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Ano 15 - nยบ 11 - maio de 2014 - R$ 5,00

Foto Mario Paiva

Bolha imobiliรกria!


Página do Cineclube Cauim Patrocínio

O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 3


Rua Conde Afonso Celso, 333 Ribeirão Preto Fones: (16) 3620-9014/ 3235-6502 e-mail: terceiro.berro@gmail.com e o3berro@gmail.com Co-edição Nova Enfim Gráfica e Editora Ltda Rua Luiz Barreto, 1470 Ribeirão Preto- SP Fone: 3234-1508 e.mail: editora@novaenfim.com.br Editor: Ademar Cardoso de Souza Presidente do Conselho Editorial: Sérgio Henrique Ferreira Editorias: Ciência: Sérgio Henrique Ferreira Cultura: Menalton João Braff Economia: Nelson Rocha Augusto Educação: Clotilde Rossetti Entrevista: Bárbara Ramos Dal Fabbro Meio Ambiente: Paulo Teixeira de Sousa Política: Odônio dos Anjos Filho Ribeirão Preto: Fernando Kaxassa Conselho Editorial: Ademar Cardoso de Souza, Adriano Gosuen, Ana Maria de Araújo Mello, Ana Raquel Lucato Cianfloni; António Lázaro de Almeida Prado Júnior, Bárbara Ramos Dal Fabbro, Edwaldo Arantes, Fernando Braga, Fernando Kaxassa, Fernando Sérgio Zucoloto, Flávio Condeixa Favaretto, Gilberto Abreu, Gilson Filho, Geteó, Iúri Falleiros Braga, Jair Correia, José Maria do Prado, Luís Eduardo Garcia, Luiz Paulo Tupynambá, Marco Aurélio Lucchetti, Marcelo Carneiro, Marcelo Pedroso Goulart, Maria Cecília Nóbrega de Almeida, Maria Clotilde Rosseti Ferreira, Mario Paiva Júnior, Menalton João Braff, Nelson Rocha Augusto, Odônio dos Anjos Filho, Padre Chico, Paulo Camargo, Pedro Martinelli, Pelicano, Rubens Lucchetti, Sérgio Henrique Ferreira Secretário de Redação: Ademar Cardoso de Souza Editor de Arte: Mário Paiva Júnior Concepção Gráfica, Logomarca e Vinhetas: Jair Correa Diagramação e Arte-Final: Fernando Braga Jornalista Responsável: Bárbara Ramos Dal Fabbro (MTb: 60.700) Revisão Ortográfica e Gramatical: Bárbara Garcia Costa e Guilherme Garcia Costa da Silva Palpiteira-Mor: Maria Clotilde Rosseti Ferreira Administração Geral: Ademar Cardoso de Souza e António Lázaro de Almeida Prado Júnior Equipe de Apoio: Mel, Pierre, Nelson, Marina, Nicole e Joel (Jojô) Assessoria Jurídica: Adnam Saab e Brasil Salomão Tiragem: 5.000 exemplares (sendo 2.500 distribuição gratuita) Distribuição: Igor Moreno, Mazinho Chubacci e Nicolau dos Anjos O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 4

Por uma nova ordem - A democracia via Internet (Odônio dos Anjos).................................................................................... 5 Ilustração: Rose Araújo Um pouco de otimismo (Paulo Teixeira de Sousa Jr.) ............................ 6 Ilustração: Roberto Kroll O drama submerso do trabalho infantil doméstico (Tárcio Vidotti).... 8 Ilustração: Rose Araújo “A Classe Operária Quase Vai ao Paraíso” (Fernando Kaxassa)........ 10 Ilustração: Pelicano Anta do Mês: “Guarujá Alerta”........................................................... 11 Ilustração: Roberto Kroll Chovendo no molhado (Ademar Cardoso de Souza)............................ 12 Ilustração: Nancy Neves Entrevista com Vicente Cândido (Bárbara Ramos Dal Fabbro)........... 13 Fotos: Mário Paiva Uma crônica do Paulo Mendes Campos (Adriel Gennaro)...................................................................................... 24 Ilustração: Roberto Kroll A concha, segundo Anne Morrow Lindbergh (Rose Araújo) ............ 25 Ilustração: Rose Araújo Nossa Terra em Transe (Magno Bucci) ............................................... 26 Ilustração: Rose Araújo Minha Seleção jamais esquecida (Lúcio Lívio Mendes) .................... 28 Indolência (Ígor Moreno Ferreira)............................................................ 28


Ilustração: Rose Araújo

Por uma Nova Ordem A democracia via Internet Odônio dos Anjos Filho Prometo não “encher o saco” de ninguém descrevendo um histórico enorme de como começou a democracia. Não vou analisar a palavra democracia, dissecando prefixos e sufixos para chegar à conclusão, besta, daquela história do poder emanando do povo. Quero sim fazer um livre pensar, se não seria mais adequado para a população a instalação de uma Nova Ordem, que incorporasse o avanço da tecnologia. A ideia é que à medida que o acesso à tecnologia aumente, a gente possa sair deste fracassado modelo de democracia representativa para o modelo de democracia direta, ou no mínimo a quase direta. Que merda! Não tem jeito, vou ter que explicar melhor. Desculpe-me a incapacidade de clareza, mas acho que este tema virá no futuro e acho bom a gente ir antecipando. Vejam bem: vivemos numa democracia indireta, na qual escolhemos representantes, que, teoricamente, deveriam nos representar e fazer a melhor escolha. Fariam as coisas e tomariam decisões, com nossa delegação, que nós mesmos faríamos. Alguém se acha bem representado hoje? Alguém lembra em quem votou para deputado federal, estadual ou senador? Precisa pelo menos pensar muito, pois não está na ponta da língua. O problema está aí! Quero sugerir, para ir direto ao assunto, o seguinte: com o avanço das tecnologias o voto biométrico, seja com o uso da digital ou da íris do olho, pode se disseminar e vários assuntos

importantes podem, sim, ser decididos diretamente. A grande desculpa para o uso da democracia indireta é o tamanho da população que inviabiliza sua reunião para decidir tudo diretamente. Com a disseminação do uso de computadores, celulares e tablets, com as senhas criptografadas ou com o voto biométrico, será possível essa consulta sem grande dificuldade. Poderemos em breve acabar com este problema do tamanho da população e voltar à boa e velha democracia direta, sem intermediários. Quer mudar a constituição? Dois terços da população têm que aprovar. Determinados assuntos mais graves? Podemos exigir um quorum alto. Um político está fazendo coisa errada? Impeachment via internet nele. Sei que hoje ainda teremos a dificuldade de acesso, mas com o tempo, a melhora financeira da população e o barateamento das tecnologias, chegaremos neste ponto. Uma coisa é certa: a democracia representativa não está dando conta do que é a expectativa da população. As manifestações populares evidenciam isso. Nossos representantes, em sua maioria, salvo honrosas exceções, não nos representam mais. Interesses de corporações, de grandes grupos econômicos e de financiadores de campanha, valem mais do que o interesse da população. Eles elegeram Renan Calheiros para a presidência do Senado e Henrique Eduardo Alves para presidência da Câmara Federal, o povo não faria isso!

Quero sugerir, para ir direto ao assunto, o seguinte: com o avanço das tecnologias o voto biométrico, seja com o uso da digital ou da íris do olho, pode se disseminar e vários assuntos importantes podem, sim, ser decididos diretamente.

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Um Pouco de Otimismo

O

Paulo Teixeira de Sousa Jr.

Brasil vive um momento ímpar. Ao mesmo tempo em que o padrão de vida da população melhorou indubitavelmente ao sairmos do modelo nacional-desenvolvimentista que imperou até os anos 1980, optando por um arremedo de estado do bem estar social vivido hoje, o país explode em violência. Vamos sediar uma copa do mundo e o que deveria ser um momento de júbilo, transforma-se em vergonha nacional pela incompetência dos nossos governantes que não conseguem administrar o país de forma eficiente. A nível global, há também grande frustração com as democracias ocidentais. Caiu a ficha. Quem manda não somos nós e sim a elite financeira. Quem duvidar é só ver o que aconteceu com o Sílvio Berlusconi: goste dele ou não, ele foi eleito pelo povo; agora, alguém acha que foi o povo que o afastou do poder? Talvez por conta desta decepção “pós-moderna”, tivemos protestos em todo o mudo: Mundo Árabe, “Ocupy Wall Street”, Espanha e junho de 2013 no Brasil. Pasmem: O poderoso Fe-

deral Reserve (Fed para os íntimos) é uma instituição privada! E são esses caras que controlam a vida de todo mundo. Pode? Então, onde está o otimismo? O otimismo vem do cenário internacional, quando analisamos os indicadores socioeconômicos dos últimos 200 anos. No início dos anos 1800 a situação de miséria era generalizada no mundo inteiro. A expectativa de vida não ultrapassava 40 anos. A renda per capta situava-se na faixa entre US$ 400 e US$ 4000, com grande concentração no quartil inferior. As condições de saúde e o nível educacional eram os piores possíveis, compatíveis com o nível de renda mencionado. A revolução industrial melhorou a situação dos países europeus, mas a mesma evolução não foi observada pelos países colonizados. Na década de 1930, no entanto, a despeito do mundo ter passado pela primeira guerra mundial e da grande depressão, a expectativa de vida de muitos países (majoritariamente europeus, mas já incluindo o Japão e outros) já ultrapassava os 60 anos. A renda per capta da maioria situava-se em faixas acima dos US$ 4000,00, alcançando US$ 20.000,00 ou mais nos países mais

Quem duvidar é só ver o que aconteceu com o Sílvio Berlusconi: goste dele ou não, ele foi eleito pelo povo; agora, alguém acha que foi o povo que o afastou do poder?

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Ilustração: Roberto Kroll

bem sucedidos. Após a segunda guerra mundial e com o processo de descolonização observou-se uma grande evolução nos padrões de vida da humanidade, em geral. Quase não se vê mais países com populações com expectativas de vida inferiores a 40 anos. A ascensão dos países asiáticos foi impressionante. Na maioria dos países, a expectativa de vida supera os 60 anos, a renda per capta ultrapassa os US$ 4000,00, sendo que o número de países com renda per capta superior a US$ 20000,00 e até mesmo 40000,00 é numeroso. A tolerância e o respeito às minorias tem aumentado também, juntamente com o nível educacional na maioria dos países. E para completar o rol das boas notícias, o crescimento populacional está diminuindo em todo o mundo, esperando-se uma estabilização em 2100, na faixa dos 10 bilhões de habitantes. É verdade que a crise ambiental/ mudanças climáticas podem estragar a nossa festa, mas também é verdade que vivem e pensam hoje um número maior de cientistas do que em toda a história da humanidade. E tem mais, esses cientistas estão equipados com uma maquininha poderosa e que hoje todos têm (o computador) conectados em uma rede que nos disponibiliza de maneira imediata um volume de informações impensáveis há poucos anos atrás. O problema é grande, mas as ferramentas são poderosas. Há motivos para otimismo. O mundo está avançando; precisamos, no entanto, reinventar a democracia, pois sem a tal “vontade política” nada se faz. Enquanto estivermos sendo na prática governados por banqueiros e grandes corporações, vai ficar difícil. Esse desafio talvez seja o maior de todos.

...esses cientistas estão equipados com uma maquininha poderosa e que hoje todos têm (o computador) conectados em uma rede que nos disponibiliza de maneira imediata um volume de informações impensáveis há poucos anos atrás.

Não realizou eleições gerais para todos os cargos, proibiu ou restringiu a participação popular, proibiu o exercício livre da imprensa, perseguiu opositores ao arrepio da lei, criou legislação de exceção, usou a força e impediu o funcionamento dos legislativos; resultado: caminha para uma ditadura O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 7


O drama submerso do trabalho infantil doméstico Tárcio Vidotti*

A legislação brasileira conceitua empregado doméstico como sendo “aquele que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas”. Trabalho infantil, por sua vez, é aquele praticado em violação à proibição de “qualquer trabalho a menores de 16 (dezesseis) anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de 14 (quatorze) anos;”

Chaga social de proporções assustadoras, o trabalho infantil vitima, em nosso país, mais de 2.200.000 crianças de 5 a 14 anos, número que representa 7% da população dessa faixa etária, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, realizada pelo IBGE em 2001. Dessas crianças, aproximadamente 520.000 estão inseridas no contexto do trabalho infantil doméstico. Esses dados são mais preocupantes quando cruzados com os resultados de pesquisas efetivadas pelo Lumen Instituto de Pesquisa para a Organização Internacional do Trabalho – OIT nas cidades de Belém, Belo Horizonte e Recife. Nessa obra, constata-se que o trabalho infantil doméstico atinge em cheio as meninas (92,71%), majoritariamente as pardas e negras (74,70%), as quais ordinariamente provêm de famílias de baixa renda. Isso é um retrato cruel da discriminação social contra crianças pobres, do sexo feminino, pardas e negras. Outro fator inquietante é a dificuldade de fiscalização e combate ao trabalho infantil doméstico, subtraído às vistas alheias pelo fato de ser a casa – onde se desenvolve habitualmente – asilo inviolável do indivíduo, segundo a Constituição (art. 5°, inciso XI). É importante a conceituação do que seja trabalho infantil doméstico. Aqui se fala de trabalho infantil doméstico em casa de terceiros. Descarta-se, desde já, a exploração da criança pela própria família, tema importante que, todavia, não cabe neste exíguo espaço. A legislação brasileira conceitua empregado doméstico como sendo “aquele que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas”. Trabalho infantil, por sua vez, é aquele praticado em violação à proibição de “qualquer trabalho a menores de 16 (dezesseis) anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de 14 (quatorze) anos;” Logo, por junção desses dois conceitos, pode-se dizer que o trabalho infantil doméstico é aquele praticado por pessoa menor de 16 (dezesseis) anos, de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas. Descarta-se, de plano, qualquer possibilidade de aprendizagem no âmbito do trabalho doméstico, visto que tal mister não permite a indispensável alternância entre a carga teórica recebida em centros de formação (normalmen-

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te cursos profissionalizantes de afazeres próprios de hotéis e restaurantes) e a prática devidamente monitorada no emprego. Ademais, a legislação trabalhista regula a aprendizagem na empresa e nada aborda sobre o trabalho doméstico. Não obstante existam teorias que pretendem rever a influência da pobreza como causa do trabalho infantil, acredita-se que a miséria da família é certamente a principal causa da existência dessa chaga social. Notadamente no caso do trabalho infantil doméstico, visto que “os dados da PNAD apontam que a proporção de trabalhadores deste público cai conforme aumenta a renda dos domicílios”. O fato de ser baixo o nível de rendimento obtido com o trabalho infantil doméstico e, destarte, pouca a contribuição das crianças trabalhadoras para a renda familiar, não elide a premissa de que ele ocorre majoritariamente em famílias muito pobres. A escolaridade da mãe é outro fator que explica a inserção de crianças e adolescentes no mercado de trabalho e, em especial, no trabalho doméstico. “Para todas as faixas etárias, a proporção de ocupados declina com o aumento da escolaridade da mãe”. Oriundas de famílias cuja renda não lhes permite emergir da linha da pobreza, filhas de mães com baixa escolaridade e órfãs de políticas públicas de assistência social que lhes possibilitem priorizar os estudos e o gozo de sua infância, inúmeras crianças são atiradas ao mercado de trabalho. Este, por sua vez, recebe-as de braços abertos, sorvendo-lhes o futuro de forma impiedosa. Por fim, nunca é demais reafirmar que as crianças trabalhadoras não são vítimas apenas dos problemas sociais que flagelam suas famílias. Padecem da mesma forma da intolerância de uma sociedade que não se livrou do seu ranço escravocrata e acredita que o trabalho é a melhor formação possível para meninas e meninos oriundos da classe trabalhadora, sob o pretexto de que o trabalho livra a criança do ócio e a afasta dos perigos da criminalidade, atuando como agente formador. Preconceito que tem origens históricas e está sedimentado até na estruturação do ensino brasileiro, que reserva para os filhos da elite o ensino formal e para a prole da classe trabalhadora o ensino profissionalizante. A primeira grande baixa que o trabalho infantil doméstico causa é no rendimento escolar da criança ou adolescente: “os que se iniciaram como empregados domésticos possuíam


Ilustração: Rose Araújo

em média 1,6 anos de estudos a menos do que aqueles que começaram a trabalhar em outras ocupações”. Isso se torna mais preocupante quando sabemos que a baixa escolaridade da mãe é um fator explicativo do trabalho infantil doméstico. Começa a delinear-se o moto-contínuo da miséria: a falta de escolaridade da mãe colabora para a existência de trabalho infantil, que, por sua vez, promoverá a baixa escolaridade da filha, mantendo-se, assim, as condições que porventura sorverão a neta para o mesmo destino. Esse círculo vicioso se amplia quando se sabe que o trabalho infantil aumenta a probabilidade de se auferir baixos salários na fase adulta. Ana Lúcia Kassouf demonstra que “a idade que a pessoa começou a trabalhar ainda tem efeito significativo sobre os rendimentos. Quanto mais jovem o indivíduo começa a trabalhar, menor é o seu salário na fase adulta da vida” (Aspectos socioeconômicos do trabalho infantil no Brasil). Vê-se, portanto, que o trabalho infantil doméstico atua como um tornado no futuro da criança, atrapalhando-lhe o desempenho escolar e diminuindo sua renda quando acessar o mercado de trabalho, fatos que provavelmente tragarão seus filhos para o mesmo turbilhão. Aos problemas sociais que o trabalho infantil doméstico causa se somam os prejuízos causados à saúde das crianças e adolescentes. Queimaduras, intoxicações por produtos químicos e ferimentos causados por animais domésticos são danos comuns sofridos pelas crianças e adolescentes domésticas. Infelizmente, não é tudo!

O prejuízo maior ocorre no desenvolvimento psicológico dessas crianças vitimadas pelo trabalho infantil doméstico. Sabendo-se que a criança é submetida ao mesmo regime de trabalho imposto ao adulto, verifica-se que “tudo isso gera a ruptura entre maturidade, responsabilidade e força, com a perda de uma etapa fundamental da vida”. A criança perde a possibilidade de aprender e desenvolver-se por meio de atividades lúdicas, tornando-se adulta antes da hora. Crianças com desempenho escolar prejudicado, saúde exposta a riscos diversos e, principalmente, com perspectiva de baixos rendimentos na vida adulta, são os frutos colhidos em nosso país pelo desapreço à infância e que demonstram a pouca importância que tem para a sociedade brasileira o futuro dos filhos da classe trabalhadora. As causas do trabalho infantil doméstico estão intimamente ligadas ao caos social por que passa nosso país. Milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, sem acesso a bens elementares como educação e saúde, compõem um exército de reserva de mão de obra que alimenta o trabalho infantil e por ele é alimentado, num círculo vicioso de pobreza. Somente com uma reação enérgica da sociedade, cobrando dos poderes públicos a instituição de políticas eficazes de inclusão social que fujam do assistencialismo e vencendo o preconceito secular existente contra a classe trabalhadora, é que venceremos a luta contra essa chaga social que envergonha o Brasil. * Juiz do Trabalho. Poeta bissexto

Esse círculo vicioso se amplia quando se sabe que o trabalho infantil aumenta a probabilidade de se auferir baixos salários na fase adulta. Ana Lúcia Kassouf demonstra que “a idade que a pessoa começou a trabalhar ainda tem efeito significativo sobre os rendimentos. Quanto mais jovem o indivíduo começa a trabalhar, menor é o seu salário na fase adulta da vida”

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“A Classe Operária Quase Vai ao Paraíso” Texto: Fernando Kaxassa

O filme que seria exibido era “A classe operária vai ao paraíso” do diretor Elio Petri, mas, no início da sessão, foram ligadas as ventoinhas de ar que ficavam embaixo da tela e, de repente, as ventoinhas sopraram em cima dos “trabalhadores do Brasil” três quilos de BHC.

“1º de maio de 1981. Duas bombas explodem no Riocentro. Uma morte. Vítima da ignorância Ou acidente de trabalho? Os superiores calam-se.” Assim começa o poema “Dispneia noturna” de Tárcio José Vidotti que foi editado no livro ”Praça”, no mesmo ano de 1981, pela editora CAUIM. O Tárcio tinha apenas 17 anos, o Cauim só 2 anos e o país já vivia 17 anos de uma ditadura odiosa. O poema se refere ao atentado no show que vários artistas faziam no Riocentro, em homenagem ao Dia do Trabalho. Os milicos à paisana foram com bombas para explodir no ato e culpar a esquerda e, assim, inibir a abertura que já estava pintando, graças aos movimentos da sociedade. Mas a bomba “saiu pela culatra” e estourou no colo de um deles, escancarando como era torpe aquele regime. Um ano depois, exatamente no dia 1º de maio de 1982, o Cineclube Cauim, que naquela época funcionava na rua Lafaiete nº 374, prestava uma homenagem ao Dia do Trabalho. Era

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um evento com vários sindicatos e convidados para palestras. O filme que seria exibido era “A classe operária vai ao paraíso” do diretor Elio Petri, com Gianmaria Volonté e música do Ennio Morricone mas, bem na hora do início da sessão, foram ligadas as ventoinhas de ar que ficavam embaixo da tela e, de repente, as duas potentes ventoinhas sopraram em cima dos “trabalhadores do Brasil” três quilos de BHC. Foi a maior nuvem de pó que já se viu, gente correndo, tossindo, olhos lacrimejando. O juiz Valentim Carrion gritava que era um atentado como o do ano anterior, no Riocentro. Mas não era nada disso, era um vizinho incomodado com o barulho das ventoinhas que atrapalhavam a novela. Como os motores ficavam do lado de fora do cinema, encostados no seu muro, ele resolveu eliminar o problema por conta própria, jogando veneno nas ventoinhas. Felizmente ninguém morreu, apenas dores de cabeça para quem estava na sala, para nós que tivemos que ficar com o cinema fechado por um mês até sair o cheiro e para o vizinho que teve que se entender com a polícia. Não houve filme, mas quase que a nossa classe operária vai ao paraíso.


ANTA DO MÊS:

“GUARUJÁ ALERTA” A morte por linchamento de uma humilde e pacata dona de casa, Fabiane Maria de Jesus, que foi amarrada e espancada brutalmente por moradores do bairro Morrinhos, no Guarujá/ SP, em razão de ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças que atuaria na Baixada Santista (sequestros dos quais a polícia sequer tem conhecimento, diga-se), obriga-nos a refletir sobre a imbecilidade em estado bruto que navega mares vermelhos na mídia brasileira. Xico Sá nos lembra muito bem que somos uma nação de matadores. Mais de 50 mil mortes violentas por ano. E ninguém querendo mexer com o assunto. Presidente da Republica, governadores, candidatos à presidência e candidatos ao governo dos Estados jogam caxangá, feito escravos de Jó, repassando para o colo dos adversários a responsabilidade pela solução de problema tão grave. Essa desgovernança da segurança pública abre um leque de oportunidades para que tristes figuras como Rachel Sheherazade e o responsável pelo perfil “Guarujá Alerta” no Facebook, capitalizem o desespero da população diante da rotineira violência do Brasil. Enriquecem esses arautos da sombra com a exploração midiática da violência. Embora idolatrem o confinamento de pessoas como solução (sem qualquer embasamento científico, como se já não tivéssemos a quarta maior população carcerária do mundo), deixam sempre a mensagem subliminar de que somente a violência será uma resposta eficaz a esse estado de descontrole social. São a face civil do generalício “prendo e arrebento” (mas não necessariamente nessa ordem...), esperando o momento adequado para reinstalar a discussão a respeito da pena de morte. Esses boquirrotos não se contentam em ministrar prisões de

crianças e adolescentes como solução para o problema da violência. Agora estimulam sub-repticiamente o linchamento de suspeitos de crimes. Nunca é demais lembrar que Rachel Sheherazade (âncora do SBT Brasil) disse considerar “compreensível” que um grupo de justiceiros amarrassem a um poste suposto assaltante, no Rio de Janeiro. Precisamos dar um basta a isso e fazer coro ao jornalista Ricardo Boechat, para quem “pessoas em emissoras de TV que estimulam a justiça com as próprias mãos têm tanta responsabilidade quanto o autor do crime”. É por isso que a ANTA DO MÊS vai para um lugar-comum: o ilustre desconhecido responsável pelo perfil “Guarujá Alerta” no Facebook, que além de publicar o boato de que havia na Baixada Santista uma sequestradora de crianças para a finalidade de magia negra, também se encarregou de divulgar um suposto retrato falado da indigitada criminosa. Infelizmente ainda não conseguimos o nome da ANTA DO MÊS porque ele melhor do que ninguém sabe o quanto é perigoso ter nome e foto divulgados na mídia, quando se é acusado de um crime horrendo. E por isso, tem tentado (e conseguido) se manter no anonimato.

Essa desgovernança da segurança pública abre um leque de oportunidades para que tristes figuras como Rachel Sheherazade e o responsável pelo perfil “Guarujá Alerta” no Facebook, capitalizem o desespero da população diante da rotineira violência do Brasil

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Chovendo no Molhado Ademar Cardoso de Souza

No templo da língua habita e habitua a fala, pensa um passado cordial, enquanto o silêncio quebra nozes na festa do natal e os vitrais do monumental edifício da identidade nacional, representada nos genitais dos meus olhos, presos aos muros de um domingo longo, no qual o silêncio é do homem refletido na vitrina de uma praça vazia de vida e freguesia.

Chovo no chão molhado da incerteza no desequilíbrio do planeta, no desperdício do pouco interesse. Esvaziam-se bacias que banham nobres terras paulistas cheias de gana e cana. Seus canaviais já cobriram as hoje secas e ‘pobres’ terras nordestinas. O planeta engloba e se enrola em torno da bola. A terra gira e o tempo passa nos dígitos dos relógios e nos dias do calendário. O discurso repetido perde o rumo, seu ritmo, conteúdo e limites. A História conta lorotas e seus personagens passam entorno da própria rota. O Ditador Getúlio, no governo Estado Novo, ‘deu’ ao trabalhador uma Constituição de suas Leis. Trinta anos depois, o Ditador Garrastazu, nos governos do Golpe de Abril, estendeu ao trabalhador rural os benefícios dessa Constituição. Dois momentos de inclusão social e distribuição de renda, jamais vistos na história do país. O primeiro foi “Pai dos Pobres”, o segundo, marqueteiro do “Milagre Brasileiro”. Ambos tornaram-se líderes adorados e adotados por políticos populares, que também se profanam pai dos outros e se professam santo milagreiro. Para ambos, os calabouços pouco importam às causas. Não calam seus fins. Nada falam, enfim. Chovo no chão molhado do desprezo a quem vai preso. A tortura está longe das grades da Papuda, mas é sim tortura o que ainda se comunga e se pratica. Há pouco, uma frase - “Nunca Mais” – lhe foi atribuída e em alto e bom som, ouvida. Em nada mais daí se acredita. Aproveito o estio de chuva para um dedo de prosa com estilo dos dois pontos no escrito da conversa que rola no plano do assunto quando o enrola de prima. Nem parece que a Copa do Mundo do apito se aproxima.

É domingo e o silêncio é do contido conceito no concreto verso calado que se tem por todos os lados, e que, por certo, se tem por perto. Claro e acalorado se apresenta ao infinito mundo vago. Dó, ré, mi das notas musicais, passos da mesma dança, sangue do mesmo corte derramado no mesmo pote. Seco crânio pendurado ao poste. Um, dois, três, dos numerais que se sucedem somando as partes desiguais no universo de ritmos na rima dos sonetos. Farinha do mesmo saco, elos da mesma corrente, vogais do alfabeto e datas do calendário a qualquer hora, a qualquer preço, a toda prova. No templo da língua habita e habitua a fala, pensa um passado cordial, enquanto o silêncio quebra nozes na festa do natal e os vitrais do monumental edifício da identidade nacional, representada nos genitais dos meus olhos, presos aos muros de um domingo longo, no qual o silêncio é do homem refletido na vitrina de uma praça vazia de vida e freguesia. Frente ao verso e seu destino é despido e deixado só, nu devasso e do avesso. Enfrentá-los ou escondê-los? Refleti-los até rompê-los? Por que, então, não parti-los ao meio? Deles foram feitos os tijolos do tempo, se choram derramam areia entre os dedos e os olhos se desmancham em barro. É domingo e o silêncio é do filho pródigo, que da noite faz o dia próximo. Pernas aladas violaram o azul de um céu cor de aquarela sem molduras nos verdes moldes da pintura. De suas barrancas correram unhas com muita sanha na fúria do próprio arrasto. Facas de ponta rasgaram o tecido mapa das minas, e das montanhas desceram acentuadas curvas que nos levam às gerais. É domingo e o silêncio é de reses que úteros e cérebros ruminam noite e dia em seus domínios, dia e noite em meus ouvidos.

*.

*

Ilustração: Nancy Neves

Brasília, aos cinqüenta e quatro anos de idade e capital de vários inquilinos indesejados, indecentes, indecorosos, continua bela, mesmo com seus hóspedes presidentes dos vários poderes. Ampla e arejada a vejo da janela do quarto, transparente. Plana na palma das mãos, aos olhos se apresenta. Serena... Presente... Racional... Exala de seus poros o espírito nacional. Sobre o solo, entre a terra e o céu profundo, sente-se o som do hino pátrio nos ouvidos, postos à fresca brisa no calor da noite. Cidade mestra, com presteza se mostra arquitetada. Ereta sobre solo livre, para sempre será liberta, jamais escravizada... Nunca colonizada... Parabéns pela existência e pelos aniversários. Anos de angústia, outros de confiança, alegria e esperança... Anos de tédio e amargura, outros, sem remédio, de susto e terror das ditaduras... Parabéns, Brasília, pela beleza do fruto de certeza futura. O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 12


Fotos: Mário Paiva

Vicente Cândido

O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 13


Fotos Mario Paiva

Tem uma falha muito grande nesse meio da equipe. Sobretudo da equipe econômica, que deveria ser esse grande interlocutor com os empresários e acaba falhando. Nós temos quatro ministérios que estão no setor produtivo.

Militante político desde os anos 70, atuante nas áreas de cultura, esportes e em defesa do pequeno comércio, Vicente Cândido, deputado federal, retorna ao Templo da Cidadania do qual é um dos sócios, templários como chamamos, para uma análise política do Brasil em tempos de Copa do Mundo e eleição presidencial. O que esperar da Copa? Foi dinheiro “jogado fora”? A presidente Dilma sai novamente como candidata ou teremos o retorno de Lula aos palanques? Quem será o nome forte do PSDB? As eleições já estão ganhas? Estas e outras perguntas sobre futebol, educação e, principalmente, política serão respondidas e elucidadas nesta entrevista. Portanto, leia-a com atenção para compreender as manifestações populares, os apelos anti-Copa, as negociações com a FIFA e, em outubro, poder exercer seu voto de forma consciente e cidadã. Bárbara Dal Fabbro Apoio técnico: Tiago Calil O III Berro – Vicente, é um prazer receber você aqui. Estamos há 14 anos fazendo a revista. Esta casa, da qual você faz parte, o Templo da Cidadania, surgiu por causa da revista O III Berro. Para começar, queremos saber o seguinte: deputado, o Lula é o candidato do PT? Deputado Vicente Cândido – Acho difícil, mas não impossível. Acho que é uma pressão bastante grande. Tende a aumentar a pressão à medida que tiver algum detalhamento das pesquisas. Na cabeça dele, ele não trabalha esta hipótese, mas como política é movida a pressão... Esse que vos fala só se candidatou por pressão,

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inclusive dele. Político inacessível à pressão, não pode ser político. O.B. – O Brasil quer, né? Sentimos nas ruas que o nome dele é muito forte. V.C. – Principalmente dos que rejeitaram o PT. O setor empresarial tem muita saudade do Lula. Da época em que ganharam dinheiro. Então, acho que vem uma pressão mais organizada desse setor do que até mesmo do PT. O petista respeita muito a regra interna, a Dilma... Publicamente eu recebo mais pressão de fora do PT que do próprio PT. Nelson Augusto – Mas ela (Dilma) queimou bem as pontes. Das interlocuções que tinham aparentemente não só dentro do partido, nesse setor organizado, produtivo e até financeiro. O diálogo com ela é sempre mais difícil, mais complexo do que, teoricamente, para quem está olhando de fora, poderia ser. Além da pressão, a posição que ela vem mostrando, cria uma reação muito forte. V.C. – Tem uma falha muito grande nesse meio da equipe. Sobretudo da equipe econômica, que deveria ser esse grande interlocutor com os empresários e acaba falhando. Nós temos quatro ministérios que estão no setor produtivo. Você pega o setor de informatização, empresários que querem investir, o Brasil tem uma deficiência muito grande em banda larga, internet, telefonia... área de gás e energia. Superimportante, estratégica, indústria de base brasileira, que traz desenvolvimento econômico. O Pimentel ficou muito próximo dela, muito embaixo, e acabou não articulando com o setor empresarial. Você poderia ter 2% de PIB no Brasil só com ofensiva nossa para o exterior. O mundo


quer transacionar com o Brasil. O Brasil é muito empático no futebol, na música e na cultura e também nas diversas transações. Na semana passada, estive com um embaixador do Irã, temos muita relação com o Iraque também. Ele disse: “Nós queremos e precisamos criar uma transação comercial com o Brasil de 10 bilhões de dólares por ano. Você pode nos ajudar?”. Hoje, nós compramos do Irã 8 bilhões por ano e vendemos 2 bilhões e meio. Então tem um desequilíbrio nas relações. Quero comprar avião, quero comprar tudo, quero investir aqui, investir no etanol... Mas precisa de uma agenda focada. O Iraque a mesma coisa. O Brasil, e outros países, não perdoaram a dívida de guerra. O Iraque já foi nosso segundo parceiro comercial da década de 80. EUA e Iraque. Vendíamos todos aqueles equipamentos médicos para lá e hoje está lá embaixo porque o BNDES não libera crédito por causa da dívida de 600 milhões de dólares. Eu estou lá ajudando. O Brasil vai perdoar 80% e vai resolver isso. Mas já devia ter resolvido e transacionado com o Iraque uns 5 bilhões de dólares por ano tranquilamente. E assim é o Oriente Médio inteiro. Tem um mercado de 200 milhões de habitantes, tamanho do Brasil e de metade da Europa. É um mercado que tem dinheiro, que é rico porque tem petróleo. Um mercado que adora o Brasil. A seleção brasileira é a segunda seleção em quase todos os países do Oriente Médio. O sonho do Iraque, por exemplo, era fazer um jogo da seleção brasileira com a seleção do Iraque lá em Bagdá. Quase resolvi isso. Combinei com o Ricardo Teixeira. Aí o Ricardo saiu e entrou o Marin...: “Ih! Não vamos fazer não. Eu vou morrer de remorso se acontecer alguma coisa com o Neymar...” (risos) Então fizemos na Suécia no ano passado, não sei se vocês lembram. Para cumprir o acordo parcialmente, pelo menos. Mas é a segunda seleção assim, colado na primeira. Isso não tem preço. Você não consegue nem mensurar isso. Isso é de marca. Se você colocar um Neymar da vida, um Pelé, fazendo propaganda de produto brasileiro no Iraque, vai ter tanto sucesso quanto tem aqui no Brasil. A África do Sul, nem se fala. A Nigéria. Nós somos deficitários com a Nigéria em 7 bilhões de dólares por ano. Compramos 9 de petróleo e vendemos 2 de carne. A África nos adora. Nossa origem. 2% do PIB brasileiro, que seria por volta de um 160 bilhões de dólares mais ou menos, se resolvem com transações externas. Aí falta a interlocução com os empresários. Se você levar o empresário lá, volta com transações de bilhões de dólares. O.B. – Por que não vai? V.C. – Timidez. Falta de articulação. Qual outro ministério que tem relação com a economia? Telecomunicação e Fazenda. Se tivesse

uma equipe mais agressiva, resolveria. O presidente tem que chegar para bater o pênalti. Mas quem faz todo o trabalho tem que ser a equipe. Para chegar, discutir. Para levar as propostas para a presidente. O.B. – Mas não leva por quê? Ela não deixa? É teimosa? Como era o Lula? V.C. – Eu sou da posição que assessor tem que trazer solução. O Lula é nesse estilo. Ele centraliza, tem uma equipe muito boa. Ela, como gestora, segura um pouco, mas também tem mais falha da equipe do que dela própria. O.B. – Os juízes do Trabalho e os sindicalistas do serviço público federal, todos se deparam com um paredão. Não se consegue mais dialogar com o governo. A Dilma tem queimado as pontes dos dois lados: com o empresariado e com as bases históricas do Partido. Como é possível ter uma base tão grande no Congresso e mesmo assim ter tanta dificuldade de diálogo? V.C. – O Palocci diz que é a economia que ganha eleição. Eu discordo. Ela ganha quando está bem. Quem comanda a economia é a política. Não adianta você ter bons gestores e desempenho se você não souber fazer a política. E o governo tem a dificuldade de fazer a

O sonho do Iraque era fazer um jogo contra a seleção brasileira lá em Bagdá. Combinei com o Ricardo Teixeira. Aí o Ricardo saiu e entrou o Marin...: “Ih! Não vamos fazer não. Eu vou morrer de remorso se acontecer alguma coisa com o Neymar...” (risos)

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...eu faria a marca do governo com Esporte, Cultura e Educação. São Paulo é um barril de pólvora permanente, tem as periferias, a parte excluída da cidade, eu criaria uns 35% do orçamento.

política. Nós começamos com a maior base da história do governo. Tanto no Senado, nós nunca tivemos um Senado tão favorável, e também na Câmara dos Deputados. O dinheiro é usado para pagar as emendas que é direito, está na lei. Não vai ser dinheiro jogado fora, vai ser para atender aqui o Cauim! Estamos brigando aqui o tempo inteiro, né. Kaxassa – Por sinal, é o deputado que mais fez emenda para Ribeirão Preto. É ou não é, Davi? V.C. – Você pagou as emendas do Congresso, resolve 80% dos problemas do Congresso. Depois é a participação dos partidos na base, governo de coalizão, então o governo não tem que ficar regulando. Ele tem que dar autonomia. Você vai indicar um ministro da Cultura? Eu quero que siga o plano de governo. Que resolva. Você não pode ficar travando, senão gera uma certa insegurança. Nós vamos ter que fazer um acerto de contas bem feito para renovar o mandato. E renovar com muita disposição de mudar o estilo, sobretudo na economia. Na relação com o setor produtivo, que é um setor contraditório. Você pega os países, com exceção da China, estão festejando o crescimento não ter sido negativo. Estive em Portugal, eles estavam felizes com um crescimento de 0,2%. Este ano estão mais eufóricos ainda porque vão crescer 0,5%. A Es-

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panha, a mesma coisa. Aqui cresceu 2%, 2,5%. Este ano deve crescer um pouco mais de 2%, gera emprego. Mas tem um ânimo muito ruim. Às vezes a economia é mais estado de ânimo que situação concreta. Então vai ter que fazer um acerto de contas, reconstruir compromissos. Nós vamos ter dificuldade. O.B. – Dá para mudar o estilo da política sem mudar o dono da bola? V.C. – É mais difícil você mudar a si mesmo. Mas se não tiver esse esforço, essa engenharia, fica mais difícil a gente ter sucesso nas eleições. Eu vou acreditar nessa tese. O.B. – Você é um deputado de São Paulo que tem uma história bonita pra caramba. Você começou no governo da Erundina. V.C. – Fui subprefeito da Luiza. Eu tinha 28 anos. O.B. – E você tem uma formação, foi vereador, é deputado em São Paulo. E São Paulo? E o Haddad? V.C. – O Haddad é um bom gestor, mas peca também na falta da política. O Lula quis criar uma coisa nova, privilegiando a gestão. Mas eu creio que ele mesmo chegou à conclusão de que não tem bom gestor se não tiver a política. O primeiro mandato do Lula foi política pura. Crise para todo lado, Mensalão. O Lula matou no peito. Por isso que a tese do Palocci não é a única verdadeira. Não é só economia nem só política. A política tem gestos simbólicos. Às vezes vale mais você ir a um velório de alguém amado e querido do que asfaltar uma rua. É o gesto. Eu coordenei o programa de governo do Haddad e dizia muito para ele, aliás, é até uma pergunta do Raí, fazendo referência aqui para Ribeirão Preto. Quando a Marta foi candidata a prefeita, eu era presidente do PT, e o Raí perguntou: “Qual vai ser a marca do seu governo?”. Eu respondi primeiro: eu faria a marca do governo com Esporte, Cultura e Educação. São Paulo é um barril de pólvora permanente, tem as periferias, a parte excluída da cidade, eu criaria uns 35% do orçamento. E pro Haddad eu fui mais além. Tem marcas que para ele não vão custar nada, por exemplo, Política de Ação Afirmativa. Não custa nada, são normas que requerem a participação da sociedade. Porto Alegre sustentou um governo nosso por 16 anos só com orçamento participativo. Você traz a sociedade para decidir o futuro da sua cidade, o valor disso é imensurável. 70% do povo apoiava o governo do PT naquele período. Marinho fez a mesma coisa em São Bernardo. O Lula chegou a ter 84% dos votos dos negros em 2006. Eles viam no PT uma referência, emancipação... Depois vem o Esporte. Se você investir 2% no Esporte, cria uma marca fortíssima! Há uma carência muito grande. O lazer na periferia de São Paulo é boteco. Nada contra o boteco, mas


não pode ser lá o point de encontro da molecada de madrugada e final de semana! Onde tem as mortes, as brigas. Kaxassa – 2% é muito. O Sócrates tinha uma colocação que falava: “Se você pegar um agente de esportes, uma pessoa que tenha noção de vôlei, basquete, e colocar em um bairro, você faz muito com muito pouco.” Uma pessoa muda tudo. V.C. – Só para ilustrar esse caso, na época da subprefeitura da Erundina: eu fiz a maior inauguração do governo da Luiza com dez mil pessoas, com carro de som na rua chamando para a inauguração. Era um centro esportivo. Uma semana antes a Luiza tinha inaugurado o Vale Anhangabaú. Com 50 mil dólares, na época, fiz um belo centro esportivo que era um ginásio para a região. Contratamos o João Avelino, que montou uma seleção. E contratamos a seleção brasileira master, Zé Maria, Edu Bala. Fez um dia inteiro de inauguração e o último evento era a inauguração do centro esportivo. Mandaram um recado para mim, que não era para eu ir para lá que tinha muita gente. Agora nós vamos ter medo de povo? Tinha tanta gente que antes do jogo master, os torcedores invadiram o campo, pegaram o Zé Maria, levantaram e ficaram andando com ele para lá e para cá. (risos) O povo se divertiu! Isso que significa o esporte para o povo brasileiro. Por isso que eu digo: uma cidade que investir, bem investido, os 2% no esporte cria uma marca fortíssima. Na qualidade de vida, integração social, saúde, em um monte de coisas. Terminando, o que quero dizer é que, vai ter área que você vai investir 5 milhões de dólares e pode não ter marca. É o transporte, por exemplo. Diadema chegou a investir 32% na saúde e perdeu a eleição agora. Não conseguiu virar marca. Não é o volume de investimento que necessariamente cria a marca do governo. A marca do governo Lula foi o Bolsa Família. Hoje é troco. Mas é o gesto, é a paixão. Então, onde falta política, há problema. E o governo Haddad ainda não criou uma marca. O.B. – Com dois, três meses de governo Haddad, o pessoal foi às ruas, brigando por transporte. O que aconteceu? O Haddad deu o aumento em má hora? V.C. – Ali ele quis atender um apelo do governo federal e aumentar a passagem por causa da inflação. As capitais seguraram um pouco, o Rio de Janeiro, acho. Teve um erro de cálculo. Mas teve o erro político. Na noite anterior, às 22h, antes da grande passeata, eu fui lá e andei com a juventude, eu liguei para ele e disse: Haddad, recua por 30 dias. Suspende. Chama essa juventude, põe em um ginásio de esportes, conversa com essa juventude. Não é por causa dos 20 centavos. Eles não precisam de ônibus, era a turma da PUC, da USP, que tem carro. Alguns têm motorista. Eu tinha lido naquela

semana um artigo de um sociólogo da PUC, inclusive, que fala que a sociedade, sobretudo a juventude, tem a necessidade de participação, de discutir a cidade. Que era uma cena mais complexa. Era ele chamar para conversar e aplicar o programa de governo participativo. O plano de transporte do Haddad é o mais ousado que tem: fazer bilhete único mensal, 150 Km de corredores de ônibus, quilômetros de faixa exclusiva, ajudar a impulsionar o metrô. Faltou a política. Chamar para conversar. Se amanhã tiver 50 mil pessoas na rua, você vai ser atropelado. É dito e feito. Marcamos reunião para a quinta-feira e ele ficou discutindo planilha. Teve que recuar. Vai ter que gastar mais 500 milhões por ano com isso. Faltou mais que a política, faltou a sensibilidade de parar e conversar. E isso acabou se irradiando pelo país afora. Se ele tivesse segurado, não teria tido as manifestações de junho. Teve a oportunidade na Copa das Confederações, que fica mais charmoso fazer, como vai ter na Copa agora, de fazer isso. Mas se São Paulo tivesse segurado, não teria esse problema no Brasil todo. O.B. – E por falar nisso, vai ter Copa? V.C. – Vai ter Copa. É um debate que nós perdemos também por falhas. É superdefen-

...uma cidade que investir, bem investido, os 2% no esporte cria uma marca fortíssima. Na qualidade de vida, integração social, saúde, em um monte de coisas. Terminando, o que quero dizer é que, vai ter área que você vai investir 5 milhões de dólares e pode não ter marca.

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Nova Iorque recebe 33 milhões. Portugal, com 11 milhões de habitantes, recebe 13 milhões de turistas. Entram aqui 6 bilhões de divisas, de dólares por ano com os turistas, e nós exportamos 23 bilhões de dólares com os nossos turistas que vão viajar (...) Nós temos um déficit de 17 bilhões de dólares com o turismo. A Copa do Mundo e as Olimpíadas são momentos de vender o Brasil. Se isso servir para, pelo menos, daqui a 10 anos nós dobrarmos nosso número de turistas, já está paga a Copa. Nós perdemos no discurso para uma mídia irresponsável, que gosta de ver o circo pegar fogo.

sável. Onde vou, com 15 minutos de discurso, me perguntam sobre isso. E eu estou ajudando, pelo Brasil, se fosse há 30 anos eu falaria que não ia ter Copa, que o Brasil não está preparado para isso, para sediar uma Copa do Mundo. Hoje é a sétima economia do mundo, a quinta ou quarta em 2022, precisamos intensificar a cadeia de turismo, que é uma vergonha para nós. Nós temos a melhor música, a melhor comida, o melhor clima, as melhores praias, o melhor povo e recebemos apenas 5 milhões de turistas por ano. Eu estava na Nova Zelândia agora, em janeiro, fazendo um curso. E com 4,5 milhões de habitantes, recebem 20 milhões de turistas por ano. Nova Iorque recebe 33 milhões. Portugal, com 11 milhões de habitantes, recebe 13 milhões de turistas. Entram aqui 6 bilhões de divisas, de dólares por ano com os turistas, e nós exportamos 23 bilhões de dólares com os nossos turistas que vão viajar, que voltam com mala cheia. Você vê nego comprando malas, sacolas. Nós temos um déficit de 17 bilhões de dólares com o turismo. A Copa do Mundo e as Olimpíadas são momentos de vender o Brasil. Se isso servir para, pelo menos, daqui a 10 anos nós dobrarmos nosso número de turistas, já está paga a Copa. Nós perdemos no discurso para uma mídia irresponsável, que gosta de ver o circo pegar fogo. O que é um gasto da Copa mesmo, que você poderia dizer, com muito esforço, que é supérfluo? Com muito esforço, mas não é verdade, são as obras dos estádios. Algumas. Mas se você tiver espírito empreendedor, todos eles têm uma finalidade social. Dos 25 bilhões destinados para a Copa, a partir de 2008, que seriam 5 bilhões por ano, 8 bilhões é para estádios. 6 para os públicos e 2 para os privados. Pega o estádio de Brasília, hoje é o mais moderno do mundo. E é o estádio mais caro do mundo, custou 1 bilhão e 300 milhões. Agora, o que você faz para encher Brasília num final de semana, com aquele patrimônio histórico e cultural que a gente tem? Você tem que ter diversão, entretenimento. O Estado tem que promover o desenvolvimento. Por que a França foi fazer o Teatro Nacional na periferia de Paris? Porque tem que desenvolver, essa é a função do Estado. Nesse curto período, o estádio já recebeu 800 mil pessoas. Se você fizer a conta, em dez anos está pago. Vai encher os restaurantes e hotéis de final de semana, dar vida para Brasília. Isso quem tem que fazer é o poder público. Quem tem o melhor futebol do mundo, tem que ter os melhores estádios! Então, não tem nenhum dinheiro jogado fora. A infraestrutura, o Brasil tem que fazer independente de Copa. Você não vai fazer aeroporto, hotel, por causa de um mês de Copa. Então, tem um debate muito enviesado. Está tirando dinheiro da Educação e da Saúde, mas

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isso não é verdade. O dinheiro do BNDES não vai para essas gavetas. Não tem argumento nenhum quanto a isso. É oportuno, o Brasil precisa disso, a gente precisa vender para o mundo as belezas brasileiras. Nesse período em que eu estive na Nova Zelândia em janeiro, toda a programação esportiva falava do Brasil. Você vê o Arsenal entrar em campo com a faixa “Arsenal for Brazil”. Quanto custa isso? É um minuto. Quanto a televisão, ganha com isso? O programa mais caro da televisão brasileira, o Jornal Nacional, custa 700 mil, 1 milhão de reais 30 segundos. A abertura dos jogos da Copa, em todas as sedes, vai ter 10 minutos de televisão mostrando as coisas bonitas daquela cidade. Quanto custa isso? Kaxassa – Eu gostei muito do projeto de voltar a vender bebidas no estádio. Vai ser só pra Copa? (risos) V.C. – Eu concordo com você. Acho que tem que poder vender bebidas nos estádios. Mas é que entra oportunismo, comunidade religiosa... Teve um dia, no meio do debate da Lei Geral da Copa, estava o Padilha em uma comissão, o Aldo na outra. Ali no corredor das comissões. O Padilha falando contra a bebida, por questões médicas, de saúde, e o Aldo do outro lado defendendo meu texto, que era em prol da bebida nos estádios. Aí fomos falar com o Padilha para ele parar com isso, ainda mais porque ele vai para o estádio com a gente e vai beber. (risos) Eu fui para a Europa, estudei as normas da UEFA, dos outros países. Peguei um modelo que era da Inglaterra, trouxe para o texto, mas depois por causa de uma disputa política medíocre, tive que tirar. Cabe agora aos estádios regulamentar isso. Está a maior briga. Mas é um erro. Estamos construindo arenas multiuso, que receberão shows. Então vamos ter que conviver com essas incoerências, infelizmente. O.B. – Como foi lidar com a FIFA? Você que é um cara que veio das torcidas, todas brigadas com o pessoal da FIFA. Lembramos do Magrão brigando com o Ricardo Teixeira, um de seus amigos. V.C. – Tem que ter jogo de cintura. Tem todas as mazelas ainda, não é o único setor mal administrado do Brasil. Os times são mal administrados. Está melhorando. Estamos incorporando a administração corporativa, transparência... Pode ver que Flamengo, Corinthians têm outra gestão. No Nordeste, o Vitória é um time bem administrado. O que eu tenho conversado com alguns companheiros do PT é o seguinte: vamos montar aqui uma nova geração. Tem uma primeira geração que está fazendo, mas daqui a pouquinho está se despedindo, então temos que criar uma nova geração. Vai mudar, vai melhorar. Você precisa criar aí uma nova geração, uma nova mentalidade. E


nisso tem um grave erro do PT, que foi criado em cima do pensamento de que o esporte é o ópio do povo, usado para manipular. Então, há uma dificuldade muito grande de ter a inserção do PT no desenvolvimento esportivo. Eu sou um desvio social. Eu sempre acreditei no esporte como organização social, que faz diferença para a saúde, a sociedade, a integração. Eles têm muita dificuldade de enxergar isso. Tanto é que eu sou o único deputado da bancada de 88 e carrego a questão do esporte. Então estou fazendo um projeto que dá transparência, que descentraliza, que reconstrói economicamente os clubes de futebol, sobretudo o Brasil. O Brasil vive uma dicotomia, uma esquizofrenia muito forte. Nós temos a melhor seleção do mundo, o melhor futebol do mundo, e temos o pior futebol do mundo aqui no Campeonato Brasileiro. Por quê? Porque a CBF tem receita própria, tem vida própria, ainda que começou a repassar agora para os campeonatos aqui, mas a seleção é uma coisa à parte. Dessa vez vamos ter uns quatro ou cinco brasileiros (que jogam no Brasil) na seleção. Teve Copa que não teve nenhum, é isso? Com muito esforço o Felipão vai colocar uns quatro ou cinco. Então, se você rodar pelo mundo, e toda vez que eu viajo fico abismado com isso, existem jogadores pelo mundo afora que você não faz ideia de onde estão. Molecadinha com 15, 16 anos. Os caras vêm aqui, contratam e mandam para lá e os olheiros da seleção ficam acompanhando. Às vezes tem jogador na seleção que você pensa: de onde apareceu esse? Você tem a melhor seleção do mundo, comprovada e com chances reais de ganhar a Copa, e o pior futebol do mundo, com o fracasso econômico dos clubes brasileiros. Temos que consertar isso. Com a FIFA, não tive nenhuma dificuldade. Domingo passado eu estava em um debate com a juventude e fui defender a Copa. Um rapaz perguntou como deixamos a FIFA entrar assim, que fere a soberania do Estado. Falei para ele que estava muito mal informado. Falei que tínhamos que aprender muitas coisas com a FIFA. Levantei um ponto do qual ele não lembrou, a proteção das marcas. Quando a FIFA viu a nossa lei, a 9210, ela disse que não servia, que não protegia as marcas dela. Que tem compromissos com os patrocinadores que precisa cumprir. Escrevemos um capítulo à parte. Eu queria introduzir este capítulo que escrevemos para a Lei Geral da Copa e mudar a nossa lei brasileira. O quanto os times perderam pelo mercado paralelo é coisa de louco. Agora que estão tomando algumas precauções. Tem alguém melhor do que a FIFA para registro de marcas? Só aqui no Brasil ela registrou 200 marcas. Então, vamos aprender! Vamos deixar de frescura e ver aquilo que é bom e saber separar as coisas. Eu ainda falei para o rapaz: você sabia que os

trabalhadores dos estádios vão ganhar ingressos com mais um acompanhante para ver os jogos? Sabia que os índios além dos ingressos vão ganhar o transporte de graça para ir aos estádios? Os deficientes não vão pagar ingressos. A FIFA acabou de doar 50 mil ingressos para as pessoas de baixa renda. Então, tudo isso foi conquista social. Está lá na campanha que vamos fazer antirracismo, anti-drogas, desarmamento. A FIFA doou camisas e bolas autografadas para as pessoas trocarem pelas armas. A FIFA foi além das garantias assinadas pelo Lula. O.B. – E a Olimpíada? Você acabou de nos dizer que para esta Copa existe todo um projeto de ampliação do turismo, de “venda” do país como destino turístico. Pelo menos, em tese, é ótimo. A Olimpíada vai servir para que possamos massificar o esporte amador no país? V.C. – Durante todo o debate, mesmo antes da Lei Geral da Copa, eu defendi a tese do seguinte: nós precisamos deixar um legado imaterial. Obra todo mundo faz. Estádios, viadutos, metrô, isso é um legado que terá que ser feito, independente de quem o fizer. O nosso grande legado seria um grande programa para

O Brasil vive uma dicotomia, uma esquizofrenia muito forte. Nós temos a melhor seleção do mundo, o melhor futebol do mundo, e temos o pior futebol do mundo aqui no Campeonato Brasileiro. Por quê?

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Você descobre um talento, tem que ter um programa. Vai que você descobre um talento em uma modalidade que não tem na cidade, tipo esgrima. Tem que ter um programa para que você possa mandar este jovem para outra cidade para treinar. Eu acho que das 40 olímpicas, nós devemos ter aqui meia dúzia de modalidades. Então com a bolsa, você pode dar sequência, porque senão você fica desperdiçando talentos toda hora por falta de oportunidade. São essas coisas fáceis de criar, de fazer, de valores imensuráveis que, infelizmente, a gente não vai conseguir deixar com a passagem da Copa e das Olimpíadas.

o esporte brasileiro. Minha filha fez balé em Cuba, durante quatro anos e meio, e eu tive muito contato com a Alicia Alonso, uma das bailarinas mais famosas do mundo; comanda o balé de Cuba até hoje com 90 anos de idade, e ela dizia: “Vicente, está no DNA brasileiro. Qualquer esporte, dança ou música que você incentivar no Brasil, dá certo.” E nós somos bons em esportes de elite, como a Fórmula 1, hipismo. É de elite porque a gente não popularizou. Se popularizar, se der condição, todo mundo disputa: preto, branco, azul, mulher, homem. Não tem discriminação. Então, eu briguei muito por isso e disso saiu o projeto que estamos tentando aprovar amanhã na comissão especial, que é o fortalecimento do esporte olímpico brasileiro. E o grande detalhe é o esporte educacional. A escola não pode ser só um espaço de discutir química, português e matemática, esse é o erro! Meu filho foi estudar nos EUA, no Wyoming, com 12 anos de idade. Aí que eu descobri que diretor de escola é igual no mundo todo, Kaxassa! (risos) Tentaram fazer a matrícula dele por aqui, que era uma condição para dar o visto. E negavam a matrícula. Aí fui no cônsul americano, em São Paulo, e falei que estava em um impasse. Era preciso da matrícula para que eles concedessem o visto e o diretor estava negando. Aí ele deu o visto e falou para ir lá ver no dia seguinte. Apareceu na escola que ele estava matriculado. Na hora que foi matricular, chamaram lá o diretor de educação física. É brasileiro, eles já pensam que é boleiro, pegou a bola lá e pediu para ele fazer embaixadinhas. Ele fazia umas 250 aqui no Brasil, brincando, mas era um teste, ficou nervoso e fez 70: “Está bom. Já está na seleção aqui do estado. Mas é o seguinte: você vai nadar e escolhe mais três modalidades.”. Ele tinha que fazer quatro modalidades esportivas dentro da escola, as quatro então dentro das 40 das Olimpíadas. Por isso que os EUA é o campeão olímpico. Por isso o futebol americano é hoje o maior produto de venda e de mobilização do mundo. É o minuto de televisão mais bem vendido do mundo: 3 milhões de dólares. Isso dentro da escola! A escola tem que ser um centro cultural, esportivo, educacional por natureza. Ou a gente faz isso, ou nunca vamos ter este legado que eu gostaria que a Copa e as Olimpíadas deixassem pra gente. Foi por isso que eu montei esse projeto. A Caixa nos deu de presente a raspadinha, o Timemania, para que os times em convênio com as escolas pudessem criar um fundo para colocar este convênio em prática. Mas é um embrião. O fundo vai dar de 700 milhões a um bilhão por ano, que é muito pouco. Mais a dívida que estamos escalonando em 300 meses. Acho que nós perdemos uma oportunidade ímpar de criar uma outra cultura esportiva. Se você vir a

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mediocridade nossa nessa matéria, que aí não é só do PT, o PT é o menos pior. Se você pegar aqui o governo de São Paulo, ele tem a coragem de investir 0,1% no esporte. Um estado de vanguarda! Você tem um bloco de grandes cidades que têm o orçamento, mas não têm a cultura de investir no esporte. Vamos pegar por aqui. A cidade de Luis Antônio tem um orçamento que jorra pelo ladrão, se a usina não fechou. Vê o investimento desportivo nessa cidade. Você pega Paulínia, por exemplo, orçamento de 800 bilhões de reais, 150 mil habitantes, vê lá se investe em esporte? São Caetano investiu, durante um período, 6%, que é um negócio histórico. Só que investiu errado. Investiu só no esporte profissional. Um pouco só no olímpico. Não é só falta de dinheiro, é falta de pensamento. Então, um dos legados que a Copa pode deixar, é pelo menos criar este pensamento pró-esporte. Kaxassa – Estou muito feliz com Copa e tudo mais, mas estamos perdendo. Pois a melhor lei de incentivo do Brasil (PROAC) foi você quem criou. Então, caramba, depois da Copa, volta para a Cultura! V.C. – Nós não podemos deixar como legado só estádios. Até porque tem essa polêmica, enviesada, mas tem. O.B. – Deputado, mas por que não tentar instituir, não na Lei da Copa, mas que os clubes tenham a obrigação de ter um projeto social? V.C. – Eu sugeri um programa para eles horizontalizarem o acesso. Mas não adianta nada se você não tiver uma escada. Você descobre um talento, tem que ter um programa. Vai que você descobre um talento em uma modalidade que não tem na cidade, tipo esgrima. Tem que ter um programa para que você possa mandar este jovem para outra cidade para treinar. Eu acho que das 40 olímpicas, nós devemos ter aqui meia dúzia de modalidades. Então com a bolsa, você pode dar sequência, porque senão você fica desperdiçando talentos toda hora por falta de oportunidade. São essas coisas fáceis de criar, de fazer, de valores imensuráveis que, infelizmente, a gente não vai conseguir deixar com a passagem da Copa e das Olimpíadas. Se a gente deixar o pensamento consolidado, eu acho que já é um grande ganho pela Copa e pelas Olimpíadas. Porque a nossa cegueira, a nossa timidez, a nossa mediocridade para investir em esporte e cultura é um negócio que deixa a gente deprimido. O PIB do esporte hoje, do futebol sobretudo, é tão grande quanto o PIB da indústria automobilística. Em uma canetada você isenta a indústria automobilística em 30 bilhões de reais, nós fizemos isso, governos Lula e Dilma, para gerar empregos. Mas devíamos pensar do mesmo jeito sobre o nosso patrimônio cultural. O futebol brasileiro é o maior cartão de visitas do Brasil. Agora, por causa desses eventos, que o Brasil está des-


pertando um pouco para isso. A CBF está tentando internacionalizar a marca do Brasil e, se conseguirem, levam todos os times junto: Corinthians, Flamengo, Botafogo... Você pode levar lojas para qualquer canto do mundo. O que vai gerar de divisas, de mercado, de produção! Acho que agora a gente começa a despertar para isso aí. Mas ainda acho que o grande legado é o que vocês levantaram. A gente precisa ter um programa nas escolas, de todas as modalidades. O dia em que a gente fizer isso, nós vamos mudar a história do Brasil. Acho que este é o principal alicerce que temos que ter: esporte, cultura e educação num ambiente só. O.B. – Como usar melhor os equipamentos que são disponibilizados para as escolas e centros culturais, para que as pessoas possam realmente usufruir? Pois se fica muito preso em uma burocracia. V.C. – Eu sempre tive em minhas equipes de trabalho, gabinete, empresas, mais mulheres do que homens. Sem nenhum preconceito, eu só acho que as mulheres são mais aplicadas, mais difíceis de mentir, de te enganar, então, têm várias qualidades. Com uma exceção: como diretora de escola é o pior que existe, infelizmente. Porque elas são muito protetoras. Escolas administradas por mulheres são escolas fechadas, são delas, elas que mandam e desmandam. Escolas administradas por homens são mais abertas. Mas aí tem toda a cultura do povo brasileiro. O estado tem um programa de escola aberta. Mas muito tímido! Tinha que ter um programa próprio para o final de semana. E qual o grande problema? Não tem funcionário para abrir, para administrar. Monta um concurso para final de semana. Com agentes culturais,

educacionais, esportivos. A escola tem que ser o pulmão do bairro. É lá por onde todo mundo passa. Nem todo mundo passa pela igreja, nem todo mundo passa pelo centro cultural, mas na escola é obrigado a passar. Então lá é que tem que ter esses programas. Tem que ter governos que um dia enxerguem essa necessidade. E você derrubar essa burocracia. Por isso que tem que implementar uma outra cultura, um outro pensamento. Se pegar a nossa educação física na escola, já é um horror, imagina você implementar outras modalidades... você vai ter que dar um choque cultural aí. Nós vamos entrar num momento agora muito especial para isso. O próximo governo, ou ele faz isso com muito foco, de você mudar o parâmetro da escola brasileira, da educação brasileira, ou nós vamos chegar em 2022 sendo a quarta, quinta economia do mundo... Nós vamos ser um elefante de pé de barro. Que vai ter colapso na mão de obra, que vai ter educação precária. Então, essa oportunidade de elevar o investimento em educação em 10%, é a oportunidade de você mudar a concepção da escola brasileira, mudar a cultura, mudar o tratamento. Eleição direta para os diretores... O projeto, o sonho da minha vida, desde que eu era vereador é eleição direta para diretores. Em que você vai criar novas lideranças, todos os pais querem participar da escola, uma boa parte, porque é ali que está o futuro do seu filho. Quero colocar o meu filho na melhor escola, onde vai ser bem tratado, com dignidade. Discutindo em casa pensamentos. Então o caminho é esse. O.B. – Continuando na questão da educação, você acha que o Brasil consegue ter um ensino fundamental integral? V.C. – Com essa economia, não. O Brasil

O futebol brasileiro é o maior cartão de visitas do Brasil. Agora, por causa desses eventos, que o Brasil está despertando um pouco para isso. A CBF está tentando internacionalizar a marca do Brasil e, se conseguirem, levam todos os times junto: Corinthians, Flamengo, Botafogo... Você pode levar lojas para qualquer canto do mundo. O que vai gerar de divisas, de mercado, de produção!

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Não tem como ser Presidente da República sem São Paulo. É 22% do eleitorado, tem influência política, então, só um milagre! Hoje não tem mais como fazer aquela sacanagem da Globo em 1989, editar debate, dar 10 minutos para um e nada para o outro. A lei eleitoral hoje é muito mais rígida quanto a isso.

terá que crescer 5% ao ano durante uns 10, 15 anos para chegar nesse nível. Só vontade política não resolve. Ajuda, encaminha. Os 10% do PIB estão para ser votados no Senado, e o governo está tentando colocar o PIB privado da educação. Você não tem orçamento público ainda para isso. Não adianta, não tem como inventar. Nós produzimos muito pouco. Pega a Coréia do Norte, com 50 milhões de habitantes, produz muito mais que nós. Não tem milagre! Mas a vontade política ajuda. Faz um plano estratégico para daqui a 10 anos chegar a 10% do PIB. Só que queremos chegar com outro PIB. Se a gente conseguir dobrar ou triplicar o PIB daqui a 10 anos, então você pode ter os 10% “mais largos”. Kaxassa – Gente, a nossa revista tem um número de páginas que acho que não vai caber... (risos) Vicente, para terminar, o Brasil ganha esta Copa? V.C. – Não mudou nada da Copa das Confederações para cá. O único temor nosso, dos brasileiros, é a Alemanha. Acho que é uma candidata forte para o título. Espero que seja vice. (risos) Então, não houve nenhuma grande novidade no futebol nesse período. Se o Brasil estava bem naquela época, não precisa estar mal agora. Nós temos uma melhor defesa do que ataque. Vamos rezar para o Neymar se recuperar em tempo hábil. Ele seria um desfalque muito grande. O.B. – Agora, para encerrar, a Dilma ganha a eleição? V.C. – Ganha. Vai ser difícil para nós (PT), mas mais difícil para os adversários. Vai ser a pior campanha do PSDB. O Aécio, no curral

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dele, tem o Fernando Pimentel, que é um forte candidato. O Alckmin está no pior momento dele aqui. Vi uma pesquisa agora, o Alckmin está com 34%, Skaf 24%, Padilha 6% e o Kassab 7%. Vai ser a pior campanha do PSDB no estado de São Paulo. Os tucanos têm poder em Minas Gerais, São Paulo. No Pará e no Paraná não estão bem. Tocantins é um estado pequeno. Você pega Rio de Janeiro, não tem PSDB, o Nordeste, muito pouco. Então, eles têm muita dificuldade também. Eduardo Campos, pouco tempo de televisão, não tem palanque. Não tem como ser Presidente da República sem São Paulo. É 22% do eleitorado, tem influência política, então, só um milagre! Hoje não tem mais como fazer aquela sacanagem da Globo em 1989, editar debate, dar 10 minutos para um e nada para o outro. A lei eleitoral hoje é muito mais rígida quanto a isso. É difícil para todo mundo, não é o melhor momento nosso, mas quem tem uma base grande de partido, tempo de televisão e tem o que mostrar, as ações vão acabar aparecendo, está na frente. Agora, não vai ser uma eleição tranquila. Acho que vai ser a nossa eleição mais difícil, mas também a mais difícil deles. É jogo de campeonato! Um ponto importante para nós é a Copa. Se a gente passar bem pela Copa, mesmo o Brasil perdendo, que seja culpa dos jogadores, aí é culpa do time. Nós não podemos é ter mobilizações, acidentes graves. Se não tiver isso, passar bem na organização, e se ganhar – melhor ainda! – nós entramos com tudo na campanha. O.B. – Obrigada, Vicente. Agradecemos muito pela sua entrevista.


Um falso carioca

Ilustração: Rose Araújo

Bueno * buenocantor@terra.com.br www.buenocantor.blogspot.com Sócrates, quando viajava para o Rio de Janeiro, sempre ficava por lá uns dez, quinze dias. Convivendo com amigos cariocas, pegava o jeito de falar deles, e quando retornava para Ribeirão Preto era o maior barato, voltava falando “carioquês”, puxava os erres e os esses como um autêntico morador daquela cidade show de bola. Pra cantar, então, ele entregava feio, principalmente no samba “A Rita”, de Chico Buarque, que dizia “uma imagem de São Francishco”. Noutro trecho, cantava “masch causou perrrdachs e danochssss”. Lógico que os mais chegados pegavam no pé dele e, aos poucos, o Magrão voltava a ser um ribeirão-pretano da gema – de vez em quando tinha uma recaída (rsrsrsr). Aquele linguajar carioca, acho bem maneiro (rsrsrs). Recebi uma ligação do meu parceiraço Tião do Violão, dando conta de que nosso chegado Giba da Cuíca havia retornado de terras cariocas e estava marcando uma roda de samba no seu quintal, regada a muito chope. Ele queria contar tudo o que aconteceu na Cidade Maravilhosa. Giba faz parte do meu grupo de samba aqui em Ribeirão Preto, é um dos melhores percussionistas que já vi tocar, o cara honra o apelido “Giba da Cuíca”. Certa vez, foi desafiado a tocar o nosso Hino Nacional na cuíca, topou a parada e deu show. Só vi dois em minha vida capazes de tal proeza: ele e Osvaldinho da Cuíca. É, meu amigo, ele é fera. Além da cuíca, Giba toca pandeiro como poucos, surdo, tamborim e demais apetrechos para dar mais molho num bom samba. Sua fama atravessou fronteiras e seu talento foi requisitado por uma gravadora carioca para que participasse da gravação do CD de um famosão. E lá foi ele pra ficar três ou quatro dias no Rio, acabou ficando por quase um mês e colocou sua arte nas gravações de outros bambas. Marcamos o samba para duas da tarde de sábado, sem hora para acabar, até parece o samba do Biasoli, quando nos reunimos é assim, varamos madrugada. Tião do Violão apanhou-me em casa, só levei meu cavaquinho. No caminho, Tião falou: “Buenão, você nem vai conhecer o Giba, amigo”. “Por quê?”, perguntei. “Ora”, disse Tião, “percebi pelo telefone que ele voltou falando ‘carioquês’ mais que os cariocas, cara, como o Sócrates!!!” Rimos um pouco e disse: “Giba logo se acerta, vamos pro samba”. Já na casa do sambista demos de cara com

outros amigos que estão sempre com a gente, só o anfitrião é que não aparecia, estava esperando chegar toda a galera para entrar em cena. Ficamos por ali aguardando sua entrada de astro, tomando aquele cremoso chope; Giba estava cheio da grana e a conta era toda dele. De repente, abrem-se as cortinas e entra ele como nunca vi, maior pinta de malandro carioca, do autêntico sambista: sapatos de duas cores, branco e preto, meias brancas, terno branco com lenço vermelho no bolso do lado esquerdo, camisa listrada, chapéu de palhinha tipo Zé Keti, o cara estava demais. Só nos restou aplaudir e matarmos a saudade do amigo com um baita abraço. Giba trouxe presente pra todos, ganhei um chapéu “panamá”, adorei. Ele incorporou no seu repertório gírias e palavras da malandragem do meio musical em que conviveu, como por exemplo: “Olha só o meu ‘pisante’, até trouxe um igual pro Tião.” “Pisante” é sapato. E foi comentando as gírias. “Peita” é camisa, “beca” é calça, “ficou maneiro” é ficou legal, “meu brother” é meu amigo, “quebrada” é um lugar longe, “mocréia” é mulher feia... De repente, Giba disse: “Vou pedir pra minha primeira-dama fritar um ciscante”. Perguntei: “O que é ciscante, Giba???” Ele, rindo muito, disse: “Buenão, é o nosso frango a passarinho” Já estávamos todos no maior grau, pegamos nossos instrumentos e fizemos nosso samba com aquele molho carioca do nosso querido Giba da Cuíca.

Sua fama atravessou fronteiras e seu talento foi requisitado por uma gravadora carioca para que participasse da gravação do CD de um famosão. E lá foi ele pra ficar três ou quatro dias no Rio, acabou ficando por quase um mês e colocou sua arte nas gravações de outros bambas.

* Cantor e compositor O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 23


Uma crônica do Paulo Mendes Campos Adriel Gennaro Entre vários papéis, guardo uma crônica do Paulo Mendes Campos. Na crônica, ele trata de uma característica que somente nós, seres humanos, temos: a capacidade de abrir portas bem fechadas e fechar portas bem abertas. Com a devida interpretação poética e me valendo da metáfora, abrir e fechar portas talvez sejam as principais atividades que realizamos em toda existência. A cada dia construímos uma nova oportunidade, abrimos um pouco mais as portas que ontem pareciam intransponíveis. Entretanto, temos outras portas, já abertas e que fechamos. Pequenas distrações fecham grandes portas, algumas dificilmente serão abertas novamente. Neste abre e fecha de portas, a do diálogo e a do pensamento crítico estão entreabertas. Uma leve brisa e já se fecham. Nos longos momentos de insônia ainda não consegui decidir se o homem, evoluindo individualmente, influi na coletividade ou o coletivo influencia (e determina) a evolução do homem. Fato é que estamos perdidos e não compreendemos o momento atual. Quando, em sã consciência, imaginaríamos o linchamento público de pessoas? Inevitavelmente ouvi a observação de um estudante de direito dentro da sala de aula – “lincharam por engano uma mulher no Guarujá”. Então fica combinado assim, se for pessoa que mereça, vale o escalpela e mata? Procuramos grandes teorias para coisas simples. Desprezamos o óbvio. Buscamos na arte, na fé e em outros apoios as respostas que estão claras e nos recusamos a enxergá-las. Nesse esforço muitas vezes sem propósito, fechamos portas com trinco e cadeado. Escrito entre 1.307 e 1.321, originalmente sob o título de Commedia (o adjetivo Divino é imposto depois, pelo poeta Giovanni Boccaccio em uma edição em 1.555), Dante descreve com maestria: “Assim como aqueles que têm a vista defeituosa, enxergamos melhor os sucessos distantes do que os próximos. Para os fatos do presente, falta-nos lucidez, e os que chegam nos informam o pouco que nos é dado saber.” Trecho do Canto X, Inferno. Mais contemporâneo impossível. Corro o risco de ser simplista, mas nenhuma tecnologia, informação, teoria ou qualquer outro aplicativo tornou-nos mais humanos. Apenas evoluímos na mesma velocidade em que criamos nossos medos e traumas. O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 24


Ilustração: Rose Araújo

A concha, segundo Anne Morrow Lindbergh

“Presente do mar” é um livro pequeno. Há anos Vera Nice me deu. Após ler alguns trechos juntas, ficamos o resto da tarde falando sobre a imensidão de coisas em tão poucas páginas. O livro acompanhava uma pequena concha e costumava ser trocado entre amigas. Mesmo se tratando de uma leitura sobre o universo feminino, sempre achei que deveria ser lido por homens. É uma leitura doce, talvez por isso os homens não se aproximem muito dele nas prateleiras. Mas deveriam. Dia desses entrei na “Loucos por Livros” e comprei alguns para dar de presente e não resisti, li novamente para ter aquela sensação boa de maré cheia. Aquela sensação de poder passear por um texto extremamente despojado, simples como uma concha brilhando sobre a areia molhada num fim de tarde. Senti de novo a vida complicada arrebentando nas rochas do meu pensamento e gritando como é boa simplicidade em todos seus sentidos e direções. Me dei conta que foi escrito há 59 anos e continua combinando perfeitamente com esse mundinho touch scream das relações. Revi a placa indicando “aluga-se” na concha onde penso morar com meus poucos metros quadrados de vontades. A dupla aurora, cuja validade ainda é a efemeridade das coisas belas. O capítulo dos relacionamentos, sempre sentado no banco de ostras. E o final, que a autora escreve 20 anos depois, reabrindo um mar de coisas. Ainda me encontro inundada pelos devaneios sobre a necessidade de saber exercitar o caminho de volta para o meu centro, porque

ali é o centro de todas as outras coisas. Vivo perdendo meu centro. Saio por aí procurando e noto um monte de gente fazendo o mesmo. Respiro aliviada por não estar só. Trata-se de um labirinto fácil de encontrar e fácil de perder. Penso no desafio que fiz em pensamento para o Dalai Lama, ao perguntar se ele seria capaz de chegar ao Nirvana, fazendo suas citações na rua 25 de março em Sampa, durante mil luas de indignação. Pensei em procurar no Google Maps, a ilha onde o livro foi escrito para ver o mar que Anne Morrow descreve de forma tão envolvente, mas uma pilha de trabalhos para entregar me obrigou a adiar a viagem. Consegui dar uma busca nas fotos dela, que nunca tinha visto. A foto dela com o marido aviador, de quem ela era copiloto. Ela na mocidade e aos 90 anos. Um prazer em conhecer pessoas que não morrem. Volto a dobrar roupas nas gavetas do armário ao invés de dobrar lembranças. Pendurar cabides com roupas ao invés de vestir histórias. Responder mensagens ao invés de escrever contos. Cumprir compromissos ao invés de encontrar amigos. Tirar poeira das malas ao invés de viajar para perto de mim. Vontade de trocar essa quinquilharia que acumulo dentro da minha concha pelos galhos e conchas com que a autora descreve encontrar na praia e com os quais decora a pequena casa de praia. Vontade de trocar o muito pelo pouco. Esse quase nada que deixa a vida bem mais simples e melhor.

Dia desses entrei na “Loucos por Livros” e comprei alguns para dar de presente e não resisti, li novamente para ter aquela sensação boa de maré cheia. Aquela sensação de poder passear por um texto extremamente despojado, simples como uma concha brilhando sobre a areia molhada num fim de tarde.

Rose Araújo - @roaraz O III Berro - ano XV - nº 11 - Maio de 2014 - página 25


nossa TERRA EM TRANSE Magno Bucci Coro Cênico Bossa Nossa

Tarde de domingo. No estádio 49.317 pagantes. Clássico tradicional e de muita rivalidade. Está em cima da hora de começar o jogo e... nada! Ninguém! Nenhum dos atores adentrou ao gramado. Só coadjuvantes. Serviçais de diversos ofícios. Nem sinal dos times. Estranho! Pelo menos a arbitragem! Não! Ninguém.

Meu firme (?) propósito era escapar, de todas as maneiras, do campeonato mundial da bola que bate à nossa porta desde que o Br foi escolhido para sediar o evento neste ..14. Já tinha separado o que ver (começaria revendo Glauber), o que ler e o que beber. O bunker já estava armado. Mas antes que a bola role no Itaquerão, dia 12 de junho, declaro minha impotência diante dos apelos e da tormenta. Não consegui imunizar-me da infestação de fulecos, e aí aconteceu... SHAZAM, invoquei a sábia Suplicy Marta e assumi o relaxa e goza. Muito bem. Posto isso... Futebol! Quando partimos para ver um futebol: a) já sabemos quase tudo o que pode acontecer com aquela forma esférica de couro – ou material adequado – circunferência entre 68cm e 70cm, peso entre 410g e 450g, pressão a 0,6 - 1,1 atmosferas ao nível do mar, rolando no máximo em 8.250m2 de grama batatais, esmeralda ou são carlos, durante o tempo de 90 minutos; b) conhecemos as 17 regras, os participantes e suas ambições; c) estamos seguros de que vários quilômetros serão percorridos entre tapas e beijos, gritos e sussurros, socos e pontapés, trancos e barrancos e d) temos certeza absoluta de que não haverá quarta opção, ou ganha fulano, ou sicrano, ou a coisa empata. Se tudo isso é rigorosamente certo e definitivo, então a questão é: qual o mistério que nos atrai para ver a mesmice? O que será que há no esporte-previsível que fascina? Futebol não é sempre a mesma coisa? Qualquer pessoa mais ou menos aficcionada dissertaria acerca da imprevisibilidade do esporte, desnudando a “alma” do futebol e dando nomes à estranha atração que ele exerce nas nossas dobras internas. Falaria também

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acerca das suas funções: redentora, terapêutica, epifânica... enfim, sobre as funções todas que o “fubol” poderia provocar nas pessoas. Ver futebol com olhos diferenciados derruba a possibilidade de qualquer previsibilidade. Pensando assim, e ainda tocado pela morte de Garcia Márquez, resolvi petulantemente investir-me na condição de aprendiz de Gabo e jogar “fubol” nas águas do realismo mágico. E foi assim que perpetrei algumas mal traçadas linhas. Tarde de domingo. No estádio 49.317 pagantes. Clássico tradicional e de muita rivalidade. Está em cima da hora de começar o jogo e... nada! Ninguém! Nenhum dos atores adentrou ao gramado. Só coadjuvantes. Serviçais de diversos ofícios. Nem sinal dos times. Estranho! Pelo menos a arbitragem! Não! Ninguém. As arquibancadas começam a mostrar sinais de impaciência. Um ventinho esquisito corre os quatro cantos do estádio. Meia hora de atraso e a irritação descontrola as arquibancadas. Gritos e assobios de protesto. Burburinho nervoso e agitado. Torcedores começam a se aproximar do alambrado. Conversam, dialogam. Interrogação geral. Crueldade deixar as torcidas sem explicação. Alguns mais fanáticos dos dois times são autorizados para o campo. Ficam ciscando aqui... ciscando ali... e resolvem verificar nos vestiários o que acontece. Como último apelo, alguns ainda na boca do túnel de acesso, gritam pelos craques. Nenhuma resposta. Resolvem revirar os vestiários. Desaparecem por minutos indo atrás das respectivas agremiações. O estádio em tom de espera não sabe o que pensar... nem o que esperar nessa altura do campeonato. Quando os que foram voltam, percebe-se que time mesmo que é bom, nada! Nenhum. Comentários, suposições, interrogações, exclamações, espantos... nada respondia ao: – o que acontece? geral.


Ilustração: Rose Araújo

Como seria difícil as torcidas acreditarem na evaporação dos atletas, os que foram investigar os vestiários trouxeram os uniformes para provar que os mesmos estavam ocos. Não havia vivalma nos bastidores do campo. Ainda a perplexidade era total. Um minuto de silêncio. Dois. Olhares incrédulos. Cada um perguntando a si mesmo que raio de absurdo era aquele? Diante do mistério, ninguém sabia o que fazer. De repente, depois de uma rápida confabulação daqueles mesmos fanáticos torcedores no centro do gramado, rompe agitação e frenesi. Os que confabularam curiosamente começam a vestir os uniformes dos times e se posicionam no campo, cada um em uma posição: zagueiro, meia, atacante, goleiro... Tinham acabado de decidir sobre um racha. O momento era de muita euforia entre eles. Rapidamente se organizaram, mais ou menos 30 de cada lado. Gordo, alto, velho, magro, baixo, jovem, homem e mulher, todos queriam estar na pele do time. A ideia do racha conquistava o estádio que aplaudia. Muitos dos que estavam nas arquibancadas também fizeram suas escalações – montavam seus times ali mesmo e desciam para o gramado – afinal envergar a camisa do clube do coração, sem ser na guerra de torcidas, sempre foi o sonho de todos. E aquilo era muito diferente de uma pelada na várzea com fardamento idêntico. Era jogo oficial, um clássico! Merecia ser jogado por todos. A solução negociada foi: 3-vira-6-acaba para que todos pudessem jogar. Claro, quem quisesse. Jogaram 23 contra 23, 31 contra 31, 44 contra 44... até todos serem contemplados. Tudo na mais perfeita ordem e disciplina de federação. Muitos não conseguiram aproximação com a bola, mas isso não incomodava nada. O simples fato de vestir a camisa que o ídolo veste, valia mais do que ter metido o pé na bola. Não há a menor dúvida de que aquele se tornaria o maior clássico da história dos dois clubes.

A tarde de domingo ganhava ares majestáticos. A sensação de que as horas não escoavam fazia com que o prazer da vida fosse mais denso e colocava o mundo gostosamente de cabeça para baixo. Se um dia algo assim semelhante acontecesse, seria uma justa homenagem ao destinatário principal do esporte bretão, aquele que de fato tinge seu coração com as cores do time, quem realmente sofre ou se emociona com o futebol clube - o fiel torcedor. Nunca é demais lembrar que futebol não se equaciona apenas através do binômio jogador/bola, futebol é tríade - jogador/bola/torcedor. Sem o terceiro elemento pode haver jogo, mas certamente não haverá paixão.

E aquilo era muito diferente de uma pelada na várzea com fardamento idêntico. Era jogo oficial, um clássico! Merecia ser jogado por todos.

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Indolência Guerino Capalbo

Theodoro José Papa

Minha SELEÇÃO jamais esquecida Em tempos de escalações das seleções do mundial de futebol, faço singela relação de pessoas que conheci pessoalmente, e tenho certeza, fizeram e fazem de Ribeirão Preto um lugar muito melhor para se viver. Você ao ler a minha escolha deverá pensar: Eu também tenho a minha !!! Faça a sua e envie para meu e-mail que postarei na página da Revista “O Berro” no Facebook, ok?! Então vamos lá... 1) - Guerino Capalbo (livreiro) 2) - Fiúca Carminitti (acolhedora) 3) - Oswaldo (prático Farmácia São José) 4) - Angelim Copeddê (esportista) 5) - Leonor Mertilha Costa (educadora) 6) - Theodoro José Papa (espiritualista) 7) - Sgto. Nélio (oficial do Exército) 8) - Virgilio Simionatto (servidor público) 9) - Mauricio Augusto Costa (jornalista) 10) - Manoel Gabarra (médico) 11) - Wilson Roveri (radialista) Não incluí na lista meus pais. Lúcio Lívio Mendes

Dona Fiúca

Wilson Roveri

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Hoje ando sempre com uma nota separada no bolso. Enquanto me houver condições, guardarei uma nota aleatória no bolso. Aleatória até por não me dar ao luxo de mensurar o quanto é necessário para uma noite. Mas sim, enquanto os ventos me forem favoráveis, para evitar a melancolia advinda de um desafeto com o Ego, andarei com uma nota no bolso. Boa vacina. Havia era bebido boas. Com velhos amigos, novos amigos. E foi no metrô. Voltando para casa num mais desses dias de cerveja durante as aulas, e lá que foi. Voltava falador, explanando os desdobramentos de alguma explicação sobre qualquer coisa. E todos ouvindo feito houvesse secular sapiência em minhas palavras. E contudo o discurso se deu pela metade. No metrô nunca se sabe quando se precisa ir. E dissipar toda a conversa de pouquíssimo outrora, remoendo na solitária lembrança os até então últimos momentos vividos com a pessoa: companheira de metrô. Acontece geralmente é no Paraíso. E desço na outra estação, que estava cheia de gente. Onze horas não é mais horário de tanta gente. Desci do trem e havia mais que tudo isso aí de gente dita. Cada um indo pra cada outro lugar. Todos terrivelmente juntos em suas distâncias. E já virando o corredor pude ouvir os versos do violino. Pelas escadas rolantes, então! Nem se fala... Só se ouve. Na escada automática, tomado por uma emoção proporcional à cerveja, tentei puxar do bolso uma moeda de um real. Mísera moeda, que jogaria no chão para o músico se virar depois. Porque eu me virava. E foi que houve. Houve que veio uma moeda de vinte e cinco centavos. Indigna ao músico, entretanto, comparada ao prazer de ouvir-lhe o violino, quase virginal. Com rapidez, puxei outra moeda. Vinte e cinco centavos novamente. E tinha certeza da de um real. A impaciência tentou trazer à proa outra moeda, apostando no irremediável momento final, quando já do descer da escada rolante e do começar a andar novamente, rumo ao conforto do que se chama de cama. E foi de cinco centavos. E só. Já via as feições do músico, seu estojo aberto, ao léu do chão sujo. Sua boina. Sua nobreza em gestos, de emocionar a surdez. Dado o fim de uma escada rolante, sempre temos de voltar a andar. E a emoção que antes me enternecia, fatigava-me as costas. Fatigavam-me as pessoas pela rua, andando. E falando, mastigando. A miséria escancarada nos filmes piratas, no cheiro de milho verde misturado ao de yakissoba, no rosto das vedetes antigas, com novos batons, novas maquiagens. Infelizmente, todas as noites com novos batons ao ponto de ônibus. E as tristonhas vozes gradualmentalmente diminuídas. Tanto diminuídas de só e somente restar o ensurdecedor som de meus passos, empobrecendo o silêncio da noite – cobertor de alguns sonos à calçada. Incontornáveis passos. Irredutíveis passos irracionais. E os pés, que impassíveis seguiram adiante, juntos das mãos: ao bolso, na vergonha de oferecer somente as três moedas menores. Na vergonha da indolência. À música, não lhe eram dignas, pois. Desci da escada rolante e – assim simples – continuei andando. Um transeunte aos olhos estrangeiros. E meus olhos úmidos de completa compreensão não me impediram de continuar andando. Andando. E logo a tristeza desse andar me bolinou, como um vento forte. Pornograficamente. Ígor Moreno Ferreira


Rua Marcondes Salgado, 629 - Centro - Ribeirรฃo Preto - SP

(16) 3635-6400

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Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura, Programa de Ação Cultural 2012

Agradecimentos

Ao Governo do Estado de São Paulo e à Secretaria do Estado da Cultura, que através do Programa de Ação Cultural - ProAC apoiaram este projeto. E aos patrocinadores e apoiadores que viabilizaram a execução da revista.


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