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Kathleen Woodiwiss A Frรกgil Chama do Amor The elusive flame


FAMÍLA BIRMINGHAM 05 Cerynise, uma jovem e talentosa artista, vê-se fadada subitamente a uma situação de extrema necessidade. A morte de sua protetora e mecenas e a cobiça do sobrinho desta a privam do bem-estar que gozava na Inglaterra, ficando sem sequer um teto sob o que abrigar-se. Ante a precariedade, recorre ao bonito capitão Beauregard Birmingham para que a leve a sua terra natal, a América. Atrás de sua aparência de destemido aventureiro e curtido marinheiro, Beauregard esconde um coração terno e sensível, e de imediato se presta a ajudar a Cerynise, oferecendo-se inclusive a apresentar-se provisoriamente como marido dela para não pôr em perigo sua reputação durante a longa travessia oceânica. No entanto, os laços de camaradagem entre ambos dão lugar a sentimentos mais profundos, e o fraternal afeto se converte em paixão e desejo...

Kathleen Woodiwiss é uma autora cujo nome é já referência indispensável no gênero histórico-romântico. Às vezes uma amizade se converte em paixão irreprimível...

Disponibilização/Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie Revisão: Edith Suli Revisão final: Danyela Formatação: Gisa Projeto Revisoras Traduções


CAPÍTULO 1 24 de outubro de 1825 Londres, Inglaterra Cerynise Edlyn Kendall olhava pelas janelas do salão, observando com olhos chorosos e expressão angustiada às pessoas que caminhavam apressadas pelo caminho que atravessava Berkeley Square. Pareciam ansiosas para se resguardarem antes que começasse a chover muito sobre suas cabeças. As rajadas geladas que acompanhavam à ameaçadora escuridão do ceu açoitavam por igual a jovens e velhos, homens e mulheres; brincalhonas, arrebatavam capas e casacos aos transeuntes, que se atrapalhavam em excesso em manter seguros suas cartolas, toucados e xales. Narizes e faces mostravam tons próximos ao vermelho, e os transeuntes não podiam evitar alguns calafrios. Em sua maioria, os habitantes da cidade estavam dirigindo-se, com impaciência ou resignação, a suas famílias e lares, quando não a lugares mais solitários. Prestavam pouca atenção às comodidades que os aguardavam, tão pouca, para falar a verdade, como frágil é a vida. No suporte de mármore da chaminé do salão, um relógio grande de porcelana, adornado com formosas estatuetas, deu às quatro horas com um delicado tinido. Cerynise uniu suas finas mãos nas abundantes dobras de sua saia, afundando-as mãos no tafetá rígido e negro e lutando com coragem contra a dor que a sufocava . Uma vez emudecido o tinido do relógio, Cerynise conteve o premente desejo de voltar à cabeça com a espera associada ao rito do chá, que durante os últimos cinco anos compartilhara diariamente com sua tutora Lydia Winthrop. A morte inesperada de Lydia deixou Cerynise aniquilada, a qual continuava sem assumi-la por completo. Lydia se mostrava enérgica e vivaz para uma mulher de setenta anos! Na noite de seu falecimento, seu engenho e bom humor contrastaram com a atitude ranzinza de seu sobrinho neto, que fora visitá-la. De qualquer maneira, e além do que desejasse Cerynise, Lydia estava morta e enterrada. Só transcorrera um dia desde que a jovem contemplara o ataúde de mogno, enquanto se entoavam orações pelo repouso da alma da defunta. Sua aflita mente julgava uma eternidade o tempo transcorrido desde que um punhado de terra, símbolo do retorno do pó ao pó, fora jogado no ataúde em sua descida. A gentil e afetuosa mulher em quem Cerynise achou uma protetora, confidente, mãe e amiga da alma não se mostraria nunca mais a seus olhos, nem voltaria a lhe fazer companhia. Apesar de seus esforços para conter a dor, os lábios de Cerynise tremeram, mostrando dentes brancos e perfeitos ao mesmo tempo em que um novo acesso de pranto empanava seus olhos de cor avelã e de densas pestanas. Não voltariam a desfrutar de deliciosos bate-papos em torno de taças transbordantes e deliciosas torradas, nem a sentar-se juntas à tarde para desfrutar do reconfortante calor da chaminé, enquanto Cerynise lia em voz alta um velho livro de poesia ou relatos. O salão não voltaria a ressoar com as belas melodias que a jovem costumava a cantar com o acompanhamento de Lydia ao piano forte. Tampouco voltariam a


caminhar por praias buliçosas, nem a trocar confidências no transcurso de um passeio pelo Hyde Park, à beira de Serpentine. Nem sequer voltariam a gozar do simples prazer de estar juntas na paz e serenidade de uma clareira no bosque. Tinha-lhe sido arrebatado o apoio compreensivo de sua tutora, que em face dos obstáculos sociais, convertera em realidade o sonho de Cerynise de converter-se em uma grande pintora, até o ponto de que se celebraram exposições e que ricos clientes compraram suas obras por somas consideráveis, embora sob o anonimato das iniciais CK, único indício da identidade da artista. Até agora, sob os embates de uma dor que revivia sem cessar por causa de íntimas lembranças, Cerynise quase conseguia imaginar-se que a anciã, alta e sempre vestida de negro, achava-se a poucos passos detrás de seu cavalete, um pouco à direita, como estivera tantas vezes enquanto sua pupila pintava, recordando-lhe (com aquela voz rouca) sua admoestação de ser fiel a si mesma acima das circunstâncias. O desespero de Cerynise, sua solidão, eram tão grandes que não se achava com forças para suportá-las. sentia-se fraca, exausta, e não a surpreendeu o estranho movimento de vaivém que parecia haver-se apoderado da sala, suscitando nela uma sensação de falta de equilíbrio. Segurou-se no batente da janela para não cair, e apoiou a testa na madeira fresca e escura até que o enjoo foi passando. Comeu muito pouco desde a morte de Lydia; seu magro sustento se reduzia a poucas colheradas de caldo e uma simples torrada. Pouco ajudavam as horas de sono que conseguira conciliar com grande esforço em seu dormitório do andar de cima. Não se sentia capaz de conceder uma pausa Na dor, mesmo sabendo que a própria Lydia não teria querido que se afligisse em excesso por sua morte, tão prematura. Tempos atrás, a anciã devotou consolo e compaixão a uma menina assustada, que aos doze anos acabava de perder a seus pais no transcurso de uma tormenta devastadora, de virulência tal que fez desabar uma árvore de grande tamanho sobre o lar dos Kendall. Cerynise se atormentou por não ter estado com eles para salvá-los, mas Lydia, que passara sua infância na zona e fora amiga da avó de Cerynise (cuja morte precedeu em vários anos a de sua filha), fizera-lhe entender com doces palavras que também ela teria perecido se não se achasse então em uma academia de senhoritas. Por dura que seja a vida teria que seguir adiante. Essa fora a lição da bondosa anciã. Isso era o que Lydia teria esperado que recordasse. Entretanto, como era difícil! - lamentou-se Cerynise. Se Lydia tivesse adoecido sequer um dia desses cinco anos, se tivesse dado algum aviso, sua morte não teria pego tão de surpresa todos que viviam em sua casa; de qualquer maneira , Cerynise nunca teria desejado ver aliviado sua dor a custa de que a anciã se consumisse lentamente. Se seriamente fora impossível deter a mão da morte, então o fato de que Lydia tivesse sucumbido com tão boa saúde era uma autêntica bênção, afligisse ou não a jovem que em vida a queria tanto e que agora chorava seu falecimento. As janelas começaram a ser fustigadas por gotas de chuva que corriam velozes pelo vidro, tirando Cerynise de suas reflexões e devolvendo-a ao presente. Ante a iminência do


temporal, a rua quase se esvaziara de pedestres. Só uns poucos corriam para ficar debaixo de um teto. Carruagens continuavam passando , com cocheiros que, vestidos com elegantes librés, entrecerravam os olhos para ver através da chuva. Como lhe parecia ouvir passos no salão, Cerynise se voltou e topou com os olhos avermelhados da camareira, que, assim como outros membros da criadagem, chorava amargamente o falecimento de sua senhora. - Desculpe, senhorita Cerynise - murmurou a criada. - Agora que voltou, quer tomar o chá? Cerynise não tinha interesse em alimentar-se, mas talvez o chá infundisse certo calor a seu corpo depois da visita ao cemitério. O frio a impregnou até os ossos, e não podia concebêlo mais que como odioso prelúdio de um inverno não menos cruel. - Pode servi-lo, Bridget. Obrigada. Suavizava suas sílabas um ligeiro acento de sua Carolina natal, acento que se modificara em sua estadia na Inglaterra. Entre outras e variadas disciplinas, seus professores fizeram grandes esforços para instruí-la na pronúncia correta e etiqueta inglesas, mas Cerynise, que os considerava inferiores a seus pais em conhecimentos e inteligência, desfrutou contrariando seus esforços, qual menina precoce aficionada a zombar dos mais velhos. Capaz, quando se propunha, de uma dicção elegante e afetada que nem o mais perspicaz teria desmascarado, negou-se com obstinação a converter-se em estrangeira em sua terra natal, uma vez que havia resolvido retornar às Carolinas antes mesmo de abandoná-las. A camareira fez uma reverência e partiu imediatamente, contente de ter no que ocuparse, principalmente quando a casa estava, há alguns dias imersa em uma tristeza e um silêncio mortuários, como se também ela levasse luto pela perda de sua proprietária. Às vezes Bridget imaginava ouvir aquela voz rouca que nos últimos anos enchera sua vida de alegria e amabilidade. Não demorou para ser introduzido no salão um carrinho de chá com serviço completo de prata e porcelana do Meissen. Acompanhava à infusão um prato de pães-doces providos de cremosa manteiga, e uma terrina de cristal com geléia de framboesa para tentar ao paladar. Cerynise se afastou da janela com um suspiro meditabundo e tomou assento em um dos dois sofás colocados frente a frente diante da chaminé. Bridget aproximou o carrinho e logo se retirou com uma leve reverência. Com mãos trêmulas , Cerynise pegou o bule, serviu-se de uma xícara e acrescentou leite e açúcar, pequena concessão ao gosto inglês a que tomou especial afeição. Olhou os pães-doces com intenção de comer um, mas ao vê-lo no prato deixou de querê-lo e se limitou a observá-lo com fixidez. Havia entre a decisão e seu cumprimento um abismo que não se viu capaz de cruzar. Comerei-o mais tarde, prometeu-se, deixando o prato com um calafrio de repugnância. Em seguida pegou a xícara e provou a infusão, confiando que lhe acalmaria tanto o estômago como os nervos. Pouco depois se achava de novo junto à janela, bebendo o chá a goles e contemplando o elegante bairro de Mayfair, ao qual pertencia a mansão. Além dos limites de


seu campo visual, o mundo parecia tão vasto e indômito que a enormidade do sentimento de perda de Cerynise a levou a perguntar-se como faria frente de modo proveitoso a sua situação, agora que estava sozinha e não tinha mais que dezessete anos. Fechou os olhos para mitigar a dor surda que estivera se formando em sua cabeça desde a volta, provocado sem dúvida pela tensão e as intermináveis horas de insônia. Começou a sentir um martelar crescente nas têmporas, até que não houve presilha em seu cabelo que não parecesse resolvida a agravar seu mal-estar. Deixou a xícara de lado e começou a extrair os incômodos grampos, tirando-as do coque complicado que coroava seu penteado e puxou o cabelo até que suas grossas tranças caíssem em pesado abandono por seus ombros e costas. A tortura persistiu com encarniçamento, como se quisesse lhe perfurar o cérebro, até que Cerynise se viu impulsionada a procurar outra classe de alívio: massageou o couro cabeludo, sem parar e pensar no estado em que ficaria juba acobreada com mechas loiras que o adornava, nem no fato de achar-se no salão principal, onde era costume a norma de vestir-se com aprumo e máximo decoro. As únicas pessoas presentes na casa eram os criados, e embora o sobrinho neto da Lydia tinha propensão a deixar-se desabar sem prévio aviso e a horas desacostumadas, fora tal sua irritação com a anciã no momento de partir que prometera não voltar em duas semanas. Isso já fazia três dias. A dor de cabeça desceu a níveis mais suportáveis, permitindo a Cerynise um pouco mais de clareza em suas reflexões sobre o futuro. Ficou a passear pelo salão, tratando de esclarecer suas perspectivas vitais. Só tinha um parente com vida, um tio residente em Charleston. Era um homem solteiro de vocação, mais aficionado aos livros e aos estudos que ao matrimônio e a família; mesmo assim, Cerynise estava segura de que a receberia com os braços abertos. Despediu-se dela lhe assegurando que nunca a teria deixado partir se não tivesse certas dúvidas pessoais sobre sua capacidade de fazer às vezes de pai e lhe ensinar quanto deve saber uma mulher. Depois de refletir sobre as vantagens de viver com a anciã, dera o beneplácito à proposta da Lydia e, olhando a sua sobrinha com olhos chorosos, insistiu que viajasse a Inglaterra, estudar arte e idiomas, dominar as artes de uma dama de mundo e voltar convertida em exemplo de elegância. Apesar da distância que os separava, Sterling Kendall era o único porto seguro de Cerynise. Pelo menos não teria de recear pelo dinheiro, pensou com alívio. O que cobrara em efetivo pela venda de seus quadros lhe permitiria viver com desafogo e pintar outros. Charleston contava com diversos fazendeiros e comerciantes ricos, muitos deles ávidos colecionadores de obras de arte, mas talvez seu entusiasmo ficasse diminuído ao saber que o artista era pouco mais que um desconhecido, e além disso, mulher. Visando a alcançar um êxito razoável, parecia prudente buscar outro comerciante disposto a vender seus quadros sem revelar o mistério de sua identidade. Tendo em conta o que já ganhou, Cerynise não considerou muito difícil encontrar um empreendedor que achasse interessante o encargo. Deteve-se de repente, surpreendida pela imagem que lhe devolvia o espelho de corpo inteiro fixado à parede do vestíbulo. Sem dúvida surpreendeu-se ao ver-se tão despenteada no


salão principal, mas o que achou mais desconcertante foi o fato de que, com sua cabeleira longa e ondulada caindo nas costas, por cima dos ombros, poderiam tomá-la por uma moça cigana de indômita juba, embora elegantemente vestida. Cerynise inclinou a cabeça sobre um pescoço comprido e gracioso e se examinou com imparcialidade, perguntando-se se depois de tão longa ausência seu tio a acharia muito mudada. Tinha-a visto zarpar como uma esquálida menina, complexada por sua estatura. Agora era uma mulher plenamente desenvolvida, alta e esbelta, dotada de curvas com que atrair a um séquito de jovens galãs que já começaram a importunar Lydia em relação aos detalhes de sua apresentação em sociedade. Seu recente jejum exagerava o tamanho de seus olhos, cuja cor de mel ficava escondida atrás de umas pestanas longas e curvas. Suas maçãs do rosto eram agradavelmente altas, talvez mais pronunciadas nela do que o habitual, detalhe que emprestava certa magreza a suas faces. Seu nariz era reto e fino, e pareceu-lhe bastante aceitável; pouca cor tinha, entretanto, naqueles lábios suaves, de expressão grave. Estava vestida de negro rigoroso, à exceção de três discretos adornos bordados, um na gola plissada do vestido e dois nas extremidades das mangas. Sua elegante jaqueta de veludo com cós de fita negra acabava exatamente por cima da cintura. As mangas justas contrastavam com umas ombreiras de considerável volume. Os babados de ambos os punhos levavam como adorno o mesmo bordado caro da gola. Uma série de festões acrescentavam ar vistoso à saia, cuja elegante brevidade deixava descoberto dois finos tornozelos cobertos de meias, assim como uns sapatos sem salto. Cerynise finalizou o exame de sua imagem com uma careta irônica. Estava certa de que Lydia teria dado sua aprovação ao fato de soltar o cabelo no salão principal, e com ele a reserva. Apesar de sua condição de dama acima de recriminações, a anciã possuía suficiente sensatez para saber quando observar as convenções e quando as ignorar em altares do sentido comum e a mais elementar sinceridade. Cerynise achava difícil imaginar que os conselhos debulhados por sua protetora ao longo dos anos pudessem ter sido aproveitados sem aquela pequena e valiosa lição de pura lógica. O ruído de uma carruagem parando diante da residência de Lydia Winthrop foi seguido por um vigoroso golpear de aldrava na porta principal. O insistente martelar pareceu ressoar por toda a mansão, enquanto o mordomo cruzava o vestíbulo com sua habitual austeridade. Aproveitando o parêntese, Cerynise pôs certa ordem em sua cabeleira e prendeu o coque com os grampos. Sem dúvida seria mal visto que uma dama elegante recebesse às visitas com o desalinho de uma taberneira vulgar. No vestíbulo se ouviu uma explosão de vozes agudas e risadas femininas, testemunho da buliçosa entrada dos visitantes. antes que Cerynise tivesse tempo de investigar, dois homens irromperam no salão. Seguia-os, tenso, o mordomo, escandalizado por tamanha desfaçatez. - Não sabe quanto o sinto, senhorita - se desculpou Jasper, com rugas de preocupação em seu rosto envelhecido. - quis anunciar a presença do senhor Winthrop e o senhor Rudd,


mas não me deram oportunidade. - Não se preocupe, Jasper. Está bem - assegurou-lhe Cerynise. Avançou com serenidade fingida, procurando ocultar nas dobras da saia suas mãos trêmulas. Conhecia o sobrinho de Lydia mais do que teria desejado, apesar de que em suas visitas a sua protetora Alistair Winthrop sempre tinha solicitado audiência privada. Era um homem alto e gorducho, tão carente de elegância em seus movimentos que parecia ter os ossos deslocados. Usava o cabelo penteado para trás, com costeletas que acentuavam suas feições enxutas. De perfil, seu fino nariz transbordava seu agressivo queixo. Não era um homem atraente, mas se notava que gastara muito dinheiro em sua pessoa, porque apoiava sua vestimenta em critérios ostentosos e alheios a mais elementar discrição. Seu acompanhante, Howard Rudd, igualava-o em estatura, mas possuía uma barriga tão pronunciada que parecia abrir caminho com ela. Uma teia de veias obscurecia seu bulboso nariz. Arrastava desde seu nascimento uma pequena mancha violeta na face esquerda. Apesar de ter visto o advogado há dois ou três anos atrás, Cerynise ainda recordava dele tocando às escondidas quantos artigos de valor tivesse a seu alcance enquanto aguardava ser admitido nos aposentos particulares de Lydia. O brilho de seu olhar em tais ocasiões parecia delatar uma cobiça que semeava em Cerynise a dúvida de se seria capaz de roubar algum objeto valioso. A jovem achava difícil imaginar que Lydia tivesse continuado confiando nele depois de uma ausência tão duradoura, principalmente quando os vapores que por então o rodearam, e seguiam fazendo-o, identificavam ao Howard Rudd como homem propenso a abundantes libações. - O senhor Winthrop sempre foi bem-vindo nesta casa, Jasper – disse Cerynise com recato, dirigindo-se ao mordomo. Lydia tivera por sistema receber a seu sobrinho com cortês deferência, mesmo que sua chegada supusesse uma intrusão nas horas do almoço, ou durante uma visita. A anciã teria esperado o mesmo de sua protegida. - Também o senhor Rudd, é obvio... Suas palavras foram interrompidas por uma gargalhada estúpida. voltou-se para Alistair, surpreendida por sua reação grosseira. Os estranhos modos daquele homem a levaram a duvidar mais de uma vez que em seu corpo houvesse algum osso rígido. Os mesmos pensamentos se apropriaram dela uma vez mais ao vê-lo aproximar-se com passo arrogante e uma faísca de maldade em seu olhar escuro. - Que amável é, senhorita Kendall! - disse Alistair com ironia. Sua boca grande se movia com a mesma estupidez que o resto do corpo. - Que grande gentileza a sua! Cerynise adivinhou que estava prestes a acontecer algo desagradável, e procurou não ser tomada despreparada. Seus encontros com aquele personagem se reduziram a cruzar-se com ele em habitações ou corredores, mas não a impediram de forjar uma opinião pouco lisonjeira de Alistair Winthrop. O que vislumbrara de seu comportamento caracterizava-o como homem terrivelmente presunçoso. Parecia acreditar-se credor de certo grau de fama pelo simples fato de ser sobrinho neto de uma mulher extraordinariamente rica, embora o


parentesco lhe viesse por via matrimonial. Frequentemente Cerynise suspeitou que era um preguiçoso, defeito que empalidecia em comparação com sua sistemática falta de respeito a sua tia avó. Embora Lydia nunca tivesse especificado o que o levava a aquela casa, Alistair estava acostumado a partir fazendo recontagem de novas aquisições, quando não jogando pragas contra a suposta e irredutível mesquinharia da anciã, reação esta última com qual concluiu sua última visita. Seu apego aos insultos tinha reforçado a aversão de Cerynise, até o extremo de considerar suficientemente referendadas seus dotes de atriz pelo mero fato de não alterar-se em presença de semelhante indivíduo. Passeando diante da jovem, Alistair assinalou ao advogado com uma mão. - Diga-lhe - ordenou. Howard Rudd passou uma mão pelos lábios, sempre babeantes, e deu um passo à frente. O cumprimento da ordem ficou interrompido pela entrada de uma jovem com um adorno indecente, arrastando atrás de si um jibóia de brilhantes plumas azuis. Tanto seu busto como seus quadris ficavam perfeitamente à vista, o primeiro por um vertiginoso decote e os segundos pelo apertado da saia. Recolheu o cabelo, convertendo-o em uma massa de cachos dourados cuja cor teria sido difícil encontrar na natureza. Um risco negro desenhava o contorno de seus olhos marrons. Tinha uma pinta na maçã do rosto direito, sobre uma grossa capa de ruge cuja cor se ajustava a que manchava o pescoço da camisa de Alistair, conforme Cerynise percebeu. A recém chegada rebolou em direção a seu galã, rindo aguda e nervosamente. - Al, por favor, não seja mau! Não volte a me fazer esperar no vestíbulo! - Olhou ao Alistair com uma careta afetada e, movendo suas longas pestanas, acariciou-lhe o colete com gesto insinuante. Sua pronuncia era a apoteose da vulgaridade. - Nunca estive em uma casa tão luxuosa, mas sei o que é ter boas maneiras. Desde que estamos aqui os criados não me ofereceram nenhuma cadeira nem um golinho de chá! Posso ficar com vocês? Por favor! Não aguento estar sozinha nesse enorme vestíbulo. Tenho medo de que seja onde caiu morta sua pobre tia. Alistair, exasperado, grunhiu e lhe afastou a mão. - Está bem, Sybil, mas olhe e fique caladinha! Não quero ouvir mais nenhum de seus gritos, de acordo? - Sim, Al - respondeu Sybil com outro nervoso gorjeio. Jasper demonstrou sua presença aspirando com força pelo nariz. Afastou a vista da antipática criatura e levantou com altivez seu nariz de gancho. Apesar de ganhar um olhar áspero do Alistair, não lhe fez caso e dirigiu sua pergunta à antiga pupila de sua senhora. - Desculpe, senhorita, deseja que fique? - Fora! - exclamou -lhe Alistair, sublinhando sua ordem com um imperioso gesto. - Isto não lhe concerne! Jasper permaneceu imóvel até que Cerynise assentiu com a cabeça, lhe dando permissão para retirar-se.


Alistair vigiou sua partida com expressão feroz, como se tivesse tentações de vingar a ofensa, mas acabou esquecendo o incidente em altares de outros temas mais importantes e voltou sua atenção ao letrado. - Continue, senhor Rudd. O advogado se ergueu em toda sua estatura e olhou à Cerynise com ar de preocupação, aparentemente para dar maior ênfase à gravidade do momento. - Saberá sem dúvida, senhorita Kendall, que tive a honra de atuar como advogado da senhora Winthrop durante vários anos. Fui eu quem redigiu seu testamento. Trago-o comigo. Cerynise olhou ao Rudd com a mesma cautela com que teria observado a uma serpente a ponto de atacar. Rudd extraiu um maço de pergaminhos do bolso interior de seu colete e rompeu o selo com afetada cerimônia. Por muito que custasse ao Cerynise entender a continuada lealdade da Lydia ao Howard Rudd, aí estava, provido claramente dos documentos legais. Descansou seu corpo na cadeira mais próxima, e sua mente ficou em suspense. - Têm intenção de ler agora o testamento da senhora Winthrop? - É necessário - respondeu Howard Rudd. - Trata-se disso. Mesmo assim pediu permissão ao Alistair com o olhar. - Adiante, homem! - disse este, estendendo com cuidado as abas de sua jaqueta e tomando assento em uma poltrona fofa separada de Cerynise pela mesa. Sorriu a jovem com presunção e ficou a brincar com uma das duas estatuetas do Meissen colocadas em cima do móvel. Sybil, aborrecida pelas atenções com que seu amante obsequiava a jovem dama, depositou com presteza seu volumoso traseiro no braço de madeira da poltrona de Alistair. Depois cravou um gélido olhar em sua adversária, ao mesmo tempo que rodeava possessivamente os ombros ossudos de Alistair. Este não tinha comentado que a protegida de sua tia fosse tão bela. Sybil não esquecera os argumentos aduzidos por ele para que não o acompanhasse, e a lembrança de seus irados protestos a convenceu de que fugiu de sua companhia pelo simples motivo de que planejava fazer com a jovem o que costumava fazer com ela na intimidade de seu apartamento... e de sua cama. Howard Rudd pigarreou, ansioso de refrescar suas cordas vocais ressecadas; sabia, entretanto, que Alistair jamais toleraria ingestão alguma de licor antes de ter concluído seu negócio. Desenrolou os pergaminhos e os examinou. - É um pouco comprido. Pequenas quantidades a tal e qual criado ou parente longínquo... Nada importante. O principal é que a senhora Winthrop deixou o grosso de seu patrimônio, incluída esta casa, e tudo que contém e todos os bens da defunta, a seu único parente, seu sobrinho Alistair Wakefield Winthrop, que tomará imediata posse. - Imediata? - disse Cerynise, boquiaberta. Nunca tivera motivos para falar do assunto com sua tutora, mas dera como certo que Lydia lhe tinha afeto e lhe concederia o tempo necessário para uma transição mais plácida a outros lugares ou climas antes de deixar a casa


em mãos de terceiros. Na falta de parentesco com a anciã, Cerynise não esperara a não ser aquele singelo gesto de cortesia. Era-lhe impossível atribuir a sua protetora tanta indiferença com respeito a seu futuro, até o extremo de ter ignorado a necessidade dessa pequena previsão. - Importa-se que veja o documento? - perguntou, aborrecida pelo ligeiro tremor de sua voz. Ficou em pé e estendeu a mão para receber os pergaminhos. Rudd titubeou, olhou ao Alistair em busca de instruções e viu ele fazer um movimento brusco com a cabeça, sinal de que podia entregar os documentos a jovem. Cerynise não era nenhuma entendida na matéria, mas inspecionou com atenção a apertada caligrafia. A olhos de um leigo o testamento tinha reflexos de autenticidade. Não podia negar-se que cada página estivesse autorizada pelas iniciais da Lydia, nem que sua assinatura conferisse elegância à última. Teve a vaga sensação de que o advogado acompanhava com gestos nervosos o escrutínio detido; ao fim, excedida sua paciência, Rudd estendeu uma mão para que fossem devolvidos os pergaminhos, fazendo com que Cerynise se apressasse em chegar ao final. Foi então quando se fixou na data inscrita junto à assinatura de Lydia, e olhou ao letrado com surpresa. - Mas se é de há seis anos! - Efetivamente - repôs Rudd, lhe arrebatando o testamento e voltando-o para enrolar. Não tem nada de estranho. São muitos os que se ocupam desses temas antecipando-se à necessidade. Sensata decisão, por certo. - Bem, mas isso foi antes que meus pais morressem e Lydia se convertesse em minha tutora. Dadas as circunstâncias, o lógico teria sido voltar a redigir seu testamento... - Para incluir a você? - interrompeu-a Alistair com mordacidade. Levantou-se da poltrona com um bufar de ira, ameaçando de passagem a estabilidade de Sybil, e ficou a dar voltas pela sala como um depredador, tocando um a um os móveis e adornos e até as pesadas cortinas de damasco, como se obedecesse ao impulso irrefreável de marcar como seu cada artigo. – É o que quis dizer, não é certo, senhorita Kendall? Criem que minha tia deveria lhe ter deixado algo. Embora Alistair lhe inspirasse uma aversão cada vez maior, Cerynise se esforçou em falar com mesura e contenção. - Sua tia era, conforme acredito, muito metódica em seus negócios, e uma vez que essa característica parecia inseparável de seu modo de ser, custa-me acreditar que não tomasse a iniciativa de revisar seu testamento cada vez que se produzira em seu entorno uma mudança de certa importância. No mínimo me teria concedido tempo para dispor o indispensável para minha partida antes de deixar tudo em suas mãos. - Pois não o fez! - declarou Alistair, inflando o peito com ênfase e irritação. - Ajudou a você bastante em vida, e asseguro-lhe que compreendeu! Dar proteção a você tantos anos,


satisfazer todos seus caprichos, vesti-la com as melhores roupas, patrocinar com somas consideráveis suas absurdas exposições... Deveria se pôr de joelhos, diabo, e dar graças ao ceu pela generosidade de minha tia em lugar de se queixar de que lhe falta tempo para esbanjar minha herança! Ofendida pelas palavras de Alistair, Cerynise abafou uma exclamação. - Asseguro-lhe que não tinha pretensões de herdar parte alguma de seus bens, senhor Winthrop - esclareceu com indignação. - Me limitei a indicar que me parecia estranho que sua tia nem sequer me mencionasse, e isso apesar de minha minoria de idade. Não se terá esquecido que era minha tutora legal! Alistair sorriu. - Pode ser que minha querida tia calculasse ter-se desfeito de você muito antes de morrer. Provavelmente se propor casar você com um cavalheiro de boas rendas e delegar em outros a responsabilidade. Estou certo de que sendo uma pessoa de tanto vigor não esperava morrer tão cedo. Os olhos de Cerynise despediram faíscas atrás de suas negras e sedosas pestanas. - Se tivesse conhecido seriamente a sua tia, senhor Winthrop – disse apertando os dentes, - saberia que Lydia tinha afeto sincero pelo próximo, e que não se desentendia de ninguém tão facilmente como diz. - Dá-me igual o que pense! - exclamou Alistair com rudeza, aumentando a pressão de sua mão sobre uma frágil pastorazinha de porcelana. Percebendo que a usava para sublinhar suas asserções, Cerynise temeu vê-la feita a pedaços em qualquer momento. - O único que importa é o testamento! Já ouviu seu conteúdo. Agora sou senhor desta casa, e o que digo nela terá valor de lei! Sybil soltou um risinho de júbilo e aplaudiu com entusiasmo, como um menino cativado por um espetáculo de marionetes. - Assim se fala, Al! Vai ver no que acreditou a muito fresca! - Salta à vista que a senhorita Kendall se tem por uma dama – zombou Alistair, soltando a pastora e avançando para Cerynise com olhos negros e brilhantes. Cerynise retrocedeu por instinto. Não conhecia bastante ao Alistair para ter uma idéia clara do que era capaz de fazer quando o dominava a raiva, mas estava segura de que não era nenhum cavalheiro, e de que se o contrariassem recorreria facilmente à violência. Por desgraça a poltrona dificultou sua retirada, e teve que fazer frente ao exagerado olhar e ao desagradável sorriso do sobrinho da Lydia. Percebendo seu temor, Alistair se sentiu mais poderoso. - Pois bem, a senhorita Kendall volta a equivocar-se - disse quase com doçura. - Não é mais que uma mendiga que passou anos lisonjeando a minha tia com o objetivo de lhe surrupiar o máximo número de favores, como o vestido que usa, para não ir mais longe. Sem pensar duas vezes, apoderou-se do adorno bordado branco que adornava o pescoço de Cerynise e o arrancou de um puxão, arrancando de passagem um grito estupefato


da jovem. - Não me ponha a mão em cima! - exclamou Cerynise, cobrando novos brios com a raiva, e afastando o braço de Alistair com um tapa. - Pode que seja dono desta casa, mas nem lhe ocorra se acreditar com algum direito sobre mim! Um sorriso lascivo se desenhou nos lábios de Alistair, cujos olhos negros se detiveram no busto da jovem. Era tão tentadora, no final de contas... Não prová-la seria uma pena. - Al? Sybil percebeu suas tabulações febris. A idéia de compartilhar Alistair com uma moça dessa idade, em cujo lado se sentia torpe e gorda, não era absolutamente de seu agrado, já que sempre havia a possibilidade de que preferisse o manjar fresco ao que se tornou rançoso por servir-se muitas vezes à mesa. Sua inquietação não se devia a que sentisse grande apego por aquele libertino. Interessava-lhe imensamente mais quão rico ia ser em breve. Rebolou de um lado a outro da sala e, interpondo-se no duelo de olhares de Alistair e Cerynise, aproximou-se do primeiro a fim de lhe recordar suas generosas curvas. Alistair acompanhou com uma risada vingativa suas meditações sobre como fazer Cerynise pagar sua altivez. Uma vez tomada uma decisão, agarrou sua amante pelas costas e dirigiu um sorriso a seus olhos borrados. - Você gostaria de ter roupa nova, Sybil? O entusiasto grito dela foi a exagerada resposta. - Al, querido! Pensa comprar algo? Ele encolheu com displicência seus ombros ossudos. - Comprar? Para que, se há todo um vestuário te esperando no andar de cima, nos aposentos da senhorita Cerynise? Sybil mostrou um rosto de desilusão. - Mas Al, se não temos o mesmo tipo! - queixou-se. Não podia reconhecer abertamente que quase tudo na jovem salvo sua estatura era mais esbelto ou reduzido. - É muito alta para mim, que sou tão pequenina. - Pois vá a seu quarto e procure algo que lhe sirva - determinou Alistair. - Com o que minha tia gastou nela, certamente que encontrará algo. Depressa! Sybil saiu da sala entre gorjeios de felicidade. Seus saltos repicaram pela escada, ressoando por toda a casa até que o ruído de portas abrindo-se e fechando-se concluiu em um chiado de êxtase. Alistair estava muito satisfeito por ter tido tão boa idéia. Lia-se no rosto com que olhou ao Cerynise. - Por Deus, suspeito que Sybil achou seu dormitório! Cerynise respondeu com um sorriso frio e desdenhoso, como o que uma mãe poderia dirigir a um menino travesso, e conseguiu descer as fumaças de seu ufano competidor. - Dá-me permissão para reunir meus pertences e sair desta casa assim que Sybil tenha acabado ? Acredito que posso achar alojamento em alguma estalagem até conseguir passagem


para as Carolinas. - Não têm pertences! - objetou Alistair. - Nesta casa tudo é meu! - Lamento discordar - replicou Cerynise com frieza, erguendo a cabeça com crescente obstinação. Apesar de ter gozado do amparo e supervisão de Lydia, não carecia de experiência no trato com fanfarrões. Seu amado pai fora diretor de escola, e Cerynise, presente em um número considerável de suas aulas, enfrentou a não poucos varões imaturos, convencidos de poder submeter a quem fosse inferior a eles em idade, tamanho ou força física. Muitos foram malcriados por pais ricos, e tinham afeição às mais cruéis travessuras. - Não há dúvida de que meus quadros me pertencem, assim como o dinheiro obtido de sua venda. Rudd interveio com a segurança do advogado que vai a julgamento com o discurso ensaiado. - No momento de pintá-los, mocinha, usou materiais adquiridos pela senhora Winthrop. Foi ela também quem contratou os serviços de um professor para instruir você nos segredos da pintura, em troca, cabe supor, de generosos honorários. Em suma, enquanto vivia sob seu teto, tinha-a como tutora e era menor de idade. Foi a senhora Winthrop quem organizou suas exposições, negociou o preço e ingressou os lucros em um banco. De fato, os quadros nem sequer levavam seu nome, a não ser as iniciais CK. Sei porque fui ver os expositores e se negaram a revelar a identidade do artista. Só disseram que a senhora Winthrop se encarregou de tudo. - antes de expor a conclusão, Rudd fez uma breve pausa para limpar o suor da testa. portanto, a propriedade dos quadros, assim como os benefícios que deles se obtiveram, recai plenamente na senhora Winthrop. Cerynise avermelhou de indignação. Por desgraça, Rudd tinha razão em tudo salvo no último. O que combinara as cores até convertê-los em cenas realistas da vida diária, marinhas, paisagens e interiores fora seu talento. Enquanto um artista não os transformasse em algo mais, tecidos e cores ficavam reduzidos a seu aspecto material. Lydia, consciente de que o trabalho de uma menor nunca teria sido tomado a sério por nenhum cliente rico, insistiu em que a identidade da artista continuasse sendo um segredo bem guardado. Tal fora seu único motivo para não informar a ninguém. - Lydia guardava o dinheiro para mim - declarou Cerynise acaloradamente; mas até ela percebia a debilidade de sua defesa. - Não havia motivos para ter contas separadas, e se tiver alguma esperança de voltar para Charleston será na condição de contar com os recursos necessários para comprar uma passagem no próximo navio. - As contas separadas não mudariam nada - replicou Alistair. - Minha tia era sua tutora. Tudo quanto possui pertencia a ela ... –Sorriu zombeteiro. - E agora me pertence . - Olhe o que trago! -exclamou Sybil com alvoroço, irrompendo de novo na sala. Ia envolta em uma capa de grosso muaré rosa, profusamente bordada com grinaldas de flores nas pregas do capuz e a abertura frontal. - Não é lindo?


- Ignorando o risco de tropeçar na bainha, virou-se nos calcanhares para mostrar sua nova aquisição. Só lamentava que não lhe coubesse o vestido que fazia jogo com a capa. - Há um aposento cheio de coisas muito bonitas. Em minha vida nunca vira nada parecido! Sombrinhas! Sapatos! Vestidos, os que quiser! E coisas preciosas bordadas para vestir debaixo. - Lançou uma risada cantante, exibindo-se para Cerynise. - Que tal me pareço com minha capa nova? Cerynise não pôde resistir a dar um conselho a aquela metida que não sabia o que era educação. - É ainda melhor se desfizer as costuras, poderá vestir o vestido. - Al! - exclamou Sybil dando uma patada no chão. – Pensa deixar que me fale assim? Para falar a verdade, Alistair era culpado de ter tido pensamentos afins vendo exibir-se à opulenta meretriz. O vermelho intenso de seus lábios, combinado com o da maquiagem, eclipsava a discreta cor do objeto, e nem todos seus desejos de vingança sobre os ares de superioridade de Cerynise impediam ao Alistair acreditar que, salvo modificações substanciais, só as capas e os objetos mais externos poderiam ser usados por Sybil. Seus olhos negros voltaram a posar-se na distante beldade, e acariciaram as suaves e apetitosas curvas que o vestido de luto moldava com discrição. Cerynise tinha as costas erguida e a cabeça no alto, afirmação de orgulho indomável. apresentava-se a olhos do mundo como uma deusa de cabelos claros, e por muito que Alistair desejasse o contrário, era evidente que Sybil saía maltratada do confronto. A intensidade do olhar de Alistair fez que Cerynise sentisse um comichão na nuca e o observasse com súbita precaução. A grande boca dele se retorceu em um meio sorriso que deu calafrios na jovem. Já antes de vê-lo avançar com seu estranho e desconexo andar, Cerynise começou a suspeitar que seus pensamentos não eram dos que agradam a uma mulher decente. - Não se preocupe em demasia, Cerynise - disse Alistair com voz lisonjeira, passando a mão por detrás da cabeça da jovem e soltando o coque que com tanta precipitação fora confeccionado. - Possivelmente tenha um papel a cumprir nesta casa. Certamente podemos chegar a algum acordo e, quem sabe? Talvez até nos convertermos em amigos íntimos. Sem fazer caso do olhar gélido da jovem, passou por cima de seu ombro a cabeleira ondulada e deixou que cobrisse o volumoso busto, antes de acariciar de cima abaixo seus sedosos fios. A indignação de Cerynise chegou a seu cenite. Levantando ambas as mãos, empurrou ao Alistair com todas suas forças. - Víbora repugnante! Acha seriamente que consideraria a possibilidade de chegar a algo íntimo com você? E ousa entrar nesta casa com a altivez de um arrogante herdeiro com direito a possuir quanto há nela? Mas se não é mais que um verme vil que abandona a rastros seu buraco escuro e úmido para se alimentar dos pobres inocentes! Apodreceria antes de permanecer aqui sob sua autoridade! Os insultos fizeram que o rosto de Alistair se colorisse e se dispusesse a dar-lhe uma


bofetada. - Vou ensinar a você quem manda aqui! Howard conteve uma exclamação e se precipitou para seu companheiro, a quem agarrou pelo pulso. - Bata nesta jovem e terá algo para ensinar, quando transmitir às autoridades sua queixa -advertiu, inquieto. - Não lhe parece melhor tirá-la desta casa sem rebuliço? Alistair, a quem a raiva fazia tremer, não deu mostras de ter ouvido seu companheiro. Demorou para recuperar certo domínio sobre si mesmo e escapar da mão do Rudd. - Saia daqui, prostituta! -bradou. - Não vale nem o esforço de lhe ensinar boas maneiras! Cerynise sussurrou sem fôlego: - De muito bom grado. Irei assim que recolher algumas coisas... - Nada disso! -exclamou Alistair. - Você vai agora! Agarrou-a pelo braço e a empurrou para o vestíbulo, onde se achava Jasper, que estivera vigiando de longe. O mordomo os olhou a ambos com desconcerto, até que aventurou umas palavras. - Senhor, rogo-lhe ... - Agora o dono sou eu! - afirmou Alistair, cortando a intervenção do criado. - E se alguém discutir isso, que siga o caminho desta cadela. - Abriu a porta, puxou Cerynise e a obrigou a descer a tombos pela escada de granito. Depois manteve a porta aberta, enquanto reatava sua invectiva ao mordomo. - Mas que pense bem antes! É muito difícil conseguir emprego, e que ninguém espere referências! Os olhos negros de Alistair voltaram sua ardente fúria em Cerynise, que, exposta à chuva torrencial, olhou-o piscando. - E agora saia de minha vista enquanto puder ou farei prender você! Encerrarei você no manicômio! - Não ache que são bravatas! - interveio Rudd, aparecendo na porta. - Agora é um homem endinheirado, um respeitável proprietário. Você não é ninguém. Convém que parta, a menos que lhe agrade a hospitalidade de Bedlam! Quase no mesmo instante o advogado abafou um grito de surpresa e retrocedeu de um salto, ao mesmo tempo que Alistair fechava brusca e irrevogavelmente o pesado portão. Cerynise cruzou os braços e se encolheu contra o gélido vento, procurando encontrar calor e amparo contra os elementos. Acabavam de jogá-la do único lar que conhecera nos últimos cinco anos, ameaçando-a com algo pior se ficasse. Com o frio que fazia, e na ausência de roupas para mitigar sua carência, corria o risco de sucumbir ao congelamento antes de ficar resguardada. Dada a seriedade de sua dedicação à arte, nunca reservou tempo para cultivar amizades íntimas com mulheres de sua idade. A maioria estava imensamente mais interessada que ela para atrair a futuros maridos. Quanto às amigas de Lydia, eram muito mais velhas, e provavelmente incapazes de fazer frente a uma violência como a que acabava de padecer Cerynise. Além disso, como saber a que extremos podia chegar Alistair Winthrop se se


inteirasse de que recebera ajuda? Após as insultos, Cerynise vislumbrara em seus olhos uma ira de estranha intensidade. De fato, tinha-lhe parecido que Alistair parecia próximo do abismo da loucura. Era de se supor que quem se propusesse ajudá-la provocaria reações similares, e repercussões indubitavelmente graves. Por grandes que fossem seus desejos de achar consolo em alguma pessoa conhecida, Cerynise não concebia pôr em perigo a terceiros. Até era possível que Alistair já tivesse cruzado a soleira da loucura. Era uma hipótese que não podia passar por alto. Para cúmulo teria a lei de seu lado. Enquanto herdeiro de Lydia, gozava de pleno direito a usar as propriedades de sua tia para os intuitos que julgasse convenientes, incluído o de redigir uma lista de quem podia residir ou não sob seu teto. Cerynise contemplou a mansão com desalento, .mas a nitidez de sua visão se viu empanada por uma mescla de lágrimas e chuva. O luto pela Lydia, somado a sua recente falta de mantimentos e repouso, deixaram-na exausta, mal disposta para o que ameaçava ser uma longa caminhada por toda a cidade. - É melhor começar quanto antes - murmurou, abatida e com lábios duros pelo frio. Pôs-se a andar pela rua, consciente para onde devia dirigir-se. A chuva e o frio, este cada vez mais pronunciado, punham sérios entraves a seu empenho, mas não tinha opção. Havia percorrido um trecho pequeno quando ouviu alguém correr e se voltou. O esforço para alcançá-la deixou Bridget sem fôlego. A camareira tivera a prudência de não abandonar a casa sem pegar um groso cachecol. Levava nos braços sua capa de lã, com a qual envolveu à trêmula jovem. - Que horror, senhorita! - lamentou-se entre soluços. Enxugou com mão trêmula as lágrimas que percorriam suas faces. - Não acreditava que isso fosse possível. - Vê-la expulsa da casa da senhora Winthrop sem ter onde ir! O senhor Alistair é capaz de tudo, não é verdade, senhorita? -Receito que s-sim, Bridget. O testamento da senhora Winthrop lhe dá esse direito. Cerynise acariciou com dedos frios a mão da donzela. As lágrimas que corriam pelo seu rosto pareciam igualmente geladas. - Te-tem que vol-voltar. Ninguém po-pode permitir-se que o dêdespeçam sem referências. Tem... de pe-pegagr sua capa... e vol-voltar... Quis desprender-se da capa, mas a donzela negou com a cabeça. - Nada disso, senhora! Agora lhe pertence, embora pouco valha. A senhora Winthrop me deu de presente uma nova no dia de San Miguel; ou seja, este trapo velho não me faz nenhuma falta. - Tem certeza? -perguntou Cerynise, que não podia controlar o castanholar de seus dentes. - Sim, senhora - afirmou Bridget com férrea convicção. - Pode ser que não me seja possível renunciar ao emprego do senhor Winthrop, mas ao menos estarei certa de ter feito quanto estava em minha mão para ajudá-la. - Obrigada, Bridget. É uma bo-boa amiga - sussurrou Cerynise, com olhos novamente umedecidos. - Não me esquecerei.


- Assim que o senhor Jasper ouviu de longe o que o senhor Winthrop planejava, se apressou a informar a criada, mandou-nos guardar os quadros no quarto de despejo de cima. Disso que tanto lhe faz dizer mentiras a esse canalha, que explicará ao senhor Winthrop que os quadros foram enviados a uma galeria e que não sabemos qual. Têm que encontrar uma maneira de recuperá-los, senhora. - Po-possivelmente estão arriscando muito – gaguejou Cerynise, comovida pela lealdade da criadagem. - Não dê-devem se pôr em pe-perigo para sal-salvá-los. Eu vou aos mo-moles... pa-para... conseguir uma pa-pasagem para Charleston, e po-pode ser que nunca vol-volte por eles. - Não importa, senhorita. Guardaremo-los escondidos para o caso de voltar. Será uma maneira de nos vingar pelo que lhe fez o senhor Winthrop. - Bem, agora va-vai - implorou Cerynise, dando na criada um suave empurrão em direção à casa, - antes de que o senhor Winthrop a veja falar co-comigo. Um soluço alterou o semblante da camareira, que numa mostra súbita de afeto jogou os braços no pescoço de Cerynise. - Que Deus a tenha, senhorita! - Depois limpou o nariz e retrocedeu para olhar Cerynise com olhos inundados no

pranto. - Foi conosco a amabilidade personificada.

Contaremos os dias que faltam para que o descarado do senhor Winthrop receba seu castigo. Bridget se separou de Cerynise com muito pesar, e chorando amargamente correu de volta para casa. Sua saia negra, molhada pela chuva, açoitava-lhe as pernas, e seus pequenos pés faziam salpicar os atoleiros que cruzava, cada vez mais profundos. Cerynise vestiu o capuz de lã e amarrou a capa como melhor pôde. Já estava empapada por debaixo, e dada a intensidade do vento impetuoso e a força do aguaceiro, a capa, longe de pôr remédio a seu mal-estar, não serviria mais do que atenuá-lo em grau mínimo. Mesmo assim deu obrigado pelo presente, já que apesar do escasso tempo transcorrido parecia que o ar se esfriara ainda mais. Demorou um pouco em perceber que o confronto com Alistair tinha dado origem a uma estranha insensibilidade, que até certo ponto servia para suavizar a dureza do transe em que se achava, uma vez que já não pensava tanto no frio e como se sentiria miserável sem casaco nem mantimentos. Em lugar disso repetia que devia caminhar o quanto fosse necessário. Bastava por um pé diante do outro. Animando-se com raciocínio tão simples, achou-se por fim próxima à ponte que cruzava o Tamises e franqueava a entrada ao bairro do Southwark. As nuvens enegreciam o ceu da cidade, sumindo ao crepúsculo em sombrias trevas. Naquela estranha e misteriosa penumbra Cerynise conseguiu distinguir vários navios que navegavam contra a corrente, procurando um embarcadouro onde jogar a âncora. Seu olhar posou na ribeira oposta, procurando os largos mastros que distinguiam às naves de altura das modestas embarcações pesqueiras. Em cada uma das visitas familiares à casa de seu tio, situada no fronte marítimo de Charleston, a pequena Cerynise tivera oportunidades de sobra de examinar as diversas embarcações que sulcavam as águas em direção ao porto. Sentada


feliz no mole, desenhando em seu caderno a pouca distância de onde pescava o tio Sterling, Cerynise aprendera com ele a reconhecer as distintas classes de navio. Ainda se lembrava de grande parte de seus ensinamentos. As lembranças da remota cidade natal fluíam por sua mente qual rio caudaloso, e por uns segundos Cerynise quase ouviu o trilar dos pássaros que se aninhavam em carvalhos veneráveis junto à casa familiar, o zumbido de insetos na cálida noite estival e o roçar dos liquens quando corria pelo bosque com a jubilosa exuberância das crianças. Imaginou inclusive perceber uma rajada de aroma de madressilva, e sentir em sua língua o sabor muito doce de um creme de chocolate meio desfeito. Em face do fugaz dessas lembranças, sentiu uma saudade tão intensa que lhe custou não derramar lágrimas de angústia. Estava pouco menos que congelada, seus finos dedos rígidos pelo frio inclemente. O esgotamento e a pena a envolviam como uma manta molhada. Ignorava como conseguir passagem sem dispor de dinheiro. Vendo-a em semelhante estado, que capitão a aceitaria em seu navio? A própria Cerynise achou descabelada a idéia. Sabia, isso sim, que de algum jeito... de um modo ou de outro... tinha que voltar para casa. Começou a cruzar a ponte, obedecendo a um desejo imperioso. Havia chuva acumulada entre os paralelepípedos, mas os sapatos de Cerynise estavam tão empapados que dava no mesmo. Recordou-se que bastava por um pé diante do outro para chegar em algum momento a seu destino. O fétido fedor do rio aumentava com maior intensidade quanto mais entrava no bairro do Southwark. manteve-se próxima ao rio, avançando sem trégua até distinguir ao longe, na quase impenetrável escuridão, os mastros elevados dos grandes navios. Animada por sua visão, Cerynise apertou o passo, ignorando a dor que maltratava seus pés gelados. No fundo sabia que era uma imprudência caminhar sozinha por aquela zona. Amparada na companhia da Lydia, passeou suficientes vezes pelo bairro para familiarizar-se com uma classe de mulheres menos recatadas, mulheres que, postadas em numerosas ruas e passagens, ofereciam seu corpo abertamente aos marinheiros, ou a todo homem disposto a pagar umas moedas por diversões de cama. Cerynise era consciente de estar tentando ao destino. Podiam abordá-la, e até confundi-la com uma mulher de duvidosa virtude. Desprezou não obstante o precavido raciocínio, julgando-o um luxo que não podia permitir-se. Os armazéns e casas vizinhas que deixava para trás estavam às escuras. No final das contas, tratava-se de um lugar onde toda vela ou onça de azeite se considerava preciosa. A gente pobre podia entender sua situação atual, mas não ajudá-la. dela e só dela dependia encontrar uma maneira de retornar a sua casa. E, por Deus, que a encontraria! Não tinha consciência real de até onde chegou. Seus passos cansados começaram a riscar um caminho errático pelo caís. De repente seu pé tropeçou com um obstáculo de consistência surpreendentemente humana. Esquadrinhou a zona de escuridão criada por um barco colocado com o bojo para cima e sobre dois tabiques. - Por todos os diabos! O que está fazendo? - grunhiu alguém debaixo da pequena


embarcação. - Não pode olhar por onde vai? Cerynise tratou de distinguir a silhueta enxuta que saía de rastros debaixo do bote. - Perdoe - balbuciou, duvidando em saber se o que lhe travava a língua era medo ou frio. - Não havia vi-visto-o, senhor. - Pois já me vê - replicou o homenzinho com maus

modos, ficando em pé com

dificuldade. Era mais baixo que Cerynise, totalmente calvo, de idade avançada e sem um só dente em toda a boca. Mesmo assim usava roupa de marinheiro. - Que-o que fazia aí emba-baixo? - conseguiu perguntar Cerynise. O marinheiro a olhou com certa exasperação, antes de se cobrir com seu impermeável e passar o capuz pela cabeça. - Já que tanto lhe interessa, menina, estava dando um cochilo enquanto espero que meu capitão volte para o navio. - Si-sinto muito lhe haver inc-incomodado, senhor. Co-como está tão escuro não havia lhe vi-visto - respondeu Cerynise com toda a cortesia que lhe permitiu o bater de castanholas de seus dentes. Apesar da irritação daquele homem, tinha certas esperanças de obter sua ajuda. No momento parecia uma ocasião que não podia melhorar para conseguir a informação que necessitava. - Não lhe terei feito algum dá-dano? - Machucado em mim? Ao velho Moon? - perguntou o marinheiro com olhar incrédulo. Inflou seu peito esquálido e subiu as calças como se tivesse intenção e demonstrar sua galhardia a jovem. - Olhe, menina, para fazer mal ao Moon seria preciso uma baleia. - M-me alivia s-sabê-lo. Apaziguada sua cólera pela cordialidade de Cerynise, Moon a examinou mais de perto. Apesar de sua gagueira, falava como a gente de classe alta que subia ao navio onde ele trabalhava para informar-se das condições da hospedagem. A reação habitual, uma vez vista as instalações, era procurar outro navio. Em todo caso, até um cego se teria dado conta de que aquela mocinha estava a várias léguas acima da classe de mulheres que estavam acostumadas a vagar pelo porto em busca de homens para entreter. - O que faz aqui com esta chuva? Não é lugar para uma garota como você. - Necessito de uma pa-pasagem para ca-casa, e pro-procurava um navio que zarpasse den-dentro de po-pouco para as Carolinas. Não sa-sabe você de um navio assim? - O Miragem, sem ir mais longe - respondeu o desdentado marinheiro. - Sairá ao mando do capitão Sulli-van. Eu sou seu grumete. - E on-onde -poderia encontrar ao ca-capitão Sullivan? Moon arqueou ligeiramente o corpo e assinalou com o polegar uma taverna que vertia um pouco de luz na escura neblina. - O capitão está enchendo a barriga naquela taverna. Seguindo a direção do dedo, Cerynise se viu embargada por uma mescla de alívio e temor. Reconfortava-a saber abreviada sua busca, mas tinha um medo enorme para entrar em


semelhante estabelecimento, pois apesar de sua ingenuidade não chegava a pensar que os marinheiros recém chegados a porto só desejassem ingerir licores tonificantes. Procurariam diversões mais vigorosas, nas nas quais supunha Sybil versada. - Su-suponho que não que-quererá me levar a vê-vê-lo... Moon inclinou a cabeça pensativamente, notando o desalinho de Cerynise. Não estava acostumado a preocupar-se com desconhecidas, mas saltava aos olhos que aquela moça passara um mau bocado e sofria com sua situação miserável. Além disso, possuía uma doçura que despertava nele impulsos galantes adormecidos desde tempo imemorial. - Suponho que poderia, visto que se ficar mais tempo aqui fora morrerá de frio. - Você não tem? Moon esfregou seu nariz de gancho com um indicador nodoso e soltou um risinho zombeteiro. - Não, porque esquentei a barriga com um bom gole de rum. – Quando ficou bem perto para que Cerynise sentisse um forte aroma a destilado, fez-lhe gestos para que

o

acompanhasse. - por aqui, moça. O marinheiro, seguido a tropeções por Cerynise, dirigiu-se para a taverna. Ao entrar, a jovem ficou junto à porta, deixando que Moon se abrisse caminho para o fundo do abarrotado local. O barulho era tal que a sobressaltou. Havia marinheiros pedindo para serem servidos mediante gritos e insistentes golpes de garrafa sobre os grossos tabiques que faziam as vezes de mesa. Outros falavam com todo pulmão para fazer-se ouvir por cima do barulho. Uns poucos proferiam ensurdecedoras gargalhadas, beliscando ou golpeando com a palma da mão os traseiros de quantas empregadas de taverna lhes passasse em frente. Outro grupo, não menos reduzido, acariciava entre roucos murmúrios às meretrizes que se postaram em sua proximidade. Cuidando de não olhar a estas últimas, Cerynise passeou a vista pela sala em busca de Moon. O marinheiro falava ao ouvido de um homem musculoso que engolia comida sentado a uma mesa. Cerynise viu movê-los lábios do Moon, mas o estrépito lhe impedia de ouvir suas palavras. Supôs que seu interlocutor devia ser o capitão Sullivan. Passava dos quarenta, tinha uma cabeleira rebelde e grisalha, grossas costeletas e um queixo mau barbeado. Não só tinha aspecto de pirata, mas também parecia compartilhar a prosperidade de tais personagens, uma vez que extraiu um pesado moedeiro e solicitou a uma das empregadas outra garrafa de cerveja para seus comensais. Por último, voltou a vista para o marinheiro e assentiu com um movimento da cabeça. Moon se apressou a retornar junto de Cerynise com um amplo e desdentado sorriso. - O capitão disse para ir falar com ele. Assim que Cerynise dera uns passos por aquele labirinto humano uma mão tentou agarrá-la. A jovem, assustada, conseguiu esquivar-se do lobo de mar que lhe sorria com dentes negros e cariados. - Né, meninos, o que nos trouxe a chuva? - exclamou o homem com uma gargalhada, fazendo com que seus companheiros se fixassem na moça. - Vai se ver se não é um rato


afogado! - Que! Não me parece isso! - vociferou outro, despojando Cerynise de sua capa com um brusco puxão, não sem romper uma das fitas que a seguravam. À medida que percorriam o vestido molhado da jovem, seus olhos foram tomando um brilho lascivo. - um pouco aguada sim que está, mas diabo se não é boa empregada! - Né, porco, tire de cima suas asquerosas mãos! - grunhiu Moon, retrocedendo para dar um soco ao segundo homem. - Não sabe reconhecer a uma dama? - Uma dama? - repetiu o interpelado com um bufar de incredulidade. - Aqui dentro? A quem quer tirar o sarro, Moon? - Dá no mesmo! - replicou o velho marinheiro, lhe arrebatando a capa. – Já percebo que nunca viu a uma dama em sua vida castigada, e que não a reconheceria mesmo que pusessem isso diante do nariz! As risadas de quem estava bastante perto para ouvir o insulto fizeram que o admirador de Cerynise pusesse cara de ofendido. - Sim que vi, mas não costumam passear por lugares como este. - Pois já vê que agora há uma - respondeu Moon. - Com certeza é uma prostituta - grunhiu o marinheiro. Cerynise começava a ver tudo impreciso na

vacilante luz das lanternas. Piscou várias vezes, sentindo uma crescente

fraqueza que a ameaçava minando sua resolução. Só um esforço de vontade sobre-humano lhe permitiu chegar à mesa do capitão Sullivan. Moon pegou na mão, rapidamente, uma cadeira e a pôs ao lado de seu capitão. Cerynise aceitou o gesto com gratidão, pois albergava sérias dúvidas sobre sua capacidade de ficar em pé muito mais tempo. - Diz Moon que quer uma passagem em meu navio - disse o capitão Sullivan. Seu olhar, negro e penetrante, posou-se nas mechas de cabelo molhado que caíam sobre o rosto da jovem, e desceu pouco a pouco até chegar à bainha enlameada da saia. - Têm com o que pagar? Não convinha a Cerynise reconhecer abertamente sua pobreza, mas tampouco podia mentir. - Seria absurdo de minha parte procurar passagem em um navio sem poder pagá-lo de algum jeito. - Quer dizer? Cerynise fez provisão de coragem, consciente de quão irracional um capitão de navio podia julgar sua proposta. - Meu tio, Sterling Kendall, satisfará o preço da viagem assim que me depositem em Charleston... No princípio o capitão Sullivan a olhou fixamente, como se estivesse certo de que perdeu o juízo. Depois golpeou a mesa com o dorso de uma mão e prorrompeu em sonoras e irrefreáveis gargalhadas, fazendo com que Cerynise se encolhesse de pavor e vergonha. Não havia dúvida de que considerava absurda sua proposta. Passado um tempo se tranquilizou e olhou a jovem com expressão ainda divertida.


- Deixe ver se entendo, senhorita. Diz que seu tio pagará no fim da viagem? Cerynise assentiu com um gesto tímido, consciente de haver-se colocado em uma posição insustentável. - Dou-me conta de que não é o habitual... - Uma doidice, isso é o que é! - disse-lhe o capitão, sobressaltando-a. - Ou está mal da cabeça ou me toma por idiota, mocinha! - Nenhuma coisa nem outra, capitão - respondeu ela com prudência, olhando chorosa para Sullivan. Embora o esgotamento subtraísse energia a suas palavras, agradeceu por que o frio já não endurecia a língua. - Asseguro-lhe

que estou em plena posse de minhas faculdades mentais, mas,

recentemente com a morte de minha tutora, vi-me expulsa de sua casa por quem herdou seus bens. Tão empenhado estava em me arrebatar minhas posses que me deixaram sem nada para oferecer. Sou, há algumas horas, uma verdadeira indigente. - Fez uma breve pausa, dando-se conta de que se viu reduzida a mendigar. - Acredite, senhor, que se visse possibilidade de inspirar compaixão, de bom grado lhe prometeria o dobro do que pagam normalmente os passageiros de seu paquete só para que aceitasse delegar em meu tio a satisfação da dívida. É a única pessoa em quem posso confiar. Os olhos negros do capitão repetiram seu exame da jovem, desta vez com certa compaixão. - Deve compreender, senhorita, que minha obrigação é responder por todo o dinheiro que recebo. Assim o exige minha companhia. - E acrescentou com certa relutância: - Bem poderia ser que seu tio tivesse morrido. Nesse caso, quem pagaria sua passagem? Se não você, deveria descontá-lo eu mesmo de minhas economias. - Entendo-o, capitão Sullivan - murmurou Cerynise desalentadamente, abandonando a cadeira com o risco de que lhe dobrassem as pernas. – Lamento havê-lo importunado. - Perdoe, capitão - interveio Moon, voltando a aproximar sua boca ao ouvido do Sullivan, e surpreso de ter cada vez mais desejos de ajudar a jovem. - E o Audaz? O capitão Birmingham não responde a ninguém senão a si mesmo, senhor. Se quisesse poderia aceitá-la a bordo. - Sim - assentiu o capitão Sullivan, acariciando o áspero queixo. - É dono de seu navio... mas nunca até agora, que eu saiba, aceitou passageiros. Cerynise passou a mão pela testa, duvidando de que tivesse entendido bem o que diziam Moon e o capitão. Sentia-se tão fraca que receava de sua percepção e da coerência das frases que começou a balbuciar: - Disseram Bi-Birmingham, não é verdade? - Sullivan a olhou com curiosidade. - Conhece o capitão Birmingham, senhorita? - Se é dos Bi-Birmingham que vi-vivem perto de Charleston, s-sim. - O capitão do Audaz, que é o navio de que falamos, chama-se Beauregard Birmingham - explicou Sullivan. - Conhece-o?


Cerynise estava ficando sem forças por momentos, e logo que teve suficientes para responder: - Antes de morrer... meu pai dirigia um colégio particular... para os filhos dos fazendeiros e comerciantes da zona. Em certa ocasião... Beauregard Birmingham era contado entre seus alunos. Conhecíamos sua família... e a de seu tio, Jeffrey Birmingham. - Pode ser que se o capitão se lembrar de você, desperte sua compaixão - disse Sullivan, sem deixar de tocar o queixo. Vendo que seu grumete o olhava, apontou a porta com a cabeça. - Escolte à senhorita até o Audaz, Moon, e diga ao capitão Birmingham que me deve um favor. Cobrarei isso em cerveja da próxima vez que nos vejamos. - Sim, meu capitão. - O desdentado sorriso do marinheiro era quase tão grande como todo seu rosto. - Será um prazer acompanhar à dama e dar uma olhada ao navio antes de que zarpemos. Quando Moon e Cerynise saíram do taverna era noite fechada mas o vento amainou. Um novelo de neblina começava a enovelar-se de ambos os lados do rio, deslizando-se com sigilo por terra firme, enquanto a bruma suspensa sobre a água filtrava ecos fantasmagóricos de metal contra metal, e estranhos ruídos de coisas arrastando-se. Moon caminhava às escuras como se soubesse o caminho de cor, fazendo algumas vezes uma ou outra parada para que Cerynise pudesse alcançá-lo. Esta, envolta na escuridão, avançava com passos inseguros, sentindo rígidas as pernas, um peso morto. Tão grandes eram seu frio e sua fadiga que lhe foi preciso muita determinação para recordar seu objetivo e arrastar de paralelepípedo em paralelepípedo seus sapatos empapados. Apesar da dificuldade de ficar em pé, seguiu cambaleando atrás do grumete até que viu elevar-se sobre volutas de névoa os altos mastros de um navio. Moon voltou a cabeça e apontou o navio. - Com certeza nunca subiu a um navio como o do capitão Birmingham. Uma fragata mercante como poucas! Não conseguiria encontrar outra parecida, tenha certeza. E sabe o que, menina? Ele a pagou somente com todas as peles, jóias e mil coisas mais que trouxe da Rússia há anos. Dizem que voltou para Báltico e a São Petersburgo, sim senhor, e que leva o dobro de tesouros que da outra vez. Até há rumores de que convenceu ao capitão de um navio da Companhia das Índias Orientais para lhe pagar com sedas, pérolas e jade uma parte de seu tesouro. Agora está em Londres, reunindo mais tesouros para enrolar aos comerciantes do Charleston. Como se não tivesse muitos! Terei que estar louco para levar passageiros quando se têm tesouros como os que encerram as adegas desse navio! Mas esperemos que com você o capitão veja de outra maneira, menina. Cerynise foi incapaz de articular uma resposta. Aproximavam-se de um casco de navio amarrado ao mole. Tratava-se de um orgulhoso barco de três mastros, tão grande que diminuía tudo quanto o rodeava. Em seu presente estado, entretanto, Cerynise não tinha forças para se admirar de nada. Suas energias se dissiparam, seus sentidos estavam embotados, e sua acuidade mental ausente. Cada passo era uma agonia que seus trêmulos


membros se negavam já a realizar. Só desejava encolher-se onde estava, fechar os olhos e dormir. Moon se deteve ao pé da passarela e chamou o vigia que montava guarda, pedindo-lhe permissão para subir. Cerynise ouvia sua voz como se chegasse de muito longe. Teve vaga consciência de que lhe dobravam as pernas e de que seu corpo se inclinava para trás lentamente, como se o tempo se houvesse detido. O impacto de sua cabeça contra os paralelepípedos careceu de brutalidade, mas lhe provocou uma dor surda e persistente. Alguém deu o alarme com voz rude e, transcorrida uma eternidade, dois braços fortes levantaram Cerynise e a seguraram contra um peito forte. A jovem teve a sensação de que a névoa se espessava em torno dela como uma úmida sepultura, afogando sua respiração e arrastando-a a um negro abismo enquanto se apoderava de seu ser um abandono que acabou emergindo-a na inconsciência.

CAPÍTULO 2 Cerynise procurou um refúgio sombrio contra o onipresente fulgor. Era uma luz de intensidade cegante, que fazia em migalhas aquela espécie de neblina na qual tinha a sensação de estar envolta. Fechou os olhos e tentou devolver o resplendor às profundidades do inferno, pois se tratava sem dúvida de um suplício de origem infernal. Por desgraça, as pálpebras não conseguiram mitigar sua intensidade. No final Cerynise não teve mais remédio que separar suas sedosas pestanas e assumir um olhar prudente, descobrindo que o culpado era o sol da manhã, que entrava por alguma janela situada detrás e se refletia ao fundo do aposento em um espelho oval fixado a um aparador de barbear. Se fossem de aço os brilhantes raios que banhavam seu rosto, poderiam lhe haver atravessado o cérebro. Em torno da aura luminosa de contorno oval, vagas formas guardavam um silêncio pensativo, escuras e altivas em seu frio desapego. Algumas excediam em muito a altura e o volume próprios de uma pessoa, mas de nada serviam à Cerynise seus esforços para dar rosto e corpo a outras que por suas dimensões, sim, o aparentavam. Ou era a imaginação dela que acreditava não estar completamente a sós? Deu-se conta, não sem alívio, de que o mal-estar passara. Estava deitada calidamente em uma cama, coberta por lençóis que cheiravam a limpeza e um edredom de plumas, com o cabelo seco e algumas mechas onduladas sobre o rosto. Já não lhe doíam de frio os dedos do pé. Só a penetrante claridade que lhe atravessava as pálpebras com insistência impedia que continuasse imersa em um plácido sonho. Voltou-se para escapar da desagradável luz, emitindo um suave suspiro por seus lábios entreabertos. A almofada de penugem de ganso que sustentava sua cabeça era um pouco mais firme do que estava acostumada. Golpeou-o com o punho para lhe dar maior comodidade, liberando um aroma estranhamente masculino que estimulou seus sentidos como uma cálida carícia. Esfregou com seu nariz a sedosa superfície, extraindo a propósito fugazes eflúvios do


mesmo aroma, e, seguindo um impulso quixotesco de sua imaginação, umedeceu languidamente os lábios, curvados em um sorriso de deleite pelas diversas fantasias que cruzavam por sua mente. entreteve-se em prazerosas tabulações, vendo-se raptada ora por um belo sultão (que, depois de apoderar-se dela, dispersava seu harém pelos quatro pontos cardeais e se declarava cativo de seu amor), ora por um pirata, posto deste modo e o suficientemente audaz para levar-lhe a seu navio (onde lhe prometia pôr o mundo a seus pés). Uma ligeira oscilação da cama, acompanhada por um leve rangido similar ao dos mastros de um navio, fez que Cerynise abrisse os olhos e se desse conta, sobressaltada, de não estar em terra firme. A parede de madeira cuja visão a surpreendeu ao levantar-se parecia mais próxima do normal. Estendeu o braço para tocá-la, procurando ajustar aos cânones habituais, mas no momento de tocar com seus dedos as finas molduras notou de novo que quanto a rodeava sofria um movimento de vaivém alheio a quanto fora norma até então em sua vida. Levou a mão à boca, sufocando uma exclamação mais mental que física. Não havia dúvida, concluiu, de que se achava a bordo de um navio, mas quem estava no comando? Percebeu um som, e ao prestar atenção viu aumentada sua inquietação. Ouviu às suas costas um leve ruído de fricção, como o de uma pluma sobre pergaminho. Em resposta à angústia que invadia sua mente, levou uma mão ao pescoço e abriu os olhos de par em par, reparando que a esbelta coluna já não estava coberta por cortinas engomadas. Sobressaltada, passou uma mão por debaixo do edredom de plumas e do lençol que cobriam seu corpo. Seus dedos deslizaram rapidamente para baixo, investigando a natureza de seu adorno, e roçaram um peito nu. Prosseguiu seu exame e achou, com crescente surpresa, que seus quadris e coxas apresentavam o mesmo estado de nudez. Presa do pânico, subiu os lençóis até o queixo e se endireitou no leito para fugir do reflexo solar, enquanto, segura já da presença de outra pessoa no camarote, tratava de localizála. Nesse instante pouco lhe importava que fosse pirata ou sultão. Era sem dúvida um velhaco por havê-la despido! Ou seja a que outros vexames a submetera! Viu-o imediatamente. Estava sentado frente a uma escrivaninha, pena na mão, tomando notas em um livro de contabilidade que abrira diante de si. Ouvindo a jovem mover-se , o homem afastou o olhar do volume e voltou nela toda sua atenção. Cerynise viu dois olhos azuis como safiras em um rosto bronzeado pelo sol. O negro cabelo do homem era propenso a suaves ondulações. Sua altura era a necessária para roçar o pescoço aberto de uma camisa que deslumbrava por sua brancura. - Alegra-me comprovar que continua viva. -Sua voz era grave, cheia de calor e bom humor. - Seu sono era tão profundo que começava a duvidar de que despertasse. dormiu toda a noite e boa parte da manhã. - Onde está minha roupa? Cerynise formulou a pergunta atropeladamente, horrorizada pelas provas que tinha em torno de si.


- Estava gravemente resfriada, Cerynise, e sua roupa muito molhada para que à deixasse vestida. Fiz com que meu grumete lavasse e secasse suas roupas íntimas, mas receio que seu vestido não tenha conserto. Mil dúvidas assaltaram a mente de Cerynise. Aquele indivíduo a tinha chamado por seu nome, sendo um desconhecido. - Conheço-o por acaso? Um sorriso curvou os lábios do homem, que depositou a caneta sobre o livro de contas e se levantou de sua cadeira. Cerynise retrocedeu com cautela até apoiar as costas contra a parede, mas o homem avançou com uma faísca de regozijo em seu olhar. Apoiando uma mão na parte superior do leito, inclinou-se um pouco e estendeu o braço para apalpar uma trança longa e sedosa que estava pousada no edredom. - Moon me proporcionou informação a respeito de seu pai, mas não conheci em minha vida mais que uma pessoa com esta cor de cabelo. Era uma menina que assistia às vezes às aulas de seu pai, tomando notas como se outros alunos não tivessem vantagem sobre ela em idade e conhecimentos. Quando beliscava seu o nariz costumava me mostrar a língua e me acusar de peralta impenitente, entretanto parecia inclinada a seguir meus passos sempre que lhe era possível... Cerynise refletiu. Só um dos alunos de seu pai tinha merecido de sua parte tanta devoção. Aquele jovem abandonara Charleston com a idade de dezesseis anos para procurar seu futuro no mar, mas sempre que penetrava no porto de sua cidade natal o fazia carregado de presentes para a menina, presentes que lhe entregava durante as visitas a seu ex-professor (e pai da tratada com atenção). - Beau? - O mesmo. - O capitão Beauregard Birmingham deu um passo atrás, bateu os saltos e levou o braço à altura do peito, desenhando uma elegante mesura. - É um prazer voltar a ver você, Cerynise. - Você mudou - declarou ela, impressionada. E por certo que parecia um homem, muito mais bem apessoado que imaginara em adulto noutros tempos. Era mais alto, mais robusto, com uns ombros cuja largura emprestava a sua cintura estreiteza comparável a de uma mulher. Ajustava-se em tudo à dignidade principesca de que o tinha investido Cerynise na época em que o seguia por todas as partes, desejando um olhar, um sorriso ou uma piscada, qualquer sinal de reconhecimento que a afiançasse na convicção de que estava tão cativado por ela como ela por ele. - Você também - murmurou Beau com um meio sorriso e observando a jovem com um brilho em seus olhos azuis. - Está uma mulher completa, Cerynise... Uma mulher muito formosa. Ela sentiu calor na nuca. A insinuação não fora traduzida em palavras, mas aí estava. - Que-quem me despiu? Beau nem sequer piscou.


- Teria sido uma falta ao meu dever de capitão deixar esse serviço em mãos de um membro da tripulação; e, uma vez que em outra época fui seu protetor quando a incomodava outros meninos, não podia permitir que lhe acontecesse algum percalço nestas novas circunstâncias. Cerynise gemeu, horrorizada. - Por favor, me diga que tinha os olhos fechados. Beau sustentou seu olhar com um sorriso divertido, e ficou fascinado pelos olhos de Cerynise no breve instante em que se posou neles um raio de luz refletido no espelho. Assemelhavam-se então a cristais verdes, mas a experiência de anos passados ensinava a Beau que sua cor estava sujeita a modificações, segundo a luz ou a cor do vestido. Teve que fazer um esforço para não distrair-se. Sabia como estava agitada a jovem, e procurou uma maneira de atenuar sua confusão. - Se isso ajudar você a sentir-se melhor... Cerynise cravou nele um olhar acusador. - Vai me mentir, Beau Birmingham? Beau levou os dedos à boca para conter a risada, mas não o sorriso. - Preocupava-me exclusivamente seu estado de saúde, Cerynise - assegurou, esforçando-se por mostrar um semblante cortês. - Estava quase gelada, e temia por sua vida. Era necessário lhe dar calor, e vestida teria sido difícil. Sua roupa estava empapada. me acredite, não sou nenhum libertino... Cerynise gemeu, profundamente humilhada . - Tampouco é cego! - Não, não o sou - reconheceu ele com um risinho. - Em outras circunstâncias me teria agradado o espetáculo de sua perfeição, mas estava extremamente inquieto por seu bem-estar. Parado há anos na Rússia por uma tormenta de neve, Beau conhecia de primeira mão os estragos que podia infligir o frio em pessoas despreparadas, estragos que chegavam às vezes até a morte. Não obstante, absteve-se de mencionar que, depois de despojar a jovem de suas roupas, tinha-a depositado em uma tina de água muito quente e deixou que o calor exercesse seus benéficos efeitos enquanto tratava de introduzir entre seus lábios azuis umas colheradas de brandy. Concluído o trabalho com mais pena que glória, tinha-a levado a seu beliche e secado seu corpo com uma toalha, antes de envolvê-la com uma manta e abraçá-la para lhe dar calor. Cerynise não teria entendido os sentimentos que se apoderaram dele quando, uma vez passado o perigo, tinha-a estreitado contra o peito. Até algo tão simples como sentir no pescoço a respiração da jovem produzira efeitos surpreendentes, levando-o a dar-se conta de que se fossem juntos até Charleston não poderia responder por si mesmo. Era uma mulher muito tentadora para um homem cuja máxima ocupação fora até então convencer às autoridades pertinentes de que seu inquieto perambular de porto em porto não infringia nenhuma de suas estúpidas leis. Possivelmente uma ou duas horas nos braços de uma prostituta bem provida de encantos teria contribuído em muito para acalmar seu desassossego masculino. Em todo caso lhe teria facilitado achar-se na proximidade daquela moça.


Cerynise virou o rosto para a parede, deixando flutuar entre eles um longo silêncio. Apesar da existência de sólidos argumentos em apoio da propriedade dos atos de Beau, não deixava de sentir-se mortificada pela idéia de ter sido objeto de tão audazes manipulações. - Quer algo para comer? - perguntou Beau, mudando sabiamente de assunto-. Tinha vontade de que despertasse, para poder jantar juntos e talvez conversar. - A última vez que vi você foi no funeral de seus pais, pouco depois de retornar de uma viagem. Quase não me percebi de que a senhora Winthrop a levava em sua carruagem. Nem sequer tive ocasião de lhe dar o pêsames. Depois seu tio me disse que tinham pressa para chegar a um navio com destino à Inglaterra. -Fez uma pausa. - Ontem à noite, Moon me informou que os herdeiros da viúva Winthrop puseram você na rua e desejava retornar a Charleston. Que tinha esperanças de que eu levasse você . Cerynise voltou a olhá-lo, ansiosa por conhecer sua resposta. - Vai fazer isso? Beau suspirou, consciente de que não se atreveria. Uma vez comprovada a formosura de Cerynise, convertida numa mulher completa, achava difícil tratá-la com a cortesia que sua mãe teria esperado dele, a senhora Birmingham. Desejou poder vê-la ainda como aquela menina fraca e de língua afiada, tanto como sua inteligência, mas, depois de tê-la contemplado de corpo inteiro, já não seria capaz de reviver aquela imagem. Agora era uma dama, e as consequências de flertar em seu navio com mulheres inocentes e encantadoras podia afetar a vida de Beau de modo permanente. No mínimo haveria uma cena de armas quando chegasse em casa. - Este é um navio mercante, Cerynise. Não está em condições de levar passageiros. Não podia dizer-se que mentia, pois os camarotes tinham sido enchidos até o teto com o valioso carregamento que transportava o Audaz. - De qualquer maneira, farei o necessário para que o capitão Sullivan leve você a casa sã e salva a bordo do Miragem. Zarpará antes de finalizar esta semana. É provável que eu parta um pouco antes. Até então lhe dou permissão para ficar e dispor de meu camarote. Uma sombra de desilusão obscureceu o broto de esperança que tinha nascido em Cerynise. - Quis explicar ao capitão Sullivan que o tio Sterling pagaria a passagem na minha chegada - murmurou com desalento, - mas disse que sua companhia lhe exigiria contas do pagamento. - Não deve se preocupar com o dinheiro - tranquilizou-a ele. – Já indiquei a Moon que faça todos os trâmites necessários. Estou seguro de que sob sua vigilância não terá nada que temer. Quando põe em alguém sua lealdade é um homem tenaz como poucos. Sei disso desde que navegamos juntos, anos atrás. - Olhou para Cerynise com a cabeça inclinada. - Me pareceu entender que se considera seu paladino. Quando viu você

desmaiada ficou louco de

preocupação. - Sem ele não teria chegado tão longe - reconheceu ela. Beau se aproximou de um dos


dois armários embutidos do outro lado do beliche e extraiu uma bata de homem. Depois de pendurá-la no antebraço, deteve-se junto a uma cadeira e recolheu uma pilha de roupa dobrada. Cerynise reconheceu a roupa interior que levara posta debaixo do vestido, mas já a primeira vista se deu conta de que tinha muitas manchas escuras. - O que se passou com minha roupa? - Receio que a chuva desbotou seu vestido - respondeu Beau, lhe estendendo as roupas íntimas. - Nenhum membro da tripulação do Audaz sabia como branquear peças com tantos babados. - E meu vestido? Onde está? - Até há alguns momentos o veludo continuava úmido, mas embora se seque duvido que o ache de utilidade. - Percebendo o desconcerto de Cerynise, encolheu os ombros. Talvez para uma menina... - Quer dizer que encolheu? - Exatamente. - Beau passou o dorso da mão pela bata que tinha dobrada. - No momento não posso lhe oferecer nada melhor para substituí-lo. Esta tarde procurarei encontrar algo mais convencional, e possivelmente amanhã tenha tempo de comprar um vestido. Enquanto isso, informarei ao cozinheiro de que nós gostaríamos de comer algo. Dito isso, saiu do camarote, concedendo a sua hóspede a intimidade necessária para organizar suas dispersas idéias. Consciente, de repente, de estar ocupando os domínios de um homem de quem gostou muito na infância, Cerynise se levantou do beliche e olhou ao redor com um sentimento reverencial, ao mesmo tempo que punha o roupão folgado. Chamou-lhe a atenção um leve aroma de colônia de homem, que lhe inspirou imagens do Beauregard Birmingham. O aroma era sutil, mas estimulava ao mesmo tempo de maneira peculiar seus sentidos de mulher. Por certo que era estranho sentir-se presa de tão intensas emoções pela presença de alguém a quem não vira desde o funeral de seus pais. Naquele tempo, naquele tempo, temerosa de não vê-lo mais, tornou a olhá-lo pelas janelas da carruagem. Já então a aparição do jovem marinheiro, ocorrida depois de longa ausência, fora um acontecimento muito digno de nota; Cerynise, em todo caso, tinha permanecido absorta em sua figura até perdê-la de vista, e depois tinha lamentado profundamente que a chegada do jovem não aconteceu com suficiente antecipação para trocar umas palavras. Agora, na plenitude de suas forças viris, Beau apresentava um aspecto esplêndido. Um sorriso cruzou os lábios de Cerynise. Sentia-se tomada por um prazer desacostumado. Examinou com olhos inflamados o bom gosto dos móveis e adornos, que contribuíam para o encanto masculino do conjunto. O camarote se assemelhava a seu dono: belo, brilhante, distinto, e aberto ao mesmo tempo ao mundo e suas aventuras, como o janelão da galeria de popa, dividido em quadriculado. A maciça mesa de mogno, cuja superfície estava coberta de couro, era o móvel maior do aposento. Beau, sentado diante dela, impunha respeito. Por uns instantes se inclinou na cadeira de couro e descobriu com surpresa que só chegava ao chão com a ponta dos pés. A estatura de Beau, julgada da perspectiva do beliche,


parecia ser igual a de seu pai, a quem Cerynise recordava ultrapassando no mínimo em uma cabeça a quase todas as mulheres de Charleston, assim como a boa parte dos homens. Movida pela curiosidade, leu os títulos dos livros alinhados atrás do vidro de duas vitrines, uma de cada lado das janelas, e a surpreendeu achar uma excelente coleção de biografias, livros de poemas e novelas, mesclados com outros volumes sobre a arte de navegar. Desenhou-se em seus lábios um sorriso, e sacudiu a cabeça com admiração. O que nos anos de estudante de Beau passara por indiferença para a literatura clássica fora claramente um ardiloso recurso para relacionar-se com seus companheiros homens, convencidos talvez de que tais afeições eram amostra de debilidade no gênero masculino, apesar do fato de que Beau sempre tinha montado a cavalo, nadado e corrido melhor que todos eles. Pelo visto o pai de Cerynise tinha acertado em sua firme convicção de que aquele moço era imensamente mais perspicaz do que se importava em demonstrar. Ao fundo do camarote uma lanterna estava pendurada em cima de uma mesa com quatro cadeiras. viam-se deste modo vários limites dispersos pelo chão, guardando sem dúvida os pertences do capitão. O aparador de barbear, onde antes se refletira o sol, estava situado junto a um painel corrediço. Como estava um pouco aberto, Cerynise viu que dentro, quase oculto num canto, havia uma tina ovalada pendurada num gancho. Aproximou-se sorridente, imaginando a aquele homem de pernas tão longas tentando banhar-se em tão exíguo receptáculo. A seguir posou a vista em um largo fio de cabelo acobreado que ficara preso na beirada. Abafou um grito de horror, porque estava certa de que era dela. - Terá me... banhado? - sussurrou com assombro, a um passo de entender o que aconteceu. - Meu Deus, banhou-me! Banhou-me! A idéia de que Beauregard Birmingham tomou com ela tais liberdades tingiu suas faces de um vermelho intenso. Tinha vontade de gemer e chorar para se livrar da vergonha avassaladora que invadia seu corpo dos pés a cabeça. Abrindo o roupão, contemplou sua nudez como se nunca a tivesse visto; e para falar a verdade a sentia como algo alheio, uma vez informada de que Beau também a tivera ante seus olhos. Seus seios eram volumosos e rosados; sua cintura esbelta; seus quadris e coxas, lisos e escuros. Se estivesse casada com Beau lhe teria mostrado agradavelmente o quanto tinha para oferecer ao olhar; entretanto, tratando-se da pessoa cuja lembrança nunca deixou de acelerar o pulso à Cerynise, esta só podia perguntar-se no que pensara no momento de banhá-la. Dissese para tranquilizar-se que o fez exclusivamente para seu bem. Bem, mas se produzira no transcurso do incidente algo que Beau pudesse querer lhe ocultar? Seria esse o motivo pelo qual não fez comentários sobre o banho? Ou acaso seu único propósito tinha sido lhe economizar a angústia de uma humilhação, que sofria agora? Descartou a idéia de vestir o espartilho, mas se apressou a cobrir-se com o resto de sua roupa interior. Depois colocou o roupão e dobrou as mangas para solucionar seu excessivo comprimento, procurando não imaginar os dedos largos e finos de Beau tropeçando com os


minúsculos botões que seguravam seu corpete entre os seios. Era de se esperar que sendo homem tivesse tido dificuldades com algo tão pequeno. Ou tinha permanecido indiferente a sua nudez, executando sua caridosa operação sem deter-se no fato de que fosse mulher? Ficou diante do vermelhinho do aparador de barbear e, esquecida por um momento de toda outra consideração, procedeu a lavar os dentes com o dedo indicador e uma pequena quantidade de sal que encontrou em uma caixa de prata firmemente segura a uma ranhura da mesa. Penteou-se com a mão, desenredando o cabelo quase por completo, e para atá-lo arrancou uma tira bordada da bainha de suas anáguas. Julgando-se pálida, beliscou as faces e mordeu os lábios para aumentar seu colorido. Enquanto observava os resultados, percebeu de que nunca se preocupara tanto por seu aspecto nas vezes em que havia possibilidade de cruzar-se com algum dos três galantes moços que, depois de tomar boa nota de seus habituais passeios pelo Hyde Park, adotaram por costume aguardar seu passo em algum ponto do percurso com a esperança de conseguir ser apresentados pela anciã tutora. Lydia, não obstante, obteve um prazer malévolo de frustrar suas pretensões, decidida como estava de que sua protegida se convertesse em uma artista famosa, ou se casasse pelo menos com um aristocrata. Soaram golpes suaves na porta. - Está vestida, Cerynise? - disse Beau ao outro lado. - Posso entrar? - Sim, é claro - apressou-se a responder ela, assegurando-se de levar bem fechado a gola de seu roupão. Naquele momento, pensou, todo esforço de proteger seu pudor era como fechar a cerca depois da fuga das ovelhas. De pouco servia, uma vez que Beau a vira sem nenhuma roupa em cima. Depois de entrar, Beau segurou a porta para deixar passagem a um enérgico homenzinho de cabelo negro, brilhantes olhos da mesma cor e um bigode negro curvado sobre o lábio como arco de querubim. - Os extremos frisados se moveram para cima como efeito de um sorriso jovial. - A senhorita está prestes a degustar a melhor cozinha que provou em sua vida. Flipper a preparou especialmente para você... - declarou o homem, e ficou surpreso pela visão da jovem. Seus lábios formaram um sorriso de comemoração à beleza de Cerynise, e levou a mão ao peito como desculpa. - Mademoiselle, deve perdoar ao capitaine por não nos haver apresentado. Sou Philippe Monet, chef de cuisine do capitaine Birmingham. - Fez um elegante gesto com as mãos, significando para Cerynise que não se incomodasse em apresentar-se. - E você e mademoiselle Kendall, quem, conforme esqueceu dizer-me capitaine, é a maior beleza do globo terrestre. Ela acolheu de bom grado e com uma risada alegre a tranquila expressividade do pequeno e robusto indivíduo, mas ao fixar-se em Beau, cujo sobrecenho apresentava uma pequena ruga, teve a clara impressão de que o cozinheiro o tinha irritado. Desconhecia o motivo. Estava aborrecido por que o criticasse por não ter sabido realizar as apresentações de rigor? Via acaso com maus olhos que diante de uma hóspede seu cozinheiro se estivesse


desfazendo em tão inflamados elogios? Não conseguindo achar explicação para o descontentamento de Beau, olhou ao cozinheiro e respondeu gentilmente: - Enchanté de faire votre connaissance, monsieur Monet. O bigode de Monet não pôde conter um movimento de prazer por ouvir falar com tal elegância seu idioma nativo. Notava-se em seguida que a jovem dama aprendera a pronunciar divinamente as palavras por obra de um francês com domínio de sua língua materna. Philippe, entusiasmado, deu rédea solta a uma fluida fileira de vocábulos franceses, mas Beau demorou muito pouco em conter para sua verbosidade com a mão erguida. - Por favor! Conversem em inglês para os pobres desgraçados que não dominamos vários idiomas. - Excusez-moi, capitaine... - começou a dizer o cozinheiro. - Philippe, faça o favor! - repreendeu-o Beau com impaciência, claramente franzindo já o sobrecenho. - Perdoe, capitaine - se desculpou humildemente o miúdo francês. - Receio ter perdido o controle ao mademoiselle me responder em meu próprio idioma. - Contenha-se se puder - insistiu Beau com secura. - Sei que a senhorita Kendall é formosa, Philippe, mas é minha hóspede, e preferiria que não a violentasse com seu ardor. - OH, capitaine, em minha vida desejaria tal coisa - declarou Philippe, retorcendo-as mãos com inquietação e olhando para Cerynise. - Nesse caso, se importaria de nos servir a comida antes de que esteja muito fria? -pediu Beau com tom cortante, sem lhe dar tempo a embarcar-se em novas e prolixas desculpas. - É claro, capitaine. Um pouco ruborizado pela rixa de seu capitão, Philippe se despediu com uma reverência e deu rápidas palmadas. Sem maior demora, um moço sardento que estivera aguardando do outro lado da soleira entrou no camarote com uma bandeja grande de comida. Quando viu Cerynise se absteve de mostrar o mesmo júbilo que o cozinheiro, mas se deteve a meio caminho, incapaz de pronunciar palavra alguma. Ficou olhando a jovem com olhos exagerados e boca cada vez mais aberta. - Apresento ao Billy Todd - anunciou Beau, que já tinha o bastante com o que lhe jogaram na cara por sua falta de maneiras, uma vez ao dia. - É meu grumete, um bom menino que está acostumado a cumprir com suas obrigações. –Pôs uma mão na nuca do moço. - Ao menos quando se lembra de manter os olhos no rosto e o queixo mais alto que os ombros. As faces de Billy se ruborizaram. - Desculpem, senhor, senhorita... senhora... mmm... - Basta tratá-la como senhorita - informou-o Beau sem rodeios. Nunca vira os membros de sua tripulação tão afetados por um rosto bonito. Recordou então que tampouco sua atitude fora precisamente fria ao segurar nos braços a jovem. - E agora deixa a bandeja, Billy, não vá


lhe cair alguma coisa. - Sim, senhor -respondeu o grumete. Philippe lhe prestou ajuda, e em breves instantes a pequena mesa estava coberta de saborosos manjares: salmão defumado, crepes com caviar, fitas de verdura ligeiramente salteadas com manteiga e limão e, por último, um suflê de lima sobre base de gelo. Este último era algo pouco comum em viagens por mar, mas o Audaz havia tornado da Rússia com um pequeno carregamento de gelo embalado com serragem. Cozinheiro e grumete não demoraram para retirar-se, deixando Cerynise a cargo do Beau, que se sentou em uma cadeira a sua esquerda. - Por ser um homem que viaja por vastos oceanos, capitão, parece que desfruta dos maiores prazeres da vida - comentou Cerynise, observando a elegante apresentação dos pratos. - Não precisa ser tão formal - disse-lhe ele com um sorriso, olhando-a nos olhos rapidamente. - Que eu me lembre sempre me chamou Beau. Dou-lhe permissão para continuar fazendo isso. Naquele preciso instante, ela se convenceu de que no mundo não existiam olhos mais azuis que aqueles. Uma vez, em menina, ficou olhando os olhos de sua mãe, pensando em como eram formosos. Mais tarde se deu conta de que tinham a mesma cor que os do Beau. Absorta nas escuras e translúcidas profundidades de quem era já capitão de seu próprio navio, não teve dificuldade em imaginar que uma mulher sofresse um arrebatamento de admiração sem sequer recorrer à palavra. Sacudindo o feitiço a que sem saber submetia Beau, repreendeu-se por seu sobressalto, digno de uma colegial. - Moon disse algo sobre ter viajado a Rússia. - De lá provém parte desta comida. - Deve ter sido uma completa aventura longínqua. - Não tanto como talvez suponha, Cerynise. De fato, parece curta excursão se o compararmos dando a volta ao cabo de Fornos em uma travessia até a China; e até isso se abreviará uma vez aperfeiçoadas as embarcações que estão começando a construir-se. Clíperes, chamam-nas, e a fé que são bonitas. Seu convés de maior tamanho lhes permite levar um velame mais largo, e com seus cascos afiados como lâminas, cortarão os mares a enorme velocidade. - Parece que está casado com o mar - respondeu Cerynise, não sem certa melancolia. - Não acredite nisso. Tenho os mesmos desejos de formar um lar como qualquer homem, mas não encontrei ainda uma mulher capaz de roubar ao mar meu coração. Talvez daqui há dez anos esteja disposto a abandonar minha profissão de navegante; duvido, em todo caso, que aconteça a curto prazo. - Roubar seu coração me parece tarefa difícil para qualquer mulher - assinalou ela. Aproveitando uma pausa na conversação, provou um crepe. Achou-a tão deliciosa que esqueceu em seguida o que estavam dizendo, e de puro deleite arregalou os olhos . - Beau,


estes crepes são uma maravilha! Seriamente, nunca provei nada tão divino. Uma pequena risada precedeu a resposta de Beau. - Diria que é pelo caviar, se não conhecesse o talento de certo cozinheiro a meu serviço. Philippe é tão destro em sua profissão que tenho medo de que um dia ou outro alguém lhe prometa um reino em troca de cozinhar para ele. Está há três anos comigo, e quando estamos em casa fica à frente de minha cozinha de Charleston. - Têm casa em Charleston? - perguntou Cerynise com surpresa. - Com tão longas ausências, acreditava que teria achado mais simples se alojar em casa de seus pais. - Aprecio muito minha intimidade para pernoitar em Harthaven cada vez que ancoro o navio em meu porto natal - explicou Beau, dirigindo à Cerynise outro sorriso, ao mesmo tempo que cortava uma parte de salmão com o garfo. - Além disso, quando meu pai e eu estamos há certo tempo na mesma casa começamos a agir como dois cavalos garanhões que compartilham o cercado. A idéia dos varões da família Birmingham bufando e dando coices no interior de uma casa provocou agudas risadas ao Cerynise. Sua hilaridade foi tal que se engasgou com uma parte de crepe. Ficou a tossir, tratando de expulsá-lo. -Fiz boa coisa - declarou Beau, ficando em pé. Agarrou a mão de Cerynise e aproximouse por detrás, pedindo a ela que se levantasse. Depois, para surpresa da jovem, passou ambos os braços por sua esbelta cintura. - Agora se dobre até onde possa, e procure relaxar e expulsar com que engasgou. Enquanto Beau lhe estreitava a caixa torácica com fortes e rápidas sacudidas, ela deixou pender de seus musculosos antebraços a parte superior do peito, pensando que nunca estivera em uma postura tão indigna. Tinha a sensação de ser o ganso torpe com o qual, de menina, a compararam alguns moços. O longo roupão dificultava ainda mais seus movimentos. Num esforço de manter as costas a distância decorosa do capitão se enredaram os pés na bainha, cambaleou para trás e caiu literalmente no colo de Beau, que dobrara os joelhos para segurá-la. Durante uns instantes se sentiu segura no firme abraço de Beau, mas ao tentar escapar do cerco de suas mãos e tratar de recuperar o equilíbrio voltou a tropeçar com o roupão e caiu de novo, desta vez em sentido lateral. Beau estendeu o braço para segurá-la, mas o esforço de lhe devolver a verticalidade fez com

que perdesse o

equilíbrio. Em poucos segundos ficaram ambos de costas, Beau no chão e ela em cima dele. A surpresa fez que Cerynise deixasse escapar com força o ar de seus pulmões, e a impertinente partícula se desprendeu de sua garganta. Apesar do alívio, duvidou que existisse remédio contra a vergonha a que a submetera sua estupidez. Tratou de levantar-se, ruborizada. Não pensava senão em sair graciosa daquele transe, porque estava convencida de que a essas alturas Beau atribuiria uma séria propensão às calamidades, e não queria escorar suas suspeitas com novos argumentos. Em seus esforços por levantar-se, deu-se conta muito tarde de estar sentada entre os quadris de Beau. Notando entre suas nádegas uma pressão que crescia por momentos, abriu os olhos desmesuradamente. Um leito de brasas teria causado o


mesmo efeito. Por fim de pé, deu as costas voluntariamente ao homem que havia sustentado seu peso ao cair, fingiu alisar e desgrudar o roupão para ter tempo de que esfriassem as faces. Beau se levantou. Fazia tempo que se dava conta de que precisava de uma mulher em sua cama, mas só a chegada de Cerynise Kendall a seu navio tinha feito ver até que ponto era premente a necessidade. O fato de sentir em seu regaço a branda pressão de suas formas femininas acendeu uma mecha cujo potencial explosivo se mostrou insensível a todo esforço de lógica e frieza. O fato de que desejasse intensamente possuí-la sem mais demora era motivo suficiente para acelerar seu traslado à Miragem. Pouco importava que a recordasse como uma menina que não se cansava de segui-lo. Agora era uma mulher, e muito bela para sua tranquilidade de espírito. Com ela perto não podia estar seguro de suas reações, por grande que fosse o respeito que para ele, mereceram seus pais. Recuperou o aprumo a base de tenacidade, e aos poucos voltou à situação de dominar seus urgentes desejos. Voltou para a mesa e se sentou. Então se deu conta de que as faces de sua acompanhante estavam mais acesas que as suas, e não lhe escapou o motivo. Ignorava o que tinha podido aprender Cerynise dos homens na estéril e rígida companhia de uma viúva entrada em anos, mas imaginou que nesse campo seus conhecimentos deixariam a desejar. A situação, entretanto, ameaçava se modificar se permanecesse muito tempo no navio. Cerynise não demoraria para dar-se conta de que seu anfitrião não era de pedra. Beau imaginou sua relação convertida em uma simples prova de resistência, em que um dos dois, indevidamente, acabaria cedendo à pressão.

O silêncio prevaleceu durante o resto do café da manhã. Beau, que acabava de sentir em carne viva a intensidade de seus desejos, já não tinha muita fome de comida. Dificilmente podia levar para a cama a sua convidada, por deleitosa que tivesse sido a experiência com tão viçosa companhia. Tampouco podia afastar a de sua ansiosa vista sem lhe proporcionar traje decente. A única opção que ficava era abandonar o navio. Talvez dispondo de tempo poderia procurar uma moça disposta a satisfazer seus desejos viris. Só então poderia comportar-se como um cavalheiro em presença dela. À tarde, Billy Todd bateu na porta do camarote de seu capitão. - Está acordada, senhorita? - disse do outro lado. - Sim, Billy. Um momento, por favor. - Cerynise se amarrou o roupão no pescoço e, recolhendo a comprida bainha, foi abrir. Saudou o moço com um sorriso. - O que quer, Billy? O grumete lhe estendeu algumas roupas. - Desculpe, senhorita, mas o capitão disse que lhe fazia falta algo para pôr, e como sou o mais pequeno da tripulação me pediu que compartilhasse minha roupa por algum tempo. Lendo consternação no olhar de Cerynise, apressou-se a acrescentar: - Não me tome por um atrevido, senhorita. O capitão disse que possivelmente lhe fizesse falta algo mais que seu roupão, porque sendo tão longa... - Seu olhar desceu até a bainha, mas a inspeção finalizou de


forma repentina ao reparar nos pés nus e nos finos tornozelos que Cerynise tinha deixado à vista para sustentar a roupa com as mãos. As sardentas faces do grumete ficaram tintas. Turbado, deixou a roupa nas mãos da jovem. – Está limpa, senhorita. Lavei-a eu mesmo. - Não tenho a menor dúvida, Billy – assegurou-lhe ela, menos convencida de que fosse decoroso para uma mulher vestir roupa de menino. - E sua oferta é muito amável, mas não queria importunar você. A adoração que se apropriou brevemente do rosto de Billy mostrou que estava disposto a muito mais, bastava pedir-lhe - Pegue elas, senhorita, por favor, ou o capitão pensará que não as ofereci. Cerynise sorriu, alegrando o semblante do moço. - Nesse caso será melhor que as aceite. Eu não gostaria que tivesse problemas por minha culpa. - Se necessitar de algo mais, senhorita, peça-me isso em seguida. - Ruborizando-se ainda mais, Billy acrescentou: - Estarei encantado em cumprir seus desejos. - Obrigada, Billy. Se me ocorrer algo mais lhe direi - respondeu Cerynise, passando diretamente à questão de se teria tempo de provar as roupas antes que Beau retornasse. - O capitão ficará muito mais tempo no convés? - Não, senhorita. O capitão saiu há uma hora para visitar alguns amigos, mas me mandou lhe dizer que voltaria a tempo de jantar com você. Pede-lhe que até lá fique no camarote, se não a aborrece... - Percebendo que Cerynise estava pendente de suas palavras, Billy encolheu ligeiramente os ombros e explicou: - Se sair ao convés pode ser que os homens fiquem embevecidos e se esqueçam de seu trabalho. O capitão pediu-lhe que me dissesse isso? - perguntou ela, surpreendida. Ele fez uma careta, como se de repente estivesse envergonhado e não soubesse muito bem o que responder. - Pois... Possivelmente a última parte não era para lhe dizer. Não lhe diga que comentei isso com você, não é verdade? Cerynise negou com a cabeça e sorriu. - Não, Billy. Será nosso segredo. O grumete suspirou de alívio. - Nunca tivemos nenhuma mulher a bordo por mais de algumas horas, senhorita, de modo que não se surpreenda de que nossas maneiras sejam um pouco bruscas. - Se outros marinheiros forem tão galantes como você, Billy, terei por certo que o Audaz é tripulado por autênticos cavalheiros. Seu sorriso se fez mais cálido, dando cor às faces do Billy e jovialidade a sua expressão. Supôs que aquele moço só teria uns anos menos que ela, e, embora a vida no mar fosse em certas ocasiões muito adversa aos mais jovens, saltava à vista que ao Billy era propícia. Era um menino magro e flexível como um junco, mas estava bem alimentado, limpo e feliz, sinal, tudo isso, da boa têmpera moral do homem que capitaneava o navio em que navegava como


grumete. - Devo voltar para o trabalho, senhorita. Se sentir falta de algo basta que puxe a campainha que está do outro lado da porta e virei correndo. Pouco depois de ter fechado a porta, Cerynise examinou as roupas e as provou com cautela. Seu talhe esbelto não a eximia de possuir curvas de mulher, que punham travas no processo de vestir as estreitas calças, de cor semelhante ao das velas. Teria que passá-las por cima do calção, já que Cerynise achava inconcebível permitir o contato do tecido tão grosso com sua pele. O roçar a teria deixado em carne viva. Uma vez abotoados os botões, ajustou o pequeno espelho do aparador de barbear e observou o resultado, virando-se em várias direções para examinar todos os ângulos. A visão frontal era o suficientemente vulgar para lhe tirar as cores, mas ao ver-se por detrás Cerynise ficou boquiaberta: as calças, que não ocultavam virtualmente nenhum detalhe, ajustavam-se a suas nádegas como uma segunda pele e marcavam um sulco no meio. Embora Beau não o tivesse pedido, Cerynise não teria saído para o convés nem que a arrastassem vários cavalos de tiro. Levar roupas tão indecentes em presença de marinheiros teria sido convidá-los abertamente a que não se limitassem a olhar. A aba da camisa tinha suficiente comprimento para lhe cobrir os quadris, permitindo que vestisse as calças sem atentar de todo contra o pudor; o tecido, entretanto, fora lavado tantas vezes que carecia de rigidez. Vendo como se amoldava aos peitos, Cerynise renunciou imediatamente à idéia de ficar com o espartilho, objeto que os teria apertado até obrigá-los quase a transbordar do corpete, com resultados muito imprudentes. Até uma olhada superficial à gola do indumentário teria dado pé a julgar desprovida de pudor a quem o vestisse. Vencendo seus reparos, Cerynise decidiu que em nada a prejudicaria utilizar a roupa de Billy na ausência do Beau, sós no camarote. O roupão era tão longo que entorpecia seus movimentos, e tão larga nos ombros que se abria constantemente até a cintura. Mesmo assim, a entrada do Billy ou qualquer outro marinheiro a obrigaria a recorrer às dobras protetoras do desmedido objeto, a fim de ocultar o que a roupa do grumete mostrava sem rodeios. Billy Todd retornou no final de algumas horas para averiguar se Cerynise tinha fome. Apesar dos pedidos do grumete, a jovem recusou comer, alegando que preferia um pouco de repouso. Ainda acusava aos acontecimentos da semana anterior, e não lhe ocorria melhor garantia de bem-estar físico e mental que uma boa dose de sono e relaxamento. Dobrou a extremidade do cobertor do beliche de Beau e deixou o roupão em cima do colchão, perto da parede, para tê-la a mão em caso de ver interrompido seu descanso. Agasalhou-se com o edredom e fechou os olhos, agradecida pela hospitalidade que lhe dispensava seu anfitrião. Pouco a pouco, enquanto ajeitava o travesseiro debaixo da cabeça e percebia uma vez mais o esquivo aroma de seu dono, Cerynise foi percebendo a ausência de Beau. Pareceu-lhe chocante que sua suscetibilidade se estendesse por igual a sua ausência e sua presença. A


mulher em que se converteu não se distinguia em muito da menina que deixou de ser. Muitos anos atrás, o fato de que Beau embarcara lhe tinha destroçado o coração; agora, transcorrido unicamente um breve intervalo desde sua partida, esperava com ânsia vê-lo de novo. Tendo em conta os cinco longos anos de separação, assim como as viagens que o retiveram ela antes de partir para a

Inglaterra, Cerynise não achava justificação à sensação de vazio que

ameaçava seu repouso na ausência de Beau. Era desatinado pensar que um homem pudesse comovê-la a tal extremo; não obstante, quando comparava o júbilo que lhe produzira seu reencontro com os estranhos, inexplicáveis anseios que lhe constrangiam o ânimo no momento presente, a que outra causa podia atribuí-lo? As horas passaram lentamente na solidão do camarote, sem mais distração que outra breve visita de Billy Todd para lhe levar chá e biscoites no meio da tarde. Pouco depois de ser retirada a bandeja do chá, Cerynise se aproximou das janelas da popa e se sentou em um dos assentos acolchoados que rematavam uma fileira de compartimentos. Ficou cativada pela agitação do mole, e teria gostado de pintar as mutáveis cenas e variedade de tipos humanos visíveis através dos pequenos vidros. Os ruídos do porto ficavam atenuados pela transparente barreira, mas não até ao ponto de não chegar aos ouvidos de Cerynise. Cavalheiros de elegante adorno se acotovelavam com marinheiros de tez escura, enquanto obesos comerciantes tentavam afugentar a vagabundos que, cobertos de farrapos, só se calavam ao ver jogado um punhado de moedas em sua direção. As peixeiras se passeavam com cestas apoiadas em seus largos quadris, apregoando a mercadoria. Outros vendedores empurravam carros transbordantes de verdura, fruta, ovos e toda classe de mantimentos frescos. Viu monsieur Philippe atarefado em interpelar ora a um ora a outro, e em certas ocasiões se fazia necessário chamar um marinheiro para que colaborasse no traslado dos abundantes mantimentos adquiridos. Já próximo do crepúsculo, a atividade do caís diminuiu. Mas não outra classe de transações comerciais. O chamativo traje e a pesada maquiagem das rameiras mostravam que para averiguar sua profissão era necessário ouvi-las tentar pessoalmente aos marinheiros de passagem, quando não aos do Audaz. Não tinham vergonha de ostentar generosas porções de coxa, nem em reduzir a altura do decote para atrair aos clientes. Algumas chegavam ao extremo de mostrar seus grandes seios, a cujos mamilos aplicaram dose abundantes de ruge. Tanta indecência ruborizou ao Cerynise; entretanto, ainda recente seu contato com a mais absoluta pobreza, não pôde evitar compadecer-se da situação daquelas perdidas, embora pessoalmente preferisse morrer a ganhar a vida vendendo seu corpo a desconhecidos. Uma carruagem se deteve perto do mole, e o coração de Cerynise pulsou mais rápido ao ver Beau descer, que se deteve junto à portinhola para descarregar o que trazia consigo, descansando no braço duas longas escopetas e levando ao ombro uma bolsa de lona. Enquanto pagava ao cocheiro, parte das prostitutas se aproximaram dele, de modo que quando deu meia volta topou imediatamente com múltiplos convites, entre as quais a mais atrevida foi a de uma linda moça que se aproximou a ele provocativamente, ao mesmo tempo


que descia a mão para lhe manusear a entreperna com descaramento. Beau permaneceu impertubável, olhando à moça e às companheiras que competiam por sua atenção; entretanto, quando a tentadora cortesã ficou nas pontas dos pés e quis obter um beijo de seus lábios, voltou o rosto e o negou entre risadas. Depois de afastar às rameiras com expressão bemhumorada, dirigiu-se ao navio, deixando com as mãos na cintura à bonita e ousada moça. Cerynise deixou de conter a respiração e exalou um longo suspiro de alívio, consciente do muito que a teria aflito ver o Beau com uma daquelas mulheres, no caminho para algum refúgio provisório. Até era provável que houvesse posto pior cara que a meretriz. Seu coração sempre tivera fraqueza por Beau, visse-o entrar em aula ou aproximar-se de cavalo. Cerynise aguardou que se ouvissem seus passos aproximar-se do camarote, prestando a mesma atenção que naquele tempo. Passados uns instantes ouviu ranger o chão do outro lado da porta. Continuando, um golpe suave precedeu às seguintes palavras: - Cerynise, é Beau. Posso entrar? - Sim - respondeu Cerynise, um pouco surpreendida de que lhe tremesse a voz. Ato seguido, e como não podia aceitar que Beau se desse conta de que tinha presenciado seu encontro com a prostituta, abandonou a galeria. Vendo o roupão do outro lado do beliche, recordou a necessidade de recorrer a seu amparo. Correu a procurar a armadura de veludo, mas não a tempo de evitar que a surpreendesse em postura imprópria de uma senhorita. Beau abriu a porta e se deteve em seco para não mais entrar, achando ante sua vista um traseiro de

grande atrativo embainhado em calças de grumete e colocado no alto qual

bandeira de afastamento de hostilidades. Com supremo gosto teria aceito a rendição da jovem dama em quaisquer condições, ou pouco menos, mas mesmo assim se perguntou se não estaria sendo presa de outra luxuriosa fantasia com ela como protagonista. Não se surpreendeu de que Cerynise tivesse despertado seus instintos viris justamente depois de não o conseguir com nenhuma das meretrizes. Enquanto a jovem se endireitava, Beau fingiu lavar o rosto e as mãos no aparador de barbear. A água fria contribuiu a esfriar sua imaginação, mas demorou mais para recuperar o domínio de si mesmo e encarar a jovem com naturalidade. Vendo-a outra vez com o roupão em cima, suspirou de alívio. Aquele objeto, que cobria tudo, permitia-lhe ao menos olhar Cerynise sem temor de que de um momento para outro esquecesse toda lógica e a derrubasse no leito. A moça aventurou um sorriso tímido. - A roupa do Billy é muito cômoda. Beau amaldiçoou a idéia, que lhe ocorreu depois do café da manhã. Com seu roupão, Cerynise tinha apresentado um aspecto muito tentador e acessível. Beau tinha suposto que lhe seria mais fácil ignorá-la vestida de menino, mas as calças do grumete contribuíram muito para fazê-la mais feminina e desejável. Era uma mulher-menina de tão cativante beldade que Beau tinha fortes dúvidas de poder olhar a outras de seu sexo com tão acesos desejos; não antes, em todo caso, de ter relegado ao esquecimento a imagem de Cerynise. Sua longa


cabeleira, de ondas reluzentes e acobreadas, descia até seus quadris, enquanto seus grandes olhos, verdes como atalho em um frondoso bosque, olhavam indecisos ao Beau. - É melhor que não se mostre a nenhum de meus homens com a roupa do Billy. Poderia ser um espetáculo excessivo para seus olhos. A carrancuda expressão do capitão quase amedrontou Cerynise. Incapaz de discernir o motivo de sua irritação, optou pela franqueza. - Noto que está aborrecido por ver-me usá-las. Billy, entretanto, disse que lhe pedira... - A palavra "aborrecido" não se ajusta ao que me está acontecendo - interrompeu-a ele, cruzando o camarote para interpor entre eles a segura barreira da escrivaninha. Desesperado para represar suas idéias em outra direção, olhou pelas janelas de popa. Seu olhar sagaz percorreu as almofadas que nunca tinha tempo de utilizar, e se deteve em uma pequena depressão igual em amplitude aos esbeltos quadris do Cerynise. Ao olhar em direção ao mole, viu a jovem prostituta aguardando clientela. Não teve necessidade de perguntar a sua hóspede o que tinha presenciado, já que saltava à vista qual fora o lugar de descanso da jovem exatamente antes dele subir a bordo. Voltou-se para Cerynise, perguntando-se se a teria ofendido a falta de resistência aos manuseios da moça. Sem dúvida uma inocente teria considerado excitantes tais carícias; Beau, entretanto, que naqueles instantes, e muito a seu pesar, não pensava mais que em ver de novo ao Cerynise, não se expôs sequer aceitar a oferta da meretriz. Descobriu que ela o observava com a mesma atenção. - Philippe já preparou a comida. Têm fome? - Muitíssima! - Cerynise ocultou suas dúvidas sob um sorriso. - E você? - Estou esfomeado - respondeu ele, tratando de rir entre dentes. Retrocedeu até a porta, puxou a campainha que Billy tinha mencionado horas antes e voltou para sua mesa. Enquanto o grumete e o cozinheiro punham a mesa, Beau fez notações em seu livro de contas e ordenou recibos. Philippe e Beau se mostravam muito comedidos, como se também eles percebessem o humor áspero de seu capitão. Partiram sem que dessem mais que um murmúrio na boca de cada um. Cerynise se aproximou da mesa; em pronta reação, Beau tirou suas longas pernas da escrivaninha, cruzou a escassa distância que o separava de Cerynise e lhe ofereceu uma cadeira. A jovem aceitou o gesto e, uma vez sentada, entrelaçou as mãos com recato em cima dos joelhos para ocultar seu tremor. Beau lhe serviu uma taça de vinho, enquanto ela, em justa reciprocidade, servia-lhe a comida no prato. Embora o menu fosse igualmente delicioso como o da manhã, Cerynise não tinha apetite, dada a impossibilidade de ignorar o sombrio estado de ânimo do capitão. O fato de estar sentada à mesma mesa que Beau tinha algo de estranho e irreal. Levou tantos anos imaginando aquele momento que a cena ameaçava lhe parecer muito conhecida; só que nada em Beau Birmingham podia pecar de ser já trilhado ou carente de sinceridade. Nem que fosse um deus o teria adorado mais que naquele instante, ou que nos longos anos


transcorridos desde seu primeiro encontro. Embora tomassem caminhos divergentes e se casassem com outras pessoas, Beau seguiria sendo para ela seu paladino montado num corcel branco. - Imagino que Billy lhe terá irradiado meus desejos de que permanecesse no camarote disse Beau, rompendo um silêncio incômodo. - Passou uma boa tarde apesar disso? - Descansei quase toda a tarde. Depois da morte da senhora Winthrop não conseguia dormir... além de que foi tão repentina que... enfim... deixou-me destroçada. -Bebeu um golinho de vinho, confiando que lhe daria coragem, e perguntou se também se de jovem Beau Birmingham lhe tinha infundido tanto acanhamento. Olhou-o. - Teve um dia agradável? - Sim, muito. Fui caçar, atividade que levava certo tempo sem praticar. É um esporte de que desfruto muito em minhas estadias nas Carolinas, mas em outras partes do mundo nem sempre encontro ocasião. - Senti falta de minha casa - murmurou Cerynise, voltando a vista atrás, no tempo. - Seu tio jogou muito pouco nos últimos anos - disse Beau. - Visitei-o algumas vezes estando nas Carolinas, mas quase todas nossas conversas versavam sobre você. Ela gemeu baixo. - Aborrecia-lhes, sem dúvida. - Seu tio e eu nos apoiávamos na falsa idéia de que ainda fosse uma menina. Quando vir você, esteja certa de que ficará assombrado. - Gozava meu tio de boa saúde em seu último encontro? – inquiriu Cerynise, esperançosa. - Robusto como em seus melhores tempos. Ela sorriu, aliviada pela notícia. - O capitão Sullivan sugeriu que talvez o tio Sterling tivesse morrido, e eu começava a ter medo de que fosse verdade. Beau julgou necessário avisá-la a respeito da travessia a bordo da Miragem, e procurou fazê-lo sem assustá-la. - Durante sua viagem de volta, trate o quanto possível de permanecer em seu camarote, salvo se a impedem circunstâncias maiores. O capitão Sullivan nem sempre controla os movimentos de sua tripulação, de modo que lhe recomendaria não se deixar ver. Moon é homem de confiança e satisfará suas necessidades. - Sua negativa em me levar em seu navio é irrevogável? Ele suspirou. Conhecia de sobra suas limitações. - Temo que sim, Cerynise. Não acrescentou mais nada, nem Cerynise precisou de mais para dar valor concludente a sua resposta. Mudou de assunto de maneira brusca, fugindo do desânimo que lhe inspirava a idéia de separar-se de Beau. - Se esta noite ocupar seu camarote, onde você dormirá ? - Pendurarei uma rede no camarote do meu primeiro oficial. O senhor Oaks tem um sonho tão profundo que nem se dará conta.


- Receio que minha presença a bordo de seu navio lhe esteja causando muitas perturbações, Beau. - É amiga minha. Para que servem os amigos a não ser para ajudar-se? Beau se levantou pouco depois de concluído o almoço e se despediu com uma severa ameaça de sorriso. Cerynise aguardou em silêncio que Billy limpasse a mesa, e uma vez a sós trançou o cabelo, despojou-se de suas roupas e lavou suas roupas íntimas. Meter-se nua na cama era algo que não fez em sua vida. Pareceu-lhe vergonhoso, mas não tinha nada para colocar para dormir. Qual não seria sua surpresa ao descobrir que a esperava sob os lençóis uma experiência emocionante. Acordados seus sentidos ao esquivo aroma do Beau, submetidas as suaves cúpulas de seus seios à carícia dos lençóis, quase conseguia imaginá-lo como seu amante fantasma. A idéia suscitou sensações nunca vividas até então, e grandes estimulantes. Em seu corpo de mulher brotou um estranho desejo que a conduziu a acariciar os seios com afã investigador, ao mesmo tempo que apresentava imagens do Beau. Imaginou que sua própria mão o acariciava de modo parecido com o da meretriz, e se perguntou o que encontraria ao chegar sua audácia a tanto. Longe de propiciar o repouso, a intrigante fantasia despertava em seu interior uma aguda insatisfação que a obrigava a remexer-se no leito com desassossego. O objeto de seus desejos não era algo que conhecesse; em troca, estava segura de que Beau conhecia a resposta. Possivelmente algum dia a instruísse na qualidade de marido... - Tolices - sussurrou na escuridão, zangada consigo mesma. Mas se Beau nem sequer queria tê-la a bordo! Sendo assim, a que extremos não chegaria sua aversão em tomá-la como esposa? CAPÍTULO 3

Alistair Wakefield Winthrop despertou de um sonho induzido pelo porto e enfrentou a uma realidade consistente em um martelar na cabeça, cólicas no estômago e um sabor como o dejetos de cavalo. Rodou na cama, topou com o inamovível 1 volume de sua amante e gemeu. O inchado semblante de Sybil, melado de ruge, não contribuiu para melhorar sua disposição. Tomou a direção oposta, abandonou a cama e, agarrando a cabeça como se temesse sua queda, cambaleou pelo quarto em direção ao guarda-roupa. Teve o tempo justo de chegar à privada antes que seu estômago seguisse o curso que se deduzia naturalmente de seu mal-estar. Pouco depois, Alistair saiu do cubículo e vestiu uma calça e uma camisa. Incapaz de conter o tremor de suas mãos, renunciou a abotoar os botões da segunda roupa, e depois de murmurar uma blasfêmia saiu do dormitório aos tropeções. Uma vez no patamar protegeu a vista da luz que entrava pelas janelas do jardim e tateou como um cego em direção às escadas. Aferrou-se depois ao corrimão e desceu de um em um os degraus, levando tempo para chegar

1

Inamovível - intocável, ou que não se pode mexer.


ao piso inferior. A porta da sala de jantar, aberta, permitiu-lhe ver a criada pondo pratos na mesa sob a atenta supervisão do temido Jasper. Os olhos de Alistair, emboscados atrás de grossas pálpebras e injetadas em sangue, percorreram a espaçosa estadia sem descobrir indícios de que se estivesse preparando chá. Ficou lívido de indignação. Por alto que tivesse chegado Jasper na hierarquia da criadagem, sua subsistência não dependia menos da boa vontade de seu patrão do que a de outros. O mordomo, claramente, esquecera como era frágil sua posição, mas Alistair estava resolvido a recordar-lhe porque diabo ia suportar ele a arrogância de um lacaio presunçoso! - Como qualificar o governo de uma casa quando seu senhor se vê obrigado a ir ele mesmo em busca do chá? - perguntou com sarcasmo. A baixela de prata se chocou contra a mesa, mostrando o sobressalto da criada, que olhou ao Jasper boquiaberta. Jasper piscou. Alistair evitou dar rédea solta a sua ira. Este velho imbecil é frio como uma pederneira!, pensou. Ao diabo com ele! - Lamento as perturbações, senhor - se desculpou Jasper, impávido. – Se deseja estabelecer um horário regular, verá ele respeitado escrupulosa e imediatamente. - Tirem daqui estas louças baratas! - vociferou Alistair, agitando uma mão em direção à baixela que havia na mesa. - E me tragam uma xícara de chá. A menos que não seja muito esforço, claro! - Absolutamente, senhor - respondeu Jasper sem alterar-se. Fez um gesto rápido com os dedos, indicando à moça que recolhesse a mesa. Ele mesmo foi procurar o chá e o depositou no extremo da mesa onde se sentou Alistair, com os cotovelos apoiados em sua superfície brilhante e a cabeça segura com ambas as mãos. Apesar do absoluto silêncio da operação, o senhor da casa se sobressaltou. Estava dormindo. - Ah, é você. Suspirou com alívio e piscou várias vezes, varrendo de sua mente a visão fugaz que tinha perturbado seu sonho. Depois levou a xícara aos lábios com mão trêmula, procurando não derramar seu conteúdo. Várias gotas ferventes caíram em seu regaço e empaparam suas calças, contrariando seus esforços de forma dolorosa. Sem dúvida suas coxas ficariam cobertas de bolhas antes que tivesse introduzido em seu corpo uma quantidade de chá suficiente para pôr em marcha seu cérebro. - Está aqui o senhor Rudd, senhor - anunciou Jasper com tom solene. - Deseja que o traga? - É melhor - murmurou o grosseiro Alistair. Pouco depois presenciou com expressão carrancuda a entrada do Rudd pela porta da sala de jantar. O advogado vestia uma roupa cheia de rugas, e seus olhos não desmereciam os de seu anfitrião, mas destacava sobre tudo sua patente e aguda consternação. Bêbado!, disse-se Alistair com desprezo, sem dar-se conta de que seu próprio aspecto reproduzia com exatidão o desastrado desalinho de seu


companheiro. - Não disse ontem ao partir que fosse dormir em sua casa? - Custou-me, mas cheguei - resmungou Howard Rudd, levando uma mão aos olhos para proteger-se da luz das janelas. Apontou as cortinas com mão flácida. - Feche isso, maldita seja! Jasper, logo obedeceu, obscureceu a sala e colocou discretamente uma xícara de chá diante do advogado, que acabava de sentar-se à direita de Alistair. - Diga-lhe que se vá - murmurou Rudd apontando o mordomo, que lhes dava as costas. - Tenho que te dizer algo em privado. Alistair experimentou na nuca um comichão de apreensão. Fez estalar os dedos, gesto que lhe arrancou uma careta de dor. Uma vez obtida a atenção de Jasper, apontou a porta. Rudd permaneceu atento aos passos do mordomo, ouvindo-os afastar-se para outra seção da casa. Depois respirou fundo, como se se dispusesse a mergulhar em um frio e negro lago. - Bem. Para começar, não acredito que tenha com que se preocupar-se. Isso quero que fique claro desde o começo. Rastejando das profundidades da alma escura do Alistair, um medo atroz se apoderou de sua pessoa. Sempre temeu que saísse algo mal, e pelo visto esse temor se verificara. - Solta de uma vez! - O problema é que não consigo encontrar os documentos legais da senhora Winthrop: a escritura da casa, a lista de investimentos e contas bancárias e outros papéis do mesmo gênero. Deveriam estar na casa, mas registrei todos os cantos que me ocorrem e até o momento não encontrei nada. - Têm que estar! - disse Alistair. Firmando seus cotovelos na mesa, ficou de pé e caminhou para as janelas, temeroso de que suas pernas lhe falhassem em um momento ou outro. - Seus ganhos anuais lhe permitiam viver com desafogo. Ao menos cobrava trinta mil libras ao mês! A menção de semelhante fortuna encheu de um respeito muito justificado ao Rudd, cuja posição econômica desmerecia em grau supremo, tais quantidades. - Sempre foi muito prudente com seus investimentos, pelo menos enquanto me teve como advogado, e não há motivos para suspeitar uma mudança brusca nos anos transcorridos desde minha última visita profissional a esta casa. - Então onde diabos estão os documentos? - perguntou Alistair, logo indo às nuvens. Como era possível que tendo chegado tão longe visse desbaratados seus planos? Emitiu um grunhido de contrariedade e declarou acaloradamente: - Sou rico, maldita seja! Ninguém me tirará esse dinheiro. Ninguém! - Fique tranquilo - admoestou Rudd. - Não tem sentido que se irrite. Já sabe que é mau para os humores. Os documentos têm que estar em alguma parte. Se for necessário poremos a casa de pernas para o ar...


- Não! - exclamou Alistair, provocando no Rudd um olhar de surpresa. Depois de uma breve pausa continuou com maior serenidade. - Procuraremos, de acordo, mas teremos que ser discretos. Não quero que os criados façam correr a voz. As pessoas poderiam fazer perguntas. O rosto de Rudd se tingiu de um tom quase esverdeado, que se obscureceu ao ver aumentar a inquietação do Alistair. De repente entrecerrou os olhos com receio. - Que classe de perguntas? - Isso é o que mais acontece? Você faz o que digo! Quando a velha estava viva tinha as arcas bem fechadas e me obrigava a mendigar cada cêntimo, mas não vai importunar me com a tumba. Terei tudo! Tudo! - Permite-me uma sugestão? - O que? - Possivelmente a senhorita Kendall conheça o paradeiro dos documentos. O iracundo olhar do Alistair deu calafrios ao Rudd, que recorreu a um copinho de conhaque, encheu-o até o bordo e procedeu a esvaziá-lo em três generosos goles. - A senhorita Kendall não está aqui - lhe recordou Alistair com tom ácido. - Esqueceu que a escorracei? A cabeça do Rudd oscilou em sinal de assentimento. - Certo, sim, mas me ocorreu que possivelmente... - Por que não lhe ocorreu ontem, antes de que a pusesse na rua? - rugiu Alistair. Rudd sentiu cada palavra como um brutal murro. - Não pensei que fossem surgir problemas. Se pudéssemos encontrá-la, talvez nos... Alistair se aproximou do advogado até ficar quase nariz com nariz, e o olhou com desdém. - Seriamente acha que desejo informar à Cerynise Kendall de que ignoro onde se acham os documentos financeiros da Lydia? Não lhe parece uma situação ligeiramente estranha para um herdeiro? - Sim, claro - reconheceu Rudd, - mas não acredito que isso a leve a suspeitar; e embora o fizesse, não está em posição de nos causar nenhum... Alistair não deu o braço a torcer. - Não tem nada que ver com esta casa! Foi! E não voltará! - Seus olhos brilharam de ódio. - Com um pouco de sorte, algum assassino amante de seu ofício libertará breve ao mundo dessa calamidade, se já não o fez. Rudd voltou a lançar a mão para a garrafa de conhaque, mas Alistair a arrebatou. Ato seguido, mostrando o indicador dobrado, fez gestos a seu amigo para que o seguisse. Rudd obedeceu, embora com passo lento. - Darei o dia livre aos criados por deferência ao falecimento de sua amada patroa - disse Alistair, passando um braço pelo pescoço do advogado. – Quando estiverem fora reviraremos a casa, aposento por aposento, e se esses documentos estiverem aqui, por minha vida que os encontraremos.


Uma carruagem se deteve perto da parte do mole onde estava atracado o Audaz, amarrado pela proa e pela popa. O sempre imperturbável Jasper desembarcou do veículo e, depois de pedir ao cocheiro que descarregasse o baú do bagageiro, voltou-se para ajudar Bridget a descer ao solo pavimentado do caís. Juntos fizeram provisão de malas, bolsas de couro, uma caixa de madeira e um cavalete, antes de seguir a vários comerciantes pela passarela. - Têm a bordo a uma tal senhorita Kendall? - perguntou Jasper ao primeiro marinheiro que encontrou. - O capitão Sullivan nos disse que a dama a quem desejamos ver se achava no Audaz. Fomos mal informados? Stephen Oaks era primeiro oficial da fragata, e pouco acontecia nela que não soubesse. - A dama se acha a bordo, conforme me informou o capitão - disse. - Deseja tratar algum assunto com ela? - Trouxemos alguns pertences da senhorita - explicou Bridget, correspondendo ao sorriso do oficial. - Se zarpar da Inglaterra com certeza que necessitará delas. - Me comuniquem seus nomes e informarei ao capitão de sua presença. Beau se apresentou pouco depois e submeteu as dois criados a um breve interrogatório antes de descer a seu camarote. Passara a noite compartilhando teto com seu oficial, mas, estendido na rede, viu-se negado o descanso por imagens de Cerynise em toda sorte de desalinho vestuário. Não pôde evitar perguntar-se se a visão do modelo real teria piores efeitos que suas fantasias. Depois de bater no camarote, ouviu certo barulho e permaneceu à espera durante longos instantes de silêncio. Por fim se abriu a porta, e Beau descobriu o rosto ruborizado e muito belo de uma mulher surpreendida no momento em que menos esperava uma visita. Indagou pelo motivo, pois a jovem tratava desesperadamente de ocultar a suas costas. Sem dúvida tinha lavado suas roupas íntimas, tinha-as espalhado por todo o camarote para que secassem e havia voltado à recolhê-las depois de ouvir golpes na porta. Agora fazia o possível por manter oculta a lingerie, enquanto segurava as lapelas da bata do Beau com expressão ligeiramente envergonhada. Beau achou que seu desconcerto tinha motivos, porque debaixo do veludo se moldavam de forma sublime dois peitos sem constranger. - No convés há dois criados que vêm da mansão Winthrop com parte de seus pertences - declarou, antes de repetir os nomes que lhe comunicaram. - Deseja que os faça descer ao camarote? - É claro! - respondeu Cerynise com entusiasmo; mas, recordando imediatamente seu pobre adorno, ruborizou-se. - Me concedam um momento. Beau assinalou para trás com o polegar, indicando a campainha da porta. - Quando estiver pronta, toque e direi a eles que desçam. - Obrigada. Beau teve esperanças de que o vestuário de Cerynise fosse menos adverso à serenidade que tanto se esforçava por manter.


- Meus homens lhe trarão os baús e demais bagagem uma vez se partam seus visitantes. Agradar-lhe-á sem dúvida poder vestir algo mais que meu roupão. - É um roupão muito bonito - murmurou Cerynise com um sorriso, acariciando a manga. O olhar de Beau percorreu dissimuladamente seu esbelto contorno, admirando quanto continha a vestimenta. Depois de tê-la contemplado em todo o esplendor de sua nudez, via-se em apuros para não ver o que desejava. - Agrada-me como se sente. Melhor que a mim, sem dúvida. O agradável cumprimento ruborizou à Cerynise. - É muito galante, senhor, e mais dada minha pobreza. - Se outras sendo pobres apresentassem um aspecto igualmente encantador, estou convencido de que não lhes toleraria tanto. - Agarrou um paletó do armário e piscou um olho à Cerynise, como o tinha piscado os olhos tantas vezes anos atrás. - Direi aos seus que desçam. Pouco depois Bridget entrou no camarote e deu um grito de alegria ao ver Cerynise. Correu para dar a jovem um efusivo abraço. - Senhorita! Estávamos tão preocupados , e agora a vemos com tão bom aspecto! - Mas o que fazem os dois aqui? - perguntou Cerynise. - Não os terá despedido o senhor Winthrop! - Só por hoje, senhorita. Devemos nos reincorporar amanhã pela manhã - explicou Jasper. - O senhor Winthrop disse que tinha coisas para fazer, e que não queria que a criadagem o incomodasse. Cerynise reagiu com um suspiro de alívio. - Graças a Deus! Temia ter sido causa do fim de seu emprego. - Trouxemos seu cavalete, senhorita. O senhor Oaks disse que os baixarão breve informou o mordomo. Agarrou um cofrezinho de madeira que tinha nas suas costas, ao mesmo tempo que um sorriso submetia a dura prova a rigidez de seus músculos faciais. Acredito que suas pinturas se acham aqui dentro. É assim? - Sim! -exclamou Cerynise, apoderando-se com júbilo do cofre. - Mas como arrumou para tirar isso em segredo da casa? - Fizemos isso esta manhã, senhorita, quando o senhor Winthrop e a senhorita Sybil ainda dormiam - contou Bridget com orgulho. - Então ainda não sabíamos que nos ia dar o dia livre, mas como veem aqui estamos. Claro que não nos atrevemos a trazer tudo que era seu; só uns quantos vestidos e outras coisinhas que não sentirão falta facilmente. Seus quadros estão escondidos no quarto de despejo do apartamento de cobertura, que tem em frente todas aquelas caixas. A menos que saiba já de sua existência, duvido que o senhor Winthrop os encontre a curto prazo, nem mesmo que suba. Se puder nos deixar o nome do lugar em que se alojará depois de chegar às Carolinas, trataremos de lhe enviar isso - Perguntarei ao capitão Birmingham se pode me fazer um empréstimo que cubra o envio. Não quero que seja uma carga para nenhum de vocês. - Seria uma ajuda, senhorita - reconheceu Bridget. - Quase todos decidimos procurar


emprego em outras casas. A senhora Winthrop tinha amizades que podem responder por nós, e todos sabemos que convém nos pôr ao serviço de outros patrões. - Mas uma vez que já não estejam - disse Cerynise, preocupada, - Sybil não perceberá que falta parte de meu vestuário? E não os acusará de roubo, a vocês ou a outros criados da casa? Bridget fez um gesto de indiferença pelo que pudesse pensar semelhante prostituta. - Duvido que a senhorita Sybil note que falta algum vestido. Salta à vista que não pode vesti-los. Os que trouxemos estavam debaixo de uma pilha enorme que deixou no chão, a muito condenada, depois de revolver todos os armários e gavetas. O mais provável é que nem sequer se lembre deles. - Correu um risco enorme - disse Cerynise; entretanto, um cálido sorriso dissipou toda dúvida possível sobre sua gratidão. - Não sei se lhes poderei agradecer isso o bastante. - Nossa recompensa, senhorita, será saber que voltará para mãos de sua legítima proprietária - assegurou Jasper. - Se não tivéssemos tratado de ajudá-la, nossa consciência nos teria reprovado isso. - Riu entre dentes, exibindo um humor em geral oculto. - E mais, nos veríamos perseguidos pelo fantasma da senhora Winthrop! - Aprecio muito a vocês dois - declarou Cerynise, agarrando a ambos pela mão. Lançarei muitíssimo menos. - Você foi a menina dos olhos da senhora Winthrop, a filha que não teve - murmurou Jasper com doçura. - Bridget e eu nos acostumamos a considerá-la como sua filha adotiva. Vai nos doer sua ausência. A criada respirou fundo para atalhar a tristeza que começava a embargá-la, e contendo suas lágrimas com rápidas piscadas, examinou o camarote como um modo de dirigir seus pensamentos para algo menos emotivo. - Já viu alguma vez tanto luxo em um aposento, senhorita? - perguntou com voz rouca. Além da casa da senhora Winthrop, claro - se apressou a corrigir. - É a primeira vez que subo a um navio. Imaginava que cheiraria um pouco a pescado, não sei... Nem me teria ocorrido que fosse retornar a seu país em um navio tão esplêndido, não tendo em seu nome nem um mísero penny. - O capitão Birmingham é um velho conhecido - disse Cerynise com cautela, evitando explicar que não efetuaria a viagem às Carolinas a bordo da fragata do Beau. -Anos atrás foi aluno de meu pai, e deveria acrescentar que foi um dos mais prometedores, apesar de sua reticência a concentrar-se nos estudos. Foi uma sorte que estivesse em Londres. - E que bonito é, senhora! -entusiasmou-se Bridget. - Tão bonito como amável foi o senhor Oaks ao nos receber... Um discreto pigarro de Jasper bastou para recordar à moça que estava excedendo-se. O mordomo estreitou a mão de Cerynise. - É hora de partir, senhorita. Espero que tome cuidado, e que nos escreva uma carta nos informando de como vai tudo.


- Fá-lo-ei - prometeu ela com olhos empanados. - Assim que chegue a Charleston. - Muito bem, senhorita - murmurou Jasper. - Aguardaremos com ânsia a recepção de sua missiva. - Bridget, poderia dizer ao capitão Birmingham que desça uns instantes a seu camarote? - pediu Cerynise à moça. - Tratarei de obter uma quantidade suficiente para que me enviem meus quadros sem demora. A idéia de ver de novo ao primeiro oficial fez aflorar um sorriso nos lábios de Bridget. - Em seguida, senhorita. Pouco depois Beau encontrou Jasper aguardando estoicamente no corredor que levava a seu camarote. O mordomo lhe abriu a porta sem tempo para perguntas. - A senhorita deseja lhe falar, senhor. Ouvindo Beau entrar, Cerynise se voltou para ir a seu encontro com um sorriso cheio de esperança. - Jasper e outros criados ocultaram meus quadros em casa da senhora Winthrop e querem me enviar isso mas não possuo sequer uma moeda. Perguntava-me se poderia lhe solicitar um empréstimo... - De quanto necessitarão? - perguntou Beau, indo a sua escrivaninha e abrindo uma gaveta. - Imagino que não mais de dez libras. Há um número elevado de quadros, e já que vendi outros por uma soma considerável, algum até por dez mil libras, acredito que poderei vender o resto nas Carolinas e lhe devolver o dobro do que me empresta. - Por quanto os venderam? - perguntou Beau com incredulidade. Cerynise, duvidosa, encolheu os ombros, temendo ser tomada por uma fanfarrona. - Dez mil libras. - E esse Alistair Winthrop de quem me falou se atribuiu sua propriedade? A crescente indignação de Beau confundiu ao Cerynise. - Sim. - Nesse caso é um ladrão de primeira - asseverou Beau com dureza. - Os quadros são seus e de ninguém mais. - O senhor Winthrop e seu advogado, o senhor Rudd, negaram-se a contemplar essa possibilidade, dizendo que a senhora Winthrop comprou as pinturas, pagou as aulas e organizado as exposições. De tão néscio, o raciocínio arrancou ao Beau um bufar de irritação. - E o que lhe teria ficado se não os tivesse pintado? - Pouca coisa mais que tecidos e pinturas a óleo - respondeu Cerynise. - Exato. A jovem sorriu, reconfortada pela conclusão de Beau. - Tentei explicar-lhe mas estavam resolvidos a me despojar de todos meus pertences. Eu não teria deixado de lhes pagar com acréscimo o aluguel de meus cinco anos na mansão Winthrop. Embora deduzisse essa soma do que tinha cobrado pela venda de meus quadros continuaria conservando uma soma respeitável. Por desgraça, Alistair se erigiu em dono de


todo esse dinheiro. - Possivelmente deva lhe procurar um bom advogado - propôs ele. - Com certeza disporiam de argumentos sólidos para reclamar seu direito de retenção sobre a herança. - Prefiro voltar para casa. Tive tantas saudades de Charleston! Beau fez recontagem de uma pilha de moedas e as depositou em uma bolsa, que pôs nas mãos de sua hóspede. - Acredito justo dar quinze libras ao Jasper, para o envio e o trabalho. É suficiente? - Sim, Beau! Obrigada! - Cerynise sentiu o impulso de lhe jogar os braços ao pescoço e recompensar sua generosidade com um beijo, mas teria sido faltar ao decoro. - Provavelmente me convenha não ir em busca do Alistair Winthrop - comentou ele com um sorriso sardônico. - Teria vontade de lhe deixar um olho roxo. Depois de abandonar seus aposentos e fechar a porta parou para falar , em voz baixa com Jasper. Assim que este assentiu vigorosamente com a cabeça, o capitão extraiu um moedeiro de seu cinturão, o entregou ao mordomo e lhe apertou a mão. Seguiram caminhos divergentes, Beau para a escada e Jasper de volta ao camarote. Cerynise estendeu ao mordomo a bolsinha de moedas. - Façam o que façam tenham o cuidado exortou. - Não quero que o senhor Winthrop adivinhe suas intenções e meta-os na prisão. Se os surpreende levando-os quadros de seu domicílio, terá argumentos sólidos para lhes submeter à perseguição da lei. As rígidas feições de Jasper começaram a traduzir regozijo. - Primeiro teria que me descobrir, senhorita, mas dado seu costume de tresnoitar e sua demora em abandonar o leito, suspeito que não acontecerá. Além disso, são tais os roncos do senhor Winthrop e a senhorita Sybil que poderíamos subtrair-lhes a casa inteira em que dormem sem que se dessem conta. Penso, senhorita, que os assombrará a quantidade de coisas que poderemos enviar às Carolinas. Pouco depois da partida dos criados, Billy desceu com um cavalete e várias bolsas de menor tamanho. Seguia-o de perto um musculoso marinheiro que carregava nos ombros o baú de Cerynise. Desaparecido o gigante, Billy se deteve na porta. - O capitão me encarregou de lhe dizer que passará a noite fora, para que possa dormir sem perturbação em seu camarote. Pediu-me além disso que comprove que não deseja que lhe falte nada. Cerynise tinha curiosidade por saber o que, se não as rameiras que vagavam pelo mole, podia ocupar a um capitão durante toda a noite. A hipótese de que Beau estivesse nos braços de outra mulher não a agradava absolutamente; entretanto, intensa como era sua decepção não tinha maneira de expressá-la. Sorriu corajosamente ao Billy. - Suponho que não fará mal um pouco de intimidade. - Nesse caso terá tanto quanto lhe faça falta, senhorita - assegurou o moço com um sorriso. Pouco depois que partiu o grumete, Cerynise submeteu a exame as roupas do baú e a


seleção de bolsas, curiosa por saber o que conseguira lhe trazer Bridget. Seu entusiasmo se transbordou ao descobrir dobradas no baú suas melhores roupas para cada ocasião. As bolsas continham sapatos, camisolas, roupas íntimas, meias de seda e outros equipamento necessários para uma dama elegante. O carregamento superava com acréscimo as expectativas de Cerynise, e mais, tendo em conta a dificuldade de subtrair seus pertences a Alistair. Bridget conseguira provê-la com o mínimo da metade de seu vestuário, façanha que deixou atônita a jovem. Já não tinha dúvidas sobre sua capacidade de fazer brilhar uma vestimenta capaz, com sorte, de chamar a atenção do capitão, e talvez induzi-lo a permitir que navegasse no casco de seu navio. - Tem que estar! - insistiu Alistair, apoiado fracamente na mesa da biblioteca. Já fazia horas, entretanto, que Rudd se sentou no chão em sinal de derrota. - Não está - suspirou o advogado, cansado e aturdido. Sacudiu a cabeça com incredulidade, enquanto passeava a vista pelas inúmeras pilhas de documentos espalhados em torno dele. Nenhum deles lhes havia dado o menor dado capaz de lhes proporcionar ajuda. - Nem aqui nem em nenhum outro lugar da casa. Howard Rudd estava pálido e exausto. Seguia presa da mesma e terrível angústia que afligiu ao Alistair, mas seu nervosismo se tornou mais manifesto. Fora declarado por um tique persistente em um lado do rosto, e mantinha os lábios apertados. - Tem que estar - repetiu Alistair, aturdido. - Em alguma parte tem que constar onde escondeu o dinheiro essa velha bruxa. Rudd passou a mão pelo rosto e exalou outro suspiro. - Pois não consta. foi mais esperta que você. - Levantou um braço, sentindo como se pesasse toneladas, e o deslocou sem energia para apontar o conjunto do aposento. - Tem que reconhecê-lo! Aqui não há nada. Todos estes papéis, a correspondência, as contas domésticas, remontam-se a muitos anos atrás, e não contêm nenhum indício de onde pôde ter posto o dinheiro. Escondeu-o muito bem. - Conseguiu ficar de joelhos; dessa posição, e com grande dificuldade, levantou-se. - Neste momento, o único que sei de certo é que não fica nenhum mísero penny em nenhuma das contas ou investimentos que faz anos fez com meu conhecimento. Todas estão a zero. - Harpia condenada! - exclamou Alistair. - Não pode sair-se com a sua! É impossível! - Pois o fez - respondeu Rudd, muito exausto para manter uma prudente discrição. Faça o que faça não tem remédio. Necessitamos de vários meses para registrar todos os lugares onde poderia ter depositado os recursos, e com sorte poderíamos sequer encontrar a metade. - Não posso esperar tanto! - grunhiu Alistair. - Os credores estão se lançando ao meu pescoço. Se não constasse como herdeiro dessa bruxa já me teriam metido no cárcere. - Poderíamos dizer a eles que encontramos certa desordem no legado - sugeriu Rudd com fadiga. - Não lhe permitiria isso ganhar um prazo de tempo? - Sim, tempo para que meus numerosos credores comecem a perguntar-se se não terá


saído algo mal! - Alistair fulminou ao Rudd com o olhar. - Você sabia que terei que tratar deste assunto de forma discreta, e sobretudo rápida. Por que não me disse que ignorava onde encontrar seu dinheiro? O tom de censura de Alistair escureceu o semblante do Rudd. - Não tente me culpar! - Agarrou a licoreira e, achando-a vazia, depositou-a com violência no aparador. - Joguei limpo, e disse a você que fazia anos que não levava as finanças da Lydia. Como diabos eu ia saber o que fez em todo esse tempo? - Franziu o sobrecenho e olhou ao Alistair com rosto de poucos amigos. - Ambos sabemos o que isso implica. Pode ter feito algo com sua condenada fortuna! O duelo de olhares se desenvolveu em silêncio. Rudd levantou uma mão em sinal de rendição. - Talvez nos convém deixá-lo por esta noite e começar amanhã com a cabeça limpa. - Quanto tempo faz que não tem a cabeça limpa? - zombou Alistair. Entretanto, também ele estava disposto a postergar a busca. Desabou na poltrona, contemplando a desordem que provocou a procura, e que se estendia virtualmente a toda a casa. Passaram o dia inteiro revolvendo quanto estivesse a seu alcance, sem por isso dar com nada. Esvaziaram armários, roupeiros, derrubaram gavetas e até levantaram colchões. Na manhã seguinte retornariam os criados, a quem bastaria sem dúvida uma rápida olhada ao desastre infligido à mansão para adivinhar que acontecia algo. De repente Alistair estremeceu, assaltado pela horrível visão de sua própria figura entre grades, sujo, faminto e a mercê de cruéis zeladores. Era uma cena que desde há um tempo o perturbava com frequência, sempre acompanhada por uma aguda sensação de enjoo. Fez o esforço para pensar em outras coisas, e percebeu de que quase não comeu em todo o dia. Então olhou ao Rudd com cenho. - Vá procurar Sybil e lhe diga que nos prepare algo de comer. - Chamou o letrado justamente antes de fechasse a porta. - E mais vale que seja comestível, ou saberá do que é capaz o dorso de minha mão. Essa prostituta é tão inútil como as demais. - Verei o que posso fazer para ajudá-la - resmungou Rudd, que preferia essa opção a ver-se no transe de engolir o que tivesse improvisado a jovem. Já tinha provado seus dotes culinários, lamentando-o em dias sucessivos. Transcorrido certo tempo da partida do Rudd, uns golpes de aldrava na porta principal chegaram sem vigor até a biblioteca, e para ouvidos do Alistair. Este, paralisado pela inquietação, absteve-se de ir ao chamado até que o ouviu pela segunda vez. Só então reparou em que, ausente a criadagem e ocupados Rudd e Sybil na cozinha, teria que ir ele mesmo abrir a porta. Murmurando mal-humoradas blasfêmias, sustentou-se em suas intumescidas pernas e sorteou os montões de papéis que lotavam a biblioteca. Quando chegou ao vestíbulo, o relógio do suporte da chaminé deu as nove no salão. Um pouco tarde para visitas, diabo! A menos, pensou com certo vislumbre de esperança, que Cerynise tenha decidido arrastar-se de novo até minha porta. Tomara!


Estava decidido a não deixar que aquela cadela (atraente, isso sim) lhe escapasse pela segunda vez; não antes, em todo caso, de lhe haver surrupiado toda a informação de que dispunha. Ficou horrorizado ao descobrir na soleira um homem de meia idade, cabelo grisalho, bigode bem recortado e óculos de aros metálicos. O visitante levava um traje bonito e sóbrio, indício seguro de pertencer às profissões liberais. Dadas suas expectativas de ver-se recebido por um criado, não pôde ocultar certa surpresa ao achar-se diante do desalinhado e barbudo Alistair. - Desculpe o avançado da hora, cavalheiro. Poderia me dizer se se encontrar em casa a senhorita Kendall? - A senhorita Kendall? Alistair desconfiou imediatamente. Aquele indivíduo não parecia um credor, não sabia de nenhum parente de Cerynise que não vivesse em ultramar. Foi a curiosidade foi mais forte, e Alistair se virou para o lado com um sorriso cortês para que o desconhecido entrasse. - Veio ver Cerynise, senhor? - Desculpe, cavalheiro. Meu nome é Thomas Ely, e era o advogado da senhora Winthrop. Acompanho-o no sentimento. - Franziu ligeiramente o sobrecenho, num esforço para identificar Alistair. - É parente dela? - Parente... A língua de Alistair travou-se, mas seus pensamentos corriam a velocidade desmedida. Não lhe ocorreu pôr em dúvida as palavras do senhor Ely. Tampouco o surpreendeu a presença do advogado, já que havia sentido crescer desde o principio até o fim do dia o pressentimento de que algo andava mau. Com seu comentário de que Lydia podia ter feito algo, Rudd pusera o dedo na chaga. Ambos sabiam desde o começo que podia existir um testamento posterior. A presença de Ely logo permitia duvidá-lo. - Sou o sobrinho neto da senhora Winthrop - informou Alistair ao advogado, enquanto o acompanhava ao salão, único aposento da casa que continuava intacto. - Me alegro de que tenha demorado tão pouco em vir – acrescentou, solícito. - Pouco? Ao contrário! - respondeu Ely com expressão desconcertada, ao mesmo tempo ligeiramente receosa. - Não soube da morte da senhora Winthrop até ler hoje a notícia, e para ser franco me surpreendeu não ser informado imediatamente. - Não o notificou disso a querida Cerynise? - perguntou Alistair com fingida surpresa. Sua mente começou a funcionar com gélida claridade, e se sentia estranhamente sereno, longe do nervosismo e da angústia dos últimos dias. Tinha estado aguardando a queda da tocha, mas uma vez produzida prestava plena atenção a todas as possibilidades que se apresentavam. - Não, por certo - confirmou Ely. Tomou assento em um dos sofás a instâncias do Alistair. - Me confesso consternado pelo falecimento da senhora Winthrop. Vi ela há apenas


uma semana, e para uma mulher de sua idade aparentava uma saúde imbatível. - Seu falecimento foi muito repentino - concordou Alistair, conseguindo transmitir certa tristeza. - Uma perda terrível para todos. A expressão de Ely permaneceu inescrutável. - Se me permitir falar com a senhorita Kendall... - Sim, claro... É obvio. Com sua permissão, irei ver onde se encontra. Sem os criados estamos perdidos. Concedemos a eles o dia livre para chorar a sua senhora, de modo que talvez demore um pouco. - Esperarei com supremo gosto - assegurou o senhor Ely. Depois de abandonar o salão e cruzar o vestíbulo, Alistair entrou na sala de jantar e atravessou correndo a despensa em direção à cozinha. Topou na porta com Rudd. - Sybil não sabe cozinhar - se queixou este, - e eu tampouco sou capaz de grande coisa. Proponho que saiamos para jantar em uma taverna. Alistair o agarrou pelas lapelas e puxou-o, fazendo com que Rudd entortasse os olhos em seu esforço de sustentar o penetrante olhar de seu amigo. - Deixa isso no momento. Veio um tal Thomas Ely. Lhe diz algo esse nome? Rudd empalideceu. - É um advogado da City, um homem muito respeitado, conforme acredito. - É advogado da Lydia, ou se apresentou como tal. Agora quer falar com a senhorita Kendall. Sabe o que significa isso? Um agudo gemido brotou do mais fundo da garganta do Rudd. - Estamos perdidos. O que vamos fazer? Seu temor divertiu ao Alistair. Como era gratificante não perder o controle de si mesmo quando outros desmoronavam! Não era mais que outra prova de sua superioridade (se fosse preciso). - Acalme-se, imbecil! Não estamos perdidos, entende? Não é mais que um pequeno problema que saberei solucionar sozinho. Assegure-se de que Sybil fique na cozinha, ou estaremos perdidos de verdade. Rudd assentiu com um movimento convulso da cabeça, antes de dar meia volta com nervosismo. Alistair fez uma pausa para alisar o cabelo para trás e endireitar os ombros, depois do que, imprimindo a sua boca um sorriso perplexo, cruzou o vestíbulo e penetrou no salão. - Sinto muito, senhor Ely. Pelo visto me informaram mau. A senhorita Kendall saiu esta tarde para visitar uns amigos. Como era de esperar, o advogado expressou sua surpresa. - Saiu? Durante o período de nojo? Alistair suspirou com aflição farto compreensível. - A senhorita Kendall é muito jovem, senhor Ely, e temo que minha tia Lydia foi propensa a mimá-la muito. Estou convencido de que a senhorita Kendall não quis faltar ao respeito.


- Mesmo assim, não entendo que nestas circunstâncias tenha sido capaz disso. Chamando-se a ordem, Ely pigarreou e começou a ficar em pé. - Em tal caso voltarei pela manhã. Devo supor que acharei à senhorita Kendall disposta a me receber? - Espero isso. De qualquer modo, se tiver a amabilidade de me explicar de que índole são os assuntos que o ligam a ela, informá-la-ei de sua próxima visita assim que chegue. - São de índole privada, cavalheiro. Permita que lhe reitere minhas desculpas por havêlo incomodado em horas tão inconvenientes. Boa noite. - Sendo assim seria inútil retornar pela manhã. Ely, perplexo, voltou a sentar-se. - Asseguro-lhe que tenho motivos de peso para... - Motivos que diz não poder me comunicar; entretanto, já que a senhorita Kendall é menor de idade e reside sob meu teto, corresponde-me me responsabilizar de seus possíveis convidados, assim como dos motivos de sua visita. - Seu teto? - O senhor Ely apressou-se a mostrar o errado da postura do Alistair, sem deter-se para considerar a informação que revelava. - Se engana, cavalheiro. Esta casa é agora residência da senhorita Kendall. Alistair guardou um silêncio sepulcral; mas não em seus pensamentos. Continuando, sem alterar a quietude de sua voz, procedeu a investigar. - Ha! Devo entender, pois, que minha tia Lydia seguiu meu conselho? - Seu conselho? - Sim, claro. - Alistair fingiu surpresa melhor que qualquer ator. - Fui eu quem aconselhou que deixasse suas propriedades à senhorita Kendall. Afinal de contas a pobre está sozinha no mundo, depois de perder tragicamente a seus pais numa idade muito jovem. Minha tia Lydia foi sua tutora durante ao menos cinco anos, e lhe tinha grande afeto. -Não desconhecia a profunda devoção que professava a senhora Winthrop para com sua protegida, mas ignorava que você... - Ely se interrompeu, sem saber o que pensar. Olhou ao Alistair com olhos entrecerrados. - Francamente, cavalheiro, tanta generosidade é insólita em nossos dias. - Ah, sempre sustentei que o dinheiro é fonte de todo mal. Não está de acordo? - Um amor excessivo por ele, em todo caso. Sim, presenciei em minha vida muitos atos de maldade provocados pela cobiça. - Exatamente. Em todo caso, e para bem da jovem, espero que os negócios de minha tia Lydia estejam em ordem. É assim, não é? A tia Lydia sempre foi muito criteriosa nos detalhes, e amante da claridade. - Sobre esse tema não cuidou. Tudo está em perfeita ordem. De fato, levo comigo... - O advogado extraiu de seu bolso um documento dobrado. - Uma lista detalhada e completa dos bens da senhora Winthrop. Amanhã mesmo começarei a notificar a mudança de titularidade aos bancos e sociedades de investimento. Quanto ao testamento propriamente dito... Submeteu o documento a um superficial exame. - Não poderia ser mais simples. Além de uns


poucos legados a antigos criados, a senhorita Kendall herda tudo. - Tudo? - repetiu Alistair, sem força na voz. Ely assentiu. - Com efeito. Já lhe disse que não poderia ser mais simples. - Que seja assim demonstra a grande sensatez de minha querida tia Lydia - comentou Alistair com voz tensa. - De minha parte, sei de muitos testamentos que exigiram a atenção de numerosos advogados, e de documentos que circularam entre todos os sócios de um escritório com sucessivas modificações. Ely sorriu com expressão aflita. Também ele se dava conta do absurdo de tão arrevesadas situações, apesar de ver-se obrigado a reconhecer sua existência. - Asseguro-lhe, cavalheiro, que neste caso não acontecerá nada semelhante. Ao contrário: a senhora Winthrop não falou do assunto com mais ninguém a não ser comigo. Do principio ao fim correu exclusivamente de minha parte. - Com certeza tinha em grande apreço seus serviços - murmurou Alistair, fechando os dedos em torno de uma bailarina de bronze que adornava uma das mesinhas próximas do sofá. Parecia um objeto valioso, mas nesse instante Alistair lhe atribuía qualidades muito distintas. - A confidencialidade é uma parte essencial da relação entre advogado e cliente. - Sem dúvida. Dir-lhe-ei que eu mesmo em mais de uma ocasião tive que explicar a minha querida esposa que me é impossível... Alistair atirou a bailarina fortemente segura. Ely dispôs apenas de um segundo para se esquivar do golpe, e levantou um braço para proteger-se. Seu esforço, porém, fracassou. O pesado bronze fez impacto em sua fronte com um ruído arrepiante. Atrás dos óculos de aros metálicos, seus olhos ficaram em branco, e Ely desabou pouco a pouco até ficar imóvel. Alistair (que só respirava um pouco mais rápido do que o normal) observou o filete de sangue que cruzava a fronte do advogado. Vendo que o vermelho humor ameaçava manchar o sofá, agarrou uma manta de seda de uma poltrona contígua e envolveu a cabeça de Ely. A seguir o desceu a rastros do sofá e puxou ele até o pé da escada do fundo do vestíbulo. Rudd, que ouviu um ruído estranho, enfiou a cabeça pela porta da cozinha. Vendo o Alistair com o cadáver, abafou um grito de horror. Se fosse possível repreender com um sussurro, isso era exatamente o que fez ao perguntar: - O que fez? Reparando no rosto cinzento do advogado e na expressão de horror que crispava suas feições, Alistair ficou tentado a rir. - Vá ao salão - ordenou sem interromper sua tarefa. - No chão há vários documentos. Recolha-os e escolha-os. - Que pe-pensa fazer? -balbuciou Rudd. - O que você acha, alma de cântaro? Espera que deixe o cadáver no salão até que os criados voltem? Ou que permita que Sybil o veja e fique a gritar? É um corno! declarou Alistair. Seria muito pedir que em uma ocasião como esta não tenha que carregar com semelhante idiota?. - Temos que nos desfazer dele, logicamente. Minha querida titia


mandou redigir um testamento novo no qual deixa tudo para Cerynise. O senhor Ely, a quem vê aqui, teve a amabilidade de trazê-lo, assim como uma lista atualizada de todos os bens da Lydia. Rudd, aturdido, sacudiu a cabeça. - Que horror... que maravilha... Ajudará a nós a localizar todo o dinheiro, mas não é seu. É... - Meu! - proclamou Alistair com ênfase. O esforço de arrastar Ely tinha-o meio agachado, mas levantou a cabeça para olhar ao Rudd com um sorriso malvado. - É todo meu. Essa cadela não verá nem um cêntimo em sua vida. E agora tenha cabeça e faça o que lhe disse. Retomando seu trabalho sem incomodar-se em comprovar o grau de obediência de Rudd, Alistair arrastou Ely pelo corredor que levava ao pequeno jardim murado atrás da casa. Em uma das taipas, uma porta coberta de hera permitia acessar a um beco contiguo à casa. Alistair acreditava recordar-se de que o pequeno abrigo do fundo continha de costume um carrinho de mão. Pouco depois apareceu no abrigo Rudd, ainda mais cinza à luz da lua. Alistair lhe arrebatou os papéis que levava em uma mão e os colocou por dentro da camisa. - Me ajude a levantá-lo - exortou ao Rudd, assinalando o cadáver. A idéia foi recebida com uma careta pelo advogado. - Está seguro de que está morto? - Pois claro! - replicou Alistair. - Por quem me toma, por um imbecil? Rudd agarrou com cuidado as pernas de Ely, e entre ele e Alistair carregaram o cadáver no carrinho de mão. - Saia para verificar que não haja ninguém no caminho - ordenou o segundo. - Com lua cheia não podemos correr riscos. Rudd obedeceu uma vez mais e retornou para dizer que não vira ninguém, nem perto nem longe. - Aonde o levamos? - Ao rio - respondeu Alistair. - E agora vá agarrar três capas velhas das que pendurou perto da entrada de serviço. Rudd se sentiu a ponto de vomitar o escasso alimento que tinha no estômago. Não gostava do que estava fazendo, mas tampouco se atrevia a abandonar a mansão. A senhora Winthrop fora uma mulher imensamente rica, e ele se propunha obter alguma parte da imensa herança que podia esperar para breve. Rezava, isso sim, para continuarem vivos até então. Quando o advogado voltou, Alistair percebeu nele uma palidez que nem a luz da lua justificava. - O que se passa com você? -sussurrou zombeteiro. - Se alguém o vir com esta cara pensará que acaba de ver assassinarem a sua própria e queridíssima mãe. Rudd, diligente, cobriu-se com uma das negras roupas e, fixando em seu cúmplice um olhar inquieto, resmungou com voz lúgubre:


- Nunca fiz nada de parecido... Enquanto envolvia ao cadáver com uma capa e repetia a operação consigo mesmo, Alistair espetou desdenhosamente a seu cúmplice: - Possivelmente, mas não tem escrúpulos em roubar até o último miolo de pão da boca de uma viúva e deixar que more na pobreza. - Nunca matei ninguém, sabendo disso! - aduziu Rudd em sua defesa, ajudando a seu sócio a levar o carrinho de mão pelo beco. - Pois bem, tampouco matou este homem sabendo disso - zombou Alistair com um sorriso de escárnio. - Mas é possível que não perceba a sorte que acabamos de ter? - Assassinar um homem eu não chamaria de uma sorte. - Com um único golpe, e quase sem deixar rastros? Se isso não for sorte, meu amigo, não sei como chamá-lo. - Assassinato a sangue frio, diria eu. - Ora! É muito escrupuloso! Isto beneficiará a você quase tanto como a mim; então poderá afogar sua consciência em todo o conhaque que lhe agrade. - Tomara que tivesse uma taça à mão. - Mais tarde! Agora temos trabalho! - Rudd não pôde responder. O esforço de levar o carrinho de mão ao rio lhe estava roubando o fôlego. Seguiram os estreitos becos que margeavam as casas pela parte traseira e chegaram ao Tâmisa sem pôr o pé em nenhuma via importante. Não viram ninguém, nem ninguém os viu. Era uma hora conveniente para desfazer-se de um cadáver. As damas e cavalheiros de bem estariam retirando-se a seus leitos. O mesmo fariam seus criados, uma vez finalizadas suas tarefas. A névoa que subia do rio e o manto de escuridão que cobria a cidade se combinaram para ocultar os dois homens e seu carregamento, de olhares indiscretos. Quando abandonaram o abrigo das ruelas e se atreveram a sair ao Strand, a sorte seguiu a seu lado. Só passavam umas poucas carruagens com as janelas fechadas contra o frio da noite, e os cocheiros encolhidos em seus casacos. - Rápido - suplicou Alistair ao chegar aos degraus próximos à ponte. - Joguemo-lo na água e vamos embora daqui. Rudd agarrou a parte dianteira do carrinho de mão, deixando o lado oposto em mãos do Alistair. Desceram até a margem sem chocar-se nenhuma só vez. Quando chegaram embaixo, Alistair deu uma vitoriosa pausa. Depois, com um sorriso de satisfação, derrubou o carrinho de mão e lançou o cadáver às negras águas. O ruído foi tão leve que apenas se sobrepôs ao suave fluxo contra os pilares da ponte. O que restava de Thomas Ely flutuou na rápida correnteza. Meia hora mais tarde o carrinho de mão fora devolvido a sua lugar habitual, e Rudd estava sentado na biblioteca diante da chaminé acesa. Desde sua volta, o nível da licoreira próxima a seu cotovelo sofreu uma rápida diminuição. Sybil recebera o encargo de reparar a desordem provocada pela desenfreada busca. Bastou um olhar ameaçador de Alistair para vencer seus protestos iniciais.


Alistair se reuniu a Rudd na biblioteca, mas não era preciso recompor-se com bebidas espirituosas. Tinha o suficiente estudando os documentos de que fora portador o consciencioso Thomas Ely. Sentiu-se cheio de satisfação. Tinha ao seu alcance tudo quanto desejou sempre. Por fim poderia viver conforme seus sonhos, e realizar seus desejos. Já não teria a opor-se nada nem ninguém. Suas ambições não tinham limite, como não o tinha seu sorriso. Sentia-se melhor que há muitos anos. Gozava de poder, segurança e felicidade! As pessoas tinham muito sob conceito, o assassinato, mas nada sabiam da maravilhosa serenidade que era capaz de infundir. No mesmo momento em que dava voltas com fruição a esta última idéia, Alistair reparou no pé da última página do testamento da Lydia, a que estava a ponto de entregar às ávidas chamas. Três palavras, impressas em nítidas letras de forma, mostraram-se a sua vista: "Cópia para arquivo." Sua garganta, apertada, abafou um grito de furor. Sua boca se abriu e voltou a fechar-se sem que brotasse nenhum som. Rudd, dedicado ao conhaque, permaneceu alheio a tudo isso, mas se sobressaltou ao ouvir o murro que Alistair dava na escrivaninha. Olhou ao redor com as sobrancelhas arqueadas. - Perdeu o juízo? Alistair amassou o testamento com uma mão. Em seu acalorado rosto, os olhos pareciam fragmentos de obsidiana iluminados por uma ira abrasadora. - Há outra cópia do testamento! - Pois claro que há outra cópia! Não irias acreditar que Ely trouxe a única que existe! - Desculpe - replicou Alistair com mordacidade. - Como não pertenço a sua profissão de sanguessugas, tampouco estou familiarizado com as práticas legais. - Eu poderia lhe ter dito que havia uma cópia, e possivelmente mais de uma. - Rudd entrecerrou os olhos. - Como pensa solucionar isso? Como, com efeito? Alistair se reclinou na poltrona, libertando por fim à bola de papel da férrea pressão de seus dedos. Fez um esforço para respirar fundo e com regularidade. A doce satisfação sentida pouco antes se desvaneceu, e não fez nada para recuperá-la. Em troca, a serenidade posterior ao assassinato do Ely exigiu firmeza renovada. Alistair permitiu que inundasse seu corpo como uma reconfortante nausea. - Temos que encontrar Cerynise. - Rudd exalou um profundo suspiro. - Intuía que fosse dizer isso. - Já que adivinhou minhas necessidades, que tal se me explicasse como as satisfazer? - Disse que procuraria uma passagem para as Carolinas - refletiu Rudd em voz alta. Provavelmente a encontraremos perto do caís, procurando um navio que a leve a casa. Alistair olhou ao advogado, abrindo a boca lentamente. Havia ocasiões em que a astúcia do Rudd o deixava atônito. O mais corpulento dos dois se levantou do sofá. - Embora não sei como pagará o preço da viagem, visto que não lhe deixou mais que a roupa que levava posta.


- É mulher. De algum modo solucionará - disse Alistair com desprezo. - Era muito presunçosa para rebaixar-se a satisfazer meus desejos, mas que diabo! Asseguro que se aproximará do primeiro bêbado que lhe pague a passagem. - Suponho que não pretenderá começar a procurá-la nesta mesma noite - disse Rudd, indo a tropeções para a mesa. Alistair o olhou com expressão enojada. - Voltou a ficar bêbado! - Rudd sorriu com placidez. - Afogando minha consciência, como me prescreveu você, doutor Winthrop. - Iniciaremos nossa busca pela manhã - murmurou Alistair, na falta de outras possibilidades. Não era muito provável que a essas horas da noite os capitães de navio aceitassem de bom grado serem distraídos de seus deveres ou prazeres. - Veremos se há algum navio que vá a... Onde era? - Charleston. Nas Carolinas - recordou-lhe Rudd. - Ah, sim... Charleston... As Carolinas. Se alguém a viu pelo mole, duvido que esse alguém esqueça um bocado tão suculento como a senhorita Kendall. - Talvez a tenham raptado e esteja ganhando-a vida em um bordel - sugeriu Rudd. - Eu poderia começar a procurar por aí. Levaria certo tempo. Alistair riu amargamente. - Sim, mas não acredito que as rameiras o achassem divertido. Não; começaremos a procurar pela manhã no mole. O malévolo sorriso de Alistair dissuadiu ao advogado de protestar, caso o desejasse. No final de contas, tratava-se do mesmo indivíduo a quem Rudd tinha visto jogar um cadáver ao Tâmisa sem pestanejar. Não tinha intenção de provocar sua ira, nem agora nem nunca. Um de seus mais terríveis pesadelos era que seu corpo fosse despedaçado por peixes famintos.

CAPÍTULO 4 Billy Todd olhou com expressão carrancuda a bandeja de café da manhã que levara uma hora antes ao camarote do capitão, e que se dispunha a retirar. -Não se encontra bem, senhorita? - Sim, sim, perfeitamente - se apressou a tranquilizá-lo Cerynise, resistente para mencionar a insônia que teve essa última noite, e a suscitar perguntas que preferia não responder. - Faz dias que não me encontrava tão bem. - Então deseja outro tipo de comida? Ela sorriu e negou com a cabeça. Billy estava sendo muito gentil e se esforçava por sua comodidade, sem dúvida alguma por ordem do capitão. - É que esta manhã não tenho fome, mas não sinto nada. - O senhor Monet sabe o que faz, como vê você mesma, senhorita, mas se gosta de outra coisa será um prazer ir procurar isso - O grumete sorriu com timidez.


Cerynise teve dificuldade em imaginar maior tentação para seu paladar que os manjares trazidos pelo grumete, manjares ainda mais deliciosos, a julgar por seu aspecto, que os que lhe cozinhara Philippe como primeira amostra de suas habilidades. Entretanto, passou a noite dando voltas na cama, tratando em vão de adivinhar o motivo da partida do Beau, e pouco lugar ocupava a comida em seus pensamentos, que giravam em torno do temor de que sua presença a bordo pudesse ter movido ao capitão a procurar alojamento em outro lugar. Não desejava nada tão pouco como abusar de sua paciência de cavalheiro, ou ser de algum modo um estorvo. Por outro lado, a lembrança das carícias da prostituta tinha perturbado em extremo a imaginação de Cerynise, e a incipiente suspeita de que pudesse ter voltado a reunirse com ela limitavam gravemente sua serenidade. O que despertou nela tão perturbante conjetura podia comparar-se com o suplício de um prisioneiro obrigado a descer com pesadas cadeias pela levantada escada de uma masmorra. Não obstante seu conflito para impedir que se estendesse nela o desalento, Cerynise experimentou a vertiginosa queda de seu estado de ânimo para um poço escuro. - Por esta manhã terei o suficiente com fruta e chá, Billy – insistiu. - Seriamente. O grumete sorriu com acanhamento. - O restante a faz sentir como um ganso no Natal, né, senhorita? A conclusão surpreendeu Cerynise. - Eu não gosto de comer sozinha, Billy -reconheceu, - mas o pior é que receio ter desalojado o capitão de seus aposentos. O moço se alegrou. - Então lhe agradará saber que o capitão voltou, senhorita. Faz uma boa hora que chegou. Fato mais reconfortante para Cerynise teria sido a notícia de ter realizado Beau algum esforço para descer a seu camarote, dar-lhe notícias ou perguntar-lhe pelo menos, como passara a noite, mas nada disso aconteceu. Além de simples, o gesto teria contribuído para demonstrar um mínimo de preocupação do capitão pelo bem-estar de sua hóspede. Esta concluiu que Beau não tinha o menor interesse para conservar sua amizade, e que provavelmente se alegraria com sua iminente partida. Cerynise achava insuportável que Beau a desprezasse, e sentiu pressa para partir antes de ter conhecimento direto da indiferença do capitão. - Nesse caso me apressarei a recolher meus pertences e me preparar para o traslado ao navio do capitão Sullivan. Já que o capitão Birmingham passou toda a noite fora, sem dúvida agradecerá dispor de certa intimidade. Billy teve a prudência de manter uma atitude neutra. O capitão não estava de bom humor que se dissesse, e era de supor-se que não ficou satisfeito pelo objeto de sua busca, fosse qual fosse. - Não é preciso que se apresse, senhorita. A última vez que vi o capitão estava falando com o oficial sobre as caixas de móveis que vão subir a bordo.


- Móveis? - Sim, senhorita. Nesta viagem o capitão se propõe levar um carregamento de móveis. Todos os ricos de Charleston gostam de ter móveis da mãe pátria. Costumam ser os primeiros que sobem a bordo, assim que o Audaz chega ao porto. -Parece que o capitão Birmingham é um homem muito empreendedor - refletiu ela em voz alta. Não tinha dificuldade em entender que alguém tão ocupado com os negócios dispusesse de escasso tempo para cultivar amizades ou afetos. Billy não estava muito seguro do que queria dizer a palavra "empreendedor". Supôs que teria algo a ver com ser homem de muitos recursos. Nesse caso, "empreendedor" era uma descrição perfeita de seu capitão. - Tenho que ir, senhorita. O capitão quer tomar o café da manhã no camarote do senhor Oaks, e se não o levo rápido me cairá uma boa repreensão. - O camarote do senhor Oaks? Cerynise franziu o sobrecenho. Se Beau havia tornado fazia uma hora, nada lhe impedia de tomar o café da manhã com ela em lugar de fazê-lo a sós no camarote do primeiro oficial. Cada vez ficava mais manifestado o esforço de Beau para guardar as distâncias. - Sim, senhorita. O capitão não queria a incomodar. - Depois de um incômodo silêncio, o moço acrescentou uma hipótese: - Será porque não estão casados? -Ah. - Que mais podia dizer ela? A explicação do grumete não fazia mais que dar corpo à convicção de que Beau tratava de evitá-la. Uma hora mais tarde, Cerynise julgou civilizado sua vestimenta, consistente em um vestido de cor rosa claro. O peitilho estava adornado com várias pregas em forma de v, e um tecido diferente, mais sedoso, fazia a função de gola com suas rígidas pregas. A prega estava feita com fio acetinado da mesma cor, fazendo sobressair as dobras de forma encantadora, como pétalas brotando debaixo do queixo. As mangas eram longas e com a ombreira muito pronunciada; no resto, ajustadas e com adorno de babados. Outros três jogos de babados, de comprimento equivalente ao antebraço, caíam em cascata sobre a saia. Cerynise se tinha escovado sua longa cabeleira até lhe dar brilho, tinha preso ela perto do cocuruto e lhe dera várias voltas por cima da cabeça, criando um penteado simples mas cheio de encanto. Colocou atrás de cada orelha um toquezinho de água de colônia com aroma de jasmim, e calçou um par de sapatilhas com meias claras por debaixo. Depois se sentou a esperar a volta do Beau Birmingham a seu camarote, ou talvez instruções de que se preparasse para fazer a viagem no Miragem. Suspirou. A idéia de voltar para Charleston a bordo do navio do capitão Sullivan não era muito de seu agrado, mas Beau se mostrara inflexível em sua decisão de não levá-la consigo, e Cerynise não pensava suplicar-lhe. Tendo em conta os recentes esforços de Beau para guardar as distâncias, qualquer pedido seria motivo de vergonha. Ouviu bater na porta antes do esperado. Depois de alisar-se nervosamente o cabelo e o


vestido, cruzou a habitação com a esperança de que por fim tivesse baixado Beau, mas na soleira não havia mais que um homem de uns vinte e cinco anos, loiro e enxuto de feições. Ao posar nela seus olhos cinzas, o desconhecido ficou olhando como se tivesse perdido o juízo, até que de repente recordou suas maneiras e, ruborizado, tirou a boina. - Desculpe, senhorita, mas o capitão me pediu que a acompanhe ao convés. Cerynise supôs que aquele indivíduo era membro da tripulação, mas ignorava seu nome. - Quem é você? Percebendo seu engano, o jovem se ruborizou ainda mais. - Me desculpe de novo, senhorita. Sou o primeiro oficial, Stephen Oaks. - E o capitão disse por que deseja que suba ao convés ? Tem intenção de me levar ao Miragem imediatamente? A pergunta pareceu desconcertar o oficial. - Não o disse, senhorita; só que suba ao convés. A expressão de Cerynise se tornou carrancuda. Uma vez que Beau Birmingham enviava a seu lacaio, não cabia dúvida de que esperava livrar-se dela com presteza. Nem preâmbulos nem discussões. Ia tirar ela do navio sem lhe dar tempo para pestanejar. No caso improvável de que Beau tivesse aprendido maneiras em algum momento de sua vida, com certeza não as mostrava em presença de Cerynise. - Neste momento o capitão está bastante ocupado com a carga do navio, senhorita explicou Oaks; mesmo assim pensou em você, e que possivelmente gostaria de um pouco de sol e ar fresco. Cerynise, nada satisfeita de que prolongassem sua ignorância sobre a mudança de navio, realizou outra tentativa. - Sabe quando se propõe o capitão a levar-me ao Miragem? Ou delegou isso a outra pessoa? - Stephen Oaks continuou perplexo. - Pelo que sei, senhorita, o capitão não tem feito menção alguma de sua marcha. Se tivesse intenção de ausentar-se de novo não cabe dúvida de que me teria comunicado isso, tendo em conta que estamos tentando finalizar a carga o quanto antes para poder zarpar em um ou dois dias. por que não sobe ao convés e fala você mesma com ele, senhorita? Saberá lhe expor melhor que eu as intenções que alberga. Ela se deu conta de que era uma maneira sutil de conseguir sua obediência, mas não teve desejos de recusar o convite. Depois de todas as horas que tinha ficado encerrada no camarote (tantas que já perdeu a conta), tinha desejo de sair ao exterior. Uma vez protegidos seus ombros por um formoso xale de caxemira com estampado rosa e verde escuro, foi atrás do oficial pelo corredor e pela escada. Corria pelo convés uma suave brisa que mesclava o aroma salobre do mar com outros da terra firme, provenientes da cidade e do mole pavimentado. Não havia nuvens que escurecessem a luz matinal, e os raios do sol se quebravam contra o mar como se um cristal os


decompusesse. Por toda o convés cintilavam pequenos pontos de luz que quase deslumbraram Cerynise. Ficou no princípio imóvel, captando a cena com sensibilidade de artista, e lamentou não poder desempacotar suas pinturas e plasmar sobre o tecido até o último detalhe, antes de perder para sempre aquele ambiente tão espiritual. - Viu em sua vida algo tão belo? - murmurou. O oficial arqueou uma sobrancelha inquisitivamente e olhou ao redor sem entender a que se referia a dama. Por fim tirou suas próprias conclusões. - Com certeza, senhorita; o Audaz é um navio magnífico. Sua mudança de olhar fez Cerynise sorrir, que se esforçou por compartilhá-la. O navio, indubitavelmente, era o orgulho de qualquer marinheiro, e até um profano se dava conta em seguida de que continuaria sendo bastante tempo, considerando o ótimo estado em que o mantinham. O convés e a parte adjacente do mole estavam povoadas de estivadores que subiam o carregamento para a fragata. Estavam levantando uma caixa grande de madeira, que pouco depois foi introduzida laboriosamente pela escotilha da porão. Logo que foi depositada aquela caixa e desprendidas as cordas, outra foi atada com fortes nós e abandonou o mole. - São as caixas de móveis de que me falou Billy? - perguntou Cerynise ao oficial, atento deste modo à tarefa. - Sim, senhorita - respondeu o senhor Oaks. - Desta vez vamos a Charleston com um carregamento de cômodas, armários roupeiros, camas e demais móveis. Estou certo de que o mobiliário que levamos seria suficiente para pagar toda uma viagem. O capitão tem por costume adquirir as melhores peças de cada porto que visitamos. - Billy disse que sua chegada é esperada com impaciência – murmurou Cerynise distraidamente, ao mesmo tempo que protegia a vista do sol e examinava o convés em busca de Beau, como fez em menina. - Sim, senhorita. O capitão Birmingham ganhou renome pelo bom gosto com que escolhe sua carga. Os comerciantes de Charleston estariam encantados de ter acesso aos tesouros que leva, a fim de beneficiar-se de sua revenda, mas o grosso dos móveis é costume vender-se aos colecionadores privados que vão ao mole assim que lançamos a âncora. Discutem por cada peça e tratam de oferecer mais alto que outros; assim, o capitão não tem mais que aceitar a oferta mais generosa. - Se os móveis que leva a Charleston são de igual qualidade dos que tem em seu camarote, não é de estranhar que suscitem tanta demanda. -Sim - concordou Stephen Oaks, antes de tira a boina pela segunda vez. - E agora, senhorita, se me desculpar, devo me reintegrar a meu trabalho. - É claro. O inquieto olhar de Cerynise se deteve por fim no castelo de proa, onde divisou a Beau. Estava vestido de maneira informal, com camisa branca de manga longa e calças longas que acentuavam a musculosa esbeltez de seus quadris. A camisa mostrava parte de seu peito musculoso, de pele bronzeada e pêlo negro não muito povoado. Sem dúvida em algum


momento da manhã penteou para trás sua abundante cabeleira, mas alguns cachos lhe caíam já pela fronte. Suas mãos brincavam com esses cachos, brilhantes e negros como o carvão, enquanto falava com um homem mais velho e mais baixo que ele, de porte elegante. Cerynise supôs que seria um comerciante; em todo caso, e fosse qual fosse sua profissão, a qualidade de seu traje mostrava às claras que tinha alcançado grande êxito nela. Não menos claro era o fato de que em seus entendimentos com aquele indivíduo Beau sabia valer-se por si só. Mostrou-se inflexível ao longo da conversação, negando com a cabeça para sublinhar a firmeza de sua postura até que seu interlocutor fez um gesto de exasperação. Então Beau sorriu, estendeu-lhe um recibo para que o assinasse, tirou e contou uma soma de dinheiro do moedeiro que levava no cinturão e a entregou ao outro homem. O acordo se fechou com um apertão de mãos, e o desconhecido, radiante, pôs o chapéu e partiu, contente por ter obtido um acordo justo para com ambas as partes. Concluído o negócio, Beau olhou para a escada, perguntando-se o que reteria o Oaks; mas não porque precisasse de seus serviços, mas sim porque desejava saber se já fez Cerynise subir. Por fim divisou o oficial abrindo caminho por uma multidão de trabalhadores em direção ao castelo; entretanto, o que lhe chamou a atenção foi uma mancha de cor situada um pouco mais atrás, prova de que sua jovem hóspede embelezava com sua singular beleza o convés do navio. A vista de Beau ficou cativada por aqueles babados que vislumbrava apenas nas costas de seu segundo em bordo, mas não se satisfez com tão pouco. Dirigiu-se com passo resoluto a um ponto próximo ao corrimão superior, de onde poderia ver Cerynise sem obstáculos. Admirado pela vista, ficou quase sem fôlego. A jovem não o perturbava menos com seus melhores ornamentos que embainhada nas calças de Billy. Desde a chegada de Cerynise ao Audaz, Beau não tinha podido afastar a de seus pensamentos. A dificuldade de achar a uma moça disponível e dotada do mesmo atrativo lhe fez lamentar o reencontro, uma vez que tinha voltado para seu navio no mesmo estado que ao abandoná-lo. Vendo-a agora tão absolutamente divina, sentiu um terrível e dilacerador desgosto. Ele, que sempre fora para o Cerynise como um irmão mais velho, via-se no difícil transe de ter por ela uma paixão cada vez mais intensa. - Trouxe para o convés à senhorita Kendall, capitão - informou Oaks, como se fosse preciso. - Dei-me conta. - Beau deu uma olhada a sua tripulação para ver como reagiam. Basicamente, quase todos os marinheiros tinham um olho posto na moça e outro no que estavam fazendo. - E parece que os homens também. Stephen Oaks pigarreou, contendo o impulso de olhar para trás. - A senhorita Kendall quer saber se pensa levá-la à Miragem. Com permissão, senhor, parecer-me-ia uma lástima deixar que navegasse nessa espécie de tina, podendo nós esvaziar um camarote e levá-la a casa com todas as comodidades. Por outro lado, vi como se comportam os homens do Sullivan nas tavernas. Nenhuma dama estaria segura a mercê de semelhante escória, e muito menos uma dama com o atrativo da senhorita Kendall.


Beau olhou gelidamente a seu segundo em bordo. Conhecia tão bem como Oaks os defeitos da Miragem, seu capitão e sua tripulação, mas o afligia a consciência de seus próprios limites. Enquanto irmão de duas moças de irreprovável virtude, e filho de quem reunia todas as qualidades exigíveis a uma dama, conhecia de sobra a diferença entre as mulheres de bom berço e as prostitutas em quem procurava alívio de suas necessidades viris. Tendo passado a noite anterior sem achar consolo em braços destas últimas, sabia que, ao consentir que a encantadora, gentilíssima e indizivelmente tentadora Cerynise Kendall os acompanhasse na viagem, esperá-lo-ia três meses ou mais de cruel tortura. - Propõe por acaso, senhor Oaks, que lhe permita alvoroçar o conjunto de minha tripulação a partir de agora até que cheguemos ao Charleston? Muita sorte teríamos chegando sãs e salvos, visto os olhares acesos que posamos nela. Eu incluído. O oficial o olhou com receio. - Deduzo que não encontrou o que saiu a procurar ontem à noite. - Por todos os diabos! -murmurou Beau, aborrecido. - O mesmo me teria acontecido se fosse um eunuco. Depois de ter estado em companhia da senhorita Kendall, deitar-se com uma rameira teria sido como comer bolachas secas depois de atracar-se com as delícias do Philippe. A idéia me deixou... digamos que... pouco inspirado. Oaks sorriu. - É o que supus ao ouvir retornar soltando resmungos como um cervo no cio. - E lhe parece que estaria mais segura aqui que no navio do Sullivan? - perguntou Beau com secura, entrecerrando os olhos e olhando ao oficial com expressão incrédula. - Diabo, vendo-a tal como está agora não sentiria fácil esquecer que sou capitão desta condenada fragata! - Possivelmente se sinta mais cômodo se acompanhar à senhorita Kendall a seu camarote. - Não! - rugiu Beau. Uma vez mais, Oaks dissimulou seu regozijo. - Minha intenção só era aliviar suas difi... - Deixa de intenções! - exortou-o Beau, movendo a mão com irritação. - Não estou de humor para sua fria lógica, senhor Oaks. Já que tanto lhe interessa, saiba que desfruto com a visão da dama, e dado que meus homens observam aos dois, pode ser que seja a única maneira de me permitir essa propensão sem perigo para ninguém. - Possivelmente se permite a senhorita Kendall zarpar conosco, ela aceite permanecer em seu camarote durante a maior parte da viagem... Beau sorriu. - A reclusão não me parece indicada para nenhuma mulher. - Então está disposto a submetê-la aos perigos que poderia correr entre a tripulação do capitão Sullivan. - Isso é uma mera hipótese, senhor Oaks. No Audaz seria uma certeza. - Beau despediu-


se de seu primeiro oficial com um gesto de mão. - Temos trabalho. Mais vale que sigamos com ele. - Sim, capitão. Beau desceu ao convés principal com as mãos unidas nas costas e se aproximou da amurada para ver como progrediam as tarefas do mole. Observando fibras soltas em uma corda da que atirava com força um grupo de marinheiros em processo de içar ao convés uma caixa muito grande, estendeu um braço para que o contramestre se fixasse no cabo. - Vigie, senhor McDurmett. É defeituoso. Um homem alto e de rosto curtido, entre loiro e ruivo, olhou para cima para inspecionar o cabo e, reparando no problema, dirigiu-se a seu superior. - Ouvi, capitão. Agora mesmo me ocupo disso, senhor. Justamente depois de que Beau se separasse da amurada se ouviu um forte estalo e a corda estabilizadora se soltou. Os responsáveis por içar a caixa prorromperam em gritos e retrocederam pelo mole. A volumosa gaveta, que começou a dar voltas, oscilou para a fragata, ao tempo que se ouviam mais exclamações procedentes de outro setor. Beau deu meia volta e olhou para cima, sobressaltado pela proximidade, logo que entreviu uma sombra de grande tamanho. A pesada gaveta passou por cima de sua cabeça, arrastando a corda estabilizadora que ficou solta. Beau não demorou nem um segundo em saltar e aferrar-se ao cabo, mas reparou em seguida que o peso de um homem não bastava para deter a pesada carga. A gaveta seguiu sua progressão que não se podia deter, para o abarrotado convés, com o Beau seguro ao cabo. Os gritos fizeram Cerynise voltar a vista para a perigosa e descontrolada embalagem. Ao ver o Beau pendurado nela teve um medo atroz. O risco de que aquela peça tão pesada, do carregamento, caísse sobre o convés e esmagasse ao Beau despojou a sua mente de toda serenidade. Tampando-a boca com a mão para abafar um grito de pavor, presenciou, imóvel e angustiada, os esforços de Beau, que começou a subir a pulso pela corda. Viu avultar-se os robustos músculos das costas e os ombros do capitão, que se balançou em direção oposta à caixa. Ao investir a direção do vaivém, Beau deu meia volta e estendeu as pernas para a volumosa e enlouquecida embalagem. Chocou-se com ela com os pés separados, imprimindo-lhe estabilidade suficiente para que Oaks e vários homens se apoderassem da corda maior. No mesmo instante, Beau se agarrou à caixa, subiu nela e desprendeu o cabo estabilizador. Uma vez controlado o rebelde peso, seus homens se esforçaram para que descesse em linha reta. A oscilação da caixa foi minguando, até que soou a ordem de começar a baixá-la para o porão. Beau saltou ao convés e ficou em pé do outro lado da escotilha. Depois deu meia volta e sacudiu as mãos, como se acabasse de realizar uma tarefa cotidiana. Só então Cerynise recuperou o fôlego. Quando o caixote ficou depositado no convés inferior, ouviu-se um suspiro generalizado entre a tripulação. E os homens prorromperam em risadas de alívio e expressaram com palmadas nas costas sua gratidão pela bem-sucedida prevenção do desastre.


Beau não deu amostras de recriminar-lhes seu excesso de confiança, mas tampouco demorou muito em dar ordem de que se reatasse a carga do navio. Stephen Oaks, aliviado, tirou a boina e secou o suor da testa. - Pouco nos faltou - disse ao chegar junto à Cerynise. O coração da moça ainda traía certa agitação em seus batimentos. Não conseguia pensar a não ser no que podia ter acontecido se não houvesse desprendido a gaveta e ter caído em cima de Beau. Imaginando-o sem vida sob a volumosa embalagem, estremeceu. - É uma sorte que o capitão Birmingham seja tão decidido - murmurou. - Sim ele é, senhorita - se apressou a confirmar Oaks. - Poucas coisas lhe escapam. Sempre parece estar um passo adiante de todos nós. Pensa tão rápido como caminha. Ela estava muito afetada pelo incidente para continuar comentando a façanha do Beau. Bem estava o fato de que este tivesse ignorado o perigo pessoal que corria para conter a caixa; ela, entretanto, não estava muito segura de poder presenciar, sem desmaiar, outro gesto heróico com risco mortal. O agudo temor que tinha invadido Cerynise demorou um pouco em descer a níveis mais suportáveis. Uma vez mais sentiu o impulso de olhar ao Beau. Involuntariamente fascinada, viu-o circular com passo ágil e relaxado entre seus homens, evitando o ininterrupto fluxo de visitantes. Ia aonde o necessitassem para escutar, examinar, dirigir ou dar explicações. Às vezes se mantinha à margem e observava a mão direita o trabalho de seus homens com atitude de aprovação, mas sempre que era necessário intervinha, ora dando ordens concisas, ora simples sugestões. Cerynise entendia muito bem a pronta obediência de que era objeto. Bastava-lhe pensar que aqueles olhos, dotados de um fogo azul que parecia brotar do interior, olhassem-na com frio desagrado para tornar a tremer. A atitude do Beau, entretanto, carecia de todo matiz arrogante. Exsudava, isso sim, um aprumo, uma serena autoridade que não podia ser ignorada. Começou a nascer nela um vivo desejo de desenhar a Beau imerso na atividade do navio, rodeado pelos rostos corados e curtidos de seus homens. Se tivesse previsto a possibilidade de realizar sequer um simples esboço antes de abandonar a fragata, teria pedido ao senhor Oaks que lhe encontrasse um lugar onde praticar sua arte sem interferir no trabalho de ninguém; entretanto, a única pessoa capaz de lhe dar uma resposta definitiva a respeito de sua marcha era Beau, e Cerynise não encontrou a coragem necessária para abordá-lo enquanto estava absorto em suas ocupações. Uma carruagem entrou no mole, passando a suficiente proximidade de um carro de seis cavalos para que se encabritassem os dois primeiros; os outros quatro escoicearam inquietos. O cocheiro amaldiçoou em voz alta e puxou as rédeas para chamar à ordem seus animais. Seus robustos corcéis se tranquilizaram, permitindo ao cocheiro de proferir obscenidades e agitar um punho em direção a quem, além de conduzir a outra carruagem, parecia resolvido a fazer caso omisso dos distúrbios que acabava de provocar. A irrupção do veículo prosseguiu seu destrutivo curso, semeando o pânico entre os


atônitos vendedores e arrancando ultrajadas exclamações dos que estavam vendo desbaratado a ordem de seus cestos de mercadoria. Depois de contemplar os restos esmagados da verdura que comercializava, um moço agarrou um tomate e o jogou no veículo, deixando uma mancha vermelha aderida à porta negra. A carruagem se deteve o fim ao lado de uns cestos amontoados junto à passarela do Audaz. A porta se abriu com ímpeto, franqueada por dois homens que coincidiram em sua intenção de descer. Por uns instantes competiram pela primazia na tentativa, sem mais resultado que atrair as vaias zombeteiras dos vendedores. Por fim, o mais gordo cedeu e voltou a sentar-se, deixando que seu companheiro o precedesse. O ilustre vencedor pisou o chão no instante mesmo em que o maltratado tomate se desprendia da porta, aterrissando na ponta de seu sapato. Percebendo o impacto, o viajante olhou para baixo com curiosidade. O lento retorcer-se de sua longa e flácida boca expressou o alcance da repugnância que sentia. Depois de dar um chute à mistura de polpa e sementes, dirigiu um agressivo olhar aos regozijados vendedores e lançou uma moeda ao cocheiro, suscitando imediatos protestos. Vendo que suas exigências se chocavam com um muro de arrogância, o cocheiro blasfemou e puxou as rédeas para investir na direção do veículo, fazendo que seu segundo ocupante protagonizasse uma rápida fuga. A estupidez desta última imprimiu ao roliço indivíduo uma série de balanços e movimentos de braços dirigidos para recuperar o equilíbrio. Seu gorducho e moreno companheiro murmurou uma expressão malsoante e transigiu o suficiente para jogar ao cocheiro outra moeda. Esta vez sim conseguiu aplacá-lo, a julgar pelo ufano sorriso que mobilizou um lado das feições toscas do cocheiro, o qual, cruzando os braços como quem dispõe de todo o tempo do mundo, reclinou-se no assento para esperar a seus dois passageiros. A indiscreta chegada da carruagem despertou a atenção de quase todos os ocupantes do Audaz, incluído Oaks, quem, vendo aproximar-se os dois viajantes pela passarela, submeteuos a um curioso escrutínio. Se eram comerciantes, ninguém o avisou de sua chegada. foi recebê-los de qualquer maneira. Cerynise o seguiu mais lentamente, ao menos até que viu os homens com clareza, momento em que, reconhecendo ao Alistair Winthrop e Howard Rudd, abafou um grito. - Meu Deus...! Stephen Oaks percebeu angústia no tom da jovem, e ao voltar a cabeça sobressaltou-se com sua repentina palidez. - Ocorre-lhe algo, senhorita? -perguntou, voltando para seu lado. - Será melhor que se sente. - Sem aguardar resposta, levou-a solicitamente até umas caixas e a segurou pela mão, deixando que se apoiasse sem forças em uma das gavetas de madeira. - Irei procurar ao capitão... Era muito tarde. Alistair Winthrop e Howard Rudd já subiam pela passarela, exigindo ver o capitão. Cerynise, horrorizada, viu que Beau se voltava, dirigia a eles um olhar perplexo e ia a seu encontro com o sobrecenho franzido. - Posso ajudá-los em algo?


- Sim, sim que podem! - respondeu Alistair, altivo. - Procuramos uma moça que fugiu. Soubemos pelo capitão Sullivan, cujo navio está ancorado aqui perto, que a garota em questão se acha a bordo de seu navio. - Uma moça que fugiu? - Beau arqueou uma sobrancelha, ao mesmo tempo que examinava a ambos. Decidiu em seguida que não gostava do que via, e menos do que cheirava. Ambos cheiravam a conhaque ou outras bebidas alcoólicas fortes. - Não tenho consciência de levar a bordo do Audaz nenhuma moça que fugiu. Deve ser um engano. - Leva-a, leva-a - insistiu Alistair com uma careta de desprezo e uma faísca de raiva em seus olhos negros. - E a encontrarei! Embora tenha que revistar este barcucho do demônio até o mais profundo de seu pestilento porão. As cruéis garras do medo se cravaram no Cerynise. Não tinha nem idéia do que se propunham os dois homens, mas supôs que depois de jogá-la a patadas da mansão da Lydia necessitavam sua volta para algum propósito maligno. Até era possível que tivessem averiguado a subtração das roupas e coisas que conseguiram lhe entregar, Bridget e Jasper, e pretendessem acusá-la de furto. Faltava tão pouco para abandonar a Inglaterra! Uns dias mais e teria zarpado para Charleston. - Diz, de qualquer jeito? - inquiriu Beau com rudeza, fazendo gestos a Oaks, que se apressou a indicar a vários marinheiros que formassem um muro diante de Cerynise. - Alistair Winthrop - declarou que respondia por tal. - Howard Rudd, advogado - disse o outro com apreensão, reparando na proximidade de meia dúzia de marinheiros. - Pois bem, Alistair Winthrop e Howard Rudd, advogado - repôs Beau de maneira cortante, - dá-se a circunstância de que este navio é meu, e quem se acha com direito a revistálo sem minha permissão corre o risco de cair ao risco de cabeça. E agora, se quiserem, expliquem do que se trata, e possivelmente me disponha atrasar seu gélido banho. Rudd se apressou a assentir com a cabeça. - Terão que explicar. Por que desejam ver a senhorita Kendall? Alistair voltou a vista e espetou um olhar furioso a seu companheiro, que parecia afligido de uma súbita afecção nervosa, porque movia os olhos repetidamente e cabeceava com insistência na mesma direção. Alistair ignorou a advertência, resolvido como estava a obter o que queria do inculto ianque. - Estamos em busca da senhorita Cerynise Kendall, e temos motivos de peso para acreditar que adquiriu passagem neste navio, já que o capitão Sullivan desmentiu que o tenha feito no seu. Beau permaneceu imperturbável. - Para que desejam ver a senhorita Kendall? - Achava-se a cargo da família Winthrop, por isso agora me corresponde sua tutela. - Seriamente? - O olhar de Beau era tão frio como seu sorriso forçado. - De minha parte,


sei de boa fonte que a senhorita Kendall é originária das Carolinas. Não sendo súdita inglesa, considero difícil que possam ter direitos legais sobre ela. Alistair fez uma careta de irritação e desdém, ao mesmo tempo que se voltava para Rudd e topava com um mudo olhar de súplica. Escapando dos puxões de manga a que o submetia seu companheiro, suspirou com força e, exasperado, concentrou sua atenção no capitão. - Parece que não me ouviu. A senhorita Kendall ainda não tem idade para tomar decisões jurídicas por sua conta. Achava-se sob tutela legal de minha tia, morta recentemente. Agora depende de mim, e o dever me exige proporcionar-lhe sustento. - Pelo que sei a jogaram de casa - disse Beau. - Não é um ato que demonstre grande preocupação por seu bem-estar. Alistair não ocultou seu desagrado. - Sem dúvida essa insignificante terá suscitado sua compaixão com uma fileira de mentiras, capitão, mas não consentirei que isso me dissuada de cumprir os desejos de minha tia. E agora me diga, onde está? Cerynise ficou em pé, embora suas pernas não parecessem em estado de levá-la ao outro extremo do convés. Levando um dedo aos lábios para sossegar os protestos do Oaks, atravessou o baluarte de robustos marinheiros e se uniu aos três homens próximos à amurada. - Estou aqui, Alistair - anunciou com um suspiro. - O que deseja? Alistair deu meia volta ao reconhecer a voz, mas o que viu o deixou boquiaberto. Esperara encontrar a uma moça em penoso estado de desalinho, mas a achou tão polida e bela como de costume. O capitão, claramente, gastara já uma soma respeitável em artigos de roupas. Até era possível que sua generosidade tivesse obtido recompensa. Colocar de costas uma virgem e lhe ensinar alguns dos mais deliciosos prazeres da vida era um prazer que alguns homens só saborearam em sonhos, e Alistair se contava entre eles. Apesar do remorso que fez nascer nele a dita hipótese, fez um esforço para sorrir com doçura. - Levá-la para casa. O que se não isso? - Já não tenho casa na Inglaterra - respondeu Cerynise friamente. - Bem claro deixaram isso ao me jogar. - Mas que coisas diz, Cerynise! - Alistair proferiu uma risada forçada e agitou sua fina mão. - Se não tomar cuidado, minha querida menina, levará o capitão a me ter por um ogro, senão não algo muito pior. - Que curioso! - refletiu Beau em voz alta. - É justamente o que estava pensando. De repente Alistair adotou uma postura de maior cautela, vendo nos olhos do capitão brilhos azuis frios de aspecto ameaçador, no mínimo. - A jovem não tem por que estar aqui, capitão - assegurou com urgência a seu anfitrião. - Levarei ela imediatamente. - Estendeu a mão para agarrar Cerynise pelo pulso, arrancandolhe um grito de temor. Em um abrir e fechar de olhos viu seu próprio pulso ferreamente


sujeito pelo capitão. - O que significa isto? - exigiu saber com voz aguda. - Explicar-lhe-ei isso de forma muito simples - respondeu Beau quase com afabilidade. Não permitirei que levem Cerynise enquanto ela mesma não disser que deseja partir; e, francamente, duvido que seja assim. Entendeu? - Isto é um ultraje! Não têm direito! - exclamou Alistair, escapando da pressão da mão de Beau. A suave risada deste não mostrava a menor alegria. - Não? - Olhou à dama. - Cerynise, deseja partir com este cavalheiro? - A ênfase com que pronunciou a última palavra a marcou claramente como insulto. Cerynise negou com a cabeça, incapaz de substrair-se do olhar alterado de Alistair. - O que disse é falso. Não estou sob sua tutela. Vi o testamento da senhora Winthrop com meus próprios olhos, e não se mencionava nenhuma transmissão da tutela. - Estava em um codicilo que encontramos mais tarde - explicou Alistair, tirando um pergaminho da jaqueta e desdobrando-o ante o rosto de Beau. - Leia você mesmo, capitão. Tenho propriedade legal sobre esta moça. Deve me obedecer. Sob as faces brilhantes de Beau, os músculos foram se esticando até ameaçar romper-se. - Não é o mesmo tutela e propriedade, senhor Winthrop. Talvez convenha meditar sobre a diferença. Quanto a isto... - Deu uma desdenhoso batidinha no documento. - No que me diz respeito poderia ser algo, até uma falsificação. - Sou um homem rico e de boa posição, senhor! - balbuciou Alistair, indignado. - A lei referendará meu direito a levar a jovem de seu navio. Com certeza faria bem em não se ocupar mais deste assunto, porque asseguro que posso iniciar ações legais contra esta mísera lancha e impedi-lo de zarpar para sempre. Se quer evitar consequências funestas, mais vale que se submeta quanto antes a meus desejos. Rudd assentiu com a cabeça atrás de Alistair, para confirmar que o capitão corria graves riscos. Entretanto, e no bem da prudência, tratou uma vez mais de chamar a atenção de Alistair sobre os robustos marinheiros que fechavam filas a suas costas. Beau arqueou uma sobrancelha em sinal de mofa. - Graves consequências? Jogam de casa ao Cerynise, obrigam a valer-se sozinha pelas ruas de Londres à mesma jovem cuja tutela vêm reclamar, e me ameaçam com medidas legais? - Mentiras! -clamou Alistair. - Uma fileira de mentiras! Está visto que Cerynise diz isso porque quer ficar com você no navio. Possivelmente lhe tenha dispensado mais cuidados do que caberia julgar convenientes. Terá sussurrado a seu ouvido doces promessas de adoração, enchendo sua cabeça de ficções românticas e cegando-o até o ponto de querer navegar até os limites do mundo com seu nobre capitão. - Alistair passeou um olhar mordaz pela erguida e masculina silhueta do Beau, e uma careta de agudo desprezo torceu seus lábios pegajosos. Sem dúvida já lhe terá permitido que a monte como um cervo no cio. O insulto deixou Cerynise boquiaberta. Beau, mais físico em sua reação, levantou o punho com intenção de imprimi-lo no rosto de seu interlocutor. Alistair previu o golpe e quis


agachar-se, mas só o conseguiu pela metade. Os duros nódulos de Beau o alcançaram na maçã do rosto, fazendo que cambaleasse até cair de costas sobre Rudd, o qual, tomado de surpresa, quase desabou. Desconcertado, balbuciante, o advogado ajudou seu amigo a ficar outra vez em pé. - Como se atreve a me tocar! - exclamou Alistair com indignação, aplicando uma mão a sua face machucada. - Farei com que o prendam! Tentou apoderar-se de Cerynise pela segunda vez, mas a jovem retrocedeu até ficar atrás de Beau, que se plantou em frente de Alistair com semblante ameaçador. - Desça deste navio antes que o estrangule, pestilento montão de esterco! A injúria fez brotar faíscas dos olhos de Alistair, que repreendeu Beau com punho erguido. - Farei que lamente o dia em que viu Cerynise Kendall pela primeira vez. - Duvido - zombou Beau, fazendo gestos aos marinheiros de que se adiantassem. Joguem pela amurada a este lixo. Rudd olhou com receio ao grupo de homenzarrões e ficou a puxar desesperadamente o cotovelo de Alistair. - Vamos, vamos...! - Vai se arrepender! - advertiu Alistair a voz alta, retrocedendo para a passarela. Voltarei em companhia da autoridade, e mandarei prendê-lo por abusar de minha pupila. Nesta mesma manhã farei que vigiem seu navio e o impeça de zarpar com Cerynise a bordo. Se ousar tentá-lo farei que lhe ponham grilhões e acusem você de rapto. Passará no cárcere o resto de sua mísera vida! Beau deu um passo adiante e Rudd puxou freneticamente o braço de Alistair, sussurrando conselhos sensatos. - Não o irrite mais ou virá atrás de nós! Deixemos que se ocupem dele as autoridades! Alistair não lhe fez muito caso. Enquanto Rudd o arrastava para a segurança do mole, lançou iradas maldições ao capitão. Igualmente difícil foi fazê-lo subir à carruagem, absorto como estava em concluir sua invectiva. Seus raivosos gritos se sobrepuseram inclusive ao ruído dos cascos com que o veículo empreendeu o caminho de volta. Seguiu-se um breve silêncio, ao que puseram fim os latidos de um cão, os relinchos de um cavalo e o pregão de um mascate. A bordo do Audaz, os marinheiros voltaram para suas tarefas, com a diferença de que agora circulavam piscadas furtivas, comentários em voz baixa e apostas. - Sinto-o na alma, Beau - se desculpou Cerynise. Estendeu ambas as mãos, perplexa pelo afinco que Alistair pusera para que fosse com ele. - Não esperava que alguém se opusesse a minha partida, e muito menos depois de verme expulsa da mansão Winthrop. Dadas as circunstâncias, acredito que o mais conveniente seria que me atribuísse uma escolta para ir ao navio do capitão Sullivan antes que Alistair envie uma patrulha.


Beau negou com a cabeça. - Agora é impossível. Dando-se conta de que teria sido difícil encontrar na tripulação a alguém que não estivesse ocupado, Cerynise tentou encontrar uma maneira de levar ela mesma sua bagagem à Miragem. - Nesse caso, se me disser onde encontrar o navio do capitão Sullivan talvez convença ao Moon de que deva recolher meus pertences. Uma vez mais, Beau se opôs categoricamente. - Não o permitirei. - Que não permitirá, capitão? - balbuciou Cerynise, confusa. - Não o entendo. Se não pode prescindir de nenhum homem, por que nega a que Moon venha por minha bagagem? Beau cruzou os braços e a olhou com expressão ligeiramente irritada. - Porque se propõe abandonar o país a bordo da Miragem, senhorita Kendall, nunca se afastará destes moles. Alistair Winthrop dará com você, e conhecendo o capitão Sullivan duvido que sinta propensão por discutir com as autoridades. - O que faço então? - perguntou Cerynise com desalento. Beau franziu o sobrecenho e refletiu. - Até que ponto está desesperada para chegar às Carolinas? - No extremo. Beau, meditabundo, acariciou o queixo. -Se for certo que foi posta sob a tutela de Alistair, o problema poderia ser quase insolúvel. Embora o codicilo foi uma falsificação, as autoridades lhe concederiam o benefício da dúvida; ao menos por um tempo. - Disse "quase", capitão. - Cerynise o olhou atentamente. - Enquanto existir a menor possibilidade de derrotar ao Alistair em suas pretensões de forçar minha volta, estou disposta a escutar toda sugestão que queira me fazer. - Bem, mas é possível que o que estou a ponto de dizer a você não seja de seu agrado. Por desgraça, não me ocorre outra maneira de anular os direitos que Alistair afirma ter sobre você. - Declare seu parecer, capitão - pediu Cerynise. - Estou escutando. Beau continuou olhando-a em silêncio, com uma careta pensativa. Corria o risco, muito provável, de escandalizá-la em extremo, e possivelmente até de provocar sua imediata fuga para a mansão Winthrop. O escrutinador olhar do capitão começou a incomodar Cerynise. Supôs que as reticências do Beau se deviam ao caráter indizivelmente horrendo do que estava a ponto de aconselhar. - Preferiria que não o fizesse. Beau pôs cara de perplexidade. - Fazer o que, querida?


O afetuoso termo suscitou um rubor de prazer nas faces da jovem, que quis ocultá-lo baixando a cabeça. - Me olhar tão fixamente. Sinto como se me dissecasse, como um médico novato praticando com seu primeiro cadáver. Beau torceu o gesto, exagerando sua repugnância. - Lutarei com coragem por melhorar minhas maneiras, querida. Outra vez! Encantadora palavra em principescos lábios! Lutando para não perder a compostura, ela deixou escapar o ar em breves e superficiais exalações. Os olhos de Beau a enfeitiçaram, mas suas palavras sortiam o mesmo efeito que o licor de mel, provocando autêntica embriaguez. Quis moderar-se com um pigarro. Mesmo assim, quando posou a vista naqueles risonhos círculos de safira, suas pálpebras tremeram de incerteza. - Acredito estar sendo submetida a uma espera desnecessária, senhor – disse com um suspiro entrecortado. - Me faria o favor de me explicar o que está pensando? - Desculpe minha demora, Cerynise. - encolheu os ombros. - Como a idéia acaba de ocorrer-me devo me conceder uma pausa para meditar sobre possíveis repercussões. Depois de mordiscar reflexivamente o lábio inferior, Beau se voltou de maneira brusca e se afastou para a amurada. Dedicou um lapso de tempo considerável a contemplar a cidade que se estendia além do cais, pensando nos deveres de amizade que o ligavam à moça. Fazia décadas que seu pai, Brandon Birmingham, achou-se naquele mesmo lugar, observando idêntico panorama desde seu próprio navio. O anterior capitão Birmingham enfrentou com grande parte dos desafios a que seu filho estava acostumado como primeira autoridade de uma fragata. Levado por seus sentimentos de pai para quem era sua única descendência varão, Brandon tinha querido lhe comunicar os ensinos colhidos com os anos. Não só tinha instruído a seu filho com palavras, mas também com o exemplo. Acima de tudo lhe tinha mostrado o valor real do dever e da honra. Em certa ocasião lhe tinha explicado que a condição de cavalheiro não era hereditária, como podia ser um título. Ninguém tinha direito a qualificar-se de tal sem ter recebido uma formação exaustiva por parte de alguém familiarizado com o verdadeiro alcance da palavra. Brandon a recebera de seu pai, e tinha o dever de transmiti-la por sua vez a seu filho Beau. A compaixão, a justiça, a coragem, a honra e a integridade: tais eram algumas das características que podia reivindicar como suas, o autêntico cavalheiro. Sem dúvida tinha a responsabilidade de proteger aos membros de sua família dos duros ataques do mundo, mas essa obrigação se estendia deste modo aos amigos, assim como aos desventurados que não conhecessem família nem amizade. Noblesse obriga, de certo modo; só que a família Birmingham não era de berço nobre, ao menos não até o ponto de que isso influísse em suas vidas. Mesmo assim, o peso da responsabilidade devia aguentar-se com galhardia, à margem de quão oneroso fosse em certas ocasiões. A opressão revestia muitas formas, sendo a mais óbvia os maus entendimentos físicos. A expressão de Beau se nublou ao recordar em que estado encontrou Cerynise no


momento de pegá-la nos braços e levá-la a bordo do Audaz. Enfureceu-o pensar que Alistair Winthrop pudesse reivindicar seu domínio sobre ela e recorrer a métodos distintos para subjugá-la; entretanto, existiam outras classes de perseguição que se furtavam mais à vista, tais como as conjeturas a meia voz, os falatórios e as sutis insinuações capazes de destruir uma reputação e infligir danos para a vida. Não abrigava dúvida alguma de que Alistair Winthrop fosse um homem desesperado. Enquanto estivesse em situação de reclamar juridicamente seu direito de custódia sobre Cerynise, fosse ou não falso, também podia lhe impedir a fuga para as Carolinas. A Beau só ocorria uma solução capaz de anular os direitos de pupilagem e proteger ao Cerynise do Winthrop e o perigo que representava, embora fosse diante de um tribunal. O silêncio se prolongou até que Cerynise se viu incapaz de aguentar mais tempo. Se Beau a atormentava para obter um prazer sádico, teria que reconhecer que seu êxito era total. Beau voltou para junto de sua hóspede, entrelaçando as mãos nas costas. Esboçou um sorriso. - Tudo indica, querida, que não há alternativas. Se seriamente está decidida a retornar a Charleston, seu amigo Alistair nos deixa poucas opções. - Estou - afirmou Cerynise uma vez mais. - Nesse caso, querida, devemos nos casar imediatamente. Ela o olhou fixamente, com a dúvida de ter entendido suas palavras. - Perdão? - Ouviu-me bem. É a única solução a nosso alcance. Na presente circunstância, Winthrop não terá dificuldade em convencer às autoridades de que a entreguem a ele. Eu não sou cidadão inglês, e provoquei a irritação de vários funcionários do porto, ciumentos, pelo visto, de minha habilidade para entrar e sair deste país com relativa liberdade. Sua hostilidade para os ianques é moeda corrente. Se trato de zarpar com você a bordo, sem dúvida quererão me expropriar o navio e me colocar na prisão. Sendo minha esposa estará sob minha tutela, e posso lhe dar garantias quase totais de que nenhum magistrado se interporá entre marido e mulher. Que estranhos detalhes percebia Cerynise, agora que o mundo parecia haver saído de sua órbita! O homem que tinha diante era tão alto que apenas chegava aos seus ombros, e tinha no queixo uma pequena e atraente cicatriz... Ao não obter resposta, Beau acrescentou: - Entendeu-me, Cerynise? - É claro. Disse-me que quer se casar comigo. A idéia de ser esposa de Beau a enchia de contraditórias emoções: sobressalto, temor e um nascente entusiasmo que não ousou levar em conta ainda. - Não disse exatamente isso - corrigiu-a ele com palavras prudentes. A confusão de Cerynise se lia em seus olhos. Apesar de seus inflamados desejos de fazer amor com a jovem, Beau se negava a


comprometer-se em uma união a longo prazo da qual não pudesse escapar. Gostava muito de navegar, e seguir percorrendo o globo uma vez aceita a responsabilidade de ter mulher e filhos suporia uma grave injustiça para com estes últimos, uma vez que nunca estaria a seu lado para educá-los ou assisti-los em momentos de verdadeira necessidade. Dado seu costume de vagabundear por continentes e ilhas, provavelmente não passaria em seu lar mais que o tempo necessário para conhecer o filho que teria gerado em sua visita anterior e fazer que sua esposa concebesse de novo. Muitas vezes tinha presenciado esse comportamento em outros capitães e marinheiros para esperar que seu caso fosse diferente. Expôs seu projeto com todo detalhe, a fim de que ela não nutrisse dúvidas. - Quando chegarmos a Charleston poderemos solicitar que se anule o matrimônio, e ficaremos livres para seguir caminhos distintos. Então você se achará em casa, onde desejava estar, e eu não terei que enfrentar com os tribunais enquanto meu navio é retido na margem equivocada do Atlântico. - Não há necessidade de que tome uma decisão tão drástica - murmurou Cerynise com serena dignidade. Beau expressara com mordaz franqueza que não a desejava por esposa. Não era mais que um ato de cavalheirismo para resgatá-la de uma situação difícil. De fato Cerynise não o tomou a sério; ou talvez num momento sim, mas não mais. - Basta que zarpe. - Sem você? - disse Beau, estupefato. - Nunca faria tal coisa, Cerynise. Jamais me perdoaria isso, e muito menos depois de ter visto o que a espera sob a tutela do Alistair Winthrop. Considerem como o pagamento da dívida que contraí com seu pai, por não ter renunciado a me educar tendo eu a possibilidade de imitar a determinados amigos e rir de seus esforços para me induzir ao estudo. As visitas de seu pai aos meus obtiveram o efeito desejado: obter que minha atenção não abandonasse os temas importantes em favor dos frívolos prazeres a cuja busca tende todo moço. Nunca poderei lhe pagar tudo o que lhe devo. Cerynise o olhou fixamente, pensando no alto e belo moço de quem sempre estivera apaixonada, com seu cabelo negro, curto e encaracolado, e seus olhos azuis de escuras pestanas. Recordou as vezes que a levantou em seu cavalo para ensiná-la a montar, tirandolhe o medo em poucos meses. Recordou também aquela tarde singular em que brincava sozinha perto da escola e vários meninos a importunaram ao sair da aula, puxando pelo rabo de cavalo, disparando nela pedrinhas com zarabatanas e esmerando-se para que passasse um mau momento. Saindo da escola, Beau ouviu seus gritos de indignação e acudiu correndo para dar seu castigo aos torturadores, ganhando uma dura reprimenda e deveres suplementares por parte do pai de Cerynise, que horas mais tarde, depois de saber a verdade da boca de sua filha, havia coberto o trajeto até Harthaven para pedir humildes desculpa ao moço, e agradecer-lhe a defesa da pequena. Desta vez foi Beau quem, por falta de resposta, começou a impacientar-se, e se perguntou se a jovem teria ficado com a mente em branco. Ignorava que percentagem de mulheres desmaiava ao ouvir uma proposição de matrimônio, mas Cerynise nunca lhe pareceu dessa índole.


- Maldita seja, Cerynise, tampouco lhe peço que jure fidelidade nem nada por...! - Sim o faz - assinalou a moça, e não sem motivos, pensou. Beau parecia desconcertado. -De acordo, possivelmente sim, mas ambos sabemos que será uma situação transitória. Assim que finalize a viagem poderemos interromper o matrimônio e não se falará mais do assunto. Com que simplicidade o expõe, pensou Cerynise friamente. Um matrimônio de conveniência seguido de uma rápida anulação. Um tecnicismo legal. Uma via de escape. Nada mais. Nada, de fato. Ela, entretanto, dava-se conta de que não era tão fácil, ao menos em seu caso. Ter ao Beau Birmingham por cônjuge era um sonho nascido na mente de uma menina e preservado longos anos. Sorriu com nostalgia. Que estranha longevidade tinha demonstrado sua fantasia! Até o ponto de que seguia viva em seu interior. Olhou os olhos de Beau, cujo azul vencia em pureza ao do ceu. Era o moço de antigamente, e ao mesmo tempo não o era. Era um adulto com idéias próprias, e lhe estava oferecendo o amparo de seu sobrenome quando mais o necessitava. Sua mera presença lhe infundia segurança, mas também uma crescente agitação que quase lhe dava medo. Se se apaixonasse ainda mais por seu príncipe, o que ocorreria a seu coração uma vez dissolvido o matrimônio? Saberia suportar a abjeta solidão que se apoderaria dela assim que estivessem separados? E Beau? Seria indiferente aos padecimentos que provocaria em sua amiga de infância, o fim daquela união fictícia? Beau não leu em seu rosto nenhum indício de que aceitasse seu plano; achou- a bem inquieta, como se temesse as consequências do matrimônio. Supôs que dada a exiguidade do espaço habitável na fragata sua amiga tinha medo de compartilhar o camarote, e o que se pudesse seguir. Ele, por sua parte, não podia prometer que a união física não se produziria em nenhum momento, consciente como era dos impulsos que o levavam a desejar um ato de tal irracionalidade. Para quem se vê limitado por juramentos de abstinência, três meses podem ser uma eternidade. Beau não era um monge, nem muito menos, nem chegava seu cavalheirismo a tais extremos. Cerynise não obteria dele nenhuma promessa. Já nesses momentos, seus instintos viris eram muito fortes para que os ignorasse. A que tortura se submeteria condescendo a pactos galantes dos quais mais tarde pudesse arrepender-se? Dado seu presente estado de ânimo, "mais tarde" podia ser questão de meros instantes. Mesmo assim, cedeu em grau suficiente para propor: - Considere de momento como... um acordo meramente nominal, se assim o desejar. Além disso, só comprometo-me a não a obrigar a realizar nenhum ato com o qual não esteja completamente de acordo. Cerynise fechou os olhos, tratando de assimilar o que acabava de lhe dizer Beau. De fato não se estava comprometendo a não tocá-la... ou sim? O que outra coisa podia significar "um acordo nominal"?


- Parece-lhe aceitável minha proposta? - inquiriu Beau ao cabo de outra longa espera. Cerynise abriu os olhos e expôs sua decisão com um fio de voz. - Parece a única possibilidade de me libertar de Alistair. Ele teve a certeza de que qualquer pretendente que pudesse aspirar à mão da jovem no presente ou o futuro teria dificuldades em aceitar com serenidade a decisão que acabava de tomar Cerynise. Posto que os esperavam três meses de convivência a bordo do mesmo navio, semana mais ou menos, era de esperar que a moça em questão, fosse quem fosse, se perguntaria o que fizeram juntos para matar o tédio em situação de matrimônio temporário. Ninguém estava em situação de predizer o futuro de seu enlace. Entretanto, quando Beau indagou em seu interior para saber como reagiria caso de que ao término da viagem um galã o exortasse a assinar os documentos de anulação, sentiu uma contrariedade inexplicável, como se pudesse incomodá-lo que insistissem com ele para renunciar de punho e letra a seus direitos sobre uma mulher que quase o deixava sem fala. Era muito consciente de desejá-la, certamente mais que a nenhuma outra mulher, mas também queria ver-se livre de cadeias que pudessem atá-lo por toda a vida, a terra firme. - Percebo em você certas dúvidas sobre a necessidade de tomar uma decisão desta índole... Cerynise cortou suas palavras com uma leve inclinação da cabeça. - Se não se importar, Beau, preferiria não continuar falando do assunto. Tomei uma decisão, e só resta ameaçar a agir com a maior presteza, antes que possamos ver desbaratados nossos planos. - Disporei o necessário - informou-a Beau, agarrando-a pelo braço e dirigindo-a para a escada. - Seja como for, estou convencido de que as núpcias se concluirão antes da noite. Acompanhou-a a seu camarote, e em breves instantes enviou ao Billy Todd com ordem de servi-la no que houvesse necessidade. Beau informou ao grumete dos atos previstos antes de que finalizasse o dia, com o resultado de que Billy parecia um molho de nervos. Absorto na visão da jovem, sentia aumentar e decrescer alternativamente seu rubor. Todos os tripulantes do Audaz sabiam que seu capitão levava anos fugindo o matrimônio, e a notícia de que renunciava a sua liberdade os deixava atônitos. Que a jovem superasse em atrativo a quantas vira Billy pessoalmente não impedia sua estupefação pela prontidão com que seu capitão estava procedendo para convertê-la em sua esposa. - O capitão disse que você e ele... - Como sua língua não o obedecia, Billy deixou em suspense o torpe início de conversação e olhou para Cerynise com a boca aberta. - O que disse, Billy? O grumete se desculpou movendo a mão, mas, como ela continuava aguardando resposta, apressou-se a dar uma desculpa. - Me esqueci, senhorita. - Não se preocupe - o tranquilizou a jovem, contendo um suspiro de tristeza. - Neste momento eu tampouco tenho a mente muito clara.


Possivelmente fora uma sorte contar com alguém a quem tranquilizar. Acalmar os nervos de Billy era uma maneira de não pensar no que estava a ponto de fazer. Casar-se com um homem a quem virtualmente idolatrava! Por que, então, tanta angústia? Os anos vividos na Inglaterra a levaram a desprezar o sonho que tanto acariciara. O casamento com o Beau ficaram relegado a mera fantasia juvenil, um pouco claramente inconcebível. A partir de então seu interesse pelo matrimônio não passara de anedótico. Dera por certo que um dia ou outro se casaria, e, embora o desejou vagamente, também se havia sentido satisfeita de que o cumprimento da expectativa flutuasse ainda em um indistinto futuro. Toda sua atenção caiu na pintura, uma atividade tão substancial e absorvente que apenas lhe deixava vontade de sonhar acordada com o homem, desconhecido e sem rosto, que algum dia se converteria em seu marido. Pois bem, já tinha rosto, e não ia ser seu marido de verdade, não no sentido que Lydia tratou de lhe explicar com delicadeza pouco depois de Cerynise cruzar a soleira de uma incipiente maturidade. Beau se limitaria a lhe fazer um favor, a imagem do cavalheiro perfeito e gentil do Chaucer: Cerynise encarnaria à aflita donzela, e Beau o cavalheiro andante que vai resgatá-la. Imaginar ao Beau com reluzente armadura, cavalgando veloz nas costas de um branco e lustroso corcel, era ao mesmo tempo absurdo e prazeroso. Cerynise estava convencida de que Beau teria se aborrecido da armadura, afeto como era a informal comodidade de uma camisa e umas calças cortadas na medida exata. Recordava-o como destro cavaleiro, mas albergava sérias dúvidas de que visse com bons olhos a idéia de adornar a um cavalo com penacho e rédeas bordadas. Mesmo assim, cabia esperar sensações prazerosas de seu beijo na mão. Deleitou-se em sua visão. Como princípio era perfeito. A descabelada idéia lhe arrancou uma risada aguda, que abafou ao cair na conta de que Billy Todd seguia na habitação, preparando a roupa do capitão. O grumete levantou a vista, inquieto. - Está bem, senhorita? Cerynise sorriu efusivamente tratando de dissipar toda suspeita sobre um possível malestar. - Perdoe, Billy. Minha imaginação tende a me levar muito longe. O grumete se ruborizou, pensando que talvez a jovem estivesse imaginando como passaria a noite a sós no camarote com o capitão. - Sem dúvida o dia lhe dá motivos, senhorita. Apenas uma hora depois que Billy levasse a roupa do capitão, a solidão de Cerynise voltou a ver-se interrompida. Desta vez o visitante era Stephen Oaks. Parecia quase tão aniquilado como Billy, e por uns instantes vacilou entre a surpresa e o regozijo, até que este se ergueu com a vitória. - Suponho que o que dizem é verdade - refletiu em voz alta. - Se navegar pelos sete mares, por fim, terá visto tudo. - Tão extraordinário é este matrimônio, senhor Oaks? - perguntou Cerynise, procurando


refrear a sua irritação. Entendia de sobra a surpresa da tripulação ante as iminentes núpcias, mas tampouco era tão desatinado um homem e uma mulher decidirem casar-se de forma repentina. - As pessoas casam diariamente. - Sim, senhorita, mas o capitão é o capitão. Eu nunca imaginou que se deixasse atar por nenhuma mulher... - O oficial se interrompeu, consciente de haver-se excedido. - Lhe suplico perdão, senhorita. Não me referia a... Enfim, nada tem de mau que se case com o capitão. Ao contrário. É uma grande ideia. A solução perfeita. As sobrancelhas de Cerynise se arquearam. - Solução? Sabe acaso...? Oaks levantou uma mão para interrompê-la. - A única coisa que queria dizer é que a tripulação esteve apostando que o capitão não deixaria que a levasse o canalha do Winthrop. Estávamos convencidos de que acharia uma maneira de a salvar. A única questão que nos escapava era o procedimento. - O oficial sorriu de orelha a orelha. - Como é lógico, para maioria dos homens não ocorreu que fosse chegar tão longe. Esperavam mais alguns tiros de canhão e uma fuga a mar aberto; nada, em todo caso, como o que aconteceu. Cerynise o olhou com assombro. - Pensavam que o capitão daria ordem de escapar pelo Tâmisa, abrindo caminho como... como um bando de piratas... e tudo por mim? Oaks encolheu os ombros. - São coisas que passam, senhorita. De vez em quando se produzem diferenças de opinião difíceis de resolver pela via pacífica. O ano passado em Barcelona... - De repente o oficial julgou necessário trocar de tema. - A questão, senhorita, é que conheço capitão melhor que ninguém a bordo. Como não parecia provável que permitisse sair prejudicada, as opções não eram muitas. Por outro lado, não é precisamente uma pessoa convencional. Gosta de fazer o que menos se espera. - Oaks riu entre dentes, dando umas batidinhas no moedeiro que levava no cinturão. - E com certeza que isto poucos esperavam. Entendendo o que insinuava o oficial, Cerynise ficou boquiaberta. Depois fechou a boca e a retorceu com irritação. - Quer dizer, por acaso, senhor Oaks, que fizeram aposta sobre o resultado de nosso conflito com o senhor Winthrop? Oaks se mostrou subitamente envergonhado. - Sim, senhorita. - Espero que aproveitem os benefícios, senhor Oaks - disse Cerynise com toda a gentileza de que dispunha naquele instante; e não deixou de lhe surpreender a quietude que ela mesma percebia em sua voz. - E agora, se não se importar, queria dispor de uns momentos para mim antes de... Oaks não pôde se precaver de sua irritação. - Sinto muito, senhorita. Às vezes minha boca se adianta a meus pensamentos...


- É uma insensatez com a qual algumas pessoas devem conviver – respondeu Cerynise de modo contundente. - Com sua permissão... Oaks retorceu a boina entre as mãos com expressão contrita. - Esse é justamente o motivo pelo qual vim vê-la, senhorita. É a hora. Cerynise abafou uma exclamação de surpresa. - Já? O oficial assentiu com a cabeça. - Com efeito, senhorita. Há aqui no Southwark um padre que deve alguns favores ao capitão. veio assim que o avisou. Está no convés com o capitão, esperando-a. Cerynise estava atônita. Fora tudo tão precipitado que não estava muito convencida de poder confrontar as núpcias. - Haverá sem dúvida formalidades prévias, permissões que obter e outros trâmites... - Isso deverá perguntar ao capitão, senhorita. Agora, se não importar-se, minhas ordens são de a acompanhar à ponte. Cerynise seguiu docilmente ao oficial, vigiando uma vez mais cada passo que dava em sua ascensão pela escada. Disse-se que saberia superar a experiência sem remorsos, porque era uma simples farsa. A dificuldade real se apresentaria mais tarde, quando tivesse que acrescentar seu nome aos documentos da anulação, e ver Beau Birmingham desentender-se dela com uma assinatura. Produziu-se um alto na carga do navio, e a tripulação estava reunida no convés principal, salvo alguns que subiram nas cordas do velame. Vendo sair Cerynise, todos guardaram silêncio e seguiram com o olhar sua subida ao convés. Beau se achava em companhia de um indivíduo magro, mas apenas lhe prestou atenção, cativo como estava seu olhar do homem poderoso e atraente que ia casar se com ela. Beau brilhava num elegante e discreto paletó de quadros azuis e cinzas, camisa branca e gravata, colete de botões a jogo com o cinza do paletó e calças de um cinza mais escuro metidos em um par de botas de cano longo negros. Seu aspecto provocou palpitações no coração de Cerynise, que o julgou muito distinto com tão lindo traje. Vendo-o, desejou que lhe tivesse avisado sobre sua decisão de vestir-se com ornamento. O máximo que pôde fazer quando subiu ao convés em companhia do senhor Oaks foi alisar o cabelo. Beau a olhou nos olhos, sorriu, agarrou-lhe a mão e a atraiu para si. A preocupação de Cerynise por seu aspecto se dissipou. Parecia que havia retornado a primavera. Seu futuro marido a agarrou pela cintura e aplicou os lábios em seu cabelo por cima da têmpora. - Em minha vida nunca vi noiva mais formosa, querida. Cerynise apoiou uma mão no colete do Beau para não cair, porque o musculoso braço que puxava ela estava colocando-a numa proximidade imprópria de um mero acordo nominal. Possivelmente Beau ainda não se desse conta do efeito que produziam suas doces palavras, olhares aveludados e presença física, mas Cerynise sim. Conhecia com exatidão o motivo pelo qual seu coração batia desbocado com os apertos do espartilho.


- Me permita elogiar ao noivo em termos semelhantes, senhor - murmurou, confiando que Beau não detectasse o tremor de sua voz. - Seu aspecto excede muito minhas expectativas. Para falar a verdade, estou desgostada comigo mesma por não ter dedicado mais tempo a me preparar. - Sua preocupação carece de base, querida. - Beau se agachou de novo para lhe acariciar o cabelo com o nariz, suscitando tentadores aromas que adularam seus sentidos e a fizeram tomar consciência de que não só era formosa, mas também feminina em grau supremo. Tratava-se de algo completamente pouco habitual em seus lábios, mas merecidíssimo no caso de Cerynise. - Além disso, cheiram muito bem. Cerynise não deu importância ao delicioso sufocamento que lhe provocava a presença de Beau, nem ao rubor ardente

de suas faces. Supôs que os arrulhos do noivo foram

idealizados para o reitor, e talvez para distração da tripulação. Ouviu que alguns de seus membros davam ânimos a seu capitão, entre brincadeiras constantes de seus companheiros. Não se preocupou em excesso. O que seriamente importava era a assombrosa sensação de plenitude que experimentava nos braços de Beau, como se estivesse feita para eles. Não era acaso o que sempre sonhara? Aproximou-se um homem magro e maduro, de cabelo cinza e olhos bondosos. Reparando no caloso de suas mãos, Cerynise supôs que estivera lavrando antes de ir ao navio, preparando sem dúvida a terra para o inverno. Embora saltasse à vista que fez o esforço de lavar-se, suas mãos apresentavam ainda restos de terra nos sulcos de sua pele endurecida, assim como em suas desarrumadas unhas. Tinha abotoado pela metade seu puído colete, torcido e mau fechado a gravata e barbeadas pela metade as faces, tudo isso próprio de um homem que se apressou a ir a um chamado urgente, e que não vivia com excessivo desafogo. De todos os modos, e por cima de seu desalinho e humilde aspecto, Cerynise se sentiu cômoda em sua presença, porque intuía nele a um homem reto e de bom coração. - É a senhorita Kendall? - perguntou o homem com um amável sorriso. - Sim, senhor. - E acede ao matrimônio por vontade própria, sem coação de ninguém? Cerynise olhou a Beau, um pouco surpreendida pela pergunta. Beau lhe apertou a mão para tranquilizá-la. - O senhor Carmichael não é muito amigo de formalidades, querida, mas sua consciência o obriga a certificar-se de que ambas as partes tomaram livremente a decisão de contrair matrimonio. Aceitou se casar comigo livre e voluntariamente? Embora a pergunta procedia do Beau, Cerynise voltou a vista para o clérigo e respondeu em voz baixa. - Sim. A calidez da mão de Beau substituiu a frieza que se apropriou de Cerynise pouco antes, no momento de subir ao convés. Entrelaçou seus dedos com os do capitão e apertou com força. - Meus filhos, reunimo-nos hoje em presença de Deus para unir em santo matrimônio a


este homem e esta mulher...

CAPÍTULO 5 Beau a olhou aos olhos e murmurou as palavras que formalizavam sua união. - Eu, Beau Birmingham, tomo a você, Cerynise Edlyn Kendall, por legítima esposa... As palavras, emitidas em voz baixa, ressoaram no coração de Cerynise, que duvidou de ter ouvido antes algo tão comovedor como as promessas de Beau de amá-la, respeitá-la e cuidá-la. Desejou com todo seu ser que também significassem algo para ele, e nutriu esperanças de que não se limitasse às murmurar por galanteria. Repetiu por sua vez os votos com olhos empanados, e posou a vista nas mãos fortes e esbeltas que seguravam as suas com suave firmeza. - Eu, Cerynise Kendall, tomo a você, Beauregard Grant Birmingham, por legítimo marido... Pouco depois, o senhor Carmichael perguntou: - Quem tem o anel? Cerynise conteve o fôlego. Era um detalhe que esquecera, e teve a certeza de que Beau também. Dispôs-se para ouvir de sua boca alguma desculpa por carecer dele, mas qual não foi sua surpresa ao ver que extraía de seu dedo mindinho um pequeno anel de ouro. Depois de deslizar limpamente a aliança pelo dedo anelar da moça, Beau repetiu as palavras do reitor. - Com este anel tomo por esposa... O pároco concluiu por fim a cerimônia. - Eu os declaro marido e mulher. - Fez um gesto ao Beau com a cabeça. - Pode beijar à noiva. Um repentino e vigoroso coro de vozes deu ânimos ao noivo. - Isso, capitão! Beije! Nos ensine como se faz! Cerynise se ruborizou e teve vontade de sair correndo por medo a sofrer um frio desprezo, até que, sobressaltada, sentiu que Beau a colhia com força pela cintura e a obrigava a dar meia volta para ficar ambos de frente à tripulação. O capitão levantou o braço livre e impôs silêncio. - De acordo, valentes! - exclamou entre risadas joviais.

- Se quiserem uma

demonstração a terão, mas fiquem atentos ao que lhes digo: não voltarei a ensinar isso, Ou aprendem agora ou nunca! Sonoras risadas e cerrados aplausos silenciaram os batimentos do coração de Cerynise, que estava sendo rodeada pelos braços do Beau. Sentindo-se torpe, e não sabendo o que fazer com os seus, acabou deslizando-os pela nuca do capitão, ao mesmo tempo em que o olhava no rosto. Nos bem perfilados lábios do Beau brincava um sorriso pérfido, similar a que acompanhou de moço a seus momentos mais zombeteiros. Pouco faltou ao Cerynise para ver sobre seus ombros uma fantasia de diabo malicioso, mas perdeu toda faculdade de raciocínio


assim que o rosto de Beau desceu até ficar em proximidade do dela. - Me conceda um beijo, senhora - sussurrou ele, comunicando aos lábios da jovem a calidez de sua respiração. - Se não der isso a meus homens, eles levarão uma decepção. De repente seus lábios tocaram os de Cerynise; unindo-se com eles em um beijo quente e sedutor o que suscitou no mais fundo da noiva um gozo estranho e inexplicável. Era uma beberagem embriagadora que a despojava de todas suas energias, fazendo-a enjoar e disparar o coração. Notou que Beau a obrigava a voltar-se um pouco e jogar o tronco para trás, sustentando-a com o braço pela cintura. Aquela postura melhorava sem dúvida a visibilidade para seus homens. Depois o beijo progrediu com rapidez, sobressaltando seus sentidos virginais. A língua de Beau se introduziu sedosamente entre seus lábios e bebeu com avidez o doce néctar de sua tímida reação. Cerynise nunca tinha imaginado que um beijo pudesse ser algo tão perturbador, e não lhe ocorreu como reagir com dignidade a não ser abrindo-se plenamente ao Beau. Por outro lado, não estava muito segura se era a maneira correta de beijar, já que era o primeiro que recebia. Duvidou, em todo caso, que a tripulação tivesse necessidade de uma exibição tão exaustiva. Não obstante, e dado o conteúdo de seu acordo, teve aquele beijo como único que receberia de Beau Birmingham, e lhe bastou essa suspeita para renunciar a toda resistência. Se seriamente devia ater-se a uma relação estéril com seu novo marido, faria provisão de quantas lembranças prazerosas pudesse armazenar em seu coração antes do fim do matrimônio. Sem dar-se conta, incrementou a pressão de suas mãos sobre a nuca do Beau, arrancando à tripulação fortes aplausos, grotescos cantos e ostentosos suspiros. As discretas tosses do pastor quase passaram despercebidas no meio do tumulto, salvo para Cerynise, que se reportou bruscamente. Então desceu suas mãos até os ombros de Beau e afastou o rosto. - Beau, por favor... Ele se ergueu e olhou a seus homens. Percebendo a força com que a estreitava contra si, Cerynise se ruborizou. Para falar a verdade, duvidava que seu espartilho de baleias a apertasse tanto como ele. Imediatamente se ergueu uma ensurdecedora cacofonia de assobios, gritos de aprovação e aplausos. Beau riu e inclinou a cabeça com desenvoltura. Cerynise executou uma profunda reverência, vendo-se na agradável obrigação de seguir seu exemplo. Beau voltou a emudecer o estrépito com um gesto do braço. - Bem, meus apaixonados lobos do mar, basta por hoje de espetáculos. O que lhes pareceria celebrá-lo subindo um ou outro barril? Cerynise se tampou as orelhas e encarou com uma careta de dor o barulho que provocou a proposta do capitão. A risada do Beau se comunicava a seu corpo melhor que a seus ouvidos. Vários marinheiros partiram velozes a cumprir suas indicações, e em um abrir e fechar de olhos se perfurou um barril, lhe colocaram uma torneira e começaram a circular copos cheios até o bordo. O senhor Carmichael tinha os documentos preparados que teriam de assinar, e aguardava pacientemente que lhe prestassem atenção. Beau, que foi o primeiro a observar seu


resignado sorriso, acompanhou a sua jovem esposa à pequena mesa disposta para o clérigo. Este afundou uma pluma no tinteiro e a estendeu ao noivo. -Assinem aqui embaixo, capitão - disse, indicando ao Beau dois documentos de aspecto oficial, postos um ao lado do outro em cima da mesa. - Julguei preferível que assinassem dois exemplares, um para o registro de nossa paróquia e o outro para que levem com vocês, se por acaso alguém em seu porto de origem queira investigar a legalidade de seu matrimônio em chão inglês. - É claro - assentiu Beau, imprimindo sua assinatura com uma elegante rubrica. - E agora você, senhora Birmingham - disse Carmichael. "Senhora Birmingham." Cerynise se deu conta do terrível alcance do que acabava de fazer, e se pôs a tremer. Beau lhe entregou a caneta mas se apressou a recolher a de sua mão trêmula, que a deixou cair. Ao devolver-lhe apertou-lhe a mão para que não soltasse o instrumento, mas uma simples olhada a suas pálidas faces deu motivos para temer um desmaio. Rodeando-a uma vez mais pela cintura, sussurrou-lhe ao ouvido: - Já quase está pronto, Cerynise. A jovem se sentiu enjoada, e afastou a vista insinuando um gemido. Durante breves instantes ousou sustentar-se no corpo de homem que lhe emprestava apoio. Beau a segurou sem dizer nada, impecável. Pouco a pouco o mundo recuperou sua estabilidade aos olhos de Cerynise, que se ergueu, respirou fundo e se concentrou na tarefa de assinar com seu novo nome. Pareceu-lhe estranho vê-lo impresso no branco pergaminho, uma raridade sem substância real. Carmichael assinou por sua vez, verteu lacre e aplicou um selo eclesiástico para atestar a validez dos documentos. Ato seguido pulverizou areia sobre as assinaturas, soprou e estendeu uma cópia a Beau. - Para você, capitão. Um pouco depois, Oaks se somou a eles, permanecendo a respeitosa distância até que Beau se voltou para ele. O oficial estendeu em silêncio duas pesadas bolsas de moedas a seu superior, que por sua vez as entregou ao padre. - E isto, pai, para seu orfanato. Lágrimas súbitas empanaram o olhar que o clérigo posou no rosto sorridente de Beau. Querendo expressar sua gratidão, abriu várias vezes sua boca trêmula, mas, aflito pela emoção, foi incapaz de articular palavra. Optou por fim por assentir vigorosamente, com as feições desfiguradas. Beau lhe pôs uma mão no ombro e o acompanhou à passarela. Despediram-se com um robusto apertão de mãos. Beau acabou de despedir-se, deu meia volta e retornou junto à noiva. Ficou surpreso pelo véu de lágrimas que cobria os olhos desta última. - Tão cedo se arrependeu, Cerynise? - disse com expressão levemente carrancuda. Ela negou com a cabeça. - Não, capitão; é só que fiquei impressionada pelo gesto que acabam de ter com o


senhor Carmichael. Beau indicou que não desejava nenhum tipo de elogio a sua benevolência. - Para um homem assim é pouco. Ele e sua esposa fundaram um refúgio para os órfãos desta cidade. Em muitos aspectos se parece com seu pai: responsabiliza-se pelos jovens e pelo seu futuro. O senhor Carmichael trabalha e economiza para alimentá-los e pôr um pouco de alegria em seus corações. Oaks, que se tinha ausentado uns instantes, voltou com uma taça de rum para o Beau. Acompanhou o primeiro gole com um efusivo sorriso. - Felicidades, capitão. Poucos homens conseguem uma esposa tão bela. É digno de inveja. De compaixão, mas bem!, pensou Beau. Nada tinha de lógico passar da frigideira ao fogo, mas isso mesmo acabava de fazer ele para salvar a uma amiga de um desastre seguro. O fato de que essa amiga se convertera em uma mulher a cujos encantos reagia com ardentes desejos viris expor uma dificuldade difícil de superar. Mas, tal como ficaram as coisas, se cruzava essa tênue barreira ninguém poderia acusá-lo de ter abusado de uma virgem inocente. Billy Todd subiu correndo ao convés para anunciar: - O senhor Monet tem o seu jantar preparado no camarote, senhor, e por certo está para chupar os dedos. - Obrigado, Billy. - Beau olhou a sua esposa. - Gostaria de jantar, querida? Cerynise reparou com relativa surpresa que estava esfomeada, e assentiu energicamente. Beau se voltou para seu primeiro oficial, não sem antes esboçar um sorriso. - Deixarei-o encarregado de tudo, senhor Oaks. Se precisarem de mim estarei jantando com minha esposa. - Bem, senhor - respondeu Oaks com uma piscada e um sorriso. Cerynise se dispôs a dirigir-se para a escada, mas de repente abafou um grito de assombro, sentindo que seu marido a erguia no ar. - O que faz? - Levar a meu camarote a minha nova esposa - respondeu ele alegremente, ganhando uma nova ovação de seus homens. - A tripulação espera isso, querida. - Confio que não esperem muito -replicou ela sorridente, enlaçando o pescoço do Beau. Gozava submetendo-o a suas brincadeiras, embora o que houvesse dito não fora necessariamente certo. Quando desceram pela escada reparou em que os olhos do Beau a observavam com avidez. depois de um momento ouviu-o declarar seus pensamentos: - Deduzo porque não desfrutou muito com meu beijo. O malicioso duendezinho que aparecia em certas ocasiões ponderou a pergunta com fingida perplexidade. - Foi muito instrutivo. Jamais me beijaram dessa maneira. - Eles a beijaram alguma vez? - perguntou Beau, um tanto malicioso.


- Se lhe respondesse, meu senhor, revelaria segredos que prefiro não confessar. Chegaram diante da porta do camarote. Beau tirou a trava, abriu-a com um ombro e entrou com o Cerynise nos braços. - Pode-se guardar segredos a longo prazo entre marido e mulher? Os matrimônios costumam trocar as mais íntimas confissões. - Isso significa que temos que ser íntimos? - Beau fechou de um chute e sorriu a sua esposa sem soltá-la. Teve tentações de lhe dar outro beijo como o do convés, mas a última pergunta despertou sua curiosidade. Dava-se conta de que Cerynise não se referia nem suspeitava no que pensava ele. Uma coisa era ser "amigos íntimos", e outra muito distinta ter "relações íntimas"; entretanto, respondeu com uma pergunta mais relacionada com o alívio de suas próprias tensões. - Você gostaria que fôssemos, querida? - Dando-se conta do significado da pergunta, e sentindo o atento olhar do Beau, Cerynise se ruborizou; entretanto, conservou aprumo para inquirir com doçura: - Você gostaria de continuar casado comigo? - Beau julgou difícil dar uma resposta sincera que não malograsse o clima de cordialidade. Por consideração a Cerynise, fingiu refletir. - Tudo depende do bem que nós levaremos em nossa intimidade - disse por fim. Ela assentiu com a cabeça, mostrando ter entendido. Beau queria que fossem íntimos, mas não queria ver cortada de sua vida, sua liberdade. - Estou segura de que a viagem nos proporcionará provas suficientes sobre nosso grau de compatibilidade sem que haja união física, capitão; assim, se está fazendo propostas a sua esposa, talvez convenha ter em conta que não as aceitarei sem um compromisso duradouro. Ele suspirou. - Esperava essa resposta. - Decepcionado, capitão? - perguntou Cerynise com fingida preocupação. - Parece-me que é uma descarada - assinalou Beau, depositando-a no chão. Apesar dos grossos tecidos que os separavam, o roçar de seus corpos criou um agudo desejo que não fez mais que intensificar a inquietação de Beau sobre como confrontar a tensão de não tocá-la durante as semanas e meses vindouros. Entretanto, havia algo mais, algo estranho. Pouco antes desejou beijá-la, e a tentação não cedera um ápice. Desejava separar com um beijo aqueles lábios doces e perfeitos, um beijo que expressasse toda a paixão de um recém casado. Era um impulso que o desagradava, por não vir de seu modo habitual de pensar. Tratando-se de um homem que tinha recusado beijar a meretrizes nos momentos culminantes do prazer, o incontido afã que o atazanava era algo novo, insólito. Com as rameiras não faziam falta beijos, tinha concluído tempo atrás, considerando-o como uma prática excessivamente pessoal para unir sua boca a delas. Certo que a fornicação trazia desta forma considerável intimidade, mas Beau, como marinheiro e celibatário resolvido a continuar sendo-o, viu-se na necessidade de aliviar desse modo seu temperamento e impulsos


masculinos. Imaginou-se de repente vítima de um feitiço de amor, suspirando pelos beijos e pelo corpo de Cerynise, e por muito que o indignasse essa imagem detectou nela indícios de verdade. Não podia negar sua avidez de possuir a ambos. Tomando Cerynise pela mão, afastou-a de si com suavidade, concedendo-se por sua vez tempo suficiente para ficar diante do lavatório. Enquanto se lavava voltou a cabeça e disse: -Espera-nos nosso festim nupcial, senhora. No pouco que nos atrasamos se esfriou. Cerynise tirou o xale e aguardou timidamente que Beau se despojasse de sua roupa. O capitão tirou a gravata e desabotoou a camisa, aproximando-se da mesa. Depois puxou uma cadeira para Cerynise, mas evitou olhá-la, como parte de seu esforço para manter nas rédeas seus pensamentos licenciosos. Desde há um tempo tinha a impressão de que bastava pôr o olho em cima dela para sentir anseios urgentes de possuí-la. O beijo que lhe dera no convés tinha inflamado seu sangue, comunicando-lhe a certeza de que daí em diante encontraria grande dificuldade em dominar tão insaciáveis desejos. Uma vez sentados, ele abriu o vinho e encheu duas taças quase até o bordo, enquanto Cerynise, em seu papel de diligente esposa, servia em duas terrinas a sopa de frutos do mar. Comeram em silêncio, absortos em examinar seus respectivos apuros. A idéia de deitar-se com Beau enquanto sua esposa era, por suposição, a culminação de um velho sonho, mas ela percebia que a prudência desaconselhava isso, pois podia muito bem ficar grávida e acabar tratada como um simples estorvo. Beau, por sua parte, tinha plena consciência dos compromissos que teria que aceitar se fosse dispor livremente da virgindade de Cerynise. Só fazia alguns dias que a jovem tinha voltado para sua vida e acabara de converter-se em sua esposa. Tendo compartilhado tão breve período, como tomar decisões que o atassem a ela por toda a vida? Necessitava tempo para conhecê-la! E ela a ele! Além disso, se aceitasse as condições expostas pela jovem, teria que despedir-se para sempre da navegação, idéia que não lhe agradava muito. Cerynise estava impaciente para ouvir falar de Charleston, e embora Beau estivesse ausente vários meses de sua cidade natal, suas notícias eram mais recentes que as de sua esposa. - Lembra-se de quando o senhor Downs ia à escola para queixar-se de que os meninos passavam correndo por seu jardim na saída das aulas? Já terá morrido ? - Não. Agora são seus netos que pisoteiam a grama - disse Beau entre risadas. - Com eles, entretanto, é muito mais tolerante. -Sempre o vi como um velho resmungão, mas duvido que o fosse. Suspeito que eu reagiria da mesma forma se alguém destruísse o fruto de tantos esforços. Eu gostaria de ver o senhor Downs, embora só fosse pelas lembranças que guardo de minha casa e da escola de meu pai. - Poderíamos ir vê-lo em minha carruagem quando estivermos em Charleston - propôs Beau.


Cerynise amadureceu sua resposta com um doce sorriso. - Seria um prazer, Beau. Tenho muitas lembranças de vocês quando éramos pequenos... Ou melhor dizendo, quando eu era pequena e você um jovem oito anos mais velho. - Esteja segura de que vai deslumbrar seus vizinhos de antes. É provável que ainda guardem a imagem de você como uma menina fraca, com tranças e olhos enormes. Cerynise riu baixo. - Por favor, Beau, não me recorde como era horrível nessa época. - Estão errados, senhora, se recordarem de você como uma menina feia. Seria incompatível com seu aspecto atual, digno de um cisne em elegância e beleza. - Por favor! - voltou a suplicar ela entre risadas. - Suas maravilhosas adulações alimentarão minha vaidade. Beau lhe sorriu ao mesmo tempo em que voltava a lhe encher a taça. - Acha que minto? - Sei que não é um mentiroso, Beau. Tenho lembranças de sobra das múltiplas ocasiões em que disse a verdade a meu pai embora pudesse lhe custar um severo castigo. Não posso senão pensar que essa franqueza se manteve na idade adulta. Que medo tinha meu pai de que se matasse montando aquele cavalo, seu favorito! Quando não chegava ao final da lição aproveitava para obrigá-lo a sair mais tarde da escola, e tudo para não ter que preocupar-se de que estivesse galopando nas costas daquele animal. - No final o velho Sawney ficou cego, e meu pai não teve mais remédio que sacrificá-lo. Estou certo de que a causa foram esses bosquezinhos de espinheiro pelos quais insistia em me levar. Às vezes metia na cabeça que não queria que o montassem, e fazia o possível para desembaraçar-se de mim. - Sim, lembro perfeitamente de uma dessas ocasiões, e agora que ouço você, vejo que meu pai tinha motivos de inquietação. - Tinha-os, com efeito, mas eu estava resolvido a domar a aquela besta. Quase me custou a vida. - Me alegro de que não foi assim - murmurou Cerynise. Seu doce olhar e cálido sorriso eram o sonho de todo marinheiro ancorado em porto estranho, e o que podia ansiar durante meses longe do lar. Se Beau tomasse seriamente por esposa, como separar-se dela mais tarde? Finalizado o jantar, ele tirou do armário umas calças que estava costumado a vestir para trabalhar. Depois de desabotoar as que levava, olhou para Cerynise e advertiu-a: - Se lhe causar perturbação ver um homem trocar de roupa, aconselho-a que se vire. Devo retornar ao convés, e por Deus! não penso ir a outro camarote cada vez que vista as calças. Meus homens, que acabam de presenciar nosso matrimônio, julgariam isso estranho. Deu-lhe as costas com frieza. - Está zangado comigo porque recusei sua proposta de intimidade, ou têm por costume grunhir a todas suas esposas?


Beau respondeu com uma seca gargalhada. Recebera provas concludentes de que a proximidade de sua esposa despertava nele todos os instintos carnais que levava dentro, e seu estado de ânimo deixava a desejar. Como ia ocorrer sequer ser cortês, quando não tinha a menor esperança de que ela cedesse a seus desejos? - Já que vai ser minha esposa, embora só seja por espaço de umas semanas, terá que se acostumar a me ouvir blasfemar. Os marinheiros têm costume de dizer o que pensam sem prestar atenção se há mulheres por perto. - E pensa me instruir no jargão dos marinheiros? Seguiu-se um longo silêncio. Cerynise, que aguardava a resposta a sua inocente brincadeira, mordiscou o lábio inferior. Quando era menina tivera o costume de zombar dele. Como não fazê-lo agora? Enquanto tirava sua camisa e suas calças, Beau examinou a tensa silhueta de sua jovem esposa. Cerynise, é obvio, não suspeitava até que ponto era doloroso ter que reprimir seus instintos viris. Quanto ao Beau, ignorava se podia tirar algum proveito ao lhe dizer a verdade; entretanto, pensou que nada perdia tentando-o. - O que seriamente desejo, querida, é lhe instruir em algo mais prazeroso. Uma vez que não o consente, não estranhe ver-me nervoso em sua presença. É difícil para um homem não olhar a uma mulher formosa sem imaginá-la nua em seus braços. Em seu caso não tenho necessidade de imaginar. Trago-a

em minha mente desde sua primeira noite em meu

camarote. - Refere-se a quando me banhou? A surpresa o deixou quase boquiaberto. Supôs que Cerynise se estaria esforçando-se para manter seu olhar na parede do fundo, mas intuiu nela desejo de desfrutar seu desconcerto. -Como sabe? - Vi em sua tina um cabelo comprido muito parecido com os meus. Beau se aproximou dela abotoando-as calças. - Tinha que fazer algo, Cerynise. Estava congelada dos pés a cabeça, e não desejava vêla morrer por causa disso. Presenciei nestes últimos anos o falecimento de um homem que sucumbiu a uma temperatura gélida por querer alcançar nosso navio na volta de uma folga. Estava tão fria que tive medo de que não sobrevivesse. - Já não há perigo em dar meia volta? - Não. Cerynise se virou com lentidão, e sentiu uma onda de calor que se apoderava de seu rosto e subia até o alto da cabeça. Beau estava nu da cintura para cima. A visão daqueles ombros largos e quadrados, e daquele tronco musculoso que se estreitava até uma escura cintura, deixou-a sem fôlego. - N-não está vê-vestido - gaguejou, confusa e desconcertada pelo espetáculo de tanta graça e beleza masculinas. Reparando na cor vermelha de suas faces, Beau a olhou com curiosidade e continuou


aproximando-se. - Alguma vez viu um homem sem camisa? - Talvez quando menina, mas só o meu pai. - Cerynise olhou para outro lugar. - Não recordo nenhuma outra ocasião. - Me olhe, Cerynise. - Diante da recusa da jovem, Beau lhe agarrou a mão e a pôs no peito, segurando-a com firmeza para que não pudesse retirá-la por muito que se esforçasse. O que vê? Sou de carne e osso. Não há de que envergonhar-se. Ela ergueu a vista, posando-a no anil dos olhos de Beau. Pareciam brilhar com um fogo interno que comunicava seu ardor ao mais fundo de Cerynise. -Não posso negar a escassa frequência de meus encontros com homens meio nus. Olhou com acanhamento o musculoso corpo. - Entretanto, e confiando em minha intuição, diria que falta pouco para você ser perfeito. Beau riu entre dentes. - Por Deus! De quem procedem agora as adulações? - É certo - suspirou ela, esboçando um sorriso com lábios trêmulos. Ele pôs a mão de sua esposa mais perto do coração, e depois sobre um de seus mamilos. A seguir a fez escorregar lentamente por seu peito e descer até a cintura de suas calças, sem deixar de olhá-la nos olhos, cuja crescente limpidez não soube atribuir mais que ao desejo. Aproximou-se o suficiente para tocá-la com o tronco nu, e inclinou a cabeça para seus lábios. Viu que se separavam para receber aos seus. Não necessitava mais de desculpa. De repente Cerynise estava em seus braços, que a rodeavam com força aflita. Beau explorou sua boca, embriagado de prazer, e seus beijos mostraram a intensidade de seu desejo. Seus dedos começaram a desabotoar colchetes nas costas da jovem, separando com destreza a abertura do vestido até chegar aos quadris, momento em que pôde retirá-lo dos ombros e braços de sua proprietária. O vestido separou-se da anágua com um suave frufru, e Beau retrocedeu para contemplá-la. Os seios de Cerynise, ocultos apenas pelo diáfano tecido, surgiam escuros do espartilho, despertando lembranças de quando a despojou apressadamente de sua roupa empapada. Naquela ocasião estivera muito inquieto por sua saúde para permitir-se olhar com olhos de homem suas formas femininas. Só depois, uma vez seguro de que a doente reviveria, sua memória o tinha espetado com visões da empapada camisa grudada nuns seios volumosos e num corpo esbelto, avivando seu apetite em grau não desdenhável. O mesmo aconteceu desta vez. Beau, risonho, posou a vista naqueles olhos escuros e transparentes em cuja expressão prudente lia-se acanhamento e incerteza. Sentindo-se objeto de tão intenso olhar, Cerynise quis cobrir os seios, mas ele negou com a cabeça. - Deixe que eu os olhe - insistiu docemente, agarrando-lhe ambas as mãos. Foi tocando sua pele com beijos delicados, subindo do pulso ao branco ombro, e extraindo suaves e entrecortados suspiros dos lábios da jovem. Os lábios do Beau percorreram sua sedosa pele em suave descida até chegar à tentadora plenitude que aparecia insolente pelo


encaixe do corpete. Acariciou os elásticos redondos com beijos quentes, fazendo que Cerynise entrecerrasse os olhos. Quando estava perto dos topos, cobertos de tecido, afastou-se e os deixou para mais tarde, invertendo a direção de seu lento e travesso percurso e concentrandoo no pescoço. Depois se ergueu em toda sua estatura e, aos examinar o rosto de sua esposa com atenção, fez que suas bocas se unissem. Como não detectava sinais de resistência, fez delicados avanços com a língua até conseguir enlaçar a de Cerynise, cuja tímida mas ativa reação o encheu de deleite. Seus beijos intensificarão a reação, introduzindo a língua em profundidades cada vez maiores, até que, no louco frenesi de suas bocas unidas, pouco lhe faltou para devorar os lábios que cobria com os seus. Cerynise tinha a sensação de que todo seu ser estava a ponto de dissolver-se, mas seu coração palpitou a maior velocidade quando Beau retrocedeu para acariciá-la por cima da camisa, retirando provocativamente o objeto íntimo até que surgiu do espartilho a parte superior de uma tenra esfera rosada. Fascinado por sua suavidade, esfregou brandamente com a ponta de um dedo a sedosa textura, e, fazendo descer suas carícias de forma quase imperceptível, incrementou o ritmo, desenfreado já, dos batimentos do coração de Cerynise. Esta conteve bruscamente o fôlego, como reação imediata em que o pequeno nódulo ficava livre de travas e se convertia em objeto de uma suave massagem por parte do polegar de Beau, deslocado mais tarde para a rosada aréola com um movimento circular. A gratificação que sentia Beau por ter chegado tão longe sem que o detivesse arrancou um suspiro de seus lábios. Sua boca desceu bruscamente e se apoderou do mamilo, sobressaltando ao Cerynise, que teve dificuldade em abafar um grito. Um fogo abrasador começou a acariciar com frouxidão a maleável protuberância, despertando desejos insaciáveis no mais fundo da jovem, cujos lábios deixaram por fim escapar um surdo gemido. Sua cabeça caiu para trás em êxtase, e seu corpo se entregou por completo ao prazer sensual que nele brotava. Teve a vaga consciência de que lhe estavam desabotoando por detrás o espartilho, cuja queda foi simultânea a da anágua. Beau lhe soltou a cabeleira, que caiu pelos ombros em reluzentes ondas. Sua mão percorreu o sedoso comprimento do cabelo e, descendo pelas costas, chegou por fim ao calção. Introduziu-se por debaixo do tecido, movendo-se pelas nuas nádegas e apalpando sua deliciosa redondez até que Cerynise sentiu o impulso de estreitar-se contra a dura proeminência oculta sob as calças de seu marido. De repente se sentiu agarrada pelos braços por ele. Beau chegou ao seu beliche em três passadas, depositou nele Cerynise e afastou a colcha com um puxão. Depois de despojar a sua esposa das últimas roupas que a cobriam, retrocedeu para tirar as calças, sem incomodar-se em dar meia volta. Cerynise contemplou com olhos desmesuradamente abertos a conspícua exibição viril, mas imediatamente teve ao Beau contra ela, lhe beijando o rosto e os seios e lhe mordiscando a cintura e os quadris. - Desejo-te - murmurou Beau com voz rouca, deslizando suas mãos de cima abaixo do corpo de Cerynise e subindo de novo até as colocar entre suas coxas. A intrusão sobressaltou


Cerynise, que tentou virar-se para um lado, mas Beau insistiu para relaxar-se mediante palavras doces e beijos sensuais, até que percebeu que se abria a ele. Com infinita suavidade apalpou sua feminina brandura, e em pouco tempo os sentidos da jovem caíram presos de um enlevado torvelinho. Nasceram então desconhecidas chamas que, surgindo de suas entranhas, convulsionaram seu corpo inteiro, inundado por envolventes sensações. Cerynise obedeceu ao impulso de ficar de lado e ter ao Beau frente a frente. Em breves instantes, lábios e línguas se uniram em um selvagem intercâmbio de beijos enfebrecidos. Inflamada por eles, aproximou-se ao corpo musculoso de Beau e apoiou em seu quadril uma coxa esbelta. A ardente espada fez avanços decididos para acariciar a úmida brandura feminina, até que seu lento e incitante vaivém pela zona exterior evocou sensações que fizeram ambos ofegar, tão sensual era o prazer. Cerynise, toda ousadia, e rompidas às barreiras do pudor, começou a cobrir de beijos e carícias o peito brilhante e musculoso de seu marido. Seus dedos brincaram timidamente com seus mamilos, pequenos e duros, e tocaram seus peitorais. No momento seguinte Beau tinha agarrada sua mão e a fazia descer por seu tronco até fechá-la sobre a dura haste, fazendo com que Cerynise abafasse uma exclamação. Ao mesmo tempo em que lhe acariciava o rosto com seus beijos, sussurrou-lhe palavras ao ouvido, e Cerynise cumpriu timidamente suas instruções até deixá-lo sem fôlego. A satisfação de lhe proporcionar prazer deu asas a sua coragem, e, cada vez mais atrevida, deixou-se levar pela curiosidade, guiando ao Beau até topos que ele jamais considerara possíveis antes da introdução. No final de contas, talvez existissem argumentos a favor do ato carnal tal como se efetua com uma esposa, no lugar de uma mulher de mundo bem versada em tais misteres. A porta ressoou com golpes vigorosos, que sobressaltaram Cerynise e fizeram Beau grunhir. Este passou uma mão pela testa, amaldiçoando por dentro a quem tinha a crueldade de interrompê-los naquele momento de suprema intimidade. - O que acontece? - perguntou ao intruso, apoiando-se em um cotovelo e olhando a porta com cara de poucos amigos. - Desculpe, capitão - respondeu Billy Todd com voz contrita do outro lado da barreira. O senhor Oaks me ordenou descer para lhe dizer que subiu a bordo um homem do escritório do juiz, e que solicita examinar sua documentação e verificar seu calendário de embarque. Diz que enquanto não tenha solucionado sua disputa com o senhor Winthrop ele e seus homens vigiarão o Audaz para assegurar-se de que não tentem fugir. Beau teve a certeza de que se achasse em presença do Alistair Winthrop o teria submetido sem maior demora a um delito de lesões físicas. - Agora mesmo subo com os documentos. Cerynise se cobriu com o lençol, enquanto Beau exalava um suspiro e apoiava no chão suas longas pernas. Ficou sentado com profunda contrariedade, apoiando um cotovelo no joelho e a cabeça na mão. Parecia-lhe incrível ter chegado tão longe e ver-se detido na soleira do prazer. Voltou-se para o Cerynise e lhe deu um beijo com idêntica paixão que antes. - Espere aqui - sussurrou contra seus lábios, antes de olhá-la nos olhos com um sorriso. -


Voltarei assim que puder. Não sabendo o que dizer, Cerynise o olhou atentamente. Os golpes na porta fizeram algo mais que sobressaltá-la. Despertaram nela a consciência de que estivera a ponto de se entregar a Beau. No final de contas, não tinha dele compromisso algum quanto ao futuro, e o fato de estar casados não impedia que uma vez em Charleston Beau queria ter de novo sua liberdade. Se a pedisse, Cerynise estava certa de concedê-la uma vez que nem em sonhos lhe teria ocorrido retê-lo contra sua vontade, por mais ferida que se sentisse. Convém que guarde distância, sussurrou-lhe a prudência. Assim não terá que preocupar-se de que a deixe grávida. Olhando seu novo marido vestir-se, Cerynise se sentiu um pouco descarada, mas se seu matrimônio não lhe desse mais benefícios que breves episódios de intimidade como aquele, estava resolvida a desfrutar de quantos pudesse antes de lhe fechar a porta no rosto. Muito pouco tempo faltava já para isso.

CAPÍTULO 6

- Como não deseja vir à cama comigo? - disse Beau com dureza a sua jovem esposa. Nela estava há alguns instantes. O que mudou desde minha subida ao convés? Cada uma de suas palavras fez estremecer Cerynise, incapaz de conter seus tremores ante o terrível olhar de Beau. Previu que sua declaração de propósitos o fizesse ir às nuvens, mas não de forma tão ensurdecedora. - Rogo que baixe a voz, Beau - suplicou, - ou todo o navio saberá de nossa situação. Em um arrebatamento de mau gênio, Beau grunhiu e jogou seu livro de bordo, que fez impacto no canto do armário e produziu uma caótica revoada de vários documentos. - Dá na mesma para mim, senhora. Como se nos ouvissem até a China. Só quero saber o que a fez mudar de idéia enquanto eu estava no convés falando com esse imbecil de oficial ! - Dir-lhe-ei se abaixar a voz. Agora bem, se persistir em gritar comigo abandonarei este navio e deixarei que vá sem mim para as Carolinas. Ele bufou de raiva, aproximou-se de seu armário e começou a recolher, de joelhos, os documentos. Pouco antes, ao sair do camarote, tivera a sensação de que lhe arrancavam as entranhas, tão intenso fora nele o fogo da paixão. Dizer que a declaração de sua esposa o tinha decepcionado era rebaixar em muito o alcance de sua aflição. - Sei que na realidade não deseja o matrimônio - disse Cerynise com nervosismo, antes de ficar subitamente acovardada pelo modo como Beau a olhava por cima do ombro. Tomando coragem, obrigou-se a prosseguir, embora com um tremor de voz incontrolável. - Se lhe permitisse dispor de mim, e se em resultado disso ficasse grávida, sua liberdade se veria ameaçada. Não desejo que se sinta preso a mim só por ter de dispensar o devido tratamento ao seu filho. portanto, se continua disposto a me levar a Charleston, acredito preferível interpor certa distância entre os dois. Se pudesse dispor de outro camarote...


Beau teve vontade de jogar de novo seu livro de bordo, desta vez do outro lado do camarote; entretanto, reprimiu sua vontade de derrubar sua ira no já maltratado volume, e o substituiu como alvo à sua atraente esposa. - Maldita seja, mulher! Já não lhe disse que não sobra nenhum que não esteja abarrotado de carregamento? Ela retorceu as mãos, consciente de que não poderia resistir a um segundo assédio por parte do Beau e suas persuasivas carícias. Bastava para rendê-la um suave e insinuante beijo. - Só preciso de uma parte de chão suficiente para estender uma manta, e um lugar onde me lavar e me vestir. Beau resmungou uma blasfêmia. Ato seguido, foi para a porta do camarote, abriu-a de modo brusco e rugiu no corredor: - Oaks! Depois se aproximou de sua escrivaninha e lançou em cima o livro de bordo. Pousou em Cerynise um olhar de intensa irritação, que expressava às claras sua viva indignação pelo transe em que se achava. A partir de então se dedicou a passear com os punhos apertados e os braços cruzados nas costas, aguardando a chegada de seu primeiro oficial. Cerynise o observou com cautela. A personalidade de Beau Birmingham sofreu mudanças cujo alcance começava apenas a entender. Só restavam rastros superficiais do moço cuja lembrança tinha permanecido viva em sua memória. Era um homem mais decidido, um homem que tinha muito para olhá-la expressando a intensidade de sua ira. Acostumou-se a ter autoridade e ver obedecidas suas ordens imediatamente. Aceitando casar-se com ele, ela se tinha posto sob seu domínio. Enquanto seu marido, ele tinha o direito absoluto de confiná-la em um camarote e lhe fazer o amor sempre que o desejasse; entretanto, a negativa de Cerynise o enfrentava com algo similar a um motim da tripulação. Ouvindo passos rápidos pela escada, Cerynise concentrou sua atenção na porta aberta, onde pouco depois apareceu, ofegante, o primeiro oficial. - Chamou, capitão? - perguntou Oaks com um amplo sorriso. - Sim! - respondeu Beau, mal-humorado. - Faça com que alguns homens retirem o carregamento do camarote contiguo. Oaks mostrou desconcerto. - Onde o deixo, senhor? - Onde puder! -bradou Beau, levantando uma mão em sinal de impaciência e irritação. Preferivelmente em outros camarotes, se sobrar lugar. Oaks, tão perplexo como antes, indicou com a cabeça o camarote contiguo. - O que deseja que se faça com este uma vez vazio? - Ponham em condições para a senhora... - A senhora...? - Oaks olhou Beau e Cerynise, boquiaberto. - Refere-se a... sua... sua esposa, senhor? - Há alguma outra dama a bordo? -inquiriu Beau sardonicamente, apoiando ambos os


punhos em seus esbeltos quadris - Naturalmente que me refiro a minha esposa! - Mas... pensava que... - Não pense, droga! Faça o que lhes ordeno e ponto! - Sim, meu capitão. Nervoso e ofuscado, o primeiro oficial saiu do camarote a tropeções e com admirável rapidez, conservando presença de ânimo suficiente para fechar a porta a sua saída. Cerynise quase se compadeceu, mas estava mais preocupada consigo mesmo e com o que pudesse fazer seu marido. Aguardou em atitude temerosa, enquanto Beau dava meia volta e se dirigia às janelas da galeria, como se já não suportasse vê-la nem um segundo mais. Contemplando o rio, voltou a cruzar as mãos nas costas e permaneceu erguido em rígida postura, separando muito suas longas pernas cobertas por calças escuras e lustrosas botas. Enquanto isso, Cerynise começou a recolher discretamente seus pertences para a mudança a outro camarote. A voz de Beau a sobressaltou, pondo fim ao silêncio. - Não vai negar que também desfrutou - desafiou-a sem voltar-se. – se não fosse a intromissão me teria deixado que lhe fizesse o amor. Cerynise sabia de sobra até que ponto era certo; não obstante, absteve-se de responder, uma vez que em nada a teria beneficiado relatar o arrebatamento que a tinha induzido seu ardor. - Que não gostou? - prosseguiu ele, inalterável. - Incomodava-a me tocar? Ela abriu a boca, mas a fechou antes de pronunciar uma negativa. Reconhecer o prazer extremo que lhe produziram as carícias do Beau teria equivalido a incentivar seus esforços para submetê-la. - Nega-se a comentar o que aconteceu entre nós? - disse Beau. - Não me atrevo - respondeu ela mansamente, olhando suas robustas costas. - A única coisa que posso dizer é que não me desagradou a experiência; ao contrário, foi bastante prazerosa, mas ambos sabemos o que me aconteceria em um momento ou outro se lhe permitisse dispor de mim com liberdade. Enquanto não tiver a certeza de que está convencido de me querer por esposa, não só agora mas também nos anos vindouros, será melhor que me furte a você até que se anule nosso matrimônio. - Assim, estende a mesma armadilha como todas as mulheres que arrastam aos homens ao matrimônio - acusou ele com insídia. - Me deixa que saboreie um suculento bocado e a partir desse momento me apresenta pendurado isso num pau, até que a angústia me force a lhe conceder quanto deseja em troca de que me dê o que procuro. O cruel comentário provocou no Cerynise uma profunda irritação. - Lembre-se, meu senhor, que foi você quem propôs o matrimônio como solução para abandonar Londres comigo e com seu navio. - Beau se voltou para olhá-la, mas ela continuou em sua insistência. - O acordo nominal foi sua idéia; agora, em troca, geme e lamenta porque o ameaço a ater-se a sua proposta. Economize suas patéticas desculpas sobre quão difícil é para um homem estar perto de uma mulher. É o preço que deve pagar por querer recuperar o


celibato uma vez que cheguemos a Charleston! Não lhe pedi nada mais do que já me deu. Seja você suficientemente cavalheiro para fazer o mesmo. Dirigindo a Beau um último e severo olhar, caminhou para a porta, abriu-a e protagonizou uma partida zangada. - Cerynise, volte, por mil demônios! - Fazendo caso omisso do zangado mandato, a jovem recolheu a saia e pôs-se a correr pelo corredor e pela escada. Ouviu que Beau a seguia, mas suas maldições e passos acelerados não fizeram mais que lhe dar asas. Chegou sem fôlego ao último degrau. Quase todos os que estavam perto da escada a olharam com curiosidade, mas o que não esperava Cerynise era a presença de dois cavalheiros jovens e de elegante traje que se cruzaram em seu caminho no momento mesmo em que saltava para o convés. A colisão resultante ameaçou seriamente o equilíbrio da jovem, razão pela qual um dos galãs a agarrou pelo braço, tratando de evitar sua queda. Por sua vez, o desconhecido sentiu uma forte pressão no pulso. - Não toque na minha esposa! - ordenou Beau, que na sua pressa por alcançá-la subiu os degraus de três em três. O acesso de ciúmes que sentiu ao ver que outro homem tocava a sua mulher estivera a ponto de fazer que imprimisse o punho no rosto do mencionado cavalheiro. - Desculpe, senhor - disse o elegante jovem, dando um passo atrás. - Pareceu-me que estava a ponto de cair. De outro modo nunca teria cometido tal ousadia. Beau, um pouco mais calmo, sorriu-lhe forçadamente. Pouco mais podia fazer, porque continuava zangado pela fuga de Cerynise. Agarrou a esta pela mão, e adivinhando por seu gélido olhar que estava resolvida a recuperar a liberdade, levou às costas a mão cativa, segurando-a com firmeza onde não pudessem vê-la. Por fim, olhando ao jovem, conseguiu articular uma resposta. - Com certeza minha esposa lhe agradece isso, cavalheiro. E agora me desculpe, mas estávamos discutindo um assunto de suma importância... - É o capitão? -perguntou o segundo cavalheiro. Beau assentiu com um gesto rígido. - Sim. Os dois desconhecidos trocaram sorrisos de alívio, antes de que o segundo tomasse de novo a palavra. - Seu primeiro oficial nos disse que estava indisposto, capitão, mas fizemos uma longa viagem para expor um assunto que deveria lhe interessar em extremo. Dispomos de alguns artigos excepcionais que, conforme disse um comerciante que os conhece, poderiam suscitar sua curiosidade, sendo como é colecionador de objetos artísticos. - E de que artigos se trata? - De quadros, senhor - respondeu o primeiro cavalheiro. - Trouxemos um para que você mesmo veja de que qualidade falamos. Teria interesse em examiná-lo?


Ocorriam a Beau momentos mais indicados que aquele para prestar atenção ao que haviam lhe trazido os dois jovens, sobretudo tendo em conta as dissimuladas resistências de Cerynise; mesmo assim deu seu consentimento, tenazmente aferrado ao fino pulso. Em um abrir e fechar de olhos o segundo cavalheiro, que se tinha apressado a descer do navio, estava de volta com um tecido emoldurado, envolto com pano suave. - Preste atenção, capitão - disse o primeiro jovem, olhando ao Beau com um sorriso. Observou atentamente a desembalasse da obra e, quando seu companheiro orientou a pintura para o capitão, assinalou-a com florido gesto. - Viu coisa igual? Cerynise abafou um grito ao reconhecer um de seus quadros. Representava a uma mulher com um menino nos braços levando uma cesta de comida a seu marido, o qual, interrompendo seu trabalho, estendia as mãos para sustentar ao encaracolado infante. Vendoo de novo naquelas circunstâncias, Cerynise teve fortes desejos de voltar a rir. Embora os dois jovens não se davam conta de havê-la elogiado com sua definição do quadro como artigo excepcional de muito alta qualidade, Cerynise reprimiu seu regozijo e se aproximou de Beau para lhe dizer algo. - Querido - lhe sussurrou ao ouvido, - poderia lhe falar em particular alguns instantes, se não for incomodo? Beau, embora confuso pelo afetuoso término, desculpou-se ante os visitantes. Ao lhes dar as costas se viu obrigado a soltar a mão de sua esposa, mas levou a agradável surpresa de senti-la deslizar-se no vazio de seu braço. Uma vez a salvo de ouvidos indiscretos, olhou a jovem. - O que acontece, Cerynise? - Beau, acredito sinceramente que esses homens se propõem a enganá-lo. O capitão franziu o sobrecenho, estranhando. - Por que o diz? O quadro é excelente. Possui qualidades que não vejo com frequência... como há nas obras dos pintores antigos. Cerynise lhe sorriu efusivamente. - Obrigada. Ao assombro que produziu no Beau a descoberta da verdade se somou sua admiração para com a obra. - A autora desse quadro é você? - Cerynise assentiu vigorosamente com a cabeça. - Sim, e se vendeu por quase quinhentas libras. - Jamais imaginei que pudesse pintar tão bem - reconheceu Beau, impressionado pelo talento da jovem. Depois fez um gesto com a mão, como querendo rebater sua anterior afirmação. - O que quero dizer é que depois de ouvi-la explicar a que preços estava acostumada a vender-se suas obras esperava algo muito mais elogiável que o que imaginou a princípio, mas não um talento digno do Rembrandt. - Oh, Beau, que lindo! - Cerynise sorriu com doçura e acariciou a mão de Beau, expulsando de sua mente e espírito todo rescaldo de ira. - É o mais bonito elogio que fizeram


em minha vida. - Não é mais que a verdade. Cerynise brincou timidamente com um dos botões da camisa do Beau, provocando alterações estranhas no coração deste. - Então dirá a esses dois indivíduos que conhecem suas maquinações, e que mais vale saírem correndo antes que os jogue pela amurada, como ameaçou fazer com Alistair? Beau apontou a escada. - Por que não me espera em meu camarote, querida? Preferiria que não ouvisse nossa discussão. Poderia ofender seus ouvidos. - É claro - respondeu Cerynise, sentindo de repente infinita compaixão pelos dois homens. Beau aguardou ouvir fechar a porta do camarote, e só então voltou aos seus visitantes. - Cavalheiros, interessa-me muito o quadro que trouxestes, e desejaria saber se dispõe de outras obras do mesmo artista. - Lamento lhe dizer que não. Este é tão excepcional que nos sentimos enormemente privilegiados por ter caído em nossas mãos, por causa do falecimento de um tio. Possuímos, não obstante, outros de igual valor. - Não me interessa nenhum outro. Só este. Quanto desejam por ele? - Considerando seu caráter excepcional, não poderíamos renunciar a ele por menos de vinte mil libras. -Dar-lhes-ei sete mil, e nem um penny mais. O primeiro jovem se dispôs a regatear. -Não sei o que lhe dizer... Beau começou a virar-se. Depois de uma inquieta troca de olhares, o segundo jovem se apressou a intervir. - Bem, capitão, dado que nossa presente situação é um pouco apertada... - Não será roubado! - disse Beau, dirigindo a ambos um olhar suspicaz. - Não, não! Absolutamente! - declarou o primeiro; e, com rosto de causar pena, confessou: - O certo, senhor, é que nos expulsaram do domicílio familiar depois que nosso pai recebeu a fatura de nossos alfaiates. Disse que nunca veremos um só xelim de nossa herança a menos que aprendamos a controlar os gastos. Enquanto isso, os alfaiates nos ameaçam com graves consequências se não os pagarmos. Aceitamos as sete mil. Não será suficiente para saldar nossas dívidas, mas aplacará aos alfaiates até que consigamos vender outros quadros. - Como chegou este a suas mãos? - Minha mãe comprou-o recentemente, junto com outros de singular qualidade. Propunha-se integrá-los a sua coleção, mas como nosso pai proibiu de nos pagar em moeda, optou por nos dar de presente os quadros. Beau assentiu com a cabeça, convencido de que diziam a verdade. - Pedirei a meu oficial que traga dinheiro e um recibo que possam assinar.


Os jovens sorriram e aguardaram que Beau se afastasse deles para falar com o Oaks. - Necessito que desça ao camarote e solicite a minha esposa que o deixe entrar, pelo menos o tempo suficiente para abrir a caixa forte e pegar um recibo. Se perguntar algo... coisa que duvido... diga-lhe que subiram a bordo alguns comerciantes para cobrar uma dívida. Conte sete mil libras, prepare para estes dois moços um recibo pela mesma soma e retorne. Enquanto seu capitão lhe dava instruções, Oaks estivera admirando o quadro, e não pôde resistir a formular umas perguntas. - Uma nova aquisição, capitão? - Sorriu a Beau, cuja vista se dirigiu ao quadro. - É muito bonito. - Também o é quem o pintou. Oaks pôs cara de surpresa. - Refere-se a...? - Minha mulher - respondeu Beau, deixando que um espartano sorriso curvasse seus lábios. - Mas não é para ela. Será um presente de Natal para meus pais. - Magnífico presente, senhor. - Sim, acredito nisso, embora preferiria que não mencionasse o assunto a minha esposa. - Têm minha palavra, capitão - declarou Oaks, levando uma mão ao peito. - Bem. Vai, pois. Após dar uns passos, Oaks se deteve e se voltou pela metade com outra pergunta. - Continua querendo que os homens limpem o camarote contiguo ao seu, senhor? Beau afastou o olhar com expressão lúgubre e carrancuda. - Ao que parece minha esposa deseja mais intimidade do que pode lhe proporcionar o meu. O primeiro oficial suspirou, perguntando-se se a jovem se dava conta do que estava pedindo a seu marido, ou, em caso afirmativo, se tinha algum indício do que esperava à tripulação achando-se seu capitão em tais estreitezas. - É uma lástima, senhor. - É, com efeito, senhor Oaks. Pouco depois Cerynise entrou no pequeno camarote que lhe cedera, e ao dar uma olhada ao sombrio interior quase sentiu calafrios. As paredes, desprovidas de janelas, pareciam encerrá-la pelos quatro lados da habitação, cuja superfície calculou em menos de uma quarta parte da do camarote do Beau. O único consolo era proporcionado pela porta, mas só porque a deixou aberta. Deu como fato que a viagem a casa reportaria graves sofrimentos, dada sua excepcional aversão a ver-se confinada em lugares pequenos. Num extremo havia um beliche, mas muito menor que o do capitão, e em lugar de um suave edredom de plumas o colchão tinha enrugadas mantas de lã. Cerynise, pensativa, acariciou os lençóis e a capa da almofada, e ao respirar seu aroma, limpo mas anódino, sentiu uma melancolia inexplicável que lhe invadia as imediações do coração. Conteve com rápidas piscadas um incipiente pranto, e respirou fundo para levantar o ânimo antes de examinar o


resto do exíguo mobiliário. Havia um espelho pendurado numa das paredes, com uma bacia e um prato debaixo. A pequena mesa próxima ao beliche, com sua correspondente cadeira, teria que bastar para as ocasiões em que comesse em seu camarote. Por último, um maltratado baú encostado à parede deixava pouca liberdade de movimentos. - É de seu agrado, querida? Cerynise se sobressaltou ao reconhecer a voz. Quando se voltou para Beau, ainda trêmula, achou-o de pé na porta, com um ombro apoiado no batente. Ergueu a cabeça com gesto orgulhoso, percebendo o sorriso de satisfação que apareceu nos atraentes lábios de seu marido. - Servirá - respondeu com rigidez. Beau inclinou a cabeça com curiosidade, enquanto seus olhos sondavam os escuros círculos esverdeados que sustentavam seu olhar sem piscar, com fria indiferença. - Está segura? Cerynise assentiu com a cabeça. - Terei intimidade, e já não me verei obrigada a me misturar na sua. Tendo isso em conta, por que não iria ser suficiente? Beau encolheu os ombros. - Estou seguro de que satisfaria as necessidades de qualquer passageiro, mas acredito recordar que há anos tinha medo de ficar encerrada em um espaço pequeno e sem ventilação. Recordo sobre tudo o dia em que alguns de meus companheiros de classe quiseram fazer uma brincadeira e encerraram-na no velho baú que tinha seu pai no estábulo. Quando, me guiando por seus gritos, encontrei-a deixei você sair, estava tão aterrorizada que jogou os braços ao meu pescoço, e estive a ponto de morrer estrangulado antes de conseguir que tranquilizasse. A reação de Cerynise foi sentir-se ofendida pela hipótese de que Beau tivesse escolhido aquele camarote de propósito, sem outro objetivo que procurar sua desdita. - Recordo aos Beasley como uns moços travessos e malvados. Sempre tinham prazer incitando os medos de outros. - Pousou no Beau um olhar frio e interrogativo. - Foi esse também seu propósito, capitão? - Disse que só necessitaria de um pequeno espaço onde dormir – recordou ele. - Dada a abundância de carregamento com que volta ao Charleston, não pude lhe oferecer nada melhor. É certo que outros camarotes são grandes, mas agora, uma vez vazio este, ficaram cheios até os batentes. É o único camarote que pude encontrar. O único. - Pôde ou querido? Beau não teve escrúpulos em lhe expor a situação. - Se lhe desagrada o alojamento, senhora, pode renunciar a este disparate e retornar a meu camarote. Já lhe disse em outra ocasião que não estou acostumado a aceitar passageiros a bordo. Você é a exceção, e que me crucifiquem se for atirar o carregamento pela amurada só para que disponha de um camarote que se ajuste a seus requisitos. Sua rudeza aumentou a ira de Cerynise.


- Se acha que vou voltar para seu camarote de joelhos, Beau Birmingham, e lhe suplicar que me dê acomodação, lamento lhe dizer que prefiro apodrecer aqui. Ele levou na brincadeira sua teimosa declaração. - Como deseja, querida; de qualquer maneira, se mudar de idéia encontrará abertas as portas de meu camarote a todas as horas, inclusive se não me suplicar que a deixe entrar. Oaks desceu pela escada e, vendo seu capitão no corredor, apressou-se a unir-se a ele às portas do minúsculo camarote. Quando viu Cerynise sentada, tirou a boina e perguntou solícito: - Deseja que traga agora a bagagem, senhora Birmingham? - Quando julgar oportuno, senhor Oaks - disse ela com gravidade. - Não há pressa. O oficial continuou sorrindo-lhe até que Beau julgou isso excessivo. - Têm alguma pergunta mais para minha esposa, senhor Oaks? - Sim, por certo - respondeu o oficial, ignorando a áspera e carrancuda expressão do capitão. - Como este camarote não é digno de uma dama, ia propor a sua esposa que utilize o meu. Estou convencido de que alojando-se nele realizaria muito mais a gosto a viagem a Charleston. - E você onde dormiria? - perguntou Beau com aspereza, incomodado pela intromissão. - Terei supremo gosto em pendurar uma rede junto às da tripulação - respondeu Stephen. - Para falar a verdade, desde que fui elevado a meu cargo atual sinto falta da camaradagem que reina debaixo do convés. - É o preço de ser primeiro oficial - lhe recordou Beau sem rodeios. - Deve manter sua autoridade sobre eles. Não posso permiti-lo. -Então dormirei neste camarote - propôs Oaks, dirigindo de novo a Cerynise um sorriso juvenil. - Agradeço suas atenções, senhor Oaks - disse ela gentilmente. - Entretanto, jamais me atreveria a desalojar você de seu camarote. O oficial suspirou como se tivesse uma decepção. - Nesse caso, é uma lástima que meu camarote fique sem utilidade - respondeu. - Minha decisão é firme, senhora Birmingham, e até que ancoremos no porto de Charleston não cruzarei a soleira salvo para recolher meus pertences... se mudar de opinião, é obvio. Que se use ou não dependerá inteiramente de você; em todo caso, permanecerá a sua disposição. - Maldita seja! - grunhiu Beau. Ao olhar a seu marido, Cerynise encontrou-se com uma expressão cuja ferocidade teria infundido temor até mesmo ao diabo. De ] repente seus lábios se curvaram para cima, desenhando um atraente sorriso triunfal. Realizou um gesto de grande elegância com a cabeça em sinal de que aceitava o oferecimento do primeiro oficial. - Já que seu camarote permanecerá vazio, senhor Oaks, estaria mal que me negasse. Percebeu que seu marido cruzava os braços com nervosismo, Cerynise elogiou docemente ao oficial. - Não é frequente achar a um cavalheiro cuja galanteria chegue ao extremo de ceder


seus aposentos a uma dama. Se dependesse de mim, seu cavalheirismo serviria de exemplo a outros oficiais de sua fila; por desgraça, há poucos que sintam a inclinação de sacrificar-se pelo próximo. Beau pigarreou, sabendo-se objeto dos sarcasmos de sua esposa. Já de menina tivera um talento especial para essa classe de réplicas ferinas, capazes de fincar-se como um chicote na pele de qualquer moço. O passar dos anos não impedia que Cerynise seguisse ocultando sob seu formoso e doce aspecto de mulher refinada a uma maliciosa harpia, digna rival da fera que espreitava Beau. - Meu camarote se acha nesta direção, senhora Birmingham - se apressou a informá-la Oaks, movendo a mão. Quando passou ao lado de Beau, Cerynise rematou sua provocação com um sorriso e exteriorizou seu entusiasmo com uns passos de baile. Que opção ficava a Beau a não ser ir atrás dela? Fez isso em silêncio, observando o garboso movimento de saias com que o precedia sua esposa. Oaks guiou à comitiva pelo corredor, e antes de chegar ao camarote do capitão se deteve ante a porta que dava acesso ao dele. Recordando de repente a desarrumação em que deixou sua acomodação, ruborizou-se e suplicou de causar pena: - Querem me conceder uns instantes para pôr um pouco de ordem? - É claro - respondeu Cerynise, retrocedendo até Beau. - Se puder se afastar uns instantes de seu paladino, senhora – disse seu marido de mau humor, - subiria com você ao convés, e com um pouco de sorte debateríamos as presentes circunstâncias como dois seres civilizados. Julgou pouco provável que ela se mostrasse disposta a acompanhá-lo a seu camarote e ter aí sua conversa, opção que ele teria preferido. Cerynise notou excessivo rancor em sua voz para aceitar a proposta. Concentrando toda sua atenção na parede, encolheu os ombros. - Nada odiaria mais que o importunar, senhor. Beau bufou. - Receio que já me tenha importunado mais do que possa imaginar, senhora. - Nesse caso não o incomodarei mais, capitão. Não me incomodo em aguardar aqui. Em seguida, incapaz de conter-se, adicionou com altivez: - Mais tarde, se sentir desejos de respirar ar fresco, talvez o senhor Oaks tenha a amabilidade de me acompanhar ao convés. Beau apoiou um ombro na parede de madeira que prestava sustento à costas tensas de Cerynise, e inquiriu: - Diverte-se em me provocar de forma deliberada, ou é algo que surge com naturalidade? Cerynise o olhou com assombro. - Provocá-lo eu? - Riu com suavidade, recusando a idéia com um gracioso movimento da mão. - Nesse assunto, capitão, asseguro-lhe que poderia me ensinar muitas coisas. Fixando de novo a vista na parede, prometeu-se ignorar a alta e imponente figura que se achava tão próxima a ela. Foi muito mais difícil do que tinha imaginado. Não podia respirar


sem que a presença do Beau se imprimisse agudamente em todas suas faculdades de percepção feminina. Teria sido fácil deixar-se levar pelas embriagadoras e incitantes lembranças que tinha criado o capitão ao mover ousadamente suas longas mãos por seu corpo nu, despertando sensações que, apesar do tempo transcorrido, continuavam ruborizando-a. Se o silêncio era a única maneira de pôr dique às turbulentas emoções desencadeadas por aquele homem, com certeza jamais voltaria a abrir a boca. Beau teve dificuldade em conter seu desejo de acariciar a delicada orelha de Cerynise, e seu teimoso queixo. A tentação não se deixava vencer com facilidade. Aproximou-se de Cerynise e, enquanto se deleitava em sua deliciosa fragrância, sopesou a prudência de empregar uma tática distinta. - Já lhe disse, Cerynise, como é formosa quando a tenho em meus braços ardendo de desejo? - sussurrou. - É como um vinho muito forte que me subiu à cabeça, e por muito que me esforce para dominar essas visões tentadoras, não consigo expulsar elas de minha mente. Jamais desejei a uma mulher como desejo a você. Cerynise exalou um suspiro entrecortado, enquanto as palavras do Beau lhe acariciavam os sentidos e despertavam por sua vez visões de seu corpo musculoso e bronzeado. - Seus seios são tão suaves e brancos - murmurou este, desejando conter em uma mão a turgente plenitude de uma das esferas, - que parecem delicados casulos de rosa em uma manhã de orvalho, abrindo-se a uma aurora rosada. Seu néctar adoça minha língua como... Bruscamente, e sem prévio aviso, abriu-se a porta que dava para o corredor. Vendo-os sobressaltados, e percebendo seu desassossego, Oaks lhes dirigiu um olhar perplexo. - Acontece algo mau? - Não! - negaram ambos ao uníssono. - Não ocorre... - começou Cerynise, quase sem fôlego. A presença do oficial não impediu que seus seios palpitassem, rememorando o quente prazer que suscitara nela a boca de seu marido. - Só falávamos de... - disse Beau. Olharam-se fugazmente com expressão culpada. Oaks pigarreou e se afastou da porta do camarote. - Acredito que achará tudo que lhe faça falta, senhora Birmingham, mas se precisar de algo... - Arrumará - informou-lhe Beau de maneira cortante. - Me equivoco ou lhe esperam tarefas urgentes em outra parte do navio? Esqueci-me acaso de lhe atribuir isso? - Tenho trabalho, com efeito - assegurou Stephen com presteza, - e me incorporarei a ele imediatamente. Partiu rapidamente para a escada, não sem antes obsequiar ao Cerynise com outro sorriso. - Lamento tirá-lo de seus aposentos - murmurou Cerynise.


- Tirou-se ele mesmo - afirmou Beau. - Mandarei a Billy que desça e lhe ajude a se instalar em seu novo alojamento. Cerynise inclinou a cabeça com afetação. Pelo visto se reatou a resistência. - Agradecer-lhe-ia isso, capitão. Fechar rapidamente a porta de dentro lhe deu certa sensação de segurança. Era a única maneira de ficar a salvo das embriagadoras adulações de Beau. Pouco depois, quando Billy Todd bateu na porta do camarote, anunciou timidamente que o capitão desejava jantar em sua companhia. - Esta noite terá a sua mesa a alguns cavalheiros ingleses, senhora; quer dizer, que deve vestir algo especial, porque a apresentará como sua esposa. Também deverá chegar antes que eles. Por volta das seis, se for possível. No momento mesmo em que o frágil tinido do relógio do camarote do capitão anunciava as seis, Cerynise deu umas batidinhas na porta. Ao ouvir a voz do Beau entrou pela soleira e o encontrou de pé em frente do aparador de barbear, tratando de amarrar a gravata. Sua atitude ficava realçada por um fraque cruzado de cor cinza escuro, um colete prateado de lapelas longas, e calças ajustadas com raios finos de cor cinza clara, metidas em lustrosas botas de cano longo. Os olhos de Cerynise pararam no admirável porte de seu marido, até que este se voltou para ela com certa inquietação. - Pode me ajudar a endireitar esta ofensa? - grunhiu, lutando ainda com a gravata. Assim que viu Cerynise, entretanto, esqueceu sua irritação e desceu os braços pouco a pouco, enquanto a examinava dos pés a cabeça. Trazia o cabelo recolhido, formando um penteado de complexos traçados que levou ao Beau a perguntar-se quanto tempo teria exigido sua confecção. Escolheu um modelo de cor rosa claro que à luz das velas cintilava como se tivesse engastados minúsculos diamantes. O peitilho era de uma peça, exibindo um atraente decote que moldava divinamente a plenitude de ambos os seios. Uma rígida e primorosa gola de tecido translúcido, cujas rendas trespassaram as mesmas contas que o vestido, cobria seu pescoço de cisne. Nenhum colar, por mais valioso que fosse, teria realçado melhor aquele vestido de noite. As longas mangas de gaze estavam presas nos pulsos por finas tiras adornadas com contas, mas pareciam flutuar em torno da jovem como um fino véu. A saia oscilava em ondulante vaivém ao redor de suas longas e bem torneadas pernas, e Beau não pôde senão admirar o efeito; não só isso, mas também achou sua língua muito torpe para expressar o encantamento que lhe produzia a incomparável beleza de Cerynise. Submetida a seu ardoroso olhar, a moça se colocou a tentadora proximidade dele e começou a lhe arrumar a gravata. Beau não sabia o que fazer com as mãos, e embora a tentação de cobrir com elas as nádegas de Cerynise era pouco menos que irresistível, conseguiu introduzi-las nos bolsos da calça, julgando mais prudente guardar elas para si que provocar novos conflitos entre ele e sua mulher. Por certo que o desejo de permitir-se nesse instante certas familiaridades conjugais despertou nele sérias dúvidas sobre o acerto de ter pronunciado a palavra "anulação".


- Billy disse que esta noite teria convidados - murmurou Cerynise, ficando nas pontas dos pés para tirar a parte frontal da gravata e passá-la por cima do nó. Beau levantou o queixo, submetendo-se aos cuidados da jovem. - Sim, jovens londrinos de bom berço. Há a alguns dias saí de caça com eles, e voltamos com algumas perdizes que Philippe guardou no gelo para esta ocasião. Pensei que talvez lhe agradasse comprovar seu excepcional talento culinário. O certo é que os convidei antes de saber que seria nossa noite de núpcias. - Têm conhecidos em Londres? - perguntou Cerynise, surpreendida. - Dado seu hábito de navegar pelo mundo e saltar de porto em porto, pensava que lhe seria difícil manter amizades. - É difícil, sim - reconheceu Beau, - mas consegui fazer umas poucas. - Surpreende-me que tenham conseguido ter vida social, por escassa que seja. Quando está no porto vejo você muito ocupado para confraternizar com os habitantes do lugar. Beau olhou para baixo e ficou preso pela tentadora abertura que lhe permitia ver por dentro do vestido de Cerynise, ocupada em lhe arrumar a gravata. Saltava à vista que não levava espartilho, porque seus peitos apresentavam uma volume mais natural que se amoldava com fluidez ao fino tecido de seu corpete. Beau teve a certeza de não ter visto jamais nada tão delicioso em toda sua vida adulta. Tinha cócegas nas palmas das mãos, tal era seu desejo de acariciar as leitosas redondezas, e teve que fazer um esforço de vontade para manter as mãos quietas. Resistente a desbaratar a perspectiva, encolheu os ombros antes que Cerynise se decidisse a olhá-lo. - Que sentido tem trabalhar duro, querida, se não se pode gozar dos benefícios? Cerynise riu, vencida pelas lisonjas de Beau, e aprovando ao mesmo tempo seu bom julgamento. - Nisso estou de acordo, senhor. - Meus convidados ignoram que seja minha noite de núpcias, e se lhe parece bem, querida, preferiria deixá-lo supor que somos casados há certo tempo, embora, dada sua juventude, duvido que estejam dispostos a nos atribuir mais de um ou dois anos de vida conjugal. Cerynise o olhou com surpresa. - E se perguntarem? As escuras sobrancelhas do Beau se arquearam ligeiramente. - Não haverá mais remédio que confessar. - Permita-me conhecer seu raciocínio, senhor? Incapaz de resistir mais tempo a seus impulsos, Beau rodeou a cintura de sua esposa. Percebeu certa tensão inicial, mas sorriu ao notar que se prestava ao jogo sem protestos, e até se apoiava levemente em seus braços. - Não quero que levem a impressão de que se casaria com um homem sem um longo noivado.


- Porque poderia lhes parecer uma mulher frívola? - Porque, querida minha, não quero que imaginem que a podem roubar - corrigiu ele com um suspiro de pesar. - Ouvi eles gabarem-se de algumas conquistas, e não desejo que a vejam como uma possível presa. - Você também se gabou de suas conquistas em sua presença? Se for assim, não acredito que nosso matrimônio fosse bem parado. - Meu pai me ensinou que um cavalheiro não deve rebaixar-se a falar desses temas em presença de outros homens. Quem assim o faz não procura a não ser envaidecer-se. Eu nunca senti esse impulso. Agradada pela resposta, Cerynise rodeou com seus braços o pescoço de Beau e lhe deu um beijo tímido nos lábios. A seguir escapou de seu abraço e o deixou gemendo de frustração. - É, conforme vejo, uma provocadora inclemente, mas aconselho você prudência, senhora - advertiu ele. - Acho insuportável a tortura de ter você em meus braços e deixá-la partir ao cabo de breves instantes. Se brincar com fogo acabará por se queimar. Cerynise fez uma careta encantadora, movendo insinuantemente suas longas e sedosas pestanas ao mesmo tempo que dirigia a seu marido um olhar coquete. Que Beau houvesse dito que faria anular seu matrimônio ao chegar a Charleston não era obstáculo para que pudesse mudar de opinião antes do final da viagem. Tampouco Cerynise se sentia obrigada a aceitar sua separação sem antes pôr em obra certas estratégias de sedução que por acaso o convencessem a aceitá-la como esposa a título permanente. Como estivera apaixonada por ele quase toda sua vida, não se via capaz de desejar a outro homem por marido. - Minha intenção não é provocar você, Beau, embora seja certo que me agrada a idéia de poder beijá-lo de vez em quando. Se com isso excedo sua capacidade de resistência, limitarei minhas atenções a simples tapinhas na mão. - Ora! - A frustração de Beau se reduzia a algo tão simples como jogar pragas contra ambas as possibilidades. Vendo que Beau a olhava com ódio fingido, Cerynise dissimulou um sorriso de brincadeira. Voltavam a pisar em terreno seguro. Em presença dos hóspedes poderia interpretar a gosto o papel de esposa. Depois se retiraria a seu leito solitário, e passaria a noite em claro desejando os beijos abrasadores de Beau, e suas perturbadoras carícias. A idade dos três cavalheiros oscilava entre os vinte e três e os trinta anos. A aparição de Cerynise lhes inflamou o olhar, mas, uma vez que Beau a apresentou como sua esposa, adotaram uma atitude de reserva e respeito, e a saudaram com galantes e rápidos beijos na mão. Desprezando com presteza seus títulos nobiliários, rogaram que a jovem os chamasse por seus nomes de batismo, e em pouco tempo o grupo se achava entretido em uma reunião relaxada e cordial. As perdizes foram servidas com um fino molho. Uma vez saboreado seu delicioso gosto, os convidados suplicaram para conhecer o chef. Com inesgotável bom humor, ofereceram ao sorridente Philippe contrato por salários extravagantes, mas Philippe se opôs a seus rogos,


alegando que ainda sobrava muito francês para ensinar a seu capitão, e que provavelmente fosse obra de anos, considerando a escassa disposição do tutelado. A brincadeira foi acolhida com sonoras gargalhadas, às quais se somou inclusive quem era alvo dela. Antes do fim da noite, os quatro homens competiam por obter de Cerynise réplicas agudas e jocosas sobre grande variedade de temas. Chegado o momento de partir, os três voltaram a lhe beijar as pontas dos dedos, sempre sob a atenta vigilância de seu marido, e se despediram com alegres gestos, assegurando terem tido uma noite deliciosa. Pouco depois de sua partida, Beau ficou absorto em suas reflexões, até o ponto em que Cerynise se atreveu a lhe perguntar: - Continua zangado comigo? - Beau suspirou e se reclinou na cadeira atrás da escrivaninha . - Calculo que Alistair retornará amanhã ao navio, e possivelmente em companhia do juiz. Cerynise passou um dedo pela tampa do tinteiro de estanho posto em cima da maciça escrivaninha. - Dizia antes que nosso matrimônio invalidaria toda reclamação que pudesse apresentar Alistair como tutor legal - recordou a seu marido. - Mudou que opinião? - Se nosso matrimônio for de fato como de direito, senhora, não teria dúvidas a respeito de sua solidez como argumento ante os tribunais. Por desgraça, Alistair quererá pôr em dúvida sua autenticidade, e respirará ao magistrado a considerá-lo como uma simples farsa, posto que a cerimônia se produziu imediatamente depois de sua visita; e com toda franqueza, senhora, não a considero muito perita na arte de mentir. Cerynise se inquietou. - Não está propondo consumar o matrimônio só para convencer a esse rufião de que estamos casados! -Seu tom ganhou em cepticismo. - Beau, faça o favor... - Eu não disse isso - replicou ele. Lamentando a dureza de sua resposta, agarrou a mão de Cerynise e a apertou para tranquilizá-la - sinto-o, não era minha intenção. Foi uma noitada tão agradável que preferiria não concluí-la com uma nota de discórdia. - O que deveríamos fazer? - perguntou Cerynise, arrependendo-se de suas suspeitas. Não acredito que se atrevam a me submeter a exame... Outra idéia se introduziu em sua mente atrás daquela, uma idéia que a fez engolir a saliva mas que não ousou expor. Lendo em seu rosto a repugnância que sentia, Beau tentou tranquilizá-la. - Não se atreveriam a submeter você a nada mais que a um interrogatório, mas se suas dúvidas são de peso bem poderiam deduzir que o matrimônio é uma farsa, anular os votos e pôr você sob amparo do Alistair. - "Amparo" não é uma palavra muito adequada - respondeu Cerynise com visíveis calafrios. - Se houvesse uma masmorra no mais profundo da casa da Lydia, teria motivos para


temer o pior. Estou convencida de que Alistair a dotaria de horríveis utensílios para me surrupiar o que deseja. Julgo inconcebível que tenha desejos de converter-se em meu tutor. Quer... ou necessita... de algo de mim, algo que de momento escapa a minha compreensão. - Se for capaz de me escutar um instante sem se escandalizar pelo que por acaso solicite de você, Cerynise, possivelmente possamos discorrer juntos uma solução adequada. Concluindo disso que necessitava forças para o que ia propor lhe Beau, Cerynise agarrou uma taça de vinho que deixou pouco antes na mesa; duvidava, com efeito, que o que ia sugerir seu marido fosse aceitável de primeira, tendo em conta sua advertência de que não se apressasse a extrair conclusões. Vendo-a engolir a bebida, Beau arqueou uma sobrancelha. Um ato tão simples como aquele lhe permitia adivinhar o grau de inquietação da jovem. Pelo visto, a menina que anos atrás o adorou o temia agora... ou em todo caso a suas propostas. De repente Cerynise soluçou. Tampou a boca com os dedos, surpreendida e com os olhos muito abertos. - Desculpe. - Basta de vinho - advertiu ele, pondo sob chave a licoreira. - De modo que não me vê capaz de convencê-los com mentiras – insistiu Cerynise, ruborizando-se de vergonha ao soluçar pela segunda vez. O mero fato de pensá-lo fez que Beau torcesse a boca. - Acredito que se ruborizaria com mais facilidade que a que tem o a gente comum para respirar. - Suspirou com força. - Se em algo interveio seu pai na conformação de sua escala de valores, mocinha, não duvido que terá escassa experiência em matéria de dissimulações. Portanto, deve utilizar seus pontos fortes. -E quais são? - Ela aguentou o soluço, e temeu ter que suportá-lo mais um momento ainda . - A inocência, a candura. Se nota que sabe pouco deste mundo, e possivelmente se o magistrado for capaz de reconhecer a uma dama se negue a suspeitar que mente sobre o matrimônio. - Beau se sentou na beirada da escrivaninha e, cruzando os braços, esquadrinhou o ruborizado semblante de sua esposa. - Procure não se pôr muito nervosa quando começarem a lhe fazer perguntas. Se for possível, imagine que já fizemos amor juntos e que já não é virgem. Cerynise se abanou, sentindo-se acalorada pela conversa. O soluço não contribuía para diminuir sua confusão. - Sabe o que isso implica, não é? - sondou-a ele, estudando-a com atenção. Ela, que não estava disposta a submeter-se ao atento exame do Beau, encolheu os ombros e se aproximou do aparador de barbear. Daí podia ver refletido o rosto de seu marido sem que ele se desse conta. - Há anos Lydia me explicou algumas coisas. Beau arregalou os olhos com expressão incrédula.


- Com certeza foi muito instrutivo. - Sei que um homem e uma mulher devem unir-se para fazer um menino! - declarou ela, irritada de que a tomassem por uma ingênua. - A única coisa que não sei é como acontece exatamente. - Você gostaria de sabê-lo... exatamente? Apesar da curiosidade que sentia por esses assuntos, Cerynise não considerou adequado que quem a instruísse fosse precisamente Beau. - Não seria decoroso que você... - Quem tem mais direito? Sou seu marido... - Por pouco tempo, conforme me disse... - No momento o sou - assinalou ele, e olhando-a atentamente acrescentou: - Embora talvez lhe possa ensinar isso Alistair quando se converter em seu tutor. Cerynise estremeceu. Recordou com um sobressalto a repulsão que lhe produzira o olhar insistente e lascivo de Alistair. - O que lhe parece que deveria saber... exatamente? - Beau a ilustrou com supremo detalhe, dando a suas explicações o máximo atrativo para seus sentidos de mulher. Pensou que lhe expor o ato da cópula era quase tão satisfatório como lhe beijar os seios, embora nunca fosse tão emocionante como sua contrapartida real. Mesmo assim tinha que conformar-se com o que tivesse a seu alcance. Vendo Cerynise absorta e encantada pela lição, Beau adivinhou que lhe precipitara uma sensualidade semelhante à sua. Sentiu uma compressão em seu abdômen e, reconhecendo-a imediatamente, não fez esforço algum para ocultá-la ou sublinhá-la. Suas calças justas a manifestavam suficientemente, atraindo olhares fugazes de sua mulher, que só cessaram quando ela o olhou no rosto e viu que sorria. Então se puseram vermelhas as faces, e em pronta reação fixou a vista na parede. - Sem isto não poderia lhe fazer amor - explicou ele, para que não suspeitasse que lhe estava fazendo avanços. - Embora às vezes eu gostaria de ter controle sobre meu corpo, quando penso em ter relações com você não posso evitar me excitar. - Não pense nisso - respondeu ela por cima do ombro, imitando a ordem anterior de Beau a Oaks. - Será melhor para os dois. - Você talvez o considere inoportuno, senhora, mas a natureza me dotou que instintos viris com o objetivo de procriar. Esteja certa de que se os homens não se deixassem levar em ocasiões por seus instintos primitivos, o mundo contaria com menos bebês. - Proporcionou-me toda esta informação com o único objetivo de se divertir? perguntou Cerynise com um matiz de sarcasmo. - Ou só para que saiba de antemão tudo o que pode me perguntar o juiz? Pelo visto me julga incapaz de responder sem ter a resposta ensaiada. Beau, que não queria excitar mais da conta a suspicácia de sua mulher, evitou discretamente a primeira pergunta. - Só desejo evitar que cometa um engano e revelem que não pude consumar nosso


matrimônio. Sentindo-se ofendida sem motivo, Cerynise procurou em vão uma réplica engenhosa com que impressionar ao Beau, e a falta dela expôs sua defesa. - Não sou nenhuma atriz de três ao quarto a quem é preciso ensinar seu papel a cada momento com o fim de que o recite com um mínimo de credibilidade. Beau a olhou atentamente. - Nesse caso, senhora, peço que responda a uma pergunta. Se fazem você jurar que nesta noite nos convertemos em marido e mulher em minha cama, saberá fazer isso de forma acreditável depois do que lhe expliquei? De repente Cerynise achou difícil respirar, porque todo seu corpo parecia estar ardendo. - Eu... eu... - Fale, senhora Birmingham... se seriamente responder a esse nome. Deve me dizer se já compartilhou o leito com seu suposto marido, já que se não puder jurar que seu matrimônio é válido não terei mais remédio que entregar à custódia ao senhor Winthrop. -Beau se inclinou para ela e escrutinou suas atônitas feições, enquanto prosseguia sua inquisição com tom mais moderado. - E agora responda sinceramente, senhora Birmingham. Fez amor com seu marido e consumaram o matrimônio? Cerynise permaneceu uns instantes em silêncio, até que conseguiu dizer: - Não se atreverão a tanto! - Alistair está desesperado para recuperar você e conseguir os fins que persegue, sejam quais for - afirmou Beau. - Não se deterá ante nada. Confiemos, entretanto, em que o magistrado seja mais discreto. Deve se mostrar capaz de lhe dizer com sinceridade que passamos a noite juntos. - Insinuou uma gargalhada. - Dado seu aspecto, não deveria ter que acrescentar nada mais. O resto se dará, é obvio. Se até então Beau considerara que Cerynise era propensa a ruborizar-se, estava-se convencendo rapidamente de que não era nada em comparação com o que viu durante a última hora, desde que partiram os convidados. - Sei que a idéia de compartilhar a cama comigo durante toda a noite não lhe é fácil, mas com toda franqueza, não me ocorre melhor solução para evitar que minta; e, embora terei grande dificuldade em reprimir minhas atenções, prometo-lhe não recorrer à força. Cerynise se deu conta de que já não tinha soluço. Sem dúvida o fim traumático de sua inocência virginal fora um remédio a esse pequeno problema. - Se é a única proposta que ocorre a você, suponho que terá que tentá-lo... embora deverá deixar vestidas as calças. Beau sorriu. - Se insistir... Sua jovem esposa suspirou. - Nesse caso, será melhor que eu ponha minha roupa de dormir. - Nada muito insinuante, espero - zombou ele.


- Não se preocupe. Sei de sobra como rápido lhe caem as calças. Guardaram silêncio uns instantes, recordando ambos o acontecido fazia umas horas. - Sente-se mais tranquila? - acabou perguntando Beau. Julgando pouco oportuno mencionar que seus joelhos pareciam de gelatina, ela assentiu com a cabeça. - Sim, obrigada. Sua educada conversação não ajudou a tornar mais fácil o momento de deitar-se, como também não o fez a intencionada demora com que Beau permaneceu em sua escrivaninha ordenando seu livro de bordo e os diversos recibos e documentos que ficaram caoticamente espalhados pelo chão. Cerynise estava acordada ainda, Beau tirou tudo à exceção das calças e se estendeu a seu lado no beliche. Ambos permaneceram longo momento olhando fixamente o teto do cubículo, incapazes de ignorar-se mutuamente. Cerynise acabou colocando-se de lado, de costas a seu marido, mas lhe custou guardar as distâncias porque o peso do Beau afundava um lado do colchão. Justo quando começava a relaxar-se sentiu nas costas o contato de sua corpulência. Tentou aproximar-se à parede, mas descobriu que sua camisola ficou parcialmente presa debaixo do corpo de Beau. - Sempre me pareceu um beliche bastante grande - comentou este, levantando-se um pouco para que a jovem pudesse retirar a aba da roupa. Cerynise se apressou a ficar com rosto para a parede, mas o desnível o tornou difícil. Pouco depois voltou para sua posição anterior, e comprovou com pesar que era inevitável. - Poderia dormir no chão - ofereceu. - Nem pensar. Já que devo realizar um gesto cavalheiresco, farei-o como é devido. - Então talvez você... - aventurou Cerynise. - Disse cavalheiresco, não santo - replicou Beau, que estava certo de que teria recorrido à violação antes que dormir no chão. Cerynise tratou de pôr freio a suas risadas sufocadas, que não demoraram para arquear as sobrancelhas de Beau. - O que tem tanta graça? - perguntou ele com curiosidade. - Não, nada. - Diga-me o que - exortou-a. Estava muito perto, e era muito atraente. Sentindo um salto no estômago, Cerynise percebeu como era difícil afastar a Beau sequer um instante de sua mente. Acomodou ]-se de novo no beliche e olhou de esguelha seu peito robusto, desejando poder lhe dedicar uma vez mais aquelas carícias que a faziam suspirar. - Hoje estive imaginando-o vestido de cavalheiro, com armadura e tudo. Pareceu-me gracioso. Beau se mostrou horrorizado. - Um cavalheiro com armadura?


- Só uns instantes, mas era pura fantasia. Nem sequer consegui que me beijasse a mão, e ambos sabemos que têm feito muito mais... - Que não conseguiu o que? - Em minha imaginação - se apressou a esclarecer Cerynise, antes de agitar uma mão com a esperança de pôr termo à conversa. - Não importa. De qualquer modo era uma idéia absurda. por que não procuramos dormir? Como se existisse a mais remota possibilidade, pensou. - Não estou certo de que eu goste. - O que? - Não lhe beijar a mão. Beau tinha razão quanto à sua inocência. De fato, Cerynise demorou um pouco para compreender o que provocou. Quase entrou em pânico, porque já comprovou antes que as sedutoras adulações do Beau lhe permitiam encontrar cativa a uma jovem com muito pouco esforço. - Não, Beau... Muito tarde! Beau pôs para cima a palma de uma mão e lhe deu um beijo que a deixou sem fôlego. Quando voltou a levantar a cabeça, o beliche se estreitou de modo alarmante. - Não deveria tê-lo feito - sussurrou ela, sentindo um ardor em suas entranhas. Beau franziu o sobrecenho. - Estou de acordo. E sem mais demora abandonou o beliche, tirou uma manta de um dos armários e retornou à cadeira de sua escrivaninha. Cerynise permaneceu onde estava. Passaram longos instantes antes de que aceitasse o fato de que Beau não tinha intenção de continuar tocando-a. Deveria haver-se sentido aliviada, mas no mais fundo de seu corpo de mulher nasceu um doloroso desejo que pedia a gritos ser preenchido e satisfeito.

CAPÍTULO 7

Havia algo muito intrigante em despertar encostado a um suave corpo de mulher, refletiu Beau ao abrir os olhos ao primeiro resplendor de um novo dia, que entrava pelas janelas de popa. Todo o beliche estava banhado por um halo de estranha luminosidade, que infundia tons entre dourados e vermelhos a quanto tocava, fazendo com que as tranças acobreadas sobre as quais Beau estava estendido brilhassem como se estivessem dotadas de luz própria. O longo cabelo de sua esposa se estendeu pelo travesseiro vizinho, e sua delicada fragrância incitou a Beau a acariciar com a face os brandos cachos. Não era, entretanto, o único incitante daquela situação. As coxas de Beau estavam encostadas às esbeltas nádegas de Cerynise, e se não tivesse com as calças vestidas possivelmente teria apreciado mais plenamente o fato de que a camisola da jovem subiu quase até o quadril, mostrando um


panorama arrebatador. Seu pulso acelerado advertiu-o de que se não se afastasse logo do lado de Cerynise faltaria a sua promessa, porque estava considerando muito a sério a possibilidade de despertá-la com doces e sedutoras carícias. Avançou nas pontas dos pés até seu aparador de barbear, onde refrescou o rosto com um pouco de água fria. O que seriamente precisava era um mergulho de cabeça nas geladas águas de um rio, a fim de subtrair seus pensamentos do que deixou no beliche. De fato, tinha o tempo justo para permitir um banho um pouco mais humano nos aposentos temporários do primeiro oficial, antes de que sua tripulação começasse a dar sinais de vida. No caminho da porta olhou para trás e se deteve imediatamente, como se lhe tivessem dado um chute no ventre. Cerynise continuava estendida de lado em inocente repouso, mas a visão de seu traseiro nu era quase tão persuasiva para os sentidos viris do Beau como um sorriso incitante de seus lábios. Não, não podia deixar ela daquela maneira. O primeiro oficial ignorava sua presença, e talvez lhe ocorresse entrar. Voltou para o beliche sem fazer ruído, estendeu a mão para o lado oposto do colchão e, levantando o lençol com supremo tato, cobriu com ele a sua esposa. Permaneceu longo momento contemplando-a, sentindo que lhe retorciam as vísceras, ao mesmo tempo em que seus olhos se deleitavam nos finos traços posados de perfil no travesseiro. Por nada no mundo teria podido resistir à tentação de acariciar com o dorso da mão as mechas de cabelo que ondulavam brandamente nas têmporas da jovem. Um leve suspiro saiu dos lábios de Cerynise, que, imersa ainda no sono, colocou-se de barriga para cima, estirando o braço obliquamente sobre o colchão. Transcorridos apenas uns instantes, sua mão começou a procurar Beau. De repente abriu os olhos e o viu inclinado sobre ela. Não foi medo, então, o que apareceu em seu rosto, mas sim um sorriso doce como o amanhecer, que curvou seus lábios e emprestou luz a seu olhar. - Bom dia - murmurou com voz sonolenta. - Bom dia, querida. Espero que tenha dormido bem. - Assombrosamente bem... depois que você decidiu voltar para a cama, claro. Ele, surpreso, levantou uma sobrancelha. - Senhora? Ela sacudiu a cabeça e, contendo a risada, negou-se a dar resposta à tácita pergunta. Depois se voltou de costas para Beau, ficou feito um novelo e murmurou algo parecido a "não importa" por detrás da mão com que se coçou o nariz. - Não terá mudado de idéia? - inquiriu Beau, esperançado, enquanto apoiava uma mão no quadril de sua esposa, a fim de inclinar-se sobre ela e ver de novo seu perfil. - Só se você também - sussurrou Cerynise, mordendo o lábio inferior para conter um sorriso zombeteiro. Embora convidasse para que aceitasse a posição de marido a título permanente, a resposta não carecia de sutileza, mas Beau, como homem sagaz que era, não precisou de elucidações.


- Ah. O monossílabo parecia transmitir certa tristeza, pensou Cerynise, perdendo de repente seu bom humor. Conteve as lágrimas com uma série de piscadas e, resolvida a ocultar sua decepção, esfregou exageradamente o nariz contra o travesseiro, como se a picasse. Depois pigarreou, tratou de dissolver o nó que tinha na garganta e lançou por fim um olhar de soslaio, descobrindo que Beau não se movera. - Se importaria de virar a cabeça para que eu saia da cama e ponha meu roupão? Beau lamentou que sua voz já não comunicasse a alegria de há alguns instantes. Ele, de sua parte, tinha consciência aguda do muito que desejava lhe fazer o amor, mas sua faceta mais racional persistia em negar-se a que o arrastassem a uma situação duradoura sem ter disposto de um período prévio para meditá-lo a fundo. Conhecia Cerynise desde muitos anos, mas sua longa separação impedia ele de afirmar que queria passar o resto de seus dias junto a ela sem antes familiarizar-se com a mulher em que se converteu. Afastou-se uns passos do beliche, deu as costas a jovem e aguardou. Ouviu que seus pés descalços cobriam com presteza a distância que a separava da porta. Então deu meia volta e a viu fugir pelo corredor. Logo se ouviu uma portada no camarote do oficial. Amaldiçoando entre dentes, Beau fechou a porta por sua vez e deu por concluído o cortês episódio matinal. Beau não se sentiu especialmente intimidado pelo juiz que acompanhou a bordo ao Alistair Winthrop e Howard Rudd. Tratava-se de um homem robusto, de face corada, que parecia muito possuído da importância de seu cargo. As incessantes reverência e amostras de cortesia dos dois indesejáveis mostraram às claras sua vontade de ganhar o favor do magistrado. Pareciam, de fato, convencidos de contar com ele, e com essa certeza pediram ao Beau que chamasse Cerynise ao convés. - Dar-se-á conta, senhoria, de que este ianque se aproveitou de uma jovem inocente e a incitou a esquecer sua educação - assegurou Alistair ao juiz, cotovelo com cotovelo. -Tendo em conta que leva já vários dias confinada em seu navio, cabe perguntar-se o que terá cedido já ao muito vagabundo. Oaks recebera ordem de ir em busca da dama. Ao chegar esta, todo o convés ficou em silêncio, porque os marinheiros interromperam seu trabalho para assistir ao que prometia ser um interessante duelo dialético. Viram-se sorrisos confiados na boca de quem apostou que seu capitão sairia bem de seu confronto com o juiz, e com os dois mequetrefes que o acompanhavam. Cerynise se deslocou pelo convés com grande elegância e chegou junto a seu marido antes de dignar-se a olhar aos outros três. O fato de que a rodeasse o firme braço do Beau a ajudou a confrontar o transe com segurança. - Já o veem! - declarou Alistair, assinalando ao casal com o indicador. – A desfaçatez deste vilão chega ao extremo de manusear a jovem em sua presença. Já lhe disse que era um libertino e um descarado!


- Sim, já vejo - refletiu o magistrado em voz alta, arqueando suas grossas sobrancelhas. A jovem possuía encantos suficientes para tentar ao mais formal dos cavalheiros, e era, portanto compreensível que suscitasse os cuidados de um viçoso homem do mar. - Conviria talvez que apresentasse a jovem... Alistair deu um passo à frente para fazer as honras. - A senhorita Cerynise Kend... - Desculpe - interrompeu-o Beau, - mas, acredito, tratando-se de meu navio, é preferível eu mesmo me encarregar das apresentações. Alistair fez uma careta de desdém, incapaz de ver o que mudava isso; mesmo assim inclinou a cabeça de modo zombeteiro e permitiu que o capitão atuasse como mestre de cerimônias. - Cerynise, apresento-a ao muito honorável juiz Blakely - disse Beau. - Senhoria, eis aqui a minha esposa, a senhora Birming... - O que? - grasnou Alistair, escandalizado. Produziu-se certo bulício na tripulação, prova de seu regozijo. Trocaram-se cotoveladas, na espera de ver o que acontecia a seguir. - Minha esposa, a senhora Birmingham - repetiu Beau ao magistrado. Os músculos do pescoço do Alistair se incharam de modo visível, ao estirá-lo seu dono desmesuradamente e exclamar: - Mente! O juiz estava perplexo. - Mas não era...? - Isto é muito! - estalou Alistair, elevando-se desta vez nas pontas dos pés para agitar um punho ante o nariz do capitão. - A quem diabos pretende enganar? Beau colocou a mão na jaqueta e extraiu um pergaminho que estendeu ao juiz Blakely. - Estou certo de que o achará tudo como deve ser, senhoria. - É um matrimônio recente - disse Blakely, estudando o documento e prestando atenção às assinaturas. Em seguida observou a seu anfitrião com receio. - Há testemunhas? - Todos os membros de minha tripulação. - Não pode ter se casado com ela - interveio Howard Rudd. - É menor de idade! Meneando a cabeça como um menino presunçoso, dirigiu ao Beau um sorriso de satisfação. - A tutora de Cerynise faleceu - disse Beau como se não tivesse ouvido Rudd, e fazendo ao juiz destinatário exclusivo de suas palavras. - Além disso, o clérigo que oficiou a cerimônia tinha plena consciência de que Cerynise fará dezoito anos dentro de poucos meses. Dadas as circunstâncias, não viu motivos para opor-se. - Que circunstâncias? -inquiriu Blakely. - Estou a ponto de zarpar para as Carolinas - respondeu Beau. - Como é natural, desejava que a jovem dama me acompanhasse. - Quer dizer em qualidade de esposa - disse o juiz, dirigindo ao capitão um olhar


eloquente. - Exato. Alistair olhou alternativamente a um e outro, com todos os sentidos alertas ao fato de que pouco depois de Cerynise aparecer o juiz dera amostras de vacilar entre as duas partes que se disputavam sua posse, como se se propusesse unicamente fazer o melhor para a jovem. A idéia, certamente, não era favorável aos propósitos do recente herdeiro. - Tudo isso é indiferente - insistiu Alistair com um volume de voz excessivo. - O matrimônio só é válido se o sancionar o tutor da jovem! E, posto que me conferiu essa autoridade, Cerynise deve retornar a minha casa. Blakely, incomodado, olhou ao desleixado indivíduo. - Ouvirei melhor se não me gritar no ouvido. As comissuras dos lábios de Beau tremeram pelo esforço de conter a risada. Seu brilhante olhar se pousou no Rudd, em quem percebeu uma súbita irritação. O magistrado olhou a jovem com rosto paternal. - Senhorita... desculpe... quero dizer senhora Birmingham. Espero que entenda que meu dever consiste em me certificar de que não esteja acontecendo nada reprovável. Cerynise o obsequiou com um sorriso gentil que ocultava sua ansiedade, e contribuiu para ganhar o favor do juiz. - Entendo-o, senhoria. Devo reconhecer, não obstante, meu desconcerto por o senhor Winthrop ouse fingir interesse por meu bem-estar, não tendo percebido eu até agora mostra alguma disso... Alistair abriu a boca para responder, mas Blakely o deteve com a mão erguida. - Afirma ser seu tutor. - Com um tutor como ele - disse Cerynise com tom zombeteiro, - não demoraria para chegar minha morte. Jogou-me de casa da senhora Winthrop sem casaco e nenhuma simples moeda. Estive a ponto de perecer congelada, e agora vem aqui protestando de que só deseja meu bem. Trata-se de uma farsa como poucas se viram. - Apresentou um codicilo ao testamento de sua tia em que lhe confere sua custódia -lhe informou Blakely. Cerynise sustentou seu olhar sem fraquejar, e inquiriu serenamente: - Há muita diferença entre uma farsa e uma falsificação, senhoria? Alistair grunhiu e deu um passo adiante com gesto de lhe pôr a mão em cima, mas Beau a separou de seu alcance e arqueou uma sobrancelha a título de brincadeira, encarando o olhar inflamado de seu magro competidor. - Talvez goste de prosseguir a discussão quando o juiz tiver partido - propôs. - Aceitarei pistolas ou punhos, se tal for seu desejo. - Senhores, senhores! Não o permitirei! - exclamou Blakely. - A garota mente, senhoria - insistiu Alistair. - Está resolvida a permanecer ao lado deste patife, apesar de que provavelmente se desprenda dela assim que chegar a seu porto de


origem. - Sua esposa formulou graves acusações contra este homem - informou o juiz ao Beau. - São menos graves, acaso, que o empenho do senhor Winthrop em questionar a legalidade de nosso matrimônio? E agora me diga, senhoria, o que faria um pai de achar-se sua filha em semelhante situação? Se tiver filhas, possivelmente possa nos instruir. - Tenho três, capitão. De fato, a menor tem a mesma idade que sua esposa. - Como reagiria à possibilidade de que uma jovem fosse entregue em matrimônio por um clérigo respeitável, à vista de toda uma tripulação, e depois ter passado a noite com seu marido ouvisse na manhã seguinte que não está legalmente casada? Blakely cortou em seco, e com um gesto ainda mais enérgico que antes, a intervenção do Alistair. Depois pigarreou e deu sua resposta. - Inclinar-me-ia a fazer o necessário para que se confirmasse seu matrimônio, se não o estivesse já. - Vacilou e olhou para Cerynise. - Peço desculpas, senhora Birmingham, mas lhe devo perguntar isso: Estava esta noite com o capitão Birmingham? Reinou o silêncio no convés. Todos aguardavam a resposta. Cerynise surpreendeu três olhadas furtivas, mas foram prontamente desviadas. Apesar das advertências do Beau, achou extremamente embaraçosa a situação, mas ao menos podia dizer a verdade, embora fosse se ruborizando. - Sim, senhoria, estávamos juntos esta noite. - E, farta do Alistair e suas exigências, acrescentou no caso de: - Na mesma cama. Não parecia que ao juiz lhe fizessem falta tantas elucidações. Olhou ao Beau com o rosto bastante vermelho. - Peço-lhes perdão por havê-los incomodado, capitão Birmingham. - ajustou sua cartola. - Que tenham boa viagem. Vendo que o magistrado se dirigia à passarela, Alistair o olhou com incredulidade. - Não pretenderá que... Não pode... Não deve permitir que este rufião se saia com a sua! O juiz se deteve junto à passarela e voltou a cabeça para olhar ao Alistair por cima do ombro. - O capitão e a senhora Birmingham proporcionaram provas suficientes de que estão legalmente casados, cavalheiro. Não achará em toda a Inglaterra a um juiz com diferente parecer. Temo que deva aceitá-lo, Winthrop. - Veja-se isto! Arrogante montão de lama! - clamou Alistair. – Deveriam expulsá-lo de todos os tribunais! - Escapando da mão do prudente Rudd, voltou-se para o Beau, e sua fúria alcançou cotas que deixaram atônitos a quantos o rodeavam. - Quanto a você, filho da puta, pode ser que agora se sinta o dono do mundo, mas lhe asseguro que não deixarei que saia bem desta comédia... Beau entrecerrou os olhos e olhou ameaçadoramente a quem acabava de ofendê-lo. - Como me chamou? Alistair, que não se dava conta do perigo que corria, agitou o


punho e satisfez sua ira agravando a injúria anterior. - Um pestilento filho da puta! Um ianque sujo e mentiroso que... Beau chegou a seu lado com três passadas e o agarrou por detrás do pescoço e pelos fundilhos da calça. Alistair, indignado, tratou entre protestos de tocar o convés com as pontas dos pés, enquanto Beau o levava em direção ao mole. Quando chegou à amurada, o capitão ergueu no ar a sua carga e a jogou no rio. Seu indigno hóspede gesticulou loucamente em busca de um refúgio no ar, que infelizmente não encontrou. O horrendo alarido do Alistair foi reduzindo-se a um trêmulo gemido, que terminou bruscamente em sonoro chapinhar, provocando as gargalhadas e ovações da tripulação. Beau, entretanto, ainda não ajustou todas suas contas com o adversário de sua esposa. Agarrado às cordas, subiu com as mãos em deslumbrante exibição de força muscular e posou com a mesma elegância em cima da amurada. Depois de achar um espaço aberto, pôs os braços na cintura e olhou para Alistair, que depois de cair na água se pôs a tossir e aspirar entrecortadamente baforadas de ar. - Pode me insultar, Winthrop - trovejou, - se a tanto chega sua insolência, mas se lhe ocorrer sequer voltar a caluniar a minha mãe, farei que o açoitem até que cada chicotada lhe arranque uma tira de pele! Não permitirei que um estúpido chorão como você ponha em dúvida a uma mulher por quem sinto devoção! Beau saltou de sua torre de vigia e sacudiu as mãos, como se acabasse de desfazer-se de um montão de lixo. - Assim esse tipo aprenderá a ter a boca fechada, capitão - disse-lhe com alvoroço um de seus homens. Beau assentiu com um gesto. - Abram um barril, moços, e celebraremos que esse asqueroso se foi. O estrondo de passadas de quem saía em busca da bebida quase fez estremecer o juiz; mesmo assim dirigiu um sorriso de aprovação ao capitão, que estava aproximando-se dele. - Eu também tenho muito afeto a minha mãe, senhor. Beau sorriu de orelha a orelha, lamentando sua primeira opinião do magistrado. - Pensei que o compreenderia, senhoria. Em seguida pousou a vista no Howard Rudd, imóvel desde que vira seu companheiro em mãos do furioso capitão. Com um acentuado tremor de sua pegajosa papada, o advogado tratou de recuperar a voz para negar a possibilidade de que lhe tivesse ocorrido jamais difamar um ser tão nobre como era uma mãe. Dando por fim como inútil a débil tentativa, girou sobre seus calcanhares e correu para a passarela, quase derrubando ao bom juiz a sua passagem. Pouco depois viu lançar um cabo ao Alistair, que fazia esforços desesperados para aprender a nadar. As risadas agudas do Cerynise se somaram às gargalhadas de seu marido, que a pegou nos braços e lhe deu um longo beijo apaixonado, pensando mais em seu próprio prazer que na entusiasmada tripulação.

CAPÍTULO 8


Cerynise levantou a cabeça do travesseiro no tempo justo para divisar o balde que Billy Todd deixou, solícito, junto ao leito. Emitindo um fraco gemido de angústia, fechou os olhos e guardou a máxima quietude, esperando evitar a erupção de seu estômago, mas cada sacudida de cabeça do navio parecia propiciar a rebelião do instável órgão. Sentiu estranheza de ter concebido em algum momento a idéia de que o camarote do primeiro oficial pudesse ser refúgio contra algo, pois se convertera em sala de torturas da qual não desejava mais que fugir. O fato de que tivessem encontrado ela mareada pouco depois de abandonar a costa inglesa lhe dava bons motivos para fazer voto solene de que não navegaria nunca mais... sempre e quando sobrevivesse àquela travessia. Por estranho que pareça, durante cinco anos Cerynise conseguira separar de sua mente os detalhes mais desagradáveis de sua viagem a Londres desde Charleston. Embora é certo que ficaram eclipsados pela morte de seus pais e a perda de que fora até então seu único lar, teria sido de esperar que recordasse sua incapacidade de suportar um excessivo vaivém. Era difícil ignorar a evidência de que não possuía dotes de marinheiro. Um tênue sorriso curvou os lábios ressecados de Cerynise, que fez uma careta de dor ao notar que estavam rachados. Marinheira má?, mofou para si mesma. A palavra "horrível" teria se ajustado mais à verdade. Se conseguisse pisar de novo terra firme, nada nem ninguém a obrigaria jamais a subir a outro navio que se dirigisse a alto mar; não só isso, mas também, na medida em que pudesse sair-se com a sua, manter-se-ia a distância prudente do oceano, e não voltaria a olhar as ondas nem expor-se ao sofrimento atroz de um navio dando saltos por um lento, vigoroso e revolto fluxo. Era um interminável e diabólico acontecer-se de ondas passando sob o navio, passando, passando... Quase não alcançou o balde a tempo, e demorou um intervalo angustiante em levantar de novo a cabeça. Pouco depois de dar-se conta de que ia enjoar, tentou ocultar os sintomas de Billy, sempre tão interessado em que comesse; mas bastou uma simples olhada a bem sortida bandeja que havia trazido o grumete para que o segredo deixasse de sê-lo. Para surpresa do Cerynise, suas arcadas pareceu incomodar menos ao menino que a ela mesma, já que Billy acudiu imediatamente em sua ajuda e lhe proporcionara um balde e uma gaze úmida para refrescar o rosto. Mais tarde Cerynise lhe pedira entre soluços que não o contasse a ninguém, e muito menos a seu marido. Billy tinha se mostrado recalcitrante, julgando pouco prudente ocultar a seu capitão dados dessa natureza, mas acabou por concordar. Em seguida ele tinha atendido os escassos pedidos da passageira, levando-lhe água fresca e alguma ou outra tigela de caldo leve, dando-lhe toalhas limpas e esvaziando o balde com dissimulação junto com os que continham sobras da cozinha. Beau batera várias vezes à porta, e com o passar dos dias tinha insistido cada vez mais em que o deixasse entrar. Cerynise, oculta sob um monte de lençóis, respondera com surdas negativas e, graças a isto Beau, que a supunha zangada, tinha evitado uma visita a qual lhe teria provocado uma vergonha insuportável. Suas forças continuavam minguando, e seus lábios ressecados tendiam a sangrar com a


menor fissura. Tentava beber água, mas até isso era regurgitado pouco depois da ingestão. Só dormir a tirava das horas intermináveis de tortura, mas o despertar era árduo, por ver-se acompanhado frequentemente pela necessidade de expulsar a pouca substância que tinha no estômago. Não concebia vestir-se com algo mais que uma camisola. Sua cabeleira se embaraçara até extremos irremediáveis, mas Cerynise não ligava para nada, e muito menos para seu aspecto. Três batidinhas na porta indicaram que Billy voltava em busca da tigela de caldo que havia trazido uma hora atrás (e que continuava intacto na bandeja, ao lado do beliche). Ouvindo a débil resposta de Cerynise, entrou em silêncio e parou bruscamente, surpreso. Estava certo de não ter visto em sua vida um semblante tão doente como aquele, e de que a jovem não teria tido pior aspecto nem com um pé na tumba. Suas olheiras, escuras e pronunciadas, faziam com que seus olhos parecessem sumidos em suas órbitas. Tinha as faces chupadas, e seus lábios, antes brandos e atraentes, sofriam as consequências da desidratação. O aspecto de Cerynise assustou tanto ao Billy que deu meia volta e correu em busca do capitão, certo de contar com motivos justos para quebrar sua promessa. Pouco depois Beau estava de pé junto à cama de sua esposa, com os braços na cintura, seu curto cabelo azeviche revolto pelo vento vespertino que açoitava o convés. Faíscas de indignação brilhavam em seus olhos. - Maldita seja, Cerynise, por que não avisou a ninguém de que estava doente? Parece uma morta viva. Fazia dias que Cerynise não o via, e reconhecê-lo diante de si como um deus de lenda, de divina perfeição, não fez mais que acrescentar sua consciência de achar-se em um estado lamentável. Fora para ela um alívio imenso ver que sortiam efeito suas roucas ordens de que a deixasse em paz e não entrasse sem permissão (sabendo de antemão que Beau possuía um aspecto muito viril para não ser capaz disso e mais). Nem por isso deixou Beau de estar presente em seus pensamentos, como um fragmento musical repetido sem pausa em sua cabeça. Aí estava agora, com um olhar de recriminação em seus olhos, como se aquele penoso estado pudesse ser culpa de Cerynise. - Saia - gemeu esta, voltando a cabeça para ocultar suas lágrimas. - Não quero que me vejam assim. - Na saúde e na enfermidade, querida - respondeu Beau com um frio tom sarcástico. - Me jogue pela amurada - choramingou Cerynise, aferrando-se aos lençóis para que ele não os arrebatasse. - Não quero viver nem um dia mais. - Sente-se - exortou ele, fazendo caso omisso de suas queixas e lhe passando um braço por detrás das costas. Ela começou a sacudir a cabeça, mas renunciou por julgar isso, uma má idéia. - Não posso! Isto só serve para me pôr pior. Vá embora. - E deixar que morra em paz? - Beau proferiu uma brusca gargalhada. - Jamais! Cerynise abriu muito os olhos, assombrada por sua crueldade.


- É um bruto insensível. - Dizem isso. Beau a obrigou a sentar-se na beirada do beliche e pôs seus pés descalços sobre o chão, antes de introduzir seus braços pelas mangas do roupão. - O que está fazendo comigo? - Cerynise lamentou-se sem forças. - Vou enjoar. - Respire fundo - ordenou ele, pondo-se de cócoras para lhe pôr as sapatilhas. - Verá como se sente melhor. Suas palavras tiveram pouco efeito calmante no estômago de Cerynise, que, presa de um ataque de pânico, caiu sobre o balde e sucumbiu às convulsões secas. Por fim, ligeiramente aliviada de suas nauseas, deitou-se de novo no leito, enfraquecida. A periódica aplicação de uma gaze úmida em seu rosto, pescoço e decote lhe produziu certo bem-estar, mas mal teve tempo de recuperar o fôlego quando Beau voltou a puxá-la e aplicou a seus lábios uma taça de metal. - Enxágue a boca - indicou, impedindo-a de girar a cabeça. Enrugando com asco o nariz, ela fez isso e cuspiu a água no balde. Depois se estendeu no beliche e dirigiu a seu marido um olhar compungido. Vê-lo tão saudável e robusto não lhe proporcionava nenhum consolo. - Agora beba o resto - ordenou ele, sustentando de novo a taça contra seus lábios. - Está mais seca que um esqueleto desenterrado. - Odeia-me - resmungou Cerynise com a boca na beira da taça, concordando, não obstante, a ingerir um gole. - Falso, senhora. - Beau continuou molhando seu rosto e seu pescoço, enquanto ela segurava à taça com mãos trêmulas e bebia gole a gole. - Mas estou zangado com você, por me ter deixado pensar que estava aqui zangada como uma menina pequena quando na realidade estava há dias doente. Se não fosse porque Billy acreditava estar sendo leal a você, repreenderia ele com dureza por não me ter informado imediatamente. - Roguei a ele que não dissesse nada a você - resmungou Cerynise, pois Beau insistia em apertar a taça contra seus lábios. - Beba! - Impossível! Não posso mais!. - Disse que beba! - Devolverei-a em seguida. - Desta vez não. Faça caso do que estou dizendo. - Só um pouco - grunhiu Cerynise,um pouco incomodada. Ele, entretanto, negou-se a retirar a taça até que tivesse bebido até a última gota. Opondo-se a seus esforços de se estender de novo no leito, obrigou-a a levantar- se, segurou-lhe o tronco em posição vertical e a envolveu com uma manta, como gesto prévio de levantá-la nos braços. Depois abriu a porta com um chute e saiu a passadas do camarote, levando a sua esposa no colo para a escada. Cerynise voltou a cabeça com temor e viu erguer-


se diante deles os intermináveis degraus. - Beau, por favor - sussurrou, zangada consigo mesma pelo tom frágil e desamparado de sua voz. - Não quero subir ao convés . - Sua tripulação me veria. - Precisa de ar fresco, senhora. Fará com que se sinta melhor. Além disso, depois do estado de ansiedade com o qual Billy correu para ver-me, é provável que meus homens esperem ver um funeral em alto mar. - E o terão - afirmou Cerynise com pesar. - Quando me tiver aniquilado com esse ar fresco no qual tanto insiste! Beau lhe sorriu, mas não deteve seus passos. Suas longas pernas cobriram rapidamente a distância que os separava da escada, enquanto murmurava: - Eu protegerei você do frio. O curto crepúsculo outonal já dera passagem à noite. Nas águas tremia uma fita de prata, reflexo da lua que brilhava no alto. A brisa gelada que soprava no convés cortou a respiração de Cerynise, mas fez bem pouco para aliviar sua angústia. - Se não me soltar, vai lamentar - avisou. Beau só obedeceu ao chegar ao primeiro anteparo. Então a depositou no chão, e Cerynise, que não tinha forças para aguentar-se em pé, caiu em cima dele, apoiando a testa em seu pescoço e o queixo em seu ombro. Se estivesse melhor talvez teria desfrutado da firmeza com que Beau a segurava nos braços, mas, dadas as circunstâncias, só soube recear o que ameaçava lhe acontecer. - Beau, por favor - murmurou com a boca encostada a seu pescoço, - sinto como se fosse enjoar outra vez. Eu gostaria de voltar para meu camarote. Pelo menos lá embaixo não estarei em evidência. - Permanecer sob cobertas só pioraria as coisas, Cerynise. - Aqui tampouco vão melhorar. Beau se separou um pouco dela, escorou com seu corpo a esbelta silhueta e a manteve enlaçada pela parte baixa do tronco, apontando o mar. - Apareça na amurada. - Nãooo... - gemeu Cerynise, sacudindo a cabeça com aflição. Tão desumano era aquele homem? O que menos lhe fazia falta era olhar a água! - As ondas não - sussurrou ele contra seu cabelo. - Olhe o horizonte. Há bastante luar para que o veja, de modo que fixe nele a vista. Cerynise aguçou a vista, tratando de divisar a linha tênue e escura que separava mar e ceu. Depois de concentrar nela o olhar, demorou uns instantes para perceber sua estabilidade. - Não se move. - Na realidade sim -respondeu Beau com uma risada suave. - A terra gira, mas não é preciso que se preocupe com isso. No que diz respeito a você, não se move. Ela o olhou e suspirou com nostalgia. - Tomara que eu não me movesse. Beau lhe sorriu.


- Não deixe de olhar o horizonte. Mantenha a vista fixa nessa linha e continue aspirando o ar fresco e puro. Cerynise obedeceu, satisfeita no momento descansando em seu abraço. O tempo passou, mas não reparou em nada que não fosse a protetora calidez daquele corpo robusto. Tomou consciência gradual de que começava a encontrar-se melhor. Aspirou uma lenta baforada de ar e a expulsou de novo com um suspiro de prazer. - Acho que não morrerei. - Beau se pôs a rir e embrulhou ela com a manta até o pescoço. - Têm calor suficiente? Cerynise assentiu com a cabeça e se aproximou a ele. - Estou muito a gosto. O enjoo que a afligiu desde que o Audaz zarpou do Tâmisa ao mar aberto estava desaparecendo a marchas forçadas, substituído, porém, por um profundo esgotamento. Sua cabeça encontrou um vazio ideal entre o pescoço e o ombro de seu marido. Fechou os olhos com um suspiro. Pouco a pouco respirava menos rápido. Beau não ousava mover-se, satisfeito tendo nos braços sua jovem esposa enquanto a noite se adensava em uma aveludada escuridão riscada de miríades de estrelas. Durante a longa reclusão da jovem fora açoitado a aguda suspeita de que algo andava mal em sua vida, uma sensação pelo menos desabonadora. Tivera que aceitar que sentia falta da presença da moça. Até então, as moças vivazes cuja companhia solicitava em determinadas ocasiões se apagaram de sua mente, como tivessem fechado as portas de seus quartos. Em troca, Cerynise absorveu dia e noite seus pensamentos, até convencê-lo de que desejava imensamente mais sua companhia que a da gama habitual de mulheres com quem se relacionara em termos íntimos. O navio encarava os ventos contrários com uma incessante oscilação, e batalhava sob a superfície contra a corrente do Golfo. Em seus primeiros tempos de marinheiro Beau descobrira que a navegação para o oeste recebia o nome de travessia costa acima do Atlântico. Com preponderância de ventos oeste a leste, a travessia costa abaixo podia realizar-se em pouco mais de um mês, enquanto que a viagem de volta exigia até três meses. Embora não se tratasse de um intervalo de tempo adequado para um noivado normal, possivelmente ao Beau bastasse para chegar a uma decisão sobre a classe de compromisso que desejava contrair com a jovem beleza a quem tão fortemente abraçava nesse instante. Verificado a mudança de vigia, Beau acompanhou Cerynise de volta a seu camarote. Não houve nauseas desta vez ao estendê-la no beliche. Tampouco se percebiam sintomas de que continuasse enjoada. Tirou-lhe o roupão, admirando de passagem a camisola solta cuja gola redonda estava adornada com longos babados bordados. Não se atreveu a demorar em nada que não fosse o simples ato de agasalhá-la. Se a experiência do dia de suas bodas lhe ensinara algo, faria bem em limitar suas atenções a uma preocupação estritamente fraternal. - Não se mova - disse Cerynise, muito concentrada nos traços que estava acrescentando


com presteza ao esboço de Billy Todd, virtualmente concluído. - Falta muito pouco. O moço mal podia ficar quieto, impaciente para ver o que ela tinha desenhado. - Fique assim - suplicou Cerynise. Reprimindo sua curiosidade, ele conseguiu acatar ao pedido o suficiente para que a jovem finalizasse o desenho; é certo que, tendo à vista semelhante panorama, podia-se dizer que foi um esforço. Em questão de dias a jovem recuperou sua saúde e beleza anteriores, e depois tinha permanecido completamente absorta em algo que despertou a atenção de todos os tripulantes do Audaz. Dizer que tinha talento teria sido pecar de modéstia exagerada. - Pronto - declarou Cerynise com satisfação, voltando o pergaminho a fim de que Billy pudesse ver o resultado. Os olhos do grumete se abriram de par em par, cheios de um assombro que crescia à medida que examinava a obra. - Viu, senhora? Sou eu! - Uma semelhança razoável, em todo caso - disse ela com uma risada cristalina. Estudou o retrato com satisfação, contente de ter sabido refletir o moço naquele ponto indefinido entre a infância e a idade adulta. Suas faces e sua boca continuavam possuindo uma inconfundível suavidade de traços, mas os olhos eram claros e vigilantes. O queixo era firme, e indicava uma incipiente energia. - De verdade sou assim? - perguntou ele com um sorriso tímido. - Sim - confirmou Oaks, detendo-se nas costas do grumete; - mas o que a senhora desenhou não é seu rosto bonito, moço - zombou captou sua maneira de ser com toda fidelidade. - Obrigada, é muito amável -disse Cerynise, inclinando entre risadas a cabeça. Nenhum artista poderia aspirar a mais alto elogio. - Imagino, senhora, que não está de humor para desenhar outro retrato - sondou-a Stephen. - Penso que pode me convencer. Cerynise pegou um pergaminho novo e fez um gesto elegante com a mão, indicando ao primeiro oficial que se sentasse diante dela. O lugar escolhido tinha, além de tudo, uma vista do horizonte, para o qual continuava olhando em algumas ocasiões. Embora já tivesse passado duas semanas em perfeita saúde, ainda se negava a dar nada por finalizado. Em todo caso, encontrar-se bem lhe levantou os ânimos e tinha mudado sua atitude para com a navegação. Estava bastante segura de poder sobreviver a outra viagem, embora no momento se dirigisse para casa. A casa! Fazia muito tempo que as Carolinas não eram mais que uma lembrança longínqua. As circunstâncias, entretanto, mudaram , e Cerynise se aproximava por instantes a tudo quanto recordou e amou durante os últimos anos. Não podia evitar perguntar-se o que a esperava ao chegar ao porto. Uma vez recuperada sua saúde e ajustados seus hábitos a uma rotina diária, Cerynise se reintegrou a sua arte, e em pouco tempo voltava seus esforços para desenhar os marinheiros e sua vida a bordo do Audaz. Dava de presente quase todos seus desenhos, salvo uns poucos


que guardava para si, entre eles os que elaborava na intimidade do camarote do primeiro oficial. Começava a suspeitar-se possuidora da maior coleção existente de desenhos do Beau Birmingham, a que dia a dia se somavam novas peças. O vigia da tarde subiu ao convés antes que Cerynise tivesse dado os toques finais ao retrato de Stephen Oaks. Entregou-o com um sorriso. - É um homem bonito, senhor Oaks. - Não estou muito certo disso, senhora. Em todo caso é um lindo desenho - afirmou o oficial, sorrindo satisfeito. - Aposto que os elegantes de Charleston pagariam uma boa quantia em troca de que fizesse o mesmo por eles. Cerynise endireitou a cabeça e riu. - Receio que o contrário seja certo, senhor Oaks. As pessoas, pelo visto, tem preconceito quanto às mulheres que pintam retratos, possivelmente porque todos os grandes professores foram homens. Estou certa de que os habitantes de Charleston se mostrarão igualmente céticos como os da Inglaterra. - Em tal caso será pior para eles, senhora, não para si. - Obrigado - respondeu ela alegremente, acompanhando suas palavras com outra inclinação de cabeça. Percebendo a proximidade de uma terceira pessoa, Cerynise se surpreendeu da sensação de formigamento que se produzia nela a mera presença de Beau, antes mesmo de ter virado a cabeça e tê-lo visto às suas costas, examinando de perto o desenho do primeiro oficial. Aproximou-se deles em silêncio, deixando nervosa Cerynise, com sua tendência a aparecer como saído de um nada, sem o menor ruído. Ela duvidava que se tratasse de uma propensão consciente, já que havia ocasiões em que conseguia detectar algum indício de sua chegada, e tinha tempo de fortalecer-se contra o tremor que se apoderava dela. Desta vez, entretanto, o capitão a surpreendeu completamente desarmada, sobressaltada ela mesma por seu grau de confusão. Estava convencida de que se Beau tivesse tido acesso a seus pensamentos teria julgado ela muito semelhante à menina cujo coração saltava de júbilo cada vez que o via percorrer o estreito caminho que levava a sua casa, e à escola vizinha. A possibilidade de que Beau pudesse atribuí-lo a uma simples criancice fazia com que Cerynise relutasse em revelar sua estranha desordem emocional. As inibições a que se submetia em presença do capitão não serviam senão para lhe recordar que até então não recebera dele nenhuma promessa de querêla como esposa uma vez em Charleston. - Francamente, não entendo como alguém tão corpulento possa mover-se de forma tão silenciosa - disse, como se a tivesse assustado. Beau lhe dirigiu um sorriso preguiçoso que teve um efeito estranho sobre o pulso de Cerynise, já que começou a dar saltos como os das rãs nos nenúfares. - Farei o possível para avisá-la, senhora. Parece-lhe suficiente andar aos tropeções? Na falta de resposta, o capitão deu uma volta para olhar os desenhos, que sua autora dispôs em torno dela pela coberta, com pesos para que não os levasse uma rajada de vento.


Não deixava de assombrá-lo a semelhança dos retratos, cujos modelos reconhecia imediatamente. Quando Cerynise levantou a vista ficou surpreendida pela proximidade de Beau. Até via pulsar uma veia na base de seu pescoço, onde abrira a camisa. Tomara que pudesse me afetar tão pouco, pensou. Fechou os olhos contra a súbita voragem de seus sentidos, e ao abrilos de novo esteve a ponto de voltar-se atrás pela surpresa, já que ele se agachou para recolher a capa que lhe caíra dos ombros. Notou que ele roçava a manga com o tronco, e se fixou vazio que a camisa deixava ao separar-se do peito. Recordou com nitidez o momento em que a mão de Beau lhe ensinara a acariciar com atenção a lisa e musculosa superfície. Recordou deste modo ao que levara pouco depois. Beau se endireitou e se concentrou em estender a capa sobre os ombros de sua esposa e abotoar os alamares debaixo do capuz. - Não deveria tirar a capa no convés, senhora - a admoestou com doçura. - Eu não gostaria que caísse doente pela segunda vez. - Descuidei-me - sussurrou ela, olhando-o nos olhos. Quando o olhar deste abandonou a garganta da jovem e se pousou em seus lábios, Cerynise teve a estranha sensação de que ia beijá-la, mas se apressou a desprezar a idéia como fantástica, e se repreendeu por abrigar tão erradas ilusões. Mesmo assim, quando os olhos azuis de seu marido travaram contato com os seus, descobriu que uma ação tão simples como respirar com normalidade se tornava impossível. - Senhora, honrar-me-ia se aceitasse jantar comigo esta noite - murmurou Beau, alisando o capuz em torno dos ombros de Cerynise. De repente vieram à mente dela imagens de quando estavam nus no beliche, e o êxtase de que foram acompanhadas lhe cortou o fôlego. A julgar por como a perturbava a proximidade de Beau, era de se supor que um simples convite para jantar juntos ameaçasse abocanhá-la por nove meses de reclusão, sem sobrenome para legar ao filho de ambos. Não se atrevera a voltar para o camarote do capitão desde o começo da viagem, por medo de que se cumprissem esses mesmos temores. - O senhor Oaks nos acompanhará - acrescentou Beau para satisfazer os escrúpulos que percebia em sua esposa. - Ah... Arqueando com surpresa uma de suas sobrancelhas muito negras , Beau esquadrinhou o rosto de sua esposa. Quase teria jurado que a resposta trazia um matiz de decepção. Levou a mão ao peito e prometeu solenemente: - Procurarei me vestir de maneira mais adequada para a ocasião, senhora. Cerynise entendeu o comentário como um convite a que aplicasse o mesmo cuidado a sua vestimenta. Executando uma encantadora reverência, obsequiou ao Beau com um sorriso coquete. - Tratarei de fazer o que é apropriado, capitão.


Depois de profundas reflexões, Cerynise optou pelo tafetán azul prateado como melhor escolha para a noitada. As mangas cavadas e a saia até os tornozelos seguiam a moda atual, tanto, sem dúvida, como o recato com que apareciam seus ombros nus. Não levava adornos no pescoço porque o vestido não precisava deles. Do lado direito de sua cintura partia uma faixa drapeada de um azul mais brilhante, que, subindo até a manga esquerda, acabava em um vistoso laço. O cabelo estava preso com grande esmero. Atrás de cada orelha pendiam finos laços de tons azuis muito vivos, adornando as massas de flexíveis cachos enfeixados com auxílio delas. As demais tranças ficavam presas por um complexo entrelaço, que formava um volume considerável por cima da nuca. O fato de ter investido uma hora em seu penteado mostrava seu desejo de obter a aprovação de seu marido. Beau abriu a porta de seu camarote assim que ouviu o primeiro e discreto golpe de dedos, e permaneceu na soleira contemplando em silenciosa aquiescência a beleza de Cerynise. Esta aceitou seu lento e minucioso escrutínio na qualidade de mudo elogio, já que ao chegar ao alto da cabeça, final de seu percurso, o ardor daqueles olhos de safira se intensificara significativamente. Beau parecia gozar da demora com que a examinava, a julgar por seu sorriso, decididamente hipnótico. Por sua vez, a expressão de Cerynise revelava sem dúvida O alto valor que lhe merecia o que tinha diante de seus olhos; em todo caso, ficou impressionada uma vez mais pela tendência de Beau de vestir roupas de última moda. Levava umas calças de camurça cujo corte impecável se ajustava sem uma só ruga a seus estreitos quadris, enquanto um colete marrom claro e uma jaqueta verde com abas punham de relevo seus largos ombros e esbelta cintura. A gola alta da jaqueta ficava realçada à perfeição por uma gravata de seda clara, destramente amarrada antes mesmo de Cerynise entrar. - Lastimo que o senhor Oaks venha - assinalou Beau com um sorriso malicioso. Pegou a mão de Cerynise, levou-a para sua guarida e fechou a porta, aproximando-se do ouvido da jovem para sussurrar: - É digna de que lhe sirva como jantar. Seus sugestivos comentários provocaram um alegre rubor nas faces de Cerynise, e aceleraram os caóticos batimentos de seu coração. Turvada pela proximidade do capitão, a jovem se manteve imóvel e na espera, sentindo nas costas o estreito contato de seu corpo varonil. Notava em uma orelha a carícia de seu fôlego, e se sentia devorada por seus olhos. Os dedos de Beau roçaram um ombro nu, com a conseguinte aceleração do pulso de sua proprietária. - Se por acaso lhe confundiram meus recentes esforços para evitar seu camarote, senhora - murmurou Beau, acariciando seu cabelo com o nariz, - saiba que não deixei de a desejar. Nosso distanciamento físico não faz mais que prevenir o risco de que abuse de você. Cerynise examinou a possibilidade de que a desculpa de Beau não fosse mais que um estratagema matreiro, uma vez que procedia de um homem aparentemente muito pouco dado a evitar encontros com ela que pudessem resultar na satisfação de seus desejos. Apesar das entristecedoras, e não menos excitantes, amostras de que Beau não retrocedia em seus esforços


de seduzi-la, deixou de um lado suas suspeitas, pelo simples motivo de que não desejava prejudicar o prazer da noitada. A presença de uma terceira pessoa em funções de acompanhante garantia que nada de indecoroso acontecesse entre eles. Dispôs-se a aguentar o ardente assalto a seus sentidos que iniciava na mão de Beau, em ascensão desde sua esbelta cintura, mas não pôde conter um leve e entrecortado suspiro ao notar sua palma calidamente ajustada ao contorno de um seio. O fogo que acenderam as lentas carícias circulares que executava o polegar do Beau sobre o maleável mamilo estiveram a ponto de despojar Cerynise de toda sua força de vontade. de repente parecia que uma chama voraz lambesse o carnudo cume, despertando um anseio abrasador em suas entranhas de mulher e incendiando-a dos pés a cabeça com ávidos desejos. Disse a si mesma que convinha pôr os pés na estrada e refugiar-se na segurança de seu aposento antes que a mão de Beau reclamasse novas conquistas, mas suas pernas pareciam de chumbo, e se negavam a obedecer sua débil ordem. - Não posso olhar você sem perder a compostura - sussurrou Beau, aspirando com olhos fechados a deliciosa fragrância de seu cabelo. - Se soubesse o muito que a desejo se compadeceria de mim... Ouviu-se um forte golpe na porta, que Cerynise, aliviada, aproveitou para deixar de conter o fôlego e exalar um suspiro entrecortado. A intrusão a salvava do difícil transe de sucumbir não só à travessa mão de seu marido, mas também a quanto este tinha na mente. Também avivava a frustração de não poder entregar-se a ele na segurança de um matrimônio duradouro. - Muito tarde - sussurrou o capitão, imprimindo um doce beijo em seu ombro, e fazendo que Cerynise fechasse os olhos para gozar a fundo do quente toque de seus lábios. Foi um momento de êxtase que Beau interrompeu afastando-se, não sem antes acariciar o seio pela última vez. tomou uma pausa para esfriar seu ardor e em seguida abriu a porta. Também Oaks se esmerou em ter bom aspecto. Assentava-lhe muito bem seu conjunto. Paletó granada, calças cinzas e camisa recém engomada. Era um homem sociável, além de excelente narrador. Obsequiou ao Cerynise com anedotas de suas aventuras marítimas ao lado do capitão, e mais de uma vez fez com que contivesse o fôlego, pendente da conclusão; tanto lhe fez rir com seu engenho. Desfrutaram de outra suculenta refeição criada pelo talentoso monsieur Philippe. Quando chegou o o porto, Cerynise tinha motivos para perguntar se já rira tanto em alguma ocasião. Beau se contentou deixando a hospedagem em mãos de seu primeiro oficial, enquanto ele, reclinado em sua cadeira, observava Cerynise. - A moral - disse Oaks, pondo final a outra história - é que se pode colaborar com um chinês e um mouro e no final saem todos beneficiados. - Continuo sem entender porque o sultão não colocou a a todos no cárcere - disse Cerynise entre risadas. - Mas me alegro de que não o fizesse - acrescentou com voz cristalina. Olhou para Beau, cujas ousadas façanhas a encheram de admiração, mas também de


medo pelos riscos a que tão propenso se mostrava. Quisera jogar no rosto a pouca prudência que investia em preservar a vida. Era, em definitivo, o mesmo impulso que experimentou em menina cada vez que o via percorrer a campina como um insensato montado no Sawney. Seu marido se reclinou na cadeira e esticou suas longas pernas com toda liberdade. Cerynise, que o olhava com dissimulação, pensou que não aparentava mais anos do que tinha, mas que parecia imensamente mais amadurecido que outros homens de sua idade. Aguentava com notável desenvoltura o peso da autoridade e da experiência, aceitando a responsabilidade do mando com a mesma naturalidade como se tivesse nascido com ele. Por outro lado, era hábil em ostentá-lo sem recorrer a exigências tirânicas. A luz do abajur ressaltava seu rosto, enfatizando o marcado perfil de seu queixo e a nobre elegância de suas feições. Seus olhos ficavam obscurecidos pela sombra que a lanterna jogava em seu rosto, infundindo nele uma cor impenetrável que não impediu Cerynise perceber que estava devorando-a com o olhar. - Quando deixou Charleston, capitão, perseguia conscientemente uma vida de aventuras? - inquiriu a jovem com voz serena. O cálice de porto girou entre os longos dedos de Beau, que encolheu os ombros. - Nossas experiências só parecem ousadas no relato posterior, senhora. - Nada disso! - protestou o senhor Oaks. - Tudo o que disse é certo, e o capitão o sabe. - Brincou com fogo em mais de uma ocasião - insistiu Cerynise. - Em mais de cem, para ser exatos - se gabou o senhor Oaks; - como quando passamos um mês escondidos na Maiorca porque... - Acho que basta, senhor Oaks - murmurou Beau com um sorriso tolerante. A admoestação, embora suave, bastou para silenciar o primeiro oficial. Justo quando Beau levantava a licoreira para encher de novo a taça do Oaks, ouviu-se ruído no corredor. Levantou-se sem pressas, e ao abrir a porta descobriu dois marinheiros que se olhavam com certo receio. Um deles empurrou ao outro para que agisse como porta-voz. - Desculpe, capitão, mas lá em baixo há problemas. - De que classe? - perguntou Beau sem alterar-se. Oaks se levantara, e estava de pé ao lado de seu capitão. - Wilson está bêbado, senhor - balbuciou o outro homem. - Já deu uma punhalada em Grover, e agora tem uma tocha. Está arrebentando os tabiques debaixo do convés, senhor. Acha que é divertido. Cerynise não considerou divertido abrir brechas nos tabiques de um navio que navega, como não o era empunhar uma tocha em plena bebedeira, e menos ainda dar punhaladas em alguém. Beau, não obstante, voltou-se para ela sem mostrar nervosismo. - Rogo que nos desculpem, senhora. - É claro. - Ela se apressou a ficar em pé. - Voltarei para meu camarote. - Não, é melhor que fique aqui. - Percebendo sua surpresa, Beau lhe disse: - Feche a porta por dentro e não deixe ninguém entrar até minha volta. Entendeu?


- Sim, capitão - disse Cerynise, concordando com um gesto vacilante. Não era bom desafiar ao Beau Birmingham no que se referia ao status marital de ambos, mas teve a sensatez de dar-se conta de que não era momento de opor-se a suas instruções de capitão. Para falar a verdade a aliviava sabê-lo tão experiente em dirigir situações adversas, conforme confirmaram as intervenções de Oaks durante a sobremesa. Recordando-as, suplicou em voz baixa: - Tome cuidado, por favor. Beau estava a ponto de cruzar a soleira, mas se deteve para olhá-la por cima do ombro. Depois de esboçar um sorriso, abandonou o camarote com o Oaks lhe pisando os calcanhares. Cerynise suspirou, preocupada não por ela mesma mas sim por seu marido. Não podia dizer que Oaks lhe fez um favor alardeando as proezas do capitão. As anedotas do primeiro oficial informaram Cerynise que Beau tinha costume de tomar o comando em situações em que havia perigo. Sua imaginação forjou toda sorte de visões diabólicas do que podia acontecer a alguém no transe de arrebatar a um bêbado uma tocha ou uma faca. Voltou-se para as janelas de popa e se aplicou uma mão trêmula na testa. Atrás do navio todo era escuridão, mas nem sequer a alvorada lhe teria permitido ver algo atrás dos vidros. A consciência de que Beau corria perigo a reduzira a uma massa trêmula de inquietação feminina, inquietação por um homem a quem tinha todo apreço. Ao dar-se conta disso, Cerynise se deixou cair de modo brusco nas almofadas, antecipando-se em muito pouco ao momento em que suas pernas teriam deixado de sustentá-la. Continuava paralisada pela ansiedade quando ouviu passos na escada. Então, sem lembrar-se das instruções do Beau, correu para a porta, tirou-lhe o fecho com mãos trêmulas e puxou-a. Seu marido levantou uma mão com intenção de bater, mas a súbita aparição de Cerynise lhe fez franzir o sobrecenho. -Não lhe disse que não abrisse a porta até nova ordem? Tinha razão. Acabava de cometer uma imprudência. Podia ter aberto a porta a qualquer desconhecido. Entretanto, naquele momento nada disso lhe importava. Sem pensar duas vezes, lançou-se sobre seu marido e o abraçou. - Graças a Deus que está bem! Estava tão preocupada... Os braços de Beau a rodearam com força até anular toda distância entre seus corpos. Apoiou uma face no cabelo de Cerynise, um pouco perturbado pelas emoções da jovem. O momento se assemelhava a aquele outro em que, expulso da sela por um corcovear de Sawney, esteve a ponto de ficar inconsciente pelo impacto de sua cabeça contra uma árvore. Naquele tempo, naquele tempo, ao sair de seu atordoamento tinha a cabeça apoiada nos joelhos de Cerynise, e o rosto banhado por suas lágrimas. - Claro que estou bem - sussurrou em seu ouvido para tranquilizá-la. Vendo-se livre das garras do medo, Cerynise se sentiu flutuar. Era tão forte seu alívio que quase lhe dava vertigem. Cobriu-lhe o rosto de beijos, expressando seu júbilo com risadas e ardor de menina. Seu gozo aumentou quando a boca dele começou a capturar a sua com


crescente avidez. Embora breves, os beijos de Beau eram exóticos bocados que deram a jovem fome de algo mais substancioso. ficou então nas pontas dos pés e lhe enlaçou o pescoço com seus braços. Presa a ele sem vergonha alguma, deu a sua língua e seus lábios a resposta inflamada que procurava. Nem sequer quando a mão de Beau se colocou por debaixo de suas nádegas e a apertou contra si fez Cerynise algum

esforço para afastar-se da crescente

protuberância que nem as diversas capas de saias e anáguas conseguiam ocultar. Quis o destino que o desventurado Oaks escolhesse esse momento para descer ao corredor. Vendo-os estreitados em um abraço não muito próprio do espaço que ocupavam, ficou boquiaberto e, tomando brusca consciência de seu engano, girou sobre os calcanhares; mas era muito tarde. O casal se separou. Vendo o Oaks, Cerynise fugiu ruborizada para seu camarote, enquanto Beau se afastava para um lado. - Rogo que me perdoe, capitão - se desculpou o oficial, envergonhado. - Só queria... - Não se preocupe - disse Beau com secura, respirando entrecortadamente. Em seu interior se travava uma batalha. Sopesou os prós e contra de seguir sua esposa ou retornar a seu próprio camarote. Depois daquela interrupção era duvidoso que Cerynise quisesse vê-lo; em todo caso, não com o mesmo entusiasmo mostrado há a alguns instantes. A coisa própria de um homem prudente seria esperar que estivesse com vergonha. A coisa própria de um homem prudente seria voltar para seu camarote e passar uma noite de mil demônios, revolvendo-se na solidão de seu beliche e jogando pragas contra a inoportuna intrusão do primeiro oficial. Com um brilho ameaçador nos olhos, foi a seu camarote e se encerrou nele com uma violenta portada. Stephen Oaks se sobressaltou e, qual tímido ratinho, enfiou-se no pequeno cubículo que lhe servia de alojamento provisório. O capitão não dera detalhes sobre o estado de sua relação com sua esposa; até então, entretanto, todos os indícios apontaram a que a jovem resistia a cair nos braços de seu marido, contrariamente a tantas mulheres, conforme tinha o próprio Oaks comprovado. O fato de que acabara de vê-la reagir com elevada dose de paixão não fazia mais que aguçar a vergonha do oficial. Desta vez sim, dera o fora com seu capitão. Exausta e dolorida por uma noite cansativa de saltos e remexidas incessantes, Cerynise se levantou, banhou-se e se vestiu com roupas recatadas de lã azul escura. Prendeu o cabelo na nuca e beliscou as faces para lhes dar um pouco de cor. Pouco depois de acabar de arrumar-se, chegou Billy Todd com a bandeja do café da manhã, mas não era o habitual Billy sorridente e comunicativo, mas sim um moço pálido e silencioso que parecia esforçar-se por manter uma compostura que não sentia. - Passa-se algo, Billy? - perguntou ela com inquietação ao vê-lo depositar a bandeja. O menino negou com a cabeça, fugindo de seu olhar. - Não, senhora. Tudo vai bem. Cerynise não ficou nem pouco convencida. As febres eram fáceis de contrair, e até um moço forte como Billy poderia ser presa delas.


- Não estará doente? - Não, não, senhora. Billy deixou a porta aberta, e por muito que aguçasse o ouvido Cerynise não ouvia chegar do convés os sons a que estava acostumada pelas manhãs. Um lúgubre silêncio os substituíra. Nasceram nela vagas apreensões. - Billy, está certo de que...? - O moço se apressou a retroceder para a porta, resistente a responder perguntas. - Virei mais tarde para recolher a bandeja, senhora. - Vacilou brevemente antes de acrescentar: - É melhor que não saia em toda a manhã. Despediu-se com um gesto brusco da cabeça e partiu. Cerynise ficou olhando a bandeja de comida, pensativa. Em sua mente ressoava aquele silêncio que lhe pareceu mais ensurdecedor que um rufar de tambores e pífanos. Vencida pela curiosidade, abriu a porta e permaneceu na soleira, espectadora e silenciosa. A ominosa quietude se prolongava. A bordo do Audaz havia mais de cem homens. O que podia lhes impor um silêncio tão sepulcral? Cerynise, que não conhecia da vida do marinheiro a não ser o que observara depois de zarpar de Londres, não soube explicar o silêncio que reinava na fragata. Navegavam a boa velocidade, mas já não se ouviam os golpes e estalos continuados das tarefas cotidianas; tampouco os gritos do vigia matutino, os cantos e os murmúrios que estavam acostumados a discernir-se cada manhã do camarote. Tudo estava em silêncio. Percorreu o corredor em silêncio e subiu uns degraus até poder ver sobre convés. Descobriu então com assombro que toda a tripulação estava reunida no convés principal, completamente muda, com as mãos cruzadas nas costas, as pernas separadas e formando fileiras de cara para o castelo de proa, na mesma direção em que olhava ela. Como não via o que tinham diante de si, Cerynise teve que subir uns degraus mais. Lamentou-o imediatamente. Viu um homem nu de cintura para cima amarrado aos cabos do mastro. Tinha os pulsos à altura da cabeça, seguros com cordas. A seu lado estava o robusto ajudante do contramestre, cujos braços tinham a grossura de um aríete. De sua mão de gigante pendia um açoite. Era o instrumento mais cruel que Cerynise vira em sua vida. Afastou a vista com dificuldade e procurou o Beau. Também estava no castelo de proa, alto, imperturbável, muito elevado no seu corpo poderoso, revestido de enorme poder e autoridade, e ao mesmo tempo frio e distante, como se estivesse desprovido de humanidade. Ao vê-lo deu um salto o coração. Oaks deu um passo à frente e anunciou com voz clara: - O marinheiro Redmond Wilson, a quem se achou culpado de negligência no cumprimento de seu dever, posse e uso excessivo de bebidas alcoólicas a bordo e ameaças contra a vida do Thomas Grover, assim como contra o bem-estar da tripulação e a integridade do navio, é condenado a receber vinte açoites, castigo que se executará imediatamente. Ninguém se moveu à exceção do ajudante do contramestre, que voltou um pouco a cabeça em direção a Beau. Com um gesto sucinto, o capitão do Audaz assinalou o início do


castigo. O açoite cortou o ar com o som sibilante de uma serpente ao ataque, entrando em contato com a carne humana e arrancando de sua vítima um rugido de dor. Cerynise se encolheu, sem dar-se conta de ter deixado escapar uma aguda exclamação. No lúgubre silêncio posterior, todas as cabeças estavam voltadas para ela. Seu primeiro impulso foi sair correndo, mas o que fez era muito flagrante. O orgulho a obrigava a encarar as consequências de seus atos. Respirando com dificuldade, subiu a coberta e aguardou em silêncio para ser julgada. Billy Todd, que estava perto, olhou-a com horror. O resto da tripulação pousou nela olhadas que se repartiam entre a incredulidade e a compaixão. Abriu-se espaço entre os homens, e Beau foi a seu encontro. Cerynise não se enganou nem um instante a respeito de sua fúria. O capitão a agarrou pelo pulso e sem emitir uma palavra a acompanhou escada abaixo, até deter-se diante da porta do camarote. - Não deveria ter subido ao convés - grunhiu, ao mesmo tempo que abria a porta. - Billy não a avisou? - Disse-me que não saísse - reconheceu Cerynise em voz baixa. - Essa classe de instruções costumam ter motivos - afirmou Beau com dureza. - Daqui para frente, senhora, fará bem em obedecê-las. - Farei isso - sussurrou ela, próxima do pranto. Percebendo em seus olhos um brilho incomum, ele deu um passo adiante, mas se deteve, escandalizado de que lhe ocorresse sequer desculpar-se. Então deu meia volta e se afastou do camarote, deixando que Cerynise fechasse a porta. Os gritos abafados de Redmond Wilson chegaram aos ouvidos da jovem para torturá-la, sem que pudesse fazer nada para sossegá-los. Sabia que o castigo era merecido, e que ela, enquanto passageira de um navio que não estava acostumado a aceitá-los, ficava como a intrusa, a que se intrometeu nos assuntos de seu marido e o envergonhara ante seus homens. Por fim emudeceram os uivos, e ao termo de um breve intervalo começaram a se ouvir os

sons habituais. Entretanto, ninguém desceu para vê-la. Permaneceu isolada em seu

camarote, e desta vez jurou não sair até que lhe dessem permissão, ou em caso contrário tirassem seus restos da improvisada cripta. Ao cair a noite seus nervos não aguentavam mais. Billy Todd não se apresentou em todo o dia, nem com a comida nem com o jantar. Sua ausência não contrariava Cerynise em excesso, uma vez que não se sentia capaz de comer nem um bocado. Quando a escuridão foi total sua agitação continuava aumentando. Estava claro que a deixaram sozinha para que meditasse na culpa em que incorrera por desobedecer uma ordem, apesar de que a tivessem comunicado de maneira informal. Ouvindo passos perto de sua porta, obrigou a suas pernas trêmulas a executar o ato de ficar em pé. Beau entrou com expressão ainda carrancuda, mas em seguida se deteve e olhou ao redor com surpresa. - Por que não acendestes os abajures? - Não me ocorreu - admitiu sua esposa com voz débil.


Beau se apressou a encarregar-se ele mesmo da tarefa, e em pouco tempo ficou dissipada a escuridão do camarote. O dourado resplendor pareceu reconfortar Cerynise, ao mesmo tempo que banhava brandamente o rosto de seu marido. Decidida por fim a olhá-lo nos olhos, percebeu que já não tinha o sobrecenho franzido. Sua presença estreitara ainda mais as exíguas proporções do camarote, pelo menos tal como o via ela. Beau se moveu inquieto, tocando ora o espaldar de uma cadeira ora a armação do beliche, e endireitando o lavatório sem abandonar nem um instante sua expressão pensativa e ar de desgosto. - Mandarei Billy lhe trazer uma bandeja de comida - acabou por dizer. - Não é necessário que o incomode. Beau olhou o camarote com surpresa. - Mas se não comeu nada desde o café da manhã! - O jantar de ontem à noite foi copioso. - De qualquer modo mandarei por uma bandeja. - Já lhe disse que não é necessário. Não tenho fome. - Está bem! Esqueça disso! - Por que estava tão zangado ontem comigo por subir ao convés? -soltou Cerynise, que já não podia conter-se. Olhou ao Beau com raiva, entre incipientes lágrimas. - No que lhe prejudicou minha presença, afinal? - Têm alguma idéia de que aspecto apresenta as costas de um homem depois de uns açoites, senhora? - perguntou Beau esticando a mandíbula, cujos músculos se viam palpitar em suas enxutas faces. - Há vezes em que a pele se levanta e ficam tiras em carne viva. Parecelhe bem que uma mulher presencie algo assim? Cerynise empalideceu. - Não, Beau, naturalmente que não. Tinha razão em esperar que permanecesse no camarote, e eu me equivoquei não fazendo caso ao Billy, mas no fundo que dano fiz? Ele ergueu a vista ao teto uns instantes antes de responder. - Misturou-se em algo que não era de sua incumbência, Cerynise. Em certas ocasiões, o capitão de um navio não tem mais remédio que dispensar um castigo e tomar medidas que talvez uma mulher não possa compreender. Sem disciplina os marinheiros não se sentiriam obrigados a mostrar respeito aos oficiais de qualquer classe. A ordem se tornaria impossível... - Não é preciso que me explique tudo isso - interrompeu ela, mas ficou em suspense, porque entendeu em todo seu alcance as palavras de Beau. Este, apesar de sua vontade de ferro, não pôde dissimular sua contrariedade. - Não queria que ela visse executar suas ordens. - Isso não tem nada a ver - protestou ele. Apesar de tais objeções, Cerynise estava certa da verdade de sua conclusão; mesmo assim preferiu não pressionar ao Beau, a não ser perguntar afavelmente: - Quem desarmou Wilson? - Eu, é claro. É meu navio. Sou o responsável. Justamente o que ela pensara na noite anterior, quando tremera de medo que saísse


ferido. - Do mesmo modo que foi responsável por castigá-lo. Ambas as ações deviam realizarse para proteger a outros. Ele parecia incomodado. - Espera que eu o tenha por um ogro só porque possue a coragem de executar a justiça sempre que for necessário? Não, não, nada disso. Tenho plena confiança em sua capacidade de ser justo quando tem de sê-lo, e severo em igual medida quando o exigem as circunstâncias. É o capitão deste navio, e sua responsabilidade se estende a quantos navegam nele. Beau se aproximou e lhe pôs um dedo debaixo do queixo, levantando-lhe a cabeça para examinar seu rosto. Em seus olhos de safira havia mais suavidade que nunca. - Quer dizer que também sou responsável por você. Talvez fosse a fantasia de diabo que levava Cerynise que a instigou a responder: - Só até que cheguemos ao Charleston, capitão. Beau não estava muito certa de agradecer o aviso. Afastou-se com o sobrecenho franzido e caminhou para a porta. Na soleira, olhou de novo a jovem. - Não esqueça de fechar a porta. Desta vez, Cerynise obedeceu ao pé da letra.

CAPÍTULO 9

Nas semanas sucessivas se manteve a elevada encomenda de retratos por parte da tripulação. Os marinheiros tinham grande estima pelo talento de Cerynise, e pareciam agradecer sua presença no convés, não só porque lhes interessassem seus desenhos, mas sim pela amabilidade e vivo engenho da jovem. Logo descobriram com alívio que não era nenhuma aristocrata de rígidas maneiras e olhar condescendente. Cerynise mostrava tanta vontade de conversar com eles como eles de falar com uma mulher, embora procurassem manter o respeito devido à esposa de um capitão, chamando-a senhora Birmingham ou senhora simplesmente, e demonstrando muito receio de passar dos limites. Foi a própria Cerynise quem conseguiu que não se envergonhassem de suas maneiras rudes. Aprendera seu jargão com suma rapidez, e recorria habilmente a ele para imitar os comentários ou maneira de falar da tripulação, arrancando gargalhadas cada vez que engrolava a voz, pendurava um polegar no cinturão e passeava com andar balouçante ou arrogante. Começava a conhecer de nome a muitos marinheiros, e lhes perguntava onde nasceram, se tinham família, quanto tempo estavam navegando e que esperanças tinham para o futuro. Falou com muitos que não tinham outro lar que o oceano e preferiam viver sem laços, mas não lhe pareciam felizes. Acontecia que não conheceram jamais outro modo de vida, ou porque se engajaram numa idade muito jovem, ou porque foram influenciados em um sentido ou outro. Alguns poucos cresceram em granjas, e ao alcançar idade suficiente foram obrigados a servir na marinha britânica. Alguns tinham família nas Carolinas ou em outros lugares da costa e estavam impacientes para voltar a vê-la, já que estavam ausentes um número considerável de meses.


Beau teve o tato de manter-se a distância, deixando que seus homens desfrutassem da companhia de Cerynise quando o permitissem suas tarefas. Pedira ao Billy que inventasse um modo de estabilizar no convés o cavalete da jovem, e que a provesse de um movelzinho portátil para suas pinturas. O resultado chamou fortemente sua atenção: Cerynise criou com suprema vivacidade a vida do navio, mostrando marinheiros com rude adorno subindo aos equipamentos do navio enquanto o vento alvoroçava o cabelo, e, como cortina de fundo, o mar agitava sem descanso seu tumultuoso fluxo. Pintou também ao timoneiro mais jovem com o leme firmemente seguro, e a brisa brincando com seus cachos castanhos e sua roupa. Beau não se viu retratado em nenhum quadro, mas de vez em quando olhava improvisadamente a sua esposa e a surpreendia observando-o com atenção, lápis-carvão e pergaminho em mão. Nessas ocasiões, entretanto, bastava que se aproximasse dela para que Cerynise começasse a embaralhar desenhos, de modo que quando chegava a seu lado o papel mostrava o rosto e silhueta de outra pessoa. Num dia frio mas de extraordinária luminosidade apareceu um grupo de golfinhos que pulou ao lado do Audaz durante várias horas. Cerynise estava tão decidida a vê-los mais de perto que em certo momento apareceu à amurada em precário equilíbrio. Reparando nisso, Beau cruzou a coberta com rápidas passadas, agarrou-a nos braços e a depositou no chão firme com uma irada reprimenda. - Tenha a bondade de não se jogar no mar, senhora! - disse-lhe. A idéia de que pudesse ser vítima de uma rajada inesperada de vento, ou do próprio balanço do navio, encheram-no de gélida apreensão. - Há um longo trecho até o fundo, e provavelmente suas saias a arrastassem com maior rapidez que que possui meu nado. Percebendo sua imprudência, ela se ruborizou. - Sinto muito, Beau - murmurou, humildemente contrita. - Nem sequer me ocorreu que pudesse cair. Apaziguado por tão gentil desculpa, Beau modificou seu tom de voz e solicitou com doçura: - Por favor, Cerynise, não volte a aparecer na amurada enquanto estamos em alto mar. É perigoso. - Sim, senhor. - Eram palavras tímidas, dignas de uma menina. Beau sorriu para sua esposa, enquanto lhe acariciava a face em um gesto que transmitia afeto conjugal. - Assim é que eu gosto. Cerynise sorriu com súbita alegria e se aproximou de Beau até notar seu braço ao redor da cintura. Não lhe importava nem um pingo que os estivessem olhando Oaks e vários homens mais. No final de contas era seu marido. - Não quis zangá-lo. - A palavra preocupação se ajusta melhor a meus sentimentos, querida - corrigiu Beau, surpreso de que aceitasse seu abraço sem resistência.


- Depois de tantos planos e esforços para trazer você comigo, lamentaria muito perder você. Cair do navio não seria boa maneira de expressar sua gratidão. Apesar de suspeitar aonde os levaria a pergunta que acabava de lhe ocorrer, Cerynise a formulou sob um disfarce de doce inocência. - Como preferiria que a expressasse, Beau? Ele sustentou seu olhar inquisidor, sabendo de sobra que resposta esperava. Pouco a pouco, um sorriso se apoderou de seus lábios sensuais. - Deixarei a sua imaginação, senhora - murmurou. - Em todo caso, a prioridade é que continue viva. - Esforçarei-me para cumprir seus desejos. - Bem. Uma vez dada essa resposta, tão simples, Beau separou os braços da cintura da jovem com uma lenta e provocadora carícia, e ao afastar-se dela a deixou com uma maravilhosa sensação de vertigem. Só mais tarde, na intimidade de seu camarote, chegou Cerynise a perguntar-se se Beau a observava com a mesma atenção que ela a ele, uma vez que o vira a seu lado logo depois de pendurar-se na amurada. Nos dias que seguiram Cerynise se atreveu a penetrar na cozinha e convenceu a monsieur Philippe de que consentisse em lhe servir de modelo enquanto trabalhava. A essas alturas o chef adquirira em sua mente proporções legendárias, e desejava uma lembrança dele. Philippe se esquivou entre risadas e se fez um pouco de rogado, mas era manifesto sua adulação por que Cerynise queria desenhá-lo. A jovem executou várias cenas em que o via fazer seus sortilégios em um espaço exíguo. Cerynise não percebeu o menor indício de que a tripulação se sentisse mal pelo castigo infligido ao Wilson. Supôs que o mereceram, e que o apagaram de suas mentes. Quanto ao próprio Wilson, passara uma semana confinado na sala de cabos, e depois lhe atribuíram trabalhos rigorosos de acordo com seus delitos e a tarefa de corrigir o dano que fez debaixo do convés, os quais realizava sob estreita supervisão. Como reparação das feridas infligidas ao Thomas Grover, também lhe foram atribuídos os deveres habituais do mencionado, além disso lhe servir até que pudesse se ter em pé. Quando se fez público que Wilson trabalharia no convés, Billy avisou Cerynise para que não subisse, e desta vez deixou assentado que eram ordens do capitão. A moça as acatou escrupulosamente. Depois de

três semanas de zarpar Cerynise despertou um dia e descobriu um

amanhecer inusualmente vermelho. As cores eram tão vibrantes que pediu permissão ao Beau para subir ao convés em hora tão cedo e instalar seu cavalete, com o objetivo de copiar o fastuoso espetáculo. Mais tarde, vendo que Stephen Oaks se deteve a seu lado para admirar a obra, não pôde conter seu entusiasmo. - Não lhe parece muito belo este ceu? - disse com ardor e voz cristalina. - Não me lembro de ter visto jamais um amanhecer tão intenso. O grunhido do Oaks mostrou que não participava de sua exaltação.


- Intenso sim é, mas amanheceres como este não são gratos a nenhum marinheiro. Cerynise o olhou com surpresa. - O que quer dizer? Oaks parou uns instantes para olhar ao redor. - Há um velho dito que os marinheiros repetem desde tempos imemoriais, senhora. De noite ceu vermelho, marinheiro ditoso. ceu vermelho à alvorada, marinheiro em guarda. Atrevo-me a predizer que dentro de pouco encontraremos mau tempo. Embora o ceu estivesse com poucas nuvens, Cerynise reconheceu que o primeiro oficial sabia muito mais que ela sobre essa classe de coisas. De qualquer maneira, a ninguém pareceu afetar o mau presságio matutino. Os marinheiros subiram aos equipamentos do navio com seu vigor habitual para desdobrar mais o velame, e até o Beau subiu a ele, embora Cerynise teria agradecido que permanecesse no convés. Mostrava-se muito experiente em abrir caminho pelos cabos de debaixo da verga, e se encarapitou inclusive em cima desta mesma, passeando por ela com aparente desenvoltura enquanto observava o horizonte, mudando de direção para inspecionar a vela estendida sob seus pés. Cerynise seguiu seus movimentos com trêmulo desassossego, e seu coração deu um pulo ao ver que uma rajada de vento o obrigava a estender os braços para manter o equilíbrio. A virulência de seu temor lhe impedia de fingir calma em presença de outros. Levando a testa uma mão trêmula para restringir de modo drástico seu campo visual, abandonou correndo o convés e procurou refúgio em seu camarote, onde deu voltas como uma fera enjaulada na espera de receber a espantosa notícia da queda de seu marido. Pouco depois Billy Todd lhe levou o café da manhã, e perguntou, simulando uma tranquilidade que não tinha nada a ver com seu sentimento interno: - O capitão também está tomando o café da manhã? - Sim, senhora. Acaba de descer. Derramando lágrimas de alívio, a jovem murmurou uma oração de agradecimento e se deixou cair sem forças em sua cadeira. Billy lhe serviu uma xícara de chá e partiu sem ter reparado em sua angústia. Quando Cerynise voltou para o convés continuava sem ter se tranquilizado de tudo. Como fazia um calor estranho para a época, atreveu-se a sair sem mais que um xale lhe rodeando os ombros. Assim que se afastou da escada começou a olhar por toda parte até divisar Beau, que falava com o piloto, um homem grisalho, robusto e de olhar acerado. Perto deles, o timoneiro mais jovem cumpria a vigia matutina. Em geral se limitava a escutar atentamente a seus superiores, mas também fazia um ou outro comentário quando se dirigiam a ele. Cerynise não soube discernir com exatidão qual era o tema da conversa; intuiu, entretanto, que tinha relação com as más previsões que fez Oaks. Supôs que sempre existia a possibilidade de que uma mudança de um ou dois graus no atraso do casco do navio permitisse ao Audaz evitar a pior parte de qualquer borrasca. Como averiguar, não obstante, onde estava concentrado o mau tempo?


Oaks se dedicava a uma tarefa que suscitara a curiosidade de Cerynise desde a primeira vez que tomou conhecimento dela. Desejosa de se aprofundar no conhecimento do artefato que o tinha absorto daquele modo, fingiu passear pelo convés até chegar à altura do oficial, e uma vez a seu lado aguardou pacientemente que houvesse devolvido o instrumento a seu lugar. - É um sextante? - perguntou, sorrindo e assinalando o aparelho metálico, semelhante a um triângulo com base curva e vários acessórios intrigantes. - Com efeito -respondeu Oaks, surpreso pelos conhecimentos da jovem. Segurou o sextante em frente dela para que o visse com maior claridade. - Com isto e um cronômetro, quase seria possível a um marinheiro traçar seu rumo pelo ceu. - Permite-me que lhe pergunte como funciona? - Acolhendo seu interesse com um sorriso, Oaks propôs com gentileza: - Deixe que lhe mostre isso, senhora. Basta olhar por este telescópio daqui... - Deu umas batidinhas com o indicador na parte mencionada. ... - e enfocar algum objeto do ceu, neste caso a lua, que teve a amabilidade de ficar depois da alvorada. - colocou-se atrás de Cerynise, passou os braços por debaixo dos seus para realizar os ajustes necessários e se inclinou com o objetivo de introduzir uma ligeira correção. - Em seguida se mede o ângulo entre o objeto e o horizonte. Com esse ângulo, o navegante pode ir aos livros de pranchas e calcular em breves instantes nossa latitude. Cerynise estava absorta no estudo da lua, cuja palidez presente não a impedia de discernir vagas sombras na superfície. - É assombroso, senhor Oaks! Nunca me ocorreu que pudessem ver-se tantas coisas. - Assombroso, com efeito - assentiu Oaks. - Antes de que se inventasse o sextante os marujos tinham que confiar no astrolábio, mas este de dia dá mau jogo, porque teria que enfocá-lo no sol. Os navegantes que levavam muitos anos no serviço costumavam ficar cegos. Cerynise desceu o sextante e olhou ao Oaks com certa consternação. - Deve sentir-se extremamente afortunado por dispor de tão bom instrumento como é o sextante. - Com certeza, senhora. E agora, permita que lhe ensine a calcular um ângulo. Assim Oaks estava fazendo

quando ela tomou consciência repentina de algo. Como estava

totalmente concentrada em aprender o funcionamento do sextante passou a esquecer-se de tudo salvo de seu coração, cujas batidas adquiriram velocidade, e da firme, inexplicável certeza de que Beau se achava perto. Sua intuição foi confirmada por uma pergunta formulada em tom brusco. - O que estão fazendo, senhor Oaks? O primeiro oficial ficou tenso, deixou cair as mãos e se separou de Cerynise. Estava isento de culpa, já que não se produziu a menor falta ao decoro, mas mesmo assim começou a balbuciar. - Perdoe, capitão; é que sua esposa... quero dizer a senhora Birmingham, mostrou


interesse pelo mecanismo do sextante. - Entendo - respondeu Beau, olhando a um e outra. Enquanto os observava, e incrementava o desgosto de ambos, o vento lhe despenteou seus cachos de azeviche. Cerynise lamentou ter envolto ao oficial em uma situação que, embora inocente, pelo visto acendeu a ira de seu marido. - Talvez tenha feito mal em interromper ao senhor Oaks em seu trabalho, capitão. Não voltarei a fazê-lo. Beau se voltou para seu primeiro oficial. - Pôde dar término a suas explicações, senhor Oaks? Oaks, inquieto, mudou de postura, cruzando os braços e apertando o sextante contra o peito. -Só ensinava à senhora Birmingham como calcular um ângulo, senhor, mas não pude terminar. - Continue então, senhor Oaks - insistiu Beau, respondendo com um sorriso ao desconcerto de Cerynise e do oficial. - Não conheço ninguém que possa instruí-la melhor. - O-obrigado, senhor - balbuciou Oaks, aliviado. Vendo seu marido afastar-se com tranquilidade, Cerynise dissimulou um sorriso. Tinha suspeitas fundadas de que Beau Birmingham se havia proposto assustá-los deliberadamente sem outro motivo que divertir-se às suas custas. Possivelmente o moço de outros tempos, que tanto desfrutou zombando dela, não desapareceu de todo. Apressou-se a despedir do primeiro oficial. - Desculpe, senhor Oaks, mas queria ter umas palavras com meu marido. Afastando-se, caminhou com rapidez para alcançar Beau, e se colocou a seu lado com ar desenvolto. Ele a olhou de esguelha, mostrando certa surpresa. O tímido sorriso com que o obsequiou ela não carecia de encanto. - Imagino que está satisfeito, capitão. Sua afirmação pareceu deixar Beau perplexo. - Como diz, senhora? - Sabe de sobra o que digo. Conheço você há muito tempo para não reconhecer seu malévolo engenho. Atormentou intencionalmente esse pobre homem, fazendo ele acreditar que tinha ciúmes... Ele entrecerrou os olhos e ergueu a vista para os cabos grossos. - E os tenho. A simples afirmação desconcertou Cerynise até o extremo de não achar mais palavras com que acusá-lo. - Tenho ciúmes de qualquer homem a quem dedica sequer uns instantes de seu tempo, os que não me dedica - prosseguiu Beau. - Poderia ter lhe mostrado o sextante eu mesmo, e ter lhe explicado seu funcionamento, mas desde que zarpamos de Londres me evita como se tivesse a peste. O único modo de que consinta a entrar em meu camarote é em presença de outros convidados. Na verdade, senhora, protege sua virtude com maior eficácia que qualquer cinto de castidade. Suas acusações fizeram com que Cerynise tomasse consciência de que estava certa:


estivera evitando a ele, com efeito. Mas o que fazer se cada excitante momento que passava com ele em particular a aproximava um passo mais de sua cama? - Já sabe por que não posso me arriscar a estar com você. Beau suspirou profundamente, cansado de seus argumentos, e olhou o mar. - Aproxima-se uma tormenta. A brusca mudança de tema pegou Cerynise de surpresa, que não obstante o agradeceu. Voltava a pisar em terreno firme. - Como sabe? Ele se aproximou do corrimão e lhe fez gestos de que o seguisse. Assinalou a massa cinza e revolta que deixava o casco a seu passo. - Ontem estava o mar tão agitado? Ela observou com atenção os altos picos salpicados de espuma, e a impenetrável escuridão que encobriam. Por fim negou com a cabeça. - E o vento? Notou alguma diferença desde que subiu ao convés? Cerynise pensou antes de concluir que o ar era mais frio. - O vento mudou de direção. - Beau assentiu, com agrado, pela sua observação. - E pode ser que volte a fazê-lo. - Percebendo a súbita preocupação de Cerynise, sorriulhe. - Não há nada para temer, querida. O Audaz tem enfrentado muitas tormentas, e não sofreu deteriorízação por causa elas. - Com mau tempo não poderei divisar o horizonte - comentou ela com abatimento, olhando de soslaio ao que continuava visível. Beau soltou uma gargalhada. Depois pôs as mãos nos ombros de sua esposa, atraiu-a para si e descansou o queixo em sua cabeça. - Nesse caso é melhor que volte para meu camarote, senhora, porque prometo que embora estas águas não tenham visto jamais uma borrasca tão negra poderei lhe dar algo para olhar e agarrar, algo que absorverá sua atenção até o extremo de que nem sequer perceba a passagem da tormenta. - Beau! - exclamou Cerynise entrecortadamente. Com aquele humor tão subido de tom era impossível passar por cima de suas insinuações. - Deveria ter vergonha ! Ele riu entre dentes, segurando-a com mais força ainda. Passara muito tempo desde o último abraço. - Por que? Com este vento ninguém nos ouvirá. - Pode ser, mas é pouco decoroso que me fale deste modo quando dentro de algumas semanas talvez já não estejamos casados. - Nós nos ocuparemos disso no seu devido tempo, senhora. Até lá é minha esposa, e já que me proíbe de gozar de você como fazem os maridos, terá que suportar minhas brincadeiras de mau gosto, porque é minha única maneira de me vingar de você. Afetando uma careta, Cerynise tratou de escapar de seu abraço, mas ele estreitou ainda mais o cerco e sussurrou, pondo o queixo na altura de sua têmpora:


- Fique quieta ou passaremos vergonha por minha culpa. Ela voltou a apoiar-se nele e afundou o rosto em seu pescoço, lhe concedendo o amparo de suas saias. Alegrava-se de que Beau não lhe visse o rosto, porque estava tão acalorada que quase se asfixiava. Ao mesmo tempo, entretanto, produzia-lhe uma estranha e deliciosa satisfação comprovar que sua proximidade podia afetá-lo em presença inclusive de uma multidão. Passou muito tempo antes de que seu marido a deixasse livre, e até então foi acariciando a parte inferior do braço à medida que se afastava, até que tocaram as pontas dos dedos. Então Cerynise voltou a cabeça com um sorriso zombeteiro e partiu rapidamente para a escada. Beau a seguiu com o olhar, os olhos brilhantes ao reconhecer, exclusivamente para si mesmo, que estava tomando cada vez mais carinho por aquela moça, por quem em outros tempos sentiu afeto de irmão. O mar começou a formar redemoinhos, e não demorou para adquirir tonalidades cinzas, escuras e ameaçadoras. Cerynise olhando o mar tinha o suficiente para que sentisse vontade de vomitar. Formou-se um amontoado de nuvens baixas que tamparam o sol, e o vento, cada vez mais forte, levou o pouco calor que restava. A chuva açoitava rostos e mãos, e com o tempo caiu a noite qual negro e triste manto. Cerynise se retirou para seu camarote, jantou a sós e se meteu em seu estreito beliche. De repente, tudo no alojamento do primeiro oficial lhe parecia asfixiante e aborrecido, e reprimiu o impulso de fugir para o cômodo masculino ciente de que só a separava o corredor. Tinha sérias dúvidas de que Beau se achasse nele, já que passara grande parte do dia no convés , e ainda não se ouvia o ranger de pranchas que teria acusado seu retorno ao camarote; de qualquer modo, Cerynise teria muito pouco para inventar toda sorte de desculpas e motivos para aguardar sua volta e abandonar-se depois por completo a aquele olhar azul e sedutor, e a quanto viesse depois de um intervalo sem dúvida breve. Passou a contra gosto a noite em seus virginais domínios, mas despertou ao amanhecer com a sensação de que o mundo sofreu uma mudança drástica, devido ao fato de que o navio já se internara na borrasca. O ceu tinha uma estranha cor cinza com matizes amarelos, que dificultava à Cerynise o mero ato de levantar a vista. Aborrecia a pálida mortalha que se instalara sobre todas as coisas visíveis; não só isso, mas também a interpretou como mau augúrio para o que estava por vir. - O vendaval vai ser de tomar armas, senhora - anunciou Billy aguadamente quando trouxe a bandeja do café da manhã. - É o que diz o capitão. Um suspiro entrecortado escapou de lábios de Cerynise, que perguntou sem esperança: - Equivocou-se alguma vez, Billy? - O grumete se mostrou perplexo. - Quem, o capitão? - Fez um esforço de memória. - Não, senhora, que eu recorde nunca. Conhece o mar como a palma... - De sua mão - concluiu ela com voz angustiada. Depois gemeu e afastou para um lado a bandeja. Estava certa de que seu medo das tormentas nascia principalmente da lembrança


da que ceifou a vida de seus pais. Confiou em que a que se aproximava não mostrasse a mesma crueldade. - Tenho a sensação de que vou voltar a enjoar. - Não o faça, senhora - pediu Billy com ansiedade. - Teria que contar ao capitão, e agora mesmo está ocupadíssimo. Além disso, pediu-me que se quisesse eu a acompanharia ao convés, porque não resta muito mais tempo para subir antes de que a tormenta nos alcance de cheio. Ela assentiu silenciosamente e seguiu ao grumete pelo corredor, embrulhada em uma capa. Assim que pôs o pé no convés sentiu que um vento gelado lhe entrava pela roupa e lhe açoitava o rosto. A fragata suportava o incessante embate das ondas, que, cada vez mais seguidas, lançavam sua espuma por cima da amurada. O Audaz se afundava nos fundos sulcos que separavam às cinzas e tumultuosas montanhas de água, subindo de novo assim que o mar voltava a encher-se sob a proa. Cerynise esticou um braço para conservar o equilíbrio, porque parecia que o convés se desmoronava sob seus pés, enchendo seus olhos de uma mescla de assombro e pavor. Estenderam-se cordas de lado a lado do convés em função de cabos, e embora ainda não as utilizava ninguém da tripulação, Cerynise não tinha a mesma confiança em sua capacidade de manter-se em pé sem ajuda. Assim, aferrou-se desesperadamente a uma corda, observando o entorno com o qual se familiarizou. Pareceu-lhe muito pequeno, apenas uma bolinha de pó em comparação com a imensidão do mar. Procurou instintivamente Beau, e o encontrou de novo falando com o piloto. Os dois olhavam o mar, e sua atitude, serena, era de grande concentração. Beau vestia um grosso pulôver de marujo e uma boina muito enfiada, sem dúvida para que o vento não lhe jogasse sobre os olhos sua negra cabeleira. Houve um momento em que expôs o rosto a uma fria rajada e riu como desfrutava enormemente. Pensando, com um meneio de cabeça, na incompreensível tendência dos homens a encarar o perigo, Cerynise olhou ao redor pela última vez e decidiu que já vira o bastante. A calma relativa do camarote do primeiro oficial lhe oferecia de repente grandes atrativos. A tormenta se prolongou toda a noite, até o amanhecer. De tão escassa, a luz da alvorada era quase imperceptível; tudo, até os mastros, estava envolto em uma névoa cinza espessa e aquosa. Mais à frente do pequeno espaço em que navegavam não havia nada tangível, e estava para ver se algo sobreviveria à violenta tempestade, porque se convertera em um diabo resolvido a descarregar sua terrível vingança na embarcação que ousou entrar em seus domínios. Durante a madrugada do terceiro dia um golpe surdo no corredor arrancou Cerynise de seu sonho. Seguiu-o uma maldição proferida entre dentes. Cerynise, sobressaltada, abandonou o beliche, abriu a porta de par em par e no momento de assomar viu que Beau cambaleava pelo corredor em direção a seu aposento. Estava tirando o impermeável, que pelo visto não fora de grande ajuda, porque as roupas de baixo estavam tão empapadas que deixavam um regato de água pelo corredor. Até vendo-o de costas, ela se deu conta de que o capitão tremia de frio.


Beau abriu bruscamente a porta de seu camarote e entrou sem mais. Em seguida jogou no chão seu impermeável e sua boina e começou a tirar o pulôver, assim como a roupa de manga longa que levava debaixo. Cerynise foi atrás dele, e uma vez fechada a porta correu para o armário que estava atrás do aparador de barbear. Ele voltou a cabeça no tempo justo para reparar que tinha companhia. Seus olhos se posaram fugazmente na camisola de Cerynise, a mesma que vira ela usar durante sua enfermidade. O suave tecido se amoldava divinamente às volumosas curvas do jovem corpo que cobria, mas por uma vez Beau não teve forças nem desejo de demonstrar sua paixão. - Por Deus! - é melhor que volte para a c-cama antes que pegue uma pneu- pneumonia, senhora - balbuciou entre calafrios, desabotoando os botões da calça com dedos intumescidos. Estavam tão frios que Beau temeu o momento em que se esquentassem de novo. De fato, não recordava ter tido nunca tanto frio, nem sequer na Rússia. - Se ficar vê-verá mais do que popoderiam suportar os se-seus sentidos vi-virginais. - Uma vez cuidou de mim quando eu precisava - replicou Cerynise, tirando do armário uma pilha de toalhas e uma manta. - Tanto lhe custaria permitir que fizesse o mesmo? Rejeitou a advertência com um encolhimento de ombros. - Além disso, vi de você o quanto se permite uma esposa ver . - Certo - reconheceu Beau, começando a tirar as calças empapadas. Deixou-se cair no beliche e inclinou o tronco para tirar as botas, até que, com um suspiro de esgotamento, decidiu renunciar e voltou a deitar-se no colchão com os braços estendidos. Cerynise, ajoelhada a seus pés, retirou o calçado e em seguida as calças e a roupa interior. Beau fechou os olhos, mas os abriu ao notar que lhe secavam o corpo esfregando-o com toalhas dos pés a cabeça. Surpreendeu-o um pouco que sua jovem esposa tivesse o cuidado de aplicar os tecidos não só ao conjunto de seu corpo mas também a suas partes íntimas. Em outras circunstâncias teria reagido a seus cuidados com rapidez e ardor, mas estava muito exausto para emitir algo mais que um débil pedido de que lhe trouxessem sopa quente. - Assim que o cubra com as mantas despertarei ao Billy e o enviarei à cozinha para que lhe esquente um pouco de sopa - murmurou Cerynise, retirando de baixo do Beau o edredom de plumas e a colcha. Pouco depois agasalhou o doente, que se havia encolhido de lado. Vestiu o mesmo roupão de homem que encontrou no armário na primeira vez, ajustou-o com o cinto e saiu em busca do Billy. Voltou imediatamente e se apressou a apagar as lanternas que foram acesas prevendo a volta do capitão a seu camarote. Beau seguia seus movimentos com olhos sonolentos, único sinal de vida que dava. Quando trouxeram a sopa Cerynise levantou a cabeça do doente e a apoiou no travesseiro. Começou a lhe dar de comer, surpreendida por sua mansidão, mas a fadiga dele era muito pronunciada, e entre colherada e colherada suas pálpebras se fecharam várias vezes. Decidida a ficar naquele camarote, Cerynise estendeu uma manta ao lado do beliche,


mas uma série de grunhidos fizeram ela levantar a cabeça. Viu então que Beau tentava levantar o edredom. - A meu lado - o ouviu murmurar com um fio de voz, antes de suspirar e fechar os olhos de novo. De qualquer modo o chão não era muito cômodo, raciocinou Cerynise ao estender-se junto a seu marido e acomodar-se no quente e exíguo espaço que o separava da parede. Ficou com o rosto a suas costas, dobrou suas pernas contra as do Beau e lhe passou um braço por cima. Depois colocou a mão em seu peito, e por poucos instantes seus dedos acariciaram a peluda superfície e um mamilo varonil, antes de que a mão e o Beau se apoderasse deles. Imediatamente, a respiração lenta e pesada do doente informou ao Cerynise que dormia. Sorridente, acariciou suas robustas costas com o nariz e se aproximou ainda mais até que encontrou um lugar cômodo em que apoiar a face e descansar. Beau abandonou antes do tempo o refúgio acolhedor de seu beliche e o suave corpo que dormia junto a ele, e retornou à batalha que seguia travando-se no convés. A tripulação trabalhava em turnos de seis horas, mas seu capitão não tomava nenhum descanso, e forçava os limites da resistência humana. Passava pouco tempo no camarote, mas cada vez que descia tinha Cerynise imediatamente a seu lado, ajudando-o a tirar a roupa molhada e cuidando o de um milhão de maneiras que ele não havia sequer imaginado. Sentia uma aguda decepção por achar-se muito exausto para desfrutar da presença de seu suave corpo, calidamente aproximado ao seu nos escassos momentos que conseguia dedicar ao sono. Por fim amainou a tormenta, e o Audaz entrou em águas mais tranquilas. içou-se um complemento de velas a fim de aproveitar o vento, que agora soprava a favor, e uma vez mais a travessia tomava bom ritmo. O alívio dos marinheiros se percebia em seus sorrisos e em sua enérgica disposição a cumprir suas tarefas. Cerynise, em troca, viu diminuída sua satisfação ao comprovar que Beau ainda não recuperou de todo a fortaleza exibida antes da tormenta. Havia vezes em que estava certa de ter visto seu rosto avermelhado, enquanto que em outras vezes lhe parecia pálido e gasto. Os movimentos de Beau eram forçados e lânguidos, e investia improdutivos esforços para caminhar do beliche à cadeira, ou subir ao convés. Em certo momento, Cerynise o viu trocar umas palavras com o Oaks, que franziu o sobrecenho com súbita preocupação. Depois Beau desceu a seu camarote. Como de costume, o capitão estava presente na ponte a primeira hora da tarde, mas nesse dia não apareceu, nem se viu ele produzir a mudança de guarda prévia da noite. Cerynise começava a estar preocupada, e, embora relutante a entrar em sua intimidade desde que passara a borrasca, pareceu-lhe que seu dever era assegurar-se de que não lhe acontecesse nada. No mínimo poria fim a sua inquietação. A porta do camarote do Beau estava fechada, e dentro não se ouvia o menor ruído, apesar do tempo que dedicou Cerynise a permanecer junto a ela em estado de incerteza. Perdendo a resistência, deu golpes suaves na porta com os nódulos dos dedos. Depois de uns


instantes de silêncio, abriu uma fresta e descobriu seu marido nu no beliche, estendido de costas e tampando-os olhos com um braço. - Beau...? - murmurou, aproximando-se do leito em silêncio. A falta de resposta a impulsionou a esticar o braço e tocar sua face. Beau não se tinha barbeado desde a manhã anterior, traço incomum em uma pessoa como ele, que tinha o barbear por norma irrenunciável e só tinha renunciado a ele no mais aceso da tormenta. Entretanto, havia um fato ainda mais significativo e era que ardia de febre. Cerynise pôs mãos à obra. Depois de pedir ao Billy que trouxesse um balde de água e toalhas limpas, atalhou a inquietação do moço e lhe deu garantias de que faria o quanto estivesse em suas mãos para cuidar do capitão. Solicitou-lhe que informasse ao Philippe que precisava de um caldo leve, assim como certa quantidade daquele chá medicinal do qual o francês se gabara durante uma de suas sessões de retrato. Quando voltou junto ao beliche, Beau resmungava incoerências. Vendo-a sentar-se a seu lado e lhe pôr um copo de água nos lábios, olhou-a de um modo estranho. Parecia que acabaram de ameaçá-lo os demônios do inferno, porque gesticulou como louco e enviou pelos ares o recipiente e seu conteúdo. Cerynise conseguiu agachar-se bem a tempo para evitar o impacto, mas em seguida reatou seus esforços e lhe aplicou um pano úmido na testa. Depois de molhar outro, começou a lhe lavar o pescoço e o resto do corpo com o objetivo de reduzir a febre, ao mesmo tempo que o tranquilizava com palavras doces. Beau, em seu delírio, pronunciava frases desconexas, para desconcerto de Cerynise, consciente de que em qualquer momento podia levantar-se e lhe dar um murro no queixo. A lavagem corporal não teve tanto êxito em diminuir a febre como tinha esperado Cerynise, que se apressou a trocar de tática. Depois de derramar um pouco de água fria no peito do paciente, cobriu-o com um pano úmido que deixou repousar. Fez o mesmo com a parte baixa do tronco, tampando de passagem as partes íntimas, embora, para falar a verdade, a nudez do doente não a inquietava mais que a este mesmo. Estava muito preocupada para fixar-se em um pouco tão corriqueiro; todo seu empenho estava em obter a recuperação de seu marido. As compressas frias se encheram logo do calor do corpo do Beau. Cerynise se dispôs uma vez mais a molhá-lo com água e estender toalhas recém umedecidas. Justo quando estava inclinada sobre ele e voltava a lhe aplicar um trapo úmido na testa, Beau aspirou uma brusca baforada de ar e abriu seus olhos frágeis para olhá-la. Cerynise não teria sabido dizer se a reconhecia, mas de repente sentiu que as mãos do doente lhe capturavam ambos os braços. As robustas feições de Beau se iluminaram com um sorriso, e atraiu a sua esposa para si. - Preciso de você... - Sim, já sei - respondeu ela com bom tom, tratando de tirar do braço os dedos do Beau. Conseguiu lhe pôr o tecido na testa, mas em seguida notou que uma mão grande lhe agarrava um peito. - Se comporte, meu amor. Está doente - sussurrou, lhe acariciando o cabelo das


têmporas. - Falaremos disso em outro momento, quando se sentir melhor. Seus esforços de escapar da mão do Beau pareciam divertir a este. - Não se assuste, querida - disse com voz suave. - Não lhe farei mal. - Está doente - afirmou ela. - Deve descansar. Agora se deite e se comporte. O tira e afrouxa subsequente pela posse de seu seio acabou em um rasgão que deixou aberto o sutiã por debaixo dos seios, cuja volumosa plenitude se transbordou pelo rasgão, ficando cobertos unicamente por uma translúcida roupa interior. - Viu o que fez! - repreendeu-o Cerynise com doçura. - É linda - sussurrou Beau, esticando o braço para tocar as formas arredondadas. Cerynise não demorou para julgar necessária certa distância entre ela e seu febrilmente apaixonado marido, pelo menos até que este se sumisse de novo na inconsciência. Segurando o sutiã contra o peito, retornou ao alojamento do primeiro oficial, vestiu uma camisola e um roupão e voltou para o camarote do capitão. Beau se virou para a parede, e os espasmos de seus braços e pernas indicavam que estava sonhando. Pelo visto se dedicava em sonhos a um jogo muito diferente, talvez com um opositor dotado de agressividade muito maior que a que mostrara à Cerynise. Começou a murmurar algo a respeito da Maiorca. .. uma ameaça... uma briga... homens a quem tinha que tirar da prisão... Os três dias seguintes foram para Cerynise uma tortura desesperadora. Em certas ocasiões Beau a reconhecia e se dava conta de estar com ela em seu camarote. Então comia e se deixava banhar sem queixa com sua esposa, até que voltava a subir a febre e recaía no âmbito demencial de seus delírios. Embora tanto Oaks como Billy se esforçaram por convencer ao Cerynise de que descansasse um pouco, oferecendo-se para vigiar por turnos a seu capitão, a jovem se negou categoricamente. Não suportava a idéia de separar-se de Beau, sequer uns instantes. Em lugar disso voltou a trazer seu vestuário ao camarote do capitão, comeu a comida que lhe traziam sem perceber seu sabor e continuou montando guarda com a fidelidade de uma mãe. Se dormia era ao lado de seu marido, uma vez que desse modo, se de noite Beau piorava, o fato de estar deitada junto a ele,

permitia detectar a mudança

imediatamente. O comando do navio o detinha agora Stephen Oaks, que descia com frequência para informar-se da evolução do doente. Billy Todd permanecia nas proximidades do camarote, com ar aflito. Apesar de que o Audaz se achava em mãos competentes, e de que a ninguém lhe ocorria faltar a seu dever, o ambiente do convés parecia ter sofrido uma mudança drástica. Philippe temia não estar fazendo o suficiente, e se viu o piloto falar solenemente com o Oaks no corredor, junto ao camarote do primeiro oficial. Quando Cerynise passou por seu lado em busca do Billy, o personagem maduro formulou perguntas que a convenceram em seguida de sua lealdade e preocupação pelo capitão. O piloto se ofereceu para fazer tudo que estivesse em suas mãos para ajudá-la, mas Cerynise negou cortesmente, lhe assegurando que serviria melhor a seu capitão permanecendo ao leme e mantendo o rumo a Charleston.


Resolvida a fortalecer a seu marido, tratava frequentemente de obrigá-lo a ingerir alguma classe de líquido, e em muitas ocasiões lhe punha um copo nos lábios e o ameaçava para beber um gole de água ou de infusão quente. Quando Beau tratava de fazer-se a um lado, lhe reprovava docemente sua obstinação, e voltava contra ele suas próprias palavras: - Está mais seco que um esqueleto desenterrado, capitão Birmingham. Beba! Se em algum momento Cerynise vacilara ante a idéia de tocar as partes íntimas do Beau, toda relutância foi vencida pelo costume de lavá-lo e atender suas necessidades. Embora sua virgindade continuava sendo um fato, ela já não pensava o mesmo de sua passada ingenuidade, pouco menos que destruída pela intimidade com que manipulava o corpo de seu marido. Nos breves instantes em que Beau era consciente de seus serviços, Cerynise já não se ruborizava nem sentia vergonha por ter que tocá-lo em partes cuja reação não sofria diminuição pela enfermidade. Maior rubor lhe produziam as tarefas mais vis. Quando Beau estava muito fraco para ficar em pé lhe proporcionava receptáculos adaptados a suas necessidades, e Cerynise, qual enfermeira acostumada, ajudava-o para as executar. Depois se desembaraçava do resultado com discreta dignidade, passando o contêiner para o outro lado da porta, onde Billy se ocupava dele. - Por que não deixa que me ajude o menino? - perguntou Beau com voz fraca, envergonhado de que houvesse tornado a acontecer. Cerynise lhe sorriu com olhos brilhantes e murmurou o mesmo que ele em outra ocasião, embora com doçura muito maior: - Na saúde e na enfermidade, querido. - Propõe-se a me atormentar, mulher? - perguntou ele com rudeza. - Jamais, querido. - Enquanto lavava as mãos, Cerynise acrescentou em tom de brincadeira: - Só tento que se restabeleça, para não ter que usar luto meses e meses. - Não quero que me veja assim - se queixou Beau, passando-a mão pela áspera barba que obscurecia suas faces. Poderia ter sido pior, certamente, já que ela aprendera a barbeá-lo tão bem como a laválo. Ocorria, porém, que ele se cansava de estar doente, e que o envergonhava ser objeto dos cuidados de sua esposa, tendo gozado sempre de uma saúde de ferro. Cerynise voltou para o beliche e deixou lençóis limpos em cima para os pôr mais tarde. - Nada mais justo que o toma lá, dá cá, não é, capitão? Beau franziu o sobrecenho. - Enfurece-se comigo porque estou muito fraco para me defender. Ela o olhou com um brilho nos olhos e permitiu que um sorriso coquete curvasse seus lábios. - Que medidas gostaria de tomar quando tiver recuperado as forças? Beau teve a certeza de que a pergunta o teria deixado boquiaberto, e não porque tinha o queixo tocando o pescoço por efeito das almofadas em que se apoiava sua cabeça. Estava aturdido, mas não tanto para não dar-se conta de quando lhe faziam propostas.


- Tome cuidado, senhora. Esta condenada enfermidade não me terá prostrado para sempre. - Que estranho! Não tinha consciência de que estava. Cerynise o olhou nos olhos, atrevendo-se a lhe recordar que um momento antes, durante o processo de lavá-lo, sua virilidade aumentara de grossura em sua mão. - Refiro ao resto... à debilidade que me aflige - murmurou ele mal-humoradamente. Embora estivesse meio morto, o mero fato de ver você, despertaria essa parte de mim; mas sem dúvida se acha a salvo, senhora, ou não me provocaria. - Não acredito em tal coisa, senhor - asseverou Cerynise, sorrindo com a mesma prontidão. - De qualquer modo não vem ao caso. - Desenhou um círculo com o dedo, lhe indicando que se colocasse de lado. - Devo me vestir para dormir, e dado que de momento devolvi ao senhor Oaks seu camarote, estaria mal que lhe pedisse sair dele para me trocar, não lhe parece? - De mim viu tudo. Por que não me deixa ver mais de você? - Porque, querido marido, que eu olhe a você não o porá em perigo de ser violado. - É violação que um marido faça amor com sua esposa? - Deixemos que isso o discorram os sábios por vir, querido - respondeu ela com um sorriso coquete. - O que desejo agora é que vire a cabeça. Por favor. Beau começou a virar-se, mas uma vez mais recebeu provas da debilidade que tomou conta dele , deixando-o com as mesmas forças que um bebê. Preferiu girar a cabeça. Na noite do dia seguinte, Cerynise notou que estava se produzindo uma crise. A febre de Beau subiu de modo brusco, e seu delírio se intensificou. Em um dado momento ficou a gesticular e atirou ao chão uma terrina de água, deixando empapada a sua esposa. Ocorreu a esta tirar a camisola, mas possivelmente não se fez necessário. Beau acabou por tranquilizar-se, e Cerynise se viu dividida entre o temor e o alívio. Tocou-o e lhe pareceu que sua pele estava um pouco menos quente que antes, mas não teria podido assegurá-lo. Preferiu não arriscar-se e o refrescou com toalhas úmidas até ter a certeza de que, no mínimo, a febre não era mais alta que umas horas antes. Então apagou a chama de todas as lanternas menos da que estava pendurada perto do beliche, e passou por cima do Beau para ocupar seu lugar habitual no lado da parede. Exausta mental e fisicamente por dias e noites de desassossego, aproximou-se das costas de seu marido e achou a lugar favorito de sua mão, sentindo-se agradavelmente reconfortada pela força com que pulsava o coração de Beau sob sua palma. Fechou os olhos e cedeu a um profundo e doce repouso. Com que estranhos prazeres se encontrava ela nos braços de Morfeu! Sentiu banhado seu mamilo por uma cálida e estimulante umidade, enquanto uma mão febril a tocava por debaixo da camisola, procurando seus mais secretos rincões. Obedecendo a premente pressão das mãos de seu amante sonhado, Cerynise descansou suas costas no travesseiro e o acolheu com as pernas abertas. Um corpo nu cobriu o seu, lhe comunicando calor com algo mais que o


ardor exibido. A sensação de algo ardente e duro apertando com insistência sua carne de mulher não foi mais que outra carícia que Cerynise aceitou com gosto. De repente a atravessou uma dor terrível, fazendo que se endireitasse com um grito a ponto de sair de seus lábios. Passou uma mão pelos olhos para despertar, mas não era um sonho o que penetrava repetidamente em suas entranhas. Era Beau, febril, aturdido e concentrado em seu desejo; Beau, que a acariciava com seus estreitos quadris mediante longas e pausadas sacudidas que aliviaram o impacto da penetração. No mais fundo de seu ser, onde se produziam os ataques da dura pederneira. Cerynise notou que começavam a elevar-se faíscas, prendendo iscas de ardor feminino. As detalhadas explicações que lhe fez Beau umas semanas antes, tomaram intensa nitidez, e ela correspondeu com reações que lhe havia descrito como prazerosas para um homem, elevando-se, capturando-o por inteiro e acolhendo seus duros embates com apaixonado ardor, e desejo de satisfazer por completo seus desejos varonis. Fazia já muito tempo que ele desejava que lhe concedesse aquilo, e agora Cerynise dava-lhe tudo quanto trazia dentro de si. Beau respirava tão perto de seu ouvido que seus ofegos era quase ensurdecedores; quanto aos de Cerynise, cada vez mais rápidos, pareciam arrancados da medula mesmo de seu ser. O ventre do Beau batia o sua com crescente intensidade, até que ela quase prorrompeu em gemidos, tal era a força com que desejava uma estranha liberação cuja natureza não conseguia compreender. Seus desejos se fizeram pouco menos que insaciáveis, e desembarcaram a uma espécie de desenfreamento que a impulsionou a cravar as unhas nas costas de Beau. Depois, surpreendida, conteve o fôlego, sentindo-se percorrida pelas primeiras pulsações de gozo. Sedenta para desfrutá-lo por inteiro, começou a retorcer-se sob seu corpo até que as resistências de ambos conseguiram que brotassem as sensações prazerosas em fulgurante corrente de êxtase abrasador. Era uma gama deslumbrante de sensações, a experiência, verdadeiramente única, de sentir-se flutuar enquanto estalavam em torno de seus dois corpos minúsculas borbulhas de prazer. Cerynise notou um ardor febril em seu interior, e o recebeu com prazer na caverna de seu ser, aferrando-se às macias e flexíveis nádegas de seu marido e levantando-se para ele para que não se perdesse nem se malograsse aquela sensação. Os ataques de Beau foram rareando, até que descansou seu corpo contra o de sua esposa. - Não me deixe, Cerynise... - murmurou contra seu pescoço. Os braços de Cerynise o enlaçaram pelas costas, e sorriu com lágrimas de felicidade em seus olhos. - Não, Beau. Continuou abraçada a ele, percebendo os batimentos de seu coração, e notando em sua face a pesada e trabalhosa respiração. Não teve consciência de quanto tempo passara naquela posição. estavam se fechando as pálpebras. De repente notou que ele se afastava, dava-lhe as costas, embrulhava-se nas mantas e começava a tremer. - Que frio - ouviu-o resmungar. - Que frio...


Teve medo, mas ao endireitar-se e pousar uma mão na testa de seu marido percebeu uma clara diminuição da temperatura. Suspirou de alívio e se olhou a si mesmo com certa surpresa. Se desfizeram os nós da camisola, que lhe pendia aberta dos ombros, deixando à vista seus redondos seios. Os brancos seios arredondados estavam dedilhados de diminutas manchas vermelhas, nos lugares que seu marido esfregara com sua barba. Também os mamilos estavam vermelhos e sensíveis por causa da sucção. Por algum estranho motivo, Cerynise achou plenamente satisfatória aquela nova experiência, como se as minúsculas feridas fossem indício de sua nova condição de esposa. No dia de suas bodas Beau tratou os sensíveis botões com extraordinária delicadeza, e o fato de tomá-los em sua boca não tinha deixado a menor sequela. Desta vez, em troca, aturdido pela febre, não pensara a não ser em satisfazer seus desejos, enchendo ao mesmo tempo os de sua mulher, talvez sem sabê-lo. Cerynise passou por cima dele, procurando não despertá-lo. Beau estendeu um braço para retê-la, mas não o conseguiu. Cerynise permaneceu uns instantes junto ao beliche, olhando a seu atraente marido e sentindo-se mais próxima a ele que nunca. Sobressaltada por tão funda ternura, ajoelhou-se e lhe beijou a orelha, a face e a boca, tocando-as apenas com os lábios. Ao fazê-lo percebeu de que Beau não a beijara nenhuma só vez enquanto faziam amor. Quase parecia que a consciência o tivesse evitado, estranha atitude em quem cobiçara até então os beijos de sua esposa com zelo irreprimível. Beau, aturdido, olhou-a com olhos apenas entreabertos. Ela retrocedeu com um sorriso até ficar de cócoras, e não fez nada para cobrir os seios por muito que se demorasse neles a vista dele. Estendeu a mão para ela, mas fechou os olhos suspirando e voltou a afundar-se em um sonho pesado. Transcorridos uns instantes, Cerynise ficou em pé e ficou surpreendida pela pegajosa umidade que notava entre as coxas. Um exame mais atento lhe permitiu descobrir que se tratava em parte de seu próprio sangue. Seu olhar se dirigiu rapidamente ao outro lado do beliche, e viu que havia manchas vermelhas no branco do lençol. Levando sua inspeção um passo adiante, comprovou que tampouco Beau fora excluído do rito do sacrifício de sua virgindade. impunha-se um banho e uma mudança de lençóis, por tarde que parecesse para esse tipo de tarefas. Depois de vestir uma camisola limpa, dedicou-se a lavar ao Beau e desfazer a cama. Seus dedos acariciaram a testa de seu marido com amor, e, achando sua pele muito mais fresca que nos últimos dias, proferiu um fundo soluço de alívio. A congestão da febre desapareceu. O sonho do Beau parecia já mais depravado e profundo. Moveu-se um pouco e articulou umas palavras. Cerynise se inclinou para ele sem atrever-se senão a respirar. Era um fio de voz que se enrolava pela boca do doente. - Cerynise, não me rejeite para sempre... Uma profunda aflição se apropriou da jovem, lhe atravessando o peito com uma pontada de dor. Beau nem sequer se lembrava do que fez. Tampouco parecia verossímil que o


fizesse ao recuperar a consciência; e se Cerynise tratava de explicar-lhe acreditaria? Possivelmente sua primeira reação fosse suspeitar que se aproveitara dele em seu delírio; ou, com maior direito, insistiria em que continuasse abandonando-se a ele até que se anulasse o matrimônio. Por muito que lhe doesse a idéia de que uma vez em Charleston Beau pudesse levar adiante seu projeto de anular o matrimônio, Cerynise se reafirmou em sua intenção de não lhe opor obstáculos na consecução de sua liberdade. Valia mais permitir que pensasse que não se produziu nenhuma consumação que vê-lo contrariado por um enlace que não devotou mais que a título provisório. Era consciente do muito que sofreria, mas imaginou que seria mais fácil lhe devolver a liberdade mantendo-o na ignorância sobre o acontecido no beliche. Se se sentia obrigado a tratá-la segundo as leis da honra, mas acabava farto de tê-la por esposa... Vítima de um repentino acesso de pranto, Cerynise não pôde continuar pensando nisso, porque era uma idéia que lhe gelava o coração. Não! Era preferível fingir que não ocorreu nada. Apesar de que sua decisão a enchia de trêmulo desassossego, prometeu-se respeitá-la. Sem outra ideia em sua mente que conceder ao Beau a liberdade de tomar a decisão final sobre se prolongavam o matrimônio ou o dissolviam, Cerynise lavou com ternura o corpo imóvel do doente, lhe beijando os braços, o rosto e o peito entre profusas lágrimas. Seguidamente empreendeu a laboriosa tarefa de colocá-lo de lado, retirar o lençol manchado e pôr outro em cima do colchão. Quando acabava de refazer a cama reconheceu os passos do Billy no corredor. Olhou em torno com grande inquietação, procurando onde ocultar os objetos sujos, até que se fixou no segundo armário de detrás do beliche, onde costumava a estar o impermeável do Beau (seco já, e guardado de novo em seu lugar). Sem dúvida daqui em diante a viagem seria mais tranquila, e o armário permaneceria sem usar. Com esse raciocínio, enrolou o lençol e a camisola e os meteu no fundo do compartimento. Apenas fechada a porta, Billy chamou suavemente da porta do camarote e perguntou se necessitavam dele para algo, ou se podia irse deitar. - A febre do capitão arrefeceu, Billy - disse Cerynise sem abrir a porta. - A partir de agora melhorará, de modo que pode ir dormir tranquilamente. A jubilosa reação do grumete a convenceu de que acolhia satisfeito a notícia da recuperação do capitão.

CAPÍTULO 10

Beau retomou o comando do Audaz com um vigor que dissipou toda dúvida de que se recuperara por completo de sua enfermidade. Igualmente dissipadas ficaram as esperanças de Cerynise de que recordasse seu episódio de intimidade. Despertando, já curado, e vendo-a a seu lado no beliche, Beau não vacilara em realizar insinuações conformes com o papel de recém casado insistindo com a noiva para entregar-se aos deleites que proporciona o leito


marital. Enquanto a cobria de beijos persuasivos, prometera tratá-la com delicadeza e lhe tinha assegurado que apesar da dor inicial acabaria desfrutando de sua união. Em um dado momento lhe abrira a parte superior da camisola, dando provas de sobra de que voltava a ser o de sempre e de que estava igualmente

impaciente para lhe fazer amor. Suas roucas

adulações acrescentaram em Cerynise os desejos de provar de novo o manjar que já conhecia, mas a contrariava tanto o fato de que Beau continuasse considerando-a virgem que lhe jogou um travesseiro no rosto, protagonizando um notável estalo de mau gênio. Pouco antes Beau tinha imerso de uma nuvem de estranhas sensações, chegando ao reino da consciência com uma peculiar sensação de bem-estar, diferente, talvez, de quantas conhecera. Deu-se conta de ter estado doente, muito doente sem dúvida, fato que convertia em ainda mais desconcertante aquela singular plenitude, cuja causa lhe escapava. Recordava muito pouco dos últimos dias, mas algo ocorreu, tão impossível de negar como de definir; e por motivos insondáveis, esse algo parecia ter relação com Cerynise. As brumosas lembranças lhe deixavam muito desprovido de conexão com a realidade. Assaltavam-no visões de sua esposa cuidando dele, e a sensação de seu corpo junto às suas costas, de seus suaves seios apertados contra ele e suas coxas esbeltas muito juntas às suas. Supôs que isso, pelo menos, seria certo. A essas impressões se somavam entretanto outras mais sensuais, e tão nítidas que teria jurado que eram reais, ao mesmo tempo tão descabeladas que não tinha mais remédio que aceitar sua condição: ilusões! Como iria ocorrer se nem

sequer podia dar valor de

realidade a uma visão como a de sua esposa posta de cócoras junto ao beliche, com a camisola aberta e caída pelos braços, e seus suaves seios brilhando à luz da lanterna, mais rosados que de costume? Ou a sentir suas unhas fincadas nas costas enquanto derramava seu amor nela? Ou para ouvi-la ofegar de prazer, subindo à cúspide do êxtase? Não detectava, certamente, nenhuma mudança nela; ao contrário, mostrava-se mais resolvida que nunca a não deixar-se tocar. Prova disso: o instante em que os dedos de Beau desfaziam o delicado laço de sua camisola e separavam a roupa para desfrutar da vista de seus seios era o mesmo em que lhe enchia o rosto de penas. Para cúmulo, o travesseiro com que Cerynise o tinha golpeado tinha se aberto de maneira brusca, difundindo seu recheio em toda a parte, sem mais comentário, por parte da jovem, que um simples "Ui!"". A partir desse momento, o bom humor do Beau iniciou um rápido declive, até alcançar seu ponto mais baixo quando Cerynise ficou de pé sobre o colchão e, dobrada virtualmente em duas, recolheu a camisola para saltar por cima de seu marido. Sentindo o impulso de mantê-la prisioneira, pelo menos até resolver o mistério que o ofuscava, Beau levantou uma perna com intenção de lhe bloquear o caminho para a liberdade, descobrindo imediatamente até que ponto estava decidida a abandonar o beliche. Plantando em seu peito um pequeno e branco pé, Cerynise saltou o obstáculo pouco quase voando, e ao mesmo tempo lhe ofereceu


um panorama que o deixou obnubilado2. Logo, sem maior demora, começou a colocar sua roupa e pertences em uma pequena bolsa, manifestando pressa em fugir dele. Beau esteve certo de que nem lhe jogando azeite fervendo nas costas teria obtido que se movesse a maior velocidade. Era lógico, portanto, que o entusiasmo experimentado ao descobrir Cerynise junto de suas costas sucumbisse prontamente a uma amarga irascibilidade. Grunhindo e afastando as penas com tapas, caminhou nu pelo camarote até chegar ao aparador de barbear, sem se importar que estivesse deixando sua mulher nervosa. - Deixou Bonito meu camarote! - acusou. - Com certeza Billy achará muito divertido voltar a colocar tudo isto no travesseiro. Cerynise procurava, em excesso, não olhá-lo, mas não pôde evitar que Beau lesse em seu perfil a tensa altivez com que respondia: - Não era minha intenção que as penas saíssem. - Não, mas era me golpear, não é verdade? Custava muito se compadecer de um homem recém saído de uma grave enfermidade? Era necessário me maltratar? - Estava-me ofendendo - o acusou ela com rigidez. Beau deu novos tapas nas plumas que revoavam em seu nariz. - Estava fazendo o que qualquer marido faz, senhora - corrigiu-a de modo terminante, embora suponha que fosse muito para sua nobre pureza virginal. Já lhe disse antes que eu gosto de olhar seus seios. Não vi melhores. Cerynise se perguntou se Beau teria dado mostra de estranheza ante o estado de seus seios, já que continuavam irritados pelo roçar de sua barba. Era de supor que esses momentos de paixão estivessem debaixo de chave no mais fundo de sua mente, e que Beau tivesse esquecido sua união carnal como quem se embebeda e, uma vez sóbrio, não é capaz de recordar seus momentos de luxuriosa dissipação. Para Cerynise, a fusão de seus corpos significara muitas mais coisas que um apaziguamento físico; delas, possivelmente a mais forte era ter-se dado conta de ser já plena e legalmente sua esposa. Custava-lhe engolir suas emoções, e por muito que se tornasse caro a imprudência de haver-se metido na mesma cama que Beau, nada disso mudava seu sentimento uma vez consumado o ato. O que a afligia era o fato de não poder expressar tantos e tão ternos sentimentos, nem lhe corresponder como deve fazer uma esposa apaixonada. Realizou um valente esforço para fingir desenvoltura e perguntou: - Viu muitos seios, capitão? - Beau a olhou fixamente, mas continuou sem ver mais que seu imperioso perfil. Notou certo tremor em sua voz, ou eram imaginações dele? - O suficiente para saber que supera muitas mulheres por uma margem generosa. Não é só que os seus tenham o tamanho suficiente para me encher as mãos, mas também são tudo de perfeito que é dado a um homem sonhar.

2

Obnubilado - Diz-se de alguém em estado de perturbação na consciência, geralmente causado por ofuscação da visão e

obscurecimento da visão.


- Deve ter visto um número considerável, capitão - disse Cerynise com frieza, negandose a virar a cabeça. - Devo lhe estar agradecida por ser capaz de realizar uma comparação desse tipo? - Não, diabo! - bradou Beau, indo para junto ela com longas passadas. Separou os lábios para dizer algo, mas ficou em seguida a cuspir, porque se meteram penas na boca. Percebendo o que acontecera, Cerynise soltou uma risada aguda. Depois se colocou a distância prudente e, virada para Beau, apontou-o entre gargalhadas. - Só falta que o cubram de breu e emplumem você, capitão – declarou com alegria, pousando a vista um pouco mais abaixo. - Em todo caso, têm penas de sobra para isso. Beau apoiou um punho em seu estreito quadril e, olhando deste modo para baixo, retirou ostentosamente uma pena de uma parte muito masculina. - Não me surpreenderia encontrar também um pouco de pó. Cerynise não pôde resistir a uma rápida réplica, que articulou com altivez. - A mim sim. Beau arqueou uma sobrancelha inquisitiva e a olhou com suspicácia. Tinha na ponta da língua a pergunta de se era certo que fizeram amor; entretanto, se era seriamente um sonho, daria motivos para Cerynise para perguntar-se se sonhava com ela dia e noite. Sondou-a, pois, de modo indireto. - Só se souber algo mais que eu, senhora. Cerynise mordeu o lábio para não confessar, e com força de vontade conseguiu responder com um displicente encolher de ombros. - Imagino que em Londres terá estado com muitas rameiras. Na noite antes de nos casarmos vi você com algumas. Beau se apressou a jogar um jarro de água fria em suas possíveis esperanças de tê-la desconcertado com a revelação. - Também me viu me separar delas pouco depois de irem a minha carruagem. O sorriso satisfeito que viu Cerynise em seu marido a convenceu de que o comentário não o surpreendeu. Voltou-se para as janelas de popa e ergueu a cabeça com fingida dissimulação. - Com certeza parecia desfrutar dos manuseios daquela prostituta. Acho que me lembro que era muito formosa. - Que estranho - respondeu Beau com ar pensativo, passando uma mão pelo queixo áspero. - Cada uma das vezes em que me apalpou nesse mesmo lugar obteve resultados imediatos; em troca, se a memória não me enganar, coisa parecida ocorreu aquela noite... Fato que você mesma pode confirmar, já que presenciou suas insinuações. Ela o olhou com curiosidade. - Como sabe o que vi? Ele soltou uma risada breve e negou com a cabeça. - Não, senhora, é meu segredo e não lhe revelarei isso.


Cerynise se sentiu a ponto de espirrar e agitou a mão para afastar as plumas de seu nariz. Arrependia-se de ter golpeado Beau com tanta força recém saído de sua enfermidade. Com um pouco menos de violência possivelmente o travesseiro não se teria aberto. Suspirou, perguntando-se quanto demorariam entre o Billy e ela em devolver o camarote a seu estado anterior. - É melhor que se vista para que possamos começar a limpeza - insistiu com Beau com desânimo. - É possível que nos leve todo o dia. Ele se aproximou do armário, tirou seu roupão e o pôs. - vou tomar um banho no camarote do primeiro oficial. Depois me barbearei e voltarei a pôr roupa decente. Eu gostaria muito de ter você a meu lado, senhora, mas receio que se lhe pedir isso, termine com outro travesseiro no rosto. Uma vez feito esse sarcástico comentário, saiu e fechou com uma portada. A segunda manhã do restabelecimento de Beau não foi melhor, já que a essas alturas Cerynise se alojava de novo no camarote menor, depois de obter do Billy que a ajudasse a mudar seus baús e pertences a tão exíguo espaço. Relutante em continuar expulsando Stephen Oaks de seu alojamento, expôs ao primeiro oficial as mesmas opções que ele anteriormente fez, dizendo-lhe

sem mais que não utilizaria seu camarote sob nenhuma

circunstância, e que deixava a seu arbítrio alojar-se ou não nele. Oaks cedeu, porque uma vez instalada Cerynise no minúsculo cubículo já não tinha outro lugar aonde ir. Querendo remediar o angustiante de seu novo aposento, Cerynise pediu permissão a Beau para pendurar nas paredes alguns de seus desenhos e pinturas. Ele, incomodado porque sua esposa estava tão decidida a viver afastada que até se mostrava disposta, apesar de suas fobias, a ocupar um camarote sem janelas, franziu o sobrecenho e bufou qual touro com raiva. Mesmo assim transigiu o suficiente para dar sua permissão. Billy ofereceu sua ajuda, e Cerynise agiu como supervisora, certificando-se de que cravava os pregos nas junturas das pranchas de madeira. Não queria que seu marido lamentasse ter cedido a sua solicitude. Dispôs as obras de arte com o objetivo de conferir ao camarote uma sensação de profundidade, assim como a atmosfera de abertura e liberdade que reinava no convés. Pintou os golfinhos em um tecido grande, com toda cor e na ação de saltar. Pendurou-o onde pudesse vê-lo ao despertar. Uma vez colocadas a seu gosto as combinações de quadros das quatro paredes, ficou agradavelmente surpreendida pelo ambiente quente e acolhedor que se apropriou do pequeno cubículo. Os quadros lhe davam muito mais para olhar que as paredes nuas, mas o mais importante era não sentir-se como em uma escura masmorra. Passadas as convulsões da tormenta, a preocupação pela saúde do Beau e a surpreendente aprendizagem dos rudimentos mais eróticos da vida conjugal, Cerynise se percebeu física e mentalmente exausta. Tomando consciência de seu abatimento, resolveu que pelo menos uma vez precisava cuidar de si mesma, e avisou ao Billy que descansaria um pouco e não desejava ser despertada. Dormiu várias horas, e ao despertar se sentiu


descansada, maravilhosamente rejuvenescida. Em seguida, como fazem as mulheres quando estão de bom humor, concentrou-se em seu aspecto físico, que a inquietação pela febre do Beau lhe impediu de cuidar. Aproveitando-se de que durante o tempestuoso dilúvio Billy enchera vários barris de água para misteres de higiene, Cerynise lhe pediu que esquentasse o suficiente para banhar-se em uma tina, e escolheu sais de banho adequados a seu estado de ânimo: uma doce fragrância a jasmim que recordava Charleston. Enfiou-se na água fumegante com um profundo suspiro de gratidão. Era aborrecido lavar-se com a bacia. Preferia um banho diário, mas as viagens por mar nem sempre permitiam esses luxos. Provavelmente foi o banho o único benefício da tempestade. Nesse momento lhe pareceu divino. Enquanto desfrutava do banho, passaram por sua mente provocadoras lembranças dos instantes de união carnal com Beau. Eram impressões tão entristecedoras e nítidas que reavivaram certos fogos, fogos que Cerynise tinha tido a ingenuidade de acreditar apagados pela crua revelação de que seu marido permanecia alheio ao ocorrido. Com os olhos fechados, quase sentia seu robusto corpo movendo-se contra o seu, seu peito musculoso excitando seus peitos e seus roucos arquejos ressonando em seus ouvidos. Exalando um longo e trêmulo suspiro, deleitou-se com as sensações que percorriam seu corpo. Seu desejo de que Beau a abraçasse nesse mesmo instante fizeram que percebesse o muito que a afetou sua união, e o prazer obtido dela. Suspirou e sacudiu a cabeça, reparando que era uma loucura alimentar lembranças tão estimulantes. Nada serviria pior à firmeza de seus propósitos que desejar a seu marido, sabendo muito bem que convinha pará-lo até que aceitasse plenamente o laço matrimonial (fato, por outro lado, nada provável). Em pleno banho ouviu que alguém passava ao lado de sua porta, fazendo ranger ligeiramente as tábuas do corredor. O distante fechar da porta do capitão identificou a esse alguém como seu marido. Transcorrido apenas um instante se repetiu o rangido em frente do camarote de Cerynise, e a madeira da porta ressoou com leves golpes de nódulos dos dedos. - Cerynise - chamou Beau com uma doçura que não lhe ouviu no momento de abandonar seu beliche, - desejaria que esta noite jantasse comigo. Ela levantou uma esponja grande e deixou jorrar a água sobre seus brancos seios, perguntando-se que mutretas empregaria Beau esta vez para colocá-la em sua cama. Embora tivesse muita vontade de estar com ele, dava-se conta e que era melhor evitar a tentação de sua companhia, já que se excitava apenas em recordar seus momentos de intimidade. - Sinto muito, Beau, mas estou ocupada. Nessa noite, Beau estava mais disposto do que nunca a aceitar uma negativa. Intrigavao a vaga lembrança de ter tido Cerynise encolhida contra suas costas, e odiava por isso ainda mais a presente partilha de camas. O que mais queria, entretanto, era achar resposta às outras impressões que insistiam em estimulá-lo, negando-se a sumir-se no esquecimento. Reiterou seu convite com um pouco mais de energia.


- Cerynise, peço-lhe que jante comigo. Tenho algo para comentar com você, mas o que sinto agora mesmo é fome. Queria descansar e desfrutar com você do jantar, sempre e quando me conceder o prazer de sua companhia. Ela não teve dúvidas de qual era a fome do Beau, cujas propensões a induziram a perceber que dificilmente conseguiria suportar suas longas travessias sem ter a bordo a uma rameira que atendesse suas necessidades. - Estou ocupada - respondeu com voz não menos doce que a dele. - Volta a estar zangada - a acusou Beau de mau humor, um pouco mais irritado que antes. - Absolutamente! - negou ela, ofendida pela dedução. - E agora vá embora, antes que seus homens lhe ouçam suplicar diante de minha porta. - Importa-me pouco que me ouçam ou não - grunhiu ele, quase junto da barreira de madeira. - Quero que abra e falemos . - Já lhe disse que estou ocupada! Se até então se havia sentido a salvo com o trinco bem fechado, não demorou para darse conta de que era um engano supor que algo tão simples como uma porta fechada detivesse Beau Birmingham. Este a abriu com um único e vigoroso tranco, fazendo que caísse no chão a peça metálica de segurança. Beau cruzou a soleira com passo decidido, mostrando suficiente surpresa ao demonstrar que não esperara encontrá-la no banheiro. Depois teve tempo de lançar, com agrado, um olhar aos seios de sua esposa, molhados e brilhantes, antes de receber um novo impacto no rosto, desta vez de uma esponja empapada. O golpe o obrigou a retroceder pela mesma superfície que a esponja molhou generosamente de água no mesmo instante de topar com o intruso. Ao bater em retirada, os pés deste pisaram no molhado e escorregaram, dando com Beau de costas contra a parede oposta do corredor. Ouvindo o golpe de sua cabeça contra a prancha de madeira, Cerynise estremeceu, e o silêncio subsequente lhe fez temer que seu marido tivesse ficado inconsciente. Movida pela ansiedade, saiu da tina em um abrir e fechar de olhos, agarrando um roupão e vestindo-o sem deixar de correr. No rosto de Beau, contraído por uma careta, abriu-se um olho, que olhou Cerynise com expressão dolorida. Por uma fração de segundo contemplou suas deliciosas formas e ouviu passos pela escada. Sua relutância em que outro homem visse o que considerava cada vez mais como unicamente seu por direito marital foi muito mais pronunciado que o desejo de recrear a vista. - Cubra-se com algo antes que revolucione o navio! - Ora! Aborrecida por gritarem com ela, Cerynise agarrou a porta e a empurrou. Depois de chocar com o batente roto, a folha voltou-se para trás. A jovem levou alguns instantes para arrancar as lascas que se sobressaíam do batente, e depois fechou pela segunda vez, agora de uma maneira definitiva que pôs fim a toda conversa que seu marido confiasse em manter com ela.


No longo silêncio posterior, olhou a porta fixamente, perguntando-se se repetiria o assalto. Beau, ao que parecia, estivera resolvido a que jantassem juntos, uma vez que em pé murmurou irritado do outro lado da porta: - Espero que desfrute de sua condenada intimidade, senhora. Eu não, lhe asseguro isso; embora seja possível que tenha fixado como objetivo me atormentar. Não

era provável que os oficiais e a tripulação tivessem permanecido alheios do

ocorrido essa noite entre os recém casados, desde o convés até alguns metros abaixo. Em todo caso, quando à manhã seguinte Oaks bateu na porta de Cerynise e a convidou a dar um passeio pelo convés excedeu em muito as esperanças da jovem. A não ser pelo desejo, pouco frequente nela, de respirar ar fresco depois de toda uma noite e boa parte da manhã isolada em seu camarote, Cerynise teria renunciado à oportunidade. Intuía que Beau estava muito irritado por sua decisão de permanecer separada dele para pensar a sério em lhe oferecer o braço. Parecia que, para Oaks, custava olhá-la nos olhos, mas uma vez a seu lado tomou a palavra em defesa de seu superior. - Entre a enfermidade e todo o resto, o capitão está mais mal-humorado que de costume, senhora. - Não considerou necessário entrar em detalhes sobre a que se referia com "todo o resto", embora, na qualidade de homem, entendia a frustração do capitão ante a teimosia com que sua esposa lhe negava seus favores; tal parecia ser, conforme suspeitava, a situação. Por outro lado também podia compadecer-se da moça. Os votos matrimoniais foram feitos com tanta precipitação que provavelmente Cerynise não teve tempo de refletir sobre as exigências que lhe expunha seu novo marido. - Estou certo de que logo passará. - Sim - suspirou Cerynise com tom aflito, convencida de que a irritabilidade de Beau se devia acima de tudo a sua presença a bordo. - O final da viagem deveria trazer mudanças. Oaks tratou de imaginar comentários mais alentadores. Poderia lhe dizer que seu marido era um homem tido em grande estima, e que à exceção de uns poucos que não valiam nem seu peso em sal, os marinheiros tinham a seu capitão em conceito muito alto. Que outros sentimentos podiam albergar quem tivesse realizado mais de uma ou duas viagens a suas ordens, tratando-se de um homem cuja coragem chegava ao extremo de arriscar a vida para salvar membros de sua tripulação (como demonstrava o ocorrido na Maiorca)? O primeiro oficial sopesou inclusive a possibilidade de comentar as incontáveis oportunidades que dera a ele seu capitão, depois que ninguém deu ouvidos a suas aspirações de ostentar algum dia o comando de um navio. Por outro lado, se Cerynise acreditasse que o presente de Beau ao senhor Carmichael era algo excepcional, Stephen Oaks teria tido supremo gosto em informar a ela de sua generosidade, até o ponto de talvez a jovem suspeitar que eram inventos dele, dirigidos a suavizar as asperezas conjugais. Eram aspectos que provavelmente não ocorreu a Beau Birmingham, e que em todo caso não teria mencionado jamais a outra pessoa. O capitão podia ser pouco comunicativo, embora fosse a preço de que outros pensassem dele o pior. - Entendi que conhece o capitão a muito tempo, senhora. Deve ter visto seu lado bom,


ou não teria aceitado a se casar com ele. Basta que tenha um pouco de paciência. Com certeza não demorará para aceitar a razão. Cerynise sorriu com tristeza. Aceitar a razão sobre o que? Seu matrimônio? Duvidoso! O capitão Beauregard Birmingham amava muito sua liberdade para tomar a sério a idéia de casar-se com alguém a título permanente. Se um homem tão bonito como ele, que podia aspirar à mão de quem quisesse, limitara-se a apaziguar seus desejos com prostitutas (pelo menos até onde sabia Cerynise), estava claro que sua decisão de permanecer solteiro vinha de muito longe, e que chegava ao extremo de evitar sistematicamente o risco de comprometer a virtude de donzelas jovens e atraentes. Quando ela chegou ao convés inferior Beau estava na ponte com o contramestre. Como fazia mais frio que em dias anteriores, havia colocado um pulôver, desta vez azul escuro, e calças justas da mesma cor. A perda de peso a que o submetera a enfermidade sublinhava ainda mais a agraciada proporção dos ossos e músculos de seu rosto. Assim que viu sua esposa suas enxutas faces começaram a distender-se. Um frio desespero se apropriou de Cerynise ao percebê-lo, já que estava convencida de que o motivo era sua irritação para com ela. A gola do pulôver de lã estava levantada a fim de proporcionar mais calor e proteger melhor do vento, mas Cerynise teve a impressão de que de vez em quando Beau se via sacudido por um calafrio involuntário. Depois de cuidar dele durante um longo suplício, e de temer por sua vida, teve medo de que pudesse recair. Aproveitando que Billy passava a seu lado, pediu-lhe que trouxesse uma jaqueta para o capitão. O grumete retornou rapidamente, estendeu o objeto para Cerynise e seguiu seu caminho com tal rapidez que a jovem não teve tempo de lhe dizer que também queria que o levasse a ponte. Ficou com a jaqueta dobrada em um braço e se disse que não havia nada a temer, que por muito que quisesse, Beau Birmingham não podia comer ela e cuspi-la a pedacinhos; embora a julgar como se contraíam os músculos de sua mandíbula, Cerynise não se teria atrevido a apostar por isso. Subiu à ponte, e ao aproximar-se dos dois marinheiros não pôde evitar um súbito tremor. Já estava no nível mais alto, mas ainda não se atrevia a interrompê-los. Para falar a verdade, Beau parecia esforçar-se por ignorar sua presença. Foi o senhor McDurmett quem lhe chamou a atenção a respeito. Dadas as circunstâncias, Beau não teve mais remédio que voltarse para sua esposa, arqueando uma sobrancelha inquisitivamente. Fazendo das tripas coração, Cerynise começou a expressar seu oferecimento. - Trouxe-lhe sua jaqueta, capitão - murmurou com acanhamento, segurando o objeto com os braços estendidos. Percebia nas faces do Beau mais cor do que o normal. Confiou que se devia ao vento, e não ao retorno da febre. - Como esteve tão doente me aliviaria que pusesse isso. - Sacudiu um pouco o objeto. - Tome, ajudarei você a vestir isso. - Uma muda advertência brilhou nos olhos azuis do capitão, cujos dedos agarraram o delicado pulso de sua esposa, impedindo-a que colocasse a jaqueta pelos ombros.


- Não sou nenhum bebê, senhora, embora possa lhe parecer - disse isso entre dentes. Agora posso me cuidar sozinho, e não necessito que me siga a todas as partes como uma mãe assustada de que apanhe uma pneumonia seu filho recém desmamado. E agora tire de minha vista esta jaqueta. Suas palavras eram muito mais ferinas que a férrea pressão de sua mão. Soltou Cerynise de modo brusco, girou sobre os calcanhares e sem lhe fazer maior caso reatou sua conversação com o contramestre, que pareceu enrubescer de vergonha e dirigiu ao jovem um fugaz olhar de preocupação. Cerynise retrocedeu rapidamente, tampando os olhos para ocultar suas lágrimas. Depois de tomar cuidado para descer pelos degraus sem tropeçar, caminhou para a escada com toda a dignidade e discrição que conseguiu infundir a seus passos. Os homens que deixava para trás procuravam, em excesso, fixar a vista em algo ou pessoa menos nela. A consciência de ter sido rejeitada em público não fazia mais que intensificar a angústia de Cerynise. Doía-lhe o peito, como se acabassem de lhe arrancar o coração. Eram tais sua desdita e sua pressa que não reparou no homem que a olhava da ponte ao abrigo de seu capuz. Beau renunciara a toda pretensão de ignorar a sua esposa, mas só o pulsar acelerado na sua garganta testemunhava a inquietação com que a observava de longe, sentindo uma mescla de arrependimento e preocupação. Só seu maldito orgulho lhe impedia de desprezar aquele disfarce de estóica reticência e ir atrás de Cerynise, permitindo que a tripulação pensasse o que queria. Estava irritado consigo mesmo, e nem os mais impetuosos esforços conseguiam impedir que assaltassem sua mente aqueles sonhos estranhos e tentadores, de ocorrência cada vez maior, confabulados em formar uma lembrança. Cerynise fechou a porta do camarote e se deitou no beliche, onde derramou sua angústia afogando-a no suave refúgio do travesseiro. De repente teve a sensação de que não podia suportar mais. Toda sua preocupação por Beau, todo seu amor, culminaram em um breve interlúdio de paixão, convertido no segredo de Cerynise, e sua tortura. Agora, em troca, a atitude do Beau era fria como o mar que sulcavam, como se os esforços de sua esposa para manter-se afastada dele tivessem destruído toda possibilidade de que continuassem casados. As lágrimas só cessaram quando caiu nos braços de um sonho traumático, mas foram minutos de pesadelo, uma horrível ilusão em que temia desesperadamente por sua vida. Corria por uma casa escura, com o Alistair Winthrop e Howard Rudd lhe pisando os calcanhares, rodeada por brilhos de luz que a sobressaltavam e a enchiam de um pânico desorientador. Sua desesperada fuga não evitou que os dois homens eliminassem a distância que os separava dela. Cada vez que descobriam seu esconderijo a obrigavam a continuara fuga, até que não restou lugar onde refugiar-se. Então seus perseguidores caíram sobre ela como demônios do inferno, levando em suas mãos grandes lençóis negros para envolvê-la e para enterrá-la. Quando a tiveram de costas para a parede lhe tamparam o rosto com elas, até que de repente já não podia respirar... Cerynise abafou um grito e se endireitou no beliche, afastando a mão que lhe cobria a


face. Presa de um pânico cada vez maior, começou a lutar com quem procurava segurá-la pelos braços. - Não podem me fazer isto! - soluçou com voz lastimosa. - Ainda não estou morta! Não podem me enterrar... - Desperte, Cerynise - tranquilizou-a uma voz conhecida. - Esteve sonhando. Olhou ao redor com olhos desorientados, tão assustada como antes. Fora um sonho ocorrido depois da morte da Lydia? Falou sequer do testamento com o Alistair Winthrop e Howard Rudd? Até podia ser que não estivesse casada... Descobriu Beau de cócoras junto ao beliche, e o desejo de deitar-se em seus braços, afundar o rosto em seu ombro e chorar de alívio quase a arrancou do exíguo leito; entretanto, a lembrança do duro desprezo sofrido na ponte demorou pouco em chegar a sua mente e, cruel, obrigá-la a retroceder com um gemido. - Não me toque, por favor. Beau engoliu com dificuldade o nó que tinha na garganta, e uma vez mais procurou tranquilizá-la. - Deite no beliche, Cerynise. Descanse um pouco mais até que fique clara as idéias. Ouvi seus gritos do convés, e me assustaram. Sobressaltada pela revelação de que gritara em sonhos, ela o olhou com desconcerto. Depois voltou a cabeça e se sentiu a ponto de chorar, tal era sua consternação. - Perdoe-me se o envergonhei... Beau quis acalmar seus temores, como quando era menina. - Shh, meu amor. Nem pense nisso. Assustou-me, mas nada mais. Seus gritos se pareciam muito aos da menina a quem anos atrás encerraram em um baú. - Suponho que também os terão ouvido seus homens - murmurou ela com desalento, fugindo de seu olhar. - Como ouviram ontem à noite tudo quanto se passou aqui embaixo. - E o que importa isso? - Beau riu em voz baixa, tratando de levar tudo na brincadeira para aliviar sua esposa. - O mais provável é que estejam apostando qual dos dois se sairá com a sua, mas desconfio que não há muito dinheiro na conta de minha vitória. - Estendeu um braço e puxou docemente o queixo de Cerynise. - Vire-se , meu amor, e deixe que veja o seu rosto. Cerynise refletiu vagamente no estranho de que às vezes se repetissem fatos do passado. Depois de deixá-la sair do baú, Beau mitigou seus soluços com quase as mesmas palavras mágicas, mas desta vez Cerynise se opôs a seus rogos. - Não me chame de amor - sussurrou, negando-se a que Beau lhe fizesse virar a cabeça. - Não sou seu amor, de modo que não finja o contrário com todas essas palavras doces que servem para enrolar a outras mulheres. Ambos sabemos o que quer: me montar como um touro no cio. A expressão, imprópria de uma dama, sobressaltou ao Beau, mas avivou a lembrança de tudo o que havia dito ele em presença da jovem. Possivelmente Cerynise estava levando


muito tempo convivendo com ele para seu bem. - Philippe fez sopa para o almoço. Posso convencer você de que venha a meu camarote e a compartilhe comigo? - Prefiro ficar - respondeu ela com tom inexpressivo. - Maldição ... - Beau se deteve em seco. Ir às nuvens cada vez que Cerynise recusasse seus convites faria muito pouco para apaziguar os ânimos. Voltou a tentar, mais suavemente desta vez: - Me aficcionei a comer com você, Cerynise. Agradeceria que mudasse de opinião. Além disso, tenho algumas coisas para lhe dizer. A atitude distante dela não cedeu um ápice. Ouvindo que se aproximavam passos à porta, Beau voltou sua atenção para a pessoa que apareceu na soleira. Oaks olhou Cerynise com ar de preocupação, mas não pôde averiguar seu estado por negar-se ela a voltar a cabeça. Então se dirigiu ao capitão e lhe perguntou com tom vacilante: - A senhora Birmingham encontra-se bem, senhor? - Sim. - Beau suspirou e se ergueu em toda sua estatura. - Teve um pesadelo, mas nada mais. Até arriscando-se a indispor-se com seu superior, o primeiro oficial obedeceu ao impulso de lhe dar a entender o carinho que suscitara sua esposa em grande parte da tripulação da fragata. Possivelmente o dado contribuíra a que se desse conta do alto valor da jovem, que não se devia unicamente a sua beleza e cortesia. - Billy não se atreve a descer, capitão, por medo de que lhe tenha acontecido algo horrível. Receio muito que o resto dos homens ande também algo revolto, e pelo mesmo motivo. Olhando a seu primeiro oficial, Beau se deu conta da profundidade que adquirira sua lealdade pela jovem durante a travessia. Pouco faltava para que as palavras do Oaks atribuíssem todas as dificuldades do matrimônio a ele, não à Cerynise. E por que não? Sua teima e espírito de contradição podiam desconcertar ao mais indisciplinado marinheiro. - Nesse caso, faça o favor de comunicar ao Billy e aos outros que a senhora Birmingham está descansando. Dentro de pouco estará como nova. - Sim, capitão. - Stephen Oaks se dispôs a dar meia volta, mas se deteve e olhou solenemente nos olhos de seu capitão, que não deixaram de observá-lo. - Seria uma grande alegria vê-la sorrir pela manhã, senhor. Beau assentiu com a cabeça, consciente de que o primeiro oficial apressava-o de forma discreta a dispensar maiores cuidados à sua esposa. - Verei o que posso fazer, senhor Oaks. - Estou convencido disso, senhor - respondeu o oficial, e retornou ao convés depois de esboçar um sorriso. Beau se voltou para sua esposa e descobriu que não se moveu. Agachou-se para colocar os lençóis por debaixo do colchão e retirar de suas têmporas alguns fios soltos. - Deveria se cobrir com algo mais que estes lençóis. Vou trazer o edredom de plumas de


minha cama... - Não, por favor, não se incomode. Estou bem assim. Beau se virou com um suspiro de contrariedade e foi para a porta. Desta vez errou até o fundo. Cerynise não estava disposta nem a olhá-lo, e muito menos aceitar seus esforços para consolá-la. Ela ouviu fechar a porta com suavidade, e no silêncio que se seguiu, finalmente dispôs de intimidade para esconder o rosto no travesseiro e derramar novas lágrimas de angústia. Passada pelo menos uma hora, encheu de água a bacia, molhou uma toalha e lavou os olhos e o rosto até que começaram a desaparecer as manchas vermelhas provocadas pelo pranto. Depois de secar a pele se inclinou para olhar-se no pequeno espelho de cima do móvel. - Basta de lágrimas - prometeu a si mesma

com um sussurro, confiando em ter

derramado pela última vez um rio de sal por culpa de demônios com olhos de safira como seu marido, e outros mais semelhantes ao Alistair Winthrop. Já que Beau não queria conservá-la por esposa, teria sido absurdo permitir que a tristeza de ter perdido seu amor lhe desbaratasse o ânimo. Algum dia, em algum lugar, haveria um homem que a amasse e pudesse aceitá-la por esposa, sem se importar que já não fosse virgem. Até então teria que construir uma vida nova. Em Charleston a esperavam muitos desafios para não deixar-se dominar por sonhos quebrados. Na espera de que começassem a vender-se seus quadros teria que depender financeiramente de seu tio, mas fazia tanto tempo que este levava vida de solteiro que tinha duvidar de que suportasse as travas de ter companhia feminina a todas as horas, ou tolerasse com gosto que seus quadros e desenhos abarrotassem algum aposento da casa; embora, tendo se passado meia vida entre livros, talvez não se perturbasse em excesso com a presença de sua sobrinha. Um pouco fortalecida pela nova meta que se impôs, Cerynise voltou para seus desenhos e se concentrou em seu trabalho, até que de repente endireitou as costas, surpreendida e perturbada pela aparição de um pergaminho com um retrato de Beau ao lápis-carvão; não só um, mas também dezenas e dezenas que lhe caíram das mãos e revoaram até posar no chão do camarote, como outros tantos e mudos avisos de seu amor para com o modelo. Recolheu-os com um gemido e esteve a ponto de amassá-los, mas venceu a sensatez. Não permitiria que Beau a levasse a destruir sua própria obra. Em lugar disso, conservaria os desenhos como exemplo dos perigos que havia ao deixar que o coração imperasse sobre a cabeça. Confiou em ter aprendido a lição.

Os desenhos já estavam bem guardados, e Cerynise estava há certo tempo de pé diante do cavalete, concentrada nos detalhes das figuras de um quadro novo, quando algum instinto a deteve a meia pincelada. Levantou a cabeça e escutou com atenção. Não ouviu a não ser o distante estalar das velas ao vento, o ranger das pranchas, as vozes longínquas dos


marinheiros e todos os ruídos com que se familiarizara tanto que tinha que esforçar-se para ouvi-los. Entretanto, não podia negar a sensação que estava apropriando-se de seu ser. Permaneceu tensa e alerta, com o coração pulsando a velocidade quase dolorosa e os dedos agarrando tão forte o pincel que pouco lhe faltou para quebrá-lo. Um momento antes de que se ouvissem golpes na porta, soube quem estava do outro lado: o único homem tão acostumado ao Audaz que podia caminhar pelo oscilante convés ou descer pela escada sem fazer ruído. Sustentando-se nas pernas trêmulas, foi para a porta e a abriu, não sem antes combinar a si mesma, severamente, de manter a compostura. Beau estava no corredor, com semblante preocupado. - Há pouco, na ponte, tratei você de modo brusco - disse sem preâmbulos. - Não merecia isso. Vim para dizer que o sinto, e a desagravar3 o melhor que puder. Cerynise aguardou, mais que nada pela surpresa daquela desculpa inesperada, enquanto ele a observava com uma intensidade que a convenceu de que não era tão experimentada como acreditava, em ocultar os rastros do pranto. - Aceito as desculpas - murmurou. O longo e incômodo silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. - Se não se oferece nada mais, devo voltar para meu trabalho. Preciso vender alguns quadros assim que chegar em Charleston, a fim de lhe devolver o que pagou ao Jasper. - Não se preocupe com isso, Cerynise. Considere como um presente. - Preferiria não lhe dever mais do que já devo - disse ela com serena dignidade. Beau se perguntou se alguma doença estranha lhe arrebatou a faculdade de abordar com franqueza o assunto que o obcecava desde o fim de sua prostração. Igualmente incompetente se sentia em sua busca de uma maneira de reparar a ofensa infligida a sua esposa. Tinha mais desejos de vê-la sorrir de novo do que seu primeiro oficial. Seguiu-se outro longo silêncio. Cerynise, a quem incomodava o olhar fixo de Beau, deu um passo adiante para fechar a porta. Sua tentativa pareceu despertar o capitão, que se apressou a avançar e empurrar a folha com um suave golpe de ombro. Diante do olhar de alarme de Cerynise, tratou torpemente de justificar a prolongação de sua presença. - Me mimar ante meus homens, senhora, não inspira muita confiança. Não devem abrigar a menor dúvida sobre minha capacidade de comando. - Muito pobre deve ser o mundo que fabrica os homens, quando se toma por debilidade a menor amostra de afeto - replicou Cerynise com rigidez. - Isso me faz agradecer o dobro por ter nascido mulher. Os lábios do capitão ameaçaram ceder à risada. - Não espera que discuta isso. Não sei por que, mas não a imagino muito convincente

3

Desagravar - Reparar (ofensa ou insulto)


no papel de varão. - À medida que seguia escrutinando-a, seu sobrecenho se franziu. Perguntou então com áspera doçura: - Cerynise... está passando bem? Beau sabia! A idéia a deixou gelada, como cerva em suspense pela proximidade de um ser humano. Concentrou-se em averiguar quando se delatou, mas não lhe ocorria nenhuma palavra, nenhum fato que pudesse ter jogado luz sobre o segredo. Ficava, pois, outra opção... O próprio Beau estava recordando o evento. Bem, mas por que não o perguntava diretamente? Era um homem franco, muito diferente desses tímidos indivíduos que não abordam nenhum assunto sem hesitações. por que, então, não expor o tema com clareza? Fixou o olhar naqueles olhos escuros e cristalinos, procurando algum indício de que Beau soubesse. Eram tão formosos como sempre, mas não revelavam nada. Estava imaginando coisas a partir de uma simples pergunta. Concluiu que não havia mais que isso. estava-se aferrando a uma esperança. - Perfeitamente - acabou por murmurar. - E agora, Beau, com sua permissão, devo voltar para meu trabalho. Ele, cético, continuou estudando-a sem intenção de partir. Seu olhar a percorreu com atenção, acalorando Cerynise e obrigando-a a afastar a vista, não fosse perceber com excessiva clareza a agitação que provocava em seu seio. - Eu gostaria que jantássemos juntos, Cerynise, e espero que esta vez aceite meu convite. Ultimamente detesto jantar sozinho, e o senhor Oaks não é grande consolo. Parece resolvido a me reprovar por minhas maneiras pouco civilizadas. Sentar-se à mesma mesa que ele por espaço de uma hora ou mais? Sem a presença jovial e tranquilizadora do Oaks? Cerynise sabia exatamente no que desembocaria a noitada. Apesar do desejo de ceder a seus rogos, não podia fazê-lo. Seu próprio bem-estar lhe exigia pensar nos riscos que havia, e não deixar-se vencer pelos arrulhos de seu marido. - Dadas as circunstâncias, Beau, acredito mais conveniente que não passemos muito tempo juntos. - A frase lhe resultava tão familiar que se perguntou quantas vezes teria repetido essas mesmas palavras. Até então fracassaram em obter seus fins, uma vez que estava ainda mais implicada que ao pronunciá-las pela primeira vez. Tentou-o de novo, esperando convencer ao Beau... e a si mesmo. - Aos dois, pelo visto, é difícil para respeitar nosso acordo nominal. Eu, em todo caso, lhe permitira liberdades que transbordam muito o estabelecido no início, de modo que chego à conclusão forçosa de que me convém não estar em sua companhia. Daqui por diante agiremos como se não estivéssemos casados. Não recordava ter pronunciado jamais palavras que lhe partissem o coração até esse ponto. Dizê-las lhe exigira utilizar todas suas energias e força de vontade. Beau não sorriu, mas tampouco franziu o sobrecenho. Depois de executar uma silenciosa e muito leve inclinação de cabeça, retirou-se. Tinha a sensação de ter chegado ao final de uma etapa enormemente prazerosa de sua vida, mas mais forte ainda era a certeza de que seu coração esfriara. Quando fechou a porta, Cerynise tremia de modo incontrolável. Retornou a pequena


mesa contiguo ao beliche, sem humor para retomar seu trabalho com o tecido. Em lugar disso se sentou e cruzou as mãos em seu regaço, com o olhar perdido e um vazio que pouco a pouco ia lhe enchendo todas as curvas e fibras de seu ser. Essa mesma e horrível sensação de estar esvaziando-se por dentro foi a que lhe roubou quase toda a alegria durante os dias e semanas sucessivos. Permanecia a sós sempre que podia, e já não se sentia conectada à vida de bordo. Era como se em torno dela tivessem se baixado paredes invisíveis, impedindo o acesso ao que havia fora do camarote. Nem sequer se sentia viva; Limitava-se a existir momento a momento, na espera de que a travessia chegasse a seu fim. Então teria que arrumar-se para recolher os giros de seu coração e lhes infundir de novo alguma semelhança de ordem. Depois da visita de Beau a seu camarote, Cerynise subiu ao convés a instâncias do Stephen Oaks, mas só o tempo imprescindível para evitar perguntas a respeito de sua saúde. Uma vez aí respondeu às saudações da tripulação, mas sem iniciar conversação alguma de própria vontade. O primeiro oficial tratou de tirar ela de seu camarote, e o mesmo faziam Billy Todd e monsieur Philippe, que acudia com frequência para retirar pessoalmente a bandeja e ficava a trocar algumas frases em francês. Os três compartilhavam de uma preocupação semelhante a que se percebia nos olhos de outros membros da tripulação. Evitando-a com um doce sorriso, Cerynise se deixou cair cada vez mais no poço de seu vazio interno. O Natal os surpreendeu a um mês ainda de chegar ao porto. Cerynise consentiu em passar a noitada com seu marido, compartilhando um jantar tranquilo com ele e Stephen Oaks. Obsequiou ao Beau com um magnífico quadro do navio, e ao primeiro oficial com um retrato sobre tecido, como os que pintou antes para o Billy e Philippe. Oaks, a sua vez, deu de presente uma réplica em miniatura do Audaz, com cordas em lugar de equipamentos de barco e lenços substituindo ao velame. Acolheu com um amplo sorriso os elogios que lhe dedicava a jovem, e que não exigiam grandes esforços, já que Cerynise estava sinceramente impressionada pela precisão com que via reproduzido o navio a escala. Desfrutaram de uma deliciosa refeição, que Philippe preparara com entusiasmo para lhes alegrar as festas. Quando Oaks pediu permissão para retirar-se, Cerynise quis partir também para seu camarote, mas Beau lhe pôs uma mão no braço e suplicou uns minutos mais de sua companhia. Detectando receio no olhar da jovem, alegou que ainda não lhe dera nenhum presente, e que desejava entregar-lo em privado. O gesto de assentimento de Cerynise não expressou as emoções que lutava para conter. Quase no mesmo instante de chegar ao aposento do capitão havia sentido crescer em seu interior um poderoso desejo. Era um desejo tão forte que lhe deu vontade de chorar, porque demonstrava absoluta falta de progresso em seu empenho de afastar ao Beau Birmingham de seu coração. Ansiava retornar à comodidade do camarote de Beau, e a seus braços. Vítima, a seu pesar, de tais pensamentos, e experimentando uma precária vulnerabilidade, aguardou em tenso silêncio que Beau fosse em busca do presente, guardado em um armário contiguo ao aparador.


O capitão retornou com uma caixa de madeira nobre muito trabalhada, e ao abri-la revelou na base de teca duas figurinhas de jade com flores de lótus esculpidas. Cerynise nunca vira nada tão delicioso em seu gênero, mas não lhe escapava o custo daquele tesouro, excessivo para que o aceitasse das mãos de um marido temporário. - É muito belo, Beau, mas não acredito que deva aceitá-lo. Ele agarrou a figura masculina do casal e a examinou de perto. - Disseram-me que representam a dois amantes legendários que conseguiram contrair matrimônio depois de vencer numerosos obstáculos. Considerando nossas adversidades, senhora, pareceu-me um presente adequado, e sentirei como uma grave ofensa que não o aceite. - E se algum dia se casa com outra? - murmurou Cerynise, engolindo a saliva para dissolver o nó que se formara em sua garganta. A frase submeteu sua compostura a dura prova. O mero feito de pensar que Beau pudesse arrepender-se de seu celibato e casar-se com outra mulher lhe dava vontade de chorar. -Não preferiria dar de presente à sua esposa? - Estou dando de presente à minha esposa - afirmou ele, obrigando-a a olhá-lo nos olhos, - e me honraria se aceitasse meu presente. A ternura de seu olhar era tão persuasiva que ela sentiu palpitar seu coração. Conteve o imperioso desejo de aproximar-se da aquele robusto corpo masculino e descansar a cabeça em seu peito. Sabia que Beau a teria acolhido com prazer; sabia deste modo que sua vontade se teria caído sob os beijos subsequentes. Incapaz de confiar-se mais tempo em si mesma a curta distância do capitão, - agradeceu e se apressou a abandonar o camarote, fugindo par o seu, onde passou outra noite em claro desejando não ter que manter-se a distância de Beau. Um novo acesso de nauseas fez que se encerrasse na solidão de seu cubículo, e embora conseguira não expulsar o pouco que ingerira, não se salvou de um esgotamento sem limites. Como quase já não tinha vontade de pintar, passou dormindo boa parte do tempo, e às vezes se permitia longos descansos tanto pela manhã como de noite. À terceira vez que teve de despertá-la, Billy comunicou sua inquietação ao capitão. Quando Beau acudiu correndo para fazer averiguações e tocar a testa de Cerynise, esta lhe assegurou que dormia para vencer o aborrecimento de uma longa travessia, e desmentiu que se vira afetada por alguma estranha enfermidade. Expressou deste modo sua confiança em reviver quando chegassem ao Charleston, e disse que não necessitava babá. Beau aceitou suas desculpas a contra gosto e lhe devolveu a intimidade, que era o que mais parecia desejar a jovem. A partir de então a observou com atenção, mas unicamente de longe. Seus caminhos se cruzavam com frequência. Escondendo com esmero suas respectivas emoções, cruzavam umas palavras ou se limitavam a trocar corteses inclinações de cabeça. Uma tarde, quando Billy trouxe a bandeja do jantar e deixou a porta aberta ao sair, Beau se deteve ante ela, a caminho de seu camarote. Seu corpo alto e robusto irradiava como sempre força e saudável vitalidade, mas seus escuros olhos azuis se posaram com cautela na jovem passageira. - Encontra-se bem esta tarde, Cerynise? - perguntou, todo cortesia.


- Minha saúde é excelente, capitão. Obrigada. E você? - respondeu Cerynise com fingida jovialidade, fazendo o possível por mostrar-se à altura da resposta. Ele mordeu a bochecha, refletindo na palidez de Cerynise. Fazia alguns dias que o inquietava sua excessiva seriedade, e nada podiam seus sorrisos forçados para convencer a ele de que estivesse contente. Entretanto, e por mais vontade que tivesse, não podia lhe ordenar que lhe contasse a verdade a respeito de sua saúde. - Encontra-se bem, não é assim, capitão? - insistiu Cerynise, contando os instantes que faltavam para que fechasse a porta e pudesse respirar de novo. - Certamente, senhora - acabou respondendo ele. Transcorrida outra pausa, acrescentou: - Dou por certo que não vacilará em me informar de todas suas necessidades. - Billy e Philippe estão atendendo maravilhosamente, capitão. - Cerynise encolheu os ombros e estendeu as mãos, emitindo uma curta risada que até ela teria reconhecido como falsa. - Não vejo motivo para importunar você com assuntos tão corriqueiros. Têm muito com que se ocupar, muito para que eu lhe roube uma parte de seu tempo. A resposta não foi do agrado de Beau, mas tampouco estava disposto a suplicar ao Cerynise que lhe dedicasse uns minutos de seu tempo. Muitas vezes fez isso já. Continuou caminhando para seu camarote. As semanas posteriores viram Cerynise mais frequentemente no convés, com o objetivo prioritário de dissipar quantas dúvidas Beau pudesse abrigar no que se referia à sua saúde. Durante essas incursões contemplava mais o mar que o lugar ocupado pelo capitão. Observar a este a teria metido por um caminho que tratava por todos os meios de evitar, e embora procurava insensibilizar-se a sua presença, esta se antepunha com firmeza a todo o resto. Se possuísse uma vontade todo-poderosa, Cerynise teria desejado pôr ponto final a sua tortura mediante o avistar terra firme. Pela tarde de um dia frio de inverno, a poucos dias de completar-se três meses de sua partida de Londres, seu desejo se viu confirmado.

CAPÍTULO 11

No fim de janeiro, a maré matinal aproximou o Audaz de Charleston. Cerynise subiu ao convés ao romper a alvorada e aguçou a vista para captar algum detalhe da cidade através do véu de bruma que mascarava a costa. As aves marinhas sobrevoavam o navio como amigos lhe dando as boas-vindas, ou cavalgando as ondas que quebravam na proa sua branca crista. Cerynise observou suas brincadeiras, notando-se unicamente no contraste entre o espírito despreocupado dos pássaros e a crescente angústia que ela sentia. À medida que o sol alcançava maiores alturas, os ventos cobraram força e se dissipou a bruma. Cerynise se embrulhou em sua capa de veludo, negando-se a que a gélida brisa a obrigasse a refugiar-se no calor de seu camarote. Em lugar da euforia que cabia esperar da volta a sua terra natal, não sentiu mais que alívio de ter finalizado a viagem. Mesmo assim achou prazeroso o panorama que descobria seu olhar, estalagem nas brancas e reluzentes


praias que emolduravam o canal principal de acesso ao porto de Charleston. Respirando fundo, desfrutou das fragrâncias mistas dos bosques de ciprestes e mangles, que cresciam vastos e majestosos ao longo da costa e difundiam seus aromas em cortes do vento. Como desesperadamente tivera saudades de sua pátria! Só agora que podia recrear vista com a terra natal se dava conta da intensidade de sua nostalgia. O impacto de perder a seus pais, misturado com a gratidão sentida por Lydia, eclipsaram as lembranças de anos anteriores, relegando-os ao mais fundo de seu coração. Uma vez quebrado o selo iam em turba, enchendo a de fortalecedora serenidade. Fora uma longa viagem, sim, uma travessia não do oceano mas sim de sua própria vida. Por fim concluiu, e uma vez em terra começaria outra viagem, uma em que lutaria por criar um espaço próprio naquela terra que a vira crescer. Uma sensação familiar a embargou. Era, como sempre, inconfundível. Conteve a respiração e deu meia volta, descobrindo que Beau a observava de muito perto. A boina com que protegia sua agraciada cabeça era a mesma que colocara durante toda a parte final da viagem. Trazia ela um pouco inclinada, e apareciam por debaixo curtas mechas de cabelo negro que se agitavam com o vento. Beau aceitou a vestir a jaqueta, possivelmente em atenção à Cerynise. Esta achou sua aparência tão admirável e principesca como sempre, e sem dúvida nunca deixaria de parecer-lhe. Bastava olhá-lo para temer que seu coração saísse do peito. Era a reação que lhe produzira sempre, e sem dúvida nunca deixaria de produzir-se - Esta manhã a vejo um pouco pensativa, Cerynise. - Beau expressou sua conjetura ao mesmo tempo que se colocava a seu lado e apoiava os cotovelos na amurada. - Não se alegra de estar em casa? - Sim, muito - respondeu ela, com um sorriso que ele não vira há semanas, - mas depois de tanto tempo não posso evitar me sentir estrangeira. - Comprovando que seu pulso se negava a serenar, afastou o olhar de seu belo marido e a fixou na costa que se perfilava a proa. - Pergunto quantas coisas terão mudado desde minha partida, e se saberei reconhecer a cidade que visitava em outros tempos. - Duvido que lhe custe. Não experimentou grandes mudanças. - Espero isso. Ser considerada estrangeira pelos habitantes da zona era um dos temores de Cerynise, mas evitou mencioná-lo. Tinha confiança em que seu tio lhe daria proteção, embora tivesse sido sempre um homem de aspecto solitário e autossuficiente, satisfeito, entre aula e aula, desfrutando entre livros de sua solidão. Quanto a suas amizades de infância, todas se teriam feito mais velhas , e participariam sem dúvida nas diversas atividades e tarefas próprias das mulheres de sua idade. Até era possível que algumas tivessem se casado e estivessem grávidas... Pensando em sua própria condição de casada, Cerynise se sobressaltou; perturbada de súbito, alisou a parte dianteira do vestido, apalpando as suaves e macias pregas de sua saia. A involuntária inspeção cessou de modo brusco ao dar-se conta de que Beau a observava com curiosidade.


- Virá lhe receber algum parente? - perguntou-lhe com nervosismo, ficando de cara para o vento para mitigar seu rubor. Beau pensou que vira gatos pequenos fazendo frente a uma manada de cães selvagens com mais aprumo que o que estava vendo em sua esposa. Encolheu os ombros. - Como a maioria se acha em Harthaven, duvido que tenham sido avisados de minha chegada ao porto. Irei vê-los mais tarde, uma vez instalado. Trouxe-lhes presentes, e como é lógico minha mãe levaria a mal que ficasse na cidade sem os informar de que estou em casa. - O senhor Oaks disse que suas chegadas costumam se esperar com impaciência, e que de costume lhes assediam verdadeiras multidões ansiosas por ver o que trouxe. Se for o caso, imagino que demorarão certo tempo em abandonar a cidade. - Fazendo esforços para fingir desenvoltura, acrescentou: - Assim sendo, Beau, acredito que deveríamos discutir em que termos expor a anulação. Beau pensara propor que antes de iniciar os trâmites se concedessem uma margem generosa de tempo para meditar sobre sua relação. Durante esse período se proposto pedir permissão ao tio de sua esposa para cortejá-la como qualquer pretendente com fins matrimoniais. À luz de sua anterior relutância a casar-se, o próprio Beau se surpreendia de ter urdido um plano daquela natureza, mas não concebia renunciar a jovem. Para falar a verdade, a idéia de que outro pretendente a cortejasse, feria ele no mais profundo. - Disporemos de muito tempo para falar disso, Cerynise. Não tenho pressa. Ela respirou fundo para tranquilizar-se. Ser a esposa do Beau Birmingham tinha suas inconveniências, sim, mas só porque seu matrimônio estava destinado a acabar. Sabia que atrasando essa tarefa, quando chegasse a hora de assinar os papéis seu coração se teria firmado ainda mais em seu cativeiro. Imaginava perfeitamente o trauma emocional que lhe proporcionaria albergar esperanças sobre a continuidade de seu matrimônio e vê-lo por fim feito pedacinhos em dia posterior. Não podia manter indefinidamente a fachada de frieza e afetação que conseguira construir com força de vontade, depois de rogar ao Beau que já não pensasse nos dois como em um matrimônio. Havia, além disso, outra razão muito clara que não esquecia em nenhum momento, mas tentou fazê-lo até que tivessem finalizado as conversações sobre o tema do matrimônio, uma vez que de outro modo sua compostura se teria visto seriamente ameaçada. - Possivelmente quanto antes melhor, Beau - murmurou. Ele ficou tenso, ou era imaginação dela? - Pensei que deveríamos nos conceder uns meses... - Não; é melhor acabar de uma vez - insistiu ela, à beira do pânico. - Tanta pressa tem pela

anulação, senhora? Desconcertada pela mordacidade da

pergunta, Cerynise levantou o olhar para o Beau, cujos olhos, entrecerrados, escrutinavam-na. Como lhe explicar que dois meses mais tarde nenhum advogado em seu são julgamento concordaria em redigir os documentos da separação? E Beau, sentindo-se apanhado, odiaria-a. Medindo seus gestos e palavras, Cerynise recitou as desculpas que tanto ensaiou.


- Quando tiver montado meu estúdio, e se quero vender um número suficiente de quadros para cancelar minha dívida com você e contar com recursos próprios, não terei muito tempo livre. É preferível que atuemos com toda a rapidez que nos seja possível, aproveitando que ainda disponho dele. - É claro, os quadros têm prioridade - replicou Beau insidiosamente. Cerynise ficou aflita por seu sarcasmo. Não se dava conta que ele significava para ela muito mais que seu talento de pintora? Seriamente não entendia que estava louca e irremediavelmente apaixonada? Ou acaso considerava seu retraimento como sinal de que não queria saber nada dele? Nesse caso era tão cego como idiota! Deixou que prevalecesse o sentido prático em sua resposta, embora sem ocultar sua irritação. - Veja, capitão, desde o momento em que devo ganhar a vida por meus próprios meios, a pintura é muito importante para mim. Significa meu sustento. O mau humor de Beau ia aumentando. - O que dirá a seu tio? - A verdade - respondeu ela com simplicidade. - Estou certa de que o entenderá, e que lhe estará agradecido por quanto têm feito... como o estou eu. O brilho frio dos olhos de Beau lhe advertiu que estava pisando em areias movediças. - Só isso? Agradecida? A confusão de Cerynise crescia cada vez mais. - Não deveria estar? Por muito que escrutinasse o rosto da jovem, Beau não achou indício do que procurava. - Quanto à anulação... Ela se voltou de costas e respondeu com toda a serenidade que conseguiu reunir. - Não desejo lhe causar a menor amolação, Beau; não mais, em todo caso, além das que já causei. Peço-lhe que haja como parecer mais conveniente a você. - Entendo... Olhou-o de novo, atraída irresistivelmente pelo poder viril e graça masculina de sua pessoa. Beau a observava com a mesma cautela que a um mar revolto, até o ponto de que, se não tivesse conhecido melhor, Cerynise o teria acreditado irritado com ela por insistir em que dessem pressas à anulação; mas não, sem dúvida era isso o que ele desejava e esperava. Teria sido uma loucura ceder à tola esperança de que a idéia de ver dissolvido seu matrimônio lhe desgostasse tanto como a ela. Beau ficou frustrado pelo semblante inescrutável de sua esposa, que lhe impedia de ler seus pensamentos. Pareceu-lhe que os sentimentos da jovem continuavam iguais ao que foram durante a maior parte da travessia. Só desejava desentender-se dele. Arrependeu-se então com tal intensidade que quase perdeu a compostura. Ao urdir seu plano de arrebatar Cerynise das garras do Winthrop não lhe ocorreu que em espaço de três meses chegaria a afeiçoar-se tanto a ela. Agora, sua relutância a invalidar o matrimônio se demonstrava inútil. Deu-se conta de que fora uma insensatez abrigar sequer uma tímida


esperança de que Cerynise pudesse desejar a prolongação de seu enlace, ou fosse capaz de algum sentimento de afeto conjugal para com ele. Suas esperanças contrariadas cederam a um orgulho inflexível, que lhe distenderam a mandíbula. - Nesse caso, senhora, receberá a visita de meu advogado, Hiram Farraday. Cerynise assentiu com rigidez, incapaz de evitar o nó de angústia que lhe estava formando na garganta. Demorou para dar-se conta de que estava tão obstinada à amurada que os dedos lhe doíam. Sem afastar o olhar da costa, foi soltando pouco a pouco o corrimão de madeira e conseguiu fingir indiferença, ao mesmo tempo que Beau se afastava dela sem cerimônias. O vento e a maré se uniram para favorecer ao Audaz, impulsionando-o pela baía azul em direção à língua de terra que separava dois grandes rios. A cidade caiada reluzia sob o sol matinal, e seu belo aspecto era um ímã para qualquer olhar. Além dos altos mastros dos navios que abarrotavam o porto, multidão de campanários se erguiam para o ceu, enquanto que a partir da ponta da península o chão firme dava proteção a elegantes edifícios de dois e três andares. As lembranças mostraram não ser mais que pálidos reflexos da realidade, e Cerynise ficou tão impressionada como qualquer viajante em sua primeira visita a Charleston. Uma ordem do Beau a tirou de seus devaneios. Os marinheiros subiram aos equipamentos de barco para cumpri-la. Em pouco tempo ficaram arriadas as velas, e executados os preparativos necessários para que a fragata pudesse atracar no mole. Enquanto percorriam a última milha, o olhar de Cerynise se pousou na multidão reunida no embarcadouro. De suas anteriores visita a cidade recordava as notícias que deslocaram como o mercúrio por ruas e ruelas cada vez que se divisava um novo casco de navio na proximidade do cabo. A essas alturas a volta do Audaz seria já de domínio público; não assim, é obvio, o de sua passageira. Seu tio não esperaria sua chegada, mas com um pouco de sorte Cerynise confiava em passar desapercebida entre o tumulto do retorno dos marinheiros, e percorrer sem companhia o caminho até a casa. Desceu ao camarote e recolheu seus pertences pessoais. Os baús e as bolsas estavam preparados de antemão. À exceção de uma pequena valise em que pusera artigos de primeira necessidade, o resto teria que permanecer a bordo até que seu tio pudesse ir em sua busca. Quando esteve pronta se colocou no meio do camarote e o olhou pela última vez. A pequena habitação que fora seu lar durante o último lance da viagem já começava a perder seu ar de familiaridade. Estava segura de que transcorridas umas poucas semanas teria dificuldade em recordá-la com detalhe. Não assim aquele outro camarote que dava ao corredor, e que recordaria sempre com nitidez, possivelmente até em seu leito de morte. Uma série de sacudidas assinalou o final da viagem. Depois de percorrer milhares de milhas, atravessando tempestades naturais e interiores, Cerynise ficou surpreendida de que concluíra com tanta normalidade. Suspirou, incapaz de desfazer o nó de sua garganta. Depois percorreu o corredor pela última vez e subiu lentamente pela escada. Quando saiu ao convés as amarras do Audaz estavam atadas ao mole, e já fora


estendida a passarela. O embarcadouro estava abarrotado de famílias que saudavam com gritos a vários membros da tripulação, igualmente ansiosos por divisar a seus seres queridos. Continuou a acudir gente pelas ruas adjacentes, até que pareceu que não ficaria sítio para os que faltavam. Chegaram várias carruagens elegantes, cujos passageiros, uma vez em terra, apressaram-se a subir a bordo com inquebrável resolução. O cocheiro negro de um landô ajudou a descer a duas jovens senhoritas, que cruzaram a passarela pouco menos que voando, entre risadas alvoroçadas. Assim que divisaram ao Beau o chamaram por seu nome, agitando o braço com entusiasmo até captar sua atenção. - Suzanne! Brenna! - exclamou com alegria o capitão. - O que fazem aqui as duas? Apressou-se a diminuir a distância que o separava delas e abraçou primeiro a uma e depois a outra, erguendo-as no ar e dando-lhes um beijo na face. Reparando na negra juba e olhos azuis de ambas, Cerynise supôs que seriam membros do clã Birmingham a quem Beau não esperara ver. Como não queria mostrar excessiva curiosidade, voltou-se ligeiramente até poder observá-las com certa dissimulação. Apesar dos múltiplos sons do mole, o vento levou as vozes das jovens até a amurada, onde se achava Cerynise. A maior e mais alta das duas expôs alegremente o motivo de sua presença na cidade. - Viemos às compras, Beau, mas ao nos inteirar de que avistaram seu navio tivemos que nos apressar, embora só fosse para ver nosso irmão uns segundos antes que embarque de novo. - Vamos, Suzanne, não exagere! - protestou ele, risonho. Em seguida ficou com as mãos na cintura e examinou a menor com um sorriso zombeteiro. - Vejo que está muito desenvolvida, Brenna. E o que é isso de que não usa coletes? - Ora! - A jovem beleza de cabelo negro e olhos azuis fez um gesto de fingida exasperação com sua cabeça, tocada com um chapeuzinho. Sabe perfeitamente que nunca usei coletes, Beauregard Birmingham! Além disso, querido irmão, se pensar um pouco recordará que já completei dezesseis anos, quer dizer que tenho suficiente idade para estar desenvolvida. - Quando a vi pela última vez tinha andar de pato - disse Beau. - Salta à vista que depois adquiriu maior elegância. Mas me diga uma coisa: ainda lhe perseguem todos os moços de boa família da região? - Silêncio, vagabundo! - repreendeu-o Brenna com uma bonita careta. - Já sabe que papai tira a escopeta assim que vê aproximar-se um possível pretendente. Com papai montando guarda a todas as horas, juro-te que nunca conseguirei me aproximar de um homem o suficiente para decidir se é bonito ou não. - Me leve a serio, irmã: tem motivos de sobra para esmerar-se tanto em seu amparo assegurou-lhe Beau com tom jovial. - Sendo homem, posso dar fé disso. - Todos os homens são iguais! - exclamou a jovem com graciosa indignação. - Põem todo o empenho do mundo em se defender mutuamente, e que Deus proteja à mulher que se atreva a lhes contradizer. - Quando for mais velha e mais sensata, querida, agradecerá a papai que tenha


investido tantos esforços em proteger você. Se não fosse por ele, mais de um trapaceiro veria em você um bocado apetitoso à espera de ser devorado. O comentário ofendeu a Brenna. - Já sou sensata. - Digamos que te falta experiência para saber tratar a homens mundanos. - Suponho que não há como parecer-se para entender-se - declarou Brenna com um brilho zombeteiro nos olhos. - Você e papai são iguais. Tal pai, tal filho. - Pode ser - reconheceu Beau, - embora ouvi dizer que você é a viva imagem de mamãe quando a viu pela primeira vez. - Sim, e quando se casou com papai não era muito mais velha que eu agora. Em troca, se dependesse dele, esperaria ver-me feita uma solteirona de vinte anos antes de permitir a visita do primeiro pretendente. - Entendeu que no momento de casar-se mamãe se aproximava mais dos dezoito assinalou Beau com um sorriso zombeteiro. - Bom, pois me falta pouco - afirmou Brenna, lhe mostrando a língua. - O que disse mamãe desse gesto? - disse Suzanne a sua irmã mais nova, antes de soprar como se já não aguentasse mais. - Enquanto não deixar de nos envergonhar dessa maneira continuarão considerando você como uma menina travessa, e nada mais. - Como é aborrecida, Suzanne! - queixou-se Brenna. - Qualquer um a tomaria por minha mãe. - Garotas, garotas! - repreendeu-as Beau com doçura. - Deixem de brigar. Não é digno de duas senhoritas. - Enquanto suas irmãs se olhavam com má cara, ergueu a vista para localizar a esbelta silhueta de sua esposa. Talvez o reencontro com sua família convencesse ao Cerynise de não o ter por um ogro, ou mitigasse sua decisão de fugir qual pássaro ferido. Além disso, quero lhes apresentar de novo a uma pessoa. Agarrou às duas jovens pelo braço e percorreu com elas o convés em direção à Cerynise. antes de tocar o cotovelo de sua esposa, esta já se virara para ele. - Cerynise, apresento-lhes a minhas irmãs, Suzanne e Brenna. - voltou-se para as duas . Com certeza, lembram dos Kendall. Pois bem, está aqui à filha do Marcus Kendall, Cerynise... - Cerynise Kendall! É obvio! - exclamou Suzanne, agarrando a mão de Cerynise. Estava acostumada a acompanhar a seu pai em suas visitas ao Harthaven. Virgem santa, quanto mudou! Sem a ajuda do Beau não teria reconhecido você. Mas o que faz aqui? A última coisa que soubemos foi que tinha zarpado para a Inglaterra para viver com a encantadora senhora Winthrop. - Suzanne esquadrinhou o convés com seus olhos de negras pestanas, procurando a aquela anciã a quem sempre considerara exemplo de elegância e nobreza. - Veio com você? - Não; lamento dizer que fiz a viagem só - respondeu Cerynise serenamente. - A senhora Winthrop faleceu pouco antes de minha partida da Inglaterra. - Oh, que tragédia! Não sabe quanto o lamentamos - disse Brenna compassivamente. -


Mas estamos encantadas de voltar a ter você conosco. Quando estiver instalada não deixe de vir a nos ver o Harthaven. Cerynise se deu conta de que Beau se colocou atrás dela. Talvez existisse entre os dois um entendimento que se travava em suas mentes e em seus corações; fosse qual fosse o motivo, sua intuição lhe advertiu que o capitão aguardava a ocasião de apresentá-la como sua esposa, com a consequente desordem. Brenna seguiu debulhando lembranças, e impedindo toda intervenção por parte de seu irmão. - Ainda me lembro de como se dava bem com os pincéis durante a época em que fomos juntas a aquela academia de senhoritas, Cerynise. Suas pinturas sempre se pareciam com seus modelos. Já então desejava que me fizesse um retrato, mas tinha um ou dois anos menos que seu círculo de amizades, e por isso não me atrevi a lhe pedir isso. Ainda pinta? - Como Rembrandt - assinalou Beau com um sorriso. - Que emocionante! - exclamou Brenna, seus olhos azul-safira faiscantes de entusiasmo. - Tenho que dizer isso a papai! Ouvi ele comentar recentemente que queria encomendar um retrato de mamãe com suas filhas. Agora poderei informar a ele de que encontramos um artista capaz de realizá-lo a sua plena satisfação. Embora a vivacidade da moça a fizesse sorrir, Cerynise julgou prudente dirigir a situação com delicadeza, por medo de que se vissem envoltos os quatro em uma situação embaraçosa. - Talvez seja melhor que não insista muito e espere que seu pai examine pessoalmente minhas qualidades. É possível que nem sequer goste de minhas obras, e que prefira encomendar a tarefa a outro artista. Decidiu que lhe convinha manter a máxima distância com a família Birmingham, uma vez que não fariam mais que recordar o que perderia quando estivesse dissolvido seu matrimônio com Beau. Quando era menina, a cordial hospitalidade dos Birmingham fazia com que se sentisse muito a gosto, até o extremo de que em certas ocasiões ousou imaginar-se como parte da família na qualidade de nora. Já que não ia ser esse o caso, preferiu não sofrer a angústia de saber que poderia ter sido, de não haver-se interposto... - Se Beau diz que pinta como os mestres, então não há dúvida de que se acha entre os melhores - assegurou-lhe Suzanne com um sorriso. - Se por acaso ainda não se deu conta, nosso irmão tem muito bom um olho para as obras de arte. De qualquer modo, antes de importunar você com a questão do retrato deixaremos que se instale. Ficará alojada em casa de seu tio? - Sim, mas ele ainda não sabe. - O que me recorda - interveio Brenna - que Beau ainda não está ao corrente das notícias de nossa família. - Que notícias? - perguntou Beau com certo receio. Aprendera desde a mais tenra idade que na família Birmingham sempre havia surpresas.


- Suzanne está comprometida em matrimônio - anunciou Brenna com júbilo. - Michael York acabou por comprar a fazenda, aquela que está a algumas milhas seguindo o caminho, e assim que teve tudo preparado veio à nossa casa, solicitou a papai a mão de Suzanne e ficou de joelhos para pedir a ela que se casasse com ele. Foi tão emocionante vê-los da porta...! Suzanne se mostrou surpreendida. - Não se atreveria, Brenna! - É obvio que sim! - admitiu com orgulho a mais nova, antes de voltar-se de novo para seu feliz irmão. - Em meados de abril haverá um baile para celebrar a notícia. Você voltou bem a tempo para alvoroçar a todas as garotas jovens, e fazer que fiquem a sonhar ao mesmo tempo em bailes de compromisso e coisas dessas... - Bem, o certo é que já estou... - começou Beau, mas sua frase ficou interrompida pela chegada de Oaks, que lhe tocou o braço. - Desculpe incomodá-lo, capitão, mas um homem se oferece para comprar todos os móveis que foram trazidos, e parece que é a sério. - Como é possível? Se ainda não viu nenhum! - Certo, mas se lembra do que foi trazido da última vez, e nessa ocasião chegou muito tarde para comprar sequer um simples pedestal. Insiste em negociar agora mesmo, capitão, antes de que cheguem outros compradores. Brenna apoiou uma mão no braço de seu irmão. - Não retemos você mais tempo, Beau, mas esperamos vê-lo esta noite. Mamãe se alegrará muito por você ter voltado, e já sabe que vai querer vê-lo antes que a tarde termine. Desenhou-se em seus lábios um sorriso zombeteiro, ao mesmo tempo que verbalizava outras e revoltantes hipóteses. - Sempre foi a menina de seus olhos, seu bebê. Ouvindo como está orgulhosa de seu primogênito, qualquer um pensaria que seu nascimento foi um acontecimento excepcional. - Não fique ciumenta - repreendeu-a Beau, beijando-a na testa com carinho. Depois de fazer o mesmo com Suzanne, voltou-se para Cerynise. - Não acho que demore - murmurou, dispondo-se a acompanhar Oaks. Cerynise se despediu das duas irmãs, que voltaram a exortá-la para que não demorasse sua visita. A jovem assentiu com a cabeça, sabendo de que não seria fácil. As visitas lhe produziriam um sofrimento insuportável. O convés ficou abarrotado de gente, e como Beau estava ocupado,Cerynise julgou que era um momento ideal para pôr em prática seus planos de fuga. Era melhor resolver de uma vez antes que a angústia de separar-se de Beau lhe destroçasse o coração. Era consciente de que despedir-se de qualquer membro da tripulação lhe teria posto as emoções a flor da pele, e até sendo grandes seus desejos de agradecer sua amabilidade ao senhor Oaks, Billy e todos outros, teria que contentar-se colocando-os em uma missiva e enviar um exemplar a cada um, uma vez que não queria passar um mau momento vindo abaixo em presença de todos.


Não a esperava nenhuma carruagem elegante, nem dispunha ela de moedas para alugar uma. Abriu caminho pelos redemoinhos formados pela multidão, até chegar a um ponto cuja distância do embarcadouro lhe permitiu descansar e aliviar a nausea que lhe produzira a pressão da multidão. Virando o olhar para o belo veleiro, sentiu uma aguda tristeza por não estar mais a bordo dele, aguardando pacientemente que seu marido tivesse concluído seus negócios para descer a terra juntos. Esses rebeldes pensamentos lhe umedeceram os olhos, mas conteve as lágrimas à força de pestanejar, resolvida a não deixar-se vencer pela melancolia. De qualquer modo, e apesar de seus esforços, apropriou-se dela uma funda sensação de desamparo. Suspirando de desalento, afastou o olhar, agarrou a bolsa e se internou por uma rua familiar que a afastava do cais. A casa de Sterling Kendall estava localizada no limite mesmo do lugar delimitado em outros tempos pelas muralhas da cidade, e embora não ficasse nenhum rastro do dito sistema defensivo, seu rastro persistia nas ruas pavimentadas que se estenderam durante os primeiros e vacilantes movimentos expansivos da cidade. A residência de seu tio se achava em uma dessas ruas, separada-se das mais ocupadas, e isolada ainda mais pelo fato de que só se aproximava da rua propriamente dita uma anódina fachada. Os três lados restantes estavam rodeados por um jardim interior, o maior orgulho do Sterling além de seus queridos livros. Cerynise guardava doces lembranças das inúmeras ocasiões em que visitara com seus pais aquela casa de acolhedora modéstia. Quando chegou ao edifício parou do outro lado da rua à espera de que passasse um carro de cavalos. A seguir cruzou o meio-fio a passo lento. Confrontada enfim com o retorno muito esperado, ao lar, sentiu-se cheia de incerteza. Como reagiria seu tio a tão inesperada visita? Quando tivesse que expor as circunstâncias de sua volta, acharia no Sterling Kendall a tolerância e compreensão esperadas? A crescente inquietação pela recepção que a aguardava tornou seus passos lentos. Cerynise abriu a grade de ferro forjado com um peso no coração. Seguindo um caminho de conchas, atravessou um muro de barro que o tempo havia tornado quase invisível, oculto sob os jasmins. Sendo inverno, a trepadeira não mostrava seu melhor aspecto, mas Cerynise recordou o delicioso aroma que desprendia nos meses estivais. Ao passar por debaixo quebrou um ramo morto. Depois pousou o olhar na porta principal. Dispôs-se a levantar com mão trêmula a aldrava de bronze, mas antes fez uma pausa para tomar coragem e ir ao encontro de seu tio sem envergonhar-se. Voltou-se ao ouvir ruído de cascos pela rua, e qual não foi sua surpresa ao ver Beau junto à grade, puxando as rédeas de um impetuoso corcel. O capitão desmontou de um salto, e uma vez amarradas as rédeas no poste deu algumas passadas em direção à Cerynise. Bastou a essa lançar um olhar a seu rosto para convencer-se de que estava muito furioso com ela. Além de seus olhos despedirem brilhos frios, os músculos de seu queixo estavam tensos e vibrantes até extremos nunca vistos pela moça.


- Responda somente a uma pergunta! - trovejou ao chegar ao degrau em que se achava sua esposa. - Custava muito me esperar e deixar que acompanhasse você? Demônio de mulher! Era minha intenção, por certo. Ou cresceu tanto sua impaciência pela anulação que não podia aguardar minha volta? A irritação de Beau era evidente, mas nem ele mesmo conseguia elucidar sua origem com exatidão. O pacto a que acessaram ambos três meses atrás exigia a interrupção de seu matrimônio pouco depois de chegar a Charleston. Conforme o acordo, Cerynise podia seguir livremente seu caminho. Que o tivesse feito feria Beau no centro mesmo de seu coração, gerando nele a vaga sensação de ter sido traído, como um marido cuja esposa acaba de partir com um amante secreto. Estava sendo pouco razoável, mas não podia evitá-lo. Embora o matrimônio não tivesse sido mais que uma farsa, acostumou-se a ter Cerynise por cônjuge. Não obstante sua reclamação anterior de ver-se amarrado por uma esposa e família, custavalhe separar-se dela e deixar que tudo acabasse sem nenhum esforço para retê-la. - É possível que tenha como objetivo provocar em mim todas as emoções desagradáveis que sou capaz de sentir? É a isso que se propõem? Presa de uma involuntária fascinação pela ira de seu belo marido, Cerynise pronunciou uma resposta desprovida de relação com a pergunta. - Estava a ponto de bater na porta. Não fora sua intenção mostrar-se indiferente. Nada mais alheio a seu propósito. Entretanto, presenciar o arrebatamento de Beau lhe tirou toda faculdade de raciocinar. Sua expressão carrancuda e receosa sugeria sérias dúvidas a respeito da saúde mental da jovem. - Deixou o navio sem dizer nada a ninguém - acusou-a. - Nem sequer se despediu. De fato, não deu o menor indício de que queria abandonar o navio sem mim. -Estava ocupado, e não desejava incomodar você - respondeu Cerynise em voz baixa e trêmula. - Me pareceu bom momento para partir. - Bom momento? E um corno! - rugiu ele. - Não me ocorre nenhum pior. Deixei tudo para seguir você. - Lamento tê-lo feito zangar, Beau - murmurou ela, arrependida. - Seriamente não me pareceu que tivesse importância. - Pois tem sim! E muita! Tinha você à vista e de repente já não estava. Procurei-a por todo o navio, porque não acreditava que pudesse partir sem avisar a ninguém. Depois um de meus homens me disse que vira você desaparecer entre a multidão. Deveria ter previsto, por inconcebível que fosse. Demonstrou um talento especial para fugir nos momentos mais inadequados. De fato, senhora, se não soubesse o contrário, tenderia a atribuir certo indício de covardia. Cerynise, ofendida, ergueu ligeiramente a cabeça. - Não sou nenhuma covarde. Beau bufou, expressando dua não conformidade. - Neste momento, senhora, tenho a tendência de suspeitar o contrário; normal, porque é


de mim de quem foge à menor oportunidade, me deixando com tal desagrado que mais de uma vez pensei na satisfação que me proporcionaria exercer a violência em seu precioso traseiro. Cerynise retrocedeu, levando uma mão ao abdômen. - Não se atreveria... Beau não acreditou que sua esposa pudesse atribuir seriedade no que disse. - Seriamente acredita que sou capaz? - Ela encolheu os ombros. - Nunca vi você tão zangado comigo. - É compreensível - respondeu ele com sarcasmo. - Nunca estive tanto. - Não me pareceu necessário demorar nossa separação - explicou ela com voz apagada. - Isso salta à vista - replicou Beau de modo cortante. A simplicidade da resposta de Cerynise não fez mais que aumentar sua irritação. - Tendo em vista o silêncio de sua partida, sinto-me como se me tivessem dado um bofetão ou me tivessem cuspido no rosto. - Não pretendia insultar você, Beau - sussurrou Cerynise, olhando-o com olhos suplicantes. - Perdoe-me se o ofendi. Beau não pôde resistir ao seu angustiado pedido. Aproximou-se dela e murmurou friamente: - Tinha tanta pressa de encontrar você que até pedi emprestada uma carruagem. - Mas devia saber aonde me dirigia - disse Cerynise, ligeiramente aliviada pelo fato de que o rosto de Beau com sua pele bronzeada já não estava tenso.. - Sim! Sabia, e por isso estou aqui. Beau continuou se aproximando até que Cerynise retrocedesse, topando com a porta. Quando cambaleou em direção oposta, Beau estava aí para recebê-la, e como por obra de mágica seu braço de repente a rodeava, lhe devolvendo o equilíbrio e atraindo-a para si. A jovem respirou entrecortadamente, inalando todos os aromas que faziam com

que seus

sentidos despertassem à masculinidade de Beau. Sentiu-se fraca e enjoada. Quando levantou um braço para sustentar-se, topou com o peito do Beau, a musculosa superfície que tanto gostava de acariciar. Pareceu que sua própria natureza a impulsionasse a fazê-lo, porque sua mão traçou um lento movimento circular em torno de um peitoral. Trêmula, levantou a vista para Beau e viu que toda sua raiva desapareceu, substituída por um desejo cuja intensidade a levou a assombrar-se de que depois de tantas rixas e questões, aquele homem orgulhoso e indômito a desejava com inquebrável veemência. Quase o ouvia dizer: "Ao diabo a anulação!" Beau se inclinou, sua boca entreaberta foi aproximandose, e Cerynise aguardou, perdido o controle de suas emoções. Interrompeu-os o ruído continuado de uma carruagem que passava junto a eles, e que recordou ao Cerynise que se achavam em uma via pública, em pleno centro de Charleston. Quem queria vê-los não tinha mais que olhar através da pérgola. Mesmo assim, desejava a aquele homem com todo seu ser, apesar dos conflitos que pudessem produzir-se. Seus lábios suaves se separaram em sinal de rendição.


- Beau... O sussurro se converteu em grito abafado, ao abrir-se a porta sem aviso prévio e Cerynise ver-se jogada contra Beau. Depois de retirarem-se do degrau a tropeções, olharam ambos com surpresa a um homem de cabelos grisalhos e óculos com atos de metal, que os observava com rosto de mocho assustado. - Oh, sinto muito

- desculpou-se. -

Pareceu-me

ouvir algo e saí para ver... -

Interrompeu suas palavras, ao mesmo tempo que um sorriso iluminava suas graves feições. Cerynise... é você? Não é possível... Está... - Sou eu! - apressou-se a confirmar a jovem. Não era o encontro que previu. Consciente de seu nervosismo, reparou na curiosidade com que seu tio a olhava ao vê-la tão ruborizada. - Voltei para sempre, tio Sterling. Um repentino desconcerto pareceu apropriar-se dele. - Mas e a senhora Winthrop...? A voz de Cerynise traduzia uma profunda emoção. - Faleceu três meses atrás. - Por Deus! Quanto o lamento! - disse o tio Sterling, diminuído seu júbilo. - Era uma mulher muito bondosa. - Olhando de novo a sua sobrinha, sorriu com doçura. - Mas não imagina o alívio que é para mim ter você de volta. Tratei você com pouco caso. É a única família que me resta. Com palavras tão simples, Cerynise sentiu cair o muro que seu temor tinha levantado. Sterling lhe estendeu os braços, e Cerynise se entregou a eles contendo a respiração. Sterling a abraçou afetuosamente, piscando para não chorar. - Minha querida menina, pensei em você constantemente. Suas cartas eram um verdadeiro deleite, mas não posso expressar a alegria que me produz sua chegada. Começou a me desesperar para poder voltar a ver você algum dia. - Já estou aqui - murmurou sua sobrinha, perguntando-se como tinha podido julgá-lo frio e distante. Talvez nunca o tivesse conhecido bem. Confiava, porém, em dar remédio a essa situação. Beau retrocedeu respeitosamente. Passados uns instantes, Sterling Kendall se voltou para ele com um sorriso. - Deduzo que é a você a quem devo agradecer que minha sobrinha haja voltado sã e salva, capitão Birmingham. - Há algumas coisas que deve saber, senhor - respondeu Beau, sobressaltando Cerynise; - e acho que deveríamos falar delas por um longo tempo. Sterling os olhou a ambos com curiosidade, e ao perceber no rosto de sua sobrinha uma súbita consternação, decidiu que era um assunto sério. - É claro, capitão. Passemos ao salão. Assim poderemos tomar o chá enquanto conversamos. Cruzando atrás dele um vestíbulo que cheirava a limão, chegaram a uma sala com


vistas ao jardim, que por ser inverno estava quase nu, com exceção das camélias, ainda em flor. Durante os meses de estio, toda sorte de flores e arbustos alegremente recortados formavam um belo espetáculo para os sentidos. Cerynise sempre gostou de perambular pelos atalhos de terra, contemplando o vistoso desdobramento de flores e a encantadora pracinha por cujo gradeado branco subiam a hera e a roseira trepadeira. Em outros tempos abrigou o desejo de criar sobre o tecido tão vivaz espetáculo, mas ainda não o fez. - Fiquem à vontade enquanto vou ver onde está a criada - disse o tio Sterling. - Cora anda ultimamente um pouco dura de ouvido, e já faz um tempo que também não vê muito bem, embora ela insiste em que continua em condições de trabalhar como sempre. Cerynise recordava a Cora de sua infância, e deduziu que teria quase setenta anos. A julgar pela ordem e esmero da casa, as limitações de Cora não lhe impediam de limpar e cozinhar para seu tio satisfatoriamente. Fazia isso há pelo menos trinta anos. Cruzou a sala e sentou-se em um sofá, de frente a uma janela dividida em quadrados que emoldurava uma vista do jardim. Beau se reuniu a ela sem demora, desdenhando lugares mais cômodos para sentar-se a seu lado. Por onde quer que olhassem viam livros, alguns ocupando estantes, outros, mais pesados, ordenadamente dispostos em cima das mesas. Beau pegou um e ficou a folheá-lo, até que algo atraiu seu interesse. Além do texto histórico havia desenhos que representavam estátuas gregas e romanas da Antiguidade, muitas delas bem detalhadas. Um rápido movimento de olhos o informou que o interesse de Cerynise também fora estimulado, fato que o levou a passar as páginas com maior lentidão. - Bonitos desenhos - comentou com um sorriso, voltando por fim o olhar para a jovem. Cerynise estivera ligeiramente inclinada para ele, mas suas palavras a fizeram erguer-se com rubor acusador em suas faces. Não estava em situação de negar que estivera olhando as estátuas masculinas com interesse tingido de assombro. o melhor que podia fazer era encolher os ombros. - Suponho que sim. - Embora não tão bonitos como a realidade. - Devolva o livro a seu lugar - sussurrou ela, - que meu tio está vindo. - É isso o que fazia de pequena? - inquiriu Beau, colocando o livro em cima da mesa que tinham diante deles. - A que se refere? - perguntou Cerynise com desconcerto. - Devorar todas as ilustrações de homens e mulheres nus, e as esconder assim que as pessoas mais velhas se aproximavam - explicou Beau, rindo baixo. Cerynise desejou ter à mão um pano úmido para refrescar as faces, embora duvidasse de sua eficácia, porque o rubor se estendia a todo seu corpo. - Não recordo ter visto antes este tipo de livro. Possivelmente meu tio tinha mais cuidado em não deixá-los ao alcance das crianças. - Nenhum historiador qualificaria de obscenos a livros como este - alegou


Beau; - duvido, portanto, que o bom professor os ocultasse. - Seja como for não o vira nunca! - sussurrou Cerynise acaloradamente. - De acordo, de acordo! - Beau não pôde reprimir um sorriso. Como gostava de zombar de sua esposa, murmurou-lhe ao ouvido: - Pintou alguma vez um nu masculino? - Não! - Não sabia como era antes de ver-me, né? - Silêncio, ou meu tio ouvirá você! - Beau encolheu os ombros. - Não me importa. - Pois a mim sim! - protestou Cerynise com voz apenas audível. - Se supõe que temos em perspectiva a anulação. Ou se esquecera? - Não me deixa... - provocou-a ele. Desconcertada por sua resposta, ela o olhou aos olhos, mas não teve tempo de lhe fazer perguntas porque seu tio abriu a porta e a segurou para que Cora entrasse com o carrinho do chá. Serviu-os de chá e pães-doces, que Cerynise provou nervosamente. Não tinha a menor idéia do que se propunha dizer Beau a seu tio; só sabia que, fosse o que fosse, deixaria atônito ao ancião. Depois de fechar a porta à passagem da criada, Sterling olhou ao Beau. - O que deseja me dizer, capitão? - Simplesmente que Cerynise e eu estamos casados... Ela se encolheu na espera da reação de seu tio. Não cabia dúvida de que se sentiria ofendido, uma vez que não fora informado previamente. Sterling se apoiou no espaldar de sua cadeira com semblante incrédulo. - Como ocorreu? Cerynise, presa de um arrebatamento de impaciência, não deu ocasião ao Beau de dizer o que pensava. - Foi bastante repentino, tio Sterling, e muito necessário naquele momento. Sabe, depois da morte da senhora Winthrop, seu sobrinho quis erigir-se em meu tutor legal, e quando Alistair ameaçou-me fazendo com que as autoridades impedissem de zarpar ao Audaz, Beau... quero dizer o capitão Birmingham, propôs o matrimônio como solução para que tanto eu como seu navio abandonássemos a

Inglaterra. Temos planos de que se anule nosso

matrimônio o antes possível, mas pensamos que devia saber disso imediatamente... O choque de uma xícara de porcelana contra seu correspondente pires obrigou Cerynise a olhar surpreendida a seu marido, que parecia sinceramente perturbado por sua intervenção. - Não expus a situação de modo preciso? - inquiriu com desassossego. - Muito concisamente, senhora. Sterling olhou os dois e se perguntou o que estava vendo no rosto do capitão. Não satisfação, em todo caso. Procurou diminuir a irritação que Beau pudesse sentir. - Pelo visto, acharam uma solução engenhosa para um transe complicado.


- É possível -murmurou Beau. - Pelo menos é assim que sua sobrinha parece vê-lo. Devolveu ao carrinho a xícara e o pires, não sem certa brutalidade, e ficou em pé. - Mas devo retornar a meu navio. Deixei o comando ao senhor Oaks sem instruções de como desejava tratar determinados assuntos. Minha ausência deixa ele, sem dúvida, um pouco desorientado. - É claro, capitão -disse Sterling. - Vou acompanhá-lo até a saída. Quando Sterling passou ao vestíbulo Beau fez uma breve pausa para olhar Cerynise, que não soube dizer mais que: - Suponho que me enviará os documentos da anulação para que os assine. O sorriso de Beau era tenso. - Se insistir, senhora... Voltou-se e foi atrás de Sterling pelo vestíbulo. Quando Cerynise ouviu os passos de seu marido, que pelo visto não estava de humor para caminhar com discrição, o nó que se fez na garganta ameaçou dissolver-se em pranto. Os dois homens murmuraram umas poucas palavras junto à porta, antes que esta se abrisse de par em par. Cerynise ficou rígida até que a ouviu fechar-se, com uma firmeza que soava a irrevogável.

CAPÍTULO 12 Transcorrido mais de um mês desde sua volta, Cerynise desceu para tomar o café da manhã muito mais tarde que o habitual, vestida com uma bata de pintor e dando sinais de ter achado por fim força para retomar seu trabalho. O tio Sterling já se instalara na sala de jantar, cujas janelas davam para o jardim. Estivera desfrutando com entusiasmo da primeira comida do dia, mas ao ver entrar Cerynise se levantou como um cavalheiro. - Começava a me perguntar onde estava, querida - Saudou ela jovialmente. - Por favor, perdoe que tenha começado sem você. Esta manhã tenho uma entrevista a primeira hora, e não devo chegar tarde. Ela deu uma olhada aos ovos no prato, bolos de milho, salsichas e compota de maçã expostos na mesinha, e engoliu a saliva com dificuldade. A criada entrou na sala com andar trôpego, carregada com um prato quente que colocou ante a moça. Cerynise, entretanto, negou com a cabeça. - Obrigada, Cora, mas acho que esta manhã só vou tomar chá. A anciã encheu uma xícara e a serviu junto com algumas verdades muito bem cantadas. - Senhorita Cerynise, deveria comer mais. Come menos do que precisa um grilo para sobreviver. Cerynise levantou a xícara, mas seu estômago escolheu esse momento para dar uma lenta volta sobre si mesmo, levando-a a sentir-se como a bordo do Audaz nos primeiros dias da viagem. apressou-se a deixar a xícara em seu lugar e afastar o olhar. - Acontece algo com você? - perguntou o tio Sterling, que ao levantar a vista do prato


reparou que sua sobrinha tinha os olhos fechados e o semblante pálido. - Não. Ao erguer-se, Cerynise descobriu seu tio no processo de passar geléia de laranja muito espessa em um pão-doce quente de milho. Deslocando com tato seu olhar, viu que o chá de sua própria xícara realizava um estranho movimento de vaivém. Quis -certificar-se com mão trêmula, mas percebeu imediatamente que não era a xícara que se movia, mas sim seu estômago. Suas mãos começaram a tremer; retirou-as da mesa e as entrelaçou no regaço. - Sim, sim que ocorre algo - asseverou o tio Sterling, soltando o pão-doce - Esta manhã vejo você branca como vela de navio, querida. O que aflige você? Tem febre? Colocou os dedos na testa da jovem para julgar por si mesmo. - Não, estou muito bem - murmurou ela com uma voz fraca e pouco convincente. sentia-se bem, com efeito... salvo por sua incapacidade de reter mantimentos no estômago... e aquela estranha lassidão que não a tinha abandonado nem um momento desde sua primeira aparição, ainda a bordo do Audaz. - Estou um pouco cansada, nada mais. - Não estranho - respondeu o tio Sterling, voltando a sentar-se. - A julgar pelo abatimento que vejo, deve estar aborrecida depois da excitação da viagem. Uma garota jovem como você deveria sair, fazer novas amizades, ir a bailes, o que sei eu... Possivelmente te animasse um pouco dando um passeio. Faz um dia esplêndido, e não acredito que minha entrevista me mantenha ocupado mais de uma hora. Quando voltar espero que me conceda o prazer de sua companhia para uma pequena caminhada. - Se insiste - aceitou Cerynise com apatia, incapaz de sentir entusiasmo pela proposta. Não obstante suas pormenorizadas explicações ao Beau sobre a necessidade de montar um estúdio e reatar seu trabalho pictórico, fazia muito poucos progressos nessa direção. Para cúmulo, quando seu tio lhe propusera reunir-se com velhos amigos da família, ela se negou educadamente, porque não gostava de sair nem ver ninguém. - Poderíamos passear pelo Broad Street e fazer algumas compras - sugeriu ele. Era uma atividade que todas as mulheres gostavam, e ele, de sua parte, sentia vontade de sair com sua sobrinha pelo braço. - Soube que há excelentes costureiras na cidade. Cerynise não sabia se devia rir ou chorar. A última coisa que lhe convinha era submeter-se às medições de uma costureira. O alvoroço teria sido maiúsculo. Entretanto, seu querido, atento e douto tio estava tão preocupado por ela que imaginava que um vestido novo poderia tirar ela de seu abatimento. Cerynise sabia que Sterling sabia muito pouco sobre a moda feminina, mas mesmo assim se mostrava disposto a investir tempo e dinheiro em acompanhá-la a diversos alfaiates, com a esperança de lhe levantar o ânimo. Sorriu-lhe docemente. - Eu adoraria poder acompanhá-lo, tio Sterling, mas talvez seja melhor visitarmos algumas livrarias. Confesso que neste momento não estou de humor para comprar tecidos ou discutir moda. O alívio do professor fez Cerynise rir, agradecida pelo sacrifício que tinha estado


disposto a fazer por ela. Sterling não demorou para ir a sua entrevista, não sem antes obter de sua sobrinha a promessa de que comeria algo. Logo que ingerida uma minúscula porção de bolo de milho, o estômago de Cerynise se revolveu. A jovem conseguiu voltar a seu quarto bem a tempo, mas se sentiu tão fraca que teve que deitar-se

na cama. As nauseas acabaram por cessar,

permitindo-lhe dedicar-se com desinteresse aos preparativos do passeio. Uma hora depois, quando seu tio voltou, Cerynise o estava esperando no vestíbulo. Pôs um vestido de lã azul com enfeites de veludo marrom e uma gola alto da mesma cor. Era o único de seus vestidos de passeio bastante folgado para poder usá-lo sem espartilho. Como quase não fazia frio descartara a idéia de colocar uma capa, substituindo-a por um xale de caxemira com estampado azul claro e marrom, cujo comprimento e largura lhe permitiam cobrir bem os ombros. Levava o cabelo perfeitamente preso, e ainda por cima um elegante chapéu azul amarrado ao pescoço, com um bonito topete de plumas de faisão. Seu sorriso indicava falta absoluta de preocupações, mas a realidade era muito diferente. - Já está pronta! - exclamou Sterling, com agrado por seu encantador aspecto. Ofereceulhe o braço com galanteria. - Vamos? O dia era ensolarado, o ceu azul, e perfumavam o ar as primeiras fragrâncias primaveris, em proporção justa para estimular aos sentidos. Cerynise via em toda parte homens e mulheres de elegante traje entrando ou saindo dos comércios, testemunho indubitável da prosperidade de Charleston. Adivinhou que alguns procediam de plantações próximas, e outros talvez da zona de moinhos à beira do rio Ashley, quando não de lugares ainda mais afastados. Entre a parcimoniosa pronúncia dos habitantes da Carolina, seus ouvidos detectaram alguns exemplos de pronúncia nasal nortista. Havia deste modo uma generosa representação européia por todas as ruas que percorreram. Depois de ter vivido em uma cidade tão imensa como Londres, Cerynise tinha dificuldade em considerar Charleston como uma grande metrópole, mas nem por isso deixava de ter seus encantos. Quase todos seus cidadãos pareciam combinar amor pela aventura, sagacidade comercial e genuína hospitalidade sulina, tudo

que convertia as compras em uma experiência extremamente

agradável. Cerynise participou de mais de uma entretida conversação com lojistas e empregados. Ora se faziam fugazes observações sobre o temperado clima do mês de março, ora se trocavam calmos comentários sobre as diversas peças de teatro em evidência. Depois de surpreender em si os efeitos hilariantes de alguma reflexão engenhosa, Cerynise percebeu de que o mero fato de sair de casa tinha contribuído em medida considerável a lhe levantar o ânimo. Ou assim foi até que ela e seu tio dobraram em uma esquina a tempo de ver que uma elegante carruagem se detinha ante um estabelecimento de modas. A proprietária, madame Feroux, era uma das costureiras de maior prestígio do Charleston. Desembarcou da carruagem um homem alto e largo de ombros, que estendeu uma mão para facilitar a descida de sua acompanhante feminina. A jovem dama era uma beldade de traços tão delicados que


Cerynise teria parado para admirá-la, se não tivesse reconhecido a seu marido no passageiro masculino da carruagem. A partir de então se apropriou dela uma aguda aflição, a que se mesclou uma dose de ciúmes nada desdenhável. Beau acolheu com risadas algum comentário da arrebatadora beldade, mostrando seus dentes brancos em marcado contraste com sua pele morena. Estava excepcionalmente bem vestido, fiel em tudo a sua condição de membro da aristocracia carolinense. Para falar a verdade, nenhum dândi de Londres teria estado à altura de sua galhardia. Sua elegante jaqueta cinza com abas combinava maravilhosamente com umas calças cinzas de riscas finas e um colete de seda também com listas, mais longas estas. Uma gravata de seda cinza pérola proporcionava um vistoso toque final ao elegante adorno. O fato de que não estivesse de tudo bem colocada sob o pescoço rígido da camisa branca levou ao Cerynise a formular dolorosa pergunta de se sua amiguinha teria intervindo em semelhante exibição de elegância. A cartola de Beau, cinza escura, estava um pouco inclinada sobre seu cabelo negro. O atrativo do capitão, longe de ter diminuído, era se talvez ainda mais deslumbrante que há um mês atrás. Saltava à vista que sua miúda e morena acompanhante compartilhava do mesmo parecer, porque se aproximava a ele e lhe roçava a mão com seus seios, pouco pronunciados, ao mesmo tempo que lhe sorria de modo encantador e aplicava a ponta dos dedos a seu robusto peito. - Mas bem, Beau! - disse com voz cantante. - Onde estão suas maneiras? Não acredito que é esperar muito que... - interrompeu-se ao dar-se conta de que já não lhe prestava atenção. Confusa, seguiu a direção de seu olhar até a origem da distração, e uma arrogante contrariedade se apoderou de seus olhos escuros, posados na formosa jovem de cabelo acobreado em cuja visão se achava absorto o capitão. Beau se afastou a um lado, separando-se rapidamente de sua acompanhante; e não era tarefa fácil, porque o prendeu pela lapela. Depois sorriu e levantou cortesmente o chapéu para saudar sua esposa. - É um prazer voltar a vê-la, Cerynise. Foi a saudação mais sincera que fez em sua vida. Não vira Cerynise desde sua precipitada saída de casa de seu tio, mas não podia dizer-se que tivesse deixado de pensar nela. Ao contrário, tinha-o feito a todas as horas. O período de separação tinha sido uma verdadeira tortura, uma continua sucessão de lembranças. Quando ajudara Sterling Kendall a carregar em uma carruagem os pertences de sua sobrinha, todos seus sentimentos ameaçaram a pedir novas dela, mas o seu teimoso orgulho impediu. Cerynise se mostrara tão firme em sua vontade de conseguir a anulação que Beau acreditara que diminuiria sua raiva ignorando-a por completo, até o ponto de negar-se a consultar a seu advogado, pois o contrário teria feito recrudescer sua ira. No final, o que pretendia ser um castigo se converteu em um inferno para ele. Assim, não se surpreendeu absolutamente de que a aparição de sua esposa o deleitasse desse modo. Seus olhos se recrearam nela com autêntica voracidade, e demorou certo tempo em lembrar-se de que também ia acompanhada. - Professor Kendall, que alegria voltar a vê-los.


- O mesmo digo eu - respondeu Sterling com jovialidade, alheio à corrente emocional que unia a sua sobrinha e o capitão. Não assim a Vênus de bolso. Cada vez que um homem olhava a uma mulher em sua presença como estava fazendo Beau Birmingham naquele instante, tendia a ficar furiosa como um felino em posição de ataque. Nunca se vira em uma situação em que tivesse que compartilhar a atenção de um homem com outra mulher, já que era muito popular e gozava de todo um exército de admiradores, fato que lhe permitia escolher a seus acompanhantes. A circunstância de que entre a população masculina de Charleston fosse Beau Birmingham o mais reticente para ela, acaso o mais rico e com toda certeza o mais bonito não fazia mais que dar firmeza ao propósito de levá-lo a altar com uma cuidadosa estratégia de sedução. Aquela Afrodite de juba acobreada a quem Beau admirava com tanto ardor era indiscutivelmente uma rival a eliminar de um modo ou outro. A rapariga puxou a manga de seu acompanhante, tratando de dobrar a persistência, de seu escrutínio. Beau olhou ao redor com desconcerto, e por um instante se fixou nela como se não a conhecesse. Tomando súbita consciência de sua falta de maneiras, apressou-se a fazer as apresentações. - Cerynise, apresento-lhe à senhorita Germaine Hollingsworth. Germaine, sem dúvida se lembrará de Cerynise Kendall... Germaine franziu o sobrecenho e piscou com suas longas pestanas, mostrando-se muito convincente em seu fictício desconcerto. - Não, Beau, receio que não. Ele se mostrou sobressaltado. - Perdoe. Supos que seus caminhos se teriam cruzado em um momento ou outro. Era uma conjetura razoável, tendo em conta que Germaine só era mais velha que sua esposa em um ou dois anos; de fato, a negativa da jovem não deixava que a hipótese fosse certa. Cerynise se lembrava perfeitamente dela. A filha mimada dos Hollingsworth frequentara à mesma academia a que enviavam a suas filhas a maioria das famílias ricas e os pais relacionados profissionalmente com a educação, a fim de que fossem instruídas como convinha às jovens de sua idade e condição social. Germaine figurara entre as que desfrutavam atormentando uma moça de doze anos algo desleixada e renitente a acreditar que o mundo todo fosse questão de chapeuzinhos e pretendentes. mais de uma vez, em presença de Germaine e de suas amigas, Cerynise se vira convertida em alvo de línguas capazes de arrancar a pele a um crocodilo. Entretanto, na proximidade de um homem atraente, essas mesmas raparigas tinham a habilidade de mascarar suas cruéis manobras com camaleônica presteza, e derramar mel com cada sílaba que pronunciavam. - Beau, querido, não nos entretenhamos mais tempo - apressou Germaine a seu acompanhante. - Prometeu... -Levar você ao estabelecimento de madame Feroux. - Beau fez um gesto com o braço, indicando o comércio que tinham a suas costas. - Já chegou. - Por Deus, que idiota sou! - Germaine riu, fingindo-se envergonhada por tão bobo


engano. - Não me dei conta de onde estávamos! - Piscando, olhou ao Beau com uma expressão de súplica que Cerynise achou muito digna de um lobo faminto. - Sendo tão miúda, sempre me custa horrores decidir o que me fica melhor, e todo mundo está de acordo em que você possui um gosto delicioso, Beau. Por isso me perguntava se não poderia me ajudar a... - Receio que não - respondeu ele sem olhá-la sequer, tal era a fixidez com que observava Cerynise. Esta, embora a seu pesar, ficou fascinada pelas coquetes tentativas da outra jovem. Germaine apertou seus bonitos lábios, mas não estava disposta a dar-se por vencida. - Como pode me tratar tão desconsideradamente, Beauregard Birmingham? Ouvi rumores de que é um curtido capitão de navio, mas isso não o exime de ser deste modo um cavalheiro, e nenhum cavalheiro se oporia a que uma dama... - Sou-o? - inquiriu Beau distraidamente. - Se é o que? - perguntou Germaine, zangada. - Um cavalheiro. - Embora em princípio a pergunta se dirigisse à Germaine, Beau não parou de olhar a sua esposa. - Diria você que é certo, Cerynise? Cerynise tomou vaga consciência de que seu tio passara a olhá-los com maior atenção, desconcertado sem dúvida pelo intenso rubor de sua sobrinha e os súbitos tremores que a tomaram. Não querendo elogiar a seu marido em presença daquela coquete de três ao quarto, deu a resposta mais diplomática que lhe ocorreu. - Se não fosse, meu senhor, duvido que desejasse ouvi-lo de minha boca - respondeu com voz que lhe soou tênue. - Pelo contrário, se elogiasse seu modo de ser em benefício de sua acompanhante, ignoro quais seriam as consequências. Deitar-se com ela?, perguntou-se com pesar. Percebendo sua tensão, Sterling pigarreou e disse: - Está pensando ficar muito tempo em Charleston, capitão Birmingham? - Possivelmente um pouco mais que de costume, professor Kendall. Há assuntos importantes que reclamam minha atenção. - O fato de que Beau olhasse justamente então à Cerynise parecia designá-la a ela protagonista de ditos assuntos. - Espero continuar aqui até meados do verão, e possivelmente mais tempo. O desconcerto de Sterling continuava a crescer. - Isso é sinal de que perdeu força sua fascinação pelo mar? Beau encolheu os ombros. - Eu não diria exatamente isso, mas faz um tempo que me absorvem outros interesses, e quero vê-los solucionados antes de pensar em uma nova viagem. Cerynise teve a certeza de que se referia à anulação, mas em nenhum caso era sua a culpa do atraso. Já fazia mais de um mês que aguardava a chegada dos documentos, e começava a suspeitar que não se produziria. Era impossível que Beau tivesse esquecido, embora, tendo em conta quão resolvido estava a permanecer solteiro, talvez acreditasse dispor


de todo o tempo do mundo. Teria se sobressaltado averiguar o contrário. Germaine acolheu com entusiasmo o anúncio de uma longa estadia por parte do capitão. - Oh, Beau, seria tão agradável ter você em Charleston! Acredito sinceramente que se divertiria muito no Baile da Primavera deste ano, e dado que ainda não tenho compromisso... Enfim, já falaremos disso mais tarde. De qualquer modo, sempre me pareceu terrivelmente perigoso zarpar a esses países tão longínquos. Cada vez que parte pergunto se retornará. Agora já não tenho motivos de inquietação, ao menos por um tempo. - Se nossos antepassados tivessem temido o perigo, duvido que estivéssemos agora onde estamos - respondeu Beau com frieza, e uma vez mais sem fazer sequer o gesto de voltar-se para a jovem. - Confio em que os assuntos que o retêm em terra progridam sem dificuldades, capitão murmurou Cerynise. Não pôde resistir a acrescentar um comentário que recordasse ao Beau que a anulação corria a seu cargo. - Talvez tenha estado tão atarefado que já não se lembre do senhor Farraday. - O senhor Farraday? -disse Germaine com perplexidade. - Se refere ao advogado? Não obteve resposta, porque nenhum dos presentes lhe prestava atenção. Sterling estava muito absorto em sua sobrinha e no capitão. Cerynise, por sua parte, viu esticar-se ameaçadoramente o queixo de Beau, e não conseguiu sacudir de cima sua fascinação desarmada. Beau a olhava com tal grau de frieza que, se fosse um vil pirata, não teria demorado para atravessá-la com sua espada. Sua esposa não deixava de dar-se conta de que havia tornado a contrariá-lo, mas não entendia o motivo. Afinal de contas, a anulação era idéia de Beau. - Mais adiante farei o que for necessário para acelerar meus entendimentos com o senhor Farraday, senhorita Kendall - respondeu Beau friamente, sublinhando as duas últimas palavras. - Que passem os dois um bom dia. Depois de despedir-se do Sterling com uma seca inclinação da cabeça, colocou uma mão sob o braço do Germaine, que ficou agradavelmente surpreendida, e entrou com ela na loja. Sterling titubeou antes de oferecer por sua vez o braço à Cerynise. Como esta continuava com a vista perdida e a cabeça voltada para onde partiu o casal, seu tio lhe agarrou uma mão suavemente. Cerynise seguiu seus passos com rigidez, como uma boneca sem vida. -Tinha vontade de lhe perguntar por esses documentos, querida. Está certa de que deseja a anulação? Cerynise continuava tão aturdida que não ouviu a pergunta. Não fazia mais que recriminar-se com dureza por ter afugentado Beau, deixando-o, para cúmulo, nas garras de Germaine Hollingsworth. Parecia que em tudo que estivesse relacionado com Beau estivesse condenada a desempenhar o papel de néscia. Tendo destruído torpe e sistematicamente todas suas possibilidades de reter o que mais desejava na vida, julgou evidente que seu máximo objetivo era aniquilar-se a si mesma, e atrair sobre si o mais agudo sofrimento. Justo então o estômago começou a revolver-se de forma estranha, como se quisesse


sublinhar sua angústia. Sobressaltada pelo que sentia, Cerynise conteve uma exclamação e perdeu o equilíbrio. Esteve a ponto de que lhe dobrassem as pernas. Sterling a agarrou pelo braço e a olhou com inquietação. Não foi preciso mais argumentos que o semblante pálido e abatido de sua sobrinha. Levantou a mão e chamou uma carruagem de aluguel e se apressou a meter nele a jovem. - Se isto continuar assim, querida - disse enquanto a carruagem estralava pela pavimentação, - insistirei em que a veja meu médico. Ela negou com a cabeça e se voltou para a janela para ocultar suas lágrimas. - Estou bem, seriamente. Deve ter sido o calor. Seu tio resmungou algo sobre que não fazia calor absolutamente, mas renunciou a se aprofundar no assunto. Começava a ter certas suspeitas, e não deixou de acusar delas ao capitão Birmingham. Quando chegaram a casa Cerynise se desculpou e subiu ao seu quarto para descansar. Antes de deitar-se na cama tirou seu vestido e seus sapatos. Sobressaltada, passou lentamente as mãos pelo abdômen, onde começava a formar-se uma curva. Quanto tempo passara desde sua única noite de amor? Quatro meses, mais ou menos? Em todo caso, o suficiente para que os movimentos do bebê tivessem tomado vigor e firmeza. De nada servira todo seu empenho em distanciar-se de Beau depois daquele breve episódio. A semente de seu marido já achou chão fértil, e Cerynise levava em seu seio uma parte dele, possivelmente a única que lhe permitiria conservar. Faltava pouco para que as pessoas começasse a fixar-se no pronunciado de sua barriga, e a sussurrar comentários mal-intencionados. Entretanto, Cerynise se sentia incapaz de suplicar a Beau que renunciasse a sua liberdade para o bem de seu filho. Era uma escolha que deveria realizar por si mesmo. Foi uma noite longa e sem sono, que Cerynise passou em sua maior parte discorrendo como encarar a maternidade. Concluiu que o melhor, tanto para ela como para o bebê, seria ir viver em outra cidade do sul, onde não a conhecesse ninguém e pudesse passar por uma jovem viúva. De fato era certo que o filho fora concebido dentro do matrimônio; entretanto, a perda sofrida não seria a do marido, mas sim a de sua união com ele. Uma vez instalada poderia voltar a pintar, e com um pouco de sorte vender sua obra às escondidas, como tinha feito até então. Se tudo corresse bem não demoraria para ganhar a vida, e se teria feito com uma posição mais ou menos acomodada antes de meados de agosto, data de nascimento do menino. Na manhã seguinte desceu tarde para tomar o café da manhã, cobrindo o vestido com uma bata que converteu-se em imprescindível. Como seu tio se achava em plena redação de um livro sobre os antigos gregos, supôs que estaria encerrado no estúdio, onde costumava trabalhar. As portas do estúdio estavam fechadas. Dando graças ao ceu com um suspiro entrecortado, Cerynise entrou no salãozinho contiguo à cozinha. Tinha o estômago tão revolto como nos últimos dias, e se perguntou se a persistência de suas nauseas não se deveria em parte ao torvelinho de suas emoções. Sabia de mulheres a quem o enjoo não tinha abandonado nem na última etapa de sua gravidez, mas esperava não ser uma delas. Consciente de que o


bem de seu filho lhe exigia comer algo, serviu em seu prato porções pequenas de ovo e bolacha, que não ingeriu mais que em ínfima parte quando Cora entrou. - Desculpe, senhorita Cerynise, mas esta manhã chegou este pacote para você. A partida da criada não induziu no Cerynise maiores desejos de examinar o conteúdo daquele pacote de rígido papel vitela, belamente dobrado e selado com lacre vermelho: justamente o que era de se esperar de um advogado. Aproximou-se da janela com passo lânguido, contemplou um pouco o jardim e retornou a seu assento para fazer o esforço de continuar comendo. Pouco a pouco se armou da coragem necessária para abrir o pacote. Continha um maço de documentos legais redigidos com perfeita caligrafia. A última página ostentava além disso um selo imponente, assim como espaço para várias assinaturas. Uma delas já ocupava seu lugar: "Beauregard Grant Birmingham." O uniforme e negro da tinta dava a entender que Beau assinou sem vacilações. Cerynise voltou para a primeira página e ficou a ler o texto. Havia muita terminologia legal, mas o conteúdo era sempre o mesmo. Nunca tinham convivido como marido e mulher; por fim, não existira matrimônio real, nem existiria no futuro. Ambos concordavam a renunciar perpetuamente a seus direitos e obrigações legais em benefício da outra parte. Tudo era silêncio na sala. Cerynise ouviu ao longe ruído de carruagens e cavalos passando pela rua, mas nada podiam contra a escura nuvem que se abatia sobre sua vida. sabia-se a ponto de cometer quando menos uma ilegalidade, e provavelmente uma imoralidade, já que ia jurar em falso. Ela e Beau sim conviveram como marido e mulher, por pouco que fosse. Nada mudava o fato de que a gravidez se produzira sem que Beau fosse consciente disso. Já não tinha a menor dúvida de que fosse certo o que temeu ao longo de três meses; mesmo assim estava a ponto de condenar a seu filho à bastardia antes de nascer, tudo isso por causa de um sentido íntimo da honra que mal conseguia explicar a si mesma. O que se avizinhava lhe produzia enorme confusão, mas nem por isso ia bater em retirada. Nunca amarraria contra sua vontade um homem que declarou abertamente sua recusa em aceitar a responsabilidade de ter esposa e família. Tampouco sacrificaria suas crenças sobre o que era bom e justo, embora o mundo inteiro a tomasse por louca. Apesar das nauseas voltarem a enfurecer-se com ela, Cerynise pegou da mesa uma pena e um tinteiro, pensando com um sorriso nos costumes de um erudito que nunca estava seguro de onde sentiria o impulso de escrever uma de suas reflexões. Tremia-lhe muito a mão, mas fez de tripas coração e escreveu sua assinatura minuciosamente: "Cerynise Edlyn Kendall." Junto à rotundidade da assinatura de Beau, a sua parecia pálida e insignificante, mas teria que servir. Apressou-se a secar a assinatura com areia e voltou a pôr o documento no envelope. Depois chamou Cora sem permitir a menor vacilação. Quando a teve diante de si, entregou-lhe o envelope e lhe pediu que o enviasse imediatamente ao capitão Birmingham. A primeira hora da tarde Cora entrou na sala que Sterling cedera como estúdio ao


Cerynise. Quadros, cavalete, pinturas e desenhos feitos durante a viagem lotavam a habitação. Quase todos os últimos estavam apoiados contra a parede, porque sua autora estava tratando de organizar seu espaço de trabalho. - Senhorita Cerynise, há uma dama que diz querer lhe falar de um retrato que deseja que lhe pintem. - Deu seu nome? - Não. Disse que já a conhecia. Cerynise franziu o sobrecenho, porque lhe parecia um pouco estranho. - Que aspecto tem? -perguntou. - Muito formosa, senhorita - lhe assegurou a criada. - Pequena, de cabelo negro. - Ah, então deve ser Brenna. O interesse que mostrara a irmã do Beau por seu trabalho convenceu a Cerynise de que não podia tratar-se de ninguém mais. Apesar de tudo, agradava-a receber a visita da moça. Sorridente, limpou um assento para sua hóspede. - Por favor. Cora, acompanhe-a a meu estúdio e nos prepare um pouco de chá. Estava tão ocupada em dispor um lugar onde sentar-se com a jovem e conversar tomando o chá que não lhe ocorreu vestir a bata, que tirou pouco antes devido ao calor da habitação. Cora via muito mal para perceber em detalhe o que estivesse a mais de um palmo de seu nariz, por isso Cerynise não reparou em despojar-se do objeto. Justo quando finalizava sua tarefa, de costas à porta do estúdio, um frufru de tafetanes a informou que chegou sua convidada. - Não imaginava que fosse vir tão logo, Brenna - disse voltando-se para a moça. Quando reconheceu Germaine Hollingsworth na soleira, seu sorriso de boas-vindas se permutou em rígida careta. - Lamento decepcionar você, Cerynise - disse a miúda rapariga arqueando uma sobrancelha com expressão sardônica. - Entendo que tivesse vontades de receber a visita da irmã do Beau, mas receio que deva se conformar comigo. - De modo que sim, me recorda - replicou Cerynise, esforçando-se por não levantar suspeitas enquanto se aproximava da cadeira onde deixou a folgada bata de algodão. Desprovida de xale ou outros objetos protetores, achava-se em um estado muito avançado da gravidez para esperar que não se visse o engrossamento de sua cintura ou o arredondado crescente de sua silhueta. Bastava fixar-se um pouco para tirar toda dúvida a respeito de seu estado. Germaine riu causticamente. - Sim, claro que recordo de você! Foi essa artista afetada que queria que a deixassem sozinha com sua obra e seu círculo de amizades. Como lhe chamávamos? Cegonha? Ou Palitinho ? - Riu maliciosamente. - Então estavam bem os dois motes, mas devo reconhecer, Cerynise, que desde nosso último encontro seu aspecto é muito mais agradável. - Deduzo, pois, que não veio para se informar a respeito de um retrato.


A jovem exalou um suspiro presunçoso, enquanto passeava pela sala para examinar os quadros. - Francamente, não sei o que fariam meus pais com outro - respondeu. - Da última vez contrataram o melhor pintor, e não sei se estaria à altura de suas expectativas, por muito que elogiasse Beau seu talento quando lhe perguntei por você. De qualquer modo, se algo aprendi com os anos a respeito dos homens, deduzo da avidez com que a olhou ontem que seus planos não têm relação com seus quadros, mas sim com você pessoalmente. Como Germaine se interpunha entre ela e a bata, Cerynise se voltou para um lado. - Por que veio então? - Para advertir a você de que não se aproxime de Beau - respondeu Germaine com sinceridade, - em caso de que aconteça visitar você. Olhe, proponho-me a me casar com ele assim que consiga convencê-lo, e enquanto isso não quero que fique tonto com nenhuma mulher que possa considerar vantajoso caçá-lo. Agachou-se para afastar da parede o quadro de um marinheiro, que lhe tampava outro ligeiramente maior. Quase gritou de surpresa ao reconhecer nem mais nem menos que à pessoa com quem havia resolvido casar-se. Não o teria admitido jamais, mas o retrato mostrava uma semelhança assombrosa com Beau Birmingham, vestido com pulôver e boina, e com um fundo de velas cheias pelo vento. Deu meia volta para ver Cerynise, mas a encontrou de costas. - Quando pintou isto? - perguntou irada. Cerynise voltou a cabeça para dar uma olhada à obra que Germaine segurava em suas mãos. Até naquele tecido sem vida, os olhos azuis que a olhavam fixamente enchiam de angústia seu coração. - A bordo do Audaz. - E quando esteve no Audaz? - inquiriu Germaine com tom desdenhoso - Beau não me comentou em nenhum momento que tivesse visitado seu navio. - Fui passageira dele. - Isso é falso! Beau nunca leva passageiros! Em caso contrário eu mesma teria comprado uma passagem, fosse qual fosse o destino. Cerynise encolheu os ombros. - Fui a exceção. - Continuo acreditando que mente, e se for assim o averiguarei! Não vai roubar me Beau, entendido? - É seu? - O medo de que já tivesse ocorrido algo de natureza passional rasgou o coração de Cerynise. - Ou se excede em suas esperanças? - Olhe para mim! Cerynise cruzou os braços à altura do estômago e se voltou para a jovem a contra gosto. - Já a vejo. - Nem lhe ocorra tentar arrebatar isso. Levo muito tempo perseguindo-o para deixar que se interponha em meu caminho uma personagenzinha insignificante como você! E me


leve a serio: se Cegonha ou Palitinho lhe pareciam mau, não serão nada em comparação com os rumores que farei circular sobre você. - Sinceramente, Germaine, poderia ter economizado a visita. Duvido que volte a ver esse homem - disse Cerynise com tristeza. O bebê fez um movimento brusco, como se quisesse protestar. A aguda sensação pegou Cerynise de surpresa. Abafou um grito e pôs a mão no abdômen, justamente antes de tomar consciência de sua situação e voltar-se depressa. O assombro fez que Germaine abrisse os olhos desmesuradamente. O que viu era suficiente para chegar a uma conclusão firme. O arredondado perceptível sob a saia de Cerynise não era a curva natural de uma casta donzela. Disso estava certa, como o estava de que Beau Birmingham não suspeitava da gravidez daquela fulana a quem comeu com os olhos um dia antes. - Bem, pois já que resolvemos o assunto suponho que é hora de ir. Restam por fazer algumas compras para ir com Beau o mês que vem ao baile de compromisso de Suzanne Birmingham. Germaine atravessou o vestíbulo para a porta principal decididamente mais feliz que ao entrar na sala. Não teria perdido aquela visita por nada do mundo, porque agora tinha combustível suficiente para fazer em cinzas a reputação de Cerynise, assim como toda teimosia que pudesse sentir Beau Birmingham pela jovem. Embora Beau tivesse comentado no dia anterior que não estaria em casa até a noite, Germaine se havia provido da desculpa perfeita para ir vê-lo na manhã seguinte. Logo que amanheceu, Beau já estava de pé e vestido: não porque se levantara cedo, mas sim porque nem sequer se deitara. Descartado, por sua extrema agitação, todo propósito de dormir, passara a noite passeando por seu estúdio e ingerindo uma quantidade generosa de conhaque. Por fim se deixou cair na cadeira da escrivaninha , de onde observava com semblante mal-humorado um maço de papéis colocado em cima de todo o resto. Eram os documentos que lhe havia devolvido Cerynise uma vez assinados. Assim que Beau os remetesse ao Farraday, este, com sua habitual eficiência, poria o ponto final definitivo ao matrimônio. Inspecionou pela enésima vez a outra assinatura, delicada mas sem hesitações, enquanto continuava crescendo a negra cavidade que consumia seu coração. Ao demônio com ela!, grunhiu para si mesmo. Teria dedicado sequer uns segundos a pensar no que fazia antes de destruí-lo daquela maneira? Expôs-se sequer a alternativa? Não, é obvio que não; em todo caso, não desde que ele a fez zangar a bordo do Audaz. E era de idiotas lamentar-se. De acordo, as mulheres tinham sua utilidade, mas salvo estranhas exceções convinha aos homens pensar nelas como em outro apetite para satisfazer. Beau tinha pecado de se abandonar ao lhe abrir sua alma, apaixonar-se por ela e desejar a continuidade de seu matrimônio. Agora estava pagando o preço. Mas basta! O que lhe pedia o corpo era revolucionar Charleston. Embebedaria-se de mulheres, desfrutaria-se nelas, saciaria quantos


desejos tivesse tido em sua vida, e mais ainda. Não se deteria até ficar completamente aturdido! Resolvido a tomar um rumo que parecia o mais indicado para erradicar Cerynise de seus pensamentos, abandonou a escrivaninha e se postou junto a uma das janelas com vistas para a baía. Iniciaria os preparativos para outra viagem assim que o senhor Oaks retornasse da cabotagem que estava realizando em busca de novo carregamento. Zarpar para portos longínquos contribuiria para silenciar o remorso que seguia palpitando em seu interior. Afinal já não tinha nenhum motivo para ficar em Charleston. Faltavam poucos dias para que Cerynise já não fosse dele. Suspirando, saiu do estúdio e subiu pela escada com passo lento. Por fim se sentia capaz de dormir, embora só fosse por achar-se muito exausto para continuar acordado. Cruzou seu dormitório e entrou no quarto de vestir, onde, uma vez colocado diante do espelho de cima do aparador de barbear, submeteu-se a uma inspeção detida. A primeira coisa a fazer era barbear a sombra que obscurecia suas faces, tirar o rançoso gosto a conhaque e se lavar e pentear o cabelo. Percebeu que o banho que lhe prepararam a noite anterior continuava intacto. Já estava frio, mas certamente lhe faria bem a diferença de temperatura. Até era possível que lhe fizesse recuperar a sensatez, que diabo. Pouco depois estava imerso até o peito em água fria, descansando a cabeça na beirada da enorme tina; até aí, entretanto, perseguiam-no visões constantes de Cerynise. Não tinha nenhuma lembrança que preferisse a outras, porque todas estimulavam seus sentidos; agora bem, forçado a escolher uma em concreto, teria optado pelo momento em que a havia coberto de beijos depois da cerimônia nupcial. Ensinar a ela beijar de modo sensual e excitante fora uma experiência muito gratificante. Também havia o episódio em que acariciara a parte mais suave de seu corpo de mulher, topando com a fina membrana virginal que impedia um acesso fácil. Tinha-o comovido dar-se conta de que antes dele não estivera ali nenhum homem. Naturalmente, não terei que esquecer o sonho em que Cerynise ficou debaixo dele em apaixonada resposta, acariciando seus ouvidos com suaves arquejos e lhe cravando as unhas nas costas... Amaldiçoou em voz alta, percebendo que voltava para as lembranças. Não havia maneira de tirá-la da cabeça! Impossível! Cada lembrança de Cerynise lhe era tão preciosa como sua própria vida. Meia hora mais tarde retirou as mantas e se estendeu nu na cama. O sono se apoderou dele quase imediatamente, mas o descanso não apagou a imagem criada por sua imaginação e presente a todas as horas, a de Cerynise posta em cócoras ao lado de sua cama, com seus redondos seios brilhando com luz própria sob a suave luz da lanterna. Sterling Kendall se levantou na hora de costume e se vestiu distraidamente, ao mesmo tempo que seguia o fio de um raciocínio desprovido de relação com os gregos. Quando saiu de seu quarto e percorreu o corredor até chegar ao dormitório que ocupava sua sobrinha, não


solucionou ainda a questão de como interrogá-la. Tomando uma pausa junto à porta fechada, recordou a primeira vez que vira Cerynise, tendo ela apenas dois dias. Solteiro e sem filhos, e suspeitando já então que seu destino era não os ter, tinha-lhe bastado dar uma simples olhada a aquela adorável criatura que não se cansava de gritar para apaixonar-se por ela perdidamente. Tinha-a visto crescer até converter-se em uma menina mais reflexiva e inteligente do que o normal, que o deleitara com seus brincadeiras. Depois de acontecer a tragédia que lhe arrebatou prematuramente a seu irmão e sua cunhada, Sterling amaldiçoara sua falta de experiência como pai. Além de acolher em sua casa à preciosa órfã, não sabia no que ajudá-la. A presença da Lydia fora uma bênção do ceu; mesmo assim, Sterling não teria sabido calcular quantas vezes durante os últimos cinco anos se arrependeu de ceder aos rogos para que Cerynise vivesse com ela na Inglaterra. O retorno de sua sobrinha, embora precedido por uma nova desgraça, tinha-o repleto de felicidade. Apesar de tudo isso, já não podia ignorar o fato de que algo andava muito mal. Sterling era um homem simples, cujas ambições se limitavam a seus livros e seu jardim, mas teria sido um engano considerá-lo pouco familiarizado com o mundo que o rodeava. O que não experimentou pessoalmente (muito, conforme admitia ele mesmo) tinham-no vivido outros em seu lugar, outros que tiveram a amabilidade de pô-lo por escrito. Graças a seus estudos Sterling se imbuíra de um saber considerável sobre a natureza humana. Não lhe tinha escapado como estavam tensos Cerynise e Beau Birmingham nas duas ocasiões em que os havia visto juntos depois da volta da jovem a Charleston; tampouco ignorava de tudo a que estiveram dedicando-se no instante de abrir ele a porta de sua casa, achando ao Cerynise nos degraus, de entrada, e isso por muito que insistisse sua sobrinha em que sua união não tinha nada que ver com o autêntico matrimônio. Sterling dava por sentado que esta última coisa era obra do capitão, uma vez que nenhuma jovem sensata teria tomado sozinha a decisão de confrontar sem marido o que lhe proporcionasse o futuro. Por fervorosos que fossem seus desejos de abrigar temores infundados, Sterling não podia postergar mais tempo as perguntas à Cerynise. Respirando fundo, levantou uma mão para bater na porta, mas ficou em suspense ao ouvir um som estranho do outro lado da porta, um som que o encheu de assombro e que não demorou para repetir-se. Quando estava a ponto de jogar a porta abaixo, entendeu de repente o que acontecia. Cerynise estava sofrendo as consequências das nauseas. Dando provas de sua têmpera, Sterling não cedeu à tentação de atribuir o fenômeno a um alimento mau digerido. Endireitou os ombros e descansou a mão no quadril, convertida em punho. A essas alturas não sentiu incomodar à Cerynise; não, o passo seguinte era falar com o Beau Birmingham. Virtualmente no meio da amanhã, monsieur Philippe ouviu bater na porta da casa. Acudiu ele mesmo a abrir a e explicou à formosa visitante: - Perdoe, mademoiselle, mas o capitaine não esperava a ninguém. Acho que ainda não


desceu. - É o mordomo? - A idéia fez rir ao Philippe. - Não, não, mademoiselle. Sou o cozinheiro do capitaine, Philippe Monet. De momento não há mordomo, só uma criada, e está esfregando o chão de minha cozinha. Germaine Hollingsworth não saía de seu assombro. Dada a indubitável riqueza de Beau, custava-lhe imaginar que sua casa não tivesse uma dotação completa de criados. Já se ocuparia ela de exigir todo um regimento quando fosse a senhora da casa. Levada pela curiosidade, tratou de obter explicações. - Não é estranho ter uma casa tão esplêndida sem ajuda suficiente para mantê-la? - Logo virão criados a substituir aos anteriores, mademoiselle – explicou Philippe, - mas ainda não chegaram. - Encolhendo os ombros, acrescentou: - Os últimos foram muito relaxados na ausência do capitaine. Retornou inesperadamente e só encontrou uma criada trabalhando. - Philippe se destacou a garganta de um modo que sugeria claramente a idéia de decapitação. - Não demoraram para ficar na rua. - Quer dizer com isso que o capitão Birmingham não tem escravos? - Oh, non, mademoiselle. O capitaine jamais. Germaine sorriu com doçura. Outra coisa que mudará, decidiu. Em seguida solicitou amavelmente: - Faria-me o favor de informar ao capitão de que está aqui a senhorita Germaine Hollingsworth, e que se for possível gostaria de ter com ele umas palavras? - Oui, mademoiselle. - Philippe indicou o interior da casa. - Não deseja esperar no salão? - Com muito prazer. Germaine cruzou o vestíbulo depois do cozinheiro e aceitou seu convite de sentar-se no sofá. Momentos depois Beau desceu pela escada, vestido com calças, camisa e botas de cano longo negras. O mau humor se pintava em sua expressão carrancuda, porque não conseguira dormir mais de uma hora quando Philippe batera na porta de seu dormitório. Em certas ocasiões Germaine lhe parecia divertida, mas falava tanto que ao final era impossível lhe prestar atenção. Supôs que era esse o motivo de que também a encontrasse um pouco aborrecida. De fato, pensando-o bem, aborrecia o fútil falatório com que tendia a obsequiá-lo-a jovem entre amostras de paquera. - Espero não lhe ter importunado, Beau - disse Germaine com voz melodiosa, indo a seu encontro com expressão contrita. - Noutro dia deixei o chale em sua carruagem, e para falar a verdade sinto falta dele. Seria muita incômodo pedir a seu cocheiro que me trouxesse ele? - Absolutamente - respondeu ele, perguntando-se o que teria impedido a jovem formular ao Philippe sua petição. Encontrou ao cozinheiro esperando à entrada da cozinha. Uma vez comunicado o encargo, retornou ao salão, onde sua convidada contemplava uma pintura do Audaz pendurada em cima da chaminé. - CK? - Germaine o olhou inquisitivamente. - São as iniciais de Cerynise Kendall?


- Sim, é um de seus quadros - respondeu Beau, evitando olhar a obra. Gostava muito daquela pintura a óleo, mas era consciente de que dali para diante sempre recordaria a jovem que conseguira cativar seu coração. - Deve admirar muito sua obra para pendurar seu quadro em lugar tão destacado disse Germaine discretamente, confiando em obter mais informação. - Acho que reflete de forma excelente o aspecto de meu navio. - Soube que a artista o acompanhou em sua última travessia da Inglaterra. Beau se voltou, perguntando-se de que fontes Germaine

conseguira o dado. Não

duvidou em perguntar-lhe sem rodeios. - Como sabe? - Cerynise disse-me isso ontem, quando fui vê-la na casa de seu tio. Veja, era falso que não nos conhecíamos, e quando caí na conta de que por um tempo tínhamos ido à mesma academia quis me desculpar pessoalmente. - Um gesto muito amável - comentou Beau com um leve indício de sarcasmo. Ninguém podia acusar o de não saber detectar as artimanhas de certa classe de mulheres. Intuía que Germaine tinha algo mais que dizer, e que não fazia mais que espreitar o momento indicado para lançar sua estocada. Estava certo de que tramasse o que tramasse atiraria o golpe com precisão devastadora. - Como estava Cerynise? Encontrava-se bem? Germaine encolheu os ombros com coqueteria. - Suponho que sim, embora saiba como se sentem às mulheres nas primeiras fases de... enfim, já me entendem... de seu estado. Beau a olhou com assombro, perguntando-se se teria se tornado louca. - Não, não sei. Germaine se ruborizou premeditadamente. - Já sabe que à nós damas, não nos permite empregar essa palavra... - Converteu sua voz em um sussurro. - Gravidez... Beau se indignou. - Isso é absurdo! - Absolutamente - afirmou Germaine, aproximando-se ainda mais a seu ouvido para acrescentar: - A vi com meus próprios olhos. Tem um arredondado bastante pronunciado. Se me pedisse fazer um cálculo, diria que está com um mínimo de três ou quatro meses. Estou segura de que o ouvirão comentar dentro de pouco. Uma moça e solteira como ela não pode ocultar seu estado além dos primeiros meses, e Cerynise é tão esbelta que se nota logo qualquer aumento de volume. A surpresa deixou Beau sem fala. Quatro meses era o tempo que passou desde sua grave enfermidade, acompanhada de delírios. Justo então se iniciaram as perturbadoras lembranças de ter feito amor com Cerynise. Transtornado por tais reflexões, voltou-se e caminhou para o armário grande da parede do fundo. Ao chegar lá serviu-se de uma dose de uma licoreira de cristal esculpida, bebeu-a inteira com um único movimento do punho e se


deu conta, estremecendo, de que não era uma bebida que gostava muito. - Está bem, Beau? - perguntou Germaine, preocupada. Até seu pai, aficionado a beber muito em sua intimidade, esperava até depois da comida para tomar a primeira dose do dia. A idéia de que algo estava mal deu vontade de rir em Beau. Já tinha provas de que Germaine fora vê-lo com o objetivo de destruir a reputação de Cerynise; não obstante, dirigiuse à pessoa equivocada. - Sim, mas demorarei para me acostumar à idéia. Quando se voltou para sua convidada, esta continuava concentrada em decifrar a resposta. Renunciando finalmente a seus vãos esforços, Germaine perguntou: - Se acostumar a que? - À idéia de ser pai, é claro. Ficou boquiaberta, e demorou uns instantes em articular, quase sem fôlego: - O que quer dizer, Beau? - Veja, confesso que é uma notícia inesperada, mas concluo do que diz que vou ser pai. - Você... e Cerynise Kendall? - O queixo de Germaine abaixou-se ainda mais, até que se assemelhou a de uma loba. Estava escandalizada. - Quer dizer que é o pai de seu filho bastar... ? Beau experimentou o prazer súbito de poder pronunciar a seguinte afirmação: - Quero dizer que minha esposa está grávida de nosso primeiro filho. A resposta de Germaine foi apenas um sussurro. - Não sabia que estivessem casados... Ele encolheu os ombros. - Pouca gente em Charleston sabe; salvo minha tripulação, é obvio. Cerynise e eu tentávamos mantê-lo em segredo por motivos que não entenderiam, mas suponho que já não tem remédio. Terá que fazer-se público. - Mas quando se casaram... ? - Por uma vez em sua vida, Germaine se achava à beira de um desmaio real. - Vários dias antes de zarpar da Inglaterra - informou-a ; e, se por acaso a jovem tivesse uma noção equivocada a respeito da duração da travessia, acrescentou: - No fim de outubro, fará quatro ou cinco meses. - Custa-me acreditá-lo. - Germaine teria empregado palavras mais fortes, mas não duvidava que Beau Birmingham se deixaria chamar de mentiroso com a mesma impunidade que Cerynise. - Não tem sentido. Por que ocultar que está casado com ela? - Quanto mais refletia, mais se fortalecia seu cepticismo. - O que acontece é que está sendo galante e quer lhe evitar um escândalo. - Têm-me em conceito muito alto, Germaine, mas se tem alguma dúvida esperem um momento. - Beau cruzou o salão em direção a seu estúdio, onde abriu uma gaveta e tirou o certificado de matrimônio que lhe tinha entregue o senhor Carmichael. Ao voltar o estendeu à sua visitante. Se se tomava a incômodo era unicamente em benefício de Cerynise, já que de


outro modo teria deixado que Germaine continuasse duvidando até seu leito de morte. - Viu? Está tudo assinado e documentado como mandam as leis, e se examinar na data verá que corresponde ao que lhe disse. Germaine teve o impulso de fazer em pedaços o pergaminho. Ver o nome de Beau junto ao do Cerynise lhe deu vontade de gritar de raiva. Abaixou o documento pouco a pouco e olhou fixamente Beau, arqueando uma sobrancelha. - É tudo muito estranho, Beau. - Sim - reconheceu ele, lhe tirando o certificado das mãos. Pela primeira vez em dois dias sorria. - Mas estou bastante aliviado de que por fim se saiba. Terá que se fazer algumas mudanças, é obvio... - Que tipo de mudanças? - perguntou ela, esperando contra todo prognóstico que fossem de seu agrado. - Terei que falar com minha mulher. - Beau apareceu à porta do salão e disse em voz alta: - Philippe, poderia sair e pedir ao Thomas que tenha preparada minha carruagem? - Oui, capitaine. Depois retornou junto à Germaine, agarrou-a pelo braço e a acompanhou à porta principal. - Desculpe a descortesia, mas devo me pôr em marcha quanto antes. Espero que o entenda. Sem logo se dar conta, Germaine se achou no lado oposto da entrada, fechada à sua passagem sem preâmbulos. Nunca em toda sua vida a tiraram de uma casa com tanta rapidez, e provavelmente seria a última vez. Ao chegar a elegante rua pavimentada que concentrava as residências dos capitães de navio e comerciantes mais enriquecidos do Charleston, Sterling Kendall se deteve uns instantes a escrutinar o ceu, cada vez mais nublado e escuro. Foi o único momento em que deteve os passos decididos com que se afastava da mesma direção que abandonara Germaine meia hora antes. Um francês lhe havia dito que o capitão acabava de partir, mas já antes de sair de casa Sterling decidiu como proceder. Seus planos pareciam progredir por si só. Um gesto de sua mão deteve uma carruagem. Antes de subir Sterling deu ao cocheiro o nome de uma conhecida fazenda. A viagem duraria menos de uma hora, e não estava certo de como o receberiam uma vez concluído; em troca, estava certo do que lhe exigia o dever.

CAPÍTULO 13

O retrato de Beau ocupava agora um lugar destacado em cima do cavalete. Nele estava posto o olhar de Cerynise, que tomava o chá na solidão de seu estúdio. Ninguém sabia até que ponto ansiava ter ao modelo do retrato sentado diante dela, mas isso não aconteceria jamais.


Provavelmente seu destino era converter-se em marido de Germaine, com quem sem dúvida teria uns filhos bonitos e morenos, credores por direito ao sobrenome de seu pai. Cerynise piscou para não chorar, respirou fundo e decidiu não derramar mais pranto, ao menos por um minuto... ou dois, com um pouco de sorte. Cora estava fora, recolhendo a roupa. Levantou-se um vento que estremecia as janelas e enchia o telhado de ramos secos. Era um ruído que já não sobressaltava a Cerynise, muito mais temerosa da tormenta que estava forjando-se. Seu medo crescia ao mesmo ritmo que sua melancolia, enquanto continuava se formando nuvens negras pelo ceu e os relâmpagos uniam ceu e terra com seus raios. O retumbar longínquo dos trovões aumentava de volume a todo momento, à medida que os brilhos de luz progrediam em seu caminho para a cidade. Dado o bombardeio a que estava sendo submetida a casa, rodeava à Cerynise uma selvagem cacofonia de ruídos vários, tantos que não sentiu o impulso de investigar alguns golpes na porta. Pouco antes, em resposta a um som similar, fora à porta principal para ver se havia algum visitante, e não tinha achado a não ser um ramo seco caindo pelo telhado. Não obstante, e apesar do caos geral, ela teve uma intuição aguda e inexplicável, que a obrigou a deixar a xícara no prato com mão trêmula. Sentiu vontade de voltar e examinar o vestíbulo em busca de um rosto familiar; entretanto, era uma idéia descabelada. Não teria encontrado a ninguém. Beau Birmingham saíra de sua vida, como quando se apaga uma vela. De fato, se ela ia viver em outra cidade era provável que não se vissem nunca mais. Sua visão se tornou imprecisa. Vencendo todo esforço de contenção, o pranto provocou violentos soluços em Cerynise, convulsa dos pés a cabeça. Deixou a um lado a xícara e o prato com um gemido de angústia e cruzou os braços sobre a mesa, pondo neles seu rosto. Chorou amargamente, e a intensidade de sua dor fez tremer seus ombros. De repente a sobressaltou um suave golpe na mesa. Virou-se para trás sem fôlego, esquecidas suas lágrimas. Não tinha consciência do que aconteceu, mas à força de pestanejar recuperou certa nitidez de visão e pôde ver um montinho de papéis rasgados, restos, supôs, de algum maço de documentos. Movida pela curiosidade, agarrou um e viu sua própria assinatura. Depois a do Beau. Depois a palavra "anulação". Podia ser que...? Mas como...? Agarrada ao espaldar da cadeira, voltou-se e divisou uma forma humana de largos ombros que se aproximava dela na entrada. Piscou para recuperar suas faculdades visuais, e conseguiu ficar em pé apesar de que o tremor de suas pernas ameaçava dar com ela no chão. Viu então o rosto sorridente de Beau, e seus braços estendidos para ela. Pareceu-lhe ver de repente os ceus abertos. Correu a abraçá-lo, e se sentiu levantada no ar. Obstinada ao pescoço do Beau, riu e chorou como louca, cobrindo seu rosto de beijos extasiados. Depois a boca ansiosa do Beau se apoderou da sua, algo prévio da uma voraz e desenfreada união de lábios e línguas, abrasadora luta que levou ao Cerynise à beira do desmaio, tal era sua felicidade. Ele a manteve estreitamente abraçada e foi girando lentamente no centro do estúdio. Transcorrida uma eternidade, ela se separou para tomar fôlego. - Quanta falta senti de você! - sussurrou, lhe roçando a testa com os lábios, percorrendo


seu fino nariz e beijando-o de novo na boca. - Por que assinou os documentos? - perguntou Beau com voz rouca, entre beijos com sabor a lágrimas e sal. Sem abandonar seus braços, Cerynise se virou para trás e o olhou. - Acreditava que o desejava. - Jamais! - Jamais? - Franziu o sobrecenho, desconcertada. - Mas por que... por que você os assinou? - Porque me parecia que me estava exigindo isso. - Só porque sabia que se esperávamos muito já não conseguiríamos a anulação. Cerynise engoliu a saliva, esperando em não destruir sua felicidade com o que estava a ponto de revelar. - Sei que não se recorda me ter feito amor quando estava doente, mas juntos concebemos a um menino, Beau, e meu estado começa a saltar à vista. Beau a desceu ao chão e fez que se voltasse até que sua silhueta ficasse recortada de perfil contra a luz que entrava pelas janelas. Sua mão traçou a suave curva de sua barriga. Cerynise aguardou com inquietação sua reação, até que o viu sorrir e ouviu sua risada. - Tive vontade de perguntar a você mil vezes se era um sonho ou se de verdade lhe fiz amor. Recordava momentos isolados, mas tinha medo de que fosse minha imaginação, e supunha que minhas perguntas fariam com que me tivesse por um libertino. - Está visto que nosso matrimônio se viu frustrado muitas vezes por nossas próprias reticências. - Cerynise inclinou a cabeça e olhou a seu marido. - De fato, de como Germaine saiu ontem de casa depois de me olhar do direito e do reverso, temia que fosse em seguida ver você para lhe contar a notícia. Beau rodeou os ombros esbeltos de sua mulher e voltou a atrai-la para si. - Assim foi, mas não conseguiu mais que me dar a prova que me fazia falta para conservá-la como esposa. Se tivesse sabido que estava grávida não teria aceitado jamais à anulação. - Embora significasse perder a liberdade? - perguntou ela timidamente. - Ao diabo com a liberdade - respondeu ele, antes de afirmar com energia; - Perdi todo interesse por minha liberdade de solteiro pouco depois de que nos casamos. Comecei a querer você como esposa a título permanente, e assim será daqui em diante. - Como me faz feliz ouvir você dizer isso! - exclamou Cerynise com júbilo, agarrandose à cintura de Beau e aproximando-se a seu peito. - Seu tio está em casa? - perguntou ele, apoiando a face em seus cabelos. - Não; já esta fora várias horas, e o certo é que não tenho a menor ideia de quando voltará. - Nesse caso, se quando tivermos acabado de fazer sua bagagem, continua sem ter voltado lhe deixaremos uma nota. Cerynise voltou a separar-se do Beau para escrutinar seu bronzeado semblante.


- Aonde me leva? - Para casa! Para nossa casa, onde lhe corresponde estar. - E meus quadros... - Levaremos tudo isso. Tenho lá fora me esperando a minha carruagem, e quero que partamos antes que comece a chover. - A reticência do Beau para soltar a sua esposa não era tão forte como seu desejo de levá-para casa. - Onde estão seus baús? - Vamos, em meu quarto. Agarrou-a pela mão. - Me leve. Cerynise o guiou sem demora pela escada, cuja subida deu tempo ao Beau para permitir uma pequena amostra de confiança conjugal. Pousando uma mão na de seu marido, que comprovava a flexibilidade de um de seus seios, Cerynise lhe sorriu. - Vejo que continua atencioso. - Sim - reconheceu ele com voz rouca, olhando-a por sua vez e arqueando uma sobrancelha. - Tem algo contra que reclame meus direitos de marido? - Nada absolutamente - murmurou ela, sorrindo e fazendo descer a mão que ficava livre pelo peito e estômago de Beau, até que, mais abaixo, deixou-o sem fôlego pelo prazer que suscitava. - Sempre e quando puder reclamar meus direitos de esposa. Aliviado, lhe acariciou o pescoço com o nariz. - Com muito prazer, senhora, mas não nos entretenhamos muito, não vamos escandalizar a seu erudito tio Sterling. Uma vez no dormitório de Cerynise começaram a colocar sua roupa nos baús, que Beau não demorou para carregar escada abaixo. Quando retornou ao dormitório de sua esposa, surpreendeu-a tratando de levantar uma das malas mais pesadas, de cujo peso se apressou a aliviá-la. - Senhora, embora não o acredite sou perfeitamente capaz de levar sozinho toda sua bagagem. Só necessito que me dê a oportunidade – repreendeu-a com doçura. - A partir de agora terá que pensar em nosso filho e evitar esforços. E agora, enquanto me ocupo do resto de seus quadros e objetos pessoais, será melhor que escreva uma nota a seu tio lhe dizendo que já não há anulação e que de agora em diante viverá comigo em condição de legítima esposa. Cerynise não tentou dissimular sua alegria. - Às suas ordem, meu capitão! Beau, sorrindo por sua vez de orelha a orelha, lhe piscou um olho. - Boa garota. Menos de uma hora depois estavam na carruagem, com os cavalos ao trote. Quando chegaram à residência deste Beau ajudou a descer a sua esposa e carregou um baú no ombro, enquanto a jovem parava uns instantes para contemplar a mansão. As espessas árvores que a


rodeavam estavam sendo açoitadas pelo vento, mas com o Beau a seu lado Cerynise não se inquietou pelas violentas rajadas. Tinha diante de si

uma espaçosa mansão de estilo

georgiano, circundada por um agradável jardim com grade de ferro forjado, tudo isso a distância suficiente da rua para dar intimidade e tranquilidade. Sarrafos de madeira estavam pintados de branco, de verde escuro as portinhas das janelas, e a porta principal da mesma cor com uma faixa branca, sob um suporte de cristal esculpido em que se via representado um navio com todas as velas ao vento. Em geral, a mansão deu à Cerynise a impressão de achar-se no campo, apesar de distar apenas um breve passeio dos buliçosos cais de Charleston. Sorriu para seu marido. - Beau, sinto-me como uma princesa que vai viver em um castelo! - Nesse caso, senhora, convém que sua entrada seja régia - respondeu ele, apoiando no chão um canto do baú e fazendo gestos ao Thomas de que recolhesse os outros. Na sua volta agarrou a sua mulher em braços e a levou com presteza até a porta, porque começava a chover a sério. Uma vez no vestíbulo a depositou no chão. - Por que não dá uma olhada enquanto Thomas e eu trazemos sua bagagem? Se lhe parecer bem deixarei seus quadros e coisas de pintar em meu estúdio. Pode usá-lo para trabalhar, sempre e quando considerar que não falta luz. - E não incomodarei você? - Pode ser, mas só porque cederei a meu segundo passatempo favorito: olhar você. Cerynise soltou uma risada aguda. - Não é preciso que lhe pergunte qual é o primeiro. - Isso não demorará - prometeu ele. Cerynise foi a abrir a porta ao Thomas, que lutava com o baú maior. Depois, enquanto Beau e o cocheiro retornavam a carruagem em busca do resto da bagagem, fixou-se no mobiliário, suntuoso e elegante. Jamais lhe teria ocorrido que não fosse de seu gosto, porque Beau, a sua maneira, era um artista de excepcionais dotes. Possuía um olho insuperável para o mobiliário e os adornos, e aplicava bem seu talento. Um saguão com um lindo chão de mármore em que se combinavam tons brancos, cinzas e magentas dava passagem a um vestíbulo mais espaçoso, de onde subia com elegância ao andar superior uma escada curva de brilhantes degraus de mogno e passamanes da mesma madeira, garbosamente situado sobre belos balaústres salomônicos de cor branca. A carpintaria interior era pintada de branco, com o complemento de abundante vegetação. Viam-se em qualquer parte atapeta Aubusson e móveis Chippendale, Rainha Ana e similares. Cerynise retornou uma vez mais à porta principal e a manteve aberta para os dois homens, que meteram em casa os últimos baús, malas e quadros bem a tempo, porque a chuva, empurrada pelo vento, começou a bater nas janelas. Thomas saiu para levar a carruagem à parte traseira da casa, deixando à Cerynise o encargo de fechar a porta. Sorrindo com vivacidade, a jovem se voltou para seu marido.


- Aqui uma esposa não tem mais remédio que ficar boquiaberta – disse orgulhosa. - O interior é ainda mais bonito que o exterior. - Quer ver o dormitório? - propôs Beau com um sorriso malicioso. Cerynise contemplou com olhos brilhantes seu corpo forte e alto. - Só se tiver vontade de me ensinar isso Beau. - Estou impaciente por te ensinar isso e muito mais - lhe assegurou ele, rindo entre dentes, - mas Philippe está na cozinha e quererá ver-te antes de que rapte você. Desejei-a tanto que possivelmente não a deixarei sair de meu dormitório por toda uma semana, e tenha por certo que não tolerarei interrupções até ter satisfeito todos meus desejos. - aproximou-se de Cerynise, que levantou a cabeça. Beau a obsequiou com um beijo terno e quente, antes de lhe indicar com voz rouca: - Corre, meu amor. vá ver o Philippe enquanto subo sua bagagem. Depois poderemos estar sozinhos. O beijo era tão doce que ela, desejando outro, ficou nas pontas dos pés. Seu marido não reclamou em agradá-la, acrescentando desta vez uma dose maior de sensualidade. Cerynise pareceu ficar sem energias, porque se apoiou nele com todo seu peso. - Mais - pediu. - Não me atrevo, por medo de desgastar sua saia. - Monstro - brincou Cerynise com uma graciosa careta, aproximando-se dele. - Bruxa - sussurrou Beau, sorrindo e lhe tocando as têmporas com seus lábios. - Se seguir assim não demorará para ter meu coração em suas mãos insaciáveis. Estou a um passo de levá-la para cima e me recrear com você. Ao diabo com o Philippe e seus baús. Ela exagerou sua decepção com um suspiro. - Suponho que terei que partir, visto que devo antepor o dever ao prazer. Beau a viu afastar-se para a cozinha com olhos reluzentes. Não podia a não ser maravilhar da mudança que se produziu desde sua entrada na casa do tio da jovem. Seus golpes na porta não receberam resposta. Transcorrido um prudente intervalo se atreveu a entrar e cruzar o vestíbulo em busca de sua mulher, a quem encontrou sentada a uma mesa de uma habitação traseira, olhando tristemente seu retrato. Tinha-lhe recordado a uma menina pequena castigada com severidade, já que seu corpo esbelto, caído de ombros, transmitia uma sensação de derrota. Vendo-a erguer-se, Beau esperara que se voltasse em qualquer momento, porque teria jurado que sua presença não passava desapercebida; mas o curso dos acontecimentos fora outro, e lhe esmigalhara o coração. Não recordava ter ouvido soluçar a nenhuma mulher com tão funda e terrível angústia. A alegre voz do Cerynise, procedente do corredor que levava a cozinha, tirou- o de seus devaneios. - Philippe? Onde está? - Madame Birmingham? - exclamou o cozinheiro com surpresa. Saiu ao corredor, e ao lhe vê-la agarrou ambas as mãos e as cobriu de beijos efusivos. - Que grande alegria a ver, madame! - Como preferia que o dono da casa não entendesse o que ia dizer, adotou seu


francês nativo e informou à jovem que sem a luz de sua esposa dando calor a sua vida o capitão estivera a ponto de afundar-se no mais negro desespero. - Não queria comer, madame, e bebia muito mais que antes. - Em seguida suspirou, com um sorriso cúmplice e um rápido arqueamento de sobrancelhas. - Ah, l'amour. - Cerynise? -disse Beau pouco depois no andar de cima. - Já vou - respondeu ela alegremente. Passou pela porta, não sem jogar previamente um beijo ao cozinheiro. A tormenta estava já em cima deles, mas Cerynise entrou correndo no corredor sem pensar nisso. Beau a esperava no patamar da escada. Quando a teve à vista, estendeu uma mão para acelerar sua chegada. Atrás dele, as janelas mostravam nuvens negras e turbulentas. De vez em quando um relâmpago rasgava o ceu, prelúdio de um trovão ensurdecedor. O vento era igualmente furioso; entretanto, e por muito que temesse a essa classe de fenômenos, Cerynise só pensava em estar nos braços de seu marido. Chegou a seu lado sem fôlego, mas a luz de seus olhos permitia adivinhar o motivo. Beau a agarrou pela mão e entraram no dormitório principal da mansão. Ele fechou a porta com chave e, apoiado contra a maciça folha, abraçou a sua mulher para beijá-la com toda a paixão que lhe tinha exclusivamente reservada. Seus dedos soltaram a cabeleira da jovem. Em seguida a levantou nos braços e a levou a sua cama. Pô-la em pé ao lado do colchão, e se apoderou deles imediatamente uma pressa frenética por despir-se mutuamente. Não demoraram para ficar cara a cara em todo o esplendor de sua nudez. As mãos de Cerynise percorreram a musculosa extensão do corpo de seu marido, admirando-o com atenção, enquanto Beau acariciava seus suaves seios e a cobria de beijos ávidos. Imediatamente depois caíram um nos braços do outro e se caíram sobre o colchão. Desta vez não houve excitantes prelúdios. Beau suportou uma terrível abstinência, e não queria que nada atrasasse sua união. Sua esposa era suave e acolhedora; ele, duro e disposto. entraram com audácia em terreno conhecido, entre beijos e carícias mais que suficientes para arrancar de ambos os abundantes arquejos de prazer. Depois Beau passou a amá-la do modo mais físico possível, cortando sua respiração com seu ardoroso vigor. Sua íntima fusão fez que Beau revivesse tudo com maior consciência: os arquejos de Cerynise em seu ouvido, suas unhas cravadas nas costas, suas coxas sedosas capturando os seus quadris... Era igual como acreditara sonhar. Ignorando a tormenta, que seguia em seu apogeu, descansaram em mútuo abraço, beijando-se, tocando-se e sussurrando doces palavras. Beau acabou por perguntar à Cerynise o que já dava por certo, e sua esposa confirmou que não fora imaginação sua: com efeito, ficou sentada ao lado do beliche, recreando-se em sua nova condição de mulher casada. Beau também lhe contou as muitas vezes que tentou perguntar-lhe topando com uma negativa a lhe seguir o jogo. Cerynise ficou aterrada pela abundância de foras. Se não fosse por seus enganos poderiam ter desfrutado há meses da intimidade do matrimônio. Aproximou-se ao corpo de seu marido e lhe acariciou o peito. - Odeia-me pelo que esteve a ponto de passar por minha culpa?


- Odiar você? Virgem santa, Cerynise! Não se dá conta do muito que a quero? Apoiando-se em seu peito, ela se endireitou e escrutinou seu belo semblante. - Não são unicamente seus instintos viris? - Acariciou as suas costas nuas. - Se fossem, meu amor, poderia tê-los satisfeito com qualquer outra mulher, mas só desejava a você...Teve cativos meus pensamentos desde o momento em que a meti na cama e tive você contra meu peito. - Refere-se ao dia em que nos casamos? - Não; desde a noite em que a subi a bordo. - Faz tanto tempo? - Sim. Cerynise seguiu com um dedo o robusto contorno dos peitorais de seu marido. - Certamente que sabe que estive apaixonada por você desde menina. As escuras sobrancelhas de Beau se arquearam ligeiramente. - Sempre pensara isso, mas sua rejeição me levou a mudar de opinião. - Tinha medo de que se ficasse grávida me odiaria. Teria se sentido obrigado a levar o assunto como um cavalheiro... - E preferia que tivéssemos um filho bastardo a me dizer que ficou grávida? Se tiver chegado a tais extremos para ocultar-me isso, é que me toma por um canalha. - Como vou tomar você por um canalha se estiver certa de que o sol nasce e fica só para você? Beau se voltou para ela sem dizer mais e, levantando-se sobre o cotovelo, obrigou-a a ficar de costas. Depois lhe acariciou os seios com ternura, notando de novo como estavam muito mais firmes desde sua gravidez. Sua mão desceu para examinar o suave arredondar de sua pequena barriga, testemunho de que ia lhe dar um filho. Não necessitava de outra prova, mas o vulto duro que se formou de repente sob sua palma os fez rir a ambos. Então Beau desceu um pouco mais ainda no leito e apoiou a face no estômago de sua mulher. - Dá-me pontapés. - Cerynise riu e colocou a mão de seu marido no lugar exato. - Nota? - Sim - respondeu ele, rindo entre dentes e aplicando seus lábios ao mesmo ponto. - O primeiro beijo de papai. Um beijo levou a outro beijo, e não foi preciso muito tempo para que a língua e os lábios de Beau fossem subindo pelo corpo de sua esposa até unir-se com os dela em um erótico intercâmbio que os embriagou de desejo. Excitado seu fogo por carícias provocadoras e beijos excitantes, Beau ficou de barriga para cima e fez com que Cerynise se colocasse em cima dele. A jovem conteve o fôlego, tal era a força das sensações que nasceram nela quando Beau a pôs sobre o membro endurecido e atraiu seus quadris para si, incitando a exercer uma longa e lânguida carícia sobre suas partes. A boca do Beau se entreabriu, desejosa de aprisionar um flexível mamilo, e o flamejar da paixão subiu ainda mais alto, jogando por terra todas as inibições de sua mulher. Apoiando ambas as mãos na nuca, Cerynise prendeu as grossas tranças e, segurando no alto a massa acobreada de seus


cabelos, olhou Beau nos olhos. Reconhecendo o desejo que os iluminava, curvou seus lábios com um sorriso sensual e imprimiu a seus quadris um movimento lento e ondulante, semelhante ao de uma bailarina em presença de um príncipe árabe. A ardente chama que a consumia por dentro acelerou seu pulso mais e mais até que seus movimentos se tornaram concentrados e enérgicos, alimentando o ardor de ambos. Pondo uma mão em cada seio, Beau arqueou até que, quebradas todas as barreiras, a paixão os encheu de desenfreio. Finalmente, os arquejos de ambos se converteram em suaves e contentes suspiros de satisfação. Beau estava certo de não haver sentido jamais uma plenitude comparável. Sabia deste modo que não teria trocado toda a liberdade do mundo pelo que tinha em seus braços: sua esposa, sua companheira de toda a vida. Em sua inocência, Cerynise se mostrara deliciosamente criativa, e Beau supôs que com um pouco mais de instrução o cativaria tão por completo que estaria disposto a lhe dar quanto quisesse em troca de um momento em seus braços. - Você gostaria de me acompanhar em outra viagem depois de que nasça nosso bebê? - Sim, sim! Seria maravilhoso... sempre e quando não voltar a me enjoar. O dedo do Beau riscou o contorno de um mamilo rosado. - Achava que passara de todo, até que teve aquele último ataque. Sorriu-lhe. - Duvido que esse enjoo em concreto fosse provocado pelo movimento do mar, querido. Então já começava a suspeitar que estava grávida, porque não me viera o período desse mês. - Sempre veio regularmente? - Cerynise ficou um pouco surpreendida de que Beau estivesse tão familiarizado com temas de mulheres. - Sim, mas como... ? Ele riu de sua ingenuidade. - Surpreenderia-te do que comentam os meninos quando crescem, meu amor. Por outro lado, tenho uma irmã dois anos menor que eu. Minha mãe se escandalizava, mas Suzanne ficava uma fera cada vez que zombava de que se encerrasse em seu quarto. Explicou-me sem rodeios que sofria uma aflição de mulheres, e me ameaçou rezando para que também me acontecesse. Nem me ocorreu que suas ameaças pudessem sortir efeito, mas suponho que todo marido cuja mulher não esteja grávida deve passar pelo transe de conter-se uns dias cada mês. - Franziu o sobrecenho e, fingindo-se preocupado, mediu com a vista a pequena barriga de Cerynise. - Quando estiver muito volumosa para que a monte teremos que ser um pouco mais criativos. Uma risada alegre saiu dos lábios de Cerynise. - Dadas suas inclinações, meu libidinoso marido, não acredito que me conceda muito tempo entre o nascimento de um filho e a concepção de outro. - Não nego isso, senhora, mas posso manter a quantos nasçam de nosso amor. - É provável que tenha alguns estando você em alto mar. - Uma viagem mais e Stephen Oaks será capitão do Audaz – prometeu Beau. - Descobri


algo que eu gosto muito mais que navegar a outros climas. Quero estar onde você estiver. Cerynise ergueu a vista e escrutinou o rosto de seu marido. - Mas o que fará se abandonar a navegação? - Ele riu entre dentes. - Ficar em casa e fazer amor. Cerynise acariciou uma vez mais o peito de seu marido. - E quando não estiver se dedicando a isso? - Meu tio quer que o ajude em sua companhia naval. Até o momento seus dois filhos não mostraram muito interesse nisso. O mais velho prefere administrar sua fazenda. O tio Jeff me disse que me aceitaria como sócio de pleno direito, embora também é verdade que meu pai agradeceria que o ajudasse a levar a fazenda. - Não sentirá falta do mar? - Com você a meu lado, não. Cerynise se aproximou de seu corpo longo e murmurou com voz sonolenta: - Nesse caso, dedicarei-me a fazer que sua vida em terra seja o mais interessante possível. - E eu tentarei fazer o mesmo por você, senhora - murmurou ele, lhe dando um beijo na testa. Pouco depois ouviu o ritmo suave e pausado da respiração de sua jovem esposa, e percebeu que dormiu em seus braços. Então puxou com muito tato o lençol e fechou os olhos por sua vez, deixando-se invadir por um sonho doce e relaxante, o melhor que teve em muito tempo. Golpes suaves na porta arrancaram Beau de uns sonhos muito parecidos com o que saboreou poucas horas antes. Afastando-se de sua esposa com cautela, vestiu umas calças e caminhou descalço pelo tapete. Abriu um pouco a porta e viu Philippe na soleira, com a desculpa estampada no rosto. - Excusez-moi, capitaine, mas está aqui seu pai. Pedi-lhe que o espere no estúdio. Beau assentiu com a cabeça, não acordado de todo. - Diga a ele que desço agora mesmo. Poderia preparar um pouco de café para nós? - Oui, capitaine. Fechou a porta e se meteu no quarto de dormir, onde refrescou o rosto com água fria e lavou os dentes. Desceu tal como estava. Além de um fios brancos na têmpora, que ofereciam um contraste atraente com a cor negra do resto do cabelo, Brandon Birmingham poderia ter passado por um homem vinte anos mais jovem. Seu rosto bronzeado se caracterizava por uma ausência de rugas inverossímil, sem mais que uns poucos pés de galinha nos ângulos de seus olhos verdes, de negras pestanas. Seu corpo, alto e largo de ombros, mantinha-se firme e musculoso, sinal de pertencer a um homem ativo e trabalhador. Brandon estivera contemplando o ceu cinza pela janela, meditando o que devia dizer a seu filho. A visita do professor Kendall lhe levara a pensar muito em sua própria vida, com


especial atenção ao episódio em que o ameaçaram com graves consequências se se negava a cumprir seu dever com a jovem grávida a quem deflorou acreditando-a equivocadamente uma prostituta. A ameaça suscitara nele ira e rancor, sentimentos que fez cair em Heather pouco depois de casados. Era consciente de que seu filho, além de atitude e corpulência, herdara seu mau gênio. Sabia por isso que a força não era recurso sensato para dirigir uma situação delicada que o afetasse. - Boa tarde, papai - resmungou Beau, dissimulando um bocejo no momento de entrar no estúdio. Voltando-se para seu filho e reparando que estava meio nu, Brandon arqueou as sobrancelhas. - É um pouco tarde para que saia da cama, filho. Está doente? - Não. - Beau sacudiu a cabeça. - Só tentava dormir as horas que me faltam. Não me deitei até o amanhecer. Brandon também sabia (e não estava necessariamente orgulhoso disso) que seu filho seguiu seus passos com muita fidelidade para tomá-lo por uma pessoa casta ou abstêmia. Sem dúvida o mais prático era aceitar que durante a noite anterior seu primogênito se dedicara com esforço a ambas as afeições, e que não lhe deixaram dormir. Philippe entrou levando o serviço de chá em uma bandeja de prata. Uma vez servidas duas xícaras se retirou. Brandon bebeu a sua rapidamente e pigarreou, um pouco desorientado sobre a estratégia a seguir. Acabou optando por um enfoque direto. - Hoje o professor Kendall veio ver-me. - Ah, sim? - Beau franziu o sobrecenho, surpreso. - E para que? - Para falar, sobretudo de você. Quando veio para entregar o quadro de Cerynise não mencionou o fato de se haver casado com ela. Por que? Depois de ingerir outro gole da fumegante infusão, Beau encolheu os ombros. - Não queria dar muitas esperanças a mamãe enquanto existisse a possibilidade de uma anulação. Fora Brandon, finalmente, o encarregado de informar a sua esposa, sempre atendo-se ao que sabia e conservando o ponto de vista do Sterling. Para Heather só havia um problema com o Beau: que passava muito tempo longe de Charleston. À margem disso não podia fazer nada mau, ou que parecesse assim para ela. Assim, declarou-se segura de que não era preciso intervenções alheias para comportar-se como um cavalheiro no referente à Cerynise; Sterling, entretanto, sugerira com certa energia que Brandon falasse com seu filho, uma vez que nenhum cavalheiro ousaria sequer expor uma anulação depois de haver-se deitado com sua mulher. - Sua mãe sempre teve Cerynise em bom conceito. O certo é que lhe agradaria muito que a conservasse por esposa. - Significa isso que comentaste tudo? - inquiriu Beau com certa surpresa.


Conhecia de sobra as conclusões a que teria chegado sua mãe depois de inteirar-se do projeto de separação da boca do professor. Apesar de violenta que lhe era a situação, Brandon conseguiu rir entre dentes. - Sinto incomodá-lo, filho, mas a estas alturas deveria saber que há poucas coisas que sua mãe e eu não discutamos juntos. Fazia tempo que Beau sabia quão unidos estavam seus pais. Tão profundo era o amor que mostravam ano após ano que seu filho se convencera de que o futuro não lhe proporcionava nada semelhante, embora sua opinião fosse outra desde que Cerynise entrara em sua vida pela segunda vez. Também era consciente de que Brandon e Heather Birmingham costumavam debater tudo quanto dizia respeito a sua família, mas naquela situação lhe parecia que seu pai deveria ter consultado a ele antes de preocupar a sua mãe sem motivo. Brandon olhou a seu filho e mediu suas palavras. - Acho que você e suas irmãs percebem como estamos unidos sua mãe e eu, mas não foi sempre assim. Foi preciso

alguns instantes para que a frase chegasse até Beau com todo seu

significado e o enchesse de uma leve apreensão. Antes de abandonar o lar paterno ouviu frases soltas e alusões imprecisas a algo que aconteceu nos primeiros tempos do matrimônio de seus pais, ou possivelmente antes. O tio Jeff mostrara certa propensão para zombar de seu irmão a respeito de um episódio desses tempos, mas ninguém se preocupou de ilustrar ao primogênito dessa união, e cada vez que Beau perguntava do que falavam a resposta era invariavelmente que seu pai diria algum dia. Intuiu que esse dia tinha chegado. - O que aconteceu exatamente? - perguntou com cautela, e sem estar muito convencido de que gostaria de sabê-lo nesse momento. Deixou de um lado a xícara de chá, para que nada o distraísse da atenção que prestava a seu pai. Brandon voltou a colocar-se diante da janela e observou as gotas de chuva que a tormenta atirava violentamente contra o vidro. depois de um momento suspirou e se voltou para seu filho. - Em certa ocasião me obrigaram a tratar a sua mãe como exigia a honra, com o resultado de que meu orgulho provocou um sério conflito entre ela e eu. Heather tinha medo de mim, e a causa principal desse medo eram minha ira e meu rancor. Beau o olhou fixamente, resistindo a dar crédito ao que ouvia. - Quer dizer que mamãe ficou grávida antes de que se casassem? Apesar do tempo transcorrido, Brandon não deixou de ruborizar-se, tal era seu arrependimento de como tratou a jovem levada a bordo de seu navio. - Sim. Beau não sentiu comoção maior em toda sua vida. Sabia que seus pais eram seres humanos. Até a sua idade continuava sendo possível surpreendê-los acariciando-se ou beijando-se com paixão, mas transmitiam uma imagem tão honorável, tão digna de respeito, que seu filho ficou atônito pela revelação de que em outros tempos transgrediram gravemente


os limites da moral consensuada. Mostrou-se prudente ao perguntar a seu pai: - Está-me dizendo que mamãe foi sua amante antes de ser sua esposa? - Absolutamente! - Brandon sacudiu a cabeça com ênfase - era o que eu queria depois de ter levado ela para a cama, mas se negou redondamente e preferiu fugir. Não, foi algo muito diferente ... - Guardou silêncio, porque se dava conta de estar sendo pouco claro. Era necessário começar desde o começo. assim, respirou fundo e se embarcou em um relato pormenorizado. - Acabava de ancorar em Londres e sentia a necessidade de companhia feminina. Sem eu sabê-lo, Heather fora levada a cidade vítima de um engano, e sob a ameaça de uma agressão por parte do irmão de sua tia. No ato de defender-se, ficou convencida de havê-lo matado, e o medo a levou a escapar. Dois de meus homens a encontraram vagando pelo mole e tomaram pelo que não era. - Mas quando você se deu conta de seu engano com certeza que... - Não descobri sua inocência até muito tarde, e inclusive então acreditava que me vendera sua virgindade... - O semblante de Brandon adquiriu tons avermelhados. - Suponho que é evidente o que pensei. Em todo caso me comportei como um animal no cio, e meus atos foram dignos de repreensão, até o ponto de que tentei forçá-la a ficar comigo. Fugiu, e na ocasião seguinte em que a trouxeram diante de mim não só vinha acompanhada por seu tio e sua tia, ambos em busca de satisfação, mas também por um alto personagem que tinha a capacidade de atrasar minha partida da Inglaterra. Não pude senão cumprir suas exigências. Fiz Heather pagar meu ressentimento, que seria o mero fato de ver-me. Disse-lhe que reconheceria ao menino, mas que a nenhum outro respeito se considerasse minha esposa. Guardei as distâncias, jurando que nenhuma mulher me faria morder o pó. - Riu com amargura. - Entretanto, quanto mais tempo passava com ela mais a desejava, e minha resolução se converteu em uma autêntica tortura. Era tudo quanto sonhara em uma mulher, e mesmo assim não o foi a não ser ao nascer você quando escutei a voz de meu coração. Durante todo esse tempo não toquei a nenhuma outra mulher, nem o fiz depois... Beau não pôde conter-se. Tinha muita vontade de rir, e o fez ao fim, para confusão de seu pai. Embora Brandon Birmingham fosse seu progenitor, Beau se deu conta de que também era um homem como ele, possuidor de um temperamento explosivo e um gosto pronunciado pelas alegrias que podem dar as mulheres. A idéia de que se manteve afastado de sua bela esposa durante quase um ano era pelo menos assombrosa. - Se lhe conto - prosseguiu Brandon com um sorriso compungido – é para que não cometa com o Cerynise a mesma loucura que eu com sua mãe. Sterling Kendall nos deu garantias de que sua sobrinha é uma jovem honesta e está apaixonada por você, mas tem firmes suspeita de que esteja grávida de teu filho e não lhe queira dizer isso por motivos que só ela conhece, embora isso signifique que uma vez concedida a anulação o menino nasça como ilegítimo. Se acha seriamente que vai ter teu filho, consulte bem a seu coração antes de abandoná-los a ele e sua mãe às consequências que não deixarão de cair sobre eles.


- Papai, produziu-se uma série de mudanças das quais considero necessário lhe informar... As palavras de Beau foram interrompidas por enérgicos e repetidos golpes na porta principal. Philippe se apressou a responder que ia agora mesmo. Uma vez franqueada a entrada ao visitante, ressoou no vestíbulo uma voz iracunda. - Onde está? - Excusez-moi, monsieur. Refere-se ao capitaine? - perguntou Philippe com certa altivez, como se a rudeza daquele homem o tivesse ferido fortemente em seu orgulho. - Capitame? Ja! Me ocorrem palavras mais indicadas para esse desprezível canalha! - Vou informar me se o capitaine está em casa - respondeu o cozinheiro com rigidez. - Se fizer o favor de se identificar... - Kendall! Professor Kendall! Beau se apressou a sair do estúdio, seguido por seu pai, e fez gestos ao Philippe para que deixasse entrar o visitante. O professor grisalho cruzou o vestíbulo, manifestamente consternado, e vendo Beau se aproximou dele com olhar furioso. Julgando iminente uma confrontação violenta, Philippe não viu o momento de retornar à cozinha, convencido de que seu capitão podia resolver a situação sem ajuda nem espectadores. - Minha sobrinha partiu sem dizer para aonde! Fez a bagagem e saiu correndo como cachorrinho escaldado. - No momento de pronunciar essas palavras, Sterling Kendall aplicou o dedo indicador várias vezes ao peito nu do Beau. - Está grávida de você, não é certo? - Sim, mas... - Estou convencido de que Cerynise fugiu para outra cidade – prosseguiu Sterling atropeladamente sem lhe dar a oportunidade de justificar-se; - e não a culpo de querer evitar o trauma de dar a luz a seu filho sem sobrenome para lhe pôr. A idéia de que nestas circunstâncias tenha podido lhe expor uma anulação faz com que me envergonhe de o haver tomado alguma vez por um cavalheiro. - Beau? - disse uma voz inquieta de mulher procedente do andar de cima. - Onde está? Beau supôs que vendo-se só, sua mulher estaria assustada pela tormenta. Levantou a cabeça para que sua voz chegasse aos aposentos superiores. - Estou aqui embaixo. O professor tirou rápidas conclusões. - Não estranho que seu filho não tenha querido atar-se a minha sobrinha - disse ao Brandon com repugnância. - Está muito ocupado com as demais mulheres. Brandon, cuja surpresa não era menor que a de Sterling, olhou a seu filho arqueando uma sobrancelha. Beau apontou com uma mão a porta interior pela qual acabavam de passar ele e seu pai. - Professor Sterling, proponho-lhe passar ao meu estúdio, onde poderemos discutir o assunto de modo racional...


- Como? Não volta para sua bonequinha? - inquiriu Sterling com sarcasmo. - Não vai mover se de onde está - lhe assegurou Beau sem alterar-se. - E agora, por favor, me acompanhem ao estúdio e falaremos. Brandon não estava muito convencido de que não lhe conviesse seguir o exemplo do Philippe, dados os apuros que estava passando seu filho. Entretanto, quando Beau lhe indicou que o seguisse, fez-o a contragosto. Foi o último a entrar no estúdio, perturbado e sem pensar em fechar a porta. - Não encontrou nenhuma nota de Cerynise? - perguntou Beau, voltando-se para o professor. - Que eu saiba não havia nenhuma - respondeu Sterling secamente. - Em seu estúdio... - Que desordem! Aquele ramo maldito que me quebrou o vidro dispersou meus papéis por toda a casa. Estava muito preocupado por Cerynise, e só fechei a janela com algumas tábuas. Se minha sobrinha deixou alguma nota o mais provável é que levarei várias semanas para encontrá-la. Beau olhou a seu pai, que parecia ter dificuldade em acalmar-se. Possivelmente as acusações do Sterling o tocassem muito perto para sentir-se a gosto com seu conteúdo. - Beau? - disse a voz de mulher em voz baixa e tom vacilante, desta vez das proximidades do salão. Sterling ficou em pé e resmungou com azedume: - É melhor que vá, para que possa voltar para essa moça. Beau fez um gesto com a mão, ameaçando-o a ocupar de novo seu assento. - Acredito que deveria conhecer a moça em questão. - Saiu pela porta e fez gestos para sua esposa. - Venha, meu amor. Quero apresentá-la a alguém. - Mas Beau, se não estou vestida! - sussurrou Cerynise, fechando com a mão a gola de seu roupão. Estava descalça, revolta sua longa cabeleira em deslumbrantes mechas onduladas. - Não estou em condições de que me apresente a ninguém. - Insisto - disse ele, lhe estendendo o braço. Quando teve Cerynise perto pôs uma mão na base das costas e a empurrou para o estúdio. - Cerynise! - exclamou seu tio ao vê-la. Sobressaltado, levantou-se e a observou com assombro. Depois olhou para Beau, notando seu traje pouco apropriado. Saltava à vista o que estiveram fazendo aqueles dois em plena tarde. - Parece que minha visita foi inoportuna - disse, ruborizado. - Cerynise, quero que conheça meu pai - disse Beau. - Papai, apresento a minha esposa Cerynise. Ela recolheu timidamente as dobras volumosas do roupão e executou uma nervosa reverência. - Encantado de voltar a vê-lo, senhor Birmingham. - Por mil demo...! Beau pigarreou e dirigiu um sorriso a seu pai, que tornou patente seu arrependimento com um sorriso irônico e o rápido arqueamento de uma sobrancelha.


- Deve ser hereditário - disse Cerynise, com um brilho zombeteiro no olhar. - Tem diante de si, o homem de quem eu aprendi - assegurou-lhe Beau. - Desculpa, Cerynise - disse-lhe Brandon, inclinando ligeiramente o tronco. - Meu filho pelo visto desfruta me deixando estupefato. Cerynise riu, compadecida. - Eu tive a mesma experiência, senhor Birmingham. - Sua esposa, disse - assinalou Sterling, atraindo a atenção dos outros três. - Significa isso que a anulação já não tem lugar? - Exatamente - afirmou Beau com um sorriso. - E lamentamos que não recebesse nossa nota. Fui esta tarde a procurar Cerynise e a ajudei a fazer a bagagem. Insisto em que deixamos a mensagem em seu estúdio, mas vá se saber onde estará agora. - Reparando na expressão perplexa de sua esposa, fez uma breve pausa e explicou o acontecido. - Acredito oportuno que saibam que nem Cerynise nem eu queríamos estar separados, mas que tínhamos um conceito errôneo sobre os desejos um do outro. Pedimos perdão por lhes deixar preocupados, embora nós não o estivéssemos menos. - Você terá que contar tudo isso a sua mãe - interveio Brandon. - Amanhã durante o jantar é uma boa hora, ainda que um pouco tarde. Se tiver outros planos é melhor que os cancele. Sua mãe levaria a mal se não apresentasse sua nova nora com a maior rapidez. Beau riu entre dentes. - Lá estaremos, papai. Brandon pegou a mão de Cerynise e a beijou com galanteria. - Estamos orgulhosos de você, querida. - Obrigada, senhor Birmingham. - Me chame de papai, igual a Beau - disse Brandon. Lhe piscou um olho, e acrescentou com dissimulação: - Às vezes gosta de fazer com que me sinta velho, só para pôr a prova minha paciência. Mas caramba! Sabe muito bem que não são mais que bobagens. Cerynise cobriu a boca com a mão para conter a risada, mas de pouco lhe valeu, porque ao mesmo tempo Beau estalava em gargalhadas. Não demoraram para abraçar-se, enquanto Sterling Kendall se somava ao alvoroço geral.

CAPÍTULO 14

Todos os Birmingham se reuniram em Harthaven para dar à Cerynise as boas- vindas oficiais à família. Sterling Kendall também fora convidado. Depois de tantos anos de vida solitária, o professor ficou um pouco pasmado pelo efervescente bate-papo das mulheres e o engenho agudo dos homens. Além da família imediata de Beau se achavam presentes o noivo de Suzanne, Michael York, o irmão de Brandon, Jeff, sua cunhada Raelynn e os quatro filhos do casal, o mais velho dos quais era Barclay, um jovem de vinte anos que preferia que o


chamassem Clay. Stephanie, moça de dezoito anos e cabelo acobreado, devia casar-se no ano seguinte com Cleveland McGeorge, rico comerciante. Embora Cleve fosse nativo de Nova Iorque, mudou-se para Charleston em época recente, e era dono de um estabelecimento de arte. O segundo filho de Jeff, Matthew (ou Matt), acabava de completar os quinze, e Tamarah, a menor, tinha nove. Era dos quatro quem mais se parecia com seu pai, por seu cabelo negro e seus olhos verdes. Depois de ser apresentado a todos os membros da família e conversar um pouco com cada um, Sterling não demorou para chegar à conclusão de que formavam um grupo interessante, inteligente e encantador, capaz de fazer com que uma pessoa alheia à família se sentisse a vontade e bem integrada em sua unidade íntima. Também menos aflita ficou Cerynise pela imediata aceitação de que se sentiu objeto, até o ponto de que pouco depois de chegar já trocava confidências com Brenna, com quem logo ficou unida por uma fiel amizade. Supôs que a mãe de Beau teria menos de quarenta e cinco anos, embora na verdade era que Heather Birmingham tinha o aspecto de uma mulher de trinta. Era miúda e de pequena estatura, igual a Brenna, e ainda não apareceu nenhum fio branco em seu cabelo negro. Ao lhe ser apresentada sua nora, Heather sorriu e lhe pegou ambas as mãos, declarando estar adorando tê-la na família. Continuando, a senhora de Harthaven se encarregou de apresentar Cerynise a outros, enquanto Beau fazia o mesmo com Sterling. Heather não se esqueceu de mostrar a casa a sua nora, iniciando sua ronda pelos aposentos superiores que Beau ocupara quando menino e adolescente, e lhe pedindo que os considerasse desde já como seus. Em seguida lhe apresentou à criadagem, cujos louvores cantou em especial a uma

mulher de cor chamada Hatti. O fato de que aquela mulher

corpulenta e de cabelo cinza tivesse intervindo no parto de Brandon, e depois no de todos outros Birminghams, convertia-a em respeitado pilar da família. Só quando a totalidade dos comensais ocuparam seus assentos na longa mesa examinou Cerynise a sala e reparou que o quadro cuja compra desaconselhou ao Beau uns meses atrás ocupava um lugar bem destacado na parede, junto ao aparador, flanqueado por dois spots de porcelana. Iluminava-o a cálida luz de várias velas, que o realçavam de maneira que não podia ser melhor. A surpresa de Cerynise foi tão absoluta que a deixou boquiaberta. Voltou-se para Beau, que estava ajudando-a a sentar-se. - O que lhe dizer, senhora? - Beau sorriu e encolheu os ombros. - Eu gostei tanto que o comprei para meus pais. - Parece-me uma obra muito bela - disse Heather com orgulho de seu lugar de honra em um extremo da mesa, - e me satisfaz ainda mais que o tenha pintado minha nora. O noivo de Stephanie o julga o melhor que já viu, e teria supremo interesse em ver mais quadros seus e tratar de sua possível venda. Não pôs nenhuma objeção em que o artista fosse mulher. Cleve nos assegurou que o que seriamente conta é a qualidade do quadro, não o sexo da pessoa que o tenha pintado. - Logo deveríamos receber mais obra suas - anunciou Beau, - mas eu tenho prioridade... por ser seu marido...


- Vejo-te muito feliz por esse título - respondeu Heather com afeto. - Sim, mamãe - admitiu Beau, sorrindo ao mesmo tempo que ocupava sua cadeira e segurava os dedos esbeltos de sua esposa. Querendo recordar a sua mãe todas as ocasiões em que lhe aconselhou não perder o tempo com tal ou qual atraente moça, acrescentou: - Não há dúvida de que com esta sim vale a pena ficar. - Já me dei conta, querido - disse Heather com doçura. - O que me recorda que devo convidar a algumas damas de Charleston e seus arredores para que conheçam Cerynise. - Seu olhar se posou em quem se converteu em sua filha por matrimônio. - Parece boa idéia para você, querida? - É claro, senhora Birmingham. - Agora é da família, Cerynise - respondeu Heather, rejeitando o tratamento formal com uma risada afável. - Basta de senhoras Birmingham ou tudo serão confusões. Me chame Heather, mamãe ou algo semelhante. - Eh, inglesa! - exclamou Jeff do outro lado da mesa, piscando o olho para Brandon. Ouvi dizer que vai ser avó. Tem certeza que tem idade? - Cale-se, patife - replicou Heather, movendo a mão e sorrindo de modo zombeteiro. Que você e seu irmão levassem com calma a procura de uma esposa não significa que meu Beau tenha que seguir seu exemplo. Fez igualmente bem na quase a metade de tempo. - Uf! - exclamou Jeff entre risadas. - Como fica má quando se zanga, inglesa! Heather atirou outra estocada sem perder o sorriso. - Só demorou quinze anos em se dar conta. Se não te conhecesse suspeitaria que é um pouco retardado. - A contrariedade exagerada que Jeff fingiu suscitou tanta risada como a luta verbal que se faziam. Raelynn, que estava sentada ao lado dele, levou o guardanapo à boca para silenciar uma risada aguda, e depois de trocar olhares divertidos com sua cunhada inclinou a cabeça em sinal de assentimento. - Vá com cuidado, irmão - advertiu Brandon, zombeteiro. - Agora que tem outra filha a seu cargo Heather se sente mais em forma que nunca. - Cada dia está mais batalhadora - disse Jeff. - Acho que já me deixou bastante maltratado. Raelynn o consolou com umas batidinhas na mão. - Ninguém o merece mais que você, querido. - Por Deus! - exclamou Jeff, consternado. - Com que harpias nos casamos! - Você sempre tão brincalhão, tio Jeff! - disse Suzanne, rindo com seu noivo. - Sabe perfeitamente que adora a todas as mulheres da família Birmingham, e que não trocaria a nenhuma por todo o ouro da China. - Mas existem outras mulheres? - perguntou Jeff, olhando ao redor com fingido desconcerto. Quando a hilaridade diminuiu, Suzanne olhou para Beau e Cerynise e perguntou com


marcado interesse: - Virão a meu baile de compromisso, não é verdade? - É obvio, princesa - respondeu Beau carinhosamente. - Não perderíamos isso por nada do mundo. - Espero encontrar um vestido bastante folgado - atravessou Cerynise com ironia. Caso contrário talvez tenha que vestir um barril. - É possível que madame Feroux possa ajudar você - sugeriu Brenna. - Com certeza que a esta altura as demais mulheres já acabaram seus vestidos. -Dirigiu a seu irmão um olhar malicioso. - Madame Feroux tem ao Beau em particular apreço, e com certeza que pedindo-lhe ela trabalharia dia e toda a noite para lhe confeccionar um vestido maravilhoso, só para agradá-lo. - Cale, descarada - avisou Beau. Seu sorriso zombador desmentia o seu olhar turvo. - A única coisa que deseja é colocar joio. Os olhos azuis de Brenna, voltados para sua mãe, brilharam com malicia. - Mamãe, não imagina o que me contaram o outro dia sobre madame Feroux. Quer acreditar que Germaine Hollingsworth teve a desfaçatez de lhe dizer que já via próximo o momento em que Beau pediria sua mão? A pobre mulher, acreditando que era certo, ficou alvoroçadíssima. - Imagino - murmurou Heather, agradecida de como saíram por fim as coisas. Brenna franziu o sobrecenho com simulada confusão, mas em seus olhos continuava presente uma faísca de brincadeira. - O que fará com duas esposas, Beau? - perguntou a seu irmão. Beau, consciente de que Cerynise aguardava uma resposta, reagiu com um certo apuro. - Não tenho nada que ver com Germaine. O outro dia a levei em minha carruagem, mas só porque nos tínhamos sentado juntos por acaso nas bodas de um amigo comum. - Por acaso? - Brenna, incrédula, arregalou os olhos. Chegou a seus ouvidos uma porção de rumores promovidos pela própria Germaine, com a pretensão, sem dúvida, de afastar de Beau outras jovens solteiras. Brenna estava segura de que Cerynise acabaria ouvindo essas mesmas imbecilidades da boca de algum incauto, indo às compras por Charleston nos meses vindouros. Provavelmente era Brenna o membro da família Birmingham que mais acreditara na indiferença de seu irmão para a candidatura de Germaine como esposa, sentimento de que queria informar ao Cerynise. Apresentou diversas conjeturas com o objetivo de trazer à luz as reticências do Beau. - Suponho que estaria sentado em um banco da igreja e que Germaine se colocou a seu lado por acaso; e suponho que lhe pediu o favor de levá-la, quando certamente teria sua própria carruagem à volta da esquina. Quando entenderá, meu querido irmão, que sempre o viram como o peixe mais gordo de um lago muito pequeno? Já faz tempo que suas admiradoras se dedicam a jogar redes com a esperança de pescar você. Talvez isso explique a excessiva confiança de Germaine. É verdade que ninguém se esforçava como ela. Heather e Brandon se olharam fugazmente dos extremos da mesa. Só o pai de Beau


conhecia a intensidade da preocupação de sua esposa desde que ambos repararam na intensa campanha posta em marcha por Germaine para fazer dela, o

jovem capitão. Em anos

anteriores circularam muitos falatórios sobre a bela jovem, sem que chegasse a demonstrar-se nenhum. Os pais de Beau foram muito conscientes do perigo de que seu filho cedesse ao encanto de Germaine e se deitasse com ela. Ficasse ou não grávida, Germaine teria ido a seu irascível pai para queixar-se de que estiveram brincando com ela. O senhor Hollingsworth era muito capaz de obter respostas adequadas em uma cerimônia nupcial apontando, dissimuladamente, uma pistola para a cabeça do noivo. Brenna seguiu demonstrando sua afeição em zombar de seu irmão. - Madame Feroux diz que outro dia entrou com Germaine em seu estabelecimento, Beau, e foi justamente depois de que Germaine predisse suas bodas com você. Por que ir a uma loja de modas com Germaine se não pensava casar com ela? Beau suspirou, exasperado. - Percebeu

alguma vez que madame Feroux possui a assombrosa habilidade de

espalhar tudo quanto sabe com exceção do que vem a ser mentira? Certamente esqueceu de mencionar que fiquei um máximo de dez minutos, e que saí em seguida... sem Germaine. - Beau, por Deus, não há necessidade de que se zangue tanto! - reclamou Brenna com doçura, satisfeita pelo rubor que aparecia no rosto de seu irmão. Estava bastante orgulhosa de havê-lo incitado a revelar sua precipitada partida, da qual já lhe informou madame Feroux. Certamente Cerynise não é ciumenta. - Ao contrário - corrigiu-a a beldade de cabelos acobreados, sorridente. - No que se refere a Beau asseguro que o sou, e muito. Germaine me avisou que não me aproximasse dele, e não posso ouvir seu nome sem receio. - Diz que Germaine advertiu você com palavras para que se afastasse de Beau? perguntou Heather, atônita. - Como se atreve? - Permitem-me mudar um momento de assunto? - suplicou Brandon para dar uma mão a seu filho. - É claro, papai - se apressou a dizer Beau, aliviado por sua intervenção. O assunto de Germaine começava a ameaçar seu bom humor. - Se se vê com forças para fazer um comentário nesta família, adiante, tente isso. - Justamente é a você a quem quero fazer - respondeu Brandon, arqueando uma sobrancelha. - Me responda a uma pergunta. Beau estendeu as mãos em sinal de obediência. - Sou todo ouvidos, papai. - Olhe, não tenho nada contra monsieur Philippe. É um cozinheiro excepcional, mas não acha que utilizá-lo como mordomo e criado é aproveitar-se dele? Seu filho encolheu os ombros. - Quando voltei de viagem e entrei em minha casa só havia uma criada trabalhando, enquanto os outros se dedicavam a observá-la sentados comodamente. Despedi a todos salvo


ao Thomas e à garota, e não via a hora de fazê-lo. - Isso está muito bem, filho - respondeu seu pai, - mas me deixa muito nervoso que me abram a porta e me ponham em frente de um homem armado com uma faca de açougueiro. Receio que o susto me dure até o leito de morte. A mesa inteira estalou em gargalhadas ao imaginar-se ao alto e robusto anfitrião olhando com olhos como pratos ao miúdo cozinheiro, provavelmente alheio à reação que provocou sua faca. Cerynise teve um ataque de riso que a obrigou a segurar o estômago com os braços. - Esta família é o grupo de gente mais encantado que conheci em toda minha vida declarou, enxugando-as lágrimas, - mas não posso rir mais. Dói muito. Brandon levantou sua taça de vinho e propôs um brinde, sorrindo a sua nora com efusão. - Bem-vinda à família, querida. Seguiu-se um coro entusiasmado de sins, demonstrando a unanimidade do sentimento. Não havia dúvida de que Cerynise já formava parte da família. Duas semanas mais tarde Harthaven era um formigueiro de mulheres convidadas para conhecer a esposa de Beau. Chegaram carruagens durante toda a manhã, derramando hóspedes impaciente por ver de perto à nova senhora Birmingham, quem, segundo todas as informações, já estava grávida. Sabiam-se algumas coisas de Cerynise Birmingham. Era nativa da zona, fato que aliviava a algumas damas, dadas as manifestas preferências da anterior geração do Birminghams pelas estrangeiras. Viveu um tempo em Londres e acabou sua educação na dita capital, detalhe que constituía outro ponto a seu favor, já que, apagada a lembrança do malestar produzido pela guerra da Independência, tudo que era inglês estava na moda. Sua tutora, a falecida Lydia Winthrop, longe de reprimir a afeição de sua protegida à pintura, tinha-lhe proporcionado os melhores professores, com o resultado de que Cerynise lidava com os pincéis com enorme talento. Precisamente, Heather e suas duas filhas estavam posando para um retrato, cuja realização estava em mãos de Cerynise. Com esse objetivo, as três estavam acostumadas a reunir-se um mínimo de três vezes por semana na residência urbana de Beau Birmingham. De vez em quando se se juntavam os homens Birmingham mais velhos, e em certas ocasiões podia ver-se toda a família saindo para jantar ou assistindo a uma representação teatral, junto com o noivo de Suzanne, Michael York. Murmurava-se deste modo que Cerynise era de boa família, embora algo alheia ao mundo das reuniões sociais. Os Kendall foram sempre uma família de sólida formação acadêmica, e se dizia que Cerynise seguia a tradição, idéia que surpreendia a quem conhecia ao Beau de tempos atrás. Ao julgamento destes, o que valorizava o capitão não era tanto a mente feminina como outras coisas, e isso os levava a perguntar-se em particular Cerynise o satisfaria na cama. Fazia aproximadamente uma semana que madame Feroux dava uns quantos detalhes


mais sobre Cerynise a qualquer dama que entrasse em seu estabelecimento. "As jóias que o senhor Beau deu de presente para sua jovem esposa são esplêndidas! A senhora Cerynise trouxe o colar de pérolas só para ver como ficaria com o vestido que estou lhe fazendo, e confesso não ter visto jamais jóia comparável! Um exagero! Falando do assunto, viram sua aliança? Tem brilhantes em toda sua circunferência! E o vestido que pensa levar no baile de noivado da senhorita Suzanne é certamente o mais caro que tenho feito em toda minha carreira. O senhor Beau encomendou-o pessoalmente depois de ter passado pela loja com sua esposa. Oh, e teriam que ver como se tocavam! Que coisa mais divina! Nunca vi nenhum cavalheiro demonstrar tanto carinho por sua esposa com um simples toque de mãos. E a senhora Cerynise tem a elegância de um cisne, embora se encontre grávida... Está no mínimo com quatro meses, mas sei de boa fonte que se casaram na Inglaterra. Imagine, encontrar-se por acaso em outro país quando fazia tantos anos que se conheciam! E assim até o infinito. Tantos comentários não faziam mais que avivar a curiosidade das demais mulheres, que, como não podia ser menos, sentiram a necessidade de ver por si mesmas Cerynise Birmingham, embora só fosse para saber que classe de esposa escolheu Beau Birmingham. Assim, uma autêntica avalanche de mulheres caiu sobre Harthaven. - Segundo sua mãe ninguém recusou o convite - assinalou Brandon por cima do ombro, olhando pelos vitrinas de seu estúdio, onde se tinham refugiado ele e seu filho aproveitando o único remanso de paz de uma casa invadida por mulheres. Deteve-se outra carruagem no caminho de entrada. Nesta ocasião, o cocheiro ajudou a descer a uma anciã de cabelos grisalhos, e a acompanhou pela escada da mansão. - Valha-me Deus! Já deve haver cem pessoas ou mais, e agora parece que vêm até as bisavós. Beau se uniu a seu pai no observatório e lançou um olhar ao alpendre. - É a senhora Clark, não? - Sim, Abegail Clark. - Fazia anos que não a via. Confesso que acreditava que estava morta. - Essa mulher tem muita energia para deixar-se morrer. Beau se voltou para o relógio de parede do estúdio. Depois se aproximou da porta, abriu-a e apareceu nela como um precavido ratinho olhando por um buraco. Comprovou, consternado, que até o vestíbulo estava cheio de convidadas. Virtualmente não cabia nem um alfinete. - Parece-me que tem razão, papai. Deve haver cem pessoas ou mais. Por todos os diabos! Quanto tempo vai durar? - Muito pouco para o que planeja - respondeu Brandon com sorriso malicioso. Beau se voltou. - E que descida? -perguntou. - De como olha o relógio, intuo que está pensando fugir logo com Cerynise. Acho que suas esperanças excedem o verossímil. As sobrancelhas de Beau se arquearam.


- Pois é o que previu. Está para chegar um carregamento da Inglaterra, e queria que Cerynise me acompanhasse. - Do que se trata desta vez? - Das pinturas de Cerynise. Brandon não pôde reprimir um sorriso. - Eu achava que só queria voltar com ela para a cama. Beau lhe dirigiu um olhar de surpresa. - O que o leva a pensar isso? - Pois olhe, filho, desde que se instalou em sua casa só tem olhos para ela, e a julgar por seu bom humor adivinho que lhe agrade em extremo. Não posso senão elogiar a sabedoria de quem tem demonstrado, não deixar passar um ano inteiro antes de compartilhar sua cama com ela. Nem todos os homens são tão preparados. O talento mordaz de Brandon fez seu filho rir. - Não se castigue muito, papai. Sua relação com mamãe é melhor que a que têm a maioria dos homens com suas amantes. - Sim, mas ela é melhor que qualquer amante. Os lábios de Beau tremeram de regozijo. Desde que ele também estava casado era muito mais divertido brincar com seu pai. - Me diga uma coisa, papai. Quando um homem alcança sua idade, ainda pode... funcionar? Você me entende... na cama... Brandon se mostrou escandalizado. - Droga, filho! Por quem me toma, por um eunuco? Talvez surpreenda você saber que sua mãe ainda se pergunta a cada mês se estará ou não grávida. - Perdão, perdão! - Beau estendeu as palmas para cima e retrocedeu como se tivesse medo de que seu pai fosse lhe dar umas palmadas. É claro, o brilho malicioso de seus olhos o desmentia. Peralta, jogou mais sal na sensível pele de seu progenitor. - Com os casais mais velhos nunca se sabe... se terão vigor para... mmm... acabar... o que começam. Brandon bufou. - Quase tenho vontade de deixar grávida a sua mãe só para te dar uma lição, moço. Por Deus! Quase nem lhe saiu a barba e já se toma por muito velho! Ja! - Vejo-te muito suscetível ao tema da idade, né, papai? - seguiu cravando Beau. - Tendo em conta quão jovem é mamãe, possivelmente tenha medo de que dentro de uns anos já não possa satisfazê-la. - Vou lavar com sabão essa boca que tem - replicou Brandon. Beau se atreveu a aproximar-se o suficiente para pôr no ombro de seu pai uma mão consoladora. O fato de que fosse quase tão musculoso como ele mostrava que nenhuma debilidade afligia ao Brandon. - Não tem importância, papai. Com certeza que quando chegar a hora mamãe saberá entendê-lo. - Juro que esta casa é muito pequena para os dois... e não refiro a sua mãe. Beau encolheu os ombros, sorrindo de modo zombeteiro.


- Isso já sei, papai. Por isso tenho casa própria em Charleston. - É uma sorte. - Brandon riu. - Embora com a gravidez de Cerynise sua mãe preferisse que vivesse mais perto. - Parece-me que está mais contente de que me tenha casado com o Cerynise que um gato com um prato de nata. - Com certeza. Para ela não há maior alegria, sobretudo se se pensar que houve um tempo em que você parecia se encaminhar em uma direção mais... mmm... mundana. Beau levou um tempo para decifrar o comentário. - Não se refere à Germaine Hollingsworth! - perguntou por fim, surpreso. - Não me ocorreu que pudesse tomar essa direção - assegurou-lhe seu pai. - Quem estava inquieta era sua mãe. Beau se pôs a rir. - Com certeza se me tivesse casado com Germaine e houvesse trazido ela para casa mamãe teria perdido os estribos. - Como pode dizer isso? - disse Brandon, rindo entre dentes. - Sabe tão bem como eu que sua mãe é a pessoa mais doce e atenciosa que existe. - E o que me diz de seu mau gênio irlandês, e do inflexível de seu caráter? Brandon sorriu. - Isso nunca me importou. Nunca me deu motivos. À Germaine, em troca, poderia ter dado. Nesse instante, e confirmando a hipótese, Germaine experimentava certa hostilidade para com a senhora de Harthaven. Achava-se perto do um aposento onde conversavam Beau e seu pai, sentada e com um sorriso falso em seu rígido semblante, embora por dentro lhe fervesse o sangue. Não suportava ver como objeto de tantas atenções à moça que anos atrás fora alvo das brincadeiras de seu grupo de amigas. Por toda parte ouvia louvores a quem em tempos merecia o desdenhoso apelido de Palitinho. Certamente, desde que se desenvolvera, Cerynise já não parecia tão alta. Germaine tomava quase como uma afronta pessoal, e dizia para si mesma: Como se atreve essa boba a voltar tão bonita e serena? Como se não fosse deste mundo. Heather Birmingham adorava a sua nora e fazia o quanto estava em sua mão para protegê-la, até o extremo de que em certas ocasiões mostrava a ferocidade de uma gata defendendo a seus pequenos. Fazia muitos anos que a sociedade de Charleston se desfazia em elogios sobre o Heather, a quem descreviam como uma pessoa amabilíssima, doce e compassiva, cheia de encanto. Pois bem, pode-se dizer que aqueles olhos de safira eram capazes de cravar-se em uma pessoa e produzir autêntico pavor, fato de que podia dar fé Germaine, estremecida ainda ao recordá-lo. Pouco importava que tão gélido olhar se dirigisse à culpada de ter agredido Cerynise com um comentário afiado. Continuava sendo a mais letal que recebera Germaine em toda sua vida. Possivelmente isso foi o que permitira à Heather manter um férreo controle sobre seu


marido, pensou Germaine ressentida, pegando sua xícara e bebendo um gole de chá. Ser durante tantos anos a esposa de um homem de vontade tão forte como era Brandon Birmingham não podia ser tarefa fácil. Não obstante, e segundo todas as fontes, Heather o dirigira com surpreendente destreza. Deram-se casos em que um desconhecido assinalava que cada vez que o casal entrava em um aposento a riqueza sensual de seu matrimônio se fazia quase evidente. As escassas dúvidas que albergara Germaine sobre sua meta de casar-se com o Beau Birmingham tinham como causa principal o temor de que se parecesse muito a seu pai e não fosse fácil de levar. Também temeu que não lhe consentisse tantas coisas como tinha por costume desde menina. Seus pais sempre atenderam a todos seus desejos, e Germaine se perguntava com certa frequência se Beau se mostraria menos maleável. Tal temor não se viu confirmado no caso de Cerynise, a julgar pelo anel de safiras e a aliança de brilhantes que levava aquela néscia de juba acobreada, anel e aliança cujo aspecto quase fazia Germaine engasgar de inveja. Deixou a xícara no pires e, agarrando no voo a oportunidade que lhe apresentava um parêntese na conversa, comentou com doçura: - A propósito, Cerynise, não recordo que nos tenha contado como se conheceram você e Beau. Foi muito romântico? Apesar da desconfiança que sentia para com

aquela mulher e seus insidiosos

comentários, Cerynise riu alegremente. - Estive apaixonada pelo Beau Birmingham desde que era aluno da escola de meu pai! Germaine corrigiu a sua rival com um sorriso forçado. - Não me referia exatamente a isso. Todas sabemos que foi aluno de seu pai. O que queria saber é como se encontraram em Londres. Imagino que sua tutora teria proibido você confraternizar com marinheiros. Durante seus cinco anos de ausência Cerynise aprendera a tratar com serpentes do estofo do Germaine. A melhor maneira de embotar o fio de seus sarcasmos era manter-se serena e ser sincera. - Depois da morte da senhora Winthrop, pareceu-me razoável retornar a Charleston. Quando comecei a me informar a respeito de que navios efetuavam a travessia às Carolinas disseram que a fragata de Beau estava ancorada em Londres. De uma coisa passamos a outra, e decidimos nos casar antes de zarpar. Heather sorriu, encantada pela elegância com que sua nora respondera a quem pretendia erigir-se em sua torturante. Era consciente de que o tema não se esgotava no pouco que lhe tinha contado seu filho, nem no que acabava de desvelar sua nora; entretanto, não foi informada

pessoalmente

de

todos

os

detalhes.

Tampouco

acreditava

necessário.

Contrariamente ao que imaginavam todos os membros da família, sabia que seu filho não era nenhum santo. Parecia-se muito a seu pai para acreditar em tão descabelada hipótese. Tanto fazia que o matrimônio se celebrasse por bem ou por mal; em ambos os casos, Heather se


alegrava de que Beau tivesse conseguido casar-se com uma jovem de quem se podia estar orgulhosa, e que virtualmente o idolatrava. - Confesso não entendê-lo - repôs Germaine com o sobrecenho franzido, fingindo perplexidade. - Esteve Beau em Londres o tempo necessário para um noivado formal? Ou terei a ousadia de supor que seu matrimônio foi fruto de uma flechada? - Inclinou a cabeça e, pensativa, colocou um dedo na face. - O mais estranho de tudo é que o outro dia, quando nos encontramos frente ao estabelecimento de madame Feroux, pareciam se conhecer. As conversa em que até então estiveram envolvidas algumas damas se apagaram, até que todos os ouvidos ficaram pendentes da convidada de honra, e todos os olhares fixos nela. - Beau e eu tratávamos de manter em segredo nosso matrimônio - respondeu Cerynise sem alterar-se, - embora acredite que isso já lhe tinham explicado. Quando vi você com ele, logicamente, fiquei estupefata, até que Beau me explicou que você lhe pedira acompanhá-lo em sua carruagem, saindo das bodas de uma amiga comum. Contou-me além disso que só esteve uns dez minutos dentro do estabelecimento de madame Feroux. Germaine se sentiu como se tivesse topado inesperadamente com um porco-espinho. Acreditara que a revelação de que Beau acompanhou a outra mulher à costureira deixasse a sua rival em evidência, mas o fato de que a própria Cerynise acabasse de expor as circunstâncias exatas do episódio, como se as tivesse comunicado um marido solícito, deixavam-na a ela, Germaine, em posição pouco graciosa, já que todas as presentes sabiam agora que Beau se apressara a afastar-se dela. - É verdade que na sua volta se alojou em casa de seu tio, o professor Kendall? inquiriu Irma Parrish, uma mulher madura que apesar de sê-lo se aferrava à juventude com trajes mais indicados para quem tivesse a metade de seus anos. Era deste modo uma famosa intrometida, além de prima de Germaine, o que as as convertia em aliadas naturais. - Havia algum motivo para isso? - Fazia cinco anos que não via meu tio -respondeu Cerynise, - e como no momento nem Beau nem eu desejávamos fazer público nosso casamento, o mais lógico era me hospedar com o tio Sterling. - Bem, mas por que mantê-lo em segredo? - insistiu Irma. - É certo que nos casamos sem muitos preâmbulos, e como a pressa teria dado pé a muitas hipóteses... Enfim, suponho que entenderá que que em relação à opinião pública deveria respeitar certo tempo de noivado antes do matrimônio. Não lhe parece? Irma abriu e fechou sua boca repetidamente, como peixe afogando-se fora da água, até que conseguiu pronunciar uma resposta muito idiota. - Sim, suponho que sim, mas continuo sem entender que ficasse em casa de seu tio... Ou o fazia para evitar uma mudança de assunto ou era tola, concluiu Cerynise. Mesmo assim respondeu o mais pacientemente que pôde. - Em que outra casa podia ter ficado? O tio Sterling me ofereceu isso encarecidamente, e


Beau teve a amabilidade de dar seu consentimento, de acordo com nossa decisão de nos mostrar como simples amigos. - Outra amostra de amabilidade por parte do Beau - assinalou Germaine, pensativa. Que nobreza a sua! Também se casou contigo por amabilidade? A pergunta foi formulada com tanta habilidade, e sem perder o sorriso, que Cerynise sofreu uns segundos de desconcerto. Esquecera como viperina podia ser Germaine, mas sua experiência no trato com mulheres crescia a marchas forçadas. De menina, seu único desejo fora livrar-se daquela perita em maledicência; agora, entretanto, as implicações da pergunta a encheram de ira. Ficou tensa, com as costas muito erguidas. Chegou o momento de que Germaine Hollingsworth lamentasse o dia em que lhe tinha ocorrido pela primeira vez deixar em evidencia o Palitinho. - Seriamente acha que Beau poderia casar-se com alguém por pura amabilidade, Germaine? Isso significaria que você formou uma idéia muito errônea do que ele procura em uma esposa. Beau não é nenhum cabide de enjoativas maneiras, desses que se esforçam por satisfazer quantos caprichos ocorram a seu cônjuge. É muito mais exigente, embora imagine que se trata de um aspecto que só conhecem bem as mulheres casadas. O enigmático sorriso que acompanhou à conclusão dava a entender que Cerynise poderia ter acrescentado muitas coisas mais para ilustrar à Germaine e ao resto de seu atento auditório. O que disse era suficiente para insinuar que, em qualidade de jovem pudica, estava sendo pelo menos discreta. Heather sorriu encantada. - Alguém quer mais chá? - perguntou alegremente, fazendo sinais a um criado para que trouxesse mais sanduíches e bolo para as damas. Abegail Clark trocou de posição em seu assento, movendo seu frágil corpo com a ajuda da bengala. - Todas estas perguntas me recordam o que teve que suportar Heather quando Brandon a trouxe da Inglaterra. Eu não gostei então e continuo sem gostar disso. O fator decisivo foi uma contribuição de Martha Devonshire, ligada por nascimento e matrimônio às famílias de maior ascendência das Carolinas, quando, examinando Cerynise com suas impertinentes, disse: - Nunca fui do parecer de que a viagem fizesse bem a alguma mulher de qualidade, mas devo admitir meu engano. Jamais vira alguma jovem tão formosa e elegante. Pronunciado seu juízo, a imponente matrona se reclinou em seu assento, enquanto as demais mulheres assentiam obedientemente com a cabeça. Poucas se teriam atrevido a contradizê-la. A reunião acabou uma hora mais tarde, e as convidadas partiram a contra gosto. Muitas delas teriam preferido ficar um pouco mais, porque tinham descoberto em Cerynise uma personagem muito interessante. Depois de surpreender em seu filho um olhar carrancudo, Heather se despediu de suas hóspedes com maneiras de boa anfitriã, e ao acompanhá-las à porta recordou que voltariam a ver Cerynise no baile de noivado de Suzanne. Assim, quando


partiu a última convidada a tarde quase empreendeu sua reta final. Beau entrou em casa de volta de um passeio com o qual tentou dissipar seu nervosismo, e se apressou a recolher a capa e o chapéu de sua esposa. - Desculpa minha pressa, mamãe, mas tenho que voltar para Charleston. Foi muito mais longo do que esperava. Deu um rápido beijo de despedida a sua mãe. Brandon saiu ao alpendre e se despediu do casal ao lado de sua esposa. Desaparecida a carruagem na distância, rodeou com um braço a fina cintura de Heather e lhe sussurrou ao ouvido: - Você gostaria de ter outro filho, senhora? - Heather deu um pulo. - Por todos os santos! A que vem isso? - Beau não acredita que continuamos sendo capazes de copular. A senhora Birmingham abraçou a seu marido pela cintura e respondeu entre risadas: - Isso é porque o conhece pouco, mas mudará de opinião quando tiver sua idade. No momento acho que deveríamos projetar uma viagem a bordo do Audaz, e não outro filho. Beau planeja levar Cerynise para alto-mar depois que tenha nascido o bebê, e você sabe muito bem que nunca se esqueceu por completo de seu amor pela navegação. - Diz isso porque quer estar com seu neto - acusou-a Brandon com sorriso zombeteiro. Heather acariciou com admiração o peito musculoso de seu marido, e ergueu com coqueteria seus olhos azuis. - Poderíamos passar muito tempo fazendo amor no camarote, e quem sabe com que resultado? - Quando disse que Beau zarpará? Beau se adiantou à sua esposa e se dispôs a lhe abrir a porta da mansão, de cor verde escura e debruada de branco, mas um homem com uniforme de mordomo se adiantou. Jasper! - disse Cerynise, atônita. - Meu Deus! O que faz aqui? O mordomo a olhou dos pés a cabeça e sorriu. - Seu marido me propôs vir a América e me pôr a seu serviço, senhora. Até nos pagou a viagem. - Nos? - Sim, senhora - respondeu Jasper, assentindo com a cabeça e sorrindo de novo. Também estão Bridget e outros, a criadagem completa. Tivemos ocasião de vigiar o traslado ao Charleston de seus quadros. Chegaram sem percalços, e tomei a liberdade de colocá-los no estúdio, junto a outros. Bridget, que ouviu vozes do fundo da casa, aproximou-se com cautela pelo corredor que levava da cozinha ao salão. Cerynise se apressou a penetrar na mansão para saudar a criada. Abraçaram-se e choraram um pouco, mas só de alegria. - Está magnífica, senhorita... quero dizer, senhora Birmingham. Nunca a vira com tão bom aspecto. - Seus olhos empanados repararam na curva da barriga de Cerynise, que nem


um xale podia ocultar a essas alturas. - E vai ter um pequeno. Quanto me alegro, senhora! - Obrigada, Bridget - respondeu Cerynise, acariciando com afeto a mão da jovem. - Mas me diga conhece já a meu marido? - Só vi o capitão Birmingham a bordo do navio no dia em que lhe levamos a roupa, senhora, mas se me tivesse perguntado então já lhe teria dito que algo aconteceria entre os dois. O que não me ocorreu nem em sonhos é que pudessem se casar antes de sair de Londres; ou isso nos disse monsieur Monet. Ainda deve estar um pouco aturdida por ter acontecido tudo tão depressa. - Conheço meu marido desde menina, Bridget, e já então estava apaixonada por ele, de modo que não foi tão repentino como acredita. - Riu discretamente e acrescentou: Possivelmente foi para ele sim. Beau se juntou ao grupo, e uma vez realizadas por sua esposa as apresentações de rigor, perguntou à donzela: - Philippe lhe mostrou onde se alojará? - Sim, senhor. Depois do jardim, na parte da criadagem, e por certo que nunca vi tão bons alojamento para criados. - Espero que os encontre a gosto. - Com certeza que sim, senhor; e obrigada de coração por nos haver ajudado com a passagem e com o resto. Se não nos tivesse dado tanto dinheiro não poderíamos ter feito a viagem. Jasper levou a contabilidade penny a penny, para que saiba exatamente quanto se gastou. - Não é fácil encontrar bons criados. Pagar a viagem a vocês foi um favor que fiz a mim mesmo - assegurou-lhe Beau. - Obrigada igualmente por sua ajuda, senhor. Cerynise inclinou a cabeça e olhou a seu marido com expressão pensativa. - São eles o motivo de que tivesse tanta pressa para chegar em casa? Beau encolheu os ombros e sorriu. - Tinha sua chegada como iminente, mas não podia saber a data exata porque havia muitos fatores capazes de alongar a travessia. Estive me informando diariamente de que navios chegavam da Inglaterra, mas esta manhã não tive tempo. - Parece que vocês gostam de me surpreender, capitão - o acusou Cerynise com uma risada afável. O olhar jovial de Beau pousou na pequena curvatura do abdômen de sua esposa; depois, olhando-a nos olhos, respondeu: - Com efeito, senhora, mas não mais que você. Chegou a noite do baile de noivado de Suzanne. Cerynise dedicou especial empenho a seu aspecto, consciente de que teria que enfrentar não só com Germaine mas também com muitas outras jovens que talvez tivessem posto em Beau suas esperanças de encontrar marido. Madame Feroux e suas costureiras trabalharam noite e dia para ter um modelo azul claro


preparado. Por solicitação de Beau, o vestido fora confeccionado a imitação daquela outra de cor rosa que usou sua mulher na noite em que receberam a bordo a seus companheiros de caça. A mudança mais significativa era a prolongação do corpete, pensada para ocultar o quanto possível a curva do estômago. Caíam debaixo dele com elegância as abundantes pregas de seda e contas da saia. As mangas eram longas e folgadas, como na época dos cavalheiros e as das princesas; o decote, em troca, era em linha reta, a imitação do vestido rosa. Tendo as características mais interessantes de seu antecessor, Beau insistira em não introduzir mudanças. Quanto ao cabelo, Cerynise o recolhera em cima da cabeça para mostrar os preciosos pendentes de pérolas e brilhantes que pendiam de suas miúdas orelhas. Como presente tardio de bodas, Beau lhe dera uma gargantilha de pérolas de oito voltas, com um pendente muito belo rosa e branco rodeado de brilhantes. Cerynise expressara sua gratidão com efusão extrema, porque nunca vira, e muito menos levado, jóia tão deliciosa. Entretanto, e até tratando-se de uma peça cara e muito fina, o método de sua entrega não podia comparar-se com a cerimônia de devoção posta em obra mais tarde por seu marido na hora de lhe dar de presente uma nova aliança. Dobrara um joelho ante ela e, uma vez tirada do dedo da jovem a aliança de ouro e filigrana, fazia ardentes votos de ser um marido fiel e apaixonado. Depois lhe pusera o anel de brilhantes no dedo anelar, tinha-lhe dado um beijo e se pôs em pé para selar o pacto com outro mais exaustivo. A isso seguiu uma noite que dificilmente esqueceriam, iniciada com um jantar íntimo no dormitório, um banho compartilhado na imensa banheira do Beau, ombro com ombro, e uma noite de amor como era de se esperar de um casal de recém casados. Quando a tarde anterior ao baile de noivado de Suzanne se aproximava de seu fim, Beau pediu ajuda à Cerynise para amarrar a gravata. O fato já era bastante normal para que ela não receasse de seus motivos. Só começou a intuir algo estranho quando Beau inclinou a cabeça e lhe sussurrou ardorosamente ao ouvido: - Delicioso panorama. Ao abaixar a vista, Cerynise descobriu que uma porção generosa de seus peitos era visível pelo decote. Então levantou a cabeça e olhou aos olhos do Beau, que brilhavam. - Estava certa de que já o vira. - Sim, mas desta vez não tenho que colocar as mãos nos bolsos. Posso tocar o que vejo quanto me vier a vontade, sempre que o lugar e o momento nos concedam a necessária intimidade - murmurou Beau, roçando a têmpora de Cerynise com seus lábios e desabotoando o vestido por detrás. O corpete de grávida, enfeitado de jóias, deslizou dos ombros de Cerynise com um frufru de seda e ficou pendente da cintura, deixando que a tênue camisa de cambraia bordada moldasse o arredondado de seus seios. Parecia que um estranho sortilégio imobilizara Cerynise, que, com sensualidade, despojou-se das alças e acelerou com suas mãos a descida da roupa interior, até que também


esta ficou pendente de sua cintura. As brancas esferas, de rosados topos, elevaram-se orgulhosas, como que convidando a que Beau as provasse e tocasse. A boca deste tomou posse, percorrendo com demora as incitantes e escuras carnes, saboreando o doce néctar das flexíveis cúpulas e arrancando suspiros de prazer de sua cúmplice esposa, muda de entusiasmo pelo toque de lábios e língua em sua pele nua. Seus mamilos estremeceram, pedindo mais. Então arqueou as costas para oferecê-los ao Beau, que não desperdiçou a ocasião. Suscitando em sua esposa entrecortados arquejos, beijou-lhe os seios milímetro a milímetro, deixando-os brilhantes pela umidade de seus quentes lábios. Transcorridos longos instantes, beijou o pescoço de cisne de Cerynise e capturou sua boca com igual voracidade. Ao fim do longo beijo, Cerynise, que ficou sem forças nem equilíbrio, apoiou-se em seu marido e lhe suplicou: - Mais. - Quando voltarmos para casa - murmurou ele com voz rouca. Sem afastar a vista dos olhos cristalinos da jovem, cobriu seus seios e seus ombros e voltou a abotoar a parte superior do vestido. - Prometo-lhe isso. - Mas se me tirou toda a vontade de sair de casa! - sussurrou ela, trêmula. - Passarei a noite desejando você. - Era esse o meu objetivo - murmurou Beau entre risadas, lhe acariciando a pele com seu quente fôlego. - Cada vez que dançarmos uma valsa, cada vez que nos olharmos ou nos tocarmos, encherá-nos de paixão este episódio, e pensaremos no que nos espera quando chegarmos a casa. Cerynise gemeu, exagerando sua decepção. - Parece a você possível que uma esposa viole a seu marido? - Sobre meu corpo tem você mais controle que eu, mas como chamá-lo violação se teria de antemão meu consentimento? Cerynise lhe desabotoou risonha as calças e lhe pagou a dívida em espécie, fazendo-o provar sua própria medicina. Agradada pelo resultado, retrocedeu para admirá-lo. - Agora me terá preparado toda a noite - grunhiu Beau, lhe agarrando a mão, devolvendo-a ao mesmo lugar e lhe apertando os dedos com força. - Nada mais que a sobremesa - sussurrou ela, lhe lambendo a boca com a ponta da língua. A cálida palpitação que sentia sob sua mão lhe implorava que continuasse, mas se retirou sem mais que uma última e envolvente carícia. - Já que devo sofrer, sofra você comigo. Beau teve a certeza de que seria preciso no mínimo uma hora para que deixasse de lhe ferver o sangue. - Disse-lhe alguma vez que é uma prostituta? Cerynise sorriu com satisfação. - Só na cama, senhor. Só na cama. Quando a carruagem de Beau parou diante da porta, já chegou boa parte dos


convidados. Beau ajudou Cerynise a descer e dedicou uns instantes a apagar com um beijo o cenho que enrugava sua testa. Durante o longo caminho até o Harthaven sua esposa sucumbira a uma profunda inquietação pelo que lhe proporcionaria a noitada. O que mais lhe preocupava era o bombardeio de perguntas malévolas a que pudessem submetê-la um número considerável de donzelas rejeitadas. - Se soubesse como é bela, meu amor - disse-lhe seu marido ao ouvido, - não ficaria nervosa por ninguém, e muito menos por Germaine. - Estou segura de que terá feito correr o rumor de que consegui me casar com você a base de artimanhas - murmurou Cerynise; - e todo mundo estará perguntando-se quanto tempo estou neste estado... ou me olhando com reprovação, como dizendo que dadas as circunstâncias teria feito melhor em não vir. - Agora é uma Birmingham - disse Beau para tranquilizá-la. - Tem mais direito a estar aqui que todos outros juntos. Quanto a seu estado, não temos nada de que nos envergonhar, meu amor. Ficou grávida quando já estávamos legalmente casados. Cerynise exalou um suspiro de preocupação. - Isso está muito bem, Beau, mas as más línguas não descansam. - Pararão... quando tivermos perto de oitenta anos - brincou ele, lhe dando um beijo na testa. Cerynise lhe alisou a lapela negra com admiração. À exceção da camisa e da gravata, brancas as duas, e de um colete de brocado prateado com gola alta, Beau ia completamente de negro e luzia a mesma galhardia que quando tinha acompanhado Germaine à costureira. - Verdade que ficará comigo, Beau? - Provavelmente me terá tão à mão que terá vontade de me afugentar. - Isso nunca. Depois de oferecer o braço à Cerynise, Beau subiu com ela ao alpendre e lhe deu precedência na hora de cruzar a soleira. O mordomo pegou a capa de veludo azul da jovem, e enquanto Beau ia com ela ao encontro dos convidados (todos os quais se viraram para olhá-la), Heather deslizou pela sala de baile para saudar seu filho e sua nora. Depois de obsequiá-los a ambos com um beijo cheio de afeto, dirigiu um sorriso radiante à grande concorrência e deteve suas conversações com um gracioso movimento de mãos. Não demorou para contar com o apoio de seu marido, que lhe pôs uma mão no ombro. - Senhoras e cavalheiros - disse Heather, posando em amigos e conhecidos seu faiscante olhar azul, - a quem ainda não a conheçam quero lhes apresentar a nossa nova nora, Cerynise Birmingham, filha única do finado professor Marcus Kendall, a quem provavelmente muitos de vocês recordam. Beau e Cerynise contraíram matrimônio na Inglaterra no fim de outubro, antes de zarpar para as Carolinas. Desejavam manter em segredo seu matrimônio, por motivos que ainda não me comunicaram. Eu gostaria de pensar que foi para nos dar a honra de vê-los casar-se em uma igreja; entretanto, como a vida real está acostumado a impor suas normas, Brandon e eu seremos avós em agosto.


Seguiram aplausos fervorosos, intercalados de risadas e felicitações. Cerynise suspirou de alívio, sentindo-se mais relaxada e serena graças à afabilidade com que Heather dirigira a situação. Sua sogra fora direta ao cerne, afugentando insinuações e conjeturas com uma destreza e uma elegância irresistíveis. Beau permaneceu em seu posto para apresentar a sua esposa aos convidados que se aproximavam para felicitá-los efusivamente. Entre os amigos homens de Beau, boa parte dos mais antigos foram alunos do pai de Cerynise, e relataram breves e suculentas anedotas a respeito de sua relação com tão entregue professor. Os nomes acabaram formando uma meada complicada que aturdiu Cerynise. Parecia que estivesse produzindo uma avalanche de amigáveis hóspedes, cada qual mais desejoso de dar o parabéns ao novo casal e congratular-se de que tivessem retornado da Inglaterra. O olhar de súplica do Cerynise fez Beau rir, que solicitou uma trégua para dançar com sua esposa. - Está melhor? - perguntou-lhe enquanto evoluíam ao som de uma valsa. Cerynise riu, não só em sinal de alívio, mas também de alegria por gozar do primeiro baile com seu marido. Achou-o tão ágil de movimentos como os professores de baile que Lydia Winthrop contratou em tempos para sua instrução. Beau era como um príncipe azul que a arrastava pela sala de baile em círculos cada vez maiores, até que os rostos dos espectadores, visíveis por cima de seus largos ombros, converteram-se em uma mancha desprovida de contornos; bem, era certo que Cerynise quase nunca afastava a vista do rosto de Beau. - Terá de reconhecer que sua mãe simplificou a situação – comentou, satisfeita de que quase todo mundo tivesse sido posto ao corrente de seu matrimônio. - Me sinto como se flutuasse em uma nuvem. Tirou-me um peso enorme de cima. Um sorriso travesso se desenhou nos lábios de Beau. - Também se sente assim depois de fazer o amor comigo? Cerynise reagiu com momentânea perplexidade, até que entendeu o picante comentário. - Seu peso é mais agradável de aguentar, meu amor, embora me parece que a estas alturas já sabe quanto eu gosto de seu corpo. Não vi nenhum igual. Os olhos de Beau brilharam desafiantes. - Diz isso como se tivesse visto algum mais que o meu. - Negou com a cabeça. - Não, quando se ruborizou até as sobrancelhas a primeira vez que viu meu peito me convenci de que antes de nos casar nunca vira um homem nu. De qualquer modo prefiro assim. Quero você toda para mim. - E pode me ter quando quiser. - Meu dormitório está no andar de cima - sugeriu ele com um sorriso lascivo. Cerynise sorriu por sua vez coquetamente. - Suponho que se dá conta de que sentiriam nossa falta. Beau suspirou com profundo desgosto. - Sim, e além disso nos seria impossível refazer seu penteado. Por vontade que tenha de dispor de você agora mesmo, acredito que teremos que esperar até voltar para casa.


- É um provocador nato - se queixou Cerynise com tom insinuante. - Disso estou convencida. Sabe perfeitamente que se me convidasse a jogar contigo a jogos proibidos no andar de cima seria eu a primeira a subir. Beau riu. - Possivelmente o faça... mas só quando estiver seguro de que ninguém suba para nos buscar. O belo deslizar do casal pelo salão de baile suscitou uma ira muito negra no coração de um dos espectadores. Germaine Hollingsworth estava sozinha no meio da multidão, invejosa de sua rival. Albergava a convicção de que sem Cerynise teria sido ela quem dançaria nos braços do Beau naquele instante. Beau encarnava a essência da masculinidade: alto e forte, sensual em sua morena atitude, flexível e ao mesmo tempo duro como um carvalho, para entusiasmo e excitação de Germaine nas ocasiões em que havia tocado seu peito musculoso. Via-se si mesma acariciando o corpo nu de Beau, admirando sua sólida estrutura e acendendo nele uma paixão que o teria convertido em seu fiel escravo. Agora, entretanto, saltava à vista que era Cerynise quem o deixava cativo. Se em alguma ocasião Beau tivesse dado atenção a ela com a mesma voracidade que à Cerynise no dia de seu encontro frente à loja de madame Feroux, Germaine teria tido motivos para alimentar certa esperança durante as semanas e meses por vir. Bem dosadas, e enfocadas a um coração predisposto, as tentações podem derrubar os mais nobres propósitos; mas nada podia esperar enquanto Cerynise continuasse gozando da absoluta predileção de Beau. Com toda sinceridade, Germaine teria gostado que Palitinho caísse morta ali mesmo. Conformava-se, entretanto, com que falecesse de parto. Beau estava embebido nos doces lagos de mel que tinha ante sua vista, lagos que brilhavam com toda a luz da adoração que lhe professava Cerynise. Sentindo-se cheio de felicidade por ter achado tal grau de devoção, conduziu a sua bela esposa pela pista de baile. O corpo da moça se movia ao mesmo tempo que o seu, como se uma terna harmonia unisse suas mentes; e Beau não duvidou que fosse certo, posto que via flamejar o desejo no mais fundo do olhar de sua esposa, e se sabia possuído pelo mesmo ardor. Para Cerynise não existia nada mais que os braços de seu marido e o fulgor inextinguível de seus olhos azuis, que a mantinham presa. Trocavam sussurros quase inaudíveis, comentários íntimos, protestos de amor e segredos que ninguém a não ser eles podia compartilhar. Pelo corpo da jovem fluía uma cálida corrente de excitação, que, alimentada pela promessa de Beau, chegava ao ponto de que bastava o menor toque da coxa de seu marido, a menor pressão de sua mão em sua cintura, para que seus seios tremessem de impaciência para estar com ele a sós. Embora os dedos de Cerynise tocassem apenas o tecido da jaqueta de Beau e o acariciassem sem faltar de modo algum ao decoro exigido por tão grande reunião, cada olhar que cruzavam estava carregado de significado erótico, e cada sorriso era um aviso do que os esperava em casa (uma vez que só aí gozariam da necessária intimidade). O que era aquela valsa senão o lento e rítmico acender-se de seus desejos, um cortejo sensual e cerimonioso que alimentava sua mútua excitação sem


que ninguém pudesse percebê-lo? A música continuo soando, e Beau não teve mais remédio que deixar a sua esposa em mãos de outros varões da família Birmingham que se aproximavam para lhe pedir uma dança. Por sua vez, cumpriu seu dever com sua mãe, irmãs e primas. Uma destas últimas era Tamarah, cujos pedidos não conseguiram convencer a seus pais de que a deixassem ficar até o final do baile; teve, pois, que ir dormir no quarto de Brenna a uma hora adequada para uma menina de sua idade. Quanto às demais jovens presentes na sala, Beau nem sequer as via, porque seu coração e seu olhar estavam presos em sua esposa; e esta, apesar de deslizar-se pela pista de baile nos braços de seus parentes, não mostrava ter olhos a não ser para ele. Beau fora requerido por um grupo de companheiros de caça. Enquanto conversava e ria com eles, Cerynise e Brenna aceitaram copos de ponche de um criado. Estavam absortas na contemplação dos casais o baile, mas não demoraram para perceber que Germaine insistia com Michael York para sair com ela na pista. A Michael não parecia ocorrer o outra maneira de responder ao convite que não fosse dançar com a jovem, ideia a que por outro lado não se mostrava muito propenso. Se via terrivelmente perturbado pelo sutiã de Germaine, cujo peito forçava até o limite a resistência de um modelo violeta escuro que mais parecia um prodígio de engenharia que o receptáculo de atributos generosos. Michael, em desonesto esforço, olhava a todas as partes menos para a jovem, e assim que finalizou a dança se apressou a pedir licença e protagonizou uma veloz retirada para sua noiva, a qual escutou sorridente o que tinha todo o jeito de ser uma aflita justificação. Pouco depois Michael beijou a mão de Suzanne e saiu com ela à pista, onde dançou divinamente, depravado. Cerynise não teve que usar muita dose de imaginação para concluir que em um momento ou outro Germaine também se juntaria a Beau. Logo que concebida a idéia, viu que a jovem se aproximava dele com um sorriso incitante. Brenna sussurrou ao ouvido de sua amiga: - Viu para onde vai essa mulher? - Para meu marido - respondeu Cerynise em voz baixa. Brenna, contrariada, apertou as mandíbulas com força. - Você não gostaria de arrancar os cabelos a essa fresca? - Pela raiz - afirmou Cerynise, lembrando-se do ciúmes que havia sentido aquele dia no Charleston, vendo que Beau ajudava ao Germaine a desembarcar de sua carruagem. Brenna a consolou com umas palmadinhas na mão. - Beau saberá comportar-se como é devido. Um suspiro pensativo saiu dos lábios de Cerynise. - Terá que ser amável. Talvez a popularidade de Germaine entre os homens tivesse alimentado sua confiança em si mesma até o extremo de esperar que todo membro do sexo oposto abandonasse suas ocupações ao vê-la, mas Beau estava tão absorto na conversa com seus amigos que nem sequer reparou em sua presença. O desprezo, que não parecia voluntário, provocou na jovem uma


surpresa e uma frustração desproporcionadas. A morena e miuda beldade ficou com as mãos na cintura e deu uma batida no chão para obter a atenção de Beau, mas assim que este a percebeu diante de si se apressou a lhe apresentar a um jovem galã muito mais desejoso de sair com ela à pista. - Esplêndido! - sussurrou Brenna, encantada. Voltou-se para Cerynise, que estava radiante. - Ele é maravilhoso? - Que mais! - assentiu Cerynise com alegria. - Olhe - disse Brenna. - Agora vem para cá. Beau dirigiu a sua irmã um sorriso inquisitivo, ao mesmo tempo que pegava Cerynise pelo braço. - Tem alguma reclamação se dançar com minha mulher, irmãzinha? Brenna pegou o copo de sua cunhada. - Absolutamente, irmão. Uma vez sozinha, Brenna foi em busca de um lugar onde deixar os copos, e reparou com certo sobressalto que se aproximava dela um moço ruivo alguns anos mais velho que ela. Reconheceu imediatamente ao melhor amigo do Clay. - Desculpe, Brenna, mas me estava perguntando se me concederia um dança. Clay disse que talvez lhe agradasse a idéia. - Agrada-me muito, Todd - respondeu ela, deslumbrando-o com um sorriso. Todd exibiu com júbilo sua branca dentadura e se apressou a agarrar os copos que Brenna segurava para dá-los a um criado. Depois de executar uma reverencia cortes, ofereceu o braço a jovem provocando, apesar da distância, um imediato arqueamento no sobrecenho de Brandon Birmingham. Heather, sorridente, procurou suavizar o mau humor de seu marido. - Todd só lhe pediu uma dança, querido - disse, acariciando-lhe a lapela. - Estaria muito agradecida se fizesse o mesmo por mim. Brandon fez chocar seus saltos e inclinou o tronco com desenvoltura. - Concede-me esta dança, senhora? - Com supremo prazer, meu amor. Apoiou uma mão possessiva na base das costas do Heather e a conduziu para um espaço vazio da pista de baile. Começaram a dançar, mas Brandon não pôde sossegar uma queixa. - Ouvi que Clay comentava a seu irmão que Todd Phelps cada vez gosta mais de nossa filha. - Não há dúvida de que é um jovem agradável e de boa família, mas Brenna só tem dezesseis anos... - Isso mesmo penso eu. Heather sorriu dos esforços de seu marido para não perder de vista a sua filha mais nova. Brenna era a preferida do Brandon, e tudo indicava que poria enormes reclamações para cedê-la ao primeiro moço que a pretendesse. O aspirante que obtivesse seu favor teria que ter


demonstrado qualidades excepcionais. Transcorrido um tempo, Beau e Cerynise saíram ao alpendre para respirar ar fresco. passearam agarrados pelo braço até o extremo da varanda, onde um carvalho da Virgínia imenso filtrava a luz da lua com sua copa sussurrante e, projetando apenas umas poucas manchas de luz, emergia a área em escuridão quase absoluta. O frio da noite fez estremecer Cerynise. Reparando nisso, Beau abriu sua jaqueta, separou as pernas e, apoiado na fachada branca, segurou com força a sua mulher, rodeando-a pelos ombros. Cerynise suspirou. - Quando era pequena e estava loucamente apaixonada por você - disse com tom sonhador - não me ocorreu que algum dia pudesse estar neste mesmo alpendre, casada com você e com seu filho crescendo em meu interior. É verdade que durante muitos anos alimentei a fantasia de ser sua esposa, mas no final parecia uma idéia tão descabelada que me obriguei mesma a não pensar mais nela. Como vivia tão longe quase estava certa de não voltar a vê-lo. Duvido que Alistair chegue a ser consciente do favor que me fez me jogando de casa da Lydia. Beau respondeu com uma risada afável. - Quase me dá vontade de lhe expressar minha gratidão lhe dando um beijo no rosto em lugar de um murro. - Melhor beijar a mim - sussurrou Cerynise, levantando a cabeça. Ele respondeu à petição com muito mais que um simples beijo conjugal, e pouco depois Cerynise entrelaçava as mãos em sua nuca para lhe devolver o favor. Foi um beijo de acesa paixão, um beijo que acariciou os sentidos de ambos e reavivou fogos nunca extintos de todo. O braço esquerdo de Beau segurava com força a cintura de sua esposa, deixando o direito plena liberdade para percorrer suas costas, acariciar seu quadril através da saia e da roupa interior, recrear-se na excitante abertura e descer ainda mais até ficar com a mão firmemente assentada entre suas nádegas. Um pigarro feminino interrompeu o beijo de maneira brusca. Cerynise, envergonhada, quis retroceder, mas Beau teve o bom senso de segurá-la nos seus braços. Não era o momento para que sua esposa o abandonasse. Esquadrinharam a escuridão em que estava imerso o alpendre, tratando de reconhecer à mulher que se aproximava. As manchas de luz acabaram por convergir em grau suficiente para iluminar um sorriso insolente no rosto de Germaine. - Salta à vista que não podem se separar. Embora não o traduzisse em suas palavras, Germaine se havia sentido excitada pelo espetáculo, que confirmava para ela a convicção de que Beau tinha apetites quase tão vigorosos como os seus. - É a vantagem de estar casados: que não há necessidade - replicou Beau sem alterar-se. - Francamente, Beau, deveriam pensar no risco de incomodar a alguém - o arreliou Germaine. - Espetáculos licenciosos como este deveriam reservar-se ao dormitório, não a varandas abertas a qualquer um. - Que curioso! De costume, quando se aproxima alguém o ouço em seguida, sobre tudo se o chão é de madeira. Com você, em troca, não percebi nenhum ruído de sapatos.-O olhar de


Beau desceu com curiosidade até a bainha da saia de Germaine, que chegava até o chão. A porta do estúdio estava aberta, indicando o caminho seguido pela jovem, e o fato de que tivesse os braços cruzados nas costas conduzia a suspeitar que ocultava algo. - O qual me leva a lógica conclusão de que neste momento está descalça. Germaine riu e agarrou os dois sapatos com uma mão, movendo a outra para desmentir a hipótese. - Eu não me dedico a espiar a ninguém, Beau, e mesmo que o fizesse não seria desculpa para sua lascívia. Terei que me queixar ao Heather. Harthaven não é lugar seguro para que passeie uma mocinha inocente. Ficaria atônita por semelhante coisa ordinária! Beau aproveitou que já estava em condições de olhar cara a cara a Germaine; mesmo assim manteve Cerynise segura pela cintura, porque se negava a ficar só com aquela mulher. - Sinto ter ferido sua tenra sensibilidade, Germaine, mas custo acreditar que se tenha escandalizado. De fato, se há entre nós alguma pessoa inocente, inclino-me a pensar que se trata de minha esposa. Os escuros olhos de Germaine brilharam de modo ameaçador. - O que quer dizer? Beau inclinou a cabeça com ar pensativo. - Seriamente deseja sabê-lo? - Já que pensa em me insultar, eu gostaria de ouvir você explicar por que se acha com direito a isso - insistiu Germaine com imprudência, - porque nunca fiz nada de que deva me envergonhar. - Nem sequer se banhar nua com Jessie Ferguson no verão passado? A surpresa deixou boquiaberta Germaine. Só havia uma maneira de que Beau pudesse estar informado: O estúpido do Jessie! Nem sequer sabia quando fechar a boca! - Isso é uma mentira repugnante, Beau Birmingham! Nunca em minha vida... - Ah, então deve ser outra Germaine Hollingsworth a que gosta de pular com seus acompanhantes, porque Jessie não é o primeiro que alardeia sua conquista. vamos ver... Sua queda foi atrás de um sicômoro. Depois foi Frank Lester. No seu caso foi atrás do estábulo de seu pai. De fato, segundo os rumores que correm, é uma garota que teve muitos homens em sua vida, e parece que a outra Germaine Hollingsworth está acostumada a tomar a iniciativa da sedução, e quando entra em calor está disposta absolutamente a tudo. Circulam rumores de que a única coisa que a distingue das mulheres que o fazem para ganhar a vida é que ela não cobra e se diverte mais. Germaine o olhou com desdém. - Pelo que sei - disse com tom cáustico, - vocês conhecem muito a essas prostitutas. - Ao menos nunca pretendi passar por santo. Germaine ergueu a cabeça com altivez. - Conforme parece há alguém que utiliza meu nome com intenções avessas, mas que ande com cuidado, porque sou boa atiradora com a escopeta de meu pai, e quem difunde


essas mentiras sobre mim corre o perigo de que o confunda com um rato. De fato, Beau Birmingham, se tentam manchar minha reputação com essas coisas estúpidas que acaba de soltar, entra na possibilidade que lhe jogue a vida. Beau sorriu sem alterar-se. - Surpreenderia-se saber a reputação que têm, Germaine. Todos os moços do lugar sabem onde vive. Por isso têm tanta popularidade entre os homens. O que me surpreende é que ainda não tenham se cansado. - Como

sua estúpida esposa, quer dizer? - respondeu Germaine com expressão

desdenhosa, olhando friamente para Cerynise. - Com certeza que a outra Germaine poderia lhes dar o nome de uma mulher que solucionaria seu problema em uma tarde com absoluta discrição. - É provável que minha esposa não saiba sequer do que fala, Germaine, mas não nos interessa sua oferta. O certo é que estamos encantados com a idéia de sermos pais. Obrigado por nada. Fazendo uma careta de desprezo, Germaine se colocou na borda do alpendre e se apoiou em uma coluna para calçar os sapatos, depois do que alisou a saia, adotou uma atitude de mulher distinta e retornou à porta envidraçada do estúdio, pela qual saíra uns minutos antes. Cerynise pôde por fim respirar. - Tenho a impressão de que Germaine já não o tem em muita consideração – disse com um suspiro de alívio. Beau arqueou as sobrancelhas. - Duvido que antes me apreciasse. Suspeito que lhe interessava mais a tentação de poder levar o sobrenome Birmingham e a idéia de gastar meu dinheiro. Com o que a mimaram seus pais, deve lhe ser difícil imaginar-se casada com um homem de recursos modestos. - Embora esse homem fosse você? - Cerynise retornou aos braços de seu marido. - Pobre Germaine! Que tolice obcecar-se com o dinheiro, quando seu valor não pode comparar-se com o de um homem como você! Mas, claro, duvido que haja outro Beau Birmingham no mundo. Beau inclinou a cabeça para aspirar a fragrância de seu cabelo. - Está predisposta a meu favor. - Totalmente - reconheceu Cerynise, aproximando-se a ele. - E agora me beije antes de que nos vejamos obrigados a entrar.

CAPÍTULO 15

Avizinhava-se o final de maio, e só restavam umas poucas azáleas em flor. A cidade e o campo, que pouco antes exibiram uma rica e luminosa paleta de arbustos floridos, brancos e violetas, perderam grande parte de seu esplendor com o murchar das últimas flores. O mesmo


se podia dizer do jardim que circundava a mansão de Beau. Uma manhã, em meados do mês, Sterling Kendall chegou à residência Birmingham carregado de infinidade de caixas, cheias de brotos cultivados por ele, arbustos e diversas árvores florais com as raízes bem atadas. Com pleno consentimento do dono da casa, o professor dedicou vários dias a converter o que fora uma agradável zona de recreio em um jardim que prometia ser espetacular. Uma vez cobertos com húmus os brotos, Sterling ensinou a sua sobrinha a cuidar deles, recomendando essa tarefa, e também como enriquecimento espiritual, com útil aprendizagem (conforme intuía) para a criação de um menino. Embora Cerynise abordasse o encargo com temores de novata, demorou pouco em descobrir as alegrias que proporcionava a horticultura, tais como a emoção inesperada de presenciar um broto de flores novas depois de poucas semanas de lhes dispensar amorosos cuidados. Em pouco tempo o jardim estava convertido em um de seus lugares favoritos para trabalhar e descansar. Quando não pintava no estúdio o normal era encontrá-la fora da casa, plantando sementes, cortando flores murchas ou tratando de captar sobre o tecido a beleza de suas pétalas antes de que perdessem sua cor. Igual satisfação obtinha criando ramos fastuosos para a casa, e não foi preciso muito tempo para que os aposentos mais frequentados pelo casal ficassem embelezadas pelo resultado de seu trabalho. Até Beau começou a interessar-se, e em seus momentos livres colaborava com sua esposa no cuidado do jardim. Compraram móveis novos de exterior feitos de ferro forjado e os dispuseram em grupos acolhedores ao pé de uma árvore, na pracinha onde estavam acostumados a tomar o café da manhã e comer, ou disseminados pelos atalhos de tijolo. Em certas ocasiões Beau e Cerynise riam e pulavam como meninos travessos, atirando-se terra ou rodando-se com regadores até que um dos dois saía em perseguição do outro, embora, dado o aumento de volume de Cerynise, o habitual era que Beau a alcançasse e a agarrasse nos braços, entre agudas risadas de júbilo. Como seus brinquedos os deixavam às vezes sujos e manchados de barro, mandaram construir um pequeno abrigo branco com base de tijolo, dotado de compartimentos separados para lavar-se e vestir-se. Um recipiente retangular de cobre com tampa, posto em cima do telhado plano e oculto atrás de uma grade, permitia esquentar água mediante sua exposição ao sol. A parte inferior da caixa estava perfurada, mas havia outra lâmina de cobre que podia levantar-se ou descer-se mediante um sistema de alavanca, permitindo desse modo controlar o fluxo de água. Baixando-a de todo se podia acrescentar mais água para outro dia. O mecanismo provia ao casal de uma espécie de ducha quente, graças a qual tinham ocasião de refrescar-se uma vez despojados de sua roupa de trabalho suja. Sempre tinham a mão roupa limpa, sabão e toalhas, e embora adorassem tomar banho juntos, Beau tinha tendência a sair de casa muito de manhã e ficar encharcado antes de vestir-se para ir trabalhar. Era muito mais fácil que encher a banheira no quarto de vestir do andar de cima, mas tinha o inconveniente de que a essas horas a água nem sempre estava quente. De qualquer modo a achava refrescante. Beau se convertera em administrador da companhia naval e dos armazéns de seu tio, e


como tal dirigia a descarga dos navios que pertenciam à primeira. Fazia isso com acerto insuperável, mas não quisera converter-se em sócio. Na previsão de outra viagem, preferia não aceitar responsabilidades que o retivessem em terra firme. Stephen Oaks retornara de sua cabotagem pelo norte, uma vez solicitados abundantes benefícios da venda do carregamento inicial. Trazia de sua viagem muita maquinaria de que havia demanda na zona de Charleston, demonstrando que além de bom capitão era um comerciante sagaz. Levava certo tempo visitando com regularidade a morada de seu capitão, nem tanto para falar de negócios com o Beau para cortejar Bridget, quem, no julgamento de Cerynise, estava apaixonando-se perdidamente por

ele. Em suas horas livres, a moça

frequentava as ruas de Charleston pelo braço do futuro capitão do Audaz. Cleveland McGeorge se propôs a demonstrar que podia vender os quadros de Cerynise sem ocultar o nome da autora. Tinha-lhe exigido certo tempo, até que, em um trio de acertos, vendera dois quadros a sendo cavalheiros de Nova Iorque, enquanto o terceiro e melhor acabava em mãos do Martha Devonshire. A partir de então se puseram em contato com ele quase todas as famílias residentes em Charleston e nos subúrbios. O comerciante desfrutava criando demanda e alimentando a competição entre as partes interessadas, a quem dizia que teriam que esperar seu turno; e era certo, porque Cerynise já não podia pintar com suficiente rapidez para satisfazer a quantos pretendiam adquirir uma de suas obras. O retrato de Heather e suas filhas progredia de modo satisfatório. Faltava pouco para acabar os rostos, sempre a parte mais conflitiva. Preencher os vestidos e o cabelo seria tarefa fácil, e Cerynise albergava a esperança de ter concluído o quadro a tempo para o aniversário de Heather, que teria lugar em julho. Chegou à conclusão de estar sendo mais feliz que nunca, posto que se tinha casado com o homem a quem idolatrava desde menina, e dia a dia o amor de ambos se fazia mais profundo. Entusiasmados com a perspectiva do nascimento de seu primogênito, começaram a confeccionar listas de nomes adequados para ambos os sexos. O quarto contiguo ao quarto de banho foi atribuído ao futuro bebê e se acondicionou com móveis novos, à exceção do berço do Beau, que abandonou o desvão do Harthaven pela primeira vez em vinte anos ou mais. Nos momentos em que Cerynise e Beau ficavam a sós se beneficiavam do amor que crescia sem pausa entre os dois. Gozavam de sua solidão compartilhada, e eram propensos a passar grande parte desses episódios na intimidade do lar. Seu cortejo igualava ou superava ao deleite que atribuem Shakespeare, Chaucer ou tantos autores de antigamente aos amantes de suas fábulas, e se aproximava quanto possa imaginar a mente humana a uma estadia no paraíso. Recebiam, isso sim, uma avalanche de convites de quase toda a alta sociedade de Charleston. Cerynise encomendava ao Beau a tarefa de escolher quais aceitar e a quais responder com uma cortês negativa. Entre as que deram margem a uma visita figurou uma, de elegante caligrafia, assinada pelo Martha Devonshire. Beau, que não frequentara em demasia à anfitriã, temia pela amenidade da noite, mas, transcorridos uns instantes em presença da anciã, Cerynise tomou tanta afeição ao Martha como a Lydia Winthrop anos atrás. Ela e seu marido


descobriram com prazer que aquela dama, tão reservada de costumes, possuía uma maravilhosa mordacidade que até ao Beau o obrigou a segurar as costelas entre gargalhadas. Nos sábados e dias de trabalho Beau estava acostumado a voltar para casa para comer com Cerynise pouco antes de meio-dia; entretanto, quando tinha uma entrevista mais ou menos à mesma hora em que estava acostumado a retornar, chegava até com meia hora de antecipação para passar esse mesmo intervalo em companhia de sua esposa sem por isso ir com atraso ao compromisso. Tanto comiam no jardim como o faziam na longa e solene mesa da sala de jantar, sentavam-se muito juntos, rindo e comentando toda classe de temas. Cerynise sempre estava impaciente por saber o que fez Beau na companhia naval, ou a que interessante personagem conhecera. Beau satisfazia sua curiosidade com muito prazer, economizando os detalhes mais aborrecidos, e em ocasiões até lhe expor algum problema trabalhista, porque sabia muito bem que sua esposa era a única capaz de acalmar sua irritação com argumentos afáveis e judiciosos. Finalizado o almoço davam um passeio pelo jardim ou se retiravam à intimidade do estúdio até a hora em que Beau devia retornar ao escritório. Uma manhã de finais de junho, pouco antes de meio-dia, Cerynise, que cortava flores para adornar a casa, ouviu chiar a grade do jardim. Curiosa por saber quem chegava pela rua, voltou a vista para a entrada, no mesmo momento em que uma rude voz masculina exclamava: - Mate-a! Imediatamente depois um enorme cão negro pôs-se a correr para ela. A grade se fechou imediatamente. Cerynise não vira jamais um animal semelhante. Além de lhe chegar virtualmente à cintura, possuía uma constituição robusta, com um peito quase tão largo como um barril. Sua cabeça era maciça e quadrada, e em seus olhos tinha um brilho amarelo. O terror paralisou Cerynise, incapaz de afastar a vista daquele olhar feroz. Depois os cabelos da fera se arrepiaram, e seus dentes ficaram descobertos, ao mesmo tempo que se ouvia um profundo grunhido e se via sair baba branca de seu focinho. Cerynise, que tinha o coração na mão, viu que a besta se aproximava. Retrocedeu pouco a pouco, mas o cão vigiava todos seus movimentos. A ordem "Mate-a!" não permitia abrigar dúvidas sobre o objetivo daquele animal: eliminá-la com a maior brutalidade. A menos que se tratasse de uma brincadeira, a possibilidade era iminente. De fato, Cerynise temia achar-se cara a cara com a morte, cujo rosto, naquele caso, era negro com manchas marrons. Quando olhou para trás em busca do refúgio mais próximo, viu o barraco de banho e se dirigiu para ele, mas o medo lhe formou um nó na garganta, porque tinha a impressão de que o cão corria mais rápido que ela. Embora conseguisse chegar a tempo ao barraco não estava segura de que fosse uma estrutura capaz de resistir ao assalto de uma fera tão enorme. Tratou de visualizar uma via de escape mais rápida e segura. Os criados estavam no andar de cima, limpando os dormitórios. Por muito que gritasse não havia segurança de que a ouvissem. Philippe fora ao mercado para comprar fruta para a comida, e embora houvesse dito que não demoraria para voltar ainda era cedo para sua volta. Cerynise desconhecia a hora


exata, mas suspeitou que era muito cedo para esperar ao Beau. Rezou, entretanto, por que era um desses dias em que voltava para casa mais cedo do habitual. Calculou suas possibilidades de refugiar-se na casa. Embora pusesse-se a correr não havia maneira de chegar a tempo, porque com toda segurança o cão também aceleraria, e com aquelas patas tão longas não demoraria nada em alcançá-la. Para falar a verdade, as possibilidades de libertar-se pareciam nulas. - Cãozinho, cãozinho! - disse com temor, disposta a tentar tudo. Mas o som de sua voz excitava ao animal, que começou a ladrar com fúria. Esquadrinhou com desespero as frestas da cerca, com a esperança de ver o dono do cão e lhe pedir ajuda, ou pelo menos uma explicação, se por acaso fosse o caso improvável de que a ordem de matar tivesse como alvo a outra pessoa. Por outro lado, se se tratava de uma brincadeira, teria que dizer que não tinha nem um pingo de graça. Para ser exato, Cerynise estava morta. Não viu ninguém. O culpado devia estar escondido e aguardando sua morte, a menos que já se partiu. Os latidos cessaram de modo brusco, substituídos por um grunhido gutural que Cerynise julgou imensamente mais temível. Mostrando suas presas com uma espécie de sorriso maligno, e vigiando os movimentos de sua vítima com olhos amarelos e quase ávidos, o cão se escondeu ainda mais, preparado para lançar-se contra ela. Presa do pânico, Cerynise empreendeu a fuga em direção ao barraco de banho, mas a gravidez entorpecia seus movimentos. Ouvindo retumbar pelo atalho de tijolos as enormes patas do animal, cada vez mais próximas, deixou escapar um grito de terror, temendo que em qualquer momento lhe fincassem um par de presas. Imediatamente depois ficou detrás de uma árvore e voltou a cabeça, bem a tempo para ver que o cão topava de frente com o largo tronco que ela acabava de rodear. Por uns momentos a fera ficou deitada no chão, e seu atordoamento concedeu uns segundos à Cerynise para aumentar a distância que os separava; entretanto, o cão não demorou para revolver-se e reatar a carreira. Cerynise tinha tanto medo que seus pés mal tocavam o chão; entretanto, apesar de todos seus esforços, o cão lhe pisava de novo os calcanhares. Gritou horrorizada e justamente então, com alívio indescritível divisou ao Beau saindo da casa com um atiçador na mão. Viu-o vir correndo para seu lado, e os ferozes latidos se converteram de repente em ganidos, pontuados por golpes do atiçador. Cerynise estremeceu com o truculento daquele ruído; parecia-lhe ouvir o impacto do metal contra o osso. Os lastimosos ganidos se apagaram rapidamente, até que Cerynise não ouviu a não ser os movimentos de seu marido levando a rastros o animal. Pouco depois Beau voltava correndo a seu lado pelo caminho de tijolos. Tremendo até a medula, voltou-se para ele e viu que não soltou o atiçador, manchado agora de sangue. A camisa e os braços do Beau estavam salpicados de vermelho, mas Cerynise o achou deslumbrante como um cavalheiro de reluzente armadura. - Está bem? - perguntou-lhe ele com inquietação, sem atrever-se a tocá-la pelo sangue de


suas mãos. - Ss... - Cerynise não pôde concluir sua simples resposta. Assentiu com a cabeça, tão aturdida como aliviada, e se deixou cair nos braços de Beau sem se importar quão sujo estivesse. Beau atirou o atiçador e a abraçou com força, procurando não tocá-la com as mãos. Transcorreu um tempo bastante longo em que Cerynise não pôde mais que soluçar e aproximar-se de seu marido, até que pouco a pouco começou a passar o susto. Então tirou um lenço do bolso do Beau e o levou aos olhos, exalando um comprido e profundo suspiro que não parecia querer sair de sua garganta. - Como essa fera entrou? - perguntou Beau quando a viu recuperada e em situação de falar. - Alguém... deixou-a entrar... pela grade - explicou Cerynise entrecortadamente. - Não vi quem era... mas ouvi uma voz de homem dando ao cão a ordem de matar. Beau retrocedeu para olhá-la nos olhos. - Matar você? Está certa? - Ela assentiu com a cabeça. - Recordo-o perfeitamente. O homem abriu a grade só o tempo justo para que entrasse o cão. Não queria correr o risco de que o vissem. Se não fosse por ti essa besta me teria matado. - Fique aqui, meu amor - lhe pediu Beau, insistindo com doçura para que ocupasse a cadeira de ferro que tinha a suas costas. - Vou dar uma olhada à grade. Não demorarei. Foi até ali e olhou a esquerda e à direita da rua. Era o que suspeitava: nem rastro do descarado. Examinou com maior cuidado o acesso ao jardim, mas não achou nada significativo à exceção de um rastro grande de sapato impresso no barro. Nessa mesma manhã garoou um pouco, e Beau chegou à conclusão de que o rastro era recente. Havia visto muitas pisadas como aquela, porque era exatamente

às que deixavam os sapatos de lona dos

marinheiros. A idéia de que o culpado fosse um homem de mar levou ao Beau a perguntar-se se o ataque ao Cerynise não teria a ele como objetivo, em vingança de alguma ofensa desconhecida; nada, com efeito, o teria destroçado mais que o assassinato de sua esposa. Fechou a grade de madeira para experimentar a abrir o ferrolho da rua. Era o acesso que estavam acostumados a utilizar os criados, que entravam e saíam em seus dias livres sem necessidade de atravessar toda a casa. A grade era bastante alta para que Beau descansasse nela o queixo. Portanto, se a intenção era abri-la da rua e manter a cabeça encurvada para não ser visto, só um homem de sua mesma estatura podia ter aberto o ferrolho por dentro sem ajuda, já que estava muito baixo para que alguém de menor estatura o alcançasse. O próprio Beau, no processo de repetir a operação, teve que pôr o pé na mancha de barro em que apareceu o rastro. Um marinheiro alto, concluiu Beau, e que acabasse de ficar sem cão. Moon estava nos arredores de Charleston, e Beau sabia que o velho marujo conhecia grande parte de seus colegas da região. Não havia dúvida de que os superava a todos em experiência. Possivelmente o ancião grumete soubesse lhe proporcionar nomes de marinhos que se


ajustassem à descrição. Se Moon lhe facilitasse a lista, concluiu Beau, seria tarefa fácil selecionar aos que fossem hostis, porque não acreditava ter muitos inimigos. Voltou para junto de Cerynise, agarrou-a nos braços e a levou ao quarto de vestir do andar de cima. Enquanto ela se despojava de seu vestido manchado de sangue, Beau fez o mesmo com suas roupas exteriores, antes de lavar-se e vestir roupa limpa. Em seguida fez que a jovem se deitasse, exortando-a a descansar enquanto ele ia falar com os criados. Encontrou Cooper no vestíbulo e lhe ordenou enterrar o cão atrás da privada da criadagem, além de pôr cadeado na grade. Depois saiu em busca do Jasper, a quem encontrou em um dormitório do andar superior, limpando o teto. - Pelo visto procuraram matar à senhora Birmingham - comunicou, deixando boquiaberto ao mordomo, que desceu da escada. - À senhora, senhor? - Jasper estava horrorizado. - Me custa imaginar um ato tão ruim. Quem quereria fazer mal à senhora? - Não sei, Jasper, mas alguém deixou entrar um cão no jardim com instruções de a matar. A senhora Birmingham está certa de haver ouvido-as, e nesse momento não havia ninguém mais no jardim. Angustia-me pensar no que poderia ter encontrado se tivesse voltado na minha hora habitual. Se for certo que atentaram contra sua vida (e com as provas que vi não tenho motivos para duvidar disso), devo dispor turnos de guarda a fim de que a senhora Birmingham esteja protegida em todo momento. Daqui em diante, me achando eu ausente, sua tarefa principal será vigiar a sua senhora. Se vir desconhecidos rondando perto da casa, seja pela rua ou por outro lugar próximo, desejo um relatório imediatamente, embora tenham que enviar ao Cooper ou outra pessoa para me buscar ao armazém. Suspeito que o vilão é um homem de minha estatura, marinheiro, ou em todo caso vestido como tal. A julgar pelo rastro que deixou no barro junto à grade, tendo a pensar que seus pés são maiores que meus, o que talvez indique maior estatura, mas não necessariamente. Quero que estejam atentos a qualquer possível suspeito. Não podemos correr riscos. - Conte comigo, senhor. - Também podem avisar a outros criados sobre o objeto da busca, mas se impõe a discrição - prosseguiu Beau. - Não quero que o comentem a pessoas alheia à casa, porque poriam ao velhaco sobre alerta. - Assegurarei-me de que sejam discretos, senhor. Não se preocupe. - Obrigado, Jasper - respondeu Beau, exalando um suspiro. - Duvido que existam palavras para expressar qual seria meu sofrimento se ocorresse algo a minha esposa... Um leve sorriso suavizou as feições do mordomo, de costume rígidas. - Possivelmente não, senhor, mas seu amor pela senhora se expressa muito melhor mediante as ternas atenções que lhe dispensa. No meu entender, é uma demonstração imensamente mais valiosa que as palavras. Não lhe falharei, senhor. Em uma ocasião me envergonhei mesmo permitindo que o senhor Winthrop obrigasse à senhora a sair de casa em plena chuva. Se voltasse a acontecer algo semelhante minha consciência não me deixaria


continuar vivendo; e menos ainda um fato de natureza mais grave. Beau assentiu com a cabeça, e como não lhe ocorria nada mais que dizer voltou para o dormitório. Quando viu vazia a cama foi ao quarto de vestir , onde encontrou a sua esposa, sentada e alisando o cabelo diante da penteadeira. Pôs um vestido limpo, e demonstrava haver-se recuperado muito bem e com assombrosa rapidez da má hora que acabava de passar. Beau afirmou o que era evidente. - Não descansa. - O seguinte que farei é descer para comer com você - disse Cerynise com um tom que não admitia negativas. - Quando partir voltarei aqui para descansar. Beau lhe ofereceu o braço, concordando com o plano. - Philippe já deve ter voltado. No caminho de casa cruzei ao mercado. Disse-me que ia comprar fruta para você. - Sorriu. - Parece que de um tempo a esta parte gosta mais do que o normal. - Philippe me mima em excesso; e você igualmente. Beau acariciou seu dilatado abdômen. - Nós adoramos aos dois, ceu, assim deixe que nos divirtamos. - Sim, senhor - murmurou Cerynise com um sorriso afetuoso, permitindo que lhe desse na testa um beijo cheio de amor. Vários dias depois Beau voltou para casa em companhia de um indivíduo baixo e calvo. Fez ele entrar no estúdio, onde estava Cerynise, que trabalhava no retrato da mãe e irmãs de seu marido. Nesse momento se dedicava a pintar luzes e sombras para representar as dobras de uma cortina de seda cujo suave brilho assombrava por seu realismo. Ao voltar-se para dar as boas-vindas a seu marido, reconheceu o enxuto marujo e deu uma palmada de alegria. - Moon! Que surpresa! Mas o que faz aqui? O velho grumete tivera a cortesia de tirar a boina, que utilizava para dar ênfase a suas afirmações, indicando Beau em primeiro lugar. - Pois veja... seu marido... quer dizer, o capitão Birmingham, quer que vigie um pouco a casa para ver se aparece o desalmado que quis lhe fazer dano. Tenho muitos anos e conheci a muitos marinheiros, mas não sei de nenhum que tenha um cão tão mau como a besta que o capitão descreveu. Se for verdade o que penso, talvez seja o que roubaram faz poucos dias a dois cavalheiros ingleses. Usavam-no para organizar brigas com outros cães. Essa fera matava a todos seus rivais, e entre briga e briga seus donos lhe punham focinheira para que não lhes desse uma dentada . Sei com certeza que o punham raivoso de propósito a ponto de deixá-lo um ou dois dias sem comer. Me pareceria normal que acabasse mais frouxo, mas não era o caso do Hannibal, não. Quando atiravam uma parte de carne ao outro cão e soltavam ao Hannibal começava uma luta a morte. - Que espantoso! - Cerynise se estremeceu. Se era o mesmo cão, tinham-no maltratado de maneira cruel. - Moon ficará alguns dias nos aposentos dos criados - informou-lhe Beau. - Pedi que a vigie quando estiver no jardim, para que Jasper possa montar guarda na casa.


A idéia de que tivessem que submetê-la a vigilância não era do agrado de Cerynise. - Duvido muito que esse criminoso tente de novo, Beau. Seria uma tolice, porque a segunda vez não poderia escapar. - É possível que o muito maldito tente algo pior, meu amor, e se for assim quero estar preparado para recebê-lo - disse Beau. - Rogo, pois, que aceite o amparo do Moon. Cerynise gemeu de mal-humor. - Espero que o rufião caia na armadilha antes de que o bebê resolva sair. Do contrário, Moon poderia ser um obstáculo. Heather se apressou a deixar a xícara de um lado, levantar-se da cadeira e abrir a porta do estúdio para Cerynise, que lutava para introduzir por ela o tecido emoldurado em cuja busca acabava de sair. O quadro parecia muito grande para que o transportasse uma mulher, e mais ainda a um mês de dar a luz. - Mas, querida, isso lhe fará mal! Valha-me Deus! Dê-me isso . - Me ajude a passá-lo pela porta -lhe pediu a autora da proeza, ofegando pelo esforço. E não olhe! Quero que seja uma surpresa. Entre os dois conseguiram passar pela porta o enorme retângulo. Cerynise suspirou de alívio e apoiou a moldura inferior do quadro no tapete oriental que cobria a sala. - Agora, mamãe Heather, fará-me um favor se se sentar na cadeira do escritório do Beau. Deste ângulo a luz da janela favorecerá ao quadro. - Enquanto esperava que sua sogra ocupasse o assento indicado, explicou: - As molduras, tanto do retrato como deste quadro, escolheu-as Beau, e estou certa de que estará de acordo em que é a melhor escolha. Heather, surpreendida, arqueou as sobrancelhas. - Mas se eu pensava que isto era o retrato... - Não, não, é algo completamente diferente. Trarei o retrato quando tiver visto este quadro. Pensei que você gostaria de ver em primeiro lugar seu presente de aniversário. Heather aguardou com impaciência que Cerynise virasse a obra, aflita pela generosidade da jovem. Tratava-se de um minucioso retrato do Beau, onde se refletia muito bem a personalidade do modelo. - Cerynise, é magnífico! Mas como é possível que não queira ficar com ele? Cerynise sorriu, contente de ter agradado até esse extremo a quem se convertera em uma das melhores amigas de sua vida. - Eu tenho ao Beau de carne e osso diariamente, e posso pintar outro para mim. - Que Deus te abençoe, menina - disse Heather com afeto, contendo as lágrimas e levantando-se para abraçar a sua nora. - Não recordo nenhum presente que me fizesse tanta ilusão como este. Agora, lógicamente, terão que vir você e Beau e nos ajudar a escolher onde colocar os retratos. Também quero encarregar você de um do Brandon... sempre e quando estiver disposto a ficar sentado o tempo necessário. Cerynise deu uma olhada a sua dilatada barriga. - Receio que esse projeto tenha que aguardar até depois do nascimento do menino,


mamãe Heather. Gorda como estou me custa horrores chegar ao tecido, e me faltando um mês sei que dentro de pouco me será virtualmente impossível. Nos olhos de Heather, as lágrimas deram passagem a uma faísca de alegria. - Será tão divertido ter um neto! Acredita se lhe disser que em Harthaven todo mundo está entusiasmado com a idéia de que volte a existir um bebê na família. Hatti, quando pensa que verá outra geração do Birminghams, fica louca de contente. Cerynise dirigiu a sua sogra um olhar vacilante. - Beau leva um tempo perguntando-se se Hatti estará disposta a me ajudar a dar a luz. Suspeito que o preocupa sua idade. Há alguns dias me atende um médico que vive na mesma rua que nós, e se Hatti não se ofende muito acho que eu gostaria de contar com ele no parto. Parece conhecer bem seu ofício, e pelo que comentam algumas de nossas convidadas para o chá, sua clientela compreende a quase toda a elite do Charleston... - encolheu os ombros. Embora não saiba se devo tomar isso como prova de suas habilidades. - Decida você, Cerynise. O principal é que esteja a vontade - disse Heather com afetuosa compreensão. - É importante para seu bem-estar. Quanto a Hatti, ela mesma se dá conta de que tem alguns achaques e não pode manter o mesmo ritmo que até recentemente, mas estou segura de que se alegrará muitíssimo de prestar ajuda quando nascer nosso neto, embora só seja como espectadora. A propósito, acho que Brandon e eu também gostaríamos de estar pressente; se não se incomodar, claro. - É obvio! Não podem faltar! Beau conta com isso. - Cerynise riu. - Faremos planos para ter convidados durante a última semana... - E esperemos que não haja atraso - disse Heather, rindo baixo. - E agora - disse Cerynise juntando as mãos, - por fim chegou o momento que esperava. O retrato do Heather Birmingham e filhas está acabado, e desta vez acho que pedirei ao Jasper que o traga. Gostaria, enquanto isso, de um pouco mais de chá? Heather recusou o oferecimento com um gesto. - Talvez tome outra xícara quando o quadro estiver aqui, mas agora não, querida. Lembre-se que não nos deixou ver o retrato nenhuma só vez, e me devora a curiosidade. Depois de outra espera que lhe pareceu muito interminável, Heather recebeu outro quadro de presente. Ficou olhando, muda de admiração e sentindo-se muito honrada pelo adulador parecido daquela imagem que a mostrava sentada entre suas filhas. - Seriamente sou assim, querida? - perguntou com cautela. - Não será um gesto de amabilidade? Cerynise sorriu, cativada pela falta de vaidade de sua sogra, uma mulher que tinha motivos de sobra para orgulhar-se de seu aspecto. - É como a vejo eu... e Beau também. E papai Brandon. Disse-o ao dar sua aprovação final ao quadro. Acredito que em geral se reflete muito bem a você e suas filhas, que por outro lado não têm nada para invejar você. Nunca em todas suas visitas a casas de conhecidos em Charleston e seus arredores


recordava Heather ter visto semelhança tão deliciosa em um retrato como no pintado pelo Cerynise. - Tenha por certo que assim que as visitas que recebemos comecem a ver este quadro e o do Beau se converterá em uma artista muito solicitada. Sinceramente, Cerynise, não há dúvida de que seu talento supera ao de todos os pintores da região. - Alegra-me muito que seja desse parecer, mas para falar a verdade, mamãe Heather, não sei se terei tempo... nem vontades de pintar a esse ritmo uma vez nascido o bebê. Cerynise, sorridente, agarrou o bule e se aproximou de sua hóspede para lhe servir outra taça. - Estou convencida de que me entusiasmará poder cuidar de um pequenino. Heather tampou a xícara com a mão para impedir que Cerynise a enchesse. - Mudei de opinião quanto ao chá, querida. Quer me acompanhar para ver madame Feroux? Está-me fazendo uns quantos vestidos novos para o outono, e eu gostaria muito que viesse. Às vezes me cansa o falatório dessa mulher. com certeza me entende, porque você também esteve lá. Seria-me de grande ajuda contar com uma acompanhante mais serena. Cerynise mostrou uma repentina contrariedade. - Receio que Moon teria que nos acompanhar, mamãe Heather. - Tocou a barriga com expressão preocupada. - Além disso, o que pensaria madame Feroux me vendo em seu estabelecimento com a gravidez tão avançada? - Está linda, querida - respondeu Heather com ardor, - e sendo Beau seu marido, madame Feroux estará impaciente por conhecer todos os detalhes. Isso lhe dará ainda mais de que falar. Mas me diga uma coisa, querida, por que Moon tem que nos acompanhar? Cerynise encolheu os ombros. - Beau tem medo de que me aconteça algo, e encomendou ao Moon e Jasper a tarefa de me vigiar. Heather arqueou uma sobrancelha com curiosidade. Estava segura de que Beau e Cerynise gozavam da maior felicidade possível, mas ignorava que seu filho fosse um homem tão possessivo como demonstrava o fato de que tivesse posto guarda a sua esposa. Não queria intrometer-se; ou possivelmente um pouquinho sim... - Quanto tempo faz que Beau ordenou a esses homens que a observem? - Desde o incidente do jardim, faz um mês. - Que incidente? Cerynise não desejava inquietar a sua sogra, mas tinha que falar com alguém, e lhe pareceu que Heather o entenderia. - Estava cortando flores no jardim quando um homem abriu a grade de trás, deixou entrar um cão monstruoso e lhe deu ordem de matar. De repente me vi diante desse animal, que vinha grunhindo para mim. Beau voltou para casa bem a tempo para me salvar do ataque. Matou ao cão, e após isso se nega a separar-se de mim a menos que me vigiem Jasper ou Moon. Sei que sua preocupação é sincera, e sabe Deus que o incidente me deixou tremendo uma semana inteira, mas imagina o que é ter em cima ao Moon e Jasper as vinte e quatro


horas do dia? - Não sabia nada sobre o cão - disse Heather, manifestamente preocupada. - E o dono escapou? - Sim. Por isso Beau teme por minha segurança. - Cerynise suspirou atribuladamente. A verdade é que começo a me sentir prisioneira em minha própria casa, e por muito que me diga que não é certo, sempre há alguém me vigiando, sobre tudo se sair ao jardim. Nem sequer posso ir à privado sem que me sigam Moon ou Jasper! E tendo em conta a frequência com que tenho que ir ultimamente, é um pouco aborrecido. - Quer ficar no Harthaven até que apanhem a esse homem? Cerynise negou com a cabeça e sorriu. - Obrigado por me convidar, mamãe Heather, mas acho que sentiria muito a falta de Beau. Fazia um dia mais esplêndido do que o habitual, ensolarado mas não em excesso tratando-se do mês de julho. A suave brisa que penetrava pelas portinhas interiores das janelas estava carregada de fragrâncias florais. O zumbido das abelhas que sobrevoavam o tapete de flores do jardim se mesclava com os doces arrulhos das pombas. Era um dia perfeito para passear pela mão com um pretendente ou um marido, e ninguém estranharia de que o término do passeio fosse a sombra de uma ramagem. Não era, certamente, dia para estar triste. - Se estiver disposta a me acompanhar, querida, Moon poderá sentar-se ao lado do cocheiro e nos acompanhar até a porta da loja. Parece-lhe suficiente? - Deveria sê-lo. - Cerynise sorriu com maior entusiasmo. - Eu gostaria tanto de sair de casa! - Sente-se bem, querida. - Heather se levantou da cadeira. - Se quiser posso sair agora mesmo, porque você está muito bem como está. - Irei procurar ao Moon. Com certeza que para o Philippe será um alívio não o ter na cozinha. O velho lobo do mar está pondo a prova sua paciência, porque jura que a cozinha francesa acabará com ele. Pobre homem! Eu acredito que tem o estômago destroçado por haver passado quase toda a vida comendo comida de navio. Heather riu. - Possivelmente convenha para Moon uma pequena excursão, para bem do Philippe. Quando, finalizada sua jornada no armazém, Beau se dispunha a voltar para casa, olhou por uma janela do andar superior e viu aproximar-se do mole de carga uma carruagem que lhe era conhecido. Reconheceu ao Moon sentado na boléia, e concluiu que sua esposa saíra de casa em companhia de sua mãe. Depois de fechar a toda pressa a caixa de valores, agarrou sua jaqueta e seu chapéu e saiu pela escada detrás. Chegou à rua quando Cerynise já se desembarcara do veículo e se aproximava dele pelo pátio. A jovem se deteve para deixar passar dois carros de seis cavalos, que, conforme observou Beau, voltavam numa hora mais avançada do habitual depois de depositar seu carregamento em outro mole. Os vagões estavam vazios, e sem dúvida os cocheiros, concluído o trabalho do dia, estavam impacientes


para atender as necessidades dos cavalos e partir para casa. Beau os saudou com a mão, e em seguida examinou a rua em busca do terceiro, que saíra do armazém no mesmo momento que seus dois companheiros. - Onde está Charlie? - perguntou ao segundo cocheiro. - Virá em seguida, capitão - vociferou este, sobrepondo-se ao estrépito do pesado veículo de carga. - Perdeu uma roda no mole e tivemos que parar para ajudá-lo. Por isso levamos tanto atraso. Cerynise circundou o último vagão e correu para seu marido com um sorriso radiante. - Vamos levar você para casa, se não há inconveniente. - Como recusar tão sedutor convite? - respondeu Beau com olhos faiscantes e sorriso zombeteiro. Ofereceu cortesmente o braço a sua esposa. Enquanto a acompanhava à carruagem, lembrou-se de ter deixado papéis importantes em cima da escrivaninha e se deteve. - O que acontece? - perguntou Cerynise. - Tenho que ir procurar algo em meu escritório, minha vida. - Espero-o - se apressou a dizer a jovem. Beau lhe piscou um olho carinhosamente. - Volto em seguida. Ao ficar sozinha, Cerynise inclinou a cabeça, coberta por uma touca, a fim de proteger a vista do sol vespertino que estava a ponto de ocultar-se detrás dos telhados dos armazéns de frente. Voltou a colocar seu chale bordado em cima dos ombros, tratando o quanto possível de dissimular o arredondado de sua figura. Ouviu-se então um retumbar de rodas e cascos de cavalo. Cerynise ergueu a vista e se aproximou do armazém, concedendo ao terceiro condutor demasiado espaço para dirigir para o estábulo sua carruagem de seis cavalos. Imediatamente depois sua atenção se viu requerida por uns passos enérgicos na escada posterior do armazém. Voltou-se e viu seu marido salvando os últimos degraus. Beau lhe sorriu, abriu a jaqueta e deslizou os documentos em um bolso interior, ficando com a mão livre para a feliz honra de escoltar a sua esposa de volta à carruagem de seus pais. Quando voltou a levantar a cabeça, divisou uma sombra longa de homem cobrindo parte do caminho pavimentado que o separava de Cerynise. Voltou-se com a esperança de achar a uma pessoa amiga, momento em que um súbito calafrio de apreensão percorreu seu corpo. Apesar do chapéu de asa flexível que escurecia a face do robusto indivíduo, havia nele algo familiar que inquietava. Beau apertou o passo, esperando em interpor-se entre ele e Cerynise, mas não conseguiu a não ser suscitar uma reação similar no desconhecido, que pôsse a correr para a jovem. Beau, em plena carreira, dirigiu uma advertência a sua esposa, mas o agressor não demorou nem um segundo em colidir com Cerynise e jogá-la a tropeções diante da carruagem que estava aproximando-se. Um grito de estupefação escapou da boca do Moon, a quem não foi preciso outro sinal para descer da boléia. Atrás de sua exclamação, outra mais aguda foi proferida por Heather,


que levou a pescoço uma mão trêmula e presenciou com horror o momento em que seu filho se lançava para sua esposa, perto de cair. Parecia uma façanha impossível, mas Beau agarrou Cerynise nos braços antes de tocar o chão e, revolvendo-se no ar, protegeu com seu corpo o de sua esposa, entorpecido pela gravidez. Imediatamente depois caiu de costas nos paralelepípedos, aceitando aguentar o peso misturado de ambos os corpos. Seguiu dando voltas com os braços e as pernas flexionadas, apoiado nos cotovelos e joelhos, e manteve Cerynise aprisionada entre seus membros, usando todas suas forças para proteger de se machucar ela e o bebê. Embora o condutor da carruagem tivesse pisado a fundo o freio de madeira e puxava enlouquecidamente as rédeas para deter os cavalos, os pesados cascos dos equinos golpearam os paralelepípedos a escassos milímetros do corpo do Beau, que não deixou de rodar. Assim que o casal se pós a salvo se ergueu-se um tumulto considerável. Proferindo uma blasfêmia, Moon passou à ação e saiu atrás do desconhecido com assombrosa celeridade. Os dois carreteiros saíram correndo do estábulo, ao mesmo tempo que o terceiro, detida por fim sua parelha de cavalos, saltava ao chão de notável altura. Simultaneamente, Heather descia a tropeções pela portinhola da carruagem e corria para sua família com as pernas tremendo. - Aconteceu algo de mal com vocês? -perguntou, à beira do pânico. Tremia de forma incontrolável, e as lágrimas embaralhavam sua visão, entorpecendo seus esforços para averiguar que feridas sofreram seu filho e sua nora. - Por favor, me digam que estão bem os dois! - Acredito que sim - respondeu Beau sem muita convicção, enquanto escrutinava o rosto de sua esposa procurando indícios de dor. Cerynise temia muito por ele para preocupar-se com ela mesma. Imitando o movimento de Beau, que acabava de separar-se dela e ficar de cócoras, agachou-se para examinar suas mãos, braços e pernas. Só a roupa parecia ter sofrido danos graves. As calças tinham rasgões nos joelhos, ensanguentadas, e a jaqueta parecia em migalhas nas costas e nos cotovelos. - Perdoe, capitão - se desculpou o carreteiro com voz trêmula. - Não consegui que os cavalos parassem a tempo. - Estendeu ao Beau sua cartola, e o xale bordado que perdeu Cerynise enquanto rodavam ambos pelo chão. O segundo objeto estava roto e coberto de marcas negras de cascos e rodas. - Estava certo de terem matado aos dois. - Não foi sua culpa, Charlie - lhe assegurou Beau. - Vi que esse homem horrível a empurrava! - exclamou Heather com indignação. - Sim, todos nós vimos ele - declarou o primeiro carreteiro. Se não fosse pelo capitão a teria matado. Apesar do exame inicial Cerynise continuava temendo que Beau estivesse ferido, por causa de suas feições tensas. Tocou-lhe o peito com mão trêmula e esquadrinhou seu rosto com preocupação, reparando na rigidez dos músculos de suas enxutas faces. Só então se deu conta de estar presenciando um furor de cuja intensidade não sabia seu marido capaz. A seu


lado empalidecia por quanto tinha visto até então em Beau. - Vamos para casa - suplicou, afundando o olhar naqueles insondáveis poços azuis. A cólera abrasadora do Beau foi apagando-se até permitir que um sorriso tenso curvasse as comissuras de seus lábios. - Sim, meu amor. Vamos para casa, onde estará a salvo. Horas mais tarde Beau estava sentado em seu estúdio, rememorando os acontecimentos do dia com o olhar fixo em sua escrivaninha. O cocheiro levou para casa a sua mãe, manifestamente afetada pela agressão ao Cerynise. Esta se achava no dormitório do andar superior, dormindo sob a vigilância do Bridget. A jovem, segundo todos os indícios, superou o incidente com absoluta integridade, mas sua repentina letargia convenceu a seu marido de que em seu foro interno estava assustada. O capitão tinha convocado a toda a criadagem para explicar-lhes o ocorrido e informar os de que a partir desse momento sempre haveria alguém montando guarda na casa. O primeiro a oferecer-se como voluntário fora Moon, declarando-se de resto excessivamente consternado para dormir. Beau expôs a opção de levar-se a sua esposa ao Harthaven, mas lhe bastaram uns instantes para decidir que a fazenda não se destacava por sua segurança. além de contar com numerosas edificações anexas à mansão, as terras que a rodeavam em vários quilômetros à redor proviam ao agressor de infinidade de esconderijos. A própria mansão estava dotada de uma dúzia de acessos, e era muito fácil esconder-se em qualquer de seus cantos. Não. A casa de Charleston seria muito mais fácil de defender, na espera de achar ao vil verme responsável por aquele ato e pôr fim a sua desprezível vida. Nenhuma outra solução o convenceria de que Cerynise estaria a salvo do velhaco. Lamentou havê-lo tratado com tão pouca dureza a bordo do Audaz. De volta de sua infrutífera perseguição, Moon, machucado e ensanguentado, informou ao dono da casa de que a breve refrega lhe permitira ver de perto ao culpado. Tratava-se nem mais nem menos que do Redmond Wilson, o marinheiro que se enfureceu a machadadas com o Audaz até ficar desarmado pelo capitão. Além das precauções que instaurou em sua própria casa, Beau enviou ao Stephen Oaks e vários membros da tripulação a patrulhar as ruas em busca do Wilson. Se o renegado entrasse em uma taverna, visitasse um bordel ou repousasse sequer um instante em qualquer outro estabelecimento, Beau estava certo de que não demoraria para sabê-lo. Absorto em suas reflexões, esfregou o ombro e experimentou uma pontada de dor. Começava a dar-se conta do alcance dos machucados que se infligiu a si mesmo no ato de jogar-se sobre os paralelepípedos para salvar a sua esposa de que a atropelasse a carruagem e seus seis cavalos. De qualquer modo, qualquer prejuízo era insignificante em comparação com a dor que teria sofrido de ter sido feridos ou mortos sua esposa e o bebê. Teria sido uma perda similar se lhe arrancassem o coração. Pensando no que estiveram a ponto de lhe arrebatar, Beau sentiu desejo de de agarrar nos braços a sua esposa e ouvir palpitar em seu peito o ritmo de seu coração. Com esse


objetivo saiu do estúdio e subiu pela escada. Sua entrada no dormitório às escuras fez com que Bridget se levantasse de um salto. Por desejo do Cerynise, em noites de lua as cortinas ficavam abertas. Graças ao tênue resplendor que entrava pelas janelas, Beau percebeu em seguida a angústia da criada. Seu olhar de preocupação permitia adivinhar que temia desesperadamente a

sua senhora. Não disseram nada. Não era preciso, porque ambos

compartilhavam um mesmo temor. Bridget partiu depois de murmurar "boa noite", e Beau fechou a porta a sua passagem sem fazer ruído. Depois se aproximou da cama e permaneceu longo tempo contemplando as feições delicadas de sua esposa. Um feixe de luz prateada iluminou seu rosto. Nenhum sonho parecia perturbar seu descanso. Beau via nela a inocência de um anjo. Que homem em seu são julgamento podia querer lhe fazer mal?, perguntou-se, taciturno. A idéia era absurda, mas indubitavelmente certa. Despiu-se e pendurou a roupa no cabide do quarto de vestir. Uma vez debaixo dos lençóis, aproximou-se de Cerynise e colocou uma mão na suave protuberância de seu abdômen. Em seguida se viu recompensado por um movimento de seu filho. Com o coração transbordante de alívio, aplicou os lábios ao fragrante cabelo de sua esposa. Um suave suspiro de satisfação saiu dos lábios da jovem, que apoiou a cabeça debaixo de seu queixo e acariciou seu tronco musculoso. - Quero você - murmurou, sonolenta. Beau lhe respondeu nos mesmos termos, com voz carregada de emoção. - Eu também quero você... de todo coração, imensamente e para sempre.

CAPÍTULO 16

- Diz que não se encontrou nem rastro desse canalha... - refletiu Brandon em voz alta. - É possível que tenha fugido da zona? Julho chegou a seu fim e agosto se aproximava de seu término, mas Wilson continuava sem dar sinais de vida. Já fazia mais de uma semana que Beau chegou à conclusão de que o marujo devia ter fugido para outros climas depois de ser reconhecido pelo Moon; daí que se tivesse se disposto seriamente estender a busca a todas as Carolinas, e até a todo o sul por julgá-lo necessário. Sabia que bastaria oferecer uma recompensa generosa em todos os portos do mundo para que em um momento ou outro fosse reso. Era simples questão de tempo. Enquanto isso, Beau não conseguia descansar por completo nem de dia nem de noite. Sempre estava em guarda contra o canalha, e se negava que Cerynise saísse de casa. Se Wilson continuasse no lugar nada lhe impediria de prover-se de uma pistola e espreitar a aparição de ambos atrás de qualquer árvore. Entretanto, e apesar de seus temores, Beau tentava não comunicá-los a sua esposa; com esse fim, fingia despreocupação e distraía ela com anedotas


de suas aventuras marítimas, revelando mais do que teria feito em outras circunstâncias. Por sorte seus pais se uniram a seus esforços para entreter a jovem. Sua mãe ia visitar os quase diariamente, e até arrumou para que Hatti ficasse algumas semanas, se por acaso o bebê decidisse nascer em plena noite ou enquanto o médico estivesse atendendo a outra parturiente. Seu pai não se cansava de comprar para Cerynise livros sobre arte, bebês ou qualquer assunto que fosse de muito interesse para a jovem. Finalmente, Beau chegou à conclusão de que necessitava da companhia de seus pais tanto quanto sua mulher, e tinha perguntado a eles se estavam dispostos a instalar-se em sua casa de Charleston até que nascesse o bebê. O fato de que tivessem chegado com toda a bagagem apenas três horas depois de ser enviado a mensagem demonstrava um grande desejo de vir, temperado pelo de não intrometer-se sem ser convidados. Apesar da raiva e a preocupação que nunca abandonavam ao Beau, os dias passaram sem sobressaltos. Cerynise, próxima do final de sua gravidez, cansava-se com maior facilidade. Como resultado disso, todos os habitantes da casa se retiravam pouco depois do jantar, permitindo ao Beau aliviar o mal-estar de sua esposa na intimidade do dormitório. Desde há algum tempo surpreendia-a fazendo massagens na barriga e movendo-se com maior dificuldade pelo aumento de volume. Habitualmente Cerynise estava mais cômoda na cama quando se recebia fricções nas costas ou podia apoiar as pernas em cima das de Beau. Aproximar-se dele e apoiar a cabeça na mesma almofada era um modo seguro de que relaxasse. Às vezes Beau a abraçava e conversavam um pouco, mas o mais frequente era que ficasse adormecida ao arrulho de sua voz. Não entretanto Beau, que permanecia em guarda horas sem fim, atento a todos os sons da casa e refletindo sem descanso em busca de um plano que garantisse a plena segurança de sua esposa. Durante a terceira semana de agosto, a altas horas da madrugada, Beau saiu bruscamente de um sonho pesado com todos os sentidos alertas. Uma vez em pé correu para a janela e esquadrinhou a escuridão que cobria o pátio. Cerynise reagiu a sua ausência com um murmúrio de desassossego. Beau a olhou por cima do ombro e viu que estava enrolada como um novelo, como se algo a incomodasse ou a perturbasse. O misterioso mal-estar fez com que franzisse com força o sobrecenho, mas em breves instantes suas feições recuperaram a placidez anterior. Rodou então sem despertar até a parte do leito onde dormia Beau e, afundando o rosto no travesseiro, respirou fundo, depois do que exalou um longo suspiro de prazer, como se até em sonhos desfrutasse do aroma. Beau, em contrapartida, não podia estar mais acordado, e o cheiro que percebia não lhe era nada grato. Era fumaça! Voltou-se para a janela e alongou o olhar para procurar sinais de fogo no jardim ou na zona contigua do lado norte da casa. Tudo parecia normal, mas isso não significava que fosse. O cheiro se fez mais acre por momentos, nas asas da suave brisa que entrava no dormitório. Beau olhou as copas das árvores e viu agitar-se um pouco seus ramos sob a luz da lua, que reluzia em suas folhas. Havia, é obvio, a possibilidade de que o cheiro de fumaça procedesse


de um lugar mais afastado, e o trouxesse o vento. Beau rezou para que assim fosse, mas suspeitava que a brisa soprava do sul; era, com efeito, muito mais cálida do que o costume , e isso apesar da hora. Agarrou umas calças e as vestiu apressadamente. Depois acendeu a mecha de uma lanterna, ajustou-a e voltou a colocar a tela. Depois de comprovar uma vez mais que a pistola estava carregada,

a qual há um tempo guardava em seu criado-mudo, meteu-a no cinto,

agarrou a lanterna e saiu do dormitório. Em seguida cruzou o vestíbulo do andar superior e se dirigiu ao aposento onde se alojavam seus pais. Justamente antes de que os nódulos de seus dedos golpeassem a porta com suavidade, alguém abriu-a. Apareceu seu pai, que pusera as calças com similar urgência e segurava outra lanterna. - De onde vem? - sussurrou Brandon, olhando à esquerda e à direita do corredor. Virou-se e fechou a porta com cuidado para não despertar a sua mulher. - Não estou certo, papai. Pode ser do caís. Quando sopra o vento em determinada direção estamos acostumados a receber parte da fumaça. Já aconteceu o ano passado. - Vamos lá embaixo para dar uma olhada para nos assegurar - propôs Brandon. - Antes teremos que acender um pouco de luz no vestíbulo, se por acaso tivermos que voltar correndo e despertar às mulheres. Pouco depois efetuaram uma prudente descida ao andar térreo e a examinaram aposento por aposento, procurando sinais de incêndio em cada um antes de passar ao seguinte. Tudo era silêncio na casa, mas o cheiro de fumaça, que ia aumentando, não parecia corresponder-se com nenhuma alteração da ordem habitual. Brandon saiu em outra direção da do seu filho e percorreu o corredor que levava a cozinha. Quando entrou nela descobriu que a porta detrás estava aberta, e que havia uma forma humana atravessada na soleira. - Beau - disse em voz baixa, - venha ver isto. Ao dar a volta ao corpo caído, que estava inconsciente, Brandon resmungou um impropério: a fronte do jovem criado tinha um corte ensanguentado. Voltou-se para Beau, que viera a sua chamada. - Quem fez isto se propunha deixar um bom tempo fora de combate o pobre menino. Beau levantou os olhos e aumentou à luz de sua lanterna, escrutinando a escuridão do jardim, além do terraço coberto que dava suporte à casa. Percebendo uma luzinha trêmula nas proximidades do lado sul, passou por cima do corpo estendido de Cooper e caminhou em silêncio para o extremo do alpendre, vigiando a possível aparição de um agressor escondido na escuridão. Quando chegou ao final do terraço descobriu por fim a origem da fumaça. Alguém acendeu fogo na cerca da rua. O que restava dela não teria bastado nem para esquentá-los alguns minutos durante uma noite fria de inverno. - Esta noite Cooper montava guarda, papai - afirmou Beau com súbita inquietação, correndo para seu pai, que estava aplicando uma compressa fria e molhada na testa do criado. - O culpado precisou incendiar a cerca para fazer Cooper sair e deixá-lo sem sentido. É possível que já haja alguém dentro de casa. - É melhor dar uma olhada no andar de cima, assegure-se de que as mulheres estejam


bem e as levantes da cama - disse Brandon, pondo em pé o criado e escorando-o com um de seus largos ombros. - Eu levarei o Cooper a seu quarto e despertarei ao resto da criadagem. Quando ficou sozinho, Beau correu pelo corredor que levava ao vestíbulo central. Quando estava a ponto de subir pela escada, percebeu luz na parte norte do jardim. Empunhou a pistola, foi à janela, abriu-a de par em par e apareceu nela, a tempo de ver um homem alto e vestido de escuro que dobrava correndo uma das esquinas frontais da casa. Saiu disparado para a porta da cozinha e exclamou: - Papai! Wilson tenta nos obrigar a sair incendiando a casa! Já acendeu outro fogo no lado norte. Diga aos criados que se apressem em apagá-lo! E se vir Wilson na parte detrás grite! Eu vou para a fachada, para ver se o agarro. - Mate esse porco! - É minha intenção - murmurou Beau, dando meia volta. Desprendeu-se da lanterna e correu para a porta principal, descobrindo horrorizado que estava aberta. Quase imediatamente um grito procedente do andar superior lhe gelou o sangue. Girando bruscamente sobre os calcanhares, cruzou o vestíbulo à velocidade do raio e subiu os degraus de três em três. Em meio de sua subida viu Cerynise e sua mãe no patamar, mas não estavam sozinhas. Um homem mascarado e com roupa negra, magro e de estatura superior à média, tinha aprisionado Cerynise pelas costas e a segurava estreitamente com um braço, impedindo-a de mover os seus. O criminoso carregava uma pistola em sua mão direita e apontava para Beau. Heather expressou sua aguda indignação esmurrando ao intruso e lhe dando chutes com uma pantufa de saltos baixos. O homem, voltou-se para ela com um grunhido e com uma coronhada no queixo deixou à Heather inconsciente no chão. A ira do Beau adquiriu máxima intensidade. Continuou subindo pela escada, mas o criminoso se voltou de novo para ele, e desta vez apontou o cano da arma à têmpora de Cerynise. Beau ficou gelado. O desconhecido riu entre dentes e, encorajado pelo controle que tinha sobre o capitão, fez-lhe sinais para que retrocedesse. Beau não teve mais remédio que obedecer e voltar pouco a pouco sobre seus passos, descendo para o pé da escada. O vilão o seguiu com cautela, utilizando Cerynise como escudo humano. Quando Beau se aproximava da curva central da escada, o agressor se deteve para avaliar a situação. Seus olhos brilharam atrás dos buracos da máscara. Apesar de não ter percorrido mais que uma quarta parte da escada, tinha uma vista parcial sobre a porta da casa, que estava aberta. Disse então com voz rouca e zombeteira: - Poderia matar a sua esposa agora mesmo e me economizar o aborrecimento de voltar em outra ocasião, mas então não poderia escapar, porque não me é possível matar aos dois. Confesso que me desgosta sobremaneira partir sem ter concluído minha missão, mas suponho que terei que esperar um momento mais oportuno para acabar com esta cadela. E sem maiores preâmbulos soltou Cerynise e a empurrou escada abaixo, para seu


marido. Beau se lançou a seu encontro, mas o impacto da colisão o obrigou a retroceder e fez com que perdesse o equilíbrio. No mesmo momento em que procurava manter Cerynise sobre si para atenuar a queda com seu corpo, viu que seu inimigo saltava por cima do corrimão e corria para a entrada principal. Uma batida da porta mostrou o êxito do canalha em sua fuga do lugar do crime. - Maldição! - rugiu Brandon assim que entrou correndo no vestíbulo e viu que os corpos entrelaçados de seu filho e sua nora caíam dando tombos pelos últimos degraus. Quando ficaram imóveis no chão de mármore, perguntou com inquietação: - Estão bem? - Não estou certa - respondeu Cerynise, levantando-se e dissimulando com muita dificuldade um gesto de dor. Beau, que caíra de cabeça e de costas pela escada, supôs que teria ferimentos dos quais ainda não se dava nem conta, mas não dispunha de tempo para pensar em si mesmo. Voltouse para seu pai. - Papai, é melhor que vá ver mamãe - insistiu. - Esse rato de esgoto a deixou inconsciente com um golpe de pistola. Com uma raiva abrasadora, Brandon subiu pela escada quase voando, mas ao ver sua esposa estendida no patamar sua fúria alcançou extremos impensáveis. Nesse momento se sentia capaz de assassinar ao agressor sem a menor hesitação. Agarrou Heather nos braços com doçura, levou-a a seu dormitório e a depositou na cama. Depois umedeceu um trapo e o aplicou ao queixo de sua esposa, negro e inchado. Foi grande seu alívio ao ver abrir os olhos da paciente. Percebendo -se de sua inquietação, Heather tentou tranquilizá-lo com um sorriso, mas ficou pela metade no esforço. - Ui! Dói! - disse, apalpando o queixo com um leve gemido. - Com efeito, e é normal - sussurrou seu marido, acariciando carinhosamente a massa de cachos que tocavam sua face. - Tem um arroxeado muito escuro no queixo, onde a golpeou esse malfeitor. Heather recordou tudo imediatamente, e foi necessário obrigá-la pela força a não abandonar o leito. - Cerynise! - exclamou com ansiedade. - Esse homem queria matá-la! - Calma. Não o conseguiu - informou Brandon. - Sua nora está agora mesmo no andar térreo, com o Beau. - Ilesa? - Parecia estar quando os deixei, mas tentava desenredar-se de seu filho ao pé da escada, e não me deram explicações sobre o motivo. - É melhor que vá vê-la - disse Heather, repetindo sua tentativa de levantar- se da cama, no instante em que o quarto ficou a girar em torno dela. Ou talvez não - disse com um gemido de desconcerto. Nesse instante, a origem dos temores de Heather estava sentado ao lado do Beau no chão de mármore. A angústia de Cerynise era patente, mas não pelos motivos que lhe teria


atribuído sua sogra depois de tão terrível sobressalto. Sorriu para seu marido com certa reticência e lhe confiou envergonhada: - Beau, odeio preocupa-lo ainda mais, mas parece que estou molhada. Suspeito que a queda fez romper a bolsa d'água. Beau, sobressaltado, olhou o atoleiro em que estava sentada sua esposa, e as manchas de sangue que salpicavam sua bata. - Isso não é tudo. Também sangra. Cerynise apalpou a barriga. Antes mesmo de ouvir a acalorada reprimenda a que submetera Heather ao malfeitor, tinha-a despertado um mal-estar nas costas e algo pegajoso entre as pernas. Naturalmente, não havia senão uma conclusão racional. - Por todos os santos! - exclamou Beau, ficando em pé. - É melhor que eu vá procurar Hatti e mande buscar o doutor! Cerynise lhe dirigiu um olhar de súplica. - Poderia me levar antes para cama? Este mármore é muito incômodo. - Isto deveria ter me ocorrido antes - resmungou Beau com certa contrariedade, Pegando-a nos braços. - Não é de cavalheiros deixar que uma dama passe apertos. Cerynise jogou os braços ao pescoço com uma risada aguda. - Não se preocupe, que o perdoo. No final de de contas é meu cavalheiro andante; embora deva dizer que se der mais cambalhotas comigo acabará aleijado antes do tempo. - Conquanto envelheça a seu lado, senhora - respondeu Beau com doçura, - não terei queixa. Uma vez em seu dormitório, Cerynise lhe rogou que a pusesse em pé junto à cama e a ajudasse a tirar a roupa suja e o roupão. - Já sei que de um tempo para cá minha nudez não é muito atraente à vista - disse com vergonha, tampando-se com os braços quando Beau lhe trouxe uma camisola limpa do armário, - mas tenho a esperança de que não demorarei para recuperar minha silhueta habitual, e de que poderemos voltar a fazer amor. - Eu a vejo formosa - sussurrou ele, lhe dando um beijo na testa. Vendo que os olhos da jovem brilhavam com amor, sentiu-se imensamente afortunado. Sacudiu a camisola e a passou pela cabeça de Cerynise, que tinha levantado os braços. - Além de tudo leva nosso filho, e isso a meus olhos a faz ainda mais atraente. - Se preocupa que seja menino ou menina? - perguntou ela através da roupa, enquanto colocava os braços nas mangas. - Conquanto saia um bebê são e bem formado, estarei encantado seja do sexo que for. A cabeça de Cerynise ficou de novo descoberta. Sorrindo ao Beau, puxou a sua longa e ondulada cabeleira e a deixou cair pelas costas. - Já disse esta manhã que o quero? - Beau olhou pela janela. - Suponho que não, tendo em conta que ainda é de noite. Cerynise rodeou sua esbelta cintura com as mãos e lhe deu um beijo em seu peito nu.


- Pois lhe digo isso agora, meu senhor: sua esposa o quer com loucura. Beau lhe pôs os braços nos ombros. - Saiba, senhora, que seu marido a adora, de modo que aí fica isso. De repente Cerynise deu um quarto de volta e sofreu uma convulsão que a deixou com o corpo dobrado em dois. Aferrou-se desesperadamente aos dedos de Beau, que a segurou com um braço nas costas. - Acho que será melhor pôr sobre a cama os lençóis que Hatti preparou - disse sem fôlego. - Não prefere se deitar um pouco? -

perguntou ele.

- Só quando estiverem postos os lençóis. Não quero manchar o colchão. Decidindo que era mais simples agradá-la a iniciar uma discussão, Beau se apressou a cumprir seus desejos. Pouco depois Cerynise estava deitada nas almofadas. - Agora será melhor que vá em busca de Hatti - disse ele. Antes de descer ao andar inferior, fez uma breve pausa diante da porta de seus pais para lhes comunicar que Cerynise estava em trabalho de parto. - Onde está, Hatti? -exclamou ao chegar ao quarto da ama e encontrá-lo vazio. - Aqui, senhorzinho Beau - respondeu a mulher negra no pátio, e depois de colocar-se em lugar visível o olhou com curiosidade. - Para que me quer? - Vai nascer o menino! Hatti assentiu com a cabeça, como se já soubesse. - Parecia-me que já era hora, porque faz dias que à senhora Cerynise estava baixando a barriga. - Está lá em cima, em nosso dormitório. - Agora mesmo subo, senhorzinho Beau -disse Hatti. - Assim que me lave e me vista. Por enquanto, não vai acontecer nada. - É melhor que envie alguém para chamar o médico. - Eu esperaria um pouco, senhorzinho Beau, porque sendo o primeiro filho da senhora Cerynise pode ser que tarde horas em sair... - Horas? - Beau empalideceu. De repente seus joelhos pareciam muito fracos para sustentá-lo. - Tanto? - Saberei em seguida - respondeu Hatti, compadecida. Beau se concentrou a contra gosto em outros assuntos. Os criados estavam apagando os restos do incêndio. Os danos eram insignificantes e fáceis de reparar. Beau agradeceu por isso, mas a cerca da rua estava chamuscada, e teria que arrancá-la e pôr outra imediatamente para que Cerynise estivesse segura no jardim, dentro do que era necessário. O vento deixou de soprar, e a luz da manhã iluminava um ceu cinza e nublado. Beau se sentou de novo em uma cadeira do dormitório principal e levantou a cabeça, tratando de desentorpecer a nuca. Cerynise continuava com o trabalho de parto. Agora tinha ao Hatti a seu lado, sentada na cama e lhe agarrando a mão. A mãe de Beau fazia ouvidos surdos às súplicas de seu filho para que fosse para seu dormitório e descansasse, até que Beau aceitou a


contra gosto que continuasse no dormitório. Brandon, que reconheceu a férrea determinação de sua esposa, tivera a prudência de não discutir. Se algo aprendera de sua longa convivência marital era que em certas ocasiões Heather Birmingham podia ser muito teimosa. tratava-se claramente de uma delas. - Me parece que quem deveria dormir é você - murmurou Heather a seu filho, que lutava com coragem para não sucumbir a uma ansiedade cada vez maior. Suas palavras demoraram certo tempo em impregná-lo, mas Beau negou com a cabeça porque não confiava em suas faculdades verbais. Cerynise olhou a seu marido com amor, e recebeu por sua vez um olhar de sincera adoração. A Heather bastou dar uma olhada a ambos para decidir que necessitavam de uns momentos a sós. Sorriu a sua nora, acariciou-lhe a mão e se afastou da cama com a primeira desculpa que lhe ocorreu. - Vou descer para ver como vai esse menino tão simpático, Cooper. Depois direi ao Philippe que nos faça algo para o café da manhã. Enquanto isso, acho que a nenhum dos dois fará mal um pouco de intimidade. Hatti se mostrou de acordo e transladou para a porta seu corpo volumoso, rindo baixo. - Se precisarem de nós deem um grito. Beau aguardou que a porta estivesse fechada. Só então cruzou o dormitório e se deitou na cama ao lado de sua esposa. - Dói muito? Cerynise entrelaçou seus dedos com os de Beau, compridos e finos, e os levou aos lábios para dar-lhes um beijo. - Em certos momentos - murmurou, pousando nele um olhar limpo e acariciador. - Além disso, segundo Hatti, estou bem. - Tem medo? - perguntou Beau, acariciando com ternura a avultada barriga. - Com você, não. A mão de Beau se deteve. - E quando tiver que partir ? - Não quero que vá. Contigo a meu lado sou capaz de suportar algo. Transcorrido um tempo, os passos de Hatti se aproximaram da porta do dormitório. Beau se apressou a imprimir um beijo na frente de sua esposa e descer da cama. Enquanto tirava roupa limpa de seu armário, sorriu para Cerynise e lhe prometeu: - Voltarei assim que me tenha lavado e vestido, e ficarei até o final. Cerynise assentiu com lágrimas de alívio. Quase imediatamente a alertou de novo uma tensão prolongada por toda a barriga. Mesmo assim teve a coragem de sorrir, dando ao Beau permissão para partir. Durante as horas que seguiram a pressão se fez mais intensa, e ao meio-dia as contrações chegaram a um ponto em que Cerynise já não podia ocultar a seu marido o malestar que sentia. Seus dentes apertados não deixaram escapar nem um só grito, mas Beau não


podia senão reparar como seu corpo todo ficava tenso, e nas caretas de dor que acompanhavam às contrações. Enquanto Bridget abanava a sua senhora, Beau permaneceu junto ao leito com expressão inquieta, notando que sua mulher se aferrava a sua mão com tenacidade. Tratando de aliviá-la com o único recurso a seu alcance, molhou-lhe o rosto com um pano úmido e afastou de sua fronte e de suas faces as mechas empapadas de suor, ao mesmo tempo que lhe dirigia palavras de ânimo. O calor de agosto não era fácil de combater. Não soprava nem pingo de vento, e à medida que o sol subia, o dormitório do andar superior se tornou cada vez mais asfixiante. Entretanto, e por causa do pudor, Cerynise procurava continuar coberta com um lençol. Era Beau quem insistia em retirar o tecido para lavar com água fria seus braços, pernas e pés. Graças à brisa que criava Bridget com o leque, Cerynise teve que admitir que o fato de que fossem umedecidos os braços e as pernas a aliviava bastante do ar abafado. O doutor Wilhelm chegou por volta das duas , e demonstrou imediatamente estar acostumado a impor seu critério nessa classe de situações. O primeiro que fez foi informar ao Beau sem rodeios de que dali em diante não seria necessária sua presença no dormitório. A expressão de pânico que se apropriou da parturiente comoveu no mais fundo ao Beau, que defendeu seu direito a permanecer com ela. - Não tolerarei nenhuma oposição, jovem! - declarou o médico. - Não quero o ver aqui dentro até que tenha nascido o menino. Procure algo para fazer fora dos limites deste dormitório, porque não vai ficar. Heather e Hatti se olharam com inquietação, porque ambas se davam conta de que Beau se dispunha a passar ao ataque. Resolvida a impedi-lo, Heather se aproximou de seu filho e lhe falou com doçura. - Fique lá embaixo com seu pai, Beau. Nós vigiaremos Cerynise. - Deveria ficar... Cerynise, que saía de outra de suas dolorosas convulsões, olhou ao médico com apreensão, perguntando-se se toleraria tão oficiosa atitude. Como se seu confronto com Beau não fosse suficiente, o doutor começou a queixar-se de que havia muita gente no dormitório, e despediu de quem considerava desnecessários, começando por Bridget. A criada não sabia que ordens seguir. Como a chamaram para refrescar Cerynise no que fosse possível, não via motivos para não permanecer a seu lado. Olhou primeiro a sua senhora e depois ao Beau, esperando que um dos dois lhe desse indicações. - O que devo fazer? - sussurrou, escrutinando as tensas feições de Beau. - Sua senhora necessita você ... - respondeu ele, antes de que o interrompesse com rudeza o obstinado médico. - Saia daqui, moça! E depressa! - exclamou irado o doutor Wilhelm a jovem. Investido por obra própria de uma autoridade ditatorial, apontou a porta com um indicador gordinho, fazendo com que a criada partisse chorando.


Depois se voltou para Hatti, que permanecia incólume e com as mãos na cintura, como um baluarte inconquistável, desafiando-o a tentar a mesma tática com ela. O doutor Wilhelm pareceu decidir que não tinha nenhuma possibilidade e desviou uma vez mais sua atenção para Beau, que continuava sem dar seu braço a torcer. Pela expressão de seu rosto, cada vez mais carrancudo, Cerynise adivinhou que seu marido estava tão indignado como ela com o médico. Julgou prudente intervir. - Vá com seu pai, Beau. Estarei bem. O médico considerou suas palavras como uma autorização para pegar Beau pelo braço e conduzi-lo para a porta. -Não é preciso que os pais ajudem a nascer a seus filhos - declarou, impertinente. - De nada serviria que o visse nervoso sua mulher. Estará melhor se sair. - Me tire as mãos de cima, maldito seja! - rugiu Beau, cravando no áspero e rígido semblante do médico um olhar como um estilete. - Se sair será sem que me acompanhe. Sua ira ofendeu ao doutor Wilhelm. - Como diz, cavalheiro? Hatti intercedeu antes que ocorresse algum percalço a aquele médico insensato. Agarrou Beau pelo braço e puxou ele para a porta. - Vai com seu papai, senhorzinho Beau. Deixe sozinho ao doutor para que possa ajudar à senhora Cerynise. Beau se viu expulso para o vestíbulo, e lhe fecharam a porta no nariz sem lhe dar tempo para discutir com a ama. Apertou os punhos e voltou para a carga, mas se deu conta de que em nada ajudaria Cerynise se brigasse com o médico. Depois de expressar sua frustração com um suspiro, obedeceu as indicações de Hatti (pelo menos no momento). Brandon recebeu a seu filho ao pé da escada e o levou ao estúdio, apoiando em seus ombros um braço consolador. Uma vez no estúdio, ofereceu-lhe uma taça de conhaque e tentou distrai-lo. - Contei-lhe alguma vez a noite em que nasceu? Beau engoliu a metade do líquido sem sequer degustá-lo. - Não, papai... Parece-me que não. - Sua mãe insistia em que precisava de uma camisola azul, porque os meninos não vão de rosa, ou algo assim. Deixou-me louco. Estava convencido de que você iria cair de cabeça no meio do dormitório . - Encheu outra vez a taça de Beau sem interromper seu relato, e o obrigou a sentar-se com um suave tranco. - Hatti acabou me jogando fora. Imagine como estava que nem sequer soube o que estava bebendo. Beau, que experimentava a tensão associada ao fato de sua esposa estar em trabalho de parto, entendia perfeitamente a angústia de seu pai. Pessoalmente não estava muito certo de poder aguentar um trauma como aquele mais de uma vez na vida. - E quando nasceram Suzanne e Brenna?


- Foi muito mais fácil. Claro que também eram mais pequenas, e isso ajuda. Beau tomou o que restava de licor e, olhando seu pai nos olhos, estendeu a taça para que voltasse a enchê-la. - Antes Hatti disse que lhe parecia que este menino ia ser bastante grande. Espero que não muito. Depois disso não houve mais comentários, porque não havia mais o que dizer. Com uma simples frase, Beau expressara toda a profundidade de sua preocupação. Passaram-se duas horas e continuavam sem chegar notícias do andar de cima. Beau achou impossível permanecer sentado, e ficou a dar voltas pela sala. Brandon conseguiu enredá-lo em uma partida de xadrez, mas se compadeceu ao vê-lo perder a terceira por falta de concentração. Philippe, tão nervoso como o os demais, entrou no estúdio para anunciar que por fim conseguira preparar um pouco de comida. Podia ter-se economizado o trabalho , porque nem filho nem pai tinham o menor interesse em comer. Logo que o cozinheiro saiu do estúdio, um grito abafado procedente do andar de cima fez Beau saltar da cadeira. Sua reação teria sido a mesma embora não lhe tivesse parecido ouvir seu nome. Depois de cruzar o vestíbulo como um aroma, subiu saltando pela escada com uma rapidez que deixou pasmado ao Philippe. Em todos seus anos de serviço, e por impossível que parecesse, não recordava tê-lo visto mover-se com tanta presteza, e isso apesar do capitão ter dado provas reiteradas de que sua agilidade física não tinha nada a invejar de sua acuidade mental. Beau entrou no dormitório dando passadas. O doutor Wilhelm, que estava junto à cama, girou sobre os calcanhares, escandalizado pela irrupção. Tratou de afugentar ao intruso. - Já lhe disse que sua presença não é necessária! Faça o favor de se retirar em seguida! Heather pôs uma mão no braço do médico e murmurou com suavidade: - Cerynise necessita de seu marido junto a ela, e ele quer estar a seu lado. Aconselho-o que não continue protestando. - Isto é absurdo! - disse o doutor, pondo o grito no ceu. - Não tolerei a presença do pai em nenhum parto. É inaudito! - Possivelmente seja hora de reavaliara sua postura – sugeriu Heather. - Quem tem mais direito a estar presente de que o pai da criança? - Não penso em consenti-lo! - grunhiu o médico. - Pode partir - disse Cerynise, quase sem fôlego. Seu marido se ajoelhou junto ao leito, e lhe agarrava a mão de um modo muito mais reconfortante que a presença do médico. - Penso que a partir de agora Hatti poderá me ajudar. - Claro que sim, senhora! A mulher negra mostrou toda sua dentadura ao médico, que a olhava com má cara. O doutor Wilhelm se desceu com irritação as mangas da camisa e começou a abotoar os punhos. Passeando pela sala um olhar de irritação, recolheu a jaqueta, fechou a maleta com um estalo e saiu sem dizer uma palavra. Hatti o seguiu até a porta do dormitório, e daí deu um grito à


Bridget, lhe dizendo que subisse. - Abane a esta pobre menina; que isto parece um forno! Suas palavras ganharam outro olhar assassino do doutor, já da escada. Rindo com dissimulação, a ama voltou bamboleando-se, ao dormitório. Apenas fechada a porta, Cerynise exclamou: - Hatti, Hatti, acho que o bebê vem vindo! De verdade! Os efeitos calmantes do pano úmido que Heather aplicava

às faces de sua nora não atenuaram a congestão que se

apoderava delas simultaneamente aos esforços de Cerynise por expulsar ao bebê de suas entranhas. O impulso era excessivo para ser dominado. A jovem apertou os dentes, separou a cabeça do travesseiro e empurrou, exercendo sobre a mão de seu marido uma pressão constante que quase o deixou estupefato. - Sim, já vem! - afirmou Hatti ao afastar o lençol, cobertura em que tinha insistido o médico. Afastou a camisola de Cerynise e preparou o equipamento necessário. Bridget entrou correndo no dormitório, mas Cerynise já não pensava em manter o decoro. Estava empurrando com todas suas forças. Beau se tinha levantado e olhava fixamente a cabeça negra e ensanguentada que emergia do corpo de sua esposa. Um impulso súbito a liberou por inteiro, e imediatamente depois o enrugado bebê emitiu um chiado, suscitando as risadas de quantos estavam presentes no dormitório, incluída Cerynise. - Descanse um pouco, senhora Cerynise - lhe aconselhou Hatti, - porque dentro de nada empurrará outra vez, e forte. - Seguindo de perto a suas palavras, uma pontada de dor convulsionou à parturiente, que sentia de novo a necessidade de empurrar. Observando os resultados, Hatti riu entre dentes. - Agora saem os ombros, e não os vi mais largos em minha vida. Com esses ombros só pode ser menino. - O que está claro é que tem bons pulmões - assinalou Beau, surpreso pela força dos berros, e pelo milagre do nascimento. Bridget se trabalhou em excesso em abanar a sua senhora. Era a primeira vez que via nascer a um bebê, mas desde que Stephen Oaks lhe propusera casamento, os dois sonhavam em ter família numerosa. Vendo-se chegado ao mundo e às mãos do Hatti, o último dos Birmingham a chegar soltou outro chiado de indignação. Em seguida o puseram sobre o ventre de sua mãe, agitando as mãos e vermelho como um tomate. Nesse momento, e como não se cansaria de repetir dali em diante, Beau jurou e perjurou que seu filho deixou de chorar ao olhá-lo nos olhos. - É uma preciosidade - disse Cerynise, sem soltar a mão de seu marido. Heather assentiu com orgulho. - Com esse cabelo negro e encaracolado se parecerá com seu pai. Bridget estava igualmente encantada. - É um moreno. - Quando poderei segurá-lo? -perguntou Beau com impaciência.


- Depois de que lhe tenha atado e cortado o cordão e o tenha limpado um pouco, senhorzinho Beau - respondeu Hatti. - Paciência. O bebê demorou um pouco para ser depositado nos braços de seu pai. Beau contemplou sua carinha enrugada com sincero assombro. Os olhos do menino estavam totalmente abertos, e olhavam a seu pai com o que Beau, orgulhoso, julgou como interesse e aguda inteligência. Rindo de pura euforia, levou a seu filho à Cerynise e o colocou suavemente no vazio de seu braço. Juntos examinaram a maravilha que criaram, endireitando seus dedos minúsculos e alisando as sedosas mechas de cabelo negro. Heather desceu para dar ao Brandon a notícia de seu neto, enquanto Hatti acabava de fazer o necessário. O forte grito de júbilo do avô fez com que Philippe acudisse correndo ao estúdio. - É menino, Philippe! - anunciou Heather com alegria. - Um menino forte, sadio e de cabelo negro! - E a senhora Birmingham? - inquiriu o cozinheiro. - Está bem? Heather assentiu com entusiasmo. - Não poderia estar mais feliz. - Excelente! - exclamou Philippe, jubiloso. Em cima, no dormitório, Hatti, que se agachou para ver mais de perto ao novo Birmingham, sorriu de orelha a orelha. - Veja, jovem senhor, agradeça a sua mamãe por tudo o que tem feito, porque é o bebê mais lindo que vi desde que nasceu Tamarah, a filha do jovem senhor Jeff. E se não, que venha Deus e o veja! Cerynise não acabava de acreditar que tinha em seus braços a seu próprio filho, e que o pai fosse Beau Birmingham. Além de grande, o bebê era robusto e esperto, apesar do trauma que passara sua mãe com a tentativa de atropelamento, e mais recentemente com a queda pela escada. Já se agitava com um objetivo muito concreto, e ao não encontrar o que procurava voltou a gritar de indignação. - Como grita, o muito safado! - disse Hatti com regozijo. - Vai ter o mesmo gênio que os outros homens da família! Cerynise olhou Beau com olhos brilhantes. - Tínhamos decidido algum nome? - Beau lhe acariciou os dedos. - O que te parece Marcus, por seu pai, Bradford, pelo sobrenome de sua mãe... e Birmingham por mim? Os olhos de Cerynise se encheram de lágrimas. Era a primeira vez que Beau fazia aquela proposta. Quis saber como soava a combinação. - Marcus Bradford Birmingham. Muito nome para um menino tão pequeno! - Crescerá, não se preocupe - afirmou Beau, risonho. - Você gosta? - Sim, minha vida, muitíssimo; e obrigado por se lembrar de meus pais. - Tenho uma dívida de gratidão com eles, por ter tido uma filha tão formosa. Não é verdade, meu ceu, que fizemos um filho lindo?


Cerynise contemplou com orgulho a obra de ambos, e acreditou discernir uma faísca de azul safira nos olhos de seu filho. Até a expressão do pequenino refletia de algum modo as feições de seu pai. - Pelo que se vê, meu amor - murmurou com um sorriso terno e afetuoso, - eu fiz todo o trabalho, mas você ficará com a glória. - Como diz, querida? - perguntou Beau, perplexo. - Tal pai, tal filho. Intuo que se parecerá com você tanto como você a seu pai. - De verdade o diz? Perguntou-o com tanto interesse que fez sua esposa rir. - Não se gabe muito. Pode ser que ainda encontre algo de mim nele. - Sem você, ceu - sussurrou Beau, roçando os lábios de sua esposa com os seus, - nosso filho nem sequer estaria aqui. Marcus Bradford Birmingham crescia a uma velocidade que assombrava a seus pais, entusiasmava a seus avós e impressionava até a seu tio avô Sterling, quem, apesar reconhecerse pouco perito em bebês, qualificou ao jovenzinho de "muito bonito". Saltava à vista que Beau estava preso àquela criatura, cuja mera existência o enchia de pasmo e alegria. Sempre estava disposto a participar do cuidado do Marcus. Se o bebê despertava na metade da noite, seu pai não reclamava de ir buscá-lo e trazê-lo para Cerynise para lhe dar o peito. Agarrava-o nos braços, embalava-o e lhe falava como se pudesse entendê-lo; e por certo que Marcus se mostrava muito atento, e observava a seu pai com a boca apertada, como se aguardasse o momento de tomar ele a palavra. Para escândalo de Hatti, Beau chegou ao extremo de trocar as fraldas do pequeno. O espetáculo do Beau e seu filho absortos felizes um no outro já estava convertendo-se em traço característico da casa. Cerynise descobriu na maternidade uma alegria que excedia em muito ao previsto. Tanto quando estava sentada com o menino ao peito como quando o banhava, embalava-o ou cantava para ele uma canção de ninar, sentia-se maravilhosamente realizada como mulher. Era como ver-se conectada de repente a um sentimento de infinito valor e ternura, veículo de plenitude maternal. Quando estava envolta nesse novo mundo de emoções, tinha a certeza de que as preocupações ordinárias do mundo em que vivia se viam reduzidas à inexistência. Completado o primeiro mês de vida, Marcus mostrava enorme afeição à idéia de obter seu sustento vital do peito de sua mãe. Quando não apaziguavam seu apetite com pontualidade, ia às nuvens tal que quase todos os ocupantes da casa tomavam consciência de que era hora de lhe dar de comer. No momento mesmo em que era pego ou depositado nos braços de sua mãe, reconhecia que Cerynise era a pessoa adequada para satisfazer seu apetite e procurava o peito por todos os meios. Se algo lhe impedia de acessar a ele, informava a sua mãe de que estava aborrecido em extremo. Seu apetite parecia insaciável, mas Cerynise descobriu aliviada que não tinha dificuldade em estar a sua altura. - Não lhe parece que começa muito jovem? - brincou com seu marido. O bebê lhe sovava o peito com suas mãos minúsculas, enquanto chupava o mamilo com


voracidade. Beau o olhou com orgulho e infinito amor. - A que, querida? - Não é o único da família a que gosta de ser amamentado - respondeu Cerynise. Seu marido sorriu e a olhou de maneira insinuante. - Estou impaciente para que chegue meu turno. Lembro claramente ter ouvido dizer à Hatti que lhe era preciso seis semanas para se recuperar de tudo; portanto, em questão de uma semana deveríamos poder reatar nossa intimidade. - Isso enquanto não sofrer assaltos inesperados - instigou ela com doçura. - Nada melhor que algumas carícias para avivar o espírito - alegou ele, tratando de dissimular o tremor de seus lábios ao recordar a emboscada em que fez cair Cerynise pela manhã no quarto de vestir. Vendo-a despojar-se de sua camisa, desejou olhá-la longo e estendido tempo e realizar algumas explorações. - Recuperou sua preciosa silhueta, e só me propunha admirá-la. - Não, não me importa - asseverou Cerynise com um sorriso. De fato tinha participado de muito bom grado na sessão de carinhos e beijos subsequente. - Devo reconhecer, isso sim, que não soube que explicação dar a Bridget quando encontrou minha camisa rasgada escondida no armário. Todos os botões arrancados, e o encaixe do tirante meio destroçado. Não teria sido muito convincente atribuir ao Marcus a culpa de sua fogosidade. - Bridget vai casar se dentro de pouco - respondeu Beau entre risadas, - e não demorará para averiguar que quando um homem se inflama por uma mulher costumam acontecer essas coisas. - Inclinou a cabeça e dirigiu à Cerynise um olhar que falava por si mesmo. - Também poderia dizer ao Bridget que uma maneira de economizar roupa interior é não vestir-se até que seu marido tenha tomado o café da manhã. - Café da manhã consistente em...? - Com olhos brilhantes, Beau a submeteu a um novo exame visual. - Faz-se inocente comigo, senhora, ou deseja acaso uma demonstração? - Hatti disse... - Dá igual o que diga. Tudo depende de como a encontre. Cerynise sorriu com coqueteria. - Algo sensível, possivelmente. - Poderíamos ir pouco a pouco. - Já volta a me tentar - acusou-o com uma careta maliciosa. Beau riu. Em seguida, e uma vez recuperada a serenidade, aproximou-se de sua esposa para beijá-la. - Duas semanas quando muito - sussurrou sem separar a boca de seus lábios. - Não lhe dou mais tempo. De momento o que tenho que fazer é ir ao trabalho, ou o tio Jeff me despedirá. - Vejo isso difícil! - mofou ela. - É o melhor que aconteceu na companhia naval. Disse-o o tio Jeff quando veio com sua família para ver o Marcus. Beau, já em pé, colocou as mãos nos


bolsos da calça. - Só o diz porque quer que fique em meu posto e não faça outra viagem. - Sim, já o ouvi dizê-lo, mas também comentou que era um homem de negócios nato, e que se ficasse daria o que pedisse. Beau escrutinou o rosto de sua esposa, receando o motivo da conversa. - Quer me dizer que você gostaria de não fazermos outra viagem juntos? - Absolutamente! -negou Cerynise, agarrando sua mão e obrigando-o a ficar de novo em pé . - Com você iria até o fim do mundo. A única coisa que digo é que não se dá conta da importância que tem para a companhia. O tio Jeff poderá arrumar-se sem você perto de um ano, tempo suficiente para que façamos nossa viagem, mas acho que estaria encantado de que um dia destes você se comprometesse a se pôr à frente do negócio na sua volta. - E Harthaven? No outro dia meu pai deu a entender que gostaria de deixá-lo em minhas mãos. Cerynise sorriu, pegou a mão de Beau e encostou os nódulos na face com um gesto cheio de ternura. - Acha seriamente que se seu pai renunciasse à administração do Harthaven saberia no que ocupar-se? No meu entender, levar a fazenda é para ele como um elixir de juventude, tanto como o é para sua mãe. Pode ser que um dia cheguem a ser tuas as terras, mas não acredito que tenha motivos para temer que seu pai leve a mal que você se converta em sócio do tio Jeff. Dos dois, quem mais precisa mais de você é seu tio. Clay tem certo que não lhe interessa dirigir a companhia de seu pai, e desde que você entrou nela Jeff gozou de mais tempo livre. - Estou gostando de trabalhar perto de casa - confessou Beau, - e não há dúvida de que viver no Harthaven seria um problema, sendo papai e eu tão parecidos. Reconheço ter desfrutado de meu emprego até o ponto de querer retomá-lo ao final da viagem. Durante as próximas semanas discutirei isso mais a fundo com o tio Jeff; mas agora convém que parta ou chegarei com atraso. Depois de saborear um beijo dos lábios de Cerynise, Beau acariciou com ternura a cabecinha negra que descansava no peito da jovem. Depois piscou afetuosamente o olho para sua esposa e se despediu dizendo: - Quero-os.

CAPÍTULO 17

Chegou outubro, e tendo completado Marcus a maravilhosa idade de seis semanas surpreendeu a sua mãe com descansos mais longos, que em certas ocasiões chegavam a abranger a noite inteira. Como é lógico, Cerynise devia estar preparada para dedicar-se em corpo e alma a satisfazer seus desejos uma vez acordado, dada a indignação com que teria


reagido o pequeno a menor espera. Sua mãe fazia com prazer esse favor, porque não tinha especial afeição a que suas exigências despertassem em plena noite. Era um dia mais frio do que o habitual. A tarde chegava a seu fim e Beau não havia voltado ainda do trabalho. O bebê comeu pouco antes, e dormia em seu quarto sob a vigilância de Beira, a neta de Hatti, uma moça de dezoito anos que fora designada como babá do pequeno. Desde o começo se tinha combinado que a jovem retornaria aos aposentos dos criados depois da última mamada do dia, ou quando os pais se retirassem ao dormitório de cima. Desse modo, o casal teria o prazer de cuidar de seu filho na intimidade de seus aposentos privados sempre que surgisse a necessidade. Vendo-se refletida no espelho de corpo inteiro do quarto de vestir, Cerynise chegou à conclusão de que só o aumento de volume de seus seios delatava que dera a luz semanas atrás. O fino tecido de sua ajustada camisa mostrava uma cintura de recuperada esbeltez, e quadris e coxas estilizadas e firmes. Bridget aprendera a pentear a à última moda; entretanto, e como lhe esperava uma tarde tranquila em casa, Cerynise optou por um sóbrio coque, suavizado por algumas mechinhas que lhe caíam pela nuca. A criada a ajudara a vestir um modelo de cor verde azeitona e estampada granada, cujo decote redondo, punhos e prega estavam adornados com franjas de tom vermelho escuro. Era a classe de vestido que se ajustava ao estado de ânimo de Cerynise naquela caseira tarde outonal. Aceitou o xale granada que lhe oferecia Bridget e o pôs sobre os ombros a fim de cobrir decorosamente o peito. Aumentara visivelmente a proeminência de seus seios e o vestido era francamente atrevido, já que o decote mal bastava a contê-los. - O capitão ficará admirado, senhora. Não terá mais remédio - disse a donzela com um sorriso de aprovação. Cerynise estremeceu. - Tenho a mesma sensação de vertigem que uma colegial a ponto de receber a seu primeiro pretendente - reconheceu com um sorriso exaltada. - Tem certeza que estou bonita? - Está como o é, uma beleza - lhe assegurou Bridget, rindo com afabilidade. Vendo semelhante agitação em sua senhora pela iminente noitada, imaginou que ela não o estaria menos quando Stephen Oaks se convertesse em seu marido e pudessem gozar da sorte conjugal de que pareciam desfrutar Cerynise e Beau Birmingham. Cerynise insistiu, desejosa de apresentar o melhor aspecto a seu marido. - Se não fosse verdade não me diria isso, não é, Bridget? - Dou-lhe minha palavra, senhora - respondeu a criada com voz alegre e cantante. Aproxima-se tanto da perfeição, como pode resistir o senhor. Cerynise respirou fundo e exalou pouco a pouco. - Suponho que estou um pouco nervosa. Bridget lhe deu umas palmadinhas na mão. - Não têm por que, senhora. Até com um saco estaria atraente. É um fato. - Retrocedeu para a porta e se deteve para contemplar a sua jovem senhora. - Me Acredite, está divina.


Dito isso saiu do quarto de vestir. Enquanto os pressurosos passos da criada ressoavam no silêncio da mansão, Cerynise continuou observando seu reflexo e tentando imaginar como a veria Beau de sua perspectiva. Nada restava da espigada e torpe jovenzinha a quem Germaine dera o burlesco apelido de Palitinho. Com seus peitos avultados fazendo pressão contra o tecido, Cerynise oferecia um aspecto mais bem voluptuoso para uma mulher que se aproximava dos dezenove anos. Recordou com agrado a manhã em que Beau parou na porta do quarto de vestir para vê-la meter-se na banheira. O fato de que o espetáculo tivesse provocado nele uma reação física continuava fazendo-a sorrir. O tempo não tinha atenuado sua fogosidade, a qual prestava incentivos ainda maiores à noitada. Cerynise se recreou na imagem mental de seu belo marido vestido dos pés a cabeça e em estado de completa excitação. A lembrança daquele momento fez crescer a sua. Colocou um pingo de perfume entre os peitos, sorrindo com malicia. Enquanto avançava pelo dormitório, lançou um olhar a enorme cama com dossel onde Beau a tinha abraçado com tanta ternura e contenção desde o nascimento de Marcus. Folgava dizer que durante as últimas semanas não se abstiveram de dispensar-se certa quantidade de beijos e carícias eróticas. Para falar a verdade, se dela tivesse dependido já teriam reatado tempo atrás suas relações, mas ele tinha medo de lhe fazer mal. Aquela era sua noite, por fim; daí que fossem leves os passos com que desceu pela escada para aguardar o Beau no estúdio, aposento que se converteu no retiro favorito de ambos, sem contar o dormitório. No transcurso da noite anterior começou a soprar uma brisa do norte; por isso na chaminé ardiam alguns lenhos, remédio contra o frio que ameaçava apropriar-se do estúdio. A fim de reforçar o ambiente quente e acolhedor da sala, Cerynise fechou as persianas e apagou o abajur que alguém deixou aceso sobre uma mesa. Diante da chaminé, uma poltrona lhe oferecia a comodidade de seu suave couro marroquino e as almofadas de tapeçaria postas em um de seus extremos. Era aí onde se acomodava quase sempre com Marcus nos braços, enquanto Beau trabalhava em seu escritório, situado a escassa distância. Conteve um bocejo e se recostou na poltrona, colocando as almofadas debaixo das costas do modo mais cômodo que pudesse. O calor da chaminé tornava desnecessário o xale. Deixou-o cair e apoiou a cabeça no espaldar, esperando o momento em que ouvisse voltar seu marido. Pouco a pouco foi cedendo à sensação de peso de suas pálpebras, que ia aumentando. Ao cabo do que pareciam breves instantes, uma sensação conhecida começou a penetrar em seu torpor. Esforçou-se para sacudir a sonolência e levantou suas pálpebras, mas voltou a fechá-las e sorriu com expressão sonolenta. Seu marido estava sentado no sofá do lado, sem jaqueta, colete nem gravata, e com a camisa desabotoada até a cintura. Seu sorriso era sinal de que estivera olhando-a. - Boa tarde, ceu - murmurou Beau, assim que Cerynise conseguiu separar suas pálpebras e mantê-las abertas. - Devo ter adormecido-resmungou ela, tratando de endireitar-se. - E eu que queria sair à porta para receber você!


Beau se aproximou dela e a impediu de escapar, ao mesmo tempo que colocava seus lábios nas volumosas carnes que se sobressaíam do fino corpete, muito perto da flexível cúpula que ficava oculta pela roupa. - Não tem nenhuma importância, querida. Estava desfrutando da vista. Cerynise riu. - Embora só fosse um pouquinho. Beau deu uma olhada ao relógio do suporte. - Cheguei em casa faz meia hora. Sua mulher franziu o sobrecenho com perplexidade. - Tanto? E por que não me despertou? - Já lhe disse que estava desfrutando da vista. Cerynise se endireitou, colocou a mão na abertura da camisa do Beau e acariciou seu peito musculoso. - Me alegro de que esteja em casa. - Eu também - sussurrou ele, aproximando-se de novo, desta vez para unir seus lábios com os dela. Cerynise abriu a boca sem fazer-se de rogar, oferecendo-se à língua do Beau. - Com seus beijos me conduz ao êxtase. Uma das sobrancelhas negras de Beau se arqueou ceticamente. - Eu acreditava que isso só lhe acontecia quando fazíamos amor. - Não, não! Seus beijos são incríveis. Beau voltou a aproximar-se, traçando esta vez com sua língua um curso lento e errático pelos seios de sua esposa, percorrendo um dos globos em toda sua extensão, inundando-se na fragrante abertura e ascendendo de novo ao topo, como um navio navegando com marola. Depois despiu um ombro de Cerynise, puxou o vestido e deixou à vista uma rosada cúpula. Traçou nela um rastro ardente, que deixou Cerynise sem fôlego e estremecida pela deliciosa excitação que percorria seu corpo. - Você gosta? - perguntou ele, lhe mordiscando os lábios. - Já sabe que sim. Cerynise suspirou e rodeou com um braço o pescoço de seu marido, que a atraiu para si. Enquanto marido e mulher enlaçavam suas línguas com doçura, os dedos de Beau se voltaram à parte de trás do vestido e o desabotoou. Cerynise jogou a roupa para frente com um encolhimento de ombros e se despojou do sutiã. Beau, que estivera segurando os punhos, passou um braço pelas costas da jovem, levantou-a até separar suas nádegas do sofá e se desfez rapidamente do vestido, que ficou atirado no chão, tudo isso sem deixar de acariciar os lábios de sua esposa. Uma vez desabotoados os botões, a camisa se abriu, pondo ao alcance de sua mão as brilhantes esferas. Ansiosa, a boca do Beau tomou posse delas, desatando um contente fogo nas entranhas de sua esposa. - Fechou a porta? - sussurrou ela, penteando com seus dedos o robusto cabelo do Beau, cuja boca ansiosa devorava a suave carne de um seio.


- Com uma cativa tão bela à mão não pude resistir. - Sua respiração comunicou calor a um carnudo mamilo, articulando uma rouca resposta. - Estive pensando nisto todo o dia, querida. - Eu também. Beau deslizou uma mão por debaixo da anágua e chegou à parte da coxa que não cobria a meia. Então retrocedeu bruscamente e dirigiu a sua esposa um olhar estupefato. - Não leva calção. Cerynise sorriu. - Escandaliza-se? - Muito - respondeu ele com um risinho, desmentindo sua resposta com provocantes movimentos da mão em sentido ascendente. Ela mudou de postura para lhe dar comodidade. Experimentou então pequenas cãibras de excitação que saíam de suas partes mais delicadas, deixando-a excitada e sem fôlego. As carícias de Beau faziam com que se esticasse todo o corpo, e se perguntou quanto tempo poderia aguentar o prazer sem sofrer um arrebatamento. - Não tão rápido, Beau - pediu ofegante. - Quero esperar você. Cedendo a suas súplicas, ele ficou em pé e começou a desabotoar as calças. Cerynise se desprendeu de suas sapatilhas dando um pontapé, colocou-se de joelhos diante dele, tirou-lhe as calças a aba da camisa e a retirou de seus ombros. Em seguida suas mãos voltaram a acariciar a musculosa caixa torácica e, seguindo a direção da queda das calças, estimulou suas partes viris. Beau parecia um bloco de gelo, tal era o êxtase que suscitavam as peritas carícias de sua esposa; mas nenhum gelo teria resistido ao fogo que nascia em seu interior e ameaçava consumi-lo em uma rápida labareda. Segurou então a mão de Cerynise e deteve suas audazes manipulações, ao menos no momento. - Minha petição é a mesma que a sua - murmurou com voz rouca. - Me conceda um momento para me acalmar e continuaremos com o que começamos. Desprendeu-se de suas botas com chutes e, uma vez despojado dos últimos objetos, retornou para o Cerynise em toda a magnificência de sua nudez. Tocou-lhe o peito com os seios, até que Beau gemeu brandamente e se aferrou a eles com avidez, resolvido a saborear de novo tão suculento manjar. Pouco depois suas bocas e línguas colaboravam em laboriosas explorações. Cerynise o atraiu para fofá, obscurecidos seus olhos pelo desejo. Ele não se fez de rogado: colocando a sua esposa escarranchado sobre seu corpo, ocupou o lugar que deixou ela. Depois desabotoou o fecho da anágua e se endireitou a fim de passar ela pela cabeça, deixando-a sem mais nada muito que um corpete e um par de meias de seda seguradas por ligas de babados. A anágua caiu ao chão, esquecida pela pressa. depois de erguer um pouco Cerynise, voltou a colocá-la sobre seu ardente membro e a fez descer até apoiar-se em seus quadris com todo seu peso. Sentindo em seu interior o calor de Beau, Cerynise abafou um grito e ficou a tremer de puro êxtase. Beau a abraçou com força, desfrutando da pressão de seus seios e da doce entrada que o deixava preso, ao mesmo tempo que lhe dava beijos nos olhos, na face e na boca, oferecida


sem reservas. Seus lábios desceram pela graciosa coluna de sua garganta. - Parece que passou uma eternidade desde que a tive nos braços desta maneira murmurou. - Sim! - concordou ela, arqueando as costas para entregar-se por completo. Os lábios de Beau rodearam a cúspide de um de seus peitos, arrancando de sua boca um doce suspiro. A flexível protuberância parecia pulsar ansiosa sob a úmida e ardente boca, até o ponto de que Cerynise, vendo que Beau se reclinava de novo no sofá, esteve a um tris de gemer pela decepção; entretanto, assim que notou que seus dedos se aproximavam do lugar de sua união e começavam a fazer seus sortilégios, converteu-se em fascinada prisioneira, e se desfrutou passivamente nas deliciosas carícias. Olhou Beau nos olhos, com uma sensualidade que testemunhava sua crescente excitação. Depois começou a mover-se de modo rítmico, prolongando o prazer com longas e pausadas sacudidas. A respiração dele se fez mais entrecortada em reação à criatividade desdobrada por sua esposa, digna de uma odalisca encerrada no harém e caída no estúdio de suas artes sensuais. Não havia lugar do corpo do Beau que não se visse obsequiado com carícias provocadoras: mamilos, tronco, coxas de aço, entreperna... Em seguida, Cerynise passou a língua pelo lábio superior de seu marido e, hipnotizando-o com o olhar, começou a percorrer seu próprio corpo com as mãos, convidando a que as do Beau fossem atrás delas. Assim o fizeram, cortando a respiração da jovem. As fulgurantes sensações que a embargavam fizeram que tomasse ar com os dentes apertados. De repente se inclinou e apoiou as mãos na parte superior do sofá, oferecendo desse modo seus seios volumosos a cálida boca de seu marido. Aí estavam, balançando-se tentadoramente em cima dele qual frutas amadurecidas adornadas com rosados botões. As mãos do Beau se apressaram a apoderar-se dos terminantes volumes, que quase devoraram enquanto Cerynise acelerava o ritmo. Depois a agarrou pelas nádegas e a convidou a não deter-se, até que ambos se viram próximos ao êxtase que acabou derramando-se sobre eles, elevando-os a alturas vertiginosas. Em pleno voo, Beau quis unir seu tronco com o de Cerynise, sentindo-se completamente regenerado pelas ondas de calor que irradiavam dela. Nunca experimentou nada semelhante, mas era maravilhoso seguir, e seguir, e seguir... Quando recuperaram o uso da razão, Beau a fez recostar sobre seu peito. Assombrado ainda pela maravilhosa experiência que acabavam de viver, deu-lhe outro beijo nos lábios e lhe roçou o braço com os dedos. - Foi muito lindo - suspirou ela, satisfeita. - Não me recordo de nada melhor - reconheceu ele. - Estou tão depravado que não posso nem levantar os braços. - Não o faça, por favor. Eu gosto que me abrace. Beau estreitou ainda mais seu abraço e moveu o peito, obsequiando aos seios da jovem com uma carícia lenta e ondulante que, para sua surpresa, traduziu-se em uma nova rigidez


de suas partes masculinas. - Oooh - murmurou Cerynise - isso ainda está melhor. - Enfeitiçou-me - murmurou ele com voz rouca. - Me alegro. É a garantia de que não bisbilhotará debaixo das saias de outras mulheres. - Isso jamais. Tenho o bastante me colocando debaixo das tuas. - Tenho fome. - Do que? Cerynise riu baixo e indagou no sorriso de seu marido. - De comida de verdade. - Nesse caso, suponho que terá que voltar a vestir-se. - Confesso, de qualquer modo, que eu não gosto de renunciar a estes prazeres respondeu ela, apertando seus quadris contra Beau. - Se decida, mulher - a ameaçou ele, agarrando suas nádegas com força. - Ou eu ou comida de verdade. - Já o terei mais tarde. - Soltou uma risada o grunhido que proferiu Beau com fingida decepção, endireitou-se até ficar de novo escarranchado. - Primeiro preciso dar de comer a uma mãe lactante. Ele aplicou o indicador a uma gotinha branca que pendia da ponta de um mamilo, e o levou a boca para prová-lo. - Não estranho que Marcus goste tanto - comentou, chupando o dedo. - Tem bom sabor. Cerynise secou umas gotas do peito de seu marido. - Que maneira de manchar! Dois olhos azuis a olharam com ardor. - Nem ao Marcus, nem a mim, nos importa. - Venha, marido - disse, desmontando-o. - Tenho muita fome. Deu meia volta para recolher sua roupa, fazendo com que Beau abandonasse o sofá e lhe desse um tapinha no traseiro. Cerynise se ergueu e o olhou. Beau encolheu os ombros e disse com um sorriso jovial: - Me pondo diante de tentações como essa, querida, o lógico é que haja alguma reação; e, dado que acabo de te possuir, tenho que me limitar a um tapinha afetuoso. Agora vista-se para que possamos comer, ou acredite que posso dispor de você outra vez para meu prazer. Cerynise obedeceu, rindo-se de suas palhaçadas, uma vez vestidos desceram ao andar inferior para comprovar que estivesse bem seu filho, e depois de lavar-se mais a fundo voltaram para a sala de jantar. A longa mesa tinha talheres para dois em um extremo. As taças de vinho já estavam enchidas, aguardando a chegada dos comensais. À luz de umas velas de cera de abelha, que arrancavam quentes brilhos do cristal, a porcelana e a prata, Beau retirou uma cadeira para sua esposa. Depois de adiantá-la de novo para que se sentasse, inclinou-se para Cerynise, que


jogou a cabeça para trás e permitiu que lhe acariciasse o pescoço com os lábios. - Eu adoro ver seus seios desta perspectiva - sussurrou ele, - mas acredito ouvir o Jasper, e eu não gosto da idéia de compartilhar com outro homem o espetáculo. Cerynise se tampou com o xale e adotou uma postura de acordo com sua posição de senhora da casa, antecipando-se em muito à chegada do mordomo com a sopa. Beau não pôde senão sorrir do contraste entre a atitude majestosa de sua mulher e a ardorosa fêmea que pouco antes o tinha arrastado em uma espiral de paixão e desejo. Em suas mãos, Beau era como uma marionete. Bastava que Cerynise puxasse os fios e dançaria ao som que lhe marcassem. Quando voltaram a estar sozinhos Beau propôs um brinde. - Por você, meu amor. Por que nunca se canse de me agradar e me encher o coração de felicidade. Cerynise, sorridente, inclinou a cabeça em resposta à comemoração, e depois de beber um gole levantou por sua vez a taça. - Por você, meu cavalheiro andante. Pra que nunca se farte de matar dragões e salvar a esta donzela da tristeza e do o aborrecimento. - Com supremo gosto, senhora - respondeu ele antes de beber o vinho, olhando-a com um brilho nos olhos que valia mais que mil palavras. A sopa de lagosta estava deliciosa, como era de se esperar sendo obra do Philippe. Não ficaram atrás as verduras de inverno e o lombo de boi com molho de pepinos japoneses e estragão. Cerynise desfrutou da comida com gulodice de menina, provocando a risada de seu marido. - Não entendo como fica tão magra, minha vida. Com o que come deveria parecer uma bola. Ela lambeu os dedos com malicia, dando novos brios à risada de Beau. - Com certeza que entre você e Marcus saberão me ajudar a consumi-lo. - A julgar pelos grunhidos desse chupão quando lhe dá de mamar, suspeito que o conseguirá ele sozinho. - Não seja ciumento - ralhou ela com doçura, - que lhe sobrarão oportunidades. Beau apoiou um cotovelo no canto da mesa e se inclinou para ela com um olhar lascivo. - Promete-me isso? O brilho dos olhos de Cerynise era sinal de que aceitava o compromisso. Depois de jantar retornaram ao estúdio, mas só para falar, agarrar as mãos e beijar-se. Beira, a neta do Hatti, bateu na porta aberta para informar os de sua presença. - O senhorzinho Marcus despertou, senhora, e grita como um condenado. - O dever me chama - suspirou Cerynise jocosamente. Depois de despedir-se de seu marido com um último beijo, subiu ao andar de cima para dar de mamar ao pequeno. Uma vez bebida a taça de vinho, Beau se dirigiu ao quarto das crianças. Beira tivera o tino de partir, permitindo que o casal desfrutasse de seu filho na


intimidade de seus aposentos. Assim que acabou de amamentar ao Marcus, sua mãe se dispôs a banhá-lo. Ambos os pais colaboraram no empenho, rindo-se das caretas que fazia seu filho ao ser submerso em água quente e secado com uma toalha suave. Beau imprimiu um beijo tenro na cabecinha de seu primogênito e abandonou o quarto, deixando que sua esposa embalasse e arrulhasse ao bebê enquanto ele tomava por sua vez um banho. Pouco depois Cerynise deixou seu filho dormindo no berço e entrou no quarto de vestir, onde descobriu que a aguardava um banho de sais. Um ligeiro tinido procedente do dormitório fez aparecer a cabeça pela porta. Viu separar-se a mão de seu marido de uma taça de vinho que acabava de deixar em seu criado-mudo. Beau estava sentado na cama com o lençol até a cintura. Tudo nele indicava que estava disposto a uma longa noite de prazer. Olhando a sua esposa dos pés a cabeça, perguntou-lhe: - Pensa passar toda a noite no quarto de vestir? - Muito menos - se apressou a responder Cerynise. - Me conceda um momento para me banhar... - Não se incomode em vestir camisola - advertiu-a, vendo ela retornar ao aposento anexo. - Poderia rasgar-se. - Sim, senhor - respondeu sua esposa. - A suas ordens, senhor. - E se apresse ! - insistiu Beau. - Estou há um quarto de hora esperando você, e estou irado pensando em você. Cerynise se apressou em despir-se, banhar-se e escovar sua longa juba, antes de vestir um fino roupão que Beau lhe comprou uns dias antes e que merecia o nome de roupa, porque era feita do tecido branco mais fino e sedoso que vira a jovem em sua vida. Era longa e solta, igualmente como às mangas. Depois de dar uns toques de perfume no pescoço e nos braços, sorriu e voltou a aplicar várias gotas entre os seios. Depois colocou os pés em umas pantufas de cetim branco e apagou a luz. O fino tecido ondulou atrás dela, dando a sensação de que entrava flutuando no dormitório com asas sutis como o ar. Os olhos de safira de Beau se detiveram com tanta avidez no que viam que fizeram estremecer os seios de sua jovem esposa. Depois estendeu a mão em sinal de que se apressasse, e jogou o lençol para um lado. Detida junto ao leito, Cerynise deixou que o fino roupão escorregasse ombros abaixo e caísse ao chão, acabada sua função. Quando se meteu na cama Beau não demorou nem um segundo em estreitá-la entre seus braços. Desta vez foi ele quem tomou a iniciativa, surpreendendo-a com a paixão que demonstrava. Apesar de tratá-la com infinita doçura, o fato de que já não estivesse grávida o animava a ser mais ousado. Fez, assim, caso omisso das entrecortadas súplicas de Cerynise, recreando-se em seu talento para levá-la às mais altas cotas de frenesi e desejo insatisfeito. Ofegando e retorcendo-se como se estivesse imersa em uma busca insaciável de impossível cumprimento, a jovem tomou ímpeto por sua vez e se atreveu a imitar o estilo de seu marido, até lhe arrancar um gemido gutural. Quando a erguida virilidade de Beau atacou o quente


recesso feminino, Cerynise arqueou as costas para recebê-lo, e reagiu a seus longos arremessos com crescente ardor. Subiram de novo nas resplandecentes asas do êxtase, permitindo que a chama do desejo os levantasse cada vez mais alto. Por fim retornaram flutuando a terra firme, e se aproximaram o um ao outro no leito. Suspirando de prazer, Cerynise apoiou a cabeça no ombro do Beau e acariciou seu peito distraidamente. Para ela, tudo quanto rodeava a casa deixou de existir. O mundo se reduzia aos braços de seu marido. Na manhã seguinte, sendo ainda cedo, ouviu-se uma batida de porta na entrada traseira. Beau e Cerynise, que estavam na sala de jantar, viram entrar correndo Moon com grande agitação. O marinheiro se deteve junto à cadeira do Beau, que acabava de finalizar seu café da manhã. - Está morto, capitão! Encontraram-no esta manhã no mole com a tripa rachada de proa a popa. - Pode saber-se de quem fala, Moon? - perguntou Beau, afastando o prato. - Do Wilson, capitão. Estava mais rígido que um bacalhau metido em gelo. Estriparamno ontem de noite, suponho. Voltando-se para sua esposa, Beau reparou em que estava branca como o papel. Supôs que as truculentas explicações do Moon eram muito acidentadas para seu gosto. Pediu permissão para partir e fez gestos ao marinheiro de que o seguisse ao estúdio. Uma vez fechada a porta perguntou: - As autoridades tem algum indício sobre o assassino? - Não, capitão. Pelo que dizia alguém esta manhã, parece que estava escondido em uma estalagem de má fama. Não falei com ninguém que o tivesse visto desde que enviaram a seus homens para buscá-lo. E pum! De repente aparece com uma faca na tripa. Como não seria muito lógico que Wilson tivesse deixado aproximar-se dele um desconhecido tanto como para apunhalá-lo, o que penso eu é que conhecia que o fez, e melhor, até tinha confiança nele. - É muito possível, Moon. Com tanta gente buscando-o, é de se supor que Wilson receasse de quem quer que se aproximasse. De todos os modos nunca averiguaremos a solução do enigma. - Isso quer dizer que agora a menina está a salvo, não é, capitão? - Espero isso, Moon. Espero isso. Vários dias mais tarde, Jasper ouviu golpes de aldrava na porta e foi abrir com sua habitual circunspeção, mas a rigidez de suas feições se desfez ao reconhecer às duas pessoas que esperavam na soleira. Seu último contato com eles se remontava a horas antes daquele amanhecer em que ele e o resto da criadagem fugiram com os quadros que pertenciam a sua atual senhora. A julgar por suas expressões de perplexidade, era fácil deduzir que Alistair Winthrop e Howard Rudd estavam igualmente surpreendidos de vê-lo. - Tinha curiosidade em saber onde estava -disse Alistair com ironia. - Agora já sei. O


que não imaginava é que fosse um vira-casaca. - Nesse caso teria ficado com você - replicou altivo o mordomo. Jasper não se sentia capaz de mentir por conta da cortesia e dizer a esses dois homens que estava encantado de voltar a vê-los. - Quem deseja ver, senhor? - A minha pupila, é obvio - lhe informou Alistair causticamente. - Por favor, lhe diga que vim visitá-la. - Refere-se à senhora Birmingham - corrigiu Jasper. - Se aguardar aqui, senhor, direi a minha senhora que solicita seu favor. Não vendo motivos para oferecer aos duas visitantes a tradicional hospitalidade da casa, fechou-lhes a porta no nariz, deixando ao Alistair pouco menos que dando saltos de indignação. - Solicitar o favor dessa bruxa! - sussurrou, ultrajado. - Arrancarei o coração à esse porco por nos haver deixado a casa de pernas para o ar! - De qualquer modo não poderia lhe ter pago - alegou Howard Rudd, acrescentando o seguinte conselho: - Viu como Sybil o largou rápido quando perdeu os estribos e lhe disse que não tinha recursos para contratar a novos criados, e que teria que fazer ela a comida e a limpeza. Portanto, e enquanto estejamos nesta casa, convido-o a conter seus estalos de mau gênio. Ir às nuvens contribuiria bem pouco a nossas esperanças de tirar a garota de casa com promessas falsas de lhe devolver os quadros. - Oxalá houvéssemos trazido algum para enrolá-la. Howard Rudd exalou um suspiro aflito. - Foi uma lástima que não pudéssemos dispor nem sequer de um. - Continuo pensando que o comerciante da galeria conhecia seu paradeiro - disse Alistair, - embora o ofendessem nossas acusações e nos tratasse de estúpidos. - Seus murros não foram de grande ajuda - ralhou Rudd. - Que ande com cuidado, porque se descubro que nos mentiu acabarei de liquidá-lo.. - Seja menos contundente com a moça. Sabemos por experiência que o capitão Birmingham não anda com garotas. Se pega a sua mulher revistará todos e cada um dos navios atracados no mole com o único objetivo de vingar-se de nós, e desta vez não se contentaria nos atirando à água. - Tem certeza de havê-lo visto nos escritórios da companhia naval? Um longo bufar agitou os lábios do Rudd, mostrando sua exasperação. - Como não ia reconhecer o depois de nosso último encontro? Asseguro-lhe que depois do que aconteceu tenho marcada a fogo em minha memória a imagem desse homem. - O advogado agarrou um lenço com mão trêmula e secou sua fronte úmida. - Continuo pensando que é uma imprudência de sua parte executar este plano tendo para ele poucas maçãs. - Disse que não voltaria para casa dentro de umas horas. Quando chegar fará tempo que teremos partido. - Jasper nos expõe um problema. Terá que suborná-lo, ou tomar alguma medida para


que não relate, ao capitão, nossa visita. Com sorte teremos zarpado para Inglaterra com todos os ossos intactos... - Essa questão fica em suas mãos. Se a garota não quer nos acompanhar pelas boas, não terei mais remédio que raptá-la. Reuniremo-nos naquela granja abandonada dos subúrbios. Alistair olhou a seu cúmplice de vermelho, e reparando na intensidade de seu tremor arqueou uma sobrancelha. - Está seguro de poder me cobrir as costas se falhar o chamariz? O advogado engoliu a saliva e deu nervosos tapinhas ao vulto debaixo de sua jaqueta. - Tomara que houvesse outro modo de conseguir nossos fins. Odeio as armas de fogo. -Não leva muito tempo - lhe disse Alistair. - Estamos ficando sem recursos. - Deveria ter vendido mais posses de sua tia antes de partir. Desse modo teríamos tempo e recursos para fazer as coisas como Deus manda. - Não seja tão apreensivo, que sabe que lhe faz mal ao estômago. Cerynise fora à cozinha para se vangloriar de Marcus diante do Philippe, aproveitando que o bebê estava acordado e prestava risonha atenção aos rostos que se aproximavam o suficiente para que os examinasse. O cozinheiro, todo jovialidade, estava-lhe dando sua primeira aula de francês, declarando que Marcus o agradeceria em extremo quando empreendesse tão longas travessias como seu pai. O bebê respondia com alegres gorjeios, para regozijo tanto do Philippe como de sua mãe. Entretanto, quando Jasper irrompeu na cozinha, Marcus voltou toda sua atenção para o inquieto mordomo, e enrugou a testa com curiosidade. - Senhora! Se prepare - exclamou Jasper com agitação. - Será melhor que entregue o bebê a monsieur Philippe antes de que lhe diga quem estão à porta da casa esperando que saia para recebê-los. Cerynise agarrou o menino nos braços com maior firmeza, desconcertada pelo nervosismo do mordomo, e inclinou a cabeça para lhe assegurar que controlava a situação. - De quem se trata, Jasper? - Do senhor Winthrop e o senhor Rudd, senhora... Cerynise, sobressaltada, apressou-se a deixar a seu filho nos braços do cozinheiro, a quem alarmou por sua repentina palidez. - Madame! Está bem? - Assentiu com a cabeça. - Por favor - lhe pediu, - leve o bebê para Beira. E sem dizer nada mais abandonou a cozinha. Antes de segui-la, Jasper deu ao Philippe uma série de instruções. Uma vez na sala de jantar, Cerynise aguardou que se reunisse a ela, o mordomo, a quem disse: - Receberei às visitas no salão, Jasper. - Está segura, senhora? - perguntou este, preocupado. - Não se atreverão a me agredir em minha própria casa. - Mesmo assim, senhora, é difícil para mim confiar neles. São uns vadios consumados. - É possível, Jasper, mas tenho curiosidade para averiguar a que vieram e o que querem de mim.


- Temo que nada de bom. - Em todo caso os escutarei. Cerynise se dirigiu ao salão da asa norte da casa, enquanto Jasper cumpria seus desejos a contra gosto. Depois de abrir a porta aos dois visitantes, anunciou-lhes: - A senhora Birmingham os receberá no salão. Alistair passou por seu lado e uma vez no vestíbulo tirou o chapéu e o entregou, dirigindo-se ao estúdio, na asa oposta da casa. - Pelo outro lado, senhor - o corrigiu Jasper, advertindo com irritação o interesse que mostrava seu antigo chefe pela sala, em cima de cuja chaminé pendia um quadro de Cerynise que pertencia a sua produção anterior. Tratava-se de uma obra que seu marido reservou para si, uma cena campestre inglesa de uma casa com telhado de palha ao lado de um arroio, situado tudo isso na clareira de um bosque. Pessoalmente, Jasper sempre o tinha considerado uma das melhores paisagens de sua autora. - Esse quadro me é familiar - disse Alistair, voltando-se para o mordomo com expressão calculadamente carrancuda. Jasper ergueu a cabeça. - Ignoro-o, senhor. - Apontou de novo o salão. - A senhora Birmingham os espera naquela sala. Howard Rudd entregou o chapéu ao Jasper, a quem seguiu para o salão não sem antes alisar as abas de seu enrugado paletó. Jasper colocou os chapéus na mesa da entrada e ficou diante da porta, captando a atenção de Cerynise. - Deseja chá ou algum tipo de refresco, senhora? - o olhar de Howard Rudd se fixou na vitrine que cobria boa parte da parede, e ao reparar que continha uma bandeja de prata coberta de licoreiras de cristal se umedeceu os lábios, que tinha ressecados. - Uma taça de conhaque, com permissão do capitão. - Nada de nada - disse Alistair com ênfase, voltando um olhar de advertência ao advogado, que parecia estar perdendo os papéis pelo duro transe de penetrar nos domínios do mesmo capitão que em certa ocasião lhes dera uma soberana repreensão. - Não ficaremos tanto tempo para isso. - Tomarei uma taça de chá, Jasper - respondeu Cerynise, deixando bem claro que era a ela a quem se dirigiu o mordomo, e que nenhuma outra pessoa na sala gozava de autoridade para tomar decisões dessa classe. Apesar de ter disposto de uns instantes para acalmar-se, não estava preparada para a súbita aversão que lhe inspirava a presença dos dois homens. Quase passara um ano desde seu último encontro, mas lhe parecia um tempo insuficiente. Não lamentava absolutamente que seu marido tivesse posto fim a sua última confrontação agarrando ao Alistair pelo cangote e os fundilhos das calças e lançando-o ao Tâmisa pela amurada de sua fragata. Lamentava, em troca, não ter ao Beau junto a ela nesse momento, para cuidá-la com seu zelo habitual.


Pensou que Alistair parecia mais magro que antes. Tinha olheiras e a roupa que levava era grande, além de estar cheia de rugas, tudo isso em marcado contraste com sua anterior elegância. O pançudo letrado mostrava similar desalinho, além de uma fealdade talvez maior que nunca em seu bulboso nariz, por estar coberto de uma trama de veias rotas. Tinha os olhos vermelhos e chorosos, como se padecesse de alergia, ou pelas repercussões de uma afeição excessiva às bebidas espirituosas. Esforçando-se por adotar um semblante cordial, Cerynise convidou-os a sentar-se. O único motivo pelo qual não lhes vedasse o acesso a seu lar era a curiosidade que sentia por suas intenções, e a melhor maneira de averiguá-las era fazer um módico alarde de cortesia. - Peço-lhes que desculpem minha surpresa, cavalheiros. Não se surpreenderão que lhes diga que não esperava sua visita. Para falar a verdade, são as últimas pessoas com quem previu me encontrar neste dia. Os lábios fofos do Alistair esboçaram um sorriso melífluo. - Não o duvido, minha querida moça, e lhe apresento minhas mais sinceras desculpas por lhe haver sobressaltado; entretanto, e dado a longa viagem que fizemos exclusivamente para vê-la, compreenderá que não tenhamos podido esperar mais tempo. Nosso navio chegou esta mesma manhã, e nos apressamos... Entrou Bridget, muito atraente com seu vestido negro, avental branco de babados e touca branca engomada com adornos bordados. Embora não olhasse nos olhos a nenhum dos visitantes, detectou a surpresa com que a viam aproximar-se de sua senhora, também de certo grau de angústia no Rudd. Levava uma bandeja em que foram dispostas uma taça cheia, uma jarrinha de creme e um açucareiro, pequeno serviço de chá que ofereceu à Cerynise, que acrescentou açúcar e creme à infusão. Depois de colocar um guardanapo no colo de sua senhora, Bridget se retirou com discrição e aprumo, ganhando um brevíssimo sorriso de aprovação do Jasper, que se mantinha na proximidade da porta. - Diziam que vieram diretamente do navio - recordou Cerynise ao Alistair, percebendo que não se recuperara por completo da surpresa de ver Bridget naquela casa. - Com que objetivo? - Desagravar, senhora - interveio Rudd, olhando ao Alistair de esguelha, como querendo verificar se sua resposta fora adequada. - É isso, verdade? Durante a viagem o senhor Winthrop não falava senão de como fora injusto com você. O pobre se viu aflito por graves remorsos. Se tivesse a amabilidade de lhe prestar atenção, senhora, estou convencido de que não o lamentaria. Alistair continuava lutando para conter sua irritação, motivada pela descoberta de que tanto Jasper como Bridget se achavam ao serviço dos Birmingham. Apontando ingovernável mordomo com um movimento da cabeça, expôs o assunto à Cerynise. - Que outros criados vieram com ele? - Todos - respondeu a jovem e, percebendo a ira que crispava o rosto de seu antigo torturador, assinalou ainda mais a espora para vingar-se. - Meu marido lhes deu recursos


suficientes para a viagem, mas a essa altura já fizeram planos para deixar seu serviço. Alistair apontou com o indicador o vestíbulo. - Trouxeram o quadro que está aí? - É claro - respondeu ela, muito satisfeita de informar disso ao velhaco, e acrescentando para maior escárnio: - O certo é que trouxeram todos meus quadros, cinco dos quais já foram vendidos por somas consideráveis... Vinte e seis mil dólares, para ser exato. Rudd se engasgou e conteve à força de tosses a bílis que lhe subiu à garganta. - Um copo de água - rogou ao mordomo. - Necessito de um copo de água. - Encontram-se bem? - inquiriu solícita a jovem. O advogado pigarreou e conseguiu articular: - Estarei assim que beba um pouco de água. Alistair se consumia em silêncio. Já ficou claro que o chamariz planejado não sortiria efeito, uma vez que os quadros já estavam em poder de Cerynise; mesmo assim, não pôde evitar imaginar o dinheiro que poderiam ter ganho... sem a intervenção do Jasper. Ainda chegaria a hora em que torceria o cangote da aquele condenado mordomo! O advogado bebeu a água que havia lhe trazido Jasper para mitigar a acidez que lhe queimava a garganta. O líquido não fez mais que relegá-la a seu estômago, onde não demoraram para fermentar os sucos e subir de novo em forma de pequenas borbulhas refrigerantes. Rudd, que conhecia de sobra os sintomas, sentiu crescer sua aflição. Cerynise retomou o assunto que lhes concernia, advertindo sem rodeios a seus dois visitantes: - Meu marido não verá com bons olhos que tenham vindo em sua ausência. Deu instruções ao Jasper de que me vigie. Como é lógico, tudo quanto digam chegará a seus ouvidos. Rudd jogou uma olhada para trás e, vendo o orgulhoso mordomo, propôs-se aplacar os temores da jovem. Devia apressar-se a inventar outro ardil, ou em caso contrário seu sócio recorreria a suas indiscretas táticas de sempre. - Como poderíamos lhe convencer de que essas precauções não têm razão de ser, senhora? - Expondo seus intuitos e partindo - respondeu laconicamente Cerynise. Rudd tampou a boca com os dedos para dissimular um arroto. Em seguida pigarreou e estendeu uma mão em sinal de súplica. - Trata-se de algo confidencial, senhora... - Se sugeri que Jasper se retire, senhor Rudd, receio não poder lhe satisfazer -lhe informou Cerynise com toda clareza. - Meu marido ordenou ao Jasper que não se afaste de meu lado quando minha segurança possa estar em perigo, e segundo me lembro, os dois se mostraram pouco confiáveis em minha presença. - Necessitamos que assinem uma série de documentos - declarou Alistair, como se lhe doesse reconhecê-lo.


Rudd o olhou com surpresa, recebeu um olhar de advertência e pigarreou para eliminar um novo arroto. - Com efeito. - Cedeu a palavra a seu companheiro com um gesto da mão. - O senhor Winthrop desejaria lhes explicar por que é necessário. Alistair fez um esforço nesse sentido. - Bem... mmm... Examinando mais a fundo o testamento de minha tia, o senhor Rudd, aqui presente, encontrou uma cláusula pela que me obrigava a justificar toda renúncia a sua tutela, para o qual devem comparecer em julgamento e assinar uma declaração jurada. Enquanto não se verifiquem ambas as condições não poderei tomar posse de minha herança. Rudd suspirou e assentiu com a cabeça, aliviado pela verossimilhança do estratagema de seu companheiro. - Para os credores do senhor Winthrop é um pouco incômodo ter que esperar tanto... Confesso-lhe que para solicitar sua aquiescência tivemos que pagar a passagem com nossos últimos recursos. Cerynise olhou para o advogado, desconcertada. - Quer dizer que devo ir a um juiz e assinar em sua presença um documento em que lhe libere de todas suas obrigações de tutor? - Exatamente - afirmou Alistair, olhando ao Jasper de soslaio. O mordomo olhava o vazio, mas Alistair teve a certeza de que escutava tudo quanto se estava dizendo. - Não tenho reparos em me apresentar ante um juiz do Charleston e assinar o documento que dizem, sempre quando o advogado de meu marido tiver ocasião de lê-lo previamente - disse Cerynise. Alistair fez uma careta. - Esse é o problema, querida, porque para isso deve retornar a Inglaterra. - Nem o sonhem. - Cerynise agitou uma mão em sinal de que não existia a menor possibilidade de que colaborasse até esse extremo. - Se o assunto não pode solucionar-se aqui em Charleston não se solucionará não, ao menos enquanto meu marido e eu não tenhamos voltado para a Inglaterra em outra viagem por mar, coisa que não acontecerá até a primavera que vem... - E eu, enquanto isso, vejo-me desprovido de meios econômicos. Alistair sacudiu a cabeça, compungido. - Lamento-o, mas não estou em situação de pôr fim a suas penúrias. Cerynise não sentia compaixão alguma. Se Alistair lhe tivesse formulado a mesma solicitude achando-se ela ainda na Inglaterra, teria aceitado com prazer que Beau a acompanhasse para cumprir os desejos do sobrinho da Lydia; este, entretanto, mostrara-se muito violento em suas pretensões de tomar posse dela. Rudd fez estalar os dedos, como se acabasse de ter uma idéia. Expôs ela ao Alistair. - Recorda-se do juiz que fez a travessia conosco?


Seu companheiro inclinou a cabeça com cautela. - Sim, claro. - Pois bem, trata-se de um magistrado inglês. Se a senhora assinasse os documentos em sua presença, seria o mesmo que fazê-lo em um tribunal da Inglaterra. - Certo - assentiu Alistair, sorridente. - Não teria mais que nos acompanhar à estalagem onde estamos alojados e aceitá-lo como testemunha do ato. Seria um modo excelente de servir a nossos fins. Rudd se mostrou contente consigo mesmo por ter ideado a artimanha. - Permitiria-nos levá-la a ver o juiz, senhora? Cerynise achou absurda a proposta. - Não sem meu marido. E uma dúzia de seus homens - acrescentou, - para nos defender de possíveis agressões. Rudd, melancólico, despediu-se de toda esperança de apoderar-se da jovem de forma pacífica. O que fazer? Evidentemente, Cerynise estava muito bem protegida em seu lar para tentar levá-la dali. Por outro lado, os criados podiam identificá-los. - Sugere acaso, senhora, que recorreríamos a essa classe de enganos? - perguntou Alistair com crescente indignação. Cerynise sorriu. - Possivelmente. Alistair proferiu um grunhido, levantou-se e cruzou a sala até Cerynise com atitude ameaçadora. Jasper deu um grito de advertência e foi em defesa de sua senhora, mas Rudd pegou com a mão um apoio de livros de bronze posado em uma mesa e o descarregou contra a cabeça do mordomo, deixando-o inconsciente no chão, aos pés do advogado. O grito de Cerynise chegou até a cozinha e para ouvidos do Philippe, que, depois de apoderar-se de uma faca para cortar carne, saiu correndo ao vestíbulo, seguido pelo Moon. Então Alistair já se jogara ao ombro de sua cativa e se dirigia pressuroso para a saída, com o Rudd atrás dele. Philippe os viu o sair do corredor. - Deixem à senhora! Alistair cometeu o engano de abrir a porta principal, que o senhor da casa se dispunha nesse mesmo momento a franquear. Beau voltava para casa a instâncias do Cooper, e ouviu gritos do alpendre. Ver sua esposa nos ombros daquele inseto fez ele ir às nuvens e, erguendo um joelho, fincou-o com brutalidade no estômago de Alistair. Agarrando Cerynise do ombro de sua vítima, Beau a pôs em pé e se dispôs a atirar o golpe de graça ao Alistair, mas se achou cara a cara com o Howard Rudd, que o ameaçava nervoso com uma pistola. Apesar do pronunciado tremor de suas mãos, o advogado tinha engatilhado a arma e apontava com ela o carrancudo rosto do capitão, sem excessiva precisão. - Afas-afaste-se da por-porta - Balbuciou virando a cabeça para olhar os dois homens que quase cairam em cima dele. - Se não se afastarem, matarei o capitão.


Philip e Moon não tiveram outro remédio senão parar. - Solte a fa-faca - ordenou Rudd ao cozinheiro, tratando de não afastar o cano da pistola dos olhos azuis do Beau ao mesmo tempo que olhava nervosamente Moon e Philip pela segunda vez. O cozinheiro depositou no chão sua arma improvisada. - Agora ca-capitão - disse o advogado, parando junto a Alistair - vá com sua es-esposa ao lado norte do alpendre, sem pressa... sem pressa Beau obedeceu, arrastando consigo Cerynise, que aferrada a ele lutava para colocar-se na primeira linha para agir como escudo. Resolvido a não permiti-lo, Beau segurou-a firmemente pela cintura e a manteve a seu lado. Rudd chamou a seu companheiro pelo nome, ajudou-o a a ficar em pé e puxou ele para a porta. Alistair estava demasiado dolorido para prestar-lhe ajuda, pelo que Rudd empurroupara o alpendre e disse-lhe: - Corre para os cavalos. - Pegue a moça - grasnou Alistair, cruzando os braços sobre o estômago. A dor era tão intensa que receava ter sofrido uma ruptura em seus órgãos vitais. Beau colocou Cerynise a suas costas e olhou com agressividade a seus dois atacantes. - Por cima de meu cadáver! - Alistair agitou uma mão em sua direção e disse com voz rouca: - Dê um tiro nesse porco! - Nãooo! - exclamou Cerynise, tratando de interpor-se entre Rudd e seu esposo. Este, entretanto, a manteve atrás de si. Rudd demonstrou com um bufar o que merecia o mandato de seu companheiro. Não era, com certeza, a primeira vez, que questionava a inteligência de Alistair Winthrop. - Claro, claro, e que os outros nos matem – zombou. - Vá para os cavalos - disse a seu sócio. Alistair se dirigiu coxeando para suas cavalgaduras. Montou em um dos cavalos e o esforço lhe arrancou uma careta de dor. - Venha, Rudd. Saiamos daqui. Vendo que nenhum obstáculo o separava de suas montarias, Rudd pôde ao fim respirar com certa fluidez, sem por isso deixar de recear o capitão, que não lhe parecia de confiança. - Se ten-tar algo, c-capitão, morrerá você ou vu-sua esposa; e se morrer você tenha por certo que sua esposa fi-ficará a nossa mercê. Co-comprometo a isso. Em seguida retrocedeu pelo caminho que acabava de percorrer Alistair, e uma vez na sela fincou ambos os calcanhares nos lados de suas montarias de aluguel. afastou-se com um estrépito de cascos, adiantando ao Alistair, que se esforçava para não ficar atrás. Beau saiu correndo para a rua e viu afastar-se dois ingleses. Observou que faziam uma curva, mas não na direção esperada. Dirigiam-se para o interior, longe dos moles.


Justo então chegou Cooper de sua excursão à companhia naval. A caminhada inicial o deixou sem fôlego para a volta; daí que seu chefe, descansado e inquieto pela segurança de sua esposa, houvesse coberto a mesma distância na metade do tempo. Philippe, Moon e parte da criadagem saíram ao alpendre. Foi Moon o destinatário da primeira ordem do Beau. - Procure o oficial, conte o que tentaram fazer esses velhacos e o apresse para que organize um esquadrão e saia em sua perseguição. Se for preciso descrições, que passe por aqui de caminho. Com muito gosto lhe direi que aspecto têm esses vagabundos. -Sim, capitão! Moon levou a mão à boina e se apressou a cumprir a ordem. Beau subiu pelos degraus do alpendre, passou um braço pelas costas de sua esposa e entrou com ela em casa. Encontraram ao Bridget no salão, ajoelhada junto ao Jasper, que se endireitou e aplicava uma compressa úmida na nuca. A donzela, enquanto isso, enrolava uma tira de gaze para manter seguro o emplastro. - Pelo visto falhei a meu dever de amparo, senhor - se desculpou Jasper, olhando para Beau. - Entendi que foi sua idéia enviar Cooper para me buscar. - Sim, senhor. Pedi a monsieur Philippe que enviasse ao jovem a lhes avisar de que sua esposa tinha visita. Dou graças ao ceu de que Cooper tenha dado com você a tempo. - E eu de sua agilidade mental - repôs Beau. Posto em cócoras, inquiriu solícito: - Como se encontra? - Como se minha cabeça fosse duas vezes maior do habitual - respondeu o mordomo com ironia. Beau sorriu. - Não parece que seja o caso. - Bridget me disse que Winthrop e Rudd conseguiram escapar, senhor. - Com efeito, mas farei com que o oficial vá atrás deles. Jasper achou uma decisão extremamente acertada. - Neste momento convém não deixar sozinha à senhora. Poderiam voltar, senhor. Indignados berros de Marcus se ouviam cada vez mais perto. Cerynise saiu ao vestíbulo e viu vir Beira da cozinha, manifestamente aliviada de ver sã e salva a sua senhora. - Fiz o que pude para tranquilizá-lo, senhora Cerynise, mas quer comer. - Já me ocupo disso, Beira. Cerynise foi ao encontro da moça e estendeu os braços para pegar a seu filho. Os gritos furiosos do bebê cessaram ao se achar nos braços de sua mãe, cujo seio procurou com avidez. Cerynise foi ao estúdio, fechou a porta e se apressou a desabotoar os botões do sutiã, ao mesmo tempo que se acomodava no fofo sofá. Ouvindo abrir a porta, voltou a cabeça e reconheceu Beau, que, depois de fechar de novo para garantir sua intimidade, sentou-se junto a sua esposa. Divertiu-se ver seu filho medindo com ardor o tecido do vestido de Cerynise. Como não


encontrava nada com que saciar a fome, o bebê expressou sua decepção com choros, para regozijo de seu pai. Cerynise conseguiu por fim despir seu peito e aproximou dele o pequeno. Não foi preciso mais. O menino pegou ao mamilo com verdadeira gulodice. Cerynise acariciou sua cabecinha com olhar terno, antes de voltar-se para o Beau com o mesmo amor. - Não sabe quanto teria sentido falta dos dois se Alistair se saísse bem com seus planos de me raptar. A saudade me teria partido o coração. - Não menos que a mim. De qualquer modo teria saído para te buscar - murmurou Beau para tranquilizá-la, lhe dando um beijo na têmpora e apoiando um braço no espaldar do sofá à altura de sua cabeça. - Disseram esses desordeiros o que queriam de ti? Cerynise repetiu o que lhe contaram os dois homens, e se indignou ao recordar suas petições. - A princípio Alistair queria que os acompanhasse nem mais nem menos que a Inglaterra, mas depois Rudd propôs me fazer assinar os papéis em presença de um magistrado inglês que viera no mesmo navio que eles. Eu respondi que estava disposta, mas só com você e uma escolta para nos proteger. Então Alistair se ficou furioso. Jasper foi em minha ajuda, mas o senhor Rudd lhe deu um golpe. A partir daí os acontecimentos se precipitaram. - Exalou um suspiro, reclamando para si mesma. - Não deveria ter concordado em recebê-los. Jasper temia que fosse uma armadilha, mas não lhe fiz conta. - Com um pouco de sorte os prenderão, meu amor. Nesse caso já não teremos nada que temer. -Você acha que estavam mancomunados com Redmond Wilson? Então por que foram mata-lo se trabalhava para eles? - De repente recordou o dito por seus dois agressores e franziu o sobrecenho. - Segundo Alistair o navio em que vinham atracou esta mesma manhã; se for certo, não estavam na cidade ao acontecer o assassinato. - É possível que Alistair disse para nos despistar, mas seria estranho que Wilson se deixasse matar por desconhecidos. Tendo em conta a quantidade de homens que enviei em sua busca, o mais provável é que o autor do crime fosse próximo dele, uma pessoa de confiança. - Beau encolheu os ombros. - Ou seja.. Cerynise voltou a fixar-se no Marcus, que seguia saciando sua fome com voracidade. Depois olhou a seu marido e lhe dirigiu um sorriso malicioso. - Às vezes, vendo-o tão ansioso, recordo de você quando fez amor e parece igualmente impaciente para satisfazer seus apetites. A comparação consternou ao Beau. - Que eu saiba sempre procurei te tratar com delicadeza. Quando me viu mamar de forma tão desumana? - Quando delirava, meu amor - respondeu ela lhe acariciando a coxa. - Depois disso meus mamilos ficaram muito sensíveis.


As sobrancelhas negras do Beau se arquearam em sinal de arrependimento. - Me perdoe, meu amor; embora, tendo em conta o muito que desejava te possuir, com certeza que o desejo me fez perder a cabeça. - Se não a perdeu já pela febre. Eu acreditava estar sonhando até que senti a dor de quando entrou em mim, embora a essas alturas já passara a ser participante voluntária em sua iniciação marital. Possivelmente não saiba, meu amor, mas já então me deu prazer, embora estivesse tão doente que talvez não fosse essa sua intenção. Reconheço, isso sim, que me ofendi um pouco ao me dar conta mais tarde que nem sequer me dera um beijo. Beau preferiu não lhe explicar que sempre se negou a beijar às prostitutas em quem procurava saciar em outros tempos suas ânsias viris. Só o primeiro beijo ao Cerynise, o dia mesmo de suas bodas, obteve que tomasse afeição a tão deliciosa prática. - Eu também acreditei que fora um sonho, mas me alegro do contrário. - Introduziu um dedo na mãozinha que se aferrava ao peito da jovem. - Se não me tivessem posto à corrente de que levava meu filho em seu seio, talvez não me teria dado conta jamais de que me necessitasse ou me quisesse. Durante um tempo estive convencido de ser eu o único que tinha sentimentos dessa natureza. - Fizemos entre os dois um filho lindo - respondeu Cerynise, apoiando a cabeça uns instantes no ombro de seu marido. A lembrança do que tentaram fazer aqueles dois descarados a estremeceu uma vez mais. - Me abrace forte, Beau. Preciso me convencer de que estou segura em seus braços. Beau não se fez de rogado, e aplicou os lábios à nuca de sua esposa antes de beijá-la na face e concentrar-se por fim em sua boca. Depois uniram suas cabeças e olharam a seu filho com adoração. Marcus ergueu a vista para o Beau e deixou de mamar uns instantes para dirigir a seu pai um alegre gorjeio, até que voltou para o banquete com renovado entusiasmo. Passaram vários dias antes de que Gates, o oficial, aproximasse-se do armazém para informar ao Beau de que a perseguição do Alistair Winthrop e Howard Rudd não tivera êxito. Do rapto frustrado, ele e sua bando de homens percorreram várias vezes a campina situada ao oeste do Charleston sem achar rastro dos culpados, embora pudesse inferir de certas informações que talvez Alistair e Rudd tivessem fugido a Inglaterra a bordo do primeiro navio. Dois homens que se ajustavam às descrições facilitadas pelo Beau foram vistos no ato de subir a um navio que se fez ao mar antes de que o ajudante do oficial tivesse tido ocasião de interrogar ao capitão. Beau albergava esperanças de que os dois vagabundos partiram, mas não podia dar garantias disso a sua esposa enquanto não dispusesse de provas irrefutáveis sobre a presença a bordo do Alistair e Rudd no momento de zarpar. Ele julgava que os dois velhacos eram capazes das maiores estupidezes, mas também de chispas de astúcia, e isso não lhe deixava mais remédio que expôr a possibilidade de que a fuga fora fingida. Consultou aos capitães de diversos navios procedentes de Londres que atracaram no mesmo dia do suposto desembarque do Alistair e Rudd, mas não encontrou seus nomes em nenhuma lista de


passageiros. Em troca, quando estendeu suas pesquisas a outros navios cuja chegada se produziu durante a semana anterior, suas suspeitas se viram confirmadas: os dois patifes desembarcaram com antecipação ao assassinato do Wilson. Com certeza mentiram (mas não quanto ao fim almejado por eles). Beau não pôde senão convencer-se de que estavam dispostos a qualquer falsidade para obter seu objetivo, e possivelmente até de ocultar um vil assassinato. Seus pais se instalaram alguns dias em Charleston para estar mais tempo com seu neto. Tanto para Beau como para Cerynise era gratificante ver o casal tão absorto com o pequenino, cujas caretas hilariantes e vivazes gorjeios sempre eram acolhidos com risadas afetuosas. A fim de celebrar a nova incorporação à família, os quatro vestiram suas melhores roupas e foram ao teatro para ver o ator norte-americano Edwin Forrest no Otelo. Como para ela e Beau era a primeira noitada de longo alcance desde o nascimento de Marcus, Cerynise quis estar mais bela que nunca para seu marido. Seu vestido de rasa cor nata, que mostrava nus seus ombros sedutores, prendeu diminutos aljofares e outras

contas que refletiam a luz.

Embelezavam seu pescoço e decote o pendente e a gargantilha de pérolas que lhe tinha agradável Beau; quanto a seus pendentes, eram de pérolas e diamantes.

Cerynise era uma bela e radiante aparição que atraiu os olhares masculinos. Até o acompanhante de Germaine Hollingsworth, de recente aquisição, ficou deslumbrado pela jovem senhora Birmingham, até que sua miúda e morena acompanhante conseguiu de novo sua atenção com uma discreta cotovelada. Durante a representação, entretanto, Germaine o surpreendeu mais de uma vez observando incansavelmente a sua rival, com uns binóculos de teatro que parecia ter tomado emprestados exclusivamente para esse fim. - Se não puder afastar a vista dessa fulana, Malcolm McFields, eu volto para casa! sussurrou, zangada. A voz retumbante do protagonista a obrigou a repetir a ameaça com um pouco mais de energia, mas quis o destino que justo então se produzira na obra um silêncio, permitindo que as últimas palavras de Germaine suscitassem atônitos sussurros entre o público, além de surpreender aos atores. A humilhação deixou gelada a jovem, que sentiu sobre si quase todos os olhares. Até os Birmingham se voltaram para olhá-la, embora demonstrassem maior interesse pela peça que por ela. A peça continuou, mas a atenção de Germaine já não se desviava da família de sua competidora. Sentiu como uma ofensa que Beau tivesse no colo, uma das enluvadas mãos de sua esposa. O certo era que não imaginava olhando a outra jovem, nem sequer em ausência de Cerynise, conjetura que a encheu de desgosto e a indispôs ainda mais com o descarado Malcolm. Irritada, olhou de esguelha a seu acompanhante, mas o suplício a que acabava de ver-se submetida fez que fosse relutante a emitir uma reprimenda verbal, por medo de que acontecesse algo similar e igualmente embaraçoso. Malcolm devolveu os binóculos a contra gosto, mas nem por isso deixou de obsequiar com olhadas furtivas à deusa de cabelo acobreado que ocupava o camarote dos Birmingham


em estreita proximidade com seu marido. Sua insistente fascinação se revelou excessiva para Germaine, que por outro lado, posteriormente à decepção de perder ao Beau Birmingham por culpa de quem em outros tempos mereceu o burlesco apelido de Palitinho, dispunha de escassa paciência para aguentar que outro galã ficasse igualmente cativado pela jovem. Logo depois de iniciado o último ato Germaine realizou outra tentativa de chamar a atenção de Malcolm mas comprovou que voltava a estar enfeitiçado por Cerynise. Então cumpriu sua ameaça e deixou que olhasse quanto desejasse à outra mulher.

CAPÍTULO 18

O retumbar de um trovão tirou Cerynise de um sonho profundo. Antes de que despertasse por completo, um relâmpago rasgou o ceu, iluminando o dormitório e enchendo a jovem de pavor. O curto estalo de luz lhe permitiu ver as nuvens que se abatiam sobre a casa, tão negras e ominosas como a escuridão que continuava adiando a chegada da alvorada. Graças a outro brilho, viu que os ramos maiores do carvalho da Virgínia contiguo à casa eram sacudidos pelo impetuoso vento que soprava terra adentro. Apesar dos anos transcorridos desde a morte de seus pais, Cerynise ainda não conseguira vencer seu temor às tormentas. Quis achar consolo e segurança na presença de seu marido, e com esse fim tocou o travesseiro de Beau, sem achar mais que uma depressão no lugar que ocupara sua cabeça. - Beau? - Aqui - respondeu ele do quarto de vestir. Cerynise ficou de costas e percebeu uma luz difusa saindo pela porta. - Ainda é de noite - disse com voz sonolenta. - O que faz levantado a estas horas? - Prometi ao senhor Oaks que estaria no navio na alvorada para deixá-lo bem amarrado. Talvez não se tenha dado conta, senhora, mas se aproxima uma tormenta. - Se me dei conta! - Cerynise voltou a olhar com inquietação pela janela, e estremeceu ao ver que outro raio rasgava o escuro manto. - Tão mau vai ser? - Ainda é cedo para sabê-lo - respondeu ele ao sair do quarto de vestir. Aproximou- se da cama e se agachou para dar a sua mulher um beijo longo e terno. Quando se separou dela e lhe sorriu, seus olhos refletiam a luz. - Bom dia, minha vida. Cerynise ronronou brandamente, jogou os braços ao pescoço e o atraiu de novo para si. O fato de que estivesse nu era um convite a admirar e acariciar os musculosos contornos de suas costas. - Estava sonhando contigo - sussurrou entre beijo e beijo. - Voltávamos a fazer travessuras no estúdio, e você me obsequiava com toda classe de delícias. Beau apoiou um cotovelo na cama e dirigiu a sua esposa um sorriso zombeteiro, ao mesmo tempo que escrutinava seu rosto a tênue luz do dia. - Acreditava ser o único que sonhava essas coisas. - Absolutamente! - Cerynise apalpou suas firmes nádegas. - De fato, se tivesse tempo


poderíamos criar novas lembranças para evocar mais tarde. Beau nada desejava mais que acatar a sugestão, mas teve que recusar, não sem um gemido de decepção. - Seu convite me dá vontade de me esquecer do navio, mas o senhor Oaks está me esperando. - Voltou a ficar em pé. - Assim que os criados tomarem uma série de medidas contra a tormenta os enviarei a quase todos ao Harthaven. Eu gostaria que os acompanhasse. - Sem você? - É possível que não retorne até as cinco da tarde, e é difícil calcular que gravidade terá tomado a tormenta a essas horas. - Mas, Beau, seria insuportável não saber se está são e salvo! Prefiro esperar você. - Estaria mais tranquilo se saísse com o primeiro grupo de criados - disse Beau. - Jasper e o resto dos homens sairão mais tarde, quando tiverem acabado de assegurar a casa, mas acho que você e Marcus deveriam partir o quanto antes possível. - Prefiro esperar, pelo menos até que Jasper vá - respondeu Cerynise teimosa. - Não aceitarei sair antes, a menos que você venha para nos buscar. Vendo confirmados seus temores, Beau suspirou. -Voltarei assim que puder, meu amor – assegurou-lhe vestindo a roupa interior. - Se o tempo piorar muito e ainda não voltei, Jasper tem ordens de levar você e Marcus à fazenda. Não admitirei negativas. Quando Thomas voltar depois de me levar ao navio ficará em casa a esperar sua partida. - E você como voltará? - A pé, porque já terei pego meu impermeável no Audaz. Quando estiver em casa engancharei o cabriolé e irei com ele à fazenda. - Mas... Beau deteve seus protestos com a mão erguida. - Insisto em que parta antes que os ventos soprem muito forte. Não quero ter que me preocupar de você mais do que já me preocupo. - Abotoou as calças e o cinto. Eu também partirei para o Harthaven antes de que a tormenta se agrave em excesso. - Não espere muito, por favor - lhe suplicou Cerynise. Ele respondeu através do pulôver que estava passando pela cabeça. - Pode estar tranquila, meu amor. - Uma vez envolto na roupa, enviou um beijo a jovem e caminhou para a porta. - Vou lá embaixo a procurar algo de comer e dar instruções aos criados sobre as medidas a tomar em minha ausência. Aconselho você a dormir. Não tem sentido que se levante tão cedo. - Me prometa que tomará cuidado! - exclamou Cerynise quando fechou a porta. - Prometido. Permaneceu imóvel, atenta ao veloz bater dos saltos de Beau pela escada. Cada vez que o ouvia chegar ou partir, o ruído de suas passadas lhe proporcionava provas renovadas de sua energia e vitalidade. Permaneceu um tempo mais no leito, até que se dispôs a realizar seu


asseio matinal. Depois alimentou e banhou Marcus e desceu ao andar inferior. Até então estavam fechadas quase todas as portinhas de madeira, o que, somado à capa de nuvens negras e baixas que cobriam o ceu, submergia ao interior da casa em uma escuridão quase noturna. Os abajures estavam acesos, e graças a eles Cerynise pôde examinar as medidas que se tomaram. - Vai viver seu primeiro vendaval a sério, jovenzinho - disse para o bebê. - De qualquer maneira, parece-me que é dos que desfrutam. Parece-se com seu papai, sim senhor. Seu filho emitiu um simpático gorjeio, arqueou as sobrancelhas e apertou os lábios, como se quisesse expressar seu pleno acordo com a afirmação. Sua mãe não pôde senão acariciá-lo com o nariz e imprimir um beijo maternal em sua sedosa face. Jasper estava metido na tarefa de proteger os móveis se por acaso durante a ausência de seus habitantes a casa sofresse danos consideráveis. Para conseguir tão ambicioso fim, dava ordens aos criados homens e dava-lhes uma mão. Como não havia garantias de que as portinhas externas suportassem um violento vendaval, nem que os vidros não ficassem destroçados por algum ramo, os valiosos tapetes orientais foram enrolados e apoiados contra as paredes do vestíbulo superior. Os mais apreciados artigos de enfeite foram armazenados nas prateleiras dos armários para a roupa branca, que ocupavam o centro da casa em ambos os andares. Os lustres de cristal foram envolvidos com lençóis para assegurar-se de que nenhum prisma caísse ao chão por obra das rajadas de vento que pudessem penetrar por janelas quebradas. Os móveis de ferro forjado foram retirados do jardim e armazenados na garagem. Pouco depois de retornar do cais, Thomas pôs em obra um projeto próprio, que consistia em isolar a caixa da carruagem para que não entrasse água achando-se dentro o bebê. Enquanto isso, Philippe cozinhava e enchia várias cestas de comida, algumas para quem partisse em primeiro lugar, e a maioria para quem ficasse até bem entrada a tarde. Foram, em suma, preparativos longos e tediosos, e quando o primeiro grupo de criados abandonou a casa já era mais de meio-dia. Pouco antes da hora combinada entre o capitão e seu primeiro oficial para descer as escotilhas e preparar o navio para a tempestade, Beau subiu a bordo do Audaz sob o amparo de uma pequena lona que sustentava sobre sua cabeça. Stephen Oaks se alojava no navio, no camarote do primeiro oficial, e já fazia alguns dias consultando as cartas de navegação com vistas a uma viagem às ilhas do Caribe, para onde zarparia no inverno. O plano era vender artigos de primeira necessidade aos comerciantes e encher as adegas para o trajeto de volta. Entretanto, quando Beau subiu à fragata, não achou sinais de que seu primeiro oficial tivesse levantado. A chuva, cada vez mais forte, cobria a cidade de uma névoa espessa. Beau desceu ao camarote do capitão, em busca de sua capa impermeável. As janelas de popa deixavam entrar tão pouca luz que teve que acender uma lanterna justo diante do armário, única maneira de


ver seu conteúdo. No processo de procurar o necessário, reparou em um pacote branco de grandes dimensões que ocupava o fundo do móvel. Extraiu-o e o abriu. O principal artigo resultou ser um lençol de seu próprio beliche, com manchas velhas que pareciam de sangue seco. A segunda era uma camisola de mulher com enfeites bordados, no quais reconheceu a um de seus favoritos entre os que pertenceram a sua mulher. Não o vira muito antes de chegar ao Charleston, e em alguma ocasião se perguntou por seu paradeiro. A parte detrás mostrava manchas semelhantes, mas havia outras de cor amarelada que o tempo endureceu. Não demorou nem um segundo em dar-se conta do que era aquilo, e a descoberta o deixou estupefato. Tinha diante de si provas concludentes de que deflorou a sua esposa durante a enfermidade. A obsessão de Cerynise por não comprometê-lo contra sua vontade chegou ao extremo de ocultar essas provas. Desde que

não tivera Beau senão

vagas

reminiscências do ato, a jovem teria saído para sempre de sua vida, e com ela o menino. E tudo pela honra! Pensando no que teria sido de sua vida, algumas lágrimas turvaram sua visão. Salvo pelo medo de que alguém, Alistair Winthrop, Howard Rudd ou qualquer outro vilão, fizesse mal ao Cerynise ou a matasse, Beau se sentia tão feliz de tê-la em sua vida que logo conseguiu imaginar a tortura e a angústia que o teriam afligido se não houvesse resolvido para bem o assunto de seu matrimônio e da gravidez da jovem. Lançou um olhar a seu beliche, o lugar em que despojou ao Cerynise de sua virgindade. Que dano devia lhe haver feito em seu delírio!, pensou; e entretanto... como lamentá-lo, hoje que Marcus era seu máximo orgulho e Cerynise seu mais sincero amor? Sentiu de repente que seu coração transbordava de júbilo, e desejou retornar quanto antes para o lado de ambos. Uma vez envolvido em sua capa impermeável, dirigiu-se ao camarote do Stephen Oaks e esmurrou a porta. - Né, senhor oficial! Ainda está vivo? - Mmm... Sim, meu capitão, Acho que sim - pronunciou de dentro uma voz sonolenta. Ontem precisei trabalhar até muito tarde. Por isso fiquei dormindo. - Pois fique em pé. Bridget está a ponto de partir para Harthaven, e confia em que se reúna com ela assim que tenhamos acabado o que nos retém a bordo. Pelo que vejo, se não nos apressarmos será de noite e ainda estaremos trabalhando. - Já saio! - exclamou Stephen. Cerynise se esforçou para ter a mente ocupada. Enviou a Beira ao Harthaven com garantias de que ela e o bebê a seguiriam assim que retornasse o capitão. Amamentou Marcus, contou-lhe toda sorte de histórias e quando teve-o adormecido procurou em vão ler. Próximo o final da tarde, fortes ventos começaram a soprar. Seus fantasmagóricos uivos aumentaram a inquietação da jovem, que teve que recordar-se de que Beau não demoraria para retornar, e que dentro de casa estava a salvo do fragor da tempestade. As paredes que a rodeavam eram maciças e resistentes. Pouco a consolaram, entretanto, tais reflexões. Só a acalmaria sentir-se de novo nos braços de seu marido.


A preocupação por Beau começou a minar seu otimismo. Passeava inquieta pela sala, olhando o relógio a cada minuto. Que Beau fosse um homem vigoroso, capaz e com experiência não impedia Cerynise temer por sua integridade e desejar tê-lo junto a ela. Ninguém a não ser Beau podia tranquilizá-la, com aquela doçura, aquele talento especial que sempre tivera, e que provavelmente jamais o abandonaria. Jasper entrou no estúdio para avisá-la para prever uma partida iminente. Cerynise se aborrecia com a idéia de partir sem Beau, mas era consciente de que não podia opor-se às súplicas do mordomo, posto que corria o risco de pôr em perigo seu filho ou outros criados. Sua negativa teria feito que se sentissem obrigados a ficar, e esse era um cargo de consciência que não desejava aceitar. A viva lembrança da árvore cuja queda causou a morte de seus pais lhe dava motivos suficientes para aceitar à proposta do mordomo. Mesmo assim, não pôde evitar certa angústia no momento de subir pela escada em busca de seu filho e da bolsa que lhe preparara. Agarrou Marcus nos braços e agarrou a bolsa com a outra mão. Como o bebê se queixasse, embalou-o um pouco. Parecia faminto, porque procurava seu peito com a boca. Cerynise decidiu que um pequeno atraso não dificultaria sua partida. Justamente quando se dispunha a desabotoar o sutiã ouviu fechar-se de repente a porta principal. - Beau! Cheia dê júbilo, abandonou o quarto do menino, cruzou o dormitório e saiu para o patamar, de cujo corrimão esquadrinhou o vestíbulo central. Agora que chegou Beau, tinha a certeza de que já não a angustiaria a lembrança da morte de seus pais, cuja perseguição sofreu ao longo de todo o dia. Seu alívio se dissipou de repente ao ver que quem entrara no vestíbulo não era seu marido, mas sim Alistair Winthrop e Howard Rudd. O pior era que Jasper jazia inconsciente ao lado do salão, sem dúvida como resultado de ter ido abrir a porta. Deviam tê-lo arrastado desde a entrada. Nesse preciso instante, e com um sorriso cruel, Alistair pressionava o gatilho da pistola com a qual apontava à cabeça do mordomo. Rudd abafou uma exclamação, jogouse sobre ele e lhe arrebatou a arma. - Tem tanta vontade de matar que nem sequer se dá conta de que disparando sobre Jasper poria em alerta a todos os ocupantes da casa? - sussurrou irritadamente o advogado. Vamos prendê-lo na despensa. Dessa maneira, se voltar a si não poderá sair. - Quantos criados calcula que há com a moça? - Só um, porque o cozinheiro partiu, e tanto o velho marujo como o cocheiro estão amarrados e amordaçados na garagem. Na verdade é que perdi a conta, porque passaram o dia entrando e saindo da casa. Algo terá que se fazer com o Cooper quando o deixarmos sair da privada. Verá como sobe quando se der conta de que não pode sair porque trancamos a porta com uma madeira. Quantos você contou? - Mais ou menos os mesmos - respondeu Alistair com seu presunçoso tom. - Foi uma sorte que os vizinhos partissem de casa e nos deixassem espiar a do capitão do dormitório do


andar de cima. De qualquer modo teria preferido esperar que fosse de noite para dar o golpe. Talvez alguém nos tenha visto entrar e tenha ido avisar ao capitão. - apalpou - a concavidade natural que separava seus ossudos quadris. - Ainda me dói a hérnia que me provocou há uma semana. Esse porco quase me destroça as tripas. - Não podíamos esperar. Os criados estavam a ponto de partir com a garota - alegou o advogado. - Por outro lado, quanto mais espera mais risco de que o capitão

nos

surpreendesse. Se voltar a nos encontrar em sua casa o mais provável é que nos mate, razão de sobra para acabar de uma vez com esta tolice. Até esta a data, a terceira parte da fortuna de sua tia foi um incentivo muito respeitável, mas de pouco me serviria depois de morto. - Lástima não poder estripar o capitão como fiz com esse Wilson - murmurou Alistair. Cerynise mordeu os nódulos dos dedos para abafar um gemido. Sabia que Alistair e Rudd eram malvados, mas não os considerara capazes de assassinar a sangue frio. - Aquilo foi uma necessidade - replicou Rudd. - Se Wilson tivesse matado à garota não nos teríamos podido levar isso a Inglaterra. A morte do capitão não seria mais que uma satisfação passageira, mas se não nos apressarmos ainda pode converter-se em obrigação, a executar, com algo que faça barulho, enquanto ainda conservemos nossa pele. Sobre isso não há dúvida. Será mais fácil raptar à garota se não tivermos que nos enfrentar com esse maldito ianque. - Esta manhã fiquei que nem pedra ao ver que ia a seu navio. Tivemos sorte porque não teria sido fácil encontrar uma maneira de lhe cortar o pescoço sem chamar a atenção, que era a única maneira de conseguir a garota. Está visto que o valente e invencível capitão tem tanto medo de uma tormentazinha como o resto dos habitantes desta zona. Na verdade, não entendo que fiquem tão nervosos. Parece-me que não têm coragem. - Talvez saibam algo mais que nós - sussurrou Rudd. - Pouco importa. Faremos o mesmo que eles, nos escondermos no campo até que zarpe nosso navio. Esse barracão em ruínas tem boa vista sobre o caminho, e por agora cada vez que vimos vir ao oficial nos sobrou tempo para nos esconder debaixo da ponte. Desde que demos nossa roupa e umas moedas para aqueles dois vagabundos e lhes dissemos que passeassem pelo mole e subissem naquele navio com destino à Inglaterra quase ninguém nos incomodou. É possível que nosso plano tenha tido êxito, e que acreditassem que nós tínhamos partido. Seja como for o caso, quando tivermos levado a garota duvido que nos encontre o oficial. O mais provável é que dirija suas suspeitas para outra pessoa. Deveria ser coisa fácil subi-la a bordo em um baú, sobre tudo se estiver inconsciente. - Estamos tendo muito trabalho para mantê-la com vida. - Alistair suspirou-. O que não daria para partir seu precioso pescoço aqui e agora! Talvez a idéia de Wilson não era má. - Não era idéia dele, recorda? - replicou Rudd. - Ou se esqueceu o que ouvimos nessa noite em nosso quarto? De qualquer modo não vem ao caso. A idéia de matar à garota antes de reclamar a herança de sua tia é completamente absurda, de modo que não comece a alimentar fantasias a respeito de como seria fácil mandá-la ao outro mundo. Se a mata agora,


quando levarmos o cadáver a Inglaterra já não estará em condições de que o reconheçam. Além disso, no espaço fechado de um navio seria impossível dissimular muito tempo o fedor. Com certeza o capitão suspeitaria algo e revistaria nosso camarote. - Sabe de uma coisa, Rudd? Desde que nos conhecemos progrediu muito em seus conhecimentos sobre assassinato. Agora, quando falamos de matar a alguém já não entram suores frios. - Certo - repôs com ironia o advogado. - Foi um bom professor. Só espero não pagá-lo com a forca. - Alegra essa cara - disse Alistair. - Assim que tenhamos raptado à moça teremos uma fortuna nos esperando na Inglaterra. Depois poderemos nos libertar dela como nos divertir mais. Ouvindo falar de sua morte com semelhante desenvoltura, Cerynise sentiu um calafrio. Afastou-se do corrimão com passos lentos e silenciosos, confiando em que Marcus não montasse um escândalo. Tinha que libertar Cooper antes de que lhe coubesse em sorte o mesmo destino que aos outros três criados; não obstante, e quanto mais pensava nisso, mais argumentos racionais se opunham ao risco de expor-se tirando o criado da privada. Os dois velhacos buscavam a ela, não ao Cooper, e se a viam com o menino já não teriam motivos para não disparar. Até podiam matá-lo. Era melhor para todos que ficasse escondida com o bebê. Refugiou-se em seu dormitório no mesmo instante em que outro relâmpago partia o ceu em dois, projetando na casa estranhas e longas franjas de luz através das fitas de seda das portinhas. Estava vivendo um pesadelo, sem mais companhia que a de um bebê indefeso, a mercê de uma tormenta e dos diabos que se propunham destruí-la junto com todos seus seres queridos. Algo tinha que fazer para conjurar o perigo que os ameaçava. Apagou a luz do abajur e sumiu para o dormitório na escuridão. Só os relâmpagos lhe davam fugazes vislumbres do interior. Agarrou rapidamente a bolsa de Marcus, meteu-se apressadamente no quarto do menino, igualmente às escuras, e fechou a porta com a máxima discrição. Depois, sem permitir-se sequer uma pausa, abriu a porta que dava ao corredor. Parecia que o coração iria sair o do peito. O corredor percorria toda a casa, e a metade do caminho passava junto ao corrimão e os dois corredores pequenos que a circundavam, um dos quais levava ao patamar contiguo à porta do dormitório principal. Havia dois spots acesos, um a cada extremo do corredor. Cerynise deixou no chão a mala e correu silenciosamente em ambas as direções para apagar as luzes. Depois refez seu caminho, agarrou a bolsa e se meteu no pequeno cubículo que conectava dois dormitórios na asa sul. Agradecendo por conhecer tão bem a casa, abriu a porta do armário da roupa de cama, ao qual se acessava pela parede do fundo do cubículo. Depois de tirar a chave da fechadura, meteu-se dentro, ajustou a porta e a fechou com chave. Só e às escuras com seu bebê, desceu vários lençóis de uma prateleira e improvisou uma cama no chão para seu filho. Depois se sentou ao lado, e só então se deu conta de que lhe tremiam as pernas. Cedeu ao pânico uns


instantes, vendo ameaçado seu aprumo pela descoberta de seu próprio temor; mas não demorou para tampar a boca com dedos trêmulos, resolvida a vencê-lo a base de vontade e fortaleza. Marcus começou a mover-se, e Cerynise lhe deu o peito sem demora. Amamentá-lo deu-lhe tempo para clarear as idéias. Pouco a pouco foi elaborando um plano para frustrar as pretensões dos vilãos, um plano apoiado na esperança de que Marcus dormisse logo depois de ter comido. Podia ser que a chegada de seu marido fosse iminente, e Alistair e Rudd aproveitariam a menor oportunidade para matá-lo. Por uma vez dependia dela salvá-lo. Rezou para ter a metade de êxito de Beau nas múltiplas ocasiões em que fora em seu resgate. Pouco depois descobriu que Alistair e Rudd estavam revistando os aposentos do andar de cima. Ouviu seus passos e viu entrar por debaixo da porta do armário uma franja de luz procedente das lanternas que levavam. Um dos dois se deteve diante da porta. Cerynise conteve a respiração, e quando ouviu que se retirava sem tocar a maçaneta deu graças a Deus. Uma vez explorados os dois dormitórios separados pelo cubículo, Alistair e Rudd decidiram descer pela escada e prosseguir sua exploração no andar inferior. Quando Marcus já não quis continuar mamando, Cerynise o apoiou em um ombro e lhe deu uns tapinhas nas costas até que ouviu um pequeno arroto. Em seguida lhe trocou a fralda, tomando precauções para assegurar-se de que não despertasse nenhum desconforto. À força de embalá-lo conseguiu que dormisse. Deu um beijo em sua sedosa cabecinha, segurou-o uns instantes e desejou fervorosamente que não fossem os últimos. Depois de depositá-lo na cama improvisada e tampá-lo com um lençol, abandonou o minúsculo habitáculo, fechando-o com chave de fora. Era uma sorte que seu vestido tivesse bolsos fundos e pouco visíveis onde ocultar a chave. Servia esta para todos os armários da casa, mas também para abrir a porta da despensa em que os dois velhacos declararam querer esconder ao Jasper. Retornou a seu dormitório, tirou a pistola que Beau tinha na gaveta de seu criado-mudo e a meteu no bolso direito. Não havia necessidade de comprovar se estava carregada, porque desde o incidente do cão seu marido tomou por costume examinar a arma quase toda noite antes de apagar a luz. - Onde se terá metida essa bruxa? - murmurou Alistair no andar de baixo, enquanto Cerynise saía silenciosamente de seu dormitório. - Aqui não está, e em cima parece que tampouco. O bebê desapareceu. Você acha que partiu? - Chovendo como chove? - disse Rudd. - Com este tempo só se teria levado a seu filho em carruagem, e a da casa não se moveu de seu sítio. Não; só pode estar em casa. O mais provável é que se escondeu. Apesar de achar-se acesas grande parte dos abajures dos aposentos inferiores, os dois homens levavam lanternas para procurar melhor a sua presa. Aproximaram-se da escada, ao mesmo tempo que Cerynise passava com rapidez do corrimão ao corredor principal. Meteu-se no dormitório onde estavam acostumados a instalar-se os pais de Beau em suas visitas e ajustou a porta quase até fechá-la, deixando uma fresta para vigiar a entrada ao exíguo


cubículo em que deixou oculto a seu pequeno. Apareceu à fresta quase sem respirar, e viu que os dois canalhas tinham chegado ao patamar. Dirigiram-se à habitação do menino. Em um momento dado, para horror da jovem, Alistair investiu na direção de seus passos e entrou no corredor que separava os dois dormitórios. Uma vez nele tratou de fazer girar a maçaneta do armário. - Esta porta está fechada - sussurrou, voltando-se para o Rudd. - Talvez agarota esteja dentro - sugeriu o advogado, reunindo-se a ele. Cerynise abriu a porta que lhe servia de parapeito e deu com a folha contra a parede, a fim de chamar a atenção de seus perseguidores. Foi ela a primeira em surpreender-se da rapidez com que circundava o corrimão em seu extremo mais próximo, descia pela escada e corria para a cozinha. Ouvindo o ritmo veloz dos passos de seus inimigos, abriu com a chave a despensa e puxou a porta com a esperança de achar ao Jasper consciente e em plena posse de suas faculdades. Quase gemeu de decepção ao ver que não era Jasper o único que jazia desmaiado na exígua superfície do interior, iluminada pelos abajures da cozinha. Acompanhava-o Cooper, em similar estado de inconsciência. Nenhum dos dois podia ajudá-la. Fechou a porta com cuidado, por medo de fazer ruído. Quando apagou os abajures, um relâmpago iluminou a cozinha. Detida junto à porta da sala de jantar, ouviu passos aproximando-se pela sala. Então caminhou nas pontas dos pés até o fundo da cozinha, acessou ao corredor pela porta, cruzou-o correndo e apagou sem se deter as mechas dos spots, convertendo a peça em um escuro túnel. Ao chegar ao vestíbulo central ouviu as vozes do Alistair e de Rudd, procedentes da cozinha. - Não há dúvida de que esteve aqui - declarou a primeira com irritação. - Há pouco estavam acesos os abajures. Com certeza que a grande cadela saiu para ir à garagem. - Não ouvi abrir a porta detrás, e com certeza que me teria dado conta porque as dobradiças chiam - asseverou Rudd, e acrescentou com um gesto da mão: - Olhe, outra porta! Vamos! Cerynise saiu correndo do corredor e subiu de novo ao andar superior. No mesmo instante em que alcançava a longa mesa aproximada à parede perto da porta de seu dormitório, ouviu que Rudd apressava seu cúmplice. - Não há tempo a perder. O capitão poderia retornar em qualquer momento. -Onde diabos se colocou agora? - Acho que lá em cima. Está brincando conosco, e receio que no momento está a ganhar. - É só uma mulher - disse Alistair com desdém, adiantando-se ao advogado em sua carreira. Quando chegou ao primeiro degrau perguntou: - Que possibilidades tem contra nós dois? Rudd ouviu ruído acima de suas cabeças, e ergueu a vista bem a tempo de ver que um volumoso vaso cheio de flores de outono caía sobre seu companheiro. - Cuidado! Alistair cometeu a imprudência de querer averiguar o que acontecia, e olhou para cima


achando o vaso a escassa distância de sua cabeça. Embora procurasse afastar-se, faltava-lhe agilidade para isso e sentiu que o pesado objeto de porcelana lhe roçava o couro cabeludo de forma muito dolorosa. A base de uma das asas, primorosamente adornadas, rompeu-se ao fazer impacto com o alto de sua cabeça. Alistair proferiu um grito terrível de dor, porque a parte superior da asa quebrada lhe cortou o couro cabeludo e de passagem lhe tinha fatiado a orelha. Um segundo mais tarde o recipiente se fez em pedacinhos sobre a escada, fazendo com que nas pernas dos dois assaltantes se fincassem lascas aguçadas como alfinetes. - Maldita cadela! Matá-la-ei! - exclamou Alistair com voz alta, aplicando uma mão ao vulto sanguinolento onde estivera sua orelha. - Me aleijou! Depois de extrair ele mesmo da cabeça uma parte de porcelana, Rudd recolheu a parte de carne talhada e a estendeu solícito a seu cúmplice. - Talvez possa fazer com que lhe costurem isso. - Para que se apodreça? - Alistair recusou a sugestão com um grunhido. - Por Deus que quando agarrar a essa fulana arrancarei a sua com uma serra! - ameaçou, com voz rasgada de dor. A parte de porcelana que tinha se enfiado na tíbia se desprendeu, deixando brotar um fio de sangue que correu pela perna. Alistair não se deu conta, porque era uma dor ínfima em comparação com o da orelha. - Caso a agarremos - disse Rudd, que começava a perguntar-se que papel lhes correspondia naquele jogo do gato e rato. Para falar a verdade, o rosto com o qual a moça apareceu no corrimão denotava grande confiança em sua pontaria. Rudd estava seguro de ter vislumbrado uma expressão de júbilo em seu bonito semblante. Aplicaram compressas ao pouco que ficava da orelha do Alistair, e a seguraram mediante uma toalha enrolada na cabeça. O suplício do mais magro dos dois ingleses decidiu a apanhar a jovem a todo custo, e cada palavra que murmurava sugeria que uma vez que lhe pusesse as mãos em cima se propunha a converter sua existência em uma tortura atroz que só a morte poria fim. Percorreram os aposentos do andar de cima, revistando todos os lugares até que em um momento dado, e por estranho que parecesse, ouviram um tênue e melodioso canto de sereia saído das profundidades. Desceram então cem silêncio e percorreram o chão de mármore com passos leves, procurando se esquivar das partes maiores de porcelana que ameaçavam atravessar os revestimentos de seus sapatos. Mesmo assim, Rudd se viu forçado a deter-se e deixar a lanterna no chão para extrair uma lasca. Agora estavam apagadas as luzes de todos os aposentos, e por muito que Alistair e Rudd esquadrinhassem a escuridão circundante, surpreendeu-os por completo a súbita aparição de um branco espectro que os atacou proferindo um grito de origem claramente feminina. Da boca de ambos os homens saíram sons e sonoros gritos. Fugiram com olhos arregalados do demônio alado que se abatia sobre eles na escuridão, tropeçando


constantemente. Cerynise aproveitou a presença de Alistair e Rudd no andar de cima para realizar uma incursão na cozinha, de onde saíra provida com uma bobina de barbante robusto, uma pesada chaleira de ferro e um saco de farinha para acrescentar peso. Tinha-lhe parecido oportuno cobrir a chaleira com um lençol, a fim de lhe emprestar uma aparência fantasmagórica. Quanto à corda, uma vez cortado um pedaço mais comprido que sua estatura, tinha amarrado um extremo à manga da chaleira e atada o segundo a um balaústre do corrimão. Depois de enrolar mais corda à chaleira, ou melhor dizendo ao corpo de seu espectro, tinha segurado com força o outro cabo e retrocedeu até onde lhe fora possível na escuridão debaixo da escada, onde tinha aguardado que suas vítimas caíssem na armadilha, qual aranha espreitando a aparição de uma mosca. Desta vez foi Rudd quem levou a pior parte do ataque de Cerynise. Quando topou com o mecanismo idealizado pela jovem, esteve a ponto de ver-se jogado pelos ares. O que fez foi sim cair de costas no chão, onde antes se espalhara abundantes lascas. Permaneceu imóvel, olhando em seu atordoamento ao fantasmagórico pêndulo que oscilava por cima de sua cabeça. - Está vivo? - inquiriu Alistair. Duvidou que fosse o caso, já que o advogado olhava o teto sem piscar e não dava indícios de estar respirando. Talvez estivesse padecendo há muitos anos de uma enfermidade desconhecida, e esse mal lhe tivesse arrebatado a vida ao receber o impacto da espectral aparição, quando não no momento de vê-la. Alistair esmurrou sem grande delicadeza o robusto peito de seu cúmplice, tratando de provocar alguma reação. Ouviu-se um ruído sibilante, e Rudd voltou a introduzir ar em seus pulmões. - Com o que choquei? - perguntou, agradecendo por ter recuperado a respiração. - Com um fantasma - replicou Alistair sarcasticamente. - Fabricado por Cerynise. Rudd engoliu a saliva e tentou mover-se. Depois apalpou a nuca com suavidade e reparou que tinha um galo enorme no ponto que sofreu diretamente a queda. Não só isso, mas também notava algo agudo no ombro e no traseiro. Ficou de barriga para baixo e permitiu que Alistair extraísse de sua carne os pedacinhos de porcelana. - Expulsar Cerynise da casa de sua tia foi uma terrível imprudência - rememorou o advogado com ar taciturno, como se acabasse de voltar para a vida depois de uma breve estadia no inferno. - Duvido que nos tenha perdoado. - Eu tenho muito mais para perdoar a ela - grunhiu Alistair, escrutinando a escuridão debaixo da escada. Certo de ter visto mover-se algo à luz tênue da chama, levantou a lanterna muito por cima de seu ombro direito e entrou tateando nas trevas. - Está escondida aqui debaixo, Cerynise? O apoio de livros de bronze saiu despedido e fez impacto contra a lanterna, quebrando o vidro e derramando azeite por todo o lado do Alistair. O líquido não demorou para arder. As chamas se propagaram velozmente por sua roupa e começaram a lhe chamuscar a pele.


Alistair soltou um grito de pavor. Preso do pânico, afastou-se correndo da escada, ao mesmo tempo que atirava enlouquecidamente a vendagem que levava na cabeça, que se incendiou. Rudd lutava para levantar-se, mas abafou um grito e se agachou de novo, porque a tocha humana se dispunha a saltar por cima dele. Imediatamente ficou aberta a porta que dava ao exterior, e Alistair cruzou gritando o alpendre e se expôs à chuva torrencial. Rudd ficou em pé, levou uma mão à nuca e outra a seu ensanguentado traseiro e avançou a tropeções em direção à porta. Muitos metros mais à frente, a distância considerável do alpendre, a chuva impregnava a seu cúmplice até os ossos. - Eu acho que deveríamos ir antes que nos mate - aconselhou Rudd, forçando a voz para sobrepor-se ao fragor da tormenta. - No meu entender não nos convém irritá-la mais do que está. - Verá você se a irritar! - bradou Alistair da grama. - A empalarei em uma lança e deixarei que se apodreça ao sol! - Que sol? Alistair quis mostrar os dentes a seu capanga, mas a dor que sentiu ao contrair os lábios fez que lamentasse seu esforço. - Esquece-o, mentecapto! Me ajude a voltar para a casa, que aqui fora me afogo. - Ao menos já não se queima - assinalou Rudd. Salvou os degraus com dificuldade e se fez solícito de muleta humana para seu abrasado companheiro. Quando retornaram ao vestíbulo, estavam empapados. Caminhar pelo chão de mármore foi uma empresa cheia de perigos. Incessantes escorregões balizavam seu avanço, e só à força de agitar os braços como pás de moinho conseguiram conservar o equilíbrio. Apesar de que suas pernas trêmulas ameaçassem ceder antes do tempo, Alistair conseguiu chegar ao banco mais próximo e descansou nele suas ossudas nádegas. Rudd patinou torpemente até a mesa onde deixou a lanterna, que usou para examinar as queimaduras de seu sócio. Eram piores do que imaginou: todo o lado direito do rosto do Alistair era uma chaga fumegante. Uma série de crostas enegrecidas e enrugadas tampavam trechos da carne viva, perdida toda semelhança com a pele humana. Rudd tinha motivos para duvidar de que seu cúmplice se visse na necessidade de barbear de novo aquele lado do rosto. Fez uma careta de asco e tirou um lenço do bolso da jaqueta, lenço que uma vez molhado serviu de instrumento para uma vã tentativa de retirar as partes de pele queimada, sem outro resultado que arrancar ao paciente um grito de dor. - Maldita seja! Tenho o rosto queimado! - clamou Alistair. - Não bastava a essa estúpida me queimar a metade do corpo! - Ao menos já não te sangra a orelha - o consolou o advogado, examinando a massa de carne chamuscada com expressão de repugnância. Visto de perfil pelo lado direito, era tarefa árdua discernir a natureza humana de seu companheiro. A indignação cortou o fôlego a Alistair. - Dói-me tanto que já não sinto nada! - Rudd retrocedeu para realizar um


reconhecimento de corpo inteiro. No lado direito do Alistair não ficavam de sua jaqueta e sua camisa a não ser negros farrapos presos ao tronco e o braço, ambos queimados. Quase todo o cabelo da cabeça e o pêlo do peito se chamuscara até a raiz, e nada ficava das pálpebras. A mera visão daquela pelanca deu calafrios ao advogado. - Tem certeza de que não quer renunciar a seu projeto de apanhar à garota? - Vá procurar algo com que me enfaixar as feridas! - resmungou Alistair. - O capitão poderia retornar em qualquer momento - disse Rudd. Alistair grunhiu. - Provavelmente esperará a que amaine a tormenta. - Não parece verossímil que isso aconteça a curto prazo. No meu entender deveríamos partir enquanto ainda há tempo. - Não!! - rugiu Alistair. - Matarei a essa cadela embora seja última coisa que faça, e com meu último suspiro. - Talvez o seja - respondeu o advogado, pesaroso. - É evidente que foi mais esperta que nós. - Jamais! - Vou ver o que encontro para aliviar suas queimaduras - propôs Rudd submissamente. Percorreu o corredor tateando, temeroso de escorregar, e deixando à sua passagem um riacho de água. Uma vez na cozinha levantou a lanterna para não se chocar com a mesa, e se dirigiu para a despensa com passos prudentes chapinhando. Era costume muito comum guardar os unguentos e demais remédios na cozinha, onde ocorria a maior parte das queimaduras. Rudd confiava em que sua revista da despensa tivesse êxito, mas antes devia assegurar-se de que os dois homens continuassem inconscientes e não o agredissem no momento de abrir a porta. Duvidava que pudessem lhe fazer mais mal que a jovem, mas não estava disposto a correr o risco. Quando passava ao lado da sala de jantar, a luz da lanterna recaiu em algo que lhe pôs os cabelos em pé. Conteve a respiração e voltou a cabeça, a tempo de ver Cerynise com um atiçador de ferro suspenso em cima de sua cabeça. Imediatamente depois a barra cortou o ar com um assobio. Rudd quis proteger-se com o braço, mas era muito tarde. O impacto do atiçador em sua cabeça converteu em grunhido o que começou como grito de alarme. Uma aguda dor reverberou em seu crânio e o obrigou a cair de joelhos, agarrado à lanterna com todas suas forças para evitar que também ele se visse coberto de azeite em chamas. Em seu atordoamento, aferrou-se à saia da jovem, que ergueu uma vez mais sua contundente arma e a deixou cair. Rudd se desabou de lado, obscurecida a vista quase por completo. Só persistia um minúsculo ponto de luz, que não sobreviveu ao terceiro golpe. - Rudd! - exclamou Alistair da entrada da casa, embargada sua voz pelo pânico. Cerynise depositou o atiçador junto ao corpo imóvel do advogado e agarrou a lanterna que caiu ao chão com um ruído metálico. Seus gestos eram quase serenos. Cruzou sem pressa a sala de jantar, seguindo com o olhar a luz que projetava a chama até além da porta que dava acesso ao vestíbulo central.


Vendo aproximar o resplendor, Alistair exalou um suspiro audível. - Acreditava que lhe passara algo. Ouvi-o gritar. Ante a persistência do silêncio, o chamuscado inglês lutou para ficar em pé. - Rudd? É você, Rudd? por que não responde? - Receio que não esteja em condições, Alistair - respondeu Cerynise, deslizando-se pelo vestíbulo como uma aparição. Alistair retrocedeu boquiaberto. - O que lhe fez? A jovem, que acabava de deixar atrás a escada, sorriu e deixou a lanterna em uma mesa. - Economizei-lhe sofrimentos, diria eu. - Quer dizer que... que o matou? O rosto em bolhas de Alistair carecia de expressão; não assim sua voz, carregada de incredulidade. - É possível. - Como pode ...? - Alistair recordou bruscamente quanto lhes fez já Cerynise. De repente teve medo, até o extremo de que lhe arrepiou o pouco pêlo que ficava na nuca. - Não se aproxime, bruxa! Fique onde está! Cerynise seguiu adiante, fazendo caso omisso do ultimato. - Mas, Alistair, o que lhes fiz eu que não tivessem ameaçado você me fazer a mim? Alistair abriu os olhos até mostrar a esclerótica ao Cerynise, em marcado contraste com a pele queimada. Um gemido de pavor saiu de seus lábios chamuscados. Via-a muito capaz de liquidá-lo inspirando-se nas ameaças que lhe ouviu proferir. - É um demônio!

A própria Cerynise se surpreendia de seu aprumo. Jamais imaginou

poder guardar a calma em presença do perigo. Sempre temeu ceder ao pânico em tais situações, ficando impossibilitada para ajudar-se a si mesmo e a quantos a rodeavam. Deu silenciosos agradecimentos a Deus por seu sangue-frio. - Vejamos, Alistair, com que direito diz a frigideira à chaleira "tire que me suja"? - disse, rindo entre dentes e esquadrinhando o renegrido4 semblante de quem passara de caçador a presa. Depois colocou uma mão no bolso, empunhou o revólver e encolheu os ombros. - Mas basta. Não está bem fazer brincadeiras quando salta à vista que sofre. - Sacudiu a cabeça e mudou de assunto. - E bem? Deseja agora seguir o conselho de Rudd e se render? - Maldita cadela! - bradou o inglês. - O que pode me fazer que não tenha feito já? - Economizar-lhe mais sofrimento. Alistair extraiu uma pistola de sua jaqueta e dirigiu à jovem um retorcido sorriso triunfal. - Agora toca a mim, desgraçada! - Cerynise deu uma olhada à arma com olhos que refletiam a luz da lanterna. - Antes de me matar, Alistair, importaria-se de me dizer uma coisa? Por que o esta fazendo? Por que veio da Inglaterra para me transtornar a vida? Tanto me odeia?

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Renegrido – Sujo ou obscurecido, escuro, especialmente da pele


- Por que? - Alistair mofou da pouca perspicácia da jovem. - Por dinheiro, naturalmente. Por que se não? - Dinheiro? - Ela franziu o sobrecenho, desconcertada. - Mas se Lydia lhe deixou isso tudo. Ainda queria mais? A gargalhada do inglês foi seca e estremecedora; de qualquer modo, Cerynise sempre o tivera mais por diabo que por homem. - Criatura estúpida e sem miolo! - Alistair fez uma careta de dor. - Lydia não me deixou nada! Desde que vivia com ela não tinha olhos para ninguém mais. Voltou contra mim seus sentimentos. Mandou redigir um testamento novo onde lhe deixava todos seus bens. Não lhe ocorreu me legar nem um mísero penny. Sua resposta quase excedia a capacidade de compreensão de Cerynise. - Mas se vi o testamento com meus próprios olhos! - alegou. - Me mostraram isso você mesmo, e nele aparecia como único herdeiro. - Era o testamento anterior, que redigiu Rudd muito antes de que Lydia aceitasse tutelar você. Preparou um novo às escondidas, sem sequer me consultar; mas eu, que o ignorava, vi-me em um beco sem saída. Sofria a perseguição de meus credores, que ameaçavam me colocar na prisão. Mantive-os ao largo quanto pude, mas a tensão era excessiva e tinha vontade de viver. Na última noite de sua existência... fui visitá-la e pus cicuta naquele tônico repugnante que bebia cada tarde. Cerynise ficou boquiaberta. - Então você... ? Lydia não... ? - Não, não morreu de morte natural - concluiu ele em seu lugar, com uma careta de desprezo. - Me cansei de ter que mendigar cada penny que jogava aos pés, e tomei a iniciativa. - Riu como um demente. - Foi então quando enviei a melhor vida à bruxa de minha tia. Duvido que chegasse a tomar consciência de minha intervenção. O imbecil de seu médico nem se inteirou. - Meu Deus! Como foi capaz? - gemeu Cerynise. - O certo é que foi muito fácil. Bastou-me pensar em como rico seria uma vez morta Lydia. Imaginei que dali em diante tudo sairia como foi pedido, até que descobri o que fez essa velha harpia. A cabeça de Cerynise dava voltas. Nada tinha, pois, de estranho a pressa do Alistair por jogá-la de casa da Lydia... até que descobrira a existência de outro testamento. - Por isso vieram me buscar a bordo do Audaz. - Começava a compreender o raciocínio que subjazia aos esforços de Alistair para capturá-la. - A essas alturas já averiguaram a verdade, e tinham planos de me matar. Alistair tentou assentir com a cabeça, mas o suplício ocasionado pelo gesto lhe induziu um tremor incontrolável. Passaram uns instantes antes de que pudesse continuar. - Queria matar você. antes de suas bodas com o capitão teria sido fácil e discreto. Como não tinha herdeiro legal, toda a fortuna da Lydia teria ido parar a minhas mãos. - Resfolegou


por causa da dor. - Quando seu marido pôs o certificado de matrimônio no meu nariz acreditei que tudo estava perdido, mas não me rendi. Nunca me rendo. Decidi seguir você. Propunhamo-nos levar você a Inglaterra, encerrar você

em casa da Lydia, e uma vez

assumida sua tutela enfraquecer você e impedir você de falar a base de beberagens. Como é lógico, teríamos tido que obrigar você a assinar um testamento em que me legava tudo. A princípio, para dizer tudo, teríamos permitido que recebesse visitas, alguns amigos da Lydia que a conhecessem... Até teríamos contratado a uma enfermeira para cuidar de você, com o objetivo de que ninguém suspeitasse que estávamos te envenenando pouco a pouco. Depois a teríamos enterrado. - Não acha que meu marido o teria açoitado? - Ah, isso! Estávamos dispostos a pagar a alguém para que o matasse de modo que parecesse acidente, antes de que esse porco pisasse em chão inglês. A ninguém teria causar pena em excesso seu falecimento. - Planejaram tudo, e entretanto, à exceção da morte da Lydia, nada disso ocorrerá. Alistair já chegou à mesma conclusão. Mesmo assim sorriu com presunção, pensando no poder que lhe dava a arma, sobre a jovem. - Rudd ajudou-o a matar a Lydia? - inquiriu Cerynise, caindo na conta de que a desconfiança que lhe inspirava o advogado talvez tivesse motivos. - Disso ele não sabia nada. Só se converteu em cúmplice quando matei a outro advogado. Ainda desconhece o envenenamento da Lydia, mas quando lhe ofereci um terço da herança teve que me ajudar. O dinheiro fazia tanta falta a ele como a mim. Tem fraqueza pelo conhaque e outros artigos caros; ou possivelmente terei que dizer "tinha". Acha seriamente havê-lo matado? - Não lhe ajudará, se for o que quer saber. - Cerynise inclinou a cabeça. - Ouvi você dizer que apunhalaram ao Wilson porque tratava de me matar. Era esse o verdadeiro motivo? - Rudd o qualificou de necessidade. Alguém lhe pagava para matar você em vingança contra seu marido. - Diz que lhe pagavam, e entretanto é possível que Wilson acreditasse ter motivos suficientes para tomar represálias por iniciativa própria, sem outros incentivos. Alistair voltou a estremecer-se de dor, e cambaleou até que conseguiu recuperar o equilíbrio. - Não seria o primeiro assassinato por vingança, mas neste caso Wilson não só tinha um cúmplice mas também havia uma terceira pessoa com meios econômicos para garantir o entusiasmo de ambos pela tarefa. - Conhece seus nomes? - O homem a quem ouvi aconselhar ao Wilson que permanecesse oculto um tempo se chamava Frank Lester. Parece que uma noite entraram nesta casa com o objetivo de liquidar você. Frank se gabava de haver atirado você escada abaixo e tê-la feito se chocar com seu marido.


- Mas como é possível que falassem com tanta despreocupação podendo você ouvi-los? Alistair fez uma careta e desejou ter à mão uma taça de conhaque, talvez o único remédio contra seu mal-estar. - Tínhamos quarto justo ao lado da seu em uma estalagem de má fama, a única que pudemos nos permitir. Ouvimos vozes pelo conduto de nossa chaminé e aguçamos o ouvido. Grande surpresa levei! Recém-chegado a Charleston, a primeira pessoa de quem ouvia falar com aqueles dois indivíduos foi você. Cheguei a temer que minha imaginação estivesse me pregando uma brincadeira pesada. - Ouvi dizer que Wilson não confiava nos desconhecidos, pela grande quantidade de pessoas que andavam em sua busca. Como conseguiram se aproximar o suficiente para lhe cravar uma adaga? Os lábios queimados do Alistair esboçaram uma careta de desdém. - Tinha-nos visto descer de um navio procedente da Inglaterra, e quando lhe perguntamos por uma estalagem nos indicou a sua. Como é lógico preferia que não lhe vissem o rosto, daí que passasse quase todo o tempo em lugares escuros ou dentro de seu quarto. Depois de espiar sua conversa com o Frank Lester o abordamos no mole, lhe pedindo novas recomendações. Como sabia que éramos ingleses e fugíamos do trato com os nativos, não teve escrúpulos em falar conosco. - Planeja me assassinar mediante algum ardil ou se contentará disparando? - perguntou Cerynise, apontando a pistola que empunhava Alistair. - Suponho que o método já não tem importância. Tendo em conta meu estado, e sem a ajuda de Rudd, seria desatinado pretender levar você a Inglaterra. A única coisa que espero é ter tempo para, uma vez morta você, reclamar parte da herança antes de que seu marido ponha preço à minha cabeça e envie detetives a Inglaterra. - Fez uma careta de dor e apontou ao Cerynise no coração. - Não posso dizer que tenha sido um prazer conhecer você. Cerynise tivera a prudência de engatilhar tempo atrás a pistola que levava no bolso, mas não lhe pareceu dispor de tempo para tirá-la da saia antes de disparar. Esticou o dedo no gatilho, mas justo então se abriu a porta de par em par e entrou Beau coberto com seu impermeável. Alistair, sobressaltado, olhou para trás e se voltou imediatamente a fim de mirar o peito do recém-chegado. - Nãooo! - gritou Cerynise, liberando o mecanismo de disparo em pronta reação. Perdido o equilíbrio por efeito do disparo, Cerynise não pode ver com nitidez o jorro de sangue que brotava do peito do Alistair, em quem tinha ficado alojada a bala. O vilão avançou entre convulsões e olhou ao Beau com um sorriso irônico em seus lábios escaldados. Beau se viu de repente rosto a rosto com a morte, já que seu adversário apontava para ele com a pistola. Cerynise gritou pela segunda vez, e seu coração esteve a ponto de não continuar


pulsando. A queda do percussor protagonizou um breve instante de aterradora e angustiante incerteza. Os três esperavam ouvir um estalo ensurdecedor, mas só se produziu um ruído seco de metal contra metal. Alistair olhou a pistola com assombro. - Deveria ter imaginado - resmungou, ao mesmo tempo que seus dedos deixavam cair a arma. - Se molhou. - Dobrou-se até ficar de joelhos no chão e contemplou o rápido enrijecimento de seu peito. A seguir inclinou a cabeça para Cerynise. - Deveria ter seguido o conselho do Rudd e partir antes de que me matasse... Você sempre teve mais sorte que eu... Caiu de brucos no chão, e depois de um estertor entrecortado exalou o último suspiro. Cerynise saltou por cima de seu corpo inerte e correu para seu marido, que lhe estendia os braços. Soluçando de alívio, aferrou-se a ele sem lhe importar que estivesse empapado. - Beau! Estava certa de que ia matar você! Não sabia que iria lhe falhar a pistola! - Calma - disse seu marido com doçura. - Queria me matar e pagou a tentativa com a vida. - Matou ao Wilson e Lydia... e a outros - disse Cerynise entre soluços. - Me disse ele mesmo. Beau retrocedeu e observou seu rosto. Depois, percebendo que a estava molhando com o impermeável, começou a despojar-se dele. - Matou ao Wilson por medo de que falasse? Cerynise negou com a cabeça e enxugou as lágrimas. - Não, nada disso. Por rocambolesco que pareça, Alistair matou ao Wilson porque este se propunha me assassinar. E tinha um cúmplice... A pessoa que falou com Germaine na noite da festa de noivado de Suzanne. Frank Lester. Em troca de me matar, tanto ele como Wilson recebiam dinheiro de alguém que procurava vingar-se de você. - Germaine - murmurou Beau com súbita convicção. - Quando estávamos no alpendre lhe faltou muito pouco para nos ameaçar. Reconheço que então não levei muito a sério, mas não devia subestimá-la. Cerynise olhou ao Alistair e afastou a vista com um calafrio. - O que pensa fazer com ela? - Deixar ela ao oficial - repôs Beau, ao mesmo tempo que cobria o cadáver com o impermeável. - Não quero ver o rosto desse filho da mãe. Voltou atrás para fechar a porta. Depois agarrou Cerynise pela mão e pôs-se a caminhar, dando um rodeio para não tropeçar com o cadáver. A única luz em toda a mansão era a de uma lanterna posta em cima de uma mesa. Por muito que Beau aguçasse a vista, nada delatava a presença de criados na casa. - Mas o que se passou aos homens? Também os matou Alistair? - Por Deus obrigado, não - respondeu Cerynise. - Moon e Thomas estão presos na garagem, e Jasper e Cooper na despensa... - Na despensa? - inquiriu Beau com surpresa, apoderando da lanterna. - Alistair os colocou?


- Sim, com ajuda do Rudd, mas da última vez que abri a porta tanto Jasper como Cooper estavam inconscientes. Quando chegaram junto aos restos de porcelana e flores espalhados pela escada e pelo chão de mármore, Beau se deteve e levantou um pouco mais a lanterna. - O que aconteceu aqui? Cerynise deu uma olhada à desordem que ela mesma provocou. - De algum jeito teria que frustrar os pérfidos planos de Alistair. Beau inclinou a cabeça. - E no que consiste exatamente essa maneira? Ela encolheu os ombros. Começava a darse conta do valor do vaso. Talvez teria sido melhor guardá-lo no armário da roupa branca, como ao Marcus. - Atirei o vaso em Alistair lá de cima. Fatiou-lhe a orelha. Beau riu entre dentes, ao mesmo tempo divertido e desconcertado. - Que o vaso lhe fatiou a orelha? - Ao Alistair não gostou muito disso. Ameaçava cortar a minha com uma serra. - Ao entrar e vê-lo pensei que estivera no inferno e conseguira retornar - comentou Beau com um sorriso. - Que mais fez? Passá-lo pela churrasqueira? - Olhe, lancei-lhe um apoio de livros na lanterna que levava, quebrou-se o vidro e lhe caiu em cima todo o azeite aceso. Saiu para apagar as chamas com a chuva, mas ao voltar já não era o mesmo. Rudd tampouco. Beau não saía de seu assombro, e se limitou a olhar a sua esposa fixamente. Embora não a sabia capaz de tais táticas, alegrava-se enormemente de que tivesse tido a coragem necessária para evitar que aquele par de criminosos obtivesse seus propósitos, e sair ilesa no final. - Onde está Rudd? - Na cozinha. - Cerynise mordeu o lábio, nada satisfeita do que se viu obrigada a fazer. Espero não tê-lo matado, mas tinha que me assegurar de que permanecesse inconsciente enquanto me ocupava de Alistair. O assombro de Beau crescia. - O que lhe fez? - Golpeá-lo com um atiçador. - Ceu santo! Devo entender que você sozinha deu seu justo castigo a esses dois canalhas? Ela encolheu os ombros, assentindo com acanhamento. - Tinha que fazer algo, Beau. Pensavam me levar a Inglaterra, e depois teriam me matado para que Alistair se apossasse da herança... - Entendeu que já herdara tudo... Ou era certo o que disse a você em sua última visita? - Eram tudo mentiras, pelo menos desde o dia em que averiguou que Lydia tinha modificado o testamento para me deixar tudo. - Cerynise apoiou a cabeça no ombro de seu


marido. - Bom susto deve ter levado, tendo me jogado já da casa da Lydia. - Daí aí sua insistência em reclamar você como pupila. - Queria ver-me morta em chão inglês, em presença de testemunhas, a fim de erigir-se em herdeiro universal como único parente vivo da Lydia. Beau se deteve ao ver na escuridão debaixo da escada algo muito semelhante a um espectro voador. Aguçou a vista. - Que demônios é isso? - Ah, sim, meu amigo o fantasma! - disse Cerynise, apontando-o com um gesto. - Me ajudou a deixar Rudd sem fôlego. Seu marido ficou olhando, pasmado por sua criatividade. - Mas o que é? - Uma chaleira grande com um saco de farinha dentro e um lençol em cima - explicou a jovem, orgulhosa de sua criação. - Me parece que Alistair e Rudd até o tomaram por um fantasma de verdade, ao menos durante uns segundos. Gritavam como se os perseguissem todas as almas penadas do purgatório. Beau riu. - Minha queridíssima esposa! E pensar que perdi isso tudo! - Sairemos para Harthaven deixando ao Alistair dentro da casa? - perguntou Cerynise com inquietação, voltando para o que seriamente lhe preocupava. - Para falar a verdade já não considero que a viagem seja necessária – respondeu Beau. A tormenta mudou de direção e agora sopra por volta do mar. Podemos permanecer aqui sem risco algum, a menos que dê meia volta. Cerynise exalou um fundo suspiro de alívio. - Depois do que passei esta noite não gostaria absolutamente de uma viagem tão longa. Provaria um pouco desse teu conhaque para me tranquilizar, se não fosse porque ainda estou dando o peito. Estendeu as mãos para Beau para lhe mostrar como lhe tremiam desde que ele havia retornado. - O que fez com nosso filho durante toda a aventura? - inquiriu Beau. - Encerrei-o no armário da roupa branca do andar de cima. - Cerynise ficou nas pontas dos pés para beijar os lábios de seu marido. - Vou buscá-lo. - Melhor esperar a que lhe acenda alguma luz. O resto da casa está mais escuro que uma cova de morcegos. Ao chegar em casa e ver tudo tão negro acreditei que você partiu. - Apaguei os abajures para ter localizados a esse par de malfeitores. Não podiam percorrer a casa sem lanterna, e isso me facilitou seguir-lhes a pista. Beau acendeu um abajur e o deu. - Faço-me cruzes de que tenha tantos recursos. Também me orgulha que tenha defendido tão bem a sua família. - Alistair e Rudd me obrigaram. - Cerynise agarrou a lanterna, suspirando. - Era o mínimo que podia fazer.


- Pelo que conta, estou certa de que esteve esplêndida. Quanto lamento não tê-lo presenciado! - Você lhes teria dado seu castigo rapidamente. - Cerynise tomou uma decisão e assentiu com a cabeça para confirmá-la da próxima vez que tenha que amarrar seu navio antes de uma tormenta acompanharei você, ou levarei seu filho a Harthaven ao primeiro indício de mau tempo. Não me vejo capaz de passar outra noite como a que acabo de viver. Beau beijou meigamente o alto da cabeça. - Se isso te tranquilizar, meu amor, comprometo-me a ficar a seu lado cada vez que se aproxime uma tempestade. Parece-lhe bem? - Sim! - Cerynise o olhou e sorriu. - Dessa maneira estarei segura de que você também se encontra a salvo. O fato de que meus pais morreram durante uma tormenta faz com que tema por sua integridade cada vez que faz mau tempo. - Não se preocupe. Eu tenho a mesma vontade de voltar para casa e ter você a meu lado. Ela exalou um longo suspiro de alívio. - Sei, mas continuarei rezando e encomendando aos ceus que o protejam, por meu bem e de Marcus. Beau, sorridente, apontou a escada com o braço. - Vá procurar nosso filho. Não o vi em todo o dia, e queria lhe dedicar certo grau de atenção paterna. - A suas ordens, meu capitão. Cerynise assentiu com a cabeça e se apressou a chegar à escada, esquivando-se das partes de porcelana. Quando abriu a porta do armário descobriu que seu filho tinha começado a despertar. Agarrou-o nos braços e murmurou palavras ternas contra sua face. - Seu papai está lá em baixo, coração, e tem vontade de ver você. A luz da lanterna fez Marcus piscar, estender os braços e fazer sua mãe sorrir com um bocejo. Quando Cerynise entrou na cozinha, achou-a completamente iluminada. Sentados à mesa, e ainda aturdidos, Jasper e Cooper se submetiam aos cuidados de seu patrão, que estava enfaixando suas cabeças. Moon e Thomas, atados até então na garagem, não sofreram lesões. Quanto ao Rudd, continuava com vida, mas era impossível averiguar seu estado nem se voltaria a si. Moon e os criados se sentaram em torno da mesa da cozinha e prestaram atenção às façanhas de Cerynise tal como as explicava Beau. Saltava à vista a estupefação geral que suscitava o engenho da jovem e a integridade com que ela sozinha enfrentou os vilões. À luz da adoração que professava a seu marido, todos acharam natural que abrisse fogo contra Alistair depois deste tentar contra Beau. - Foi um dia muito conflitivo - declarou Cerynise, concentrando-se em outros assuntos. Tenho fome. Onde está a comida que empacotou Philippe antes de partir para o Harthaven? Beau indicou com a cabeça duas cestas colocadas em uma mesinha.


- Parece-me que fará bem a todos, comer um pouco, meu amor. - Olhou os homens para verificar seu consentimento. - Todos de acordo? - Como sou cão velho, capitão - replicou Moon com jovialidade. - Meu estômago está se remoendo, e com sua permissão tomarei um traguinho do rum que trago para que as mãos fiquem quietas. - Mostrou as nodosas extremidades, cujo tremor exagerou para maior efeito sobre a audiência. - Ainda não me passou o susto de ver esse Rudd me apontando à cara com uma pistola. Tremia mais que eu. - Achei observar certas dificuldades nesse mesmo sentido quando me ameaçou com a arma - respondeu Beau com uma risada zombeteira. - Mais que medo de que apertasse o gatilho, tive medo de que disparasse sem querer. E pode beber quanto quiser, Moon. Tendo em conta o que acaba de passar, com certeza convém-lhe um gole forte. Digo isso a todos. Não tenham escrúpulos em tomar algo mais que chá e café. O armário das bebidas está aberto no salão. Sirvam-se livremente. - Tomara que eu encontrasse uma maneira de me tranquilizar - suspirou Cerynise. Seu marido lhe sorriu por cima da cabeça do mordomo, a que estava acabando de enfaixar. - Possivelmente cumpra esse propósito a sugestão que lhe fiz esta manhã. Talvez convenha-lhe prová-lo mais tarde. Cerynise o olhou com olhos brilhantes em que se lia um acordo sem reservas. - Tenha a certeza que o farei, mas agora mesmo morro de fome. Beau agarrou nos braços o bebê, deixando Cerynise com as mãos livres para desempacotar as provisões. Em pouco tempo, os homens tiveram diante de si um jantar suculento. Beau pegou uma cadeira e sentou-se ao lado de sua esposa, que tinha um buraco no bolso. - O disparo contra Alistair te destroçou o vestido - disse, tocando-o. Cerynise colocou a mão e examinou com tristeza o orifício, cujo calibre lhe permitia introduzir três dedos. - Para ser justa, não esperava que fizesse tanto estrago. Moon se pôs-se a rir com dissimulação, alheio a toda compaixão por quem tratou de raptá-la. - Imaginem o que terá feito ao bom do Alistair Winthrop! Cerynise percebeu que ao descer ao vestíbulo não vira o corpo de Alistair. - A propósito, onde o pôs? - Moon e Thomas levaram o cadáver à garagem - respondeu Beau. - Não havia sentido em deixá-lo no saguão, para que tropeçássemos todos com ele. É de esperar que amanhã pela manhã a tormenta tenha amainado de todo. Se tiver razão, poderemos sair em busca do oficial assim que se faça de dia. Interessará-lhe ouvir sobre Frank Lester e os demais suspeitos. Se se confirmasse que Germaine era cúmplice de uma tentativa de assassinato, Cerynise não teria dúvida de que a justiça a castigaria em proporção a seu delito. estremeceu-se ao


pensar no veredicto do jurado, e se perguntou se em Charleston fora enforcada alguma mulher. Homem ou mulher, o tema era muito truculento. - Falemos de outra coisa. - Beau acedeu a sua petição. - O senhor Oaks me informou esta tarde que seu casamento com Bridget já tem data. Será na segunda semana depois de voltar do Caribe. - Que alegria! - exclamou Cerynise; mas, dando-se conta de que perderia Bridget, seu prazer se virou em pesar. - Estarei muito menos contente. - Não terá motivos - a tranquilizou seu marido. - Bridget continuará em seu posto de camareira, e a acompanhará como tal em nossa próxima viagem, para satisfação do senhor Oaks. Claro que terá que alojar-se no mesmo camarote que ele, porque também nos acompanharão meus pais. - Sabe o que lhes digo, capitão? - interveio Moon, risonho. - Que poderiam se dispor a levar passageiros de maneira regular. Não há melhor navio que o Audaz. Beau sorriu e negou com a cabeça. - Não; diverte-me muito carregar o navio de toda sorte de artigos para a volta às Carolinas, e duvido que os passageiros estivessem dispostos a pagar o equivalente aos benefícios que obtenho. - Bem, pois já que recusa essa proposta tenho outra para lhe fazer. Inteirei-me que ultimamente Billy Todd anda sonhando com uma carreira naval. Se for certo, faria falta um grumete como eu para lhe servir a bordo desse navio tão elegante que têm. - É uma possibilidade - admitiu Beau; e acrescentou rindo: - Agora bem, teria que aguentar a monsieur Philippe. Moon fez uma careta e franziu o sobrecenho. - Não quereria escolher entre os dois, não é, capitão? Beau negou com a cabeça, como se acabassem de lhe apresentar um angustiante dilema. - Receio muito que nesse caso não prescindirei de Philippe. Durante os últimos anos me tornei aficcionado a seus dotes culinários. Enfrentado à decisão do capitão, Moon fez uma careta e provou com cautela outro croquete de amêijoa5 . Depois de mastigá-lo com semblante pensativo, suspirou e disse: - Suponho que se não houvesse mais remédio acabaria me acostumando a estas coisas. - Terá que fazê-lo se quer navegar sob minhas ordens - declarou Beau com franqueza. Moon o olhou com olhos entrecerrados. - É duro negociando, capitão - se queixou. Beau riu entre dentes. - Certo. Na alvorada o pior da tormenta ficava atrás. Quando deram as nove as autoridades já

5 Amêijoa - a designação dada a vários moluscos bivalves (moluscos com concha), da família dos Lucinídeos, dos Cardiídeos e dos Venerídeos. Muitos são utilizados na alimentação humana.


visitaram a residência dos Birmingham, da qual saíram levando os restos do Alistair, assim como ao maltratado Rudd. Mais tarde ficou estabelecido que o advogado sofria uma fratura de crânio, mas que tinha muitas possibilidades de recuperar-se. O mais provável nesse caso era que acontecesse a prisão o resto de seus dias. Sempre existia a possibilidade de que o enforcassem, mas dependia do jurado optar por uma coisa ou outra. Mais sorte tiveram os criados feridos: Jasper e Cooper melhoraram muito, e se dedicavam já a devolver seu esplendor original à mansão. À tarde o oficial informou ao Beau que Frank Lester admitiu sua colaboração com Wilson no intento de homicídio contra Cerynise. Também tinha confessado que a idéia procedia do Germaine Hollingsworth, que dizia ter sofrido uma ofensa por parte do Beau. No momento da detenção, a jovem negou sua culpabilidade com gritos de harpia. Seu pai, ultrajado por que difamavam desse modo a sua adorada filhinha, tinha ameaçado expulsar de seu cargo ao oficial, mas Gates se manteve firme e deteve Germaine. - Que alívio! - suspirou Beau depois da marcha do oficial. - Por fim posso deixar de me inquietar por sua segurança. Cerynise o segurou pela cintura e apoiou uma face em seu peito musculoso. - E eu deixar de me sentir prisioneira em minha própria casa. Beau se agachou para lhe olhar o rosto. - O que você gostaria de fazer fora de casa para celebrar sua liberdade, senhora? Ir ao teatro? Sair para jantar? Ou talvez goste mais de ir ver a costureira. A menos que prefira um passeio em carruagem... Cerynise inclinou a cabeça, pensativa. - Não há em toda a cidade melhor cozinheiro que Philippe. Tampouco tenho especial inclinação por visitar madame Feroux e ouvir seus falatórios. Não há nada em pôster que não tenhamos visto já, e neste momento não me atrai muito passear em carruagem. - Me diga então, senhora, o que lhe agrada. Os lábios do Cerynise se curvaram de maneira insinuante. Ficou nas pontas dos pés e sussurrou junto à face do Beau: - Agradar-me-ia muito fazer travessuras no estúdio. Interessa-o? - Certamente, senhora - respondeu ele com olhos reluzentes e amplo sorriso. - É a resposta que esperava. E com rosto alegre lhe ofereceu o braço e a acompanhou até o estúdio, cuja porta fechou com chave.

EPÍLOGO Charleston desfrutava do esplendor de um luminoso e longo dia de outono. As folhas das árvores se tingiam de novas cores, e flutuavam no ar embriagadoras fragrâncias próprias da mudança de estação. Abriram-se as flores outonais do jardim dos Birmingham, de onde se ouvia relinchar cavalos em seus cercados. Cerynise, que estava sentada com o Beau na


pracinha detrás e segurava seu filho nos braços, meditou sobre o fato de que tudo apresentasse um aspecto tão maravilhosamente normal. Não restava o menor rastro dos destroços ocasionados duas semanas atrás pela tormenta. De seus lábios saiu um suspiro de felicidade, acolhido com um sorriso por seu marido, sentado a seu lado em uma cadeira. - Parece contente. - Estou. Como nunca. Ouvindo o mordomo aproximar-se, Beau voltou a cabeça. - O que ocorre, Jasper? - Um cavalheiro inglês deseja falar com sua esposa, senhor... embora a tivesse chamado por seu nome de solteira. Cerynise preferiu não interromper o momento de felicidade que estava compartilhando com sua família. - Por que não o traz aqui, Jasper? - sugeriu. - Sem dúvida saberá apreciar o tempo tão belo que faz. Jasper sorriu e inclinou a cabeça. - Como preferir, senhora. O visitante não demorou para ser acompanhado à pracinha do jardim. Tratava-se de um homem de meia idade, com cabelo cinza lindamente cortado. Suas calças escuras, colete sem adornos e paletó negro davam fé da gravidade de seu caráter. O olhar inquisidor que pousou no Cerynise bem merecia o qualificativo de penetrante. - Senhorita Kendall? Senhorita Cerynise Edlyn Kendall? - Meu nome é agora Cerynise Birmingham, senhor - respondeu ela, movendo a mão em direção ao Beau. - Apresento-lhe meu marido, o capitão Birmingham. E você é...? - Thomas Ely, senhorita Kendall... - O visitante se apressou a corrigir-se. - Perdão, senhora Birmingham. - Sorriu. - É possível que tarde um pouco em me acostumar a seu sobrenome de casada, depois de tanto tempo pensando em você como a senhorita Kendall. Recentemente me informaram que tinha contraído matrimônio na Inglaterra, e assim segui pensando em você com esse nome. Peço-lhe desculpas por isso, senhora. Tratarei de utilizar o sobrenome que lhe corresponde por direito. - Obrigado, senhor Ely. - Olhou-a. - Permite que lhe pergunte se meu nome lhes é familiar? Cerynise negou com a cabeça. - Não, receio que não. Thomas Ely assentiu, como se aquela resposta confirmasse o que sabia desde tempo atrás. - Antes de morrer, a senhora Winthrop me informou que ignorava intenções. Temia que fossem uma carga, e queria muito a você para lhe preocupá-la o mais mínimo que fosse.


- Suas intenções? - Nomeá-la herdeira universal de suas propriedades, além de alguns legados à criadagem, é claro. - Como você pode sabê-lo? - perguntou Cerynise, desconcertada. - Desculpe, senhora Birmingham. Deveria lhe haver explicado que fui o advogado da senhora Winthrop. - O senhor Rudd cumpriu por um tempo esse mesmo papel – interveio Beau. - Sabia? Ouvindo aquele nome, Ely franziu o sobrecenho. - Com efeito, cavalheiro. A senhora Winthrop prescindiu de seus serviços faz muitos anos, depois de decidir que não era pessoa de confiança. Acreditava - que era cúmplice de seu sobrinho, o senhor Alistair Winthrop. - Uma expressão de mau humor contraiu as feições do advogado, que se apressou a recuperar a serenidade e explicar: - A senhora Winthrop me contratou pouco depois de chegar a essa conclusão. Um de meus primeiros atos consistiu em redigir um novo testamento. - Voltando-se de novo para Cerynise, acrescentou: - Estava resolvida a lhe deixar virtualmente tudo que possuía. Assim, senhora Birmingham, é uma mulher extremamente rica. Cerynise o olhou com perplexidade. - Permite-me lhe perguntar como me achou depois de tanto tempo, senhor Ely? A instâncias de Beau, o advogado sentou-se em frente do casal , enquanto Bridget os atendia servindo o chá. depois que a moça se retirou, Ely tomou um gole da taça cheia e suspirou de satisfação ao degustá-lo. Parecia-se bastante ao bom chá inglês a que estava acostumado. Até então não conseguira estabelecer uma comparação favorável nas Carolinas. O creme e o açúcar ajudavam, é obvio. - Receio que minha demora em encontrar você precise de longas explicações, senhora se desculpou ao fim o advogado. - Estranhará sem dúvida o tardio de minha chegada; por desgraça, sofri um... incidente... faz muitos meses. Estive a ponto de morrer, e em resultado disso caí gravemente doente, até o ponto de ver-me privado um tempo de minha memória. Quando comecei a recuperá-la, os acontecimentos mais próximos à data de mi... mmm... prostração permaneceram grandemente imprecisos. Só em meses recentes fui capaz de recordar o necessário para reatar minha tarefa e seguir buscando-a. Thomas Ely suspirou com pesar. - Uma vez recuperado, pensava é claro, que continuava na Inglaterra, e que se chamava Kendall. Vendo que minhas pesquisas não desembocavam em nada, desesperei-me para voltar a achá-la. Pouco depois, entretanto, caí na conta de que possivelmente se tivesse casado. Procurando nos registros paroquiais, encontrei por fim com uma fé de matrimônio entre você e o capitão Birmingham. Falei a seguir com o sacerdote que os havia casado, e averiguei que muito possivelmente tivesse passado a residir nas Carolinas. - Aplaudo sua insistência - disse Beau, - embora me sinto surpreso de que haja coberto uma distância tão grande quando o mais fácil era nos enviar uma missiva.


- Ah, sim, verão... - Voltou a formar uma dobra no sobrecenho de Ely. - A esse respeito, lamento lhes informar de que a senhora Birmingham poderia correr algum perigo. Explico-me. O incidente que deu lugar a minha perda de memória consistiu na realidade em um atentado contra minha vida. Tive muita sorte de sobreviver. Minha presença aqui se deve ao fato de que uma pessoa me viu e me resgatou pouco depois que me jogaram no Tâmisa. Dadas as circunstâncias, achei preferível vir pessoalmente a pô-la de sobreaviso quanto antes. - Agradecemos sua diligência - declarou Beau. - Imagino que o homem que tratou de assassiná-lo seria Alistair Winthrop... O advogado não pôde ocultar sua surpresa. - Sim, com efeito! Permitam, entretanto, que lhe pergunte como chegou a essa conclusão. Beau lhe resumiu os últimos acontecimentos, e acrescentou ao final do relato: - Possivelmente a quem não tenha experimentado o suplício de ser ameaçado a todas as horas pareça uma crueldade o que vou dizer, mas é um imenso alívio que Alistair Winthrop tenha morrido, e que nem minha esposa nem eu devamos continuar convivendo diariamente com o medo. Também o rosto do Thomas Ely expressava alívio. - Não imagina o peso que me tira de cima com sua notícia, cavalheiro. Desde que Winthrop tratou de tentar me matar, a idéia de que semelhante indivíduo continuasse em liberdade e em condições de me agredir pela segunda vez não se afastou de mim nem um momento. Como é lógico informei às autoridades assim que recuperei a memória, mas a essas alturas o velhaco já tinha abandonado a Inglaterra, e pouco podiam fazer. Beau, que desejava formular algumas pergunta sobre os trâmites necessários para entrar em posse dos bens de Cerynise, convidou ao senhor Ely a passar a noite em casa a fim de discutir longamente sobre os detalhes. O advogado aceitou com prazer. Pela primeira vez em vários meses não sentia a necessidade de voltar a vista para trás para ver se o seguia alguém. Muito mais tarde, quando marido e mulher puderam retirar-se a seu dormitório, Beau rodeou com seus braços a sua esposa. - Pensou no que fará com a fortuna da Lydia? Cerynise assentiu com a cabeça, apoiada em seu peito. - O certo é que refleti sobre esse tema, e cheguei a conclusões que espero compartilhe. Uma vez que meus quadros começam a vender-se por somas consideráveis, e que você é bastante rico para dar a sua família os meios de viver com todo luxo (se fosse esse nosso costume), não considero necessário monopolizar com espírito egoísta o grosso das propriedades da Lydia. Portanto, queria separar uma quantidade importante e entregar-lhe a aquele amável sacerdote, o senhor Carmichael, a fim de que possa cuidar melhor de todos os meninos que tomou sob seu amparo, e construir possivelmente um orfanato onde lhes proporcionará camas em abundância. Intuo que o senhor Ely estaria disposto a fiscalizar a distribuição dos recursos necessários. O que lhe parece? - Não tenho a menor dúvida. Se se tomou tanto trabalho pela Lydia Winthrop estou


seguro de que porá o mesmo empenho em levar seus desejos a bom termo. Algo mais? - Pois bem, me ocorreu patrocinar uma escola de arte em que se aceite a homens e mulheres indistintamente. - Para pintar nus? - provocou-a seu marido. Cerynise riu e lhe beliscou o peito de modo brincalhão. - Por favor, cavalheiro, não dê rédea a sua propensão à libertinagem! Há muitas mais coisas que pintar além de nus. Beau tratou de adotar uma expressão angélica. - Você gostaria de me pintar nu? - perguntou, lhe dirigindo um olhar libidinoso. Cerynise se sentou na cama, afastou a manta e examinou o corpo comprido e musculoso do Beau com olhar de aprovação. Era certamente um belo modelo, mas sua reação foi exatamente a esperada por sua esposa, que sacudiu a cabeça com fingida exasperação. - Como quer que me concentre em pintar você nu se cada vez que lhe olho alardear desta maneira? - Alardear eu? - Beau se fingiu ferido em seu orgulho masculino e respondeu com uma ameaça: - Preste atenção e veja se alardeio. Tratando em vão de conter um sorriso zombeteiro, ela contemplou de perto sua atitude viril. - O que queria me ensinar? - Isto - murmurou ele com voz rouca, abraçando-a e lhe dando um beijo apaixonado. Sua esposa lhe suplicou sem fôlego: - Não, não pares. Faça-o outra vez... E outra, e outra, e outra... FIM

Kathleen woodiwiss 05 a frágil chama do amor  
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