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2018

O que fazem e como vivem os acaryas que se dedicam integralmente à missão de Anandamurti Amurtel acolhe crianças e dissemina o

yoga na Romênia Quais os diferentes significados do kiirtan

Baba Nam Kevalam?

edição #5


editorial


Venha colocar lenha na fogueira do Dharma for all Journal!

A quarta edição de Dharma for all Journal trouxe a segunda parte da série “Somos universalistas na prática?”, investigando qual o lugar das mulheres dentro da Ananda Marga. O assunto esquentou nas redes sociais, gerando compartilhamentos, comentários e feedbacks, de apoio e de crítica.

A repercussão é, para nós, um indicador de resultado: existimos para gerar boas conversas que nos façam refletir como nos aprimorarmos como pracarakas e como crescermos como uma comunidade cujo pracar acontece pelo exemplo e inspiração reconhecidos naturalmente por outros. E, para isso, precisamos não apenas olhar para o que já fazemos bem, mas também iluminar nossos pontos cegos. Se essa abordagem fez sentido para você, vale a pena acompanhar a quinta edição, que começa agora. A série sobre universalismo continua, agora discutindo qual o papel que as pessoas negras têm na Ananda Marga. Ao menos 18,5% da população mundial é negra, segundo Alexandra E. Sutton, da Universidade de Duke. Pode parecer pouco, mas é mais, por exemplo, do que a porcentagem de pessoas brancas (cerca de 14,3% segundo o historiador Aidan Colyer). Entretanto, em muitos países – e, notadamente, nas Américas e na Europa – a população negra não goza (em sua maioria) dos mesmos privilégios

sociais e econômicos que outras etnias, especialmente se comparada à população branca. Como isso se expressa na Ananda Marga? É o que vamos explorar na matéria desta edição. Não tem sido simples abordar temas como esse no Journal. Somos (por enquanto) um veículo pequeno, seja no tamanho da equipe, nas horas dedicadas, na estrutura ou no orçamento. Nosso foco inicial foi o Brasil, mas estamos aos poucos expandindo para uma cobertura internacional. Alcançar este objetivo, dentro deste contexto enxuto, implica, de tempos em tempos, ter de aceitar entrevistar menos pessoas do que gostaríamos, enxergar e consertar erros depois da matéria publicada e apertar prazos, correr atrás de pautas em cima da hora, entre outros. Por isso, queremos muito contar com o apoio de vocês. Em primeiro lugar, compreendendo nosso contexto e nos apoiando, com suas palavras de encorajamento e seus feedbacks. Cada frase de apreciação e avaliação positiva de nossa página alimenta não só nossa alma, mas nossos relatórios e, com eles, os instrumentos que temos para conseguir suporte para a existência e expansão do Journal. E os feedbacks nos ajudam a ir corrigindo e melhorando o que nem sempre conseguimos sozinho, com uma equipe pequena. Dharma for all Journal | 02


A outra forma de nos apoiar é nos enviando sugestões: de ideias para matérias; de pessoas que poderiam contribuir como repórteres, colunistas, tradutores; e de formas de alcançar mais pessoas e ter mais impacto. Nem todas as sugestões serão colocadas em prática, mas todas alimentarão nossa criatividade e reflexão. E, claro, vocês nos apoiam nos lendo no Facebook, em nosso site, na revista digital e, (novidade!), a partir desta edição, no Instagram. Se você compartilhar com mais gente o que lê, em qualquer desses canais, melhor ainda. Além do universalismo, essa edição tem mais uma parte da série “Trabalhadores de dharma pracar”, na qual vamos falar sobre o papel dos wholetimers (WTs), os acaryas celibatários que se dedicam integralmente à missão de Ananda Marga. E teremos novas matérias para as já tradicionais seções #dharmapracar (relatando projetos inspiradores de pracar), #profile (perfil de pracarakas inspiradores), #kiirtanforall (sobre diferentes aspectos do kiirtan Baba Nam Kevalam), além da continuidade de nossa nova seção, #pracartools, que sempre vai trazer ferramentas úteis para nos fortalecermos como pracarakas ou para fazermos melhor o nosso pracar. E aí, vamos juntos? Gurucaran (Gustavo Prudente) – Editor de Redação

DISTRIBUIÇÃO EDIÇÃO GERAL REPORTAGENS gratuita Gurucaran Taruna, Laksmii & colaboradores PERIODICIDADE SUPERVISÃO CAPA mensal Prashanti EDIÇÃO#5 EDIÇÃO GRÁFICA Rodrigo Camargo (Harideva) Brasil / 2018 Iasodara Julia Koch

CONTATO journal@d4all.org journal.d4all.org f b.com/dharmaforalljournal instagram.com/d4alljournal

JOURNAL

03 | Dharma for all Journal


5

NESTA EDIÇÃO

7

O Lírio e a Lua Kamala, e arte de surfar nas incertezas da vida

13

Amurtel Romênia: inspiração e trabalho árduo

18

Margiis no evento Rio Desperta

23

Série especial: Trabalhadores

29

Livro Feche os olhos e abra sua mente, por Indrajit

31

Baba recebe o nome de Anandamurti

33

Calendário global de dharma pracar

35

Os significados de Baba Nam Kevalam

de dharma pracar - WTs

“Você deve lembrar que a vida humana não é como uma única flor; é como um buquê ou um jardim de flores desabrochando com muitas variedades de flores. E esta variedade de flores aumenta a beleza coletiva do jardim. Se houvesse apenas magnólia graniflora ou uma variedade de rosa apenas florescendo no jardim, embora essa única flor pudesse ser muito atraente, ainda assim o jardim como um todo não seria muito bonito. Um jardim é ainda mais bonito por causa das flores de vários tipos e matizes.” Shrii Shrii Anandamurti


O Lírio e a Lua Treine-se no ideal do lírio, que floresce no pântano e tem que manter-se engajado na luta diária pela existência, defendendo-se, refazendo-se, e lutando contra os choques da água lamacenta, das tormentas e tempestades, dos gritos e choros, e das diversas vicissitudes da sorte, e ainda assim, não esquece a lua no alto. O lírio conversa seu amor pela lua sempre vivo. Parece, no entanto, apenas a mais simples flor. Nada de extraordinário há nele. Mesmo assim, essa mais simples das flores tem uma ligação romântica com a grande lua. Você, da mesma forma, pode ser uma pessoa comum; pode passar seus dias nos altos e baixos da sua existência terrena e, mesmo assim, não esquecer o Ser Supremo. Conserve todos os seus desejos inclinados em direção a Ele. Mantenha-se sempre imerso no pensamento Dele. Penetre profundamente o âmago daquele Infinito Amor.

Shrii Shrii Anandamurti


profile

KAMALA

e a arte de surfar as incertezas da vida

Enquanto escrevo os perfis des-

Krishna Kali (Camila Mozzini-Alister).

ta seção, percebo que no DNA de

Na bagagem ela trazia curiosidade,

um anandamargii existe a molécu-

descoberta, desfrute, as mesmas

la do viajante, de lugar e de tem-

qualidades que a aproximaram da

po, e a noção de que estamos de

filosofia de Baba e a levaram ao en-

passagem, aproveitando a paisa-

contro com o guru, há 40 anos. Ela foi

gem, pois somos guiados por Ele.

iniciada em 1978 e um tempo depois, ela ouviu que Baba havia saído da

Eu falei com Kamala Alister, a canto-

prisão e foi para os Estados Unidos.

ra de muitos kiirtans famosos, como

Mas Ele não pôde entrar no país. En-

é conhecida, enquanto ela estava em

tão, Ele foi para a Jamaica, onde ela

um retiro em Ananda Kiirtana, Brasil.

O encontrou pela primeira vez. Ela

Ela veio para este país para o casa-

tinha algumas dúvidas sobre devo-

mento do seu enteado mais velho,

ção à um guru, e no último dia, ela viu

Ajit Mozzini-Alister, com a brasileira

Baba durante um discurso do DMS:

07 | Dharma for all Journal


“Ao final, ele deu uma benção, o va-

tando o diário Prout Star em Kansas

rabhaya mudra. Eu senti uma imensa

City do movimento Women’s Prout.

energia em meu coração e me abri

Posteriormente, ela também co-edi-

para uma profunda devoção. Por

tou uma revista mensal, baseado na

muitas semanas, eu fechava os olhos

Califórnia, o Prout Journal.

e podia vê-lo sorrindo, em bem-aventurança”, Kamala nos conta.

Do jornalismo, Kamala migrou para as artes e, em 1986, foi uma das funda-

Na década de 80, Kamala era LFT e,

doras do Inner Song (www.innersong.

durante esse tempo, ela começou a

com), uma empresa de distribuição

ajudar no jornal Prout Daily, em Wa-

de músicas devocionais na Califórnia.

shington DC, que abordava assuntos

“Naqueles dias, todas as músicas cir-

mundiais importantes sob a perspec-

culavam em cassetes. Não havia uma

tiva de Prout. “Foi uma experiência

distribuição global, então as pessoas

maravilhosa de estar no coração da

pegavam um cassete que gostavam

política dos EUA e aprender a olhar

e copiavam para seus amigos, mas os

os acontecimentos pela luz de Prout.

artistas não recebiam nada. Eu conta-

Muitas noites eu participava de co-

tei músicos ao redor do mundo, aju-

mícios, discursos e reuniões na cida-

dei eles a criarem lindas capas para

de. Pela manhã, a equipe do editorial

seus álbuns, e criei uma mala direta

reunia-se e discutia os eventos locais

que enviávamos para o mundo todo.

e mundiais e escrevia o jornal (manu-

Isso ajudou a aumentar a renda dos

almente, pois isso aconteceu antes

artistas e criou um florescer global da

dos computadores!). À tarde, eu saía

criatividade espiritual.Posteriormen-

caminhando por horas distribuindo

te, ajudamos a lançar o primeiro CD

as cópias ao redor da cidade”, Kama-

da Ananda Marga”, Kamala lembra,

la explica. Baba também recebia o

animada, já que ela mesma é uma en-

jornal toda semana na Índia.

tusiasta musicista de kiirtans, músicas infantis, e composições próprias, ten-

Após frequentar a universidade por

do gravado diversos álbuns. http://

alguns anos, Kamala voltou à vida

www.innersong.com/artists/kamala.

de LFT e passou cinco anos co-edi-

htm Dharma for all Journal | 08


Em 1984, Kamala conheceu e casou com o acarya de família Ghrii Narada Muni Acarya. Na época, ele já vivia em uma propriedade de 20 mil metros quadrados (50 acres), uma unidade mestra nomeada por Baba que, coincidentemente, tem o nome dela: Ananda Kamala. Junto, o casal tem realizado uma porção de coisas bastante alinhadas com seu propósito maior. E eles vivem neste lugar desde então, criando os dois filhos de Narada e mais dois do casal. Metade da terra é uma cooperativa familiar que abriga em torno de 10 famílias, algumas que são membros da cooperativa, outras apenas alugam as propriedades. Todos que vivem na terra seguem uma dieta vegetariana, e muitas famílias seguem as práticas da filosofia da Ananda Marga.

Dharma for all Journal


Na outra metade da unidade mestra

Toda a comida é vegetariana e as

está a escola Ananda Marga River

crianças aprendem meditação e

School (http://www.amriverschool.

yoga com a orientação da Ava-

org/) que foi criada há 24 anos. A

dhutika Ananda Tapomaya Acarya,

base da pedagogia é o neo-huma-

que tem um papel fundamental

nismo, a prática do amor por todos

na instituição. A escola é reconhe-

os seres humanos, com comida ve-

cida pelo governo local, do qual

getariana, meditação, yoga, e histó-

recebe um pouco de financiamen-

rias baseadas na filosofia de Baba.

to, e mantém facetas únicas do

A escola recebe ajuda financeira

neo-humanismo no seu currículo.

do governo e atende em torno de 150 estudantes, com 60 crianças na

“A maior parte dos alunos frequen-

educação infantil até o 6o ano e um

tam o ensino médio da região de-

corpo de quase 40 funcionários.

pois de estudarem na River School”,

Em um lindo vale com uma flores-

Kamala diz. “E seus professores di-

ta tropical, um riacho, jardins e sa-

zem até ser possível saber quais são

las de aula confortáveis, a escola

os alunos que vieram de lá, desde

enfatiza criatividade, consciência

o primeiro dia, por suas posturas de

global, serviço e espiritualidade.

confiança, empatia e mente aberta.

Dharma for all Journal | 10


A escola tem três famílias cujo um

tes usam o tempo juntos surfando,

dos pais era um(a) professor(a) do

nadando e caminhando na praia.

ensino médio, e que vieram pelo o que eles viram nos alunos que che-

Kamala conta que seu nome signi-

gavam da River School. Assim, eles

fica “a pureza do lótus”, a flor que

enviaram os seus próprios filhos

cresce na lama, mas que suas péta-

para lá. Nós também temos profes-

las à prova d’água continuam limpas.

sores que originalmente foram pais

“Na última vez que vi Baba na Índia,

da escola. Eles ficaram tão inspira-

ele estava ditando Shabdha Caya-

dos por esta nova visão de educa-

nika, uma enciclopédia em benga-

ção, que tornaram-se professores

li. No meu último dia de visita, no

e vieram ensinar na nossa escola.”

seu discurso dominical ele deu uma longa explicação sobre a pala-

Nos últimos 15 anos, Kamala se envolveu na organiza-

vra ‘Kamala’. Foi uma experiência muito tocante.”

ção de muitos retiros da Ananda Marga na Austrá-

É com essa pureza e

lia, assim como o festival

frescor que Kamala en-

Ananda Marga Mela, uma experiência de imersão para o pú-

cara uma nova fase da sua vida: dedicar-se mais a sua

blico. Ela também tem realizado uma

pequena família enquanto o filho

nova ideia, de inspiração de Narada

mais novo termina o ensino médio

Muni, um ávido surfista: com o filho

em 2019. Ela diz o quanto ela tem

Manikya, também surfista, eles co-

apreciado a oportunidade de apro-

meçaram os retiros de Meditação na

fundar-se mais na sadhana, ao mes-

praia, há aproximadamente 6 anos.

mo tempo em que se abre para ver

Estes retiros incluem meditação na

qual é a nova fase que sua vida irá

beira mar na alvorada e pôr do sol,

trazer. “Eu realmente amei essa jor-

yoga matinal, com programas à

nada da maternidade. Vamos ver

tardinha e refeições sutis vegeta-

o que Baba quer de mim agora”.

rianas. Durante o dia, os participan-

Por Taruna (Tatiana Achcar) Dharma for all Journal | 12


dharmapracar dharmapracar


Romênia, 1991. Depois de testemunharem as condições desumanas em que viviam crianças abandonadas no então estado comunista, Gopi Cornelia Fischer, margii suíça, e a Avadhutika Ananda Sugata Acarya, decidiram construir na área rural das montanhas de Panatau um lar familiar. Assim começou a Amurtel no país. A primeira criança, Iosif, chegou em 1995. Em seguida, mais dez vieram. Foi quando a Avadhutika Ananda Giitainjali Acarya veio trabalhar na casa. No ano 2000, novos bebês ingressaram. Em 2005, enfim, uma nova Didi assume a coordenação: Avadhutika Ananda Devapriya Acarya. O lar acolheu, desde seu início, 32 crianças. Atualmente, abriga alguns jovens e oito crianças recém-chegadas. Gopi (ou “mami”, como é chamada pelas crianças), que já se aposentou, depois de trabalhar vinte

Amurtel Romênia: magia construída com inspiração e trabalho árduo

anos no projeto, hoje oferece apenas apoio indireto. Em 2015, na comemoração dos 20 anos do projeto, ela disse, em seu discurso de celebração: “O início foi mágico. Para mim, o projeto todo, até agora, é algo mágico. Começou com uma ideia, não tínhamos nada além de inspiração”. Dharma for all Journal | 14


Além do abrigo, a Amurtel desenvolve, hoje, outros projetos no país. O “Vistara Social Integration Project” (Projeto de Integração Social Vistara – tradução livre) é voltado para jovens que já completaram 18 anos e cresceram na casa, mas que continuam precisando de apoio no processo de transição para uma vida adulta independente. Trata-se de um processo de integração, dividido em etapas graduais, que inclui experiências transitórias de trabalho e moradia. Para isso, a Amurtel se vale de um apartamento que possui em Bucareste, além de uma casa próxima ao abrigo de crianças, que cuida de adultos crescidos no lar, e que possuem alguma deficiência mental. “Através 15 | Dharma for all Journal

de pequenos sucessos, eles vão ganhando confiança e se tornando mais bem preparados para o futuro”, divulga o site da Amurtel Romania. Outros projetos da Amurtel Romênia são: o jardim de infância “Sunrise Kindergarten Neo-humanist Education” (Creche de Educação Neohumanista Nascer do Sol – tradução livre), em Bucareste, o centro de atividades de contraturno escolar “The Fountain of Hope” (Fonte da Esperança, tradução livre), em Panatau, o centro de yoga “Morning Star Holistic Center” (Centro Holístico Estrela da Manhã, tradução livre) em Bucareste e a horta orgânica em Poieni, na Unidade Mestra Ananda Rtam.


O jardim de infância, inaugurado em 1991, atende 35 crianças de 2 a 6 anos de idade. Com base neo-humanista, a escola propõe para as crianças, durante o ano, projetos em três áreas principais: “eu descubro o mundo”, que encoraja a curiosidade e a exploração do mundo natural e do mundo feito pelo homem; “eu amo tudo”, que encoraja o amor, a empatia e a conexão, além de atitudes ecológicas e pró-diversidade; e “eu posso ajudar”, que encoraja as crianças a encontrarem maneiras para contribuírem e participarem na comunidade. O centro de contraturno “The Fountain of Hope”, inaugurado em setembro de 2007, apoia cerca de 30 alunos em seus deveres de casa, além de oferecer atividades artísticas, esportes, ensino de línguas estrangeiras, aprendizagem não formal e alimentação vegetariana. A ideia é que as crianças descubram que o aprendizado pode ser divertido e, com isso, completem seus estudos. Outro foco é o desenvolvimento da consciência cidadã e da participação ativa na comunidade: os alunos se engajam em atividades voluntárias que beneficiem o meio ambiente e a vizinhança. O Centro de yoga Morning Star, inaugurado em 2014, oferece uma gama

variada de cursos: como lidar com o estresse, yoga, meditação, tai chi, qigong, tambor africano, culinária vegetariana e programas de detox. O centro foi criado porque Didi queria que a Amurtel fosse uma referência de yoga na Romênia. A igreja ortodoxa (dominante no país) é abertamente contra o yoga, e só agora, com a entrada de mais estrangeiros e, com isso, mais influência externa, é que os romenos estão começando a se interessar por yoga. A receita obtida com os cursos é utilizada para as despesas de administração da Amurtel. A Unidade Mestra (UM) Ananda Rtam, em Poieni (11 km de Panatu), é um lugar rodeado por montanhas, contando com um rio de pedras (Buzau) a apenas 300 metros. “Um lindo lugar para meditar, contemplar, se refrescar no verão ou simplesmente fazer esculturas de pedras”, diz a Avadhutika Ananda Mainjira Acarya, que trabalhava no local. São 6 mil metros de área da horta orgânica, incluindo algumas estufas e duas mandalas de ervas e temperos. 30 variedades de vegetais são distribuídas semanalmente entre 35 clientes de Bucareste – além de abastecerem o lar Família Amurtel, o Centro Fountain of Hope e o Jardim de infância. “Tudo parece muito romântico, mas o trabalho é muito árduo e requer amor e dedicação pela natureza”, diz Didi Ananda Mainjira. Dharma for all Journal | 16


Com a intenção de atingir mais pessoas, Didi Ananda Devapriya buscou ir além dos projetos de atendimento direto: ela foi uma das co-autoras do livro “Earth care, people care and fair share in education” (Cuidado com a Terra, cuidado com as pessoas e partilha justa na educação – tradução livre), que fala sobre o ensino de permacultura para crianças. O livro foi muito bem recebido por personalidades do assunto, como Richard Louv, autor do livro “The last child in the woods” (A última criança no bosque – tradução livre). Usando como base o livro (que possui inspiração neo-humanista), Didi está, atualmente, dando treinamento para professores de ensino fundamental e de ensino não formal, além de ter capacitado, ao longo de dois anos, 100 educadores de creches. O sistema de ensino nos vilarejos romenos, segundo conta, é “muito atrasado”, e por isso ela fica contente de inserir novas ideias na educação local e, assim, espalhar ainda mais a magia que a Amurtel despertou há quase 30 anos, quando começou seu primeiro projeto no país. Amurtel Romênia – http://amurtel.ro/en/ https://www.facebook.com/amurtel.romania Centro de yoga Morning Star – https://www.facebook.com/centrul.morningstar/ Unidade Mestra – https://www.facebook.com/gradinabioamurtel/ Earth care, people care and fair share in education, livro de co-autoria de Didi A. Devapriya – https://issuu.com/childreninpermaculture/docs/cip_manual Da Redação 17 | Dharma for all Journal


Margiis organizam no

Rio de Janeiro

grande evento com meditação,

kiirtan e palestras sobre espiritualidade No dia 4 de novembro aconteceu o Rio Desperta, grande evento que juntou tradições diferentes de meditação no Rio de Janeiro, RJ (Brasil). Dharma for all Journal | 18


O evento foi idealizado e realizado

nada com o tamanho da realização.

pelos brasileiros Gunatiita e Taruna Deva (Telmo Maia), margiis que

A Grande Sala da Cidade das Artes,

também ensinam meditação ao

no bairro Barra da Tijuca, local nobre

público como ferramenta de au-

para eventos no Rio de Janeiro, aco-

toconhecimento e transformação

modou um público bastante eclé-

social. Eles vislumbraram um gran-

tico, que aproveitou das palestras,

de evento e foram atrás de formas

cantou e dançou mantras e degus-

para realizá-lo: “Pensamos em desis-

tou de diversas formas de meditar.

tir algumas vezes, porque ficamos sem patrocínio, e assim nos pare-

Entre os palestrantes estavam Klebér

ceu inviável”, diz Taruna Deva. “Mas

Tani, expoente da Meditação Trans-

nossos parceiros não nos deixaram

cendental; Oberon, que versou sobre

desistir”,

veganismo e meditação, com o tema

complementa

Gunatiita.

“O Mundo tem Fome de Amor”; a Como muitos detalhes de produ-

professora de vedanta Glória Ariei-

ção já estavam encaminhados, vo-

ra; Monja Coen, com a filosofia bu-

luntários e parceiros foram se com-

dista; Damien Desnos, instrutor de

prometendo a realizar o evento

Mindfulness; os próprios Gunatiita

mesmo sem patrocínio. “Quando

e Taruna Deva, da Una Meditação;

vimos, havíamos juntado um time

Acarya Jinanananda Avadhuta, que

de ótimos profissionais, todos en-

falou sobre sociedade, neo-hu-

volvidos com o desejo de difundir

manismo e PROUT; e por fim, Ra-

a meditação para um grande públi-

jshree Patel, instrutora e conferen-

co”, revela a dupla, que ao final do

cista internacional da Arte de Viver.

evento estava visivelmente emocio19 | Dharma for all Journal


No intervalo das palestras, quatro

também parafraseou outros filósofos,

bandas de bajhans (canções devo-

como Nietzsche, a afirmar que “a vida

cionais), kirtans e mantras se apre-

humana é uma ponte entre o animal

sentaram – entre elas um coletivo

e o divino – use essa ponte”. Em ou-

de doze margiis, que levou ao pú-

tra fala, fez a plateia refletir ao afirmar:

blico o kiirtan Baba nam kevalam.

“ninguém vai nos salvar, não existe um salvador, devemos nos levantar

Dada Jinanananda, que comparti-

para salvar a nós mesmos coletiva-

lhou um pouco da filosofia de Anan-

mente, pensando no bem de todos”.

da Marga no evento, conduziu com habilidade a plateia para o entendi-

O Rio Desperta foi, de fato, assim: um

mento de PROUT. Hora com humor,

evento feito por todos, para o bem

hora com seriedade, sempre com

de todos. Para muitos que assistiram,

linguagem simples e direta, ele fa-

ficou no ar a esperança renovada e a

lou sobre a polarização política que

sensação de que é nossa a respon-

estamos vivendo – não só no Brasil,

sabilidade por nossa própria alegria.

mas no mundo. Explicou, também, a necessidade de sutilizar a energia

O evento foi transmitido integral-

para que possamos nos mover da

mente ao vivo. Você pode assistir

vibração dos cakras mais básicos

a todas as palestras na página do

para vibrarmos na energia do amor.

Rio Desperta no facebook: https:// www.facebook.com/riodesperta/

Jinanananda citou Baba algumas vezes, ao falar do Tantra: “é preciso

Por Laksmii (Luciana Lima Lopes)

que sejamos coerentes com pensa-

Fotos por:

mentos, palavras e ações”, disse. Ele

Carolina Demper e Pedro Kuia Dharma for all Journal | 20


Dharma for all Journal


Dharma for all Journal


article

Série especial: Trabalhadores de dharma pracar Parte 5 - WTs

A quinta parte da série “trabalhadores de dharma pracar” aborda os acaryas (instrutores) em tempo integral: os monges e monjas que dedicam-se exclusivamente à missão de Baba, renunciando, para isso, de suas vidas pessoais, sociais e familiares.

A quarta parte da série

23 | Dharma for all Journal

A quarta parte da série “trabalhadores de dharma pracar” aborda os acaryas (instrutores) em tempo integral: os monges e monjas


Para se tornar um WT (wholetimer ou, em tradução livre, pessoa dedicada em tempo integral) é preciso, primeiro, passar um tempo trabalhando como LFT e, em seguida, ingressar num treinamento com duração média de três anos (com variações para mais ou para menos), ao fim do qual os participantes já estão habilitados para ensinar a filosofia de Ananda Marga. Na sequência, passam por um treinamento de um mês, para aprenderem a ensinar as seis lições de sahaja yoga (o sistema de meditação que os margiis aprendem). Ao concluir essa etapa, são considerados acaryas - pessoas que ensinam através do exemplo. Cada acarya recebe, então, um “posting” - um lugar para trabalhar, que deve ser num país distante do seu local de origem. Os novos acaryas são, inicialmente, chamados de brahmacarii/brahmacarinii (homens/mulheres) e vestem-se com roupa branca embaixo e laranja em cima. Após alguns anos de dedicação, recebem uma lição especial (kapalika) e passam a usar o uniforme inteiramente laranja. A partir de então, são chamados de avadhuta/avadhutika (homens/mulheres) e assumem um compromisso: de trabalhar para a missão e para a ideologia de Ananda Marga, por quantas vidas for necessário, até que o último ser se ilumine.

Dharma for all Journal | 24


“Eu tinha muitas dúvidas. Será que posso? Então, numa meditação eu perguntei para Baba. ‘Você decide se eu vou ser Didi ou não, eu não tenho como decidir’. Baba não me respondeu. Então, eu falei para Baba: se você fizer esse gesto na sua palestra [de cruzar os dois dedos] significa que eu vou ser Didi. Depois de três dias teve um Darshan de Baba

Avadutika Ananda Shushilla Acarya em Bengali e eu não sabia o que Ele falava. Quando estava terminando, A história da monja Avadutika Ananda Shushilla Acarya, que trabalha atualmente em Porto Alegre, RS (Brasil) representa bem o percurso necessário para se tornar um WT. Ela começou sua jornada servindo durante oito meses como LFT, em Taiwan (seu país natal). Em seguida, ficou um ano e quatro meses no centro de treinamento de monjas nas Filipinas. Depois, partiu para o treinamento de acarya na Índia. Formada em economia, ela nunca havia pensado em ser monja anteriormente, mas a experiência com Baba mudou sua mente, a ponto de sentir que mais nada a atraía.

25 | Dharma for all Journal

Baba, de repente, fez um primeiro gesto que eu tinha pensado, mas eu pensei com minha mente “Baba, não é este”. Então Baba, fez o segundo gesto duas vezes. Depois saiu e eu senti arrepiar. Então, este foi o último toque para eu não ter mais dúvida. Por isso eu me tornei Didi”. Didi Sushilla se diz muito inspirada por seu atual momento, com várias realizações, entre elas um Festival de Yoga e uma série de workshops sobre o feminino. Didi, entretanto, já passou por períodos difíceis, como não ter uma casa onde ficar.


Mas a resiliência perante as dificuldades é uma característica que muitos Didis e Dadas afirmam ter, por sentir que existe algo que os mantém na missão. É o caso do

Acarya Nirve-

dananda Avadhuta, que nasceu nos Camarões e hoje trabalha no Brasil. Ele passou recentemente por muitos desafios de saúde - seu maior choque como monge, segundo afirma. Uma pneumonia o deixou hospitalizado na UTI, seguido de dores na coluna muito fortes, que o impediam de dormir e meditar. Em vez de desistir, sente que os desafios o firmaram ainda mais na missão de Baba. Dada relata que, ao voltar do hospital, não conseguia subir as escadas de onde mora sem ser carregado. Dois dias depois, seria o dia de fazer a meditação kapalika. Ele manteve seu compromisso, mesmo precisando de ajuda para sair de casa. A prática foi tão forte que, ao retornar para casa, pôde subir as escadas sozinho. “Nossa vida ideal é desafio e a energia cotidiana de kapalika desenvolve a devoção”, comenta. Até conhecer a Ananda Marga,

Acarya Nirvedananda Avadhuta Dada achava que meditação era religião - estava, inclusive, tornando-se ateu. Entretanto, começou a frequentar regularmente dharmacakras, depois de ter sido iniciado por um monge que havia conhecido numa palestra. Junto com isso, recebeu alguns asanas para praticar. “Quando comecei a praticar yoga senti Deus e pensei que poderia dedicar a minha vida a ensinar isso às pessoas”. Dada planejou muito bem seu caminho, terminou seus estudos de economia e trabalhou por um tempo num emprego público estável. “A inspiração chegou devagar, foi construída. Em 1982, decidi que iria ser monge, mas só saí do país em 1987, com consciência”. Dharma for all Journal | 26


da Jaya Acarya, que a orientava na época. Esses projetos, eventualmente, passaram a ter mais sentido do que suas antigas atividades. No final de 2015, partiu para o treinamento de acarya, que durou 1 ano e 10 meses. Ela relata todo o processo como “muito lindo e suave” e se alegra de ter usado seu uniforme de acarya, pela primeira vez, no im-

Brahmacarinii Shivanii Acarya A

brasileira

Brahmacarinii

Shivanii Acarya despertou para a espiritualidade ainda cedo, o que a levou a uma grande busca. Passou por hare krshnas e taoístas, até que conheceu Ananda Marga numa palestra do Acarya Jinanananda Avadhuta em Mato Grosso (Brasil). Em 2013, deixou seu cargo de professora de artes na escola estadual e foi ao Paraguai realizar o treinamento de LFT, com a Avadhutika Ananda Girishuta Acarya. Ao terminar, voltou ao Brasil para trabalhar em tempo integral com pracar, organizando retiros, dharmacakras e inspirando meninas a aprenderem meditação, junto à acarya Avadhutika Anan27 | Dharma for all Journal

portante evento International Dharma Maha Sammelan, em Katmandu (Nepal), em novembro de 2017. Atualmente, Didi Shivanii está no sul do Brasil, fazendo exatamente o que no início pensava ser necessário no país: pracar. Considerando a demanda de mulheres em ter uma Didi presente em suas vidas, ela se sente feliz em poder iniciar tantas pessoas. A atuação no próprio país de origem é excepcional, enquanto aguarda seu visto para a Austrália. “O pracar mudou a minha vida, me trouxe um novo horizonte, abriu a porta para minha espiritualidade ser vivida, me trouxe esperança de um mundo melhor. Foi um convite a me tornar Didi”.


A história do Acarya Mahesvarananda Avadhuta começa nos EUA, aos 21 anos, numa época em que somente hippies e pessoas esquisitas faziam yoga (ele conta que era um pouco dos dois). Com o yoga, começou a se sentir cheio de energia e, três anos depois, estava voando para a Índia, para o treinamento de monge. Trabalhou 14 anos na Ásia, 3 anos na Europa e 22 anos na América do Sul. Dada explica que morar num país diferente, com língua, costumes, comidas e psicologia diversas do

Acarya Mahesvarananda Avadhuta

nós podemos mudar o mundo”.

seu país de origem, é uma maneira

Dada

de experimentar choque cultural. E

yoga e meditação em quase cem

esse choque, em sua opinião, é uma

prisões e cadeias, além de ter escri-

maneira de construir a paz mundial.

to alguns livros. Os dois mais recen-

Mahesvarananda

ensinou

tes são “Após Capitalismo, a visão de “As pessoas desses países me en-

Prout para um novo mundo”, com

sinaram muito sobre hospitalidade,

contribuição de Noam Chomsky,

generosidade, gentileza, humilda-

e “Cooperative Games for a Coo-

de, comunidade e ajudar uns aos

perative World: Facilitating Trust,

outros. Eu acredito que nós pode-

Communication, and Spiritual Con-

mos acabar com a fome, a pobre-

nection” (Jogos Cooperativos para

za e a guerra, e eu dediquei toda a

um Mundo Cooperativo: Facilitan-

minha força física, mental e espiri-

do Confiança, Comunicação e Co-

tual nesta vida, assim como o farei

nexão Espiritual). “Eu tenho 65 anos

nas minhas futuras vidas, a atingir

agora e me sinto completamente

este objetivo o mais rápido pos-

realizado. Não trocaria este unifor-

sível. Eu acredito que juntos, com

me laranja por nada neste mundo”.

a Graça d’Ele nada é impossível –

Da Redação Dharma for all Journal | 28


review

Feche os

Olhos Mente

e abra sua

Sabe quando você descobre qual era um dos livros prediletos do Beatle George I e fica entusiasmado por ouvi-lo dizer, numa entrevista, que o “livro toca o coração de todas as religiões”? Ele falava sobre “Autobiografia de um Iogue”, escrito pelo mestre indiano Paramahansa Yogananda. Ele gostava de distribuir esse livro aos amigos que frequentavam sua casa, e mantinha vários exemplares espalhados pelos cômodos de onde vivia. Percebi que este ato generoso de Harisson havia tocado meu subconsciente quando me dei conta de que já havia comprado mais de 8 exemplares do livro “Feche os Olhos e Abra sua Mente – Introdução à meditação espiritual”, do monge Acarya Nabhaniilananda Avadhuta, www.TheMonkDude.com e que eles sempre sumiam lá de casa. Já conseguiu imaginar o que eu estava fazendo para eles sumirem, né? Assim como Dada Nabhaniilananda, sou um profundo admirador daquele 29 | Dharma for all Journal

por Indrajit (Igor Amin) a quem seu livro é dedicado: o filósofo contemporâneo P. R. Sarkar, nascido no estado de Bihar, na Índia, por volta de 1920. Um grande sábio, que trouxe uma filosofia tão simples e atual, que para que nossa mente agitada possa compreendê-la é necessário um esforço não comum. Imagine pessoas dos quatro cantos do mundo, com culturas diferentes de diálogo, tentando difundir um conhecimento que parte de uma sistematização de algo nascido há milhares de anos na Índia? Pois é nesta simplicidade de abordagem que mora a sabedoria de Sarkar, um mestre que nos desafia a desenvolver conteúdos criativos para que saberes fundamentais possam tocar e transformar a vida daqueles que entram em contato eles. Foi isso que me fez considerar o livro do Dada uma leitura espiritual importante, capaz de trazer uma síntese do porquê a meditação vem se tornando uma prática e uma ciência tão valorizada em todo mundo.


Listo algumas características desse livro que poderão convencer você de que o Dada Nabhaniilananda conseguiu superar os limites daquela leitura chata e monótona.

a relaxar nossa mente corpórea e avançar rumo a algo mais precioso do que a fuga do stress presente, da ansiedade futura e da depressão do passado.

1.

5.

Ele é músico, artista, mentor e consultor de empresas de inovação em vários países e valoriza a diversidade das leituras de vários mestres e mestras pelo mundo, trazendo uma abordagem comum a todos. Traz uma leitura leve ao citar frases de grandes sábios que reforçam os pensamentos abordados ao longo dos capítulos.

2. Começa o livro não com respos-

tas, mais sim com 23 perguntas que vão abrir sua mente para buscar questões internas.

3.

Traz os segredos da saúde mental de forma descontraída para que possamos cuidar do nosso “burro” interno, que chacoalha nossos pensamentos sem parar.

4.

Nos convida também para uma brincadeira de abre e fecha - feche os olhos, abra a mente, abra os olhos e expanda a mente – um filtro entre o silêncio e o contato com o “eu sou,” que mostra a importância do autocontrole diante nossos sentidos. Somente assim podemos começar

Exemplifica os impactos da prática da meditação como algo científico e de resultados positivos em praticantes conhecidos internacionalmente.

6. Finaliza o livro com vários apêndi-

ces que te ajudam, em dez passos, a melhorar sua prática de meditação, além de listar os passos para quem segue o caminho na filosofia de vida dos Iogues.

7.

Sugere discos musicais e uma bibliografia recomendada, afirmando sua inteligência de monge que estimula a busca pela diversidade na leitura espiritual.

8. É um livro capaz de trazer unida-

de compreensiva de questões elementares para simplesmente sermos quem somos e aceitarmos os outros como são. Finalizo com um convite para que abra os olhos com sabedoria e leia logo este livro - e quem sabe você possa passar ele para outras pessoas como um serviço aos amigos e amigas. Divirta-se!

Indrajit (Igor Amin) é artista multimídia, educador audiovisual e caminhante espiritual. Busca um estilo de vida baseado nos ensinamentos de Prabhat Ranjan Sarkar. Fundou o Instituto Mundos e atualmente faz mestrado interdisciplinar em Ciências Humanas. Dharma for all Journal | 30


.

Baba recebe o nome de 31 | Dharma for all Journal

Anandamurti


Baba uma vez me contou, no seu es-

Anandamurti (a encarnação da bem

critório, o porquê dele ser conheci-

aventurança), e desde este momento

do como Anandamurtijii. Na época

auspicioso Baba foi popularmente co-

em que Baba estudava no Vidyasa-

nhecido como Anandamurti. O nome

gar College em Calcutá, ele viajou

de Anandamurti saiu da boca de

para o distrito de Bankura, em Ben-

Kamalakanta Mahapatra mas, na ver-

gala Ocidental para a cerimônia de

dade, ele veio das realizações espiri-

casamento de um amigo. Quando

tuais e do fluxo espontâneo de bem

chegou em Bankura, noite avançada,

aventurança que Kamalakanta expe-

ele dirigiu-se a um campo de crema-

rienciou no fundo do seu coração.

ção. E enquanto estava lá, um jovem aproximou-se dele cantando uma

Depois disso, Baba colocou sua ca-

música devocional. Baba perguntou

beça no colo de Kamalakanta e

o seu nome. Ele respondeu que o

adormeceu. Kamalakanta aprovei-

seu nome era Kamalakanta Mahapa-

tou que Baba dormia e pegou Seus

tra. Então contou, com lágrimas nos

pés. Ansiando por salvação e pela

olhos, que o seu Guru havia apareci-

Graça de Baba, Kamalakanta atin-

do para ele em um sonho e dito para

giu mahanirvana. Baba voltou para

ele estar naquele campo de crema-

Bankura para dar a salvação ao

ção naquela noite. Baba carinhosa-

grande

afortunado

Kamalakanta.

mente falou para ele: “Eu sou o Guru que direcionou você no seu sonho

Por

para este lugar para iniciação e hoje

Acarya

à noite eu devo iniciá-lo pelas regras

Satyananda Ava-

do Tantra”. Aquela noite Kamalakanta

dhuta, do livro

foi iniciado por Taraka Brahma Baba.

The Wandering Ascetic Life of

Depois da iniciação, Kamalakanta

Acharya Satya-

sentiu Parama Purusha. Ele começou

nanda Avadhuta:

a dançar e a gritar: “ananda, ananda”. Devido às influências das vibrações

My Thirty-five Years with

espirituais, Kamalakanta disse: Você é

Baba Anandamurtijii Dharma for all Journal | 32


pracar tools

Journal lança

Calendário Global

de atividades de dharma pracar e você também pode enviar o seu evento

https://journal.d4all.org/events/ Eventos interessantes estão acon-

dados da sua atividade pelo formu-

tecendo em diferentes partes do

lário. Os eventos serão analisados

mundo, sem que os pracarakas

pela equipe do Journal e, se aprova-

estejam cientes de muitos deles.

dos, serão publicados no calendário

Para mudar esse cenário, Dharma

em uma das três línguas disponíveis:

for all Journal está lançando um

inglês, espanhol ou português. Só

Calendário Global de atividades.

serão aceitas atividades que estejam alinhadas com a filosofia de Shrii

Para ter um evento publicado, bas-

Shrii Anandamurti e que não possu-

ta mandar um email (journal@d4all.

am conteúdo que incite violência,

org) ou mandar uma mensagem

ataques pessoais ou preconceito.

pela página de contato e enviar os


Se você entrar no calendário ago-

Você já sabia que esses eventos iam

ra, irá encontrar eventos inspira-

acontecer? Se não, gostou de saber?

dores como: o Tour de Kiirtan que

Se gostou, que tal espalhar essa no-

passará por sete cidades brasileiras,

tícia para mais pessoas, e enviar para

entre 15 e 20 de novembro deste

nós as atividades que vão acontecer

ano e o evento de espiritualidade

na sua cidade, no seu país ou em

“Rio Desperta”, em 04 de novem-

qualquer outra parte do mundo?

bro, no Rio de Janeiro. E você ainda encontra muitos outros eventos,

Isolados, somos pracarakas lutan-

em países como Portugal, Dinamar-

do sozinhos. Juntos, somos uma

ca, Nepal, Filipinas, entre outros.

comunidade

global

de

pracar. Acesse:

https://journal.d4all.org/events/ Da Redação


kiirtanforall

Os vรกrios e profundos significados de Baba Nam Kevalam

33 | Dharma for all Journal


Nas diversas práticas de Ananda Marga, é sempre reforçada a importância de se manter a ideação. Em outras palavras, é essencial termos consciência do significado e da intenção do que estamos praticando. Isso também se aplica ao kiirtan, Baba nam kevalam. Repetimos essas três palavras tantas vezes que nem sempre mantemos na mente o poderoso significado por trás delas, ou não o entendemos tão profundamente. O significado mais conhecido e divulgado de Baba nam kevalam é “tudo é expressão do amor”. Embora essa tradução seja inspiradora e, essencialmente, esteja correta, ela é uma aproximação da tradução literal do kiirtan. Embora haja variações de acordo com cada acarya ou margii, em geral entende-se o seguinte:

BABA – Adorado, Bem-Amado, Precioso. A entidade mais querida

para alguém, a quem dedicamos toda a nossa devoção.

NAM – Nome, Expressão, Manifestação. A origem de toda mani-

festação, bem como a natureza dos nomes, é o som, que, por sua vez, é uma vibração.

KEVALAM – Somente, Único. Um contínuo sem qualquer interva-

lo.

Então, se imaginarmos o significado do kiirtan como um iceberg, que vai desde o entendimento mais imediato, geral, até camadas cada vez mais profundas, temos logo abaixo de “Tudo é Expressão do Amor”, um outro significado: “Somente o nome do mais Amado”. Se formos investigar o que essas palavras implicam, podemos ir mais fundo: “continuamente, sem intervalo, em tudo que existe, eu sinto a vibração da Entidade mais preciosa para mim”. Se mergulharmos mais, novos sentidos vão se abrindo. O kiirtan, de fato, é como um sutra ou um sloka – uma frase curta a partir da qual se pode gerar infinitas reflexões. Cada devoto, tendo consciência do significado de base e comum para todos, poderá criar uma relação íntima com essas palavras, de modo que sua ideação se torne pessoal e forte. Dharma for all Journal | 36


(Donald Acosta, Porto

Rico/Brasil) descreve Baba nam kevalam da seguinte forma: “O universo é um oceano de consciência. Pensamos que estamos separados, como uma gota, mas de fato somos o oceano. O oceano surge em diferentes ondas – uma onda é uma pessoa, uma árvore, uma estrela. Embora o oceano esteja composto de uma infinitude de ondas, é o mesmo oceano. Cantando o mantra tentamos sentir que tudo é a expressão de uma única consciência. São simplesmente ondas da Alma Universal”.

BABA NAM KEVALAM

Devashish

Alok Joddha (A.J. Hernández), em seu artigo “The Secrets of Mantra” (Os Segredos do Mantra, tradução livre) argumenta que embora a noção do divino como uma Consciência sem forma seja um conceito impessoal, nós, como seres humanos, não somos impessoais. “A beleza da meditação é que quando começamos a sentir a existência daquela Consciência Cósmica dentro de nós, nós não a sentimos como um ‘absoluto’ impessoal, filosoficamente seco – nós a sentimos como sendo algo mais próximo de nós que nossos próprios pensamentos, mais precioso que nossos próprios sentimentos – algo que tem estado conosco desde o início de nossa existência e que jamais irá, sob nenhuma circunstância, sair de nosso lado – nós a sentimos como sendo nosso amado mais íntimo. Nada disso é uma questão de ‘fé’, como as religiões tão enfaticamente nos pregam – é uma questão de experiência direta, não mediada”.

37 | Dharma for all Journal


Para ele, a beleza da palavra “Baba”

Por isso, ele afirma, Baba é o absoluto

é que os nomes de entidades como

que a nossa mente não pode com-

Jesus, Buda (ou mesmo Anandamur-

preender, traduzido em uma relação

ti) possuem atribuições específicas,

muito pessoal e íntima. Baba nam

ou seja, referem-se a pessoas encar-

kevalam, portanto, é um mantra que

nadas num certo tempo e lugar. Ou

“aceita a realidade emocional de se

seja, por mais expandidas que sejam,

ser um ser humano”, pois ao mesmo

são entidades aprisionadas por uma

tempo que ele é “universal na teo-

certa história. Ele explica que “a beleza e simplicidade de Baba nam kevalam é

ria” (pois sua ideação fala de uma Consciência Cósmica sem forma e infinita), ele

que ‘Baba’ não é o

é “pessoal na práti-

nome de uma en-

ca” (pois a ideação

tidade – é o nome

também

de uma relação. É

pla a relação ínti-

aí que reside o ver-

ma que mantemos

dadeiro poder do sentido ‘ideativo’. Baba é uma palavra sânscrita cujas

contem-

com a entidade mais amada por nós). Em sua visão “Baba sempre muda e,

origens etimológicas apontam para

no entanto, nunca muda; Baba, em

uma entidade que é ‘a mais próxima’

última instância, é nós mesmos”.

e ‘a mais querida’ para nós. É um termo de carinho, como ‘querido’ ou

E você? Como você traduz o kiir-

‘amor’. Para citar um querido amigo

tan Baba nam kevalam? Que ide-

meu, ‘ninguém assina um cheque

ação você mantém em sua men-

como ‘querido’ ou ‘amor’. O mesmo

te enquanto canta? Compartilhe

vale para ‘Baba’. Baba, sendo o nome

aqui conosco, nos comentários.

de uma relação que temos com o divino, é uma relação que muda cons-

Por Gurucaran (Gustavo Prudente)

tantemente com o tempo – minuto

Leia o artigo de Alok

a minuto e momento a momento”.

Joddha na íntegra (em inglês) Dharma for all Journal | 38


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