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Cia. Letras em Cena e Secretaria Municipal de Cultura


“O que aconteceu ainda está por vir. O futuro não é mais como era antigamente” Índios - Legião Urbana Estamos de volta! Felizes, mas também revoltados e desconcertados com o que anda acontecendo no Brasil e no mundo. As contradições no entendimento do nosso passado recente combinam-se com as dificuldades de se esboçar um futuro minimamente otimista diante dos medos e dos maus pressentimentos trazidos pelo presente. Vivemos um tempo muito difícil, mas acreditamos que é exatamente nesse momento que o teatro e a cultura se colocam como necessários e até imprescindíveis. O teatro sempre abre uma possibilidade para que os atores e o público participem de uma transformação. E é isto que estamos buscando com o nosso Mau Encontro: olhar generosamente para personagens que nos são aparentemente distantes, mas que podem expressar em ações e palavras, muitos dos valores, dos pensamentos e das atitudes que insistimos em não perceber em nós mesmos. 1


Discute-se muito que a barbárie está se banalizando, reproduzindo-se em tantas manifestações de ódio, de egoísmo e de intolerância. Bárbaro é aquele que não se permite transformar pelo outro, que tenta reduzir tudo a si mesmo, fazendo com que a prepotência da sua personalidade seja a medida para todas as coisas. Ao contrário, quando alguém realmente escuta, quando consegue se envolver com o outro e ir além da sua individualidade, algo acontece e pode gerar transformações. Nesse sentido, as artes podem ser um antídoto contra a barbárie, pois propõem uma percepção estética, racional e emocional de um mundo plural e multicultural. Estamos muito felizes por termos ganhado o Prêmio Zé Renato de Teatro para colocar em cena Mau Encontro, de Guilherme Mattos. Esta peça integra um projeto maior: Nova Dramaturgia, que pretende levar ao palco mais duas peças de autores inéditos em São Paulo: Circo de Baratas, de Tarcízio Dalpra Jr. e Cornucópias da Fortuna, de Beto Oliveira, textos lidos em janeiro na Biblioteca Mário de Andrade. Continuamos na luta atrás de recursos para viabilizar estas peças e, também, Bola de Sonhos, de Graça Berman e Marcus Cardelíquio, peça que dará continuidade à nossa pesquisa e criação sobre teatro e futebol. 2


Estamos felizes, mas, também, profundamente tristes. Após termos perdido o nosso companheiro de tantas criações musicais, Paulo Herculano, acabamos de perder mais dois amigos muito queridos e que participaram em diferentes momentos da trajetória da Cia. Letras em Cena. O ator Antonio Netto, que esteve em cena nas primeiras peças da nossa Companhia, e o jornalista esportivo Roberto Avallone, que foi um dos autores da nossa primeira peça sobre futebol, Nossa Vida é uma Bola, e debatedor nas outras duas. A eles, o nosso amor e eterna saudade. Os artistas criam no reino das incertezas, da fugacidade, do imprevisível, mas, ao mesmo tempo, do que pode se tornar relevante diante da natureza mutável e em perpétuo movimento da humanidade. O teatro é fundamental porque tem ensinado o homem a olhar com interesse e prazer para a vida, tornando-o capaz de amá-la, em qualquer uma das suas formas de manifestação. A experiência teatral é afirmativa em relação à vida e ao momento presente, quando experimentada de forma coletiva e capaz de transcender o isolamento que geralmente acompanha o cotidiano da maioria das pessoas. E é por isso que continuamos a ser profissionais de teatro. Cia. Letras em Cena 3


Cidade Maravilhosa, por Imara Reis

A circunstância em que acontece a nossa peça está presente no histórico do Rio já faz muito tempo e segue se agravando. Esta cidade, tão cantada em verso e prosa, por sua origem, por ter sido capital tanto do Império quanto da República, continua tendo este caráter emblemático de representação do nosso país. Tudo o que lá acontece é, ao mesmo tempo, espelho e reflexo. A cidade do Rio de Janeiro sempre teve os seus problemas. E graves. Segue porém sendo maravilhosa, apesar de tudo. Nosso espetáculo propõe uma observação sobre esta situação em que estamos a partir desta premissa. Como sabemos, vivemos um momento crítico, delicado, preocupante, em que o individualismo e a redução da consciência de que todo país, toda sociedade, é uma sinergia e de que o que afeta a um afeta a todos pode, sim, nos levar a uma tragédia social. 4


Esta quase indiferença, ou mesmo temor, à dor alheia tende a acelerar e aumentar este processo de desumanização em que já vivemos. Acrescente-se o fato de nossa sociedade mestiça negar-se a se ver como tal. Discrimina, rejeita e agride (até mata!) os que não crê que tenham direito à cidadania. Então, assim como em Molière, pretendemos mostrar um certo retrato de nossa realidade atual. Neste sentido, o texto Mau Encontro de Guilherme Mattos caiu-nos como uma luva. O que era uma ideia, um projeto, um desejo, tornou-se possível graças à determinação e ao empenho da Graça Berman e da Telma Dias. Agradeço a elas e aos que se dedicaram amorosamente para que pudéssemos chegar até aqui. Todos foram alicerce e liga, parceiros irretocáveis.

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Mau Encontro, por Guilherme Mattos

Um trecho de “Arqueologia da violência”, do antropólogo francês Pierre Clastres, aparece como epígrafe ao texto de Mau Encontro: “Mau encontro: acidente trágico, acidente inaugural cujos efeitos não cessam de se amplificar a ponto de se abolir a memória de antes, a ponto de o amor à servidão substituir o desejo de liberdade. Que diz La Boétie? Mais que qualquer outro clarividente, ele afirma em primeiro lugar que foi sem necessidade essa passagem da liberdade à servidão, que ele afirma acidental – e que trabalho a partir de então para pensar o impensável mau encontro! – a divisão da sociedade entre os que mandam e os que obedecem.” 6


A pergunta que guiava La Boétie e também Pierre Clastres era: como é possível que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo? Tomei essa pergunta complexa para ensaiar caminhos no teatro. Escrevi Mau Encontro entre 2013 e 2014. Durante aquele contexto de ebulição política, alguns processos foram importantíssimos para o que veríamos depois. Em primeiro lugar, a PEC das Domésticas. Boa parte do ódio que as classes médias iriam manifestar explicitamente nos anos subsequentes vem dali. Como pode empregadas domésticas com direitos trabalhistas? Imperdoável. Depois, dois casos de professoras universitárias que fizeram declarações revoltadas porque os aeroportos teriam se tornado “rodoviárias”. O acesso de camadas populares ao consumo de serviços era insuportável. Por fim, havia uma euforia no Brasil e no Rio de Janeiro. Copa, Olimpíadas. Havia sobretudo um orgulho desmedido. Foi a nossa húbris. Foi esse contexto de conflito prestes a explodir que me motivou a escrever Mau Encontro. 7


Infelizmente, a peça é uma distopia que se realizou muito rápido. Existe um ódio ali, um desejo de invisibilizar o outro, um desejo desavergonhado de eliminação e também uma vontade desmedida de restaurar uma hierarquia supostamente perdida que se encontra em franca decadência. A perda de privilégios, mesmo os mais comezinhos, é motivo de desespero e violência para indivíduos que se acostumaram com um espaço no mundo que lhes foi destinado desde o nascimento. Além disso, há um deslumbramento com o que é “rico”, “branco”, “estrangeiro”. Os personagens de Mau Encontro são obcecados com certas ideias de pureza e não têm qualquer compromisso com a verdade. Isso fala muito sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil e no mundo. Espero que o meu texto, com a direção da mestra Imara Reis, seja capaz de oferecer alternativas ao que muitos imaginam ser um pensamento único.

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Mau Encontro, por Claudio Lucio Gravina

O título evoca um conceito filosófico de Étienne La Boétie (1530/1563) que integra sua indagação sobre algum acontecimento histórico que teria levado o homem a optar pela servidão voluntária, abrindo mão da chance de liberdade. Teria sido uma fatalidade sobre a qual não se tem controle, um mau encontro, um mau jeito que ampliaria seus efeitos nocivos externos ao sujeito. Na peça, um grupo de pessoas encontra-se aprisionado em uma sala VIP do Galeão, por conta de uma grande tempestade que provoca a suspensão das operações do aeroporto. Um incidente violento coloca as personagens em uma situação, obrigando-as a tomarem decisões, expondo suas fragilidades e preconceitos. Isso nos convida a uma reflexão sobre prestígio, poder, invisibilidade social, individualismo e solidariedade. Temas absolutamente pertinentes à contemporaneidade.

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Ficha Técnica Texto: Guilherme Mattos Direção: Imara Reis Elenco: Eduardo Silva, Gabriela Rabelo, Graça Berman, Pedro Lopes, Telma Dias, Valéria Simeão e William Amaral Assistente de direção: Gira de Oliveira Cenário, figurinos e iluminação: Kleber Montanheiro Coordenação geral: Graça Berman Administração e produção executiva: Claudete Pontes Assistente de produção: Telma Dias Criação musical: Marcelo Moss Criação de imagens: Guilherme Motta Programação visual: Edu Reyes Operação de som: Jairo Macedo Operação de luz: Junior Fernandes Cenotécnico: Evandro Carretero Costureira: Creuza Medeiros Assessoria de imprensa: Nossa Senhora da Pauta 10


Convidados para os bate-papos 09.04 (Pré-estreia): Marco Antônio Braz e Wilma de Souza 12.04: Claudio Gravina e Cesar Callegari 19.04: Renata Pallottini e Soninha Francine 26.04: José Arrabal 03.05: Luiz Gonzaga Belluzzo 10.05: Judson Cabral e Michel Alcoforado 17.05: Marici Salomão 24.05: Paulo Sérgio Silva e Flávio Jorge 31.05: Oswaldo Faustino e Leandro Karnal

Agradecimentos Adriane Freitag David, Alexandre Bacci, Aqui em casa tem, Assessoria Ativa, Augusto Marin, Beto Oliveira, Beto Planetas, Biblioteca Mário de Andrade, Eliézer Giazzi, Eliziana Santos Nunes, Flavio Feitosa, Gabriel Hideki Guimarães Goto, Lilian Gonçalves, Marco Antonio Rodrigues, Marcos Loureiro, Maria Ranubia Ferreira dos Santos, Michelle Gabriel, Neyde Rossi, Paloma Freitas, Rebeca Braia, Regina Alves de Godoy, Ricardo Koch Mancini, Sérgio Rubens Torres, Sulla Andreato, Tarcízio Dalpra Junior, Valdir Rivaben e Yakini Rodrigues. 11


Apoios

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ESTE PROJETO FOI CONTEMPLADO PELA 8ª EDIÇÃO DO PRÊMIO ZÉ RENATO DE TEATRO PARA A CIDADE DE SÃO PAULO - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA

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Profile for Edu Reyes

Mau Encontro - Programa  

Programa para o espetáculo "Mau Encontro" 8,7cm x 12,5cm | 12 páginas + capa mar.2019

Mau Encontro - Programa  

Programa para o espetáculo "Mau Encontro" 8,7cm x 12,5cm | 12 páginas + capa mar.2019

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