O terceiro olhar

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_O terceiro Olhar_


O terceiro olhar Carlos Henrique Schroeder, Org Laboratório de autoria - Residência criativa


Copyright © 2021 by Design Editora Coordenação Editorial: Carlos Henrique Schroeder Projeto Gráfico e Editoração: Marília Bitercourt Capa: Design Editora sobre imagem de Fernando Girardi (fotografia realizada durante o Laboratório de autoria): pequena barragem, vista de cima, concreto, espelho d'água e curso de rio. Fotografias: Produção dos autores de cada texto Revisão: Marcos Leptretinf

Todos os direitos reservados. Schroeder, Carlos Henrique org. O353s

O terceiro olhar -- 1. ed. -Jaraguá do Sul, SC : Design Editora, 2021. 140 p. : il. col. – e-book ISBN 978-65-86363-12-8 I.Título

CDD 641.5

[2021] Todos os direitos reservados à DESIGN EDITORA Caixa Postal 1.310 CEP 89.251-400 Jaraguá do Sul – SC Brasil atendimento@designeditora.com.br www.designeditora.com.br


“– essas coisas que parecem não terem beleza nenhuma – é simplesmente porque não houve nunca quem lhes desse ao menos um segundo olhar”. As coisas, Mario Quintana


ÍNDICE Uma questão de olhar.......................................................... 9 Victor Gonçalves .............................................................. 12 experimentum linguae......................................................................13 Das Imagens I.....................................................................................15 Elogio à pedra.....................................................................................16 Imagem e catástrofe...........................................................................18

Vicky Bartel ...................................................................... 19 I.............................................................................................................20 II...........................................................................................................22 III..........................................................................................................24 IV..........................................................................................................25

Thaysa Petry Lisbôa .......................................................... 29 Ditado popular...................................................................................30 Choro...................................................................................................32


Desassossego.......................................................................................34 Entre parênteses (Cristina)...............................................................36

Renata Mereles Paim......................................................... 41 Só..........................................................................................................42 Violência..............................................................................................43 Cruzados.............................................................................................45 Delírio..................................................................................................46

Poullainn Neuve................................................................ 50 I.............................................................................................................51 II...........................................................................................................52 III..........................................................................................................53 IV..........................................................................................................54

Paulo Zwolinski................................................................. 57 Isso está acontecendo agora!.............................................................58 Pul/mão...............................................................................................62 O silêncio(do ferro de passar)..........................................................64 Sábado.................................................................................................67

Marisa Cesconetto............................................................. 68 Amoras................................................................................................69 Capim..................................................................................................71 2020......................................................................................................73 Despedidas..........................................................................................74

Lediane Sulczinski Zardo.................................................. 75 A única................................................................................................76 Physalis ...............................................................................................77 A queda...............................................................................................78 Nós: uma crônica...............................................................................79


Fernando Girardi .............................................................. 81

Lustro...................................................................................................82 Lotação................................................................................................86 Abraço.................................................................................................90 Desaguar e outras observações........................................................93

Diovane Rubens Riedel .................................................... 96 Esfera neblínica, luminária...............................................................97 A conversa...........................................................................................98 As estátuas de madeira....................................................................100 O círculo de pedra, a torre..............................................................101

Cristina Pretti.................................................................. 103 Ossos do ofício.................................................................................104 Sexo nas Águas.................................................................................106 Pareidolia...........................................................................................107 Tigela cheia.......................................................................................109

Camila França................................................................. 110 Um dia...............................................................................................111 Mergulho...........................................................................................112 Moira.................................................................................................113 Fio......................................................................................................115

Bruno Aurélio Silveira.................................................... 117 Sonhos interrompidos.....................................................................118 Mamãe morreu.................................................................................120 Esquecimento...................................................................................123 Leitor voeyeurista.............................................................................124

Adriana Niétzkar............................................................. 129 Efemeridade......................................................................................130 Do que está acima das águas..........................................................132


As suas mãos sobre mim.................................................................135 A batalha épica do Manso...............................................................136

Adriana Mees Loose ....................................................... 139 Amansa..............................................................................................140 Tempo................................................................................................141 A estrela.............................................................................................142 A marca humana..............................................................................143


UMA QUESTÃO DE OLHAR


A arte não reproduz o que vemos. Ela faz-nos ver. Paul Klee O presente livro é resultado da imersão de quinze artistas (de linguagens distintas) em um ambiente rural de Jaraguá do Sul/SC entre os dias 22 e 24 de janeiro de 2021. Durante esses poucos e chuvosos dias, conseguimos contemplar a natureza, trocar experiências e encarar uma oficina intensiva que usou de diversos disparadores para a produção de textos. Mas um movimento foi constante: a discussão sobre a questão do olhar artístico (como nos vemos, como vemos nosso trabalho, qual a nossa visão de mundo, o que esperamos do olhar do outro sobre nosso trabalho). O processo começou com a leitura de um trecho do livro “O suicidado da sociedade”, do Antonin Artaud, em que ele comenta sobre o famoso autorretrato de Van Gogh com chapéu de feltro: “Não conheço um só psiquiatra capaz de perscrutar um rosto de homem com uma força tão esmagadora e destrinchá-lo com infalível psicologia”. E continua: “É um olhar que penetra direto, transpassa este rosto talhado a faca como uma árvore bem podada. Mas Van Gogh captou o momento em que a pupila vai vazar no vazio, onde este olhar lançado contra nós como a bomba de um meteoro ganha a cor átona do vazio e do inerte que o preenche”. E mais: “Van Gogh tinha razão, 10


podemos viver para o infinito, nos contentar com o infinito, há bastante infinito na terra e nas esferas para saciar mil grandes gênios....” O olhar de Van Gogh era para o infinito, ou para sua consciência ou inconsciência: veredas. Mas como ver além do próprio mundo, do próprio umbigo? Aí reside a questão central de cada artista e como lida com seus processos. E entender esse jogo é o primeiro passo. De muitos. Para exercitar o olhar (ver além do ver), o uso da linguagem fotográfica foi um dos nossos principais aliados: analisamos fotografias, produzimos textos a partir delas e fizemos diversas incursões pela natureza com nossos celulares, em busca de epifanias imagéticas. “Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias”, já avisava o escritor argentino Julio Cortázar, em seu clássico “As babas do diabo”. Afinal, a fotografia “é o que nos arremessa mais para fora de nós” (ainda Cortázar). Ela também é um olhar dentro do olhar. A maioria dos sessenta textos desta publicação parte de algum elemento fotográfico, captado pelos próprios participantes, ou de alguma imagem (fotografia ou pintura) vista durante a oficina. São contos, poemas, crônicas ou gêneros híbridos que procuram ultrapassar a óbvia representação. Ou então lascas de memória (que também são imagens cicatrizadas em nossa mente) que se fundem com a realidade. A ordem dos textos é alfabética, por autor, mas ao contrário: de Z para A. Afinal, quando vemos, a lente do olho (cristalino) produz uma imagem invertida, e é o cérebro que a converte para a posição correta. Não é um bom motivo para inverter a ordem? Não? Veja bem… “As alterações de olhar alteram tudo.” William Blake.

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VICTOR GONÇALVES Nasceu em Umuarama/PR e vive atualmente em Jaraguá do Sul/ SC. Dentro da área de Literatura Comparada, é pesquisador CNPq-Brasil com vínculo pela UFSC, pesquisando a relação entre imagem e palavra (fotografia/pintura e texto) nas obras dos autores italianos Alberto Savinio e Michele Mari. É graduando em Letras – Português pela UFSC.

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experimentum linguae (…) o que houvera esquecido por sob o ouvido. Os olhos, extremo limite, se projetam para dentro – no que houve à noite, momento estampido a voz já não pronuncia e o vazio, como se o não-dito estivesse se ditando atenta contra o público, lotação da barbárie a lembrança, música intermitente, toca a duros fios – tecedora de destinos, como Ariadne. Do outro lado do mundo, o tempo perdido cobertos de areia e pó, cegueira de verão a tornar-se selvagem, pois vê o outro pela pronúncia de Beckett, a uma só rajada do bater das asas

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quem se espeta no ar que some-se à água do rio, tão agitada a ponto de implodir na forma, fricção de sentidos amorosos – como faremos para atravessar o tempo? – O experimento prático de uma patética poética é a forma do poema, acabado nas pontas. Mais que isso: o sonho, a dúvida e o fim que ele quer ter e à braçadas um rio remendasse, em sua carnadura todo o passado traumático. A vírgula e o ponto: estilemas de linguagem como se traçada com estilete, a língua caísse no tormento da experiência.

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Das Imagens I Ícone em fogo duzentas peles negras cortaria relâmpagos palavras escritas por cimitarras palavras machadadas em calígrafo oriental sobre verde ouro suor e susto tornando mais imaginário seus olhos suicidas

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Elogio à pedra Da rigidez da pedra à sua condição inflexível, dessa possível fala que é o seu silêncio, lembro sem titubear de João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra que é, no fim, uma educação dos sentidos. Sentidos mudos e múltiplos: a mão, os olhos, os ouvidos e o nariz. Se me deixo habitar pela pedra, é como se eu encontrasse aquela linguagem que, como baba, escorre pela boca, num sonho luminoso e complexamente real. Nas dobras dos sentidos sentidos, como dizia o poeta concreto, me perco prazerosamente à própria consciência, com suas paredes de pele rosada e fundo falso. Dentro dela, como se andando em estrada pedregosa, descubro por desvio de atenção a emoção. O choro inconsútil, o incontrolável da pele: no espelho encaro nas lágrimas as marcas do nascimento, da primeira vez que chorei e, de onde, desde então não deixei de chorar. Do outro lado da fechadura espio o passado: o crescimento, aquele momento clínico em que o cordão é cortado, em que a pele estica-se do corpo, em que o primeiro ursinho nos é arrancado das mãos. O momento da reiterada tosse rouca que, com seus efeitos de uma vida, vai diminuindo o tom, nos 16


levando à afasia. Resistente era a voz de Borges. Mas não foi também Borges quem nos aliviou da cegueira gradual, nos dizendo que o processo é um lento entardecer de verão? Aos poucos também se dá a recuperação da visão, mesmo quando parecemos ser atingidos por uma névoa de areia como um personagem de Camus. Ou quando, simplesmente, o cotidiano esgotou nossas formas de olhar. Então, é preciso que inclinemos o rosto, com a mão esfreguemos os olhos, e, só aí, observemos que a ponta aguda da pedra é o que de menos real há nela. O que o tempo e o espaço fizeram com a parte despedaçada da pedra? Como se forma uma forma assim pontiaguda a partir da contingência? Como viver dentro da pedra habitada?

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Imagem e catástrofe A jovem garota olha de costas a objetiva; o cão encara incisivamente o olhar técnico; este, por sua vez, enquadra um movimento perpétuo. A imagem é tripla: quanto mais se busca pela verdadeira perspectiva, mais ela escapa. Ainda que se soubessem observados, nada poderia evitar: a irrealidade do cão, o desaparecimento da moça e o afogamento da areia.

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VICKY BARTEL Jaraguaense, publicitária pela Universidad de Belgrano. Idealizadora do espaço Extranoica, pesquisa linguagens dentro da fotografia e moda.

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As chances são maiores. Na esperança de escapar de mim mato, montanha, lugar remoto. #sqn Eu apareço em você, gritando: “Vai! Atravessa a porra dessa ponte! Tu não tá sozinho! Tamo junto!” E é real, as chances de nos fundirmos a cada passo aumenta. Você não gosta e eu, para existir, dependo de você. Suas emoções comigo são mais intensas, confessa aí! Parece mais vivo. Então você se altera. Sem ar, coração dispara, chão some. “Atravessa a ponte logo!”, pausa dramática, “Sente? Tô te abraçando.” Uma estradinha, seu chalé, seu quarto/nosso quarto. “É só isso! Vai, corre! Não consegue?”

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Uma fuga de você-mim, te controla, me controla. Eu em você, o desequilíbrio perfeito. me deixa “Atravessa, vai” Logo você-eu chegaremos no quarto. Vamos juntos. “Respira, porra! Respira fundo, caralho!” Olha as plantas, os morros, os pássaros, os namastês. “Vai pessoa! Como pode ser tão inútil! Esqueceu como é respirar?” Que d e l í c i a , você me ressuscitou fazendo tudo errado, parabéns pra gente. Quanto tempo levamos juntos? Dois minutos e nove segundos? E você já é NÓS Sabemos que você corre sem sair do lugar, grita sem abrir a boca, respira mas asfixia. Ninguém me vê, mas você me sente. Sua roupa folgada aperta, enlouque em pensamentos nus, sou eu dentro de você. Então é sobre isso? Apareço e você enlouquece? Tá quase corre mais um pouco tropeça nas escadas vai! 0,5 mg sublingual e me mata

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A vida é a morte da palavra “escolha”. De repente, como girino que vira sapo, você vira gente. Alguns nem gente e não é de ABORTO que falo é sobre “DES-HUMANO”. Mas ok, considerando que você virou GENTE. E aí? Não foi você. Nunca é você ali. Escolheram você. Então já começa errado. Não consigo defender que sejamos sujeitos de SORTE. Antes mesmo de sermos GENTE somos AZAR. Sorte é poder “escolher”. E nessa conversa minha comigo e com todos os meus “eus”, recorro ao dicionário e forço um otimismo. EL AZAR: causa desconocida de un hecho o de un suceso imprevisto, una casualidad, ventura. Finalizo aí pra não complicar. 22


Aceitando o imprevisto, estou mas não escolhi estar. Casualmente sigo estando, talvez escolhendo mas por ventura evitando um fim.

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rosa chiclete, musiquinha grudenta maldito poperô permeando pensamentos silencioso por fora, agudo por dentro e na calada da noite, e s t r i d e n t e queria ser bruxa, porém ansiedade apenas um talento: ranger dos dentes

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O que realmente aconteceu eu nunca soube, apenas imagino. Naquele sábado pela manhã quando cheguei no prédio, lá estava ela. Sentada na escadaria, parecia vulnerável, era minha vizinha. Eu sempre — s e m p r e — a evitava. Ela me absorvia e eu não dominava a linha tênue que divide o papel de empática do papel de trouxa. Naquele dia fui as duas coisas. Ela parecia esperar um pouco de sorte e seu desespero me abraçou. Contava que estava varada, com medo, que tudo estava quebrado, “eles” haviam quebrado e não conseguia voltar para casa. Eu, acreditando ser empatia, comentei que estava cansada mas que ela poderia ficar comigo uns minutinhos até se acalmar. Elevador, agradecimentos e uma baba branca gosmenta no canto da boca seca. Estava descalça e ainda vestia uma mini preta com um tomara que caia, ou era um vestido, tipo tubinho... Não lembro. Naquele momento nos pareciamos, ambas havíamos saído na noite anterior e ainda não havíamos dormido. Nono andar, abro a porta, entramos.

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Ela parecia um felino selvagem preso numa jaula. Éramos nós duas e um caminhar inquieto que fazia a kitnet parecer ainda menor. Alteradíssima e pendular, repetia que “eles” iriam levar seu filho, que ela iria perdê-lo e que isso não poderia acontecer. Drama. Eu, tentando me situar, me despedindo da felicidade de quem volta cansada de um sextar com amigos e um boy novo (bem novinho), fico sem palavras que pudessem suavizar o terror da mãe ameaçada e apenas consigo oferecer água-poltrona-silêncio. Ela não senta, obcecada pela sacada, pega o copo e sai. Conheço esse flerte, a sedução que é querer preencher o vazio que existe entre o térreo e o parapeito da sacada. Sem assustar, peço a ela que entre. Ela não parava. Ela falava-repetia. Fecho a porta, ela me preocupa. Fecho a porta e a persiana. Ela me julga: “o que cê colocou na minha água?”, “Nada”. Ela desconfia, insiste, eu também começava a ser uma ameaça. Tento convencê-la que sou amiga e sugiro que pegue outra água, a da torneira. Ela pega. Ela diz “você envenenou a caixa d’água”. Acho graça, mas em seguida lembro a felicidade que senti quando o táxi me deixou na porta do prédio, minha-cama-minha-vida, e estou aqui convencendo minha vizinha que não quero lhe envenenar: começo a achar perturbador. Poderia fazer uso da força e expulsá-la da minha casa, mas se ela fosse mais forte que eu? Ela continuava falando sem parar e agora me incluía como uma inimiga dentro do seu drama. Ela se aproxima da janela, grita aos transeuntes sonolentos de um sábado pela manhã, que nada percebem. Ela dá sentido ao nome ridículo do corte da sua blusa e faz do tomara que caia um fato: peitos postiços, siliconados, redondíssimos e pergunta se agora estão felizes (ninguém vê, só eu), pede aplausos. Mais uma janela que fecho e ela sai para o banheiro, mas antes mesmo de chegar e ainda em pé, puxa o cordão do OB em frente a TV sem considerar o meu olhar e percebe o lacinho da sua calcinha, que antes não estava e que agora 26


apareceu. Grita “estão me manuseando, colocaram este laço aqui. Estão colocando coisas no meu corpo”. Cada frase um novo ataque: “você colocou coisas no chão pra machucar meus pés”. Eu só queria ajudar e me fudi. Meu amigo na foto, era ela. Minhas roupas, eram dela. Meu armário cheio de cocaína, quem dera, era pra fuder com ela. Eu havia armado uma cilada para culpá-la, pra chamar a polícia e incriminá-la. A loucura e a minha cama haviam ido longe demais. Me chama de loira e diz que me odeia. Não aguento, ligo para o porteiro e peço ajuda. Era crente e a pouca roupa dela o impedia de fazer algo, mas não de permanecer no corredor olhando tudo. Ela grita “só saio se chamarem a polícia”. Ligo para um amigo. Me atende, não entende, resumo. Ele não pode ajudar... Havia levado uma mina pra casa e eu cúmplice do tempo que levava sem transar aceitei o desafio de resolver sem porteiro e sem amigo. Cansada, penso “vou ligar pro SAMU”. Atendem, explico como interpretei os fatos. Consigo falar dela, inclusive que achava que estava super drogada, ela não prestava atenção em nada. Alerto o atendente para o barulho de fundo “isso que você tá ouvindo é ela, sozinha”. Ela era uma multidão eufórica. Sem entender como ela foi parar na minha casa e como eu não tinha nada a ver com aquilo, me diz que em breve uma ambulância chegaria. Campainha, desço. Ambulância, médica, enfermeiro, viatura de polícia, dois policiais e um porteiro crente inútil. Explico aos policiais que ela não é uma ameaça física e que a presença deles pode piorar a situação provocando que a saída dela fosse ainda menos voluntária. 27


Elevador, médica, enfermeiro, eu. Silêncio. Cansada, não sei o que dizer. Elevador, sexto andar, as vozes dela. Elevador, nono andar, abre a porta e ela os vê. Caminha para trás na intenção de seguir essa invasão de domicílio, descanso de sábado. Ela me odeia mas não quer sair. “Se sou uma ameaça, por que não vaza?” Ela não quer sair, não quer ser presa, não quer perder o filho, a droga não é dela. E eu queria que alguma droga tivesse sobrado para poder brincar que fosse dela. ... Só queria dormir, amiga, só queria que te levassem daqui e eu não sei mais o que fazer... essa mina zoou forte e tá aqui, noiando, fudendo a minha vida. ... Entrei na dela, olhei pra médica-enfermeiro, piscadinha, digo “eles vão cuidar de você, são amigos, você vai ficar bem, eles vão te drogar”. Assim, forte e claro. Pausa, ela caminhou em direção a porta, entrou no elevador, pediu para acompanhá-la, menti que sim, que iria com ela. Entrei no elevador, descemos todos, ela entrou na ambulância sozinha e sem ajuda, feliz, gritando na cara dos policiais “Cheirei toda coca desta cidade” filha da puta, nem me convidou.

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THAYSA PETRY LISBÔA Artista e Professora de Teatro. Tem zero livros publicados e dois cachorros. Nasceu em Jaraguá do Sul, onde mora com o amor de sua vida.

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Ditado popular Dia de feira. Que delícia! Cheiro de orgânico no ar. Infelizmente Srta. B não pôde chegar mais cedo. Sempre escutou que Deus ajuda quem cedo à feira madruga. Entre caixotes e expositores, Srta. B procura por sua companheira favorita de verão: Melancia! Escuta ao fundo uma certa Srta. A perguntando pelo paradeiro da mesma fruta. Srta. B fica atenta a qualquer sinal de sua gostosura predileta. Tristeza de verão! Deveria se atentar mais ao ditado popular. Não deveria tardar, pelo menos não em dia de feira. Danem-se os orgânicos, estava decidida a não levar mais nada. Srta. B busca a saída, mas a voz inconfundível do Sr. C, o mais alegre dos feirantes, anuncia: ei, Srta! Encontrei uma última melancia. O problema é que Sr. C, o generoso feirante, especificou a fruta, mas não a letra da tal Srta. Sendo assim, Srta. B e Srta. A disparam sedentas em direção a fruta que repousa pesada nas mãos de Sr. C. Deus às vezes ajuda aqueles que nem sempre cedo à feira madrugam. As Srtas. continuam disparadas. Se alguma delas estivesse de tênis, patins ou roller, com certeza estaria em vantagem sobre sua oponente. O caminho até a fruta parece interminável. Sr. 30


C, só de sacanagem, lança: quem encostar com as duas mãos primeiro leva, hein! As duas se olham, bufam, aumentam a passada e... E não é que a Srta. B e Srta. A tocam no mesmo instante na tão cobiçada melancia?! Olham-se indignadas, perplexas, enraivecidas. Aos berros, cada qual com sua sensação de vitória, esbraveja: é minha! Eu toquei primeiro! Desencoste da minha melancia! Eu já disse que é minha! Sr. C, agora pálido feirante, sugere uma disputa madura de par ou ímpar. Mas nada. Nada seria capaz de convencer as ditas Srtas. a afrouxarem suas mãos. Chutavam-se, cuspiam-se, berravam. Sr. C, o até então pálido feirante, sugere dividir a melancia em duas partes igualmente suculentas. Negam. Trocam joelhadas, chutes e pontapés. Sr. C, o apavorado feirante, ameaça chamar a polícia. Nada. Nadinha. A situação entre A e B tira C, D, E e toda Feira do sério. Todos aparentemente horrorizados com tantas ofensas e palavrões. Sr. C, o decidido feirante, tenta separar as duas, mas fracassa. Ainda decidido, Sr. C. agarra os caixotes e espalha todos ao redor das Srtas. B e A, que continuam, aos golpes, com a melancia nas mãos. Sr. C, o empreendedor feirante, distribui bananas a todos os clientes espectadores, que instantaneamente sentam nos caixotes e devoram brutalmente suas frutas. No ringue, Srta. B e A não demonstram cansaço algum. A plateia, não mais horrorizada, comemora cada golpe, bate palmas, faz torcida, cria fã clube. Sr. C, ex-feirante, organiza as apostas, contrata seguranças, treinadores, posiciona o telão, faz transmissão ao vivo. Todos vibram na luta sem fim pela última melancia. Sr. C, o mais bem sucedido de todos os homens, sempre acreditou: Deus, de fato, ajuda quem cedo à feira madruga.

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Choro Se havia uma coisa que aborrecia dona Mafalda era choro. Não importava a idade, nem mesmo a criatura que estivesse chorando. Ela simplesmente detestava. O choro, dizia ela, nunca é apenas um choro... Ele sempre está carregado de algo a mais. Dona Mafalda afirmava com semblante muito perspicaz que se o choro pudesse escolher um objeto com certeza escolheria uma mala e uma mala bem grande. Assim, caberia tudo aquilo que o choro quisesse. Até mesmo aquilo que o choro não soubesse caber. Para dona Mafalda tudo bem o choro existir e carregar inúmeras coisas consigo. Mas, o choro fazer barulho já era demais. Talvez porque dona Mafalda tinha ouvidos sensíveis e absolutos. Ouvidos muito atentos, ouvidos de maestrina. Dona Mafalda sabia exatamente o choro de cada criatura da face da terra. Conseguia identificar exatamente em que momento o emissor desafinava, enfatizava, esmorecia ou falseava. Ela era atenta! Atentíssima!! Dona Mafalda gostava da cor do choro. Adorava a transparência das coisas. Adorava tudo aquilo que podia nitidamente ver, alcançar, compreender e profundamente sentir. Mas, o barulho do 32


choro definitivamente não. Era impossível para ela. Uns achavam dona Mafalda insensível, outros uma aberração. Dona Mafalda, vizinha de dona Mafalda, achava a mulher desprezível, uma afronta ao seu nome. Dona Mafalda, outra vizinha de dona Mafalda, já tinha até tentado trocar de nome, pois muitos a confundiam com a dona Mafalda, que detestava o som de choro de qualquer criatura que fosse. Certa manhã, dona Mafalda não acordou. Estava morta. Ouvidos roxos. Face fantasmagórica. Silêncio ensurdecedor. Em seu velório não havia ninguém, nenhuma criatura que fosse. Dona Mafalda, vizinha da dona Mafalda, que era vizinha de frente da dona Mafalda defunta, ficou compadecida com a situação: onde já se viu velório vazio! Velório sem uma lágrima sequer! E num ímpeto, dona Mafalda, em sua homenagem póstuma, encheu os pulmões de ar, abriu bem a boca, e posicionou-se próxima aos ouvidos de dona Mafalda defunta e pôs-se a gargalhar.

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Desassossego Em uma sala de aula muita coisa acontece... Fora dela também! Diferentes personalidades, inúmeras características, fobias, preconceitos, desejos e prazeres. Entre Pedros e Lauras se vê de tudo. Alguns deles são rotulados precocemente, outros com a pouca idade já colecionam receitas, atestados, diagnósticos, um verdadeiro combo clínico, que enquadra cada qual em um quadrado, nem que seja na marra. Assim é a vida de Augusto. Um combo de criança. O menino é rápido, acelerado, incansável, desassossegado, não para um minuto sequer, nem meio minuto sentado. E por esse seu jeito, às vezes até desengonçado, passa recreios solitários. Durante a primavera, Augusto, Pedros e Lauras foram com a turma da escola a um passeio no campo. E mais uma vez Augusto de tudo foi privado. Afinal, para variar, não parava um minuto sossegado. Não aguentou aquele marasmo de privação e pediu piedosamente à sua professora para ir ao banheiro. E lá foi ele, porém para sua infelicidade, foi acompanhado. O banheiro era só uma desculpa para dar uma escapada, oras, bolas!!! Mas, para a sorte de Augusto no banheiro dos meninos, menina ou mulher alguma entrava. Entrou, andou até o final do corredor e lá estava ela, toda brilhante e escancarada: uma pequena janela. Não pensou duas vezes 34


e — paft — já estava caído do outro lado. Quando se levantou e viu todo aquele imenso verde, saiu correndo como um cavalo sem rédeas. Corria, corria muito, corria tudo, tudo que podia e muito mais. Ele sempre podia mais. Quanto mais corria mais o som da cachoeira se aproximava. E quanto mais se aproximava, mais desassossegado ficava. Sem nunca ter Pedros e Lauras para brincar, ficou íntimo da água e resolveu apostar uma corrida com ela. Mas, mal iniciou a contagem do 1, 2, 3 e a água já havia disparado. Augusto corria rápido, veloz, na velocidade da água. A corrida estava acirrada, cabeça a cabeça. Se fosse um jogo de aposta todos apostariam no menino desassossegado. Só que o menino era apenas um menino, nem poderia estar envolvido nesse tipo de aposta. Augusto estava certo de sua vitória, mas não contava com a esperteza da água. E quando se deu por conta, depois de tanto correr, já estava à beira de um penhasco. Gelou. A água não estava nem aí e se jogou, continuando a aposta. Augusto, ainda gelado, não poderia ficar para trás e imediatamente se atirou. Paft! Tudo gelou. Todos gelaram. Entre a normalidade de Pedros e Lauras não havia mais Augusto algum.

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Entre parênteses (Cristina) Cá estou eu escrevendo. Não me chamo Cristina. Mas Cristina é um nome importante, ela está agora, aqui ao meu lado, enquanto escrevo. Esse relato não é sobre ela, mas inconscientemente ela rouba o protagonismo da história para si. Tento cortar ela do elenco desta história, mas é impossível, mesmo ela nem sabendo que está sendo citada por aqui. Quem conhece Cristina sabe que ela não passa despercebida por lugar algum. Quem sou eu para negar a existência dela aqui? Vou apenas, por alguns segundos, ignorá-la. Foi dada a largada. Pés no tênis, tênis na lama, molhado. O passo a passo é tensionado. Penso como seria cair, escorregar provavelmente de bunda no chão, a calça jeans ficaria suja, o cóccix inflamado — só para combinar com as inúmeras picadas de maruim(n). Eu nem sei escrever ao certo o nome maruin(m). Poderia até procurar no Google, mas na Casa do Lago não há sinal de internet. A sorte é que estou em uma oficina de escrita em um laboratório de autoria e alguém mais entendido da língua portuguesa provavelmente saberá a grafia correta para maruin(m). Dou uma espiadinha, mas estão todos con36


centrados e eu não quero interromper a fruição artística de ninguém. Os maruins(ms) já interrompem o suficiente. Em hipótese alguma quero causar o dano que um maruim(n) causa. Já pensou… Pessoas precisando de repelente para conviver comigo? Só de escrever essa hipótese já sinto o desconforto da hipótese. Péssimo! Seria uma pena se precisassem de repelentes, ainda mais que a maioria dos produtos tem eficácia de proteção que vão de quatro a seis horas. O importante é que não caí, não teve bunda no chão, a calça continua limpa e o cóccix não apresenta qualquer inflamação (agora paro de ignorar Cristina, já que ela não para de falar. Talvez eu devesse perguntar a ela a grafia correta de maruim(n), sinto que é uma brecha. Mas, também seria uma brecha para ela continuar cada vez mais a falar. Vou tentar não pensar mais na grafia de maruin(m) e voltar para o que eu deveria ter continuado a escrever logo após a palavra inflamação). Saí perambulando, atenta, como quem quer encontrar um tesouro, uma preciosidade deslocada. Uma aventura solitária. Abri porteira, captei paisagens, dei um oi para o vizinho — achei muito charmoso ver outro desbravador, ainda mais vestido com um sobretudo estiloso e segurando um guarda chuva amarelo. Essa visão apenas reforçava a jornada da caça ao tesouro. Não consegui vencer mais uma porteira, estava cadeada. Fiquei olhando atenta para aquela falta de liberdade. Deve ser por isso que chamam de propriedade privada. Passei o olho mais uma vez pela porteira (a Cristina desatou a falar, não para um segundo sequer, eu realmente não sei onde está o tal álcool em gel que ela tanto diz que procura. Não que eu não goste da Cristina falando, mas é que sinto que minha cabeça já está oca de tanta informação nesses dias intensos de aprendizagens, ainda mais para quem não sabe escrever maruim(n). Se fosse pernilongo eu saberia, já estou familiarizada, tanto com o bicho, quanto sua grafia); Voltando à porteira… O limo incrustado nela era bonito demais. Será que quando nos deslocamos para a área rural passamos a considerar belo tudo aquilo que em nossas casas urbanas já teríamos encharcado com água sanitária e desinfetante com cheiro artificial de lavanda? Pensa num limo bonito. Limo de presença. Pensei em colher uma amostra, mas 37


quem sou eu para interferir no habitat dele? Retomei o caminho e como num passe de mágica o cachorro que estava do outro lado da porteira cadeada estava caminhando ao meu lado. Não era outro cachorro, nem seu irmão gêmeo, muito menos o seu duplo. Achei bem perspicaz da parte dele. Quem sou eu para querer desvendar o truque dele!? Apenas aceitei sua companhia (a Cristina finalmente descobriu o paradeiro do álcool em gel, mas tal descoberta não foi o suficiente para ela parar de falar. Acho a voz dela brilhosa, jovial, bem bonita, uma outra escala da palavra bonita. Não quero que pensem que estou comparando a voz dela com o limo da porteira, por favor). Partimos juntos, o cachorro mágico e eu. Ele acelerava o passo como quem está atrasado para algo. No caminho encontro coisas que considero deslocadas. Uma folha que ressignifica um barco, um lacre de plástico, uma casca de pinhão — ué? É época de pinhão? UAU! Depois de três dias no mato já me sinto especialista na flora, na fauna, nas estações, épocas de colheitas. Um pouco prepotente essa sensação (Cristinaaaaaaaaaa, já registrei adjetivos para a sua voz, inclusive vou modificar o bem bonita para linda, mas tá difícil de concentrar aqui. Uma pequena pausa faria bem. Será que a Cristina está bem? Fico imaginando como é a vida dela. Parece uma pessoa desconstruída, leitora voraz, solitária, carente, curiosa... Será que ela sempre falou assim? Quem geralmente escuta Cristina? O silêncio até cairia bem, mas com silêncio não haveria a companhia dela). Aperto o passo para alcançar o cachorro mágico. Nessa pressa perco a casca de pinhão, a vela do barco folha se rompe, o musgo — esqueci de falar (culpa da Cristina que me distraiu) que no meio do caminho havia um coletivo de musgo que catei também — esfarela-se. Só resta o lacre de plástico. O mais desinteressante e artificial dos tesouros encontrados. Talvez a grande preciosidade esteja no trajeto, no cuidado para não se espatifar no chão, em captar com os olhos toda beleza à minha frente (desde que escrevi sobre apertar o passo até agora a Cristina não para de falar. Ela é ótima, não gostaria que o leitor adjetivasse ela de uma forma equivocada). O cachorro mágico — vou chamá-lo de MD, Magic Dog, aperta ainda mais o passo e quando me dou por conta ao 38


meu lado três ovelhas imóveis, estáticas, olhos esbugalhados, cada uma com seu formato. À esquerda a menor, à direita a mais magra e ao centro a que provavelmente era a líder do bando. Grande, parruda, sanguinária talvez, uma majestosa bola de pelos. Fiquei paralisada, mas não de medo, afinal, entre elas e eu havia uma cerca. E se fossem ovelhas mágicas assim como MD? Não sei dizer, sei que o que me paralisou foi justamente aquilo que eu não conseguia captar. Nesse momento MD estava bem longe. Curioso que sei transformar em sigla duas palavras do inglês, mas maruin(m) que é bom, nada. Eu fiquei estática, assim como as ovelhas, só fitando os olhos que me fitavam. Entre meu olhar e os olhos que me olhavam havia um silêncio sem fim. Não sei dizer ao certo quanto tempo se passou. A única coisa que pôde interromper os olhos que me hipnotizam (além da Cristina, claro) foi o bater staccato da pata da ovelha líder. Parecia o cajado certeiro de Moisés. Poucos segundos depois a outra pata. Nessa segunda batida parecia mais o próprio ator Jeremy Irons, batendo a mão na mesa, em “Improviso de Ohio”, do autor Samuel Beckett. Peço desculpas pelo comparativo inevitável. Será que aquele ser robusto estava improvisando uma cena comigo? Supondo que sim, bati forte meu pé no chão e nada. Os olhos esbugalhados da ovelha apenas pareciam esbugalhados. Bati o outro pé no chão e nada de novo. Acho que não tinha essa de improviso, nem de Jeremy Irons animalesco. Ou quem sabe eu não estivesse à altura artística da obra. Senti-me deslocada, parei de fitar o ser, busquei por MD, que estava bem longe. Chamei para ele voltar, como se ele fosse minha propriedade privada dentro de uma outra grande propriedade privada. MD começou a vir em minha direção e eu fui ao encontro dele. Novamente ao meu lado mais olhos, mas dessa vez não eram três seres, mas sim uma dúzia de vacas. Vinte e quatro olhos me fitando. Por um momento até me senti importante, mas esse sentimento durou poucos segundos. Nossa relação é vazia. Sinto que as vacas tentam imitar a ovelha líder. Mas, na natureza, só existe um Jeremy Irons animalesco. Pelo cheiro de cachorro molhado MD estava de volta. Decidimos retornar ao ponto de partida. No caminho de volta sinto-me fraca, 39


trêmula, suada. Seria algum truque de MD? Ou seria Jeremy Irons animalesco improvisando minha cena de desmaio? De fato, esses seres são o oposto dos pets urbanos lá de casa. MD aperta ainda mais o passo — porque ele sempre está com pressa? Se ele estivesse vestindo máscara estaria a passos lentos como eu. Isso! A máscara! Tira a máscara, guria. Respira, inala, e exala, sente a brisa, a chuva, os aromas, o cheiro inconfundível de MD (quem diz isso é a voz da minha cabeça e não a voz da Cristina, já que a voz dela ainda está dizendo um monte de outras coisas). Bem melhor! Colho frutinhas, degusto, vai que é falta de açúcar na corrente sanguínea? Difícil, bem difícil. Afinal, depois de escrever, a segunda maior experiência neste laboratório foi a gastronômica. Menu completo. Quem diria que Waldorf e Lorraine são nomes de comida? Francês é chique mesmo. Très chic! (Para minha surpresa, Cristina está parada, olhar ao longe, em absoluto silêncio, buscando inspiração trágica, creio eu. Estranho escutar o silêncio dela). Enfim, após meu devaneio vejo ao longe uma casaca preta de braços compridos chamando para voltar ao início da largada. MD dispara, Jeremy’s Irons’s ficam para trás. Pés no tênis, tênis na lama, molhado. Já não cogito mais qualquer possibilidade de queda, nem procuro mais descobrir a grafia correta de maruim(n) (nem mesmo escutar a voz da Cristina). Quarenta e quatro preciosos minutos. O tempo, a jornada,a memória. Não estou mais escrevendo. Nem me chamo Cristina. Mas Cristina é um nome importante, ela está agora, aqui ao meu lado, enquanto não escrevo. Tentei cortar ela do elenco desta história, mesmo ela nem sabendo que seria citada aqui. Quem conhece Cristina sabe que ela não passa despercebida por lugar algum. Quem seria eu ao tentar calar Cristina? Quem seria eu para negar a existência dela até aqui?

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RENATA MERELES PAIM Nasceu em 24 de abril de 2002 na cidade de Jaraguá do Sul/SC. Estuda Publicidade e Propaganda e escreve majoritariamente contos do gênero suspense. A relação com a escrita existe desde muito cedo, e já no ensino fundamental praticava a poesia, em casa e na escola.

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Só Das incontáveis experiências que a vida oportuniza, o deleite de estar só, e gostar de estar, é o mais rico dos triunfos. Aos que se renovam em sua própria companhia, e realizam suas maiores obstinações a sós, e independem de observações para o êxito e, por fim, alegram-se na solitude: todas as graças. Pois entendem a singularidade de ser e somente ser.

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Violência Já não reconheço mais amigos, flores, desejos. Tudo é em vão, incapaz de sentir, reagir. Ser. Quem seria, quem fui? Só amei, mas isto já não basta. Irredutível, a dor e tampouco o amor. Sinto, ainda? Traiu-me. Perdão. Há falta no lar, há falta. Ausência, amo-te, sorri-me. Ilusão. Estilhaço-me, contra a parede, o chão, à sua mão.

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Retornam as flores. Amigos? seus amigos. O desejo, ao menos? Não, também são seus. Sinto, mas não reajo. Sou algo que nunca fui. Só espero um dia deixar de ser.

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Cruzados Estava lá o belo casal, deram as mãos e partiram para o seu lar. Não há como saber a história que os circunda, mas pode-se notar a alegria que os domina. Imagino seus entrelaços, suas memórias conjuntas e suas descobertas mútuas. Não há como saber o ponto de suas vidas em que se encontram (e talvez se separem e reencontrem), mas as marcas estão ali, e não há como as ignorar. Desse amor transparece a vida e sua beleza, os raios iluminados de sol e as conquistas dos dois. Quem sabe um dia todos possamos sentir as linhas da vida se encontrarem com alguém e criar uma história assim? Tomara.

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Delírio Eram dias perfeitos, Natalie e Augusto viviam os melhores dias de suas vidas em sua calorosa lua de mel. Uma estadia simples no campo, distante da cidade; a comida era espetacular e o som da cachoeira que circundava todo o espaço trazia uma paz única. Nos primeiros dias de núpcias desfrutaram tudo aquilo que o espaço poderia oferecer: as trilhas, banhos no rio, passeios a cavalo e o confortável chalé com lareira, no qual passavam momentos íntimos, acompanhados de um bom vinho e risadas. Após apreciarem o aconchegante espaço, decidiram sair e conhecer as redondezas. Logo que chegaram na primeira cidade vizinha, por um acaso, se encontraram com um grupo de amigos não tão próximos, mas de longa data. Decidiram aproveitar algumas horas de passeio juntos, e assim seguiram até o principal restaurante, no píer do local. “Vou buscar um vinho para nós, quer alguma coisa diferente, querida?” “Uma tônica, por favor. Tentarei ficar sóbria esta noite”. Alguns minutos passaram e Natalie, após colocar o papo em dia com 46


seus acompanhantes de mesa, percebeu a demora na volta de seu marido. O bar não era tão longe da mesa que estavam e nenhum drink elaborado foi pedido. Decide então ir atrás dele, e fala com o único bartender no balcão. “Boa noite senhor… Meu marido veio buscar nossas bebidas, mas já passaram alguns minutos e não consigo encontrá-lo. Lembra de ter visto um homem alto, barba feita e olhos verdes?” “Desculpe, senhora... Não costumo reparar muito nos clientes daqui, muita gente passou nos últimos minutos.” “Tudo bem, obrigada.” Natalie vai atrás dele por todo o salão do local, sem sucesso, e nenhuma pista. Um aperto no peito começa a se instalar, suas mãos já suam frio e os piores pensamentos invadem sua mente. Ainda seria possível que ele tivesse somente ido ao banheiro, que era o local mais afastado do píer... Ela então volta à mesa e avisa os conhecidos do que se passa. Pega suas coisas e retorna às buscas, sozinha. Chegando próxima ao sanitário, e como não poderia entrar, solicita ao segurança para verificar, mas ele não encontra ninguém no banheiro. Já passaram duas horas de busca nas redondezas, e o segurança do local só pode sugerir que ela retorne à pousada, e tente contato com ele de lá. Chegando na recepção da estadia busca informações com o atendente, que diz não ter notado a entrada do hóspede e a segurança local também não viu o mesmo, ou alguma movimentação na casa que estavam hospedados. Os celulares não têm sinal no campo, e se Augusto estiver por perto, nem mesmo atenderia as ligações ou poderia solicitar ajuda. Oito horas se passam e nenhuma notícia chega. “E se ele estiver se envolvido com outra mulher esta noite? Ao menos não teria acontecido algo pior...” Dezenas de suposições, tragédias e medo circulam os pensamentos da esposa, mas nenhuma parece ser a melhor hipótese ou resposta certa. Amanhece e não há nenhum resquício ou pista do marido. A cônjuge mal pregou os olhos, e sem esperança de que ele retorne por conta própria, aciona a polícia, que após um longo interrogatório sobre a noite anterior e toda a lua de 47


mel, inicia as buscas pela região, bem como nas proximidades turísticas que haviam visitado. Duas semanas e nada, nenhum rastro, nenhum contato e dezenas de especulações, como sequestro, tráfico, milícias e a mais cogitada: mudança radical. Afinal, não é possível que alguém suma sem mais nem menos, a não ser que queira se desfazer de uma vida e recomeçar sozinho. A estadia, já prolongada, chega ao fim e as autoridades não esperam encontrar mais nada a respeito. Natalie retorna para sua casa, a casa que seria o lar dos recém-casados, agora sozinha com uma enorme incógnita em sua vida: “O que aconteceu com meu marido?”. A família parece estar conformada, fato estranho e inacreditável. Ainda mais para a esposa desolada, que ainda espera respostas, mas não sozinha: pois contrata um detetive particular. Dias, meses e quase um ano depois, uma pista: um homem com as mesmas descrições e até tatuagens semelhantes às de Augusto é preso no consulado do Brasil em Buenos Aires, com nome falso e com porte ilegal de armas. “Seria mesmo possível? Então ele tinha tudo planejado e me deixou em plena lua de mel para seguir essa vida?” Não. O nome real do detido foi revelado três semanas depois: “Afonso da Costa” não era o esposo desaparecido, de forma alguma poderia ser. “Eu sabia, ele não faria isso”. Inexplicavelmente o detetive particular deixa de fazer contato, e a família também já não a responde mais: nada além de mensagens de apoio psicológico e pêsames são recebidos. Cinco anos: nada além de decepções, mapas traçados, mensagens falsas, pistas erradas, rostos familiares, mas nunca algo concreto, real ou significativo. Há anos a polícia encerrou o caso, e já não havia especulações sobre nenhuma possível investigação. Natalie se afunda cada vez mais ao tentar buscar o amor de sua vida em algum lugar do mundo. Após imensas dívidas, álcool e ilusões, decide voltar ao local da sua fatídica lua de mel, a fim de encerrar essa história em seu coração (ao menos foi isso que disse a seus parentes). Reservou a estadia para uma semana, o melhor quarto, e garantiu as melhores refeições para seus dias de hospedagem. 48


Ainda o espero, incansavelmente, todos os dias da minha vida o esperei. Não poderia terminar em outro lugar a não ser aqui. N. O bilhete encontrado no quarto, logo no jantar do primeiro dia de sua reserva, revelava sua verdadeira intenção ao viajar para a pousada na qual viveu os melhores momentos com seu marido. E ali terminava sua vida, sem ele. A família agora passa por mais um luto, após cinco anos do primeiro daquele casal. O Corpo de Bombeiros e a polícia foram acionados pelos donos da pousada, após o corpo da jovem (27 anos) ser encontrado já sem vida, no quarto que a mesma tinha reservado. Às autoridades, a família relatou que o local foi escolhido premeditadamente, já que foi lá que ela passou os últimos dias com seu marido, que faleceu durante a lua de mel, após um acidente de carro envolvendo o casal. A jovem apresentava distúrbios psicológicos e traumas desde o acidente, e acreditava que o marido ainda estaria vivo e desaparecido.

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POULLAINN NEUVE Pollianna Rodrigues da Costa (nome artístico de Poullainn Neuve) é formada em fotografia pela Unicape/PE e autodidata em artes visuais. Seus primeiros trabalhos foram em 1999, com papel canson e tinta acrílica, e em 2004 começou com o uso de colagens, bordados, objetos e fotografias. Já participou de inúmeras exposições coletivas, com destaque para as do Espaço Pasárgada/ PE (2004), Galeria Arte Plural/PE (2012), Sesc Jaraguá do Sul/SC (2017, 2019 e 2020) e Scar/SC (2018).

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No meu travesseiro de bordas redondas, queimava o chumbo flamejante dos vermes coloridos que saíam aos montes.

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Douradinha era uma galinha tão esperta: sempre que estava para entrar na panela, a danadinha fugia pela janela. Até ontem.

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Quem encontra no chão uma folha de coração? Quem acreditou no amor e se afastou? Quem ainda espera um conto de fadas sem parecer uma piada? Quem caminha neste mundo sem um mapa?

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O galo Eric sempre foi diferente, não agia como um galo de granja criado por gente! Ele era um artista, e também um atleta! Ensinava patinho a nadar, passarinho a voar, e até gatinho a cantar! O galo Eric também sabia divertir a bicharada com as suas miniaturas de pessoas entalhadas, que ele mesmo fazia! E seu teatro alegrava a todos, e para todos, com uma programação bem dividida: para os que moravam no lago, como os peixes, sapos, marrecos e patos, ou no próprio pasto, para as vacas, veados, ovelhas e cavalos. O galo Eric não esquecia dos que viviam em suas tocas, seja abaixo das terras ou entre pedras e rochas... E também daqueles que se agarravam em troncos e galhos! Havia sempre uma aranha ou outra, que mesmo tecendo sua teia, parava para observar as performances de Eric. Do canto da cigarra. Da formiga operária. Da serpente espantada. Do cão guia. Ninguém perdia uma sessão feita com tanta emoção, e que o galo 54


Eric encenava com tanta alegria. E na granja também acontecia: um maravilhoso espetáculo de Gala e magia! Tudo programado, tudo executado, o galo Eric era sempre pontual, podia ele ser um animal? Apesar de dar tanta alegria, em seu pequeno coração faltava-lhe uma companhia! No verão passado, antes da pandemia, era namorado de Lislis: uma galinha pequena, que adorava falar entre as penas, e ardilosa feito uma cobra, causava discórdia com suas sutis fofocas. Lislis dizia aos quatro cantos que era gentil e bondosa! Mal sabia ela, que com seus gestos controversos seria mais querida, entre o garfo e o prato! Novamente só, o galo Eric caminhava adentro na floresta, até sentir que em sua crista pousava uma leve borboleta. No reflexo da água, uma cena inesperada! Surgia dali, o nascimento de um curto porém belo amor de 60 dias. Tudo acabaria no mesmo cenário que se conheceram: a sua amada borboleta deu seu último pouso com muito esforço, chegando até o pescoço, mas não conseguiu chegar no topo! O galo Eric sentiu um suave bater de asas próximo ao seu rosto! Tudo parecia mover-se mais lentamente! Triste e cansado, o galo Eric acreditou que não era para ser amado! Mas o destino, outra peça lhe pregou! Depois de meses de confinamento, a Fazenda recebia a chegada da bela Margarida, uma potra muito querida, que era assim chamada por conta de uma marca de nascença em forma e cor de flor. 14 de setembro, começo de noite, o galo Eric, quase adormecendo, percebeu que uma sombra se aproximava da velha cerca de madeira, a cerca que os separavam. 55


Na madeira se lia bem grande as seguintes palavras: Hemisfério Norte (do lado do galo Eric) e Hemisfério Sul (do lado da potra Margarida). O galo Eric observou na direção do único ponto mais forte de iluminação que ali havia. Aquela luz refletia ao encontro direto dos enormes olhos verdes, vívidos daquela bela potra, Margarida! Hipnotizado por aquele brilho, que sem reação, deixava-o atravessar toda a sua alma, sentia-se em um mar revolto, mergulhado em excitações, que mal conseguia controlar, agora seu corpo tremia, arrepiava, ele mal podia caminhar! Que acontecimento não programado o havia derrubado! Do outro lado da porteira, o chamado Hemisfério Sul, a potra Margarida o olhava com muita ternura e encantamento ao mesmo tempo. Ele a preenchia de sentimentos que ela desconhecia. A partir daquele dia, os dois se comunicaram através de rápidas trocas de olhares, todos os dias! Amor de Hemisfério norte ao Hemisfério sul!

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PAULO ZWOLINSKI Paulo Zwolinski é ator, dramaturgo e produtor cultural.

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Isso está acontecendo agora! ... Eu Estou bem Passo bem, obrigado por perguntar Animais nas ruas, sem máscaras Sem o teatro sem o cinema sem o manifesto da arte em sua maior potência, aqui, nessa cidade Nesse estado que estamos nos encontramos É um zunido sem fim e já se vão semanas meses vidas dias E o quê nos aguarda Um planeta grávido, que respira bem. Exaustos Respiramos E os artistas? 58


bate palma pessoal, bate palma pessoal que talento! o preço que pagamos aqui num apartamento neste bairro é pra ter gente talentosa na vizinhança, mas esse não é artista artista, esse é trabalhador profissional de carteira assinada, que trabalha dia de semana e toca guitarra pra nós da varanda agora, porque ser artista não dá é complicado demais é dinheiro de menos, eu mesmo sei, queria ter levado mais a sério as aulas de violão quando era jovem, agora eu escuto o vizinho tocar lulu santos enquanto eu costuro máscaras, e ele canta muito bem, eu tô fazendo essas máscaras pra ajudar as pessoas aqui da cidade, costuro e vem uma van pegar aqui toda semana, mas eu sempre pergunto se as máscaras serão usadas por pessoas aqui da cidade mesmo, porque, não por nada não me entenda mal, mas eu não to aqui costurando máscara pra esse pessoal que chegou da Venezuela ou os haitianos que tem na rua ficar usando, com tanta gente local, que nasceu aqui, precisando. Eles que voltem pro país deles, senão tudo aqui vira festa e não dá pra ficar ajudando todo mundo né. um amigo meu, meu amigo, ele me contou esses dias ele caminhava pelo centro da cidade ele não é louco! mas ele disse que enquanto caminhava, me viu pela rua, enquanto eu estava em casa era impossível porque eu realmente estava em casa mas a vontade de sair era tão grande que eu tava lá eu tava sendo visto lá fora mesmo estando em casa tentando me cuidar e eu estava lá os meus pés estavam descalços e isso é muito doido — ele disse — eu estava descalço na rua andando e observando paisagens pessoas eu descalço e isso que estamos no inverno aqui e faz frio danado a gente precisa se falar mais, eu falei, precisamos dar risada ele me disse que de triste já bastava o teatro, o pensamento crítico e o cinema. Sim, vamos dar risada! 59


a gente precisa ajudar esses artistas que estão surgindo agora, não esses artistas que fazem as coisas que só eles entendem, que só eles se ajudam, fazem com que a gente tenha vergonha de perguntar, pois não entendemos, faz com que a gente, o povo, se sinta um burro, inculto, desinformado, ignorante, incompetente, o que eu digo é que a temos que ajudar esses artistas da gente, esses que tão cantando as músicas que a gente sabe cantar mas eu estou bem sim, estou bem, respirando pesado mas respirando bem eu te reconheço na rua, eu te olho você me olha e eu te pergunto quem seremos no final do ano eu te pergunto quantos seremos até o final do ano eu te pergunto o que vai existir até o final do ano e você começa a chorar o que vamos criar quem vamos provocar então eu volto pra casa eu estou queimando em concreto cinza eu não caio eu não calo eu não durmo aqui uma espera um dia e noite normal uma semana um mês um vermelho que já está pálido com tudo isso e uma chuva que não chega, uma estiagem antes era um ciclone, é um brasil que nem brasileiro entende, um governo que nem brasileiro gosta, um clima, uns preços altos malucos que ninguém consegue pagar, uma apatia que ninguém nem os próprios artistas entendem, mas sim precisamos reagir sim artistas precisamos reagir, antes de toda essa bosta eu me recordo de estar cantando, eu tava fodido mas mesmo assim cantava. até acho que eu era feliz mas lembro que tava tudo tão seco

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--------- isso está acontecendo agora --------------------------------

----seremos responsabilizados pelo que está acontecendo agora ---

---------------------- que fotografia deixaremos para quem vem --olha o absurdo hoje eu chamei um casal de amigos pra jantar aqui, são bem próximos, estão se cuidando, usam máscara no trabalho, pra ver o vizinho que toca toda sexta, o folgado hoje nem apareceu, e eu com as visitas em casa, falei um monte, fiz propaganda do trabalho dele e ele não aparece. essas pessoas não podem ganhar um pouco de fama que já se acham importantes, mas tudo bem, depois dessa eu é que não vou mais ajudar ele, fiz propaganda do trabalho dele, dei chance, mas não vou mais bater palma, vou fechar minha varanda quando ele for tocar ou até vou colocar uma música bem alta pra ele saber a merda que fez, sujeitinho folgado, deve ser esses vermelho que gosta de aborto. aqui tá um céu nublado e nada de chuva, um frio desgraçado e nada de chuva.

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Pul/mão eu suava ele suava e o frio lá fora era intenso o frio neste final de tarde nesta meia cidade o edredom abafava criando uma troca só nossa uma troca dos meus fluídos encontrando os dele penetrando as fibras naturais da sua camisa de marca cara fechada até o pescoço trancada por uma gravata de listras muito finas que sufocava o libertava enquanto o corpo gordo suava um perfume caro de um homem talvez afortunado e soltávamos água e vestido ele deitado de bruços o corpo gordo onde o meu corpo magro agora pousava a barriga gorda pra baixo achatada na cama colchão lençol amassado o corpo no colchão mexia como um pulmão pulsando pra baixo pra cima baixo pra cima se expande comprime se expande comprime se expande e nada de palavras no quarto só respiração sensação a comunhão dos corpos o senhor cristão que toda semana me visita ele vem no fim de tarde fim de expediente de vida o senhor gordo cheiroso arrumado bem suado amassado que por mim paga a sensação de repouso meu corpo sobre o seu sobre suas costas deitado eu ele paga o silêncio do não sexo paga pela água que juntos paga pele corpo repousado sensação ele paga pela sensação do meu corpo que agora repousa sobre o seu corpo gordo então me excito buscando perfurar o tecido penetrar a pele 62


sentir-se a vontade no outro corpo penetrar a carne rasgar ali mesmo toda a tristeza em um grito de dor que permanece calado o crachá repousado sobre o meu modesto móvel ao lado da cama o suor calor essa água quente que ali mesmo trocamos nos igualando em água virando correnteza inundamos o quarto que como nós escorre as paredes escorre um líquido igual o nosso dos corpos a parede o vidro escorrem e o quarto já está cheio os vidros calados silêncio barulho de água escuto o barulho dos meus poros dos seus do olho esquerdo o barulho da lágrima que cai que vem e vem mais e mais uma vem e encontra a fronha encharcada a lágrima cai mais uma e o pulmão intensifica ritmo soluço lágrima tremor suor dos corpos as lágrimas secam me viro para o lado ele se levanta arruma a camisa pra dentro da calça veste o paletó eu deitado vejo aquele olhar quebrado estraçalhado perdido desvirtuado desarranjado fugindo dos meus olhos que procuram algum sentido naquela figura triste e mal desenhada ele molhado com um misto de vergonha e culpa de costas apanha seu crachá pendurando no pescoço abrindo sua carteira e deixando sobre o mesmo móvel duas notas de cem reais. eu tô barato

me levanto da cama assim que escuto a porta se fechar. 63


O silêncio(do ferro de passar) crio no meu silêncio um modo próprio de sobrevivência não me mexo não falo nada nada e mesmo com minha cara ralada assim no chão espremida minha cara contra o piso da sala um ferro de passar ligado na mesa de passar roupa continua assim com os mesmos movimentos cadenciados decorados com os movimentos de sempre decorados por mim por ele as mesmas feridas conhecidas que abrem sempre um mesmo sangue corre que escorre faz oito minutos então faltam mais dez eu mordo os lábios inchados eu mordo os lábios salgados para não gritar a dor para não gritar a dor o homem uma mulher eu sou sofro estou aqui pertenço em seus rituais nossa rotina de casal sentindo a costela a orelha tá quente e ele fala baixinho que eu mereço e eu sinto explosões eu sinto a violência flertando com amor sinto os golpes que beijam minha nuca a parte de cima da cabeça eu coloco minhas mãos para não perder a consciência ele tira e bate as costas tenta morder eu nem me mexo mais a língua minha passa pela ponta do dente um joelho nas costas e eu não consigo respirar eu eu eu respiro uma dor sensação vermelha um véu uma sensação vermelha e o gosto salgado espesso amargo do matrimônio com ele que em mim dedica seus melhores e treinados golpes agora e faltam 64


só mais cinco minutos e é assim que as coisas são são dezoito minutos não mais que dezoito minutos o mesmo começo meio meio fim um fim que não chega minutos que não passam resisto eu vivo eu quero viver ao lado dele aqui eu não sei o que tenho lá fora eu não saio muito eu me pego falando comigo mesma na tentativa de enganar o tempo adiantar o fim do dia a hora em que encontramos nossa paz eu não sou disso de fazer as coisas erradas mas ele ta cansado é o trabalho é o perigo é a falta de dinheiro é o governo é o benefício meu que não caiu e a gente precisa colocar as janelas na casa é a violência lá fora e ele tem lá a sua fúria ele tem lá os seus motivos fica bravo furioso violento mas depois tudo passa isso tudo vai embora me resta abrir lentamente os olhos já que nada mais eu sinto enquanto corpo quando percebo a sensação de sair do meu corpo eu estou me descolando do que sou descolando de mim mesma e um murro como um martelo no centro das costas me traz novamente ao momento presente então eu vejo essa cena tão desgastada passagem de vida gravada nessa minha memória um pano de fundo da minha vida um centro de um espetáculo só meu espetáculo que é a minha vida que se desenrola sobre a violência eu nascida pra isso eu to aqui pra isso um dia Deus olhou para mim e falou de um jeito doce no meu ouvido – você nasceu para ser uma filha da puta – e somos quem somos nós por conta dele e se ele é por nós quem será contra nós ele ta de olho em tudo que se tudo isso fosse ruim ele já teria falado mandando um aceno um sinal um trovão ou até uma chuva eu não sou digna que entreis em minha morada mas eu espero por outro golpe no corpo que estático na alma achatada aqui no chão ele diminui a frequência se aquieta vai se aquietando perdão perdão ele tá relaxando se encontrando em um copo de cerveja que por esses dezoito minutos está ali quente esperando um gole então eu me mexo lentamente o pé e sinto dedos vou levantando com um respeito que não me permite contato visual esse não é ele sou eu vagarosamente indo em direção ao banheiro a maçaneta ta vermelha melada escorrega a mão então abro a porta o box um respeito que não permite me olhar no espelho mofado do céu cai água quente incomodando a pele despedaçada eu 65


machucada cai água renova meus votos minha dor física meu amor e eu te amo o piso antes vermelho agora é água rosa escorre bebo cuspo água quente o dente já não incomoda mais a água é branca e noite um pouco fria eu tremo eu estou seca eu me sinto pronta estou me arrumando me maquiando penteando meus cabelos molhados eu escovo os dentes enxáguo bem a boca meu hálito é uma nova história e eu estou pronta eu me dirijo ao quarto ainda na sala desligo o ferro de passar roupa quase pegando fogo e ele ele estará lá me esperando para me apertar mecanicamente beijar cansado porém feliz me pedir novamente as mesmas desculpas — me perdoa me perdoa me perdoa — e sem mesmo me amar de verdade como os maridos geralmente fazem nós dormirmos juntos mais uma noite mas não não dessa vez dessa vez ele dorme relaxado na cama sereno com a coberta até os ombros se protege do frio que entra pela janelinha pequena da nossa casa ainda em construção eu apenas olho admiro e volto para a sala onde novamente ligo o ferro que ainda está quente e volto a passar cuidadosamente os vincos da sua farda para que amanhã ele possa encarar mais um dia de sua vida tão fodida quando sair por esta porta e por um momento eu penso em sair por um momento penso em deixar essa história pra trás e caminhar por não sei onde eu olho para as janelas sempre pequenas demais eu olho para a porta e a chave lá está pronta para ser girada a porta pronta para ser aberta vou ao banheiro me olho no espelho já é noite e faz frio lá fora penso em pegar um casaco pois faz muito frio aqui dentro de mim um tremor uma sensação de frio intensifica um corpo que enrijece e tomba treme no piso do banheiro na porta do banheiro tremo eu começo a tremer eu estou no chão olhando para outras portas distantes meu corpo briga treme me bato e começo esquecer onde estou tremo relâmpagos aqui dentro eu não posso fechar os olhos penso no ferro ligado ele acorda no quarto eu tremo sinto os olhos pesando pesados fechados o cheiro do ferro ligado eu já não sinto mais nada, de longe escuto ele aos berros – me perdoa me perdoa me perdoa – e é embaixo deste piso que por ele sou enterrada nesta noite fria.

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Sábado Ele escuta a sirene da ambulância na esquina na mesma hora em que gira a maçaneta da porta. O apartamento onze estava limpo, com os azulejos da cozinha todos brancos, reluzentes, jogando uma certa luz para a janela do quarto deles. A cama, como todo sábado, estava impecavelmente arrumada, sem nenhum amassado, dobrado. Era uma cama fresca. As cortinas fazem barulho com o vento que sopra e ficam cada vez mais nervosas, sensação que ele logo absorve e já está se sentindo assim, tremendo por dentro. Ele senta na cama e tem medo, pensamentos, medos. Ela havia falado sobre jogar-se no vazio, mas foi um comentário, nunca foi uma conversa. Ele tenta se mexer e não consegue. A sirene está alta e para em frente ao seu prédio. Cláudio está paralisado.

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MARISA CESCONETTO Natural de Jaraguá do Sul/SC, passou a infância no bairro afastado de Santa Luzia, onde brincava descalça e vivia com seus avós. Entre hortas e galinhas, sempre gostou de desenhar e imaginar histórias. Seu gosto pela arte a levou à Universidade para cursar Artes Visuais, mas o palco lhe conquistou e se formou em Artes Cênicas. Se tornou professora e a arte está presente em todas as suas linguagens e na sua criatividade diária.

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Amoras Domingo de tarde. A temperatura quente, mas agradável. No sítio estavam reunidos Tamara, sua mãe, sua prima, dois vizinhos e uma tia. O nono vem do pasto e fala: — Tá cheio de amorinhas lá embaixo! Tamara e as outras crianças empolgadas suplicam: — Vamos lá de Tobata, por favor! Mas a mãe dela... — Não, a ponte no fim do pasto tá caindo. Seguiram caminhando no meio da imensidão verde. Atravessam o pasto desviando dos bois, e fugindo dos gansos, esses sempre estressados! Ao chegar, amoras às centenas faziam brilhar os olhos, um labirinto emaranhado verde com pontinhas vermelhas. Com cuidado, começa a degustação; a planta é espinhosa. Cada um 69


colhe até onde o braço alcança, todos catando as delícias. A mãe de Tamara, usando um vestido costurado por ela mesma, se aventura no meio das plantas espinhosas, tentando alcançar aquelas que ninguém conseguia. Mas perde o equilíbrio e, como numa piscina, mergulha de bico com os braços esticados à frente. Escutamos seus pequenos gritos engraçados. Todos ajudam no resgate, que foi mais sofrido que a queda, os arranhões estavam marcados por todos os lados. A colheita para ela ficou doída, que pede: — Vamos embora! Os não satisfeitos cortam um galho de capim, o transformam no espeto das frutinhas, e cada um sai com sua cobra de amoras.

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Capim Todo fim de tarde atravessava o estreito caminho terroso com o chinelo sujo. Depois de alguns metros, chegava ao fim da plantação. Já conhecia bem as folhas longas, ásperas e cortantes. Cinco folhas! Minha avó dizia. Com cuidado, quebrava cada uma, e quase sempre saía com um pequeno corte, o perfume exalava no ar. No caminho de volta, encontrava buquês de erva doce, pegava um pedacinho, e como a dindinha ensinou, levava à boca e mastigava. Outro cheiro, outro gosto. Chegava ao galinheiro e o cheiro de lá, bem, esse já estava acostumada. Um pouco mais na frente, o alecrim e os temperos. Tinha dias que a Vó pedia cebolinha e salsa pra maionese. Não lembro o dia que aprendi a diferença de cada folha verde dessas, só sei que sei. Tirava os chinelos para entrar em casa, e na cozinha a água já estava 71


esquentando. “Lava as folhas”, dizia, e com mais cuidado ainda o fazia. Ela quebrava, colocava na pequena caneca e estava feita a infusão. Caninha cheirosa, descobri depois que tem outros nomes: capim cidreira, capim limão, capim santo, enfim, capim! O elixir dos Deuses, a cura, de todos os males do dia, calmante, revigorante e tudo mais que ela dizia e claro, sempre acreditei. E por acaso não se acredita em palavra de Vó?!

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2020 Meu avô chora. 2020 não teve abraço, não teve beijo.

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Despedidas Descobri que não gosto de despedidas. Não é má educação, até achei que fosse, mas não é. Analisando minhas despedidas simples da vida, de fim de ano, de fim de festas, de fim de cursos, percebi que eu sempre fugi, de forma inconsciente, de forma sorrateira, e saía “à francesa”, sempre. Acho que não gosto de finais...

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LEDIANE SULCZINSKI ZARDO Natural de Casca/RS. Educadora Física que mergulhou nas Artes da Literatura, Filosofia, Cerâmica e Pintura. Escultora com olhar para as formas e para o mundo…

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A única Já avançava a madrugada quando ela ouviu a porta bater. Na cama, exausta de tanto que trabalhara durante o dia, sentia o suor que lhe escorria pela testa, não conseguia conter as mãos trêmulas e o embrulho de suas entranhas. Torcia para que ele a ignorasse, ao menos esta noite, pois o dia seguinte seria tão duro quanto todos os outros. Aguçou os sentidos, tentou decifrar os ruídos que ele fazia enquanto avançava pelo pequeno cômodo que chamavam de casa. “Por favor, não acorde as crianças”, pensava ela. “Deixe-nos em paz!” A constante embriaguez do marido: frustrado por tantas escolhas mal feitas, a ira incontida pela vida medíocre que conseguira ter. A fuga das responsabilidades e o profundo desejo de delegar a outras pessoas o ônus que lhe era devido caíam nos ombros da única pessoa que lhe era submissa. A porta abriu num baque. Não seria hoje que ela teria paz... 76


Physalis No tempo da criação, quando quase tudo estava pronto, acredito que Deus, na sua Inspiração Divina, decidiu abusar: Criou uma plantinha tão preciosa que seu suculento fruto viria embalado em uma delicada caixinha de presente, revelando ao desavisado humano a maravilha de sua cor, textura e sabor se, e somente se, ele não julgasse o conteúdo pela aparência. Ahhh Deus... em cada elemento um ensinamento…

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A queda ... e, por fim entregou-se e, ao mergulho profundo do desespero lançou-se... Desprendeu-se da vida Lançou-se no espaço, Caiu, descansou e finalmente Encontrou paz!

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Nós: uma crônica Somos, como espécie, muito estranhos. Humanos que se consideram acima das demais espécies, cérebros privilegiados, polegares opositores, capacidade adaptativa, e tantas explicações para podermos nos firmar como seres superiores. Mas o que adianta saber disso? De que vale todos os ensaios, teorias e cientificismos se, na verdade, não passamos de crianças explicando porque somos uma espécie mais legal que as demais. Penso no quanto nos afastamos das verdadeiras essências deste planeta vasto e farto, diverso e constante. Explico: quanto mais debilitamos os lugares que habitamos, exploramos sem medidas com pífias justificativas econômicas, a terra teima em manter-se firme no seu propósito de refazer-se. Muitas vezes de forma absolutamente distinta da sua origem, mas refaz-se! Nascem outras plantas onde antes houvera farta floresta; rios, nascentes e córregos deixam seus leitos e, não raras vezes, os vemos retornar do alto, em rios aéreos que tanto abalam os que padecem nas 79


enchentes... Mas ela se refaz! A natureza se transforma, e certamente não a acompanhamos. Urge olharmos com olhos miúdos quanta fartura há. Adoecemos e tentamos nos curar com o que a ciência provê, que, de tempos em tempos, é desafiada na sua velocidade e assertividade. A urgência do nosso desejo não segue os ditames naturais, por isso nos atropelamos, nos atrapalhamos. Ao colher um fruto maduro (do meu olhar pequeno), me veio essa sensação: quanta sabedoria, fartura e perfeição deixamos passar… E vamos para longe da única forma de nos curarmos e curarmos o planeta. Em algum momento haverá de acontecer a ruptura desta corrente e uma nova força motriz tomará a rédea dos nossos próximos tempos. Não imagino surgir de outro lugar do que “de dentro” de cada ser humano. E que seja contagiosa essa determinação, esse desejo coletivo de preservar, compartilhar, multiplicar. Porque é inconcebível o fato de conquistarmos o espaço, mas um terço dos nossos pares padecerem em condições precárias. Nossas prioridades míopes. Que superioridade provamos nisso?

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FERNANDO GIRARDI Nasceu em Jaraguá do Sul, tem 35 anos e é Pós Graduado em Moda. Trabalha com Direção de arte para campanhas de moda, é Stylist e produtor de cenografia. Aquariano, neurótico da estética, observador da moda e dos comportamentos.

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Lustro Sinto que estou preso. Sinto que criei raízes aqui, fiquei. Me prendi em tudo que julguei importante, necessário, e fiquei, acomodado. Cresci e mesmo aqui, estagnado, aprendi que existe um mundo inteiro lá fora. Que as crenças, pontos de vista e valores mudaram. Os anos passaram. Minha vida mudou. E eu? Permaneço aqui prisioneiro dessa realidade que quase não é mais minha. Digo quase, porque ainda me sinto agarrado a esse bando de memórias. Sou afeiçoado a tudo que se refere ao meu passado. 82


Já fui mais. Hoje, menos. Às vezes mais; vez ou outra menos. Sou um presidiário colecionador de memórias. Cada memória me faz cada vez mais me enrolar, entrelaçar, amarrar, prender, prisão! Essa é a minha prisão. E a minha sentença? Remoer e mastigar memórias e esquecer de viver o agora. Viver nesse emaranhado de memórias e ficar preso aqui. Nesse lugar. Cômodo, Inerte, Parado, Quente. Ficar aqui e polir, lustrar cada minuto do passado e ficar feito Narciso, sim, aquele da mitologia. Me vendo no reflexo das memórias e agora decidir que aqui é bom, calmo, seguro e QUENTE. Percebe o P-A-R-A-D-O-X-O Ao mesmo tempo que eu sei que existe um mundo inteiro de possibilidades lá fora, de aventuras por vir, de caminhos a trilhar. TUDO FRASE PRONTA DE LIVRO DE AUTO AJUDA B-AR-A-T-A-! 83


É cômodo. O novo assusta. Sempre assustou. Porque é desconhecido. Infinitas possibilidades. E nem todas as possibilidades são boas, né não? Fico assustado! Olha, olha ali! Lembra daquela Páscoa em que meu pai com ovos de chocolate nos bolsos fingia ser Coelhinho e jogava — sem que eu percebesse — os ovos pelo gramado. Essa memória anda meio empoeirada, precisa de cuidado, L-U-S-T-R-O-! Viu? Narciso aqui se perdeu novamente. Essa é a minha vida. Meu paradoxo. De um lado querer ficar aqui inerte, calmo e com lustro, e a outra é de rasgar, descolar daqui e correr pra lá e nunca mais voltar. Dizer que vou ali comprar cigarros (PAREI DE FUMAR GRAÇAS A DEUS) e bater a porta e nunca mais olhar pra trás. Viver essa aventura prometida dos filmes, da música e das artes. Mas e o medo? De deixar tudo aqui? De se perder? Empoeirar? Me esquecer? 84


Acho melhor voltar ali e passar um pano naquela memória do Totó quando chegou aqui naquela manhã. Tenho M-E-D-O-S.

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Lotação Cheguei no ponto, esbaforido, depois das cinco e meia da tarde, e não tinha certeza se já tinha passado ou não. Esperei, não tinha mais nada o que fazer. Só me restava esperar e me preparar psicologicamente para a lotação que viria cheia. Meu único jeito de ir para casa. Olha! Passou não. Virando a esquina vem o ônibus, e como sempre lotado até a tampa. Encostou. Entrei. Lotação máxima, ao primeiro olhar. Como de costume, passo o cartão, e pela catraca. E vou para o fim do ônibus. Já que sou quase o último da linha, prefiro deixar o caminho livre. Queria sentar, pernas cansadas, do trabalho exaustivo de vendedor de loja. 86


O dia inteiro em pé, o dia inteiro sendo simpático, o dia inteiro subindo e descendo uma escada caracol horrorosa que me causava vertigem. Com uma passada rápida de olhos, vejo que está tudo ocupado. Quase. Apenas uma vaga no lado direito, perto da janela. Do lado de um homem de meia idade. Tiro a mochila das costas e passo para a frente do meu peito. Peço licença e me sento. Ponho a mochila no colo. Sabe como os homens são, sempre de pernas abertas, e com esse não seria diferente. Falando em pernas, que par de pernas. Não eram musculosas como as de quem trabalha pra isso, mas eram fortes, tenras. A bermuda deixava aparecer uma marca de bronze do sol, pelos aparentes, dourados, contraste com aquele bronzeado. A perna dele esfregando na minha, conforme o ônibus balançava. Ambos de bermudas; Pele na pele; Pelo no pelo; Roçando conforme o ônibus se movimentava. Aquele atrito de pernas me deixa excitado. Sinto um enrijecer nas minhas bermudas, um acalouramento do meu semblante, conforme as pernas se encostam e o ônibus balança. Conforme o movimento acontece percebo que também os 87


antebraços e cotovelos se tocam, encostam. Será que foi de propósito? Respiro fundo, me molho um pouco, lubrifico um pouco, me aperto um pouco, suspiro profundo. Abraço a mochila. Faço fricção voluntária entre a perna dele e a minha, o braço dele no meu braço. Sou correspondido. Pele na pele; Pelo no pelo; O ônibus desaparece naquele momento, não estou mais ali. Estou em outro lugar. Inferno talvez? Me sinto em êxtase, minha vida se resume em sentir o corpo dele no meu e ouvir a respiração dele junto da minha. Sinto uma sintonia; Me sinto vivo. Noto um respiro profundo dele, olho pro colo dele, Grande volume. está a fim. O membro dele está a fim. O meu também. Ambos estamos. Quase meu ponto. Me ajeito; contorço. Arrumo. 88


Disfarço. Chega meu ponto. Peço licença. Levanto. A ligação entre pele e pelo se perde. Aperto o botão. Peço licença. Coloco a mochila enfrente aos quadris. Disfarço. Salto. Olho para trás.. Ele salta também. E me segue.

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Abraço Fazia tempo que eu não o via. Estava diferente. Mais cheio. A última vez foi naquela festa ruim, naquele lugar ruim, Há uns 6 meses atrás. Antes de todo esse caos. Do fim do mundo. Antes de toda ansiedade e desespero. Da falta de papel higiênico, álcool gel e máscaras. Ele não tinha se mudado? Enfim. Estava ali. Naquela tarde quente. Ele sorria de longe — com os olhos, a boca tapada pela máscara que deixava o nariz à mostra (que diferença faz usar máscara assim?), como quem vê uma miragem em meio ao deserto. 90


Vinha já de asas abertas para aquele abraço apertado. Ninguém avisou esse cidadão? Dos protocolos? O horror e a angústia em mim cresciam. Internas. Por fora uma alegria encenada. Pavor! Passou os braços sobre meu corpo e aquele cheiro azedo atingiu minhas narinas como um soco bem dado. Na mosca. Nocaute! O “grude” do seu corpo em meu corpo me causava um asco sem fim. Aquela sensação pegajosa. Armadilha. Senti que ficaria ali, sendo absorvido por aquele corpo quente e úmido. Feito um inseto que é traído pelo cheiro do néctar de uma planta carnívora. Juntos feito aberração de circo. Seríamos um. Fundidos para toda a eternidade. Uma experiência que dera errado uma bolha de suor, pele e pelo. Uma mutação genética. Um experimento mal realizado. Excremento.

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Aquele abraço sem dúvidas ficaria marcado para toda a eternidade em mim. Gravado feito tatuagem ruim. Na minha pele Na minha memória tátil Nos meus pesadelos. Pânico. Minha vontade era de gritar em alto e bom som: SAI DAQUI! Mas não quis ser rude. Resisti. Não quis me fazer de louco. Exagerado. Quebrei o protocolo. E aquele nojo do toque dele no meu corpo me deixava enjoado, enojado. Nunca pensei que sentiria repulsa por um abraço. Vai ver esse é o novo mundo. Essa é a nova regra. Distanciamento. Nem todo álcool gel do mundo vai dar conta de tirar esse grude de mim. Muito menos água e sabão. E se eu peguei. E se ele me passou. Pegamos? Cagaço.

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Desaguar e outras observações... Calmaria, tranquilidade. Num primeiro olhar. Um percalço; Algumas decepções; Turbulência; Quero fugir. romper. Finjo normalidade. — Tá tudo bem? Pergunta ele com a naturalidade de um papagaio que repete o que ouviu e só por educação respondo com um sorriso 93


amarelo. Não qualquer amarelo. Amarelo ouro. Que brilha feio. Que reluz falso. Ouro de tolo. Segundo o dicionário a definição de tolo é: adjetivo substantivo masculino 1- Que ou aquele que não tem inteligência ou juízo. Definitivamente o dicionário me conhece. Sabe da minha falta de inteligência. Emocional principalmente. E do meu juízo falho, escasso. 2- Que ou o que é tonto, simplório, ingênuo, diz ou pratica tolices. Provavelmente do lado dessa definição tem uma foto minha 3x4. Ingênuo fui eu, em acreditar que tudo será como planejei. Que seria simples. Que seria fácil. Nunca é. Eu: o maior praticante de tolices do mundo. Voltando aquela resposta vazia. Feita para pôr um ponto final em tudo aquilo. Acabar com tudo aquilo. Destruir tudo aquilo. Respondo pra ele: — Tá tudo ótimo. Só que não. 94


Sorrio só pra terminar aquele teatro. Fecho a porta. Tranco com chave. Pra ter certeza que estou seguro. Espero um pouco. Ouço um pouco. Sinto um pouco. Angústia. Rolam lágrimas. Nao sei o motivo. Rio de lágrimas Por que? Cascata de lágrimas Já sei porque.

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DIOVANE RUBENS RIEDEL Nasceu em 7 de Julho de 1986, em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, Brasil. Pesquisa diversas linguagens experimentalmente: escrita, performance, dança, fotografia, vídeo, desenho e pintura.

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Esfera neblínica, luminária O branco dos olhos se deparou com o vidro róseo esférico opaco das corredeiras calmas que passam pelas áleas. Sentidos despertados ao ver. As coisas guardadas que assim permanecem e não se perdem nem mesmo com o iluminar denso noturno em plena cidade árida. Amontoados de areia fina, açúcar ou sal: presos aos pés com lama e ar.

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A conversa Quando o Sol lembrou do linho Fecham pálpebras roupas O peixe transparente de peito O cruzamento da cruz avesso O ponto se pondo infinito O confuso deste deserto A abstração desenhou vento Nas franjas queimadas de céu Cheio, quadriculado, azul Com a faixa cobriu os olhos A mesma que voa a linha 98


O ouvido vai e diz Costura, traço, mar, soltura Abre o tato, entra e finda Com as palmas dos pés Pergunta se o amor é tecido A vela, o fósforo e a mina A silhueta e o sonho As ditas, a ideia, o ver Colagem de plantas estranhas À mão contornado, colorido A enciclopédia ilustrada de frames O banheiro e a toalha Pano, papel, 3d.

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As estátuas de madeira A construção era predominante de madeira. Troncos de árvores eram sustentáculos. Os nós da madeira têm muito de estranho, parecem detalhes censurados de imagens de filmes adultos. Entalhes no buraco da boca. Os galhos decepados, como se fossem órgãos furando a pele da fibra da madeira. Ainda nos troncos a seiva escorria e também pelo íntimo das pernas. As mãos acariciam com suor quente, acumulado pela manta. Nem todos os galhos foram decepados. Uns eram cuidadosamente tocados, colocando com os dedos as peças de roupas sobre, deixando visível a corpulência. Estátuas de madeira observando as pessoas.

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O círculo de pedra, a torre Encontrou um círculo de pedras. Subiu pé por pé, e começou a caminhar lentamente sobre, em círculos. A primeira volta, a segunda, a terceira. Logo sentiu uma leve tontura, mas continuou. Recuperou o equilíbrio, sem risco de se machucar, por enquanto: porque a miragem não havia começado. À medida que prossegue, o círculo de pedras começa a crescer, verticalmente. Trinta centímetros, um metro, dois, cinco, subindo. O círculo de pedras já havia se tornado uma torre. Quando ganhou considerável altura, o devaneio que fazia ela crescer deixa de existir. Ele se vê sozinho, no alto, e nenhuma chance de conseguir retornar. Não há cordas, escadas, paraquedas. As pedras da torre são soltas, apenas equilibradas umas sobre as outras. Têm peso e tamanho considerável. Nenhum sinal da ilusão continuar crescendo, tampouco retroceder. O tempo passa, pausa, e o desespero vem. Vê os pássaros, as nuvens, os ventos. Quando já triste, recebe e percebe a ideia de tirar pedra por pedra, reduzindo gradativamente a altura da torre. Não havia mais indício algum de magia para ajudar com a descida, muito menos retomar a subida. Já é quase noite quan101


do chega à linha do chão. As pedras estão todas espalhadas, mas ainda é possível ver o círculo de origem, de quando o encanto iniciou. Lembrou da tontura do começo e da leveza de subir. Um amontoado de pedras. Um morro, uma pequena montanha. As pedras eram tão reais. Amontoadas. Tudo lá em cima era dia. As nuvens, os pássaros, os ventos. As nuvens, os pássaros, os ventos.

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CRISTINA PRETTI Nasceu em Vitória, ES, em 1955. É Licenciada em Desenho e Artes Plásticas, e com especialização em Psicopedagogia e Educação Inclusiva. Artista Visual atuante em Jaraguá do Sul, onde reside desde 2000. Pesquisa várias Linguagens artísticas nas artes Visuais, Teatro Lambe-lambe e na Literatura.

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Ossos do ofício Meu olhar percorreu em contemplação e comunhão com a natureza aquele lugar de rio Manso. Me encontrei com pássaros pousados nos mourões das cercas, reflexos em poças de águas turvas no chão de barro e seixos. Parei para ouvir as águas do rio e suas quedas. Senti o perfume em matizes variados das hortênsias emoldurando o caminho. As ovelhas me observavam atentas, porque afinal de contas estavam me vendo pela primeira vez, em vestido longo e sombrinha com estampa parisiense, passeando por aquela estrada. Quase desistindo de procurar um objeto para o exercício da escrita criativa, durante a caminhada matinal, me deparo com o tema dessa história! Thãmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm, Thãmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm, Thãmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm, 104


Thãntãmmmmmmmmmmmm… A percepção da existência, da inteligência, da evolução humana, da vida e da morte em seus dejetos. Esqueleto humano, animal, carcaça que alimenta…Tutano. Minha avó preparava o “Chambaril”, prato tradicional italiano, que significa "Osso buraco”, ou “Ossobuco”. Vitela cortada em rodelas com os ossos. Cozinhava por horas e horas aquela iguaria, que nos fazia deliciar, chupar os ossos saborosos para retirar de dentro o seu tutano. A galinha caipira também cozinhava em fogo baixo, por quase um dia, para ser servida a noite, a canja com ossos esfarelados. "Essa sopa levante defunto”, dizia o meu pai todo agradecido! O coveiro, que desenterra os mortos e retira os ossos para os familiares, que os guardam, não sei lá pra quê! O alimento do cão que fortalece os dentes e que depois de saciado, por instinto, guarda o seu tesouro enterrado num buraco raso cobrindo de terra. Forte, resistente, durável, quebrável, restaurado, liso por fora e áspero por dentro. Sem eles o que seríamos? Lesmas, polvos, lulas? E as frases de que me lembro: “Ele era osso duro de roer!” Para não fugir aos ossos do ofício, fiz meu exercício do Laboratório de Autoria. Ah! Guardei o osso para também não sei lá o quê e meu cachorro ADOROU!

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Sexo nas Águas Gostavam de fazer sexo nas Águas No Mar Na Lagoa No Rio Na Piscina Na Banheira No Chuveiro e na Boca.

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Pareidolia busco com olhar curioso por tudo o que me perfila crio desejos em paisagens que em mim habitam busco beleza, panos de fundo para imaginações em traços desenho, crio beleza nas coisas reverencio o belo que me cerca, me fascina, me deslumbra, me encanta pinto cores natureza, finalizo a obra espuma que corre e grita acha caminhos onde caminhos ainda não existem contorna obstáculos e segue com o prazer de ir

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não me importa se vou me machucar a vontade que dá é de me atirar então mergulho vencendo o medo atenção plena, estou presente no momento, aqui, agora sorvo essa energia que me preenche e que se manifesta aquieto a mente me renovo em fluxo para ser inteira, grande, feliz porque a felicidade é resistência!

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Tigela cheia Onde eu encontro um abraço seguro? Uma intimidade que eu não precise me proteger? Um amor onde eu possa descansar, rir e sonhar? Dançar, dançar e dançar entre o amor e a paixão. Ao poesar desejos, bem-me-quer mal-me-quer, Me resta tirar um cochilo, Pro tempo passar rapidinho E acordar com a tigela cheia. Pois amar é seguir se apaixonando.

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CAMILA FRANÇA É artista multilinguagem que transita entre imagem e palavra. Natural de Criciúma/SC, atualmente vive entre Jaraguá do Sul e Florianópolis. Formou-se em Moda (2005) pela Udesc atuando na área até decidir aventurar-se por outras paisagens. Mantém processo investigativo contínuo registrando sonhos, colagens, desenhos, impressões e interpretações sobre a vida, explorando questões relacionadas ao universo pessoal e feminino.

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Um dia Pegou o hambúrguer da mão da irmã que desandou a chorar copiosamente fazendo-se ouvir em todo o quarteirão. Mordeu o sanduíche, mesmo sem vontade, e levantou a mão de supetão ameaçando esbofeteá-la caso não parasse a choradeira. Correu para a janela e num impulso jogou o pedaço de sanduíche que sobrara, espatifando-o no asfalto. Seguiu com os olhos a trajetória do pão até seu destino final. Debruçado na janela viu uma menina mais velha que ele. Um cão atravessava a rua. Um homem caminhava sem pressa com seu jornal matinal. A placa continuava torta na esquina desde a batida da semana passada. Em poucos segundos a irmã se acalmou e pôs-se ao seu lado olhando na mesma direção sem entender direito o porquê. Avistou uma senhora de sobretudo vermelho e chapéu decorado que ia pela calçada. Andava tão lentamente que parecia mais parar do que caminhar. Foi então que se deu conta: um dia seremos todos adultos

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Mergulho Abri os braços em forma de cruz e inclinei o corpo levemente para trás até perder o equilíbrio. Endureci ainda mais as pernas deixando-me cair, toda, inteira, completa. A água morna bateu em minhas costas como os tapas estalados de quando éramos crianças e socávamos uns aos outros numa explosão de crueldade que só as crianças conseguem experimentar. E de repente a sensação de estar envolta no líquido que me abraçava, ninava, comprimia, comungava com a semente que carrego dentro de mim.

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Ilustração: Camila França, 2020.

Moira A mão sob o peito em cores, flamejantes O que queres que faça? Durante a trama: a rima, ao toque, delírio Germina a si mesma Entre-laçada Cogita Descansa consigo dos fios 113


Atenta ao drama Aguda lâmina se toca, corta-lhe O destino (des)fia Após desejada a labuta Quando enfim costurada Torna-se e ao toque se entrega, Sonhos, quimeras Das palavras esquecidas Imaginárias, tantas vidas Já não espera.

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Fio A mulher começou a humilhá-lo como em todas as outras vezes: em frente às crianças, amigos, parentes. Não importava muito com quem estivesse, bastava que falasse alguma palavra mal pensada ou desse um passo menos silencioso. Às vezes achava que bastava existir e pronto! Lá vinha ela com sua língua maledicente envenenando os ouvidos de todos contra ele que era grosseiro, que era relapso, irresponsável... Uma palavra de afeto? Ouvia, vez ou outra. Mas não sabia bem o que desencadeava esse comportamento já que era bem mais raro que o outro bombástico, assombroso. Antes de tudo, injusto. Até que certa vez tomou dois goles de um álcool qualquer em uma mesa de bar. Não costumava beber, mas não queria fazer desfeita para o amigo que havia tirado uma nova leva de cachaças especiais e queria sua opinião. “Não sei porque quer minha opinião?!”, pensou, “eu nem bebo!”. Mas atendeu ao pedido do amigo mesmo assim. Afinal, por diversas vezes o alambique havia sido sua distração das palestras delirantes da mulher em casa. Dois goles depois e ao chegar em casa deparou-se com a mulher já vermelha de raiva que convocara filhos, 115


mãe e vizinha para esfregar-lhe na cara o quão horrível ele era por não ter... Lavado a louça? Feito o almoço? Passado na mercearia? Não importava mais. Já nem sabia o que a incomodava dessa vez. Mal enxergou a machadinha ao lado do fogão a lenha e puxou de uma só vez num movimento rápido e preciso. Enfiou-lhe a lâmina em meio à testa. Matou a mulher. Deixou 3 filhos.

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BRUNO AURÉLIO SILVEIRA Nasceu no município de Pinhão, no estado do Paraná, mas radicouse em Jaraguá do Sul – SC, onde teve seus primeiros contatos com a literatura e a troca de experiências literárias e artísticas com amigos, professores e artistas. Graduando do terceiro ano de Letras-Portugûes na Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, é pesquisador CNPq sobre a memória e a experiência na literatura contemporânea. Encontra nas pinceladas outra expressão, que dialoga com suas criações e inspirações literárias. É autor da coletânea de contos, poemas e fotografias intitulada Histórias Manchadas, com vias de publicação para março de 2021. 117


Sonhos interrompidos Carregou o corpo sobre o ombro e subiu as escadas. Deitou a massa de boneca mole sobre a cama e cobriu para protegê-la do frio. Acariciou sua pele gelada e branca, pondo os feixes de cabelo suado atrás da orelha. Beijou sua boca aberta chamando-a de “meu amor”. Fechou os olhos da namorada e virou o seu corpo, e ajeitou os seus membros. Continuou a beijá-la, agora penetrando o pênis em sua genital. Depois dormiu abraçado com ela, cheirando seu pescoço, aprisionando-a entre os braços. Acordou com os vizinhos chorando, o giroflex na janela, os policiais com armas lhe algemando os pulsos, o IML colocando a sua namorada em um saco, depois levando-a numa maca. Jurou para o juiz não lembrar de nada, só lembrava dela fazendo drama e dizendo que queria ir embora e que isso lhe fazia o sangue subir na cabeça, então metia o punho só na cachola, pra não vir com ideia errada. E no outro dia ela se corrigia, se comportava. Lembrava dela dizendo que queria parar, que não queria mais pedra, nem craque, nem pó. Não lembrava dela chorando, nem dela superando os vícios. Não lembrava dela indo no grupo de jovens e voltando com planos e 118


expectativas sobre a vida. Não lembrava que ela queria ser psicóloga para ajudar as pessoas que estavam na mesma que ela. Não lembrava que ela queria que ele parasse também, e que procurasse ajuda, para que depois pudesse viver de seus sonhos.

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Mamãe morreu Domingo. Duas horas da manhã. À meia-noite recebi a notícia que minha mãe havia morrido. Eu estava estirado no sofá, com o controle na mão e trocando de canais: esperando ser tomado pelo sono. Me vesti, peguei a chave do carro e fui à casa de mamãe, a cerca de sete quadras de distância. Estava frio. Caía uma garoa fina e espessa. Tudo embaçado. Os vizinhos estavam por lá e ficaram todos calados ao me verem. Vi que alguns bocejavam e retardavam o sono em busca de algo que lhes fizesse sentir pena. “Ela, ela... Encontrei ela [...] na cama!”, disse a empregada, hesitando ao falar, na tentativa de encontrar melhor expressão para contar-me do ocorrido. O jardim assumira tal forma que com o tempo alastrou folhas e raízes pela calçada. Mamãe sempre me alertava quando fosse subir os três degraus da escada: “tenha cuidado menino. Essas madeiras estão velhas, não vai se machucar. Essa casa é obra do seu avô”. Nunca conheci o bendito, mas a casa sempre fora uma confidência de sua existência. Então pisei cauteloso, pondo o pé na aresta, como de costume, e assim que senti em minha mão as flores salientes do metal da maçaneta, hesitei. E dei um passo para trás: não conseguia digerir tudo o que estava acontecendo. Assim que abri a porta com custo, flagrei na parede uma fotografia minha, de há mui120


to tempo. Sempre esteve ali, mas nunca havia dado importância. De quando prestei o serviço militar. Tentei acender as luzes, sem perceber que já estavam acesas. A lâmpada tremeluzia, turvou minha vista e eu não distinguia a verdadeira cor das paredes. A lâmpada fazia um ruído que em pouco tempo tornou-se imperceptível aos ouvidos. Os móveis sempre estiveram no mesmo lugar, e parecem que se esqueceram de envelhecer. Entrei em seu quarto, e tudo estava em ordem. Acho que quando as pessoas ficam velhas, tendem a deixar tudo em ordem, para não ter preocupações antes de morrer. Suas pantufas estavam sobre o tapete, viradas para a cama, de modo que não desse custo a calçá-las quando acordasse. A empregada havia tirado as cobertas de cima de mamãe e deixou-a exposta em decúbito dorsal. Mamãe vestia uma camisola semitransparente azul-bebê. Seus olhos estavam estatelados e assumiram tal configuração que pareciam ter saído da órbita. Fechei-os imediatamente e senti sua pele. Acariciei suas incontáveis rugas e surgiu uma imensa vontade de chorar. Um ronco de carro velho reverbera da calçada, e a luz forte resvala na janela da casa centenária, revelando-me sobre o criado mudo uma guirlanda com pequenos girassóis. Segurei a guirlanda e vi o sorriso de mamãe, de quando dei a ela. Estávamos na praia em uma tarde de verão. Os comerciantes guardavam os apetrechos. O nosso pequeno barco preso a uma corda no cais massageava a superfície da água. O vento lhe estremecia os cabelos brancos e finos e os barcos surgiam no sol poente. Peguei na sua mão gelada, enclavinhando meus dedos sobre os dela. “Segure minha mão para atravessarmos a rua”, dizia com uma voz calma e paciente. Dava-lhe tchau todos os dias antes de entrar nos portões da escola. “Façam um desenho sobre a família e depois apresentem para os colegas”, dizia a professora do primário. Minha alegria era um sentimento que não tem nome. Sinto a infância como um estado de espírito. Havia desenhado nós dois, nossa casa e um sol a pino. Pintei-o com a mão forçando o lápis no papel sentindo-me Deus ao dar cor à alegria. Um amarelo forte e... A luz fixa nas paredes, depois se apaga. O ronco cessa. Batidas de porta de carro. Era o carro da funerária. Beijei as mãos da mamãe. O assoalho ringe. A empregada acena para mim. Consinto. Afasto-me de mamãe. Os fune121


rais colocam-na em uma maca, levam ao carro. Um deles retorna com alguns papéis, digo sim pra todas as perguntas. O carro leva minha mãe. A empregada me abraça e diz que eu poderia ligar se precisasse de alguma coisa. O assoalho ringe, batida de maçaneta. Abro a porta do guarda-roupa e sinto o cheiro de suas vestes. Suspirei fundo apertando um vestido de cetim nos punhos contra a face. Fechei os olhos e impeli o cheiro da mamãe. A verdade veio lentamente, definhando-me os sentidos. Inundou-me uma tristeza tamanha ao olhar as roupas sem dono. De alguém que já se foi, que não está mais... Só então me fiz crer que mamãe estava morta. Chorei.

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Esquecimento Uma gota d’água nunca sabe o seu destino. Não sabe que é e nem quando deixará de ser uma gota d’água. No fim ela se confunde, se perde, se dissemina e é esquecida.

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Leitor voeyeurista O entregador estaciona a van na rua de um condomínio luxuoso, desses com nome estrangeiro localizado em um bairro rico da cidade. Olhou pra cima o prédio cromado afunilando entre as nuvens na imagem estremecida. Subiu alguns degraus no hall rodeado de arbustos e câmeras. Olhou ao redor e sentiu como é respirar o ar de gente rica. Um mundo que nunca teria e que nunca seria seu. Deu mais alguns passos, uma porta de vidro deslizou na sua frente e uma onda de ar refrescante inundou seu corpo. Logo não sentia mais o ar pesado e o calorão lá de fora. A zeladora lhe sorriu no uniforme azul. Um recepcionista de terno caminha em sua direção falando em um microfone, desses que vai da orelha à boca. Pergunta com uma voz branda: “Pois não senhor. Como posso ajudá-lo?” “Tenho uma entrega. Para Madalena Suzuki do número sessenta e seis.” “Um momento senhor.” Então volta para o balcão, digita no telefone, um telefone que o entregador nunca vira antes. 124


“Boa tarde, Senhora Suzuki. Chegou agora uma entrega para a senhora.” O entregador sabe qual é o procedimento. Primeiro ele interfona, então espera o cliente vir e assinar o papel do produto. Depois vai embora. Simples assim. Mas com gente rica é diferente. Sempre tem algo de errado. Sempre tem que fazer algo diferenciado, um agrado, algo serviu e que atenda a mordomia. Ele fica com o olhar perdido nas paredes suntuosas, nos lustres, no chafariz. Descansa as pernas em uma cadeira almofadada e por alguns segundos imagina tudo aquilo seu. Um aroma doce recende do balcão onde a zeladora passa pano com algum produto aromático. Ela lhe joga um sorriso e lança os olhos e só então vê como ela é bonita atrás daquele macacão azul. Uma das câmeras mira em direção ao entregador. As lentes focam nele. O recepcionista continua no microfone, com a Senhora Suzuki. “Mas podemos nos encarregar de levar para a Senhora...” Ela lhe fala algo e ele responde resiliente: “A Senhora é quem manda. Como desejar, Senhora.” “A Senhora Madalena Suzuki disse para o senhor levar a encomenda até o apartamento dela. A primeira porta do hall, no andar sessenta e seis. É só clicar meia meia”. O entregador entra no elevador, deposita as caixas no chão e digita “66”. Sente um friozinho na barriga. Arruma a gola e penteia o cabelo no metal espelhado. Guarda o pente na casaca e vê pelo vidro a cidade ficando mais distante. Os prédios que pareciam grandes agora são miniaturas embaixo dele. Balneário Camboriú parece uma cidade de Lego. Dá mais uma conferida no cabelo. Espera mais um pouco. A porta abre. Havia uma sala com paredes brancas e faixas vermelhas curvando até o teto de abóbada. No centro um lustre gigantesco com pedrarias que pareciam gotículas de esperma. Logo a frente um jardim com estatuas de mulheres nuas ajoelhadas ao redor de uma fonte. Um pequeno nó de água saía dos seios, das bocas, das vaginas, escorrendo pelo corpo até a fonte. Um peixinho alaranjado borbulha na água rasa 125


sobre as britas brancas. Atrás das estátuas havia uma pintura com moldura talhada, de um casal japonês transando. O entregador estendeu os olhos no pênis introjetado na vagina peluda da pintura. Nos dois trocando as línguas. Fica curioso para saber o que tem dentro da caixa. Percebeu outra câmera virando em sua direção. Caminhou até a porta. Clicou no interfone. Um zunido. “É o entregador?” (Uma voz feminina). “É o entregador... É sim. Encomenda para a senhora Madalena Suzuki.” Responde atrapalhado passando um pano na testa. “Pode entrar” A porta estala o metal e se abre. Ele fica esperando com as caixas na mão. A porta abre completamente. A senhora Suzuki aparece nas escadas. Deixe sobre as mesas, no fim do corredor. Ela apontou o dedo para uma entrada do teto abaulado. O entregador segue pelo corredor até a cozinha e deposita as caixas enquanto a Senhora Suzuki olha os seus músculos. E sorri para ele, assim que ele se vira e novamente passa o pano na testa. Ela lhe persiste os olhos, agora em seu rosto afeiçoado. Algo lhe sucedera. A porta se fecha e ela joga o controle na almofada de uma cadeira. “Vou buscar o dinheiro. Um momento”. Diz com uma voz que lhe pareceu safadinha. Se vira jogando os cabelos do ombro e desfila pelo corredor, e ele flagra o elástico da calcinha aparecendo na veste cremosa, semitransparente. Deu uma secada na japa rebolando as nádegas. “Meu Deus! Que japa. Que vidona.” Sozinho na cozinha imagina ela voltando com uma pimenta na boca, com o decote estourando em seus peitos de melões, os mamilos duros como duas cerejas, a veste derramando em leite nas curvas esculturais. Sentiu suas mãos apalpando os peitos roliços, deslizando-as na pele macia de seus quadris enquanto ela contorce o corpo e enrijece as 126


pernas. Imagina ela ofegando com a boca seca, arquejando os quadris. Seus olhos subindo nas pálpebras, e depois ela virando-se e ameaçando tirar a calcinha de entre as nádegas bojudas. Imagina sua mão molhada friccionando a pele flácida, enfiando os dedos em seu orifício, sentindo os pelos ásperos embaixo da calcinha, e ela ainda mais ofegante, gemendo e empinando a bunda, rendendo as mãos de volúpia. Seus cabelos de fogo escorrendo sobre uma cama branca de leite, entre bafejos e fluídos. A Senhora Suzuki surge no corredor contando as cédulas e o entregador perscruta seu decote, os peitos inchados na veste cremosa, e sente algo transcorrendo pelas suas costas, a respiração pesada. Imagina as mãos femininas, os dedos finos, as unhas vermelhas da Senhora Suzuki movimentando seu pênis. Sente as calças molhadas. Ela lhe direciona os olhos e lhe sorri nos olhos de gueixa. Ele vai em direção à mesa, atrás das caixas e endireita o volume das calças. Ela lhe compenetra os olhos tingindo as bochechas de maçã. O que será que vai acontecer agora? O leitor imagina. O Rapaz é bonitão e tem a cara do Janequine, é tímido e introspectivo. Ela é uma japa nerd com propensões sado masoquistas. Ainda no corredor ela aproxima-se dele desfilando na veste cremosa e põem as cédulas em seu decote lhe fixando os olhos voluptuosos. Ajoelha-se e atravessa a cozinha gatinhando. Então arranha o seu peito e confere o volume das suas calças, e então... Não. Isso não. Isso é algo muito provável dentro de uma história erótica. É um clichê que não conta com imprevisibilidades. Proponho algo melhor. O entregador é um Don Juan que toma o seu pescoço, segura os seus cabelos e profere algo em seu ouvido, e em poucos segundos ela esmorece o corpo e morde os próprios lábios. Abre as caixas da encomenda e lhe mostra brinquedos eróticos que ele desconfiava. Depois enclavinham os dedos e ela o conduz até seu quarto feminino onde concretizam todas as taras e imaginações com os brinquedos eróticos e livros de Kama Sutra. Ela lê pra ele alguma parte picante de Cinquenta tons 127


de cinza e depois combinam orgias. Também posso criar um novo personagem. Um empresário machista, marido da Senhora Sukuki. Escrevo sobre ele chegando do trabalho em um terno grã-fino, impaciente tocando a campainha, e o Janiquine escondendo-se atrás da cortina. A Senhora Suzuki o provoca empinando a bunda enquanto abre a porta para o marido que lhe xinga e lhe impõem suas praticas patriarcais, tratando-a com subserviência. Intenciono a narrativa de tal modo que o leitor passará a odiá-lo. O leitor se sentirá lascivo e também desejará uma vingança para o marido machista. Então surpreendo o leitor e satisfaço os seus desejos mais íntimos, criando uma narrativa com preliminares e expectativas com um arremate arrebatador onde os desejos do leitor serão satisfeitos e deixo-o confortável colocando-o na perspectiva de um voyeurista, onde o marido machista toma banho depois de uma discussão, e então o Janiquine trepa com a Senhora Suzuki na bancada da cozinha, enquanto o micro-ondas esquenta uma xícara de leite. O líquido transborda do recipiente, depois o micro-ondas apita. Então a Senhora Suzuki vinga o marido fazendo uma solução inabitual em seu leite. O marido sai do banho e o entregador veste suas roupas às pressas. O entregador e a Senhora Suzuki trocam whats e ele vai embora descendo o elevador. La embaixo o recepcionista lhe olha argucioso e a zeladora lhe sorri com os mesmos olhos. A Senhora Suzuki vai para o quarto e passa o tempo vislumbrando as páginas de um Kama Sutra, e isso caros leitores, é o típico da literatura erótica comercial. Dessas que vendem milhões, e o escritor fica rico escrevendo uma punheta mental. Então convido o leitor a se masturbar, e depois ler os poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade.

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ADRIANA NIÉTZKAR Formada em Letras, professora, estudante, escritora, ceramista, atriz... Artista. Acredita na arte como forma de desafio, libertação, evolução e prazer.

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Efemeridade Já não me agrada o esférico, Sem pontas?! Sem espinhos?! Cuja única proteção é fechar-se em sim mesmo. Gosto de encontrar o vazio, O espaço para preencher, O que nunca será habitado, O desejo do não toque para que permaneça. Eterna folha em branco na espera da melhor pena que nunca chegará: Impossível entender sem provar. Mas não há permanência O que não se tornar alimento será apenas... PODRE!

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Como a folha que já foi verde, Lisa! Macia! Firme em seu galho, sombreando. E agora repousa ao chão; Seca! Áspera! Esvaindo-se. Melhor chegar ao fim (trágico?!) , Que desistir de existência. Melhor ter tido seu pequeno tempo de fruto saboroso, De folha fresca, Que ser eterna casca rija e seca! Wabi Sabi!

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Do que está acima das águas Ele tanto amava as formas das árvores que se refletiam no lago profundo. Eu olhava o céu e antes deste, os galhos das árvores nas suas reais cores. É como primeiro disse Platão sobre vivermos no mundo das sombras; por mais que eu tenha dito a ele; parar de olhar os seus pés, erguer a cabeça o mais alto, ou pelo menos para os lados... Queria desesperadamente que entendesse, doía ver o quanto acreditava nas não verdades diárias, apenas as sombras da verdade. 132


Queria que ele entendesse o que era o mito. Mas eu não entendi toda a história dos homens das cavernas e insisti; longas conversas, gritos! Muito o sacudi! Enfim olhou para o alto e viu o que eram as formas acima, viu o que por tanto tempo acreditou estar aos seus pés, percebeu que todas as notícias que acreditava, que todas as conversas (a)fiadas eram apenas sombras... Platão avisou que quando se tenta desiludir um homem de suas correntes o desespero pode ferir, matar quem tenta cortar o ferro, é como estender a mão para salvar uma cobra de um poço. Ele não quis me ferir Mas tampouco quis a pílula vermelha, o conhecimento da Matrix... e na ânsia de esquecer as formas reais e no desejo de viver no conforto das sombras que sempre foram o seu mundo (uma vez expandido não se pode mais voltar a ser pequeno) não bastava mais pôr os olhos Então... pôs o pé e o outro afundando na imensidão das águas. 133


Não era para me ferir Mas doeu mais que tudo. Agora só olho o céu; medo de abaixar meus olhos, medo de encontrar seus olhos, no mais fundo das águas, olhando para cima.

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As suas mãos sobre mim Todo homem (ou mulher) é capaz de fechar os punhos e descarregar sua ira na face de outro. De apertar as mãos na garganta de outro e calar a sua voz. De firmar os dentes para arrancar partes que não voltam a crescer. Mas quase todo homem (ou mulher) não usa seus punhos, mãos, dentes, ou o que for, para ferir ou destruir. Então, mesmo sabendo que você não era como quase todos os homens eu acreditei que ao sermos “nós”, comigo você seria diferente. Porque sempre acreditei que aquele seria o último soco, a última dor... Eu SABIA que o dia do “último” chegaria e você iria parar de me ferir e por saber disso, eu aguentei todas as vezes. E agora que você aperta com tanto afinco a minha garganta, tenho certeza que será a minha última vez de tudo. Não foi para esse fim que eu sobrevivi até agora, que eu não usei a minha força, mas agora não me resta mais ar, nem mesmo para fechar meus olhos.

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A batalha épica do Manso Jota poderia dizer que tinha pânico de sapos, rãs ou pererecas, porque ele não saberia diferenciar mas adoraria que nenhum deles existissem, ainda que o mundo fosse tomado por milhares de insetos em cada centímetro quadrado de todos os espaços, ainda que centenas destes insetos picassem e mordessem todo tempo. Porque quando Jota via um sapo, ou algo que parecesse, suava frio e seu coração dava exemplos de como é sofrer um infarto. Por conta disso, qualquer um que soubesse de sua fobia diria que não seria um boa ideia ele subir o morro do rio manso e passar a noite no meio do nada cercado de coaxares de cururus, sapos-bois, sapos-martelo, rãs-marrom, rãs-bugio, rãs-flautinha, pererecas-gargalhada e todos os anfíbios que povoavam o local. Mas ninguém da turma dos quatro amigos disse nada, porque Jota nunca disse que tinha pânico de sapos, rãs ou pererecas. E só o que eles sabiam era que estava difícil ficar todo o tempo trancados em apartamentos por causa do medo do maldito vírus e que todos precisavam relaxar um pouco. Afinal, era apenas um fim de semana para sair de casa com os amigos desafiando um pouco as normas sociais de lock down, para esquecer um pouco do coronavírus. Assim, na hora marcada o Teo chegou buzinando, Jota embarcou no 4x4 e seguiram para pegar Dani, Ka e Ma. 136


E durante o dia tudo foi festa; subir o morro gritando com a janela aberta, buzinar para o grupo de ciclistas do caminho, fotografar a cascata que descia da montanha... Tudo sem precisar sair do carro até, enfim, chegar na pousada onde passariam a noite em um cabana charmosa, no meio do mato, mas com direito a TV a cabo e banho quente. E comeram e beberam, e ficaram muito felizes, a chuva chateou um pouco porque queriam fazer a trilha mas decidiram que no dia seguinte, cedo, com sol ou chuva, iriam. Por hora, aproveitaram a gastronomia e caminharam ao redor do riacho que atravessava o local enquanto Ka chamava e fotografava as duas cachorras pastor-alemão que viviam por ali. Mas a noite foi chegando e com ela os coaxares e a cada sobressalto Jota bebia mais um pouco para se distrair, para disfarçar... E quando os amigos seguiram para suas camas, fazendo o curto caminho da construção do restaurante até a cabana que alugaram, Jota achou mais prudente tomar distância para os amigos não flagrarem um grito, um susto. Então, com a chuva recomeçando, ali estava um sapo a sua frente e achou melhor ir por outro lado, mas lá tinha dois e quando virou a volta mais uns e quando desviou mais tantos. Com a cabeça girando da bebida e o coração pulando mais que os bichos, desesperado, Jota empunhou um graveto e começo a chamá-los para o duelo. Que viessem, que ele não iria fazer feio, morreria bravamente! E eis que um clarão se fez de um raio e os sapos sumiram. “Rá!” Apoiou o graveto-espada no ombro orgulhoso de sua façanha e pensou até em assoviar, mas o som morreu em sua garganta juntamente com o próximo clarão que revelou o sapo gigante posicionado na sua frente, desafiador. E Jota soube que estava diante da batalha de sua vida, não era um sapo-boi mas um Godzilla que pretendia acabar com sua vida, se esse seria seu fim, ele lutaria bravamente. Se mais alguém estivesse presente, veria toda sua coragem e força enfrentando o monstro entre raios e trovões, escorregando e caindo na lama, sim, mas por conta 137


da chuva que o enfraquecia um pouco, fortalecendo o monstro que estava no seu elemento. Mas jamais desistindo da luta, que foi longa, que durou toda a noite até que uma das fêmeas de pastor alemão caminhou em seu socorro e ele, finalmente, cair de exaustão. Na manhã seguinte os amigos o encontraram coberto de lama, abraçado ao sapo de cimento que decorava o caminho, com a pastora o cheirando e alguns estranhos o rodeando, com a devida distância que o momento exigia, e só o acordaram depois de Ka tirar um porção de fotos.

# Jota ama os sapos #Jota anfíbio # pastor alemão # espaço rio manso #pandemia

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ADRIANA MEES LOOSE Nasceu em janeiro de 1974, em Ituporanga/SC. É professora de musicalização e pesquisa a música como linguagem artística.

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Amansa Que deslumbre este rio! De águas límpidas e refrescantes, que purificam nossas almas assoberbadas e acarretadas de problemas e preocupações. Neste rio posso contemplar a água que corre ligeiramente; com pressa, muita pressa! E percebo que esta água corre apenas em uma direção, que a faz fluir livremente, sem se preocupar com o que ficou para trás. Neste rio, pude me livrar do fardo das preocupações que carregava... E percebi que ele, que corre ligeiro, é manso e amansa nossos corações!

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Tempo Onde o verde é mais verde, as flores exalam um perfume encantador. Os pingos da chuva caindo e molhando as folhas e toda a terra. Cheiro de terra molhada! O cantar dos pássaros que parecem infinitos, nos enchem de alegria. Poderíamos ficar ouvindo-os por muito tempo, de tão lindas suas melodias e afinação. Tudo parece ter outro tempo, que anda mais pausadamente. O ar puro, santifica nossos pulmões, melhora nosso descanso e nos motiva a continuar impulsionados por este lugar, que nossa infância faz recordar. Para este lugar, nos programamos para mais vezes voltar.

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A estrela Como alcançar aquela estrela tão distante, tão alta, lá em cima! Esta estrela tão brilhante... Queria tocá-la com minhas mãos. Poder ver seu brilho de pertinho e sentir o seu calor. Esta estrela que guia, muitos dizem! Tão solitária no céu a brilhar. Como pode aguentar? Será que um dia vai apagar? Alguém pode alcançar e pegar aquela mais brilhante para mim?

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A marca humana Ser grato nos enobrece, nos torna seres de olhar refinado, que em tudo veem algo para agradecer. A gratidão nos fortalece na caminhada, que muitas vezes é árdua, longa e o caminho é de pedras e espinhos.... Ela nos faz perceber que muitos que caminham conosco, em muitos momentos, esquecem um pouco de si, para doar-se e fazer perceber que em cada ser, há um poema, um conto a ser lido e desfrutado, e que para sempre nossas vidas vão marcar. Sou grata! Seja grato! Sempre gratos...

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Laboratório de autoria_Residência criativa

Es t el i v r oér e s ul t a dodoLa bor a t ór i odea ut or i a ,umar e s i dê nc i a c r i a t i v ar e a l i z a dae nt r eosdi a s22e24dej a ne i r ode2021,no Es pa ç oRi oMa ns o, noi nt e r i ordeJ a r a g uádoS ul . O pr oj e t os e l e c i onou qui nz ea r t i s t a s da c i da de ,de di s t i nt a s l i ng ua g e ns ,pa r ape ns a rar e l a ç ã odaa r t eedav i da ,a t r a v é sdeum i ns t i g a me nt oc ont í nuo do ol ha rdec a dapa r t i c i pa nt e .E c om a c ompa nhi ae s t e l a rdeVa nGog h,Ant oni nAr t a ud,S a mue lBe c ke t t , W.G.S e ba l d,Ly di aDa v i s ,Robe r tWi l e s ,Ca r l i t oAz e v e do,Ma noe l deBa r r os , Ma r i naAbr a mov i ćeJ ul i eBl a c kmon. Pr oj e t ov i a bi l i z a doporme i odaLe ideEme r g ê nc i aCul t ur a lAl di rBl a nc : Le inº14. 017/ 2020nomuni c í pi odeJ a r a g uádoS ul .

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