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sexta, 25 abril 18:30 sala Zeca Afonso

O SILÊNCIO de António Loja Neves e José Manuel Alves Pereira Estreia nacional Desenho do projeto:António Loja Neves; Realização: António Loja Neves e José Manuel Alves Pereira; Fotografia: Rui Poças; Som: Emídio Buchinho; Montagem: José Alves Pereira, sobre versão original de António Loja Neves com Vasco Santos; Produção: Manuel Costa e Silva para A Quimera do Ouro; Consultoria: Paula Godinho; Ano: 2014; Duração: 70'

Comentário: No comovente filme de António Loja Neves e José Manuel Alves Pereira «O Silêncio», um homem desfia um sofrimento longo, a partir dum acontecimento que viveu com 16 anos e que lhe mudou a vida. Trata-se de Arlindo Espírito Santo, que viu grande parte da sua família ser presa em Dezembro de 1946, na aldeia de Cambedo da Raia, no concelho de Chaves, encostada à Galiza. Ali decorreu um episódio sangrento e tardio, ainda em resultado do golpe franquista em 18 de Julho de 1936. A aldeia, cercada pela Guardia Civil, pelo Exército português, pela PIDE e pela GNR, foi atingida com vários tiros de morteiro no dia 21 de Dezembro. Dois guerrilheiros morreram, um provavelmente por suicídio para evitar a captura, uma criança foi ferida e foram destruídas várias habitações, porque ali se haviam refugiado desde a guerra civil alguns galegos até este momento de perseguição final ao seu grupo, em 1946. A povoação de Cambedo da Raia perderá por mais de um ano 18 dos seus habitantes, presos no Porto preventivamente, até ao julgamento, que teve lugar em Dezembro de 1947. Por longo tempo este assunto permaneceu interdito, com os fascismos ibéricos a imporem a sua versão. Os habitantes de Cambedo arrastaram por dezenas de anos a reputação de malfeitores ou de acoitantes de criminosos, labelo que as autoridades lhes colaram. Alguns não indicavam a aldeia de nascimento em documentos, mas antes a sede de freguesia, para evitar o opróbrio que lhe estava associado. Em Dezembro de 2006, numa acção cívica levada a cabo por um conjunto de intelectuais galegos, resgatou-se a memória da solidariedade

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raiana e com ela a auto-estima local. Foi então aposta uma placa no centro da aldeia: “En lembranza do voso sufrimento (1946-1996)” (1). Paula Godinho O filme recolhe o depoimento das pessoas da aldeia que ficaram 50 anos obrigadas ao silêncio, sem poderem falar deste episódio trágico.

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resumo a partir de um texto 10 de set. 2009, publicado no blog Caminhos da Memória

http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2009/09/10/cambedo-da-raia-1946/

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sexta, 25 abril 19:00 sala Salgueiro Maia

À PROCURA DO SOCIALISMO de Alípio de Freitas e Mário Lindolfo Realização: Alípio de Freitas e Mário Lindolfo; Locução: Fernando Alves; Voz de Antero: José Mário Branco; Canção: Zeca Afonso; Pós-produção áudio: João Gaspar; Pós-produção vídeo: Mário Rui Miranda; Montagem: Ana Maria Antunes; Produção: Aristides Teixeira e Jorge Barroso; Conceção do texto e coordenação: Alípio de Freitas e Mário Lindolfo; Ano: 1993; Duração: 51’

Sinopse: Um documentário de autoria do jornalista Alípio Freitas e de Mário Lindolfo, sobre a história contemporânea de Portugal no período pós 25 de abril. O movimento operário e as ideias socialistas em Portugal, dos finais do século XIX aos anos do PREC (1974/75). Elaborado com base em material de arquivo, a sua produção começou em 1975, pela RTP, mas foi interrompida, tendo sido terminada apenas em 1994 a pedido da UDP.

Comentário: Alípio de Freitas e Mário Lindolfo, amigos maiores que o pensamento, neste documentário em que as utopias e as lutas populares são a medida do tempo, apresentam-nos um fresco único de como o jovem proletariado saído da revolução industrial modelou a modernidade, também a nossa, suspensa durante 48 anos fascistas. Vemos como as suas lutas, e a necessária polémica para forjar o programa político que lhes corresponda, são o cerne das ideias avançadas dessa mesma modernidade. Como o 25 de Abril, ao neutralizar a máquina repressiva da burguesia, permitiu o florescer da liberdade e a sua consequência filosófica, política, ética e social: a exigência de igualdade. Como a liberdade é “a consciência da necessidade" e o movimento colectivo é o motor do processo criativo: e do nada se fez luz! Como as cores esgaitadas da “nova modernidade” anunciavam já o advento do inominável. E como, portanto, para se ser moderno é preciso também ser-se anti-moderno. A dialéctica da luta de classes determinou a precoce exaustão do 25 de Abril às mãos dos que combatem a centralidade do trabalho como essência obrigatória de uma sociedade democrática; os mesmos que aplaudiram as palavras de Henrique de Barros no dia da abertura da Constituinte: cumprir a missão de construir o socialismo, como sociedade sem

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classes onde o colectivo dos trabalhadores controla os principais meios de produção, assegurando as liberdades públicas. Este belo documentário dá-nos o 25 de Abril em carne viva: a iniciativa popular organizada em comissões de trabalhadores, de soldados, de ocupação, de moradores, de estudantes… Que, sintomaticamente, os constituintes ignoraram mantendo intocável a arquitectura do Estado para assegurar a reprodução do poder da burguesia e do capital. Mas naqueles 19 meses do PREC a ideia socialismo brotou espontânea, ubíqua, quase como verdade universal. Até no cínico oportunismo à espera de melhores dias em Sá Carneiro, ou em Soares que o meteu na gaveta. “À Procura do Socialismo” assegura-nos que a organização popular é a mãe de todas as coisas. Mário Tomé

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sexta, 25 abril 21:00 sala Salgueiro Maia

OPERAÇÕES SAAL de João Dias Argumento, realização e montagem: João Dias; Assistente de realização: Leonor Noivo; Imagem: Leonor Noivo, João Gomes e João Dias; Assistente de montagem: Edgar Feldman e

João Gomes; Misturas: Tiago Matos (MOS); Direção de produção: Maria de Lurdes Oliveira; Produtor: Abel Ribeiro Chaves Optec/Bazar do Vídeo; Ano: 2009; Duração: 120’ Sinopse: AS OPERAÇÕES SAAL é o mais completo, abrangente e emocionalmente rico documento, de um período crítico do país e da sua história recente. Em 1974/75, um projeto de habitação envolveu arquitetos e população numa iniciativa única e revolucionária. Os pobres conquistavam casas, que eles próprios construíam, e a arquitetura portuguesa dava um passo ímpar na sua afirmação dentro e fora de portas.

CASAS PARA O POVO de Catarina Alves Costa Realização: Catarina Alves Costa; Montagem: Pedro Duarte; Pós-produção imagem: Paulo Américo; Pós-produção som: Tiago Matos; Música: Vítor Rua; Arquivos Fotografia: Alexandre Alves Costa; Arquivos Filmes: Fernando Matos Silva, Alfredo Matos Ferreira, RTP; Ano: 2010; Duração: 15’

Sinopse: Esta instalação nasceu da experiência de trabalhar arquivos de imagens e sons do período entre Agosto de 1974 e Outubro de 1976. É a história do SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local (1974 - 1976), um movimento lançado após a revolução por um grupo de arquitetos que respondia à luta de rua dos moradores pobres que no Verão quente de 1974 gritavam “Casas Sim! Barracas Não!”.

Comentário: A Revolução de 25 de Abril de 1974 alimentou, ao longo dos meses sequentes, um período de forte reivindicação popular por melhores condições de vida, em sectores sociais anteriormente negligenciados pelo Estado Novo. Os primeiros governos provisórios procuraram resolver essa “urgência” social, e concretizar, em menos de dois anos, políticas públicas semelhantes àquelas que outros países europeus desenvolviam, pelo menos, há duas décadas. Nas ruas e praças da Revolução misturavam-se, então, reivindicações por direitos de várias gerações: direitos estruturais, como os conquistados na Europa do II pós-guerra – na saúde, na educação, na habitação… – e direitos culturais, como os reivindicados, por exemplo, no Maio de 68 francês – na igualdade de género, na emancipação sexual, na liberdade de expressão… Nesse “curtocircuito” – como lhe chamou Boaventura de Sousa Santos –, entre pré-modernidade e pós-

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modernidade, poder e contra-poder, cultura e contracultura, forjou-se o lado mais fascinante, mas também o lado mais volúvel, desse processo revolucionário. No universo da Habitação Social, nenhuma outra política foi tão marcada por esse fascínio e por essa volubilidade quanto a da Portaria do SAAL – Serviço de Apoio Ambulatório Local – lançada, em Julho de 1974 por Nuno Portas, então Secretário de Estado da Habitação do Primeiro Governo Provisório. A medida procurava uma rápida e directa resposta às reivindicações por novo alojamento, apresentadas por diferentes associações de moradores, estabelecidas em todo o país, e apoiadas tecnicamente por equipas interdisciplinares formadas, localmente, por arquitectos, sociólogos, assistentes sociais e juristas – as denominadas “brigadas SAAL”. Na cidade do Porto, abrangida pelo SAAL/Norte, essas brigadas estiveram sob coordenação, entre outros, de Alexandre Alves Costa, arquitecto cuja estratégia assentava na manutenção das populações carenciadas no centro urbano, contrariando anteriores tendências para a erradicação dos bairros operários tradicionais – as “ilhas” – e o desenraizamento dos seus habitantes, sistematicamente realojados em novos conjuntos periféricos, do tipo “Carta de Atenas”. Para a maioria dos arquitectos portuenses envolvidos no novo programa, era imperativo assumir esses bairros espontâneos – conformados por correntezas de casas e ruas interiores, abertas nas traseiras de lotes estreitos e profundos – reabilitando-os, ou aprendendo com a sua estrutura, no desenho dos novos conjuntos habitacionais. Este foi, por exemplo, o método seguido por Álvaro Siza, no projecto de dois conjuntos que viriam a ser integrados no SAAL: o Bairro de São Vítor, no lado oriental e o Bairro da Bouça, no lado ocidental da cidade. A partir de 1975, e em pleno coração do Porto, construíram-se os primeiros blocos destes conjuntos, fazendo adivinhar as intenções de Siza e dos seus companheiros: recriar o tecido denso dos bairros operários, com as suas ruas comunitárias, abraçadas por muros e rematadas por equipamentos locais, alinhando ou sobrepondo fogos de dois pisos, com entradas directas a partir de pátios, escadas individuais ou galerias comuns. O projecto e a construção destes blocos nasceram de processos participativos, colocando, frentea-frente, os técnicos das brigadas e as populações, e excluindo outras formas de gestão ou de planeamento que não decorressem da sua interacção quotidiana. No entanto, e após o restabelecimento da tecnocracia municipal portuense – nas primeiras eleições autárquicas pós-revolução (1976) –, esta mesma passou a encarar o programa SAAL como um processo de contra-gestão e de contra-plano, anárquico e radical. A sua integração política foi preterida a favor do seu desmantelamento técnico, pondo assim cobro a dois anos de forte activismo por parte das brigadas. A democracia “representativa” impunha-se, deste modo, à democracia “participativa”, obliterando os seus processos mais experimentais e informais. A breve história do SAAL marcou, em síntese, um ciclo inusitado e paradoxal na história da cidade contemporânea europeia: aquele em que, por breves momentos, a contracultura se tornou, assumidamente, “cultura”. É sobre esse paradoxo que nos falam os documentários de João Dias – As Operações SAAL, 2007 – e de Catarina Alves Costa – Casas para o Povo, 2010 -, ambos colocando a voz e a imagem na primeira pessoa: naqueles que viveram militantemente esse tempo (contra)cultural. Nuno Grande (Luanda, 1966)

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sexta, 25 abril 22:00 sala Zeca Afonso

MUITOS DIAS TEM O MÊS de Margarida Leitão Realização: Margarida Leitão; Pesquisa e desenvolvimento: Margarida Leitão, Flávia Sardinha; Direcção de fotografia: Pedro Marques; Montagem: João Braz; Som: Filipe Tavares; Montagem de som e misturas: Gonçalo Brou; Produção: Pandora da Cunha Telles Ukbar Filmes; Ano: 2009; Duração: 91’ Sinopse: Com um simples gesto de um cartão de crédito ou um telefonema, os nossos sonhos tornam-se realidade. Por todo o lado somos seduzidos, o recurso ao crédito vulgarizou-se e o consumo democratizouse. Tudo nos indica que a felicidade só se alcança através do consumo. E tudo tem aparentemente um preço. Mas, qual é o preço das nossas necessidades? Qual o preço dos nossos sonhos? Será que estamos dispostos a pagá-lo? Entre o inferno e a redenção, prazer e restrição, MUITOS DIAS TEM O MÊS é uma longa documental que traça um retrato de homens e mulheres que vivem uma angústia que se repete todos os meses: Serão capazes de pagar os seus empréstimos e sobreviver até ao mês seguinte? Pessoas endividadas que vivem as suas vidas ao ritmo quotidiano dos prazos, das obrigações e do esforço para retomarem controlo das suas vidas. Dia a dia. Mês a mês.

Comentário: O que é o tempo? No filme um casal olha para o calendário e tenta encontrar o fim do mês. Não é tarefa fácil e está longe de coincidir com o dia 30 ou 31. Talvez por isso, este documentário mostre como é frágil a fronteira entre uma vida certinha, onde tudo parecia estar controlado, e o descalabro súbito do endividamento, dos credores à perna, das ameaças dos “senhores dos bancos” com a sua veia palavrosa e a espada afiada. De repente, famílias que pensavam ser possível uma vida decente, entram na espiral do crédito para pagar crédito e na confusão dos dias que baralham o calendário. Muitos encontrarão aqui a prova de que o “país vivia acima das suas possibilidades”. Outros, que sonhar com uma casa ampla e iluminada ou com um carro novo ou ainda com um portátil para o filho é um sintoma da alienação do consumo. Prefiro focar a atenção, insisto, na fragilidade: estas famílias viviam um pouco acima do limiar da pobreza. O desemprego, uma doença ou um divórcio trazem subitamente o caos. O pior, é que não lhes é dada a possibilidade de se reerguerem. Parece uma prisão perpétua de humilhações, súplicas, tentativas. A aranha não perdoa a quem cai na teia. O que mais me agrada no filme é a ausência de julgamentos ou juízos de valor. Ninguém tenta demonstrar uma moral. Margarida Leitão limita-se a dar a voz aos endividados, aos que vivem sob a culpa da dívida eterna, aos que pagam muito caro a vida no capitalismo de casino. Olhem para os seus rostos, os seus esforços vãos, as suas vozes cansadas angustiadas, ainda que resistentes. Há um país invisível e anódino que se desvenda, até porque é preciso cada vez

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mais falar disto sem a chantagem da vergonha, que mais não é do que a baba com que a aranha nos tenta aniquilar. João Teixeira Lopes

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sexta, 25 abril 00:00 sala Zeca Afonso

FADO LUSITANO de Abi Feijó Realização: Abi Feijó; Produtor: Jorge Neves; Produção: Filmógrafo /Halas & Batchelor; Story-board: Abi Feijó, Óscar Branco, Luísa Mareante, Pedro Serrazina, Teresa Feijó, Clídio Nóbio e Maria Moreira da Silva; Fotografia: Abi Feijó; Design: Abi Feijó, Regina Pessoa e Graça Gomes; Animação e Artes Finais: Abi Feijó, Regina Pessoa, Graça Gomes, Filipe Moreira da Silva, João Carlos Freitas e José Carlos Pinto; Banda Sonora Original: Manuel Tentúgal; Voz-off: Mário Viegas; Músicos: Manuel Tentúgal, Abílio Santos, Eduardo Coelho e Susana Ribeiro; Estúdio de som: Fernando Rangel; Laboratório: Tóbis portuguesa; Laboratório de som: Cinearte (Madrid); Secretariado de Produção: Ana Vila Real; Técnica: Recortes; Ano: 1995; Duração: 5’30”

Sinopse: Portugal sente-se um pequeno país na cauda da Europa. Tem um coração errante, um espírito aventureiro, uma alma amargurada e um corpo obediente.

JANUÁRIO E A GUERRA de André Ruivo Realizador: André Ruivo; Argumento: André Ruivo a partir de conto original de Henrique Ruivo; Montagem: Luís Canau; Animação: Osvaldo Medina; Música: Paulo Curado; Som: Paulo Curado; Cenário: André Ruivo; Grafismo: André Ruivo; Técnicas: Desenho sobre papel; Ano: 2008; Duração: 15’

Sinopse: Duas nações muito pobres entram em guerra para disputar a linha de fronteira. De todas as aldeias são recrutados os varões, entre eles Januário, um humilde camponês, a personagem principal. Mas os Chefes de Estado Maior das duas nações esquecem-se que não têm munições para fazerem a guerra. Então recorrem às onomatopeias. Uma guerra feita com os sons das munições, para a qual os exércitos são treinados a cantar e a entoar as onomatopeias auxiliados por bandas locais e professores de canto. As monções trazem chuva e frio e todos os exércitos ficam afónicos. A guerra termina, sem mortos e só Januário não regressa a casa. Perdido e esfomeado, encontra Santa Zita que o auxilia e lhe dá abrigo e comer transformando velhos almanaques guardados num casebre abandonado em pão, presunto e vinho. Um milagre que não impede Januário de morrer tal é a sofreguidão com que come aquele manjar. Januário é descoberto anos mais tarde por um pastor e regressa a sua aldeia numa cerimónia fúnebre ficando sepultado numa cripta que o homenageia como sendo o Soldado Desconhecido. Os almanaques que o saciaram conservam o corpo incorrupto e Januário ressuscita.

Comentário: Em FADO LUSITANO Abi Feijó apresenta a História de Portugal desde a génese e o que é ser português - de forma incrível e brilhante, como sempre, numa síntese que de nada tem de (6 e 7) Porto, 2014


resumida. Começa, tal como começamos, rodeado de vários povos que aqui se instalaram para existirmos; D. Sebastião para nos sentirmos, os Achamentos para expandirmos a “alma portuguesa”. Portugueses nos encontramos: destemidos, fracassados, sonhadores, mas sobretudo antropofágicos. Fado: a sensação de saudade, de distância, o ser português lá fora, repetidamente em fuga à miséria material ou intelectual. Viagem: busca sobrevivente, fluxo migratório - “obrigatório” - repetidamente em várias gerações. Crítica: não falha também, explícita, à sociedade e à política nacional, ao Portugal do Cavaco Silva, do Mário Soares e ao duma União Europeia. Cume de comunidade? União económica? Nota-se a dúvida. “O sonho não comanda coisa nenhuma”. A JANUÁRIO E A GUERRA, sem diálogos ou qualquer espécie de som, não falta no entanto expressão nítida, suficiente e surda. Surda, como a nação é para sofridos e traumatizados de guerra. Tão “tipicamente portuguesa”, como os Januários por aí espalhados: arrancados à sua pacatez e simples vida – mas não menos produtiva –, levados pela lógica perdida de uma guerra que ingenuamente não compreendiam (?). Cegueira, surdez, um quase virar de costas a esse passado de guerras. Esquecimento, principalmente das sequelas humanas, até hoje soltas, largadas, perdidas. Zeza Guedes

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sexta, 26 abril 11:30 sala Zeca Afonso CLANDESTINO de Abi Feijó Realização: Abi Feijó; Produtores: Abi Feijó, Davide Freitas, Pierre Hébert e Marcel Jean; Argumento: José Rodrigues Miguéis “O Viajante Clandestino” – “Gente da terceira classe”; Fotografia: Abi Feijó; Montagem: Abi Feijó, Saguenail e Regina Guimarães; Música e Sonoplastia: Tentúgal; Animação: Abi Feijó e Regina Pessoa; Técnica: Animação de areia; Ano: 2000; Duração: 7’ Sinopse: Numa manhã triste e fria de 24 de Dezembro um cargueiro, cansado de tantas viagens acosta num porto triste e ensombrado. Esconde a bordo um passageiro clandestino. Os membros da tripulação descem para o cais e vão festejar o Natal, cada qual na sua solidão. A noite cai e o homem que ficou só no navio tenta alcançar terra firme, deixando-se escorregar pela amarra fora. Mas este homem vive momentos de tremenda angústia, que o separam da liberdade. Animação de areia sobre placas de vidro, Clandestino é uma adaptação dum conto de José Rodrigues Miguéis. Duma profunda melancolia, este filme com imagens expressivas e ricamente texturadas evoca o duro combate pela liberdade e a angústia do homem que a encarna.

OS SALTEADORES de Abi Feijó Realização: Abi Feijó; Produtor: Jorge Neves Música: Manuel Tentúgal; Animação: Animais (Lisboa) e Filmógrafo (Porto); Técnica: Animação de areia; Ano: 1993; Duração: 14’14” Sinopse: Dentro de um carro, numa viajem à noite ao longo da costa portuguesa, nos anos 50, ouve-se uma discussão sobre a identidade de um grupo de homens, capturados e mortos há alguns anos no decorrer da guerra civil espanhola. Três perspetivas são confrontadas num discurso que revela a face e as sensibilidades ideológicas do regime fascista português. Como se a História pudesse ser inventada ou esquecida...

A NOITE SAIU À RUA de Abi Feijó Story-board: Abi Feijó, Márcia Lucas e Tito Morais; Desenhos Originais: João Abel Manta; extraídos do livro: Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar; Desenhadores: Abi Feijó, Clídio Nóbio, Luia Leal, Márcia Lucas, Tita Costa e Tito Morais; Animação: Abi Feijó, Clídio Nóbio e Luisa Leal; Banda sonora: Manuel Tentúgal; utilizando temas de: Zeca Afonso; Realização: Abi Feijó; Assistente de realização: Luisa Leal; Laboratórios: Nacional Filmes, Tobis Portuguesa; Produtor executivo: Rui Brás; Produção: Filmógrafo, Ano: 1987; Duração: 4’ Sinopse: As noites são dias escondidos do outro lado dos nossos desejos. Mas algumas permanecem como sombras flutuantes a deformar as imagens indefesas do quotidiano. Rostos feridos de ausência, figuras hirtas de silêncio, terras salpicadas de sangue... E vamos morrendo adormecidos, indiferentes, até que as manhãs aconteçam.

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CRAVO DA LIBERDADE de Abi Feijó Montagem: Sinal Video; Produção: Filmógrafo; Realização: Filmógrafo: Andreia Marques [e outros alunos da Escola EB 2.3 de Caldas das Taipas]; Supervisão: Pedro Serrazina, Abi Feijó, Regina Pessoa, Ângelo Freitas [Musical]; Ano: 1996; Duração: 4'53". Sinopse: Filme de animação evocativo do 25 de Abril, realizado pelos alunos da Escola EB 2.3 de Caldas das Taipas. Foi entre 16 e 20 de abril de 1996 que 15 alunos de 3 turmas do 6° ano realizaram este pequeno filme de animação sobre o 25 de Abril denominado «O CRAVO DA LIBERDADE», num atelier de cinema de animação montado na escola e orientado por Abi Feijó, Pedro Serrazina e Regina Pessoa do Filmógrafo.

AMANHÃ de Solveig Nordlund Realizador: Solveig Nordlund; Produtor: Manuel João Águas ; Argumento: Solveig Nordlund; Fotografia: Lisa Hägstrand ; Montagem: Pedro Marques; Música: Johan Zachrisson; Som: Pedro Melo; Atores Principais: Luis Simões, Carla Bolito; Voz Off: João Saboga; Ano: 2004; Duração: 15’

Sinopse: Nuno, um rapaz de nove anos, foge de casa na noite de 24 de Abril de 1974. Está farto das discussões entre a mãe e o padrasto e decide ir ter com o seu pai. Só que não sabe onde o pai mora. Para se esconder da polícia, esconde-se num grande edifício que está a ser abandonado à pressa. Partem carros e pessoas em grande velocidade, ninguém dá por Nuno. Só fica ele com um cão de guarda. A noite já vai tarde e Nuno e o cão adormecem abraçados. Acordam de manhã com gritos vindos da rua. Nuno pensa que é a sua mãe à sua procura e corre à janela ver o que se passa. A rua está cheia de gente, há tanques e soldados. É o 25 de Abril. E Nuno está convencido que foi a sua.

Comentário: Abi Feijó ultrapassou as limitações técnicas e financeiras do Cinema de Animação Português, optando por técnicas tradicionais de cunho artesanal e muito pessoal, de uma imensa riqueza plástica, tais como a animação de areia, a grafite sobre papel e a animação de recortes. No seu trabalho é evidente a qualidade de expressão artística, mas também narrativa. Analisando temáticas como a luta pela liberdade, aborda um passado então demasiado recente para figurar nos livros de História e, demasiado doloroso para que os mais velhos dele falassem livremente a uma geração que nascera já depois do 25 de Abril. Da sobriedade de «Clandestino» e «Os Salteadores» ao humor de «A Noite saiu à Rua», passando pelo seu trabalho de orientação de ateliers para crianças e jovens, representado por «O Cravo da Liberdade», atravessamos as diferentes facetas da carreira de Abi Feijó, que, para além de realizador, possui também um trabalho de comparável importância enquanto produtor. O primeiro estúdio que fundou - o Filmógrafo - e seu estúdio atual - a Ciclope Filmes - são responsáveis por alguns dos filmes mais premiados internacionalmente, do nosso Cinema de Animação nacional, tendo influenciado toda uma geração de animadores e realizadores portugueses de filmes de autor. Um clandestino, a Ditadura, e o 25 de Abril - estes elementos constituem os ingredientes que vamos encontrar também na curta-metragem em imagem real de Solveig Nordlund, «Amanhã», que encerra esta sessão. Sandra Santos, “Filmografiana”

(8 a 12) Porto, 2014


sábado, 26 abril 14:30 sala Zeca Afonso

BUSH & OBAMA, A ERA DO TERROR de Oliver Stone The Untold History of the United States, episódio 10 da série; Realização: Oliver Stone; Argumento: Matt Graham, Peter Kuznick, Oliver Stone; Edição de imagem: Alex Marquez; Música: Craig Armstrong; Produtores: Fernando Sulichin, José Ibáñez; Co-Produtores executivos: Carlos Guillermo, Chris Hanley, Serge Lobo; Produtores executivos: Olivers Stone, Robert S. Wilson, Tara Tremaine; Narração: Oliver Stone; Ano: 2013; Duração: 60’

Para mudar radicalmente a conduta de regimes devemos pensar com claridade e coragem, pois, se aprendemos alguma coisa é que os regimes não querem ser mudados. Julian Assange, no último capítulo desta série.

Comentário: Ao longo de ‘a história não contada’ Oliver Stone apresenta a sua perspetiva dos acontecimentos de uma ‘era do terror’, em que a história é (re)contada numa viagem pelo imaginário histórico dos EUA, que tem início com o 11 de Setembro. Para a compreensão da história, a viagem começa com o ex-presidente americano Franklin Roosevelt a afirmar com clarividência, no início da segunda Guerra Mundial, que a guerra custa dinheiro e implica o corte de tudo o que não seja indispensável. Com Bush foi diferente: cortou impostos aos mais ricos e aconselhou os americanos a voarem e a desfrutarem dos grandes destinos turísticos do país. Em ‘a era do terror’ Stone faz o retrato dos tempos em que as palavras assumem novos sentidos. Termos como “eixo do mal”, “guerra ao terror”, “mudança de regime”, “afogamento simulado”, “guerra preventiva” concretizam os presságios de George Orwell, no seu romance “1984”. Civis mortos agora são apenas “danos colaterais” e o conceito mais patriótico de “segurança nacional” deu lugar a uma imensa agência federal, tão labiríntica como o Pentágono. Esta é a história de uma guerra para redefinir o mundo, em moldes neoconservadores, onde prolifera a ideia de império. As promessas de Obama, a que os seus adversários chamam de ‘socialistas’, não passaram disso mesmo e foi Wall Street a ganhar novamente. A popularidade de Obama, o presidente que recebeu nesse mesmo mês o prémio Nobel da Paz, entrou em declínio.

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Oliver Stone carateriza então uma nação que continua ano após ano, presidente após presidente, a gastar mais com a defesa militar do país, do que com programas sociais, tudo em nome da tão aclamada liberdade e justiça. Ao longo do tempo, quem sofreu foram os trabalhadores, pensionistas, idosos com poupanças, donos de imóveis, pequenos empresários, estudantes com empréstimos e sobretudo os afroamericanos que perderam os seus empregos. Pelo caminho o encanto pelo sonho americano perdeu-se. O mito da ascensão social destruiu-se. A revolta popular deu origem ao “Occupy Wall Street”, acabando por surgir outros movimentos Occupy em todo o mundo. De uma coisa temos a certeza, a ideia de que a vida e a história querem-se sempre de mãos dadas, para que lutemos pela qualidade de uma e prossigamos o estudo de outra, sendo que a história da humanidade não é apenas de sangue e morte, mas também de honra e realização. Com a era do terror, aprendemos que existe um caminho, alternativo, se nos lembrarmos do passado. Cláudia Campos

(13) Porto, 2014


sábado, 26 abril 15:00 sala Salgueiro Maia

TARRAFAL – MEMÓRIAS DO CAMPO DA MORTE LENTA de Diana Andringa Produção e Realização: Diana Andringa; Imagem: João Ribeiro; Som: Armando Carvalho; Montagem: Cláudia Silvestre; Voz Off: Jorge Sequerra; Misturas: João Ganho; Ano: 2011; Duração: 90’ Sinopse: Diana Andringa entrevista vários dos presos que passaram por esta prisão em Cabo Verde. Entre 1936 e 1954, recebeu antifascistas portugueses; entre 1962 e 1974, sob o signo das lutas anticoloniais, são ali presos os militantes de movimentos de libertação africanos. Em torno das recordações dos presos, o documentário conta a história desta colónia penal criada para castigar e eliminar vários daqueles que se opuseram à ditadura e ao colonialismo.

Comentário: Em 2010, Diana Andringa aproveitou o Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal, realizado em Cabo Verde, para entrevistar vários dos presos que passaram por essa prisão. Entre eles, Edmundo Pedro, que ali esteve durante a “primeira vida” do campo, quando entre 1936 e 1954 albergou antifascistas portugueses; e presos dos movimentos de libertação africanos, aí colocados entre 1962 e 1974 na sequência do início das lutas de libertação. Tomando como eixo as recordações dos presos, o documentário conta a história desta colónia penal feita para castigar e eliminar vários daqueles que se decidiram opor à ditadura do Estado Novo e ao colonialismo português. A dureza do clima, o isolamento da ilha e os castigos constantes transformavam o Tarrafal num lugar de suplício, um “campo da morte lenta”. O filme mostra-nos, porém, como no reverso disso se desencadeavam subtis estratégias de resistência, formas criativas de contornar o medo, pequenas solidariedades que ajudavam a manter o ânimo. Porque, como diz Jaime Schofield a dado passo: “o mais importante não é tentarem matar-nos; o mais importante é a recusa da morte lenta. No Tarrafal reinventamos a vida, sempre”. Num momento em que se completam 40 anos sobre o 25 de Abril, é importante recordar uma faceta particularmente violenta da repressão fascista, frisar o lugar da luta anticolonial no combate à ditadura e pensar, a partir destes testemunhos, o que nos pode esse passado dizer sobre o nosso presente. Miguel Cardina

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sábado, 26 abril 16:00 sala Zeca Afonso

ÁSIA, O DESPERTAR OPERÁRIO de Michaël Sztanke Estreia nacional Título original: Asie, le réveil ouvrier; Realização: Michaël Sztanke; Investigação: Séverine Bardon, Li Jie, Jade Lei, Ung Chansophea, Amlan Dewan; Produção: Feurat Alani, Séverine Bardon; Imagem: Gaël Caron, Vincent Reynaud; Montagem: Olivier Marzin; Pós-Produção: Waymel; Mistura: Paul Evrard; Ano: 2013; Duração: 52’ Sinopse: Os recentes conflitos e suicídios na Foxconn – um dos maiores empregadores do mundo – enviaram um sinal forte: a China está à beira de um colapso social. A sua classe trabalhadora quer beneficiar do milagre económico que construíram com as suas próprias mãos. As empresas chinesas podem aumentar salários, e correr o risco de perderem as vantagens do baixo custo de trabalho, ou deslocalizarem a produção para países com mão obra mais barata e flexível. De facto, a nova tendência da globalização é a deslocalização da produção chinesa para outros países asiáticos. Mas, com as fábricas vem também a gestão chinesa e os seus métodos de trabalho, que países como o Camboja e o Bangladesh já experimentaram. «Ásia, o despertar operário» é uma investigação emocionante de uma nova realidade que poderá virar a economia mundial do avesso.

Comentário: A vida nas “fábricas do mundo” de hoje: Michäel Sztanke dá-nos uma imagem da vida e da luta da jovem geração operária da China, do Camboja e do Bangladesh. Em menos de 20 anos, a China e a Índia duplicaram o seu produto per capita, algo que na industrialização demorou aos EUA 50 anos e à Grã-Bretanha 150, e com uma diferença: abrangeu cem vezes mais pessoas que a Revolução Industrial 1. Esse crescimento permitiu que, só na China, entre 1990 e 2008, 510 milhões de pessoas tenham conseguido sair da situação de pobreza extrema. 1

Relatório do Desenvolvimento Humano 2013, disponível na net em http://hdr.undp.org/

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Este crescimento tornou os grandes países da Ásia nas “fábricas do mundo” e provocou a maior mudança social dos nossos tempos: a proletarização massiva deste continente. Esta mudança impulsionada pela globalização capitalista assentou, como sempre tem acontecido com as deslocalizações das fábricas, em baixos salários, numa mão de obra dócil e desorganizada e em regimes brutais de exploração. Porém, o que historicamente também tem acontecido é que a geração seguinte de operários e operárias começa a lutar, os salários inevitavelmente sobem e as transnacionais procuram novas paragens, com os mesmos objetivos. O documentário “Ásie, le réveil ouvrier” dá conta deste fenómeno na Ásia, com os casos da China, do Camboja e do Bangladesh. Exemplifica a brutal exploração, sobretudo com o caso da Foxconn, a fábrica que produz as “novidades” da Apple. E traz-nos uma ideia do despertar das lutas operárias nas “fábricas do mundo”. Conhecer este “despertar” é importante para a nossa vida e para os problemas que se enfrentam na Europa, neste mundo globalizado. Carlos Santos

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sábado, 26 abril 17:00 sala Salgueiro Maia

MUDAR DE VIDA, JOSÉ MÁRIO BRANCO, VIDA E OBRA de Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo Realização, Argumento e Produção: Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo; Pesquisa documental: Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo com agradecimento a Hugo dos Santos; Imagem: Katell Paillard, Miguel Aguiar, Miguel Alexandre, Nelson Guerreiro, Pedro Fidalgo, Ricardo Capucha, Rui Ribeiro, Salvador Palma, Tiago Sousa ; Montagem: Patrícia Leal, Nelson Guerreiro, Pedro Fidalgo; Som: Alberto Garrido, Eliseu Maia, Fred Zed, Henrique Cão, Manuel Monteiro, Pedro Falcão, Renaud Drovin, Rui Ribeiro; Montagem de som: João Gazua com um agradecimento a João Geraldes; Correcção de cor: Leandro Silva; Animações: David La Rua; Jornalistas: Joana Emídio, Patrícia Afonso; Ano: 2014; Duração: 120’ Sinopse: A rodagem começou em Abril de 2005 quando o músico-compositor foi ao Teatro Municipal da Guarda apresentar o seu último disco “Resistir é Vencer”. Durante estes anos filmaram em Portugal e em França, ensaios, concertos, gravações de discos, conversas, que serviram de ponto de partida para retratar o artista. José Mário Branco conta-nos os problemas do “Ser Português”, da emigração, da pobreza, da exclusão, da “crise”, essa mesma “crise” que ouvimos falar desde que nascemos. Aperta o cinto! Músico, compositor, poeta, actor, ativista, cronista, produtor musical, José Mário Branco é o homem dos 7 ofícios. Fala-nos da música e das suas convicções. As suas canções são um instrumento transformador da realidade. Voz de resistência e protesto, “A Cantiga é uma Arma”. É preciso MUDAR DE VIDA!

Comentário: A obra e de José Mário Branco é indissociável do seu comprometimento político, uma vida inteira de militância insubmissa. O filme mostra-nos imagens fortíssimas da vida em Paris, no exílio, onde emigrantes económicos, refratários e desertores se cruzam e constroem cumplicidades e projetos políticos e artísticos. Inesquecível é a gravação da Grândola em Paris, de que José Mário Branco foi responsável, inesquecíveis são as imagens do regresso do exílio, da Grândola cantada à chegada, no aeroporto da Portela. Sabíamos há muito que "a cantiga é uma arma", e o filme mostra-o de forma clara. Não apenas no período revolucionário. O extraordinário FMI está aí para o mostrar. Mas não só. É muito forte o comentário de José Mário Branco antes de um concerto no Coliseu de Lisboa, em que diz que sabe que o General Eanes vai estar na plateia e que lhe vai dar gozo olhar para ele quando cantar Eu vim de longe e falar do "mês de Novembro (1975) que se instalou". A ver e rever, e saborear sem reservas. Obrigada, Zé Mário ! Alda Sousa

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sábado, 26 abril 17:30 sala Zeca Afonso

5 CÂMARAS PARTIDAS de Emad Burnat e Guy Davidi Realização: Emad Burnat and Guy Davidi; Imagem: Emad Burnat; Edição: Véronique Lagoarde – Ségot, Guy Davidi; Produção: Christine Camdessus, Serge Gordey, Emad Burnat, Guy Davidi; Música: Le Trio Joubran (Composers: Samir Joubran, Wissam Joubran, Adnan Joubran); Fotografia adicional: Yisrael Puterman, Guy Davidi, Jonathan Massey, Alexandre Goetschmann, Shay Carmeli Pollak; Edição e mistura de som: Amelie Canini; Companhias produtoras: Guy DVD Films, Alegria Productions, Burnat Films Palestine; Ano: 2011; Duração: 90’ Sinopse: Em 2005, uma pequena cidade na Cisjordânia foi dividida por um muro, construído pelo governo israelita. Com o argumento oficial de proteger um povoado das redondezas, eles prepararam o terreno para a tomada de posse de 150 mil judeus israelitas. Mas o agricultor Emad, morador da região, decidiu armar-se de uma câmera e de formas pacíficas de protesto para tentar conservar as suas terras.

Comentário: 5 Broken Cameras ou 5 Câmaras Partidas é um filme documentário de 2011 realizado pelo Palestiniano Emad Burnat e o Israelita Guy Davidi. Em 2011, ganhou o prémio do público e o prémio especial do júri no Festival Internacional do Filme Documentário de Amesterdão; o prémio dos melhores realizadores internacionais, no Festival Sundance; foi premiado em 2013 com um Emmy do melhor documentário internacional; e foi nomeado para os Óscares em 2013. O documentário é filmado em Bil’in. Uma povoação da Cisjordânia, situada a cerca de 15 km a noroeste de Ramallah. Em 2005, quando nasce Gibreel, Emad compra uma câmara para registar os momentos da família. Vendo as terras agrícolas a serem expropriadas para a construção de colonatos israelitas e os respectivos dispositivos de separação, Emad acaba por registar a resistência dos habitantes de Bi’lin. O documentário estrutura-se então em torno das 5 câmaras que foram destruídas ao longo de 5 anos. Neste momento, com o DesobeDoc, em que se volta a questionar a relação da arte e da política na partilha do sensível, sendo que a arte «abre passagens possíveis para novas formas de subjectivação política» como indica Jacques Rancière no Espectador Emancipado, soubemos 1 que a projecção de 5 Câmaras Partidas numa sala de aulas do Art Institute of Chicago and Columbia College, uma escola privada de artes e multimédia onde o professor Iymem Chehade lecciona, levou uma aluna a queixar-se da projecção. alegando que a exibição fora tendenciosa, colocando em cima da mesa a questão da liberdade académica, sacudindo os meios

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universitários nos Estados Unidos de América, assim como a diferença entre percepções da realidade. É um facto que a facilidade dos registos fotográficos e as novas tecnologias fazem parte do arsenal resistente do povo palestiniano. Este arsenal constitui-se como um dispositivo cívico local que resiste aos dispositivos institucionais, aos media dominantes, aos chavões que nos inculcam numa lógica dogmática e maniqueísta, e que se concretiza na urgência de documentar a violência exercida quotidianamente sobre o povo palestiniano. Um povo definitivamente condenado a «se juntar ao documentário» como disse Jean-Luc Godard no seu filme Notre Musique datado de 2004 e filmado seguindo a poética da Divina Comédia, tendo como pano de fundo as ruínas de Sarajevo e as múltiplas línguas que se cruzam, entre as quais: o francês, o castelhano, o hebraico e o árabe pela voz do poeta palestiniano Mahmud Darwish. Por detrás do olho protector da câmara, como diz Emad Burnat, dá-se o derrube das oliveiras, expõem-se os corpos frágeis, revela-se a violência na desigualdade dos meios, mostra-se a criatividade nas acções de resistência, vê-se a solidariedade, a ternura e a morte também! 1

num artigo datado de 24 de Março de 2014 da autoria de Philip Weiss para o blogue Mondoweiss

Ana da Palma – GAP accao.palestina@gmail.com http://grupoaccaopalestina.blogspot.pt/ https://www.facebook.com/GrupoAccaoPalestina

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domingo, 27 abril 15:00 sala Salgueiro Maia

GUERRA OU PAZ de Rui Simões Realização: Rui Simões; Direção de fotografia: Marta Pessoa; Som: Paulo Cerveira; Montagem: Márcia Costa; Produtores: Jacinta Barros e Rui Simões; Ano: 2011; Duração: 93’. Sinopse: A longa guerra colonial levada a cabo pelo regime fascista português dilacerou vidas e lançou para a morte milhares de pessoas. Nos dois lados do confronto, muitos escolheram seguir por caminhos diferentes. O documentário de Rui Simões conta-nos essas histórias, dos que escolheram a paz e dos que enfrentaram a guerra de libertação.

Comentário:

“A forma mais rápida de terminar uma guerra é perdê-la”. Assim escreveu George Orwell, na certeza de ser lido pelas gerações futuras, lançadas, também elas, no flagelo da guerra. Muitos dos cem mil portugueses que durante os longos treze anos de guerra colonial saíram do país partilharam, em algum momento, essa ideia. Recusar o belicismo de uma incursão autoritária e imperialista pela manutenção de um território e um modo de espoliação dos povos africanos apresentava-se como a escolha de uma vida. Partir era, pois, uma decisão total, tida como irreversível e carregada pela incógnita de um futuro além-fronteiras. O documentário de Rui Simões faz-se dessas histórias. Do casamento apressado e necessário à fuga conjunta, da escolha do caminho mais seguro, do planeamento de uma chegada a um solo sem endereço certo. A renúncia ao combate impunha-se na capacidade de fazer cumprir a decisão, de alcançar uma escapatória no tempo possível. Os dilemas de um confronto que marcou a história recente do país estão expostos, também, nos relatos daqueles que se impuseram continuar a guerra. Mas do outro lado. A construção tenaz e decisiva dos novos exércitos de libertação contou, como sabemos, com militares que, sendo oriundos das colónias, se formaram no Exército português. O alastrar dos confrontos e o esforço de politização dos movimentos de libertação resultaram na deserção de numerosos quadros, que continuaram a guerra pelo lado que reivindicava a autodeterminação dos seus povos. Os tortuosos e sofridos caminhos de resistência que levaram ao 25 de abril de 1974 fizeram-se destas ações. A guerra colonial travada além-fronteiras estabeleceu o primeiro embate continuado e de grande porte militar contra o fascismo que governou Portugal por 48 anos. Os que a travaram e os que a recusaram fizeram essa história, que é, também, nossa. Adriano Campos

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domingo, 27 abril 15:30 sala Zeca Afonso

QUEM VAI À GUERRA de Marta Pessoa Realização: Marta Pessoa; Direção de Fotografia: Inês Carvalho; Cenografia: Rui Francisco; Montagem: Rita Palma; Direção de Som: Paulo Abelho, João Eleutério e Rodolfo Correia; Maquilhagem: Eva Silva Graça; Marketing e Comunicação: Fátima Santos Filipe; Direção de Produção: Jacinta Barros; Produtor: Rui Simões; Produção: Real Ficção; Ano: 2011; Duração: 123’ Sinopse: Passados 50 anos desde o seu início, a guerra é, ainda hoje, um assunto delicado e

hermético, apoiado por um discurso exclusivamente masculino, como se a guerra só aos excombatentes pertencesse e só a eles afetasse. QUEM VAI À GUERRA é um filme de guerra de uma geração, contado por quem ficou à espera, por quem quis voluntariamente ir ao lado e por quem foi socorrer os soldados às frentes de batalha. Um discurso feminino sobre a guerra.

Comentário: Olhos longe, vidrados, mãos torcidas, elas falam a custo duma guerra entranhada. Com voz em sítio acertado pela arte de outra mulher, Marta Pessoa, que pergunta e dá a ver, agora. Memórias, sorrisos quase esgares, frases que outras completam, visões diferentes. A guerra não era o seu lugar, escolheram-na por amor, ideal de missão, desafio. Foram à guerra pensando-se ao lado dos que a faziam: madrinhas-de-guerra, dentro de casa; enfermeirasparaquedistas, caindo no conflito; de menores para casadas, da autoridade paternal para a guerra. África como mais liberdade, até compromisso. Entre escolhas e não sentir saída. As ideias, as palavras, os atos proibidos. Tempo parado, a riscar os dias para um regresso, um fim. Guerra virada do avesso, em perspetivas de cá, contemplando este lado. África está lá, personagem abafada, latejante em sons e objetos. Omitida ou mal-narrada - cabe-nos a nós procurá-la. A memória vai-se abrindo, reencontrada. Em espaço fechado, recriado para imagens e perspetivas singulares, diversas, das que na guerra parecem, ainda, fora do sítio. Espaço que recebe e revela o colonialismo pelas palavras e corpos de inesperadas narradoras, atrizes (in)voluntárias duma guerra e pelo que a guerra convoca: fotos, terra, pedras, passagens, céus, cheiros, camas, mortos, falas. Colagem de testemunhos e corpos, marcados. As histórias instalam-se, retalham o tempo, ricochetes do presente para o passado, tiram-nos o chão e prendem-nos em urdidura própria.

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Do que fica, uma imagem que assalta: no punho que se abre, esgotado o relato, a bala saída do corpo. Como um disparo, essa presença insuportável será compreensível? As velas acesas, os retratos expostos. Sobrevivemos à guerra? Pessoa filmou o que ficará, o que não podia ou não devia ser dito ou mostrado. Se a perspetiva parece sempre outra, a delas, a de Portugal colonizador, o seu trabalho não mostra esquecimento ou omissão, expõe-nos e confronta-nos a partir daí. … Dá e leva. Paula Sequeiros

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domingo, 27 abril 17:00 sala Salgueiro Maia

SETÚBAL, CIDADE VERMELHA de Daniel Edinger e Michel Lequenne Realização: Daniel Edinger, Michel Lequenne, Romain Goupil, Magda Streiff; Imagem: Jacques Bouquin; Som: Serge Deraisons; Montagen: André Gaultier; Régie: Gilles Nadeau; Captação de som: Paola Aguiar Silva; Assistente de montagem: Pierre Levy; Mistura: Xavier Vautherin; Narração: Jacques Charby; Ano: 1976; Duração: 93’ Sinopse: Outubro de 1975. Em Setúbal assiste-se aos plenários das comissões de trabalhadores, moradores, de soldados e cooperativas que defendiam o Poder Popular na cidade de Setúbal através do comité de luta de Setúbal.

Comentário: Com o dia 25 de Abril 1974 nasce, em Portugal, o dia inicial, inteiro e limpo por que muitos ansiaram, ao longo de 48 negros anos. Dentro e fora do país. E, por isso mesmo, muitos foram os que quiseram documentar um saber de povo feito, que se fez e, sobretudo, que se viveu. Desde “Os índios da meia-praia” (António da Cunha-Telles), a “O que farei eu com esta espada?” (João César Monteiro), passando por quem do estrangeiro veio para registar a revolução a fazerse, no dia-a-dia. Neste contexto de cinema militante chegam a Portugal Daniel Edinger e Michel Lequenne registando, de forma ímpar, o desenrolar de o processo revolucionário na cidade de Setúbal. Um processo que levou idosos a tomarem conta da Casa da Misericórdia porque as freiras tinham direito a compotas e a carne que deixavam apodrecer, enquanto os idosos nem direito tinham a refeições decentes. Um processo que leva a ocupações de 'courts' de ténis, transformados em creches e infantários. Um processo que concedeu casas a quem habitação condigna não tinha direito. Um processo que levou o saneamento básico às habitações. Um processo que atribuiu às mulheres um lugar central na vida laboral e familiar. Um processo que pôs os trabalhadores nos centros de decisão das empresas nas quais trabalhavam. Um processo que atribuiu terras a quem delas precisava para trabalhar e, com o fruto do seu trabalho, poder comer. Um processo que promoveu a democracia participativa e direta, em todas as suas vertentes. Um processo que juntou trabalhadores, moradores e militares. O processo onde a Utopia, cantada pelo Zeca, se cumpriu: a da cidade, sem muros nem ameias com gente igual por dentro e por fora. Quarenta anos volvidos, é o documentário da esperança, que nos cabe cumprir. Tatiana Moutinho

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domingo, 27 abril 17:30 sala Zeca Afonso

ROGER & EU de Michael Moore Realização: Michael Moore; Argumento: Michael Moore; Produção: Michael Moore; Produtor Associado: Wendey Stanzler; Direção de fotografia: Chris Beaver; John Prusak, Kevin Rafferty, Bruce Schermer; Edição de imagem: Jennifer Beman White, Wendey Stanzler; Edição de som: Jennifer Beman White; Som: Judy Irving; Assistente de dir. de fotografia: Daniel S. Noga; Montagem: Adam D. Fleischman; Música: David Hess, Ether Lee; Ano: 1989; Duração: 91’

Sinopse: Michael Moore, como um incansável e inabalável rolo compressor, tentou o que todo trabalhador sempre sonhou fazer: falar com quem manda. A cidade de Flint, no estado de Michigan, EUA, sempre girou em torno do parque industrial da General Motors, lá instalado. Por isso, a decisão da empresa de remover a fábrica de lá, em meados da década de 80, trouxe desemprego e pobreza à região. A jornada de Moore, cidadão de Flint, para encontrar o presidente da General Motors Roger Smith e convencê-lo a visitar a cidade criou um filme bem humorado, ácido e devastador. Roger & Eu satiriza a América corporativa de maneira aguda e particular. Com um ritmo ágil e alcance vasto, o cinema de Moore é uma verdadeira metralhadora.

Comentário Roger & Me (1989) de Michael Moore é um documentário controverso. Nos Estados Unidos, apesar de distinguido como o melhor do ano, nomeadamente pela National Society of Film Critic, National Board of Review e Los Angeles Film Critics Association, foi excluído das nomeações para os óscares a pretexto, entre outros motivos, de alegada falta de objectividade. Numa carta aberta encabeçada por Pamela Yates e Spike Lee, 45 cineastas insurgiram-se contra a omissão. Entre os signatários estavam Louis Malle (''Phantom India''), Haskell Wexler (''Underground''), Robert Richter (''Gods of Metal''), Mira Nair (''Salaam Bombay!'') e Chris Choy e Renee Tajima (''The Death of Vincent Chin''). O episódio, para além da notoriedade que trouxe ao cineasta, teve outras consequências. Obrigou a Academia a rever critérios, contribuiu para o regresso do documentário às salas e reabriu o debate sobre o cinema independente americano numa lógica antitética da dos media sob controle das corporações. O que é Roger & Me? Antes do mais é um filme imensamente divertido e devastadoramente iconoclasta. Parte das consequências de um despedimento coletivo levado a cabo pela General Motors em Flint, Michigan, cidade natal de Moore, para uma perseguição movida pelo cineasta ao CEO da empresa, Roger Smith, numa tentativa de o trazer de volta para lhe mostrar o

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pesadelo social causado pelo encerramento das fábricas. Claro que a perseguição é apenas um pretexto para a desconstrução do American way of life, das suas bandeiras e mitos no tempo concreto do reaganismo. Nesse percurso há uma antinomia permanente entre a apregoada bondade do sistema capitalista e o cortejo de consequências nefastas que se abate sobre os desempregados e as suas famílias. Em pano de fundo, a cortina simbólica que faz do entretenimento uma forma letal de hipnose. Moore entrevista super-estrelas como Pat Boone, o crooner que rivalizou com Elvis Presley segunda metade dos anos 50, diverte-se com Miss América e dá alfinetadas em vedetas televisão como Bob Eubanks. Encontra recorrentemente o xerife Fred Ross ocupado interminável tarefa de despejar os pobres das casas cujas rendas não puderam pagar. finalmente, arranja maneira de se introduzir numa festa de Natal presidida por Roger Smith.

na da na E,

Sarcástico, comediante de extraordinários recursos, Moore constrói uma narrativa que acolhe elementos da cultura de massas e cuja eficácia decorre da utilização de códigos facilmente reconhecidos por um público cuja posição face ao cinema se inscreve no âmbito de uma relação multimédia alargada. Em Roger and Me (1989) há, com efeito, um dispositivo cinematográfico ao qual estão associados significantes de uma paleta multiforme onde cabem as imagens de arquivo e as imagens in loco, a música pop e os jogos de vídeo, o cinema de animação e a reportagem televisiva, o registo stand-up comedy e, sim, a lógica da propaganda. Neste caso, assumidamente anti-Reagan. Dado o sucesso dos seus filmes junto do público, não admira que Michael Moore se tenha transformado numa espécie de bête noire dos republicanos. É que ele vira a América de pernas para o ar. Jorge Campos

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sábado, 27 abril 19:00 sala Salgueiro Maia

EMIGR ANTES… E DEPOIS? de António Pedro Vasconcelos Realização: António Pedro Vasconcelos; Fotografia: Manuel Costa e Silva; Montagem: José Álvaro Morais; Direção de som: Paola Porru; Produção: Centro Português de Cinema – CPC; Ano: 1976; Duração: 98'. Com a colaboração de:

Sinopse: Todos os anos, sobretudo no mês de Agosto, milhares de emigrantes voltam às suas aldeias vindos de França, da Alemanha e de outros países de imigração. Em 1975 estes emigrantes deparam-se com a festividades populares que então se celebram mas também com a agitação política do pós 25 de Abril. Antes a vinda estava limitada aos que saíram legalmente…

Comentário: transcrição da “Folha de sala” escrita por M.S. Fonseca para o Ciclo “25 de Abril – Imagens”, realizado na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema em Abril de 1984. Emigr/antes... e depois? é, por si só, capaz de provocar vivo debate, tanto a nível estético, como a título de documento político ou sociológico. Muitas vezes aqui, na Cinemateca e nas “folhas” das sessões, se tem dito que a tradicional divisão entre documentário e ficção funciona hoje mais como uma cómoda forma de sinalização do que propriamente como classificação definitiva entre géneros cinematográficos. As distâncias – se algum dia existiram, e pessoalmente estou em crer que sim porque se me afigura difícil que os nomes tenham surgido de geração espontânea, – estão hoje à beira de se esbaterem. É vulgar que a ficção se denuncie a si mesma como armadilha, pondo em funcionamento os célebres mecanismos de distanciação, como é vulgar que o documentário se entusiasme com as suas próprias possibilidades de limitar e limar o real – ou o que assim, por comodidade ou preguiça, é chamado – dando origem a núcleos indisfarçadamente fictícios. É, como já adivinharam, o caso de Emigr/antes... e depois?. E se também é por isso que prezamos o filme de António-Pedro Vasconcelos, não é sobretudo essa a razão que faz de Emigr/antes... e depois? o testemunho apaixonante que é. Quanto a esta principal razão, se

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calhar porque não é apenas uma razão, mas um tecido, afigura-se difícil de explicitar. Alinhemos algumas ideias. Há, em primeiro lugar, um muito evidente amor do ofício: na câmara à mão que percorre a ruela até vir dar ao largo da aldeia com o noticiário da 5ª. divisão em fundo; no contra-plongé que enquadra o senhor Armando de Fiães e esposa, casal “roubado” ao Tobacco Road de John Ford; no over-acting do emigrante “alemão” na taberna; na lenta viagem das mulheres com os fardos de trigo; no belo plano do rosto da rapariga no pic-nic depois do casamento; no excelente trabalho que é o da cena do jantar da família de emigrantes, já no final do filme, jantar “com todos”, desde a exactidão do som, até à presença do vento que parece tornar tudo vulnerável. Há, em segundo lugar, o sentimento da aventura: assinalado pelo registo da própria equipa de filmar; inequivocamente dito nos olhares de hostilidade dos fiéis na “arrematação” em frente à porta da igreja; fisicamente incorporado nas imagens – e ausência delas – da feira de gado. Acrescente-se aqui que, para além da hostilização política, certamente primordial, as razões de hostilidade dos emigrantes – ou as razões da sua simpatia – passam, e isso é sensível no filme, pela posição de cada um face ao olhar mecânico (da câmara), uns negando-se, outros “dandose” aos repelões, outros ainda acedendo a uma completa harmonia. Há, em terceiro lugar, uma economia assinalável da exposição (no texto sobre Adeus, Até ao Meu Regresso falei de “jornalismo” e o termo apetece-me outra vez, julgo que com toda a propriedade). Por uma vez o uso do comentário-off surge de forma equilibrada, balizando o que a imagem descreve, servindo-lhe de contraponto, ou mesmo comentando-a, conseguindo sempre fugir à unilateralidade de perspectiva, ou ao esmagamento do seu sentido. Por uma vez, também, a visão política ganha densidade, longe do esquematismo catequístico que tantas vezes temos visto nos filmes de Abril: é o retrato (ou, talvez melhor, a “radiografia”) da Beira, das coisas ancestrais que são a identidade dos seus habitantes, dos medos – e recusa – de uma civilização que se perfila ameaçadora e “estrangeira” nos costumes. M.S. Fonseca

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domingo, 27 abril 21:30 sala Salgueiro Maia

25 DE ABRIL, UMA AVENTURA NA DEMOKRACYA de Edgar Pêra Realização: Edgar Pêra; Edição: Centro de Documentação 25 de Abril; Direção do projeto: Boaventura de Sousa Santos; Fotografia: Luiz Carvalho & Kino-Man; Banda sonora original: GUÉ, Artur Cyanetto; Narração: Adelino Gomes; Pesquisa e ideografia: Manuel Rodrigues; Assistente de realização: Ana Domingues; Assistente de montagem: João Gomes; Produção: Akademya LusohGalaktika; Produção executiva: Miguel Gomes da Costa; Direção de Produção: Paula Figueirinha; Ano: 2000; Duração: 16’

Sinopse: Documentário experimental no inconfundível estilo de Edgar Pêra, mais ao jeito de “remix”, com base nos arquivos do 25 de Abril. É um filme sobre o fim do fascismo e o 25 de Abril, visto a partir das ruas e dos rostos das pessoas. Mais do que mostrar a revolução militar, revela a adesão popular ao movimento. Imagens e sons do passado (a ditadura e a libertação) misturam-se com imagens e sons do presente (manifestações de apoio à independência de Timor).

HISTÓRIAS DO FUNDO DO QUINTAL de Tiago Afonso Realização: Tiago Afonso; Vozes: Saguenail, Regina Guimarães, Amarante Abramovici; Canto: Coro da Achada; Texto/Diálogos: Regina Guimarães e Tiago Afonso; Dramaturgia: Igor Gandra; Misturas: Rui Coelho; Câmara e montagem: Tiago Afonso; Ano: 2012; Duração: 14’

Sinopse: Três vozes debatem a história de (uma) Comuna, enquanto a câmara procura provas no fundo de um quintal. Ao espectador resta decidir se escolhe ver, crer ou fazer.

SATURADO de Tiago Afonso Realização: Tiago Afonso; Música: João Alves, Fernando Rodrigues, Tren go! Sound System; Câmara e montagem: Tiago Afonso; Ano: 2009; Duração: 20’

Sinopse: Saturado é um tríptico que não deve o seu nome apenas às experiências de saturação de cor que o sustentam e, de certa forma, o distendem. Trata-se de um «objecto» saturado de referências ao 25 de Abril, não apenas um sentido documental, logo retrospectivo, (que, curiosamente privilegia a dispersão), como em todos os sentidos da perda: a proliferação dos sistemas de vigilância, os voos de aves sob mira, as palavras de Camilo Mortágua quando desabafa declarando que os portugueses pensaram que a revolução estava feita, logo «voltaram para casa». Num país que conheceu o estranho privilégio de ouvir soldados gritar, contra a hierarquia, que estariam «sempre, sempre ao lado do povo», eis-nos perante a reflexão inquieta de alguém que procura, aos saltos e às arrecuas, os caminhos de mais uma transformação radical, cujo trilho passa, também, pelas imagens.

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Comentário: O que é que liga três filmes tão diversos quanto 25 DE ABRIL – UMA AVENTURA PARA A DEMOKRACYA de Edgar Pêra, realizado em 2000 por encomenda do Centro de Documentação 25 de Abril, SATURADO, datado de 2010, da autoria de Tiago Afonso e HISTÓRIAS DO FUNDO DO QUINTAL, estreado em 2012, também assinado por Tiago Afonso? Mais do que uma difusa nostalgia da revolução – que inclui porventura uma lusa faceta de «saudades do futuro» –, os citados objectos fílmicos têm um denominador comum que torna o seu visionamento, enquanto conjunto, uma experiência propiciadora de interrogações e reflexões. A saber: todos eles se debruçam sobre a nossa relação com as imagens, sejam estas últimas nimbadas de prestígio histórico ou intensamente banais. E quanto a elos de ligação, por aqui ficamos. Com efeito, o filme de Edgar Pêra, altamente expectável para quem conhece um pouco a sua obra e correlativo sistema de produção de sentidos, assume-se, estranhamente ou não, como um filme de arquivo – veja-se a insistência sobre os planos da moviola –, estabelecendo constantes pontes entre o antes e o depois de Abril, e abraçando um part-pris de «remix» que não visa uma compreensão dos factos, antes uma comedida exposição da sua ressonância. Se, para um cidadão contemporâneo da revolução e (re)conhecedor das imagens organizadas em «collage», esses ecos podem suscitar alguma emoção (logo serem portadores de réstias de vitalidade), para quem veio ao mundo e se fez gente depois de Abril o efeito da montagem de Pêra é, a meu ver, «sobre-arquivar» aquilo que inúmeros revisionistas se têm esforçado por silenciar. Em SATURADO, as imagens de Abril («Torre Bela», «A Lei da Terra», «Bom Povo Português», «As Armas e o Povo», etc.) intervêm por motivos bem distintos. Trata-se de medir a brecha que se abriu entre um tempo de esperançosa instabilidade, de invenção da mudança ao sabor caótico dos dias e uma era de governação que se apoia na multiplicação dos dispositivos «securitários» (a maioria dos quais dedicados à defesa e conservação da propriedade privada). Donde a pertinência da curta (mas discutível) explicação de Camilo Mortágua que singelamente afirma: ao cabo de um ano e meio de revolução, os portugueses voltaram para casa porque acharam suficientes as conquistas de Abril. Tiago Afonso busca na paisagem urbana, mas também em contexto rural, os sinais saturados (saturados porque cruelmente, excessivamente, significativos) do abandono dos sonhos de Abril em favor do pesadelo do policiamento e do obscurantismo. HISTÓRIAS DO FUNDO DO QUINTAL resulta de um modus operandi radicalmente diferente. Trata-se ainda de ler imagens e sinais. Porém, desta feita o processo projectivo que caracteriza (e por vezes inquina) a leitura interpretativa de um texto visual é ponto de partida para a evocação de uma fantasmática experiência revolucionária (melhor dizendo, de um laboratório de mudança social) que só no plano da ficção existe, embora possa, remotamente, remeter para acontecimentos históricos (a Comuna de Paris, por exemplo, donde o coro final entoando uma tradução da «Semaine Sanglante», interpretado pelo Coro da Achada). Ou seja: em lugar de proceder a uma decifração da história que um certo número de objectos e construções banais encerram (segundo o pressuposto de que a banalidade não existe e de que cada lugar – lato sensu – conserva vestígios significativos do passado histórico), Tiago Afonso desvia do estado de imobilismo histórico o cenário e adereços que avista da sua

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varanda para inventar futuros do passado e passados do futuro. Ele coloca a revolução na redoma das suas imagens e, quase supersticiosamente, experimenta tratá-las como se fossem bolas de cristal. Entre SATURADO e as HISTÓRIAS... há um crescendo de urgência. Entre o filme de Edgar Pêra, em 2000, e o de Tiago Afonso, doze anos depois, há uma alteração muito significativa de postura relativamente à revolução de Abril. E não é que os fantasmas, ultrajados, podem querer sair do arquivo onde pretenderam confiná-los? Regina Guimarães

(23 a 25) Porto, 2014


Folhas de sala dos filmes que estiveram em exibição no desobedoc