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#20

TABU


Ficha Técnica REDACÇÃO* Aya x Joana Carreto Catarina Jacinto Correia Diogo Rodrigues Eduardo Bento Joana Marques José Durão Mª Emília Pereira Ricardo Dias Sara Nunes Tiago Gomes

COLABORADORES* Ariana Ferreira Guilherme S.T.J Bernardo J. Serafim Joana Bonifácio Vítor José Ferreira Manuel Féria Vasco Peixoto

CAPA E CONTRA-CAPA

Índice 3

Editorial

4

Tema

11

Babilónia

22

Fuga de Frames

28

Peregrinação

32

Janela de Expressão

40

Estórias Clínicas

Filipa Valente Marques

GRAFISMO Carreto

TIRAGEM 350 exemplares

IMPRESSÃO editorial aefml

CONTACTOS revista desumbiga associação de estudantes da faculdade de medicina de lisboa, hospital santa maria, piso 01 avenida prof. egas moniz 1649-035, lisboa des1biga@gmail.com

* O conteúdo dos textos publicados é da exclusiva responsabilidade dos seus autores


Editorial

T

abu. O assunto evitado, o comportamento proibido, o mistério não explicado. Todos tivemos já, certamente, um momento com esta entidade, que mais não seja quando preferimos usar o artifício do eufemismo quando, numa simples conversa de café, ele decidiu aparecer, sem convite, interpondo-se entre nós e o nosso interlocutor, bem ali, no centro da mesa que, até esse momento, servia de simples apoio a duas chávenas inocentes. Opiniões controversas sobre um assunto todos podemos ter, dir-me-ão vocês. E já tivemos que recorrer ao malabarismo da retórica e ao florear do discurso para fazer entender o nosso ponto de vista a alguém. Mas não é isso, não é mesmo isso. O tabu é um parente extremamente afastado da opinião. Ele não diz respeito única e exclusivamente àquelas duas pessoas que partilham um agradável serão de tarde (que de repente se torna constrangedor pela sua presença). Não. Ele é o vizinho incómodo de todos, a comichão atrás da orelha da nossa moral colectiva, o dogma da nossa sociedade. E agora? Aceitamo-lo? Permitimos que ali fique, esse grande empecilho, só para evitar confusões, ou desconstruímo-lo? Há quem pense que se é tabu, é-o por alguma razão. Não podemos ter a pretensão de compreender tudo, de querer esmiuçar tudo…devemos aceitar que há coisas neste Mundo, como o tabu, que devem ser simplesmente deixadas em paz. Mesmo que nos estejam a impedir de falar em condições com a pessoa que está à nossa frente, de tão cegos que estamos pela enorme treva que ele ali ergueu entre os dois. Mas depois, também há quem pense que não, não pode ser. Porquê não falar sobre ele? Porquê escondermo-nos atrás do medo e do receio de sermos chamados de loucos, pseudo-visionários, reaccionários? A verdade é que se não existissem esses seres insatisfeitos com o status quo que o tabu implica, alguns dos factos que discutimos hoje tranquilamente na mesma mesa de café, nunca teriam deixado de ser os tabus do ontem. E como se opera essa mudança? Bem, começamos por falar sobre ele. Mas fazemo-lo de forma crua. Mostramo-lo, contestamos o porquê da sua existência. Encaramo-lo com olhos de cientista que nada teme, mas tudo investiga, tudo experimenta, tudo comprova ou desmistifica. A nossa mente tem que estar no mais puro estado de abertura e cepticismo para que isto aconteça. E assim, destruindo a pouco e pouco as hesitações e os rodeios, desapegando-nos de ideologias, de códigos, de estéticas, conseguimos finalmente voltar ao nosso serão tranquilo. E os nossos olhos, e os do nosso interlocutor, brilham agora com a luz do pôr-do-sol que neles se reflecte. E o café que restou nas nossas chávenas sabe até melhor, apesar de já estar frio. Que esta edição da Des1biga seja a mesa deste café imaginário.

Joana Marques

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Tema vícios. Fruto não apanhado apodrece Niguém sabe

Catarina Jacinto Correia José Durão Vasco Peixoto

O calcetar de uma rua

Ricardo Dias

Depois do sexo. A pergunta.

Ricardo Dias

Bang.

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Joana Marques


vícios. Adoro a novidade; o conhecer coisas novas. Mas reservo-me uma excepção. A minha cidade. Há qualquer coisa de reconfortante e belo na familiaridade dos caminhos e paisagens de sempre. E qualquer coisa de macabro e sádico no envolvente citadino. ----------------------------------------------Enquanto regresso de uma viagem, uma espécie de amante fugaz e passageira a quem se diz um adeus breve, sempre torno ao verdadeiro amor da minha vida – a rotina do bulício cansativo rodeado pelo nevoeiro industrial que se faz sentir nas vias respiratórias, tornando-me quase toxicodependente dos compostos nocivos que pairam no ar. Sabes, é aquela tirada de sempre: o vício, pensei eu. Tal como cocaína injectada sem dó nem dor, ou aqueles 0,6mg de nicotina e 8g de alcatrão contidos num cigarro que absorvo em lânguidos e compassados fôlegos sempre que sinto a necessidade melancólica de olhar o mar em varandas perdidas, o fumo, sempre o fumo poluído deste meu recanto urbano, entorpece-me os sentidos e vicia. Sim, é como um arranhar de unhas envernizadas de vermelho, que encruam com o sal desse mar de lágrimas da tal amante perdida, na pele suada de um romance fugidio nessas noites de calor na baixa. «São 100 euros» diria a puta para o seu cliente satisfeito e arranhado que lhe pagaria sem demora e sairia para a rua, absorvendo todos os cheiros que a civilização moderna tem para lhe oferecer. «Vês, é vício» disse-me a minha outra moradora do meu corpo. «Se não é o tabaco depois da foda, é o ar conspurcado das ruas da noite». Às vezes tento não gostar tanto disto, tento não apreciar todo e cada defeito minucioso que Lisboa me apresenta. Tanto cheiro e sabor que preferia não saber, não conhecer. Penso, talvez ilogicamente, em tudo o que poderia ter. Todos os sítios a que podia chamar “meus”. «Não seria o mesmo», responde-me ela. Não, não seria, concluo. E regresso à realidade por entre o cheiro a químicos descolorantes e abrasivos, deixando que a água a ferver escolha o seu caminho deambulante pelas minhas costas, percorrendo trilhos de pele morena e deixando a sua marca em gotículas salpicadas aqui e ali. É vício. Catarina Jacinto Correia

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Fruto não apanhado apodrece

N

a sua sala vitoriana, Ada fuma sem vergonhas. Não são os oitenta e cinco anos que a impedem de o fazer, não é ninguém que ousa sequer pensar em fazê-lo. Fossem outros tempos e nenhum abaixo de conde me dirigiria a palavra sem pedir licença primeiro, reclama diariamente a quem passa, não para a ouvir com certeza mas porque é criado e tem coisas mais sólidas para polir do que os etéreos devaneios de senhoras de outras eras. E se dúvidas houvesse de que no reino das louças, pratas e mobílias que já lá vão e que pertencem aos reis do passado, cujas almas já nem sussurrar conseguem, apenas ecoam baixinho de cada vez que um garfo cai ao chão ou que Ada faz retinir os anéis e as pulseiras, quem leva a sua avante é a encarnação da própria Vitória, não lhe faltam vassalos para cumprir os seus deveres menos próprios de uma rainha. Ou pensam eles, e dizem eles, esses cínicos embriagados de pudores e convencionalismos, tivessem eles onde cair mortos e já não caíam nas suas estúpidas tentativas de desculpas e sugestões de “parceiros mais adequados” (com a sua vozinha de falsete de outros tempos também, não os das mobílias e das pratas mas os das óperas e dos Olimpos), diziam tudo de caras na minha cara, como deve ser, poltrões! cínicos! lambe-botas!, e se parece que desta vez se salvam todos da fúria de um portentoso vulcão, lá surge por fim uma taça voadora por sobre as cabeças de familiares e criados, não se salva ninguém, nem cocurutos, nem pratas. Eis que o cavaleiro chega à torre da dama em chamas. Abençoado!, acusam as criadas, que elas até apreciam, não trouxesse com ele o extintor do apaziguamento. Da carne e do tempero. Vincent, por fim meu amor! Minha dama, perdoe-me, a minha sobrinha precisou de mim, sabe como ela é com a Matemática, em jeito de súplica pela sua salvação. Ela bufa (fosse outro e gritava), meu Vincent, isso não me interessa, esperei toda a manhã e uma senhora das artes não espera, faz esperar, mas basta de palavras meu amor, meu fruto de inspiração e de divina satisfação, dá-me o teu fulgor, ilumina-me como os holofotes e os flashes das câmaras costumavam iluminar mas mais extasiante porque de artificial não há nada, nem as conversas que repudiam o nosso amor, essas bem reais, deixa-os falar e opinar, são eles o açúcar deste fruto, já quase grita de euforia. Que o fulgor deste teu servo te incendeie acima do zénite minha dama. E do alto dos seus fervorosos trinta anos (que é como quem diz do alto das suas pernas), o servo satisfaz a necessidade regular da sua dama. E não são as conversas que atrasam potência, se não a dele, muito menos a dela, uma senhora das artes que se impõe e à sua voz e à sua presença a milhares de míseros mortais de cimento, num palco de cimento mais duro ainda, durante horas que parecem anos, e foram anos, gloriosos anos de tudo o que a Arte pode dar a uma grande dama. E não são os familiares, nem os criados, nem os alertas de todos, até as mobílias, as tapeçarias, as louças, que diabos, até as pratas, fartas que estão de tanto voo, gritam à sua senhora que o recente servo que as substituiu (ainda nem um projecto era, já elas eram da sua senhora), que ele de enrugado apenas procura os sofás de pele, sinal dos tempos mas da fortuna, nem nada demove a velha dama. E não são sobrinhas nem matemáticas que atrapalham o serviço, visto que se amor não tem geometria nem fórmula nem regra de operação, a tabuada do momento serve não para impedir mas para multiplicar o desejo de dama e servo. E continuam até o x ser encontrado. Ou quando o dinheiro acabar. Ou quando ela se fartar. Ou quando o tabu assentar. Não fôssemos nós filhos da Eva. José Durão, 26 de Abril de 2013 imagem de stikmancomics

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Ninguém sabe O que é mesmo chato é quando se faz tabu de uma coisa que nem sequer conhecemos Não se fala porque não se compreende, porque não se sabe o que dizer. Ou quando se tenta mostrar tudo a toda a gente gostemos ou nao, agora precisamos de mostrar tudo a toda a gente. Já ninguem faz nada que seja tabu e é uma pena porque os segredos e as coisas que nao queremos publicar num mural sao as coisas mais verdadeiras e mais valiosas que temos. Continuem assim a viver para aquilo que podem publicar para todos. Continuem a não conseguir e a nao querer e a ter medo das realidades que são as mais ferozes , mais geniunas e vivas e que nos fazem ser alguma coisa. É melhor viver para aquilo que podemos mostrar a todos. De que é que vale ser feliz se não posso mostrar isso a toda a gente? Não vou arriscar, ninguém vai saber, Se arricar, se correr bem e toda a gente souber vou ter medo porque é muito mais importante o que os outros pensam e os outros podem pensar mal. Nem sequer conhecemos aquilo de que não falamos. De resto falamos de tudo, mas fazemos pouco, E agora já nem é preciso ser, basta parecer, E enganamos-nos uns aos outros e jogamos jogos em que cada um assume o papel de uma personagem mas nenhum é ele próprio. Perdemos-nos em registos e a nossa pessoa passou a ser um conjunto de eventos na nossa cronologia que nos definem e não há tabus. O que não vemos fica demasiado fácil de imaginar, e triste também. Quero que saibam que estou apaixonado, que estou irritado, que não quero estudar mais, e que a minha vida é um livro aberto, que gosto disto e não gosto daquilo, que sinto assim e acredito nestas coisas e não faço nada que aqui nao esteja definido, como gelados e vejo o por do sol e quero que voces o vejam comigo, vou sair á noite e ando de carro e quero que me vejam com a pessoa com quem estou antes de nos deitarmos e quando acordamos ao pequeno almoço e ja agora ao almoço , ao jantar tenho que fazer uploads. já ninguém se lembra bem do que é um tabu, eu lembro-me mas falo de outro lado . Quero tabus e vontade de esconder dos outros a verdade. sabendo que os outros também querem esconder a verdade, so que essa verdade nao e a mesma e nao e escondida pelos mesmos motivos. E devia ser facil perceber, aquilo que deixamos de ser porque estamos distraidos com o parecer. Não vale a pena afinal haver tabus. Mostrem tudo. Submetam-se á avaliação precisa daquilo que voces sao e fiquem felizes se vos confirmarem que estão a fazer as coisas bem. Assim é que é bom. Quantos mais likes melhor estas a viver. É tão simples como isto. Não tenhamos duvidas. Vasco Peixoto

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O Calcetar de uma rua Havia uma rua na cidade por onde pouca gente passava. De facto, pouca gente a conhecia e pouca gente a queria conhecer. Aliás, eu próprio não conheço pessoalmente ninguém que a conhecesse ou que a quisesse conhecer. No entanto, ela existia. Segundo se consta, o princípio da sua dura existência terá coincidido com as palavras proferidas, há largos anos atrás, pelo único calceteiro que trabalhava sobre ela: – Nunca ninguém te há-de querer para nada. Tu não serves para nada. E verdade seja dita, nunca ninguém a quis para nada. Nunca ninguém a quis levar consigo para outro lugar que não aquele onde mora o esquecimento. Ela parecia servir apenas de passagem para quem vinha da rua de cima para a rua de baixo. Até mesmo o pobre sem-abrigo, que sendo seu vizinho e conhecendo-a melhor que ninguém, a ignorava. Este, apesar de cego, surdo e mudo, o soar da caridade era o único que ele era ainda capaz de distinguir e, por isso, preferia antes ficar na esquina que dava para a praça principal da cidade porque era lá que as moedas caíam mais vezes e era lá que podia passar um dia inteiro sem que a penosa lembrança da sua vizinha lhe pesasse sobre a vida. O calceteiro, esse, tão embriagado que era o seu olhar, nunca chegou a ver realmente o quão bonita era a rua sobre a qual ele punha as mãos. E por trabalhar nela todos os dias, era, pois, de todos, aquele que mais a desprezava. Ora a rua, apesar de ser apenas uma rua, também tinha os seus sentimentos. Afinal de contas, quem não os tem? E os sentimentos que ela tinha eram de uma amargura tão grande que se estendiam, precisamente, da rua de cima até à rua de baixo na igual medida com que se sentia usada e esquecida. Sentia-se abandonada ali, sem amigos nem conhecidos e sentia, com razão, que não tinha ninguém que olhasse por ela, ou para ela sequer. E isso entristecia-a profundamente. Quando nasceu, ela pensava esperançosamente que o mundo a viria contemplar de quando em quando e sonhava até que algum fotógrafo famoso lhe tirasse uma fotografia com uma daquelas máquinas cuja lente capta a beleza oculta das coisas. Ela desejava, pois, que alguém descobrisse a sua beleza oculta e que lhe mostrasse delicadamente: – Vês como és bonita? Mas toda essa esperança pelo sentimento de reconhecimento e pertença a este mundo foi-se esmorecendo gradualmente até que a própria palavra esperança lhe parecia a mais absurda e irrealista de todas aquelas que conhecia. O passar dos dias fez-lhe ver que o futuro não era mais que a contínua repetição do presente e que nenhuma esperança podia ser alimentada numa terra infértil. Consequente e inevitavelmente, houve um dia em que aquela rua se fartou: da dor e do desprezo. Mas acima de tudo, do desprezo. A ideia do prazer já se tinha afastado de tal modo de si que a dor era a única coisa capaz de despertar os seus sentidos e de fazê-la acreditar que, afinal, ainda estava viva. E, por isso, suportava- a para não se esquecer de viver. Mas o desprezo, esse, não conseguia suportar nem tão pouco habituar-se a ele. Assim, houve um dia em que aquela rua se fartou e, num impulso inexplicável, foi-se embora. «Se a noite se pode ir embora porque não eu também?» A maneira como acaba esta história é bastante intrigante, de tal forma que quase chega a parecer que foi inventada. Não obstante, a verdade é que logo após aquela noite, ao romper do dia, o calceteiro que nunca deixou de bater impiedosamente aquela rua, para «fazê-la» pois sem as suas mãos aquela rua «não era nada», veio então à sua procura no lugar onde pensava poder encontrá-la. E assim que chegou, o seu olhar de embriagado pareceu ganhar a lucidez necessária para constatar que afinal aquela rua nunca precisou dele, ou pelo menos da maneira como ele acreditava. A prova disso é que ela se tinha ido embora de vez e de mãos dadas com a noite. Ricardo Dias

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Depois do sexo. A pergunta.

Então… Gostaste?

Era a pergunta que ele fazia, sempre, assim que acabava aquilo a que muitos chamam «o serviço». E de facto, ele, mais do que ninguém, encarava aquele jogo íntimo dos corpos como sendo um autêntico serviço. Um serviço que ele esperava e exigia, para si próprio, que fosse de excelência. Talvez a melhor maneira de descrever o homem por detrás desta história será dizer que ele se revia na imagem de um dedicado empregado de mesa que, após corresponder aos exigentes desejos do cliente, se quer inteirar se estes foram, realmente, saciados. E sendo a ironia a mais fiel companheira do cinismo, poderei adiantar que todas as mulheres que entravam no seu restaurante saíam de lá com a mesma impressão. A tal impressão que fazia com que nunca mais lá voltassem. E assim se auto- perpetuava este ritual. O ritual de um empregado que não compreendia que as palavras só servem para se servirem de nós e que o serviço maior que ele poderia oferecer era o de permanecer à espera, em silêncio, que o prato falasse por si. Mas não. Não havia nada que mais lhe pesasse a consciência que não perguntar. É como se, ao não perguntar, estivesse a cometer um descuido grosseiro, imperdoável. Assim, num automatismo de gestos e palavras, após levantar lentamente o prato da mesa, perguntava sempre: - Então… gostaste? E da mulher que ali, à sua frente, estivesse ouvia sempre a mesma resposta, após um breve silêncio pensado: - Sim. A resposta parecia vir de um lugar tão distante que compreendê-la nitidamente eralhe, por vezes, difícil. E, por isso, quando as palavras lhe pareciam um pouco desviadas da sua compreensão, voltava a perguntar: - Mas gostaste mesmo? E a partir desta pergunta, obtinha uma resposta mais distante ainda: - Sim. Gostei... Com esta resposta, ainda que ainda mais distante e longe da verdade, já podia viver descansado. No seu modo de entender as coisas, se ela não voltava não era porque não tivesse gostado. Haveria de ser por outra coisa qualquer. «Mulheres…ninguém sabe o que elas querem. Se gostam é porque gostam, se não gostam é porque não gostam…». E com esta filosofia, limpava-se de quaisquer remorsos. Ainda que, lá no fundo, desconfiasse que alguma coisa lhe faltava ainda descobrir. Talvez, ao perguntar mais uma vez ou outra, as vezes que fossem precisas, alguém lhe dissesse, por fim, o que seria. Ricardo Dias

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Bang.

Caía o velhote no chão depois do homem encapuçado o ter obrigado a desfazer-se do pouco dinheiro que tinha debaixo do colchão, e ele, como bom homem de fibra alentejano, recusara rebaixar-se. Ninguém na aldeia tinha sentido o estrondo, só os cães que dormiam tranquilamente e acordavam agora em sobressalto. Mas os seus latidos perdiam-se na noite, levava-os o vento para longe, enquanto o sangue corria nas lajes do pequeno terraço e um pouco mais à frente brilhavam ao luar os legumes da pequena horta que o velho tratava com tanto amor e que, apesar da seca e do calor insuportável daquele verão, tinham resistido com bravura. Amanhã dariam pela falta dele os pássaros que costumava contemplar nos seus passeios ao jardim central e as flores com quem falava de vez em quando. E talvez um ou outro sem abrigo com quem por vezes partilhava a merenda. De resto, ninguém iria reparar. Nem sequer na missa, a que fazia questão de não faltar nenhum domingo, iriam fazer referência ao seu desaparecimento do Mundo dos vivos, não tinha família que mandasse rezar por ele, e assim como assim, era como se já fosse um fantasma.

Bang.

O rasto de pólvora seca ecoava na noite enquanto todos, alheios ao som que se misturava com o vibrar dos subwoofers, continuavam na dança frenética da sua juventude ébria, alheia de todos os problemas que não os próprios, preocupada única e exclusivamente com aproveitar a vida ao máximo. Porquê culpá-los? Só cresceram neste mundo, não foram eles que o fizeram. Apenas tentam tirar desta laranja rasca algum sumo que lhes tire a sede de aventura. Mas na terra batida, corria igualmente o sangue de um deles. E os que tinham visto o mesmo homem encapuçado, esboçavam esgares de pânico e horror, e não acreditavam que alguém pudesse querer estragar a sua inocente festa com um acto tão vil. Amanhã, iriam publicar nas redes sociais mensagens de condolência à família e amigos, criariam páginas públicas e cerimónias de homenagem, contactariam jornais e estações de televisão e toda a gente iria ter a sombra do sucedido a toldar o sol daquele Domingo, que se queria alegre e festivo, afinal era dia da Mãe.

Velho e rapaz encontraram-se então nesse lugar para onde iremos todos, seja o Nada, seja o Céu… ou o que for. E, ao olharem com olhos de quem vê tudo de fora, perplexos, perguntaram-se como pode andar tudo tão louco, mas querem lá ver, que raio de coisa é esta. Já ninguém sabe dar o valor certo às coisas. Chegaram os dois à conclusão. E, resignados, tranquilos, seguiram juntos a conversar pelo caminho. De que falavam? Trivialidades, apenas. Joana Marques

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Babilónia Welcome to “The Lives of Others“ Leonard Cohen Polifonia 2.0 Sisífo nos dias de hoje Inner Natures

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J. Serafim Diogo Rodrigues Carreto e Diogo Rodrigues Joana Bonifácio Vítor Manuel Leiria


Welcome to “The Lives of Others”

[Em primeiro lugar, perdoem o título em inglês, mas em português não resultaria tão bem – para respeitar as regras da língua portuguesa, teria de desrespeitar o título de um filme que tanto estimo. E isso certamente não desejo fazer.]

“As Vidas dos Outros” leva-nos até Berlim Leste, anos antes da queda do Muro. A Stasi, polícia secreta, todos vigia e oprime, não tendo qualquer pudor em recorrer à tortura em nome do socialismo. O clima que se vive é, compreensivelmente, o do medo: medo da polícia, medo da denúncia, medo do outro.

Numa ocasião ouvi alguém dizer algo deste género: vários artistas houve que criaram muito durante toda a sua vida, mas apenas uma vez quis a Fortuna que fossem iluminados por uma (quiçá divina) centelha centelha essa que lhes permitiu fazer algo muito mais belo, profundo e valioso que o que haviam executado até então. O triste é que, qual maldição, na obra que se seguiu a esses tempos fugazes nunca mais se conseguiu vislumbrar algo de semelhante.

Entra em cena Gerd Wiesler, uma espécie de “capitão” da Stasi para quem o ofício de intimidar, interrogar e torturar os concidadãos parece ser algo natural, tão quotidiano como a mais vulgar das tarefas domésticas. Wiesler é um homem aparentemente frio, com uma desconcertante visão de túnel que apenas lhe permite ver aquela Alemanha onde sempre se inseriu e pela qual tudo fará para que não se desmorone. A sua vida é solitária e cinzenta, tão cinzenta quanto as roupas que usa.

Há quem inclua nessa categoria Florian Henckel von Donnersmarck, o realizador de “As Vidas dos Outros”. A razão? É que, após iniciar-se com algumas curtas, von Donnersmarck brindou-nos em 2006 com esse excelente filme, a sua primeira longa-metragem – e 4 anos depois seguiu-se “O Turista”, mal-amado e escarnecido por muitos. Mas não será ainda prematuro e injusto designá-lo como one hit wonder? Penso que sim. E mesmo que daqui a muitos anos se chegue à conclusão de que “As Vidas dos Outros” foi a única obra singular do realizador alemão, nem todos podem afirmar que alguma vez escreveram e filmaram algo assim. E esse mérito ninguém lhe pode tirar.

Um dia recebe ordens para instalar escutas na casa de um casal de famosos artistas, o dramaturgo Georg Dreyman e a actriz Christa-Maria Sieland, e ainda para ouvir e registar tudo o que ali sucedesse. Ao ter conhecimento de que estas ordens se fundamentam em motivos puramente pessoais de um ministro e não em razões políticas, Wiesler sente-se revoltado mas, não tendo escolha, prossegue o seu trabalho. Quase desde o início apercebe-se de que Dreyman e Sieland se amam verdadeiramente. E é pelo contacto

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com a privacidade e intimidade do casal que Wiesler se vai modificando aos nossos olhos. Afinal de contas, o agente da Stasi, na sua vigilância, testemunha em primeira mão o que não existe na sua própria vida tão despojada: o amor, a partilha, a cumplicidade. As vidas de Dreyman e Sieland tornar-se-ão uma continuação da de Wiesler - e este não resiste e vai abandonando o seu papel de espectador passivo, influenciando aqui e ali o rumo dos acontecimentos. Muda a sua conduta, passando do agente-modelo conivente ao adulterador de registos, desafiando o regime em nome de um sentimento de humanidade que a princípio julgávamos não existir dentro dele. Esta é uma história bem contada, com um enredo denso e uma tensão crescente, e em que alguns silêncios e olhares transmitem tanto quanto as palavras. As personagens são suficientemente credíveis e interessantes - e aqui vale a pena destacar a de Christa-Maria, uma mulher complexa, com sérios problemas de auto-estima e uma não menos séria dependência de fármacos. Muitas vezes nos apercebemos do seu desespero; Christa sente que ser actriz é uma parte indissociável de si própria e sabe que a sua carreira só existe porque o governo assim o quer – se alguma vez der um passo em falso, os seus tempos no palco acabam, e será como se Christa-Maria Sieland, a actriz, nunca tivesse existido.

Wiesler, a sua mudança é provavelmente demasiado repentina, sobretudo para alguém que seria um cego militante do Partido. Outra coisa a apontar é que – e isto diz quem de facto viveu aqueles tempos – as acções levadas a cabo pela Stasi tinham uma extensão muito pior do que aquela que é retratada. Isto com a agravante de que, em toda a existência da Stasi, nunca houve um único agente que se tivesse revoltado ou mostrado um rasgo de piedade por alguma das suas vítimas. Tristemente, nunca houve um Wiesler.

Apesar disso tudo, temos de ver o filme por aquilo que é: uma história sobre o amor, a compaixão que brota do coração mais improvável, o poder que cega aqueles que o detêm e muitas vezes provoca as maiores tragédias… Não o vejam pelo Óscar que ganhou. Em Não é certamente um filme 100% fiel à realidade vez disso, escolham vê-lo pelo delicioso alheamento histórica (e curiosamente nem o realizador desejou que tantas vezes sentimos quando estamos absortos que fosse). Naquele tempo, naquele local, Wiesler em algo de que gostamos. nunca trabalharia sozinho, e sim com mais agentes da Stasi, cumprindo-se os propósitos de vigilância mútua e prevenção da desobediência. Além disso, talvez não seja muito normal que o casal de artistas tivesse sido J.Serafim poupado durante tanto tempo às consequências de viver num regime com ideário socialista, parecendo usufruir ao invés de um estatuto especial. Quanto a

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Leonard Cohen

[Leonard hand in pocket, de Michelle Clement]

Leonard Cohen não é deste mundo, nem poderia ser de qualquer outro. Os seus poemas e a sua canção são de uma simplicidade exemplar, o seu sentido estético colossal, e a sua retórica própria de um profeta. Contudo, é um calor profundamente humano que emana da sua arte, é a constante intimidade da sua voz e do seu gesto que vem cativando admiradores ao longo de décadas de transformação. Ouvir Leonard Cohen implica conhecer as suas origens. Québécois anglófono por nascimento, de família judaica, avô polaco. Origens essas que se reflectem na sua primeira educação religiosa, latente em canções -oração como Who By Fire, e então se confundem com o seu percurso: budista, grego e nova-iorquino por residência, gitano andaluz em espírito, por afinidade com os povos que como ele próprio são nómadas, por indulgência àquela vontade de partir. Poeta por eleição, com breves incursões pela ficção, começou a sua aventura musical através do folk nos anos 60, e deste se expandiu pela fusão, pelo pop, pela world music descomprometida e sem lugares comuns. O que logrou rodeando-se de virtuosos comedidos, do violino de Alexandru Bublitchi, ao alaúde de Javier Mas, ao emblemático Hammond B-3 de Neil Larsen. Músicos estes que o acompanharam na sua última world tour, Old Ideas.

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fotografia de Planton

Em Outubro, esta tour passou por Lisboa, no que seria o último concerto em solo europeu. Pessoas de toda a parte deste lado do Atlântico, juntaram-se para uma viagem de quatro horas pelo repertório Cohen, ele próprio extremamente energético apesar de septuagenário, sempre transparecendo bom humor. Uma energia tal que nos deu quatro encores, correndo sempre de volta ao palco, visivelmente satisfeito! Um deles, I Tried to Leave You:

I tried to leave you, I don’t deny I closed the book on us, at least a hundred times. I’d wake up every morning by your side. The years go by, you lose your pride. The baby’s crying, so you do not go outside, and all your work it’s right before your eyes. Goodnight, my darling, I hope you’re satisfied, the bed is kind of narrow, but my arms are open wide. And here’s a man still working for your smile.

Leonard Cohen é uma experiência. Diogo Rodrigues

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Polifonia 2.0 Música Nacional

Jibóia (EBM/Psicadélico) Jíboia é um rapaz de bigode que actua rodeado de midi controllers e com uma guitarra ao peito. Se querem saber ao que soa, basta imaginar a progressão do rock psicadélico a juntar-se à distorção e industrialismo do EBM. A atmosfera é escura mas com uma sonoridade oriental muito interessante, quer pelos synths que tocam em loop, quer pela voz aguda de Ana Miró, que o acompanha nalgumas faixas. http://is.gd/fuZKs5

RA (Electrónica/IDM)

The Allstar Project (Post-rock)

SAUR (Post-Rock/Industrial)

É talvez das bandas de post-rock nacionais que mais qualidade têm. O seu trabalho é coeso e dinâmico, com riffs de guitarra ao estilo de If These Trees Could Talk ou God is an Astronaut. Apesar de tocarem há 10 anos, apenas têm dois álbuns e dois EPs publicados. http://is.gd/DjbhQc

Os SAUR emergem como uma voz original no rock nacional, inclusivamente pela sua ausência. Pouco dados ao kitsch pueril que tipicamente assombra o rock alternativo, mas demonstrando clara influência das melhores bandas portuguesas do género (Linda Martini, PAUS, etc.), constroem pelas guitarras distorcidas, e efeitos residuais do post-rock, uma pare-

RA é Ricardo Remédio, um artista setubalense da cena electrónica que se lançou em 2012 com o EP “Rancor”. Antes de iniciar este projecto, já tinha feito parte dos Lobo, uma banda de metal – daí que as músicas que nos apresenta tenham estas atmosferas pesadas e sombrias, com baixos ácidos e linhas de teclas etéreas, que nos transportam para o mundo algo perturbador do IDM. http://is.gd/OilQbV

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de de som galopante, cujo ímpeto é complementado por referências pontuais ao industrial. Apesar de se demonstrarem técnica e criativamente confortáveis, resta ainda que expandam o seu repertório. Mas de que modo será isso considerado impeditivo, quando Reign In Blood (1986), debut album dos Slayer com o recém-falecido membro fundador Jeff Hanneman, nem tinha 30 minutos? saurband.bandcamp.com facebook.com/saurband

Grüa (Jazz Fusion/Post-rock) Os Grüa são uma banda particularmente interessante, na medida em que a sua música parece escapar da convenção do jazz muito subtilmente e sem abdicar da sua exploração harmónica, talvez sim do calor que o caracteriza. Este fresco musical lembra a harmonia de Pat Metheny, o phrasing arejado de Kurt Rosenwinkel, a intensidade de Mike Moreno. Aqui a influência guitarrística de Rui Neves, o compositor deste projecto, é determinante sem nunca se tornar restritiva, por contenção exemplar do próprio, que integra no seu acompanhamento influências claramente externas ao jazz, sejam os efeitos do post-rock, a distorção ou a insistência de certas notas pedal em open strings. Miguel Guelpi e Filipe Simões complementam a secção rítmica, deixando espaço para o scat-singing de João David Almeida, em claro diálogo com a guitarra. Aconselho vivamente! http://ruineves.bandcamp.com/

Artigo escrito por Diogo Rodrigues e Carreto des1biga 17


Sísifo nos dias de hoje...

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e acordo com a mitologia grega, Sísifo foi o homem que tentou prender a Morte para que nenhum Homem tivesse de morrer. Depois de ser libertada a Morte, e chegando a altura de Sísifo morrer, este tentou escapar mais uma vez, e após ter sido capturado os deuses deram-lhe um castigo para a eternidade, foi condenado a empurrar uma pedra enorme até ao topo de uma montanha. A sua tarefa não era, no entanto, recompensada, já que cada vez que completava o seu trabalho, a pedra deslizava novamente até ao sopé da montanha e Sísifo era obrigado a recomeçar a sua tarefa outra vez, infinitas vezes.

Estou consciente que a análise deste mito não é linear, visto que pode ser abordada de muitos pontos de vista e suscitar várias perguntas logo à partida, começando obviamente por questionar quais de nós se esforçam por algo da mesma forma como Sísifo empurrava a sua pedra, isto é, quais de nós empreendem esforços até ao seu limite? Destaco, também, que não são muitos aqueles que após verem a pedra a escapar entre as suas mãos voltam a tentar a sua tarefa inúmeras vezes, sempre com uma fé inabalada e inabalável , com a esperança de que, algum dia, o seu esforço dará frutos e a pedra em perfeito equilíbrio se manterá no topo da montanha. Pergunto também qual será o grau de loucura de uma pessoa que nunca desiste da sua tarefa, quando esta não tem resultados após inúmeras tentativas?

Vale a pena pensar no mito de Sísifo na medida em que este é um exemplo de infindável absurdo, já que Sísifo gastava todas as suas energias numa tarefa sem Neste caso, Sísifo estava condenado pelos deuses, resultados, repetitiva e condenada invariavelmente ao mas, e não estando obrigado, teria ele continuado a fracasso. Albert Camus interpreta, no seu livro Le Mythe de sua interminável tarefa só por uma questão de fé ou Sisyphe, este mito como uma metáfora actual do es- de sentido de dever ou por sonho? Que motivação tilo de vida da sociedade moderna em que vivemos. seria suficientemente grande para levar um homem a Segundo Camus, o mito de Sísifo é uma metáfora desempenhar com todas as suas energias a tarefa de do absurdo da existência humana que se coloca em Sísifo?

A verdade é que todos nós num ou noutro momenquestão após se assumir a inexistência de Deus. No entanto, paradoxalmente, Camus defende que “la lutte to das nossas vidas tivemos necessidade de procurar elle-même vers les sommets suffit à remplir un coeur e subir essa montanha para empreender um esforço d’homme” e, por isso, imagina Sísifo um homem feliz. quase impossível somente para mostrar a nós mesmos Partindo da posição de Camus, pergunto-me até que somos capazes. Contudo, a tarefa de Sísifo remeque ponto cada um de nós se assemelha a Sísifo nas te-nos para o oposto, para a frustração da sua tarefa tarefas do seu dia-a-dia? A quantos esforços sem re- sempre sem resultados. É precisamente esta frustrasultado dedicamos o nosso tempo? E, por fim, o que ção, e a repetição da sua tarefa que me relembra da representa o mito de Sísifo nos dias de hoje e que in- parte considerável do nosso dia que passamos a empurrar a pedra para o cimo da montanha, para no terpretações podemos fazer dele?

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dia seguinte o voltarmos a fazer. Usamos uma quantidade tão significativa do nosso tempo para cuidar da nossa imagem, para satisfazer as nossas necessidades, como comer, dormir e tudo o resto, mas quanto tempo gastamos a cuidar do que pensamos, do que defendemos, ou mesmo a pensar sobre quem somos e qual é o sentido da vida? Não querendo com estas palavras afirmar que não é importante cuidar da imagem ou fazer todas as actividades da nossa rotina, pois elas são-nos essenciais e integram-nos em harmonia na sociedade, digo apenas que dedicamos uma parte tão significativa do nosso dia a esforços infrutíferos, que se reveste de uma importância diferente a pequena parte do nosso dia em que podemos realmente fazer a diferença.

mítico que não descansa enquanto não cumpre o seu objectivo. Esta é uma das inúmeras interpretações deste mito. Relembro ainda assim que cabe a cada um de nós procurar a sua própria interpretação e reflectir sobre as semelhanças e diferenças entre Sísifo e a condição humana.

Para terminar confesso, são mais as minhas interrogações que as minhas respostas, espero, contudo, não ter confundido ainda mais o leitor com esta reflexão, relembro que as melhores questões são aquelas que não têm uma resposta, mas sim várias, múltiplas interpretações e um horizonte aberto de novas possibilidades de resposta. E Sísifo é isso mesmo, uma personificação brilhante da nossa frustração diária, por um lado, e da nossa perCuriosamente, Miguel Torga dedica um poema sistência por outro, porque também eu acredito que a Sísifo, a personagem que representa aquilo que há algum dia, a pedra ficará imóvel no cimo da montade mais obstinado e lutador no ser humano e que faz nha. parte da sua natureza, “Enquanto não alcances/ Não descanses./ De nenhum fruto queiras só metade”, “És homem, não te esqueças!/ Só é tua a loucura/ Onde, com lucidez, te reconheças”. Neste poema é abordaJoana Bonifácio Vítor da uma perspectiva do mito completamente diferente e igualmente pertinente. Neste caso, Sísifo é o herói

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Inner Natures Olhar o horizonte rasgado na folha é perder-se em locais fundos da alma, e reconhecer-se no seu interior. A isso ambiciona o trabalho que Andreia César tem vindo a desenvolver, ainda que talvez não ambicione mais do que aquilo que já é. Quando observo uma das mais que trinta peças que compõem a sua série Inner Natures, não consigo evitar a recordação das palavras de um antigo mestre taoista que falava sobre o simbolismo das águas e das montanhas, e sobre como esse simbolismo se lhe tinha alterado com o acumular da experiência e o passar dos anos. Assim é ao observar estas paisagens interiores, quando as vemos sobre o papel, observamo-las enquanto profundezas, enquanto reflexo do eu, e com esse entendimento as reconhecemos novamente como acção do traço e da mancha sob a superfície, como um ferimento sobre a pele. Ao longo dos seus anos de estudo o trabalho da artista tem sido influenciado pela filosofia e artes orientais, tal que o traço se lhe assume com uma função tão preponderante, como manifestação sensível do olhar por acção do corpo. É através dele que a visão autoral é concretizada, assim como através da forma como se relaciona com o papel por intermédio de acções mais ou menos abrasivas. Em sua relação directa está a mancha, e é na coordenação de uma com a outra que podemos visualizar o invisível mundo mental da artista. À suavidade das cores, pastéis, sépias, verdes musgosos, sérios mas sóbrios, contrasta a severidade do negro, do cinzento, do escuro que mancha o branco do quadrado de papel, qual janela aberta para um recanto interior da alma. Entre 16 e 19 de Abril foi possível encontrar este trabalho presente nos corredores da Faculdade de Medicina de Lisboa, conjuntamente com a exposição colectiva Desumbiga TABU, apresentando-se numa relação de paridade que explora os recantos profundos da mente humana singular e colectiva. O tratamento subtil do desenho/pintura trouxe contraste à secção fotográfica, mais directa e carnal, e dessa forma propagou dicotomias relacionadas com o corpo e a mente, o corpóreo e o espiritual, o palpável e o intangível. Mas é importante notar que esta intangibilidade pretende-se tangível, acessível, imersiva. É pela mão da artista que se formula a sua visão, e é pelo nosso olhar que nela nos deixamos mergulhar. Observar Inner Natures é entrar num lugar onde a linha é o horizonte e o espaço, a mancha é o líquido e o sólido, e o olhar é a perspectiva, a nossa e a da artista, cada uma sobre si mesma, vendo-a, enquanto somos vistos de volta. Manuel Leiria

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Andreia César Inner Nature nº 1, 2013, 21x21 cm, tinta da china, aguarela e grafite sobre papel

Andreia César Inner Nature nº 18, 2013, 21x21 cm, tinta da china, aguarela e grafite sobre papel

Andreia César Inner Nature nº 26, 2013, 21x21 cm, tinta da china, aguarela e grafite sobre papel

Andreia César Inner Nature nº 27, 2013, 21x21 cm, tinta da china, aguarela e grafite sobre papel

Nota: os originais não são a preto e branco, como aqui representados. Mais trabalhos em: https://www.facebook.com/AndreiaCesarsWork des1biga 21


Fuga de

Rituals Editorial By Heart http://editorialbyheart.com/

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Frames

hotel room Ariana Ferreira http://www.flickr.com/photos/tupperwearlove/

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Untitled Filipa Marques http://cargocollective.com/shots-of-a-lifetime des1biga 24


Autorepresentação Patrícia Rodrigues misspatriciar.deviantart.com olhares.sapo.pt/misspatriciar

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Sem tĂ­tulo Margarida Cardoso www.margaridacardoso.weebly.com

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Sem tĂ­tulo Francisca Correia do Vale http://franciscavale.weebly.com/

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Peregrinação Crónicas d’Outra Europa - A Princesa de Vojvodina Túrquia, país de contrastes

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José Ferreira Guilherme S. T. J. Bernardo


Crónicas d’Outra Europa: - A Princesa de Vojvodina

Quando nasci, existia nos Balcãs um grande país chamado Jugoslávia. Creio que o meu pai gostava deste sítio e, consciências à parte, acho que aprendi a dele gostar também. Este país desapareceu (será mesmo verdade?), pouco a pouco e com sofrimento e guerras a mais, à medida que eu fui crescendo. Ficaram repúblicas independentes: primeiro a Eslovénia, depois a Croácia, a Bósnia, a Macedónia, a Sérvia e Montenegro e, agora, a Sérvia e o Montenegro. É, ou parece ser, porém, a Sérvia, aquela que se tornou a verdadeira herdeira da Jugoslávia. República da capital – Belgrado – “casa” e “terra-mãe” do povo sérvio: orgulhoso, talvez belicista, temperamental, por certo, mas hospitaleiro e amistoso como outro não conheci. Curioso que tenha vindo viver e estudar numa das ex-repúblicas jugoslavas – não a Sérvia, mas a Eslovénia. Estou de saída e, na verdade, creio que, mesmo ao fim de quase um ano e apesar de todos os amigos, de cá e de fora, que aqui fiz, nunca me identifiquei por completo com o seu povo. Demasiado reservados, talvez. Disciplinados, também. Um pouco “aborrecidos”, como, uma vez, de um local ouvi acerca de seus próprios compatriotas. Com a cidade, Ljubljana, e com o país, sim. Com as suas magníficas paisagens de montanhas, vales, rios, planícies e até praias, também. De tudo isto as melhores memórias e nada que, hoje, voltasse atrás para mudar. O que nunca esperei foi que viesse a encontrar tal identificação com o “mal-amado” povo sérvio, aqueles que, em criança, julguei os “maus da fita” da Jugoslávia - os “terroristas”, “imperialistas” e “invasores” da Bósnia e do Kosovo. Estou agora a passar de comboio pela Croácia - “o seu vizinho de olhos azuis” - de regresso à Eslovénia, mas é de lá que venho – da Sérvia, de Novi Sad. O festival EXIT foi, mais do que um pretexto, uma razão. Uma razão muito válida para visitar uma vez mais o país e, desta vez, a cidade de Novi Sad, capital da Vojvodina (região Norte da Sérvia) – bela, bucólica e poética. Mais do que uma vez, na Eslovénia, passei por sérvio. De uma dessas, um comentário acabou por se tornar no mais encantador elogio que se pode receber. Ontem perguntei-lhe então, a ela, se achava que eu podia ser sérvio. Respondeu-me prontamente que sim, “claro” e a adicionou que “a elevada estatura e a tez escura” provavelmente ajudariam. Tal como eu desconfiava. Isso e, na Eslovénia, o esloveno muito mal-amanhado e falado tão languidamente como se da minha língua-mãe – o português – se tratasse. Mas falta-me, afinal, falar do que quero, mesmo sem saber se ainda tenho muito que dizer. Dela, da que baptizei de “Princesa de Vojvodina”. Provavelmente a rapariga mais bonita que alguma vez almejei, que me recebeu sempre de braços abertos, apesar das minhas sempre deselegantes, e talvez ingénuas, hesitações. Um sonho, é disso que parece que volto. Ao fim de três dias em Novi Sad, ela chegou, vinda do Oeste europeu – a Princesa de Vojvodina. Não sei se prémio, se só mérito do acaso, mas a verdade é que desta vez tudo foi perfeito. Ontem beijei e amei a mulher mais bonita do mundo, que vestia um vestido como os que as princesas vestem. Ontem beijei, amei e levantei nos braços Nataša, a Princesa de Vojvodina, e nunca o esquecerei. Algures na Croácia, 17.7.2012, José Ferreira des1biga 29


Túrquia

fotografia de Hamed Saber

País de contrastes

Mais uma vez, cá estou eu a falar sobre o além-fronteiras, parece, assim à primeira vista, que nem gosto de Portugal. Mas gosto. Infelizmente, somos constantemente vítimas de má gestão, constantemente vítimas de má política, constantemente vítimas de más decisões, enfim, vigarices. O que há de mau em Portugal, está a mudar num país que, vendo bem, é geograficamente muito semelhante ao nosso, só que deitado, e, como verão mais à frente nesta minha dissertação, semelhante noutros aspectos. Estou a referir-me à Turquia, país de contrastes. Contrastes porquê? Por um lado, é um país evoluído, capitalista e democrático, por outro lado tem um governo cada vez mais conservador. Cada vez mais está a ser potenciada a utilização do lenço na cabeça das mulheres, numa sociedade outrora liberal, distinta de todos os outros países muçulmanos com os quais faz fronteira. O motivo? Tradição, tabu, opressão. Um país com apenas um século de existência, com tantas batalhas e guerras vencidas, está a ser governado, ou desgovernado, em direcção ao tabu, ao véu, às origens opressoras do pensamento, arte e cultura femininas. Ainda não se apedreja até à morte. Ainda podem andar sozinhas na rua, sem sofrerem represálias, mas até quando? Há-que agir. Ser proactivo. Não basta apenas seguir para a frente sem falar, sem gritar. Revoltem-se! Revoltem-se! Não se acanhem! Lutem para manter o que já conquistaram e para conquistarem o que querem! Acima de tudo, o que quero chamar a atenção, é o medo. O medo não pode ser inibitório. Não podemos viver com medo da nossa própria sombra. Dos nossos superiores hierárquicos. Dos nossos políticos. Dos nossos professores, amigos e familiares. A Turquia está a voltar ao tabu, à discriminação. E nós? Não estaremos também a seguir uma mesma linha de política? Não estamos também a ser constantemente calados, os nossos sonhos congelados, as nossas bocas seladas pelo medo de represálias? Seja por questões religiosas ou políticas, vivemos com medo. Portugal, Turquia, dois países diferentes, mas com medo, medo do futuro, insegurança no amanhã. É altura de dizer basta. Basta de sofrimento, de políticas desastrosas, de crenças em medidas descontextualizadas e ultrapassadas pela própria prática das mesmas. Todos somos um, e cada um decide o seu futuro. Somos livres. Somos seres pensantes. Vivamos hoje com o pensamento que, amanhã, acordarei sem tabu, acordarei livre… Guilherme S. T. J. Bernardo des1biga 30


Echolilia - um projecto fotogrรกfico do pai de uma crianรงa autista. http://www.timothyarchibald.com/


Janela

de

Expressão [Sem título] Tabu

Monstro Alquímico Freedom of Repression

Diogo Rodrigues Sara Nunes Mª Emília Pereira Eduardo Bento

Simples

Duarte Brito

Assistemático

Duarte Brito

I (coração) Roma

Joana Marques

Escuro

Joana Marques

São Valentim Anjos sem Asas

Tecnicamente pagou. Todos pagam. Mais cedo ou mais tarde. O imposto da vida. Catarina Jacinto Correia des1biga 32

Sara Nunes Ulisses Peres


Noites frias e o desejo de um café. Teorias, abstracções históricas. Dialéctica mecânica e perpétua. Visitar-te numa livraria, saber-te pela letra que te significa. Música inapropriada à circunstância, o embaraço de rever um desconhecido – caras sem nome. Nem jeito para poesia, nem sequer a ousadia. Antes construir sonhos. Ruas pela madrugada, gaivotas em diáspora, testemunhar o nascer do Sol – sentir o teu calor na minha cara. A memória latente do aroma maltoso de uma cerveja, de reflexos num vidro, sobretudo da cor azul. Recolher ao domínio, sentir o vigor de uma voz, a segurança de um saxofone – sentir e pensar, sentar e escrever. Mecanicamente, palavra por palavra, como um soluçar incómodo. Atraiçoado pelo mestre, abençoado pela sorte – renegar o seu ritmo, coxear por capricho. Demonstrar uma invulgar familiaridade com infinitivos; o infinito refuta a perfeição. Vulgaridades por divertimento. Contudo, louvar a melancolia pela sua riqueza, a sazonalidade enquanto a houver. Noites frias e a realização de um café. Diogo Rodrigues


Ta b u Foi quando o conheci que a minha inocência acabou… Alto, moreno e misterioso, Seu nome era… TABU Com suas palavras ele me enganou, Com seu sorriso me enfeitiçou, Com seu olhar profundo e traiçoeiro me cegou, E para o resto do mundo o meu coração se fechou. Personificação da tentação, Ele era o meu fruto proibido, minha maldição. E seu beijo prometido, O meu sonho repetido, a minha maior atração.

Oh TABU, quem és tu? Eu sei quem és… És o que penso quando olhas para mim, E o que sinto quando me tocas assim. Não posso… Não devo… Cala-te boca! Fecha-te olhos! Ninguém pode ver! Ninguém pode saber!

Dividida entre o que não devo e o que quero O desejo nos seus olhos era a fantasia dos meus so- Vivo no purgatório entre o Céu e o Inferno. nhos, Minha vida é exemplar, Meu segredo escondido, Mas meu pensamento é TABU… Meu pensamento reprimido. Este doce amargo sentimento A que Sade chama de “Sweetest taboo” Visão dos Deuses, miragem do Inferno, Alucinação, psicose da minha vida, És tu! Ele era a minha frustração, Sara Nunes A sombra negra no meu coração, Ferida aberta, sangrenta e purulenta.

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Monstro À divisão precoce das cogitações abandonadas Elevou-se o carpir da tosse que seca a réstia corporal do som Barco morto de banheira apodreces ao acaso Emerges em olhos saciados Obscureces as finitas ânsias Tecnologias desoladas dos dedos quentes Não passes além da gravilha sonolenta Ainda adoeces o futuro Maré planetária das reencarnações ocultas. Caíste e manchaste Qual espada encurvada a dilacerar sangues em ascensão Além da vida, Da vida e além Sempre guinei violentamente Sempre me internei por mais amargo Vendi todas as emoções Mármore frio e concreto Estátua de praça para pombos Ondulação quieta sem espaço Separei o corpo em biombos

E perdi tudo num sapato Ainda hoje, me deito, esperneio e estendo Espírito comprimido que anseia a combustão Ao traço aéreo que desenho, Cinzas empobrecem a constelação Houve um gole Decadente instante que invocou gerações sucessivas de escravidão manual Cor perpétua e minha Prevalece e bóia num gole Se em cada gole um espelho, Um absurdo, um reflexo e um joelho Regressar ao açúcar que derrama Sim, só no joelho que dobra Só sob febre doente. Cresces taciturno, Monstro alquímico que devora Tela mascarada do meu enleio Chamei, E veio. Mª Emília Pereira

Alquímico


FREEDOM OF REPRESSION

It’s friday afternoon I turn on the TV, after a grueling day of work News are on Seems like society is up to a fork “We’re a free country”, they say “You can be whoever you want to be”, they insist Who are you trying to slay? Say that pumping your fist Who is society anyway? A collection of manufactured people with the same mind? Do minds intertwine? Born to kill? Born to die? Born this way? Think of the Middle East Think of nudity What did you say? Terrorism? Porn? You’re not pleased? Or do you want me to please you? You’re afraid? Why? I’m arousing you? SEX Who am I? Well, I’m a proud Muslim man. From where? Iraq, sir. You’re disgusted? What? Do you feel uncomfortable? I couldn’t handle anymore So, I went skinny dipping Next thing I know: I’m dead TV says: “Member of Al-Qaeda fortunately killed while doing obscene crime” Taboo limits my living I was remembered as a killer and a sex offender Not a hard worker, not even a man with an opinion I was born free but “cleansed” by repression THANK YOU FOR KILLING ME Eduardo Bento

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Simples Num dia de Inverno o vento gélido congela o sonho, descobre o véu sagrado e tudo se torna subtilmente simples face à teia que nos envolve. Paira no ar uma sensação de leve imperfeição, mas o tormento avança impiedoso sem pedir passagem e em contra-mão, jorrando uma água que corrói o mais límpido coração, queima tão profundamente a pele, afasta de repente a tua mão... Mas a tua perfeição está na simplicidade, no beijo que chega sem aviso, no abraço que aquece o maior griso, num olhar perante o qual me paraliso, num toque da tua face, meio indeciso... Duarte Brito

Assistemático As rodas dentadas encaixam numa perfeição milimétrica, E giram a um compasso de segundo a segundo, Conferindo à máquina um barulho peculiar, Enquanto os metais rangem ao bater violentamente, Como se de uma derrocada se tratasse, Ecoando pelas noites mais silenciosas, Dias sem fim… Presa a uma rotina imposta pelo Homem, A máquina nada mais faz do que lhe é destinado, Gira, faz barulho, obedece cegamente… Zumbidos perturbadores a que nos habituamos com o tempo, Assim como as faíscas que saltam por toda a parte Quando uma peça zangada desiste de trabalhar. Precisa de ser rapidamente substituída, Senão a máquina não tarda em virar sucata… Mas nada que o carinho de uma chave de fendas não resolva… Novos parafusos servem espantosamente, Como se tivessem sido feitos para aquele lugar, E a chapa molda-se ao grito desesperado de um martelo Que descarrega em raiva todo o seu peso num parafuso novo… Tudo funciona normalmente, E então atiro a chave de fendas para o meio da máquina… Duarte Brito

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I (coração) Roma Navego na tristeza das lágrimas de saudade Na sua ébria alegria enquanto deslizam E nos meus olhos aquela cidade, apenas aquela cidade. As ruas, as sombras, a luz das manhãs frias Aquecidas pelo café que demora sempre mais a ser tirado Os passos, os risos, as noites esquecidas no meio Do nosso néctar inventado e dos risos fáceis que provocava As desventuras de uma vida pela primeira vez partilhada E da solidão do desconhecido A poesia do rio, das pontes, das cúpulas O ar que cheirava a romantismo.

Os devaneios. Os gestos e o cantar das pessoas O habituar à beleza escondida numa estátua de uma varanda Descortinada na fachada de um prédio amarelo-torrado. Aí ficarão sempre as praças da minha madrugada. Os passeios do meu destino, as fontes da minha liberdade. E nos meus olhos aquela cidade, para sempre aquela cidade. Joana Marques

No Escuro. Não falas. Ou se falas, fá-lo cansada. Porque a coroa do preconceito Te pesa na cabeça. Se ainda a tiveres!

Por roupas coloridas e quinquilharias vistosas que colocas ao pescoço. Como não andares curvada dessa forma, com todo esse peso?

Não pensas. Porque já não a tens, Roubaram-ta, com promessas de um sofá e imagens Que são melhores que qualquer anti-depressivo.

Já te disse eu várias vezes: “Vai à rua apanhar um bocado de ar fresco, faz-te bem!” Mas nunca me ouves Sempre fixada ao tabu que te roubou o pensamento Te fechou os olhos e comprimiu os lábios.

Mas no fundo, lá bem, bem no fundo… Sabes que é só uma questão de tempo Até que o medo de não fazeres sentido se apodere de ti E aí voltas-te para drogas mais pesadas. Como não adormeceres mais uma vez sem teres visto a lua? Aquelas drogas de papel Que usas para trocar Joana Marques des1biga 38


São Valentim Foi no mês de Fevereiro que eu vivi

11h58, ele aproximou-se de mim E pela primeira vez eu sorri…

No dia 14 nasci E no dia 15 morri 5 minutos foi o que eu vivi

Às 11h59 ele sorria para mim E foi então que eu entendi… Finalmente eu percebi que nascera para ti

Eram 11h55 quando de longe o vi… Bum Bum, foi o que eu senti…

Mas, a 00h00 veio e afastou-me de ti, Meu coração parou e eu morri…

Pelas 11h56 abri os olhos e percebi, Comecei a ver quando te vi.

Foi então que percebi que ficarias para sempre em mim

Às 11h57 ele olhou para mim E nunca mais me mexi…

Sim, foi no dia de São Valentim que eu vivi. Sara Nunes

Anjo Sem Asas És montanha, e eu talvez, vale… És onda sonora, quem me dera ser ouvido… És princesa, e eu, cavaleiro… Ninguém grite, que ninguém me cale… Sempre último, em primeiro; mas nunca, ou quase nunca, dado por vencido… Serei ar, se fores pulmão… Serei razão, se tu fores mente… Religião, filosofia, paixão? Talvez amor, em bruto, simplesmente… Serei vidro, se fores janela… E a tua transparência, de dentro para fora, subtilmente foi quebrada… Aroma suave, incenso, canela? Serei partida e serei chegada… Se nunca de mim prometeres ir embora…

És estrela… Serei raio visível de luz… Serei água, se tu algodão… E embebido neste sentimento que a ti me conduz, Serei sangue oxigenado que te irriga o coração… Serei tudo, serei nada…Tudo e nada do que sonhei ser… Serás seda amarrotada, rasgada, retraçada… E o meu corpo, já coberto por ti, poderá morrer… Mesmo que sem ti, por ti, serei; aquilo que sou e que ao mundo darei: Oceano sem água, numa fogueira sem brasas… E na revolta sem mágoa, serei Anjo sem asas…

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Ulisses Peres


Est贸rias Cl铆nicas Cancro. Vou morrer.

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Eduardo Bento


CANCRO. VOU MORRER. Texto dedicado a uma lutadora.

O impacto dessa palavra nos meus familiares foi simplesmente...avassalador. Sentia-me culpada pelo “Tenho cancro, Dr.?!” sofrimento das pessoas que amava. Os próximos dias “...Sim.” foram como se eu estivesse numa nuvem alastradeira Houve um silêncio constrangedor depois dessa de angústia. Comecei a duvidar da minha existência, afirmação. Cancro? Cancro. Fui marcada como uma comecei a pensar os motivos pelo qual Deus me das pobres vítimas que sofrem uma das doenças mais pôs nesta condição. Será que estou a mais neste muntemidas da sociedade atual. Não pensei por uns mo- do? Pequei? Não compreendia... mentos. Estava simplesmente...aturdida. Mas porquê? No dia em que estava na maca pronta para ir à sala O que será feito de mim? A minha família? Os meus operatória (para remoção do tumor), estava rodeada filhos? O meu trabalho? A minha vida?... pela minha família. A minha única preocupação na Cheguei a casa, pálida, ressequida, apática... Como altura eram os meus filhos. Pobres deles que possié que revelarei à minha família? A porta abriu-se...e lá velmente poderiam perder a sua mãe numa idade tão estavam eles – o meu marido e os meus lindos filhos. tenra. Simplesmente disse-lhes “Eu quero que sejam Com a minha expressão indisfarçável, era fácil de de- felizes. Não se esqueçam de mim e do que vos ensinei”. duzir que algo me estava a perturbar profundamente. E lá fui eu para o meu primeiro passo na luta contra este monstro. “O que se passa amor?” Nunca pensei que alguma vez fosse posta nesta po“Vou morrer. Peço desculpa.” sição. Nunca quis simbolizar o platonismo da ausênO estado de incredulidade era notável. cia. “Mas porquê mãe?” Felizmente, a cirurgia correu como era suposto. O que direi agora? Digo-lhes a verdade? Qual é que Porém, o efeito da anestesia e o fato de ter perdido será a sua reação? Não quero ser a raiz da sua tris- uma glândula endócrina simplesmente me impediam teza. Minto-lhes? Que história lhes devo contar? Não de recuperar. Não conseguia mexer, mastigar, abrir posso, não consigo... Esta cacofonia de pensamentos os olhos e nem sequer estar acordada. Era como se abruptamente cessou-se. Deus quisesse que eu estivesse morta. Mas não podia, tenho pessoas que dependem de mim, não as posso “Tenho cancro.” “A senhora tem uma doença neoplásica.”

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desiludir. Eu sou forte. Eu posso, eu consigo, eu vou porque são olhares preconceituosos que nunca chegarão a perceber a minha pessoa. O exterior é apenas sobreviver. uma ilusão fundada por olhares curiosos. Lutei. O próximo passo era a quimioterapia. Temia que pudesse perder o cabelo. No entanto, a perda capilar foi apenas o início. A dor que senti ao longo do tratamento foi como se o fulcro das justaposições do meu ser estivesse a ser carcomido. Confesso que gritei de sofrimento. Vomitava as refeições que ingeria e estava quase para desistir. Recusava comer, recusava sair da cama, recusava viver. “Não desistas mãe!” “Estamos contigo amor!”

Sou uma mulher, uma filha, uma irmã, uma amiga e, sobretudo, uma mãe. Deus deu-me esta oportunidade talvez para me ensinar que existem coisas mais importantes na vida do que os prazeres superficiais e materiais. Tenho pessoas que querem saber de mim pela pessoa que sou e pela minha essência. E isso é algo que anseio continuar a ensinar aos meus filhos para que eles não sejam as pessoas que a sociedade deseja que eles sejam, mas, sim, pessoas que vivem pela sua essência, mostrando gratificação pelo que está circundante nas suas vidas. A retribuição será garantida.

Posso não ser a mulher que diz as coisas mais acertadas, nem a mulher com os pensamentos sempre corOs momentos que se seguiram foram feitos de fases retos, mas uma vez disseram-me que existem ocasiões aleatoriamente gratificantes e de olhares estranhos. Eu em que o impossível simplesmente está instalado. No venci este Adamastor. Sobrevivi. Estou viva. entanto, também uma vez me disseram que a palavra E lá estava eu. Careca, mas feliz. Fraca, mas reali- inglesa “impossible”, cortada ao meio daria “I’m poszada. sible” (Eu sou possível). E, de fato, o meu ser cisou o Iniciou-se, assim, um processo de recuperação e impossível. de reajustamento do meu estilo de vida. Sentia-me Afirmei uma vez que iria morrer de cancro. Não exausta muito mais facilmente. E a minha aparência morri. não era das melhores. Porém, não posso esquecer que Não nasci para ser uma vítima. a minha vida acabou por se tornar menos efémera. Tenho de continuar. Lutei mais uma vez.

A beleza simplesmente já não era importante. Não me importava de ser o centro de olhares estranhos, até

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Eduardo Bento


source: http://dimarebus.com/



#20 TABU