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Papo no Cafezinho


Copyright © 2020 by Marcelo Lamas Impresso no Brasil Coordenação Editorial: João Chiodini Projeto Gráfico e Editoração: Marília Bitencourt Capa: Estúdio Self Revisão: Jéssica Ulbricht Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser armazenada ou reproduzida por qualquer meio sem autorização por escrito do autor.

CATALOGAÇÃO: Bibliotecária Dirce T. Nunes CRB 14-026 Lamas, Marcelo, 1975L217p

Papo no cafezinho / Marcelo Lamas. -- 1. ed. -Jaraguá do Sul, SC : Design Ed., 2020. 132 p. ISBN 978-65-86363-01-2 1.

Crônicas brasileiras. I. Título. CDD B869.8

[2020] Todos os direitos reservados à Design Editora Caixa Postal 1.310 CEP 89.251-400 Jaraguá do Sul – SC Brasil atendimento@designeditora.com.br www.designeditora.com.br


Marcelo Lamas

Papo no Cafezinho


Para Maria Oli


N贸s nos vemos nos outros. N贸s somos nosotros. N贸s somos n贸s mesmos nos outros. Aldyr Garcia Schlee (1934-2018)


Apresentação, por Fernanda Haddad

Essa história de papo no cafezinho — ipsis litteris — é fascinante. Pode até ser que você goste só do bate-papo, o que eu não entendo muito, confesso, mas respeito. Vou começar contando uma breve história. Eu já adorava a hora do café da tarde quando tinha por volta de oito anos idade. Os mais velhos sempre sugeriam que eu fosse brincar, mas eu queria mais era participar, mesmo que fosse “assunto de adulto”, como eles diziam. Talvez o gosto pelo café tenha mesmo surgido para justificar minha presença ali. Minha avó ficava espantada ao ver uma criança tomando a bebida quentinha acompanhada de pão com manteiga, bolo, pão de queijo ou biscoito de polvilho. Essas palavras só são importantes aqui para levar você a 2015, ano em que comecei um blog (umcafezinho.com.br). Acredite: trabalhando desde 2007, antes mesmo de me formar em jornalismo, quase tudo o


que eu escrevi foi para que outras pessoas assinassem. E tudo bem, mas queria fazer algo diferente. Tudo começou de forma tímida, com conteúdo só pelo Instagram. Em 2016, veio o blog em um ato — para mim — ousado. Eu só queria ter um espaço para poder escrever sobre algo de que gostasse e, finalmente, assinar meus próprios textos. Porém, não teria tanta graça fazer isso completamente sozinha. Foi aí que decidi abrir espaço para colaboradores, mas não poderia ser qualquer um; Queria quem eu sentisse que tivesse afinidade com o projeto. Como não sabia onde encontrar pessoas, fiz um post no Instagram no dia 3 de maio de 2017. A ideia era atrair quem gostasse de cafés e tivesse conteúdo bacana para compartilhar dentro desse universo, regularmente, tanto para entretenimento como para trazer conhecimento técnico de forma acessível. Foi um tiro no escuro. Eu não sabia se alguém iria se interessar ou se eu iria gostar do conteúdo da pessoa. Poderiam aparecer sujeitos inicialmente empolgados, mas sem o compromisso de regularidade, afinal a colaboração era gratuita. Será que alguém realmente lia e acompanhava o que era publicado? Era o que eu pensava. Não demorou muito até que eu recebesse o primeiro e-mail. De quem? Marcelo Lamas, o autor desta obra. Sim, foi o primeiro e arrisco dizer que ele esteja sabendo disso só agora.


Marcelo me mandou de cara uma crônica pronta para ser publicada. Um texto impecável e divertido, falando de café. Fiquei surpresa porque hoje em dia é muito comum ver conteúdos gramaticalmente ruins circulando por aí. O texto dele era bom para além da gramática. Cheguei ao fim e vi ainda que ele já tinha livros publicados, sem contar as mais de duas décadas de colaboração com jornais e revistas no sul do país. Que felicidade. Trocamos alguns e-mails, alinhamos as expectativas e no dia 11 de maio de 2017 nasceu a coluna “Papo no cafezinho”, atualizada quinzenalmente, assinada pelo Marcelo Lamas. Foi uma alegria saber que alguém tão competente com a escrita — e que eu nunca havia visto na vida — estava interessado em colaborar com o projeto dessa forma. É uma alegria. O que sei é que Marcelo gosta de Mario Quintana e ouvi dizer também que ele tem outra profissão, mas ainda bem que ele escreve. Marcelo sabe lidar com as palavras como poucos. Digo poucos porque hoje, com a internet, todo mundo escreve. Fico ansiosa para ler o próximo texto e, faça chuva ou faça sol, ele chega. Cada um é a garantia de um minutinho de risada e/ou reflexão e é muito gratificante acompanhar o caminho dessa iniciativa.


Se você chegou até aqui, convido-o a ler o livro até o fim. Pode ser na companhia de uma xícara de café ou não... Pode ser uma água, um suco de laranja ou uma barra de chocolate. Não importa. Uma coisa é certa: você vai se divertir, pode se identificar e quem sabe até passe a história para frente na mesa de café da tarde do seu tio, da sua avó, da sua vizinha, do seu amigo. Reforço a sugestão: faça isso mesmo que você não goste de café, afinal, que papo não fica mais interessante quando se tem uma boa história para contar? Fernanda Haddad, jornalista e editora do site www.umcafezinho.com.br


Notas do Autor

A minha bússola aponta para o quotidiano. Este é o meu norte há duas décadas e meia anotando — e depois escrevendo — minhas observações sociais. Prefiro grafar assim, com “qu”, já que a nossa língua portuguesa permite. Essa escolha tem motivo, pois assim como uma hashtag apontaria para algo digital, o “quotidiano” me remete a uma história contada por outrem, que viu, ouviu ou, até mesmo, imaginou um acontecimento. E o passou adiante. Minha mãe disse que comecei a contar causos aos quatro anos. Eram aqueles fantasiosos ouvidos dos mais velhos da família. Um deles me elogiou: “Tu és um bom escutador!”, sem saber, o pensamento dele estava alinhado com o do escritor José Castello: “O cronista se atém às miudezas, aos eventos menosprezados, aos restos da realidade.” No início de 2017, fiquei sabendo de uma seleção para colunistas do site Um Cafezinho (www.umcafezinho.com.br), sediado em São Paulo. Percorri as páginas, conheci o projeto e combinamos a publicação de textos


quinzenais em uma coluna que batizamos de “Papo no Cafezinho”, o que não seria uma simples alusão ao site, mas à situação propriamente dita, aquela quotidiana, da conversa enquanto degustamos um café. O poeta Mario Quintana (1906-1994) dizia: “Antigamente os cafés eram sentados e conversados.” Há registros de que um café do Quintana durava horas, no cantinho da redação. Depois de muita conversa ele redigia sua coluna “Caderno H”, (Correio do Povo – Porto Alegre) que ficava pronta na hora “H”, ou seja, quando a edição estava praticamente fechada. É um excelente desafio encarar páginas em branco — escrevo primeiramente à mão, buscando levar ao leitor alguns minutos de distração do seu mundo e, paradoxalmente, de concentração naquela historinha. Além das crônicas “cafezeiras” selecionadas — e de inéditas —, inserimos neste trabalho textos publicados no site sediado em Jaraguá do Sul, o Por Acaso (www.poracaso.com), onde publico há mais de uma década. A minha intenção é contar histórias que possam ser compartilhadas ali, na hora do café, seja em casa, na empresa, na cafeteria, na calçada ou na padaria. Assim, tento levar uma visão desde o interior do Brasil, mais precisamente de Jaraguá do Sul/SC, para o mundo, por meio destes papos no cafezinho, que agora o leitor tem em mãos. É uma honra ter a sua companhia.


Índice

Fake news 17 Delação premiada 19 Vício 22 Tenho medo de coach 25 Café corporativo 27 Meias-verdades 29 Vidente 31 Medo de vírus 34 A jararaca 36 Carta de condolências 38 Aprecie com moderação 41 Invenções 43 Autodidata 45 A parábola do café 47 Vizinhança 49 Negócios virtuais 52 Simplicidade 55 Telefone fixo 57 Gordinhos assumidos 60 A escrita e a gastronomia 62


Atendimento ao cliente Cafés conversados Aquele blazer Overdose Coca-Café Deus não dorme Cafezinho na biblioteca A mão boa Periguetes Lista de cafeterias Estalqueando Amigo fura olho Os grupos de famílias Coleção Seios naturais Combustíveis Onde vocês se conheceram? Açúcar ou adoçante? O café e o futebol Cidade fantasma Deu ruim O café da quarentena Vou morrer! A vida não é só café Não existe viagem perdida Ano XXV

65 67 69 71 73 75 77 79 81 84 87 89 93 96 99 103 105 108 110 112 114 116 119 121 123 126


Fake news

Nem tinha eu nascido direito e já surgia um primeiro causo para contar. Diz a lenda que minha mãe foi para a maternidade no carro da funerária, o único por perto e à disposição. Ou seja, a coisa já começou invertida, o que costuma ser o último veículo de todo mundo, aquele que não importa a marca, a cor, o ano ou o modelo, foi praticamente o meu primeiro. Houve uma época na infância em que uma das minhas funções era ler a seção de necrologia do jornal para a avó Alice. Uma vez por semana, eu pegava a organizadíssima agenda telefônica dela e pescava o nome completo de uma de suas amigas. Depois, era só abrir o jornal e substituir o nome da falecida na notícia. “Matei” todas as amigas dela: Renilda, Orocilda, Zalir, Hercília, Zoé, Oscarina, Zaida, Ordália, Nilza, Noca e Capitulina. A vovozinha reagia rápido — e alto: “Morreu a Duduca”. Embora eu tivesse dito “Olga Caruccio”, ninguém daquela geração era chamado pelo nome de batismo. Depois ela começava a rir, pois não tinha como um guri de 12 anos enganar uma comerciante de 72. Até porque 17


ela sabia de cabeça a idade das “migas” e nunca fechava com o que eu lia. E caso uma delas morresse, a notícia chegaria antes do impresso. Recentemente mudei de endereço e fui morar ao lado do cemitério. Toda vez que passo na calçada, não resisto a tentação de ler o painel de LED que mostra o nome dos(as) falecidos(as). Lembro do bom humor da minha avó numa longínqua manhã de quinta-feira em que levantei os dados completos da Tusnelda, digo, da dona “Zilda Doceira” e marquei um pontinho na batalha das fake news com a vovozinha. Depois a medicina evoluiu, a Alice livrou-se da catarata e passou a ler o jornal sozinha. Já deixei muito bem registrado no meu testamento — crônicas têm valor legal — que não quero saber de velório. Até já falei que era para não ter ninguém desmentindo minhas histórias, mas na verdade, não quero que saiam de lá reclamando do café, ou dizendo que estava frio. Até hoje, nunca vi alguém sair desses lugares elogiando alguma coisa, a não ser alguma prima que era uma criança desajeitada e que virou um mulherão. Ou o moleque espinhento que ninguém dava bola e que agora as mina “pira” no rapazote. O humorista Max Nunes (1922-2014) explanou perfeitamente: “O velório é um defunto cercado de piadas por todos os lados”.

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Delação premiada

Os comparsas criaram um grupo no WhatsApp com o nome de “Grupo de Estudos”. A intenção real era organizar a festinha anual entre colegas e ex-funcionários do departamento. O Sid conhecia bem a dinâmica do evento. Começava com um almoço regado a muito chope e a rapaziada só contando vantagens ao longo da tarde. Até alguém sugerir: “Vamos lá?”. Sid era malandro, não queria ficar queimado com a mulher. Foi para a festinha de bermuda, chinelos, camiseta surrada e de bicicleta, ou seja, inadequado para seguir adiante. Só não contava que, até aquele amigo que “se pagava” de religioso resolveria ir junto, para conhecer a famosa casa da Mathilde. Sid sentiu-se pressionado, alegou sobre o traje impróprio. Só que alguém bradou a máxima: “Vai todo mundo ou não vai ninguém!”. Rapidinho, o problema do Sid foi resolvido: era só passar na casa do Elton, que era do seu tamanho. Ele ficou sem saída e seguiu em frente. Depois de boas risadas, de ter visto quatro “stripteases” e de ter tomado várias cervejas, resolveu arre19


matar com duas águas para disfarçar seu estado. Pagou a conta de R$ 150,00 e foi embora. Destrocou a roupa na garagem do Elton, pegou a bicicleta e tomou o rumo de casa. No caminho, desequilibrou-se, machucou o joelho e estragou a bicicleta. Por mais paciente que a Susana fosse, não o perdoou. Nem deu bola para os vizinhos do condomínio. Fez um escândalo ao vê-lo chegar daquele jeito. Ele ficou cabisbaixo, foi para o banho e depois dormiu. Curiosa, resolveu estalquear o celular do Sid e viu ali toda a conversa prévia e uma mensagem recém-chegada ao “Grupo de Estudos”: “Sidão, devias ter ficado com a gente, o strip da Roberta foi agora, aí sim tu irias te apaixonar!”. Ela não esperou o marido para conversar. Respondeu na hora: “Aqui é a Susana, o meu casamento terminou e o de vocês vai junto! Podem esperar!”. Assustados, os caras decidiram ir embora do inferninho. Fizeram várias resenhas pelo Grupo de Estudos II, pelo resto do finde, mas preferiram ficar com a dúvida, com a crença de que era brincadeira do Sid. Monitoraram a rede social da Susana, que só fazia posts de frases do tipo: “Era o dono da bola. Até o dia que me dei conta de que o campo era meu!”. No fim da tarde de domingo, Susana compartilhou uma foto de rostinho colado com o marido e a legenda: “Nosso amor é maior que tudo!”. Os caras ficaram ansiosos até ele aparecer com a habitual cara de paisagem, na firma: 20


— Sid, foste tu que nos ameaçou? — Foi a Susana! — Ela te perdoou? — Perdoou, mas teve condições... — O que ela pediu? — Ela me proibiu de sair com qualquer um de vocês! — Só isso? — Não! Ela também exigiu que eu passasse o nome de todos que estavam na festa, inclusive os que não apareciam no Grupo de Estudos. Assim, ela disse, conseguirá me monitorar. — Então ficou sossegado pra gente? — Da parte de vocês não tratei nada. Sugiro manter suas esposas longe dela.

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Vício

O sujeito chegou perto do meu posto de trabalho e mandou: — Bem acompanhado, hein? Estás saindo com a viciadinha? — Ãh!? Antes que esse diálogo acabasse, alguém o chamou para atender a um telefonema e a conversa ficou inacabada. Fiquei assustado com a acusação, mas não quis voltar ao assunto para não parecer desinformado. Naquela noite que saí com a Ingrid, ela disse que não bebia álcool e pediu um suco de melancia. Qual vício seria? Certeza que era ilícito! Quanto a mim, tinha omitido a coleção de camisas de futebol. Se soubesse disso, talvez tivesse me desclassificado. Preferi falar da perseguição às livrarias e bibliotecas, o que contaria mais pontos para a conquista, pois a conheci numa livraria, usando óculos, sentada, empunhando uma xícara e sorrindo pra mim — ou de mim, acompanhada de uma amiga em comum. 22


Cheguei a pensar em puxar conversa com meu colega e descobrir o vício dela, mas resisti, pois tinha combinado um happy hour com a pretendida. Curioso e preocupado, após as formalidades das saudações, mal tínhamos sentado, fui direto: — Nem falamos de vícios no sábado, né? Ela deu um sorriso amarelo e rebateu: — Vícios? — Sim, vícios! Eu, por exemplo, coleciono camisas de futebol. E você, é viciada em que? — Ahmmm… Até pegam no meu pé por causa disso… — Sério! E o que é? — Café! — Café? E café pode ser vício? — Pode sim! Além de beber, coleciono tudo que há a respeito: xícaras, bules, embalagens vazias, latas, quadros, revistas, livros, fotografias, coadores, guias e tenho uma caricatura na parede que foi feita com café. No dia seguinte, chequei com meu colega se o vício era mesmo a bebida que só perde para água em consumo. Ele confirmou! Sendo sabedor de que era algo lícito, dentro de semanas, atamos um namoro sério. Com a convivência estou descobrindo um mundo novo, desconhecia até as válvulas para apreciar os diferentes aromas de cafés nas prateleiras dos supermercados. Quando viajo a trabalho, não deixo de procurar 23


um café regional para apreciarmos, seja feito no coador de pano, sifão, aeropress, prensa francesa ou na Hario V60. Antes, só conhecia o Melitta. Aos poucos estou me familiarizando com os termos dos “Coffee Lovers”. Estou treinando o meu paladar, até o distinto café do jacu experimentei — e só depois ela me contou sobre a origem. Fizemos algumas viagens para atestar as sugestões e a minha avaliadora particular é bem rigorosa com o tratamento que os baristas dão aos grãos. Frequentamos semanalmente um cinema que tem uma ótima loja de cafés ao lado. Ainda não sei se ela me acompanha porque pegou gosto pelos filmes — outro vício meu — ou se vai por causa do espresso que tomamos antes da sessão. Se tivesse que apostar, diria que é pelo café. O último filme que ela havia assistido sozinha era Dois filhos de Francisco. Dias atrás, conversávamos sobre o futuro e combinamos: se houver formalização do matrimônio, os convidados serão agraciados por um cardápio que começará por um bom café.

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Tenho medo de coach

Antes de escrever “medo” no título desta crônica fui checar meu dicionário Aulete: “Medo: emoção que se sente diante de um perigo ou ameaça.” A colocação me pareceu correta, pois é realmente o que sinto quando vejo um coach por perto. Não quero generalizar, mas tenho observado muita fluência para falar de quaisquer assuntos, passando por cima de profissionais especializados e experientes, dando a impressão de que resolvem qualquer problema, de todas as naturezas. Outro dia, uma prima me indagou por mensagem: “Qual tipo de café vocês tomam?”. Expliquei que era o pretinho básico — ou com leite, nada daqueles cafés cheios de “gororebas”, os que costumamos chamar de “não cafés”. Acontece que minha resposta não foi tão simples assim. Redigi um textão no bloco de notas e colei na resposta. Depois fiquei com a consciência pesada, me sentindo meio coach. Até faço esse trabalho na empresa, 25


com os engenheiros recém-formados que ficam ao meu lado por meses, mas evito o uso do termo. Semana passada estava em um restaurante com mesas muito próximas e sentou-se ao meu lado um sujeito que deixou a vida convencional e virou coach. Eu só o cumprimentei e não olhei mais pra ele. Depois, fazendo uma analogia com outras situações de relutância social minha, matei a charada: Há um ano, perdi uma votação caseira sobre a adoção de um pet. Como tive bronquite na infância, não podia ter bicho, nem tapete, nem cortina lá em casa. Está escrito na cartilha que guardo até hoje. Então, partimos para resgatar uma felina cinza do OLX, a Berenice. Desde o dia em que ela chegou lá em casa, não consigo fazer nada sozinho. Nem tomar banho. Não pude mais comprar minhas — preferidas — camisas pretas. Dizem que a gatinha me escolheu. Imagine se me acontece o mesmo convivendo com um (uma) coach. Depois de fazer a primeira consulta não conseguir fazer mais nada sozinho? Precisando de alguém para me ajudar a resolver um problema que eu nunca — nem — tive.

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Café corporativo

Recém-chegado ao mercado de trabalho como estagiário em uma indústria, consegui deixar a Termolar azul deslizar das minhas mãos e cair no chão. Lembro bem da cena: o café preto se esvaindo no carpete marrom — e junto dele a chance de ser contratado. Fiquei assustado e congelei diante da cena, mas uma moça que sentava pertinho do cafezinho da firma viu a situação, tirou um pano não sei de onde e rapidinho estancou a sangria. E foi justamente a moça que mais me zoava, que nunca pronunciava meu nome e só usava a alcunha “Ôh, estagiário”. Tinha a impressão de que era a mais mal-humorada do escritório. Depois daquele ocorrido, percebi que a aparente indiferença não passava de uma brincadeira, a qual eu não tinha maturidade para perceber. Foram muitos cafezinhos até que se iniciasse uma amizade que já passa de duas décadas. Sei de casos de conversas por ali que foram parar em altares.

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Ouvi um empresário dizer que conseguia medir a situação do mercado pelo consumo de café do escritório, nos meses em que havia mais consumo o pessoal estaria com menos trabalho, ou seja, o setor econômico que ele atuava estava em baixa. Falando em café de firma, encerro com a frase famosa de Abraham Lincoln (1809-1865): “Se isto for um café, por gentileza, me traga um chá; mas se isto for um chá, por favor, me traga um café”.

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Meias-verdades

Dizer somente a verdade não é a maior virtude dos contadores de histórias. É da nossa natureza acrescentar algum detalhe ao original. Em muitos casos este já nos chega alterado, pois o interlocutor, por conta própria, tomou o cuidado de deixar o acontecido “mais fantástico” antes de compartilhá-lo com o escritor. Confesso que minha consciência pesa quando digo que escrevo sobre o quotidiano. Tudo é uma soma de meias-verdades. Por vezes é uma soma propriamente dita, junto duas situações com similitude e escrevo uma crônica só. Aconteceu com um amigo: ficou preso num motel porque faltou energia elétrica e, noutra vez — com outra namorada, ficou preso porque estragou um ônibus na saída do estabelecimento. Tudo isso foi parar no meu livro e o sujeito aparece com uma noiva na noite de autógrafos, que não poderia saber da presença dele na escritura. Eu tendo que disfarçar, não podendo dar aquele efusivo abraço de agradecimento 29


que as demais personagens receberam. Apenas seguimos a máxima do professor Leandro Karnal: “Mentir é indispensável ao convívio social”. Semana passada, voltei de uma viagem corrida e trouxe para a namorada um café moído, comprado por sete reais, num posto de beira de estrada. Quando perguntei se o café era bom, o fiz esperando uma resposta “social”, escapista. Porém, ela pegou a lata com o café, abriu a tampa, colocou perto de mim — de modo que sentisse um cheiro forte de queimado — e perguntou: “O que tu achas?”. Um recente estudo da Universidade de Oakland, na Califórnia, apontou que cerca de 5% das pessoas mentem para promover o humor (despertar o riso nos outros). Depois que li o artigo, passei a dormir mais tranquilo. O escritor MiIlôr Fernandes (19232012) concluiu: “Mentimos mesmo quando estamos sozinhos”.

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Vidente

Numa costumeira ligação para a mãe, distante 900 km: — Oi mãe! — Oi filho! — Que bom que ligaste, Marcelo, queria falar contigo. — Podes falar… — Fui numa vidente, ela disse uma coisa importante quando mostrei a tua foto. — Mãe, tu acreditas nisso? — Claro, filho! Ela acertou tudo a teu respeito. — Acertou o quê, mãe? — Ela disse que tu és muito inteligente… — Mãe… — Ela também disse que tu tens um problema sério! — Qual? Mãe? — Ela disse que as pessoas te falam as coisas e que aquilo entra num ouvido e sai no outro. — Mãe… 31


— Tu não acreditas, né? — A foto era de óculos? — Era. — Mãe, uma foto de óculos dá um ar de inteligência… — E sobre “não ouvir o que as pessoas te dizem?” — Toda mãe acha que os filhos não dão a mínima para os seus conselhos… — Olha só, tá vendo! Ela acertou! Te falei! O que ela disse entrou num ouvido e saiu no outro. Tu não tens jeito mesmo. Repetindo o que disse o jornalista americano H.L. Mencken (1880-1956): “É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade, quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele”. *********** Aos quatorze anos de idade, o poeta Mario Quintana visitou uma cartomante, junto com amigos adolescentes. Todos viram alguma coisa quando solicitados, mas o jovem Quintana disse: “Só vejo a ponta do meu nariz!”. Ela, indignada, o acachapou: “Vejo que você será um homem famoso aos 60 anos!”. Recém-sexagenário, o escritor assinava contrato com uma grande revista que, além da fama, lhe garantiria a segurança financeira para não voltar a ser ameaça32


do de despejo dos hotéis onde morava, o que aconteceu algumas vezes. O Hotel Magestic, um imponente prédio de 6 andares em Porto Alegre, onde ele morou por 12 anos, foi comprado pelo governo gaúcho, tombado, reformado e inaugurado — com a presença do poeta — como Casa de Cultura Mario Quintana. Toda vez que entro lá, fico emocionado.

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Medo de vírus

O seu Lamas — meu pai — sempre gostou de fotografias. Tem uma coleção enorme de originais em P&B de times de futebol, nos quais ele jogava desde a década de 1950. Lembro que sempre tivemos câmera em casa, desde a pequena Kodak Instamatic, que tinha flashes descartáveis. Meu pai não usa computador, sempre imprime as fotos preferidas e as coloca em uma parede infinita na área de festas. Numa ocasião, cansado de anotar meu e-mail e celular em guardanapos de papel nos eventos literários, providenciei cartões de visita. Quando entreguei um deles para o seu Lamas, ele pediu uma caixinha, e toda vez que alguém fazia uma foto, dizia: “Envia para o meu filho, por favor?”. Adiante, ficava me cobrando o recebimento. Recentemente, meus pais participaram de uma colônia de férias para idosos de Jaraguá do Sul. No primeiro dia, a recreadora bateu uma foto dos “velhos” e recebeu meu cartão. Toda vez que falava com ele, me questionava: “Recebeste a foto?”. Depois de 34


uma semana de atividades, como bingo, pingue-pongue, caminhada e teatro, Seu Lamas foi taxativo: — Marcelo! A Íris ainda não te enviou a foto? Ela disse que mandou vários e-mails! — Pera aí… Tu disseste Íris? — Sim, a recreadora. — Deixa eu olhar minha lixeira… — Lixeira? — Sim, pai. O primeiro e-mail que ela mandou tinha como assunto: “FOTOS DO CASAL NA PISCINA”. — E o que que tem isso? — Achei que fosse vírus, e passei a apagar tudo que chegava dessa Íris. *********** Semana passada, me cadastrei no site de uma universidade americana, a pedido de um colega, para recomendá-lo profissionalmente a uma bolsa de estudos. Ontem, ele me indagou sobre o recebimento do e-mail de confirmação. Estou quase certo que o apaguei. Sabe como é? Mensagem em inglês e cheia de palavras em caixa alta: certeza de que é mais um vírus me rodeando.

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A jararaca

Há quem diga que eu era o neto preferido da Alice (in memoriam). Essa fama vinha da minha disponibilidade em aceitar os convites incomuns que ela fazia. Numa ocasião, fui com ela visitar uma amiga. A intenção era “roubar” a receita de uns pontos de tricô, fazendo perguntas para a hábil senhora. Ouvi tudo, mas não sabia do plano. Quando chegamos de volta em casa, a avozinha foi traída pela memória e não conseguiu repetir a sequência certa, enquanto tentava mostrar para minha mãe. Vendo sua ansiedade, tentei ajudar, sugerindo “uma laçada, um tricô, dois pontos juntos e um sem fazer tricô”. E — adivinhe? — funcionou! Os olhos azuis da velha brilharam e ela ficou impressionada com o acerto. No outro dia, bem cedo, a Alice bateu lá em casa e disse a minha mãe: “Preciso do Marcelo!”. A minha mente infantil não entendia como uma criança de cinco anos poderia ajudar em alguma coisa. A mãe me vestiu com a única roupa de passeio e me despachou com ela. No caminho, me explicou que 36


íamos na casa de outra amiga, a qual referia-se carinhosamente com uma alcunha: “Marcelo, nós vamos na casa da Jararaca. Mas tu chamas ela de Dona Olga, viste?!”. A Jararaca, digo, a dona Olga, era a benzedeira da vila, a responsável pela medicina alternativa da época. Por exemplo, se a pessoa tinha dores nas costas, ia ao médico, fazia radiografia, tomava duas caixas de remédio, fazia massagens, mas o que a curava era a benzedura simultânea. Minha avó passou o plano: “Vou pedir para a Jararaca te benzer. Tudo que ela te disser tu vais decorar, ouviste?!”. A Jararaca realizou o procedimento, falando alto e me afumentando. Eu quietinho, tentando memorizar. Mal saímos do portão gigante, que escondia a casa assombrada e sem cor, a Alice puxou uma caneta BIC verde e um caderninho da bolsa e anotou passo a passo a benzedura, não dando chances para o esquecimento. A Alice passou a ser a benzedeira exclusiva da família e eu, pela primeira vez, me senti útil. Como disse o cronista Luiz Toledo: “A saudade é a prova que estamos vivos e que tudo realmente aconteceu”.

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Carta de condolências

Embora escreva há duas décadas e meia, tenho dificuldade para fazer textos pessoais e intransferíveis, aqueles com sentimentos envolvidos, como homenagens de aniversários e de dia das mães. Meses atrás, faleceu um cliente de uma das empresas a que presto serviços. Fui acionado para escrever a carta de condolências. Antigamente havia um padrão de carta — fiz alguns desses — agora elas são customizadas. Por sorte, conhecia o sujeito e fiz umas cinco linhas com os pesares. Também usei a técnica do reconhecimento de todas as virtudes — depois que a pessoa morreu. Já houve caso em que a família me encomendou um obituário antes do falecimento do desenganado, para deixar tudo organizado. Pode parecer frieza, mas é a mesma situação de comprar um túmulo antecipadamente. Nesses dias, me ligou a secretária de outra companhia, solicitando uma cartinha em homenagem póstuma ao pai falecido de um cliente. Ela não sabia o 38


nome do homem, não sabia a causa mortis, tampouco a profissão. Quando a questionei, alegou que só tinha a informação sobre o falecimento do pai do Sr. Celso Alberto e que queria antecipar-se, deixando o documento pronto para o chefe despachar assim que retornasse de uma reunião. Enviei a sugestão e a secretária proativa me ligou: — Oi, Marcelo! — Oi, Lucy! — Obrigado pela carta. Tenho duas perguntas pra te fazer. — Pode falar. — São só essas três linhas mesmo? — Sim, é isso! Não temos informações sobre o finado, se era operário, bancário ou professor? Se estava doente ou se foi mais uma vítima do trânsito… — Ah! Tá bom! — E a outra pergunta? — Marcelo, o nome dele era Alberto? Você tem certeza? Como você descobriu? — Deduzi. — Deduziste. — Sim. Se o nome composto do filho é Celso Alberto, e este arranjo não combina, imaginei que o segundo nome foi uma auto-homenagem do pai dele.

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— Acho que tu não és muito certo das ideias. Rimos, nos despedimos e até hoje não sei o nome daquele falecido. Em tempo: Após os acontecimentos da crônica acima, o autor participou de um encontro de pessoas enlutadas (ONG Movimento Marcha do Silêncio). Espera ter melhor argumentação numa próxima carta de pêsames. Visite o site www.vamosfalarsobreoluto.com.br

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Aprecie com moderação

Naquela época não era comum crianças gostarem de café. O “pretinho” era coisa para adultos. A turminha era chegada no achocolatado — que hoje migrou para a listinha dos vilões, aquela que começou com a carne e já chegou na farinha branca. Quando criança, só tomava café na casa da tia Manoela. Ninguém entendia direito aquela pré-disposição, principalmente minha mãe, enciumada. Vai ver a tia Manoela usava café especial e ninguém sabia ou ela tinha feito um curso de barista. Dizem que um terço do sucesso do café está na habilidade deste profissional. Ano passado, o cardiologista me recomendou diminuir a dosagem de café. Usei a mesma estratégia de um amigo, cujo ortopedista recomendou-lhe parar com o jogo de futebol dos sábados. Troquei de médico! Nessa semana, na sala de espera da dentista, resolvi seguir o que o Carpinejar disse: fazer as crônicas no bloco de notas e não ter ritual para escrever. Saquei meu telefone e comecei a fazer este texto, com o apa41


relho na horizontal. Uma moça que estava na minha frente deve ter pensado que eu estava na jogatina, pois mal olhei para ela quando me cumprimentou. Ali, lembrei da infância, quando ia ao dentista e como prêmio por bom comportamento ganhava uma Coca-Cola no boteco da frente. Ainda não havia aquela listinha do mal. Ao longo dos últimos 20 anos como paciente da Dra. Mariluci, poucas vezes ela sugeriu a redução do consumo de bebidas que podem escurecer os dentes, o que facilita o nosso “relacionamento”. Mal sabe ela: assim que saio de lá, vou tomar uma dose grande de espresso com leite e comer um pastel de nata na padaria da esquina, não importa o produto que a Mariluci tenha aplicado ou a recomendação que tenha dado. Um dos pensamentos mais difundidos do poeta Mario Quintana resume tudo isso: “O passado não reconhece seu lugar, está sempre presente”.

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Invenções

Qual foi a principal invenção da humanidade? As respostas podem ser as mais variadas, desde a roda até a internet. Em uma publicação recente a revista National Geographic fez uma lista com as dez mais importantes invenções, a saber: 1. Tipografia 2. Lâmpada 3. Avião 4. Computador pessoal 5. Vacina 6. Automóvel 7. Relógio 8. Telefone 9. Geladeira 10. Câmera fotográfica Para surpresa de muitos, ela apontou a tipografia em primeiro lugar. A publicação explicou a lógica: “A 43


tipografia permitiu a difusão da palavra impressa e da alfabetização, o que, por sua vez, facilitou o compartilhamento das ideias e a invenção de outras coisas”. Lembro dos meus primeiros contatos com a tipografia: Eram os anúncios de revistas e jornais que meu pai recortava e me ajudava a decorá-los, relacionando a marca (os tipos gráficos) ao produto. Para os leigos, eu já sabia ler aos cinco anos. As pessoas ficavam espantadas quando me viam andando pela rua, de mãos dadas com a mãe e “lendo” em voz alta as fachadas. Fazia de propósito. Numa esquina, havia uma loja com prédio imponente, cujo nome nunca erraria. Ali, não eram os tipos gráficos da logomarca que chamavam minha atenção. Não era uma questão visual. A sensação vinha antes de avistá-la. Era o cheiro da torrefação de cafés da cidade, o Café 35. Ficava entorpecido. Por vezes até me culpo, pois a minha primeira lembrança de café é daquele aroma, enquanto a maioria das pessoas lembra do café que suas avós faziam no fogão a lenha. O escritor João Chiodini aclarou: “Utilizando as versões romanceadas de nossas vidas, editadas pela nossa cachola, vamos dizendo o quão eram especiais nossas datas, nossas ocasiões e nossas experiências.”

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Autodidata

Toda vez que escuto alguém dizer que é autodidata fico com vontade de rir. Não é questão de soberba. Na hora que ouço a palavra, lembro da máxima do Mario Quintana: “O autodidata é o ignorante por conta própria”. Também fico com a consciência pesada, pois escolhi fazer minhas formações técnica e superior na área de exatas, embora tivesse orientação profissional à época que sugeria migrar para humanas. Assim, para exercer meu hobby de escrever, procuro participar de oficinas de literatura anualmente. Lembro de uma ocasião em que fui visitar um escritor renomado, já passado dos setenta anos, que durante nossa conversa me perguntou várias vezes: “Mas onde mesmo que fizeste jornalismo?”, e eu tinha que explicar que era apenas um engenheiro contador de histórias. Nas últimas duas semanas, tirei férias do meu trabalho formal numa indústria vital e fui atrás de mais um curso de criação literária. Como minha agenda 45


não estaria toda ocupada — e assombrado pelo Mario Quintana — fui atrás de outro curso. Ocupando o espaço da crônica do quotidiano, em um site que tem “o café como ponto de partida”, resolvi investir num curso sobre a bebida e, além de ter contato com pessoas de várias tribos — e estados —, encontrei três pluralidades importantes sobre o café: 1. Ciência: há muito estudo, que inclui o plantio do fruto, as condições de solo, altitude, forma de colheita, entre outros; 2. Exata: é possível fazer um café excelente, com temperaturas, quantidades e tempos, seguindo as receitas dos baristas; 3. Humana: faz parte do estilo de vida de empreendedores, baristas e entusiastas que formam uma classe unida, heterogênea e sem preconceitos, na qual a palavra concorrente parece não fazer sentido. A propósito: Assim que tiver oportunidade, este cronista vai participar de um curso de literatura de cordel. Caso algum dia resolva me aventurar por ali, não poderei ser acusado de ser um “ignorante por conta própria”, como dizia o velho Quintana.

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A parábola do café

Na casa dos meus pais não tem hora para tomar café. Vez por outra estou falando com eles, perto da meia-noite, e minha mãe diz: “Vou lá tomar um cafezinho” e dá tchau! E nesse caso, não é desculpa para encerrar a ligação. Posso garantir que não interfere em nada no sono deles. Contrariando o que dizem os especialistas. Os meus velhos tomam tanto café que usam um método regional muito peculiar, chamado de “essência”, que consiste no preparo de um café passado no filtro de papel ou de pano, de modo que fique superconcentrado. Essa essência fica numa jarra, e toda vez que dá vontade de tomar um cafezinho, é só pegar uma dose e preencher a xícara com água quente. Assim eles consomem um café amargo e oxidado. Contrariando a sugestão dos especialistas. Recebi uma parábola — aqueles textos que fazem uma volta e têm uma moral no final — que contava a história de um professor que convidou para uma conversa seus ex-alunos que reclamavam de “estresse”. O 47


mestre ofereceu café aos bem-sucedidos profissionais. De posse de um bule, ele pediu que cada um pegasse uma xícara. Havia uma de cada tipo: porcelana, plástico, vidro e cristal. Depois que todo mundo tomou seu café, o professor concluiu: “Viram? Todos vocês pegaram a melhor xícara que puderam. Isso é natural, todo mundo prefere o melhor. E é isso que gera o estresse de vocês. Asseguro que nenhuma delas acrescentou qualidade ao café. O que vocês queriam era o café, mas institivamente ficaram preocupados com a embalagem e deixaram de lado o que mais importava”. Depois de ler esta parábola, fui consultar a Cinthia Bracco, da Coluna Litros de Café, minha vizinha no site umcafezinho.com.br: “O ideal é usar xícara de porcelana, pois não vai interferir no sabor da bebida e vai manter a temperatura por mais tempo. Antes de servir o café, o legal é aquecer a xícara com água quente para que ela também fique quentinha, ajudando ainda mais a manter a temperatura”. Nesse caso, foi a especialista quem contrariou o profeta.

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Vizinhança

A vida em condomínio não é fácil. Comecei a sentir isso quando precisei mudar de cidade e fui dividir apartamento com dois colegas do novo trabalho. Já era perto do fim do ano quando a Dona Brunilde tocou a campainha do 703 e, sem formalidade alguma, nem educação, esbravejou: “Onde está a guirlanda?”. Eu nem fazia ideia do que ela estava falando, e respondi: — O quê? — A guirlanda de Natal que estava lá na portaria… Demorei para deduzir que se tratava de uma alegoria e que, por sermos os únicos solteiros do prédio, éramos os suspeitos. Ficamos os dois sem acreditar. Eu na desconfiança dela e ela na minha resposta. Foi a minha primeira (má) impressão sobre a vida em comunidade. E a dona Brunilde apareceu por lá algumas outras vezes.

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********** Semana passada, no condomínio que estou atualmente, uma moradora disparou a seguinte mensagem no grupo de mensagens do prédio: “Boa tarde, gostaria de saber que planta é aquela no hall de entrada? Desculpem, mas achei de extremo mau gosto, tanto a planta como o vaso. Se é para fazer decoração, tem que chamar um profissional, pois isso desvaloriza o prédio”. Fiquei curioso para ver e quando o fiz, concordei plenamente com a vizinha reclamante, além de feia a planta artificial tem quase dois metros. Acredito que os outros também, porém ninguém se manifestou. Talvez para evitar uma indisposição com o(a) dono(a) da obra de arte. Como se não pudesse piorar, no dia seguinte apareceram umas flores vermelhas gigantes que remetiam a uma árvore de natal. Mais dois dias e brotaram umas miniaturas de passarinhos dentro de uns ovos quebrados, o que piorou o mau gosto anterior. Nunca saberemos se foi reação do(a) dono(a) da árvore ofendido(a) por ter sido criticado(a); se foi a vizinha que enviou a mensagem vingando-se de todos que se omitiram e que agora tomarão alguma ação, porque do jeito que está não dá pra ficar; ou se foram os três moradores do prédio que criam passarinhos nas sacadas, querendo expandir seu hobby; ou, ainda, 50


o síndico querendo mostrar algum investimento que justifique o reajuste que era para uma reforma e nunca mais saiu dos boletos. Espero que, desta vez, não esteja na lista de suspeitos. ************ No seriado americano “Desperate Housewives” (Donas de Casas Desesperadas), os moradores de um vilarejo recepcionam novos vizinhos com um bolo, inserindo os novatos na pequena sociedade. Essas vivências que relatei poderiam passar batidas, caso a fórmula americana tivesse sido aplicada aqui. E se a “correria” fosse usada como desculpa para escapar do encontro de boas vindas, a saída seria o convite para um cafezinho, bem quente e sem açúcar, por favor! Como dizia Millôr Fernandes: “Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro”.

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Negócios virtuais

Por conta da mudança para outro apartamento, minha namorada precisou se desfazer de algumas coisas. Ela tem uma boa coleção de quadros sobre café, inclusive o de uma embalagem estampada, sobre o qual até o cafeicultor dono da marca ficou espantado ao saber. Num dia que eu estava de folga, ela me ligou do trabalho: — Marcelo, podes entregar um quadro que vendi pela internet? — Posso, qual deles? — Aquele branco, que tem uma flor! Antúrio ou lírio. — Não é de café? — Claro que não! (risos) Parti para a operação. Era um pouco mais complicado do que pensei. O quadro era grande. Para tirá-lo do lugar tive que subir na mesa, contrariando meus conhecimentos sobre a NR 35 (Trabalho em Altura).

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Além da minha descoordenação habitual, tinha o agravante de o quadro ser todo de vidro, até a moldura. Consegui remover o corpo, colocar no carro e fazer o carreto. Chegando ao destino, lá estava eu na portaria de um condomínio fechado. Tive que fazer um cadastro de entregador e foi difícil convencer o porteiro que eu não tinha nota fiscal, tampouco CNPJ ou nome da firma. Enquanto fazia o procedimento, pensava o que levaria uma pessoa que mora num lugar tão requintado querer comprar um quadro de segunda-mão de outrem? Vai ver o quadro era uma obra de valor e eu estava por fora. Quando finalmente cheguei à residência número oito, fui recepcionado por uma moça vestida de empregada de novela. Confirmei a compra e ela me pediu para colocar dentro da casa. Começou um novo drama. Não encontrava um lugar para colocar o quadro, num primeiro momento achei que a casa era tão grande que eu não via as paredes. Depois observei que o lugar era extremamente decorado. Só achei um cantinho para coloca-lo no chão, de costas, com a gravura para cima. Fui embora decepcionado, pensei que nesses lugares também se oferecia um cafezinho, já fazia umas três horas desde o meu último e já começava a crise de abstinência. 53


Em tempo: Minha namorada é coffee lover, colecionadora de tudo sobre café, mas diz que o viciado da relação sou eu.

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Simplicidade

Recentemente fiz uma expedição ao Uruguai e o que mais me impressionou por lá foi a simplicidade das coisas. A seguir listo uma pequena amostra do que me encantou:

O povo As pessoas são agradáveis, tranquilas e prestativas, o que se percebe desde o serviço de imigração. No Uruguai, se você quiser falar com o presidente, basta esperar a saída do expediente, pois ele tem que caminhar até o local onde é permitido estacionar. Devido à população não ser tão grande — mas altamente politizada — as decisões são tomadas mais rapidamente, a lei do divórcio, por exemplo, foi decretada 70 anos antes que a brasileira.

O homem do Guiness Voltei a visitar o “Museo de Colecciones Arenas”, em Colônia do Sacramento. Entre frascos de perfumes, pins, chaveiros e bonés, o que se destaca é a 55


maior coleção de lápis do mundo. É o próprio Sr. Emílio Arenas que apresenta as curiosidades do acervo. Ele tem uma cafeteira de 1860, que funcionava originalmente à carvão e que após uma reforma na Argentina, foi modernizada para o gás. Quando perguntamos se ele não tinha problemas com cupins, pois a coleção é cuidadosamente organizada em caixas de madeira, ele respondeu: “Uso Jimo”. Simples assim.

Café Como sabia que no país vizinho aceitam qualquer moeda, catei todos os níqueis e cédulas de viagens passadas. Para não ficar perdido nas conversões, fazia as contas baseado no preço de um cafezinho (100 pesos). Essa utilidade do café eu ainda não havia experimentado! Em uma loja de esportes, gostei muito de um par de tênis. Não o comprei. Achei que 55 cafezinhos era um valor absurdo. É importante dizer que só tomamos bons cafés lá no país vizinho — seguramente com boas doses de grãos brasileiros. Eles não vinham harmonizados com chocolatinho para disfarçar o amargor. Todos chegavam ao nosso paladar na temperatura certa, bem quente! Nas nossas incursões pelo Brasil, percebemos por vezes muito glamour nas cafeterias e pouca temperatura dentro das xícaras.

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Telefone fixo

Outro dia recebi uma informação confidencial e o sujeito me advertiu: — Cara, cuida com o que vais fazer com isso! — O quê? Qualquer coisa eu sumo e ninguém me acha. — Cara, eu te acho pelo Google, é só querer. Depois dessa conversa, refleti sobre o quanto era difícil encontrar a pessoa há duas ou três décadas. A primeira vez que me interessei por uma menina, o único jeito possível de fazer contato era segui-la, depois da escola. Isso não era lá muito difícil. O complicado era ficar escondido da sua mãe, que logo percebeu o gurizote de óculos no encalço. Certa vez, quebrei a cara: a mãe de uma pretendida me conhecia de vista, pois trabalhava no mesmo hospital que a minha mãe. E deixou vazar no cafezinho: “Os nossos filhos se gostam!”. Aí sofri bullying em casa: “Com namoradinha, hein, Marcelo?!”. Depois aprimorei o método de contato. Com a chegada do telefone aos bairros interioranos, dava pra 57


saber quais casas tinham o aparelho, pela simples observação da fiação — seria um indício que o guri viria a ser um engenheiro eletricista? Caso não soubesse o endereço, bastava saber o sobrenome da menina, então, era só procurar na lista telefônica pelo número que tivesse os dígitos iniciais do bairro. Se tivesse dois “Duartes” com telefone naquele bairro, aí tinha que aprimorar a pesquisa e descobrir o nome dos pais. Essa combinação era infalível. Depois era só ficar ligando, até ter a sorte de ela atender. Caso fosse outra pessoa, era só dizer que era engano. Ou desligar na cara! Confesso que utilizei mais esta última. Li em uma crônica da Martha Medeiros que era muito constrangedor receber os telefonemas dos garotos, porque era o pai que atendia e a chamava forçando uma voz autoritária, para amedrontar os candidatos. Ela era obrigada a ficar ali, diante de todos, dando respostas monossílabas e sendo observada pela família, pois os telefones fixos ficavam na sala da casa, eram sinônimo de status e objetos decorativos — o lá de casa era vermelho. Depois de ler o texto, fiquei com a consciência pesada, pois sempre estive na posição confortável de estar sozinho enquanto fazia minhas abordagens. Agora, devo passar por mal-educado; Quando ligo para alguém não gasto muito tempo com as saudações, vou direto no “podes falar?”. Deve ser um jeito 58


inconsciente de acertar essa conta antiga, dando opção para a pessoa sinalizar que “não”, que ligar em outro horário seria melhor. Semana passada estive em São Paulo e fiquei com preguiça de procurar uma cafeteria com boa recomendação e de sair para longe do hotel. Acionei o “locais nas imediações” e acabei tomando um café ruim. Na maioria das vezes a praticidade não vale tanto a pena assim. É melhor gastar um tempinho investigando, como se fazia no passado.

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Gordinhos assumidos

Desde o fim do ano passado resolvi mudar minha qualidade de vida. Embora soubesse que a base seria uma boa alimentação aliada aos exercícios frequentes, fui em busca de orientação profissional. Na primeira consulta com a coach, perguntou se eu tinha ido a pé: “Não!”, respondi. E pela cara que ela fez entendi o recado. Depois perguntou o que eu poderia fazer no dia seguinte, ou seja, não era para esperar a segunda-feira. Pensei: “Amanhã? Já? Não dá para fazer nada!”. Ela ficou me olhando nos olhos, com aquele sorriso permanente dos coachs. Eu não podia deixá-la sem resposta: “Posso fazer exercícios e cortar as bolachas”. Contei minha história de amor com elas e a orientadora já me aconselhou a me livrar das bolachas e não comer tudo antes para começar a dieta depois. Levei todo o meu estoque para o pessoal do trabalho. Quando alguém reclamava de fome, eu entregava um pacote de bolachas. Por alguns dias, fui considerado a melhor pessoa do mundo. 60


Atualmente participo de um grupo com encontros semanais cujas camisas têm a estampa: “Emagrecimento Saudável”. Particularmente não gostei do nome, mas deve ter algum efeito subliminar. Parece-me sinônimo de “Gordinhos Assumidos” (GA). Mas o que importa é que o projeto tem sido muito importante como aprendizado, reeducação e principalmente com o convívio e compartilhamento de experiências. Com as restrições sugeridas — porque ninguém é obrigado — pude perceber a quantidade de pessoas/páginas gastronômicas que sigo. Não passo fome cumprindo o plano alimentar, mas passo muita vontade vendo aquele monte de comida na timeline. Vou ter que deixar de seguir algumas dessas gordices. No último encontro do “GA”, nossa nutricionista — que já foi apelidada de Barbie — recomendou o desafio de cortar totalmente o açúcar. Alguns colegas indagaram: “Mas até no café?”. E a resposta foi “Sim! Até no café!”. Por sorte, o cronista aqui já tinha adotado esse hábito seguindo broncas familiares e dicas dos baristas. O difícil foi cortar os docinhos que acompanhavam os cafezinhos, sempre na proporção de um para um. P.S.: Na véspera da Páscoa, nossa coach enviou para o grupo uma sugestão de ovo trufado, daqueles para comer de colher: Era a foto de um mamão papaia, cortado ao meio e cheio de linhaça e aveia por cima. Providenciei um igualzinho e o comi pensando em um Kit-Kat. 61


A escrita e a gastronomia

A primeira experiência escrita do mestre de todos os cronistas, o gaúcho Luis Fernando Verissimo, não deu certo. Conta ele que o editor do jornal o escalou para ser o responsável pelas previsões astrológicas, numa época em que o acesso a este tipo de informação era restrito. O escritor bolou um plano (quase) perfeito. Criou previsões genéricas e as embaralhava entre os signos e os dias da semana. Ele só não contou com a hipótese de que alguém do signo de virgem quisesse saber o que estava previsto para o seu namorado(a) aquariano(a) naquele dia. E que ao ler, a pessoa veria a mesma previsão do seu próprio signo, lida na manhã anterior. E que ela teria o jornal velho ali na lixeira, para comprovar a farsa. O editor não desistiu do jovem jornalista e o escalou para fazer notas gastronômicas, nas quais o “gordinho” avaliaria os restaurantes da redondeza. Naquele espaço limitado, no rodapé da página de variedades, os leitores perceberam o talento de LFV para 62


os textos curtos — o pai Erico Verissimo (1905-1975) já era consagrado com suas narrativas longas, como “O tempo e o vento”, e foi o primeiro autor brasileiro a viver de escrever. Naquele começo, Luis Fernando Verissimo já atestava a máxima do amigo Mario Quintana: “Os verdadeiros poemas estão nos pequenos anúncios de jornais”. Lembrei desta história quando atualizava meu currículo literário (carta de condolências, discurso de formatura, estatuto de time de futebol, manual de instrução, procedimento de benzedeira, pedido para os funcionários da firma não sentarem sobre as tampas dos sanitários fechadas, entre outros) e precisava incluir “receita gastronômica”. Em 2015, participei de um concurso de receitas saudáveis. Ganhei o prêmio. Quando postei a foto do enorme diploma, com meu nome impresso, recebi várias manifestações e cumprimentos pelo feito. Alguns — bem chegados, até — comentavam que desconheciam esse meu “dom”. Acontece que nem sei ligar o fogão. O concurso era feito por meio de um formulário a ser preenchido; Não precisei executar a receita. Também não sei se alguém o fez, pois a disputa foi numa cidade onde estava eu de passagem. Mantive sigilo quanto a minha inaptidão na cozinha. Deixei que pensassem que eu tinha algum outro predicado, além de cronista insistente e de lateral direito esforçado do time da família. 63


Adiante, anotei na minha listinha de pendências a obrigação de fazer um curso sério de culinária. Quando comecei as pesquisas sobre as opções que São Paulo oferecia, cruzei com um curso sobre cafés, e por ora, é este o diploma que faz companhia ao da receita premiada e aos dos cursos literários na minha pastinha de conquistas.

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Atendimento ao cliente

Faz tempo que me sinto incomodado com o atendimento invasivo de alguns estabelecimentos comerciais. Mais de uma vez, caminhando pelos corredores de alguns shoppings, observando as vitrines, quase bati de frente com vendedores que pularam de dentro das lojas, como aqueles vendedores de rua, embora estes últimos estejam no exercício da função de abordar — e quem vai até este tipo de comércio está ciente disso. Há uma rede de lojas cujos vendedores usam um vocabulário padronizado em todas as unidades, mesmo em estados diferentes: — “Boa tarde, fera!” — Quando se está sozinho; — “Boa tarde, casal!” — Quando se está acompanhado; — “Boa tarde, família!” — Quando há uma criança junto. Essa “falsidade” é até tolerável. O problema é que eles obrigam o cliente ao contato físico. Esticam a mão na sua direção, forçando a sinestesia. Já fiz o teste, entrando na loja com as mãos ocupadas. Mas tive que 65


jogar tudo para o lado esquerdo, para que pudesse apertar a mão do rapaz e não deixá-lo constrangido, afinal, ele foi orientado assim — e é fiscalizado, acredito. Quando disse “só vou dar uma olhadinha”, ele ficou numa marcação homem-a-homem. No nordeste, há uma loja em que os vendedores ficam sentados. A primeira vista causa estranheza, porém eles o deixam a vontade para fuçar nos produtos e quando você precisa de auxílio é só chamá-los. Sinto-me mais confortável assim. No meu intervalo de almoço vou até uma padoca buscar um espresso com leite. Estou há dias quebrando a cabeça para dar uma sugestão que agilize a vida de quem vai até lá só para tomar um cafezinho, pois a fila é a mesma de quem foi chamado pela senha e ainda precisa tirar dúvidas sobre as maravilhas que estão no balcão. Por ora, a qualidade do café tem feito valer a pena esperar.

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Cafés conversados

Toda cidade tem seus cafés conversados, aqueles em que o café é o motivo para um bom papo; ou há uma conversa que precisa de um lugar para acontecer. O cronista Paulo Mendes Campos (1922-1991) dizia que muitos relacionamentos terminavam em “cafés engordurados”, daqueles tradicionais, que em cidades mais antigas chegam a ser centenários. O escritor uruguaio Eduardo Galeano (19402015) frequentou por vinte anos o mesmo lugar em Montevidéu, o Café Brasilero, fundado em 1877. Ele sentava em uma mesa próxima à janela e dali fazia a observação social que depois seria explorada em seus textos, alguns redigidos ali mesmo, na companhia de uma xícara de café com leite e duas medialunas (croissant). Galeano costumava dizer: “Devo tudo aos cafés de Montevidéu, porque não tive educação formal (…). Neles aprendi a arte de viver e de narrar”. Além da literatura e dos cafés, ele era apaixonado por futebol. Na época da Copa do Mundo, afixava uma plaquinha em 67


frente sua casa, escrita de próprio punho: “Cerrado por Fútbol”. Era um aviso para não ser importunado por transeuntes enquanto assistia aos jogos. Outro dia, comentei com um forasteiro que em Jaraguá do Sul há uma confeitaria, onde o grosso do PIB (produto interno bruto) se reúne todo sábado pela manhã para tomar café na calçada. O sujeito foi embora achando que era mais uma das minhas mentiras de escritor, que vez por outra aumenta alguma passagem. Esqueci de dizer que a prefeitura começou a limitar o trânsito naquela rua nas manhãs de sábado. O motivo alegado seria o movimento intenso de pedestres fazendo compras. Há quem diga que a verdadeira intenção é evitar que algum carro desgovernado acabe com o PIB da cidade.

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Aquele blazer

Há uns vinte anos, o chefe chegou à minha mesa e perguntou: — Marcelo, teu passaporte está em dia? — Está sim! Por quê? — Vais para Barcelona na semana que vem! Naquela época pré-histórica da internet, não havia muita informação disponível. Saí entrevistando os colegas viajados: “Marcelo, fica esperto! Lá está muito frio!”. Depois do expediente fui a uma loja da cidade e pedi um blazer de lã. A vendedora estranhou, estava muito quente: “Vou ver se tem alguma coisa lá em cima, no estoque”. Ela voltou de lá com um casaco dentro de uma capa e disse: “Só temos esse ‘filho único’”. Coloquei o blazer e parecia ser um sob medida. A peça não tinha preço. Ela puxou outro casaco da arara, com uma etiqueta de promoção e me disse: “Vou fazer por esse valor aqui”. Paguei os R$ 100,00 e fui embora faceiro. Fiz a viagem e cumpri a missão da chefia.

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Quando chegou o nosso inverno fui para o trabalho com o meu blazer. Como a cidade tem tradição têxtil, já chamou a atenção dos meus colegas que quiseram experimentá-lo. Quando estavam fuçando no casaco, perceberam que era de uma grife internacional, caríssima! Eu nem sabia da fama. Já me considerava satisfeito por ter um casaco que não tinha “cotoveleiras” de couro, pois meses antes havia chegado a Jaraguá do Sul um carregamento de roupas usadas dos Estados Unidos e todo mundo da empresa usava aquele modelo de blazer. Mesmo sendo uma peça clássica, que não segue a tendência slim, o meu blazer de grife parece o casaco do trapalhão Didi. Mas não sou louco de deixar uma peça daquela no armário. Os meus comparsas ainda usam os seus casacos com cotoveleiras e não estão nem aí para o que os outros vão dizer.

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Overdose

O pessoal da firma estava ansioso para conhecer a nova cervejaria artesanal da cidade. Uma colega aniversariante chamou a turma e disse: “Vamos lá amanhã! Cada um paga suas cervejas e eu as comidas!”. Era uma combinação explosiva: o desejo de conhecer cada cerveja que saia das 21 torneiras e o salário que caiu na conta corrente junto com a participação nos lucros e resultados da companhia. Animada por uma banda de rock, a festa entrou na madrugada com toda aquela comilança e “beberragem” — neologismo que parece ter sido criado pela minha tia Elma, de tanto que ela usa. Na hora de ir embora, fiquei por último na fila do caixa. O dono do boteco passou minha comanda várias vezes. Ele não queria acreditar que este cronista “tirou” o lugar de outro potencial cliente tomador de chope, pois houve fila a noite inteira — o bar tem 60 lugares. Minha conta registrou míseros R$ 6,60 pelo consumo de duas águas.

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Saí de lá, carregando metade do bolo de aniversário, já que me acharam habilitado para transportá-lo para casa. Desviei do caminho e fui até o posto 24h que dá treinamento de barista aos atendentes. Lá tomei uma overdose de café. Uma beberragem. Se tivesse café naquela cervejaria, eu seria um cliente bem mais “interessante” para o botequeiro.

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Coca-Café

Mal deram a notícia de que a Coca-Cola anunciou a venda no Brasil de sua versão com sabor de café, e o meu celular começou a receber mensagens de várias latitudes. Bem que o motivo poderia ser a tentativa dos meus amigos de colaborar com este cronista de um projeto de estilo de vida dedicado ao café. Mas não era. Os meus comparsas mais antigos me relacionam mais ao refrigerante do que ao cafezinho. E eles têm razão. Acontece que na maior parte da minha vida, fui um consumidor sem freio da bebida originada nos Estados Unidos. Ainda outro dia, comentei com a Lavínia que tem 14 anos, nunca tomou refrigerante, mas anda por aí com um moletom da Coca-Cola — que minha primeira palestra no colégio foi sobre a história de John Pemberton (1831-1888), farmacêutico e inventor da fórmula do refrigerante mais vendido no planeta. E a segunda palestra da minha vida, já em outra escola, foi sobre o quê? Adivinhe. 73


Ao longo de duas décadas, perdi a conta de quantas vezes citei a força do meu relacionamento com a bebida gelada. Cheguei a usar numa assinatura de crônica em um livro que participei: “Marcelo Lamas é articulista (...) e prefere Coca-Cola”. Sempre fui muito fiel. Era só Coca-Cola. Cheguei a comprar uma geladeira maior, pois concluí que não era (é) à toa que toda a propaganda trazia a bebida em um copo cheio de gelo. A combinação ideal. Depois de muita campanha da minha mãe, que é professora da área da saúde, consegui me desvencilhar de todo aquele consumo do refrigerante e do índice limítrofe de glicose. Se viciado é aquele que consome algo com frequência, fui um viciado em Coca-Cola. Sempre saía da empresa no horário do almoço e pegava uma garrafinha no boteco. Hoje em dia, a coisa mudou muito. Saio da firma e vou pegar um espresso no posto da esquina. Todos os dias. Agora que os cientistas conseguiram juntar meus dois vícios num produto só, não sei que futuro terei.

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Deus não dorme

Dizer que a crônica fala do quotidiano é redundância. Mas também é uma meia-verdade, porque boa parte do que relatamos são os acontecimentos não rotineiros, os imprevistos, os inusitados. Era uma manhã de sábado ensolarada em Jaraguá do Sul. Saí de casa para tomar um espresso com leite na padaria e depois explorar uma livraria. Até aqui seria o quotidiano. Depois de arrancar do primeiro semáforo, o trânsito parou. Consegui segurar, mas a condutora que vinha na sequência não e houve a colisão. Só com danos materiais. Ainda bem. Após os procedimentos legais, o policial me disse: “Você pode ir embora e a ‘infratora’ fica aqui!”. Segui meu rumo, cheguei à padaria e pedi meu café. Enquanto pensava nos desdobramentos, lembrei que a condutora tinha me pedido uma carona, já que o veículo dela seria recolhido. Voltei lá. A polícia estava indo embora. Ela estava na calçada com uma caixa de som enorme e mais uma montanha de coisas. Além 75


de uma papelada na mão, que eram as multas recebidas por todas as irregularidades. Carreguei tudo e deixei a condutora em casa. Quando contei a história aos meus chegados, disseram que fui inconsequente de levar uma pessoa estranha dentro do meu carro blá, blá, blá. Na segunda-feira, quando a procurei para passar as coordenadas sobre o pagamento da minha franquia, a pessoa, até então agradecida, passou a me acusar de culpado, de querer extorqui-la, de não ter palavra (?), que um dia aconteceria comigo (sic)... Mas todas essas ofensas — que eram textos enormes — terminavam com a frase: “Porque Deus não dorme!”. A partir daí tomei três providências: abri outro B.O. relatando as ameaças, redigi esta crônica e concluí, seguindo a crença dela, que se Deus não dorme é porque ele deve tomar muito café. Pena que não pude compartilhar com ela, pois àquela altura eu já a tinha bloqueado de todas as formas.

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Cafezinho na biblioteca

Outro dia vi uma lista de passeios de férias de um conhecido. Na verdade era um plano minucioso, com horários de chegada e saída de cada lugar, assim como os tempos dos deslocamentos. A princípio o critiquei, depois cheguei à conclusão de que, fora a exatidão dos horários, faço a mesma coisa. Toda vez que viajo, levo na mala pelo menos um exemplar do meu livro e assim vou espalhando minhas histórias por aí. Se fizer uma estatística na ponta do lápis, cerca de um terço de todos os livros que lancei foram doados. Por respeito aos leitores que compraram, faço as doações para bibliotecas, escolas, livreiros e multiplicadores de leitura. Já recebi mensagem de um rapaz que cuidava de uma tia no hospital e que encontrou o meu livro por lá. Ele me disse que encontrou algum conforto naquelas páginas. E aí pode estar um dos motivos pelos quais escrevo. Recentemente estive na Argentina e depois de um dia de passeio fisicamente exaustivo atrás de cafeterias — da minha listinha — faltava fazer o tour 77


guiado na Biblioteca Nacional Mariano Moreno no finalzinho da tarde. Fomos recebidos pela professora voluntária Sra. Susana Jurado, de 87 anos. A senhorinha nos conduziu por uma visita de três horas passando por todos os andares da riquíssima biblioteca. Foi uma aula de etimologia, história e cultura geral. Até esquecemos do cansaço. Na sala de pesquisas da BN existe um café. Sim, ali mesmo, na sala de estudos, pertinho das mesas. Acontece que em nenhuma BN do planeta você pode retirar livros. Na unidade da Argentina — que funciona até às 23h — você solicita a obra, ela é trazida de um andar climatizado, sem acesso e sem iluminação natural para evitar as traças e a umidade. Você recebe o livro em uma área restrita, onde pode fazer suas anotações, de posse somente de um caderno e de uma caneta. Então você pode voltar para as mesas maiores, onde as pessoas fazem trabalhos individuais ou em grupo, movidos a café. “Caso alguém vire o copo de café sobre os materiais, só vai prejudicar a si mesmo”, explicou a “maestra jubilada”. Só não tomei um café ali, porque já havia ultrapassado a minha cota diária. E aí está o que eu precisava: um motivo para voltar lá. Transcrevendo Luis Fernando Verissimo: “A biblioteca é o lugar onde começamos a nos conhecer”.

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A mão boa

Diariamente passo na padaria no fim da tarde. O lugar é famoso pelo pão ciabatta, mas ali também é servido o melhor espresso da cidade, na minha opinião. O dono do lugar é o tio Carlinhos. Ele não é meu tio, nem de ninguém que eu conheça, mas o seu jeito simpático fez a alcunha se espalhar entre os frequentadores da padaria, que sempre ocupam as mesmas mesas, lugares e horários, coisa de cidade pequena. Os atenciosos atendentes já sabem os nomes dos clientes. No meu caso, colocam o nome da minha mulher na comanda, mesmo quando estou sozinho. Antes de ser um cafeólatra e um estudioso do café, jamais acreditaria no que vou dizer: poderia estar vendado e mesmo assim saberia quando fora o tio Carlinhos que tirara o café da máquina. No ano passado, estava com uma tosse que já durava um mês. Como bom brasileiro, optei primeiro pela automedicação com xarope fitoterápico que curava todo tipo de doença — dentre os ingredientes 79


tinha limão bravo, sucupira e assa-peixe na fórmula. Como a tosse insistia, fui ao hospital (medicação na veia, nebulização, raios-X) e sai de lá com uma lista de remédios para tomar por alguns dias. Fui à padoca do tio Carlinhos, dei uma tossida e ele sensibilizado me entregou um bilhetinho com uma receita caseira: beterraba + cebola roxa + açúcar. O médico tinha recomendado evitar tomar qualquer xarope, porque poderia estimular a tosse. Só que a minha crença foi maior no bilhete que passou pela mão do Carlinhos do que na alopatia receitada. A tosse passou. Nunca saberei quem contribuiu mais. Talvez tenham sido os espressos do Carlinhos que tomei naquela semana. O humorista Mark Twain (1835-1910) elucidou: “A única maneira de se conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer”.

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Periguetes

Naquele estabelecimento de alto padrão vez por outra apareciam clientes recém-divorciadas, dispostas às mudanças convencionais, como renovação do guarda-roupa e da aparência, começando pelo cabelo, comprovando a tese do escritor David Coimbra: “A cabeça da mulher muda de fora para dentro”. Algumas dessas socialites reclamavam em bom tom das divisões desiguais dos patrimônios — destacando os bens que ficavam com os ex-cônjuges. Mal sabiam elas que por ali circulavam (circulam) as periguetes em busca de oportunidades. Para essas caçadoras, dali em diante era só procurar o sujeito-alvo na coluna social, nas redes e nas coberturas dos eventos para descobrir seus hábitos e lugares, e assim, partir para cima, literalmente. Soube de duas delas que se inscreveram numa academia frequentada por um bom partido há pouco tempo avulso. Provocaram um esbarrão e, opa! Contato feito e amizade construída. Num legítimo trabalho em equipe, as duas até haviam acordado que 81


aquela que não fosse a escolhida, seria sempre convidada pela felizarda para prováveis passeios de iate no Caxadaço, litoral catarinense. E o cabra achando legal a coincidência de duas gatas amigas e novatas na academia terem tropeçado nele. Sei de outra que parou no posto para abastecer e que, vendo ali um grisalho num carrão e sem aliança, pensou que poderia ser um “bom contato”. Foi atrás dele dentro da loja. Observou que ele comprou uma marca de cigarros e pediu a mesma, já emendando uma conversa sobre a coincidência e da sua luta para parar com o vício. O alvo curtiu a conversinha, a força de vontade da jovem em deixar o cigarro e ter um maço só para “emergência”. Ali mesmo o romance emplacou. Além dos atributos físicos que mexem com o instinto masculino, o ponto forte das periguetes é a observação, conseguem identificar acessórios caros de longe. Outro dia a casa caiu. Há um golpista na cidade que mora de favor num flat. O cara anda sempre na pinta, mas só tem um traje de roupa e ostenta um relógio de grife — emprestado. Ele observa as caçadoras e se aproxima dizendo ser forasteiro de São Paulo e acionista de uma S/A e assim atrai as periguetes para o apartamento. Elas acham que o sujeito vai embora na manhã seguinte. Ele é estrategista e demora para repetir os mesmos ambientes festivos da cidade e ar82


redores. As periguetes experimentam do próprio veneno oportunista. Em tempo: sobre a guria que havia cruzado com o grisalho no posto, convém salientar que nunca fora fumante. Tratava-se de uma profissional. Qualquer hora ela cruzará com o golpista do flat. Espero que não venham a formar mais uma quadrilha do bilhete premiado na saída da Caixa.

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Lista de cafeterias

Uma das minhas autopromessas é fazer um levantamento de todas as cafeterias que visitei, sozinho ou acompanhado da especialista em cafés lá de casa. Já fizemos viagens de todos os meios e tamanhos. Em uma delas, a viagem seria de carro, por 3 horas, para conhecer uma cafeteria bem avaliada. Na véspera, telefonei para garantir que a loja estaria aberta no sábado, só por precaução. O atendente confirmou. Partimos cedinho. A especialista sempre começa as visitas pelo banheiro. Chegou à mesa assustada. Tudo bem, não perdemos o foco e pedimos os cafés. Eu tinha uma prancheta na mão — provavelmente estava escrevendo alguma crônica — e a especialista um guia de cafeterias com um adesivo enorme e o nome dela impresso. Também tínhamos uma máquina fotográfica pouco discreta. Enquanto o barista preparava as bebidas, o dono da cafeteria deu uma disfarçada e foi lá fora es84


pecular a placa do nosso carro — o único em frente à loja. Quando viu que era de Santa Catarina, pareceu mais aliviado, pois falei que iria de SC para o PR, quando liguei. Ficamos com a impressão de que os nossos olhares observativos (e nossas parnafernalhas) fizeram o sujeito pensar que éramos avaliadores gastronômicos profissionais, tipo os caras do Guia Michelin.  Ele veio trazer os cafés. Puxou conversa conosco, perguntou se eu era o cara da chamada, entre outras coisas. Ele teve sorte, pois éramos somente pessoas atrás de um bom café. O ambiente estava muito quente e a limpeza longe de ser regular. Ficamos uma meia-hora e fomos embora. Depois fizemos uma avaliação privada e mandamos para o proprietário. Tomara que ele tenha melhorado alguns pontos. A bebida que ele servia era muito boa e não merecia ser retirada da nossa lista (imaginária) de cafés preferidos. Sempre pesquisamos as opções de cafeterias nos nossos destinos. Nas cidades maiores, andamos muito a pé, com um “mapa mental”, erramos muitas vezes os caminhos e damos de cara com lugares incríveis. Temos a impressão de que aqueles lugares que chegamos sem “maps”, sem pranchetas e sem expec85


tativas foram os mais aconchegantes e, antes de tudo, foram os que serviram os melhores cafés. O dia que eu fizer a listinha com todas as cafeterias que visitei, poderei confirmar a proporção. Por ora, é só uma promessa.

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Estalqueando

Recebi da namorada uma fotografia pelo WhatsApp. Era um casal debaixo de uma árvore. A imagem chegou acompanhada de uma pergunta seca, direta: — Conhece? Dei um zoom, puxei pela memória e respondi: — Não conheço! A foto não tem definição suficiente. Em seguida veio outra fotografia. Desta vez, era um bilhete escrito à mão: “Bia”. Seguido do número de um celular anotado embaixo. E só. Depois de consultar minha agenda, respondi: — Não conheço este número. Em seguida, fui deixado no vácuo. *********** Adiante, depois de conversar pessoalmente com a namorada, montei o seguinte quebra-cabeça: anos atrás lhe dei um livro novo de presente. Depois de lê87


-lo, ela o deixou por anos na estante. Há uns dez dias, emprestou o livro para uma amiga que chegava todas as manhãs comentando sobre uma crônica diferente e a dona do livro preocupada: “Marcelo, será que ela lê no banheiro?”. Pesquisou e descobriu que a guria lia no carro, antes do expediente. Ocorre que esta amiga devolveu o livro e o bilhete com o telefone da “Bia”, dizendo que estava dentro do livro. Minha namorada adicionou o número na sua agenda e deparou-se com a foto do casal debaixo da árvore. Como não se lembrou de ter esquecido aquele bilhete no livro ou de tê-lo visto algum dia, tampouco das pernas roliças da suposta “Bia”, veio a me questionar: “Conhece?”. Repeti na conversa informal o que havia dito “on-line”. Ela largou umas piadinhas sobre minhas respostas monossílabas. Acusou-me de agir como os políticos: “Não sei de nada”. A minha sorte foi que a foto do perfil da “Bia” (Bianca, Beatriz) aparecia acompanhada de um cônjuge e debaixo daquela árvore. Se fosse a foto de uma periguete na balada, com um decote avassalador, tamanho 44D, eu não teria sido indagado com o verbo “Conhece?”. A investigação seria silenciosa, minuciosa e seguiria por vários caminhos. Se bem que, toda vez que a “Bia” troca a foto do seu perfil eu recebo a atualização: #biamonitorada.

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Amigo fura olho

O Tonho do Diabo foi um cara famoso no interior de Minas Gerais. Tinha essa alcunha por causa do trocadilho com a sua profissão. Atuava como advogado e atendia gente de toda espécie. Dizem que o Tonho nunca teve muito dinheiro. Porém, patrimônio ele tinha. Pagava tudo com joias ou com ouro. Eram os pagamentos que recebia. Certa vez, o Tonho, que era um exímio estrategista, teve que bolar um plano em causa própria. Começou quando um amigo de décadas se aprochegou falando de mansinho: “Tonho, precisamos conversar!”. Esse verbete “conversar” tem um peso muito maior do que as quatro páginas de explicação do meu dicionário analógico. O efeito psicológico desta palavra não tem definição. — Tonho, precisamos conversar! — Diga, “home”! — Aqui não é lugar. Vamos até o café. — “Simbora!”. O semblante do Gledson era fechado. O Tonho 89


chegou a pensar que seria algum problema na família do sujeito, que precisaria de alguma ajuda. — Tonho, antes de te chamar para conversar, eu pensei muito. Não foi fácil tomar essa decisão e espero que nossa amizade continue a mesma. — Mas diga, “home”! — Já faz um tempo que a tua mulher fica jogando charme para cima de mim. — A Matilde? — Sim, Tonho. Eu sempre me fiz de bobo, só que agora, já vi gente dizendo que ela também tá dando mole para outros caras, aí resolvi te falar. — PQP, depois de tanto tempo, ela me faz uma dessa! — Tonho, vai com calma, às vezes é só questão de conversar. O advogado, já calejado da vida, montou um plano na hora: — Gledson, vamos fazer o seguinte: você vai dar corda da próxima vez que ela ficar se insinuando. — Como assim, Tonho?! — Isso mesmo! Quando ela der sinal, você vai adiante. Marca um encontro e fazemos um flagrante. Mas tem que ser lá em casa, que aí a chance dela sair com uma mão na frente e outra atrás é maior. Aí não tem juiz que vai querer dar pensão para uma mulher que levou amante para a própria cama. Essa vida de academia e shopping vai acabar. 90


Não demorou muito para o Gledson ligar: — Tonho, não foi muito fácil, mas combinei para amanhã, lá na tua casa. Ela queria ir num motel. Desculpa amigo, fico chateado com tudo isso. — Cara, não tem mais o que fazer. Me diga a hora certinho e dá um jeito de me mandar um sinal quando já estiverem sem roupas, diz que vai colocar o telefone em modo avião e me dá um toque. Aí não tem erro, é flagrante. — Combinado! No dia seguinte, o Tonho estava de prontidão, com um amigo detetive, encarregado de fotografar tudo e um policial, que serviria de testemunha, pois “declaração de oficial tem mais peso”, dizia. Era tanta raiva que o Tonho sentia, que nem pensava no constrangimento que estava por vir. O carro do Gledson apontou no portão e a Matilde abriu a garagem. Agora faltava só o sinal. Já eram passados uns 45 minutos e nada. Aquele tempo era uma eternidade para um homem naquela situação. Já tinha repetido algumas vezes para os dois comparsas: “Ainda bem que eu não tenho arma, senão ia fazer bobagem!”. No fundo daquela raiva, havia um sentimento ainda forte pela Matilde. Chegou a pensar, “não vem sinal lá de dentro porque deve ser uma brincadeira que a ‘Tidinha’ está fazendo”. Ou, talvez, até o Gledson seja cúmplice disso. 91


Não suportou a pressão e decidiu que ia entrar sozinho. Os amigos tentaram convencê-lo a esperar o sinal. Recusou-se e partiu. Quando entrou na casa, ouviu sons característicos. Deu mais uns passos, adentrou ao quarto e lá estavam os dois “nas vias de fato”. Não houve batalha judicial, Tidinha abriu mão de tudo e sumiu. A amizade entre os dois amigos ficou comprometida. Quando Tonho cobrou o “sinal que o amigo daria”, ele confessou: “Cara, sonho com essa situação desde o dia que me apresentaste essa mulher”.

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Os grupos de famílias

Não precisa ser PhD em perfis de comportamento para afirmar que cada família tem uma bela amostra do que temos na sociedade, desde o coroinha até o psicopata que já pensou em convidar o chefe para um churrasco e depois enterrá-lo atrás da casa. Refiro-me à família propriamente dita, nem estou considerando os agregados, aqueles que sabemos porque se aproximaram, mas mal sabemos de onde vieram. Quando comecei o estudo para redigir esta crônica, logo lembrei da analogia feita por um amigo: “senha compartilhada e telefone no viva-voz são suicídios”. Eu acrescentaria: manifestar-se no grupo da família também, há infinitas possibilidades de interpretação. O dicionário Aulete define “grupo” como conjunto de pessoas reunidas para uma finalidade comum a todas. Aí está a explicação: nem todos ali têm a mesma intenção. Uns estão por obrigação (Como vou sair do grupo da família? Vou perder a minha parte da herança?). Outros estão somente como figuras 93


decorativas, como um vice-prefeito depois da eleição. Alguns apenas para especular barracos e poucos querendo interagir. Nos grupos das minhas famílias há distinções. Em um deles a relação é aberta, são bem aceitos os cônjuges de outras “raças” (sobrenomes), como dizia minha falecida avó. Do outro lado, não! Ter o sangue dos Vieiras é a regra para ser adicionado. Porém, na semana passada, um primo desavisado inseriu o meu pai, que não atende ao critério. Não serei eu, o cara a desqualificar o próprio pai, se os sobrinhos(as) o consideram o tio emprestado preferido. Para piorar, ele é o mais ativo, aquele que mais manda saudações e mensagens de otimismo. Fiquei sabendo que o pessoal aproveita as paradas judiciais para vazar dos grupos, discretamente. Também soube de confusões em grupos familiares de amigos. Uma galera criou um minigrupo pra fazer uma pastelada, só da panelinha e na hora de puxar o número da prima Sandra, pegaram justamente o de outra, uma homônima de nariz empinado e a indesejada aceitou o convite. Foi difícil arrumar uma desculpa para cancelar tudo. Noutro caso, o problema foi causado por um tiozinho que enviou mensagem picante para amásia, sugerindo um encontro naquele entardecer chuvoso, no qual “tiraria a sua lingerie com os dentes”, só que digitou tudo isso no grupo da família Silva. Foi exco94


mungado e ameaçado sumariamente pelas irmãs beatas, tudo ali, à vista de todos. Da minha parte, espero permanecer entre os Vieiras e os Lamas por um bom tempo, afinal, este esforço que fiz por preservar os barracos das minhas famílias precisa ser recompensado.

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Coleção

Lá pela década de 1980, havia na tevê o folclórico apresentador de programas de auditório Bolinha, que usava camisas com estampas espalhafatosas. Certa vez, numa entrevista, lhe perguntaram: — Bolinha, é verdade que você não toma banho? — Não! Não é que eu não tome banho! Ocorre que eu tenho um armário com umas 300 camisetas como esta que estou usando. Hoje, quando chegar em casa, se eu jogar um desodorante nela e recolocá-la no roupeiro, só vou usá-la novamente no ano que vem. Nem preciso lavar. Acho que é dai que vem essa lenda de eu não tomar banho (gargalhadas). Tenho uma relação semelhante com roupas. Algumas são espalhafatosas. Não com estampas florais, mas com variedades de cores. Trata-se da minha coleção de camisas de futebol. Ela já foi bem maior, mas vez por outra passo algumas adiante e vou renovando a coleção. Já aconteceu de lançarem uma camisa retrô de clube e eu ter a minha original lá em casa, desgastada naturalmente. 96


Meus amigos comparsas das torcidas do Grêmio e do Brasil de Pelotas, os meus clubes preferidos, ficam incomodados quando me veem em alguma foto com camisetas distintas, não importa se for do Porto ou da simpática Chapecoense, eles cobram fidelidade. Explico a eles que não posso deixar uma camisa 300 dias dentro do roupeiro, vez por outra tenho que colocar para ventilar como fazia o carismático Bolinha, com a diferença de que eu lavo a camisa antes de guardar. Disse “eu lavo” porque a lavo na mão. Minhas colecionáveis passam longe da máquina de lavar. Em dezembro passado, levei a namorada, torcedora colorada para conhecer o novo estádio Beira-Rio. Já havia estado lá, vendo jogos, mas tinha curiosidade de fazer um tour e ver o gramado perfeito de perto. Para disfarçar e evitar o “grenalismo”, coloquei a camisa do Criciúma, com o número 10 estampado. Quando a visita acabou, dentro da loja o vendedor me perguntou: “Quem é o camisa 10 do Criciúma?”. Estava derrubado meu disfarce, torcedor que se preze sabe o nome do principal jogador do time. Falei que era colecionador e o cara emendou: “E quantas do Internacional tu tens?”. Respondi: “Quatro”. Minha namorada me olhou com olhos castanhos arregalados e vazamos da loja. — Marcelo! Que história é esta que tu tens quatro camisas do Inter? 97


— Ãh? Ah, considerei nossos “patrimônios” unificados. Daquele dia em diante nunca mais comprei camisetas numeradas.

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Seios naturais

Numa era pré-internet ouvi o seguinte conselho: — Cara, mesmo sendo comprometido, você pode ficar com outras garotas quando viaja. É só dizer que é de São Paulo. Pode até dizer teu nome verdadeiro, nunca vão te achar em SP, porque você não é de lá. E dá até preguiça procurar alguém num lugar tão grande! — E funciona? — Funciona sim! Só não vai fazer igual ao Marcão. — Engravidou alguém? — Não, não foi pra tanto. Mas ele infrigiu a regra. Ficou com uma funcionária do hotel. — E não pode? — Claro que não! A guria teve acesso a ficha completa dele. Apaixonada, ficava ligando atrás lá na firma, e aí complicou! ************ Certa vez, trabalhava numa obra em Açailân99


dia. Num finde fazíamos um churrasco na casa que servia de alojamento. Um colega conversava comigo e de repente, ficou pálido, com os olhos esbugalhados, enquanto olhava por cima do meu ombro para o portão. Quando olhei, eram cinco morenas “jambo”, com mochilas à tiracolo. Perguntei quem eram, ele resmungou que eram “as namoradas de Marabá”, pois meses antes haviam ficado por lá e atado uns relacionamentos paralelos. No dia seguinte, na obra, questionei o cabra: — Por que ficaste assustado quando viste as gurias? — Uai! Vai que as mulheres chegam bem no finde que as nossas namoradas oficiais lá de Minas estão aqui? A casa cai, sô! Elas pegaram o trem em Marabá e vieram sem avisar. Não foi muito difícil pra descobrir onde estavam morando os caras do “sul”. — Ah! Agora entendi porque ficaste desesperado. — Depois do que aconteceu com o Milton, tem que cuidar! — O que houve? — Uma mulher lá de Marabá ficou muito apaixonada. Namoraram por quase um ano, enquanto durou a obra que fizemos lá. Quando acabou o trabalho, ele ficou enrolando a guria e vazou para Minas. — Enrolou a menina? 100


— Sim, a iludiu! Não deixou claro que só duraria o tempo que ele ficasse pelo norte. E você sabe como funciona uma mulher com raiva, né? — Sei! — Passados uns meses que havia retornado para casa, numa tarde de sábado, tocou uma certa campainha em Belo Horizonte. Uma morena linda abriu a porta do apartamento e rolou a seguinte conversa: — Boa tarde! Você que é a Karen? A noiva do Milton? — Sou eu mesma! E você, quem é? — Sou a “namoradinha” — uns cinco anos mais nova que a mineira — lá de Marabá!”. Exclamei: — Bah! Viajou uns 2000 km para fazer isso!? — Rapaz e a marabaense não falou mais nada! Só fez entregar um envelope com fotografias feitas em meses de relação, com rostinho colado no Milton num balneário do km 40, onde iam nos finais de semana, em baladas e até em festas da família dela, numa época em que não havia selfie, alguém batia a foto depois mandava-se revelar o filme de 24 poses. — E a casa caiu pra ele? — Exatamente. Já era o casório marcado e o apartamento deles foi rachado ao meio. A marabaense também foi vítima de traição nesta história. 101


Passados uns dez anos, cruzei com o tal do Milton e ele confirmou o causo. Quando perguntei o motivo dele ter sustentado a mentira por tanto tempo, queimando o filme com sua própria família, foi taxativo na explicação: “Lamas, se tu visse os peitos das duas, também não saberias qual delas escolher”.

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Combustíveis

Conversava com meu pai sobre a alta dos preços quando ele — que mora em outro estado — me questionou: — Quanto está a gasolina aí? Respondi na soberba: — Não sei! Aqui tem uma máfia do combustível, não faz diferença pesquisar. Só paro, abasteço, pago e vou embora. É uma questão de necessidade, não tem o que fazer. O velho respondeu: — Hum! Sei. Emendei: — Pai, tem duas coisas que não pergunto o preço: gasolina e café. E a conversa ficou por aí. ************ No final do ano passado, minha tese foi colocada à prova. Fiz uma viagem de carro a Montevidéu. Che103


guei ao destino na noite de Natal. O hotel que escolhi estava com os serviços restritos, incluindo o café-bar. Saí para dar uma volta pelo centro à procura de um café. Quando cheguei ao marco zero, a Praça Independência, vi um hotel enorme do outro lado da rua. Daqueles de rede internacional, com um luminoso indicando haver um cassino no seu interior. Fui até lá, passei pela porta giratória e perguntei para a recepcionista se ali havia uma cafeteria. Ela disse “Sí”, e sinalizou que ficava após um grande saguão. Segui até lá, pedi um espresso (Illy), uma medialuna (croissant) e um doce que parecia uma flor. Matei o que estava me matando. Paguei com o cartão e voltei para o meu hotel. Semanas depois, já de volta ao Brasil, recebi a fatura do cartão de crédito. Além de ficar assustado com o valor do litro da gasolina comum na faixa dos R$ 6 no país vizinho, também torci o nariz ao ver a conta daquele cafezinho da noite do Natal, em torno de R$ 100. Agora, sei de bate pronto o preço de ambos. Com relação ao café natalino, seguramente por ser uma commodities, a culpa não foi da bebida. Bem, caso tenha sido, o que importa é que os grãos eram especiais e que a(o) barista caprichou na extração.

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Onde vocês se conheceram?

— Marcelo, você sempre faz aquela pergunta? — Qual pergunta? — “Onde vocês se conheceram?”. Você pergunta isso sempre que encontra algum casal. — Ah! Estas questões das eventualidades entre duas pessoas me interessam muito! Meu primo, por exemplo, conheceu a mulher num semáforo. No meu álbum infantil há uma entrevista preenchida pela mãe, quando jovem, e no item “Coisas que mamãe não gosta” está escrito: “futebol”. Sendo a família paterna de tradição futebolística, desde a fundação de um clube amador até atletas profissionais, essa distinção dela ter escolhido um jogador de futebol para um envolvimento amoroso sempre instigou minha curiosidade. Quando não tenho oportunidade de questionar aos pares conhecidos, fico imaginando suas situações de histórias cruzadas. Certa vez, uma colega das antigas, a Mirta, apresentou-se acompanhada de um namorado. Naquela altura, ela era uma mulher madura, com uma filha 105


adulta e pensei: para a Mirta aparecer com alguém, a coisa deve ser séria. E era. O Rodolfo não se limitou a ser um simples acompanhante. Participou efetivamente daquela reunião cultural, opinou e mostrou-se com grande bagagem literária. A minha mente já montou uma equação: seguramente tinham se conhecido num esbarrão dentro de uma biblioteca ou num evento cultural em uma escola, ou ainda foram apresentados por algum amigo letrado em comum, ou seja, tinha “livro” no meio daquela confusão. Como não tinha muita intimidade com eles, não cheguei perguntando diretamente, como de hábito. Fui até a filha de Mirta: “Onde tua mãe conheceu o Rodolfo?”. “Na internet!”, respondeu a guria. Fui tirar a prova: A Mirta estava carente, pois sua filha havia partido para uma longa viagem. Assim, resolveu puxar conversa num chat com aquele senhor, que ela havia desqualificado dias antes, por um motivo bobo, como aquele meu amigo que disse que nunca ficaria com uma mulher chamada “Miriam”, porque era o nome da sua mãe. Nós, os amigos, ficamos zoando o cabra, pois se o nome da progenitora dele fosse Gabriela, Vanessa ou Rafaela nunca que ele eliminaria uma quantidade tão grande de possibilidades/candidatas. Certeza que dizia aquilo da boca pra fora.

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Voltando ao caso da Mirta, disse-me ela que o Rodolfo a convidou para ir a um discreto café de Joinville. Como ela não conhecia o lugar nem as pretensões do sujeito, pensou em recusar, mas como estava bem interessada aceitou. Porém, sugeriu um lugar de grande movimentação: um café colonial às margens da BR-101. O Rodolfo a alertou que, embora tivesse um vozeirão de locutor de rádio AM, não era “muito alto, não”. Ela chegou mais cedo e ficou observando o estacionamento, até avistar um cara grisalho, com “estatura mediana”, que desceu do carro ansioso, ajeitando a roupa no reflexo no vidro. O lugar estava insuportavelmente cheio — com muitas excursões — e não dava para manter uma conversa por ali. A Mirta teve que ceder e aceitou ir até o café preferido do “baixinho”, mas impôs a condição de cada um ir com seu carro. Nota do Autor: A precaução da Mirta é uma ótima dica para o pessoal que conhece estranhos na internet e já os leva para os seus lares. Depois aparecem mortos atrás da casa e ninguém entende o motivo. Se bem que o velho Millôr alertava: “Não adianta você ser precavido. Na hora da verdade você vai perceber que gastou a vida evitando o perigo errado”.

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Açúcar ou adoçante?*

No ano passado passei boa parte do tempo profissional dentro das usinas de açúcar. Na maioria delas, aquele cafezinho corporativo já vem adoçado — com açúcar, logicamente. Como treinei meu paladar para tomar o pretinho sem açúcar, faço um esforço e tomo o café adocicado. Quando tenho duas opções: “açúcar ou adoçante?”, fico com a terceira: “Não precisa. Obrigado”. Estando sozinho, passa batido. Mas se estou perto do Dr. Flávio Veloso, que é um engenheiro, professor, cientista e consultor — uma autoridade respeitada no setor sucroenergético — ele me repreende: “Rapaz, você tem que fazer como eu: colocar dois sachês de açúcar, para ajudar os usineiros”. Ele fica rindo e eu fico vermelho. Porém, enquanto o professor completava a sua frase, eu tratava de secar a xícara: “Já era, doutor, agora tomei sem açúcar”. Numa jornada recente, consegui achar uma cafeteria que ficava aberta à noite e que servia Illy. Fui até lá. 108


Fiz uma foto da xícara e coloquei nas redes sociais. Um amigo comentou: “Tenho uma curiosidade. Quantas cafeterias e quantas xícaras de café você já conheceu e ingeriu?? #espanto”. Fiquei sem resposta. Realmente não sei. Porém, se eu fizesse a mesma pergunta ao Dr. Flávio — um senhor quase septuagenário — ele pegaria uma caneta e um guardanapo, faria umas contas e responderia em 15 segundos, inclusive com a quantidade de sachês de açúcar. Temos que respeitar estes caras mais velhos. O Barão de Itararé tinha razão: “Dize-me com quem andas e te direi se vou contigo”. *Em memória do Dr. Flávio Cavalcanti Veloso da Costa (1948-2019)

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O café e o futebol

Aqui no Brasil há um preconceito enraizado de que pessoas mais esclarecidas não deveriam apreciar o futebol. O dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) definiu assim: “O futebol é o ópio do povo”. Já o filósofo Millôr Fernandes (1923-2012) complementou: “O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”. Só em época de Copa do Mundo que essa barreira diminui e o pessoal “assume” a amarelinha. E por que a cor predominante do nosso uniforme não é o verde, como a bandeira? Até 1950, nossa seleção usava o branco. Com a derrota para o Uruguai, na final jogada no Maracanã — numa tragédia similar ao recente 7×1 — parte da culpa foi jogada sobre a camisa que não ganhava títulos. Em 1953, o gaúcho Aldyr Garcia Schlee (19342018), um caricaturista de 19 anos, vencia um concurso nacional, criando a harmoniosa combinação camisa amarela + calção azul + meias brancas. Como havia a exigência de utilizar todas as cores da bandeira, ele optou por colocar o verde nos detalhes das 110


meias, da gola e das mangas. E assim ele criava um símbolo nacional, identificado em qualquer parte do planeta. Tive a honra de ouvir esta história contada por ele mesmo, na sala do seu apartamento em Pelotas/RS, lamentando — ele — de não estarmos em seu sítio, onde fica a biblioteca do autor de 14 obras, a maioria premiada , incluindo “Os limites do impossível – Contos Gardelianos” e “Don Frutos”. Na copa de 1982 houve uma mudança surpreendente. A CBF mudou o escudo da seleção, inserindo um ramo de café. Como a FIFA não permitia o uso de patrocínio nos uniformes, essa foi a forma encontrada para garantir a verba publicitária do IBC (Instituto Brasileiro do Café), que buscava ampliar a divulgação da bebida no mercado internacional. Após a derrota da nossa “invencível” seleção naquela copa, um jornalista brasileiro que saía cabisbaixo do estádio foi consolado por um gringo que apontou para um outdoor do IBC numa esquina de Sarriá/ Espanha e disse: “Não fique triste. Vocês ainda têm o melhor café do mundo!”.

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Cidade fantasma

Estava em férias e voltei para Jaraguá do Sul, a pequena/média cidade do interior onde vivo, pois precisava resolver uns problemas burocráticos. Fui ao cartório e a Jéssica — sim, aqui as pessoas se conhecem pelos nomes — já avisou que eu teria problemas para conseguir pagar uma taxa da prefeitura. E foi o que aconteceu. A pessoa responsável pelos tributos estava em férias. Vou ter que esperar ela voltar. Também tentei fazer uma doação de sangue e adivinhe? Hemocentro com as luzes apagadas. Fiquei bem chateado com isso. Aliás, a cidade toda estava assim, com plaquinhas de FECHADO penduradas nas portas. As empresas encerram as atividades antes do Natal e só abrem no meio de janeiro. Como há várias praias num raio de 80 km, parece que boa parte da população migra para lá. Só tinha uma barbearia funcionando e tive que esperar um bom tempo na fila para cortar o cabelo. Com tudo isso, só não pensei em enforcamento — alternativa comum nos arredores — porque a me112


lhor padaria da cidade só fez uma pausa entre as datas festivas, coincidentemente enquanto eu não estava. Aqui, o condado é naturalmente protegido por morros e rios, o que impede as ações criminosas, além de ter uma polícia bem equipada pelo empresariado. Tudo isso rendeu recentemente o título oficial de cidade mais segura do país. Certa vez, solicitei à prefeitura que desligasse os semáforos (e as máquinas de multa) na madrugada, para não ficar parado como “presa” debaixo do sinal vermelho. A resposta foi que não havia ocorrências desse tipo nesta latitude. Para essa negativa do poder público não fiquei estressado. Parafraseando Mario Quintana (1906-1994): “Uma boa frase acaba com qualquer desentendimento”.

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Deu ruim

Aconteceu com a guria da cidadezinha que conheceu um sujeito da capital, através dos aplicativos de relacionamentos. Semanas antes da viagem dele para o interior, ela pediu que fizesse e trouxesse os resultados de exames de saúde, afinal estariam caminhando para uma relação séria, mais íntima e justificou-se: não se conheciam pessoalmente, ele era de uma cidade grande “onde tudo acontece” e ela — se dizia — uma interiorana de família. Antigamente, chamavam-se de exames pré-nupciais, hoje nem sei se isso ainda existe. Devido a uns “descuidos”, os exames dela não tiveram resultados satisfatórios, então ela tratou de pegar exames antigos e alterou as datas. Pronto! Tudo em dia. Quando o forasteiro chegou, depois dos passeios habituais — no parque, na cachoeira — em um certo momento, por iniciativa própria, ele pegou seu computador, abriu o site do laboratório e mostrou-lhe o que ela pedira, on-line: HIV, hepatite, toxicológico, 114


entre outros. Tudo em dia. Feito isto, olhou para ela e disse: “Vamos acessar os seus?”. Ela tentou enrolar, dizendo que ali no interior não dispunham dessa modernidade. Que era tudo na base do papel. Mas o sujeito era vivido, já tinha observado que mesmo estando fora de um grande centro, havia muita tecnologia ali: com câmeras de monitoramento nas esquinas, supermercados com caixas de autoatendimento, radares eletrônicos perto das escolas, entre outros. Ele olhou a papelada dela, elogiou os resultados. No começo da noite, alegou um problema familiar e nunca mais apareceu. O dilema do cronista é bem definido pelo escritor David Coimbra: “Não posso contar tudo, causaria separações e destruiria reputações”.

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O café da quarentena

Aqui em Santa Catarina, a quarentena começou um pouco antes que o restante do país e coincidiu bem no meio do cronograma da obra do apartamento que vamos morar em breve. O governador proibiu, logo de cara, os serviços básicos que precisávamos, como eletricistas, encanadores e demais instaladores — que já estavam contratados. A internet e a energia elétrica nós já tínhamos instalado, e era só o que havia no apartamento. Tive que montar um home office improvisado ali mesmo, já que o prédio onde moramos hoje tem internet predial, compartilhada e lenta. Me instalei perto de uma janela — pois não tínhamos luminárias — e logo no primeiro dia de trabalho remoto, já percebi uma melhora significativa na minha produtividade, pois a conexão não caia e eu conseguia ficar focado. Antes, a cada meia-hora tinha que ir até o corredor para reiniciar o modem do prédio. 116


Por volta das 10h, me caiu a ficha. Deu fome — e vontade de tomar um café. Lembrei de uma padaria, ali perto. O decreto estadual não permitia manipulação local, ou seja, só deveria ter pãozinho ensacado. Fui buscar um. Tinha um casal em uma mesa, esperando algo para comer — lembrando que o decreto não permitia isso também. Não resisti e perguntei pra atendente: — Vocês fazem café pra levar? Ela respondeu: — O senhor pode tomar aqui mesmo. — Ah! Ok! Respondi. Ela fez um café no coador de pano. Tomei e sai de lá feliz, mas com a sensação de ter cometido um delito. À noite, quando cheguei em casa, comentei sobre o caso e fui repreendido pela família, ameaçado de isolamento total. No outro dia, sai cedo e esqueci de levar comida. Às 10h, me bateu a abstinência, corri lá na padaria. Mas dessa vez cometi somente MEIA transgressão. Perguntei se tinham embalagem pra levar o café. Ela disse “Sim” e fez um cafezinho. Na hora que me entregou, arrematou: “Só não tenho a tampinha”. Eu estava de carro, para minimizar a convivência social. Então coloquei o copo em uma sacolinha amarrada em volta.  117


Quando cheguei ao apartamento vazio, abri a sacolinha, minhas mãos e a mesa ficaram muito sujas de café. Tomei o que sobrou no copo. E fui embora, pois lá ainda não havia pia, nem torneiras, nem chuveiro. Voltei no outro dia, com um detergente, um balde, um pacote de bolachas e uma garrafa térmica bem cheia. Adivinhe de quê? Lembrando que este cronista é hipertenso e que na infância teve bronquite. Só descumpri as medidas de isolamento social por causa do café. Mesmo assim me sinto constrangido com essas duas infrações.

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Vou morrer!

O título desta crônica não é novidade para ninguém. O dia de cada um vai chegar, só que no meu caso, já sei o motivo. E não vai demorar. Explico. Minha mãe é da área da saúde, logo, desde criança não tive muita folga neste quesito. Para qualquer dor de garganta ou sintoma forte de gripe não tinha negociação: era uma injeção de Benzetacil 1200 UI. Justamente a mais temida — por ser a mais dolorosa. Hoje em dia seu uso é restrito aos hospitais. Como sou seguidor da hierarquia familiar, toda vez que minha mãe perguntava como estavam meus exames, lá ia eu fazer um check-up básico. Certa vez, resolvi organizar minha vida, fui juntar meus exames e percebi que tinha feito quatro exames de sangue em um ano, sem ter motivos para isso. Por sorte, conheci um clínico geral que me aconselhou a fazer o check-up anualmente e no mês do meu aniversário, assim não teria como esquecer. Em maio passado, fui para a consulta e o médico sugeriu fazer uma endoscopia, “só pra ver como está”, 119


disse ele; não havia incômodos ou reclamações minhas sobre o aparelho digestivo. Fiz todos os exames e a tal endoscopia indicou sinais de gastrite. Comentei com meus amigos sobre o assunto — a sabedoria popular sobrepõe-se aos especialistas — e eles começaram a me alertar: “Vais ter que parar com os cafés!”. Como foram vários os comparsas sinceros comigo, conclui: Vou morrer! Vai ser de desgosto! E vai ser logo. Em tempo: Antes da publicação deste texto, o cronista consultou uma gastroenterologista e a doutora recomendou não exagerar com café, chá preto, frituras, comidas pesadas e álcool. Ninguém proibiu nada e nem perguntou ao paciente sobre vícios cafeinados, colunas em site sobre café ou expedições em cafeterias. Como dizia Nelinho Euzébio: “Não vou a médicos. Eles descobrem doenças na gente”.

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A vida não é só café

Ofereci ajuda a uma colega de trabalho que seria transferida para outra cidade: “Depois vou te passar uma lista de lugares legais para tu conheceres por lá. Vai te ajudar na adaptação”. Ela respondeu: “Ah! Já sei, tu vais fazer uma lista de cafés, né?”. Claro que minha lista não seria só de cafés. Provavelmente ela disse isso baseada nos meus stories do Instagram. Foi uma forma que achei para “contabilizar” a quantidade de cafés/cafeterias que procuro, visito e/ou frequento. Se fizermos um ranking lá no apartamento 302 — onde residimos três pessoas, a mais interessada na bebida é a adolescente que manda mensagem do quarto pedindo “cafééééé” pelo menos cinco vezes ao dia e a mãe dela, a estudiosa, responde com todos os efeitos dos exageros do café, incluindo os prejuízos ao sono se consumido da metade da tarde em diante. E a outra pessoa sou eu. Recentemente, encontrei uma colega de décadas passadas que me perguntou: “Tu ainda tomas aqueles 121


baldes de café?”. Hoje meu consumo é razoavelmente moderado. A mais recente prova do peso do café nas nossas vidas, foi minha participação em um concurso cultural em Jaraguá do Sul, no qual meu projeto de livro foi contemplado. E qual o nome do livro? O mesmo da coluna que assino no site www.umcafezinho.com. br: “Papo no cafezinho”, que será uma coletânea de crônicas de não ficção. O livro não será vendido e sim distribuído nas escolas de ensino médio e bibliotecas da cidade do norte catarinense, onde resido. A vida não é só café, mas ele está muito presente na minha rotina e a partir de 2020 também estará como um filho — com café no nome — acompanhando a minha biografia para sempre, algo que jamais imaginaria quando sugeri o nome de Papo no cafezinho para esta coluna, quando me inscrevi para ser voluntário no site. Quando convidei a Fernanda Haddad, a idealizadora e editora do @umcafezinho para escrever o prefácio do livro, fiquei sabendo que fui o primeiro candidato que apareceu. Sou muito grato pelo compartilhamento das vivências das pessoas que viraram personagens das crônicas e que são passadas adiante em alguma conversa acompanhada de um cafezinho por aí. Este é o nosso objetivo desde sempre: Realidade & Crônica & Papo & Cafezinho. 122


Não existe viagem perdida

Já escrevi sobre a mania lá de casa de sairmos a procura de cafeterias. É um tipo de passeio divertido porque já estamos calejados e tentamos não criar muitas expectativas, pois sabemos que os ambientes nunca serão como nos anúncios e fotografias da rede social. Falando em fotografias, sempre tentávamos achar o ângulo certo para pegar aquela fumacinha saindo do cafezinho bem quente. Por anos tive certeza que era a minha falta de qualificação para manusear a Nikon, embora tivesse lido todo o manual da câmera. Depois descobrimos através do programa da Paula Varejão — “Tá na hora do café” — Canal Mais Globosat — que a fumaça perfeita das fotos de café era proveniente de um cigarro escondido atrás da xícara. Um truque dos profissionais. ************ 123


Em um inverno bem gelado, depois dos nossos expedientes corporativos, partimos para uma viagem até Curitiba. A meta era conhecer uma cafeteria no aeroporto Afonso Pena. Se não tivéssemos imprevistos no trajeto de 180 km, daria tempo de apreciar o café da loja de uma marca bem famosa no setor. Deu certo. Estacionamos, passamos bastante frio — o vento estava congelando até nossas almas — e entramos no saguão. Andamos nos dois andares e não avistamos a loja. Não teve jeito. Tínhamos que perguntar no serviço de informações, pois já estávamos pensando que eu fora precipitado, que a loja nem havia sido inaugurada ou seria em outro aeroporto. Bem, cada um de nós foi montando a sua teoria. Depois que parei de relutar — não gosto de pedir ajuda — fui me informar: Sim! A loja já estava inaugurada. Sim! A loja era ali naquela estação. O problema é que ela ficava lá na sala de embarque do aeroporto. E para acessa-la só com bilhete de voo em mãos. E nós não estávamos viajando para lugar algum. Restou tomar nosso café num lugar escuro, com aquelas mesinhas de mármore frias e engorduradas. Sem glamour e sem fotografias para compartilhar. O café estava bom e bem quente — por isso aquela via124


gem não pode ser considerada “perdida”, afinal, na manhã seguinte, tomamos café da manhã em duas padarias diferentes. Comemos o salgado em uma e o doce dois quilômetros adiante. E bebemos um café em cada loja, obviamente.

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Ano XXV

Quando digo que ocupo o espaço da crônica de um site sobre café a maioria das pessoas estranha. Algumas questionam “Como assim um site de café?”. Explico que sou um contador de histórias nas quais o café aparece como protagonista ou como coadjuvante — não necessariamente no texto. Em 8 de dezembro de 2019, completamos 25 anos da primeira publicação em jornal. Quase uma vida inteira. Digo assim, no plural, porque os acontecimentos não são meus, são das personagens. Eu sou apenas o sujeito que os escreve, tentando retratar a realidade, muitas vezes pitoresca. Há várias versões sobre como essa história começou. Fui chamado pela professora Marisa, da quinta série, para representar nossa equipe em um desempate de gincana. Fiz uma redação e um desenho. Nunca saberemos onde foi o desempate. Ganhamos. E a fama de “saber escrever” pegou. Lá pelos meus 13 anos, acompanhava o trabalho da prima Mara Lúcia, que era uma datilógrafa pro126


fissional e que me deixava fuçar na sua Olivetti. Ali a coisa começava a ficar séria. Fizemos uma reunião familiar para discutir a compra de uma máquina de escrever portátil, a Olivetti Tropical. Custava o salário inteiro da minha mãe. Lembro dela me perguntando: “Tu vais usar bastante essa máquina?”. Falei que sim. Tinha a contrapartida de que eu faria um curso de datilografia. Essa parte do acordo eu nunca cumpri. Passei a redigir o jornalzinho do colégio. Depois os trabalhos em grupo, e, mais tarde, os currículos dos vizinhos. Em 1994, escrevi uma carta para o jornal Diário Popular/RS, sugerindo uma alteração no trânsito da minha cidade natal. O assunto teve repercussão. Na minha mente adolescente, passei a acreditar que era um escritor, afinal até o prefeito havia lido. Naquela época, as pessoas escreviam os textos e enviavam pelos Correios para a caixa postal do jornal. Para economizar o selo, eu ligava para o editor e combinava para entregar pessoalmente a folhinha dobrada com a minha opinião. Acho que ele publicava mais pela consideração com o rapazinho que passava lá todo mês do que pela qualidade do texto. Adiante, no primeiro dia da faculdade, em Blumenau, um sujeito entrou na sala e perguntou quem era o Marcelo Lamas. Titubeei achando que era um trote. Meus colegas me deduraram. Ele se identificou como o coordenador do curso e disse que pela pri127


meira vez um aluno da engenharia elétrica havia tirado o primeiro lugar na redação no estado. Voltou a fama: “o cara que sabe escrever”. Passados uns bons anos, uma menina de onze anos leu um texto meu no jornal A Notícia/SC e me disse: “Marcelo, achei que você escrevia aquelas histórias engraçadas que você me conta”. Como já vinha me preparando (oficinas de escrita, cursos literários, clubes de leitores) para a virada de página de articulista de opinião para cronista, tomei coragem e passei a fazer os textos que tentavam — e tentam — proporcionar, pelo menos, um sorriso ao leitor. Depois de centenas de crônicas publicadas, três livros em coautoria (antologias) e outros quatro trabalhos solo, sigo contando histórias buscando (corajosamente) distrair o leitor. Espero continuar com o mesmo entusiasmo daquela tarde em que coloquei a primeira lauda na minha máquina de escrever (em 1988) para seguir relatando as histórias da vida real. O ritual continua o mesmo: redigindo o texto primeiramente à mão e acompanhado de uma xícara — ou duas — de café. A minha primeira inspiração, o gaúcho Luis Fernando Verissimo, disse: “As crônicas são anotações nas margens da história”. Pretendo continuar fazendo estes meus rabiscos.

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Tipologia Minion Pro e Anonymous Pro Impressรฃo Impressul Papel Pรณlen Editora Design Editora


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Papo no Cafezinho  

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