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MÚSICA DIRETO DO CAMBRIANO por Diego Dyan

Você sabe o que é um Trilobita?

Não faz idéia? Uma busca rápida no Google e você pode facilmente descobrir que Trilobita é um tipo de artrópode já extinto. Meio parente dos camarões, representam um importante registro fóssil na tarefa de desvendar o passado do planeta. E a espécie de trilobita Struszia mccartneyi? Lembra alguma coisa? Ela não era canhota e também não nasceu em Liverpool. Alguns pesquisadores na hora de classificar novas espécies fazem homenagens insólitas a seus artistas preferidos. Como no caso dessa trilobita, o home-

nageado foi o beatle Paul McCartney. Diz-se até que Elvis Presley teve um dinossauro batizado com seu nome – o que seria um Elvissauro – mas a classificação foi considerada invalida e hoje o gênero e conhecido como Cryolophosaurus. Porém nem todas as espécies batizadas com nomes de artistas ficaram enterradas no período paleozóico e mesozóico, como é o caso de uma espécie de aranha identificada cientificamente em alusão ao cantor canadense Neil Young e de um tipo de vespa nomeada em homenagem ao Metallica.

Neil Young Myrmekiaphila neilyoungi, aranha

Joey Ramone Mackenziurus joeyi, trilobita

John Lennon Avalanchurus lennoni, trilobita

Johnny Ramone Mackenziurus johnnyi, trilobita

Paul McCartney Struszia mccartneyi, trilobita Ringo Starr Avalanchurus starri, trilobita George Harrison Struszia harrisoni, trilobia Mick Jagger Aegrotocatellus jaggeri, trilobita Anomphalus jaggerius, caramujo

Metallica Metallichneumon neurospatarchus, vespa Sid Vicious Arcticalymene viciousi, trilobita Jerry Garcia (Grateful Dead) Cryptocercus garciai, barata

Keith Richards Perirehaedulus richardsi, trilobita Freddie Mercury Cirolana mercuryi, isópodo Green Day Macrocarpaea dies-viridis, genciana (flor) Sting Hyla stingi, perereca

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DANCEM, MACACOS, DANCEM! por Ernest Cline tradução Janos Biro

Há bilhões de galáxias no universo observável, e cada uma delas contém centenas de bilhões de estrelas. Em uma dessas galáxias, orbitando uma dessas estrelas, há um pequeno planeta azul. E este planeta é governado por um bando de macacos. Mas esses macacos não pensam em si mesmos como macacos. Eles nem sequer pensam em si mesmos como animais. De fato, eles adoram listar todas as coisas que eles pensam separá-los dos animais: polegares opositores, autoconsciência... Eles usam palavras como

Homo Erectus e Australopithecus. Você diz to-ma-te eu digo to-ma-ti. São todos animais, certo? Eles são macacos. Macacos com tecnologia de fibra ótica digital de alta velocidade, mas ainda assim macacos. Quero dizer, eles são espertos, você tem que conceder isso. As pirâmides, os arranhacéus, os jatos, a Grande Muralha da China... Isso tudo é muito impressionante, para um bando de macacos. Macacos cujos cérebros evoluíram para um tamanho tão ingovernável que agora

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é bastante impossível para eles ficarem felizes por muito tempo. Na verdade, eles são os únicos animais que pensam que deveriam ser felizes. Todos os outros animais podem simplesmente ser. Mas não é tão simples, para os macacos. Pois os macacos são amaldiçoados com a consciência. E assim os macacos têm medo, os macacos se preocupam, os macacos se preocupam com tudo, mas acima de tudo com o que todos os outros macacos pensam. Porque os macacos querem desesperadamente se encaixar com os outros macacos. O que é bem difícil, porque a maior parte dos macacos se odeia. Isto é o que realmente os separa dos outros animais. Estes macacos odeiam. Eles odeiam macacos que são diferentes, macacos de lugares diferentes, macacos de cores diferentes. Sabe, os macacos se sentem sozinhos. Todos os seis bilhões deles. Os macacos querem respostas. Os macacos sabem que vão morrer, então os macacos inventam deuses e os adoram. Então os macacos começam a discutir quem fez o deus melhor, o que deixa os macacos bem irritados, e é quando geralmente os macacos decidem que é uma boa hora de começar a matar uns aos outros. Então os macacos fazem guerra. Os macacos fazem bombas de hidrogênio; Os macacos têm o planeta inteiro preparado para explodir. Os macacos não sabem o que fazer! Alguns dos macacos tocam para uma multidão vendida de outros macacos. Os

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macacos fazem troféus e então eles os dão para si mesmos. Como se isto significasse algo. Alguns dos macacos acham que sabem de tudo. Alguns dos macacos lêem Nietzsche, os macacos discutem sobre Nietzsche sem dar qualquer consideração ao fato de que Nietzsche... ... era só outro macaco. Os macacos fazem planos, os macacos se apaixonam, os macacos fazem sexo e então fazem mais macacos. Os macacos fazem música, e então os macacos dançam: dancem macacos, dancem! Os macacos fazem muito barulho. Os macacos têm tanto potencial. Se eles pelo menos se dedicassem. Os macacos raspam o pêlo de seus corpos numa ostensiva negação de sua verdadeira natureza de macaco. Os macacos constroem gigantes colméias de macacos que eles chamam de “cidades”. Os macacos desenham um monte de linhas imaginárias na terra. Os macacos estão ficando sem petróleo, que alimenta sua precária civilização. Os macacos estão poluindo e saqueando seu planeta como se não houvesse amanhã. Os macacos gostam de fingir que está tudo bem. Alguns dos macacos realmente acreditam que o universo inteiro foi feito para seu benefício. Como você pode ver, esses são uns macacos atrapalhados. Estes macacos são ao mesmo tempo as mais feias e mais belas criaturas do planeta. E os macacos não querem ser macacos, eles querem ser outra coisa. Mas não são.


Desenho e argumento: Diego Dyan revista ODIN

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URU E O VALE DOS ADORMECIDOS uma fábula de Daniel Quinn tradução ícaro onofre

Um dia, em sua jornada, Uru chegou a uma terra estranha onde ninguém via, ninguém falava, ninguém ouvia, ninguém fazia, e ninguém pensava. Por esta razão, era conhecida na vizinhança como O Vale dos Adormecidos. Uru, que era conhecido em outros lugares como “O Despertador”, tinha um nome diferente no Vale dos Adormecidos, e foi assim que ele veio a tê-lo: Uru encontrou um homem que o chamou, “Uru, Uru! Por favor, me ajude! Meus olhos estão adormecidos, eu não consigo enxergar.” Uru despertou os olhos do homem e continuou sua jornada, mas o homem o parou, dizendo, “Eu lhe agradeço, Uru, por despertar meus olhos, mas antes de partir você deve terminar sua missão e me dizer para onde olhar.” Depois de refletir um pouco, Uru disse, “Olhe para sua volta. Olhe para as coisas

que despertam o seu interesse. Olhe para o que precisa ser visto. Use suas habilidades para despertar outros, assim como eu despertei você.” “Sim,” o homem disse, “mas você não poderia ser mais específico?” “Como eu posso saber o que há a sua volta para olhar? Como eu posso saber o que desperta o seu interesse? Como eu posso saber o que você precisa ver?” O homem ficou insatisfeito com esta resposta, mas Uru não tinha outra a oferecer, portanto continuou sua jornada. Logo depois, ele foi parado por uma mulher que, através de gestos, fez ele entender que sua voz estava adormecida. Uru despertou a voz da mulher e se virou para continuar sua jornada, mas a mulher o deteve, dizendo, “Eu lhe agradeço, Uru, por despertar a minha voz, mas antes de partir você deve terminar a sua missão

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e me dizer com quem conversar e o que dizer.” Depois de refletir um pouco, Uru disse, “Fale com as pessoas à sua volta, e diga o que deve ser dito para despertá-las assim como eu lhe despertei.” “Sim,” a mulher disse, “mas você não pode ser mais específico?” “Como eu posso saber quem está à sua volta? Como eu posso saber o que deve ser dito a elas?” A mulher ficou insatisfeita com esta resposta, mas Uru não tinha outra a oferecer, portando continuou sua jornada. Logo depois, ele foi parado por um homem que o chamava, “Uru, Uru! Por favor, me ajude! Meus ouvidos estão adormecidos, eu não consigo ouvir.” Uru despertou os ouvidos do homem, e continuou sua jornada, mas o homem o parou, dizendo “Eu lhe agradeço, Uru, por despertar meus ouvidos, mas antes de partir você deve terminar a sua missão e me dizer o que ouvir.” Depois de refletir um pouco, Uru disse, “Ouça o que parece relevante para você. Ouça o que você precisa ouvir. Ouça o que lhe agrada e anima. Use suas habilidades para despertar outros, assim como eu lhe despertei.” “Como eu posso saber o que é relevante para você? Como eu posso saber o que você precisa ouvir? Como eu posso saber o que lhe agrada e anima?” O homem não ficou satisfeito com esta resposta, mas Uru não tinha outra a oferecer, portanto continuou sua jornada. Logo depois ele foi parado por uma mulher que o chamava, “Uru, Uru! Por favor, me ajude! Minhas mãos estão adormecidas, eu não consigo produzir nada.” Uru

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despertou a mão da mulher, e continuou sua jornada, mas a mulher o parou dizendo “Eu lhe agradeço, Uru, por despertar minhas mãos, mas antes de partir você deve terminar a sua missão e me dizer o que fazer.” Depois de refletir um pouco, Uru disse, “Faça o que é necessário a sua volta. Faça o que você faz de melhor. Faça o que os outros não podem. Use suas habilidades para despertar outros, assim como eu lhe despertei.” “Sim,” a mulher disse, “Mas você não pode ser mais específico?” “Como eu posso saber o que é necessário a sua volta? Como eu posso saber o que você faz de melhor? Como eu posso saber o que você faz que os outros não podem?” A mulher não ficou satisfeita com esta resposta, mas Uru não tinha outra a oferecer, portanto continuou sua jornada. Logo depois, ele foi parado por um homem que o chamava, “Uru, Uru! Por favor, me ajude! Minha mente está adormecida, eu não consigo pensar.” Uru despertou a mente do homem, e continuou sua jornada, mas o homem o parou, dizendo “Eu lhe agradeço, Uru, por despertar minha mente, mas antes de partir você deve terminar a sua missão e me dizer como eu devo usá-la.” Depois de refletir um pouco, Uru disse, “Use-a para pensar sobre o que acontece a sua volta. Use-a para solucionar os problemas que você e os seus vizinhos enfrentam, e especialmente, use-a para despertar outros, assim como eu lhe despertei.” “Sim,” o homem disse, “Mas você não pode ser mais específico?”


“Como eu posso saber o que acontece à sua volta? Como eu posso saber que problemas você e seus vizinhos enfrentam?” O homem não ficou satisfeito com esta resposta, mas Uru não tinha outra a oferecer, portanto continuou sua jornada, finalmente saindo do Vale dos Adormecidos e o deixando para trás. Apesar da visita de Uru, entretanto, esta terra continuou sendo conhecida como Vale dos Adormecidos, pois nada mudou. Todas essas habilidades – olhos, voz, ouvidos, mãos, e mente – estavam agora despertas,mas ainda era uma terra onde ninguém via, ninguém falava, ninguém ouvia, ninguém fazia e ninguém pensava. Mas um dia uma jovem mulher que usava ocasionalmente o vale como atalho percebeu algo novo – uma estátua, facilmente reconhecida com a aparência de Uru. Quando um morador do vale passou, ela o parou para investigar. “Em todos os outros lugares,” ela disse, “Uru é conhecido como O Despertador. Mas eu vejo na placa que dá nome à estátua que vocês o chamam de outra coisa. Por quê?” “Oh, Uru nos comoveu bastante,” disse o sonâmbulo, “Ele nos despertou e nos deixou animados por um momento. Mas então ele virava as costas para nós e ia embora. Nós não sabemos se ele tinha um plano, mas se tinha, ele se recusou a compartilhar conosco. Ele apenas nos deixou agitados, e então nos abandonou no desamparo, e isso é verdade. E é por isso que, entre nós, Uru O Despertador é conhecido como Uru O Desapontador.” Então, quem é o despertador?

Afinal, quem é O Despertador? Alguns dias depois de publicar “Uru no Vale dos Adormecidos”, alguns leitores me perguntaram “U-R-U equivale a You, Are You?” É claro que You, Are You (Você, é Você ) é o Despertador. Como eu nunca terminei de dizer, apenas VOCÊ pode saber quais são os SEUS recursos. Apenas VOCÊ pode saber o que VOCÊ pode alcançar, onde VOCÊ está e qual é a SUA situação. Quando todo mundo desperta para este fato, então estaremos finalmente livres do canto hipnótico da Mãe Cultura: “Não há nada que você possa fazer. Você deve esperar que os OUTROS façam alguma coisa. Você não é você, você é NINGUÉM, uma pessoa sem recursos, sem influência, sem voz, sem ouvidos, sem visão, sem mente ou mãos para realizar qualquer tarefa. Portanto, não dê ouvidos a Ismael, não dê ouvidos a B, não dê ouvidos a Uru. Ouça o que eu digo e durma... durma... durma... Os adormecidos na minha fábula são aqueles que não ouviram a mensagem de despertar, que é: “Você é VOCÊ! Ninguém além de VOCÊ pode lhe dizer o que falar. Ninguém além de VOCÊ pode lhe dizer o que ouvir, o que pensar o que fazer.”

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CHUCK PALAHNIUK (SEGUNDO ELE MESMO) Se você ainda não percebeu, todos os meus livros são sobre pessoas solitárias procurando alguma maneira de se relacionar com outras pessoas. De certa maneira, isto é o oposto do “Sonho Americano”: ficar tão rico que possa pairar sobre a multidão, todas aquelas pessoas na auto-estrada ou, pior, no ônibus. Não, o sonho é uma grande casa, isolada em algum lugar. Uma cobertura, como a de Howard Hughes (Howard Robard Hughes, Jr., 1905–1976) foi um aviador, engenheiro, industrial, produtor de cinema, diretor cinematográfico e um dos homens mais ricos do mundo. Rico, excêntrico e anti-social, é sobre ele o filme “O Aviador”, de Martin Scorsese). Ou um castelo no alto da montanha, como o de William Randolph Hearst (1863–1951). Foi um magnata da imprensa estadunidense. É considerado um dos precursores da chamada “imprensa marrom”. O filme Cidadão Kane, de Orson Welles, foi inspirado em sua vida). Algum ninho aconchegante e isolado onde você possa convidar somente a corja de que você gosta. Um ambiente que você possa controlar, livre de conflito e dor. Onde você comande. Não importa se é uma fazenda em Montana ou um apartamento com dez mil DVDs e acesso banda larga à internet, nunca falha. Nós chegamos lá, e estamos sozinhos. E somos solitários. Quando estamos infelizes o suficiente

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- como o narrador em seu apartamento em Clube da Luta ou o narrador isolado por sua própria beleza em Invisible Monsters - nós destruímos nosso amável ninho e nos empurramos de volta ao grande mundo. De várias maneiras, é como escrever um romance. Você planeja e pesquisa. Você passa um tempo sozinho, construindo este mundo amável onde você controla, controla, controla tudo. Você deixa o telefone tocar. Os e-mails se acumulam. Você fica no seu mundo fictício até destruí-lo. Então volta para ficar com as outras pessoas. Se o seu mundo de faz de conta pode vender o suficiente você o coloca em um livro. Dá entrevistas. Realmente fica com as pessoas. Um monte delas. Tantas que você fica enjoado de pessoas. É aí que você se fixa na idéia de fuga, indo embora para um... Para outro adorável mundo de faz de conta. E assim vai. Sozinho. Junto. Sozinho. Junto. Há boas chances, se você está lendo isto, de que você conheça este ciclo. Ler um livro não é uma atividade em grupo. Não como ir ao cinema ou a um concerto. Este é o solitário fim da escala. Toda história em meus livros são sobre estar com outras pessoas. Eu com outras pessoas. Ou pessoas ficando juntas. Para os construtores de castelos, é como


desfraldar uma bandeira de pedra tão grande que atrairia as pessoas no mesmo sonho. Para o pessoal da demolição, é sobre encontrar uma maneira de estar junto, uma estrutura social com regras, objetivos e papéis para serem ocupados por pessoas enquanto elas reconstroem a comunidade. Para Marilyn Manson, é sobre ser uma criança do meio-oeste que não sabe nadar, e que repentinamente se muda para a Flórida, onde toda a vida social é vivida no mar. Aqui, esta criança ainda está tentando se conectar com pessoas. No meu círculo pessoal: Fato. Ficção. Fato. Ficção. O inconveniente de escrever é ficar sozinho. A parte da escrita. A parte “sozinho no sótão.” Na cabeça das pessoas, esta é a diferença entre um jornalista e um escritor. O jornalista, o repórter de jornal, está sempre correndo, caçando, encontrando pessoas, cavando os fatos. Preparando uma

história. O jornalista escreve cercado de pessoas, e sempre no deadline (jargão do jornalismo para a data que marca o fim do prazo). Sobrecarregado e apressado. Excitado e se divertindo. O jornalista escreve para conectar você ao mundo maior. Um condutor. Mas um escritor de verdade é diferente. Qualquer um que escreve ficção é – as pessoas imaginam – solitário. Talvez porque a ficção parece conectar você somente à voz de uma outra pessoa. Ou talvez porque leitura é algo que fazemos sozinhos. É um passatempo que parece nos separar dos outros. O jornalista pesquisa a história. O escritor a imagina. O engraçado é que você ficaria espantado ao saber quanto tempo um escritor tem que passar com pessoas para criar esta voz solitária e única. Este mundo aparentemente isolado. É difícil chamar qualquer um dos meus livros de “ficção”. A principal razão pela qual escrevo é que, uma vez

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por semana, isto me aproxima de outras pessoas. Isto acontece em uma oficina realizada por um escritor – Tom Spanbauer – em volta da mesa da cozinha nas noites de quinta-feira. Naquela época, a maior parte das minhas amizades era baseada na proximidade: vizinhos ou colegas de trabalho. Aquelas pessoas que você conhece só porque, bem, você é obrigado a sentar perto deles todos os dias. A pessoa mais divertida que eu conheço, Ina Gebert, chama os colegas de trabalho de Air Familly. O problema com os amigos de proximidade é que eles se mudam. Eles pedem demissão, ou são demitidos. Isto até a oficina de escrita, onde eu descobri a idéia de amizades baseadas em paixões compartilhadas. Escrever. Ou teatro. Ou música. Alguma visão compartilhada. Uma jornada mútua que vai mantê-lo ligado a outras pessoas que valorizam esta vaga, intangível habilidade que você admira. Estas são amizades que duram mais que empregos e despejos. Esta estável e regular oficina nas noites de quinta-feira eram o único incentivo que me mantinham escrevendo durante os anos que escrever não dava nenhum dinheiro. Tom, Suzy, Monica, Steven, Bill, Cory, Rick. Nós brigávamos entre si e nos elogiávamos. E era o suficiente. Minha teoria preferida sobre o sucesso de Clube da Luta é que aquela história apresenta uma estrutura para juntar pessoas. Pessoas que querem experimentar novas formas de conexão. Veja livros como How to Make an American Quilt (de Whitney Otto - no Brasil, Colcha de Retalhos) ou The Divine Secrets of the Ya-Ya

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Sisterhood (de Rebecca Wells - no Brasil, Divindade Secreta) ou ainda The Joy Luck Club (de Amy Tan, sem edição no Brasil). Todos estes livros apresentam estruturas – fazer um Quilt ou jogar mah-jonng – que permitem que as pessoas fiquem juntas e compartilhem suas histórias. Todos estes livros são pequenas histórias unidas por uma atividade em comum. É claro, são todas histórias de mulheres. Não vemos muitos novos modelos para interação social masculina. Existem os esportes, as apostas nos cavalos, e é só. E agora existem os clubes da luta. Para melhor ou pior. Antes de começar a escrever Clube da Luta, eu trabalhei como voluntário em uma instituição mental de caridade. Meu trabalho era levar as pessoas para compromissos e reuniões dos grupos de apoio. Nestes grupos, elas ficavam sentadas em círculos em porões de igrejas, comparando os seus sintomas e fazendo exercícios New Age. Estas reuniões eram desconfortáveis porque, não importa o quanto eu tentasse me esconder, as pessoas sempre presumiam que eu tinha a mesma doença que elas. Não havia nenhuma maneira discreta de dizer que eu estava ali só observando, um turista esperando para levar o paciente de volta. Então eu comecei a contar a mim mesmo a história de um cara que caçava grupos de apoio para doentes terminais para se sentir melhor em relação a sua vida sem sentido. De várias maneiras, estes grupos de apoio, grupo dos doze passos, corridas de demolição, todos eles ocupam o papel que a religião organizada costumava ocupar. Nós costumávamos ir à Igreja para revelar


os piores aspectos de nós mesmos, nossos pecados. Para contar nossas histórias. Para sermos reconhecidos. Perdoados. E para nos redimirmos, sermos reaceitos em nossas comunidades. Este ritual era a nossa maneira de nos mantermos ligados às pessoas, e de controlarmos nossa ansiedade antes que ela nos levasse para longe da humanidade de uma maneira que nos deixaria perdidos. Nestes lugares eu encontrei histórias verdadeiras. Em grupos de apoio. Em hospitais. Em qualquer lugar em que as pessoas não tivessem nada a perder, era onde eu encontrava as mais verdadeiras. Enquanto escrevia Invisible Monsters, eu ligava para números de tele-sexo e pedia às pessoas que me contassem as suas histórias mais sujas. Você pode ape-

nas ligar e dizer: “Hey, qualquer um, eu estou procurando histórias quentes de incesto entre irmão e irmã. Deixe-me ouvir as suas!” ou “Me conte sobre suas histórias mais sujas e podres sobre travestis!” que você podia tomar nota durante horas. Como era apenas som, era como um obsceno programa de rádio. Algumas eram péssimas atrizes, mas algumas iriam partir seu coração. Em uma ligação, um garoto contou sobre ser chantageado a fazer sexo com um policial que ameaçava prender os pais dela por abuso e negligência. O policial passou gonorréia ao menino, e os pais que ele tentava salvar... Eles o abandonaram e ele passou a viver nas ruas. Enquanto contava a história, perto do fim a

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criança começou a chorar. Se ele estava mentindo, foi um desempenho magnífico. Um pequeno monólogo de teatro. Se era uma história real, ainda assim era uma ótima história. Que eu usei em Stranger Than Fiction. O mundo é feito de pessoas contando histórias. Olhe o mercado de ações. Olhe o mercado da moda. E qualquer longa história, qualquer romance, é apenas uma combinação de histórias curtas. Enquanto fazia pesquisas para o meu quarto livro, Choke - No Sufoco, eu entrei em um grupo de terapia para viciados em sexo, duas vezes por semana durante seis meses. Nas noites de quarta e sexta-feira. De muitas maneiras, estas sessões de terapia não eram muito diferentes das oficinas de escrita nas noites de quinta-feira. Ambos os grupos eram apenas pessoas contando suas histórias. Os ninfomaníacos deviam estar bem menos preocupados com técnicas, mas eles contavam suas histórias de sexo com desconhecidos em banheiros e prostitutas com habilidade o suficiente para conseguir uma boa reação do público. Muitas destas pessoas falavam na terapia durante tantos anos que ouvi-los era como ouvir um solilóquio. (Forma dramática ou literária do discurso em que a personagem extravasa de maneira ordenada e lógica os seus pensamentos e emoções em monólogos, sem dirigir-se especificamente a qualquer ouvinte) Um brilhante ator fazendo papel de si mesmo. Um monólogo que demonstrava um instinto de revelar aos poucos as informações-chave, criando uma tensão dramática, envolvendo completamente os ouvintes.

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Para Choke - No Sufoco, eu ainda observei, como voluntário, pacientes de Alzheimer. Meu trabalho era apenas perguntar a eles sobre as fotografias antigas que cada paciente mantinha em uma caixa no armário, para testar e exercitar a memória deles. Era um trabalho que as enfermeiras não tinham tempo de fazer. E, novamente, era tudo sobre histórias. Uma subtrama de Choke - No Sufoco trata de como, dia após dia, cada paciente olhava para a mesma foto, mas contava uma história diferente. Um dia, a bela mulher com o seio seminu era a esposa. No dia seguinte, era uma mulher que ele conhecera no México quando servia à Marinha. No outro dia, a mulher era uma velha amiga do trabalho. O que me espantava é que eles tinham que criar uma história para explicar quem era a mulher. Mesmo que eles tivessem esquecido, eles não admitiam. Uma deficiente história bem contada era sempre melhor do que admitir que eles não reconheciam a mulher. As linhas de tele-sexo, os grupos de apoio, grupos dos doze passos, todos estes lugares eram escolas para aprender como contar uma história efetivamente. Alto e claro. Para pessoas. Não apenas para procurar idéias, mas para aprender como atuar. Vivemos nossas vidas de acordo com histórias. Sobre ser irlandês ou ser negro. Sobre trabalhar duro ou injetar heroína. Ser homem ou mulher. E passamos as nossas vidas procurando por evidências – fatos e provas – que comprovem a nossa história. Como escritor, você olha para o mundo como aquele personagem, procurando por detalhes que fazem aquela


realidade uma história verdadeira. Como um advogado argumentando em um caso no tribunal, você se torna um advogado que quer que o júri aceite a verdade a partir do ponto de vista de seu personagem. Você quer oferecer ao júri uma ruptura com sua própria vida. De sua própria história. Assim é como eu crio um personagem. Eu tendo a dar a cada personagem uma educação e um conjunto de habilidades que limita a maneira que eles vêem o mundo. Uma faxineira vê o mundo como uma série sem fim de ciscos a remover. Uma modelo vê o mundo como uma série de rivais pela atenção do público. Um estudante de medicina frustrado não vê nada alem de rugas e manchas que podem ser sinais precoces de uma doença terminal. Durante este período em que eu comecei a escrever, eu e alguns amigos começamos uma tradição semanal que chamamos de “noite de jogos”. Em toda noite de sábado, nós nos encontrávamos para fazer algumas brincadeiras, como adivinhar charadas. Em algumas noites, nós nem começávamos o jogo. Tudo que precisávamos era uma desculpa, e algumas vezes uma estrutura, para

estarmos juntos. Se eu estivesse emperrado na minha escrita, procurando uma nova maneira de desenvolver um tema, eu fazia o que depois chamei de “semear na multidão”. Eu lançava algum tópico de discussão, talvez uma história rápida e divertida, e incitava as pessoas a contarem as suas próprias versões. Escrevendo Survivor, eu trouxe a tona o tema de dicas de limpeza, e as pessoas o discutiam por horas. Em Choke - No Sufoco, falei sobre propagandas de segurança. Para Diary, eu contei histórias sobre o que eu encontrava, ou deixava, nas casas em que havia trabalhado. Ouvindo a minha variedade de histórias, os meus amigos contavam as deles. E seus convidados, as deles. E no fim de uma noite, eu tinha o suficiente para um livro. Desta maneira, até o ato solitário de escrever se torna uma desculpa para estar rodeado de pessoas. Em troca, as pessoas alimentavam o enredo. Sozinho. Acompanhado. Fato. Ficção. É um ciclo. Comédia. Tragédia. Luz. Escuridão. Eles se definem. Funciona, mas só se você não fica empacado muito tempo em um único lugar.

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GUTS por Chuch Palahniuk

Inspire. Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder. Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou. Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina. Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo. Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento. Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama. Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para laválas. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta. Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome. As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido.

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Mas no momento em que sai da festa…. Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora. Esse é o espírito da escada. O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz. Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos. Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente. Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de

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sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa. Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem. Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital. Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha. Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo


pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino. Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho. Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá. O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau. Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida. Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente. O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows. Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está

coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue. O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu. No telefone, nesse momento, ele começa a chorar. Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado. Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que só poderia acabar em problemas. O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos. Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas. Depois disso eram mais alguns mer-

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gulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe. Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam. A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela. Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado. Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação. Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmã no balé. Ninguém estará em casa por horas. Minhas mãos começam a punhetar,

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e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo. Faço isso de novo, e de novo. Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água. E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa. Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida. As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também. Ver essa pílula foi o que me salvou a vida. Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora


de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer. O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas. Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma. Deus proíba que meus pais vejam meu pau. Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta. Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão es-

corregadia que não dá para segurar. Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino. Você então vê contra o que eu lutava. Se eu largo, sai tudo. Se eu nado para a superfície, sai tudo. Se eu não nadar, me afogo. É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto. O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma. Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado. Algo sobre o qual nem os franceses falam. Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú... Mne eto nado kak zuby v zadnitse. Essas histórias de como animais pre-

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sos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer. Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes. Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo. Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar. É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê. Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim... Precisava disso como precisaria de dentes no cú. Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada. Depois que você passa por uma la-

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vagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos. Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.” Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo...” E então a menstruação da minha irmã atrasou. Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente. Nunca. Essa é a nossa cenoura invisível. Você. Agora você pode respirar. Eu ainda não.


Desenhos e argumento: Diego Dyan revista ODIN

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OS OLHOS DE PERI por Oscar Fussato Nakasato

Um ar abafado e o feriado tornavam o dia assustadoramente quieto. Havia somente a música de um rádio que vinha de longe, e o barulho de algum automóvel que às vezes passava. Lucinda deixara a louça do almoço na pia e saíra para fazer plantão no hospital, onde era enfermeira. Ela lhe dera um beijo e dissera um palavrão por ter que trabalhar. Gabriel olhou a louça amontoada na pia e resolveu que não haveria nenhum problema se deixasse para lavá-las mais tarde. Fazia muito calor. Ele tirou a camisa, jogou-a num canto e se deitou no chão. Lucinda deixara a porta aberta e, de onde estava, podia ver uma parte da casa do vizinho. Gabriel mal conhecia as quatro pessoas – um casal e dois filhos pequenos – que moravam ao lado. Nunca entrara na casa deles e seu relacionamento com os vizinhos não passava de

um “bom dia” ou “boa tarde”. A janela do quarto do casal estava fechada. Gabriel pensou displicentemente: saíram. Os galhos frágeis da árvore ao lado da torre de antena de televisão estavam quietos. Ele os observou e pensou: Meu Deus, que dia silencioso. O seu cachorro também estava preguiçosamente estendido no chão. Ele tinha se deitado ao seu lado e sua barriga se mexia lentamente conforme respirava. Era um cachorro pequeno, de pêlo marrom e de raça indefinida. Não era bonito, mas Gabriel e Lucinda gostavam muito dele, principalmente devido às circunstâncias em que fora parar em suas mãos. Peri havia sido rejeitado pela família a que pertencia a cadela que o parira. Ele seria largado numa estrada deserta e – principalmente – morreria de fome porque era muito pequeno para procurar comida. Ga-

O conto Olhos de Peri foi extraído do livro Contos, de Oscar Nakasato, Ricardo Henrique Rao e Christian Godoi

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briel e Lucinda eram amigos da família e resolveram levar o filhote para sua casa. Deram-lhe um nome e permitiram que ele dormisse na cozinha, num cantinho aquecido por trapos. Gabriel fechou os olhos e pensou em dormir um pouco. Mas mesmo com os olhos fechados parecia enxergar. Algo o perturbava. Tudo estava calmo demais, e a inércia das coisas lhe fazia crer que o tempo parara. Os fatos da manhã,do dia anterior e de todo o passado de sua breve existência lhe vinham à mente como lembranças desconexas de um sonho. Se saísse à rua poderia ver algumas pessoas? Se ligasse a televisão poderia assistir a um programa? Peri, imóvel, olhava-o com um par de olhos melancólicos e pedintes. O que ele pedia? O que queria além da ração e do carinho dos afagos? Gabriel fixou o animal por um momento e sentiu um tremor. Ele viu nos olhos do animal o olhar do homem que vira há alguns dias deitado na calçada. O vagabundo vestia trapos e cheirava mal. Por um instante Gabriel fixara seus olhos no olhar desiludido do homem. Desviara-os imediatamente e continuara caminhando; precisava comprar um maço de cigarros no bar da esquina. Quando se voltou para o cachorro, percebeu que ele ainda o encarava. Era penoso olhar aquele par de círculos marrons, as duas bolinhas bem no meio, brilhantes, mas infelizes. Um pouco de cera se acumulava nos cantos. Será que Peri o enxergava? Gabriel se sentia trespassado. Não era a ele que o cachorro olhava. O que viam aqueles

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olhos que pareciam carregar o mundo? Uma angústia jamais sentida, insuportável, invadiu Gabriel. Ficou quieto. Mexer-se significaria aumentar a dor e o peso daqueles olhos. Eles o acusavam de ser feliz. Afinal, era feliz. Sua esposa era quase bonita e cabia perfeitamente no espaço que deixara na sua vida para uma esposa. Antes de conhecê-la, imaginavase casado e desejava ardentemente ser um bom marido. Conversava com a mãe sobre o assunto, e ela lhe dizia: você merece a melhor mulher do mundo. Lucinda não era a melhor mulher do mundo, mas o fazia feliz. Uma ou duas vezes por mês iam comer pizza no restaurante de um tio. Como ela também trabalhava, o dinheiro era suficiente para levarem uma vida tranquila. Em casa ele ajudava na cozinha e na limpeza. Logo teria uma promoção no banco e poderiam pagar uma empregada. E também logo teriam filhos – dois – e os educariam com carinho e passeios no jardim zoológico. Gabriel se lembrou da grama que havia prometido a Lucinda podar. Mas de repente lhe pareceu absurdo ter que podar a grama quando os olhos de Peri não o deixavam sossegado. Eles insistiam em ser infinitamente tristes. Ao voltar do hospital, Lucinda veria que a grama não havia sido podada, e ele diria que se esquecera. Como explicar que a culpa era dos olhos de Peri? Ela esbravejaria, diria que trabalhava feito uma condenada e que era o cúmulo ele ter se esquecido de cortar a grama. Ele responderia que no sábado faria o serviço e ela sonharia com uma casa maior e um jardim mais espaçoso.


Peri adormeceu. Gabriel aproveitou para analisá-lo sem ter seus olhos sobre si. Estudou seus pêlos grossos, seu rabo meio torto, seu focinho curto. Então sentiu, como sentiria um pai, necessidade de se aproximar do cachorro, velar seu sono, pegar as suas patas pequenas com as mãos grandes de homem e protegê-lo. Antes que ele acordasse. Antes que os olhos de Peri caíssem sobre os seus. Mas havia pratos sujos sobre a pia. Gabriel se levantou lentamente para não fazer barulho e se dirigiu à cozinha para lavar a louça. O rádio distante continuava ligado e tocava uma canção antiga e alegre. Gabriel a ouvia sentindo uma sofrida sensação de ausência. Uma ausência sem formas, por isso mesmo mais sentida, impossível de ser compensada. A música enchia a casa de solidão, mas lembrava que havia um mundo lá fora. E um passado. Gabriel, então, quis rever Peri. Lavou rapidamente a louça para voltar à sala. Ao retornar, encontrou o cachorro na mesma posição, mas ele já havia despertado. Parecia ter voltado de lugar nenhum. Os cachorros sonham? Gabriel se deitou no sofá, de lado. Olhou Peri. Por um instante, pensou que morreria antes de olhar outra coisa. Os olhos de Peri diziam que a morte era a solução. Mas ele não poderia morrer antes de podar a grama. Prometera a Lucinda, teria que cumprir, ainda que fosse no sábado, ainda que precisasse furar os olhos de Peri para não morrer. Jamais deixara de cumprir uma promessa. Não poderia morrer antes que seus dois filhos nascessem, antes de passear

com eles pelo jardim zoológico e apresentá-los aos macacos, ao tigre... Gabriel se levantou do sofá sem desviar os olhos. Sentou-se em frente ao animal e alisou o seu pêlo. Ficou um tempo assim, consolando-o pela falta de uma história, de um sonho, de uma esperança. De repente lágrimas inundaram os seus olhos. Peri abanou o rabo e o olhou com os mesmos olhos tristes, mas agora com um brilho de gratidão. O carinho que sentiu fez um nó apertar-lhe a garganta. Aquele cachorro gostava dele, e era muito difícil ter de matá-lo, mas teria de fazê-lo. Ele descobrira os seus olhos, e agora eles o perseguiriam até enlouquecê-lo. Pela última vez encarou o cachorro. Seus olhos lhe diziam: você é um pobre idiota, eu sou nada; você é um cristão e sonha com o céu, eu não sou nada. Gabriel não suportou mais ouvi-los. Com pensamentos confusos, com as faces molhadas pelas lágrimas, colocou as suas mãos em torno do pescoço do inocente e o esganou. Oscar Fussato Nakasato possui graduação em LETRAS pela Universidade Estadual de Maringá (1988), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1995) e doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2002). Atualmente é Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná campus Apucarana. Foi meu professor de Língua Portuguesa no CEFET em Campo Mourão. A ele meus sinceros agradecimentos.

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Revista Odin  

Primeira edição da Revista Odin, criada em 2009 por Diego Dyan e Icaro Onofre e diagramada por Rodrigo Sanches

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