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A trajet贸ria de Renato e Ercy Ramires


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Prefácio Meu pai, Renato Segura Ramires, nascido no dia 7 de outubro de 1930, na cidade de Catiguá (SP), filho de João Ramires e Angela Segura (imigrantes espanhóis), foi o segundo de três irmãos. Quase um profissional de futebol, chamado de craque até hoje pelos “recuerdos” de amigos, acabou formado como professor primário e, pela força do destino (ou talvez devido a uma singela garrafa de água mineral) mudou-se para a cidade de São Paulo, iniciando seu primeiro voo além de sua terra natal e por seus sonhos. Casou-se em 1958 com Ercy e começou uma história que nem os mais otimistas conseguiriam prever, a de uma busca incansável pelo sonho de constituir uma família e uma vida pro-


fissional de sucesso. Após uma breve trajetória política como vereador em Catiguá, iniciou a caminhada que o destino e o talento lhe proporcionaram. Com seus irmãos, Sebastião e Hélio, passou a administrar um pequeno empório, conhecido como “Irmãos Ramires”. Posteriormente, mudou-se para Catanduva - já com quatro filhos – desfazendo a sociedade com seus irmãos para fundar, em 1969, o seu maior orgulho profissional, a “Cerealista Maranhão”. Iniciando apenas com a venda de batatas e cebolas, passou a voar rumo ao sucesso como alguém que descobre o quanto seu espírito empreendedor poderia transformar suor e instinto em êxito empresarial, que repercute até os dias atuais, sendo ele o pai de uma família chamada “Maranhão”, hoje com 1.700 filhos. Caro leitor, viaje por este livro e certamente você entenderá como um incansável trabalhador, hoje mais conhecido pelo seu acrônimo “Renato Maranhão”, seguiu sua vida com competência, seriedade e valor humano, realizando todos os seus sonhos profissionais e familiares, sempre ao lado de sua companheira maior, Ercy, minha mãe. Ao mesmo tempo, você irá perceber nesta história que a felicidade não se busca, pois quem tem força de vida e grandes momentos de encanto, a encontra de forma sublime e definitiva.

Renato Segura Ramires Junior


Índice DE ALMERÍA A CATIGUÁ

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A CIDADE DIVIDIDA

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SORTE NO JOGO E NO AMOR

27

GIZ E LOUSA

33

ALÉM DA LINHA DO TREM

39

DUAS VIDAS, UM DESTINO

47

UM MENINO E TRÊS MENINAS

51

O BATATEIRO DE CATANDUVA

59

DE GRÃO EM GRÃO

65

DEUS, FAMÍLIA E MARANHÃO

77

A TERCEIRA GERAÇÃO

93

DESTINO: HISTÓRIA

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ŠiStockphoto.com/Merbe


1ª Estação DE ALMERÍA A CATIGUÁ

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil vivenciava o chamado “ciclo do café”. O Estado de São Paulo, maior produtor, ti­nha a economia impulsionada não apenas pelo chamado “ouro verde”, mas principalmente pelo fato de ter a infraestrutura necessária a fim de escoar a produção, uma ampla malha ferroviária que cobria todo o interior e levava as sacas até o porto de Santos para serem exportadas mundo afora. Não faltava trabalho, nem mesmo para quem vinha de outros países. A partir do final do século XIX, com o fim da escravidão, imigrantes da Europa e do Japão começaram a chegar em grande número, buscando uma oportunidade de fugir da pobreza em que viviam nas suas terras natais. Em São Paulo, os maiores fluxos imigratórios foram de italianos, portugueses, japoneses e espanhóis. Muitos deles chegavam ao porto de Santos de navio, passavam pela Capital, identificavam-se e partiam de trem para as grandes propriedades rurais situadas no interior.

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Trilhos de uma Vida

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As fazendas cafeeiras eram enormes, abrigando, muitas vezes, dezenas de trabalhadores, que viviam em colônias com suas famílias. Duas delas, Segura e Ramires, ambas de ascendência espanhola e vindas da província de Almería por volta de 1920, se estabeleceram primeiramente nas cidades de Santa Adélia (região de Catanduva) e Guatapará (próxima a Ribeirão Preto), respectivamente. Como as oportunidades de trabalho variavam de acordo com a safra de café e a procura por terras próprias era um passo natural para obter melhoria de vida, a migração de um lugar para outro utilizando o trem era uma constante. A família Segura se mudou para uma fazenda em Catanduva e, posteriormente, se estabeleceu em um distrito da cidade, Catupiry. Enquanto isso, os Ramires saíram de Guatapará após adquirirem uma fazenda, localizada também no distrito de Catupiry. O comerciante Sebastião Segura tinha em Catupiry uma máquina para o beneficiamento de grãos de café, arroz e milho (com o qual fazia fubá). Com a mulher, Josefa, teve somente uma filha, Angela. Ela se apaixonou por um rapaz cha­­mado João Ramires, que costumava comprar pro­dutos vendidos pelo pai. Na­moraram e se ca­saram no final da década de 1920. Tiveram três filhos: Sebastião (1929), Renato (1930) e Hélio Reis (1936), o único que tinha nome composto por ter nascido no Dia de Reis (6 de janeiro). Em 1930, o pai de Angela atravessava uma fase di­fícil. Havia acumulado algumas dívidas e, para saldá-las, sua máquina de beneficiamento foi a leilão. Ao mesmo tem­po, a família Ramires resol­veu vender a fazenda que possuíam, pelo fa­to de que alguns dos integrantes já haviam fale­

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cido em decorrência da gripe espa­nhola. Com a divisão do dinheiro da venda, João e o irmão Mariano resolveram investir em algum negócio juntos. Ficaram sabendo dos problemas de Sebastião Segura e adquiriram a máquina para abrir um empório de secos e molha­ dos. Como o sogro de João era o único que sabia mexer nela pela experiência com mecânica, decidiram mantê-lo trabalhando. O filho do meio de João, Renato, nascido em 7 de outubro de 1930, teve uma infância com muitas brincadeiras, como o futebol, e viagens, algumas para visitar parentes em Santa Adélia e Itu, outras para ir ao litoral paulista com Ângela e João Ramires - pais de Renato

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a mãe, os irmãos e as tias Catarina e Augusta, que re-


sidiam em Santa Adélia. Um dos lugares de que mais gostava era a casa dos avós maternos, onde brincava com os irmãos e primos, como Célio Cano de Arruda, que morava em Itu e era neto de Augusta, irmã da avó de Renato, Josefa (carinhosamente chamada de “Dona Pepa”). Um dos passatempos favoritos das crianças era brincar de fazendeiro aos pés da mangueira no quintal, próxima ao moinho de fubá. Espetando palitos nas mangas ainda verdes, criavam os chifres e as patas das vacas imaginárias, fazendo cercados para delimitar as propriedades de cada um. A brincadeira se completava com a venda, entre eles, das “cabeças de gado”. A “moeda” era proveniente das folhas da mesma mangueira. A diversão só era inter­rompida por um motivo muito forte: a fome. Quan­do ela vinha, Renato não hesitava em correr para casa. Entre os vizinhos, a criação de porcos e ga­linhas para sustento pró­prio era comum. Tanto é que, na casa dos Ramires, quando havia muitos ovos e carne de porco, o excedente era distribuído entre os vizinhos, que fa­ziam o mesmo em algumas ocasiões. A briga entre os irmãos pelos pedaços de carne era uma batalha di­vertida, que sempre acabava com todos ganhando a sua parte. Um amigo de Renato mo­rava ali perto, em uma casa humilde, feita de madeira e com chão de terra batida, sem piso. Um dia, foi até lá e acabou ficando para o almoço. De repente, o amigo encheu o prato de arroz, abriu um espaço no meio, colocou dois ovos fritos, cobriu e comeu. Com água na boca, Renato fez o

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mesmo e nunca mais deixou de considerar aquela receita simples o seu prato predileto. Assim como tinha espanhóis, o distrito, que passou a se chamar Catiguá em 1938, também recebia imigrantes de outras nacionalidades em suas terras, como Manuel e Adelaide dos Santos, portugueses que, inicialmente, se estabeleceram no mu-

Angela (mãe de renato) com seus pais, Sebastião e Josefa Segura

nicípio de Matão, localizado na região de Araraquara. Quando foi possível comprar um sítio, decidiram mudar-se para a cidade de Catanduva, mantendo uma vida bastante ligada à ter­ ra. Manuel plantava tomates, pepinos e outros alimentos para venda e também subsistência da família. A filha, Maria, casou-se com Angelo Piva, um descendente de italianos de Modena que trabalhava como carroceiro fazendo fretes de gêneros alimentícios. Renato (segurando o carrinho) com a avó Josefa (sentada) ao lado da mãe (Angela) e das tias Catarina e Augusta


A família Santos também possuía uma casa em Catiguá, na Rua América, onde Angelo e Maria passaram a morar.

Tiveram sete filhos. A sexta, Ercy, nascida em 18 de outubro de 1940, se tornou muito próxima do avô, que havia escolhido o nome para a neta ao vê-lo escrito em um convite

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para enterro no jornal que assinava, “O Estado de S.Paulo”. Ercy era facilmente en­contrada brincando na rua, de casinha, esconde-esconde, passa-anel, de cantar e até mesmo de bola. Tinha várias amigas, entre elas Tereza Calbo e duas primas, Maria de Lourdes e Cibele (a “Tazinha”), as companheiras de todas as horas. Em geral, a vida em Catiguá era tranquila, mas até certo ponto. Bastava que não hou­vesse uma aproximação entre os habitantes das duas metades que a formaram: Catupiry, que foi distrito de Catanduva, e Ibarra, ex-distrito de Tabapuã.

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Catiguá: a palavra é derivada de um termo da língua indígena tupi, cáá-y-guá, que significa “baixada do rio da mata” e denomina também um tipo de planta rasteira.


2ª Estação A CIDADE DIVIDIDA

A história de Catiguá, conhecida como “Cidade dos Ba­laios”, começou ainda em meados do século XIX, quando dois povoados foram criados na região de Catanduva, divididos apenas pelo Rio São Domingos: Vila Santa Isabel e Vila Mariana. Entre o São Domingos e o Córrego dos Cândidos, ficava Vila Santa Isabel, que recebeu esse nome em homenagem à mulher do engenheiro agrimensor dinamarquês Charles Arthur Edwin Ortenblad, a italiana Izabel Margarida Lerro, doadora do terreno onde foram construídas a praça e a capela de Santa Isabel. Em 20 de novembro de 1910, foi inaugurada a Estrada de Ferro Northon (posteriormente incorporada à Estrada de Ferro Araraquarense – EFA e, depois, à Ferrovia Paulista S.A. – FEPASA) em Vila Santa Isabel que, em 1912, passou a se chamar Ibarra. Do outro lado, entre o São Domingos e o Córrego BatePanela, estava Vila Mariana. Ali, dois proprietários de terras,

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Manuel Caetano e José Rodrigues, cederam o espaço necessário para a edificação da praça e da capela de São Sebastião. Quem saiu na frente em termos de emancipação foi Vila Mariana, que, em 25 de fevereiro de 1921, foi promovida a distrito de Catanduva, mas com outro nome: Catupiry. A elevação de Ibarra só ocorreria oito anos depois, em 15 de maio de 1929, mas, neste caso, tornando-se um distrito de outro município: Tabapuã. Com a expansão econômica proporcionada pela Estrada de Ferro Araraquarense e a chegada de fábricas, uma de gasosa e outra de gelo, em Ibarra, e uma de cerveja e outra de balas, em Catupiry, chegou-se a um consenso de que uma fusão dos distritos seria estratégica. Dessa forma, através do decreto estadual nº 9.775 de 30 de novembro de 1938, ficou decidido que seria formado um novo distrito (jurisdicionado à Catanduva), com o nome de Catiguá. A junção serviu somente para acirrar os ânimos entre as populações das duas margens do São Domingos. A divisão era clara, envolvendo disputas políticas, econômicas, sociais, religiosas e esportivas. Um exemplo era o fato de que namoros entre pessoas de lados diferentes não eram permitidos pelas famílias. Alguns entreveros descambavam para verdadeiros bangue-bangues, com troca de tiros entre os dois lados. As querelas só começaram a ser resolvidas em 18 de fevereiro de 1959, quando a lei estadual nº 5.285 foi publicada, elevando o distrito de Catiguá a município, condição que foi oficializada na data de fundação, 3 de maio de 1960.

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Renato reunido com os amigos de Catiguá

Atualmente, Catiguá, situada a 414 km da capital, tem 7.127 habitantes, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Muitas coisas mudaram em relação à época em que Renato Ramires e Ercy Piva residiam ali. Porém, outras permaneceram bastante parecidas, como a atividade artesanal de fabricação de balaios (cestos de palha ou outros materiais, como cana de açúcar), mantida desde 1938, quando Miguel Almagro iniciou a atividade no município. Além da famí­lia Almagro, gerações de ou­ tras como Veiga, Bazaglia, Xavier e Costa também se notabilizaram pela produção dos cestos. A cidade continua pequena, com uma economia baseada nos setores de agropecuária, indústria e comércio artesanal, e um

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clima interiorano tran­quilo, com a vida de seus ha­bitantes pautada pela rotina pacata de conversar em frente às casas ou aos bares, ir a uma das igrejas ou ver partidas de futebol amador, relembrando os tempos áureos da rivalida­de entre Santa Isabel e Pau­lista. Com o tempo, as novas gerações que chegaram viram a cidade como uma só, não havendo mais fronteiras deli­mitadas pelas águas do rio e nem pela linha do trem.

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TRILHOS DE UMA VIDA  
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Essa é uma amostra do projeto gráfico do livro TRILHOS DE UMA VIDA, biografia de Renato e Ercy Ramires, que fiz para UZZE COMUNICAÇÃO.

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