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Convergência - nº 20 - dezembro 2009 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

CONVERGÊNCIA

n. 20 - dezembro de 2009

DIRETORIA

PRESIDENTE: Terezinha Hue b de Menezes VICE-PRESIDENTE: José Humb er to Silv a Henr iques 1º SECRETÁRIO: João Euríp e des S abino 2º SECRETÁRIO: Gessy Carísio de Paula 1º TESOUREIRO: Pe dro Lima 2º TESOUREIRO: D imas da Cr uz O liveir a

EDITORES Car los Alb er to Cerchi Alessandro Abdala

PROJETO GRÁFICO Alessandro Abdala

IMPRESSÃO Gráfica Pint

NOSSA CAPA: O D esemb o que, numa fr ase rep e t it iv a, é o b erço do Tr iângulo Mineiro e a gênese da cultur a re g ional. O simb olismo e a histór ia do ant igo Julg a do de Nossa S enhor a do D ester ro do Rio das Ve lhas estão re t r ata dos na imagem de sua ig re j a mat r iz, inspir ação e mot ivo da nossa capa.

Reprodução dos artigos permitida, desde que citada a fonte. “Os conceitos emitidos nos trabalhos assinados são de exclusiva responsabilidade dos autores”.

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APRESENTAÇÃO

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ma Academia de Letras se faz, principalmente, de publicações. De nada adianta a presença dos acadêmicos e mesmo atividades que os reúnam se suas produções escritas não forem conhecidas pelo público. Livros, jornais, revistas, tudo isso pode constituir o universo que abrigue poemas, artigos, crônicas, romances e outros gêneros. CONVERGÊNCIA é a revista da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Caracteriza-se pelo ecletismo, pela diversidade de abordagens, consequência da diversidade de estilos dos acadêmicos. Buscávamos um meio que viabilizasse sua publicação. Até que o vereador Carlos Alberto de Godoy, sabendo de nossa dificuldade, propôs conversar com o presidente da ACIU, Karim Mauad, sobre a possibilidade de se fazer uma parceria entre a ALTM e a ACIU. Aceita a proposta, vários contatos foram realizados entre as duas instituições, reunindo a Mariângela Castejon, o editor-acadêmico Carlos Cerchi, também representando Alessandro Abdalla, e a presidente da ALTM, resolvendo-se por uma revista dupla: uma delas seria a Convergência, com artigos, crônicas e poemas dos acadêmicos e de outros escritores; a outra seria a Revista do Sistema ACIU, com trabalhos acadêmicos de profissionais da Faculdade de

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Ciências Econômicas do Triângulo Mineiro. Seria um tipo de trabalho inédito, tudo a expensas da ACIU. Novos contatos, envolvendo a Ana Paula de Oliveira e o Diogo Paiva Gomes, gráfica escolhida e contratada e, finalmente, o trabalho concluído. A nós, da ALTM, fica o profundo agradecimento ao vereador Carlos Alberto de Godoy, à ACIU, na pessoa de seu presidente, dinâmico Karim Mauad, à Mariângela Castejon, organizadora do material da FCETM – enriquecendo-nos com valiosos trabalhos selecionados -, à Ana Paula de Oliveira e ao Diogo Paiva Gomes, que agilizaram o processo, não apenas do trabalho gráfico, mas também da organização da noite de lançamento, nela incluindo o lançamento do romance Nouvelle, do acadêmico José Humberto Henriques. A todos os acadêmicos e aos outros escritores que enriqueceram nossa revista com seus trabalhos, ao acadêmico Carlos Alberto Cerchi e ao sócio correspondente Alessandro Abdalla, a gratidão da ALTM, lembrando sempre: a Academia somos nós. E, para felicidade de todos, que venham novas publicações, com essa parceria que, com certeza, já é vitoriosa. Uberaba, dezembro de 2009. Terezinha Hueb de Menezes


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PARA LEMBRAR... Em Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro

“(...) os motivos que me levaram a coordenar o movimento são baseados principalmente na necessidade de congregar a intelectualidade triangulina em torno de um centro de convergência comum, para melhorar estudo e debate dos problemas literários científicos e sociais do mundo atual”. José Mendonça Coordenador do Movimento Pró Fundação da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

I

dealizada por um grupo de intelectuais e escritores de Uberaba, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro – ALTM foi fundada em 15 de novembro de 1962, através de uma reunião realizada na sede da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, atual ABCZ, então situada na Rua Manoel Borges, nº. 84, sob a Presidência de José Mendonça, coordenador do movimento para a sua fundação, ocasião em que foi sugerido e, posteriormente, aprovado o seu estatuto: “(...) Tem por finalidade a cultura da língua, da literatura, especialmente do Triângulo Mineiro, e o estudo dos problemas sociais e científicos, a união dos intelectuais do Brasil Central, a difusão de suas obras e conhecimentos gerais (...)” 06

Reconhecida de Utilidade Pública Municipal, pela Lei nº. 1.125, de 21 de setembro de 1963; e Utilidade Pública Estadual pela Lei nº. 9.470, de 21 de dezembro de 1987, a ALTM constitui-se de 40 membros efetivos, além dos sócios correspondentes até o máximo de 40. A candidatura à vaga na Academia ocorre através de inscrição espontânea do candidato ou por indicação de cinco acadêmicos, posteriormente submetida ao parecer de uma comissão constituída de cinco membros, nomeada pelo Presidente da ALTM. As vagas somente surgem em caso de falecimento de um acadêmico. A eleição é praticada por voto secreto, em Assembléia Geral. Cada cadeira tem o seu Patrono, que foi indicado pelo seu respectivo sócio fundador, ou pelo primeiro acadêmico que dela tomou posse. A escolha do Patrono, embora de livre vontade dos acadêmicos, teria que ser, necessariamente, de um intelectual ilustre das letras brasileiras, de preferência vinculado ao Estado de Minas Gerais e em especial à região triangulina. A ALTM foi instalada, de forma solene,


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em 22 de dezembro de 1962, no Salão Nobre da Associação Comercial e Industrial de Uberaba, com posse de sua primeira diretoria, eleita em 25 de novembro daquele ano, biênio 63/ 64; e de seus acadêmicos fundadores. Membros Fundadores Um total de 27 intelectuais constituíram inicialmente a Academia de Letras do Triângulo Mineiro, portanto são considerados seus sóciosfundadores. Cadeira nº 01 – José Mendonça Cadeira nº 02 – Santino Gomes de Matos Cadeira nº 03 – Victor de Carvalho Ramos Cadeira nº 04 – Padre Thomaz de Aquino Prata Cadeira nº 05 – Cônego Juvenal Arduini Cadeira nº 06 – Ruy de Souza Novaes Cadeira nº 07 – Ari Rocha Cadeira nº 08 - Padre Antônio Thomás Fialho Cadeira nº 09 – César Vanucci Cadeira nº 10 – Antônio Édison Deroma Cadeira nº 11 – Raimundo Rodrigues de Albuquerque Cadeira nº 12 – João Rodrigues Cunha Cadeira nº 13 – Augusto Afonso Neto Cadeira nº 14 – Maurilo Cunha Campos de Moraes e Castro Cadeira nº 15 – George de Chirée Jardim Cadeira nº 16 – Lúcio Mendonça de Azevedo Cadeira nº 17 – Quintiliano Jardim Cadeira nº 18 – João Henrique Sampaio Vieira da Silva Cadeira nº 19 – Lauro Savastano Fontoura Cadeira nº 20 – Mário de Ascenção Palmério Cadeira nº 21 – D. Alexandre Gonçalves Amaral Cadeira nº 22 – Jacy de Assis Cadeira nº 23 – Soares de Faria Cadeira nº 24 – João Édison de Melo 07

Cadeira nº 25 – Pereira Brasil Cadeira nº 26 – Licídio Pais Cadeira nº 27 – Edson Gonçalves Prata

Os demais sócios da Academia de Letras do Triângulo Mineiro ingressaram, posteriormente, até o preenchimento do seu quadro de sócios efetivos, estruturado em 40 vagas.

Cadeira nº 28 – João Alamy Filho Cadeira nº 29 – Eurico Silva Cadeira nº 30 – Leonard Paulus Smeele Cadeira nº 31 – João Modesto dos Santos Cadeira nº 32 – Edelweiss Teixeira Cadeira nº 33 – Frei Francisco Maria de Uberaba Cadeira nº 34 – Gabriel Toti Cadeira nº 35 – Antônio Severino Muniz Cadeira nº 36 – Valdemes Ribeiro Menezes Cadeira nº 37 – Marçal Costa Cadeira nº 38 – José Soares Bilharinho Cadeira nº 39 – Dom José Pedro Costa Cadeira nº 40 – Guido Luís Mendonça Bilharinho PRESIDENTES QUE NORTEARAM A HISTÓRIA DA ALTM (DE 1963 A 2008): *JOSÉ MENDONÇA (de 1963 a 1968) *AUGUSTO AFONSO NETO (1967 e 1968) Eleito Presidente no dia 05 de agosto de 1968, para complementação de mandado do Presidente José Mendonça, falecido em 04/06/1968


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*EDSON GONÇALVES PRATA (de 1969 a 1974) *GUIDO LUIZ MENDONÇA BILHARINHO (1975 e 1976) *MAURÍLIO CUNHA CAMPOS DE MORAES E CASTRO (1977 e 1978) *JACY DE ASSIS (1979 e 1980) *JOSÉ SOARES BILHARINHO (de 1981 a 1986) *MÁRIO SALVADOR (de 1987 a 2008) (Matéria extraída do site da ALTM: www.altm.sacrahome.net)

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ÍNDICE ACADÊMICOS Antônio Pereira da Silva - O MILAGRE.............................................................................................................................................................12 Carlos Alberto Cerchi - VIAGEM DEFINITIVA..............................................................................................................................................15 César Vanucci - TERROR NUCLEAR..................................................................................................................................................................19 Consuelo Pereira Rezende do Nascimento- PLANETA BRANCO...............................................................................................................21 Consuelo Pereira Rezende do Nascimento - TEUS CHINELOS...................................................................................................................23 Dimas da Cruz de Oliveira - O DICIONÁRIO..................................................................................................................................................25 Dom Benedicto de Ulhoa Vieira - EDUCAÇÃO RELIGIOSA........................................................................................................................27 Dom Benedicto de Ulhoa Vieira -PRIMAVERA................................................................................................................................................28 Edmar César Alves - O LIVRO IMPRESSO.......................................................................................................................................................29 Gessy Carisio de Paula - LER – FORMA IDEAL DE PRAZER......................................................................................................................31 Guido Bilharinho - COYOTE E PAPA-LÉGUAS - Contingências e Circunstâncias...............................................................................33 Guido Bilharinho - Well-Gin e a Poética de Vanguarda..................................................................................................................................36 Jorge Alberto Nabut - WELL GIN X ULTRA M-ATIC....................................................................................................................................38 Ir. Domitila Ribeiro Borges - RELÍQUIAS...........................................................................................................................................................39 Ir. Domitila Ribeiro Borges - RUÍDOS E SOLIDÃO........................................................................................................................................41 João Gilberto Rodrigues da Cunha - ESCREVER, EM PORTUGUÊS, NO BRASIL?.............................................................................43 João Eurípedes Sabino - DECISÃO DO VENTO..............................................................................................................................................45 José Humberto Silva Henriques ............................................................................................................................................................................46 Luiz Cláudio de Pádua Neto - A MISSA E O PORCO....................................................................................................................................48 Mons. Juvenal Arduini - MARCA ANTROPOLÓGICA.................................................................................................................................49 Padre Prata - O LINGUAGAR MINEIRO..........................................................................................................................................................51 Padre Prata - LADRÃO DE CASACA.................................................................................................................................................................53 Paulo Fernano Silveira...............................................................................................................................................................................................55 Pedro Lima - QUEM SOU EU................................................................................................................................................................................57 Sebastião Teotônio Rezende - VELHO RELÓGIO............................................................................................................................................59 Terezinha Hueb de Menezes - A CONSTRUÇÃO DE NOSSOS CASTELOS..........................................................................................60 Ubirajara Franco - MÊS DE DEZEMBRO...........................................................................................................................................................62 Vilma Terezinha Cunha Duarte - FAZER AS HONRAS DA CASA............................................................................................................64 SÓCIOS CORRESPONDENTES Alessandro Abdala Santana - Desemboque: crônica de um sonho inacabado......................................................................................76 Ani de Souza Arantes Santos / Iná Bittencourt de Sousa Barbosa GÊMEOS, SEMELHANÇA OCULTA.......................................69 Arahilda Gomes Alves - DEVANEIOS.........................................................................................................................................................71 Arahilda Gomes Alves - VILANELLA..........................................................................................................................................................73 Carlos Alberto Batista Oliveira - HOJE EU TE ESQUECI.........................................................................................................................75 Carlos Alberto Batista Oliveira - O AZUL DO CÉU SE FOI.....................................................................................................................77 Samir Cecílio - PESCARIA..............................................................................................................................................................................79 Vicente Rodrigues da Silva Filho - OS ECLUÍDOS....................................................................................................................................82 ALUNOS FCETM Alan Damas de Freitas - A ADMINISTRAÇÃO NAS PALAVRAS DE UM SEMEADOR DE SONHOS......................................84 Ana Caroline Leal - AMOR DE ALMA..........................................................................................................................................................85 Gilson Luiz Crispim - SONHO, A ODISSÉIA DA VIDA..........................................................................................................................88 Lucas Amoni Leite Lemos - CRIATIVIDADE E IMAGINACAO............................................................................................................89 Sidney Pimenta Alvim - ECOA NO UNIVERSO.........................................................................................................................................91 Sidney Pimenta Alvim - EXPLICANDO O ABRAÇO................................................................................................................................93

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ACADEMIA DE LETRAS DO TRIÂNGULO MINEIRO

ACADÊMICOS Lincon B. de Carvalho Agenor Gonzaga dos Santos Martha de Freitas A. Pannunzio Pe. Thomaz de Aquino Prata Monsenhor Juvenal Arduini Jorge Alberto Nabut Eva Reis Antônio Pereira da Silva César Vanucci Consuelo P. R. do Nascimento Raimundo Rodrigues Dimas da Cruz Oliveira -----------------------------Vilma Terzinha Cunha Duarte -----------------------------Pedro Lima Antônio Couto de Andrade Edmar César Alves Luiz Cláudio de Pádua Neto Luiz Manoel da Costa Filho -----------------------------Dom Benedito de Ulhôa Vieira Paulo Fernando Silveira Maria Antonieta Borges Lopes Dom José Alberto Moura Ernane Fidélis dos Santos -----------------------------Elza Teixeira de Freitas Ubirajara Batista Franco José Humberto Silva Henriques -----------------------------Terezinha Hueb de Menezes Gessy Carísio de Paula Geraldo Dias da Cruz Irmã Domitila Ribeiro Borges Mário Salvador João Eurípedes Sabino -----------------------------Frei Francisco Maria de Uberaba

CADEIRA 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 --13 --14 15 16 17 18 --19 20 21 22 23 --24 25 26 --27 28 29 30 31 32 --33

ANTECESSORES José Mendonça Santino Gomes Ramos Vitor de Carvalho Ramos ----------------------------------------------------------Rui Novaes Ari Rocha Antônio Tomás Fialho -----------------------------Antônio Édison Deroma -----------------------------João Rodrigues da Cunha Joaquim Prata dos Santos Augusto Afonso Neto Gilberto Augusto da Silva Maurílio Morais e Castro Georges Jardim Lúcio Mendonça Quintiliano Jardim João Henrique Félix Renato Palmério Lauro Fontoura Mário Palmério Dom Alexandre G. Amaral Jacy de Assis Soares de Faria Ronaldo C. Campos João Édison de Melo Pereira Brasil Licídio Paes Abdala Mameri Edson Prata João Alamy Filho Eurico Silva Leonardo Smeele João Modesto Edelweiss Teixeira Aluízio I. de Oliveira -----------------------------10

PATRONO Fidélis Reis Hildebrando Pontes Antônio Borges Sampaio Jorge de Lima Jackson de Figueiredo Evaristo da Veiga Alphonsus de Guimarães Clóvis Bevilacqua Henrique Des Gennetes Castro Alves Bernardo Guimarães Pe. Leonel França -----------------------------Lafaiete Rodrigues Pereira -----------------------------Afonso Arinos Hugo de Carvalho Ramos Salvador de Mendonça Belmiro Braga Visconde Vieira da Silva -----------------------------Artur Lobo Simões Lopes Neto Dom Silvério G. Pimenta Olavo Bilac Plínio Mota -----------------------------Vicente de Carvalho Rui Barbosa Alberto de Oliveira -----------------------------Machado de Assis Érico Veríssimo Basílio de Magalhães Cruz e Souza Guimarães Passos Pandiá Calógeras -----------------------------Dom Vital


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ACADÊMICOS Oliveira Mello (Antônio de) Severino Muniz (Antônio) Ribeiro de Menezes (Valdemes) Sebastião Teotônio Rezende João Gilberto Rodrigues da Cunha Carlos Alberto Cerchi Guido Luiz M. Bilharino

CADEIRA 34 35 36 37 38 39 40

ANTECESSORES Gabriel Toti ----------------------------------------------------------Marçal Costa José Bilharinho Dom José Pedro Costa ------------------------------

SÓCIOS CORRESPONDENTES Alessandro Abdala Santana Ani de Souza Arantes Santos Carlos Donizete Bertolucci Dirce Miziara Geise Alvina Degraf Terra Iná Bittencourt de Sousa Barbosa Dr. José Correia Tavares José Rodrigues de Arruda Samir Cecílio Stella Alexandra Rodopoulos Suely Brás Costa Tiago de Melo Andrade Comendador Thiago Menezes Vicente Rodrigues da Silva Filho

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PATRONO Dom Eduardo D. da Silva José Lins do Rego Graciliano Ramos Guimarães Rosa Clementino Fraga Dom Joaquim S. de Souza Lima Barreto


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Antônio Pereira da Silva

O MILAGRE

F

oi assim. Mamãe tinha feito arroz pilado, feijão preto, mandioca, uma galinha ensopada e guariroba. Pra gente comer à meia-noite, na hora certa do Natal. A gente tava até babando quando chegaram os homens, encostaram as escadas nas nossas paredes, subiram, foram arrancando as telhas e jogando pra baixo. Mamãe ficou desesperada, mas fazer o quê? Eu e o Marcos ficamos de boca aberta, aterrorizados, paralisados. Quando terminaram, o Zé Rispo pôs a cara na janela e disse: - Num falei? Mamãe chorando, nós começamos a chorar também. - Cês pode ir embora. Já. Foi assim que saímos da fazenda do Brejo. Nem comer a comida nós comemos. Viemos pra cidade. Pousamos num banco de jardim, em frente à igreja de Nossa Senhora da Aparecida, mas quando chegamos o povo já tinha ido embora. Daí a pouco amanheceu. A meninada puxando carrinho nas calçadas. Nunca fiquei sabendo direito o que aconteceu. A síntese é a seguinte: vovô, tio Totonho, meu pai, minha mãe trabalharam a vida inteira pro Zé 12

Rispo. Ele nunca pagou nada. Depois que o pai morreu, ele desandou a nos perseguir e acabou um dia nos pondo pra fora. Só sei isso. Nós arrumamos um quartinho, assim, do tamanho do quê? Era nos fundos de uma casa também pequenina, casa de gente pobre, mas menos pobre do que nós. A gente dormia amontoado ali e fazia o de comer num fogareirinho de ferro. O quartinho ficava perto da praça Nossa Senhora da Aparecida que ficava em frente da igreja. A gente fazia as necessidades no mictório que tinha na praça. Era uma sujeira, mas a gente nem pensava nisso. Um dia entrei no mictório e pensei assim: - Nossa Senhora, vou acender duas velas pra Senhora, mas queria uma casa pelo menos do tamanho dessa privada. E não sei mais como arrumei um dinheirinho, comprei as velas e, não sei também por que cargas d’água, em vez de acender as velas na própria igreja, inventei de ir acendê-las num cemitério novo que ficava lá na parte alta da cidade, onde o povo achava que as construções não iam chegar nunca. Mas chegaram e até passaram. Por isso desmancharam o cemitério que hoje é uma praça linda, mas que ninguém


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passeia nela por causa dos assaltos que há até à luz do dia. Bom, fui lá. Você deve estar pensando: o que faziam sua mãe e seu irmão. Sei lá. Sei que o meu irmão era mais novo. Se eu que era mais velho, tinha sete, não fazia nada, nem ele. Fui lá no cemitério. Tinha só uns montinhos de terra com um ferro enfincado em cima, com uma plaquinha numerada. O vento batia naquilo, parecia uma porção de sininhos batendo muito longe. Acendi as velas no pé de um cruzeiro já todo lambuzado de cera. E vim m’embora. O cemitério ficava no meio do cerrado, ainda. De lá até as primeiras casas, a gente passava quase uns cinco quarteirões vazios. Foi quando me deu uma dor de barriga que achei que ia morrer. Minha cabecinha de menino pensou nas maiores besteiras. Alguma coisa que eu peguei no cemitério. Aquilo torcia as minhas tripas. Vi um capão coberto por esses melõezinhos de cerca e me enfiei nele. Debaixo parecia até uma sala com as cortinas do melão. Abaixei as calças, agachei e comecei a fazer força sem nenhum resultado. Na minha frente tinha uma sujeira rala, parecia um lixo que tinham jogado há muito tempo e que a umidade tinha achatado. No meio daquelas coisas podres, tinha uma bolsinha de pano, com zíper, estofada. Peguei um galho seco e puxei ela pro meu lado. Atento, curioso com aquele achado, a dor foi sumindo, sumindo. Acabei me esquecendo dela. Soltei foi um vento comprido e fedido que eu mesmo quase não aguentei. Abri a bolsa, estava cheia de notas. Umas cédulas velhas, já um pouco mofadas, mas havia muitas. Sem contar, enfiei aquilo entre a camisa e a calça e me levantei já não sentindo nada. 13

Fui andando e logo desconfiei que tinha havido um milagre. Nossa Senhora da Aparecida tinha me arrastado pro tesouro. Por isso que a dor passou logo que o achei. Mas pensei noutras coisas também. Podia ser que um bandido tinha assaltado alguém, quem sabe até matado, e jogado ali aquela bolsa pra ir buscar depois. Mas isso eu descartei logo por causa que as notas estavam úmidas pelo tempo. Mesmo assim fui descendo e rabeando os olhos por todo canto pra ver se não vinha ninguém. Entrei no mictório da praça, sentei no vaso, abri a bolsa, limpei as notas, mas não tive a curiosidade de contar, mesmo porque eu ainda não sabia contar dinheiro. No meio delas tinha um papel em que estava escrito um número grande, de quatro algarismos. Fiquei sentado ali, sem fazer nada, um tempão. Olhando e olhando aquele dinheiro e aquele papel. Aí achei que o milagre não tinha acabado, enfiei o dinheiro no bolso e fui pro boteco da dona Catita. Não ficava na praça, mas na rua que passava atrás da igreja. Cheguei lá na maior tranquilidade. Como se tudo o que eu estava fazendo fosse uma coisa comum de todos os dias. Na verdade, um pouco era. Porque a mamãe sempre me dava uns trocados que não valiam quase nada e me mandava jogar no bicho lá na dona Catita. - Quero jogar nesse número. No primeiro prêmio e cercado. Ela me perguntou quanto. Eu puxei as notas e falei isso tudo. Ela pegou as notas me olhou meio desconfiada, mas eu logo expliquei: - Foi a mamãe que mandou jogar. Ela ainda ficou me olhando, duvidosa, mas contou as notas e, talvez, para ela, aquilo não fosse tanto quanto eu achava que fosse e acabou acreditando. Mas antes ligou pro bicheiro. - Olha, seu Felício, tão carregando muito aqui


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no milhar 2676, posso fazer? Os cambistas de bicho, quando a aposta é alta ligam pro bicheiro que é pra ele ver se ainda dá tempo de descarregar nos grandes bicheiros da Capital. A coisa é feita na confiança, por telefone. Acho que disseram que sim, porque ela puxou do talão, pôs o número de sequência em cima e registrou a aposta. Me deu a folha do talão, sorriu e me desejou boa sorte. Eu ia saindo e ela me perguntou se já tinha almoçado. Respondi que não e ela me mandou esperar. Foi lá dentro e trouxe um prato com arroz, tomate e umas costelinhas de porco, das quais eu nunca mais me esqueci de tão gostosas que estavam. Ela ficava com a cara resplandecente me vendo comer com a alegria com que eu comia. Também, eu sempre estava com fome. De vez em quando ela levava alguma coisa pra mamãe. Sabia que a gente passava fome. Fui pra casa, não falei nada pra ninguém. De tarde, dona Catita chegou estabanada, derrubou coisas que estavam no caminho do nosso cubículo e vinha com um sorriso que ia daqui até ali. Mamãe até se espantou. E já foi abraçando a velha e beijando e mamãe sem saber por que aquela efusão. - Eu sempre dei alguma coisa procês, agora quem quer ganhar presente sou eu: quero uma televisão! - E como é que eu vou te dar, mulher de Deus? - Pois o 2676 deu, no primeiro prêmio. A senhora tá rica! Mamãe ficou assim, perdida, sem entender. Aí eu falei: - Fui eu que joguei. A sorte foi minha. - Pois então, menino, eu quero uma televisão! Foi aí que eu mostrei pra minha mãe o talão e deu uma tremedeira nela que eu pensei que ela ia morrer. Até achei bom porque ela ia querer saber onde é que eu tinha arranjado dinheiro pra 14

jogar e eu não queria contar porque às vezes, o dono podia aparecer. Minha mãe ficou abobalhada, sentou-se numa lata velha, os olhos arregalados e não falava nada, nem olhava pra ninguém. Os olhos dela estavam perdidos no infinito procurando lá no fundo as razões de Deus, ou de Nossa Senhora da Aparecida. Dona Catita foi embora balançando aqueles brações gorduchos e deixou minha mãe ali estupefata. As coisas se ajeitaram. Contei o milagre pra minha mãe, ela não sei se aceitou isso como milagre ou não, mas aceitou a grana que só chegou uma semana depois. Espalhada a história, apareceu gente de todo lado querendo dinheiro emprestado. Mas minha mãe cuidou de se mudar para uma casa do outro lado da cidade, onde continuou a chegar gente pedindo, mas ela controlou tudo muito bem e não emprestou nada pra ninguém. A única coisa que ela fez questão de fazer foi dar a televisão pra dona Catita. Na casa nova, fizemos um belo oratório pra Nossa Senhora da Aparecida a quem até hoje eu agradeço a mudança que teve a nossa vida. Minha mãe ainda faz sua fezinha no bicho, mas pouco. Eu nunca mais joguei, mas, a cada dia que passa, o bicho me deixa mais sossegado na vida: virei bicheiro e dona Catita passou a trabalhar comigo. De vez em quando, a gente tem que dar um gorja pros homens da Lei, mas é só. Agora tô negociando a compra da fazenda do Brejo, do Zé Rispo. Dizem que ele anda ruim das pernas. Mas ele não sabe quem eu sou. No dia que ele me passar a escritura, ele vai ficar sabendo.

Antônio Pereira da Silva - Acadêmico, cadeira 08.


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Carlos Alberto Cerchi

VIAGEM DEFINITIVA “Seu Pedro”, como ficou conhecido, caraterizou-se pela bondade ímpar dedicada a todos. Com outros operários trabalhou anos a fio na edificação do grande Seminário do virtuoso Pe. Antonio erguido com a contribuição dos paroquianos e arrecadação de festas e movimentos religiosos.

O

mistério do cessar da vida orgânica permeia a efêmera existência das criaturas entretidas no desafio de viver. A poucos é dado o poder da premonição do derradeiro momento. Ainda bem, murmura o único animal que sabe e conhece a precariedade da vida terrena. A morte na cultura ocidental nunca é bem vinda, e a sua naturalidade é ignorada e repelida como algo mórbido e incômodo. A boa morte torna-se um paradoxo. Entretanto, existem seres humanos que, inexplicavelmente, se preparam para o termo infalível das criaturas vivas. Essa graça divina tornou-se a conquista de um hortelão de Passa Perto. Ele tinha o nome do apóstolo Pedro e fez por merecer o galardão dos justos. Quando o Pe. Antonio construiu o Seminário do Ssmo Redentor trouxe Pedro da ribanceira do 15

Rio das Velhas para o Passa Perto. De recente viuvêz viera com três filhos, morar numa pequena casa, marco inicial da construção nas terras de cerrado do Leônidas Afonso. Acolhedor e agradável, “Pedro” era o protótipo dos habitantes das áreas rurais do Passa Perto. Encarnava o espírito religioso de devoção à família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Os personagens da Epifania bíblica, reverenciados na folia de reis, de tradição centenária na cultura e na religiosidade passapertense, tinham um lugar especial na vida de “seu Pedro”. Na frase musical do originalíssimo coral da folia, ele fazia a segunda voz na repetitiva cantoria popular de autêntico sentido cristão. Com outros operários trabalhou anos a fio na edificação do seminário, feito com recursos da arrecadação de festas e movimentos paroquianos. “Seu Pedro” conseguiu, como ajudante de


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pedreiro, ver a sua conclusão. Finalizada a obra, retornou à suas origens como trabalhador da terra, cultivando-a para o sustento dos aspirantes à vida religiosa dos padres redentoristas. A auto-suficiência da cozinha era a sua função na comunidade religiosa. Suprida a despensa da cozinha, a fartura de alimentos permitia, por alguns trocados, que as pessoas pudessem levar parte substancial da produção de couve, alface, salsa, cebolinha, rúcula, agrião e hortaliças da época como milho verde, jiló e pimentão. A freguesia tornava as manhãs alegres e barulhentas de farturenta colheita. Nas terras do Passa Perto a água brota dos vales pedregosos sulcados na serra de basalto decomposto, terra de vermelha nódoa quando molhada e substrato das lavouras férteis e produtivas espalhadas nas vargens. Verduras de milenar seleção nascem dos canteiros basálticos, de esterco curtido do estrume de gado, fertilizante natural de decomposição orgânica. Profusão de hortaliças de viçoso transplante. Caules aéreos suspensos nos estaleiros de bambu, tirados na lua minguante, sustentam liames de pepinos e abóboras trepadeiras. Chuchus hidratados despencam nos recantos sombreados, ásperos pedúnculos brotados no húmus de folhas abandonadas em decomposição. Restos orgânicos trespassados de grossas minhocas e de infinita fauna e flora microscópica asseguram a fertilidade da terra naturalmente cultivada sem o artifício da química agrícola. No canteiro artesanalmente preparado vegeta repolho e almeirão. Tinha alface de cores verdeescuro ao amarelo esbranquiçado das folhas restolhadas boiando na caixa d'água após a colheita matinal. Três pés firmemente amarrados para serem transportados. Tomateiros de

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folhas necrosadas oferecem frutos maduros na mesma penca de verdolengos tomates. Pseudos caules amarrados com embira escalam a cerca de arame liso. Berinjelas, quiabos e amargas jurubebas dividem espaço com leguminosas vagens estufadas pelo vigor da terra e do gotejamento drenado às raízes. Hortaliças e ervas daninhas amparadas no esterco curtido retirado do monte à sombra da secular mangueira, disputam a claridade. Canteiros e adubadas covas se estendem à beira da voçoroca onde, na pocilga, porcos modorrentos aguardam inquietos o repasto dos carurus e beldroegas carpidas nas entrelinhas do espaçamento permitido no plantio. Em cada recanto da horta a presença das mãos rudes de «Pedro Atanásio». O tempo consumido de cócoras na separação de verduras e ervas daninhas estirpadas. Folhagens regadas nas madrugadas frias, removendo o orvalho com o esguicho da água farta e suficiente para a sobra no cocho das galinhas, porcos e coelhos, fontes da proteína animal adquirida com a sobra da horta e do milho colhido na seca. Cadeia alimentar sustentada com terra, água e suor. Espaço de crianças correndo com manga nas mãos ou na expectativa de laranjas e mexericas temporãs. Pródigas bananeiras na contenção do solo, revelam na tulha cachos granados postos a madurar debaixo do saco de aniagem. No crepúsculo, novamente a terra antes sedenta, após a rega deixa escorrer barrento enxurro entre as linhas plantadas. Cessa o burburinho de gente transitando entre os canteiros, os animais tratados silenciam após o repasto deixam sobrar ocas abóboras e sabugos com debulhados grãos aqui e ali. O lidar constante fez dos anos momentos


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breves, relâmpagos no céu da existência. O tempo passou... Os anos frutificaram as vocações... concepções se alternaram na trajetória do seminário. A comunidade levedou outras tantas. No limiar das décadas a horta foi sufocada pelas árvores e tornou-se capoeira. Compulsoriamente aposentado “Seu Pedro” conheceu o ostracismo amenizado no convívio da nova família adquirida com o segundo casamento. Filhos, noras, netos, mostram ainda mais a exiguidade do tempo. A doença postergada nos últimos parágrafos do livro da vida chegou para ele, inexorável. Breve internação na Santa Casa de Misericórdia do município de Sacramento. O conforto de um quarto limpo, a atenção de médicos e enfermeiros. Alguns dias prolongados no tratamento alopático, na assepsia hospitalar, sustança do soro endovenoso e visitas derradeiras, com intervalos para oração diária do terço recitado em voz alta, murmurações intercaladas de expressões incompreensivas: A mesma dificuldade que ele tinha em pronunciar as palavras brócolis, aspargo, abóbora no tempo da horta. Irrelevância para o trabalhador da terra, de humildade franciscana. Encantamento da simplicidade diante da complexidade do mundo. O terço mariano era o seu refúgio, sua fortaleza, seu abandono no poder da fé: - Não estou me sentindo bem, num murmuro para a enfermeira que colocou o rosário nas suas mãos de calos crônicos. Sentou-se escorado no travesseiro. Fez o oferecimento e a dedicatória. - para as almas do purgatório... imaginou os cânticos preparatórios na impossibilidade de cantar. Alegria íntima, serenidade autêntica. - Primeiro mistério... glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo. Saudação à Santíssima Virgem.

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Seu coração acelerou os batimentos, depois diminuiu. As pernas estiradas ficaram dormentes com um leve formigamento. O rosário bambeou-lhe das mãos, não mais sentiu as contas do terço entre o indicador e o polegar. Entretanto, percebia o sentido da Ave Maria. Ao pronunciar o nome de Jesus sentia o coração no compasso da palavra e do pensamento. Parou de balbuciar. As pupilas se dilataram nos olhos fechados. Ouvia a oração. Imagens extremamente claras ocuparam a dimensão inédita que experimentava. Sentiu correr ao redor da praça do Rosário, o estrugir de fogos na madrugada, as alvoradas das festas religiosas na saída da procissão que aluía do largo da matriz. Simultaneamente, a percepção do retorno da horta, a cesta cheia de úmidas e tenras verduras recém colhidas: cenouras, beterrabas, couvesflores, berinjelas, alfaces e couves incrivelmente verdes. Sentiu-se solto, livre, vislumbrou um corpo jovem de intenso vigor; percebeu, estranhamente o contraste com a enfermidade que o levara à internação no hospital num quadro de extrema fraqueza. Sentia tudo... sabia tudo... Predominância do vigor e da visão de luz. O nome de Jesus continuava ecoando, não mais era o ritmo do coração. Sentiu-se emergir de imenso lago azul, azul, azul... seu corpo de luz intensa foi erguido do leito por imensa mão, também de luz. Avistou do alto todos os locais em que vivera nos últimos anos. As casas tornaram-se pequenas, o verde das árvores misturou-se num quadro homogêneo do qual seu corpo fazia parte. Em vida tivera esse prenúncio na hidratação do pão eucarístico sobre a língua nas ceias realizadas das missas dominicais. Cristo ressuscitado fizera parte do seu coração, agora ele fazia


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parte do Corpo Místico de Cristo. Seria isso a verdadeira comunhão? Água, terra, criaturas, passado, presente, futuro... eternidade na certeza do definitivo. Teria morrido? A maravilha do seu estado superava dúvidas e expectativas a respeito do céu. Num átimo, Pedro escutou lamentações e preces e viu muito longe pessoas retornando do Campo Santo. Quis aproximar-se para ver quem havia morrido. Porém, o corpo leve demais subia, vencia, despojamento completo, sem retorno convergindo sempre para o alto. - Não precisa liberar o oxigênio, murmurou a enfermeira. O coração do “Seu Pedro” não bate mais. Fez-se profundo silêncio no quarto do hospital. Sacramento, 24 de março de 2009

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*Homenagem à Congregação do Santíssimo Redentor (CSSR), por ocasião do cinquentenário da inauguração do Seminário que hoje (novembro de 2009) abriga o mosteiro da Fraternidade São Francisco de Assis na Providência Divina, dedicado à educação de crianças e adolescentes na cidade de Sacramento (MG). Atanásio Cândido Delfino, «Seu Pedro» pertenceu à Congregação como oblato redentorista pelos serviços prestados ao seminário desde a sua fundação, até sua sua morte ocorrida em 27 de julho de 2003, com 72 anos de idade. Carlos Alberto Cerchi - Acadêmico, cadeira 39.


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César Vanucci

TERROR NUCLEAR “As pessoas que falam em proscrever a bomba atômica estão enganadas; o que deve ser proscrito é a guerra.” (Leslie Richard Groves)

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udo muito surreal. Ainda por cima aterrorizante. O pacto sobre armas nucleares firmado em Moscou levanta expectativas totalmente falsas. Norteamericanos e russos concedem-se ares de credores da gratidão universal. Deram, afinal de contas, “importante” avanço na direção da paz ardentemente almejada pela humanidade. Paz, por sinal, estridentemente propalada nos propósitos e atos, alegadamente sinceros, das grandes potências. Empenhadíssimas, todas elas – não é mesmo? – em fazerem deste um mundo melhor pra desfrute de todos viventes. Aos responsáveis pelo acordo pode parecer que o planeta inteiro comoveu-se com seu magnânimo gesto de concórdia. A decisão anunciada aliviaria, de certo modo, nessa linha de conjecturas, a carga de pressão que a humanidade carrega sobre os ombros, não é de hoje, quanto aos eventuais riscos de eclosão de um conflito em que as armas atômicas possam ser empregadas. A predisposição dos dois países em acerta19

rem os ponteiros com vistas a reduzir seus formidandos arsenais de destruição deixaria, assim, à mostra generosas motivações. Não é bem assim. Muito antes pelo contrário. Pela meta pré-anunciada, os estoques de ogivas ficarão limitados, providencialmente, Deus louvado, a apenas 1.600 artefatos por país. Por ogivas entenda-se mortíferos artefatos que tornam as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki petardos concebidos num período remotíssimo da tecnologia do terror. Pouquíssimas delas são mais do que suficientes para riscar, com precisa eficácia, todo vestígio da presença de qualquer espécie de vida neste nosso vale banhado de lágrimas. A redução programada de armamentos, a ser executada em ocasião ainda por definir, deixa de fora mais de outras 1.600 ogivas, por país. Todas, zelosamente armazenadas, a serviço naturalmente da causa da paz, em silos subterrâneos, ou em unidades móveis de combate. Essas unidades são, gloriosa e intimidativamente, deslocadas


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em manobras táticas incessantes pelos ares e mares deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fixar também traiçoeiros enclaves. Não perder de vista que as manobras em questão aprestam-se ao louvável intuito de driblar a vigilância implacável de radares e satélites monitorados pelos adversários. Taí amostra edificante do saudável clima de confiança mútua reinante no relacionamento entre as partes, valha-nos Deus ! Se o cenário desenhado mostra-se enigmático e perigoso, a incorporação às informações comentadas de outras revelações acerca do “clube bélico nuclear” torna a história ainda mais assustadora. Os Estados Unidos e a Rússia não são os únicos proprietários de arsenais nucleares. A China, com presumíveis 200 ogivas; França e Inglaterra, com números parecidos; Paquistão e Índia, com mais ou menos 60 artefatos; Israel, com mais do que isto até, integram também a lista dos países tecnicamente qualificados a apertar o gatilho atômico. Mais recentemente subiu ao palco armamentista nuclear um ator de características comprovadamente insanas e ferozes. A Coréia do Norte, governada monarquicamente - já que a sucessão do poder costuma ser ali transferida de pai pra filho – por um déspota apegado a teorias stalinistas, promoveu uma série de testes atômicos, deixando registrada a clara disposição de vir a utilizar as bombas de conformidade com suas conveniências e ambições políticas. Comenta-se pouco a respeito, mas uma outra indicação perturbadora da disseminação de armamentos atômicos é a existência de arsenais pertencentes a países dissociados do Kremlin desde a desintegração da URSS, administrados por governos considerados inconfiáveis ou instáveis. A posição do Irã também preocupa, mesmo que os aitolás continuem sustentando que honrarão a 20

assinatura firmada pelo país no tratado de não proliferação nuclear. O quadro posto alarma. A ameaça de devastação total povoa naturalmente as preocupações da humanidade face aos patamares atingidos pela exploração nuclear com fitos bélicos. Os temores de que grupos terroristas fanatizados se apoderem, em algum momento, de artefatos para lançamento em regiões densamente povoadas não são desprovidos de fundamento. Assim sendo, pactos bilaterais com promessas de redução de arsenais de nada valem. O que carece ser feito é a destruição, consensualmente acertada por todos os países, de todas as ogivas. É a convergência de atitudes no sentido de que os conhecimentos apropriados pela ciência na exploração da energia nuclear se voltem exclusivamente para fins pacíficos. Indo mais longe: é fazer o que sugere Leslie Richard Groves, citado no intróito do comentário: proscrever a guerra. César Vanucci - Acadêmico, cadeira 09.


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Consuelo Pereira Rezende do Nascimento

PLANETA BRANCO (NARCO-ÍRIS) Irrelevante se a primavera se foi, a paixão nunca teve estação. Remissível se o ciclo abortou, a criança continuará crescendo. Despiciendo o aluguel do engano, os sonhos não têm casa própria. Se a esperança é a última morte, a saudade é a primeira navalha. Amar é não ter jamais de se des-pedir, morrer é pedir sem ter amado. Nós só consistimos de nós dois, no infinito entre o teu ser e o meu. Qualquer sinal insculpe a onipresença, toda gota eclode transbordamento. Os poetas, as leis, a inocência para quê? Se o amor é o Código Magno! Se a química con-funde a física, se tuas veias distendem o meu mapa... Hoje há toque pra se recolher da zona de risco da erupção; nossa ionosfera ultravioleta é lava de resinas, sais e rubis.

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Se o bem-te-vi mal te viu, se o sabiá não sabia... se o lírio não abluiu o campo, se o nácar não fechou a pérola... o sopro da tua natureza mandará o pólen fecundar o néctar. Ínvias as sevícias do ódio, se o amor não faz o mesmo barulho; eu e tu somos uma cidade com um mar correndo por dentro. Se a estrela cadente já caiu, se quem era digno não pediu... afoga a tua ânsia em minha boca e difundiremos o inoxigênio. Se a lua estava com visitas, se o bicho da seda não teceu a lingerie... teu calibre restará indefeso, minha face iluminada registrará o eclipse. Se o sol se desertar do plantão, se os girassóis perderem a referência... nosso planeta não tem fuso, tão menos, tribumal. Hoje, somos o Umniverso, incindindo no intervalo fecundo! Nossa atração exibirá o nosso ajuste, até nos cobrirmos contra todo mundo! Consuelo Pereira Rezende do Nascimento - Acadêmica, cadeira 10.

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Consuelo Pereira Rezende do Nascimento

TEUS CHINELOS (NARCO-ÍRIS) Teus chinelos, sob a irrequietude dos len-sóis, não se apartaram com os nossos corpos. Seguem-me pelos in-cômodos, assuntam o telefone, surram o jornal, vasculham respondências. Escutam o teu nome! Teus chinelos ainda exprobam o meu espelho, perscrutando o humor, en-colhendo o decote, a-traindo a fragrância, acareando retinas, exinanindo o batom. Colidindo o meu destino! Teus chinelos ainda te velam no ócio do acúbito. E arrefecem arrelias, ad-vinham o cardápio, acom-panham meus quadris, a-provam o ministério,

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recontam os discípulos, rezam sobre a carne. Instam e comem a mesa! Teus chinelos ainda calcam os meus, cardando meus fios com a sombra da barba feita. E assombram visitas morosas, refestelam-se na composse... melando cremes, afamando a seda, transigindo opostos, reciclando juramentos, ebulizando o sal. Travando batalha desigual. Teus chinelos continuam con-ferindo a tua chave na minha porta! Consuelo Pereira Rezende do Nascimento - Acadêmica, cadeira 10.

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Dimas da Cruz Oliveira

O DICIONÁRIO

O

gênio brincalhão do brasileiro, sua presença de espírito e amor inato pelos jogos de palavras, quiseram chamar de “burros” todos aqueles que recorrem às informações compendiadas no dicionário, e o livro em si mesmo de “pai dos burros”. Assim, os menos dotados de inteligência deveriam apelar, segundo aquele espírito, aos préstimos do dicionário a fim de disfarçar e remediar a carência herdada naturalmente. Mas é claro que essa brincadeira pode ser associada a muitas outras formuladas em nossa pátria acerca da vida intelectual; brincadeiras, aliás, nem sempre inocentes, como, por exemplo, aquela que contribui para diminuir o entusiasmo pelo conhecimento, ao insinuar que “o excesso de estudo leva, comumente, à loucura”. Por nossa vez acreditamos que, nem o excesso de estudos conduz ao limiar da loucura, ressalva feita de certos casos mui particulares em que a predisposição para os distúrbios mentais foi fator decisivo, nem tampouco o dicionário atesta a pouca inteligência de quem o manuseia. São, sem dúvida, brincadeiras e preconceitos que servem 25

para apimentar um momento de conversação e dar vazão ao riso e à alegria cotidiana, mas não podem merecer consideração filosófica, como se verdades comprovadas fossem. O dicionário encerra em suas páginas todo um tesouro linguístico que exige uso constante, atenção e bom gosto a fim de revelar-se na plenitude da sua beleza. Ninguém pode jactar-se, aliás, de conhecer a fundo um dicionário; talvez nem mesmo o próprio autor e seus colaboradores; e isso acontece ainda que eles possuam, como sói acontecer, memória privilegiada, abrangente e impressionante. Porque o tesouro linguístico a que fizemos referência possui múltiplas facetas; ele é variado, muda de cor, de tonalidade, e escapa muitas vezes por entre os nossos dedos. É verdade que o dicionário apresenta, em cada verbete, em cada elocução, toda uma gama de expressões, variedades insuspeitadas, construções curiosas, ora arcaicas ou bizarras, ora recentes e ainda não muito firmes. É verdade, também, que essa palheta oferece recursos quase infinitos a quem dela sabe fazer bom uso. Um escritor, aliás, ou um estudioso e diletante


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que quisesse dispensar o uso do dicionário, seria como um pintor, desenhista ou gravador que traçasse suas figuras e paisagens sem recorrer àquela sua palheta, tão rica e variada em tons. As nuances linguísticas contidas nesse livro podem ser comparadas aos diferentes tons, à gradação encontrada na natureza ou na imaginação do artista. Um dicionário representa, assim, verdadeiro histórico da linguagem em si mesma – o mais impressionante de todos os fenômenos da natureza – assim como de todas as manifestações culturais. Nele aparecem desde as mais sutis e etéreas divagações da filosofia e da poesia, até os significados mais concretos, ouvidos nas oficinas dos artistas plásticos e dos artesãos; nele encontramos desde a profecia quase ininteligível do sacerdote até a expressão corriqueira e contundente do soldado e do mercador, ou a linguagem técnica do pescador e do artesão. Por isso os dicionários dos grandes eruditos representam monumentos de inigualável engenho e operosidade; eles são panoramas imensos de épocas e culturas atuais ou pretéritas. Haja vista os dois famosos dicionários de Du Cange, o erudito francês do século XVIII que abrangeu com seu olhar de gênio universal toda a Idade Média latina e grecobizantina, fazendo desfilar perante os nossos olhos, numa incrível sucessão de maravilhas, tudo o que as duas culturas tiveram de mais refinado e digno. Não existem palavras que descrevam, nem elogios que bastem para apresentar ao nosso espírito aquelas maravilhas filológicas e bibliográficas; verdadeiro tributo de admiração que o espírito humano concedeu a si mesmo. E ainda são muitos os outros dicionários, sobretudo os da Renascença e do Barroco, merecedores da mais alta consideração; construções lentas e artísticas, arquitetura espiritual de primeira categoria, que denotam incrível labor, 26

compasso e engenho. Seus verbetes nos transportam para muito além de nossas limitações cotidianas, fazendo-nos descobrir de que o homem é capaz em sua semelhança com o Deus que o criou. Cada página de um dicionário abre janelas pelas quais contemplamos o pensamento de muitos homens e épocas diferentes da nossa, nos quais encontramos, é claro, o reflexo de nós mesmos, de nossos anseios, esperanças, ideais e até mesmo frustrações. Mais que uma ponte entre duas línguas diferentes, ou entre a própria língua; mais que um recurso de tradução ou de sofisticada comparação; muito mais, enfim, que instrumento de pragmático emprego nos momentos mais difíceis da nossa vida profissional ou acadêmica, o dicionário representa a possibilidade de um diálogo permanente com aquelas mil facetas a que fizemos referência, isto é, um mergulho nas profundezas do espírito. Talvez por isso o dicionário não seja nenhum “pai dos burros”, contando, bem ao contrário, com uma descendência de escol, das mais inteligentes que existem. Dimas da Cruz Oliveira - Acadêmico, cadeira 12.


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Dom Benedito de Ulhoa Vieira

EDUCAÇÃO RELIGIOSA

A

Educação religiosa da criança é necessária e deixa raízes para a vida toda. A linguagem tem de ser infantil, acompanhada de pequenos gestos que a criança compreende e assimila na beleza encantadora da sua idade. Felipe, um menino de três anos, aprendeu que Nossa Senhora é a nossa mãe do céu. Para uma criança que, por experiência pessoal, sabe o que é ter mãe e o que ela representa de bondade, de carinho e de amoroso cuidado, é fácil compreender o papel materno de Maria Santíssima. Por isto, quando alguém lhe ensina que Nossa Senhora é “a mãe do céu”, compreende quem é Maria Santíssima e o que Ela é para nós. Ao frequentar o Santuário da Medalha, ensinaram ao pequeno Felipe que ali é a casa dEla, da mãe do céu. Tendo eu certa vez ido em visita aos pais, para presenteá-los com a foto do filho levando uma flor para o altar, a mãe o chamou, anunciando minha chegada. E ele, lá do fundo do apartamento, associando minha presença com o Santuário, onde me conhecera e ali algumas vezes me vira, perguntou à mãe: “A Mamãe do céu veio junto com ele?” Graciosa e encantadora pergunta do menino de três anos. Esta cena infantil é uma lição: pais religiosos começam, desde muito cedo, a educar 27

os filhos e incutir na alma da criança, a noção de Deus como pai e criador e o papel materno de Maria Santíssima na espiritualidade cristã. Hoje a televisão, desde cedo, dá à criança a colorida visão das coisas que existem e do que acontece. Pela viveza das imagens é impossível não graválas na mente da criança. Daí, já não sobra tempo para a prática religiosa da família e a educação religiosa dos filhos pequenos. A TV ocupa todo o tempo. O caso aqui citado do menino de três anos é um lembrete para que não se esqueçam os pais da educação religiosa de seus filhos, desde a mais tenra idade. Pequenos gestos, pequenos fatos da vida diária podem dar ocasião para a mãe – também o pai – incutir na alma do filho os primeiros gestos de amor ao Criador. Oxalá o lar seja a “escola primária” do aprendizado do que é eterno e insubstituível. Não se pode aceitar que as crianças vivam sem nunca terem ouvido da mãe ou do pai uma palavra iluminadora sobre Deus que é pai e criador. Educação religiosa: não deixem seus filhos crescer sem lhes despertar os olhares para além das estrelas que brilham, à noite, na escuridão do céu. Dom Benedito de Ulhoa Vieira Acadêmico, cadeira 19.


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Dom Benedito de Ulhoa Vieira

PRIMAVERA

E

stamos no início da primavera. Nosso inverno não tem o rigor do hemisfério norte, em que as árvores perdem o verde e a neve branqueia a paisagem. Por isto, a chegada da primavera não desperta em nós a sensação de algo novo, como para os europeus e para os outros povos que sofrem o rigor da neve e a perda da beleza do verde. Amigo alemão, com quem convivi longos anos, queixava-se por não sentir no Brasil, ao final do nosso inverno, a sensação da beleza de ver reverdecerem-se as árvores e brotarem, nos canteiros e nos jardins, rosas e outras flores, como lá, ao despertar da primavera. Mas também nós temos algo de belo neste surgir da nova estação. Não é possível passar despercebido a nossos olhos o cenário novo dos ipês floridos, que enfeitam a orla das estradas. Suas flores cor de ouro, sopradas pelos ventos, forram o chão, atapetando o negrume da terra com fofa beleza de suas pétalas. De fato, é também para nós um cenário novo e colorido, mesmo sem ter sofrido o rigor do inverno. Já o Cântico dos Cânticos, na poesia epitalâmica do jovem enamorado, enaltece o surgir da primavera: “O inverno já passou. as flores já brotaram. Ouve-se o trinado dos 28

pássaros e sente-se o perfume das flores.” Assim cantava ele à sua amada, passado o rigor do inverno. Não parece extemporâneo pretender que este surgir de um novo tempo – a primavera – seja amável convite da natureza para renovarmos a própria vida, aprimorando nossa convivência com os outros e nossos relacionamentos. Com o passar do tempo, perdemos o viço, a beleza e as energias. Urge tornar mais bela a nossa vida, mais rica de flores e de frutos, imitando assim a renovação vigorosa da primavera. Deus, na sua paternal bondade, colocou nas nossas mãos e diante de nossos olhos a sua palavra, que nos ilumina e fortifica: é a Escritura Sagrada, que chamamos Bíblia. Estamos no Mês da Bíblia, convidados não só a ler, mas a aprofundar o sentido da mensagem divina. Nosso coração pode iluminar-se com as luzes da palavra de Deus e assim reflorescer de belezas sobrenaturais. A alma humana também tem primavera...

Dom Benedito de Ulhoa Vieira Acadêmico, cadeira 19.


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Edmar César Alves

O LIVRO IMPRESSO

O

s resultados obtidos na XIV Bienal Internacional do Livro, ocorrida na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, confirmam que o livro impresso ainda permanecerá vivo por muito tempo. Sua extinção, embora já discutam, não será assim tão próxima. Enganam-se, por enquanto, os propagadores do livro eletrônico das bibliotecas virtuais. Nunca se leu tanto assim. Impresso ou não, o livro de todos os estilos e naturezas tem sido o companheiro inseparável do leitor. Lê-se no computador, lê-se no quarto, na sala, no trabalho, no banheiro, na praça, na rua, à noite, de dia, com chuva, com ou sem sol, enfim, estamos sempre lendo. Seja um anúncio, uma placa, uma bula, um manual, uma lista telefônica, uma agenda, uma receita, um jornal, um recado, uma carta, uma mensagem, um livro. Uma avalanche de informações nos chega incessantemente, diariamente. Esvazia-se a caixa de entrada de mensagens, a caixa postal, mesmo assim, novas correspondências vão chegando, não param e não vai parar nunca. Comemos, bebemos, dormimos e acordamos lendo, lendo sempre. Lendo em impressos, lendo virtualmente, as palavras estão à nossa frente, todo o tempo e o tempo todo. Os olhos 29

não conseguem fechar sem ao menos ler uma frase sequer, o boletim da escola dos filhos, a conta de luz, de água, os letreiros e por aí vai. Somos leitores insaciáveis, embora, ainda, não tenhamos o hábito de devorar quinhentas, seiscentas páginas de um grande clássico, romance, sei lá. Mas, aos poucos, diariamente, o número de páginas vai agigantando-se e passamos a consumir palavras e mais palavras aos montes, guardando na memória brilhantes histórias. E por falar em histórias, somos, na realidade, livros ambulantes que carregamos conosco, infinitas histórias, páginas do cotidiano de nossas vidas que vão se ajuntando com as experiências vividas. Somos e sempre seremos verdadeiros livros de histórias, não impressos, não virtuais, mas, reais. A cada passo, a cada instante e a cada momento estamos registrando, como nos livros, nossas passagens, nossas conquistas, nossas derrotas, nossas vitórias. Que bom ver crianças, jovens, adultos de todas as idades visitando os estandes enormes, pequenos, impressionantes, luxuosos, singelos, perfeitos, desprovidos de requinte, comprando, adquirindo cultura, consumidores da literatura. Uma multidão de leitores, antigos, novos, manusean-


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do e folheando páginas e páginas das obras expostas minhas, suas, de outros, de autores consagrados, premiados, recém-lançados, desconhecidos, estrangeiros, brasileiros, gente nossa. Nos corredores dos imensos pavilhões do Riocentro, de programação à mão, o correcorre dos jovens – a nova geração de leitores, para obterem os melhores assentos a fim de acompanharem os debates literários, as exposições de autores, as entrevistas disputadíssimas, enfim, para estarem face a face, cara a cara com o seu escritor predileto que, até então, só se via sua foto estampada nas capas das obras guardadas em estantes, bibliotecas, livrarias. A mãe se ocupa com o estande do Ponto de Vista, só para mulheres; o pai com o café literário imperdível e os filhos, numa correria desenfreada com os lançamentos anunciados, além de procurarem visitar o maior número de estandes possível, conhecendo e mantendo contato com pilhas e montanhas de livros com informações infinitas. Rio de Janeiro, 15 horas, sábado, 12 de setembro, sol rachando de norte a sul do litoral, Engenhão preparado para mais um clássico do futebol carioca; alguns foram à praia, outros para o estádio, mas a maioria partiu em busca de cultura, lotando ônibus, táxi, trem, seguindo para Jacarepaguá, bienal, para respirar o ar do conhecimento e da sabedoria. Nos cantos, nos corredores, nas salas de leitura, nos pisos dos estandes, no chão, nos bancos, nas praças, de pé, sentados, de cócoras, deitados, encostados, de olhos abertos, brilhantes, fixos, insaciáveis leitores devoravam com vontade as letras espalhadas nos milhões de páginas das obras vivas da bienal Rio. Descoberta fantástica – a leitura consola, informa, devolve a esperança, anima, reanima, constrói, reconstrói, aponta caminhos, conta sua história, a nossa história. Fachos de luzes 30

invadem a mente mergulhada nas palavras do conhecimento. O ambiente se transforma com a leitura, nós nos transformamos com ela, choramos, sorrimos, cantamos, vivemos, recordamos. Os romances, as crônicas, as biografias, as histórias infanto-juvenis, as notícias, a poesia, a prosa, a trova, as figuras, os desenhos em quadrinhos, em cada esquina, em cada rua, em cada avenida com nomes de escritores que fizeram história, em cada canto daquele espaço cultural convidando a todos para o despertar e a necessidade da leitura. Gigantescos cenários, impressionantes estandes, uma beleza visual indescritível mostrando a importância do livro e de sua interação, no dia a dia, com o leitor. Das riquíssimas e conceituadas enciclopédias de formatos variados aos simples livretos de bolso, 8 x 5 cm. Autor e leitor; editor e escritor; juntos ali, sem fronteira, sem barreira, na imensidão das letras, respirando cultura, sabedoria e respeito mútuo. Quero crer que não há como contestar: o livro impresso continuará sendo, por muitas gerações o companheiro inseparável do leitor, seja onde for, pela sua comodidade, manuseio, preço e portabilidade, podendo ser utilizado sem equipamentos eletrônicos e de tecnologia de ponta, tanto no banheiro, no sofá, na cama, no quarto, na sala, no jardim, na esquina, no ônibus, no táxi, numa charrete, num trem. A maior prova incontestável da real importância do livro impresso é o livro da vida – As Escrituras Sagradas que venceram o tempo e as inovações. E, mesmo sem as tomadas da tecnologia, são conduzidas debaixo do braço aliviando as vicissitudes da vida. Edmar César Alves - Acadêmico, cadeira 16.


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Gessy Carisio de Paula

LER - FORMA IDEAL DE PRAZER “Não há livro tão ruim, que nele não se aprenda algo de bom!” (Plínio, o Moço)

E

ssa afirmativa do escritor e filósofo da Antiguidade assegura-nos o poder da leitura e o grande fascínio que o livro exerce sobre a mente humana. Tudo depende de como nos deparamos com o assunto e com que estado de espírito lemos o livro escolhido. Quem lê, viaja! Slogan utilizado com propriedade pela Câmara Brasileira do Livro, na divulgação do seu trabalho cultural em nosso país. Viaja para além da imaginação, envolvendo-se nos costumes de outros povos, mergulhando no conhecimento de coisas antes ignoradas, conhecendo terras e países longínquos, climas diferentes, regiões áridas e quentes, outras úmidas e geladas, tudo isso sem sair de casa! É o prazer que um livro nos oferece, melhor dizendo: é o desenvolvimento da nossa intelectualidade e aprimoramento da nossa cultura. Colocando-nos para pensar, capacida-

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de única do homem, a leitura torna-se indispensável em nossa vida. Autores consagrados ou iniciantes, editores e livreiros lançam-se com afinco na apresentação cada vez maior de livros, com títulos diversos, assuntos infindáveis (literatura infantil, infanto-juvenil, romances, contos, crônicas, pensamentos, autoajuda, ciência, psicologia, poesia) e você fica livre para escolher, dentro do seu critério e gosto, qual deles lhe fará companhia numa leitura prazerosa e passar bons e agradáveis momentos. Professores incentivam alunos a lerem livros e criam-se programas alternativos para que esse gosto se alastre e o seu desenvolvimento se expanda. Apesar de tantas informações que nos chegam através da mídia, o livro continua sendo o mais prático, seguro e jamais desaparecerá. À medida que a evolução dos povos se fez, desde tempos imemoriais, já se guardavam em pergaminhos documentos riquíssimos em grandes


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bibliotecas (algumas foram destruídas, constituindo-se numa grande perda para a humanidade). Nesse período fez-se também a conservação e a evolução na publicação de livros, aprimorando-se o seu miolo, papel, capa, ilustrações, passando de brochuras simples e publicações em preto e branco a encadernações primorosas em policromia, para encanto não só das crianças, mas de todos nós. Leia, leia bons livros e instrua-se! Fica a frase: “O que é lido com prazer é comumente retido na memória, porque o prazer sempre assegura atenção, mas os livros que são consultados por necessidade e examinados com impaciência raramente deixam quaisquer traços na mente.” (S. Johnson)

Gessy Carisio de Paula - Acadêmica, cadeira 28.

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Guido Bilharinho

COYOTE E PAPA-LÉGUAS Contingências e Circunstâncias

A

obra literária (ficcional, romance, conto e novela) e poética (desde poemas lineares a elaborações visuais, experimentais e de vanguarda) de José Humberto Silva Henriques (Cruzeiro da Fortaleza/Triângulo, 1958), é vasta, multiforme e surpreendente. No primeiro caso, já abrange (setembro/2009, com ele é necessário se colocar número de obras e data, porque continuamente supera as próprias marcas), aproximadamente 190 (cento e noventa) livros, com apenas (estamos no Brasil, país periférico, onde pouco ou nada se estuda e se lê) vinte e seis publicados, pois, conquanto isso, com todas as dificuldades e falta de apoio, José Henrique produz incessantemente. A variabilidade de sua criação não se cinge apenas à diversificação dos gêneros. Mais importante que ela (nada impede de se ter grande autor de um gênero só), é a multivariedade de enfoques, ângulos e técnicas criativas ínsitas no interior de sua produção literária, 33

ficcional e poética. Nesta, como assinalado, seus livros de poesia (publicados e inéditos) vão da expressão verbal direta à subversão lógica das proposições e à criação inusitada de planos e blocos verbais fincados nos extratos mais significativos da criação literária universal, estruturados o que é da maior relevância mesclando a tradição cultural do Ocidente com as mais flexíveis técnicas artísticas. Na ficção, onde mais se exercita sua faina e capacidade produtiva, a multifacetação criativa atinge parâmetros tão diversos quão admiráveis. Nesse caso, e apenas para cingir-se à uma indicação, ninguém pensaria, por exemplo, em elaborar romance de aproximadamente trezentas páginas em livro, do aparentemente insípido e, após se assisti-lo algumas vezes, até mesmo insuportável desenho do Coyote e do PapaLéguas dada sua invariabilidade de ação. Todavia, José Humberto, em “Coyote e PapaLéguas”, ainda inédito, sem fugir das coordena-


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das do referido desenho televisivo, constrói verdadeiro monumento ficcional, no qual estabelece, para além das presumidas frivolidade e mesmice da obra inspiradora, o sentido profundo de uma das manifestações mais constantes da natureza humana centrada no determinismo biológico da necessidade alimentar, não apenas como meio de sobrevivência, mas, também, como ato e atividade predatória instintiva destinada à íntima e congênita satisfação. Tanto o coiote quanto a ave/animal que persegue são símbolos/signos de tendências atávicas e orgânicas (abrangendo físico, intelecto e emoção) reportadas aos inícios dos tempos da presença humana no planeta. O coiote e o (ou a) papa-léguas transcendem, pois, seus meros corpos e situação biológicoespacial para se projetarem como paradigmas humanos. Nas também supostas idéia-fixa, única atividade, preocupação e objetivo do coiote, encravam-se e expõem-se cerne e eixo antropológicos axiais e permanentes, derivados de origens e motivações ainda não de todo estudados e percebidos, não obstante o surgimento e os avanços das ciências que têm como objetivo e objeto a estrutura e as manifestações comportamentais humanas. Não é, portanto, gratuita, muito ao contrário, a epígrafe cunhada pelo autor para o romance: “livro dedicado ao machado de pedra, ao holograma e à flor última que brotou entre os calhaus”. Aliás, no prefácio que o próprio autor faz, são lançadas as coordenadas da obra, mesmo porque “todos os prefácios para meus compêndios eu mesmo tenho feito. De três anos para cá [o registro do local e da data ao final expõem: Uberaba agosto 2000] tem sido assim. É uma 34

forma de conservar a autenticidade de uma reta que vinga entre começo e fim. Seus (v)meios.” E nele, entre outras afirmações básicas, dizse: “A imortalidade do Coyote é toda fundamentada no non sense, senão na reprodutibilidade de um gene que se multiplica na codificação ininterrupta da sua personificação. Toda a sua graça existe na repetição, que se vem como uma idéia frívola, tão logo surge a familiaridade com uma espécie de bordão conhecido, deixa de sê-lo. Já o Papa-Léguas é somente atleta sem graça que está fadado ao consumo de uma fortuna passageira. Tudo que é original, colorido, parte do demoníoco poder de percepção e de criatividade do predador. A presa é um alvo inútil.” Nada mais consciente (nem inteligente). E o que se tem no romance não são simples animais em ação, mas, de um lado, a “reprodutibilidade de um gene que se multiplica na codificação ininterrupta de sua personificação”, e, de outro, “um alvo inútil”, sobre o qual exercita-se e se multiplica esse gene na “alegoria das subjetividades” de que o autor fala mais adiante no prefácio, súmula e leme da obra. Já a construção verbal, a articulação do fio narrativo e o delineamento da estrutura ficcional perlustram (como se apreciava designar) singular linha de profundidade e criatividade em que o vocábulo não perde seu valor ingênito com a utilização expressional, apresentando-se isolada ou articuladamente vigoroso e adequado, em que a narrativa percorre itinerário balizado pelas contingências e circunstâncias impostas pelo posicionamento e inter-relação das personagens, valorizadas por reflexões e alusões tão profundas quão pertinentes, compondo e ampliando o arcabouço ficcional organizado sobre esse conjunto de elementos virtualizado por exímio uso.


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A erudição de José Humberto (lido de muitos livros) caminha pari-passu à sua criatividade artístico-literária-ficcional na realização da obra romanesca. Na seqüência dos capítulos e dos nãoacontecimentos, que se avultam em quantidade e qualidade acima dos parcos atos desenvolvidos pelas personagens, sucedem-se colocações elaboradas, mesclando observação e reflexão e alternando muitas vezes lirismo e realidade, a exemplo: - “Quem me condena a acreditar que a velocidade é que rege a organização do espaço e flutua a espacidade do tempo?” (Introductio, p. VII, do original digitalizado). - “A velocidade nunca é capaz de atravessar a eternidade, embora possa cruzar o tempo” (Ala 16, p. XXIX). - “O desarmar de uma bomba revela uma grande envergadura de paz” (Ala 20, p. XXXIV). - “Sempre que vê algo que destile certa beleza, dele se engraça as vistas do grande caçador. Uma flor que se abre no desafio das areias, por exemplo. Como umas que parecem artificiais e surgem, encarnadas, da paisagem. Súbitas. Sem haste, sem folhas. Somente elas mesmas, nascidas para o consumo pequeno de águas. Flores de deserto já vêm sem braços e sem pernas, somente com intuito de economia” (Ala 22, p. XXXVIII). - “Somente assim traça-se um conjunto paralelo e amoroso entre as vidas, já que um beija-flor é um prato por demais desflanelado de proteínas, a não ser o sobejo das cores, o verde que sublima e o azul que corta” (Arquivo, p. LIX). - “Horizontes são a massa informe das imagens. Surgem na delicadeza das cores azuis, em si azuladas. Dimensionam a natureza distante das coisas, o haver além, se é que há. Se 35

há” (Ala 42, p. LXXVII). - “Fáceis são os tecidos quando maior é o espírito do que já nasce despido” (Composição Para Canela, p. LXXX). - “E é assim que a pressa elementa a estrutura de tudo que sói precisar de uma planta que faça um alicerce, como é na raiz que as folhas se embebem de introspecção e é nas folhas que as raízes se embebem de extroversão” (Sobre os Fundamentos da Razão Impura, p. XCVII). - “Minha terra tem montanhas que sabem esconder o vento quando o vento tem atitude de descanso. A imensa realização que identifica a forma é um adjetivo fácil de ser apreendido” (Ala 58, p. CLXVI). - “Ocorre que nada é absoluto enquanto houver tempo e espaço, pois que velocidade é somente um arremedo que ativa a indecência das coisas incompreendidas” (Ala 59, p. CLXXI). - “Nem sempre é real aquilo que pode ser medido com todos os dedos” (Ala Vanité, p. CLXXV). Guido Bilharinho - Acadêmico, cadeira 40


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Guido Bilharinho

WELL-GIN E A POÉTICA DE VANGUARDA

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anguarda artística, como já disse alhures e assim deve ser entendida (A Poesia em Uberaba: Do Modernismo à Vanguarda, p. 232), constitui-se do difícil e, por isso, poucas vezes encontrável, exercício de liberdade, criatividade e inventividade do artista, de sua autonomia de concepção, de livre articulação mental e execução de procedimentos não enquadráveis e não subordináveis à fórmulas e cânones estabelecidos e reiterativa e mecanicamente repetidos. Por volta de 1969, em Uberaba, Jorge Alberto Nabut elabora o poema Well-Gin x Ultra-MAtic, demonstrando simultaneamente poder de criatividade/inventividade aliado à utilização e síntese de vários elementos composicionais, incluídos, entre outros, a história local (“Almanaque-Gazeta” e “historiador Kreponz”) e estórias em quadrinhos, neste caso o próprio fio condutor da obra. Além dele, Nabut elabora diversos outros textos, distendendo no tempo e no espaço criativos sua faculdade conceptiva libertária e inventiva, aduzindo à poética – aqui tomada em seu âmbito universal e não apenas nacional ou

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local – modos procedimentais inéditos e distintos de experiências e experimentos de outros artistas, nacionais ou estrangeiros, constituindo criação e contribuição próprias para ampliação do fazer artístico. Não por outra razão Well Gin x Ultra-M-Atic obteve o primeiro lugar em concurso nacional promovido em Divinópolis/MG, cuja comissão julgadora compôs-se de Afonso Ávila, Adão Ventura, Laís Correia de Araújo, Sebastião Nunes e Emílio Moura . Ao completar, pois, 40 (quarenta) anos desses feitos memoráveis (elaboração e premiação) nada melhor para recordá-los e homenageá-los do que a presente edição, que torna a pôr o texto em circulação, de onde, aliás, nunca deveria ter saído, cumprindo aos cursos de letras, periódicos culturais e às diversas antologias que vez por outra são editadas mantê-lo, a ele e aos demais poemas, em permanente exposição. Essas obras e outras que se praticaram e se praticam em Uberaba desde a década de 1960 colocam a cidade como um dos centros poéticos


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mais qualificados entre possíveis outros em qualquer tempo e quadrante, bastando compulsar a antologia-ensaio acima mencionada para se verificar a assertiva e constatar a existência desse pugilo de escritores que um dia terá o reconhecimento e a divulgação que merece, quando espanadas as nuvens do provincianismo e obnubilação mental dos integrantes dos núcleos intelectuais do eixo Rio-São Paulo e sua subordinação passiva e pedante ao que vem do exterior. Guido Bilharinho - Acadêmico, cadeira 40.

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Jorge Alberto Nabut

well-gin x ultra-m-atic GIN -- o ULTRA

ZOO: pithecanthropus cararecopus misererepolus

zig zagueia no ZOO

gang da ultra-m-atic zabusca

A L E RTA !

GIN-the-

GOOOOOD UUUNNNHOOOOOOOOOOOOOONNNNNN KRRAAAA ! ! ! ! nas grades XXXXXXX XXXXXXX XXXXXXX XXXXXXX XXXXXXX 1 átimo: WEL GIN tira os óculos zelâmpago zidéia.

HISTORIADOR

ALMANAQUE-GAZETA

KREPONZ anota

da redação :

GIN usou cal virinvencí-

dizem de Gin

gem queimando a invigang ultra mercan& til out

vel sível

in popular

in illo tempore

MOG--ANA--ALTA--MADRUGADA gan--gs--t--er--de--gi--brl--t--ar q--a--4000--ac--t--rou--her--c--les da--pos--ção--inv--lner--á--vel ---sc--pa--da--pr--são--em--se--gs. arr--ial--da--ca--p’--MG--er--is.

Jorge Alberto Nabut - Acadêmico, cadeira 06. 38


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Ir. Domitila Ribeiro Borges

RELÍQUIAS Sou viajante cansado, trôpego, suado, trazendo um alforje de quinquilharias no coração, na lembrança: flores pisadas, castas mal rabiscadas, pedaços de jornal, um fiapo de lã velho resto de velhos ombros eu sei que nada valem para os outros. Mas, para mim, cada coisa tem sua estória, seu perfume, seu afago. Sua dor, este amargo – doce que não posso jogar fora. Não, não posso. É tudo que ficou daquilo que me ajudou muitas vezes a caminhar,

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a ir enchendo os dias sem horas marcadas, momentos preenchidos em estradas mortas, em caminhos varridos pelo tempo apressado. É que recebe a varinha de condão, talvez ninguém o saiba não, o talismã da Cinderela, de Terezinha de Jesus, que me fez tornar bela cada peça, valorizar cada pedacito, fragmentos de nada transformados em jóias à luz do Amor amado. Quebra-cabeças Na procura, na ânsia do que fica das canções da vida, dos gemidos sufocados, dos espinhos e das rosas, das lágrimas e das risadas, da essência de tudo aquilo que me grudou na alma agora silente, mansa e orante no crepuscular da existência.

Ir. Domitila Ribeiro Borges - Acadêmica, cadeira 30.

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Ir. Domitila Ribeiro Borges

RUÍDOS E SOLIDÃO Zunido do vento Nos eucaliptos, à noite, junto à janela de meu quarto... ... e, o pensamento me vinha de conhecer o mar... Apito rouco do trem Rompendo o espigão, Ali, donde as serras azuis Jogam o sol pra o outro lado... ... E, o meu desejo louco de romper muralhas e ver o que havia de lá... Cair de chuva mansa, murmúrio de fonte abrindo caminho... ... E, o meu anseio de captar o musicar de todas as fontes, o cantar de todos os pássaros, o balouçar de todas as palmas, todo esse mundo maravilhoso dos ruídos mais diversos.

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Ruídos! Sons!... São tantos eles ! meus ouvidos os perceberam ávidos de os reter, de os guardar por entre ninhos de esperança colorida, lembranças roxas, perfume de jasmins saudades brancas me tecendo a vida. Conheci o mar. Ouvi seu marulhar, à noite. Transpus cordilheiras, abri caminhos, e vi do outro lado... no fim de todas as estradas, sempre o homem, ora embelezando, ora estragando tudo. O homem e seu domínio. O homem e sua escravidão. O homem e sua grandeza. O homem e sua miséria Riqueza e podridão. Ruído e solidão.

Ir. Domitila Ribeiro Borges - Acadêmica, cadeira 30.

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João Gilberto Rodrigues da Cunha

ESCREVER... EM PORTUGUÊS... NO BRASIL?

N

ossa Academia de Letras do Triângulo Mineiro teve seu aniversário de 47 anos. Os acadêmicos são estimulados a escrever alguma coisa para a nossa Revista, qualquer coisa, afinal ela será peça do nosso arquivo, será lida pelos 40 confrades, não sei quantos outros leitores poderá ter. De minha parte e inspiração fiquei hesitante, afinal algum dos meus escritos ficará perenizado, empoeirando-se na prateleira, porém mais sobrevivente que eu próprio. O que escrever, pensei... Autor singelo de dois livros apenas e algumas centenas de crônicas semanais, revisei minha produção para ver onde buscar inspiração para esta aventura. Afinal, o Caçadas foi um finalista do prêmio Jabuti, ou seja, tem um mérito literário reconhecido. O Triângulo, que até hoje me dá prazer, ainda faz a diversão de cabeceira da nação roceira da minha terra. E as crônicas, estas me divertiram, me fizeram um desconhecido ser conhecido no salão do barbeiro, no bar da esquina, na roda do tênis, até mesmo nas rodas sociais e alguns aparecimentos na televisão regional. E daí, me pergunto, e penso. Ponho meu olhar crítico sobre a nossa literatura, e resolvo desovar a magoa de escre43

ver em português e no Brasil. Volto lá atrás, quando eu mesmo lia no colégio interno aquela biblioteca histórica, do padre Vieira por Machado de Assis, de Artur Azevedo conflitante, das emoções com Fernando Pessoa, com Cecília Meireles, depois Drumond, Graciliano, Guimarães Rosa, o Mário Palmério, o Érico Veríssimo e seu filho Fernando, uma legião heterogênea e genial que já fora do colégio venho perseguindo. Lembro a frase patriótica que meu professor repetia sobre a nossa língua: última flor de Lácio, inculta e bela, és a um tempo esplendor... e caio na real... decepção... A dura realidade, mesmo, é que escrever em português é prazeroso para nós, autores por teimosia, consolo ou vaidade. Derramo esta mágoa dolorida e aprofundada através do tempo, mais ainda com a modernidade concorrente da televisão, da internet, da literatura exterior e invasiva tão bem recebida em nossa crítica. Refiro-me ferozmente à crítica, sim, porque ela é formadora dos que ainda leem. As nossas páginas de literatura da grande imprensa deviam ser escritas em inglês, porque 80% dos seus comentários são sobre livros e publicações, autores, títulos e sucessos... em inglês. Curiosamente, até os autores da literatura clássica em francês, alemão ou espanhol só têm


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veiculação e conhecimento mundial se são vertidos para o inglês. Agora, em português, então, a referência é mínima, limitada a algum sucesso ocasional, assim mesmo de curtas linhas e imaginação. Uma imaginação maior em português só para os capítulos escritos sobre as novelas, aquele pequeno véu de erotismo e sensação que faz suportável a noite dos solitários, das ansiosas por carinho, amor ou sensualidade. Autores e revelações novas têm notícia de algumas linhas. Harry Potter ou o Código da Vinci ocuparam páginas inteiras, e permanecem reprisados, porque vendem milhões e são escritos em inglês, a nova língua universal. Aliás, já não tenho dúvida, esta será a comunicação mundial. Qualquer comentário na imprensa abre alas e respeita o inglês, em qualquer ramo ou atividade, economia, política, ciências, futurologia... e literatura. Nossos estudiosos jovens têm obrigação de correncia em inglês, Harvard enche a boca de água. Atrevo-me a pensar que isto se deve ao processo fundamental que rege a modernidade: o dinheiro. Afinal, quem pode negar que a riqueza é o objetivo principal das novas gerações? Ela permite o carro, a casa, a viagem, as roupas, e os prazeres maiores dos sentidos. Agora, de marcha-a-ré: como comparar literariamente o inglês com o português? Inglês um bom aluno aprende em um ano, português aprende-se talvez em uma vida. É inegável que nós podemos escrever e falar coisas lindas, rebuscadas, elaboradas com amor e sentimento, a enorme riqueza e variedade do português. Já o inglês simplifica, é prático, não se comove nem emociona, é cirurgião da literatura – basta-lhe a eficiência de resultados. Agora, e isto posto e exposto, para onde vou? Ou para onde vamos nós, que nos intitulamos acadêmicos da língua portuguesa? Não sei, não vejo nem tenho como prever nosso futuro. 44

Parece-me triste, porque nossos poderosos e governantes não estão preocupados. O português vai batendo em retirada, daqui a pouco passará a ser um dialeto para uso familiar – a língua pública será outra, pragmática, objetiva e real. Não me importo. Eu vivi a minha vida com toda a sensibilidade, poesia e riqueza da minha língua portuguesa. Se amei ou se sofri... o importante é que emoções eu vivi. Que outra língua poderá exprimir, com delicadeza e sentimento, a verdadeira e última riqueza, que é enfeitar com flores o que sentimos em intimidades do coração... Meus companheiros de Academia, meus eventuais leitores, desculpem-me alguma franqueza rude ou sofrimento oculto pelo meu sofrimento no escrever. Relevem-me e perdoem-me a dor exposta. Mas, enquanto vivermos, estarei como Fernando Pessoa: tudo vale a pena, se a alma não é pequena... João Gilberto Rodrigues da Cunha Acadêmico, cadeira 38.


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João Eurípedes Sabino

DECISÃO DO VENTO

U

m Perito Judicial certa vez realizava diligência na zona rural em região inóspita. Litígio intrigante, partes digladiantes e ambiente muito hostil. A perícia iria decidir uma demanda de terras. Com o sol brilhando a meia altura, um dos auxiliares daquele Técnico Oficial lhe formula a pergunta: - Como faremos para almoçar, se quando a hora chegar estaremos tão longe e em plena metade do serviço? Uma das partes mais do que solícita intervém e faz o convite para almoçarem com ela. Incontinenti o Perito recebeu convite idêntico da outra parte. Tentando ser gentil e insuspeito com os demandantes, aquele Louvado guardou consigo a resposta para depois, na esperança que essa lhe aflorasse naturalmente como de fato ocorreu. Reuniram-se depois todos ali mesmo e, sob concordância geral, o expert escreveu os nomes dos demandantes em dois papeizinhos. Ventava muito. Ao sopé de uma grande serra e diante de doze pessoas propôs o representante do Juiz: CONVIDEMOS AS DUAS CRIANÇAS QUE AQUI SE ENCONTRAM – NETOS DOS DOIS LITIGANTES – PARA JOGAREM AO VENTO OS PAPEIZINHOS DOBRADOS. O NOME QUE CAIR MAIS PERTO SERÁ AQUELE EM 45

CUJA CASA IREMOS TODOS ALMOÇAR. A fome apertava e nas duas fazendas havia um banquete esperando. Vento soprando, papéis jogados ao ar e crianças correndo indo buscá-los. O Réu saiu sorteado para dar o almoço e o netinho do Autor foi quem apanhou o papelzinho com seu nome e lhe deu a surpresa. Mais tarde já famintos seguiram todos para almoçar, aliás, encenar um quadro jamais visto: demandantes almoçando numa mesma mesa. Netinhos de ambas as partes abraçados, corriam inocentemente no quintal da fazenda visitada, sem nada saber. Conversa vai, conversa vem, compôs-se ali um acordo na demanda que se arrastava há décadas. O litígio foi desfeito. Avós deram-se as mãos na presença dos netos e hoje são amigos. Moral dos fatos: o Vento proferiu sua decisão antes do Tribunal dos homens. Onde ocorreu: Comarca de Sacramento/MG. Juiz do Processo: Dr. Armando Vieira Ferro.

João Eurípedes Sabino - Acadêmico, cadeira 32.


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José Humberto Silva Henriques

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lavradas as casas em lavra nova de telhado a cor puxa o carretel estende a obra em lava antiga o que ousa entre o circuito da cor e céu com as dobras suficientes da nuvem sobrevoadas por balaço de pombas e balanço o livro aberto das casacas de silêncio e um silvo seguida da curva imediata de um forno derruído todo o resto abria a boca com duas línguas e a cidade caía na imensidão da coisa bífida e mágica e dentro da magia rubra de tão lívida

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uma balbúrdia de vozes vendia o almoço de um ditador a hora era compatível com as alturas de firmamento

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dentro do mercado um cachorro magro suspeitava ossos e a dança submetia marionetes à alma humana

um menino pediu um refrigerante barato em voz baixa havia um cristo anterior ali dentro e os fermentos de apologia ver aquilo de longe era mais seguro e adocicado do que saber de onde a saída vinha de onde saía a voz que do centro saía

uma corda atava uma composição em ré maior. o resto era mercadoria.

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um louva-a-deus e a visão do iconoclasta - tu vais viajar para além desses rumos de capinzal? uma frase esbarra a pouca complexidade do mundo exercício de tempo adultera o louva-a-deus - tu viajas com falta destino? isso é o mesmo que nada! o inseto supre-se da cor e de um arsenal de dentro a voz dele fica cristalizada de verde ou de pó nem sempre a volta do nada acha âncora para tudo o que cumpre para sempre a imagem redonda da alucinação

José Humberto Henriques - Acadêmico, cadeira 26.

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Luis Cláudio de Pádua Neto

A MISSA E O PORCO

N

a infância, fui frequentador assíduo das missas dominicais. Nem por devoção e tampouco por vocação religiosa, mas sim por imposição de minha mãe. Já na adolescência, o motivo das idas às missas de domingo era outro: a paquera durante o sagrado ritual. Lembro que conheci a minha esposa naquele momento da confraternização, onde todos se cumprimentam. Atualmente não sou muito de frequentar missas. Tanto é que nas poucas vezes em que vou evito comungar. Talvez possa ser um conceito errado que tenho, mas sempre acho que estou em falta com Deus e por isso não sou merecedor de parte do seu corpo. Contudo, neste domingo fui à missa, acompanhado de minha mulher e filha. O ritual sagrado continuava praticamente o mesmo, até a hora destinada à confraternização. Nesse instante, o padre simplesmente passou à frente. Olhei para a minha esposa, que também há muito não frequenta as missas, e ela abriu os braços em um sinal de que também não estava entendendo. Um pouco depois da confraternização vem a comunhão e só então entendi o 48

porquê da ausência da primeira. O casal de coroinhas, que normalmente leva até o padre o vinho e a hóstia, desta vez, levaram também um frasco com álcool gel, para que o mesmo lavasse as mãos antes de servir a hóstia aos fiéis. O medo da gripe suína modificou um ritual de milênios. O espírito de porco que disseminou essa maldita gripe na certa não foi correspondido pela moça de sua adoração na hora da confraternização. Posso até imaginar a moça fazendo vista grossa a sua mão estendida e apertando a mão do rapaz ao seu lado. Ficou anos se torturando por aquele momento. Fez várias sessões de análise, até concluir que só existia uma forma de se curar daquela frustração. Incutir o constrangimento nas pessoas de trocarem um aperto de mãos e um abraço. Obra de um legítimo espírito de porco. Ainda bem que a sua vingança veio tarde e deu tempo de trocar um aperto de mão com a minha esposa e selar a nossa união com um beijo ao pé do altar.

Luis Cláudio de Pádua Neto - Acadêmico, cadeira 17.


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Mons. Juvenal Arduini

MARCA ANTROPOLÓGICA

A

“Não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida?” E, agora, comenta-se o nascimento, acentuando-se o significado antropológico do frágil recém-nascido: “É um menino magro de muito peso não é, mas tem o peso de homem, é uma criança pálida, é uma criança franzina, mas tem a marca de homem”. E vem a resposta do carpina José, com sabedoria antropológica: “Severino retirante, se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, respondeu com sua presença viva. E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: mesmo quando é uma explosão, como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma morte severina.”

o retratar a realidade brasileira mortífera, o poema de João Cabral surpreende a vida, ainda que frágil, com marca antropológica. O retirante Severino foge da miséria e da morte, mas vai encontrando, pela estrada, os ferretes da pobreza, a deterioração da vida, e, por toda parte, enterros. As cenas falam mais da morte do que da vida. E ele mesmo acaba descobrindo-se iminente candidato à morte, a caminhar para seu próprio funeral. “E chegando, aprendo que, nessa viagem que eu fazia, sem saber desde o Sertão, meu próprio enterro eu seguia”. Severino encontra José, mestre carpina, e pergunta se, diante de tamanha mortandade, não seria melhor suicidar-se: “Se em vez de continuar tomasse a melhor saída: a de saltar, numa noite, fora da ponte da vida?” A essa altura, explode a notícia de que nascera o filho de José, o carpina, trazendo implícita resposta à interrogação de Severino: 49


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A vida é a resposta maior aos inquietantes desafios de nosso tempo. As decisões que irão plasmar o futuro mundo hão de acolher, projetar e cultivar a vida humana, com núcleo primacial. Só haverá antropologia, e, consequentemente, só haverá ética, a partir do momento em que se tenha a sabedoria de decifrar a “marca de homem” na vida, ainda que seja miúda, ainda que seja vida severina. ` Enraizada na substância antropológica, a ética teleológica contribuirá para destinar autenticamente o homem ao pleno desdobramento de seu ser. Mons. Juvenal Arduini - Acadêmico, cadeira 05.

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Padre Prata

O LINGUAJAR MINEIRO

H

á dois anos, se tanto, estava com meus irmãos, assistindo a uma partida de futebol, no Uberabão. (Por sinal, foi a última!). Como o jogo estava muito ruim, começamos a prestar atenção nas expressões verbais dos torcedores. Foi uma experiência que, realmente, nos trouxe divertimento e, ao mesmo tempo, levantou dentro de nós uma série de interrogações. Aquele linguajar que ouvíamos era “caipira”, “dialeto” ou o modo normal de o povão se expressar? Com o tempo, adquirimos o hábito de tomar nota de como o povo falava. Não era mais o chamado “português”. Era um modo de falar singular. Com o tempo, conseguimos anotar mais de mil palavras e expressões do cotidiano popular. Certa vez, passando a pé por uma rua, vi uma criança sair correndo de uma casa e a mãe, logo atrás, perguntando: “Dé qui cê vai, fi?” A resposta veio na mesma linha: “Vô cá vó, mãe”. Outro modo de falar ouvido: “Fia, será cá

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vendinha tá aberta?” “Tá qui tá, pai”. Bem, isso é caipirismo ou mineirismo? Não seria uma subcultura criada para facilitar a comunicação? De tudo isso, tiramos algumas conclusões: 1 – O mineiro tem uma tendência inata para simplificar as coisas. Não é preguiça. Economiza palavras e sílabas de acordo com suas conveniências. É uma subcultura generalizada. 2 – O mineiro não é muito chegado ao gerúndio. Elimina o “d” automaticamente e o “o” final vira “u”. Daí, “estudanu”, “falanu”, “pescanu”, “conversanu” e assim por diante. 3 – O mineiro odeia as proparoxítonas. Por acaso, você já ouviu entre o povo alguém falar “cócegas”? “Córrego”? “Abóbora”? Será que falar “abobrinha” é errado? Errado seria “aboborinha”, além de pedante. Será que é errado falar que “lá pertim de casa tem um corguim?”


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4 – O mineiro não gosta muito dos ditongos em “ei”. Ele fala “dinhero”, “mantega”, “manero”, “quejo”, “mantega”, “cantero” e é sempre entendido. 5 – O mineiro adora um diminutivo. É regra geral. Fala com carinho, é diferente dos outros. Alguém perguntou a um mineiro: “O senhor é fazendeiro?” Veio a resposta: “Nada disso, seo moço, tenho umas terrinha lá pros lados do corguim do Buriti. Tenho lá uns pastim, crio um gadim miúdo, vai dano pro gasto”. Afinal, é errado falar assim ou é uma subcultura que deveria ser respeitada? Não me venham dizer que isso é caipirismo. Em Curitiba, no Paraná, ouvi muitas vezes, gente falando “eu ponhei”, “nós ponhemos”, “ele ponhô”. O mineiro não fala “nós ponhemo”, ele fala “nós põe”. Não é mais suave? Mineiro vai sempre pelo mais fácil, Não complica. Se é mais fácil falar “masstumate”, para que “massa de tomate”? Demora muito. Os donos absolutos das terras onde moramos não somos nós, são os caiapós. Foram dizimados pelos colonizadores. Pires de Campos decepou milhares deles e pendurou suas cabeças em árvores para servir de escarmento. Esses índios tinham dificuldade com o dígrafo “lh”. Diziam fio, veio, trabaio, paia, môio e assim por diante. Seria isso caipirismo. Muito pior do que falar “trabaio” e sair por aí assimilando a cultura gringa com “happy hour”, “coffee break”, “folder”, “new wave”, “new look” e outros. O que estou dizendo não é convite para falar como fala o mineiro. O que procuro transmitir é que não se deve fazer julgamentos sem conhecer as causas de tais efeitos. Escrevemos um livro sobre esse tema 52

“mineirismos”. Não foi editado nem sabemos se haverá possibilidade. Não será vendável. São mais de duas mil palavras e expressões que ficarão esquecidas. Tem ainda a história triste da Língua Geral, do Nheengatu. Fica para a próxima vez. Padre Prata - Acadêmico, cadeira 04.


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Padre Prata

LADRÃO DE CASACA

E

ra um barulho cadenciado. Na sala? Ou lá fora, no pequeno pátio? Um vento frio filtrava-se pelas venezianas, insistente. Novamente o barulho. Ritmado, como passos de alguém andando de um lado para outro. Levantei-me. Descalço, deixei o quarto evitando qualquer ruído. Não queria provocar a fuga de um provável intruso. Cuidadosamente abri a porta. Bem no meio da sala, ao lado da mesinha, estava um homem. Imóvel. Olhavame fixamente. Curiosamente, não senti medo algum. Era um senhor de meia idade. Não parecia um ladrão. De paletó e gravata, terno já desgastado, mas limpo. Seus cabelos eram grisalhos, olhos grandes, escuros. Não se movia. Só me olhava, sério. Quebrei o silêncio: “O que o senhor está fazendo aqui dentro de minha casa, às duas horas da manhã?” Sua resposta foi mansa: “Procuro um pedaço de pão ou qualquer coisa para comer. Fome não tem horário.” Fiquei mais agressivo: “Além do mais, o senhor está invadindo minha casa. O senhor não sabe que invadir propriedade particular é crime? Há lei regulando isso. Posso chamar a polícia.” Ele não se ofendeu. Afastou-se. Abriu a porta da frente e caminhou em direção do jardim. Parou 53

bem no centro do gramado. Estranho! Havia gente circulando como se fosse dia de festa. Ele, sem motivo aparente, parou e voltou-se para mim. Fixou-se em mim. Não percebi nele nem ódio nem maldade, apenas um sorriso triste. Parecia condoer-se de mim. Falou, mansamente: “Os conceitos de vocês, que se dizem cristãos, são belas teorias. Vocês crêem em Jesus e dizem que o amam, mas vocês não o conhecem nem o amam. Você começou acusando-me de invadir sua propriedade. Entrei lá, é verdade. Você já sentiu fome? Você já ouviu dizer que, quando a fome é insuportável, as propriedades se tornam comuns? Os donos do mundo, quando se tornam incapazes de raciocinar retamente, dizem que isso é comunismo. Não é. Deus destinou a terra para todos. Os mais fortes se apropriaram dela. Eu não queria roubar sua casa, queria apenas um pedaço de seu pão que se tornou nosso. Você nada me perguntou, apenas me chamou de ladrão. Quis chamar a polícia, que não é aliada dos que passam fome. É aliada dos que têm o poder. Os ladrões são outros. Estão bem protegidos pela lei que eles mesmos fizeram. Os verdadeiros ladrões estão na política, no governo, nos ministérios, no senado,


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nas câmaras dos deputados e vereadores, nas prefeituras. Os grandes ladrões estão também no judiciário. Difícil de acreditar. Sabe quem os colocou lá em cima? Você. Você acreditou nas mentiras deles e os colocou no poder. Você pode dizer que há exceções. Que há bons políticos. Quem sabe? Uns dez por cento, vinte, trinta, quarenta, se tanto. Você achou ruim porque entrei em sua casa. Eles, os corruptores, podem entrar. Você pega na mão deles, manchadas com o suor dos outros. Você os abraça e... agradece.” Pensei que aquele senhor tinha terminado. Que nada! Continuou batendo: “Pense bem, coisa muito pior entra em sua casa. Entra com sua permissão. Valores destrutivos, imagens de pura pornografia. Entram todos os dias, com os aplausos de você e de sua família. A mais deslavada imoralidade. Entra colorida pelo seu televisor. E você, feliz, comendo pipoca, assiste a tudo aquilo. Sua consciência nem dói mais. Você vê, sem um arrepio, a destruição sistemática daquilo que vocês mesmos chamam de valores cristãos. Fidelidade, honradez, lealdade, respeito aos mais velhos, sinceridade, religião, tudo vai sendo engolido com sua pipoca. Você adora essas novelas globais, ridiculamente urbanas, que desmontam, peça por peça, aquilo que seus pais lhes transmitiram. Sua consciência, calejada, acostumou-se a conviver com o sexo explícito, com as traições conjugais, com as bigamias, com as distorções sexuais, com a desmontagem dos valores cristãos. Ridicularizam o que é sagrado. E você, cristão, ri feliz e se diverte. E agora, você quer me prender por causa de um pedaço de pão? Porque quebrei um vidro de sua janela? Ora bolas, não entendo você. Por que se diz cristão? Por que reza todos os dias pedindo a proteção de Deus? Proteção para seus negócios? Que Deus é esse? Se você, pensar bem... “ Não quis ouvir mais 54

nada. Estava humilhado. Hoje, quinze dias depois, ainda me atormento com a tranqüilidade daquele estranho que entrou em minha casa, dentro de mim e povoou minha noite de pesadelos. Sem pedir licença. Padre Prata - Acadêmico, cadeira 04.


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Paulo Fernando Silveira

N

o dia 3 de outubro, Getúlio Vargas conclamou os rebeldes gaúchos a marcharem até o Rio de Janeiro. Rapidamente, o movimento angariou apoio, se espraiando a partir de Porto Alegre, Belo Horizonte e o nordeste. Em Minas Gerais, desde o mês de junho de 1930, o secretário da segurança pública, Odilon Braga, já havia articulado um plano de ação revolucionária, que deveria ser posto em prática, imediatamente, pelos comandantes militares, tão logo a ordem fosso lhes dada pelo rádio. Abraçando entusiasticamente a causa revolucionária, Assis Chateaubriand participou de encontro secreto com o governador Antônio Carlos. Chegou a lhe propor a designação de um general do exército para treinar as tropas mineiras, o que, evidentemente, não foi aceito. No dia da revolução, o jornalista Assis Chateaubriand voou para o Sul, numa viagem conturbada, cheia de peripécias, a fim de se alistar combatente nas fileiras de Getúlio Vargas. Em 03 de outubro, o então governador de Minas Gerais, Olegário Maciel – um senador 55

da república, de 74 anos, que havia assumido o governo no dia 7 de mês anterior – se colocou à frente da revolução ao autorizar a polícia mineira lançar o assalto ao quartel do 12º Regimento de Infantaria do exército, sediado em Belo Horizonte. Em razão disso, ele foi considerado um “general civil”. Sua adesão ao movimento revolucionário lhe garantiu, depois, a permanência no cargo, eis que foi o único governador eleito antes da revolução a não ser substituído por interventor nomeado pelo golpista Vargas. 1 Em 05 de outubro de 1930, os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná já estavam em situação de rebelião, sob o comando do alagoano, tenente-coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro, nomeado como chefe de operações. Siqueira Campos ali já se encontrava par auxiliar a revolução. Em Pernambuco, a insurreição era liderada por Juarez Távora e na Paraíba pelos tenentes Juracy Magalhães e Agildo Barata. Na capital da república, os políticos cariocas, depois de sentirem a força da revolução, finalmente, apoiaram o golpe militar. Em 24 de outubro de 1930, no Rio de Janeiro, os milita-


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res do exército depuseram o presidente Washington Luiz. Formou-se uma junta governativa provisória encabeçada pelos generais Tasso Fragoso, Menna Barreto e o tenente Affonso Pena Júnior. Washington Luiz foi preso e deportado do território brasileiro. Em 03 de novembro de 1930, um mês depois de iniciada a revolução, Getúlio Vargas chegou de trem, vindo de São Paulo, ao Rio de Janeiro. Sua tropa amarrou, literalmente, as rédeas de seus cavalos em frente ao palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Getúlio se empossou. Ditatorialmente, como chefe do governo provisório do país. Nessa ocasião, o líder golpista contava com o apoio da metade do exército e da quase totalidade dos oficiais do exército, que haviam participado das insurreições dos anos 20. Eles foram imediatamente anistiados. ` Nesse curto espaço de tempo, de 21 dias, que mediou entre o início da revolução (03 de outubro de 1930) e a queda de Washington Luiz (24 de outubro de 1930), as tropas da milícia paulista, chamadas de “legalistas”, se postaram à margem esquerda do rio Grande, na fronteira de Minas Gerais, com o objetivo de tomar três importantes pontos estratégicos – pela ordem de importância, a ponte e a estação ferroviária de Delta (Igarapava) e de Jaguará (Rifaina) e o porto do Cemitério (Barretos) – e invadir o Estado de Minas Gerais, a fim de transformar a cidade de Uberaba na nova capital do Estado de Minas. Com isso, pretendiam separar do Estado de Minas a sua parte mais rica e produtiva, a fim de enfraquecer a resistência dos rebeldes mineiros. Além do mais, o Triângulo Mineiro representava um alvo estratégico, pois constituía um óbice para a junção das forças paulistas com as goianas, que apoiavam os legalistas, tal como as de Mato Grosso. Em Goiás, a cidade de 56

Ipameri sediava o 6º Batalhão de Infantaria do exército, com cerca de 600 homens. O Estado de Goiás contava, ainda, com os célebres Camisas Vermelhas do caiadismo (alusão ao senador Totó Caiado). Havia necessidade de se tomar as pontos Engenheiro Bethout (Araguari) e Afonso Pena (Itumbiara), no rio Paranaíba, na fronteira goiana. Apossando-se do Triângulo Mineiro, o objetivo do governo federal era estabelecer a ligação de São Paulo com Goiás, fazendo de Uberaba a capital de Minas, sob o governo de um interventor federal. O governo Washington Luiz pedia, insistentemente, que as forças goianas marchassem em direção a Minas Gerais. Todavia, os paulistas não esperavam pela ajuda dos goianos, nem pela inciativa dos revolucionários mineiros. Atacaram primeiro. 1 N.A. – Semelhantemente, em 31 de março de 1964, o governador Magalhães Pinto deu o sinal verde para o general do exército Olímpio Mourão Filho avançar suas tropas, aquarteladas em Minas, sobre o Rio de Janeiro, visando a derrubada do presidente João Goulart (Jango). O golpe militar foi bem sucedido. Então, foi implantada a ditadura militar no país, que perdurou até março de 1985.

OBS.: Texto extraído do livro “A Batalha de Delta”, de autoria do acadêmico Paulo Fernando Silveira. Paulo Fernando Silveira - Acadêmico, cadeira 20.


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Pedro Lima

QUEM SOU EU?

S

ou índio com português, holandês com inglês, alemão com italiano, espanhol misturado com francês, um pouco de árabe com libanês e até chinês com japonês. Meu coração é imenso, tem espaço pra tudo, amo a todos, mesmo aqueles que vivem fazendo comparação com alguém, mas não guardo mágoa, isto porque tem muitos que não me conhecem direito. Sou muito rico e pobre ao mesmo tempo. Rico em potencialidade, há muita riqueza dentro de mim, minerais de todas as espécies e valor sem distinção, até petróleo em que tempos atrás ninguém acreditava. Tenho a melhor agricultura e pecuária do mundo, grandes indústrias e comércios, exporto meus produtos para o mundo. Meus filhos são muito inteligentes, até me orgulho que muitos deles participaram da evolução da humanidade, como seus inventores, seus grandes cientistas, escritores, um batalhão de artistas, isto sem citar os esportes em todas as modalidades, no futebol que é a alegria de todos, conquistamos tudo, o fanatismo é tanto, que só na transferência do Ronaldinho 57

para o Corinthians fizeram mais festas e deram mais publicidade do que quando se descobre um poço de petróleo. Eu sou pobre porque ainda há muitos filhos meus esquecidos nesta mata desconhecida a que deram o nome de Amazônia, e que alguém batizou de índios; há também, no meio do sertão, distantes dos grandes centros a que chamam de civilização, quantas crianças que apenas foram só crianças, que não tiveram o direito de crescer e viver. Sei que alguns gostam de reclamar um pouco de tudo, aqueles que querem consertar o mundo sentados em uma cadeira. Reclamam dos políticos, mas ninguém se arrisca a entrar na política, reclamam das leis, até dizem que é como vacina, pega em um e não em outro, que até fizeram uma lei em proteção aos direitos humanos, mas os humanos direito têm pouca proteção. Reclamam da educação e que as escolas são ruins, mas na realidade o que falta é aluno que queira estudar. Pois numa sala de aula com vinte (20) alunos, cinco (5) querem estudar e quinze (15) pra badernar e fazer o que bem entendem dentro da sala, e o professor (a) não pode fazer nada, se


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fizer fica inimigo dos mesmos, porque ser educador hoje é profissão de risco. Reclamam da saúde, só que a grande maioria que frequenta os postos de saúde e os hospitais gratuitos, não precisa de médico, tem mania de médicos e,ainda, há muitos lugares onde o avanço da ciência médica e hospitalar ainda não chegou. Eu sou o único no mundo onde em qualquer barzinho ou boteco como é popularmente chamado, em plena luz do dia, em meio da semana, uma roda de amigos toma cerveja, ouvindo música e reclamando dos governos da sua cidade, do seu estado e do seu país. Afinal quem sou? Eu sou o berço da liberdade, repouso dos heróis. E meu nome é Brasil. Pedro Lima - Acadêmico, cadeira 14.

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Sebastião Teotônio Rezende

VELHO RELÓGIO

Q

uando entro em minha casa, vejo no alto da parede ele, Velho Relógio, meu conhecido desde a infância. Ao contemplá-lo, meu pensamento viaja no passado até reencontrar o menino que já fui. E com isto surge em minha mente a figura de meu pai,

subindo em um tamborete para “dar cordas” e torná-lo sonoro em cada quarto de horas, incluindo as batidas para cada hora corrida. Este velho relógio inspirou-me o seguinte soneto:

Quando o olho na parede ao alto Me sinto pequenino, bem distante Na simples casa onde fui criado: Metamorfose feita num instante. Neste presente, carregando os anos, Eu busco encontrar algo perdido Que o tempo implacável me levou, Sentindo meu intento já vencido... Quinze em quinze minutos você fala... Mantendo as cordas tensas, não se cala, Lembrando a figura de meu pai... Sendo um misto de sonho e realidade Mergulhados no fundo co'a saudade Cada pancada é para mim um “ai”!

Sebastião Teotônio Rezende - Acadêmico, cadeira 37.

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Terezinha Hueb de Menezes

A CONSTRUÇÃO DE NOSSOS CASTELOS

O

uço na voz de Gal Costa: “Meu castelo de carinhos/ Eu nem pude terminar/ Momentos meus/ Que foram teus/ Agora é recordar...” Nisso consiste nossa vida: construir castelos de sonhos (ou seriam sonhos de castelos?). Construímos sempre. Inacabada, como o próprio ser humano, é a construção de vida de cada um. Parecemos formigas, na mesmice, talvez irracional, de cumprir sempre a mesma trajetória: o cotidiano compõe-se da busca incessante de construir; construir prestígio, construir fortuna, construir projetos que nunca chegam ao fim. Na caminhada pela vida, vamos edificando castelos, espelhados em sonhos. Nem sempre, porém, conseguimos executar o projeto: muitas vezes o tempo se apresenta mais veloz que nossas mãos; e ainda temos que lidar com os tropeços que nos impedem a consecução do ideal. O mar da existência arrasta, principalmente, os castelos de carinhos que julgamos eternos e definidos: em ondulações inesperadas, arrasta para o seu bojo o que julgamos nossa propriedade só então percebemos que o sonho

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jamais se concretizará. Perdemos, com isso, momentos preciosos porque a vida se faz de momentos momentos que nos pertencem e ao ser amado, momentos que se misturam na identidade de dois seres: “momentos meus/ que foram teus”. E, de repente, estes momentos desaparecem. Não é de estranhar, na verdade, que de seres incompletos, como nós todos, humanos, surja tanta incompletude. Não adianta que nos enganemos a cada dia, crendo na eternidade de dias, meses, anos..., crendo, enfim, que veremos, todos os dias, o sol, encontrando-nos do mesmo jeito, a noite acalentando esperanças que sempre acreditamos factíveis. Ingenuidade maior acreditar que, nesta vida terrena, a que somos tão apegados, esteja o verdadeiro fim do homem. Ingenuidade porque, a cada momento, tomamos consciência, querendo ou não, da transitoriedade das coisas. Vão-se momentos, cada minuto vivido não volta jamais... De tudo, resta recordar. Recordar momentos de amor, porque permanecem na alma E o que está na alma, isso, sim, se eterniza,


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como o próprio espírito “que não envelhece”. Recordar palavras de ternura, que o mar da vida não conseguiu apagar. Vindas do nosso interior, elas permanecem na memória: “O que a memória ama, fica eterno.” Mas recordar tem gosto de saudade. Lembrar o que se foi. Olhar o castelo ainda sem terminar e perceber que não há como retomar sua edificação. Talvez castelos também tenham alma. Talvez à moda do ser humano, em algum outro lugar, haja o espírito das coisas, de momentos que não poderiam jamais se perder no redemoinho do tempo. E, de modo especial e diferente, possa a construção dos nossos castelos, mesmo que em forma de esgarçadas nuvens, retomar sua forma e servir de moradia de sonhos em determinado tempo e espaço considerados, para muitos, impossíveis. Terezinha Hueb de Menezes - Acadêmica, cadeira 27.

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Ubirajara Franco

MÊS DE DEZEMBRO Tu que és o estertor do ano que anoitece os fulgores primeiros do ano que amanhece; etéreo elo do tempo, duas datas entrelaçando, separando... Tu que trazes com a tua morte o alvorecer de nova vida, o renascer de ilusão perdida, PERMITE que em teus dias sacrossantos, a diferir de outros tantos, dias de Papai-Noel, os homens compreendam se exemplo e seu papel. Que haja neste pobre planeta Terra, menos desejo de grandeza, menos terror, menos guerra, mais ingenuidade, mais pureza! Tu que tiveste a graça de Jesus Cristo receber, nascendo numa manjedoura

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para o mundo converter, FAZE que em teus trinta e um dias, os últimos do ano que desaparece, haja, enfim, menos ódio e mais amor, irmanando-nos todos numa prece. Que aqueles que governam o mundo, compreendam que o poder dos mísseis, não consegue, nunca, jamais, impor uma cultura, crucificar ideais... Que em teus dias derradeiros do ano que ora finda, escutando o bater dos sinos, todos nós possam os também orientar nossos destinos pela estrela de Belém. AMÉM! Ubirajara Franco - Acadêmico, cadeira 25

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Vilma Terezinha Cunha Duarte

FAZER AS HONRAS DA CASA

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onho cor e cheiro nas minhas palavras para incensar minha fé de Primavera.

Ajudo a chuva dar banho na natureza, rezando dezenas de louvor à beleza colorida do mundo. Árvores! Abram seus braços à majestosa. Sol! Levante-se dourado e cavalheiro, com raios de apenas acariciar a estação radiosa. Brisa! Fustigue delicadamente, botões meninos nos canteiros, praças, ruas, avenidas... Vento bravo! Poupe copas aneladas, frágeis limites de quem será fruto, mas ainda é flor. Nuvem! Caia de mansinho, como se aspergisse a primavera com bênçãos do céu. Estrelas! Teçam um cortinado de rendas e protejam-na dos elementos raivosos. Lua! Nine as flores em suas cascatas de sossegar a noite, e elas despertarão sorrindo cores. Orvalho! Beije molhado as donas do espetáculo multicor, sem sufocar-lhes a poesia. Arco-íris! Empreste sua caixa de tintas mágicas para maquiar as florzinhas acanhadas. Flores! Caprichem nos tons e texturas das suas roupas de pétalas, e arrasem no dia 21, oficial. Impregnada de cheiro e matizes prima-

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veris, minha pena tece e oferece ramalhetes de ternura. Flores do campo que sobem e descem morros de simplicidade, aos puros e meigos de viver. Orquídeas meninas, moças e adultas aos homens de todas as idades, na sua etapa de existir. Um canteiro inteiro de amor-perfeito para quem planta, cultiva, e nutre os afetos verdadeiros. Camélias brancas tremulando bandeiras de paz, aos difíceis de conceder o perdão. Girassóis aos montes, para chorosos que viram o corpo e alma de costas, à luz do caminho da alegria curadora. Dúzias de rosas encarnadas aos apaixonados que beijam carmim, o cada dia paixão. Braçadas de ipês multicores aos amigos, que florescem cumplicidade em todas as estações. Debruçada na janela, cerro meu ritual de amor à terra desabrochando flor. Em estado de graça vou despejando cestas e cestas... De anis, azálea; açucena; alecrim; alfazema; amarílis; amor-perfeito; anêmona; campânula; ciclâmen; coroa imperial;


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cravos; crisântemos; dálias; dente-de-leão; dormideira; camarão; gardênia, murta; fúcsia; genciana; flor-de-lis; gerânio; gérbera; glicínia, hortênsia, íris, agapanto; begônia; beladona; bogarim; gladíolo; dama-da-noite; jasmim; papoula; lírio; tulipa; gardênia; buganvílias; strelitzia; narciso; magnólia; gloxínia; onzehoras; chuva de ouro; hibiscos; sempre-viva; maria-sem-vergonha; flamboaiã; alamanda; palma; antúrio; brinco-de-princesa...e rosas. Muitas rosas! De todos os perfumes... cores... e pendores! Pra quem quiser catar um pouco de primavera e enfeitar o dia a dia custoso de tentar ser feliz.

Vilma Terezinha Cunha Duarte Acadêmica, cadeira 13.

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Alessandro Abdala Santana

DESEMBOQUE CRÔNICA DE UM SONHO INACABADO

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isitar o Desemboque é dialogar com sua história - ela está viva em cada uma das pedras limosas empilhadas nos muros antigos ou espalhadas pelo terreno árido entre os chapadões do Bugre e do Zagaia. Podemos senti-la nas grupiaras adormecidas ao longo do leito do rio de águas diáfanas, nas ferragens carcomidas que emolduram as lápides de pedra do velho cemitério, na altivez inabalável das igrejas tricentenárias e nos olhares transcendentais de seus minguados moradores que trazem no semblante e no sangue a insígnia dos tempos passados. Há uma atmosfera nostálgica que parece nos dizer: - Eis aqui a história de um povo, escrita com sangue e lágrimas, medida a peso de ouro, às custas de suor, crimes, aventuras e sonhos. Palco de lutas sangrentas entre os bravos índios caiapós, os negros quilombolas e os garimpeiros brancos faiscadores de riquezas, Desemboque surgiu das ruínas do extinto Tabuleiro, povoado fundado nas eras de 1700 nas encostas da Serra da Canastra pelo guardamor Feliciano Cardoso de Camargo. Numa 66

época em que abundavam os quilombos, encontrava-se naquelas imediações, perto de Araxá, às margens do rio Quebra-Anzol o Tengo-Tengo, o segundo maior quilombo do país, aglomerando milhares de escravos fugidios e sedentos por liberdade, liderado pelo negro Ambrósio. O Tengo-Tengo resistiu por muitos anos, até que vieram os sinistros "matadores-denegros" comandados pelo sanguinário Bartolomeu Bueno do Prado, possuidor do troféu monstruoso formado por uma fieira de quase 4.000 orelhas humanas. Atacado pelos índios Caiapós que habitavam as margens do Rio Grande, atirando flechas e ateando fogo por todos os lados o povoado do Tabuleiro foi dizimado, sobrando vivos apenas alguns poucos habitantes, que desceram cerca de três léguas rio abaixo para fundar o Arraial de Nossa Senhora do Desterro das Cabeceiras do Rio das Abelhas, que logo se tornaria vila, sede de julgado, centro político de grande importância para a colonização de toda a mesopotâmia compreendida entres os rios Grande e Araguari onde hoje se situa o


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Triângulo Mineiro. Impulsionado pelo fascínio do ouro, dos aventureiros que chegavam, dos garimpos promissores, Desemboque cresceu rápido, rapidamente suas ruas se enchiam de casas, o comércio firmava-se, um torvelinho de gente de toda espécie arribava vertiginosamente no arraial, atraídos pela faina da riqueza fácil e pelo fascínio de conquistar uma terra completamente selvagem e ainda inexplorada. Alvo de guerras políticas, pertenceu sucessivamente a Minas, São Paulo, Goiás, para somente em 1816 voltar a ser anexado definitivamente ao território mineiro. Criado oficialmente em 02 de março de 1766. O Julgado do Desemboque (local onde havia um juiz e a burocracia administrativa) compreendia todo o Sertão da Farinha Podre, que hoje corresponde ao Triângulo Mineiro e sul de Goiás. Uma vasta região administrada e comandada pela sede no Desemboque, onde era grande o movimento. Segundo fontes documentais, em 1783 contava cerca de seiscentos habitantes; em 1842 seriam 1.300 espalhados por quase cem casas em um arraial que possuía comerciantes, artesãos, boticários, jornaleiros, ferreiros, carpinteiros, tabeliões, oficiais, enfim toda uma sociedade ampla e estruturada vivendo primeiro em função do ouro, mais tarde por conta própria traçando seu próprio destino. Conforme o historiador Antonio Borges Sampaio, de 1743 a 1781 saíram das minas do Desemboque mais de 100 arroubas de ouro. Impossível saber quanto mais seria proveniente do roubo e contrabando. Porém a partir de 1871 o ouro começou a escassear, tornando-se cada vez mais esquivo e fugitivo, conseqüentemente Desemboque perdia seu atrativo, obrigando sua população a procurar novas riquezas, lançando suas sementes nas terras férteis d’oeste. O povo desertava, organizavam-se bandeiras que 67

partiam do Desemboque rumo aos ermos desconhecidos do Sertão da Farinha Podre. Buscando ouro eles encontravam rios, campos, terras fertilíssimas banhadas por águas puras e cristalinas, matas virgens de madeiras exuberantes, lagos piscosos como nunca antes puderam ver... muitos ficavam por estes caminhos, fundando pequenos povoados que viriam a originar cidades como Sacramento e Uberaba. Por todos os sertões acima e abaixo do Rio Grande, espalharam-se os aventureiros, tendo como ponto de referência e apoio o arraial do Desemboque. Povoaram aqueles ermos e mais do que isso, gravaram no caráter dos moradores os fortes traços do costume, das tradições e da cultura mineira. E assim foi se despovoando o Desemboque, os garimpos, exaustos, não alimentavam mais a ambição dos aventureiros, estes, na alucinação das catas, na demência das procuras, na esperança do enriquecimento fácil, não se agarravam a terra, lá se iam para outros sertões, para outras bandas, desbravar outros lugares.... E o Desemboque foi morrendo, agonizando pouco a pouco, quase que imperceptivelmente, de modo que num dia cinzento de um outono qualquer alguém percebeu que não havia mais nada, não mais o brilho áureo do cobiçado metal, não mais a turba aventureira dos primeiros tempos, nem a efervescência irrequieta dos forasteiros, não mais o cartório, nem a cadeia, nem a farmácia, nem os sacerdotes, nem as meretrizes, nem mesmo a rua da Várzea, ladeada pelos casarões centenários, outrora tão movimentada, existia mais. Facilmente o Desemboque passaria por um sonho, uma estória antiga, mal contada, dessas que ninguém acredita, não fosse a presença concreta das duas igrejas com sua brancura amarelecida pelo inexorável passar dos anos, remanescentes


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inabaláveis, solitárias no alto da colina a comprovar o passado fantástico. Hoje Desemboque é apenas um espectro daquilo que fora no passado... reduziu-se a duas igrejas, pouco mais de dez casas, algumas sem nenhum habitante, espalhadas ao longo de uma colina. Vez ou outra aparece algum visitante, com a curiosidade própria dos que reviram a história, resignado a desvendar as pistas do passado fantástico que lhe é proposto, olha admirado a quietude infinita, respira embevecido o ar impregnado de causos passados, pega a pensar n’algum pensamento antigo e percorre os caminhos como quem estivesse regredindo ao princípio dos tempos... Depois, comunga solenemente com seu passado épico e vai-se embora com o desconforto da alma "malentendendo" e com a sensação de ter despertado em meio ao crepúsculo, povoado por fragmentos de um sonho inacabado.

Alessandro Abdala Santana - Sócio Correspondente.

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Ani de Souza Arantes Santos Iná Bittencourt de Souza Barbosa

GÊMEOS, SEMELHANÇA OCULTA

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ascemos no dia 25 de fevereiro, e a exemplo de todos os gêmeos univitelinos, o mistério a que nos aludimos já se achava impresso no dia do nascimento. No caso dos gêmeos, quem é o mais velho? O que nasceu primeiro ou o outro que, segundo autoridades no assunto, foi gerado em primeiro lugar? Muitos cientistas afirmam que entre os gêmeos não existe o mais velho, já que ambos foram concebidos ao mesmo instante. Em casa, pelo que sabemos hoje, a ninguém seria muito difícil perceber que éramos gêmeas afins, ou seja, espíritos simpáticos que se aproximam por identidade de sentimentos e que se sentem felizes por estarem juntos. Quando uma caía doente, a outra adoecia. Quando uma estava triste a outra se entristecia. O idêntico estado de espírito. Araguari, terra de nossa mãe, nos marcou a infância. Mais que isso, nos marcou a vida. Fechando os olhos e lembrando os tempos idos, assaltam-nos as imagens das muitas festas de que participamos: um mundo cristalino , de arte e beleza em nossa imaginação. Numa dessas 69

festas, chama a atenção em particular um momento de grande surpresa. Foi no começo do ano. Estávamos fantasiadas (íamos tomar parte numa “apresentação” em companhia de nossas primas, todas vestidas de odaliscas), quando chegou uma menina, convidada de uma de nossas tias, dizendo que queria dançar, mas que não tinha fantasia: por isso, nos pediram que uma de nós emprestasse a roupa para aquela garotinha que nos dava a honra de sua visita. Por conseguinte, uma de nós acabou não dançando. Uma de nós, como eu disse, pois nem eu nem minha irmã sabemos qual. É como se, naquele momento, nos tivéssemos transformado numa só pessoa, dançando e fazendo de espectadora ao mesmo tempo. Até hoje, ignoramos quem ficou de fora. Sentimos , quando tal fato ocorreu, nosso campo de afinidade se ampliou a tal ponto, que nós duas nos fundimos fluidicamente, e nos tornamos una. A capacidade dos gêmeos afins é tão acentuada, movida pelo elo de ligação que transcende as fronteiras da existência,e faz com que muitas vezes um irmão quase que abdique de sua


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própria vida psíquica, vivendo a vida do outro, vibrando, sentindo, sorrindo, sofrendo e muitas vezes sentindo na totalidade o que o outro está sentindo. Conseguimos viver essa sintonia. Essa força. Conseguimos as ferramentas para fazer o que nunca foi feito antes. Atravessamos a ponte do espírito para a Ciência.

Ani de Souza Arantes Santos Iná Bittencourt de Souza Barbosa - Sócias Correspondentes.

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Arahilda Gomes Alves

DEVANEIOS Nasci em um tempo Em que se sugava o peito materno. O chão era folguedos De mil brinquedos! O berço, o acalanto De risos e cantos, Por todo canto. A rua de pé de moleque Nem sonhava em ter asfalto E nem assaltos! Domingo, vestido novo pra missa De tafetá, cheio de fitas! Almoço de domingueira, Todos em volta da mesa Aguardavam a sobremesa. Era diferente, a escola Sem livros, só cadernos Tudo dentro da sacola. Também, não havia cola! Aprendia-se tudo. Como era bom o estudo! Hora de namorar Não se podia andar só A “vela” era um irmão Vigiando lá do pórtão... Beijos, nem pensar,

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Nem escurinho, nem amassos. Era tudo tão escasso... E quando o relógio tocava As dez badaladas, qual açoite, Hora da despedida A chicotear a partida! Nos livros entremeados Por todo lado Desenhos de corações, Rosa seca, sem perfume Acordando emoções! A vizinha espreitava O namoro lá da janela Talvez, vontade tivesse, Que o namorado fosse dela. Mocinha sonhadora A bordar o enxoval Esperava aquela hora Da marcha nupcial... Ai, se não chegasse Desfazendo toda alegria Se o amor se desmanchasse, Ficava a moça... Titia! Mas, na atualidade Tudo muda e tem seu preço. Costumes, amor, realidade, Trocam e viram do avesso. Só uma coisa persiste nessa jornada caricata: O amigo que muito insiste Em ser fiel na empreitada, Seja alto, magro ou feio Bonito, baixo ou sem jeito; Noite chegante, espreito: Vem macio, bem faceiro, Atrevido devaneio Meu amigo - o travesseiro! Arahilda Gomes Alves - Diretora do Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba 72


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Arahilda Gomes Alves

VILANELLA

1- Ao tentar a Vilanella 2- Forjo o verso em aquarela 3- Deixando a rima amarela 4- Recomeço bem naquela 5- Na Escola verde-amarela 1- Ao tentar a Vilanella 6- É rima brotando bela 7- Crescendo bem perto dela 3- Deixando a rima amarela. 8- E, se logo penso nela 9- Ponho-me assim à janela 1- Ao tentar a Vilanella 10-Mas se versejo com ela 11-Guardo o verso sem querela 1- Ao tentar a Vilanella 3- Deixando a rima amarela OBS: Praticada pelos trovadores de MG. Redondilha maior a)rimas:duas cruzadas b) b)estrofes: tercetos e uma quadra final

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c) c) repetição:1 e 3 versos da 1ª estrofe reaparecem alternados ao fim de cada terceto. d) Na quadra ou estrofe final reaparecem como dois últimos o 1º e o 3º versos do 1º terceto.

Arahilda Gomes Alves - Diretora do Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba

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Carlos Alberto Batista Oliveira

HOJE EU TE ESQUECI “O poeta é um eterno fingidor...” Hoje eu te escrevi, Nas páginas do tempo, No tempo do poeta, Hoje, eu te esqueci... Não mais senti você Não mais procurei seu cheiro. Não, não mais senti seu calor... Hoje acordei dos meus sonhos. Morri ontem. Hoje amanheci mais vivo.... Vivendo sem ilusões, Vivo feliz, mesmo sem você. E mesmo sem você, vejo o brilho do sol... Hoje o sol brilha mais. O azul é mais azul. Conto estrelas, vejo o luar... Mas não estou só. Vivo hoje, uma noite linda... Céu de estrelas, Noite sem suor, Lembranças sem você. Sem cheiros, Sem rosas, Lembranças!... Mas não estou só.

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Me faço de poeta , e com meus versos, Não estou só. Por isso te esqueci Nas paginas do tempo, No tempo do poeta, Assim te escrevi, Sem lembrar de ti, Lembrando Fernando Pessoa, o poeta é .....

Carlos Alberto Batista Oliveira - Advogado e ambientalista

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Carlos Alberto Batista Oliveira

O AZUL DO CÉU SE FOI... Ontem a lua ficou triste O azul do céu se foi... A camélia que eu queria, Só agora a encontrei. Ontem eu via o eclipse Via a lua entristecer Seu perfume eu não sentia, Na camélia eu busquei.... Senti a noite bem mais triste, Sua ausência, eu notei, Noite triste eu vivia, Todo instante lamentei. Lua ao luar, alegra a noite, Seu sorriso, meu coração, De seus olhos, brilha um raio, Acender minha paixão. Sua cor clara, me alegra, Brilha e bate em meu caminho, Chamo, cauto, te procuro, Belo amor aqui seguro.

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União, felicidade, Canto livre sem maldade, Você é o meu caminho, Minha vida de verdade. Ontem a lua ficou triste, Via a lua entristecer, O azul do céu se foi... No eclipse que eu sonhei!...

Carlos Alberto Batista Oliveira - Advogado e ambientalista

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Samir Cecílio

PESCARIA

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á muitos anos, tempo já a calendas gregas e que a memória me não precisa bem, amigo de um de meus treze irmãos convidara-o à pescaria. O local do abarracamento seria ao lado da ponte liame de grandes estados produtores, à época, de leite e café. A viagem não ofereceria nenhum desconforto dada a proximidade da majestosa caudal divisória de dois estados federados do Brasil, Minas e São Paulo, distante apenas a cinco léguas do centro urbano. A estrada já não era mais de chão batido, mas pavimentada a poliedros de basalto, grande progresso e mesmo processo que de há muito se usava em ruas de bairros da cidade, e se conhecia, devido à sua irregularidade, como pé-demoleque. A ponte, uma imponente estrutura de aço, parte é de construção e tecnologia alemã, e parte inglesa; a obra foi iniciada nos anos finais da década de 30 e o advento da Segunda Grande Guerra provocou essa dicotomia; Franca, Inglaterra e Estados Unidos formavam os Aliados e bloquearam o Atlântico aos alemães, e 79

o Brasil, cujo governo tinha simpatia à Alemanha, foi invadido - tropas americanas ocuparam parte de seu nordeste , e aí instalaram bases militares e forçado a entrar no conflito. A Alemanha “virou” nação beligerante inimiga, e as comunidades alemã italiana e nipônica, que não ajudavam a construir uma nação e um país sofreram bastante A habilidade de Vargas ajeitou o status de país ocupado, conseguiu dos americanos a instalação em Volta Redonda de uma usina siderúrgica, fermento da industrialização nacional e de urbanização da população rural. O envio de tropas brasileiras aos campos de batalha na Itália sacrificou a nossa melhor juventude e contemporizou em alguns anos o nosso desenvolvimento industrial. Com o seu perdão, leitor, a essa ligeira digressão, volto ao âmago do assunto: hoje, tempos de um Brasil moderno, a rodovia tem traçado novo, retificado; é pavimentada , a ponte é nova e de concreto armado, mas a velha estrutura de aço lá está, desafia o tempo e presta bons serviços aos ribeirinhos . O cidadão pescador, já o disse técnico em


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máquinas e motores ou melhor, foi, pois a morte o aposentou e apaixonado em pescaria: pegava os seus peixes, ele é que o dizia, a vara, molinete, até no grito. E, como bom pescador, reservava os fins de semana para si, com um ritual sagrado: esquecia-se da oficina, dos fregueses, da cidade e de muita coisa mais... O expediente de sexta-feira ia até as 16 horas, pontualmente; encerrado, pendurava o avental num cabide num cabide atrás da porta, uma pratica de apenas trinta anos, ia ao comercio de artigos para pescaria a ver novidades, “papeava” um pouco e sempre comprava alguns apetrechos, reserva extra em caso de alguma emergência; mais à tardinha, voltava a casa para um bom banho e organizar o jequi, e a matalotagem de qualidade esmerada. Havendo eu ido numa dessas suas pescarias feliz ou infelizmente malograda ficoume uma duvida: seria o cidadão um lídimo pescador ou apenas inconsequente glutão? Quando me referi à matula, fiz menção à qualidade dos alimentos, tudo do bem bom e do melhor; mas no percurso da viagem pude avaliar que a quantidade não ficava aquém daquela; era seguramente alimentos para três dias de acampamento. Incluíram-me de arrastão nessa aventura: era uma manhã de sábado, saí à rua para um pico de sol e prosa com algum vizinho; meu a mano encostou ao meio-fio a sua Bel-air, e simplesmente ordenou: entra; olhei-o, olhei a pessoa que ia atrás e, como se eu fosse uma autômato, sentei-me à boleia. Só quando tomamos a estrada me deram conhecimento do programa. O organizador“promoter”- da pescaria soltou a fala e ligou a moedeira de alimentos: falava, comia e cuspia ao mesmo tempo, a estrada sendo emporcalhada 80

como ossos de frangos, cascas de frutas e as embalagens dos produtos, e o forro dos bancos, minha roupa e minha nuca, de farofa. Com tanta sujeira em cima, eu tinha a impressão (e receio) de que logo seria atacado de formigas, baratas e roedores, se os houvesse o carro. O homem comia desbragadamente, e nos pequenos intervalos, falava do bom tempo, que a pescaria seria ótima, dourado à beça, coisa de nos empanturrar, mas a ele não, que de peixe já andava até aqui ( vi o seu gesto no espelho do para-brisas), que o que queria era mesmo companhia na fugida para refrescar a cuca, e se solitário a barranca, fisga e solta, fisga e solta, é o que mais gosta, dá-lhe prazer e é prática salutar e ecológica Meu mano seguia atento à direção, a feição de mouco, eu, atordoado com a matraca e voracidade do companheiro ( embora só ele comesse do “pão” ), pedia aos santos que os pneus estourassem, o motor fundisse, ou o combustível acabasse; os meus desejos não foram atendidos e chegamos à margem do portentoso rio, sofridos quarenta minutos, minutos tormentosos, de minha vida. O rio e a paisagem deram-me alento, me libertaram do sufoco da viagem e do quotidiano e mesmice da cidade O companheiro encastoou os anzóis ( não o sabíamos fazer ) e mandou nos fisgar lambaris para isca; ele iria, entretanto, organizar as coisas e dar outros “providenciamentos” Depois de longo tempo e quase esturricada a cabeça de tanto “sol-de-fritar-ovos”, conseguimos uma meia dúzia de piabinhas: o homem “providenciador” chega numa canoa, parte ocupada por ele e folhas de bananeira, a livre a ocupamos nós, eu e o mano; logo descobrimos que a voragem era só a dele pescador, os peixes não vinham à isca, estavam fartos,


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“enlocados” , fazendo a sesta. Sob as folhas de bananeira restava ainda uma lata de feijoada de marca Swift; entreolhamo-nos, meu irmão e eu, um olhar de entendimento: voltássemos ao barranco a esquentar a feijoada que a fome era muita e peixe nenhum. Voltamos. O convidador, muito prestimoso, vai ao carro, saca-lhe os coxonilhos, estende-os à sombra de uma figueira: descansássemos da fadiga, pois não éramos afeitos à soalheira, e ele tudo providenciaria, lenha e gravetos secos, o que demandava tempo e paciência. Dormimos um bom tempo. Acordamos com fome exacerbada pelo cheiro da fumaça: a feijoada evaporara, dela só a lata sobrara, que coisa que o amigo não tinha era estômago de ganso. Voltamos à cidade, compartilhamos as despesas, mas não a fome, o cansaço, a desilusão e uma certeza: o rio que passa em nossa casa é bem mais piscoso Nota: os fatos aqui relatados eu os fiz servindome apenas da memória, espero que , se não precisos, sejam autênticos: e , saibam: não sou pescador.

Samir Cecílio - Sócio Correspondente.

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Vicente Rodrigues da Silva Filho

OS EXCLUÍDOS São eles os que se aviam, muito antes que os pardais, que bem mais cedo se aquietam, repousam muito mais e que só despertam cedo, pros ruidosos madrigais! São eles que a madrugada, vetora de medo e de frio, já os encontra na lida, em busca do pão diário e dos sonhos de toda a vida! São eles que adentram a noite, que mesmo cedendo seu manto, tarda em ceder-lhes o sono, porque incômodos leitos, em precários aconchegos, não lhes trazem o acalanto! Às vezes, os lares desfeitos, o descaso, a dor do abandono, privam-nos de qualquer gozo e, mil vezes, o clamor da fome, lacerante como um açoite, não se cala pro repouso! Às vezes vozes dos filhos, entrecortadas de pranto, reclamam a falta do pão,

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que o crônico desemprego e os ignóbeis salários, às vezes os forçam ao não! São eles os desventurados, que sonhando com a utopia, invadem as urbanas “zonas” e preservam, com teimosia, a tênue luz da esperança, acesa no coração!

Vicente Rodrigues da Silva Filho - Sócio Correspondente.

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Alan Damas de Freitas

A ADMINISTRAÇÃO NAS PALAVRAS DE UM SEMEADOR DE SONHOS

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ara o frenético mundo contemporâneo torna-se cada vez mais necessário o comportamento empreendedor. Esse dotado da ação de inovar e dedicar-se a concretização do que se acredita. Percebe-se um cenário dotado de demandas de conhecimento com um inusitado tempero de bom senso, recheado de planejamento, organização, controle e liderança. E, para esse fim, eis que surge uma das mais novas ciências fundamentada em um conjunto de normas e funções elaboradas para disciplinar elementos de produção, a princípio, até tornarse um complexo de conteúdos que se estendem das relações humanas ao gerenciamento da própria realização pessoal – a ADMINISTRAÇÃO. Desde sua fundamentação com Taylor, um engenheiro, até as mais recentes abordagens feitas por Idalberto Chiavenato ela se mostra talvez não uma ciência mas uma arte insigne, permitindo desde a mensuração do tempo nas tarefas industriais até a interação dos indivíduos nos espaços em que, na atualidade, passam a maior parte do tempo: as organizações. A conjuntura econômica, social e política clama por administradores – pessoas capazes de gerir as próprias vidas e liderar conjuntos, equipes, empresas e até mesmo governos. Indivíduos 84

com fundamentação para angariar recursos, multiplicá-los e redistribuí-los. Seria interessante, como em algumas escolas, se fosse introduzido nos cursos de ensino fundamental e médio noções de administração ou pelo menos gestão pessoal. Dessa forma, possibilitaria arquitetar um novo esteriótipo de cultura voltada para a organização e para o planejamento, visto que no Brasil, por exemplo, dispõe-se de pessoas trabalhadoras, criadoras e dedicadas, embora muitas vezes desprovidas de técnicas para guiá-las em suas empreitadas. Tal medida poderia contribuir para a mudança de uma estatística que comprova que 27% das empresas fecha no primeiro ano de existência. Portanto, citando Erlandson F. A. Andrade, “Ser competente é acertar um alvo que ninguém acertou, ser administrador é acertar um alvo que ninguém viu.”, pode-se engendrar um processo de orientação aos novos integrantes do tecido social que contribuirão para o vislumbrar de novos horizontes, fazer descobertas e acelerar o desenvolvimento da humanidade. Alan Damas de Freitas - Aluno do 4º período de Administração da FCETM


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Ana Caroline Leal

AMOR DE ALMA

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ra uma vez uma princesa que diferente de todas as outras não morava em um castelo, não era coberta de ouro e prata, nem era filha de um rei rico e poderoso. Ela morava em um castelo de classe média, trabalhava para conseguir sua prata e seu ouro, e seus pais vinham de família humilde e eram trabalhadores como quaisquer outros. Mas uma coisa essa princesa tinha exatamente igual às outras princesas, a vontade incessante de encontrar o amor verdadeiro. Já havia tentado várias vezes, com vários príncipes, mas seu coração continuava vazio, nunca batera mais forte por nenhum deles, nunca sentira as mãos suarem, nem o coração acelerar, nunca tivera devaneios calorosos, nem suspiros longos ao entardecer. Um dia a princesa cansada de buscar o amor verdadeiro e não ter êxito em suas tentativas e vendo que o tempo para ela já passava rápido, que os anos chegavam como uma forte ventania, resolveu que seria mãe, que experimentaria o amor puro que há: de uma mãe pode dar a um filho e este a ela. Organizou-se e colocou seu plano em prática, não demorou 85

muito para que sua vontade fosse satisfeita estava grávida. O tempo passou rápido e o principezinho veio ao mundo saudável e lindo. A princesa resolvera ao engravidar que não mais iria à procura do amor verdadeiro, que iria viver para seu filho e que abdicaria de qualquer outra coisa. Passados dois anos, a princesa resolveu voltar a estudar. Entrou para a faculdade e se concentrou em formar e dar uma vida de mais qualidade para o filho que sonhara tanto. Mas o inesperado estava por vir. Nos primeiros dias de aula, a princesa se sentiu desanimada, deslocada, mas a vontade de mudar de vida e dar um futuro brilhante para seu filho era maior, e então ela insistiu, continuou a frequentar as aulas e a se dedicar aos estudos. Tinha apenas uma amiga na sala, com a qual falava quando estava triste ou angustiada, e que sempre estendia a mão para a princesa quando ela precisava de uma palavra de conforto. Não se relacionava com mais ninguém, talvez por medo de se envolver e sentir vontade de amar novamente.


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Os dias passavam e a princesa continuava ali, num canto, com sua fiel amiga, até que numa noite dessas de estudo incessante, resolveu olhar para o outro lado da sala, esperando não encontrar nada além das janelas marrons e da parede desbotada, foi então que contemplou a visão mais linda e singela de sua vida após o nascimento do principezinho. O que via chamou sua atenção de tal forma que não conseguiu tirar os olhos por um tempo que não soube bem dizer qual foi, eram olhos tão verdes combinados com uma pele morena, que faziam o contraste perfeito, dignos de tirar qualquer atenção, a princesa ficou tonta diante de tanta beleza, quem seria? será que já havia prestado atenção nela alguma vez? qual seria seu nome? onde morava aquela criatura de contos de fadas que parecia saída de uma floresta encantada ?! Mal sabia que encantada já estava a princesa! O que se seguiu foram planos e mais planos na cabeça da princesa para se aproximar de sua paixão, ainda platônica, visto que nada havia feito para concretizar aquela aproximação. Junto aos planos também teimavam em aparecer as dúvidas: será que devo? E se eu não for correspondida? E se sofrer novamente? E se me decepcionar novamente? A princesa não tinha certeza se aguentaria outra decepção, mas a vontade de se aproximar de sua criatura encantada era maior e mais forte, tão forte que na primeira oportunidade, em uma aula em que deveriam formar grupos de estudo, deu logo um jeito de convidar a razão de seus sonhos para se juntar ao grupo. A princípio ficou um pouco arredia, mas tentou falar o mais que podia. Quando o horário do intervalo chegou e a aula já havia terminado, a princesa que já estava começando a se desesperar com a idéia de se afastar de sua alegria, logo deu um jeito de convidar para um 86

lanche sua criatura amada. Lá chegando foi tudo lindo! Conversaram, riram, brincaram e, então, não se separaram mais. Encontravam-se todos os dias e conversaram muito, era impossível não sentir falta quando estavam distantes e a saudade era cada dia mais constante, a princesa sem perceber já estava apaixonada e, para sua alegria, era recíproco. Durante as longas conversas, a princesa descobriu que seu amor também havia sofrido, se decepcionado e que também procurava o amor verdadeiro e eterno. Um dia sem perceber, as conversas de amizade passaram a ter outro sentido e o que a princesa mais esperava aconteceu: UM BEIJO. Um beijo que a deixou sem fala, que fez seu coração parar, fez sua barriga gelar e sua cabeça rodar, suas mãos esfriaram e seu corpo, mesmo trêmulo, respondeu em segundos, suas bocas que haviam acabado de se encontrar, não conseguiram separar-se mais. A verdade era inevitável: a princesa havia, com certeza, encontrado o amor verdadeiro, um pedaço de sua alma, que havia se perdido há anos, talvez há séculos, e essas almas estavam sentindo tanta falta uma da outra que não mais se separariam, enquanto vida tivessem, enquanto o sol brilhasse, enquanto houvesse água no mar ou estrelas no universo. Mas, como nem tudo na vida são flores, o amor da princesa era impedido por apenas um motivo, que para todos era um problema, mas para a princesa e seu amor verdadeiro, um simples detalhe. Havia a princesa sonhadora se apaixonado por outra princesa, o amor mais intenso de todo o mundo enfrentaria barreiras apenas por ser vivido por duas pessoas do mesmo sexo, mas que se amavam verdadeiramente.


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Seriam as duas princesas capazes de enfrentar um reino inteiro para que esse amor se consolidasse e continuasse a crescer? Elas enfrentariam não só o reino em que viviam, mas o mundo inteiro para viverem esse amor, para construírem sua família e final feliz, pois o amor tudo vence! Essa é a história de duas princesas que até hoje lutam incessantemente, que enfrentam dragões e castelos mal-assombrados com fantasmas de cara feia e monstros enormes e impiedosos, mas que nunca se cansam ou pensam em desistir. É preciso sempre levar em conta o amor, porque ele faz dragões virarem cordeiros e fantasmas pavorosos encontrarem a luz, faz o mundo ter cor e suavidade de um anjo, toca corações endurecidos todos os dias. O seu já foi tocado hoje? Ana Caroline Leal - Aluna do 2º período de Ciências Contábeis da FCETM

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Gilson Luiz Crispim

SONHO, A ODISSEIA DA VIDA

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as mais variadas formas, dentro dos diversos contextos, os sonhos são e sempre serão a mais sublime expressão dos inúmeros e contraditórios anseios da mente humana. Aquele que traduz em imagens as mais íntimas expressões do ser humano e possibilita as mais longas viagens no espaço e no tempo. Desde a ingênua infância, o ser humano, repleto de emoções, visualiza e constrói inspirados sonhos. Estes são inerentes a cada fase da vida humana, tendo início com os sonhos infantis de se tornar super-heróis, passando pelos complexos e rebeldes sonhos juvenis e chegando aos sonhos mais concretos da maturidade típica dos adultos. A, quase sempre difícil, realidade não permite que se descuide da necessária e constante atenção às questões e problemas diários, partes integrantes da vida de qualquer pessoa. Porém, é também necessário que se tenha uma fuga, mesmo que temporária, e isso os sonhos proporcionam, pois, como disse Mário Quintana, “uma vida não basta ser apenas vivida: também precisa ser sonhada”. Este aspecto utópico, surreal dos sonhos, bastante 88

significativo nas artes, proporciona às pessoas mais leveza e inspiração e menos sisudez. Assim, o que não é possível na realidade, alimenta-se e vive-se em sonhos, como se numa realidade paralela. Outro aspecto importante é ter sonhos fundamentados, embasados em um propósito, que com luta e persistência se consiga atingir ao objetivo. Sonhos que representam ideais. Martin Luther King simbolizou bem isto, em uma célebre frase: “Eu tenho um sonho de que no futuro, as crianças de nosso país, serão julgadas não pela cor de sua pele, mas pelo valor de seu caráter.” Martin foi o maior militante em prol dos direitos dos negros nos Estados Unidos, até ser assassinado em 1968. Então, mesmo nas maiores adversidades, os sonhos se sobressaem como o sopro de esperança, como a luz que dissipa as trevas e há algumas pessoas que têm o poder de personificar o sonho de milhares de outros. Que o diga Barack Obama! Gilson Luiz Crispim - Aluno do 3º período de Administração da FCETM


Convergência - nº 20 - dezembro 2009 - Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Lucas Amoni Leite Lemos

CRIATIVIDADE E IMAGINAÇÃO

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criatividade, a imaginação, a capacidade de criar e inovar em toda história se mostrou muito importante e habilidade diferencial de pessoas de sucesso em qualquer área ou profissão. Não basta ter um ótimo raciocínio lógico, ter um bom domínio de linguagem ou uma boa comunicação apenas, o que vai levar um profissional a se diferenciar e alcançar grandes realizações é a criatividade. Nota-se que a criatividade, nas pessoas e nas realizações, é mais forte na cultura, como na música, arte, filmes, livros de histórias e até mesmo nos esportes. Observa-se que o artista ou atleta mais criativo se destaca dos demais, não basta apenas treinar horas ou uma vida inteira dedicada a uma determinada atividade, o que vai separar os melhores nem sempre é grau de esforço, mas sim a sua contribuição com a inovação, com o novo, preferencialmente sendo o pioneiro e isso exige criatividade e imaginação. Constata-se que o acesso ao conhecimento deixou de ser elitizado para uma acessibilidade de uma grande massa de pessoas, e esse fenômeno é cada vez maior com a contribuição da informática e dos meios de comunicação, como a internet. Além disto, a facilidade de acesso ao 89

ensino escolar superior está cada vez mais amplo. Assim, é muito prático qualquer pessoa aprender ou desenvolver qualquer conhecimento, desde que tenha vontade para tal. Mas o que vai alavancar essa pessoa profissionalmente? O que vai fazer com que se destaque? A chave para essas respostas está na criatividade. De acordo com Albert Einstein, “A imaginação é mais importante que a inteligência”, e tem tudo a ver com criatividade, pois quando levamos nosso pensamento mais longe, geramos oportunidades para ideias criativas e inovadoras, às vezes até ousadas. É preciso ousadia para ser criativo, pois isso pede coragem. A coragem tem estímulos, forças ou motivos que vão levar a pessoa a ser ousada e, sendo assim, abre espaço para a criatividade, por meio da imaginação, porque ideias não têm data e hora para surgirem, não têm lugar, nem momento, pegam as pessoas de surpresa, exigindo atenção para assimilá-la e concretizála. Inteligência é necessário ao assimilar e concretizar ideias, toda nossa cultura, informação e conhecimento agem em nossa imaginação, mas criatividade não escolhe grau de escolarida-


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de ou cargo numa empresa, bons projetos podem vir de qualquer pessoa. Isso é mais um motivo para líderes e gestores ouvirem os colaboradores. Infelizmente pessoas quando adultas não dão a devida importância a desenhos animados, a revistas em quadrinhos ou a determinados jogos eletrônicos, coisas que fazem parte do cotidiano de crianças e adolescentes. Entretanto, pode-se observar que todo tipo de ficção, como leituras, filmes, revistas, o bate-papo entre amigos, são fatores que à medida que a responsabilidade aumenta e a vida se torna mais agitada afetando nossa capacidade de criar, de enxergar diferente, de ser criativo. É preciso estar aberto ao novo, à mudança, apto a ouvir, a aprender, é preciso curiosidade, ir a fundo, buscar o conhecimento, experimentar, testar, muitas vezes tentar e insistir, e nisso temos muito que aprender com as crianças. Outro lado importante das crianças é sua percepção que está em franco desenvolvimento, e nem o medo nem a diferenciação do certo e errado as impedem de experimentar algo novo e exercer a criatividade. Quando adultos, criamos paradigmas que normalmente “ditam” até onde ir e, muitas vezes, para ser criativo é preciso quebrar regras ou romper paradigmas. As pessoas normalmente buscam informações em cursos e palestras ou se inspirando em exemplos, sejam biografias ou estudos de caso. Ao sermos guiados por modelos, podemos ser induzidos a pensar como quem transmite a ideia pensa. Para tanto, isso requer maturidade intelectual e senso crítico para usar esses conhecimentos de forma criativa para não ser meros copiadores e seguidores de modelos. Para empreendedores a criatividade é um forte aliado, pois quem tem além de uma visão empreendedora, age com criatividade e 90

vai ao encontro das necessidades dos consumidores, é sucesso praticamente garantido. O que o mercado quer são soluções inovadoras além de eficazes. Para executivos, ideias criativas podem valer muito mais que diplomas ao concorrer promoções a altos cargos em uma empresa. Assim, exercitar o hábito da leitura, trocar de informações, ser curioso, buscar conhecimentos, não apenas no aspecto profissional, procurar não se prender a paradigmas, estar aberto a mudanças e diferenças – apenas dessa forma, será possível aumentar a percepção de mundo, melhorar a imaginação e, consequentemente, agir de forma mais criativa em prol do próprio sucesso e felicidade. Lucas Amoni Leite Lemos - Aluno do 5º período de Administração da FCETM


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Sidney Pimenta Alvim

ECOA NO UNIVERSO Senhores, apertem os cintos.... Alguém já disse que “o que fazemos em vida ecoa no universo” E eu, sem muitas pretensões, acrescento: “O que ecoa no universo transcende a alma”!!! A alma é assim: É leve, é livre, é solta... É você, sem te ver, Mas se te vires, não será alma!!!! Como disse Platão, “A alma é o movimento que é capaz De mover-se a si mesmo”. A alma do mundo é imortal!!! O homem é composto “de um corpo e de uma alma”, Mas “como não é nem o corpo nem o composto dos dois que é o homem”, Conclui-se que o homem não é nada, ou então, Se ele é alguma coisa, não é nada mais que uma alma!!!!! “A tua pessoa é tua alma”? Um projeto para a cabeça, 91


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Um regime para o organismo E um encantamento para a alma!!! Não é simplesmente “sensível” Porque ela transfigura e unifica. Ela acolhe o inteligível, Mas não está no nível das idéias transcendentes!!! Se for assim, então sorria, Porque “a tua pessoa é a tua alma” E, se tua alma é boa, No universo só poderá ecoar o bem!!!!! Sidney Pimenta Alvim -Professor da FCETM

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Sidney Pimenta Alvim

EXPLICANDO O ABRAÇO Ah!....o abraço. Um dia eu ainda quero escrever sobre o abraço. Quero falar desse gesto magnífico inventado pela natureza E do qual o homem se apropriou. Tem abraço de todo tipo E eu vou querer falar de cada um deles. Tem abraço que é uma comédia E tem abraço que é puro pecado. Tem abraço de gente, Tem abraço de bicho, Tem abraço de confissão, Tem abraço que é pura traição. Ah!...o abraço da natureza: Que coisa mais linda!!! A flor abraçar o espinho, O sol abraçar a lua, o dia abraçar a noite!!!... Tem abraço da noite, da lua cheia... Tem abraço da chuva, da grama molhada...

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Tem abraço escondido, Tem abraço roubado.... Tem abraço que é um vício, Tem outros de desespero. Tem abraço que é uma súplica, Um pedido de ajuda do corpo inteiro... Tem abraço de edredom; Tem abraço de chuveiro, de cabelo molhado; Tem abraço de sofá, Com cheirinho de Calvin Klain. Um jeito bom de viver a vida É viver abraçado à alma, Ter por vício uma paixão E fazer do coração o travesseiro!!! Sidney Pimenta Alvim -Professor da FCETM

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Convergencia 1  

Revista Convergencia 1

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