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Lembranças de uma noite Kristi Gold

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Estava escrito nas estrelas... Andréa Hamilton jamais esqueceu a noite que passou com o seu grande amor sob um céu estrelado. Agora Sam está de volta - mais charmoso do que nunca - e acaba de comprar em um leilão os serviços de treinadora de cavalos oferecidos por Andréa. A grande novidade, entretanto, não é o retorno de Sam, mas o fato de que ele é um príncipe árabe! Embora sete anos tenham se passado, Samir ainda deseja a mulher que ele teve de abandonar para cumprir seu dever real. E agora que ele sabe que os dois têm um filho juntos, Sam jura não abandonar Andréa outra vez. E está disposto a arriscar muito mais do que sua herança para se perder novamente nos braços da mulher que ama...

Disponibilização: Rita Digitalização: Simoninha Revisão: Rosana P. Projeto Revisoras

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Lembranças de uma noite Kristi Gold PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Copyright © 2003 by Kristi Goldberg Título original: THE SHEIKH'S BIDDING TRADUÇÃO Simone do Vale Editoração Eletrônica: IGRAFFICCI Tel.: (55 21) 2213-0794 Impressão: RR DONNELLEY MOORE Tel.: (55 11)2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para todo Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ - 20563-900. Tel.: (55 21) 3879-7766 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4o andar. São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ - 20921-380. Caixa Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ - 20220-971.

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Lembranças de uma noite Kristi Gold Um

— Quem dá o primeiro lance pela mocinha? Andréa Hamilton se revirou nervosa no pequeno palco, instalado no centro da arena da fazenda Winwood, ostentando seu único vestido e um sorriso tímido. Não gostou de ser chamada de "mocinha", mas lembrou que o leilão era por uma boa causa, e por isso concordara em doar dois meses de serviços de adestramento de cavalos. — Vamos lá! — intercedeu o pregoeiro. — Dêem uma chance. Ela é boa. — Em quê? — gritou um bêbado de smoking. O olhar severo de Andréa não pareceu perturbá-lo. Quase no final do evento, os retardatários continuavam zanzando, sem prestar atenção quando seu nome foi anunciado novamente. E se nem oferecessem o mínimo? — Quinhentos dólares! — bradou o bêbado. Podia ser pior, ela pensou. — Cinqüenta mil. De súbito, a massa foi silenciada pela voz retumbante que ofereceu o lance astronômico. Andréa paralisou boquiaberta, incapaz de discernir quem fizera tal oferta. — Dou-lhe uma, dou-lhe duas! Vendida para o cavalheiro no portão! Espichou o pescoço para ver o arrematante misterioso, mas era pequena e só captou o vulto do homem saindo, num traje árabe tradicional. Realeza, supôs. Nada incomum nos círculos hípicos. Talvez possuísse mais dinheiro que juízo. Ou intenções duvidosas. Esperava que compreendesse haver comprado apenas sua perícia de adestradora. Se contava com outros préstimos, ficaria desapontado. Não pretendia deixá-lo se aproximar nem por cinqüenta milhões. Resmungando um agradecimento ao leiloeiro, saiu dali o mais rápido que os saltos permitiram e abriu caminho na multidão. Fugiu para a noite morna do Kentucky, grata por abandonar a rica sociedade hípica - sem falar no bêbado. Agora podia ir para casa e deixar o arrematante fantasma para amanhã. Quando alcançou o estacionamento, um homem imponente de terno escuro bloqueou seu caminho. — Senhorita Hamilton, o Sheik gostaria de lhe falar. Projeto Revisoras

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— Desculpe? — Foi ele quem comprou seus serviços. — O homem apontou para uma limusine preta, que abarcava um bom pedaço da calçada. Impossível, não entraria num carro com um estranho, mesmo com um príncipe que investiu alta soma para ajudar uma clínica pediátrica. Vasculhou a bolsa e sacou um cartão. — Tome. Peça que ligue na segunda. — Insiste em vê-la agora. Sua paciência se dispersou na brisa. — Veja, insisto que não estou interessada. Por favor, diga que aprecio o gesto e anseio por encontrá-lo logo, mas não agora. O homem continuou impassível. — Ele disse que, se complicasse as coisas, eu deveria apresentar-lhe uma pergunta. Quanto mais insólito isso ficaria? — Que pergunta? Ele desviou o olhar um instante, único indício de desconforto na expressão imperturbável. — O Sheik pergunta se ainda pendura os sonhos nas estrelas? O coração saltou até a garganta e disparou frenético. Vivíssimas lembranças a carregaram num turbilhão para sete anos atrás. Lembranças de um despertar sensual, que começou com tragédia e culminou em êxtase. Um momento especial, um homem inesquecível. Um amor de verdade. Por que você pendura seus sonhos nas estrelas, Andréa? Por que não escolhe algo mais real? Naquela noite, essa voz ressoou sedutoramente perigosa. Naquela noite, quando o procurou cheia de tristeza foi largada sozinha, salvo pelo presente valioso que a lembraria o que nunca poderia ser seu. Um calafrio percorreu seu corpo. — E o nome desse homem? — indagou, temendo saber a resposta. — Sheik Samir Yaman. Só o conhecia como Sam e sabia da fortuna, mas ignorava o título. Ele era o melhor amigo do seu irmão na faculdade, e de tanto passar os dias na casa deles, acabou adotado como parente. Andréa era a adolescente caída pelo exótico rapaz "mais velho" que a provocava impiedosamente, Projeto Revisoras

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porque a via como "a irmã caçula de Paul". Até aquela noite, semanas antes dela completar 18 anos, quando uma tragédia gerou uma nova vida. Ironicamente, poucas horas antes, uma outra vida se perdera. Mas isso foi há séculos, e não queria exumar a dor ou encará-la outra vez, certa de que corria sério risco, tanto pelo coração quanto pelo segredo que escondia. O homem escancarou a porta do carro. — Senhorita Hamilton? — Eu não... — Entre, Andréa. O timbre gutural da voz magnética a moveu mesmo contra vontade. De repente, se viu escorregar para dentro como se não controlasse o corpo. Desde que o conhecera, ele a mantinha cativa com seu charme, o jeito descontraído, o ar de mistério e, às vezes, o toque de sua pele. Uma luz se acendeu, iluminando um homem reclinado no assento de couro que era tudo menos um estranho. O coração batia numa cadência furiosa, como se quisesse escapar dali tanto quanto ela. Mesmo assim, Andréa se manteve calada e quieta, contemplando aqueles olhos intensos. Retirou o kaffiyeh da cabeça para provar que era o homem que ela conhecera anos atrás. Não exatamente o mesmo. Havia mudanças sutis, trazidas pela maturidade, mas impossível negar que ainda era bonito, os mesmos cabelos negros descendo encaracolados pela nuca, o mesmo queixo, a mesma boca maravilhosa, agora emoldurada por vastas costeletas escuras. Embora os olhos quase negros se mantivessem impenetráveis como sempre, pareciam sem o brilho de antes. Imaginou como não estariam os seus refletindo seu choque e um certo desencanto. Esforçou-se para manter-se calma. — O que faz aqui Sam? O sorriso impactante contrastou com a pele cor de caramelo, revelando a covinha que vincava a face esquerda. Entretanto, parecia lutar contra o sorriso, tanto quanto Andréa lutava contra sua reação a ele. — Faz tempo que ninguém me chama assim. — Apontou para o frigobar. — Gostaria de beber algo? Beber? Quer dizer que ele pretendia deslizar de volta para sua vida assim, cheio de gentilezas, depois de sete anos? Agarrou-se à raiva súbita como se fosse uma âncora naquele mar de emoções. Projeto Revisoras

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— Não quero beber. Quero saber por que veio. Não ouço uma palavra de você desde o enterro de Paul. Sam revirou no assento. — Foi necessário. Tive deveres a cumprir em meu país. E nenhum para com ela, concluiu Andréa. — Por que não contou que era um Sheik? — Faria diferença? Entenderia o que isso implica? Provavelmente, não. Porém, isso não mudava o fato de ele haver desaparecido sem explicação. Além do status de Sam, Andréa se esforçou para compreender um conceito que lhe era tão alheio quanto as roupas que ele vestia agora. — Então por que voltou? — Porque não poderia permitir que outro dia se passasse sem vê-la. Andréa abominou o lampejo de esperança no coração. — Bem, isso é ótimo. O que esperava conseguir depois de tanto tempo? Despiu a veste que distinguia a realeza e a jogou de lado, expondo a camisa branca feita sob medida. Andréa não pôde deixar de notar a largura do peito e os pêlos negros revelados pelo colarinho aberto. O charmoso universitário transformara-se num homem magnífico. E seria sábio ignorar tais diferenças, com o desejo espreitando seu corpo, traiçoeiro. Sam passou a mão no queixo. — Preciso saber se o que descobri é verdade. Uma punhalada de medo estocou o peito de Andréa. — E o que seria? Fixou os olhos sérios nos dela. — Sei que teve dificuldades com a fazenda. Pensei em oferecer ajuda financeira, mas seria orgulhosa demais para aceitar. O alívio substituiu o medo. Talvez não soubesse tudo. — Não preciso da sua ajuda, financeira ou outra qualquer. — Está certa disso? — Sim. — Mas nunca se casou. — Não estou interessada em procurar marido — disse, quando a verdade é que ninguém Projeto Revisoras

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chegou perto de se igualar a Sam. Ninguém a afetara com a mesma magia. Dizia a si própria que eram fantasias de menina, que não deveriam existir agora. Todavia, tentar esquecer Sam, como era estar nos braços dele, não funcionou. Ninguém nunca se comparou. Ninguém provavelmente o faria. Vê-lo outra vez despertou a dolorosa verdade. Saber o que Sam era apenas fortaleceu a certeza de que jamais faria parte do mundo dele. — Tenho outra pergunta — falou Sam, calmamente. Andréa temia tais perguntas, o poder que Sam ainda exercia sobre ela. — Se diz respeito ao passado, não quero saber. Acabou. — Não acabou. — O rosto dele se equilibrava no limiar da ira quando Sam cravou os olhos nela. — Como vai seu filho? O medo floresceu novamente. — Como sabe sobre ele? — Tenho meios para descobrir qualquer coisa sobre qualquer um. Dane-se essa arrogância. — Meu filho está ótimo, obrigada. — E o pai? A bílis subiu pela garganta. O terror lacrou os pulmões. Mas o desvelo pela criança foi maior. — Ele é meu filho. — Ele tem que ter um pai, Andréa. — O pai não está presente. Nunca esteve. — Ele é meu, não é? Oh, céus, e agora? Sam teria voltado para reclamar a criança? Não permitiria isso, não sem luta. — Esta conversa está encerrada. — Muito longe disso. — O que deseja de mim? — Saber por que nunca me contou. Andréa soltou uma risada falsa para disfarçar a ansiedade. — Como poderia? Você desapareceu sem deixar um número de telefone, ou qualquer Projeto Revisoras

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meio de entrar em contato. — Então admite que sou o pai? — Não admito nada. Isso não importa, Sheik Yaman. O passado já era. Não quero relembrar tudo de novo. — Nosso filho é o que importa. Precisamos resolver isso. Logo. Andréa abriu a porta e tentou sair, mas não antes dele tomar sua mão e anunciar: — Entrarei em contato. Sentiu um formigamento onde os dedos de Sam se apertaram nos seus e condoeu-se quando viu tristeza na expressão dele, como só vira antes numa outra ocasião. Mas esse arroubo de vulnerabilidade logo desapareceu, e os olhos de Sam emergiram em águas misteriosas que ameaçavam tragar Andréa para profundezas sombrias. Sam deslizou a ponta do dedo lentamente pela sua palma, lembrando Andréa daquela noite, quando seu toque magistral a fez implorar que ele não parasse jamais. Ela soltou a mão e correu para a caminhonete, tão rápido quanto os saltos permitiram. Correu do medo de Sam pretender levar seu filho, fugiu do amor que nunca morrera. Contudo, no coração, sabia que jamais escaparia de Samir Yaman, nem se ele a abandonasse outra vez. Sam sentou-se sozinho na escuridão, cercado pelo luxo da suíte do hotel. Precisava de uma bebida, mas não ousou ceder à ânsia, não agora que precisava da mente lúcida. De fato, não tocava em álcool desde aquela noite - a noite em que cometera dois graves erros. Depois de tanto tempo, ainda se sentia culpado pela morte do melhor amigo. Só percebeu tarde demais que deveria ter segurado a bebedeira de Paul na noite da formatura, mas decidiu deixar Paul gozar da liberdade tão duramente conquistada desde a morte do pai, devido à responsabilidade colocada sobre ele. Essa liberdade lhe custou a própria vida, e Sam ainda pagava o preço da sua decisão errada. E se ao menos não houvesse procurado Andréa quando deixou o hospital, sabendo que Paul não sobrevivera. Se tivesse esperado até o amanhecer em vez de segui-la até o lago. Se não houvesse esquecido que ela era só uma garota que precisava de consolo. Ceder ao desejo foi o segundo erro. Foi incapaz de resistir, pela própria necessidade de esquecer, ou porque ela sempre foi sua maior fraqueza. Ainda era. Projeto Revisoras

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Reconheceu isso logo que a avistou diante do público, trajando um vestido negro que revelava as curvas femininas. Altiva, até ninguém oferecer um lance decente - por isso ele decidiu remediar a situação. Fechou os olhos para bloquear as visões de Andréa que lhe abrasavam a mente, uma chama que não se extinguiu desde que a abandonara, no dia que enterraram Paul. Por mais que tentasse, se recusavam a desaparecer, forçando-o a admitir o que sempre soube - que o tempo e a distância não mudaram nada. Os olhos azuis, os cabelos longos da cor do crepúsculo no deserto. Imaginou se ainda possuía um espírito indômito, uma paixão inegável pela vida, atributos que o atraíram desde o início. Entretanto, pressentiu a raiva quando ela entrou no carro, ódio até. Não podia culpá-la. Às vezes, odiava a si mesmo. Desde o retorno a Barak, cuidou para que Rashid, seu guarda e confidente, discretamente acompanhasse a vida de Andréa o máximo possível. Mas meses atrás, quando planejava a viagem para os EUA, Rashid revelou que Andréa tinha um filho de seis anos. Sabia que o menino era dele. A sincronia era coincidente demais para ser ignorada. Pretendia providenciar que as necessidades dele fossem atendidas, embora jamais pudesse assumi-lo, ou Andréa. Nunca poderia lhe contar tudo o que sentia. Falar das vezes em que considerou desistir da riqueza para reencontrá-la. Andréa jamais saberia que nenhum dia se passou sem que não a desejasse. Sheik Samir Yaman, primogênito do soberano de Barak, herdeiro do seu legado, atado aos deveres para com a família e ao casamento de conveniência com uma mulher que nunca tocou. Que jamais amaria, pois o coração sempre pertenceria àquela que não poderia ter - Andréa Hamilton. — Mamãe! Tem um carro preto grande chegando! Andréa parou, os braços abarrotados de roupas separadas para a excursão. Esperava que Sam aguardasse até amanhã. Se ao menos houvesse tirado Chance de casa mais cedo. — Saia da janela. Ele irradiou confusão dos olhos escuros. — Por quê? — Porque não é bonito encarar estranhos, ora. Chance ignorou. Projeto Revisoras

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— Ele tem uma toalha na cabeça. — Chance Samuel Paul Hamilton, venha cá agora mesmo. Com um suspiro, Chance se arrastou até ela. — Só quero ver o homem. A última coisa que Andréa queria, por enquanto. Preferia manter Sam afastado até pôr o filho a caminho. Então cuidaria das perguntas que certamente viriam - ou exigências, conforme o caso. Enfiou as roupas na mochila e ordenou: — Pegue a escova de dentes e ponha no saco plástico no banheiro com os remédios. Os lábios de Chance murcharam num beicinho. — Aí posso falar com ele? — Não sei o que ele quer. — Sabia exatamente que Sam queria ver o filho. — Certamente já terá partido antes que você termine de arrumar a bagagem. — Vou me apressar! — Dito isso, disparou pelo corredor. Andréa foi atrás, aliviada pelo menino seguir para o banheiro do corredor, e não do térreo. Era bem-comportado, embora fosse obstinado. Tornou-se assim naturalmente, acreditava ela. A campainha soou, despertando Andréa. — Eu atendo! — Ouviu do térreo. — Eu atendo, Tess — gritou, esperando impedir a tia. — Santo Deus! Sam! Tarde demais. Devia ter prevenido Tess que receberiam visitas, e que visita seria. Devagar, desceu a escada até a sala onde estavam Tess, o guarda-costas e o pai de seu filho. Sam ergueu o olhar e encontrou o dela. Andréa temeu avançar mais, especialmente porque Sam continuava fitando-a, como se pudesse ver todos os segredos que guardava no coração. Tess abriu um sorriso. — Veja só o que a maré trouxe. É o nosso Sam. Nosso Sam. Que esquisito isso soou. Era assim que o chamavam antigamente. Mas Sam não lhe pertencia. Além daquela única noite, nunca foi seu, e nunca seria. — Pensei que ligaria antes. — E estragar a surpresa? — disse ele, com um sorriso cínico. Projeto Revisoras

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— Que roupa é essa? — indagou Tess, examinando a túnica de Sam. Enfim ele desviou os olhos, permitindo que ela soltasse a respiração. — Minha camisa-de-força. — Você não parece maluco — respondeu Tess. — Parece um buraco nas nuvens depois da tempestade. Venha cá e me dê um abraço. Sam obedeceu, erguendo Tess no ar como fazia antes. — Não teria um gole daquele seu famoso café? Tess o contemplou radiante. — Sabe que sempre tenho um bule cheio. Vamos até a cozinha. O guarda-costas permaneceu junto à porta enquanto Andréa acompanhou Tess e Sam. Tess serviu uma xícara de café e disse: — Vou subir e olhar o menino. Aproveitem a visita. — Afastou-se apressada, deixando Andréa sozinha para enfrentar o passado. Sam tomou a cadeira onde sempre sentou às refeições. Andréa não quis sentar, ressentida por Sam ter-se acomodado como se planejasse demorar. Salvo as roupas, parecia em casa, como se nunca houvesse partido. Mas partiu, e Andréa mal podia crer que Tess reagiu como se estivesse ausente há uma semana. Porém, Tess sempre amou Sam como amava ela e Paul. E Chance. — Mamãe? O olhar de Andréa desviou-se para a porta do corredor de onde o filho admirava o fascinante desconhecido. Tess sumiu, fazendo Andréa concluir que havia um dedo da tia neste encontro espontâneo entre pai e filho. Não sabia o que fazer. Mas se não agisse naturalmente, Chance perceberia que havia algo errado, e não queria assustá-lo. — Venha cá, anjinho. Andréa pousou as mãos nos seus ombros. — Querido, esse é o Senhor Yaman. Andréa imediatamente sentiu o deslumbre nos olhos de Sam, a emoção em admirar o filho. Chance era um reflexo da imagem do pai. Não havia sentido em negar a verdade. — Me chamo Samir — falou, sorrindo para a criança. — Mas pode me chamar de Sam. Chance ficou boquiaberto. — Parece o meu nome, na parte do Sam. Eu me chamo Chance Samuel Paul Hamilton. Tia Projeto Revisoras

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Tess me chama de Toquinho. — Soou como se isso fosse totalmente desagradável. — É um nome forte. — Sam olhou para Andréa, que captou outro vislumbre de tristeza. Provavelmente pensava em Paul, ou no quanto perdeu da vida de Chance. Não podia permitir que isso a balançasse. Precisava continuar forte pelo bem do filho. Tess reapareceu. — Não se assuste, Toquinho. Aperte a mão dele. É um velho amigo. Chance consultou Andréa com os olhos e então aceitou a mão oferecida pelo pai. O sorriso de Sam era de orgulho. Andréa não podia culpá-lo. Sentia-se assim em relação ao menino desde seu nascimento. Após um cumprimento exagerado, Chance perguntou: — O que é isso na sua cabeça? — É um kaffiyeh — respondeu Sam. — Para que serve? — Faz parte da minha indumentária oficial. Venho de um país longínquo. Sou um Sheik. — Macacos me mordam! — resmungou Tess. Chance ainda parecia confuso. — Um Sheik? — Um príncipe — explicou Andréa, grata por Sam não anunciar que era pai do garoto. — Como o Pequeno Príncipe? Andréa sorriu. — Mais como Alladin. — Oh! — Chance fitou Sam demoradamente. — Você tem um tapete voador? Sam gargalhou. — Infelizmente não tenho um tapete mágico. — Só um carro preto grande — lamentou Chance, desapontado. Andréa o tomou pela mão, determinada a conduzi-lo para fora antes que fizesse mais perguntas. — Querido, é hora de ir. Senão vai perder o ônibus. Surpreendentemente, Chance parecia desapontado por deixar o novo amigo. Atazanou Andréa por semanas, por causa do acampamento de férias e agora, com o ônibus na porta, nem parecia ligar. Projeto Revisoras

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— Posso conversar mais com o príncipe? — Quanto tempo vai passar nesse acampamento? — indagou Sam. — Duas semanas — respondeu Andréa pelo filho. — Prometo que estarei aqui quando voltar — garantiu Sam. O sorriso de Chance revelou a covinha, outro indício de sua descendência. — Posso andar no seu carro quando voltar? — Claro. Andréa guiou Chance até a porta. — Vamos. — Mais uma coisa — disse Sam. — Que coisa? — ela perguntou, sem saber se queria mesmo ouvir a resposta. — Estarei aqui quando voltar. Exatamente o que ela mais ansiava no passado e o que mais temia hoje.

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Já havia visto as ruínas de Roma, a Sacré-Coeur de Montmartre, em Paris, a Acrópoles, em Atenas. Entretanto, tais experiências empalideceram comparadas a contemplar o filho pela primeira vez. Agora Sam só podia sentar calado, agarrado ao desejo de recapturar os anos e vivenciar cada um dos primeiros passos do filho. Mas seria impossível, e não existiriam horas suficientes para compensar o tempo perdido. — Você está bem? Ergueu o olhar do café intocado e encontrou o olhar carinhoso de Tess. — Tão bem quanto se poderia esperar. — Imagino que descobrir sobre o garoto chocou você. — Sabia antes de chegar. Tess arregalou os olhos. — Sabia? — Andréa não contou que conversamos ontem à noite, depois do leilão? — Droga, não contou. Só contou que algum sujeito pagou uma montanha de dinheiro para que treinasse o cavalo dele. — Fui eu. Um pequeno preço a pagar pela oportunidade de conhecer meu filho. — E de estar novamente na presença de Andréa. Talvez estivesse se torturando, sabendo que jamais poderia tocar, abraçar ou fazer amor com ela. Certas coisas não mudam com o tempo. — Desde quando? — indagou Tess. — Descobri há poucos meses, quando soube que iria voltar. Fiz alguém investigar Andréa. Não sabia ao certo se era meu filho até falar com ela. — Ela admitiu que você é o pai? — Não, mas suspeitei pela idade dele e pelo pouco que ela falou. Não tive dúvidas quando o vi. — Sam pôs a xícara de lado. — Há quanto tempo você sabe? Tess suspirou. — Sabia que havia algo errado com Andréa depois da morte de Paul, algo além da perda do irmão. Enfim, a incomodei o suficiente para contar que estava grávida. Tentou me convencer que saiu com algum rapaz da cidade, mas quando Chance nasceu, tive certeza que era seu. Projeto Revisoras

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A culpa esmurrou Sam no estômago. — Foi na noite que Paul morreu, Tess. Procuramos consolo um no outro. Nunca antes estivemos tão carentes. Sei que isso não me redime, mas quero que saiba que jamais pretendi que acontecesse. — Sei que não. Também sei que Andréa ficou com os olhos presos em você no minuto em que entrou por esta porta da primeira vez. Juntando isso ao desgosto pela morte do irmão, não é nada surpreendente. — Isso não justifica meu comportamento, minha falha em protegê-la, — respondeu Sam, inflexível. — Eu jamais deveria ter permitido que acontecesse. Tess pousou a mão no ombro dele. — Tarde demais para se preocupar com o que deveria ter feito. A questão é, o que vai fazer agora? Sam sabia o que queria. E o que não podia. Não podia se envolver com Andréa de novo sabendo o que enfrentaria em casa. Também não podia abandonar o menino. — Gostaria de aproveitar o mês que passarei aqui para conhecer meu filho. Tess emburrou. — Então vai tentar compensar seis anos em poucas semanas? — Suponho que sim. Também quero abrir uma poupança para me certificar que as necessidades dele serão atendidas. Tess o encarou. — Vamos deixar uma coisa clara, senhor Sheik. Andréa trabalhou como o diabo para atender às necessidades do menino. Depois que o dinheiro do seguro de vida acabou ano passado, ela domou cavalos que ninguém mais queria, sob o risco de se ferir, só para pôr comida na mesa. Fiz a minha parte também, e pode apostar que Chance tem sido feliz, exceto pela diabete. Um pânico cáustico assomou Sam. — Diabete? — É. Imagino que Andréa não se preocupou em contar. O acampamento é um programa de verão para crianças diabéticas. Andréa quase morreu para deixá-lo ir, mas concluiu que lhe faria bem. — Desde quando ele tem diabete? — Foi diagnosticada há cerca de um ano. Mas ele ficou bem depois de alguns Projeto Revisoras

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contratempos. É um soldadinho normal. Sentiu uma dor esmagadora pelo filho, uma necessidade de levar aquela dor embora, se ao menos pudesse. — Se eu soubesse, teria feito mais. Teria mandado Chance aos melhores médicos, aos melhores hospitais. — E isso não teria mudado nada. É prisioneiro dessa doença, e só podemos rezar para que algum dia encontrem uma cura. Enquanto isso, planejamos tratá-lo como um garoto normal. Ou pelo menos tentar. Andréa é muito protetora. Isso ele já percebera. — Com o meu dinheiro, ela terá maior liberdade financeira. — Não vai aceitar seu dinheiro. — Não vai recusar desde que saiba que tenho os melhores interesses de nosso filho no coração. — Talvez, mas você a magoou um bocado sumindo e rompendo relações. Não sei como vai contornar isso. Nem Sam, mas precisava tentar. — Depois que conversarmos mais, espero chegar a um entendimento. Tess contemplou a xícara antes de erguer os olhos novamente. — Bom, se quer passar algum tempo com Chance, acho que é uma boa idéia, significa que precisará ficar por perto. Então vai ficar aqui conosco. Secretamente Sam admitiu que pensara nisso, viver no lugar que considerava seu verdadeiro lar na América, mas não podia imaginar a reação de Andréa. — Duvido que sua sobrinha vá concordar com esse plano. — Deixe que cuido dela. Sugiro que entre naquele carro e pule fora daqui para pegar suas coisas. Ela não chegará em menos de uma hora, porque vai parar na loja de ração. Isso deve dar tempo suficiente para se instalar. Pode ficar com o meu quarto. Vou para a caserna. — Com o senhor Parker? Tess alisou o cabelo grisalho. — Não. Riley está trabalhando para outra pessoa porque Andréa não conseguiu dinheiro para mantê-lo. Ele ainda aparece de vez em quando. Sam sorriu quando a face aflita de Tess enrubesceu. Projeto Revisoras

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— Ainda para propor casamento? — Ainda, todo dia, mas estou velha demais para pensar nisso. — Mas não velha demais para...? — Sam deixou as palavras carregarem uma interrogação, incapaz de resistir a provocá-la um pouco. — Velha demais para um bom e antiquado rala-e-rola? Ninguém está velho demais para isso. Não quando se trata de alguém que a gente gosta. Imagens se infiltraram na mente de Sam, visões dele fazendo amor com Andréa, vendo satisfação nos olhos dela, não tristeza ou ódio. Mas não podia pensar em nada tão tolo, por mais que ansiasse por isso. — Talvez devesse esperar até Chance voltar — sugeriu, se seria aconselhável ficar sozinho na casa com Andréa. Tess deu de ombros. — Sim, mas calculo que enquanto estiver aqui, podia dar uma mãozinha. O lugar está caindo aos pedaços, especialmente o celeiro. Seria bom se ajudasse a ajeitar um pouco. Poderia usar o tempo antes de Chance voltar para fazer isso. Ao menos manteria as mãos ocupadas durante o dia. Mas durante a noite... — Ficaria feliz em fazer isso. Devo admitir, senti falta do trabalho manual enquanto estive longe. Tess olhou desconfiada. — Sabe, fico surpresa que nenhuma garota tenha agarrado você. Sam se encolheu mentalmente. — Devo casar no fim do verão. — Andréa sabe? — No semblante, Tess disfarçou bem o choque que repercutiu na sua voz. — Não. Prefiro não falar nisso. Tess foi se reabastecer de café. — Suponho que saiba o que faz. Sabia exatamente o que estava fazendo — entrando numa união com uma mulher por quem não sentia nada, apenas uma aliança que beneficiaria ambas as famílias. Uma vida que suscitava uma irrisória promessa de satisfação, em nome da produção de um herdeiro com sangue real. Projeto Revisoras

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— Não tenho escolha no caso. Tess trouxe a xícara de volta para a mesa e retomou seu lugar, fitando-o intensamente. — Errado. A vida é feita de escolhas. Poderá viver com esta? Até voltar para Andréa, havia decidido aceitar o destino. Agora que a viu de novo, não estava mais certo. Não podia pensar nisso agora. Primeiro, precisava considerar o bem-estar da criança, criar memórias que durassem o resto da vida. E para conseguir esta oportunidade, tinha de convencer Andréa a confiar nele novamente. Andréa não confiava em Sam ou nas suas intenções. Pior, não confiava cm si mesma perto dele. Hoje já chorara demais só de ver o filho partir pela primeira vez. Não tinha certeza se possuía força bastante para enfrentar o pai dele. Mas precisava enfrentar Sam. O bem-estar de Chance era da máxima importância, e pretendia descobrir o que Sam planejava nesse sentido. Estacionou a caminhonete atrás da limusine e saltou, se enchendo de coragem. O guardacostas estava sentado no balanço da varanda, parecia sério, de braços cruzados. Quando se aproximou, ele ficou de pé. Ela estendeu a mão. — Não gravei seu nome. Ele observou a mão dela e relutantemente a tomou para um cumprimento breve. — Rashid. — Prazer em conhecê-lo, Sr. Rashid. Seja bem-vindo se quiser entrar. — É melhor permanecer aqui para permitir à senhorita e ao Sheik alguma privacidade. — À vontade, mas isso não vai demorar. Rashid efetuou uma mesura. — Como queira, Srta. Hamilton. Andréa escancarou a porta, pronta para encarar o que viesse pela frente, embora não estivesse pronta para Sam sentado no sofá da sala, folheando um álbum contendo fotografias de Chance. Tão absorto na tarefa, nem se incomodou em erguer o olhar. A distração deu a Andréa a chance de estudá-lo. Sam apoiou o álbum na perna e sorriu. O sorriso esvaeceu e a expressão tornou-se melancólica. Andréa dispersou as emoções traiçoeiras, os remorsos. Projeto Revisoras

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Quando se sentiu mais relaxada, sentou-se ao lado dele no sofá. — Foi um lindo bebê. Sobressaltado, Sam apagou a ternura das feições, que não abandonou seus olhos por completo. — Foi mesmo. Andréa tentou manter-se o mais longe possível. Quantas vezes sonhou com isso? Quantas vezes torceu para que regressasse? E agora que o momento chegou, não sabia como lidar com ele. — Por que decidiu chamá-lo de Chance? — Pode se dizer que ele foi a minha chance de ter alguém para me amar. — A chance de ter uma parte de Sam consigo para sempre. Apontou um retrato de Chance no primeiro aniversário, com um monte de glacê na cabeça. — Ele entrou naquele bolo. Se lambuzou mais do que comeu. Sam virou a página para uma foto de Chance num pônei. — Ele herdou o amor da mãe por cavalos. — Sim. É Scamp. Ainda está conosco, embora eu não saiba por quanto tempo. Tem vinte anos. Não sei o que faremos quando a perdermos. — Comprarei outra. — Certas coisas são insubstituíveis. Sam manteve a atenção concentrada na foto. — Aprendi que isso é verdade. Agora parecia uma boa hora para confessar sua preocupação. — Não posso deixar que o tire de mim. Ele fechou o álbum, e inclinou-se para frente, mas desistiu de olhar nos olhos de Andréa. — É o que pensa que vim fazer? — É isso? — O lugar dele é aqui, com você. Embora soasse sincero, as dúvidas ainda a rondavam. — Agora que o viu, vai virar as costas e partir? Sam encarou-a com olhos flamejantes. — Não pretendo virar as costas para ele. Abrirei uma conta bancária para pagar as Projeto Revisoras

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despesas. Os custos médicos têm sido um estorvo, segundo Tess. Maldita Tess. — Estou conseguindo pagar as contas aos poucos. Não é preciso que nos dê dinheiro. As feições dele se suavizaram. — Insisto que me deixe fazer isso por ele. Por você. — Pensarei no assunto. — Mas não por si mesma. Afinal, Sam tinha obrigações com o filho. Sem mencionar que o Sheik provavelmente possuía uma fortuna. Por Chance, colocaria o orgulho de lado e permitiria que Sam os ajudasse. Sam andou até a prateleira e passou o dedo pelo topo da moldura que guardava um retrato recente de Chance, como se tentasse se conectar com a criança que conhecera há algumas horas. — Sabem por que Chance tem diabete? — Não. Simplesmente surgiu. — E ele passa bem? — Na maior parte do tempo, agora que temos insulina e uma dieta balanceada. É tão corajoso. Nem reclama quando toma as injeções. — Odeio que ele tenha sofrido. — Voltando a atenção para o retrato, suspirou. — Ele perguntou sobre mim? Andréa levantou. — Sim, várias vezes nos últimos anos. — E o que lhe contou? — Disse que não pôde ficar, que vivia distante em outra terra. Que o amava e que ficaria conosco se pudesse. Sam a encarou. — Então não mentiu. — Não? Ele baixou os olhos. — É verdade. E agora que o vi, morreria antes de deixar qualquer mal lhe acontecer. Andréa engoliu em seco. — Fico feliz que se sinta assim, mas também estou preocupada com o que vamos contar. Sam elevou os olhos escuros até Andréa. Projeto Revisoras

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— Você decide, mas gostaria que soubesse que sou seu pai. Num mundo ideal, seria uma boa idéia. Mas esta não era de modo algum a situação ideal. E depois? Ok, Chance, sou seu pai, mas lamento, tenho que voltar às minhas obrigações reais. — Posso voltar para visitá-lo nas férias. — Seria o bastante para ele? Sam passou a mão pela nuca. — Você desistiria da oportunidade de passar um tempo com Paul e seu pai, mesmo sabendo que seriam tirados de você depois? Andréa amaldiçoou a lógica dele. — É diferente. Você se ausentou por opção. — Às vezes as opções não nos cabem. — Não sei se Chance compreenderá por que sua posição tem precedência sobre ele. Com o tempo se ressentirá. — Como a mãe? — indagou Sam. Andréa admitia que se magoara com a partida de Sam. Ele gerara com ela uma criança e a deixara criar o filho sozinha, e lidar com o peso da morte do irmão sozinha. Não podia censurá-lo, ao menos em relação à Chance, porque ele soubera do menino senão agora. Sentia-se confusa, mas precisava fazer o que fosse melhor para todos, mesmo se isto incluísse oferecer trégua. — Superei o ressentimento. — Mas nunca vai me perdoar, vai? — Perdoei você. — Até certo ponto. Os olhos dele ganharam um brilho de satisfação. — Fico feliz. Só espero merecer sua confiança. Isso seria mais complicado. Ainda temia que Sam mudasse de idéia e tentasse levar o filho consigo, especialmente depois de conhecê-lo. Contudo, estava disposta a dar a ele o benefício da dúvida, pelo menos por hora. — Então vai ficar? — Aqui. — Como? — Tess achou melhor que eu ficasse por perto. Trouxe parte das minhas coisas e Projeto Revisoras

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mandarei Rashid de volta para o hotel em Lexington. Andréa lutou contra a apreensão. Se ficassem sob o mesmo teto, não poderia evitá-lo. E com o filho longe, receou ser incapaz de resistir. — Acho que deve esperar Chance voltar para se instalar. — Prometi a Tess que ajudaria nos reparos, antes dele voltar. Tess. Sempre pensando em tudo. — A ajuda seria útil — admitiu Andréa. Um pouco de coragem também. Como num teste de resistência, Sam tomou sua mão, e um calor lhe percorreu o corpo inteiro. Um simples toque, e Andréa já se sentia perdendo o controle. Mas precisava provar a si mesma e a Sam que se tornara mais forte - que as fantasias coloridas da garota não existiam mais na realidade da mulher. Armou seu melhor sorriso e abriu os braços. — Bem-vindo ao lar. Sam olhou Andréa da cabeça aos pés até aceitar o abraço. Sentiu-se bem junto dela. Andréa lembrou como era maravilhoso abraçá-lo, seu perfume, o calor de seu corpo. Perplexa com a própria reação, Andréa se afastou. Tudo que ela mais temia se concretizava. Nada mudara. Sam lhe deu um beijo terno na face e a fitou com aqueles olhos misteriosos. — É bom estar em casa. Se ao menos fosse mesmo sua casa, pensou Sam, ao entrar no estábulo. Um local onde passara tantas horas com Paul e Andréa ajudando na rotina diária, lavando os cavalos do pai deles e outros que apareciam, graças a uma jovem que não sabia dizer não. Hoje, apenas quatro baias estavam ocupadas, uma delas pelo pônei de Chance. Precisava ajudar Andréa a adquirir cavalos para adestrar. Possuía um dom para escolher campeões. De fato, no leilão soube de uma potranca promissora. Um telefonema e seria sua, embora custasse meio milhão de dólares. Não importava. Afinal, pagara pelos serviços de Andréa. Mas primeiro tinha de consertar as baias. Revirou o depósito de ferramentas atrás de martelo e pregos, e começou a reformar o estábulo. Acertou o polegar com o martelo, mas engoliu a dor. Há anos não fazia nada além de serviços burocráticos, pois o trabalho manual era degradante para a realeza. Projeto Revisoras

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— Que diabos está fazendo? Andréa o encarou como se tivesse presas. Não tinha presas, só dois pregos na boca. — Estou consertando as baias antes que aconteça um acidente. — Considerando suas deploráveis habilidades, um acidente bem poderia acontecer. A ele. — Não há cavalo nenhum nessa baia, e duvido que vá haver. Sam fixou um dos pregos na madeira. — Engana-se. — Como assim? Enxugou o suor da testa. — Comprei uma potranca. — Ou compraria até o fim do dia. — Paguei uma quantia obscena pelos seus serviços, e espero cobrá-los. Gostaria de cobrar várias coisas, nenhuma a ver com sua perícia profissional. Não tirava os olhos daquela camiseta surrada, ou do jeans aderente às curvas dos quadris como uma segunda pele. Seu corpo despertou, clamando por um desejo há muito adiado. Andréa encostou-se na baia. — Pretende mesmo que eu treine seu cavalo? — Exato. — Quis avisar Andréa que, se soubesse o que era melhor para ambos, usaria sutiã. — E quando chega? — Em dois dias. Tempo suficiente para consertar a baia. Andréa sorriu encantada. — Planeja fazer isso com essas suas roupas caras? Sam espiou as calças e a camisa. — Amanhã vou comprar algo mais adequado. — Rashid não pode fazer isso? — Mandei-o ao hotel administrar as ligações. Prefiro que ninguém saiba onde estou. — Assim evitaria as perguntas do pai. — Posso encontrar algo para você vestir. Sam deixou os olhos perscrutarem Andréa e notou os mamilos excitados sob a camiseta. — Duvido que eu caiba no seu jeans. Ela cruzou os braços no peito, para seu alívio e desapontamento. Projeto Revisoras

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— Meu não. Você deixou um jeans aqui. Está no sótão. — Intacto? — Sim. Mas, claro, você era mais magro. — Mais magro? Andréa olhou longamente o corpo dele. — Está um bocado mais cheio. E em lugares muito óbvios. Para evitar o constrangimento, Sam virou de costas. — Me dê um minuto e vamos lá. — Por que não agora? — Andréa indagou confusa. Evidentemente, ela ainda era um tanto ingênua. — Prefiro não parar o que estou fazendo. — E também preferiria segurar seu desejo por Andréa, mas duvidava que isso acontecesse de repente - se é que aconteceria.

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Três Sentada no chão do sótão, Andréa tirou o jeans da arca onde guardava as relíquias especiais - as roupas de bebê de Chance, algumas coisas de Paul, tesouros dos quais não suportaria se separar. Lutou contra as lágrimas, já com saudades do filho. Já com saudades de Sam. Revirou a pilha na arca, encontrando a camisa de futebol número sete de Paul. O sete da sorte, dizia. Se ao menos a sorte houvesse prevalecido, antes de ser arrancado da vida dela, sem jamais conhecer Chance. Se Paul não tivesse morrido, talvez as coisas fossem diferentes. Provavelmente não teria feito amor com Sam. E não teria Chance. Não imaginava a vida sem o filho. Mas mesmo se Paul sobrevivesse, Sam retornaria ao seu país. Largando a camisa na arca, pegou a calça e apertou-a contra o coração. — Que estúpida — resmungou. — Louca por um homem que não pode ter. Pare de pensar nele. Pare! — Achou o que procurava? Ainda aninhando o jeans nos braços, Andréa se aprumou. De costas para a porta, apenas podia torcer que Sam não houvesse testemunhado aquela tolice. Com alívio, percebeu os olhos dele focalizados na arca, e não nela. Sam avançou com as mãos nos bolsos, então pairou sobre Andréa como um monumento imponente de beleza máscula. Acenou a cabeça na direção da camisa de jérsei no topo dos outros objetos. — Lembro com freqüência de Paul usando isso. Andréa mudou para onde podia observar Sam melhor. Ele escondia as emoções atrás de uma fachada de aço, aqueles olhos impenetráveis. Providenciou outra recordação. — Lembra disso? Projeto Revisoras

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Sam apanhou a bola de baseball, girando-a com os dedos fortes. O semblante suavizou com a lembrança. — Muito bem. Meu primeiro jogo na liga profissional. Em abril, no ano que conheci Paul. — E Paul apanhou a bola após correr as bases duas vezes. Sam sorriu. —Não foi bem assim. Na verdade, ele fez uma falta e não um ponto. Mas Paul certamente achava que a outra versão era mais favorável. Andréa riu. — Era bem próprio dele, inventar algo mais interessante. — Exato. — O tom de Sam soou triste como seus olhos. Quando tentou devolver a bola, Andréa impediu. — Guarde com você. — Não poderia... — Paul gostaria que ficasse com ela. Afinal, vocês não se preocupavam em me levar junto, então por que iria querer isso? O sorriso reapareceu. — Não levávamos porque Paul temia que me distraísse no jogo. — Não! — Talvez ele não, mas eu temia, por isso não encorajava a sua presença. O rosto de Andréa enrubesceu. — Sempre sedutor — murmurou. — Você era muito perturbadora. Ainda é. Determinada a desviar o assunto, deu uma palmadinha no piso de madeira. — Sente aqui. Tenho outra coisa para você. Sam juntou-se a Andréa. Ela alcançou o canto da arca e encontrou o presente onde o deixara anos atrás. O embrulho estava amarelado, a fita azul meio amolecida. Enfiado sob o laço, um envelope dizia "Sam, o Cara". — É o presente de formatura de Paul para você. Achei no quarto dele. Sam acomodou o presente no colo. Andréa notou um tremor ligeiro nos seus dedos quando abriu o envelope e sacou o cartão. Enquanto lia, seu semblante adquiriu uma dor tão intensa que roubou a respiração dela. Projeto Revisoras

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— O que diz? — perguntou. Sam entregou-lhe o cartão e Andréa, também, leu em silêncio. "Oi, Sam: Só uma lembrancinha para você levar para casa. Mandaria Andréa junto, mas ela só lhe daria desgosto. Por isso vou guardá-la aqui, a menos que decida voltar e tirá-la de mim. Se qualquer coisa me acontecer, cuide dela. Ela merece ser feliz. Seu parceiro, Paul." Lágrimas arderam nos olhos de Andréa. O peito se apertou da tristeza que guardara por tanto tempo. — Ele sabia — ela disse, a voz vacilante no esforço de controlar a maré de emoções. — Sabia o quê? — Quando estávamos limpando as coisas dele, também encontramos presentes de Natal, para mim e para Tess. Paul nunca fazia compras antes da véspera de Natal. Sabia o que aconteceria. Sam suspirou. — Paul não tiraria a própria vida. — Não é o que digo. Tess chama isso de intuição dos "anjos". A faculdade de prever o próprio destino. — E acredita nisso? — Penso que tudo é possível. — Ou pensou algum dia. Andréa espiou o pacote fechado. — Não vai abrir? Ele cuidadosamente rasgou o papel, revelando uma foto emoldurada que Tess tirara de Andréa entre Sam e Paul, os três exibindo sorrisos brilhantes nas faces sujas de terra, resultado de uma guerra de lama. Pareciam tão felizes. Se soubessem o que o futuro lhes reservava. Se tivessem brincado um pouco mais, se agarrado um ao outro com mais força, dito o que sentiam... Andréa não mais conteve as lágrimas. Elas caíam insistentemente, rolavam pelas faces e pela camiseta. Sam passou os braços fortes em volta dela, amortecendo os soluços contra o peito sólido. Andréa não queria precisar do seu consolo, mas precisava. Precisava dele. Secando o rosto, Andréa o beijou no queixo, sabendo que Sam poderia rejeitar o gesto. Contudo, Sam não a repeliu. Em vez disso, aninhou seu rosto entre as mãos e a beijou. Toda a tristeza se dissolveu e o desejo tomou seu lugar, como antes. Oh, como ela se lembrava disso, a persuasão gentil, o deslizar suave da língua dele, a Projeto Revisoras

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sensação aveludada dos seus lábios, a habilidade extraordinária. Ninguém mais a beijou desse jeito. Ninguém. Sam abruptamente interrompeu o beijo e levantou. — Sinto muito — disse, falando como príncipe e não como homem. Sentiu-se envergonhada. Olhou a foto e o cartão, lembranças de que o beijo emergiu da pena, não do desejo. Embora estivessem num sótão empoeirado, não à beira de um lago, a história parecia se repetir. — Isso não pode acontecer de novo — anunciou Sam, então saiu apressadamente sem a calça, o presente ou a bola. Deixou-a sozinha sem saber o que fazer a respeito dele. Ela concordava, caso pretendesse proteger o coração. Recolheu o jeans e deitou a foto e o cartão em cima, depois, pensando melhor, apanhou a bola de baseball. Desceu correndo, encontrando Sam no corredor. — Tome — ela disse, oferecendo o jeans. — Talvez ainda sirva. Sam a encarou. — Duvido que sirvam, ao menos agora. Quando sua confusão amainou, Andréa notou a evidência sob a calça, declarando sonoramente que Sam não fora insensível ao beijo. Contemplou os olhos constrangidos dele e surpreendeu-se ao ver que guardavam o mesmo desejo da noite em que fizeram amor. Podia ser a resposta. Se fizesse amor com Sam, talvez conseguisse extirpá-lo do seu âmago, descobrir que as lembranças eram meras fantasias de uma garota. Não amor, só carência. Duvidava que Sam fosse atendê-la logo, mas não significava que não pudesse persuadi-lo. Cravou o jeans e a foto no peito de Sam, forçando-o a recebê-los. Então, com uma coragem que desconhecia, rolou a bola lentamente pelo cós e enfiou no bolso dele. Passou um dedo sobre a saliência abaixo do cinto. — Se precisar de ajuda, me diga. Depois correu sem olhar para trás. Antes de chegar à porta, ouviu o que soou como uma bola de basebol estalando no gesso, e calculou que marcara um ponto. Tentaria deixá-lo louco de desejo, conduzi-lo aos seus braços. E, mais importante, lembrar que pretendia dar adeus a Sam, de uma vez por todas. Sam sentou-se à mesa da cozinha, exausto pelo trabalho árduo e pela falta de sono. Projeto Revisoras

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Depois do jeito como Andréa o tocou dois dias antes, do beijo, da promessa nas palavras dela, passou as noites insone, alarmado a cada ruído, temendo que Andréa viesse e que não fosse capaz de dissuadi-la. Todavia, Andréa mal conversou com ele. Não podia evitá-la agora, especialmente porque o espiava, revirando os ovos mexidos no prato. Flagrou-se contemplando a boca de Andréa várias vezes. Tudo nela o fascinava, do salpico de sardas no nariz ao fogo nos olhos, que obrigava seu coração a retumbar num ritmo assustador. Tentou escutar o barulho do caminhão que traria o cavalo, mas não conseguiu se concentrar. Antes, Troubles, o cão da família, alertaria todo mundo. Estranho, não havia dado falta do cão. — Onde está Troubles? Tess falou com um pedaço de torrada na boca. — Acabou embaixo de um pneu há dois anos. — E não arrumaram outro? — Não tive tempo — redargüiu Andréa, já de pé. Ou dinheiro, pensou Sam. — Posso providenciar um. Andréa recolheu os pratos. — Com o trânsito da estrada, temo que perderemos outro cachorro, e não quero que Chance sofra novamente. Sam detestou a idéia de o filho padecer tamanha perda, mas começava a entender que a perda é uma parte da vida que não pode ser evitada. — Ele lembra? Tess limpou a boca com um guardanapo. — Lembra, mas superou. Andréa dissera que Troubles estava com o tio Paul, pulando de estrela em estrela. Obviamente, Andréa ainda nutria um fascínio pelas estrelas. Na noite em que Paul morreu, insistiu que a mais brilhante guardava a sua alma, e que devia pendurar os sonhos nela por segurança. Naquele momento, Sam compreendeu que o amor por Andréa era infinito como as estrelas. Fazer amor com ela foi um meio natural de demonstrar, já que nunca lhe contara. O motor do caminhão arrancou Sam dos devaneios e o trouxe de volta ao presente. — São eles? — O entusiasmo emergiu no arregalar dos olhos azuis. — Vamos ver. Projeto Revisoras

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Antes que Sam se mexesse, Andréa disparou porta afora. — Juro — falou Tess, rindo. — Nada a excita mais que um bom cavalo. Sam sabia o que mais a excitava. Contudo, seria prudente tirar isso da cabeça. — Espero que esse não a desaponte. Tess deu um sorriso maroto. — Duvido que fique desapontada. Aposto que você cuidará disso, se já não cuidou. Sam ignorou a insinuação e saiu. Nada o deixava mais feliz do que agradar Andréa de todas as formas. Porém, precisava optar por providenciar uma potranca campeã, ou repetiria os erros passados. Encontrou Andréa na traseira do trailer e esperou que descarregassem a potranca. Estava apreensivo, pois jamais comprara um cavalo sem ver. Mas quando o homem a conduziu pela rampa, Sam reconheceu que se tratava de um tesouro, como Andréa, que com um olhar deslumbrado nos olhos observava a potranca empinar agitada. — Ela é inacreditável — elogiou Andréa. — Devo concordar. O homem ergueu o arreio no ar. — É toda sua. Como Andréa hesitasse, Sam perguntou: — O que está esperando? Ela tomou o arreio, então permitiu que a potranca cheirasse sua mão antes de acariciá-la atrás das orelhas. Como se percebesse que encontrou uma amiga, o animal acalmou-se, aceitando o carinho sem protestar. — Como se chama? — indagou Andréa. — Seu nome registrado é Renner's Sun Godess — respondeu o homem. — Sunny, então. — Andréa guiou a potranca rumo ao estábulo. — Vou colocá-la na pista e ver como se sai — anunciou. — Bom — falou Sam. — Encontro você num minuto. Quando Sam terminou de assinar a papelada, Andréa já estava exercitando Sunny na arena. Sam observou cavalo e treinadora em ação. O rabo e a crina dourados de Sunny ondulavam em movimentos fluidos. O cabelo vermelho-fogo de Andréa fremia na brisa, a cor Projeto Revisoras

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muito próxima da pelagem do cavalo. Juntas, formavam um par perfeito, um tributo à beleza. Agora Sam tinha a oportunidade de observar Andréa sem que ela notasse. Havia amadurecido como mulher em todos os sentidos, e isso despertou um ardor na barriga que não tinha nada a ver com o sol do Kentucky. Vestia uma camiseta azul-celeste que mal tocava o jeans, perfeitamente ajustado a cada curva do corpo. Quando levantou o braço, Sam flagrou um vislumbre de carne na cintura. Imaginou como seria ter as mãos ali, mais embaixo, em torno das ancas e puxá-la contra si, para que Andréa soubesse o quanto o excitava. Estava excitado agora, e há dois miseráveis dias, sem nenhum alívio para aquele tormento, a menos... Não, não poderia agir movido pelo desejo. Apesar de Andréa haver oferecido assistência nesse departamento. Andréa se voltou para ele e gritou: — Sunny é uma campeã. Seu sorriso vibrante o fez sorrir também. E Sam pensou em meios de lhe oferecer mais satisfação, que os deixariam ofegantes, saciados... O som de cascalho atraiu a atenção dele para a estrada. Um caminhão estacionou perto do curral e um homem vestindo trajes de vaqueiro saltou. Sem ser convidado, abriu o portão e se uniu a Andréa. Sam não ouviu a conversa, mas presumiu que falavam da potranca. Então risadas cúmplices flutuaram na brisa, e o homem chegou mais perto de Andréa. Perto demais. Abominou tal intimidade, ainda mais quando o vaqueiro deu uma palmadinha no traseiro de Andréa. Custou a Sam muita força para não sair atrás do idiota de punhos cerrados. Felizmente, o sujeito saiu antes que perdesse a cabeça. Não tinha por que intervir. Andréa podia fazer o que bem entendesse. Contudo, não conseguiu controlar a raiva, enquanto acompanhava Andréa e o cavalo até o estábulo. O balanço das ancas de Andréa só alimentou sua cólera. Assim que entraram, Andréa soltou Sunny na baia e saiu, carregando um balde. Sam não conseguiu mais se conter: — Quem era aquele sujeito? Andréa começou a encher o balde. — Caleb? É um amigo. — Só amigo? Projeto Revisoras

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— O cavalo baio no fim da aléia é dele. — Está dizendo que o único interesse dele é profissional? — Claro. — Ainda é tão ingênua? Andréa fechou a cara. — Por quê? — Ele a vê como mulher. Ela revirou os olhos. — Caleb quer que eu treine o cavalo e só. — Ele quer você. — Que diabos fez você pensar assim? — O modo como a tocou. Não reparou quando ele botou a mão no seu... traseiro? Quando Andréa riu, a ira de Sam relampejou. — Acha engraçado? — Suas suspeitas são ridículas — respondeu Andréa. — Minhas observações são incontestáveis. — Parece um namorado ciumento. Sam não se conteve. — Ele é seu namorado? Os olhos dela se aguçaram de raiva. — Não é da sua conta. Sam insistiu, descontrolado. — É? — Passou todos esses anos em celibato? — A questão não é essa. — É sim. Se vai se meter na minha vida, posso me intrometer na sua. — Receio pelo nosso filho — afirmou, agarrando qualquer coisa para não ter que admitir que houve outras mulheres, mas não tantas como Andréa devia pensar, e nenhuma que se comparasse a ela. — Temo aqueles que não planejam tratar Chance apropriadamente. — Quer saber, namorei dois homens, mas Chance não gostou deles. É o teste. Satisfeito? Só uma coisa iria satisfazê-lo, beijar até fazer aqueles lábios derreterem sob os seus. Projeto Revisoras

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— Obviamente, esse Caleb é o próximo da fila. — Sua imaginação está fora de controle. Andréa o deixava louco. Queria tocá-la e não ousava mais que um conselho. — Sugiro que passe a considerar seu modo de vestir. — É o que uso todo dia. Jeans e camiseta. — Jeans apertado e uma camiseta muito curta. — O olhar de Sam pairou sobre os seios. — Não usa sutiã. Como pode esperar que um homem ignore isso? Andréa esticou a barra da camiseta. — É cobertura suficiente. — Isso mostra demais — Sam suspirou sem querer. — Não vejo tudo isso. Mas obrigada. — Está enganada. — Essa camiseta velha faz seu sangue ferver? Não podia negar. — É praticamente transparente. Andréa ergueu o balde. Derramou a água no peito e exibiu os seios. — Isso é transparente. Sam contemplou os contornos escuros dos mamilos através do tecido. As mãos se abriram e fecharam no ímpeto de tocá-la. — Gosta do que vê? — provocou, num desafio a que ele não ousava responder. Mas não pôde conter a reação. Antes que pudesse sequer pensar seu corpo já imprensava Andréa contra a baia. Tomou-lhe a boca sem medir conseqüências, arremeteu a língua entre os lábios entreabertos com a força do desejo, enquanto sob o tecido molhado as mãos buscavam agarrar os seios. Andréa gemeu quando ele acariciou cada mamilo. Seus quadris mexiam num ritmo nervoso e deixaram Sam rijo e ávido. Queria possuí-la ali e agora. Assim que ela ergueu os braços, Sam arrancou a camiseta, trilhando o vale entre os seios com beijos molhados. Andréa curvou-se para trás, o peito arfando em sincronia com o coração acelerado de Sam, até que a respiração cessou quando ele tomou um dos bicos em sua boca. Perdido no gosto da carne úmida, na sensação da suavidade dela em sua língua, Sam mal reparou na mão que lhe abria o zíper. Segurou o pulso de Andréa. — Não! — Afastou-se, com medo de não conseguir se segurar. Arrancando a própria Projeto Revisoras

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camisa, estendeu a peça sobre Andréa. — Vista isto. — Mas... — Vista. Quando enfim ela aceitou, o peito de Sam ardia pelo esforço de acalmar o corpo. Felizmente, Andréa atendeu ao pedido. — Prometi a mim mesmo que isso não aconteceria — disse com a voz densa de desejo. — Não seria a primeira promessa que quebraria. — Que outra promessa quebrei? — Aquela noite no lago, prometeu que não me deixaria. — Quis dizer naquela noite, não para sempre. Sam compreendeu no que a induzira a crer. — Disse muitas coisas, mas ambos estávamos sofrendo. — Perdidos um no outro, perdidos num amor proibido. — Então não era isso que queria dizer? Era, mas não se dera conta que não poderia cumprir tais promessas. — Com você nos meus braços, esqueci quem eu era. Arrependo-me por ter sido tão tolo. — Isso serve para nós dois. Exceto por uma coisa. — O que seria? — Chance. Sou grata pelo presente. Sam duvidou que pudesse se sentir mais desprezível. — Me arrependo por não haver ficado aqui com ele, ou com você. — E vai nos deixar novamente. Se arrepende disso? Mais do que ela devia saber. — Não posso viver de remorsos. Resta muito pouco tempo. — Então por que não aproveitamos esse tempo juntos? — lançou-lhe outro olhar lânguido. — Se está insinuando que devíamos fazer amor, isso seria insensato. Andréa chegou mais perto, quase o bastante para que a tocasse. Custou-lhe toda a sua dignidade não agarrá-la, para terminar o que haviam começado. — Sou adulta. Não vou desabar quando partir. — O olhar desmentiu o tom confiante. — Então, se mudar de idéia... Projeto Revisoras

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Passou por Sam, e entrou no depósito. Um instante depois, saiu e gritou: — Pegue. Confuso, Sam apanhou a bola no ar. Andréa sorriu maliciosa. — A oferta está de pé, caso decida jogar. — Fez um pivô e requebrou rumo ao celeiro. Sam arremessou a bola contra a parede outra vez, pensando em fazer o mesmo com a cabeça. Porém, mil golpes e um milhão de anos não expulsariam Andréa do seu coração.

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Lembranças de uma noite Kristi Gold Quatro

Andréa foi assaltada por um acesso de calafrios. Mas não foi o ar-condicionado da cozinha que a fez tremer, ou a pele úmida. Foi Sam. Ainda podia sentir a língua macia nos seios, as mãos ajustadas nas nádegas, o corpo intimamente apertado contra o dela. Sentiu-se febril só de pensar em Sam, na ânsia palpitante ainda por amainar. Cruzou os braços no peito, um substituto lamentável, mas precisava esconder os efeitos do interlúdio recente. Tarde demais, percebeu que não escaparia ao escrutínio da tia. Próxima a pia, Tess perscrutou Andréa dos pés à cabeça. — Não era Sam quem usava essa camisa de manhã? O calor aflorou à garganta de Andréa e se alojou na face. Sentiu-se como uma colegial flagrada de namoro no pasto. — Tive um acidente com o balde d'água. Sam me emprestou a camisa porque a minha ficou encharcada. O sorriso astucioso de Tess apareceu. — Já precisam se esfriar? Andréa suspirou. — Não deixe a imaginação correr solta, Tess. — A sua, por exemplo, estava a todo vapor. Tess amuou quando observou a boca de Andréa. — Não estou imaginando esses arranhões de barba, mocinha. Posso ser velha, mas não sou estúpida. As mãos de Andréa tremeram quando tentou encher um copo d'água. — Não falei que é estúpida. Só para não ligar para isso. — Não ligo. Apenas penso que é melhor analisar o que está fazendo, antes de cometer outro erro. Andréa fitou Tess, que parecia mais séria agora. — Não considero Chance um erro. Tess estava pronta para um sermão maternal. — Claro que não. É uma dádiva divina. Mas se envolver com Sam, sim. Ele não vai ficar desta vez, tampouco. Deve se lembrar disso. Projeto Revisoras

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Não precisava ser lembrada de que Sam partiria, em nome do dever no seu país. Também não esperava que Tess compreendesse o que planejava - fazer amor com Sam para esquecê-lo. — A propósito — disse Tess —, ligaram do acampamento. O peito de Andréa se contraiu de pânico, ela quase derrubou o copo. — Qual é o problema? — Nenhum. Ligaram para lembrar que sábado é o Dia dos Pais. Deve chegar lá às 8h30. O alívio fluiu através de Andréa. — Lembro que seria no fim de semana, mas não que precisava chegar tão cedo. Vou pedir a Sam que alimente os cavalos. — Eu alimento os cavalos. Sam deve ir também. O pânico assaltou Andréa. — Não posso fazer isso. Chance vai fazer perguntas. Ele ainda não precisa sofrer nenhum desgaste. — E quando pretende contar? Nunca? Não fora tão longe em pensamento. Mas não queria anunciar nenhuma confissão durante a primeira oportunidade do filho de estabelecer sua independência. — Não sei. Antes de Sam partir. Tess suspirou. — Você decide, mas ainda acho que Sam deve ir. — Aonde está propondo que eu vá? Andréa se sobressaltou ao escutar a voz profunda de Sam vindo detrás dela. Encurralada como um coelho acuado. Não restava escolha senão contar sobre o evento. O sorriso ensaiado de Andréa desapareceu assim que percebeu seu peito nu. Os olhos passaram pelo território marcado por músculos sinuosos e recoberto de pêlos negros. Os dedos abriram e fecharam no ímpeto de explorar, como se lhes fosse oferecido um playground masculino. No celeiro não tivera tempo de estudar esses detalhes. De fato, evitou os detalhes deliberadamente quando Sam interrompeu a sedução. Mas não podia ignorá-los agora. Esboçou um sorriso casual. — Não é nada demais. Sábado o acampamento vai promover um Dia dos Pais. As sobrancelhas arquearam. Projeto Revisoras

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— Dia dos Pais? — Você sabe, brincadeiras, churrasco. Bem maçante. — Em especial para um homem que, decerto, passava os dias num palácio suntuoso, cercado de mulheres seminuas. Andréa quase gargalhou do estereótipo absurdo, mas, em silêncio, amaldiçoou pensar que fosse uma suposição correta. Apagando tais pensamentos, notou a camiseta molhada na mão dele. — Adoraria ir — disse Sam. — Mesmo? — Sim. Seria a oportunidade de passar mais tempo com meu filho. — Exato — replicou Tess. Andréa reprimiu o ímpeto de dizer que ninguém pediu a opinião dela. — Chance pode perguntar por que você foi. As feições de Sam tornaram-se tensas. — Diga que fui como amigo. Não vou forçá-la a falar nada além disso. A mágoa na voz dele fez Andréa recuar. Já havia lhe negado muitas oportunidades, embora não intencionalmente. Afinal, foi Sam quem sumiu. Entretanto, devia considerar a oportunidade de Chance conhecer o pai. — Pensarei nisso. — E iria, longa e penosamente. Tess a abordou no corredor. — Deixarei vocês a sós para conversar. Quando Tess saiu, Sam entregou-lhe a camiseta. — Talvez queira devolver minhas roupas. Andréa não suprimiu um sorriso endiabrado. — Quer fazer isso agora? — Fazer o quê? — Trocar de camiseta. — Chegou perto bastante para tocar a pele bronzeada do peito nu. — A menos que precise de outra coisa de mim? Sam emitiu um ruído frustrante, algo entre um rosnado e um gemido. — Prefiro que pare de fazer ofertas que não posso aceitar. Determinada, Andréa deslizou um dedo entre os pêlos escuros desde o peito até o umbigo. Projeto Revisoras

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— Não pode ou não quer? — Andréa, não me sinto capaz de aceitar. Ela deu uma espiada rápida na prova de que Sam estava blefando. — A mim, você parece capaz o bastante. Sam segurou a mão de Andréa contra o abdome e sustentou o olhar fixo no dela enquanto expirava, os músculos retesados. Ela prendeu a respiração, imaginando se finalmente Sam cederia. Talvez se rendesse, sabendo que era o que ambos desejavam. Apesar de ele negar que a queria, ela não era tola a ponto de não decifrar os sinais. Os olhos dele tornaram-se sombrios, expondo o conflito entre a indecisão e o desejo. Um brilho suave de transpiração cobria seu peito e a testa. A respiração soava ofegante. — É realmente tudo que quer? — perguntou baixinho, acariciando os dedos dela. — E ficará satisfeita? — Sim — ela disse. Sam repeliu sua mão e recuou. — Talvez eu não. Se possuir você, vou querer mais, sempre, até que tenha que partir. Pergunte francamente a si mesma se vai querer fazer amor, pois nada além disso jamais existirá entre nós. Dito isso, atirou a camiseta molhada na mesa e saiu, deixando Andréa remoer a dura verdade que acabara de ouvir. Se o possuísse mais uma vez, seria o bastante? Jamais haveria tempo suficiente agora. Sam jogou o celular no sofá e entoou um rosário de palavrões. Segundo o pai, a situação atual de Barak exigia seu regresso imediato. Sam barganhou mais duas semanas em vez de quatro, sob o pretexto de precisar averiguar certos investimentos. Uma única semana com o filho. Amassou o jornal, depois ralhou consigo mesmo por agir feito uma criança malcriada. A raiva não seria útil. — Problemas? Andréa se largou no sofá, com um pijama champanhe de seda. A fragrância de orquídeas, assim como a visão de Andréa trajando roupas femininas, serviu para fazê-lo esquecer as adversidades. Todavia, se recusou a permitir que ela o distraísse. Agora que soube que devia partir mais cedo, tinham muito a conversar. — Fui convocado a voltar. Projeto Revisoras

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Os olhos azuis se arregalaram. — Esta noite? — Não, em duas semanas. Aparentando relaxar, Andréa bebericou um copo de chá gelado. — Era Rashid anunciando as boas novas? — Meu pai. Ele deseja que eu volte. Andréa emburrou. — Sempre faz o que ele manda? Sam não esperava uma pergunta direta. — Tenho obrigações. Certamente compreende, porque tem um filho. — Não vejo Chance como obrigação — retrucou irritada. — E sim como alegria. Sam olhou suas mãos, remoendo a raiva crescente. — Espera que eu ignore minhas responsabilidades? — Esperava que ser um príncipe tornasse você um pouco mais feliz. — Em que baseia essa hipótese? Andréa deu de ombros. — Não parece feliz como antes. Raramente o vi sorrir, muito menos rir. A maior parte do tempo parece sisudo demais. Não é o Sam que me lembro. Sheik Yaman substituíra o Sam que Andréa conhecera. — Aquele universitário inconseqüente não existe mais — ele disse. — Oh, creio que está aí, louco para sair. — Infelizmente, não. Andréa colocou o copo na mesinha. — Odeio pensar que é verdade. Odiaria se Chance um dia precisasse se sujeitar ao tipo de pressão que o forçasse a perder o amor pela vida. Sam também odiaria. — Duvido que algum dia perca tal atributo, considerando a mãe dele. Andréa sorriu. — Suponho que seja um elogio. — Sim, é mesmo. Admiro seu espírito livre, a paixão de viver. — E eu também admiro a sua paixão. Projeto Revisoras

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Sam presumiu que ela se referia à paixão que experimentaram um nos braços do outro. Recusou-se a percorrer a estrada do remorso, não com Andréa tão perto, parecendo a tentação encarnada. Ele não era tão forte. Pigarreou e se recostou, esperando mostrar-se relaxado quando estava tudo menos isso. — Aprendi a lidar com as exigências da minha posição social. É o que sou. — É um título, não você. Meu pai nunca tentou fazer de mim algo que eu não era. — Paul uma vez disse que seriam necessários um carregador, um cabo de aço e um carvalho para segurar você. Andréa riu, enchendo Sam de satisfação. — Um carregador, sim, disse mesmo, mas escutei você dizer pior. Sempre implicavam comigo. — Você era um alvo fácil. — Um alvo móvel, quer dizer. Especialmente quando os dois ameaçavam fazer cócegas. Sam riu das lembranças. — Você possuía joelhos sensíveis. Andréa abraçou as pernas contra o peito com firmeza. — Não ouse pensar nisso. Ele se aproximou mais, apesar da advertência. — Deve ser divertido ver se ainda é verdade. — O mesmo valentão, como antigamente. — Era o único jeito de forçar você a obedecer. O rosto dela se tornou doce, assumindo a aparência de uma mulher mais que disposta a se submeter às exigências dele. — Não era o único jeito. Sam foi arremessado de volta àquela noite no lago. Nunca outra mulher lhe dera tanto num abandono tão dócil. E considerando que ela era mais que uma garota na época, só podia imaginar como seria agora como mulher. Aproximando-se mais, Andréa tirou o cabelo de Sam da testa. — Às vezes pensa naquela noite? Não sobre Paul, mas no que aconteceu entre nós? Tais lembranças ainda lhe assombravam os sonhos quando dormia e os pensamentos quando despertava. Projeto Revisoras

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— Lembro. — Já desejou que jamais houvesse acontecido? Como poderia explicar de modo que ela entendesse? Tomou-lhe a mão e beijou. — Se pudesse voltar atrás, mudaria duas coisas. Com os dedos suaves, Andréa traçou um caminho pelo maxilar dele. — Quais seriam? — Ter salvado Paul do destino. E ficado aqui. A face dela se iluminou como se ele houvesse lhe oferecido as estrelas que guardavam seus sonhos. Andréa deu-lhe um beijo no rosto. — Obrigada. Não merecia sua gratidão. — Nada mudou. Não podemos retroceder. Vou deixar você novamente. — Podíamos compensar o tempo perdido. Quatorze dias contêm muitas horas. Não tantas o bastante, concluiu Sam. Nem distância o bastante entre eles, tampouco. Em geral era inflexível, mas Andréa podia moldá-lo como se fosse feito de barro. Conforme contemplava os lábios dela, tornou-se prisioneiro do desejo. Sam procurou a boca de Andréa para um beijo impulsionado por uma força que nem imaginava possuir. No fundo da sua alma, pensou que devia sentir alguma culpa, porque estava prometido a outra. Mas o que sentia era o calor doce da boca de Andréa, a incursão gentil da sua língua, a sensação do corpo delicado enrascado no seu, conforme aprofundava o beijo e estreitava o abraço. A paixão tão própria de Andréa emergiu nesse beijo. As mãos vagaram pelas costas dele em desenhos caprichosos. Sam encheu a mão com seus cabelos como se para ancorar a si mesmo em meio à irrupção do desejo desesperado. Quando Andréa largou uma das pernas sobre a sua coxa, Sam ajustou as mãos na cintura dela. Separaram-se por um momento, para respirar, antes que as bocas se unissem outra vez. Como seria fácil tocá-la, pensou. Como seria fácil lhe mostrar prazer. Deslizou a mão por entre as suas coxas e Andréa se contraiu, entregue. Sam compreendeu que, se continuasse, não seria capaz de parar. Jogaria fora todas as razões para evitar carregá-la para a cama e fazer amor a noite inteira. Cortando o beijo, tentou recobrar a respiração. — É difícil resistir. Projeto Revisoras

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— Então por que se atormentar? Sam perscrutou os olhos azuis. — Porque eu... — Tem que voltar para o reino encantado — ela completou, saltando para o outro lado do sofá. — Fico feliz por entender. Andréa apertou uma almofada contra os seios. — Agora que confirmou que vai embora, pela centésima vez, tomei uma decisão. — Sobre? — Pode ir comigo ao acampamento. Agradecido, Sam sorriu. — Bom. Vamos na limusine em vez daquele desastre que chama de caminhonete. Com uma das mãos, amparou a almofada que Andréa atirou nele. — O que há de errado com ela? — Nada, se quer transportar feno. Meu veículo fornece mais conforto. E se recorda, nosso filho expressou o desejo de passear nele. Andréa mordeu o lábio. — Há espaço bastante na limusine. — Sorriu. Um sorriso que, para Sam, só podia indicar confusão. — Aposto que dá até para se esticar. — Andréa — advertiu, num tom recriminatório, um grande esforço considerando a explosão de imagens de Andréa nua na limusine. Ela ergueu os braços, dando-lhe uma bela vista dos seios livres sob o cetim. — Prometo que não farei nada que não queira. Exato o que ele temia, pois sabia o que queria - fazer amor como se não houvesse amanhã. De muitas maneiras, ao menos em relação ao tempo disponível com Andréa, isso estava bem próximo da verdade. — Tem um minuto para fofocar? — perguntou Tess, no dia seguinte. Andréa desviou o olhar das coisas que recolhera para o passeio ao acampamento e dedicou sua atenção a Tess. Projeto Revisoras

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— Claro. O que há? Marchando ao largo do quarto, Tess mexeu nos objetos da escrivaninha. — Tem algo que preciso contar. Andréa se empoleirou na beira da cama, preparando-se para um sermão sobre Sam. — Ele vai comigo, se é o que a aflige. Enfim Tess a encarou. — Sei. Sam me contou. Mas não é isso. Percebendo que ela falava sério, Andréa deu uma palmadinha na coberta. — Sente e conte o que a deixou nesse estado. Tess se uniu a ela e passou um braço em torno de Andréa. — Riley me pediu em casamento. — E qual é a novidade? — Desta vez, aceitei. O coração de Andréa escureceu diante do prognóstico de perder a única pessoa com quem podia contar, seu proverbial porto na tempestade. Disfarçando o egoísmo com um sorriso, Andréa deu um tapinha na coxa de Tess: — Bem, já era hora. Tess respondeu com um aperto maternal em seu ombro. — Então tudo bem? — Quer meu consentimento? — Quero saber como se sente. Levantando da cama, Andréa sentou na escrivaninha, de costas para não se delatar. — Estou comovida — ela disse, mas não soou nem um pouco comovida. As mãos angustiadas de Tess vieram repousar em seus ombros enquanto ela tentava engolir o choro. — Sei que com Sam por aqui a ocasião parece ruim, mas Riley comprou uma daquelas casas sobre rodas e quer viajar. — Vai ficar fora muito tempo? — Muito. Gostaríamos de rodar o país, nos nossos anos dourados. Andréa arriscou outro sorriso, mas sentiu os lábios rígidos. — Parece ótimo. Projeto Revisoras

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Tess também tentou sorrir. — Nas férias de verão, você e Chance podem vir conosco. — Oh, claro. Riley adoraria nos carregar junto na lua-de-mel. — No próximo ano, bobinha. Não antes de Sam ir embora. — Por que não agora? Sam pode ser o padrinho de Riley. — A tentativa de humor soou falsa. Tess tirou seu cabelo dos ombros, um gesto tão familiar que lágrimas teimosas ameaçaram brotar. — Sua hora vai chegar, garota. Só precisa se abrir. Poderá fazer isso assim que Sam se for outra vez. Será que todos precisavam ficar lembrando a partida iminente de Sam? Estavam tão inclinados a crer que seu mundo girava em torno dele? Engoliu em seco. — Se Sam está aqui não faz diferença, exceto em relação a Chance. Não há mais nada entre nós. — Se apenas soasse mais convincente. — Sempre haverá algo entre vocês. Uma criança, e dois mundos diferentes. Ele não pôde dar o que você necessita, mas algum dia você vai encontrar alguém que possa. Quis bater o pé e praguejar. Gritar que esse homem "especial" não existia em mundo nenhum, principalmente no dela. — Estou satisfeita com a minha vida. E estou comovida por você e Riley. Foi a única mãe que conheci. Você merece toda felicidade também. Tess a envolveu num abraço. — Sempre estarei aqui, querida. — Recuou e estudou o rosto de Andréa com olhos de mãe preocupada. — Estarei aqui quando seu príncipe partir de novo. Seu príncipe. Andréa não acreditava que algum cavaleiro viria resgatá-la. Sheik Samir Yaman despedaçara tais sonhos há muito tempo. Mas não deixaria que Sam a destruísse. Como de hábito, sobreviveria. Não precisava de um príncipe, mesmo um que provavelmente amaria para sempre.

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Cinco Sam observou Andréa por cima da revista que fingia ler no trajeto até o acampamento. Felizmente, ela se recolheu cedo na noite anterior, sem menções adicionais sobre sexo. De fato, falou muito pouco mesmo. Agora estava sentada do lado oposto, retorcendo as mãos e fitando a paisagem com um olhar opaco. Curioso pelo seu silêncio atípico, Sam jogou a revista para o lado. — Teme que nosso filho tenha esquecido da mãe? Andréa voltou os olhos apreensivos para Sam. — Claro que não. Por que pensou isso? — Parece nervosa. Ajustou o elástico no cabelo. — Pode me culpar? Estou prestes a levá-lo ao acampamento. Mesmo se Chance não questionar a semelhança entre vocês, outras pessoas podem supor que é o pai dele. — Não necessariamente. — Ora, vamos. Ele é igual a você, até a bendita covinha. Sam não conseguiu conter o sorriso orgulhoso. — Ele tem o seu nariz... Andréa pôs a ponta do dedo no nariz como se para comprovar o fato. — Por enquanto, mas ainda é só um bebê. Aposto que Chance terá a sua buzina aristocrática quando for adolescente. — Buzina? — É como Chance chama os narizes. Projeto Revisoras

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— Você não aprecia o meu nariz? — Seu nariz é ótimo. Muito sofisticado. — Fico aliviado que ele mereça a sua aprovação. O sorriso de Andréa saiu da toca. — Tudo em você merece a minha aprovação. Todas as partes à vista e ocultas, ainda que faça tempo que não vejo algumas. Sam se revirou no assento e resistiu ao impulso de propor uma inspeção. Ao menos sobreviveram ao passeio sem recorrer à privacidade da limusine. Mas, na volta... — Acho que chegamos. O carro mal havia estacionado quando Andréa abriu a porta. Sam correu atrás dela, temendo ser abandonado por conta própria. Não sabia como se comportar no acampamento. Não fazia idéia de como responder às perguntas que surgissem sobre sua relação com Andréa e Chance. Simplesmente deveria deixar Andréa gerir a situação. Suspeitou que não apreciaria as explicações dela. Logo alcançou Andréa na larga cabana de cedro cercada de adultos. Uma jovem os abordou e estendeu a mão. — Oi, eu sou Trish, Srta. Hamilton. — Prazer em conhecê-la, Trish — respondeu, gentilmente. Trish prosseguiu num ritmo esfuziante. — Estamos felizes que tenha vindo. Chance está muito entusiasmado. O olhar de Andréa perambulou pelas imediações. — Onde ele está? — No restaurante, terminando o café da manhã. — Trish dirigiu o sorriso a Sam. — Deve ser o Sr. Hamilton. — É o Sr. Yaman — corrigiu Andréa, apressado — Um amigo da família. A moça pareceu confusa. — Bem, desculpe. É que Chance parece muito com ele. Andréa exibiu um sorriso nervoso. — Eu sei. Não é esquisito? Sam odiou a contestação. — Eu e o pai de Chance somos do mesmo país — interveio. Projeto Revisoras

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— Legal — respondeu Trish. Uma explosão de risadas rompeu o constrangimento, quando dezenas de crianças dispararam pela porta da cabana maior. — Mamãe! Você veio! Chance se agarrou a Andréa num abraço voraz. Ela o ergueu e o apertou firme. — Senti saudades, anjo. Está se divertindo? Ele esperneou. — Muito. Me ponha no chão, antes que os outros vejam. Andréa concordou. — Aposto que não seria legal — disse, imitando Trish. Surpreso, Chance vislumbrou Sam como se só agora notasse sua presença. — Como não contou que ia trazer o príncipe? Andréa deu uma espiada rápida em Sam e então respondeu: — Decidimos isso há poucos dias. Sam estendeu a mão. — Espero que esteja de acordo. Chance demonstrou sua aprovação com um aperto de mão caloroso. — Claro. Trouxe o carro? Sam apontou para trás. — No estacionamento. Os olhos do filho se arregalaram de fascínio. — Posso levar os garotos para dar uma volta? — Agora não — respondeu Andréa. — Talvez antes de partirmos. Agora devemos participar dos jogos. Tomou Chance pela mão e rumou em direção ao grupo de pais. Sam parou, observando mãe e filho se afastarem de mãos dadas, sem reparar que o deixavam para trás. Detestou sentir-se o intruso, e não um membro da família. Talvez fosse melhor se Chance nunca soubesse a verdade. Todavia, essa escolha seria a mais difícil. Então Chance soltou a mão de Andréa e voltou correndo para Sam. Bateu com os pés para tirar a lama dos sapatos e então encarou Sam com olhos idênticos aos dele. Projeto Revisoras

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— Posso pedir uma coisa? Sam afagou os cabelos escuros do menino. — Certamente. — É uma espécie de favor. O rosto de Sam encheu-se de doçura. — Não receie me pedir nada. — Pode fingir que é meu pai hoje? Andréa não se importou por Chance pedir a Sam para ser seu pai de "faz-de-conta". Não se importou por Sam receber toda a atenção durante as atividades. Enfim, era um príncipe. Não se importou nem mesmo por Chance apresentar Sam a todos enquanto ela parecia quase esquecida. Mas afinal, quando esfolou o joelho no jogo de softball, foi a ela que Chance pediu um beijo para passar a dor. Porém, não conseguiu evitar os ciúmes quando Chance disse a Sam que passara o melhor dia de sua vida, ainda mais divertido do que quando Andréa o inscreveu com seu pônei na parada do Dia da Independência. Como ela poderia competir? Não podia, e nem devia querer. Na verdade, devia estar comovida por pai e filho se divertirem juntos. Mas não podia ficar inteiramente feliz, sabendo que numa questão de dias Sam sairia da vida deles, antes que Chance o conhecesse de fato como pai. Enquanto Rashid manobrava a limusine numa última volta pelo estacionamento acompanhado por Sam, Chance e meia dúzia de meninos, ela aguardou pacientemente. Daria aos dois esses momentos especiais juntos, sabendo que podiam ser os últimos. O carro parou e um grupo de meninos tagarelas se juntou do lado de fora, disparando para jantar. Só Chance ficou para conversar com Sam. Quando Andréa entrou na limusine para guardar a bolsa, viu Sam explicando para Chance as mais sofisticadas questões sobre corrida de cavalos. Gozado, Chance nunca demonstrara tanto interesse nas explicações dela sobre o esporte. Aproximou-se quieta. — Hora de voltar, querido. O jantar está pronto e precisamos ir para casa. Chance a olhou com desapontamento. — Sam pode me pegar na limusine semana que vem? — Não sei, anjo. Precisa perguntar... — Farei disso um dever — intercedeu Sam. Projeto Revisoras

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Andréa agarrou Chance num abraço. — Seja bonzinho. — Serei, mamãe. — Coma direito. — Sim, mamãe. — Durma bastante e... — Posso ir agora, mãe? Estou faminto. Mãe? Desde quando parou de chamá-la de mamãe? Depois de sapecar-lhe um beijo na bochecha, Andréa soltou Chance ciente de que um dia o deixaria partir, como todos os homens da sua vida. Chance virou para Sam. — Até mais, Sr. Sheik. Sam sorriu. — Até mais. Com um último aceno, Chance correu para a cabana, levando um pedacinho do coração de Andréa consigo. Sam indicou a porta aberta. — Vamos? Andréa lançou outro olhar à cabana só para constatar que o filho desaparecera e entrou no carro. Rodaram em silêncio nos primeiros minutos, mas Sam não parava de sorrir. Andréa relutou em admitir que apreciava aquela exultação e a compreendeu. Estar com um filho é a maior experiência do mundo. — Então se divertiu? — ela indagou, num tom zombeteiro. — Muito. — Fico feliz. — Andréa hesitou, frustrada por Sam forçá-la a provocar um diálogo. — Notei que realmente apreciou a natação. — Muito. — As mulheres certamente apreciaram vê-lo nadar. Sam amuou. — Não entendi. — Vai dizer que não reparou que todas olhavam quando saiu da água como um deus árabe? Projeto Revisoras

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Sam gargalhou. — Sua imaginação só perde para o amor por cavalos. — Não estou imaginando coisas. Pensei que teria de aplicar uma ressuscitação nelas. Claro, a sunga realçou seus mais finos traços. — É decente. Preta. Adequada. — Nancy obviamente gostou dela, e de tudo o que havia dentro. Sam ergueu uma das sobrancelhas. — Nancy? — É. A mãe do pequeno Bubba. A divorciada com saltos de dez centímetros que conversou tão animada com você o dia inteiro. — Não lembro. — Oh, claro. O olhar dele percorreu Andréa, subitamente coberta por pêlos arrepiados. — Não notaria essa Nancy na sua presença. O biquíni que você usou também chamou atenção, e não só a minha. O caimento realçou suas formas. Muito boas, por sinal. Andréa quis rir. Era um biquíni relativamente decente. — Aposto que diz isso a todas no seu harém. — Não tenho um harém. Andréa ergueu as mãos, debochada. — Droga. Lá se vão as minhas fantasias. Sam esfregou a mão nas coxas, expostas pelo short. — Lamento desapontá-la. Não desapontou. Ainda. Mas a noite era uma criança, e Andréa só possuía um objetivo básico em mente - convencer Sam de que passar as próximas duas horas no carro poderia ser tedioso ou excitante, dependendo do que ambos decidissem. Com essa intenção, abanou o rosto. — Faz calor aqui, não? A expressão dele ficou tão tensa quanto o couro que revestia os bancos. — Estou confortável. — Bem, eu não. — Desabotoou a blusa e deixou que escorregasse para revelar a alça do sutiã nada confortável. — Melhorou um pouco. — Vou pedir que Rashid regule a temperatura. — Pressionando o botão do Projeto Revisoras

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intercomunicador, fez o pedido e depois se ajeitou no assento com a revista. Assim não vai dar, pensou Andréa. Sentindo-se corajosa, tocou o botão do short de brim, depois reconsiderou. — Rashid pode nos ver aqui atrás? Sam olhou desconfiado. — Não enquanto o painel de privacidade estiver fechado. Por quê? — Por nada. Sam voltou para a revista, resmungando em árabe algo que ela não compreendeu. Andréa tirou o short. Depois, desatou o sutiã e, puxando-o pelas mangas, atirou-o no chão junto com o short. Agora só vestia uma camiseta e uma calcinha sumária. Se isso não atraísse a atenção dele, duvidava que outra coisa o fizesse, salvo pendurar-se na janela nua e berrando a plenos pulmões. Como Sam não olhou, decidiu tomar as rédeas nas próprias mãos, ou qualquer outra coisa para merecer sua atenção. Suportou os olhares de soslaio dirigidos a Sam o dia todo. E precisou fingir que eram apenas velhos amigos. Cansou da pantomima porque Sam era mais que um amigo. Era pai do filho dela. Somente uma vez mais antes dele sumir de novo, desejava experimentar tudo o que ele tinha a oferecer, se apenas conseguisse convencê-lo a cooperar. De joelhos, Andréa engatinhou até a outra ponta do assento e se ajeitou entre as pernas de Sam. Quando ele olhou, Andréa percebeu a surpresa em seus olhos. Tomou a revista das mãos dele e depois deslizou os dedos pelo short caqui de Sam. — Essa revista é tão interessante que não pode me dar um pouco do seu tempo? Sam a encarou com olhos sombrios. — Meu tempo é tudo que quer? Se é, não precisa se arrastar de joelhos. — Não me aprecia de joelhos? — ela perguntou, com um sorriso insinuante nos lábios. O olhar de Sam resvalou na blusa aberta que deixava entrever os seios. — Gostaria que retomasse ao seu lugar e pusesse as roupas de novo antes que eu... As palavras se prolongaram, levando Andréa a crer que Sam vislumbrava as mesmas idéias travessas. — Antes que você o quê? — Antes que Rashid a veja. Andréa amuou. Projeto Revisoras

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— Pensei que ele não pudesse enxergar com o painel levantado. — Creio que não, mas nunca andei na cabine dianteira para testar os méritos do painel. O lado malicioso de Andréa aflorou, e ela subiu no assento e sentou-se nas coxas de Sam. — Por que não esperar o melhor? Afinal, sempre poderá dizer que tinha algo no seu olho e que ajudei a remover. Sam passou as mãos na cintura dela. — Duvido que Rashid acredite numa desculpa tão esfarrapada. — Aposto que Rashid provavelmente já viu de tudo. — O que está dizendo? — Você agarrando outras mulheres em alguma festinha. — Uso o carro para assuntos de negócios e só. Com a língua, Andréa percorreu a orelha dele e sussurrou: — Então vamos direto aos negócios. — Por que está tão obstinada? Encarou o olhar enevoado de Sam, determinada a fazer valer sua vontade. — Preciso saber se só imaginei o que me fez sentir, ou se é porque não há mesmo com quem compará-lo. — Deslizou a ponta da língua pelos lábios de Sam. Sam apertou sua cintura, e os olhos se tornaram quase negros. — Deseja me comparar com outros homens? Foram tantos assim? Apenas um, um breve caso desapontador, mas expor o fato não ajudaria sua causa. — Minhas recordações talvez sejam inexatas. — Mas você disse que não quer ressuscitar o passado. — Estou dizendo que preciso que refresque minha memória agora. —Avançou sobre ele, sentindo uma leve ondulação sob as nádegas. — É um camelo no seu bolso, ou está feliz em me ver? Sam sorriu. — Você é diabólica. — Não sabe o quanto, mas ficarei feliz em mostrar. A indecisão pelejava na expressão dele. Andréa viu que Sam perdeu a batalha quando ele soltou a respiração sufocada. — Talvez deva lhe mostrar umas coisinhas. Projeto Revisoras

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Baixando as mãos até seus quadris, Sam apertou Andréa até fazê-la sentir toda sua exuberância. Ele a fazia mover-se para cima e para baixo sobre si com tamanha suavidade e ardor erótico que se produziu um fluxo úmido de calor onde os corpos se tocavam. — Lembro muito daquela noite — disse, num sussurro sensual. — Lembro da sua aparência inocente. De sentir sua pele sob as minhas mãos. Passou as mãos por baixo da calcinha e apalpou as nádegas. — Lembra quando toquei você assim? — perguntou, enquanto continuava esfregando os quadris dela contra si, num ritmo constante. Andréa fechou os olhos. — Talvez. Faminta de amor, saboreou a sensação da boca de Sam quando beijou seus seios, roçando o mamilo com a língua apenas o suficiente para excitá-lo. — Lembro dos seus gemidos de prazer quando a beijava assim e o quanto me implorou para continuar. Estava prestes a implorar mais, caso ele ousasse parar. — Está começando a clarear, mas detalhes extras seriam úteis. — Na verdade, não esquecera detalhe nenhum. Sam começou a mover os quadris em sincronia com os dela, aumentando o contato entre os corpos que se encaixavam perfeitamente. — Lembro de como foi corajosa, como ignorou a dor. A dor não foi nada comparada ao prazer. Que a tomava, agora enquanto Sam continuava com os movimentos eróticos, o algodão se esfregando contra a seda, criando uma sensação deliciosa no ponto mais carente da atenção dele. Sam abriu mais dois botões da blusa e uma lufada fria de ar fluiu sobre seus seios nus. Andréa manteve os olhos cerrados, embalada pela voz sensual de Sam. — Lembro o quanto tremeu. Como seu corpo era quente, úmido e macio. Lembro que fiquei completamente perdido por você. Andréa ficou perdida também. Rapidamente perdeu a consciência outra vez, em especial quando Sam colheu o seio inteiro em sua boca, mexendo a língua em torno da carne sequiosa. — Olhe para mim — ele disse com firmeza e doçura. Ela abriu os olhos devagar e viu que a fitava intensamente. — Lembra como foi ficar tão perto? Projeto Revisoras

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Sam empinou a pélvis, fazendo Andréa ofegar. — Sim, lembro — ela respondeu com firmeza. — Lembra o que eu disse? Andréa mal conseguia respirar, quanto mais pensar. — Diga de novo como se eu não lembrasse. — Disse que nunca desejei tanto uma mulher. Palavras coerentes quando o gozo dele veio a arrastando junto num movimento irresistível até o clímax sem que ele sequer precisasse usar as mãos. E, oh, era isso que ela mais queria, enquanto Sam continuava a invadi-la com palavras e movimentos impetuosos. — E enquanto gozava, você gritou meu nome. E, de novo, foi o que ela fez, quando o prazer a subjugou inteiramente. Tombou sobre o peito largo de Sam e estremeceu, rente ao coração dele, que retumbava numa cadência constante. Quando o mundo enfim entrou em foco, sentiu-se envergonhada. — Sem dúvida Rashid ouviu tudo — afirmou rindo. — Sente-se inclinada a gritar outra vez? Conseguiu balançar a cabeça, ainda emudecida. — Estimulei suas memórias adequadamente? — ele perguntou num tom de vaidosa ironia. Fez muito mais que isso. — Até a última. — Bom. — Como se aquele fosse um acontecimento trivial, Sam a colocou de volta em seu lugar e se ajeitou no banco da limusine. Andréa só conseguiu encará-lo, com a boca e a blusa abertas, até o choque diminuir. — É tudo? Sam teve a petulância de parecer surpreso. — Não foi o bastante? Andréa se recusou a deixá-lo se esquivar, até obter exatamente o que procurava desde o primeiro dia em que Sam voltou. — Quero que termine isso, droga. — Está terminado. — Deseja parar por aqui? Mesmo sem ter... Projeto Revisoras

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— Isso não devia importar a você. Lançou um olhar penetrante à protuberância óbvia sob o short dele, a prova que Sam ainda tinha assuntos para resolver. — Me importa. Quero tudo, e aposto que você também quer. — Isso é mais do que posso dar. — Quero sexo, Sam. Ardente, sexo lascivo. Não é pedir muito. Os olhos dele assumiram um aspecto solene. — Quero partir ciente que não fiz nada para magoá-la. Andréa quis berrar de frustração. — Se receia me engravidar, vim preparada. — Recolheu a bolsa no chão e abriu um compartimento para mostrar os preservativos comprados na véspera. Sam continuou irredutível ao observar os pacotes. — Também planejou como proteger o coração? A raiva atravessou fundo a sua alma, abrindo a ferida que inflamava como uma pústula há sete anos. Ainda a via como a mesma garota que se agarrou a cada palavra, ingênua demais para conhecer os próprios propósitos. Essa menina há muito se fora. Segurou a blusa aberta e atirou os preservativos de volta na bolsa. — Não quero nada exceto uma rapidinha. Sem promessas de amanhã. Sem juras de amor. Droga, nem precisamos dormir na mesma cama. Era orgulhosa demais para admitir que queria mais. Queria tudo, não apenas sexo. Queria estar com ele no dia seguinte e no outro. Queria que fizesse parte da vida de Chance. Porém, sobretudo, queria seu amor, algo que jamais poderia ter.

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Lembranças de uma noite Kristi Gold Seis

Sam prometera jamais magoar Andréa de novo, mas o fez, agindo como se tocá-la não significasse nada. Quando significou tudo. Na volta, o silêncio foi sufocante, e logo que manobraram na entrada, Andréa saiu calada. Entretanto, não entrou em casa. Ele sabia para onde iria. Precisava tentar explicar outra vez porque não podia prometer nada. Talvez devesse contar sobre o casamento iminente para Andréa compreender sua resistência. Embora Maila não representasse nada, sentia a honra se curvar ao compromisso. Duvidou que Andréa entendesse, mas devia ouvir a verdade. Conforme Sam enveredou pelos campos, o ar se carregou de bruma, quase asfixiante como seus pensamentos, enquanto ensaiava o que dizer. Mas quando encontrou Andréa sentada num cobertor, contemplando o lago, com o lindo rosto iluminado pelo luar, tudo o que pensou se esvaeceu. Calmamente, aproximou-se por trás. — Sabia que a encontraria aqui. — Quando Andréa tremeu, imaginou se devia deixá-la a sós. Em vez disso a abraçou forte. — Sente frio? — Não. Só estou com uma sensação de déjà vu. Sam tomou-lhe as mãos. Não sabia ao certo como começar, mas concluiu que sete anos atrás seria o ponto de partida apropriado. — Lamento tê-la abandonado sem explicação. Temi não ser forte o bastante para dizer não, se me pedisse para ficar. Andréa olhou as estrelas. — Fez o que achou certo. Ele tomou fôlego. — Também desejo me desculpar pelo meu comportamento no carro. Andréa perscrutou Sam com olhos melancólicos. — Você avisou que não me queria. Não tem por que se desculpar. Sam soltou um suspiro frustrado. — Nunca deixei de querer você. O semblante dela se iluminou. Projeto Revisoras

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— Tem um jeito estranho de demonstrar. Sam tentou sorrir. — Pensei que fosse bem evidente. O sorriso de Andréa retornou, um sorriso que Sam sempre guardaria consigo. — Está bem, talvez fosse óbvio. — As feições se tornaram solenes de novo. — Mas foi só uma reação física. Não quer dizer nada. Segurando o rosto dela entre as mãos, Sam disse: — Não sabe o quanto sempre significou para mim. Mas não posso prometer nada. — Já disse que não espero promessas. — Puxou a mão dele e comprimiu-a junto aos seios. — A vida é curta. Ninguém pode prever o amanhã. Só peço pelo aqui e o agora. E quando acabar, prosseguiremos com as nossas vidas, sabendo que encontramos alegria um no outro. Sam refletiu sobre essas palavras e depois sobre o contrato de núpcias. Acordo, corrigiu. Até agora verbal. O pai telefonou por causa do contrato pendente. O pai de Maila estava impaciente, um homem ambicioso disposto a vender a filha para uma união pelo bem das finanças. Maila era bem mais jovem e uma estranha em potencial. Nas duas ocasiões em que se encontraram, mal falou, e mesmo assim só para prometer gerar um filho, embora Sam pressentisse que a perspectiva não era atraente. Sam já possuía um filho - uma criança gerada pela mulher com quem se importava profundamente. Que agora se oferecia a ele sem restrições. Agora, tudo que devia almejar era devotar sua atenção para Andréa uma última vez. — Tem certeza de que quer isso? — Está pensando em desistir? — Como disse, receio magoá-la. — Só vai magoar se me negar essa oportunidade de estar com você. — Não se preocupa que eu vá desapontá-la? Pondo-se de pé, Andréa recomeçou a abrir a blusa e a despiu. Então tirou o short e a calcinha, coberta apenas pelo manto da noite. — Pareço preocupada? — Parece linda. — Mais cativante do que Sam recordava. Toda sua. Se assim decidisse. O calor percorreu o corpo dele e parou na virilha. Um calor abrasador que o deixou rijo, e desesperado para penetrá-la outra vez. Essa ânsia desvairada expulsou de seu cérebro toda Projeto Revisoras

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consideração pelas conseqüências. Não podia mais resistir. Arrancou a camisa. Quando buscou o fecho na braguilha, Andréa o impediu com um toque gentil. — Deixe que eu faça. Não tive chance no carro. Nem tiramos a roupa. — Tínhamos pressa. Andréa abaixou o zíper devagar. — Não agora. Completamente despidos, fitaram-se sob a luz pálida, até Sam não agüentar mais. Avançou sobre Andréa, que veio docemente para o seu abraço. Apertou-a por um longo instante, comprazendo-se na sensação suave da pele nua contra seu corpo enfurecido. Então a beijou com toda a ânsia que sentia na alma. O beijo nascido da emoção logo se tomou um beijo de puro desejo. Andréa se apertou vigorosamente contra ele, deliciando-se com sua língua estocada por estocada. Determinado a lhe oferecer mais prazer, Sam interrompeu o beijo, acomodou os lábios no pescoço delicado, e começou a descer. Andréa suspirou quando ele encheu seus seios de beijos ternos. Gemeu quando ele fez um risco úmido até a barriga com a língua. Quase enlouqueceu quando Sam caiu de joelhos e a possuiu com a boca. Com as mãos caprichosamente cravadas no cabelo dele, contorcia-se de leve enquanto Sam explorava as dobras macias com a língua, segurando-a firme pelos quadris. Mas cada som que lhe escapava dos lábios, cada tremor que lhe corria pelo corpo, também iam excitando Sam. Quando se contraiu quase parando de respirar, Sam deslizou um dedo para dentro dela de modo a prolongar o clímax, e pôde sentir nas próprias mãos o gozo de Andréa. Como os joelhos dela começaram a vergar, deitou Andréa no cobertor e a acariciou até acalmá-la um pouco. — Isso foi... — ela ofegou — ...sensacional. Sam lhe beijou a fronte. — Quis muito fazer isso na primeira vez. — Por que não fez? — perguntou, as palavras abafadas pelo ombro dele. — Não queria abusar de você. Andréa riu docemente. Projeto Revisoras

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— Definitivamente deveria ter abusado. — Afastando-se, empurrou o peito de Sam. — Deite. Sam obedeceu, incapaz de contrariar seu mínimo comando. Andréa desceu por seu corpo com os lábios úmidos, deixando-o louco de desejo ao intuir o que ela planejava. Quando ela alcançou sua barriga, logo abaixo do umbigo, Sam afagou seus cabelos sedosos. — Não é necessário. Andréa ergueu a cabeça e exibiu uma aparência resoluta. — Para mim é. Nunca fiz isso antes, por isso seja paciente. Saber que Andréa jamais compartilhara tal intimidade com outro homem agradou Sam. Quando o envolveu no calor aveludado da sua boca ele expulsou todos os pensamentos da mente. Talvez fosse inexperiente, mas Sam custou a crer nisso. Beirando o limiar, puxou a cabeça dela para cima e a beijou. Depois rolou sobre Andréa e se aprontou para penetrá-la. Mas antes que pudesse mergulhar dentro dela, Andréa disse: — Não. Sam suspirou. — Mudou de idéia? — Esquecemos algo. Por mais que ame Chance, não creio ser boa idéia lhe dar um irmão ou irmã. Sam amaldiçoou a própria estupidez. Como podia ser tão descuidado pela segunda vez? Porque só pensou em Andréa e em fazer amor com ela. — Cuidarei disso — sussurrou, e antes que Sam notasse, sentiu que Andréa já lhe colocara a camisinha. — Está bem agora — anunciou, serena. Sam viu que ela o olhava ansiosa, aguardando que desse o próximo passo. Jurou que não a desapontaria. Deitou-a de frente para si e carinhosamente a fez abrir as pernas, e a penetrou com um movimento lânguido. Enfim ela pôde se sentir ao lado do homem que vivia no seu coração. Sam se moveu outra vez, indo até o fundo. Um longo gemido subiu a garganta de Andréa e escapou pelos lábios entreabertos. Sam assustou-se. — Machuquei você? Projeto Revisoras

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— De jeito nenhum. — Não ainda. — Você é melhor do que eu lembrava — ele confessou, a voz sufocada. — Você também — depois, empinou os quadris para tomá-lo por inteiro no corpo. Ele impôs um ritmo constante e Andréa tentava guardar cada momento, cada sensação, cada expressão de Sam que exibia no rosto a tensão de um homem lutando para manter o controle do gozo. O êxtase da união era mais do que podia suportar, sem se render às lágrimas de júbilo. — Goze comigo — murmurou Sam, após erguê-la para fitarem um ao outro, a perna dela arqueada sobre o seu quadril, os olhos conectados tanto como os corpos. — Estou com você — ela sussurrou. Ao menos por hora. Nos seus devaneios, Andréa jamais acreditara que faria amor com Sam outra vez, com ele a tocando por dentro e por fora para arrancar dela outro orgasmo fabuloso. Sam acelerou o ritmo. Andréa agarrou-se aos ombros sólidos, como se para jamais deixá-lo sair. Sam murmurava palavras desconexas em inglês e em árabe, até que, com uma estocada final, sussurrou o nome dela uma vez e mais outra, enquanto Andréa saboreava o gozo dele dissolver-se no seu. Os ruídos noturnos que os envolviam pareceram cessar, ou talvez fosse só a imaginação. Mas não imaginara Sam, o poder do seu corpo, a delicadeza do toque, o jeito de amar como se fosse para sempre. Não, não era sonho, nem delírio. Virou de costas, rompendo a íntima conexão entre eles. Precisava se recompor, avaliar o que acontecera à resolução de evitar qualquer envolvimento emocional. Como pôde ser tão idiota? Como pôde acreditar que deixá-lo penetrar seu corpo o expulsaria do coração dela, quando só o cravou mais fundo? Sam se apoiou no cotovelo enquanto ela contemplava o céu. — Desapontei você? Andréa sorriu, embora sentisse vontade de chorar. — De jeito nenhum. — Se ao menos tivesse desapontado, ela não precisaria enfrentar tamanho embaraço. — Está fazendo pedidos às estrelas de novo? — Não faço mais isso. Aprendera que nada pode ser obtido através de tal frivolidade. Agora comandava seu próprio destino. Independentemente do quanto a experiência fora maravilhosa, precisava ser Projeto Revisoras

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coerente e lembrar que era apenas uma coisa temporária entre ela e o príncipe. Não poderia fazer isso com a cabeça perdida em algum ponto da galáxia. Sam desenhou círculos preguiçosos nos seios. — Não tem mais sonhos? Sim, tinha Apenas se recusava a acalentar um que era impossível. — Quero ser a melhor treinadora de cavalos que o mundo das corridas jamais conheceu. — Como seu pai? — Papai era bom, mas nunca aspirou ser o melhor — respondeu, disposta a discutir tudo, exceto o que acabara de acontecer. — As pessoas saberão que é a melhor — disse ele. Andréa soltou uma risada sem graça. — Se você diz... — Saberão se eu puder influir no assunto. . Seu olhar o fulminou, inflamado por um surto de orgulho. — Quero construir um nome por mim mesma. — E não vai aceitar minha ajuda? — Já fez o bastante me deixando treinar Sunny. — Será sua quando me for. Excelente. Um prêmio de consolação. — Não precisa fazer isso. — Já fiz, e cuidarei... Aos meus encargos... Para que ela corra quando você sentir que está pronta. — Então, gostaria que pertencesse a Chance. — Como desejar. Andréa alcançou as roupas e começou a se vestir, antes de dizer a Sam que amava o cavalo, mas que o amava ainda mais. — Aonde vai? — perguntou Sam. — Tess deve estar imaginando onde estamos. — Ela já dormiu a esta hora. Andréa enfiou o short e levantou. Ver Sam prostrado, ainda gloriosamente nu, a pele morena contrastando sobre o azul pálido do cobertor, quase a fez mudar de idéia. Projeto Revisoras

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Pegou o short de Sam e o atirou para ele. — Vista isto, Alteza. Tess não admitiria nenhum homem pelado na cozinha. O sorriso dele iluminou a noite. — Como vamos saber? — Nem quero pensar. — Recordou o que Tess contara na véspera. —Aposto que já sabe que ela e Riley enfim vão se casar. — Na verdade, não. Isso surpreendeu Andréa. Tess era um livro aberto. — Bem, daqui a poucas semanas. — Suspirou. — Mal posso imaginar Tess longe da fazenda. — Não vão morar aqui? — Planejam viajar pelo país. — Você vai sentir terrivelmente — disse ele, concluindo o óbvio. — Chance também. Mas vamos superar — garantiu, sem saber como. — Talvez prefira que eu conduza seus pensamentos de volta a coisas mais agradáveis — sugeriu Sam, sintonizado na mente dela. Abraçou-a de novo junto a si e ela ficou deslumbrada por ver que ele já estava excitado e ela mais que disposta a esquecer toda a tristeza naqueles braços acolhedores. — Vai fazer cócegas? — debochou. — Não como imagina. Quando Sam beijou seu pescoço, Andréa falou: — É difícil encontrar um bom príncipe por aí. — Será? Outra vez as roupas de Andréa caíram na grama. E logo, Sam a fazia ofegar e louvar sua destreza. Demais, pensou, enquanto Sam a guiava de volta ao paraíso que ele próprio criara. Debruçado sobre Andréa, Sam a observou dormir. Ele já cuidara dos cavalos, pois decidira permitir-lhe o luxo de dormir até mais tarde. Depois da noite passada, ela merecia. Censurou sua fraqueza. Ralhou consigo mesmo por não sentir culpa, após fazer amor com Andréa até as primeiras horas do dia. Não guardava remorsos, exceto um - seu tempo juntos era Projeto Revisoras

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limitado. Sentado na cama, continuou observando Andréa, esplendidamente despida. Relembrou cada detalhe da noite anterior, exumou os sentimentos que deveriam estar enterrados com o passado. Mas não estariam jamais, apesar da distância. Agora, quase dez horas, julgou melhor acordá-la que enfrentar sua ira. Passou o dedo do cóccix até as nádegas. Um suspiro preguiçoso escapou dos lábios dele. Mas não discerniu se os olhos abriram, já que os cabelos desalinhados escondiam o rosto, combinando com os lençóis revoltos. Enfim ajeitou o cabelo e fitou Sam. — Que horas são? — Hora de se mexer. Andréa rolou na cama, despreocupada com a própria nudez. Sam, entretanto, ficou preocupado, considerando o que lhe causava no momento. Após espiar o relógio, Andréa sentou num pulo. — Desperdicei o dia. — Precisava dormir. Ela sorriu, ditosa. — Ainda mais depois de ter passado a noite acordada com você. Envolveu os braços no pescoço dele. — Usei partes do meu corpo que não usava há anos. — Sente dor? — Uma dor muito agradável. Sam beijou-lhe a garganta e os seios. — Talvez eu devesse aliviar essa dor. — Desculpe. Não temos tempo agora — dito isso, saltou da cama, deixando Sam sozinho para confrontar o próprio desejo. Após se enfiar no robe, o encarou. — Preciso fazer treinos básicos com Sunny para montá-la até o fim do mês. Por ele, permaneceriam na cama o dia inteiro. Que fácil seria, agora que redescobriu o prazer de fazer amor com Andréa. Mas não podia ignorar o que deveria fazer, tanto quanto desejaria esquecer o que o aguardava. Projeto Revisoras

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— Riley concordou em auxiliar na reforma. Andréa apanhou uma escova na penteadeira. — Não posso pagar. — Cuidarei disso. — Ótimo, vou entrar no chuveiro. Sam ficou surpreso. Talvez ela estivesse começando a ver que o dinheiro dele podia contribuir para o bem dela e do filho, afinal. Quando retornou ao estábulo, viu que Riley quase removera todo o forro da primeira baia. Riley cofiou o bigode. — Andréa ainda está roncando? — Ela já despertou — respondeu emburrado. Riley encheu outra pá de serragem. — Lembro que você era mais descontraído. Isso foi antes de carregar um reino nos ombros. — Passei muito tempo longe. Um silêncio desconfortável se estendeu. — Andréa contou que eu e Tess vamos juntar os trapos? — Sim. Parabéns. — Tess contou que vai fazer o mesmo no fim do verão. — Foi arranjado. — Que coisa esquisita. Exato como Sam via, um arranjo. — Prefiro que não comente com Andréa até eu contar. — O problema é seu, mas ela merece saber. — Aparentou ter voltado ao trabalho, mas continuou. — O pai de Andréa foi um grande amigo. — Eu lembro. — Calculou que a conversa viraria um sermão. — Ele gostaria de você. — Sei que era um bom homem. — O melhor. E Bob acreditava que o mundo girava em torno de Andréa. — Riley sorriu. — Projeto Revisoras

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Ela é igual ao pai. Sam concordava imensamente. — É uma boa mulher. — E por isso devo dizer algo. Como suspeitava. Riley cocou a cabeça grisalha. — Chance merece um pai como Bob. Se não vai assumir o posto, deve deixar Andréa encontrar alguém que possa. Sam amaldiçoou aquela intromissão, mas compreendeu. — Considerarei seu conselho. — Bom. Mas é difícil abandonar uma mulher como Andréa. Tess é bem parecida. Sabia que fora um erro se envolver com ela. Mas estava envolvido, e precisaria rasgar os laços afetivos quando chegasse a hora. — Prometo que o que eu decidir, será o melhor para todos. — Conto com isso — Riley limpou as mãos no jeans. — Preciso passar na fazenda Hammond, mas volto ao amanhecer. — Tentarei terminar essa baia antes que volte. — Faça isso. Porém, antes que alcançasse a porta, Riley se virou de novo. — Se magoá-la, vai se ver comigo. Dito isso, saiu. Sam não pretendia magoar Andréa. Mas quanto mais próximos se tornavam, maior o risco de despedaçar o coração dela. E de causar um estrago considerável ao seu próprio.

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Depois do almoço, Sam rumou ao estábulo para completar os reparos. Andréa só apareceu na casa rapidamente, apanhou um sanduíche e depois voltou ao trabalho. Quando chegou ao celeiro, Sam avistou o caminhão de Caleb estacionado na entrada. Aproximou-se devagar, escutou o som da risada de Andréa, parando para ouvir. Admitiu não ter o direito, mas não conseguiu evitar espionar. — Jantar seria ótimo — disse Andréa. — Mas daqui a duas semanas. Chance voltará para casa e meu convidado terá partido. Convidado? Sam experimentou uma punhalada de raiva por considerá-lo um convidado, depois se censurou por tamanha tolice. Não era membro da família. Só um amigo, um estranho para o filho. Amante dela pelo tempo que lhes restava. Essa idéia o fez avançar, mas hesitou quando o homem começou a falar. — Ligo na próxima semana, a menos que decida me encontrar antes. Sam só conseguia imaginar o que esse Caleb pretendia com Andréa, e não conseguiu conter uma fisgada de ciúme, que o impeliu para dentro do celeiro, onde Andréa e Caleb fitavam um ao outro diante da baia de Sunny. Andréa encarou Sam, então sorriu. — Falando no diabo... — Gesticulou na sua direção. — Caleb, este é Sam, um amigo da família. Relutante, aceitou a mão estendida pelo vaqueiro, mas não retornou o sorriso. — Prazer em conhecê-lo — disse Caleb. — Andréa contou que é uma espécie de príncipe. — Um Sheik — respondeu, tão educado quanto seu humor permitiu. — Isso é ótimo. — Devolveu o sorriso a Andréa. — Já estou muito satisfeito com você. Sam imaginou que outra satisfação teria em mente. Expulsando tais pensamentos, esquivou-se e com prazer deixou o outro sair. Quando ficaram a sós, Sam perdeu o tênue autocontrole. — Vai jantar com ele quando eu partir? Andréa recolheu uma caixa de suprimentos e se encaminhou ao depósito de ferramentas. — Parece que sim. Propelido por uma inveja insana, Sam a seguiu. — Nosso filho gosta desse homem? Projeto Revisoras

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— Chance não o conheceu tanto assim. — Então não pode saber se esse Caleb é um pretendente aceitável. Andréa largou a caixa no chão, recostando na sela pendurada no topo da banca. — Não julgo Caleb aceitável porque é casado e tem dois filhos. — Ele tem esposa? — Sim, e ela virá conosco. Satisfeito agora? Sam ainda relutava a confiar no homem. — Estou preocupado com as intenções dele, independentemente do estado civil. Andréa deu-lhe as costas, então começou a polir a sela. — Veja, Caleb é um bom sujeito. Treinar o cavalo dele foi a única coisa que pediu. — Até agora. Andréa o encarou, contorcendo o trapo. — Nem mesmo o conhece. Conhecia o tipo, e Andréa podia ser tentadora. Ela o tentava imensamente agora com o fogo nos olhos e as roupas que vestia, um fiapo de camiseta curto na cintura, que oferecia a visão do umbigo, onde o jeans assentava nos quadris graciosos. Caleb podia ser casado, mas era um homem, e Sam não se sentia no direito de julgar ninguém, considerando o que fizera com Andréa na véspera, estando comprometido com outra. Considerando ainda não haver se saciado dela, como se algum dia pudesse. — Não mencionarei isso novamente — disse Sam, certo de que não pensaria em outra coisa nos próximos dias ou mesmo quando retomasse a Barak. Pensaria se Andréa encontraria abrigo na cama de outro homem. Mas até lá Andréa seria sua, e apesar de ser desaconselhável cobiçar um relacionamento físico, não era forte o bastante para resistir. Não almejava resistir. Se tudo que podia ter eram alguns momentos roubados, que fossem. Só conseguia admirar Andréa limpar a sela, se curvando aqui e ali para apanhar os apetrechos. O corpo se exaltou de desejo quando o brim aderiu firme aos quadris, revelando o formato do traseiro. O cabelo pendia preso e amarrado no alto da cabeça por um elástico, deixando a nuca desimpedida. Quis beijar Andréa. Beijá-la inteira. — Precisa da minha ajuda? — perguntou ele. Andréa lançou um olhar furtivo. Projeto Revisoras

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— Já limpei tantas selas que provavelmente faria isso de olhos vendados. — Suponho que pode fazer muitas coisas de olhos vendados. Andréa paralisou quando sentiu o calor do corpo de Sam nas suas costas. Um tremor delicioso subiu pela sua espinha quando ele tirou o lenço do bolso traseiro, e o serpenteou pelo ombro e por um dos seios antes de erguê-lo lentamente. — Vamos conferir se é habilidosa sem o benefício da visão? — A voz dele era uma brisa morna no seu ouvido. Antes que lograsse responder, Sam colocou o pano sobre seus olhos e amarrou, atirandoa na escuridão, e lançando seu corpo num redemoinho de desejo. — Vai me fazer limpar a sela assim? — fingiu Andréa, sabendo não ser o que Sam planejava. Tomando-a pelos ombros, girou-a e a reconduziu até a banca. — Proponho que ignoremos a sela em nome de esforços mais prazerosos. — Beijou-a suavemente. — Quero que se concentre no que faço. Uma onda de calor resplandeceu no ventre de Andréa, depois flamejou entre as suas coxas. — Estou suada. — Um frágil protesto que ela torceu para Sam ignorar. — Eu também — ele respondeu. — Mas minhas mãos estão limpas. Aquelas mãos maravilhosas que Sam deslizou pelos seios até as ancas. — E Tess? — Andréa temia que fossem flagrados, entretanto, tal perspectiva lhe aumentou o desejo. — Foi ao mercado — Sam sussurrou, lambendo o lóbulo de Andréa. — Riley não vai voltar antes do amanhecer. Quando tentou abraçá-lo, Sam agarrou suas mãos. — Não me toque ainda. Andréa segurou na estante de metal quando os joelhos ameaçaram fraquejar. Levantou e aguardou pelo que lhe pareceu um longo instante até Sam recapturar suas mãos e beijar cada palma. — Me toque agora, Andréa. Lembre de mim. Como poderia esquecê-lo? Céus, estava cansada de tentar. Explorou o rosto maravilhoso de Sam com as mãos, um rosto que tantas noites invadira Projeto Revisoras

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seus sonhos em detalhes, profundamente incrustados na memória e no coração dela. Trilhou um dedo pelo plano do nariz, o arco dos lábios cheios, a mandíbula coberta por um salpico de pêlos. Sam sempre permaneceria marcado a fogo em sua mente. Escorregando as mãos pela garganta, prosseguiu até o peito, pausando quando notou que ele despira a camiseta. Sentiu a pele úmida e quente nas palmas das mãos, enquanto descia através dos pêlos crespos e dos mamilos, que enrijeceram como seixos pequeninos sob seu toque. Perambulou pelo abdome e os músculos se retesaram quando circundou o umbigo. Pretendendo continuar a exploração erótica, deslizou as pontas dos dedos sob o cós do jeans, mas ele a deteve. — Levante os braços — ordenou Sam. Andréa obedeceu, recostando contra a sela para ter apoio enquanto ele despia a sua blusa. Sam correu a ponta do dedo pelo seu peito de ombro a ombro, imitando-a. Passeou pelos seios com investidas sensuais dos dedos, numa lentidão que a deixava mais e mais ansiosa à medida que os círculos se estreitavam em torno dos mamilos. — Você é muito bonita à luz do dia — elogiou, numa voz grave que combinava com o toque ávido. — Não é justo — retrucou ela, respondendo com a respiração entrecortada. — Eu não posso vê-lo. — Só precisa sentir. Sem problema, pensou Andréa, quando o calor da boca de Sam engolfou seu mamilo. Contorceu-se pelas sensações prazerosas, esquecendo todo o resto. Sam concedeu igual atenção a cada seio, enquanto ela acompanhava os movimentos. Então, subitamente ele disse com firmeza: — Vire-se. Fez como ordenado, apoiando as mãos na sela. Sam subiu até a coluna, primeiro com os polegares depois com os lábios, deixando uma esteira de calafrios maravilhosos. Sintonizada naquela tortura sensual, Andréa custou um pouco para perceber que Sam escorregara uma das mãos entre ela e o arreio. Sentiu o zíper descer e parou, fraca de ansiedade, e ainda mais fraca quando Sam abaixou o jeans até as coxas, levando a calcinha junto. O ar morno arrepiou seu traseiro exposto, mas não foi nada comparado ao calor que Sam irradiou quando começou a beijar as ancas, depois as nádegas. Andréa saboreou a sensação da boca de Sam, ofegando pelo mordiscar dos dentes que ele abrandava com a língua. — Que ótima sobremesa — acrescentou Sam com uma risada baixa, que ecoou das Projeto Revisoras

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profundezas do seu peito. Isso ela não poderia negar. Era muito melhor que qualquer coisa. Após caprichar no caminho de volta, Sam ajustou a mão entre as coxas, dando beijos suaves na nuca. Subjugada pela ânsia de que Sam aliviasse o latejar insistente, Andréa pressionou a mão dele, o encorajando. Não sufocou o gemido de frustração quando Sam afastou a mão. — Paciência — ralhou. — Primeiro devo cuidar de outra coisa. Quando ouviu o som do zíper seguido pelo rasgo de papel, concluiu que Sam planejara tudo. Planejava deixá-la inconsciente de desejo. E mais, arruiná-la para os outros homens. Convencendo com cada beijo, cada toque, que ninguém lhe seria páreo. Mas ela só se importava com o agora, a necessidade absoluta, a ânsia incontestável que seria aliviada exclusivamente por esse príncipe. Sam encaixou-se em suas costas, devolvendo a mão ao ponto do corpo de Andréa que mais implorava atenção. Desta vez, explorou as dobras úmidas até encontrar o centro para afagá-lo com dedos firmes e ternos. Andréa como que se dissolveu num turbilhão de detalhes sensoriais à sua volta - feno fresco, misturado com o cheiro de couro e Sam. Escutou sua respiração arfante. Mas todos os sons e odores quase sumiram, enquanto Sam a conduzia rumo ao esquecimento. O clímax se anunciava, e ela o queria dentro de si agora. Tentando alcançar os quadris dele, puxou-o, e Sam a penetrou inteiro em um único movimento, desencadeando um orgasmo avassalador. Andréa virou o rosto e aceitou seu beijo intenso. A língua capturou o ritmo do corpo quando Sam explorou a boca ávida, se movendo dentro dela, abafando seus suspiros até inundá-la completamente. Continuou mesmo depois do gozo. — De novo, Andréa. — Não sei... — Eu sei — insistiu. Surpresa, Andréa o acompanhou até senti-lo explodir de novo dentro dela. Agarrou suas ancas, e um gemido lhe escapou da boca enquanto ela amortecia o peso do corpo dele. Estavam tão unidos que seria difícil dizer onde começava um e terminava o outro. — Nunca experimentei nada assim — murmurou Sam. Nem ela. E provavelmente jamais experimentaria. Projeto Revisoras

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Andréa notou que alguém estacionou na entrada. E, considerando o barulho familiar do cano de descarga, sabia exatamente quem era. — Tess! Repelindo Sam, arrancou a venda dos olhos e levantou as calça. Pegou a camiseta coberta de palha, e vestiu. Sam não demonstrou pressa. — Vista-se — gritou Andréa. — Ela pode entrar. — Precisa guardar as compras primeiro — disse, abotoando as calças tranqüilamente. Atirou a camisa nele. — Vamos comer o pão que o diabo amassou. Sam teve o desplante de sorrir. Era autoconfiante demais, concluiu Andréa, o viu jogar o preservativo no lixo, e depois calmamente cobri-lo com um saco vazio de ração. Sam recobrou seu sorriso fatal. — As provas foram eliminadas. Andréa espiou as roupas amarfanhadas. — Vou dizer que houve um furacão dentro do celeiro. Sam cerrou a porta com um chute. — Podíamos trancar o mundo lá fora. — Partiu atrás dela e envolveu-a em seus braços. — Ainda temos muito que aprender um sobre o outro. — Podia passar a vida inteira com você me ensinando. Ele ficou sério. — Se fosse possível. Andréa o repeliu. — Não se preocupe. Só estava tagarelando. — Não sabe o quanto desejo que fiquemos juntos. — O coração levitou, para despencar logo em seguida quando Sam completou: — Mas não será possível. — Tudo é possível. — Não nesta circunstância. Andréa conteve as lágrimas. — Por quê? Não percebe que seria feliz conosco? Vi a sua felicidade, Sam. Está se divertindo, especialmente com Chance. Deve estar cego para não enxergar. Sam chutou o barril de ração, produzindo um estrépito que os delataria se houvesse Projeto Revisoras

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alguém por perto. — Claro que estou feliz. Mas devo cumprir minhas obrigações. Quantas vezes mais teria que ouvir isso? — Obrigações com quem? Seu pai? — Com... — Desviou o olhar. — Sim, meu pai. Meu povo. Andréa enxugou uma lágrima desgarrada. — E isso não inclui seu filho. — Ou eu. — Já disse que providenciarei... — Dinheiro. Mas não vai comprar o amor dele. Não comprará a sua felicidade, tampouco. Calado, Sam escancarou a porta e a deixou sozinha. Se soubesse como o amava. Se reconsiderasse as possibilidades. Mas algo o impedia, e havia algo mais que obrigação naquela resistência. Algo que Sam não confessara. Decidiu descobrir os segredos do Sheik, nem que fosse a última coisa que fizesse. Sam passou os dias seguintes trabalhando no estábulo com Riley, mas passava as noites nos braços de Andréa. Ela provou ser uma amante desinibida, intrépida nos modos que o agradavam. Cada vez que ficavam juntos, Sam descobria algo novo, e via que ela permaneceria eternamente incrustada em sua alma. Engajou-se numa batalha constante entre culpa e desejo, amor e responsabilidade. O desejo e o amor por Andréa venciam, por enquanto. Quando aceitasse Maila por esposa - se aceitasse - estaria sentenciado a uma união sem amor. E quando a levasse para a cama, pensaria sempre em Andréa. Isso causaria um grave desgosto a Maila. Era uma boa mulher que merecia mais. Como ele, concordara com o casamento por um senso de dever à família. Todavia, se rompesse o arranjo, Sam enfrentaria o desprezo do pai. Precisava decidir o que seria melhor para todos, numa decisão nada fácil. Após uma ducha, desceu e encontrou Andréa ao telefone. Ela mordia o lábio inferior enquanto falava calmamente. — Está bem, anjo. Durma bem, vejo você amanhã. Sam sentou no sofá e gesticulou para que ela o acompanhasse. A seriedade no semblante dela era indisfarçável, mesmo quando sorriu. Projeto Revisoras

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— Era Chance. Queria saber se vamos buscá-lo na limusine. Sam retomou o sorriso para dissimular a própria angústia. — E garantiu que vamos? — Sim. — Venha, conte o que a preocupa. Andréa se aninhou no seu colo. Sam a segurou apertado, saboreando a fragrância do cabelo úmido e a maciez do corpo delicado envolto em cetim. — Estou preocupada com Chance. — Ele não está bem? Olhou Sam, depois enterrou a cabeça sob o queixo dele. — Disse que está bem, mas soou cansado. — Eu acredito que esteja cansado mesmo. — Tomara que seja só isso. Sam acariciou seus cabelos. — O que a leva a crer no contrário? — Instinto materno. Ou paranóia, como sempre. — Não, preocupação com o bem-estar dele. Andréa suspirou. — Eu sei. Mas quando Chance tinha três anos, subiu numa cerca e caiu de costas. Parecia bem, mas na manhã seguinte reclamou do ombro. Levei-o ao médico e descobrimos que fraturara a clavícula. Eu devia tê-lo trazido de volta naquela noite. Sam levantou o queixo dela. — Foi um simples erro. Não significa que não se importe. — Mas me sinto uma mãe horrível. — É uma mãe maravilhosa — disse Sam. — Eu não poderia escolher uma mãe melhor para meu filho. Andréa tocou as faces dele com os lábios, despertando-lhe o corpo e a alma. — Obrigada. — Após estudá-lo um instante, disse: — Agora conte o que tem perturbado você. Sam devia estar surpreso que enxergasse tão facilmente através dele, mas não. Durante a última semana ambos se tornaram sintonizados um no humor do outro. Talvez sempre fora assim. Projeto Revisoras

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Ou seria sempre. — Receio ter notícias nada agradáveis. O corpo de Andréa petrificou nos seus braços. — O que é? — Conversei com meu pai hoje cedo. Devo voltar a Barak na quinta. — Não era domingo? — Fitou Sam com frustração. — Então ele estala os dedos e você volta correndo. Queria conhecer esse truque. — É complicado. Não posso me dar ao luxo de ir e vir à vontade. Ela saiu do colo dele e sentou no sofá. — Lamento. Deve ser terrível não ser dono da própria vontade. A raiva assaltou Sam e ele se esforçou para moderar a fúria. — Tenho vontade própria. E responsabilidades. Ela olhou para o teto. — Sei. Mas e quanto à responsabilidade com seu filho? É com isso que Chance deve contar no futuro, um pai que pode ou não vir vê-lo? Sam ficou cabisbaixo. — Andei pensando nisso. Só posso prometer que tentarei estar aqui o máximo possível. Andréa suspirou. — Não temos muito tempo para decidir quando contar a ele, temos? Tinham pouco tempo juntos, também. — Não, não temos. A que horas partimos amanhã para pegar Chance? — indagou Sam. Cruzou os braços e o encarou. — Nós, não. Você. Ele surpreendeu-se. — Não entendi. — Decidi que você deve ir buscá-lo sozinho. Assim poderá ter algum tempo para conhecer Chance. — Mas você... — Eu o terei comigo para o resto da vida. Você, por outro lado, tem muito pouco tempo. Sam compreendeu a complexidade daquela decisão. — É isso que quer? Projeto Revisoras

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— Sim. — Deseja que eu conte... — Não comente nada quanto a ser pai dele. Eu deveria estar junto. — Honrarei seu pedido. Andréa disparou pela escada. — Boa noite, Sam. — Encontro você logo. Ela deu meia-volta. — Gostaria de dormir sozinha hoje. A seu modo, já se preparava para deixá-lo. — Mas gostaria de passar essa última noite com você — Sam respondeu. — Veja — retrucou, melancólica. — Sabíamos desde o início que não era para sempre. Pode muito bem terminar agora. Sam quis gritar que a queria para sempre ao seu lado, na sua cama, na sua vida. Ao contrário, deu as costas e disse: — Bons sonhos. Uma risada ferina o mortificou. — Não acredito mais em sonhos.

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Lembranças de uma noite Kristi Gold Oito

— Onde diabos estão eles? — Andréa caminhava pela cozinha, olhando o relógio que marcava três da tarde. Tempo mais que suficiente para Sam e Chance voltarem. — Talvez tenham parado para almoçar — sugeriu Tess, servindo outro copo de chá para Riley. — Mandei almoço para eles — respondeu Andréa, incapaz de afastar o pânico da voz. — Aposto que só pararam para um piquenique então — disse Riley. — Sam parece um sujeito responsável. Andréa encarou o casal. — É o que parece, mas o quanto realmente o conhecemos? Tess emburrou. — Bobagem. E o mesmo garoto. O mesmo que trabalhou como empregado no estábulo nas últimas semanas. — Não é o mesmo, Tess. E se decidiu levar Chance para o país dele? Tess levantou da mesa. — Não faz nenhum sentido. Sam prometeu que não tentaria nada assim. — Prometeu muitas coisas, e não cumpriu. Como posso confiar nele agora? Tess aguçou os olhos — Confie no seu coração. Não ousaria. Fizera isso antes e acabara esmagada. A campainha do telefone fez Andréa saltar. Agarrou o fone no segundo toque. — Alô? — Srta. Andréa Hamilton? — indagou uma suave voz feminina. Andréa suspirou frustrada. Não precisava de assinaturas de revistas. — Depende de quem você é. — Sou a Sra. Murphy do hospital de Lexington, é a respeito do seu filho. Pânico puro trespassou Andréa. — Houve um acidente? Tess rapidamente se aproximou enquanto a mulher continuava. — Não, nenhum acidente. A glicose no sangue do menino está baixa. Projeto Revisoras

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— Ele está bem? — Está na emergência sendo examinado. O Sr. Yaman pediu para avisar. — Já estou indo. — Desligou e apanhou as chaves. — Chance está no hospital — gritou para Tess na saída. — Eu levo você — disse Tess, enquanto Andréa cruzava o quintal até a caminhonete. — Telefono depois. — Tem certeza? Dispensou Tess com um aceno. — Estou ótima. E Chance? Percorreu a estrada em tempo recorde. Disparou até a sala de emergência, e enfim uma enfermeira a conduziu a um cubículo reservado no final de um corredor estreito. Andréa estacou abruptamente pela cena que se desenrolava diante dela. Em meio ao cenário e odores estéreis familiares demais, Sam estava encolhido na pequena cama de hospital, com Chance aninhando a cabeça no peito sólido do pai. Andréa cobriu a boca para abafar um soluço, quando avistou o tubo que saía do braço magro de Chance. Mas não conseguiu conter as emoções, quando notou como pareciam espontâneos naquela demonstração de proteção. Era uma imagem de paz que contrastava completamente com o ambiente incolor. Quando deu um passo adiante, os olhos de Sam se abriram e ele arriscou um sorriso. Calmamente deslizou o braço por baixo de Chance e escorregou da cama. Gesticulou para Andréa sair. Relutantemente, ela obedeceu, dividida entre querer abraçar a criança e ouvir o que Sam tinha a dizer. — O que aconteceu? — perguntou, a voz anuviada pelas emoções que tentava represar. — Na volta para casa Chance ficou muito pálido. Ofereci suco, mas recusou. Depois começou a transpirar e ficou agitado. Estávamos perto de Lexington, então viemos para cá. Não sabia mais o que fazer. — Fez a coisa certa. Andréa vislumbrou a preocupação nos olhos quase negros. — Nunca senti medo na vida. Mas isso me aterrorizou. Só agora percebo o quanto você sofreu com essa doença. Projeto Revisoras

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— O quanto Chance sofreu — corrigiu. — É algo com que se aprende a lidar como mãe de uma criança doente. O amor por ele me ajudou. — Só agora começo a entender esse conceito. Andréa mordeu a bochecha para reprimir outro ataque de lágrimas pela dor evidente de Sam. Precisava permanecer composta. — O médico o viu? — Sim, alguns minutos atrás. Disse que as taxas parecem estáveis, mas gostaria que Chance ficasse um pouco mais por precaução. Andréa respirou fundo de alívio e expirou num suspiro vacilante. — É a rotina. — Ele já sofreu isso antes? — Sim. Diversas vezes no começo, mas não recentemente. — O médico acredita que a exaustão de Chance tenha deflagrado o surto. Andréa silenciosamente amaldiçoou a própria estupidez. — Jamais deveria ter permitido que fosse para aquele acampamento. Sam a tomou pelo braço e a conduziu até a parede oposta ao cubículo. — Não se culpe. Chance contou o quanto apreciou a temporada no acampamento. Você não tinha motivos para crer que isso aconteceria. Andréa espiou pela cortina aberta para avistar Chance ainda adormecido. — Eu deveria saber. Sam tirou uma mecha de cabelo da face úmida das lágrimas derramadas a caminho de Lexington. — O médico também disse que devia considerar aplicar uma bomba de remédios em Chance para substituir as injeções. — Quis fazer isso — admitiu. — Mas é muito caro. Tentei economizar dinheiro para cobrir o que o seguro não paga. — Cuidarei disso — insistiu Sam. — Não precisa se preocupar com despesas. Estava preocupada com várias coisas no momento. — Contou a alguém que é pai dele? — Contei ao médico, mas Chance não ouviu, se é o que a aflige. Andréa sentiu-se incrivelmente egoísta por interrogá-lo numa hora dessas. Projeto Revisoras

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— Não estava preocupada de fato, só odiaria pensar em Chance descobrir algo tão importante estando doente. — Não contei nada, mesmo quando fez muitas perguntas. A preocupação veio à tona de novo. — Que perguntas? — Queria saber se eu conhecia o pai dele. Falei que sim, mas não muito bem. E é verdade. — Passou a mão no rosto. — Percebo que não me conheço mesmo. Andréa pousou uma das mãos no ombro dele. — Conheço você. É um bom homem. Um bom pai. Contemplou-a com olhos desanimados. — Sou mesmo? Sou um pai que abandonará o filho. Não há nada de bom nisso. — Pode aproveitar o tempo que tem com ele agora, então Chance poderá conhecê-lo como pai. — Talvez seja melhor que jamais conheça. Melhor para quem? Andréa queria esbravejar. Melhor para Sam, lógico. Sem laços, salvo providenciar dinheiro. Sem compromisso com o filho ou com ela. — Não vamos conversar sobre isso aqui. Preciso ver Chance. — Só queria que soubesse que estou considerando o bem-estar de nosso filho. Se isso implica desistir dele, não hesitarei em acatar. O coração dela desabou, provocando uma angústia dolorosa no peito, gerada por uma tristeza sufocante. — Se prefere assim. — Juro, não é o que desejo. Mas seria a melhor decisão para Chance. Cansada demais para brigar, deprimida demais para conversar, Andréa se afastou para ver o filho, a única certeza de sua vida. Sam passou a melhor parte da semana conhecendo o filho. Enquanto o observava, ensinava Chance como martelar um prego. Contudo, sentiu ser necessário tratar o menino como se não fosse doente. Chance aparentava se comportar como qualquer menino normal, ativo e entusiasmado. Mas agora que testemunhara os efeitos da doença, Sam se preocupava mais. Ao menos Andréa parecia otimista, agora que Chance começou a usar a bomba que Projeto Revisoras

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mantinha a medicação fluindo pelo seu corpo. Contou que as taxas melhoraram, e que Chance estava mais enérgico do que antes. Algo muito bom, concluiu Sam. E certamente podia confirmar o apreço do filho pela atividade. Agora Chance ajudava a varrer a aléia entre as baias. Com a mãozinha apoiada na vassoura da mesma altura que ele, perguntou: — Pareço com meu pai? Cuidadosamente, Sam ponderou a resposta. — Sim, de certo modo. — Como? — A cor da pele e do cabelo. Seus olhos são mais claros. Largando a vassoura, Chance franziu o nariz. — Tenho as sardas da mamãe. Sam gargalhou como fizera várias vezes nos dias anteriores com as tiradas do menino. — Tem mesmo. Chance varreu uma pilha de feno. — Bobby diz que onde você mora só tem areia. Sam também largou a vassoura. — É verdade, temos bastante areia. Mas também árvores e montanhas. E uma universidade e um hospital excelentes. Chance emburrou. — Detesto hospitais. A primeira saia-justa paternal de Sam. — Mas eles são necessários. — Continuo detestando. — Chance voltou os olhos para Sam, tão idênticos aos seus. — Todo mundo no seu país é parecido? — A maioria tem cabelo e pele escuros, mas são bem diferentes. — São bonzinhos? — Como na América, alguns são e outros não. Sobretudo, é um lugar pacífico para se viver. — Você mora num palácio? — Sim. Pertence a minha família há muitas gerações. Projeto Revisoras

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— Posso visitar você? Sam sentiu o peito comprimir de remorso. — Quando for mais velho. Chance suspirou. — Gostaria que ficasse. Não gosta da América? — Muito. De fato, nasci em Ohio. — Então se é americano, como não mora aqui? Às vezes Sam desejava justamente isso, agora mais do que nunca, mas ainda nutria uma forte lealdade a Barak. Embora alcançassem muitos progressos, ainda havia muito a ser feito. — Porque meu pai é o rei do meu país e devo assumir o seu lugar um dia. — Pode telefonar para ele e mandar contratar outro. — Os olhos inocentes arregalaram. — Uma das meninas no acampamento contou que o pai não tem emprego. Talvez ele sirva. Sam se ajoelhou diante do filho, enternecido com a lógica simples do menino. — É complicado. Nasci para governar o país, ajudar o povo. — Mas ainda queria que ficasse. — Cingiu os braços frágeis em torno do pescoço de Sam, tomando-o de surpresa. — Ainda quero que seja meu pai. Andréa ficou de fora do celeiro, aguardando paralisada pela resposta de Sam. Mas ele disse apenas: — Vamos terminar o trabalho, senão nos atrasaremos para o jantar. Cerrou os olhos contra o crepúsculo e soltou a respiração. Sam teve a oportunidade perfeita para contar a Chance. Talvez porque ainda honrasse o pedido dela. Ou falasse sério quanto a não contar a verdade. Estava incrivelmente confusa sobre continuar vivendo uma mentira. Se Sam insistia que Chance não soubesse, deveria ela contar assim mesmo? Talvez quando fosse mais velho devesse fazer a revelação e provavelmente enfrentar sua ira. Culparia a ela ou a Sam? Entenderia as razões do pai? Compreenderia que foi uma decisão altruísta, que lhe causava imensa dor? — Parece pálida. Trabalhou muito hoje? Abriu os olhos e viu Tess a encarando interrogativamente. — Sam parte amanhã — respondeu. — Eu sei, querida. E queria conversar justo sobre isso. Andréa voltou os olhos para o céu. Projeto Revisoras

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— Preciso mesmo ouvir? — Sim, precisa. — Tess alisou os cabelos grisalhos. — Hoje quero que Chance durma comigo. Isso lhe dará a oportunidade de se despedir dele. — Não é necessário. Tess lançou um olhar severo. — Sim, é. Passe a noite com Sam. Crie essas lembranças porque serão tudo que terá. Guarde-as no coração e use nos tempos difíceis. Soou bastante simples, mas a experiência ensinou Andréa que seria tudo, menos simples. — Não preciso de mais lembranças. — Sim, precisa. Eu não teria sobrevivido sem as minhas. Andréa franziu a testa, confusa. — Se refere a outro homem sem ser Riley? Tess murmurou. — Sim — hesitou e prosseguiu. — Foi há muito tempo. Era um soldado, um sujeito realmente bonitão. Pediu-me em casamento antes de partir para a guerra, e não aceitei. Andréa se recompôs. — E não pediu de novo quando voltou? — Ele nunca voltou. — Oh, Tess — disse, abraçando a tia. — Lamento. — Confesso que me arrependo por não aproveitar mais a vida. Não quero que o mesmo lhe aconteça. Andréa conteve as lágrimas. — Será tão difícil, deixá-lo partir. — Mais difícil que da primeira vez. Mais difícil que qualquer coisa. — Mas precisa. Pelo seu bem e de Chance. Use esta noite para demonstrar seu amor. Diga que o ama. Se for embora depois disso, então não era para ser. Andréa percebeu o sentido do conselho da tia, e decidiu passar a última noite com Sam, seu amante, o amor da sua vida. Chance chegou gritando. — Estou faminto! Projeto Revisoras

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Tess o apanhou em pleno vôo e o girou no ar. — Anda comendo como um alce ultimamente. — Sou um alce — gritou Chance, com uma gargalhada estridente. Tess o pousou no chão e sorriu. — Sabe, Sr. Alce. Por que não passa a noite na caserna comigo hoje? Riley também vem e poderemos jogar cartas. O semblante de Chance resplandeceu. — Riley pode me ensinar a jogar pôquer? — Acho que sim, Toquinho — respondeu Tess. — Caso sua mãe não se importe. Andréa fingiu pensar seriamente antes de responder. — Desde que não aposte a casa e os cavalos. — Sam pode jogar também? — perguntou Chance. Tess deu um olhar cúmplice para Andréa. — Sam tem assuntos para resolver com sua mãe. Sam ansiava contar a verdade a Chance. Declarar que era o pai que desejou. Mas contar, sabendo que não voltaria, seria injusto. Não retornaria, não após descobrir como era ser membro dessa família abençoada. Só podia esperar que Andréa encontrasse um pai adequado para Chance. Essa idéia o fez se encolher com uma dor tão profunda que ameaçava consumi-lo. — Melhor assim — repetia consigo mesmo. Conforme embalava suas coisas, a despedida pesou no seu coração. Deixou o mais significativo por último - a bola, o presente de Paul. Suvenires do passado que acalentaria no futuro. Mas quando abriu a mala, achou uma lembrança que capturava o presente. A foto era muito semelhante à outra, salvo que Chance substituía o tio. Tess tirou no início da semana, porém, não imaginava como fora parar ai. Talvez não fosse obra de Tess. Andréa deixara outro presente para ele. Andréa. Queria desesperadamente ir até ela, tomá-la nos braços e, pela última vez, fazer amor. Mas Andréa rejeitaria, caso ousasse fazer tal oferta. Apanhou o retrato, admirando as faces da mulher que sempre amou e da criança que aprendera a amar. Amanhã daria adeus aos dois e voltaria para sua terra natal, fingindo que nada Projeto Revisoras

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mudou, especialmente ele. — Uma foto adorável, não? As mãos congelaram ao som carinhoso da voz de Andréa. Após guardar a foto cuidadosamente sob as roupas, fechou a mala e o capítulo do que jamais aconteceria. — Guardarei para sempre. Obrigado. Andréa avançou hesitante e parou na beira da cama. — Era o mínimo que eu podia fazer. Como um silêncio carregado pairou, ela tirou o cabelo do rosto, mas não encarou Sam. Enfim, foi em frente e parou face a face, tão perto que Sam podia ver que a mágoa tomara os lindos olhos azuis. Abriu os braços para ela, que aceitou o abraço. Andréa não sabia qual coração batia mais rápido. Contudo, beijou o queixo rude e convocou toda a sua coragem para dizer a única coisa que evitara até agora. — Eu amo você, Sam. Ele tocou seu rosto com ternura e gentilmente beijou-lhe a testa. — Eu também amo você. Andréa experimentou um júbilo sufocante que fluiu pela sua alma e se alojou no coração partido. — Então fique comigo. — Sabe que não posso. Fitou-o, frustrada. — Então não me ama realmente. Seu suspiro rouco ecoou pelo aposento silencioso. — Amo você mais do que jamais deveria saber. Mas isso não muda a minha situação. — Mudaria, se quisesse. — Se isso fosse verdade. — Guiou-a para a beira da cama e sentou ao lado dela, depois lhe tomou as mãos. — Também amo nosso filho, por isso decidi que ele nunca saberá que sou seu pai. Exato como ela temia. — Mas e quando você voltar? Sam olhou para longe, o rosto marcado pela tristeza. — Não voltarei. Projeto Revisoras

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O coração de Andréa iniciou outra queda. — Mas tem que voltar. Chance precisa de você. Eu também. — Precisa construir sua vida sem mim. Encontrar alguém que cuide de você e de Chance. Que mereça seu amor. — Só quero você — respondeu, lágrimas mornas rolaram pela face numa torrente de amargura. — Diz isso agora, mas mudará de idéia. Puxou-a com força para os braços vigorosos. Se Andréa pudesse ter previsto onde isso iria parar. De fato, sabia o que aconteceria, que Sam iria deixá-la novamente, contudo preferiu crer que seria diferente desta vez. Como foi tola. Não tinha escolha senão aceitar a derrota. Mas não sabia como aceitar a despedida. — Não sei como deixar você. — Você deve. Ergueu a cabeça, determinada a tentar convencê-lo a ver as coisas do seu jeito. — Mesmo se desistir da riqueza, do status, veja o que ganharia em troca. — Como sei disso. — Então por que tem que ser assim? Por que não me conta? Sam permaneceu calado por um momento. — Vou casar com outra.

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Estava preparado para o choque de Andréa pelo anúncio súbito. Mas não para a raiva fervente sob a fachada calma, patente nos olhos aguçados. — E sabia disso o tempo todo? — A inflexão era surpreendentemente moderada. Sam preferiria que gritasse. Merecia sua hostilidade. — Sim, mas devo explicar o que isso envolve. Andréa saltou da cama. — Então explique! Não sabia como começar, já que não havia perdão para o seu comportamento. — É um arranjo e nada mais. Os detalhes serão negociados quando eu voltar. Mas descanse sossegada, eu não a amo. Pôs as mãos na cintura: — Ótimo. Sinto-me bem melhor. — Também decidi discutir o casamento com meu pai. Estou pensando em não levá-lo adiante. — Que valentão. Como a convenceria que seu coração era somente dela? — Decidi que não posso viver uma mentira, não com o que encontrei com você. Maila é uma boa mulher, e, como você, merece alguém que se entregue inteiro a ela. — Quando descobriu isso, Sheik Yaman? Antes ou depois de fazer sexo comigo? A ira tomou conta de Sam. — Fiz amor com você, se recorda, por insistência sua. Sempre fraquejei na sua frente. Sempre. Nunca fui capaz de resistir desde que Paul me trouxe aqui. — Então me culpa por trair sua noiva, é isso? — A culpa é minha por ser fraco. — Então responda — disse gravemente. — Se vai largar esse casamento, por que não pode ficar? — Devo lembrá-la novamente da minha posição? Andréa recuou alguns passos. — Céus, não. Se escutar isso outra vez, vou gritar. Mas parece que você não entende. Projeto Revisoras

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Todos os tesouros do mundo jamais substituirão o amor. O amor do seu filho. Meu amor. Porém, se a riqueza e o título representam tanto, é melhor partir. Dito isso, rumou para a porta. Sam levantou rapidamente. — Imploro, por favor, fique. Vamos usar esse tempo para resolver as coisas, ficar juntos. Essa última noite será tudo que teremos. Devagar, virou para encará-lo. — Não. Estou deixando você, a partir de agora. Concluiu que havia muita verdade nas palavras de Sam ontem à noite. Ela insistira que fizessem amor. Todavia, ele recusou contar sobre o casamento, e isso não só a magoou como a enraiveceu. O orgulho ferido a impediu de passar mais tempo com ele. Estava arrependida, mas sabia que vê-lo partir esta manhã apenas tornaria tudo mais difícil. Talvez não a amasse mesmo. Mas disse que a amava. Independentemente do orgulho, jamais esqueceria o tempo que passou com Sam. E ainda não o amava menos, por mais tolo que fosse. Também jamais esqueceria a cena que se desenrolava agora. Chance em frente ao capô da limusine e Sam agachado, prestes a dizer adeus. Falavam baixo e Andréa tentou ouvir as palavras de despedida de Sam. — Prometa que cuidará de Sunny. Chance respondeu: — Vai pedir a mamãe para me deixar montar nela? — Aposto que na hora certa ela permitirá. Ambos permaneceram calados, até Sam pousar a mão no ombro de Chance. — Tenha orgulho de quem você é. — Eu tenho. Vou contar aos meus amigos sobre seu país, que não tem só areia. Sam arriscou um sorriso, antes do semblante se tornar sombrio. — Não importa onde esteja, seu pai sempre amará você. Andréa desviou o olhar antes que o filho visse as lágrimas. — Como sabe? — perguntou Chance. — Porque sei. Ficaria orgulhoso por você ser tão inteligente. Projeto Revisoras

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Após um momento de hesitação, Chance agarrou Sam num abraço e disse: — Amo você como se fosse meu pai. O coração de Andréa se despedaçou completamente, e desesperada quis revelar que Sam era seu pai. Mas como ele não pretendia retornar, isso só confundiria Chance ainda mais. No fundo, imaginou se Chance não sabia a verdade. — Hora do café, Toquinho — chamou Tess. Chance disparou, mas antes apontou a limusine. — Um dia terei uma dessas. Sam gargalhou, uma risada profunda que Andréa gravaria na memória, com todo o resto. Assim que Chance entrou, ela abordou Sam. — Chegou a hora. — Cuide-se. — Ficarei bem. Todos nós. — Pronunciou as palavras numa bravata dissimulada. — Meu contador vai enviar as informações sobre a conta de Chance. Providenciarei que todas as suas necessidades sejam cobertas. Mas não a que ela mais desejava. — Agradeço por isso. Sam beijou seus lábios delicadamente. — Lamentarei sempre o que lhe causei, mas nunca me arrependerei do que compartilhamos. — Nem eu — admitiu. — E nunca esquecerei você. — Apesar da mágoa. Fitou-a duramente. — Mas deve. — Não esquecerei, e temo que o mesmo aconteça com nosso filho. — As lembranças um dia empalidecerão. — Se pensa assim. — Ao menos Chance era jovem e tinha uma vida pela frente. Quando Rashid deu a partida, Sam colou os lábios no ouvido dela e sussurrou: — Sempre estarei pensando em você. Sempre a amarei com todo o meu ser. Andréa piscou furiosamente os olhos, anuviados de lágrimas. — Por favor, vá. — Antes, me permitiria mais um beijo? Projeto Revisoras

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Embora não devesse, concordou. Os lábios mornos de Sam clamavam pelos seus num beijo comovido. Porém, durou apenas um breve instante antes dele recuar. — Seja feliz. — Com mais um beijo, entrou no carro e fechou a porta, deixando para trás tudo o que mais amava neste mundo. Sam sentou sozinho no terminal do aeroporto aguardando as instruções do piloto. Observou os transeuntes com um interesse renovado, sobretudo as famílias viajando juntas. Podia ver o afeto nos rostos, o zelo de um pai segurando a mão da filha. Um vazio angustiante assomou Sam quando reconheceu o quanto perderia por não experimentar o mesmo relacionamento com Chance. Um dia teria outros, e os amaria igualmente, mas sempre imaginaria como teria sido se tomasse um caminho diferente. Se não houvesse nascido na realeza. — O avião está pronto, Alteza. Sam olhou para Rashid. — Estou pronto. Entretanto, não se sentia pronto para o que o aguardava em casa. Só conseguia se concentrar naquilo que estava abandonando. Conforme cruzaram o corredor até a pista onde o jato particular aguardava, Rashid entoou uma litania de deveres que Sam deveria enfrentar no regresso. — Seu pai diz que deve se reportar imediatamente ao palácio para assinar o acordo. Nada surpreendente. — Meu pai estará lá? — Sim, como a noiva e o pai dela. Algo que Sam já receava. Desde que decidiu cancelar o arranjo, preferia encontrar-se a sós com o pai. — O que mais? — Deve se reunir com o Parlamento pela manhã para discutir as próximas eleições. — Estou ciente disso. — E seu pai também requer que fale com seu irmão. Sam dispensou um comissário que oferecia uma bebida. — Qual deles? Projeto Revisoras

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— Jamal. Parece que o príncipe está encontrando uma mulher secretamente. Bom para Jamal. — Me recuso a interferir. — Isso não vai agradar seu pai. Tampouco recusar a se casar com Maila. — Cuidarei disso. Rashid recomeçou: — Também precisa... Sam não mais escutou a voz dele. Só ouvia o filho dizendo o quanto desejava que fosse pai dele. Andréa dizendo que o amava. O rugido das turbinas lançou-o de volta ao presente. Agarrou firme na poltrona quando o avião começou a taxiar. Deve retornar, ecoava na sua mente. Você é Samir Yaman, primogênito do soberano de Barak. Entretanto, outra voz eclipsou a primeira. Você é pai de Chance Samuel Hamilton... Não foi mais capaz de lutar contra o ímpeto de voltar para Andréa e para o filho, rumo a uma nova vida. Seria apenas meio homem se abandonasse Andréa. Um ser humano abjeto se ignorasse o filho. — Diga ao piloto para voltar! — gritou para Rashid, arrancando o cinto de segurança e levantando. Rashid atendeu confuso. — Algum problema? Sim. Ao diabo com as obrigações. Como Sam não respondeu, Rashid deu a ordem ao piloto. Num instante o avião fez a volta. Quando alcançaram o terminal, Sam disse: — Abra a porta! — O comissário levantou, mas pareceu incapaz de se mover. — Eu disse abra a porta! — repetiu Sam, mais incisivo. Relutante, o homem obedeceu e Rashid se uniu a Sam. — Alteza, esqueceu algo? — Sim, esqueci quem eu sou e o que desejo como homem, não como príncipe. Esqueci o que é mais importante na vida. Projeto Revisoras

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— Está dizendo que ficará aqui? — Exatamente. Permanecerei aqui com meu filho e a mulher com quem pretendo me casar. —Mas seu pai... — Provavelmente me deserdará. Minha mãe vai chorar, embora possa compreender. Perderei minha posição de futuro rei, mas ganharei alguma paz. Diga, Rashid, pode me culpar? Rashid balançou a cabeça. — Creio que não, entretanto receio pelo destino de nosso país sem sua liderança. — Não se preocupe com isso. Omar é o próximo da linha e servirá bem ao nosso povo. Começou a descer, mas parou quando Rashid perguntou: — Não retornará mais? Olhando para trás, para o companheiro leal, sorriu. — Depende da vontade de meu pai. E dos talentos persuasivos da minha mãe. Pela primeira vez em anos, Rashid sorriu. — Confiaria minha vida aos talentos persuasivos de sua mãe. Sam disparou pelos degraus, resistindo ao impulso de correr. Não sentia essa liberdade há anos, tanta alegria pelo prognóstico de passar a vida com Andréa e o filho. Caso ela concordasse em aceitá-lo de volta. — É a terceira ligação em três dias. — Andréa largou o telefone e notou a tia sentada à mesa da cozinha. — Mais negócios, creio. — Sim, era Adam Cantrell. Quer que eu treine uma promessa. — Já era hora de reconhecerem que mão boa você tem. Andréa mordeu o lábio. — Mas como saberiam? — Boca a boca. — Ou da boca de Sam. Tess discordou. — Por que acha que Sam está metido nisso? — Porque me disse que desejava ajudar a estabelecer minha carreira. Projeto Revisoras

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— E o que tem demais? — Quero construir uma reputação eu mesma. — Falando em construir, vai precisar expandir o estábulo se as coisas progredirem. — Sei, mas preciso ganhar dinheiro antes. — Não é da minha conta, mas e o dinheiro que Sam deposita no banco? — Quero economizar para a educação de Chance e qualquer despesa médica. — Se não se importa, quanto é, afinal? Nunca esconderam nada uma da outra desde o nascimento de Chance, então poderia se sair bem dessa - ao menos parcialmente. — Vamos dizer que jamais vi tantos zeros na minha conta bancária. Tess arqueou as sobrancelhas. — Tanto assim? O ronco de um caminhão atraiu a atenção delas. Andréa foi até a porta dos fundos e espiou pela vidraça. — Quem poderá ser? Tess veio atrás. — Não sei, mas tem um caminhão danado de extravagante. Andréa ajeitou o rabo-de-cavalo. — Estou horrível. Veja o que querem. Tess deu de ombros. — Se insiste, mas se for bonitão e solteiro, convidarei para tomar um refresco. — Não ouse! Curiosa, Andréa observou um jovem sair do caminhão e entregar um envelope para Tess. Parecia familiar. Quando Tess voltou, perguntou: — O que era? — É para você. Era o garoto dos Master. Parece que arrumou emprego aqui perto. Incapaz de conter a curiosidade, Andréa rasgou o envelope e sacou um cartão. Leu em silêncio até Tess pigarrear. — Se incomoda se eu ver? — É um convite para uma recepção no antigo Leveland Place. Chama-se Fazenda Galaxy agora. Projeto Revisoras

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— Pensei que estava à venda. — Alguém deve ter comprado, embora não haja nenhum nome indicando o novo proprietário. — Alguém rico, sem dúvida — calculou Tess. — É uma fazenda de criação de cavalos de primeira. — Sem brincadeira. Tess fitou Andréa um instante. — Então? — Então o quê? — Você vai? Atirou o cartão na mesa. — Não! — Por quê? Porque não queria compromisso social por enquanto. — Primeiro, é hoje à noite. Segundo, não tenho nada pára vestir. — Claro que tem. O vestido preto que usou no leilão. E precisa ir porque será bom para os negócios. Aposto que haverá alguns ricaços prontos para uma bajulação. — Se está tão animada, por que não vai você bajular? Tess soltou uma risada. — Oh, claro. Aposto que vou causar uma impressão e tanto. — Retirou uma palha de feno do cabelo da sobrinha. — Se arrume, vai dar tempo. Vou cortar umas rodelas de pepino para se livrar dessas olheiras Automaticamente tateou as olheiras em questão. — Não parecem tão ruins. — Não, mas é óbvio que não anda dormindo. Não mesmo. Passava horas acordada à noite, mas não ficava sozinha. Sam ainda cercava sua mente, até em sonho quando enfim adormecia. Embora não desejasse conhecer outro homem por enquanto, deveria comparecer à recepção pelo bem dos negócios. — Está bem, eu vou. — Soltou um suspiro. — Mas não vou ficar muito. Quero estar aqui para pôr Chance na cama. — Farei isso — Tess decidiu. — Você sai e se diverte. Se misturar com dinheiro não soava Projeto Revisoras

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divertido. — Voltarei às dez. — Tudo bem, mas não esperarei acordada caso o novo proprietário seja um solteiro gostosão. — Provavelmente é um marido fanfarrão. Tess riu e Andréa logo se arrependeu da decisão. Não havia absolutamente ninguém. Talvez todos tenham estacionado atrás do celeiro gigante, pensou, enquanto manobrava atrás do caminhão - o mesmo que Donny Masters dirigia naquela manhã. Confusa e preocupada, abriu o porta-luvas e retirou o convite. A data e o horário estavam corretos, só que decidiu chegar meia hora depois. Certamente a festa não pode ter sido tão chata a ponto de todos partirem tão cedo. Ou ninguém apareceu. Mas, se fosse o caso, simplesmente marcharia até a porta, se apresentaria aos novos proprietários, talvez tomasse uma bebida e depois sairia alegremente. Abriu a porta e saltou da caminhonete, amaldiçoando o vestido. Odiava se emperiquitar toda por causa de desconhecidos. Quando chegou à entrada da extensa casa de pedra, uma série de lâmpadas pequeninas enfileiradas nas sebes acendeu. Impressionante, pensou, caminhando até o alpendre. Após tomar fôlego, apertou a campainha, apreensiva por não escutar nenhum ruído lá dentro. Sem burburinho. Nem mesmo música. Ou os convidados se foram, ou nunca vieram. Quem sabe a festa era na arena. Nesse caso, alguma alma caridosa a conduzirá até lá. Passos leves indicaram que alguém vinha responder às suas dúvidas. — Bem-vinda! — saudou a governanta, com a voz tão suave quanto os olhos cinzentos. — Estamos felizes por comparecer, Srta. Hamilton. Sabia seu nome? Certamente o proprietário fez o dever de casa, quem quer que fosse. Decidiu deixar as apresentações deslancharem naturalmente. — Obrigada. Apreciei muito o convite. — E queria muito acabar com isso e se mandar dali. Lá dentro, acompanhou a governanta, inspecionando o comprimento do corredor, estarrecida. O piso de madeira italiana e os lustres irradiavam grana alta. Assim como a sala gigantesca, cheia de móveis sofisticados. Completamente deserta de gente. Projeto Revisoras

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— A festa é no estábulo? A mulher apenas sorriu. — Ele logo estará aqui para responder a todas as suas perguntas. — Ele quem? — indagou, totalmente desconcertada. — O mestre, claro. — Dito isso, a criada desapareceu. Embora não sentisse um perigo iminente, Andréa espiou por cima do ombro, checando se o caminho até a porta estava desobstruído caso precisasse empreender uma escapada rápida. Nesse ínterim, preferiu explorar a área em busca de alguma pista sobre quem o misterioso "ele" seria. Seu olhar imediatamente perambulou até um móbile brilhante, que pendia entre as cortinas pesadas da janela. Quando se aproximou, notou que os cristais eram réplicas dos planetas, flanqueados por estrelas pequeninas. Claro, concluiu. Fazenda Galáxia. Muito original. Incapaz de resistir, tocou as estrelas pequeninas, pondo o móbile em movimento. O balanço suave lançou raios de cores ao redor da sala. Ao menos o proprietário tinha bom gosto. — Ainda é tão fascinada pelas estrelas, Andréa?

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Lembranças de uma noite Kristi Gold Dez

Sua mão parou no ar ao escutar aquela voz. A voz para sempre incrustada no seu coração. Andréa estremeceu, e um zumbido suave se infiltrou nos seus ouvidos. Não podia estar acontecendo. A mente estava lhe pregando peças. Sam partiu. Mas a referência às estrelas... Incapaz de virar, perscrutou a sala por indícios de que não estava maluca. Então ela viu. Sobre a mesa de carvalho, jazia a foto de um menininho adorável, da mãe e do pai, todos abraçados. Para qualquer observador eventual, aparentariam ser uma família feliz. A família que desejava. Fechou os olhos e respirou fundo, inspirando a fragrância do homem de quem se despedira há seis dias. — Não respondeu a minha pergunta. Como poderia, se não conseguia falar? Os dedos dele percorreram seus braços, e ela tremeu como se estivesse totalmente exposta. Emocionalmente despida devido àquele retorno inesperado. — Devo estar sonhando... — disse, sem pensar. — Não é sonho. Enfim, virou-se e encontrou os olhos escuros. — O que faz aqui? Ele sorriu. — Sou o novo proprietário. Surreal demais, pensou ela. — Comprou este lugar? — De repente ficou claro que seria a maneira natural de Sam tentar sustentá-la. Não voltou para ficar. — Se pensa que vamos morar aqui, então... Sam pousou o dedo nos seus lábios para silenciá-la. — Espero que decidam morar aqui. — Já temos onde morar, não faremos tal coisa... — Comigo. — Com... — engoliu em seco — você? Projeto Revisoras

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Sam deslizou os dedos pelo queixo dela lentamente. — Claro, manterão sua fazenda para Tess e o Sr. Parker, e depois nosso filho, se Chance escolher morar lá. Andréa piscou. — Não entendo. — É simples. Meu lugar é aqui com você e Chance. Quanto tempo esperou para ouvir isso? — Mas e as suas obrigações? — Minha obrigação implica a responsabilidade com vocês. Custei algum tempo para enxergar, mas agora espero que acredite que pretendo ficar. Para sempre. Oh, como queria acreditar, mas era bom demais para ser verdade. — Vai sentir saudades da sua família. Sam a puxou para si. — Você é a minha família agora. — É isso mesmo que deseja? Ficar conosco, todo dia? — Outro pensamento cruzou sua mente. — O que vai fazer aqui? — Além de trabalhar duro para fazê-la feliz, tornarei este lugar um centro de adestramento de primeira. Com sua perícia e meu olho clínico, seremos bem-sucedidos. Andréa não conteve o entusiasmo. — Podemos pensar em reprodução? Sam sorriu. — Vamos colocar isso no topo da lista. Andréa o beliscou. — Falei de cavalos. — Poderemos reproduzi-los também. — Beijou os lábios dela suavemente. — Então, aceita minhas sugestões? Como seria fácil dizer sim. Afinal, não foi com isso que sempre sonhou? Andréa recuou. — Nos últimos dias, ansiei ter você de volta, mas estava suportando, como antes. Mas não sei se sobreviverei da próxima vez. — Não haverá próxima vez. Soou sincero, mas uma questão importante ainda a assombrava. Projeto Revisoras

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— E a sua noiva? — Conversei com Maila, e ela ficou aliviada. Parece que se apaixonou por outro. — E seus pais? O que acham de ficar na América? Suspirou. — Meu pai não recebeu bem a notícia. Minha mãe se entristeceu, mas entende que, já que nasci aqui, uma parte significativa de mim sempre permaneceria neste país. Andréa percebeu que ainda havia muito que ignorava sobre Sam. — Quer dizer que tem dupla nacionalidade? — Tecnicamente, sim. Meus pais estavam em missão diplomática. Minha mãe insistiu em acompanhá-lo, apesar do parto iminente. Escolhi chegar cedo ao solo americano. — Mas sempre preferiu Barak. — Sempre a considerei minha terra natal, independentemente de onde nasci. Se meu pai concordar, visitarei regularmente, com você e Chance. Mas meu verdadeiro lar é com vocês. Pareceu convincente. Então por que ainda estava tão assustada? — Confie em mim. Dou minha palavra que jamais deixarei você. — Promete? — Com todo o meu ser. Andréa abriu os braços e sorriu através de lágrimas de júbilo. — Bem-vindo ao lar. Numa súbita explosão de paixão, ele a beijou com um fervor que momentaneamente a privou da capacidade de respirar. Não queria nada, só estar com Sam, provar que isso era real, a oferta de um lar e de amor. — Venha comigo... — sussurrou Sam. Atravessaram outro corredor interminável, até um átrio repleto de plantas nos fundos da casa. Sam a conduziu a um divã largo o bastante para dois. Assim que sentaram, Andréa voltou a face para o teto envidraçado que revelava um manto de estrelas. — Isso é lindo. — Nosso recanto sob o céu — disse, numa voz sensual. — Onde podemos fazer amor, independentemente do clima. Andréa o contemplou sorridente. — E desistir do lago? Não podemos. Sentiria falta de ser devorada pelos insetos. Projeto Revisoras

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Sam gargalhou. — Não sentirei falta nenhuma, mas não vejo razão para não voltar lá em nome das recordações. — Subitamente sério, tomou-lhe as mãos. —Você me honra pela sua presença, entretanto, ficaria mais honrado se aceitasse ser minha esposa. Esposa. A palavra fez sua mente girar. Só queria ser a esposa de Sam, sua companheira. Embora quisesse gritar ‘sim!’, não o fez. Ainda não. Tocou a orelha dele com a ponta da língua. — Onde está a criada? — Saiu logo depois de recepcioná-la, como ordenado. — Bom, porque quero que me convença que sua proposta vale a pena. Sam sorriu um belo sorriso. — Vejo que está disposta a teimar. Andréa abriu o primeiro botão da camisa branca que ele vestia, agora com uma marca rosa de batom no colarinho. Sempre quis fazer isso, e planejava muito mais. — Não tem nada a ver com teimosia, como verá. — Que seja. — Sam tentou apagar a luminária e ela o impediu. — Não, sem escuridão desta vez. Quero ver cada detalhe. Sam alcançou suas costas e abaixou o zíper do vestido, a respiração ofegante ecoando no recinto. — Basta dizer e farei como pedir. Esta noite serei seu. De agora em diante, toda noite, se assim desejar. Desejava dormir com ele todas as noites, para acordar com ele todos os dias. Mas agora queria se concentrar em mostrar a Sam o quanto o amava. Após despirem-se apressados, deitaram face a face no divã. A exploração mútua começou com toques carinhosos e culminou em carícias ardentes. Revezaram-se para agradar um ao outro, comprometidos a memorizar cada detalhe com mãos famintas. Ousada, Andréa cavalgou Sam, assumindo o comando. Mas a consciência do que precisavam fazer subitamente a assaltou. — Trouxe camisinha? — perguntou ela. Sam agarrou seus quadris com as mãos grandes e aproximou-a, bem perto do território perigoso. — Me julgará insano se pedir que não pensemos nisso hoje? Projeto Revisoras

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— Quer dizer... — Que não quero nada entre nós, mas só se concordar. — Mas eu poderia... — Engravidar. — Beijou-a inteira antes de dizer. — Nada me faria mais feliz que ter outro filho com você. A última prova de compromisso, concluiu Andréa. Não a deixaria sozinha para criar outra criança. Jamais a abandonaria novamente. Em vez de responder com palavras, ergueu os quadris e devagar se deixou cair sobre ele. Mantiveram os olhares tão unidos como os corpos enquanto se moviam em sincronia. Foi como se nunca houvessem se amado antes. Cada sensação, conforme Sam se movia habilmente dentro dela, pareceu inédita. Quando nenhum deles conseguiu se controlar mais, desabaram nos braços um do outro. Gozaram juntos num único ato de amor, para sempre incomparável. — Ainda me deve uma resposta — falou Sam. Andréa rolou de lado. — Creio que temos alguém a quem perguntar primeiro. — Chance? — Sim, embora eu possa imaginar que vai fazer uma festa quando descobrir que é pai dele. — Estou ansioso. Andréa aninhou a cabeça sob o queixo dele. — Amanhã. — Prefiro contar hoje. Ergueu a cabeça, surpresa. — Hoje? Sam afagou um dos seios. — Daqui a pouco. Receio ter que convencê-la mais. Andréa se contorceu, arrancando um gemido de Sam. — Aposto que tem. Quando chegaram à fazenda, beirava às onze da noite. Sam concluiu que o filho devia Projeto Revisoras

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estar dormindo, mas não conseguiu tirar as mãos de Andréa, nem ela ofereceu muita resistência. Felizmente, as luzes brilhavam na janela da cozinha. Andréa o impediu de abrir a porta. — Espere um segundo. Quero me divertir. Sam apertou seu traseiro e a puxou para si, surpreso por ficar excitado novamente em tão pouco tempo. — Não receia que Tess nos flagre? — Não esse tipo de diversão. Quero brincar com a Tess. Rapaz, ela vai ficar surpresa. Não ficaria, mas Sam preferiu não revelar. Andréa abriu a porta, e Sam espiou Tess e Riley Parker sentados à mesa. — Ei, adivinhem quem é o novo proprietário da Fazenda Galaxy. Agarrando Sam pela mão, empurrou-o para dentro. Tess e Riley não tentaram dissimular o menor choque. — Oi, Sam! — saudou Riley. — Bela noite lá fora, hein? — Bela mesmo! — disse Tess sorrindo. Ressabiada, Andréa fitou Sam, depois o casal. — Esses dois sabiam de tudo? — Não fique brava — pediu Tess. — Se Sam não contasse seu plano, eu não teria convencido você a sair. Andréa ficou boquiaberta. — Isso não foi nada bonito. — Mas necessário — argumentou a tia. Sam a abraçou forte. — Compensarei você de algum modo. — Pode apostar, parceiro — resmungou Andréa, com um sorriso na voz. Aliviado, Sam se dirigiu a Tess: — Chance já se recolheu? — Acabou de deitar. Sam estava inseguro porque Andréa ainda não dera uma resposta formal à proposta de casamento. — Acha que está acordado? — Provavelmente — afirmou Riley. — Deve estar contando a fortuna dele. O guri ganhou Projeto Revisoras

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cada centavo meu no pôquer. — Mesmo se estiver dormindo — sugeriu Tess —, devia acordá-lo. Chance não gostaria de perder isso. Andréa espiou Sam. — Ela está certa, embora eu deteste admitir. Sam apontou para a escada. — Você na frente. No segundo andar, Andréa abriu a porta do quarto de Chance. Acendeu o abajur e suavemente balançou o ombro dele. — Anjo, está acordado? — Agora estou — respondeu, sonolento. Esfregou os olhos. — O que é? — Você tem visitas. — Não pode ser Papai Noel, não é Natal. — Quando viu Sam, um sorriso radiante iluminou seu rosto. — Sam! Você voltou. — Sim, voltei. O sorriso de Chance refletia seu contentamento. — Rezei para você voltar. Também pedi ao tio Paul, caso ele e Deus sejam amigos. Andréa afagou sua bochecha. — Estou certa que sim, querido. Tio Paul sempre foi um bom amigo. — O melhor — completou Sam. Sentia que Paul aprovaria seu amor por Andréa e abençoaria aquela união, se ela aceitasse. Andréa olhou nervosa para Sam, depois se dirigiu a Chance. — Temos algo muito importante para contar, anjo. Espero que compreenda. — O que é? — Bem, Sam não é só um amigo. Ele é seu... — Pai. — O sorriso astucioso se expandiu. — Eu sei. Apostei com Billy Reyna no acampamento que Sam era meu pai de verdade. Sam custou a recuperar a voz. — Sabia o tempo todo? Projeto Revisoras

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— Claro. Mas por que demoraram tanto para me contar? — É meio complicado — explicou Andréa. Sam tomou a mão do menino. — Esperamos a hora certa, quando soube que poderia ficar com você para sempre. Chance arregalou os olhos. — Vai ficar? — Se você e sua mãe concordarem... Chance espiou Andréa. — Tudo bem, mamãe? — Mais que isso. Seu pai gostaria de casar comigo para nos tornarmos uma família. Chance soltou um "Oba!" estridente. — Acho que é um sim — traduziu Andréa. Chance resmungou. — Desde que não se beijem ou essas coisas melosas. — Tentaremos nos conter quando estiver por perto — ela riu. Pleno de amor, Sam abraçou Chance. — Sou grato por entender, meu filho. — Posso chamar você de papai agora? — É meu maior desejo. Chance o arrastou num abraço voraz. — Estou feliz que tenha voltado, papai. Posso dormir agora? Quero acordar cedo e ligar para Billy. Andréa afagou seu cabelo. — Claro. Bons sonhos e até amanhã. — Vai estar aqui amanhã, papai? — E todo dia, daqui em diante.

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Lembranças de uma noite Kristi Gold Epílogo

Daqui em diante. Que delícia incluir essas palavras nos votos, pensou Andréa, chegando de mãos dadas com Sam na recepção em seu novo lar. Estava tão nervosa durante a cerimônia, uma simples reunião na capela mais próxima. Parecia que esperara uma vida inteira até ficarem verdadeiramente juntos. A apreensão se devia à expectativa de conhecer a família dele, mas só a mãe e o irmão Omar vieram. O pai se recusara. Se passassem algum tempo juntos antes, Andréa talvez não tremesse tanto. Porém, a família real chegou atrasada para o casamento. Apesar disso, inquiriu Sam sobre sua cultura, ela não sabia como agir, o que dizer. Afinal, estava entrando num mundo diferente. O mundo de Sam. Queria muito agradá-los pelo bem de Sam. — Seja você mesma — aconselhou ele, como se lesse seus pensamentos. — Espero que seja suficiente — disse Andréa. Ele a beijou na face. — Saiba sempre que você é a melhor aos meus olhos. Essas palavras atenuaram a ansiedade - até entrarem na tenda armada no pátio. A hora do julgamento chegou, e Andréa esperava que a família Yaman a aprovasse. Não importa. Sempre teria sua própria família, O salão resplandecia com luzes brilhantes, a única iluminação além das velas. Ao longo da tenda, havia mesas guarnecidas com toda comida imaginável. Um bolo gigantesco, ornado com flores ladeava uma fonte que jorrava champanhe. E sobre o bolo de chocolate, jazia o retrato de um jovem sorridente, o responsável pelo enlace. — Obrigado, Paul — sussurrou Andréa. — Já era hora de chegarem. Pensei que tivessem parado em algum lugar para começar a lua-de-mel. — Todos os convidados olharam, atraídos pela sonora saudação de Tess. Um calor ardente tomou o rosto de Andréa, quando Sam a conduziu para o meio da multidão composta por líderes comunitários, clientes e parentes. Mas não identificou a mãe dele na turma, embora visse Chance correndo em volta com duas belas meninas morenas, que supôs serem sobrinhas de Sam. Chance ignorou sua chegada totalmente. Contudo, agora Andréa só queria que ele conhecesse as primas. Projeto Revisoras

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Após numerosos cumprimentos e abraços, Andréa acompanhou Sam à mesa principal e aceitou a taça que ele lhe ofereceu. Com o canto dos olhos, notou uma senhora elegante, trajando longo, o cabelo preso num coque sofisticado. Não teve dúvida que fosse a mãe dele. A semelhança era impressionante. Próximo estava um homem em trajes árabes tradicionais, que Andréa concluiu ser Ornar. — E uma honra apresentar minha esposa. Andréa, minha mãe, Amina, e meu irmão, Omar — disse Sam. Omar efetuou uma mesura. Por sua vez, Amina sorriu, tomando Andréa de surpresa. — Meu filho escolheu muito bem, posso ver. Estamos felizes por recebê-la em nossa família, Andréa. — Sua voz era meiga, e ornada por uma entonação lírica. Andréa lhe estendeu a mão sem hesitar. — Estou muito feliz por pertencer à família. O semblante sério de Omar subitamente se dissolveu num sorriso. — Também lhe dou as boas-vindas. Merecia ser condecorada por endireitar esse proscrito. — Veja quem fala. Se não fosse a bondade de Sadiiqa em aceitá-lo como marido, ainda estaria levando uma vida de playboy na Europa, dormindo com toda mulher... — Chega! — disse Amina, com firmeza. — Querem que Andréa pense que criei dois patifes? — Dramática, pousou uma das mãos no coração. — Perdoe-os. Os anos passam e ainda se comportam como meninos. Andréa riu. Compreendo totalmente. Antigamente, Sam e Paul agiam desse modo. Que maravilha ver isso acontecer de novo. Tomando Andréa pelas mãos, Amina a contemplou de alto a baixo. — Seu vestido é simplesmente lindo. Andréa espiou o longo de cetim sem mangas. — É simples, como eu. — Há muita beleza na simplicidade. Basta admirar o céu para perceber. As estrelas são belas na sua simplicidade. Andréa sentiu uma afinidade verdadeira com Amina. — Não poderia dizer melhor. — Sam apenas sorriu. — Samir, não vou me desculpar por seu pai. Seja paciente. — Voltou-se para Andréa. — É Projeto Revisoras

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um homem teimoso, mas ama sua família. Ele vê isso como a perda de um filho. — Não precisa ser assim — replicou Sam. — Entendo, querido, e ele perceberá isso logo. Espero que faça as pazes com seu irmão a tempo de ir a seu casamento. Sam amuou. — Que casamento? — De Jamal. Esfregando o queixo, Sam sorriu. — Ah, a mulher misteriosa foi revelada. Amina torceu as mãos. — Sim, e espero que isso o agrade. — Quem é ela? — Maila. Andréa engasgou, e meio zangado Sam não pareceu menos chocado. — Então papai me substituiu por Jamal. Que conveniente. — Engana-se — ralhou Amina. — Jamal e Maila estão juntos pela própria insistência, sem arranjo. É amor em cada sentido da palavra. — Fico feliz — respondeu, sincero. E Andréa também. Gostava de ver gente se apaixonando. Às vezes, o destino não pode ser rejeitado. — Contou a papai sobre Chance? — perguntou Sam. — É melhor que conheça o neto pessoalmente — disse Amina. — Também anseio por uma apresentação oficial. E parece que o momento chegou. Nesse instante, Chance correu até Andréa. — Aquele homem disse que me chamou, mas estou brincando com essas crianças do país de papai. Posso voltar? — Ainda não. Primeiro, quero que conheça alguém. — Chance, sou sua jadda. Ele franziu o nariz. — Minha o quê? — Sua avó — explicou Sam. — Minha mãe. Chance sorriu. Projeto Revisoras

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— Sério? Eu não tenho uma dessas. Amina o puxou num abraço comovido. — Agora tem, pequenino. Andréa esperava que Chance protestasse, mas ele continuou sorrindo. — As crianças com quem brinca são suas primas, e o pai delas é seu tio Omar — explicou Amina. — Como tio Paul? — Sim — respondeu Andréa. — Como tio Paul. — Posso brincar com minhas primas agora? Quero mostrar Sunny. — Pode, mas vá com um adulto — avisou Andréa. — Eu vou — ofereceu-se Amina. — Mas quem é Sunny? — Meu cavalo — disse Chance, tomando a mão dela. — Você vai amá-la, vovó. Posso chamar você de vovó? — Oh, claro. Sabia que se parece muito com seu pai quando... Ao ver Amina saindo abraçada com Chance, Andréa percebeu que não havia diferenças intransponíveis. A diversidade apenas torna os momentos mais especiais. Afinal, o amor verdadeiro não conhece fronteiras. — Queria que me deixasse levá-la a algum lugar em lua-de-mel — lamentou Sam. — Não podemos. Precisamos ficar para o casamento de Riley e Tess semana que vem. Preciso treinar Sunny, sem mencionar os outros cavalos no estábulo. De qualquer modo, temos aquela cama enorme e uma banheira de hidromassagem. Pode pedir mais? — Tem razão! — ele concordou. — E na atual situação, seria prudente economizar, sem o apoio de meu pai. Andréa acariciou seu rosto. — Já temos muito. Vai acabar tudo bem. Sei que está magoado, mas acredito na sua mãe. Ele vai ceder. — Admiro seu otimismo, mas conheço meu pai. — E eu nunca acreditei que ficássemos juntos. Sam tomou-lhe as mãos e beijou. — Nem eu. — Tenho certeza que ele ficará encantado pelo neto adorável. Projeto Revisoras

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Sam ajeitou a gola do fraque. — Queria lhe oferecer tudo o que o seu coração deseja. — Já me ofereceu tudo. Um lar maravilhoso. Um filho. E sabe o que mais? Olhou dentro dos olhos do marido e neles não viu mais mistério. Só amor. — O melhor presente que qualquer um pode receber é amor. Sem isso, todo o ouro do mundo não significa nada. Sam suavemente beijou seus lábios. — É a mais pura verdade, Andréa. A mais pura verdade.

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Kristi gold lembrancas de uma noite  
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