume no máximo. – Um senador do Senado Estadual da Califórnia anunciou recentemente sua candidatura para a Câmara dos Deputados dos EUA – relatava o apresentador do especial da CNN. – Alô? Senhorita Hunter? Você ainda está na linha? – Hã... – hesitei, tentando entender as imagens da tela e, ao mesmo tempo, garantir uma maneira de sair dessa cidade. – Vou ficar na lista de espera – falei apressadamente ao telefone e, distraída, coloquei-o de volta na base. Fiquei olhando abobada para a TV e ouvi atentamente o comentarista continuar falando. – Mas a família Austin ficou chocada e perplexa quando os adversários políticos de Daniel Austin revelaram que ele estava, de fato, escondendo sua homossexualidade. – Não acredito – falei em voz alta, enquanto o segmento passou para uma entrevista coletiva na qual Daniel Austin, o mesmo homem solitário com o qual John e eu “topamos” no cais apenas algumas semanas antes, se colocava na frente de um grande púlpito, com uma mulher desconhecida de tailleur azul ao lado. – Não estou envergonhado nem constrangido com a notícia que foi anunciada pelos meus opositores políticos e, embora não acredite que isso vá afetar minha capacidade de desempenhar meu trabalho como representante do Senado Estadual da Califórnia, decidi retirar meu nome das eleições para a Câmara dos Deputados dos EUA e me concentrar primeiramente na minha família. – Eu sabia que ele me era familiar! – gritei para o quarto vazio. O homem que estava no púlpito olhou para a mulher ao lado dele e sorriu carinhosamente antes de prosseguir. – Minha esposa tem me apoiado muito durante este período turbulento do nosso casamento...


– Espere um pouco – pensei, examinando a mulher do tailleur azul. – Essa não é Sarah Austin. Pelo menos, não era a Sarah Austin que eu havia conhecido, e acho que me lembraria dela, daquela estranha mulher robótica que me convidou para entrar na mansão deserta e severa em Topanga Canyon três vezes! Eu tinha muita certeza de como ela era. E ela não era... Mas aí eu parei. De repente, tudo começou a ficar claro, as nuvens estavam se abrindo e o sol estava batendo na minha cabeça. Essa não era a Sarah Austin que eu havia conhecido. Ela era uma espécie de impostora ou isca. Possivelmente um robô de verdade! E aquela casa era falsa! Quero dizer, não uma casa falsa, com paredes de papelão que caíam se alguém encostasse nelas, mas não a verdadeira casa de Daniel Austin. Provavelmente eram móveis alugados. Não é de estranhar que parecia que ninguém morava nela. Ninguém morava lá mesmo! Porém, se não era Sarah Austin, quem era ela? Voltei a olhar para a TV, em busca de mais pistas; e aí, do nada, lembrei de uma coisa que Daniel tinha dito alguns segundos atrás: “Não estou envergonhado nem constrangido com a notícia que foi anunciada pelos meus opositores políticos”. – Anunciada pelos meus opositores políticos? – repeti em voz alta com espanto. Meu Deus! Fui usada como espiã política! Os inimigos de Daniel Austin devem ter alugado aquela casa, contratado aquela mulher e pago para ela me contatar, posar de esposa e me pagar (em dinheiro!) para provar sua infidelidade. Por isso, minha primeira impressão sobre o dinheiro estava certa. Ela fora contratada para representar o papel de uma esposa influente, respeitável e cheia de si de um político conhecido. Ele só não era conhecido para mim. Seja lá quem fossem seus inimigos, obviamente estavam tentando metê-lo num escândalo político. Não é de estranhar que ela tenha insistido que eu voltasse lá e tentasse de novo, que ela tenha aparentado estar “decepcionada” com meus primeiros resultados e que parecesse estranhamente contente quando voltei com a notícia de que Daniel era gay. Deve ter sido um dia e tanto para eles! Um político republicano com um segredo gay obscuro e obsceno dentro do armário. Hã, oi... dá para dizer “bingo”? Eu tinha ouvido falar que esse tipo de coisa acontecia no nosso sistema “honesto” de governo, mas nunca pensei que eu estaria diretamente envolvida. E, embora achasse que talvez deveria estar me sentindo ultrajada, pensando “como ousam me usar desse jeito? Como ousam me envolver inconscientemente nesse tipo de escândalo sexual mesquinho e tacanho?”, não tinha jeito de eu ficar brava: isso era legal demais! E eu estava ansiosa para voltar para casa e contar a John. Ele ficaria ainda mais empolgado. Ah, mas ele provavelmente já tinha visto o noticiário e contado a todo mundo que ele tinha pessoalmente tirado um político de direita, republicano, do armário. Na verdade, a notícia provavelmente já tinha se espalhado por toda a rede de informações gay de Los Angeles e metade da de San Diego.


Fiquei assistindo à TV até o segmento terminar: – ... o candidato democrata Paulson ainda se recusa a comentar sobre suas fontes. Depois de esperar quatro voos, pegar dois assentos do meio e três conexões em Londres, Chicago e Denver, finalmente aterrissei na pista do Aeroporto de Los Angeles na terça de manhã. E nunca estive tão contente por isso em toda a minha vida. Eu tinha ligado para Sophie do Aeroporto de Chicago na noite anterior e, depois de ouvir a série de acontecimentos, ela insistiu em me buscar e me levar para casa. – Veja pelo lado positivo – sugeriu Sophie alegremente depois de dez minutos de silêncio no carro, indo do aeroporto para casa. Levantei minha cabeça do encosto e olhei para ela. – Qual lado positivo? Te dou um milhão de dólares se conseguir me dizer qual é o lado positivo. Sophie apertou os lábios e ficou olhando para a estrada. – Bem, tem, hã... Recostei minha cabeça novamente. – Exato. – Sempre tem um lado positivo – ela insistiu. – Você só tem que procurar bastante até achar. – Quer dizer, iludir-se por tempo suficiente até começar a acreditar? Sophie olhou para mim com o canto do olho. – Alguém ficou cínica nas últimas 24 horas. Fechei meus olhos. – Sempre fui cínica, só que disfarçava bem. Até para mim mesma, pensei. – Então, o que acha que vai fazer agora? Vai voltar para o negócio de inspeção de fidelidade? – Não sei – falei vagamente. E a verdade era que eu não sabia. Certamente tinha pensado sobre isso durante minhas quase vinte horas de viagem, mas ainda tinha que chegar a uma conclusão sólida. Eu não tinha largado o trabalho totalmente por causa de Jamie. Claro que teve grande influência, mas foi mais o que ele me fez perceber: que havia mais coisas na vida do que apenas homens infiéis. Mas agora eu já não tinha mais tanta certeza disso. Sophie parou na frente do meu prédio e colocou o câmbio em ponto morto. Ela se virou e olhou para mim, quase como se pudesse ler minha mente; e, bem nessa hora, eu apostava que podia. – Eric vai vir para cá este fim de semana. Vamos ter nossa primeira reunião com a organizadora de casamentos. Abri um sorriso fraco. – Legal.


– Gostaria que todos nós almoçássemos juntos no domingo, se você estiver a fim. – Você, eu e a organizadora? – tentei minha primeira piadinha. Sophie recompensou meu esforço com uma risada verdadeira. – Não, sua boba. Você, eu e Eric. Quero que o conheça; desta vez, para valer. Eu virei a cabeça e olhei pela janela. – Está bem. Sophie teve dificuldade para pensar no que dizer. – Só achei que, sabe, talvez te animasse estar com alguém que não é um cara infiel para variar um pouco. Depois disso, fiquei convencida de que ela era capaz de ler minha mente, mas também fiquei contente por ela não ser capaz de lê-la toda, porque tudo o que minha cabeça cínica conseguiu pensar naquele exato momento foi: eu não teria tanta certeza assim. – Tenho certeza de que vai me animar – falei indiferente ao tirar meu cinto de segurança. – Me desculpe – ela rapidamente acrescentou –, talvez isso tenha sido ríspido demais. Eu não sou a pessoa que geralmente distribui palavras de incentivo. Esse departamento sempre foi seu. Abri um sorriso fraco, mas afetuoso, e toquei no ombro dela. – Você está fazendo um bom trabalho. Nós duas saímos do carro, e Sophie me ajudou a pegar minhas coisas. – Quer que eu suba? Posso ficar um pouco com você. Quem sabe faço um chá? – Sophie, não vou cortar os pulsos. Vou dormir. Acabei de ir e voltar da Europa em menos de 72 horas – falei, puxando a alça da minha mala. – Eu sei! Não achei que você fosse... – Eu te ligo quando acordar. – Ele não traiu de verdade – Sophie lembrou. Porém, tecnicamente, ela não precisava me lembrar. Era o mesmo cubo mágico mental que eu vinha girando e tentando resolver na cabeça há dois dias e, independente do número de combinações de esquerda, direita, para cima, para baixo, para frente, para trás, nenhuma das cores parecia se alinhar. Não havia chegado a nenhuma conclusão concreta. Onde estava a face completamente vermelha que significava que ele estava traindo só por estar em Paris comigo? Ou os nove quadradinhos verdes, lado a lado, formando um argumento impenetrável para sua inocência sem sexo? Mas, não importava quantas vezes eu girasse esse cubo, nada se encaixava. Cada lado continuava sendo uma mistura ambígua de racionalizações coloridas e incompletas. – Não traiu? – perguntei cética. Pude ver a mente de Sophie começar a se perder também no mar infindável de possíveis respostas. Era um mar perigoso em que se perder. Se a pessoa não se cuidasse, poderia nunca voltar. – Será que traiu? – finalmente perguntou.


Para essa questão, apenas ri desesperançada e disse: – Bem-vinda ao meu mundo. Arrastando a mala, entrei no meu prédio e dei o meu adeus amargurado para a luz do sol. Eu não tinha a intenção de vê-lo pelos próximos dois anos. Entrei no meu apartamento e encontrei-o tão limpo e branco como sempre. Pelo jeito, Marta havia passado ali durante o tempo em que estive viajando para Paris, terminando o namoro em Paris ou tentando sair de Paris. Larguei minhas coisas na porta e fui aos tropeços para o quarto, como uma bêbada depois de uma noite de bebedeira. Mas eu tinha que admitir que vinte horas viajando na classe econômica não estava muito longe disso. Caí na minha cama, virei minha cabeça e vi a luz vermelha da minha secretária eletrônica piscando. Por mais que quisesse pegá-la e atirá-la no lixo, eu me dei conta de que o que havia na mensagem podia me distrair do meu sofrimento absoluto. Talvez fosse uma notícia boa. Estendi minha mão até a cômoda, derrubando alguns livros e um frasco de hidratante, e apertei o botão para tocar. A voz jovem e despreocupada de Hannah tocou no alto-falante. “Oi, Jen! Sou eu”, começou a mensagem. “Semana que vem é Halloween e eu só queria te dizer que vai ser oficialmente o último ano que vou passar de casa em casa pedindo doces, porque, sabe, vou fazer treze anos no ano que vem, e Olivia disse que vou estar velha demais para ficar pedindo doces de graça para as pessoas”. Está vendo, eu me tranquilizei. É sua adorável sobrinha, cuja inocência imaculada e preocupaçõezinhas triviais sobre o Halloween sempre conseguiam fazê-la sentir-se melhor quando estava mal. “Ah”, continuou a voz de Hannah, “e também liguei para dizer que recebi outra carta daquela pessoa. Sabe, aquela que pensa que o seu nome é Ashlyn e...”. Rapidamente desliguei a secretária eletrônica. É nisso que dá. Eu deveria ter adivinhado. Quando é que alguém que eu conhecia iria ligar com boas notícias? Oh, não. Eu era um ímã de más notícias, e não só um daqueles imãzinhos de geladeira em formato de cachorro-quente ou bule. Estou falando daqueles poderosos ímãs supercondutores de propulsão que a V.V. está desenvolvendo como uma maneira de lançar objetos no espaço. Eu queria esquecer tudo, fazer com que tudo desaparecesse – e o único jeito que eu conhecia... era dormir. Quando acordei, olhei para o relógio, que marcava 2h35, e eu realmente não sabia se era da madrugada ou da tarde. Meu relógio biológico estava completamente desorientado; mas, sinceramente, eu não dava a mínima. Para que eu estaria atrasada? Outra missão? Não, isso tinha acabado. Um encontro com Jamie? Não, isso certamente tinha acabado. De qualquer forma, o tempo era uma ilusão. Fuso do Oeste, fuso do Leste, horário de verão eram apenas palavras elaboradas pelo homem para nos manter na linha – e, é claro, no horário. Afinal, sem o tempo, como é que marcaríamos compromissos? Marcaríamos encontros? Mediríamos distâncias no sul da Califórnia? Bem, dane-se, dane-se tudo.


Eu seria a primeira pessoa a viver inteiramente sem tempo, me revoltaria contra a instituição do tempo. Eu me rebelaria contra a máquina, desafiaria o sistema. De acordo com Einstein, o tempo nem existia. Portanto, por que eu deveria adaptar minha vida inteira a uma coisa que nem existia? Eu dormiria quando ficasse cansada, comeria quando ficasse com fome e assistiria ao que estivesse passando na TV. Seria a rotina zen do século 21 – embora, a essa altura do campeonato, eu só estivesse com vontade de fazer a parte de dormir. A ideia de tirar meus celulares da bolsa e ficar ouvindo as mensagens das pessoas tentando me contatar para dar mais más notícias me deixava cansada. A ideia de me levantar e tirar comida da geladeira me dava vontade de fechar os olhos e voltar a dormir. E foi isso que fiz. Mas acordei ao som do meu telefone fixo tocando. – Alô? – falei grogue ao telefone. – Bom dia, Jenny – a voz animada da minha mãe vibrou no meu ouvido. – Oi, mãe. – Você ainda estava dormindo? Olhei para o relógio da cômoda. Estava em branco. Lembro de tê-lo tirado da tomada depois da minha fase de pensar que o tempo não existia algumas horas atrás. Ou seriam dias? Deitei-me e pus a palma da mão na testa. – Que horas são? – Onze e meia – respondeu minha mãe. – Oh. – Já ligou para o seu pai? Botei o travesseiro na cara. – Não, e não vou ligar. – Achei ter dito que iria! Joguei o travesseiro no chão. – Bem, eu mudei de ideia. Posso mudar, mãe. Houve uma longa e profunda pausa do outro lado da linha, e quase pude ouvir a decepção da minha mãe passar pelo telefone. – Francamente, Jenny. Acho que é hora de você crescer e começar a agir como adulta. As palavras doeram. – Tenho agido como adulta pelos últimos dezesseis anos. Se alguém aqui deveria ter a permissão de agir como uma criança e se remoer na tristeza, sou eu! Minha mãe suspirou. – Não sei do que está falando, mas vai ter que aprender a perdoar seu pai, senão... – Senão o quê? – eu me sentei na cama. – O que, mãe? Eu adoraria saber. O que vai acontecer se eu não perdoá-lo? E se eu ficar brava com ele pelo resto da minha vida? Seria tão horrível? Vou te dizer uma coisa: certamente não seria tão horrível quanto o que ele fez conosco, com a nossa família. E ele guardou esse segredo por mais de uma década... talvez até mais que isso. Vai saber? Até onde sei, tenho pelo menos mais oito


anos de amargura e raiva antes de eu e meu pai ficarmos quites. A única coisa que aprendi com ele é que não se pode confiar nos homens. E, se não podemos confiar neles, então eles certamente não merecem o nosso perdão! Minha mãe ficou em silêncio, e fiquei preocupada na hora se tinha ido longe demais, se tinha falado demais. Eu estava prestes a abrir minha boca para me desculpar quando ela respondeu: – Querida, você obviamente não está pronta ainda, mas não se preocupe: um dia vai estar. Eu não sabia como interpretar essa resposta. Era como se, da noite para o dia, minha mãe tivesse se transformado num monge budista. Será que ela vinha fazendo aulas de meditação no centro comunitário local? Qual era o motivo da necessidade repentina de perdoar e do discurso de “você não está pronta”? Era como se isso tivesse saído do livro Guia espiritual para educar filhos. – Tem razão, mãe. Ainda não estou pronta para perdoar, e não sei se um dia vou estar. Desliguei o telefone me sentindo ainda pior do que quando o atendi. Tinha certeza de que minha mãe só estava tentando ajudar. Afinal de contas, era o que as mães faziam, mas eu não estava acostumada a receber ajuda dela. Claro que ela sempre esteve presente para me ajudar com deveres de casa ou reclamar quando um professor me dava uma nota injusta ou me ajudar a escolher a decoração do meu primeiro quarto no dormitório da faculdade, mas nunca a procurei para coisas importantes. Na verdade, nunca procurei ninguém. Sempre me senti sozinha quando tive que lidar com meus problemas pessoais. Por isso, sempre consegui resolvê-los sozinha – ou, pelo menos, era o que eu pensava. Porém, devido ao estado em que me encontrava agora, não pude deixar de chegar à conclusão de que talvez não fosse possível resolver tudo sozinha. Acabei saindo da cama por tempo suficiente para andar até a sala de estar e me atirar no sofá. Liguei a TV, que estava passando Extreme Makeover: Reconstrução Total . Esse programa sempre me animava, mas começou a ficar óbvio que minhas velhas táticas não iam dar para o gasto. Todos os meus problemas não iriam simplesmente sumir, independente do número de episódios que eu fosse assistir e independente de quantos conjuntos de lençóis brancos acetinados eu tinha dobrados no meu armário. E, desta vez, olhar para uma caixa de madeira com uma lista de nomes dentro não bastaria para mudar o que tinha acontecido nas últimas semanas. De repente, senti falta dos dias em que tudo na minha vida se encaixava direitinho em duas categorias independentes: Ashlyn e Jen. A traição, a infidelidade, o toque pecaminoso de um homem casado sempre podia ser escondido com sucesso atrás de um codinome que eu podia ativar e desativar com o toque de um botão. E isso estava a milhões de quilômetros de distância do mundo de Jen. Nem era real. Porém, agora, o limite, que já fora estável e firme como o Muro de Berlim, havia oficialmente desmoronado. E era real, pessoal e tudo estava acontecendo bem na minha frente.


A campainha tocou algumas horas depois, mas eu devo ter entrado numa espécie de transe, porque parecia que tinha passado apenas alguns minutos. – Saia da cama – disse Zoë, parada na porta. Olhei para o chão. – Já saí. – Fisicamente, sim, mas mentalmente você ainda está na cama. Pensei nisso. Ela provavelmente tinha razão. – Sophie te contou o que aconteceu, né? – Cada detalhe lastimável. Sophie não deixa nada de fora, não é mesmo? – ela passou por mim e se sentou no meu sofá. – O que estamos assistindo? Fechei a porta e me sentei ao lado dela. – Não me lembro – falei com um suspiro desanimado. – Oh, não – Zoë resmungou. – Você não está virando uma daquelas mulheres, né? Por favor, não vire uma daquelas mulheres. Se virar, vou ser a única mulher normal que sobrou! – Que mulheres? – murmurei. – Você sabe exatamente de quais mulheres estou falando, do tipo que se enterram no quarto por duas semanas por causa de um cara idiota. – Obviamente, não estou enterrada no meu quarto. – Mas estaria, se sua TV estivesse lá dentro. Droga, ela me conhecia bem demais. E passei esse tempo todo achando que era muito imprevisível. – Eu sabia que deveria ter comprado uma segunda TV para o quarto. Zoë pegou o controle remoto da mesa de centro e clicou nos canais, começando a zapear insensivelmente de um programa a outro. – Um maluco total com carteira falsa quase me matou quando eu estava vindo para cá. Por isso, eu literalmente arrisquei minha vida para vir, o que significa que vou conseguir tirar você desta casa. Eu me curvei em posição fetal no canto do sofá e cobri minhas pernas com a manta branca. – Me deixe em paz – choraminguei. – Você sabe que meus problemas são muito mais profundos do que apenas um cara idiota. – Não dou a mínima se seus problemas vão até o centro da Terra! Eles não vão desaparecer num passe de mágica se ficar deitada na cama o dia inteiro. Você precisa se levantar e resolvê-los! – E ela continuou zapeando com o controle remoto. Eu sabia que ela tinha razão. Raymond Jacobs não ia, de repente, do nada, resolver parar de mandar cartas desagradáveis para minha sobrinha. O servidor que guardava todas as informações em www.naocaianacilada.com não ia simplesmente se incendiar internamente. A esposa de Jamie Richards não ia simplesmente evaporar para que eu não precisasse encará-la com uma resposta. E o noivo de Sophie não ia testar a si


mesmo e me mandar o resultado pelo correio. Sim, eu estava ciente de tudo isso, mas eu não sabia o que fazer com eles. Senão, eu já estaria fazendo! – Hã, por que você gravou um episódio de Desperate Housewives em espanhol? – disse Zoë, encontrando minha lista mais recente de gravações. Ainda curvada, virei meu queixo para a tela. – Não sei. Quando foi gravado? Zoë clicou no menu de detalhes do programa. – Ontem – ela leu em voz alta. – Enquanto você estava viajando. Enfiei minhas mãos embaixo do queixo e fechei os olhos. – Acho que Marta devia estar assistindo enquanto estive fora. Ouvi um diálogo rápido em espanhol. Abri meus olhos e vi que Zoë tinha começado a passar a gravação. – O quê? Você vai assistir? Você não entende uma palavra sequer de espanhol. Ela não deu bola e largou o controle ao lado dela. – Não tem nada além de Extreme Makeover nessa coisa. Voltei a fechar meus olhos. – Uh – ouvi Zoë gritar. – Este episódio é bom, eu já vi. É quando Gabrielle entrega todas aquelas coisas para o FBI, o que leva à condenação do marido dela. Levei um instante para absorver o rápido resumo do episódio que Zoë fez, mas quando entendi, abri meus olhos novamente e me sentei. – Como assim? Ela entregou o próprio marido? Ela confirmou com a cabeça. – Você não lembra? Ela encontrou um monte de documentos no cofre que o envolviam no crime do qual ele alegava ser inocente. E ela ficou tão furiosa por ele tê-los escondido dela que entregou todas as informações para a polícia. Aí, ele foi declarado culpado por lavagem de dinheiro ou seja lá o que for, e mandaram-no para a cadeia. Fiquei quebrando a cabeça. O enredo certamente me era familiar. Eu tinha assistido a todos os episódios da série, por isso me chamou a atenção. Porém, nessa hora, eu não conseguia acreditar que a ideia não tinha passado pela minha cabeça antes. Estiquei a mão e peguei o controle remoto. – Deixe eu ver aquela cena. Passei ¾ do episódio até achar o acontecimento ao qual Zoë estava se referindo; como eu esperava, lá estava. É claro, estava em espanhol, e eu não entendia uma palavra do que estava sendo dito, mas a intenção era muito clara, independentemente da língua falada: ela tinha traído seu próprio marido em um ato egoísta de vingança. Tudo porque ele a havia traído primeiro. – Es tan simple! – gritei, saltando do sofá na minha primeira explosão de energia desde que saí do quarto de Jamie no hotel duas noites atrás. Zoë olhou para mim como se eu tivesse sido possuída por uma espécie de demônio falante de espanhol que assistia a Desperate Housewives, com medo de ter que procurar


um exorcista nas páginas amarelas. – O que é simples? – E totalmente genial! Corri para o escritório como um matemático maluco para escrever sua próxima equação de trinta páginas numa lousa velha e empoeirada. Zoë cautelosamente se levantou do sofá e me seguiu, mais para garantir que eu não tinha enlouquecido de vez e não tinha ido para o meu escritório para pegar meu livro de feitiços. Ela me encontrou ajoelhada no chão, na frente do armário. As portas espelhadas estavam bem abertas e, lá dentro, estava um arquivo de metal. – Não consigo acreditar que não pensei nisso antes – falei, mais para mim mesma, mas Zoë, por acaso, estava lá para ouvir. – Do que está falando, Jen? Você já comeu alguma coisa hoje? Ignorei a pergunta dela e continuei vasculhando a gaveta, murmurando de forma incoerente para mim mesma. – Jen? – Zoë exigia uma explicação. Parei a minha busca enlouquecida por tempo suficiente para olhar para cima e, com pura empolgação nos olhos, respondi: – Acho que acabei de descobrir como derrotar Raymond Jacobs.


32 Nada está apagado Eu nunca procurava uma cliente depois que a missão era concluída, mais porque não havia motivo. Já era constrangedor contar a uma mulher que seu marido tinha tentado transar comigo; eu não via razão para tentar construir uma relação em cima disso. Eu lhes dava o que prometia e, depois disso, meu papel estava cumprido. Divórcio, brigas pela guarda dos filhos, noites desconfortáveis no sofá, sessões de terapia: tudo isso entrava na categoria das coisas que eu não precisava saber. E, com toda a sinceridade, acho que eu nem queria saber. Mas também, suponho que sempre há exceções. E acho que acabei de encontrar a primeira. Zoë ficou parada atrás de mim, curiosa, observando eu percorrer centenas de pastas no meu arquivo, todas praticamente iguais, exceto pelo nome impresso na frente: um cemitério das traídas. Tirei uma pasta com a etiqueta “Anne Jacobs” e comecei a folhear. Por mais que tentasse manter distância das minhas clientes e de suas vidas, voltar a folhear as páginas do arquivo de Anne era como folhear as páginas de um diário. Não eram simplesmente páginas trancadas dentro de um arquivo qualquer: eram páginas da minha vida. E histórias como a dela, como a de todas as clientes deste arquivo, eram minhas lembranças dos últimos dois anos. Era a escolha que eu tinha feito, e esse arquivo era a prova viva de que minha escolha havia produzido resultados, e muitos. O arquivo de Anne estava organizado da mesma maneira das outras clientes. Grampeada na capa estava a foto do indivíduo, fornecida pela cliente durante nosso primeiro encontro. Dentro, havia uma biografia da pessoa que havia me contratado, seguida da biografia do homem em questão. Eu sempre preparava um resumo de uma página para cada pessoa que avaliava. Ele incluía informações básicas como nome, idade, profissão, hobbies, lugares onde estudou, um panorama da relação com minha cliente e depois uma seção que descrevia o motivo da desconfiança da cliente. Eu também anotava a data, a hora e o local em que a missão ocorreria. Aí, no fim, eu deixava um espacinho para anotações adicionais ou comentários referentes ao caso. Essas biografias sempre eram preparadas antes da missão, ou antes do fato consumado. A página seguinte de cada pasta de cliente era a resenha pós-missão. Esse era basicamente só um resumo do que tinha acontecido exatamente durante a missão (ou o máximo que eu podia lembrar). Eu tentava ser o mais precisa possível, acrescentando horários e locais exatos ou os números dos quartos, se eu conseguisse lembrar. Afinal de contas, era um negócio como outro qualquer e, a fim de mantê-lo o mais profissional possível, eu tinha que tratá-lo como tal. Além disso, nunca se sabia


quando a informação podia se mostrar útil. Por exemplo, agora. – Esse aí é ele? – perguntou Zoë, espiando por cima do meu ombro a foto grampeada na capa da pasta. – Esse aí é aquele Raymond Jacobs? Segui a linha de visão dela até a foto assombrosa que estava ali. Tremi ao permitir que os olhos dele me penetrassem. Tudo o que pude pensar ao olhar para a foto foi em seu rosto quando estava sentada na frente dele em seu escritório: aquele olhar de pura satisfação, sabendo que estava com todo o poder – e eu nada tinha. Isto é, até agora. Ou, pelo menos, era o que eu esperava. Casualmente, folheei todos os artigos que havia coletado e transferido para minha memória sobre as Indústrias Kelen, o próprio Raymond e a indústria automobilística em geral até finalmente chegar no que eu estava procurando. No fundo de toda pasta, havia manuscritos das próprias reuniões com as clientes. Eram coisas que eu anotava no meu caderno enquanto a cliente me contava toda a sua história: os dados brutos, antes de serem peneirados e filtrados para obter toda a informação considerada importante para ser incluída na biografia. E o único motivo por eu estar ansiosa para chegar àquela página específica de rabiscos quase ilegíveis era por causa de um minúsculo e pequenino detalhe que, fora do contexto, poderia parecer muito insignificante. Porém, dentro do contexto (principalmente o da minha atual situação), era exatamente o oposto. Eu podia lembrar vagamente uma coisa que tinha saído da boca de Anne Jacobs quando estávamos terminando nossa primeira reunião. Quando me acompanhou até a porta, ela parou para me fazer uma pergunta sobre confidencialidade. – Só mais uma coisa – ela disse. – Só quero ter certeza de que tudo isso aqui vai ficar entre nós. A reputação de Raymond na indústria é quase tão importante quanto a reputação dos próprios motores. E, naquele momento, parei no meio do corredor dela, voltei a abrir meu caderno e fiz uma última anotação antes de sair. – Claro – falei, fechando meu caderno novamente. – Fiz uma anotação especial sobre isso, mas, por favor, fique tranquila, pois todas as minhas missões são confidenciais. Assim como espero que minhas clientes mantenham minhas informações em segredo, eu retribuo a mesma consideração. – Que diabos diz aí? – perguntou Zoë, debruçando-se sobre meu ombro e tentando decifrar minha letra. Olhei para a pasta que estava segurando, e lá estava, exatamente como eu me lembrava, na minha própria letra indecifrável: Confidencial. A reputação do alvo é de alta prioridade. Fechei a pasta e olhei para Zoë com um sorriso confiante.


– Diz que ele tem muito a perder. – Ah – disse Zoë, soando meio decepcionada. Dava para notar que esse pequeno episódio no meu armário não estava fazendo jus à visão estilo Código Da Vinci que ela esperava. Levantei-me e fechei o arquivo com o pé. – E esta mulher sabe exatamente o quanto ele tem a perder. Depois de Zoë ter ido embora, fiquei parada na minha sala de estar e voltei a abrir a pasta na página da biografia da cliente. Disquei cuidadosamente o número impresso, torcendo para que, depois de quase um mês desde a última vez em que nos falamos – e sabe-se lá após que tipo de repercussões –, ela ainda falasse comigo. – Alô? – atendeu Anne Jacobs com uma voz animada e despreocupada. Minha voz, por outro lado, estava alta e nervosa. – Oi! – pigarreei. – Oi. Hã, senhora Jacobs? – É ela. – Olá. Aqui é, hã, Ashlyn? – Minha voz subiu no fim da frase como se estivesse perguntando para ela quem era eu; ou mais como se pedisse para ela aceitar quem eu era. Houve uma longa pausa e, por um instante, eu fiquei mais do que convencida de que ela ia desligar na minha cara. Pelo menos, ela estava pensando bastante. Olhei para o relógio do meu forno. O silêncio estava me deixando nervosa e extremamente apreensiva. Por isso, voltei a falar: – Espero que se lembre de mim. Nós, hã... bem, eu, hã... – puxa vida, estava difícil. – Você me contratou para... – Eu me lembro de você – ela logo interrompeu, obviamente preferindo que eu não completasse aquela frase específica. – Como posso lhe ajudar? Era óbvio que eu não merecia mais receber o cumprimento animado e despreocupado que ela reservava para as outras pessoas mais bem-vindas. Respirei esperançosa. Aí vamos nós. – Que bom que lembra! – falei, tentando reproduzir sua animação inicial. – É meio difícil de esquecer. – É. – Cocei a ponta do meu nariz. – Bem, senhora Jacobs, eu normalmente não... – Na verdade, é Lapelle agora. Anne Lapelle. Engoli em seco. – Claro. Gente, foi rápido. – O que estava dizendo? Ao falar, não pude deixar de detectar indícios de culpa em seu tom de voz. Meu sobrenome é Lapelle agora... de quem é a culpa? Mas eu rapidamente falei para mim mesma que era só minha imaginação.


– Sim, eu estava dizendo – comecei timidamente – que normalmente não contato clientes depois do... quero dizer, uma vez concluída a missão, mas eu meio que... bem, apareceu um... na verdade... – parei. As palavras não estavam saindo direito. Eu me sentia como uma tagarela idiota. Fiz uma pausa e tentei me recompor. – Olhe – Anne começou com impaciência –, não tenho muito tempo. Estou atrasada para um... – Preciso de sua ajuda – soltei desesperada. Houve outra longa pausa da parte dela e, por um instante, achei que tinha largado o gancho e seguido com o seu dia. – Alô? – perguntei cautelosamente. – Posso lhe dar cinco minutos – ela sugeriu em tom ríspido e implacável. – Aceito. Anne desligou depois de aceitar se encontrar comigo em sua casa na manhã do dia seguinte. De jeito nenhum, ela foi uma pessoa receptiva ao telefone e, o que aliás, era até uma surpresa depois da amável acolhida que demonstrara da última vez em que nos encontramos. Porém, com tempo suficiente para deixar a realidade bater, deixar os advogados do divórcio começarem a fazer sua magia negra e deixar as feridas começarem a aparecer, acho que qualquer um pode acabar lhe tratando com frieza. Não era culpa dela. Eu esperava que toda mulher que encontrava nestas circunstâncias fosse fria e distante. Geralmente, era um provável mecanismo de defesa, e eu sabia que era a última pessoa no mundo com quem gostariam de ser cordiais. Sim, foi Anne quem me contratou, que me pediu ajuda. Porém, às vezes, era assim que as coisas aconteciam. Faz parte do trabalho – ou, pelo menos, fazia parte do trabalho, quando ainda era o meu trabalho. Ser odiada, até mesmo pela pessoa que você supostamente salvou, sempre fez parte. Acho que essa era uma grande diferença entre eu e o Super-Homem. Quando ele salvava alguém de um prédio que desmoronava ou um avião em queda, a pessoa ficava eternamente grata. Infelizmente, as mulheres que eu “salvei” de casamentos que desmoronavam e relacionamentos em queda nem sempre viam da mesma maneira – e eu temia que a pessoa que eu estava prestes a encontrar às 11h do dia seguinte não fosse exceção. – Ashlyn – disse Anne de um jeito impessoal quando abriu a porta. Parecia mais uma declaração óbvia da minha existência do que um cumprimento. Segui-a para a sala de estar, e ela fez um gesto para o mesmo lugar em que me sentei sob circunstâncias completamente diferentes apenas cinco semanas antes, quando tudo isso começou, quando os espiões de Raymond Jacobs estavam do lado de fora registrando todos os dados do meu histórico de motorista. Eu me sentei e olhei em volta. A sala, é claro, já era conhecida e, em sua maior parte, tudo parecia igual. Algumas plantas estavam em direções opostas para maximizar ou minimizar a exposição ao sol, os quadros claramente foram trocados de lugar, em busca


de um ambiente mais agradável, mas era, no geral, a mesma sala de estar, a mesma casa – e a mulher sentada naquele já conhecido lugar na minha frente era a mesma com quem tinha falado pouco tempo atrás. Porém, estar ali diante daquele rosto que nada revelava certamente não parecia ser a mesma coisa. E não era somente a óbvia troca de poder: eu, agora sentada na posição que ela tinha ocupado, pedindo sua ajuda, implorando por sua compaixão, em vez do contrário. Havia um vácuo na sala, um vazio que era palpável. Foi aí que notei as fotos em cima da mesa, as mesmas fotos que tenho certeza de já ter tentado desesperadamente ignorar, porque revelavam muita coisa, informavam detalhes que eu não queria saber, que não precisava saber. Um mês atrás, os porta-retratos mostravam cinco pessoas, cinco rostos aparentemente felizes. Agora havia apenas quatro: Anne e seus três filhos, que pareciam ter todos menos de dez anos de idade. Era como se alguém tivesse pego uma borracha comum e eliminado dolorosamente um rosto em especial, apagando qualquer evidência dele. Foi aí que também notei o dedo anelar vazio na mão esquerda de Anne. Se eu tinha tentado ignorá-lo até agora, era inútil continuar tentando. Era a resposta que eu não queria saber, à pergunta que nunca ousei fazer, e agora estava me encarando, recusando-se a ser ignorada. Lembrei de quando eu estava na escola e meus professores sempre exigiam que escrevêssemos a lápis. Nunca podíamos usar canetas, porque não podiam ser apagadas, não eram corrigíveis. Se fizéssemos um erro a caneta, uma palavra errada, escrevêssemos sem querer um “R” ao contrário, era preciso rasurar, deixando para trás um borrão sujo e feio de tinta preta na folha, prova de que a gente errou, e todo mundo ficaria sabendo, todo mundo veria. O lápis, por outro lado, não era nada permanente: podia-se mudar, perdoar. Ou, pelo menos, era o que nos diziam. A gente cometia um erro, apagava e reescrevia, e ninguém sabia a diferença. Ninguém via a mancha de tinta. Nossos passos eram praticamente indetectáveis. Porém, esse argumento nunca pareceu fazer muito sentido para mim, porque, logo notara, na minha escrivaninha de madeira, tentando freneticamente me livrar dos meus erros com minha borracha retangular, que eles nunca sumiam completamente, independente da força com que se tentava esfregar aquela escrita imperfeita, aquela palavra inadequada, aquele “R” ao contrário, não importava a força com que a gente passava a borracha para lá e para cá na folha, deixando para trás montanhas de farelos cor de rosa, o erro nunca desaparecia por completo. Sempre seria possível enxergar vestígios dele. Ficava sempre ali, espiando por baixo do “R” que finalmente conseguira ser escrito corretamente. E, mesmo ainda pequena, tudo o que eu podia pensar era: “pelo menos, o borrão feio de caneta era honesto”. Aquele dia, ao me sentar na sala da ex-Anne Jacobs, vi os vestígios, aqueles que a borracha mágica não parecia conseguir apagar completamente. Estavam ali nos rostos de seus três filhos, nos galhos contorcidos dos fícus, na reorganização dos quadros nas


paredes e, principalmente, na leveza de sua mão esquerda, aquela que, não muito tempo atrás, portava um anel de diamantes tão pesado que, às vezes, dava cãibra nos dedos ao final do dia, mas ela nunca se queixou. Naquele momento, entendi por que nunca mantinha contato com nenhuma das minhas clientes. Era autopreservação, porque o peso de todos aqueles diamantes, todas aquelas fotos, todos aqueles rostos, de certa forma, durante o processo, transferiam-se inconscientemente para mim – e era peso demais para eu aguentar, mesmo que a lógica sensata me dissesse para não me responsabilizar por esses resultados. E mesmo que sabendo que já proporcionei a essa mulher um presente que muitas nunca tiveram a chance de receber, ao olhar nos olhos de Anne, eu sabia que não era a pessoa certa a culpar; mas, para ela, eu certamente era o alvo mais fácil, e continuaria sendo pelos próximos anos, talvez até por mais tempo. – O que é que você precisava conversar comigo? Sua pergunta foi educada, mas insensível. Fiz o máximo para ignorar sua atitude fria e olhar acusador. Essa mulher era a única pessoa que eu conhecia que podia me ajudar. Eu tinha, pelo menos, que pedir. Abri minha maleta de couro preta que tinha levado comigo e retirei meu laptop. Liguei-o e aguardei que saísse do modo de hibernação. – Imagino que se lembre qual é minha profissão – sorri simpaticamente. Ela confirmou com a cabeça. – Se a memória não falha. Contudo, ao abrir o navegador no meu laptop e ir até a última página visualizada, fiquei imaginando se eu sabia qual era minha profissão. Parte de mim queria continuar fazendo exatamente o que vinha fazendo, reiniciar minha busca, retomar exatamente onde tinha parado e fingir que eu não a tinha interrompido. Encontrar alguém como Jamie Richards certamente foi o suficiente para fazer parecer mais do que apenas uma opção viável. E a lembrança muito pessoal e muito menos sutil de que esses tipos ainda estavam por aí fazia eu querer ainda mais continuar mais minha luta contra eles. Porém, havia muitos outros fatores. Os segredos que eu teria que continuar escondendo das pessoas que amava e de todos que eu conhecia na rua, as mentiras que teria que continuar contando. – Bem, minha família não sabe nada sobre isso – continuei falando para Anne. Ela me examinou com receio. – É o que presumo. Virei o laptop para ela ver a tela e aí lhe dei bastante tempo para absorver toda a essência do que estava diante dela antes de acrescentar vagamente: – Seu marido fez o site, cerca de uma semana depois de ter sido reprovado na missão. E ele se recusa a retirá-lo do ar. Observei os olhos dela explorarem em silêncio a página e, em seguida, um sorriso malicioso apareceu em seus lábios. Naquele momento, minha esperança morreu. Eu soube na hora que ela estava debochando de mim, alegrando-se silenciosamente com a


minha desgraça. E, mesmo sabendo que ela me culpava por todos os motivos errados, ela não tinha culpa. O coração se cura de maneiras diferentes, mas acho que a coisa mais importante é que ele se cura. Acenei com a cabeça conscientemente e fechei devagar o meu laptop, colocando-o de volta na minha maleta. – Bem, me desculpe por ter tomado seu tempo. Vou deixá-la voltar aos seus afazeres. Coloquei minha bolsa no ombro e me levantei em uma rendição silenciosa. Eu devia ter previsto que era um objetivo ambicioso demais. – Espere – Anne me interrompeu. Virei-me para ela. – Sim? – Você ainda não me disse o que quer que eu faça. Seu tom de voz nada revelava. Permanecia indiferente, imparcial e completamente sem compaixão. Mas o meu ânimo se levantou mesmo assim. – Bem – comecei, de pé, sem jeito, no meio da sala –, não tenho nenhum poder de barganha, não tenho nada com que negociar. Sei que você disse que a reputação do senhor Jacobs era muito importante para ele, por isso achei que talvez... – deixei minha voz sumir, na esperança de ter dito o suficiente, de ter deixado implícito e de não precisar dizer as palavras exatas que gostaria de dizer: “Preciso de uns podres do seu marido”. E aí, como se a nossa conversa nunca tivesse acontecido, Anne lançou um olhar vazio e disse: – Lamento, mas não sei do que você está falando. Parada no meio da sala, eu me senti incomodada, no meio do caminho entre ela e a porta, imaginando se tinha acabado de receber a deixa para sair. Depois de alguns instantes, ela olhou para mim, com os olhos questionando minha presença, como se ela entendesse que a minha companhia não era mais bem-vinda, mas não conseguia compreender por que eu não entendia aquilo. Abri minha boca para falar, sem saber o que ia sair – se é que alguma coisa sairia. Porém, antes que meus pensamentos fragmentados pudessem começar a formar uma frase que, pelo menos uma vez nos últimos dois dias, não começasse com a palavra “hã”, os lábios de Anne se curvaram num sorriso ardiloso e deliciosamente perverso, do tipo que se vê no rosto de bruxas e feiticeiras malvadas nos filmes infantis. – Mas tenho uma coisa que talvez você ache interessante – ela disse enfim.


33 Cuidado com os idos de março – Estou vendo que você resolveu voltar e me fazer uma visitinha – disse Raymond Jacobs com arrogância quando voltei a entrar na sua grande sala e me sentar no famigerado sofá do lado oposto de sua mesa. Confirmei com a cabeça, mantendo-a baixa. – E a que devo a honra desta visita? Espero que seja para reconsiderar minha proposta. Levantei minha cabeça devagar, aparentando estar acanhada, insegura e completamente derrotada. – Eu, hã – comecei timidamente –, não aguento mais: o site, os e-mails encaminhados, as cartas para minha sobrinha... – Minha voz se esvaiu, sendo insuportável a dolorosa lembrança do rosto curioso de Hannah. Ele sorriu e se levantou. – Concordo – disse, acenando a cabeça solidariamente. – É demais. Talvez eu tenha passado dos limites. Minhas sobrancelhas se ergueram, esperançosas, enquanto eu observava ele andar até o pequeno bar no canto e servir um copo de um líquido transparente e viscoso. – Quer um drinque? – perguntou. Fiz que não. – Não, obrigada. Ele assentiu e, com o drinque na mão, foi até sua mesa e se encostou, confiante, na beirada. – Então, o que propõe que façamos a este respeito? – indagou Raymond, aparentando estar satisfeito por finalmente estar do meu lado, por finalmente estarmos concordando. – Você poderia simplesmente tirar o site do ar e me deixar em paz? – sugeri calmamente. Ele pensou um pouco na opção enquanto tomava um gole do drinque. – Sim, eu poderia fazer isso – ele sugeriu, pensativo. – Mas, sinceramente, não sei se essa seria a melhor opção. Afinal, certamente é uma opção, mas me parece meio incompleta. Ele estava gostando, isso estava bem claro. Ele sabia que ainda estava no controle desta negociação, e isso o deixava contente. Afinal de contas, ele tinha se acostumado a estar nessa posição. Raymond Jacobs não tinha virado o multimilionário que era se contentando com qualquer coisa.


– Por quê? – perguntei intrigada. Ele tomou outro gole do drinque e, de trás do copo, seus olhos revelaram um sorriso assustador. Seu rosto deixou transparecer o gosto amargo de seu drinque ao engoli-lo com vontade. Em seguida, com a mão ainda segurando o copo, esticou o dedo indicador e apontou para mim. – Que bom que perguntou. Ele se afastou da beirada da mesa e começou a andar na minha direção. Desta vez, seus passos não eram ameaçadores nem cheios de prazer perverso, mas suaves e determinados, como se estivesse caminhando até uma criancinha que tinha se perdido em um grande shopping e precisava de um adulto para se achar. Ele se aproximou do sofá, e eu levantei minha cabeça para encará-lo. Ele apontou para o lugar ao meu lado. – Posso? Concordei com a cabeça, relutante, e me desloquei até a ponta, onde meu corpo estava praticamente abraçando o braço do sofá. Ele se sentou na outra ponta. – Então – começou, com o drinque numa mão, e a outra repousada no braço do sofá –, sua pergunta era: por que a sua solução parece meio incompleta? Ele estava claramente fazendo um joguinho e, embora isso me fizesse odiá-lo e querer me levantar, dar uma joelhada no meio de suas pernas e derramar seu drinque idiota em cima de sua cabeça, eu entrei nele. Afinal, esse era o jogo, e Raymond Jacobs tinha 100% de certeza de que iria, mais uma vez, sair vitorioso. Porém, o mais inacreditável para mim era como um empresário bem-sucedido, que obviamente tinha criado sua riqueza e poder fazendo escolhas sábias e tirando vantagem dos pontos fortes e fracos das pessoas, havia descaradamente esquecido da história de nossa relação. A história de Raymond Jacobs e da ardilosa Ashlyn começou não com uma vitória da parte dele, mas com uma derrota e, portanto, ele deveria se lembrar de que um dos pontos fortes de Ashlyn era saber exatamente como entrar no jogo. – Sim – respondi ansiosamente. – Bem – declarou, virando-se para mim na outra ponta do sofá –, a resposta é muito simples. Para que uma solução esteja completa, ela precisa satisfazer ambas as partes interessadas. E a sua solução infelizmente não consegue fazê-lo. Fiquei olhando para ele, de queixo caído, a cabeça a mil, para transmitir uma sensação de absoluta perplexidade, como se dissesse “não sei aonde quer chegar”. Ele sorriu com pena de mim e chegou até a deixar uma risada grave escapar da boca. – Em outras palavras – ele transferiu seu drinque para a outra mão e aí se aproximou bem do meu lado do sofá, que agora era um campo de batalha –, eu não ganho nada com isso.


A mulher cansada e emocionalmente exausta voltou para a sala de estar com um grande envelope de papel pardo. Ela ficou parada na minha frente, segurando-o com força, como se separar-se dele significaria separar-se da única coisa que já a fez se sentir segura. Olhei para ela, querendo perguntar o que havia dentro, querendo arrancá-lo de suas mãos, despejar o conteúdo em cima da mesa de centro e vasculhá-lo como um criança que procura desesperadamente as melhores balas depois que uma piñata foi estourada. Mas eu sabia que esse processo deveria seguir o ritmo dela. Por isso, esperei. – Não sei por que guardei isso – disse calmamente, ainda segurando o envelope perto do corpo como um escudo. – Meu marido nem sabe que estou com ele. Assenti com a cabeça, tentando parecer solidária e compreensiva enquanto tentava manter meus lábios o mais fechados possível, porque eu sabia que uma fenda, por menor que fosse, daria espaço suficiente para aquelas palavras insistentemente inquisidoras conseguirem abrir minha boca e escapar. Ela voltou para o seu lugar no sofá, com o envelope agarrado nas mãos. – Acho que isso sempre me fez sentir que tinha alguma coisa, algo que me protegesse. Não parece bobo? Fiz que não com firmeza. – Nem um pouco! Ela deu de ombros e acabou se rendendo com um aceno de cabeça. – É, acho que não parece tão bobo agora. Sorri. Minha impaciência estava crescendo. Era isso! Essa tinha que ser minha chave que abriria a tranca enferrujada que me mantinha presa aos planos maliciosamente destrutivos do homem malvado. E aí, fiquei observando os dedos apertados da mulher se afrouxarem devagar, e seus braços inflexíveis e firmemente envolvidos começaram a relaxar, até o misterioso envelope de papel pardo, mantido próximo ao seu corpo, começar a se afastar. Ela olhou para ele, como se estivesse se despedindo de um velho amigo, desvencilhando-se do cobertorzinho de estimação que a mantinha aquecida durante a noite, a única coisa que prometia uma saída de um monte de escombros que esteve ameaçando desabar sobre sua cabeça por mais de dez anos. Em seguida, ela começou a rir de sua própria tolice, debochando de seu desejo infantil de se apegar a uma coisa que prometia protegê-la do perigo, quando, na verdade, no fim das contas, ela nunca estivera segura. – Bem – ela disse, estendendo o envelope para mim por cima da mesa de centro –, parece que você tem alguma coisa agora.

Raymond Jacobs parecia bem contente consigo mesmo. Ele tinha conseguido atrair


essa menininha indefesa para a sua inteligente teia de trapaças e ilusões. E eu tinha caído nela de cabeça. E o motivo de ele saber que eu tinha caído nela foi porque agora eu estava sentada em seu sofá de couro vermelho, sentindo-me dominada, perdida e pronta para me entregar: deitar e simplesmente aceitar minha derrota – literalmente. Desta vez, ele tinha vencido no xadrez, ele tinha conquistado o conquistador, ele me fez sentir pequena e indefesa, como eu havia feito com ele, e saboreou cada gota de satisfação do triunfo que sabia merecer. Raymond levantou um lado do quadril para meter a mão no bolso e retirar um pedaço de papel amassado. De dentro de seu paletó, retirou cuidadosamente uma caneta esferográfica prateada e brilhosa, que apertou com grande entusiasmo e orgulho. Em seguida, começou a escrever palavras no pedaço de papel e me entregou. – Aqui está meu endereço. Podemos marcar às 22h30? Tenho uma reunião amanhã cedo, por isso não quero ficar acordado até tarde. Ele piscou para mim. Hesitante, estiquei a mão e peguei a sentença de morte de suas mãos grandes e imundas, tentando ler a letra preta ilegível. Ele sorriu e se levantou, estendendo sua mão para eu apertar, como se tivéssemos acabado de completar uma transação bem-sucedida e agora eu poderia ir embora, contente, para produzir, construir, investir ou o que quer que tívessemos acordado. Mas não apertei. Simplesmente fiquei olhando para ela, depois para ele. – Acho que está enganado – falei modestamente. Ele abriu um sorriso jocoso. – É mesmo? Em relação a quê? Engoli em seco, como se o que eu estava prestes a dizer fosse a coisa mais difícil que tive que fazer sair da boca em toda a minha vida. Porém, na realidade, eu vinha me segurando ansiosa, ávida e impacientemente desde que entrei por aquela porta. – Acho está enganado por achar que não vai ganhar nada com isso. Seu sorriso não diminuiu. Ele estava claramente entretido com minha tentativa de última hora para negociar um acordo melhor. – E o que seria, minha querida? – Silêncio – respondi sem rodeios. Um pingo de confusão se estampou em seus olhos, mas ele o ignorou imediatamente. – Silêncio, hein? – Meu silêncio. Seu sorriso esnobe desapareceu, e ele revirou os olhos levemente irritado. Agora ele estava começando a perder a paciência. – Silêncio em relação a quê? – resmungou. Porém, eu tinha muita paciência de sobra. Tinha uma vida inteira de paciência na minha cota. – Em relação a 15 de março de 1989 – declarei simplesmente.


O documento que me apressei a retirar do fascinante envelope de papel pardo de Anne Jacobs dizia 15 de março de 1989, e o motivo de eu ter lido essa linha em especial era por estar grifada, junto com mais dez linhas abaixo que estavam igualmente destacadas. Todas elas ofereciam a mesma e aparentemente inútil informação: 15 de março de 1989. – O que é isso? – perguntei. Minha expectativa não estava mais escondida, mas estampada por toda a minha cara agora. – Olhe para as linhas grifadas – ela me orientou. Tive uma sensação avassaladora de frustração. Eu tinha olhado para as linhas grifadas pelo que pareceu uma hora, e ainda não faziam sentido para mim. Dei uma outra lida e aí olhei desesperadamente para Anne. – São apenas listas de compras de ações que aconteceram em 15 de março de 1989. – Voltei a examinar o papel. – Cada uma com 10.000 ações da “IKL”. Anne confirmou com a cabeça. – Indústrias Kelen. Levantei o papel na minha frente. Claro! Indústrias Kelen! A fábrica de motores de carro de Raymond. Sinceramente, não sei por que não reconheci o símbolo da ação quando olhei, mas o que tinha de tão importante na data? E qual era a importância do fato de Raymond Jacobs trocar confirmações sobre as compras de ações de sua própria empresa? Aí reparei numa coisa no topo do documento. Meus olhos estavam tão atraídos pelo amarelo vivo irradiando do meio da página como raios de Sol que eu nem tinha notado a quem pertencia a confirmação da compra. Kenneth Pauley. Esse nome certamente não me era familiar. – Quem é Kenneth Pauley? – perguntei. Anne se recostou e descansou as mãos no colo. Ela parecia muito tranquila agora, como se tivesse acabado de tirar um peso gigantesco que vinha carregando há anos. Agora que ele não estava mais nas mãos dela, literalmente, ela podia relaxar. – É um antigo amigo de faculdade de Raymond. Eles fizeram o MBA juntos. Supostamente, eles que pararam de se falar logo depois de se formarem. Mas parece – ela apontou para o documento que eu estava segurando – que não foi o caso. Olhei para ela com curiosidade. Só isso? Era a única explicação que eu ia conseguir? Aquilo ainda não fazia merda nenhuma de sentido. Ainda não era o suficiente para entrar no escritório de Raymond Jacobs e esfregar na cara dele. “Rá rá, eu sei quem é Kenneth Pauley, e você está perdido!”. Eu ainda não tinha nada! – Tem mais – Anne me avisou, apontando para o envelope que eu tinha largado ao meu lado. Rapidamente, peguei-o e reabri, retirando mais três documentos que eram espantosamente parecidos ao que estava na minha mão. Folhas de confirmação de


compras de ações, todas datadas de 15 de março de 1989 e todas com várias linhas grifadas nas atividades de compra de ações das Indústrias Kelen. Porém, ao olhar melhor a segunda e a terceira folhas, notei uma diferença bem nítida entre elas. Todas tinham nomes diferentes no topo: Lawrence Wilson, Gary Morningstar, Weston Davidson. – Mais amigos do MBA? – especulei. Ela deu de ombros. – Alguns. Por que ela estava sendo tão vaga? Por que não desembuchava e me dizia de uma vez o que esses documentos idiotas significavam? Por quê? – Você sabe o que é 15 de março de 1989? – ela perguntou, talvez sentindo minha irritação crescer. Neguei firmemente com a cabeça. – Tenho certeza de que você deve ter se deparado com a data na sua pesquisa – ela declarou como se fosse uma prova final, uma versão adulta do vestibular. Minha carreira toda, minha vida e minha felicidade desembocaram neste momento, essa pergunta de uma única resposta, para a qual ela teve a bondade de me dar uma pista, indicando a página exata do meu livro onde constava a resposta. Pensei em todos os artigos, relatórios anuais e demonstrativos financeiros que eu tinha lido sobre Raymond Jacobs, mas, sinceramente, eles estavam misturados na minha cabeça com todos os outros artigos, relatório anuais e demonstrativos financeiros que eu tinha lido sobre todos os outros homens que já tinha testado. Motores de carros. Eu me lembrava de motores de carros. Lembrei que ele assumiu a pequena empresa fabricante de motores assim que terminou a pós-graduação. Lembrei de um artigo em especial que contava a trajetória de Raymond até o sucesso e como ele havia conseguido transformar uma pequena firma na grande corporação que era hoje – e sobre a grande chance que finalmente apareceu quando ele... – Minha nossa – falei repentinamente, com um nervosismo batendo no estômago. Anne sorriu. Ela sabia que eu tinha me dado conta, que eu tinha virado na página certa da minha memória e finalmente tinha lembrado a resposta certa. E, como qualquer professora orgulhosa, ela sabia que eu passaria na prova com louvor.

Raymond Jacobs deu um passo desconcertado para trás. Observei-o atentamente, sem piscar meus olhos, sem nada revelar no rosto. – O que tem 15 de março de 1989? – ele disse, tentando desesperadamente esconder o óbvio terror que estava tomando conta de seus olhos. – Não sei do que está falando – falou com desprezo. – Hmm – continuei, ainda fiel ao jogo dele, com timidez e modéstia. – Que engraçado.


Achei que você se lembraria muito bem desse dia, devido ao seu óbvio sucesso e tudo mais – falei apontando para a espaçosa sala. Ele fechou os olhos com força, sentindo a humilhação de um ataque-surpresa que nunca achou que fosse acontecer, mas que inevitalmente nunca esqueceria nem em um milhão de anos. – Afinal, dia 15 de março de 1989 foi um grande dia para você, não, Ray? – prossegui, aproveitando minha glória, mas ainda recusando-me a tripudiar abertamente. Era mais divertido assim, representando a detetive despretensiosa que nunca teria adivinhado que esse homem era outra coisa além de um empresário honesto e trabalhador. Raymond negou com a cabeça, recusando-se a falar. Por isso, continuei. Afinal de contas, eu tinha muita coisa para falar. – Porque, se bem me lembro, se não estou enganada, 15 de março de 1989 foi um dia antes de 16 de março de 1989, um dia muito importante na história desta empresa. – Coloquei o dedo no queixo e fingi estar buscando todos os detalhes importantes na minha cabeça. – Sim, acredito que 15 de março foi a véspera de você anunciar para o mundo que as Indústrias Kelen, uma fábrica pequenina e humilde, iria se juntar à Ford para fornecer motores para a sua mais nova linha de carros médios. Uau! – Respirei fundo e fingi estar impressionada. – Sabe – falei, pensando bem sobre a minha próxima declaração aparentemente intrigante –, eu achei que você estaria comemorando no dia 15 de março de 1989, a véspera de um anúncio tão importante; mas não, você provavelmente estava ocupado demais para isso, né? – especulei. – Posso imaginar. Afinal, retomar o contato perdido com seus amigos da pós-graduação e falar para cada um deles comprar dezenas de milhares de ações da sua empresa antes de essa notícia animadora chegar a público certamente deve ter levado muito tempo, sem falar em todas aquelas negociações estressantes de quem fica com qual percentagem do quê, como e onde... – O que você quer? – perguntou Raymond enfurecido. – Algumas pessoas me chamam de calculadora humana – continuei, ignorando sua pergunta. – E é verdade: sou conhecida por fazer cálculos ocasionais na minha cabeça. Mas este aqui foi bem desconcertante: 200 mil ações no total, a cinco dólares cada, é bem impressionante. Mas aí o preço da ação sobe de cinco para cinquenta dólares em menos de um ano? Bem, isso é uma grana federal. – Fiz uma pausa e fingi digitar os números correspondentes na minha calculadora mental até finalmente obter o resultado. – É tipo dez milhões de dólares só com o uso de informações privilegiadas! Sem falar no que você deve ter ganho legalmente com o negócio em si. – O QUE VOCÊ QUER? – ele repetiu, aparentando estar de saco cheio com meu falatório e não mais disposto a ficar ouvindo em silêncio. Eu me levantei e olhei diretamente nos olhos dele. Eu não estava mais com medo, não ia mais levar a pior nesse jogo. – Acredito que já declarei o que quero – falei com firmeza; e, depois disso, não havia


mais nada a ser dito. Por isso, saí da sala, com cuidado para não bater a porta. Afinal de contas, eu provavelmente já tinha perturbado seu mundo tranquilo o suficiente para um dia só. E ninguém gosta que batam a porta.


34 Mestre da manipulação Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até o telefone tocar e Karen Richards estar do outro lado, perguntando por que seu marido tinha voltado inesperadamente mais cedo de sua viagem de negócios alguns dias atrás e ela ainda não ter tido notícias de mim quanto ao resultado dessa inspeção. Por isso, quando o telefone tocou na sexta de manhã enquanto eu ainda estava aproveitando o entusiasmo triunfante da minha batalha contra Raymond Jacobs, presumi que seria ela. Tirei meu Treo do carregador na cômoda e atendi. – Alô? – falei com a voz ainda transbordando de sinais da doce vitória. – Sim, alô, Ashlyn? – era uma voz feminina, gentil e sensível, com apenas um pequeno rastro de familiaridade. Mas depois de a voz de Karen Richards ter sido marcada a ferro na minha memória, eu sabia que certamente não era ela. – Posso saber do que se trata? Houve uma pausa do outro lado da linha. – Hã – a voz começou com hesitação –, aqui é Lauren Ireland. Lembra de mim? Fiz uma careta. Claro que me lembrava dela. Ela praticamente me comeu viva. Porém, não era culpa dela, afinal, tenho certeza de que o fato de o pai dela ter me contratado às escondidas foi um choque, mas a questão não era se eu me lembrava dela, e sim por que ela estava falando comigo ao telefone. – Sim, me lembro de você – falei cautelosamente, preocupada que ela estivesse ligando para me dar outro sermão ou, pior, me fazer sentir culpada pelo casamento cancelado ou pelas passagens não reembolsáveis da lua de mel. Posicionei meu dedo, pronto e preparado, no botão de desligar, só por precaução. – Espero que não se importe por eu estar ligando. Achei seu número na mesa do meu pai. Ele não sabe que estou ligando. – Não me importo – respondi, sem saber se era verdade ou não. Ela respirou fundo. – Em primeiro lugar, quero me desculpar pela minha atitude algumas semanas atrás no escritório do meu pai. Não é meu comportamento normal. É que, com a notícia e tal... bem, certamente fui pega de surpresa. – Não precisa se desculpar, senhorita Ireland. – Por favor, me chame de Lauren. – Tudo bem, Lauren. Garanto-lhe que já ouvi coisa pior. Ela riu de nervosismo.


– Posso imaginar. Houve um silêncio constrangedor ao telefone, e eu não sabia se devia falar. Eu ainda não fazia a menor ideia do motivo de ela estar ligando. Será que era só para pedir desculpas? Ou era por outra coisa? – Na verdade, a razão de eu estar ligando... – começou. Tudo bem, tinha outra coisa. – ... é porque eu queria me encontrar com você, para tomar um café e tal. Senti-me incomodada e finalmente acabei me sentando na beira da cama. Definitivamente, não era uma coisa que eu fazia com frequência. Afinal, por que ela sentia a necessidade de me encontrar? De repente ela queria que nos tornássemos amigas? Melhor amiga da mulher que destruiu seu noivado? Parecia meio forçado. – Sinceramente, Lauren. Se você quer apenas se desculpar, não há necessidade. Entendo totalmente por que reagiu daquele jeito e não vou guardar rancor. – Não – ela respondeu. – Não é isso. Na verdade, trata-se de um assunto totalmente diferente. Ela certamente chamou minha atenção. – E o que seria exatamente? – perguntei o mais educada possível. Devido ao meu histórico recente, eu realmente não estava a fim de ter mais surpresas. – Na verdade, prefiro conversar sobre isso pessoalmente, se não se importar. Prometo que não vou tomar mais que uma hora. Minha primeira reação foi de que se tratava de uma armação, uma emboscada. Lauren e dez de seus amigos mais robustos estariam esperando por mim num túnel ou na praça deserta que sugeriria para o nosso encontro. Porém, pude notar algo no fundo da voz dela que imediatamente descartou essa hipótese. Ela manifestava humildade, desespero, estava à procura de orientação. Bem, eu obviamente não era a pessoa ideal para dar conselhos agora, mas acho que não ia fazer mal me encontrar com ela. Além disso, o que mais eu tinha para fazer ultimamente? Voltar a tricotar? Por isso, aceitei. Para a minha felicidade, ela não sugeriu uma praça abandonada ou um beco qualquer. Ela perguntou se podíamos nos encontrar em um café simples em Santa Monica. – Conhece o Café da Rua 18? Sorri. – Sim, é um lugar legal. Lauren e eu combinamos de nos encontrar na noite seguinte e, ao desligar o telefone, imediatamente fiquei imaginando se eu me arrependeria. Porém, eu prontamente me convenci de que, a essa altura, deveria aproveitar qualquer distração, porque, por mais que detestasse admitir, era quase impossível não pensar em Jamie a cada minuto que passava. Uma parte pequenina e insignificante de mim imaginava por que ainda não tinha tido notícias dele, principalmente quando claramente era ele a pessoa que estava errada nessa história toda. Tudo bem que eu estava com o cartão na minha bolsa, eu sei o que ele deve ter pensado quando ele o achou, sobretudo pelo estranho episódio com aquele homem no


restaurante japonês que quase dedurou tudo. Mas será que ele estava tão bravo assim? A ponto de nem ligar? Nem mandar e-mail? Nem nada? Nem para ver se eu tinha chegado bem em casa? Ele praticamente tinha me abandonado num país estrangeiro. Tudo bem, eu me fiz abandonar, mas, mesmo assim, apesar do meu juízo, da minha consciência mandando não fazê-lo, eu ainda me pegava olhando para o telefone de tempos em tempos. Eu não conseguia evitar ficar verificando a caixa postal mesmo sem um sinal de mensagem de voz na tela – e odiava isso. Odiava por ele me deixar preocupada. Aquele cafajeste mentiroso e infiel ficava me fazendo pensar se ele voltaria a pegar o telefone para me ligar. E aí havia a pergunta seguinte: será que ele era mesmo um cafajeste mentiroso e infiel? E também havia outra pergunta depois dessa: o que eu ia contar para a esposa dele? Meu serviço sempre foi muito claro: intenção de trair, demonstrações de tendências de infidelidade, quase transar. Eram o que eram e sempre foram assim. Todo mundo ganhava o mesmo tratamento. Todo homem passava pela mesma montanha-russa até o último minuto e, se essa fosse uma missão como outra qualquer, Jamie teria tecnicamente sido aprovado. Então, é isso que eu teria de contar a Karen Howard Richards? Que ele era inocente? Ou deveria contar a verdade? Toda ela: o voo de Las Vegas, a partida de golfe, o restaurante japonês, os sacos de avião, Paris, e aí deixá-la decidir, tentar responder à pergunta que eu ainda não tinha conseguido responder. E numa situação inversa? E se Karen não ligar, se eu não ouvir falar dela, por qualquer que fosse o motivo. Talvez Jamie tivesse voltado de Paris cheio de remorso e arrependimento e tenha se declarado para ela, confessado tudo, e eles tiveram uma noite apaixonada cheia de comunicação sincera e uma transa incrível de reconciliação. Que bom para eles. Espero que sejam muito felizes juntos. Pelo menos, eu nunca mais teria nada a ver com eles. Por mais improvável que essa situação fosse, achava estranho ainda não ter sido contatada por ela desde que voltei. Jamie obviamente teria pego um voo para voltar imediatamente, não? Era mais provável que sua viagem tivesse sido abreviada. Ele me disse que teria que voltar para Los Angeles para trabalhar em outras contas. Então por que ela não sabia que ele estava aqui? E, se sabia, por que não me ligou perguntando o resultado? A história toda era simplesmente muito estranha. Sempre fora. As coisas nunca bateram totalmente bem, e eu não estava a fim de começar a cavoucar até o fundo com uma colher de chá. Sem dúvida, levaria uma eternidade, e o metal provavelmente se estragaria no meio do caminho. Por isso, prometi nem tentar, nem pensar nisso. Mas eu sabia que era mais fácil falar do que fazer. Eu não estava exatamente ansiosa pelo meu encontro com Lauren Ireland, mas também não era exatamente assustador. Certamente fiquei intrigada com o seu pedido para me encontrar, sem ter uma pista sequer do que ela queria conversar comigo. Ela me


ligou quase um mês depois de eu informar a ela e ao pai da reprovação de Parker Colman no hotel – e na mesa de pôquer, aliás. E ela havia sido pega completamente de surpresa com a informação. Por isso, não só ela teve tempo de digerir o fato de que ela e seu futuro marido tinham opiniões divergentes do que seria um comportamento “adequado” para uma despedida de solteiro, como também havia aceitado o fato de o pai ter contratado uma pessoa chamada “inspetora de fidelidade” para prová-lo. Para começar, a maioria das pessoas nem sabia que essa profissão existia. Foi por isso que, a princípio, desconfiei de um ataque, um jeito de me pegar sozinha para expressar sua raiva, uma raiva mais bem pensada, mais bem planejada. Afinal, sua explosão anterior havia sido totalmente imprevista, sem um discurso premeditado ou insultos cuidadosamente pensados. Eu apenas fiquei imaginando do que a mulher seria capaz se tivesse tido tempo suficiente para se preparar. Porém, alguma coisa dentro de mim estava me dizendo que não era uma armadilha, que Lauren tinha outros planos, muito menos violentos e verbalmente agressivos. E essa coisa dentro de mim era o motivo principal de eu estar entrando agora no café na esquina entre a rua 18 e a alameda Santa Monica. Bem, isso e curiosidade pura e simples. – Ashlyn! – ouvi alguém chamar. Virei-me e vi Lauren, sentada numa mesinha com uma cadeira vazia. Ela parecia descansada, tranquila, nem um pouco como eu imaginava que meus clientes (ou filhas de clientes, neste caso) se parecessem apenas um mês após uma missão. Lembrei na hora como ela era bonita. Mais uma vez, vestida de um jeito conservador, mas, sem dúvida, uma mulher muito bonita. Ela acenou amigavelmente e eu fui ao seu encontro. Ao me aproximar, ela largou um pequeno aparelho sem fio com o qual vinha brincando e se levantou para me cumprimentar com um aperto de mão. – Mais uma vez, obrigada por vir. Seu rosto estava agradável e relaxado, e ela parecia extremamente contente em ver que apareci. Se isso fosse um ataque surpresa, ela certamente levou a palavra “surpresa” muito a sério. – Sem problemas – respondi, pegando a cadeira vazia da mesa. – Quer beber alguma coisa? – ela perguntou. – Café, chá... eles têm chai lattes maravilhosos aqui. – Pode ser chai. Observei ela correr até o balcão, fazer o pedido e depois voltar à mesa. – Vão trazer aqui – ela disse, ajeitando sua saia enviesada na altura da panturrilha para se sentar. Sorri educadamente. – Ótimo. – Então – ela começou, cutucando o porta-adoçantes –, você deve estar pensando por que pedi para encontrá-la. Confirmei com a cabeça. – Sim, estou meio curiosa. Eu certamente não estava esperando que ligasse.


– Você recebe muitas ligações desagradáveis? – perguntou com interesse genuíno. Encolhi os ombros. – Algumas – falei, cuidando para não divulgar informações privilegiadas sobre minha recente aposentadoria até saber um pouco mais os motivos de ela ter me levado ali. – Em geral, consigo notar pelo tom de voz da pessoa nos primeiros cinco segundos da chamada e simplesmente desligo – prossegui. – Aí gravo o número com a palavra “filtrar”. Ela ficou me ouvindo falar, devorando minhas palavras com os olhos e querendo mais. Comecei a ficar com mal-estar. E aí um pensamento estranho me passou pela cabeça: talvez ela estivesse a fim de mim. Descartei a ideia na hora. Que ridículo! – Então, quanto você cobra por uma coisa dessas? – ela perguntou em seguida. Olhei para ela com estranheza. Por que o interesse no meu trabalho? Nunca uma cliente me interrogou desse jeito. – Espere um pouco – falei apreensiva. – Você está escrevendo um artigo ou coisa parecida? Do que se trata? – indaguei, com a voz mudando instantaneamente de paciente para quase irritada. Olhei para a minha bolsa no chão e fiquei pensando se deveria sair correndo antes que um fotógrafo escondido surgisse do nada para tirar uma foto minha (de novo!) e estampar na capa do jornal: “Fotografamos a lendária Inspetora de Fidelidade!” Tudo o que eu precisava agora era outra dose de exposição nacional. Os olhos dela se arregalaram. – Não! Oh, não! Me desculpe. Eu deveria ter contado por que estou aqui antes de começar todas as perguntas. Levantei minhas sobrancelhas com desconfiança. – Está bem, então por que não me conta agora? Ela baixou um pouco os olhos, como se estivesse constrangida com o assunto. Depois de um breve instante, levantou a cabeça e concentrou-se em mim. – Na verdade, pedi para você vir aqui porque... – Dois chai lattes – anunciou uma voz. Olhamos para o jovem adolescente de avental verde que estava em pé, segurando duas xícaras de porcelana cheias de um líquido quente e fumegante. – Sim – disse Lauren ansiosamente, pegando uma das xícaras da mão dele. Ele colocou a outra na minha frente. – Obrigada – falei com um sorrisinho antes de imediatamente retornar a atenção a Lauren. – Você estava dizendo... Ela respirou fundo e soprou a superfície de seu chá, formando ondinhas que logo se dissiparam do outro lado da xícara. – Sim. Bem, a verdade é que pedi para você vir aqui porque estou interessada no seu trabalho. Olhei confusa para ela.


– Bem, isso ficou bem claro com todas as perguntas, mas por que você está tão interessada no meu... trabalho? Com toda a sinceridade, dava para ver como esse trabalho poderia ser bem interessante para as pessoas de fora. Era diferente, meio infame. Dava para ver o fator curiosidade sendo despertado ao mencioná-lo, mas o fato era que eu estava tão de saco cheio a essa altura que mal conseguia transmitir para ela o nível de fascínio. – Bem – Lauren prosseguiu –, estou interessada nele, porque... – ela mordeu o lábio. Pude perceber que o que ia dizer era difícil. Comecei a tomar meu chai latte. Pude sentir o calor do chá sob meus lábios, por isso tentei regular com cautela a quantidade que estava entrando na minha boca. – ... porque quero fazer o que você faz – ela completou. O golinho se transformou numa comporta que se abriu e metade da xícara quente de chai entrou na minha boca, queimando minha língua e o fundo da minha garganta. Tossi violentamente. – Você o quê? – consegui falar, esfregando minha língua queimada contra o céu da boca. – Quero fazer exatamente o que você faz. Sabe, testar a fidelidade das pessoas. Fiquei encarando-a sem acreditar, depois olhei em volta no café. Será que era uma pegadinha? Será que era uma armação de Zoë, Sophie ou outra pessoa? Quando meus olhos voltaram aos dela, vi sinceridade absoluta em seu rosto. Ela estava 100% séria e agora aguardava minha resposta, meu conselho. Aproximei-me dela. – Você quer virar inspetora de fidelidade? – confirmei baixinho. Ela assentiu firmemente com a cabeça. – Por quê? – perguntei, perturbadoramente boquiaberta, como se estivesse perguntando por que alguém iria querer ser mergulhado na água três vezes e só vir à tona duas vezes. Ela olhou para a mesa e esfregou a testa. Naquele momento, pela primeira vez desde que entrou, vi no rosto dela a mesma dor que vira um mês atrás no escritório de seu pai. Ela engoliu em seco e levantou o olhar novamente. – Porque quero dedicar o resto da minha vida a garantir que os canalhas deste mundo sejam condenados. Continuei a massagear minha língua queimada contra a parte interna da minha bochecha. Abri minha boca com cautela e disse: – Lauren, acho que você está exagerando. Entendo que esteja magoada e se sinta traída, mas duvido que esteja pensando racionalmente agora. Você deve esperar a poeira baixar e clarear sua cabeça antes de começar a pensar em maneiras de se vingar da espécie masculina. Teimosa, ela negou com a cabeça. – Não, eu estou pensando racionalmente, pela primeira vez na vida, Ashlyn... – e parou subitamente. – Espere, esse não é seu nome verdadeiro, né?


Cruzei meus braços. – Não – falei com uma clareza que dava a entender que ela não ficaria sabendo o meu nome verdadeiro tão cedo. Ela fez que entendeu, não querendo insistir no assunto. – Bem, seja lá quem você for, abriu meus olhos. Você me mostrou uma coisa que eu talvez levasse anos para enxergar sozinha, se é que um dia veria. E isso é um presente maravilhoso para dar a alguém. Quero retribuí-lo para tantas pessoas quanto possível. Fiquei pensando no seu argumento, que era bom. Afinal de contas, era o mesmo que eu usava. – Bem – comecei a admitir –, a verdade é que a maioria das pessoas não vê exatamente do mesmo jeito que você; pelo menos, não imediatamente. Afinal, é difícil conseguir gratidão nesse trabalho. É uma suposição que você tem que fazer sozinha. Por isso, se está procurando recompensa imediata, esse não é o lugar certo para encontrá-la. – Fiz uma pausa. – Além disso, é uma coisa muito difícil de se levar adiante. – Estou ciente disso – disse Lauren. – Mas posso fazê-lo, sei que posso. Afinal, se consigo reparar um código de programa terceirizado para um aplicativo personalizado sem aprender o processo, certamente posso lidar com isso. Olhei confusa para ela, que prosseguiu. – Às vezes, à noite, quando estou sozinha na cama, fico pensando que, se não fosse por você, eu teria me casado com aquele cara. E sabe-se lá quantas vezes ele teria feito exatamente o que fez, ao passo que eu era fiel, legal e completamente ingênua. Não posso deixar de fazer isso. Ela olhou para mim com uma determinação que há muito eu não via em ninguém, uma determinação que eu via em mim mesma toda vez que me olhava no espelho: dar às pessoas o presente que minha mãe nunca recebeu. Era o que me estimulava todo dia, o que me tirava da cama todas as manhãs. E aí, de repente, ao ouvir as suas palavras familiares e sua saga solidária com propósito, fiquei cara a cara com uma fria e dura percepção: o que me tiraria da cama agora? Qual seria meu propósito? – A verdade é – comecei – que me aposentei há uma semana. Ela ficou mais do que atenta. – Você se aposentou? Por quê? Eu deveria ter contado tudo para ela, todos os aspectos ruins do negócio, as mentiras que se tem que contar, os segredos a guardar, a vida paralela que se leva e até a vingança que algumas pessoas buscarão com você. Afinal, acredite ou não, nem todo mundo pensa nisso como sendo um serviço à humanidade. Muita gente, gente como Raymond Jacobs, pensa nisso como motivo para retaliação. Porém, não contei nada disso a ela, porque achei que não cabia a mim. E eu sabia que, quando estava no lugar dela, quando fiquei cara a cara com a decisão de me afogar ou nadar no meu mar de erros lamentáveis, optei por nadar. Eu tinha escolhido achar um propósito naqueles erros e, se alguém tivesse me alertado sobre o que estava por vir,


duvido que teria dado ouvidos, duvido que teria cancelado minha missão por um segundo que fosse. Vi essa força de vontade nos olhos de Lauren e não teria feito nada no mundo para tentar tirá-la dela. – Era só hora de parar – falei simplesmente em resposta à sua pergunta. – Então, você tem algum conselho para mim? Qual é o ponto de partida? Por onde começo? Quase tive que rir. Era como se ela estivesse pedindo assessoria comercial para um advogado tributarista. Será que a empresa dela tinha que ser uma sociedade limitada ou anônima? E, neste caso, deveria optar por uma companhia aberta ou fechada? E que diabos eu sabia sobre companhias fechadas? Entrei neste ramo por acaso e, com toda a sinceridade, saí por acaso também. Balancei a cabeça negativamente. – Na verdade, não. Não sei o que lhe dizer. Posso passar todos os meus futuros clientes para você, se quiser. Os olhos de Lauren se iluminaram como faróis de um carro que iluminavam uma estrada escura no meio do nada. – Seria perfeito. Obrigada! Sorri para ela, mas, para ser sincera, tudo isso parecia muito esquisito, como se estivessem me pedindo para passar a chave do meu legado para a próxima sortuda, embora eu sinceramente não usaria a palavra “sortuda” para descrevê-la. Mas acho que “legado” já era bem preciso. Ashlyn certamente havia deixado sua marca no mundo, e acho que seria difícil seguir os passos dela. Porém, ao sair do café naquela noite, senti uma pontada de vazio, como se uma parte de mim estivesse faltando, uma parte com a qual eu tinha me acostumado com o passar dos anos. E acho que realmente sentiria falta de Ashlyn de tempos em tempos. Ela tinha uns sapatos muito legais. Quando uma casa é toda decorada em branco, alguém poderia pensar que um objeto mínimo que fosse se destacaria como um elefante: uma mancha vermelha num sofá branco, um fiapo preto no meio do carpete branco, um risco feio de caneta azul na parede pintada de branco. Por isso, o fato de eu não ter notado um pequeno objeto misteriosamente deslocado embaixo da minha mesa de jantar até aquela noite, quando voltei do café, foi meio surpreendente para mim. Espantada, inclinei a cabeça quando ele chamou minha atenção lá da sala de estar. Quando se mora numa casa tão imaculada como a minha, itens estranhos e desconhecidos não passam despercebidos por muito tempo. Assim, fiquei imaginando na hora por que não o havia visto antes, como quando estava de saída, ou outro dia, quando voltei do escritório de Raymond Jacobs, ou na manhã em que cheguei de Paris (mas aquele dia foi exceção, devido ao meu estado na hora: eu provavelmente não teria notado um bando de elefantes sentados em volta da mesa fumando charutos e jogando pôquer; ou melhor, nem teria ligado).


Porém, eu certamente estava notando agora. Tudo bem que aquilo era branco também, o que, portanto, explicava obviamente o prolongado descuido. Contudo, ao me aproximar, abaixando-me um pouco para ver melhor o estranho intruso, reparei que aquilo não era completamente branco. Estava repleto de uma espécie de inscrições pretas. E, inspecionando mais de perto, concluí que as inscrições eram de caneta preta feitas à mão. Ao me aproximar da sala de jantar, enfiei um pé embaixo da mesa de vidro na tentativa de alcançar o objeto e arrastá-lo para fora para poder pegá-lo e examiná-lo melhor e, consequentemente, determinar sua serventia no meu cotidiano. Mas meu pé não conseguiu alcançá-lo. Por isso, relutante, eu me pus de quatro, engatinhando para baixo da mesa e pegando o objeto com a mão. Ao me levantar e casualmente virar o objeto na minha mão, senti, na hora, uma onda de enjoo me varrer. Era o cartão de visita de Jamie Richards, aparecendo mais uma vez num momento muito inadequado, evidentemente (e adequadamente) derrubado de seu cobiçado lugar em cima da mesa de vidro e caindo, virado, em cima do carpete branco. Lutei contra a náusea no meu estômago e, com um profundo suspiro de derrota, fui até a cozinha, abri o compactador de lixo e segurei o cartão perigosamente acima dele. Aí, com uma última olhada no nome que eu havia lido e tocado milhares de vezes, soltei o cartão e assisti ele flutuar desajeitadamente até o lixo. Quando eu estava prestes a fechar o compactador mais uma vez, ligar o interruptor e fazê-lo funcionar, parei e lembrei de todas as vezes que peguei aquele cartão: algumas foram para ligar para Jamie para confirmar alguma coisa, algumas foram tentativas de cancelar um encontro e outras foram só para ficar olhando o nome dele num pedaço de papel. Porém, havia uma coisa em comum em todas essas vezes: eu nunca tinha reparado nos escritos no verso. Ao enfiar a mão no lixo e pegar o cartão de novo, lembrei do dia que o recebi. “Acho que é o último. Estive guardando para você”, disse Jamie, entregando-o. “Veja, tem até uns rabiscos meus de quando fiquei sem papel”. Virei o cartão e li seus supostos rabiscos: 26 de setembro. 11 da manhã. Alameda Wilshire, 1118. Franzi o rosto, confusa. Por que aquela data e endereço me eram tão familiares? Dia 26 de setembro, Wilshire, 1118. Dia 26 de setembro, Wilshire, 1118. Rapidamente, peguei meu Treo na bolsa e fui até a agenda do mês passado. Dia 26 de setembro: recall do Range Rover. Hora: 11 da manhã. Local: Wilshire, 1118. Cocei minha cabeça e voltei a olhar o verso do cartão. Era estranho. Jamie e eu tínhamos exatamente o mesmo horário marcado, exatamente no mesmo local. Mas acho que eu já sabia disso, porque foi a hora e o local onde topei com ele, quando me rendi ao universo. Bem, o universo certamente estava se divertindo, não é mesmo? Não dei importância e voltei minha atenção ao compactador de lixo, pronta para atirar o cartão, que agora estava meio encardido, no local em que devia estar. Nesse momento, porém, vi o forno na minha frente, e minha cabeça voltou ao passado só por


um instante, ao dia em que me falaram da hora marcada do recall. Marta estava limpando o forno quando me informou que a concessionária do Range Rover tinha ligado para marcar um horário e, estranhamente, não estava nos horários deles. Pensando melhor – mais estranhamente ainda –, o modelo do meu carro nem estava marcado para um recall. De repente, congelei com o cartão numa mão; na outra, meu celular. Enquanto isso, a cena começou a se formar devagar: um olho aqui, uma perna ali, um ouvido ali do outro lado. Aquele cartão havia misteriosamente se deslocado do bolso traseiro da minha calça, onde eu o tinha colocado quando Jamie me deu, para a bancada da cozinha, onde Zoë o pegou e me interrogou sobre ele. Porém, eu estava começando a me dar conta, até bem rápido, de que não era nem um pouco misterioso. Um nariz aqui, uma mecha de cabelo preto acolá, um lábio superior no meio. E aí, antes que a cena pudesse se completar, eu sabia que estava diante dela: Marta. Ela havia encontrado o cartão no bolso da calça, viu os escritos, falou sobre um falso horário marcado para o recall que nem existia, tudo para que eu encontrasse Jamie novamente? Estava tudo quase orquestrado demais para se entender. Parecia que eu estava interpretando o que esperava ser uma combinação vitoriosa durante uma partida de Detetive: Marta Hernandez, na cozinha, com o cartão de visita. E eu nem sabia que ela conhecia a palavra “recall”. Que interesse ela tinha se eu ia ou não topar com Jamie de novo? De repente, outra ideia me veio à cabeça. Corri para a área de serviço e comecei a procurar freneticamente nos armários e gavetas. Parecia que eu estava numa caça impossível, em busca de pistas que me levassem ao meu destino – e sabe-se lá o que eu ia encontrar ao chegar. Entretanto, o que encontrei aqui era exatamente o que achei que encontraria. No armário embaixo do tanque, atrás do desinfetante e do limpa-vidros, até mesmo do estoque de toalhas de papel, estava o sabão de lavar roupas que achei nunca ter comprado, aquele com que Marta me interrompeu quando eu estava tentando fazer uma ligação muito importante, aquela que teria posto um fim ao meu terceiro encontro com Jamie, aquele sabão que ela me convenceu que eu não tinha. Lá estava ele, bem lá no fundo, e eu certamente não o tinha colocado lá. Marta Hernandez, na área de serviço, com o sabão! Essa história toda era espantosa. Como é que ela sabia quem era Jamie? Será que tinha grampeado meus celulares? Colocado escutas na minha casa? Implantado algum tipo de aparelho de leitura da mente no meu cérebro enquanto eu estava dormindo? Cá estava eu evitando palavras difíceis e frases complexas para garantir que ela me compreendesse quando falava com ela sobre como lavar minha calça jeans preferida, mas, esse tempo todo, ela estava maquinando conspirações complicadas e intrigantes para intervir na minha vida amorosa. E tudo o que pude pensar foi “que mais?”. No que mais ela vinha intervindo esse tempo todo? Fiquei parada no meio da sala de estar e andei lentamente até completar um círculo,


examinando cada centímetro da minha casa imaculadamente limpa. E só quando estava quase completando o círculo, meus olhos se detiveram na TV. O gravador! Desperate Housewives em espanhol? Ou, mais importante, aquele episódio de Desperate Housewives que por acaso tinha uma conspiração para revelar e incriminar um marido muito desonesto? Ah, isso era demais! Eu não conseguia decidir se era consolador ou simplesmente assustador, mas Marta sozinha tinha sido responsável não apenas por criar e depois preservar minha relação com Jamie, mas também por instigar minha vitória contra Raymond Jacobs. – Ela me salvou – falei em voz alta. Esse tempo todo, ela sabia de tudo; e me salvou. Ela era meu anjo da guarda, cuidando de mim, me protegendo de longe, não só da sujeira e da imundície da cidade que eu levava para casa nos sapatos, mas da própria cidade. Batman tinha Alfred, mas eu tinha Marta. Afundei no sofá em um silêncio aturdido, com o cartão de Jamie ainda preso entre meus dedos. Parecia que um furacão tinha acabado de varrer a minha vida e tudo o que sobrou foi esse cartãozinho branco. E fiquei imaginando se ela estivera certa o tempo todo. Se ela podia me salvar de alguém como Raymond Jacobs, talvez tivesse seus motivos para garantir que Jamie permanecesse na minha vida – e talvez eles fossem bons. Alguém bateu na porta, e minha cabeça se virou devagar na direção dela. Eu não precisava abri-la para saber quem estaria do outro lado. Às vezes, na vida, a gente simplesmente sabe. – Oi – falei calmamente ao abrir a porta. – Quer entrar? A visita não respondeu; não precisava. Eu sabia que ele teria muito a dizer uma vez fechada a porta e que eu mesma tinha algumas coisas a confessar. Por isso, deixei a porta bem aberta e observei Jamie entrar devagar na minha casa.


35 Nuvens cinzas no horizonte Há certas coisas que não se pode ler em livros nem aprender na escola. Nossos pais nem vão incluí-las nos tantos sermões que supostamente devem preparar a gente para o mundo real. Não dá para pesquisá-las na internet nem perguntar para um amigo chegado – e certamente não se pode ouvi-las numa música romântica ou vê-las num quadro de museu. E o motivo de não se poder achar essas coisas nas fontes normais de inspiração e iluminação é porque ninguém as procura, porque ninguém sabe que existem até entrarem na casa da gente e se sentarem no nosso sofá. Jamie e eu ficamos nos encarando por séculos. Nossos olhos diziam palavras um para o outro que nossos 36 anos somados de educação nunca nos ensinaram a dizer. Eu não sabia quem devia falar primeiro. Por isso, comecei: – Não foi desde o começo – falei calmamente. Foi a única coisa que pude dizer, que eu desesperadamente queria que ele soubesse. Afinal, era a verdade, e eu nunca esperei que fosse tão difícil de acreditar. – Eu sei – ele respondeu. – Karen me contou. O som do nome dela vindo de seus lábios me deu um frio na espinha. Eu queria tapar meus ouvidos com as mãos e cantarolar alto até que os lábios dele parassem de se mexer. – Então é verdade? – perguntei, parte de mim querendo acreditar que fora tudo um grande engano, um terrível pesadelo, e que Jamie tinha vindo me acordar e me levar de volta a Paris. Ele assentiu solenemente. – Mas não do jeito que pensa. Olhei para ele e, sem dizer uma palavra, prestei-lhe toda a minha atenção. Eu queria ouvir o que tinha a dizer. Alguns dias atrás, talvez eu não tivesse sido capaz de lhe dar a mesma consideração, mas agora, depois que tudo aconteceu, eu finalmente estava pronta para ouvir. Jamie respirou fundo e começou a contar a história que eu torcia para que mudasse a minha vida. – Nós nos casamos há cinco anos. Foi bom nos três primeiros anos, depois as coisas foram ladeira abaixo. Passamos a ficar distantes um do outro. Começamos a fazer terapia, mas não parecia estar dando certo. Eu queria que desse. Achei que era o que deveria fazer, batalhar, sacrificar tudo para salvar, mas acho que ela não pensava o mesmo, porque oito meses atrás ela me traiu com um colega meu do trabalho. E passamos a viver separados pouco tempo depois. Entrei com o pedido de divórcio, e não levou muito tempo para os advogados dela lembrarem-na de que não levaria nada de


mim no acordo final, exceto o que o acordo pré-nupcial lhe prometia, o que, pelo jeito, não foi suficiente, porque ela insistia para que eles encontrassem uma lacuna. – Infidelidade – falei suavemente, terminando o raciocínio, como se a resposta estivesse dentro de mim esse tempo todo: a última peça do quebra-cabeças, escondida atrás do sofá. Apesar de a figura parecer completa sem ela, era somente colocando-a no lugar que a imagem toda magicamente se transformava perante os olhos. – Exato – disse Jamie, baixando sua cabeça e esfregando a testa. – Meus advogados me alertaram sobre a lacuna, avisando para eu não ter relações sexuais com ninguém até que o divórcio estivesse finalizado. E isso era para ter sido meses atrás, mas ela ficava arrastando, adiando compromissos legais, faltando às audiências, qualquer coisa para ganhar mais tempo. Eu tinha certeza de que os papéis teriam sido assinados antes de viajarmos a Paris, mas ela armou mais uma no último minuto. – E era por isso que você não queria transar comigo? – Acredite, foi a coisa mais difícil que tive de fazer! Mordi meu lábio e senti meu rosto corar. – Sério? – Olhe para você! É irresistível! Pensei em cancelar a viagem só para não ter que passar por esse tipo de tortura, mas eu queria tanto ir a Paris com você que achei que valeria o sacrifício. Dei uma risadinha. – Obrigada. – Cheguei a pensar simplesmente em esquecê-la de uma vez e fazer amor com você de qualquer maneira, deixar ela ficar com o que quisesse. Eu não ligava, contanto que tivesse você. Mas eu sabia que tinha passado por coisas demais para desistir no último minuto e que era exatamente isso que ela queria que eu fizesse. Demonstrei minha compreensão com um aceno de cabeça. – E, acredite – ele prosseguiu –, verifiquei minhas mensagens a cada cinco minutos enquanto estávamos lá, esperando uma ligação dos meus advogados para me contar que ela tinha assinado os papéis, para que eu pudesse te pegar naquele momento, no meio da prisão francesa, e fazermos amor até aqueles guardas de plástico nos expulsarem. Dei outra risadinha. – Eu também te queria, e muito. Provavelmente teria quebrado todas as regras do manual só para estar com você naquela noite. Ele sorriu e tocou o meu rosto. – Nossa, senti saudade de você. Baixei minha cabeça e segurei uma pequena lágrima. – Mas por que simplesmente não me contou a verdade desde o começo? Para eu não precisar descobrir daquele jeito. Jamie tocou meu queixo suavemente e levantou meu rosto. – Por que você não contou? – perguntou ele com um sorriso carinhoso.


E lá estava: a resposta de um milhão de dólares para a pergunta de um milhão de dólares. O que constitui traição? A resposta era que não existe uma resposta única. Não há uma solução simples, perfeita e transparente embrulhada com um laço. Existe apenas a resposta que se enquadra melhor à pessoa que está perguntando, apenas a definição que faz alguém se sentir amado, traído, culpado, inocente, desonesto ou enganado. E tanto Jamie como eu havíamos nos sentido cada um deles. Por mais que eu tenha tentado defini-la nos últimos dois anos, e provavelmente por mais tempo que isso, a verdade era que a infidelidade não era preto no branco. Era um milhão de tons de cinza e, dentre esse milhão de variedades, havia apenas uma que preenchia a lacuna que havia entre nós agora. E, eu tinha que admitir: nosso tom de cinza particular combinava muito bem com meu mundo branco. – Eu quis contar – insisti, implorando com meus olhos para que ele acreditasse em mim. – Quis mesmo. Mas, por muito tempo, você foi a única coisa na minha vida que não tinha nada a ver com essa grande confusão em que me meti. Eu podia pensar em você e era como se estivesse fugindo de todo o resto: minha página em branco de um caderno cheio de rabiscos ilegíveis. Eu não queria envolvê-lo nisso, não queria manchar aquele sentimento perfeito que tinha quando estava com você. Além do mais, eu tinha certeza de que, se soubesse, me largaria do mesmo jeito. Por isso, eu não tinha nada a perder ao manter o segredo, e tudo a ganhar. Ele pegou minha mão e a apertou. – Eu não a teria largado. – Eu ia contar em Paris, juro. Já tinha planejado tudo. Tinha até resolvido me aposentar, mas aí... – deixei minha voz se esvair, bem confiante de que Jamie já sabia o resto da história. Ele confirmou com a cabeça e, depois de um instante de pesado silêncio, nós dois caímos numa risada descontrolada. – Que timing péssimo – ele finalmente disse, enxugando os olhos. – Pois é! Inacreditavelmente péssimo! – Nem consigo imaginar como deve ter sido para você quando ela a contratou. – Ela me pegou completamente de surpresa! – berrei. – Eu vomitei! Ele riu. – Você vomitou? – Duas vezes! Na sua casa! Sua mão deslizou pelo meu braço e pousou firmemente sobre a minha mão. – Na minha antiga casa – esclareceu. – Então... – Acabou – ele cochichou. – Finalmente. – Acabou de verdade? Jamie ficou radiante. – Ela finalmente assinou os papéis hoje de manhã. Acredite, acabou.


Olhei para ele abrindo um sorriso malicioso no rosto. – Então significa... Ele assentiu lentamente. – Sim, isso mesmo – confirmou com um sorriso sedutor. O rastro de roupas que iam da nossa localização exata no sofá da sala até meu quarto parecia uma reconstituição pervertida da história de João e Maria, só que com uma importante diferença: os “pedaços de pão” marcados pela minha blusa, o cinto de Jamie, meu sutiã, a calça jeans dele, minha saia, sua camisa polo e tudo mais não tinham exatamente sido abandonados para que pudéssemos encontrar o caminho de volta; na verdade, era bem o contrário. Não queríamos voltar para o lugar de onde viemos. Queríamos apenas ficar onde estávamos, um lugar criado por sinceridade pura, perdão incondicional e sexo realmente alucinante. Sim, é verdade que eu não transava há, digamos, muito tempo. Porém, se a memória não falhava, eu tinha certeza de que o sexo com Jamie foi maravilhoso. – Então – ele disse, acariciando meu ombro enquanto eu me aconchegava perto de seu corpo nu. – Sim? – perguntei, levantando minha cabeça e olhando carinhosamente nos olhos dele. – Conte-me sobre esse seu negócio de inspeção de fidelidade. Como é que alguém se envolve numa coisa dessas? Não me parece algo que oferecem no departamento de orientação vocacional. Ele esticou a cabeça o bastante para me beijar antes de se deitar no meu travessseiro branco acetinado. Dei risada e cheguei ainda mais perto dele. – Quem sabe a gente deixa essa história para uma outra hora. Ele riu. – Sempre misteriosa, Jennifer H., sempre misteriosa. Ele beijou minha testa e me abraçou com força enquanto caíamos no sono. Era minha primeira festa do pijama de sucesso.


36 Uma mulher cheia de maravilhas Estou convencida de que o conceito de brunch foi inventado por três motivos: 1) para entreter parentes; 2) para gente que sai no sábado à noite e só levanta às 13h e ainda quer comida de café da manhã para curar a ressaca; e 3) para conhecer o futuro marido de sua melhor amiga que deveria tê-la rejeitado num bar três semanas antes. Ao entrar no Chez Michel, um bistrô franco-americano em Beverly Hills, para encontrar Sophie e Eric para um brunch, pude sentir meu coração começar a bater forte. Ou isso iria correr muito bem... ou muito mal. Eu tinha a impressão de que não haveria meio-termo. Sophie iria ficar ou com a boca fechada conforme havíamos combinado, ou dar pequenas pistas dos detalhes dizendo coisas do tipo “Ei, Eric. Por acaso Jen lhe parece familiar? Acho que ela tem um rosto que se destaca”. E aí, é claro, havia a opção da catástrofe total: eu iria chegar, sentar-me na frente deles e meu radar enlouqueceria. Meu dispositivo mágico de leitura dos homens, que prometi manter trancado no armário por muito, muito tempo, começaria a bipar freneticamente, alertando sobre as inconfundíveis tendências de infidelidade nas proximidades. A única pessoa da espécie masculina nas proximidades seria Eric – e isso não seria nada bom. – Hã, acho que a reserva está no nome de Sophie – falei para a hostess, que verificou o caderno aberto na frente dela. – Sim – ela disse com um sorriso encantador. – O resto da mesa já chegou. Por aqui. Segui-a pela multidão de parentes e gente querendo curar a ressaca até enxergar Sophie sentada com um homem loiro e alto numa mesa no fundo do salão. – Jen! – ela disse, correndo para vir me abraçar. Depois, virou-se ansiosa para trás e disse – Este é Eric. Eric, Jen. Estendi a mão e apertei a dele, observando Sophie olhar nervosa para mim e para ele, analisando o rosto de Eric e buscando qualquer sinal de reconhecimento. E, como eu havia suspeitado desde o começo, não houve nenhum sinal. – Prazer em conhecê-lo... até que enfim! – falei com um sorriso animado. – Igualmente – ele respondeu. Satisfeita com o nosso primeiro contato, Sophie voltou a se sentar na mesa e fez um gesto para que eu me sentasse na frente deles. – Não é divertido? – ela disse, com o rosto iluminado como uma lâmpada halógena. – Minha melhor amiga e o amor da minha vida se conhecendo pela primeiríssima vez – ela olhou com esperteza para mim e piscou alegremente. Eric e eu rimos com seu simpático entusiasmo.


– Sim, querida – ele falou, dando tapinhas carinhosos na perna dela. – É bom finalmente conhecer a famosa Jennifer. – Você parece estar melhor – Sophie observou. Confirmei com a cabeça, tentando evitar que a animação se espalhasse pelo meu rosto rápido demais. Pelo jeito, Sophie estava alheia, pois estava ocupada demais virando-se para Eric e explicando cuidadosamente: – Jen e o seu, hã... namorado, ou o cara com quem estava saindo, brigaram há alguns dias e terminaram. Depois, ela olhou para mim com solidariedade, pronta para receber meu sinal de aprovação para sua impecável história; em vez disso, ela reparou em outra coisa: meus olhos brilhando, luz irradiando do meu rosto. Ela inclinou a cabeça para o lado e perguntou: – Não é mesmo? – Bem – comecei, puxando o guardanapo para o meu colo –, na verdade... – Ai, meu Deus! – ela quase gritou. – Vocês voltaram, não foi? Fui tomada por entusiasmo e baixei minha cabeça, confirmando modestamente. – Sim, reatamos ontem à noite. Sophie bateu as palmas empolgadíssima, como se estivesse aplaudindo da primeira fila a primeira peça de seu filho. – Ai, meu Deus, conte-me tudo. O que aconteceu? Olhei para ela com um sinal de advertência. – Foi apenas um mal-entendido. Ela pescou o sinal e acenou com a cabeça. – Caso típico de falha de comunicação interplanetária entre Marte e Vênus – ela confirmou, virando-se depois para Eric e beijando sua bochecha. – Bem, não há motivo para lhe chatear com todos os detalhes picantes, querido. Jen pode me contar depois. Sorri observando Eric se virar para ela, olhando carinhosamente nos olhos dela e depois beijando seus lábios. Para a minha grande satisfação, não houve alarme, luzes de alerta nem bipes de radar. Ele provavelmente não tinha um fio de cabelo infiel no corpo. Porém, alguma coisa dentro de mim se recusava a deixar isso de lado. Eu não me sentia mais confiante com meus aparatos normais. Sim, em tese, estive certa sobre Jamie o tempo todo: ele não era do tipo que traía, mas toda a experiência me deixou incerta quanto a mim mesma, duvidando das minhas habilidades, até mesmo insegura. E, ao estar sentada na frente do casal apaixonado, futuros marido e mulher, ouvindo eles se revezarem carinhosamente para contar os acontecimentos de seu primeiro fim de semana planejando o casamento, eu estava ciente de que tinha que saber com certeza. Se houvesse a menor margem de erro no meu software interno de previsão, isso não seria bom o bastante para mim. Afinal, ao ver Sophie tão feliz, tão apaixonada, com tanta esperança no futuro, eu sabia que um “provavelmente” não iria dar para o gasto. Eu precisava de um “definitivamente” e, pela primeira vez, eu também sabia exatamente


como consegui-lo.

Dia 31 de outubro, Halloween. Época de duendes, vampiros, fantasmas e monstros saírem de seus esconderijos sombrios para o ar noturno entre o resto de nós e pedirem doces. Hannah, tendo proclamado este Halloween como sendo o último em que iria pedir doces, havia convidado todo mundo para se encontrar na casa da minha mãe para sua “despedida” oficial. O Halloween era um dos meus feriados preferidos, sempre fora, não só porque era um bom pretexto para comer toneladas de doces sem remorso, mas também porque sempre adorei o conceito de vestir uma fantasia, fingir ser outra pessoa, mesmo que por uma noite. Vejam só, eu cheguei até a trabalhar com isso por um tempo. Parei na frente do número 1355 da rua Mayfield, onde passei a infância, e desliguei o motor. Antes de entrar, peguei meu Treo e iniciei uma importantíssima ligação para alguém que eu esperava provar ser um indivíduo importantíssimo. – Alô? – disse a voz de Lauren Ireland do outro lado da linha. – Lauren. Oi, é... Ashlyn. Que se dane, é Jen. Meu nome verdadeiro é Jennifer, mas a maioria das pessoas me chama de Jen. – Oi, Jen – falou respeitosamente. – Então, já encontrou seu bom senso e resolveu não virar inspetora de fidelidade? Ela deu risada. – Não, infelizmente ainda não. – Bem, que bom ouvir isso. Bom para mim, pelo menos, porque preciso da sua ajuda. – Precisa? – Sim. A verdade é que acho que tenho uma missão para você, se escolher aceitá-la. – Claro! Eu podia sentir a animação transbordando pelo celular, como se eu tivesse acabado de contar que lhe daria o presente mais gratificante, recompensador e prazeroso que poderia lhe dar. Entretanto, na verdade, era ela que estaria me dando esse presente. – Qual é a missão? – ela perguntou ansiosa. Respirei fundo e comecei a listar todos os detalhes que, um dia, já foi meu trabalho coletar: profissão, hobbies, gostos, escolas, fraternidades, clubes, bebidas preferidas. Porém, o primeiro e mais importante sempre fora o nome e, hoje, esse nome seria “Eric”. – Consegue adivinhar quem sou? – perguntou Hannah com empolgação assim que entrei na casa. Ela se levantou do sofá e veio correndo me cumprimentar. Dei um passo para trás e examinei sua fantasia cuidadosamente, observando cada ponto e cada costura. Ela estava usando uma minissaia jeans, botas vermelhas na altura do joelho e


uma blusa preta que deixava um ombro à mostra, com uma grande flor vermelha presa na frente. Seu cabelo loiro cacheado estava meio preso por uma caixa inteira de grampos. – Hã... – comecei a especular. Por experiência própria, eu sabia que errar na identificação da fantasia de Halloween de uma criança era o pior insulto que poderia lhe dar. Felizmente, Hannah estava impaciente demais para esperar minha especulação errônea. Ela se aproximou de mim e cochichou: – Sou Carrie de Sex and the City. – Ah – falei, examinando a roupa pela segunda vez com novos olhos. – Muito bom. Ela se aproximou novamente. – Olivia está de Samantha, Rachel é Charlotte, e nossa amiga Michelle é Miranda, pois é a única ruiva. – Parece divertido – falei. – Minha mãe não sabe – ela continuou sorrateiramente. – Ela acha que estou vestida de Hannah Montana, da Disney Channel. – Ela revirou os olhos e soltou uma risada de deboche. Continuei entrando na casa e cumprimentei rapidamente minha mãe e Julia antes de largar minhas coisas em cima da mesa de jantar e me sentar no sofá. Eu estava meio preocupada que as coisas estivessem estranhas entre eu e minha mãe devido ao jeito como nossa última conversa telefônica havia terminado, mas ela pareceu agir normalmente. – Espere! – gritou Hannah assim que minha bunda encostou no sofá. – Tenho que lhe mostrar uma coisa. Relutante, voltei a me levantar e a acompanhei até a cozinha, onde, depois de verificar que ninguém estava atrás de mim, ela retirou um papel dobrado do bolso de sua saia e me entregou. – Aqui está outra carta que recebi – cochichou –, daquele cara. Ela pareceu muito orgulhosa de seu trabalho sigiloso de detetive, e abri um sorriso agradecido. Porém, quando eu estava prestes a abrir o papel e dar uma olhada na nova situação que Raymond Jacobs havia conseguido fotografar secretamente antes de minha pequena visita-surpresa ao seu escritório, percebi que não importava. Agora, ele tinha importância zero para mim. Portanto, por que daria a ele a satisfação de olhar? Em vez disso, amassei a carta e joguei-a no lixo embaixo da pia. Hannah olhou para mim espantada, como se eu tivesse acabado de destruir a última prova que poderia finalmente condenar O.J. Simpson. – Por que fez isso? – Porque não tem importância – falei sem rodeios. – Já cuidei disso. – Mas quem era? E por que ele a chamou com aquele outro nome? Eu havia passado as últimas três semanas tentando inventar uma história acreditável para responder a exatamente essas perguntas, que pudesse apagar meus rastros, evitar


que alguém descobrisse e, ao mesmo tempo, protegesse Hannah da verdade nua e crua que ela não estava pronta para ouvir e do mundo real e cruel que ela não estava pronta para ver. De repente, porém, eu me dei conta de que meu problema principal não estava em inventar uma história que conseguisse responder a todas as perguntas dela, mas no fato de que uma história como essa não existia, porque estava baseada num equívoco, uma ideia errônea de que as mentiras eram melhores que as verdades nuas e cruas – quando, na verdade, eram igualmente destrutivas. Infelizmente, para Hannah, havia certas coisas que ela era jovem demais para saber e, se escondê-las dela me tornasse muito menos “legal”, então que assim fosse. Olhei para ela com carinho e tirei suavemente uma mecha de cabelo solta de seu rosto. – Eu conto quando você tiver mais idade. Que tal? Quando eu estava esperando ela começar a resmungar, reclamar e me olhar com reprovação, acusando-me de traí-la e de me transformar na sua mãe, ela deu de ombros e ignorou tudo dizendo simplesmente: – Tanto faz – e voltou correndo para a sala para começar sua noite. – Está pronta? – perguntou Julia, pegando suas chaves e bolsa enquanto Hannah e eu voltávamos da cozinha. – Mãe – Hannah resmungou –, pela última vez, você não pode vir junto. Vamos nos reunir na casa de Rachel e depois vamos andar pelo bairro dela. – Sabe, Hannah – começou Julia cautelosamente –, para alguém que está quase “velha demais” para o Halloween, você certamente está fazendo um grande estardalhaço. Hannah se virou para mim e me olhou feio. – Ela está me deixando louca – disse com os dentes cerrados. Abri um sorriso carinhoso, abaixei-me e cochichei: – Pegue leve com ela. Ela se preocupa muito com você. Hannah franziu o rosto e aí voltou-se relutante para a mãe. – Está bem, você pode me dar uma carona até a casa de Rachel, mas é só. Julia abriu um sorriso, balançou a cabeça e se dirigiu até a porta. – Tudo bem. Vamos lá, Hannah Montana. A porta se fechou, e minha mãe e eu ficamos na sala constrangedoramente em pé, paradas. Fomos até o sofá, nos sentamos e começamos a remexer na grande tigela de doces até que localizei um chocolate e o peguei. Fiquei sentada, em silêncio, evitando os olhos dela, e o único barulho no recinto era a embalagem do chocolate que eu estava abrindo e mordendo. Mastiguei com nervosismo, observando a sala. Certamente não era a primeira vez que eu voltava à cena do crime, o local exato em que testemunhei o infame ato de infidelidade de meu pai, antes de eu saber o que era infidelidade, de entender o que significava. Felizmente, o sofá era novo. Minha mãe o substituiu anos depois. As cortinas foram escolhidas para combinar com ele. A mesa de centro foi comprada alguns anos depois disso. Até o carpete era novo. Mas e a


culpa? A culpa era a mesma de sempre e, apesar da nova decoração, novas cores, móveis novos, a culpa ainda parecia combinar com tudo. – Me desculpe se lhe aborreci ao telefone, Jenny – disse minha mãe, aproximando-se e sentando-se ao meu lado. Ela pegou um chocolate da tigela e o abriu. – Não me aborreceu – comecei calmamente. – Quero dizer, aborreceu, mas não é culpa sua. Você estava certa. Preciso aprender a perdoá-lo. Só não sei como. Minha mãe passou a mão carinhosamente no meu cabelo. Caí sobre ela, com as lágrimas começando a percorrer meu rosto lentamente, enquanto ela me abraçava e beijava o topo da minha cabeça. Mal sabia ela que havia uma vida inteira de segredos tentando sair à força da minha boca, segredos esses que poderiam ter mudado tudo, lhe dado felicidade, em vez de roubá-la. Porém, como sempre fiz, eu os guardaria dentro de mim, talvez por mais alguns dias, talvez para sempre. Ela acariciou minha cabeça e cochichou no meu ouvido: – Shhh. Está tudo bem, não tem problema, querida. – Me desculpe, me desculpe – choraminguei em seu peito. Ela riu carinhosamente. – Você não tem por que se desculpar. Eu quis levantar a cabeça e berrar “mas eu tenho! Tenho um mundo de coisas pelas quais me desculpar! Arruinei sua vida! Por favor, me deixe lamentar por isso!”. Em vez disso, permaneci em seus braços e enxuguei as lágrimas das minhas bochechas. – As pessoas são assim mesmo – disse minha mãe suavemente. – Cometem erros. Aliás, a vida não seria a mesma sem elas. Seu pai cometeu um erro e, é verdade, eu nunca mais seria sua esposa novamente. Não poderia amá-lo do jeito que o amava. E não me arrependo de ter me divorciado, mas isso não é o que permite seguir em frente. Perdoar é que permite. Levantei a cabeça e olhei para ela, que sorriu e enxugou uma porção úmida da minha bochecha. Eu não tinha certeza de onde vinha toda a força dela. Nem parecia minha mãe. Parecia mais um guia espiritual zen, orientando uma sala cheia de almas perdidas à procura de direção e salvação, e não a vítima magoada e ofendida que eu havia consolado e cuidado até se estabilizar tantas vezes nos últimos dois anos. E agora ela estava dizendo para eu perdoar? Mas parecia muito impossível. Como é que se pode perdoar algo que nos prendeu por tanto tempo a uma vida que não escolhemos? Não se pode simplesmente acionar um interruptor e absolver esse tipo de coisa, pode? – Não consigo – falei suavemente. – Não consigo deixar de lado, esquecer o que aconteceu e tudo que resultou disso. – Claro que consegue – minha mãe tranquilizou. – Se eu consigo, você consegue. Neguei com a cabeça e senti o maremoto de impossibilidade começar a me varrer. Fiquei transtornada com seu gosto salgado e me assustei com sua determinação para me derrubar. – Não consigo perdoar uma coisa que passei a vida toda tentando compensar – falei


calmamente para mim mesma, mas ela ouviu do mesmo jeito. Eu meio que esperava que ouvisse e que me dissesse o que fazer. E foi o que ela fez. – Mas você tem que perdoar se quiser achar a verdadeira felicidade – declarou simplesmente, como se fosse a única verdade do mundo e todo o resto estivesse ali apenas para confudir a nossa visão, nos distrair, desviar nossa atenção e redirecioná-la para pensamentos muito mais destrutivos. – Você precisa deixar de lado sua raiva e seu ressentimento, precisa aprender a abandoná-los, porque, se continuar se apegando a eles, vão lhe consumir até que não sobre nada. Minha mãe podia ainda estar se referindo ao meu pai, mas eu sabia que havia outra pessoa com quem vinha tendo dificuldades para me reconciliar há anos – e seria muito mais difícil fazê-lo. A campainha tocou, e retomei a postura, obrigando-me a voltar à realidade: Halloween, campainha, crianças, doces. Funguei e enxuguei meu nariz com a mão, rindo levemente do meu estado de perturbação. – Eu atendo – minha mãe falou calmamente, colocando sua mão em cima da minha e depois pegando a tigela de doces. – Não – insisti, levantando-me e pegando a tigela de suas mãos. – Eu quero fazê-lo. Ajeitei minha roupa e arrumei meu rabo de cavalo enquanto andava os dez passos até a porta, a mesma que já me ofereceu uma fuga diária de uma prisão da qual pensei que nunca iria me libertar completamente. Contar à minha mãe todos os inúmeros segredos do meu passado não ia resolver nada, só iria gerar mais dor; e perdoar meu pai por criar esses segredos poderia ter permitido me distanciar e seguir em frente, mas era um perdão muito mais profundo, muito mais difícil de obter e mais próximo do que eu jamais imaginara, que iria acabar me libertando. Abri a porta e vi um grupo de três menininhas, todas com sete ou oito anos. Sorri animadamente; a cobiçada tigela com doces que eu estava segurando era uma tentação de dar água na boca. – Gostosuras ou travessuras! – recitaram as três em coro. – Vocês estão ótimas! – exclamei, largando uma variedade de chocolates dentro de suas sacolas. – Do que estão vestidas? A primeira menininha, usando um capacete dourado com asinhas e um vestido justo branco e dourado, apontou com orgulho para sua capa e disse: – Sou She-Ra, a Princesa do Poder – e, em seguida, apontou para sua companheira menos despachada, que estava usando uma tiara dourada e um collant azul e vermelho, e disse –, e ela é a Mulher Maravilha. Às vezes, as pessoas nos confundem, mas somos completamente diferentes. – Pois é – falei séria. – A Mulher Maravilha pode voar, mas a She-Ra tem uma força sobre-humana – continuou ela inteligentemente. – Sério? Eu nem sabia disso – falei. Virei-me para a terceira menina, vestida


adoravelmente com uma regata vermelha, calça vermelha de couro de sintético e um lenço vermelho amarrado na cabeça. – E quem é você? Ela sorriu timidamente e ficou se balançando para frente e para trás. – Sou Electra. – Legal! – exclamei. – Que tipo de poderes especiais tem a Electra? – perguntei cheia de curiosidade. – A Electra é uma ninja “assaxina” – intrometeu-se a She-Ra com esperteza. – Ela pode se mexer muito rápido e é superflexível. Acho que faz ioga – cogitou. Reprimi uma pequena risada. – Bem, vocês estão maravilhosas! – Obrigada! – responderam Electra, Mulher Maravilha e a Princesa do Poder, virando-se com seus sapatos brilhosos e dirigindo-se à próxima casa. Fechei a porta com um sorriso satisfeito e me encostei nela. Minha mãe tinha ido à cozinha, e fiquei sozinha com meus pensamentos. Porém, desta vez, o interessante era que eu só tinha um, que provavelmente moldaria os próximos dois anos da minha vida: o mundo simplesmente precisa de mais heroínas.


Epílogo Seis meses depois... Parei na frente de um prédio alto de trinta andares em Santa Monica. Ao sair do carro, cuidei para ajeitar a frente do meu terno Gucci. Ultimamente, aparência é tudo, principalmente quando se tem uma sala cheia de pessoas que nos olham buscando sentido e orientação. Roupa amarrotada não dá. Entreguei as chaves do meu Lexus híbrido para o homem com uniforme de manobrista que me cumprimentou com um sorriso amigável, o mesmo homem que eu via todos os dias. Às vezes, se eu vinha aqui num domingo, seu substituto dos fins de semana completava a outra metade da conhecida operação. – Bom dia, Pedro – falei simpaticamente. Ele pegou as chaves e desapareceu com o carro numa garagem subterrânea reservada para os locatários da alameda Ocean, número 100. Caminhei com pressa pelo saguão do prédio até chegar ao elevador. Nos últimos seis meses, aprendi a diferença entre “caminhar com pressa” e “correr”. Correr é para amadores; caminhar com pressa é para profissionais. E, no que se refere a aparências, parece muito mais “controlado”. Apertei o botão que prometia me deixar no 15º andar e aguardei pacientemente que o fizesse. A porta do elevador tocou e abriu, e eu virei à esquerda entrando num longo corredor, passando por uma série de portas de vidro que levavam até o escritório no fim do corredor, aquele com a melhor vista do mar... naturalmente. Por que alugar um escritório num prédio na alameda Ocean se não se pode ter uma vista do mar? Dentro das portas de vidro, estava uma senhora cheinha, mas bonita, cuja área de trabalho estava adequadamente situada sob uma grande placa prateada que dizia “Agência Hawthorne”. – Bom dia, Ashlyn – cumprimentou a secretária com seu tom agradável de sempre. Embora fosse hispânica, sua voz não tinha o menor vestígio de sotaque. Seu inglês, bem como seu espanhol, eram impecáveis. E, como eu estava claramente na área de “relações com clientes”, ela era fundamental para a operação diária dessa empresa. – Bom dia, Marta – respondi numa saudação igualmente agradável. – Todos já estão na sala de reuniões – informou Marta. Dei uma rápida olhada para a primeira porta à esquerda e acenei positivamente com a cabeça. Eu raramente chegava no que se consideraria “pontualmente” a essas reuniões, mas meu pequeno atraso era sempre intencional: chegar um pouquinho depois do resto dava um certo ar de importância, embora eu nunca os fizesse aguardar mais que cinco minutos. Depois disso, não se trata mais de aparências, mas pura falta de consideração –


e as pessoas naquela sala eram valiosas demais para desrespeitar de qualquer forma. – Obrigada. Pode lhes dizer que vou entrar daqui a pouco. Algum recado? Essa era a deixa para Marta se levantar e me seguir enquanto eu passava pelo corredor até a última porta à direita: meu lar fora da minha casa. – Sim – começou Marta, entregando-me os papeizinhos amarelos correspondentes após verbalizar seu conteúdo sucintamente. – Seu pai ligou. Quer saber se pode mudar seu almoço das 14h para as 13h30, pois ele tem uma reunião às 15h. Sorri para mim mesma. Os últimos seis meses certamente não foram fáceis no que se referia a consertar a relação destroçada com meu pai. Quatro anos de silêncio não se consertam automaticamente com uma ligação cheia de sinceridade, mas o fato de termos concordado em nos reunir pelo menos duas vezes por mês, apesar de nossas agendas ocupadas, ajudou as coisas a progredirem muito. – Diga-lhe que não tem problema – respondi a Marta acenando autoritariamente com a cabeça. – Mas se ele fizer reserva no Valentino de novo, peça-lhe, por favor, para não usar aqueles tênis sujos desta vez. Marta soltou uma risada educada enquanto anotava em seu caderno, retornando sua atenção em seguida à pilha de papeizinhos amarelos em sua mão. Ela pegou o seguinte e leu: – Zoë ligou. Disse que quer que lembrá-la... – Marta fez uma careta ao ler o papelzinho cuidadosamente, palavra por palavra – ... consiga a porra de um cérebro ou tire sua carcaça de merda da estrada. Sorri e assenti. – Parece fazer sentido. – E Sophie ligou. Ela disse “estou tendo um treco. O bufê está ameaçando desistir, e as flores não se parecem com as que escolhemos. Socorro!”. Dei risada e peguei o recado, tirando o peso das costas da mulher. – Vou ligar para ela – declarei, balançando minha cabeça, incrédula. Eu deveria ter previsto que acabar com todas as dúvidas de Sophie sobre o próprio noivo apenas permitiria que ela se concentrasse obsessivamente em novas áreas de preocupação relevante. Marta e eu chegamos ao fim do corredor, e empurrei a porta à minha frente. Entrei na grande sala que eu havia escolhido decorar em branco e cinza claro e me sentei atrás da minha mesa de vidro em forma de L. – Mais alguma coisa? Diferente dos recados anteriores, pelos quais Marta simplesmente passou sem nenhum rastro de apego e/ou reconhecimento, ela tomou um cuidado especial ao transmitir o recado seguinte da pilha. – Jamie ligou... – disse, deixando sua voz clara e sem sotaque sumir e esperando a reação pela qual ansiava toda manhã quando havia um recado dessa natureza. Meus olhos se iluminaram na hora, e um sorriso se abriu em meu rosto.


– O que ele disse? Marta, tendo recebido agora a resposta afetiva pela qual aguardava, prosseguiu com o recado. – Ele disse que deixou seu casaco preto na sua casa ontem à noite e queria saber se você podia levá-lo hoje ao jantar. Deixei o sorriso sonhador ficar no meu rosto por mais um instante antes de eu voltar para o meu nível normal de profissionalismo. – Obrigada, Marta. Vou retornar a ligação dele depois da reunião. Marta assentiu e começou a sair da sala. – Ah – ela disse, virando-se subitamente. – E seu amigo John ligou... de novo. Confirmei com a cabeça e perguntei: – Sobre o mesmo assunto? – Sim. Ele quer saber se, quem sabe, na semana que vem haveria um dia bom para ele comparecer a uma das reuniões dos funcionários. Revirei meus olhos com um leve rastro de divertimento e respondi: – Por favor, diga-lhe que ainda estou pensando no caso. – Claro – disse Marta, saindo e fechando a porta. Alguém poderia pensar que, por ser a proprietária de um negócio próspero e bemsucedido, a primeira coisa que uma mulher no meu lugar (e num escritório do tamanho do meu) faria de manhã seria sentar-se ao computador e olhar os e-mails. Eu, entretanto, não tinha tempo para e-mails no momento, pois havia uma sala de reuniões cheia esperando por mim. Porém, eu sempre conseguia encontrar tempo para encaixar a etapa mais importante da minha rotina matinal, e era exatamente isso que eu estava prestes a fazer neste exato momento ao aguardar pacientemente meu laptop inicializar. Em seguida, direcionava o mouse para o pequeno ícone no canto da tela que continha o famigerado logotipo do Internet Explorer. O navegador se abria e, graças à internet sem fio de alta velocidade que instalei no escritório, eu era saudada na hora pela minha home page, pela qual passava direto digitando um importantíssimo endereço na barra no topo da janela. A fluidez da minha série de movimentos certamente sugeriria que essa não era uma rotina que eu fazia mensal ou mesmo semanalmente. Era uma rotina que eu fazia todas as manhãs, tão religiosamente quanto um corretor de ações que verifica as operações da bolsa de valores, um político que olha as pesquisas eleitorais pela manhã ou um executivo de TV que apura os últimos índices de audiência. O endereço que eu digitava talvez parecesse, para as outras pessoas, estranho, esquisito e sem relação alguma com meu negócio do dia a dia. Mas também, eu sabia uma coisa que não sabiam. Quando terminei de digitar, a combinação de letras na tela dizia o seguinte: www.naocaianacilada.com. Ao pressionar enter e acabar abrindo a mesma página reconfortante que aparecera no dia anterior, e no dia antes desse, e no dia antes desse outro, sorri com satisfação, fechei o aplicativo e comecei a juntar as


coisas de que precisaria para a reunião das 10h, para a qual eu estava agora exatamente cinco minutos atrasada. Tudo no horário. Todas as manhãs, eu ficava maravilhada com o fato de uma simples linha que dizia “Erro: Esta página da web não está disponível. Solicitação inválida” poder me deixar à vontade tão facilmente. Mesmo assim, todas as manhãs, eu ainda desejava essa mesma reafirmação e ainda conseguia rir baixinho comigo mesma ao ler as palavras “solicitação inválida”. Depois de tirar uma pilha de pastas vermelhas brilhosas da minha maleta e pegar um bloco de anotações da minha mesa, saí pela porta pela qual entrara e voltei ao longo corredor, parando na frente da sala de reuniões que me aguardava. Pouco antes de entrar, eu tocava delicadamente na corrente de prata da Tiffany com pingente de rosa pendurado no meu pescoço. Não sei por que parecia me trazer mais sorte a cada dia que passava. Assim que entrava, as conversas na sala se interrompiam. Eu podia sentir todos os olhos me mirando e sorria educamente, dirigindo-me ao meu assento de sempre na cabeceira da mesa. – Me desculpem pelo atraso. Vou tentar ser rápida. Nessa sala, estavam meus cinco funcionários, cinco indivíduos muito diferentes nos quais eu passara a confiar totalmente. Essas cinco pessoas agora eram responsáveis por executar a minha obra. Por sempre ter tido uma capacidade especial de analisar uma situação e decidir imediatamente como lidar com ela da melhor maneira possível, reuni essas personalidades únicas para formar um time de especialistas muito talentoso e especial. Sentada imediatamente à minha esquerda estava uma jovem loira com feições suaves, um corpo voluptuoso e uma beleza clássica que faria qualquer assinante da Playboy virar a cabeça para olhar – e, não por acaso, esses eram exatamente os tipos de cabeça que ela tinha sido contratada para virar. A mulher ao lado dela também era extraordinariamente bonita, mas de seu jeito próprio e único. Ela era pequenina e peculiar, com uma personalidade que era quase tão cativante quanto seu sorriso. Como seus interesses legítimos incluíam futebol, pôquer, sinuca, filmes de Quentin Tarantino e fast food gorduroso, essa funcionária em particular se colocava em muitas situações de trabalho em que seus interesses não relacionados ao trabalho acabavam sendo úteis. O homem diretamente à minha frente, do outro lado da mesa de reuniões, parecia-se muito com alguém que a gente encontra numa sacola da Abercrombie & Fitch que contém a nossa compra mais recente. Com 1,85m e 90kg, seu próposito neste escritório variava a cada missão, mas, na maioria das vezes, exigia o uso de algum tipo de uniforme... militar ou outro. Imediatamente à esquerda dele, estava uma oriental alta e impressionantemente exótica cuja frieza exterior era praticamente impenetrável. Não era de surpreender que


era essa mesma encantadora indiferença que seduzia avassaladoramente as pessoas escolhidas para conhecê-la. E, por fim, à minha direita estava uma jovem morena elegante e sensual de tirar o fôlego que, com a roupa certa, podia facilmente chamar a atenção de quase qualquer homem em qualquer recinto, embora pouco de seu tempo livre fosse gasto na pesquisa de roupas e mais tempo era passado reconectando computadores portáteis e vários dispositivos eletrônicos como o que ela estava segurando na mão direita agora. Ela e eu sabíamos, porém, que essa habilidade específica, e não seu senso de moda, era a mais adequada para as conversas que ela tinha semanalmente. Embora cada um de meus funcionários fosse importante para a organização, a mulher à minha direita era a única da sala com quem eu tinha uma ligação mais pessoal, porque ela não só teve influência direta na minha decisão de fundar essa empresa como também realizou um favor muito pessoal em meu nome. Seis meses atrás, essa mulher entrou num bar lotado de Chicago cheio de médicos bêbados que comemoravam seu último dia de residência e iniciou uma imprescindível conversa com um em especial. Entretanto, depois de um curto bate-papo, e para a reprovação descarada de seus companheiros de bebedeira, o homem gentilmente saiu da conversa declarando que estava, na verdade, noivo de outra pessoa. Em outras palavras, essa mulher era o motivo de minha melhor amiga estar se casando com um médico chamado Eric daqui a três semanas – e, por isso, ela sempre seria mais do que apenas uma funcionária. Ao me sentar na minha cadeira, ela tirou o aparelho branco das mãos e o passou para mim. – Configurei seu novo iPhone. Você não vai ter problema ao acessar seu e-mail. Se quiser, posso lhe mostrar mais tarde como usar. Agradeci, tomando um cuidado especial para me dirigir a ela pelo “codinome”, pois ninguém usava o nome verdadeiro nessa sala ou enquanto trabalhava associado a essa sala. Lauren Ireland escolheu seu próprio apelido ao se juntar ao meu grupo, assim como também o fez o resto dos funcionários. Abri as pastas vermelhas brilhosas à minha frente, uma por uma, e comecei a revisar seu conteúdo: um corretor de imóveis excessivamente sedutor em San Diego, uma dona de casa entediada em Dallas, uma despedida de solteiro suspeita em Las Vegas, e muito mais por vir durante a semana – quase demais para atender. Embora de origens únicas, cada uma dessas pastas continha um pedido muito conhecido para algo universalmente conhecido por ser inestimável: a verdade. Distribuí cada um desses arquivos de fidelidade para o funcionário mais capaz de lidar com o pedido contido. Embora eu tivesse vivenciado várias mudanças na minha vida nos últimos seis meses, a transformação mais significativa veio na forma de uma descoberta, uma percepção: que a paz de espírito podia tomar muitas formas e, mais importante, com a ajuda de


muitas pessoas diferentes. Por isso, agora, com minha sala de reuniões cheia de funcionários dispostos e capazes, cada um de posse de pelo menos um “poder” único e distinto, uma identidade altamente secreta e sigilosa e um armário contendo uma variedade de fantasias adequadas, eu finalmente tinha descoberto o que era preciso para mudar o mundo sem nunca mais ter que pisar pessoalmente em outro quarto estranho de hotel. Bem... quase nunca.


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