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Página reservada à capa


ROGÉRIO PINHEIRO

A história da colônia criada por Dom João VI que foi alvo de disputa entre brasileiros e portugueses no século XIX

Navegantes Edição do Autor 2019


1818

Revisão: Vilma Marli Rebello Mafra Pesquisa e edição: Rogério Pinheiro Leal Nunes Projeto Gráfico: Diagramado Impressão: Impressul

N972d

Nunes, Rogério Pinheiro Leal 1818 : a história da colônia criada por Dom João VI que foi Alvo de disputa entre brasileiros e português no século XIX. 1ª edição. - Navegantes (SC) : [s.n], 2019. 200 p. : il. ; 16x23 cm. ISBN: 978-65-901341-0-3 1.Brasil - História. 2. Santa Catarina - História. 3. Portugal - Ericeira 4. Pescadores - Migrantes. I. Nunes, Rogério Pinheiro Leal. II. Título CDU: 94(81) CDD: 981.64 Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária: Juliana Reinert Boni CRB-14/1077


Sumário Introdução .............................................................................................................................. 7 1 | O incêndio da rua Lampadoza .................................................................................. 13 2| A Enseada das Garoupas ............................................................................................. 17 3| A pedra no caminho ......................................................................................................... 21 4| A Intendência da Marinha em Santa Catarina ............................................ 25 5| A Ericeira ............................................................................................................................... 33 6| A Nova Ericeira ................................................................................................................. 37 7| Os personagens ................................................................................................................... 53 8| Os colonos ............................................................................................................................ 73 9| Viagem

às

Cortes Gerais ............................................................................................. 79

10| O passado obscuro do capitão ............................................................................... 87 11| O trampolim político ...................................................................................................... 93 12| Negócios em família ......................................................................................................... 101 13| O

fim da colônia

.............................................................................................................. 111

14| A desconstrução da colônia .................................................................................... 117 15| O concelho e a Nova Ericeira ................................................................................ 123 16| O fantasma do passado .............................................................................................. 129 17| A Nova Ericeira que deu certo ............................................................................... 141 Anexos .................................................................................................................................... 147 Lista

de colonos

.............................................................................................................. 157

Referências .......................................................................................................................... 173


Introdução

O

ano de 1818 foi um dos mais tranquilos para Dom João VI. Depois de dez anos no Brasil, o monarca português gozava de boa saúde e estava adaptado à vida no Rio de Janeiro. Deixara para trás uma Europa em guerra e empobrecida. Napoleão Bonaparte estava preso e não ameaçava mais ninguém. A antiga colônia prosperava e tudo conspirava para que Dom João transformasse o Brasil em uma potência na América. No embalo do entusiasmado Dom João VI, o negociante português Justino José da Silva teve a ideia de criar um empreendimento pesqueiro no Sul do Brasil. Amigo do rei, Silva visitou a Enseada das Garoupas, no litoral centro-norte de Santa Catarina, em setembro de 1817. Ganhou uma sesmaria, passagens grátis e uma ajuda de custo para a viagem. Seis meses depois, no dia 25 de março de 1818, Dom João VI assinou o decreto que criava a Colônia Nova Ericeira, o primeiro empreendimento pesqueiro do Brasil. A colônia foi aprovada em tempo recorde. Naquela época, só o processo para conseguir uma sesmaria levava anos para uma pessoa comum. No papel tudo ocorreu rápido e com muita eficiência. Fora dele, o que se viu mais tarde foi um show de horrores, começando pela demora para recrutar os pescadores. Silva levou quase dois anos para selecionar 100 pessoas da sua cidade natal, a Ericeira, um reduto de bons homens do mar e conhecida por Dom João VI. No dia 27 de setembro de 1819, por fim os colonos puderam partir para o Sul do Brasil. Embarcaram na Galera Conde de Peniche, um barco que já fazia o transporte de passageiros entre Brasil e Portugal desde 1810. A viagem durou 70 dias, de Lisboa ao Rio de Janeiro e mais 12 da capital fluminense até a Enseada das Garoupas. Os colonos viajaram em busca de uma vida que não tinham na Ericeira. Foram seduzidos com a promessa de casas, terras, uma ajuda de custo e barcos para a pesca marítima. Deixaram para trás miséria e exploração para sonhar com uma vida financeira independente e próspera. Em Portugal, além de depender das condições do mar sempre revolto, os pescadores estavam submetidos aos patrões da pesca, que os exploravam sem dó e nem piedade. Quem os recrutou, prometeu que tudo 7


Rogério Pinheiro | 1818

estaria pronto para recebê-los e começar a atividade pesqueira. Com a quantidade de peixes que o litoral do Sul do Brasil tinha na época (incluía também o Uruguai), a possibilidade de deixar a vida de miséria no passado era quase certa. “Quase” porque a certeza acabou quando os pescadores chegaram no litoral de Santa Catarina no dia 30 de dezembro de 1819, em pleno verão. Encontram uma região alagadiça, com Mata Atlântica fechada e isolada de tudo. Tiveram que ficar em habitações coletivas provisórias até que suas casas ficassem prontas. O provisório para algumas famílias levou alguns meses e, para outras, uma eternidade. As sesmarias entregues simbolicamente no primeiro dia, somente foram registradas nos nomes dos colonos em agosto de 1821, quando a colônia caminhava para o seu fim. A ajuda de custo até foi paga, mas chegava a conta-gotas e com atraso. O que nunca apareceu mesmo foram os barcos para a pesca marítima, as famosas rascas da Ericeira. Tentaram empurrar goela abaixo duas embarcações improvisadas, para que os pescadores parassem de reclamar. Isolados e longe de tudo, tiveram que lidar com falta de moradias e doenças como malária e febre amarela, tudo isso dentro de um ambiente insalubre, sem saneamento, água potável e alimentos. A situação dos colonos ficou pior a partir de agosto de 1820, com a instabilidade política em Portugal, que se refletiu no Brasil nos dois anos seguintes. Já era o prenúncio do fim da colônia. Entusiasmados com a Revolução Liberal na Espanha em abril de 1820, os portugueses fizeram um levante na cidade do Porto no dia 24 de agosto, que se estendeu para Lisboa ainda em 1820 e para o restante do país em seguida. Os portugueses reivindicavam uma constituição liberal igual a espanhola e o retorno de Dom João VI a Portugal. Convocaram ainda no mesmo ano as Cortes Gerais e no ano seguinte, os deputados lusos pediram a recolonização do Brasil, que havia sido promovido a reino em dezembro 1815. O clima entre brasileiros e portugueses, que já não era bom, se deteriorou de vez com a exigência para que o Brasil retornasse à sua antiga condição de colônia. De 1821 em diante, uma onda nacionalista varreu o futuro país e esse nacionalismo, nas palavras da professora Emília Viotti da Costa, não passava de um antiportuguesismo generalizado. Em Santa Catarina, soma-se ainda um governador português com 8


fama de tirânico, corrupto e em constante atrito com o funcionalismo público local. João Vieira Tovar e Albuquerque governou a Província de Santa Catarina por quatro anos (1817/1821) e recepcionou os colonos no dia da chegada em 30 de dezembro de 1819. Naquele ano, as repartições públicas catarinenses estavam lotadas de patriotas que pregavam a expulsão dos portugueses do Brasil. Tovar e Albuquerque era seu principal alvo. O mesmo governador foi acusado de tomar à força terras de moradores de Santa Catarina. Com isso, parte do ódio que sentiam por ele, acabou sendo direcionado aos colonos da Ericeira, que nada tinham a ver com a briga. As repartições catarinenses boicotaram o quanto puderam o empreendimento pesqueiro e justificavam todas as ações, como patriotismo. O mesmo patriotismo fez com que tomassem também à força as terras que eles haviam vendido à Coroa de forma irregular. Criticaram Tovar de Albuquerque e fizeram o mesmo depois que ele foi destituído do cargo de governador. Além das terras, ficaram também com o dinheiro destinado à colônia. Mais uma vez a justificativa foi a justiça pelos anos de exploração dos portugueses. Os patriotas catarinenses faziam parte de um grupo político, que o deputado João Luiz Livramento chamou na década de 1850 de oligarquia, que era: “capaz de destituir propriedades alheias”. O mesmo grupo, que contava com integrantes portugueses, tinha a liderança de uma família interessada em transformar a região de abrangência da Nova Ericeira em seu reduto político. O grupo tinha uma hierarquia e seus membros desempenhavam tarefas especificas, igual a uma organização criminosa. A tão sonhada independência financeira não veio, mas sim, a do Brasil em 7 de setembro de 1822. A separação criou momentaneamente um abismo entre as duas nações, que se refletiu nos projetos portugueses no Brasil. Em Santa Catarina, a Nova Ericeira foi alvo preferencial dos patriotas. Os poucos colonos que tinham condições retornaram à Ericeira. Os que ficaram foram obrigados a jurar obediência à causa da independência e tiveram que usar uma braçadeira de cor verde e amarela como prova de patriotismo. Depois de 1822, muitos colonos foram expulsos de suas terras por alguns “espertos” patriotas catarinenses, que se aproveitaram do clima anti-português para ganhar dinheiro em cima da desgraça alheia. 9


Rogério Pinheiro | 1818

Os pescadores foram abandonados, humilhados e roubados, mas ficaram conhecidos na história como beberrões, malandros e criminosos que vieram para o Brasil ganhar dinheiro sem fazer esforço, como ficou registrado no livro “Memória Histórica da Província de Santa Catarina”, de autoria do ex-deputado, militar reformado, Manoel Joaquim de Almeida Coelho, um dos integrantes do grupo dos patriotas. Não que todos fossem santos, mas a maioria que veio para trabalhar, foi ludibriada pelas falsas promessas e ficaram no fogo cruzado da guerra política entre brasileiros e portugueses, que defendiam na verdade seus próprios interesses financeiros. Os que ficaram, perderam suas terras. Muitos morreram na miséria e, prova disso, são os registros de seus óbitos que se encontram hoje na Arquidiocese de Florianópolis. Jogar a culpa do fracasso nas costas dos colonos, foi um álibi para o grupo político que se aproveitou da colônia financeira e politicamente. Para justificar o desvio de dinheiro e a desapropriação das terras dos colonos; porque não deixar registrado que os mesmos abandonaram suas propriedades depois de gastar o dinheiro que ganharam sem trabalhar? Mataram duas lebres com uma cajadada só, como diz o ditado, pois a mesma estratégia serviu também para atacar aqueles que não foram aceitos no grupo. O problema da Nova Ericeira não foi a falta de dinheiro, pois até os que criticaram, afirmaram que colônia recebeu uma boa quantia. No entanto, essa grana toda não foi usada para financiar a compra de barcos ou a manutenção da colônia e, muito menos, foi para o bolso dos pescadores. Além da acusação, documentos sumiram, como as prestações de contas do dinheiro utilizado e o mapa que indicaria o tamanho real da colônia. O desaparecimento de provas contou também com a queima de documentação em, pelo menos, duas ocasiões registradas e mostram de que maneira as outras provas também desapareceram. A análise dos poucos documentos disponíveis para consulta (balancetes de despesas, periódicos da época e registros paroquiais) provam que os colonos foram vítimas e não culpados; e que a intenção de incriminá-los foi para esconder os verdadeiros responsáveis, cidadãos acima de qualquer suspeita, e atacar as pessoas que atrapalhavam seus negócios. O primeiro trabalho sobre a colônia foi da professora Arlete Assumpção Monteiro, com o seu “Ericeira Brasileira”, editado pela Mar de 10


Letras no ano 2000, em homenagem aos 500 anos do descobrimento do Brasil. A Nova Ericeira foi descoberta pela professora Arlete por acaso, quando ela passava férias de verão em Porto Belo (litoral catarinense) na década de 1990. Até aquele ano a colônia estava praticamente esquecida, como queriam algumas pessoas no século XIX. O livro da professora Arlete foi o primeiro passo para que a Colônia Nova Ericeira tenha a sua história conhecida, mas faltam muitos outros para terminar a viagem. O presente trabalho faz parte dessa caminhada e a intenção é mostrar a Nova Ericeira no contexto histórico da época, além de analisar os interesses financeiros e políticos que a rodeava. Há muito que descobrir e muito por fazer, principalmente para corrigir um erro histórico que foi a acusação que pesa sobre os ombros dos colonos e também a causa do fim do município da Ericeira em 1855. A Nova Ericeira foi o projeto certo, no lugar certo, mas planejado no momento errado e administrado por pessoas erradas. A corrupção tão discutida atualmente fazia parte do cotidiano da Nova Ericeira, onde todo tipo de falcatrua era feito à luz do dia e sem o menor pudor. Não dá para esconder que alguns brasileiros e portugueses ganharam muito dinheiro com a colônia. O objetivo do livro é apontar alguns caminhos para onde foi o dinheiro desviado. Não se trata de uma obra de história, e sim, de um livro-reportagem, com apuração jornalística dos fatos. São quase dez anos de pesquisa resumidos em 178 páginas e publicado de forma independente. Foram analisados mais de 10 mil documentos, entre registros paroquiais, periódicos, artigos e livros. Em Portugal, foram realizadas pesquisas in loco no Arquivo da Torre do Tombo em Lisboa, no Arquivo Público Dom Pedro V em Mafra e da Santa Casa de Misericórdia da Ericeira. No Brasil, as pesquisas foram centradas nos arquivos públicos do Estado de Santa Catarina, Municipal de Florianópolis e Municipal de Itajaí. Merece destaque também o processo de digitalização do acervo de alguns dos principais arquivos públicos do Brasil e de Portugal nos últimos dez anos, que facilitou bastante o resultado final do trabalho. Grande parte do material pesquisado provém de documento histórico digitalizado. O Arquivo Nacional do Rio de Janeiro foi a principal entidade pesquisada no Brasil e do Tombo em Portugal. 11


Rogério Pinheiro | 1818

Escrever “1818” foi um trabalho de quebra-cabeça, onde as peças estavam espalhadas por dois continentes e nem todas foram encontradas. Outra dificuldade foi a falta de provas documentais, já que muitas delas, relacionadas à Nova Ericeira foram destruídas pelo tempo e principalmente por pessoas que não queriam que a história viesse à tona. Mas não existe crime perfeito. Sempre alguém deixa alguma pista ou vestígio pelo caminho. Os que comandaram a colônia deixaram vários e, foi em cima desses vestígios, junto com algumas provas, que o desenho desse enorme quebra-cabeça se formou e sua imagem poderá ser conferida nos próximos 17 capítulos.

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Capítulo 1

O rua

incêndio

da

Lampadoza

O

silêncio daquela madrugada, dia 29 de agosto de 1860, foi interrompido por gritos de fogo. Uma densa fumaça começou a sair pelo sótão da casa nº 34 da rua da Lampadoza (atual Avenida Passos), centro da cidade do Rio de Janeiro. Assustados, seus moradores tentaram desesperadamente controlar o fogo, que já tinha se espalhado pela cozinha e sala de jantar. Depois de uma hora e meia de combate, o fogo foi controlado. Por sorte ninguém se feriu. No dia seguinte, os jornais cariocas estamparam nas suas capas o incêndio, que começou por volta das 5 horas. Um desses jornais foi o Correio Mercantil,¹ que noticiou que o incêndio foi controlado às 6h30 e não chegou a se alastrar para as casas vizinhas. Segundo o periódico carioca, a tripulação do vapor Dom Pedro II e da brigue Maranhão correram até a casa e ajudaram no socorro das vítimas. Apesar do Rio de Janeiro já possuir um Corpo de Bombeiros desde 1856, a guarnição não foi acionada naquele dia. Ao chefe de polícia, o inquilino da casa, o médico alagoano Alexandre José de Mello Moraes, disse que o fogo foi provocado por uma escrava chamada Gervasia, que havia tentado no dia anterior incendiar o mesmo sótão e só não conseguiu porque os criados impediram. Naquele dia, o fogo destruiu muitos documentos, anotações históricas e livros. No dia do incêndio, a rua da Lampadoza manteve seu movimento habitual como se nada tivesse acontecido. A via era uma das mais movimentadas do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, e também, a que recebia mais reclamações dos pedestres.

¹Jornal Correio Mercantil de 30 de agosto de 1860, página 1, edição 242.

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R o g é r i o P i n h ei eiro | 1818

Pela Lampadoza circulavam carruagens de todos os tipos e tamanhos, que jogavam lama em quem estava na calçada. Na mesma rua ficava a Igreja de Nossa Senhora da Lampadoza, protetora dos escravos e visitada com frequência pelos mesmos. Foi na rua da Lampadoza, que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, caminhou antes de ir para a forca no dia 21 de abril de 1792. Naquele dia é possível que o mineiro tenha passado em frente à casa número 34. Foi também na frente da pequena igreja em homenagem a santa, que Tiradentes rezou pela última vez. Alexandre José de Mello Moraes conhecia bem a história de Tiradentes e muitas outras relacionadas ao Brasil. Além de médico homeopata, Moraes era escritor, historiador e célebre biógrafo de personalidades brasileiras na época. Também colecionava e doava livros para bibliotecas das províncias. No mês de março de 1860, por exemplo, chegou a enviar 266 livros para a Província de Santa Catarina. Entre os documentos queimados no sótão da casa da rua Lampadoza estavam memórias não publicadas pelo carioca António de Menezes de Vasconcellos Drummond. É provável que Moraes tivesse outros documentos históricos de Santa Catarina, entre eles da Colônia Nova Ericeira e de algumas famílias tradicionais catarinenses. O historiador alagoano ficou conhecido antes de 1860 por publicar um livro sobre a genealogia das principais famílias brasileiras. Mello Moraes foi biógrafo de Vasconcellos Drummond e ajudou na publicação das memórias do carioca em 1864, sem o material destruído pelo fogo quatro anos antes. Amigo pessoal de José Bonifácio de Andrada e Silva, Vasconcelos Drummond participou do movimento da Independência do Brasil em 1822. Dois anos antes, foi enviado para a Província de Santa Catarina, onde supervisionou uma colônia que acabara de se estabelecer na Enseada das Garoupas, chamada Nova Ericeira. Vasconcellos Drummond chegou na capital catarinense Desterro (atual Florianópolis) em janeiro de 1820. Entre as suas funções estava a de supervisionar a colônia, que ficou no comando do intendente da Marinha de Santa Catarina, o português Miguel de Souza Mello Alvim. O carioca também fundou uma colônia em Itajaí, no nordeste catarinense, que viria a ser uma continuação da Nova Ericeira. 14


1 | O

incêndio

da

rua

Lampadoza

A Nova Ericeira foi alvo de disputa entre brasileiros e portugueses pelo valor investido e o interesse de uma família de Desterro no empreendimento pesqueiro. Um grupo político acabou no controle e ficou com a maior parte do dinheiro que deveria ser usado na compra de barcos de pesca e pagamento das terras. Vasconcellos Drummond se desentendeu com o grupo e retornou ao Rio de Janeiro, embora a versão oficial seja que tenha ido embora ao receber um chamado do ministro de Dom João VI, Tomás António Villa Nova Portugal. Ele levou consigo muitas informações sobre o período que ficou em Santa Catarina, quase dois anos. Informações valiosas e que provavelmente comprometiam o tal grupo político, viraram cinzas naquele dia 29 de agosto de 1860. E tudo leva a crer que integrantes do mesmo grupo estejam por trás do incêndio na casa do biógrafo Mello Moraes. O sinal de alerta do grupo soou depois que o médico alagoano enviou os 266 livros para a Província de Santa Catarina naquele ano. Gervasia não contou se agiu sozinha ou a mando de alguém. Não existem informações sobre o inquérito policial que foi aberto e muito menos de sua conclusão. Não foi encontrado também nenhum documento sobre Gervasia e seu endereço na cidade do Rio de Janeiro. O incêndio no sótão da casa da rua da Lampadoza é o último ato da queima de provas da Nova Ericeira, que começou após a extinção da colônia em 1824. Outro caso de destruição de provas pelo mesmo método aconteceu em Porto Belo sete anos antes, em 1853. O fogo pode indicar de que maneira outras provas documentais foram destruídas no Brasil e Portugal. Registros paroquiais, balancetes, o mapa da colônia e outros documentos sumiram misteriosamente, além da destruição proposital das atas das câmaras municipais da Ericeira e Porto Belo. Tudo isso para esconder os crimes praticados pelo grupo político, mas isso é assunto para outro capítulo. Para que a história possa ser entendida é preciso voltar no tempo, antes mesmo do incêndio da rua da Lampadoza. O ano é 1704.

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Capítulo 2

A Enseada das Garoupas

N

aquele ano aconteceu a primeira tentativa de povoar a Enseada das Garoupas, uma região estratégica para o governo português. Localizada entre a Ilha de Santa Catarina (Florianópolis) e a foz do rio Itajaí-Açu (Itajaí), no Estado de Santa Catarina, Sul do Brasil, a enseada de águas calmas já era visitada por navegadores europeus desde o século XIV. A data da consulta no Conselho Ultramarino é de 26 de janeiro de 1704 e foi feita por Domingos de Oliveira Rosa. Não se sabe sua origem e nem quem eram as pessoas que estavam com ele, mas Oliveira Rosa veio para o litoral catarinense em busca de ouro. Sem encontrar nada, abandonou as terras e foi embora. Seus primeiros moradores foram os índios carijós, grupo que pertencia à ramificação da nação tupi-guarani. Sambaquis (cemitérios indígenas) foram localizados na área da Enseada das Garoupas e possuem mais de 4 mil anos de história. Os carijós foram extintos depois da ocupação dos europeus no litoral de Santa Catarina nas primeiras décadas do século XVII. Seis anos depois da tentativa fracassada de Oliveira Rosa, o governador da Praça de Santos, Manuel Gomes Barbosa, encarregou o sargento-mor Manuel Gonçalves de Aguiar de verificar a possibilidade de criar uma povoação na Enseada das Garoupas. Também não estava totalmente convencido da ausência de minas de ouro na região. A ordem foi dada pelo governador do Rio de Janeiro, Francisco de Castro Moraes no dia 27 de novembro de 1710 e colocada em prática no ano seguinte. O sargento-mor Manuel Gonçalves de Aguiar chegou em São Francisco do Sul no dia 3 de março de 1711. Na vila, ele convocou os moradores mais antigos, que confirmaram que a Enseada das Garoupas não possuía nenhuma mina de ouro: 17


Rogério Pinheiro | 1818

“Todos os moradores mais antigos que tivessem cursado aquela costa, e com efeito logo o fizeram assim, e achando-me presente aos seus depoimentos, como também por outras partes colhi não ser a Enseada das Garoupas capaz de nela se fundar povoação por não ter terras suficientes, e outros inconvenientes mais e que descobrimentos de minas de ouro não havia nenhuma mais do que as lavras antigas, das quais haviam largado por lhe não acharem conta em razão de se não tirar delas nem com que recuperar o gasto”.² Depois de visitar São Francisco do Sul, o sargento-mor seguiu para a Enseada das Garoupas. Durante 14 dias, ele conheceu a região e comprovou também que as terras eram impróprias para fundar uma povoação: “Em 21 de março parti da Villa do Rio de S. Francisco Xavier e cheguei à Enseadas das Garoupas em 22 do dito mês, onde estive 14 dias, vendo e correndo, examinando e sondando com toda curiosidade a miudeza por ser esta a paragem onde fui mandado fazer a dita diligência com toda a individuação; e achei não ser a dita enseada capaz pela povoação como já vinha informando, nem para embarcações de navios ou patachos lá entrarem, e a terra quando muito poderá acomodar na enseada a moradores em razão de estarem as serras junto ao mar, e não ser terras capazes, por ser toda alagadiça”.³ Sem ouro e com terras impróprias para a agricultura, a Enseada das Garoupas foi esquecida por mais de 100 anos. Algumas famílias de Desterro já moravam na região, quando o português Justino José da Silva visitou Santa Catarina pela primeira vez em 1817. Seu interesse não estava nas terras, talvez no ouro, no lucro fácil, na manutenção do poder, mas sua intenção visava, pelo menos oficialmente, o potencial pesqueiro inexplorado da costa sul brasileira. Em Portugal, os cardumes desapareciam a olhos vistos e no começo do século XIX, muitos barcos, as rascas da Ericeira, pescavam sardinhas em Larache, no Marrocos. O mercado brasileiro também estava em franco desenvolvimento para negociantes portugueses, que perderam espaço depois da abertura dos portos em 1808. Junto com o acordo comercial com a Inglaterra em 1810, que quebrou o monopólio comercial com o Brasil, a economia portuguesa, depen²Anais da Biblioteca Nacional. Ano 1917. Edição 0039, página 404. ³Idem.

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2 | A E n s ea d a

das

Garoupas

dente da sua então colônia mais rica, ficou prejudicada. Até 1808, todo o comércio internacional estava centrado no Brasil. Portugal servia de entreposto para toda a mercadoria que chegava da colônia. Lá os produtos eram taxados e encaminhados para outros países: “Uma rede de profissionais ganhava, desde armadores com os fretes marítimos, as alfândegas cobrando taxas de importação e exportação de produtos manufaturados para o Brasil e comissários com o armazenamento e revenda dos produtos”.4 Justino José da Silva foi uma desses negociantes prejudicados com o fim do monopólio português. Sem alternativa, resolveu viajar para o Brasil em 1817. Silva possuía muito prestígio com a rainha Maria I e depois, com o seu filho, Dom João, que apesar de ser príncipe regente já reinava em 1817. Até aquele ano não se cogitava a volta de Dom João VI para Portugal, pelo menos da parte do monarca e do ministro Tomás Villa Nova Portugal. Isso pode ter motivado Justino a pedir uma sesmaria na Enseada das Garoupas. O jagoz5 veio exclusivamente para criar um estabelecimento pesqueiro. Além da sesmaria, os custos de sua estadia, bem como a viagem, foi tudo pago pela Coroa. Outra possível intenção seria de transferir toda a estrutura administrativa da Ericeira à Enseada das Garoupas. A nomeação do filho de Justino para escrivão da Câmara Municipal da Ericeira dois meses antes da viagem, reforça essa tese. Além disso, o armador seguia a política do ministro de Dom João VI, Villa Nova Portugal, que defendia que a sede do reinado ficasse no Brasil. Com a sesmaria ganha e a influência que tinha na Corte, tudo caminhava tranquilamente para Justino colocar em prática seu projeto. Bastaria apenas recrutar os colonos e começar a construir os barcos para a pesca marítima. Mas a história mostrou que não foi exatamente isso que aconteceu. No caminho dele tinha uma pedra e Justino jamais esqueceria que tinha uma pedra no caminho.

Emília Viotti da Costa, Da Monarquia à República, página 35. Além de ericeirense, o jagoz é outro termo utilizado para designar um natural da Ericeira. Há muitos anos atrás, a região era majoritariamente habitada por gentes ligadas ao mar que tinham uma identidade local muito própria, diferenciando-se dos restantes habitantes do concelho de Mafra (saloios). Não se sabe ao certo a origem do termo, mas ele pode ter origem fenícia. (https://temperojagoz.wordpress.com/2014/07/01/jagoz/)

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[Prévia] 1818  

Livro de Rogério Pinheiro, retrata o antes e o depois da instalação da Colônia Nova Ericeira criada por Dom João VI no litoral de Santa Cata...

[Prévia] 1818  

Livro de Rogério Pinheiro, retrata o antes e o depois da instalação da Colônia Nova Ericeira criada por Dom João VI no litoral de Santa Cata...

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