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CONVERGÊNCIA

nº 22 - novembro de 2010

DIRETORIA PRESIDENTE: Terezinha Hueb de Menezes VICE-PRESIDENTE: José Humberto Silva Henriques 1º SECRETÁRIO: João Eurípedes Sabino 2º SECRETÁRIO: Gessy Carísio de Paula 1º TESOUREIRO: Pedro Lima 2º TESOUREIRO: Dimas da Cruz Oliveira COORDENAÇÃO DA REVISTA Terezinha Hueb de Menezes PROJETO GRÁFICO Távola Comunicação IMPRESSÃO

NOSSA CAPA Rua Artur Machado (Uberaba), antiga Rua do Comércio: 1929 – 2010 – trajetória no tempo. À esquerda, na foto, a casa construída pelo Major Eustáquio, fundador de Uberaba, não mais no formato original, mas já com posteriores modificações.

Publi Editora e Gráfica (34) 3336-6180 Reprodução dos artigos permitida, desde que citada a fonte. “Os conceitos emitidos nos trabalhos assinados são de exclusiva responsabilidade dos autores.”

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APRESENTAÇÃO

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Academia de Letras do Triângulo Mineiro, mais uma vez, tem a alegria de ver publicado um número novo da revista Convergência, em conjunção com a Saberes Acadêmicos, da Faculdade de Ciências Econômicas do Triângulo Mineiro. Mariângela Castejon e eu estamos juntas nesse projeto desde maio de 2009, com duas revistas já publicadas e a terceira, que agora se publica. Tais feitos se devem à aguçada percepção do presidente da ACIU, Karim Mauad, que não tem poupado esforços no apoio à ALTM, em todas as suas promoções. Tenho dito que, neste meu mandato de dois anos que ora expira, Karim tem sido o grande mecenas das causas culturais ligadas à ALTM. Neste número 22 da Convergência, vamos encontrar textos, não apenas de acadêmicos, mas também de outros escritores, proporcionando-lhes a oportunidade de ver seus trabalhos publicados em uma revista importante por sua tradição. Se a Convergência, nesse projeto, apoia a Saberes Acadê-

micos, esta apoia a Convergência, num reforçar mútuo de criatividade, de interesses, de parceria prazerosa. Nós, da ALTM, só temos a agradecer à ACIU, na pessoa de Karim Mauad e de sua equipe, com a competente Maria Altina à frente; ao vereador, Carlos Godoy, defensor desse projeto. E ainda à Távola Comunicação que, com dedicação irrefutável dos profissionais Geraldo Djalma, Wellington Costa e seus parceiros, tem apresentado trabalhos caracterizados pela beleza, criatividade e competência. O número 22, por sugestão do acadêmico Jorge Alberto Nabut, apresenta algumas ilustrações, para tornar mais leve e agradável a leitura dos textos. Dos vários lugares em que as revistas Convergência e Saberes Acadêmicos têm chegado, só temos recebido elogios e palavras de estímulo para que o projeto continue por longos e longos anos. É o que, com alegria, esperamos... Uberaba, novembro de 2010. Terezinha Hueb de Menezes

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Índice Amir Salomão Jacób - SACRAMENTO, LUGAR DE ADORAÇÃO ........................................................................................................ 10 Any Bittencourt Arantes / Iná Bittencourt Barbosa - EVA REIS, MENINA-POESIA .......................................................................... 13 Antônio Carlos Doorgal de Andrada - SOBRE O LIVRO “HISTÓRIA DE UBERABA”, DE HILDEBRANDO PONTES ........................................................................................................................................................................... 15 Antônio Pereira da Silva - ZÉ MULATINHO ...................................................................................................................................................... 17 Arahilda Gomes Alves - A INTRODUÇÃO DO HINO ................................................................................................................................. 21 Carlos Donizete Bertolucci - CAVALOS DE MIM .............................................................................................................................................. 23 Cel. Hely Araújo Silveira - INCÊNDIO EM DIAMANTINA ....................................................................................................................... 25 Cesar Vanucci - FOI TUDO UM SONHO ........................................................................................................................................................... 27 Dirce Miziara - CHUVA NO TELHADO ............................................................................................................................................................. 29 Dom Benedicto de Ulhoa Vieira - REFLEXÃO SOBRE O AMOR ............................................................................................................. 30 Edmar César Alves - TRIBUTO A PADRE EDUARDO, O PAI DOS POBRES ............................................................................... 31 Elza Teixeira de Freitas - HOTEL TOFFOLO ..................................................................................................................................................... 33 Guido Bilharinho - CAMILO CASTELO BRANCO ........................................................................................................................................ 34 Hélio Siqueira - TRIÂNGULO MINEIRO. UMA PAISAGEM VISITADA POR BANDEIRANTES, CIENTISTAS, EXÉRCITOS, RELIGIOSOS E UM ARTISTA DE OLHAR AGUÇADO ....................................................... 38 Irmã Domitila Ribeiro Borges - LIBERTAÇÃO .................................................................................................................................................... 40 Jorge Alberto Nabout - QUE O VERDE NOS PERDOE .............................................................................................................................. 41 José Mendonça - OS RECITAIS DE EVA REIS ................................................................................................................................................ 44 Lincoln Borges de Carvalho - DECLARAÇÃO ................................................................................................................................................. 46 Marcelo Dolabela - REVISTAS LITERÁRIAS, A ETERNIDADE DO EFÊMERO ....................................................................... 47 Mário Salvador - EDSON PRATA ............................................................................................................................................................................ 49 Marta Zednik de Casanova - INDEPENDÊNCIA DO BRASIL...? ............................................................................................................ 51 Mons. Juvenal Arduini - DESAFIO DO AMOR ................................................................................................................................................... 53 Murilo Pacheco de Menezes - PERSONALIDADE CÍVICA .......................................................................................................................... 54 Newton Luiz Mamede - FORRÓ ILEGÍTIMO ................................................................................................................................................... 55 Otaviano Pereira - TEMPO .......................................................................................................................................................................................... 57 Paulo Fernando Silveira - REVOLUÇÃO DE 1930: A TOMADA DO 12º RI EM BELO HORIZONTE ................................ 59 Pe. Thomaz de Aquino Prata - A ARTE DE BEM VIVER .............................................................................................................................. 63 Pedro Lima - A MÚSICA EM NOSSAS VIDAS ................................................................................................................................................. 64 Renato Muniz Barreto de Carvalho - O LADO MAIS FRACO DA CORDA ............................................................................................ 65 Terezinha Hueb de Menezes - RELÍQUIA .............................................................................................................................................................. 66 Ubirajara Franco - POEMA INACABADO ........................................................................................................................................................... 67 Vera Lúcia Dias - A ARTE E A MORTE ............................................................................................................................................................... 68 Vicente Rodrigues da Silva Filho - HÁ MALES QUE... ...................................................................................................................................... 70 Vilma Cunha Duarte - JEITO DE FALAR ............................................................................................................................................................. 72 PARA LEMBRAR... ...................................................................................................................................................................................................... 74

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ACADEMIA DE LETRAS DO TRIÂNGULO MINEIRO ACADÊMICOS CADEIRA Lincon B. de Carvalho 01 Agenor Gonzaga dos Santos 02 Martha de Freitas A. Pannunzio 03 Pe. Thomaz de Aquino Prata 04 Monsenhor Juvenal Arduini 05 Jorge Alberto Nabut 06 Vaga 07 Antônio Pereira da Silva 08 César Vanucci 09 Consuelo P. R. do Nascimento 10 Vaga 11 Dimas da Cruz Oliveira 12 ------------------------------ --- Vilma Terezinha Cunha Duarte 13 ------------------------------ --- Pedro Lima 14 Antônio Couto de Andrade 15 Edmar César Alves 16 Luiz Cláudio de Pádua Neto 17 Luiz Manoel da Costa Filho 18 ------------------------------ --- Dom Benedito de Ulhôa Vieira 19 Paulo Fernando Silveira 20 Maria Antonieta Borges Lopes 21 Dom José Alberto Moura 22 Ernane Fidélis dos Santos 23 ------------------------------ --- Elza Teixeira de Freitas 24 Carvalho Ubirajara Batista Franco 25 José Humberto Silva Henriques 26

ANTECESSORES José Mendonça Santino Gomes Ramos Vitor de Carvalho Ramos ------------------------------ ------------------------------ Rui Novaes Ari Rocha Antônio Tomás Fialho ------------------------------ Antônio Édison Deroma ------------------------------ João Rodrigues da Cunha Joaquim Prata dos Santos Augusto Afonso Neto Gilberto Augusto da Silva Maurílio Morais e Castro Georges Jardim Lúcio Mendonça Quintiliano Jardim João Henrique Félix Renato Palmério Lauro Fontoura Mário Palmério Dom Alexandre G. Amaral Jacy de Assis Soares de Faria Ronaldo C. Campos João Édison de Melo Vicente de

PATRONOS Fidélis Reis Hildebrando Pontes Antônio Borges Sampaio Jorge de Lima Jackson de Figueiredo Evaristo da Veiga Alphonsus de Guimarães Clóvis Bevilacqua Henrique Des Gennetes Castro Alves Bernardo Guimarães Pe. Leonel França -----------------------------Lafaiete Rodrigues Pereira -----------------------------Afonso Arinos Hugo de Carvalho Ramos Salvador de Mendonça Belmiro Braga Visconde Vieira da Silva -----------------------------Artur Lobo Simões Lopes Neto Dom Silvério G. Pimenta Olavo Bilac Plínio Mota ------------------------------

Pereira Brasil Licídio Paes

Rui Barbosa Alberto de Oliveira

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------------------------------ Terezinha Hueb de Menezes Gessy Carísio de Paula Geraldo Dias da Cruz Irmã Domitila Ribeiro Borges Mário Salvador João Eurípedes Sabino ------------------------------ Frei Francisco Maria de Uberaba Oliveira Mello (Antônio de) Severino Muniz (Antônio) Ribeiro de Menezes (Valdemes) Sebastião Teotônio Rezende João Gilberto Rodrigues da Cunha Carlos Alberto Cerchi Guido Luiz M. Bilharino

--- 27 28 29 30 31 32 --- 33 34 35 36 37 38 39 40

Abdala Mameri Edson Prata João Alamy Filho Eurico Silva Leonardo Smeele João Modesto Edelweiss Teixeira Aluízio I. de Oliveira ------------------------------ Gabriel Toti ------------------------------ ------------------------------ Marçal Costa José Bilharinho Dom José Pedro Costa ------------------------------

-----------------------------Machado de Assis Érico Veríssimo Basílio de Magalhães Cruz e Souza Guimarães Passos Pandiá Calógeras -----------------------------Dom Vital Dom Eduardo D. da Silva José Lins do Rego Graciliano Ramos Guimarães Rosa Clementino Fraga Dom Joaquim S. de Souza

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Amir Salomão Jacób*

SACRAMENTO, LUGAR DE ADORAÇÃO

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este ano de 2010, estamos comemorando os 190 anos da fundação da Capela do Santíssimo Sacramento, que deu origem à cidade de Sacramento. Uma data memorável que nos induz a revolver terras antigas, procedimentos extraordinários, intenções ainda não analisadas e a predestinação que cercam a criação desta cidade do Santíssimo Sacramento. O que nos faz revolver essas terras e analisar procedimentos são as particularidades que envolveram o processo de formação da cidade. São minúcias silenciadas pelo tempo, mas que gritam no tempo presente para serem descobertas, acatadas, divulgadas e, sobretudo, vivenciadas. Sempre estudamos, desde os tempos dos bancos escolares primários, que Sacramento surgiu de uma pequena capela, sob o Manto da Virgem Maria. Essa assertiva faz parte, inclusive, de um verso do hino oficial da cidade, mas podemos afirmar que isso é muito pouco, diante da realidade pretendida naquele dia 24 de agosto de 1820. É certo e irretocável que a Virgem Maria ali estava com seu Manto maternal, mas, como dissemos, os procedimentos extraordinários, as intenções, sobretudo estas, e a predestinação pretendida para a cidade não se expõem totalmente nesse poético verso do hino oficial. Há, porém, que se estudar antes a intenção, o porquê, a causa que levou à fundação da cidade. Essa causa primária, necessariamente, esclarece a intenção do fundador. No estudo do Direito, especialmente no julgamento de alguma ação fundada na celebração de (intenções) contratos, deve o juiz observar, nas entrelinhas dos mesmos, a vontade real dos contratantes, isto é, a verdadeira intenção do ato, muitas vezes, não exposta ou mal exposta no documento lavrado. É o que o Direito chama de “vontade real”, subjetiva, todavia imperiosa para quem

contratou. Buscando conhecer a intenção, chega-se à conclusão do contrato ou do ato celebrado. É a “vontade real” do fundador da cidade de Sacramento, Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswik, que vamos tentar desvendar, observando e minuciando a ata da fundação da cidade de Sacramento que temos em mãos. O que pretendeu esse homem? O que visualizou o Cônego Hermógenes, com seu olhar eclesiástico, nestas terras que margeiam o Ribeirão Borá? Que segurança nós podemos ter de que ele observou exatamente o que vamos sustentar aqui? São essas indagações que procuramos desvendar. Naquele ano de 1820, o antigo Julgado do Desemboque ainda era um lugar destacado, de famílias prósperas, de consideráveis fortunas e de milhares de moradores. Muito perto dali, levando-se em conta as distâncias daquele tempo, já prosperavam o arraial de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba e o Julgado de São Domingos dos Araxás. No entanto, entre a pequena distância de Desemboque e Uberaba, o Cônego Hermógenes sentiu a necessidade de fundar um lugar para ser o “Pasto Espiritual” da região; para tanto fundou uma capela diferente de todas as demais que havia no sertão. No século XIX, em pleno sertão, o tempo não era um fator escravagista como o é para o homem moderno. O tempo corria sem pressa e os afazeres domésticos, ou não, tinham métodos rotineiros, sem relógios e sem datas prefixadas. Guardavam-se os dias santificados, ocasiões em que se recolhia o arado, a bateia, o gado era solto no pasto e os escravos tinham sua folga nos limites da senzala. Quando nascia uma criança, os pais esperavam a presença do pároco para saber qual o santo do dia, então

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o nome era dado ao recém-nascido no momento do batismo. O mesmo se dava na fundação de um arraial que, necessariamente, tomava o nome do santo e o tinha por padroeiro. Não se escolhia data para fundar uma povoação, isto se dava aleatoriamente num achado, num acontecimento extraordinário qualquer, apenas se observava o santo do dia ou mais próximo do evento para ser o padroeiro do lugar. Na fundação da cidade de Sacramento, o “lugar do Pasto Espiritual”, no entanto, o tempo foi fator preponderante: o fundador escolheu o dia e o padroeiro. Cônego Hermógenes escolheu fundar Sacramento numa quinta-feira, porque é o dia em que a Igreja Católica reverencia, de modo soleníssimo, o Santíssimo Sacramento. Nesse dia, desde muitos séculos, a Igreja canta, diante do altar, o hino “Tantum Ergo Sacramentum”. Escolheu o dia e, sobretudo, escolheu o orago. O orago, isto é, o padroeiro principal do lugar, também foi carinhosamente escolhido: o Santíssimo Sacramento, isto é, o próprio Deus na hóstia consagrada. Como religioso que era e homem que convivia com os sertanejos deveria, o Cônego Hermógenes, observar o santo do dia, esse era o costume, mas ele não fez isso. Assim a fundação de Sacramento foi coisa diferenciada, mesmo porque, até hoje, não se encontra nenhuma outra cidade em solo brasileiro que tenha surgido dessa invocação suprema – o Santíssimo Sacramento. Cristo instituiu a Eucaristia na quinta-feira santa (Lc 22, 7-20). A Igreja, desde o primeiro século, segundo as crônicas patrísticas, manteve essa tradição de reverenciar nesse dia a Ceia do Senhor, o dia em que o Pão se tornou Carne e o Vinho se tornou Sangue, o dia solene da Instituição do Santíssimo Sacramento, sustentáculomor da fé católica. Em 1264, o Papa Urbano IV instituiu a Festa de Corpus Christi em toda a Igreja, prescrevendo que, nesse dia, sempre uma quinta-feira, o Santíssimo Sacramento deveria ser levado às praças e ruas, para ser, publicamente, adorado pelos fiéis. Santo Tomás de Aquino (1225-1274), doutor da Igreja, compôs, nesse tempo, um solene tratado poético sobre a Eucaristia, intitulado “Lauda Sion” ou “Sequência” que, posteriormente, foi condensado no hino “Tantum Ergo Sacramentum”. Desde então esse hino passou a ser cantado, solenemente, nas exposições do Santíssimo Sacramento, nas procissões de Corpus Christi e na dedicação de alguma igreja ao Senhor Sacramentado. Alguns consideram que o “Tantum Ergo Sacramentum” seja o hino oficial da Igreja Católica, já que a Eucaristia é a sua base mais sólida. Esse hino é tão solene que deve ser cantado com os joelhos dobrados, já que seus

acordes somente se dão diante da exposição do Santíssimo Sacramento, o Deus Vivo, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, ocultos sob a aparência do pão e do vinho consagrados. E foi isso que o fundador de Sacramento fez! Como sacerdote católico, extremamente culto, homem das letras e da fé, estava consciente de que criava, na fundação daquela capela, um lugar especial de adoração ao Deus Vivo. Necessariamente esse hino foi cantado na exposição e bênção do Santíssimo Sacramento naquela memorável manhã do dia 24 de agosto de 1820. Em sendo assim, o “Tantum Ergo Sacramentum” poderia ser também o Hino Oficial de Sacramento ou, pelo menos, o som de seu nascimento. E isso não é uma criação literária, uma divagação piegas de quem escreve, não, não é. Isso é o procedimento rigoroso que se dava e que se dá até hoje na exposição ou na dedicação de um lugar ao Santíssimo Sacramento. O fundador frisou, na ata da fundação da capela de Sacramento, que ele cumpriu, rigorosamente, o Ritual Romano, e isto não nos resta dúvida. Assinada a ata de fundação, cumpridas as exigências legais do Império, o fundador, como homem das leis e eclesiástico, cumpriu o Ritual Romano. E o que determina o “Ritual Romano”? Determina que “na exposição do Santíssimo Sacramento se dobrem os joelhos, se faça adoração, incense o Augusto Sacramento exposto, cante-se o hino de exposição, o Tantum Ergo Sacramentum, o povo seja abençoado e se faça a reposição da sagrada hóstia no sacrário”. (Conforme http://www.veritatis.com.br/article/5684). Isso nos assegura, sem sombra alguma de dúvida, de que Sacramento nasceu ao som desse hino secular da Igreja. Isso nos enche de ufanismo porque, em todo o universo onde a Igreja Católica se faz presente, o cantar desse hino, além de ser um devotamento de adoração ao Senhor Deus, é também, para nós, a solene memória do nascimento de nossa cidade. E o que é interessante, também, é que não resta dúvida de que a fundação da cidade de Sacramento foi um ato de fé, e não um procedimento civil interesseiro na povoação do sertão. Sacramento nasceu para ser lugar de adoração ao Santíssimo Sacramento, verdade insofismável da vivência cristã. O Santíssimo Sacramento é o “Pasto Espiritual” a que o fundador se referiu na fundação.

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E há que se ressaltar ainda que, naquela manhã, ele fundava primeiramente uma capela e não uma cidade, muito embora fosse essa sua intenção secundária, pois, para tanto, havia adquirido as terras que formariam o patrimônio. O patrimônio induz à prosperidade de uma povoação. Mas, primeiramente, ele criou a Casa de Deus, diferente de todas as demais capelas do sertão, pois a dedicou ao Santíssimo Sacramento, apresentado pelo Patrocínio de Maria. Da capela veio a cidade, como consequência natural. E a capela foi fundada para ser lugar de adoração. Assim, pela vontade do fundador, todos os filhos e filhas de Sacramento, de todas as épocas e origens, são herdeiros da adoração, têm sua vocação originária na solene e sagrada reverência ao Senhor Jesus Sacramentado.

A intenção inequívoca de Cônego Hermógenes de criar no Sertão do Novo Sul, depois Sertão da Farinha Podre, hoje região triangulina, um lugar de adoração ainda podemos encontrar em sua carta ao bispo de Goiás, Dom Francisco Ferreira de Azevedo, onde ele diz que a Capela seria o lugar do “Pasto Espiritual” da gente do sertão. Essa expressão está ainda mais completa na Ata de Fundação da cidade, quando se explica solenemente o que é o Pasto Espiritual; ali se lê: “Pasto Espiritual dos enefáveis sacramentos da Igreja”. Isso sela a fundação, isto explica toda a intenção do fundador. Queria que Sacramento fosse, realmente, um lugar especial de adoração. Bendita seja sua memória”. *Professor e escritor.

Monumento ao Santíssimo Sacramento (considerado o único monumento público ao Santíssimo Sacramento em todo o mundo) inaugurado no último dia 23 de agosto, como marco das comemorações dos 190 anos da cidade de Sacramento. Selo Comemorativo, criado pelo Decreto Municipal nº 125, de 16-10-2010.

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Ani Bittencourt Arantes* Iná Bittencourt Barbosa*

EVA REIS, MENINA-POESIA

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o dia de Ascensão de Nossa Senhora, 15 de agosto, eis que nossa Trovadora se foi!...Achamos até que “pegou carona” com A Santa Mãe e os Anjos...Então, com aquele jeito de Menina-Poesia, foi visitar - juntinho com a Mater Dei - seu Divino Filho, Jesus Cristo...

de Souza Novaes, César Vanucci e Mário Salvador. Os olhinhos brilhavam ao falar neles! - “ Se vier a Uberaba e não conversar com as primas não vim a Uberaba...” - dizia sempre. Antes de adentrarmos a varanda, na Chácara dos Eucaliptos, nos chamava a atenção para os seus animais de estimação. Era a Louca, a cachorrinha vira-lata, e seis gatos. E ela contava sempre as proezas daqueles bichinhos.

Eva Reis, líder comunitária na Chácara dos Eucaliptos, em sua acolhedora varanda, reunia a “turma de operários” para... ensinar trovas! Só que, antes das aulas, todos tinham que rezar uma oração de agradecimento a Nossa Senhora das Graças. Era uma imagem linda, dentro de uma gruta, ao lado esquerdo da varanda.

Antes de sairmos, já estavam embrulhados em grande jornal fartos ramos de frutas da Índia –lichias -, que a gente levava para saborear em casa.

Aos domingos nos chamava para a santa missa e, à tarde, nos esperava para o chá com docinhos e bolachas. Naquela varanda, ao vermos Eva Reis na simplicidade, com ares de rainha lírica, éramos recebidas com alegria, saudando o dia e a vida. Eva Reis era poesia – poesia que pairava no ar, nos seus gestos, nas árvores... e nós viajávamos com ela por esse caminho místico e espiritual! Ao contarmos as novidades da política da cidade, queria saber tudo em detalhes! Politizada que era, falava dos políticos . Contava sobre os políticos uberabenses, e o que faziam em Belo Horizonte que beneficiasse nossa Uberaba. Bairrista, amava Uberaba das Sete Colinas: - “Não sou separatista.Tiradentes vai ficar fora da História! O Triângulo tem que pertencer a Minas Gerais. É a História! É a tradição!”

Eva Reis mineira... Eva Reis artista... Eva Reis poesia... Pertencendo à Congregação das Carmelitas e Franciscanos, cumpria votos de humildade, sempre de humildes chinelinhos nos pés. Irreverente: - “Ninguém sabe fazer trovas! Não é fácil fazer trovas...” Rachel de Queiroz , insuperável escritora brasileira, prefaciando o livro de Eva Reis, “Cantares Trovas de Outono”, assim se expressou: “Mineira, família de artistas. Eva Reis nasceu poeta. Nas pequenas joias que são suas trovas , sabe pôr todo um mundo de sentimentos e conceitos. Versos que são para amar, ler, decorar e recitar..., desejando que esta coletânea de “Trovas de Outono” sejam reconhecidas como antológicas, tais como as que as precederam”.

Tinha verdadeira adoração por Dom Alexandre Gonçalves Amaral, Quintiliano Jardim, Raul Jardim, Ruy

Uma vez, em maio, tendo vindo a Uberaba, nos chamou para irmos à Exposição Agropecuária Interna-

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cional de Gado Zebu. - “Quero conhecer a... vaca premiada! “ Após a procura, entrando em vários estandes, dizia: – “Cheirinho de roça!...”, e, assim, até chegarmos à premiada, toda cheia de faixas e bem cuidada.Dando-se a visitante por satisfeita, finalmente nós, felizes, sentamonos em um barzinho, ao que ela insistia com o garçom: - “Quero uma água mineral frapê.” Voltou o rapaz, trazendo um copo com água clarinha cheia de cubos de gelo! - “Não... É frapê! Metade gelada, metade natural!” Enfim, duas garrafinhas teriam que ser abertas. E foram...

neiro, em Uberaba, e à Academia Municipalista de Letras, em Belo Horizonte. Eva Reis, autora de “Fiandeira”, foi a primeira poetisa a lançar livro de trovas sobre as montanhas de Minas Gerais, obtendo grande repercussão na imprensa de todo o Brasil e do exterior. Eis a elogiosa referência que lhe fez o jornalista Moacir de Andrade, membro da Academia Mineira de Letras, em crônica no “Estado de Minas”: “A poetisa uberabense é uma demonstração de que a bela cidade do Triângulo Mineiro não o é somente pela riqueza econômica, mas também espiritual, uma coisa muito séria no mapa de Minas Gerais. “Fiandeira”... Tem trovas que, um dia, poderão ser folclore”.

Eva Reis, a primeira detentora do aplaudido programa literário de poesia “Vamos Sonhar!”, que lançou pelas ondas da Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, PRE-5 Rádio-Sociedade Triângulo Mineiro e Rádio Sete Colinas, ambas de Uberaba. No vespertino local, “Lavoura e Comércio”, mantinha um espaço semanal em que escrevia “Por Detrás das Montanhas...”.

- Casou-se com Istvan Bakô, tendo ambos o descendente a quem ela amava com paixão: Istvan Bakô Filho. - Eva Reis! Já estamos com saudades... De sua presença poética... Da varanda... Da oração... Dos batepapos... Dos seus sonhos... Das suas esperanças... Do gosto exótico das lichias...

Quando crianças, ávidas de beleza, os pais nos levavam a deliciar-nos com o recital de suas apresentações, a declamar seus poemas com lirismo e sentimento inesquecíveis. Eva bela... Eva inspiração...Eva poesia...

- Imortal prima, imortal companheira, imortal lírica das trovas... Menina poesia...

Publicou “Avenca, ó Verde Avenquinha!” (poema), “ Fiandeira (trovas) “Cantares- Trovas de Outono ( em 3ª edição) e, no prelo, “Trovas”.

*Sócias correspondentes da ALTM.

Pertencia à Academia de Letras do Triângulo Mi-

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Antonio Carlos Doorgal de Andrada*

SOBRE O LIVRO “HISTÓRIA DE UBERABA”, DE HILDEBRANDO PONTES

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Apresentação

gado. Aquela representava a urbanização colonial alicerçada na extração aurífera, com supervisão direta da Metrópole; aqui, no sertão, Uberaba se consolidava como portal de um novo mundo em construção, com diferenças avultantes: distante do poder central, desaparelhada do incipiente arsenal técnico existente, só se extraía da terra o que fosse nela trabalhado, criado, plantado e cultivado, debaixo de sol e de chuva, enfrentando-se todas as incertezas do tempo e do ambiente hostil, povoado por índios e quilombolas. Enquanto a Minas do ouro quedava-se pelo esgotamento das suas jazidas e burocratizava-se pela proximidade do poder central, a Minas do Oeste descobriase na superação paulatina dos extraordinários obstáculos encontrados. A presente obra relata de forma magistral a saga daqueles pioneiros de espírito aventureiro e de invejável coragem que não encontraram riquezas prontas, mas edificaram-nas; é bem verdade que a terra fértil era uma dádiva divina, mas que exigia um hercúleo esforço humano para domá-la e torná-la produtiva.

iniciativa da Universidade Presidente Antônio Carlos – Unipac de Uberaba de patrocinar integralmente a reprodução de fac-símile da 2ª edição do livro “História de Uberaba e a civilização no Brasil Central – 1º Volume”, de autoria de Hildebrando Pontes, lançado em 1978 pela Academia de Letras do Triângulo Mineiro, é providência louvável e de significativa importância. Em plena consonância com a filosofia da Instituição e com o pensamento do seu Magnífico Reitor, o Deputado Federal Bonifácio de Andrada, para quem “um povo sem história é um povo sem cultura, e um povo sem cultura não cresce e não produz frutos”, a obra relançada tem impacto direto na formação historiográfica uberabense e triangulina. Merece registro a parceria da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, facilitadora desta empreitada, pela ação diligente dos acadêmicos Terezinha Hueb de Menezes e Guido Bilharinho, confirmando aos observadores que a pujança da Uberaba atual teve trajetória alicerçada na sensibilidade criativa de sua gente e na forte consciência histórica e cultural das suas instituições e dos seus respectivos dirigentes. Muito me apraz apresentar a reprodução da 2ª edição desta obra tão relevante, que explora e relata de forma criteriosa, detalhada e ampla, os primórdios civilizatórios da região e a evolução histórica da cidade até os anos 30.

Talvez o esforço descomunal empreendido para a própria sobrevivência e para o desenvolvimento local, a distância do poder central e a certeza de estar lançado à própria sorte, tenham sido fatores preponderantes para dotar a região de forte sentimento autonomista consolidado no tempo, que mesclado aos sentimentos conspiratórios e revolucionários das gentes das minas, evoluiu para manifestações de emancipação político-administrativa da região em vários momentos de sua evolução.

Minas são muitas, afirmam os consagrados estudiosos. É fato. Impulsionada pelo ocaso da Minas de Ouro Preto, surgia, lenta e silenciosamente, a Minas do Oeste, de viés rural, do cultivo agrícola e da criação do

Pouco mais de dois séculos se passaram e o Sertão da Farinha Podre transformou-se no poderoso Triângulo Mineiro. E Uberaba é protagonista de primeira linha neste processo de edificação transformadora: prós-

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pera, tornou-se a primeira referência econômica regional e a principal base de sustentação dos novos tempos que surgiam, assegurada pela estratégica posição geográfica e reforçada, depois, pela estrada de ferro Mogiana.

O livro ora reeditado relata quão penosa foi a caminhada dos pioneiros, e como foi lento o processo de ascensão social e econômico da região. Mostra-nos que a brutalidade sertaneja inicial, aos poucos deu lugar a uma refinada elite produtora, cuja vitalidade e capacidade mobilizadora impulsionaram o desenvolvimento local e regional. Hoje prevalece o empreendedorismo nos seus mais variados setores, sendo motivo de generalizada admiração. O livro constata que a história de Uberaba é uma história de superações, conquistas e realizações, que honra seus protagonistas e estimula as atuais e futuras gerações a manterem a ousadia, a coragem e o empreendedorismo como traços permanentes de uma trajetória vitoriosa de desafios constantes.

Hoje, ao lado de outras importantes comunas triangulinas, Uberaba é cidade com traçados urbanos planejados, moderna e em franco desenvolvimento. Com reconhecida liderança no agronegócio e na pecuária – destaca-se a excelência conquistada na criação zebuína –, diversificado parque industrial, sólido comércio e parque tecnológico com enorme potencial, a cidade apresenta índice de desenvolvimento humano de primeiro mundo. Os setores educacional e cultural têm crescente participação e presença social, com destaque para as suas instituições universitárias.

*Conselheiro Vice-Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais

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Antônio Pereira da Silva*

ZÉ MULATINHO

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ra uma cidadezinha esquecida num canto do mapa com seus muitos meninos brincando despreocupados nas ruas quase sem carros. Cachorrada pachorrenta coçando seus bernes, passeando tranquila. Gataria nos telhados ou correndo atrás de ratos nos poucos e velhos forros. Quase sem história, sem destaques nem heróis, a cidade esperava o seu mito – até que nasceu Zé Mulatinho. Era filho de uma tradicional lavadeira do lugar. Lavava roupa pra todo mundo. Desde novinho, mostrava inclinação: provocava os outros meninos, jogava pedras, rabiscava nas paredes, xingava palavrões. De repente, era um brigão respeitado pelos outros moleques. Com treze anos, caçava encrenca por todo canto. Um olhar diferente, um esbarro inocente, uma discussão entre outros moleques, tudo era motivo para o Zé Mulatinho iniciar a pancadaria. Magrinho, muito esperto, liso, não havia braço forte que o prendesse numa gravata. Batia daqui, batia dali, raramente apanhava. A experiência foi ensinando-lhe a usar a cabeça e as pernas já que os braços eram fininhos e curtos. Logo virou o rei da pernada e da cabeçada. Mocinho, transformouse no valente do lugar. Volta e meia a polícia punha-lhe as mãos e o trancafiava num xadrez muito ordinário e inseguro. Aprendeu a fugir da cadeia, a escapar da polícia e, de brigão, virou marginal. Não chegou a ser um grande gatuno. Roubava pequenas coisas, radinhos de pilha, objetos esquecidos nas varandas ou quintais, roupas, bobagens. A cadeia da cidade já não o segurava. Entrava num dia, escapava no mesmo. De repente, um acidente levou-o à destacada condição de assassino. Brigando com um sujeito bem mais forte, na zona (quase me esqueço de dizer que o Zé praticamente vivia na zona), escapa dali, escorrega de cá, a pernada não derruba o adversário, mete-lhe uma cabeçada

no ventre. O sujeito cai de costa e bate a cabeça no meiofio. Nem se mexeu. Dali foi pro cemitério. Daí a polícia da comarca veio e levou-o. Processo vai, processo vem, Zé Mulatinho na penitenciária. De repente, olha ele, de novo, na zona, aborrecendo. Tinha fugido. Ele incomodava a mulherada. Ficava com uma, ficava com outra, não pagava e ninguém tinha a coragem de cobrar. Não se amarrava a ninguém. Era, também, um protetor da mulherada. Onde ele estivesse, não se passava a mão de vaca e ai de quem criasse caso com qualquer mulher. De noitão, ele se esgueirava, escondia-se nos fundos dos quintais da zona e, mais tarde, furtava bugigangas da mulherada. Divertia-se. Escrevia nas paredes: “Zé Mulatinho esteve aqui com sua quadrilha.” Mas, que quadrilha? Nos dias seguintes, a polícia saía prendendo vagabundos e cachaceiros, mas, Zé mesmo, nada. Depois que ele se evadiu da penitenciária, ninguém mais lhe pôs as mãos. Sentia o cheiro da polícia. Sumia num piscar de olhos. Algumas vezes, cercado, escafedia-se num jogo de corpo como se fosse um jogador de futebol. Não lhe era fácil fazer amizades. Não que faltassem interessados, que todo vagabundo queria ser seu amigo. Também os medrosos preferiam ter o Zé Mulatinho do seu lado. Ele, no entanto, tinha consciência da sua alta bandidagem no lugar e não podia deixar qualquer um ir se aproximando assim, não. Qualquer pessoa que, por qualquer motivo, precisasse estar perto dele e não lhe fosse conhecida, percebia logo que o cara se fazia de difícil. Olhava desconfiado, de cima, exigia distância e respeito. Na verdade, isso era só para manter as aparências. Esse negócio de aparência para ele era sério. Tinha-se na conta de um sujeito mau e fazia questão de parecer mau principalmente para aqueles que não conhecia

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bem. Dos conhecidos, exigia respeito. Costumava gritar, de repente: “Cala a boca todo mundo aí!” Todo mundo calava mesmo. De vez em quando, ele testava o respeito da rodinha de vagabundos e ai de quem não se emudecesse. Era um pau! Para exemplar. Entre estranhos, era a cara fechada, a desconfiança, o olhar duro, o “o que é que você está querendo?” Lá, de vez em quando, sentia que era preciso fazer um estrago. Então, acabava com festinha nas pontas de ruas. Furava foles, quebrava violões. Jogava a tolda no chão. Até que gostava de festas. Tinha vez que chegava e ficava. Comia, bebia, dançava, ninguém falava nada. Adulavam. Toma dessa aqui, seu Zé. É um mele. Se bebesse um pouquinho demais, acabava com a festa. Ficava cheio de importância. Moça que não recusasse contradança, moço que não o olhasse enviesado, dono de festa que não fechasse a cara. Na zona, além daqueles pequenos furtos e dos abusos do uso, vez por outra aprontava uma mais quente. Brigava, virava mesas, quebrava cadeiras. Metia o pé num, a cabeça noutro, rasgava saia de mulher. Mas a polícia não lhe punha as mãos. Virava um quiabo. E havia quem dissesse que tinha partes com o diabo. A rapaziada tinha respeito. Tinha alguns que garganteavam: - Procurar não procuro. Mas se aparecer, também não fujo. Quando o Zé sabia de um caso desses, dava um jeito de fazer o valente desmentir-se. Ou, então, apanhava. Era modelo, porque era valente. A rapaziada tinha despeito do seu prestígio, mas gostava quando, na zona ou no campo de futebol, ele dava um couro num estranho, principalmente se fosse lá da comarca. Depois do “assassinato”, Zé teve sua fama espalhada pra lá dos limites do lugar. Teve até um dono de venda que garantiu que o jornal da comarca tinha dado a notícia com fotografia e tudo. - Esse Zé Mulatinho é danado! - Até os malandros da comarca se cagam de medo do Zé. Isso eu sei porque escutei na zona de lá. Aqueles malandrinhos à toa que exploravam mulheres e faziam seus joguinhos de cartas, viajados, sabiam até onde ia a fama do Zé. E contavam. O povo escutava orgulhoso: - Não diga! Mas até em São Paulo o Zé Mulatinho é conhecido? Com aquela cambada de safados que tem por lá!? Mesmo nas rodas mais circunspectas se

comentava: - Pelo menos o Zé Mulatinho tem uma virtude. Entre um daqui e um de fora, ele fica com o daqui. Ninguém desta cidade é abusado se ele estiver por perto. O pessoal não gostava muito da comarca. Tudo de importante tinha que ser resolvido lá. Então, espalhavam as valentias do Zé por lá. - O Zé esfregou o dedo no bigode do delegado da comarca! - O Zé bateu no árbitro que tava roubando da gente lá no campo deles! A mulherada, fora as da zona, se borrava de medo dele. De noite, se o marido saía, trancavam tudo. Qualquer barulhinho tremiam de medo. Se o marido demorasse muito, era aquele sacrifício para abrir a porta. - É, minha filha. Eu tenho medo mesmo. Agora, a Liça, mulher daquela lesma de farmacêutico, fica é esperando o marido sair pra deixar entrar quem quiser. Os meninos é que refletiam bem o sentimento da comunidade. Pra eles, herói e bandido eram a mesma coisa. Por isso, admiravam e temiam ao mesmo tempo. Desapareciam da rua, quando viam o Zé chegando, mas sonhavam ser valentes como ele. Gostava de uma cachacinha, mas sabia que ela acelerava o seu processo de valentia. Por isso, não abusava. Tinha que ser valente na hora certa, nem que fosse de mentirinha, mas na hora certa. Gostava também de serenata. Não havia seresteiro tocador de violão que não o tivesse sempre como proteção. Cantor que o Zé gostava tinha que cantar todas aquelas velhas valsas do Gastão Formenti. Volta e meia, escaramuças com a policinha do lugar. Uma policinha que quase não tinha o que fazer. O mais importante das suas obrigações era procurar o Zé, correr atrás dele, enfrentá-lo sem conseguir botar-lhe as mãos. Os outros vagabundos do lugar não eram de nada. Quando enchiam a cara, que faziam alguma coisa fora do sério, a polícia chegava e já ia levando sem problemas. Uns vagabundinhos. Nunca um mereceu um tabefe. Qualquer um dos três soldados do destacamento, mais o cabo, sabiam com quem estavam mexendo. Só o Zé dava trabalho, só o Zé justificava aquele destacamento. O resto era uma merda. Era uma policinha assim: fora os trabalhos com o Zé, já integrada na sua inutilidade. Se alguém pedia um reforço para a garantia de uma festinha, o soldado ia, mas ia mesmo para comer e beber. Teve mesmo o caso do Toinzim Cotó que bebeu um pouco demais e chegou

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a dançar de farda e tudo. Pra que polícia? Só se o Zé Mulatinho aparecesse. O que nunca acontecia. Se o baile tinha polícia ele é que não apareceria por lá. Mesma coisa no futebol. Se pediam reforço, o cabo ia. Ia mesmo para assistir, torcer, gritar, xingar o juiz, enfim, fazer tudo o que o resto da torcida fazia. Zé Mulatinho não aparecia. Questão de prevenção – medo ele não tinha nem dos quatro juntos. Liso e corajoso. Por fim, o cabo acabou jogando de goleiro no time o que veio impor mais respeito aos adversários. Na última vez que o Zé foi ao campo, não tinha ninguém fardado no meio do povo e ele ficou sossegado. Só que o cabo estava lá no gol e, quando viu o Zé, largou tudo e saiu correndo atrás. “Pega, gente, pega!” Por amor ao time, o Zé não voltou mais ao campo. Era uma policinha insignificante, esquecida naquele fim de mundo, tanto quanto a cidade fora esquecida num canto do mapa. Já tinham perdido o sentido da hierarquia e da disciplina. Batiam continência ao cabo e atendiam-no mais pelo costume. No verão, andavam desabotoados. O quepe, em qualquer época, ficava pendurado na cabeça. Do lado, na nuca, na testa, de qualquer jeito. As calças sujas, sem vinco. O cinto bambo e, dizem, os revólveres com as mesmas balas há muitos anos. Dizem que o revólver do Toinzim Cotó tinha só quatro balas porque, há muito tempo, ele andou dando uns tiros num gambá que ia ao seu galinheiro roubar ovos. Uma vez o Geraldo (único policial sem apelido – o cabo era o Bastião Garrafa, o Toinzim era o Cotó e o Mané era o Mané da Beira Inchada, sei lá por quê), mas uma vez o Geraldo teve que mandar consertar o coturno e apareceu no destacamento de chinelo de dedo que é negócio muito menos solene do que chinelo de corda que, de uns tempos para cá, não se vendeu mais. Pois é, essa policinha só diferenciava do povo por duas coisas: andava fardada e pensava em pegar o Zé Mulatinho, um dia. De vez em quando, a polícia da comarca, com carro de sereia e luz vermelha piscando em cima, dava batida por lá. Atrás do fugido. Nessa hora, ninguém sabia, ninguém viu. Zé Mulatinho sovertia. Nem a polícia do lugar dava notícia que ninguém era besta de entregar o Zé e ficar sem a sua grande motivação. Já pensou se a turma da comarca prende o Zé? Vai ser aquela garganteação sem fim e eles, os do lugar, vão ficar com cara de tacho. Tantos anos correndo daqui prali, dali praqui, cercando, perseguindo, ameaçando, sem resultado. A patrulha ia embora, Zé aparecia ressabiado,

espantado. Sumia, aparecia, sumia, aparecia até pegar confiança que não tinha ninguém e começava a frequentar a zona de novo. Tudo ia mais ou menos, desse jeito, quando chegou o soldado Chico Bundudo. Chico Bundudo era um corpo estranho no contexto da policinha local. Muito branco, ao contrário dos outros que eram queimados do sol, Chico justificava o apelido com umas nádegas respeitáveis que faziam um curioso movimento vertical quando ele andava. Tinha vindo da capital. Tinha matado um rapaz à toa, num desentendimento de polícia com rapaziada e o moço era de família importante. Cuidaram logo de transferir o soldado. É costume. O Chico Bundudo tinha o quepe no lugar certinho – horizontal na cabeça, tudo abotoadinho, farda passada com vela, brilhando, calça vincada e limpa. O revólver brilhando de lubrificado. Um soldado mesmo, enquadrado na disciplina. Lá uma noite, chega a notícia no destacamento: Zé Mulatinho está dando sopa no bar Birosca, bebendo cachaça e ouvindo uns seresteiros. Bar Birosca ficava na esquina da zona. Do lado de lá da rua, uma cerca de arame farpado e começava um cerradinho muito ralo. O cabo esfregou as mãos. - Gente, hoje nós pega ele! Foi pra lá, veio pra cá, mal escondendo a alegria. - Nós vamos bem devagarinho, escondido. O Bar Birosca tem uma porta dando pruma rua, outra porta pra outra rua. Nós separa. Toinzim Cotó e Geraldo vão escondido chegando pro lado da porta esquerda. Chico Bundudo e Mané da Beira vão do mesmo jeito, do outro lado. Aí, dou um sobio. Aí, cês já corre logo pras porta. Pro lado que ele quiser sair, eu dou reforço. Hoje, nós pega ele. Pega! E foram. Tudo do jeito que combinaram. O seresteiro estava cantando aquela música do falecido Formenti que diz: “Foi numa leva que a cabocla Maringá ficou sendo a retirante que mais dava o que falá...” Veio o assobio. Só no assobio já o Zé Mulatinho espantou-se. Os policiais cercaram o bar, mas o Zé já estava de pé, curvado que nem cobra pro bote, pensando por onde sair. Fingiu que foi para um lado e foi para o outro. Chico Bundudo abriu os braços que nem um tamanduá, mas não conhecia o Zé e o que facilitou mesmo foi de levar uma cabeçada pelos peitos e esparramar bunda pela calçada. O cabo quis dar cobertura, mas o Zé gingou pra lá e pra cá e saiu meio agachado pela direita e foi correndo pro outro lado da rua. Chico Bundudo

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sacou do revólver, fez rápida pontaria e atirou. Pegou Zé Mulatinho por debaixo da espádua esquerda, tiro que foi furando o pulmão, coração e tudo. Zé Mulatinho dobrou os joelhos e jogou a cabeça pra trás de tanta dor. O corpo foi se desmanchando, mas a vontade de ficar de pé e fugir era tanta que ele agarrou a cerca com as duas mãos. O corpo caindo, as mãos apertando os grampos pontudos com tanta vontade de ficar de pé que eles atravessaram-lhe as palmas. E lá ficou pendido e pendurado, a cabeça dum lado, os joelhos esbarrando no chão. Ficou tudo que nem uma fotografia. Parado. Primeiro, porque houve um enorme espanto. Um susto do tamanho da morte. O seresteiro na porta, violão pendurado na mão, parecia uma estátua. Duro e de olhos arregalados, o dono do bar apoiava as mãos no balcão. Os soldados do destacamento indignados mal se entreolhavam. De pé, extáticos, mal pensavam. Zé Mulatinho nem respirava mais. Que mais ia valer aquele destacamento? Prender vagabundos inexpressivos? Eles queriam é prender o Zé Mulatinho que nem a polícia da comarca, nem a penitenciária tinham dado conta. A realização daqueles homens inúteis era a correria atrás do Zé Mulatinho.

Agora, aquela besta daquele Chico Bundudo acabava com tudo. Sonhos, esperanças, tudo no chão, tudo acabado, que essa porcaria de cidade nunca mais teria alguém que merecesse ao menos um policial. Chico Bundudo era o único que não entendia aquele povo parado, de cara fechada, espantado, testas vincadas, um ódio crescendo dentro de cada um. Meio deitado, revólver na mão, a outra afirmando o corpo, corria os olhos de uma pessoa para outra percebendo que a extática deles começava a transformar-se num movimento agressivo. Os rostos crispados, olhos em chispas sobre ele acusando-o. Num balbucio, quis explicar que o mal elemento era um perigoso evadido, assassino, com muitos anos nas costas a cumprir, um perigo para a sociedade daquele lugar. Rodearam-no. Um pavor crescente travoulhe a língua. De repente, cantou-lhe orelha o violão do seresteiro. De revólver na mão, Chico voltou-se espantado e pronto para um revide, mas já um pontapé do Geraldo arremessou-lhe a arma para longe e aí foi como o estouro da boiada. Partiu todo mundo pra cima dele e tome pontapé e sopapo e violãozada e garrafada até que, vingados, os assassinos do Chico Bundudo atravessaram a rua e foram desfincar as mãos do Zé Mulatinho. *Acadêmico, cadeira 08.

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Arahilda Gomes Alves*

A INTRODUÇÃO DO HINO

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ertamente, nunca se ouviu dizer que a introdução traz uma letra, ou, quando muito, ela vem apenas vocalizada. No dicionário de música, significa pequeno trecho, que antecede qualquer composição do gênero clássico. No início de uma ópera, denomina-se: abertura, ou ouverture (em francês); protofonia, prólogo. Na literatura, pequeno trecho, que se antepõe à exposição de um assunto; é a parte inicial, antes de se expor um argumento. Três e-mails me chegaram sobre o tema acima , oriundos dos Poetas Del Mundo, da amiga portuguesa Margarida de Castro e da colega Sandra Mara Carvalho, para que a ex-professora de Conservatório opinasse. A competente mestra de português, Iraídes Madeira, também teceu comentários sobre essa descoberta. A simpática santista Ana Arcanjo, membro da Cruz Vermelha em 1932 e que se apresenta no vídeo, nos seus mais de noventa anos, creio, admoesta sobre esquecimento dessa cívica introdução do nosso Hino Nacional. Veio de Pindamonhangaba, através de Américo de Moura, presidente da província do Rio de Janeiro, de 1879 a 1880, a patriótica letra “incorporada ao Hino, em 1931 por resolução do Congresso”, (ver Wikipédia) que antecede o poema de Duque Estrada. Tente cantar, prosodicamente, sem desanimar, porque não deixa de ser aplicado exercício de articulação vocal, quanto respiratório e cívico: “Espera o Brasil/ Que todos cumprais/ Com vosso dever-er/ Eia avante, brasileiros/ Sempre avante/ Gravai o buril/ Nos pátrios anais/ Do vosso poder-er/ Eia avante, brasileiros/ Sempre avante! / Servi o Brasil/ Sem esmorecer/ Com ânimo audaz/ Cumpri o dever/ Na guerra e na paz/ À sombra da lei,/A brisa gentil,/O lábaro erguei,/ Do bravo Brasil-il,/Eia sus, oh, sus!”Ao escrever a letra, puxei as sílabas finais das palavras acima-dever e Brasil-, porque a

grafia musical, nos dois fraseados,traz sentido completo como se fora o ponto final no encaixe prosódico. Se pararem pra pesquisar, verão o mesmo efeito no Hino da Independência (Ver contente, a mãe genti-il... no horizonte do-o Brasil-il;) e no estribilho: longe vá-a temor servi-il). Nosso Hino Nacional traz muitas apoggiaturas (enfeites) que “esticam” as palavras: Gigante pela própria nature-eza/ És belo, és forte, impávido colo-os-so! Acontece na segunda parte no encaixe das palavras: fo-or-te; lu-u-ta. As cacofonias são inevitáveis, se não se fizer a elisão em nessigualdade; vejam o que se canta: dessáigualdade,( Ai, como dói o ouvido!) por mais que nosso Duque Estrada cuidasse do encaminhamento paralelo da sua letra à música, que chegou bem antes, quando da coroação de Pedro II_ com pomposo nome de Marcha Triunfal. Se Ana Arcanjo, indignada, cobra o canto da Introdução, além de mostrar que brasileiro só lembra a primeira ignorando a obrigação das duas partes do poema ao ser cantado e na execução orquestrada, a música não se repete e não se canta, porque em tonalidades diferentes, segundo decreto, complicaria mais ainda atribuir à Introdução uma letra como a do autor Américo de Moura, nos arroubos de seu entusiasmo cívico. A meu ver, o próprio nome dá sentido de pequeno trecho orquestrado, que “incita” o desenvolvimento musical a seguir. Muito rebato o fato de se executar a Introdução, quando se volta ao canto da segunda parte, porque, logicamente, o canto sequencial já a dispensa, trazendo sentido de quem já entrou e não precisa sair pra tornar a entrar... Geralmente, interpretam que se deva fazê-lo, porque o decreto obriga que se faça na integra, a sua execução, (o que entendo ser, apenas, a letra!) no que vai aí minha discordância. Questão de interpretação... Quanto aos vícios de linguagem e de

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entonação, nem sempre tivemos, nas escolas, professores especializados de Canto Coral. Projeto de Villa Lobos, na era Vargas, incentivou a criação de orfeões, nas escolas brasileiras. Naquela época, a Escola de Canto Orfeônico da Praia Vermelha, no Rio, criada por Villa, formava professores de música e, portanto, tinham noções profundas da pedagogia musical. Tempos depois, o governo não mais abriu vagas a especialistas nas salas de aula. Extin-

guiu-se, por longo tempo, a aprendizagem do orfeão, nas Escolas públicas. Arquivou-se a didática motivante, como análise e ordem direta de nossos hinos pátrios para devida compreensão, sinônimos, rítmica, histórico, provocando entusiasmo e compreensão, porque não se pode apreciar o que não se conhece. E nem despertar a sensibilidade!

*Cônsul Poetas Del Mundo, cantora lírica, professora de canto e poeta.

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Carlos Donizete Bertolucci*

CAVALOS DE MIM Tão longe Os cavalos da pátria Socorrem em mim Seus efeitos perpetuados Nas suas mortes que os elegeram Semideuses Aos tropelos de suas cavalgadas. O mundo se acende e se apaga Em acordes de liras De muitos Neros E queimam explícitas entrelinhas Que pairam Na fumaça que ainda fumega E realça as denúncias Na praça da Terra Madrasta. O silêncio dos arrabaldes Se desfalece para consumir o vazio Que ocupa o grito do alienado Em torpor com a “Vênus platinada”. Outra vez o tropelo invade A mesma terra noturna Da cidade que escolhi, E todas elas refletem O mesmo vestígio da outra De homens vulgares e inexpressivos, E eu volto ao meu silêncio de chumbo Ao peso de minhas pálpebras derrotadas E as ergo, Em cada cavalo de mim. (A minha festa eu a deixei na minha aldeia,

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quando ela possuía ruas de terra e, a outra festa, eu preparava num ensaio que ela não veio.) Agora o socorro é tão perto Nas cinzas dos livros profanos Abduzidos nas inquisições dos Salazares, E fragmentam nas teses simplificadas Que se evaporam em chamas Materializando nas tábuas Aos redores dos sete montes Sinai. Se é assim, O poder dos olhos que avistam Na mesma leitura Parede e porta em conjuntos Saber que no mesmo bloqueio se apresenta A passagem entre dois espaços opostos Ou se o mesmo espaço se estende Ou se interage, Deverei seguir sem fronteiras Sob o sol que não mede as pátrias. Agora, desde então, andante e só, Que me inclinei em meu próprio abismo Minha adesão eu dei ao puro alento Em não compartilhar aos que prendem na terra O próprio umbigo. Assim, sem desterro Outrora aprisionado, Permaneço aos toques de sinos sem metafísica Em desamparo diante do todo Onde vejo estático a liberdade No meu irmão de repente morto imóvel na sala fúnebre E, Minha mãe no etéreo o recolhendo, Pelas mãos, Lhe puxando pelo seu cordão umbilical. Por isso, sem alarde Não é tarde que eu também vá! Não é a terra, não é a pátria; Nem a fronteira O encontro que nos delimitamos, Ou não nos limitamos jamais! *Sócio correspondente da ALTM.

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Cel. Hely Araújo Silveira *

INCÊNDIO EM DIAMANTINA

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heia de gente amiga, casario antigo, serestas diárias até as madrugadas, terra de JK, 300 km de Belo Horizonte, mil e duzentos metros acima do nível do mar, morros, serras a perder de vista, assim é Diamantina. Maio de 1983, lá desembarco, em meio à hostilidade política ainda resquício da “revolução”. Designado pelo Governador, assumi o comando do 3º Batalhão da Polícia Militar, secular unidade das mais antigas do interior do Estado. Os oficiais me alertaram: “ Comandante, cuidado com os políticos , não toleram militares !” Havia inclusive uma relação deles com o sentinela, com ordem expressa para não deixar entrar ! O litígio era dos dois lados. É que na “pós-revolução“ havia, realmente, muita sequela do malfadado episódio brasileiro. Sem entrar no mérito da questão, lamentava as informações e formei uma estratégia. De imediato, retirei a ordem do sentinela. No dia do soldado, 25 de agosto, programei uma solenidade com todos os detalhes e fui, pessoalmente, convidar os líderes políticos da oposição. Compareceram todos, para espanto da tropa. A partir daquela data, tornamo-nos amigos e, em todos os eventos da cidade, vinham me convidar, também pessoalmente. Na primeira semana de minha estada na cidade, eu soube de um movimento dos referidos políticos para me retornarem à capital, pois desejavam outro oficial, conhecido na cidade. E quando parti, três anos depois, os mesmos políticos que desejavam minha saída, prestaram-me e à minha família, uma homenagem inesquecível, no melhor restaurante da cidade, além de solicitarem ao governador minha permanência ( que recusei, pois desejava voltar à minha Uberaba). Um dos fatos que mais marcaram minha passagem por Diamantina foi um incêndio que nasceu em uma

madrugada sem lua. Altas horas, eu dormindo, acordo com alguém gritando : “Comandante, comandante, incêndio na cidade !” Naquela época, não havia Corpo de Bombeiros na região, sendo o mais próximo em Sete Lagoas, cerca de 250 km distante. A cidade sempre ofereceu alto risco com referência a incêndio, pois as casas, na maioria absoluta, são antigas e juntas o que facilitava a propagação do incêndio. Levantei-me e liguei ao Quartel, determinando que a guarda se dirigisse imediatamente para o local, além de chamar todos os PMs de folga. Ao chegar verifiquei que o incêndio era sério – um botijão de gás iniciara o mesmo que já atingia os tetos de algumas casas. Recordome de ter subido em um forro para ver a extensão e tive que voltar com a jaqueta de couro queimada ! Filas se faziam, pessoas com vasilhas cheias d’água que logo eram esvaziadas. Fui até o posto do DER e lá havia um caminhão pipa que, por azar, estava colocado no fundo de um terreno com vários caminhões à frente, e o motorista havia levado a chave. Prevendo algo inusitado em Diamantina, telefonei aos Bombeiros de Sete Lagoas que, imediatamente, saíram com alguns veículos em alta velocidade, mas somente chegariam após, no mínimo, duas horas quando o incêndio já deveria ter devorado muitas casas ! Ocorreu, então, o que eu ainda não conhecia pessoalmente: o denodo, a união, a força de vontade do povo diamantinense. Em pouco tempo, uma multidão de guerreiros, cada um com sua vasilha d’água, em tempo recorde, dominaram a tragédia. Restavam fumaça e madeiras retorcidas ainda quentes. Este fato foi o marco final da luta do povo pela instalação do Corpo de Bombeiros na hospitaleira cidade. Em breve lá chegaram os denodados soldados do fogo, definitivamente.

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Se você não conhece Diamantina, vá na primeira oportunidade. Hospitaleira, povo amigo, memória viva

do passado, terra de nosso maior homem público, fundador de Brasília – Juscelino Kubitschek de Oliveira. *Historiador e escritor.

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Cesar Vanucci *

FOI TUDO UM SONHO “Só o impossível é digno de ser sonhado.” (Abgar Renault)

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onhei, madrugada dessas, um sonho lindo de viver. Só que impossível, como nos versos do “The impossible dream”, dos compositores Mitch Leigh e Joe Darion, trilha musical da peça “O homem de la Mancha”.

múltiplas tendências. Passando por cima de suas até então incontornáveis diferenças culturais, políticas e comportamentais, em reunião presidida pelo legendário Nelson Mandela (apontado no passado por políticos e mídia intolerantes como perigoso terrorista), firmaram compromissos solenes com o objetivo sagrado de fazer, rapidamente, deste um mundo bem melhor pra se viver.

Trago aqui um sumário dessa manifestação onírica, como qualquer outra pontilhada de lances desconexos, no caso específico de um surrealismo capaz de desparafusar cuca de fundamentalista religioso. Na intrigante trama deste meu sonho, os dirigentes de nosso planeta azul viram-se, de repente, tocados pelos eflúvios mágicos da maravilhosa festa popular promovida pelos africanos em seu maltratado território. Sentiram-se sacudidos pela bela proposta de confraternização universal implícita nas reações de milhões de criaturas que, em todos os continentes, acompanharam os jogos da Copa com borbulhante entusiasmo e que se surpreenderam vinculadas por poderosa egregora que põe à mostra perfeita sintonia de sentimentos nobres. Inspirados no exemplo dessas multidões, de nacionalidades, etnias e credos diferentes, eles, os dirigentes do mundo, resolveram então, sob a égide da ONU, convocar a humanidade para participar de um histórico encontro. Reservaram para o encontro um estádio imenso, em forma de “calabash”. Ou seja, com configuração idêntica à daquele maravilhoso prodígio arquitetônico plantado em Joanesburgo. Colocaram de lado idiossincrasias ideológicas, chovinismos nacionalistas, pruridos racistas, juntando no gramado, à volta de mesa de dimensões colossais, todos os chefes de Estado, líderes religiosos, políticos, militares, cientistas, pensadores de escol de

Os debates correram em atmosfera amena e cordial, com o diálogo franco neutralizando os desencontros das ideias. Foram acompanhados pelo povão que lotava as arquibancadas de infinitas dimensões. Os anúncios das decisões tomadas arrancavam explosões de júbilo. O colorido das vestes e o alarido de vozes em milhares de idiomas faziam do ecumênico evento o mais extraordinário espetáculo de movimentação popular jamais contemplado pelo olhar humano. Valendo-se de expedientes místicos e eletrônicos, bolados por estudiosos em transcomunicação e física quântica, os promotores do encontro obtiveram permissão pra trazer, de outras latitudes existenciais, personagens de presença fulgurante na história da construção humana, ainda hoje, mesmo após haverem partido primeiro, preocupados com os rumos das coisas. Esses personagens compuseram torcida à parte, emitindo jatos de energia, sabedoria e luminosidade sobre a mesa dos debates. Deu para registrar, entre outras, as presenças, num trecho do interminável palco do sonho ora relatado, de Francisco de Assis, Einstein, Gandhi, Tereza de Calcutá, João XXIII, Luther King, Teilhard de Chardin, Albert Schweitzer. Mas

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havia muitas outras figuras admiráveis. Do time brasileiro deu pra localizar, por exemplo, o marechal Rondon, JK, Helder Câmara, Chico Xavier, Dra. Zilda, Sobral Pinto, todos ardentemente empenhados em passar lições humanísticas que ajudassem as lideranças terrenas a tomarem juízo e usar melhor os dons com que foram aquinhoados. A melodia envolvente na abertura do conclave foi composta, no sonho narrado, por craques que já emigraram, também, para outros patamares de vida. Debussy, Vila Lobos, Ary Barroso, Tom Jobim, Cole Porter e George Gershwin, os autores, pelo que o alto-falante informou. Outra coisa incrível, só explicável mesmo pelas metamorfoses singulares inerentes aos sonhos: a execução da música produzida pelo admirável consórcio de talentos ficou a cargo, vejam só, do gigantesco coral das vuvuzelas. Só que o mavioso som propagado foi, na verdade, o de uma orquestra de violinos invisível.

co e disseminação da educação. Deliberaram colocar os veículos de terra, mar e ar das forças armadas a serviço dos atendimentos de saúde e a empregar os contingentes militares exclusivamente em ajuda humanitária. Optaram pela eliminação dos gases tóxicos causadores do “efeito estufa” no prazo de um ano. Prazo idêntico ficou estabelecido para a erradicação da pobreza. Firmaram protocolos para que a indústria de carros começasse a produzir apenas veículos que usem combustível não poluente. Ordenaram aos cientistas engajados em pesquisas bélicas que deslocassem o foco da atenção para estudos com o fito exclusivo de debelar todas as formas de agressões à vida. Determinaram, também, que, os preços dos produtos farmacêuticos passassem a ser os da farmácia popular. Deu pra observar, ainda, por rápidos instantes, o Barack Obama, o Benjamin Netanyahu e o Almadinejad a trocarem, sorridentes, calorosos abraços, com direito a tapinhas nas costas. Os desdobramentos do encontro bem que prometiam, como se vê, render mais histórias alvissareiras. Mas, infelizmente, não deu pra chegar lá.

Hora de falar das resoluções aprovadas. Os donos do mundo firmaram pacto em torno de algo muito mais completo do que, simplesmente, a redução dos armamentos. Resolveram proscrever a guerra. Decidiram redirecionar a fábula de dinheiro gasto com artefatos bélicos para programas universais de saneamento bási-

Como na bela canção de Mário Lago, foi tudo um sonho, acordei. *Acadêmico, cadeira 09.

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Dirce Miziara *

CHUVA NO TELHADO

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omo nos sentimos e o que pensamos quando estamos dormindo, com coberta acolhedora, e começa uma chuva fria caindo no telhado como cantiga de ninar? Achamos até muito gostoso, pois ajudanos a conciliar o sono mais depressa e dormimos a noite toda sem acordar. Mas será que aproveitamos para fazer meditação sobre o que ocorre nas favelas, nos cortiços, com os que dormem ao relento ou debaixo da ponte? Acredito que muitos de nós, às vezes cansados pela labuta do dia, nos deitamos e nem ao menos fazemos o sinal da cruz para agradecer a Deus as graças recebidas durante o dia. Viramos para o canto e dormimos a sono solto. Será que já paramos para pensar que somos privilegiados e temos que lutar contra os privilégios, não ficar sem eles, mas sentir que devem ser de todos e para todos? Nós, que acima de tudo somos cristãos, deveríamos tirar pelo menos cinco minutos por dia e meditar nessa realidade e sentir que, para nós, a chuva no telhado é cantiga de ninar, mas o pobre meu irmão vê com desespero a chuva fria entrar em seu barraco, promovendo vários estragos, causando não só prejuízo material como principalmente na saúde do homem que não tem uma vida humana justa para viver ainda que precariamente. A cantiga de ninar é direito de todos. O homem tem que ter direitos e deveres e hoje só temos deveres . Embora haja grande luta, e até já tenha havido uma me-

lhora neste sentido principalmente por parte do governo, nós também temos de colaborar em todos os sentidos na construção da história, cada um de acordo com sua capacidade e com sua posse para formalizar um plano de conscientização do ser para transmitir a todos que devemos ser para ter. Como poderemos conseguir tudo isso? Partindo de nós mesmos, vivendo a realidade com olhar crítico e maturo para chegarmos a uma conclusão certa, para podermos combater tudo que destrói o homem e consequentemente a HISTÓRIA. A primeira coisa é tentar acabar com os estragos da chuva no telhado. Temos a mania de condenarmos sempre o governo. Mas quem de nós já demos passos para ajudar o governo nessa luta árdua? Será que dentro de nosso comodismo encontraremos soluções para ao menos acabar com as destruições da CHUVA NO TELHADO? Meditemos que aos poucos encontraremos soluções. Talvez seja tarde, mas não tão tarde que não possa solucionar alguma coisa. Temos que pôr a cabeça para funcionar e assim contribuiremos e muito na construção do homem e do mundo. Temos que colocar autenticidade em nossos gestos e palavras para que possamos vivenciar no tempo e no espaço toda a vida do ser humano e atingirmos a plenitude dos tempos num mundo mais igual e a vida em plenitude. *Sócia correspondente da ALTM.

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Dom Benedicto de Ulhoa Vieira*

REFLEXÃO SOBRE O AMOR

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inguém, que saiba refletir sobre a vida humana, seus relacionamentos e suas exigências, ignora que o que entrelaça a existência e lhe dá sentido é o amor. É o que impulsiona a criatura humana para buscar sempre seu bem-estar e sua felicidade. Difícil descrevêlo, por misterioso que é, mas é o que impulsiona a vida e lhe dá sentido. A própria Escritura sacra define Deus como o Amor (1º Jo 4, 8). O grande pregador Padre Antonio Vieira, cujos sermões em nossa língua são de beleza indescritível, deixou lindas e profundas reflexões sobre o amor divino e o amor humano. Lembra porém que o amor pode ser destruído por muitos perigos que ele chama de “remédios” que podem curar o amor. E diz que Cristo evitou estes perigos dando-nos sua presença eucarística para não sofrer o resfriamento que a distância poderia causar. Profunda reflexão. O que, em primeiro lugar, pode esfriar e até destruir o amor, diz o Padre Vieira, é o tempo que “tudo gasta, tudo digere, tudo acaba”. Compara ele o afeto amoroso com a vida. Quanto mais longa for, é certo de passar a durar menos. É a motivação que levava os antigos, na sua sabedoria que o tempo ensina, a pintar o amor como se fora um menino, “porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho”. Com o correr do tempo o amor cria

asas, com que voa e foge. Mas isto acontece quando, quem ama, não toma os necessários cuidados de fazer de cada dia o primeiro dia. Santo Agostinho, um dos sábios da antiguidade, adverte-nos que o amor – se verdadeiro – tem de ser eterno, porque se vier a desaparecer, nunca de fato foi amor. Em tudo mais na vida, quando desaparece, prova que existiu. Só com o amor se dá o contrário: se deixa de ser, é certo que nunca foi. Se desaparecer, esfria e morre. Se fora, nunca deixara de ser... Esta é a razão pela qual, quando terminava uma ordenação sacerdotal, das muitas que tive a alegria de realizar como bispo, sempre recomendava ao jovem sacerdote que fizesse de cada dia de seu ministério, sempre o primeiro dia. O mesmo vale para o casal. Já que não existe casal infeliz no dia do casamento. Por certo é o que levou o evangelista São João a registrar que o amor de Cristo por nós, tanto ao instituir a Eucaristia, como a dar-nos a redenção na cruz, foi permanente, isto é, até o fim. Ou melhor: até depois do fim... Nem vale querer justificar o fim do amor por motivos que pareçam razoáveis. É só lembrar a sábia advertência de Camões: “É tanto mais o amor depois que amais / quanto são mais as causas de ser menos”. *Acadêmico, cadeira 19.

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Edmar César Alves*

TRIBUTO A PADRE EDUARDO, O PAI DOS POBRES

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assados seis anos, numa manhã de 13 de abril, despedia-se da comunidade araguarina um dos homens mais caridosos que passaram por essa região: Padre Eduardo Jordi – o “Pai dos pobres”, assim chamado, em especial, por aqueles que sempre encontraram eco em seu imenso e bondoso coração. Com sua partida, em 2004, os pobres ficaram mais pobres, faltaram-lhes o cobertor, o remédio, a comida, o transporte na abençoada “Brasília”, a orientação, a prece, a luz e o carinho que foram as marcas com o timbre do amor espalhadas por esse seguidor do Cristo aos menos favorecidos da sociedade, moradores dos bairros carentes do nosso Município. A lacuna deixada por esse santo Padre, que nunca largou sua batina onde quer que fosse, mesmo depois de tanto tempo, ainda não foi preenchida e, acredito que muito tempo ainda levará, pois, parafraseando um grande escritor, gerações passarão e dificilmente acreditarão que esteve, entre nós, uma alma tão bondosa, tão pura e tão despretensiosa como foi o cidadão araguarino, Padre Eduardo Jordi, título que recebera em 1977. Nascido em 27 de março de 1913, em Breda, no Sul da Holanda, batizado com o nome de Johannes Adrianus Joseph Jordi, Padre Eduardo, filho de protestantes italianos, foi o primeiro da família a se converter ao catolicismo e se ordenar padre, fato ocorrido em 25 de julho de 1937, em Valkenburg, na Holanda, na Igreja dos Padres dos Sagrados Corações, aos 24 anos de idade. Um mês após a ordenação, em sua terra natal, celebrou sua primeira missa que foi acompanhada por diversos fiéis com muita emoção. Em 15 de outubro de 1938, desembarcou em solo brasileiro, Pernambuco, vindo a desenvolver suas atividades no Colégio Dom Lustosa, em Patrocínio-MG,

onde permaneceu até 1948, sendo transferido em seguida para o Seminário de Ferraz de Vasconcelos-SP. De lá, foi nomeado para Lisboa, Portugal, ficando apenas um ano em virtude de retornar para a Holanda onde estudou psiquiatria. De volta ao Brasil, retornou a Ferraz de Vasconcelos e, em 1958, aos 45 anos de idade, veio para Araguari, acompanhado de cinquenta e oito seminaristas, desenvolvendo exímio trabalho na formação dos jovens e na assistência fraterna. Com o fechamento do Seminário de Araguari, Padre Eduardo iniciou seus trabalhos na Paróquia de São José Operário, vindo a participar, posteriormente, da construção da Casa Padre Nilo, localizada na zona rural do Município, de propriedade dos Padres, e, com o conhecimento adquirido em psiquiatria, passou a atender, também, jovens que se encontravam envolvidos no vício das drogas. Com o apoio de seus superiores e colaboradores outros, fundou a Comunidade Terapêutica Pró-vida, entidade filantrópica à qual se dedicou de corpo e alma. Aos 90 anos de idade, em dezembro de 2003, por prescrições médicas, foram interrompidas suas atividades de celebração na Igreja Medalha Milagrosa e do Colégio Sagrado Coração de Jesus. No mesmo hospital que tantas vezes fora visitar e levar doentes, Hospital Santo Antônio, às vinte e duas horas de 12 de abril de 2004, foi internado na Unidade de Terapia Intensiva, vindo a falecer às onze horas do dia seguinte, aos 91 anos de idade. Uma multidão de fiéis, amigos e admiradores, dos mais diversos segmentos religiosos do Município, acompanharam em silêncio e lágrimas, em orações e aplausos, comovidos e entristecidos o velório na Igreja

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Medalha Milagrosa, a missa de corpo presente, celebrada pelo Bispo Dom José Alberto Moura, na Igreja Rainha da Paz e o cortejo que passou pelas principais ruas da cidade. Próximo às dezoito horas de 14 de abril de 2004, os restos mortais do inesquecível e saudoso Padre Eduardo Jordi foram colocados no Jazigo dos Padres dos Sagrados Corações, à direita da entrada principal do Cemitério Bom Jesus, em Araguari. Das histórias ouvidas e registradas sobre Padre Eduardo, de uma jamais me esquecerei. Certa feita, tarde

da noite, ele, em casa, antes de dormir, pediu à sua amiga e enfermeira Vitória para que lhe preparasse um chá com torradas. E, como não era de costume, foi indagado sobre o porquê daquele lanche tão tarde da noite e, humildemente, ele respondeu: É que veio uma senhora aqui hoje e dei pra ela o meu almoço, mas não conte isso pra ninguém. Assim se expressou Padre Lúcio Dumont Prado, de Belo Horizonte: Ele viveu e morreu como filho dos Sagrados Corações. *Acadêmico, cadeira 16.

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Elza Teixeira de Freitas*

HOTEL TOFFOLO Pelas ruas de pedra a caminhar, já no ocaso da vida e fim do dia, a passos lentos fico a recordar um tempo bom, de risos e alegria. Até parece que vou te encontrar, nas asas leves dessa fantasia... Eu me contenho para não chorar na tarde amena, de melancolia. Quantas saudades do primeiro amor, da mocidade sem afetação, dos corpos nus, no mais sadio ardor. Eis que se me depara o mesmo hotel (oh, que surpresa, que grata emoção) onde estivemos em lua de mel... Ouro Preto – 1960/2009

Soneto classificados em 2º lugar no Concurso Nacional de Sonetos -2009, promovido pelo Grêmio Literário Castro Alves, em Porto Alegre – RS, em dezembro de 2009 e em 1º lugar no Concurso de Poesia de Araguari -2010. *Acadêmica, cadeira 24.

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Guido Bilharinho*

CAMILO CASTELO BRANCO

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Do Ultra-Romantismo ao Realismo O Tempo e os Modos

o século XIX deram-se a eclosão do romantismo e o surgimento do naturalismo e do realismo. Aquele decorreu diretamente da ascensão e domínio da burguesia com seu culto e prática do individualismo e da liberdade na área econômica contraposta à constrição do regime feudal e semifeudal anterior. No campo cultural, desvencilharam-se os intelectuais (pensadores e principalmente os artistas) da imposição normativa dos cânones clássicos até então imperantes e direcionadores do fazer artístico para erigirem-se senhores de sua própria obra, não sem também a ocorrência e prevalência de diretrizes comuns. A independência adquirida, como toda conquista libertária, desaguou, num primeiro momento, em exageros. Os romances Amor de Perdição (1861) e Amor de Salvação (1864), de Camilo Castelo Branco (18251890), enquadram-se nesse estereótipo e nele se perdem, não obstante a forma que têm, advinda, todavia, do poder verbal do autor e não da estruturação ficcional. Com o tempo e os modos, com o capitalismo aplicado e suas consequências sociais, quebrou-se a ilusão ínsita na ideologia que o justificava, emergindo de sua atuação as agruras de realidade confrangedora, na qual as benesses e vantagens econômicas concentravam-se cada vez mais, semeando simultaneamente a miséria com o aprofundamento da exploração capitalista da mão-de-obra desamparada. A nova atitude mental daí originada bifurcou-se, em ficção, nas tendências naturalistas e realistas. Talvez em nenhuma outra obra ficcional tenha o embate entre romantismo e naturalismo se expressado tão

bem como em Os Maias (1888), de Eça de Queirós, ele mesmo naturalista e realista. Diz: “O naturalismo, esses livros poderosos e vivazes, tirados a milhares de edições; essas rudes análises, apoderando-se da Igreja, da Realeza, da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas, dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão, como a cadáveres num anfiteatro; esses estilos novos, tão preciosos e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a cor, a palpitação mesma da vida; tudo isso [.. .] caindo assim de chofre e escangalhando a catedral romântica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre Alencar [Tomás Alencar, personagem do romance] e tornara-se o desgosto literário da sua velhice” (Obras de Eça de Queirós, vol. II, Porto, Lelo e Irmão – Editores, 1958, p. 115, distribuída no Brasil pela Editora José Aguilar). O mesmo Alencar afirma adiante: “Lá essas coisas de realismo e romantismo, histórias... Um lírio é tão natural como um percevejo... Uns preferem fedor de sarjeta [....] Eu prefiro pós de marechala num seio branco” (op. cit., p. 174). O embate entre o velho que morria e resistia e o atual, que era o novo – o atual é sempre novo – durou largo tempo e, como sempre acontece nesses casos, deixou feridos e moribundos os defensores da velha ordem, já que a realidade presente e emergente comumente se impõe, malgrado as resistências, sempre infrutíferas. Camilo Castelo Branco, como não poderia deixar de ser na ocasião, foi vítima de ataques dos naturalistas e dos realistas, do que se queixava. Na “Carta a Camilo Castelo Branco”, Eça de Queirós registra o fato com as costumeiras precisão e verve: “Um tardio correio trouxe-me ontem um número, já quase velho, das Novidades, com um artigo, ‘Notas à Pro-

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cissão dos Moribundos’, em que V.Exª., resmungando e rabujando, se queixa ao público de que eu e os meus amigos implicamos consigo, sempre que isso vem a talho de foice, e lhe assacamos aleivosias”, para, ao final, perorar: “Corro também para o público [....] e brado profusamente com as mãos sobre o peito: Nunca! É falso! Jamais impliquei com ele, e não lhe quero senão bem” (in Últimas Páginas, op. cit., p. 799 a 802). De fato, não era necessário a Eça “implicar” com Camilo. Bastava, para lhe antepor, O Crime do Padre Amaro (1876). A verdade, porém, é que Camilo viu-se em desconfortável defensiva. Como reagiu? Não, apenas com queixas, sempre inúteis e geralmente contraproducentes, mas, com obras, com alteração e adaptação radical de seu modo e fazer literário, indo do ultra-romantismo ao realismo com a comédia teatral O Morgado de Fafe Amoroso (1865), não obstante incidir posteriormente no naturalismo dos romances Eusébio Macário (1879) e A Corja (1880).

se lembrar a precisa (e preciosa) colocação do dramaturgo Augusto Boal, para o qual, no realismo, “o autor não pode exprimir suas próprias idéias, além das idéias possíveis na consciência das personagens. Estes, para se manterem verdadeiros dentro do realismo, não podem pensar pensamentos além do nível da sua consciência. São os personagens que conhecem a sua realidade, não o autor. E eles a conhecem deformada, parcialmente” (prefácio à peça Juno e o Pavão (1925), de Sean O’Casey. São Paulo, Editora Brasiliense, s. d.). No naturalismo, além de se limitar ao sensorial e ao instintivo, o autor os exorbita, sem embargo de expor, em instantâneos, às vezes mais breves que o necessário, aspectos da realidade das personagens e do ambiente no qual se inserem. Camilo, no entanto, desprezou sua experiência, conforme expõe no prefácio à segunda edição da obra: “A coisa em si [‘penetrar com olho moderno os processos do naturalismo no romance’] era tão fácil que até eu a fiz, e tão vaidoso fiquei do Eusébio Macário que o reputo o mais banal, mais ôco e mais insignificante romance que ainda alinhavei para as fancarias da literatura de pacotilha. Se eu o não escrevesse de um jato, e sem intermissões de reflexão carpir-me-ia do tempo malbaratado.” Ledo engano. Eusébio Macário saiu superior a qualquer de suas obras românticas. Em tudo. A começar porque é mais preciso nas colocações e explanações, pelo que a verborragia anterior é atenuada e a linguagem é manejada parcimoniosamente, restrita ao necessário. A orientação naturalista, apenas visão parcial e exacerbada de aspectos da realidade, mas, despida de quaisquer laivos da idealização fundamental do romantismo, forçosamente induz à economia de meios. Os biótipos das personagens principais (Eusébio e seus filhos – José Fístula e Custódia – padre Jacinto e Felícia) são traçados, por isso, com objetividade e ênfase nos pendores e inclinações sexuais e interesses materiais. A técnica ficcional, no entanto, ainda é narrativa, sem deixar, pois, que as personagens ajam por si, visto que apenas são descritos seus atos e desejos. Em decorrência dessas particularidades, do vigor expositivo do autor e do entrecho armado com essas personagens, despertam-se com muito mais intensidade que nas narrativas românticas o interesse pela leitura e o acompanhamento da trama. Nesse livro, como em A Corja, sua continuação, Camilo emparelha-se com seu tempo, embora, como se observa pela citação, a contragosto e em oposição à sua

Eusébio Macário e A Corja O confronto entre essas tendências marcou fundo Camilo, a ponto de, em Eusébio Macário, na “Dedicatória” à “Minha Querida Amiga” (Ana Plácido, com quem coabitava), afirmar: “Perguntaste-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos (sic), um romance com todos os “tiques” do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi.” Camilo não perdeu a aposta, conquanto não tenha escrito romance realista, mas, naturalista, que é coisa diversa. Realista ele só o seria, entre possivelmente outras obras, na comédia O Morgado de Fafe Amoroso. Era, porém, comum a confusão que se estabelecia, à época, entre essas tendências. Porém, natural é uma coisa e real é outra. O naturalismo, como tendência e prática, restringe-se a seccionar e enfatizar da realidade apenas a faceta sensorial e instintiva, não atingindo nem abarcando a realidade como um todo, que compreende o ser humano e a sociedade que estabeleceu e em que vive em determinado tempo e espaço. Ambos, ser humano e sociedade, são muito mais amplos, ambíguos e complexos que as manifestações enfocadas e enfatizadas pelos naturalistas. Para se aquilatar a abrangência do realismo, é de

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formação romântica. A teia de relacionamentos desses romances, mesmo obedecendo às diretrizes naturalistas, já apresenta elevado grau de autenticidade e espontaneidade, visto que essa visão da vida e do mundo não é falsa, mas, apenas restrita a uma das facetas das manifestações humanas, às quais unicamente atribui causas e origens de fatos, condutas e acontecimentos. A superioridade dessa percepção do ser humano sobre a esquematização romantizada e idealizada evidencia-se de maneira nítida na comparação entre essas e as obras românticas, principalmente quando elaboradas, como é o caso, pelo mesmo autor. Além disso, em Eusébio Macário, diferentemente dos “amores” anteriores, denotam-se preferência e referências a plantas e ervas manipuladas na farmácia de Eusébio, desde o urgelão à tília, passando, entre muitas outras, pela parietária, verbasco e bardana com suas características e propriedades medicinais; a pássaros no mesmo capítulo (melro, tordo, toutinegra, giesta, carriça, cuco, poupa, estorninho, etc) e suas descrições, dons canoros e singularidades; a cremes, loções e pomadas das mais variadas aplicações (cap. VII) e medicamentos, em A Corja (cap. XVII), desde à água magistral aos óleos de alcaparras e alacraus, com indicação de seus predicados. Tanto num romance quanto noutro, a par de forte poder expressional, utiliza-se variado e apropriado vocabulário, demonstrativo de grande riqueza lexicográfica, tanto em Eusébio: regueifa, estriga, gafo, moxinifada, alporca, áscuas, cróia, facaia, bacorejar, esturro, pucarinho, bajojo, nalgas, alfurjas, palanfrórioi; quanto em A Corja: mafarrico, amolgado, ráscoa, tábida, protervo, quermes, tranquibérnias, seresmas, herpético, estilicídio, semicúpio, bebra, catrapós, lupercais, palanganas, lardo, etc. Não obstante seu conhecimento do idioma, escorrega em “um por cada vez” (A Corja, cap.XIII), cacófato este, como outros, de que ninguém está livre. Impressiona nesses romances a perfeita e completa assimilação dos postulados naturalistas desde os teóricos à sua aplicação, não havendo resquícios de resíduos românticos ou idealizadores, a ponto de uma personagem dizer a outra: “não há destinos, senhora baronesa; o que há são ilusões, enganos, sonhos de felicidades que o mundo não tem” (A Corja, cap. XVI).

tismo- naturalismo–realismo não se deu, entretanto, cronologicamente, já que atingiu este último muito antes do segundo. Nele, e com ele, nada era tão simples, resolvível ou resolúvel assim. Lidando e cultivando vários gêneros literários: poesia, ficção (romance, novela e conto), teatro (drama e comédia), polêmicas, memórias, crônica, crítica e biografia, alcançou o naturalismo no romance só em 1879, após ter escrito mais de sessenta livros de ficção desde Anátema, de 1851. No teatro, cujas exigências de contenção e objetivação são outras e absolutas, além de narração estrita e constrita, a própria necessidade estrutural do gênero o impeliu, mais que induziu, ao realismo, que, antes de tudo, é dom de observação. A circunstância de ser comédia limou-a de possíveis excrescências e evitou tiradas grandiloquentes, cenas de tragicidade exagerada, como nos romances românticos anteriores. No gênero, é também de discrição total, cingindo-se o humor ao indispensável e, melhor, apropriadamente, emergindo do contexto e da índole da personagem. Nesse aspecto, a figura de Pôncia, não obstante estereotipada, é a melhor construída da peça. Não só dela, mas, da ficção em geral. Suas intervenções, reações, propósitos e maquinação (no caso, para boa causa) são exemplares, dadas sua pertinência e atilamento. Depois dela avulta o morgado. Aliás, a galeria de figurantes da peça, sem exceção, além de analítica, é de excelente fatura. Ou seja, a própria personagem, por seu modo de ser, atuação e desígnio carrega em si a avaliação de sua condição pessoal, notadamente de ignorância e atraso, como Hermenegilda e seu pai ou de índole interesseira, caso de Vicência. Os diálogos, por sua vez (e a peça é toda e só de diálogos, como toda obra teatral), são objetivos, diretos, espontâneos, contendo apenas o indispensável para a comunicação. A própria singeleza do entrecho é sua maior qualidade, que extrai da vida o sumo de seu significado e o devolve em forma literária e expressiva de autenticidade e espontaneidade raras vezes conseguidas em obras de gênero. Ao observar a vida, sem acrescentar-lhe ou deturpar-lhe o sentido sob o guante de idéias feitas e preconcebidas, como em suas obras românticas e naturalistas, faturadas sob diretrizes de antemão absorvidas e assumidas, Camilo atinge o máximo de sua capacidade de concepção

O Morgado de Fafe Amoroso

A trajetória de Camilo através do périplo roman-

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e expressão numa comédia despretensiosa. Aliás, essa despretensão é que lhe permitiu abeberar-se diretamente da realidade sem intermediações ideológicas limitadoras e deturpadoras.

O teatro e o cinema permitem que as personagens ajam e se exponham diretamente, sem a intervenção narrativa do autor, muitas vezes equivocada e em geral excessiva. (do livro inédito Romances) *Acadêmico, cadeira 40.

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Convergência - nº 22 - novembro 2010 - Academia de Letras do Trângulo Mineiro

Hélio Siqueira*

TRIÂNGULO MINEIRO UMA PAISAGEM VISITADA POR BANDEIRANTES, CIENTISTAS, EXÉRCITOS, RELIGIOSOS E UM ARTISTA DE OLHAR AGUÇADO.

E

m abril, a paisagem triangulina se abre em deslumbramentos e o que era um horizonte intransponível de nuvens pesadas e cinzentas das tempestades de janeiro e março, transmuta-se em véus diáfanos onde o sol claro e dourado vai desbastando e esculpindo os planos, aproximando ou distanciando o céu límpido cujo azul pesa sobre nossas cabeças.

solidão monástica para que esta fosse guindada a símbolo e o silêncio milenarmente estigmatizado fosse acordado, para alcançar, através de um emaranhado de linhas, esta diáfana paisagem. Contornada. Fugidia. Aprisionada. Real e imaginada. Babinski é o nome desse artista que primeiro fixou o olhar sobre esta região. Descobriu-a virgem com avidez de viajante. Deslumbrou-se com o motivo e o transportou para as chapas metálicas do cobre. Sulcando-o com uma ponta aguda de desenho preciso e incisivo, reescreveu o húmus nada seco, mas contagiante e emocional desta terra fértil – mesopotâmica. Dá-se, então, o encontro da consciência com a sensibilidade, caligrafadas com requintes orientais de quem visitou humildemente os grandes mestres em exercícios infinitos para depois se soltar.

Esta paisagem tão presente, tão inatingível e quase inabitada de seres, se desdobra em campos a perder de vista. A terra devastada pelo fogo ou pelo ferro forjado dos tratores espera a semente, que intrépida e teimosa brota esverdejante. Por mais que fosse atravessada de idas e vindas por almas desassossegadas, esta paisagem nunca foi alcançada com tanta emoção por um olhar tão aguçado. Um olhar emotivo em suas nuances, radiografando microscopicamente os volumes das pedras e das árvores, a leveza das nuvens, o contorno impreciso de um tronco retorcido, expressivo, expressionista ou a retidão paralela de uma cerca delimitando o imenso vazio.

Com extrema magia expressionista, Babinski brinca com as escalas graduadas do negro ao cinza e desenha pedras, árvores, planos, capões de mato, sementes e folhas onde impera somente a paisagem, vazia da presença humana porque o que importa é a alma mesma contida no traço, impressa, tesa e retesada – aprisionada no papel transbordante de emoção e sensibilidade.

Por aqui passaram cientistas viajantes, como August Saint-Hilaire, bandeirantes paulistas, como Anhanguera, o Visconde de Taunay, acompanhando as tropas que invadiram o Paraguai, o primeiro Bispo do Triângulo, Dom Eduardo Duarte Silva, e o Santo Padre Eustáquio, todos absortos na retidão de seus afazeres. A solidão onde a vista dos leigos não alcança também não alcançou nenhuma dessas almas, afoitas em suas tarefas. Foi preciso que um olhar fugido de outras paragens aqui se fixasse em

Todo artista sabe que o motivo é o grande achado de onde brota a obra, e Babinski encontrou na paisagem do Triângulo Mineiro o soberbo tema para transformar suas gravuras num conjunto sublime de força e luz. Uma obra que desassossega o observador porque ela não admite

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uma contemplação passiva, ela solicita mais do que o olhar, ela reclama a presença inteira do homem que não separa razão e emoção. Obs: este foi o texto de apresentação de duas mostras significativas do artista, uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro. *Artista plástico.

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Irmã Domitila Ribeiro Borges*

LIBERTAÇÃO Abre portas e janelas destranca-te. Não tenhas medo da devassa de teus trastes, coisas de nada, que ocultas esparsas pelo chão do barro que pisaste. Deixa a luz entrar, faze espaço para o sol e descobre a nova rota que verás estender-se do outro lado, além do que deixaste. Abraça o belo, o amor e te encontrarás enfim assim, preparada, de sonhos fantasiada para recomeçar e ser feliz. *Acadêmica, cadeira 30.

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Jorge Alberto Nabut*

QUE O VERDE NOS PERDOE Texto escrito e encenado por ocasião da Feira de Arte organizada por Hélio Siqueira em março 1985, tendo, como tema, o Meio Ambiente, que se comemora de 1 a 5 de junho. A abordagem do tema, naquela época, denota interesse de minha geração com a preservação da ecologia. A Gameleira foi árvore mais que secular em torno da qual se construiu a Praça Afonso Pena. Após sua derrubada, foi construída, em seu lugar, a Concha Acústica.

A

s cortinas de maio voam suas rendas entre meus pensamentos, ideias alvejadas, movimento das lembranças nas janelas de minha consciência. Para além das cortinas, o sol derrama seu polvilho sobre a praça, sobre esta usina de galhos e folhas que se denomina Gameleira. Nos sonhos dormidos ou acordados, a árvore me acompanha com seus repentes, sua imensidão, suas visões, ao dobrar uma esquina, ao fechar os olhos, a pegar uma página branca para escrever. Não sendo espectro, a Gameleira me fala coisas que queria ouvir e compõe um inventário sobre sua atividade em Uberaba, numa ladeira sua, frente à Rua do Comércio, num tempo em que os adultos podem ser crianças, pois sua visão leva ao castelo das fadas sertanejas. Sob a Gameleira, os bandeirantes, abatidos pela fome de comida e de posses de sesmarias, depositam o cargueiro de farinha que, embora podre, lhes daria fama e fábula. Bernardo Guimarães redige na poeira pardacenta de seus troncos canelados a marcha dos romeiros enfileirados nas terras soltas, arrastando pesadas promessas, sob o canto dos carros de bois, do Sertão da Farinha Podre até o fim do mundo, ao país dos Goyá, após Brasília, onde a desova dos milagres se retribui com a escultura dos ex-votos, aos pés da Senhora d’Abadia. Vejam como dormem amontoados sob ela, com alta sezão e febre amarela os soldados que restaram da Retirada da Laguna. Debaixo da Gameleira é onde os carros de bois

aprendem a ladainha das estradas e as romeiras apanham a sombra que acompanha seus filhos até os desertos de Moquém. A Gameleira lhes empresta a sombrinha contra o sol mordido de cachorro doido de agosto. Vinda da Mojiana, passa a incansável procissão de progresso: levas de imigrantes italianos, espanhóis e libaneses; a imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal; os soldados da Revolução de 30, de baionetas afiadas no sangue; os pracinhas da II Guerra rumo ao mar fundo do Atlântico; a fuga de registros de cartórios abafada a contos de réis; gente carreando segredo sob pressão; jovens que saltam os muros e caem no mato em busca de gozo improvisado; jagunços e suas facadas que até hoje sangram quando a noite abre a boca banguela... O jardim inglês de 1908, desenhado na praça, é visto pelos moleques, e a bola dá, à praça abandonada de 1960, a dinâmica nova: o futebol. A Gameleira se ri dessas peladas e sacode os galhos de seu vasto edifício quando um rapaz marca gol na área de terra pisoteada. Pelas torres dos galhos, a Gameleira namora a roda-gigante do Parque armado na Mojiana Velha. Das grossas grimpas se enxergam Paracatu, de um lado, a Guerra do Paraguai do outro. De uma banda, o quilombo Tengo Tengo e, de outra, o sorriso rasgado da praia de Copacabana... e a gente querendo que o galho se espiche mais um tiquinho, até chegar lá, descer no Rio de Janeiro, o sonho inteiro da vida da gente, a cidade que vem na viagem dos parentes, estampada na bandeja de borboletas azuis... a lembrança trancada na cristaleira.

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A Gameleira às vezes espeta suas raízes para cima, brinca de pernas pro ar, não tendo folhas no tempo da seca. A praça é então abandono, ventania, cães e folhas caídas, tantas, como se vendaval varresse os escritórios dos edifícios e arrancasse, de suas gavetas, toda papelada do mundo, até que as primeiras águas de fim de ano a acalme e anestesie os cães, os jagunços, os partidários políticos. Os galhos, ainda nem vestidos, estendem os braços, apanham uma estrela da tarde e a entrega ao poeta da praça. Os imensos braços da Gameleira se espetam de brotos, canetas de cor rascunhando o projeto da nova indumentária. A Gameleira incendeia a cidade de verde; um incêndio tão grande quanto da usina de petróleo. Uma árvore que jorra verde folha para colorir as caatingas, os jornais em preto e branco, a voz dos radialistas, colorir, enfim, os decretos dos prefeitos que não mais erguerão lâminas afiadas contra o monumento que se ergueu da pré-história dos chapadões, o monumento que ofende, incomoda aqueles que trazem o cascalho nos olhos.

roceiros que trepidam com suas carroças de pau e ferro, bando de andorinhas e de crianças no Ângelus azulado de quem para o tempo com a mão; o tempo, esta máquina/árvore que é pouso/paz... apenas a árvore, onipresente; uma árvore que é muito mais que um álbum de família.

Os tempos vão e vêm como a menstruação. E o que era sim, toma gosto de não.

No oco da noite, em filas, incansáveis, elas carregam os óvulos para o porão do mundo. É a procissão de enterro do cérebro humano. Funcionárias do governo, as formigas apavoram o silêncio da praça da Gameleira com seu trabalho subterrâneo, arquitetam o panelão do submundo, a boca oca que toma conta da consciência dos homens. Esse vácuo administrado pelas saúvas enfraquece o chão que a Gameleira inventariou. Os insetos dominam a sociedade cabeçuda, penetram nas vias, nas veias, nos vasos capilares. Um galho desse Castelo Verde se rompe e, pela manhã, as formigas se confundem com os operários da Prefeitura e seus risíveis machados vermelhos, a cortarem, com a estupidez do governo, a omissão da imprensa, a passividade do povo, o cerne/carne da paciência e da sobrevivência da árvore milenar. Transformam a verde solução em carvão. A consciência em lenha. Uns assinam decreto; outros, omissão. Na Terra Madrasta, após a posse amorosa, o assassinato da mãe. Édipo se desespera, arranca os olhos para não ver o que destruiu. Mas o fantasma da Gameleira rompe a secura do concreto. As raízes da vingança arrebentam o paredão corcunda da concha acústica e revive o movimento da Árvore, caravela verde. Uma árvore que renasce e se agita no coração da gente, nos gestos, na mente que recria, aqui e agora, a imensa árvore comunitária. A Gameleira inventa a praça, bandeira do verde, da verdade, estandarte ecológico ao vento que volta a soprar aragens esperançosas nos sertões. Nossas mentes criam o futuro da árvore. Agora, somos a Gameleira e sobre nossos ombros/galhos se aninham as aves da esperança e de nossas mãos/ninhos voarão os pássaros da conquista dos sertões, do espaço, e nesse confim plantarão uma mesma árvore, outra igual Gameleira. Aqui, revoarão os anjos de nossa história com suas guitarras elétricas, interpretando a coerência entre o homem e seu patrimônio.

Que o verde nos perdoe!

O edifício/árvore acorda com sereno azul na folhagem, e seu corpo se abre para abraçar o céu. Um cisne pousa num galho e dança. Noutro galho, meu pai, de paletó marinho, de casimira inglesa, pita cigarro de palha. Um querubim revoa e balança sua espada de Justiça. Chega o pavão e abre seu baralho de penas. Meu vizinho assassinado dançando rock na boate. Revoada de pombos do bando. O Alemão da padaria Tupã canta árias de ópera nas ruas. Leves faisões facilitam o voo. A Gameleira estende seus pousos como quem oferece cadeiras ao vigia da máquina de beneficiar arroz, aos internos uniformizados de cáqui do Instituto dos Cegos, aos serafins de bicicleta, Mário Dessin a riscar os ternos dos clientes, Jesuíno Felicíssimo saído de sua quinta de boas aguadas, aos fregueses de caderneta do empório da esquina, aos galos de briga que cantam como homens (os pássaros do paraíso), capinadores das ruas calçadas de pé de moleque tirando música das pedras com batidas das enxadas, moças lendo fotonovelas, trupe da Companhia Lírica Italiana em direção ao Theatro São Luís, três prostitutas prontas para o trabalho, rapazes que se masturbam nos quintais, um aparelho ligado na Rádio Nacional, a voz de Ângela Maria, car-

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Praça da Gameleira, tendo ao fundo a venda do pai e a casa onde nasceu o escritor Jorge Alberto Nabut. *Acadêmico, cadeira 06.

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José Mendonça*

OS RECITAIS DE EVA REIS

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oetisa, locutora, jornalista, declamadora exímia, Eva Reis já conquistou a admiração e os aplausos de todo o país. Os seus esplêndidos programas, nas grandes emissoras de Belo Horizonte, são ouvidos, com enlevo, por milhares de brasileiros, em todos os recantos da pátria. O seu livro “Fiandeira”, coletânea de quadras delicadíssimas, encantadoras, da mais fina sensibilidade, obteve da critica os melhores louvores e conquistou um lugar de honra em nossa literatura. Declamadora, Eva Reis empolga, arrebata e comove os seus ouvintes. Arte dificílima é a de dizer versos. Tão difícil quanto a de execução das peças musicais de maior responsabilidade. Declamar é infundir nos versos a nossa própria emotividade; transmitir-lhes as palpitações da nossa alma, do nosso coração; dar-lhes uma nova vida, a que vibra e estua no íntimo do nosso próprio ser; transformá-los em expressões, gritos os murmúrios de nossa personalidade. Ao piano, o artista nos dá, com suas interpretações, todo o seu espírito, todos os seus sentimentos, toda a sua compreensão da harmonia universal e eterna. Assim é o declamador. - “A palavra, disse José de Alencar, é a mais sublime expressão da natureza; ela revela o poder do Criador e reflete toda a grandeza de sua obra divina. Incorpórea como o espírito que a anima, rápida como a eletricidade, brilhante como a luz colorida, como o prisma solar, comunica-se ao nosso pensamento, apodera-se dele instantaneamente, e o esclarece com os raios da inteligência que leva em seu seio. Mensageira invisível da idéia, íris celeste do nosso

espírito, ela agita as suas asas coloridas, murmura ao nosso ouvido docemente, brinca ligeira e travessa na imaginação, embala-nos nos sonhos fagueiros, ou nas suaves recordações do passado. Reveste todas as formas, reproduz todas as variações e nuances do pensamento, percorre todas as notas dessa gama sublime do coração humano, desde o sorriso até a lágrima, desde o suspiro até o soluço, desde o gemido até o grito rouco e agonizante. Às vezes é o buril do estatuário, que recorta as formas graciosas de uma criação poética, ou de uma cópia fiel da natureza: - aos retoques deste cinzel delicado a idéia se anima, toma um corpo e modela-se como o bronze ou como a cera. Outras vezes, é o pincel inspirado do pintor que faz surgir de repente ao nosso espírito, como de uma tela branca e intacta, um quadro magnífico, desenhado com essa correção de linhas e esse brilho de colorido que caracterizam os mestres. Muitas vezes, é a nota do hino, que ressoa docemente, que vibra no ar, e vai perder-se além no espaço, ou vem afagar-nos brandamente o ouvido, como o eco de uma música em distância. O sentimento faz dela a chave dourada que abre o coração às suas emoções do prazer, como o raio do sol, que desata o botão de uma rosa cheia de viço e de fragrância.” Ouvi, no Rio de Janeiro, algumas declamadoras de renome internacional, entre as quais Berta Singherman (na minha opinião, a maior de todas), Margarida Lopes de Almeida e Zita Coelho Neto. Berta, em “Los Motivos Del Lobo”, de Ruben Dario, equipara-se aos maiores trágicos que no mundo já

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surgiram; e na “Dança do Vento”, de Afonso Lopes Vieira, uma das poesias mais difíceis de serem ditas, dá-nos a impressão de sermos levados pelo destino, como as folhas secas que ao vento rodopiam... Margarida Lopes de Almeida tem gestos nobres e serenos de sacerdotisa, voz que enleva a alma e faz sonhar. Zita Coelho Neto, na “Cisma do Caboclo”, de Ricardo Gonçalves, nos dá o sabor dos idílios, ao mesmo tempo ingênuos e atrevidos, da nossa gente simples dos sertões. Ouvi, também, o grande Chabi Pinheiro, cujo desempenho, na “Ceia dos Cardeais”, de Julio Dantas, ainda me faz, depois de tantos anos, vibrar de entusiasmo. Posso, portanto, afirmar que Eva Reis é uma das mais completas e brilhantes declamadoras de nossa língua. Os seus recitais, em Uberaba, durante a “Semana da Arte”, e no seu programa “Vamos Sonhar” na P.R.E.-5, encheram de encanto e de beleza a nossa alma e o nosso espírito. Recitando “Uberaba” ou “Meu Pai”, ela nos comove até as lágrimas. Dizendo quadras, poesias brejeiras, ou mesmo poemas “modernistas”, tem graça, tem chiste, um modo todo especial de fascinar o auditório, arrebatando-lhe os mais sinceros e espontâneos aplausos. “Uberaba! Eu estou te vendo, vestida de fada, Abraçando os morros que velam a tua glória! Trazendo à minha cabeceira Um travesseiro de terra cheirosa, Para eu deitar a cabeça E sonhar contigo, Minha Terra Boa! Minha Terra Natal!” Eva Reis, dignifica, exalta o nome de nossa terra, a nossa cultura e a nossa civilização. 1953.

Jornal “Lavoura e Comércio”, 26 de maio de *Acadêmico, pertenceu à cadeira 01.

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Lincoln Borges de Carvalho*

DECLARAÇÃO 1 Declaro que não em minha intenção será celebrada missa de sétimo dia que, em matéria paga publicada nos matutinos desta data, está programada para as 19 horas da próxima sexta-feira na Igreja da Saudade. Embora retrato do falecido, que ilustra convite, possa parecer comigo, asseguro, não se trata de mim e, sim tem mera semelhança. Estou vivo e não morto, me acho à disposição de quem queira verificar, no endereço abaixo e pelo telefone 2367-5894; 2 Declaro, a bem da verdade, que não se trata de minha pessoa aquele que, segundo noticiário da TV local, de anteontem, fugiu da UTI do Hospital Regional atirandose da janela do corredor, sita no 4º. andar e, desapareceu; 3 Esclareço mais que, por ser verdade, não fui eu a vítima de esfaqueamento em assalto ocorrido no bairro onde vivo, conforme notícias veiculadas por emissora de rádio da cidade; 4 E mais, que não se trata de mim o suspeito de, pouco antes do assalto, haver dado origem à suposta baderna no citado bar onde nunca entrei e só passo por sua frente usando a calçada; 5 Que não tem fundamento ou explicação o fato de mais tarde, na noite do ocorrido acima, eu haver sido despertado e retirado pela policia de minha casa e conduzido à delegacia. Lá levaram-me à sala de um detetive, que sem mandar me assentasse, ao me ver apenas indagou: “conhece estas pedras?”. Olhei as pedras desconhecidas e somente falei “nunca vi isto”. Ele disse: “vá embora”. Tive de voltar a pé. Declaro meu protesto pelo tratamento policial recebido. 6 Que, ao voltar para casa, ao atravessar uma rua, no escuro, súbito surgiu sobre mim uma moto e nos enrolamos no chão. Moto, motoqueiro e eu. Por sorte saímos ilesos.

Reconheci o mototaxista, meu amigo que me levou na sua garupa, sem cobrar, para minha casa. Soube depois, que apareceu o Resgate e disseram ter havido ali o atropelamento de uma pessoa por caminhão, o qual fugiu. Pode parecer bizarro, mas sei que coisas demais têm me acontecido e não compreendo como o de que dão notícias, ou chega a mim, possa ser tão diverso do sucedido. Conjuro: pode ter acontecido o que realmente nunca aconteceu? Já não aguento de medo e ódio. De vez quero esclarecer o que aconteceu pelo que não aconteceu. O que não foi e foi.

Por ser verdade, assino esta *Acadêmico, cadeira 01.

Autor identificado na Redação do Jornal-Identificação disponível – Publicação Autorizada No. CD7548/12RX2 por VMR reg. U3980

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Marcelo Dolabela*

REVISTAS LITERÁRIAS A Eternidade do Efêmero

O

ano 2000 é o fim da década, o fim do século, o fim do milênio, o fim do fim de muita coisa. É, inclusive, ano-limite, o ano terminal da mais importante, da mais bem-sucedida, da mais longeva revista de poesia brasileira. É o ano em que a revista Dimensão, de Uberaba, Triângulo Mineiro, no auge de sua existência, no seu vigésimo ano, no seu vigésimo nono número, para de circular. Dimensão não é uma regra, é uma exceção que confirma outra regra: no Brasil, revistas literárias e revistas poéticas existem para não existir. Existem para terminar, quase sempre, no gesto inaugural. Em rápida olhadela em uma banca de revista, em uma estante de livraria, podemos perceber que existe revista de tudo, menos de literatura ou de poesia. Conseguimos fundar uma grande tradição – a tradição da ausência. [....] Artes, manhas e artimanhas para criar e manter viva uma publicação literária. Sempre percalços, dúvidas e dívidas. E o eterno mistério: por que as publicações literárias, com raríssimas exceções, não duram? Na busca pela resposta, podemos recorrer ao exemplo de Minas, um dos Estados mais pródigos em termos de publicações literárias no Brasil. Em um pequeno levantamento das 144 publicações mais importantes, já extintas, editadas no Estado entre 1939 e 1999, temos o seguinte mapa: 69 publicações não passaram do primeiro número (47,9%); 14 chegaram ao segundo número (9,7%); outras 14 ao terceiro número (9,7%); outras 14, ao quarto número (9,7%); 32 superaram a marca do quinto número (22,2%); e apenas uma publicação (o fanzine Ragnarok) chegou (e morreu) no quinto número. O que dá a espantosa porcentagem de 0,7. Ainda a anotar desse levantamento: algumas publicações tiveram a coragem, ou o masoquismo, de iniciar a contagem pelo esotérico nú-

mero zero ou pela chamada edição especial. [....] Em um panorama lítero-poético brasileiro, a revista Dimensão, por tudo que representa – editada em uma cidade fora do eixo, “longe demais das capitais”, uma produção mais do que independente, bancada pela bravura de seu editor, o poeta Guido Bilharinho, sem apoio institucional, sem auxílio de leis de incentivo etc. – é uma vitória, é uma possibilidade. É um gosto amargo, de tão doce. Dimensão, que já teve lançamento em Paris, obteve mais receptividade estrangeira que nacional ao longo de sua vida. Por que a história, que é madrasta com a literatura e com a poesia no Brasil, deixou que a revista Dimensão existisse tanto? Só ouve a resposta quem ler e seguir a trajetória da revista. A Dimensão correu e desenhou, ao mesmo tempo, a estrada sob os pés. Soube, como nenhuma outra publicação, romper duas décadas, da época áurea e romântica da poesia marginal ao pragmatismo dos dias atuais.

A hemeroteca dos 90

Ler Dimensão e sua história nos força a olhar na rosa-dos-ventos das revistas literárias de ontem, de hoje e do improvável amanhã. E efetivar algumas constatações. Os anos 90 foram prodígio em tudo, de mazelas a realidades. No campo da editoração lítero-poética, um marco. Pois, embora todas as suas mudanças sócio-conjunturais não conseguissem evitar o fim prematuro das revistas, possibilitaram meios efetivos de sobrevivência para algumas revistas brasileiras. Quem se aventurou em publicações coletivas nessa década buscou uma síntese entre mercado e projeto editorial, entre ética/estética e sobrevi-

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vência. [...]

nimo” apogeu. Guido comenta: “A importância da Dimensão restringe-se às pessoas que efetivamente dão valor à produção poética veiculada pela revista. Nesse caso e nesse círculo, creio que ela cumpriu papel aglutinador e divulgador de poetas novos, que, de outro modo, não teriam espaço para publicação de suas produções. Além disso, pela sua linha editorial, Dimensão apresentou e representou uma das possíveis direções de atualização da poesia brasileira nesse fim de século e sua conexão com o fazer poético nos países com os quais manteve permanente contato e intercâmbio”. O último número da revista acaba de sair. Em seu réquiem, a constatação de sua importância. Em seu canto final, o trabalho de 143 poetas. Uma pergunta para a história: precisa mais?

DIMENSÃO – 20 ANOS DE HISTÓRIA

Em 1996, através de um convênio entre a Fundação Cultural de Uberaba e a Galeria Debret, de Paris, acontece, na capital francesa, o lançamento do número 25 da revista Dimensão. Se essa notícia circulasse pelas principais mídias do país, causaria estranhamento. Como uma publicação “desconhecida” tem lançamento internacional? A verdade é que não há nenhum “desconhecimento”. Dimensão, editada em Uberaba por Guido Bilharinho, é um grande sucesso. Nos seus 20 anos de existência, nos seus 29 números, editou mais de 300 poetas, distribuiu, mundialmente, uma média de 800 exemplares da cada edição. E ainda se deu ao luxo de possuir um dos maiores e melhores acervos de poesia do Brasil. A única estranheza que possa causar é que, no auge de sua atividade, a revista lance, em fevereiro de 2000, o seu último número. Seu editor explica o inesperado fim: “Dois são os motivos. Um, o fato de ter crescido muito, exigindo cada vez mais atenção e maior infra-estrutura operacional, tanto no que tange à correspondência como no que se refere à distribuição e circulação, ambas intensas. Outro motivo, porque dei início à publicação da coleção Ensaios de Crítica Cinematográfica, que irá lançar um ou dois títulos novos por ano. Além disso, outros livros, de gêneros diversos, também serão editados. Na verdade haverá, no caso, apenas a substituição de uma atividade editorial por outra, particular, de meus próprios livros, salvo a possível organização de uma ou outra antologia”. Estranha-se que o sucesso atrapalhe. Bilharinho, que além de editor e pesquisador é um atuante poeta, sabe que tudo tem sua hora, e a da Dimensão é no quase “anô-

Colaboradores de Dimensão

Entre os colaboradores de Dimensão, estão: Almandrade, Antônio Barreto, Avelino de Araújo, Carlos Nejar, Cláudio Willer, Gilberto Mendonça Teles, Glauco Mattoso, Hugo Mund Júnior, Hugo Pontes, J. Medeiros, Joaquim Branco, Jorge Alberto Nabut, Knorr, Márcio Almeida, Maynard Sobral, Moacy Cirne, Omar Pereira, Osvaldo André de Melo, Patt Raider, Paulo Bruscky, Waly Salomão, Xico Chaves e Zhô Bertolinni. Entre os estrangeiros: da Alemanha, Guilhermo Deisler; da Argentina, E. A. Vigo; da França, Julien Blaine; da Itália, Enzo Minarelli; de Portugal, Ana Hatherly, E. M. Melo e Castro e Fernando Aguiar; da Rússia, Dmitry Bulatov; do Uruguai, Clemente Padín, Eduardo Milan e Jorge Caraballo; da Venezuela, Dámaso Ogaz. E ainda poetas da Alemanha Oriental, Angola, Argélia, Austrália, Cuba , Espanha, Estados Unidos, Hungria, Inglaterra, Iraque, México, Suíça e Checoslováquia. (in revista Palavra, Belo Horizonte, março de 2000).

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Mário Salvador*

EDSON PRATA

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em dizem que “ a Justiça tarda, mas não falha”. E no dia 5 de setembro, às 20h30, a TV JUSTIÇA levou ao ar um programa especial em que o homenageado foi Edson Prata, considerado um dos principais juristas do século XX. Houve reprise no dia 11, às 14h. Também foi homenageado, em outro programa , Ronaldo Cunha Campos. Uma notícia alvissareira para Uberaba, onde os dois juristas viveram e tiveram oportunidade de vivenciarem a ciência jurídica com vigor, sempre com destaque nos meios forenses. E é, sem dúvida, uma notícia melhor ainda para a Academia de Letras do Triângulo Mineiro, pois ambos pertenceram ao quadro social da Academia , sendo Edson Prata um dos seus idealizadores, junto com José Mendonça e Monsenhor Juvenal Arduini. Destaque no meio jurídico, com obra jurídica de imenso valor, Edson Prata teve atuação destacada e brilhante em vários setores da atividade humana. Tive a grata satisfação de com ele conviver quando Edson emprestava a sua colaboração à comunidade empresarial , atuando no Banco do Brasil. Sempre recebendo a todos com um sorriso e nunca deixando de encaminhar bem os assuntos que lhe eram repassados. Claro que nem sempre era possível o atendimento a uma reivindicação do empresário, mas o tratamento recebido de Edson Prata amenizava a situação. Convívio maior tive com ele no Jornal da Manhã. Presença diária na redação , a tudo acompanhava com atenção especial. Educado, não dava ordens: sugeria. E cobrava a execução de modo especial. Vibrava com uma edição bem feita. Que ele nunca considerava bem feita , desejando algo melhor para o Jornal. Era a sua forma de “incentivar”a todos para que a perfeição fosse atingida.

“Está ótimo! Mas podia ser melhor!” Certa vez , ainda não compreendendo bem o estilo Edson Prata de incentivar, coloquei o cargo à disposição, compreendendo que jamais iria alcançar os objetivos que ele desejava. Foi interessante vê-lo explicar a sua forma de agir, em poucas e corretas palavras. “Pode ficar, que estou satisfeito com o seu trabalho. Acontece que se a gente diz que está perfeita a obra, as pessoas se acomodam e não procuram melhorar. E é bom procurar o sucesso. O que é bom, pode melhor.” Fiquei. O estilo de Edson Prata de resolver as coisas, de maneira rápida, sem enrolação, sem desculpas protelatórias, pode ser exemplificado com a minha entrada na Academia. Uma manhã ele chegou na sala onde eu trabalhava, já portando um ofício redigido, que ele sacudia ao me perguntar: Quer entrar para a Academia? Em resposta disse que não tinha livro publicado. Ele devolveu, enchendo o meu ego:” Há artigo seu que vale por um livro. E juntando os seus artigos publicados no jornal já teremos alguns livros!” E insistiu na pergunta se eu queria fazer parte dos quadros acadêmicos. À resposta afirmativa ele colocou o ofício na mesa e intimou: Assine aqui! Era um ofício, como exige o estatuto da Academia, no qual eu afirmava que desejava entrar para a Academia. Algum tempo depois ele me entregou um ofício assinado por muitos membros da Academia aprovando o meu ingresso no quadro social. Era o modo simples, direto e objetivo de agir de Edson Prata. Sem livro publicado, fizeram-me acadêmico. Sem ser empossado, me fizeram Presidente da Entidade. E como Presidente segui o ritual para a eleição de novo membro: Publicar edital, receber as inscrições dos interessados, nomear comissões para analisar os papeis, realizar uma Assembleia, informar, por ofício, ao eleito o seu esta-

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do de acadêmico, marcar a posse. Pensando bem, agora, o método direto de Edson Prata é bem menos trabalhoso. Esse dinâmico Edson Prata, de uma visão da vida que poucas pessoas conseguem alcançar , faz uma falta enorme. Tinha muito, ainda, a nos oferecer. Principalmente a forma de bem empregarmos o nosso tempo de vida.

Deixou-nos bons exemplos e a inteligente e dinâmica filha, Lídia Prata, em quem vemos as qualidades do pai na boa administração da empresa que dirige, no trato gentil com as pessoas, na firmeza de decisões, quando necessário e no sorriso gentil , que cria um ambiente agradável à sua volta. Edson Prata, portanto, continua vivo entre nós. *Acadêmico, cadeira 31.

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Marta Zednik de Casanova*

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL...?

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o dia 7 de setembro de 2010, completaram-se 188 anos em que o Brasil rompia definitivamente as amarras coloniais que o ligavam a Portugal, tornando-se um país soberano. O país supostamente tornou-se livre, saiu do domínio de Portugal e passou a depender economicamente da Inglaterra, considerada a maior potência do século XIX. A dominação inglesa sobre o Brasil perdurou até 1918. Posteriormente, os E.U.A. passam a exercer grande influência sobre o Brasil. A Independência do Brasil é considerada a data mais importante para o povo brasileiro, mas poucos cidadãos sabem avaliar o que de fato aconteceu naquele longínquo 1822. Existem muitos mitos sobre a independência brasileira, alimentados pelo imaginário popular. Um dos mitos é que o Brasil ficou livre. Não é verdade, pois o Brasil sempre continuou sob o jugo das grandes potências mundiais. Outro mito é que a Independência do Brasil foi um fato isolado, um acontecimento heróico, que teve, na liderança de D. Pedro I, a razão principal de sua existência. Muitos se esquecem de que a Independência do Brasil significou mais um capítulo da crise do Antigo Regime Europeu e do Antigo Sistema Colonial. Havia também grandes interesses da Inglaterra no fim do Sistema Colonial para poder expandir os seus mercados consumidores. Além disso, desde o século XVIII, ocorriam no Brasil diversas revoltas contra a Metrópole Portuguesa, como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana, que colocavam em xeque o poderio português na sua colônia americana. Desde a chegada ao Brasil da Corte Portuguesa em 1808, já se pensava na emancipação do nosso país. Em 1815, o Brasil é elevado à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves e esse fato político por si só determinava uma

nova condição para o país. O ano de 1822, nessa visão, foi uma etapa natural do processo de independência de uma nação submetida ao jugo de um povo europeu. Talvez essa visão heroica dos acontecimentos que envolveram o “7 de setembro” tenha sido eternizada pela pintura de Pedro Américo: “O grito do Ipiranga”. O quadro nos mostra a figura de Dom Pedro, ao centro, num ato bravo, declarando nossa emancipação política. Muitos se esquecem, entretanto, que o quadro foi uma encomenda do Imperador D.Pedro II que queria eternizar aquele momento chave para a história brasileira. Dizem que Pedro Américo teria se inspirado em Ernest Meissonier, o que era comum aos pintores da época. O quadro de Pedro Américo é quase uma cópia de Napoleão III na Batalha de Solferino. Um outro mito sobre a Independência do Brasil é de que ela teria alterado muitas das características políticas, econômicas e sociais existentes na época. Isso não é verdade. A independência serviu para consolidar o modelo político monárquico; uma economia agro-exportadora de monocultura, baseada na mão de obra escrava negra; uma sociedade altamente concentradora de riqueza, de desigualdade social, de discriminação racial e de muitas injustiças sociais. Outro mito é o de que não houve nenhuma participação popular no processo de independência do Brasil. Isso também não é verdade. As elites dominantes tentaram esconder o envolvimento da população em vários movimentos para desestabilizar e desestimular as lutas. Houve guerras sim, em várias partes do país. Em províncias como a Bahia, a Cisplatina, o Grão-Pará e o Maranhão, os conflitos foram intensos e houve muitas mortes. Portanto, houve a participação popular que já expressava a insatisfação em relação ao domínio português na colônia

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(Brasil). Na verdade, a “Independência do Brasil” de 1822 não favoreceu as classes oprimidas que, nesta época, eram constituídas de aproximadamente 90% de analfabetos. Não houve um projeto que incorporasse o fim da escravidão e a melhoria das condições sociais e de vida da maioria dos brasileiros. Também a forma de governo monárquica foi mantida e não houve discussão para uma forma de governo republicana, mais condizente com os princípios democráticos.

Enfim, hoje devemos comemorar a data “7 de setembro” para repensar na nossa nacionalidade, naquilo que produzimos de positivo para o mundo, na solução dos grandes problemas brasileiros, na conscientização dos eleitores para o voto consciente, mas também no despertar do comprometimento dos políticos para a solução das questões que afligem a população, para que o Brasil caminhe e se transforme em um país onde todos possam realmente viver com dignidade e cidadania. *Historiadora e escritora.

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Mons. Juvenal Arduini*

DESAFIO DO AMOR

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mor é dimensão fecunda e pluriforme na vida do ser humano. Ele impregna a personalidade toda. Amor não é apenas uma função. Envolve o universo antropológico, revela múltiplas formas: amor a Deus, ao próximo, à ética, à sexualidade. Infiltra-se em todas as esferas do viver humano. O amor é denso e circula pela existência humana, habita a personalidade. Quando ele se retira, a morada humana esvazia-se, pois é dialogal, tem sentido interpessoal, é convergente. O amor é criativo, é antropogenético, é gênese interminável. Amor gera biologia, psicologia, sexualidade, socialidade, cultura, estética, espiritualidade. Germina a paz entre pessoas e povos, a paz da vida e não a paz da morte. O amor é inquieto, é inventivo, pulsação infatigável, é faísca candente. Amor reparte alegria e prazer. O amor da alegria pode incluir sofrimento. Nietzche justifica: “Dizer sim à alegria é também dizer não à dor.” Amor que vive somente alegria é frágil. Amor consistente possui têmpera de luta. Supera obstáculos e remove tropeços. O amor é livre. Forçá-lo é estrangulá-lo. Amor é dádiva, é oferta, é ternura, é leveza, é lealdade. Existe também o amor “demoníaco”, denominado pelos filósofos gregos como “Daimon”. Platão dizia: “Eros é um demônio.” Há o amor utilitarista, mercantilizado. Há, ainda, o amor autoritário, escravista, o amor narcísico, egocêntrico, amor traído e amor traidor, cínico e covarde, ingrato e magoado. E amor encolerizado, infernizado e tanatológico. É necessário orientar o amor demoníaco, educar

o amor desumano, integrar as faces do amor autêntico. O amor não pode ser trapaceiro. Perverter o amor é degradar a pessoa, trair o amor é enganar a consciência, sujar o amor é arrastar-se na lama. O amor não nasce acabado, nem concluído. Amor deve ser cultivado permanentemente. Amor é tarefa de todos os dias e é presença em todas as atitudes. É construção inacabada, construção obstinada, aspiração inapagável. É responsabilidade e não passatempo. É compromisso com as pessoas. Amor é história original. Ele convida a pensar e a repensar o seu real significado. Quem se precipita no amor imaturo, pode arrepender-se, pois exige maturidade. Atualmente há muito amor estragado pelo mundo afora. A explosão da violência espanta e o desespera. Com razão, lamenta-se o amor desacertado. Devemos ser realistas, não pessimistas. Apesar de tudo, não há motivo para amaldiçoar o amor limpo e inocente. Amar a humanidade é preciso, mas o amor não pode camuflar a verdade. Amor consciente e resoluto há de levantar-se para contestar injustiça, miséria, rancor, crueldade e guerras. Amor substancial é encontro, solidariedade, libertação, transparência, gratidão, festa, vida, é futuro. Não podemos esquecer o amor. Jamais havemos de culpar o amor, talvez a culpa seja nossa. O amor tem vibração emocional, tem olhar de criança, audácia de profeta e sedução de beleza. A Carta de João testemunha: “Deus é amor”, mas, se Deus é amor, por que não somos amor? Aí está o desafio do amor. (Texto do livro Tecido Social). *Acadêmico, cadeira 05.

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Murilo Pacheco de Menezes*

PERSONALIDADE CÍVICA

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idadania: configuração de uma personalidade, ramificação da personalidade moral, em que se acentuam e se destacam os atributos cívicos. É a Personalidade Cívica. Não há dúvida de que, na Personalidade Cívica, existem pessoas, moralmente, fortes e decididas e pessoas, moralmente, fracas e indecisas. Fortes e decididos são os cidadãos que colocam sua vida a serviço da “Civis” – cidade – e a serviço da Pátria. São os cidadãos cujo civismo “é resultante da convicção interior nascida da prática das virtudes que constituem o apanágio de uma personalidade bem formada”. Fortes e decididas são as pessoas que, consciente e esclarecidamente, conhecem seus direitos de cidadãos e identificam seus deveres, com a mesma convicção interior, para que se tornem membros harmoniosos no contexto da convivência comunitária, distribuindo, como a seiva, o viço do civismo a todas as criaturas com quem convivem. Fortes e decididos são os que têm consciência de sua participação altruísta na convivência cívico-social. Fortes e decididos são os que exigem menos e contribuem mais. Fortes e decididos são os que se preocupam menos com as vantagens que lhe pode proporcionar sua cidadania, do que com o quanto podem ser úteis à comunidade que integram. Fortes e decididos são os que se preocupam mais em servir do que em serem servidos. Fortes são os que não usam o voto para conquistar vantagens. Fortes são os que fazem de seu voto e de seu prestígio instrumentos de progresso e desenvolvimento,

rumo à conquista do bem comum. Em contraposição, há os fracos, os indecisos, os pusilânimes. Fracos e indecisos são os cidadãos que procuram servir-se de sua cidade e de sua pátria, em vez de servi-las. Fracos e indecisos são os que realçam, reclamam, reivindicam os direitos e dissimulam a existência dos deveres que a cidadania lhes impõe, para harmonia da convivência comunitária. Fracos e indecisos são os que participam dos benefícios da comunidade, mas são egocêntricos e dela se ausentam, quando os momentos difíceis reclamam sua participação. Fracos e indecisos são os que exigem mais e oferecem menos. Fracos e indecisos são os que se apressam em inquirir as vantagens que lhes pode atribuir a cidadania, sem se preocupar com o altruísmo cívico-social. Fracos e indecisos são os que exploram o voto para conquistar vantagens. Fracos e indecisos são os que denigrem a imagem do civismo, desintegrando as esperanças de uma comunidade aflita. Todos os cidadãos, agasalhados sob o mesmo teto de uma pátria comum, somos participantes dos mesmos benefícios e somos responsáveis pelos problemas que ameaçam a integridade do bem comum. Urge, portanto, que nos enveredemos, com premência, pelas sendas da cidadania, para integrarmos os que, moralmente, buscam uma forte, consciente e decidida PERSONALIDADE CÍVICA. *Foi educador e vereador em Uberaba.

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Newton Luiz Mamede*

FORRÓ ILEGÍTIMO

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proliferação, o uso indiscriminado e irracional de palavras da língua inglesa em nosso idioma já se tornou um vício, uma atitude ridícula de dependência, de submissão cultural, decorrente do subdesenvolvimento do povo brasileiro. Não estou falando de intercâmbio cultural, de cooperação e de influência entre povos e nações, o que é uma atitude natural e geradora de progresso e de desenvolvimento. Os empréstimos linguísticos ao português, mormente os do francês e os do inglês, são inevitáveis, induzidos pela convivência de culturas diversas. E são racionais, quando fundados em bases legítimas de constituição do vocabulário, do léxico português. Já a imitação barata e grosseira, a substituição desnecessária de termos vernáculos por termos estrangeiros, aliás, ingleses, essa é uma atitude decorrente de ignorância, de pobreza de espírito, de atraso cultural e econômico. Uma coisa é empréstimo linguístico, atitude racional, inteligente e necessária, como as palavras clube, futebol, uísque, do inglês club, football, whisky, respectivamente; e abajur, bijuteria, sutiã, do francês abat-jour, bijouterie, soutien, respectivamente. Outra é submissão cultural, atitude irracional, vergonhosa, humilhante, de subserviência de um povo a outro. Na atitude de submissão cultural, um povo se submete a outro e o imita, ou o inveja. No Brasil, infelizmente, grassa essa atitude, até, e principalmente, nos meios cultos, na parte instruída de seus habitantes, ou de sua população. Como exemplo, cito três situações, estritamente no aspecto linguístico, de submissão cultural do povo brasileiro (de língua portuguesa) ao povo norte-americano (de língua inglesa): 1- o emprego da palavra news, em lugar de “notícias”; 2- o emprego da palavra bike, em lugar de

“bicicleta”; e 3- o caso atual de, numa cidade do Brasil, de Minas Gerais, do Triângulo Mineiro, lugar onde seus habitantes falam português, haver um hospital com letras em metal estético incrustadas na parede frontal, informando ao público, ao povo que fala português, o seguinte: “Diagnostic Center”! Será que essa informação é destinada aos norte-americanos, ou aos ingleses, ou aos dinamarqueses? Alguém vai sair lááááá da Dinamarca para vir tratar-se no Triângulo Mineiro? Coitados dos habitantes rurais de Carneirinho, Alexandrita, Patrimônio dos Poncianos, Capão da Onça, e de outras localidades mineiras e triangulinas, que procurarem um Centro Diagnóstico em tal cidade! Muitos não sabem ler nem em português. Em inglês, então,... E a exacerbação do anglicismo (vício de linguagem que consiste no emprego desnecessário de vocábulos de língua inglesa, em textos ou discursos de língua portuguesa), a devoção e adoração ao idioma inglês geram deturpações “criminosas”, absurdas, ridículas e vergonhosas, quase imorais, de emprego de certas palavras, até mesmo de sua etimologia. O brasileiro pobre, subdesenvolvido, atrasado e despersonalizado da própria cultura linguística e, por extensão, do próprio sentimento de nacionalidade adora proferir palavras em inglês, e, nesse fanatismo, “inventar” etimologias inglesas para vocábulos portugueses, sem nenhum remorso, como diria Stanislaw Ponte Preta, e sem nenhuma base lógica e científica. É o que acontece com o vocábulo forró, que significa um tipo de dança popular. A falta de conhecimento sério e exato do termo, aliada à veneração submissa e ao sentimento de inferioridade em relação ao idioma inglês, fizeram alguns ignorantes afirmar que o vocábulo forró é

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originário da expressão inglesa for all, que significa “para todos”, isto é, que se trata de uma dança “para todos”... A vontade de ser rico, norte-americano, e de falar inglês faz o brasileiro cair nesses absurdos e ridículos. Parece que, vindo do inglês, a palavra fica mais importante... Vejam bem: a “etimologia” (as aspas indicam que não se trata de etimologia propriamente dita, evidentemente) do termo forró, consoante os grandes dicionaristas Francisco da Silveira Bueno, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Caldas Aulete, para citar apenas três, é a forma reduzida do vocábulo forrobodó, que significa “festança, arrasta-pé animado com bebidas e comezainas; farra; confusão, desordem; festejo ruidoso, popularesco”. A redução de palavras é um procedimento comum, legítimo e natural entre os falantes. É até adotada nas gramáticas como um dos processos de formação de palavras. Cinematógrafo virou cinema (a arte) e cine (a casa, o prédio onde se exibem filmes); pneumático virou pneu; fotografia virou foto. Os nomes próprios, no tratamento íntimo e familiar, também sofrem suas reduções: Roberto – Beto; Sebastião – Tião; Elisabete – Bete (Neste último,

tenho certeza de que já “tem” gente pensando que errei a grafia, pois pensam que o certo é “Elizabeth”, com “th”, grafia inglesa... Aliás, nem inglesa é. A grafia “Elizabeth” é latina, e o nome é a forma latina a que corresponde, em português, “Isabel”). Pois bem: no processo de redução de palavras, forrobodó virou forró. Nada além disso. Todavia, ignorando a formação correta do vocábulo, até guias turísticos do Nordeste brasileiro “ensinam” aos turistas que forró veio do inglês for all. “Ensinamento” errôneo praticado, também, por professores desinformados. Professores de História e até de Português... Mas o brasileiro não se contenta com a própria cultura, com o próprio idioma português. Isso lhe dá vergonha e sentimento de inferioridade. Para ser superior, importante e “rico”, tem de ter alguma coisa de inglês. Quando não tem, inventa. Mesmo que essa invenção contrarie princípios linguísticos e leis fonéticas. Agora, não estranhem se, depois desta informação, aparecer alguém querendo “explicar” a etimologia inglesa do pedaço bodó, de forrobodó... *Professor e escritor.

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Otaviano Pereira*

TEMPO Essa lesma, é a mesma lesma, lerda. A sempre mesma e lenta e lenta e lerda... é a mesma lesma sobre a pedra. E eu durmo e sonho e acordo e vejo/revejo a mesma lesma... lerda! Em sol e chuva em dia e noite eternamente lesma a lenta e lerda... mesma! Sei que a impaciência vira navalha na carne do poema, mas um jato cruza o atlântico em poucas horas e essa merda dessa lesma lerda não consegue em tantas horas cruzar o dorso dessa pedra! Ah! Enquanto houver tempo pra cantar a lentidão da lesma, essa mesma lesma, lerda...

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Enquanto houver pedra e o canto sobre o lento movimento da mesma e lerda lesma, essa mesma e sempre mesma lesma, em tempo algum perseguirá o tempo. Se tudo o que o tempo herda, é essa lesma, mesma e lerda, ela faz e desmancha o movimento do poema na gosma de seu grito, todo silêncio. E para além e aquém do tempo, ela desenha, sobre a mesma e eterna pedra, vereda e destino, de uma ontológica lesma, essa reluzente lesma lerda! *Professor e escritor.

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Paulo Fernando Silveira*1

REVOLUÇÃO DE 1930: A tomada do 12º RI em Belo Horizonte.2

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que estavam fora, a serviço ou de licença. “Para se conseguir cerca de 400 homens, foram precisos diversos toques de reunir e houve de se effectuar no Barro Preto, Barroca, Prato e cidade, a prisão de numerosos praças. Os soldados ignoravam o que se passava. Mas, disciplinadamente, obedeciam às ordens que eram a de preparo para a defesa do quartel.”3 Na esperança de uma rendição rápida, as autoridades estaduais fixavam o prazo final e improrrogável para o ato, cujo termo, no entanto, era sucessivamente postergado e ampliado. Ao descer da noite, às 18:30 horas, algumas centenas de civis, não contendo sua curiosidade e excitação, rumaram em direção à praça da Liberdade, em busca de informações e para assistir alguma movimentação de tropa, ou, até, uma eventual troca de tiros, que parecia iminente. “Durante toda a noite, no Palácio da Liberdade, o presidente Olegário Maciel, cercado de membros do governo, acompanhava o movimento, sereno e confiante na vitória da Revolução. Poucos minutos depois da meia noite, recebia-se a primeira communicação do Sr. Getúlio Vargas. A guarnição de Porto Alegre havia resistido, provocando um choque rápido e sangrento. O commandante da Região Militar, general Gil de Almeida, fora feito prisioneiro, com seus officiaes. O mesmo radio annunciava a adhesão de todas as demais unidades federais aquarteladas no Estado.”4 Os secretários revolucionários presentes na reunião com Olegário Maciel eram os do governo anterior, de Antônio Carlos. Noticiou-se, de madrugada, que o Estado do Paraná havia aderido à revolução. Estrategicamente, era um fato sumamente relevante. Além de impedir a descida das tropas paulistas, leais ao governo federal, facilitava a ação dos gaúchos, já que, vencida a resistência no Rio Grande do Sul, teriam que combater apenas os militares de Santa Catarina. Da Paraíba vinham notícias da deposição do

os três dias seguintes ao início da revolução, a população de Uberaba acompanhou, pacificamente, o desenrolar da crise nacional. Os acontecimentos ecoavam distantes. Aparentemente, nada tinham a ver com a vida local. [...] Soube-se que o governador de Minas, Olegário Maciel, colocara-se à frente do movimento insurreto ao determinar, no mesmo dia em que a revolução tinha sido deflagrada, que a polícia estadual tomasse de assalto o quartel do 12º Regimento de Infantaria do exército, sediado na capital. Tal, porém, não aconteceu assim instantaneamente, mesmo porque o secretário de segurança pública, Christiano Machado, procurou, primeiramente, intermediar uma rendição pacífica, quando soube da prisão do comandante daquele regimento, o tenente-coronel José Joaquim de Andrade – que se encontrava em sua residência particular, à rua da Bahia, esquina com a praça da Liberdade – ,e de outros oficiais. Permitiu, assim, que o inimigo se preparasse para o combate e, até, entrar em contato, pelo rádio, com o comando geral no Rio de Janeiro. Às 17 horas, o 1º Batalhão da Força Pública, sob o comando do tenente-coronel Antônio da Fonseca, movia-se em direção ao quartel do exército. Nesse ínterim, pequenos contingentes eram destacados para tomar as repartições federais. Tudo corria normalmente, conforme o plano original, quando os legalistas, que protegiam a Delegacia Fiscal, resistiram e trocaram tiros com os policiais militares. Depois de uma rápida refrega, que deixou um morto de cada lado, e um PM ferido, que veio a falecer, o edifício foi conquistado. Um emissário foi enviado ao 12º RI, retornando às 21:30 horas sem ter conseguido que os governistas se entregassem. O regimento, no entanto, estava desfalcado de seus oficiais superiores e, mesmo, de muitos soldados rasos, 1

Paulo Fernando é escritor e jurista. Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Silveira, Paulo Fernando. A Batalha de Delta. Uberaba:2ª edição, ampliada, em fase de revisão. Moraes, Aurino. Minas na Alliança Liberal e Na Revolução. Belo Horizonte: Edições Pindorama, 1933,pg.417. 4 Idem, pg.419 2 3

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aos seus ex-commandados, dando-lhes noticia do movimento e avisando que os chefes revolucionário em Bello Horizonte, tendo necessidade de deixar a Capital desembaraçada afim de seguir para o interior, estavam dispostos a fazer o bombardeiro aéreo da praça de guerra.”5 Contudo, não conseguiram fazer o documento chegar ao destino. No dia seguinte, novo apelo foi formulado e, finalmente, entregue. Às 11 horas do dia 8, o 12º RI hasteava duas bandeiras: uma amarela e a da Cruz Vermelha. Tinha feridos para tratar e mortos para enterrar. O capitão Celso de Mello Rezende veio ao encontro do coronel Luiz Fonseca para discutir os termos da rendição. Ficou estipulado que a todos seriam dadas plenas garantias de vida, permitindo-se àqueles que interessassem o ingresso nas forças revolucionárias. Aceito o acordo, a polícia mineira ocupou o quartel do exército. Foi hasteada na fachada principal do edifício a bandeira branca. Estava encerrada a luta na capital.6 Na realidade, a luta foi muito mais ferrenha do que se imaginava. Não ficou só numa simples troca de tiros, de longe, entre PMs e soldados do exército, todos entrincheirados Os combates foram surpreendentemente inesperados e sangrentos, inclusive com enfrentamentos frontais, a ver: “O 12º RI enfrentara cerca de 4 mil homens da Polícia Militar, causando baixas consideráveis no inimigo. Sem água, luz, telefone, oferecera resistência surpreendente, mesmo sem a presença do seu comandante, preso pela polícia civil quando voltava das compras. Boa parte da oficialidade fora também detida em casa, os mais moços quando passeavam pela cidade. Desfalcado dos seus melhores oficiais, o 12º RI não dispunha de condições psicológicas e materiais para resistir a seus sitiantes. Tinha poucos soldados, não havia médico, a farmácia estava quase sem medicamentos e as provisões eram escassas. Acreditava-se tanto na sua incapacidade de luta que se despachou um pelotão rebelde com trinta homens, comandado por um sargento do Corpo de Bombeiros, para exigir a rendição do quartel. Em Minas, os responsáveis pelo levante desconheciam o treinamento militar, a formação cívica e moral e a disciplina que o tenente-coronel Joaquim de Andrade impusera a seus subordinados. Desde o final de abril de 1928, quando chegara a Belo Horizonte para assumir o comando do regimento, todos os dias, após o café-da-manhã, havia aulas de ginástica, prática de esportes. Criara, inclusive, uma escola para alfabetização dos conscritos. Aos sábados, depois do almoço, assistiam-se conferências sobre temas históricos, em que eram lembrados exemplos de bravura, heroísmo e amor à pátria. Na tarde 3 de outubro, minuto antes do cerco, o oficial de dia estava no rancho quando recebeu a notícia de que tinham prendido o comandante. Em seguida, foi alertado de que forças hostis se preparavam para atacar o 12º RI. Ordenou o toque de reunir e iniciou-se a distribuição do armamento, da muni-

governador, que fora substituído por José Américo de Almeida. No entanto, na capital da república, as forças de terra, ar e mar continuavam fieis ao presidente Washington Luiz. Em Minas, a situação ainda estava indefinida. Todas as guarnições do exército se mantinham do lado do governo federal. Ademais, temiam-se ataques na fronteira nordeste, por tropas vindas da Bahia (o vice-presidente de Júlio Prestes era da Bahia), na zona da Mata (Juiz de Fora), por tropas oriundas do Rio de Janeiro e no sul do Estado, em Pouso Alegre e Itajubá, por forças paulistas. Na capital, às cinco horas do dia 4, um tiro de canhão anunciou o rompimento das hostilidades. Às sete horas, mais tiros de canhão foram ouvidos. Significava que o 12º. RI iria resistir ao assalto. Uma hora depois, a fuzilaria cerrada denunciava o início real do confronto. O tiroteio persistiu até às cinco da tarde. Durante a noite, a força pública mineira aproveitou a penumbra e a escuridão para melhorar sua posição, ficando mais perto da base inimiga, e se reabastecer de munições. Esporadicamente, o tiroteio continuava, sendo que às duas da madrugada iniciou-se uma carga de fuzilaria, que perdurou até às quatro. No dia 5, às duas da tarde, um aeroplano legalista sobrevoou a capital mineira. Em voo lento, ele passou sobre os quartéis da polícia, do exército e Palácio da Liberdade, regressando depois ao Rio de Janeiro. Durante todo esse dia, o tiroteio continuava, embora intermitente e menos cerrado. De outra banda, um avião dos rebeldes atirava folheto sobre o quartel do adversário intimando os sitiados a se renderem. Durante o dia 6, o tiroteio, embora esparso, prosseguia dia e noite. Contudo, sem nenhuma efetividade visível para ambas as partes beligerantes. À tarde, dois aviões inimigos, da Escola de Aviação, sobrevoaram a cidade e jogaram três bombas nas linhas de frente da força pública mineira. Erraram o alvo e não fizeram vítima alguma. Um dos aeroplanos, ao fugir precipitadamente do fogo que lhe foi lançado, caiu logo que deixou a cidade. O outro desceu no campo do Barreiro. O piloto foi conduzido, preso, à secretaria do interior. Na expectativa de receber reforços, depois de ficarem acalentados por ter avistado o avião federal, os soldados do 12º RI, embora sem água, médico e rancho, resistiram mais aquela noite e todo o dia seguinte. No entanto, no dia 7, “o commandante Andrade, prisioneiro dos revolucionários desde o dia 3, scientificado pormenorizadamente da marcha da Revolução, resolveu mandar uma mensagem 5 6

Moraes, Aurino. Op.cit.pg.430. Idem, pg.433.

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ção. Soldados ocuparam pontos estratégicos para barrar o avanço do inimigo. Buscas realizadas, às pressas, com a ajuda de um caminhão, nos bairros de Barro Preto, Barroca, Prado e outros pontos da cidade, reuniram cerca de quatrocentos homens para defender o quartel. A desassombrada resistência do regimento surpreendeu os insurretos. A proclamação do presidente Olegário Maciel, veiculada na manhã de 4 de outubro através do jornal Minas Gerais, estava em desacordo com a realidade: “A revolução que surge vitoriosa é um movimento conservador, apoiado por todos os políticos patriotas e pelos elementos conservadores da Nação. O povo e o governo de Minas dão-lhe sua inteira e irrestrita adesão”. Dias depois, a luta continuava sem perspectivas de solução. Os combates podiam ser ouvidos em toda a capital. A reação do 12º RI era inexplicável. Nem a superioridade de forças do adversário intimidava a tropa. O governo do Estado temia que o 10º Batalhão de Caçadores, aquartelado em Ouro Preto, marchasse em direção a Belo Horizonte para romper o cerco ao quartel. Como não conseguiam invadir o regimento, os rebeldes lançaram de avião boletim ameaçando seus defensores com bombardeio aéreo, “se içarem bandeira branca e se entregarem não sofrerão represálias. Se continuarem a resistir teremos de ser impiedosos”. A visão externa do 12º RI era desoladora. Não havia mais janelas, todas as paredes estavam cravejadas de balas; com o impacto das rajadas de metralhadora, o reboco se desprendera, deixando os tijolos à mostra. No prédio principal, a balaustrada da sacada do estado-maior desmoronara com os tiros de canhão. No ar, um cheiro insuportável de carne putrefata; eram os cavalos do regimento, mortos nas baias, pelo fogo inimigo. Do lado de fora, havia também cadáveres de rebeldes insepultos. Nas valas cavadas em torno do quartel, revolucionários feridos aguardavam socorro dias seguidos. Contavam-se às centenas os policiais militares internados no hospital da corporação. Considerado exemplo de construção militar, no alto de pequena elevação, o quartel era formado por um conjunto de edificações. O regimento tinha também excelente sistema interno de trincheiras subterrâneas, sem comunicação entre si, ligavam-se ao rancho, ao paiol de munição e ao prédio do EstadoMaior. Uma das galerias subterrâneas ia ter a um pequeno orifício a 120 metros do quartel, na esquina da Avenida Itacolomi com as Ruas Juiz de Fora e Quimbiras (sic). Nesse ponto, o 12º tinha uma metralhadora de ação eficientíssima. O avanço da polícia, além do barranco da Rua Timbiras era impossível. No dia 8, às 11:00 da manhã, foram hasteadas duas bandeiras no telhado, uma amarela, outra com a cruz vermelha. O regimento decidia se entregar, diante da ameaça de bombardeio aéreo. Os portões abriram-se e surgiu a figura desgrenhada de um soldado músico, que tinha servido como padioleiro durante os combates. Empunhando bandeira branca, ele desceu lentamente a ladeira que ligava a Avenida Paraopeba ao 12º RI. No interior do quartel havia mortos e dezenas de feridos que necessitavam de material para primeiros socorros, como iodo, gazes, ataduras, esparadrapo. O coronel Luís Fonseca, que chefiava as tropas rebeldes, 7 8

autorizou a entrega dos medicamentos, e o soldado retornou ao quartel. Logo depois, aparecia no portão o capitão Celso de Melo Resende, que comandava a resistência. O oficial é conduzido à Secretaria do Interior, onde se encontrava o Estado-Maior da revolução, em Minas Gerais. Após longa negociação, voltou ao regimento para discutir as condições impostas para o cessar-fogo. Os oficiais ficariam prisioneiros nos salões da Secretaria, as praças seriam levadas para o 5º Batalhão da Polícia Militar. Desarmados, cobertos de poeira, os soldados deixaram o quartel de cabeça erguida, “uma longa aclamação saudou-os e acompanhou-os por todo o trajeto”. O povo aproximava-se para ver de perto o cenário da luta, trincheiras abandonadas, cavalos mortos, cunhetes de munição espalhados pelo chão, paredes caídas, os danos imensos que a artilharia causara à edificação do quartel. “Belo Horizonte jamais contemplaria semelhante espetáculo”.7 Desse modo, sob fogo cerrado da força pública mineira e de batalhões de voluntários civis, centenas de soldados do 12º RI abandonaram o quartel e aderiram ao movimento revolucionário, que acabava de eclodir. Depois de uma sangrenta batalha, a força do governo federal em BH acabou se rendendo. Na refrega, 16 legalistas foram mortos. Muito maior era a quantidade de rebeldes que perderam a vida em ação, sem falar dos inúmeros feridos. Um incidente curioso, não muito bem explicado, que causou muita perplexidade, ocorreu inesperadamente no final da tomada do 12º RI, envolvendo um oficial da polícia mineira, lotado em Uberaba, e seu filho, um tenente do exército, incorporado nesse regimento. O fato foi assim narrado: O 4º Batalhão forneceu um contingente para o início da batalha fratricida da tomada do quartel do 12º Regimento de Infantaria, localizado na Barroca, em Belo Horizonte. Foi uma verdadeira carnificina, onde sobressaiu a conduta do major Bragança, da Polícia Militar que, tendo um filho, o tenente José Lopes Bragança como integrante do 12º Regimento de Infantaria, preferiu abrigar-se na tropa do Exército a combater contra o filho. A rendição da tropa sitiada foi dramática. Com a luz e a água cortadas, com vários feridos precisando de socorro, o capitão Josué Justiniano Freire pediu uma trégua para retirar os feridos. A resposta foi que somente haveria possibilidade de rendição. Diante dessas circunstâncias, optou-se pelo cessar fogo e a rendição do aguerrido 12º R.I. O coronel Otávio Campos do Amaral e seu filho, cabo José Oswaldo Campos Amaral, tomaram o quartel e foram encontrar, em um cubículo, o major Bragança. Nisso entrou o sargento Ananias de Paula Mendonça, conhecido pela sua valentia. No interior do cubículo ouviu-se um estampido. Ao sair o sargento alegou que o major Bragança havia se suicidado. A polêmica desse episódio avançou no tempo.8 Não obstante a rendição do regimento legalista, a situação militar em Minas não estava ainda totalmente

Meirelles, Domingos. 1930-Os Órfãos da Revolução. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005, pgs.584/6. Ribeiro, Alaor. Revolução de 1930. Uberaba: Jornal da Manhã de 22.02.2005, pg.2

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controlada, principalmente porque “A rendição dramática do 12º Regimento de Infantaria do Exército, em Belo Horizonte, assustou ainda mais o governo. Apesar de o presidente Olegário Maciel ter proclamado a vitória da revolução na noite de 3 de outubro, várias guarnições federais, como o 4º Regimento de Cavalaria Divisionária, em Três Corações, ainda resistiam ao assédio das tropas estaduais, 12 dias depois de iniciado o levante.9 Somente no dia 15 é que foram vencidos o 11º RI, em S.João Del Rey, e o 4º RCD, em Três Corações.

O 10º RI, em Juiz de Fora, ofereceu maior resistência, só sendo derrotado em 23 de outubro. Para a zona do Triângulo Mineiro, o plano Odilon Braga se mostrou totalmente inconsistente por não ter sido capaz de prever a dimensão da luta que ali seria travada. Na região de fronteira, no vale do Rio Grande, o enfrentamento das forças em conflito, oriundas de Minas e São Paulo, foi bastante inesperado, surpreendente, tenaz e duradouro. Em solo mineiro, aconteceu, entre outras, a feroz batalha de Delta. *Acadêmico, cadeira 20.

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Meirelles, Domingos. Op.cit. pg. 584.

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Pe. Thomaz de Aquino Prata*

A ARTE DE BEM VIVER

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enho medo das pessoas pessimistas. Das pessoas amargas. Daqueles e daquelas que vivem se lamentando de mil coisas e comentando a vida alheia. Fujo dos envinagrados, daqueles que distilam azedume por todos os poros. Eles me fazem mal. Estragam o meu dia. Lembro-me de Machado de Assis. Sei que é o maior ou um dos maiores escritores brasileiros. Pelo menos é o que dizem. Mas, não resta a menor dúvida, foi um homem que secretava seu mau humor em linhas e entrelinhas. Num de seus livros, chegou a dizer que não tivera filhos porque não quis transmitir a outros o legado da miséria humana. Fernando Pessoa, não resta a menor dúvida, é um poeta insuperável. Mas suas tristezas, seu pessimismo, me fazem mal. Quando o leio, sinto um travo no fundo de mim mesmo. Um sabor amargo. Um vazio se faz. O bom humor, pelo contrário, é um Dom de Deus. Bom humor não significa contar piadas. Tem nada a ver com gargalhadas. Não é cinismo. Não ridiculariza. Humor é um estado de espírito. É um clima. Os ingleses falam de um “sentido”, do sense of humour . É como se fosse um sexto sentido que não é concedido a todos. É sumamente agradável conversar com gente bem humorada. Eles criam um clima de “estar à vontade”. De descontração. De leveza. Eles veem o lado divertido das coisas. Como os poetas, eles veem o que nem sempre vemos. É um carisma. Certa vez, em companhia do Papa João XXIII, um visitante percorria as dependências do Vaticano. Ficou assustado com tanta gente circulando lá dentro. Gen-

te carregando pastas, padres de batina preta, de batina vermelha, de batina roxa, enfeitados de frisos, gente pra lá e pra cá, todos muito atarefados. Surpreso, o visitante perguntou ao Papa: “Quantas pessoas trabalham aqui no Vaticano?” Aquele santo velhinho pensou um pouco e respondeu: “Só a metade...” É isso aí, humor envolve finura de espírito. Crítica com graça e leveza. Infelizmente, muita gente confunde humor com palhaçada. Para outros, humor é dizer pornografia. Adoram um palavrão e acham que é bom humor. São os coprófilos . Perdão, mas não posso escrever aqui o que esta palavra significa. Por uma questão de higiene. Deus nos livre dos mal humorados. Simone de Beauvoir, companheira de Sartre, afirmou que a velhice enche a humanidade de aversão, maior do que a própria morte. Gente assim nos enche a vida de vinagre. Quer outro exemplo de mau humor? Este vem da Bíblia, lá do Salmo 31, de 10 a 14: “Tem piedade de mim, Senhor, pois estou oprimido. A dor me consome os olhos, a garganta e as entranhas. Eis que minha vida se consome em tristeza e meus anos em gemidos. Meu vigor se enfraquece em miséria e meus ossos se consomem. Pelos opressores todos que eu tenho já me tornei um escândalo. Para meus vizinhos, um asco, e terror para meus amigos. Os que me veem na rua fogem para longe de mim. Fui esquecido como um morto aos corações. Estou como um objeto perdido”. É muito fel para meu gosto. De um modo geral, os idosos nem sempre estão de bom humor, o que não é nada bom para eles. *Acadêmico, cadeira 04.

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Pedro Lima*

A MÚSICA EM NOSSAS VIDAS Quem não ama a Deus, A música, as flores e as crianças, É pobre, bem pobre, Sem coração e sem esperança.

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ogo que nascemos, as primeiras vozes que ouvimos não são vozes com uma tonalidade natural, como as que são dirigidas a quaisquer pessoas. Não. Ouvimos uma voz com uma mistura de carinho e ternura. Uma melodia amorosa que é tão sublime, que pode ser entoada pelos lábios ou pelo olhar materno, que só a mãe sabe entoar. Depois, logo que choramos, por vários motivos, somos embalados pelas canções de ninar. As nossas primeiras palavras também são melodiosas: ma(m) – mãe, pa-pai e assim por diante. Antes de ir para a escola, ouvimos todos os tipos de músicas e, com elas, aprendemos a falar, mesmo que não entendamos o significado de algumas palavras, mas o importante é pronunciar correto e entoar a melodia, acompanhada do ritmo que dançamos o dia todo.Na escola, as belas cantigas criadas e entoadas pela professora. Ficamos emocionados com os belos hinos patrióticos em que aprendemos a amar nossa Pátria e respeitar nossos heróis. E a música vai nos acompanhando no nosso dia a dia. Já temos nosso gosto pela boa música ou pelo cantor(a) preferido(a), a melhor melodia ou aquela nossa música predileta. O “Parabéns pra você”, ou até o “Atirei o pau no gato”, os programas musicais na TV e os primeiros bailes. Será que a banda era boa? Cantaram as suas músicas preferidas? Para escolher as profissões, muitos escolhem logo a de cantor, porque querem ser iguais aos ídolos das músicas preferidas, mesmo que não tenham ritmo e sejam

desentoados. Mas, a essa altura, eles se julgam os melhores cantores: eles e as mães. A música é a própria natureza. Em tudo existe som. Ela está no cantar dos passarinhos, na correnteza dos rios, no mugido do boi, no balançar das folhagens e no zumbir das abelhas. E é por isso que todos os animais adoram a música. Com o som de uma flauta, você hipnotiza uma serpente e, com a mesma flauta, os pastores recolhem as ovelhas. E com os aboios dos vaqueiros, dominase uma boiada. E a música está também no som dos sinos, anunciando nossa última morada. *Acadêmico, cadeira 14.

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Renato Muniz Barretto de Carvalho*

O LADO MAIS FRACO DA CORDA

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m dia a corda arrebenta, e vai arrebentar do lado do mais fraco, não tem outro jeito. Só não gostaria de ser o lado mais fraco nesta hora. A questão é que não dá para saber qual é o lado mais fraco da corda. Se eu fosse profeta, vá lá, mas profetas não existem, assim como não existem Papai Noel, o coelhinho da páscoa, deuses e o verdadeiro amor. Eu sei disso porque já amei muito. O que é amor verdadeiro? Se existe amor verdadeiro tem de existir amor falso. É como o Diabo, os diamantes, o ouro, as pedras preciosas..., ou é verdadeiro ou não existe, concorda? Não? Confundi tudo? Não tem importância, quem disse que é pra entender tudo que a gente fala? Deus não escreve certo por linhas tortas? Ou é o contrário? Uma coisa não vive sem a outra, isso é filosofia pura, foi um velho que vivia nas ruas que me contou.

atravessar a rua. Atravessar ruas era um perigo, ele contava. Era uma arte. Precisava olhar os carros, assuntar a velocidade, calcular o impacto, verificar a posição dos outros carros, uma ciência importante. Ele implicava com os carros. Não gostava deles. Dizia que eram inúteis, eram perigosos. Para que carro? Gente tem perna para andar, caminhar, sentir o chão. Ele dizia que o chão falava com ele. Que sabia pela pisada se ia chover, fazer sol, esquentar, esfriar. E eu acreditava naquilo. O cara era bom mesmo, uma inteligência rara, uma pessoa muito esperta. E corda molhada fica mais difícil de segurar? Eu perguntei um dia. Estava preocupado com a hora em que a minha corda ia arrebentar. Eu sabia que ia arrebentar a qualquer hora e precisava saber em qual lado segurar. Ele sabia, só não queria me contar. Ela estava molhada de tanto que eu chorava em cima dela.

Ele era inteligente e, ao mesmo tempo, revoltado com tudo o que existe. Não aceitava a ordem das coisas, queria mudar tudo de lugar, até os postes de luz. Não aceitava comida e moedas de qualquer um não. Às vezes falava coisas que não tinham nada a ver, mas eu é que não entendia. No fundo, mas bem no fundo, tinha uma verdade escondida, tinha um ensinamento, um segredo muito bem guardado. Um dia eu ainda ia descobrir. Era preciso pensar bastante no que ele contava.

Uma ocasião eu perguntei para ele quem estava do outro lado da corda. Ele ficou muito bravo comigo. Disse que eu não tinha jeito, que eu fazia perguntas bestas. Gritou comigo: “Ora! Quem está do outro lado da corda? Isso é importante?” Ele perguntou. E respondeu: “Não, isso não é importante, mas você precisa saber que sempre vai ter alguém nos dois lados da corda na hora em que ela arrebentar. Fique esperto, porque você vai estar segurando uma das pontas”.

Certa vez, ele me disse que quase morreu, e não foi uma vez só não, foram várias vezes. Já estava ficando entendido em morte. A maioria delas foi na hora de

*Geógrafo, professor universitário e escritor.

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Terezinha Hueb de Menezes*

RELÍQUIA

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istraidamente, pego um livro na imensa estante da biblioteca. Muito antigo. Folhas amareladas pelo tempo, descorado, mal se lhe percebendo os dizeres. Também distraidamente o folheio. Transportome para a longínqua data de sua edição. Prendo-me à ortografia. Igualmente antiga. Percebo-me desinteressada pelo conteúdo. Atraem-me as marcas de um tempo distante. Folheio-o rapidamente, na tentativa de captar os fluidos que parecem advir de suas páginas. De repente, sem querer, ou talvez querendo, deparo-me com aquele formato, agora estranho, em meio às folhas do livro. Uma pétala ressequida. Parecendo ser de rosa. Descorada como as próprias páginas. Ali guardada, uma lembrança, mensagem talvez, um significado. O pensamento tenta domar a fantasia. Quem a guardara? E se a guardara, de quem recebera? Qual a intenção da pessoa que a dera? A cor. Tão desbotada. Seria de uma rosa vermelha? Ou amarela? Mas uma rosa. A pétala traria as marcas de um beijo. Ou de um afagar de mãos. Traria, talvez, impressas em seus restos, palavras mais ou menos assim: “Acaricie esta pétala e lembre-se de mim.” E ela ali ficara.Esquecida ou lembrada no guardado. Tendo ido parar na biblioteca de uma escola. Perdida entre centenas de livros e milhares de páginas. Resto de uma rosa, um dia fresca e perfumada. Resto, talvez, de um amor esquecido no dorso dos dias, dos meses, dos

anos. Ou de uma esperança que possivelmente murchara, murchando os resquícios das lembranças. Que segredos se esconderiam naquela pétala esquecida? Alguém, desavisado, talvez risse do achado. Cafonice. E, se ouvisse explicação a respeito, riria mais. Coisa caduca: uma pétala em um livro. Que mensagem poderia existir nisso? Pieguice. Romantismo piegas. Mas a pétala ali está. Se eu não a toco, se eu não a trinco, ela continuará isenta, esquecida no livro triste e esquecido, já velho e desatualizado em sua ortografia antiga. Carregada de sentido. Sobrevivendo à própria rosa de onde, com carinho, um dia fora extirpada, para engravidar-se da mensagem que a isolara: “Acaricie esta pétala e lembre-se de mim.” Resolvo não tocá-la. Seria profanar um segredo, violar uma relíquia. Ficasse ali, guardando, em suas entranhas ressequidas, uma intenção ou um sentimento. Ficasse em paz com seus segredos e seus mistérios, repetindo sussurros inaudíveis. Ficasse ali, quieta em sua fragilidade, escondida entre palavras de amor, em um livro de poesias antigas. Não a tocassem, não bulissem em seus segredos, para que pudesse conservar, na superfície desfigurada, as formas, talvez, dos lábios que a tivessem, um dia, beijado. *Acadêmica, cadeira 27.

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Ubirajara Franco*

POEMA INACABADO

Hoje não quero um verso banal: quero um poema que afugente o meu mal... E que, livre da métrica que mutila, ou da cruel rima que cerceia, tenha a leveza dos passarinhos, a liberdade do zíngaro, e que trilhe os incertos caminhos por onde o andarilho vagueia...

e terá o gosto amargo de um adeus... Quero-o assim, volúvel, meio puro meio vagabundo... Quero-o também inacabado: refletindo a fantasia do cego e o sonho do presidiário da masmorra; que encerre o fascínio da tela do pintor incompreendido e que traduza as garatujas do louco na muralha intransponível!...

Quero-o impregnado com o vislumbre que se descobre na noite escura... Vestido com o enigma que se esconde no olhar profundo da virgem que inda resta.

*Acadêmico, cadeira 25

Quero roubá-lo das curvas sensuais da morena de pés descalços; embebê-lo na essência da mata; na gota do orvalho; no sorriso da criança; no fulgor do crepúsculo. Terá a cadência do choro do homem no quarto escuro. Será ungido com o olor da mulher que, na minha adolescência, me ensinou a fazer amor. Envolverá a emotividade do reencontro

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Vera Lúcia Dias*

A ARTE E A MORTE

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uma experiência cultural, ou seja, mediada pelas imagens, palavras e narrativas que nossa cultura vem tecendo sobre essa experiência há dezenas de séculos.” (2009, p. 185). Em seus estudos, o autor classifica as produções literárias como resultado de quatro atitudes ou posturas: Racional, em que os planos de futuro são vazios porque a certeza da morte impregna a vida com suas sombras e, assim, os prazeres leves e simples surgem como uma alternativa razoável como no famoso carpe diem Intuitiva, que conduz a uma perspectiva menos sombria da morte pela intuição de que ela não pode ser completa porque algo de nós continuará existindo, provocando, conforme a maioria das religiões, diversas especulações sobre a pós-morte. Emotiva, se a reação frente à finitude da vida provoca verdadeiro horror, e Natural, se é observada como uma experiência comum, cotidiana, desprovida de mistério e de terror, última de uma série de mortes que experimentamos todos os dias como parte da vida, sem a qual ela não existiria. Concluindo essa nossa brevíssima incursão pela interface Morte e Literatura, citamos Duarte, 2007: “...Os que falam da morte só podem ser assim os poetas, os místicos ou os loucos; somente eles poderiam talvez testemunhar o intestemunhável, como parece reconhecer Jankélévitch em seu extenso estudo sobre esse Nada que nos espera e em que não podemos sequer pensar, a não ser através das representações literárias”.

o ser convidada para escrever um artigo para a Revista Convergência, muitas ideias passaram-me pela cabeça e uma delas se fixou: Por que não juntar a fome com a vontade, falando sobre a convergência Arte/Morte? A arte desde e sempre me fascina, e a morte, por sua vez, tem sido meu objeto de estudo há mais de uma década. Assunto que, costumeiramente, faz alguns se arrepiarem e baterem na madeira como tentativa de dela se livrarem, para nós, tanatólogos, a morte é companheira de vida porque, como dizem alguns filósofos, começamos a morrer no dia em que nascemos. Escarafunchar a morte com suas diversas faces significa encontrá-la também na Arte. Ela está na Literatura em verso ou em prosa, na Música, na Pintura, na Escultura e no Cinema. Cada uma dessas manifestações artísticas, por si só, mereceria um artigo específico, mas como não tenho a pretensão e nem conhecimento aprofundado para escrever um tratado a respeito, me embasarei em alguns daqueles que o fizeram para visitar algumas produções artísticas sobre a morte, o morrer e o chorar a dor da perda com arte...

A Morte na Literatura

Encontramos, na Literatura, uma vasta produção sobre a morte e o morrer e, como diz Catalão, doutorando em Teoria da Crítica Literária pela UNICAMP, no livro A Arte de Morrer – Visões Plurais: “... Amantes de longa data, literatura e morte estão de tal modo unidas, que é praticamente impossível dissociá-las... /... Porque, como homens que somos não podemos experimentar a morte como um fenômeno natural; queiramos ou não,

Morte e Música

Embora a morte, na perspectiva existencial, não represente um fim e sim apenas uma parte do existir, ela é sempre

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vivenciada como um acontecimento triste que desperta muitos pensamentos e sentimentos que inquietam e angustiam, remetendo-nos à finitude concreta de nossa vida corporal e à finitude simbólica dos nossos projetos e sonhos. Dentre as muitas mortes vividas ao longo da vida, uma que particularmente impulsiona a produção musical é aquela provocada pelo fim dos relacionamentos amorosos e que obriga a se conviver com a falta de alguém que permanece vivo numa espécie de presença ausente. Expressando a angústia existencial vivida diante de uma perda significativa temos em Bilhete, de Ivan Lins e Vítor Martins, e também em Metade, de Adriana Calcanhoto, diferentes maneiras de se retratar o sofrimento. Enquanto o primeiro fala da tentativa de extinguir totalmente vestígios da existência do outro (...Eu limpei minha vida/Te tirei do meu corpo/Te tirei das entranhas/Fiz um tipo de aborto/E por fim nosso caso acabou/Está morto/.../Boa sorte, adeus”), a segunda escancara o desespero de quem fica pela metade: (...Eu ando tão triste/Eu ando pela sala/Eu perco a hora/Eu chego no fim/Eu deixo a porta aberta/Eu não moro mais em mim / Eu perco as chaves de casa / Eu perco o freio/ Estou em milhares de cacos/Eu estou ao meio/Onde será que você está/Agora?”). Muitas outras músicas retratam a dor da perda, como Sérgio Bitencourt, cantando Naquela Mesa, Tim Maia, falando dos porquês que todos nós experimentamos diante da morte e outros sucessos populares como Construção, Pedaço de Mim, Chico Mineiro, Menino da Porteira e outros. Bem vale concluir esta sessão, convidando os leitores a se recordarem de quantas vezes na vida espantaram seus males e as dores (de amor) cantando!

Quarto do Filho, Nossa Vida Sem Grace, A Partilha, O Segredo da Libélula e Gente Como a Gente. Uns enfocam a relação médico-paciente como O Casamento de Muriel, Meu Pai uma Lição de Vida, Silêncio Como Gelo, Minha Vida e Um Golpe do Destino, enquanto outros enfatizam funerais como acontece em Morte no funeral, Um funeral à chuva, Funeral Blues, Partida e, finalmente, as questões que abordam vida após a Morte podem ser encontrados em, Nosso Lar , Vida após a Morte e Amor Além da Vida.

Morte, Pintura e Escultura

A morte também está na pintura e na escultura de diferentes formas. Dresden, na Alemanha, abrigou, em setembro de 2007, a exposição Six Feet Under , traduzida como Seis Palmos Abaixo da Terra, com obras de diversas épocas e lugares, corpos sem vida, fotos e vídeo sobre o tema. Encontramos esse tema representado por Michelangelo no quadro a Morte da Virgem e na escultura La Pietá esculpida no mármore em 1499 e atualmente exposta no interior da Basílica de São Pedro, em Roma. Na França, Jacques Louis David (1748-1825) exerceu grande influência na pintura com obras que expressam fortes emoções, como no quadro A Morte de Marat, seu grande amigo. Na América Latina, o pintor colombiano, Fernando Botero, retratou a Morte de Pablo Escobar, hoje exposta no Museu de Antioquia, em Medellín Para concluir este breve passeio com a Morte pelos caminhos da Arte, sou levada a plagiar Rubem Alves: “Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais...” , ou então Mário Quintana, citado por ele: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! “Não quero ir embora.”. Encarar a morte em seu aspecto existencial nos obriga a encarar o aspecto mortal do ser humano, mas se estivermos conscientes desse aspecto, a vida se torna um presente que está, não no passado e nem no futuro, mas no aqui e no agora, a ser degustado a cada minuto, uma vez que a única certeza da vida é mesmo a existência da morte.

A Morte, o Morrer e o Cinema

Nos últimos tempos, o cinema parece ter (re)descoberto a morte e o morrer, escancarando-a em suas muitas vertentes, garantindo prêmios e recordes de bilheteria. Uns tratam das experiências que antecedem a uma morte anunciada, como em Fred e Elsa, Gritos e Sussurros, As Horas, Doce Novembro, Uma lição de Vida, Antes de Partir, Em Busca da Luz. Outros retratam a luta daqueles que desistem de viver como Menina de Ouro, Mar Adentro, Invasões Bárbaras. Há aqueles que falam das maneiras de se enfrentar a dor da perda: O

*Tanatóloga e escritora.

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Vicente Rodrigues da Silva Filho*

HÁ MALES QUE...

C

hamava-se José Eurípides da Silva, era honrado e trabalhador e tinha um sítio na zona rural, com boa terra, boa aguada, fartura de pasto, umas plantinhas de café, feijão, milho e um pomar com muita fruta e também umas curraleiras, que davam leite pra linha, a conta da despesa. A mulher, Maria Imaculada, prenhe de inteirar nove meses, prestes a parir o primeiro filho do casal. Seu velho Fusca não era de confiança e o lugar, difícil de ir, na seca, poeira de sufocar e, nas águas, só a cavalo. Nem o caminhão leiteiro chegava, e o leite era levado em uma velha charrete, puxada por uma mula “cansada de guerra”, até o corredor, onde o leiteiro recolhia os latões cheios e deixava os vazios. Tinha que madrugar para dar conta. Zé Ambrósio, um peão beato, dava adjutório a troco da boia, cama, pito, pinga e de uns trocados, para uma visita às “tias” de mês em mês. Numa tarde, depois da lida, com os pés pousados na bacia de folha, com água morna pela metade, vê a mulher atiçando o fogo sob as panelas com a boia e observa: “-Óia Maria, ocê num acha que já tá quais na hora da sua delivrança? - Eu num sei se ocê vai concordá comigo, mais eu num acho bão ocê ganhá nosso fio aqui, longe de recurso e sem nenhuma madama na vizinhança pra acudir! - E o pió, é se ocê passá mar de noite e nosso Fusca num pegá. Se ocê num se importá, a gente vai pra cidade e toma pouso lá, até ocê desemprenhá!” Sabia ler e escrever, e sua mulher até dera aulas em uma escola rural. Sua fala acaipirada foi herança de seus antepassados e não conseguia falar de outro jeito. Era

um dialeto gravado na alma. A mulher concordou, pois, afinal, já estava quase na marca do doutor, e aquele ermo não era lugar para ganhar filho: “-Nesse entremeio, ocê aproveita pra fazê uma consulta, por causa desse incômodo nas tripas, que tá te aperreando há dias!”-sugeriu a mulher, enquanto lhe entregava uma toalha. Na manhã seguinte, embarcaram no leiteiro pra cidade, deixando a lida no sítio por conta do Zé Ambrósio e pousaram na casa da mãe dela. No mesmo dia, ele foi ao médico, que pediu alguns exames de laboratório e, em três dias, a mulher pariu um belo menino, quase quatro quilos, trazendo alegria, abraços, elogios, mas também novidades, com o banco suspendendo sua conta, por causa de cheque sem fundos, passado por um homônimo. Ainda na casa dos sogros, admirando o recémnascido, sugando vorazmente um dos seios da mãe, disparou: “-Quero que o nome dele seja Sílvio Abravanel Eurípides da Silva, em homenagem ao Sílvio Santos!”disse à mulher e ela concordou de pronto, pois também gostava de assistir ao “Sílvio Santos” na televisão. No outro dia saiu cedo, foi ao laboratório onde recebeu os resultados dos exames e, para ganhar tempo, foi ao Cartório registrar o filho: “-Silvio Abravanel Eurípides da Silva”: Silvio Abravanel, do “Silvio Santos” e Eurípides da Silva, seu sobrenome. Repetiu algumas vezes principalmente o Abravanel.

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O Cartório só abria ao meio dia e resolveu esperar. Sentou-se num banco ali perto, pegou o envelope com os resultados dos exames, abriu e deu uma olhadela, só para passar o tempo. Quase tudo normal e só no pedido de exame de fezes o médico fizera a seguinte observação: “Confirmar diagnóstico provável: “enterocolite por infestação de ascarídeos” e, no resultado, constava positivo: Presença de larvas de Ascarídeos Lomb. Ficou preocupado e leu aquela parte várias vezes, até que o Cartório foi aberto, ele entrou e, quase mecanicamente, ditou os dados do filho. Repetiu o nome a pedido da escrevente, ela deu de ombros, arrolou como testemunhas duas pessoas presentes, terminou a digitação e todos assinaram no livro de registro. A escrevente entregou-lhe a certidão, dobrada e preservada numa carteirinha de cartolina, ele guardou o documento no bolso, junto com os resultados dos exames e foi pra casa dos sogros ruminando sua preocupação: “-Enterocolite por infestação de ascarídeos”! Com um nome desse só pode ser doença perigosa. Será que é doença que pega? Teria que perguntar ao médico, pois tinha medo de passar a doença pra mulher e pro filho. Pior que era terça-feira e o médico só ia atender na sexta! Comentou o resultado com alguns amigos que o tranquilizaram: “-Carma, Zé Oripes,”- disse um deles que já tivera a mesma infestação: “-Isso é só lombriga e é só ocê ir à

farmácia do Herculano, que eles te dão um lombrigueiro, ocê toma e defeca as “bichas” todas, que tão nas tripas.” José Eurípides foi à farmácia, comprou o vermífugo, tomou do jeito que o farmacêutico ensinou e, ao aliviar o ventre, viu que estava mesmo com lombrigas. Na manhã de quinta-feira embarcou no caminhão leiteiro para seu sítio, levando sua mulher, o novo membro da família e livre do incômodo intestinal. O tempo passou depressa e Silvinho, criança esperta e sadia, xodó e orgulho dos pais, já estava quase caminhando, mas era pagão e precisava ser batizado. Arrumaram os padrinhos, mas para marcar a data do batizado e para o batistério, precisavam da certidão de nascimento e foram procurar: Estava intacta e dobrada, junto com os resultados dos exames de José Eurípides, na gaveta do armário da sala. Resolveram lê-la pela primeira vez e, na presença do Zé Ambrósio, que seria um dos padrinhos. Ao ler o nome do filho registrado na certidão, José Eurípides engasgou, a mulher se mostrou surpresa, Zé Ambrósio tirou o pito da boca e deu uma cusparada no quintal, através da janela da sala e pairou, entre os presentes, um ar de estupefação. José Eurípides não quis acabar de ler e entregou a certidão à mulher, que a percorreu, com os olhos ávidos, até onde estava escrito o nome do filho e leu de novo, como se não acreditasse: - Bem, pelo menos o pequeno Silvio Enterocolite Eurípides da Silva não deverá ter problemas com homônimos, quando crescer... *Sócio correspondente da ALTM.

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Vilma Cunha Duarte*

JEITO DE FALAR

N

ós, brasileiros, enchemos a boca pra exibir a unidade nacional em tanta coisa... Na língua, por exemplo! Será?

de voz -. A entonação mal-humorada azeda falas corriqueiras. A gente não sabe se está conversando ou levando um pito. O tom bem posto, mesmo em discussões acaloradas, abre portas de entendimento.

Andando por este tamanhão de país, já passei batida em muitos regionalismos. Que tecem a linguagem coloquial no seu pedaço, criando, a bem dizer, dialetos encantadores. Minas Gerais ganha disparado. Com direito a gozação nacional. Pintam e bordam com o linguajar do “mineirin”. Que em mineirês comido nos esses, na concordância verbal ou na garupa de expressões idiomáticas hilariantes, pede tradução até para os conterrâneos.

Dicção. Mais um entrave. Clara e sonora uma beleza. Se não...

Linguagem facial e corporal. Hoje, calcada em estudos científicos e usada com sucesso em investigações policiais. A boca fala e as expressões corporais desmentem. “Arma” poderosa contra bandidos de todos os colarinhos. O jeito de falar cresce e acontece na individualidade soberana do ser humano. Todavia, cuidado e bom senso valem ouro. Palavras escritas e faladas são armas de dois gumes. Podem poetizar o mundo ou causar um furacão.

Misturado com o gerundismo, perde o encanto. Vira calamidade. Odeio o gerundismo. O diabo do vício esnoba 2010 com adeptos multiplicados. “Nunca se viu na História deste país”... tanto maltrato com a língua. Que extrapola a juventude. Gente de nome, prestígio, diploma e medalhas, fala no patuá horroroso. Lixo linguístico. As escolas bem que poderiam combater a praga em campanhas ostensivas. Começando com os próprios agentes da educação. Muitos, também contaminados. A televisão mostra todo dia. “Vamos estar começando” isso... Vamos estar apresentando aquilo... Haja Deus! Deste jeito, muito mal.

O seu tornou-se inconfundível, a amiga sempre repete: “Nem precisa assinar os seus textos”. Concordo, mas assino. Minha transparência no falar e escrever não muda. Apura-se com o tempo. Interpretação. Outra novela com episódios deliciosos. O mesmo escrito tem conotações diferentes e extraordinárias. Quem lê, posiciona-se automaticamente em qualquer texto, e entende no seu jeito de ser e de falar. Maravilhas da democracia literária.

Outro fator marcante na comunicação - o tom

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Já cansei de repetir: - não sou perita em gramatiquices -. Todavia, assumo o que escrevo. “Escorregadas” para puristas, não passam de recursos estilísticos intencionais.

“Inveja boa!”. Como? Claro que existe. Talvez uma espécie de admiração por algo que o outro tem, a gente louva, mas gostaria de ter ou ainda, não ter perdido. Os casais felizes depois de muito tempo juntos me comovem. Basta ver um, e a inveja boa chega à frente. Que Deus os abençoe, guie e aperte os belíssimos laços afetivos. Ela mora nos bons sentimentos, graças a Deus!

Palavras são muito sociais. Entrelaçam-se e fazem a festa nos agrupamentos humanos. Independentes de classificação de classes. Aprecio parelhas que surgem por aí, ganham força e acabam engrossando dicionários.

Inveja nua e crua eu nunca tive. Corro de quem tem. Muito melhor andar a vida com seus jeitos e trejeitos. Mandando recados de amor neste meu jeito vilmado de falar. *Acadêmica, cadeira 13.

A liberdade de se criar o próprio estilo, respeitando princípios básicos da língua, inventando moda sem ameaçá-la de morte, a imensa satisfação em escrever.

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PARA LEMBRAR...

Em Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro “(...) os motivos que me levaram a coordenar o movimento são baseados principalmente na necessidade de congregar a intelectualidade triangulina em torno de um centro de convergência comum, para melhorar estudo e debate dos problemas literários científicos e sociais do mundo atual”. José Mendonça Coordenador do Movimento Pró Fundação da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

de 40. A candidatura à vaga na Academia ocorre através de inscrição espontânea do candidato ou por indicação de cinco acadêmicos, posteriormente submetida ao parecer de uma comissão constituída de cinco membros, nomeada pelo Presidente da ALTM. As vagas somente surgem em caso de falecimento de um acadêmico. A eleição é praticada por voto secreto, em Assembléia Geral. Cada cadeira tem o seu Patrono, que foi indicado pelo seu respectivo sócio fundador, ou pelo primeiro acadêmico que dela tomou posse. A escolha do Patrono, embora de livre vontade dos acadêmicos, teria que ser, necessariamente, de um intelectual ilustre das letras brasileiras, de preferência vinculado ao Estado de Minas Gerais e em especial à região triangulina. A ALTM foi instalada, de forma solene, em 22 de dezembro de 1962, no Salão Nobre da Associação Comercial e Industrial de Uberaba, com posse de sua primeira diretoria, eleita em 25 de novembro daquele ano, biênio 63/ 64; e de seus acadêmicos fundadores.

I

dealizada por um grupo de intelectuais e escritores de Uberaba, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro – ALTM foi fundada em 15 de novembro de 1962, através de uma reunião realizada na sede da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, atual ABCZ, então situada na Rua Manoel Borges, nº. 84, sob a Presidência de José Mendonça, coordenador do movimento para a sua fundação, ocasião em que foi sugerido e, posteriormente, aprovado o seu estatuto: “(...) Tem por finalidade a cultura da língua, da literatura, especialmente do Triângulo Mineiro, e o estudo dos problemas sociais e científicos, a união dos intelectuais do Brasil Central, a difusão de suas obras e conhecimentos gerais (...)” Reconhecida de Utilidade Pública Municipal, pela Lei nº. 1.125, de 21 de setembro de 1963; e Utilidade Pública Estadual pela Lei nº. 9.470, de 21 de dezembro de 1987, a ALTM constitui-se de 40 membros efetivos, além dos sócios correspondentes até o máximo

Membros Fundadores Um total de 27 intelectuais constituíram inicialmente a Academia de Letras do Triângulo Mineiro, portanto são considerados seus sócios-fundadores.

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Cadeira nº 35 – Antônio Severino Muniz Cadeira nº 36 – Valdemes Ribeiro Menezes Cadeira nº 37 – Marçal Costa Cadeira nº 38 – José Soares Bilharinho Cadeira nº 39 – Dom José Pedro Costa Cadeira nº 40 – Guido Luís Mendonça Bilharinho

Cadeira nº 01 – José Mendonça Cadeira nº 02 – Santino Gomes de Matos Cadeira nº 03 – Victor de Carvalho Ramos Cadeira nº 04 – Padre Thomaz de Aquino Prata Cadeira nº 05 – Cônego Juvenal Arduini Cadeira nº 06 – Ruy de Souza Novaes Cadeira nº 07 – Ari Rocha Cadeira nº 08 - Padre Antônio Thomás Fialho Cadeira nº 09 – César Vanucci Cadeira nº 10 – Antônio Édison Deroma Cadeira nº 11 – Raimundo Rodrigues de Albuquerque Cadeira nº 12 – João Rodrigues Cunha Cadeira nº 13 – Augusto Afonso Neto Cadeira nº 14 – Maurilo Cunha Campos de Moraes e Castro Cadeira nº 15 – George de Chirée Jardim Cadeira nº 16 – Lúcio Mendonça de Azevedo Cadeira nº 17 – Quintiliano Jardim Cadeira nº 18 – João Henrique Sampaio Vieira da Silva Cadeira nº 19 – Lauro Savastano Fontoura Cadeira nº 20 – Mário de Ascenção Palmério Cadeira nº 21 – D. Alexandre Gonçalves Amaral Cadeira nº 22 – Jacy de Assis Cadeira nº 23 – Soares de Faria Cadeira nº 24 – João Édison de Melo Cadeira nº 25 – Pereira Brasil Cadeira nº 26 – Licídio Pais Cadeira nº 27 – Edson Gonçalves Prata

PRESIDENTES QUE NORTEARAM A HISTÓRIA DA ALTM (DE 1963 A 2008): *JOSÉ MENDONÇA (de 1963 a 1968) *AUGUSTO AFONSO NETO (1967 e 1968) Eleito Presidente no dia 05 de agosto de 1968, para complementação de mandado do Presidente José Mendonça, falecido em 04/06/1968 *EDSON GONÇALVES PRATA (de 1969 a 1974) *GUIDO LUIZ MENDONÇA BILHARINHO (1975 e 1976) *MAURÍLIO CUNHA CAMPOS DE MORAES E CASTRO (1977 e 1978) *JACY DE ASSIS (1979 e 1980) *JOSÉ SOARES BILHARINHO (de 1981 a 1986) *MÁRIO SALVADOR (de 1987 a 2008) *TEREZINHA HUEB DE MENEZES (2009 e 2010)

Os demais sócios da Academia de Letras do Triângulo Mineiro ingressaram, posteriormente, até o preenchimento do seu quadro de sócios efetivos, estruturado em 40 vagas. Cadeira nº 28 – João Alamy Filho Cadeira nº 29 – Eurico Silva Cadeira nº 30 – Leonard Paulus Smeele Cadeira nº 31 – João Modesto dos Santos Cadeira nº 32 – Edelweiss Teixeira Cadeira nº 33 – Frei Francisco Maria de Uberaba Cadeira nº 34 – Gabriel Toti

(Matéria extraída do site da ALTM: www.altm.sacrahome.net

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ALGUNS EVENTOS DA ALTM EM 2010.

Lançamento das revistas Convergência (ALTM) e Saberes Acadêmicos (ACIU) em maio de 2010.

Lançamento do livro Uai, de Pe. Prata e Hugo Prata em abril de 2010. ALTM no Festival de Jaguara – junho de 2010.

Reunião festiva: ALTM, em parceria com a Livraria Alternativa – agosto 2010.

Lançamento do livro História do Uberaba, de Hildebrando Pontes, pela UNIPAC. Apoio da ALTM e da ACIU: outubro de 2010.

Reunião da ALTM com o Conphau (Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba): setembro de 2010.

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Convergencia 3  

Revista Convergencia 3

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