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Copyright © 2009 by Ildemar Nunes de Medeiros Revisão: Cristiane Marinho da Costa Projeto Gráfico: Feliciano de Medeiros Barbosa Neto Capa: Feliciano de Medeiros Barbosa Neto 1ª edição: novembro de 2009

Proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por quaisquer meios, sem permissão por escrito do autor, a não ser em citações breves e com indicação de fonte. O conteúdo desta obra é de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representa necessariamente a opinião da Missão JUVEP nem de seus membros.

Medeiros, Ildemar Nunes de. Água e Luz: os grandes desafios missionários no Nordeste. João Pessoa, 2009, 110 p.

Para fazer seu pedido escreva para: ildemarnm@gmail.com


Dedico de coração este livro a todos os queridos irmãos e irmãs que nesses vinte anos de ministério missionário tem apoiado de maneira incansável a mim e minha família. Almeida e Mirtes, Ana Lúcia, Denise e Alexandre, Gicélia, Hélio, Janice, Lúcio e Sônia, Maria dos Remédios e Maurilo, Rhode e Josué, Robson e Lucinha, dentre muitos outros. Certamente sem a cooperação deles jamais teria chegado até aqui.


Sou eternamente grato a Deus: Pelas vidas de Bernard Johnson e David Harrison, evangelistas americanos, através dos quais ouvi pela primeira vez o Evangelho e aceitei a Cristo Jesus como Senhor e Salvador; Pela minha querida esposa Ana Lurdes, meus filhos Ana Carolina e Matheus Henrique, meu genro Neto; Pela minha irmã Cacilda (Mainha) e seu esposo, Fernando, meus pais Deolindo (in memorian) e Juliêta; Pela Missão JUVEP a qual com seu ardor em servir a Deus e seu ministério em alcançar o Nordeste brasileiro me inspirou neste livro e continua me inspirando ministerialmente.


SUMÁRIO

Introdução

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Capítulo 1

19

Capítulo 2

41

Capítulo 3

51

Capítulo 4

63

Capítulo 5

91

Capítulo 6

107

Capítulo 7

113

Conclusão

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Bibliografia

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Coração Nordestino Autor: Bartolomeu Lopes Nascimento 1 Num ritmo tipicamente regional a canção Coração Nordestino é uma expressão viva intensamente espiritual que em forma de súplica apresenta diante de Deus as necessidades mais profundas do Nordeste e do nordestino. Meu Jesus liberte o coração do nordestino Do homem, do menino que nasceu aqui Vem, Jesus, transforme, mude a sua história Faz ele feliz O menino que brinca de baleadeira, As mulheres rendeiras lá do Ceará, O homem boiadeiro toca o seu berrante para não chorar A seca castiga e o gado morre E o rio que corre é dos olhos seus Meu Nordeste carente, povo tão valente Deus ama você! Ceará, Alagoas, Paraíba, Sergipe Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, - Êta terra linda! Meu Jesus morreu também pelo Nordeste, Pelo cabra da peste, pelo sanfoneiro, Pelo homem sem escola, homem sem história, pelo violeiro. Meu Nordeste querido, todos que me escutam Do sertão à cidade Jesus Cristo deseja encher sua vida de felicidade Meu Jesus morreu também pelo Nordeste, Pelo cabra da peste, pelo sanfoneiro, Pelo homem sem escola, homem sem história, pelo violeiro. Pastor congregacional, bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico da Missão JUVEP, em João Pessoa/PB. 1


PREFÁCIO

Não é fácil traçar uma linha equilibrada entre o social e o espiritual no

meio das discussões sobre o assunto nos dias de hoje. De um lado há muitas igrejas e organizações evangélicas enfatizando o social e criticando quem não tem isso como foco do seu trabalho. É até necessário incluir projetos sociais em avanços missionários para poder adquirir participação e apoio financeiro ou logístico. Os missionários do passado são criticados severamente como pessoas que somente se importavam com a alma, e não com o bem estar social (temos que cuidar para discernir um pouco a influência marxista nesta acusação), apesar de uma abundância de hospitais, clínicas, escolas, melhorias sociais, alfabetização e traduções da Bíblia para várias línguas como resultado de missões desde o envio de William Carey no final do Século XVIII.

Além disso, não vejo as igrejas só pregando salvação da alma, como são as

acusações, mas sim, pregando mais a satisfação pessoal através de Jesus. Há pouco arrependimento (essencial para a salvação) ou confronto com o pecado (que resolveria uma boa parte dos problemas sociais). Discipulado está fora de possibilidade para muitos, portanto temos pessoas sem compromisso com Deus, com a Palavra, com o outro e com a missão da Igreja! Nos dias de hoje a dicotomia está para o lado do bem estar social e psicológico, não no quebrantamento, fé e compromisso. Missão integral tem que ser integral mesmo, não deixando algo fora.

Por isso o livro Água e Luz, os grandes desafios missionários no Nordeste,


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é importante. Em uma tentativa de abordar todas as necessidades, Pr. Ildemar nos desafia com estatísticas valiosas, exemplos bíblicos bem explicados e um conhecimento da realidade do Nordeste bem traçado. Qual é o papel da igreja brasileira frente estes desafios? Qual o papel dos missionários que trabalham no Nordeste? Qual o modelo de treinamento e formação adequados para eles? Qual o perfil do missionário frente à sociedade nordestina? Que diferenças fazem? Temos que nos perguntar: qual é o equilíbrio bíblico para seguirmos? Jesus falou sobre “o Evangelho do Reino”– não são duas coisas separadas, mas um todo. Em toda história bíblica até o presente momento podemos verificar as diferenças que o Evangelho da salvação em Jesus faz para toda sociedade. Escravos eram elevados como iguais aos seus senhores; mulheres eram valorizadas e podiam exercer seus ministérios e viver suas vidas com dignidade; pessoas eram libertas dos poderes demoníacos e de vícios; as igrejas se tornaram lugares de refúgio, ajuda mútua e amor. O Evangelho levou a mudança de leis na Índia: a proibição da queimação de viúvas, do uso sexual de crianças e da morte de defeituosos, crianças e velhos. A amarração dos pés das meninas foi abolida na China, como foi a escravidão na África. Grandes organizações de ação social foram criadas por evengélicos como Visão Mundial, Samaritan’s Purse e Tear Fund. Estes são alguns exemplos daquilo que conhecemos, fora da multidão de exemplos desconhecidos. Os verdadeiros discípulos de Jesus, pessoas em que Ele reinava, venceram estes desafios do passado, e continuam trabalhando hoje. O reino de Jesus existe aonde Ele chegar, não sem Ele. As pessoas precisam conhecê-lO, aceitar Seu perdão, transformação e autoridade. O amor por Ele é expresso nos atos concretos de obediência à Sua vontade e serviço aos outros.

O Nordeste precisa de um novo Rei! É Ele que vai fazer a diferença através dos Seus servos aonde trabalham. Podemos confiar que foi por isso que Ele foi dado à Igreja e assim será glorificado o Seu nome em toda terra (Ef. 1.22-23 e 3.20-21).

Profa. Dra. Barbara Helen Burns 22/09/2009


INTRODUÇÃO

O treinamento de pessoas cristãs, como missionárias, para irem a todo e

qualquer lugar ultrapassando barreiras geográficas, culturais, econômicas, sociais, políticas, espirituais, vem ocorrendo desde que o Senhor Jesus escolheu para estar com Ele doze homens, aos quais chamou-os de apóstolos. Sua ordem e objetivo são claramente definidos nos quatro Evangelhos, e dentre esses, o de Mateus, capítulo 28, versículo 19, “Indo, portanto, fazei discípulos de todas as nações”. O Senhor Jesus dedicou três anos de sua vida na preparação e formação desses homens e hoje podemos ver quão excelente foi o seu trabalho, pois cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo inteiro declaram-se cristãs, ou seja, 33% da população mundial. Embora hoje os discípulos do Senhor Jesus em termos quantitativos sejam inúmeros, espalhados por todas as regiões do mundo, percebe-se claramente que ainda há outro número igualmente fantástico de pessoas que não se converteram ainda, constituindo-O como Salvador e Senhor de suas vidas, ou por decisão pessoal ou porque ainda não ouviram falar dÊle. E neste aspecto o Brasil representa um grande paradoxo quando é considerado em relação ao mundo o terceiro maior


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país evangélico, e o que possui a maior igreja evangélica pentecostal, mas, mesmo assim, em seu próprio território ainda há povos e lugares não-alcançados, sem a presença de igrejas ou até mesmo de pessoas evangélicas, como é o caso do Nordeste brasileiro. É o Nordeste brasileiro e o homem nordestino com suas próprias condições que gritam o “clamor das pedras” (Lc. 19.40) por uma atuação mais integral e relevante da Igreja evangélica. Isto, na realidade, significa “conhecer e assumir o Nordeste e o homem nordestino em sua riqueza cultural e em sua realidade estrutural de desigualdade, pecado e sofrimento, como objeto do amor de Deus e como alvo do amor da Igreja” (MONTEIRO,1987, p.1)2. Conhecer o Nordeste e o homem nordestino conota experiência, em lugar de contemplação e êxtase; envolve relacionamento, intimidade, comunhão, preocupação, que desembocam em resposta, em missão. Este conhecimento, quando verdadeiro, naturalmente levará a Igreja ao conhecimento da sua missão e ao real significado dela. Deus espera, então, que com esse conhecimento a Igreja assuma tudo que é nordestino, tome para si a responsabilidade de fazê-lo diferente do que é hoje, à semelhança do que Ele mesmo fez em relação ao mundo, amando-o: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pareça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3.16). Assumir significa a Igreja aceitar e exercer de maneira plena e integral a missão para a qual foi chamada por Deus. Religiosidade, divisionismo, isolamento geográfico, pobreza, analfabetismo, são marcas negativas distintivas na vida do Nordeste e do seu povo, porém, o que mais os oprimem é a Igreja não ouvir o seu clamor e não clamar em seu favor diante de Deus e dos homens.

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Liderança Cristã nº 01, dezembro, 1987.


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É diante deste contexto histórico, social, cultural e acima de tudo, espiritual, que apresento os desafios acima citados e proponho um modelo de treinamento, de formação e atuação de pessoas como missionárias para o Nordeste brasileiro, especialmente, para o sertão.


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A Religiosidade Nordestina


1 A RELIGIOSIDADE NORDESTINA

O Catolicismo Romano – berço da religiosidade nordestina

Observando o Censo 2000 constata-se que 73,8% da população brasileira (mais de 130 milhões de brasileiros) se declarou católica e a distribuição religiosa nos estados brasileiros aponta a maior presença dos católicos na região Nordeste: Piauí com 91,3%, Ceará com 84,9%, Paraíba com 94,2% e Maranhão com 83%. A maior presença católica no Nordeste está ligada a uma dinâmica religiosa do catolicismo tradicional de cunho popular, como devoções a Padre Cícero, Frei Damião, dentre outras dezenas de santos.

Conforme o Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais no Brasil: É exatamente no interior nordestino que a influência da religião católica permanece mais viva, como no sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, onde se observam as mais fortes porcentagens de habitantes que se declaram católicos: 94% na microrregião de Brejo Santo (Ceará), 96% em Barro (Ceará), 93% em Pio IX (Piauí) e 94% em Salgueiro (Pernambuco) (JACOB, 2003, p. 15).


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Mesmo dentro desse contexto católico, o nordestino apresenta-se sem hábitos religiosos regulares, pois suas crendices, superstições e rituais são inventados espontaneamente. É místico, de uma religiosidade popular bem marcante, com devoções a santos, expressas em festas cíclicas, sendo tremendamente aberto ao sagrado, mas de uma religiosidade ambígua em relação à evangelização, que nas palavras de Robinson Cavalcanti (1997, p. 18)3, “os nomes, os fatos e os símbolos do cristianismo lhe são familiares, e até estimados, por outro lado, as deformações doutrinárias e as superstições em torno desses símbolos terminam por se constituir em obstáculo ao conhecimento libertador de seu verdadeiro sentido”. Segundo o sociólogo Cândido Camargo (1973, p. 33), existe uma profunda identificação entre o catolicismo e a sociedade rural brasileira, “na medida em que a religião prescreve e legitima valores, normas e papéis sociais”. Este sociólogo também menciona que o catolicismo é o único centro normativo de referência para a conduta individual e coletiva. Isto significa que o catolicismo é uma força estruturadora da cosmovisão rural, o que é compreensível se olharmos para o processo histórico de formação da sociedade brasileira. Apesar de tudo isso, a religiosidade nordestina, especialmente a do sertão, não tem nada que lembre o Cristianismo nem mesmo o catolicismo na sua forma tradicional, ortodoxa. É uma religiosidade fruto de uma religião popular, de massa. São raras as cidades do interior nordestino em que no seu centro não se encontre uma igreja católica grande, vultosa, com altos pináculos, representando não apenas o poderio religioso, mas também social e político da Igreja, exercido através da e na pessoa do padre. Este, na maioria das vezes, se constitui num ferrenho opositor dos protestantes criando obstáculos, dificuldades, até mesmo

Revista Ultimato nº 248, setembro, 1997.

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encabeçando perseguição à pessoa do missionário, do pastor, induzindo o povo a não entrar em contato com aqueles que se convertem e até mesmo, de maneira nenhuma recebê-los em sua casa. Contudo, por que a Igreja Católica Romana se opõe ao trabalho dos missionários evangélicos? Primeiramente por razões históricas. A igreja evangélica, inicialmente denominada protestante, é fruto da Reforma que teve como seu principal precursor o monge católico romano Martinho Lutero, no século XVI. Em segundo lugar, como bem afirmou Michael Green sobre um dos motivos dos judeus perseguirem os cristãos, “o evangelho cristão são boas notícias sobre um judeu. Foi pregado por judeus para judeus, no começo” (GREEN, 1984, p. 94). Assim também o Evangelho pregado para os católicos romanos é pregado, normalmente, por um ex-católico romano agora evangélico, protestante. Terceiro, porque os evangélicos através do ensino correto das Sagradas Escrituras continuam, de alguma maneira, protestando, confrontando, as doutrinas católicas romanas, como a idolatria, a mariolatria, a infalibilidade do Papa, orações aos e pelos mortos, dentre muitas outras. Quarto, mas os católicos não são cristãos como os evangélicos? Não deveriam os evangélicos concentrar os esforços evangelísticos e missionários na evangelização dos muçulmanos, hindus e budistas ao invés dos católicos? Quem pode responder positivamente a estas perguntas são aqueles que defendem o ecumenismo, demonstrando não conhecer nem as Escrituras nem o próprio catolicismo; aqueles, porém, que conhecem de perto o catolicismo, principalmente o nordestino, popular, de massa, sabe que este, de cristianismo não possui nada, pelo contrário, pelas suas práticas revela um paganismo animista, totêmico, esotérico, espírita. Daí, como quaisquer outras pessoas de religiões nãocristãs, eles se encontram perdidos necessitando ouvir urgentemente a mensagem salvadora do Evangelho: “Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo. 8.31-32).


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Os missionários devem ser preparados historicamente

Os missionários para o Nordeste devem ser preparados historicamente a fim de que possam compreender: (1) quem são aqueles que poderão se opor ao seu trabalho; (2) quem são aquelas pessoas às quais deseja proclamar o Evangelho; (3) os missionários devem ver a si mesmos como parte dessa história do Nordeste e do homem nordestino, como promotores e coadjuvantes no processo de formação de uma nova realidade brasileira, agentes de transformação. Vejamos alguns aspectos destes pontos: 1- É preciso, então, que os missionários enviados ao Nordeste brasileiro conheçam profundamente o catolicismo rural, e saibam desenvolver uma política de boa vizinhança com líderes católicos, baseada na ética e na conduta bíblica, amando e orando por aqueles que se opõem à pregação do Evangelho, “na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do Diabo, tendo sido feito cativos por ele para cumprirem a sua vontade” (II Tm. 2.2426). 2- A pregação do Evangelho para ser relevante deve começar por onde os ouvintes se encontram. O apóstolo Paulo ao pregar para os atenienses (At. 17.1631) fez toda exposição das boas novas a partir da realidade histórica, cultural e religiosa deles. Paulo começou seu discurso de forma proativa, a princípio sem condenar ou elogiar os atenienses por serem acentuadamente religiosos, a fim de atrair a atenção deles demonstrando que os conhecia bem (verso 22). Como prova evidente disso ainda afirmou, “porque passando e observando os objetos de vosso culto”, ou seja, Paulo diz aos atenienses o quanto a religiosidade deles lhe chamara a atenção e ele se detivera para examiná-la mais detalhadamente. Assim, deixa claro para os seus ouvintes que não era um mero visitante de Atenas, mas que estava profundamente interessando nela. Outra evidência deste interesse é quando ele também afirma que um destes objetos de culto ocupara de forma especial a sua atenção: Um altar, dentre


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os vários pelos quais passara e vira com a inscrição ao deus desconhecido. Mais uma vez de forma sábia, proativa e com boa disposição, ele lança mão deste altar, objeto de culto, e usa-o como meio para fazer a proclamação do Deus Desconhecido. Certamente Paulo evitou o sincretismo e fez a distinção entre o deus desconhecido e o Deus Verdadeiro. Este comportamento de Paulo apresenta lições preciosas na evangelização do nordestino. Precisamos entender as raízes históricas da sua religiosidade, dos seus objetos de culto como estátuas, quadros de paredes, terços, da sua devoção, do seu apego aos santos, das suas tradições, da realização periódica de novenas, procissões, romarias, e muitos outros rituais. Recentemente estive na cidade de Juazeiro do Norte, Ceará, exatamente na semana da romaria ao Padre Cícero, e ali pude conviver com os romeiros, indo a todos os lugares de cultos, sentindo e observando de perto o fervor espiritual que envolve toda a cidade. Tive inúmeras impressões, sensações, e sentimentos conflitantes, que eclodiram da minha mente e coração. Ver milhares de pessoas ardorosamente tocando em objetos, admirando outros que simbolizavam curas, milagres era ao mesmo tempo algo penoso e assustador; também presenciei multidões cantando, rezando, durante missas, de maneira muito fervorosa; espantei-me ao ver e ouvir outras pessoas consultando um senhor de cor escura, na esperança de obter da sua parte uma palavra de revelação; muitas acendendo velas e soltando fogos: Quanta espiritualidade! Ainda fiquei envergonhado com o desprendimento sacrificativo das centenas de pessoas que chegavam e de outras que partiam na carroceria de caminhões e camionetes, apinhadas, além de desconfortavelmente, perigosamente. Ao abordar algumas delas sobre qual a razão de estarem ali e fazerem tudo aquilo, ouvi várias dizerem que sinceramente não sabiam, mas que seguiam a tradição de seus avós e pais. Você admitiria a idéia de que alguém fosse enviado como missionário à África do Sul e não soubesse nada sobre o apartheid nem sobre Nelson Mandela? Ou à Índia e desconhecesse o politeísmo vigente com seus milhões de deuses e nem soubesse da existência de um dos maiores pacifista que a história já conheceu, Gandhi, que na sua magreza corpórea e grandeza de espírito, enfrentou o tremendo


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Império Britânico conseguindo assim a libertação de seu povo e de seu país? Ou não conhecesse a missionária católica, Madre Teresa de Calcutá? Com certeza, não! E se, porventura, alguém viesse ao Brasil e demonstrasse nem sequer saber da existência de Pelé, o rei mundial do futebol, como nós nos sentiríamos? Imagino. Então, da mesma forma é inadmissível que alguém se proponha a fazer missões no Nordeste brasileiro sem conhecer o povo nordestino e sua história: Conhecer o período em que os holandeses invadiram o Brasil, dominando o estado de Pernambuco no período de 1630 a 1654, ou seja, durante 24 anos; a história do cangaço e a vida de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, e sua mulher, Maria Bonita; de Antônio Conselheiro, que foi o líder do maior movimento messiânico do Brasil, e que através da ética dos desesperados em que “roubar para matar a fome não é crime” e assim conseguiu agregar os pobres sertanejos em torno de si desencadeando o episódio denominado Guerra dos Canudos; e os “santos” católicos Frei Damião e Padre Cícero; e o compositor e cantor Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e tantos outros. 3- Com o Evangelho em seus corações e nos lábios, os missionários são chamados e enviados por Deus para contrastar os valores do Reino de Deus com os antivalores aqui ou ali instalados, seja de idolatria, misticismo, opressão, injustiça. Como arautos eles precedem a Deus anunciando e realizando as Suas obras no estabelecimento do Seu domínio, incumbidos pelo Senhor Jesus Cristo. Naturalmente isto não ocorrerá sem um confronto de poderes, sem uma batalha espiritual. Na pessoa do Senhor Jesus isto ocorria com muita freqüência quando Ele era desafiado pela falsa espiritualidade dos fariseus e pelas hostes malignas que tinham se apossado de muitas vidas. O apóstolo Paulo expõe de forma muito clara como ele pessoalmente lidava com tais questões no exercício diário do seu ministério quando expressa: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus” (I Co. 2.1-5).


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Os missionários devem ser preparados culturalmente

É imperativo que os missionários para e no Nordeste leiam alguns livros de autores nordestinos como Vidas Secas, de Graciliano Ramos (AL), e também Manuel Bandeira (PE), João Cabral de Melo Neto (PE), Ariano Suassuna (PB), José Lins do Rego (PB), José de Alencar (CE), Augusto dos Anjos (PB), Jorge Amado (BA), José Américo de Almeida (PB), dentre outros nobres e excelentes escritores. Entretanto, talvez o maior, mais completo e importante autor relacionado ao tema tenha sido João Guimarães Rosa, o evocador dos sertões misteriosos, míticos, ambíguos, situados ao mesmo tempo em espaços externos e internos. Tais leituras proporcionarão uma visão mais humana da realidade nordestina, sua beleza, e também de seus horrores. Outros escritores brasileiros também abordaram largamente o tema Sertão, principalmente o nordestino, em contos e romances: em Euclydes da Cunha um sertão inóspito e belo; em Rodolfo Teófilo e Rachel de Queiroz, gente de caráter e, especialmente, o drama da seca e de seu cortejo de horrores. Ainda deve ser incluída a história daqueles que já evangelizaram e foram missionários no Nordeste brasileiro, os brasileiros e os estrangeiros. Um impressionante exemplo é Virgil Frank Smith, jovem missionário americano que em setembro de 1927, com 25 anos de idade, chegou ao Brasil, na cidade de Recife/ PE. Deus me deu a oportunidade de conhecê-lo e conviver com o mesmo em Brasília/DF. Pois bem, leia o relato abaixo narrado pelo próprio Virgil sobre um fato maravilhoso que ocorreu com ele e sua esposa: “Quando Lampião soube que Mata Grande (Alagoas) estava sem policiamento, foi para lá. Eu, calmamente, saí com o carro para experimentar os cavalos. Quando estávamos a uns três quilômetros da cidade, fomos cercados por um grupo de homens de Lampião, que nos fez parar e exigiu 500 contos de réis. Como não tínhamos nem um vintém no bolso, determinaram que mandássemos buscar na cidade. Eu tentei convencê-los de que não tínhamos dinheiro, mas eles nos ameaçaram dizendo para minha esposa: Esse é seu marido? Você quer conserválo? Então convença-o de escrever o bilhete. E por isso, escrevi um bilhete ao irmão


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Boyer, que estava na cidade, com a seguinte mensagem: Fui preso por Lampião na fazenda dos Maltas, ele exige 500 contos de réis. Não mande nada sem antes consultar a Deus. A esta altura o grupo de bandidos nos havia levado a vinte e cinco quilômetros a frente, onde o próprio Lampião estava escondido. Enquanto o moço foi até a cidade levando o bilhete, Lampião veio e começou a falar comigo. E na conversa eu mostrei a ele que eu era um anunciador de Jesus, que o amava. Lampião me ouviu com atenção e aceitou alguns folhetos que eu carregava sempre comigo, prometendo que os leria. Orlando Boyer foi um missionário que chegou ao Brasil na mesma época que eu e que no futuro seria um dos maiores escritores de livros evangélicos do país. Ao receber o meu bilhete, ele, depois de orar, juntou num saquinho de sal um punhado de moedas, níqueis, e uma notinha de 100 réis, que mandou com a seguinte informação: “Aí vai tudo o que tenho, até o dinheiro das crianças. Sinto muito, mas não tenho mais”. Lampião tirou a notinha de dentro do saquinho e devolveu o restante dizendo: “Tome, não sou cego para pegar moedas. Como o dinheiro é pouco vou levar os seus cavalos”. E, montando nos cavalos saíram nos deixando com mais de umas vinte pessoas, que também tinham ali ficado. Para nós, foi um gozo, voltar todo aquele caminho a pé, cantando e falando de Jesus para aqueles que iam conosco” (SMITH, 1990, p. 16-17).

Um exemplo bíblico de contextualização

Voltando ao texto de Atos 17 com Paulo em Atenas, no verso 23, o apóstolo demonstra seu conhecimento não apenas sobre os objetos de culto dos atenienses, mas também, sobre a própria religiosidade deles ao expressar, “Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que vos anuncio” (grifo nosso). Certamente Paulo não estava afirmando que os atenienses eram adoradores inconscientes, mas, que eles, conforme a própria inscrição no altar dizia, adoravam sem saber ao


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quê exatamente adoravam. É interessante atentar para o texto grego que usa o pronome neutro para as palavras esse ... aquele, de modo que seria melhor traduzilas como isso e aquilo. Tal tradução combina bem com a crença grega uma vez que os atenienses criam numa essência divina impessoal. Este detalhe gramatical só reforça o quanto Paulo de fato conhecia dos atenienses. Outro ponto a ser destacado é a linguagem helenística que o apóstolo usa através das expressões “tateando o possam achar”, no verso 27, e ainda no mesmo verso, “não está longe de cada um de nós” - pensamento este corrente na filosofia estóica 4 (MARSHALL, 1991, p. 271). No verso 28 a expressão “nele vivemos, e nos movemos, e existimos”, refere-se a uma citação de um poeta do século VI a.C., Epimênides de Cnossos em Creta (STOTT, 1990, p. 322). A verdade é que o preparo que Paulo recebera durante toda a sua vida antes da sua conversão agora lhe era extremamente útil na comunicação do Evangelho, pois este preparo lhe permitia dialogar e interagir com seus ouvintes. Não há dúvidas quanto às razões porque Deus escolhera Pedro para o ministério entre os judeus e Paulo entre os gentios, as nações não-judias. Assim como cada um dos apóstolos tinha suas próprias peculiaridades, da mesma maneira, cada um dos públicos-alvos também. Isso requeria, então, uma coerência no envio da pessoa certa a determinado públicoalvo. Este fato nos ensina uma preciosa lição de estratégia missionária de que para cada público-alvo, cada povo, cada pessoa, a ser alcançado, requer-se pessoas devidamente qualificadas para comunicar o Evangelho. Nunca me esqueci de um folheto que encontrei nas ruas de Salvador, na Bahia, ao participar de uma conferência missionária, antes de aceitar o chamado missionário do Senhor para minha vida. Neste folheto havia a foto de um índio e uma frase impactante: Se Deus está interessado em mim, por que Ele não fala a minha língua? Usando este questionamento do indígena, poderíamos perguntar:

4 Para esta, a forma de agradar a Deus não necessita de ritos, sacrifícios, ou orações, basta escutar a sua voz que se encontra no íntimo de cada homem. Desta forma, olhando à interioridade apelase a uma procura contínua da erudição e do virtuosismo, pois é através da reflexão, envolta em serenidade, que o nobre estóico encontra as diretrizes divinas que o tornam um melhor cidadão. Desta consciência introspectiva advém também a atitude sábia que permite ao homem harmonizarse com o seu destino.


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Se estamos interessados na evangelização, na redenção do homem nordestino brasileiro, do sertanejo, por que aprovaríamos o envio de pessoas que não tem o mínimo de interesse pela história, cultura, religião deles? A frase do índio ainda revela o caminho pelo qual o Evangelho é comunicado maneira eficaz: Falando a língua do coração!

Os missionários devem ser preparados para se contextualizarem

Na sua formação devem ser preparados para se contextualizarem com a cultura nordestina. Aqui quero fazer uma ressalva: A referência não é apenas para os que são de outras regiões do Brasil, mas até mesmo para as pessoas que nasceram no Nordeste, principalmente os que nasceram e/ou vivem na zona urbana, e que equivocadamente pensam que conhecem toda a cultura nordestina. O nordestino, até mesmo de um Estado para o outro, tem expressões bem peculiares, bem distintas. Em termos de comunicação oral devido a entonação, o sotaque, e ao uso de determinadas expressões, não é difícil distinguirmos se é um baiano, um pernambucano ou um maranhense que está falando. Se os missionários não aprenderem a falar com a entonação, com o sotaque, próprios do nordestino, que pelo menos aprendam a apreciar. Na pregação e no ensino devem levar em conta os traços culturais marcantes do nordestino, como a tradição oral, a transmissão da sabedoria por canais socialmente aceitos (os mais idosos). Na área do louvor, os instrumentos musicais cotidianos como a acordeom, pandeiro, triângulo, zabumba, dentre outros. Nos estilos musicais temos o forró, tanto o tradicional, chamado pé de serra, quanto o moderno, o eletrônico; um estilo muito tradicional é o repente, que se dá com o cantor-violeiro chamado repentista e a sua viola, presente nos lugares públicos, principalmente nas feiras e rodoviárias. Neste aspecto há pessoas e grupos que antes da conversão eram músicos profissionais seculares, mas agora por meio dos seus talentos glorificam a Deus. Um excelente exemplo disso é o repentista Pr. José Luis e seu filho, e do forró de pé de serra, a Banda Sal Terra.


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E os missionários devem-se perguntar: Que elementos da cultura nordestina podem enriquecer a experiência do culto coletivo? Como adequar a liturgia à realidade cultural nordestina? A contextualização das narrativas bíblicas e, principalmente, dos princípios bíblicos, é extremamente relevante no alcance do nordestino, do sertanejo, visto que estes conhecem estórias de natureza religiosa, cheias de superstições, envolvendo pessoas e vários seres espirituais bem como aquilo que muitos dizem ver, “as visagens”. Todo esse contexto histórico, cultural, religioso, riquíssimo, deve servir de ponte na evangelização, um elo entre os missionários e aqueles que serão alcançados com a mensagem da salvação. É de bom alvitre atentar para a recomendação do apóstolo Paulo ao seu discípulo Timóteo, “Expondo estas cousas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhinhas caducas. Exercita-te pessoalmente na piedade” (I Tm. 4.6-7). Timóteo é orientado no sentido de que a melhor refutação do erro encontrase numa apresentação positiva do ensino bíblico. Numa antítese direta “às palavras da fé e da boa doutrina” há aquelas “fábulas profanas e de velhinhas caducas” que as pessoas religiosas, místicas, usam para apoiar suas crenças e crendices, suas superstições. Por fábulas (mito em grego) entende-se mitos, lendas. Em Tt. 1.14, Paulo escreve, “e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com os mandamentos de homens desviados da verdade”. Timóteo lá na cidade de Éfeso, teria de enfrentar falsos ensinos, heresias, que eram uma mistura de ensino judaico com o ensino gnóstico. No Nordeste, especialmente na zona rural, os missionários terão de confrontar lendas, superstições, e até estórias que envolvem ensinos populares, oriundos do catolicismo popular rural, com ensinos bíblicos. Para o apóstolo Paulo, tal religiosidade só serve para “velhas caducas”, isto é, supersticiosas. Paulo usa a palavra grega graôdeis, que segundo Kelly no seu comentário de I Timóteo sugere


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que este vocábulo é “um epíteto sarcástico que era freqüente na polêmica filosófica e que transmite a idéia de credulidade ilimitada” (KELLY, 1991, p. 97). Por falar em estórias, lendas, fábulas, um meio ainda inexplorado na evangelização do nordestino do interior é a literatura de cordel, um tipo de poesia popular, escrita de forma rimada e com alguns poemas ilustrados em xilogravuras, impressa em papel rústico e largamente lida em todo o Nordeste. Nos livrinhos de cordel estórias são contadas e depois são passadas oralmente adiante. Alguns anos atrás uma missão evangélica juntamente com uma missionária canadense, doutora em Antropologia, tentou despertar e conscientizar diversos líderes evangélicos atuantes no Nordeste quanto a importância da literatura de cordel na evangelização, na comunicação do Evangelho. Foi frustrante, pois a idéia foi rechaçada pela maioria daqueles líderes. Então, a Missão fez uma avaliação procurando descobrir a razão daquela reação. Surpresa: a maioria daqueles líderes não era nordestina, eram oriundos de outras regiões brasileiras! A partir desses aspectos os missionários devem estudar o fenômeno da religiosidade popular nordestina, procurando através das Sagradas Escrituras enxergar, para além da superstição, do fetichismo e do sincretismo, uma espiritualidade genuinamente evangélica e nordestina, por meio da qual eles possam expressar para com Deus sua adoração, seu louvor, sua obediência. Um fato notável neste sentido é a maneira contextualizada como a missionária Sueli Xavier, diretora do Seminário Sertanejo da Missão JUVEP, em Itaporanga/PB, ensina a disciplina (inédita) Análise do Livro de Gálatas e sua relação com a Igreja Sertaneja, discutindo, avaliando, refletindo, repesando, juntamente com seus alunos o contexto religioso sertanejo, tanto católico quanto evangélico à luz da epístola de Paulo aos Gálatas. Nesse estudo, ela discute o papel do templo tido como único lugar verdadeiro para cultos, a liturgia, os rituais, a figura e o papel do padre e do pastor, a supervalorização dos usos e costumes, que gera o legalismo, a concepção da espiritualidade que é somente entendida como real se a pessoa não faltar às atividades da Igreja. A tarefa da missionária Sueli consiste


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na tentativa de construir uma teologia bíblica contextualizada, isto é, o ensino e a aplicação das Sagradas Escritura no contexto dos seus alunos. Ao mesmo tempo em que ela e seus alunos estão construindo, teologicamente falando, eles estão também “des-construindo” falsos conceitos sobre Deus, sua Palavra, sua vontade, a Igreja, a vida cristã.

Os missionários devem ser preparados para a perseguição religiosa

Nesse contexto de grande fervor religioso os missionários também devem ser preparados para ministrar em meio à perseguição religiosa, e aprenderem a serem proativos, na expectativa de que aqueles que a fazem e a fomentam também sejam alcançados e transformados pelo poder do Evangelho. Nos Evangelhos e no livro de Atos encontramos as autoridades judaicas se opondo à pregação do Evangelho tanto através da pessoa do Senhor Jesus como dos apóstolos e discípulos. No capítulo 4.1-4 de Atos dos Apóstolos lemos que as autoridades ressentidas pela pregação e ensino dos apóstolos, prendeu-os e os recolheu ao cárcere, ao ponto que “No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém as autoridades, os anciãos e os escribas, com o sumo sacerdote Anás, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote” profundamente perturbados com o imenso número de novos convertidos, por isso “Chamando-os, ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome do Senhor Jesus” (At. 4.5, 6 e 18). O texto bíblico, porém, mostra-nos que tal perseguição promoveu resultados inversamente proporcionais à proibição: “Crescia a Palavra de Deus e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; e também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé” (At. 6.7). É provável que em nenhum outro lugar do Brasil os evangélicos já tenham experimentado tanta perseguição, de intensidade tão profunda, quanto no sertão nordestino: Igrejas queimadas, crentes espancados, perseguidos e muitos até mesmo mortos. Infelizmente, os registros desses fatos foram muito pouco narrados. Pelas Escrituras Sagradas entendemos que os verdadeiros heróis cristãos desta região do Brasil são os mártires anônimos da fé. Já mudou muita coisa, é


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verdade. A liberdade já raiou, e o Evangelho pode ser proclamado em alto e bom som. Contudo, não sem nenhuma reação, enfrentamento. A verdade é que ainda há muita resistência, oposição, perseguição religiosa. Aliás, esta só se acabará quando o malfeitor dos malfeitores for preso, eternamente, Satanás. Por isso mesmo, os missionários enviados ao Nordeste, especialmente para o sertão e a zona rural, devem receber treinamento adequado face ao sofrimento, à perseguição. Nada disso hoje, entretanto, deveria nos causar estranheza, pois o próprio Senhor Jesus já advertira há dois mil anos, “se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Lc. 15.20).

Os missionários devem ser preparados bíblica e teologicamente

Os missionários devem ter competência bíblica e teológica, a fim de serem capazes de responder as indagações que as pessoas tenham sobre a Bíblia e o Catolicismo, uma vez que os católicos aceitam tradições, ensinos, escritos e decisões papais que vão além do ensino bíblico. Sobre a Igreja Evangélica e a Católica Romana, já que esta ensina e afirma que é a única e verdadeira igreja e fora dela não há salvação, e que sobre o Apóstolo Pedro foi edificada, sendo este o primeiro Papa. Os missionários devem ter conhecimento desses ensinamentos e confrontá-los com os textos sagrados, demonstrando que o Senhor Jesus Cristo é o único e suficiente salvador, num contexto de idolatria, sincretismo e misticismo. Por incrível que pareça até hoje há a idéia de que “a Bíblia do crente é falsa”, e por isso mesmo aqueles que evangelizam, quando conhecedores deste fato, devem solicitar àqueles que são evangelizados que leiam os textos bíblicos em suas próprias Bíblias, de versão católica romana. Inclusive, os missionários devem saber ensinar a Bíblia de modo criativo usando os vários métodos de estudos bíblicos existentes como o indutivo, o cronológico, etc. Ser preparado biblicamente significa pelo menos duas coisas: Primeiro, é ter a convicção de que a Bíblia é a Palavra de Deus e, por isso mesmo, é a única regra de fé e prática do cristão. Segundo, faz-se necessário que os missionários ouçam


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e obedeçam ao que o apóstolo Paulo diz, “Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a Palavra da Verdade” (II Tm. 2.15). Ou seja, manejar bem a palavra da verdade é conheça-la profundamente, em todos os seus aspectos como arqueologia, geografia, línguas originais, etc. A preocupação de Paulo aqui é para que o obreiro dê provas de suas próprias qualidades como aquele que transmite (pregando, ensinando, testemunhando com a própria vida) as verdades eternas de maneira eficiente e totalmente fidedigna à sã doutrina. O obreiro deve pregar o Evangelho em toda a sua pureza e veracidade, nem adicionando nem acrescentando o que quer que seja. Se há algo que caracteriza bem a Igreja Católica é o ensino de seus dogmas e de suas tradições, os quais na maioria das vezes são totalmente contrários àquilo que a Bíblia ensina. Entretanto, os missionários precisam estar atentos para o fato de que o simples conhecimento da Bíblia e o seu ensino não são suficientes para garantir que alguém creia nela como a Palavra de Deus nem que esteja disposto a obedecêla. No que se refere à pessoa de Jesus e ao seu ensino, segundo Dr. Steve Hardy, “suas palavras não devem ser simplesmente aprendidas; devem ser obedecidas” (HARDY, 2007, p. 33). Sobre a Bíblia Dr. Steve comenta, ela não precisa ser ensinada, mas devemos ensinar as pessoas a obedecê-la! No que diz respeito a competência teológica isto implica ter conhecimento das doutrinas bíblicas sobre Deus, a salvação, Igreja, escatologia, etc. Este conhecimento também diz respeito as várias correntes teológicas cristãs e diferentes religiões. Tudo isso proporcionará aos missionários saberem argumentar em defesa da autenticidade da Bíblia.

Os missionários devem ser preparados em termos de fenomenologia da religião

Os missionários devem entender e interpretar os fenômenos religiosos que ocorrem no Nordeste discernindo aqueles que são sociais, religiosos, culturais, daqueles que são espirituais, demoníacos. Superstições como varrer o lixo de casa


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jogando-o para fora pela porta detrás e não pela da frente; não deixar a sandália emborcada (com as correias viradas para baixo); não comer carne nem beber leite na sexta-feira santa. O uso de objetos como esculturas, imagens, de pessoas ou de partes do corpo humano, de animais, fotos, desenhos, quadros, terços, rosários, oratórios, são expressões simbólicas da religiosidade nordestina. Nas questões de natureza sobrenatural, como os milagres que ocorrem por meio de promessas, novenas, romarias ou através das rezas das benzedeiras, são sempre bastante discutidas: Quem operou este ou aquele milagre? Quem curou aquelas pessoas: Foi Deus, a Virgem Maria, o santo, o padroeiro, ou foi o Diabo? No que diz respeito aos milagres, os missionários tem vários ensinos bíblicos que o ajudarão a se posicionar: Primeiro, os milagres de fato ocorrem, são reais. Segundo, tanto Deus como Diabo e aqueles que os servem podem operálos. No Antigo Testamento encontramos os magos no Egito imitando os milagres que Deus operava por meio Moisés. Nos Evangelhos Jesus e seus discípulos são vistos operando grandes e maravilhosos milagres. Terceiro, o próprio Senhor Jesus alertou à sua Igreja que nos finais dos tempos muitos fariam milagres até mesmo usando o seu nome, porém, tais pessoas não têm absolutamente nada a ver com Ele (Mt. 6.22-23). Ele ainda afirmou que no fim dos tempos “surgirão falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt. 24.24). O apóstolo Paulo em II Tessalonicenses 2.9-10 revela-nos que os milagres serão as credenciais de Satanás nos últimos dias. No Livro de Apocalipse, o apóstolo João não nos deixa dúvidas de que os milagres serão usados pelo Anticristo para enganar o mundo. Portanto, os missionários não devem descrer da realidade dos milagres, mas concentrar a sua atenção na origem dos mesmos, e levantar questionamentos sobre quem os realizou. Na opinião de Ronaldo Lidório, que foi missionário por vários anos entre os Kokombas, povo de Gana, no oeste africano, de religião animista-fetichista, esta não é questão de mero preparo acadêmico, missiológico, mas “devemos reconhecer que essa é uma fronteira que precisa ser ultrapassada de joelhos, pedindo ao Senhor para que compreendamos o que nos é estranho” (LIDÓRIO, 2006, p. 49).

Dentre os inúmeros exemplos bíblicos com questões fenomenológicas


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quero citar dois que nos mostram esta realidade. O primeiro envolve a pessoa do Senhor Jesus com seus discípulos e se encontra em Jo. 9.1-2, “Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”. Antes condenarmos os discípulos por esta pergunta temos de considerar o que os rabinos ensinavam naquela época: Os pais pecavam e os filhos sofriam as conseqüências; já outros rabinos levavam em conta a possibilidade de uma criança pecar ainda estando no ventre da mãe. Não nos esqueçamos de que mesmo hoje há cristãos cujos conceitos sobre Deus e Sua reação em relação ao pecado são iguais aos ensinos daqueles rabinos! À semelhança de Jesus e seus discípulos, os missionários no Nordeste brasileiro também se defrontarão com questões complexas sobre a vida, a fé, a religião. O outro exemplo é quando Paulo e demais companheiros de viagem se encontravam em Filipos e ali diariamente ia ao seu encontro uma jovem que adivinhava quem eles eram, falando, possivelmente, a verdade, “Estes homens são servos do Deus Altíssimo, e vos anunciam o caminho da salvação”. Discernindo que um espírito maligno usava aquela moça, Paulo disse, “Em nome de Jesus Cristo eu te mando: Retira-te dela. E ele na mesma hora saiu” (At. 16.16-18). Certamente Paulo tinha um dom que é essencial a qualquer missionário, o dom de discernimento de espíritos (I Co. 12.10), e por isso mesmo agiu corretamente, com autoridade. Segundo, ele sabia que embora a moça falasse a verdade a seu respeito, esta mesma verdade poderia significar coisas diferentes para pessoas diferentes, ou seja, seus ouvintes judeus poderiam entender que a jovem estava sob ação do Espírito Santo e se referia ao Deus Altíssimo, Jeová, mas já os gregos poderiam achar que ela era uma pitonisa e tinha ‘um espírito de píton’- uma referência à cobra da mitologia clássica na qual o deus grego Apolo se encarnava e dava poderes de clarividência às suas devotas -, e estava se referindo ao Ser Supremo, Zeus. Tal situação só iria gerar confusão e desacreditaria o Evangelho associando-o ao ocultismo. Os missionários devem estar cientes quanto às crenças e crendices, os hábitos e superstições, que permeiam o mundo religioso do nordestino e como estes influenciam seus pensamentos, ações e atitudes. Eles devem conhecer as crenças teóricas (convicções expressas em palavras e que tem um impacto nulo


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sobre os valores e comportamentos) e as crenças operantes (que afetam os valores e comportamentos) para assim entender o que é verdadeiro e o que não é para o povo. Discernir dentro do mundo religioso nordestino o que é verdadeiramente espiritual ajudará os missionários a lidarem com aquilo que realmente afeta toda a vida nordestina e lhes dará a capacidade de promover mudanças verdadeiras, profundas e duradouras.

Os missionários devem anunciar Jesus como o único e suficiente salvador É comum lermos nos adesivos de carros frases como, “tudo por Jesus, nada sem Maria”, “peça à Mãe que ela intercede junto ao Filho”. Estas só demonstram que Jesus não é para muitos o único e suficiente salvador dos homens, mas que Ele precisa de uma co-redentora, Maria. Ora, o próprio Senhor Jesus e os apóstolos tiveram dificuldades em evangelizar os judeus, de religião monoteísta, e o mundo de sua época, de religião politeísta, apresentando a mensagem “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At. 4.12). Os missionários devem saber como evangelizar o homem nordestino e apresentar o Senhor Jesus Cristo como único e suficiente salvador de todo aquele que crê. Com prudência e sabedoria, não agredir a pessoa de Maria, mas explicar qual o seu verdadeiro papel no plano da redenção enquanto mãe do Salvador. É preciso paciência, firmeza e amor para explicar o real significado das expressões usadas em relação a Maria, tais como: muito favorecida, pelo anjo Gabriel (Lc. 1.28); bendita és tu entre as mulheres, por sua prima, Isabel (Lc. 1.42). Quando isto não é feito de maneira sábia, normalmente gera rejeição à pregação do Evangelho e desperta ódio contra os crentes e a Igreja evangélica. É claro que há casos em que os ouvintes não querem aceitar a verdade das Escrituras e se manifestam contrários usando adesivos que afirmam, “Sou católico, sou feliz”, ou “nasci católico, vou morrer católico”. As palavras de Paulo descrevem bem a situação espiritual dos nordestinos que ainda não conhecem a Cristo Jesus, “Mas, se o nosso evangelho ainda está


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encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (II Co. 4.3-4). Mergulhados nas trevas da ignorância e, conseqüentemente, na superstição, embora, muito religiosos, Jesus é desconhecido por eles. Aliás, um fato curioso é que este desconhecimento não se dá apenas sobre a pessoa de Jesus, mas como é natural no catolicismo popular, até sobre a maioria dos santos que eles mesmos adoram. São desconhecidos os fatos históricos e a vida deles. Um exemplo disso é a ignorância dos devotos do Padre Cícero, que participam anualmente das romarias em Juazeiro do Norte/CE. São raros aqueles que sabem algo sobre a trajetória política do “Padim Ciço” e do anseio que ele teve de controlar o Ceará, inclusive através da luta armada, sangrenta, que travou duas vezes contra a cidade de Crato, vencendo-a e saqueando-a em 24 de janeiro de 1914. Depois contra Fortaleza, levando o governador Franco Rabelo a abdicar. Mais tarde, porém, veio a ser vencido pelas tropas federais. No aspecto religioso, eclesiástico, Padre Cícero foi suspenso das suas atividades, e perdeu as prerrogativas sacerdotais, sendo proibido de pregar, confessar e orientar os fiéis, conforme o veredicto do Santo Ofício de Roma. Quanto aos milagres atribuídos à sua pessoa todos foram reprovados pela Santa Sé; o mais polêmico é o caso ocorrido em Juazeiro do Norte/CE, o da beata Maria de Araújo, cuja boca se encontrava freqüentemente cheia de sangue ao receber a hóstia das mãos do Padre, e depois se descobriu que na verdade ela tinha uma enfermidade nas gengivas, O fato, porém, é que no catolicismo popular nordestino o Padre Cícero continua sendo adorado, venerado e buscado, de todo coração. É triste, mas a verdade é que nessas grandes manifestações religiosas o que menos se busca ou se menciona é o nome da Pessoa do Senhor Jesus Cristo. Ele é completamente ignorado, desconhecido. Diversos “santos” e “marias” são lembrados, invocados, gerando falsas esperanças.


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O Nordeste brasileiro é um grande desafio àqueles chamados por Deus para anunciar o Evangelho. Por isso mesmo, os missionários devem estar conscientes de que a mensagem sobre a pessoa do Senhor Jesus é o âmago do Evangelho, e tudo quanto for ensinado e proclamado deve ser biblicamente cristocêntrico: Jesus é único em todos os sentidos. Somente Ele é o Senhor, o Salvador, o Redentor, nas suas próprias palavras, “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo. 14.6). E não deve estar ausente da proclamação uma séria advertência: “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos em toda parte se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressucitando-o dentre os mortos” (At. 17.30-31) (grifo nosso).

População evangélica no Nordeste

Conforme os dados apresentados no site da SEPAL - Servindo a Pastores e Líderes, por Eunice Zillner5, a partir do Censo Demográfico 2000 – IBGE, sobre a projeção do crescimento de evangélicos por regiões brasileiras, o Nordeste apresenta-se:

TCA* População 1991-2000

TCA* Evangélicos 1991-2000

População Projetada 2009

Projeção de Evangélicos 2009

% Evangélicos 2009 (projeção)

1,31%

8,60%

53.729.023

10.305.448

19,2%

TCA* = Taxa de Crescimento Anual Censo

Censo

Projeções

1991

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

5,5%

10,3%

11,0%

11,8%

12,6%

13,5%

14,5%

15,6%

16,7%

17,9%

19,2%

Site: http//www.sepal.org.br - Ministério de Apoio com Informação – MAI

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Tais dados não significam um crescimento geográfico uniforme, equilibrado. A desigualdade entre os centros urbanos, aqueles que se encontram no litoral, e os municípios do interior, principalmente no sertão, permanecem. É com muita oração, reflexão nas Sagradas Escrituras e uma estratégia que demonstre intenções e objetivos claros, que um resultado melhor será, certamente, alcançado.


2 O DENOMINACIONALISMO PROTESTANTE: O MEU INIMIGO SOU EU

Fidelidade sim, sectarismo não

A valorização e a fidelidade das lideranças evangélicas das igrejas locais, em especial dos pastores, às suas denominações são naturalmente requeridas e aceitas em qualquer instância eclesiástica, tanto para o próprio bem desta bem como daqueles que a compõem. Porém, quando estas ultrapassam os limites aceitáveis e se tornam obstáculos para um relacionamento saudável com cristãos de diferentes denominações, e se transformam num projeto de exclusão daqueles que pensam diferente, então se instala o espírito decorrente da religião, que não apenas fragmenta o Evangelho, mas também a sua proclamação.

O presente século tem sua filosofia de vida voltada para a individualidade, a especialização, o que dificulta qualquer ação monopolítica. Infelizmente, a Igreja também padece do mesmo mal, pelo denominacionalismo, oferecendo ao mundo um testemunho diferente daquilo que o apóstolo Paulo retrata como Igreja em I Co. 12.12-27, como uma unidade orgânica, um só corpo, um corpo saudável, no qual os membros funcionam em perfeita harmonia.


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O Demoninacionalismo Protestante: o meu inimigo sou eu

“Fogo amigo”: Toda casa dividida não subsistirá

A tarefa de evangelização e missões no Nordeste é uma grande batalha em duas frentes. Ora, como se não bastasse à Igreja evangélica nordestina a oposição ferrenha católica no contexto externo, adiciona-se também as oposições internas, quando líderes, pastores, e até mesmo os próprios membros das igrejas locais de diferentes denominações se atacam mutuamente através de palavras, falando mal uns dos outros, e atitudes, quando ao se cruzarem numa rua não se cumprimentarem ou até mesmo nem se olharem. Inúmeros são os casos em que quando na plantação de uma nova igreja os membros de uma outra denominação passam a falar mal (até mesmo) para os descrentes a respeito do novo líder, do novo missionário ou pastor, procurando denegrir a sua imagem a fim de induzilos a não visitarem ou tomarem parte de alguma atividade que ele realizar e nem mesmo sequer ouvirem o Evangelho pregado por ele. Nada é mais avassalador para o crescimento da Igreja do que a divisão interna. Paulo em Corínto enfrentou isso, “Porquanto havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem? Quando, pois, alguém, diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; não é evidente que andais segundo os homens?” (I Co. 3.3-4). É interessante que a palavra ciúmes no texto grego é zelos significando em português basicamente “zelo”, “ardor”, normalmente classificada como designativo de virtude, de um bom senso, porém, quando esta disposição é de ânimo muitíssimo forte, os escritores bíblicos a reconhecem como negativo, reprovável, sendo uma das “obras da carne”. Já contendas (eris, em grego) é “discórdia”, “discussão”. Tanto uma palavra quanto à outra apontam para uma autoafirmação que resulta em rivalidades doentias. Talvez uma explicação para este problema de rivalidade entre os evangélicos se encontre naquilo que Paulo Siepierski denomina de “a estrangeirização do protestantismo” brasileiro. Ao comentar sobre a gênese do protestantismo brasileiro a partir da presença dos huguenotes franceses no Brasil, especificamente na Baía de Guanabara no ano de 1555, onde realizaram o primeiro culto protestante na América, Spiepierski (1993, p. 48) afirma:


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Embora a empresa de Villegaignon não fosse a princípio missionária, ela vai desempenhar um importante papel na formação espiritual do brasileiro. Como todo movimento missionário estrangeiro que alcançou as costas do Brasil, estes pioneiros, além de trazerem consigo controvérsias próprias, ainda refletiram o espírito polêmico existente na Europa durante o século XVI entre católicos e protestantes.

Concluindo, o autor acrescenta: Dessa forma, o protestantismo brasileiro tinha, em última instância, um corpo nacional e uma cabeça estrangeira. Fora isso, algumas enfermidades já se manifestaram presentes em nosso protestantismo, como o sentimento anticatólico, o denominacionalismo, uma fraca teologia, uma liturgia importada, uma ética legalista, abstração da realidade sócio-política, clericalismo e autoridade pastoral. (SIEPIERSKI, 1993, p. 48-50).

Os líderes: responsáveis pela comunhão ou pela rivalidade entre as igrejas

Os líderes são responsáveis pela formação da Igreja, pelos valores e expressões do povo de Deus, pela espiritualidade e o desenvolvimento da mesma na formação do caráter cristão. É comum afirmar-se, “a Igreja é a cara do pastor”, do líder espiritual. Certamente que divisões, partidarismos são um comportamento doentio entre membros de denominações diferentes, e fruto do comportamento, do modelo e do incentivo da liderança. Os membros estão apenas reproduzindo aquilo que vêem, que ouvem e que são ensinados. Paulo ordena ao seu discípulo Timóteo, “torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (I Tm. 4.12) e Pedro aos presbíteros, “Pastoreai o rebanho de Deus... nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelos do rebanho” (I Pe. 5.2-3). Em ambos os textos a palavra modelo é o termo grego typos, que significa imagem, modelo, marca, arquétipo, espécie, exemplo, molde, protótipo. Deus espera que aqueles que Ele mesmo colocou na liderança do Seu povo sejam os primeiros a ouvirem e obedecerem ao mandamento: “Vivei, acima de tudo, por


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modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos, ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp. 1.27) e “que penseis a mesma cousa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Fp. 2.2-4).

Nas palavras do pastor Raimundo de Oliveira, da Assembléia de Deus, nascido e criado no Nordeste, menciona que: A hiperespiritualidade de muitos assembleianos, o ultraconservadorismo de muitos presbiterianos e o exclusivismo de não poucos batistas admitiriam absurdo qualquer projeto de cooperação mútua, mesmo que esse projeto tivesse como alvo a redenção espiritual do Nordeste, algo absurdo e inconcebível. (OLIVEIRA, 1997, p. 19)6 .

Missões: a melhor maneira de superar rivalidades

Não quero ser injusto, mas como é difícil pastores nordestinos de denominações diferentes se unirem para juntos realizarem alguma coisa em prol do Reino de Deus! Sem dúvida nenhuma isto tem trazido grandes prejuízos para a expansão da Igreja, a agência do Reino. Deus em sua graça e misericórdia tem levantado associações de pastores, as quais têm promovido momentos de confraternização como cafés da manhã, almoços, confraternizações, normalmente regados com uma reflexão bíblica e intercessão. Pessoalmente acredito que Missões é um dos melhores caminhos para romper essa rivalidade e promover a unidade, a unidade do Corpo de Cristo. Segundo o bispo Robinson Cavalcanti a própria história da Igreja nos demonstra isto, pois o esforço em prol da aproximação, diálogo, cooperação e até mesmo união orgânica das diferentes igrejas cristãs

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Revista Ultimato nº 248, setembro, 1997.


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surgiu a partir da preocupação dos evangélicos com a expansão missionária, que culminou na primeira conferência ecumênica, a Conferência Missionária Mundial, realizada em 1910 na cidade de Edimburgo, na Escócia. A motivação original deste movimento foi uma reação contra as múltiplas e profundas divisões existentes no Cristianismo. Ou seja, a consciência de sanar essa situação triste e embaraçosa da Igreja tornou-se mais aguda no contexto do grande movimento de missões mundiais empreendido pelas igrejas protestantes européias e norte-americanas. Isso porque os missionários que trabalhavam ao redor do mundo, especialmente na Ásia, África e América Latina, sentiram de modo intenso a dificuldade e a incoerência de testemunhar de Cristo e do seu Evangelho estando divididos e competindo uns com os outros. A intenção do movimento missionário era dividir o território do globo em áreas trabalhadas pelos diversos grupos, evitando-se a duplicidade e a concorrência, dando-se, em contrário, um testemunho de coerência e cooperação 7.

Um exemplo contemporâneo

Na própria Missão JUVEP, aonde desenvolvo meu ministério há 11 anos, tenho testemunhado isso: Esta Missão surgiu em 1981 a partir da consciência de vários jovens de diversas denominações evangélicas de que deveriam se mobilizar para evangelizarem a cidade de João Pessoa/PB. Estes jovens tiveram a visão ampliada e passaram a evangelizar também o Estado da Paraíba, depois os nove estados Nordestinos e hoje se encontra em vários países. Como uma marca distintiva desde os membros da diretoria até os diretores de departamentos e às demais pessoas em diferentes funções, temos irmãos congregacionais, presbiterianos, batistas, nazarenos, assembleianos, metodistas, luteranos, da Igreja Cristã Evangélica, dentre outras. Nesses onze anos atuando junto à Missão jamais vi uma discussão em torno de questões teológicas-bíblicas entre os colegas de ministério e muito menos (graças a Deus) rivalidades denominacionais. Acredito que isto também ocorre na maioria das instituições missionárias.

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Revista Evangelizar nº 07, 2006.


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O Demoninacionalismo Protestante: o meu inimigo sou eu

Com o apoio da Associação de Pastores Evangélicos da Paraíba – APEP, a

Missão tem mensalmente realizado um café da manhã, com comidas tipicamente nordestinas, e depois deste uma reflexão bíblica sobre missões, concluindo-se, então, a reunião com um fervoroso momento de intercessão missionária. Cerca de 60 pastores das mais diversas denominações tem estado presentes. Coincidência ou providência? O fundador e atual presidente da APEP é o Pr. Aguinaldo Melo do Nascimento, o qual é professor de várias disciplinas na área de missões nos seminários que ensina (inclusive, foi meu professor), e também durante dois períodos foi vice-presidente da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais – APMT. Outro fato relevante neste sentido é a atividade missionária pioneira da Missão JUVEP, chamada de Projeto Missionário que é realizada anualmente nos meses de janeiro e julho. O objetivo da mesma é a plantação de igrejas nos municípios nordestinos, especialmente naqueles localizados no sertão. A Missão JUVEP não é uma denominação, mas uma instituição evangélica interdenominacional, quer dizer, ela se situa numa posição intermediária, “entre as denominações”; ou como outros preferem chamar instituições desta natureza, intradenominacional, quer dizer, ela se situa no “interior”, no seio, das diversas denominações. Pois bem, na plantação de uma igreja no sertão nordestino surge uma questão fundamental: A que denominação essa nova igreja pertencerá? Antes de responder a esta questão quero lhe fornecer alguns dados interessantíssimos sobre as pessoas que participaram dos sete últimos Projetos realizados: 45º Projeto Missionário, realizado em julho de 2006, na cidade de Araripe/CE: Participaram 96 irmãos de 34 denominações, provenientes de 11 Estados do Brasil; 46º Projeto Missionário, realizado em janeiro de 2007, na cidade de Santana do Cariri/CE: Participaram 114 irmãos de 23 denominações diferentes, oriundos de 54 Igrejas, vindos de 33 cidades, de 12 estados brasileiros e 01 de país europeu, Alemanha;


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47º Projeto Missionário, realizado em julho de 2007, na cidade de Jardim/ CE: Participaram 86 irmãos de 16 denominações diferentes, oriundos de 56 Igrejas, vindos de 33 cidades, de 12 estados brasileiros e 03 países: Estados Unidos, Perú e Suiça; 48º Projeto Missionário, realizado em janeiro de 2008, na cidade de Porto de Folha/SE: Participaram 138 irmãos de 30 denominações diferentes, oriundos de 81 Igrejas, vindos de 41 cidades, de 13 estados brasileiros e 03 paises: Alemanha, Guiné Bissau e Perú; 49º Projeto Missionário, realizado em julho de 2008, na cidade de Miguel Alves/PI: Participaram 78 irmãos de 15 denominações diferentes, oriundos de 41 Igrejas, vindos de 28 cidades, de 13 estados brasileiros e 03 países: Alemanha, Suíça e Itália; 50º Projeto Missionário, realizado em janeiro de 2009, na cidade de Aurora/CE: Participaram 137 irmãos de 22 denominações diferentes, oriundos de 82 Igrejas, vindos de 44 cidades, de 17 estados brasileiros e 01 da Alemanha. 51º Projeto Missionário, realizado em julho de 2009, na cidade de São José da Lagoa Tapada/PB: Participaram 84 irmãos de 16 denominações diferentes, oriundos de 53 Igrejas, vindos de 34 cidades, de 10 estados brasileiros e 03 países: Guiné Bissau, Portugal e Alemanha.

Como você mesmo deve ter percebido quanta diversidade de denominações! Missões têm esta graça e poder de agregar os membros do Corpo de Cristo, de promover comunhão. A escolha da localidade para a realização do Projeto Missionário demanda meses de oração e pesquisas, levando-se em conta os seguintes critérios: ter menos de 3% de evangélicos, localizar-se no sertão nordestino, ter tamanho condizente com a equipe e condições estruturais para receber e alojá-la. Durante os preparativos do Projeto a Missão JUVEP faz parceria com uma Igreja evangélica,


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a qual se responsabiliza pelo sustento integral do obreiro que irá permanecer à frente da Igreja que for plantada, e também com as despesas referentes à manutenção da mesma, pelo período que se fizer necessário até que haja condições de se autosustentar. Cabe também à Igreja parceira o compromisso de, em caso de dificuldades, não fechá-la, mas juntamente com a Missão procurar outra que a assuma. Nesses últimos anos, ao término dos Projetos, tem sido comum cerca de 60 pessoas estarem participando dos cultos que são realizados, e metade destas aceitarem a Cristo e permanecerem firmes para o batismo. Isto quer dizer que o momento mais delicado do Projeto Missionário é quando os projetistas deixam aquela localidade após os 24 dias de evangelismo intenso e o obreiro que ali fica assume o pastoreio dos neo-conversos. A função da Missão é organizar o Projeto Missionário, divulgá-lo e coordená-lo. Mas, a realização e a concretização da plantação da Igreja, objetivo último do Projeto, só é possível com a participação e o empenho harmoniosos dos projetistas, aqueles que apenas pertencem a Cristo Jesus, sem se importar com a sua cor denominacional. Graças a Deus os projetistas não demonstram preocupação se a nova Igreja pertencerá ou não à sua denominação, mas sim, se vidas serão ganhas para o Reino de Deus. Aqueles que amam e fazem a obra missionária expressam a sua compreensão de que o Reino é maior do que a Igreja, e que a Igreja é maior do que as denominações! Um fato curioso diz respeito às dificuldades na formação de uma liderança autóctone, local, forte, pois à medida que o novo crente cresce na fé, sua visão da vida e do mundo se amplia e, na maioria das vezes, ele se desloca para cidades maiores em busca de melhores oportunidades de estudos e trabalho, o que traz, de alguma forma, prejuízos ao crescimento da nova Igreja. Naturalmente esta é uma situação que carece de avaliação.


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Jesus mesmo orou pela unidade da Igreja e deixou claro que aquilo que nos distingue de qualquer outra instituição humana é o amor que desemboca na unidade: e “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai Santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo. 17.11) “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo. 17.20-23).

Os missionários devem ser preparados para o serviço do Reino

Para enfrentarem uma situação com tantas rivalidades e partidarismo os missionários devem ser preparados para se relacionarem com outros missionários, líderes e irmãos de denominações, de igrejas locais, diferentes da sua. Eles devem aprender como desenvolver confiança e lidar com conflitos interpessoais e com o sectarismo, e adquirir habilidades na comunicação. Sua atuação deve ser em promover o Reino de Deus, seus valores e princípios, presentes na Bíblia. Assim como o apóstolo Paulo, os missionários devem ver a si mesmos, as lideranças e os outros irmãos de denominações evangélicas diferentes da sua como servos e cooperadores uns com os outros no serviço de Deus (I Co. 3.5-9), reconhecendo que ambos foram chamados, escolhidos e enviados por Deus para darem bom testemunho de Cristo Jesus em prol da expansão do Seu Reino sobre a face da Terra. Esta consciência e postura revelam a aceitação de que a beleza e a riqueza do Corpo de Cristo estão na unidade composta pela diversidade.

O Nordeste e o nordestino carecem do testemunho de unidade,


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comunhão, cooperação, das Igrejas e dos seus membros, que impacte as suas vidas e os atraia para Cristo. Os missionários jamais devem ser fomentadores do divisionismo, do partidarismo, que procede do maligno. Ainda que tenham ministérios, habilidades e dons diferentes, o Espírito é o mesmo; ainda que atuem em áreas, atividades e exerçam funções diversas, o Senhor é o mesmo; ainda que sejam oriundos de diferentes igrejas e instituições evangélicas, essa diversidade para a realização da obra missionária, só será bem sucedida, se for o mesmo Deus operando em tudo e em todos. Tudo, tudo mesmo, deve ter somente a finalidade de glorificar a Deus e Seu Filho Jesus Cristo.


3 O ISOLAMENTO GEOGRÁFICO E OS ASPECTOS SOCIAIS DAS COMUNIDADES

O Nordeste Brasileiro

O Nordeste brasileiro é a terceira maior região do Brasil, com cerca de um milhão e meio de quilômetros quadrados. É a segunda em termos populacionais com cerca de quarenta e sete milhões e setecentas mil pessoas (IBGE, 2000), em sua maioria sobrevivendo em condições precárias. É a região semi-árida mais densamente povoada do mundo. Quatro áreas distintas constituem a sua geografia: a Zona da Mata, o Agreste, o Sertão e o Meio-Norte. São nove os estados que fazem parte do Nordeste: Maranhão, Piauí, Ceará, Alagoas, Rio Grande do Norte, Bahia, Sergipe, Pernambuco e Paraíba.

O Nordeste A e o Nordeste B Segundo Pr. José Pontes Filho (1997, p. 26), Com área equivalente três vezes a Espanha e quatro vezes o Japão e setenta vezes a Israel, o Nordeste não é, na verdade, um só, mas dois. Um deles é o nordeste litorâneo, onde estão as grandes cidades relativamente ricas e abastecidas por todo tipo de bens materiais, além de ser um potencial turístico extraordinário.


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O outro é o nordeste dos sertões sofridos, onde imperam drogas e prostituição, fome e seca, onde a mortalidade infantil é presente e a assistência médica precária, onde o índice regional de analfabetismo é dos maiores do mundo e o salarial extremamente pequeno. Por isso é que os denominamos Nordeste A e Nordeste B8.

O Sertão Nordestino

Sertão é uma região geográfica caracterizada pela presença de clima semi-árido, vegetação de caatinga, irregularidade de chuvas, solos secos e rios intermitentes ou temporários. O sertão nordestino compreende as áreas mais secas e distantes do litoral leste do Brasil, situadas nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Apenas no Ceará e no Rio Grande do Norte o sertão chega até o litoral. O chamado Polígono das Secas totaliza 936.933km2. Sertão é uma região geográfica caracterizada pela presença de clima semi-árido, vegetação de caatinga, irregularidade de chuvas, solos secos e rios intermitentes ou temporários. O sertão nordestino compreende as áreas mais secas e distantes do litoral leste do Brasil, situadas nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Apenas no Ceará e no Rio Grande do Norte o sertão chega até o litoral. O chamado Polígono das Secas que totaliza 936.933km2. O sertão do Nordeste apresenta três formações típicas: (1) amplas superfícies aplainadas, drenadas ao norte pelos rios Aracaju, Jaguaribe, Apodi e Açu, e a leste pelo São Francisco, o único rio perene da região; (2) maciços cristalinos, cujos esporões mais ocidentais são os da Borborema e das serras de Maranguape e Baturité; e (3) chapadas sedimentares, como as de Ibiapaba, do Araripe e do Apodi. Apresenta clima semi-árido, com estação chuvosa no verão, mas há amplas áreas

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Resvista Ultimato nº 248, setembro, 1997.


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onde predomina o clima tropical chuvoso, com inverno seco. Em alguns trechos, a taxa pluviométrica anual é inferior a 500mm, sucedendo-se, às vezes, vários anos de estiagem. As prolongadas secas determinam a emigração da população pobre. As superfícies aplainadas são, em geral, cobertas por caatingas, formação vegetal onde predominam arbustos de folhas decíduas; são também abundantes as cactáceas e as bromeliáceas. Nos brejos onde há água durante todo o ano, localizados ora em trechos altos e expostos aos ventos úmidos de sudeste, como a serra Negra, em Pernambuco, ora ao sopé das baixadas sedimentares, como o vale do Cariri, no Ceará, dominavam densas formações florestais, hoje substituídas por culturas de mandioca, cana-de-açúcar e árvores frutíferas. Nas amplas várzeas de solos aluviais, situados nos baixos cursos dos rios que deságuam na costa, proliferam densos carnaubais. Nos espaços vazios existentes praticam-se lavouras de subsistência, enquanto nos tabuleiros cria-se gado bovino. A densidade demográfica no sertão nordestino é baixa e varia de 5 a 25 habitantes por quilômetro quadrado. Grandes propriedades aí se localizam, quase todas dedicadas à pecuária extensiva e à agricultura9. Segundo o pastor e sociólogo Robinson Cavalcanti, o Nordeste em virtude de sua história e de seu isolamento geográfico e cultural, reflete o tipo de religiosidade popular ibérica pré-reformada, simbólica, mística, mágica, tradicional, folclórica e ligada aos ritos de passagem, ao mesmo tempo em que catequeticamente deficiente, com a figura de Maria e dos santos mais presentes que a de Jesus, eticamente inconseqüente, e onde a lei e o medo, e a manipulação do sagrado pelas promessas, tornam mínima a compreensão da graça de Deus (CAVALCANTI, 1997, p. 18)10.

(Fontes:Sites:http://www.coladaweb.com/geografia/sertao.htm;http://www.abep.nepo.unicamp. br/encontro2008/docspdf/ABEP2008_1532.pdf - acessados em 16/06/2009. 10 Resvista Ultimato nº 248, setembro, 1997. 9


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Nordeste brasileiro: Nossa Janela 10-40 Doméstica

Dos 222 municípios brasileiros, com menos de 1% dos evangélicos, 138 estão no Nordeste, representando 62,1%. Só na Paraíba há 35 municípios nessa situação. É a região denominada pelo missionário Sérgio Ribeiro de “nossa janela 10-40 doméstica”, comparando-a com a Janela 10-40, a qual representa a região predominante não evangelizada entre as latitudes 10º e 40º norte do Equador (paralelos à linha do Equador), um corredor maciço de pessoas não evangelizadas que se estende do Norte da África através do Centro Oeste e Sul da Ásia até o Japão. Nesses municípios o clima é muito quente – O Nordeste é uma das regiões mais ensolaradas do globo: são 2.800 a 3.500 horas de sol por ano (mais de 8 horas por dia, em média), e a seca causada pela escassez e a má distribuição de chuvas, também afeta em vários aspectos os que são enviados como missionários, sobretudo os que são oriundos de outras regiões do Brasil, de clima mais frio ou ameno. Somando-se a tudo isso há a escassez e a má qualidade da água disponível para o consumo humano, o que pode provocar diversas enfermidades.

De onde se originam os missionários para o Nordeste?

Em geral os missionários que se dirigem aos municípios do interior do Nordeste são oriundos de grandes centros urbanos (tanto do próprio Nordeste como de outras regiões do Brasil) onde questões como transporte, luz, água, assistência médica, saneamento básico, estão disponíveis a maioria da população, realidade esta contrária à grande parte dos municípios nordestinos. Isto porque esses municípios possuem a maior parte da sua população morando em sítios, ou seja, casas, residências, nas roças, distantes uns dos outros até mesmo quilômetros. Isso se constitui em dificuldade para os missionários se locomoverem para evangelizar ou visitar até mesmo uma única família, bem como reuni-la a outras semanalmente para os cultos. Essa realidade, muitas vezes, mina a resistência dos missionários, exigindo-lhes fé e perseverança na evangelização, e principalmente na sua permanência na localidade por muito tempo.


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Os missionários devem ser preparados psicologicamente

Para este contexto geográfico os missionários devem ser preparados psicologicamente para suportarem a ausência do conforto e dos recursos urbanos. Eles devem aprender a viver de maneira simples e humilde, buscando identificarse com aquela comunidade para que pelo testemunho pessoal eles tenham credibilidade e, conseqüentemente, autoridade tanto moral quanto espiritual na pregação e ensino das Sagradas Escrituras. Devem receber treinamento apropriado para enfrentarem a solidão, pois o deslocamento para outros municípios e cidades maiores é dificultado pela ausência de transporte coletivo adequado. Este, às vezes, é feito em carrocerias de camionetas ou caminhões, comumente denominados de paus-de-araras, ou usando-se motos, bicicletas, ou animais como o jumento, o cavalo ou o burro. Não raras vezes, o deslocamento de quilômetros é feito a pé. Além destas questões há outras como o isolamento em relação aos colegas de ministério, dos familiares, da sua Igreja, e dificuldades em estar devidamente atualizado com o que está ocorrendo noutras partes do Nordeste, do Brasil e do mundo. Sua participação em eventos, seus estudos, podem ser comprometidos. Seus filhos também poderão sentir-se isolados e prejudicados quanto aos estudos. No quesito saúde, a assistência nesses lugares é extremamente precária. Estes fatores podem gerar stress, sentimentos negativos, desgastes emocionais e, conseqüentemente, sérios problemas de saúde. Entretanto, o cuidado e a prevenção aqui começam com os missionários sendo confrontados com a realidade que enfrentarão, não para que desistam, pelo contrário, para que devidamente cônscios, capacitados, avancem, e recebam da parte daqueles que os enviam todo o apoio e suporte necessários, para que perseverem. Todos estes itens merecem bastante atenção , e com oração, planejamento e muita serenidade eles devem ser enfrentados. Entretanto, nenhum deles é suficientemente justo, razoável, para que a obra missionária não seja feita.


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Quando lemos os diversos relatos da história de missões ficamos pasmos

e envergonhados com a coragem e o desprendimento de homens e mulheres que deram suas vidas na proclamação do Evangelho. Conforme o capítulo 11 de Hebreus, denominado a Galeria dos Heróis da Fé, nada é grande demais diante do sacrifício que o Senhor Jesus fez na cruz pela nossa salvação.

Os missionários devem ser preparados para o sofrimento

No seu livro “Missionários: preparando-os para perseverar”, a missionária Margaretha Nalina Adiwardana, no primeiro capítulo aborda a temática A necessidade de preparar candidatos ao trabalho missionário para perseverarem nas adversidades, na qual aponta as tendências culturais modernas como uma influência negativa sobre a vida dos missionários no sentido de fazê-los desistir do campo missionário: Em suma, tendências culturais modernas podem ter uma influência negativa na capacidade de missionários perseverarem no campo de missão incluem o espírito de independência e auto-suficiência, a expectativa de resultados instantâneos, a obsessão de eficácia no uso do tempo, o desejo de realização pessoal e a orientação para o sucesso (ADIWARDANA, 1999, p. 29).

Dentre os quatro tipos de situações de risco no campo que levam os missionários a desistirem e voltarem para casa, a autora cita três que são muitíssimos comuns no Nordeste brasileiro: A pobreza, a enfermidade e a perseguição.

Os missionários devem receber cuidados pastorais

O cuidado pastoral do missionário quer dizer efetivamente, cuidar dos missionários que são enviados ao campo em um procedimento de pastoreio. É um estado permanente de alerta, de cuidado, de pastoreio, por parte dos que enviam visando o bem-estar dos missionários em todos os aspectos de suas vidas. Infelizmente ao longo dos anos construiu-se e se solidificou a imagem do missionário como alguém que está acima dos cuidados pastorais e da sua relação


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com a igreja local: alguém que passa por todos os tipos de situações, mas resiste e vence como um super-herói. Daí, o missionário tornou-se um ícone, alguém que está acima de qualquer necessidade de cuidados ou acompanhamento. Hoje, graças a Deus, já há uma melhor compreensão tanto por parte da Igreja, quanto das agências, seminários e, dos próprios missionários, de que é necessário prestar-lhes assistência pelos menos em três áreas: saúde espiritual, corporal e mental. Missionários no Nordeste brasileiro necessitam ser acompanhados por suas igrejas, agências de envio, líderes espirituais, através dos diversos meios de comunicação e, principalmente serem visitados pessoalmente, periodicamente, a fim de que recebam alento e encorajamento para continuarem. São muitas as histórias que temos ouvido de missionários abatidos, frustrados, por se sentirem esquecidos no campo por seus líderes: Não recebem visita, nem correspondência, nem telefonema. A verdade é que dinheiro não resolve tudo. O mais confortante que o Senhor Jesus Cristo ofereceu aos seus discípulos quando os enviou ao mundo, certamente foi a sua maravilhosa presença: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt. 28.20b). O evangelista Marcos acrescenta: “E eles, tendo partido, pregaram em toda a parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc. 16.20). Os discípulos tiveram a promessa de nunca estarem sozinhos no campo de batalha! A promessa do Espírito Santo é outra maneira do Senhor Jesus garantir tanto a sua presença como a do Pai Celestial com os discípulos, “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo. 14.16-18). O cuidado pastoral para com os missionários expressa a sensibilidade daqueles que enviam para com os que são enviados, a expectativa calculada de que os missionários conseguirão dar o melhor de si no campo e os frutos serão os


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melhores possíveis. Nunca me esqueci da experiência vivida e narrada pelos pastores José Pontes e Sidney Xaxá, residentes em João Pessoa, que depois de passarem uma semana viajando pela zona rural, embrenhando-se na caatinga, visitando vários obreiros e suas famílias no sertão levando-lhes palavras de conforto, ânimo, e ofertas em dinheiro e vestimentas. E no sábado, ao retornarem para casa, não encontrando os familiares, foram procurá-los no shopping Center mais próximo; ao chegarem à praça da alimentação, eles se sentiram profundamente incomodados com toda aquela fartura de alimentos, bebidas, luzes, cores, vozes, gente, alegria. Lágrimas rolaram pelas suas faces; seus corações apertados balbuciavam: Que diferença! Esses pastores nunca mais foram os mesmos. Hoje eles continuam periodicamente fazendo visita aos obreiros sertanejos e aos que se encontram no sertão. Ora, se aqueles que vivem em grandes centros urbanos ao vivenciarem temporariamente a realidade sertaneja percebem o contraste, imagine aqueles que deixam tudo para ali permanecerem. Faz-se necessário entendermos que o cuidado pastoral dos missionários diz respeito ao maior recurso humano de missões: o próprio missionário.

Os missionários devem ser preparados para relacionamentos profundos

Há também o fato de que os lugares a serem alcançados, nos quais as estatísticas apontam a inexistência de igrejas evangélicas ou até mesmo de crentes, são municípios com um número de habitantes que varia de 3 a 5 mil pessoas, o que implica dizer que os moradores facilmente conhecem uns aos outros, e quando alguém de fora chega, logo toda a cidade tomará conhecimento. Tal situação irá requerer dos missionários a consciência de que, diferentemente do homem urbano que prefere o anonimato, que valoriza a privacidade, a individualidade, o homem do interior, da zona rural, tem apreço em “saber”, conhecer, e até mesmo tomar parte na vida


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dos seus conhecidos, vizinhos, etc. Os missionários, então, terão de aprender a viver de modo mais relacional, sendo mais sociáveis, mais transparentes, seja com os crentes ou descrentes. Embora o sertanejo seja muito hospitaleiro sua primeira reação no contato com alguém que ele não conhece é de desconfiança, exigindo do visitante paciência e prudência na abordagem quando na tentativa de estabelecer uma amizade. Os missionários devem estar atentos às oportunidades que surgirem para mostrarem-se verdadeiramente interessados na vida das pessoas. Questões de ordem de saúde, escassez de alimentos, vestimenta, família, são meios propícios para isso. No aspecto positivo, este tipo de convivência evitará a alienação, e os missionários não serão tidos como estrangeiros ou intrusos na comunidade, e se assimilarem corretamente este estilo de vida, logo serão considerados membros daquela comunidade. Vale a pena ressaltar um aspecto muito interessante: A integridade do missionário. O homem do interior, em especial o sertanejo, dá um grande valor ao caráter das pessoas, e certamente não aceitará o Evangelho se as ações e as atitudes dos missionários não forem condizentes com aquilo que eles pregam e ensinam. Não há nada mais destrutivo para o testemunho cristão do que uma espiritualidade sem ética, sem integridade, incoerente. Assim, eles devem ser treinados para que nesse convívio social intenso obtenham informações importantíssimas sobre seu público alvo, através das quais poderá desenvolver estratégias para realizar um trabalho consciente e profícuo. Desprezar este aspecto da vida da comunidade é incorrer em grave erro e colocar a si mesmo em desvantagem. A capacidade de ouvir, observar, somadas às de falar, dialogar, estabelecer a conversação, são essenciais e fundamentais em tal contexto. Os missionários tanto devem se deixar conhecer, contando histórias sobre suas próprias vidas, como também buscar conhecer aqueles que eles desejam alcançar para Cristo ouvindo suas histórias e estórias.


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Caráter é mais importante do que conhecimento Ao falar sobre erros antropológicos e da não aplicabilidade da teologia bíblica cometidos pelos missionários no campo o missionário Ronaldo Lidório, afirma que estes, residem não na falta do conhecimento, mas na falta de disposição em aplicar o conhecimento [...] os grandes erros de comunicação são conseqüência de uma decisão em não aplicar o conhecimento adquirido. Problemas de caráter, não de estudo [...] Caráter é mais importante que habilidade [...] Caráter, em última instância, é o fator primordial que define relacionamentos, e estes, citando Abdulai Syin, definem a pressuposição social de aceitação ou rejeição da mensagem que será pregada. (LIDÓRIO, 2006, p. 92- 93).

O clamor de um pastor sertanejo: Passa à Macedônia e ajuda-nos! 11

O Pr. Sebastião, mais conhecido como Tião, é uma pessoa muito especial. Nascido no alto sertão paraibano, ele foi alcançado pelo Evangelho já casado e pai de oito filhos. Trabalhador da roça, analfabeto, viciado em cachaça, pobre, sem dinheiro para comprar sequer um calçado ou uma roupa. Assim, vivia Tião uma vida miserável. Certo dia, ao abrir a Bíblia começou de forma sobrenatural e milagrosa a entender tudo que ali estava, quer dizer, a ler o texto bíblico. A primeira vez que vestiu uma roupa nova, não usada, foi aos 36 anos de idade, comprada pelos irmãos da Igreja. Com o desejo ardente de servir a Deus, resoluto, ele tomou a decisão de estudar no Seminário Sertanejo na cidade de Itaporanga/PB, que é voltado para o preparo de obreiros leigos. Porém, para chegar até ali e assistir as aulas que aconteciam nos finais de semana, muitas e muitas vezes Tião percorria de bicicleta 21 quilômetros até um local aonde pegava um carro, mas quando isto não era

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Revista TodosNos, Ano 02, nº 04


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possível, de bicicleta mesmo, percorria os 45 quilômetros! Nunca faltou às aulas nem foi reprovado em uma disciplina. Hoje, o Pr. Tião dedica-se a ganhar almas para Cristo Jesus, pastoreá-las e discipulá-las, preparando-as para ganhar outras almas perdidas. Ele almeja despertar a Igreja brasileira para evangelizar o Sertão nordestino: “Venha investir no Sertão, independente de todas as barreiras que vier sobre você; invista no Sertão porque lá existem pessoas carentes e que estão precisando ouvir a Palavra de Deus, precisando ouvir o que é que Deus tem para as suas vidas. Há pessoas ali sem nenhuma perspectiva de vida, pessoas que não tem razão para viver, como eu não tinha”. Seu clamor é semelhante ao daquele varão macedônio que em sonho apareceu ao apóstolo Paulo quando ele se encontrava em Trôade: “À noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos. Assim que teve a visão, imediatamente, procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho” (At. 16.9-10).


4 A DIFÍCIL SITUAÇÃO ECONÔMICA

Recentemente um casal de ex-alunos do Seminário Teológico da Missão JUVEP foi trabalhar numa cidade do sertão paraibano, que dista cerca de 250 km da capital, a qual possui uma população de 2.104 pessoas, sendo 865 na zona urbana e 1.239 na zona rural (Atlas IDH 2000), com uma Igreja Batista que existe ali há uma década. Pois bem, segundo eles, a situação deste município é tão precária que não existe ali sequer uma padaria!

Os dados oficiais A pobreza no Nordeste brasileiro é uma realidade cruel e fatigante. O IBGE ao analisar a distribuição das famílias por classes de rendimento familiar mensal per capita, percebeu que no Nordeste, a proporção de famílias com até ½ salário mínimo per capita alcançou quase 44%, contrastando com a proporção encontrada para o Sudeste (14,6%) e revelando as desigualdades históricas existentes entre estas duas regiões12. Várias são as causas. As conseqüências, então, são mais terríveis ainda. 12

IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004.


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A Difícil Situação Econômica

A verdadeira causa da pobreza: o pecado A seca, devido à escassez de chuvas, é apontada como a principal causa da falta de crescimento econômico do Nordeste. Mas, na verdade, a causa da pobreza no Nordeste é mais de natureza humana, produzida pelo próprio homem, do que de causas naturais. A corrupção com desvios de verbas municipais, estaduais e federais é gritante, vergonhosa. É de longínquos tempos o descaso, o latifúndio e a iniqüidade social, que dão vida longa à fome e a pobreza. O nordestino e o sertanejo sofrem mais com as iniqüidades sociais do que com a escassez de recursos naturais, padecendo com a “indústria da seca” e dos interesses políticos de grupos poderosos. Embora um ser forte e culturalmente sábio, o nordestino, assim, fica desprovido de reservas. Quem assevera com muita propriedade a verdadeira causa da pobreza, da miséria do nordestino, é o médico, nutrólogo, geógrafo e sociólogo pernambucano Josué de Castro, em sua principal obra, Geografia da Fome: o dilema brasileiro: pão ou aço, referência mundial sobre a análise da fome no Brasil: Pelo Brasil afora se tem a idéia apressada e simplista de que o fenômeno da fome no Nordeste é produto exclusivo da irregularidade e inclemência de seu clima. De que tudo que é causado pelas secas que periodicamente desorganizam a economia da região. Nada mais longe da verdade. Nem todo o Nordeste é seco, nem seca é tudo, mesmo na área do sertão. Há tempos que nos batemos para demonstrar, para incutir na consciência nacional o fato de que a seca não é o principal fator da pobreza ou da fome nordestinas. Que é apenas um fator de agravamento agudo desta situação cujas causas são outras. São causas mais ligadas ao arcabouço social do que aos acidentes naturais, às condições ou base física da região (CASTRO, 1987, p. 260).

Assistencialismo: Na contramão do desenvolvimento Outro fator econômico contraproducente, em médio e longo prazo, é a ajuda dada pelo governo federal através dos vários projetos integrados e unificados ao Fome Zero, como o Bolsa Escola, Auxílio Gás, Cartão Alimentação, dentre outros.


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Eles foram criados para o enfrentamento das causas imediatas e subjacentes da fome e da miséria no Brasil, que geram a exclusão social. Segundo o governo brasileiro existem cerca de 44 milhões de pessoas ameaçadas pela fome. As críticas feitas a esses programas é que a questão da fome deve envolver a adoção de políticas sociais genuínas, isto é, que incorporem a redistribuição de renda e de poder, porém o assistencialismo desvinculado de qualquer compromisso estrutural de solução apenas recria a miséria. Ou seja, tais programas de fato não ajudam as pessoas a crescerem economicamente, serem produtivas e terem a oportunidade de com seus próprios esforços mudarem verdadeiramente suas vidas, mas, sim, a ficarem dependentes dos recursos governamentais disponíveis através dos programas sociais. A princípio esses programas parecem lógicos e bons, contudo, eles não solucionam o problema da pobreza, ao contrário, geram mais pobreza. Um exemplo disso é fato sabido e constatado que muitas mulheres engravidam somente com o intuito de receber ajuda do governo federal.

Preocupação social genuína: serviço social + ação social

É verdade que muitas igrejas e instituições evangélicas como a ACEV

Social e a Diaconia14 , têm demonstrado uma grande preocupação social e tem se envolvido em atividades com o foco de minorar o sofrimento dos nordestinos. Porém, faz-se necessário distinguirmos entre expressões que normalmente são confundidas não só quanto ao seu conceito, mas também às ações derivadas deste conceito e, conseqüentemente, dos seus resultados. Uma genuína preocupação social deve abranger tanto o “serviço social” quanto a “ação social”. O objetivo do serviço social é socorrer o ser humano em suas necessidades imediatas, procurando atender a indivíduos e famílias através de atividades filantrópicas e obras de 13

Organização não-governamental (ONG) cristã que atua no Desenvolvimento Humano e SócioAmbiental na região NE com 09 projetos e diversas ações, alinhando-se e contribuindo para os 08 objetivos para o Milênio propostos pela ONU – site: www.acevsocial.org.br. 14 É uma organização social sem fins lucrativos e de inspiração cristã, que tem por missão, “Contribuir para a construção solidária da cidadania e a garantia dos direitos humanos da população excluída na perspectiva da transformação social, preferencialmente na Região Nordeste do Brasil” – site: www. diaconia.org.br. 13


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caridade; a ação social, por sua vez, tem como objetivo eliminar as causas das necessidades humanas através de atividades políticas e econômicas procurando, assim, transformar as estruturas da sociedade a fim de que ela seja mais justa, criando medidas que visem à transformação numa perspectiva sustentável. A doação de dinheiro, roupas, objetos, alimentos, são expressões do serviço social, enquanto a tentativa de estabelecer uma melhor distribuição de renda que proporcione ao indivíduo e a família melhores condições financeiras para que possam comprar alimentos, vestimentas, ter moradia própria, é fruto de uma ação social. Uma preocupação social genuína deve abranger tanto o serviço social quanto a ação social, sem divorciá-las. A Igreja deverá fazer ambas as coisas, ou seja, tratar das questões sociais tanto no que diz respeito às causas quanto às conseqüências, confrontando e atingindo, de fato, o âmago da questão.

Conseqüências nefastas da pobreza a . A mortalidade infantil: Segundo dados do IBGE, uma estimativa global de 122 mil óbitos que ocorrem no Brasil, mais de 60% são de crianças nordestinas que, em termos relativos, representa o dobro de sua população no conjunto nacional. Este alto índice é conseqüência da dificuldade de acesso aos bens e serviços, imposta pelas precárias condições sociais e econômicas. b. O processo de migração: Em termos de migração, o Nordeste continua sendo um grande foco de expulsão populacional dirigido, preferencialmente, para a região Sudeste e também para o meio rural das regiões Centro-Oeste e Norte. É comum ouvirmos de pastores histórias de que em determinados meses do ano sua Igreja tenha certo número de membros e noutros meses este número caia pela metade. Isto porque os homens jovens e adultos, maridos e filhos, deixam seus lares e vão para outras regiões do Brasil em busca de recursos financeiros, vendendo redes, às vezes por eles mesmos fabricadas, ou vão trabalhar num canavial ou numa determinada colheita. Além das implicações deste fato junto às famílias, toda sociedade, economia e igreja, padecem.


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A migração nordestina tanto interna quanto externa dos denominados ‘flagelados’ acaba também por acelerar o processo de urbanização, ambiente no qual eles passam a ser identificados como ‘favelados’. Entretanto, os pastores Manfred Grellert15 e Raimundo de Oliveira16 vêem a migração nordestina como o maior centro de difusão do Evangelho para os grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e até mesmo para a Região Sul do Brasil, pois uma vez convertido os nordestinos levam a Bíblia e pregam o Evangelho por onde quer que vá (1997, p. 18)17 .

Indiferença: A atitude tradicional face às dimensões sociais Landa Cope, missionária americana da JOCUM (Jovens com uma Missão), no seu livro sobre o papel da Igreja no discipulado das nações através da exposição e vivência dos princípios bíblicos, faz uma citação do professor universitário no Quênia, Dr. George Kinoti; a autora menciona a esse respeito que: Especialistas nos dizem que o Cristianismo está crescendo mais rápido na África do que em qualquer outro continente. Ao mesmo tempo, o povo está ficando mais pobre rapidamente e a estrutura moral e social da sociedade está desintegrando depressa. Obviamente, o Cristianismo não está fazendo uma diferença significativa nas nações africanas (KINOTI, 2007 apud COPE).

Qual a explicação para isto? Infelizmente um dualismo grego e medieval tem estado presente nas atividades evangelísticas e missionárias, dando um valor extremo ao “espiritual”, enfatizando a evangelização como atividade suprema, reduzindo a missão da Igreja à evangelização. Desse modo a atitude tradicional dos evangélicos para com as questões de ordem social é a indiferença, porque o Evangelho é entendido como uma mensagem espiritual que nada tem a dizer Em Recife/PE foi pastor da Igreja Batista da Capunga e professor do Seminário Teológico Batista. Foi diretor da Visão Mundial-Brasil e vice-presidente para a América Latina e o Caribe da Visão Mundial Internacional. 16 Pastor assembleiano nascido e criado no Nordeste. 17 Revista Ultimato nº 248, setembro, 1997. 15


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sobre os problemas sociais. A preocupação, então, é somente com a “alma” do novo convertido, procurando arrebatá-la das garras do Diabo, do inferno, e da condenação eterna. O que importa mesmo é o seu destino celestial, desprezando, assim, sua realidade histórica, social e econômica, a qual também deve ser transformada pelo Evangelho, o qual é o poder de Deus. Nas palavras de Sérgio Ribeiro (1997, p. 22)18 ,“a questão social nordestina desafia a Igreja à prática de uma evangelização integral e criativa”. As implicações de tal indiferença em face das dimensões não-espirituais da realidade humana, nem sempre explícita, é a de que o comportamento social do novo convertido, e dos cristãos em geral, não é afetado nem interiormente nem exteriormente, pela mensagem do Evangelho. Àqueles que são pobres lhes é dito que se contentem com o que possuem e aos ricos não lhes é ensinado a repartir os bens que possuem. Assim, a injustiça social e econômica, é perpetuada. Não pelo Evangelho nem pela sua mensagem, mas por aqueles que o representam e o interpretam e o pregam. Isso é religiosidade. Diferentemente a Bíblia nos orienta que: “Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem e não segundo o que não tem. Porque não é para que os outros tenham alívio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta” (II Co. 8.12-15).

Os missionários devem redescobrir as dimensões sociais do Evangelho Os missionários devem ser preparados para o exercício de algum ofício, profissão, e para elaborarem projetos sociais a fim de que possam participar do desenvolvimento sócio-econômico da comunidade, demonstrando seu interesse no bem-estar de toda comunidade e não apenas daqueles que se convertem. Isso criará o senso de pertencer. Eles devem conhecer a Teologia do Reino através 18

Op. cit.


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da qual possam relacionar missões à responsabilidade social, apresentando o Evangelho de maneira integral, holístico. É profundamente significativa a recomendação que Paulo e Barnabé receberam dos líderes da Igreja Primitiva, “e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fossemos para os gentios e eles para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer” (Gl. 2.9-10). Recomendação esta seguida à risca por Paulo e Barnabé, “Os discípulos, cada um conforme as suas posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que moravam na Judéia; o que eles, com efeito, fizeram enviando-os aos presbíteros por intermédio de Barnabé e de Saulo” (At. 11.29-30). Ao apresentar sua defesa diante do governador Félix, Paulo comenta, “Depois de anos vim trazer esmolas à minha nação,...” (At. 24.17). Em textos como I Co. 16.1-3 e II Co. 8.1-5, Paulo nos revela como era a sua atuação social no sentido de ajudar aos mais necessitados. Ele não dissociava a atividade de pregar o Evangelho da de prestar socorro ajudando o próximo com bens materiais, pelo contrário, ele envolvia toda a Igreja nesse processo: “Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for. E, quando tiver chegado, enviarei, com cartas, para levarem as vossas dádivas a Jerusalém, aqueles que aprovardes” (I Co. 16.1-3). “Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos. E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus” (II Co. 8.1-5).


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Missões versus Economia No livro de Atos encontramos pelos menos duas narrativas que exemplificam muito bem o poder transformador do Evangelho das dimensões sociais humanas: Primeiro, sobre a libertação de uma jovem possessa de um espírito maligno de adivinhação, na cidade de Filipos, o que afetou seriamente a vida financeira e social de um grupo de pessoas (que a exploravam) e acarretou sérias acusações contra Paulo e Barnabé: “Vendo os seus senhores que se lhes desfizera a esperança do lucro, agarrando em Paulo e Silas, os arrastaram para a praça, à presença das autoridades; e, levandoos aos pretores, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, propagando costumes que não podemos receber, nem praticar, porque somos romanos. Levantou-se a multidão, unida contra eles, e os pretores, rasgando-lhes as vestes, mandaram açoitá-los com varas. E, depois de lhes darem muitos açoites, os lançaram no cárcere, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. Este, recebendo tal ordem, levou-os para o cárcere interior e lhes prendeu os pés no tronco” (At. 16.16-23) - grifo nosso.

A segunda narrativa é sobre a conversão de judeus e gregos na cidade de Éfeso, os quais crendo na mensagem do Evangelho e aceitando a Cristo em seus corações, abandonaram a magia e a idolatria em que viviam, o que afetou grandemente toda a estrutura econômica e comercial da cidade, “Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinqüenta mil denários” (At. 19.19). O texto bíblico ainda afirma que “Por esse tempo houve grande alvoroço acerca do Caminho. Pois um ourives chamado Demétrio que fazia de prata nichos de Diana, e que dava muito lucro aos artífices” (At. 19.23-24) convocou seus colegas de profissão e os alertou sobre quanto prejuízo eles estavam tendo e teriam mais ainda com a pregação do Evangelho e as conseqüentes conversões, “Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito como também o de o próprio templo da grande deusa Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída


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a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram” (At. 19.27). Tais narrativas nos esclarecem que o indivíduo e o mundo em que ele vive não continuam (ou não deveriam continuar) a serem os mesmos depois da penetração do Evangelho. A salvação de Deus transforma o homem na totalidade da sua vida, destarte afetando tanto a sua vida como as suas estruturas. Essa força transformadora do Evangelho é que o distingue da simples religiosidade. No Nordeste esta realidade não está tão distante. Embora pobre materialmente, o nordestino é riquíssimo em criatividade, possuindo grandes habilidades para a arte, para o artesanato, nos trabalhos manuais. Boa parte desse potencial se evidencia na sua religiosidade, na produção abundante de imagens e esculturas, em barro, gesso, cera, madeira. Esses objetos produzidos tornam-se os ídolos da fé. Quando viajamos pelas rodovias estaduais é comum encontrarmos estátuas de Frei Damião e até do “Cristo Redentor”, e de Nossa Senhora, em tamanho natural de um homem ou de vários metros de altura, que podem ser vistas a quilômetros de distância. Elas também são encontradas na entrada de cidades, no centro ou em algum morro ou serra próximos. Além das esculturas são comuns quadros pintados que retratam os rostos de Jesus, Maria, e demais santos. Em muitas residências há pequenos altares, chamados de oratórios. Um imenso número de outros objetos religiosos é produzido industrialmente com fins comerciais, não nos restando dúvidas de que o comércio desses objetos de culto é uma grande fonte de renda, de lucro. A produção de imagens, esculturas, ídolos, é seriamente condenada em todas as Escrituras. Deus abomina tanto o ídolo como aquele que o faz, o artífice, e do mesmo modo aquele que o adora, o idólatra: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex. 20:4-6).


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Tudo isso fica também evidente em grandes aglomerações como

procissões e romarias. Momentos que não são apenas de puro fervor religioso, mas também de grande comércio e lucro, quando o sagrado e o profano se mesclam facilmente. Feiras livres com dezenas, e até centenas de barracas, são organizadas onde tudo é comercializado. O que os missionários devem fazer e como devem agir? Eles devem pregar e ensinar toda a verdade de Deus, porém, com sabedoria, firmeza e amor. A conseqüência natural disto serão conversões, e essas conversões, se genuínas, trarão consigo mudanças profundas, com grande impacto que afetará o mundo religioso, cultural e econômico.

Economia versus Missões: O sustento dos missionários A questão econômica no Nordeste se constitui num grande desafio à obra missionária porque tanto os que forem enviados como aqueles que se comprometerem com o envio devem estar conscientes de que irão investir financeiramente no sustento do obreiro, nas atividades que desejarem realizar, na construção de templos, muitas vezes, por tempo indeterminado. Esta questão é tão cruel que muitos que estão como missionário são, em sua maioria, sustentados por igrejas e instituições de outras regiões do Brasil e não do próprio Nordeste. É claro que há grandes igrejas nordestinas, com excelentes condições financeiras para abrir novas igrejas no Nordeste, porém nem sempre isso ocorre devido a mentalidade capitalista que de forma sutil, às vezes inconsciente, subjaz ao ato de apoiar alguém financeiramente com a expectativa de um retorno financeiro fruto do pretenso investimento. Segundo Sérgio Ribeiro (1997, p. 22)19 , outro fato desconcertante e até mesmo vergonhoso, além de simplesmente desafiador, é que pastores e missionários que se encontram na região mais inóspita do Nordeste, o sertão, ganham menos do que aqueles que estão na cidade grande, sem que tal fato se justifique.

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Revista Ultimato nº 248, setembro, 1997.


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Embora o desafio primário dos missionários seja o mesmo que o Senhor Jesus confiou a Paulo, “para lhes abrir os olhos e convertê-los das trevas para luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles a remissão de pecados e herança entre os que são santificados, pela fé em mim” (At. 26.18), este também se constitui no enfrentamento de questões pessoais de ordem financeira, econômica, no que diz respeito tanto ao seu envio como ao seu sustento, e na manutenção do trabalho que ele desenvolverá. Paulo entre os coríntios passara por tal situação, “Cometi eu, porventura, algum pecado pelo fato de viver humildemente para que fosseis vós exaltados, visto que gratuitamente vos anunciei o Evangelho de Deus? Despojei outras igrejas, recebendo salário, para vos poder servir e, estando entre vós, ao passar privações, não me fiz pesado a ninguém; pois os irmãos, quando vieram da Macedônia, supriram o que me faltava; e em tudo me guardei, e me guardarei de vos ser pesado” (II Co. 11.7-9). A palavra despojei no grego é a palavra sylaô que significa literalmente roubar, saquear, pilhar. Ou seja, durante o período em que estivera pregando para os coríntios o sustento de Paulo viera de outras igrejas quando na realidade deveria ter vindo da parte dos próprios coríntios. Eles foram negligentes. Daí, Paulo anunciara-lhes o Evangelho gratuitamente, isto é, sem salário; e, a fim de que esta atitude negativa não prejudicasse a proclamação das boas novas, ele não foi pesado (veja as expressões que Paulo usa: “não me fiz pesado a ninguém”, “me guardarei de vos ser pesado”). Infelizmente essa situação que ocorreu com Paulo, hoje é muito mais comum na vida dos missionários do que pensamos. E mais triste ainda: a atitude negligente de muitas igrejas em relação aos que se encontram no campo missionário se perpetua até hoje. Pessoalmente conheço alguns missionários aqui mesmo no Nordeste que devido a mentalidade capitalista presente em muitas igrejas, ministérios e lideranças, deixaram de receber o sustento financeiro por não darem “resultado”, na realidade, uma espécie de lucro em cima daquilo que foi investido na sua vida, isto é, o seu próprio sustento! Infelizmente são raríssimos os exemplos de pessoas e igrejas no Brasil que por um período muito longo tenham participado do sustento de missionários, diferente do que temos visto com relação ao sustento de missionários estrangeiros, os quais são praticamente sustentados durante toda a vida. A questão não é apenas a falta de dinheiro, mas, sim, a falta de consciência, consciência de que a ordem de Jesus “buscai, pois, em primeiro lugar o seu reino e


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a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas” (Mt. 6.33), deve estar no topo de toda e qualquer prioridade de nossas vidas. Nada, absolutamente, é mais importante do que o seu reino, seu domínio, seu governo, e, por isso mesmo Jesus orou e nos ensinou a orar, “venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt. 6.10). Não tenho dúvidas de que investir financeiramente na obra missionária e no sustento de missionários faz parte daquelas atitudes que revelam que estamos tomados pelo intenso desejo da vinda do Reino de Deus. Na verdade, a questão mais séria neste sentido não é o dinheiro em si, mas o coração dos servos de Deus, pois a própria Escritura nos diz, “porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt. 6.21). É no coração aonde as decisões mais importantes da vida são tomadas e é nele que guardamos aquilo que mais amamos. É no coração aonde decidimos onde vamos aplicar o nosso dinheiro Dentre as parábolas do Reino encontramos aquela cuja lição é o valor inigualável do Reino, pelo qual se dá tudo, tudo mesmo, a fim de adquiri-lo: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt. 13.44). Investir na obra missionária e nos missionários no Nordeste é antes de tudo abrir o coração e doá-lo, por inteiro, para que outros que já doaram a própria vida, possam doar-se mais e mais, em prol daqueles que ainda estão fora do Reino, mortos espiritualmente. Qual a fonte de recursos financeiros de uma Missão? Pessoas que voluntariamente ofertam a cada mês. E é com essas ofertas que são cobertas a maior parte do sustento dos obreiros e das despesas administrativas. Algumas igrejas também contribuem, normalmente, com o sustento deste ou daquele obreiro, especificamente. Entretanto, ainda há aqueles que gostariam de estar no campo missionário nordestino, mas são impedidos pela escassez de recursos. Se você pensa que já foi dito bastante sobre a situação econômica do Nordeste e da obra missionária, leia o relato abaixo e reflita:


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O dízimo foi um galo vivo!20 Um fato dramático que espelha bem a difícil realidade econômica nordestina ocorreu na cidade de Itaporanga, sertão paraibano, a 415 km da capital. O pastor Gildário tinha um programa semanal numa estação da rádio local, através do qual alcançava cerca de 50 mil pessoas com a mensagem do Evangelho, no Vale do Piancó, principalmente na zona rural, aonde o rádio ainda é um expressivo meio de comunicação. Embora o custo do programa fosse apenas 50 reais mensais, Pr. Gildário já estava atrasado três meses e prestes a cancelar o contrato. Porém, a Irmã Lourdes, do povoado de Capim Grosso, ao tomar conhecimento daquela realidade financeira e consciente da relevância do programa na evangelização e edificação das pessoas, e não tendo dinheiro para ajudar, resolveu dar o melhor que tinha, o melhor galo do seu terreiro, aquele que era o reprodutor! Pr. Gildário, então, resolveu fazer uma rifa com o galo para levantar o dinheiro que precisava. Pr. Pedro Luis, diretor do Seminário Sertanejo em Itaporanga, sensibilizado, colocou na internet o fato, o que mobilizou várias igrejas e pessoas no Brasil para contribuírem. O Pr. Jeremias Pereira, da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, assumiu o programa durante o período de dois anos. E, por onde ele pregava, dentro e fora do Brasil, narrava a ‘história do galo’. Ao fazer isto em Toronto, no Canadá, duas jovens ofertaram cerca de 800 reais, não para o programa na rádio, mas para a Irmã Lourdes, que doou o galo. Ela nunca vira tanto dinheiro em sua vida! Ao pregar em Nova Iorque, EUA, a Igreja quebrantada mais uma vez ofertou, não para o Pr. Gildário ou para a manutenção do programa, mas comprou um sítio para a Irmã Lourdes e construiu uma casa para ela e sua família! A atitude da Irmã Lourdes assemelha-se ao da viúva pobre que o Evangelista Marcos narra: “Assentado diante do gazofilácio, observava Jesus como o povo lançava ali o dinheiro. Ora, muitos ricos depositavam grandes quantias. Vindo, porém, uma viúva pobre,

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depositou duas pequenas moedas correspondentes a um quadrante. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos os ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento” (Mc. 12.41-44).

Assim, do texto bíblico sobre a viúva e da vida da Irmã Lourdes aprendemos que: 1. Ninguém é tão pobre que não possa ofertar para Deus; 2. O verdadeiro valor de uma oferta está no sacrifício que ela envolve; 3. Nossa fé não deve ser apenas para receber, mas igualmente para dar;

Um erro não justifica outro Diante deste quadro de injustiças, um fato comum, embora reprovável, é a forma como o apelo é feito por alguns missionários quando testemunham sobre os desafios que enfrentam no campo, ou por apresentações que são feitas durante a realização de conferências missionárias, com o intuito de despertar a Igreja para a obra missionária no Nordeste, em que são utilizadas informações, estatísticas, imagens quer através de fotos, apresentação em datashow, vídeos, os quais enfatizam e exploram a pobreza, e os testemunhos relatam apenas dificuldades e miséria. É preciso que estejamos conscientes de que Missões, antes de tudo, é um ato de obediência da nossa parte em resposta à ordem, ao mandamento do Senhor Jesus Cristo e não se fundamenta, primariamente, nem mesmo no fato dos nordestinos se encontrarem perdidos, mergulhados na idolatria, afastados de Deus, nem de que há carências, grandes necessidades no Nordeste. Esta amarga realidade não é o fundamento, a principal motivação, aquilo que justifica nosso envolvimento com a obra missionária. Devemos ir ao âmago da questão, à causa, e não às conseqüências. O apelo genuíno para a obra missionária deve estar fundamentado na ordem de Jesus, “Indo, fazei discípulos de todas as nações” (Mt. 28.19). Assim, o apelo não deve ser dirigido meramente aos sentimentos das pessoas, os quais podem se desvanecer de uma hora para outra; este deve ser dirigido à consciência de cada cristão de que é imperativo obedecerem à ordem do Senhor Jesus Cristo, o Rei dos reis, o Soberano dos soberanos.


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Missionários devem fazer Missão Integral A expressão da obra missionária, da obediência à ordem de Jesus, que é primeiramente a pregação do Evangelho para que as pessoas se arrependam dos seus pecados e se convertam dos seus maus caminhos, deve também ser vista na melhoria das áreas da vida humana como saúde, economia, educação, etc. O Apóstolo Pedro no seu primeiro discurso para uma grande multidão, cheio do Espírito Santo, fez uma exposição magnífica sobre a pessoa do Senhor Jesus Cristo, e “Ouvindo eles estas cousas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos? Respondeu-lhes, Pedro: Arrependei-vos, e cada um seja de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At. 2.37-38). Depois, “Com muitas outras palavras deu testemunho, e exortava-os, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa” (At. 2.40). O relato seguinte do texto de Atos nos mostra como eles passaram a viver de uma maneira social diferente, nova, resultado da conversão. Ou seja, houve mudanças profundas na vida daqueles que se arrependeram dos seus pecados, se converteram dos seus maus caminhos e aceitaram a Cristo como Salvador e Senhor. A pregação do Evangelho pelos apóstolos foi o motivo precursor desta mudança radical. A Igreja junto com as instituições missionárias deve repensar sua atuação junto ao povo nordestino brasileiro: A pregação do Evangelho é consistentemente bíblica, confrontando o pecado e conclamando as pessoas ao arrependimento? Há conversões genuínas? Quais mudanças podem ser vistas na vida dos novos convertidos? Qual o impacto dessas conversões e das Igrejas sobre toda a sociedade nordestina? Como a Igreja está influenciando as diversas áreas dessa região tão pobre do Brasil? São muitas as áreas sociais e as necessidades materiais que carecem de uma atuação mais relevante por parte da Igreja. Há uma tradição evangélica de iniciativa de serviço nas mais diversas áreas da vida humana. Lamentavelmente, parece haver-se perdido esse espírito de iniciativa. Mas, para que haja iniciativa, deve haver sensibilidade. Esta sensibilidade advém do fato de que como Igreja, cremos que Deus é o criador de todo ser humano, e por isso mesmo “nada humano


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lhe é alheio” e a vida é vista como um constante serviço: Uma missão que não é unicamente “espiritual”, senão integral. Mas, a falsa espiritualidade dualística tem produzido a insensibilidade, destruindo toda a iniciativa da Igreja hoje levar a sério as realidades humanas que a cercam.

Missionários como agentes de transformação É preciso que os missionários tenham em mente que com o Evangelho em seus corações e proclamando-O eles são instrumentos poderosos de Deus para transformar o seu contexto histórico, social, político, econômico, cultural, e que a partir do modelo bíblico que enfatiza a oportunidade ao invés do assistencialismo, eles devem criar e promover novas situações, como resultado da nova vida em Cristo. Conscientes de que as palavras do Senhor Jesus “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10.10a) significam que os princípios do Evangelho devem permear todas as áreas da vida humana e estarem presentes nas estruturas da sociedade, impedindo, assim, a livre atuação do maligno e do pecado, mas pelo contrário, dando livre curso à paz entre Deus e os homens, entre homem com o homem, entre os homens e todas as demais criaturas e o seu meio ambiente. A primeira atitude neste sentido é a pregação e o ensino integral do Evangelho cujo alvo é a transformação total do indivíduo: Aquele que roubava, que vivia embriagado, mentia, se prostituía, agredia, era preguiçoso, não trabalhava, indisciplinado, egoísta, agora, em Cristo, como nova criatura, novo homem e nova mulher, é encorajado a ser uma pessoa de bem, trabalhadora, honesta, sincera, que ama, respeita e auxilia o próximo. As epístolas no Novo Testamento são abundantes de ensinos que ordenam o abandono de uma vida pecaminosa e dão diretrizes para uma vida frutífera, abundante. Muitos economistas, sociólogos, engenheiros, políticos e líderes católicos romanos têm debatido, falado, escrito, e alguns até agido, em prol de uma mudança efetiva da situação do Nordeste. E nós, evangélicos? Infelizmente nossa hermenêutica bíblica é míope e superficial, não conseguimos fazer a leitura dos acontecimentos dos nossos dias através dos textos bíblicos. Entendemos, então,


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que economia e outras atividades humanas é uma questão de natureza científica ou governamental e que absolutamente não deve fazer parte das nossas preocupações; porém, quando compreendemos que é parte da nossa responsabilidade cristã, não conseguimos perceber orientações bíblicas neste sentido que nos digam o que e como devemos fazer. Assim, ficamos inertes, passivos, indiferentes. A segunda atitude, igualmente importante, é a prática da oração, como orações de intercessão e de petição. A intercessão deve ser feita pelos líderes e autoridades civis que detém o poder para governar e, conseqüentemente, decidir sobre o bem ou o mal da sociedade (Rm. 13.1-7; Tt. 3.1-2; I Pe. 2.13-17 e em especial I Tm. 2.1-4). Certa feita um candidato ao governo de um dos estados nordestinos reuniu os pastores para apresentação do seu plano de governo caso fosse eleito; ao final pediu a eles que orassem pela sua vitória e que o apoiassem. Unanimemente todos concordaram. Um dos pastores, entretanto, corajosamente, advertiu ao candidato: Se o senhor, porém, se envolver em escândalos, questões que contrariem a Palavra de Deus, não só deixarei de lhe apoiar como pedirei ao Senhor que lhe destitua do cargo! Os missionários devem ser grandes intercessores e pelo seu exemplo motivar a Igreja a interceder fervorosamente pela sociedade nordestina. A Igreja como um reino de sacerdotes (I Pe. 2.10; Ap. 1.6; 5.10), cuja autoridade e poder estão no serviço sacerdotal, deve se colocar diante de Deus e suplicar por uma nova realidade nordestina. Condoer-se, sentir compaixão, chorar, colocando-se no lugar dos que estão perdidos, dos que sofrem, dos que se encontram aprisionados pelo Diabo e pelo pecado, é função do cristão como sacerdote na relação entre Deus e o mundo. A obra missionária no Nordeste brasileiro deve começar e ser realizada com muita, mas muita mesmo, oração. É através da intercessão pelos nordestinos que perceberemos a realidade em que eles se encontram. Embora os dados estatísticos sejam reveladores, somente pela oração é que teremos a percepção mais profunda daquilo que está acontecendo com aqueles que queremos alcançar para Cristo.

Já o outro tipo de oração é a de petição. Nela, ao mesmo tempo em


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que fazemos a afirmação de que Deus tem poder sobre o mundo e que pode e quer transformá-lo, igualmente, afirmamos o nosso abandono da resignação, do conformismo, da indiferença para com as pessoas e circunstâncias que nos cercam. A oração de petição é o nosso desejo expresso num pedido intenso para que o Reino de Deus venha com grande intensidade e freqüentemente Sua vontade seja feita nos céus e na terra. Nas palavras de David F. Wells, a oração é uma rebelião contra o status quo, contra o sistema mundano e tudo aquilo que destoe do propósito de Deus: o pecado e suas nefastas conseqüências como, a fome, doenças, pobreza, corrupção, injustiças sociais, opressões malignas ou políticas. A terceira atitude é uma ação profética. A Igreja deve ter voz e ação proféticas. Voz profética pela pregação, pelo ensino, pelo que escreve (livros, artigos), refletindo e denunciando sobre os males que assolam a sociedade nordestina hodierna e a apresentação de alternativas, como projetos de desenvolvimento. Já a ação profética se dá pelo testemunho (tanto individual quanto coletivo), pelo engajamento e participação efetiva, no sentido negativo, contra a iniqüidade, por exemplo, contra o mau uso e destino do dinheiro público, o trabalho infantil, turismo sexual, violência contra a mulher, pedofilia; e no sentido positivo, abrindo creches, asilos, casas de recuperação de dependentes químicos, treinamento e qualificação de mão-de-obra, escolas de alfabetização.

Os missionários devem ser capacitados para refletirem e a agirem com criatividade Eles devem ser capazes de refletirem sobre maneiras criativas para responder às necessidades da comunidade e de mobilizarem a Igreja para agir com eficiência. Devem ser capazes de promover encontros de treinamento, discussões e estudos bíblicos sobre as problemáticas com as quais se depararem, a fim de ajudar a Igreja a compreender o seu papel onde está inserida e capacitá-la a identificar e avaliar as necessidades, bem como definir o que fazer, tomando atitudes práticas buscando fazer diferença positiva na situação.

Certamente há no Nordeste inúmeras organizações evangélicas, nacionais


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e estrangeiras, e ainda algumas igrejas e denominações que corajosamente se dirigem ao homem nordestino e sertanejo como um ser integral, através de projetos de alfabetização, assistência médica, treinamento e formação de técnicos e profissionais. Suas ações e propostas sociais com certeza não visam a substituição da evangelização e da obra missionária, mas são expressões naturais da dimensão do trabalho missionário e da preocupação de Deus com as necessidades humanas.

Onde foi que erramos? Este é o título do capítulo um do livro da missionária Cope, em que narra um fato impactante que retrata bem nossa incapacidade e nosso descaso em lidar com as questões de ordem social: Certa vez ela assistiu um programa de TV no qual o apresentador se questionava porque Dallas, a cidade mais evangélica dos Estados Unidos, com milhares de igrejas, era ao mesmo tempo a mais desqualificada no quesito qualidade de vida adequada, com crimes, falência no sistema social, discrepâncias na economia, injustiça racial, etc. Ao final, o apresentador entrevistou diversos pastores de prestígio e de integridade pedindo-lhes uma explicação sobre aquelas condições da cidade. De maneira diferente, mas sem exceção, todos disseram a mesma coisa: - Isso não é problema meu, eu sou um líder espiritual! (COPE, 2007). Sabemos que a má distribuição de renda no Brasil é uma das causas da violência. Pastor Marcos Luis Lopes, da Primeira Igreja Batista em Centenário Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Presidente da Convenção Batista Fluminense, também fez a si mesmo a pergunta de Landa Cope após a morte de Leandro, um jovem que na adolescência fora membro de sua Igreja e que chegou a morar com ele durante cinco anos. Leandro fora morto com outros nove jovens e afastado da Igreja militava no tráfico das drogas. Dentre os vários questionamentos, Pr. Marcos se perguntou: Será que o aumento desta situação não é culpa de nossa omissão como Igreja? Como crente? Aqui no Centenário, somos mais de 32 Igrejas (de todo tipo de denominação e nomes esquisitos), e o que estamos fazendo? Por que os bairros mais violentos do Rio de Janeiro são justamente aqueles que têm o maior número de Igrejas? Se as Igrejas chegaram aos bairros antes dos bandidos, por que


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não conseguimos ser o referencial? Por que transferimos para estes o domínio do poder?

Crentes plantando fumo para produção de cigarros? Durante o período em que cursava o seminário, numa das viagens que fazia parte das atividades práticas obrigatórias, de campo, estive um final de semana num pequeno município constituído de sítios e ali fui profundamente impactado com a realidade econômica: Todas as famílias daquele lugar, absolutamente todas, há vários anos viviam do plantio do fumo, inclusive as evangélicas. Elas já haviam tentado tantas outras formas de economia de subsistência, porém, nada dava certo. Foi aí, então, que a Souza Cruz21 apareceu com uma proposta irrecusável: para cada família ela abriu um poço artesiano, financiou a compra de uma bomba elétrica bem como todo equipamento necessário para irrigação, forneceu as sementes e treinamento para plantação do fumo, e garantiu a cada colheita a compra de tudo o que fosse produzido. No meu íntimo gemi, gritei: Pai Celeste, como pode até o teu povo produzir tal veneno, promover tal vício? Tive vontade de confrontar aqueles irmãos, porém, antes disso, o Senhor foi quem me confrontou: Muito bem, eles não irão mais plantar o fumo para produção de cigarros; agora, qual é a sua alternativa para eles? Você logo, logo, irá embora e continuará sua vida normalmente; mas, e eles? Sentindo-me impotente, nunca mais voltei àquele lugar, mas também nunca deixei de orar e pensar naquelas famílias. Agora em 2009, passados 20 anos, ao redigir o último capítulo deste livro, conheci o Pr. João Carreiro, que pastoreia uma Igreja em Fortaleza/CE. Em meio à troca de experiências ministeriais, surpreso, descobri que ele era um dos filhos daquela senhora viúva, evangélica, que plantava fumo e que me hospedara durante o período que estive ali! Embora adolescente na época, ele se lembrou do meu sermão e dos estudos bíblicos. Meu irmão, ele me disse, só Deus sabe o quanto nos angustiávamos ao plantar aquele fumo e como orávamos pedindolhe outra maneira de sobreviver. Ele nos ouviu e dois anos depois de sua presença conosco, conseguimos arranjar outra maneira de obtermos o nosso sustento. Líder absoluta no mercado nacional de cigarros. A Souza Cruz é subsidiária da British American Tobacco, o mais internacional dos grupos de tabaco, com marcas comercializadas em 180 países. 21


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Qual a base bíblica para Missões e a responsabilidade social no contexto do Nordeste?

Nas palavra de John Stott esta pergunta é: “Qual deveria ser a nossa expectativa de melhoria da sociedade? No que concerne a este assunto existe uma variada gama de posições entre cristãos de diferentes tradições. A tendência dos cristãos ‘liberais’ tem sido a de se tornarem ativistas sociais. Devido a sua confiança quase ilimitada no ser humano eles sonham construir uma utopia (às vezes erroneamente identificada com ‘o Reino de Deus’ na terra). Já os ‘evangélicos’ tendem (ou pelo menos foi assim no começo deste século) a ser quietistas sociais. Sua visão da depravação humana é tão sombria que perderam toda a confiança no homem (pelo menos até que este nasça de novo). Por isso consideram a ação social uma enorme perda de tempo, e julgam inteiramente impossível uma transformação social” (STOTT, 1997, p.66).

Naturalmente que estas são duas posições extremas e que deixam de considerar tudo aquilo que as Escrituras Sagradas nos ensinam sobre a ação de Deus e Seu povo no mundo, em prol da salvação do homem. Porém, insisto na pergunta: Há uma base bíblica para a responsabilidade social da Igreja no Nordeste? Por que os cristãos deveriam se envolver nas questões sociais nordestinas? Ou, noutras palavras: Por que deveria o cristão envolver-se com o mundo e seus problemas? Novamente apelo para John Stott, que apresenta o seguinte argumento: Em resposta, proponho que examinemos cinco grandes doutrinas da Bíblia, nas quais todos já cremos em teoria, mas tendemos a podar e retocar a fim de adaptálas à nossa teologia escapista: (1) Uma doutrina mais abrangente de Deus; (2) Uma doutrina mais abrangente do homem; (3) Uma doutrina mais abrangente de Cristo; (4) Uma doutrina mais abrangente da salvação e (5) Uma doutrina mais abrangente da Igreja (STOTT, 1997).


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Para Stott “abrangente” quer dizer que Deus tem interesse pelo homem e tudo que é humano; que o homem é mais do que corpo, alma e espírito; que Cristo é Deus e homem; que a salvação é a restauração do homem e de todas as demais coisas criadas; que a Igreja representa o Reino e a vida de Deus inserida na vida e no mundo dos homens! O que dizer sobre o texto de Mateus 16.27: “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um conforme as suas obras”? E quanto a Mt. 25.31-46? De maneira muito interessante John Stott reconta este texto bíblico num poema na perspectiva de uma mulher desabrigada que procurou o auxílio de uma pessoa religiosa a qual não sabendo como auxiliála, apenas prometeu orar: “Eu tive fome, e tu formaste um grupo humanitário para discutir a minha fome, Estive preso e tu te retiraste discretamente para a tua capela e oraste pela minha libertação Estive nua e, na tua mente questionaste a moralidade da minha aparência. Estive enferma e tu te ajoelhaste e agradeceste a Deus por tua saúde. Estava desabrigada e tu me falaste do abrigo espiritual do amor de Deus. Estava solitária e tu me deixaste sozinha a fim de orar por mim, Parecias tão santo, tão próximo de Deus! Mas eu ainda estou com fome... e sozinha... e com frio” (op.cit. p. 38).

Embora o texto de Mt. 25.31-46 relate o juízo final diretamente relacionado com a prática de boas obras, é preciso notar que as boas obras são evidências da natureza e da atitude e não são, em si mesmas, meritórias. Elas são o sinal exterior de uma nova vida interior em Cristo – as ovelhas à sua direita, os benditos de meu Pai, são os que fazem parte do Reino do Filho do Homem. Nos versos 45 e 46, a falha daqueles que são condenados - os cabritos à esquerda, malditos para o fogo eterno - consistiu inteiramente na sua negligência,


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em não terem amor nos seus corações pelo próximo que se encontrava necessitado, o que só seria possível se tivessem a Cristo Jesus nos seus corações. O Filho do Homem demonstra toda sua compaixão e misericórdia pelos necessitados e pobres; seu anseio em transformar a realidade deles leva-o a uma identificação real e concreta: “Porque (eu) tive fome... (eu) tive sede... (eu) era forasteiro... (eu) estava nú... e enfermo... e preso” (verso 35) e ainda “sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (verso 40). Contudo, pelo contexto anterior no qual são narradas as parábolas da figueira (Mt. 24.32-44), do servo bom e mau (Mt. 24.45-51), das dez virgens (25.113) e dos talentos (25.14-30), que nos alerta contra a negligência, contra o pecado abominável da omissão, e nos exorta à obediência e vigilância quanto a vinda do Senhor, podemos perceber que as boas obras são manifestações importantíssimas de uma vida cristã frutífera. Outro exemplo bíblico é a parábola “O Bom Samaritano” encontrada em Lc. 10.25-37. Embora Leon Morris (MORRIS, 1983) entenda que esta parábola foi contada por Jesus para responder à questão de certo homem, intérprete da Lei, “Quem é o meu próximo?” (Lc. 10.29b), e não à questão acerca da vida eterna, isto é, da salvação, “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lc. 10.25b), Kenneth Bailey (BAILEY, 1985), porém, juntamente com outros escritores como Joachim Jeremias e Ibn al-Tayyib afirmam que ainda assim a parábola aponta para a relevância das boas obras na vida cristã, o cuidado para com o próximo. Naturalmente que Jesus através desta parábola não quis dizer que ajudar ao próximo seja o caminho da salvação, mas que aqueles que são verdadeiramente salvos, diferentemente dos que são apenas religiosos, possuem um padrão ético muito elevado pelo qual se deve lutar, uma compaixão dispendiosa para com as pessoas amigas e inimigas, a qual se desdobra em atos concretos de misericórdia e de amor, frutos do verdadeiro amor de Deus derramado no coração. A mesma pergunta do intérprete é formulada literalmente pelo jovem rico, “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lc. 18.18-23) e mais uma vez a resposta de Jesus tem a ver com o alto padrão ético que envolve o desprendimento total das coisas materiais e o cuidado para com o próximo, especialmente os


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necessitados. As ações de Jesus e os seus ensinos sempre demonstraram o quanto Ele tinha profunda compaixão pelo próximo, especialmente pelo pobre, pelo necessitado, enfermo, doente, oprimido: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc. 4.18-19).

Quando Ele ordenou aos seus discípulos, “Indo, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt. 28.19-20),

será que podemos encontrar algo sobre a Missão da Igreja e a responsabilidade social, a transformação da sociedade? Merece destaque a expressão: “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. A grande questão é: O que foi mesmo que Jesus ordenou aos discípulos que eles teriam que ensinar aos novos discípulos a guardar? O próprio texto nos responde: todas as coisas! Mas, o que significa mesmo todas as coisas? Basta que leiamos uma das muitas coisas que Ele ensinou como, por exemplo, o Sermão do Monte, no Evangelho de Mateus o qual tem o seu início: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo” (Mt. 5.1-2) e término: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mt. 7.28-29). Aquilo que Jesus ensinou com autoridade no Sermão do Monte, a sua doutrina, começa em Mt. 5.3 e termina em 7.27. Todo esse ensino diz respeito à ética do Reino de Deus, sobre como aqueles que pertencem ao Reino devem pela fé se comportar. Entretanto, o ensino do Sermão do Monte não é todo o ensino de Jesus, há muito, muito mais.


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Dentro deste aspecto ético há, por exemplo, Seu ensino “Daí, pois, a César o que de César e a Deus o que é de Deus” (Mt. 22.21) que trata da nossa relação com Deus (enquanto cidadãos celestiais) e com as autoridades civis (enquanto cidadãos terrenos). Negar que Jesus também ensinou e nos mandou ensinar aos neo-conversos sobre a responsabilidade cristã com a sociedade na qual a Igreja está inserida é, no mínimo, uma grande falha hermenêutica que tem como conseqüência o reducionismo do mandamento “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. Certamente não há ninguém que tenha melhor compreendido os ensinos de Jesus do que o apóstolo Paulo, cuja compreensão dada por Deus o capacitou a ser “designado pregador e apóstolo (afirmo a verdade, não minto), mestre dos gentios na fé e na verdade” (I Tm. 2.7) – grifo nosso. Com todas essas credenciais – pregador, apóstolo e mestre das nações! - o apóstolo Paulo não desassociava os ministérios da pregação, de missões e do ensino do da ação social, das boas obras, das atividades de auxílio aos necessitados, aos pobres. Para Paulo a plena e verdadeira espiritualidade, ministério e vida cristãos abrangiam todas as coisas. Na sua compreensão sobre a doutrina da salvação (o princípio da vida cristã), ele afirma que tanto ele quanto nós fomos salvos pela graça, de graça, sem obras pessoais meritórias nenhumas; porém, fomos salvos para a prática das boas obras: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef. 2.8-10).

Os apóstolos Pedro, Tiago e João, demonstraram também a mesma compreensão quando orientaram a Paulo e Barnabé, “recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer” (Gl. 2.10). Os capítulos 8 e 9 de II Coríntios são muito esclarecedores. Neles Paulo exorta os irmãos da Acaia a que juntem suas ofertas às dos irmãos da Macedônia, a fim de suprirem as necessidades materiais dos crentes pobres de Jerusalém. Mais uma vez Paulo associa a espiritualidade com questões práticas, sociais, e os exorta a


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que mostrem o mesmo zelo (abundância) neste assunto assim como se mostravam zelosos (superabundantes) na fé, na palavra, no saber e no cuidado, matérias estas de natureza espiritual. A exortação tem em vista a busca do equilíbrio entre as coisas de natureza espiritual com as terrenas, de maneira que aquelas envolvam e conduzam estas. Paulo coloca, então, aquele ato de contribuição, uma atividade social a um alto nível espiritual. “Como, porém, em tudo, manifestais superabundância, tanto na fé e na palavra como no saber, e em todo cuidado, e em nosso amor para convosco, assim também abundeis nesta graça” (II Co. 8.7).

Outros apóstolos seguem o mesmo caminho de Jesus e de Paulo. O apóstolo Tiago admoestando aos irmãos é muito claro quanto ao papel social da Igreja: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aqueceivos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg. 2.14-17). “Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração, em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência” (Tg. 5:1-6).

O apóstolo João em Apocalipse 20.13 revela-nos o quanto Deus considera as obras que praticamos: “Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras”.


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Será que ainda nos resta alguma dúvida quanto a nossa responsabilidade não apenas espiritual, mas igualmente social para com o Nordeste brasileiro? O cantor evangélico João Alexandre em sua música “Em nome da Justiça” afirma que: “Enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados. O Deus que se canta nem sempre é o Deus que se vive não, pois Deus se revela, se envolve, resolve e revive”.


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Os índices oficiais

Na região Nordeste os índices sobre o analfabetismo são alarmantes. Para se ter uma idéia, conforme os dados do documento Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, de 2005, as taxas de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade por Unidades da Federação são: o Nordeste com 22,4% da sua população de analfabetos, a região Norte 12,7%, a Centro Oeste 9,2%, a Sudeste 6,6% e Sul apenas 6,3%22. O documento do IBGE ainda afirma o seguinte: “[...] a disparidade entre as taxas de analfabetismo dos estados brasileiros é bastante significativa. As taxas mais elevadas foram encontradas nas nove Unidades da Federação do Nordeste” (IBGE, 2006, p. 77), ou seja, os nove primeiros estados, dentre os 27 que o Brasil possui, os que apresentam o maior índice de analfabetos são os da Região Nordeste! Veja os dados abaixo de cada um dos estados nordestinos em ordem decrescente: 22

IBGE , 2006, p. 100-101.


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Alagoas, 29,5%; Piauí, 27,3%; Paraíba, 25,3%; Maranhão, 23,1%; Rio Grande do Norte, 22,3%; Ceará, 21,8%; Pernambuco, 21,3%; Bahia, 20,4%; Sergipe, 19,4% Nesse mesmo documento também podemos ler: Os chamados de analfabetos funcionais, isto é, as pessoas com 15 anos ou mais de idade com menos de quatro anos completos de estudo (ou seja, pessoas alfabetizadas, mas não suficientemente familiarizadas com as bases da leitura, escrita e operações elementares), mostra-se mais preocupante. No Brasil, quase ¼ da população na referida faixa etária encontrava-se nessa condição. Nas Regiões Norte e Nordeste esses percentuais alcançavam 29,1% e 37,6% respectivamente. Dentre as Unidades da Federação, chamanos atenção a elevada proporção de analfabetos funcionais em Alagoas (45,5%) e Piauí (42,4%) (IBGE, 2006, p. 77).

A triste realidade nordestina

A situação do analfabetismo no Nordeste deve-se a ausência de uma política governamental voltada para a área rural, ferindo assim a principal finalidade da educação que é dotar o homem de dignidade moral e cultural. Entretanto, entendemos que a evangelização e o discipulado cristãos são fatores que contribuem imensamente para elevar o homem à sua mais nobre dignidade pela renovação do seu ser, tornando-o em Cristo uma nova criatura (II Co. 5.17), que por sua vez promove a renovação da sociedade uma vez que ele agora é sal da terra e luz do mundo. A conversão do indivíduo quando assume a Cristo Jesus como salvador e senhor de sua vida significa a transformação de tudo que ele é, tudo


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que ele faz, pensa, fala, e como conseqüência natural a transformação também das estruturas sociais em que ele vive.

Jesus Cristo, o Mestre por excelência

Nos relatos dos Evangelhos nenhuma atividade foi mais exercida pelo Senhor Jesus Cristo do que ensinar. Nas orientações finais para os seus discípulos, ao expressar o seu mandamento, Jesus deu ordens bem claras: Indo às nações, tribos, povos, raças e línguas, e ali fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os tudo quanto Ele mesmo tinha ensinado (Mt. 28.19-20). Essa ordenança significa que aos discípulos cabia irem aos povos do mundo inteiro, conquistando homens e mulheres, que se tornariam o que eles mesmos já eram – discípulos de Cristo. Essa missão se destaca ainda mais enfaticamente quando percebemos que no original grego os verbos “ir”, “batizar” e “ensinar”, são todos particípios gregos (equivalentes ao gerúndio, em português indo, batizando e ensinando). Isso significa que a missão não consiste meramente em ir aos lugares mais longínquos, extremos e inóspitos da terra (Mt. 24.14; At. 1.8) e pregar o Evangelho (Mc. 16.15), nem batizar muitas pessoas em nome do Deus Triúno, nem de simplesmente ensinar-lhes sobre Cristo Jesus e seus preceitos, mas, sim, levá-los através de um profundo modelo didático-pedagógico a assumirem Jesus Cristo como Senhor de suas vidas, por toda vida, e também levarem outros a fazerem o mesmo. Os ensinos de Jesus afetaram todas as gerações depois dele e até hoje impactam a vida de toda humanidade. Suas verdades são absolutas, inerrantes, eternas e irrefutáveis. Mesmo aqueles que não crêem em Jesus sentem-se incomodados com os seus ensinamentos e fazem um esforço tremendo para contrariá-los. E ainda há aqueles que mesmo não crendo nele como o Filho de Deus, apreciam os seus ensinamentos. Certamente, nada mais está tão vivo de Jesus no mundo atual do que aquilo que Ele pregou e ensinou.


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Igreja Primitiva: Missões através do ensino

Michael Green no seu excelente livro Evangelização na Igreja Primitiva, no capítulo sobre Os Métodos Evangelísticos, comenta: “Um dos aspectos menos felizes do grandioso livro de Dodd The Apostolic Preaching and its Development é a separação arbitrária que ele faz entre pregação e ensino, entre kêrygma e didachê. Muitos eruditos já mencionaram isto, sendo o artigo mais recente e extenso o de R.C. Worley, Preaching and Teaching in the Earliest Church. Ele mostra que nem no judaísmo rabínico, nem no cristianismo primitivo, havia uma distinção tão clara entre o trabalho do evangelista e o do mestre. Realmente, é isto que podemos perceber no período entre Paulo e Orígenes. Ambos evangelizaram ensinando a fé cristã” (GREEN, 1984, p. 248). O apóstolo Paulo nos três anos que esteve em Éfeso alugou durante dois anos a escola de Tirano, “dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a Palavra do Senhor, tanto judeus como gregos” (At. 19.9-10). Tanto Michael Green (1984)23 quanto John Stott (1990)24 trazem-nos informações preciosas de que a vida pública em Éfeso se encerrava às onze horas da manhã e retornava às dezesseis horas (não para uma refeição leve, mas para uma siesta prolongada!). Nesse intervalo de cinco horas, quando Tirano também repousava e a sua escola ficava desocupada, Paulo aproveitava aquele espaço temporal e físico para ensinar o Evangelho. Com certeza não temos como avaliar o tremendo impacto do Evangelho produzido na vida dos habitantes da Ásia através dos ensinos de Paulo!

23 24

Michael Green (p. 250 e 251) John Stott (p. 352 e 353)


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Período da Pós-Reforma: A educação cristã no contexto mundial

Nos séculos XVII e XVIII dois movimentos proporcionaram grandes contribuições para a educação cristã. Um foi o Puritanismo, isto é, o calvinismo inglês, que na América do Norte produziu seus melhores frutos, por causa da visão integrada da vida e da sociedade e nessa visão a educação desempenhava um papel preponderante. O intuito era preparar homens para o ministério, o governo civil e a vida profissional, e muitos colégios foram criados, a começar de Harvard (1636) e Yale (1701). O outro movimento foi o Pietismo alemão que enfatizou o estudo da Bíblia em pequenos grupos, incentivando a instrução catequética e abrindo escolas para órfãos e crianças pobres. Uma importante instituição de ensino superior fundada foi a Universidade de Halle. Um dos maiores e mais valiosos movimentos para a educação cristã em todos os tempos foi a escola dominical na Inglaterra no final do século XVIII, através de vários evangélicos, sendo o mais conhecido o jornalista e ativista social Robert Raikes (1736-1811), da cidade de Gloucester. De acordo com o historiador Alderi: O objetivo inicial foi alfabetizar e evangelizar crianças pobres que trabalhavam nas fábricas e cujo único dia de folga era o domingo. A escola funcionava das 10 às 17 horas e incluía, além de aulas de redação e aritmética, leitura da Bíblia, catecismo e participação em cultos (LAWSON, apud ALDERI, 2008, p.19).

Em 1784 a escola dominical já reunia 240 mil alunos.

Nos séculos XIX e XX a escola dominical continuou sendo o principal meio da Igreja na educação, mas surgiram também muitas novas entidades paraeclesiásticas, escolas bíblicas de férias, acampamentos, institutos bíblicos, escolas e universidades cristãs visando a formação de crianças, adolescentes, jovens, casais, famílias, etc.


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Os Kalley: Missões e Educação nos primórdios da Igreja Evangélica Brasileira Movidos pelo anseio de conquistar novos discípulos para Cristo entre os povos de língua portuguesa, o médico escocês Kalley e sua esposa Sarah, em 1855 chegaram ao Brasil. Dentre as várias atividades missionárias que eles desenvolveram o ensino teve uma ênfase especial até mesmo em virtude da situação sócioeconômica do Brasil na época. Douglas N. Cardoso (2005) escreveu a biografia de cada um desses missionários, Kalley e Sarah, e relata-nos que tudo teve início numa tarde de domingo do dia 19 de agosto de 1855, quando Sarah iniciou a instrução bíblica de cinco crianças. Esta atividade foi a gênesis da escola bíblica dominical no Brasil. Cardoso ainda acrescenta-nos informações importantíssimas: Petrópolis foi marco importante na vida – e ministério do casal Kalley. Naquela nova cidade cujos habitantes eram, na sua maioria, colonos alemães, os Kalley privilegiaram a área de educação ao desenvolverem o ministério da Escola Dominical (CARDOSO, 2005, p. 178). O modelo pedagógico adotado por Sarah lembra o início da Escola Dominical na Inglaterra – buscar através do ensino transformar a situação sócio-econômica do público alvo. Para tanto alfabetizou adultos, homens com mais de quarenta anos, procurando dar-lhes dignidade e inseri-los plenamente como cidadãos. Ensinou inglês aos já alfabetizados, auxiliando-os a melhor contatarem com a nova cultura que os acolhia. Dirigiu simultaneamente, em dias alternados, classes de mulheres, de garotas (adolescentes) e de jovens senhoras. Atuava tanto no ensino bíblico como em áreas de conhecimento secular, de acordo com as necessidades do grupo. No tocante à música, ensinava piano e dirigia os hinos da congregação (op. cit. p. 134). No caso de sua esposa, Sarah, a precariedade do ensino religioso para crianças em Petrópolis, estimulou-a a desenvolver de forma marginal ao projeto de educação


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pública, o seu ministério de Escola Dominical, e a música era a atração simbólica, pois os encontros eram chamados ‘classes de música’ (op.cit. p. 147-148).

O analfabetismo é um grande obstáculo à obra missionária Tendo em vista que o analfabetismo dificulta a utilização de material didático na evangelização como folhetos, livretos, então resta aos missionários o método da pregação. Por isso eles devem aprender a pregar mensagens ao nível da compreensão do povo, fundamentando-as nas Sagradas Escrituras, e relacionandoas com os problemas e interesses diários dos ouvintes. Na evangelização, pregação e ensino os missionários devem aprender a falar os termos próprios, o linguajar, dos seus ouvintes, e usar as ilustrações mais familiares possíveis, à semelhança de Jesus, quando pregava e ensinava as verdades do Reino por meio de parábolas. Jesus mesmo disse “Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte, eternamente. Disseram-lhe os judeus: Agora, estamos certos de que tens demônio. Abraão morreu, e também os profetas, e tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte, eternamente” (Jo. 8.51-52). Mas, como alguém guardará a Sua palavra se não a ler? Embora saibamos que a fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus, a fim de que haja crentes maduros é necessário discípulá-los: “E o que de minha parte ouviste, através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (II Tm. 2.2). O discipulado essencialmente passa pela alfabetização. Para tanto é que missionários e organizações missionárias no mundo inteiro tem se dedicado a traduzir a Bíblia para a língua dos povos evangelizados. Se o povo não souber ler, todo esse esforço será em vão.

O ministério do ensino: elo íntimo entre Missões e as mudanças sociais O ideal é que a obra missionária seja acompanhada de um projeto de ação educacional, visando a criação de atividades ou escolas de alfabetização e de orientação para o desenvolvimento das potencialidades e aptidões de cada pessoa, cujo objetivo seja alcançar principalmente as crianças, os adolescentes e as mulheres,


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considerados “o ponto cego” da missão cristã atualmente, porque normalmente os missionários são formados e tem sua atenção focada somente para os adultos. É claro que estes e, em especial, os idosos, naturalmente, também devem fazer parte desse objetivo. Entendendo-se a teologia e a educação como um processo para a libertação do homem, nas palavras de Torres Novoa (1979, p.39), a “teologia deveria estar envolvida com a educação libertadora e uma educação libertadora deveria estar envolvida com a teologia”. A esse respeito é interessante o que o autor Myers menciona: “Há uma alta correlação estatística entre alfabetização adulta feminina e mudança social positiva. Isto inclui coisas como taxas de mortalidade infantil mais baixas e desenvolvimento econômico” (1990, p. 41).

Os missionários devem preparados para efetuar mudanças pelo ensino Os missionários conscientes de que o Evangelho é capaz de promover mudanças profundamente significativas em todas as áreas da vida das pessoas e transformar a realidade de desesperança em que elas se encontram, movido por essa esperança, devem se engajar no ensino, na instrução e na formação, tanto daqueles que se converteram como daqueles que ainda aceitarão a Cristo como seu Salvador e Senhor. Infelizmente o objetivo da educação atual é alcançar o poder para construir uma nova ordem social, elevando a conscientização dos alunos sobre os problemas sociais e encorajando-os a produzir maneiras alternativas de organizar a sociedade, objetivo este fruto da filosofia existencialista que atribui a cada individuo um ser autônomo, como sendo capaz de por si próprio estabelecer sua própria verdade sem que haja quem ou o que lhe diga se está certo ou errado; assim, já não mais definindo a educação como o incentivo à procura da verdade e a transmissão de uma herança valorizada.


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Embora reconheçamos que a decadência do ensino público, decorrente das difíceis condições dos educadores e das estruturas das escolas, influencie negativamente na formação de cidadãos saudáveis, nem por isso as escolas privadas, particulares, por outro lado, com excelência acadêmica, docente, estrutural, garante sucesso em tal quesito. A razão principal da decadência do ensino diz respeito às modernas teorias educacionais que negam a existência de verdade e da moralidade transcendental, de padrões absolutos. Além disso, há outro fato de que as escolas particulares pertencem a empresários e grupos poderosos, capitalistas, gananciosos, que transformaram a educação numa grande fonte de lucro, isto devido a ausência do governo em cumprir o seu papel. Os missionários devem, na contramão das mais modernas teorias educacionais, ensinar tudo o que Jesus ensinou, todos os seus mandamentos e princípios, para a vida, que são absolutos; devem oferecer um modelo de ensino alternativo e uma teoria de educação capaz de melhorar as escolas para o aluno e o aluno para as escolas. A educação cristã não é utópica nem subjetiva, mas é a partir da Bíblia, e na Bíblia e por meio da Bíblia que temos um padrão objetivo da verdade e da moralidade, capaz de promover verdadeiras e duradouras mudanças na vida das pessoas e da sociedade. Nas palavras do apóstolo Paulo, “Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; para isto é que eu me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim” (Cl. 1.27-29). É através do ensino bíblico que lidamos objetivamente com o mal presente na sociedade e que se manifesta no egoísmo, na violência, na falta de amor, e de fato se alcança a formação de um novo homem, de uma nova sociedade. Políticos corruptos, policiais violentos, cônjuges infiéis, filhos desobedientes, empresas capitalistas, cultura da sensualidade e da irreverência, governos opressores e impotentes diante do caos social na falta de moradia, saúde, segurança, educação, devem ser ensinados e transformados por meio do ensino dos princípios bíblicocristãos. Isso também quer dizer, nas palavras de Jesus, “fazei discípulos de todas as nações... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt. 28.19).


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Nas palavras do escritor Colson (2006, p. 100): “[...] É por meio da educação cristã que revertemos os efeitos da Queda e restauramos a humanidade à sua dignidade e objetivos originais”.

O alvo da educação cristã é, formar uma nova geração de intelectuais, cientistas, tecnólogos, pensadores, filósofos, educadores – enfim, doutores nas ciências exatas e humanas, dotados de mente aberta à exploração da Criação. O alvo imediato é que essa geração seja capaz de ser agente do resgate dos valores cristãos e da excelência cultural, técnica e acadêmica mediante seu desempenho como indivíduos e como cidadãos. E esse desafio renova-se a cada geração de pequeninos, ainda na primeira infância – aquela em que se consolidam os primeiros e decisivos elementos de formação social e cultural do indivíduo (MOURA, 1996, p.97-98).

Os missionários devem ser preparados para formar cidadãos terrenos e celestiais Os missionários são educadores na medida em que entendem que a educação cristã não consiste meramente em ensinar a orar e ler a Bíblia, mas em ensinar tudo sobre a vida, sobre o mundo e todas as suas atividades como a família, o trabalho, a economia, cultura, esporte, tecnologia, sexualidade, arte, literatura, filosofia, sociologia, matemática, física, religião, sob a perspectiva de Deus, sob o ponto de vista bíblico. Os missionários podem, através do ensino bíblico, refletirem sobre questões nordestinas como a seca, a pobreza, a mortalidade infantil, o analfabetismo, levando a Igreja discutir e estudar de forma participativa, buscando respostas alternativas. Ou seja, a partir das Sagradas Escrituras buscar entender a sua realidade para compreender uma nova situação, questionando, analisando, comparando e recriando. É através do processo educacional do discipulado genuinamente bíblico que podemos assegurar a formação de bons cidadãos. Educação e cidadania são os lados da mesma moeda.


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Juntamente com suas denominações, igrejas e agências, os missionários podem tomar a iniciativa de abrir escolas para ensinar desde a alfabetização até o ensino médio e, porque não, até mesmo escolas de ensino superior. Embora não tenhamos dados concretos, temos informações que várias denominações evangélicas históricas, como Batistas e Presbiterianos, fundaram colégios com excelente nível de educação. Um excelente exemplo neste sentido a partir do Nordeste é o Instituto Bíblico Betel Brasileiro, localizado na cidade de João Pessoa/PB, que tem como objetivo a formação de missionários através de vários seminários espalhados dentro e fora do Brasil e que hoje possui creches e escolas de alfabetização, principalmente entre as comunidades carentes nas quais foram abertas igrejas, fruto do trabalho prático dos alunos. Mesmo de modo não-formal os missionários podem dedicar uma parte do seu tempo a alfabetização usando métodos já conhecidos como o Alfalit25 , o Pepe26 , dentre outros. Outra atividade educacional é a do reforço escolar, em que os missionários podem atender num determinado local e horário aqueles alunos que tenham dificuldades no seu desempenho. Uma das experiências do meu conhecimento, bem sucedida, é a da missionária Dunalva Coelho, pedagoga, que vindo de Minas Gerais assumiu em 1998, numa cidade do sertão paraibano, um seminário para obreiros leigos, denominado Seminário Sertanejo (uma extensão do Seminário Teológico da Missão JUVEP que funciona na capital há 21 anos), visando a formação e a capacitação daqueles que já atuavam em igrejas e congregações localizadas na zona rural, nos

Instituição que chegou ao Brasil em 1985 e trabalha para a minimização dos índices de analfabetismo brasileiros entre jovens e adultos, através de escritórios regionais em 14 Estados, contando com o trabalho incansável de facilitadores voluntários capacitados através dos Cursos de Formação. 25

PEPE - Programa de Educação Pré-Escolar. É um programa social e evangelístico que surgiu a partir da preocupação da missionária britânica Georgina Christine, pedagoga, com mais de 10 anos de experiência no Brasil, ao observar a falta de preparo das crianças da favela para elas entrarem no ensino fundamental. O Programa teve, então, início, em São Paulo em agosto 1992 com 25 crianças de 5 a 6 anos idade. O objetivo do PEPE é que as crianças tenham a oportunidade de desfrutar de um preparo educacional que estimule seu melhor desenvolvimento social e espiritual, independente de qualquer desvantagem sócio-econômica. Site: www.pepe-network.org. 26


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sítios. Com um coração sensível e uma visão grandiosa de Reino de Deus, Dunalva também implantou um sistema de alfabetização, o qual mais tarde veio a ser reconhecido e apoiado pela prefeitura local. Em 2001, Dunalva deixou o Seminário Sertanejo e desde então se encontra em Timor Leste. Ali ela continua desenvolvendo seu ministério cristão de maneira profícua, sempre aliado à educação, participando junto ao governo timorense no treinamento de professores e na elaboração de um livro que será usado nas escolas. Seu trabalho ali foi reconhecido e condecorado pelo então presidente na época Xamamã Gusmão. Hoje o Seminário Sertanejo conta com o apoio de igrejas de várias denominações e de diversas partes do Brasil e de instituições como a World Vision (através da Visão Mundial no Brasil). Dentre estas temos a Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte/MG, na pessoa do seu pastor, o Rev. Jeremias Pereira. Deus, pelo Seu Espírito, tem levantado missionários estrangeiros como Dr. Russel Shedd, que praticamente todo ano vem ao Nordeste dar aulas durante uma semana; John Macy e sua esposa, a missionária Ivone, e seus três filhos; a missionária e professora Dra. Barbara H. Burns, radicada no Brasil há 40 anos, pioneira no treinamento e formação de missionários - inclusive com os pastores Jonathan Ferreira dos Santos e Décio Azevedo organizou a Missão Antioquia - e que foi professora durante vários anos no Seminário Teológico Batista de São Paulo. Em 1998, obedecendo a orientação de Deus, voluntariamente veio para João Pessoa trabalhar com a Missão JUVEP na qual é a diretora acadêmica da Escola de Missões Transculturais. Assim como viaja por diversas partes do mundo e dar aulas em várias escolas no Brasil, igualmente, com o mesmo ímpeto e alegria, ela se dirige ao sertão nordestino cooperando na capacitação e formação de obreiros; outro exemplo é o do missionário alemão, doutor em Missiologia, Pr. Hartmut, e sua esposa e filhos, missionários que desde 1986 estão no Brasil e que por vários anos trabalharam entre os índios Kaigang e Guarani, no Rio das Cobras, Paraná. Eles por convicção pessoal se prontificaram para cooperar na obra missionária no Nordeste, no sertão.

A Missão JUVEP, sediada em João Pessoa, capital da Paraíba, em 2006


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deu início a mais um projeto ousado de plantação de Igrejas no sertão paraibano denominado Projeto Radical Sertão. Deste participou uma senhora, a irmã Neusinha, da Igreja Batista de Santo André, em São Paulo. Ela esteve com uma equipe num local chamado Sítio Dois Riachos, no município de Sousa/PB. A irmã Neusinha não apenas evangelizou os lares, mas deu uma atenção especial ao trabalho com crianças. Conhecedora de música ensinou a cerca de 80 crianças a tocar a flauta doce e a tocarem as mesmas através do uso de partitura! Seu coração ficou tão cheio de alegria e júbilo com o interesse das crianças e com os resultados alcançados que desafiou sua Igreja a doar uma flauta para cada criança. De forma gloriosa lhe foram doadas dezenas de flautas doces da marca Yamaha!

Os missionários devem oferecer formação e capacitação a liderança autóctone O analfabetismo é também um terrível empecilho para a formação de liderança autóctone, nativa, dificultando, assim, a continuidade do trabalho implantado pelos missionários. O analfabeto é limitado para aprender e mais ainda limitado para ensinar. Embora reconheçamos que os dons e a vocação de Deus não devam ser definidos em termos de treinamento, qualificação, capacitação, dados mediantes métodos humanos, e que este é um assunto espiritual, definido pelo poder e vontade de Deus, igualmente reconhecemos a relevância dos vocacionados serem preparados biblicamente, teologicamente, e até mesmo profissionalmente, para servirem melhor ao Senhor Jesus Cristo. À semelhança de Jesus os missionários devem estar atentos para fazerem os novos convertidos participarem de suas experiências ministeriais, mostrandolhes como eles mesmos servem ao Senhor Jesus e trabalham em prol do Seu Reino, antes mesmo de lhes dizer qualquer coisa a respeito. Eles também devem demonstrar aos novos convertidos que a missão de Jesus, em princípio e método, é a mesma missão deles, e que o trabalho de evangelismo e missões não está sujeito


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às impressões ou conveniências dos homens, mas que se trata de uma ordem bem definida, que não é opcional na vida cristã, pois é o próprio pulsar de tudo aquilo que fomos chamados a ser e fazer. Os discípulos de Cristo Jesus são homens e mulheres enviados ao mundo assim como Ele mesmo foi enviado: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo. 20.21b). Tão importante quanto ganhar os que estão perdidos é conservar aqueles que já estão salvos. Intencionalmente os missionários devem oferecer exemplo, formação, treinamento, para que os novos cristãos se multipliquem. Nesse processo o mais importante não é apenas o evangelismo, a atividade que visa ganhar novas almas para Cristo, mas o discipulado, que expressa a fidelidade daqueles que foram ganhos para Cristo e que estarão ganhando outros. Nas palavras de Jesus, “Não fostes vós que escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros, e vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” (Jo. 15.16a), fica explícita a sua intenção de multiplicação. Entretanto, diferentemente daquilo que se pensa e é praticado nos dias de hoje, seu objetivo não é a reprodução de discípulos e o desenvolvimento de líderes pela estratégia do recrutamento em massa. Os missionários devem ter um planejamento deliberado e esforços concentrados na busca e formação de pessoas que possam lhes auxiliar ou até mesmo lhes substituírem na expansão e continuidade da obra. Não se deve contar com grande número delas nem se preocupar com o tempo que será investido na formação. A excelência deve recair sobre o relacionamento entre os missionários e seus discípulos, para que os discípulos possam vislumbrar como serão transformados e em que se tornarão mais tarde. Todo esse processo deve contribuir para conduzir esses homens e mulheres a assumirem um dia, por si mesmos, um ministério todo seu, em suas próprias esferas de influência e capacidades espirituais e naturais, conforme Deus mesmo em Cristo, pelo Seu Espírito lhes conceder. A formação deliberada de liderança autóctone, nativa, demonstrará que os missionários estarão trabalhando com vistas às futuras gerações, quando o


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testemunho deles sobre Cristo Jesus continuará impactando e produzindo novos frutos através daqueles que eles mesmos conduziram aos pés da Cruz, de forma a expandir-se e reproduzir-se até às extremidades da terra e até o fim dos tempos. Os líderes autóctones devem ser tanto descobertos quanto desenvolvidos. O que é essencial aos dois processos é o reconhecimento das qualidades ou características de liderança, tanto aquelas naturais, como espirituais. Responsabilidades e treinamento especiais devem ser dados àqueles que são reconhecidos como líderes ou potencialmente líderes. A partir do princípio reformado de Sola Scriptura e a ênfase paralela no direito do livre exame das Escrituras, a Bíblia deve ser lida, estudada e interpretada corretamente, o que, naturalmente, exige que os cristãos e em especial os líderes, saibam ler e tenham um bom preparo intelectual. O apóstolo Paulo no cuidado para com o seu discípulo, seu filho na fé, Timóteo, adverte-o: “Até a minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino” e “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (I Tm. 4.13-16). Já na segunda carta também a Timóteo, o apóstolo ordena: “Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (II Tm. 2.15). Paulo exigia que Timóteo fosse cuidadoso, capaz e devidamente preparado para nos seus sermões incluir exposição bíblica, ensino doutrinário e aplicação prática para o viver diário.


6 A TAREFA INACABADA: QUAL O MAIOR DE TODOS OS DESAFIOS?

O mandamento menos obedecido

“E lhes fez a seguinte advertência: A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (Lc. 10.2). Alguém já concluiu que a oração “rogai” é um dos mandamentos do Senhor Jesus menos obedecido! Dr. Joseph Martins no seu artigo “A oração dominical e Missões” define a oração em prol da obra missionária como “A oração é a essência da obra missionária. Não é só uma atividade necessária ao sucesso da obra – é a obra em si. É a prática mais missionária possível, quando vivida de maneira bíblica” (MARTINS, 1993, p. 66)27. 27

Apesar dos séculos e séculos que já se passaram desde a ascensão de CARRIKER, vol. III, 1993.


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A Tarefa Inacabada: qual o maior de todos os desafios?

Jesus a realidade no que diz respeito à proporção entre o campo missionário e os missionários, infelizmente, pouca coisa mudou. Estamos tão envolvidos, absortos, conosco mesmos que nunca nos esquecemos de nossas próprias necessidades, elas estão sempre em primeiro lugar. Por isso mesmo, rogar, interceder em favor dos outros, é ainda uma oração pouco praticada pelo povo de Deus.

Por que rogar? Primeiro, porque que há um contraste gritante entre a obra a ser feita e aqueles que a devem realizar. A expressão grande usada por Lucas em relação a seara implica que há muito trabalho a ser feito, e no contexto missionário, que há muitas pessoas a serem alcançadas nos mais diversos lugares do mundo. Já os trabalhadores, os obreiros, são poucos, em número insuficiente para alcançar os não-alcançados. Segundo, o Senhor Jesus antes de ensinar qualquer coisa aos seus discípulos, primeiramente Ele mesmo a fez! Quando Ele necessitou de pessoas para auxiliá-lo no seu ministério, não se dirigiu a nenhuma das várias escolas de preparação de rabinos que havia em Israel, no entanto, subiu ao monte e durante uma noite inteira rogou, orou, clamou ao Pai pela seleção dos doze que seriam enviados: “Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus. E, quando amanheceu, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou traidor” (Lc. 6.12-16).

Por que rogar por obreiros? Porque este é um assunto de oração. E é em resposta à oração que os obreiros são designados pelo Senhor, a quem pertence a determinação ministerial.


A Tarefa Inacabada: qual o maior de todos os desafios?

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Devemos orar, orar e orar. Orar pela vinda do Reino de Deus, seu domínio

sobre tudo e todos; orar pelo despertamento e envolvimento da liderança evangélica dentro e fora do Nordeste brasileiro, para evangelizar o próprio Nordeste; orar pelos que já estão na “seara nordestina” para que tenham forças, saúde, poder, sustento, apoio, e continuem semeando a boa semente do Evangelho. Orar pela evangelização e conversão de pessoas, já que esta é uma tarefa espiritual que requer pessoas capacitadas espiritualmente. O apóstolo Paulo reconheceu bem a grandeza da tarefa: “para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At. 26.18). Não apenas orar pela ou por, como também contra determinada situação: contra a pobreza, pecados de natureza moral, social, espiritual; contra as ações do Diabo que por anos e anos a fio tem aprisionado e oprimido o povo nordestino pela idolatria, feitiçaria, religiosidade. Há um ditado muito antigo entre nós evangélicos, mas pouco colocado em prática: Pouca oração, pouco poder; muita oração, muito poder.

A quem devemos rogar por missionários? Nas palavras do Senhor Jesus, “ao Senhor da seara”, Deus, o Pai Celestial. A vocação é divina, e nenhum preparo teológico, eclesiástico ou missiológico, pode substituí-la. O Nordeste carece de homens e mulheres que tenham como suprema riqueza da convicção, a escolha; como forte segurança, a consciência da chamada; como força propulsora para cumprir o dever, a certeza da vocação. Naturalmente que novos missionários jamais devem ser atraídos para qualquer atividade, lugar, povo, ou trabalhar junto a qualquer instituição, apenas pela organização, eficiência estrutural, proposta salarial, mas antes de tudo, pela voz divina em resposta às nossas orações, aos nossos clamores por vocações genuínas. Tal consciência da importância das orações irá gerar em nós uma dependência de Deus de que aquilo que pedimos segundo a Sua vontade Ele nos atenderá.


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O Senhor Jesus nos ensina que é a Deus, o Pai Celestial a quem devemos rogar, pois Ele é o Senhor da seara e o trabalhadores são enviados para a seara dEle. A seara é o mundo e o mundo pertence a Deus e não a Satanás. Os trabalhadores também pertencem a Ele. A obra é dEle. Tudo pertence a Ele!

Mas, para que se roga? Para que trabalhadores sejam enviados para a seara. Aqui o verbo grego ekballô é traduzido como mandar, enviar; seu sentido, porém, mais comum é expulsar, expelir, forçar ou dirigir alguém para fora. Ekballô é um verbo composto por uma preposição ek (significa: de dentro para fora) mais o verbo ballô (jogo, arremesso, lanço). Só para termos uma idéia o encontramos nas seguintes passagens do evangelho de Mateus:

Expulsar pessoas: Mt. 8.12; 21.39; 22.13; 25.30 Expulsar demônios: Mt. 7.22; 8.16 e 31; 9.33 e 34; 10.1 e 8; dentre muitas outras.

Por que será que Jesus usou um verbo de conotação tão forte? Certamente para demonstrar a intensidade do clamor e da intercessão, como uma necessidade diante do maior dos desafios missionários: A oração pelo envio de missionários ao mundo! O grande desafio consiste em através das orações “incomodarmos” aqueles que fazem parte da Igreja que está no Nordeste A (os grandes centros urbanos, as cidades litorâneas) deixem sua “zona de conforto” e dirijam-se para o Nordeste B (o interior, o sertão). Quem em sua consciência natural, por vontade própria, deixará sua Igreja bem estruturada, seu trabalho remunerado, seu convívio social, sua cidade urbanizada, para ir aos sertões nordestinos enfrentar adversidades tanto naturais e humanas como espirituais? Lembremo-nos da oração de rendição de Jesus diante do clímax, do ápice, do seu ministério, a cruz: “dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua. Então, lhe apareceu um anjo


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do céu que o confortava. E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc. 22.42-44). Para que mais e mais homens e mulheres façam o mesmo (inclusive, nós mesmos!), precisamos orar mais. Enquanto intercedemos para que mais obreiros sejam enviados para o mundo, para o Nordeste, para o sertão, devemos também interceder por nós mesmos, incluindo-nos como a resposta às nossas próprias orações ao Pai Celestial, e à semelhança de Isaías rasgarmos o coração num brado que ecoa do seu âmago, e a alma nua, sem mais recursos para resistir, consumida pela consciência de obedecer, apenas se rende a despeito das implicações: “Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim” (Is. 6.8). Embora o mundo inteiro pertença a Deus, e neste o Nordeste brasileiro, bem como todas as pessoas, e por isso O reconhecemos como o Soberano Senhor, Ele, livremente na Sua soberania, decidiu que não faria sozinho a obra da redenção, mas que usaria seus servos como parceiros, quer na proclamação do Senhor Jesus como o único caminho, a verdade e a vida, quer contribuindo financeiramente, ou intercedendo. Todos, então, de alguma maneira devem estar envolvidos.

Afinal, quem é seara nordestina? O homem e a mulher nordestinos são extremamente criativos, embora pobres. Pobres devido aos parcos recursos materiais e financeiros, mas criativos porque possuem uma cultura rica de manifestações populares típicas, como danças, músicas, festejos, artesanatos, literatura, comidas; personagens populares bem característicos, como o cantador, o vaqueiro, o jangadeiro, a rendeira; São pessoas fortes, como disse Euclides da Cunha, porém doentes. Doentes porque são vítimas de endemias e epidemias constantes como a esquistossomose e o mal de chagas; porque lhes negam os recursos e ficam excluídos do acesso à


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assistência médica mínima, mas fortes porque amam a vida e querem a todo custo viver. São pessoas hospitaleiras, mas potencialmente violentas quando tratadas injustamente. São os “cabras-da-peste”, da peixeira, da mulher-macho, sim, sinhô!, de coragem destemida sem medida que não leva “desaforo prá casa”, mas hospitaleiras porque do coração à mão, à casa, à comida, à cama, não negam nada a ninguém. São pessoas místicas, com muitos e fortes hábitos religiosos, mas sem Cristo no coração. Jesus, o Cristo de Deus, revelado nas Sagradas Escrituras, lhes é desconhecido, sobre Ele não há pregação nem ensino, por isso mesmo o coração é tomado por tradições, superstição, crendices, religião. São místicas, religiosas, devotas, mas sem salvação, por desconhecerem Aquele que na cruz, de abraços abertos, lhes estendeu a mão, e lhes fez e ainda faz o convite, “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas” (Mt. 11.28-30). É Aquele, é Este, que lhes dá a redenção!

Aonde estão os obreiros? Ao visitar um jovem casal que estava plantando uma Igreja numa localidade chamada Pau-Ferro, fui convidado para conhecer a mais nova convertida. Ao chegar à sua pequenina casa de taipa (casa cujas paredes são feitas de barro e areia com estacas ou grossos caibros que, juntamente com as varas, constituem o engradado das paredes destinado a receber e a manter o barro amassado), tive de me agachar para entrar e da mesma forma ao sair pelos fundos, dirigindo-me ao quintal, aonde a mesma se encontrava sentada sobre um tronco no chão, embaixo de um coqueiro. Irmã, disse-lhe o jovem, aqui está um pastor que nos visita. Sorridente, demonstrando possuir apenas um único dente em toda a boca, afetuosamente ela me cumprimentou. E o jovem obreiro, apressou-se: A senhora gostaria de lhe fazer alguma pergunta? Olhando-me dentro dos olhos, ela (ou será que foi Deus quem) me perguntou, “Pastor, por que somente agora, depois de mais de oitenta anos de idade, é que ouvi o Evangelho?”.


7 O PERFIL DO MISSIONÁRIO PARA O NORDESTE

Qual o tipo de pessoa, de missionário, ideal para alcançar o Nordeste brasileiro e seu povo? 1 Deve ser alguém que tenha a visão do Reino de Deus e está empenhado na sua expansão, cujo objetivo primordial é apresentar o Rei e o seu reino, sua vontade, seus valores, expressos nas Sagradas Escrituras. 2 Deve ser alguém cheio do Espírito Santo que manifeste o fruto e os dons espitituais, e que tenha sido devidamente preparado nas áreas da formação bíblica, teológica, missiológica e profissional; 3 Deve ser alguém que entenda que o modelo encarnacional é o melhor modelo na conquista de novos súditos para o Rei dos reis. O missionário deve procurar conhecer bem as pessoas que deseja alcançar para Cristo; conhecer a situação econômica, cultural e social do povo; procurar se adaptar ao estilo de vida da localidade.


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A Tarefa Inacabada: qual o maior de todos os desafios?

4 Deve ser alguém que desenvolva uma teologia bem fundamentada biblicamente e sociologicamente relevante, a fim de capacitar os líderes e as Igrejas para responderem de maneira eficaz e evangelisticamente às grandes questões nordestinas. 5 Deve ser alguém que tenha em mente que sua presença ali deverá agregar novos valores a toda aquela comunidade, no âmbito espiritual, social, educacional, cultural, econômico, político, material. Seu foco também deve ser a promoção da justiça social, a melhoria de vida desde a mulher grávida, do bebe, da criança, do adolescente, do jovem, do adulto até o ancião. Isto significa identificar-se com as aspirações da comunidade local na luta contra a opressão, miséria, pobreza, injustiça e muitos outros males decorrentes do pecado humano. 6 Deve ser alguém que busque e fomente o surgimento e a formação de lideranças autóctones. 7 Enfim, deve ser alguém que conheça e assuma o Nordeste e o homem nordestino em todas as dimensões de sua vida.


CONCLUSÃO

O Cristianismo não é uma fé privada, mas uma visão pública Jesus disse aos seus discípulos “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc. 24.49), significando que para o cumprimento da missão que ora eles recebiam era essencial o revestimento de poder, a pessoa do Espírito Santo, e que eles não deviam tentar evangelizar o mundo com seus próprios parcos recursos. Entretanto, esta Sua promessa de modo algum nega a relevância do treinamento e da formação do missionário, os quais têm como objetivo aperfeiçoá-lo na sua efetividade no campo. Revestimento espiritual, treinamento e formação fazem parte dos recursos essenciais ao cumprimento da Grande Comissão. O Nordeste brasileiro se constitui num grande desafio à Igreja e por isso mesmo requer missionários devidamente capacitados tanto no aspecto espiritual quanto nos aspectos humanos. É a Igreja que deve promover a conscientização, o despertamento, o envio, o sustento, a realização, da tarefa evangelística, missionária e social para e no Nordeste brasileiro. É ela que deve buscar uma


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melhor compreensão da amplitude da ação evangelizadora em favor da redenção do Nordeste e do nordestino, bem como avaliar e repensar os métodos existentes e desenvolver novas estratégias mais eficazes e adequadas à atual realidade. Que Deus em Cristo, pelo seu Espírito e pela sua Palavra, assim como levantou Moisés para resgatar seu povo Israel da opressão do Egito e conduzilo à terra prometida, também levante missionários, homens e mulheres, que se recusem a serem filhos deste mundo, e prefiram ser maltratados juntamente com aqueles que hão de serem salvos, a desfrutarem dos prazeres transitórios deste mundo, porquanto entendem o sofrimento do Senhor Jesus Cristo como maior riqueza do que todos os tesouros deste mundo, porque, contemplam, na verdade, a redenção, a vida eterna (paráfrase, Hb. 11.24-26).


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