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Nº 24 - novembro 2011

ACADEMIA DE LETRAS DO TRIÂNGULO MINEIRO DIRETORIA BIÊNIO 2011-2013 Presidente: José Humberto Silva Henriques Vice-presidente: Jorge Alberto Nabut 1º Secretário: Mário Salvador 2º Secretário: Antônio Pereira da Silva 1º Tesoureiro: Pedro Lima 2º Tesoureiro: Dimas da Cruz Oliveira

PROJETO GRÁFICO Távola Comunicação

IMPRESSÃO Gráfica 3 Pinti

NOSSA CAPA: Uma homenagem ao ex-presidente da ALTM, Mário Salvador. O televisor antigo remete ao tempo em que ele tinha um programa de TV. Em sua tela, a imagem de livros como se estivessem numa estante fazem alusão à Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

Reprodução dos artigos permitida, desde que citada a fonte. “Os conceitos emitidos nos trabalhos assinados são de exclusiva responsabilidade dos autores."


Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

ÍNDICE

Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

ÍNDICE

José Humberto Henriques - EDITORIAL .................................................................................................................................09

Dr. Samir Cecílio - UM ÓBOLO DE AMOR..............................................................................................................................59

Dr. João Gilberto Rodrigues da Cunha - DO VISIONÁRIO ACADÊMICO ................................................................................10

Ubirajara Batista Franco - CARRO-DE-BOIS...........................................................................................................................60

Ubirajara B. Franco - CADÊ VOCÊ? ........................................................................................................................................11

Ubirajara Batista Franco - A PENA DE MORTE....................................................................................................................61

Lincoln Borges de Carvalho - OTR .........................................................................................................................................12

Ubirajara Batista Franco - A CARTILHA ANALÍTICA .............................................................................................................62

Gilberto Caixeta - O CASO DE SINOMAR FORMIGA ..............................................................................................................13

Arahilda Gomes Alves - PARALELISMO: ARTE E PENÚRIA ....................................................................................................63

José Humberto Henriques - FLORAÇÃO DAS GABIROBAS.....................................................................................................15

Arahilda Gomes Alves - A POESIA TEM DIA ..........................................................................................................................64

Murilo Pacheco de Menezes - VIVENDO DE ESPERANÇAS ....................................................................................................19

Ani Bittencourt Arantes e Iná Bittencourt Barbosa - “GÊMEOS... JOIO E TRIGO” ................................................................65

Terezinha Hueb de Menezes - ESPANTO ...............................................................................................................................20

Maria Antonieta Borges Lopes - UBERABA: DA ALDEIA CAIAPÓ À METRÓPOLE ESTUDANTIL ...........................................66

Terezinha Hueb de Menezes - ENGANO ................................................................................................................................20

Carlos Donizete Bertolucci - CABEÇA DE ESTADO .................................................................................................................70

Terezinha Hueb de Menezes - DE SILÊNCIO ..........................................................................................................................21

Carlos Donizete Bertolucci - DOMINGOS..............................................................................................................................71

Terezinha Hueb de Menezes - CÓDIGO .................................................................................................................................21

Carlos Alberto Batista Oliveira - TEMPO QUASE ESQUECIDO...............................................................................................73

Luiz Cláudio de Pádua Netto - O QUADRO DE TARSILA .........................................................................................................22

Carlos Alberto Batista Oliveira - TRÊS HORAS DE AMOR......................................................................................................74

João Gilberto Rodrigues da Cunha - A DROGA TEM SOLUÇÃO? ...........................................................................................23

Carlos Alberto Batista Oliveira - SEM PUDOR... ....................................................................................................................74

Cesar Vanucci - SÓ MESMO NONÔ!......................................................................................................................................25

Hely Araújo Silveira - CIDADANIA ..........................................................................................................................................75

Pedro Lima - TSUNAMI .........................................................................................................................................................29 D. José Alberto Moura - SANTUÁRIO.....................................................................................................................................30 D. José Alberto Moura - O CUIDADO .....................................................................................................................................31 Prof. Newton Luís Mamede - ALUNO OU ESTUDANTE? ........................................................................................................32 Gessy Carísio de Paula - NA TRANSCENDÊNCIA DO CONTO..................................................................................................34 Jorge Alberto Nabut - A COZINHA BRASILEIRA.....................................................................................................................36 Aurélio Wander Bastos - PALAVRAS GRAFADAS NA TERRA ..................................................................................................37 Vilma Terezinha Cunha Duarte - A MÃE ... É SER...................................................................................................................38 Vilma Terezinha Cunha Duarte - MÃE MERECE VERSOS........................................................................................................39 Vicente Humberto Lobo - ABACATES NO CAIXOTE................................................................................................................40 Vicente Humberto Lobo - AUTÓPSIA .....................................................................................................................................41 João Eurípedes Sabino - ACONTECEU COMIGO.....................................................................................................................42 João Eurípedes Sabino - NUVEM DE MOSQUITOS ................................................................................................................43 João Eurípedes Sabino - VOCÊ ME EXPLICA? .........................................................................................................................44 Antônio Pereira da Silva - ESCALA CURTA ..............................................................................................................................45 Guido Bilharinho - DUAS COLETÂNEAS DE PRETENSOS POEMAS .........................................................................................47 Paulo Fernando Silveira - DEVIDO PROCESSO LEGAL E CIDADANIA......................................................................................50 Dr. Samir Cecílio - CRIXÁS- SUBSTRATO ROMANCEADO DO AGRESTE (ENSAIO).................................................................56 Dr. Samir Cecílio - MACHADO DE ASSIS E UBERABA ............................................................................................................58


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ACADEMIA DE LETRAS DO TRIÂNGULO MINEIRO SÓCIOS EFETIVOS

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SÓCIOS CORRESPONDENTES

• Alessandro Abdala Santana

• José Rodrigues de Arruda

• Ani de Souza Arantes Santos

• Samir Cecílio

• Carlos Donizete Bertolucci

• Stella Alexandra Rodopoulos

• Dirce Miziara

• Suely Brás Costa

1 - Lincoln Borges de Carvalho

21 - Maria Antonieta Borges Lopes

• Geise Alvina Degraf Terra

• Tiago de Melo Andrade

2 - Agenor Gonzaga dos Santos

22 - Dom José Alberto Moura

• Iná Bittencourt de Sousa Barbosa

• Comendador Thiago Menezes

3 - Martha de Freitas Azevedo Pannunzio

23 - Ernane Fidélis dos Santos

• Dr. José Correia Tavares

• Vicente Rodrigues da Silva Filho

4 - Pe. Thomaz de Aquino Prata

24 - Elza Teixeira de Freitas

5 - Monsenhor Juvenal Arduini

25 - Ubirajara Batista Franco

6 - Jorge Alberto Nabut

26 - José Humberto Silva Henriques

7 – Lídia Prata Ciabotti

27 - Terezinha Hueb de Menezes

8 - Antônio Pereira da Silva

28 - Gessy Carísio de Paula

9 - César Vanucci

29 - Geraldo Dias da Cruz

10 - Consuelo Pereira Rezende do Nascimento

30 - Irmã Domitila Ribeiro Borges

11 – Nárcio Rodrigues da Silveira

31 - Mário Salvador

12 - Dimas da Cruz Oliveira

32 - João Eurípedes Sabino

13 - Vilma Terezinha Cunha Duarte

33 - Frei Francisco Maria de Uberaba

14 - Pedro Lima

34 - Oliveira Mello (Antônio de)

15 - Antônio Couto de Andrade

35 - Severino Muniz (Antônio)

16 - Edmar César Alves

36 - Ribeiro de Menezes (Valdemes)

17 - Luiz Cláudio de Pádua Neto

37 - Sebastião Teotônio Rezende

18 - Luiz Manoel da Costa Filho

38 - João Gilberto Rodrigues da Cunha

19 - Dom Benedito de Ulhoa Vieira

39 - Carlos Alberto Cerchi

20 - Paulo Fernando Silveira

40 - Guido Bilharinho

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EDITORIAL Estamos relembrando, amigos e membros da ALTM, da figura espetacular do Dr. Mário Salvador. Diante da lembrança, trazemos a homenagem a ele, homem que esteve diante da Academia de Letras do Triângulo Mineiro por mais de duas décadas, imprimindo a ela o seu caráter peculiar. Foi eleito presidente da ALTM em 1987 e desempenhou sua função com maestria, tendo conduzido a entidade ao patamar onde hoje ela se encontra. O seu currículo vasto – nasceu em Araguari no ano de 1935 – traduz o empenho e preocupação com as causas humanitárias e com os ensejos de melhoria da qualidade de vida do lugar onde viveu. O Dr. Mário Salvador foi regalado e homenageado com títulos e comendas, recebeu grandes elogios enquanto a vida ia regulando o tempo e as atitudes do progresso de Uberaba. É fácil demais falar do Dr. Mário Salvador, basta abrir uma página eletrônica da ALTM e está lá seu exuberante currículo.

nos lembramos do Programa Roda Gigante e do Clube do Tio Mário, não é raro que possamos sentir aquele gosto doce dos tempos em que a TV Uberaba lançava seus primeiros passos e mostrava que tínhamos um canal de transmissão com características independentes e muito particulares. Não seria perigoso ou equivocado dizer que o Tio Mário, respeitosamente, Dr. Mário Salvador, é um dos homens mais conhecidos desta terra. Por isso, tornou-se ícone entre nós, daqueles laureados e que acabam por simbolizar o nosso entusiasmo diante de seu conhecimento. Nós, da ALTM, pudemos ter a honra e a glória de desfrutar de sua companhia e de seu modo sempre jovial, alegre e as vezes brincalhão de ser. Homem com facilidade extrema de se expressar e de tornar claro o que às vezes vinha truncado em outras mentes. Quando me procurou e sugeriu que eu me candidatasse à ALTM, vi em seus olhos a sinceridade daqueles que estão livres de quaisquer tipos de veleidades ou de tendências. Convidoume simplesmente porque cria que, talvez sendo membro, pudesse fazer parte efetiva – do ponto de vista de participação e alguma possível ideologia - de uma entidade cinqüentenária e que estava dirigida pelas suas mãos. Hoje o Dr. Mário é secretário da ALTM. Pode ser que sem a sua presença e seus conselhos a Academia sofra de vazios muito grandes.

Todavia, falar do Tio Mário é tarefa que deveria ser muito bem pensada. Teríamos que dizer tudo com o coração aberto e sem rodeios. Tio Mário faz parte da memória viva de uma Uberaba que sofreu de degenerações monumentais – assim como toda a sociedade civil e os grandes municípios da federação – impostas pelo chamado progresso e desenvolvimento. A violência cada vez mais acintosa, perda de valores humanos e morais, decadência política, esquecimento da memória do município, estas coisas que são patentes e podem ser observadas em jornais e mesmo através das histórias contadas por gente de uma geração anterior. Por isso, quando

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José Humberto Henriques Presidente ALTM

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Dr. João Gilberto Rodrigues da Cunha Cadeira número 38 - Uberaba MG

Ubirajara B. Franco cadeira 25 - ALTM

DO VISIONÁRIO ACADÊMICO

N

osso Presidente – meu colega Prof. Dr. José Humberto da Silva Henriques – sabe da minha inquietação e preocupação com as atividades de nossas Academias Literárias. Em minha opinião as academias podem ser comparadas ao “repouso do guerreiro” – ou seja, o acadêmico deu por cumprido o seu papel na sociedade. Por outro lado, as academias são compartimentos literários estanques, praticamente isoladas umas das outras. Uma intercomunicação seria estimulante para todas, inclusive levantando em território nacional o seu papel na própria marcha da sociedade. Sócrates protestou em campo isolado e reduzido, sua filosofia ultrapassou os anos – mas ele teve que beber cicuta. É obrigatório o conhecimento da universalidade, os meios de comunicação e os governos já se associam como nações unidas, seus sentimentos, sofrimentos, necessidades sociais – e as distorções que geram as guerras hoje tão assassinas e sofridas. Voltando-nos interiormente, todos nós conhecemos a diversidade das realidades brasileiras – regionais, sociais, financeiras, profissionais, sanitárias, etc... etc. entretanto, muitos acadêmicos ainda não penduraram as

chuteiras e se mantêm ligados profissional ou socialmente aos seus sofrimentos e distorções. Penso que a Academia, tal como Sócrates a filosofou, é uma estrutura importante no conhecimento, na denúncia destas realidades e sugestões, para consertá-las. Entretanto, o seu isolamento torna-as reclusas, humildes e socialmente desconhecidas. Creio – e já sugeri ao nosso atual Presidente – que é hora de procurar e ter esta nova sociedade acadêmica, inclusive prevista e provisionada em cargo da diretoria. De nada vale a nossa proclamação e êxitos culturais se tal não tiver papel e reflexos sociais. Uso – e meus amigos sabem – a filosofia analfabeta do meu ex-vaqueiro de 30 anos, por nome Dino. Ele nunca viu ou conheceu o pirarucu, maior peixe dos rios. Todavia, em sua opinião, peixe importante é lambari, traíras e bagres que ainda nos servem na mesa. Eu acrescento que neste conhecimento e informação entra a piranha, cujos perigos devemos evitar. Em conjunto e em sociedade podem entrar nossas Academias, cujos nomes respeitáveis poderão apontar e distinguir os peixes, suas necessidades e valores... e seus perigos.

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CADÊ VOCÊ?

A

PARECIDA, mulher excepcional, caridosa, e que tanto ajudou aqueles que amargam a terrível doença do FOGO SELVAGEM. Como pagar-lhe o que você fez para os sofredores que procuravam a nossa cidade em busca de melhor sorte? Você, que nada recebia pelos seus exaustivos trabalhos, talvez fosse porque o seu pagamento estivesse mais além desta pobre Terra, onde o vil metal é muito mesquinho para ressarcir-lhe os trabalhos. Mesmo já depois de avançada idade, você ia sozinha em São Paulo solicitar os medicamentos, e sempre os conseguia. Cadê você que, com suas abençoadas mãos lavava e medicava as chagas dos sofredores? Por certo, está junto a Deus! Dr. JORGE FURTADO, médico cuja vasta cultura somente era sobrepujada pela sua SABEDORIA. Como ninguém, a distribuía tanto aos seus alunos da faculdade, quanto a todos que o procuravam, sem distinção alguma e que soube governar a nossa cidade, emprestando-lhe o que de melhor havia dentro de seu grande coração, e o fez com humildade, sem qualquer arrogância, honestidade e invejável dinamismo, sendo, até hoje, aclamado, o melhor prefeito que já tivemos. Dr. HUMBERTO FERREIRA, grande médico e famoso cientista, pesquisador da doença de chagas e que tem seu nome estampado na ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA, para o orgulho de Uberaba. Mas, que nem por isso era dotado das vaidades, próprias nos néscios. Auscultava os seus pacientes demoradamente, sem a correria de hoje, passando lhes sempre apenas um ou dois medicamentos, mas que (talvez por assistência divina), quase sempre mitigavam seus males. Cadê você que não cobrava suas consultas daqueles que não podiam pagar? CRENTE, onde anda você, orador incansável e que discursava na porta da Agência Centro do Banco do Brasil, já suando de emoção e de cansaço. Você não foi nenhum Demóstenes, mas tinha coragem de falar verdades que poucos ousam dizer, combatendo os "verdadeiros" agiotas, os nossos bancos; a vergonhosa corrupção de alguns políticos; os subornos que estão proliferando no meio daqueles que sempre deveriam lutar contra ele; a falta de DEUS nos corações da humanidade... Quase ninguém o escutava. Taxava-o de louco, falando sobre a LOUCURA DO MUNDO! Dr. AUGUSTO AFONSO NETO, grande advogado, colega da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; professor de Direito; cultura invejável e que, ao contrário de muitos de seus

colegas, morreu pobre. Lembro-me de que com mais de oitenta anos, noite fria ou chuvosa, sempre comparecia na hora certa, para ministrar sua aulas de Direito Civil que tantos conhecimentos nos proporcionavam. Ele foi advogado na ampla expressão da palavra; grande e inesquecível mestre; notável orador que abrilhantava a ALTM e, como todos os sábios, dotado de admirável simplicidade. CHICO XAVIER, que dispensa adjetivos, eis que o mundo inteiro o conhece e o admira pela sua obra que psicografou (mais de 200 livros) e o seu incansável labor em prol da humanidade. Uberaba muito se orgulha de, por tantos anos, ter hospedado tão eminente figura, ou melhor, tão elevado espírito! ZOTE,pessoa controvertida e,muitas vezes,mal compreendida, mas que encarnou o espírito brincalhão, zombeteiro, bondoso e simples de nossa gente. Tanto assim que era conhecido por todos, principalmente seus amigos caminhoneiros que, de longe, traziam-lhe os mais diversos presentes. Era comerciante perspicaz. Não tinha anotações de nenhum de seus negócios. Nasceu pobre e adquiriu, ninguém sabe como, bom patrimônio. Mas, na sua humildade, morreu pobre de ganância, pobre de maldade, pobre de dinheiro, mas rico de carisma e de bom coração. CADÊ VOCÊ MEU UBERABA (BÃO), de Mário Palmério, Edson Prata, Henrique Kruger, Dr. João Rodrigues da Cunha, Dom Alexandre do Amaral, Santino Gomes de Matos e tantos outros intelectuais que abrilhantavam o auditório (hoje fechado pelo atual prefeito), da ALTM. CADÊ VOCÊ do Cine Metrópole, inaugurado pelo grande tenor TITO SCHIPA, onde somente se podia entrar de terno e gravata; do vaivém famoso de nossa mocidade; da Casa Carvalho; de nosso Super Mercado Uberabão onde os fregueses eram conhecidos por seus funcionários; de nossas farmácias onde sempre os farmacêuticos eram verdadeiros clínicos, sem filas quilométricas como os cartéis de hoje; de nosso trânsito de motoristas educados e que, não raro, paravam seus automóveis para idosos e crianças passar; de nosso tradicional jornal Lavoura e Comércio, os meninos distribuindo-os ruas afora "Lavoura... Deu gabarito!...; do jornalista e poeta Quintiliano Jardim que, dizem, emocionado, declamou essa quadrinha: «Uberaba de ontem, Uberaba de hoje. Das duas não sei qual quero mais: se Uberaba do meu tempo de menino ou se Uberaba de meus dias outonais...»

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Gilberto Caixeta - colaborador Assessor na Secretária de Estado de Ciência Tecnologia e Ensino Superior

Lincoln Borges de Carvalho Cadeira número 1 – ALTM

ORT

H

á muito tempo, um dia a caminhar pelo amplo e longo corredor do prédio onde mantinha meu escritório, antes de chegar à minha sala, detiveme a admirar uma das muitas plantas ornamentais junto à parede. Súbito senti que alguém me abraçava fortemente por traz, envolvendo-me em seus braços. Muito junto a mim, percebi ser um corpo feminino cujos seios rígidos se comprimiam em minhas costas. A primeira indagação íntima: “Quem será?”. E ela se pôs a dizer coisas incompreensivelmente lindas junto a meus ouvidos. Enquanto lembrava-me de algumas mulheres conhecidas, falando seus nomes, tentava libertar-me, mas era impossível, dado à sua extrema habilidade. Bem justaposta às minhas costas, ela movia-se conforme meus movimentos.

“Quem é você? Diga”. Suavemente ela respondeu colada a meu ouvido: “Uma bailarina aqui do lado”.Voltei a indagar: “E o que faz aqui fora? O que fazia lá dentro?” Quando ela disse que dançava o “ort” – movimento coreográfico determinante do final em balé – acreditei no que falava. Dei-lhe então um grande e rápido golpe de modo a nos pormos frente a frente. Realmente, estava vestida com fina malha de bailarina; seu rosto era de uma alvura nórdica, marcado por profundos olhos verdes; sua cabeça, meio cônica, não continha um só fio de cabelo. Com vigor, ela tomou de minhas mãos e convidou-me a entrar no estúdio de dança, bem ao lado de onde nos achávamos e antes jamais notado por mim. Encantado e inerte, levado por suas mãos, segui-a até um vasto salão de paredes espelhadas. Penetramos por um espelho adentro e nunca mais retornamos.

Sentia seu corpo grudado ao meu, como se estivesse nua. Dando como inúteis minhas tentativas, perguntei-lhe:

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O CASO DE SINOMAR FORMIGA (Esta crônica compõe o Livro do Zote, que será publicado brevemente)

Então está tudo certo; encerrou a conversa por não querer encurtar a vida invocando a morte. O sol estava muito quente e o seu cachorro de estimação Brinque latia para o vento, como se o cheiro chegasse antes de quem pudesse chegar. Esse cachorro está inquieto hoje Sinomar! Falam que o Baiano comprou uma faca só para te espetar. Deixa aquele desalmado aparecer aqui, aí a gente acerta as contas. O Baiano andou falando que você o deve. Ele fala que eu lhe devo e eu falo que não devo. É melhor se prevenir... Você já disse isso, vamos mudar o rumo dessa conversa. Essas coisas encomendadas pelo destino são piores que ferida; toda hora esbarramos nela arrancando à casta, não tem cura. Depois, come a carne e fica aquele buraco na perna que a tudo atrai e a tudo engole, como o sofrimento. Pare de amolar essa faca! Você não faz outra coisa a não ser amolar, amolar e a passar o dedo na lâmina e a lambê-lo, como se estivesse a pensar em algo de muito ruim para você e para nós. Se aquiete mulher, que eu fico com as minhas dores e você com as suas. O Baiano passava o dedo na lâmina afiada sangrando-o e levava-o a boca. Ficava com aquele gosto de sangue na boca, mudava de dedo e repetia o gesto como se estivesse alimentando de sangue para se vingar de algo que o corroía. Meu coração me fala que você perdeu o juízo. Quem perdeu é quem não quer o acerto. Mude o pensamento, largue essa faca. Eu nem sei por que você a comprou. Amanhã você saberá. Quando Baiano chegou a fazendo do Sinomar eles sabiam que se encontrariam. Venho fazer o acerto do que o senhor me deve. Não te devo o quanto você pensa que devo. Anita ao ouvir a conversa dos homens largou o que estava fazendo e foi ao encontro dos dois. Sinomar estava atolado em seu chapéu, com as botinas sujas de sempre, mas o seu olhar era vulcão de poucas horas, que mal pode ouvir o Baiano quando pediu um copo de água e ela retornou a casa para buscar no pote o gole de água na caneca

B

arba enorme de Sinomar Formiga lhe dava uma aparência de leão. Os olhos de raios inibia quem se atravesse a olha-lo nos olhos, muito menos quando o olhar fosse de desafio. O seu jeito desafiador era com qualquer um. Destemido com a sorte, precavido com os homens. Por isso, andar armado era uma condição natural do vestir de roupas. Mas os desafetos existem e eles rondam em noites escuras a busca da oportunidade da vingança, pior quando ele vem a luz do dia ensolarado. Quando o Baiano chegou a Uberaba foi trabalhar com Sinomar na fazenda, e às vezes estavam juntos na venda de abacaxi no Mercadão Municipal. Ajudava-o a carregar o caminhão e partiam para o mercado a vendê-los. Enquanto que Anita ficava na fazenda a cuidar das coisas domésticas próprias de uma esposa da época. O caminhão do Sinomar era um horror de velho, sujo, com folga no volante. Quem sabia dirigir aquele caminhão era somente ele. Afinal, para fazer uma curva que exige meio virada de volante, no seu era preciso distorcer girando o volante duas, três vezes. Pelas estradas por onde passava quem vinha em direção contraria não se arriscava; jogava a condução no meio do mato e aguardava o caminhão de abacaxi do Sinomar passar. Assim era mais seguro, porque caso houvesse uma batida não haveria pagador, então, é preferível não arriscar com aquele bicho do mato, porque ele é de pouca prosa e de muita artimanha. Lá cedinho o caminhão já estava estacionado no pátio do mercado e o vendedor a oferecer o melhor abacaxi da região. O preço dependia da concorrência no dia. Ao retornar à fazenda a tardezinha lá estava Anita aguardando o retorno de o seu companheiro a ajudá-lo a descarregar o que o sobrou, a conferir a mercadoria, a ajeitar o produto para no outro dia de trabalho. O Baiano apareceu hoje sozinho lá no mercado. Que esse desafortunado tenha o seu caminho sem que eu tenha que encontrá-lo; disse Sinomar. Ele comprou uma faca e ficou a amolá-la com cuidado e gosto. Não tenho medo de homem. É bom você se cuidar, porque ele disse que aquela faca tinha endereço certo.

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buscada dentro do filtro de barro. Foi o tempo preciso para que o Baiano desembainhasse a faca e partisse ao encontro de Sinomar que não teve tempo a não ser lançar o gemido de dor pelo corte no braço. Tentou se defender com os braços que foram rasgados pela lamina, uma vez outra vez. O sangue escorria e empoçava na terra formando uma barrela que as suas botinas se impregnaram deixando-as coalhada pelo liquido que escorria e lhe tirava a força, a vida. O seu algoz partiu novamente ao seu encontro e encontrou a barriga que queria perfurar, e a furou, furou até que ele caísse nos braços de Anita que o amparou derramando água em mistura com sangue avolumando ainda mais o líquido que encharcava a sua roupa, as suas botinas. Saciado pelo desejo de morte o afrontante saiu em disparada abandonando o local de morte para se salvar. Mas quando o risco cortou o peito uma janela se abriu em seus olhos que as suas mãos não puderam conter a vontade do revide. Cambaleante, cambaleou sem se esquecer da vingança. Amparado pelas mãos se socorreu do socorro esvaído no sangue, e, mesmo assim, queria sacar de sua arma encostada em suas costelas na parte de traz do corpo. Sacou-a e sem mirar atirou... Atirou... E novamente atirou, atirou... Como se não houvesse, e não houve, puder em assim fazer. No primeiro disparo Baiano olhou para traz e viu Sinomar ensanguentado atirado ao chão, atirando. Quando o

olhou novamente ele também estava atirado ao chão, dentro do chiqueiro. O tiro o acertou jogando-o ao chão, porém, caiu dentro do chiqueiro. Anita correu para buscar o caminhão nunca tentativa desesperada de socorrer Sinomar. Baiano, olhava com os olhos os porcos que o cheirava. Anita, em força hercúlea arrastava Sinomar para dentro do caminhão, enquanto os porcos cheiravam as feridas abertas pelos tiros. Quando o caminhou partiu, Baiano gritou de dor, não mais pelos tiros e sim porque os porcos começaram a comê-lo. Zote, chegou a sua residência as 17:00hs; “mãe Andreia” assustou-se com a sua presença neste horário. Ele nunca chegou antes das 21:00horas. Neste dia ele era um homem desfigurado, torto, choroso. “Mãe Andreia” mataram o PAIIIII, mataram o paiiii, o paii, o pai morreu. O ano de 1967 fechava mais uma janela no coração do Zote. Brinque farejou o morto no chiqueiro. A morte recebeu ambos de braços abertos. Mesmo que Anita quisesse aquele caminhão não corria em estrada de salvação, a morte chegara quando a faca começou a ser amolada. Sinomar agonizava na boleia do caminhão enquanto os dentes dos porcos arrancavam as tripas do Baiano. Chegaram juntos ao julgamento final; ensanguentados e com as armas em mãos.

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José Humberto Henriques Presidente ALTM

FLORAÇÃO DAS GABIROBAS

E

pois que foi desenganado pelo doutor Randolfo, meu pai tornou-se uma sagração de cuidados diante dos meus olhos. Fosse assim, que me dissera, a manhã estivada com suas bordas de sol e um quebrado de sombra que já descia sobre as paineiras e algum angico, o toldado de toda carga de canarinho-da-terra, o mais dourado que há, falou.

Falei pouco que era para ele não se sentir melindrado com a minha policiada referência, os cuidados. Podia desconfiar que eu temia que lhe ocorresse um mal qualquer ali pelos meios dos cerrados e isso traria a ele um certo desconforto e estado beligerante. Sempre que me dirigia a ele, fosse da minha forma mais respeitosa, nunca o dizia pelo nome de pai. Dizia sempre sô Geraldo, entretanto, sem que isso abrisse um demérito ou falta de respeito para com sua presença. A dizer mesmo a verdade, eu também era Geraldo e meu filho era Geraldo Neto e meu bisavô, finado, fora José Geraldo. Tudo devesse ser em honra e memória do Santo, o mais bonito em estampas de parede, dessas que trazem o rosto escorreito e um ramo de flores brancas atravessado ao peito. Santo bonito assim é até muito difícil se imaginar, a não ser dentro da luz grande que brilha em Fátima, aí sim, de se comparar. Ocorre que para a Santa traduzir essa imensidão de ternura é muito mais fácil do que para um Santo se bater com as mesmas virtudes.

- Vou tirar o carapiá para fazer remédio. Ainda dele se acha em atitude de fartura e quantia nas subidas do cerrado. Com o embornal meado, volto ligeiro e almoçamos na hora certa! Era de sua mania o sair da cama muito cedo e ficar por ali, a assuntar o nascer do sol, a cantiga dobrada de tudo quanto é passupreto desse mundo nas folhas desenhadas de moita de bambu. Desenganado pelo doutor, o que dissera, o coração não tinha mais a mesma competência dos tempos de antigamente. Meu pai com seus hábitos velhos, desde que eu me entendia por gente, saía da cama e se banhava em água fria, depois saía à varanda pequena da casa e admirava-se da natureza em iluminação pelo sol que saía, os cabelos grisalhos e espetados a pingar água do banho recente. Acendia um pito de palha e mirava as alturas. Coisa antiga dele, ser assim, afora a necessidade de fazer o pó do carapiá para aliviar essas criaturas sofridas que acham de ter mazela alguma no nariz e em partes próximas dele. Dizer a verdade sobre o caso, eu sofria com a maneira de olhar a sua figura ali, tão levantado de vida, desenganado por conta de um coração que não podia mais velejar como nos tempos em que mostrava tutano e nada de errado com sues passos.

Sô Geraldo respondeu imediato. - Não carece não! Ora, era mesmo a resposta que podia ser esperada. Porém, eu já estava com uma botina no pé e outra na mão; tinham dormido as minhas botinas debaixo do banco da varanda, de tal sorte que eu batia com ela emborcada contra o braço mais forte do madeiro, prevenia que alguma lacraia tivesse se enfiado nela para passar a noite mais quente, sendo assim, se estivesse ali, ia me ferrar o dedo e depois adeus marcha em rumo dos cerrados. - Sô Geraldo, acontece que eu quero ir!

Naquela manhã, com o enxadão às costas, um facão na mão livre, tinha me avisado que ia buscar a raiz, a erva que era milagrosa para essas gargalheiras, conforme era a crença funda e evidenciada nos resultados que obtinha. Distribuía aquilo a quem queria. Era das suas manias, meu pai era um homem quase planejado em tudo que fazia nessa vida. Por conta de querer poupar dele o esforço e as energias, temeroso de que houvesse de sua parte um perigo qualquer, eu mesmo fui junto dele, apartei a palavra mais sensata para dizer.

Aí, diante desse argumento, ele se calou e apanhei de seu ombro o enxadão e deixei com ele o facão de cabo de osso, era uma forma de fazê-lo entender que antes com o facão do que com o enxadão, as diferenças de suor despendido entre um e outro costumam ser grandes demais. Se agisse assim, não ia ferir seus brios. Não ia mexer com sua sensibilidade. Meu temor maior era que se ofendesse diante da inutilidade que poderia traduzir os excessos. Melindrar sô Geraldo ia me fazer mais inútil e culposo do que ele mesmo seria.

- Sô Geraldo, que vou com o senhor. Somente um tempo para que calce as botinas e já saímos ao carapiá!

A hora já ia toda iluminada porque passava das seis da manhã. Ainda me ocorreu que devesse beber mais um gole de

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café antes de sair pela estrada arriba, que era meu ofício fazer o café e preparar as merendas, sempre foi assim e nunca destoava tal rotina. Depois, que enfiara a segunda botina conferida e sem lacraias, busquei duas canecas de café sem açúcar e bebemos daquilo, quase que em silêncio, a não ser pelo momento em que contei uma anedota curta para que ele risse. Diante do efeito bom dos ditos, observara depois que umas nuvens se formavam para o Norte, sinal de que mais tarde ia chover e ninguém poderia mudar tal rumo das coisas. Entrei para deixar sobre a mesa as canecas usadas e a voz dele anunciou.

temia errar diante desses fatos que são incontestáveis. O passarinho acompanhou-nos a marcha, voando de ponto em ponto ao longo da cerca de arame. A femeazinha dele era parda, amarelada, sem a desinência sanguínea e grandiosa do macho. Ela ia ao largo da viagem, de pau-terra em pau-terra, a grandeza do retrato que eu sabia de cor e sempre estaria presente em todas as nossas divagações dentro da terra da Mandioca. Minha marcha arriba tinha que ser mais folgada, mais leve. Não podia apertar o passo porque sô Geraldo não conseguia acompanhar a pressa. Faltava-lhe o fôlego. Mesmo de vez em quando, disfarçava o que sentia. Parava um pouco, punha as mãos à cintura e olhava o telhado da casa lá embaixo, o fio de fumaça subindo da chaminé, achava uma frase que devesse fazer efeito enquanto se recuperava.

- Geraldinho, deixa de empatar mais meu tempo! Eu tinha que enfrentar a situação porque entendia que a paciência dele era meio parca em casos assim. Era o mês de outubro e o verde já tomava conta de tudo, apesar de as chuvas ainda estarem minguadas e a seca anterior tivesse sido muito braba. Ali o lugar era chamado de Mandioca, mesmo a nossa gleba, pequena, porém sadia, também era a Mandioca. E o corgo que descia nos fundos era conhecido como corgo da Mandioca. Isso facilitava demais a compreensão das coisas, não era preciso forçar a cabeça para entender que tudo era muito simples e munido de singelezas. Escutei a voz do Geraldo Neto lá no curral, estava a ordenhar uma meia dúzia de vacas para o leite do gasto da casa. Geraldo Neto tinha alguma necessidade de mais trabalho. Tinha dezoito anos de idade e sonhava em montar seu próprio destino. Nada errado. Tudo muito conforme com o progresso honesto que se quer. Deixar de empatar mais o tempo dele, de Sô Geraldo. Por isso, saí ligeiro e ganhamos a estrada arriba, uma vertente que uma vez vencida, deixava para trás as guarirobas e os baguaçus, uma faixa mais além de macaúbas e depois a borda do cerrado. A Mandioca era cerrado quase que só, a não ser pelas vargens de beirada de corgo, ali era potente o capim-meloso e a preservação de todas as lindezas do lugar.

- Geraldinho, o certo mais certo é que hoje vem chuva! Eu percebia o que ele fazia. Sentava-me a um barranco e esperava por ele. Esperava que se restabelecesse. Até vazar no rumo das bordas do cerrado mais grosso, o esperado era que parasse umas três vezes mais. O sangue-de-boi se debandou e uma vaca mugiu conhecido. - O berro da Estrela pode ser separado no meio de centenas de vacas, não é assim, sô Geraldo? - Ora, vaca é que nem mulher. Quando abre a boca para reclamar, a gente já entende o recado do mal-servido! Falou assim e dei uma risada larga por ter apreciado a maneira de ele se conduzir. Enquanto estivesse com essas saídas cheias de anedota, era sinal que a vida lhe assistia de maneira mais completa, sem arestas de sofrimento. Estava outra vez pronto para continuar. Foi naquele momento que escutei o tropel de um animal de sela. E logo depois da primeira curva surgiu a cabeça de uma égua castanha, magra. E montado nela, em pêlo, vinha o Lourival. O Lourival da Luzia. A égua era baixota e ele somente não arrastava os calcanhares no chão porque era também baixote se comparado com a montaria. Saudou-nos da maneira trivial para aquelas horas e lugar. Então, afastou a bunda meio de lado, retirava o rego de sobre a espinha dura da égua. Repousava um pouco e tentava evitar a pisadura sua mesma. A égua deu um bufado de repouso e parada. Lourival falou em assunto direto.

Outubro é danado de fatal para passar susto em quem está sem abrigo, longe de um telhado. Quando menos se espera, vem uma pancada de chuva, a manga desce azulada e tempera a terra sem dó. Tem os dias, mantém-se até por dia inteiro, não dá trégua alguma e o corgo ameaça se encher lá embaixo, carrega gravetos dentro da sua potencialidade de meia-enchente. Todavia, aquele era dia muito espetacular. A luz era soberba, massacrante até. As nuvens acolá, as que ameaçavam e era sabido que depois do meio dia ia chover, não traziam nenhum artefato de medo. Era preciso buscar o carapiá. Era preciso cuidar de sô Geraldo, era preciso olhar para mim mesmo porque, deveras, sô Geraldo era uma jóia preciosa dentro de nosso mundo de compreensão. Cuidando de um dava cuidados aos demais. Hora mais alevantada do chão. Um sangue-de-boi surgiu ali adiante, quando principiamos a subir a vertente em rumo do cerrado. Pousado na cerca de arame farpado. Pode ser que o mundo inteiro desconheça um passarinho mais bonito que aquele. De um rubro quase impossível de ser copiado, coisa mais delicada e que furava as vistas da gente com vontade de dar um beijo numa mulher ilusória. Ora, era assim mesmo e eu não

- Sô Geraldo, estou num defluxo que não acha meio de ter fim. O senhor tem o pó de carapiá para me ceder? Tampado daqui até a nuca. Tudo tampado e agora a cabeça me desanca a doer! - Vamos tirar agora mesmo a matéria-prima para o remédio. Do meio-dia para a tarde tu podes passar lá em casa e pegar a parte que te cabe pra se aliviar da mazela. Vamos antes da chuva! Eram o Lourival e a égua castanha baixota um esmeril que comeria para sempre dentro da minha memória. As coisas

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simples, da forma como elas são, a lividez que o tempo acaba por cortinar, como se esses brilhos não surgissem apenas de um golpe de vida aflorada de outros dias, de outros espíritos muito mais sábios do que simplesmente cabíveis na dimensão das imagens.

cheguei a pensar que por algum motivo da precariedade de nossos fossos e buracos no chão como privadas, sentindo-se desconfortável, poderia ter entrado num cabeço de mato ali por perto para poder desovar o miolo das tripas. Esperei mais um quarto de tempo e a luz do dia explodiu em mil cristais açucarados sobre a terra da Mandioca. E nada de sô Geraldo aparecer. Fui à janela da sala e gritei com Geraldo Neto, se acaso ele vira o seu avô por aí. Não. Não tinha visto. Perguntei.

Depois das primeiras chuvas o tempo se firmou naquele tipo de umidade elevada que se embala sempre do mês de novembro. Na Mandioca tudo ficou verde. Tudo agia de conformidade com fartura. Sô Geraldo dava de piorar um pouco do peito, regrava-se em fôlego mais curto e tinha que sair de madrugada para o terreiro para garimpar mais ares puros; todo ar para ele ficava minguado. Ainda assim, sentava-se à varanda pela manhã, os cabelos espetados a pingar a água do banho recente. Fazia um fogo ao pito de palha e esperava que eu lhe trouxesse uma caneca de café sem doce. Geraldo Neto ordenhava as vacas de sempre, o berro da Estrela chamava pelo bezerro e os passupretos recomeçavam a grande cantiga de alvorecer, a orquestra não mudava a toada do bico, as flautas todas comendo soltas até na hora do almoço. Mais tardar, almoço era às nove da manhã. Mais tardar. Sô Geraldo gostava que fosse assim, não abusar das horas porque meio-dia é hora de merenda e não mais hora de almoço. Essa rotina se estivava a cada dia e nada destoava.

- Nem mais cedo? Não. Nem mais cedo. Então, com tanta luz e tanto estilhaço de sol, comecei a deserdar meus domínios de calma. Sô Geraldo estava desenganado. Sem ter outra coisa que fazer, resolvi bater em busca dele. Subi a mesma estrada que nos levara um dia à busca do carapiá e ao encontro do Lourival montado em sua égua baixota. Subi com fôlego curto porque tinha pressa e temia demais encontrar uma coisa de retrato desagradável. Quando me aproximei das bordas do cerrado mais fechado, os calhaus ditando chiado sob as botinas e tanajuras saindo alto para a última revoada do ano, o dia estava alto e o orvalho dava brilho de tinido às ervas mais baixas. Quando a estrada se amiudou e que se fechou para formar o cerco de árvores, avistei sô Geraldo lá adiante, de pé e a meditar sobre algo que não sabia eu o que fosse. Cheguei a pensar que pela primeira vez na vida eu veria sô Geraldo chorando. Impressão efêmera, todavia. Aproximei-me dele depressa, percebi que seu rosto estava seco, sem lágrimas, os cabelos espetados não estavam molhados e seus modos estavam absorvidos por um mundo branco em torno. Era evidente que tinha percebido meu desespero, meu jeito assustado e a voz que transmutava todo o sentimento que me surgia no peito. Troquei o nome dele. Falei.

Entretanto, numa daquelas matinadas comuns, saí da cama e ainda eram meados de novembro que se aliciava, escutei o berro da Estrela e Geraldo Neto zanzando no curral atrás de vacas e bezerros. Um vazado azulado de luz vinha da outra banda de lá, ao sul de horizontes. Era sinal de que em um quarto de tempo a manhã estaria assuntando a grandeza do dia. Fui à varanda e não encontrei sô Geraldo. Não estava lá, a pingar água da cabeça molhada – nunca se enxugava com toalha depois que se banhava. Pensei que devia estar dormindo até mais tarde naquele dia. Enquanto isso, na rabinha de ferro a água fervia para o café. Eu tinha atiçado a lenha e fagulhas zuniam quando um nó da madeira pegava a estalar. Era barulho só de berro de bezerro. Naquele momento, um passupreto cantou dobrado numa catana de baguaçu. Era o despertar das canções. Por isso, fiquei atento ao estado das coisas. A luz jamais apanhava meu pai na cama, mesmo que fosse eu dias de suas mais perrengues obstinações. Deu-me um senso lamentado de desconfiança. Corri ao quarto dele porque temia pelo mais grave. Estava desenganado pelo doutor. Minha surpresa e susto porque ele não estava lá. As cobertas afastadas da dormida noturna e nem sinal de sô Geraldo. Eu tinha largado o café ao coador e o cheiro já inundava a casa. Seu prazer mais fundo era beber a primeira xícara de café do dia, ali à varanda e a assuntar os motivos do tempo, se ia chover ou não, estas coisas que podem ser deduzidas até mesmo de um vôo de tesourinha, esse passarinho mais delicado que a conformidade de sua forma.

- Pai... O que está havendo? Quer nos matar do coração? Então, ele olhou em torno e respondeu com a intenção mais simples que poderia haver em um homem que está absorvido pelos elementos que lhe são fundamentos de identidade e lembrança. - Estou admirando a floração das gabirobas. Pode ser que no ano que vem eu não possa fazer isso outra vez! Olhei em torno e somente então vi o espetáculo mais bonito que já pude contemplar em toda a minha vida. As gabirobeiras estavam floridas ao grau mais apical do branco, em véu, todas cobertas e rastejadas no meio do grosso do cerrado. O cheiro que vinha delas era de um teor abissal, doce e ao mesmo tempo administrado por uma lavanda que pela primeira vez eu aspirava com a ilusão de um mundo sem fim. Sobre as floradas, enxames de abelhas, todas elas reunidas em conjunto de zumbido e a toada era zunzum de uma dimensão de barítono que me trouxe a divagação da leveza e da mais pura divindade que pode haver sobre essa terra. Meu pai naquele instante tinha um cascalho fino de lágrima no canto do olho.

Apanhei a caneca e enchi de café, levei à varanda. Pensei comigo mesmo. O cheiro há de ter atraído sô Geraldo, vou levar o café e a caneca cheia vai topar com ele na varanda. Ledo engano. Aproveitando que estava quente, eu mesmo bebi e

Como deveras seria o caso, no outro ano ele não veria a

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floração das gabirobeiras. Desenganado, meu pai não foi além das marcas de março do ano seguinte. Quando chegou o mês de novembro, eu subi a estrada muito antes do sol sair. Queria estar lá, no mesmo lugar, quando a infestação do cheiro, do som e das cores estivesse em seu projeto máximo e cavalgada de abelhas. Estava ali, plantado e a estudar a saudade que me vinha dele – a cabeça a pingar água do banho recente e o estudo que fazia em torno do carapiá e da saúde de quem requeria o pó -, quando surgiu Geraldo Neto. Vinha apressado e com jeito de susto. Olhou-me com os olhos meio esgazeados e ainda tinha baba de bezerro nas mãos.

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Murilo Pacheco de Menezes Foi vereador e educador em Uberaba

- Pai, quer me matar do coração? Nem café o senhor fez hoje! Respondi. - Pode ser que no ano que vem eu não possa mais ver esses reflexos do teu avô dentro do imenso fundo da superfície dessa terra!

VIVENDO DE ESPERANÇAS

E tinha um cascalho miúdo de lágrima no canto do meu olho. Eu estava desenganado de tanto louvor, alvura e mel. O cerrado sozinho executava todos os instrumentos de luxúria divina.

A

paz procede da adequação consciente de nossos atos com a lei divina e humana. É a harmonia que resulta da execução fiel dos compromissos para com Deus e para com a sociedade.

O povo brasileiro vive momentos críticos. E os problemas se multiplicam, na medida em que se acentuam as diferenças econômicas e sociais, provocadas pela desproporção abismante do poder aquisitivo e das compensações salariais.

Paz é o estado de espírito que resulta da realização plena dos objetivos, conferidos ao homem pelo Criador. É uma parcela do céu no interior de cada homem, quando sua consciência reflete a harmonia da missão comprida.

Na verdade, há poucos que têm muito. Há muitos que têm pouco, e alguns, quase nada. Há poucos que ganham muito. Há muitos que ganham pouco, quando conseguem ganhar.

A paz interior promove a paz exterior. Quem tem paz, reflete a paz. A paz entre os homens deve nascer de uma conscientização interna, fruto da justiça e do amor, armas poderosas contra o egoísmo, câncer impiedoso que dilacera a harmonia social.

Há poucos bem nutridos, bafejados por regalos, cuja vida agride a dignidade humana de milhares de brasileiros, que não conseguem viver como gente. Grassam, neste país gigante, promissor e belo, o desemprego, a doença, o analfabetismo e a fome, enquanto os marajás da política tripudiam sobre a miséria do povo brasileiro.

Não pode haver paz entre os homens, sem justiça social.

O Brasil vive momentos difíceis. Os valores primordiais da vida estão perdendo sua eficácia no comportamento do homem público.

A existência da paz não pode subordinar-se à criação e incentivo de conflitos sociais, mas deve surgir da busca de solução dos conflitos existentes, implantando-se a justiça social.

Não há mais o vigor de outrora na manifestação do civismo. Já não arde mais, no peito do homem público, a mesma efervescência de amor à Pátria. Está-se esvaindo, a passos largos, o respeito pela coisa pública.

Não se provoca doença para se provar a eficiência da medicina, mas se utilizam os recursos da medicina para saneamento das doenças. Todos devem ser justos. Mas, aos governantes, investidos, por delegação do povo, na gerência da coisa pública, cabe-lhes a responsabilidade política de implantação da justiça social, porque lhes foi confiada a missão administrativa de gerir o s d e st i n o s d o s c i d a d ã o s , p ro p o rc i o n a n d o - l h e s , equitativamente, o bem comum e o bem estar social.

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A política não é mais a ciência de administrar, mas a ciência da esperteza e a arte de ludibriar o povo. As promessas enganadoras substituem a proposta séria de trabalho. A mentira se fantasia de verdade. A corrupção se disfarça em honestidade. E o povo brasileiro continua vivendo de esperanças...

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Terezinha Hueb de Menezes Acadêmica - cadeira número 27

Terezinha Hueb de Menezes Acadêmica - cadeira número 27

ESPANTO

ENGANO

Há momentos Em que a flor submerge E tentáculos Esmagam a esperança

derreteu-se o barro desmanchou-se a imagem: tudo virou pó tudo ao pó retorna. mas o homem continua a profissão de escultor: modela, esculpe, burila o barro cultuando a imagem deusa do engano. não importa que pedestais se rompam e a corrosão mastigue a aparência. de novo o homem estátua sobre duas pernas mira-se no espelho e continua (julgando-se eterno) esculpindo à sua própria imagem e semelhança.

Há momentos Em que a mão é decepada E foices Mutilam a busca Há momentos Em que os olhos se derretem E brasas Diluem A vontade de ver Há momentos Em que a boca se espanta E armadilhas Raptam Palavras precisas

DE SILÊNCIO

CÓDIGO

Engastei rubis em pedestais de samambaias

A semente brotou ideias e ideais Carregando o código de vida em putrefação Para desabrochar o cálice da esperança

O vidro e o pó O hálito e o poente Teceram raízes e tombaram vozes Feitas eco e cansaço e corrida.

De sóis em campânulas (que deverão ser quebradas)

A vida Fez-se minério e respirou lagartos Na gravidez absurda do caos.

De flores em redomas (que deverão ser extintas) De sorrisos programados (que deverão ser libertos)

Aprisionei o espanto No cálice da margarida E despetalei confetes Na cabeça da esfinge Brincando de mal-me-quer.

De gestos medidos (que deverão ser eternos) De passos contados (que deverão ser gigantes)

O horizonte inundou-se de paz: O mistério da vida Bafejou o infinito Em radiações de silêncio.

De falas obtusas (que deverão ser vontade) de lágrimas em vidro (que deverão ser torrente)

Há momentos Em que o momento se castra E o tempo Galga O inexistente

A semente será esmagada E dividida E sangrada E partida Até que os pássaros se soltem E os sonhos tenham forma De asas abertas

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Luiz Cláudio de Pádua Netto Cadeira 17 - Araguari MG

João Gilberto Rodrigues da Cunha Cadeira número 38 - Uberaba MG

O QUADRO DE TARSILA

O

sol agora invade a pequena sala. Por vezes incomoda fazendo os confrades arredarem as cadeiras para um canto sombreado. O badalar dos sinos da igreja ao lado, agora me pareceu mais nítido. No lugar dos velhos livros, agora temos uma vista para um jardim.

de que também tenho um quadro de Tarsila. O quadro foi dado a minha esposa por uma médium que recebe as influências dos grandes mestres. Fiquei pensando: e se o quadro fosse o mesmo que ela ofertou à Dom Benedito?

A nova sede da Academia de Letras do Triangulo Mineiro, pelo que percebi, não agradou a todos, mas a mim sim. Principalmente por que ainda podemos contar com a presença de Dom Benedito, com seus casos e sua voz pausada que transmite paz.

Um paciente meu, que se diz entendido de arte se dispôs a ir à minha casa dar uma olhada no quadro. Olhou o quadro por alguns instantes, conferiu a assinatura na borda inferior direita e deu a sua sentença: é um legitimo quadro de Tarsila do Amaral.

Dom Benedito nos fala sobre o seu convívio com Tarsila do Amaral. Ele a conheceu quando ainda era padre em São Paulo e da pintora ganhou um quadro, que acabou ficando esquecido entre os seus pertences.

Adverti-lo de que o quadro era obra de uma médium e fiquei esperando a sua reação. Tratava-se de um pastor evangélico.

Certo dia foi visitado por um colecionador de quadros que lhe pagou uma boa quantia pelo mesmo. Dinheiro que foi doado ao Clero pobre.

Ele me responde, citando Guimarães Rosa: “Muita religião seu moço. Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas, bebo água de todo rio...”. A oferta foi boa e lhe vendi o quadro.

Voltei da reunião com a estória do Dom Benedito na cabeça e somente quando cheguei em casa, foi que me lembrei

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A DROGA TEM SOLUÇÃO?

P

Talvez o maior problema da humanidade atual esteja relegado às páginas internas e aos noticiários policiais da mídia. Sua presença e seu crescimento avassalador invadiram praticamente todos os países, na mais evidente e perigosa globalização. O Brasil não escapou desta generalização, e a nossa sociedade paga-lhe um tributo enorme, que já não mais consegue ocultar e não sabe como proceder ou combater. Penso que não haverá discordância na afirmação de que as drogas (seus consumidores) e o tráfico (seus fornecedores) representam este problema. Iniciado nas metrópoles, foi em anos passados considerado específico da marginalia segmentar. O descaso institucional falseava sua importância - dizia-se que o Brasil não era toxicômano, apenas intermediava o trânsito das drogas para os países ricos e viciados. Já nesta época muita gente ganhava dinheiro, e naturalmente se descobriu que aqui também poderiam criar fregueses, usuários ou viciados. A moda pegou rápida e definitivamente, qual tsunami extrapolando das praias, metrópoles e grandes cidades para todo o país. Não existe mais cidade ou casta social onde o vicio não tenha assentado raízes e moradia. Pobres podem navegar com maconha ou pedras de crack, ricos se sofisticam com ópio, heroína ou extasy. A droga é servida nos palacetes, em reuniões sofisticadas da sociedade, mas também nos bares, barracos e esquinas da pobreza. Antes ficava em lugares escuros e secretos. Agora se apresenta na claridade solar, nos portões dos jovens colegiais, na universidade onde ministramos aulas vendo os olhos injetados e o rosto afogueado de corpos presentes e mentes ausentes. As conseqüências diárias são conhecidas e noticiadas sem qualquer resultado. O policiamento domiciliar é inútil. O policiamento civil ou militar e importante na prevenção limita-se às ocorrências, às prisões e crimes resultantes. Como em todo negócio de altos resultados financeiros, o tráfico estabelece e ramifica suas redes e tentáculos. Ambições e rivalidades estabelecem os comandos ou quadrilhas. Pontos e territórios são disputados com violência e mortes, por vezes envolvendo público inocente das ameaças e balas perdidas. Finalmente, e talvez mais grave, são os fenômenos sociais criados e sustentados pelas drogas e traficantes. A corrupção ativa ou passiva, as ameaças e freqüentes mortes aos que os combatem vão criando uma intimidação policial, jurídica e até p o l í t i c a e m re l a ç ã o a o s s e u s m é to d o s . P r i s õ e s

comprovadamente não resolvem – a rede corruptora dos intermediários e celulares mantém viva e atuante a liderança momentaneamente afetada, porém plena de privilégios. Depois, os volumes financeiros podem facilitar vidas, poderes ambições pessoais e políticas, valores que muitos prezam mais que a simples e desvalorizada honestidade. Este mapeamento é reconhecido, funesto, porém não se apresentam estudos ou soluções para o que promete ser o mal do milênio. As drogas psicotrópicas desenvolveram-se no tratamento das dores, na anestesia e nas doenças mentais. Certos efeitos tóxicos, excitantes ou alucinatórios criaram viciados em seu uso, e logo a medicina buscou meios de limitar seu uso indesejado ou abusivo. Hoje estas drogas estão classificadas e catalogadas, sujeitas à receita ou prescrição por profissional médico credenciado com conhecimento e identificação do paciente em formulário próprio – as receitas azuis ou carbonadas mais comuns. Acrescente-se de experiência que antes desta regulamentação medicamentos eram subtraídos do centro cirúrgico ou farmácia e vendidos por alto preço aos então psicotoxicômanos. Regulamentada e vigiada esta situação, hoje os psicotrópicos comuns são medicamentos baratos e eliminou-se aquele autentico cambio negro em consegui-los. Aplique-se por similaridade um raciocínio sobre drogas e tráfico nos tempos atuais. Sua ilegalidade, marginalidade e dificuldades relativas na obtenção criaram as malignidades decorrentes e descritas. Ainda não aconteceram sugestão e a coragem cívica capazes de reduzir drogas à situação dos psicotrópicos. É justo e possível pensar que tirá-las da ilegalidade absoluta e tentadora pode mudar completamente a situação vigente. Por exemplo: a maioria das drogas teriam uso livre e regulamentado desde que: - o paciente é declarado usuário junto à medicina de saúde pública. - aceita sua inscrição neste prontuário -somente comprará sua droga por receita de profissional em estrutura habilitada pelo M. Saúde. Ideal: uma farmácia específica do Ministério. - A receita é obrigatoriamente atendida e vendida em farmácias igualmente autorizadas, onde não existe possibilidade de farmácia de Ministério da Saúde.

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- Receitas aviadas e atendidas são imediatamente registradas on-line para evitar duplicatas, as farmácias especializadas estarão interligadas on-line em todo território nacional.

histórico e até hoje permanente. Foi nos Estados Unidos, quando através a Lei Seca proibiu-se a venda das bebidas alcoólicas. Aconteceu-lhes o desastre maior, de certa forma semelhante ao atual panorama das drogas ilegalizadas. Criou-se um submundo de quadrilhas, gangsters, assassinatos e crimes de influência de toda espécie. Quem não se lembra dos filmes de Hollywood, de Al Capone, Dilinger e tantos outros? Das crueldades e vinganças a mais simples era cimentar as pernas do inimigo e depois jogá-lo vertical e definitivamente no rio. Aqui entre nós, de exemplo serve queimar jornalista e incendiar ônibus. Nos USA adotou-se simplesmente a abolição da lei, e acabaram-se os crimes. No caso das drogas atuais, seus pobres dependentes e seus ricos traficantes, a situação é mais delicada. O álcool pode ser combatido pela polícia e bafômetros. A droga não pode ser simplesmente liberada. Seu controle envolve necessariamente a medicina e a sociedade. Liberação simples e total pode resultar em pior fracasso.

S ã o i m a g i n áv e i s c o n s e q ü ê n c i a s i m e d i a ta s . Primeiramente, quebra-se o mistério e o preço das drogas, cujo custo será mínimo em relação ao atual mercado negro. Acabamse os cartéis, as lutas e violências envolvidas. O uso, embora autorizado, é assistido e controlado pelo Estado e profissionais médicos. O prontuário computadorizado informa e coíbe os abusos de receituário e uso. A criminologia aplica-se apenas aos atos ilegais, cujo encanto financeiro deve desaparecer em curto prazo. Também o conhecimento social dos usuários é advertência que pode limitá-los ou desencorajá-los. Naturalmente um estudo mais profundo é necessário à codificação de suas intenções. Não seria fácil admitir que uma programação tão indesejável ou temida para tantos tenha trânsito fácil considerando os interesses contrariados. É até possível que traficantes facilitem vendas e abaixem seus preços pela concorrência estatal. Entretanto, usuários ou traficantes apanhados com estas drogas concorrentes estarão operando ilegalmente e quando descobertos estarão sujeitos às penalidades decorrentes.

É evidente que a formatação definitiva da liberação controlada e legislada vai exigir um estudo e detalhamento por um grupo governo e sociedade. Afinal vai acontecer uma lei anti-lei atual, o que exige todas as justificativas e cuidados pertinentes. Não se pode partir do princípio que é substituir um mal maior por um mal menor. Intolerável e desumano é permitir a vassalagem atual ao vício. Tantos governos alardeiam sua preocupação com o social – o nosso entre – eles. Tem o poder, a estrutura e os meios. Terá a coragem?

Alguém combaterá a eficácia deste projeto e sua aplicabilidade. A primeira liberação de drogas tem exemplo

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Cesar Vanucci Cadeira número 9 - ALTM

SÓ MESMO NONÔ! “Mestra Julia me deu (...) o dom de oferecer sem orgulho e de receber com humildade.” (Juscelino Kubitschek de Oliveira)

formação do povo mineiro, Paulo Pinheiro Chagas lembra que a mineração foi um desdobramento natural das bandeiras. E que a cultura dominante nas zonas mineradoras apontou sempre na direção da democracia e da indústria. O autor comprova o acerto da tese nos exemplos de insubmissão cívica de Felipe dos Santos, Tiradentes e Teófilo Otoni que sonharam com uma política de industrialização para o país. É legítimo extrair-se desse encadeamento de conceitos que Juscelino, “provindo da região das lavras, se formou ao calor dessas tradições. Ouviu, no recolhimento dos serões domésticos, a história dramática do nosso destino. Desse modo, o natal de sua imaginação haveria de impregnar-se de elementos definitivos”, como registra Pinheiro Chagas.

F

ocalizando em comentário a excepcional performance governamental do Presidente Lula, aludimos ao extraordinário trabalho executado, no século passado, por um outro Presidente que deixou marcas indeléveis na crônica política brasileira. Ele mesmo, JK. Fomos interpelados, na sequência, por universitária nascida nos anos 80, admiradora confessa de Lula, que demonstrou interesse em conhecer alguma coisa a mais sobre o construtor de Brasília, nascido em 12 de setembro de 1902 e falecido em circunstâncias trágicas em 22 de agosto de 1976.

Em atmosfera cultural tão propícia, os dons naturais do futuro líder afloraram com impetuosidade. Sua inquietação cívica, sentimento de nacionalidade e visão transcendente da vida ganharam constantes estímulos e força. Assim modelou-se sua personalidade, rica em virtudes humanísticas. O ambiente familiar influiu poderosamente na formação do caráter de JK. Ele mal conheceu o pai, falecido quando não havia ainda chegado aos três anos de idade. Seu tio-avô, João Nepomuceno, atuou na política e se fez também conhecido pelos pendores literários. Dona Júlia, professora, era carinhosamente chamada pelo filho de “anjo protetor”. Seu enorme carinho pela mãe retrata-se nestas palavras: “Mestra Júlia me deu o bem da vida (...) o dom do exemplo, o de madrugar e o de trabalhar; o de persistir no esforço e na dignidade sem esperar compreensão e tolerância; o de oferecer sem orgulho e o de receber com humildade; o de amar a justiça e exaltar a coragem.” Era também afeiçoado à irmã, Maria da Conceição, Naná, figura de exponencial importância em sua preparação para a vida. Na esposa, Sara, companheira dos bons e dos maus momentos, encontrou ajuda inestimável.

Com o propósito de satisfazer a curiosidade da pessoa mencionada, confiados ainda que entre os benevolentes leitores muitos possam também se interessar por informações concernentes a Juscelino, resolvemos contar histórias de Nonô, o mineiro de Diamantina. Um governante que, tal qual Lula, soube entrelaçar o espírito desenvolvimentista, o sentimento de brasilidade e a sensibilidade social nas metas de trabalho. Um cidadão que, por causa disso mesmo, como se repetiria depois com Lula, enfrentou borrascas de incompreensões urdidas por adversários raiventos, inconformados com sua liderança carismática. “Só mesmo Nonô para fazer tudo isso!” A sugestiva frase foi dita por Dona Júlia Kubitschek, mãe de Juscelino, ao contemplar Brasília de uma janela do Alvorada. É citada em “JK, o Artista do Impossível”, livro de Cláudio Bojunga. Um esplêndido documentário da vida e obra do grande estadista, onde colhemos várias informações que permeiam estes comentários. Olhando Brasília, não temos como não reverenciar, em clima de exultação cívica, o personagem mais fascinante da História brasileira do século XX. Natural de Diamantina, JK conquistou lugar de realce entre os estadistas que deixaram impressa sua marca na construção de um mundo melhor.

Juscelino frequentou o Seminário na terra natal. Aprendeu o gosto pela leitura. Experimentou, “por juvenil curiosidade”, como confessou, o alfabeto Morse. Substituía telegrafistas, a cinco tostões por hora, quando estes deixavam a tenda de trabalho para um cafezinho. Fez concurso e passou para telegrafista. Registrou, a propósito: “Batendo o Morse e o Baudot – ligeiro e certo, de meia noite às seis da manhã – ao longo de oito anos, pude oferecer à Mestra Júlia a minha

Diamantina, região mineradora, é um monumento barroco de extraordinária beleza. Um centro de efervescente cultura, genuinamente brasileira. Num ensaio magistral sobre a

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vocação: o médico que decidira ser.”

ser nomeado chefe do Serviço de Urologia da Polícia Militar, recebendo divisas de capitão. Chegaria, mais tarde, ao posto de coronel médico. Benedito Valadares nomeou-o chefe de gabinete, incluindo-o, em 1934, na chapa para deputado federal. Foi o mais votado entre os candidatos mineiros à Câmara dos Deputados. Alguns amigos figuraram também entre os eleitos: José Maria Alkimin, Pedro Aleixo, Negrão de Lima, Gabriel Passos, seu concunhado e, mais tarde, seu oponente ao governo de Minas.

José Maria Alkimin, amigo nas futuras andanças políticas, fazia parte da turma de telegrafistas. Em 1927, tendo como companheiros Odilon Bherens e Pedro Nava, JK colou grau como médico. Tornou-se sócio do cunhado, Júlio Soares, médico conceituado, de influência preponderante nos rumos assumidos em sua trajetória pública. Depois de especialização profissional na Europa, veio a

ESTILO JUSCELINISTA DE ADMINISTRAR Prefeito polarizou no Nonô, de Diamantina, as atenções dos mineiros de outras regiões. Após a queda da ditadura Vargas, candidato a deputado federal, Juscelino obteve a segunda maior votação em Belo Horizonte, superado apenas pelos votos dados a Getúlio, que mesmo afastado do poder conseguiu se eleger, nos termos da legislação eleitoral vigente, senador (por dois Estados) e deputado (por sete).

“JK era alegre como uma janela aberta.” (Paulo Pinheiro Chagas) O golpe dado por Vargas em 10 de novembro abalou os “devaneios democráticos de Juscelino”, segundo o biógrafo Cláudio Bojunga. O Estado Novo era um regime híbrido, sem ideologia, acentuava ele.

Em 1950, pregando democracia e anunciando hidrelétricas, industrialização, escolas, rodovias, incentivos à cultura e artes, ensino técnico, JK chegou ao Palácio da Liberdade. Sua campanha eletrizou o eleitorado. Cruzou os céus, num pequeno avião, descendo em todos os lugares que dispunham de campos de pouso. Houve dias em que participou, com sua palavra empolgante, de dez comícios. O binômio “Energia e Transportes” sacudiu o Estado. Virou marca do governo mais operoso da história. Acabou significando, como testemunha Pinheiro Chagas, “um provérbio das aspirações de Minas”. O mesmo historiador faz do JK governador instigante descrição: “Ele era alegre como uma janela aberta!” Uma historieta lapidar que dá a medida do “estilo juscelinista” de administrar. Tristão da Cunha, Secretário da Agricultura, solicitou autorização para a compra de 40 mil enxadas. Envolvendo-o num abraço, Juscelino pediu-lhe não o levasse a mal, mas do que gostaria mesmo era de poder assinar uma autorização para a compra de 40 mil tratores. Disse isso e explodiu numa ruidosa gargalhada, conta seu biógrafo Cláudio Bojunga.

Por volta de 1940, Valadares convocou Juscelino de volta à política. Convidou-o a ocupar a Prefeitura de BH. O convite foi a princípio recusado. JK escudou-se em sua notória aversão às ditaduras. Consta que Valadares, no afã de quebrar-lhe a resistência, garantiu que a redemocratização estava a caminho. Recebendo acerbas críticas por aceitar o cargo, Juscelino tomou posse. O Brasil começou a conhecer, a partir dali, arrojado empreendedor público, o mais criativo tocador de obras governamentais de sua história. Anunciando que ia administrar na rua, e não fechado no gabinete, ele promoveu, em curtíssimo tempo, verdadeira revolução urbana. Uma antecipação, em dimensões provincianas, do que viria a fazer mais tarde na vastidão territorial do Brasil. A audácia administrativa deixou os belorizontinos boquiabertos. Eles estavam habituados a ritmos menos trepidantes na esfera do serviço público. O primeiro trator empregado em obra urbana levou às ruas milhares de curiosos. Juscelino revolveu a fisionomia arquitetônica de Belô. Num lance administrativo ousado para a época, criou a Pampulha. Introduziu nessa parte da Capital referenciais arquitetônicos de vanguarda, nascidos de suas agudas percepções e de sua vocação conquistadora do futuro. E, também, dos traços geniais, carregados de beleza, de Oscar Niemeyer. O arquiteto, que se tornaria mundialmente famoso, iria acompanhá-lo, anos afora, em outras viagens grandiosas pelos caminhos do desbravamento territorial e da integração cultural. Em um ano, a área pavimentada urbana já equivalia a mais de 1/3 de todo o calçamento feito desde a inauguração da Capital.

A morte trágica de Getúlio, em agosto de 54, no desdobramento de uma crise político-militar de proporções, surpreendeu-o candidato à Presidência. JK contava com a simpatia de Getúlio, que já o havia apoiado na campanha em Minas. O governador mineiro acolheu o então Presidente com todas as honras e envolvente calor humano, na última viagem que fez antes do desfecho fatídico da crise que o retirou de cena. Juscelino foi o único governador presente no velório de Vargas.

A ação indormida, fecunda em frutos, do revolucionário

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brasileira, agigantou-se aos olhos da Nação a figura do líder corajoso, a quem Deus despojara do sentimento do medo, conforme tantas vezes proclamou. As urnas consagraram-lhe o nome.

resistências à sua candidatura. Adversários ardilosos se esmeravam em inçar-lhe de obstáculos difíceis o percurso em direção ao Catete. Lançavam mão de manobras as mais solertes e de casuísmos os mais despudorados. Nessa quadra da vida

50 ANOS EM 5 “Denunciei o FMI como um instrumento de retrocesso.” (Juscelino Kubitschek de Oliveira)

ainda, ao Brasil e ao mundo, outras facetas admiráveis como ser humano vocacionado. Assumiu inconteste liderança continental, ao desenvolver, precursoramente, um esquema de integração regional latino-americana através da Operação Pan-americana. Reagiu, com santa indignação e bravura cívica, às impertinentes exigências do Fundo Monetário Internacional. “Decidi romper as negociações e denunciei o Fundo Monetário Internacional como um instrumento de retrocesso e do atraso internacional”, anotou nas memórias. Com carisma, palavra convincente e irradiante simpatia, conquistou multidões. Era aclamado entre celebridades da cultura, da arte e do esporte, junto às lideranças operárias e empresariais, nas classes mais abastadas, na classe média e junto ao povão, como o governante “bossa nova”. O título carinhoso brotou da gratidão das ruas. O povo não ocultava o orgulho pela oportunidade que JK deu aos compatriotas de poderem exercitar sua cidadania e de exibir ao resto do mundo, em termos pujantes, sua identidade nacional. Brasília, erguida do nada, foi meta-síntese. “Um monumento à vida”, dizia. Jamais o mundo viu coisa igual. Em pouco mais de três anos, o Planalto Central, grande “vazio demográfico” no país-continente, viu irromper das entranhas da terra, por força da obstinação e crenças do grande estadista, a Capital da Esperança. Brasília significou tudo isto: a grande marcha para o oeste. Uma invasão do futuro. Um instante precioso, inigualável, de integração nacional e interiorização do desenvolvimento. Em que pese seu significado para o País, a implantação da Capital, prevista na Constituição e sonhada profeticamente por Dom Bosco, atiçou a ira de empedernidos adversários e provocou inacreditáveis e belicosas manifestações. Nesses núcleos inconformados, dominados por cega e doentia paixão, Brasília era apontada como uma ode ao desperdício, refletindo inconsequência administrativa. De certa feita, em Nova Iorque, com o manifesto intuito de provocação, indagaram de Juscelino quais os motivos que o haviam levado a construir Brasília. Numa resposta estupenda, ele resumiu o sentido de sua missão: “Os mesmos motivos pelos quais vocês, americanos, estão construindo uma estrada para a Lua.”

Com habilidade, desassombro cívico, conduzindo-se exemplarmente dentro dos postulados da democracia, Juscelino superou as resistências e até mesmo complôs militares contra sua posse. Enfrentou de peito aberto os inimigos, venceu-os e perdoou-os, num gesto de magnanimidade que deixou estampada sua autoridade moral e grandeza d'alma. Seu programa de metas, consubstanciado em um novo “provérbio”, entusiasticamente assimilado na consciência das ruas – “50 anos em 5” – conquistou mentes e corações. Aos 54 anos, ele colocava a serviço do Brasil e de sua gente uma imagem de energia, determinação e doação pessoal arrebatadora. Ao assumir o governo, nosso Produto Interno Bruto era de pouca expressão. Nossa renda “per capita” não passava de 230 dólares. Os avanços industriais eram considerados tímidos. Rapidamente, as coisas começaram a mudar. Para melhor. A industrialização ganhou impulso notável. O sistema rodoviário foi consideravelmente ampliado. A capacidade de geração de energia quase duplicou. O asfalto rasgou, em nova versão do bandeirantismo, regiões potencialmente ricas, de rarefeita povoação. Surgiram novas refinarias. A implantação da indústria automobilística espalhou empregos e progresso por todos os lados. A produção de cimento, celulose, alumínio, álcalis, entre outros itens, expandiu. A indústria naval redimensionou a capacidade produtiva. O país ingressou na era da tecnologia de ponta. Conquistou mercados. Implantou indústrias de base. Não houve setor algum da produção nacional que não recebesse os estímulos da “varinha de condão”, propondo crescimento, emprego e progresso, acionada pelo Nonô, de Diamantina. O homem providencial fez o brasileiro acreditar no Brasil e ensinou o estrangeiro a encarar nosso país com admiração. Em meados do século XX, com metas ousadas, Juscelino preparou a entrada do país no futuro. Febricitante conjunto de obras, espalhando progresso e criando riquezas, mostrava uma face entusiasmante da postura governamental. Mas, como se já não lhe bastasse esta condição inigualável de fazedor de obras Juscelino oferecia

Com destemor e altivez, JK venceu as virulentas

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JK, SÍMBOLO DE MUITA COISA de afirmação democrática e de crença nos valores nacionais. Injuriaram-no, impuseram-lhe humilhações. Fizeram de um tudo para calar-lhe a voz, numa tentativa de diminuir a importância de seu incomparável papel no teatro da história. Tudo embalde. “De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos. Juscelino estará na memória das gerações porque sua aventura vital foi extraordinária.” Palavras de um adversário em tempos idos, Afonso Arinos. Sua morte, num acidente automobilístico, que suscitou questionamentos ainda não de todo esclarecidos, enlutou a Nação. O Brasil parou para o adeus ao Nonô de Diamantina, filho de Da. Júlia, político bom de voto e bom de obras. Foi um predestinado. “Deus pegou um século e pôs a maior parte dele no colo do Nonô de Diamantina”, registra, liricamente, o jornalista David Nasser, no artigo em que se despede de Juscelino. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sintetiza, em depoimento, o pensamento da gente brasileira sobre o grande personagem: “Acho que o melhor presidente que o Brasil já teve foi Juscelino. Não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto. Eu acredito em gente como Juscelino.” Lula fala por todos nós. O Presidente do sorriso franco e aberto deixou-nos, como herança, obras definitivas, exemplos vitais, idéias que não morrem, inspirações para as lutas em favor das transformações que a sociedade brasileira ardentemente almeja. JK é, no sentimento das ruas, símbolo de muita coisa. Símbolo de progresso. De desenvolvimento. De empregos, justiça social, diálogo e concórdia. De intransigência na defesa da soberania nacional. De projetos arrojados na construção humana. De democracia interpretada como instrumento insubstituível nas ações econômicas e sociais. De insubmissão cívica e de nacionalismo autêntico. Por isso suas idéias são, ao mesmo tempo, a inspiração e o fanal de um Brasil que não aceita recessão nem desemprego; que repele a intromissão estrangeira em seus negócios internos; que exige fervoroso respeito no trato da coisa pública e que repudia as fórmulas discricionárias no exercício do poder. Em suas memórias, uma cartilha de orientação cívica que deveria ser levada às salas de aula onde são preparadas as gerações futuras, JK deixa-nos lições de brasilidade: “Olhai para o mapa do Brasil. É o mapa de um país jovem, a preparar-se para assumir o papel de grande potência que lhe está reservado no mundo.” Dona Júlia tinha razão ao dizer aquelas palavras: “Só mesmo o Nonô para fazer tudo isso!” (E, por último, aos que se interessem conhecer a fundo a saga de Juscelino, recomendo com ênfase a magnífica obra de Cláudio Bojunga, “JK, o artista do impossível”).

“Sua aventura vital foi extraordinária.” (Afonso Arinos, adversário político, descrevendo JK) Na Presidência e, depois, na extenuante e dolorida jornada do exílio, Nonô estabeleceu ligações de convivência fraternal com personalidades mundiais de todos os continentes. Nas palestras para as quais era frequentemente convidado, em diferentes partes do mundo, reservava sempre uma palavra otimista à sua terra natal. Converteu em amigos rancorosos inimigos. O caso mais famoso é o de Carlos Lacerda, que veio a ser seu companheiro na chamada “Frente Ampla”, uma tentativa das lideranças políticas de expressão, banidas do jogo político pela ditadura de 64, de devolverem o Brasil à democracia. Estas palavras, um retrato perfeito, sem retoque, de JK, pertencem a Lacerda: “Esse homem de paz era um combatente. Porque era um verdadeiro renovador, era também generoso. No horror à vingança, à mesquinharia, à mediocridade, fundou sua atitude diante da vida.” JK recebeu, de certa feita, a visita de John Foster Dulles, Secretário de Estado americano, expoente da assim chamada “linha dura”. Tinha dificuldades para entender os latinos e direcionava obsessivamente suas ações para o combate, conforme fazia questão de sublinhar, ao “comunismo ateu”. Cláudio Bojunga conta como foi o encontro. Depois de bom tempo de conversação, Juscelino revelou a assessores que Dulles já havia proposto nove fórmulas, todas recusadas pelo Presidente brasileiro, para uma declaração conjunta. O norte-americano insistia num documento que utilizasse surrados jargões anticomunistas. Juscelino considerava as ponderações fora de propósito. O documento, insistia, deveria conter, essencialmente, um compromisso com o desenvolvimento e a prosperidade social. A nota final não incluiu as propostas do Secretário. JK reagiu ainda à arrogância de Dulles, que queria porque queria, assinar a declaração, mesmo sendo funcionário de escalão inferior, juntamente com o Presidente do Brasil. Isso não impediu Dulles de registrar, em depoimento público, que “o Presidente do Brasil trata o desenvolvimento com a fé dos místicos.” Desfrutando de enorme simpatia popular, JK foi instado por lideranças influentes a promover uma reforma constitucional que lhe garantisse novo mandato presidencial. Desfez, de forma categórica, essa possibilidade. Deixou o governo aureolado pelo respeito e gratidão da Nação. Sua eleição para futuro mandato era tida como líquida e certa. Os acontecimentos político-militares posteriores, com graves desdobramentos, retiraram o Brasil dos trilhos da democracia, mergulhando-o no regime de exceção. JK foi alvejado impiedosamente. Cassaram-lhe injustamente o mandato quando representava Goiás no Senado. O último discurso que proferiu, como parlamentar, é uma obra prima

Pedro Lima Cadeira número 14 - Uberaba

TSUNAMI

A

té pouco tempo, nós brasileiros vivíamos no paraíso, num belo país onde não tinha vulcão, terremoto, tsunami, palavra conhecida há pouco tempo, e que agora passou a ser incluída no nosso vocabulário. Só o que ninguém percebe é que temos todos estes desastres que no nosso caso não se trata de desastre natural, como em outros países, e sim proposital, educacional e cultural. Por que tudo isso?

autoridades políticas, que fazem e desfazem das leis que elas sejam cumpridas, e não leis de brinquedos, como vemos, ouvimos e assistimos calados, todos os dias nas notícias escritas, faladas e televisionadas, sem nada poder fazer, porque aquele que pode fazer, por uma série de problemas burocráticos, não fazem, e todos os dias assistem a um caso grave e gravíssimo de violência, no nosso belo país. E o tempo vai passando e passando, e o povo vai ficando desacreditado, e até parece que vivemos num mundo de faz de conta como se tudo fosse apenas uma fantasia, numa ala imaginária, num carnaval de sonhos que nunca chega à quarta-feira.

Porque aprendemos a conviver com um vulcão de impunidade, um terremoto de insegurança e um tsunami de violência. A única grande diferença em tudo isso é que estes fenômenos da natureza existem lá fora, não há como combater. Já nos nossos casos pode-se, e é questão de querer das nossas

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br

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D. José Alberto Moura, CSS Arcebispo Metropolitano de Montes Claros Cadeira número 22

D. José Alberto Moura, CSS Arcebispo Metropolitano de Montes Claros Cadeira número 22

SANTUÁRIO

T

emos muitos santuários ou templos para onde vão as pessoas para manifestar sua solidificação da fé, homenageando a Deus por intercessão de Maria ou algum outro santo. Essa devoção tem enfoque no lugar sagrado ou santuário e também no da subjetividade com a conversão pessoal. A devoção leva a pessoa a peregrinar até o local de culto, em geral mais distante de sua moradia ou cidade. Mas isto seria menos proveitoso se ela não se comprometesse a viver melhor no seguimento a Cristo, a exemplo dos santos de sua veneração.

nos satisfaz. Sempre queremos mais. Tal estímulo somente encontra saciedade na fonte de nossa felicidade total em Deus. Isso não se dá de um momento a outro. É conquista progressiva. A vida aqui, cheia de limites e percalços, é transitória, mas de fundamental importância para atingirmos o cume de vitalidade realizadora no eterno de Deus. Essa nossa caminhada existencial na terra marca o ganho de tentos para a felicidade imorredoura. Para caminharmos nessa conquista, a prática do respeito ao santuário humano se faz essencial. Somos templos de Deus. Eles são mais importantes do que todos os templos feitos de alvenaria. Somos imagens e semelhanças do Criador. A consideração dessa realidade nos leva a uma convivência de respeito, entendimento, justiça, perdão e verdadeiro amor. O Filho de Deus veio nos mostrar exemplarmente isso. A pessoa humana deve ser amada, defendida e promovida, a partir da que mais é deixada de lado no convívio social, desde a fecundação até à morte natural. Mesmo os malvados devem ser respeitados em sua dignidade: “Vós ouvistes... 'Olho por olho...'. Eu, porém, vos digo: ... Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!... Amai os vossos inimigos...” (Mateus 5, 38.40.44).

A religiosidade manifestada apenas em atos de culto seria de pouco valor se a pessoa não fosse coerente em viver de acordo com o projeto de Deus. Fé sem colocação em prática do amor a Deus e ao semelhante seria estéril. Já o livro sagrado do Levítico lembra: “Sede santos... Não tenhas no coração ódio contra teu irmão... Não procures vingança nem guardes rancor... Amarás o teu próximo” (19,2.17.18). De fato, a fé em Deus faz a pessoa se relacionar com Ele, mas querendo realizar suas indicativas para o benefício dela mesmo. Deus não precisa de nada do ser humano. Ele só deseja seu bem e indica o caminho de sua felicidade. Fora disso, não conseguimos realização perene, apesar de todo o progresso e conquista materiais. O próprio Jesus lembra que, sem Ele, nada podemos fazer.

Paulo é bem claro na orientação sobre a conduta em relação a toda a pessoa humana: “Irmãos, acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá, pois o santuário de Deus é santo, e vós sois esse santuário” (1 Coríntios 3,16-17).

Todos temos grande desejo de nos encontrarmos com o Criador. Alguns podem pensar em viver sem Ele ou até negar sua existência. Todos têm vontade de se realizar plenamente. Mas só a busca do transitório como absoluto não

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O CUIDADO

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ossa preocupação com a sobrevivência é natural. Às vezes, para alguns, exagerada. Vão acumulando, acumulando. Há exagero, injustiça, falta de solidariedade, verdadeiro egoísmo! Há também grande parcela que passa grandes e permanentes necessidades. Faltam trabalho, moradia e até o mínimo para uma vida digna. A Bíblia nos coloca o desafio da confiança na Providência Divina, querendo nos ensinar, mais do que tudo, o bom uso da inteligência e da solidariedade para provermos o necessário para cada um. O planeta tem recursos, oferecidos pelo Criador. Mas devemos saber usá-los de modo adequado. Poderíamos evitar catástrofes, fome, insalubridade, miséria e muito tipo de enfermidades. Seria possível e deveríamos oferecer oportunidade de educação, saúde e vida realmente humana para todos, mesmo sem limitarmos artificialmente a natalidade. O uso racional da natureza seria fonte e meio de sobrevivência adequada para a humanidade.

solucionarmos os desafios da vida digna para todos. Há quem usa muito do tesouro do cofre público para benesses pessoais, não tendo a altivez moral de usar com justiça o que é bem de todos. Os cargos de serviço ao bem público não podem ser usados para o desenfreio ou a voracidade de se querer tudo para si em detrimento da confiança depositada pelo povo em sua posição de servidor do mesmo! U'a manifestação de cuidado deve haver por parte de todos em se unir para a promoção de políticos e de políticas públicas que realmente sirvam as pessoas, a partir da mais deixadas de lado. A legislação para a causa própria no aumento dos próprios salários é imoralidade pública. Com a busca de valores maiores usufruídos do amor de Deus, todos nos tornamos mais solidários e solucionaremos melhor os problemas com a vida digna para cada um: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mateus 6, 33). De fato, quando a pessoa tem a formação do caráter bem sedimentado com valores éticos e cristãos, ela se torna criatura de formação para a convivência na justiça e solidariedade. Caso contrário, poderemos ter pessoas até de qualificação pós universitária com deformação de caráter, usando seus conhecimentos para só pensar em si e desrespeitar o semelhante e o que lhe pertence. O trabalho pelo comum é realizado por quem tem ideal de vida baseado no autêntico amor fruído de Deus. Ele é feito para ajudar o cuidado com o bem do semelhante.

Deus é cuidadoso para com as obras criadas: “Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta...” (Mateus 6,26). Mas confere a nós humanos, parte do cuidado com nossos pares e a terra. Até hoje não aprendemos a cuidar. Até pensamos: “O Senhor abandonoume... Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno...? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Isaías 49,14.15). À vezes nos esquecemos de fazer nossa parte nesse cuidado. A solidariedade é indispensável para caminharmos e

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Prof. Newton Luís Mamede Colaborador ALTM

ALUNO OU ESTUDANTE?

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Outra pessoa diz: “Eu fui aluno do professor Eduardo”, e não “Eu fui estudante do professor Eduardo”... (Eu, por exemplo, digo que fui, com muita honra, aluno do Monsenhor Juvenal Arduini, e não “estudante” do Monsenhor Juvenal...). Empregar a palavra “estudante” em lugar da palavra “aluno”, sempre, em qualquer contexto, é ignorar os sentidos dessas palavras. É vergonhosa demonstração de ignorância linguística, principalmente da parte de professores de Língua Portuguesa. Isso demonstra falta de estudo, falta de pesquisa, falta de seriedade intelectual e profissional, falta de responsabilidade.

requentemente, a sociedade é “premiada” com algumas “pérolas culturais” (presente de grego!) sem nenhuma sustentação científica, mas que surgem do nada e de repente, e, também de repente, ganham abono e trânsito livre na própria sociedade. Isso constitui um perigo, evidentemente, pois o fato pode transformar um erro, uma mentira, um conceito falso em verdade, e, aí, a heresia pode consagrar-se como “ciência” e convencer os incautos e leigos naquele assunto ou naquele objeto de conhecimento. Quando se trata de um equívoco, de um desvio, de um erro nascido numa universidade e por ela divulgado como certo, a coisa, então, torna-se muito mais grave, praticamente criminosa, pois engana, confunde, ilude os alunos e o público, ou a sociedade. O caso vem à tona devido a um conceito errôneo, falso, que vem sendo divulgado no meio universitário, principalmente entre professores e dirigentes acadêmicos. Divulgado e até pregado por palestrantes e treinadores pedagógicos, nos cursos de graduação e nos de pós-graduação... Trata-se da etimologia da palavra aluno. O absurdo que vem ganhando campo é o “ensinamento” de que tal palavra significa “não luz”, ou “sem luz”, pois é “formada pelo prefixo a-, que significa negação ou privação, e pelo elemento (radical) lun-, adulteração do substantivo lumen, luminis, do latim, que significa luz”... Então, conforme a “invenção” desses “pregadores” da etimologia errada, a palavra “aluno” significa “sem luz”, ou “ausência de luz”... E, por ter esses “significados” (sem luz, ausência de luz...), a palavra “aluno” é “pejorativa, depreciativa, ofensiva, antipedagógica”, e outros “palavrões”, pois “sem luz” é o mesmo que “destituído de inteligência”, ou “sem inteligência”... Por isso, em lugar da palavra “aluno”, esses praticantes do erro mandam empregar a palavra estudante...

Agora vejam quanta falácia e quanta irresponsabilidade! Ou melhor, quanta ignorância! Partindo de um meio culturalmente elevado, como a universidade, a heresia ensinada e divulgada constitui uma contradição da ciência, coisa que a universidade não pode ser, pois ela mesma, a universidade, é sede da ciência, isto é, do conhecimento certo, seguro, fundado na verdade. Para que os leitores tenham ideia do tamanho do absurdo conceptual dessa falsa etimologia, inventada irresponsavelmente, vamos apresentar a etimologia correta e os significados, também corretos, da palavra aluno. Apresentação simples e rápida, já que este escrito não é um tratado de filologia, nem uma aula.

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professores, que ele pode arvorar-se em “autoridade” em etimologia. Infelizmente, no caso da aberração aqui tratada, é o que se vê por aí, até em universidades públicas das capitais de estados brasileiros.

apresentados por outra fonte (HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001). – Transcrição literal: ETIM lat. alumnus, i 'criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo', der. do v. alere 'fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer etc.'

E o argumento de autoridade que esses “entendidos” inspiram é tão forte, que professores e demais profissionais da educação, de todos os níveis, adotam o conceito errado sobre a etimologia e significado da palavra aluno (o sofisma “sem luz”). Aqui em Uberaba, é sabido que alguns diretores de escolas já ordenam, em suas “áreas de mando e de exercício de poder”, que não se empregue a palavra “aluno”. E mais: até professores universitários de Língua Portuguesa (isto mesmo: de Língua Portuguesa!...) adotam e ensinam esse absurdo. Isso, aqui mesmo, em Uberaba, em instituições de ensino superior.

Além dessas duas fontes, outros autores (verdadeiras, legítimas autoridades em filologia, portanto em etimologia) podem ser consultados, em seus respectivos dicionários: AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA (Novo Dicionário da Língua Portuguesa) e F. R. DOS SANTOS SARAIVA (SARAIVA, F. R dos Santos. Novíssimo Dicionário LatinoPortuguês. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2000). E então? Como pode alguém, de instrução universitária, inventar que aluno é uma palavra formada pelo prefixo a- (negação) e pelo elemento lun-, adulteração de lumen, luminis (do latim: luz)? Em que o “inventor” dessa falácia se baseou para proferir esse ensinamento errado e absurdo?

Como, em geral, as pessoas não gostam de pesquisar, elas acreditam, piamente, em tudo o que uma autoridade acadêmica ou intelectual profere. Principalmente se essa autoridade for um autor de livro, ou um detentor de título de pós-graduação, ou um “medalhão” do ensino. E seguem, à risca, o argumento de autoridade: se o doutor Fulano afirma isso, então é verdade!... E, com base na “sabedoria” desse emérito doutor, essas pessoas pregam e divulgam o conceito falso, o erro.

É importante frisar que a idoneidade de informação e ensinamento sobre etimologia é exclusiva das autoridades no assunto, que são os filólogos, linguistas e demais estudiosos congêneres. A verdadeira autoridade para esse fim é dicionário, e não título universitário (de pedagogo, de professor, de bacharel, dentre outros). Não vale, aqui, o “argumento de autoridade” de profissionais, intelectuais ou cientistas de outros campos do saber. Um pedagogo, ou cientista da educação, por exemplo, por mais que seja versado na ciência que ele pratica (a Pedagogia), não é autoridade idônea para “ensinar” etimologia. Muito menos para “ensinar errado”... Não é porque determinado professor é eminente pedagogo, doutor em Pedagogia, autor de livros consagrados no meio universitário, palestrante emérito, treinador de

Lamentavelmente, esse disparate pode provocar os seguintes questionamentos: como confiar na universidade?, como confiar em professores universitários?, como confiar em pedagogos que constroem ensinamentos ou teorias fundados em erros, em conceitos falsos?, como confiar no que ouvimos e “aprendemos” de professores de elevado conceito na sociedade?, em quem devemos confiar?, qual a segurança que a universidade inspira?

A palavra já existe em latim (muito antes de Cristo...): alumnus, alumni, substantivo masculino da segunda declinação. 1. Sentido próprio: criança de peito [isto é, o bebezinho que mama na mãe – explicação nossa]. Sentido empregado por Cícero, na obra Verrinas. 2. Daí, sentido figurado: discípulo. Sentido empregado também por Cícero, na obra De finibus. – Fonte destas informações: Dicionário Escolar Latino-Português. MEC, 1962. Prosseguindo. O substantivo alumnus, alumni, por sua vez, deriava do verbo alere (alo, -is, alui, altum ou alitum, alere. – Informações citadas para quem sabe consultar verbo em dicionário latino). Significados do verbo alere: 1. Alimentar, nutrir (sentido próprio e figurado). (Cícero: obra De Natura Deorum). 2. Daí: fazer crescer, desenvolver, animar, fomentar (sentido próprio e figurado). (Cícero: obra Catilinárias). – Fonte: a mesma acima citada.

Aí, a ignorância é pior! Na própria língua portuguesa, a palavra estudante não é sinônima perfeita da palavra aluno. Tampouco elas possuem equivalência exata. Elas não possuem o mesmo emprego, isto é, não são usadas nas mesmas acepções, nas mesmas situações ou estruturas de frase. Um professor diz, por exemplo: “Antônio é meu aluno”, e não “Antônio é meu estudante”. (Esta última frase pode significar que Antônio “me” estuda, isto é, que Antônio estuda o meu corpo, ou o meu comportamento, ou as minhas atitudes...).

Passemos, agora, à etimologia e aos significados

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Gessy Carísio de Paula* Cadeira 28 – ALTM - Araguari MG

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HONRADA com tamanha confiança daquele sacerdote para com ela, um Mestre que naturalmente era portador das Virtudes Eternas que lhe ornavam o olhar e a alma, ela ainda pôde indagar:

ambiente: as árvores, os pequenos animais, os ninhos de passarinhos com os filhotes, as flores tão coloridas brotando no campo, o marulhar das águas pelo riacho, o cantar dos pássaros, enfim essa natureza maravilhosa que passa despercebida para grande número de pessoas, preocupadas com a própria sobrevivência; a professora ensinava-lhes pequenos poemas, falando da beleza da criação de Deus, começando por nós mesmos, humanas criaturas dotadas de dons maravilhosos que precisam ser cultivados, não só pela capacidade de sermos “artistas” da música ou da pintura, mas cultivar as virtudes eternas e a alegria de sermos úteis aos semelhantes, atitudes que nos levam à harmonia íntima, como o exemplo do monge, no começo dessa história.

- Quem me fala desta maneira e me dá semelhante tarefa?

NA TRANSCENDÊNCIA DO CONTO Conta-se que, em recuada época da humanidade, um determinado homem, preocupado com a finalidade de sua existência na face do planeta Terra, indagava-se sobre a origem, as diferenças e as múltiplas situações em que se debatia e debate a humanidade. Era uma busca constante e sempre mais inquiridora. De índole naturalmente pacífica, esse homem resolveu se instruir. Em sua concepção, imaginava que através do conhecimento das coisas, chegaria às respostas tão desejadas. Dada à recuada época em que vivia, somente tinha acesso a alguns pergaminhos e alfarrábios; no mais, buscava a companhia de velhos sacerdotes e monges que o pudessem instruir.

pensamentos de grande elevação, num fenômeno singular e inexplicável, viu-se atraída pelo marulhar de águas e qual não foi a sua surpresa, quanto notou o mar aproximandose, em leves vagas, trazendo em sua superfície vários objetos caseiros, escrivaninha, cadeiras e outros móveis em estilo antigo. Como tocado por suave música, vinha bailando sobre as ondas do mar, um livro ricamente encadernado em azul com bordas e letras douradas, cujo título ressaltava a seus olhos: O LIVRO DA SABEDORIA E DO AMOR. Estupefata, ela percebeu que estava submersa até a cintura, flutuando tranqüilamente em meio aos objetos, quando mãos invisíveis abriram o livro folheando-o delicadamente. Deparou-se com a figura veneranda e serena de um sacerdote que parecia olhá-la fixamente. Emocionou-se.

Aprendia um pouco de todas as ciências, física, química, astronomia, matemática, astrologia e tanto se elevou nos conhecimentos gerais que conseguia manipular com perfeição, dentro da alquimia, os diversos elementos que compõem a natureza, transformando-os em objetos e coisas de acordo com as necessidades ou circunstâncias. Tornou-se um sábio sacerdote, mas não um homem completamente feliz.

Abalada em seu íntimo, aconchegou ao coração aquele livro que misteriosamente lhe infundia tanto respeito, carinho e admiração, na figura austera daquele sacerdote. Fechou os olhos e viajou no tempo-espaço por regiões longínquas. Não pôde precisar quanto tempo durou aquele enlevo. Percebeu que havia chegado a um palácio; pelas linhas arquitetônicas, evidenciava ser o Oriente. Num amplo salão, foi recebida por um jovem serviçal que avisou ao senhor que “ela” havia chegado.

O que lhe faltava? As indagações continuavam, agora sob um aspecto diferente. A sabedoria de todas as coisas não lhe bastava à alma sensível e delicada. Tornou-se professor no intuito de auxiliar jovens com as mesmas ânsias; de uma forma ou outra ajudava a todos quantos lhe buscavam a companhia e isto preencheu-lhe o vazio íntimo. Os anos se passaram, os séculos se desdobraram e o nosso bom homem se elevava mais e mais em Sabedoria e Amor, as duas asas que nos conduzem à Deus.

- Sou o sacerdote que hoje completa os seus 4800 anos como livro. Sigo para regiões mais altas, na continuidade da evolução; você permanece em meu lugar, ensinando, exemplificando, instruindo... ETERNAMENTE!! E a sacerdotisa retornou à sua consciência, ao seu lugar de origem, do outro lado do mundo, sabedora da responsabilidade de que estava revestida: a de se instruir sempre e de exemplificar somente o Bem e o Amor, já que sua missão era alfabetizar e conscientizar crianças para um futuro feliz e radioso entre todos.

Ensinava-lhes que, a partir de nós mesmos, somos autores da nossa alegria e felicidade, como também de nossa angústia e sofrimento, obedecendo a uma lei superior e divina, de ação e reação.

Daquele dia em diante, a mestra passou a manusear os livros com esmerado carinho, maior ainda do que até então possuía. Olhava-os com tanta ternura, como se vida tivessem. Quando seus alunos chegavam, ela estava sempre a esperá-los com uma nova história para lhes contar, despertando neles a ansiedade da busca e do aprendizado cada vez maior. Era uma integração perfeita entre a mestra e os alunos que as horas que compunham a jornada escolar escoavam-se tão rapidamente que causava constrangimento as despedidas diárias. O envolvimento estudantil tornou-se tão agradável e atraente que as crianças, antes tão barulhentas e até, por assim dizer, indisciplinadas, a ponto de jogar todo o lixo no chão, tornaramse silenciosas e interessadas em obedecer às mínimas informações de comportamento que a professora lhes passava.

Enfim, em todos os acontecimentos diários, a mestra recolhia lições a serem ministradas aos alunos cada vez mais interessados em aprender, e ela sentiu-se tão plenamente realizada que compreendeu a alegoria de seu mestre, convidando-a para ser um LIVRO, por 4.800 anos... *** Na transcendência do conto, a mística certeza de que podemos ser, realmente, LIVROS, escrevendo, no dia-a-dia das nossas existências, as páginas da nossa vida, firmando em cada uma delas verdadeiras estórias de Amor, renúncia e dedicação, ou trágicas situações de sofrimento, desespero e Dor. P.S. Por acreditar na força do livro, no encantamento da leitura e de toda a maravilhosa onda de ternura contida nas histórias dos “bons” livros, é que escrevi este conto, mística e sonhadoramente.

A sala de aulas agora era um reduto do mais harmonioso ambiente de trabalho e aprendizado para a vida. Saíam para o pátio a observar, nas aulas de ciências, o meio-

Adentrando-o, percebeu tratar-se do ancião que figurava no livro e que ela ainda conservava de encontro ao peito. A emoção lhe invadiu a alma e não pode dizer nenhuma palavra, mesmo porque não havia necessidade, as grandes almas se comunicam pelo pensamento.

***

- Parabéns, disse-lhe ele...

Do outro lado do mundo, muitos séculos depois, vivia uma sacerdotisa que tinha por única e exclusiva ocupação, alfabetizar crianças. Fazia-o com o mais puro amor e dedicação, pois almejava vê-las todas, cultas e sabedoras das grandes verdades universais. Esmerava-se a tal ponto que nem as suas maiores peraltices faziam-na alterar a doçura e a paciência de que se revestia.

Ela agradeceu com o olhar e ele continuou: - Você está disposta a me dar 4800? Assustada, não respondeu. O momento era sublime demais para se falar em cifras... O jovem serviçal veio em auxílio e lhe explicou: - O Mestre lhe pergunta se está disposta a permanecer como livro por 4800 anos...

Certo dia, após o término da aula, começou a fazer limpeza na sala antes ocupada pelas crianças, que a deixavam, costumeiramente, em completa desordem. Envolta em

- Sim, foi a resposta firme, decidida e feliz!

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Jorge Alberto Nabut Vice-Presidente ALTM - Cadeira número 6

A COZINHA BRASILEIRA

E

A tradição da casa brasileira remete ao quintal, nem sempre largo, mas fundo, misto de jardim e chácara, onde mangueiras e abacateiros manchavam o chão de sombra e umidade.

mesa, brasa que nunca se apagava, mesmo adormecida sob a camada de cinza, deixando quentinho o forno, onde se assavam as quitandas, e no qual os gatos buscavam calor em noites de frio...

Virada para o quintal – fazenda hipotética – a cozinha enfumaçada, impregnada de fuligem e picumãs pendurados no forro de ripas trançadas em losangos.

A evocação dessas imagens nos devolve à cozinha brasileira, anterior à vinda do fogão a gás, do liquidificador e da geladeira. Cozinha que tinha então 450 anos de fogo alto, brando ou baixo, graças aos braços e fôlego forte das cozinheiras que transformavam lenha, água, fogo, carne e grãos em alimento da vida. Tempo em que elas mesmas tinham de matar, sapecar e limpar capados, fazer lingüiça, pegar e depenar ariscas galinhas, colher ovos nos ninhos perdidos em moitas no quintal...

Pegado a ela, o banheiro, cimentado, com bacia encostada à parede à qual se juntavam balde d'água e caneca pro banho que podia ser quente quando havia serpentina que passando pela boca do fogão, conduzia água pelando ao chuveiro, se era hora do almoço. Um vitrô, pequeno, economizava a luz natural.

Naquele tempo pouca coisa vinha pronta da venda. Quase tudo tinha de ser feito em casa, pela criadagem, sob olhar severo das patroas.

O fogão à lenha, rodeado de negras à volta com panelas de ferro, achas de lenha molhada na chuva, os gravetos estalando no fogo intenso, a fumaça a anunciar a atividade gastronômica, o pesado caldeirão com água fervendo, calor abafado a defumar as carnes dependuradas, conversa afiada da criadagem, robustos tachos de cobre areados para se fazer o doce de goiaba, de manga, de leite, falas alegres dos filhos à

E a cozinha foi, por séculos, o registro de um Brasil imutável e sofrido, embora saboroso. Setembro 2007

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Aurélio Wander Bastos Professor Titular da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

PALAVRAS GRAFADAS NA TERRA O livro Geografia da Palavra, de Jorge Alberto Nabut é um trabalho providencial que une e permeia as gerações que fizeram de Uberaba a referência de sua própria vida. É um reencontro daqueles que ficaram com aqueles que se foram, mas deixaram o seu coração plantado nas tantas ruas e caminhos que pré-definiram os nossos destinos. Lendo o livro encontrei-me no conteúdo das suas tantas páginas que nos aproximam da manga na beira da árvore, e do sabor juvenil do seu gosto de pecado. Laranja Partida Em Quatro é da mesma forma a sensação de retirar os gomos dos nossos pecadilhos da vida adolescente, e quando fala das Sabinas, o que me vem à lembrança, eu não sei exatamente porque, com certeza não é por causa do conde D'Eu, mas a percepção gloriosa das tantas mangas que buscava-nos tantos quintais dos caminhos do São Benedito ou da Abadia. Eu tive a oportunidade, lendo este documento de força recorrente, de ver-me a partir da sua própria narrativa, de encontrar-me no internato em Araxá, no colégio Dom Bosco, onde terminei meu ginásio e publiquei, em 2008, no Jornal de Araxá uma grande crônica sobre ele e o Ateneu, mundos que não saíram de mim e que, com certeza, está todo ele dentro da Geografia da Palavra. É uma beleza quando o livro vai de Avana Vela, De Rapina, para os trágicos urubus negros "de andar arqueado sobre a terra”, abutres que nos espiam como alimentos que podem sobrar dessa grande aventura humana, em que o autor é protagonista. Seu livro trouxe-me lembranças profundas do meu professor Pepão, levando-me a Peirópolis de trem de ferro (Maria Fumaça) para, na minha primeira pesquisa de campo, encontrar pedaços de dinossauro, os mesmo que eu via em frente ao grande hotel do Araxá, e me assombravam como se fossem deles a fonte da água sulfurosa. Ah!, que pânico tomar o dinossauro feito em água. Seu livro quebra o português tradicional com uma linguagem

que vai mostrando um outro mundo, de outros objetivos e outras falas, como aquelas de O Circo, do palhaço ou do equilibrista, do domador ou do malabarista, ou do engolidor de espadas; mundos que sumiram, alegrias que se perderam, mas que o livro recupera em o Globo da Morte, que agora há pouco tempo voltei a ver com meu pequeno filho David. Não sei se faço um comentário enorme sobre este belo livro, mas eu não posso deixar de ver o Sertão Da Farinha Podre e Dona Bêja, representada pela Maitê Proença, disparada nua sobre um cavalo alado na beleza das terras do Barreiro. Sempreviva as flores, mas não vou de mortas esperanças, exatamente por causa dos amigos, que pela manhã têm água, sal e cal, tempero que se não é vinho, é o sândalo, como dizia minha mãe, Stella Chaves; seja como o sândalo que perfuma ou o machado que fere - não se esqueça que o meu pai era Machado. Que Uberaba leve ??? este livro restaurador, porque reencontrá-lo nessa Via Láctea da sua estrada, tão bem traduzida no seu poema, "que fecunda os corpos" senão siderais, jogando em nossas cabeças o sêmen da ilusão que não queremos que morra. Kronos, que beleza!. Você não foi pela mitologia, mas pela soca dos nossos sertões, pelo pilão dos nossos sofrimentos. Contemse os nossos anos pelas crônicas do livro. Lá se vão os anos, mas eu estou aqui escrevendo como Saramago, apenas ansioso de que a vida não tenha vírgulas nem parágrafos, mas que ela seja um longo texto sem fim. Geografia da Palavra, na verdade, é o nome do mundo que está dentro de nós, o mundo de Uberaba, universal nas nossas lembranças e definitivo em nossas ilusões.

Um grande abraço, mas antes que o desespero atole sobre nós, esqueço a lama, Senhora do Desterro ora pro nobis. Rio de Janeiro, 7 de maio de 2011

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Vilma Terezinha Cunha Duarte Cadeira 13 – Araxá MG

Jvilma Terezinha Cunha Duarte Cadeira 13 – Araxá MG

A MÃE... É SER

Q

ueria falar de mãe de um jeito diferente. Sobrou pouco para os enfeites do seu dia oficial. Quem sabe, enveredo-me pelo caminho do sentir.

Mãe é o tempo, que o relógio não sabe marcar. Cheirando leite, talco, cebola, amor, amontoa os dias no seu calendário especial. Mãe é auto-suficiência na cabeça de quem vive ao seu redor. Onde já se viu mãe não ter saída ou solução para qualquer problema.

Mãe é caso sério e extraordinário! Mulher fazendo amor em estado de poesia e parindo gente em versos de compor o poema de existir.

MÃE MERECE VERSOS Coroo-te com linda tiara de estrelas “Mulher-Mãe” que cintilas nos olhos A Poesia do Maior Amor do Mundo. Afago-te carinhosa o teu colo prenhe Que multiplica amor milagrosamente

Posso sentir tal milagre à flor da pele, mesmo sem ter tido colo e filhos. A minha encantou-se, deixando-me nenenzinha. Todo dia, rezo agradecendo-lhe o capricho que me deu no coração. Tanto e tão bonito que posso gerar nele as minhas crias literárias, amar sem medição e ser mãezona de tanta gente, quantas vezes precisar.

Mãe é o trabalho que ninguém pode. De sol a sol com extras em casa e na rua.

Em vida para seres escolhidos da luz.

Mãe é o melhor do saudosismo que filho tem pra contar. “Minha mãe fazia assim, ensinou-me assim, me deu isso assim-assim, amou-me assim”.

Benzo a tua boca de palavras santas

Mãe é colo de rio manso que leva a gente nos braços, até a margem segura.

Mãe é um coração com útero... braços... mãos... seios...farol...

Que nascem no teu coração amoroso Jorrando mananciais de exemplo e fé. Aperto-te forte as mãos trabalhadeiras Que fazem e ensinam o ofício de viver

Mãe é o puro e imenso amor. E como eu entendo de amor! Maravilha-me o fruir constante que impulsiona a geratriz defender os filhotes como uma leoa, engolir as frustrações da vanglória do filho perfeito com um sorriso de mãe na boca de palavras escolhidas, perdoar setenta vezes sete, e corujar o rebento que trouxe à luz.

Mãe é primavera de colorir jardins secos das sementes mal plantadas.

Embalando nos braços a bravura tanta.

Mãe é luar nas noites escuras de iluminar aonde ir.

Reconheço-te mulher nas lutadas lutas De cama, mesa, berço e as além-lares

Mãe é chuva que lava a alma suja de mundo, e arco-íris a pintar amanhãs com poesia.

Com a tal força imensa de seres assim.

Mãe é abraço apertado na generosidade. Aconchega suave, cúmplice, protetora e fiel.

Mãe é cerzideira da noite, emendando estrelas no cortinado de proteger o mundo.

Escrevo-te aqui, suave e doce honraria

Mãe é escola de formar pessoas. Mestra, por intuição, ensina paciente os caminhos de chegar e ficar no caminho certo.

Mãe é alvorada de novas esperanças e promessa de outro dia mais bonito.

Mãe é muito da felicidade procurada. Põe a mesa, lava, passa, a as cobertas e ainda canta.

A Mãe... é ser.

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Que meu coração parceiro bateu de cor Em ritmados compassos de amor irmão!

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Vicente Humberto Lobo Uberaba MG

Vicente Humberto Lobo Uberaba MG

ABACATES NO CAIXOTE Abacatem-se abacates no quintal ao lado. Furto com os olhos os frutos no chão. Cabeças na inquisição. Cabe Sade no verso, Boto Baco no verso Até que não caibam. Até que não brotem Abacates no caixote. Tudo depois é depois. E, depois, quem depôs a favor dispõe de abacates, caixotes e provas. Do fruto do furto, Frui o lucro No lusco-fusco: Frufru manera. Monera. Cadê Sade no verso. Bah! Baco no fogo Até que não caibam, Até que não brotem De novo Abacates no caixote.

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AUTÓPSIA

U

ma dose de cianureto com cinzano: - Ei, você! onde mora o silêncio que os homens dizem poesia? Engano a rima inspirada Entre o Q e o telhado cusbista.

Sair de guarda-chuva? Vã esperança! Só dá óculos ray-ban. Ah! se tudo fosse tão belo, Se tudo fosse tão belo feito o castelo de Greyskull, A equação de La Place, A leminiscata de Bernolli, O caracol de Pascal!

Passistas saltitando como bolhas No over-flow da apatia, Essa doce obsessão. O esqueleto de Losca na sala de anatomia Ezra Pound recolhido na "Garilla Cage", Blasfêmias escandalosas de Baudelaire Nos corredores religiosos do Institute Saint-Jean et Saint Elizabeth.

Acima do bom e do mal, O juiz homologa a sentença, O legista assina a autópsia:

Brecht exilado na floresta escura da mãe pálida Alemanha, O corvo de Allan Poe, atração indizível do zoo, Whitman flertando com rapazolas no bosque, Maiakóvski acaricia o revólver enquanto pensa em Kant.

Todos os poetas têm seu anjo, Todos os poetas têm seu anjo. Uns Honathan, Outros Lúcifer. Todos os poetas têm seu anjo, E esse nó na garganta é fatal.

A cabeça de João Batista, da bandeja escuta. Guarde a vanguarda pra depois de amanhã: Tempo nublado sujeito a chuvas e trovoadas.

Guarde a vanguarda pra depois de amanhã. Guarde a vanguarda pra depois de amanhã.

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

João Eurípedes Sabino(*) Cadeira número 32 – Uberaba MG

João Eurípedes Sabino(*) Cadeira número 32 – Uberaba

ACONTECEU COMIGO

A

Terra já possuía cerca de 4 bilhões de seres humanos e o Brasil 80 milhões, quando me dei conta que de certo modo, eu estava perdido naquela multidão.

compaixão, etc. O nascer, dormir, sonhar, morrer e renascer hoje compreendo melhor. Um processo lógico de vida passei a experimentar. Por que os bilhões de semelhantes de hoje não vislumbram o mesmo horizonte? É que cada um tem o seu livre arbítrio. Uns preferem orientar-se pelos claros dos relâmpagos, enquanto que outros optam pela lanterna de luz contínua. Eis aí o diferencial entre a ignorância e o conhecimento.

Era a década de setenta. À maneira do que ocorre com muitos, eu também me indagava: Quem sou? Onde estou? Para onde deverei seguir? Por que me sentia feliz ou infeliz? Eram perguntas que ficavam sem respostas. No auge da juventude tudo parece passar mais depressa, já que as energias se renovam rapidamente e o jovem segue, batendo aqui e apanhando ali...

Uns conseguem tudo o que quer e outros (às vezes irmãos consanguíneos) quase nada. Por quê? Sorte? Azar? Perseguição do Criador? É muito pouco pensar que nesse inexorável processo universal com dimensões inabarcáveis, a sorte, o azar ou a perseguição seriam caprichos de Deus. Felizmente superei a fase em que pensava assim.

Com pouco mais de 20 anos me adverti um dia: Deve existir uma forma diferente de sentir e conceber a vida. A repetição do que sempre via não me levava a nada e pelo visto, ao chegar no fim da vida teria a sensação de nada ter feito. Isso me provocava um vazio sem limites.

As verdades transcendentes para ser conhecidas carecem de: humildade, empenho e tato; e as próprias, não fugiriam à regra. Saber as razões de merecer um destino melhor ou pior não é para qualquer um. Nem para o próprio “sortudo” ou o desgraçado.

Nada tirava-me a determinação de que aproveitar a vida é uma lei e desperdiçá-la, o maior dos contra-sensos. Conheci então a Logosofia. Entendi que o querer

Tudo decorre do merecimento e o mal é acharmos que alguns dias ou anos fazendo o papel de bonzinhos já nos faz merecedores de privilégios diferenciados. Séculos ou milênios podem não ser suficientes.

é um poder quando esse querer vem das nossas profundezas. Aliando-o ao gosto pelo que se faz, não há outro desfecho: Um ser melhor vai se apresentando a si mesmo. Sensação agradabilíssima!

Para pessoas diferentes; espíritos diferentes e heranças idem. Daí, vidas diferenciadas até para gêmeos univitelinos. Uma mesma cor, nunca é vista por duas pessoas com a mesma intensidade. Assim são as oportunidades. Um pode aproveitálas e o outro perdê-las.

Aconteceu comigo. Todos os campos de minha vida, então estagnados, foram se perfilando para dar-me outra configuração. O temor (mais avantajado deles) foi-se, e veio o valor. Nessa terraplenagem, lembro-me; nasceu o saber substituindo ao crer, o conceito ao preconceito, o pensar ao imaginar, o sentimento ao sentimentalismo, a compreensão à

NUVEM DE MOSQUITOS

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uma roda de uberabenses no calçadão da rua Artur Machado, na última semana, o assunto que rolava não era nada agradável. Falavam sobre alguns crimes (famosos) aqui ocorridos e que os culpados jamais foram descobertos.

beijos nos pés do matador sem a mínima chance, afloraram daquela alma pura estas palavras: Você fazendo isso comigo, quando descobrirem, não terá mais sossego e pagará na prisão. Deixa disso... Ora, disse o assassino, quem irá descobrir se por aqui não há ninguém? O pistoleiro estava aflito para terminar o serviço e acrescentou: Vou lhe enterrar aqui mesmo junto ao tronco dessa árvore tamboril.

Comparando-os a um grupo de mestres, pareciam filósofos a expressar suas teses, que na frente desaguavam na famosa frase: O que é malfeito sobre a Terra um dia será descoberto.

Olhando para o firmamento, com lágrimas por toda a face, Clemente pediu um minuto apenas para mostrar algo ao seu assassino: Esta nuvem de mosquitos pólvora que está sobre nossas cabeças será a testemunha. Abriu a camisa e ordenou: Atire! Trinta e oito descarregado, enterro feito ali mesmo e começa correr o tempo. Ninguém jamais teve a menor pista sobre o sumiço de Clemente.

Lembrei-me em seguida de um homicídio ocorrido aqui nessas bandas quando o carro de boi dava as cartas. Fazendeiro “forte”, mantendo um romance oculto com a mulher do empregado, cismou de dar um fim ao inocente para poder “navegar” tranquilo na cozinha alheia. A coisa havia sido descoberta e, sabendo que dor de marido traído dói a vida inteira mais seis meses, o mais fácil era matar quem nada devia.

Trinta anos depois num domingo de calor, Tavares (o jagunço) deitado sobre o colo da mulher na varanda de sua casa, eis que de repente uma nuvem quase imperceptível de mosquitos pólvora começa a sobrevoar os dois. Mal estar, prurido, inquietação tudo enfim atacou o então homem do gatilho.

Jagunço contratado, preço e local da morte combinados, o patrão arrumou um roçado numa vargem distante para ser feito e mandou para lá o empregado. Ia cedo e voltava com o sol descendo no poente.

Levantou-se, andou, bebeu água, assentou e causou espanto na mulher. A uma pergunta dela ele respondeu: - Por toda a vida ocultei um segredo de você. Eu matei Clemente. Esses mosquitos parecem até que estavam no dia em que lhe tirei a vida. A esposa nada sabia, mas dali pra frente o mundo inteiro ficou sabendo, inclusive o nome do mandante.

No terceiro dia de trabalho chega por lá o algoz que, para surpresa da vítima, era seu amigo. Depois de hora conversando, beberam água na mesma vasilha, baforaram juntos uma palheta e aí vem a surpresa: - Clemente, estou aqui para lhe matar. Fulano de tal empreitou-me para isso e sua hora chegou. - O que é isso Tavares! Eu tenho filhos pra criar..., esposa pra cuidar... Não faça isso! Disse o indefeso homem.

Deus coloca ou não uma testemunha na hora do crime? (*) − PRESIDENTE DO FÓRUM PERMANENTE DOS ARTICULISTAS DE UBERABA E REGIÃO.

Depois de súplicas e mais súplicas em nome de Deus,

De todo esse contexto, asseguro: Consegui mudar o curso de minha própria vida e todos podem fazer o mesmo.

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Antônio Pereira da Silva Cadeira número 8 - Uberlândia MG

João Eurípedes Sabino(*) Cadeira número 32 – Uberaba MG

ESCALA CURTA

VOCÊ ME EXPLICA?

U

m menino com idade próxima aos oito anos no colo do avô, após afagar aqueles cabelos prateados pelo tempo, indaga ao seu segundo

herói:

É isso aí meu neto. - Vovô, e por que você agradece e fala tanto sobre aqueles que o ajudaram lá ... atrás? - É um sinal de gratidão e aí aprendi que quanto mais gratos somos, mais merecedores nos tornamos. Ainda faço isso todos os dias. Veja numa casa, dois irmãos; um grato e o outro ingrato. Compare a vida de ambos e verá que o segundo só reclama e fica à espera de bons resultados. O primeiro trabalha e vai somando conquistas e mais conquistas. Depois dizem que ele (o grato) é de sorte.

- Vovô sempre ouvi de você que a vida nunca foi fácil, seus dias foram de luta. Você veio do nada? Como é que é isso? Você me explica? - Meu querido neto; explicar-lhe oitenta anos em alguns minutos é difícil, mas o vovô vai tentar. Esse “nada”, era a falta de oportunidades em todos os sentidos naqueles tempos.

- E o destino querido velho?

Reinava por toda parte a escassez de trabalho a não ser para usar a força e o vovô sempre achou que tinha algum talento. Algo me palpitava dentro: o dia que eu tiver a oportunidade para mudar os rumos de onde eu venho, certamente mudarei o meu destino. E mudei. Ser seu avô é uma amostra disso.

Beijando aquela face rosada o “vozão” com voz arranhada emendou algo muito seu: Antes eu achava que o destino era escrito na pedra, entalhado como escultura. Com o tempo fui vendo-o como se fosse escrito a tinta numa folha de papel. Depois clareou-me a vista e enxerguei que a escrita era a lápis. Usando uma borracha apaguei uns trechos e escrevi outros.

- Vovô, interpela o neto. Conte-me alguma coisa sobre o que você fez para chegar até aqui. - Meu neto; sem eu mesmo saber, parece que havia uma imantação natural e apesar das dificuldades, duas coisas sempre fiz: 1ª) – Desde menino procurei pessoas boas para ser meus amigos. 2ª) – Na maioria dos casos essas pessoas tinham mais idades do que eu.

“A vida comparada a um livro, é escrita com as oportunidades que aproveitamos ou perdemos. Deus não é pai para uns e padrasto para outros. Quando temos propósito de bem, as Leis Superiores se perfilam para nos ajudar e esse foi o meu caso.” Falou aquele avô como se estivesse pintando um belo quadro ao neto.

- E o que você via nessas duas coisas? - É fácil descrever, disse o avô. Dos bons extrai-se ou ganha-se só bondade. Nos mais velhos há mais experiência e se são seus amigos, vão passá-las a você certamente. Fazendo por merecer, pode-se aliar a bondade vinda de uns com a experiência de outros. Se tudo vier de uma única pessoa, ótimo. A afinidade nas idéias e sentimentos geram e fomentam a verdadeira amizade.

Vô; eu não sei muito e nem entendi bem o que você disse, mas de tudo isso posso lhe pedir uma coisa? - Até duas “netão”. - Posso seguir o seu exemplo? (*) − PRESIDENTE DO FÓRUM PERMANENTE DOS ARTICULISTAS DE UBERABA E REGIÃO.

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Q

uando criança, a mãe dizia:

violão, e começava animado: "A deu..." já na segunda nota, grave, a voz saía arrastando no fundo raso da sua escala. Ia em frente: "A deusa da minha rua..." O agudo do "nha" também não saía. Vinha num sofrido falsete. Afinado, mas doloroso. Os ouvintes se encolhiam medrosos de que as cordas vocais do moço estalassem, tanto as espremia. Era-lhe um sofrimento humilhante. Tanto queria cantar. Foi reconhecendo suas deficiências e afastando-se amargurado das atividades musicais. Continuavam a dizer-lhe que tinha bela voz, mas ele sabia que não conseguiria cantar as músicas mais difíceis. Evitava festas, encontros culturais, qualquer evento ou reunião onde houvesse música. Disseram-lhe: isso é falta de um aquecimento. Passou a tomar uns goles e a arriscar. O máximo que conseguiu foi clarear um pouquinho a voz já de natureza muito límpida. Acrescentaram: falta sereno. Passou a sair pelas madrugadas acompanhando boêmios e arriscando algum canto, de vez em quando. Não valeu de nada. Ficou muito pálido porque não tomava sol e alguns amigos preveniram-lhe: Cuidado! Você acaba tuberculoso. Parou de se enfiar pelas noites. Exercício, o negócio é exercício, aconselharam. Começou a fazer escalas: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, do!

- Este menino vai cantar que nem o Orlando Silva! O pai não gostava. Cantor, jogador de futebol e bicheiro eram gente sem vergonha e sem futuro. Malandros. Mas a voz era tão bonitinha que a mãe começou a ensinar-lhe velhas canções do seu tempo de moça que a rapaziada seresteira cantava à sua janela. Dizia que as músicas antigas eram mais românticas. Ele era bom mesmo era nas musiquinhas de roda: O Cravo Brigou com a Rosa, Garibáldi foi à Missa, Terezinha de Jesus. A professora do primário, que era pianista e dava aulas particulares à noite, gabava-lhe as qualidades vocais: bom de ritmo, bom de afinação e bom de timbre. Era tão sensível, dizia a mestra, que, quando cantava O Cravo Brigou com a Rosa, dava uma vontade louca na gente de chorar. - Onde já se viu isso? - O pai abusava - Ora... E completava: - Vai estudar contabilidade!

- Mas... só de dó a dó?

O menino não falava nada. No fundo queria mesmo era cantar. Nem tanto ser cantor, mas cantar, cantar. Alegrar e entristecer os admiradores; transmitir-lhes, com a manipulação inteligente da voz, todo o peso emocional das canções que cantasse. Por isso, vivia cantando: no banheiro, ao fazer os deveres escolares, ao brincar, ao trepar nas árvores. Em qualquer situação. Onde estivesse que alguém lhe pedisse - cante alguma coisa! não precisava pedir de novo, com ou sem acompanhamento soltava o trino privilegiado. Acabou mais conhecido na cidade que todos os cantores de rádio e disco. Cantava tudo que estivesse em sucesso, ou não, desde que fosse música bonita. Veio a mudança das penas e o frango não conseguiu virar galo. Claro que continuou com timbre, ritmo, afinação, adequação às emoções, mas perdeu agudos e graves. Ficou com uma escalinha assim, ó. Aquelas canções seresteiras que exigiam um certo malabarismo, mergulhos profundos e vôos percucientes, foram, devagarinho sumindo do seu repertório. Não que quisesse. Mas, como fazer? Alguém pedia-lhe - cante aí A Deusa da Minha Rua. Pigarreava, dava o tom ao violonista, porque sempre há por perto de cantores algum tocador de

- Bom, às vezes eu consigo de dó a dó. O normal é de dó a sol... Falta amor, paixão. Começou a gostar da filha do conferente, uma menina muito mais enjoada que bonita. Isso, no entanto, explicaram-lhe, fazia parte do jogo afetivo. Quando mais difícil conquistar um amor, maior a paixão, maior a possibilidade de adequar a canção à vida. No entanto, tanto desdém, tanto desinteresse por parte da moça e tão sufocado ficou de anseios que o amor acabou por inibir-lhe o canto: eram duas notas sofridas e o pranto despejava-se-lhe pelos cantos dos olhos. Voltou a beber, a perambular pelas madrugadas, cada dia mais pálido, tossindo. Os amigos comentaram: já deve estar tuberculoso. Não estava. Enfim, esqueceu a menina e voltou à vida normal. Os bons companheiros ainda tentaram recuperálo: falta romantismo. Sentimento. Começou a fazer sonetos, mas achou que aquilo era muito comprido e tinha rimas demais. Optou pelas quadrinhas porém com rimas apenas do segundo com o quarto verso. Coisinhas assim: "Ai que eu morro de amores / e ninguém me quer amar / Sou como um cantor frustrado / que não consegue cantar." - o que tinha algum

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Guido Bilharinho Cadeira 40 - Uberaba MG

se continuava a ouvir. Como o estilo do cantor era-lhe desconhecido e muito estranho, deixou escoar a canção.

sentido. Lia Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Castro Alves. Gostava mais do segundo por sua profunda tristeza - uma fatalidade que parecia coincidir com a sua impossibilidade de cantar. Entrou em fase de ostracismo interno e externo. Ninguém o convidava mais para cantar e nem ele queria. Nas últimas tentativas notou que havia gente rindo das suas dificuldades. Desistiu de vez e, como ainda era jovem, entrou para a escola de contabilidade.

- O cantor.

- Enfim, pôs a cabeça no lugar!

- Mas ele não tá cantando... tá conversando...

A mãe fez um muxoxo de desaprovação conformada. - É... já que ele não quer mais cantar... Para não sofrer, o nosso herói deixou de ouvir rádio, disco, e de assistir televisão. Um dia, a fatalidade: casualmente ouviu uma música moderna, de grande sucesso, e ficou ansiado sem saber se se afastava ou

- Tá, sim. Rap se canta assim - uma fala rebelde, cheia de verdades, de críticas... agressiva... irônica... Cabia de dó a sol. Era a sua oportunidade. Correu pra casa e abraçou a mãe. O pai olhou desconfiado. - Não vou estudar mais, mãe. Vou ser cantor de rap.

- Que música é essa? - perguntou. - É rap, é o Gabriel, é o sucesso! - Quem é esse Gabriel?

DUAS COLETÂNEAS DE PRETENSOS POEMAS

A

conceituação de poesia, por natureza, definição e finalidade, não se compadece com o entendimento, tão generalizado quão apressado e desfundamentado, de que tudo que não seja prosa utilitária (ensaio, artigo, reportagem, etc.) e narrativa ficcional seria poesia. Assim, qualquer texto fora desses parâmetros, porém descritivo, confessional, elucubrativo e até piadístico (lembre-se de Osvald de Andrade), seria poesia.

Prosa/Poema e Texto” (Dimensão – Revista Internacional de Poesia, ano XI, nº21, Uberaba, 1991), diversos tipos ou categorias prosísticas (não literária, literária e, nesta, principalmente, a prosa de ficção, a crônica e o texto). A ficção é de fácil entendimento, o mesmo não acontecendo com a crônica e, notadamente, com o texto, ambos muitas vezes, principalmente este, confundidos com o poema. Por isso, se afirmava então e se reafirma agora, que “na verdade, o texto constitui gênero intermediário entre a crônica e o poema. Contudo, é mais do que aquela e menos do que este. É mais sutil, elíptico e elaborado do que a crônica e menos que o poema. É prosa. Não é poesia. A distinção básica é questão de grau de operacionalidade (de elaboração), de pesquisa e resultado alcançado. O poema não se comparece com a discursividade da prosa porque, então, configuraria esta e não aquele. O texto, mesmo o mais elaborado, ainda é discursividade da prosa porque, então, configuraria esta e não aquele. O texto, mesmo o mais elaborado, ainda é discursivo e, portanto, prosa.

Acontece que não é. As diferenças são inúmeras. A começar por uma das mais importantes e que, juntamente com falsa percepção, consiste na dispensa do esforço e da informação estética. É fácil ou pelo menos exige menos trabalho, dedilhar impressões, sentimentos, emoções, descrições e concepções em prosa e fazê-la passar por poesia. Que não é. Há, no caso, de se diferençar prosa, texto, crônica e poema. A começar por se situar que não se pode confundir a prosa ou o texto impregnado de lirismo e sensibilidade perceptiva e elaborativa com poesia e com poema, tradução em palavras da poesia. Em geral não se faz isso quando se trata da ficção imbuída dessas características, a exemplo do romance Iracema (1865), de José de Alencar, ou da novela Buriti (de Corpo de Baile, 1956), de João Guimarães Rosa.

Por sua vez, o poema (para sê-lo verdadeiramente), além de nuclear a palavra, é e deve ser elíptico, elaborado (com rigor), contido, sutil e, já em grau de inventividade, constituir-se em pesquisa de linguagem, em criação e instauração de novas linguagens. É infenso à descrição e à discursividade e refratário a qualquer narração e linearidade.

Contudo, quando a prosa ou o texto sejam líricos e elaborados pelo autor com intenção (ou pretensão) de estar fazendo poesia, aí, então, lavra a confusão, ditada tanto pela desinformação como pela tendência generalizada do mínimo esforço, no caso, tanto do autor quanto do leitor e do crítico.

A distinção entre poema e prosa (crônica ou texto) se faz, assim, norteada por esses elementos orientadores e diferenciais. A simples vista da obra distinguem-se, pois, prosa de ´poesia, poema de texto ou crônica. Mas, a distinção entre estes últimos já exige leitura, visto que ambos, como prosa, são discursivos, embora devessem, principalmente o texto, sê-lo menos do que o normalmente ocorrente.Inúmeras obras em prosa (crônica, texto ou mesmo simples narrativa) têm passado por poesia, têm sido denominadas poemas e assim consideradas, a começar principal e justamente por seus autores, a partir da incompreensão do conceito de poesia e desatenção aos traços (conquanto nítidos) distintivos

É muito mais fácil, repita-se, elaborar, ler e entender prosa e texto do que poesia. Antes de se analisar duas coletâneas de textos – com um ou outro possível, desgarrado e, portanto isolado, poema – é indispensável conceituar o que sejam prosa e poema. Existem, como já escrevemos alhures em “Poesia e

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apontados. Engano que é reforçado, aprofundado e ampliado pela circunstância de, nesse caso, se colocar a prosa em forma de verso, como se tudo que estiver nessa forma constituir, só por isso, poesia. Não constitui, porém. A maneira de se distribuir ou localizar as palavras no espaço não é o que determina o gênero, O que o faz é o tratamento dado ás palavras. É algo intrínseco a elas e a seu relacionamento, a partir de sua escolha ou seleção.

32); “As portas estão abertas de par em par / O espírito arde na rua da Capela chamazinha / Sobre o retrato de Pablo Picasso” (Em Memória de Nusch Éluard, de Vitezlav Nezval, p. 38); “Homem de aço e de lua. / Possuía a voz grave. / Era severo e triste. Ai, bem sei, bem sabemos que está morto! / Morto. Confiadamente morto. Morto / Já sem remédio. Morto / Como se morre em toda parte” (Elegia a Jacques Roumain no Céu de Haiti, de Nicolás Guillén, p. 41); “Nunca vi um campo de urzes. / Também nunca vi o mar” (Nunca Vi Um Campo de Urzes, de Emily Dickinson, p. 87); “Já morri duas vezes, e vivo. / Resta-me ver enfim / Se a terceira vez na outra vida / Sofrerei assim” (Minha Vida Acabou Duas Vezes, da mesma autora, p. 87); “Apoiando na mão rugosa o queixo fino” (O Pensador de Rodin, de Gabriela Mistral, p. 88); ou, ainda, os lugares comuns:“A noite é bela” (Poema, de Langston Hughes, p. 90) e “A lua está despida” (Lua de Março, do mesmo autor, p. 91) ou infantiloides:“Pois tu não sabes / Que não é bonito estar nua?” (idem, idem, p. 92).

Não há, pois, dificuldade em se distinguir crônica, texto e poema, desde que se tenha consciência ou conhecimento dos elementos intrínsecos de cada um deles.” *A aplicação desse entendimento na prática permite detectar o que é e o que não é poesia, mas, texto, crônica ou simplesmente prosa, literária e, muitas vezes, nem isso. Neste caso, por exemplo, a conhecida afirmação de Fernando Pessoa de que “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. /Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo” (Poema em Linha Reta, de Ficções do Interlúdio) não passa de prosa e banal. Os Poemas Traduzidos, de Manuel Bandeira (4ª ed., Rio de Janeiro, livraria José Olímpio editora, 1976), pouco (quase nada) tem de poesia e poema, constituindo as obras publicadas ora textos, ora crônicas, ora simplesmente prosa, no mais das vezes ruim.

Além disso, além de prosa, não passam de simples narrativas os textos: “Com lilases cheios de água / Eu a golpeei nas espáduas” (A Castigada, de Juan Ramón Jiménez, p. 98); “Habito um castelo de cartas, / Uma casa de areia, um edifício no ar, / E passo os minutos esperando / O desmoronamento do muro, a chegada do raio” (Morada Terrestre, de Jorge Carrera Andrade, p. 51); “Existe um país encantado / No qual as horas são tão belas” (Balada da Linda Menina do Brasil, de Rubén Darío, p. 55); “Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba” (Toada de Negros em Cuba, de García Lorca, p. 57); “Meu dia outrora principiava alegre; / No entanto à noite eu chorava” (Outrora e Hoje, de Hoelderlin, p. 78); de peça ridícula as exclamativas: “Olhai, lá vem minha cabra! / (Quero-lhe como a uma dama.) / Que linda que ela caminha!” (Minha Cabra, de Juan Ramón Jiménez, p. 104); ou de mera banalidade:“Sonha, sonha enquanto dormes” (O Estudante, mesmo autor, p. 102).

A maioria absoluta das composições coletadas (teriam sido “selecionadas”) por Bandeira carece totalmente de elaboração poética, de sofisticação e criatividade, perambulando pela larga via do facilitário prosístico, que permite extravasamentos emocionais, descrições casuais, narrativas fáticas e excursões mentais genéricas, algumas até infantiloides, tais sua ingenuidade conceptual e primariedade formal. Inumeráveis nessa coletânea as obras de concepção e realização pueris, entre os quais, por exemplo, Paz, de Dirk Rafaelsz Camphuysen (“Muita luta aqui lutareis, / Muita cruz e dor sofrereis”, p. 23); Soneto Para Sacha, de Fredy Blank (“Precisava de irmão a princesinha. / Deus o queria assim, era o destino”, p. 24); Um Poema, de Heine “Vem, linda peixeirinha,/Trégua aos anzóis e aos remos. / Senta-te aqui comigo, / Mãos dadas conversemos”, p. 26); Acalanto, de Elisabeth Bishop (“Nana nana. / Nana, dorme o adulto / E a criança dorme. / Ao largo, ferido de morte, naufraga/ O navio enorme”, p. 40); Nossa Senhora da Ternura, de K. H. de Josselin de Jong (“Nossa Senhora da Ternura, / Abre a ele tua alma pura”, p. 54); Canção de Canções, de Juan Ramón Jimenez (“Canção curta, cançãozinha. / Muitas, muitas, muitas, muitas..., p. 107).

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das últimas estrofes, que não passam de prosa comum ou mesmo ruim, neste caso as de nº 20, 21 e 25, principalmente. Outro texto (e bom, porém, como texto) é Treze Formas de Olhar Um Melro, do mesmo Stevens (p. 91/93).

um tubo de cachimbo/que é apenas um longo focinho/um pouco quente/um pouco mais resmungão que um caldeirão quase vazio”; e, ainda, de A Manta, de Yeats (p. 150), mero desfrute inconsequente.

O mais, tudo é prosa, embora seus tradutores, editores (em jornal e livro) e os condicionados leitores não percebam, visto destituídos das concepções teóricas pertinentes (essas, sim, válidas, o que não acontece com grande parte da teorética desovada nos cursos de letras).

Ademais, é curiosa a “informação” de que já existiam aviões no tempo de Safo (século VII antes de Cristo), já que ela, por meio de seu tradutor Trajano Vieira, afirma ipsis litteris e, como todos os demais autores dessa “coletânea”, prosisticamente: “Campo de pouso do desejo, / o avião gira a hélice com seu vento, / e eu, olhar acoplado, voo atento” (p. 124). Nessa coletânea e nesses tradutores não se trata apenas de mentalidade subordinativa ao que vem do primeiro mundo ou das metrópoles, já que lá, também, se confundem alhos com bugalhos.

Constituem boa prosa – não poesia – nessa coletânea, entre outras, as produções Poema Para Cissy, de Raymond Chandler (p. 49/50), O Regresso, de Robert Lowell (p. 63/64), Limite, de Sylvia Plath (p. 65), A Mente Indecisa, de William Carlos Williams (p. 101), A Luz, de Giórgios Seféris (p. 129/130), Ode a Um Rouxinol, de Keats (p. 140/142), Dos Últimos Coros Para a Terra Prometida, de Ungaretti (p. 162/163), Blanco, fragmento final de Otávio Paz (p. 166/168) e Trilce: Poema I, de César Vallejo (p. 174).

A questão é fundamentalmente que escrever, ler e entender prosa é fácil, muito mais fácil que escrever, ler e usufruir poesia e poema. Nisso, como em tudo mais, com as exceções pontuais e raras, prevalece e domina a lei do facilitário e do superficial.

Nessa coletânea da Folha de São Paulo existem peças desprezíveis até mesmo como simples prosa, a exemplo de Nas Paredes de Um Quarto Mal Mobiliado, de Gregory Corso (fls. 51), que, pelo título, já se revela não ser poema, conquanto essa a pretensão; de O Rei do Sorvete, de Wallace Stevens (p. 90), prosa desqualificada; de O Chapéu-Mausoléu, de Apollinaire (p. 104), uma bobagem; do Hoje, de Benjamin Péret (p. 109), que tem trecho abominável como esse: “Há gritos/de aranhas de vitriol que sorvo sem perceber/perto deste rio usado saído de

_____________________ Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, autor de Romances Brasileiros – Uma Leitura Direcionada (1998), do inédito Romances Europeus do Século XIX e de livros de poesia e contos, além de ter organizado duas antologias de poesia e editado por vinte anos a revista internacional de poesia Dimensão.

Como se observa, não há nesses exemplos esforço e sofisticação elaborativa. Apenas, exposição das ideias conforme surgi – das no cérebro. E poesia não se faz com ideias, mas, com palavras, ensina Mallarmé. Nem outra coisa disse Jackobson, quando expôs que a poeticidade se manifesta “no fato de a palavra ser apercebida como palavra e não como simples substituto do objeto nomeado ou como explosão de emoção”, ou como afirmou Huidobro, “la poesía es el vocablo virgen de todo prejuicio; el verbo creado y creador, la palavra recién nacida”, mesmo que, conforme Valéry, seja “hesitação entre som e sentido”.

Exemplos de prosa: “Soubesse eu o que em sonho me revelou/ O Espírito Eterno [....] Tudo o que viam meus olhos/ Me era estranho/ Tudo aparência e ilusão [....] Ah, a colheita acabou, / E onde está o trigo?” (Sombras da Violência, de Gerhardt Hauptmann, p. 30); “Um apelo, um grito / Longínquo, abafado, / Quase imperceptível, / Erra no infinito [....] Acabou-se a guerra, / A França renasce” (O Apelo, de Jules Supervielle, p.

Nada disso se configura e se expõe nos exemplos citados. Do mesmo modo na coletânea Poemas Traduzidos, de 1987, contendo obras publicadas no Folhetim, da Folha de São Paulo, não há nenhum poema, só prosa, que, quando boa, atinge o status de textos. Neste caso, por exemplo, O Homem do Violão Azul, de Wallace Stevens (p. 72/88), excetuadas algumas

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Paulo Fernando Silveira Cadeira número20

DEVIDO PROCESSO LEGAL E CIDADANIA I - Cidadania A cidadania se expressa como vontade política do indivíduo, manifestada, dentro de um contexto pacífico, com previsão constitucional, pela soberania popular,como poder que emana do povo, através de seus cidadãos, exercido pelos representantes eleitos, ou diretamente, quer pelo plebiscito, o referendo ou a iniciativa popular (CF - arts. 1°, parágrafo único e 14). Em outras palavras, cidadania é o exercício do poder político, através do sufrágio universal (direito) e pelo voto direto e secreto (exercício), com valor igual para todos. Em tempos de crises políticas, a cidadania se revela pela revolução popular, sem qualquer formalismo, voltando-se contra a situação dominante, impondo-se nova ordem política. Em qualquer hipótese, a vontade política se veicula através da norma jurídica sujeita à apreciação do Judiciário. A cidadania, ao lado da soberania, da dignidade da pessoa humana, do pluralismo político e dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, constitui os fundamentos do Estado Democrático de Direito (CF art. 1°). Outra forma há de expressão da soberania popular além das já referidas. Trata-se da participação popular no júri, mediante a soberania dos vereditos (CF art.5º, inciso XXXVIII). II - Júri Historicamente o júri foi a primeira forma de contenção do poder absoluto dos reis, como está a evidenciar Magna Carta Inglesa de 1215, que, na versão atualizada de 1226, assim dispôs em seu § 39: "Nenhum homem livre será detido ou sujeito a prisão, ou privado dos seus direitos ou seus bens, ou declarado fora da lei, ou exilado, ou reduzido em seu status de qualquer outra forma, nem procederemos nem mandaremos proceder contra ele senão mediante um julgamento legal pelos seus pares ou pelo costume da terra.” (No free man shall be seized or imprisoned, or stripped of his rights or possessions, or outlawed or exiled, or deprived of his standing in any other way, nor will we proceed with force against him or send other to do so, except by the lawful judgment of his equals or by the law of the land). Esse documento histórico foi conquistado pelos barões em face ao Rei João Sem Terra, exigindo-se, entre outras coisas, o julgamento legal pelos seus pares ou pelos costumes da terra.

Na época, os nobres legislaram para poucos, visando seus próprios interesses. Mas a história se incumbiria de estender os benefícios a todos, inicialmente aos habitantes da Inglaterra, depois aos americanos e, destes, para outros países, como o Brasil. De modo que também nós, como beneficiários indiretos, devemos prestar homenagens à Magna Carta Inglesa. Sendo a primeira e original manifestação da cidadania, o júri apresenta múltiplas facetas: de um lado, é garantia do cidadão de não ser julgado por um representante do Estado isoladamente, mas sim pelos seus pares, membros da sociedade civil; de outro, é forma de contenção do poder estatal, ao não permitir a condenação de ninguém senão através desse instituto processual penal, que goza, no Brasil, de foros constitucionais, não permitindo discriminação nas condenações ou absolvições, seja dos poderosos ou dos humildes; também, é forma de democratização do Poder Judiciário, que constitui um poder político não eleito, permitindo ao povo participar diretamente dele. Aí, ocorrem duas situações salutares: de um lado, limita a centralização e o tecnicismo do poder judiciário e, de outro, educa o povo, que passa a ter maior interesse pelas coisas públicas, notadamente pela realização da justiça. Há, ainda, outra função, pouco lembrada, mas de muita utilidade para o próprio poder judiciário: como são os jurados que condenam o acusado, eles se tornam um necessário e eficaz escudo protetor do juiz, contra ações de réus poderosos, ou de membros de organizações criminosas, que não mais poderão voltar sua ira, vingança ou intimidação contra o magistrado, já que este só profere a sentença condenatória, atendendo à vontade dos representantes da sociedade. Os jurados são escolhidos aleatoriamente, dentre aqueles constante de lista previamente elaborada pelo judiciário, para funcionarem num momento único e esporádico, compondo o conselho de sentença do júri. Após o que, logo são dispersados, retornando à multidão incógnita da população. Para atender esse fim social e político, faz-se necessária, de modo peremptório, a ampliação da competência do júri para os julgamentos criminais, estendendo-a a todos os crimes dolosos. Basta fazer, por emenda, ligeira alteração no preceito constitucional que dispõe sobre a matéria (CF-art. 5°, XXXVIII.) Onde o texto diz (alínea “c”) "competência para o julgamento

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dos crimes dolosos contra a vida" passaria a ter a seguinte dicção: “competência para o julgamento dos crimes dolosos, cujas penas máximas forem superior a quatro anos, excetuados os casos em que houver prévio acordo com o Ministério Público, ou a transação penal, nos casos autorizados por lei”. Só assim o povo participará efetivamente desse poder político não eleito; os juízes ficarão protegidos; e os poderosos não mais escaparão da Justiça. A impunidade, se houver, será com o respaldo da própria comunidade. Alegarão alguns que, historicamente, o júri não funciona bem no Brasil por ser o povo analfabeto e, geralmente, por estar dominado pelos grandes, dos quais aceita subornos com facilidade. Rejeita-se esse argumento, que se assemelha ao utilizado pela Escola Superior de Guerra no tempo da ditadura, no sentido que o povo não saberia votar, devendo a elite decidir por ele. Hoje sabemos que o povo sabe escolher bem os seus representantes. Se não o faz melhor é porque, existindo uma legislação eleitoral deformada, usualmente é frágil o rol dos candidatos que lhe são apresentados. É preciso mudar a lei eleitoral para que a escolha dos postulantes, via partidos políticos, não se dê mais pela cúpula partidária, mas com a prévia participação dos filiados, em decisão de base, majoritária. Assim, pretendentes com ficha suja, ou que estejam respondendo a processo criminal por corrupção, improbidade administrativa, ou desvio de dinheiro público, mesmo que financeiramente poderosos, não obterão espaço na respectiva legenda.

fatos, tendo pouca relevância os conceitos jurídicos e o tecnicismo, dele decorrente, aplicáveis aos atos do agente criminoso, tornando sem sentido a discussão meramente formal, cheia de sutilezas, de conceitos vagos, nebulosos e distantes do alcance intelectual dos jurados, matéria técnica que eles desconhecem e não precisam saber. Em seu íntimo, cada jurado, à luz dos fatos – e não do direito ou da lei – precisa apenas responder à seguinte pergunta: na situação apresentada ao seu escrutínio, considera a ação do réu correta e honesta, que seria praticada por qualquer cidadão, merecendo, por isso mesmo, a absolvição, ou, ao contrário, julga-a injusta e criminosa, sendo caso de condenação? Para isso, basta responder, depois de terminado o contraditório, apenas a um quesito: considera o réu inocente ou culpado? III - Igualdade Outra forma de exercício da cidadania e contenção do poder estatal é igualdade. Constituindo a igualdade uma das colunas que sustentam a democracia, ao lado da liberdade e da vontade da maioria, pode-se afirmar que, excetuado o direito fundamental à vida, apresenta-se como o mais relevante dos direitos individuais, tanto que a enumeração prevista no art. 5°, da Constituição Federal começa por estabelecer esse direito (Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,...). Visou a Carta Política, com isso, preservar a democracia como processo de convivência social em que o poder emana do povo e por ele há de ser exercido, ainda que indiretamente, porém em seu único proveito. Esse processo ampara-se sobre três princípios fundamentais: o princípio da vontade da maioria, o da igualdade perante a lei e o da liberdade de ação, observadas as franquias constitucionais, exceto nos casos vedados em lei (a qual, contudo, não pode contrariar a Constituição para anular os direitos individuais e franquias por esta concedidos). Mas esses princípios podem ser reduzidos a um, na lição de Aristóteles, ou seja, o da igualdade, que constitui o fundamento e fim da democracia, que tanto mais será pronunciada quanto mais se avança na igualdade. Mas ressaltava que a alma da democracia repousa na liberdade, sendo todos iguais. Na opinião de Rousseau, a igualdade é condição para a existência da liberdade. Pode-se mesmo, através da democracia, como observou Alexis de Tocqueville, "imaginar um ponto extremo onde liberdade e igualdade se toquem e se confundam".

As virtudes comprovadas da participação do povo no processo eleitoral ocorrerão também na instituição democrática do júri, notadamente se sua competência for ampliada para alcançar todos os crimes dolosos – e, eventualmente, até em alguns casos cíveis, de maior vulto, seja pelo valor da causa, seja pelo tipo ação (por exemplo quando envolve direitos coletivos ou difusos) – nos termos acima especificados. Ademais, com a constante participação do povo nas entranhas do Poder Judiciário, esse poder político, não eleito, revestir-se-á de maior legitimidade, mesmo porque, certa ou errada, a decisão será tomada por quem, originalmente, é o dono do poder: o povo. Os políticos e os juízes são apenas seus empregados, sujeitos, todos, ao bom comportamento. Há, ainda, uma vantagem adicional. O juiz monocrático só pode condenar se houver provas plenas no bojo do processo, tais como testemunhas, documentos e perícias. Isso dificulta muito a condenação nos crimes praticados por organizações criminosas ou políticos ou por pessoas financeiramente poderosas, que geralmente deixam poucos rastros, ou se acobertam atrás de interpostas pessoas, conhecidas como “laranjas”. Prevalece, aí, o formalismo e o tecnicismo decorrente das tormentosas questões de direito. Já os jurados podem condenar simplesmente com base na prova indiciária, ainda que fragmentada, desde que estejam convencidos da culpabilidade do réu. Avulta, aqui, sobremaneira, o exame dos

Realmente, na democracia a liberdade conduz naturalmente à igualdade; na ditadura, a pretexto de se alcançar a igualdade, sujeita-se o indivíduo, pela violência, inexoravelmente à servidão. A sociedade perfeita pressupõe a igualdade, com liberdade como pedra fundamental. As pequenas diferenças sociais decorrerão, apenas, da inteligência, criatividade, trabalho e honra. Todo privilégio implica o reconhecimento de um tipo de superioridade, com a imediata quebra da igualdade. A superioridade induz dominação, com grave ofensa à liberdade.

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Daí por que todo o privilégio deve ser combatido e totalmente extirpado, ou reduzido ao mínimo tolerável (preferência às crianças, idosos, gestantes, doentes, cadeirantes etc), de modo a ampliar o âmbito da Democracia.

each other, the courts must decide that case conformably to the law, disregarding the constitution; or conformably to the constitution, disregarding the law; the court must determine which of these conflicting rules governs the case. This is of the very essence of the judicial duty.").

A contenção do poder estatal se manifesta, outrossim, pelo federalismo, pela separação dos poderes, pela doutrina dos freios e contrapesos e por uma imprensa livre e plural. Cada um desses tópicos serão analisados sucintamente, já que abordados, com profundidade, no livro “Devido Processo LegalDue process of Law”, de minha autoria.

Não existem mais, na esfera dos outros ramos governamentais, ações exclusivas não apreciáveis pelo Poder Judiciário, que é o intérprete último da vontade constitucional (controle da constitucionalidade das leis). Contudo, o Legislativo pode emendar a Constituição visando superar uma decisão incômoda do Judiciário. Pode também editar lei ampliando ou esclarecendo o fundamento judicial adotado. Daí a importância da doutrina dos freios e contrapesos. Contudo, para não subestimar a decisão judicial e, ao mesmo tempo, tornar o legislativo um superpoder político, contrário à forma republicana de governo, próprio das monarquias constitucionais (como a da Inglaterra), ou do sistema parlamentarista (experimentado sem sucesso no Brasil, durante a crise que antecedeu ao golpe militar de 1964), portanto pretendendo ser um poder político superior ao judiciário, as emendas constitucionais devem passar pelo crivo das assembleias legislativas estaduais. Só depois de aprovada pela maioria delas é que a emenda pode entrar em vigor. Outra razão informa esse raciocínio: o pacto federativo foi originalmente firmado entre os Estados-Membros e a União. Logo, a União não pode, solitariamente, alterar de modo arbitrário e unilateral, o seu conteúdo, negar ou anular sua substância material. Não satisfaz o argumento de que os senadores, por representar os Estados-Membros, estariam falando em nome destes. Ora, como se sabe, os senadores recebem os seus subsídios da União e se elegem da mesma forma que os deputados federais. Somente a assembleia legislativa representa, com legitimidade e de modo eficaz, os interesses do povo de seu Estado e está autorizada a falar por ele.

IV - Federalismo O pleno exercício da cidadania pressupõe um regime democrático, que assenta sua estrutura constitucional em quatro pilares fundamentais: a)- o federalismo; b)- a separação dos poderes; c)- a garantia dos direitos individuais; e d)- meios de comunicação (jornais, rádios, televisões e internet) livres, sem censura prévia, e diversificados (emissoras distintas) quanto à fonte de produção da informação. O federalismo é a pedra angular do sistema, porque reparte o poder entre o Governo Central e o dos Estados e Municípios de forma equilibrada, de modo a evitar a concentração do poder, que conduz à ditadura. Permite, ainda, que os Estados-Membros e os Municípios sejam autênticos laboratórios sociais e políticos, onde os experimentos e as intervenções legislativas podem ser testados separadamente, multiplicando as oportunidades de sucesso (que logo serão copiados) e minimizando os perigos gerais de fracasso. O federalismo revitaliza e harmoniza os governos inferiores, que cuidam mais diretamente com as necessidades sociais. Desse modo, seria ideal o indivíduo se sujeitar à aproximadamente 90% de leis locais (estaduais e municipais) e, apenas, à 10% de leis federais. V- Separação dos poderes A separação dos poderes entre os ramos legislativo, executivo e judiciário (LEJ), constitui fórmula última e refinada de contenção do poder, portanto, sendo modo de exercício da cidadania. A separação dos poderes serve como poderoso controle contra as ações arbitrárias de cada um deles.

VI - Freios e contrapesos A combinação do princípio constitucional da separação dos Poderes com a doutrina dos freios c contrapesos permite que nenhum ramo em que se desdobra o poder político possa exercer autoridade ditatorial sobre os trabalhos do Governo. Os poderes dados pela Constituição a cada um deles são delicadamente controlados pelo poder dos outros dois, evitando os excessos.

Como as opções e ações políticas se realizam através da lei, aí deve recair o controle político dos outros poderes pelo judiciário. Ao Judiciário foi constitucionalmente outorgado o poder de dizer o que a lei é, na feliz frase de Marshal:

Através da doutrina dos freios e contrapesos, somada ao princípio da separação dos poderes, procura-se proteger o cidadão contra o surgimento de governo tirânico, ao estabelecer múltiplas cabeças de autoridade no governo, as quais se posicionam uma contra a outra em permanente batalha. A intenção da Carta é negar a uma delas a capacidade de permanentemente consolidar toda autoridade governamental em si mesma, enquanto permite no todo o desenvolvimento tranqüilo do trabalho do governo.

"É enfaticamente área de atuação e dever do departamento judiciário dizer o que a lei é [...]. Se duas leis conflitam entre elas, as cortes devem decidir o caso conforme as leis, desprezando a Constituição, ou conforme a Constituição, desprezando a lei; a Corte deve determinar qual dessas regras conflitantes governa o caso. Isso é da própria essência do dever judicial." ("It is emphatically the province and duty of the judicial department to say what the law is [ ..]. If two laws conflict with

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É meio de restringir o poder governamental e prevenir abusos. Portanto, constitui, também, modo de exercício da cidadania.

7. direito de ser informado da natureza e causa da acusação (Emenda n. 6); 8. direito do acusado de ser confrontado com as testemunhas adversas e produzir os testemunhos das favoráveis (Emenda n. 6)

VII - Devido processo legal Mas a cidadania também se expressa através do princípio do "devido processo legal", que, pela sua abrangência encampa o próprio júri. Remonta ao mesmo § 39, da Magna Carta Inglesa, quando ali foi dito que nenhum homem será privado de seus direitos ou bens, senão através de um julgamento legal.

9. direito a um processo compulsório para obter o depoimento das testemunhas em favor do acusado (Emenda n. 6). 10. direito a advogado nos casos criminais (Emenda n. 6); 11. defesa contra excessivos valores de fianças, multas e punições cruéis e não usuais (Emenda n. 8)."

Esse conceito, impregnado de justiça e decência, foi transplantado para a Constituição Americana de 1787, onde através da Emenda n. 5, inserida no Bill of Rights, prevê que "ninguém será privado da vida, liberdade ou propriedade, sem o devido processo legal".

No Brasil, podemos extrair de nossa Constituição Federal, exemplificativamente, algumas garantias básicas, protegidas pelo devido processo, sem prejuízo de outras decorrentes dos princípios adotados, ou mesmo concedidas pela legislação ordinária:

O princípio foí adotado pela Constituição Brasileira de 1988, com quase oito séculos de atraso, quando dispôs no art. 5º:

a) decorrentes do direito à vida ou à liberdade (art. 5"):

“LIV: Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal".

1. prisão somente em caso de flagrante delito ou por ordem judicial (art. 5", inciso LXI);

Esse dispositivo constitucional vem complementado pelo inciso LV, assim editado:

2.direito de permanecer o acusado calado e de ter assistência da família e de advogado (LXII);

"LV - os litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes".

3.direito de que a prisão seja imediatamente comunicada ao juiz competente e a membro da família indicado pelo acusado (LXIII);

Do preceito constitucional americano, que serve de base para o nosso sistema, cuja estrutura política de divisão de poderes é idêntica, foram extraídas as seguintes garantias básicas do cidadão, limitadoras da ação governamental:

4. proibição de tortura ou tratamento desumano (III); 5. inviolabilidade da residência, exceto em caso de flagrância do delito ou desastre, ou, durante o dia, mediante ordem judicial (XI);

1. O direito do povo de estar seguro nas suas pessoas, casas, papéis e efeitos contra desarrazoada busca e apreensão (Emenda n. 4);

6. inviolabilidade de correspondência ou comunicações telefônicas e dados, salvo por ordem judicial (XII);

2. emissão de mandado de busca ou de prisão somente baseado em causa provável, sustentada por juramento ou afirmação, descrevendo especificamente o lugar, onde ocorrerá a busca, e a pessoa ou coisa a ser apreendída (Emenda n. 4);

7. direito a julgamento pelo juiz natural (aquele naturalmente investido no cargo) não se admitindo tribunal de exceção (LIII);

3. indiciamento por grande júri para os crimes hediondo ou capital (Emenda n.5);

(LVI);

8. proibição de uso de provas obtidas por meios ilícitos 9. proibição de prisão civil por dívida, salvo nos casos de inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e da de depositário infiel (LXVII);

4. não ser julgado duas vezes pela mesma ofensa, colocando em risco sua vida ou parte do seu corpo (Emenda n. 5);

10. julgamento por júri nos crimes dolosos contra a vida (XXXVlII);

5. imunidade contra a compulsória autoincriminação (Emenda n. 5);

11. proibição de lei penal retroativa (XL);

6. direito a um rápido e público julgamento, por um júri imparcial, no Estado e distrito onde o crime foi cometido (Emenda n. 6);

12. individualização e proporcionalidade da pena: não atingirá terceiros, nem poderá deixar de levar em consideração a gravidade do delito (XLV e XLVI);

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13. proibição de penas de morte (salvo em caso de guerra), perpétua, de trabalhos forçados, de banimento c cruéis (XLVII); 14. obviamente, o direito ao devido processo legal, já referido antes (LIV e LV).

b) oriundas do direito de propriedade 1. Indenização prévia, em dinheiro, no caso de desapropriação (CF, arts. 5", XXIV e 182, § 3°), exceto do imóvel rural improdutivo para fins de reforma agrária (CF,art.184); 2. garantia da manutenção de bens e direitos patrimoniais já incorporados na esfera de disponibilidade do indivíduo (direito adquirido);

administrativos), imantada pelo devido processo e pela cláusula da igual proteção, se estende, como obrigação inafastável, a toda autoridade da Administração Pública. Também o direito à igualdade não se materializa juridicamente por si só, necessitando do manejo do processo, como instrumental garantidor de sua existência onde, tanto no aspecto processual como no substancial, encontra-se abrangido pela cláusula milenar do devido processo legal (Due process of law). Significa dizer que todas as garantias fundamentais outorgadas pela Constituição – inclusive a coluna mestra da igualdade, colocada como a maior de todas, tirante o direito à vida – passaram a se vincular direta e objetivamente à cláusula do devido processo e da igualdade, num vínculo de sujeição a essas, que passaram a dominar aquelas. Mesmo a garantia da igualdade, por já estar incorporada no devido processo, sujeitou-se a ele.

3. a lei não violará o ato jurídico perfeito (contrato).

c) comum: 1. A sentença transitada em julgado não será rescindida senão pelas causas e no prazo já estipulado em lei; lei nova não poderá modificá-la (XXXVI). 2. Indissoluvelmente vinculado ao devido processo legal, sendo, inclusive, meio próprio para sua verificação, encontra-se a obrigação de toda autoridade (militar, policial, civil: administrativa ou judicial) de fundamentar suas decisões, a fim de se aferir não só sua legalidade estrita, mas também a justiça e moralidade do ato.

A Constituição Federal trata do assunto no art. 93: "IX -todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei, se o interesse público o exigir, limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes; X -as decisões administrativas dos tribunais serão motivadas, sendo as disciplinares tomadas pelo voto da maioria absoluta de seus membros".

Não obstante a garantia da motivação dos atos administrativos e pronunciamentos judiciais não constar tecnicamente das cláusulas pétreas, cujo núcleo é imodificável através de emendas à Constituição (CF, art. 60, § 4"), acha-se evidentemente aí incluída, por agregar-se inseparavelmente ao princípio do devido processo, que faz parte das garantias fundamentais. Embora inscrita no capítulo destinado ao Poder Judiciário, essa garantia (a da motivação dos atos

VIII - Dualidade O princípio do devido processo legal como instituto de defesa da cidadania apresenta duas faces: uma processual e outra substantiva. Através do devido processo legal procedimental exige-se o tratamento igualitário das partes no processo, o direito ao contraditório e à ampla defesa, encampando, na esfera criminal, o princípio da inocência e a vedação do acusado de produzir prova contra si, materializado no direito de permanecer calado. Portanto, privilegia-se a ampla defesa, o contraditório, a motivação das decisões administrativas e judiciárias, o direito ao recurso, ao julgamento justo. A segunda é forma de contenção do poder dos outros dois ramos governamentais pelo Poder Judiciário, através da inconstitucionalização de leis ou de atos administrativos, em confronto vertical, como normas periféricas, com a regra matriz. No âmbito substantivo, o devido processo autoriza ao Poder Judiciário, no exercício de seu poder político como ramo do governo, aferir, a um tempo, a razoabilidade da lei, bem como exercer escrutínio estrito (invertendo-se o ônus da prova) relativamente àquelas que violem as liberdades civis individuais e, por outro lado, exercer o controle sobre os outros dois departamentos do Governo, através da doutrina dos freios e contrapesos (checks and balances).

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opções dos outros ramos governamentais. O juiz, como agente político, manifesta, ao julgar o caso concreto, seu modo pessoal de visão do mundo, conservador ou progressista. É tão legítima essa postura do Poder Judiciário, como demonstra a história constitucional americana, que o Judiciário, lá, assentou dois modos de se encarar a lei em face da constituição:

c) – analisar e trazer a debate algumas estruturas existentes no Brasil, originárias do tempo da monarquia imperial (D.João VI, Pedro I e Pedro II), evidenciando sua situação de incompatibilidade com a democracia, que se assenta, sobretudo, na igualdade com a liberdade, visando ao aperfeiçoamento das instituições políticas;

a) - lei abordando aspecto econômico: é considerada, em princípio, constitucional, salvo se o demandante demonstrar que ela não é razoável aos olhos de um cidadão comum (princípio da razoabilidade das leis);

d) - reavaliar, dentro dessa conjuntura, a posição do Poder Judiciário, sugerindo- se uma mudança substancial: o juiz deixará de ser apenas um técnico em Direito, preocupado apenas com a execução da lei formal, passando a atuar como agente político, em correta correspondência com sua participação fracionária do Poder Estatal. Adotando essa nova postura, o juiz deixará de ser um mero aplicador da lei, tornando-se, antes de tudo, o defensor das instituições democráticas e realizador da Justiça. Assim, o Poder Judiciário passará a controlar efetivamente a atuação dos dois outros ramos do Governo e, de outro lado, ao confrontar verticalmente a lei (regra periférica) com a Constituição (norma matriz), dará prevalência à realização dos preceitos da Lei Fundamental, realizando, com isso, a vontade do povo, que é a fonte primária de todo poder estatal. Note-se que a lei é feita pelos representantes do povo (deputados e senadores), os quais não detém poderes superiores ao representado, que os elegeu e lhes delegou o poder de representação. Logo, a lei não pode violar a Constituição, ou prevalecer sobre ela. Nem mesmo pode a Constituição depender de lei para sua implementação;

b) - lei que atinge os direitos civis: é considerada a priori suspeita, merecendo do Judiciário um exame mais severo e estrito quanto à sua constitucionalidade. Aqui compete ao Estado demonstrar um relevante interesse público de modo a justificar que os direitos individuais sejam afetados ou restringidos. X - Resumo Vê-se que através da cláusula do devido processo legal pode-se facilmente alcançar, entre outros, os seguintes objetivos: a) - dar nova dimensão à luta do indivíduo pela sua libertação, fornecendo como ferramenta jurídica o princípio do devido processo legal, cuja origem remonta à Magna Carta Inglesa de 1215, e que representa uma das maiores conquistas do homem no sentido de, por um lado, ter um julgamento justo e imparcial e, de outro, conter a atuação estatal dentro de limites aceitos pela sociedade democrática;

e) -democratizar o próprio poder judiciário, introduzindo nele a participação popular pela ampliação da competência do júri, o que lhe dará maior legitimidade, de tal modo que sua atuação também fique sujeita ao debate e controle públicos.

b) - evidenciar que o Poder Estatal deve ser exercido limitadamente dentro do contexto democrático e republicano (os ocupantes, eleitos, dos cargos políticos devem ser rodiziados a curto prazo), dando-se relevância às salvaguardas da separação dos poderes e do controle de um sobre os outros dois ramos, através da doutrina dos freios e contrapesos (Checks and Balances);

Evidentemente a abordagem, aqui resumida, não esgota a profunda e ampla dimensão da cláusula do devido processo, cujo mundo fascinante deverá ser descoberto e palmilhado por todos que amam a liberdade e detestam o arbítrio, que é o inimigo maior da cidadania.

Sob esse aspecto, outros direitos podem ser aflorados da zona de penumbra constitucional como emanações decorrentes do princípio do devido processo legal. IX -Controle pelo Judiciário O Judiciário, como poder fracionário político independente, exerce os freios e contrapesos através do controle da constitucionalidade das leis e dos atos administrativos. Esse controle se instrumentaliza através da cláusula do devido processo legal, que em sua forma substantiva permite ao Judiciário aferir e valorar politicamente os atos e

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Dr. Samir Cecílio colaborador - Uberaba MG

CRIXÁS- SUBSTRATO ROMANCEADO DO AGRESTE (ENSAIO)

E

sse Brasil em fora - sertão vasto - dá a impressão de ser tão diverso quanto o é o Universo, e não se precisa de uma maratona viageira para a sua confirmação, apenas simples pesquisa bibliotecária.

grupos africanos entre os negros do Brasil: o angola, o angico, o benguela, o congo, o mina, o moçambique, o monjolo, o rebolo e os "crioulos", negros aqui nascidos e ou amulatados (cruzamento de negros com portugueses, e índios). Com o "descobrimento" os ameríndios perderam a sua liberdade, o seu modus vivendi, e a sua identidade; os que fugiram matas a dentro ficaram ilesos.

Quem já se deparou com um Rugendas (Johann Moritz...), alemão nascido em Ausburg em 1 802, e que correu centro e cantos do país o retratando, tira de seus nankins ideia preciosa de nossos primórdios; Rugendas foi um andarilho da América meridional: só de Brasil deixou-nos várias centenas de pranchas, as quais nos dão visão ampla da terra (paisagens), e do povo: o Brasil nunca foi "branco", os nativos tendiam mais para o amarelo; a minoria branca portuguesa fez um caldeamento de pau-brasil (vermelho) com ébano (negro). Rugendas (João Maurício...) documentou os diversos

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árido, pobre, analfabeto, explorado (me parece que o Triângulo está se tornando vítima também da mesma exploração) e cheio de crendices. Todas essas misérias nordestinas não tiraram a Antônio Conselheiro a sua percepção humana e social da condição vexatória de seus compatrícios.

"Crixás", já que o Dr. Henriques é uma enciclopédia autoral (mais de centenas de publicações) é destaque no regionalismo brasileiro. Euclides retrata o agreste seco: Humberto o úmido, a convivência índia com a água, a canoa, a floresta, com a fauna e a flora, e seus nomes de batismo, e de quebra nos inicia nos segredos da pesca e da caça.

Antônio Conselheiro e Canudos e Maria Bonita, sob a pena de Euclides, formam uma unidade, uma epopeia que se iguala (ou suplanta) à Inconfidência Mineira com Tiradentes, e a figura amorosa de Marília de Dirceu.

Tive duas noites de convivência com "Crixás", livro e rio, e botos e antas e caititus e peixes muitos além de pintados, arraias, pacus, matrinxãs, velhos conhecidos.

Mesmos sentimentos, métodos diferentes. «Os Sertões" nos dá magnífica aula magna de geologia e sociologia.

E as lendas, e que lendas, Heim? Essas, deixo-as em " Crixás" para sua avaliação.

" Crixás", não lhe fica na rabeira; caminha ao par, e ao par caminham Euclides e José Humberto Henriques, ambos observadores de seu tempo e dois grandes pesquisadores , e escritores.

Deslumbre-se, mas não fique "encantado" como PiPitera, e em ponto de bala para se render aos encantos de Coema; antes faça da leitura um bom preparo físico com o "trainer" aludido, para se não afogar num lago de prazeres. Uma dica: se você é aferrado a pescaria, leve na mala a direção ( endereço) de Joaquim Anta, o maior guia que há por aquelas paragens ali, quero dizer Araguaia, Tocantins e Crixás.

Compulsar essas obras é um aprendizado. O romance de José Humberto Henriques, me refiro ao

Os " EE.UU." tentaram um repatriamento em massa de negros à África para fugir à negritude, o que fez surgir na Costa Atlântica do continente a Mauritânia. Rugendas, em seu livro " Viagem pitoresca através do Brasil" expõe um censo da composição racial nas Américas após Colombo, no seguinte quadro:

Os negros nos deram o batuque (germe do samba), o lundu, a capoeira e a mandinga.

asiáticos, o que elevou o percentual de brancos na composição racial brasileira.

Inglaterra, França, Alemanha e Holanda comerciavam com o tráfico negreiro; essa última trouxe ao Brasil contingente de judeus e para a Guiana (sua colônia) 3.000 deles), e, possivelmente muitos deles passaram para o nordeste brasileiro.

Os asiáticos árabes predominam na Amazônia, Rio de Janeiro e São Paulo; os "amarelos", predominantemente japoneses em São Paulo; os europeus, italianos( no leste), alemães e poloneses no sul. Euclides da Cunha, autor de " Os Sertões"- o sertanejo é antes de tudo um forte - é uma sequencia do trabalho de Rugendas, adstrita ao nordeste brasileiro; e descreve o Brasil

Com a abertura de nossos portos, 24.000 portugueses emigraram para a "colônia", e mais milhares de europeus e

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Dr. Samir Cecílio colaborador e sócio correspondente Uberaba MG

Dr. Samir Cecílio colaborador e sócio correspondente Uberaba MG

MACHADO DE ASSIS E UBERABA velho costume nosso, ou dizendo melhor, da imprensa citadina, e desde o tempo de “Lavoura e Comércio”, que lacrou o prelo às vésperas de seus cem anos; o outono travou-lhe as pernas e a língua: já era hábito meu ir à redação e bater um “papo” com Roland Jardim, ele usando tesoura, borracha e cola, para compor o jornal; a intervalos, conforme o desenrolar dos assuntos, soltava uma expressão latina que é assim traduzida: vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Machado era escritor incansável, e de monta; numa outra crônica (01-01-1893) a tecla Uberaba dá as suas ressonâncias (A Semana, pág. 202). Um escravo preto (ainda há escravos de todas as cores – e isto é sinal fidedigno de como andam a liberdade e direitos individuais em todo o mundo – fugiu da casa do antigo senhor (desconhecia a sua condição de homem livre desde 1888, graças à lei da abolição); este também desconhecia a lei ou era um fingidor: mandou oito homens armados (e, escravos ?) buscar o João à casa do engenheiro Tavares, onde estava abrigado.

É

Hoje se sabe, e creia-me, eu não diria que tudo, apenas que quase tudo é vaidade: até a mania essa, minha e alheia, de estar catando letras para garatujar um texto, expor idéia própria, ou contradizer a de outrem, mesmo que involuntariamente.

Realmente, Uberaba esteve, e ainda está, em todas, ora bem, ora mal, que assim é a vida. Não posso escrever fim ao pé desse artigo, ou crônica, antes de citar trecho de Eça de Queiroz, outro grande do vernáculo, que expõe o que muitas vezes lhe disse o Conde de Abranhos, naturalmente um monarquista, como sendo o segredo das democracias constitucionais: “Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a soberania ao povo, que é forte e simples. Mas como a falta de instrução o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito... E quanto ao seu proveito... adeus, ó compadre!

Não é bom nem delicado opor-se à ânsia de pessoas, ilustres ou modestas, de se virem estampadas a cores na televisão ou nas colunas sociais de jornais e revistas. É muito filosófico e proveitoso jogar com o ego das pessoas: vanitas vanitatum. Bem, qual é esse nosso velho costume? É dizer “Uberaba está em todas”; até desconfio que a frase já fique pronta na ponta da língua, esperando por momento oportuno, e a legenda já está em outras galáxias, e ainda não nos apercebemos disso: o espiritismo o explique, se a tanto há fundamento. Aliás, creio-o possível, já que o autor de Dom Casmurro hoje está em desconhecidas (ignotas) paragens de domínio exclusivo, e de maneira concreta, tal me parece, da seita espírita.

“Ponho-lhe na mão uma espada; e ele, baboso, diz: eu sou a força! Coloco-lhe no regaço uma bolsa, e ele, inchado, afirma: eu sou a fazenda! Ponho-lhe diante do nariz um livro, e ele exclama, de papo: eu sou a lei! Idiota! Não vê que por trás dele, sou eu, astuto manejador de títeres, quem move os cordéis que prendem a Espada, a Bolsa e o Livro!»

Já antes escrevi uma crônica desentranhando de obra do “mestre da linguagem” assunto em que Uberaba é citada; um indivíduo de nome Oto Helm surrupiou ao patrão em São Paulo a “módica” quantia de quarenta contos de reis: e se mandou de mala e cuia para cá, com dinheiro bastante para se comprar uma das melhores fazendas da região. Falhou-lhe a sorte: foi preso ao ato de desembarque, e perdemos um grande investidor.

Ao cidadão, resta-lhe conformar-se com a beleza de adágio inglês citado pelo criador de Bentinho: “Esta cabana é pobre, está toda esburacada: aqui entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei.” O que seria o cúmulo do infortúnio.

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UM ÓBOLO DE AMOR

O

lhos, não se cansam nunca de ver; se deles a janela se fecha, o mundo perde cor e a vida sabor, que dela, eles são o condimento.

ode de amor, gesto de doação, abnegada aceitação de cuidados e labores. Quando uma mãe perde um filho, o mais atroz dos infortúnios, a vida lhe perde o sabor, as flores a cor.

Desgraçadamente, desvalidos há de luz e não apenas da luz física; não conhecem o visível milagre que a luz opera na natureza: um festival de cores, e delicadas nuanças que a engalanam, e enchem-na de alegria; e, a nós, viventes e videntes, que temos também a luz cerebral, os olhos, se intumescem dela, maravilhados de admiração; o coração se expande numa sensação salutar, íntima agradável, inigualável; um bem-estar inesquecível.

O que na criança mais me gosta? Eu não o sei: pode que seja a espontaneidade, a maneira de vivenciar situações, interpretar fenômenos, ou a de encarar altiva e corajosamente as ranzinzasses dos adultos. Querer enquadrar uma criança, castrense arremedo, não é boa política; melhor deixa-la livre; nada de aparar-lhe as pontas, a galhada lhe mondar; deixem-na crescer e dar sombra.

Só quem já viveu a experiência das cores, e teve o infortúnio de viver a opacidade da cegueira, é capaz de avaliarlhe a dimensão e a ruína de sua perda.

Restrinja-se o adulto em dar-lhe compreensão, e o Universo como limite; e amor, que do necessário complemento ela própria se amealha.

Jamais me fadigo de meus olhos mesmo que já cansados; através do filtro pupilar estou sempre reparando, atenta e minuciosamente, a natureza, como ela o é, as coisas dela; até faço-o com carinho, mas sem ânimo de violentar-lhe íntimos segredos.

Há em toda a criança uma potencialidade insondável, e só ela saberá quando e como extravasa-la, como e quando bem usa-la. Essa preocupação com a Criança, talvez seja a razão de alguns de meus cismares: se a livros eu vejo alguma sobraçada, fico a figurar-lhe o destino; essa, o seu andar marcial me redesenha um Alexandre de Macedônia, o campo transmudado em campa, o esperançoso verde das lavouras em espectro da fome; naquela, Newton, ou Pasteur, ou Carlos Chagas, ou Santos Dumont, ou Homero, ou Camões ou Gandhi...

E, de todas as maravilhas que nos envolvem, uma empolga mais, e a todas sobrepuja, a da perpetuação das espécies; gosto de acompanhar, como se eu fora uma máquina fotográfica de alta resolução, o seu contínuo desenvolvimento, o seu desabrochar, o seu permanente eclodir de energia e vida. Gosto de crianças.

Os extremos se tocam, diz-se.

Quando vejo uma criança, o tempo passado me volta, vejo os meus filhos, já adultos, balbuciando a doce palavra mamãe, engatinhando, fazendo o meu pescoço de cavalinho.

É verdade. Razão de eu gostar de crianças e velhos: ontem, esperança e promessa, a fragrância e o colorido da flor; hoje, as pegadas do caminho, a experiência, o lenho da construção, lembrança do belo e do permanente.

A criança é um eterno desabrochar; quando ainda no invólucro uterino, a mãe, só cuidados, carinho, amor e curiosidade, tateia-a através de seu corpo, idealiza-a, “vê-lhe” as formas; esse acompanhamento é incomparável, é sublime, é

Merecem amparo, respeito e reverência!

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Ubirajara Batista Franco Cadeira 26 – Uberaba

Ubirajara Batista Franco Cadeira 26 – Uberaba

CARRO DE BOIS Carro-de-bois, cantando lá na estrada, a varar o caminho do sertão, resquício de um Brasil tão grande e puro, de um tempo que não volta nunca mais! Da cultura tu és parte integrante, de um país que cresceu adolescente, que é gigante para ser menino e menino demais para ser gigante!

Devagar, não tens pressa de chegar aonde, com certeza, chegarás... Passos firmes na estrada lá da roça, relembras um passado bem recente, quando o homem ainda era livre da máquina que sempre o escravizou! Carro-de-bois, cantando lá na estrada, és a imagem de um tempo que passou...

Vez por outra, o aboio do carreiro faz coro com o teu cantar plangente. E esse canto de suave harmonia, traz o tom de uma triste despedida, adivinhando o teu ingrato fim: serás mais uma peça de museu... E os pobres bois, mugindo magoados, inocentes, serão sacrificados!

A PENA DE MORTE

N

aquele fatídico dois de maio de 1.960,sombrias nuvens empanaram o céu da Califórnia, enquanto pequena multidão aguardava que o carrasco quebrasse o primeiro frasco do mor- tifero gás na cela de execuções do presídio de San Quentin, on- de, algemado, se encontrava Caryl Chessman,o suposto bandi- do da luz vermelha.

ser submetido à vingança do Estado. Este monta uma fábrica de pobres-diabos e outra de extermínio, o que era praticado no nazismo. Os chamados crimes hediondos, praticados por doentes mentais, são castigados desde as botas dos soldados, até à pena dos juízes, quando deveriam ser melhor examinados à luz da ciência.

Através do opaco vidro, distinguia-se o vulto daquele homem que, durante doze longos anos, aguardou no "corredor da morte," o dia de sua execução, lutando com todas as suas forças para provar a sua inocência, cuja pena teria sido comutada se o telefonema do Governador daquele estado, tivesse chegado minutos antes.

Como já restou provado, o sangue de criminosos natos, agitam as cobaias e os seus cromossomos apresentam anormalidades inexistentes em pessoas mentalmente equilibradas. Demais disso, a Declaração Universal dos Direitos Humanos,estabelece o direito à vida e ainda preceitua que todos têm o direito de não ser submetidos a penas cruéis, desumanas e degradantes. Pior: no caso de pena de morte, o réu não tem o direito de apelar da sentença, o que lhe é facultado em penas menores. Diante de tantas arbitrariedades, não é de admirar-se que nos EE.UU. de 1976 a 1996, 112 negros foram executados, acusados de terem matado brancos. Por outro lado, no mesmo período, 25 pessoas inocentes, tardiamente reconhecidas como tal, foram executadas.

Mas, não chegou! E aqueles que ali compareceram, alguns movidos pelo desejo de vingança, entoaram loas de vitória, quando, finalmente avistaram a cabeça do prisioneiro tombar. Se aquele bárbaro ato lavou a alma da platéia, por certo, não lavou a criminalidade. Ainda que a justiça norte americana tivesse razão em julgá-lo culpado, como não restou totalmente provado, aquele ato cruel se constituiu em verdadeiro atentado ao bom senso, arranhando o consagrado princípio de Direito: "Summun jus, summa injuria" ou o excesso de justiça, incorre na injustiça.

Já tivemos no Brasil a pena de morte,a qual foi abolida pelo Imperador D.Pedro II, ante o erro judiciário que levou à forca um inocente e que abalou a Nação. Muito mais tarde, idealistas e intelectuais foram torturados e executados nos porões da ditadura, sem qualquer julgamento!

Excesso de justiça porque o prisioneiro já havia cumprido doze anos de cárcere. E esses anos todos de sofrimento no corredor da morte, comparáveis aos campos de concentração de Hitler, não se prestaram para amenizar sua pena fatal.

Na França, com a abolição da guilhotina, houve significativa diminuição da criminalidade. Já no Irã, a criminalidade aumentou com a implatação da pena capital, após a revolução islâmica.

Excesso de justiça, porque executaram não um bárbaro estuprador e assassino, como pretendiam, mas alguém que durante os seus anos de cárcere, aprimorou a sua alma, lendo os melhores autores, escrevendo três livros jurídicos, que se tornaram em "best-sellers" e formando-se em Advocacia, tendo ele próprio defendido a sua causa.

A palavra PENA, cruel sinônima de castigo, no meu entender, deve ser abolida de nosso código penal. O castigo, em suas várias acepções, nunca foi sinônimo de exemplo e no Direito não é contemplada como tal. Guerra Junqueira já dizia que abrir escolas é fechar prisões.

Foi como se condenasse João e matasse José!

A truculência dos favoráveis à pena de morte, acha-se diretamente ligada à vingança, o mais mesquinho dos sentimentos que, no reino animal, somente o homem cultua. Retruca-se que ainda não fomos atingidos pela maldade dos assassinos. Só para argumentar, cabe a pergunta se seria o mesmo o seu modo de pensar se o penado fosse seu irmão ou o seu próprio pai?

Os dois pilares em que se apóia a filosofia do Direito Penal, devem ser observados em todo Planeta, sob pena de se incorrer em crueldade desse naipe, ou seja, retirar o criminoso da sociedade para que não cometa outros crimes e tentar recuperálo. Uma pessoa sadia e mentalmente equilibrada, jamais seria um "serial-killer.» Na Suécia não existe o depreciativo nome "prisioneiro", massim "interno" e, não raro, os próprios carcereiros são formados em Psicologia.

Ademais, quem conferiu o mandato a um homem falível e pecador, como todos somos, de mandar assassinar alguém de caso pensado, apenas porque tem diploma de curso superior?

Mas ainda que o criminoso fosse um assassino incontrolável, movido por mórbida impulsividade, não poderia

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Presentes as palavras de alguém que via além de nós: "Eu vim para que tenham vida e vida em abundância."

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Ubirajara Franco Cadeira número 25 - Uberaba MG

A CARTILHA ANALÍTICA

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homem que tinha a cara e o jeito de todos os h o m e n s , a b o rd o u - m e à e n t ra d a d o supermercado e, desculpando-se, perguntoume se podia ajudá-lo a comprar o material didático para os seus dois filhos que estavam na escola.

E, a escola da vida, livre do apelo da televisão, dos computadores e de toda parnafenália dos jogos e brinquedos eletrônicos, era o grande incentivo à criatividade infantil. Quase todos os nossos brinquedos éramos nós mesmos que fabricávamos: o carrinho da lata de goiabada, os estilingues, as arapucas, os bilboquês de latinhas de extrato de tomate, as bolas de meias,os aviãozinhos de pita...

Ato contínuo, exibiu-me duas listas quilométricas com a relação de cadernos, livros, folhas avulsas, lápis de todas ascores, canetas, borrachas, apontadores, réguas, atlas, baú, etc. e tal.

Brincávamos de tudo, ainda que não existissem orientadores diplomados em psicologia, a traçar nossos improvisados roteiros. Naquela quadra ditosa da infância, "livres filhos das montanhas.. A camisa aberta ao peito, pés descalços, braços nus," como a retratou Casemiro de Abreu, os meninos não conhecíamos os jogos bélicos dos "video-games" e as suas engenhosas e fatais disputas, que propiciam o simbólico extermínio dos brinquedos dos companheiros. As nossas rixas eram resolvidas ali mesmo, no muque! Nada de rancores depois. Algum ôlho roxo, se prestava, quando muito, para lavar as nossas almas.

Fitei-o nos olhos sinceros, as listas já um tanto sujas em suas mãos grossas, e pude compreender toda a dificuldade de um pai, que, como pai, sonha ver seus filhos estudando. E fiquei pensando no meu primeiro dia de escola, nas "Eslas Reunidas" de Abadia dos Dourados, hoje "Grupo Escolar Pedro Álvares Cabral," de minha terra natal... Naquela época,e quantos anos já se vão, não havia o "Jardim de Infância." E lá cheguei eu, todo vaidoso, a pasta escolar de madeira e, dentro dela, a pequena lousa, o Livro de Paulo, a tabuada e a cartilha analítica. Tudo de segunda mão, é claro!

- "Quem não tiver medo, cospe aqui na minha mão!» E a mão sempre era abaixada, deixando que o cuspe aingisse o rosto dooutro. Mas, afinal, quem foi que disse que o ensino de hoje é mais eficiente? Qual foi o inteligente que inventou as enormes listas de material escolar, a sobrecarregar as crianças com intermináveis tarefas para serem feitas em casa, roubando-lhes parte da infância e levando o dinheiro de muitas famílias, reservado ao pão de cada dia? Isso eu não sei!

Só não estou lembrado se havia um caderno, uma vez que todos os exercícios eram feitos na lousa. Acho que não havia mesmo, até porque, no primeiro ano, a professora não passava "deveres" para casa. Ainda tenho nos ouvidos a alegre algazarra da molecada a debandar-se rua acima, quando o sinal tocava, anunciando o término da aula. Era o sinal da liberdade e que nos incitava à escola da vida, e que não se limitava somente aos enormes quintais de nossas casas, mas, sobretudo, às ruas, vazias de carros e de malandros, mas cheias de calor humano, onde sempre nos esperava um torneio de piões ou mesmo uma "pelada"no largo da Matriz.

Mas, de uma coisa eu tenho certeza: o infeliz inventor da moderna didática escolar e mesmo pré-escolar e que, certamente não teve infância, não foi nenhum daqueles que cursaram as escolas do meu tempo!

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Arahilda Gomes Alves Colaboradora – Uberaba MG

PARALELISMO: ARTE E PENÚRIA

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egundo a História, a maioria dos artistas, principalmente, compositores músicos, é fadada a tribulações e penúrias. Talvez, por relevarem a arte em detrimento do “vil metal”.

a 10ª Sinfonia, que não a escreve... Schubert (17971828),veio de família pobre e de prole numerosa. De bela voz, tímido, desajeitado e complexado de seu físico, porém. Era-lhe fácil o domínio da música por seu gênio inato. Passando necessidade, pesa-lhe o afastamento dos muitos amigos, sem amores e sem saúde. Suas peças editadas não os sustentam. Mora de parede-meia com Beethoven e se queixa de que o músico não comenta as composições que lhe envia. Pouco se visitam e Schubert só fica a seu lado, no leito de morte. Dizem que Beethoven comentou com amigos: “Na verdade, há em Schubert, a divina centelha.” Morre de febre tifo aos trinta e dois anos e enterram-lhe ao lado de Beethoven, conforme seu desejo. Schumann (1810-1856) começa a compor aos doze anos. De grande vocação literária, traduz Horácio. De constituição nervosa doentia agravada por problemas familiares e o não consentimento de se casar com Clara, malgrado decisão do pai, seu mestre de piano. Certa vez, tenta afogar-se no Reno. Recolhe-se ao Hospício e morre na presença da esposa Clara e de Brahms. Liszt(1811-1886) compositor profícuo e de difícil execução alargando recursos técnicos do piano,tinha grande satisfação em difundir composições do passado e de seus contemporâneos.Generoso,distribuía seus ganhos com nobres causas.Contribuía generosamente,com movimentos filantrópicos e com o monumento a Beethoven,em Bohn, terra natal deste.Pela proibição do papa Pio 9 ao seu casamento,mesmo depois da morte do marido da princesa Wittgenstein,entra para as ordens menores do clero.

Vivaldi, (1675-1741) do classicismo romântico, ordenado padre e por trinta e seis anos dera aulas de violino. Saúde precária, nunca celebrara missas cuidando pessoalmente da receita e despesa de seus espetáculos como empresário. Devido a excessos de prodigalidade, morre pobre. Mozart ( 1756-1791),não gostava de dar aulas às pessoas desprovidas de dons artísticos..Negociava mal,suas produções. Difícil lhe era equilibrar receita e despesa. Físico insignificante, não impressionava como homem. Não obtinha cargo oficial suficientemente remunerado para seu sustento. Pedia dinheiro emprestado aos amigos. Era-lhe difícil financiar a saúde com os prazeres da esposa Constança, em Baden e mal provia suas necessidades em Viena. Fora enterrado em vala comum. Beethoven, (1770-1823) o mestre das Sonatas e das Sinfonias, arcabouço iniciado por Haydn e Mozart, fora pianista prodígio aos onze anos e organista da Corte, aos quatorze. Mozart o ouvira prevendo futuro de gênio. A dramaticidade em suas composições, talvez se deva à surdez aos vinte e oito anos agravando-se aos trinta e um, sempre procurando escondê-la culminando-a com total surdez aos cinquenta e quatro, três anos antes de sua morte. Nunca se casara, embora se apaixonasse por várias mulheres. Beethoven atravessa do classicismo ao romantismo. A Revolução francesa influencioulhe a criação da Sinfonia Heróica dedicada a Napoleão, rasgada depois, a dedicatória, por ver no revolucionário,mais um tirano.Célebre,mas sem situação fixa,recebe pensão vitalícia por pouco tempo,por escassearem recursos dos dois amigos que o proviam. Da única ópera-Fidélio - favorece ao sobrinho a quem cria, mas que lhe traz muitos aborrecimentos. Sua agonia, de dois dias, acometido de icterícia, reumatismo, peritonite, infecção visual mais a surdez levaram-no à morte, mal iniciando

Lendas e mistérios evocados trazendo à baila histórias envolventes de romanescas biografias.

Arahilda Gomes Alves: pioneira, em Uberaba, da 1ª ópera com artistas locais, em projeto original- “As bodas de Fígaro” de Mozart (2008);Cônsul dos Poetas Del Mundo;membro da ALTO; da Revista Eletrônica ZAP;do Clube Brasileiro da L.Portuguesa (BH)

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Arahilda Gomes Alves colaboradora

Ani Bittencourt Arantes Iná Bittencourt Barbosa Sócias correspondentes pedagogas e pesquisadoras

A POESIA TEM DIA

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ensar, agir e sentir é inerente a quase todo homosapiens. Como disse o filósofo: ”penso, logo existo”, bom seria se toda a humana raça pensasse antes de agir, dentro da gradação acima. Costumo apregoar que o sentimento nos leva a pensar pra depois agir, enquanto a emoção, nos leva a agir pra depois pensar. Acho que nem sempre quem é levado pela emoção, realmente pesasse o seu pensar. Talvez, coisas e feitos não atingiriam resultados catastróficos. Mas, se todos fizéssemos da poesia, o caminho do pensamento profundo e sentido, o mundo caminharia sobre tapetes vermelhos comemorando grandes e vitoriosas jornadas. Infelizmente, a humanidade está mais para feitos fétidos, que para os perfumados a exalar essências de inesgotáveis odores.

segundo poetou Tom Jobim e Ellis Regina com ele, ratificou em magnífica interpretação. E o que é essa interpretação, que penetra o coração e transborda na alma, não fora o desabrochar de artistas, compositores, cantores e toda a gama de operários da arte a ratificar sentimentos exaltando a beleza, que nem todos querem enxergar? Pobres de espírito, ou como ousamos dizer, monstros, que arrastam a carcaça, envenenam o espírito, mortalhas de caminheiros errantes, sem oásis de chegada, sem sombra amiga onde deitar o corpo cansado, nas encruzilhadas levando para mais longe, sonhos, paz, felicidade. Precisamos “carpir” através da palavra poética, a palavra que reanima,emociona, leva a refletir, quer nos campos de batalha, quer nas fontes dos livros, quer pelos caminhos da devastação. Verbo é ação, não é só conversa inútil, ou fútil! A palavra resgata, energiza e alenta. Não é imagem quebrada desprovida de ação.Ela sempre constrói arquiteturando imagens sólidas, edificações que permanecem no escondidinho da alma. Não adianta ignorá-la. Mesmo ao analfabeto traz magia se a escuta. Por que não, àqueles a quem Deus dotou de oportunidades e estudos para desenvolver o intelecto, se esforçam por ignorá-la?A alma precisa de paz e só a palavra que constrói a povoa de reflexões e ações, quer venham nas asas de um sonho de muitos sons poéticos, proféticos ou musicais, ou mesmo professoral. O que jamais a banaliza, a chicoteia, a expurga, a derrota, a enxovalha. Ela sempre sobe aos céus em forma de prece.

Há dia pra tudo, praticamente, para refletirmos sobre datas aprimorando a sensibilidade, que deveria desabrochar em cascatas nos veios sanguíneos de todos nós. Cascatas, termo poético de águas a descer romântica e docemente extasiando os olhos enchendo o coração. Quem não a vê assim, não tem um tiquinho de sensibilidade e jamais resgatou a alma em benéficas imagens poéticas. Não é utopia, papo de anjo ou demônio. É papo sério, que transpõe abismos, rios, montanhas e mares “nunca dantes navegados”, onde nem Camões se banhou. Água é sinônimo de transparência e pureza. Hoje em dia é imagem mortuária de alagados, maremotos, devastação. Uma enxurrada de imagens poderia ser acrescentada a ela e outras palavras símbolo que enfeitavam a natureza dadivosa. Se castigos veem a galope, conforme velho axioma, hoje chegam pela terra e pela atmosfera, palavras, antes poéticas, que o homem vem destruindo levado pela ambição e outras energias negativas.

Daí... meu exercício poético: O Cristo Redentor/Em magnânima ação/Prescreveu à humanidade/O gesto humilde do perdão./Eis que o homem,nada afeito/Dissimulando tal preceito/Faz do ódio,sua lição.

Precisou-se criar o Dia da Poesia, tanto nacional (14 deste) e internacional (a 21 de março.) Bastaria o último, não fora a alma poética do brasileiro a homenagear Castro Alves nascido a 14 deste mês de águas de março enfeitando o verão,

Por tudo isso, lá da devastada terra chilena, o canto forte do poeta Luiz Arias Manzo criou, há cinco anos, os Poetas Del Mundo com 130 países trabalhando a palavra, que destrói obstáculos agindo em causas solidárias. A nobreza do gesto acionando pensares. Predição? Premonição?...

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“GÊMEOS... JOIO E TRIGO”

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ossa infância foi passada na Rua Carlos Rodrigues da Cunha, Centro de Uberaba – MG. Lá, como costuma ocorrer no mundo das crianças, era delicioso brincarmos ao ar – livre cercadas de meninos e meninas. Estes deixaram marcas indeléveis em nossa memória: na maioria das vezes, nunca sabiam distinguir Iná de Ani e Ani de Iná. De fato, sentíamos certo prazer íntimo de trocar de identidades – não exatamente de nomes –; por isto a confusão era total! Às vezes, passávamos um dia, por assim dizer, permutando papéis e, com frequência, nos deparávamos a nós mesmas um tanto confusas, sem consciência clara de nossas identidades, agindo cada qual como a outra agia. No caso de gêmeos, só passando por tais experiências é que se caminha rumo à verdadeira individualidade.

nos versículos 24 e 26, Jacó nasceu segurando o calcanhar de Esaú... Nós, Ani e Iná, somos gêmeas na matéria, almas gêmeas no espírito. Vincula-nos uma união profunda em níveis físico, mental e espiritual. Sempre juntas nas alegrias e nas tristezas, nas aventuras e desventuras, nos sucessos e nas decepções da vida. Partilhamos com muita intensidade sonhos, anseios, ideais, sorrisos, lágrimas, palavras de conforto ou de esperança como poucas pessoas, na vida, têm oportunidade de fazer. Sob outro aspecto, temos, ambas, afinidades especiais, a exemplo de muitos gêmeos univitelinos. Eis que nascemos gêmeas por bênção divina e, como todos os gêmeos afins, somos o Trigo... As gêmeas rivais que são fruto de nossa pesquisa, resultando no livro “Gêmeos... Joio e Trigo”, submetiam a todos os que delas se aproximassem a um jogo de identidade. Os professores eram incapazes de distinguir uma da outra. Quando perguntavam por uma, tinham certeza de que era outra quem aparecia, e vice-versa.

Quando a noite já ia caindo, a meninada na rua vinha nos chamar e sabia que, se uma estivesse em casa, a outra, com certeza, também estaria. Em nossas brincadeiras, até a energia física das duas parecia a mesma: se uma se cansava e ia sentar-se na calçada, a outra fazia o mesmo, a fim de tomar fôlego. Se uma ia para casa, a outra também ia. Com isto, as crianças se esforçavam para agradar às duas, pois que perder uma participante do jogo implicava em perder a outra. Era possível que, de certa maneira, tal simultaneidade nos atos fosse mais um “artifício” de nossa parte: era preciso agradar às duas, senão, a brincadeira terminava... Somos gêmeas afins.

O pessoal da Escola aplicava aquele comportamento estranho, dizendo que se tratava de uma única mente dividida entre duas pessoas... Mas a semelhança uníssona das gêmeas era apenas um artefato dos anos que haviam passado com seus jogos contra o mundo. Tinham praticado a arte para parecer idênticas. As próprias gêmeas acreditavam que uma podia ler o pensamento da outra, mas um exame mais profundo demonstrou que suas mentes não combinavam.

Por tudo isto, sempre nos despertou grande curiosidade para saber se todos os gêmeos eram como nós, tinham esta cumplicidade, esta intimidade... esta dedicação, esta benevolência.

A despeito da aparência externa idêntica, havia entre as duas um abismo quase tão grande entre elas e o mundo! Estavam sempre vigilantes, mas geralmente interpretavam de modo errôneo, os movimentos uma da outra. Cada qual havia criado fantasias exageradas sobre o que a outra pensava e planejava. A guerra era iminente!

Começavam aí nossas pesquisas. Hoje, descobrimos que existem gêmeos que se odeiam e, dependendo do grau de agressão com que se violentam, podem converter-se até em inimigos mortais! São os gêmeos na matéria, fisiologicamente idênticos, mas não têm laços de afinidade entre si, nem emocionais nem de personalidade, muito menos espirituais. Não compartilham sonhos ou ideais, porém disputam entre si bens materiais, amores, poder político e, muitas vezes, chegando ao ponto de cometerem falcatruas igualmente entre si. Em resumo, são gêmeos inimigos, são rivais, são o Joio... Com fundamento corroborante, desejamos ilustrar o citado antagonismo inato com a citação bíblica de Gênesis, capítulo 25, em cujo versículo 22, os futuros irmãos gêmeos, antagônicos e rivais, Jacó e Esaú, filhos de Isaac e Rebeca, já brigavam no ventre materno, ao passo que,

Em nossas pesquisas, constatamos essa espécie de gêmeos que, aparentemente são idênticos, possuem uma alma, um espírito, uma mente por completo diferente mas, por serem idênticos, enganam as pessoas passando por gêmeos afins... Mesmo assim, porém, tais gêmeos tidos como “joio”; devem ser respeitados; não devemos julgá-los como irmãos fraternos, mas como irmãos univitelinos, porque são movidos por algo mais profundo – uma força sobrenatural, uma herança, uma energia que a Ciência, um dia, poderá explicar satisfatoriamente.

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Maria Antonieta Borges Lopes Historiadora – cadeira 21 ALTM

UBERABA: DA ALDEIA CAIAPÓ À METRÓPOLE ESTUDANTIL

Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

A resistência e os ataques dos caiapós foram freqüentes e causaram transtornos às expedições que transitaram pela região em direção a Goiás, seguindo a picada e depois a estrada aberta pelo Anhanguera. Para subjugá-los foi enviado, pelo governo de Cuiabá (1742), o Coronel Antonio Pires de Campos, que auxiliado por cerca de 500 índios bororos, de Mato Grosso, conseguiu dispersá-los para o oeste e norte de Goiás. Estes bororos foram alojados em 18 aldeias situadas ao longo da Estrada do Anhanguera, a fim de abastecer e proteger as expedições posteriores.

UMA AUSÊNCIA RESGATADA: OS PRIMEIROS DONOS DESTAS TERRAS

tentando escapar do destino que o convívio com o branco lhe oferecia.

O viajante francês Saint Hilaire que percorreu a província de Goiás, passando depois pelo Triângulo Mineiro entre 1818/1819, manteve contato com os caiapós que habitavam as proximidades de Vila Boa de Goiás, descrevendo seus costumes, hábitos alimentares, sua luta pela sobrevivência e organizando um pequeno dicionário de seu vocabulário. Descreveu também, a vida nas aldeias bororo, ou o que restava delas e a situação em que encontrou a Aldeia de Farinha Podre, atual Uberaba.

Escrever sobre a história do município de Uberaba, a partir da fundação oficial do Arraial de Santo Antonio e São Sebastião de Uberaba, pelo Sargento-mor Antonio Eustáquio da Silva Oliveira, é reforçar a idéia colonialista de que somente passamos a existir a partir da chegada do colonizador ou desbravador português.

Este encontro fatal iniciado ao largo das praias brasileiras vai se repetir do interior do sertão quando os colonizadores se organizaram em expedições para a descoberta e conquista das regiões do ouro. Para consegui-las tudo lhes seria permitido e concedido pelas autoridades portuguesas.

Mais tarde, Alexandre Barbosa de Souza organizou um pequeno dicionário de palavras da língua caiapó que ele recolheu numa aldeia simples, situada no pontal do Triângulo Mineiro, ainda habitada por remanescentes dos caiapós, no início do século XX.

Na realidade, quando os portugueses aqui chegaram, como tão bem descreveu o saudoso antropólogo Darcy Ribeiro, toda a costa atlântica, assim como as margens dos rios mais caudalosos e seus afluentes, eram ocupadas por inumeráveis povos indígenas que, disputando entre si as melhores terras, se alojavam e desalojavam incessantemente. Não constituíam uma nação, eram vários povos tribais, falando línguas do mesmo tronco, dialetos da mesma língua. Somavam talvez (as estimativas variam muito e são pouco confiáveis) de um a um e meio milhões de índios. Não era pouca gente. Portugal teria possivelmente a mesma população, ou um pouco mais.

AQUI SURGEM OS CAIAPÓS À macro etnia tupi, com sua unidade lingüística e cultural, opunham-se os povos designados pelos portugueses como “tapuias”. Eram considerados inimigos irreconciliáveis, imprestáveis como escravos porque seu sistema adaptativo contrastava muito dos tupis. Era o caso dos Bororos, Xavante, Kaiapó (Caiapó), Kaingang e dos tapuias em geral. Os índios caiapós formavam, no início do século XVIII, uma poderosa nação espalhada pelas nascentes do Rio São Francisco ao Rio Mogi Mirim. Dominaram esta região até o século XIX.

A introdução, no seu mundo e nas suas vidas, dos novos personagens europeus, mudou radicalmente o seu destino. Os recém-chegados, embora em pequeno número, eram agressivos, atuavam de diversas formas, inclusive usando uma verdadeira “guerra bacteriológica” que transmitiu infecções mortais sobre a população indígena debilitando-a e dizimando-a. Foi também uma guerra ecológica pela disputa do território, com suas matas, suas riquezas que passaram a ser exploradas para outros usos desconhecidos dos nativos. Também pode ser considerada uma guerra econômica e social pela escravização do índio, pela introdução das relações mercantis de produção, articulando o “novo” ao “velho mundo”, como provedor de gêneros exóticos, escravos e ouro.

Segundo João Mendes de Almeida caiapó significa “oriundo de matos alagadiços”. O historiador uberabense Hildebrando Pontes os descreve como “inteligentes, mas desconhecedores do uso da rede, da canoa e também da cerâmica”. Diz que “eram habilíssimos na confecção de jacás ou cestas”, artesanato que permaneceu freqüente, na zona rural da região, durante longo tempo. Afirma ainda que “eram bons caçadores, de índole pacífica, porém terríveis quando atacados”. Foram os caiapós que os bandeirantes paulistas, chefiados por Bartolomeu Bueno da Silva – o Anhanguera (pai e filho) encontraram nesta região ao explorá-la, no final do século XVII e princípio do século XVIII, à procura do caminho para as sonhadas minas de ouro dos índios Goiás.

No início, os índios viram a chegada dos portugueses como um acontecimento espantoso, mítico, mas a visão idílica logo se dissipa. Os que puderam, fugiram mata adentro

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até 1816, quando um Alvará de D. João VI determinou sua transferência para a capitania de Minas Gerais. O arraial se torna uma Freguesia em 2 de março de 1820, o que significa que já era uma paróquia, contando com um pároco residente e tendo autonomia para registrar na Igreja nascimentos, casamentos e óbitos. Em 22 de fevereiro de 1836, graças à política descentralizadora e de valorização dos municípios implantada no período regencial (1831/1840), o arraial é elevado à condição de Vila. Esta é, sem dúvida, a data mais significativa no processo evolutivo (político e administrativo) da história de Uberaba. Atinge a sua emancipação política, torna-se um município autônomo, com território demarcado e contando com uma Câmara Municipal escolhida através de eleições. Durante o Segundo Reinado, considerando o grau de desenvolvimento atingido pela Vila de Santo Antonio e São Sebastião de Uberaba, D. Pedro II, em 2 de maio de 1856, elevou-a a categoria de Cidade. Completava, assim, sua evolução política e administrativa equiparando-se legalmente aos grandes centros urbanos do país. Concluindo, podemos dizer que o desenvolvimento histórico de Uberaba se estende do estudo de seus habitantes primitivos, do período de desbravamento da região pelos bandeirantes paulistas, passando pela chegada dos entrantes do Desemboque que instalaram as primeiras fazendas de criação e o pequeno núcleo urbano, pelo desenvolvimento das atividades comerciais que marcaram o século XIX, pela introdução da pecuária zebuína que caracterizou a primeira metade do século XX e pelas transformações econômicas, sociais e culturais iniciadas nos anos 40 e solidificadas na segunda metade do século XX.

Estes trabalhos de Saint Hilaire e Alexandre Barbosa de Souza permitiram ao historiador Odair Giraldin identificar a presença dos índios caiapó/panará que sobrevivem hoje, no Parque Nacional do Xingu.

FREGUESIA, VILA, CIDADE: A EVOLUÇÃO HISTÓRICA A compreensão da realidade regional exige uma análise do contexto onde ela se insere e de suas raízes históricas que podem ser encontradas:

A EVOLUÇÃO URBANÍSTICA: AS MARCAS DO SÉCULO XIX

· no colonialismo português, escravista, latifundiário e monocultor;

Uberaba, como a maioria das cidades brasileiras cresceu espontaneamente, acompanhando o curso das vertentes que a banham, adaptando-se à topografia da região o que explica suas ruas tortas, em curvas, subindo e descendo morros, sobretudo as mais antigas.

· no Império que mantém aquelas características e lhes acrescenta o regime oligárquico e o centralismo; · na República que, apesar dos ideais federalistas e de inaugurar-se sob o signo da abolição dos escravos, manteve o latifúndio exportador, a centralização, o regime oligárquico, o autoritarismo e a exclusão social dos herdeiros da escravidão.

Inicialmente, como ocorria com a maioria das cidades brasileiras, era um local secundário, pobre, destituído de conforto, já que a maior parte da vida social transcorria nas fazendas de criação de gado e de produção agrícola de subsistência.

Além disto, o estudo da região e da história do município precisa levar em consideração as diferenciações próprias de uma região marginal, periférica na economia do país: o “sertão”, palco de passagem, encontro e confronto de paulistas, mineiros e goianos.

A localização geográfica estratégica, a meio caminho entre os grandes centros importadores e consumidores do litoral e o vasto sertão do Brasil Central, vai aos poucos transformando a pequena vila em “Boca do sertão”, praça privilegiada para as trocas de mercadorias que vinham do litoral (sal, tecidos e artigos finos, ferragens, etc.) e as que chegavam do sertão interior (gado em pé, carne seca, marmeladas,

Na realidade, o Sertão do Novo Sul ou Sertão da Farinha Podre, fizera parte da capitania de São Paulo até 1748, quando passou a integrar a capitania de Goiás, a que pertenceu

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toucinho, etc.).

oficiais.

Durante o período colonial, as vilas e cidades apresentavam aspecto uniforme, com casas térreas e sobrados, construídos no alinhamento das ruas, sem jardins ou calçamento. As técnicas construtivas eram rudimentares: adobe, taipa de pilão, pau-a-pique. As paredes eram rebocadas com estrume, caiadas, os portais e janelas pintadas a óleo. As casas mais ricas eram maiores, mais espaçosas, com mais cômodos, mas as técnicas construtivas se repetiam.

A continuação da estrada de ferro em direção a Uberlândia (1895), Araguari (1896) e Catalão (1913) retira de Uberaba sua interessante posição de “fim-de-linha” e com isto perde a hegemonia comercial que vinha exercendo em relação às regiões já referidas. Este fator gera um período de crise econômica que caracteriza os últimos anos do século XIX e início do século XX.

A chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808, altera bastante a vida brasileira, sobretudo no Rio de Janeiro e outras grandes cidades. A abertura dos portos e o maior contato com a Europa facilitam a introdução de produtos industrializados e a expansão da influência européia na moda e nos costumes.

TEMPOS DE ZEBU A cidade só consegue vencer a crise econômica, com o retorno à atividade pecuária. Mas agora, uma pecuária diferenciada – a zebuína. Numa atitude pioneira, os uberabenses decidem eliminar os intermediários (criadores e firmas importadoras do Estado do Rio de Janeiro) e ir diretamente à Índia – fonte dos reprodutores zebu - que eles acreditavam, com firmeza, seriam capazes de melhorar decididamente a qualidade do rebanho bovino que aqui se criava.

É neste contexto que nasce Uberaba. Evidente que estas influências não chegam logo a estes sertões. Mas, graças à atividade comercial que se desenvolvia rapidamente na “Princesa do Sertão”, a cidade torna-se passagem obrigatória de mercadores e se firma como entreposto comercial natural, para abastecimento do sul de Mato Grosso e Goiás.

O zebu consolida uma nova fase de progresso econômico já bastante promissor em 1906, quando se realiza na fazenda Cassu, a primeira exposição regional daquele gado. De 1910 a 1920, a economia uberabense se desenvolve com o comércio e a seleção das raças zebuínas e a cidade vivencia um novo período de acúmulo de riquezas, embora bastante concentrada nas mãos dos que se dedicaram à nova atividade. Esta concentração de riqueza se revela na introdução de modismos arquitetônicos da “belle époque” incorporados nas construções: novos modelos, novas técnicas, novos materiais. As sofisticações do estilo eclético se tornam presentes em todas as ruas e praças centrais. As sedes de fazenda que, muitas vezes, eram de construções simples, também passam a sofrer as influências do ecletismo: recebem adornos e elementos que sofisticam as fachadas e interiores.

A Missão Francesa de artistas, que acompanha ou se segue a chegada da Corte, inicia um movimento de renovação das artes, principalmente da arquitetura, introduz e impõe o estilo neoclássico no Brasil. Ele se torna o estilo oficial do Império e perdura até o início do século XX, sendo empregado com freqüência na construção de edifícios oficiais, sobretudo escolas e hospitais. As construções neoclássicas revestem a cidade e neste estilo são construídos os sobrados comerciais/residenciais da Rua do Comércio (Artur Machado) e ali permanecendo até os anos de 1930/40. Na medida em que a cidade cresce, expande-se a malha viária, o núcleo urbano se impõe como um centro de negócios e de convívio social e cultural. Vários melhoramentos vão sendo introduzidos: iluminação pública a querosene (1882), elétrica (1905), construção obrigatória de “passeios” (calçadas) (1892), inauguração da primeira praça - Rui Barbosa - (1885). A vida cultural se enriquece com a criação do Liceu Uberabense (1877), do Teatro São Luiz (1876), da Escola Normal (1881), do Instituto Zootécnico e Agronômico (1896), do Colégio Nossa Senhora das Dores (1885), do Seminário Episcopal (1896) e já no século XX do Colégio Marista (1903). A cidade assumia seu papel de pólo irradiador da educação e cultura.

O centro recebe calçamento, surgem leis que regulamentam as construções e reformas (1909), a Lei das Fachadas (1911), enfim há uma preocupação com o embelezamento da cidade. A Praça Rui Barbosa constituía um conjunto arquitetônico extremamente representativo da civilização que aqui se implantou com o desenvolvimento da pecuária zebuína. Ali estavam representados o ecletismo e o “art – deco”, contemporâneos dos dois períodos de maior apogeu do zebu. Era a praça-síntese, a praça-documento, a imagem viva de uma cultura e de um estilo de civilização, de poder e de um modo de ser e viver que marcaram momentos decisivos da formação de Uberaba. As construções desta praça, juntamente com as da Rua Artur Machado, exprimiam valores e tendências que aqui prevaleceram no século XIX e início do XX.

A chegada da estrada de ferro da Companhia Mogiana, em 1889, marca o auge da efervescência comercial e cultural, com o estabelecimento de grandes casas atacadistas e a inauguração de escolas e associações artísticas e musicais. Grande parte destas transformações se deve à chegada dos imigrantes italianos, espanhóis, sírio-libaneses, japoneses que introduzem novos hábitos, novas técnicas construtivas, especialmente o estilo eclético nas construções residenciais e

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passara por uma crise na segunda metade dos anos 20) Uberaba se incorpora ao movimento modernista.

Enfermagem e Biomedicina.Transformada em Universidade, em 2006, vem abrindo novos cursos, incluindo as diferentes licenciaturas para atender às necessidades do ensino fundamental e médio. Surgem ainda outras faculdades isoladas como a de Ciências Econômicas e Contábeis, Administração, por iniciativa da Associação Comercial de Uberaba (ACIU) e a Faculdade de Zootecnia e Agronomia (FAZU), iniciativa da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) que também se expandiu com a criação de outros cursos. O nível do ensino e pesquisa ministrados por estas instituições tornou Uberaba uma verdadeira metrópole universitária.

A Semana de Arte Moderna (1922) traz uma importante renovação nas artes, em geral, e a arquitetura se beneficia da liberdade criativa trazida pelo modernismo e pela industrialização do país, a partir de 1930. O crescimento dos negócios de gado traz um afluxo de dinheiro que termina por impulsionar novas transformações urbanísticas: canalização dos córregos centrais, abertura de avenidas, calçamento de ruas, ampliação da rede água e esgoto, ajardinamento de praças.

Também dos anos 50 em diante, o Brasil adota a industrialização como meta desenvolvimentista e o país vai se tornando cada vez mais urbano e industrial. Com o planejamento global da economia (Planos, Metas, Planos Qüinqüenais e outros), o sistema capitalista se afirma e as regiões periféricas passam a ter a sua economia definida dentro das grandes metas do desenvolvimento nacional. O processo de descentralização industrial leva à criação dos projetos Pólo Químico (sobretudo indústrias de fertilizantes e defensivos agrícolas) e POLOCENTRO, que facilitam o desenvolvimento da agricultura de grãos nos cerrados e chapadões do Triângulo Mineiro. A cidade de Uberaba recebe vultosos recursos para instalação de seus Distritos Industriais e para adaptar a sua estrutura urbana aos padrões exigidos pelas cidades em vias de industrialização.

As tendências modernistas do estilo art-decó se fazem sentir na geometrização das fachadas, na libertação dos edifícios em relação ao alinhamento das ruas. O novo estilo está presente em hotéis, clubes, associações classistas e em inúmeras residências no centro e nos bairros.

DIVERSIFICAÇÃO ECONÔMICA E METRÓPOLE UNIVERSITÁRIA Após a crise do zebu que se estendeu de 1946 a 1954, desfaz-se a relação mais direta entre o aspecto da cidade e a economia local. Nos anos 40, busca-se diversificar a economia e reforçar a vocação da cidade como centro educacional, que já despontara desde o século XIX. Sucessivamente, vai se instalando o ensino superior. O ponto de partida para o aparecimento da Universidade de Uberaba se dá no antigo Liceu do Triângulo Mineiro onde se instala, em 1947, a Faculdade de Odontologia (antigo sonho uberabense que já tivera uma existência efêmera em 1937/39). A seguir, as Irmãs Dominicanas, que já mantinham o Colégio N.S. das Dores, fundam a Escola de Enfermagem Frei Eugênio (1948) e a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Santo Tomas de Aquino (1949). Em seguida, nos anos 50, surgem vários cursos das Faculdades Integradas de Uberaba (FIUBE) que, transformada em Universidade de Uberaba, em 1988, hoje oferece um grande número de cursos de nível superior sejam presenciais ou a distância. Paralelamente, surge a Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro – FMTM (criada em 1954 e federalizada em 1960), que instala, mais tarde, os cursos Superiores de

Surgem novos bairros e conjuntos populacionais que abrigam a classe operária. Canalizam-se os córregos que cortam a cidade, alargam-se e alongam-se as avenidas que recebem a rede bancária. Ao longo das últimas décadas, Uberaba foi perdendo suas características originais, que a individualizavam. Foi destruindo, em nome da modernidade, o seu patrimônio histórico edificado que a distinguia como uma importante cidade com raízes no século XIX e que apresentava um desenvolvimento diferenciado, para uma cidade do interior, no início do século XX. Vai procurando se enquadrar nos padrões homogêneos e pré-estabelecidos de uma urbe que persegue, imita, ou acalenta o sonho de ser “grande”, ainda que isto signifique tornar-se também “sem memória”.

Novamente nos anos 30/40, especialmente entre 1935 e 1945, com o revigoramento da pecuária zebuína (que

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Convergência - nº 24 - novembro 2011 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

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Carlos Donizete Bertolucci correspondente da ALTM - Uberaba MG

Carlos Donizete Bertolucci correspondente da ALTM - Uberaba MG

CABEÇA DE ESTADO Novamente

Cessado o galope dos Quintos

As províncias se exaltam

Ao óbice do Mártir Nacional!

E desembainham seus verbetes plebiscitários

DOMINGOS Perdida em Atlântida

Porque se foram Tantos domingos tediosos

E sinto falta

Hoje perco

Daqueles domingos

Que refletem a região!

Agora, a terra em Estado

Ao divã

(com você pendurada em mim)

Somente os poderes

Proclama

Aquelas tardes chatas

Sem homenagens póstumas

De um calor infindo

Sem reflexões

Liberdade nas divisas que circundam

Tantas cadeiras pelos caminhos

Naquelas tardes monótonas

Entre seus rios, seus prados, suas serras...

Forro de mesa manchado, -

De aniversários de meninos

Seus mananciais, seus cerrados, seus chapadões!...

Gritos, risos...

Mas não posso, -

Atravessam as fronteiras E os rios seguem seus destinos... O que faz a flora

Em Nova Iorque é verão, -

Piadas sem graças...

Nas divisas opostas

Um avião não identificado

Permutarem seus polens

Já é agora

Sem conclamar por etnia?

A continuidade de sua vida própria?

Hoje é tarde em Nova Iorque:

Invadiu o espaço aéreo de Washington,

_Tão quanto os peixes

O rio Grande, o Paranaíba e o São Francisco

Sinto calafrio daquele inverno

De Roma além

São rios que nascem que se abraçam que correm

Que não vimos

Repouso em um divã

E que vivem

(Com você pendurada em mim...)

Sem você pendurada em mim

Outra vez

Entre outros que se dividem

De Roma pra lá

E em minha redoma

O órfão impõe as divisas

E se ajuntam

Um mar Morto sem sepulcro

Estou isento de atentados.

Dos rios que divisam!?

Conservadas por força ativa

Para viverem na glória

Sem campa, -

Que acaso

De serem confraternizantes:

Ausência de júbilo consonante

Queria ter ido, mas não fui

Insere na trigonometria

Não pertencerem a coronéis,

No Muro das Lamentações.

E fiquei,

(Cabeça de Comarca, Arraial de Mineiros;

Para a terra não existir fronteiras!

Mar Vermelho sem tinta

abandonando um sonho

E exangue

In memoriam.

formatados Farinha Podre):

_O Triângulo mineiro não existe!...

Distancia-me da Pirâmide

Homens bomba explodem embaixadas

O Delta das Minas Gerais!

Minas Gerais não existe!...

O meu gosto pelo mar azul.

Ianques e britânicas – aeroportos...

o Descoberto do Rio das abelhas

Em Los Angeles o vírus chegou

São Paulo não existe!... Feliciano, guarda-mor, o precursor

Goiás não existe!...

Argel, foge do Nilo, de propósito

Por um bueiro,

Extratriangulino,

O Brasil não existe...

Para o meu divã

Estado de alerta em Londres, -

Aqui fincou Bandeira

(Emancipação é azo de pequeno-burgueses)

E esse cheiro acre de sarcófagos

Em Istambul

Invade-me pelas ruínas

Uma nuvem negra cobre o chão

De domingos derradeiros

Em sangue...

Montou em cavalos de seixos amarelos

Numa solidão sem fim

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Num sossego insuportável!

Numa ante-sala

Mas o Mediterrâneo me impede

Amargo um Domingo intolerável

E fico numa redoma de vidro

Num silêncio infindo

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Notícias trágicas nos jornais

Sua alma, num terno contrato,

Toalha de mesa branca, sem talheres

Sem vícios, com muito amor,

Na sala de jantar, -

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Carlos Alberto Batista Oliveira Colaborador

Buscou minha'lma... Vivendo hoje momentos felizes,

Perdi o sossego só em pensar:

De pleno direito.

Domingos iguais

Se completam, vivem, vivem

Tardes intermináveis

Como jamais viveram.

TEMPO QUASE ESQUECIDO...

Calor tropical Suportáveis nostálgicos!...

Num pleno viver, viver de amores,

Contrato de viver

Numa busca constante de almas ardentes,

Num ato de pleno direito,

Busco fortalecê-la, compreende-la,

Que saudades,

Nos permitimos, após manifestações

Busco completá-la.

Que saudades...

De nossas almas e corpos,

Procuro assim, com seu amor,

Estarmos unidos, puro desejo, sentimentos.

Unir nossas almas, nosso contrato.

Nosso contrato, após nossas manifestações

A cumplicidade de nossas almas é vidente,

Dias de ausência,

E lá vem o carteiro,

Veio se fortalecendo em nosso dia-a-dia.

Trilham caminhos semelhantes,

Dias de carência,

O homem da notícia,

Ao expressar nossas vontades

Buscam o amor.

Tristes dias.

Lá vem ele novamente...

Nossa cumplicidade veio amadurecendo, frutificando...

Nossos pensamentos... Uma mesma direção.

Nossas manifestações, nossos desejos,

Busco você, me completo em seu coração.

O coração batia,

Vem se fortalecendo, crescendo, firmando.

Contrato de almas, contrato de amor,

O lábio tremia,

Mãos trêmulas, saudades...

O meu desejo, o seu desejo... Algo forte,

Contrato de corpos, contrato de prazer,

A lágrima rolava,

Hoje tem carta,

Não é passageiro, tem rumo morte.

Contrato de viver...

E nada chegava...

Suspiro embargado... Que saudades, Que saudades...

São lembranças, Lembranças dos idos dias,

E o coração dispara, Nos olhos, um só brilho.

Quando avistava o carteiro,

Tem notícias do meu amor, Saudades, lágrimas, Alegrias e tristeza...

Que saudades, Que saudades...

Que saudades, Que saudades...

Quanta saudade, Triste realidade.

Um papel, uma carta,

Sem notícias, Sem carta,

Notícias, e sua letra...

Coração apertado.

Seu perfume, e minhas lágrimas. São sonhos passados, Recordações de tristes dias...

Tudo trancado, sem sorriso, Tudo era silêncio. Tudo era carência,

São dias passados,

Tudo era ausência,

Dias que não voltam mais,

Só saudade.

Saudades de um tempo,

E o calendário a correr,

Tempo em que se escreviam cartas...

Tempo quase esquecido... Ora frio, ora calor.

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Chuvas, sol, dias longos,

Que saudades,

Peito travado,

Que saudades...

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Ubirajara Franco Cadeira número 25 - Uberaba MG

TRÊS HORAS DE AMOR

Hely Araújo Silveira

SEM PUDOR

Três horas de amor...

Tudo sem pudor

Os minutos correm...

Curvas e curvas,

Você ao meu lado,

Calor,

Colada em mim,

Corpo,

É silencioso.

Amor!...

É olhar.

Mulher bela,

É suspirar!...

Total saber.

São minutos e você,

Alma com vida,

Penso tudo

Vida e alma.

Nada falo.

Muito brilho, silueta...

São minutos,

Tons sobre tons.

Corre o tempo,

Muito vigor.

Nosso envolvimento cresce,

Calor,

Seu suspirar aumenta,

Sabor,

O meu respirar, cresce...

Amor!...

Entramos na mesma sintonia,

Tudo sem pudor.

Somos duas almas,

Cheio de cor,

Somos dois corpos,

Cheio de vida,

Somos você e eu,

Cheio de brilho,

Um só coração!...

Repleto de amor!....

O tempo passa,

Com cheiro,

Nosso tempo vai,

Com suor,

São três horas,

Com desejo,

São três horas de amor.

Com vida fazendo vida

Somos dois corpos,

Tudo com amor

Um só respirar,

Tudo por amor,

Dois corpos,

Tudo sem pudor,

Duas almas,

Com seu amor,

E desejos...

Com meu amor,

CIDADANIA “Se queremos progredir, não devemos repetir a História, mas fazer uma História nova”. Mahatma Gandhi

Cidadania é pensar no próximo, é ajudar a quem precisa, é respeitar os direitos de cada um, é pensar grande em termos de desenvolvimento em todos os aspectos da vida moderna. Cidadania é ver o desenvolvimento como o viu Gandhi, é participar ativamente de ações que visem o bem comum como o previu Martin Luther King.

"Não me importa o grito dos maus, preocupa-me o silêncio dos bons". Martin Luther King

O

A civilização, de modo geral, padece de males que poderiam ser evitados caso houvesse um preparo de cidadania envolvendo principalmente crianças – educação infantil , e famílias – estruturação.

que será cidadania ? As pessoas a praticam ? Se não, porquê ?

Há algum tempo atrás era eu o Secretário Municipal de Assistência Social quando, visitando uma creche no Tutunas, deparei-me com um acontecimento que muito me sensibilizou. Era época de eleição municipal e, a professora, adepta de cidadania, programou uma “eleição para prefeito da creche” tendo alguns alunos se apresentado como “candidatos”. As crianças todas da creche reunidas assistiam a cada um dos “candidatos” falar sobre seus projetos, caso fosse eleito. E a professora as incentivava a fazerem perguntas aos “candidatos”. Então isto era um ato de cidadania, ou seja, preparar as crianças para um futuro melhor pois aquele "teatro" fora um ensaio para a vida real quando aquelas crianças terão que escolher os administradores de suas cidades, estados e Nação. Temos certeza que as mesmas jamais esquecerão aqueles momentos e levarão consigo, para sempre, uma aula de cidadania .

Particularmente em nosso país, nota-se uma cidadania fraca. Porque os bons, em sua maioria, ficam silenciosos. Há que se criar, portanto, a cultura da ação de cidadania onde cada pessoa pense no bem estar geral, no progresso geral, na solução dos problemas que afetam a comunidade como um todo – geral. Verifica-se, portando, que a cidadania parte do individual para o geral. Cabe-nos uma pergunta, a cada um de nós: o que tenho feito pela cidadania?

Tudo, Tudo pelo nosso amor!...

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Convergencia 5  

Revista Convergência 5

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