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PA R A A B R A Ç A R A P R ÁT I C A

Para Abraçar
 a Prática —

LUIZ FERNANDO PEREIRA

Amostra
 PRévia
 de cortesia
 
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(pode ser alterada em edições atualizadas da obra)

2019 © Luiz Fernando Pereira, Dharmalog.com
 Todos os direitos reservados.
 nando@dharmalog.com


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Introdução “O caminho da verdade é profundo — e também são os obstáculos e possibilidades de auto-engano.”
 ― Chögyam Trungpa Rinpoche (“Além do Materialismo Espiritual”) A meditação é uma prática fundamental no que chamamos de caminho para a resposta de todas as nossas buscas existenciais, de vida e de morte, de propósito e compreensão. De nossa busca pela verdade. Por ser uma prática tão poderosa, ela desafia nossos problemas e limitações mais fundamentais. Esse desafio aparece na vida como aparece na prática de meditação. No fundo, tanto aquilo que chamamos de obstáculos quanto as possibilidades de auto-engano, como cita o mestre budista Chögyam Trungpa, são todos criados pela mente. Meus problemas são minha mente. Os problemas do meu mundo são problemas da minha mente. Minha ignorância é da minha mente. Entendo que essa afirmação possa ser um pouco radical para quem está conhecendo-a pela primeira vez agora, mas é importante considerar e investigar a fundo isso. Com toda a força de curiosidade que se tem. Geralmente absorvemos um paradigma bastante materialista e cético, ou materialista e crente, e não entendemos o


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tamanho dessa possibilidade. E ela realmente só se apresenta como possibilidade quando decidimos baixar nossa desconfiança, nosso preconceito, nossos paradigmas e aceitarmos investigá-la. “Nossos problemas não são causados pelas coisas externas, mas por não entendermos como nossa própria mente funciona”. — Lama Tsering Everest (ensinamento no Templo Odsal Ling) Esse é o buraco de coelho mais importante da vida. As respostas que geralmente buscamos em descobertas científicas da física, da astronomia ou da biologia estão mais perto do que imaginamos, estão em nossa mente. Com ela criamos o inferno e o paraíso, criamos a confusão e a clareza, criamos a ciência e a ignorância, criamos e destruímos o mundo. Interiorizar-se corretamente pela meditação é a prática para encurtar essa distância, até que ela não exista mais. “Além de domar a mente, o que há?” — Shantideva Esse é o desafio que estamos tratando aqui. O desafio dos desafios. Domar a mente. Que acontece pela meditação, mas só se a meditação for de fato realizada. Regularmente. Mesmo um grande atleta, um grande matemático, um grande artista, se depara com esse desafio — treinar, praticar — regularmente. Como aprender a surfar se só temos aula uma vez por mês? Mas como domar a mente vivendo uma vida urbana, cheia de ocupações, na cidade? É possível realmente conseguir praticar a meditação todos os dias, mesmo com toda a agenda e os interesses de diversão que temos?


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É possível que isso seja capaz de ser realizado por todos que se comprometem a essa prática regular, e não somente a uns 10 ou 20 seres que parecem ter mais facilidade pra coisa? Ou que estão dispostos a largar tudo e viver em lugares mais dedicação, com práticas mais intensas? A maioria de nós tem afazeres cotidianos claros na vida — estudar ou trabalhar ou conseguir dinheiro ou educar os filhos ou desenvolver projetos pessoais e profissionais, etc. Muitos de nós, que mantemos alguma prática espiritual regular, geralmente consideramos a meditação como mais um desses afazeres. Vacilamos entre fases em que conseguimos dar a prioridade necessária a ela e outras fases em que isso não acontece. Mas raramente consideramos a meditação como o principal objetivo ou principal prática da vida. Ela quase nunca ocupa o lugar de principal prática ou estudo ou treinamento que temos que desenvolver na vida. Será que deveríamos? Será que Shantideva poderia estar certo, e sua visão se aplica inclusive em nosso complicado e agitado cotidiano moderno? Todas as outras coisas que fazemos são afetadas diretamente por não lidarmos bem com nossa mente — iludida, identificada com pensamentos, superficial, refém de emoções e não-domada. Por estarmos muito distraídos, ou insuficientemente concentrados, ou emocionalmente carregados, ou ainda identificados com opiniões, características, papéis, ou apegados ao entretenimento, ou ao trabalho, ou à busca de reconhecimento, segurança e milhares de outras coisas, nossa mente se perde. Entramos em angústias, repetimos hábitos insalubres, “perdemos a cabeça”, o coração e a paz. Sabemos muito bem disso quando a vida atravessa problemas, quando nossos estados emocionais, nosso estresse físico e


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psicológico, nosso desânimo, cansaço ou perdição atinge níveis que sabemos que não estão bem. Aí pensamos que temos que retomar a meditação. É como o cristão não-praticante que, ao perder um parente ou receber um diagnóstico médico ruim, volta pra Igreja para tentar se reconectar. É uma espécie de desespero. Infelizmente, um aspecto desse problema é que nós não priorizamos a prática da meditação porque nada nos obriga a priorizar, e sermos obrigados é um costume na vida. É uma espécie de infantilidade. Somos obrigados a ir pra faculdade e ficar lá quatro, seis ou oito horas por dia. Somos obrigados a trabalhar todos os dias, também tantas horas por dia. Somos obrigados a pagar as contas, a ser aprovado na prova, a entregar tarefas, a lavar a roupa, a varrer a casa, a ser bom pai/mãe/filho, a comprar mantimentos, a entregar tal projeto, etc. Somos obrigados a botar gasolina no carro, senão ele não anda (se o carro não parasse por falta de gasolina, tenho certeza que iríamos protelar o abastecimento por anos). Ninguém nos obriga a meditar. Nem nós mesmos. Durante a maior parte do tempo, a meditação é vista como uma atividade "complementar". Tem o status de um adendo espiritual. Uma prática que da qual não verdadeiramente preciso, mas que poderia me beneficiar caso fizesse. Ou que já me trouxe muitos benefícios, que mudou a minha vida etc e tal, mas que hoje não faço tanto. Nós conhecemos a história. Mesmo que você esteja há alguns meses apenas lidando com a prática, é muito provável que você conheça essas situações. E mesmo que você seja um praticante mais avançado, que segue uma escola e tem um mestre e vai a muitos retiros etc, você sabe que nem sua escola nem seu mestre estão presentes quando você tem que fazer sua prática diária. Talvez, uma ou duas vezes por semana, você medite com um grupo, mas no dia-a-dia você está sozinho. A


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capacidade de se relacionar com a prática e se sustentar nela é toda sua. É uma tarefa íntima e pessoal. Se domar a mente é o que há, então domar a mente pode trazer transformações para minha vida e para tudo mais que faço. Pode atingir minha vida de maneiras que sequer consigo prever ou imaginar antes de realmente começar a sentar regularmente e experimentar isso nas veias. É um “habito-mestre”, que gera vários outros hábitos em cascata, como diria Charles Duhigg, autor do livro “O Poder do Hábito”, que vamos falar mais à frente. Nesse sentido, desobstruir a prática é caminhar para domar a mente. E faz parte de domar a mente. É o próprio treino de domar a mente. Estamos estagnados ou irregulares justamente porque nossa mente está indomada, descontrolada e confusa. Podemos considerar que temos uma lógica, um caminho, um sentido, e até mesmo um plano, mas não é bem assim. Se formos ver bem, ele não funciona. Estamos perdidos. Temos que admitir isso. É isso que Jung quis dizer quando fala que "não alcançamos a iluminação por ver figuras de luz, mas por enfrentar a escuridão". Nossa escuridão é essa: estamos confusos e perdidos e não conseguimos sequer meditar regularmente. Temos que assumir. A distração, a busca por entretenimento repetitivo e a ilusão da permanência não são patologias segundo a medicina comum, mas são doenças graves do ponto-de-vista espiritual. E elas estão em nós. De uma certa dimensão, desobstruir o meditar é desobstruir nossa capacidade de viver. É desobstruir o ser. A prática da meditação é, na sua essência, a prática de ser, de ser de maneira pura e simples. E essa prática de ser ocorre também porque mostra o que não somos, nossas prisões psíquicas, ilusões, apegos e identificações equivocadas. É uma prática para sermos além da esfera superficial do pensamento. Se não conseguimos meditar, não conseguimos ser.


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Estaremos iludidos e auto-exilados da liberdade, da totalidade, da abertura, do espaço, da estabilidade, do centramento, da experiência pura. Da sabedoria. A prática da meditação é o treinamento para dar espaço ao ser, um treinamento em desobstrução do ser. Portanto, podemos dizer que toda obstrução que temos à prática é uma obstrução ao nosso ser. Os obstáculos que aparecem na prática espelham os obstáculos que temos na vida. São obstáculos à mente livre, à vida livre, que todos temos (em potencial), mas que permanece obscurecida. E que raramente consegue ser resgatada sem passar pela prática da meditação. Assim, estamos falando dos dramas e obstáculos que temos em relação a sermos quem somos no mundo. O obstáculo mais comum à praticar a meditação é justamente o de (não) praticá-la, pois quando mais fazemos, mais caminhamos ao ser. “A coisa mais assustadora que existe é aceitar a si mesmo completamente.” — Carl G. Jung Se uma pessoa é de uma maneira mas tenta ser outra, mesmo que inconscientemente (por padrão familiar, pressão social ou desejo dela mesma de querer ser como outro alguém), isso aparecerá na meditação. Se andamos tensos dia após dia, quer tenhamos consciência disso ou não, isso vai aparecer na meditação. Se pensamos demais de maneira agressiva, quer tenhamos consciência disso ou não, isso vai aparecer na meditação. Se somos rígidos e insensíveis, quer tenhamos consciência disso ou não, vai aparecer na meditação. Você entendeu, né? A meditação é uma prática para a realização do nosso ser como ele é e ao mesmo tempo uma revelação de seu "mais alto potencial” — que na verdade é apenas uma forma de falar sobre a libertação de nossas limitações, ignorâncias e confusões.


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Agora nós no Ocidente temos acesso à meditação, às instruções corretas, aos mestres. O problema é que todas as pessoas que meditam enfrentam o drama de não conseguir meditar, de não conseguir fazer a prática com regularidade relevante para o treino da mente. Questões de disciplina, regularidade e resiliência são as mais comuns. E isso realmente afeta todas as pessoas. Nunca conheci uma que não fosse afetada. Aposto que o Buda também deve ter sido afetado. Cada pessoa, a seu modo, explora (ou não) esse persistente problema, e resolve (ou não), dependendo da vontade, da sinceridade, da maturidade e da entrega. Até conheço pessoas que meditam religiosamente todos os dias, sem falta, há anos. Há inclusive algumas pessoas famosas, como o humorista Seinfeld, que afirma meditar todos os dias há 40 anos. Mas isso não significa que não tenham tido, ou ainda tenham, problemas com o esforço para mantê-la, ou para fazê-la com real intenção e presença. Assim como conheço essas pessoas, também conheço aquelas que conseguem passar anos realmente envolvidas com a prática, e de maneira profunda e entregue, mesmo vivendo em grandes cidades e comprometidas com vários trabalhos. Quando aprendi meditação pela primeira vez, passei dois anos seguidos meditando todo dia, duas vezes ao dia (em sessões de 20 minutos), ao ponto de assustar um pouco familiares e amigos, que desconfiaram da intensidade e temeram ser alguma espécie de fanatismo ou fuga. Passado esse tempo, comecei a pular alguns dias. E depois de uns dois anos, havia tornado minha prática irregular. Com o tempo, e conversando com amigos no caminho da prática, percebi que isso é o que mais acontece. E foi o que aconteceu


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comigo, de diversas maneiras. Passei realmente por muitas circunstâncias diferentes, e frequências diferentes de prática. Senti muita frustração, dúvida, irritação, também senti prazer, calma e confiança. Há alguns anos, eu teria vergonha de falar dessas mudanças de regularidade e intensidade na minha prática, pois eu queria manter uma imagem de meditador bem-sucedido (não só para os outros, que seria mais óbvio, mas também pra mim, eu queria acreditar que seria eficiente nisso), e, se pudesse, também de um meditador imune aos problemas mais básicos da prática (se eu tivesse problemas, queria ter apenas os problemas de "meditadores avançados”). Mas percebi que não era nada disso, que isso era uma perda de tempo e uma grande ilusão egóica, mais um jogo do ego. As pessoas mais próximas e sinceras sabem da gente, entendem que há uma preocupação em manter uma imagem. E nos meus trabalhos de terapia também apareciam os obstáculos e os auto-enganos. Quando aceitei, então, quis aprender alguma coisa com isso. Alguns monges, terapeutas e amigos me ajudaram a ver os problemas que eu estava emaranhado, e só então percebi que o que parecia ser um caminho promissor era, na verdade, uma estagnação. Se você está lendo isto, boa parte da sua vontade de finalmente superar os obstáculos mais presentes na sua prática deve estar presente aqui e agora. Isso é importante. Ao mesmo tempo, não subestime a força da resistência que nosso ego (ou nós mesmos, se preferir) temos para nos manter resistentes e distraídos buscando resultados iludidos dos afazeres mundanos, perambulando sem cessar por desejos vazios, satisfações ocas e objetivos que não resolvem a vida no mundo, nem nunca resolverão. E isso inclui sentar em meditação, apenas para parecer alguém melhor. O ego é incansável e manipulador. "A meditação não é uma necessidade biológica", disse certa vez o mestre de meditação Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho. Com a


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meditação, estamos satisfazendo uma necessidade espiritual, da alma, por assim dizer. Algo além do sistema biológico. É uma necessidade de aspirações mais profundas, espirituais. Deste ponto de vista, são necessidades mais críticas até do que a sobrevivência. Alguns índices corporais até melhoram com a meditação, mas ela realmente não consegue nos salvar da doença e da morte. A meditação faz parte de uma busca que está ao mesmo tempo na vida e além dela, que faz parte de uma inquietação existencial, da vida e da morte. Não é uma questão de negar o mundo para se isolar e meditar, mas definitivamente é uma questão de sintonizar essa necessidade mais profunda, espiritual, enquanto se está no mundo. Se não houver essa sintonização, haverá sempre uma fricção prejudicial, um sofrimento, que é o próprio samsara prevalecendo, se manifestando, se solidificando. Se domar e transformar a mente é o objetivo da meditação e de todo o treinamento espiritual, então conhecer e superar os obstáculos é o caminho. O Buda traduziu os obstáculos com palavras como "obstruções, corrupções da mente, enfraquecedores da sabedoria". Se não houvesse nenhum obstáculo desde o início da nossa prática, então a meditação atingiria seu objetivo no primeiro momento, no primeiro instante, mas isso não acontece. Pense nisso. Profundamente. Porque não nos iluminamos no primeiro momento da meditação? Pelo mesmo motivo que não despertamos espontaneamente ao viver nossa vida cotidiana: porque estamos envoltos em ilusões e nas limitações cognitivas e mentais que nos infectamos de tanto vivermos com elas. Então o que acontece é a desimpregnação dessas ilusões, que geralmente é muito gradual. Na prática, essa desimpregnação se


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mostra justamente como o enfrentamento de obstáculos, fragilidades, limitações na prática. É aí que percebemos cada prática mais claramente como estamos nas ilusões, como isso funciona, como viemos fazendo para não tocar nossa natureza essencial, livre de ilusões e condicionamentos. Um dos maiores iogues de todos os tempos, o indiano Swami Sivananda, listou mais de 70 obstáculos principais à prática de meditação. Num dos seus ensinamentos, citou 25 obstáculos físicos, 32 obstáculos mentais e 13 obstáculos de natureza espiritual. Mas ressaltou: "Os obstáculos reais e sérios à meditação são internos apenas. Não vem de fora. Treine a mente adequadamente". Nesta obra, vamos nos inspirar nas instruções de vários mestres da meditação, mas não vamos usá-las na íntegra, e sim selecionar algumas das mais importantes. Esse grau de importância está relacionado a ser mais comum em nossa época e também ao fato de não sermos monges residindo em mosteiros ou retirados de alguma forma, e sim pessoas comuns que trabalham e meditam em casa, no máximo frequentando centros e templos urbanos. Alguns mestres, mesmo vivendo há muitos séculos, preveram nossa época degenerada e conseguiram dar ensinamentos à nossas circunstâncias. Vamos usá-los. Nesse sentido, o objetivo é abranger os principais obstáculos que estão no caminho e encontrar a melhor maneira de lidar com eles. A meta é podermos entender o que está acontecendo conosco e com nossa prática, e conseguirmos definitivamente construir ou resgatar a prática regular, abraçando a meditação com nosso corpo e alma.


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FIM DA mostra
 
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Para Abraçar a Prática - INTRODUÇÃO  

Amostra de cortesia da Introdução do livro "Para Abraçar a Prática", de Luiz Fernando Pereira, Dharmalog.com. 2019 © Copyright.

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Amostra de cortesia da Introdução do livro "Para Abraçar a Prática", de Luiz Fernando Pereira, Dharmalog.com. 2019 © Copyright.

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