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Kathleen E. Woodiwis

Uma Rosa do Inverno


Sinopse Casada com um estranho a quem não podia trair... Possuída por um amor que não conseguia esquecer... Este é o coração atormentado da jovem Erienne que, para salvar o pai da ruína financeira, acaba descobrindo o homem que irá transformar totalmente a sua vida. Foi no norte da Inglaterra que tudo começou. O pai de Erienne deu a mão de sua filha ao mais rico pretendente para sanar suas dívidas de jogo. Agora, ela era a Lady Saxton, senhora de uma grande propriedade, anteriormente arruinada pelo fogo, e esposa de um homem de aparência misterosa que despertava nela o medo e a piedade. Saxton, o marido misterioso que ocultava o rosto com uma enigmática máscara, irá confundir os sentimentos de Erienne até quase o fim da história. Até lá, o leitor irá acompanhar o suspense e o drama de uma mulher apaixonada pelo inimigo do pai e desesperada pela iminente atração que o devotado marido estava lhe despertando. ERIENNE Para salvar o pai da ruína financeira, ela se casa contra a vontade – leiloando seu amor a quem fizesse a oferta mais alta. SAXTON O enigmático lorde – sua capa longa e esvoaçante ocultava um mistério, um coração vingativo...e paixões estranhas e secretas. SETON Christopher Seton, homem do mar, ianque galante e sedutor, dono de olhos verde-cinza cheios de vida – é inimigo mortal do pai de Erienne. INTRIGA! No Norte da Inglaterra do século XVIII, nas ruínas de uma propriedade que fora importante no passado, uma noiva comprada descobriria a surpreendente verdade sobre o marido... e seria levada implacavelmente ao seu misterioso mundo, repleto de perigos, vinganças e desejos intensos nunca sonhados. A autora nos transporta a Inglaterra do Século XVIII, onde Eriene se vê dividida entre o amor e a honra. Casada com Lorde Saxton, homem leal e forte, porém deformado pelo fogo, e apaixonada por Christopher Senton, aventureiro americano que aporta na cidade, mas que não quer nenhum compromisso sério.


Kathleen E. Woodiwiss

UMA ROSA DO INVERNO Tradução de: A rose in winter Título original norte-americano: A ROSE IN WINTER… Copyright © 1982 by Kathleen E. Woodiwiss Dedicado aos leitores que me encorajaram com suas cartas, Muito obrigada. K.E. W.


UMA ROSA DO INVERNO Uma flor vermelha na neve do inverno. Nascida fora de tempo, como a dor de uma donzela, Dada à luz numa estação em que sopra o vento. Encontrada num cantinho protegido, Vermelha, brilhante, límpida e não tocada, Vermelha como uma gota de sangue do coração partido, Da jovem que espera e chora no topo da montanha, Deixada pelo cavaleiro prateado levado para a guerra Que não mais toma parte nas justas nem nas sagradas missões. Não tema, Doce Jo, murchando na charneca. A rosa do inverno promete, nas velhas histórias do passado, Que o verdadeiro amor, certa vez encontrado, logo voltará.


Capítulo Um 23 de outubro de 1792 - Norte da Inglaterra - CASAMENTO? — Erienne Fleming afastou-se da lareira, e num gesto brusco jogou o atiçador no suporte, externando todo seu aborrecimento com o dia que mal começava. Lá fora, o vento, em alegres rodopios, atirava as gotas de chuva e os flocos de granizo contra os vidros das janelas, com sua dança descuidada zombando da escravidão do seu espírito. O caos inquieto das nuvens escuras, girando junto do telhado da casa do prefeito, refletia o estado de espírito daquela jovem cujos olhos de cor violeta chispavam com fúria, fixos no fogo da lareira. — Casamento! A palavra acendeu-se outra vez no seu cérebro. Antes o símbolo de um sonho infantil, ultimamente tornara-se mais o sinônimo de uma grande tolice. Não que ela fosse contra a instituição do casamento. Oh, não! Sob a cuidadosa orientação da mãe, tinha-se preparado para ser a melhor das esposas para qualquer homem. Porém seu pai, o prefeito de Mawbry, queria casá-la com um homem de Posses, por mais desajeitado, obeso ou ridiculamente magro que fosse. O primeiro que batesse à sua porta. Todas as outras qualidades desejáveis, incluindo boas maneiras, pareciam sem importância para ele. Na verdade, sequer eram levadas em consideração. Se o homem fosse rico e disposto a casar, era um candidato bem aceito à sua mão. Porém os que se apresentaram eram verdadeiramente ridículos — Erienne franziu as sobrancelhas bem-feitas, com ar de dúvida —, talvez fosse o melhor que seu pai podia arranjar sem a atração de um dote, por mínimo que fosse. — Casamento! Ora essa! — disse Erienne, com desprezo. Começava a perder as fantasias da juventude e a ver o casamento como algo muito menos agradável. Não era raro uma jovem detestar um pretendente arranjado por terceiros, mas depois dos exemplos que acabava de ver, duvidava que seu pai, dogmático por natureza, se interessasse por melhorar a qualidade dos pretendentes, no futuro. Inquieta, Erienne foi até a janela e olhou, pensativa, através do vitrô em forma de diamante para a rua sinuosa, calçada com pedras, que atravessava a pequena cidade. As árvores que a ladeavam eram formas esqueléticas e escuras sob a chuva. Seus olhos fixaram-se na rua vazia, e com uma dor surda e nervosa no estômago lembrou que em menos de uma hora ia conhecer outro pretendente. Não tinha a menor disposição de sorrir com amabilidade para outro palhaço ridículo e desejou, sim, até rezou, para que a rua continuasse vazia como estava agora. Na verdade, não ia sentir muito se uma ponte desabasse, com a força da chuva, e o homem caísse no rio caudaloso, desaparecendo para sempre. Era um estranho para ela, um nome sem rosto, recentemente ouvido. Silas Chambers! Que tipo de homem seria ele?


Erienne olhou para a sala modesta, imaginando o que ele pensaria da sua casa e se demonstraria desprezo. Embora a casa fosse tão boa quanto todas as outras na cidade, a decoração espartana indicava ausência de riqueza. Se a moradia não fizesse parte da sua posição como prefeito, seu pai certamente não poderia mantê-la. Erienne alisou o vestido de veludo muito usado, cor de ameixa, esperando que ele não notasse o estilo fora de moda. Seu orgulho fora muitas vezes desafiado pela arrogância altiva de idiotas que não se davam ao trabalho de disfarçar a opinião de que eram muito superiores a ela. A falta de dote contrastava penosamente com a riqueza dos pretendentes. Erienne gostaria de provar a todos aqueles idiotas que tinha mais instrução e era mais bem educada do que eles, mas sem dúvida tal atitude seria severamente censurada pelo paiAvery Fleming considerava desnecessário e imprudente ensinar a um membro do sexo fraco algo além dos deveres básicos da mulher e de modo algum matemática ou leitura. Se não fosse pela herança e obstinação da mãe, Erienne não teria recebido nenhuma instrução acadêmica. Angela Fleming reservara uma parte da sua riqueza para esse fim, e Avery não estava em situação de reclamar, especialmente porque, durante o casamento, usara boa parte dessa mesma riqueza para satisfazer seus caprichos. A mesma facilidade fora dispensada a Farrell, porém, depois de passar menos de um ano no seminário, o jovem resolveu que detestava "a pregação pomposa e a disciplina injusta de um bando de homens enfadonhos", e desistiu de ser um homem de letras para "aprender a profissão do pai", independente de qual fosse. Erienne recordou com detalhes os longos meses depois da morte da mãe, as horas de solidão, enquanto o pai e o irmão jogavam cartas ou bebiam com os homens da cidade, ou, quando iam a Wir-kinton, com os marinheiros que desembarcavam no porto. Sem o controle sensato de Angela, as limitadas posses da família começaram a desaparecer, obrigando-os a uma vida de severa economia e aumentando a pressão do pai para um bom casamento. Essa pressão cresceu depois que o irmão ficou com o braço e a mão quase inutilizados em conseqüência de um duelo infeliz. Desde então, Avery parecia obcecado com a idéia de arranjar um casamento para a filha. Um sentimento de revolta reavivou sua memória. — Se há alguém que eu gostaria de conhecer — sibilou ela, para a sala vazia —, é Christopher Seton! Ianque! Vilão! Jogador! Libertino! Mentiroso! — Qualquer insulto que vinha à mente servia para ele. Na verdade, mentalmente saboreou certos adjetivos atribuídos à descendência dele. — Sim, encontrar esse homem pessoalmente! — Imaginou olhos muito juntos, nariz fino e adunco, mechas de cabelo áspero aparecendo sob a aba de um tricórnio, lábios finos e crispados num sorriso malicioso e cruel, revelando dentes pequenos e amarelos. Uma verruga na ponta do queixo quase inexistente completava a imagem criada por ela. O rosto perfeito para um corpo magro e ossudo. Oh, se ela ao menos chegasse a conhecer esse homem. Embora não pudesse vencê-lo numa luta, podia ao menos abalar sua pose quando quisesse. Seus insultos o atormentariam por muito tempo e então talvez pensasse duas vezes antes de descarregar sua vingança num jovem menos avisado e menos experiente, ou desgraçar a vida de um homem mais velho. — Se eu fosse homem — colocou-se em posição de esgrima e atacou como se empunhasse um florete afiado —, eu o castigaria assim! — Atingiu a figura


imaginária com um, dois, três golpes certeiros e então enfiou a ponta do florete no pescoço do adversário. Delicadamente, limpou a lâmina e guardou a arma na bainha. — Se eu fosse homem — olhou, pensativamente, pela janela — faria aquele fanfarrão reconhecer seus erros e procurar sua fortuna em outra parte do mundo. Viu o reflexo de sua imagem no cristal das vidraças e, cruzando as mãos, fez uma pose modesta. — Infelizmente, não sou um lutador, apenas uma mulher. — Virou levemente a cabeça para um lado e depois para outro, examinando o cabelo negro, depois sorriu para a própria imagem. — Assim, minhas armas devem ser a inteligência e as palavras. Por um momento ergueu a sobrancelha bem-feita com um olhar desdenhoso e um sorriso frio, capazes de congelar o coração do mais ardente admirador. Infeliz do homem que despertasse a ira daquela jovem. A voz embriagada gritou lá fora, interrompendo seus pensamentos. — Erienne! Reconhecendo a voz do irmão, Erienne correu para a entrada e, com uma censura engatilhada, abriu a porta. Farrell Fleming estava encostado no batente, com as roupas em desordem e o cabelo emaranhado sob o tricórnio. Era evidente que passara a noite toda bebendo e se divertindo e, como eram onze horas, grande parte da manhã também. — Erienne, minha bela irmã! — disse ele em voz alta. Cambaleou para trás, depois para a frente e entrou no hall com um borrifo de água gelada do casaco. Erienne olhou preocupada para os dois lados da rua, mas não havia ninguém por perto naquela manhã chuvosa, a não ser um cavaleiro, muito longe ainda da cidade. Quando terminasse de atravessar a ponte e passasse pela casa, não veria mais nada fora do comum. Erienne encostou na porta fechada e olhou para Farrell com o cenho franzido. Com o braço quase inútil apoiado na balaustrada, ele tentava desabotoar o casaco. — Erienne, ajude seu irmãozinho com este casaco rebbb... rebelde. Ele não quer me largar, — Com um sorriso de desculpas, ergueu o braço aleijado num apelo. - Bela hora para chegar em casa — disse ela, ajudando-o a se livrar do casaco teimoso. — Não se envergonha? — Nem um pouco! — afirmou ele, tentando uma mesura elegante. Perdeu o equilíbrio e começou a cair para trás. Erienne segurou o casaco do irmão e pôs o ombro sob o braço dele, depois franzia o nariz, sentindo-o cheiro desagradável de uísque e tabaco. — Podia pelo menos ter voltado enquanto estava escuro — sugeriu ela severamente. — Passa a noite bebendo e se divertindo e depois dorme o dia inteiro. Não podia arranjar um passatempo melhor? — Por uma tolice fiquei impedido de trabalhar com honestidade e de ajudar armanter esta família. Pode culpar aquele demônio do Seton. Ele fez ISSO comigo. — Eu sei o que ele fez! — disse ela, secamente. — Mas isso não é desculpa para você agir desse modo. — Deixe de reclamar, mulher — disse ele, com voz pastosa. — Cada dia que passa você mais parece uma velha solteirona. Ainda bem que nosso pai está tratando de arranjar casamento para você.


Erienne rangiu os dentes com raiva. Segurou o braço dele com força, tentou levá-lo para a sala, mas cambaleou ao peso do irmão. — Que vocês dois se danem! — disse ela. — Um é tão mau quanto o outro! Querem me casar com o primeiro que aparecer, para continuar essa vida de farra e bebida. Vocês formam uma bela dupla! — Então é assim! — Farrell afastou-se dela e conseguiu dar alguns passos incertos para a sala. Quando recuperou o equilíbrio no assoalho, que ondulava traiçoeiramente, olhou fixo para a irmã e adaptou o balanço do corpo ao do navio, como um velho marinheiro. — Você se ressente do meu sacrifício por sua honra — acusou ele, tentando encará-la nos olhos. Mas era uma tarefa difícil demais naquele momento, e Farrell desistiu de dominar o próprio olhar. — Eu e o pai só queremos ver você bem casada e a salvo dos aventureiros. — Minha honra? — zombou Erienne. Pôs as mãos na cintura e olhou para o irmão com um misto de tolerância e pena. — Se está lembrado, Farrell Fisming... você estava defendendo a honra do nosso pai, não a minha. Oh! — disse o irmão, agora com a humildade e o arrependimento de um garotinho mal comportado. — Tem razão. A honra do nosso pai. — Olhou para o braço inútil e o estendeu para a frente tentando despertar a simpatia de Erienne. — Talvez tivesse sido também um pouco pela minha, porque sou uma Fleming — disse Erienne, pensando em voz alta. — E depois da calúnia espalhada por Seton é difícil ignorar os comentários de todos. Mais uma vez ela olhou, pensativa, para a paisagem varrida pela chuva, esquecendo a presença do irmão, que caminhava com cautela e de forma sinuosa para a garrafa de uísque na mesa de centro. Desapontada, viu a ponte ainda intacta que o cavaleiro solitário atravessava agora. O homem não parecia ter pressa, mas cavalgava com firmeza, como se tivesse todo o tempo do mundo. Erienne desejou ter todo o tempo do mundo em suas mãos também. Com um suspiro olhou para o irmão e bateu com o pé no assoalho, furiosa. Farrell tentava tirar a tampa da garrafa com a mão boa. — Farrell! Já não bebeu bastante? — Isso mesmo, era o nome do nosso pai que eu estava tentando defender — resmungou ele, sem desistir da garrafa. Com mão trêmula, encheu o copo de uísque. A lembrança do duelo o atormentava. Ouvia sempre o estampido da própria pistola e via o horror e o espanto no rosto do juiz com a mão que segurava o lenço, erguida ainda. A cena estava impressa em sua mente, porém, naquele momento o que sentiu foi um misto de horror e satisfação, vendo o adversário cambalear para trás com a mão no ombro. O sangue escorreu de imediato por entre os dedos de Seton, e Farrell, imóvel e gelado, esperou que ele caísse. Porém o homem endireitou o corpo e a breve sensação de alívio transformou-se num suor frio. Compreendeu a enorme tolice de ter atirado antes do sinal do juiz quando Seton ergueu a arma lentamente apontada diretamente para seu peito. — Você desafiou um homem muito mais experiente, tudo por causa de um jogo de cartas — censurou Erienne. O zumbido da cabeça de Farrell abafou as palavras da irmã. Paralisado pela cena que se desenrolava vagarosamente na lembrança, via apenas o cano da arma ameaçadora, ouvia só as batidas do próprio coração, sentia só o terror alucinante que atormentava agora suas horas de vigília. Naquela manhã gelada, o suor quase lhe cobriu os olhos,


mas Farrell estava assustado demais até para piscar, temendo que o menor movimento atraísse uma bala mortal. Dominado pelo pânico, com os nervos tensos ao máximo, com um grito rouco de raiva e frustração, Farrell atirou a arma agora inútil contra seu adversário, sem notar que a pistola de Seton já estava apontada para um lugar bem acima da sua cabeça. Outra explosão quebrou o silêncio da madrugada, enterrando-sob uma avalanche de ecos, transformando o brado enraivecido de Farrell num grito de agonia. O choque da bala no seu braço tendeu-se ao seu cérebro sob a forma de uma dor lancinante. Antes que a fumaça se dissipasse, ele caiu sobre a geada, que cobria a relva verde, contorcendo-se num paroxismo de dor e de derrota, um vulto alto e esguio parou atrás do cirurgião, que, ajoelhado, tratava do seu ferimento. Com os olhos enevoados pela dor, ele reconheceu seu oponente, em silhueta contra a luz fraca do sol nascente. Farrell sentiu-se envergonhado quando viu que Seton calmamente procurava estancar o sangue do próprio braço com um pedaço de pano seguro sob o casaco. No meio da dor que sentia, Farrell compreendeu que, por ter atirado antes da hora, perdera muito mais do que o duelo. Era um choque devastador à sua reputação. Ninguém aceitaria o desafio de um covarde e ele jamais conseguiu se livrar da autocondenação. "Foi a tolice do jovem que provocou o ferimento." Lembrando as palavras de Seton, Farrell deixou escapar um gemido de dor, Ouvia ainda claramente: — Se ele não tivesse atirado a pistola, a minha não teria disparado. Ouviu a resposta do juiz também como se viesse de muito longe: — Ele atirou antes que eu tivesse dado o sinal. Se o senhor o tivesse matado, ninguém poderia questionar a legalidade do ato. Seton disse então, com altivez: —- Não sou assassino de crianças, homem. — Posso garantir, senhor, que está completamente isento de culpa. Sugiro que saia daqui antes que o pai do rapaz apareça e provoque maiores complicações. Na opinião de Farrell, o juiz fora muito complacente. Para provar que não concordava com essa benevolência, Farrell desfiou um rosário de insultos, descarregando sua raiva no homem, em vez de enfrentar a verdade da própria covardia. Desapontado, viu o seu oponente sorrir com desprezo e afastar-se, como se ele fosse uma criança que devia ser ignorada. A cena desapareceu da sua mente, e Farrell voltou à realidade. lnou Para o copo cheio de uísque, mas as pernas trêmulas mal sustentavam o peso do corpo, e ele não podia usar o braço bom, no qual se apoiava, para segurar o copo. — Você lamenta sua perda terrível — ouviu ele finalmente as palavras de Erienne — e age como se sua vida estivesse acabada aos dezoito anos. Faria melhor se deixasse o ianque em paz, em lugar de fazer o papel de galo de briga ofendido. — O homem é um mentiroso, e eu o desafiei por isso. — Farrell procurou um porto seguro e viu uma cadeira próxima. — Eu estava defendendo a honra e o nome do nosso pai. — Defendendo! Tudo o que ganhou foi um braço inutilizado e o Sr. Seton não retirou uma palavra da acusação. — Mas vai retirar! — disse Farrell, furioso. — Vai retirar, ou eu... eu... — Você faz o quê? — perguntou Erienne, zangada. — Perde o uso do outro braço?


Ou vai se deixar matar, acreditando que pode competir com um homem experiente como Christopher Seton? — Ergueu a mão, num gesto de desagrado. — Ora, o homem é quase duas vezes mais velho do que você, e chego a pensar que tem o dobro da sua inteligência. Foi tolice desafiá-lo, Farrell. — Ora, vá para o inferno, mulher. Parece que pensa que o sol nasce e se põe para o seu grande Sr. Seton. — O que está dizendo? — exclamou Erienne, furiosa com a acusação, — Eu nem conheço o homem! Tudo que sei é o que tenho ouvido dizer e não posso nem mesmo acreditar nisso. — Sim, eu também já ouvi — disse Farrell, com desprezo. — Sempre que se reúnem, as mulheres faladeiras comentam sobre o ianque e seu dinheiro. Precisa ver o brilho nos olhos delas, mas sem esse dinheiro ele não é melhor do que ninguém. Quanto à experiência, bem, provavelmente tenho tanta quanto ele. — Não se atreva a se gabar dos dois que você venceu — disse ela, irritada. — Provavelmente estavam mais assustados do que você e, pensando bem, talvez fossem mais tolos também. — Acha que sou tolo? — Farrell tentou empertigar o corpo para se defender do insulto, mas com um arroto sonoro caiu com a cabeça sobre a mesa, cheio de autopiedade. — Deixe-me em paz, mulher. Está se aproveitando do meu momento de fraqueza e cansaço. — Ah! De bebedeira, quer dizer — corrigiu ela, com ar malicioso. Farrell cambaleou até a poltrona e sentou-se pesadamente. Fechou os olhos e recostou a cabeça no espaldar. — Você toma o partido daquele libertino contra seu próprio irmão — gemeu ele, — Se nosso pai a ouvisse! Os olhos de Erienne brilharam de indignação. Aproximou-se da poltrona e segurou as lapelas do casaco de Farrell. Ignorando o cheiro de bebida, inclinou-se para ele. - Você ousa me acusar? — Ela o sacudiu até os olhos de Farrel ficarem fora de foco. — Vou dizer uma coisa, irmão! — As palavras dela jorravam com ferocidade. — Um estranho aportou nesta parte do norte, assombrando a todos com o tamanho do seu navio cargueiro, e no terceiro dia da sua chegada — sacudiu o casaco de Farrell para acentuar o que ia dizer — acusou nosso pai de roubar no jogo. Verdade ou não, ele não precisava anunciar aos quatro ventos, provocando tamanho pânico entre os comerciantes de Mawbry e e de Wirkinton, que nosso pai teme ainda ser mandado para a prisão por causa das contas que não pode pagar. Sim, e é por isso que resolveu arranjar um casamento para mim. O rico Sr. Seton pouco se importa com o mal que causou à nossa família. É claro que o considero responsável por tudo. Mas você, meu caro irmão, não passa de um tolo, pois a negação furiosa e o fracasso em prová-la só serviu para piorar as coisas. Homens como esse devem ser tratados com calma e deliberação e não com a arrogância da juventude. Farrell olhava atônito para a irmã, espantado com aquele ataque à sua pessoa, e Erienne percebeu que ele não estava ouvindo uma palavra. — Ora, de que adianta! — Ela o empurrou com desprezo e afastou-se dele. Nenhum argumento era suficiente para provar a tolice das suas ações. Farrell olhou para o copo cheio de uísque e passou a língua nos lábios, esperando que ela o levasse até onde estava.


— Você pode ser um pouco mais velha do que eu, Erienne, — Farrell estavarbastante cansado e sua boca parecia cheia de algodão. — Mas não precisa gritar comigo como se eu fosse uma criança. — Abaixou a cabeça e murmurou: — Foi assim que ele me chamou... de criança. Andando de um lado para o outro na frente da lareira, Erienne procurava as palavras certas para convencer o irmão. Ouviu um som suave e ritmado, voltou-se e viu a cabeça de Farrell encostada molemente no peito. O primeiro ronco discreto logo se transformou num sonoro exemplo daquela arte e Erienne compreendeu que devia têlo levado direto para o quarto. Silas Chambers podia chegar a qualquer momento, e seu orgulho seria severamente ferido por seu sorriso de desprezo. A única esperança era que o pai voltasse logo, mas isso também podia ser uma espada de dois gumes. No momento seguinte, Erienne percebeu que as batidas das patas de cavalo que soavam lá fora havia alguns segundos acabava de parar na frente da sua casa. Tensa, ela esperou para ver se localizava o cavaleiro, e logo descobriu, ouvindo os passos na entrada e a batida à porta. — Silas Chambers? — Sua mente procurava passar à frente dos nervos. Erienne olhou em volta apavorada, torcendo as mãos. não podia ter chegado numa hora pior. Numa pressa frenética, correu para Farrell e tentou acordá-lo, mas sequer conseguiu interromper o ritmo dos roncos. Segurou-o pelas axilas, tentando levantá-lo da poltrona, mas era como tentar erguer um saco cheio de pedras. Farrell escorregou para a frente esparramou-se no chão, quando outra batida insistente ecoou na sala. Erienne não teve outra escolha senão aceitar a situação. Talvez Silas Chambers não merecesse sua preocupação, e a presença do irmão talvez até a ajudasse. Contudo, relutava em expor-se e à sua família ao ridículo. Puxou uma cadeira para a frente do irmão adormecido e cobriu o rosto dele com um xale para abafar os roncos. Então, com calma deliberação, ajeitou o vestido e o cabelo, tentando eliminar os vestígios da ansiedade. Tudo ia dar certo. Tinha de dar. Outra batida insistente soou quando ela chegou à porta. Com toda a pose e calma possíveis, Erienne segurou a maçaneta e abriu a porta. Por um breve momento todo o espaço pareceu tomado por uma figura alta com a roupa molhada de chuva. Seus olhos subiram das botas caras de couro preto para o casaco longo e cinturado e finalmente para o rosto sob a aba do chapéu de pele, do qual respingava a água da chuva; ela prendeu a respiração. Era o rosto mas culino mais belo que jamais vira. Com a testa levemente franzida ele parecia muito sério e ameaçador. Havia uma sugestão quase de fúria no queixo forte e bem-feito, no rosto magro, e o perfil levemente aquilino lembrava os homens do mar. Porém, logo um sorriso leve apareceu nos olhos dele, formando pequenas rugas nos cantos das pálpebras. Os olhos verde-cinza eram cheios de vida, como se estivessem sempre à procura do que há de mais belo no mundo. O homem olhou-a de alto a baixo com aprovação evidente. O sorriso e o brilho dos olhos quase transparentes tiraram toda a força das pernas da jovem. Não era nenhum velho encarquilhado, nenhum cretino ansioso, mas um homem cheio de vida e virilidade. Sem dúvida, excedia suas mais ardentes aspirações. Erienne perguntou a si mesma por que um homem daquele tinha de recorrer a um casamento arranjado. O estranho tirou o chapéu num gesto galante, descobrindo o cabelo ruivo, curto e


farto. A voz sonora e muito masculina era tão agradável quanto o rosto. Srta. Fleming, eu suponho? Umm, sim. Oh, Erienne Fleming. — Estranhamente, as palavras pareciam sair com dificuldade. Sua mente voava, substituindo a imagem criada anteriormente. O homem era quase perfeito! Sem nenhum defeito visível! Porém, persistia a pergunta. Se ele queria realmente casar, como chegara àquela idade sem ser apanhado por pelo menos uma dúzia de mulheres? Devia haver alguma falha grave, dizia o bom senso. Conhecendo seu pai, sabia que tinha de haver uma falha grave. Embora funcionando com a maior rapidez, sua mente foi vencida pelas palavras. — Entre, senhor. Meu pai me avisou da sua visita. — É mesmo? — disse ele, em tom de dúvida. Com um sorriso cheio de humor e interrogação, olhou, atento, para ela. — Sabe quem eu sou? — É claro! — Ela riu. — Estávamos à sua espera. Entre, por favor. Ele entrou, com a testa levemente franzida e parecia relutar em entregar a ela o chapéu, o chicote e as luvas. Erienne pôs as luvas dentro do chapéu e este, mais o chicote, sobre a mesa. — A senhorita me surpreendeu — comentou ele. — Eu esperava ser recebido com ressentimento, não com tanta delicadeza. Erienne estremeceu mentalmente com essas palavras. Não tinha pensado na possibilidade da falta de tato do pai a ponto de falar da sua relutância à idéia de casamento. Como ele podia ter pensado que a filha ia desprezar um pretendente tão belo, tão superior a todos que já se haviam apresentado? Respondendo com um riso um tanto forçado, Erienne disse, cautelosamente: — Suponho que meu pai falou na minha relutância em conhecê-lo. Ele sorriu, compreendendo. Certamente pensou que eu fosse um animal horrível e feroz. - Fico feliz por ver que não é – respondeu ela, pensando que talvez tivesse falado com muito entusiasmo. Esperava que ele não a julgasse muito oferecida. Mas o que acabava de dizer não era nem metade da verdade. Para disfarçar o corado do rosto, ela adiantou-se e fechou a porta. Uma sensação de quase vertigem a envolveu ao sentir o perfume de água-de-colônia combinado com o cheiro agradável de homem e de cavalo. Não estava vendo nenhuma imperfeição! Com dedos longos e ágeis, ele desabotoou o casaco e o tirou. Por mais que procurasse, Erienne não via nenhum defeito nos ombros largos, na cintura fina, nos membros longos. O volume revelado pela calça justa atestava sua masculinidade e, lembrando o motivo da visita, Erienne sentiu-se como uma noiva na noite de núpcias. — Dê-me seu casaco — pediu ela, tentando disfarçar o tremor da voz. A roupa de corte impecável merecia tanta admiração quanto o homem que a vestia. Porém, em outra pessoa de menor estatura, não teria o mesmo efeito. O colete, sob o casaco verde-escuro, era curto, de acordo com a moda, e azul-claro, combinando com a calça justa. As botas de couro delineavam perfeitamente as pernas bem-feitas e musculosas, com punhos bege-claro virados para fora. Ele usava os trajes dispendiosos e na última moda com uma naturalidade quase afetada. Erienne voltou-se para dependurar o casaco num gancho ao lado da porta. Com a


mão retirou as gotas de chuva frias ainda, depois olhou para o visitante e disse: — Deve ter sido uma viagem horrível, num dia como este. Os olhos verdes e sorridentes fixaram-se nos dela. — Horrível, talvez, mas com tanta beleza para me receber, extremamente bem compensada. Talvez o certo fosse adverti-lo sobre a inconveniência de ficarem tão próximos. Era cada vez mais difícil disfarçar o prazer que a fazia corar intensamente, enquanto tentava parecer à vontade. Censurou intimamente a própria falta de tato, mas só conseguia pensar no fato de estar recebendo um homem que parecia preencher todas as exigências do seu desejo. Certamente havia alguma falha. Tinha de haver. — Meu pai deve chegar a qualquer momento — informou ela, recatada. — Quer esperar na sala? — Se não for inconveniente — respondeu ele. — Preciso tratar de um assunto muito importante com ele. Erienne voltou-se graciosamente para a sala e quase ficou paralisada quando entrou. O sapato de Farrell aparecia ostensivamente ao lado da poltrona atrás da qual ela o escondera. Erienne percebeu o erro cometido, mas agora era tarde. Com seu melhor sorriso, ela caminhou para o pequeno sofá. Eu o vi atravessando a ponte. — Sentou-se e com um gesto indicou uma poltrona para ele. — Mora aqui perto? - Na verdade, tenho uma casa em Londres — respondeu ele. Prendeu as duas pontas do casaco verde-escuro, revelando o forro de pele e sentouse na poltrona que escondia parcialmente Farrell. Erienne estremeceu, pensando no quanto se sentiria ridícula se ele descobrisse o que havia atrás daquela poltrona. Eu... bem... ia fazer chá — disse ela, apressada e nervosa. Aceita uma xícara? Depois de uma viagem tão fria e com tanta chuva, será um prazer. — A voz era suave e aveludada, — Mas, por favor, não se dê ao trabalho por minha causa. — Ora, não é trabalho nenhum, senhor — disse ela. — Não recebemos muitas visitas aqui. — E o que me diz desta? — Para horror de Erienne, com um gesto largo ele indicou Farrell. — Um pretendente rejeitado, talvez? — Oh, não, senhor! Ele é só... quero dizer... é meu irmão. — Deu de ombros, desanimada. Estava atordoada demais para uma resposta à altura. Além disso, agora que o seu segredo fora descoberto, provavelmente era melhor ser franca, uma vez que não havia nenhuma outra explicação lógica. — Ele... umm... bebeu um pouco demais à noite passada, e eu estava tentando levá-lo para o quarto quando o senhor bateu à porta. Contendo o riso, ele ficou de pé. Depois, com um joelho no chão, retirou o xale e ergueu uma das pálpebras de Farrell. Os roncos continuaram, e o visitante olhou para Erienne, agora sem disfarçar seu divertimento. O largo sorriso revelava dentes fortes e brancos. — Gostaria de uma ajuda para terminar sua missão? — Certamente, senhor! — O sorriso de Erienne teria atraído um duende para fora da floresta. — Eu agradeceria muito. A rapidez e agilidade com que ele se levantou quase tirou o fôlego de Erienne. O


visitante tirou o casaco, confirmando o fato de que os ombros largos pertenciam somente a ele e não a qualquer artifício, dobrando-o e colocando-o no espaldar da poltrona. O colete era feito sob medida para modelar o peito largo. Quando ele ergueu Farrell do chão, a fazenda da camisa esticou por um momento, revelando os músculos dos ombros e dos braços. O peso que Erienne mal conseguia mover foi depositado facilmente sobre um dos ombros. Voltou-se para ela: — Se quiser mostrar o caminho, Srta. Fleming, — Erienne, por favor — pediu ela, passando muito perto dele na direção da escada. Mais uma vez, a proximidade e o perfume masculino e forte a envolveram e Erienne atravessou rapidamente o hal para esconder o rubor do rosto. Enquanto subiam a escada, o instinto que nunca a abandonava dizia que estava sendo atentamente examinada. Mas não ousava virar a cabeça, com medo de ver que estava certa. Na verdade, se pudesse ver a atenção e admiração com que ele observava o movimento gracioso das suas cadeiras e a cintura fina, teria outros motivos para corar. Ela caminhou, apressada, para o quarto de Farrel, abriu as cobertas da cama, e o homem depositou sua carga na maciez do colchão de penas. Erienne inclinou-se para soltar a gravata e o colarinho do irmão e quando endireitou o corpo, seu coração disparou, pois o homem estava muito perto dela outra vez. — Acho que seu irmão ficaria mais confortável sem a camisa e as botas — disse ele, com um largo sorriso. — Quer que eu tire, para você? — Oh, por favor — respondeu ela, aquecida pelo sorriso e pela solicitude. — Mas ele é aleijado. Cuidado com seu braço. O homem parou e olhou para ela, surpreso. — Sinto muito. Eu não sabia. — Não precisa se preocupar, senhor. Infelizmente a culpa foi toda dele. O homem ergueu a sobrancelha, intrigado. — É muito compreensiva, Srta. Fleming. Erienne riu para esconder a confusão. — Meu irmão não pensa assim. — Isso é típico de irmãos. — Ele sorriu outra vez, quando Erienne ergueu o rosto e os olhos verdes perscrutaram os traços frágeis, parando demoradamente nos lábios vermelhos e macios. Erienne sentiu um atordoamento, como se estivesse na margem do tempo. De muito longe, sua mente observou que as íris dos olhos dele eram de um verde mais claro, com uma sugestão de cinzento na borda interna. O calor daquele olhar fez o sangue subir ao rosto dela e seu coração bater com força. Censurando-se mentalmente por não manter a compostura de uma mulher bem-nascida, Erienne recuou um passo e começou a andar pelo quarto, enquanto ele atendia seu irmão. O homem parecia senhor da situação, por isso não se ofereceu para ajudá-lo, preferindo manter uma distância segura Para quebrar o silêncio longo demais e constrangedor, Erienne disse: O tempo está horrível hoje. Sim — concordou ele, com a mesma originalidade. — Um dia horrível. A voz sonora ecoou no peito dela, e Erienne desistiu de encontrar alguma falha nele. Comparado à coleção dos pretendentes anteriores, esse homem era quase mais


perfeito do que ela podia agüentar. Terminando seu trabalho, ele afastou-se da cama, com a camisa e as botas de Farrell nas mãos. Erienne estendeu o braço para apanhá-las e sobressaltou-se quando ele deliberadamente encostou os dedos nos dela. Uma onda de calor a envolveu, lentamente aliviando toda a tensão nervosa. Ela pensou que nenhuma das carícias desajeitadas e semi-ousadas dos outros pretendentes jamais a fizeram sentir o que sentia agora com aquele simples contato. — Acho que o tempo vai ficar assim até a primavera — disse ela, nervosa. — Aqui no norte, sempre chove muito nesta época do ano. — A primavera será uma mudança bem-vinda — disse ele, balançando afirmativamente a cabeça. O brilhantismo dessa conversa não chegava a trair os pensamentos reais dos dois. A idéia de que logo ele seria seu marido não deixava a mente de Erienne, e ela continuava curiosa para saber quais as circunstâncias que levaram aquele homem a pedir sua mão. Considerando as escolhas apresentadas por seu pai, ela teria se considerado muito feliz se Silas Chambers fosse pelo menos tolerável e um pouco mais jovem do que os outros, mas ele era muito mais do que tudo isso. Custava a acreditar que aquele homem era a realização de todas as suas esperanças. Procurando dominar as próprias emoções e ficar a uma distância segura daquele homem, ela atravessou o quarto e falou, virando apenas a cabeça para trás, enquanto guardava a roupa do irmão. — Como mora em Londres, deve achar o clima do norte bem diferente. Notamos a diferença quando viemos para cá, há três anos. — Vieram por causa do clima? — perguntou ele, com um sorriso nos olhos verdes. Erienne riu. — Depois que a pessoa se acostuma com a umidade, é bem agradável morar aqui. Isto é, quando se consegue ignorar as histórias assustadoras de assaltantes de estradas e bandos de desordeiros escoceses. É o que se ouve logo que se chega aqui. Lorde Talbot reclamou tanto dos bandos de escoceses que assaltavam as aldeias, que meu pai foi indicado como prefeito e depois nomearam um xerife para garantir a segurança. — Ela ergueu as mãos abertas, num gesto de dúvida. — Tenho ouvido muitas histórias de escaramuças em lugares distantes e de como os ricos são assassinados e roubados quando passam com suas carruagens por essas estradas, mas até agora meu pai e o xerife só conseguiram prender um caçador furtivo nas terras de lorde Talbot. E ele nem era escocês. — Vou disfarçar meu orgulho natural de ascendência escocesa, do contrário me tomarão por um assaltante de estrada ou coisa parecida. Erienne olhou para ele, sinceramente preocupada. — Acho que é melhor não dizer isso ao meu pai. Ele fica muito irritado quando se fala dos clãs escoceses e irlandeses. Ele concordou com uma leve inclinação de cabeça. — Tentarei não irritá-lo inutilmente com essa revelação. Erienne saiu do quarto, dizendo: — Pode estar certo que não é uma característica da família. Eu não tenho nenhum motivo para não gostar dos escoceses. — Isso é animador.


Atordoada com o calor da voz dele, Erienne descuidou-se e seu pé escorregou no primeiro degrau da escada. Conteve a respiração, assustada, mas antes que pudesse reagir, um braço forte a segurou pela cintura puxando-a para cima, sã e salva. Encostada no peito largo e firme, Erienne respirou afinal, aliviada. Finalmente, tremendo ainda, ergueu o rosto para ele. O homem a observava, com olhar preocupado, mas logo a preocupação foi substituída por um brilho profundo e ardente. — Srta. Fleming... — Erienne, por favor — murmurou ela, em voz baixa e distante. Nenhum dos dois ouviu quando a porta da frente foi aberta, nem as vozes masculinas que vinham do hall de entrada. Estavam imersos num universo só deles e teriam permanecido assim por mais alguns minutos se um grito trovejante não quebrasse o encanto. — Muito bem! O que significa isso? Atordoada ainda, Erienne afastou-se dele e olhou para baixo, e viu o pai e outro homem evidentemente espantados com a cena. A expressão furiosa nos olhos de Avery Fleming a abalou, mas o que a fez duvidar da realidade do seu mundo naquele momento foi o rosto rude do estranho muito magro que estava ao lado do prefeito. Era o rosto que ela imaginava para Christopher Seton. Só faltava uma grande verruga no queixo para ser a cópia exata. A ira de Avery Fleming fez tremer a casa. Eu perguntei o que significa isso! — Deu a ela um momento para responder, depois continuou: — Eu a deixo sozinha por alguns minutos e a encontro nos braços de um homem bem na minha... Você! — Avery jogou o chapéu no chão, mostrando o cabelo ralo eriçado. — Com os diabos! Traído em minha própria casa! Por minha própria filha! Muito corada e embaraçada, Erienne desceu, rápido, tentando acalmar o pai. — Por favor, papai, deixe-me explicar... — Ah, não precisa — disse ele com desprezo e zombaria. — Eu posso ver com meus próprios olhos! Traído, é isso! E por minha própria filha! — Apontou para o homem que descia calmamente atrás dela e disse: — Com este maldito sacana! — Papai — exclamou Erienne, chocada. — Este.,. — Apontou também para o homem na escada. — Este é o homem que o senhor convidou. Silas Chambers, eu acho. O estranho adiantou-se, balançando a cabeça como um passarinho. Estendeu a mão para chamar a atenção de todos e começou a gaguejar. — E-e-u sou, que-que-ro dizer, ele... ele n-n-ão-é... uuufa! A última exclamação foi resultado do gesto brusco de Avery, que se adiantou com os braços abertos, empurrando-o para trás. — Você, sua idiota! Será que ficou louca? Ele não é Silas Chambers. — Apontou para trás, para o homem magro. — Esse é o seu homem. Bem aqui! — Então, afastando as pernas curvas num gesto decidido, apontou de forma acusadora para o homem na escada. — Aquele ali. Aquele porco safado... Erienne encostou na parede e fechou os olhos com força. Sabia o que o pai ia dizer. — Foi ele que arruinou o braço do pobre Farrell. Ele é o seu Seton! Christopher Seton, ele mesmo! - Christopher Seton? Os lábios de Erienne moveram-se sem nenhum som. Ela abriu


os olhos e procurou fervorosamente no rosto do pai a negação do que acabava de ouvir. Depois olhou para o estranho e convenceu-se da verdade. Ele não era diferente dos outros que o pai apresentara. — Sua tolinha! — continuou Avery. — Este é Silas Chambers e Não aquele patife arrogante que você estava abraçando. Com uma expressão de horror e espanto, Erienne encarou os olhos verdes. Christopher sorriu delicadamente. — Peço desculpas, Erienne, mas pensei que você soubesse. se está lembrada, eu perguntei se sabia quem eu era. O espanto foi substituído pela raiva pura. Erienne sentiu-se enganada E seu orgulho exigia vingança. Ergueu a mão e esbofeteou vigorosamente o rosto bronzeado de Seton. — Srta. Fleming, para você! Levando a mão ao rosto, Christopher Seton riu, sem que desaparecesse o calor dos seus olhos. Para não ver aquela expressão zombeteira, deu as costas a ele. Antes de se voltar para o pai, Seton admirou por um instante a figura da filha. — Vim para falar sobre uma dívida que prometeu saldar, senhor. Gostaria de saber quando isso vai acontecer. Avery abaixou a cabeça e corou muito. Evitando o olhar curioso de Silas, murmurou algo sobre pagar logo que pudesse. Christopher atravessou o vestíbulo, apanhou o casaco e começou a vesti-lo. — Eu esperava que pudesse ser mais específico, prefeito. Não gosto de abusar da sua hospitalidade, e o senhor prometeu que pagaria dentro de um mês. Como deve saber, esse mês já chegou e já se foi, Avery fechou as mãos grandes mas não as tirou dos lados do corpo, temendo que qualquer movimento pudesse parecer um desafio. — Acho bom não me impor sua presença desagradável outra vez, Sr. Seton. Não gosto de gente da sua laia perto da minha filha. Ela vai casar, e eu não o vejo fazer nenhuma proposta. — Ah, sim, ouvi alguma coisa a respeito — disse Christopher com um sorriso sarcástico. — Agora que a conheço, espanta-me que o o senhor não tenha tido mais sorte, embora me pareça injusto que ela tenha de pagar pelo resto da vida por uma dívida do pai. — Minha filha não é da sua conta! Silas Chambers estremecia a cada palavra, mas Christopher Seton sorria calmamente. Disse com toda tranqüilidade: — Detesto pensar que ela vai ser obrigada a casar por causa do dinheiro que o senhor me deve. Avery abriu a boca, espantado. É mesmo? Não está por acaso pensando em esquecer a dívida, está? A risada de Christopher valeu por uma negativa. Nada disso. Mas eu tenho olhos e vejo que sua filha pode ser uma companhia encantadora. Estou disposto a estender o prazo do pagamento da dívida se me permitir cortejá-la. —- Deu de ombros — Quem sabe o que pode acontecer? Avery quase sufocou de raiva. Chantagem e libertinagem! Prefiro ver minha filha morta a entregá-la a gente como


você. Christopher olhou demoradamente para Silas, que apertou o tricórnio contra o peito, num gesto nervoso. Quando voltou-se outra vez para o prefeito, a zombaria foi sutil mas direta. — Sim, imagino que sim. Avery reagiu, insultado. Certamente Silas não era grande coisa, mas tinha uma fortuna modesta. Além disso, não seria bom para sua filha casar com um aventureiro bonito que a encheria de filhos. Silas podia mantê-la decentemente. Porém, depois de a ter visto com aquele demônio de Seton, talvez Silas desistisse do casamento, considerando Erienne mercadoria danificada. — Haverá muitos pretendentes dispostos a pagar o preço da noiva — insistiu Avery, para o caso de Silas ter alguma dúvida. — Homens de bom senso, capazes de ver os tesouros que ela pode oferecer e que nunca pensarão em ofender sua família. Voltando-se para Erienne, Christopher sorriu com o canto da boca. — Creio que isso significa que não sou bem-vindo a esta casa. — Saia! E nunca mais apareça nesta porta! — exclamou ela, contendo as lágrimas de raiva e de humilhação. Com uma expressão de desprezo, ela o olhou de alto a baixo. — Se o último homem sobre a terra fosse aleijado, corcunda, com o rosto deformado, eu o escolheria e não ao senhor! Christopher olhou demoradamente para ela. — Quanto a mim, Erienne, se você fosse atirada aos meus pés, eu não Passaria por cima do seu corpo para alcançar um bovino qualquer. — Sorriu, e os olhos deles se encontraram. — Seria pura tolice negar a mim mesmo, só por orgulho. — Fora! — A palavra dura e autoritária foi acompanhada de um gesto apontando a porta. Com uma mesura discreta e zombeteira, Christopher aproximou-se do cabide onde estava seu casaco, enquanto Avery segurava a filha pelo braço, empurrando-a para a sala. — O que significa isto, então? — sibilou o prefeito, furioso, — Eu saio de casa no meio de um frio vento nordeste, arriscando minha saúde para trazer seu namorado e você aproveita para se atirar sobre um homem dessa espécie! — Silas Chambers não é meu namorado! — corrigiu Erienne, num murmúrio. — É só outro homem que você trouxe para me ver como se eu fosse um cavalo à venda. E eu não estava me atirando para cima de ninguém. Eu só tropecei e Silas... o Sr. Seton me segurou, — Eu vi o que o bandido estava tentando fazer! As mãos dele estavam envolvendo você! — Por favor, papai, fale mais baixo. Não era o que está pensando! A discussão continuou, a voz de Avery ficava cada vez mais alta, e Silas, completamente indeciso, torcia o chapéu contra o peito. O pobre homem, pálido, magro, de traços vulgares, quase em pânico, lançava olhares nervosos na direção da sala. — Acho que isso vai demorar algum tempo — disse Christo-pher, vestindo o casaco. Quando Silas olhou para ele, indicou a sala com um movimento da cabeça. — Um rum bem forte vai acalmar seu estômago. Ou talvez queira comer alguma coisa comigo, na estalagem? Pode voltar aqui mais tarde, se quiser.


— Bem... ah... acho que... — Ouviram um grito furioso de Avery. Silas arregalou os olhos e tomou sua decisão. — Acho que vou aceitar, senhor. Muito obrigado. — Pôs o tricórnio, grato ao pretexto para sair daquela casa. Disfarçando um sorriso, Christopher abriu a porta. Saíram recebidos pelo vento frio e pela chuva de granizo. Silas estremeceu e levantou a gola do casaco. O nariz ficou vermelho como um farol aceso no meio do rosto. Colocou as luvas rasgadas e pôs no pescoço um velho cachecol puído. Christopher ergueu uma sobrancelha, interrogativo. Nada parecia provar que o homem tinha posses. Sua aparência era a de um humilde contador com um ordenado miserável. Seria interessante ver quanto aquele homem estaria disposto a pagar pela mão de Erienne Fleming.

Capítulo Dois APORTA da frente foi fechada com cuidado, mas o efeito foi de um trovão. O som inesperado sobressaltou Avery, interrompendo sua gritaria e ele olhou para o hall com a boca aberta, percebendo que não só Christopher tinha ido embora, mas levara com ele Silas Chambers. Com um rugido de desespero, Avery voltou-se para a filha e ergueu as mãos. — Veja o que você fez! Perdemos outro por causa da sua maldita idiotice! Que diabo, menina! Acho melhor me explicar por que deixou aquele bandido entrar na minha casa, ou vai levar umas boas chicotadas. Erienne passou a mão na mancha deixada pelos dedos do pai no seu braço. Vendo os cabides vazios ao lado da porta, alegrou-se. Finalmente tinha expulsado aquele tratante da sua casa. Com alívio, viu que Silas tinha ido também. Porém, ao mesmo tempo envolveu-a uma sensação de perda, como se algo extremamente agradável e visto por pouco tempo tivesse desaparecido da sua vida para sempre. Disse, medindo as palavras, tentando explicar: Eu não conhecia Christopher Seton, papai, e sempre que o senhor ou Farrell o descreviam era de modo muito diferente do que ele é. O senhor me disse que Silas Chambers viria hoje, e quando vi um homem na porta pensei que fosse ele. — Virou o rosto, Furiosa com o engano tolo. – E ele agiu como um animal, deixando-me acreditar que era outra pessoa! A voz de Avery era quase chorosa quando disse: Minha filha leva meu inimigo mortal para seu quarto, na minha casa, e só os santos sabem o que aconteceu. E agora ela diz que foi um engano. Um mero engano. Erienne bateu com o pé no chão. — Foi Farrell, papai! Ele chegou bêbado e dormiu no chão da sala. Bem aí onde o senhor está. E o Sr. Cham... quero dizer, Seton teve a bondade de carregá-lo para cima e para a cama. Avery rugiu, com os olhos em fogo. — Você deixou aquele miserável pôr as mãos em Farrell outra vez? — Ele não o machucou. — Erienne esfregou a ponta do sapato no tapete, embaraçada, murmurando baixinho: "Foi de mim que ele abusou." A resposta não diminuiu a fúria de Avery. — Santo Deus! Você fala como se ele fosse um maldito santo! Ele não o machucou —


imitou esganiçadamente a voz da filha e apontou um dedo acusador para a porta. — Foi aquele demônio que desgraçou meu pobre Farrell. O mesmo com quem você estava se divertindo! — Divertindo! — disse Erienne, chocada com o termo. — Papai! Nós pusemos Farrell na cama e quando eu ia descer a escada, tropecei. Ele me segurou! Ele me salvou de uma queda! E isso, papai, foi tudo o que aconteceu. — Pois foi o suficiente! — Avery ergueu as mãos outra vez, depois, cruzando-as nas costas, começou a andar de um lado para o outro na frente da lareira. — Pois foi o suficiente — repetiu, virando a cabeça e continuando — para dar ao Sr. Chambers a visão da sua futura noiva nos braços de outro homem. Com certeza a esta hora ele já está no meio do caminho para York. Erienne suspirou, frustrada. — Papai, Silas Chambers nunca foi meu futuro noivo. Só mais um dos seus preciosos prospectos. Avery balançou a cabeça, triste, e resmungou. — Só mais um. E o número diminui a cada dia. Sendo quase impossível convencê-los de que você será uma boa mulher — Sua fúria encontrou novas forças. — Você e suas idéias grandiosas. Quer poder respeitar o homem com quem se casar e gostar dele, você diz. Bobagem! É só uma desculpa para rejeitar todos. E já trouxe o que há de melhor, e você não quer saber de nenhum — O que há de melhor? — zombou Erienne. — Está dizendo que trouxe o que há de melhor? Trouxe um glutão asmático e um velho trôpego, quase cego, um homem insignificante e magricela com verrugas peludas no queixo. E diz que trouxe o que há de melhor? Avery parou de andar e olhou para a filha, ofendido. Eram todos solteiros, recomendados, de boa família e todos com dinheiro. — Papai — a voz de Erienne era uma súplica —, traga um cavalheiro jovem e bonito, com dinheiro, e eu vou amar o senhor e tomar conta do senhor pelo resto da minha vida. Avery olhou para ela, zangado, e assumindo sua melhor postura, disse: — Escute, filha, estou vendo que há um grande erro no seu modo de pensar. Se Erienne estivesse perto de uma cadeira, teria caído sentada, em profundo desânimo. Limitou-se a olhar para o pai com o rosto completamente inexpressivo. — Agora, ouça bem, menina. Vou lhe dar um pouco de pura sabedoria. — Balançou o dedo na frente dela, para dar ênfase ao que dizia. — Há muito mais num homem do que um rosto bonito ou ombros largos e fortes. Veja seu precioso Sr. Seton, por exemplo. Erienne estremeceu ao ouvir aquele nome e apertou os dentes para não dizer o que pensava dele. O miserável! Ele a enganara deliberadamente! — Pois aí está um espertalhão. Sempre fazendo planos para tirar vantagem. Erienne quase balançou a cabeça concordando, mas se conteve a tempo. O homem aproveitara seu engano para se divertir, e agora seu orgulho revoltava-se, reconhecendo que, durante todo o tempo, ele estava fazendo pouco dela. — Como o homem é muito rico, suponho que aquelas mulheres do porto sintam orgulho em ser abraçadas por ele, mas nenhuma moça decente vai querer ter qualquer coisa com aquele tipo. Ele encheria a barriga dela de filhos sem ao menos


uma promessa de casamento. E mesmo que você conseguisse casar com ele, o que eu duvido, logo o bandido encontraria uma porção de razões para se cansar de você. É assim que ocorre com esses conquistadores bonitos. Orgulham-se tanto do que têm dentro da calça quanto com a beleza do rosto. Corando até a raiz dos cabelos, Erienne lembrou de ter olhado exatamente para aquilo de que o pai estava falando, talvez com a curiosidade natural a todas as virgens. — É verdade que aquele Seton é um homem bonito, para quem gosta de queixo forte e marcado. — Avery passou a mão nas pelancas sob o rosto. — Mas para quem sabe das coisas, ele é um homem frio, isso ele é. Pode-se ver isso nos olhos dele. Erienne lembrou do calor daqueles límpidos olhos verdes e duvidou do que o pai dizia. Havia intensidade e uma vida vibrante nos olhos verdes de Seton que ninguém podia negar. Avery continuou: — Com aqueles modos arrogantes e falsos, tenho pena da mulher que casar com ele. Mesmo detestando o homem, Erienne tinha de discordar outra vez do pai. Sem dúvida a mulher de Christopher Seton seria muito mais invejada do que digna de pena. — Não precisa se preocupar, papai. — Ela sorriu, tristemente. — Nunca mais vou me deixar levar pelos truques do Sr. Seton. Erienne pediu licença, subiu a escada e parou por um minuto na porta do quarto de Farrell. Ele continuava a roncar placidamente. Sem dúvida, ia dormir o dia todo e quando a noite chegasse sairia para outra bebedeira. Franzindo a testa, ela olhou em volta. Um leve perfume de colônia masculina pairava no ar. Por um momento os olhos verdes, acentuados pela sombra cinzenta, apareceram em sua mente, sugerindo o que os lábios fortes e bem-feitos não tinham dito. Erienne balançou a cabeça para expulsar a visão e olhou para o primeiro degrau da escada. A lembrança do abraço e da proximidade dele a fez estremecer. Quase podia sentir os braços em volta do seu corpo e a firmeza macia do peito musculoso contra o seu. Com o rosto em fogo, ela correu para o quarto, procurando dispersar o devaneio, atirou-se na cama e ficou olhando a chuva pela janela. A voz suave e zombeteira ecoava em sua mente. Jogada fora! Passar por cima! Bovina! De repente, arregalou os olhos, compreendendo afinal o que ele queria dizer. Não era nada agradável saber que ele não passaria por cima dela para alcançar uma vaca. Erienne amaldiçoou a ironia dele e a si mesma por não ter percebido logo o significado. Com um gemido doloroso, deitou de costas e olhou para as rachaduras no estuque do teto, que, como o vidro da janela castigado pela chuva, também não ofereceram nenhum alívio para sua angústia. Lá embaixo, Avery continuava a andar agitado, de um lado para o outro. Encontrar um marido rico para a filha era mais difícil do que pensara. Justamente quando Silas Chambers começava a se entusiasmar com a idéia de uma mulher jovem e bela, aquele patife do Seton apareceu para estragar tudo, como se já não tivesse feito bastante mal aos Fleming.


- Maldição! — Avery bateu com o punho fechado na palma da outra mão e depois procurou uma bebida forte para aliviar a dor da mão e a do espírito. Recomeçou a andar pela sala, amaldiçoando a própria sorte. — Inferno! Maldição! Avery começou a melhorar sua carreira no serviço de Sua Majestade, desde que, por acaso, salvou um tal barão Rothsman de ser capturado, durante um confronto com os irlandeses rebeldes. O barão foi efusivo em sua gratidão e convenceu o capitão a dar baixa e juntar-se aos seus homens na Corte em Londres. Protegido pela influência do barão, Avery galgou vários degraus da carreira política. Com olhar distante, Avery tomou outro gole da bebida. Fora um tempo maravilhoso, um redemoinho infindável de conferências e reuniões de alto nível e, à noite, os bailes e os compromissos sociais. Apareceu então uma viúva de cabelos claros, muito bela, de boa linhagem, que, embora com olhos sempre tristes, não rejeitou suas atenções. Avery descobriu que o ato final do primeiro marido da beldade, um irlandês rebelde, fora testar o comprimento de uma corda numa das prisões de Sua Majestade, logo depois do seu casamento. A essa altura, Avery já estava apaixonado, pouco se importando com o fato de ela ter amado um inimigo, e pediu-a em casamento. Uma criança nasceu, uma menina com cabelo tão escuro quanto o da mãe era claro, e dois anos depois nasceu um menino, com cabelos castanhos-claros e rosto corado como o pai. Um ano depois do nascimento do filho, Avery foi promovido outra vez a um posto de responsabilidade, muito acima de sua competência, mas que significou sua entrada para o clube da elite de Londres e o acesso aos jogos de azar que se realizavam dentro das paredes de veludo. Avery, deslumbrado, entregou-se completamente ao jogo, como um pato se atira à comida destinada a engordá-lo para a panela, sem pensar no fim que o espera. A despeito das advertências da mulher, ele passou a apostar alto e até investiu num cavalo que parecia viciado no espetáculo de ver sempre muitos outros na sua frente. Seus excessos no jogo e sua ineficiência no trabalho provocaram tantos embaraços a Rothsman que o barão deixou de recebê-lo. Ângela Fleming sofreu as conseqüências. Viu sua fortuna desaparecer aos poucos, e, finalmente, o único dote que podia providenciar para a filha era uma boa educação e o maior preparo possível para a vida de esposa em qualquer nível que ela pudesse escolher. — Maldita idiotice! — resmungou Avery. — Com o dinheiro que aquela mulher gastou com essa menina tola... Ora, eu poderia, estar morando em Londres. Demitido da posição na cidade, Avery fora banido para o norte da Inglaterra, como prefeito de Mawbry e cautelosamente designado para os trabalhos mais simples por lorde Talbot. Ao deixar Londres, deixou também suas dívidas, sem se preocupar com a possibilidade de ser preso por isso, porque dificilmente o encontrariam no longínquo norte. Era a oportunidade de recomeçar a vida e provar que era um homem de grande inteligência. Então Angela morreu, e ele passou por um breve período de luto. Um bom jogo de cartas aparentemente aliviava a dor da perda, e logo ele começou a ir com Farrell a Wirkinton, nos fins de semana, ou se encontrava com amigos na Estalagem de Mawbry para jogar, durante a semana. Sempre à procura de jogos de azar, ia com freqüência ao porto, onde tinha certeza de encontrar uma cara nova e uma bolsa


cheia. Alguns marinheiros certamente suspeitavam que sua habilidade com as cartas devia-se menos à sorte do que destreza dos seus dedos, mas um simples marinheiro nunca ousaria acusar um prefeito. Avery fazia uso dos seus talentos só quando as apostas eram altas ou quando precisava muito de dinheiro. Não era egoísta e muitas vezes pagava uma rodada ou duas de rum para os companheiros, com o dinheiro ganho no jogo, mas os homens do mar em geral são maus perdedores, especialmente os briguentos e traiçoeiros ianques, e Avery suspeitava que muitos deles queixavamse aos seus capitães. Amaldiçoava a si mesmo por não ter sido mais cauteloso quando Christopher Seton quis participar do jogo. Em geral era fácil identificar um capitão de navio. Acontece que Christopher era diferente. Deslumbrado pelo tamanho da bolsa do ianque, Avery resolveu esvaziá-la substancialmente. Era um desafio excitante, ganhar de um cavalheiro endinheirado. Qualquer que fosse o resultado do jogo, prometia ser um bom espetáculo, mesmo para os meros espectadores. Os marinheiros, com as mulheres do porto, reuniram-se em volta da mesa. Durante algum tempo, Avery jogou honesto, entregando-se ao capricho da sorte inconstante; então, quando as apostas começaram a crescer, entrou com sua habilidade, escondendo as cartas que precisava. No outro lado da mesa, aqueles olhos verdes continuaram inexpressivos, e o sorriso não desapareceu do rosto bronzeado. Assim, quando Seton estendeu o braço por sobre a toalha, e abriu seu casaco, espalhando as cartas escondidas, para que todos vissem, Avery foi tomado completamente de surpresa. Boquiaberto, procurando um meio de negar a acusação, tudo que conseguiu pronunciar foram palavras sem sentido. Olhou em volta, à espera de alguma ajuda, que não encontrou, até Farrell entrar na sala e correr em defesa do pai. Inexperiente e pouco ajuizado, o jovem Fleming desafiou o estranho para um duelo. Relembrando, Avery abaixou a cabeça. Ele era o principal culpado do que acontecera com o filho. Mas como admitir isso para alguém, a não ser para si mesmo? Esperava que Farrell matasse o estrangeiro, cancelando assim a sua dívida. Devia duas mil libras ao miserável! Por que a sorte não o favorecera, ao menos nessa vez? Por que Farrell não podia ter acabado com a vida do homem? Mesmo que Seton possuísse uma frota de navios, ninguém na Inglaterra ia cobrar sua morte. Ele era estrangeiro. Um ianque qualquer. Com um esgar de desprezo, Avery lembrou-se dos marinheiros do navio ianque, o Çhristina, rindo, satisfeitos, e batendo nas costas do homem, chamando-o respeitosamente de Sr. Seton. Do modo como festejavam a vitória de Seton, Avery não teve dúvida de que estariam dispostos a brigar em sua defesa. Tudo saiu bem para o ianque, e os Fleming nada tinham do que se orgulhar. A história de que ele fora acusado de roubo no jogo espalhou-se como uma praga, e os credores começaram a persegui-lo, exigindo pagamento de todas as suas dívidas. Avery curvou os ombros num gesto cansado. O que um pobre pai podia fazer? Um filho aleijado! Uma filha arrogante e exigente! Como ia resolver sua vida?" Começou a planejar o novo método de ação para casar a filha. Um rico comerciante que morava perto de Wirkinton ficara ansioso para conhecer Erienne, depois que Avery descrevera sua beleza e seus muitos talentos. Embora muito velho, Smedley Goodfield sabia apreciar mulheres Jovens e certamente ia gostar de Erienne. O único defeito que Havery via no homem era a avareza. Ele só se separava do dinheiro


quando era obrigado. Porém, com uma jovem para aquecer sua cama e seu sangue, talvez fosse mais generoso. Além disso, velho como era, não ia viver muito. Avery imaginou Erienne viúva e rica. Se isso acontecesse, ele poderia gozar outra vez os prazeres da vida. Avery coçou o queixo e sorriu com ar astuto. Faria isso! Logo de manhã iria a Wirkinton fazer a proposta ao velho comerciante. Tinha certeza de que o homem aceitaria. Então, informaria a filha e os dois visitariam Smedley Goodfield. É claro que Erienne não ia gostar da sua escolha, mas teria de se submeter. Afinal, sua mãe fizera isso. Muito mais animado, Avery tomou outra dose de bebida para comemorar sua decisão. Depois, levantou-se e pôs o chapéu na cabeça. Alguns dos seus amigos estavam apostando no tipo de animais que iam chegar ao mercado de Mawbry, se a primeira leva seria de ovelhas, de gansos, e assim por diante. Antecipando a entrada de Smedley Goodfield para a família, ele podia agora fazer suas apostas. A Estalagem do Javali, em Mawbry, servia de ponto de encontro para os viajantes e para os moradores da cidade e raramente estava vazia. Colunas enormes e rústicas serviam de suporte ao andar superior da estalagem, dando uma impressão de privacidade a quem entrava na parte de baixo. O cheiro acre de cerveja forte e o aroma da carne grelhada penetravam nos cantos escuros da sala. Pequenos barris de cerveja e de rum alinhavam-se contra uma das paredes e na frente deles o estalajadeiro limpava o balcão de madeira com um pano molhado. Olhava uma vez ou outra para um bêbado que cochilava num canto escuro, na extremidade do bar, e uma garçonete servia comida e canecas de cerveja a dois homens que conversavam em voz baixa na ponta da mesa sobre cavaletes, perto da lareira. Sentado perto da janela, Christopher Seton jogou algumas moedas sobre a madeira gasta da mesa para pagar sua despesa e a de Silas Chambers, depois recostou na cadeira para terminar com calma sua cerveja. Os latidos dos cães, lá fora, anunciaram a partida apressada do Sr. Chambers e de sua velha carruagem. Christopher olhou pela janela e sorriu. O homem ficara evidentemente perturbado com a briga entre pai e filha e encontrando alguém para pagar sua bebida confessou que estava um pouco hesitante em casar com a moça. Ao que parecia, o prefeito enfatizara o bom gênio da filha, bem como sua beleza e, embora esta última fosse real, o Sr. Chambers considerava o gênio da moça um tanto violento para o seu gosto. A jovem demonstrara um ardor que ele decerto não estava disposto a enfrentar. Era um homem muito pacífico, bastante cauteloso e muito apegado aos seus hábitos. A idéia de possuir tanta beleza era sem dúvida agradável, mas a demonstração de temperamento forte o assustava. Christopher parecia satisfeito quando Silas Chambers deixou aestalagem. Não foram necessárias advertências assustadoras, nem certas insinuações para que Silas desistisse de voltar à casa dos Fleming. Bastou sacudir a cabeça, compreensivo, erguer os ombros e demonstrar um pouco de simpatia para convencer o homem de que devia estudar esse assunto de casamento com a maior cautela. Silas parecia quase ansioso para acatar o conselho. Afinal, concluiu ele, em voz alta, tinha sua pequena fortuna para proteger e era preciso ter muito cuidado na escolha da esposa. Christopher percebeu que havia alguém ao lado da sua mesa e erguendo os olhos viu o pequeno beberrão, mal-ajambrado, com o olhar ávido para sua caneca de cerveja


cheia até a metade. — É estranho por aqui, patrão? Não era difícil saber o que o atraíra, mas Christopher queria saber mais sobre Mawbry e seu prefeito e estava disposto a ouvir um pouco a conversa do bêbado da cidade. Balançou a cabeça afirmativamente, e o homem abriu um largo sorriso, mostrando os dentes cariados, antes de olhar para a caneca outra vez. — O velho Ben pode acompanhá-lo, patrão? Christopher indicou a cadeira deixada por Silas Chambers. Assim que se sentou, o homem agarrou a caneca e bebeu até a última gota. Christopher chamou a garçonete. — Outra cerveja para o meu amigo aqui — disse ele —, e talvez um pouco de carne para encher sua barriga. — É um verdadeiro santo, patrão — riu o homem, balançando as bochechas flácidas e o nariz carnudo e vermelho. Veias arroxeadas riscavam seu rosto e um dos olhos azuis-claros era coberto Por uma névoa esbranquiçada. Ele olhou, nervoso, em volta, esperando a cerveja e a comida. A mulher o serviu de carne e cerveja, inclinou-se para apanhar as moedas sobre a mesa e sorriu para Christopher, convidando-o a apreciar suas curvas voluptuosas reveladas Pela blusa decotada. Num movimento inesperado, o velho Ben pôs a mão rapidamente sobre a dela, surpreendendo seu benfeitor e a garçonete. — Trate de não apanhar mais do que deve, Molly — advertiu. — São dezpence por cada cerveja e mais doispence pela carne. Portanto, conte com cuidado. Não vou deixar que tome um ou dois pence a mais. Nunca foi generosa com o velho Ben e não vou deixar que roube do cavalheiro meu amigo. Christopher disfarçou um sorriso, e Molly olhou furiosa para o bêbado. Mas contou com cuidado o dinheiro e afastou-se. Satisfeito, Ben voltou toda atenção à carne e à cerveja. — É muita bondade sua fazer isto para o velho Ben — murmurou, finalmente, limpando a gordura dos lábios com a manga rasgada. Tomou um bom gole de cerveja, depois suspirou profundamente. — Não tem muita gente por aqui disposta a me dar atenção, muito menos um banquete como este. O velho Ben agradece muito. — Está precisando de emprego? — perguntou Christopher. O homem ergueu os ombos magros. — Ninguém confiaria a Ben nem uma pitada de sal, quanto mais algum serviço. Não foi sempre assim. O velho Ben serviu nos navios de Sua Majestade por mais de vinte anos, — Passou a mão no queixo barbado, pensativo, e olhou para o cavalheiro bem vestido. — Pelo seu andar, vejo que já esteve a bordo uma ou duas vezes — Uma ou duas vezes, talvez — respondeu Christopher. — Mas pretendo ficar em terra, agora. Pelo menos por um tempo. — Está hospedado aqui, na estalagem? Seton fez um gesto afirmativo. Ben fez outra pergunta: — Está procurando um lugar para morar? — Se estivesse, teria alguma sugestão? — perguntou Christopher. Ben olhou fixamente para Christopher e, recostando na cadeira, cruzou as mãos sobre a barriga. — Imagino que um cavalheiro como o senhor deve querer uma boa casa com jardim.


É uma pena. Lorde Talbot é dono de quase tudo por aqui. Não acredito que ele esteja disposto a ceder alguma coisa, a não ser para quem gostar da filha dele e casar com ela, claro que não é tão simples assim. Lorde Talbot precisa primeiro achar que o homem é digno de entrar para sua família e, pelo que ouvi, ele é muito exigente, Mas ela não é, entenda bem! — Ele riu — Ela vai gostar do senhor, sem dúvida, A moça gosta de homens Christopher declinou a honra com uma risada. — Na verdade não estou pensando em casamento ainda. — Bem, se estivesse, já que é meu amigo e tudo o mais, eu aconselharia a ir até a casa do prefeito e dar uma olhada na filha dele. Ela é a única pessoa em Mawbry que tem pena do velho Ben e me dá um prato de comida, na porta dos fundos, quando vou até lá. — Esfregou o nariz e riu. — É claro que o prefeito ia ficar uma fera se soubesse. — Se eu pensar seriamente em casar, vou me lembrar da sua sugestão. — Os olhos verdes cintilaram por cima da borda da caneca de cerveja. — Mas, escute bem, não vai ter nenhum dote — avisou Ben. — O prefeito não tem dinheiro. E não tenha nenhuma esperança em ganhar terras, como ocorrerá com quem escolher a filha do velho Talbot. — Os olhos congestionados examinaram outra vez a roupa de Seton. — Naturalmente, não vai precisar de outra fortuna. Mas, mesmo com dinheiro, não conseguirá terras por aqui. — Ergueu um dedo e corrigiu. — Exceto, talvez aquela casa velha que queimou há alguns anos. Saxton Hall, é o nome, mas agora é quase só ruínas, não um porto adequado numa tempestade. — Por quê? — Todos os Saxton foram assassinados ou expulsos. Alguns culpam os escoceses, outros dizem que não foram eles. Há mais de vinte anos o velho lorde foi tirado de casa no meio da noite e assassinado com uma espada de dois gumes. A mulher e os filhos conseguiram escapar, e não se ouviu mais falar neles até... oh... uns três... ou quatro anos atrás, quando um dos filhos voltou para reclamar o que lhes pertencia. Oh, era um homem orgulhoso, isso ele era. Alto como o senhor, com olhos que atravessavam a gente quando ficava zangado. Então, mal tinha firmado os pés no lugar, a casa pegou fogo e ele morreu queimado. Alguns dizem ”foram os escoceses, outra vez”. — Ben balançou a cabeça. — Outros dizem que não foram. Christopher estava curioso. — Está dizendo que acha que não foram os escoceses? Ben balançou a cabeça de um lado para o outro. — Tem gente que sabe, senhor, e gente que não sabe. Não é seguro ser um dos que sabem. — Mas você sabe — insistiu Christopher. — com sua inteligência, você tem de saber. Ben sorriu com malícia. — Isso mesmo, é bem esperto, senhor. Eu sou inteligente, e nos bons tempos o velho Ben andava com os melhores. Muita gente pensa que o velho Ben é um bêbado tolo e meio cego, mas vou lhe dizer, o velho Ben tem bons olhos e bons ouvidos para ver e ouvir o que acontece. — Inclinou-se para a frente e disse com voz quase inaudível: — Posso contar coisas de arrepiar os cabelos sobre certas pessoas. Ora, tem gente que acha graça em ver um homem morrer queimado, isso tem. — Balançou a cabeça,


preocupado. — Acho melhor não falar nisso. Não faz bem à saúde. Christopher chamou Molly e pôs outra moeda na mesa quando ela serviu mais uma cerveja, toda calor e sorrisos para ele. mas então olhou para o velho Ben com desprezo e afastou-se com ar ofendido para servir o homem que estava perto da lareira. Ben tomou um grande gole de cerveja, depois recostou-se outra vez na cadeira. — O senhor é um verdadeiro amigo, Juro, pelo túmulo da minha mãe, que é. Um homem forte, com cabelo vermelho e comprido, amarrado na nuca, sob o tricórnio, entrou na estalagem, batendo os pés para tirar a lama das botas e passando as mãos no casaco para tirar as gotas de chuva. Logo atrás dele entrou outro, que fez a mesma coisa e cuja orelha parecia tremer independente da vontade do dono. Ben curvou os ombros para a frente, como para evitar que os recém-chegados o vissem e tomou, apressado, o resto da cerveja, antes de deslizar para fora da cadeira. — Preciso ir agora, senhor, Os dois homens atravessaram a sala na direção do bar, e Ben saiu de mansinho para a rua, com as abas do casaco esvoaçando atrás dele, e um rápido olhar por sobre o ombro, anttes de desaparecer na esquina. — Timmy Sears! — saudou o estalajadeiro, com uma risada. — Há quanto tempo não o vejo. Já estava pensando que a terra o tinha engolido em algum lugar. — Engoliu, mesmo, Jamie! — rugiu o homem de cabelo vermelho. — Mas o demônio me vomitou de volta! — Ah, você é o próprio demônio ruivo, Timmy, meu rapaz, O estalajadeiro apanhou duas canecas e as encheu de cerveja na torneira do barril. Pôs as duas sobre o balcão escorregadio do bar e com um empurrão hábil fez a primeira deslizar até onde estavam os homens. O homem moreno, com a orelha inquieta, a interceptou e, passando a língua nos lábios, inclinou avidamente a cabeça, mas o companheiro ruivo segurou seu braço com força. — Que diabo, Haggie. Desde que você caiu do cavalo e bateu a cabeça, esqueceu as boas maneiras que aprendeu no berço. Nunca tente pegar o que é meu. Agora que está trabalhando por aqui, não vai esquecer disso, vai? O homem fez um gesto afirmativo e, com prazer antecipado, Timrny Sears levou aos lábios a coroa de espuma da cerveja. Haggie ficou olhando com os lábios franzidos, até a segunda caneca deslizar sobre o balcão. Ele a apanhou e acompanhou o amigo no prazer da bebida. — O que vocês dois estão fazendo aqui num dia como este? — perguntou o estalajadeiro. Sears riu, afastou a caneca dos lábios e bateu com a mão aberta no balcão. — É o único lugar onde posso ficar livre da rabugice da minha mulher. Molly aproximou-se, acariciou o peito dele e sorriu, olhando-o nos olhos. — Pensei que fosse para me ver, Timmy, Segurando-a num abraço de urso, ele a ergueu do chão e a fez girar até Molly quase engasgar de tanto rir. Quando a pôs no chão, com um olhar malicioso, ele tirou uma moeda do bolso do paletó e a atirou para cima, na frente dos olhos da mulher. Molly riu de satisfação, agarrou a moeda e guardou-a no corpete. Afastou-se dele num passo de dança com um sorriso sedutor. A promessa nos seus olhos não precisava de


palavras e quando ela subiu a escada para o segundo andar Timmy a seguiu apressada e avidamente. Haggard Bentworth deixou a caneca no balcão e subiu atrás deles, mas se chocou com as costas de Timmy quando o ruivo parou de repente no primeiro degrau. Sears quase caiu para a frente com a força do impacto, mas conseguiu se equilibrar. Voltou-se com os olhos em fogo. — Não aqui em cima, Haggie — rosnou ele, — Não pode me seguir aqui. Vá tomar outra cerveja, — Empurrou o outro e começou a subir apressadamente atrás dos quadris balouçantes que já estavam quase no último degrau. Christopher riu e então, pela segunda vez, notou alguém ao lado da sua mesa. Levantou os olhos com as sobrancelhas erguidas interrogativamente. O homem moreno que estava ao lado da mesa sobre cavaletes se achava de pé, com a mão no espaldar da cadeira até há pouco ocupada por Bem. Tinha porte militar, embora não estivesse de uniforme. O corpo forte e musculoso estava vestido com um colete curto e sem mangas, uma camisa de fazenda macia e grossa e calça justa enfiada dentro dos canos das botas negras. — Posso acompanhá-lo por um momento, senhor? — Sem esperar resposta, ele virou a cadeira ao contrário e montou no assento, de frente para Christopher. Abriu o colete e ajeitou um par de pistolas no cinto, depois inclinou-se para a frente, com os braços apoiados nas costas da cadeira. — O velho Ben filou umas duas cervejas do senhor, não foi? Christopher ficou calado, imaginando o que o homem queria dele. Em vez de se irritar com a falta de resposta, o estranho deu um sorriso amistoso. — Desculpe-me, senhor. — Estendeu a mão. — Sou Allan Parker, o xerife de Mawbry, designado por lorde Talbot para manter a paz nestas terras. Christopher apertou a mão estendida, apresentou-se e esperou a reação do homem. O xerife não deu nenhum sinal de ter ouvido o nome antes, mas Christopher não acreditava que ele não soubesse do seu duelo com Farrell. — Faz parte do meu dever prevenir os estranhos contra Bem. Dependendo do que bebe, ele em geral descobre fantasmas, demônios e outras criaturas infernais. Não deve ser levado a sério. Christopher sorriu. — É claro que não. O xerife olhou atentamente para ele. — Não me lembro de tê-lo visto por aqui antes. Mora por perto? — Tenho uma casa em Londres, mas um dos meus navios está no porto de Wirkinton, e por isso estou aqui — informou Christopher, sem hesitar. — Vou ficar em Mawbry até terminar meus negócios. — Que negócios são esses, se posso perguntar? — Vim receber uma dívida, e como o meu devedor aparentemente não tem com que pagar vou me demorar um pouco, como incentivo para que ele arranje o dinheiro. Na verdade, do modo que estão as coisas, talvez eu tenha de me instalar aqui por algum tempo. O xerife inclinou a cabeça para trás e riu. — Talvez seja melhor aceitar outra coisa qualquer em lugar do dinheiro. Com um sorriso irônico, Christopher disse: — Exatamente o que pretendo, mas temo que o homem não esteja disposto a me dar


o que quero. — Bem, se está mesmo planejando fixar residência aqui, devo avisar que o único lugar disponível é a estalagem. — Ben mencionou a mansão, semidestruída por um incêndio alguns anos atrás. Disse que o dono morreu queimado e que, ao que ele sabe, ninguém apareceu até agora para reclamar a propriedade. O homem passou a mão nos cabelos negros, num gesto nervoso. — Fui até lá logo que cheguei aqui, e embora digam que um homem morreu queimado não encontrei nem sinal do seu cadáver. Quanto à mansão, pouca coisa foi destruída. Só a ala nova, a única parte feita de madeira. A pedra da velha casa resistiu às chamas. Desde o incêndio, está vazia... a não ser, como dizem os habitantes da cidade, por dois fantasmas, o do lorde, com uma espada atravessada no corpo, e o outro, horrivelmente queimado e deformado. — Franzindo a testa, ele balançou a cabeça, um tanto confuso. — Porém os arrendadores das terras continuam seu trabalho como se esperassem a volta de um dos Saxton a qualquer momento e, quando lorde Talbot perguntou sobre as terras, foi informado de que a família não as vendeu ainda e os impostos são pagos em dia. — Quem recebe os aluguéis? Allan olhou para ele, pensativo, por um momento. — De onde o senhor disse que é? — O que isso tem a ver com o que perguntei? — Christopher amaciou a pergunta com um sorriso. — Eu só estava curioso — disse Allan, em tom delicado. — Sou de Boston, e estou à procura de portos de comércio para os meus navios. — Ergueu uma sobrancelha e olhou para o xerife. Allan deu de ombros. — Por enquanto, acho que lorde Talbot recebe os aluguéis. Faz isso mais ou menos como um favor à família, até que seja resolvida outra coisa sobre a propriedade das terras. — Então não é ele quem paga os impostos? — Não quando ele deseja possuir as terras. Seria tolice fazer isso. — Então talvez esse lorde Saxton não esteja morto — observou Christopher. Levantou-se e vestiu o casaco longo. — Sou xerife desse lugar há três anos e não vi nenhuma prova de que esteja vivo — disse Allan. Olhou pela janela, quando uma grande carruagem passou na rua e levantou-se rapidamente. — Aquela é a carruagem de lorde Talbot. Ele sabe mais sobre Saxton Hall do que qualquer outra pessoa. Venha, eu o apresento. — Allan sorriu — Se tiver sorte, conhecerá também sua filha, Claudia.… Christopher pôs o chapéu, saiu da estalagem com o xerife, e atravessaram a rua calçada de pedras. A carruagem parou perto da estalagem, e o cocheiro saltou bem rápido para pôr o banquinho na frente da porta onde estava desenhado o brasão dos Talbot. Os elementos decorativos formavam a maior parte das armas e o desenho no escudo propriamente dito era pequeno e confuso, o que fazia a contrabanda bastante indefinida. A riqueza da carruagem comparava-se à da realeza e a aparência de lorde Talbot, quando desceu, era mais deslumbrante ainda, pois usava os brocados, as


rendas e as sedas de uma era passada. Era um homem de meia-idade, muito bem conservado. De frente para a porta, estendeu a mão para uma mulher delgada e de cabelos negros. Os trajes dela eram mais discretos, e vista de longe parecia bastante com Erienne Fleming. Porém, vendo-a mais de perto, Christopher percebeu que não era tão bela quanto a filha de Fleming. Os olhos escuros estreitavam-se demais nos cantos e não tinham as pestanas sedosas que protegiam os lagos de ametista de Erienne. Embora seus traços não fossem vulgares, não tinham a fina delicadeza do rosto da filha do prefeito, e sua pele não era tão clara. Porém, seria difícil encontrar uma mulher igual ou mais bela do que Erienne. Claudia Talbot parou um momento, ajeitou com cuidado o capuz da capa para proteger o penteado da chuva fina e só então deu o braço ao pai. Seus olhos mediram Christopher numa avaliação evidente dos seus atributos físicos. — Ora, Allan — disse ela —, nunca pensei que se desse ao trabalho de atravessar a rua para me apresentar outro homem. Você não tem nem um pouco de ciúmes? O xerife riu e respondeu à altura. — Claudia, acredito piamente que vai me ser sempre fiel, mesmo no meio de um regimento de homens. — Estendeu a mão, indicando o homem ao seu lado. — Posso lhe apresentar Christopher Seton, de Boston? Um cavalheiro, pela qualidade das suas roupas e, se não tiver cuidado, mais um a ser vencido por seus encantos. — É uma honra, Srta. Talbot — disse Christopher, inclinando-se galantemente sobre a mão enluvada da jovem. — Meu Deus, como você é alto — observou ela, com fingida timidez. Christopher conhecia bem as artes das mulheres sedutoras e percebeu o brilho ousado nos olhos escuros. Se quisesse companhia feminina, ali estava um convite explícito. — E este nobre cavalheiro é lorde Nigel Talbot — disse Allan, concluindo as apresentações. — Seton... Seton... — disse lorde Talbot, pensativo. — Já ouvi esse nome antes. — Talvez tenha ouvido relacionado com minha pequena desavença com seu prefeito, algumas semanas atrás — sugeriu Christopher. Lorde Talbot olhou para ele com curiosidade. — Então, é o que duelou com Farrell, hem? Bem, não posso culpá-lo. Aquele rapazinho arranja problemas onde quer que apareça. — O Sr. Seton está em Mawbry a negócios — informou Allan. - Talvez se interesse na compra de uma propriedade perto daqui. Lorde Talbot riu. — Então, desejo-lhe boa sorte, senhor. É trabalhoso organizar propriedades e arrendadores, mas a longo prazo tem suas compensações quando se consegue acumular o poder desejado. Entretanto, para isso um homem precisa ser rico. Christopher sustentou o olhar quase desafiador do homem. — Eu estava pensando em Saxton Hall. — Ora, não ia querer aquela casa — advertiu Claudia, docemente. — Está semidestruída e cheia de fantasmas. Qualquer pessoa por aqui pode lhe contar que a propriedade só tem visto desgraça. — Na verdade, não vejo a possibilidade de um estrangeiro adquirir a casa ou as terras. — Lorde Talbot olhou atento para o ianque. — O senhor tem uma profissão


ou vive de renda? — Na verdade, um pouco das duas coisas — sorriu Christopher, mostrando os dentes muito brancos. — Tenho vários navios que fazem comércio em diversos portos no mundo todo, mas também levo uma vida folgada. Os olhos escuros de Claudia iluminaram-se. — Deve ser muito rico. Christopher ergueu os ombros. — Consigo desfrutar certos confortos. — Saxton Hall seria uma propriedade valiosa, com todas as suas terras, mas infelizmente não está disponível — disse lorde Talbot, com um breve sorriso. — Se estivesse, eu a teria comprado há muito tempo. — Papai, o senhor compraria toda a Inglaterra se o rei permitisse — disse Claudia, batendo de leve no braço dele. Lorde Talbot sorriu para ela. — Preciso fazer isso para atender às suas exigências. Claudia deu uma risadinha nervosa. — Isso me faz lembrar que prometi passar na casa da costureira para escolher a fazenda do meu novo vestido. Como o senhor precisa tratar de negócios com o prefeito, tenho de arranjar outro acompanhante. — Os cantos dos seus lábios ergueram-se atrevidamente, e ela olhou para Christopher. — Posso ter a ousadia de pedir que me acompanhe, Sr. Seton? — Claudia! — exclamou o pai, chocado. — Você acaba de conhecê-lo! — Papai, todos os jovens elegíveis da cidade morrem de medo do senhor — protestou ela, como se se tratasse de uma discussão muito antiga. — Se eu não tomar a iniciativa vou morrer solteirona. com um sorriso divertido, Christopher olhou para lorde Talbot, que parecia extremamente chocado com a ousadia da filha. — com sua permissão, senhor. Lorde Talbot, relutantemente, concedeu, com um gesto, e Allan riu muito quando Christopher ofereceu o braço a Claudia. com um ar vitorioso e a cabeça erguida com orgulho, caminhou ao lado dele. Acompanhada por aquele homem, seria outra vez alvo de inveja de todas as mulheres de Mawbry. com satisfação especial, notou uma mulher na janela do andar superior da casa do prefeito. Claudia detestava as comparações que faziam entre as duas, que a relegavam para o segundo plano em beleza. Na verdade, deliciava-se quando alguém descrevia o pretendente que o prefeito tinha arranjado para a filha. Seu maior desejo era ver Erienne casada com um homem horrível e vulgar. — Ao que parece, Claudia encontrou outro alvo de suas atenções por algum tempo — observou Allan, com humor. Lorde Talbot gemeu, fingindo preocupação. — Às vezes, quase desejo que a mãe dela tivesse vivido mais um pouco. Considerando o quanto ela era rabugenta, você pode calcular o meu desespero. O xerife riu e indicou a casa do prefeito com um movimento da cabeça. — Claudia disse que tem negócios a tratar com Avery. Quer que eu o acompanhe? Lorde Talbot declinou. — Não. É assunto pessoal. — com um gesto, indicou o casal que se afastava. — O que


pode fazer por mim é ficar de olho naquela menina atrevida. Não me agrada a idéia de ter um ianque na família. Allan sorriu. — vou fazer o melhor possível, senhor. — Então o deixo cumprir seu dever. com passos decididos, lorde Talbot caminhou para a casa do prefeito e bateu na porta com a parte superior de prata da sua bengala. Não atenderam imediatamente e ele começava a se perguntar se iam atender quando a porta foi apenas entreaberta. Erienne espiou para fora e teria ficado aliviada por que não se tratava de Silas Chambers, se gostasse um pouco mais de lorde Talbot. Mas ela não gostava. Ele abriu mais a porta, empurrando-a com a bengala, obrigando Erienne a recuar. — Não fique me espiando através das frestas, Erienne. — Sorriu, examinando-a da cabeça aos pés. — Gosto de ver as pessoas com quem falo. Seu pai está em casa? Confusa e nervosa, Erienne inclinou levemente a cabeça, num cumprimento, e respondeu. — Oh, não, senhor. Ele está em algum lugar da cidade. Não tenho certeza, mas deve chegar a qualquer momento. — Muito bem, então, com sua permissão, esperarei ao lado do fogo. Está um tempo horrível. Lorde Talbot passou pela jovem e parou para tirar o casaco e o tricórnio, entregandoos a ela, antes de entrar na sala, deixando-a sozinha para fechar a porta e dependurar o casaco e o chapéu. Quando entrou na sala, ele já estava sentado na frente da lareira, com as pernas cruzadas, as abas do paletó abertas, mostrando boa parte da perna coberta com a calça justa, de seda, que ia até abaixo dos joelhos e as meias. Os olhos dele brilharam quando a viram e a recebeu com o que pretendia fosse um largo sorriso paternal. — Minha cara Erienne, você fez um belo trabalho dirigindo esta casa depois da morte da sua mãe. Espero que seja feliz aqui. Seu pai parece ter se adaptado muito bem aos seus deveres. Ora, ainda outro dia... Ele continuou a falar, observando os movimentos da jovem. Falou sem parar, não por estar pouco à vontade, mas procurando aliviar a tensão, pois Erienne parecia bastante nervosa com sua presença. Afinal, ela era uma jovem bastante desejável, e parecia incrível que fosse filha de Avery. Erienne ouvia, distraída, a voz monótona de lorde Talbot. Conhecia muito bem a fama dele. Tinha ouvido muitos rumores das suas aventuras desde que se mudaram para Mawbry. Assim, fazia questão de passar várias vezes pela frente da janela para que os curiosos lá fora (e ela sabia que devia haver alguns) testemunhassem sua inocência. — vou fazer chá, enquanto esperamos — disse ela, hesitante. Atiçou o fogo com mais alguns pedaços de turfa e dependurou sobre ele a chaleira com água. Nigel Talbot observava Erienne com ardor crescente. Fazia algumas semanas que estivera em Londres, onde havia entretido algumas conhecidas ardentes e enfeitadas de rendas, nos seus luxuosos apartamentos. Era incrível que ele tivesse ignorado aquela fruta rara e especial no seu próprio pomar, mas considerando a atitude modesta e discreta de Erienne era fácil compreender por que não a notara antes. As mais ousadas chamavam logo atenção, mas nem sempre eram as melhores. Erienne


Fleming era de primeira qualidade e sem dúvida intocada. Mentalmente ele a viu só de combinação e espartilho, com os seios generosos e a cintura fina, que podia ser rodeada com os dedos das duas mãos. Imaginou o cabelo negro solto sobre os ombros macios e seus olhos cintilaram, pensando nas possibilidades. Evidentemente era um assunto delicado que devia ser abordado com cautela. Ele não pretendia oferecer casamento, mas certamente Avery não seria tão tolo a ponto de recusar uma bela quantia pela filha. Lorde Talbot levantou-se da poltrona e assumiu sua melhor pose heróica, a mão esquerda apoiada elegantemente na bengala, a direita segurando a lapela do casaco de brocado, para que ela pudesse admirar seu corpo viril. Uma jovem experiente teria olhado avidamente para o que ele estava ansioso por mostrar, em vez de continuar atenta ao que estava fazendo. — Minha cara Erienne... O desejo fez com que sua voz soasse com mais força do que ele pretendia e o inesperado das palavras sobressaltou Erienne. A xícara e o pires que ela segurava tilintaram entre seus dedos, quase caindo no chão. Nervosa, ela os deixou no aparador e, cruzando as mãos ainda trêmulas, voltou-se para ele. Nigel Talbot era um homem experiente, tendo havia muito deixado os anos impetuosos da juventude. Parou e tentou outra vez, agora com maior cordialidade. — Minhas desculpas, Erienne. Não quis assustá-la. Acontece que percebi que nunca olhei para você realmente. — Enquanto falava, foi se aproximando dela. — Nunca tinha visto sua beleza. Pôs a mão longa, fina e bem tratada no braço dela, e Erienne não tinha para onde fugir, entre o aparador e lorde Talbot. — Ora, minha querida, você está tremendo. — Olhou nos olhos arregalados e medrosos da jovem e sorriu ternamente. — Pobre Erienne. Não tenha medo, minha cara, eu não a magoaria por nada deste mundo. Na verdade, meu maior desejo é que possamos nos conhecer mutuamente... muito... muito melhor. — Apertou suavemente o braço dela, tentando tranqüilizá-la. De repente a cena foi interrompida por uma imprecação em voz alta, vinda do andar superior, e os dois ouviram passos pesados e fortes descendo a escada. Lorde Talbot afastou-se de Erienne no momento exato em que Farrell entrou cambaleante na sala. Quase caiu, mas conseguiu manter o equilíbrio e parou na porta. Só depois de algum tempo conseguiu focalizar os olhos. Tinha vestido uma camisa, que pendia, aberta fora da calça, também quase toda desabotoada e os dedos dos pés, calçados só com meias, viravam para cima, a fim de evitar o frio do chão. Quando reconheceu as duas pessoas na sala, seu queixo caiu. — Meu Deus! Lorde Talbot! — Levou a mão boa à testa, como para aliviar uma dor lancinante, e depois passou os dedos pelo cabelo despenteado. — Sua senhoria... — Murmurou uma desculpa e começou a abotoar a calça, — Eu não sabia que o senhor estava aqui... Lorde Talbot esforçou-se para parecer um visitante compreensivo. Um pequeno tremor no canto do bigode era o único sinal dos seus verdadeiros sentimentos. — Espero que esteja se sentindo bem, Farrell. O jovem passou a língua pelos lábios e começou a arrumar a camisa, quando notou a expressão de Erienne.


— Eu desci só para apanhar um copo... — Pigarreou, olhou Para a irmã e continuou de água. — Viu a chaleira sobre a lareira. — Ou talvez uma xícara de chá. Farrell começava a se controlar e conhecia perfeitamente os deveres de um anfitrião. — Erienne — disse com voz pausada —, quer por favor nos servir o chá? Tenho certeza que lorde Talbot está morrendo de sede. — Engoliu em seco, reforçando o que dizia. Começou a pigarrear e acabou com um acesso de tosse. — Um homem precisa de uma bebida quente para limpar a garganta numa manhã fria. Pela primeira vez Erienne era grata à presença do irmão. — Farrell — disse ela, com um sorriso suave, enquanto obedecia ao pedido —, já passa muito do meio-dia. Bastante irritado com Farrell, lorde Talbot não podia mandar o jovem sair da sala, para que ele pudesse saciar os olhos com a beleza da irmã. Pelo visto, Farrell pretendia ficar e impressionar o visitante com suas boas maneiras, porém, conhecendo os próprios limites, lorde Talbot resolveu que, naquele momento, o mais prudente era retirar-se. Afinal, precisava pensar muito sobre a filha do prefeito antes de começar qualquer ação positiva. — Não vou ficar para o chá — anunciou ele, com voz agitada — Minha filha certamente está preocupada com minha demora. Como devo ir a Londres amanhã cedo, falarei com seu pai na volta. Tenho certeza de que nossa conversa pode esperar.

Capítulo Três A FORRAGEM nunca era abundante nos três meses de inverno, por isso os rebanhos e manadas de ovelhas, porcos, gansos e outros começavam a chegar nas cidades e aldeias para serem vendidos nos mercados ou nas feiras. Os homens espicaçavam os animais, que levantavam nuvens de poeira. Embora em escala muito menor, o espetáculo em Mawbry era o mesmo que em York ou Londres, pois só um tolo podia ignorar a necessidade de estocar comida para o inverno que se aproximava. Erienne procurou reforçar a despensa da família comprando um leitão, o melhor que o pouco dinheiro disponível podia comprar. Não tinha coragem de matar o animal, mas gastou mais algumas moedas para pagar o matador de porcos. Na véspera da chegada do homem, Avery, mal-humorado, disse que o preparo da comida era trabalho de mulher e, temendo que lhe pedissem alguma ajuda, saiu com Farrell, para um dia de ”reuniões”, como dizia. O açougueiro, muito ocupado naquela época do ano, chegou de madrugada, e Erienne trancou-se em casa até o trabalho dele estar terminado. Tudo estava preparado para fazer o chouriço, mas, como não era um dos seus pratos favoritos, tratava-se de um trabalho árduo que exigia estômago forte. Era também uma tarefa difícil limpar o intestino do porco para fazer lingüiça. Pedaços grandes de carne eram empilhados num barril entre camadas de sal, enquanto ela continuava a tirar a gordura das outras partes. Depois de limpa, a carne era comprimida dentro do barril com uma pedra e o resto cheio até em cima com salmoura. Atrás da casa, numa cabana aberta na frente, ela fez uma fogueira, dependurou o caldeirão sobre o fogo e começou a derreter a gordura. Os pedacinhos de carne grudados na gordura subiam para a tona e tinham de ser tirados com uma concha; do contrário formavam uma espuma que estragava a gordura derretida, Mas, depois


de frios, viravam torresmos saborosos. O cão da casa vizinha acompanhava o trabalho com olhos ávidos, e quando ela estava distraída passou por debaixo da cerca, aproximando-se do caldeirão. Levantou o focinho para sentir melhor o cheiro, depois descansou a cabeça sobre as patas da frente. Franzindo a testa, ele acompanhava cada movimento de Erienne. Sempre que surgia uma oportunidade, adiantava-se rápido, apanhava um pedaço de carne e fugia, quando Erienne corria atrás dele com a vassoura, ameaçando chamar o açougueiro. Mas o animal não se deixava intimidar com isso, pois logo voltava para o lugar de onde podia observá-la e farejar o cheiro delicioso. O ar estava frio, mas Erienne quase não sentia, entretida no trabalho. com as mangas arregaçadas e só uma combinação sob o vestido desbotado, agradecia a brisa fresca que uma vez ou outra agitava as mechas de cabelo que escapavam do lenço. Queria acabar tudo antes do anoitecer, por isso não permitia que nada a distraísse do trabalho. Atenta ao caldeirão onde a gordura derretia e ao cão malandro, não viu o homem que a observava perto de um canto da casa. Os olhos de Christopher Seton, cheios de calor, admiravam a beleza de Erienne. A brisa leve brincava com as mechas de cabelos negros, e ela parou para ajeitar o lenço. Estendeu os braços para continuar o trabalho e, por um momento, o vestido se esticou nas costas, provando que a cintura era naturalmente fina e não precisava de ajuda do corpete. Nas suas viagens pelo mundo, Christopher vira muitas mulheres e era exigente na sua escolha. com tamanha experiência, era difícil acreditar que nem desse nem do outro lado do oceano jamais vira nada que se comparasse à jovem que observava agora. Nos últimos três anos, levara seus quatro navios às praias orientais mais distantes, à procura de novos portos e novas mercadorias. Tornara-se um verdadeiro homem do mar e, às vezes, passava muito tempo viajando a bordo de um dos navios. Desde sua chegada à Inglaterra, outras coisas tinham exigido sua atenção, e não procurara nenhum relacionamento, esperando que aparecesse uma mulher que realmente lhe agradasse. Desse modo, o que estava vendo agora despertava seu desejo. A graciosa ingenuidade de Erienne Fleming o intrigava, e Christopher pensou que seria um prazer instruíla nas artes do amor. Erienne voltou-se para pôr um graveto no fogo e viu o cão aproximando-se, sorrateiramente, da gordura crua empilhada na mesa. Ela avançou com o graveto na mão, para atirá-lo no cão, que fugiu bem rápido pelo buraco na cerca. Foi então que ela viu o observador alto e bem vestido e a surpresa a fez conter a respiração. Olhou para ele, atônita, embaraçada com o que estava fazendo e com a aparência descuidada, que contrastava com a elegância dele, com seu casaco azul-real, calça justa e colete cinzentos. Vagamente Erienne lembrou que devia ficar zangada com aquela intrusão, mas, antes que pudesse tomar alguma providência, o homem saltou a cerca baixa e caminhou para ela com passos decididos. Assustada, Erienne estava pronta para gritar. Sabia que ia ser violentada, mas suas pernas se negavam a qualquer movimento, e os pés pareciam pregados no chão. Então ele estava ali, na sua frente, mas, em vez de atacá-la, o homem puxou rápido a bainha do vestido dela de dentro do fogo. Batendo com o chapéu, apagou as chamas, depois, esfregou a fazenda meio calcinada entre os dedos. Erienne ficou parada, e ele estendeu a parte da barra do vestido queimada para sua inspeção.


— Minha cara Erienne — disse ele, solícito, disfarçando o riso com um franzir da testa —, acho que você tem queda para a autodestruição... ou está me experimentando., ou à minha capacidade de protegê-la. Acredito que isso merece uma investigação mais atenta. Quando ele olhou para baixo, Erienne percebeu que estava muito mais interessado na parte da sua perna exposta quando a barra do vestido foi levantada. Arrancando a fazenda queimada da mão dele, com uma expressão ofendida, afastou-se um pouco, depois, intrigada, o viu tirar o paletó, O calor do fogo era intenso, como provava a bainha chamuscada do vestido, mas, para um homem que fora expulso da casa dos Fleming, Christopher Seton parecia muito à vontade. — Suponho que devo agradecer — reconheceu ela, com relutância —, mas se não estivesse parado ali isso não teria acontecido. Ele franziu a testa com ar interrogativo, sorriu e disse: — Peço desculpas, não queria assustá-la. — Por que estava me espiando? — perguntou ela, sentando-se num banco para examinar o estrago no vestido. Os músculos das coxas dele flexionaram sob a fazenda da calça justa quando encostou numa banqueta alta. — Eu me cansei de observar as damas que passeiam no mercado e quis ver se o espetáculo era melhor aqui na casa do prefeito, - Sorriu, bem-humorado, e com os olhos brilhantes fixos nos dela, continuou. — Sinto-me feliz em dizer que é muito melhor. Erienne levantou-se, furiosa. — Não tem nada melhor a fazer do que ficar olhando para as mulheres? — Suponho que podia encontrar outra ocupação — respondeu ele, calmamente —, mas não posso pensar em nada mais agradável, exceto, é claro, a companhia de uma senhora. — Além de agir como um vilão nas mesas de jogo — disse ela, secamente —, começo a suspeitar que é também um conquistador. com um largo sorriso, Christopher olhou para ela, com ar apreciador. — Passei um longo tempo no mar. Entretanto, no seu caso, acho que minha reação seria a mesma se tivesse acabado de deixar a corte, em Londres. Os olhos de Erienne chamejaram, furiosos. O insuportável egoísta! Será que pensava que ia encontrar uma mulher à sua disposição nos fundos da casa do prefeito? — Estou certa de que Claudia Talbot gostaria muito da sua companhia, senhor. Por que não vai visitá-la? Ouvi dizer que lorde Talbot viajou para Londres esta manhã. Ele riu da expressão de desprezo no rosto dela. — Prefiro fazer a corte a você. — Por quê? Por que quer humilhar meu pai? Os olhos verdes sorridentes fixaram-se nos dela até Erienne sentir que corava. Ele respondeu, com voz lenta e deliberada: — Por que é a jovem mais bela que já vi na vida e gostaria de conhecê-la melhor. E, naturalmente, precisamos estudar mais a fundo essa sua tendência para acidentes. A luz fraca do fim de tarde disfarçava o rubor do rosto dela. Erguendo o nariz, num gesto de desafio, Erienne olhou para ele com frieza e arrogância. — A quantas mulheres já disse isso, Sr. Seton? A resposta foi acompanhada por um sorriso de canto de boca.


— Algumas, eu acho, mas nunca menti. Cada uma tinha seu lugar no tempo e, até hoje, você é a melhor que já vi. — Apanhou um pedaço de torresmo e levou-o à boca, enquanto esperava a reação dela. Corando outra vez, e com os olhos azuis chamejando de raiva, ela disse: — Quanta vaidade e arrogância! — Sua voz estava gelada como as estepes russas. — Espera me acrescentar à extensa lista das suas conquistas? — Olhou para ele com desprezo. Christopher finalmente levantou-se e aproximou-se dela. com olhar distante, ele afastou do rosto dela uma mecha de cabelo que saía do lenço. — Conquista? — com voz profunda e sonora, continuou: — Está enganada, Erienne. No calor do desejo momentâneo, favores são comprados e em geral esquecidos. Os momentos lembrados com carinho nunca são tomados, mas compartilhados, verdadeiras bênçãos. — Ergueu o casaco com a ponta dos dedos, segurando-o sobre o ombro. — Não estou pedindo para ceder a mim, nem pretendo conquistála. Tudo que desejo é a oportunidade de, uma vez ou outra, defender minha causa, na esperança de momentos mais ternos no futuro. Erienne não se comoveu. Sua beleza despertava nele um desejo doce e ardente, quase doloroso, que não podia ser ignorado nem definido. — O mal que fez à minha família é uma barreira entre nós — disse ela, com amargura. — E devo honrar aqueles que me honram. Christopher olhou para ela por um momento, depois pôs o chapéu na cabeça. — Eu podia prometer uma vida boa e confortável para todos vocês. — Inclinou a cabeça para o lado, sem tirar os olhos dos dela. — Seria um ato de bondade ou uma maldição? — Bondade ou maldição? — repetiu Erienne, com desprezo. — Escapa-me o sentido das suas palavras, senhor. Tudo que sei é que meu pai atormenta-se com sua acusação, e meu irmão chora nos seus sonhos por causa do que fez a ele. Minha vida torna-se a cada dia mais difícil, e isso também por sua causa. Christopher vestiu uma das mangas do casaco. — Deu seu veredicto contra mim antes que eu pudesse me explicar. Não existe argumento para uma mente fechada. — Vá embora daqui! — disse ela, furiosa. — Leve sua música a outros ouvidos mais dispostos a lhe dar atenção. Não vou ouvir suas desculpas, nem tolerar suas tolices vulgares. Não quero nada com o senhor! Nunca! Christopher olhou para ela com um leve sorriso. — Tenha cuidado, Erienne. Aprendi com a experiência que as palavras lançadas à luz do dia, como pombos, em geral voltam para casa nas horas mais escuras da noite. Furiosa, Erienne apanhou uma vassoura e a ergueu, ameaçando agredi-lo. — Seu atrevido, vulgar e vaidoso! Será que preciso expulsá-lo como a um cão? Vá embora daqui! Os olhos verdes cintilaram, e quando ela abaixou a vassoura Christopher saltou para o lado e riu. Antes que ela pudesse repetir o ataque, ele recuou e saltou a cerca baixa. Erienne ficou olhando, furiosa, até vê-lo fora do seu alcance. — Boa noite, Srta. Fleming. — Christopher encostou o chapéu no peito, fez uma mesura, pôs o chapéu na cabeça outra vez. Seus olhos acariciaram por um segundo


os seios arfantes da jovem, depois subiram para seu rosto. — Por favor, meu bem, procure não arranjar encrencas. Da próxima vez eu posso não estar por perto. A vassoura voou no ar, mas ele desviou-se facilmente e com um largo sorriso afastou-se da casa. Só depois de algum tempo, Erienne conseguiu se acalmar e percebeu que a sensação de perda experimentada antes parecia mais intensa agora. Voltou para o fogo e ficou olhando as chamas, até perceber um pequeno objeto de couro no chão de tijolos. Era uma bolsa de homem, bem pesada. Erienne a examinou e viu as iniciais CS. Uma onda gelada percorreu-lhe a espinha e teve de controlar a vontade de atirar a bolsa para longe. Porém a cautela prevaleceu. Se houvesse muito dinheiro na bolsa, ele, na certa, voltaria para apanhá-la e, se não a encontrasse, podia acusá-la de tê-la perdido ou até mesmo de roubo. Talvez não a tivesse perdido por acidente mas de propósito, para prejudicá-la de algum modo. Afinal, ela era o único membro da sua família ainda não prejudicado por ele. Erienne olhou em volta, à procura de um lugar seguro para esconder a bolsa. Não queria que o irmão a encontrasse, não com aquelas iniciais impressas no couro. Podia imaginar as acusações. Seu pai jamais acreditaria que ela não a conseguira em troca do maior ato de traição. Preocupada, pensou que o Sr. Seton podia voltar num momento inconveniente, piorando as coisas. Estremeceu pensando nos possíveis resultados de um confronto com seu pai e seu irmão. O melhor seria ela mesma devolver a bolsa, mas, até o momento mais adequado para isso, tinha de escondê-la. Olhou para o estábulo onde ficava o medíocre garanhão Sócrates de Farrell e sorriu. Era o melhor lugar para guardar uma coisa que pertencia a um burro que só sabia zurrar. Brienne entrou pela porta dos fundos da estalagem. Uma escada estreita, na frente da porta, levava ao segundo andar. com a bolsa de Christopher Seton escondida debaixo do xale, ela começou a subir com cautela. Ele não voltara para reclamar a bolsa, como ela esperava, e para evitar a possibilidade de ser acusada de roubo resolveu procurálo naquele lugar tão desagradável. Era muito cedo ainda e a luz do sol começava a dissipar a neblina. Erienne estava com um vestido azul muito simples, de gola alta, e só com um xale para protegê-la do frio da manhã. As solas gastas dos sapatos pretos quase não faziam ruído no assoalho de madeira do corredor, no segundo andar. Sua intenção era encontrar o quarto dele, bater na porta e entregar a bolsa, antes que qualquer pessoa a visse. Ouvira dizer que os melhores quartos ficavam na ala leste da estalagem e não podia imaginar aquele homem arrogante escolhendo qualquer coisa que, não fosse a melhor. Quase todas as portas estavam fechadas, o que dificultava a identificação do quarto que procurava. Ela bateu na porta dos quartos que davam para o leste, mordendo o lábio, nervosa, enquanto esperava. Ninguém atendeu, e ela passou para a porta seguinte, parando por um momento com o ouvido encostado na madeira grossa antes de bater. A porta foi aberta bem rápido, e Erienne recuou com uma exclamação abafada vendo o ianque só com uma toalha enrolada na cintura e a testa franzida de forma ameaçadora. — Eu já disse... — começou Christopher, agressivo, e então, percebendo o engano, não terminou a frase. Ergueu as sobrancelhas, surpreso, e seus lábios curvaram-se num sorriso. Parecia não se importar nem um pouco com sua seminudez. —


Erienne... eu não a esperava. Evidentemente! Erienne ficou rubra. A visão dos ombros largos e morenos e o peito forte, recoberto de pêlos macios, a deixou completamente confusa e ela não ousou olhar mais para baixo. Nervosa, tirou a bolsa debaixo do xale e abriu a boca para começar a explicar o motivo da sua presença, quando sons de passos apressados subindo a escada dos fundos a sobressaltaram. Paralisada pelo medo de ser descoberta, ela esqueceu sua missão. Ser encontrada no corredor com um homem seminu era o fim da pouca reputação que ainda lhe restava. Seu pai saberia do caso antes do fim da manhã e sua ira seria comparável à fumaça e ao ronco de uma máquina a vapor. Erienne olhou, ansiosa, para os dois lados do corredor. Precisava sair dali, e o único caminho era a escada da frente e a sala comum da estalagem. Deu um passo naquela direção, quando Christopher a segurou pelo braço e antes que pudesse resistir foi puxada para dentro do quarto dele. Erienne virou de imediato, mas a pesada porta de madeira já estava fechada. Abriu a boca mas a mão dele silenciou seu protesto. Um franzir de sobrancelhas e um movimento da cabeça recomendavam silêncio. Ele a enlaçou com o outro braço, puxando-a para junto do seu corpo. Então Erienne foi erguida do chão e levada para longe da porta e para perto da cama. Os passos pararam no lado de fora da porta e alguém arranhou de leve a madeira. Os olhos arregalados de Erienne erguidos para os dele, em silêncio, procuravam defender sua causa. Christopher pigarreou, como se acabasse de acordar e disse: — Quem é? — Sou eu, Sr. Seton — respondeu uma voz de mulher. — Molly Harper, a empregada. O servente está doente e então eu trouxe a água para seu banho, trouxe desde lá de baixo só para o senhor. Quer abrir para eu entrar? Christopher ergueu uma sobrancelha para Erienne, como se estivesse tentado a atender o pedido da mulher. Erienne balançou a cabeça com força. — Um momento, por favor — disse ele. Erienne estremeceu, pensando que ele queria humilhá-la, como fizera com seu pai. Tentou livrar-se dos braços dele e ficou furiosa quando Christopher não a soltou logo. Ele inclinou-se e murmurou no ouvido dela: — Fique perto de mim, Erienne. A toalha se soltou. Se se afastar, é a seu próprio risco. Fechando os olhos com força, ela encostou a cabeça no ombro de Christopher, para esconder o rubor do rosto, agarrando-se a ele com o terror do desespero. Nessa posição não podia ver o largo sorriso nos lábios dele. — Vamos, meu bem, abra a porta. Estes baldes estão pesados. — Ela bateu na porta. — Paciência, Molly. — Christopher prendeu a toalha na cintura outra vez. Então seus músculos se retesaram, e se Erienne já tivesse retomado o fôlego teria gritado quando ele a jogou na cama. Ela soergueu o corpo, pronta para protestar contra o que ele pretendia, mas Christopher cobriu sua cabeça com as cobertas, abafando qualquer comentário. — Não se mexa. — A voz murmurada tinha a autoridade de uma ordem a que nem a pessoa mais relutante ousaria desobedecer. Erienne ficou imóvel, e com um sorriso Christopher foi para o outro lado da cama e abriu as cobertas, como se acabasse de se


levantar. Visões assustadoras do seu destino próximo formaram-se na mente de Erienne. Imaginou a humilhação, se fosse encontrada na cama daquele homem. O medo cresceu, a raiva a dominou, e ela atirou para longe as cobertas, procurando fugir da armadilha. Quase de imediato prendeu a respiração e puxou as cobertas sobre a cabeça outra vez, pois o espetáculo daquele homem, completamente nu, ao lado da cadeira onde estavam suas roupas, era mais do que seus olhos virgens podiam suportar. Foi uma visão muito rápida, mas a imagem daquele corpo alto, bronzeado, de ombros largos, iluminado pela luz rosada do sol nascente, ficaria para sempre gravada em sua lembrança. Christopher riu bem-humorado quando Erienne, finalmente obedecendo às suas ordens, enrolou-se às cobertas e ficou imóvel. Ele vestiu a calça e atravessou o quarto para abrir a porta. Molly conhecia sua profissão e a competição que existia nela, e a cidadezinha de Mawbry era ideal para ela, pois essa última não existia. Quando Christopher abriu a porta, ela entrou bem rápido, tirando dos ombros a vara comprida em cujas pontas estavam dependurados os baldes com água. Encostando o corpo no dele, acariciou com a mão aberta os cabelos do peito de Christopher e tatalou tentadoramente as pestanas. — Oh, amorzinho, você é uma festa para os olhos de qualquer mulher. — Eu já disse, Molly, que não preciso dos seus serviços — disse Christopher, secamente. — Quero só a água. — Ora, deixe disso, amorzinho — murmurou ela. — Sei que esteve muito tempo no mar e precisa brincar um pouco na cama. Para um homem como você, estou disposta a dar tudo que quiser sem pensar em dinheiro. Estendendo o braço para mostrar o móvel onde ela devia colocar a água, ele disse: — Já tenho tudo que quero. Agora, vá embora. Molly arregalou os olhos surpresos para a cama. A forma curvilínea sob as cobertas era sem dúvida de uma mulher. Indignada, ela deu meia-volta e saiu do quarto, batendo a porta com força. Erienne esperou, sem ousar sair do esconderijo, até Christopher bater levemente no seu ombro. — O perigo passou. Pode sair. — Está vestido? — perguntou ela, cautelosa, com a voz abafada pelas cobertas. Christopher riu. — Já vesti minha calça, se é isso que a preocupa. E agora estou vestindo a camisa. — Começou a vestir a camisa, quando as cobertas foram erguidas com muito cuidado. Erienne espiou como uma lebre assustada e então seus olhos encontraram o rosto sorridente de Christopher. Era difícil ignorar a expressão daqueles olhos verdes. com um gesto brusco e irado, ela afastou as cobertas e saltou da cama, tentando manter a saia abaixada, para evitar maior embaraço. — Fica aí rindo como um palhaço! — exclamou ela, atirando a bolsa nele. — Fez isso de propósito? A bolsa pesada atingiu-o no peito e Christopher a apanhou do melhor modo possível, dizendo com uma risada: — Fiz o quê? Furiosa, ela ajeitou o vestido e prendeu as mechas de cabelo que se desprendiam do


coque discreto. — Vim aqui para devolver sua bolsa, o que é um favor, considerando o que fez à minha família, e então você me puxa para dentro do quarto e me expõe a esta situação embaraçosa. — Pensei que não queria ser vista e até agora não vejo nenhuma situação embaraçosa. Eu só estava tentando ajudar. — O sorriso zombeteiro acompanhou as palavras. — Ah! — bufou ela, caminhando para a porta. Parou e olhou para ele, furiosa. — Não gosto que zombem de mim, Sr. Seton, mas obviamente gosta de causar desconforto aos outros. Só espero que algum dia encontre alguém tão hábil com as armas quanto dizem que é. Eu gostaria de ver essa disputa. bom dia, senhor! Erienne saiu e bateu a porta, sentindo prazer com o barulho provocado. Era uma prova da raiva que sentia. Na verdade, esperava ter causado uma impressão duradoura naquele homem. O desprezo de uma mulher já foi a causa da desgraça de muitos homens e motivo de muitos conflitos. No caso de Timmy Sears, o entusiasmo de Molly Harper por Christopher Seton significava um obstáculo enorme ao seu orgulho. Molly não era o que se podia chamar de ”mulher de um só homem”. Não que Timmy se importasse com isso. Afinal, uma mulher precisava ganhar a vida, de um modo ou de outro. O caso era que ele estava acostumado a ser ”o primeiro da fila”, por assim dizer, sempre que visitava a Estalagem do Javali. Era uma honra insignificante, mas que ele considerava seu direito especial, pois era o mais cruel valentão da redondeza. Timmy era um fanfarrão com uma farta cabeleira vermelha, que em geral sobrava para todos os lados do seu tricórnio. Tinha uma inteligência rápida, embora superficial e com uma mulher para satisfazer seus desejos, de um lado, e uma caneca de cerveja, de outro, em geral era um homem liberal e ruidosamente alegre. Era grande, largo e forte, gostava de uma briga, em especial com vários homens mais fracos do que ele. Na sua opinião, fazia muitas semanas que não entrava numa boa briga, pois os homens mais fortes não estavam dispostos a arriscar uma cabeça ou um braço quebrado, e ignoravam suas provocações. Recentemente, entretanto, entrara para o mundo de Timothy um homem que, para resumir as coisas, simplesmente o incomodava e irritava. Era o tipo de homem que o fazia sentir-se pouco à vontade. Para começar, o estranho era mais alto do que ele, com ombros também mais largos, mas um pouco menos pesado. Como se isso não bastasse, o homem era um almofadinha, sempre impecavelmente vestido e que devia tomar uns dois ou três banhos por mês. Para piorar as coisas, o homem tinha fama de ser bom atirador e movia-se com tamanho desembaraço que fazia qualquer um pensar duas vezes antes de se atrever a qualquer provocação. E aí estava o problema de Timmy: Molly agia como se ele não existisse, enquanto se desdobrava em atenções para com aquele tal de Seton, e isso dava coceiras nos punhos de Timmy, e que estava hospedado na sua taverna favorita, por sinal, a única de Mawbry. A mulher, quando tinha de servir o homem que a cumulava de presentes, largava a comida e a bebida na frente dele, e saía apressada, Para estar sempre à disposição do outro. Um presentinho qualquer iluminava os olhos dela, mas o pagamento era sempre apressado e, embora satisfatório, dava a impressão de que o fazia pagar caro por algo que de bom grado daria de graça ao ianque.


O pior de tudo era que o Sr. Seton ignorava abertamente as investidas e as atenções de Molly, não dando a Timmy nenhum motivo para desafiá-lo. Por mais que o observasse com olhos de águia, Timmy sequer o via beliscar o gorducho traseiro de Molly, que estava sempre oscilando perto dele, nem acariciar os seios fartos, sempre à sua disposição, quando ela o servia. Molly usava blusas tão decotadas que Timmy rosnava em agonia, mas, mesmo assim, o ianque não lhe dava a menor atenção. Para Timmy era um duplo insulto. Rejeitar a mulher que despertava seu ciúme era uma provocação mortal. Timmy estava dolorosamente ofendido, e sua raiva crescia, alimentada pela completa falta de respeito do estranho à sua fama de valentão da cidade. Quando quase todos os homens fortes e valentes evitavam cruzar o caminho de Timmy, o estranho calmamente esperava que o homenzarrão ruivo saísse do seu. Era o bastante para contrair de raiva as entranhas de Timmy, e ele começou a imaginar meios para abalar a arrogância do ianque. Timmy não ficaria satisfeito enquanto não conseguisse uma briga boa e violenta para satisfazer sua auto-estima. Os negócios sérios de compra e venda no mercado, naquela época do ano, em Mawbry eram feitos em meio de muita alegria. Alaúdes e flautas tocavam para os dançarinos, e todos batiam palmas, acompanhando o ritmo, num convite aos espectadores para tomar parte na dança. Erienne os observava, ansiosa para juntar-se aos dançarinos, mas não conseguiu convencer Farrell a ser seu par. Farrell concordou em acompanhá-la ao mercado e de boa vontade parou para olhar os que dançavam porque Molly Harper estava entre eles, com a saia rodopiando em volta das pernas, completamente entregue ao ritmo da música, Mas não queria se arriscar a ser alvo de ridículo se resolvesse dançar também. Afinal, era um aleijado. Erienne compreendeu e não insistiu, embora não aprovasse o isolamento ao qual o irmão estava se condenando. Porém a alegria e os risos à sua volta eram contagiosos. Seus pés moviam-se, acompanhando a música, seus olhos brilhavam, e suas mãos batiam palmas cadenciadas. Então viu a figura de um homem que, encostado numa árvore próxima, a observava com atenção. Reconheceu-o de imediato, assim como o sorriso zombeteiro. O brilho intenso nos olhos verde-cinza despertou nela uma ira quase incontrolável. Era uma provocação deliberada, pensou ela. Um cavalheiro não olhava daquele modo para uma dama. Erguendo a cabeça, num gesto orgulhoso, deu as costas a ele. Viu então, com surpresa, que Farrell caminhava com Molly na direção da estalagem. A garçonete, depois de passar horas tentando despertar a atenção do ianque, tentava agora despertar seu ciúme. Molly nunca se esforçara tanto para atrair um homem para sua cama, e era a primeira vez que falhava miseravelmente. A indiferença de Christopher era suficiente para abalar a confiança de qualquer mulher. Procurando conter sua irritação, Erienne sentiu que alguém segurava-lhe o braço e, imaginando como Christopher conseguira se aproximar tão rápido, voltou-se, e com alívio viu que se tratava de Allan Parker e não do ianque. com a mão sobre o colete e uma curvatura discreta e galante, Allan disse, com um sorriso delicado: — Seu irmão a deixou sem companhia, Srta. Fleming. Nunca se sabe quando o bando de miseráveis escoceses vai atacar nossa cidade e raptar nossas mais belas jovens. Por isso, quero lhe oferecer minha proteção.


Erienne riu, à espera que o ianque fosse testemunha das boas maneiras de Allan Parker. Pelo menos alguém na cidade sabia se comportar como um cavalheiro. — Gostaria de dançar? — convidou Allan. Sorrindo, ela atirou o xale sobre um arbusto, pôs a mão sobre a dele e olhou de soslaio para o lugar onde estava o ianque. O largo sorriso que viu nos lábios dele e a suspeita de que o homem estava se divertindo com tudo aquilo tirou um pouco o brilho do seu triunfo. Porém logo a música alegre e rápida exigiu toda sua atenção. Christopher avançou para a frente dos espectadores e parou com os braços cruzados, mais alto do que todos, como um rei com sua espada mágica, chegando para libertar o povo de um opressor cruel. Sua aparência incomum chamava a atenção de todas as mulheres, velhas ou moças. Mas ele ignorava os olhares tentadores, os sorrisos, os convites explícitos, acompanhando os movimentos da bela jovem de cabelos negros e vestido cor de ameixa. Os pés dela pareciam voar, acompanhando a música, revelando os tornozelos bemfeitos e tentadores. As outras mulheres logo notaram, desapontadas, a intensidade com que ele olhava para Erienne Fleming. Quando apareceu a carruagem grande dos Talbot, Christopher aproveitou para bater nas costas do xerife. — Desculpe-me, Allan, mas acho que deve dar atenção à chegada da Srta. Talbot. Allan virou a cabeça e quando viu a carruagem franziu a testa, com relutância, pediu licença a Erienne e afastou-se. Erienne olhou friamente para Christopher, enquanto a multidão os observava com largos sorrisos de expectativa. As cabeças se juntavam, sorridentes, e os murmúrios zumbiam. — Podemos continuar a dança, Srta. Fleming? — perguntou Christopher, com um sorriso. — Certamente não! — exclamou Erienne, abrindo caminho entre os curiosos, com a cabeça erguida. Furiosa, caminhou entre as barracas e telheiros provisórios, armados para a feira, tentando ignorar o homem que parecia decidido a importuná-la com sua presença. Não podia ir mais depressa do que os passos longos dele, por isso, virando a cabeça, ordenou: — Vá embora! Está me importunando! — Ora, Erienne. Só estou querendo devolver seu xale. Erienne parou, lembrando então de ter deixado o xale sobre o arbusto. Furiosa, tentou tirar o xale da mão dele, mas Christopher o segurou com força. Ergueu o rosto para aqueles olhos verde-cinza e brilhantes, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, uma voz feminina chamou: — Christopher, Claudia caminhou, apressada, para eles, seguida por Allan. Erienne atribuiu à raiva que lhe inspirava a presença de Christopher a irritação que sentiu ao ver Claudia. A filha de lorde Talbot estava com um vestido de seda coral e chapéu de abas largas, combinando, luxo demais para o mercado de animais, mas, considerando o fato de que ela sempre precisava chamar a atenção de todos, não era para admirar. Dirigindo apenas um sorriso zombeteiro para Erienne, Claudia voltou-se para Christopher. — É um grande prazer vê-lo em Mawbry, Christopher — cantarolou ela. — Temia que não nos encontrássemos nunca mais. — Ainda não terminei meus negócios em Mawbry, e tudo indica que terei de ficar


por mais algum tempo. — Percebeu o olhar furioso de Erienne e sorriu calmamente. Claudia viu aquela troca de olhares e ferveu por dentro, pensando que outra mulher podia compartilhar algum segredo com Christopher. Procurando roubá-lo de Erienne, ela estendeu o braço na direção da estalagem. - Durante a feira, em geral o estalajadeiro prepara banquetes de um rei. Estava pensando se gostaria de jantar comigo? Sem esperar a resposta, olhou para o xerife. — E é claro que você virá conosco, Allan. — Será um prazer. — O xerife, galante, dirigiu-se a Erienne. „ Será que nos daria o prazer da sua presença? As boas maneiras mandavam controlar o impulso de chutar a canela do xerife, e Claudia olhou para Erienne. Sob a aba larga do chapéu, seus olhos apertaram-se de forma ameaçadora. Erienne não podia ignorar o aviso claro. — Eu,., não posso. — Erienne viu o sorriso satisfeito nos lábios de Claudia e desejou poder apagá-lo com uma resposta à altura, mas não tinha condições para isso. Porém, não era fácil para seu orgulho deixar que Claudia pensasse que a amedrontara. — Preciso voltar para casa. Minha família me espera. — Mas seu irmão está na estalagem — disse Allan. — Deve vir conosco. — Não... não, eu não posso, — Vendo que os homens esperavam uma desculpa plausível, admitiu, erguendo os ombros, embaraçada: — Acontece que estou sem dinheiro. Christopher, de imediato, resolveu o problema. — Será um prazer para mim me encarregar da despesa, Srta. Fleming. — O olhar dele era um desafio. — Por favor, permita-me. Claudia era bastante inteligente para saber que qualquer protesto causaria uma péssima impressão. Tentou outro olhar ameaçador, esperando que Erienne entendesse a indireta e jamais podia imaginar que com isso estava resolvendo o impasse para a jovem. — Muito obrigada — murmurou ela, chegando a uma decisão, — Terei muito prazer em acompanhá-los. Os dois homens adiantaram-se, oferecendo os braços, transformando a surpresa de Claudia em ultraje. Ela empertigou-se indignada, mas acalmou sua ira num instante quando Erienne ignorou o braço de Christopher, aceitando o de Allan. Erienne preocupou-se, pensando no que Farrell faria se a visse com Christopher, mas, quando entraram, viu com alívio que o irmão não estava na sala comum e lembrou então da manhã em que Molly fora ao quarto de Christopher oferecer seus serviços. Mordendo o lábio, ela olhou para a escada, imaginando se estaria servindo Farrell naquele momento. Ela percebeu que Christopher a observava e, quando seus olhos se encontraram, as profundezas do mar do Norte não podiam ser, mais geladas do que aqueles maravilhosos lagos azuis-violeta. Esperava um sorriso zombeteiro. Mas viu apenas algo parecido com compaixão. A idéia de que ele podia sentir pena dela, ou de alguém da sua família, era terrível. Tremendo de raiva, sentou-se na cadeira que Allan segurava para ela. Christopher segurou a cadeira para Claudia e depois sentou-se ao lado de Erienne. Estar tão perto daquele homem era bastante desagradável para seu estado de espírito passado, presente e, sem dúvida, futuro.


Como um homem habituado a comandar, Christopher pediu o jantar para todos e vinho suave para as senhoras. Pagou todas as despesas, e Allan aparentemente ficou satisfeito com isso. Quando a comida foi servida, Claudia tirou com cuidado o chapéu, ajeitou o cabelo e começou a comer. A porta se abriu, e Erienne empalideceu vendo o pai entrar na estalagem. Ela estava de costas para a porta e não ousou virar a cabeça, quando ele se dirigiu para o bar. Depois de pôr a moeda sobre o balcão, Avery apanhou a caneca de cerveja e começou a beber, olhando em volta. A bebida espirrou de sua boca quando seus olhos depararam corn Erienne ao lado de Christopher. Atravessou a sala quase correndo, chamando a atenção de todos. Erienne ouviu os pássos do pai e seu coração quase parou. Abandonando toda cautela, Avery só pensava no fato de a filha estar na companhia do seu maior inimigo. Segurou o braço de Erienne e a levantou com violência da cadeira. Claudia sorriu, satisfeita, com o copo de vinho junto dos lábios. — Mulher impossível! Outra vez saindo às escondidas com esse ianque miserável — gritou Avery. — Juro que é a última vez que faz isso! O prefeito desceu o punho fechado com força suficiente para partir o queixo de Erienne e ela preparou-se para o impacto, porém, uma vez mais, seu fiel protetor estava perto. Furioso, Christopher levantou, empurrando a cadeira e segurou o pulso de Avery com força, afastando-o do rosto da filha. — Tire suas mãos imundas de mim! — gritou o homem gorducho, tentando livrar o braço, mas sem conseguir. A voz de Christopher tinha uma calma mortal. — Peço para que considere seus atos, prefeito. Sua filha é convidada do xerife e da Srta, Talbot. Ousaria insultá-los com esse procedimento? Como quem sai do meio da névoa, Avery só então notou a presença dos outros dois. com o rosto muito vermelho, murmurou um pedido de desculpas, e Christopher soltou-lhe o braço, controlando-se para não dar um empurrão no homem. Teria prazer em vê-lo esparramado no chão. Avery segurou outra vez o braço da filha e caminhou, apressado, para a porta. — Vá para casa agora e prepare meu jantar. Irei logo depois de tomar uma ou duas cervejas. A porta bateu atrás dela. Voltando-se, Avery suspendeu o cós das calças, lançou um olhar ameaçador para os curiosos e voltou para o bar. Com lágrimas de humilhação queimando os olhos e descendo pelo rosto, Erienne correu para casa. Desejou então não ter aceitado o desafio do olhar ameaçador de Claudia. Depois da vergonha pela qual passara na estalagem, dificilmente poderia olhar para a outra mulher de cabeça erguida. Havia outra coisa ainda, Na sua ânsia por conquistar o lugar da mulher mais bela e sem rivais do Norte da Inglaterra, Claudia não hesitava em caluniar, mentir e destruir, sem a menor preocupação com a verdade. Sua língua, como um chicote, podia provocar dores lancinantes. Erienne não tinha dúvida de que Claudia ia procurar diminuí-la o mais possível aos olhos do ianque. ”Que me importa?”, murmurou ela. ”Claudia e o Sr. Seton foram feitos um para o outro.”

Capítulo Quatro


No CÉU, a leste, lâminas de cores vibrantes irradiavam-se do sol nascente, atravessando as nuvens, tingindo de rosa-claro as fachadas brancas das casas de Mawbry. A luz da manhã entrando através das vidraças do quarto de Erienne despertou-a de um sono agitado. com um gemido, ela escondeu a cabeça sob o travesseiro, sem disposição nenhuma para a viagem a Wirkinton, onde ia conhecer outro pretendente. Sabia que o pai não seria demovido do seu intento, especialmente depois de encontrá-la com o ianque na estalagem. Erienne levantou-se da cama lentamente e foi para a cozinha. Tremendo de frio, sob o roupão muito usado, ela atiçou o fogo e dependurou a grande chaleira com água sobre as chamas. Apanhou no canto uma bacia de cobre que fora da mãe e o último sabonete, presente de Farrell. No passado, ele sempre que voltava de Wirkinton trazia um presente para a irmã. Mas isso fora fazia muito tempo. A cada dia que passava, mais ele se parecia com o pai e lembrava-se menos dos sábios conselhos da mãe. Raramente Erienne tinha oportunidade de sair de Mawbry, ou mesmo de visitar os arredores da cidade. Assim, embora o objetivo dessa viagem não fosse agradável, fez questão de usar seu melhor vestido. Pelo menos em Wirkinton ninguém conhecia seu vestido de veludo cor de ameixa. Como faria qualquer fidalgo, Avery deixou a filha na porta da estalagem, esperando a diligência, enquanto ele entrava para tomar uma bebida. No seu canto favorito, com a caneca na mão, começou a conversar com o estalajadeiro, falando em voz alta da sua viagem ao porto, com a filha. Além do jogo e da bebida, exercitar as cordas vocais era um dos grandes prazeres de Avery. Entretido com a conversa, não notou o homem alto que se levantou da cadeira, atrás de uma coluna, e saiu da estalagem. A porta foi aberta e fechada, mas Avery não deu atenção ao fato, mais atento à tarefa de saciar a sede. O vento frio brincava com os cachos do cabelo de Erienne e com a barra da sua saia, ao mesmo tempo que tingia de rosa-claro seu rosto. Altiva, segurando a mala, ela era uma bela visão para qualquer homem, e muitos paravam por um momento e olhavam para trás, a fim de admirar sua beleza. O homem ao qual sua companhia estava proibida parou na porta da estalagem para observar o corpo delgado e bemfeito. O fato de ela ser agora um fruto proibido aumentava seu interesse. Christopher adiantou-se e parou um pouco atrás da jovem. Pensando que era o pai, Erienne demorou para se voltar. com surpresa, viu primeiro as botas altas e pretas. Levantou a cabeça rapidamente, e seus olhos encontraram o rosto bonito e sorridente do homem cuja lembrança a atormentava. Christopher levou a ponta do dedo ao chapéu, cumprimentando-a com um sorriso, depois cruzou as mãos nas costas e olhou para o céu, onde nuvens transparentes e esgarçadas pareciam brincar com o vento de noroeste. — Belo dia para um passeio — comentou ele. — Mas acho que, mais tarde, vamos ter chuva. Erienne procurou se controlar. — Preparando-se para olhar as mulheres, Sr. Seton? — Na verdade, esse não é o meu principal objetivo esta manhã — respondeu ele, com voz suave. — Muito embora só um tolo ignoraria a paisagem, neste momento.


Ela percebeu o brilho nos olhos dele e perguntou secamente: — E qual é o seu principal objetivo esta manhã? — Estou à espera da diligência para Wirkinton. Erienne apertou os lábios para não responder. Era uma coincidência extraordinária, mas ele tinha direito de ir aonde quisesse, e ela não podia dizer nada. Então, viu o garanhão baio de Christopher arreado e amarrado ao lado da estalagem, o que indicava uma brusca mudança de planos naquela manhã. Como ele acabava de sair da estalagem, Erienne supôs que a decisão de tomar a diligência tinha a ver com algum comentário ouvido do seu pai. Estendeu o braço, apontando para o cavalo. — Tem uma montaria. Por que não vai a cavalo? com um sorriso zombeteiro, Christopher respondeu: — Prefiro o conforto da diligência para as viagens mais longas. Ela disse, com desprezo. — Sem dúvida ouviu meu pai dizer que vamos a Wirkinton e resolveu perturbar nossa viagem. — Minha cara Srta. Fleming, posso lhe assegurar que tenho de resolver um negócio muito importante em Wirkinton. — Não esplicou que tudo que se referia a ela era muito importante para ele. — Evidentemente, tem uma solução simples. Se não suporta a minha companhia, pode ficar em casa. Não posso obrigá-la a ir. — Nós também temos negócios em Wirkinton — disse ela, erguendo o queixo com altivez. — Outro pretendente? — perguntou ele, com amabilidade. — Que audácia! — O corado do rosto dela, que nada tinha a ver com o vento, foi a resposta. — Por que não nos deixa em paz? — Tenho um investimento na sua família. Quero apenas o que me pertence, ou alguma compensação, se a dívida não puder ser paga. — Ah, sim, a dívida — disse ela, com desprezo. — O dinheiro que roubou do meu pai. — Minha querida, não preciso roubar nada de ninguém. Erienne bateu o pé no chão, irritada. — Sr. Seton, posso ser muitas coisas, mas não sou sua querida! com uma risada breve e discreta ele disse: — Você é a coisa mais querida que tenho visto ultimamente. — Seu olhar percorreu lentamente o corpo dela, descendo do busto para a cintura fina, até chegar às pontas dos sapatos, que apareciam sob a barra do vestido. Erienne desejou o desconforto da sua velha e áspera capa de lã, que estava sobre a mala, pois aquele exame atento não deixou intocada a menor curva do seu corpo. Na verdade, tinha a impressão de que ele a despia. Quando ele finalmente olhou outra vez para o rosto dela, Erienne estava furiosa e indignada. — Sim — disse ele, com um sorriso. — Sem dúvida é uma coísínha muito doce e muito querida. — Sempre despe as mulheres com os olhos? — perguntou ela, friamente. — Só aquelas que eu desejo. Irritada, Erienne deu meia-volta e tentou ignorá-lo, mas não parecia tarefa fácil. Era o mesmo que ignorar uma pantera negra junto aos seus calcanhares. Porém podia


proteger-se daqueles olhos indiscretos. Apanhou a capa e a pôs sobre os ombros, repelindo a mão que ele estendeu para ajudar, com o olhar furioso. Erguendo os ombros largos, Christopher sorriu e recolheu a mão. Erienne, concentrada na tarefa de atar os cordões da capa no pescoço, só percebeu que ele se aproximara muito mais quando a voz murmurada ao seu ouvido inundou seu corpo com uma onda de calor. — Você cheira a jasmim numa noite de verão. Erienne cobriu a cabeça com o capuz, temendo que ele notasse o arrepio na sua pele. Completamente envolta pela presença dele, guardou um silêncio cauteloso até a diligência parar na porta da estalagem. O cocheiro desceu e, passando a mão pelos lábios secos, avisou que iam demorar um pouco, depois entrou com passos firmes na taverna. Um homem forte e sua magra companheira passaram entre Erienne e Christopher, obrigando-os a saltar rápido para trás, a fim de não serem pisados. Erienne voltou-se para apanhar a bagagem e viu que já estava na mão do seu adversário. Ergueu a sobrancelha, com desaprovação, mas o ar de paciência bemhumorada de Christopher reduziu sua resistência a uma tolice sem razão. Fazendo questão de ignorálo, ela ergueu o vestido para entrar na carruagem e de imediato sentiu a mão sob o cotovelo, ajudando-a a subir. Christopher pôs a mala no bagageiro e afastou-se. Erienne, sentada na diligência, esticou o pescoço, curiosa, até ele aparecer puxando o cavalo pela rédea. Ela recuou no banco, apressada, retomando o ar de indiferença, antes que ele notasse seu interesse. Depois de amarrar o animal atrás da diligência, Christopher entrou e sentou-se de frente para ela. Os outros passageiros, tendo atendido à sua sede e outras necessidades, voltaram para a carruagem. Avery foi o último a sair da estalagem e, alegre, caminhou com passos largos para a diligência. Quando viu seu companheiro de viagem, seu queixo caiu. Indeciso, bufou e bateu com os pés no chão e, finalmente, não tendo outro remédio, embarcou também. Quando sentou-se ao lado da filha, seu olhar ameaçador dizia claramente que tinha certeza de que Erienne era responsável pela companhia do ianque naquela viagem. A diligência passou por uma grande poça d’água, antes de entrar na estrada, e Erienne firmou o corpo para trás, a fim de se proteger do solavanco. A paisagem lá fora não conseguia prender sua atenção, pois a presença de Christopher tomava todos os seus pensamentos. O olhar persistente dele a envolvia como uma onda de calor. O sorriso dançava nos seus olhos e nos seus lábios. Mesmo perto do pai dela, ele parecia perfeitamente à vontade, ignorando a carranca de Avery, que ficava mais sombria a cada momento, notando a atenção que o homem dava à sua filha. Os outros passageiros estavam evidentemente encantados com a companhia de Christopher, pois ele ria e conversava com eles o tempo todo. Contava histórias e experiências das suas várias viagens, e os dentes muito brancos contrastavam com o rosto bronzeado quando dizia alguma coisa engraçada. O homem gordo segurava a barriga de tanto rir, mas a raiva de Avery crescia a cada quilômetro percorrido. Obrigada a observar, Erienne tinha de admitir que o ianque tinha pose, charme, humor e educação suficiente para um homem nascido de família rica e de alta posição. Na verdade, representava tão bem o papel de cavalheiro que podia ter escrito o livro das regras das boas maneiras. Sob as pestanas longas, Erienne observava com cuidado o homem. O casaco azul-


escuro, de corte impecável, vestia com perfeição os ombros largos e a calça justa, de um azul mais claro, combinando com o colete, realçava os magníficos músculos das pernas. Um olhar bastava para provar sua masculinidade, mesmo todo vestido. com relutância, Erienne tinha de admitir que ele seria o padrão pelo qual ia medir seus pretendentes de agora em diante. A diligência seguia para o sul, e aos poucos Erienne sentia que a tensão a abandonava e que estava quase gostando do modo descontraído e da alegria discreta do Sr, Seton. O que imaginara como uma viagem longa e difícil estava se transformando num passeio agradável, e foi quase com desapontamento que viu a diligência fazer afinal a última parada, A pequena tabuleta com o nome da estalagem, Pata de Leão, balançava ao vento sobre a porta. Avery fez a filha ficar sentada enquanto os outros passageiros e Christopher desciam. Depois, saltando para o chão, chamou-a com impaciência. — Não fique aí parada, menina — disse ele. Firmando o tricórnio na cabeça para não ser levado pelo vento, viu Christopher desamarrar o cavalo da traseira da carruagem. Lembrando o incidente na estalagem em Mawbry, ele continuou, agora em voz baixa: — A carruagem do Sr. Goodfield está à nossa espera, mas preciso reservar quartos na estalagem primeiro. Portanto, apresse-se. Irritado com a falta de entusiasmo de Erienne, assim que ela desceu da diligência, segurou-a pelo braço e quase a arrastou para o landau que os esperava. Avery recusou o pedido da filha para se refrescar e se arrumar um pouco, temendo o que o ianque podia fazer, se não saíssem logo dali. Avery talvez tivesse razão. Christopher observava atentamente os dois, enquanto passava as rédeas sobre a cabeça do seu garanhão. Notou em especial a relutância de Erienne para descer da diligência. O cocheiro subiu até o bagageiro e retirou a lona, que protegia a bagagem. com um gesto e um olhar de interrogação, Christopher indicou o landau. — Ora, aquela carruagem pertence ao Sr. Goodfield. O mais velho e mais rico comerciante destas bandas — informou o cocheiro. — Siga por esta estrada, vire para o norte no cruzamento. Não pode errar. É a maior casa que já vi. Christopher deu uma moeda para o cocheiro tomar uma cerveja. com uma risada satisfeita, o homem agradeceu profusamente e correu para a estalagem. Erienne parou por um momento no degrau da diligência e olhou para trás. Os olhos verde-cinza estavam fixos nela. Christopher sorriu e levou o dedo à aba do chapéu. Avery, acompanhando o olhar da filha, fechou a carranca. Segurando com força o braço dela, empurrou-a para dentro da carruagem e voltou, apressado, para apanhar as malas. — Controle seus olhares — disse para Christopher. — Tenho amigos aqui e basta uma palavra minha para que tenha o que merece. Não vai servir para nenhuma mulher quando acabarem o serviço. com um sorriso tolerante, Christopher respondeu: — Demora muito para aprender, não é mesmo, prefeito? Primeiro, manda o filho, e agora quer me assustar com seus amigos? Talvez não esteja lembrado que tenho um navio no porto com uma tripulação experiente, acostumada a lutar com piratas. Gostaria de encontrar meus homens outra vez? — Deixe minha filha em paz — falou Avery, furioso, com os dentes cerrados. — Por quê? — riu Christopher. — Para que possa casá-la por dinheiro? Eu tenho


dinheiro. Quanto quer por ela? — Já o avisei! — trovejou Avery. — Ela não é para os da sua laia, por mais rico que seja. — Então, acho melhor pagar o que me deve, prefeito, porque só vou ficar satisfeito quando receber o que é meu. — Christopher montou, bateu com os calcanhares nos flancos do cavalo, que partiu num galope macio, deixando o prefeito parado no meio da rua. Uma depressão intensa apossou-se de Erienne quando viu Smedley Goodfield. Ele era velho e enrugado, pequeno e feio, como um duende. As costas curvas e os ombros deformados a fizeram lembrar do que dissera a Christopher Seton. Definitivamente, Smedley Goodfield seria o último homem a quem ela escolheria para marido. Assim que chegaram, seu pai foi sumariamente convidado para conhecer os jardins da casa. A Erienne foi indicado o pequeno sofá onde estava sentado Smedley, Ela declinou e preferiu um banco na frente da lareira, o que foi como se tivesse convidado o comerciante a sentar-se ao seu lado. Desde o momento em que o homem se sentou no banco, Erienne teve de lutar para impedir que as mãos dele invadissem a privacidade de sua roupa. com avidez desajeitada, o velho rasgou o corpete do vestido de Erienne, sem tentar disfarçar suas intenções. com uma exclamação indignada, ela afastou as mãos do homem e ficou de pé, segurando as partes rasgadas do vestido e apanhando a capa. — vou embora, Sr. Goodfield! — disse Erienne, controlando-se para não gritar. — Um bom dia para o senhor! Avery, que naquele momento estava andando, nervoso, de um lado para o outro no hall de entrada, ficou furioso e tentou convencêla a voltar para onde estava o pretendente. — Não vou aturar sua impertinência. Eu resolvo quando você pode ir embora — disse ele, empurrando-a para trás. — E isso só vai ser quando tivermos resolvido o casamento. Erienne procurou controlar a fúria que fervia dentro dela. Disse, em tom lento e enfático. — Já está resolvido — respirou fundo várias vezes, procurando se acalmar. — O único modo de me manter aqui é amarrar minhas mãos e pés e depois tratar de silenciar minha voz, pois vou gritar tantos insultos para aquele velho sujo, que ele vai nos expulsar da sua casa. Não vou deixar que aquele libertino me apalpe com suas mãos nojentas. — Abriu a capa, mostrando o vestido rasgado. ” Veja o que ele fez! Meu melhor vestido, e ele o inutilizou! - Ele pode comprar mais dez vestidos! — exclamou Avery, desesperado. Não podia permitir que ela saísse, não com a própria liberdade em jogo. O que importava um vestido rasgado se o homem queria casar com ela? Aquela menina tola só estava criando dificuldades. — Se sairmos desta casa, aviso-lhe que será a pé. O Sr, Goodfield teve a bondade de nos trazer de carruagem e não temos outra condução para voltar. Erienne caminhou para a porta com o queixo erguido. — Talvez o senhor não esteja pronto ainda para sair, mas eu estou. — Aonde você vai? — perguntou Avery. — Como eu disse — ela deu de ombros —, estou indo embora.


Avery não sabia o que fazer, Não imaginou que ela estivesse disposta a sair sem ele, não num lugar estranho. Pensou então que ela o estava experimentando e não tinha realmente intenção de sair sozinha. Ia mostrar que não era nenhum tolo. com um sorriso zombeteiro disse: — Pois tem de voltar para a estalagem sem a minha companhia, menina. vou ficar com o Sr, Goodfield... A porta bateu na sua cara, e Avery ficou parado, gaguejando, atônito. Ia sair atrás dela, quando a bengala de Smedley bateu com força no chão, exigindo atenção. Avery correu para a sala, pensando numa desculpa capaz de aliviar a ofensa à vaidade do homem. Nunca sua mente trabalhara com tanta rapidez num tempo tão curto. Erienne caminhou pela trilha que levava à mansão do comerciante. Sua mente era um turbilhão, e seu corpo estava rígido de indignação. Não bastava ser obrigada a suportar as atenções de uma procissão aparentemente interminável de pretendentes, vindos de todas as partes da Inglaterra. Não bastava o pai procurar em todos uma única qualidade, o peso das suas bolsas e a disposição para saldar suas dívidas. Não bastava o próprio pai usá-la como um instrumento para acalmar a ira dos credores. Agora isso! Ordenar que cedesse à luxúria de um velho senil para não ofendê-lo, Era demais! Estremeceu ao lembrar-se das mãos dos candidatos mais ansiosos e seus truques, sempre disfarçados, o toque acidental dos dedos nos seus seios, a carícia furtiva nas coxas, sob a mesa, a virilha encostada no seu traseiro, e os olhares lascivos que respondiam à sua repulsa indignada. Erienne parou, com os punhos fechados e os dentes cerrados. Sabia o que ia acontecer se voltasse à estalagem Pata de Leão. Seu pai apareceria com Smedley Goodfield a tiracolo para obrigá-la a chegar a um entendimento com o velho. Smedley naturalmente ia sentar-se ao lado dela, aproveitando todas as oportunidades para se encostar, acariciar seus quadris ou encostar a boca quase desdentada no seu ouvido e murmurar coisas revoltantes, rindo satisfeito quando ela se afastasse horrorizada, ou, se ela não o fizesse, tomando seu silêncio como um convite para continuar. Enojada, sentiu um aperto no estômago. Sabia que o pai podia ser preso por não pagar suas dívidas e ela não queria vê-lo na prisão. Mas sabia também que nunca seria possível aceitar a degradação que ele lhe propunha. Pensando no pequeno e velho comerciante à sua espera, na estalagem, com aquele sorriso nervoso e repelente, o pânico tomou conta dela. Viu outra vez o rosto pequeno e estreito, os olhos orlados de vermelho que se moviam rápidos como os de um rato, a mão ossuda como uma garra que rasgara seu vestido numa ânsia febril,. Viu então um marco de pedra com uma seta apontando para o norte, para Mawbry, e teve uma idéia. Wirkinton e a Pata de Leão ficavam ao sul, a poucos quilômetros de onde estava. O caminho para Mawbry era mais longo, uma jornada que tomaria o resto do dia e uma noite, a pé. O vento soprava forte, e o frio aumentava rápido mas estava com sua capa mais quente e não deixara na estalagem nada de que fosse precisar, Na verdade, a bagagem seria apenas um peso inútil e, se voltasse para apanhá-la, estaria à mercê de homens iguais a Smedley Goodfield. Erienne tomou sua decisão e, resolvida a chegar a Mawbry antes da meia-noite, apressou o passo. Os sapatos finos não eram próprios para caminhar na estrada de


cascalho, e a todo momento tinha de parar para retirar as pedras que entravam neles. Mesmo assim, ao fim de uma hora tinha percorrido uma boa distância e não estava nem um pouco arrependida de ter evitado outro encontro com Smedley. Só quando as nuvens começaram a ficar escuras, baixas e ameaçadoras, a primeira sensação de dúvida a assaltou. Um ou outro pingo de chuva atingia seu rosto, e com a pressão do vento, cada vez mais forte, o manto grudava nas pernas, dificultando os movimentos. Teimosamente, Erienne subiu outra encosta mas parou no alto, vendo duas estradas que se cruzavam e que pareciam não ter fim, uma seguindo para um lado, a outra na direção oposta. Nada lhe parecia familiar, e o medo de tomar a estrada errada diminuiu sua confiança. As nuvens eram agora uma massa indistinta e revolta que escondia a luz do sol, impedindo que se orientasse. O vento castigava o topo da colina, e Erienne estremeceu, mas aquele hálito gelado deu-lhe a certeza de que ele vinha do norte. Fechando as mãos sem luvas, para se proteger do frio, recomeçou a caminhar, esperando ardentemente ter escolhido a estrada que ia para o norte. — Casamento! — exclamou com desprezo. Começava a detestar essa palavra. Abaixou para tirar outra pedra do sapato, olhou para trás e começou a erguer o corpo bem devagar. De pé no topo da colina que ela acabava de deixar, desenhado em silhueta como um gênio do mal, contra as nuvens turbulentas, estava um homem montado num cavalo negro. O vento açoitava sua capa, abrindo-a como asas, e olhando para ele Erienne sentiu um medo gelado e paralisante. Ouvira muitas histórias de assassinato e violência nas estradas e trilhas no norte da Inglaterra, histórias de assaltantes que roubavam tudo que suas vítimas possuíam de mais precioso, como a virtude e a vida, e sentiu que aquele homem representava um grande perigo. Erienne começou a recuar, e o cavaleiro esporeou o cavalo. Resistindo ao comando, o animal andou de lado por um momento, permitindo que ela visse melhor cavalo e cavaleiro. Então, ela conteve a respiração e o medo desapareceu quando identificou o garanhão negro e o homem que o montava. Christopher Seton! Um nome que a fazia ferver de indignação. Teve vontade de gritar de raiva. Por que tinha de ser ele no alto daquela colina? Ao ver que ela tentava sair da estrada, Christopher esporeou outra vez o cavalo. O garanhão, com suas pernas longas, num instante venceu a distância que os separava, espalhando torrões de terra úmida quando saiu da estrada, atrás dela. com os dentes cerrados, Erienne ergueu a saia do vestido e correu para o outro lado. Christopher saltou do cavalo e com dois passos largos a alcançou, erguendo-a do chão nos braços fortes. — Ponha-me no chão, seu idiota pomposo! Ponha-me no chão! - Erienne esperneou e com as mãos empurrou o peito largo, tentando se libertar. — Fique quieta, menina, e escute! — ordenou ele, zangado, falando muito perto do ouvido dela. — Não sabe o que pode lhe acontecer nesta estrada? Seria um petisco muito apetitoso para ladrões e malfeitores. Brincariam com você por uma ou duas noites... se vivesse tanto. Não pensou nisso? Friamente rejeitando a lógica da advertência, Erienne virou o rosto. — Exijo que me ponha no chão, senhor!


— Só quando estiver disposta a ser razoável. Erienne olhou para ele. — Como descobriu onde eu estava? Os olhos verdes cintilaram, zombeteiros. — Seu pai e aquele arremedo de homem apareceram na estalagem à sua procura. O prefeito fez uma cena quando não a encontrou. — Christopher riu. — Depois de ver Smedley, concluí que certamente tinha fugido para não vê-lo outra vez, e estava certo. Na sua pressa, foi deixando muitas pistas. — É muito vaidoso, Sr. Seton, se pensa que me agrada sua proteção ou sua companhia. — Não precisa ser tão formal, Erienne — zombou ele, com um sorriso malicioso. — Pode me chamar de Christopher ou meu querido, meu amor, ou outra expressão carinhosa que desejar. Os olhos de Erienne chisparam de indignação. — O que eu desejo é que me ponha no chão, já. — Como queira, minha senhora. — Christopher tirou o braço de sob os joelhos dela, e Erienne deslizou para baixo, contra o corpo dele, até seus pés tocarem a encosta coberta de musgo. A proximidade dos dois corpos teve o efeito de um relâmpago em Erienne. Uma cena surgiu em sua mente, a do corpo nu de um homem, delineado em silhueta contra os raios rosados do sol nascente. — Tire as mãos de mim! — ordenou ela, tentando esconder o rosto em fogo. Uma verdadeira dama jamais permitiria que tal cena aparecesse em sua mente. — Sou perfeitamente capaz de ficar de pé sozinha. Segurando-a pela cintura com as mãos, Christopher a ergueu para o alto de uma pequena rocha plana e lisa, ao lado da estrada. — Fique aqui, até eu voltar com meu cavalo. — Não sou uma criança a quem pode dar ordens — protestou ela. — Sou uma mulher adulta! com uma sobrancelha zombeteiramente erguida, ele a examinou de alto a baixo, com olhos que pareciam queimá-la. - Pensando bem, é a primeira verdade que já ouvi dos seus lábios. Erienne corou intensamente, fechando a capa em volta do corpo. — Alguém já lhe disse o quanto é detestável? Os dentes brancos brilharam num sorriso. — Até agora, minha querida, todos os membros da sua família. — Então, por que não nos deixa em paz? Rindo, ele afastou-se para apanhar o cavalo e disse, por sobre o ombro, segurando as rédeas do animal: — Do modo que vão as coisas, Erienne, acho que seu pai jamais vai conseguir casar você. — Levou o garanhão até onde ela estava. — Eu quero alguma garantia de que não vou perder completamente meu investimento. — Pensa realmente que tem algum direito sobre minha pessoa? — disse ela, com desprezo. — Direito de me importunar e entediar com sua presença? Ele deu de ombros. — Tanto quanto seus outros pretendentes. Na verdade, com as duas mil libras que seu pai me deve, talvez até mais. Duvido que seus galantes candidatos estejam dispostos a se desfazer dessa quantia. — Riu e continuou: — Seria melhor que fosse


levada ao mercado de escravas para a melhor oferta. Pouparia ao seu pai tempo e trabalho para encontrar um marido generoso. Erienne abriu a boca para protestar, mas não teve tempo porque ele a ergueu de repente para a sela do cavalo, montando logo atrás dela. — Isto é ultrajante, Sr. Seton! — reclamou ela. — Ponha-me no chão! — Se ainda não percebeu, minha querida, estamos prestes a nos molhar. — Nesse momento a chuva começou. — Como não posso deixá-la aqui sozinha, terá de ir comigo. — Não vou a lugar algum em sua companhia! — Muito bem, não vou ficar aqui sentado na chuva, discutindo com você. — Esporeou o animal, que partiu a galope. com o impacto da partida brusca, Erienne foi atirada contra o peito forte e, por segurança, teve de concordar com o braço que cingia sua cintura. Embora jamais admitisse abertamente, era grata pelo conforto macio das pernas dele, que a firmavam na sela. Açoitada pelo vento, a chuva num instante encharcou sua capa, escorrendo pela frente do vestido rasgado. Erienne tentou olhar para o céu tempestuoso, mas a força da chuva obrigou-a a virar o rosto, abrigando-o no peito dele. Christopher passou os dois lados da própria capa em volta do corpo dela, mas a chuva aumentou praticamente inundando as roupas dos dois. O vento e a chuva fria assaltavam-nos por todos os lados. Então, através da cortina de água viram a forma vaga de uma casa, a distância. Christopher fez o cavalo sair da estrada e seguiram entre as árvores na direção da construção. Os galhos desfolhados, além de não proteger contra a tempestade, enroscavam neles, como para impedir sua passagem. Quando se aproximaram, viram um estábulo velho e abandonado, ao lado de uma casa rústica e sem telhado. As portas do estábulo estavam abertas, uma delas presa apenas na parte inferior pelas dobradiças enferrujadas. Trepadeiras sem folhas sulbiam pelas paredes, e na frente da entrada estava um tronco de árvore, apodrecido. Apesar do seu estado, o estábulo oferecia mais proteção do que a casa. Christopher desmontou e ajudou Erienne a descer do cavalo. O vento penetrava suas vestes molhadas, gelando-lhe o corpo. Erienne tremia sem parar de frio quando Christopher a carregou para o interior do estábulo. Ele a pôs no chão e examinou o lugar. — Não tão confortável quanto a Pata de Leão, mas pelo menos estamos protegidos da chuva — disse ele. Tirou a capa e olhou para ela, com a sobrancelha erguida. — Você parece um coelho afogado. Sem parar de tremer, Erienne ergueu o queixo e olhou para ele friamente. Quase não podia falar, mas tentou. — S-s-uponho que a-a-cha que Cla-udia t-te-ria melhor a-parência, na mesma situação. Christopher riu e imaginou Claudia tentando conservar a elegância com a água escorrendo das abas murchas do chapéu. — Não precisa ter ciúmes dela. Foi você quem segui a Wirkinton. — Ah! E-e-ntão admite que me seguiu. — É claro.


Christopher saiu e logo voltou com o cavalo. Erienne encolheu-se num canto, enquanto ele apanhava um volume protegido da chuva, que estava atrás da sela. Tirou seu casaco longo e o atirou para ela. De costas, retirando a sela do animal, ele disse. — Acho melhor vestir isso antes que apanhe um resfriado. Erienne aconchegou mais a capa molhada contra o corpo e virou o rosto, relutando em mostrar o vestido rasgado, o que seria mais um golpe no seu orgulho. — Pode ficar com seu casaco, Sr, Seton. Não tem nenhuma utilidade para mim. Christopher olhou para trás, com a sobrancelha arqueada. — Está tentando me convencer de que é realmente muito tola? — Tola ou não, não vou usá-lo. — Vai sim — disse ele, simplesmente, e Erienne perguntou a si mesma se a estaria ameaçando. Tirando o casaco curto e o colete molhados, ele os atirou sobre a porta de uma baia. — Vou tentar acender um fogo para nos aquecermos um pouco. Ele começou a andar pelo estábulo, verificando as várias goteiras no teto. Sem dúvida havia muita coisa que podia servir de lenha, o problema era agora acender o fogo. Para isso, seu estojo com carvão e pederneira seria suficiente. As pernas trêmulas de Erienne cederam afinal, e ela caiu de joelhos. Via Christopher juntando madeira perto dela, mas a idéia do calor do fogo parecia muito distante. Ela sentou-se no chão, com o cabelo molhado grudado nas costas. O rosto e as mãos estavam insensíveis de frio e o nariz vermelho. Até os sapatos estavam encharcados. Quando as primeiras chamas surgiram no escuro do estábulo, ela estava com o corpo rígido demais para se aproximar delas. Abaixou os olhos, cansada demais para continuar a luta, e talvez, acima de tudo, evitando olhar para o que revelava a calça muito justa e molhada de Christopher. — Não quer vir para perto do fogo? — perguntou ele, em voz baixa. Incapaz de falar, Erienne enrolou mais a capa molhada em volta do corpo e balançou a cabeça. Tinha seu orgulho, e era melhor parecer teimosa do que fraca. Esqueceu que Christopher Seton era um homem acostumado a tomar as rédeas nas mãos. Estendendo a mão, ele a fez ficar de pé e a carregou, como se ela fosse uma criança. Erienne murmurou uma recusa através dos dentes cerrados, temendo ser reduzida a uma massa informe e trêmula se tentasse falar. Ignorando o fraco protesto, Christopher a pôs no chão, perto do fogo e começou a desamarrar o cordão da capa molhada da jovem. Tomada de pânico, Erienne tentou impedi-lo, segurando a capa contra o corpo e balançando a cabeça. — N-não! Deixe-me em paz! — Se você não se ajuda, Erienne, alguém tem de ajudá-la. Afastando as mãos dela, ele tirou a capa e a deixou cair no chão. Com surpresa, olhou para o vestido rasgado e os seios macios recobertos pela combinação molhada. Ansiosa, Erienne segurou os pedaços do vestido contra o corpo, sem olhar para ele. — Eu compreendo a impaciência de Smedley — disse Christopher, com voz seca, — Mas ele a machucou? — Acha que isso é da sua conta? — perguntou ela, intrigada com a fúria que via nos olhos dele.


— Talvez — respondeu Christopher, bruscamente. — Tudo depende do seu pai conseguir ou não pagar suas dívidas. Além disso, parece que adquiri o hábito de ir sempre em seu socorro, e como parece estar sempre precisando muito dos meus serviços, não prétendo parar por enquanto. Sem dizer mais nada, Christopher a fez virar de costas e para horror de Erienne começou a tirar seu vestido. Tremendo muito de frio, ela tentou segurar os pedaços de vestido contra o peito, ao mesmo tempo procurando se afastar dele. Os seios estavam quase fora da combinação, e ela sabia que sem o vestido não teria proteção contra aqueles olhos verdes e penetrantes. Christopher era mais decidido... e mais forte. O vestido, o espartilho e as anáguas logo caíram no chão, aos pés dela. Só então Erienne conseguiu se libertar. — Deixe-me em paz! — disse ela, afastando-se do fogo, protegendo o corpo com as mãos, pois a combinação molhada delineava indiscretamente suas formas. Christopher aproximou-se e envolveu-a no seu casaco longo. — Se é capaz de ver alguma coisa na frente do seu nariz, vai compreender que só estou tentando ajudar. — Tomou-a nos braços outra vez. — Para uma jovem de temperamento tão ardente, você está fria e pálida como um bloco de gelo. — Seus olhos se encontraram. — Como eu já disse antes, preciso proteger meu investimento. — Seu bruto! Seu velhaco! Ele riu e seu hálito tocou a testa dela. — Suas palavras carinhosas me intrigam, minha doçura, Ele a fez sentar ao lado do fogo e abaixou para tirar os sapatos dela. Erienne deixou escapar uma exclamação chocada quando as mãos dele subiram para soltar as meias na altura dos joelhos, Apesar da sua resistência, ele tirou as meias e as pôs sobre uma pedra, ao lado do fogo. — Por meu gosto, eu tiraria essa combinação também — disse ele, com um sorriso malicioso. — Portanto, deve me agradecer por permitir que retenha um pouco da sua modéstia. — Não se engane, pensando que é muito melhor do que o Sr. Goodfield — disse, furiosa. Embora começasse a sentir o calor do fogo e pudesse falar com mais clareza, o ultraje de ter sido despida à força impedia qualquer sentimento de gratidão. — Depois de me surpreender e trazer para este lugar deserto, está impondo sua vontade. Acredite, senhor, meu pai vai saber disto! — Como quiser, Erienne, mas quero que saiba que as ameaças da sua família não me intimidam e o que estou fazendo é para o seu bem. Se quer que alguém seja ferido por causa do seu orgulho teimoso, então será responsável pelas conseqüências. — Suponho que quando feriu meu irmão foi também para o bem dele. com uma breve risada, Christopher disse: — Seu irmão sabe o que aconteceu. Pergunte a ele. Ou a qualquer uma das testemunhas do duelo. Não preciso me defender para você nem para sua família. — E é claro que é um pobre inocente. — Riu com desprezo. — Pode estar certo, Sr. Seton, que não posso acreditar nisso. Os olhos de Christopher cintilaram à luz do fogo, e ele disse, com um sorriso tranqüilo: — Eu nunca disse que sou inocente, doçura, mas também não sou o vilão que imagina.


— Eu não esperava que admitisse isso — respondeu ela, secamente. — Sou uma pessoa razoavelmente honesta. — O sorriso tantalizante reapareceu, respondendo à expressão de dúvida de Erienne. — Mas em certos momentos é mais prudente não dizer toda a verdade. — Está tentando dizer que, quando lhe convém, é um mentiroso. — Não estou dizendo nada disso. — Então explique — disse ela, com um olhar gelado. — Por quê? — zombou ele. — Você não acreditaria em mim. — Tem razão. Não acredito numa palavra sua. — Então, acho melhor dormir, se puder. Vamos passar a noite aqui, e não vejo motivo para aborrecê-la com minhas mentiras. — Não vou ficar aqui! Não na sua companhia! — Balançou a cabeça, com decisão. — Nunca! Franzindo a testa e sorrindo ao mesmo tempo, Christopher olhou atentamente para ela. — Quer voltar para a tempestade? Erienne virou o rosto e não respondeu. Não estava preparada ainda para deixar o conforto daquele refúgio, mas também não podia confiar nele. Não era o tipo de homem que despertava confiança em qualquer mulher. Só faltava uma argola na orelha para ser a imagem perfeita do pirata valentão. A camisa branca, aberta até a cintura, revelava o peito firme e musculoso recoberto por uma. fina camada de pêlos. Até os ombros largos e a cintura fina eram os de um pirata, ou, pelo menos, a realização de um pirata de sonho, e com o sorriso zombeteiro e o cabelo escuro emoldurando o rosto, era sem dúvida um belo bucaneiro. — Se não quer responder, devo supor que compreende a lógica de ficarmos aqui. Ótimo! — Sorriu vendo o olhar furioso de Erienne. — Se a chuva passar durante a noite, providenciarei para que esteja em casa antes do nascer do sol. Uma vez que seu pai ainda está em Wirkinton e seu irmão provavelmente curtindo outra bebedeira — fez questão de não tocar no nome de Molly —, ninguém precisa saber que passou a noite comigo. — Como ousa falar assim de Farrell? — Os olhos dela chisparam de indignação. — Como ousa?! — Não precisa sentir-se insultada, meu bem. Não a julgo pelo que seu irmão faz. — Oh, seu miserável! Seu miserável! Ele não estaria assim se não tivesse atirado no seu braço. — É mesmo? — duvidou Christopher. — Pelo que ouvi dizer, seu irmão levava uma vida desregrada muito antes de nos conhecermos. Apanhou a roupa de Erienne e a estendeu junto ao fogo. Qualquer observação da parte dela seria importuna, pois ele parecia conhecer a fundo as particularidades das peças de roupa feminina. Embaraçada, ela se encolheu, deu as costas a ele e puxou o casaco até o queixo. Só depois de muito tempo, Erienne se acalmou. Exausta, ficou imóvel, olhando para o fogo, até que seus olhos se fecharam e o corpo cedeu ao sono. Erienne acordou de repente, com a sensação de estar sendo observada e o pânico a envolveu quando não conseguiu reconhecer o lugar em que estava. A luz fraca e amarelada iluminava uma pequena área à sua volta, e ela sentia o calor do fogo no rosto. Além do círculo de luz, a escuridão era impenetrável. Vigas enormes de


madeira formavam um desenho estranho acima de sua cabeça, baixas e escuras demais para pertencerem ao seu quarto. Sob o pano áspero que a cobria, sentiu alguma coisa úmida e lembrou então que era sua combinação molhada pela chuva... a única peça de roupa deixada por Christopher Seton. A lembrança chegou de repente, e Erienne sentou-se com uma exclamação abafada, à procura do homem na escuridão do estábulo. Christopher estava perto demais para seu gosto. Sentado no chão, apoiado numa viga de madeira, o braço sobre o joelho dobrado, ele a observava atentamente. Quando ele abaixou um pouco os olhos, Erienne percebeu à luz fraca do fogo que o casaco longo que a agasalhava escorregara e a combinação úmida não deixava nenhum detalhe à imaginação. Sua pele brilhava à luz suave das chamas e os seios macios e delicados delineavam-se sob a fazenda fina. com uma exclamação de espanto, ela puxou o casaco para o queixo. — Há quanto tempo está sentado aí me vendo dormir? — perguntou ela. com um breve sorriso ele respondeu: — O suficiente. Erienne não estava disposta a jogos de palavras. — Suficiente para quê? Os olhos dele percorreram seu corpo, coberto agora. — Suficiente para me convencer de que você vale muito mais do que qualquer dívida. Surpresa, Erienne olhou para ele, inconsciente da própria imagem com o cabelo solto e despenteado sobre os ombros. — Sr. Seton. Não pode pensar em mim como compensação de uma dívida. Se essa é sua idéia, perdeu completamente o juízo. — Se seu pai fizer o que quer fazer, é exatamente o que você será. Vai ser comprada e vendida por uma ninharia. — Eu não diria que duas mil libras sejam uma ninharia — disse ela com desprezo. — Além disso, se não fosse por sua causa eu não precisaria casar. Pelo menos, não por dinheiro. Christopher deu de ombros. — Seu pai não precisa se preocupar em arranjar um marido rico. Sua companhia em troca de duas mil libras é um negócio bastante justo. — Minha companhia! — Ela riu com ironia. — Quer dizer sua amante paga, não é isso? — Só se você quiser, meu bem. Eu nunca forcei uma dama a fazer o que ela não quer. — E sem dúvida já teve muitas, O sorriso era tão suave quanto a voz. — Um cavalheiro jamais fala nesse assunto, doçura. Erienne ergueu a cabeça, num gesto orgulhoso. — Não acha muita presunção dizer que é um cavalheiro? — Minha mãe fez o melhor possível, mas eu sou um tanto rebelde — continuou, com um largo sorriso. — Sempre procuro me adaptar às circunstâncias. — Quer dizer que é um mal-educado que se fez sozinho — disse ela, com voz firme. — Sim, Erienne, mas comigo jamais vai se entediar. Isso eu prometo. O calor na voz dele aqueceu o rosto de Erienne. Como uma professora paciente ensinando um aluno difícil, ela disse, pronunciando com cuidado as palavras:


— Sr. Seton, eu ficaria imensamente satisfeita se me chamasse de Srta, Fleming. — Acho que depois de partilhar uma cama e de passarmos uma noite juntos, devemos progredir para algo mais íntimo, pelo menos quando estamos sozinhos. Agora, meu amor, gostaria que considerasse as vantagens de permitir que eu seja um pretendente. Não sou tão velho quanto os que me precederam. Logo vou completar trinta e três anos. Sou forte e tenho bons hábitos. Jamais abusei de uma mulher. — Ignorou o sorriso de desprezo de Erienne. — E com minha fortuna posso vesti-la ricamente como exige sua beleza. Quanto à minha aparência,., — Passou a mão a pouca distância do corpo, de cima a baixo. — Pode julgar por você mesma. — Tenho a impressão de que está pedindo a minha mão, Sr. Seton — disse ela, secamente. — Apenas tentando convencê-la dos meus méritos, meu amor. — Não precisa tentar. Seria perda de tempo. Sempre o odiarei— Tem certeza, minha querida? — Franziu a testa, interrogativo. — Odeia-me mais do que a Silas Chambers, talvez? ou mais até do que a Smedley Goodfield? Erienne virou o rosto para não responder. — Acho que não. Suspeito que ia preferir um homem de verdade para aquecer sua cama a qualquer um daqueles velhos gagás que seu pai tem arranjado. Eles já passaram da idade e embora lutem bravamente para cumprir os deveres íntimos de um marido, é duvidoso que consigam fazer algo mais do que babar de desejo impotente. As palavras dele a fizeram corar intensamente. — Como ousa me insultar com suas propostas idiotas, como se fosse uma grande dádiva para a humanidade? Como eu já disse, Sr. Seton, prefiro me casar com um monstro a partilhar a cama com gente da sua laia. A resposta, embora dada em voz baixa, a atingiu com muito maior impacto do que os gritos furiosos do pai jamais poderiam atingi-la. — Quer que eu prove a inutilidade dos seus insultos? Erienne ergueu-se de um salto, segurando, desesperada, o casaco contra o corpo. Lembrou de repente que estavam sozinhos e imaginou o que ele podia fazer, se quisesse. Mesmo assim, resolveu que não o deixaria perceber o quanto a perturbava aquela ameaça. — É muito arrogante, senhor, se pensa que vou cair apaixonada aos seus pés. Christopher levantou-se rápido também, sem nenhum esforço, assustando-a. O largo sorriso e o peito nu e forte a faziam compreender a imprudência de continuar com aquela provocação. Ele acabava de dizer que era um cavalheiro e que sempre fazia exatamente o que desejava. Podia querer possuí-la. Segurando o casaco com força, Erienne recuou, enquanto ele avançava com passos firmes e um sorriso diabólico. Quando chegou perto, pôs o pé sobre uma das pontas do casaco que a agasalhava, obrigando-a a parar. Erienne tentou soltar o casaco, mas ele continuou se adiantando. Então, livrando-se do casaco, ela fugiu com um grito para a outra extremidade do estábulo. A parede meio desmoronada não oferecia nenhuma defesa, e ela procurou inutilmente alguma coisa que pudesse servir de arma. — Fique longe de mim! — Calculando rápido, desistiu da idéia de passar correndo por ele. Como já vira em outras ocasiões, Christopher era tão ágil quanto forte. Parou


na frente dela, com os ombros largos limitando o mundo de Erienne a um pequeno espaço. Furiosa, ela o empurrou, mas tudo que conseguiu foi abrir mais a camisa dele. Christopher segurou os pulsos dela com dedos firmes. — Orgulho e bobagens — zombou ele, com os olhos nos dela. Erienne tentou libertar a mão, mas ele passou o outro braço em volta da sua cintura, puxando-a para ele. Então os lábios de Christopher estavam nos dela num beijo ardente, cujo calor penetrou até o âmago do seu ser, exigindo, pedindo algo mais. Os lábios ávidos abriram os dela. A língua brincou por um momento sobre eles, depois entrou, para saborear a doçura da sua boca, chocando o senso de compostura de Erienne. Ela tentou virar o rosto, temendo que sua vontade e seu ódio desmoronassem sob o ataque ardente. Estava presa, com o braço dele em volta da sua cintura e os seios macios apertados contra o peito forte. A mão dele desceu para as nádegas da jovem, apertando-a contra si até ela não conseguir mais ignorar a força do seu desejo. Os lábios dele desceram para o pescoço de Erienne e todo seu corpo se transformou numa bola de fogo, acompanhando a descida daquela carícia. Ela mal podia respirar, mal podia se mover para se libertar daqueles beijos ardentes. Balançou a cabeça, um pedido mudo para que ele parasse antes que a paixão a consumisse. Então, os lábios dele pousaram sobre seu seio, e Erienne conteve a respiração quando sentiu o calor, através da combinação fina e o mamilo ereto e firme. Num gesto de modéstia ultrajada, tentou afastá-lo, certa de que ia desmaiar se ele não parasse, — Christopher, não! com uma risada abafada, ele a soltou e Erienne, atordoada, encostou-se na parede, respirando com dificuldade. com a mão sobre o seio palpitante, a jovem encarou-o como se ela, Christopher e o mundo todo tivessem enlouquecido. Nenhuma banalidade virginal poderia apagar a expressão de espanto do seu rosto, nem acalmar as batidas caóticas do seu coração. — Contente-se com seus velhos pretendentes, Erienne Fleming, Ou enfrente a verdade do que eu disse. Estonteada ainda, viu-o correr para o cavalo que começara a bufar e a patear, nervoso. Erienne estava confusa com as próprias emoções. O que acabava de descobrir sobre Christopher Seton era como um camundongo roendo o interior de uma parede, anunciando problemas futuros, mas que não podia ser detido no momento. Christopher saiu para a noite, afastou-se um pouco do estábulo e esperou, em silêncio. Virou a cabeça para os dois lados para detectar o mais leve murmúrio e então ouviu o som abafado e distante, como um intruso encapuzado penetrando a noite ou como a batida ritmada das patas de cavalos, porém, mais suaves, como se... Entrou correndo no estábulo e começou a apanhar as roupas que estavam perto do fogo. — Vista-se. Temos de ir embora. Cavaleiros estão vindo para cá, cerca de uns vinte e as patas dos cavalos estão protegidas para não fazer nenhum ruído. — Atirou as peças de roupa para ela. — Duvido que sejam homens honestos, viajando a esta hora e desse modo. Erienne obedeceu rápido e começava a amarrar as tiras do espartilho, quando ele se aproximou, impaciente e as amarrou com rapidez. — É o mínimo que posso fazer, minha senhora — murmurou, perto do ouvido dela.


Erienne vestiu as anáguas e o vestido, furiosa, sem pensar em gratidão. — Tem certeza de que ouviu alguém vindo para cá? Christopher pôs o casaco longo nas costas dela, antes que Erienne tivesse tempo de abotoar o vestido e a puxou para perto do cavalo. — Se duvida, fique aqui! Logo vai saber. Erienne aceitou a resposta e recuou para o lado quando ele apanhou o balde de madeira que servira para dar água ao cavalo. Christopher jogou a água no fogo e depois cobriu de terra as cinzas, e a escuridão reinou outra vez no estábulo em ruínas. Ele segurou as rédeas, jogando as capas, seu colete e casaco sobre a sela. Levou o animal para uma moita a alguma distância da estrada. com Erienne segurando o rabo do cavalo, começaram a caminhada na escuridão da noite. Esperaram no lugar mais escuro. O som abafado das patas dos cavalos protegidas para não fazer ruído soaram mais perto, e uma voz baixa de homem deu ordem para o bando parar na estrada. Logo três cavaleiros apareceram e dirigiram-se para o estábulo. — Estou dizendo que sinto cheiro de fumaça — disse um dos homens, — E conheço bastante esta estrada para saber que este é o único lugar que pode servir de abrigo. — Seu homem já se foi, rapaz, e não adianta agora procurar Por ele. Você o deixou escapar entre seus dedos, foi isso que fez. O cavaleiro que ia na frente desmontou, entrou no estábulo, Parou no lado de dentro da porta e olhou em volta. Voltou e tornou a montar. — Se tinha alguém aqui, já se foi. — Pode ficar descansado agora, Timmy — disse um dos homens. — Ninguém vai sair do escuro e pular em cima de você. — Cale essa maldita boca, seu cretino. Se ainda estou vivo é porque sou cauteloso. — Vamos voltar — disse o primeiro homem. — Temos uma longa viagem pela frente. Quando os homens voltaram para a estrada, Erienne soltou a respiração, só naquele momento percebendo que a estava contendo. Agradecia seus instintos que a fizeram acompanhar Christopher em vez de ficar no estábulo. Enquanto esperavam que o bando partisse, ocorreu-lhe que estaria agora à mercê daqueles homens se Christopher não a tivesse encontrado. Seguiram viagem para Mawbry, envoltos na névoa cinzenta e úmida que pairava sobre a charneca e as encostas rochosas. Enrolava-se nos troncos nodosos e contorcidos de velhos carvalhos e cobria a estrada sinuosa, dando a impressão de que estavam nadando num mar de vapor espesso e úmido, completamente fora do mundo real. Consciente da presença do homem atrás dela, Erienne tentava enrijecer o corpo, mas era uma longa jornada e estava exausta. Agasalhada com o casaco de Christopher, apesar da sua decisão de se manter distante, a todo momento encostava-se nele. O choque do contato com aquele peito musculoso a fazia endireitar o corpo, e ela tentava reforçar sua animosidade. — Relaxe, Erienne — disse Christopher, afinal. — Logo estará livre de mim. Essas palavras fizeram-na lembrar a sensação de perda quando ele saiu, na primeira visita, e quando se afastou dos fundos da sua casa naquela tarde. A lembrança do beijo a perturbava. com outros homens, tudo que sentia era repulsão quando tentavam roubar a mais leve carícia. Não aconteceu com Christopher, e Erienne temia


que estivesse destinada a lembrar para sempre a sensação daquele abraço. A madrugada começava a invadir a névoa quando chegaram a Mawbry. Christopher deu a volta no pequeno povoado, parou na frente da casa do prefeito, inclinou-se na sela para abrir o portão e foram até a porta da casa. Nenhum ronco soava do quarto de Farrell, indicando que ele não chegara ainda. Ajudada por Christopher, ela desmontou. Tirou o casaco e o atirou para ele e teria entrado em casa rapidamente se não fosse a pergunta dele. — Não vai me convidar para entrar? Erienne deu meia-volta, furiosa, e, como suspeitava, viu-se desafiada pelo sorriso zombeteiro. — É claro que não! Christopher suspirou, com fingido desapontamento. — Essa é a gratidão de uma mulher volúvel? — Volúvel! Está me chamando de volúvel? Ora, seu bufão vaidoso... Seu... seu... Ele esporeou o cavalo, fez o animal saltar a cerca e partiu, deixando no ar o eco da sua risada. Erienne bateu com o pé no chão, zangada, murmurando ameaças. Não conhecia nenhum homem que tivesse tanto prazer em provocá-la e incomodava-a o fato de ele sempre conseguir uma reação. A tarde ia em meio quando Avery chegou em casa, e quando o viu caminhando na rua com passos largos, Erienne torceu as mãos, ansiosa. Felizmente Farrell não voltara ainda da sua farra noturna e assim não podia dizer nada sobre a hora de chegada de Erienne. Mesmo assim, ela passara o dia numa vigília nervosa, temendo o que o pai ia dizer. Estremeceu quando ele entrou rápido, batendo a porta com força. com um olhar furioso para a filha, que o esperava na porta da sala, ele tirou o casaco. — Então está em casa. E eu me preocupando o tempo todo, pensando que algum bandido a tinha carregado para sua toca. Erienne não ousou revelar como estivera muito perto disso. Desde que se separaram, a lembrança de Christopher não a deixava, por mais que desejasse o prazer de esquecê-lo. — Por minha alma, menina, não sei o que se passa na sua cabeça. Faz um barulho danado por causa das liberdades de Smedley Goodfield, quando sabe que ele teria esse direito se casasse com você. O estômago de Erienne se apertou, enojado. — Foi por isso que vim embora. Não podia suportar essa idéia. — Ahhh! — Entrecerrou os olhos. — Tem as suas preferências, não é? Aquele salafrário Seton a estava bolinando com os olhos, mas você não disse uma palavra. Mas aparece um homem bom, com intenção de casar e de repente fica toda preocupada com o lugar que ele põe as mãos. Espero que, com seus altos ideais, não esqueça que o Sr. Seton não pensa em casar com você. — Ele riu. — Oh, estaria disposto a pôr as mãos em você e satisfazer seus desejos. É claro que se deixar que ele ponha sua semente em você pode estar certa que vai ficar com um bebê na barriga e nenhum marido ao seu lado. Erienne corou ouvindo as palavras cruas do pai. Para não ver o sorriso satisfeito dele, virou o rosto e disse: — Não precisa se preocupar com o Sr. Seton. Ele seria o último homem que eu


escolheria. A repetição dava à frase um tom de insinceridade, na mente de Erienne. — Hah! — disse ele, incrédulo. — O primeiro, talvez! Mas não o último! Aposto que o velho Smedley ficaria um ou dois lugares abaixo do seu Sr. Seton nessa lista.

Capítulo Cinco SE PUDESSE existir um albino cinzento, então, sem dúvida, o pretendente seguinte à mão de Erienne seria exatamente isso. com cabelo cinzento, pele acinzentada, olhos lacrimejantes e uma sombra azulada em volta dos lábios, Harford Newton não podia ser descrito de outra forma. As mãos grandes e gorduchas eram úmidas, e ele enxugava constantemente a boca e o nariz com um lenço. Apesar da gordura, parecia sofrer bastante os rigores do inverno, pois, embora a temperatura estivesse moderada, tinha o pescoço gordo protegido pela gola do casaco e por um cachecol. Sua forma e postura lembravam um melão maduro demais, não exatamente gordo, mas amolecido e flácido. Parecia um gato mimado, exigente e arrogante. Contudo, ao contrário do gato, seus olhos, quando desafiados por um olhar direto, pareciam se esconder no rosto redondo. Erienne entrou em pânico só em pensar naquelas mãos quentes e úmidas no seu corpo, enquanto ele se contorcia avidamente ao seu lado, na cama. Lembrou que quando era pequena, certo dia, depois de correr demais pela charneca teve um acesso de enjôo terrível, não muito diferente do que sentia quando olhava para Harford Newton. A certeza de que não poderia de modo algum suportar aquele homem congelou na superfície de sua mente, como um lago de gelo e, no meio de tudo isso, as palavras de Christopher voltavam Para atormentá-la. Era arrogância dele dizer que seria mais fácil para ela suportá-lo do que a qualquer um dos seus pretendentes, e o que a aborrecia era saber que ele tinha razão. Recorrendo a toda a sua força de vontade, Erienne conseguiu Manter uma atitude de fria polidez para com o homem. Repeliu suas investidas ávidas, desejando, sem esperança, que ele compreendesse o significado dessa recusa, pois seu estômago se contraía, quase insuportavelmente, cada vez mais. O braço dele tocou seu busto e suas mãos procuraram suas coxas, como se já tivesse todos os direitos sobre ela. Erienne não queria provocar a ira do pai outra vêz e foi quase com desespero que se desculpou e saiu da sala. Fugiu para o seu quarto e, apesar das ameaças de Avery, só voltou para a sala quando teve certeza de que Harford Newton já havia partido, talvez para não mais voltar. Quando viu a carruagem dele se afastar da casa, deu um longo suspiro de alívio. Porém, a idéia de enfrentar a fúria do pai quase anulava a sensação de contentamento. Voltou à sala e encontrou Avery servindo-se de uma dose de bebida e preparou-se para o pior. — Quase precisei pôr uma argola no nariz deste homem para trazê-lo aqui, menina, e juro que os olhos dele se iluminaram quando a viram. Eu estava certo de que tínhamos encontrado o homem certo. Mas você! — Balançou o braço no ar. — Você e sua mania de grandeza! Você não aceita nenhum deles! Erienne inclinou a cabeça para trás e riu, nervosamente. — Bem, sempre temos a oferta do Sr. Seton. Avery bateu com o punho na mesa e olhou para ela, furioso.


— Prefiro ver vocês dois queimando no inferno do que ver aquele homem pondo as mãos em você. Erienne riu outra vez, para disfarçar a mágoa da voz. — Francamente, papai! Sua preocupação é tocante, e o valor que dá a mim, pelo menos no que diz respeito ao dinheiro, é quase surpreendente. Avery olhou atenta e penetrantemente para ela, por alguns segundos. — E o que acha que posso fazer para preservar sua pureza, menina? Passar o resto dos meus dias na prisão? — Riu com desespero. — Oh, perdi algum dinheiro nas cartas, uma vez ou outra, mas gastei quase tudo com você e seu irmão. Parece-me que seria justo que me pagasse na mesma moeda, casando com um homem que tenha um pouco de ouro na bolsa e que não se importe com nossa pobreza. Não é pedir muito. Além disso, você já passou da idadeMas, não, prefere me ver preso em Newgate para preservar sua maldita virgindade! Erienne virou o rosto para esconder uma lágrima indiscreta. — Ela me pertence, para ser dada ou conservada e é bastante valiosa para ser negada aos homens que o senhor tem escolhido. Mas o senhor não se importa. O senhor os atiça e deixa que sua própria filha se defenda desses animais. — Animais, hem? — Acabou de tomar a bebida e olhou para o copo vazio com a testa franzida. — É uma bela despedida quando a filha de um homem é tão exigente e presunçosa que não pode mais obedecer suas ordens. — Segurou o braço dela e a fez virar para ele com um puxão violento. — Pensa que existe outro meio? — Arregalou os olhos e levou a mão fechada à altura do estômago. — Sinto um aperto terrível aqui quando penso numa cela fria e úmida como minha última morada. Estou de costas para a parede, menina, e não tenho mais para onde me voltar. Estou dizendo, vou procurar outro e outro, até encontrar um homem que agrade ao seu gosto refinado! — Sabe que não quero vê-lo na prisão. Mas tenho também um pouco de orgulho. Afinal, eu estaria me vendendo a um desses idiotas por duas mil libras. Uma esposa não vale mais do que isso, meu pai? — Duas mil? — Avery lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. — Pode dobrar isso, menina. Ora, duas eu devo àquele galo arrogante, e outro tanto àqueles abutres de Wirkinton. — Quatro? Quatro mil? — Erienne olhou para o pai, atônita. — Quer dizer que apostou duas mil libras contra Chistopher Seton quando já devia outro tanto? Para evitar os olhos dela, Avery examinou as costas dos dedos gorduchos. — Bem, parecia valer a pena. Teria pago as minhas dívidas, se aquele salafrário não fosse tão esperto. Um calafrio percorreu a espinha de Erienne. — Quer dizer... que roubou no jogo? — Era muito dinheiro para perder. Você entende? Eu tinha de fazer alguma coisa! Ela ficou paralisada. Christopher Seton tinha razão! Seu pai roubara no jogo! E Farrell? Defendendo uma honra que não existia! Nauseada, ela virou o rosto, incapaz de olhar para o pai. Avery deixara Farrell desafiar Christopher, sabendo que um dos dois podia ser morto. Mas estava claro! Esperava que a vítima fosse Christopher Seton. Teria cometido um assassinato para se livrar de uma acusação verdadeira. Mas foi Farrell quem pagou o preço da sua


desonestidade e agora era a vez dela ser usada, como foram usados o irmão e a mãe. Com voz embargada e hesitante, cheia de sarcasmo, ela disse: — Por que não me oferece em leilão, para acabar logo com isso? Pode me vender e serei escrava por dez ou doze anos. Quando sua dívida for paga, eu estarei só com trinta anos. Desde que suas promissórias sejam anuladas, tanto faz eu me casar ou ser escrava. — O mercado, você diz. — Avery esfregou as mãos, sorrindo. — O mercado? Acho que teve uma boa idéia, menina. — Meu pai! — Só então Erienne compreendeu o que acabava de fazer. Inconscientemente repetira as palavras sarcásticas de Christopher que caíam agora sobre ela como uma avalanche. Procurou explicar. — Eu estava brincando, meu pai. Certamente não pode estar pensando nisso. Avery aparentemente não a ouviu. — Isso sem dúvida atrairia muitos pretendentes. O maior lance... por uma esposa inteligente e bonita. — Esposa? — repetiu Erienne, num sussurro doloroso. — Uma esposa que sabe escrever e fazer contas deve dar um bom preço. Talvez um pouco mais de duas mil libras. E depois disso, ela não pode mais recusar as carícias do seu dono. Erienne fechou os olhos, tentando acalmar o turbilhão na sua mente. O que tinha feito? — Sem dúvida deve haver um meio de evitar que aquele sacana do Seton ponha as mãos em você. Está com as calças quentes de desejo, isso ele está. Vi o modo que olhava para você na diligência, como se fosse capaz de possuí-la ali mesmo. Sim, deve haver um meio. — Meu pai, eu imploro — pediu Erienne. — Por favor, não faça isso comigo. Avery deu uma risada, sem se importar com ela. — vou anunciar, é isso que vou fazer. Peço para Farrell escrever o cartaz para mim. Notem bem! — Ergueu o dedo, num gesto de advertência. — Um certo Christopher Seton não pode tomar parte no leilão. Rindo satisfeito, como uma criança levada, Avery sentou-se na beirada da cadeira e, balançando para trás e para a frente, feliz, batia com a mão no joelho. Seus olhos brilhavam, saboreando antecipadamente a vingança. Mal notou quando a filha saiu correndo da sala. Na manhã seguinte, os cartazes apareceram, anunciando um acontecimento excepcional a ser realizado dentro de dez dias. A donzela Eriênne Fleming seria vendida como esposa a quem desse o maior lance. O leilão seria realizado na frente da estalagem, ou, se o tempo não permitisse, dentro da sala comum. O cartaz convidava todos os homens solteiros a contar as moedas das suas bolsas, pois seria determinado um lance mínimo para uma jovem tão talentosa e bela. Na parte inferior do cartaz, em letras enormes, havia um recado para um tal Christopher Seton, avisando que ele não poderia tomar parte no leilão. Ben saiu cambaleante da estalagem quando viu o ianque alto, a cavalo, parado na frente do cartaz. com seu sorriso de dentes cariados, ergueu os olhos para Christopher e bateu com a mão aberta no cartaz. — Ouvi dizer que foi banido do leilão, patrão. A novidade está se espalhando


depressa. Vendo que o senhor disse que não tem intenção de casar, o velho Ben está imaginando que interesse pode ter nela. Quem sabe o prefeito tem outro motivo além do que aconteceu com o filho dele, para querer que o senhor fique longe da filha. — Ainda não — foi a resposta seca. O velho riu, satisfeito. — Para mim isso parece uma ameaça, patrão. com um vigoroso gesto afirmativo, Christopher esporeou o cavalo, que partiu num trote macio. Ben ouviu o ruído de patas em disparada e recuou a tempo de não ser pisoteado pelo cavalo de Timmy Sears. O homem de cabelo vermelho não deu atenção ao punho fechado que o bêbado ergueu para ele, em protesto. Só quando Timmy já estava longe, Ben desfiou uma série de insultos. Na sua fúria, Ben não notou o outro cavaleiro que se aproximava às suas costas. Haggard viu o homem maltrapilho na sua frente e puxou as rédeas, tentando evitar que seu cavalo de crina longa o atropelasse. Mas o animal que montava fora capado muito tarde e conservava ainda o temperamento esquentado de um garanhão. Ignorou o comando da rédea até o último momento, quando viu o motivo e então parou bruscamente, retesando as pernas da frente e inclinando o corpo para trás. Haggie saltou duas vezes na sela e caiu sentado com um tranco, um gemido e uma careta de dor. Ben olhou em volta e recuou apressado, abrindo caminho para o homem e o animal. ”teggard continuou seu caminho com o corpo muito ereto na sela e as pernas apertadas contra a barriga do animal. Era o único modo de seguir o companheiro pelas estradas sinuosas, com um mínimo de conforto, depois da pancada violenta na sela. Christopher Seton despediu-se do imediato no barco-piloto e subiu para o cais pela escada de corda. Esfregou as mãos, firmou o chapéu para que não fosse levado pela brisa da tarde e caminhou calmamente para a Corça Encarnada, uma taverna do porto conhecida por sua cerveja resfriada numa adega gelada e profunda. Absorto nos seus pensamentos, caminhou pelas ruas estreitas próximas do porto. O navio, comandado pelo capitão Daniels, acabava de chegar de Londres, trazendo várias encomendas de Christopher. À primeira luz da manhã, o navio partiria novamente para um lugar no mapa designado por Christopher. Lá, o capitão desembarcaria a carga e voltaria para Wirkinton, onde ficaria durante algum tempo, antes de viajar para Londres, seguindo o litoral. Até o momento de içar a âncora, a tripulação descia à terra em turnos, passando algumas horas nos bares, enquanto a outra turma trabalhava no navio ancorado. A Corça estava vazia naquele fim de tarde, e o taverneiro, entediado, acolheu Christopher alegremente. Mandou um empregado apanhar um barril na adega e falou sem parar, até servir o freguês com uma caneca de cerveja cheia de espuma e quase gelada. Christopher escolheu um lugar confortável, perto da enorme lareira, e sentou-se, com os pés numa banqueta. Olhando para as chamas que dançavam e saltavam num bale hipnotizador, sua mente viajou e uma massa de cabelos negros e fartos cascateou nos seus pensamentos. Olhos luminosos azuis-violeta mudavam de cor à luz do fogo como duas pedras preciosas. Então, a testa se franzia zangada e os olhos ficavam frios como gelo. Christopher escolheu entre suas lembranças um momento em que aqueles olhos brilhavam, risonhos, e guardou essa visão na mente. Lembrou então do nariz. Fino, reto, delicado, brejeiro, quase perfeito. Os traços eram delicados, o rosto, nem muito fino, nem muito largo, mas suavemente ovalado, as


faces levemente coradas, Os lábios surgiram agora na sua imaginação. Não lábios franzidos num muxoxo das femmes da corte, mas suavemente curvos, expressivos e cheios de vida. Duas covinhas apareciam nos cantos da boca quando ela ficava zangada, e outra vez ele procurou entre suas lembranças o momento em que, curvando-se para cima, eles se abriam num sorriso. Aí sua mente parou, lembrando o calor da quela maciez incrível sob seus lábios. O resto da imagem chegou então. Os membros longos e o corpo, que se movia com a graça de um gato, sem as camadas de gordura das mulheres da noite, nem magro e ossudo, mas com uma força e uma honestidade discretas que lhe emprestavam uma elegância quase ingênua. Ela parecia alheia à própria beleza e era apenas Erienne, separada e acima de todas as outras que moravam na sua lembrança. Ela prometia não ser o tipo de mulher que se deixa ficar para trás, nem que corre na frente, mas que prefere caminhar ao lado do homem da sua escolha. Era um castigo para ele não poder gozar da companhia de Erienne. Estava também convencido de que precisava livrá-la dos cuidados do pai e da influência do irmão. Lembrou então que o leilão se encarregaria disso. Entretanto, a possibilidade de ela saltar da frigideira para o fogo era assustadora. Christopher vira um bom número dos pretendentes arranjados pelo pai para classificar todos como fogo e tinha certeza de que muitos deles estariam presentes ao leilão. A provocação feita por ela chegou também à sua lembrança. Corcunda! Deformado! Aleijado! Eram grandes as chances de Erienne ser comprada por um homem com pelo menos uma dessas características. Na verdade, tudo parecia indicar que ela dificilmente poderia evitar que isso acontecesse. Christopher foi tirado do seu devaneio por um grupo barulhento de homens que entrou na taverna. Eram uns doze, e logo ficou evidente que aquele não era o primeiro bar que visitavam. Uma voz alta e áspera elevou-se acima das outras, e Christopher, virando a cabeça, viu Timmy Sears agindo como se fosse o líder do grupo. — Aqui, rapazes — gritou ele, com raro bom humor. — Barriga para cima e tomem um trago por conta de Timmy. Um coro de vivas acolheu a generosidade do Sr. Sears, e ele pôs uma bolsa pesada sobre o balcão. O estalajadeiro, satisfeito, apressou-se a servir suas maiores canecas de cerveja, enchendo-as até em cima. As brincadeiras de mau gosto e a gritaria silenciaram por um momento, enquanto os homens preparavam avidamente as gargantas para receber a bebida. Até o sempre-presente Haggard enfiou o nariz na espuma e começou a beber com grandes goles, com a cerveja escorrendo pelo queixo e pescoço. Satisfeita a sede, as conversas recomeçaram. — Ahhh! — pigarreou Timmy, ruidosamente. — Até a boa cerveja perde o gosto quando é gelada demais. Deve ter a mesma temperatura do dia, aí então um homem pode saborear seu gosto. Todos concordaram, balançando afirmativamente a cabeça murmurando sua aquiescência. — Oi, Timmy — disse uma voz áspera, A mão cheia de cicatrizes bateu com força ao lado da bolsa sobre o balcão, — Você tem uma boa bolada nesta bolsa. Vai entrar no leilão de Avery? — vou! — Sears pôs as mãos no balcão e inflou o peito. — E me preparei para chegar


até, oh... umas cem libras mais ou menos. — Ouçam! — O homem abanou a mão fingindo espanto, — Cem libras por uma mulher? Timmy olhou, carrancudo, para o homem. — Não é só por uma mulher. É para uma esposa, — Mas você já tem uma — protestou o outro. Timmy empertigou o corpo e olhou para cima, pensativo. — E se eu conseguir esta agora, talvez faça um leilão da minha. — Ora! — disse Haggard, — A sua não vale nem dez libras, quanto mais cem libras. Timmy olhou furioso para seu assecla. — Vale, sim! — afirmou, tentando valorizar a mercadoria em perspectiva. — Ela ainda tem algumas boas noites para dar. — Nesse caso — disse o outro —, por que você quer outra? — Porque estou maluco por ela, — Timmy abriu um largo sorriso, — Por isso. — Claro que está — disse outro. — Desde que a velha Molly jogou você para o alto... ufa! — Uma cotovelada nas costelas advertiu o homem, porém tarde demais. — Que negócio é esse? — Timmy olhou em volta, ameaçador, — O que estão dizendo? Que Molly me jogou para o alto? — Ahh! — O homem tentou acalmá-lo, demonstrando solidariedade. — Todos sabem que ela está toda babada por aquele ianque. Timmy inclinou um pouco a cabeça e virou para o lado, como um touro na arena, tentando identificar o homem. — Ianque? Molly? Ela me jogou para o alto, você está dizendo? — Ora, Timmy — disse o homem, — Não é sua cul, A frase foi interrompida por um baque surdo, o ruído do punho de Timmy no queixo do homem. Ele cambaleou para trás, balançando os braços, atordoado, procurando se equilibrar, e caiu esparramado sobre a mesa ao lado da que estava ocupada pelo objeto da discussão. Christopher segurou a tempo a caneca de cerveja, levantou e saltou rápido para o lado. O homem rolou para o chão, gemendo. pepois de verificar os estragos, Christopher passou por cima do homem caído, saindo da sombra, onde ninguém o notara ainda. Sears quase engasgou quando reconheceu o ianque, vendo-o através da névoa vermelha da raiva. — Ora, ora, rapazes... — Empertigado e com arrogância, ele procurou o caminho mais curto para alcançar seu inimigo, o homem que ele culpava por todas as suas desgraças. — Se não é o próprio ianque de quem estávamos falando. Podem ver o homem claramente agora. Um tipo almofadinha e emproado, como se não pudesse se vestir como todos nós. Haggard inclinou-se para a frente, procurando ver também, mas o braço de Timmy o acertou com um golpe violento. Balançou a cabeça atingida e enfiou a mão no ouvido para fazer parar o zumbido. — Sr. Sears — disse Christopher, com voz baixa mas firme, para o homem ruivo, no silêncio sepulcral que envolveu o bar. — Nos últimos momentos eu o ouvi dizer tanta bobagem que dá para satisfazer uma vida inteira. Christopher não estava de bom humor quando os homens entraram no bar. Sua


paciência, provocada demais nos últimos dias, estava a ponto de desaparecer por completo. Não tinha disposição para tolerar mais tolices. Timmy não era completamente idiota. Considerando o modo como o ianque se movia, pensou ele, era melhor procurar alguma ajuda. Podia tirar sua desforra depois que os outros o tivessem amaciado um pouco. — Estão vendo, rapazes — disse para os companheiros —, este é o mesmo rebelde que chegou à nossa Mawbry e virou a cabeça de todas as mulheres. Do jeito que elas falam o nome dele, o tempo todo, dá para ver que o homem deve ter andado de cama em cama. Até Molly está toda perturbada, e podem ver que ele não precisa pagar o preço dela, com todas as outras, de graça, dependuradas no seu pescoço. Timmy não notou que, enquanto falava, alguns homens tinham entrado na taverna e pararam atrás dos seus companheiros para ouvir o discurso. Haggard foi o único a se preocupar com o fato de o sol já ter desaparecido no horizonte, o que significava que as tripulações dos navios estavam em terra e notou também que os recém-chegados usavam roupas estranhas para marinheiros ingleses, Puxou, nervoso, a manga de Timmy, para chamar sua atenção. — Agora não, Haggie. — Timmy o empurrou sem virar a cabeça e e continuou, tentando enfurecer seus homens. — Temos aqui o Sr. Ianque Seton, que bolinou demais a filha do prefeito e foi excluído do leilão. Ele é bom demais para a pobre Molly, que é uma mulher e tanto. Não importa quantos de nós ela conforta, todos os sábados, regular como um relógio, Molly toma um bom banho, e ele faz pouco dela. Um murmúrio de raiva ergueu-se dos homens por essa afronta à mulher gentil que todos conheciam muito bem. Christopher tomou um gole de cerveja calmamente, e nesse momento a porta se abriu e mais marinheiros entraram, um deles alto e grisalho, com o longo casaco azul usado pelos capitães. Ficou parado, com os outros marinheiros, avaliando a situação. Haggard aproximou-se de Timmy, procurando outra vez chamar sua atenção, puxando-o pela manga e olhando, nervoso, em volta. — Para trás! — ordenou Sears, empurrando Haggard. — Estão vendo como ele se esconde atrás da caneca de cerveja, rapazes. Tem medo de dizer o que pensa dos homens de Mawbry. — Se quer mesmo saber o que penso, Sr. Sears — disse Christopher, calmamente, mas de modo a abafar os murmúrios irados dos homens de Sears. — Na minha opinião, é um tolo. O prefeito nunca aceitará suas cem miseráveis libras quando me deve mais de vinte vezes essa quantia. Além disso, duvido que a moça dê atenção ao senhor. — com um largo sorriso, terminou: — Ouvi dizer que ela só gosta de porco muito salgado. — Porco? — Timmy pensou um momento, antes de compreender. — Porco! Vocês ouviram, rapazes! — urrou ele. — Ele me chamou de porco! — Deu um passo para a frente, fazendo sinal aos homens para segui-lo. — Vamos ver como o miserável vai se livrar desta! A ele, rapazes! Depois de um breve avanço, os companheiros de Timmy pararam, olhando para as mãos fortes que seguravam seus ombros. Ergueram os olhos para os rostos sorridentes que pareciam uma parede interminável atrás deles e logo desistiram da idéia de acompanhar Timmy no ataque. Preocupado, Haggard segurou o braço do homem ruivo, para fazer com que ele


olhasse para trás, e finalmente conseguiu sua atenção. — E... lês... eles estão...! — Haggard não conseguiu falar, apontando para os homens. Timmy olhou então e seu queixo caiu lentamente. Havia mais de vinte homens, de pé, em silêncio, atrás dos seus companheiros. Haggard apontou por sobre o próprio ombro para Christopher e gaguejou. — Os h-omens d-ele! O homem com casaco azul deu um passo à frente. ” — Alguma dificuldade, Sr. Seton? — Não, capitão Daniels — respondeu Chistopher, — Nenhuma dificuldade. Pelo menos, nenhuma que eu não possa manejar. Manejar! A palavra parou na garganta de Timmy. Como se ele fosse um animal para ser manejado. Olhou para o inimigo outra vez. Christopher sorriu, calmamente. — Basta um simples pedido de desculpas, Sr, Sears. — Desculpas? O sorriso não se alterou. — Francamente, não tenho nenhuma inclinação para me aproveitar de um bêbado. — Fale inglês, homem! — Timmy balançou a cabeça. — Não me importa quantas inclinações você não tem. Christopher tomou outro gole de cerveja e pôs a caneca na mesa. — Mas compreendeu a palavra ”bêbado”, certamente. Timmy lançou um olhar longo e cuidadoso para trás. — Então, só você e eu, Sr. Seton. — Só você e eu, Sr, Sears — respondeu Christopher, inclinando levemente a cabeça e tirando o casaco. Sears cuspiu nas mãos e esfregou uma contra a outra. Seus olhos brilharam com satisfação, medindo o homem mais magro à sua frente. Abaixou a cabeça e, com um rugido de alegria, atacou. Timmy atravessou a sala antes de perceber que seus braços estavam vazios. Parou apoiando-se na parede e voltou-se para ver onde estava aquele demônio de ianque. O homem estava de pé um pouco ao lado e atrás dele, com o mesmo sorriso nos lábios. Bufando, Timmy lançou-se outra vez para o alvo. Christopher desviou o corpo novamente, mas não antes de acertar um soco na barriga mole do adversário, fazendo-o expelir todo o ar dos pulmões. Quando Sears conseguiu respirar, um violento direto cruzado o mandou voando para longe. Sears ricocheteou na parede novamente e voltou-se agora com maior lentidão, Balançando a cabeça para se livrar das teias de aranha, esperou passar a visão dupla dos seus olhos, para focalizá-los no inimigo. Sears abriu os braços e, com um urro de raiva, lançou-se através da sala e como se conduzido pelo vento, passou pelo adversário e continuou no impulso, levado pelo impacto de um pontapé violento na traseira. Quando a névoa vermelha se dissipou, Timmy descobriu que tinha quebrado umas duas mesas e três ou quatro cadeiras. Era difícil dizer quantas, só olhando para os pedaços espalhados. Saiu de quatro do meio da madeira quebrada e olhou em volta, à procura do adversário. Encontrou-o a poucos passos de onde estava, ainda intocado. Sears ficou de pé e dessa vez atacou em silêncio. Christopher ficou firme e


seu punho fechado desapareceu na barriga de Timmy. Quando o homem dobrou o corpo, ele o fez erguê-lo com um direto no queixo, seguido de vários outros, rápidos e violentos, A cabeça ruiva balançava a cada golpe, mas Timmy continuou perto do oponente, estendendo os braços maciços, procurando envolver com ele o corpo do adversário. Aqueles braços já haviam quebrado muitas costelas, e os olhos congestionados brilhavam com a expectativa da vitória, à medida que ele se aproximava para o abraço final. com a palma da mão, Christopher levou o queixo de Timmy para cima e para trás. O valentão percebeu, surpreso, que estava sendo empurrado lentamente. Então, seus calcanhares tocaram a base do bar, e ele sentiu a madeira do balcão pressionando suas costas. Quando pensou que sua espinha ia se partir, Christopher retirou a mão. O ianque recuou, segurou a gola de Timmy com as mãos e girou o homem várias vezes no ar, lançando-o para longe, finalmente. Timmy voou pela sala, num rodopio, e estatelou no chão, rolando e batendo a cabeça e as canelas até parar perto da lareira. Quase sem poder respirar, levou um longo tempo para ficar de pé. Olhou para Christopher e, num movimento lento, deixou-se cair numa cadeira próxima. Aquele maldito Seton tirava toda a graça de uma briga, e Timmy tinha perdido o apetite por uma pequena desordem. O estalajadeiro, com a bolsa de Timmy aberta sobre o balcão, a cada estrago no seu material tirava uma moeda e a punha de lado. Sorrindo para Timmy ele as guardou no cofre. — Cobre alguma coisa dele também! — berrou o homem ruivo, furioso, apontando para Christopher. O estalajadeiro deu de ombros e respondeu: — Ele não quebrou nada, nem mesmo sua maldita caneca. Timmy lançou-se para o bar, apanhou a bolsa com o dinheiro que restava e guardou-a no bolso. Christopher pôs a caneca no balcão, apanhou o casaco e enquanto o vestia disse para o capitão: — Quer andar um pouco, John? Preciso tomar um pouco de ar. O capitão sorriu, tirou uma baforada do cachimbo e os dois saíram da taverna. Haggard amparou Timmy com um braço e procurou acalmar seu orgulho ferido. — Não ligue para ele, companheiro. Ora, você foi tão rápido que o homem mal encostou a mão em você. As palavras do pai queimavam a lembrança de Erienne com o gosto amargo da traição. A estupidez com que ele levou a sério uma observação irônica comprometia seriamente o caráter de Avery aos olhos da filha. Relembrou os fatos que haviam levado à terrível situação em que se encontrava, procurando descobrir o momento exato em que tudo começara a desmoronar. Na véspera ela estaria pronta a culpar Christopher Seton por todos os problemas, mas o que ouvira do próprio pai mudava muito as coisas. Via claramente agora o verdadeiro caráter do pai e sentia-se profundamente envergonhada. A idéia de que aquela casa não era mais seu lar crescia implacável em sua mente. A cada momento que passava, mais se convencia disso. Mas não tinha para onde ir. Não tinha parentes, nenhum lugar onde se abrigar. Se saísse de casa, seu futuro ia depender unicamente dela. O dilema impunha-se, e a solução escondia-se no caos frenético dos seus pensamentos. Erienne era como uma jangada à deriva num mar turbulento —


insegura, onde estava, incapaz de encontrar um porto de abrigo. Quando a noite desceu, Erienne retirou-se para seu quarto. Lá fora, o vento uivava e as nuvens baixas transformavam o céu noturno num espaço denso e negro, que devorava o menor raio de luz. Ela pôs um pedaço grande de turfa no fogo e sentouse na frente da lareira, com as mãos apoiadas nos braços da poltrona. A fumaça espiralou em volta da turfa seca e lentamente as línguas de fogo subiram ávidas para consumi-la. com os olhos nas chamas dançantes, Erienne deixou o pensamento voar para longe. Havia a proposta de Christopher. Recostada na poltrona, Erienne imaginou-se de braços com ele, num belo e luxuoso vestido, com jóias cintilando no pescoço. Poderia ver com ele as maravilhas do mundo e quando ficassem a sós, ele lhe ensinaria os segredos do amor. Sua mente e seu coração podiam se concentrar unicamente em satisfazer os desejos dele, até que... Viu-se então com uma barriga enorme, na frente do amante esguio e forte. O braço dele estava erguido, expulsando-a, em silêncio, e seu rosto contraiu-se cheio de aborrecimento. Erienne balançou a cabeça irritada para afastar a imagem da mente. A proposta de Christopher estava fora de cogitação. Se entregasse a ele, viveria para sempre com o medo de ser apenas mais um dos seus amores passageiros, amada hoje mas esquecida amanhã. Quando o pai e o irmão retiraram-se para seus quartos, a casa ficou silenciosa. Farrell aparentemente ficou constrangido com a parte que desempenhou naquele plano. Obedecendo às ordens do pai, ele escreveu os cartazes e os distribuiu pela cidade, mas depois, com o passar das horas, ficou tristonho e distante. Começou a tratar a irmã com uma delicadeza exagerada, chegando até a ficar sóbrio, mas Erienne não tinha nenhuma esperança de que o irmão pudesse ajudá-la, pois isso significaria opor-se ao pai, e Farrell sempre admirara o pai acima de tudo. As labaredas subiram, depois desceram. A turfa ficou vermelha e brilhante e se partiu com um estalido seco, como que estoicamente resolvida a se consumir. Erienne olhou para o fogo fraco e quase mortiço até ouvir as duas badaladas do relógio. Olhou em volta, surpresa e esfregou as mãos geladas. O quarto estava bastante frio, e na mesinha ao lado da cama, o pavio da vela estalava numa poça de cera derretida. Ela estremeceu quando seus pés tocaram o chão gelado e procurou rápido o calor reconfortante dos acolchoados da cama. Agasalhada por eles, Erienne tomou uma decisão. Ia fugir na manhã seguinte. Em algum lugar, alguém ia precisar da sua escrita clara e correta ou da sua facilidade com os números, e certamente pagariam um ordenado por uma ou outra dessas habilidades, ou talvez pelas duas. Uma duquesa viúva, ou uma condessa, em Londres, podiam precisar de companhia. Animada com essa esperança, Erienne relaxou, e a mente, livre da tensão, pôde se entregar aos braços abençoados de Morfeu. De manhã, do céu encoberto desceu uma garoa de granizo que cobriu as ruas e estradas com uma fina camada de gelo. Avery parou na Estalagem do Já vali e pediu uma dose de bitter. ”O medicamento da natureza”, dizia ele, como desculpa, para quem estranhava seu pedido. Depois de massagear a papada e pigarrear ruidosamente, explicava: ”Limpa a fuligem e o piche dos meus canos, de verdade. Sim, senhor, e na minha idade preciso disso.”


Nessa manhã gelada, depois de fazer o copo de bitter deslizar pelo balcão, Jamie disse: — Pensei que não ia sair de casa num dia como este, prefeito. — Argh num dia como este, mais do que em qualquer outro. — Sua voz estava rouca e áspera depois da pequena caminhada no frio. Passou a mão vigorosamente na barriga, como para aliviar a dor, e empurrou o copo. — Ponha um dedo de conhaque, Jamie. Um homem precisa de um pouco de fogo nas entranhas para criar vida numa manhã gelada. O estalajadeiro obedeceu, e Avery tomou um bom gole da mistura. — Aaarrgh — rosnou ele, pondo o copo no balcão. Bateu no peito com a mão fechada. — Dá nova vida a um homem. Certamente que dá. Clareia a mente. — Apoiou o cotovelo no balcão e assumiu a atitude de quem vai revelar uma profunda e secreta verdade. — E quer saber, Jamie, um homem na minha posição precisa manter a mente tão alerta quanto possível. É rara a noite em que podemos nos sentir a salvo em nossas camas, com toda a astúcia e caprichos dos clãs de escoceses que aparecem para fazer guerra contra nós. Precisamos estar sempre alerta, Jamie, precisamos mesmo. O estalajadeiro balançou a cabeça afirmativamente e começou a limpar os copos com um pano. O assunto era um dos preferidos de Avery, e ele continuou a falar, contentando-se com o interesse fingido do ouvinte. Avery não tinha idéia de que a revolta, naquele momento, estava muito mais perto da sua casa do que ele pensava. O plano de Erienne não ia além da fuga imediata. Bastava ter resolvido a direção que ia tomar. Londres não era estranha para ela e o lugar mais provável para procurar emprego. Vestiu roupas quentes para a viagem que a levaria para bem longe de casa. Os roncos de Farrell enchiam ainda o silêncio quando ela desceu a escada até a porta dos fundos. Numa sacola levava tudo que possuía. Não era muito, mas tinha de servir. Ajeitou o capuz na cabeça, para se proteger do frio, ergueu um pouco a saia e atravessou correndo o quintal até o barracão onde estava o cavalo. Como Farrel havia muito tempo não cuidava mais do animal e ela havia assumido esse encargo, podia apossar-se dele agora. Queria estar mais bem preparada para a viagem do que quando saiu a pé de Wirkinton. A sela feminina era dela, presente da mãe, muito modesta para ser vendida por um bom preço. Sem dúvida, por isso ainda estava ali. O pai a teria confiscado havia muito tempo se achasse que podia ganhar algum dinheiro com ela. O cavalo era alto, e mesmo com a ajuda da banqueta Erienne teve de saltar, quase caindo do outro lado da sela. Depois de procurar, sem ver, encontrou os estribos com as pontas dos pés, ajeitou-se então, arrumando a saia, segurando com mão firme as rédeas do animal inquieto. — Ande macio se gosta um pouco de mim, Sócrates — disse ela, afagando o pescoço do animal. — Esta manhã preciso sair em silêncio e não quero despertar toda a cidade. O cavalo relinchou e balançou a cabeça, ansioso para partir. Erienne não viu nenhum motivo para detê-lo. Uma vez resolvida, estava ansiosa também para começar sua viagem. Saíram do barracão. Erienne abaixou a cabeça para se proteger de uma rajada de


chuva fina com gelo. Detestava a idéia de outra viagem desconfortável, mas só um desastre horrível podia fazer com que desistisse da fuga. Na estalagem, Avery continuava com sua voz monótona, e Jamie aproximou-se da janela para acordar Ben do seu sono de bêbado. — Vamos, procure outro lugar para dormir. Estou farto de ouvir esse barulho. — Olhou pela janela e resmungou: — Vejam, lá está uma mulher de coragem — disse ele, apontando para o cavalo com sua dona. — Ela vai ficar gelada até os ossos. Imagino quem... — Olhou com mais atenção e quando a reconheceu, seu queixo caiu. — Macacos me mordam! Venha até aqui, prefeito. Aquela não é a sua filha? Avery balançou o braço, indiferente. — Vai ao mercado, sem dúvida. — Apontou com o polegar o cartaz na parede oposta. — Tivemos uma briguinha por causa daquilo, Ela mal falou comigo depois que meu filho pregou esses cartazes. Fica um pouco zangada quando as coisas não são como queria que fossem. Sair num dia destes, deixar uma boa lareira em casa, é uma prova de que não tem juízo. Ora... — De repente, ficou um tanto preocupado e foi até a janela, suspendendo a calça na cintura. — Ela pode apanhar uma doença nessa umidade e vai estragar o leilão, se aparecer espirrando e fungando, com o nariz escorrendo. — O mercado, ah! — zombou Jamie. — com o cavalo e a bagagem atrás da sela. — Conteve o riso quando Avery fechou a cara e ficou rubro. com voz quase inaudível, continuou: — Acho que ela não vai aceitar nada disso, prefeito, acho que ela está indo embora. Avery lançou-se para a porta e a abriu no momento em que Erienne passava pela estalagem. Correu para a rua, gritando o nome dela, mas Erienne, reconhecendo a voz do pai, esporeou Sócrates, que partiu a galope pela rua. — Erienne! — Avery chamou outra vez. Pôs as mãos em concha nos lados da boca e gritou: — Erienne Fleming! Volte já, sua idiota! Não existe nenhum lugar, daqui até Londres, onde possa se esconder de mim! Volte! Volte, estou mandando! O pânico tomou conta de Erienne. Podia ser apenas uma ameaça vã, mas era o fim do seu plano. Ele a seguiria. Acordaria Farrel e logo estariam à sua procura em todos os lugares possíveis. Se continuasse para o sul, certamente a alcançariam, ou, se chegasse a Londres, o pai pediria a ajuda dos amigos, sem dúvida oferecendo uma boa recompensa a quem a encontrasse e levasse de volta para casa. Então teve uma idéia. Podia continuar até não mais ser vista da cidade, e então seguir para oeste durante algum tempo, até chegar à velha estrada do litoral, que ia para o norte. Desse modo, talvez pudesse enganá-los. Erienne sorriu da própria esperteza, imaginando o pai galopando para o sul a toda velocidade. Ficaria furioso quando compreendesse que não podia encontrá-la. Um pouco depois de Mawbry, Erienne pôs o cavalo a passo e começou a procurar um lugar rochoso para sair da estrada sem ser vista. Galgou uma trilha sinuosa no meio das árvores baixas, por algum tempo, depois, subiu uma encosta rochosa e atravessou um regato estreito e raso. Quando, finalmente, virou para o norte, teve certeza de que não estava sendo seguida. Depois de passar ao largo de Mawbry, deixou Sócrates livre para escolher o passo. O animal não agüentava uma corrida longa e cansava rápido quando Erienne


procurava apressá-lo. Cavalgando a passo lento, ela sentia mais o frio e aconchegou o casaco de lã ao corpo Para se proteger. À medida que seguia para o norte, o solo ia ficando mais difícil e acidentado. A charneca ondulante, pintalgada com pequenos lagos cinzentos, passava por ela, desaparecendo onde o céu de chumbo descia para tocar o horizonte. Por volta do meio-dia, parou para comer e descansar, ao abrigo de uma árvore. Agasalhando-se bem com o casaco, comeu u pedaço de carne fria com pão, depois tomou água e deu de beber ao cavalo, que pastava ali perto. Tentou descansar, mas a lembrança persistente de dois olhos verde-cinza não permitiu. Irritava-a o fato de ele a perturbar, mesmo ausente. Montou outra vez e foi obrigada a se concentrar no caminho, ” que ficava cada vez mais difícil, cortado agora por sulcos e enxurradas. As pequenas colinas, com poucas árvores nodosas, eram varridas pelo vento. Nos valões profundos e abrigados, os carvalhos, altos e antigos, estendiam seus galhos bem acima da sua cabeça. Ramos caídos, cobertos de musgo e o mato baixo e cerrado, cobriam o solo. No fim da tarde, muito cansada, Erienne começou a pensar num abrigo para a noite. Chegou a uma trilha estreita, no meio de um pequeno bosque, parou por um momento para olhar em volta. Ouvia, vindo de longe, à sua frente, os uivos de cães, misturados ao som suave da névoa que caía. Era uma promessa de civilização. De repente, no silêncio, uma pedra despencou atrás dela. Com o coração aos saltos, olhou para trás, tentando distinguir alguma coisa no lusco-fusco do fim do dia. Tudo estava imóvel, mas Erienne não podia se livrar da sensação de que havia alguma coisa muito perto. Nervosa agora, fez Sócrates apressar o passo e depois de passar por uma elevação parou sob uma árvore grande e virou o animal de frente para a trilha de onde tinha vindo. Agora, podia ver sem ser notada. Esperou, tensa, lembrando as advertências de Chrístopher para não viajar sozinha. Naquele momento a presença dele seria mais do que bem-vinda. Pelo menos não era um dos amigos do seu pai. O ruído de patas de cavalo deslocando as pedras do chão interrompeu seus pensamentos. Virou Sócrates para o outro lado e saíram em disparada, sempre ao lado da trilha, onde o solo era macio e abafava o ruído. Erienne e Sócrates correram sem parar ao lado da trilha estreita e sinuosa. Depois das raízes nodosas de uma grande árvore, a trilha começava a descer, e então fazia uma curva fechada, quase como se fosse voltar para trás. Sócrates escorregou mas não caiu e entrou na curva a todo galope, espalhando uma matilha de cães que perseguiam uma corça. Excitados, os cães tentaram morder as pernas de Sócrates, que, assustado, parou e empinou. As rédeas foram arrancadas das mãos de Erienne e, desesperada, ela agarrou a crina do animal, procurando se manter na sela escorregadia. Um dos cães conseguiu enfiar os dentes na perna do cavalo e o gosto quente do sangue foi o bastante. Quando Sócrates, num impulso desesperado, avançou para a frente, o cão ergueu a cabeça para o céu e soltou seu grito de caça. Os outros imediatamente deram meia-volta e lançaram-se à perseguição da nova presa. Um regato de águas rápidas fazia ângulo com a trilha estreita. Sócrates virou para a esquerda e entrou nele. Galopou no leito pedregoso, contra a corrente, espirrando água dos dois lados. Erienne gritou para que ele parasse e tentou virar a cabeça do animal, puxando sua crina. Nesse momento viram uma pequena elevação


atravessada pelo regato. Quando começou a subir, o cavalo ajoelhou, e Erienne quase caiu. Então, com esforço, ele seguiu para a frente, tentando subir pelo leito coberto de pedras. Escorregou para trás, agitou as patas dianteiras no ar e começou a cair. O grito assustado de Erienne foi interrompido quando ela caiu na margem rochosa do regato. Bateu com a cabeça numa pedra coberta de musgo, e umflash de luz branca invadiu seu cérebro. A claridade desfez-se aos poucos, dando lugar à escuridão. Ela via as formas escuras das árvores, lá em cima, ondulando como se estivessem dentro d’água. Lutando para não perder os sentidos, rolou o corpo e tentou se levantar. A clareira oscilou e pareceu despencar. Erienne apoiou-se na margem gelada do regato, lutando contra a corrente, com as pernas geladas e insensíveis. Os uivos eram agora rosnados ferozes, misturados a ganidos, e ela viu uma confusão de vultos brancos e marrons perto da margem. Os cães preparavam-se para atacá-la. Um deles chegou mais perto, rosnando com os dentes arreganhados, e em desespero, Erienne brandiu o chicote que segurava ainda na mão. Atingido, o cão saltou para trás com um ganido de dor. Outro tentou e recebeu o mesmo tratamento, mas os braços de Erienne começavam a se cansar, sua vista escureceu. A dor na cabeça descia para o pescoço e para os ombros. Atingia cada nervo do seu corpo, diminuindo sua força e sua vontade. Os cães, percebendo sua fraqueza, aproximaram-se em grupo. Erienne tentou aguçar a vista e com um gesto fraco, agitou o chicote para eles. Para os cães ela era um animal ferido e isso excitava seu instinto de caça. Rosnavam e mostravam os dentes uns para os outro, criando coragem para o golpe final. Erienne escorregou para dentro do regato e a água gelada a fez conter a respiração, quando subiu acima da cintura. Suas pernas estavam congeladas. Brandiu o chicote outra vez, mas começava a perder as forças e, embora tivesse atingido o flanco de um cão mais ousado, sabia que dentro em pouco eles iam vencer a luta. De repente, um brado agudo cortou o ar, seguido pelo estalo de um chicote. O som de patas aproximou-se do regato e um cavalo negro de pernas longas apareceu no galope, suas patas espirrando água por todos os lados. Entrando no meio dos cães, o cavaleiro açoitou-os severamente, tirando sangue de um, depois de outro, e finalmente todos se afastaram ganindo, com os rabos entre as pernas. Erienne agarrou com as duas mãos as raízes nodosas da margem e encostou a cabeça nos braços cansados. O homem parecia estar dentro de um longo túnel. Desmontou agilmente, com a capa esvoaçando atrás dele, como um pássaro enorme mergulhando para ela. Erienne sorriu, e fechou os olhos, ouvindo o homem entrar no regato. Sentiu que ele a segurava e com voz rouca murmurava palavras que não penetravam a confusão da sua mente, enquanto procurava soltar seus dedos das raízes. com braços fortes, ele a ergueu, apertando-a contra o peito largo. Erienne descansou a cabeça no ombro dele e nem a idéia amedrontadora de estar nas garras de um animal alado evitou que ela mergulhasse profundamente no mundo escuro da inconsciência.

Capítulo Seis UMA LUZ vermelho-amarelada era agora seu sol, uma luz que cortava a escuridão,


aquecendo-a e reconfortando-a. Era o ponto central da sua realidade, uma esfera alimentadora de fogo e chama, um sol que se recusava a morrer. Sua energia espocava em pequenas fagulhas que subiam em arco e desciam, desaparecendo com um suspiro, logo seguidas por outra e mais outra, quente e colorida. As chamas verdes, azuis, vermelhas e amarelas erguiam-se ondulantes, saindo de uma base quente e branca. Porém além delas tudo era treva, profunda e impenetrável, e Erienne estava presa no meio dela, como um planeta solitário lançado em órbita por uma força irresistível, sentindo o calor do sol, mas incapaz de chegar mais perto. com esforço, Erienne escalou as camadas do sono e do cansaço e percebeu vagamente que seu sol não passava do fogo numa enorme lareira de pedra. Suas pálpebras estavam pesadas, a visão fraca. Sentia uma dor latejante na parte de trás da cabeça e um grande cansaço, O corpo contundido estava envolto em algo macio e confortável, não mais nas suas roupas molhadas. As cortinas de veludo que pendiam do dossel da cama estavam fechadas para protegê-la das correntes de ar, abertas apenas do lado da lareira. com o calor do fogo, a tenda de veludo e as cobertas de pele macia, não sentia o frio terrível de todas as suas noites havia muito tempo. Virou a cabeça no travesseiro macio e sentiu o cheiro suavemente masculino nas cobertas de pele, Lembrou dos braços fortes Que a tinham segurado e do seu rosto encostado no peito dele, E teria havido, teria havido um momento em que lábios quentes tocaram os dela? Sem medo ou pânico, ouviu a respiração regular de mais alguém no quarto. Prestou atenção e concluiu que vinha das sombras ao lado da lareira. Numa poltrona alta, de frente para a cama, silhueta contra a luz do fogo, estava um homem, estranhamente inclinado para a frente, com o rosto e os ombros no escuro. A chama do fogo dançava em suas pernas e, na sombra, uma delas parecia retorcida e defeituosa. Erienne devia ter deixado escapar uma exclamação abafada, pois a respiração pesada parou, e um enorme vulto escuro ergueu-se da cadeira. Aproximou-se da cama e contra a luz do fogo, o homem com a capa parecia crescer e se expandir estranhamente. O rosto continuava escondido nas sombras. Dedos que mais pareciam garras de uma águia estenderam-se para ela e debilmente Erienne tentou fugir deles. Mas o esforço era demasiado, e ela desistiu, sentindo a realidade fugir outra vez. Sua mente vagueou inquieta por uma miragem de chamas e sombras, fugindo de umas, sem encontrar conforto nas outras. O fogo dominava sua mente e o corpo com um calor intenso que a fazia se agitar na cama, virando a cabeça de um lado para o outro. O hálito gelado da escuridão provocava calafrios. À noite surgia uma criatura alada que se inclinava nos pés da cama. Balançando a cabeça grotesca, ela a observava atentamente com olhos brilhantes, que pareciam vermelhos à luz fraca da lareira. Erienne gemeu alto, quando o vulto se aproximou e seus gritos abafados ecoaram no quarto. Febril e indefesa, ela deslizou na névoa acinzentada dos dias e na mortalha profunda das noites, sem resistir às mãos que aplicavam toalhas molhadas na sua pele ardente, quando se agitava no delírio, ou que a agasalhavam sob a coberta de pele macia, quando ela tremia de frio. Um braço musculoso segurava seus ombros, quando a borda de xícara a obrigava a abrir os lábios e ela ouvia um murmúrio rouco, ordenando que bebesse. Então, a criatura afastava-se da cama e se sentava na


sombra, ao lado da bola de fogo brilhante. Os olhos pareciam seguir cada movimento, à espera do fim do delírio, quando ela poderia olhar para ele. Erienne sequer ousava pensar no preço que aquele animal estranho ia cobrar por todo aquele cuidado. As pálpebras de Erienne adejaram e se abriram lentamente quando a luz da manhã a tirou do sono profundo. As cortinas da cama estavam abertas, presas aos quatro postes pesados, permitindo que o sol penetrasse no seu mundo. A realidade chegou para ficar, mas, com a mente ainda confusa, não tinha idéia de onde estava. Parecia ter deixado a casa do pai fazia anos, mas do momento em que foi salva até o presente lembrava de pouca coisa, além de pedaços soltos de pesadelos. O dossel de veludo escuro chamou sua atenção, e Erienne viu o brasão de armas discretamente bordado no centro, perguntando a si mesma como fora parar naqueles aposentos e naquela cama tão luxuosos. Um par de gamos, bordados com fios dourados, marrom e carmesim, erguidos nas patas traseiras, formavam um arco em volta da coroa do brasão, na qual a mão com guante de ferro segurava uma galhada partida. Sem dúvida, aquela não era a cama de um homem do povo, mas feita para um fidalgo e sua dama. O quarto era antigo e cheirava a bolor e falta de uso. Alguém tentara tirar a poeira acumulada durante muito tempo, mas só conseguiu tornar o lugar suportável. Teias de aranha pendiam ainda das tábuas escuras e pesadas do telhado. Algumas tapeçarias desbotadas cobriam as paredes, relíquias antigas de uma era passada. Estavam também recobertas de pó e teias de aranha, havia muito tempo não perturbadas. A luz do sol era filtrada através das janelas altas e estreitas, repetindo os desenhos dos vitrôs encardidos no chão de pedra, recentemente lavado, mas que precisava de mais uma esfregada. A lareira estava manchada e escurecida pelo uso, e dentro dela o fogo alegre estalava e dançava. Uma poltrona grande e trabalhada estava meio de lado, perto de outra igual, mas menor. À direita da cama, cortinas de veludo encobriam parcialmente um pequeno quarto de banho, com um vaso, um luxo muito além do que podiam ter numa casa simples. Erienne ergueu o corpo, apoiada no cotovelo, e esperou que o quarto parasse de girar para ajeitar com cautela os travesseiros nas costas. Examinou o quarto e depois olhou para o roupão de pele que vestia. Passou a mão pela maciez sedosa, depois o levantou, sentindo que não estava usando nada por baixo. A visão da própria nudez trouxe lembranças confusas e vagas. Imagens de um vulto grande e negro, emoldurado pela luz de um sol vermelho, e de murmúrios roucos e indistintos. Incapaz de pôr em ordem as lembranças, trazendo-as para a luz clara da realidade, Erienne teve a intuição de que era melhor esquecer, fosse o que fosse que podia ter acontecido Quando ouviu o barulho de louça no outro lado da porta, ela fechou o roupão até o queixo. Uma mulher grisalha e jovial entrou no quarto carregando uma bandeja. Ficou surpresa quando viu Erienne sentada na cama. — Oh, está acordada. — A voz era cheia de vida, como os olhos e o sorriso. — Sua senhoria disse que achava que a febre tinha baixado e que a senhora devia estar se sentindo melhor esta manhã. Fico feliz por ver que ele estava certo, senhora. — Sua senhoria? — Não escapou a Erienne o significado da palavra.


— Sim, senhora, lorde Saxton, ele mesmo. — Levou a bandeja até a cama e a descobriu, revelando um bule de chá e um prato de sopa. — Agora que está bem outra vez, provavelmente vai querer uma comida mais forte. — Ela riu. — vou ver se a cozinheira pode arranjar alguma coisa para comer. A curiosidade de Erienne era maior do que a fome. — Onde estou? — Ora, em Saxton Hall, senhora. — A mulher inclinou a cabeça e examinou a jovem com ar intrigado, estranhando a pergunta, porque lorde Saxton não dissera quase nada a respeito daquela hóspede inesperada. — Não sabia onde estava, então? — Eu bati a cabeça e não sabia para onde tinham me levado. — Levado? Quer dizer que meu senhor a trouxe para cá, senhora? Erienne fez um gesto afirmativo sem muita convicção. — Pelo menos eu acho que trouxe. Só me lembro de ter caído do cavalo. Você não estava aqui? — Oh, não, senhora. Depois do incêndio na ala leste alguns anos atrás, nós todos... os empregados, quero dizer... fomos trabalhar para o marquês de Leicester, velho amigo do velho lorde e tudo o mais. Só esta semana o senhor nos chamou de volta. Viemos de Londres, por isso chegamos esta manhã e encontramos só sua senhoria e a senhora na casa. Erienne sentiu o calor subir do pescoço para o rosto. Independente de quem fosse esse lorde Saxton, não deixara nem uma peça de roupa para resguardar sua modéstia. — Este é o quarto de lorde Saxton? — perguntou, quase sem medo. — A cama dele? — Sim, senhora. — A mulher serviu uma xícara de chá e a pôs na bandeja. — Ele está morando aqui há uma ou duas semanas. Ele saiu para caçar, ontem? — perguntou ela. A mulher franziu um pouco a testa. — Não, senhora. Ele disse que estava aqui com a senhora. A mente de Erienne rodopiou num turbilhão confuso. Tinha a impressão de apenas uma noite ter passado desde sua queda do cavalo, mas sem saber o que de fato tinha acontecido, não podia ter certeza. Segurou a xícara de chá com a mão trêmula e, quase sem respirar, perguntou. — Ele disse há quanto tempo estou aqui? — Este é o quarto dia, senhora. Quatro dias! Quatro dias ali, sozinha com lorde Saxton, sem ninguém mais para tomar conta dela. Estremeceu, embaraçada. — Sua senhoria disse que esteve muito doente, senhora. — Devo ter estado — murmurou Erienne. — Não me lembro de nada. — A senhora teve uma febre, e com a pancada na cabeça, é natural que esteja um pouco confusa. — Pôs a colher ao lado do prato de sopa. — Por que perguntou se sua senhoria saiu para caçar? Foi quando a encontrou? — Fui atacada por cães de caça. Pensei que talvez pertencessem a ele. — Estremeceu, lembrando os dentes agudos e ameaçadores. — Oh, deviam ser de alguém que estava invadindo as terras de lorde Saxton. Há sempre uma porção de caçadores furtivos por aí. Tínhamos problemas com eles, antes mesmo do incêndio, especialmente com aquele bandido, Timmy Sears. Se bem me lembro Timmy tinha um bando de cães de caça, já naquele tempo, e eram bem do


tipo de enterrar os dentes num homem, tanto quanto na caça que perseguiam. — Acho que me tomaram por um animal — murmurou Erienne. Tomou um gole de chá da xícara de porcelana e sorriu. — Obrigada pelo chá... madame.. ah... — Sra. Kendall, é o meu nome, senhora. Aggie Kendall. Sou a governanta. Quase toda minha família trabalha aqui, e estou sendo sincera quando digo que somos uma ótima família. Minhas irmãs e as filhas delas, mais as minhas filhas, e meu marido e o irmão dele. Os outros são o cavalariço e seus filhos. Trabalham fora da casa. São todos das terras de lorde Saxton. Erienne tentou imaginar o senhor da casa, baseada nos seus sonhos, mas não conseguiu pôr um rosto no vulto negro de que se lembrava. — Onde está lorde Saxton agora? — Oh, ele saiu um pouco, senhora. Saiu logo depois que chegamos. Deu ordens para cuidarmos da senhora até sentir-se melhor e depois providenciar a carruagem para levar a senhora de volta ao seu pai. Assustada, Erienne pôs a xícara na bandeja. — Prefiro não voltar para Mawbry. Se não fosse muito incômodo, eu... preferia ser levada a qualquer outro lugar. Não importa onde. — Oh, não, senhora. Sua senhoria faz questão que seja devolvida ao seu pai. Quando estiver boa, temos ordem de preparar a diligência para levá-la diretamente a ele. Erienne olhou para a mulher, imaginando se ela ou o tal lorde Saxton sabiam para o que estavam querendo mandá-la de volta. — Tem certeza de que lorde Saxton quer que eu volte para meu pai? Não estão enganados? — Sinto muito, senhora. Sua senhoria foi muito claro nas suas instruções. Deve ser levada ao seu pai. Tomada de desespero, Erienne deixou-se cair sobre os travesseiros. Era deprimente pensar que, depois de conseguir escapar do pai, seria levada de volta pelo capricho de um homem que nem conhecia. O destino cruel levara-a para aquela casa. Se Sócrates não tivesse entrado a galope no meio dos cães, provocando seus latidos e rosnados, lorde Saxton não a teria encontrado. Provavelmente ela não teria sobrevivido, mas, nesse momento, a morte, para ela, era preferível a casar com Harford Newton ou Smedley Goodfield. Aggie Kendall não sabia o que dizer para consolar a jovem, por isso saiu em silêncio do quarto. Erienne, preocupada com o novo problema, nem notou sua saída. Exausta e deprimida, passou o resto da manhã chorando e dormindo. Levaram uma bandeja ao meio-dia, e, embora sem apetite, Erienne obrigou-se a comer. Reanimada pelo alimento, perguntou a Aggie se era possível arranjar água para um banho. — Eu mesma trago, com muito prazer, senhora — disse a governanta, satisfeita. Ansiosa para agradar, abriu o guarda-roupa e tirou um roupão muito usado, que Erienne logo reconheceu. Olhou para o guarda-roupa aberto e com surpresa viu todas as suas roupas. Seguindo seu olhar, Aggie respondeu à pergunta silenciosa da jovem. — Sua senhoria deve ter guardado tudo, senhora. — Ele cedeu seus aposentos para mim? —- perguntou Erienne curiosa para saber se lorde Saxton insistiria em partilhar o quarto com ela antes de devolvê-la ao pai. Não esquecera seu encontro com Smedley Goodfield e sabia que se lorde Saxton era da


mesma laia não estaria a salvo no quarto dele por muito tempo. — Não se trata, na verdade, de ceder os aposentos, senhora. Desde que voltou, sua senhoria não resolveu ainda onde vai ficar, embora este seja seu quarto. Como deve ter notado — Aggie indicou o quarto com um longo gesto —, há muito tempo ninguém dorme aqui. — Olhou em volta, pensativa, e suspirou: — Eu estava aqui quando ele nasceu, quando o velho lorde e sua dama ocupavam estes aposentos. Desde então, aconteceu tanta coisa e é uma pena ver como o tempo e a falta de uso depredaram a mansão. — Olhou para as janelas por um momento e então, controlando-se, sorriu bravamente e olhou outra vez para Erienne, contendo as lágrimas que assomavam aos seus olhos. — Desta vez estamos aqui para ficar, senhora. Foi o que disse sua senhoria. Veremos a mansão limpa e brilhando como nunca esteve antes. Não nos expulsarão outra vez. Como que embaraçada pela própria loquacidade, Aggie fez meia-volta e saiu, apressada, do quarto, deixando Erienne bastante intrigada. Quando chegou a Mawbry com sua família, ouvira muitas histórias sobre a mansão e os Saxton. Estranha na região, aqueles comentários não a interessavam, e agora não conseguia lembrar os detalhes, a não ser o fato de que culpavam os bandos de escoceses pelo incêndio. Logo Aggie voltou com água para o banho, sabonete, toalhas e roupa de cama. Arrumou tudo o mais perto possível da cama, embora Erienne garantisse que estava muito mais forte. Aggie fazia questão de obedecer ao senhor da mansão e disse que as ordens eram para dispensar cuidados especiais à hóspede. Para que a empregada não percebesse seu estado de quase nudez, Erienne esperou que ela saísse para tomar seu banho. Chegou até a beirada da cama e apoiou os pés no chão. As pernas estavam trêmulas, a cabeça latejava, e só depois de muito tempo o quarto parou de oscilar. Compreendeu que superestimara as próprias forças, mas estava resolvida a se vestir e, se lorde Saxton já tivesse voltado, procurá-lo e explicar a sua situação. Depois de pensar muito, concluiu que sua única esperança era implorar por sua liberdade. Talvez Saxton não estivesse a par dos Planos do seu pai e pensava estar fazendo o que mandava a honra, devolvendo-a a ele. Se contasse tudo, talvez ele se condoesse da sua situação e permitisse que continuasse sua jornada em busca de liberdade. Erienne desejava ardentemente que isso acontecesse. O banho a reanimou, porém, enquanto passava a esponja no corpo, teve a sensação de que isso fora feito recentemente por mãos nodosas e que pareciam garras. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Mas era uma idéia tão absurda, que mal podia aceitá-la. Atribuiu-a aos pesadelos da febre e vestiu a combinação. Encontrou sua escova e seu pente no guarda-roupa, e embora O cansaço a obrigasse a parar várias vezes, desembaraçou o cabelo e o prendeu num coque, na nuca. Feito isso, colocou o vestido azul, o melhor que tinha agora, e saiu vagarosa e com cautela do quarto. Evidentemente fazia muito tempo que a casa não recebia os cuidados e a atenção dos criados. Teias de aranha formavam desenhos caprichosos nos tetos em arco dos salões, e os panos que cobriam os móveis estavam cinzentos de poeira muito antiga. Erienne chegou ao alto da escadaria com largos patamares e nichos em forma de concha. Desceu e encontrou-se no que parecia o interior de uma torre grande e


redonda. À sua esquerda viu uma pesada porta de madeira com uma fechadura maciça. Era a entrada da mansão. De uma janela pequena e estreita, via-se o caminho largo e curvo que levava à estrada. À sua direita, uma pequena passagem em arco abria-se para a sala principal da mansão. Uma jovem estava esfregando o assoalho de madeira. Ela se ergueu e, respondendo à pergunta de Erienne, indicou, com o braço estendido, a parte de trás da mansão. Seguindo a indicação da criada e o som abafado de vozes, Erienne empurrou uma porta pesada e viu a governanta e outras três mulheres fazendo a limpeza da cozinha. Um rapazinho estava ajoelhado ao lado da lareira, raspando as cinzas antigas e pedaços de fuligem, enquanto um homem mais velho esfregava com vigor uma chaleira de cobre muito antiga. A cozinheira já limpara uma mesa e estava preparando carne de veado com legumes para o jantar. — Boa tarde, senhora — disse a jovial governanta, enxugando as mãos no longo avental, — É um prazer vê-la de pé. Está se sentindo um pouco melhor? — Bem melhor, obrigada. — Erienne olhou em volta, sabendo que não ia encontrar o dono da casa na cozinha, mas esperando obter alguma indicação do seu paradeiro. — Lord Saxton já voltou? — Oh, não senhora. — Aggie atravessou lentamente o chão de pedra. — Ele disse que ia se demorar alguns dias. — Oh. — Erienne franziu a testa, desapontada. Não teria oportunidade de defender sua causa antes que os criados a levassem de volta ao pai. — Senhora? Erienne ergueu os olhos. — Sim, o que é? — Precisa de alguma coisa? Erienne suspirou. — Não, nada no momento. Se não se importa, vou dar uma volta para conhecer a casa. — Certamente, senhora — disse Aggie. — Se precisar de alguma coisa, é só me dizer. vou ficar trabalhando aqui na cozinha por algum tempo. Erienne fez um gesto afirmativo e voltou ao salão. A criada não estava mais lá com seu balde de madeira, mas a escova deixara uma poça d’água no chão, indicando que ela ia voltar logo. A julgar pelo aspecto da casa, certamente os criados estariam ocupados durante muito tempo. Na verdade — pensou Erienne —, estavam tão ocupados que nem notariam se ela saísse às escondidas. Foi uma idéia nascida do desespero, e Erienne não considerou sua fraqueza e os músculos doloridos, pensando apenas que, se não fugisse agora, ia acabar casada com Harford Newton, o camundongo cinzento, ou com Smedley Goodfield, o duende lascivo. Quando abriu a pesada porta, um rangido das dobradiças a fez estremecer. Esperou com o coração aos pulos até ter certeza de que ninguém ouvira. Espiou para fora e viu que os estábulos ficavam a oeste, não muito distantes da casa. A traseira de uma carruagem grande e preta aparecia na porta aberta da cocheira. De onde estava, parecia simples entrar no estábulo para ver se encontrava Sócrates. Ia passar pela porta quando um jovem saiu do estábulo carregando um balde de madeira e uma escova de cabo comprido. Erienne esperou, e ele começou a limpar a carruagem, tirando a lama e a poeira. Ela olhou em volta e compreendeu que não


tinha tempo Para mudar seu plano de ação, pois a criada voltava com o balde cheio d’água. A moça caminhou, apressada, para a entrada da casa, e Erienne recuou, fechando a porta. Sentindo-se mais fraca do Que antes, subiu a escada e chegou ao segundo andar antes que a Porta se abrisse. Procurando outro meio de fuga, percorreu os salões do segundo andar, abrindo portas e passando por corredores, mas sem encontrar nada, pois todos levavam a outros quartos ou salões. Suas forças diminuíam, mas a lembrança de Harford Newton a fez continuar, e finalmente encontrou-se numa extensa galeria. Como em muitos outros cômodos, a limpeza não chegara até ali, e Erienne no tou pegadas desenhadas na poeira do chão. Seguiu as primeiras (e chegou à extremidade do salão e a uma porta forte e pesada, fechada com tábuas de madeira cruzadas. As pegadas voltavam daquele ponto, o que talvez significasse que ia encontrar uma saída. Erienne ficou intrigada. Não compreendia por que motivo aquela porta interna estava trancada com tábuas de madeira. Devia haver alguma coisa escondida no outro lado. imaginou se seria prudente tentar abrir a porta. Talvez fosse tolice abrir a porta, que certamente impedia o acesso a alguma coisa que tinha de ficar isolada e trancada. Lembrou-se de ter ouvido dizer que Saxton Hall era mal-assombrado, e embora não desse muita importância a histórias de fantasmas não queria tentar a sorte quando estava fraca demais para fugir. Lembrou então de Smedley e Harford e, reunindo novas forças, aproximou-se da porta. Dedos trêmulos experimentaram as tábuas e com surpresa sentiu que podiam ser retiradas com facilidade. Mesmo assim, agiu com cautela, pois não sabia o que estava do outro lado. Bateu de leve na superfície lisa e encostou o ouvido na porta, dizendo em voz baixa: — Tem alguém aí? Nenhum lamento doloroso, nenhum grito hediondo respondeu à sua pergunta, mas Erienne estava ainda indecisa. Bateu com mais força, com o mesmo resultado. Pensando no duende e no rato cinzento, muniu-se de toda a coragem que tinha e retirou as tábuas. A porta era relativamente nova, como se tivesse recentemente substituído a antiga. Erienne girou a grande chave na fechadura e ouviu um estalído lento e rascante. Girou a maçaneta e puxou a porta. Para sua surpresa, a luz do sol banhou a galeria, e ela viu que estava na entrada de uma varanda, negra e chamuscada. Caminhou até a beirada e com uma exclamação abafada viu embaixo as ruínas queimadas do que devia ser uma ala relativamente grande da casa. De repente, sentiu que as pedras sob seus pés estavam cedendo e começavam a se soltar com um ruído arrastado. Pedaços da amurada de pedra despencaram sobre as ruínas, e por um terrível momento, Erienne pensou que ia cair também. Em pânico, recuou para a porta, para a segurança do interior da galeria, enquanto as pedras continuavam a cair. Abalada e ofegante, fechou a porta e girou a chave na fechadura. Encostou na parede, com uma enorme fraqueza nos braços e nas pernas. Compreendeu então por que a porta estava fechada com as tábuas. Sem dúvida, a porta original fora queimada e a substituíram, reforçando-a com as tábuas para evitar que alguém passasse por ela. Tinha certeza de que deviam ter tomado também essas medidas para desencorajar os curiosos. com milhares de perguntas assomando à sua mente, ela voltou para o quarto. Não


tinha forças para continuar a procura, mesmo perseguida pela visão de Harford e Smedley. Deitou-se na cama sem tirar a roupa e cobriu-se com o robe de pele. Esperava poder sair do quarto no meio da noite, chegar aos estábulos, soltar Sócrates e seguir seu caminho. Mas, no momento, precisava descansar e recuperar pelo menos parte das suas forças. No começo da noite, Aggie apareceu com o jantar e mais tarde, quando voltou para ajudá-la a se preparar para dormir, levou uma xícara de bebida quente. — Isto vai aliviar as dores e reanimá-la. De manhã, vai se sentir bem melhor. Erienne experimentou a bebida forte, saborosa e quente. Esperava que tivesse realmente o efeito previsto por Aggie. — Suponho — disse ela, com certa hesitação — que está fora de cogitação a possibilidade de me levarem a outro lugar que não seja Mawbry. Acontece que — ela deu de ombros — tive um pequeno desentendimento com meu pai e preferia não voltar para lá. — Sinto muito, senhora, mas lorde Saxton foi muito claro nesse ponto — disse Aggie, simpatizando com o problema da jovem. — Compreendo. — Erienne suspirou. — Devem obedecer às ordens de sua senhoria. — Sim, senhora. Não temos outra escolha. Sinto muito. Erienne tomou outro gole da bebida e perguntou: — Pode me falar sobre a ala leste que foi incendiada? com o rosto deliberadamente inexpressivo, ela respondeu: - Deve perguntar a lorde Saxton, senhora. Ele me deu ordens para não dizer nada a ninguém. Erienne balançou a cabeça lentamente, num gesto afirmativo. — E naturalmente não pode contrariar o desejo dele. — Não, senhora — murmurou a governanta. — Parece muito leal a ele — observou Erienne. — Sim, eu sou. — A voz era suave, mas repleta de convicção. Erienne percebeu que não ia conseguir nada pressionando a governanta. Terminou de tomar a bebida, pôs a xícara na mesa e bocejou, cobrindo a boca com a mão. com uma risada satisfeita, Aggie dobrou o robe de pele. — Precisa de um bom sono agora, senhora. A bebida quente vai se encarregar disso, É uma ótima cura para noites de insônia e corpo cansado. Erienne ajeitou-se na maciez convidativa da cama, sentindo que a tensão desaparecia dos seus músculos. Quase ronronou como um gato, perguntando a si mesma por que pensara em resistir ao sono, que a envolvia tão rápido. As rajadas frias de vento movimentavam os flocos de nuvens no céu matutino. Desanimada, Erienne esperou que o cocheiro subisse para a boléia. Ninguém podia negar que ia voltar para Mawbry em grande estilo. A grande carruagem preta era antiga, mas confortável e luxuosa, forrada de veludo verde-escuro e tinha no lado externo das portas o brasão de armas que ela vira no dossel da cama. Tudo falava de uma linhagem muito antiga. Os comentários entusiásticos da governanta sobre sua aparência confirmavam a boa intenção de Aggie ao fazê-la tomar a bebida reconfortante. Aquela mulher jovial não parecia capaz de qualquer maldade e Erienne não teve coragem de demonstrar descontentamento. Nunca ia saber se teria conseguido fugir ou não.


— Adeus, senhora - disse Aggie, na passagem de pedra que levava à entrada da torre. — Vá com Deus. Erienne inclinou-se para fora e acenou um adeus. — Obrigada por sua atenção, Sra, Kendall, Desculpe o trabalho que lhe dei. — Trabalho nenhum, senhora. Trabalho nenhum, foi um prazer servir uma moça como a senhora. Ajudou a dispersar a tristeza desta casa, quero dizer, por estar vazia há tanto tempo e tudo o mais. Erienne fez um gesto afirmativo e olhou para a mansão. Era uma estrutura jacobina, sólida, com a torre que se erguia até a altura das chaminés. De onde estava quase não podia ver a ala incendiada, coberta de mato seco e alto. A encosta, de um lado e na parte de trás da casa, era coberta por pequenos bosques de árvores altas, que acompanhavam o caminho até a estrada, Era a continuação da estrada sinuosa que atravessava as colinas, na direção de Mawbry e de outras cidades. Ao norte, o estuário estendia-se como um regato estreito até o horizonte, às vezes cintilando azul, à luz do sol, outras vezes, escondendo-se sob as nuvens baixas. A carruagem inclinou para a frente quando o cocheiro subiu na boléia e, com um suspiro, Erienne recostou-se nas almofadas de veludo. Sua capa, limpa e seca, a protegia do frio, mas não tinha efeito contra o gelo no seu coração. O povo de Mawbry, quando viu Sócrates amarrado atrás da carruagem, saiu para a rua, curioso. Só a carruagem era suficiente para despertar curiosidade, pois quase todos conheciam o luxuoso veículo, com o brasão de armas nas portas, embora não o vissem fazia mais de três anos. Quando pararam na frente da casa do prefeito, foi rodeada pela multidão e Avery, que estava na estalagem, abriu caminho, impaciente para chegar até onde estava a filha. Farrell saiu de casa em tempo de segurar a rédea de Sócrates e, deslumbrado, viu o cavalariço abrir a porta da carruagem para a irmã descer. Quando viu a filha, Avery parou, com as pernas separadas, os pés fincados no chão e as mãos na cintura. Não teve o cuidado de abrandar o tom de voz quando disse: — Então, sua idiotazinha fujona. Você voltou para mim, não é? E suponho que tem uma boa história para explicar onde esteve durante quase toda a semana. Erienne, com expressão fria e distante, demonstrou seu descontentamento por ser insultada na frente do povo. Seu pai sabia muito bem o motivo da sua fuga e sua resposta foi simples, quase brusca. — Levei Sócrates para um longo passeio. — Um longo passeio! Ficou fora cinco dias e vem me dizer isso? Ah! Você fugiu, foi isso que fez! — Olhou para ela, desconfiado. — O que eu queria saber é por que voltou. Pensei que nunca mais a veríamos e você chega assim, numa bela carruagem, como se fosse uma princesa real em visita aos seus súditos. Erienne não conseguiu conter toda a sua ira. — Eu nunca teria voltado se dependesse de mim. Lorde Saxton... — A uníssona exclamação de espanto a fez interromper a frase e, olhando em volta, percebeu que todos esperavam, ansiosos, por suas palavras. — Lorde Saxton resolveu tudo e mandou que seus criados me trouxessem para cá. — Olhando para o pai, ela ergueu Uma sobrancelha bem feita. - Sem dúvida, um dos seus amigos, meu pai. — Não existe nenhum lorde Saxton desde o incêndio da casa, — disse ele. — Você está mentindo, sei que está.


— Está enganado, meu pai. — Erienne sorriu. — Lorde Saston não está morto, mas muito vivo. — Muita gente o viu na janela com o fogo ardendo às suas costas! — disse Avery. — Ele não pode estar vivo! — Mas está, sem dúvida nenhuma — respondeu Erienne, calmamente. — Está morando em Saxton Hall, com seus criados... — Então, deve ser seu fantasma! — zombou o pai. — Ou alguém que brincou com você. Como é ele? — Não cheguei a ver seu rosto. Estava sempre na sombra... ou coberto por alguma coisa. — A lembrança da silhueta escura contra a luz a fez acrescentar: — Ele parecia aleijado ou deformado.., — Um murmúrio ergueu-se da multidão, e algumas pessoas fizeram o sinal-da-cruz. Erienne apressou-se em explicar: — Não tenho certeza do que vi. Bati a cabeça e tudo estava escuro. Posso ter imaginado. — Está me dizendo que durante quase uma semana não conseguiu ver o homem? — riu Avery, zombeteiro. — Deve pensar que sou idiota, menina, para acreditar nisso. — Não tenho nenhum motivo para mentir — retrucou Erienne. O cavalariço pôs a sacola e a sela ao lado da porta da casa, e voltou para fechar a porta da carruagem. — Você aí! — Avery apontou para o homem, com um olhar malicioso para os espectadores, certo de que ia provar o absurdo da história da filha, — Pode nos dizer como é o seu... bem... seu amo? — Não tenho certeza, senhor. - Avery ficou espantado. — O quê? — Há três anos não o vejo. Como pode ser? Você trabalha para ele, não trabalha? — Não tive ainda oportunidade de ver lorde Saxton, desde que ele voltou para Saxton Hall. — Então, como sabe que está trabalhando para lorde Saxton? — A Sra. Kendall disse que é ele, senhor, e ela o viu. , — A Sra. Kendall? — Avery franziu a testa. Erienne explicou. A governanta de lorde Saxton. Avery fechou a cara. Não podia entender o que eles estavam fazendo e suspeitava que estivessem zombando dele. com um gesto brusco, mandou Erienne entrar em casa. Ela obedeceu, e ele voltou a falar com o cavalariço. — Não conheço seu amo, nem suas razões, mas pode agradecer a ele por mim, seja ele quem for, por devolver minha filha. Ele será bem-vindo à minha casa, quando vier a Mawbry. A carruagem fez a volta e regressou para o norte. O povo espalhou-se, com uma história para contar e para aumentar um ponto. Quase não lembravam mais do incêndio de Saxton Hall. Os detalhes estavam esquecidos, mas isso não os impediria de contar o fato como podiam lembrar agora. O prefeito olhou carrancudo para o filho, que segurava as rédeas de Sócrates. — Guarde esse animal onde sua irmã não possa pôr as mãos nele, do contrário eu o dou de comida aos cães. Avery entrou em casa, bateu a porta e olhou para Erienne, que o esperava perto da escada. Cruzando os braços no peito, numa atitude real, ele perguntou:


— Agora, menina, quero ouvir a sua explicação. Erienne virou de lado para ele, ergueu o queixo e disse: — Eu tinha resolvido não me submeter mais aos seus caprichos. Pretendia procurar emprego e cuidar da minha vida. Eu nunca teria voltado se lorde Saxton não tivesse preparado tudo para me trazer para casa. Avery a observou com olhar penetrante. — Muito bem, menina, uma vez que resolveu me desobedecer, a mim, seu bom pai, sabe que não tenho escolha senão deixar de confiar em você. Fiquei preocupado, com o leilão prestes a se realizar e todos os homens imaginando se eu ia pregar uma peça neles. Erienne respondeu com ousadia: — Sua preocupação devia ser mesmo muito grande, meu pai, mas, ao contrário da minha, foi provocada pelo senhor mesmo. A minha me foi imposta. — Imposta, imposta, essa é boa! — rosnou Avery, com o rosto em fogo e furioso. — Ora, tomei conta de você durante todos esses meses, desde a morte da sua mãe. Dei a você o melhor possível, comida para encher sua barriga e um teto sobre sua cabeça, e um ou outro vestido novo, só para vê-la feliz. — Ignorou o olhar irônico da filha e continuou: — E fiz o melhor possível para lhe arranjar um bom marido. — Um bom marido? Um, um saco de ossos, outro, gordo a ponto de não poder contar os dedos dos pés? Um rato babão e nojento, com mãos pegajosas! Ou um solteirão velho demais para conseguir uma esposa? Um bom marido, o senhor diz? — Ela riu com desprezo. — Diga antes uma boa bolsa para um homem em situação desesperadora. — Seja como for. — Ele rilhou os dentes. — Mas até você sair desta casa, vou trancar a porta do seu quarto durante a noite. Durante o dia, só pode sair comigo ou com Farrell... então, quando chegar o dia do leilão, veremos que preço você alcança. — Vou para o meu quarto agora — disse Erienne com voz inexpressiva, — Ficarei lá, quer o senhor tranque a porta ou não e vou ao seu leilão. Mas estou avisando, trate de preparar tudo com antecedência. O casamento deverá ser realizado no dia seguinte ao leilão, pois ficarei apenas uma noite nesta casa, depois de ser vendida, e quando sair, nunca mais reconhecerei sua autoridade sobre mim.

Capítulo Sete Meia HORA antes do leilão, Farrell, na porta da estalagem, anunciava em voz alta: — Ouçam todos! O leilão da filha do prefeito, Erienne, vai começar. Ouçam todos! Venham todos. Estarão dando seus lances por sua mão em casamento. Erienne estremeceu quando a voz do irmão chegou até seu quarto, através da janela aberta. Dentro de instantes ela estaria na plataforma com ele e teria de suportar os olhares inquisidores dos homens. A multidão crescia cada vez mais na frente da estalagem. Sem dúvida, muitos estavam ali só por curiosidade. Depois desse dia, dificilmente o povo de Mawbry esqueceria os Fleming. O pai jamais fizera coisa alguma para ganhar fama, pois passava a maior parte do tempo em busca dos próprios prazeres, sem se importar com sua posição de prefeito. Erienne fechou a janela. Nesse dia seria vendida, no dia seguinte estaria casada. Já


aceitava a idéia. Não sabia se ia conseguir suportar o marido, mas rezava ardentemente para que não fosse Smedley Goodfield, nem Harford Newton. Distraidamente, afastou uma mecha de cabelo da testa. Desafiando as ordens do pai, para deixar o cabelo solto, ela o prendeu num coque. Queria parecer uma solteirona idosa, mas não conseguiu. Sua beleza, rara e suave, permaneceria por muitos anos ainda, e o cabelo puxado para trás acentuava os traços delicados e o contorno oval do rosto. Erienne olhou para o pequeno quarto com os olhos de uma estranha. O teto baixo, o assoalho de madeira nua, as pequenas janelas que permitiam a entrada de um mínimo de luz... tudo parecia diferente agora. No dia seguinte, esses detalhes seriam cinzas em sua mente, das quais poderia se descartar com facilidade. Teria um novo lar que, esperava, fosse mais feliz do que esse e seria uma mulher casada, talvez até mesmo mãe. A necessidade jamais permitiria que voltasse aos sonhos e às esperanças nascidas naquele quarto. Saiu e desceu a escada devagar para onde o pai a esperava. — Ah, enfim chegou. Pensei que tinha de trazer você para fora, — Não precisava se preocupar, meu pai — disse ela, com voz suave. — Eu disse que iria ao seu leilão. Avery olhou para ela atentamente, confuso com toda aquela calma. Esperava um verdadeiro motim e estava preparado para agir com firmeza. Vendo-a assim, quieta e submissa, ficou perturbado. Pensou então que a mãe dela certamente não teria permitido que a filha fosse tratada desse modo. — Vamos então — ordenou ele, com voz severa, afastando a pequena pontada de remorso. Tirou o relógio do bolso. — Só temos tempo para deixar que os cavalheiros a vejam e comecem seus lances. Acho que vão ser altos. Não é todos os dias que há leilão de uma jovem tão bela e prendada. — Não, certamente não é todos os dias que um pai vende a própria filha — respondeu Erienne, sem resistir ao sarcasmo. Avery riu. — Devo agradecer a você, menina, por me dar a idéia. com um gesto decidido, Erienne vestiu a capa de lã e cobriu a cabeça com o capuz, procurando proteger o rosto pálido dos olhares curiosos. Seu orgulho estava ferido, mas o medo do que a esperava fazia dela uma covarde, trêmula e hesitante. Dera sua palavra de que compareceria ao leilão e casaria com o homem que a comprasse, mas a promessa não eliminava sua ansiedade e medo. A carruagem de lorde Talbot estava parada a pouca distância da casa dos Fleming, e, quando Avery procurou ver quem estava dentro dela, Claudia inclinou-se para fora e olhou para Erienne com um sorriso condescendente. —- Erienne, minha cara, desejo-lhe boa sorte com o marido que vai encontrar entre essas almas inconstantes. Ao que parece, você despertou a atenção de todos os plebeus ricos da nossa sociedade. Ainda bem que não sou eu. Sem demonstrar que tinha ouvido, Erienne seguiu seu caminho. A risada zombeteira da mulher fortaleceu sua decisão de aceitar o que iam fazer com ela com a maior dignidade possível. O que mais podia fazer, quando sabia que suas súplicas jamais seriam ouvidas?


Erienne viu vários rostos estranhos, no meio dos que conhecia. Os homens examinaram-na atentamente quando ela se aproximou e seus sorrisos a faziam ter certeza de que estavam pensando muito adiante do leilão. Se o olhar de Christopher a fizera sentir-se nua, agora sentia-se suja. Farrell erguera uma plataforma na frente da estalagem, e Erienne preferiu olhar para a pequena estrutura a se arriscar a ver os rostos que tanto temia. Não queria ver Harford, Smedley ou qualquer outro dos pretendentes recusados. Num atordoamento, ela aproximou-se dos degraus da plataforma e percebeu que alguém estendia o braço para ajudá-la. Viu a mão forte, longa, bronzeada, de unhas feitas, contrastando com o punho branco da camisa. O coração de Erienne disparou e antes mesmo de erguer os olhos sabia que Christopher Seton estava ao seu lado. Ele estava tão belo que Erienne conteve a respiração. Avery se pôs agressivamente entre os dois. — Sr. Seton, se leu os cartazes deve saber que não tem permissão para dar nenhum lance. com um sorriso zombeteiro, Christopher inclinou levemente a cabeça, indicando que estava ciente da proibição. — Foi bastante claro, senhor. — Então, o que está fazendo aqui? Christopher riu. — Ora, tenho um interesse financeiro no negócio. Deve estar lembrado que prometeu pagar uma certa dívida de jogo. — Eu já disse! — esbravejou Avery. — vou lhe dar o dinheiro! Christopher tirou do bolso do casaco um maço de papéis atados com uma fita. — Deve estar lembrado disto também, prefeito. As dívidas que deixou em Londres. Avery olhou espantado para ele, incapaz de uma resposta ou uma negação. Christopher desdobrou os papéis e mostrou o nome assinado em todos eles. — Sua assinatura, se não me engano. Depois de uma pequena hesitação, Avery disse, rubro e ofendido: — E se for? O que o senhor tem a ver com isso? — Tenho tudo a ver com essas dívidas — respondeu Christopher, delicadamente. — Eu as comprei dos comerciantes de Londres, aumentando assim a quantia que me deve. Avery olhou para ele, intrigado. — E por que fez uma coisa dessas? — Oh, sei que não pode me pagar no momento, mas estou disposto a ser generoso. Não costumo tomar decisões precipitadas quando se trata de um relacionamento duradouro, mas o senhor me obrigou a isso. Em troca da mão de sua filha, eu lhe darei a quitação completa destas dívidas. — Nunca! — exclamou Farrell, abafando a exclamação de surpresa de Erienne. Ele estava na plataforma, perto dos degraus, e brandiu o punho fechado para Christopher. — Não vou permitir que minha irmã se case com um homem da sua laia. Christopher ergueu os olhos e estudou o jovem com um sorriso zombeteiro. — Por que não pergunta à sua irmã o que ela deseja? — Prefiro matá-lo com minhas próprias mãos a permitir que ela case com o senhor —


rosnou Farrell. — Está avisado, Sr. Seton. Christopher riu alto. — Devia ter cuidado com suas ameaças, senhor. Não creio que possa suportar a perda de outro braço. — O senhor teve sorte. Não vai acontecer outra vez — rugiu Farrell, furioso. — Sabendo de quem se trata, acho que não preciso me preocupar. Christopher voltou-se para Avery, terminando sumariamente a conversa com Farrell. — Pense com cuidado na minha oferta, prefeito. Terá de conseguir um bom preço pela venda da sua filha hoje ou entregá-la a mim em troca da quitação das suas dívidas. Erienne lembrou-se das noites ao lado da cama de Farrell, quando o irmão contorciase de dor e tormento. Jurara se vingar do ianque, e agora o mesmo homem estava pedindo sua mão em casamento, ou a quitação das dívidas do pai, como se pouco se importasse com a escolha de Avery. Como aquele homem podia ser tão arrogante pensando que ela ia cair agradecida aos seus pés, depois de tudo que fizera, quando sequer se dera ao trabalho de lhe prometer amor ou devoção? Com voz trêmula, ela perguntou: — Aceitaria uma esposa que o odeia? Christopher olhou para ela por um momento e fez-lhe uma pergunta: — Prefere casar com um desses tipos que estão aqui? Erienne abaixou os olhos, pois Christopher fora diretamente ao âmago da sua angústia. — Ela prefere arriscar — disse Avery, com desprezo. — Alguns desses homens podem estar dispostos a pagar um bom preço por uma jovem tão bonita. Além disso, terei alguns problemas se os desapontar, entregando-a ao senhor antes de fazerem suas ofertas. Uma vez que muitos deles são meus amigos, seria muito difícil para mim. — Balançou a cabeça, afirmativamente, concordando com as próprias palavras. — Não posso fazer isso com meus amigos. Christopher guardou os papéis no bolso. — Já deu sua resposta, e eu vou aguardar o resultado. Não esqueça que espero o pagamento completo do que me deve. Do contrário, nada estará resolvido. — Levou o dedo à aba do chapéu. — Até mais tarde. Avery empurrou a filha para os degraus da plataforma. Era um momento difícil para Erienne. Queria manter o ar de frio desdém, enfrentar aqueles homens com calma e desafio, mas o orgulho ferido e a incerteza do futuro a perturbavam. Cega por um momento pelas lágrimas que assomavam aos olhos, ela tropeçou na bainha do vestido. Mais uma vez a mão amiga veio em seu auxílio. Dedos longos segurando seu cotovelo até ela recobrar o equilíbrio. Furiosa com aquela demonstração de fraqueza, Erienne ergueu o queixo e viu os olhos verdes fixos no seu rosto com algo que parecia compaixão. Foi demais para ela. — Por favor... não... não me toque — murmurou. Ele retirou a mão com uma risada breve e zombeteira. — Quando disser isso para seu marido, minha querida, lembre-se de ser mais convincente. Talvez tenha melhor resultado. Christopher se afastou, e Erienne viu através das lágrimas a carruagem dos Talbot se aproximar dele, e Claudia apareceu outra vez na janela. — Ora, Christopher, o que está fazendo aqui? — perguntou Claudia, com ar


ofendido. — Não me diga que precisa comprar uma esposa. Sem dúvida um homem com sua riqueza e posição social Pode conseguir algo melhor do que Erienne Fleming. Christopher sabia perfeitamente em quem ela estava pensando. — Estou aqui para cobrar uma dívida. Claudia riu, aliviada. — Bem, isso eu posso compreender. Já estava ficando preocupada. Pensei que você tinha perdido a razão. Com um leve sorriso, Christopher disse: — Não completamente. — Vamos então, cavalheiros — disse Avery, em voz alta. Cheguem mais perto e deliciem seus olhos nesta beleza, Não encontrarão ninguém igual, depois que a possuírem. Venham e olhem, o leilão vai começar. Avery segurou a capa de Erienne e quando ela tentou resistir, com uma risada de desprezo e uma curvatura zombeteira, tirou-a dos seus ombros. com um brado de aprovação, os homens deliciaram os olhos na mercadoria oferecida. Animado com a reação, Avery ergueu a mão e soltou a presilha do cabelo de Erienne, que desceu em ondas suaves, recobrindo os ombros da moça. — Vejam, cavalheiros, ela não vale uma fortuna? com os músculos do rosto contraídos, Erienne enfrentou os olhares cobiçosos dos homens. Um calafrio percorreu sua espinha e teve de controlar-se para não entrar em pânico. Ergueu a cabeça e conteve a respiração, quando encontrou os olhos de Christopher fixos nela. De repente desejou não ter sido tão orgulhosa e tola quando recusou sua oferta, pois não havia nenhum homem naquele grupo que não provocasse uma sensação de pavor no seu peito. Claudia entrecerrou os olhos quando percebeu a atenção intensa de Christopher em Erienne. com um sorriso tentador, disse: — Eu gostaria de convidá-lo para um passeio no campo, Christopher, mas você parece estranhamente interessado nesse leilão. Talvez prefira ficar aqui. — com os olhos brilhantes, ela esperou que ele negasse. — Desculpe-me, Srta. Talbot. — Ergueu os lábios num breve sorriso. — É uma dívida considerável, e esta pode ser minha única chance de receber o dinheiro. — Oh, compreendo, Claudia disfarçou seu desapontamento. - Então, eu o deixo com seus negócios. — Mas não resistiu e falou: — Eu o vejo mais tarde? — Vou deixar Mawbry esta noite. Devo terminar meus negócios aqui e não sei quando voltarei. — Oh, mas procure voltar — exclamou ela. — Quando o verei, se não voltar? Christopher achou graça na franqueza da jovem.

— vou manter meu quarto na estalagem. Talvez não me de,nore a voltar. Claudia riu, aliviada. — Avise-me quando chegar, Christopher. Vamos dar um baile no inverno, e faço questão que você compareça. — Contraiu os lábios, vendo-o olhar por sobre o


ombro, sem responder. Claudia começava a pensar que os negócios dele tinham muito a ver com a filha do prefeito. — Preciso ir, Christopher, mas, se mudar de planos para esta noite, estarei em casa. — Sorriu, — Meu pai ainda está em Londres e vai ficar algum tempo por lá. — Não me esquecerei — disse Christopher, levando a ponta dos dedos à aba do chapéu. — bom dia. Claudia inclinou a cabeça, despedindo-se, irritada porque Christopher nem tentou detê-la por mais alguns minutos. Seu consolo era que, se ele tinha algum interesse em Erienne, estava perdendo tempo. Pelo menos depois do leilão ela seria mulher de outro homem e estaria fora do seu alcance. A carruagem entrou na estrada, e Christopher voltou toda sua atenção ao que estava acontecendo, encostado num poste de madeira, com os olhos pregados em Erienne. — Cavalheiros, todos vieram até aqui com a esperança de encontrar uma esposa e uma esposa ela será... para um de vocês! — Avery riu, apontando para os homens que se acotovelavam para chegar mais perto. Então ficou sério e segurou as lapelas do paletó. — Agora, dei a ela minha palavra de que a intenção de todos é casamento, nada menos, e espero que todos pensem assim. Serei testemunha do casamento e não vou tolerar nenhuma trapaça. Falei claro? com um estremecimento de nojo, Erienne viu o homem que ela chamara de rato cinzento. Ele estava bem na frente, e o sorriso presunçoso dizia que ia ser um sério participante do leilão. Se ele desse o lance mais alto, podia querer se vingar por ter sido rejeitado antes, e ela não teria nem mais um dia de paz em sua vida. Erienne examinou disfarçadamente os rostos na multidão. Pelo menos Smedley Goodfield não estava entre eles, mas viu Silas Chambers. Sua carruagem modesta estava parada perto da estalagem, e o cocheiro velho e magro tremia de frio, só com um casaco muito usado. A maior parte dos homens ali reunidos parecia um grupo de almas perdidas, sem nenhuma qualidade atraente. Erienne tinha a completa atenção de todos, menos de um indivíduo ricamente trajado, sentado numa banqueta dobrável, atento a um livro que tinha sobre os joelhos. Ao que parecia, estava completamente absorto nos números do livro-caixa. Avery ergueu os braços pedindo silêncio e atenção. — Agora, cavalheiros, como sem dúvida já sabem, estou duramente pressionado por meus credores, do contrário jamais consideraria fazer isso. Mas eles me atormentam e este aqui — indicou Christopher Seton, com um gesto breve — chegou a ir à minha casa para cobrar minha dívida. Tenham piedade de um homem e desta pobre moça, que nunca conheceu um homem. Tem sido uma bênção para Farrell e para mim desde que a pobre mãe morreu, mas chegou a hora de tomar um marido e abandonar o duro trabalho de cuidar do pai e do irmão. Portanto, cavalheiros, peço que abram generosamente suas bolsas. Adiantem-se os que estão aqui com intenções sérias. Aproximem-se mais. — Consultou o relógio enorme que usava no bolso do colete e depois o ergueu para que todos vissem. — Está na hora, e vamos começar. O que me dizem os cavalheiros? O que estou ouvindo agora? Será que ouvi mil libras? Mil libras? Silas Chambers foi o primeiro a responder, erguendo a mão timidamente e dizendo com voz hesitante.


— Sim... sim, mil libras. Atrás do grupo, Christopher tirou do bolso o maço de papéis e separou duas promissórias. Acenou com elas para chamar a atenção de Avery e disse, apenas com um movimento dos lábios: ”Ninharia.” Avery ficou rubro e renovou seus esforços. — Ah, cavalheiros, olhem bem o prêmio que podem ganhar. Minha bela filha, de beleza perfeita. Inteligente. Sabe ler e escrever. Uma boa cabeça para números. Um crédito para qualquer homem que se case com ela. — Mil e quinhentas disse uma voz rude. — Mil e quinhentas pela mulher. — Então, agora é ”mulher”? — disse Avery, um pouco ofendido. — Será que entenderam que esta venda tem como condição o casamento? É, vai haver casamento. Eu prometo. Portanto, não fiquem pensando que podem comprar minha filha para algum harém. É só para casamento, e é de casamento que estou falando. Não vai haver nenhuma bandalheira, eu garanto, Agora, vamos, cavalheiros, abram suas bolsas, eu peço. Vêem aquele homem ali de pé, esperando e rindo satisfeito? Façam suas ofertas agora. Certamente mais de mil libras. Certamente mais de mil e quinhentas. O homem sentado na banqueta ergueu a pena com que escrevia e disse com voz inexpressiva: —- Duas mil, Avery se animou. — Duas mil. Duas mil para este cavalheiro. Ouvi duas mil e quinhentas? Ouvi duas mil e quinhentas? — Ah, duas mil e cem libras — disse Silas Chambers. — Duas mil e cem. Sim, duas mil e cem libras. Eu pago. — Duas mil e cem, então! Duas mil e cem! Ouvi alguém dizer mais? — Duas mil e trezentas — disse Harford Newton, passando o lenço nos lábios grossos. — Duas mil e trezentas! — Duas mil e trezentas! Duas mil e trezentas libras! Vamos, cavalheiros. Não chegaram nem perto da minha dívida, e preciso ficar com alguma coisa para mim e para meu bom filho com seu braço aleijado. Ponham as mãos nas suas bolsas. Apanhem até a última moeda. Duas mil e quinhentas libras! — Duas mil e quatrocentas! — disse a mesma voz rude, atrás do grupo. — Duas mil e quatrocentas libras! — A voz era meio arrastada, como se o homem tivesse tomado alguns goles antes do leilão. Alvoroçado, Silas apressou-se a reconquistar sua posição. — Duas mil e quinhentas! Duas mil e quinhentas libras! — Estava quase sem fôlego, apavorado com o risco que corria, rezando para que os outros parassem de aumentar os lances. Afinal, ele tinha algum dinheiro, mas não era um homem rico. — Duas mil e quinhentas — disse Avery, — Duas mil e quinhentas! Ah, cavalheiros, eu imploro, Sejam bons para um velho com um filho aleijado. Estão vendo aqui um belo exemplo de feminilidade. Na verdade, eu já disse e repito, um crédito para qualquer homem. Uma companheira para aliviar a carga do seu trabalho, amenizar sua vida e para lhe dar muitos filhos. Erienne afastou-se um pouco do pai, ouvindo esse comentário. Sentia o olhar insistente de Christopher e, erguendo os olhos, viu que ele tirara quase a metade das


contas do bolso e as sacudia no ar, segurando-as com as pontas dos dedos, como que implorando lances mais altos que pagassem o tempo que estava perdendo. Alguma coisa se contraiu no seu peito, impedindo-a de respirar. Ficara atônita com o pedido de casamento de Christopher, mas agora ele parecia ter abandonado completamente a idéia, como se sua principal preocupação tivesse sido, desde o princípio, receber o dinheiro do seu pai. — Duas mil e quinhentas! Ouvi alguém dizer duas mil e seiscentas? — incitou Avery. — Duas mil e setecentas. Ora, vamos, cavalheiros. Apenas começamos a esquentar, e o homem continua ali com seus papéis. Eu imploro, abram suas bolsas. Ela não será entregue por uma ninharia como esta, quando o homem está esperando para receber seu dinheiro. Duas mil e oitocentas! Duas mil e oitocentas libras! Alguém disse duas mil e oitocentas? — Três mil — disse o rato cinzento. Um murmúrio ergueu-se dos presentes, e os joelhos de Erienne começaram a tremer. Silas Chambers apanhou a bolsa e começou a contar o dinheiro. O homem nos fundos consultou em voz alta os companheiros. O sorriso de Avery alargou-se um pouco, até ele ver Christopher tirar outro papel do bolso e sacudi-lo no ar. — Três mil! — disse Avery, erguendo a mão. — Quem dá mais? Três mil e quinhentas? Três mil e quinhentas? Alguém disse três mil e quinhentas? Só o silêncio respondeu, e Silas continuou a contar o dinheiro enquanto os outros conversavam. Os olhos do rato cinzento brilharam. — Três mil e cem? Antes que seja tarde demais, cavalheiros. Eu peço, vejam bem o prêmio. O homem na banqueta fechou o livro com um estalo, guardou a pena na caixa e levantou-se do assento não muito confortável. — Cinco mil libras! — disse ele, em tom frio e seco. — Eu digo cinco mil libras. Todos se calaram. Silas Chambers parou de contar. Não podia cobrir aquele lance. O rato cinzento estava vencido e frustrado. Até o bêbado lá no fundo sabia que esse lance estava muito acima de suas posses. Não era fácil cobrir um lance de cinco mil libras. Christopher parecia não acreditar. Olhou para Erienne atentamente, como que a avaliando e franziu a testa com ar de dúvida. Nesse exato momento, Erienne teve certeza de que, se Christopher estivesse mais perto, ela teria arrancado seus olhos com as unhas. — Cinco mil! — disse Avery alegremente. — Cinco mil! Doulhe uma. Sua última chance, cavalheiros. Dou-lhe duas, cinco mil libras! — Não viu mais ninguém disposto a cobrir o lance. — Cinco mil libras, então. Para o cavalheiro aqui. — Bateu as mãos e apontou para o homem bem vestido. — Ganhou uma jóia rara, senhor — Oh, não comprei para mim — explicou o homem. Avery ergueu as sobrancelhas, surpreso. — Estava dando os lances para outra pessoa? O homem fez um gesto afirmativo. — E quem é essa pessoa, senhor? — perguntou ele. — Ora, lorde Saxton. com uma exclamação abafada, Erienne olhou surpresa para o homem. Além do vulto de pesadelo que passava rápido por sua lembrança, como um fantasma, não conhecia


o rosto, nem o corpo do homem que cuidara dela durante todos aqueles dias. Avery não estava de todo convencido. — Tem alguma prova de que representa lorde Saxton? Ouvi dizer certa vez que ele estava morto. O homem estendeu para Avery uma carta fechada com sinete de cera. — Meu nome é Thornton Jagger, Como esta carta atesta, sou advogado da família Saxton há muitos anos. Se tiver alguma dúvida, tenho certeza de que muitos aqui presentes podem confirmar que o sinete é autêntico. Um murmúrio ergueu-se dos homens ali reunidos, e logo se transformou numa mistura de boatos, conjeturas e algumas verdades. Erienne ouviu as palavras ”queimado”, ”desfigurado”, ”hediondo” e sentiu um calafrio de medo. Procurou manter a calma quando o advogado subiu os degraus da plataforma. O homem pôs a bolsa com o dinheiro sobre a mesinha e começou a assinar os papéis do casamento, identificando-se como representante de lorde Saxton. Christopher abriu caminho entre os presentes e subiu na plataforma. Sacudiu as promissórias debaixo do nariz de Avery. — Sou credor de todo esse dinheiro, menos cinqüenta libras, que deixo para suas despesas. Quatro mil, novecentos e cinqüenta libras é o meu preço por estas notas promissórias. Alguma objeção? Avery olhou boquiaberto para o homem muito mais alto do que ele, desejando poder ficar com uma parte maior daquela fortuna, mas sabia que o que deixara de pagar, em Londres, mais o dinheiro do jogo que devia a Christopher dava um total maior do que cinco mil libras. Era um negócio justo e não teve escolha senão aceitar com um gesto. Christopher apanhou a bolsa, contou rápido cinqüenta libras e pôs as moedas na mesa. Guardou o resto no bolso e apontou para as notas promissórias. — Nunca pensei que fosse conseguir pagar tudo, mas o senhor pagou, e estou satisfeito. A partir de hoje, não há mais nenhuma dívida entre nós, prefeito. — Você é desprezível! — disse Erienne, ao lado de Christopher. A indiferença dele com o resultado do negócio deixou-a mais furiosa do que a atitude do pai. Inesperadamente, ela arrancou o embrulho das mãos dele e apanhou algumas moedas. Afastou-se então, esperando não vê-los nunca mais. Avery ameaçou segui-la, mas Christopher se pôs na frente dele. — Saia do meu caminho! — exclamou. — A menina levou meu dinheiro! Christopher deu um passo para o lado. Avery saiu apressadamente atrás da filha, e Farrell, segurando a manga de Christopher, acusou-o, furioso: — Você fez de propósito! Eu vi! O ianque ergueu os ombros calmamente. — Sua irmã tem direito àquele dinheiro e a muito mais. Só procurei garantir a ela uma boa distância do seu pai. Farrell não tinha resposta para isso. Apanhou o resto do dinheiro, guardou no bolso, depois, erguendo o braço aleijado, disse: — Pelo menos vamos nos livrar de você. Christopher olhou para ele com um sorriso tolerante, e Farrell abaixou os olhos. Em seguida, empurrando de leve o ianque, desceu os degraus e foi atrás do pai. Avery correu atrás de Erienne, com as abas do casaco voando no ar, ansioso para


recuperar as moedas. Chegou em casa, suado e ofegante. Entrou, bateu a porta com força e viu a filha na frente da lareira da sala, olhando para as chamas, que devoravam avidamente as notas promissórias. — Escute, menina! O que pensa que está fazendo? — perguntou ele. — Esses papéis são importantes. É a única prova de que paguei àquele miserável. E o que você fez com o meu dinheiro? — É meu agora — disse Erienne, friamente. — Meu dote! Minha parte do dinheiro da noiva! Uma ninharia apenas, Acho bom o senhor providenciar para que tudo esteja pronto amanhã, porque esta será a última noite que passo nesta casa. Compreendeu, meu pai? — Acentuou a palavra ”pai” com um sorriso de desprezo. — Jamais voltarei.

Capítulo Oito A VELHA carruagem de Mawbry foi alugada para levar os Fleming à igreja, nos arredores de Carlisle, para a cerimônia do casamento. O dia amanheceu frio, e o vento gelado balançava as árvores. A manhã se adiantou sem promessa de algum calor e depois do meio-dia o ar permanecia frio e cortante, como o silêncio dentro da carruagem. O velho coche seguia aos trancos, para grande desconforto de Farrell. Ele segurou a cabeça dolorida com as mãos e fechou os olhos, mas não conseguiu recuperar o sono perdido na farra da noite anterior. Avery estava muito melhor, pois passara boa parte da noite bebendo e comemorando com os amigos sua boa sorte. Todos concordavam que lorde Saxton era um homem generoso, como provava o preço absurdo que pagara pela moça, e provavelmente seria bom para ela aquele casamento. Depois da sua estada em Saxton Hall, foram inúmeros os rumores e conjeturas, e muitos imaginavam que lorde Saxton devia ter tomado liberdades com Erienne. Mas nesse caso pelo menos estava corrigindo tudo com o casamento. Os rumores evidentemente continuavam e as más línguas saboreavam qualquer informação que podiam obter, tirando dela o máximo possível. Durante a viagem, Erienne ficou em silêncio, sem nenhuma disposição de ser amável com o pai. Encolheu-se no canto da carruagem, fechando bem o casaco para se proteger das correntes de ar frio. Para a cerimônia, vestiu o que tinha de melhor. Não tinha vestido de noiva. Na verdade, preferia um traje simples que demonstrasse a completa ausência de alegria. Porém, era o dia do seu casamento e depois de um banho demorado, escovou com cuidado o cabelo. Era o mínimo que podia fazer. A carruagem passou barulhenta pelas ruas estreitas de Carlisle. Avery pôs a cabeça para fora e deu direções ao cocheiro. Em poucos instantes, chegaram à pequena igreja de pedra. A carruagem de lorde Saxton já estava parada na entrada. O cocheiro e o cavalariço, com meias brancas, casacos combinando, calções justos verde-escuros, com uma listra negra do lado, esperavam ao lado dos cavalos pretos e reluzentes. A carruagem estava vazia, não havia nem sinal de lorde Saxton no pátio da igreja. Avery imaginou que ele estava lá dentro à espera da noiva. Avery entrou, resoluto, na igreja, e viu Thornton Jagger e o padre, de pé, na frente de uma mesa perto da primeira fila de bancos. Ao lado da porta, um homem forte, com casaco negro e calção justo, da mesma cor, estava parado, com as pernas separadas e


os braços cruzados no peito. Não havia mais ninguém na capela. Embora os trajes do homem não fossem luxuosos como os de lorde Talbot, Avery pensou que certamente os gostos diferiam muito entre os nobres. Pigarreou e disse: — Lorde... — começou ele. O homem ergueu as sobrancelhas surpreso. — Se está falando comigo, senhor, meu nome é Bundy. Sou criado de lorde Saxton... criado particular, senhor. Avery enrubesceu e riu para disfarçar o embaraço. — É claro... ah... seu criado particular. — Olhou para o interior da igreja e não viu ninguém a quem pudesse chamar de lorde. — Onde está lorde Saxton? — Meu amo está na sacristia, senhor. Estará aqui no momento certo. Avery empertigou-se, imaginando se devia se ofender, pois o tom do criado dava a entender que devia esperar onde estava. O prefeito teria de esperar para satisfazer finalmente sua curiosidade. A porta da frente abriu-se devagar, e Farrell entrou, com a cabeça cautelosamente erguida, como se estivesse a ponto de se soltar do pescoço. Sentou-se num banco dos fundos e fechou os olhos. Ali pretendia ficar, sem ser perturbado, até o fim da cerimônia. Erienne caminhou para a primeira fila de bancos, com as costas muito retas e o queixo levantado. A vida que ela conhecia estava prestes a acabar e sentia-se como um criminoso preparando-se para a forca, imaginando se o laço fatal traria o fim dos seus sofrimentos ou se havia mesmo o inferno verdadeiro à sua espera. Trêmula, sentou-se no banco da igreja, sozinha no seu sofrimento, certa de que o pai a avisaria do começo da cerimônia. O reverendo Miller não parecia preocupado com a ausência do noivo, enquanto preparava os documentos, lia todos com atenção e assinava depois a certidão de casamento. Thornton Jagger assinou também, com gesto largo, como testemunha, e depois foi a vez de Avery assinar debaixo do nome do advogado. Chamada para a frente do altar, Erienne apanhou a pena, só com muito esforço disfarçando o nervosismo. Mal podia ver o documento, mas sua agitação interior só era denunciada pelo pulsar rápido de uma veia no pescoço, logo abaixo da orelha bem-feita. Então tudo parou, à espera do noivo. Avery, irritado com a demora, perguntou: — Muito bem, lorde Saxton vai ou não sair do buraco? Ou seu advogado vai fazer tudo por ele, outra vez? O reverendo Miller apressou-se a acalmá-lo: — Tenho certeza de que lorde Saxton vai preferir estar presente, senhor. vou pedir que o criado o chame agora. O padre fez um gesto para Bundy, que caminhou para a alcova no fim de um corredor escuro. Desapareceu, e só depois de uma eternidade soaram passos no corredor. Dessa vez, pareciam passos estranhos. Uma batida, talvez um passo, seguida do ruído de algo se arrastando. Erienne lembrou-se então do que tinha ouvido. Aleijado! Horrivelmente desfigurado! Finalmente lorde Saxton apareceu, a princípio apenas um vulto negro quase completamente coberto por uma capa. A parte superior do corpo estava na sombra do corredor, mas quando passava por trechos onde a luz era mais clara, Erienne viu por que ele se movia de modo tão estranho. O sapato do pé esquerdo tinha uma sola


grossa, em forma de cunha, como para corrigir a posição do pé. A cada passo do pé direito, o esquerdo era arrastado para a frente. Erienne olhou para o vulto que se aproximava, paralisada de horror. Muito fria, assustada e nervosa, não poderia ter feito um movimento se tivesse oportunidade de fugir. Esperou, imóvel, sem saber o que mais ia ver. Ergueu os olhos, relutante, e quando a luz das velas afinal iluminaram o vulto, os joelhos dela quase dobraram. O que estava vendo era mais assustador do que imaginara ou do que estava preparada para enfrentar. O rosto e a cabeça de lorde Saxton estavam completamente cobertos por um capacete de couro, com duas aberturas para os olhos, outra para o nariz e outras, pequenas e quadradas, para a boca. A máscara, muito bem-feita, sequer permitia que se percebessem os traços daquele rosto. Até os olhos estavam escondidos atrás das péquenas aberturas. Extremamente chocada, quase insensível, Erienne notou os outros detalhes. A não ser pela camisa branca, ele estava todo de préto. Luvas pretas de couro cobriam as mãos e ele apoiava-se numa bengala pesada, com cabo de prata. Sob a capa, os ombros pareciam fortes e largos. O esquerdo era um pouco mais alto do que o direito, fosse devido à deformidade, fosse por causa do andar defeituoso. Era sem dúvida a figura mais aterrorizadora para uma noiva que via o futuro marido pela primeira vez. Ele parou na frente dela e fez uma mesura um tanto rígida. — Srta. Fleming. — A voz era vazia e distante, e a cada palavra a respiração sibilava através das aberturas da máscara. Voltou-se ligeiramente para Avery. — Prefeito. Avery conseguiu finalmente fechar a boca e inclinou a cabeça de leve. — Lor... Lorde Saxton. O homem mascarado concentrou toda a atenção em Erienne. — Peço perdão por minha aparência. Já fui igual aos outros homens, ereto e forte, mas fui deformado pelo fogo. Agora, os cães latem nos meus calcanhares, e eu assusto as crianças, por isso uso esta máscara. O resto é como está vendo. Talvez compreenda por que prefiro não ser visto e porque deixo meus negócios a cargo do meu agente. Entretanto, eu não podia ignorar esta ocasião. Depois de vê-la em minha casa e vendo a oportunidade de fazê-la minha mulher, apresseime a tomar todas as providências necessárias. Agora, a escolha é sua. — Observou-a atentamente, esperando uma resposta que não veio. — Aceita a determinação do seu pai? Quer me aceitar como marido? Erienne lembrou do que dissera ao pai. Nunca mais voltaria para a casa dele. Não acreditava que seria aceita de volta, se isso significasse devolver o dinheiro a lorde Saxton. Aparentemente não tinha alternativa e com voz rouca e tensa respondeu: — Sim, lorde Saxton, eu aceito a determinação do meu pai. — Muito bem, então vamos à cerimônia. — Avery, recuperado do espanto, estava impaciente para realizar a cerimônia antes que o homem desistisse. — Já gastamos um tempo precioso. A pressa bajuladora do pai fez desaparecer os últimos resquícios de respeito que Erienne podia ter ainda por ele. O fato de ele Cer capaz de condená-la, com tanta indiferença, a uma vida de horror foi como uma punhalada no seu coração. Resolveu que desse dia em diante concederia a ele o mínimo de atenção devida a um pai e, se nunca mais o visse, aceitaria isso também. Avery a usara e a Farrell para seus


próprios fins, sem demonstrar a menor compaixão quando viu que ia uni-la àquela caricatura de homem. Avery seria pouco mais do que um estranho para ela. Durante a cerimônia, Erienne se sentia como uma anã ao lado do homem aleijado. com voz abafada e trêmula, respondeu às perguntas do reverendo Miller. A voz surda de lorde Saxton ecoou sinistramente no silêncio da igreja, quando repetiu as promessas de praxe. O último raio de esperança que ela talvez guardasse ainda apagou-se com o fim da cerimônia. Erienne olhou para as pedras muito gastas do chão da capela até que o roçar dos dedos enluvados no seu braço a arrancou do transe. com uma exclamação abafada, ergueu os olhos assustados para a máscara. — O anel, Erienne! O anel! — disse Avery, atrás dela. Atordoada, Erienne olhou para baixo e viu que os dedos cobertos pela luva negra seguravam um anel pesado e grande, cujo valor ela jamais poderia imaginar. A respiração de Avery, áspera e ruidosa, se acelerou quando ele viu o anel ser colocado no dedo da filha, mas Erienne, sentindo o frio quase réptil das mãos do homem ao seu lado, pouca importância deu ao presente. Tudo acabou rápido. Ela era agora a mulher do horrível lorde Saxton, e imaginava como poderia suportar o pesadelo de cada momento da sua vida. Não podia ser de outro modo, com aquela criatura que parecia ter saído das profundezas do inferno. com uma exagerada demonstração de afeto, Avery beijou a filha no rosto, depois, cheio de entusiasmo, segurou a mão dela para admirar o anel. Seus olhos cobiçosos brilhavam tanto quanto as pedras preciosas e, por um momento, o sorriso ávido traiu seus pensamentos. Se pudesse atrair Erienne de volta à casa, alegando que estava muito infeliz longe da família, era muito possível que lorde Saxton os convidasse a todos para morar em Saxton Hall. Uma vez lá dentro, o cofre do homem estaria em suas mãos. Controlando-se, Avery franziu a testa, preocupado, e aproximou-se do novo genro. — Acho que minha filha gostaria de ir até em casa para apanhar o resto das suas coisas, milorde. — Não é necessário. — Disse a voz áspera atrás da máscara — Ela encontrará tudo que precisa em Saxton Hall. — Mas ela não trouxe nem a metade de suas roupas — mentiu Avery, apontando para a pequena mala de Erienne. — Não tem nada para vestir. — Ela encontrará roupas em Saxton Hall. Outras serão compradas, de acordo com seus desejos. — Está me negando mais algumas poucas horas com minha filha? — insistiu Avery, idiotamente. — Tenho sido um bom pai, e não gostei do que tive de fazer para o bem dela, mas fiz questão de me certificar de que um bom homem tomaria conta dela... e da sua família. A máscara inexpressiva voltou-se para Avery, e os olhos cintilaram dentro do couro negro, penetrantes e severos. O prefeito sentiu um frio na espinha, e toda sua coragem desapareceu. — Recebeu um bom dinheiro por sua filha. — A voz sibilante soou seca e fria. — Não vai haver mais nenhum negócio. O trato foi cumprido, e o senhor não terá nada mais de mim. Agora, desapareça, antes que eu resolva desfazer todo o negócio. Avery recuou boquiaberto e, ajeitando o tricórnio na cabeça, caminhou para a porta da igreja, acordando o filho aos gritos, quando passou por ele. Farrell, sem a mínima


noção do que acontecera, acompanhou o pai, e Avery o fez sair às pressas, sem se despedir da irmã. A porta bateu violentamente, e Erienne como que acordou de um longo sono. Sem dúvida, ali acabava a vida que conhecia desde a morte da mãe, mas naquele momento não sentia a perda, apenas medo do que o futuro lhe reservava. ? Viu o vulto enorme do marido claudicando para a porta da igreja. Thornton Jagger aproximou-se dela e a puxou pela manga. — Lorde Saxton quer se retirar agora, madame. A senhora está pronta? com uma leve inclinação da cabeça, Erienne vestiu a capa e deixou que o advogado a conduzisse pelo braço. Aquela submissão exterior escondia um turbilhão interno de desespero e incredulidade. O criado, Bundy, saiu atrás deles, e encontraram lorde Saxton já sentado na carruagem, bem no meio do banco, com as duas mãos no cabo da bengala, os joelhos separados e a bota grotesca com sola grossa estendida para a frente. Com a ajuda do Sr. Jagger, Erienne subiu para o interior forjado de veludo. Estranhando ainda a presença do novo marido, Erienne sentou-se no banco almofadado de frente para ele e ajeitou a capa em volta do corpo, evitando erguer os olhos. Bundy subiu para a boléia e sentou-se ao lado do cocheiro. A carruagem começou a andar, e Erienne lançou um último olhar para a pequena igreja de pedra. Thornton Jagger ficou parado, imóvel, e aquela figura solitária, na frente da igreja, era como um reflexo dos seus sentimentos. Apesar da presença do marido, ela estava completamente sozinha e esquecida. Talvez percebendo seu desespero, lorde Saxton quebrou o silêncio estóico. — Anime-se, madame. O reverendo Miller tem bastante experiência para não confundir a extrema-unção com o ritual do casamento. Esta carruagem não a está levando para o inferno... — Ergueu levemente os ombros e acrescentou: — Nem para o paraíso. O capacete de couro dava à sua voz uma qualidade sibilante e estranha, e só um outro reflexo de luz nas aberturas para os olhos a faziam acreditar que havia realmente um homem sob aquela máscara. Evidentemente, lorde Saxton percebera seu estado de espírito e talvez compreendesse seus temores, se não sua repulsa. A viagem continuou num silêncio doloroso. Erienne não se atrevia a falar, com medo de perder o controle das suas emoções e começar a chorar. Estava apavorada com aquele homem mascarado, que era agora seu marido, e não tinha certeza de não estar indo para algum tipo de inferno. A idéia não lhe saía da cabeça. Como podia ter recusado a oferta de Christopher Seton com tanto orgulho e até mesmo dos outros pretendentes? Por mais detestável que ele fosse, por mais feios que fossem os outros, qualquer um seria mais aceitável do que aquela criatura mascarada que a observava como um gavião faminto. Lorde Saxton era a epítome de todos os seus pesadelos e agora, presa nas suas garras, estava prestes a ser devorada. A carruagem sacolejou num trecho mais acidentado da estrada, e por uma fração de minuto Erienne esqueceu o medo, tentando se manter no banco sem perder a dignidade. Lorde Saxton balançava suavemente de um lado para o outro, parecendo ignorar os solavancos. Erienne invejou a pose dele e esforçou-se para resistir aos trancos e balanços. O capuz escorregou da sua cabeça, e o cabelo, livre dos prendedores delicados, recobriu seus ombros com ondas escuras e brilhantes, mas naquele momento estava impossibilitada de se recompor.


Por fim, a estrada melhorou, e ela ergueu os braços para prender o cabelo, mas Lorde Saxton a impediu com um rápido movimento da mão. Erienne abaixou os braços e durante todo o resto da viagem ficou sentada imóvel e tensa, sentindo o olhar penetrante do marido, e o tempo se arrastava com angustiosa lentidão. Era uma viagem interminável para o desconhecido. Quando estavam perto de Saxton Hall, a carruagem subiu uma encosta durante algum tempo, e Erienne viu a terra que logo ia conhecer. A oeste, o céu estava rosado, prenunciando o fim do dia, e a distância a silhueta escura da mansão contrastava com o tom de rosa das nuvens, que acompanhavam a linha do horizonte. Mais adiante, longe da casa, um pedaço de mar aparecia como uma safira incrustada entre as montanhas. A carruagem desceu o vale, aproximando-os da cripta que certamente seria a sua prisão. Seu estômago parecia uma pedra de gelo, e nenhuma súplica silenciosa conseguia abrandar seu terror. Estava apavorada e não tinha como escapar. Depressa demais para sua vontade, a carruagem parou na frente da torre. Apreensiva, Erienne esperou que lorde Saxton descesse. Não podia suportar a idéia de ser tocada outra vez por aquelas mãos enluvadas e impessoais, mas não podia recusar a ajuda dele para descer. Quando ele se voltou para a carruagem, um calafrio a fez estremecer, e Erienne procurou se controlar. A mão enluvada ergueu-se, mas para chamar o cavalariço. O jovem correu para a porta e ofereceu a mão a Erienne, que quase suspirou aliviada. Confusa com o gesto do marido, imaginou se ele sabia o quanto seu contato era repulsivo para ela. Ou seria apenas uma prova de um caráter frio e calculista? Erienne desceu da carruagem e esperou, ao lado do marido, que o cavalariço abrisse a porta da casa. Evitou olhar para ele, até ouvilo dizer: — Como não ando muito bem, madame, prefiro segui-la. — Ergueu a mão, convidando-a a entrar. Não precisou repetir o convite. Erienne quase correu para a casa, afastando-se dele. Tentou ignorar o som do pé aleijado, mas nem o estouro de uma boiada a impediria de ouvir aquele arrastar impressionante... um passo... arrastar... um passo. A Sra. Kendall e o mordomo, Paine, esperavam-nos, e o sorriso da governanta, por um momento, amenizou o terror de Erienne. Recebida calorosamente, passou pelo cavalariço e pelo mordomo. entrou no hall da torre, acompanhada pela governanta, enquanto paine segurava a porta aberta para seu patrão. Assim que entrou, Erienne parou, surpresa. Tinham desaparecido os panos empoeirados que cobriam os móveis. A sala fora esfregada e lavada, desde o chão de pedra até os arcos de carvalho do teto. Pela primeira vez ela viu que as paredes muito altas estavam cobertas de tapeçarias, escudos e outros apetrechos da antiga cavalaria. O fogo crepitava na imensa lareira de pedra, aquecendo e iluminando a sala. Algumas poltronas estavam arrumadas na frente do fogo, sobre um tapete. Mais perto da cozinha, cadeiras sólidas, de espaldar reto, com almofadas de veludo verde-escuro, dispunham-se ao longo de uma mesa comprida. Nos cantos mais escuros, nos candelabros sólidos e altos, com suas bases firmes no chão, cintilavam velas enormes. As chamas fracas e finas combinavam com a luz da lareira para criar um ambiente aconchegante e aquecido, isolando-os da noite escura e fria.


— Fizemos o melhor possível para limpar tudo para a senhora — disse Aggie, olhando satisfeita para o resultado do seu trabalho. — Acho que devia ser difícil para uma estranha imaginar que sob todos aqueles panos e toda aquela fuligem existia uma sala tão perfeita. Eu trabalhava aqui quando era jovem e sabia o quanto este lugar era bonito quando o velho lorde dirigia a casa. As duas sobressaltaram-se quando a voz abafada chamou Aggie. A governanta parecia perfeitamente à vontade na frente da máscara hedionda. — Deseja alguma coisa, milorde? Paine tirou a capa do patrão e recuou alguns passos. — Deve mostrar à senhora seus aposentos. Talvez ela queira se preparar para o jantar — disse lorde Saxton. — Sim, milorde, Aggie inclinou-se levemente para o patrão e depois, apanhando a mala de Erienne das mãos do cavalariço, se voltou para a nova patroa com um sorriso radiante: — Venha comigo, senhora. Vai encontrar um fogo bem quente à sua espera. Erienne caminhou na direção da torre, sentindo o olhar do marido nas suas costas. Aquela sensação a aterrorizou. Como ia suportar o que estava para acontecer? Como poderia passar longas horas nos braços dele sem revelar sua repulsa quando o hálito áspero ou as mãos deformadas a tocassem? A governanta caminhou na frente por um corredor pouco iluminado do segundo andar, e mesmo com a pouca luz era evidente que estava impecavelmente limpo. As chamas das velas refletiam no assoalho de mármore. — A senhora vai ficar nos aposentos do patrão, como antes — informou Aggie. — Limpamos tudo para a senhora, e estão dignos de um rei — virou a cabeça e sorriu para Erienne —, ou talvez de uma rainha. — A casa está sem dúvida diferente — comentou Erienne e a voz fraca traía sua falta de entusiasmo, mas Aggie não notou. — Espere até ver o que o patrão comprou para a senhora. Os mais belos vestidos que jamais viu. Devem ter custado um bom dinheiro, encomendados em tão pouco tempo. — Olhou para Erienne, com olhos brilhantes. — Ele parece estar muito apaixonado pela senhora. Sim! Erienne concordou lacônica e mentalmente. E tinha dinheiro suficiente para cobrir todos os outros lances? Passaram pela porta que Erienne lembrava da sua primeira visita, e com uma pequena reverência, Aggie a abriu. Erienne entrou, e as lembranças das suas noites naquele quarto a envolveram. A limpeza imaculada fazia com que parecesse outro quarto. Mesmo assim, a lembrança do vulto escuro na cadeira, envolto nas sombras, era tão clara quanto os vidros das janelas, agora. Mentalmente ela completou a imagem do seu delírio de febre, com a cabeça e o rosto cobertos, o pé com o sapato de sola grossa e os ombros largos e fortes do marido. Erienne estremeceu dentro do seu pesadelo, e o pânico quase a fez sair correndo do quarto. com tremenda força de vontade conseguiu se controlar. Era como se estivesse navegando no meio de uma tempestade, certa de que tudo ia passar, mas apertando os dentes e agarrando-se com força no mastro, até que isso acontecesse. Aggie foi até o guarda-roupa e o abriu para mostrar a variedade de roupas que continha. Tirou vários vestidos maravilhosos, mostrando a renda frágil e delicada das combinações e


das camisolas. Mostrou sapatos com saltos altos e curvos, delicadamente enfeitados, chapéus com plumas e rendas que teriam feito Claudia Talbot estremecer de inveja. Erienne procurou sair do alheamento, percebendo que a boa mulher esperava ansiosa por sua reação. Não podia desapontar a expectativa que via no rosto rosado e enrugado de Aggie. — Tudo é uma beleza, Aggie — murmurou com um sorriso. Na verdade, poucas noivas ganhavam coisas belas no dia do casamento. Em geral o marido recebia o dote. Erienne sabia que a falta do dote a conduzira àquele destino. — O meu amo pensou em tudo, pensou mesmo — disse a governanta, abrindo as cortinas do pequeno quarto de banho. — Ele estava ansioso para que a senhora tivesse todo o conforto. No quarto de vestir, agora imaculado também, havia finas toalhas com beiradas de renda, um espelho de corpo inteiro num canto, recipientes de cristal com óleos perfumados e vidros de perfume que não estavam ali na sua primeira visita. Tudo preparado para satisfazer seu menor capricho ou conforto. Porém, mesmo rodeada por tantas maravilhas, Erienne não se conteve e perguntou: — Você parece conhecer lorde Saxton melhor do que qualquer outra pessoa, Aggie. Que tipo de homem ele é? A governanta olhou para ela por um momento e, vendo a agonia no rosto da jovem, compreendeu um pouco do turbilhão que agitava a sua mente. Embora sentisse pena de Erienne, sua lealdade era toda para o patrão. Procurando fazer com que sua nova patroa compreendesse pelo menos parte das desgraças que haviam se abatido sobre a família Saxton, Aggie começou a falar, sem sua costumeira jovialidade. — Eu o conheço o suficiente para saber por que ele faz certas coisas. Sua família sofreu muito nas mãos de assassinos e de homens que se arrogam grande autoridade. O velho lorde foi chamado para fora de casa, no meio da noite, e assassinado por um bando de malfeitores, na frente de toda a família. Temendo que todos tivessem a mesma sorte, Mary Saxton fugiu com os filhos. Há uns três anos, o filho mais velho voltou para reclamar o título e as terras. — Aggie inclinou a cabeça, na direção geral da ala leste. — A senhora viu as ruínas queimadas da ala mais nova da mansão. O incêndio foi ateado pelos mesmos homens que assassinaram o velho lorde e que sabiam que o filho mais velho ocupava aquela ala no momento... — As queimaduras de que ele falou... — perguntou Erienne. — Foram no incêndio da casa? Aggie olhou pensativa para a lareira. — Meu amo tem sofrido demais, mas me fez prometer não contar nada a seu respeito. Só estou procurando fazer com que não tenha medo dele. Desapontada, Erienne sentiu de repente uma fadiga imensa. Fora um dia difícil, e agora sentia os efeitos no cérebro e no corpo. A história da governanta só serviu para aumentar sua apreensão — Aggie, se não se importa — murmurou, exausta —, preciso ficar sozinha por alguns momentos. Compreensiva, a mulher ofereceu. — Quer que eu prepare a cama, senhora? Ou que tire algumas roupas para a senhora vestir? Erienne balançou a cabeça.


— Agora não. Mais tarde. Aggie assentiu com a cabeça e quando chegou à porta parou, com a mão na maçaneta. — Senhora, sei que não é da minha conta — começou a dizer, hesitante —, mas se a senhora tiver apenas um pouco de fé, lorde Saxton é.., bem, como eu disse, me fez prometer não falar a seu respeito, mas posso lhe dizer isso, Quando chegar a conhecê-lo, vai ficar admirada com o homem que se esconde sob aquela máscara. E pode confiar em mim, senhora, não vai ficar nem um pouco desapontada. Muito obrigada, senhora. Antes que Erienne tivesse tempo para uma pergunta, Aggie saiu do quarto e fechou a porta. Sozinha pela primeira vez, desde que saíra da casa do pai, Erienne ficou parada no meio do quarto, olhando em volta. A noiva de Saxton Hall, pensou com desânimo. Senhora de uma casa que, como um camaleão, estava se transformando ante seus olhos. Sorriu. Se ao menos isso também pudesse acontecer com seu marido, que o homem que se escondia sob as roupas e a máscara negra fosse um marido pelo menos aceitável. Erienne afastou da mente esse pensamento, censurando-se por aquele devaneio tolo. Tinha de enfrentar a realidade de estar casada com lorde Saxton, do jeito que ele era. Tarde demais para voltar atrás. Mais de uma hora se passou antes que Erienne, vencendo o desânimo, resolvesse escolher um vestido no guarda-roupa, mas nem os veludos macios e os linhos finíssimos conseguiram afastar a certeza de que estava condenada. Olhou tristemente para as roupas compradas por lorde Saxton, achando-as perfeitas, mas sem nenhum prazer em ser dona delas. Tinha na frente dos olhos o luxo com que toda mulher sonhava, certa de que daria tudo aquilo para quem quisesse ocupar seu lugar de esposa de lorde Saxton. Estava cada vez Mais próximo o momento em que teria de se submeter ao marido. naquele momento a morte não a atemorizava nem um pouco. Indiferentemente, escolheu um vestido de cetim rosa, enfeitado com rolotê de cetim verde e o pôs sobre a cama. A idéia de descer para Jantar com o marido a enchia de tristeza, mas se ficasse no quarto ele podia subir muito mais cedo para acabar com a formalidade entre os dois. Não queria parecer ansiosa para consumar o casamento e resolveu se apressar. Erienne chamou Aggie, que apareceu com uma jovem chamada Tessie, trazida de Londres para servir como sua criada particular. Tessie preparou um banho perfumado, que Erienne tomou com prazer. Depois de enxugá-la delicadamente, a jovem passou óleo leve e perfumado no seu corpo. As tiras do espartilho foram apertadas e amarradas e uma anquinha aplicada sob a anágua. Então, Tessie arrumou seus cabelos num penteado elegante, entremeado com fitas de cetim verde e cor-de-rosa, com uma trança longa e sedosa descendo pelo pescoço, até o começo dos seios. Então chegou a vez do vestido, e Erienne achou que devia ter escolhido outro. A cintura justa amoldava-se exatamente ao seu corpo. As mangas eram compridas e estreitas, terminando numa aplicação de rolotês verdes em volta dos pulsos. A mesma aplicação enfeitava o decote generoso, exatamente o que incomodou Erienne. A linha em V descobria seu colo, até quase a ponta dos seios. Considerando a aversão que sentia pelo marido, o vestido fora uma péssima escolha. Era verdade que, durante sua doença, lorde Saxton devia ter visto muito mais do que o vestido


mostrava e a julgar pelo tamanho exato de todas as peças de roupa ele não fora nem um pouco discreto com a sua nudez. Mesmo assim, Erienne não estava disposta a provocá-lo com aquela exposição do seu colo. Mas, agora, com Tessie ajudando-a a vestir-se, não podia escolher outro, não depois do trabalho todo de entremear seus cabelos com fitas que combinavam com o vestido. Erienne pensou num modo de abordar o assunto diplomaticamente, quando Aggie entrou no quarto. — Oh, senhora, está radiante como o sol da manhã! — exclamou ela. — O vestido é lindo — disse Erienne, depois de um esforço enorme para falar com voz natural. — Mas acho que deve estar um pouco frio lá embaixo e talvez seja melhor algo mais agasalhado. — Não precisa se preocupar, senhora, eu apanho um xale. — Aggie procurou no guarda-roupa até encontrar um xale de renda preta, que entregou a Erienne, com um erguer de ombros. Acho que é o único, senhora, e é tão leve que não agasalha nada. — Acho que serve — disse Erienne, pondo o xale nos ombros e fechando-o na frente. Até um lenço serviria. — Lorde Sax... — Erienne interrompeu a frase e corrigiu. Meu marido, onde ele está? — Na sala de estar, senhora — informou Aggie. — Esperando pela senhora. O turbilhão rodopiou dentro dela outra vez, gelado e cheio de medo. Erienne respirou fundo e, reunindo toda a coragem que tinha ainda, saiu do quarto. Os saltos altos ecoaram no corredor e na escadaria, como o tambor da morte avisando o desastre iminente, e quando ela ouviu os passos do marido entrando na torre teve certeza de que a desgraça estava ali à sua espera. Quando passou a última volta da escada, viu lorde Saxton de pé, no hall. Seus olhos não podiam penetrar a máscara, mas ela sentiu que ele a examinava, sem perder o menor detalhe. Seu coração disparou, e a descida dos últimos degraus foi um teste para seus nervos. Parou no último degrau, na frente dele, ficando os dois quase da mesma altura. Ergueu os olhos para o brilho atrás das aberturas da máscara. — Madame, eu a cumprimento por sua beleza. — Num gesto lento, levantou o xale dos ombros dela. — Entretanto, como sua beleza não precisa de nenhum enfeite, prefiro a simplicidade do vestido. — Pôs o xale de renda na balaustrada. Erienne viu o brilho dos olhos dele descer para seu colo desnudo. Só com esforço ela não procurou se cobrir com as mãos. Certamente ele podia adivinhar a força com que batia seu coração pelo tremor dos seios. — Venha para perto do fogo — disse ele, gentilmente. — Você está tremendo. Afastou-se um pouco, sem tentar tocá-la. Passando por ele, Erienne entrou na sala. Sentou-se rigidamente na ponta de uma das poltronas perto do fogo, como um passarinho pronto para voar à primeira ameaça. Sem deixar de observá-la, lorde Saxton serviu vinho num copo de prata e o estendeu para ela. — Isso vai ajudar. Erienne precisava urgentemente de alguma coisa que devolvesse a força aos seus joelhos trêmulos. Tomou um gole de vinho, olhando para o fogo até o silêncio se tornar embaraçoso e tenso. Sempre que erguia os olhos, via a máscara inexpressiva observando-a atentamente. Era demais para ela. Nervosa, levantou-se com o copo na mão e começou a andar pela sala, fingindo examinar e admirar um entalhe aqui, uma tapeçaria ali, mas deliberadamente procurando um lugar a salvo dos olhos dele. Não havia nenhum. A máscara de couro era inexpressiva, não sorria, não franzia a testa, não


demonstrava sentimento algum, o que seria suficiente para assustar qualquer recémcasada, porém o medo maior era do horror que ela escondia. Certa vez, fazia muito tempo, Erienne vira o rosto de um velho marinheiro deformado por um tiro. Imaginava as cicatrizes de uma extensa queimadura. Seria uma máscara lisa de carne, também sem expressão, ou uma deformação hedionda e cruel? A presença dele a perturbava. Sobressaltava-se ao menor movimento daquele vulto silencioso. Suas pernas continuavam a tremer, ameaçando perder completamente a força sob o peso do medo. Não encontrando nenhum lugar onde pudesse ficar livre dos olhos dele, voltou para a poltrona na frente do fogo. — Seus aposentos são do seu agrado? — perguntou a voz rouca, servindo-a de mais vinho. Erienne respirou fundo, tentando aliviar a tensão, mas falhou e disse com voz trêmula: — São... muito bons. Obrigada. A respiração dele ficava mais ruidosa, saindo pelas aberturas da máscara e a voz era estranha e fantasmagórica. — Aggie fez um verdadeiro milagre para tornar a casa novamente habitável. Só daqui a algum tempo tudo estará como deve, mas pelo menos podemos ter algum conforto agora. Quero pedir desculpas pelo estado da casa na sua primeira visita. Eu estava sozinho aqui no dia do seu acidente. Sem erguer os olhos, ela murmurou: — Eu... quero agradecer por ter cuidado de mim. — Foi um prazer, madame. — Havia calor na voz rascante. Os olhos de Erienne encontraram por um segundo os olhos invisíveis e desviaram-se. Ela corou. Sabia o que ele pensava naquele momento, pois a lembrança da sua nudez e vulnerabilidade jamais sairia da sua mente. Depois de um longo tempo, conseguiu vencer o embaraço e disse: — Não lembro de quase nada... de como me encontrou... nem da minha doença. Ele sentou-se, com gestos rígidos. — Ouvi os cães e compreendi que alguém estava caçando nas minhas terras. Segui o som dos latidos e a encontrei. Eu a trouxe para a casa e fiquei ao seu lado até Aggie chegar. Então, a febre já havia cedido e eu sabia que estava melhor. — E então resolveu me comprar? — Madame, garanto que não consegui resistir à tentação. Paine entrou na sala e parou na beirada do tapete, para anunciar que o jantar estava servido. Lorde Saxton levantou-se e ficou de pé ao lado da cadeira dela, sem tocá-la, mas se comportando como um verdadeiro cavalheiro. Erienne caminhou na frente dele e viu que havia apenas um lugar, arrumado perto do fogo. — Só há um lugar — disse ela, surpresa. — vou jantar mais tarde, madame — explicou ele. O motivo era evidente, e ela aceitou a situação, agradecida por não ter de vê-lo sem a máscara. Já ia ser bastante difícil enfrentá-lo no quarto, sem precisar ver o rosto horrível enquanto jantava. Empurrando para o lado a longa cauda do vestido, ela se aproximou da mesa. O marido segurou a cadeira, e quando ela se sentou ficou um longo tempo parado, atrás dela. Erienne ficou gelada com a proximidade dele, e quase certa de estar sendo


observada. Não ousou abaixar os olhos para o colo descoberto, nem virar a cabeça para trás, com medo de ver para onde ele estava olhando. Uma veia latejou no seu pescoço, e então ele se afastou, arrastando o pé aleijado, e sentou-se na cabeceira da mesa. com um olhar rápido e nervoso, Erienne examinou o decote do vestido e, chocada, viu a ponta rosada perfeitamente visível sob a combinação de linho. Embaraçada, apertou o vestido contra o colo e não resistiu a uma observação: — Sua intenção é que eu me mostre com igual imparcialidade para qualquer pessoa ou devo pôr a culpa no vestido? A risada sibilou nas aberturas da máscara. — Eu prefiro que escolha seus vestidos com mais cuidado quando tivermos convidados e reserve essa visão para o meu prazer, madame. Não sou um homem muito generoso nesse assunto. Na verdade, não poderia suportar a idéia de outro homem partilhar o que é só meu e uma vez que aparentemente não tem preferência por nenhum dos seus pretendentes, resolvi satisfazer meu desejo. — Fez uma pausa e olhou para ela. — Não tinha nenhuma preferência, tinha? Erienne desviou os olhos, quando a imagem de Christopher surgiu em sua mente, mas ela a afastou. Odiava aquele homem. Apesar da proposta intempestiva, ele se contentou em vê-la vendida a outro homem e apressou-se a receber o dinheiro, quando tudo terminou. Respondeu, num murmúrio: — Não, milorde, eu não tinha nenhuma preferência. — Ótimo! Então não tenho motivo para me arrepender por tirála dos outros. — Outra risada sibilante. — Era eles ou eu, e eu acho, madame, que está melhor comigo. — Ergueu a mão enluvada para enfatizar o que ia dizer: — Veja, por exemplo, Harford Newton, — O rato cinzento? — Um apelido perfeito, minha cara. — O que tem ele? — Seu pai por acaso não contou que a mulher dele, com trinta e poucos anos, morreu de uma queda de escada? Muitas pessoas achavam que foi empurrada por Harford Newton. Se eu não tivesse dado instruções ao Sr. Jagger para cobrir todos os lances, estaria jantando com ele esta noite, como sua mulher. Erienne olhou atônita para ele. A vida com Harford Newton teria sido muito pior do que imaginara, mas isso não garantia que o casamento com lorde Saxton seria muito melhor. — Vejo que se deu ao trabalho de se informar sobre meus pretendentes. Por quê? — Simplesmente procurei conhecer suas opções, pelo menos as que foram apresentadas por seu pai, madame, e cheguei à conclusão de que eu era provavelmente sua melhor escolha. — Se não tivesse dado ordens aos seus criados para me devolver ao meu pai, eu podia ter encontrado um emprego e viver calma e modestamente longe daqui. — Madame, essa probabilidade era muito vaga. Como um cavalheiro, senti-me responsável por seu bem-estar. Não podia permitir que continuasse sua viagem sozinha, sabendo o quanto a vida pode ser caprichosa. — Podia ter arranjado um emprego para mim, até mesmo aqui, na sua casa. Sei lavar o chão e também cozinhar. — Talvez tenha razão, meu amor, mas pense um pouco. Se estivesse tão perto de


mim, eu talvez não conseguisse me conter. Estaria disposta a ser minha amante? — Não, é claro que não, mas... — Então, não vejo razão para continuarmos a discussão — disse ele, encerrando definitivamente o assunto. A cozinheira era sem dúvida excelente, mas Erienne mal tocou na comida. Procurou comer devagar, sabendo que por mais que demorasse, o fim da refeição chegaria depressa demais para seu gosto. O vinho foi tomado com liberalidade, mas não alterou seus sentidos ou sua apreensão. Por mais que procurasse alongar aquele momento, para ela, o jantar terminou rápido. — Alguns assuntos exigem minha atenção — disse lorde Saxton, quando saíram da mesa. — Não tomarão mais do que alguns momentos. Pode me esperar nos seus aposentos. Os tambores soaram outra vez, anunciando a execução, e seu coração bateu com força. Suas pernas eram pesos mortos e o menor movimento um esforço. Sua alma parecia uma massa sem vida dentro do corpo, quando ela caminhou para a torre e começou a subir a escada. No quarto, olhou para a cama imensa, com cortinas de veludo, onde sua virgindade encontraria seu túmulo. Por mais ameaçadora que parecesse a Erienne, era sem dúvida um leito real. As cortinas conservavam o calor e garantiam a privacidade necessária ao casal nas noites de inverno... ou podiam abafar os gritos de uma mulher presa nos braços de um marido bestial. Os grãos de areia passavam depressa demais pela cintura estreita da ampulheta. Tessie a ajudou a se vestir para a noite e dobrou a colcha protetora da cama, revelando a larga barra de renda dos lençóis e dos cobertores. Depois, saiu tão discretamente quanto tinha entrado. Sozinha com sua angústia, Erienne começou a andar pelo quarto, implorando desesperadamente a força e a coragem necessárias para enfrentar o que a esperava e talvez até mesmo ser poupada de parte do terror que temia. — Erienne... com uma exclamação abafada, Erienne vírou-se rápido para o intruso. Seu marido estava parado no quarto, ao lado da porta. Não o ouviu entrar, e a estranheza desse fato perdeu-se nas profundezas do turbilhão de sua mente. — Assustou-me, milorde. — Não conseguiu controlar o tremor da voz. — Minhas desculpas, madame. Parecia tão absorta nos seus pensamentos. Lembrando da transparência do que vestia, Erienne segurou o robe contra o corpo e se virou de lado quando o marido caminhou para a lareira. Ouviu a cadeira ranger de leve ao peso dele, aliviada com aquele momento de trégua. Mas estava muito próxima da histeria e compreendeu que precisava se controlar para não entrar em colapso total. — Pensei que ia se demorar mais, milorde — murmurou ela, inocentemente. — Preciso de mais tempo para me preparar. — Está linda assim, meu amor. Erienne ficou de pé ao lado da cadeira, de frente para ele. — Acho que sabe o que quero dizer, milorde. — Ele não respondeu, e Erienne respirou fundo, para se acalmar. — Ouvi falar dos sofrimentos impostos à sua família e gostaria de saber por que casou comigo. Dá-me ricos vestidos e fala voluvelmente na minha beleza, quando há tanta amargura na sua vida.


Ele inclinou-se para a frente, com o braço apoiado na perna e olhou para ela. — Acha estranho, madame, que eu sinta prazer com sua beleza? Pensa que sou um pervertido que a veste luxuosamente para me atormentar... ou para atormentá-la? Não tenho essa intenção. Assim como uma pessoa sem talento pode admirar a obraprima de um gênio, a perfeição da sua beleza é um prazer para mim. Posso ser deformado, madame, mas não sou cego. — Recostou-se na cadeira e olhou para o cabo da bengala. — Há também um certo orgulho na possessão de uma peça valiosa. Erienne temeu despertar alguma revolta sinistra que podia estar latente dentro daquele homem. com uma aparência tão assustadora, certamente seria mais violento do que ela podia suportar. Mesmo assim, não resistiu a uma sugestão de ironia. — Pelo visto, pode ter tudo aquilo que deseja, milorde. — Tenho tudo que preciso — respondeu ele. — Depois do que aconteceu com sua família, será que a vingança não é o néctar mais doce? Sua riqueza não pode conseguir isso também? — Não faça confusão, madame — disse ele, com voz baixa e calma. — Existe a vingança e existe a justiça. Às vezes as duas são uma coisa só. Erienne estremeceu com a lógica fria daquela afirmação. Receosa, perguntou: — E sua vingança... ou justiça... é dirigida a mim... ou à minha família? Ele respondeu com outra pergunta: — Por acaso, madame, já me fez algum mal? — Como podia ter feito? Eu o vi hoje pela primeira vez. Ele olhou outra vez para a bengala. — O inocente não tem nada a temer de mim. Erienne aproximou-se da lareira, para aquecer os dedos gelados, dizendo, num murmúrio temeroso; — Sinto-me como uma raposa presa numa armadilha. Se não tem nada contra mim, por que então cometeu este ato? Por que me comprou? A máscara voltou-se para cima, e os olhos por trás das aberturas fixaram-se nela. — Por que eu a queria para mim. Os joelhos de Erienne perderam toda a força e ela apressou-se a procurar a segurança da poltrona. Só depois de um longo tempo conseguiu dominar o tremor. Seu robe oferecia pouca proteção contra o calor do fogo e contra as aberturas iguais que a observavam. Lembrou-se da manhã em que acordara naquele mesmo quarto sem roupa e na cama dele. Por mais inocente e fortuito que tivesse sido, o casamento era o resultado daquele acidente e, apesar do que ele acabava de dizer, Erienne estava certa de que sua união fora planejada por uma mente doentia, com o objetivo de degradá-la. Disse com voz quase inaudível; — Acredito que me mandou de volta ao meu pai porque queria me comprar, Foi tudo planejado. A mão enluvada fez um gesto casual, admitindo o fato. — Pareceu-me a coisa mais simples. Dei instruções ao meu agente. Ele devia dar o lance mais alto, independente de qual fosse. Como vê, meu amor, seu valor para mim é ilimitado. Os dedos de Erienne apertaram com força o braço da poltrona. Sentia o calor do fogo no rosto, mas dedos frios apertaram seu coração. — Estava tão certo, então, de que me queria? — perguntou com um sorriso


desanimado, — Afinal, não sabe nada a meu respeito. Pode vir a se arrepender da compra. — Sejam quais forem suas falhas, duvido que possam mudar meus sentimentos. — O riso cavernoso tinha uma sugestão de zombaria, — Na verdade, fui completamente dominado pelo desejo. Você capturou meus sonhos, meus pensamentos, minha vontade. — Mas por quê? — perguntou, confusa, — Por que eu? O tom de voz dele era de espanto; — Será que dá tão pouca importância à sua beleza, a ponto de não perceber seus efeitos? Ela balançou a cabeça. — Eu não diria que os lances no leilão foram ardentes ou frenéticos. Veja Silas Chambers, por exemplo. Não acha que deu mais valor ao dinheiro do que à minha mão? O riso de lorde Saxton ecoou na mente dela. — Muitos homens amealham fortunas e vivem como pobres. Minha querida, de que adianta o ouro se não pode comprar o que desejamos? Erienne admirou-se de tanta sinceridade. — Como sua riqueza serviu para comprar uma esposa? — Não apenas uma esposa, minha querida Erienne, mas a mulher que escolhi... você. — Balançou afirmativamente a cabeça encapuzada. — Eu jamais poderia ter você de outro modo. Teria recusado meu pedido como recusou os pretendentes escolhidos por seu pai. Censura-me por usar minha inteligência e meu dinheiro para obter o que desejo? Num repente de desafio, ela ergueu o queixo. — E o que deseja de uma mulher comprada? Ele ergueu levemente os ombros. — O que um homem espera de sua mulher.., calma e conforto, saber ouvir e aconselhar quando pode, ter seus filhos no tempo certo. Erienne arregalou os olhos, sem poder disfarçar o espanto. — Duvida da minha capacidade de ter filhos, minha querida? — perguntou, em tom de censura. Corando furiosamente, Erienne desviou os olhos. — Eu, eu apenas não pensei que quisesse filhos, — Ao contrário, Erienne. Minha auto-estima precisa de algum consolo, e não posso imaginar nenhum maior do que ver o fruto da minha semente. A cor desapareceu do rosto dela. — Está me pedindo muito, milorde — disse, com voz hesitante. — Antes de ser vendida em leilão, eu me perguntava se poderia me entregar a um completo estranho. — Apertou as mãos uma contra a outra, para evitar que tremessem. — Sei que dei minha palavra, mas vai ser difícil, pois é muito mais do que um estranho para mim. — Ergueu os olhos para as aberturas da máscara e disse num murmúrio rouco; — É tudo que eu mais temo. Ele levantou da cadeira, grande e ameaçador à luz do fogo. Sua presença dominava a sala, e Erienne o observou mesmerizada, como um camundongo olhando para um gato. Sentindo aquele olhar penetrante, ela fechou o robe no pescoço e se encolheu na poltrona.


Ele foi até uma mesa debaixo da janela e, apanhando a garrafa de cristal, serviu vinho num copo. Claudicando, voltou para perto dela. — Beba isto. — A voz cavernosa parecia cansada. — Vai aliviar seu medo. Embora o vinho tomado no jantar não tivesse contribuído para acalmar seus temores, Eriene obedientemente levou o copo aos lábios, olhando para ele. O momento de consumar o casamento estava chegando, e ele queria prepará-la para o evento. Tomou o vinho bem devagar, procurando alongar o tempo. Lorde Saxton esperou, paciente, até não existir mais nenhuma gota para marcar seus momentos de graça. Tirou o copo das mãos trêmulas de Erienne e estendeu o braço para ajudá-la a se levantar. Mas o vinho não foi completamente inócuo. Deu aos seus nervos novo ímpeto e nova força. Ela saiu da cadeira meio de lado, evitando a mão enluvada, como quem evita uma cobra venenosa. A figura alta e maciça a fazia sentir-se mais indefesa e mais consciente da futilidade de qualquer resistência, mas ainda assim recuou, pronta para fugir se ele tentasse apanhá-la. A mão foi abaixada, e ela relaxou um pouco. Temia despertar a ira dele, levando-o a uma violência que talvez a destruísse. O sexo forçado não era começo para nenhum casamento, mas era impossível para ela ceder, naquele momento. Procurou pensar em alguma coisa que o convencesse, pacificamente. Ergueu os olhos, num apelo desesperado, desejando poder enxergar o que havia atrás da máscara e ao mesmo tempo agradecendo por não poder ver. — Lorde Saxton, dê-me algum tempo para conhecê-lo e abrandar meus temores. Por favor, compreenda — implorou ela. — Tenho intenção de cumprir com a minha parte do contrato. Só preciso de tempo. — Sei que minha aparência não é das mais agradáveis, madame. — Não estava mais disfarçando a ironia. — Porém, a despeito do que pode pensar, não sou um animal, pronto para tomá-la à força. Essas palavras não acalmaram Erienne. Afinal, não passavam de palavras, e havia muito tempo ela sabia que as ações revelam muito mais a natureza de um homem do que suas palavras. — Sou como todos os outros homens, com os mesmos desejos. O fato de vê-la neste quarto, saber que é minha mulher provocam em mim um desejo quase doloroso. Meu corpo sente necessidade de extravasar a paixão que desperta em mim. Contudo, devo aceitar o fato de que o choque deve ter sido brutal e que deve estar atordoada com toda essa mudança em sua vida. — Suspirou, como se não quisesse continuar, mas disse então, sem nenhum humor na voz: Enquanto eu puder controlar o que você desperta em mim, basta me dizer o que deseja, que a atenderei. Mas quero fazer uma advertência. Embora eu não possa montar a égua que comprei, contemplarei sua graça e beleza, controlando meu desejo até que ela esteja pronta a aceitar a minha mão e a me conceder os direitos de marido. Madame — a mão enluvada indicou a porta do quarto com a chave brilhante na fechadura —, peço que nunca use aquela chave, nem impeça a minha entrada nos seus aposentos. Assim como lhe concedo toda liberdade nesta casa, também serei livre para entrar e sair onde e quando quiser. Compreendeu? — Sim, milorde — murmurou, disposta a conceder qualquer coisa para apressar a saída dele. Lorde Saxton aproximou-se dela, e Erienne sentiu a suave carícia do seu olhar.


Temendo o que podia acontecer, conteve a respiração. As mãos enluvadas ergueramse, e Erienne procurou se controlar quando ele desamarrou o cordão do seu robe. Ele o tirou, deixando-o cair no chão, como uma nuvem delicada, À luz do fogo, a camisola transparente envolvia seu corpo como um vapor muito leve, revelando as curvas dos quadris e das coxas e modelando os seios bem-feitos. — Não tenha medo — disse a voz mais rouca e rascante do que nunca —, mas quero vê-la como minha mulher, antes de sair. Tire a camisola e deixe-me olhar para você. O tempo deixou de existir, e Erienne hesitou. Queria negar o pedido, mas ao mesmo tempo sabia que era tolice, depois do que ele acabava de prometer. com dedos trêmulos, desatou as fitas, e a camisola caiu em volta dos seus pés. Não ergueu os olhos quando a máscara negra e inexpressiva a examinou avidamente, demorando-se nos seios muito brancos e na curva esbelta dos quadris. Olhando fixamente para um ponto do quarto, lutou para evitar o grito de puro pânico que subia dentro do seu peito. Se ele a tocasse outra vez, ia desmoronar completamente e pedir misericórdia, ajoelhada aos seus pés. Então ele falou, e Erienne encolheu-se, olhando cheia de medo para a máscara inexpressiva. — Vá para a cama, antes que apanhe um resfriado. A ordem penetrou na sua mente paralisada. Erienne vestiu a camisola e correu, como uma corça assustada, para o calor da cama. Afundando no colchão macio, puxou as cobertas até o queixo. Lorde Saxton ficou onde estava, como um homem atormentado por uma batalha interior. Erienne o observou até ele dar meia-volta, arrastando o pé deformado. A porta fechou-se, e o silêncio a envolveu. Só se ouviam os passos pesados que se afastavam, mas eram o bastante para despedaçar as emoções da jovem noiva. Completamente aliviada e sentindo-se miserável, ela soluçou com a cabeça no travesseiro, sem perceber a luz da lua nem a escuridão que tomava posse do quarto, à medida que o fogo diminuía na lareira.

Capítulo Nove A LUZ do sol inundou generosamente o quarto quando Aggie abriu as cortinas pesadas. Despertando devagar, Erienne protegeu os olhos inchados do brilho ofuscante, depois se aconchegou outra vez no calor macio das cobertas, não preparada ainda para enfrentar outro dia como mulher de lorde Saxton. — Sua senhoria vai subir para vê-la, senhora — disse a governanta com urgência suave, mas firme. — E sei que quer ficar muito bonita para ele. Erienne resmungou sua rebeldia e balançou a cabeça vigorosamente sob as cobertas. Naquele momento queria ter dentes tortos e uma grande verruga na ponta do nariz, uma vez que merecer a aprovação de lorde Saxton era a coisa que menos desejava. Na verdade, preferia não ter nenhuma atração para ele e não via necessidade de incentivar a que ele já sentia. — Venha, senhora — disse Aggie. — Tem um rosto bonito demais para esconder, especialmente de sua senhoria. Marque minhas palavras, senhora. Vai se arrepender do dia em que negar a ele sua bondade. Erienne atirou para longe as cobertas e sentou-se na cama, olhando preocupada para a mulher.


— Suponho que não sabe — disse ela, nervosa — se lorde Saxton alguma vez demonstrou alguma tendência para a violência. O riso jovial ecoou no quarto, e Aggie balançou a cabeça. — Os Saxton sempre foram gentis com suas mulheres. Não precisa ter medo dele, senhora. Mas, se for sensata — ergueu uma sobrancelha e fitou diretamente nos olhos cor de ametista, muito abertos agora, enfatizando a palavra —, vai tratá-lo com carinho procurando satisfazer seus desejos. Ele é um homem rico... mais do que muitos lordes... e... — Ora! — Erienne deitou-se outra vez, furiosa, — Não me importo nem um pouco com sua riqueza. Tudo que sempre desejei foj um marido razoável, gentil, um homem de quem eu pudesse gostar, Não um homem que me assusta com sua mera presença. Pouco se importava de estar falando com uma criada ou de estar sendo indiscreta com as próprias emoções. Considerando as circunstâncias, seus sentimentos deviam ser evidentes para qualquer pessoa e, se era tolice ser franca com aquela mulher, então era melhor conhecer seus inimigos logo no começo do que ser enganada pelo resto da vida. — O medo vai passar, senhora — disse Aggie Kendall, gentilmente. — Até lá, deve cuidar da sua aparência em qualquer ocasião, para não vir a se arrepender algum dia. — Pôs água na pia, mergulhou um lenço, torceu e o entregou para Erienne. — Passe nos olhos, senhora, para tirar o sono deles. Alguns momentos mais tarde, quando o senhor de Saxton Hall entrou no quarto com seu passo pesado, não havia o menor sinal da noite quase insone passada por Erienne. com o cabelo escovado e brilhante, um robe de veludo vermelho, uma gota de água de rosas em cada têmpora e em cada pulso, estava pronta para receber a aprovação de qualquer homem. Erienne culpava a insistência delicada, mas firme de Aggie, que, atrás de Tessie, o tempo todo, providenciara para apressar a toalete da sua jovem senhora. Satisfeita com o resultado, com um último olhar para o casal, Aggie saiu do quarto, empurrando Tessie na sua frente, para deixar lorde Saxton a sós com sua jovem mulher. ! — bom dia, madame — suspirou a voz atrás da máscara. com uma rígida inclinação de cabeça, Erienne respondeu. — Milorde, Bem-humorado, ele disse; — Ao que parece, está sofrendo os efeitos da sua primeira noite como senhora da mansão. Um leve erguer de ombros antecedeu a resposta. — Tessie é muito talentosa... e Aggie muito persistente. — Deve perdoar Aggie, minha querida. Ela é completamente leal à família e vê agora uma esperança da sua continuação. Na verdade, está ansiosa para que tenhamos um herdeiro. Erienne tinha a impressão de que ele estava rindo dela, mas não via nenhum motivo para isso. Aquele era um assunto que preferia evitar. Respondeu com um silêncio que traduzia seu frio desinteresse. Lorde Saxton não se impressionou com isso. — Não tenho nenhuma preferência. Uma menina, com os olhos da mãe, me agradaria perfeitamente.


De pé, ao lado da penteadeira, Erienne olhou rápido para ele, enquanto arrumava os vidros de cristal. — E um filho, milorde? Se fosse parecido com o pai, como seria? — Não tenha medo, minha querida. As cicatrizes de um homem não passam para seu filho. com a respiração acelerada, Erienne olhou em volta, sentindo que a jaula do desespero fechava-se sobre ela. — Foi para isso que me comprou? Para continuar sua linhagem? — Como eu já disse antes, madame, comprei-a porque a queria. Tudo o mais é secundário. Os filhos que tiver sem dúvida serão amados por serem seus. Filhos de outra mulher, talvez não fossem tão queridos. Bela Erienne, você é a dona dos meus pensamentos e dos meus sonhos. — Serei então sua prisioneira aqui? — De modo algum, madame. Se quiser sair, basta me informar ou a um dos seus criados e a carruagem estará à sua espera. Se gostar de montar, há uma bela égua de patas brancas e bom gênio nos estábulos. Keats terá prazer em selar o animal a qualquer momento. Entretanto, quero avisá-la de uma coisa. Sem companhia adequada, não convém afastar-se muito da casa. Peço que tenha cuidado em permanecer nos arredores da casa. Para sua segurança, madame. — Ouvi dizer que há muitos salteadores aqui no norte, mas ainda não encontrei nenhum mais perigoso do que os que me advertem contra eles. — Erienne preferiu descartar o motivo da sua fuga do estábulo em ruínas, com Christopher. Afinal, nunca souberam ao certo se aqueles homens eram assaltantes de estrada ou não. — Eu espero, madame, que nunca encontre os malfeitores que infestam nossos campos. Erienne olhou para ele. — Já encontrou algum, milorde? — Não foram os escoceses que incendiaram Saxton Hall. Desde que minha vida passou a depender da minha cautela, aprendi a evitar muita gente. Erienne abaixou os olhos e disse: — Estou curiosa para saber por que a casa foi queimada. Se foi um ato deliberado, não pode me dizer a razão? — Madame, não sei muita coisa sobre os responsáveis pelo incêndio, mas sei que têm um instinto de sobrevivência muito forte. Como uma alcatéia de lobos, atacam tudo que os ameaça. -— Ameaçou a existência deles, milorde? — Minha presença aqui era uma ameaça. Ela ergueu uma sobrancelha. „• — Então, certamente, tentarão outra vez. Ele balançou a cabeça, afirmativamente. — Sim, mas não me encontrarão desprevenido. — Parece muito seguro disso. — Madame, mais do que qualquer outra pessoa, deve ter percebido que não deixo nada por conta do acaso. Os dias seguintes arrastaram-se como se estivessem presos a longas cadeias, e Erienne não conseguiu se livrar do medo que sentia do marido. Quando ele


caminhava pelos salões escuros da mansão, com seu passo arrastado, ela ficava paralisada, ouvindo e esperando. Porém, por mais amedrontador que fosse aquele som, Erienne aprendeu a temer muito mais o silêncio. Para um homem com tantos impedimentos físicos, lorde Saxton, às vezes, era estranhamente capaz de se mover com o silêncio de um fantasma ou de uma sombra na noite. E era à noite que sua trêmula inquietação crescia, quando ele aparecia de repente onde ela estava, com a máscara inexpressiva voltada para ela, sem nenhum movimento ou brilho atrás daquele sorriso sinistro. Erienne jamais teve coragem de trancar a porta do quarto. Não queria pôr à prova a fechadura nem a ordem do marido, temendo que uma recusa definitiva provocasse um ato terrível de vingança da parte dele. Assim, independente de como estivesse vestida, ou despida, não tinha escolha senão aceitar a companhia de lorde Saxton sempre que ele aparecia. Logo percebeu que a presença de Tessie não era proteção, pois com um gesto breve da mão enluvada ele a dispensava, e a jovem obedecia imediatamente, abandonando a patroa aos caprichos do senhor. Sempre que ele estava no quarto, Erienne ficava tensa e insegura. A promessa dele limitava-se ao limite do seu controle. Se a pressão fosse além, ela teria de ceder aos seus desejos. Erienne via num pesadelo, acovardada, implorando histericamente clemência. Essa idéia a apavorava, pois podia se transformar em realidade a qualquer momento. Quando finalmente o marido a deixava, e ela não o via mais de pé nas sombras, ou sentado na poltrona, uma sensação de alívio a envolvia. Sobrevivera outra noite, ia ver outro dia. Contudo, como um ladrão no fundo da sua mente, um pensamento a atormentava. Era a certeza de que em algum tempo, algum dia, alguma noite, algum momento, a dívida estaria vencida e ela seria chamada a pagar. Antes de completar uma semana, Aggie entrou para apanhar a bandeja do café da manhã e disse que sua senhoria pedia a presença de Erienne no salão. Erienne respondeu com um murmúrio, estremecendo por dentro. Estava certa de que ele queria resolver o assunto do seu relacionamento, ridicularizando-a por não ser uma esposa carinhosa, como prometera, e ela tremeu ao pensar nesse confronto. Enquanto Tessie a ajudava a se vestir e escovava seu cabelo, Erienne esforçou-se por conter o tremor do corpo todo. Esperava com fervor que alguma coisa aparecesse exigindo a atenção do marido, evitando aquele encontro, mas era apenas um desejo, não baseado em fatos. Chegou rápido o momento de se ver face a face com lorde Saxton. Parou por um momento na entrada da sala, respirou fundo e procurou se controlar. Mas não tinha certeza de ter conseguido, quando passou sob o arco da porta e entrou na toca do lobo. Lorde Saxton estava de pé na frente da lareira, com o braço apoiado nas costas de uma poltrona. Erienne atribuiu ao seu medo o fato de ele parecer duas vezes mais alto do que o normal, com uma altura que não diminuiu quando ela se aproximou. Embora fosse de veludo e tivesse gola alta, a capa que ele vestia parecia inadequada sob o olhar inquisidor, mas naqueles poucos dias Erienne aprendera que o marido não perdia nenhuma oportunidade de observar e admirar o que considerava sua propriedade. Erienne sentou-se na poltrona de frente para ele, a fim de dar descanso às pernas trêmulas. O pouco de coragem que ainda podia ter era agora mera


apreensão. Alisou a capa, como pretexto para não olhar para ele, mas lorde Saxton era paciente e depois de um tempo os olhos azuis ergueram-se para a máscara. — Madame, precisamos comprar algumas coisas em Wirkinton — disse ele, com sua voz estranha e rascante —, e pensei que gostaria do passeio. Pedi a Aggie para acompanhá-la. — Não vai também, milorde? — perguntou Erienne, mal disfarçando a expectativa. — Tenho outros assuntos para tratar. Não posso acompanhá-la. — O que devo fazer? — Ora, madame, espero que passe o dia fazendo compras - disse ele, um pouco surpreso. Jogou uma bolsa de couro sobre a mesa, ao lado dela, que caiu com o ruído de muito dinheiro. — Isto deve ser suficiente para um dia. Se desejar alguma coisa de maior valor, informe Tanner que ele a separa e pode ir apanhá-la depois — Tenho certeza de que será mais do que suficiente, milorde — disse Erienne em voz baixa, apanhando a bolsa. — Então acho que pode se preparar. Aggie deve estar ansiosa para partir. — Fez uma longa pausa e então observou: — Espero que não faça nada que possa deixar Aggie preocupada ou ansiosa. —- Milorde? — perguntou Erienne, sem compreender. — Aggie vai achar que não cumpriu seu dever se acontecer alguma coisa. Erienne sentiu o olhar penetrante do marido e corou, abaixando os olhos. A idéia de fuga passara mais de uma vez por sua mente. Era impossível olhar para ele, fingindo inocência. Inclinou levemente a cabeça, num gesto de submissão. — Aggie não terá motivos para se preocupar, milorde. Não vou desaparecer por minha vontade. — Muito bem, então. — Claudicou até a lareira e ficou olhando para as chamas durante um longo tempo. Voltou-se para ela outra vez. Atrás da máscara, os olhos pareciam dois pontos de luz. — Estarei à sua espera, madame. Erienne levantou-se, hesitante. — Então, posso ir? O capuz inclinou-se, assentindo. — É claro, madame. A perspectiva embriagadora de um dia de liberdade tomou conta dela, e só com esforço conseguiu sair da sala com passo lento e digno, Atravessou a sala, e o senhor de Saxton Hall a observou em silêncio. Como uma criança deslumbrada, Erienne recostou-se nas almofadas da carruagem, ajeitou a capa e levantou a gola para esconder o sorriso feliz. A presença de Aggie a fazia lembrar que não estava completamente livre, mas a conversa jovial da criada distraiu-a durante a viagem. Depois de quase uma semana de casamento, poder escapar por algumas horas era como uma saída do inferno, Não que lorde Saxton a tratasse mal. Na verdade, a despeito da sua aparência assustadora, ele estava se comportando como um cavalheiro. Porém, em certos momentos Erienne tinha a impressão de estar num calabouço à espera do começo da tortura. Depois de uma semana de tensão e angústia, podia agora relaxar por algum tempo, sem a ameaça da presença do marido. A carruagem atravessou as ruas estreitas de Wirkinton e finalmente parou na frente da Estalagem Farthingale. Enquanto as mulheres faziam uma refeição ligeira e


depois percorriam as lojas, Tanner estaria à sua disposição para o que precisassem ou desejassem. Depois da refeição e do chá quente, Erienne examinou a lista de compras e, então, saiu com Aggie, com a pose confiante de senhora da mansão, percorreu as lojas, examinou as mercadorias e discutiu os preços. Ouvia pacientemente quando os comerciantes elogiavam suas mercadorias. Depois dizia que se não concordassem com um preço justo ela ia procurar em outra loja. Então, com suspiros desanimados, eles cediam, para não perder a menor margem de lucro. A governanta observava com um sorriso satisfeito, certa de que lorde Saxton podia se orgulhar da mulher que escolhera. Erienne não estava pensando em fugir quando mandou Aggie comprar frutas frescas no mercado, no fim da rua, enquanto ela ia procurar uma chaleira para a cozinha. Aggie partiu, sem hesitar. Erienne ajeitou os embrulhos que estava carregando e dirigiu-se para a loja de artigos de cobre. Não encontrou logo o que queria e estava pensando em deixar os embrulhos na carruagem quando um grupo de prostitutas com vestidos espalhafatosos e imodestos aparecera na rua em que ela estava. Erienne, com tudo que carregava, procurou evitar as saias e anáguas exageradas e as pontas agressivas das sombrinhas das mulheres, que pareciam atacá-la por todos os lados. Surgiu então um grupo de marinheiros e, para seu horror, um deles a segurou pelas costas. Os embrulhos caíram no calçamento de pedra da rua, o homem a fez dar meia-volta, e Erienne viuse frente a frente com um marinheiro barbudo que mais parecia um leão-marinho. — Olá, menina. Você é uma belezinha, sim, senhora. Nunca vi coisa tão bonita em minha vida. — Largue-me! — disse Erienne, lutando para manter a dignidade e para evitar os lábios que procuravam sua boca. com um sorriso lascivo e hálito de cerveja azeda, o homem a segurava com força, aproximando-a cada vez mais do seu rosto. — Tire as mãos de mim! — gritou Erienne, com o braço na garganta do homem, procurando se libertar. Rindo às gargalhadas, o marinheiro afastou facilmente o braço dela e apertou-a com mais força. Quase sem poder respirar, Erienne estremeceu de nojo quando os lábios molhados tocaram seu rosto e desceram pelo pescoço. — Você cheira doce como o pecado, menina — disse ele, rindo. De repente, um vulto enorme apareceu ao lado deles. Erienne ergueu os olhos e lá estava Christopher Seton. O marinheiro virou para o lado, seguindo o olhar dela. — O que é isto agora? — perguntou ele, com um sorriso de desprezo, — Um almofadinha de olho na minha menina? Vá procurar outra, companheiro, Esta é minha. Um leve sorriso tolerante apareceu no belo rosto, mas o brilho dos olhos verdes era duro como aço. — Se não quer que seus amigos chorem sua morte hoje, meu bom homem, sugiro que solte já a senhora — disse Christopher, calmamente, — O senhor de Saxton Hall não vai gostar nem um pouco se você fizer algum mal à sua dama. O queixo do marinheiro caiu. Confuso, ele olhou para Christopher, sem saber se ele falava sério.


— O senhor de Saxton Hall, Não ouviu falar nele? — perguntou Christopher, com um sorriso. — Nunca! — disse o homenzarrão, — O fantasma de Saxton Hall, como alguns o chamam — explicou Christopher, em tom amável, — Completamente queimado, dizem outros, mas vivo ainda. Você deve ser surdo ou estranho por estas paragens para não ter ouvido essas histórias. No seu lugar, eu teria muito cuidado para tratar esta senhora com gentileza. do contrário vai se arrepender. O marinheiro apressou-se em desculpar seu engano. — Eu não sabia que ela era mulher de alguém. Os rapazes e eu estávamos nos divertindo um pouco. — Afastou Erienne e, afobado, apanhou os embrulhos do chão. — Como vê, não aconteceu nada. — Nesse caso, talvez lorde Saxton seja clemente com você. — Christopher ergueu uma sobrancelha interrogativamente para Erienne que corou até a raiz dos cabelos. — Estou vendo que não aconteceu nada de mal. — Ofereceu o braço, galantemente. — Madame, posso acompanhá-la para longe destes desordeiros? Erienne ignorou o oferecimento e afastou-se, passando pelo caminho aberto pelas prostitutas e marinheiros. Christopher a seguiu, calmamente, batendo com o chicote na perna, observando o balanço indignado da saia dela. com um largo sorriso, ele andou mais depressa até alcançá-la e então acertou o passo das pernas longas com o dela, decidido e furioso. — Você é muito atrevido! — disse Erienne olhando indignada para ele. — Minha senhora? — perguntou Christopher com um sorriso nos olhos. — Inventando histórias sobre meu marido! — acusou ela, ajeitando os embrulhos nos braços. — Posso ajudá-la com essas coisas? — perguntou ele, solícito. — É claro que não! — respondeu ela, agressiva, logo deixando escapar uma exclamação quando um pequeno embrulho escorregou da mão. Christopher apanhou o pacote no ar e, curioso, levou-o ao nariz. Depois, ergueu uma sobrancelha para ela. — Perfume para a minha dama? Erienne tirou o embrulho da mão dele. — Temperos para a cozinha, se quer saber, Sr. Seton. — Ainda bem — disse ele. — Achei um tanto forte demais, não é seu perfume doce de sempre. — Estávamos falando do meu marido — disse Erienne. — Como todo mundo. Na verdade, só a menção do nome dele faz gelar de medo o coração mais corajoso. — E você atiça o fogo dessas histórias idiotas de fantasmas e demônios. — Eu só queria convencer o marinheiro a deixá-la em paz, para evitar derramamento de sangue. Ganhei seu desfavor por me defender do seu irmão. Para evitar maior dano à minha reputação simplesmente usei palavras gentis e ameaças brandas. Cometi algum erro? Preferia que eu desse ao homem o que ele merecia, um golpe mortal? — É claro que não! — exclamou Erienne, frustrada. Achando graça na irritação dela, Christopher provocou: - Perdoe-me por não fazer o papel de pretendente apaixonado, defendendo-a com a


espada na mão. — Olhou em volta, como que à procura de alguém. — Pensei que seu marido estivesse ainda resfolegando atrás da sua saia. Afinal, onde ele está? — Ele... não veio comigo — respondeu Erienne com voz trêmula. — Verdade? — Sua voz mal disfarçou a esperança e ele olhou para Erienne, atentamente. — Precisava tratar de negócios — apressou-se ela a explicar. — Então a senhora veio sozinha? — perguntou, ansioso. — Aggie... quero dizer, nossa governanta veio comigo. — Erienne olhou para a rua, a fim de não ver o brilho malicioso dos olhos verdes. — Ela deve estar por aí, em algum lugar. — Quer dizer que não está pronta para deixar Saxton Hall? Erienne ergueu a cabeça, surpresa, e seus olhos procuravam os dele. Christopher sorriu amavelmente. — Conheço bem lorde Saxton. Não é o tipo de homem que uma mulher bonita e jovem gostaria de ter como marido. — Viu a centelha de fogo nos olhos azuis, mas continuou, imperturbável. — Apesar do ódio que diz sentir por mim, Erienne, não acha a minha companhia mais agradável do que a daquele desfigurado arremedo de homem? Meu apartamento em Londres é muito mais confortável do que uma mansão fria e cheia de correntes de ar. — E pode me dizer de quanto seria o aluguel desse apartamento? — perguntou ela, com sarcasmo. Christopher ignorou a provocação. Na verdade, sua expressão seria de intensa piedade se não fosse o brilho malicioso nos olhos. — Essa questão pode ser resolvida sem nenhum problema. Embora as palavras sejam fáceis para você, minha doçura, minha intenção não é somente de conversar. Erienne deu meia-volta e saiu andando com passo tão decidido que Christopher teve de se apressar para segui-la. Quando a alcançou outra vez, ela o brindou com um olhar que teria gelado o coração de qualquer um. — Estou admirada, senhor! Estou casada há menos de uma semana, mal tive tempo para conhecer bem meu marido... — Se é que já o conheceu — zombou ele. — Contudo — continuou ela, furiosa, ignorando a interrupção – o senhor o insulta, sem conhecê-lo, sou capaz de apostar. Posso garantir que há muito mais nele do que os outros podem ver. Tem sido bom e cortês para mim, dando-me todo conforto sem jamais apelar para a vulgaridade, como tantos outros que posso citar — Ergueu a cabeça num gesto de desafio, como uma potranca fogosa. — Ele tem sido muito civilizado e um perfeito cavalheiro. — Pode me dizer, doce senhora — disse o insaciável conquistador, junto ao ouvido dela —, o que mais ele podia ser? Será que a tomou nos braços e provou sua masculinidade? Erienne olhou-o de frente, boquiaberta com o insulto ousado. Sorrindo levemente, Christopher a acariciou com os olhos. — Posso garantir, meu amor — murmurou ele —, que eu não teria perdido tempo. A esta altura você não teria dúvida quanto à intensidade da minha paixão. Erienne prendeu a respiração, sentindo um calor intenso que subia do peito. — Você... você... seu libertino atrevido! — gaguejou ela, atônita e ofendida. — Nestes


últimos poucos momentos, você propôs que eu fosse sua amante e, agora, ofende-me com sua luxúria indisfarçada. Acredita realmente que não levei a sério meu casamento? Pois está enganado! Estou decididamente presa à minha palavra. E se quiser me tratar com respeito, por menor que seja, desapareça da minha vista e, de agora em diante, poupe-me a sua companhia. — Temo não poder fazer isso — suspirou ele, como quem se desculpa. — Você capturou completamente meu mais profundo desejo e com ele, provavelmente, meu coração. — Provavelmente! Provavelmente! Ohhh! Erienne ergueu o pé finamente calçado num gesto decidido, mas ele se afastou a tempo de livrar a canela do golpe. — Que gênio! — zombou ele. — Afaste-se de mim, seu conquistador barato! Afaste-se, antes que eu vomite só de olhar para você. com um largo sorriso, Christopher fez uma profunda reverência. — Como queira, senhora. Como acho que Aggie é aquela mulher que está esticando o pescoço à sua procura, eu a deixo e vou tratar da minha vida. Erienne viu a governanta, realmente esticando o pescoço para todos os lados. Furiosa, rilhando os dentes, afastou-se dele e quase explodiu de raiva quando o ouviu dizer: — Se mudar de opinião, senhora, meu navio estará aqui, ou em Londres. O capitão Daniels sempre sabe onde me encontrar. Erienne recusou a atenção de uma resposta, mas só com esforço conseguiu se controlar quando a governanta chegou perto dela. — Senhora? A senhora está bem? — perguntou Aggie, preocupada quando viu o rosto vermelho da patroa. Depois, disse: — Parece um pouco agitada. — Sim, é claro que estou bem — respondeu Erienne, em tom seco. — Só que há muitos patifes à solta para que uma mulher decente possa se aventurar sozinha por essas ruas. — Olhou para a rua, mas não viu nem sinal de Christopher. Sem a presença dele, a sanidade voltou, e sentiu-se um pouco mais calma. Estava ainda irritada demais para prestar atenção às compras. — Quando encontrarmos a chaleira, quero voltar para casa. — Mas não comprou nada para a senhora. — Lorde Saxton tem sido muito generoso. Não preciso de nada. — Muito bem, senhora. A chaleira foi encontrada e comprada logo depois e quando as duas saíram da loja Erienne ficou atônita vendo a carruagem esperando-as a pouca distância de onde estavam. Estava rodeada por um grupo de curiosos, que tentavam disfarçadamente espiar para dentro. Vários grupos de mulheres cochichavam, com as cabeças muito juntas, mas quando Erienne olhou para elas separaram-se e começaram a olhar para a mercadoria de um vendedor ambulante. Erienne achou graça naquela curiosidade, até o momento em que a porta da carruagem se abriu e seu marido, envolto na capa negra, desceu. Consciente do silêncio que se fez na rua e sentindo o peso de muitos olhares, Erienne correu para ele. Bundy adiantou-se e, tirando os embrulhos dos braços dela, os colocou no alto da carruagem. com um suspiro trêmulo, Erienne olhou para lorde Saxton.


— Milorde — disse, com voz ligeiramente trêmula. — Não esperava vê-lo aqui. — Eu tinha de tratar de negócios com o Sr. Jagger e, uma vez que ele vai partir para Londres, pedi que me trouxesse na sua carruagem. — Olhou para ela por um momento, depois perguntou: — Já terminou suas compras, madame? — Sim, milorde. Ele ergueu o braço, bloqueando metade da porta da carruagem, oferecendo-se para ajudá-la. Erienne olhou para o marido, completamente paralisada. — Aceite meu braço, madame — disse ele. — Não convém me embaraçar perante tanta gente. Dominando um estremecimento, com relutância ela apoiou a mão no braço dele. Surpresa, sentiu o braço musculoso e bem-feito sob a capa, uma sensação nada desagradável. A força que ela tanto temia e da qual nunca duvidara era evidente. Porém, por mais estranho que fosse, o fato de tocá-la parecia tornar tudo menos sinistro, como se pela primeira vez pudesse pensar nele como um homem de carne e osso e não uma criatura fria do fundo do inferno. com a outra mão na cintura dela, lorde Saxton a ajudou a subir na carruagem. com a ajuda de Bundy, Aggie subiu para a boléia e sentou-se ao lado de Tanner, deixando a privacidade do interior da carruagem para o casal. Bundy espremeu o corpo gordo do outro lado dela. Entre os dois homens grandes e gordos, Aggie demonstrou descontentamento espetando os cotovelos, primeiro em Tanner, depois em Bundy. — Fiquem nos seus lugares — avisou ela. — Não quero ser esmagada por vocês dois. Um murmúrio de vozes dos curiosos, na rua, acompanhou a entrada de lorde Saxton na carruagem. Ele firmou o pé defeituoso no degrau, segurou com as mãos nos lados da porta e ergueu o corpo. Sentou-se de frente para Erienne. Quando saíram da rua calçada de pedras para a estrada de terra, ele riu alto. Erienne olhou curiosa para o marido, imaginando o que podia ser tão engraçado. — Viu, madame? — A voz meio abafada e sibilante capturou toda a atenção dela. — Tocar em mim não é como segurar uma serpente. Embaraçada, Erienne desviou os olhos. Era como se ele lesse seus pensamentos. Na verdade, não o via como um homem, mas como algo diabólico. — Sou um homem, Erienne — afirmou ele, sem nenhum vestígio de riso, mais uma vez adivinhando seu pensamento. — com todas as necessidades e desejos de um homem. E você, minha querida Erienne, tortura-me com sua beleza. Sentiu que ele a observava, mas não teve coragem de erguer os olhos. Respondeu em voz muito baixa: — Para mim tem sido uma luta interior, milorde. Minha imaginação voa desenfreada e não sei se temo mais a visão da sua máscara ou do que ela esconde. Talvez, se eu pudesse ver seu rosto... — Estremeceria de raiva e de horror — interrompeu ele, docemente. — Os vôos da imaginação podem ser conquistados, algum dia, por um sonho, mas a realidade do meu rosto fecharia definitivamente uma porta entre nós. Prefiro deixá-la na incerteza a revelar a realidade que a atormentará para sempre. Se for preciso esperarei, mas certamente sabe que pode haver muita coisa boa sob uma aparência assustadora, que mesmo uma carruagem velha e muito usada pode proporcionar uma viagem confortável.


Erienne ficou em silêncio, procurando compensar o balanço da carruagem. As palavras dele a enchiam de medo. Lorde Saxton a desejava e algum dia teria de se submeter a ele. Mas, por enquanto, o medo do que havia sob a máscara era ainda muito grande. Estavam longe ainda de Mawbry quando ouviram o estampido de tiros atrás da carruagem. Bundy abriu a portinhola do teto e disse, com urgência. — Assaltantes de estrada, milorde. Mais de uma dúziaí Atrás de nós! Lorde Saxton olhou pela janela e recolheu a cabeça rápido quando um tiro atingiu a parte superior da porta. Olhando para cima, ele disse: — Diga a Tanner para manter uma boa distância deles. Verei o que posso fazer para afugentá-los. E, Bundy... mande Aggie se abaixar. — Sim, senhor! — respondeu o homem, quase em tom alegre, fechando a portinhola. Ouviram um berro indignado quando ele empurrou Aggie para o chão da boléia. A saraivada de insultos furiosos de Aggie cessou bruscamente quando uma bala, vinda de detrás de uma rocha, passou assobiando perto dos cavalos. Calada, ela se abaixou mais entre os pés do cocheiro e do criado. Lorde Saxton voltou-se para Erienne. — Madame, peço desculpas pela inconveniência, mas tenho de pedir que passe para o banco da frente. Erienne obedeceu rápido. Tanner fez os cavalos apressarem o passo e Bundy deu alguns tiros a esmo. Logo que ela passou para o outro banco, lorde Saxton levantou a almofada do banco de trás. Surpresa, Erienne viu um compartimento com mais de uma dúzia de mosquetes e uma caixa de cargas em tubos de seda. Lorde Saxton apanhou uma das armas e, soltando os prendedores na parte superior do banco, fechou com um painel a traseira da carruagem. Então, ele engatilhou a pederneira, verificou a espoleta e sentou-se na ponta do banco, para evitar o balanço da carruagem. Depois de um longo momento de espera, levou a arma ao ombro. Imediatamente, uma nuvem de fumaça encheu a carruagem, acompanhada por um estampido. Erienne sobressaltou-se com a explosão e no mesmo momento viu um dos assaltantes ser arrancado da sela como um fantoche puxado por cordões. Lorde Saxton deixou de lado a arma usada e apanhou outra. Levou-a ao ombro e, antes que Erienne tivesse tempo de se refazer, o cão da arma foi abaixado, enchendo a carruagem com outra nuvem de fumaça e o eco do estampido. Outro assaltante foi lançado fora do cavalo. Apanhando outro mosquete, ele olhou rápido para Erienne e ordenou, com sua voz áspera. — Madame, fique atrás de mim. A portinhola do teto foi aberta e Bundy avisou: — Estamos quase na ponte, milorde. Lorde Saxton pensou por um momento, depois com um gesto afirmativo, disse: — Ótimo. Vamos atravessá-la. A portinhola fechou-se sem nenhum comentário da boléia. Lorde Saxton pôs dois mosquetes debaixo de um braço e segurou a maçaneta da porta com a outra mão. — Segures-se, minha querida — disse calmamente. Ela olhou pela porta de trás e viu um dos homens, mais ousado que os outros, esporear o cavalo e disparar, bem adiante dos companheiros cautelosos. O cavaleiro


começava a ganhar terreno quando a carruagem entrou numa curva fechada e ele a perdeu de vista. Erienne esforçou-se para manter o equilíbrio na curva. Então seus ouvidos, que zumbiam ainda, foram assaltados por um ronco surdo, e ela viu que acabavam de entrar numa estreita ponte de madeira com grades baixas dos dois lados. O ronco cessou e foram sacudidos outra vez quando o cocheiro puxou o freio e as rédeas dos cavalos, para parar. Antes que estivessem completamente parados, lorde Saxton abriu a porta e com uma das mãos no batente saltou para fora. Ficou parado no meio da estrada. Dobrou um joelho, pôs um dos mosquetes ao seu lado, no chão, verificou a caçoleta do outro e puxou o cão pesado. Esperou, ouvindo as patas dos cavalos, que se aproximavam. O homem que vinha bem na frente dos outros apareceu na curva, e lorde Saxton esperou que o cavalo chegasse na ponte. Levou a arma ao ombro e atirou. O projétil pesado atingiu em cheio o peito do cavalo. As pernas dianteiras do animal dobraram-se, o corpo inclinou-se para a frente, depois, dando uma cambalhota, atirou para o ar o cavaleiro, antes de cair estrebuchando no chão. O homem caiu com um grito de dor, depois rolou na ponte, enquanto o cavalo agonizava no pó da estrada. O assaltante levantou-se, sacudindo a cabeça, atordoado. Demorou um pouco para olhar em volta, mas quando o fez, com outro berro de pavor, viu os companheiros entrando a galope na ponte, como quem entra num funil. Ele correu para a grade e saltou. Caiu de bruços na água gelada, lutando para se manter à tona, com as roupas pesadas e a corrente puxando-o para o leito do rio. Seus companheiros nem pensaram em ajudá-lo. O primeiro tropeçou no cavalo agonizante, logo seguido pelos outros. O último evitou o obstáculo na ponte, mas seu cavalo tomou as rédeas nos dentes e entrou por dentro de um espinheiro. com um relincho de dor, o animal empinou, quando os espinhos rasgaram suas pernas. No terceiro salto violento, cavalo e cavaleiro separaram-se e o homem, atirado para o ar, caiu agitando pernas e braços, desaparecendo na moita espinhosa com um berro de dor. Rindo, divertido, lorde Saxton ficou de pé e disparou o outro mosquete para o ar. Os assaltantes desistiram de imediato do ataque e redobraram os esforços para se livrar do caos na entrada da ponte. Uma risada alta e zombeteira partiu do alto da carruagem, e Bundy gritou: — O senhor conseguiu, milorde! Derrubou todos eles! Ninguém tem um olho tão bom para um tiro como milorde. — Vocês estão bem aí em cima? — perguntou sua senhoria. Bundy respondeu, rindo: — Todos, menos Aggie, que está furiosa porque amassou o chapéu. Lorde Saxton riu outra vez. Arrastando o pé aleijado, aproximou-se, pôs as armas no chão da carruagem e ergueu os olhos para a jovem esposa. — E a senhora, madame, como está? Erienne sorriu. — Estou muito bem, milorde, obrigada. Lorde Saxton entrou e fechou a porta. Quando estava sentado, bateu com a bengala na portinhola, e a carruagem partiu. Erienne o viu recarregar os quatro mosquetes usados, guardá-los no compartimento sob o banco e abaixar a almofada. Sentindo o


olhar atento da mulher, sentou-se e disse: — Madame, olharia demoradamente para um aleijado? — Sua voz estava carregada de humor. — O senhor me espanta, milorde, — Erienne balançou a cabeça. — Parece pouco à vontade neste mundo, mas enfrenta dificuldades de um modo notável, dando a impressão de que, a despeito das suas deficiências, está um passo, ou mais, adiante das outras pessoas. — vou considerar isso como um cumprimento, meu amor. Erienne, curiosa ainda, fez a pergunta em tom de afirmação: — Manejou as armas com rara habilidade. — O resultado de muita prática, querida Erienne. — Sem dúvida, ouviu falar de Christopher Seton e da sua suposta habilidade com a espada. Acha que podia vencê-lo num duelo? A resposta foi precedida por uma risada zombeteira. — Seria um acontecimento fascinante, até para mim, mas não costumo tentar a sorte, minha querida, aceitando um duelo com possibilidades tão remotas. — Não tive intenção de sugerir uma possibilidade, milorde — desculpou-se Erienne. — Só queria saber onde colocaria um homem com essa habilidade. — Ao meu lado, se pudesse escolher. Não é prudente antagonizar totalmente um homem afeito ao uso de armas. — Meu pai e meu irmão — disse ela, devagar. — Acha então que eles são tolos? — Seu pai? Hesito em julgá-lo, — Riu e limpou a poeira do joelho da calça. — Tenho certeza de que antes de entregá-la a outra pessoa eu agiria como um tolo muitas vezes. — Olhou para a mulher, sentada, ereta, sem olhar para ele, tentando dominar o rubor que subia ao seu rosto. — Seu irmão? Ele não considerou adequadamente suas escolhas e escolheu errado. O espírito afoito da juventude, talvez, mas hoje ele sofre por culpa própria. — É uma pessoa sincera e digna de confiança, milorde — afirmou Erienne, sem coragem ainda de encará-lo. — Não posso negar isso. — Se me acha tão honrado, meu amor, ouça o que digo. Não sou a favor de duelos, mas jamais fugi de um confronto com armas. Se eu pudesse garantir seu amor por mim com um duelo, desafiaria todos que estivessem contra mim. Erienne não esperava que ele dissesse isso. Quando fez as promessas do casamento, foi com o sabor árido da traição na boca. Aquelas palavras não a ajudaram em nada a ceder à vontade do marido. Continuava torturada pelo horror do seu dilema. Olhou pela janela da carruagem, em silêncio. Os olhos de lorde Saxton observaram o perfil delicado, e desceram para onde a capa, entreaberta, revelava a forma dos seios bem-feitos. Depois de um momento, olhou para as mãos enluvadas dela, cruzadas no colo. Suspirou mentalmente. — Quer parar em Mawbry para visitar sua família? — perguntou ele, depois de um momento. — Não tenho nada para dizer a eles, milorde — murmurou ela, — Prefiro ir direto para Saxton Hall. Lorde Saxton apertou com força o cabo da bengala, pensando naquela resposta. Se Erienne tinha algum temor do que ele podia exigir quando chegasse a Saxton Hall, não estava pensando em se poupar, atrasando a volta à casa com uma visita ao pai e


ao irmão. O sol começava a desaparecer no horizonte, banhando o rosto e o colo dela com sua luz dourada. Erienne sabia que ele a observava, pois sentia o calor dos olhos dele mais forte que o do sol. Logo depois, ficou agradecida quando a luz desapareceu do céu, e a escuridão a protegeu daquela atenção enervante, mas, mesmo assim, havia no seu marido aquela estranha qualidade que a fazia perguntar a si mesma se ele não seria mais do que humano, se seus olhos não podiam penetrar as sombras negras da noite e se ela em algum tempo deixaria de sentir a timidez embaraçosa na presença dele. Quando acordou, na manhã seguinte, Erienne foi informada de que lorde Saxton partira em viagem e que ia se demorar alguns dias. Sua ausência era uma espécie de adiamento da execução, mas sua consciência não estava completamente livre. Arregaçando as mangas, resolveu mostrar que era uma boa dona de casa, embora não fosse ainda uma boa esposa. Organizou os criados, designando alguns para a parte já habitada da casa e outros para a limpeza da área ainda coberta de poeira e do resultado do abandono. Embora alguns dos arrendatários das terras pagassem com mantimentos, sempre precisavam comprar especiarias e outros condimentos raros e preciosos e suprimentos para a cozinha. Erienne fez uma lista de compras e dessa vez enviou Paine ao mercado. Curiosa a respeito dos arrendatários, Erienne pediu a Tanner para aprontar a carruagem. Munida de ervas medicinais, chás e ungüentos, chamou Tessie e começou a visitar as casas dos fazendeiros, para ver se podia ajudá-los. Os largos sorrisos e a jovialidade com que foi recebida eram provas suficientes de que, apesar da aparência assustadora de lorde Saxton, estavam felizes com sua volta. Ficou surpresa com a lealdade irrestrita que demonstravam para com a família e notou também as expressões de desagrado quando alguém mencionava lorde Talbot. Os últimos anos não tinham sido fáceis para eles, mas, com a volta do verdadeiro senhor das terras, o futuro desenhava-se cheio de esperanças. Erienne voltou para casa sentindo um novo respeito pelo marido, pois naquela breve visita ficou sabendo que ele já estava procurando facilitar a vida deles, abaixando os preços do arrendamento e anulando as leis impostas por lorde Talbot, substituindoas por outras, justas e mais humanas. Tinha também importado da Escócia um casal de touros e uma dúzia de carneiros, que prometiam produzir animais fortes e saudáveis para os arrendatários. Erienne podia compreender muito bem a alegria dos fazendeiros com a volta do seu marido.

Capítulo Dez As BATIDAS insistentes de lorde Saxton na porta da casa do prefeito foram respondidas com um grito. Depois de um baque surdo, a porta foi aberta por Farrell, despenteado e com a roupá amarrotada. O jovem evidentemente não estava bem e não ergueu os olhos. O rosto estava pálido e os olhos empapuçados. Quando finalmente levantou a cabeça, olhou com muda surpresa para o vulto vestido de negro e aparentemente esqueceu todo o mal-estar. — Preciso conversar com o prefeito — disse lorde Saxton. — Ele está em casa? com uma inclinação de cabeça, Farrell recuou, escancarando a porta para dar


passagem àquela presença assustadora. Olhou pára fora, viu o landau e indicou o cocheiro com um movimento da cabeça. — Será que seu criado não quer entrar e esperar perto do fogo? É um dia terrível para ficar sentado lá fora. — Não vou me demorar — disse lorde Saxton. — E acho que Bundy prefere o frio. — vou chamar meu pai — disse o jovem, — Ele está tentando fazer alguma coisa para comer. — Isso, ou queimando alguma coisa — observou lorde Saxton, secamente, sentindo o cheiro de gordura queimada na fumaça escura que vinha dos fundos da casa. Farrell olhou tristemente na direção da cozinha. —- É raro o dia em que temos uma refeição decente. Acho que só agora meu pai está começando a dar valor a Erienne. Uma risada rouca soou atrás da máscara. — Um pouco tarde para isso. Os músculos do rosto de Farrell contraíram-se e ele massageou o braço aleijado, afastando-se um pouco do homem. — Acho que agora que ela lhe pertence não a veremos mais. — Isso depende unicamente da minha mulher. Farrell ousou erguer os olhos desafiadoramente para a máscara negra. — Quer dizer que a deixaria vir nos visitar? — Não há correntes nas portas de Saxton Hall. Farrell disse com ironia: — Bem, deve haver algum motivo para ela não tentar fugir. Fugiu daqui bem depressa. E o senhor não é exatamente — engoliu em seco, quando percebeu o que ia dizer —, bem... — Vá chamar seu pai — ordenou lorde Saxton, em tom frio. Arrastando o pé defeituoso, entrou na sala e sentou-se na poltrona na frente da lareira. com a mão no cabo da bengala, olhou em volta e viu que a casa estava tristemente descuidada e úmida. Havia roupas espalhadas por todos os lados e pratos usados empilhados nas mesas. Era evidente que os dois homens, além de não saberem cozinhar como Erienne, não tinham muita queda para a ordem e a limpeza. Avery hesitou antes de entrar na sala, tentando disfarçar o medo que sentia do genro. — Ahhh, milorde — saudou ele, com entusiasmo fingido, entrando na sala. — Vejo que já se pôs à vontade na minha casa. — Dificilmente — foi a curta resposta. O prefeito olhou para ele, confuso, sem saber como devia reagir. — Suponho que veio se queixar da minha filha. — Ergueu a mão, declarando sua inocência, — Seja lá o que ela fez, não foi culpa minha. A culpa é da mãe dela. Encheu a cabeça da tolinha com bobagens, foi o que ela fez. Toda aquela tolice de aprender a escrever e contar, não é bom para uma mulher saber essas coisas. A voz de lorde Saxton soou como uma rajada de vento frio do norte. — O senhor a vendeu por um preço muito baixo, prefeito. Cinco mil libras são uma ninharia perto do que eu estava disposto a pagar — riu sem humor, — Mas, afinal, a perda foi sua, O negócio está feito, e eu tenho o que quero. Avery deixou-se cair lentamente na poltrona e fechou a boca. — Quer dizer... que estava disposto,., a pagar mais por aquela menina? — Eu teria facilmente dobrado essa quantia. O prefeito olhou para a sala, sentindo-se


miserável. — Ora... eu seria um homem rico. — Não me sentiria mal por isso, se fosse o senhor. Provávelmente, sua riqueza não ia durar muito. Avery olhou atentamente para a máscara, sem entender bem o insulto. — Se não veio encher meus ouvidos de queixas, por que está aqui? — Quero dar queixa de um ataque à minha carruagem. — Lorde Saxton viu a surpresa dos dois e explicou: Eu voltava de Wirkinton com minha mulher quando assaltantes tentaram nos atacar. Felizmente, eu estava preparado para enfrentá-los. — Sua carruagem, milorde? — Sim! A minha carruagem. — Disse que os esperava?. — Não naquele momento, mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, iam tentar tomar minha carruagem. — Uma vez que está aqui contando a história, suponho que eles levaram a pior. — Dois foram mortos e acho que o resto está profundamente assustado. — Não ouvi nenhuma palavra a respeito. — Para um prefeito, não está muito bem informado. Avery ferveu de raiva, até sentir o olhar gelado e penetrante, e perdeu toda a coragem. — Faz parte das atribuições do xerife me informar desse tipo de coisa. — Então, talvez eu deva procurar o xerife — disse a voz gelada. — Mas achei que podia estar interessado em saber que Erienne está bem. — Ah... bem, ela sempre soube se cuidar. Nunca me preocupei muito com ela. Erienne é forte... e decidida. A mão enluvada crispou-se no cabo da bengala, e só depois de algum tempo lorde Saxton se dignou a responder. — É raro o pai que demonstra tanta confiança na filha — riu, zombando. — Ora, quase se pode confundir com falta de interesse. — O quê? — Avery ficou perplexo. — Não importa. — Lorde Saxton levantou-se. — Tenho de ir agora. Preciso tratar de alguns negócios em York. — Ah... senhor. — Avery pigarreou. — Eu estava pensando, vendo que é marido da minha filha e tudo o mais, se podia ajudar com algum dinheiro a pobre família dela. Não temos tido sorte, meu filho e eu, e praticamente não temos nem um centavo em nosso nome. Tivemos de vender Sócrates... e como disse que estava disposto a pagar mais... — Eu separei uma mesada para sua filha — disse ele, com voz áspera. — Ela pode ajudá-los, se quiser, mas não darei nada mais a ambos sem a aprovação dela. — Deixa que uma mulher dirija seus negócios? — perguntou Avery, surpreso. — A família de minha mulher é negócio dela — respondeu lorde Saxton, de forma brusca. — Ela está muito zangada comigo desde que a vendi. — Isso, prefeito, é seu problema, não meu. Menos de uma hora depois que o landau de lorde Saxton partiu para leste, na direção de York, o cansado viajante, Christopher Seton, entrou na cidade pela estrada do sul, vindo de Wirkinton. Levou o cavalo, também exausto, para o estábulo e deu uma


brilhante moeda de dois pence para o cavalariço, recomendando cuidados especiais com o animal. Assim que saiu do estábulo, sentiu que alguém o puxava pela manga. Voltou-se e viu Ben ao seu lado com um sorriso largo e desdentado no rosto vermelho. — Há mais de uma semana não o vejo, patrão — disse o velho marinheiro. — O velho Ben estava com medo que tivesse ido se reunir ao Criador. Tem estado muito ocupado? — Precisei ver meu navio em Wirkinton. — Christopher continuou com seu passo vagaroso e riu, empurrando a porta dos fundos da estalagem. — Só os bons morrem jovens, Ben. Você e eu vamos ficar por aqui por muitos e muitos anos. Atravessaram o pequeno corredor que levava à sala comum da estalagem e sentaram-se a uma mesa perto da janela. Os olhos de Molly brilharam quando viram Christopher. Arrumou a blusa para descobrir os ombros e o colo, depois sorriu tentadoramente quando Christopher, com um gesto, pediu duas cervejas. Num instante ela estava pondo as canecas na mesa. — Pensei que tinha deixado Mawbry para sempre, patrão — disse ela, apoiando as mãos na mesa e inclinando-se para a frente, para uma mostra muito pessoal dos fartos seios. — Eu ficaria muito triste se não voltasse. Christopher ergueu os olhos por um momento, notando o espetáculo dos seios nus. Recostou-se na cadeira e jogou várias moedas na mesa. — Só a cerveja, Molly. Nada mais. Ofendida, ela endireitou o corpo e se afastou. Não sabia debaixo de que anáguas ele andava, mas independente de quem fosse, devia ser uma mulher muito exigente, que sugava toda a força dele. De que outro modo um homem forte e viril podia recusar uma oferta generosa apresentada bem na frente dos seus olhos? Ben passou a língua nos lábios, avidamente, e ergueu a caneca. — Patrão, o senhor é tão bom quanto a minha mãe. Que Deus tenha sua alma. — Tomou quase a metade da cerveja e, com um suspiro satisfeito, passou as costas da mão nos lábios. — Então! O senhor foi embora e perdeu tudo que tem acontecido por aqui. — O que tem acontecido? — Christopher tomou a cerveja devagar, esperando com paciência. — Patrão — para Ben era uma maravilhosa oportunidade contar as novidades para seu benfeitor —, lorde Saxton casou com a filha do prefeito e ontem quase foi assaltado por um bando de malditos piratas. Christopher franziu a testa com ar preocupado. — Alguém ficou ferido? — Oh, a mulher estava com ele, isso estava. — Ben riu com malícia e inclinou-se para a frente. — Mas não precisa ficar preocupado com ela. Só os ladrões ficaram feridos. Sua senhoria matou dois e pôs os outros para correr. — Ben continuou, num murmúrio rouco: — Ouvi dizer que nenhum deles pode andar sem uma muleta. Christopher digeriu a informação, em silêncio, até seus pensamentos serem interrompidos pelo ruído de patas de cavalo. Ben levantou-se e espiou pela janela. Voltou rápido para a mesa. — Eu... bem... eu o vejo mais tarde, patrão. — Ben tomou o resto da cerveja e desapareceu na sombra, nos fundos da sala. Encostou uma cadeira na parede e


aparentemente adormeceu assim que se sentou. A porta se abriu com violência e Timmy Sears irrompeu na sala. Atrás dele, Haggard olhou satisfeito em volta, mas quase deu um salto quando viu Christopher perto da janela. Segurou o braço de Timmy, apontando freneticamente, sem poder falar. Timmy irritou-se e as sobrancelhas vermelhas ergueram-se quando viu o motivo do nervosismo de Haggard. — Estou ferido — disse Timmy, tirando a capa para mostrar o braço numa tipóia. — Sim, estou vendo — respondeu Christopher, calmamente, avaliando a condição do homem. O casaco de lã de Timmy estava apertado nas costas e as mangas curtas demais. O resto da roupa estava amassado, como se ela tivesse sido vestida logo depois de lavar, e as botas pareciam úmidas e com as pontas levemente viradas para cima. Curiosa, Molly aproximou-se dele. — Timmy, querido, parece que foi atropelado por um bando de porcos. — Quase, Molly. — Passou o braço bom pelos ombros dela e murmurou: — Um bando de idiotas cretinos. — Pigarreou e disse, em voz alta: — Nada disso! O meu velho cavalo maluco tropeçou no gelo e me atirou para fora da sela. Vigiando o ianque, Haggard deslizou para o bar e disse, com voz nervosa: — Eu queria ter visto. Timmy olhou para ele, depois ergueu o braço enfaixado. — Não está quebrado, só um pouco duro. O animal também se feriu. Tive de dar outro tiro nele. — Outro tiro? — Molly olhou para ele, com ar inocente. — Quero dizer, como ele quebrou a perna, tive de acabar com ele. — Como chegou aqui, então, se matou o cavalo? — Arranjei outro. — Timmy empertigou o corpo. — Melhor do que aquela mula velha. — Ah! Aposto que sim — disse Molly, rindo. — E de quem roubou, desta vez? Timmy olhou furioso para ela: — Se você pensa que vou me rebaixar e roubar um cavalo... Ora, veja isto... — Enfiou dois dedos no bolso do colete. — Olhe o que eu trouxe para você. — Balançou um par de brincos de ouro na frente dos olhos dela, que imediatamente se arregalaram, com uma expressão de encanto. Molly esqueceu toda a provocação e chegou até a esquecer de Christopher Seton por um momento. — Oh, Timmy, você é tão bom para mim. Sempre me traz uma lembrança. — Apanhou os brincos e os encostou nas orelhas. — Quer subir — indicou a escada com um movimento da cabeça pra ver se ficam bem em mim? — Não sei — disse Timmy. — Onde pretende usar esses brincos? — Ora, no meu quarto, é claro. — Molly olhou para ele com a testa franzida, depois bateu de leve com o cotovelo no ombro dele. Timmy fez uma careta de dor. — Ora, Timmy, sempre fazendo graça. Vamos. Segurando a saia, Molly subiu rápido a escada. Timmy não precisou de outro incentivo para subir atrás dela. A noite estava escura, e Timmy Sears inquieto. Ultimamente, sua vida não andava muito bem. Fora ferido e derrotado. Envergonhado na frente dos companheiros. E como se isso não bastasse sua mulher começava a ficar exigente. Um dos seus


companheiros, talvez aquele idiota babão do Haggard, fizera um comentário casual, comparando- suas cem libras com as cinco mil pagas no leilão. A mulher de Timmy descobriu assim que ele tinha dinheiro e logo começou a enumerar todas as coisas de que precisavam. Telhas novas para a casa, Pratos novos para a mesa. Na verdade, uma nova mesa com cadeiras, para substituir o bom e forte banco de madeira que partilhavam havia tantos anos. Uma peça de tecido, linha, agulhas. Um pouco disso e um pouco daquilo. Um novo caldeirão para o fogo, porque o velho estava com o fundo perigosamente fino. E mais isso, mais aquilo. Timmy sentou-se na cama e passou a mão no cabelo crespo e despenteado. Afinal, a mulher pensava que ele era feito do quê? Que podia mantê-la no luxo como um... um Christopher Seton? O nome surgiu de repente e, em volta dele, suas desgraças rilharam os dentes. — Chegando sorrateiramente e perturbando a paz dos lares de Mawbry — resmungou ele. — Ferindo jovens e acusando o prefeito de roubar no jogo, depois roubando o dinheiro da venda da moça bem debaixo do nariz do pai. Ora, Avery não ficou nem com o bastante para uma boa bebida. Sears riu e cerrou os dentes cheio de inveja. — Como é que o ianque faz isso? Do jeito que ele desfila por aí dá a impressão de que é muito mais poderoso do que lorde Talbot, ou do que aquele amaldiçoado Saxton... Timmy lançou o queixo para a frente e franziu a testa, pensando ”Sim, e tem aquele outro.” Massageou o braço, como para afastar a lembrança do mergulho na água gelada. Estava tão perto de acabar com as histórias de que o homem era um fantasma, mas seu plano foi rudemente arruinado. Agora, precisava se vingar. ”De um modo ou de outro, ele vai pagar.” Timmy saiu da cama com cuidado para não acordar a mulher. Ultimamente ela andava muito amorosa, e ele estava cansado daquela atenção indesejada. Além disso, ela perdera outro dente naquela manhã, e ele não estava ainda acostumado com o sorriso torto. Seu estômago roncou quando o assado gorduroso do jantar mudou o ângulo de ataque e passou para a barriga. Abriu em silêncio a porta dos fundos e caminhou para a privada, olhando para ver onde punha os pés descalços. Seus cães tinham o costume de espalhar sujeira por toda a parte, e ele não queria pisar em alguma coisa desagradável. A distância entre a privada e a casa combinava conveniência com conforto, e isso facilitava bastante. Timmy caminhou sem incidentes e abriu a porta rangente. Sentou-se e mergulhou num estado de sonho, meio acordado. Alguma coisa se mexeu lá fora e, piscando os olhos, ele prestou atenção. O barulho outra vez. Era como o patear impaciente de um cavalo. Timmy levantou-se, inclinou-se para a frente, empurrou a porta e espiou para fora. Viu apenas a escuridão profunda e impenetrável. Então a brisa soprou mais forte, e as nuvens permitiram a passagem de um raio de lua, que iluminou o pátio. Sears conteve a respiração e o grito de terror ficou preso na sua garganta. No meio do pátio, sob a luz prateada, estava um enorme cavalo negro com olhos que pareciam chamas de fogo branco e montado nele um vulto com asas enormes abertas, parecia pronto para se lançar num mergulho. com um grito rouco, Timmy girou o corpo e saltou. Bateu com o pé no vaso e, num


único movimento, com a força de três homens, arrombou as tábuas finas dos fundos da privada. Antes que seus pés tocassem o chão, as pernas já estavam correndo, levando-o, sem hesitação, para uma moita de espinheiros a alguns metros de distância. Uma risada sinistra encheu a noite, e Timmy correu mais. Não parou quando mergulhou na moita protetora, quase sem sentir os espinhos que rasgavam sua camisola e a carne. Mais tarde, jurou ter ouvido o ruído de patas fantasmagóricas atrás dele e sua mulher, sorrindo, observou que ele correra tanto que só chegou em casa às quatro da manhã. Os amigos da Estalagem do Javali, que conheciam sua fanfarronice, riram à socapa, atrás das canecas de cerveja, antes de concordar, em voz alta, que ele agira com grande bravura ante a criatura alada. Fazia quatro dias que lorde Saxton estava ausente, e embora ocupada com os deveres de dona de casa Erienne começou a ficar inquieta dentro daquelas paredes de pedra. Lembrou então do que o marido dissera. Se quisesse sair a cavalo, bastava falar com o cavalariço. Vestiu o traje de montaria e saiu para pedir a Keats que selasse o animal. Era a primeira vez que ia ao estábulo, embora a idéia de fuga tivesse passado várias vezes por sua mente, quando então perguntava a si mesma até onde poderia ir com um dos cavalos do marido. O medo de ser recapturada e submetida à ira de lorde Saxton punha um fim a esses sonhos de liberdade. Sua única possibilidade de segurança era Christopher Seton, mas seu orgulho não permitiria que concedesse a ele essa vitória. Se Christopher gostasse realmente dela, como afirmava, teria, pelo menos, protestado contra o leilão. Em vez disso, aceitara o pagamento da sua dívida sem apresentar nenhuma objeção ao fato de ela ser comprada por outro homem. No seu último encontro, parecia muito satisfeito com a própria liberdade, e se Erienne fugisse para ele, agora, disposta a ceder a todos os seus desejos, certamente estaria alimentando sua arrogância. Estava certa de que um caso com ele seria bastante excitante, mas no futuro teria de enfrentar o fato de que fora usada como uma aventura passageira. Se aparecesse outra mulher, mais atraente, seria o fim. Era melhor poupar a si mesma esse sofrimento antes de se apaixonar por ele. Erienne entrou no estábulo e viu um jovem da sua altura, de mais ou menos quinze anos, limpando uma baia. Ele levantou a cabeça quando ouviu o rangido da porta. Correu para ela e tirou o chapéu. com um largo sorriso, inclinou a cabeça várias vezes, numa mesura hesitante. Erienne sorriu também. — Você é Keats? — Sim, senhora — respondeu ele, com outra mesura desajeitada. — Acho que não nos conhecemos. Eu sou... — Oh, eu sei quem é, senhora. Eu a tenho visto entrando e saindo, e... peço que me perdoe, senhora... mas só se fosse cego eu não notaria uma dama tão bonita quanto a senhora. Erienne riu. — Ora, obrigada, Keats. Keats corou e, assustado com a própria ousadia, apontou para égua escura, com patas brancas, numa baia próxima. — Sua senhoria avisou que a senhora viria apanhar a Morgana. Quer Que a sele para


a senhora? — Gostaria muito. com um sorriso mais largo ainda, ele bateu com o chapéu na perna e começou a trabalhar alegremente. Tirou a égua da baia para que Erienne a examinasse. O animal, calmo e amistoso, esfregou o focinho na manga de Keats. Morgana tinha uma classe que teria provocado em Sócrates um enorme sentimento de inferioridade. Era quase negra, com o pêlo sedoso e macio e crina e cauda longas. Erienne acariciou o pescoço escuro. — É uma beleza. — Sim, é mesmo, senhora, e é toda sua. Foi o que disse sua senhoria. Erienne ficou encantada. Jamais possuíra um cavalo e nunca imaginou que podia ter um animal belo como Morgana. Era mais uma prova da generosidade do seu marido. Embora não tivesse ainda consumado o casamento, ele continuava a cumulá-la de presentes. Fosse qual fosse a gravidade das suas cicatrizes, lorde Saxton estava muito acima de Smedley Goodfield e de muitos outros pretendentes, que teriam deixado de presenteá-la ao menor sinal de rejeição. — Quer que eu a acompanhe, senhora? — perguntou Keats, depois de selar o animal. — Não é necessário. Logo estarei de volta e não pretendo sair de perto da casa. Keats cruzou as mãos, formando um apoio para o pé de Erienne e admirou a agilidade com que ela saltou para a sela, como uma pluma tocando brevemente seus dedos. O jovem ficou parado na porta do estábulo, até ter certeza de que Erienne podia controlar Morgana, e então voltou ao seu trabalho, assobiando alegremente, convencido de que lorde Saxton era tão bom para escolher uma esposa quanto para escolher um cavalo. Todos os animais do estábulo eram belos e perfeitos. Erienne evitou as ruínas da ala leste, que lembravam a triste máscara do marido e sua incapacidade de cumprir os deveres de esposa. O ar estava frio no seu rosto e ela cavalgou na direção da charneca. respirando fundo a frescura da manhã. O animal, rápido e ágil, respondia perfeitamente ao comando das rédeas. Acompanhando com o corpo o movimento do animal, Erienne sentiu desfazer-se, aos pou cos, a tensão dos últimos dias. Uma hora depois, chegou a um vale, a leste da mansão, numa clareira cercada de bosques nos três lados. O cavalo estava a passo quando ouviu ao longe uivos de cães. Seu coração bateu mais forte com a lembrança dos rosnados ferozes e dos dentes aguçados. Um terrível pressentimento a assaltou e, embora pudesse ver a casa na colina, atrás dela, estava muito longe para servir de proteção. Procurando dominar o pânico, deu meia-volta e retomou o caminho que atravessava o vale. À medida que se aproximava do pequeno bosque, o medo diminuía. Mais alguns momentos e estaria a salvo, em casa. Erienne ficou mais calma, sem saber que olhos atentos a observavam de dentro do bosque. Timmy Sears riu satisfeito e passou a mão no braço ferido. A vingança contra o tal lorde Saxton seria doce quando estivesse saciando seus desejos naquela mulher. Sabendo que o ianque a desejava também, a vingança seria dupla. Esporeou o cavalo e saiu do bosque para a trilha, bem na frente de Erienne. Ela gritou, surpresa e apavorada. Morgana assustou-se e com esforço Erienne procurou controlar o animal. A mão enorme de Timmy segurou suas rédeas, mas Erienne, furiosa, bateu no pulso dele com o chicote.


— Afaste-se de mim, seu miserável! — exclamou ela, virando a égua de modo a tirar as rédeas das mãos dele. Depois, olhou para o homem, por cima da cabeça do animal. — Caçadores furtivos e seus cães não são bem-vindos nestas terras. Saia já! Timmy levou a mão ferida aos lábios e olhou para ela. — Para uma mulher que foi vendida em leilão, ficou muito importante depois que casou com sua senhoria. — Fossem quais fossem as circunstâncias da minha vida, Timothy Sears — respondeu ela —, estão muito acima de sua laia. Você está acostumado a pisar nas pessoas e já invadiu as terras do meu marido muitas vezes. — Minha senhora, desta vez pretendo invadir e me aproveitar de muito mais do que suas terras. Um calafrio de medo subiu pela espinha de Erienne e seu estômago se apertou como uma bola de gelo. Ouvira muitas histórias sobre Timmy Sears e sabia que ele era um bandido perigoso. Num impulso de autoconservação, ela fez o animal dar meiavolta. Timmy estava preparado para esse movimento. Esporeou o cavalo e num instante estava ao lado dela, impedindo a passagem. Segurou a rédea outra vez, mas Erienne outra vez açoitou furiosamente o rosto e o braço dele com o chicote. Praguejando, Timmy ergueu o braço e atingiu o ombro de Erienne com um violento golpe. Ela quase parou de respirar e lutou para se manter na sela, enquanto Morgana sapateava assustada. Tentando derrubar Erienne da sela, Timmy puxou a manga do seu vestido, rasgando-a desde o ombro. Erienne brandiu o chicote novamente, agora com a raiva dominando o medo. Estava resolvida a não permitir que ele levasse a melhor. O chicote atingiu o rosto dele e quando o homem retirou a mão, ela chicoteou Morgana, fazendo-a recuar. Timmy quase foi tirado da sela quando as rédeas foram arrancadas de suas mãos. Erienne esporeou seu animal que disparou pela trilha. — Sua cadela! — gritou ele disparando atrás dela. — Vai pagar por isto! De repente o estampido de um tiro ecoou no ar. Assustada, Erienne inclinou-se para a frente na sela, pensando que Timmy estava atirando nela. Então, com o canto dos olhos viu outro cavaleiro sair em disparada do bosque para a clareira. Era Bundy, carregando o mosquete enquanto avançava. — Venha, seu maldito — gritou ele. — Venha para que eu o encha de balas! Timmy Sears viu o homem tirar a vareta do cano da arma e compreendeu que estava quase pronto para atirar outra vez. Não pensou duas vezes. Deu meia-volta, quase deitado na sela, bateu com o chapéu nos flancos do cavalo, tentando escapar do tiro iminente. Outro estampido encheu a clareira e um segundo depois Timmy, aliviado, ouviu o eco do disparo. Riu, ouvindo o praguejar do atirador frustrado, mas, sabendo que o homem logo ia recarregar a arma, não perdeu tempo. Teria outras oportunidades para satisfazer seus desejos com aquela mulher e jurou a si mesmo que a faria pagar por tudo isso. Erienne puxou as rédeas de Morgana para observar a fuga de Timmy Sears. A última coisa que viu foram as abas do casaco voando atrás dele quando passou pelo topo de uma colina. Só então relaxou, respirando fundo várias vezes. Bundy parou seu cavalo ao lado dela e perguntou, ansioso: — A senhora está bem? Ele a feriu? Erienne começou a tremer, numa reação retardada, respondeu com uma inclinação da cabeça.


— Ele é um homem muito mau, esse Timmy Sears — disse Bundy, olhando para a colina onde o homem ruivo tinha desaparecido. Suspirou, desapontado. — Lorde Saxton não teria errado. Erienne não conseguiu formular a pergunta com os lábios trêmulos. — Foi bom que estivéssemos voltando neste momento, senhora. — Lorde Saxton está de volta? — conseguiu dizer, finalmente. — Está e quando soube que a senhora tinha saído, me mandou procurá-la. Não vai gostar de saber o que aconteceu, Não vai gostar nem um pouco.

Capítulo Onze A LUA alta e clara circundava com um halo prateado as nuvens negras e fazia desenhos de luz e sombra nas colinas. A brisa do mar balançava as copas das árvores e deslizava pela charneca. Os pequenos grupos de casas dos fazendeiros iam aos poucos desaparecendo na escuridão, à medida que as luzes se apagavam e as janelas eram fechadas para a noite. Uma quietude sonolenta acompanhava o suspiro do vento, dizendo que tudo estava bem. Ninguém ouviu o estrépito das patas do garanhão preto, nem viu o cavaleiro sinistro, com manto e capuz pretos, que o conduzia num galope desenfreado. O animal competia com o vento na estrada estreita que atravessava o vale. Os cascos cintilavam como mercúrio nos breves pontos de luz e o pêlo brilhava com o movimento dos músculos. com as narinas dilatadas e os olhos flamejantes, parecia um dragão no ímpeto do ataque, e o vulto silencioso na sela completava a sugestão de que aquela corrida era uma caçada mortal. O manto esvoaçante dava a impressão de uma criatura alada, mas cavalo e cavaleiro seguiam firmes no solo, sempre para frente, nunca diminuindo o passo para descanso do homem ou do animal. A pouca distância, a gorducha dona de uma das pequenas casas levantou-se da cama, impedida de dormir pelos roncos do marido. Atirou alguns pedaços de turfa seca no fogo e ficou olhando as primeiras chamas. Perturbada com a ansiedade que a assaltava, ela olhou em volta. Sentia um frio estranho nas entranhas, um pressentimento de que alguma desgraça estava prestes a cair sobre eles. Atravessou o chão de terra com os chinelos cambaios, encheu uma caneca com cerveja forte e voltou para o fogo, ajeitando o corpo imenso na cadeira, apoiou o braço na mesa rústica e começou a tomar a cerveja, olhando para as chamas douradas. A caneca estava pela metade quando ela aguçou os ouvidos confusa com o ruído distante. Seria um trovão? Ou apenas o vento? Levou a caneca aos lábios outra vez, mas parou, concentrando-se inteiramente no som. Ficava cada vez mais forte e consistente... e regular... como patas de cavalo em disparada. Pôs a caneca na mesa com a pressa que permitia o corpo enorme, foi até a janela e a abriu. com um grito abafado e trêmulo, viu o vulto sinistro passando entre as árvores. com o manto adejando como asas, cavalo e cavaleiro pareciam prestes a mergulhar sobre a casa. Paralisada de medo, ela viu o cavalo parar com um tranco na frente da sua porta. O garanhão preto empinou, agitando as patas dianteiras no ar e cortando o silêncio da noite com um relincho furioso. com um soluço a mulher se afastou da janela, levando a mão ao pescoço, com os olhos arregalados de pavor. O capuz escondia o rosto do cavaleiro, mas ela estava


certa de ter visto a caveira sorridente do anjo da morte. — Timmy! Ele voltou! Timmy, acorde! —- gaguejou ela. — Oh, Timmy, meu bem, nunca duvidei de você, nem por um momento. Timmy Sears ergueu a cabeça, piscando os olhos. O pavor que viu no rosto da mulher o despertou completamente. Vestiu os calções apressadamente sobre a camisa de dormir e correu para a janela, a fim de ver o que a assustara. Seu coração disparou. — Timmy Sears! — A voz cavernosa provocou calafrios na espinha do homem. — Saia para morrer! Você é um assassino e o inferno o espera! — Foi isso que eu vi! — exclamou Timmy. — Mas o que é? — A morte! — respondeu a mulher, com convicção. — Ela veio nos buscar. — Feche a janela! Não podemos deixá-la entrar! — Timmy Sears — chamou a voz sinistra outra vez. — Saia para morrer! — Não vou sair! — gritou Timmy, fechando a janela. Uma risada medonha cortou a noite. — Então fique e morra queimado. Fique e morra queimado, demônio maldito! — Ele vai queimar a nossa casa! — disse Timmy, com voz estridente. — Ele quer você. Não a mim! — berrou a mulher. Abriu a porta e, antes que o marido pudesse detê-la, saiu correndo, gritando por sobre o ombro: — Não vou morrer queimada por causa de um assassino! Timmy apanhou um machado e correu para a porta, achando que o tormento do fogo era muito pior do que uma morte rápida. Vira um homem morrer queimado certa vez e, embora tivesse achado divertido, naquela ocasião, preferia não ter a mesma sorte. Além disso, a morte tinha de pegá-lo primeiro e ele sempre fora muito bom numa luta. — Fique onde está, seu cruel filho de uma cadela! — rugiu ele. — Não vou morrer facilmente! O riso cavernoso ecoou no vale. — Timmy Sears! Eu vim para vingar os crimes que cometeu. Você matou muitas vezes e é justo que tenha uma morte lenta. O vulto tirou a espada da bainha e açoitou o ar com a lâmina afiada, o brilho frio do aço cintilando à luz da lua. Então, a morte apeou com a leveza de uma sombra da noite. — O que quer? — perguntou Timmy, com voz entrecortada. — Não fiz nada para você! — Sim, você fez, Timmy. Você matou as melhores pessoas e abusou de outras e vai pagar pelos seus crimes. — Quem é você? Quem é você? — Lembra do fogo que ateou na mansão, Timmy? Lembra do homem que viu ser devorado pelas chamas? — Você não é ele. — Timmy balançou a cabeça apavorado e incrédulo. — Ele está morto! Está morto, estou dizendo! Eu mesmo vi! Completamente queimado! Gritando quando caiu nas chamas. Outros também viram! — E quem eram eles, Timmy, esses outros que também me viram? Não estou aqui na sua frente afirmando que foi você quem ateou o fogo? — Só um fantasma podia escapar daquelas chamas.


— Agora você sabe, Timmy. Agora você sabe. — bom Deus, é você! Até fala como ele! — Vim para levá-lo comigo ao inferno, Timmy. — Não tem o direito de pôr a culpa só em mim. Posso dar os nomes de mais de uma dúzia de homens que estavam comigo. — Sim, e vou ouvir esses nomes, enquanto afio minha espada no seu machado. Timmy encolheu-se com um soluço, quando a lâmina dançou em volta dele, espetando aqui e ali, sem que pudesse enfrentá-la ou detê-la com o machado. — Diga agora, Timmy, antes que seja tarde. Você não tem muito tempo para ficar na terra. A morte girava em volta dele, com o manto negro, enchendo a noite com sua risada e, embora fizesse frio, Timmy já sentia as labaredas que o levariam para o inferno. Caiu de joelhos e começou a gaguejar, pedindo por sua vida e dizendo coisas das quais nunca ousara lembrar antes. O vapor do banho perfumado dissipou-se no ar, enchendo o quarto com a fragrância de rosas. A água quente era um conforto para os músculos doloridos de Erienne e ela apoiou a cabeça na borda da banheira, deixando cair sobre os ombros gotas da esponja, os mesmos ombros machucados por Timmy Sears na véspera. Lembrou-se do momento em que entrou em casa e encontrou o marido ansioso, à sua espera, perto da lareira. Ouvindo seus passos, ele voltou-se com o nome dela nos lábios, mas não chegou a pronunciá-lo quando viu sua roupa de montaria toda rasgada. Bundy estava atrás dela e foi ele quem respondeu às perguntas, enquanto Erienne via as mãos enluvadas fecharem-se furiosamente. Lorde Saxton praguejou em voz baixa, jurando que Timmy Sears ia receber o que merecia e quando voltou-se outra vez para ela Erienne preparou-se para ouvir as acusações. Mas não ouviu nenhuma. Em vez disso, ele demonstrou uma preocupação carinhosa por seu bem-estar e a fez sentar-se para tomar o conhaque servido para ele. Enquanto ela tomava a bebida reconfortante, lorde Saxton falou sobre uma porção de coisas inconseqüentes, até ela se acalmar. Mais tarde, quando Erienne preparava-se para dormir, ele entrou no quarto para uma breve visita e saiu, prometendo vagamente voltar na manhã seguinte. Quando a porta do quarto se abriu, Erienne sobressaltou-se, até reconhecer os passos rápidos e enérgicos de Tessie. Relaxou então, satisfeita por não ser a hora da visita do marido. Os passos foram abafados pelo novo tapete e a jovem abriu a cortina do pequeno quarto de banho. Tinha nos braços uma pilha de toalhas limpas e perfumadas que pôs ao lado da banheira antes de começar a preparar o óleo leve para a massagem. Erienne, cedendo à mania de Tessie pela ordem metódica, saiu do banho. A criada imediatamente a enxugou com delicadeza, usando várias toalhas de linho, que jogava para o lado quando ficavam úmidas. Começou então a passar o perfume de rosas nas costas dela, e Erienne ergueu os braços, segurando o cabelo. O corpo, rosado ainda pelo efeito da massagem com as toalhas, brilhava suavemente à luz da manhã. A perfeição dos braços, das pernas e dos seios generosos não escapou à observação do espectador. De repente, Tessie voltou-se com uma exclamação abafada, e Erienne viu o vulto escuro do marido parado à porta. Essas visitas inesperadas sempre a deixavam


nervosa e seu coração disparou. — bom dia, meu amor. — Havia uma clara sugestão de humor na voz áspera. com uma leve inclinação de cabeça, Erienne procurou alguma coisa para proteger sua nudez. As toalhas úmidas estavam empilhadas no chão e seu robe no banco, na frente da penteadeira, longe do seu alcance. Lorde Saxton entrou calmamente no quarto de banho e sentou-se no banco, sobre o robe de Erienne. Ela então procurou fingir indiferença enquanto Tessie, também com esforço, tentou continuar seu trabalho. Seu nervosismo cresceu quando a máscara voltou-se para ela. O contraste entre o vulto assustador do homem e a completa nudez da mulher foi demais para Tessie. Murmurando uma desculpa, ela saiu do quarto. Quando a porta bateu, um riso suave ecoou no quarto e o olhar penetrante fixou-se em Erienne. A modéstia da jovem vacilou sob a sugestão daqueles olhos insistentes. Um rubor intenso subiu até a ponta rosada dos seios e a tentativa de se cobrir com as mãos foi recebida com um riso divertido. — Na verdade, meu amor, até você corar, eu estava olhando para o seu rosto. Sem saber o que fazer com as mãos, Erienne olhou para ele, procurando controlar o embaraço crescente. Não podia ver atrás da máscara, mas o calor daquele olhar a queimava até os ossos. — Não que eu ignore todo o resto que você quer esconder. — O escárnio amaciava as arestas da voz. — Na verdade, madame, bastaria dobrar o dedo mínimo num convite que eu, ávido de desejo, a levaria para a cama, exigindo meus direitos de marido. — Milorde... está... está zombando de mim — gaguejou ela, cruzando as mãos para não fazer nenhum gesto que pudesse ser interpretado como um convite. — Quer tirar a prova? — Ele soergueu-se a meio na banqueta. — Basta um simples sim. — Ficou na mesma posição, até Erienne estender as mãos na frente do corpo, como para evitar que ele se aproximasse. — Milorde, eu... — As palavras ficaram presas na sua garganta — Foi o que pensei. — Afastando o manto, ele voltou a sentarse e atirou o robe para ela. Segurando o robe contra o corpo, aliviada e agradecida, Erienne olhou hesitante para ele, como se acabasse de trair um amigo. — Meu senhor — murmurou suavemente, tentando diminuir a própria culpa. — Confio na sua paciência e na sua compreensão. — Madame, já parou para pensar que é melhor enfrentar e deixar para trás uma coisa temida? Ela inclinou a cabeça levemente. — Eu sei disso, milorde, mas... Ele ergueu a mão, interrompendo-a. — Eu sei! É difícil para você enfrentar esse momento. — Apoiou o cotovelo no joelho e inclinou-se para a frente. Erienne viu a luz dos olhos dele por trás da máscara. — Tem certeza de que quer mesmo enfrentar esse momento, madame? — Eu... eu enfrentarei... — Se pudesse escolher — interrompeu ele outra vez —, pode dizer o nome do homem com quem preferia ter casado? Se esse homem existe, talvez eu deva procurá-lo...


— Não existe ninguém, milorde — murmurou ela, esforçando-se para tirar a imagem de Christopher Seton da mente. Estava certa de que sentia por ele apenas uma atração passageira e que o esqueceria em pouco tempo. Pelo menos, era o que esperava. — Muito bem, madame. — Continuou, endireitando o corpo. — Na verdade, vim para falar de outro assunto. Tenhos certos negócios com o marquês Leicester, em Londres, e providenciarei para levá-la comigo. — O marquês Leicester? — Um antigo conhecido da família. Estou certo de que terá prazer em conhecê-lo e à sua encantadora esposa. Passaremos alguns dias com eles e vai precisar fazer suas malas. Sugiro roupas para funções sociais. — E tem alguma preferência pelo que devo usar hoje, milorde? — Aparentemente, sabe muito bem o que é adequado, madame. Prefiro sua escolha, uma vez que a minha provavelmente não será possível. Erienne ergueu interrogativamente a sobrancelha bem-feita. — Está encantadora neste momento — explicou ele. — Mas certamente atrairia mais atenção do que eu gostaria. Erienne desviou os olhos, sem saber o que dizer. Ele aproveitava todas as oportunidades para demonstrar seu desejo e sua impaciência por consumar o casamento. — Vista-se, madame. — Levantou-se e foi até a cortina do quarto de banho. — Para o bem do meu comportamento, eu a espero lá embaixo. Para Erienne, os preparativos da viagem pareceram sem interesse, e a escolha dos novos vestidos, tediosa. Ficaria extremamente aliviada se o marido resolvesse trocála por outra mulher. Não queria se apresentar do melhor modo possível. Mas Tessie trabalhou diligentemente para esse fim, sem omitir nenhum detalhe. Arrumou o cabelo preto e brilhante em pequenos cachos, prendendo-o na nuca. Ligas rendadas prendiam as meias de seda, na altura dos joelhos. O espartilho foi apertado por cima da combinação sob o vestido de viagem de veludo cor de pêssego. Bordados com fios de ouro enfeitavam os punhos e a gola. Um rabo de renda cor-de-rosa enfeitava o decote, bem como os punhos do vestido. A anquinha pequena e acolchoada escorava a cauda curta. Finalmente, o chapéu elegante, com uma pluma, foi ajeitado sobre o penteado cuidadoso, e nesse momento Erienne protestou. Embora o chapéu fosse de extremo bom gosto, ela não queria, de modo algum, dar a impressão de estar competindo com Claudia Talbot em matéria de chapéus. — Mas, madame, agora é a esposa de um lorde — disse Aggie. — Tem o dever de se vestir de acordo. Não quer que o povo diga que lorde Saxton é mesquinho, quer? Especialmente quando ele gasta uma fortuna com suas roupas. Veja como está elegante com as roupas que ele comprou. Seria um desperdício não aproveitar todo esse luxo. Vamos. Venha ver. — Levou Erienne até o espelho e esperou que ela contemplasse a própria imagem. — Então? Parece a filha de uma camponesa ou uma grande dama? Erienne teve de admitir que Tessie fizera maravilhas. Ninguém podia dizer que estava malvestida. Podia até compreender, até certo ponto, porque lorde Saxton a achava bela. Tinha traços bonitos, pele clara, pescoço longo e bem-feito e cabelos fartos e brilhantes. Embora mais alta e mais magra do que a maioria das mulheres,


não precisava de enchimento no busto nem nas cadeiras. Um tanto apreensiva, pensou no que o marido ia achar da sua aparência. Não sabia quais seriam as condições de pernoite durante a longa viagem e quando chegassem em Londres, por isso não queria despertar de modo algum mais atenção do que já despertava nele. Aggie beliscou de leve o rosto dela, para dar cor. — Está uma beleza, senhora, e qualquer um pode ver por que sua senhoria a escolheu. A senhora é muito bela. Simplesmente bela. E não faria nenhum mal completar com um sorriso. Erienne só conseguiu uma careta desinteressada. A governanta censurou-a: — Senhora, se me permite dizer, já vi coisa melhor numa ostra em água fervente. Tessie abafou o riso com a mão, e Erienne corou. Tentou ou tro sorriso, com os dentes apertados, e Aggie desistiu e foi até a porta. — Se é o melhor que pode fazer, acho que tem de servir. Erienne ficou constrangida. Como o principal objetivo de Aggie era a continuação de linhagem dos Saxton, Erienne começavva desconfiar que ela pouco se importava com seu problema e só pensava em fazer com que ela agradasse lorde Saxton. Logo depois, teve a certeza de que a governanta fazia tudo para conseguir uma convivência harmoniosa e íntima entre os dois. A carruagem, carregada com a bagagem, estava na porta, e lord Saxton combinava com Tanner o caminho que fariam. Assim que Erienne apareceu, lorde Saxton, olhando para ela, esqueceu completamente sua conversa com o cocheiro. Entretanto, não foi isso que a convenceu das intenções de Aggie, mas o fato de Tessie subir de imediato para a boléia. com um manto grosso de lã nos ombros, a criada acomodou-se ao lado de Bundy. Erienne lançou um olhar interrogativo para o marido, certa de que Tessie estava seguindo ordens dele. Interpretando mal a pergunta silenciosa, ele disse: — Vai precisar dos serviços de Tessie na casa dos Leicester. — com uma risada zombeteira, acrescentou: — A não ser, é claro, que me permita ajudá-la a tomar banho. Erienne, resolvida a não dar a ele a satisfação de vê-la corar, sugeriu rapidamente: — Sem dúvida, milorde, a jovem pode partilhar conosco o conforto da carruagem. — Oh, não, senhora. — Tessie balançou a cabeça satisfeita, ajeitando a capa. — Aggie me fez prometer que eu viajaria aqui, Com Tanner. Erienne franziu a testa, vendo outra confirmação das intenções de Aggi e prometeu a si mesma modificar essa situação na primeira parada. Sem dúvida a jovem estaria mais disposta a aceitar seu convite, depois de viajar por algum tempo espremida entre os dois homens. Dessa vez, quando subiu na carruagem, Erienne escolheu onde queria sentar-se. Só então o marido, tirando o manto negro, entrou também. Recostando nas almofadas, ele estendeu o pé defeituoso para o lado, encostando a perna esquerda na dela. Erienne olhou furtivamente para baixo e percebeu que a perna era longa, magra e musculosa, em nada diferente da outra. As botas iam até os joelhos, escondendo qualquer defeito que pudesse haver, e embora as abas do casaco estivessem para trás, os quadris estavam recobertos pelo colete comprido. Tentando evitar o contato, Erienne encostou no canto da carruagem, mas a cada


solavanco escorregava para o lado dele. Lorde Saxton não fez nenhum esforço para se afastar, e durante um longo tempo Erienne lutou para manter o equilíbrio. — Isso é tolice, sabe? — Finalmente a voz cavernosa quebrou o silêncio. — Tolice, milorde? Ele sequer tinha se dignado a olhar para ela, e Erienne, intrigada, observou o perfil da máscara. — Esse esforço contínuo para evitar contato. Isso é tolice. Erienne não podia negar a verdade daquelas palavras. Era mulher dele e algum dia teria seus filhos, por mais desagradável que fosse essa idéia. Resistir ao inevitável era o mesmo que nadar contra a caudalosa corrente de um rio. Algum dia teria de desistir e deixar que a força das águas a levasse para onde quisesse. Durante aquele breve tempo de convivência, Erienne aprendera Que a sensatez era essencial para tratar com lorde Saxton. Por pior que fosse sua aparência, sua mente não era aleijada e parecia ler com extrema facilidade os pensamentos dela, o que era uma desvantagem, uma vez que Erienne nada sabia sobre ele. Pensou então que, para sobreviver àquele casamento com a sanidade intacta, precisava começar a aceitálo como um homem e, talvez, então pudesse conhecê-lo como marido. Olhou rapidamente para ele. Precisava aprender muita coisa sobre o marido e para isso devia usar uma forma mais pragmática de aprendizado e procurar se informar, uma vez que não conseguia ler seus pensamentos. Cheia de medo, respirou fundo e, um tanto trêmula, tocou no assunto que a intrigava. — Milorde, fico pensando como pôde sobreviver ao fogo. Não sobrou nada daquela parte da casa, a não ser cinzas e entulho, o que parece indicar que foi um incêndio de grandes proporções. Tenho tentado, mas não consigo imaginar como conseguiu escapar,.. — Não sou um fantasma, madame — respondeu ele, em tom seco. Nunca acreditei em fantasmas, milorde — murmurou ela. — Também não acredita que eu seja um homem de carne e osso. — Depois de um longo silêncio, perguntou: — Tem medo de ver um monstro deformado na sua cama, madame? Erienne corou muito. Olhou para as mãos enluvadas cruzadas no seu colo e disse, em voz baixa: — Não tive intenção de irritá-lo, milorde. — Toda recém-casada tem curiosidade de conhecer o marido. A senhora tem mais razão do que todas as outras. —- Estou curiosa.,. — começou ela, hesitante. — Não por me preocupar em ir para a cama com o senhor, mas... — Percebendo que suas palavras podiam ser malinterpretadas, abaixou a cabeça e ficou calada. Exatamente como ela esperava, ele não perdeu a oportunidade. — Se é assim, madame, talvez me receba de boa vontade no seu quarto esta noite. Ficarei mais do que satisfeito em provar que sou um marido capaz. Posso pedir só um quarto para nós na estalagem e nos aqueceremos mutuamente durante a noite. — Eu...preferia não fazer isso, mi lorde — disse ela, num murmúrio tenso. .A cabeça encapuzada inclinou-se de leve para a frente. — Como quiser, meu amor. Esperarei sua decisão. Erienne não ousou externar seu alívio com um suspiro. Às vezes é mais seguro


ignorar certas coisas, e ela resolveu não mais perturbar o silêncio por iniciativa própria. Quando se aproximaram da ponte de Mawbry, Erienne voltou a atenção para as pessoas que, debruçadas na amurada, pareciam observar alguma coisa no rio. Quando a carruagem entrou na ponte, eles abriram caminho, mas uma pequena carroça bloqueava a outra extremidade. Curiosa para saber o que estavam olhando, Erienne sentou-se na beirada do banco. Procurou um rosto familiar e depois olhou para os homens de pé na margem mais distante do rio. Arregalou os olhos quando viu o que despertava a curiosidade deles. Um homem estava deitado de costas, ao lado do regato, com os braços grotescamente abertos. Estava coberto de sangue da cintura até a cabeça, e os olhos abertos fixavam-se no céu cinzento. Mesmo na máscara macabra, Erienne podia ver o grito de horror que não chegara a passar dos lábios deformados. Ela encolheu-se no banco e fechou os olhos, levando a mão trêmula aos lábios, lutando contra a náusea. Lorde Saxton, vendo a palidez da mulher, inclinou-se para ver o que provocara aquela reação. Depois de verificar o motivo, recostou-se outra vez nas almofadas e bateu com a bengala na portinhola do teto. A porta se abriu, e o rosto de Bundy apareceu. — Sim, milorde? — Veja se consegue descobrir o que aconteceu e quem é o pobre-diabo — ordenou ele. — Imediatamente, milorde. Depois de falar com várias pessoas na ponte, Bundy chamou Ben, que se apressou a dar informações. — É Timmy Sears. Alguém o espetou —- disse Bundy —, depois cortou sua garganta, para terminar o serviço. Sua pobre viúva está na estalagem agora e ela jura que a última vez que viu Timmy ele estava se preparando para lutar contra o anjo da morte, na sua própria casa. Um cavaleiro noturno, vestido de negro. — Maldição! Erienne voltou-se surpresa para o marido, ouvindo a imprecação em voz muito baixa. Ele apertou o cabo da bengala com tanta força que os dedos se desenharam sob a luva de couro. Erienne lembrou-se das ameaças que ele fizera a Timmy Sears e imaginou se esse era seu método de tratar bandidos e desordeiros. Não sabia se aquela reação era de sentimento sincero pela morte do homem ou um disfarce para esconder a culpa de assassinato. — Diga a eles para chamar o xerife — ordenou lorde Saxton bruscamente. — Depois, arranje alguém para tirar aquela carroça do caminho. — Sim, milorde — disse Bundy, fechando a portinhola. Lorde Saxton segurou a bengala com as mãos e recostou-se no banco. Embora a máscara fosse inexpressiva, Erienne sentia a tensão, e só depois que a carroça foi retirada e a carruagem seguiu seu caminho, teve coragem de perguntar:


— Está zangado porque mataram Timmy Sears? — Ummm — rosnou ele. Erienne não podia dizer se aquilo significava sim ou não. Trêmula e inquieta, tentou outra vez, certa de que seria atormentada por suspeitas se não soubesse a resposta. — Falou com Timmy... sobre o que aconteceu ontem? A máscara voltou-se para ela e a empalou com os olhos penetrantes. — O assassinato não faz parte da justiça, madame. Eu não o matei. Foi uma resposta lacônica e final, e Erienne encostou-se no banco, sem ousar dizer mais nada, nem mesmo pedir desculpas. Já arriscara muito. Lorde Saxton virou-se para a janela. Erienne não tinha alternativa senão fazer o mesmo e admirar a paisagem. A noite estava perto quando a carruagem parou na frente de uma estalagem. Erienne hesitou visivelmente quando lorde Saxton ofereceu a mão para ajudá-la a descer e os dedos de aço, sob a luva negra, fecharam-se delicadamente sobre os dela. Erienne desceu e sem soltar os dedos que segurava lorde Saxton olhou demoradamente para a mulher. Sem poder controlar o tremor do corpo todo, ela ergueu os olhos para a máscara, procurando descobrir sua intenção, mas no lusco-fusco não podia ver os olhos. Ele respirou, como se fosse dizer alguma coisa, mas depois soltou a mão dela e balançou a cabeça, com um gesto delicado, convidou-a a acompanhar Bundy. Os poucos fregueses na sala comum da estalagem ficaram em silêncio quando lorde Saxton entrou, acompanhando a mulher. Uma quietude de morte envolveu a sala até que um homenzinho meio bêbado, com roupas extravagantes, bateu com a caneca vazia na mesa, pedindo outra cerveja. Como não foi atendido, levantou-se, puxou o colete para baixo e depois de dar alguns passos de lado conseguiu se voltar em tempo de ver Erienne caminhando para a escada. Esquecido da sua missão, ele a examinou dos pés à cabeça. O brilho dos seus olhos traía seus pensamentos, acentuados pela imitação grotesca de um sorriso libidinoso. Ele fez uma mesura, exagerada e deselegante, convencido de estar sendo gracioso e cortês, — Minha bela senhora,. — disse o homem, galantemente, procurando erguer o corpo. As pernas não responderam de forma adequada e, perdendo o equilíbrio, o galanteador balançou erigosamente num pé só, antes de despencar sobre uma cadeira. Depois de um instante, ergueu os olhos mas o que viu foram as costas da capa de lorde Saxton em vez da bela mulher. O homem piscou algumas vezes, depois as pálpebras ficaram imóveis e fechadas no rosto gorducho. Quase no mesmo instante, ele começou a roncar. O jantar foi servido no quarto de Erienne, e lorde Saxton ficou com ela até Tessie começar a preparar a cama. Para alívio de Erienne, ele despediu-se por aquela noite. Os passos pesados ecoaram no corredor vazio, e logo depois ela o ouviu abrir e fechar a porta do quarto. Depois que Tessie saiu, Erienne ficou por longo tempo sentada na frente do fogo, olhando para as chamas, tentando se convencer de que não tinha motivo para temer o marido. Se, por um esforço da vontade, controlasse seus temores e se entregasse a ele como prometera, talvez, depois do primeiro choque, suas apreensões se acalmariam. Mas naquele momento o corpo mutilado de Timmy Sears perturbava seu pensamento, e sabia que ia levar muito tempo para se livrar daquela lembrança. A estalagem ficou silenciosa quando os hóspedes se retiraram para a noite. Quando


se deitou, Erienne ouviu outra vez o ruído surdo dos passos do marido. Depois o silêncio voltou, e ela deixou que o sono a libertasse dos pensamentos perturbadores. A noite estava em meio quando ela ouviu os passos outra vez. Uma pancada surda e o pé arrastado, depois a leve batida à sua porta. Por um momento, Erienne ficou confusa. Tirada de um sono pesado, sua mente não estava ainda vivendo a realidade. Bateram outra vez e, sobressaltada, Erienne despertou de todo, certa de que era lorde Saxton. Só podia pensar em um motivo para aquela visita. Trêmula, levantou-se da cama. Esforçando-se para aceitar seu destino, vestiu o robe apressadamente, e o tremor das mãos, quando acendeu a vela que estava sobre a lareira, traduzia seu nervosismo. Sem precisar de nada que lembrasse seu pavor, pôs a vela na mesa. com os nervos à flor da pele, atravessou o quarto, imaginando as coisas mais horríveis. Outra batida, e mordendo o lábio ela parou perto da porta para reunir toda a coragem que ainda podia ter. Mal a chave girou na fechadura, a porta foi empurrada violentamente, atirando-a para trás. com uma exclamação abafada, Erienne percebeu seu engano. Não era seu marido, mas o bêbado da sala comum. Só com os calções justos, meias e uma camisa de mangas largas, aberta, mostrando o peito flácido, ele encostou no batente da porta, erguendo na mão uma garrafa de vinho. — Ei, mocinha. — Balançou a garrafa para tentá-la. — Trouxe uma coisinha que você vai gostar antes de passarmos para coisas mais sérias. — Rindo, ele entrou e fechou a porta com o pé. Erienne recuperou a calma quando viu que a hora da sua execução não estava próxima, mas por precaução recuou, avisando-o voz firme: — Não estou sozinha. Meu marido está no quarto, no outro lado do corredor. — Sim, eu vi o bobalhão e pensei que você precisava de boa companhia esta noite. — Ele riu e dobrou os braços, mostrando os músculos. — Se eu não pudesse dar uma sova em gente igual a ele, devia estar dormindo no túmulo. — Se não desistir dessa bobagem, ele pode providenciar isso. -. É um ótimo atirador. - Ora! Eu estarei longe antes que ele consiga se levantar da cama. — O homem pôs a garrafa de lado e olhou para ela com expressão faminta. Encolheu a barriga pendente e puxou a camisa para fora do calção justo. — Quer saber, se seu marido fosse um homem de verdade, estaria aqui com você. Eu nunca deixaria uma coisinha tão linda sozinha, nunca mesmo. — Se não sair, eu vou gritar — exclamou ela, ofendida com a audácia do homem. — Ora, deixe disso, patinha. — O homem não deu a menor importância à ameaça. Estava certo de que ela ia gostar do que lhe podia oferecer. — Não precisa ficar nervosa. Só quero o que mereço, e depois vou embora. Não vou fazer nenhum mal a você, exceto alguma pequena marca de uso. Atirou-se para ela, mas Erienne tinha prática em evitar aquelas investidas e desviou o corpo agilmente. Antes que ele pudesse repetir o ataque, apanhou o atiçador da lareira e bateu com ele no traseiro do intruso, atirando-o contra a parede. com um berro de dor, ele girou o corpo, massageando o lugar atingido. — Oh, então quer brincadeira bruta, é isso? — Olhou furioso para ela. — Muito bem, o velho Gyles pode ser tão bruto quanto a dama desejar. Abriu os braços e lançou-se para ela, com vingança nos olhos e na voz, mas Erienne ficou impassível. com um gesto e uma expressão de desafio, ela o enfrentou,


sacudindo o atiçador na frente do corpo, e recuou devagar. De repente, percebeu que estava encostada na cama, encurralada pelo agressor, Gyles riu satisfeito e deu o bote. Erienne foi mais rápida. Agachou-se e girou para o lado, evitando os braços dele, mas o atiçador voou da sua mão antes que pudesse usá-lo outra vez. Gyles caiu em cima da cama, ricocheteou uma vez no colchão e ficou de pé outra vez. Erienne começou a se aproximar da porta. O homem estendeu o braço e a segurou pela gola do robe. Ela não perdeu tempo. Tirou rápido o robe, deixando-o na mão do atacante. Erguendo os olhos atônitos do robe vazio, Gyles viu o corpo delgado, mal coberto pela camisola diáfana, correndo para a porta. com um brilho lascivo nos olhos, ele avançou, ignorando o lençol, que se enrolou nos seus pés. Erienne ouviu o baque surdo e, voltando-se rapidamente, jogou os cobertores da cama em cima dele. As imprecações abafadas encheram o quarto, enquanto ele se debatia, emaranhado nas cobertas. Erienne correu outra vez para a porta. Quando Gyles conseguiu livrar a cabeça só viu a bainha da camisola sumindo no corredor. Resmungando uma ameaça, ele se levantou e cambaleou atrás dela. Erienne parou indecisa no corredor. Por mais que o temesse, lorde Saxton era o único a quem podia recorrer. Ouviu os passos incertos do homem atrás dela e, tomando uma decisão, atravessou o corredor. Depois de bater, ela girou a maçaneta e entrou intempestivamente no quarto do marido. A escuridão era quase completa. Só um raio de luar entrava pela janela, o suficiente para delinear o homem, que se levantou da cama, completamente nu. Erienne parou, confusa, sem saber o que fazer ou para onde ir. O bêbado resolveu o problema para ela. Entrou no quarto, viu a silhueta contra a luz da janela e estendeu os braços para agarrá-la. Não viu o vulto enorme que se movia nas sombras. Gyles mergulhou, e Erienne girou o corpo para evitá-lo, mas caiu de joelhos, e o homem segurou as costas da sua camisola. No momento em que a fazenda delicada começou a rasgar na frente, um rugido selvagem fez o assaltante parar, surpreso. Gyles gemeu quando a mão forte segurou seu pulso e logo o punho fechado atingiu violentamente sua barriga. Quando dobrou o corpo, com as mãos na barriga e gemendo de dor, um joelho nu acertou seu queixo, atirando-o de costas no chão. Ele rolou e às cegas rastejou para a porta, até chegar ao corredor e parar, soluçando de alívio por ter-se livrado daquele demônio. A porta do quarto bateu com força e Erienne segurou as duas partes da camisola, quando o marido claudicou para ela. A luz fraca da lua espalhava mais sombras do que claridade, mas uma réstia de luz opaca iluminou o corpo dele, da cintura até a metade da coxa, mostrando a Erienne mais do que ela queria ver. Os quadris eram delgados, a barriga musculosa e, apesar da sua inocência, teve a impressão de que ele era tão homem quanto se pode desejar. A reação dele fez o sangue subir quente e rápido ao rosto de Erienne. Desviando os olhos, ela se levantou, grata à cortina de cabelos que cobria o rosto corado. Ele inclinou-se para ajudá-la, com uma das mãos na cintura dela. Erienne retesou os músculos defendendo-se do contato, mas o calor da mão dele atravessou a fazenda fina da camisola. — Você está bem? — A voz, murmurada, não tinha o som rouco e sibilante provocado pela máscara, mas assim mesmo parecia o estranhamente tensa. -Erienne, evitando olhar para ele, disse:


— Desculpe a intrusão, milorde. Ouvi uma batida na minha porta e, pensando que era o senhor, eu abri. — Não precisa se desculpar, madame. Compreendo muito bem por que o homem fez isso. Sem dúvida, é um prêmio raro, madame, e não posso me sentir ofendido por sua boa vontade em me admitir no seu quarto. — Acariciou as costas dela sobre a fazenda transparente e, embora permanecesse imóvel, Erienne sentiu que todos os nervos do seu corpo estavam tensos. — Quer ficar aqui, comigo? Ela mordeu o lábio. Aquele era o momento para desistir de qualquer recusa, mas, por nada do mundo, conseguia dizer a palavra de consentimento. Mesmo depois de vê-lo despido e saber que o cor. pó dele era, pelo menos em parte, perfeito, a certeza do horror não visto ainda a apavorava. — Eu... eu prefiro voltar para o meu quarto, milorde... se não se importa. A mão foi retirada das costas dela. — Então, se quiser esperar um momento, madame, vou informar o estalajadeiro da disposição desse homem para atacar seus hóspedes. Ele apanhou o robe dos pés da cama e vestiu. Erienne ergueu os olhos, mas ele estava na sombra, e ela continuou na mesma incerteza. Pensou logo que era melhor assim, pois podia se arrepender se visse o rosto deformado. Ele pôs a máscara, calçou as botas e as luvas, antes de passar para o pequeno raio de luz que entrava pela janela. Foi até a cama e puxou as cobertas. É melhor se agasalhar enquanto espera, — Vendo a hesitação dela, zombou: — Certamente não se opõe a usar a cama que acabo de deixar? Sem nenhum comentário, ela subiu para a maciez morna das cobertas e lembrou imediatamente do perfume que sentira quando acordou pela primeira vez na cama dele, em Saxton Hall. O perfume agradável e muito leve provocou seus sentidos agora, como naquele dia. Tinha uma estranha e indefinível qualidade, como a vaga lembrança de outro tempo e outro lugar. Mas Erienne não podia dizer quando nem onde. QUANDO a carruagem entrou na estrada particular que levava à imensa propriedade dos Leicester, Erienne pensou que o marido certamente tinha amigos influentes. Tudo era muito bem cuidado e em perfeita ordem, o oposto do terreno quase selvagem e escarpado que circundava Saxton Hall. A mansão era imponente e luxuosa, e Erienne agradeceu a Tessie, que insistiu no vestido de veludo vermelho. Assim que se aproximaram da casa, lorde Saxton disse: — Embora deteste a minha aparência, madame, posso garantir que os Leicester são pessoas excepcionais. São velhos amigos da minha família, e prezo muito sua amizade. Há várias coisas que preciso pôr em ordem, e eles me têm dado conselhos preciosos e assistência valiosa para esse fim. Um mordomo, com peruca branca, casaco vermelho e calções brancos, recebeu-os na porta e apanhou seus agasalhos. Foram conduzidos imediatamente à sala de estar, onde o marquês e sua dama esperavam. Erienne ficou deslumbrada com a decoração da casa, mas quando o marquês atravessou a sala e estendeu a mão ossuda para lorde Saxton sua atenção voltou-se para ele e para a mulher pequenina e bem vestida, que parecia relutar em se adiantar, olhando hesitante para o homem mascarado. Cabelos brancos, magro e levemente curvado, o marquês fisicamente parecia ter


muita idade, mas as faces rosadas, os olhos azuis muito vivos e o sorriso espontâneo eram o próprio símbolo da eterna juventude. — É muita bondade sua nos visitar logo depois do seu casamento, Stuart — disse ele, calorosamente. —Eu desejava muito conhecer sua jovem esposa e agora que a vejo compreendo toda a sua atividade febril destes últimos tempos. Lorde Saxton pôs a mão enluvada sob o cotovelo de Erienne. — Deve ser uma febre contagiosa. Tivemos de lutar contra pelo menos um pretendente apaixonado, durante a viagem. Os olhos do marquês cintilaram quando se inclinou para beijar a mão de Erienne. — Suponho que Stuart não se tenha dado ao trabalho de dar qualquer informação a nosso respeito. — Stuart? — Erienne olhou para o marido, indecisa. — Parece que não foi só sobre isso que ele não me informou. — Deve perdoá-lo, minha jovem — disse o marquês, com um sorriso. — As boas maneiras dele foram muito afetadas pela magia da nova esposa. Tenho certeza de que a mãe dele está tão horrorizada quanto você. Mais uma surpresa. Era a primeira vez que ela ouvia falar em um parente vivo de lorde Saxton. Ergueu a sobrancelha para o marido. — Sua mãe? Lorde Saxton apertou levemente o braço dela. — Vai conhecê-la quando chegar a hora, meu amor. — O pai dele e eu éramos como irmãos — disse o marquês. — Sua morte foi uma coisa terrível, extremamente dolorosa. E, é claro, o incêndio da mansão... criminoso! Não descansarei enquanto não encontrar o culpado desses crimes.— Balançou a cabeça, preocupado, e então, com um sorriso, bateu de leve na mão dela. — Você é uma coisinha muito bonita. Tanto quanto a minha Anne. — Estendeu a mão para a mulher, que se adiantou com uma risada e ficou ao lado dele, apoiando a mão longa e fina no braço do marido. — Oh, Phillip, seus olhos o enganam. Nunca fui tão bonita quanto esta jovem. — Segurou a mão de Erienne entre as suas, — Espero que possamos ser boas amigas, minha querida. Anne, durante quase todo o tempo, evitava olhar para lorde Saxton e quando o fazia era com um leve franzir da testa. Isso não escapou a ele. — Anne, será que passou a me odiar durante minha ausência? Ela indicou a máscara com um gesto zangado e respondeu: — Detesto essa coisa. Erienne ficou surpresa com essa reação, mas não teve tempo de pensar no assunto, porque lorde Saxton a puxou para o seu lado. Bateu com carinho na mão dela, impedindo-a firmemente de retirá-la da sua. — Acredite, Anne, minha mulher odeia mais o que está debaixo dela do que você odeia a máscara. — Virou o corpo com uma mesura para a mão que segurava. — Voltaremos para sua companhia logo que os negócios permitirem, meu amor. Deixoa aos cuidados de nossa graciosa anfitriã. com seu passo arrastado, acompanhou Phillip para fora da sala. Anne rilhava os dentes a cada batida e a cada escorregada dos pássos dele. Depois que a porta se fechou, olhou para ela por um longo tempo. Erienne teve a impressão de ouvi-la


murmurar: ”Menino teimoso!” — Madame? Disse alguma coisa? — perguntou Erienne, surpresa. Anne voltou-se para ela com os olhos muito abertos e inocentes e um largo sorriso. — Nada, minha querida. Nada. Estava só falando sozinha. É próprio da idade, você sabe... falar sozinha! — Passou o braço pela cintura de Erienne. — Minha querida, deve estar simplesmente faminta depois da longa viagem e aqueles homens nos trocaram por seus negócios. Vamos comer alguma coisa e depois dar uma volta de carruagem pela cidade. Está um dia maravilhoso, e seria uma pena não fazer nada enquanto esperamos nossos maridos. Se planejarmos tudo a contento, podemos ficar a tarde toda fora de casa. E foi o que fizeram. Erienne foi entretida de um modo que jamais julgaria possível para uma estranha. Anne Leicester era tão graciosa e espirituosa quanto boa, e repleta de calor humano. Seu encanto natural era contagioso, e o riso e a alegria daquela tarde libertaram Erienne da tensão. A noite passou numa atmosfera jovial e tranqüila. Na presença do casal mais velho, lorde Saxton parecia menos assustador. Durante o jantar, Erienne conseguiu se manter calma sob seu olhar insistente. Como de hábito, ele não comeu nem bebeu, preferindo jantar mais tarde; por isso podia concentrar toda atenção na jovem esposa. Retiraram-se tarde, e Erienne subiu para seu quarto, aquecida pelo vinho que tomara. O marido acompanhou-a, com seu passo desajeitado, mas as arestas do seu medo pareciam aparadas desde a chegada a Leicester, e o som não provocou os calafrios de costume. Lorde Saxton parecia pouco à vontade, observando o meneio dos quadris e a cintura incrivelmente fina da mulher. Seu controle estava sendo testado muito além dos limites que podia ter imaginado e, certo de que se a visse Despida mais uma vez não Poderia se conter, preferiu ir direto para seus aposentos, ao lado dos dela. Quando se deitou, Erienne pensou demoradamente na proximidade do marido, pois ouviu o ruído dos passos dele até seus olhos se fecharem, cheios de sono. Seus sonhos foram dispersos e passageiros, como as nuvens que perseguiam a lua além das portas da varanda. Em certos momentos, flutuava numa vaga semiconsciência, em outros, mergulhava profundamente no reino de Morfeu, sem saber ao certo onde estava. As sombras dançavam sobre a cama quando a luz prateada da lua atravessava os vitrais das janelas, formando imagens que se confundiam com as do sonho. Um vulto de homem tomou forma na névoa espessa da sua mente, e Erienne esforçou-se para identificá-lo no escuro. Estava parado nos pés da cama, alto e silencioso, o peito forte nu, com o polegar enfiado no cós dos calções justos e o outro braço ao lado do corpo. O cabelo escuro era curto e crespo, o queixo, magro e firme, e Erienne imaginou olhos verdes-acinzentados fixos nela, nas sombras. A imagem ficou com ela, imóvel, sempre a mesma, sempre observandoa. com um suspiro, Erienne virou a cabeça no travesseiro e, no sonho, ele se aproximou. Os dedos desamarraram o cordão da camisola, e ela sentiu as chamas do desejo percorrerem seu corpo, quando os lábios mornos acariciaram a ponta dos seus seios. O calor pulsava em suas entranhas, percorrendo suas veias como óleo em chamas. O rosto pairava acima dela e de repente, reconhecendo o homem dos seus sonhos, ela exclamou com voz abafada: — Christopher! Erienne olhou em volta, procurando enxergar nas sombras e nos recessos escuros do


quarto. Tudo vazio. Nada se movia na quietude da noite, e com um suspiro trêmulo apoiou outra vez a cabeça no travesseiro, intrigada e... desapontada? Tudo não passara de imaginação, contudo, seu corpo jovem correspondera excitado às carícias e aos beijos imaginários. O coração batia forte ainda, e ela levou a mão trêmula ao peito, como para diminuir o ritmo frenético. Depois de mais de uma hora, a pulsação no pescoço voltou ao normal e ela entregou-se novamente aos braços do sono. Os raios do sol, passando pelas portas da varanda, inundava o quarto de luz. Erienne espreguiçou-se no conforto da luxuosa cama, levantando o cabelo longo e espalhando-o sobre o travesseiro. Então franziu a testa, lembrando das aventuras da sua mente enquanto dormia. Nem em sonho podia escapar do ianque. Perturbada com a traição do seu inconsciente, vestiu um robe de veludo, calçou os chinelos e saiu para a varanda. A brisa leve dançava entre as árvores e arbustos, trazendo para ela o frescor perfumado da manhã. Respirou fundo, depois vendo o próprio hálito transformado em vapor assoprou tiras brancas para o ar. O frio pénetrava seu robe, ajudando-a a tirar da mente a lembrança perturbadora dos sonhos. Uma leve rajada de vento levou até ela o som distante de vozes. Olhou para fora e entre as árvores viu o vulto do marido, caminhando entre os jardins bem cuidados. Ao lado dele estava uma mulher com um manto longo e capuz. Era mais alta do que Anne e movia-se com a graça confiante das pessoas bem-nascidas. Erienne não ouvia o que diziam, mas a mulher parecia estar implorando alguma coisa a ele. Uma vez ou outra, ela estendia o braço, num gesto de súplica, e lorde Saxton respondia balançando negativamente a cabeça. Então, a mulher parou de frente para o homem mascarado, pôs a mão no braço dele e falou animadamente por algum tempo. O homem virou um pouco a cabeça, como se não quisesse ouvir, e esperou que ela terminasse. Ele explicou alguma coisa, e a mulher suplicou de novo. Outro gesto negativo, e com uma breve mesura ele arrastou o pé defeituoso e pesado e se afastou. A mulher fez menção de chamá-lo, mas desistiu. Depois de um momento, ela caminhou para a casa, de cabeça baixa. Erienne entrou no quarto um tanto confusa. Evidentemente, as conversas do seu marido não eram da sua conta. Não tinha nenhum direito de fazer perguntas, nem tinha coragem para isso. Mas a cena que acabava de ver despertou sua curiosidade. A mulher não parecia ter medo de lorde Saxton, pois o tocara voluntariamente, o que a mulher dele não fazia. Erienne desceu para o café e ficou mais intrigada quando lhe avisaram que lorde Saxton havia partido. Como estavam em quartos ligados, era muito estranho que ele não a tivesse visitado para avisá-la pessoalmente. — Ele disse quando vai voltar? — Não, minha querida — respondeu Anne. — Mas prometo que não vai ter tempo para sentir sua falta. Vamos a uma reunião esta noite e você estará ocupada demais para pensar no seu marido. Erienne duvidou dessa certeza. Não era fácil esquecer Stuart Saxton. Sua aparência assustadora era como um peso opressivo em sua mente a todas as horas do dia. À noite, quando estava se vestindo para a reunião, um criado entregou uma pequena caixa de seda no seu quarto, informando que era um presente de lorde Saxton. Um


bilhete escrito com letra firme e assinado só com um ”S” acompanhava a caixa, pedindo a ela para, como homenagem à família Saxton, usar o presente na reunião daquela noite. Erienne estranhou a frieza distante com que o marido estava enviando recados e presentes. Não acreditava que tivesse se tornado tímido de repente e temia que essa ausência fosse motivada por um crescente aborrecimento com sua atitude. Pequenos brilhantes e uma grande safira adornavam o fecho do colar, bem como o par de brincos de pérola que o acompanhavam. Era muito mais do que ela merecia, pensou Erienne, quando o sonho da noite anterior voltou à mente como uma acusação. Seria muito melhor para seu casamento se limitasse sua fantasia à esfera conjugal. Para atender ao pedido de lorde Saxton, escolheu um vestido de cetim azul-claro, que complementava as jóias. Um fecho branco com renda delicada costurada com pequenas pérolas circundava seus ombros nus. Pérolas miúdas aninhavam-se nas pregas de cetim da saia. Tessie penteou o cabelo dela para o alto, formando uma massa de pequenos cachos, que caíam suavemente do alto da cabeça, terminando na nuca. Pôs o colar e os brincos e sua imagem no espelho dizia que, pelo menos, não ia prejudicar o nome dos Saxton. Erienne ouvira da mãe histórias sobre as reuniões sociais da elite e estava nervosa com sua primeira experiência. Quando chegaram, Anne a apresentou a vários casais como a senhora de Saxton Hall, explicando alegremente que a mansão ficava tão ao norte da Inglaterra quanto Londres ficava ao sul. com sua conversa animada e inteligente,comoAnne não dava oportunidade a perguntas, e se alguém demonstrava •excesso de curiosidade ela levava Erienne para outro grupo. Ao que parecia, os Leicester conheciam quase todos os presentes, pois o círculo em volta deles crescia cada vez mais. Erienne começou a imaginar quando iam acabar todas aquelas formalidades. Comentários sobre os recentes acontecimentos na França intercalavam-se com as apresentações. Todos estavam revoltados com os massacres de prisioneiros políticos nas ruas de Paris, afirmando, convictos, que coisas como essas não podiam acontecer na Inglaterra. Era chocante o fato de terem aprisionado o rei de França e o que ofendia mais ainda a mente dos ingleses era a quase certeza de que ele seria executado muito em breve. Várias senhoras, ansiosas para falar com Anne, puseram-se na frente de Erienne, separando-a dos Leicester. Sozinha por um momento, aproveitou a oportunidade para olhar em volta. O salão, embora elegante, era um pouco abafado, e Erienne caminhou para as portas de vidro que levavam a uma das pequenas varandas da casa. Estava quase chegando quando um cavalheiro com roupa de cetim segurou-lhe o braço. Surpresa, ela voltou-se e viu lorde Talbot, com um sorriso zombeteiro. — Ora, é Erienne! A doce pequena Erienne! — Parecia muito satisfeito com a própria sorte e mal podia disfarçar a luxúria do olhar com que a examinava de alto a baixo. Minha querida, está simplesmente tentadora, É espantoso o que a roupa certa pode fazer para as pessoas. Erienne tentou soltar o braço delicadamente, mas o homem olhou em volta com expressão autoritária, sem notar as sobrancelhas erguidas da jovem. — Você veio, sozinha? — Oh, não, milorde — apressou-se em informar. — Estou com os Leicester, Nós., bem, nos separamos.


— Quer dizer que seu marido não,., — deixou a frase no meio, repleta de insinuações. — Não — gaguejou Erienne, só então sentindo o peso daquela negligência. — Quero dizer... ele tinha negócios importantes para tratar. Ele estalou a língua no céu da boca, — Tss, Tss, — Torceu as pontas do bigode pequeno e cheio de pomada, franzindo os lábios com desdém. — Que absurdo. Deixar uma mulher tão bonita sem defesa nenhuma. Bem, pelo que tenho ouvido, compreendo a relutância dele em aparecer em público e por que usa aquela máscara horrível, Pobre-diabo! Erienne empertigou o corpo, surpresa com a indignação que sentia. Afinal, lorde Talbot não fizera mais do que repetir seus próprios pensamentos. — Nunca vi nenhuma coisa que prove que lorde Saxton seja menos do que humano, milorde. Talbot abriu o casaco e com uma das mãos na cintura dobrou um pouco o joelho e inclinou-se para ela, nesse processo dando uma espiada nas curvas dos seios da jovem, sob o fecho. - Diga-me, minha querida — murmurou. — Como ele é realmente debaixo daquela máscara? É o monstro horrivelmente deformado que todos imaginam? Erienne ficou rígida, atônita com aquela atitude ofensiva. — Se ele quisesse que todos soubessem, milorde, tenho certeza que deixaria de usar a máscara. — Será possível — Talbot endireitou o corpo e olhou rápido para os lados, depois levou aos lábios um lenço de renda fortemente perfumado, como para abafar uma risada — que nem você sabe como ele é? — Só o vi no escuro — disse ela, assombrada com tanta arrogância. Desejou ardentemente que lorde Saxton estivesse ao seu lado. Tinha certeza de que, só com sua presença, ele silenciaria aquelas insinuações e empalideceria até a cor artificial do rosto do homem. — No escuro, você disse? — Os olhos brilharam como quem compreende. Erguendo o nariz bem-feito, Erienne não respondeu. Não pretendia gratificar a mente mesquinha do homem explicando que o momento a que se referia nada tinha a ver com as intimidades do casamento. Talbot não se deu por achado. O olhar ousado deliciava-se na beleza suave e delicada da jovem. — Há alguma coisa no casamento que sempre acentua a beleza das mulheres. Devo cumprimentar seu marido por seu excelente gosto, pelo menos na escolha da esposa. Entretanto, tenho de censurá-lo por abandonar uma criatura tão encantadora. — Olhou para o salão. — Eu vim com vários amigos, todos cavalheiros finos, é claro. — Empertigou-se, como se o fato de conhecer tais cavalheiros aumentasse sua importância. — Na última vez que os vi, tinham conseguido companhia para a noite e preparavam-se para sair, mas não posso negligenciar meu dever para com Avery e deixar a filha dele desacompanhada, entre estranhos. Não tenho outra escolha, minha querida, terá de vir comigo. — Como eu já disse, milorde, estou muito bem acompanhada — insistiu ela. — Não precisa se preocupar. — Bobagem, menina. — Sacudiu no ar o lenço de renda. — Se estivessem tomando


conta de você, não estaria aqui sozinha. Ora, qualquer aventureiro pode raptá-la sem ninguém perceber. ”Isso é verdade”, pensou Erienne com ironia. De repente, Talbot acenou para alguém, no outro lado da sala e Erienne viu três homens ricamente trajados, cada um de braço com uma mulher. Um deles respondeu ao aceno de Talbot e apontou para a porta com um largo sorriso malicioso. Os três casais então dirigiram-se para a saída. — Venha, minha querida — ordenou lorde Talbot, certo do assentimento dela. Erienne abriu a boca para protestar, mas o dedo sacudido na frente do seu rosto a impediu. — Eu realmente preciso tomar conta da filha de Avery. Não quero saber desse negócio de você ficar aqui sozinha. — Lorde Talbot, não estou sozinha! — exclamou ela. — Certamente que não, enquanto eu estiver ao seu lado, minha querida. — Passou a mão dela por seu braço e começou a arrastá-la na direção da porta. — Quer saber, fiquei muito revoltado quando seu pai resolveu vendê-la em leilão sem me consultar. Tenho certeza de que podíamos ter chegado a um acordo. Erienne tentou resistir o máximo possível, sem fazer escândalo. — Acho que meu pai não sabia que o senhor estava procurando uma esposa. — Deus me livre! — riu lorde Talbot. — A idéia de casamento nunca me passou pela cabeça. — Era a condição do leilão — disse Erienne, enquanto ele a arrastava rudemente pela sala. — Tch, Tch — disse ele, com desprezo. — Por umas cem libras, eu arranjava isso com seu pai. Estavam no hall de entrada e quando chegaram perto de uma coluna esguia, Erienne passou um braço em volta dela. Assim ancorada, libertou o outro braço com um safanão, temendo ter deixado um pouco de pele na mão dele. Talbot ergueu a sobrancelha, surpreso e apressou-se a explicar, num tom conciliatório. — Eu só quis dizer, minha jovem, que você podia ocupar um lugar... muito especial na minha casa. Tenho certeza de que teria preferido isso à sua situação atual. Avery jamais a teria obrigado a casar com aquele animal deformado. O sangue começou a subir do decote de Erienne. Meu marido pode ser deformado, senhor, mas não é um animal. — Minha querida. — com olhos amortecidos, admirou a beleza daquele rosto indignado. — Eu só queria dizer que, se algum dia o horror da sua escravidão se tornar demais para você, podemos arranjar uma boa posição na minha casa. Por mim, não considero o casamento uma mácula, como muitos pensam. — Ele estalou os dedos para o mordomo, que recebia vários convidados. — Minha capa e meu chapéu — ordenou com arrogância —, e a da Lady Saxton também. — Francamente, lorde Talbot — protestou Erienne com veemência. — Não posso ir com o senhor. Eu vim com os Leicester e vão ficar muito preocupados se não me encontrarem. — Acalme seus temores, minha jovem — disse lorde Talbot. — vou deixar um recado informando que você saiu comigo — tranqüilizou-a —, e que será tratada com a


maior atenção. Agora, venha, minha querida, meus amigos nos esperam na carruagem — falou. Segurou o braço dela quando Erienne tentou voltar para a sala, ignorando seus esforços para se libertar dele. — Por favor! — murmurou ela, furiosa. Tentou se soltar dos dedos dele, com medo de provocar a ira de um homem tão forte, mas resolvida a ficar onde estava. — Está me machucando! Um homem que acabava de chegar aproximou-se do mordomo, que estendia as duas capas, a bengala e o chapéu para lorde Talbot. O homem aproximou-se e a capa caiu do seu braço, aos pés dele de lorde Talbot. Ele abaixou-se para apanhá-la e quando se levantou bateu com a cabeça no braço de Talbot com força suficiente para fazê-lo soltar Erienne. Ela foi empurrada para o lado pelo recém-chegado e, aproveitando a oportunidade, ergueu a saia e corréu para o salão, sem olhar para trás. No mesmo movimento, o ombro do homem atingiu as costelas de Talbot e depois o braço colidiu solidamente com o queixo dele. com um sonoro ”clop” a boca de Talbot se fechou e ele cambaleou para trás com seus saltos altos e dourados, batendo contra a parede. Levou a mão à boca ferida e inclinou-se para a frente, girando num pé só, procurando se equilibrar. O outro homem segurou-lhe o braço com força para impedir que ele caísse, com um dos pés acima do chão e um ombro mais alto do que o outro. — Peço desculpas, senhor — disse o homem. Lorde Talbot olhou apavorado para as mãos ensangüentadas — Eu mordi a língua, seu idiota. O homem o soltou, e Talbot quase caiu. Sentiu que o outro o segurava outra vez, agora mais delicadamente. — Sinto muito, lorde Talbot. Espero que não esteja gravemente machucado. Talbot ergueu a cabeça e arregalou os olhos. — Seton! Pensei que fosse um camponês cretino. — A lembrança do braço aleijado de Farrell Fleming passou por sua mente e não tinha nenhuma intenção de arriscar um possível duelo. Christopher virou para o mordomo, pôs a capa sobre a de Erienne, indicando com um gesto que devia guardar as duas. Depois voltou-se para lorde Talbot com um sorriso. — Mais uma vez peço desculpas, lorde Talbot. Devo admitir que meus olhos estavam na dama com quem o senhor conversava. — Era a filha do prefeito — disse Talbot, em tom breve e seco. Olhou para a sala e, não vendo nem sinal dela, resmungou com desprezo. — Ou devo dizer lady Saxton? — Ela é muito bonita. Mas, afinal, espero que lorde Saxton saiba disso melhor do que qualquer outro. — Parece que a riqueza combina com aquela mulherzinha. — Não percebeu o leve descer das pálpebras sobre os olhos verdeacinzentados e com um suspiro resignado aceitou a derrota momentânea. — Um homem que nem pode montar a cavalo, como pode fazer justiça àquela potranca? — Montar a cavalo? — perguntou Christopher. — Isso mesmo! Dizem que o homem é desajeitado até para montar. — Levou a mão às costelas, temendo que alguma estivesse partida. — com licença, Seton, preciso me


arrumar um pouco. — É claro, senhor. — Christopher indicou o mordomo, que segurava uma capa de cetim. — Se está de saída, vai precisar disto. Talbot dispensou o mordomo com um gesto arrogante. — Mudei de idéia. vou ficar mais um pouco. — Sorriu com malícia. — A potranca é fogosa. Deve ser muito divertida numa caçada. Christopher sorriu sem humor. — Ouvi dizer que lorde Saxton é bom atirador. Tome cuidado para não levar um tiro. — Ora! — Talbot levou o lenço aos lábios. — O homem é tão desajeitado que avisa a sua presença a um quilômetro de distância. Erienne, depois de muito procurar, encontrou Anne com um casal numa mesa armada para jogar cartas. O rosto dela se iluminou quando a viu e bateu com a mão na cadeira vazia ao seu lado. — Sente-se aqui, minha querida. Demorou tanto que começamos a nos preocupar. Pedi a Phillip para procurá-la e, agora que está aqui, pode jogar conosco. Erienne não gostava de lembrar o motivo da ruína do seu pai, mas, depois da experiência com lorde Talbot, estava ansiosa para aceitar a segurança da presença de Anne. — Sinto muito, mas não sei jogar. — Triunfo é um jogo muito simples, minha querida — garantiu Anne, alegre. — Pode aprender num instante e depois não vai mais parar. Essa afirmação não contribuiu para mitigar sua aversão pelas cartas, mas, considerando que qualquer coisa seria melhor do que o destino que teria nas mãos de lorde Talbot, concordou em jogar. Começaram o jogo, e embora Erienne procurasse se concentrar nas regras estava atenta a todos que se aproximavam, procurando certificar-se de que nenhum estava vestido de cetim. Depois de jogar algumas rodadas, percebeu, com surpresa, que estava gostando do jogo. Porém, quando Phillip voltou e pediu para falar com a mulher em particular, ficou um tanto apreensiva. Os dois disseram que voltariam logo, e Erienne procurou se controlar. Outra mulher entrou no lugar de Anne, e o jogo recomeçou. A recém-chegada riu, desculpando-se. — Não sou muito boa neste jogo. Erienne sorriu para a mulher elegantemente vestida. — Se fosse, eu estaria com problemas. Os outros dois jogadores trocaram olhares confiantes. O jogo estava para eles. — Sou a condesa Ashford, minha querida — murmurou a mulher, com um sorriso gracioso. — E você é...? — Erienne, senhora, Erienne Saxton. — É muito jovem — disse a condessa, olhando atentamente para ela. — E muito bonita. — Permita-me retribuir o cumprimento — disse Erienne, com simplicidade. A condessa devia ter entre cinqüenta e sessenta anos, mas sua beleza serena não fora ainda tocada pela idade. — Podemos começar? — sugeriu o único homem do grupo. — É claro — concordou a condessa, apanhando suas cartas. Erienne devia jogar primeiro e estudou atentamente as cartas, quando sentiu que


alguém estava atrás da sua cadeira. com o canto dos olhos, viu uma perna vestida com calça preta e o pé com sapato também preto. Ficou tranqüila. Uma vez que não era lorde Talbot podia se concentrar no jogo. Insegura ainda, não queria errar e segurou com certa hesitação o valete de ouros, considerando os prováveis efeitos daquela escolha. — É melhor jogar o rei, senhora — aconselhou o homem, atrás dela. Erienne ficou imóvel por uma fração de segundo, ouvindo a voz familiar. Seu coração começou a bater selvagemente, e ela corou. Não precisava ver o rosto para saber quem estava de pé atrás da sua cadeira. Sentia a presença dele com todas as fibras do seu corpo e, apesar do choque, um calor reconfortante a envolveu. Atribuiu à sensação de segurança que lhe infundia a proximidade dele, embora a idéia contrariasse suas experiências anteriores com Christopher Seton. Ergueu os olhos para ver se alguém notara seu embaraço. A condessa voltou-se para ela com seu olhar bondoso e sorridente, disse: — Sua vez, minha querida. Erienne examinou as cartas. Seu pai era testemunha da habilidade de Christopher no jogo e podia confiar no seu conselho.Devolveu o valete às cartas que tinha na mão e jogou o rei. Uma Espada foi jogada e quando terminou a rodada Erienne ganhou a partida. A condessa Ashford disse, rindo suavemente: — Senhor, acho que é melhor tomar meu lugar. Sempre preferi ver as pessoas competindo entre elas e não contra mim. — Muito obrigado, madame. — Christopher sorriu para a condessa e, puxando uma cadeira, sentou-se ao lado de Erienne. — Espero ser digno da sua confiança. — Não tenho dúvida de que será, senhor. O olhar de Erienne para ele foi breve e gelado. A lembrança da intrusão em seu sonho tornou-se mais viva. Christopher estava muito belo, vestido de seda azulescura e uma impecável camisa branca. Christopher inclinou a cabeça, num cumprimento, acariciando-a com os olhos. — Boa noite, minha senhora. Erienne respondeu secamente. — Senhor. Ele se apresentou aos outros e começou a embaralhar as cartas. Os dedos finos e bronzeados moviam-se agilmente, e Erienne pensou que seu pai devia ser cego, ou um tolo, para não perceber que o homem era um jogador. Mas talvez Avery estivesse ocupado demais com a própria trapaça para notar qualquer outra coisa. — O que está fazendo em Londres? — perguntou ela, cuidando para dar um tom amável à voz. — Pensei que estivesse em Mawbry, ou em Wirkinton... ou era outro lugar qualquer, Christopher começou a dar as cartas, sem desviar a atenção de Erienne. Ela estava linda e seus olhos deliciavam-se na perfeição dos seus traços. — Eu não tinha nenhum motivo para ficar, uma vez que você não estava mais lá. Erienne olhou rápido para os parceiros. Estavam atentos às cartas. A condessa tomava um xerez e parecia distraída. Erienne aproveitou para franzir a testa, numa advertência. Ele sorriu, mostrando os dentes incrivelmente brancos, e apontou para as cartas dela. — Acho que é sua vez de jogar, senhora.


Erienne procurou se concentrar no jogo, mas sem resultado. Resolveu não dar nenhum lance para não cometer nenhum erro. — Eu passo. — Tem certeza? — perguntou Christopher, solícito. — Sim, tenho — ignorou o olhar zombeteiro. — Desse modo não pode ganhar — observou ele. — Além disso, eu esperava um desafio maior da sua parte. — Então, por que não faz o lance? — Ela ergueu a sobrancelha bem-feita. — É o que vou fazer — respondeu ele, informando sua escolha aos outros dois jogadores. — Três. — Quatro — respondeu o homem, com um sorriso satisfeito. A mulher balançou a cabeça e o lance voltou para Christopher. — Não vai ser fácil para mim, senhor — disse ele. — Cinco. — É muito ousado nos seus lances — observou Erienne. — Quando posso — concordou Christopher, percebendo o duplo sentido da observação. — Não desisto facilmente e tomo a iniciativa quando acho que posso ganhar. — com as cartas, ao que vejo — disse ela. — com tudo, minha senhora. Erienne não ousou contradizer a afirmação. Se estivessem sozinhos talvez o fizesse lembrar que, depois de pedir sua mão em casamento, ele aceitou o resultado do leilão como um rato de igreja que tivesse invejado o pedaço de queijo de um rato mais decidido, para depois seguir seu caminho, satisfeito por receber o dinheiro que lhe deviam. Procurando anular o lance ambicioso de Christopher, ela prestou atenção ao jogo. Ele saiu com um ás de espadas e esperou que os outros jogassem. O outro homem jogou um rei com um gemido de frustração. — Sorte a sua que não tenho mais espadas. Então, Christopher ganhou o valete de Erienne com uma dama. Seu dez de espadas liquidou o resto do naipe nas mãos dos outros, mas, por segurança, ele jogou um nove. Erienne deixou para o fim o ás de ouros, esperando encontrar uma falha na estratégia dele. Christopher jogou, com um largo sorriso para ela. — Um ás de copas, minha senhora. Tem alguma coisa melhor? Sem comentar, ela jogou o ás de ouros, com um gesto irritado. Ele apanhou as cartas alegremente. Aceitou o prêmio dos outros dois e quando eles se voltaram, para falar com a condessa, olhou para Erienne com um sorriso malicioso. — Acho que me deve um prêmio, minha senhora. Ou prefere abrir um crédito? — O quê? Para depois dizer que eu devo mais do que isso? — declinou ela, com desprezo, estendendo a ficha de madeira. — Definitivamente, não! Christopher suspirou com exagerado desapontamento. — É uma pena, Eu estava ansioso para cobrar a dívida mais tarde. , — Como sempre — murmurou ela. Christopher inclinou-se para apanhar a ficha. — Não pode me culpar — disse em voz baixa, acariciando-a com os olhos. — Sempre põe à prova o meu controle, minha senhora.


— Controle? — Ela ergueu a sobrancelha delicada, — Não me lembro de ter visto algum sinal dele. — Madame, se pudesse ver, ia pensar que sou um patife. — Exatamente o que penso. — Suponho que seu marido não a deixou vir desacompanhada. - Esperou ansioso pela resposta. — Pode ficar descansado, senhor. Desta vez vim com os Leicester— Eu estava esperando um golpe de sorte, mas acho que tenho de aceitar os fatos. — Levantou-se e estendeu a mão. — Gostaria de brindar esses camponeses ricos com uma amostra de beleza real. Os Leicester certamente não se importarão que se divirta, e a música é muito convidativa. Quer me dar o prazer desta dança, minha senhora? Uma negação irônica chegou aos lábios dela, mas a música que vinha do salão de dança era tentadora. Por um breve momento, Erienne imaginou-se nos braços dele, seguindo os passos da contredanse. Aprendera a dançar com professores particulares, na escola e com a mãe e até aquele momento poucas tinham sido as oportunidades de pôr em prática essa habilidade. Corando de prazer antecipado, não teve forças para recusar o momento nem o braço que ele oferecia. Levantou-se e apoiou a mão levemente no braço dele. Sorrindo, Christopher pediu licença aos outros, com uma breve inclinação de cabeça para a condessa. com a mão sob o braço de Erienne, levou-a para o salão. Quando entraram na contredanse, Christopher fez uma mesura e o brilho dos olhos dele acelerou o coração de Erienne. Respondeu com uma mesura quase exagerada, sentindo-se positivamente malcomportada. Era uma mulher casada, na verdade, e ali estava com um homem que devia ser o conquistador mais cobiçado de Londres. Sentiu uma pontada de remorso lembrando o rosto mascarado de lorde Saxton, e imaginou o que ele podia achar de uma mulher casada que se divertia como uma moça solteira e despreocupada, num salão de dança, nos braços de um homem como Christopher Seton. — Dança divinamente, minha senhora — observou ele, passando por ela. — Posso saber com quem aprendeu? Algum belo pretendente, eu suponho. Erienne olhou para ele de soslaio, com as pálpebras quase fechadas. Ele gostava de provocá-la, lembrando o tipo de homens que haviam se interessado por ela. — Especialmente minha mãe, senhor. — Uma grande dama, sem dúvida. Herdou dela sua beleza? — Sou uma espécie de curiosidade na família. — Esperou que ele chegasse perto dela outra vez e continuou. — Minha mãe era loura. com um sorriso zombeteiro, ele observou: — Na verdade, não se parece nada com seu pai. O riso subiu aos lábios dela como uma fonte de água clara, fresco e cheio de vida, leve e sonoro, passando pela mente de Christopher como um regato, levando com ele todos os pensamentos, exceto um. Seu desejo por Erienne era cada vez mais real e premente e não via nenhum meio de satisfazê-lo. Quando terminou a contredanse, lorde Talbot apareceu ao lado deles, quase como num passe de mágica e parando com imponência na frente de Erienne começou a se desculpar, ignorando completamente Christopher.


— Eu a ofendi, senhora, e peço desculpas. Sua beleza fez de mim um atrevido descuidado e rude. Estou perdoado? Erienne sentiu-se tentada a recusar as desculpas, mas pensou nas possíveis conseqüências para os Fleming e os Saxton. O poder do homem já se fizera sentir muitas vezes no norte e devia ser considerado. Friamente, ela aceitou as desculpas. — Então, vai me dar o prazer da próxima dança. — Estendeu a mão, na expectativa. Christopher não fez um movimento, mas Erienne percebeu a frieza dos olhos verdes. Lorde Talbot era bem capaz de insistir se ela recusasse, e certamente Christopher não se impressionava com a importância do homem. Para evitar um possível confronto, aceitou. Lorde Talbot ergueu a mão para que os músicos tocassem uma valsa, uma dança escandalosa, que aparecera fazia quase um século na corte de Viena, mas vista ainda com reserva por muitos na Inglaterra. Erienne, consternada, sentiu uma das mãos do homem na sua cintura e a outra segurando seus dedos. Deu os primeiros passos com o corpo rígido, num movimento mecânico, rmas o ritmo da música logo aliviou parte da tensão. — É muito graciosa e bela, senhora — comentou Talbot. Viu Christopher, que os observava, com os braços cruzados no peito. Talbot teve a impressão de que o ianque não pretendia perder de vista a mulher, nem por um momento. -— Conhece bem o Sr, Seton? Erienne não confiava em Talbot, mesmo tratando-se do homem, que ela tantas vezes dissera que odiava. — Por que pergunta? — Eu estava imaginando por que ele está aqui. Ele tem algum título? — Não que eu saiba — respondeu ela, sentindo a mão dele subir por suas costas. — Em geral essas reuniões são só para nobres e fidalgos rurais — disse Talbot, com arrogância. — Certamente foi convidado por algum desavisado. Erienne, com um gesto decidido, fez com que a mão dele voltasse para sua cintura e respondeu: — Os Leicester disseram que as reuniões estão ficando menos formais e que qualquer cavalheiro educado e rico pode comparecer, com convite. — Sim, é verdade, e não me agrada aceitar a presença de homens comuns. Não conhecem as graças sociais. Ora, o modo como aquele homem entrou aqui, empurrando-me e me agredindo. vou ficar dolorido por uma semana. — Christopher? — Isso mesmo. O palhaço atrevido — disse Talbot com desprezo e com uma careta de dor, porque sua língua estava sensível ainda. Erienne olhou de um homem para o outro, atônita, lembrando da vaga impressão de cabelos escuros e de ombros largos, quando fugiu de Talbot. Teve de conter o riso quando descobriu a identidade do seu protetor. — O homem deve agradecer o fato de não ter sido desafiado para um duelo. Erienne ficou calada, pensando que Talbot fizera a escolha sensata para o próprio bem. — Olhe para ele — zombou Talbot. — Parece um garanhão com a rédea entre os dentes. — Intencionalmente a conduziu para perto de Christopher, afastando-a depois. Sentia um estranho prazer em passar com aquele delicioso petisco na frente


de Christopher, talvez pela mesma razão que um adulto segura um brinquedo fora do alcance de uma criança. A comparação de Talbot não estava longe da verdade, pensou Erienne, com as sobrancelhas franzidas. Christopher observava os movimentos dos dois, como se tivesse direito de sentir ciúmes. Antes da última nota morrer no ar, ele estava ao lado dela. — A próxima dança é minha — declarou em tom brusco. Dessa vez quem franziu a testa foi lorde Talbot, quando os dois voltaram para a pista de dança. Imitando lorde Talbot, Christopher fez um gesto para os músicos, pedindo outra valsa. com o braço na cintura dela, olhos nos olhos, ele a conduziu com leveza e graça. Os movimentos dele eram firmes e decididos, sem os passos miúdos de Talbot. Erienne estava muito consciente do braço na cintura e do ombro musculoso sob sua mão. Deslizaram suave e elegantemente pelo salão, despertando a admiração de todos. Formavam um belo casal e provocavam murmúrios e perguntas curiosas. Mas eles dancavam em silêncio. Erienne não podia mais olhar nos olhos dele e resistia quando Christopher tentava puxá-la para ele, consciente do magnetismo do corpo forte e do descompasso do seu coração. — Minha senhora, alguma coisa a contrariou? — perguntou ele, finalmente, com um leve sorriso. Ela pensou na resposta por alguns momentos. Por orgulho, não podia dizer o quanto ele perturbava seus pensamentos, nem que sua calma aparente escondia emoções intensas, provocadas por sua proximidade. Protegendo-se da zombaria dele, resolveu atacar para não revelar sua fraqueza. — Foi muito rude com lorde Talbot. — Rude? — Christopher riu. — O homem estava arrastando-a para fora e posso garantir, minha senhora, sua intenção não era das melhores. Ela ergueu o queixo, revelando o pescoço longo e gracioso enfeitado com o colar de ametista, e apoiou-se mais no braço dele— Ele pediu desculpas e portou-se como um cavalheiro, enquanto dançávamos. — É evidente que precisa aprender alguma coisa sobre a definição de cavalheiro, madame. Lorde Talbot é um libertino de primeira ordem, e aconselho-a a tomar muito cuidado com suas atenções. Ofendida, Erienne virou o rosto e disse, com arrogância; — Provavelmente não é pior do que outros que eu conheço. — Diria o mesmo a lorde Saxton se ele a prevenisse contra o homem? , Erienne olhou para ele e quase parou de dançar. — Sempre fui tão sincera quanto possível com meu marido. — E naturalmente —- disse ele com um leve sorriso —, contou tudo a nosso respeito. Dessa vez Erienne parou, furiosa. Bastava ser atormentada pelos próprios pensamentos e sonhos. Ser provocada por ele, era demais! Acabaria de uma vez por todas com a pretensão daquele homem. — Nós? Diga-me, por favor, senhor, O que há para dizer sobre nós? Ele inclinou-se para a frente e disse: — Se está lembrada, madame, não ficou inteiramente indiferente aos meus beijos. — Oh! — Erienne não conseguiu dizer mais nada. Voltou-se bruscamente para sair da pista de dança, mas, segurando-a pelo pulso, ele a levou, quase arrastando, para


uma galeria pouco iluminada, cheia de folhagens. Quando não podiam mais ser vistos do salão, Erienne puxou a mão, libertando-se e esfregou o pulso furiosa. — Homens! Deu as costas para ele e, embora sentisse intensamente sua presença, tomou uma atitude de frio desdém. O olhar de Christopher suavizou-se, contemplando a beleza do rosto, dos cabelos e a maciez dos ombros. O perfume dela inundou seus sentidos e o desejo ávido pulsou no seu peito. Sentiu uma vontade quase irrefreável de apertá-la contra o peito, um desejo que queimava sua mente. Passou o braço pela cintura fina, puxou-a para ele e murmurou ao seu ouvido: — Erienne, meu amor... — Não toque em mim! — exclamou ela, empurrando-o, sentindo que as palavras penetravam o âmago de seu ser, anulando toda a sua resistência. Trêmula, ela ergueu os pulsos. — Está vendo? Os dois estão machucados. Você não é melhor do que ele. Esta noite fui arrastada de um lado para o outro por dois homens que afirmavam que só desejavam me proteger. Percebendo que estava realmente zangada, Christopher fez uma leve mesura. — Seu perdão, minha senhora. Só tentei adverti-la contra um homem que não tem intenções honestas. — E quais são as suas, senhor? — zombou ela, — Se nos aventurássemos ao calor de um estábulo abandonado, seria capaz de se conter? Ou seria o fim da minha virtude? Ele se aproximou, sem tocá-la, devorando-a com os olhos. — Acertou, madame — disse, com voz rouca e cheia de calor, — Meu maior desejo é tomá-la nos braços e acabar com essa maldita virgindade. Se seu marido não pode fazer isso, então, por favor, permita que eu o faça, mas não desperdice sua beleza com aquele idiota emproado, Talbot, Ele a usaria até se cansar e depois a entregaria aos amigos. Erienne olhou para ele por algum tempo e quando falou foi quase com espanto. — E quanto a você, Christopher? Se eu me entregasse a você seria tratada com honra? — com honra? — Ele respirou fundo. — Doce Erienne, como podia ser de outro modo? Você está sempre nos meus pensamentos, dominando-me, tomando conta de cada fibra do meu ser Estremeço por dentro quando a vejo e, em agonia, desejo a suave carícia da sua mão. Estou completamente dominado por meu desejo e se, por um momento, tivesse certeza de que não me odiaria pára sempre, satisfaria esse desejo esta noite, com sua vontade ou sem ela. Mas prefiro esperar para ouvir meu nome nos seus lábios com palavras de amor e não de ódio. Só isso a livra de mim, Erienne. Nada mais. com suas emoções em tumulto, Erienne olhou para ele, com os lábios entreabertos. Lembrou da noite no estábulo abandonado, dos beijos que venceram sua resistência, deixando-a abalada com a consciência da própria paixão. Tudo voltava agora, e foi dominada pelo medo de que, se demorasse mais um momento, iria desonrar a si mesma, ao seu marido e à sua casa. Deu meia-volta e fugiu, temendo que ele exigisse uma resposta, temendo o que certamente responderia.

Capítulo Treze


com A TESTA na moldura fria da janela, Erienne olhava através dos vitrais. Antes da noite descer, as nuvens já haviam se acumulado e agora formavam uma teia opaca, que escondia o rosto da lua minguante. Ao longe, para o sol, as luzes de Londres tingiam de âmbar as nuvens mais baixas. Uma chuva fina começou a cair, e as luzes distantes desapareceram. Agora só os galhos nodosos dos carvalhos antigos desenhavam-se contra o céu, iluminados pelas lanternas dos estábulos. Além das terras da mansão tudo parecia vazio, sem a menor sugestão das casas espalhadas pela região. Erienne passou a testa na madeira macia da janela, como para aliviar a confusão que fervia dentro dela. Agradecia o fato de lorde Saxton não estar ainda de volta, pois seria difícil esconder sua agitação dos seus olhos penetrantes. Sua respiração embaçava os vidros em forma de losangos, fechando para ela o mundo lá fora. com um gesto de irritação e descontentamento, afastou-se da janela, fechando mais o robe de veludo contra o frio do quarto. Sentou-se num banco baixo na frente da lareira. Só uma vela na mesa-de-cabeceira iluminava o quarto, com sua luz amarelada e fraca, alongando e distorcendo as sombras. Embora cansada depois do dia movimentado, seus pensamentos continuavam num turbilhão de mar revolto, impedindo-a de repousar. As palavras de Christopher recusavam-se a ficar enterradas no fundo da sua mente, como desejava. Subiam à tona como fantasmas transparentes e cinzentos para atormentá-la e tirar-lhe a paz. — Aquele ianque atrevido me ataca de todos os lados — murmurou ela, balançando a cabeça com ansiosa frustração, passando a mão no cabelo. — Sua ousadia não tem limites! Por que não me deixa em paz? Não encontrou a resposta nas chamas dançantes e procurou uma explicação que justificasse o tumulto das suas emoções. — Foi a música — desculpou-se. — O ritmo e a dança me excitaram. Mas as palavras pareciam vazias, sem substância. Foram os braços dele que a aqueceram! A voz dele que a fez estremecer de prazer! A proximidade dele que agitou seus sentidos! Tentou lutar contra o turbilhão de emoções indesejáveis que ameaçavam levá-la às profundezas do desespero. Sentia um tremor no peito que não obedecia ao seu comando. Então, um vulto escuro apareceu, e os fantasmas dissolveram-se ante a presença ameaçadora. A máscara de couro inexpressiva parecia acusá-la. Erienne ergueu a cabeça bruscamente e seus olhos perscrutaram as sombras, onde tantas vezes ele aparecera de surpresa. Levantou-se então e começou a andar com passos nervosos e inquietos, medindo a largura e o comprimento do quarto. Não podia escapar da situação angustiosa. Quanto mais procurava razão e lógica para seus sentimentos, mais aumentava sua confusão e, finalmente, com um suspiro de profunda frustração, tirou o robe e deitou-se na cama, sobre as cobertas. Ficou imóvel, deixando que o ar frio passasse através da camisola, tocando seu corpo. Aos poucos o tremor passou, e acalentada pela quietude serena do quarto ela fechou os olhos. Sua mente vagueou então livremente, girando com a música e estremecendo quando os olhos verde-acinzentados a mantinham prisioneira. O vulto apareceu nos pés da sua cama, mas desta vez ela não podia vislumbrar um rosto na escuridão. A coisa olhou para ela com um sorriso fixo, e olhos vermelhos e brilhantes atravessavam as trevas, paralisando-a de medo. Então, uma acha de lenha caiu na


lareira e na luz breve da chama ela viu os ombros largos, a roupa negra e a máscara de couro do marido. com uma exclamação abafada, sentou-se na cama. O sorriso e os olhos vermelhos eram apenas aberturas na máscara, mas; atemorizada, Erienne imaginou o que ele podia ter visto no seu sono. — Perdoe-me, Erienne — disse a voz áspera. — Você estava tão quieta. Pensei que estivesse dormindo. Não tive intenção de assustá-la. O coração dela não se acalmou. Procurando controlar o tremor da voz, disse: — Demorou tanto, milorde. Eu começava a pensar que tinha me esquecido ou me abandonado. O riso sibilante ecoou no quarto. — Isso é muito pouco provável, madame. Sentindo o olhar sedento, Erienne estremeceu. Estendendo a mão enluvada, ele afastou o cabelo do rosto dela. Eriene ficou gelada. Os dedos desceram pelo braço numa carícia lenta e infindável, e através da fazenda fina ela sentiu o frio estranho do contato. Seu pulso acelerou quando ele chegou mais perto e com um movimento brusco ela saltou da cama. Correu para a outra extremidade do quarto e apanhou a caixinha enfeitada com pedras preciosas, presente de Anne. — Veja isto, milorde — disse, aproximando-se com o braço estendido, sem se importar com a transparência da camisola. Só pensava em evitar as carícias e, se fosse possível, aplacar sua ira. — Não é bonita? Lorde Saxton abriu a caixa de veludo, examinou-a por um momento e depois, sem levantar a cabeça, surpreendeu-a com uma pergunta em voz baixa. — Erienne, será que compreende o quanto a desejo? Quando ele ergueu a cabeça, Erienne olhou para as aberturas da máscara. com os olhos cheios de lágrimas, lutou contra o turbilhão que agitava seu íntimo. Sabia que não tinha direito de se negar a ele, mas também não podia se obrigar a ceder. Não era fácil se libertar do medo do que a máscara escondia. A respiração dele sibilou entre as aberturas de couro. — Não tem importância. Vejo que não está ainda preparada para ser minha mulher. Ela ergueu a mão num gesto de súplica, porém, por mais que se esforçasse, não conseguiu tocá-lo. Não podia pensar nele como marido. Lorde Saxton levantou-se e caminhou com seu passo arrastado até a porta, onde parou e disse, virando apenas a cabeça: — Amanhã preciso tratar de outros negócios. Quando acordar, já terei partido. — Ele saiu e fechou a porta. Erienne ficou parada, sentindo-se infeliz. Seus ombros começaram a tremer, soluços abafados subiram aos seus lábios, e as lágrimas desceram pelas faces. Quando desceu para o café, Erienne, surpresa, encontrou os Lecester na sala, com outro visitante, que logo transformou suas emmoções num emaranhado de sensações. Assim que o viu, alto e belo ao lado da janela, seu coração disparou, e por pouco não deixou escapar uma exclamação de alegria. Então, a ira e o ressentimento cresceram dentro dela, pensando na audácia de Christopher apresentando-se assim aos amigos do seu marido. Anne atravessou a sala e segurou o braço de Erienne, que estava parada na porta. — Venha, minha querida, quero lhe apresentar alguém. Erienne resistiu e, evitando o


olhar zombeteiro de Christopher, disse, em voz baixa: — com seu perdão, senhora, mas o Sr. Seton e eu já nos conhecemos. — Talvez se conheçam — disse Anne, delicadamente. — Mas aposto que nunca foram devidamente apresentados. — Levou a jovem relutante até o homem parado na janela. — Lady Saxton, permita que eu apresente o Sr. Christopher Seton, parente seu, se não me engano. Erienne olhou atônita para Anne, pensando que não tinha ouvido bem e repetiu a palavra: — Parente? — Oh, sim. Deixe-me ver. Os Seton e os Saxton são aparentados de vários modos. — Anne pensou por um momento, depois ergueu a mão, desistindo. — Bem, não importa. O mais recente foi por casamento, e acredito que há um ancestral comum em algum lugar. Isso faz de vocês, no mínimo, primos. — Primos? — Erienne não escondeu o desapontamento, sentindo-se como se acabassem de fechar seu único caminho de fuga. — No mínimo — garantiu Anne. — E, possivelmente, alguma coisa mais também. — Mas ele é ianque! — protestou Erienne. Viu o riso nos olhos dele e a ira a dominou. — Francamente, minha querida — censurou Anne, com suavidade —, nem todos têm a sorte de viver sempre no bom solo inglês, mas não podemos ignorar os laços de sangue. Eu, por exemplo, perdoei completamente minha irmã... — Raam, raam — pigarreou o marquês, interrompendo a mulher, bruscamente. — Não vamos fazer uma revisão detalhada da família, minha cara. Estou certo de que Christopher pode explicar tudo em termos mais simples. — Voltou-se para o visitante. — Na verdade — Christopher ergueu os ombros preguiçosamente — a mãe de Stuart era uma Seton. Sempre fui considerado como um pária pela família, por isso, eles sempre procuram negar qualquer parentesco que eu possa ter. — Acho que compreendo os motivos da família — disse Erienne, com ironia. com um sorriso, ele inclinou a cabeça. — Muito obrigado, prima. - Não sou sua prima — corrigiu ela, em tom seco. — Na verdade, se soubesse que éramos parentes, eu jamais teria consentido no meu casamento. — Quer dizer que ainda não se apaixonou loucamente por Stuart? — perguntou ele. Quando ela abriu a boca para responder, ele ergueu a mão. — Não precisa explicar, prima. Também não gosto muito dele. Nos toleramos só porque a situação exige. Na verdade, parece que existimos só para nos antagonizar mutuamente. Eu invejo sua nova esposa, e ele inveja minha aparência, o que — deu de ombros — nos torna simplesmente incompatíveis. Phillip voltou-se para a mulher, procurando aliviar a tensão. — Acho melhor tomarmos nosso café, minha querida. Temos um programa hoje. — Christopher, queira acompanhar Erienne — pediu Anne, docemente, dando o braço para o marido e saindo da sala. — É claro, madame. — Christopher ofereceu o braço galantemente, ao mesmo tempo pondo a mão dela sobre o próprio braço, antes que Erienne resolvesse o contrário. Ela cedeu para não fazer uma cena, mas olhou para ele furiosa e sibilou:


— Você é ultrajante! — Alguém já lhe disse essa manhã — perguntou ele, ignorando a irritação dela — o quanto está bonita? Erienne levantou o nariz e não respondeu. Mas não conseguiu dominar o prazer provocado por aquelas palavras. Depois de um momento, Christopher disse, acariciando-a com os olhos: — Anne me disse que meu primo está muito apaixonado por você, porém, como não possui uma aparência socialmente aceitável, evita aparecer em público na sua companhia. — Ele sorriu, e Erienne ergueu os olhos, surpresa. — Sendo assim, estou pensando em oferecer meus serviços como seu acompanhante. com um sorriso frio, ela respondeu: — Parece ter planejado tudo muito bem... exceto por uma coisa. Não tenho intenção de ir a lugar algum com você. — Mas precisa de uma companhia adequada — insistiu ele. — Obrigada por seu oferecimento, mas acho que prefiro me arriscar sozinha. Parece mais seguro. — Os Leicester têm um compromisso esta manhã e uma vez que Stuart não está aqui, pedi permissão para acompanhá-la num passeio pela cidade. Erienne abriu a boca, surpresa com a ousadia dele. Desconfiou que Christopher preparava uma armadilha e estava resolvida a evitá-la. — Eu preferia recusar o convite, senhor. Ele não se deu por achado. — Achei que ia gostar de sair um pouco, mas se prefere ficar aqui comigo, tenho certeza de que podemos fazer alguma coisa, enquanto os Leicester estão fora. — Olhando para ela de soslaio, esperou a reação. com os olhos azuis chispando de raiva, Erienne compreendeu que caíra na armadilha. Sabia do perigo de ficar em casa sozinha com aquele ianque conquistador. Quando os Leicester voltassem, teriam sérias dúvidas quanto ao estado da sua virtude. Primo ou não, seria difícil acreditar que tivesse resistido às propostas amorosas de Christopher. — Sua persistência me espanta, senhor. — Simplesmente sei o que quero, isso é tudo. — Sou uma mulher casada! — disse, furiosa. — E acha que não sei? Depois de segurar a cadeira para ela, Christopher sentou-se no outro lado da mesa. Para Erienne, a presença dele era tão perturbadora quanto a do marido, quando assistia a suas refeições. com aqueles olhos fixos nela, era como se estivesse sendo devorada em vez de estar saboreando a deliciosa comida. Logo depois do café, os Leicester, desculpando-se, saíram, e Erienne não teve escolha senão aceitar o convite de Christopher. Ele devia ter gasto um bom dinheiro para alugar a luxuosa carruagem. Galantemente, ele a ajudou a subir. — Como prezo sua companhia, madame, procurarei me comportar do melhor modo possível — disse, sentando-se ao lado dela. — Se não se comportar, meu marido vai saber, senhor — avisou ela, secamente. Ele riu. — Tentarei lembrar de tudo que minha mãe me ensinou sobre decoro e boas


maneiras. Erienne girou os olhos para cima, incrédula. — Acho que vai ser um dia muito interessante. Recostando-se no banco, Christopher disse: — Devo começar dizendo que estou muito honrado com o privilégio, madame. É uma mulher excepcionalmente bela, e é um prazer vê-la nesses trajes elegantes. Pelo menos Stuart não é mesquinho. Christopher tinha razão. Lorde Saxton era mais generoso do que a maioria dos maridos. O que aumentava seu sentimento de culpa por não retribuir de nenhum modo a tanta generosidade, nem mesmo concedendo seus direitos de marido. Erienne alisou a saia de seda creme, sentindo-se uma verdadeira dama. A blusa do vestido, verde-esmeralda, era como um colete curto, mas de gola alta e mangas longas e largas. O chapéu de veludo, escolhido por Tessie, era enfeitado com pufes de seda, com uma fita de seda creme passada sob o queixo e caindo sobre o ombro. Era uma combinação de estilo e bom gosto, duas coisas que faltavam aos Talbot, mas que era evidente em tudo que Erienne vestia e usava. Havia muito tempo ela deixara de lado sua péssima opinião sobre os ianques, mas continuava a suspeitar que sua ousadia não tinha limites. — Seria impróprio se eu perguntasse para onde está me levando? — perguntou Erienne, com uma sugestão de ironia. — A qualquer lugar que a senhora desejar. Podemos começar com Vauxhall Gardens. — Acho que não estamos na estação apropriada — comentou Erienne. Christopher olhou para ela, surpreso. — Conhece Vauxhall Gardens? — Minha mãe me levou lá várias vezes. Ele tentou novamente. — Podemos tomar chá na Rotunda. — Será que está muito diferente? — Esteve lá também — disse ele, um pouco desapontado. — Ora, Christopher — riu ela, percebendo o desapontamento. — Eu morei em Londres. Na verdade, não me lembro de nada que não tenha visto. Ele pensou por um momento, e depois sorriu. — Tem uma coisa em Londres que ainda não viu. Erienne olhou intrigada para ele, quando Christopher abriu a portinhola atrás do cocheiro e deu uma ordem. Depois, com um sorriso confiante, recostou-se no banco. — Vai demorar algum tempo, minha senhora. Pode relaxar e aproveitar a viagem. Não era fácil para ela seguir essa sugestão, e Erienne concluiu que era impossível esquecer a presença dele, tanto quanto a do marido. Não ficava à vontade com um nem com o outro, embora o contraste entre os dois fosse como o dia e a noite. — Você conhece bem Stuart? — perguntou Erienne, resolvendo que a conversação era melhor que o silêncio. Apesar da promessa de se comportar como um cavalheiro, Christopher aproveitava a oportunidade para observá-la com atenção. — Tanto quanto qualquer outra pessoa, eu acho — respondeu ele, — Mas, na verdade, ninguém o conhece bem. — Sabia que Timmy Sears está morto? Ele inclinou levemente a cabeça. — Ouvi dizer.


— Stuart pareceu ficar... bem, aborrecido com a morte dele. Christopher demorou um pouco para responder. — Talvez ele pense na possibilidade de ser acusado desse crime. Alguns arrendatários do seu marido acreditam que foi Timmy Sears quem ateou fogo em Saxton Hall, especialmente por despeito por ter sido expulso das terras de lorde Saxton muitas vezes. Nada foi provado, é claro, mas o homem vivia se metendo em encrencas. Stuart perdeu muita coisa no incêndio. — Você acha que foi Timmy Sears? Christopher deu de ombros e respondeu com cautela. — Já ouvi muitas histórias a respeito. Uma delas, tão aceitável quanto qualquer outra, é a de que talvez lorde Saxton tivesse invadido, sem querer, o acampamento dos assaltantes de estrada e reconhecido alguns deles. O marquês recebeu um aviso nesse sentido, mas antes da chegada das autoridades a nova ala, onde lorde Saxton estava instalado, foi incendiada. - Christopher olhou pela janela e acrescentou; — Ele estava sempre se queixando das correntes de ar naquela velha casa e, agora, acho que tem de agüentar o frio. Erienne percebeu uma imensa tristeza no silêncio dele, inexplicável, a não ser que sentisse pela desgraça do primo. Não combinava com o homem que ela conhecia. — Mas se Stuart sabe quem foi o responsável podia levá-lo à justiça para ser julgado. Outra longa pausa, e então ele respondeu: — Lorde Saxton não é mais o homem de antes. Pensa de modo diferente. Viu o pai ser assassinado, e lembra ainda de se esconder com a mãe, com medo de fazer o menor ruído para não serem mortos. O incêndio da mansão o fez reviver tudo isso. Podemos ver uma longa série de fatos aparentemente isolados, em tudo que aconteceu, desde o assassinato do velho lorde e a expulsão da família da mansão, até o incêndio criminoso e os assaltos que passaram a dominar Cumberland. Talvez Stuart veja um único responsável por tudo e procure fazer justiça meticulosamente, para punir os líderes e os mandantes envolvidos. Erienne pensou demoradamente no que ele acabava de dizer, sem certeza de qual era seu papel nisso tudo. Seu marido seria um homem dedicado unicamente à vingança? Ou estava procurando fazer com que essa vingança fosse mais extensa? Se demorasse mais tempo para ceder ao seu desejo, poderia essa ira se voltar contra ela? — Você sabe por que o pai dele foi assassinado? com um longo suspiro, Christopher respondeu: — É difícil dizer, Erienne. Várias acusações pesaram sobre ele quando tentou fazer a paz com os escoceses nas divisas das suas terras e alguns nobres da corte questionaram sua lealdade por ter se casado com a filha do chefe de um clã escocês. Ao mesmo tempo, um bando de assaltantes de estrada começou a agir no norte, roubando e matando. Muitos acusaram os escoceses, mas o pai de Stuart afirmou que eram bandidos locais. Foi morto antes de provar isso. É claro que culparam os escoceses também por sua morte. — Se tudo isso é verdade, não compreendo por que Stuart voltou para Saxton Hall. — Por que um homem volta ao que herdou dos seus pais? Para limpar o nome da família. Para recuperar seu lugar de senhor das terras. Para vingar o assassinato e a destruição da sua família e punir os responsáveis. — Afinal, vejo que você sabe muita coisa sobre meu marido — observou Erienne.


Christopher sorriu. — Por mais que eu deteste ter de admitir, madame, sou parente do homem e conheço todos os segredos da família. — E a mãe dele? Onde está? — Depois da morte do marido, Mary Saxton deixou o norte com o que restava da sua família. Ficou sozinha por muitos anos. Depois casou com um velho amigo da família. Sem dúvida, fará uma visita a Saxton Hall, depois que o filho puser ordem na casa. Ela não quer interferir antes disso. — Deve ter ficado bastante chocada com o que aconteceu ao filho. — É uma mulher e tanto. Vai gostar dela. — Mas será que ela vai gostar de mim? Uma esposa comprada em leilão? — Posso garantir, minha querida, que não tem nada a temer, Ela já não esperava que Stuart viesse a casar, e como você é especial demais para o filho, vai adorá-la. — Acrescentou, com um largo sorriso: — Se ela não gostar, espero que faça Stuart desistir de você, para que eu possa ter o que desejo. Depois de estar casada com aquele animal, talvez possa me tolerar um pouco mais. — Stuart não é um animal — protestou Erienne, impaciente. — E me desagrada ouvir todo mundo chamando-o desse modo. — Você o defende com entusiasmo. — Olhou para ela atenta mente, — Espero que não esteja se apaixonando pelo homem. — Pelo que ouvi, acho que ele precisa de alguém que o ame e quem melhor para isso do que sua mulher? — Você me entristece, Erienne, Não me dá a menor esperança. — Nem devo dar. Sou uma mulher casada. Ele riu. — Parece que tem um prazer especial em me lembrar disso. — Se não estivesse tão preocupado em receber seu dinheiro, poderia... — interrompeu-se a tempo, percebendo o que ia dizer. Tinha seu orgulho e não queria que ele soubesse as razões do seu desapontamento. Christopher a observou de perto, percebendo o embaraço. — Poderia ter feito o que, minha senhora? Erienne ficou calada. Não pretendia censurá-lo abertamente, mas acreditava que, se Christopher a queria de fato, teria feito alguma outra coisa em vez de aceitar o resultado do leilão. — Poderia tê-la comprado para casar comigo? , — Não seja absurdo — levantou o queixo, sem olhar para ele. — Senhora, será que já esqueceu? Seu pai me proibiu de tomar parte no leilão, — Continuou, sem tirar os olhos do rosto dela: Esperava algo mais de mim? — Digame, por favor, o que mais poderia ter feito? — Continuou com sarcasmo: — Você incentivou meu pai, obrigando-o a um lance mais alto. — Ergueu a mão. — E não perdeu tempo em apanhar o dinheiro quando as moedas estavam sendo contadas. — Madame, será que me culpa por não roubá-la do seu pai e carregá-la para algum vale escondido”? — Havia espanto na sua voz. Indignada, Erienne corou. — Tem razão, não há dúvida. Eu o mereço, mas não pelas razões que supõe.


— Preciso lembrar que a pedi em casamento e foi você quem rejeitou a minha oferta? Disse-me claramente o quanto me odiava. Estava mentindo? — Não! — exclamou, furiosa. — Parece satisfeita com Stuart — começou ele, falando devagar e viu o franzido passageiro das belas sobrancelhas. — Na verdade, prefere um aleijado a mim? O gesto afirmativo foi difícil e breve — Stuart tem sido muito bom. — Inútil como homem — murmurou ele, com desprezo. — Isso não é justo! — exclamou Erienne. Olhou surpreso para ela. — É uma afirmação válida, a não ser que você o tenha mantido à distância. Corando intensamente, ela virou para a janela, sem coragem de olhar para ele. — Como conseguiu isso, madame, francamente não compreendo — disse ele, tomando o silêncio dela como uma afirmativa. — A esta altura ele deve ser um homem atormentado, sabendo que você lhe pertence, mas proibido de tocá-la. Posso compreender perfeitamente seu sofrimento. — Por favor! Não é assunto apropriado, nem mesmo para primos! Chrístopher calou-se, esperando que ela se acalmasse. Quando começou a notar a paisagem outra vez, Erienne percebeu que estavam indo na direção do porto. A carruagem parou, finalmente, para grande alívio dela. Estavam ao lado de um enorme navio de três mastros ancorado muito junto do cais. A figura de proa era uma cabeça de mulher com cabelos ruivos esvoaçantes e o nome CristinQ estava gravado na popa. Christopher abriu a porta e desceu. Apoiando a mão enluvada na dele, Erienne desceu para o chão de pedra do porto. Em silêncio, segurando o braço dela, ele a conduziu entre barris, barriletes e fardos de cânhamo, na direção da prancha de embarque do navio. Havia outros navios no cais, mas nenhum se comparava ao Cristina. Parecia um rei orgulhoso, alto e sereno, entre suas consortes. Um homem com casaco azul chegou até o topo da prancha. Quando viu os dois, ele sorriu e acenou alegremente. Christopher respondeu com outro aceno. — Capitão Daniels, temos permissão para subir a bordo? — perguntou ele. com uma risada rouca, o homem fez um gesto, convidando-os para subir. — Quando quiser, Sr. Seton. O vento despenteou o cabelo escuro de Christopher quando ele tirou o chapéu e disse, com um largo sorriso: — Madame, posso atraí-la para bordo? Erienne olhou para os homens, que, na amurada, olhavam curiosos para os dois. Não podia ouvir o que diziam, mas tinha certeza de que falavam dela e de Christopher. — com tantos para me defender, suponho que não ousaria deixar de continuar a agir como um cavalheiro. Acho que estarei segura no navio. — Madame, se fôssemos deixados numa ilha deserta com esses mesmos homens, tenho certeza de que não resistiriam por muito tempo à sua beleza e dependeria só de mim para sua proteção. Nem sempre há segurança nos números, e às vezes as circunstâncias influem muito nas ações dos homens. O capitão recebeu Christopher com um largo sorriso e um amistoso aperto de mão.


— Bem-vindo a bordo, senhor. Christopher fez as apresentações, mantendo-a muito perto dele. — Erienne, permita-me apresentar o capitão John Daniels, um homem com quem muitas vezes tenho navegado. John esta é a Lady Saxton. Acredito que já me ouviu mencionar seu nome. O capitão Daniels segurou a mãozinha enluvada entre as suas e disse de forma jovial e calorosa: — Pensei que Christopher tinha perdido o juízo quando falava da sua beleza. Fico satisfeito por ver que tudo que ele disse é verdade. Erienne gostou do elogio e agradeceu em voz baixa, até encontrar o olhar penetrante de Christopher. — Este é o seu navio? — perguntou ela, olhando para o mastro mais alto, que se erguia a uma altura incrível, parecendo tocar o céu. Ela abaixou a cabeça bem rápido, esperou que o mundo parasse de girar à sua volta e agradeceu o apoio do braço dele. — Sim, minha senhora — respondeu Christopher. — Este é o maior dos meus cinco navios. — Gostaria de visitá-lo? — ofereceu o capitão. Percebendo o orgulho do capitão, ela riu, alegremente. — Esperava que me convidasse. O capitão Daniels caminhou ao lado deles no tombadilho superior. Um rápido olhar bastou a Erienne para ver que o navio estava muito limpo e em ordem. Desceram para os outros tombadilhos, e Christopher, em silêncio, deixou que o capitão mostrasse o navio. Só um terço da tripulação estava a bordo, e alguns dos homens olhavam diretamente para a bela mulher, enquanto outros lançaram olhares furtivos, mas todos admirando sua beleza. Quando terminaram a visita dos tombadilhos, o capitão conduziu-os à sua cabine onde serviu uma bebida leve. Indicando com a cabeça os dois beliches, um de cada lado da cabine, ele comentou: — Pode parecer um pouco apertado, madame, mas foi aqui que o Sr. Seton e eu passamos muitas horas em alto-mar. — Tem planos para alguma viagem próxima? — perguntou ela, esperando poder disfarçar seu interesse em saber se Christopher logo deixaria a Inglaterra ou não. — Fico à disposição do Sr. Seton, enquanto estamos aqui. Ele resolve quando devemos partir. Erienne ficou atônita. Pensar que todo um navio e sua tripulação dependiam do capricho de um homem era uma idéia extravagante, e ela imaginou o quanto devia custar esse privilégio. Os três almoçaram no navio. O capitão Daniels tinha muitas histórias e casos engraçados para contar, bem como fatos reais. Erienne gostou do humor descontraído dos dois homens e, apesar da sua atitude de reserva para com Christopher, teve de admitir que fazia muito tempo não se divertia tanto. O resto da tarde foi sereno. Vauxhall Gardens era mais próprio para um passeio de verão, mas a quietude do parque num dia de inverno era agradável. Deixou que Christopher a conduzisse pelos pavilhões barrocos e pelos caminhos orlados de árvores. Como prometera, ele se portou sempre como um cavalheiro, com tratamento em grande estilo, fazendo-a sentir-se como a única mulher do mundo. ”No palácio


encantado” da Roíunda o chá era servido em alcovas com teto em arco, em volta do parque, e uma orquestra fazia o fundo musical para uma conversação tranqüila. Foi um dia encantador e com pena Erienne o viu chegar ao fim. No dia seguinte voltaria para Saxton Hall com o marido, e foi com uma sensação de melancolia que viu a carruagem se afastar da mansão dos Leicester, levando com ela seu acompanhante. Na porta, Christopher segurara a mão dela por um breve momento e encostara os lábios no rosto dela num beijo de primos. Foi um contato simples, mas a lembrança durou muito tempo, o bastante para que Erienne não ignorasse o efeito daquela breve carícia nos seus sentimentos. A névoa pairava ainda, teimosamente, nos pontos mais baixos, quando a carruagem dos Saxton deixou a mansão dos Leicester, seguindo para o norte, na manhã fria. O sol, mal atingindo a terra com sua luz, estava envolto em nuvens baixas, rosadas, que acompanhavam a linha do horizonte. A carruagem passou pelas fazendas ao norte do Tâmisa e atravessou pontes de pedra onde o vapor denso se erguia dos regatos e dos pântanos. À medida que o dia se adiantava, o céu ficou cinzento, o ar quase gelado. Cedendo aos pedidos da patroa, Tessie concordou em viajar no interior da carruagem. Embora Erienne compreendesse a timidez da jovem na presença de lorde Saxton, nem os dois homens gordos e grandes que viajavam na boléia podiam dar a ela o calor do interior da carruagem. A jovem criada evitava olhar para lorde Saxton e cochilava no seu canto, enquanto Erienne fazia o mesmo ao seu lado. Ao meio-dia, pararam numa estalagem e, embora estivesse quase vazia, fez-se silêncio completo na sala comum quando lorde Saxton conduziu a jovem mulher a uma mesa. A presença dele sempre garantia um serviço rápido e perfeito, pois todos temiam provocar sua ira. Como de hábito, ele não comeu, e depois de levar Erienne de volta à carruagem, pediu licença e se afastou, por alguns momentos. Estavam na estrada outra vez, acomodando-se para outra longa viagem, quando ouviram um grito distante e a portinhola atrás do cocheiro se abriu. — Uma carruagem vem atrás de nós, milorde — disse Bundy. Grande, com um pequeno grupo de cavaleiros. Lorde Saxton respondeu de imediato: — Não os perca de vista, e no primeiro ponto mais largo da estrada, deixe que passem na frente. — Sim, milorde. — Bundy fechou a portinhola. Erienne não via nada do banco traseiro da carruagem, mas o ruído das patas de cavalos aproximava-se cada vez mais. Tanner diminuiu o passo dos cavalos e, aos solavancos, passou para o lado da estrada. Um chicote estalou, e o ruído metálico dos arreios soou mais forte. Erienne viu primeiro os cavalos, uma bela parelha, dois animais magníficos, perfeitamente idênticos. A carruagem era grande e preta, com cortinas de veludo fechadas. Um cocheiro e um guarda estavam na boléia, e dois cavalariços atrás. Era seguida por oito cavaleiros armados como os homens do rei. Era uma carruagem rica e luxuosa, mas se percebia na porta a pintura nova onde antes havia um brasão de armas. Erienne não compreendeu por que uma casa tão importante escondia o brasão de armas. Certamente não era para evitar a cobiça dos ladrões, com tanta evidência de riqueza. Lorde Saxton não fez nenhum comentário. Sua única reação foi consultar o pequeno


relógio de bolso quando a carruagem passou. Depois, recostou-se no canto do banco, cruzou os braços, como para dormir, mas um brilho casual nas aberturas dos olhos dizia que estava bem acordado. Ao cair da noite, pararam em outra estalagem e todos comentavam a carruagem misteriosa que passara sem parar. Alguns, sem notar o vulto imóvel, na sombra, diziam ter ouvido falar de um lorde no norte, horrivelmente deformado e aleijado, que usava um capacete estranho e não gostava de dizer o próprio nome. Apostavam que ele era o homem da carruagem com as cortinas fechadas. Finalmente, quando viram a máscara sinistra de lorde Saxton, boquiabertos, empalideceram e gaguejaram, confusos. Comentaram, em voz baixa, a beleza da dama. Erienne tinha a impressão que o marido divertia-se com essa reação ao contraste. Mas ele deixava bem claro que ela era propriedade sua, para que ninguém cometesse o erro do aventureiro da viagem para o sul. Uma daquelas mãos enormes e enluvadas nas costas dela dava o recado sem precisar de palavras. Aparentemente a carruagem preta seguia o mesmo caminho que os Saxton, pois ouviram comentários nas estalagens no dia seguinte. Os primeiros flocos de neve que cobriam a estrada mostravam as marcas da sua passagem, mas, à medida que se adiantavam mais para o norte, os sinais desapareceram. O manto branco e frio atrasava o progresso da viagem, e só na noite seguinte deixaram Mawbry para trás. O vulto cinzento de Saxton Hall foi uma visão reconfortante, até para Erienne, tão cansada que mal conseguiu jantar. Na segurança da própria cama, ficou por alguns momentos — quase adormecida — relembrando os acontecimentos recentes. O rosto sorridente de Christopher foi substituído em sua mente pela máscara de lorde Saxton, que ficou com ela até mergulhar num sono pesado que não permitia a invasão de nenhum pensamento frívolo. Antes de uma semana da sua volta, nem um dia passava sem que tivessem notícia de um cavaleiro noturno que rondava as montanhas do norte. As portas das casas, antes nunca fechadas à noite, eram agora reforçadas com trancas de madeira, contra qualquer intruso, casual ou não. Haggard procurou o xerife e, ofegante, falou sobre a coisa que o perseguira durante a noite. Sua afirmação de que, se tivesse a sorte de possuir uma arma, estaria disposto a usá-la contra a criatura, lhe valeu um lugar entre os homens do xerife. A partir desse momento, Allan Parker não podia fazer um movimento sem tropeçar no seu leal ajudante. Depois de perder Timmy, Haggard precisava de companhia e dedicouse completamente a Allan. Sua presença constante era demais para a paciência do xerife. Só uma ordem severa de ”fique onde está” parecia penetrar a cabeça dura do homem.como Christopher Seton retornou a Mawbry, e a notícia da volta do ianque chegou à mansão. Lorde Saxton não parecia disposto a falar sobre ele, mas as jovens criadas comentavam continuamente, às vezes na frente da patroa. Molly começou a falar da mulher que vira com ele na estalagem fazia várias semanas, mas recusava revelar a identidade dela. Como resultado, começaram a ligar o nome de Claudia ao de Christopher, pois ela fora vista em sua companhia uma ou duas vezes. Esses rumores apertavam o coração de Erienne, uma sensação da qual não podia se livrar simplesmente dizendo a si mesma que o odiava. Atendendo ao pedido de lorde Saxton, naquela noite de sexta-feira, logo depois da volta de Londres, Erienne desceu para o jantar com o vestido que usara na noite do


seu casamento. Podia compreender por que ele gostava do vestido. O decote era bastante ousado, e a reação dele, nessa noite, não foi diferente. Lorde Saxton a esperou no fim da escada, com um braço atrás das costas, e observou com atenção sua descida. — Madame — disse a voz rouca e áspera —, é uma jóia rara, uma rosa entre espinhos, e a cada dia fica mais bela. Erienne parou na frente dele e viu os olhos descerem para seu decote e imaginou se o vestido revelava tanto do seu colo quanto na noite do casamento, quando ele parou atrás da sua cadeira. Ficou impassível, sabendo que qualquer tentativa para se cobrir provocaria uma observação zombeteira. — Certa vez eu disse que sua beleza não precisa de enfeites, madame, e embora ainda pense assim acho que um pequeno adereço não vai prejudicá-la muito. — Trouxe para a frente o braço que escondia nas costas, mostrando um colar pesado, engastado com pedras preciosas. — Ficarei muito honrado se usar isto, meu amor. — Olhou para ela, segurando a jóia magnífica. Erienne compreendeu que ele queria sua permissão para pôr o colar no seu pescoço. Fez um gesto afirmativo hesitante, imaginando por quanto tempo poderia suportar o contato das mãos dele. Lorde Saxton, atrás dela, passou o colar pelo pescoço fino e delicado. Inclinando a cabeça para a frente, ela esperou, com o coração aos saltos. — Pode fechar com as mãos enluvadas? — Não se mexa, por um momento — pediu ele, com voz rouca e, atrás dela, tirou primeiro uma luva, depois a outra. Erienne conteve a respiração até sentir os dedos no pescoço, e, depois, quase se encostou nele, aliviada. Eram dedos quentes, humanos, firmes e masculinos. Um leve perfume masculino evolava-se da roupa dele, despertando lembranças confusas e uma estranha sensação de prazer. Erienne tentou definir o que sentia, mas a única coisa de que se lembrou, com alguma clareza, foi a manhã em que acordou na cama dele, depois do acidente com Sócrates. com um leve ruído, ele fechou o colar, e Erienne, esperando que ele se afastasse, sentiu, num sobressalto, os dedos outra vez nas suas costas, agora acariciando suavemente sua pele. Ela virou para trás e olhou para a máscara, encontrando os olhos atrás das pequenas aberturas, com uma expressão interrogativa. — Minhas mãos tremeram à idéia de tocá-la — murmurou ele. — Mas talvez tenha sido um erro. As sobrancelhas delicadas e bem-feitas ergueram-se, numa interrogação silenciosa. — A partir deste momento, talvez eu não possa mais resistir à tentação. Depois de tocá-la, só posso desejar mais. — Fez uma pausa, suspirou pesadamente, como quem enfrenta uma terrível batalha interior. Continuou então com voz tensa e hesitante. — Será que fui um tolo casando com você, Erienne? Talvez você continue a me odiar, ou venha a preferir outro homem. Talvez eu tenha sido injusto para nós dois e só por causa do meu ciúme não a deixo partir. — Milorde, fiz meus votos sabendo perfeitamente o que estava prometendo e determinada a cumpri-los. É meu marido, e só peço algum tempo para dominar por completo a minha mente. compreende que há uma barreira entre nós. Meus temores são tão difíceis para mim quanto as cicatrizes para o senhor, mas, com o tempo, talvez deixem de ser obstáculos. Se estiver disposto a esperar que eu me ajuste à


situação, pretendo ser nada menos do que uma boa esposa... em todos os sentidos. A mão foi retirada das suas costas e ergueu-se, fora do alcance da visão dela, como se quisesse acariciar seu rosto, mas resistiu a esse desejo. Depois de um momento, ele a deixou cair outra vez sobre o ombro de Erienne. Percebendo que ele estava calçando as luvas. Erienne encostou a mão no peito dele, sentindo os músculos firmes sob a camisa. — Está vendo, milorde? Posso tocá-lo agora, sem estremecer. Devagar, para não assustá-la, ele acariciou delicadamente o rosto dela com as costas da mão enluvada. — Minha querida Erienne, sob esta aparência deformada, bate um coração aquecido por sua beleza. A espera é dolorosa para mim, mas suportarei qualquer coisa sabendo que posso ter esperança. — com um gesto galante, ofereceu o braço. — Madame, deve estar faminta, e eu preciso urgentemente de uma sala gelada para resfriar o desejo ardente que me consome. Erienne riu e apoiou a mão no braço dele. — Talvez eu deva usar a máscara, milorde, ou quem sabe um pouco mais de roupa. — Por minha vontade, usaria muito menos — respondeu ele, olhando para a maior esmeralda do colar, aninhada tentadoramente entre os seios bem-feitos, — Mas não posso esquecer os criados. Erienne levou a mão ao colar, sentindo o olhar devorador do marido. - Quando olha para mim desse modo, sinto que decididamente estou com pouquíssima roupa. Ele respondeu com uma risada: — Madame, se olhar merece a forca, então prefiro satisfazer todo o meu desejo e ser atacado por um leão e não por um cordeiro. Estou muito ansioso para reclamar meus direitos de marido, portanto, se por acaso eu interpretar mal sua repulsa e esperar mais do que o necessário, por favor, não deixe de me informar, que responderei de imediato. Erienne sentiu o sorriso que devia ter assomado aos lábios dele e corou. Desviou os olhos, e ouviu o riso atrás da máscara. A outra mão enluvada pousou sobre a sua, apertando os dedos com afeto. Erienne sabia que estava sonhando. Encontrava-se ajoelhada ao lado da mãe, completamente absorta na música que ela, como de hábito, tocava para os filhos, no cravo. A impossibilidade daquela cena a acordou e ela ficou imóvel, completamente confusa, pois o som do cravo pairava ainda no ar, vindo do andar inferior. O instrumento desafinado era tocado com tanta força que ela sentiu um arrepio na nuca. Quase podia sentir a raiva transmitida pela música. Só depois de alguns momentos reconheceu a melodia. Era uma ária antiga, e o refrão, plangente e sentimental, cantava em sua lembrança: ”Oh, meu amor, você me maltrata, desprezando-me tão rudemente.” Erienne levantou-se da cama e vestiu o robe. Não se lembrava de ter visto um cravo na casa, mas muitos cômodos não estavam em uso, e ela não vira todos os tesouros escondidos pelas cobertas protetoras. Seguindo o som violento, chegou a uma ala ainda não habitável. Uma vez no corredor, uma luz fraca a levou à porta entreaberta. Erienne a abriu completamente. Viu um candelabro alto sobre a mesa, no centro da sala, os tocos antigos das velas amareladas acesos, a luz que a guiara até lá. Sentiu um calafrio na espinha. Os móveis estavam ainda cobertos com panos pesados,


exceto um, na outra extremidade da sala. Um vulto de homem, com os ombros e a cabeça na sombra, estava sentado na frente do instrumento, de lado para ela. O capuz de couro e as luvas estavam sobre o cravo e Erienne podia ver o cabelo em desordem que devia ter crescido em retalhos entre as cicatrizes. Ele praticamente atacava o instrumento, procurando transmitir à música sua frustração com o mundo e, Erienne temia, especialmente com ela.


Num impulso quase automático, ela se adiantou devagar e parou de repente quando a música cessou num acorde desafinado, e o homem ergueu a cabeça. Os olhos brilhavam com uma luz feroz, quase insana. — Lorde Saxton? — perguntou ela, num murmúrio medroso. — Afaste-se! — ordenou a voz áspera. — Não chegue mais perto para poupar sua sanidade, mulher. Erienne obedeceu, só então percebendo que deixara os chinelos no quarto. O chão de pedra estava frio, e ela estremeceu. Lorde Saxton apanhou as luvas e as calçou, escondendo as mãos dos olhos dela. Então pôs o capuz de couro, sem amarrar as tiras que o prendiam e levantou a gola do robe. Apoiou as mãos sobre o instrumento e perguntou. — Sabe tocar? Erienne riu. — Sabia, há muito tempo, milorde, e somente algumas peças simples, certamente nada igual ao que estava tocando. com um suspiro ele balançou a mão, num gesto de impaciência. — Não consigo mais tocar como antes. — Tem muita fúria no seu íntimo — disse ela, em tom suave. — Será que além de bela é também vidente, capaz de ler tão bem minha alma? Pela primeira vez Erienne teve a impressão de que podia conhecer uma pequena parte dele. — Não, milorde, mas conheci o sofrimento, a raiva e o ódio e os vi em outras pessoas também. Na verdade... Stuart — não era fácil dizer o nome na presença dele —, nos últimos anos, pouca coisa conheci além disso. Minha mãe era a única pessoa que me amava e há muitos meses ela se foi. Mesmo através da sua máscara, posso ver essas emoções e elas me assustam. — Não precisa ter medo, Não lhe farei nenhum mal. Ela desviou os olhos. — Acredito que sua alma sofre muito mais do que seu corpo cheio de cicatrizes, e por isso sinto pena. Aconselho a guardar sua piedade para uma alma que a mereça, madame. É a última coisa que desejo que sinta por mim. - Stuart... — E lhe peço, madame, cautela quando se dirigir a mim. O uso do meu primeiro nome em público pode provocar sua viuvez de um modo bastante desagradável. — Terei cuidado, milorde. — Erienne deu alguns passos, examinando a sala. — Esta é a sala de música? — Era a sala íntima do meu pai. Ele gostava de ouvir sua mulher tocar. — Parece conhecer muito bem a casa. — Por que diz isso, meu amor? — Há vários dias venho andando por toda a parte e não encontrei nenhum cravo. — Sou um homem normal, disfarçado em animal. Enquanto sonha com a cabeça no seu travesseiro, madame, sou atormentado por visões do que meu coração deseja e vagueio pela casa, em agonia. Qualquer distração é bem-vinda. — Não o censuro por nada, Stuart — disse ela, gentilmente. Ele levantou-se da banqueta e aproximou-se dela. — Madame, tenho certeza de que se esconderia no seu quarto, tremendo de medo, se pudesse sentir a força da emoção que procuro controlar — falou ele.


Lentamente, ergueu a mão e a pôs sobre um dos seios dela. Lutando contra o impulso de fugir, sentiu o corpo todo estremecer ao contato e só com grande esforço ficou imóvel, enquanto o polegar enluvado acariciava o mamilo rosado. Quando ele abraçou sua cintura, Erienne entrou em pânico e, libertando-se do abraço, correu sem parar, até o quarto. Ofegante e com as pernas quase cedendo ao peso do corpo, encostou-se na porta sólida que, mesmo sem ser trancada, a protegera até aquele momento e ouviu o eco cavernoso do riso insano dele.

Capítulo Quatorze A NOITE estava fria e clara como cristal. As estrelas brilhavam como pequenos sóis. No frio cortante do ar, a neve fina rangia sob os pés, e só andando com muito cuidado era possível não ser ouvido. Num pequeno vale, perto do topo de uma colina, fora armado um acampamento onde tudo sugeria intenção de permanência. Iluminado por lampiões, tinha umas dez barracas protegidas do frio com palha e folhas. Na outra extremidade do vale havia uma caverna, cheia de barris de pólvora, caixas de madeira e outros materiais. Ao lado dela estavam amarrados mais de uma dúzia de cavalos. No centro do acampamento, dois homens com agasalhos pesados estavam agachados perto do fogo. — Pobre velho Timmy — suspirou um deles, — Aquele cavaleiro da noite o matou, sem dúvida, Atravessou o peito dele e depois cortou-lhe o pescoço. — Isso mesmo — concordou o outro, tomando um gole de cerveja da caneca de barro, — Aquela cria do demônio, de coração negro, está rondando muito perto. Aquela velha bruxa disse que viu o cavaleiro da noite a cerca de quatro quilômetros ao sul. — Acho bom o capitão procurar outro esconderijo. Num negócio como este, Luddie, não é prudente ficar muito tempo num lugar. — Sim, temos o bastante para um longo descanso. Mesmo descontando o que Timmy gastou com aquela mulher, podemos viver muito bem algum tempo em Carlisle. Lembra, Orton, daquela taverna na rua estreita e da ruiva gostosa que arrumava os quartos? Orton olhou para os rochedos altos que circundavam o campo, depois levantou-se e bateu no chão com os pés dormentes. Virou a cabeça bruscamente para a entrada escura do vale. — Quem está de vigia? Luddie ajeitou-se sob a capa escura. — John Turner está lá. Por volta da meia-noite, ele vai acordar Clyde. — Então eu vou dormir — disse Orton, atirando uma grande tora no fogo. Sempre batendo com os pés no chão, entrou numa barraca e logo apagou a luz. Depois de algum tempo, Luddie levantou-se, tremendo de frio, e fez o mesmo. O acampamento ficou em silêncio. Os lampiões apagaram-se, um depois do outro, e a única luz vinha agora da caverna que servia de estábulo e do fogo bruxuleante. O ruído dos roncos cresceu e ninguém ouviu o gemido baixo de John Turner quando foi atacado pelas costas. Uma corda jogada para o alto e passada por um galho de árvore sibilou no ar frio. O corpo imóvel de John Turner subiu, amarrado pelos pés, e


balançou na brisa leve como um pêndulo, com os estalos do galho marcando a passagem do tempo. Um vulto negro e indistinto surgiu da escuridão, na entrada do vale. Parou na borda do círculo de luz do fogo, e as chamas iluminaram vagamente o vulto negro encapuzado e o enorme garanhão que ele montava. Como a sinistra calmaria que precede a tempestade, o cavaleiro fantasma esperou, com a imobilidade da morte. Então, estendeu o braço e atirou no fogo uma tora enorme, amarrada numa corda. A tora, uma árvore seca, quase do tamanho de um homem, crepitou, estalou, incendiou-se com chamas enormes e brancas. O falcão da noite virou o cavalo, sem se importar agora com o barulho. Puxou a corda, e o tronco em chamas subiu para o ar. com um grito trovejante, ele esporeou o cavalo grande e forte, passando a correr em círculo, arrastando a tora chamejante. A fogueira móvel saltava, girava, batia num obstáculo, saltava outra vez, como uma criatura selvagem na ponta da corda. Fagulhas enormes voavam em todas as direções e as barracas de lona pegaram fogo imediatamente. O cavaleiro passou por todas elas, incendiando-as. O acampamento dissolveu-se num caos de chamas e gritos. Homens corriam em confusão para fora das barracas, gritando, batendo com as mãos no fogo das roupas, tentando freneticamente salvar a péle, o cabelo ou qualquer outra parte do corpo livre ainda das chamas. O cavaleiro da noite cavalgou para a caverna e atirou a tora ardente sobre os pequenos barris, alinhados no fundo, contra a parede. Os cavalos relincharam, em pânico, e arrebentando as cordas que os prendiam fugiram, escoiceando e saltando no meio dos homens desnorteados. O velho Clyde estava quase na entrada quando parou, apavorado. Deu um grito, e a neve derretida nas suas botas o impedia de correr. O garanhão negro ergueu as patas dianteiras na frente dele, com o cavaleiro envolto no manto negro e a espada desembainhada na mão. O vulto sinistro deu uma gargalhada e, mais tarde, Clyde jurava que saía fogo dos olhos dele. — Assassinos e os outros da sua laia não encontrarão refúgio nestas montanhas! Eu os transformarei em cinzas onde quer que estejam, até que se espalhem e fujam para salvar suas vidas! Cuyde fechou os olhos com força e esperou. Tinha certeza de estar morto, trespassado pela espada, sem ter tempo para sentir. De pois de um momento, abaixou os braços, que protegiam a cabeça, e abriu os olhos. Foi abaixando devagar o pé, até sentir o solo, e seu queixo quase caiu. O vulto desaparecera, deixando apenas o eco da sua risada dominando a gritaria no vale. Clyde virou para trás e viu mais dois homens boquiabertos. com a mão trêmula, apontou: — Vocês viram... — A voz cheia de medo se embargou, e ele tentou outra vez. — Vocês viram aquilo? Eu o enfrentei e ele fugiu. Procurou ansiosamente por uma arma para provar o que dizia. O poste de uma barraca surgiu como por milagre na sua mão, e ele o brandiu satisfeito, aliviado por ainda estar vivo. No acampamento, alguém disparou um mosquete e a bala ricocheteou numa rocha, desaparecendo na noite. Então, uma voz gaguejou, trêmula de medo. — O fogo! Os barris de pólvora! Estão em chamas!


Como para provar essa afirmação, uma luz clara encheu a caverna e uns vinte barriletes em fogo desceram a encosta para o vale. Os cavalos corriam para todos os lados, e as barracas e roupas queimadas eram um monte de entulho molhado pela neve derretida, no meio das rochas. Os homens procuravam abrigo ou cavavam com as mãos trincheiras rasas para se proteger dos barris e da pólvora, que pareciam persegui-los. A cerca de um quilômetro do acampamento, um cavaleiro vestido de negro parou no meio de uma ponte baixa e olhou para trás, para o caos provocado por ele. Uma rápida série de clarões iluminou o céu. As chamas subiam em arcos perfeitos e caíam espocando, enquanto uma manada de cavalos fugia num galope desenfreado na colina distante. Mesmo de onde estava, ouvia os gritos de raiva e de dor. O cavaleiro da noite riu satisfeito. O acampamento ficava a mais de cinco quilômetros do abrigo mais próximo, e uma caminhada na noite de inverno ia dar a todos eles muito tempo para pensar. Os aposentos de lorde Saxton ficavam na frente da mansão, e das janelas de vidro em forma de losango via-se perfeitamente a estrada que atravessava o vale, até a entrada da torre. Erienne foi com Aggie ao quarto do marido, para ver se precisava de mais móveis ou outra coisa qualquer. Era a primeira vez que entrava ali. Os aposentos eram um pouco menores do que os seus. A privacidade para o banho e a toalete era protegida por uma alcova separada e no quarto tudo estava em perfeita ordem. Os pés da cama grande, com dossel, estavam voltados para a lareira, na frente da qual havia duas poltronas elizabetanas e uma mesa pequena. Ao lado da janela e na parede oposta havia dois guarda-roupas, trancados, um de frente para o outro. A mesa de trabalho ficava sob as janelas, para aproveitar melhor a luz e sobre ela estava um livro grosso encadernado em couro e uma lâmpada a óleo. Aggie apontou para o livro e disse: — Lorde Saxton tem aqui o registro de todos os seus arrendatários. Nele vai encontrar datas de nascimentos e mortes de todas as pessoas que já moraram nas terras dos Saxton. Algum dia, senhora, as datas dos nascimentos dos seus filhos serão anotadas no livro de sua senhoria. Erienne não tinha certeza de gostar da idéia, mas não podia culpar o entusiasmo da mulher sempre que se falava na continuação da família. Começava a aceitar o fato da lealdade irrestrita de Aggie a lorde Saxton, e, como se fosse mãe dele, era completamente cega para sua aparência. O mesmo não se podia dizer da esposa e, agora, nos aposentos dele, mesmo sabendo que o marido partira fazia uma hora, não se sentia inteiramente à vontade. Lorde Saxton a assustara tantas vezes, aparecendo de repente, que Erienne nunca sabia ao certo onde ele podia estar. Fora ao quarto dele quase com relutância, mais por que não podia evitar essa visita sem provocar a curiosidade dos criados. — Está chegando uma carruagem, senhora — disse Aggie, olhando pela janela. Erienne olhou também. Ficou apreensiva quando reconheceu a carruagem, imaginando o que lorde Talbot podia querer e a quem estaria procurando. Ela esperou perto da janela até a carruagem parar, sem nenhuma intenção de descer às pressas para recebê-lo. A lembrança da sua conduta na reunião não a animava a suportar aquela visita sem a presença de lorde Saxton. — Veja, senhora... — Aggie inclinou-se para fora quando viu a saia rodada na porta


da carruagem. — É a Srta, Talbot. Minha nossa, o que será que ela quer aqui? A expressão de surpresa de Erienne foi logo substituída por uma de desalento. Preocupada com a própria aparência, alisou a frente da saia. Estava vestida para trabalhar em casa e se preservar do frio, mas rejeitou a idéia de trocar a roupa simples por um dos belos vestidos dados pelo marido só para impressionar aquela mulher. De certo modo, isso lhe parecia pretensão e vaidade. com um último olhar para o quarto, decidiu que um tapete na frente da lareira ia contribuir para melhorar o conforto dos aposentos do marido. Enquanto descia a escada, sentiu que sua relutância em se encontrar com Claudia era quase a mesma que teria em se encontrar com lorde Talbot. A amizade de nenhum dos dois a interessava. Claudia estava sentada na poltrona de lorde Saxton, ao lado da lareira, quando Erienne entrou. Depois de examinar rapidamente a sala, Claudia olhou com um sorriso de desprezo para o vestido simples de lã de Erienne. — Está com ótima aparência, Erienne — observou. — Pensei que tivesse envelhecido pelo menos uns vinte anos depois do casamento. Disfarçando a vontade de rir, Erienne perguntou: — O que a fez pensar isso, Claudia? Bem, ouvi dizer que lorde Saxton é um verdadeiro monstro, que é simplesmente horrível. Erienne sorriu com condescendência. — Veio satisfazer sua curiosidade? — Minha cara Erienne, vim para lhe oferecer minhas condolências. — Quanta bondade, Claudia — respondeu Erienne, docemente. — Mas está cometendo um engano terrível. Meu marido está muito vivo. — Pobre Erienne — suspirou Claudia, fingindo preocupação. — Admiro a sua coragem. — Inclinando-se para a frente na poltrona, perguntou: — Diga-me, ele bate em você? Ele a maltrata? O riso sincero de Erienne foi resposta suficiente. — Oh, Claudia, acha que pareço uma mulher espancada? — Ele é tão feio como dizem? — Na verdade, não posso responder a isso. — Erienne deu de ombros e com um gesto calmo indicou a mesa ao seu lado, para Aggie, que entrava com a bandeja do chá. Claudia olhou para ela, espantada. — Meu Deus, Erienne, por que não? — Por que nunca vi o rosto do meu marido — respondeu, simplesmente. — Ele usa uma máscara. — Mesmo na cama? As xícaras bateram nos pires, e Aggie quase deixou cair a bandeja. Recobrando a calma, deixou a bandeja onde Erienne mandara e perguntou: — Isso é tudo, senhora? Erienne agradeceu a distração, por mais breve que fosse. Dava tempo para controlar a ira que despertavam nela as perguntas indiscretas de Claudia. — Sim, Aggie, obrigada. Só Erienne viu o olhar de desprezo de Aggie, antes de sair da sala. Erienne voltou-se


para Claudia outra vez, agora com um sorriso realmente divertido. — Nunca vi o rosto do meu marido, em nenhuma ocasião — disse, servindo o chá. — Ele prefere assim. Claudia aceitou a xícara de chá e recostou-se na cadeira. — Deve ser bastante perturbador não saber como é o rosto do seu marido. — Deu uma risada nervosa. — Imagine, nem à luz do dia pode reconhecê-lo sem a máscara. — Muito ao contrário. Estou certa de que reconheceria meu marido em qualquer lugar. Ele tem uma perna defeituosa. — Oh, minha querida, é mais horrível do que eu imaginara. Um homem horrendo! Ele come como um cão, ou você tem de dar na boca? A fúria tomou conta de Erienne e ela deu de ombros, procurando falar calmamente: — Meu marido é um cavalheiro, Claudia, não um animal. A mulher riu com desprezo. — Um cavalheiro? Minha querida Erienne, você sabe o significado dessa palavra? — Mais do que você, talvez, Claudia. Já conheci os piores homens, e isso me ensinou a julgar um homem por seu comportamento e não pela forma do seu nariz. Meu marido pode não ter os traços delicados de uma doninha alimentada com leite, mas na verdade é muito mais cavalheiro do que muitos que conheço. — Se se orgulha tanto dele, Erienne, talvez queira exibi-lo num baile que vamos dar. Sem dúvida ele se sentiria mais à vontade num baile de máscaras, mas vai ser uma coisa muito mais fina. Meu pai pediu-me para estender o convite a você e ao seu... ah... marido. — Olhou rapidamente para Erienne. — Espero que você encontre alguma coisa apropriada para vestir. Uma porta se fechou atrás de Erienne, e o passo pesado de lorde Saxton atravessou a sala. Claudia arregalou os olhos para o vulto enorme que se aproximava. Erienne voltou-se quando o marido parou ao lado da cadeira dela. — Senhor, eu não o esperava tão cedo. — Temos uma visita — disse ele, com sua voz áspera e forte, esperando as apresentações. Claudia continuou olhando para ele, boquiaberta, pela primeira vez incapaz de dizer uma palavra, enquanto Erienne os apresentava. — Fomos convidados para um baile, milorde. — Oh? — Os olhos escondidos desceram para a mulher, que engoliu em seco. — Esse baile será num futuro próximo? Claudia balançou a cabeça afirmativamente e disse, nervosa. — Bem... ah... sim... daqui a duas semanas. Lorde Saxton olhou para Erienne. — Madame, tem algum vestido apropriado? Erienne sorriu. — Sim, qualquer um dos muitos, senhor. — Então, não vejo por que não pode ir ao baile dos Talbot.


Claudia levantou-se e, levando ao pescoço a mão com unhas perfeitamente manicuradas, disse hesitante: — Eu... preciso ir agora, mas informarei meu pai da sua presença no baile. — Tinha a impressão de que os olhos atrás das aberturas da máscara podiam ver as profundezas da sua alma, onde havia muita coisa que ela preferia esconder. A vontade quase insuportável de gritar fez tremer sua voz, e ela disse apenas: — bom dia para ambos. Claudia correu para a porta, sem olhar para trás. — Volte sempre, Claudia — disse Erienne, em tom suave. — Talvez quando possa se demorar um pouco mais. — Dominou o riso até ouvir a carruagem se afastar da casa, então, recostou-se na cadeira, rindo muito. — Meu caro Stuart, viu a cara dela quando entrou na sala? Ficou simplesmente apavorada! — Meu caro Stuart — repetiu ele, com uma risada. — Uma frase que meu coração desejava ouvir. Posso ter esperança de que começa a gostar de mim? Erienne respondeu timidamente. — Pelo menos, já não tenho tanto medo quanto antes. — Então, talvez eu deva ser grato à sua amiga por melhorar minha situação. Erienne franziu o nariz com desprezo. — Desculpe, senhor, mas ela não é minha amiga. Veio me visitar porque ouviu falar a seu respeito e precisa de alguma curiosidade para animar seu baile. Muita gente diz que somos parecidas, e acho que ela não gosta de mim por isso. Lorde Saxton inclinou-se para a frente, apoiando a mão na bengala. — Madame, antes de sofrer este acidente, eu era considerado um grande conquistador. Na minha opinião experiente, aquela jovem é muito invejosa, o que é bem pior do que ter ciúmes. — Mas Claudia tem tudo — objetou Erienne. — Não tudo, meu amor, e vai precisar muito mais do que a beleza para ser feliz. — Fez uma pausa, e quando Erienne olhou para ele, continuou: — E você, meu amor? O que mais precisa para ser feliz? Ela abaixou os olhos confusa e muito corada. As palavras corajosas ditas um dia para Aggie escondiam-se agora sob um muro de incerteza e medo. Dissera que queria um homem simples, igual aos outros, pelo qual pudesse sentir alguma afeição, mas não adiantava sonhar com o impossível. Devia se contentar com o fato de póder olhar para o marido sem sentir um arrepio de medo. Pensava ainda na visita de Claudia, quando outra carruagem se aproximou da mansão, no dia seguinte. Era quase meio-dia quando Aggie entrou bufando na sala íntima do velho lorde, onde Erienne estava limpando cuidadosamente o cravo dourado. Duas criadas tiravam o pó da sala e com o trabalho das três o estúdio começava a readquirir sua antiga elegância. — Se meus olhos não me enganam, senhora, a carruagem de aluguel de Mawbry está vindo para cá. Eu a vi uma ou duas vezes e é um milagre que aquele velho coche possa ir a qualquer lugar. — Mawbry? — Erienne passou as costas da mão na testa, sem perceber que estava deixando uma linha escura de fuligem na pele clara. — Quem pode vir nos visitar de Mawbry? Aggie ergueu os ombros gorduchos.


— Seu pai, talvez? Quem sabe está com saudades. Mais provavelmente sem dinheiro, pensou Erienne, limpando as mãos no avental. — vou descer. — Desculpe, senhora, mas não é melhor se arrumar um pouco? Não quer que seus parentes pensem que é tratada como uma criada. Erienne viu que o vestido e o avental estavam sujos. Começou a desamarrar o avental enquanto corria para a porta. — Você viu lorde Saxton? — Quando me levantei esta manhã, sua senhoria e Bundy já tinham saído, senhora, e ainda não vi nenhum dos dois. — Se lorde Saxton voltar, por favor, informe que temos outra visita. — Sim, senhora. Farei isso. Erienne subiu a escada e corria para o quarto quando viu lorde Saxton vindo da ala leste. Quase passou por ele antes de perceber quem era. Lorde Saxton a segurou pela cintura, fazendo com que se voltasse para ele. — Madame, onde vai com tanta pressa? — Havia riso em sua voz. — E ainda por cima parece estar saindo da lata de lixo. — Posso dizer o mesmo do senhor, milorde — respondeu ela, passando a mão na manga dele para tirar as teias de aranha. Ela olhou para o corredor escuro, perguntando a si mesma como ele entrara na casa sem ser visto, aparecendo numa ala que não tinha nenhuma porta para fora. — Será que criou asas e pode entrar e sair sem ser visto? Aggie disse que tinha saído. — Disse mesmo? E tão atarefada como ela está sempre, acha estranho que não tenha me visto voltar? Estava à minha procura? — Um visitante está chegando... e eu... penso que pode ser meu pai. — Seu pai, hem? Acha que finalmente ele tomou juízo e quer levá-la de volta? — Duvido, senhor. O mais provável é que tenha vindo para curar a leveza da sua bolsa. — E acha que devo ajudá-lo nesse particular? — Temo que ele perca tudo na primeira mesa de jogo que encontrar ou que Farrell gaste tudo em bebida. Provavelmente estão muito melhor sem dinheiro. — Tirou a mão do braço dele, percebendo a intimidade do gesto. Um tanto embaraçada, afastou-se, com uma desculpa. — Acho melhor eu me arrumar um pouco. Lorde Saxton entrou no quarto e ficou ao lado da janela, enquanto Erienne escolhia a roupa para vestir. Estava com um vestido abotoado nas costas e não podia tirá-lo sem ajuda de Tessie. Olhou para ele, indecisa, hesitando em fazer um pedido tão tipicamente conjugal quando relutava ainda em permitir qualquer intimidade entre os dois. Ele a observava, imóvel, e Erienne teve a impressão de que sabia exatamente o que ela estava pensando. com um suspiro trêmulo, aproximou-se e, erguendo o cabelo para o lado, ficou de costas para ele. O processo foi um tanto demorado porque lorde Saxton teve de tirar as luvas. Erienne esperou, sem fazer um movimento, sem ousar olhar para trás, até ele terminar a tarefa e calçar as luvas. Então, deu alguns passos, inclinando os ombros para a frente, despiu as mangas e por fim o vestido. — Madame, já notou que está nevando? — perguntou ele, admirando o delicado meneio das cadeiras da mulher, antes de ela desaparecer atrás da cortina. — Se


continuar, provavelmente nosso visitante será obrigado a passar a noite aqui. — Estou me apressando — disse ela, interpretando a observação como uma advertência. Depois de passar a toalha molhada no rosto e de escovar rapidamente o cabelo, reapareceu com a roupa de baixo trocada. Na pressa, Erienne não pensou na própria imagem quando pôs o vestido, ajeitando-o sobre as anáguas. A combinação, folgada na parte superior, revelou por um momento os seios redondos e macios, e a chama ardente do desejo percorreu todo o corpo de lorde Saxton. Enfiando os braços nas mangas longas, ela correu para ele, sem perceber a reação do marido, virou de costas e dessa vez olhou por cima do ombro, com um sorriso tímido. Lorde Saxton respirou fundo, soltando o ar aos poucos e descalçou as luvas. Atormentado, procurando controlar o desejo de fazer muito mais do que aquela simples tarefa de abotoar o vestido. Quando terminou, lorde Saxton estava convencido de ter criado seu inferno na terra. Erienne desceu a escada de braço com o marido, sentindo aumentar a tensão a cada degrau. Ouviram a voz alta do pai, falando com Farrell, jactando-se de tudo que tivera em Londres e dos vários nobres que naquele tempo ouviam seus conselhos. — Ah, eu tinha tudo, então, e algum dia terei outra vez, meu rapaz. Espere para ver. Teremos uma casa como esta e criados para nos servir. Oh, vai ser muito bom, Farrell. Muito bom, mesmo. O ruído dos passos de lorde Saxton o fez virar para a porta e para o casal, que entrava. Olhou para os dois com uma leve crispação no rosto quando viu o vestido da filha. Era simples e modesto, mas tanto a fazenda quanto o estilo estavam muito acima do que ele poderia pagar. Não era direito que aquela menina vivesse com tanto luxo, sem partilhar com a família. — Ora, bom dia, Erienne! — disse ele, com voz exageradamente alta. — A passagem do tempo fez bem a você. Erienne passou por ele com fria dignidade, inclinou levemente a cabeça para Farrell e sentou-se na cadeira que o marido segurava para ela. Avery pigarreou e sentou-se no banco na frente da lareira. — Imagino que devem estar curiosos quanto à razão da minha visita. Trago algumas notícias. Sim. Notícias más, infelizmente. E como agora somos parentes, milorde, achei que devia preveni-lo. — Prevenir do quê? — perguntou lorde Saxton. — Eu e Allan Parker... o xerife de Mawbry, como deve saber... bem, estávamos com lorde Talbot, há alguns dias, e os ouvi falando... Allan e lorde Talbot, quero dizer. Apenas algumas palavras, compreende, antes de perceberem que eu estava ouvindo. — Olhou para lorde Saxton. — Muito bem? — perguntou ele, impaciente. com um longo suspiro, Avery disse: — Estavam falando do senhor, milorde, dizendo que acham que o senhor é o cavaleiro da noite. Com uma exclamação abafada, Erienne olhou para o marido, que, depois de um momento, começou a rir. — Eu também achei engraçado, milorde — riu Avery. — Ora, ao que sei, o senhor não pode montar e é um tanto lerdo... — Sacudiu a mão como para negar essa afirmação e apontou para a própria cabeça. — Não aqui, mas sendo aleijado e tudo o mais... Bem, parece um tanto absurdo imaginar o senhor cavalgando pela charneca como um lunático, — Balançou a cabeça afirmativamente. — Foi o que eu disse a lorde Talbot, mas então ele perguntou quem eu pensava que era o cavaleiro da noite


e eu disse que não sabia. com a sugestão de riso na voz, lorde Saxton perguntou: — E conseguiu convencer Talbot da minha inocência? — Não tenho certeza, mas se o senhor puder provar onde esteve a noite passada seria bom me dizer. — Por que a noite passada? — perguntou lorde Saxton. — Aquele cavaleiro da noite atacou outra vez, deixando o velho Ben morto na porta dos fundos da estalagem. Erienne levou a mão ao pescoço, chocada, mas lorde Saxton não teve nenhuma reação. com voz quase calma, perguntou: — Como podem ter certeza de que foi o cavaleiro da noite? Alguém o viu? Avery empertigou o corpo. — O maldito assassino matou Ben do mesmo modo que matou Tímmy Sears. Atravessou-lhe o peito com a espada e depois cortou-lhe a garganta e deixou o homem lá... Erienne estremeceu e virou o rosto para o lado. — Poupe-nos os detalhes, homem — disse lorde Saxton, irritado, servindo um cálice de xerez para Erienne. — Tome isto, vai ajudar. — Deve ser alguma coisa que ela comeu — disse Avery, com uma risada maliciosa. — Eu não a criei para ser uma mulher cheia de chiliques. — Olhou para lorde Saxton, com um sorriso cúmplice. — A não ser, é claro, que já tenha plantado alguma coisa que está crescendo na barriga dela. Lorde Saxton voltou-se rapidamente para Avery, e a máscara inexpressiva parecia ameaçadora. Avery pigarreou outra vez, abaixou a cabeça e esfregou um pé nervosamente no chão de pedra. Erienne tentou afastar da mente a imagem de Ben morto e ensangüentado. Pálida e trêmula, olhou para o pai e falou devagar: — Lorde Saxton.., estava comigo,., ontem à noite, Ele... não pode... ser o cavaleiro da noite. Avery ergueu os ombros, procurando demonstrar indiferença. — A idéia não foi minha, Mas vou dizer ao xerife o que você acaba de afirmar, que sua senhoria estava aqui, com você, durante toda a noite passada. Erienne abriu a boca para corrigir o pai, mas fechou outra vez, sem dizer nada. O marido olhou para ela esperando a correção e ficou atônito com o silêncio dela. Quando lorde Saxton serviu a bebida para Erienne, Farrell olhou hipnotizado para o movimento do xerez na garrafa de cristal. Depois, uma vez ou outra ele engolia em seco, imaginando o contato da bebida com seus lábios secos. A viagem de Mawbry fora longa e desconfortável, provocando-lhe sede. Ultimamente, Farrell quase nunca tinha dinheiro para comprar alguma coisa melhor do que a cerveja mais barata e precisava urgentemente de algo mais forte para tirar o frio dos ossos. — Ah., lorde Saxton, se me permite., poderia servir outro copo... Stuart olhou para o jovem, que, hesitante, apontou para a garrafa de cristal. Os olhos, atrás da máscara, observaram, cheios de pena, a roupa muito usada e a camisa suja. Relutantemente, ele serviu uma pequena dose e notou o tremor das mãos que apanharam O copo, A voz baixa e sibilante ecoou na sala. — Ouvi dizer que era um bom atirador, antes do que aconteceu com seu braço, Sr,


Fleming. com o copo erguido, perto da boca, Farrell olhou para a máscara. — Já pensou em aperfeiçoar sua habilidade com a mão esquerda? Pode ser difícil, mas se for persistente pode aprender a manejar uma arma tão bem quanto com a direita. — O braço esquerdo é quase tão inútil quanto o direito — zombou Avery, — Só serve para levar o copo até a boca. Ora, ele é aleijado, não está vendo? Farrell tomou a bebida num gole e estendeu o copo, como esperando outra dose. Lorde Saxton ignorou o pedido, apanhou o copo da mão dele e o pôs na mesa. — Ele será tão aleijado quanto quiser ser — disse Stuart, com firmeza. — Ou pode ser um homem independente. Por um momento, Avery olhou com desprezo para seu anfitrião— Como o senhor, milorde? — Pai! — exclamou Erienne. — Está tudo bem, meu amor — murmurou Stuart. — Ora, ora! Você ouviu isso? Ela agora é meu amor — disse Avery, com um riso debochado. — Nunca pensei que ia chegar o dia de ouvir um homem dizer isso para ela. — Apontou o dedo para a filha, olhando para o genro. — Fique sabendo que essa menina me causou muitos aborrecimentos, dos quais não me refiz ainda. Eu era um pobre homem, chorando a perda da minha mulher. Meu filho ficou aleijado e essa menina achou que podia escolher um homem que ela pudesse admirar. E agora, aqui está ela, defendendo um homem como o senhor, como se fosse o homem mais bonito que já apareceu no mundo. Se ela se contenta com isso agora, por que não desistiu de toda aquela bobagem e não se casou com um homem bom, que teria piedade de mim, na minha velhice? — Balançou a cabeça. — Nunca vou entender essa minha filha, nunca. Fez-se um silêncio pesado, durante o qual Erienne, lorde Saxton e até Farrell olharam atônitos para Avery. Então, o dono da casa olhou para a mulher e ela ergueu os olhos azuis, repletos de incerteza. Foi a vez de Stuart pigarrear. — Se não me engano, falávamos da habilidade de Farrell com armas de fogo. — Voltando-se para o jovem, continuou: — Eu sei alguma coisa sobre armas de fogo e acho que você gostaria de ver a minha coleção. Depois do almoço, podemos ver as armas que possuo. Há uns dez ou doze anos, Waters fabricou uma pistola com cano de sino e uma baioneta movida a mola. É uma arma notável. Há muitos meses Farrell não demonstrava tanto entusiasmo por alguma coisa. — Acha que posso atirar com uma arma dessas? — Hoje, ela pode atirá-lo de costas no chão, mas se treinar e mantiver o braço firme com o tempo pode manejá-la. É claro que vai precisar de concentração e mão firme. As horas se passaram, e o vento de inverno varreu a charneca, esculpindo a neve como ondas geladas num mar branco e bloqueando a estrada. As lareiras foram acesas para aquecer a mansão com a chegada da noite, e os lampiões a óleo iluminaram o caminho dos hóspedes aos seus quartos. Quando a casa ficou silenciosa, Erienne pôs um agasalho leve e foi bater à porta de lorde Saxton. — Milorde, é Erienne — disse ela, em voz baixa, através da porta de madeira sólida. — Posso entrar?


— Um momento, por favor, meu amor — respondeu ele. Logo os passos pesados aproximaram-se da porta. Ele a abriu vestido com um robe longo de veludo vermelho. A gola estava levantada, cobrindo o pescoço. Estava com a máscara, as luvas, e a bota pesada aparecia sob a bainha do robe. — Estou incomodando, milorde? — perguntou, timidamente. — Está, madame, mas não como pensa. Intrigada com a resposta, ela explicou: — Eu queria agradecer o que fez por Farrell. Lorde Saxton deu um passo atrás e, com um gesto largo, convidou-a a entrar. Erienne atravessou o quarto e ficou de pé ao lado da lareira. Sem perceber que a luz do fogo desenhava seu corpo em silhueta sob a camisola e o robe finos, ela estendeu a mão para o calor convidativo. Lorde Saxton sentou-se na sombra, de onde podia admirar a beleza das pernas longas e dos seios perfeitos, sem comprometer sua imobilidade estóica. Erienne não podia vê-lo. Virou um pouco a cabeça e disse, em voz baixa: — Hoje eu vi em Farrell uma centelha de vida que eu temia nunca mais ver. Ele até riu, durante o jantar. — Seu pai é cego para as necessidades do filho. — É muita bondade sua dizer isso, Stuart. Se ele insistir em destruir a confiança de Farrell, meu irmão não será melhor do que Ben. — Balançou a cabeça, com lágrimas nos olhos. — Pobre Ben, era um velho tão digno de pena. — Enxugou as lágrimas com a palma da mão. — Muita gente em Mawbry vai sentir falta dele. — Por que disse ao seu pai que passei a noite em sua companhia? — perguntou a voz, na sombra. Erienne ergueu os ombros. — Achei que não precisava explicar nosso... acordo. Sei que não assassinou Ben, como sei que não matou Timmy Sears. Foram atos covardes, e se aprendi alguma coisa a seu respeito, milorde, sei que não é covarde. — Ela riu. — Se há algum covarde nesta família, sou eu. Ele disse, com ternura na voz áspera: — Muito obrigado por sua confiança, madame, e não me esquecerei da palavra que usou, ”família”. Talvez algum dia, num futuro muito próximo, possamos ser uma família de verdade. com ar de dúvida, Erienne voltou-se para o marido, que conteve a respiração vendo outra vez a silhueta claramente desenhada pelas chamas. Seus olhos desceram para o ponto de união das coxas dela, e observou, fascinado, o jogo de luz quando Erienne caminhou para ele. — Stuart — parou na frente dele e lorde Saxton ergueu os olhos para o rosto sorridente. — Muito obrigada, Stuart. Inclinando-se, ela encostou o rosto rapidamente na máscara de couro e saiu do quarto quase correndo. Só depois de muito tempo lorde Saxton conseguiu respirar normalmente e apagar o desejo que o devorava. De um momento para outro, como começara, a neve parou de cair, e no dia seguinte Avery voltou para casa nem um pouco mais rico do que saíra. Não teve oportunidade de pedir um empréstimo nem para a filha nem para lorde Saxton. Assim, saiu cabisbaixo de Saxton Hall. Farrell, porém, entusiasmado com a habilidade do anfitrião com as armas de fogo, ficou até o fim da semana.


Aprendendo a manejar as armas, ele não sentia vontade de beber. Carregar era difícil, mas com a ajuda dos dentes, prendendo a coronha entre as pernas e usando a mão que até então considerava inútil, conseguiu, sozinho, especialmente porque lorde Saxton recusou-se a ajudá-lo. Quando estava pronto para partir, Farrell parecia outro homem. Cedendo à insistência de Erienne, tomou um demorado banho quente, enquanto sua roupa era lavada. Sentou-se na frente da lareira, enrolado num lençol, e Erienne cortou-lhe o cabelo, raspou a barba, muito rala mas deselegante, do queixo, ignorando completamente seus protestos. A camisa e a gravata foram engomadas e costuradas, e pela primeira vez em muitas semanas as botas foram engraxadas e polidas. Quando desceu da carruagem dos Saxton, em Mawbry, muitos não o reconheceram. Seus amigos de farra assobiaram com admiração e gemeram desapontados quando descobriram que ele não tinha dinheiro. Sua declaração de que ia procurar trabalho foi recebida com uma vaia incrédula, e então ele os surpreendeu mais ainda, dizendo que dentro de três semanas ia voltar a Saxton Hall, a convite do próprio lorde Saxton. Faltavam três dias para o baile dos Talbot, e Erienne não resolvera ainda o que vestir. Queria usar as esmeraldas, mas o vestido que mais destacava a beleza do colar era também o que mais desnudava seu colo. A idéia de brindar lorde Talbot e seus convidados com aquela exibição era sem dúvida absurda. Os outros vestidos, apesar de belos e elegantes, não combinavam ou tinham um decote que não se adequava ao desenho do colar. Por mais que a aborrecesse desistir do colar, parecia a única alternativa. Chamada aos aposentos de lorde Saxton, estava mais do que nervosa quando bateu à porta. Ele a mandou entrar imediatamente. Respirando fundo, ela girou a maçaneta e entrou na toca do leão. A primeira coisa que viu foi uma enorme caixa, atada com fitas, sobre a cama. Lorde Saxton estava sentado à sua mesa de trabalho, com um livro-caixa aberto na sua frente. Levantou-se e acabava de calçar a luva quando Erienne entrou. — Entre, minha querida, tenho uma coisa para você. A tensão desapareceu, e ela sorriu, fechando a porta. Ele apontou para a caixa. — Bundy foi a Mawbry a fim de encontrar a carruagem de Londres e trouxe isto. Anne mandou... a meu pedido. — Mas o quê... — Abra — disse ele com suavidade na voz áspera. Erienne sentiu-se como uma criança que ganha um presente de surpresa. Era uma experiência cheia de suspense e calor, e ela demorou o maior tempo possível para desamarrar as fitas e abrir a caixa. Então olhou atônita e maravilhada para o que continha, com medo de estender a mão para a renda frágil que adornava o vestido de cetim branco marfim. — É uma beleza, milorde, — Ergueu para o marido os olhos cheios de ternura e balançou a cabeça. — Tem me dado tanto! Como posso aceitar mais quando não cumpri... — Faço o que me dá prazer, madame — interrompeu ele. — E me dá prazer ver minha mulher com roupas dignas da sua beleza. Gosta do vestido? Sorrindo, Erienne estendeu a mão com cuidado para tirar o vestido da caixa. — Senhor, conhece tão bem a mente feminina e sabe exatamente o que ela deseja.


Como é possível não gostar? É o vestido mais lindo que já vi, nunca tive nada igual. com o vestido na frente do corpo, ela foi até o espelho do quarto de vestir. O corpo de cetim era recoberto de renda, que se estendia até o colo. As mangas de renda eram bufantes, terminando logo abaixo do cotovelo, presas ao vestido na parte baixa da cava, para deixar os ombros nus. Uma faixa larga verde-claro passava pela cintura Com as pontas descendo atrás, sobre o cetim marfim, da renda da saia, até a cauda curta. Lorde Saxton disse: — Deixei os detalhes a cargo de Anne e, como de hábito, ela não me desapontou. — Apoiado na bengala, ele inclinou a cabeça na direção da cama. — Tem mais uma coisa na caixa, Achei que ia precisar. Erienne pôs o vestido na cama e voltou para a caixa. Sobre uma capa volumosa de veludo verde estava um par de meias de seda branca, uma combinação finíssima e um par de sapatos de cor creme, adornados com fivelas de filigrana prateada — Pensou em tudo, milorde. Ele balançou a cabeça, afirmativamente, e respondeu: — Eu tentei, madame.

Capítulo Quinze NA TARDE do dia do grande baile, Tessie penteou Erienne elegantemente. O espartilho já estava bem apertado sobre a combinação, empurrando os seios para cima, esticando a fazenda delicada e transparente, com o debrum de renda que delineava os seios perfeitos. Na verdade, a roupa parecia ter como objetivo expor e acentuar cada detalhe do corpo feminino, mais do que qualquer outra que Erienne já usara. O vestido estava sobre a cama e o colar na mesa. Tudo estava pronto e à medida que as horas se passavam um misto de tensão e excitação crescia dentro dela. Não acreditava que Claudia fosse tratar seu marido como devia e imaginava cenas desagradáveis entre eles. Sabia que lorde Saxton era perfeitamente capaz de manejar qualquer situação que Claudia viesse a criar. O que Erienne temia era a própria reação. com uma pergunta, Tessie a fez dar atenção a um assunto mais pertinente naquele momento. As duas, procurando resolver um detalhe do penteado de Erienne, não notaram a entrada de lorde Saxton no quarto. — Já está pronta? — perguntou a voz cavernosa e áspera. Sobressaltadas, elas viraram para a cortina aberta, onde ele estava. Tessie, apressada, deu o último toque no penteado e fez uma mesura. — Sim, milorde. Ele ergueu a mão enluvada, e a moça saiu do quarto. Apoiado na bengala, Lorde Saxton entrou na alcova e parou atrás da mulher. A máscara inexpressiva observou a imagem no espelho, e, embora Erienne não pudesse ver seus olhos, sentiu seu calor na pele macia do seu colo. Lorde Saxton passou a mão enluvada de leve nas costas dela, da nuca até o decote da combinação, depois, para cima, até parar no ombro. — Madame, se um velho senil a visse neste momento, sem dúvida morreria do coração.


Os lábios de Erienne ergueram-se num sorriso suave. — Está brincando, Stuart. Não passo de uma moça como as outras. com uma risada rouca, ele disse: — Sim, tão simples que quando aquela querida e mimada Claudia puser os olhos em você vai ter um acesso de inveja e coaxar como os sapos no pântano. Erienne riu e erguendo a mão apertou carinhosamente a dele, no seu ombro. — Milorde, o senhor é exageradamente galante ou suas deficiências físicas afetaram sua mente. Se alguém me admirar esta noite, será somente por causa da roupa que vou usar. — Erienne levantou-se da cadeira. Ele a seguiu até a lareira. Ela sentou-se e levantou a bainha da combinação até os joelhos. Os olhos escondidos na máscara admiraram a perfeição das pernas, e Erienne começou a calçar as meias. Quando ela se inclinou para alisar a malha finíssima de seda, ele prendeu a respiração, pois o movimento revelou uma visão tantalizante dos seios rosados. — Madame, resolvi que de modo algum será ignorada nessa festa. Quero que se apresente como uma flor perfeita e única, superior a todos eles. Isso me leva a explicar o motivo da minha visita. O tom da voz rouca e murmurada fez Erienne olhar atentamente para o marido. — Estive pensando que, numa festa que deveria ser alegre e agradável, talvez venha a ser alvo de inconveniências por minha causa e por causa do que pensam de mim. — Ele falou com firmeza, mas escolhendo as palavras com cuidado. — Sendo assim, descobri um modo de evitar que as presas da serpente a atinjam e anular as intenções mais ou menos macabras da Srta. Talbot e seus amigos. Arranjei um acompanhante para a senhora, um homem de reputação tão formidável, que, estando ao lado dele, ninguém ousará lhe fazer nenhum mal. — Ergueu a mão para silenciar o protesto dela. — Já tomei minha decisão a respeito e como seu marido peço que a acate. Não aceitarei nenhuma discussão sobre o assunto. O homem deve chegar logo, e embora possa ficar apreensiva, o que eu compreendo perfeitamente, ele me garantiu que a acompanhará com o mesmo cuidado com que eu o teria feito. A máscara inexpressiva parecia transmitir uma expressão severa, que não admitia nenhuma recusa. Erienne murmurou apenas: — Não tenho nenhuma intenção de contrariar sua vontade, milorde. Lorde Saxton foi até a penteadeira e apanhou o colar de esmeraldas e brilhantes. Obedecendo a um gesto dele, Erienne aproximou-se, dando as costas para o marido. Os dedos quentes e nus passaram o colar por seu pescoço. Terminada a tarefa, as mãos acariciaram a curva suave dos ombros e desceram até a cintura. Depois de um momento, ele retirou a mão e disse bruscamente: — Desejo que se divirta, madame. Não a verei outra vez antes da sua partida. — Foi até a porta, com seu passo pesado, e parou para um último olhar. — Mandarei Tessie subir para completar sua toalete. Aggie avisará quando o cavalheiro chegar. Boa noite, meu amor. Erienne estava pronta, e quando Aggie avisou, Tessie acompanhou a patroa, levando no braço a capa pesada de veludo. Apreensiva com a identidade do seu acompanhante, Erienne desceu a escada o mais lentamente possível, refreando ao máximo a excitação de Tessie. Pensava na limitada escolha que o marido podia ter e imaginava um dos amigos de Talbot oferecendo seus préstimos, para benefício do


anfitrião, naturalmente. Não ignorara a advertência de Christopher, apesar da sua resposta descuidada naquela noite. Na entrada da sala principal, Erienne parou e levou a mão ao coração disparado quando viu quem a esperava. Mal podia acreditar que o marido fosse tão tolo a ponto de confiar ao ianque a proteção da sua virtude. Ele estava na frente da lareira, olhando para o fogo. Alto, quadris estreitos, ombros largos, Christopher Seton era tão belo de corpo quanto de rosto. com roupas de seda cinza-prateada e camisa e gravata brancas, era um verdadeiro fidalgo. A luz do fogo delineava os traços fortes do perfil, e a dor surda no coração dela era uma resposta à beleza masculina de Christopher. Procurando se acalmar, Erienne respirou fundo e entrou na sala. Ele voltou-se ao ouvir seus passos e, sorrindo, foi ao seu encontro, saciando os olhos na sua esplêndida beleza. Parou e com uma mesura disse: — Lady Saxton, estou profundamente honrado. — Christopher Seton, — Ela acentuou o sarcasmo, para disfarçar o tremor da voz. — O senhor é desprezível. — Madame? — Olhou para ela, surpreso. — Convenceu meu marido a permitir que a raposa tomasse conta do galinheiro. com um sorriso, ele respondeu: — Lady Saxton, a habilidade do seu marido com armas de fogo é famosa, e não duvido que ele a usaria contra qualquer homem que ousasse abusar da senhora. Tem a minha palavra de que, em público, me comportarei com tanta dignidade e propriedade que não precisa temer por sua reputação. Erienne franziu a testa com ceticismo. — E lorde Talbot? Ele vai recebê-lo? — Não tema, madame. Eu não estaria aqui se não tivesse certeza disso. — Prometi ao meu marido obedecer ao seu desejo. Portanto, proponho uma trégua. Só por esta noite, vai me respeitar como a uma dama e eu tentarei tratá-lo como a um cavalheiro, como fizemos na última vez que nos encontramos. Christopher inclinou levemente a cabeça. — Até o fim do baile, então, minha senhora. — Combinado. A mudança sutil no sorriso dele intrigou Erienne, mas em Londres o comportamento dele fora satisfatório e com Tanner e Bundy como proteção extra contra ladrões e assaltantes, bastava ela gritar por socorro. Voltou-se para Tessie. — Não precisa esperar por mim. Provavelmente voltarei muito tarde. A criada fez uma mesura. — Sim, senhora. Erienne estendeu a mão para o manto, mas Christopher o tirou da mão de Tessie. — Permita-me, senhora. Quase sem respirar, Erienne esperou enquanto as mãos fortes e longas arrumavam a capa sobre seus ombros. Depois, solicitamente, ele a conduziu até a carruagem. Ela entrou e cobriu as pernas com a manta de pele, no banco de trás, aproximando os pés do aquecedor a carvão. As cortinas de veludo estavam bem fechadas, criando uma privacidade maior do que ela desejava. Apreensiva, viu Christopher subir para a carruagem, mas ele sentou-se no banco de frente para ela e sorriu.


— Temo que sua proximidade destrua completamente minhas boas intenções, minha senhora. É mais seguro ficar aqui. Erienne recostou-se no banco. A noite estava começando bem. Só esperava que ele continuasse a se controlar e que a resistência dela não fosse vencida. A mera lembrança do beijo dele era o bastante para tirar a força das suas pernas e arrepiar sua pele com o desejo das suas carícias. A luz fraca dos lampiões no interior da carruagem iluminava suavemente o belo rosto dele, e Erienne adivinhava o olhar insistente. Mas Christopher logo quebrou o silêncio. Era um bom conversador, e ela ouvia com ávido interesse, rindo uma vez ou outra do seu humor. Contentes por estarem juntos, mal notaram quando, em menos de uma hora de viagem, a carruagem entrou na estrada estreita que levava à casa dos Talbot. Quando pararam na frente da mansão requintada, Erienne sentou-se na beirada do banco, nervosa e tensa. Percebendo a apreensão da jovem, Christopher seguroulhe a mão, apertando-a de leve. — Vai deixar todos de boca aberta, Erienne — murmurou eleEla sorriu, e Christopher levou-lhe a mão aos lábios, beijando as pontas dos dedos com carinho. A delicadeza daquele gesto chegou até o coração de Erienne e um desejo agridoce e intenso a envolveu. Então ele ergueu a cabeça e a acariciou com os olhos. — Acho melhor entrarmos, antes que eu esqueça a minha promessa e faça amor com você aqui e agora — disse ele. Ele desceu e voltou-se para ajudá-la. Embora o menor contato acelerasse as batidas do seu coração, Erienne aceitou a mão que ele oferecia até a porta de entrada. No hall, ele tirou com cuidado o manto dos ombros dela e, embora breve, o contato foi como uma carícia. Uma criada apanhou os agasalhos e foram conduzidos à entrada do salão. O mordomo perfilou-se na frente deles e anunciou: — Lady Saxton... No silêncio repentino, todos se voltaram, ansiosos para saciar a curiosidade sobre aquela mulher e seu marido, o monstro de Saxton Hall. O que viram os deixou confusos, pois o pesadelo para o qual tinham-se preparado era na realidade uma visão vestida de branco, de pé na porta, de braço com um cavalheiro alto e muito belo. — E o Sr. Seton. O silêncio foi de imediato quebrado com uma confusão de perguntas e murmúrios curiosos. Os que estavam perto de Claudia ouviram sua exclamação de espanto, antes de ela correr para os recém-chegados. Quando chegou perto, olhou rápido para Christopher e depois para Erienne, franzindo a testa, furiosa. O que ela disse então não foi exatamente o que pretendia, mas não conseguia pensar racionalmente por causa da raiva selvagem que a devorava. — O que você está fazendo aqui? Christopher adiantou-se e se pôs entre as duas, protetoramente. — Você me convidou, lembra-se? O convite está aqui comigo. — Pôs a mão no bolso, — Escrito por sua própria mão, eu acredito. — Eu sei que o convidei! — respondeu ela, impaciente. — Mas você devia vir sozinho! Ele sorriu, delicadamente. — Mil perdões, Claudia. Lorde Saxton tinha outro compromisso e pediu-me para


acompanhar sua senhora. Claudia apertou os lábios e um frio gelado apareceu nos seus olhos. Não era o que ela planejara. De modo algum. Sentia imensamente não poder mandar Lady Saxton de volta para o animal do seu marido. Era o que aquela atrevida merecia por ter ido sem ele. — Você está divina, Erienne. — Tentou disfarçar a frieza do sorriso. — Estou realmente surpresa. Quem podia imaginar que a filha do prefeito podia se vestir tão bem, com jóias e tudo o mais? Diga-me, querida, essas pedras são verdadeiras? com uma risada, Christopher respondeu: — Claro que são, estão na família de lorde Saxton há algum tempo, e desconfio que sejam muito verdadeiras. É verdade que só um conhecedor de pedras preciosas pode avaliar seu valor, não acha? Claudia olhou rapidamente para ele. — Diga-me, Christopher, por que lorde Saxton iria confiar em você para tomar conta da sua dama? Eu diria que ele devia ter medo de você. com o riso brilhando nos olhos verde-acinzentados, ele indicou o salão. — Não estamos bem acompanhados, Claudia? Além disso, temos Bundy e o cocheiro, Tanner, Eles correriam em defesa da sua senhora ao menor sinal de impropriedade. Não lhe contaram como lorde Saxton pôs os ladrões em fuga? Tenho certeza de que não pouparia o homem que tentasse roubar sua esposa. Claudia sorriu, suavemente. — Então, espero que tenha muito cuidado, Christopher, Eu detestaria ver um homem tão belo e encantador ser morto por ter-se enamorado da sua protegida. — Muito obrigado, Claudia. Sua preocupação me comove. —. Bateu os calcanhares e inclinou o corpo para a frente. — Eu terei cuidado. Claudia ficou completamente desarmada com a defesa delicada e com um último olhar furioso para Erienne afastou-se dos dois, dirigindo-se para onde Allan Parker conversava com dois homens. O resplendor do xerife competia com o luxo do salão. A roupa azul-escura era ricamente decorada com prata, dando a ele uma aparência quase militar, mas sem nenhuma medalha ou divisa. Os ombros vazios do casaco pareciam exigir dragonas, e o peito clamava por medalhas e distintivos de campanha. Passando o braço pelo dele, Claudia o obrigou a olhar para ela. Pareceu um tanto confuso com aquela atenção, até olhar para a porta da sala e ver Christopher e Erienne. Compreendeu então e sorriu. . Porém, quando seus olhos se fixaram em Erienne de forma apreciadora, recebeu uma cotovelada nas costelas. Claudia não permitiria que outro homem a deixasse de lado por causa da beleza da sua rival. — Minha senhora — murmurou Christopher para Erienne —, temo que tenha deixado todos atônitos com sua beleza. — Estão desapontados porque Stuart não veio — murmurou ela. — Mas se pensavam que podiam ridicularizá-lo estão muito enganados. Ele não é tolo. — Fala como se o admirasse — observou Christopher. — Eu o admiro. Levantando uma sobrancelha ele disse; — Você me deixa confuso, Erienne. Eu esperava que fugisse quinze dias depois do


casamento com Stuart. Esperava poder recebêla de braços abertos. Agora, tenho minhas dúvidas. Devo acreditar que prefere realmente um aleijado a mim? Erienne olhou para os rostos brancos e sorridentes e para os olhos que observavam Christopher, cheios de esperança. Naquele momento, ela podia entregar-se a um delicioso devaneio, com um homem tão belo ao seu lado, mas a lembrança de lorde Saxton de pé atrás dela, na frente do espelho, a trouxe de volta à realidade— Não tenho outra escolha — disse, secamente, — O que foi feito está feito. Estou presa a um compromisso de honra e não posso voltar atrás. Christopher olhou para o salão, notando a atenção dos homens. Certamente pensavam o mesmo que ele, sem saber o quanto ela era determinada e obstinada. Mas ele também não ficava atrás e não desistia com facilidade, como a maioria dos homens. Galantemente ofereceu o braço: — Venha, querida. Todos estão olhando, e quero esta dança, antes que seja reclamada por algum ardente admirador. Os convidados abriram passagem para o par até a sala onde outros pares dançavam ao som de uma música alegre. Porém, antes que tivessem tempo de começar, foram abordados por um criado com uma libré que rivalizava com a da casa real. — Lorde Talbot pede a presença de Lady Saxton no seu escritório — anunciou ele, com voz monótona e arrogante. Fez uma profunda mesura, — Por favor, me acompanhe, senhora. Erienne olhou preocupada para Christopher, mas ele já estendia a mão para segurar o braço dela. — Vá na frente — disse para o criado. O homem ergueu as sobrancelhas, atônito com a audácia do cavalheiro, que não fora convidado. — Acredito que lorde Talbot pediu apenas a presença da senhora, senhor. com um sorriso tranqüilo, Christopher disse: — Então, vai ganhar mais do que esperava, ou nada. Prometi a lorde Saxton não perder de vista sua senhora. O criado ficou perplexo, por um momento, e finalmente resolveu deixar que o patrão resolvesse o caso. — Por aqui, senhor. Christopher a conduziu, seguindo o criado. Passaram por uma porta, entraram num longo corredor, até outra porta com enfeites dourados. O criado bateu discretamente e entrou. Logo reapareceu e segurou a porta aberta para os visitantes. Vestido de cetim e ouro, liberalmente enfeitado com alamares dourados, Nigel Talbot levantou-se atrás da mesa muito enfeitada, quando eles entraram. Adiantou-se, devorando com olhos ávidos a beleza de Erienne. Seu olhar passou pelo colar e desceu para o colo da jovem. Ela fez uma mesura formal. — Lorde Talbot. — Minha cara menina, é tão bom revê-la — disse ele. Segurando as mãos dela nas suas, beijou primeiro uma, depois a outra. — Está absolutamente encantadora — murmurou, erguendo os olhos. Não conseguira dissuadir a filha de convidar o ianque e agora ele o ignorava


completamente. — Mas onde está seu marido? Pensei que ele viria com você. — Lorde Saxton não pôde vir. Pediu ao Sr. Seton para me acompanhar. Tomando uma pitada de rapé, Talbot olhou para Christopher, erguendo a sobrancelha com arrogância, consciente de que ele não o tinha cumprimentado. — Lorde Saxton na verdade pediu-me dois favores, senhor — explicou Christopher, tirando um envelope do bolso e estendendo-o para lorde Talbot, com um leve sorriso. — Sua senhoria pediume para lhe entregar esta carta. Nigel olhou para o ianque com desprezo. Partiu o selo do documento e leu rapidamente. Depois, olhou para Christopher com uma expressão deliberadamente inexpressiva. com um movimento do pulso, jogou a carta na mesa. — Teremos muito tempo para tratar de negócios, mais tarde. — Sua arrogância desapareceu por completo e, olhando para Erienne, ele tentou sorrir. — Esta noite, vamos nos divertir. Temos muitos convidados de Londres e de York, e todos esperam uma grande noite. Espero que essa seja sua intenção, minha senhora. Erienne respondeu, em tom delicado: — É claro, milorde. — vou lhe pedir uma ou duas danças, mais tarde — disse ele, menos tenso. — Eu insisto. com seu novo status e um marido pouco conhecido na alta classe, estou certo de que precisa de alguém para lhe ensinar a etiqueta de uma reunião como esta. Terei grande prazer em ser seu professor. — Talvez esteja confundindo a linhagem dos Saxton— disse Christopher, suavemente. — Se ainda não sabe, é uma família muito antiga, possivelmente mais antiga do que a sua. Lorde Talbot olhou interrogativamente para ele. — Parece saber muita coisa sobre a família, meu jovem. Quanto a mim, não conheço os Saxton muito bem. Conheci o velho lorde brevemente antes de ser assassinado por aqueles bandidos. O lorde atual não tem aparecido muito. Christopher sorriu. — Pode culpá-lo por isso? Lorde Talbot bufou com desprezo. — Suponho que se eu estivesse tão desfigurado quanto ele detestaria me apresentar em público também. Mas o homem precisa aprender a confiar em alguém, e certamente não pretendo fazer nenhum mal a ele. — Sempre achei que lorde Saxton é um homem bastante razoável, que não nega sua confiança a quem a merece — respondeu Christopher, pondo a mão sob o braço de Erienne. — Se nos der licença, senhor, Lady Saxton me prometeu esta dança. Talbot empertigou-se, indignado. Certamente o homem estava louco ou não conhecia a etiqueta para tratar com um lorde. Ora, ninguém ousava deixar sua presença sem pedir permissão. Christopher abriu a porta e, inclinando rapidamente a cabeça para o homem boquiaberto, saiu, conduzindo Erienne na sua frente. Só quando chegaram no corredor, ela respirou aliviada. — Lorde Talbot jamais o perdoará por isso — murmurou, preocupada. Ele respondeu com uma risada breve. — Acho que não vou sentir falta da afeição dele. — Devia ter mais cuidado — advertiu ela. — Lorde Talbot é um homem muito influente.


— É um homem muito arrogante, e não resisto à tentação de tirar um pouco daquela pompa. — Christopher olhou atentamente para ela. — Será que estou vendo um pouco de preocupação por minha pessoa, nessa advertência, querida? — Quando age de forma tão impetuosa, alguém precisa fazer com que se contenha — disse ela, com impaciência. — Agrada-me muito saber que se importa. — Não tem nenhum motivo para ficar envaidecido — respondeu ela, secamente. — Ah, a senhora me ataca com seus espinhos, ferindo-me profundamente. — Sua pele é mais grossa que a de um boi — zombou ela. — E seu cérebro também. — Não seja má, meu amor. Conceda-me um sorriso cheio de calor para aliviar este coração, que bate pela senhora. — As histórias que ouvi me dizem que seu coração é bastante volúvel, senhor. — Madame? — Ergueu as sobrancelhas, surpreso, — Acredita em mexericos? — Talvez eu deva perguntar a Claudia se é verdade que costuma visitá-la quando o pai dela está viajando. — Erienne olhou para ele, sem disfarçar suas suspeitas. O riso divertido de Christopher aparou as arestas da acusação. — Quando gasto tanta energia com a senhora, madame, como pode acreditar que esteja interessado em outra mulher? Depois de se certificar de que estavam sozinhos no corredor, sem ninguém para ouvi-los, inclinou-se para ele e murmurou; — Conseguiu muitas admiradoras pouco discretas em Mawbry. Por que não devo acreditar nos rumores? — E por que deve se importar com eles? É uma mulher casada. — Sei disso! — respondeu, irritada. — Pensei que precisava ser lembrada, meu amor — disse Cbristopher, contendo o sorriso. — Não sou seu amor — protestou ela, mais para abafar a sensação de prazer provocada por aquelas palavras. — Ah, mas é sim — murmurou ele, em tom carinhoso. Os olhos dele a envolveram numa onda de calor. Erienne começou a tremer e sentiu as pernas bambas. Como podia afirmar seu desinteresse por um homem cujas palavras tinham um efeito tão avassalador nos seus sentidos? O olhar acariciante desceu para seu colo, fixando-se na pedra verde que cintilava entre os seios. Erienne prendeu a respiração, abrasada pelo calor daqueles olhos, que, erguendo-se, se fixaram nos dela. — Se não sabe ainda, madame, quero dizer que sou muito obstinado quando quero uma coisa. A senhora é a mulher que eu quero e não ficarei satisfeito enquanto não for minha. — Christopher, Christopher — implorou ela. — Quando vai aceitar o fato de que sou uma mulher casada? — Só quando a tiver por esposa. — Ergueu a cabeça e prestou atenção à música dos violinos. — Lorde Talbot tem uma queda por valsas e, se conheço bem o homem, logo estará aqui, reclamando sua dança. — Segurando o braço dela, conduziu-a para o salão de baile. — Talvez eu o tenha julgado mal, Christopher — comentou Erienne, quando começaram a dançar.


— Por que diz isso, meu amor? — Olhou atentamente para ela, procurando entender. — Você cuida de mim tanto quanto Stuart — ficou pensativa por um momento, e continuou: — Talvez mais ainda. — Não perdi a esperança de que um dia será minha, madame, por isso procuro protegê-la de todos que a cobiçam. — E Stuart? — perguntou ela, levantando a sobrancelha bem-feita. Só depois de algum tempo ele respondeu. — No que se refere a amor, Stuart é mais uma inconveniência do que uma ameaça. — Uma inconveniência? — Terei de enfrentá-lo um dia e essa vai ser a parte difícil. Não posso ignorá-lo sem provocar sua ira outra vez. É um problema muito complicado. — Você me espanta, Christopher. — Erienne balançou a cabeça, chocada com o pouco-caso com que ele falava do seu marido. — Francamente, me espanta. — O sentimento é mútuo, meu amor. — Sua voz era uma carícia que entrou como um turbilhão na mente e no corpo de Erienne. Lorde Talbot observava os dois com a testa franzida e ficou mais aborrecido quando ouviu os elogios à beleza e ao talento do par. Olhou para o xerife e, com um gesto imperioso da cabeça, indicou seu escritório. Claudia observava também o belo par, que deslizava elegantemente pelo salão, e seu ódio por Erienne cresceu. Correu para Allan Parker, com intenção de convidá-lo para dançar, esperando mostrar àquela filha camponesa do prefeito uma ou duas coisas sobre o modo adequado de dançar uma valsa. — Desculpe, Claudia — disse Allan. — Seu pai quer falar comigo. com os olhos em fogo, ela saiu do salão na frente do xerife, resmungando, furiosa, sem se importar com a opinião dos outros. Era o seu baile, e não ia deixar que Erienne o arruinasse! Abriu a porta do escritório do pai e quando entrou Talbot bufou com impaciência. A filha ia lhe dar trabalho, outra vez. — Papai, não tem direito de chamar Allan justamente quando ele ia dançar comigo — queixou-se ela. — Preciso falar de negócios — explicou o pai. Amuada, Claudia sentou-se na cadeira mais próxima e sacudiu a mão no ar. — Muito bem, então apresse-se! Não vou esperar a noite toda. Controlando a irritação, Talbot disse: — Claudia, minha querida filha, quer por favor ir até meu quarto e apanhar a bengala dourada? Meu antigo ferimento começa a me incomodar. — Mande um dos criados, papai. Estou cansada. — Seja boazinha, minha querida, e faça o que pedi — disse ele, com um sorriso forçado. com uma exclamação de impaciência, ela levantou-se e saiu, batendo a porta com força. O eco da batida estava ainda no ar quando Nigel Talbot apanhou a carta da mesa, batendo com ela nas costas da mão. — Aquele maldito Saxton! Ele me chama a Saxton Hall, como se eu fosse um camponês, para discutir os arrendamentos que recebi quando a família estava fora. Allan, sentado no canto da mesa maciça, apoiou o pé na almofada de brocado de


uma poltrona e apanhou um bombom da bandeja. Olhando para o doce, comentou, despreocupado: — Deve ter sido um bom dinheiro. — Mais do que algumas moedas. — Talbot jogou a carta na mesa e começou a andar furioso pela sala. — Ora, recebi os arrendamentos durante quase vinte anos. O xerife mastigou o bombom. — Devo entender que considera esse lorde Saxton uma ameaça? Talbot olhou em volta, irritado. — Eu preferia que ele tivesse vindo pessoalmente, em vez de mandar aquele ianque impertinente no seu lugar. Então, teríamos verificado se ele é mesmo o cavaleiro da noite. — Dizem que ele não pode montar — observou Allan. — Já ouvi isso, mas onde mais podemos procurar? O único outro estranho na região é Christopher Seton, e é conveniente demais. Allan deu de ombros. — Até agora, é exatamente o que diz ser. Tem alguns navios e um deles, o Cristina, tem aportado em Wirkinton e zarpado várias vezes nos últimos meses. Sempre parece trazer uma carga nova para vender ou trocar. — Mesmo assim, não devemos perdê-lo de vista — disse Talbot. — Quem sabe? Talvez ele se envolva com o cavaleiro da noite e seja encontrado morto e ensangüentado por aí. O xerife sorriu. — Se isso acontecer, acha que lorde Saxton vai permitir que um de nós acompanhe sua mulher? Lorde Talbot riu com desprezo. — O homem deve ser ingênuo para confiar em Seton. Fico pensando se lorde Saxton não é meio louco. O xerife fez um gesto afirmativo e escolheu outro bombom. — Ele pôs Sears e seu bando em fuga com muita facilidade. — Aquele bandido idiota! — Talbot sacudiu a mão, zangado. — Quem sabe quanto mal ele podia fazer? Allan esfregou as mãos e ficou de pé. — Tem notícias do seu homem na corte de Londres? Lorde Talbot recomeçou a andar, agitado. — Nenhuma. Nenhuma notícia. Só o de sempre. O xerife contraiu os lábios, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, Claudia abriu a porta. Atravessou a sala, apressada, e entregou ao pai uma bengala pesada com cabo de prata. — Só encontrei esta. Tem certeza de que não... — Interrompeu a frase, olhando para a bengala ao lado da lareira. — Ora, aí está a de ouro. Estava aqui o tempo todo. — Rindo, ela apertou o braço do pai. — Anda tão esquecido, ultimamente, papai. Acho que está ficando velho. com uma risada despreocupada, ela caminhou para a porta, ignorando o olhar furioso do pai. — Venha, Allan — convidou-o, tentadoramente. — Faço questão que esqueça os negócios e venha dançar comigo. Afinal, é o meu baile!


Ignorando as duas bengalas, lorde Talbot acompanhou os dois para fora da sala, puxando, pensativo, a papada flácida. A festa continuou em grande estilo, e embora, para alguns, a noite sentisse o passar do tempo, para Erienne era como se fosse alimentada por uma fonte de perpétua juventude. A música animada, a dança, a sensação excitante de rodopiar pelo salão nos braços de um homem, de ser cortejada quase abertamente, proporcionava-lhe uma alegria que jamais experimentara antes. Sentia-se completamente viva e nem os olhares furiosos e gelados de Claudia podiam penetrar a aura de felicidade que a envolvia. Outros homens procuraram ansiosamente atrair sua atenção, e quando não estava ao lado de Christopher o brilho diminuía. Lorde Talbot reclamou sua parte e a conduziu no turbilhão de uma valsa. Claudia, deixando o xerife, aproximou-se de imediato de Christopher, com falsa timidez, exigindo uma dança como pagamento do convite. Como se tivesse sido combinado com antecedência, os músicos tocaram diversas músicas românticas seguidas, e Claudia deliciou-se com a sensação do braço dele na sua cintura. Encostava os seios no peito dele sempre que a dança permitia e seus quadris quase acariciavam os dele. Quando Christopher olhava para ela, via sempre um sorriso convidativo e as pálpebras semicerradas, à espera da sua iniciativa. Lorde Talbot, por sua vez, começou como um cavalheiro, procurando imitar o estilo ousado e elegante do ianque, mas logo se animou com a graça e leveza do seu par, e Erienne foi obrigada a ficar atenta para proteger sua modéstia. Quando a música terminou, Christopher afastou-se de Claudia, certo de que acabava de sofrer o maior assalto que jamais sofrera em público. Mas tinha um objetivo muito mais alto e não pretendia se deixar atrair para o quarto da anfitriã, apesar da força com que ela o puxava pelo braço. Christopher aproximou-se de Allan Parker, cumprimentou-o e logo depois livrou-se de Claudia, murmurando uma desculpa. Ela abriu a boca para protestar, mas ele já estava longe, caminhando decidido para onde queria ir. Erienne, depois de evitar o abraço final de lorde Talbot, afastou-se, deixando o velho excitado e frustrado. Sentia-se feliz com a volta do seu acompanhante e, aliviada, confiou outra vez sua virtude à trégua combinada. Encontraram-se no meio dos convidados e, a partir desse momento, Christopher teve o cuidado de se manter bem longe do seu anfitrião, que, como uma cegonha ansiosa, esticava o pescoço à procura da preciosidade que fugia dele. — Você está dando na vista — avisou-o Erienne. — Ele também — respondeu Christopher. — E se continuar assim vai ter sorte se eu não alargar seu passo com um pontapé no traseiro. — Por que faz tanta questão de contrariar lorde Talbot? — Você sabe quais são meus motivos para não gostar dele. — Eu? — perguntou, incrédula, — Não me agrada a idéia de dividir com ele o pouco tempo que posso passar na sua companhia. — Ora, Christopher. — Os olhos azuis cintilaram com humor e com um leve sorriso ela falou: — Penso que protesta demais contra o homem. A mente de Christopher mergulhou em profundezas que ela nem podia imaginar. Quando voltou a atenção para ela, concordou com uma inclinação da cabeça.


— Sim, o homem! Contra ele eu protesto. Protesto contra sua arrogância, sua pretensiosa exibição de poder. Protesto contra a riqueza na qual se espoja, enquanto seus arrendatários lutam pela mera subsistência. Sim, protesto contra o homem, e abomino a possibilidade de que qualquer coisa que possuo possa passar para as mãos dele. Erienne ficou surpresa com a força daquele discurso. Inclinou o corpo para trás, apoiada no braço dele, para vê-lo melhor. Jamais podia imaginar que o frívolo Christopher Seton tivesse algum sentimento sério no seu espírito sempre superficial e alegre. O lado escuro do seu temperamento saltou como uma truta no regato, sem nenhum aviso, de surpresa e então desapareceu sem deixar o menor sinal de agitação na superfície lisa da água. Era outra vez o conquistador sorridente, seguro de si, que a conduzia num ritmo estonteante pelo salão, fazendo com que os outros pares parecessem lerdos e desajeitados. Passaram por perto de lorde Talbot, mas antes que o nobre tivesse tempo de erguer a mão para fazê-lo parar desapareceram entre os outros pares. No outro lado, longe de lorde Talbot, Christopher parou e, segurando o braço de Erienne, a levou para fora do salão de baile. — Quer tomar alguma coisa, senhora? — Viu o olhar interrogativo dela e sorriu. — Lorde Talbot estava quase apoplético. Sem dúvida vai mandar parar a música e sair à sua procura. Chegaram perto da mesa, e Christopher apanhou um pequeno prato de porcelana. — Um pouco disto? Ou daquilo? — Sem esperar resposta, foi servindo. Quando o prato estava cheio, passou-o para Erienne. — Francamente, Christopher. Não estou com fome — protestou ela. — Então, apenas segure o prato, meu amor — murmurou ele, — vou apanhar um copo também, e se Nigel aparecer você tem uma boa desculpa. A música parou no salão de dança, como Christopher previra, e um murmúrio de protesto subiu dos dançarinos, quando Talbot abriu caminho entre eles, apressado, à procura de Erienne e seu acompanhante. O murmúrio cresceu quando ele começou a dar voltas no salão, até ver o que procurava na sala ao lado. Ele avançou, abandonando os convidados, e Claudia fez sinal aos músicos, que recomeçaram a tocar. Talbot aproximou-se da sua presa, procurando conter a irritação. Erienne estremeceu, mas seguiu o conselho de Christopher, que acabava de pôr uma taça de champanhe na outra mão. Erienne tomou um gole da bebida ambarina e borbulhante, encorajada pela presença dele. — Aí está você, minha querida menina — disse Talbot, com o bigode tremendo de raiva contida. Parou na frente deles com uma pose estudada. — Procurei-a por toda a parte. Certamente vai ser generosa e me conceder outra dança. Rindo, Erienne mostrou o prato. — Sua mesa é tão magnífica, que provavelmente vou levar uma hora para terminar de comer. Além disso, estou me sentindo um pouco fraca por causa da dança. —- Nesse caso, minha querida.., — Tirou o prato da mão dela, pôs na mesa, e de costas para Christopher a segurou pelo braço. Com um tom de vitória na voz, continuou: — Julgo necessário, uma vez que não está se sentindo bem, que se retire comigo para a sala de estar, para descansar um pouco. — Sua sala de estar? — perguntou Christopher, com um sorriso.


Talbot lançou-lhe um olhar arrogante e desafiador. Dobrou para o lado a perna calçada com meia de seda, numa pose real, e apoiou a mão na mesa, bem no meio do prato de Erienne. Sentindo o caviar grudar nos dedos, retirou a mão com um gesto brusco. O prato subiu, espalhando a comida pela manga dele, depois desceu e espatifou no chão, espirrando o resto do caviar e pedaços de louça nos sapatos brancos do lorde. Lorde Talbot girou o corpo, rápido, e as abas do seu casaco varreram a mesa, derrubando uma garrafa de vinho. Ele prendeu a respiração quando a bebida, que estava num balde cheio de neve, desceu gelada por seus calções, que, como as meias, adquiriram uma tonalidade azul-violeta. Sua manga direita ostentava um intricado desenho de caviar e um canapê vermelho pousava, como uma lesma treinada, no seu ombroO riso abafado dos presentes parou quando lorde Talbot olhou em volta, furioso. Erienne tomou um gole de champanhe e tossiu delicadamente atrás do lenço. O sorriso de Christopher não mudou, e os outros aproveitaram o momento para admirar o teto pintado, as paredes ou os ornatos barrocos da sala. Com os punhos fechados ao lado do corpo, lorde Talbot afastou-se dos olhares embasbacados e divertidos, a cada passo parecendo estar chapinhando na água. Logo começaram os comentários. Lorde Talbot subiu a escada até seus aposentos, amaldiçoando o baile, a filha, o cozinheiro, os criados, que corriam, ansiosos, atrás dele, e especialmente aquele maldito ianque! Quando o carrilhão do hall anunciou a meia-noite, só um quarto dos convidados permanecia na festa. Claudia não conseguira nada com Christopher, mas parecia ainda confiante quando, ao lado do pai, se despediu de um casal de convidados. — Espero que tenham se divertido — disse ela, sorrindo para a resposta afirmativa, e assim que eles deram as costas fez uma careta. — Margaret está engordando demais, não acha, papai? Vamos ter de alargar as portas se ela não parar de comer. Talbot suspirou, lembrando um tempo em que quase todo o corpo da senhora em questão era macio e suave ao toque. — Ela era tão bonitinha quando moça. E ansiosa para agradar, como nenhuma outra. — Isso deve ter sido no mínimo há vinte anos, papai. Nenhum de vocês é mais um pássaro da primavera. O devaneio de Talbot estourou como uma bola de ar. Fazia tanto tempo assim? Pigarreando, ele retribuiu na mesma moeda: — Estou certo de que está desapontada, minha querida. Aquela pequena Erienne roubou tanto a festa quanto o ianque, bem debaixo do seu nariz. Claudia balançou a cabeça, num gesto de desafio. — Ora, Christopher estava apenas sendo delicado por causa da sua responsabilidade. Quando ela for dormir, não nos incomodará mais, e terei muita oportunidade para provar a ele que não estou zangada. — Se você quer que eles passem a noite aqui, minha querida, acho melhor se apressar. — Inclinou a cabeça para o hall de entrada. — Eles se despediram há poucos momentos. com uma exclamação abafada, Claudia seguiu o olhar do pai e viu Christopher recebendo os agasalhos das mãos do mordomo. Correu para o hall e protestou. — Vocês não vão embora, vão? Ora, simplesmente não posso permitir. Já


preparamos os quartos para os dois. — Inclinou-se para Christopher, com um sorriso sugestivo. — Separados, é claro, Erienne apressou-se a declinar o convite. — O Sr. Seton está livre para fazer o que achar melhor. Quanto a mim, preciso voltar para Saxton Hall. — É muita bondade sua, minha querida — arrulhou Claudia, mas suas esperanças foram logo desfeitas quando Christopher se libertou do braço dela. — Não estou dispensado da minha promessa. Dei minha palavra de que levaria a senhora para casa. Lorde Saxton espera que eu faça isso. — Mas não pode! — Claudia agarrava-se a qualquer desculpa para mantê-lo ao seu lado. — Veja! Está nevando. Logo teremos uma tempestade. Christopher voltou-se para Erienne com um sorriso. — Eu preciso! — disse ela, simplesmente. Ele voltou-se para Claudia e deu de ombros: — Eu preciso. Sem mais argumentos, Claudia olhou para ele. — Boa noite, Claudia — disse Christopher, ajudando Erienne a vestir a capa. — Muito obrigado pelo convite. — Sim — disse Erienne, docemente, aumentando a confusão de Claudia. — Foi uma festa maravilhosa. Obrigada pelo convite, ” Claudia ficou de boca fechada. No meio de tanta gente, não podia se despedir como queria. Erienne sentiu a raiva que a queimava quando tocou na mão dela, estendendo a sua sobre o braço de Christopher. Ela sorriu delicadamente. — Boa noite, Claudia. O belíssimo casal caminhou para a carruagem. Tanner já estava na boléia, e Bundy, ao lado da porta, impaciente, passava o peso do corpo de um pé para o outro. Os dois entraram, o criado subiu para o lado do cocheiro e, com um pesado mosquete nos braços, cobriu as pernas com a manta grossa. Tanner incitou os cavalos, estalando a língua no céu da boca, sacudiu as rédeas, e eles partiram. A noite estava quieta, como sempre acontece quando a neve cai suave e lentamente. O mundo silencioso e escuro, com seu tapete branco, envolveu-os num vazio sedoso, onde os únicos sons eram os das patas dos cavalos e o leve ranger da carruagem, com a luz fraca dos dois lampiões laterais externos mal conseguindo penetrar a pesada cortina de neve. No interior, os dois lampiões iluminavam vagamente Erienne encolhida no banco traseiro, firmando o corpo contra o balanço da carruagem. No outro banco, Christopher fechou bem o casaco e levantou a gola da capa. Evitando o olhar dele, Erienne virou para o lado e abriu a cortina, para ver a neve caindo à luz do lampião. Recostou-se no banco, ajeitou a manta de peles, canalizando o calor dos aquecedores a carvão para as pernas. Depois de algum tempo, Christopher desistiu dos esforços para se aquecer, deixou o banco e a sua capa e sentou-se ao lado dela. Ergueu a manta e a estendeu sobre as próprias pernas. Depois de prendê-la dos dois lados, em volta deles, recostou-se no banco e olhou para sua companheira, desafiando-a a protestar. Perturbada com tanta ousadia, Erienne pensou que, se lorde Saxton tivesse lembrado do frio da noite, teria providenciado duas mantas de pele. Ficou mais preocupada


quando Christopher pôs o braço nas costas do banco, atrás dela. Desafiou-a outra vez, até Erienne desviar os olhos e então admirou o corado suave do rosto dela, o nariz fino e bem-feito e os lábios delicados, que pareciam pedir o toque dos seus. Contemplou-a como quem contempla uma rosa coberta de orvalho, encantado com sua beleza delicada. As pestanas escuras e espessas esconderam os olhos, sentindo a atenção dele, e Erienne experimentou um prazer momentâneo que jamais sentira. Christopher agira como um cavalheiro durante toda a noite, e a lembrança da sua atenção ardia ainda como fogo sob cinzas no seu íntimo. A noite envolvia-os com seu silêncio imóvel, e ela sentia-se aconchegada e livre do mundo lá fora. Nenhuma ameaça parecia iminente. A carruagem deu um salto, e a mão de Christopher caiu sobre o ombro dela. Erienne ergueu os olhos, mas viu apenas uma expressão intrigada no rosto dele. Embalada pelo calor e pelo conforto, encostou a cabeça para trás, contra o braço dele, num gesto natural, como um pássaro que encontrou o ninho. com os olhos quase fechados, viu quando ele abaixou a luz do pavio do lampião e, quase adormecida, viu a chama diminuir e se apagar. Os dedos longos seguraram seu queixo, virando seu rosto para ele. Inclinando-se, Christopher pousou os lábios nos dela, movendo-se suavemente, atiçando chamas que Erienne nem sabia que existiam. Ergueu a mão para acariciar o pescoço dele, acima da gravata alta e então, voltando à realidade, apoiou a palma no peito dele e o empurrou para trás. Enquanto ela tentava fazer voltar ao normal sua respiração, Christopher sentou-se no canto da carruagem, franzindo a testa, irritado. O coração de Erienne continuava a bater com força, e ela tinha a impressão de estar vendo tudo de uma grande distância. Procurou conter o impulso de estender os braços e puxar a cabeça dele para perto da sua. Fora um beijo tão simples. Certamente nenhum desastre podia advir dele, mas Erienne sabia que o gelo era muito fino e precisava caminhar com cuidado, para não mergulhar no mar agitado e sem volta. Ela tentou endireitar o corpo, mas seus ombros estavam ainda presos sob o braço dele, que de repente se retesou, e Christopher voltou para ela, sem hesitação. Os lábios de Christopher estavam outra vez nos seus, acariciando, tentando, pedindo uma resposta. Mas ela não podia dizer sim, pois estava comprometida com outro homem. Também não podia dizer não, pois aquele era o momento que havia tanto tempo esperado e desejado. A resposta foi leve como o orvalho na primavera. Nem sim, nem não, mas sua mente exclamava com um ardor de agonia: Oh, meu amor, por favor, não vá embora! Christopher sentiu a resposta no movimento quase insensível dos lábios dela sob os seus, no leve relaxamento da mão no seu peito. Abraçando-a pela cintura, puxou-a para mais perto e o beijo tornou-se mais sensual e mais profundo. A capa caiu dos ombros dela. Erienne estremeceu quando os lábios dele acariciaram seu rosto, sua testa, depois pousaram delicadamente sobre as pálpebras. Ele encostou o rosto no cabelo perfumado, encontrou a orelha e a tocou levemente com a ponta da língua. O desejo pulsou com urgência no corpo dele. Há muito tempo vinha sendo paciente, mas agora não podia dominar mais o tumulto da sua paixão. Sua preocupação por ela diminuía na proporção do seu desejo e ele levou a mão a um dos seios de Erienne.


com uma exclamação de espanto, ela endireitou o corpo e o empurrou, afastando o ferro quente que parecia queimar sua pele. Mantendo-o afastado com o braço no peito dele, ela murmurou, ofegante: — Está passando dos limites, senhor. Deu-me sua palavra! — Sim, madame, eu dei — murmurou ele. — Mas, lembre-se, meu amor, dos limites combinados. — Inclinou-se para ela. — Doce Erienne, o baile acabou. Segurou a cabeça dela e a beijou novamente. Os protestos transformavam-se num gemido de desespero. Ou seria de prazer? A mão dele voltou, e agora os braços de Erienne estavam presos pelos dele. Sob a maciez da fazenda do vestido, os seios cresceram aquecidos pela carícia dos dedos de Christopher. Era como se cada nervo do seu corpo estivesse em fogo. A manga estava apertando seu ombro, e ela procurou diminuir a pressão. Num momento, ele desabotoou o vestido nas costas, libertando os seios túmidos e rosados. Uma chama ardente percorreu o corpo dela quando Christopher abaixou a combinação. Ela virou, numa fraca tentativa de escapar da paixão dele e dos próprios desejos, mas Christopher a segurou e puxou-a para ele. O grito de espanto transformou-se num gemido de prazer. Os lábios dele amassaram os dela de forma quase selvagem. Era um beijo exigente, faminto, que procurava o interior mais recôndito da sua boca, acariciando seus nervos com cada movimento da língua e incendiando-a toda com seu ardor. — Meu doce e querido amor — murmurou ele, beijando os lábios trêmulos. — Eu a desejo tanto. Entregue-se a mim, Erienne. — Não, Christopher, não posso! Afastando-se um pouco, ele olhou para o rosto corado e para os seios eretos. — Pois então minta, madame, e diga que não quer nada comigo. Erienne abriu a boca mas não disse nada, olhando para ele, indefesa, apanhada na rede do próprio desejo. Outra vez ele a beijou, agora, calma e demoradamente. Não encontrou resistência quando a fez deitar-se de costas sobre a manta de pele. Suas bocas uniram-se numa comunhão intensa, movendo-se, girando suavemente, devorando, até sentirem a necessidade urgente de muito mais. A paixão cresceu como uma labareda e com ela o desejo, subindo cada vez mais. Beijando o pescoço dela, Christopher murmurava com voz rouca e indistinta, e o mundo de Erienne despencou num caos de sensações. O calor dos lábios dele num dos seios rosados foi como um choque, que a fez prender a respiração. Seus lábios se entreabriram, mas ela ficou em silêncio, enquanto a língua dele passeava por sua pele macia e branca. Alheia à sua vontade, a mão de Erienne acariciou o ombro dele e seus dedos emaranharam-se no cabelo na nuca. Passando as mãos sob os joelhos dela, ele pôs as pernas de Erienne sobre as suas. Ela deixou escapar uma exclamação abafada quando as mãos dele subiram até suas coxas. — Christopher, não pode fazer isso — murmurou, desesperada. — Eu pertenço a outro homem. — Você pertence a mim, Erienne. Desde que nos conhecemos, você é minha. — Pertenço a ele — protestou ela, sem convicção, mas os lábios de Christopher procuraram os seus outra vez. O corpo dela estremeceu quando a mão dele a tocou onde homem nenhum tocara


antes. Os olhos de Christopher brilhavam e suas carícias tornavam-se cada vez mais ousadas. Erienne prendeu a respiração e olhou para ele, surpresa com a sensação de prazer que a envolveu e crispou todo o corpo, incapaz de impedir que o mundo todo girasse à sua volta. com um estremecimento quase de frio, aconchegou-se a ele e sentiu os lábios sobre seus cabelos e ouviu seu nome murmurado docemente. A batida na capota da carruagem sobressaltou-os, Christopher estendeu o braço para apagar o outro lampião e depois abriu a cortina de veludo. Através dos flocos de neve, as luzes da torre de Saxton Hall apareciam à distância. Fechando a cortina, ele respirou fundo e se endireitou no banco, ajudando-a a sentar-se ao seu lado. — Ao que parece, madame, teremos de continuar mais tarde. Estamos quase em casa. Abalada e aturdida, evitando os olhos dele, Erienne começou a compor a roupa. Ele virou-se de lado para não ver aquela nudez, mas estendeu a mão para ajudá-la com os colchetes do vestido. — vou passar a noite na mansão — murmurou Christopher, beijando-a na nuca. Erienne se afastou, com um olhar rápido e nervoso. — Vá embora, Christopher. Eu lhe peço, vá embora. — Tenho alguns assuntos a tratar com a senhora, madame e tem de ser esta noite. Irei ao seu quarto... — Não! — Ela balançou a cabeça, temendo o que podia acontecer se ele a procurasse outra vez. Tinha escapado, não completamente pura, mas ainda virgem. Porém, era uma condição extremamente frágil e podia não resistir a outro ataque da paixão dele. — Não o deixarei entrar, Christopher. Vá embora. — Muito bem, madame. — Ele parecia medir as palavras, com cuidado. — Tentarei me controlar até amanhã, então vamos pôr tudo às claras e será minha antes do fim do dia. -” Erienne olhou para Christopher, preocupada, certa de que ele falava sério. A carruagem parou com um estremecimento que parecia o reflexo do que percorreu seu corpo. Christopher não teria pena dela e eliminaria quem quer que se pusesse no seu caminho. Precisava evitar isso!

Capítulo Dezesseis BUNDY abriu a porta da carruagem, e Erienne, sem esperar pelos degraus, saltou, ignorando a ajuda oferecida pelos dois homens. Como que esporeada por um demônio montado nos seus ombros, voou para o enorme portal de Saxton Hall, sem se importar com a neve, que cobria seus sapatos. A saia do vestido deixou uma trilha com as leves marcas dos pés, que pareciam alados, no centro. Bateu a porta pesada, o som ecoou no silêncio da noite, e Bundy olhou, cauteloso, para dentro da carruagem, onde Christopher, com um sorriso, dobrou a manta e a pôs no banco da frente. Apanhando sua capa e a de Erienne, ele desceu e parou por um momento, esperando que o ar frio acalmasse sua mente e seu corpo. Paine, que ouvira a carruagem e caminhava para a porta, olhou espantado quando Erienne, como um furacão, quase o derrubou na sua passagem. Ela subiu a escada e, chegando ao quarto, bateu a porta também, girando rapidamente a chave na fechadura. Só então parou para respirar. Fosse pelo alívio de ter escapado do ianque, fosse pela corrida louca, ou simplesmente por medo, seu coração batia loucamente


no peito, sacudindo o corpo todo a cada pulsação. Sua mente disparou, relembrando os eventos da noite. Era a primeira vez, desde o dia do seu casamento, que trancava a porta do quarto e temia que lorde Saxton quisesse visitá-la e a encontrasse trancada. Porém tinha mais medo que Christopher chegasse ao seu quarto para terminar o que haviam começado. Tinha certeza de que não poderia resistir a outro assalto daquele conquistador. Ele a seguia por toda a parte, e Erienne estava certa de que, se tomasse um navio para os confins da terra, em pouco tempo ia ver os mastros enormes do Cristina no horizonte, correndo atrás dela. Prendeu a respiração quando ouviu passos no corredor, que pararam por um momento na frente da sua porta, depois se afastaram na direção do quarto de hóspedes. Consternada, pensou que ele ia passar a noite na mansão e teria de enfrentá-lo na manhã seguinte. Na carruagem, estava pronta para se entregar e, assustada, lembrou da promessa que ele fizera. Todo seu ser ardia com o desejo despertado por Christopher. As mãos no seu corpo, os lábios nos dela foram persuasivos demais. Não conseguira resistir a tanto ardor e seu orgulho desapareceu sob o ataque deliberado aos sentidos. Ele a levara ao momento de delicioso êxtase, sabendo perfeitamente o que estava fazendo, e agora Eríenne viveria para sempre sedenta por aquele prazer. com um soluço de raiva, afastou-se da porta. Apertando as têmporas com os dedos trêmulos, começou a andar pelo quarto. Fizera uma promessa sagrada na igreja e, embora seu casamento não tivesse se consumado, estava presa à própria palavra. Não podia trair o marido de forma tão desprezível. Ele também a desejava, e no entanto, Erienne continuava a negar seus direitos. Agora, se ele aparecesse, ia perceber que alguma coisa estava errada, e ela, o que podia fazer? Já que quase se entregara a outro homem? Um tremor violento percorreu-lhe o corpo. Suas emoções estavam esfaceladas e não encontrava paz no pensamento. O que seu coração desejava era contrário a tudo que considerava honrado, porém, o que a honra exigia, ela não estava pronta para dar. Ser a mulher de lorde Saxton mais do que no nome. Submeter-se aos desejos dele. Não podia suportar essa idéia. Parou ao lado da grande poltrona onde ele costumava sentarse e passou a mão pelo encosto. Lembrou de sua surpresa quando o tocou pela primeira vez. Esperava sentir repulsa, mas não aconteceu. Seus dedos sentiram o calor da vida, os músculos firmes e fortes. Precisava se acalmar antes de ver o marido. Não podia permitir que ele visse o calor da paixão no seu rosto, nem a luz quente do desejo nos seus olhos. Temia provocar umónflito entre os dois homens. Tanto um quanto o outro eram capazes de violência e se um deles fosse ferido ou morto, ela seria atormentada pela culpa e pela tristeza pelo resto da vida. A quietude completa pairava sobre a casa, e só o carrilhão de um relógio, anunciando as duas horas da manhã, quebrou o silêncio. Nenhum passo ágil, nenhum passo arrastado chegou até sua porta, ninguém bateu, nenhuma bengala era ouvida na quietude da noite. Aos poucos, ela se acalmou, aliviada, vendo que nem Christopher nem lorde Saxton pretendiam ir ao seu quarto. Depois de se lavar rapidamente com a esponja, tirou a roupa e vestiu a camisola e o


robe, como sempre, diáfanos e transparentes, mal podendo ser chamados de roupa, típicos do gosto de lorde Saxton para ela. Sentou-se na frente da penteadeira e começou a escovar o cabelo, pensando naquela noite. Mil imagens passaram por sua mente, o baile, a grandiosidade da mansão dos Talbot, a persistência do anfitrião, os sorrisos zombeteiros de Claudia, e seus pensamentos voltaram a Christopher. Lembrou-se da primeira vez que se viram. Ela estava tão ansiosa por um pretendente com boa aparência que o recebeu alegremente em sua casa. Embora seu pai fosse o culpado de tudo que acontecera entre os dois, ainda ficava lívido de raiva quando ouvia o nome de Christopher. Erienne não compreendia como Avery podia ser tão indiferente a tudo que fizera, agindo como um homem inocente. Pôs a escova na mesa e levando o cabelo para trás, deixou-o cair livremente nas costas. — Será que sou realmente a filha do meu pai? — murmurou. — Será que tenho a testa parecida com a dele? — Inclinou-se para a frente e observou atentamente a imagem no espelho. — Talvez os olhos sejam como os dele, ou o nariz. — Moveu o lampião para mais perto do espelho, ergueu o queixo e virou a cabeça de um lado para o outro, passando a ponta do dedo no lábio inferior. — Onde está a semelhança? Na aparência externa? — Arregalou os olhos, apavorada. — Não é externa, mas interna! Está aqui! — Levou a mão fechada ao peito, olhando para a imagem boquiaberta que observava com desprezo. — Neguei ao meu marido os direitos concedidos por meu próprio juramento, contudo, existe dentro de mim este desejo insano de me entregar a outro homem. Meu pai entregou-se à cobiça e ao jogo e me vendeu em leilão. É a mesma coisa. O sangue do meu pai é o meu. Ficou de pé, apoiando as mãos na mesa, inclinada para a frente, procurando negar a acusação da imagem no espelho. — Não permitirei que isso aconteça! Meu marido terá o que lhe prometi! Quase sem perceber o que fazia, ela saiu para o corredor e parou na frente da porta do quarto de lorde Saxton. Antes de ter tempo de pensar no horror que a esperava, entrou, fechou a porta pesada e virou-se para girar a chave. O fogo fraco crepitava na lareira. As cortinas laterais estavam fechadas, mas os pés da cama abriam-se para o calor do fogo. Ela percebeu um movimento apressado e então o murmúrio da voz rouca soou alto no quarto silencioso. — Quem me procura? O coração de Erienne saltou no peito, mas como a galante Joana d’Ark, não podia fugir agora ao seu destino. Caminhou devagar para os pés da cama, sua sombra longa dançando entre as outras. Viu o corpo deformado do marido sob as cobertas, percebeu quando ele cobriu a cabeça com um pano de seda fina. — Erienne, milorde. — Desamarrou a faixa e tirou o robe, depois pôs um joelho nos pés da cama. A expectativa continuou, bem como o silêncio e, pondo o outro joelho sobre a cama, ela sentou-se sobre os calcanhares. com voz trêmula, explicou o motivo da sua visita. — Meu senhor, tenho menos medo do que o senhor é do que posso me tornar se não fizer de mim sua esposa de verdade. Peço que me possua para que não haja mais nenhuma dúvida no nosso casamento — disse ela. Inclinou-se para a frente para tirar o pano de seda do rosto dele, mas lorde Saxton a impediu, segurando seu pulso. Mesmo de perto, ela só via o brilho dos olhos, nada


mais. Lorde Saxton balançou a cabeça e murmurou: — Na verdade, meu amor, este rosto ainda é aquele que a fará fugir horrorizada. Erienne girou a mão para segurar a dele, e a cabeça coberta inclinou-se sobre ela. Através do pano de seda, os lábios acariciaram seus dedos com ternura infinita. Depois de um momento, com a voz repleta de carinho e de pena, como se compreendesse o conflito que turbilhonava dentro dela, ele murmurou: — Erienne, meu amor, feche as cortinas. De joelhos, ela ergueu os braços e obedeceu. A luz do fogo revelava toda a beleza do seu corpo, desenhado em silhueta, então a luz desapareceu, e os dois ficaram na completa escuridão. Para Erienne, era como se uma porta acabasse de ser fechada atrás dela, para nunca mais ser aberta. Estava ali para cumprir um compromisso de honra e cumprir seus deveres de esposa, mas, agora, não sentia coragem de ir até o fim. Esperou, lutando contra o medo e contra o desejo quase insuportável de fugir. Lorde Saxton ajoelhou-se na frente dela. Como uma pena voando levemente para o chão, suas mãos desceram por seus braços, e depois ergueram a simbólica armadura da camisola até sua cabeça, tirando-a. Braços fortes a enlaçaram e o calor do corpo dele encontrou a pele macia e gelada de Erienne, silenciando a exclamação que quase chegou aos seus lábios. A surpresa que sentiu nada tinha a ver com repulsa, e sim com a sensação do contato forte e masculino do marido. O membro ereto era como um ferro em brasa contra suas coxas. Ela lembrou aquela noite na estalagem, quando o vira nu e excitado por sua presença. O choque da sua inocência não foi menor do que nesse momento. Surpreendeu-a a força dele. Lorde Saxton a tomou nos braços, levantou-a com facilidade e a fez deitar com ele. Embora o pano de seda separasse ainda o rosto deformado dos olhos dela, os lábios descobertos acariciaram seu pescoço, e desceram, até pousarem, quentes e úmidos, no seu seio, excitando-a de um modo que ela jamais julgaria ser possível com ele. Erienne impediu que seus lábios dissessem a palavra que subiu até eles porque era o nome de outro homem. Percebendo a insistência daquela lembrança, Erienne ficou mais firme no seu propósito. Moveu o corpo contra o dele, numa resposta ansiosa e levando a mão ao pescoço do marido, sentiu uma cicatriz longa e sinuosa que descia até os músculos das costas. Isso ajudou a convencê-la de que estava fazendo amor com lorde Saxton. Seu marido tinha as cicatrizes, não Christopher Seton. Agarrou-se a essa lembrança quando as carícias ficaram mais ousadas, explorando os segredos do seu corpo, com a segurança de um amante experiente. Erienne esperava uma impaciência desajeitada e rude, mas ele era delicado... tão infinitamente gentil. Suas mãos percorriam com deliberada lentidão cada detalhe do seu corpo, como que saboreando o que encontrava, e ela estremeceu sob aqueles dedos leves. Ele se pôs entre as pernas dela, e Erienne deixou escapar uma exclamação abafada quando o membro ardente a penetrou. Uma dor aguda e rápida a envolveu quando a tênue resistência foi vencida, e Erienne mordeu o lábio para não gritar, escondendo o rosto no pescoço dele. Suas unhas enfiaram-se nas costas do marido, mas ele aparentemente não sentiu, beijando sua orelha e sua testa. A respiração dele era rouca e áspera no seu ouvido e o coração batia forte contra os seus seios nus. Ele começou a se mover com cuidado. Devagar a princípio, e a dor passou. As pontas


rosadas dos seios dela estava eretas sob a penugem do peito dele. Ela começou a responder ao movimento do corpo dele e uma sensação selvagem os envolveu, erguendo-os a alturas estonteantes. O prazer que se espalhava pelo corpo todo, o mesmo que ela sentira havia pouco tempo, a fez levantar os quadris contra os dele. Foi como se estivessem num vôo espiralado, sempre para cima, chegando juntos até onde o ar era muito fino, e Erienne, quase sem poder respirar, pediu mais e ele deu. Procuravam um objetivo comum com os corpos unidos, os músculos flexíveis e em movimento, as pernas trançadas, confundidas. Um grito leve partiu dos lábios de Erienne quando a aura abençoada explodiu em volta deles, inundando-os com ondas pulsantes de um prazer que parecia não ter fim. Devagar, muito devagar, voltaram para a terra, exaustos, mas completamente satisfeitos com a união dos seus corpos. Ainda envolta na aura da paixão, Erienne aconchegou o corpo contra o do marido, com a crença firme de que Stuart Saxton não era uma concha vazia mas um homem de habilidade e força extraordinárias. Como a mansão, queimada e cheia de cicatrizes, por fora, ele possuía uma riqueza de qualidades que o fazia melhor do que qualquer outro homem. Acariciou o peito dele e quase automaticamente sua mão desceu para a perna aleijada. Outra vez os dedos fortes se fecharam como uma argola de ferro no seu pulso. — Lembre-se do que você tem, Erienne — murmurou ele, suavemente. — Tudo que posso lhe dar neste mundo. Não tente a sorte além deste momento, pois eu sofreria muito se visse esta noite transformada em um tempo de ódio. Erienne ia protestar, mas ele pôs um dedo sobre seus lábios. — Você pode estar preparada, meu amor, mas eu não estou. — Estendeu o braço para ajeitar o acolchoado em volta dela. — Gosto de senti-la perto de mim, nos meus braços e gostaria que dormisse comigo até pela manhã. Quer ficar? — Sim, milorde. — Ela se aconchegou outra vez no peito dele, mas a risada áspera a fez afastar-se, tentando”ver os olhos dele, que eram apenas uma sombra escura sob a seda fina. — Alguma coisa engraçada? — Dormir! Será impossível com você nos meus braços. — Devo ir, então? — perguntou ela, pondo a mão no peito dele. — Nunca! — Abraçou-a com força, encostando o rosto no pescoço dela. — Esperei uma eternidade por isto, e mesmo que sofra as penas do inferno da manhã, não deixarei que acabe tão depressa. — As penas do inferno, milorde? O que quer dizer? — Explico mais tarde, meu amor. Agora quero saborear uma vez mais as delícias que me concedeu. A luz do sol penetrou docemente o sono de Erienne e ela abriu os olhos, percebendo a presença no outro lado da cama. O marido, vestido de negro, estava de pé, ocupando quase todo o espaço entre as cortinas abertas. Atrás dele, a luz de um novo dia enchia o quarto, e no contraste ela viu não a forma do monstro, mas o homem com ombros largos, a máscara de couro negro, vestido também de preto. Certamente, depois daquela noite deliciosa, a impressão de que ele parecia mais alto e mais ereto era um truque da sua mente. Sentindo o olhar dele, ela piscou para afastar o sono. — bom dia, milorde — murmurou, com um leve sorriso. — Uma manhã excelente, meu amor, e tudo por sua causa.


Erienne corou, ouvindo aquela deliciosa lembrança da intimidade que tinham partilhado. A noite fora de muitos prazeres incríveis e inesperados para os dois, e ela estava ainda bastante consciente de tudo que tinha acontecido. Segurando o lençol contra o corpo, aceitou a mão que ele oferecia e sentou-se na beirada da cama, mostrando as pernas longas e perfeitas. Lorde Saxton apreciou a vista e ergueu os olhos para os seios cobertos pelo lençol. Afastou o cabelo solto nos ombros dela e com a ponta do dedo traçou a linha do pescoço. Erienne encostou o rosto na mão enluvada, surpreendendo-o com a ternura do seu olhar. — Não tem mais medo de mim, madame? — perguntou a voz rouca. Só então Erienne se deu conta de que todas as suas apreensões tinham desaparecido. A máscara era ainda uma barreira entre os dois, mas seria certamente retirada depois de algum tempo. — Estou satisfeita por ser sua mulher em todos os sentidos, milorde — murmurou ela. Lorde Saxton ficou atônito e não encontrou uma resposta adequada. Jamais esperou que ela entregasse toda aquela beleza a um homem deformado, e agora Erienne anulava todas as fronteiras que os separavam. O que podia pensar dessa atitude? Que ela amava o monstro? Seria ele um vencedor ou um perdedor? Erienne pôs a mão no braço dele. — Temos muito que aprender um sobre o outro e uma vida inteira para isso. Preocupa-me o fato de não ter visto ainda seu rosto e gostaria que... — Não, não posso. — Ele se afastou, arrastando o pé aleijado no tapete. Parou na frente da lareira e, durante um longo tempo, olhou para as chamas, depois inclinou a cabeça para trás, virando o pescoço de um lado para o outro, como para se livrar de uma dor. Agora que ela lhe pertencia, era mais difícil tirar a máscara. Erienne ia odiálo, e ele perderia tudo. — Como me concedeu tempo para me resolver — disse ela, interrompendo seus pensamentos —, esperarei também, milorde. Lorde Saxton olhou para ela. Erienne sorria suavemente. O desejo intenso tomou conta dele e só com esforço não a tomou nos braços, livrando-se da máscara, das luvas, beijando-a até sentir seus lábios latejarem sob os dele, Mas o bom senso venceu. Precisava esperar, do contrário perderia a rosa perfeita que tinha agora nas mãos. — vou sair por algumas horas esta manhã. O Sr. Seton lhe fará companhia no café. Provavelmente não voltarei antes dele partir, Quer, por favor, apresentar minhas desculpas? Erienne desviou os olhos da máscara inexpressiva, sentindo o sangue subir ao rosto. Christopher era a última pessoa que queria ver naquela manhã, mas não tinha nenhuma desculpa para negar o pedido do marido. Apenas inclinou a cabeça, num gesto afirmativo. Por insistência da governanta, Erienne finalmente apressou sua toalete e desceu para a sala. Tinha demorado no banho, esperando que Christopher perdesse a paciência e fosse embora, mas, no quarto, Aggie, numa atividade jovial, arrumou a cama, puxando as cobertas, dobradas e não usadas. Ajudada por Tessie, escolheu um vestido de seda rosa pálido com um fecho branco. A urgência de Aggie era contagiosa, e as mãos de Tessie pareciam voar quando começou a escovar o cabelo de


Erienne. Num instante, ela estava graciosamente penteada e pronta para encontrar o homem que virara sua vida do avesso. Apesar dos elogios sinceros das duas criadas, Erienne não se sentia preparada para o encontro com Christopher. Desejava desesperadamente sentir-se segura no seu novo status de esposa, mas uma lembrança insistente a fazia relutar em vê-lo de novo. Mesmo no auge da paixão, quando tudo parecia vir dos quatro cantos da terra, juntando-se para o momento de prazer supremo, alguma coisa no fundo da sua mente a fez lembrar o perfil perfeito de Christopher. Parou na torre, para se acalmar, mas nada parecia capaz de controlar as batidas do seu coração. Olhou, sem ver, para a pequena poça d’água deixada perto da porta por pés cheios de neve, sua mente toda voltada para o homem que a esperava na sala de estar. Tremia à idéia de enfrentá-lo, como se o episódio da carruagem tivesse provocado o fim da sua virgindade. Sentia o rosto corado de vergonha, e nada podia atenuar a memória daqueles momentos. Christopher estava sentado na poltrona de lorde Saxton, de frente para a lareira, com as pernas longas estendidas na direção do fogo. Assim que ela entrou, levantou-se e com um leve sorriso, observou-a, de alto a baixo, mas sem aquele brilho malicioso nos olhos, que sempre a fazia corar. — Eu esperava... que já tivesse partido — observou ela, com voz hesitante. — Queria vê-la, minha senhora — murmurou ele. Erienne desviou os olhos, apreensiva. A voz quente e masculina parecia dar vida a todos os seus sentidos. — Não precisava, Christopher, A noite passada acabou e não vai continuar. Estou,., estou arrependida de ter encorajado, de certa forma, o que aconteceu, mas prometo que não acontecerá outra vez, — Então, é verdade que prefere o monstro, Erienne? — perguntou ele. — Gosto de lorde Saxton — disse ela, em desespero, com lágrimas nos olhos. Fechou as mãos aos lados do corpo e olhou para ele com uma expressão quase de súplica, — Ele é meu marido. Jamais envergonharei o nome de Saxton! — Levou a mão trêmula à boca, para abafar um soluço e virou o rosto. Christopher aproximou-se e, inclinando-se sobre o ombro dela, disse em voz baixa, enquanto Erienne, zangada, enxugava as lágrimas: — Não chore, querida — pediu ele, — Não posso suportar sua tristeza. — Então, vá embora — implorou Erienne, - Vá embora e deixe-me em paz. Christopher franziu a testa, preocupado. — Por minha vida, meu amor, não posso fazer isso. — Por quê? — perguntou, voltando-se para ele. Christopher olhou para o chão e pensou por um momento. Então, levantou a cabeça e com os olhos nos dela disse: — Porque me apaixonei por você. Atônita, Erienne olhou para ele em silêncio. Como podia ser verdade? Um homem do mundo, acostumado a conquistas e a vitórias fáceis. Não um rapazinho inexperiente pronto para entregar o coração à primeira jovem que sorrisse para ele. O que ela teria feito para merecer aquela distinção? Durante quase todo o tempo fora obstinada e agressiva, sempre desconfiando das intenções dele. Como Christopher podia amá-la? — Não vamos falar mais nisso — murmurou, desesperada. — E não falar no assunto vai aliviar a dor? — perguntou ele, começando a andar pela


sala, agitado. — Que diabo, Erienne, eu a segui de um lado para outro, fiz todo o possível para que me visse como um homem, sempre sem resultado. Você me considera ainda um monstro malvado, que maltratou cruelmente sua família. Prefere alimentar um animal com as doces alegrias do matrimônio a me considerar digno de ser seu marido. Será que estou louco? Pode me dizer por que um homem de mente sã fica agarrado às suas saias, à espera da menor migalha de afeição, enquanto você serve o melhor manjar a um homem deformado? Se pensa que não tenho ciúmes do seu marido, está muito enganada, madame! Odeio aquela máscara! Odeio a perna aleijada! Odeio aquela bengala! Ele tem o que eu quero, e silenciar sobre isso não torna esse veneno nem um pouco mais doce! O barulho de pratos anunciou a entrada do mordomo, mas Christopher estava furioso, e, voltando-se com um rosnado, mandou Paine se retirar. — Saia daqui, homem! — Christopher! — Erienne deu dois passos na direção do criado atônito, mas Christopher se pôs na frente dela. — Fique onde está, madame! Não terminei ainda! — Não tem o direito de dar ordens aqui — protestou, furiosa também, — Esta é a casa do meu marido! — Dou ordens onde e quando eu quiser e, pelo menos por uma vez, vai ficar quieta e ouvir o que tenho a dizer! Profundamente ofendida, Erienne respondeu: — Sr. Seton, pode comandar os homens do seu navio à vontade, mas não tem nenhuma autoridade nesta casa! Um bom dia para o senhor! Segurando a saia com as mãos, ela deu meia-volta e foi para o hall da torre. Ouvindo que ele a seguia, apressadamente, teve medo de que Christopher fizesse uma cena, envergonhando-a na frente dos criados... ou aos olhos do seu marido. Passou pela poça d’água e correu para a escada. Quando estava no quarto degrau, ouviu o ruído de pés escorregando no hall, um baque surdo seguido por um palavrão em voz alta. Ela virou e viu Christopher escorregando de lado, no chão molhado, até bater com as costas na parede. Por um momento ela olhou para aquele homem tão digno, esparramado numa pose tão indigna, mas quando ele ergueu os olhos, com raiva mal contida, Erienne riu. O riso soou cristalino, e ele respondeu com um olhar feroz e irritado. — Machucou-se, Christopher? — perguntou ela, docemente. — Sim! Meu orgulho está gravemente ferido! — Oh, isso vai sarar, senhor — disse ela, rindo, arrumando a saia para sentar-se no degrau. Seus olhos brilhavam tentadoramente. — Mas precisa ter cuidado. Se uma pequena poça d’água pode derrubá-lo tão de repente, não o aconselho a navegar muito longe da praia. — Não foi a poça d’água que me derrubou, mas uma vespa furiosa que está sempre me atacando. — Ousa me acusar, quando entrou aqui bufando e gritando como um touro furioso? — Deu uma risada rouca. — Francamente, Christopher, devia se envergonhar. Assustou Paine e quase me fez engolir meu coração. — Isso seria impossível, madame, pois sem dúvida ele é feito de aço frio e duro. — Está amuado porque não caí desmaiada aos seus pés.


— Estou zangado porque está sempre negando o fato de que deve ser minha mulher — disse ele, enfaticamente. Ouviram passos na escada. Aggie descia calmamente, ignorando o olhar furioso de Christopher, Pedindo licença, passou por Erienne. Finalmente, quando desceu o último degrau, olhou para o homem, com um brilho maroto nos olhos— Não está velho demais para descansar sentado no chão, senhor? Ele ergueu uma sobrancelha para Erienne quando ela deixou escapar um riso abafado, bufou, levantou-se e passou a mão no calção e na manga. — Estou vendo que não vou conseguir nenhuma simpatia por aqui, portanto vou deixá-las para se entenderem, como for possível, com lorde Saxton. — Não vá embora zangado, senhor — disse Aggie. — Não comeu nada ainda. Fique e almoce com a gentil senhora. Christopher rosnou, com ironia. — Sem dúvida vou encontrar companhia mais agradável na Estalagem do Já vali. Erienne ergueu a cabeça. A idéia de que ele podia procurar consolo com Molly provocou uma sensação de ciúme intenso. A imagem do corpo forte e musculoso nos braços daquela mulher sensual apertou seu coração. Não podia suportar a idéia de ele fazer amor com outra mulher, apesar de ela ter dormido, naquela noite, com lorde Saxton. O sangue subiu ao seu rosto, e ela retaliou, furiosa: — Pois então vá! — exclamou. — E vá depressa! Tenho certeza de que logo esquecerei que o senhor existe. Christopher franziu a testa, e Aggie desapareceu discretamente. — É isso que deseja realmente? Nunca mais me ver? -— Sim, Sr. Seton. — Erienne não tentou deter as palavras ditadas pela amargura e pelo ciúme. — É como tem de ser. Ele praguejou em voz baixa antes de responder. — Se é isso que a senhora deseja, é o que vai ter. com passos largos, Christopher saiu e bateu a porta com força. As lágrimas assomaram aos olhos de Erienne, e ela abafou um soluço. Subiu a escada correndo e quando entrou no quarto, imitando Christopher, bateu a porta. O mau humor de Erienne surpreendeu os empregados. Ela sequer franzia a testa para eles. Os problemas que surgiam eram sempre tratados com autoridade inegável, mas tranqüila. Assim, quando souberam que ela expulsara da casa o cavalheiro, Sr. Seton, ficaram atônitos. Paine serviu o almoço, sentindo-se inseguro, sem coragem para insistir quando Erienne não queria comer alguma coisa. Até Aggie parecia preocupada, embora tivesse passado a manhã muito alegre, depois de arrumar o quarto do patrão. As criadas que faziam esse serviço foram mandadas, sem explicação, para arrumar outra parte da casa. Embora tivessem pouco tempo para conversar, conjeturas preocupadas corriam de boca em boca. A presença de um homem como Christopher Seton na mansão era sem dúvida motivo de comentários, especialmente depois que ele expulsou Paine da sala. E naturalmente não podiam imaginar o que ele teria feito para irritar tanto a patroa. Perturbada, Erienne saiu para um passeio ao ar livre, fora das paredes silenciosas da mansão. O sol, raro naqueles dias, apareceu brilhante, derretendo a neve que caíra durante a noite, à medida que seguia seu caminho no céu. Embora houvesse ainda alguns trechos cobertos de neve, na sombra dos muros e dos arbustos, as pedras que


marcavam o caminho eram visíveis em volta de um pequeno jardim, que ficava entre a casa principal e a ala leste, incendiada. Erienne parou na trilha estreita para respirar a brisa gelada. Precisava daquele frio no rosto e nos pulmões para clarear a mente e talvez para consertar suas emoções despedaçadas. Irritava-a o fato de não conseguir tirar Christopher da lembrança. Queria desesperadamente viver só para o prazer imenso que tinha partilhado com lorde Saxton, mas as imagens que surgiam em sua mente insistiam em combinar a lembrança dos momentos na cama do marido com os da carruagem, atacando impiedosamente sua intenção de ser fiel. Os desejos impossíveis do coração lutavam contra sua vontade, numa batalha feroz e desesperada, mas sem resultado. Tristemente, ela compreendeu o que o destino lhe reservava, uma vida de horror. Porém, por mais que isso significasse ferir gravemente o coração que pulsava dolorosamente no seu peito, estava decidida a fazer o que era direito. Era um compromisso de honra. Erienne chutou uma pequena pedra no caminho e acompanhou sua trajetória até um lugar ao lado do muro, onde um pouco de cor quebrava a monotonia da neve, entre o cinza opaco e o marrom de um arbusto seco. Ali, tremendo na brisa, ela viu uma pequena rosa vermelha. O arbusto era pequeno e fraco, com aquela única flor que, por milagre, trazia sua beleza ao frio do inverno. Encantada, Erienne pôs as mãos em concha delicadamente sob a rosa e inclinou-se para sentir o perfume das pétalas vermelhas. Lembrou então da lenda ouvida fazia muito tempo, quando sonhava ainda com um príncipe encantado oferecendo uma única rosa à sua amada. Dizia a lenda que uma rosa encantada no inverno era a promessa de um amor verdadeiro. Erienne tocou as pétalas delicadas e por um momento imaginou um cavaleiro com armadura e um rosto muito conhecido sob o visor do capacete. No devaneio, ele lutava para libertá-la do seu triste destino e vencendo a batalha tornava-se seu único defensor, seu único amor. Ele inclinou-se para tomá-la nos braços, e então cavaleiro e armadura prateada desapareceram para sempre, levados pela brisa. Erienne suspirou trêmula e longamente. Seu coração, pesado como chumbo, só desejava se libertar daquele peso. Mas não apareceu nenhum socorro. Christopher se fora e talvez jamais voltasse Por ordem de lorde Saxton, nenhum dos criados devia esperar, se ele não tivesse voltado até uma certa hora. Nessa noite, nenhum esperou e quando todos se retiraram a casa ficou silenciosa. Velas ardiam ainda para iluminar os corredores escuros e à sua luz fraca o dono da mansão passou como um fantasma. Procurando penosamente diminuir o ruído surdo dos seus passos, subiu a escada e caminhou pelo corredor até o quarto de Erienne. Abriu a porta, encostou no batente e saciou os olhos na mulher, que dormia sob as cobertas. Respirando suavemente, ela estava de lado, virada para a lareira, com uma das mãos debaixo do travesseiro. O cabelo espalhado desaparecia no escuro, e ele sabia que se a tomasse nos braços as mechas negras e perfumadas tocariam seu rosto. Olhando para ela, ele transformava em realidade as visões que o tinham acompanhado durante todo o dia. Uma mulher de beleza invulgar que aquecia seu sangue muito além do que ele podia suportar. Cauteloso, evitando o menor som que pudesse trair sua presença, aproximou-se da cama e abriu as cortinas de veludo. Passando para o outro lado, tirou as luvas e a


máscara. Logo, a sombra que parecia sair da noite entrou na cama e deitou-se ao lado dela, sob as cobertas. Entre as cortinas de veludo, ele era apenas um movimento na noite. Quando encostou o corpo nas costas dela, Erienne suspirou suavemente. Ele aspirou o perfume dos cabelos escuros e os afastou para beijar-lhe a nuca branca. com a mão sob a camisola da mulher, procurou a maciez daquele corpo perfeito. Entre o sonho e a realidade, Erienne entregou-se toda à mão que a acariciava, vendo, nas bordas do inconsciente, os olhos verdeacinzentados perto dos seus. Uma embriaguez deliciosa a envolveu quando o corpo firme invadiu sua camisola. Aconchegou-se a ele e o murmúrio a embalou. — Não posso deixá-la em paz. — Tocou com os lábios os ombros dela. — Sua lembrança altera as batidas do meu coração e excita de tal modo meu desejo que tenho de procurá-la ou gemer com a tortura do desejo insatisfeito. A camisola foi atirada para longe, para o escuro, com um leve farfalhar de seda quando caiu no chão. Erienne despertou completamente quando sentiu o calor do corpo dele contra o seu. Ele era um homem, com o membro ereto e quente encostado nas suas nádegas. Seus seios aqueceram-se com as carícias das suas mãos e cresceram, rígidos, sob os dedos leves e delicados. Fagulhas de excitação percorreram seu corpo até seu sexo despertar com um desejo intenso. As carícias continuaram, seguindo a linha dos quadris, e seu coração acelerou. Ela respondeu com um gemido surdo quando as mãos invadiram a privacidade do seu corpo, acendendo todos os sentidos, numa expectativa deliciosa. Tinha a impressão de estar derretendo com o calor do corpo dele e arqueou o pescoço, sentindo os dentes, que mordiscavam de leve sua coluna. com a mão no ombro dela, ele a fez deitar-se de costas, e Erienne prendeu a respiração quando a língua se moveu lentamente num dos seus seios. Os lábios desceram, acariciando a cintura e a barriga, deixando à sua passagem uma trilha de fagulhas que ameaçavam consumi-la. Erienne esperou, submissa e ansiosa, e ele deitou-se sobre ela. Era delicioso o peso sobre suas pernas abertas e com uma exclamação abafada sentiu que ele a penetrava. Levou as mãos aos ombros dele e encontrou a cicatriz que a ajudava a tirar Christopher do pensamento. Então, com um movimento quase hipnótico, o corpo dele estava acariciando o seu, lenta e confiantemente, inserindo a lâmina ardente e retirando, até tudo se transformar num doce êxtase que era também tortura. Ela arqueou os quadris para cima, e os olhos verdeacinzentados voltaram quando suas mãos apertaram com força as nádegas dele. Em sua mente, os olhos verdes brilhavam em triunfo, mas Erienne já havia passado o ponto em que podia dominar a própria vontade e não se importou, naquele momento, com a imagem escolhida por sua imaginação. Envolta ainda na sensação do prazer, Erienne, satisfeita, aconchegou o corpo no calor do peito largo e forte ao seu lado. Ele estava virado para ela, com as pernas encolhidas sobre suas nádegas, o pé direito estendido. O único som que quebrava o silêncio era o tiquetaque surdo e distante de um relógio. As cortinas pesadas impediam a invasão do menor raio de luz, envolvendo-os numa escuridão acolhedora. Mesmo assim, Erienne continuava a ver o perfil de linhas fortes e a sentir o calor dos olhos verde-acinzentados. — Você esteve bebendo — murmurou ela. — Estive — respondeu a voz áspera, beijando-a na testa. — Acho que estava atormentado por meu desejo por você.


Ela sorriu, no escuro. — Seu desejo cheira a bebida forte. — Meu tormento não pode ser aliviado com uma ou duas doses. A bebida só serviu para excitá-lo mais ainda. — Por que não voltou para casa? Eu estava à sua espera. Ele respondeu com uma risada discreta. — Sim, e voltar para você durante o dia teria sido realmente desastroso. Não tem idéia do quanto é tentadora, madame? — Eu não compreendo — respondeu, confusa. — Sou prisioneiro das trevas, Erienne. Só posso vir para você quando a noite esconde meu rosto, porém tenho um desejo ardente de tomá-la nos braços quando o sol brilha no céu, quando posso ver seu rosto e seu corpo, ardentes de paixão, É o meu inferno que só posso ser o monstro da noite. Só muito mais tarde, Erienne começou a pensar naquela presença ao seu lado, A respiração regular e profunda do marido dizia que ele estava dormindo, e como uma folha levada pela brisa a mão de Erienne tocou os quadris dele, cuidadosamente, até se deter numa cicatriz saliente e macia, típica de queimadura. Não podia saber até que altura da perna ela se estendia, mas aquele achado a desencorajou de ir adiante. Retirou a mão com um leve estremecimento, imaginando se jamais chegaria a explorar a parte que talvez acabasse com suas apreensões. A carruagem ostentosa de lorde Talbot parou na frente de Saxton Hall uma semana depois do baile. Os dois cavalariços saltaram para o chão e enquanto um corria para segurar os cavalos o outro pôs uma pequena banqueta no chão, antes de abrir a porta. Um sapato com fivela de ouro apareceu, procurando cautelosamente a banqueta, seguido pela figura de lorde Talbot, ricamente vestido de brocado. No chão, ele olhou em volta com arrogância e ajeitou a capa, também ostentosa, com um pequeno movimento dos ombros. O cavalariço correu para bater à porta com a pesada aldrava, enquanto o lorde caminhava cuidadosamente para a entrada da torre com um embrulho envolto em seda na mão enluvada. Paine atendeu a porta, e o cavalariço anunciou a presença do seu amo. O mordomo não se impressionou com o fato e o recebeu com a sua costumeira eficiência muito digna. Depois de apanhar as luvas, o tricórnio e a capa pesada, conduziu lorde Talbot para a sala, pedindo-lhe que esperasse, enquanto ele avisava lorde Saxton da sua presença. Embora muito menos grandiosa que a de lorde Talbot, a sala de Saxton Hall testemunhava sua antiguidade e sua linhagem. As vigas do teto, em arco e rudemente entalhadas, e as tapeçarias que pendiam das paredes de argamassa e madeira falavam de um tempo quando o cavalheirismo e a honra reinavam sobre aquelas terras. A sala contrastava acentuadamente com as roupas do visitante. Tanto a sala quanto as roupas estariam perfeitamente atualizadas trinta anos antes, mas agora, enquanto a mansão continuava sem data no tempo, os trajes de lorde Talbot pareciam antiquados e ostentosos. Paine voltou e conduziu Talbot à sala além do salão nobre, onde o casal Saxton receberia o visitante. A batida dos saltos altos do afetado cavalheiro no chão de pedra ecoava pelos corredores. O mordomo parou para abrir a porta, convidando-o a entrar na sala. O homem mascarado levantou-se, e embora Talbot esperasse por um longo


momento ele não fez nenhuma mesura, nem inclinou a cabeça coberta de couro. Erienne ficou sentada, imóvel, atendendo à recomendação do marido. De acordo com a lei, ele tinha explicado, os dois lordes eram iguais. Na verdade, se o valor individual de cada um fosse calculado com base na extensão de terra possuída, como acontecia geralmente, lorde Talbot ficaria sem dúvida em segundo lugar. Ofendido porque o outro recusava-se a aceitar seu status, dominou a irritação, limitando-se a franzir levemente a testa e a torcer a ponta do bigode. Como um diplomata experiente, foi direto ao assunto que o levara a Saxton Hall. — Quero me desculpar pelo atraso deste encontro. Só posso alegar outros negócios mais urgentes e a pouca cooperação do tempo. A voz cavernosa respondeu da mesma forma direta. — Seja bem-vindo a Saxton Hall. — A mão enluvada indicou a cadeira ao lado da sua. — Não quer sentar-se conosco ao lado do fogo? Nigel Talbot aceitou o convite, com os olhos pregados em Eriene. mais animado por poder contemplar tanta beleza. — É uma satisfação vê-la outra vez, Lady Saxton. Espero que esteja bem. — Muito bem, obrigada — disse ela, com uma leve inclinação da cabeça. Os olhos de Talbot pararam por um momento no colo revelado pelo decote do vestido e então, caindo em si, voltou-se para o senhor da mansão e viu que ele o observava atentamente no silêncio pesado da sala. Embora a máscara de couro fosse inexpressiva, lorde Talbot teve a impressão de ter invadido terreno proibido. Perguntou então a si mesmo como o ianque podia acompanhar Erienne por toda a parte, quando o marido parecia tão possessivo — Eu trouxe alguns registros dos aluguéis que recebi durante sua ausência — disse ele, desembrulhando o livro. — E claro, deve compreender que tivemos de deduzir algumas despesas, que não foram pequenas. Tivemos de eleger alguns funcionários para defender suas terras e propriedades. Os ladrões as teriam depredado completamente; além disso, muitos moradores da região não gostam da idéia de terem traidores entre eles. A cabeça encapuzada ergueu-se num gesto brusco, e a voz áspera e rouca perguntou: — Traidores? Do que está falando? — Ora, todos sabem que seu pai vendeu seus favores aos escoceses. Casou com a filha daquele chefe de clã... — Talbot ergueu a mão, tentando lembrar. — Como era o nome dela? Foi há tanto tempo, que nem me lembro. — Seton — disse lorde Saxton, secamente. — Mary Seton. Talbot abriu a boca, surpreso: — Seton? O mesmo sobrenome de Christopher Seton? — Sim. — Lorde Saxton inclinou a cabeça, afirmativamente. — O mesmo. São nossos parentes consangüíneos. — São? — perguntou Nigel, compreendendo a importância da afirmação. — Quer dizer que sua mãe ainda está viva? — Fechou a boca, vendo o gesto afirmativo, e tentou pôr os pensamentos em ordem, murmurando, com voz distante: — Sinto muito, pensei que estava morta. Lorde Saxton apoiou as mãos na bengala e inclinou-se para a frente, obrigando o homem a olhar para ele. — Embora os bandidos procurassem matar todos, nós conseguimos escapar. Minha


mãe está viva. Talbot franziu a testa. — E os filhos? O que aconteceu com eles? O interesse de Erienne se aguçou ao ouvir a palavra ”filhos”. Pensava que ele fosse o único filho e agora, uma vez mais, percebia o pouco que o marido contara sobre a própria família. Parecia relutar em partilhar com ela aquela parte da sua vida. Continuou em silêncio, mas agora prestando atenção a cada palavra, esperando alguma informação que, de outro modo, jamais conseguiria. — Escaparam, com ela — respondeu lorde Saxton. — Devo supor que é o mais velho, uma vez que herdou o título — disse Talbot. — E o mais novo? Está vivo ainda? Os olhos no fundo da máscara cintilaram. — Acredito que esteja em perfeita saúde. Terá oportunidade de conhecê-lo, mais tarde. Nigel Talbot assentiu com a cabeça. — É claro, terei muito prazer. Lorde Saxton indicou o livro com a mão enluvada. — Estávamos falando sobre os aluguéis que recebeu. Se esse é seu livro-caixa, gostaria de examiná-lo com mais atenção. Talbot parecia relutante em entregar o livro. — Preciso explicar algumas despesas. — Sem dúvida, terei muitas perguntas quando examinar seus registros — respondeu lorde Saxton. — Meu guarda-livros anotou as quantias que os arrendatários disseram ter pago. Será interessante verificar se conferem com o seu livro. Não é sempre que um decreto real concede o direito de receber aluguéis de outra pessoa. Se ainda tem os documentos que confirmam essa diretiva, eu gostaria de examinar os vários sinetes e assinaturas. Meu guarda-livros não conseguiu encontrar o registro dessa concessão, e ajudará muito se ele tiver os nomes de quem deu a autorização. — Lorde Saxton estendeu a mão. — O livro, por favor. Erienne viu lorde Talbot lutar para controlar os músculos do rosto flácido. O homem estava furioso, mas lorde Saxton não deixava nenhuma opção aberta para ele. Suas narinas se contraíram, a boca fez um arco para baixo, e a mão, relutantemente, entregou o livro. — Levarei em consideração que foi gasto dinheiro para defender as minhas terras — disse lorde Saxton, pondo o livro sobre a mesa. — E se eu tiver alguma dúvida o senhor será o primeiro a saber. Mandarei meu criado apanhar a autorização real... — Eu... eu perdi os documentos da autorização. — com o rosto muito vermelho, Nigel Talbot procurou uma explicação. — Depois de tanto tempo, não espera que eu lembre onde estão. — Sou um homem paciente — garantiu lorde Saxton, quase amavelmente, apesar da aspereza da voz. — Quinze dias serão suficientes para encontrá-los? Talbot gaguejou. — Eu... não tenho certeza, — Um mês, então? Vamos dizer um mês e ver o que acontece. Mandarei meu criado daqui a um mês, Acho que é mais tempo do que realmente precisa, — A mão enluvada segurou o braço do visitante, num gesto quase de


familiaridade, e lorde Saxton levou o homem até a porta, — vou levar algum tempo examinando os livros, mas quero lhe assegurar que nossa casa está aberta sempre que o senhor ou sua encantadora filha quiserem nos visitar. Foi muita bondade sua atender ao meu chamado, e pode ter certeza de que vou calcular com precisão o quanto fez por minhas terras. Estou à sua disposição sempre que quiser uma audiência,., exceto, é claro, nesta sexta-feira. Preciso ir a Carlísle tratar de negócios. Lorde Talbot estava tão furioso com a audácia do homem que não fez nenhum comentário. No hall, apanhou seus agasalhos e saiu, despedindo-se com uma rígida inclinação da cabeça. Sorrindo atrás da máscara, lorde Saxton ficou na janela até a carruagem partir. Quase sentia pena dos que viviam sob o teto de Talbot, pois certamente o futuro não seria agradável para eles. — Stuart? Ele virou a cabeça, ouvindo a voz dela e seus passos no hall. — Sim, meu amor? Ela parecia intrigada. — Por que não me disse que tem um irmão mais novo? Lorde Saxton segurou a mão dela. — Ficaria assustada, minha querida, se soubesse todos os segredos dos Saxton. Por enquanto, quanto menos souber, melhor. — Então, está escondendo alguma coisa de mim — insistiu ela. — Madame, no tempo certo vai saber tudo sobre minha família. Até então, peço que confie em mim. — Está fazendo um jogo perigoso com lorde Talbot — advertiu ela, — Você me assusta quando o provoca deliberadamente. Ele riu. — Estou apenas oferecendo a ele um pedaço de carne para mastigar. É o melhor modo que conheço para saber se o homem é um cordeiro ou um lobo disfarçado. Erienne sorriu. — Ele me parece um pouco exagerado nas roupas. Apoiando as mãos na bengala, lorde Saxton disse, num murmúrio sibilante: — Sim, madame, e, embora sabendo que não será uma sensação tão deliciosa quanto despi-la, pretendo deixar o homem completamente nu.

Capítulo Dezessete NA SEXTA-FEIRA seguinte, o landau de lorde Saxton parou na frente de uma casa muito simples, na cidade de Carlisle. Ele desceu e voltou-se para Bundy, que continuava sentado na boléia. — Ficarei aqui algumas horas. Volte para me apanhar no fim do dia. — Tirou duas moedas de ouro do bolso do colete. — Aqui está, tome uma ou duas cervejas, e não gaste muito num lugar só. Bundy respondeu com um largo sorriso. — Quer que eu traga um relatório das minhas despesas, milorde? Lord Saxton respondeu com um riso rouco: — Trate de gastar bem o dinheiro, Bundy. — Sim, é o que farei, milorde. Lorde Saxton bateu à porta da casa, enquanto Bundy, sacudindo as rédeas, conduziu


o carro puxado por quatro cavalos pelas ruas estreitas, pondo os animais num trote elegante, que despertava a curiosidade dos que passavam. Sabia exatamente onde estava indo e só diminuiu o passo dos cavalos quandochegou na primeira taverna do porto. Desceu, e logo foi rodeado pelos curiosos. O brasão de armas nas portas do landau atraía quase tanta atenção quanto os animais, e quando a caneca de cerveja boa e fria chegou às suas mãos, como presente de um estalajadeiro generoso, Bundy começou a explicar que tanto os cavalos quanto a carruagem pertenciam ao senhor de Saxton Hall, que naquele momento tratava de negócios importantes, não muito longe dali. Não tinha muito para dizer do seu amo, exceto que pretendia voltar para a mansão ao cair da noite. Deixou que admirassem os animais e depois partiu, com as duas moedas de ouro ainda no bolso. Obedecendo às ordens do patrão, Bundy passou para a taverna seguinte, para o próximo bar, para a outra taverna, onde, com uma repetição quase tediosa, a carruagem e os cavalos chamavam atenção de todos, e ele dava sua explicação. Em cada lugar, ofereciam a ele uma ou duas canecas de cerveja e, com uma alegria que traía sua sede, Bundy demonstrava gratidão pelo oferecimento e sua satisfação em gabar os cavalos e a carruagem do seu amo. Quase com alívio, viu aproximar-se a hora da partida, o fim da tarde de cerveja e de explicações. Voltou à casa simples e estava admirando as moedas de ouro quando a porta se abriu e o homem aleijado apareceu. — isto tudo não lhe custou nada, milorde — disse Bundy, rindo. Mostrou as moedas reluzentes e fez menção de atirá-las para lorde Saxton, mas a mão enluvada o deteve. — Os outros serão por minha conta. Sorrindo, Bundy guardou as moedas. — Muito obrigado, milorde. Antes de entrar na carruagem, lorde Saxton olhou para a casa. Uma cortina no andar superior abriu-se e um lenço rendado de mulher acenou um adeus. Ele ergueu a mão num gesto rápido e entrou fechando a porta da carruagem. Um momento depois, bateu com a bengala no teto, e Bundy, estalando com a língua, pôs os cavalos em movimento. Saíram de Carlisle e logo depois atravessaram o pequeno povoado de Wrae. Assim que saíram da cidadezinha, Bundy fez os cavalos acelerarem o passo, e quando a noite chegou já tinham vencido uma boa distância. A estrada passava pelas encostas das montanhas e entrava na estreita planície costeira, que os levaria a Saxton Hall. Os vultos negros dos grandes carvalhos erguiam-se majestosos nos dois lados da velha estrada. Muros de pedra cercavam as pequenas fazendas, onde a luz bruxuleante de uma vela ou um lampião marcavam o lugar das casas, e aqui e ali passavam sobre as lajes de pedra talhadas a mão e colocadas na estrada pelas legiões romanas. As horas se passavam, e na extensão aveludada do céu estrelado a meia-lua timidamente brincava de esconde-esconde com as nuvens levadas pelo vento. Os lampiões da carruagem desenhavam sombras dançantes nos dois lados, dando a impressão de que eram perseguidos por um estranho bando de aves. Passaram por um pequeno bosque, um pouco afastado da estrada, e logo outro ruído juntou-se ao das rodas, o som de muitos cavalos a galope. Bundy olhou nervosamente para trás e


viu um bando de cavaleiros saindo do bosque. Bateu com o cabo do chicote na capota da carruagem e açoitou com a outra extremidade o dorso dos cavalos, que dispararam num passo muito mais rápido do que o trote ornamental exibido na cidade. Embora confortável, o landau era leve e feito para correr, e os quatro animais que o puxavam eram fortes e velozes. Cada um conhecia seu lugar e estava acostumado a correr com os outros. Os cavaleiros tinham agora dificuldade até para manter a distância. Alguns tiros foram disparados a esmo, muito distantes do alvo, e então os perseguidores açoitaram freneticamente os cavalos, começando a verdadeira caçada. Os cavaleiros discutirão durante muitos anos no futuro os méritos de um homem a cavalo contra os de um homem numa carruagem, mas naquela noite a corrida estava decidida quando os quatro animais com seus arreios de couro brilhante dispararam como demônios. Os perseguidores estavam resolvidos a alcançar a carruagem e fazêla parar. Mas o landau continuava muito longe do seu alcance. Uma curva fechada que ia esconder a presa apareceu, e os cavaleiros correram depressa, para não dar aos perseguidos tempo de sair da estrada e se esconder. Entraram na curva a toda velocidade e, por um momento, puxaram as rédeas, confusos. A carruagem corria ainda ao longe, mas atrás dela viram um homem todo de preto, montado, de pé nos estribos, com a capa negra esvoaçando como duas asas. O pêlo do cavalo negro brilhava como selenita e crina, e a cauda ondulava ao vento como estandarte de guerra. O espanto foi substituído pela determinação de dominar aquele cavaleiro e sem pensar em sair da estrada esporearam outra vez os cavalos. O vulto ergueu o braço e apontou uma pistola para eles. Um clarão, um rugido, e com um grito um dos cavaleiros foi arrancado da sela e caiu na estrada. O fantasma ergueu o outro braço, com outra arma. Outro clarão, outro estampido, outro homem dobrou-se na sela e depois de alguns passos deslizou lentamente, caindo sob as patas dos outros cavalos. O cavaleiro solitário pôs as pistolas no coldre da sela e com um grito agudo desembainhou o sabre brilhante. Esporeou o garanhão negro e avançou para o bando de cavaleiros, espalhando-os e brandindo o sabre para trás e para a frente, no meio deles. Antes que os assaltantes se refizessem da surpresa, outro caiu mortalmente ferido com um golpe que o atingiu do ombro até o quadril. A lâmina cintilou outra vez à luz da lua e desapareceu por um instante no peito de outro assaltante. Os assaltantes não podiam enfrentar aquele espectro da noite. Lembravam ainda de cavernas explodindo, barracas pegando fogo, do mesmo garanhão brilhante relinchando, fazendo coro com o brado do cavaleiro. Suas montadas comuns empinaram, recuando quando o garanhão rodopiou no meio delas, bufando e atacando com os cascos. Um homem gritou quando a lâmina sedenta de sangue abriu-lhe o braço, expondo o osso. As rédeas caíram das suas mãos insensíveis e o cavalo disparou, tropeçando e saltando na estrada pedregosa, até atirar o cavaleiro para trás de uma rocha. Então, o fantasma destruidor esporeou seu demônio e avançou para os três ainda ilesos, mas os homens fizeram os cavalos dar meia-volta e fugiram a toda velocidade. Atrás da parede de pedra, o homem ferido tentou se arrastar para longe, quando o fantasma avançou para ele. Soluçando, pediu misericórdia, e o cavaleiro da noite parou por um momento, olhando para o miserável covarde. Como um pássaro


pousando, o cavaleiro apeou, e sua capa, depois de esvoaçar com o movimento, fechou-se em volta dele, como asas. Ele se inclinou para a frente, com o rosto coberto pelo capuz longo e negro, e segurou o homem pela gola. com um só movimento, rasgou a camisa e, para espanto do assaltante, enrolou o pano rasgado no seu braço ferido, apertando e fazendo parar o sangue. O fantasma levantou-se e, desembainhando o sabre, encostou a ponta no chão. — Você pode viver. — A voz era áspera e cheia de ira. — Uma coisa triste para um covarde da sua laia, mas isso depende também do que me disser nos próximos momentos. O salteador de estrada ergueu os olhos, esperançoso. A carruagem estava parada a alguma distância, na estrada, mas o cocheiro não parecia disposto a voltar e ficou onde estava. — Vocês têm um acampamento? — perguntou o cavaleiro da noite. — Sim, bem pequeno — respondeu o homem, com voz trêmula. A qualquer momento, a lâmina podia se erguer e tirar-lhe a vida, como tirara a de Timmy Sears. — Não existe mais nenhum grande, agora. Estamos todos espalhados, e só o capitão sabe onde são guardados os suprimentos. E os produtos dos roubos também. „ acrescentou por conta própria, — Não vão nos dar nada enquanto você não for apanhado. — Sem mais informação para dar, ele se encolheu ao lado da rocha, esperando o julgamento do seu destino. — Se quiser, pode voltar para o seu capitão — disse a voz sinistra —, mas ouvi dizer que o preço do fracasso entre vocês é quase sempre a morte. vou lhe dar a vida. Se a desperdiçar idiotamente, o problema é seu. Meu conselho é que pegue um cavalo e fuja para o sul da Inglaterra, esperando que os espiões do seu capitão não o encontrem. O homem encolheu-se, tremendo, fechou os olhos com força e sacudiu a cabeça afirmativamente, murmurando alguma coisa inaudível. Quando abriu os olhos, estava sozinho. Até a carruagem desaparecera. Um cavalo arreado pastava ali perto, e ele não esperou mais. O que o cavaleiro demônio disse era verdade. Seus companheiros diziam que todos que fracassavam e não cumpriam as ordens do capitão jamais tinham uma segunda chance. A luz fraca da vela bruxuleou na corrente de ar, quando Erienne se aproximou das estantes, que cobriam toda a parede da antiga biblioteca. Procurava um livro que vira alguns dias antes quando passava pela ala fechada. Tinham feito uma limpeza superficial, mas a biblioteca estava quase exatamente como quando ela chegou em Saxton Hall. As formas fantasmagóricas dos móveis, cobertos ainda, acentuavam a atmosfera sinistra, e a luz trêmula da vela desenhava sombras ameaçadoras nas paredes e no teto. Não era um lugar agradável, especialmente com o frio de morte que se movia como uma alma penada pela sala. Erienne levantou a gola do robe, procurando a abertura por onde entrava o vento. Aproximou-se das janelas e verificou que estavam bem fechadas. Era estranho, porque as paredes eram fortes e grossas, não permitindo qualquer passagem de ar. Então percebeu que a chama fraca da vela estava imóvel. Virou rápido para a estante de livros com um calafrio na espinha. A estante era embutida numa parede interna que separava a biblioteca de outra sala. Parecia impossível que o ar estivesse passando entre as estantes, mas a luz tremeu mais


quando ela parou perto delas. Observando a luz da vela, caminhou para a estante. Quando chegou perto, a chama começou a diminuir e a dançar no pavio. Seu coração disparou quando parou na frente da estante e sentiu a corrente de ar agitar a bainha da camisola, tocando suas pernas nuas. Segurou a vela perto do lugar de onde vinha o vento, e a cháma quase se apagou. Havia uma grade de metal nas portas da estante e, pondo a mão na frente da vela, Erienne espiou por ela notando que a estante, naquele ponto, era um pouco enviesada pára o lado. Abriu a porta e empurrou o lado da estante voltado para dentro, e, como se estivessem presas a dobradiças bem lubrificadas, as prateleiras deslizaram para trás, deixando passar uma forte corrente de ar. O coração de Erienne bateu mais forte porque o ar era tão frio quanto o do inverno lá fora. Dominando o impulso de correr para o quarto, ela empurrou a borda da estante outra vez. A prateleira girou mais, revelando um cubículo vazio e completamente escuro. com os nervos tensos, ela passou pela estante, pela porta e entrou num corredor estreito. Segurando a vela acima da cabeça, olhou em volta. Uma escada levava ao piso inferior e, com certo receio, Erienne começou a descer, tremendo de frio quando a corrente de vento passou pela sua camisola. Seu coração agora parecia que ia parar e sua respiração estava entrecortada. Desceu em silêncio até chegar ao fim da escada, e outra vez levantou a vela para ver onde estava. Parecia uma caverna longa e estreita que se estendia até uma luz muito fraca e distante. O vento frio atravessava sua roupa, mas ela mal sentia, caminhando para a luz e protegendo a chama da vela da corrente de ar. Quase no fim, ela viu que a passagem fazia uma curva e era dali que vinha a luz. Tremendo de frio e de medo, apagou a vela, fez a curva e parou, contendo a respiração. O vulto alto vestido de negro movia-se atrás do lampião dependurado na parede. Via só as costas do homem, mas notou que ele estava todo vestido de negro, desde a camisa de mangas compridas até as botas de cano alto, O modo como ele se movia era familiar, mas só quando virou de frente para a luz Erienne compreendeu quanto o conhecia. — Chrístopher! — exclamou. O homem virou a cabeça rapidamente, entrecerrando os olhos, tentando ver do outro lado da luz do lampião. Caminhou para ela e perguntou. — Erienne? — Sim, é Erienne — disse ela, assaltada por um torvelinho de emoções, primeiro alívio, prazer, medo e por fim, raiva. Escolheu esta última para esconder as outras. — O que está fazendo aqui? Os olhos dele a observaram de alto a baixo, quando ela entrou no círculo de luz, apreciando o que viam. com um sorriso, respondeu simplesmente. — Explorando. — Explorando? Na casa do meu marido? Como ousa, Christopher! Não tem noção de decência? — Erienne percebeu que estava lutando arduamente para manter aquela atitude ofendida. A lembrança do medo que sentira de não vê-lo nunca mais estava muito viva em sua mente. — Ele sabe que estou aqui — respondeu, calmamente. — Pergunte quando ele voltar. — É o que vou fazer. — Como chegou até aqui?


Erienne deu de ombros e desviou os olhos. — Eu não podia dormir e fui procurar um livro na velha biblioteca. Quando percebi a corrente de ar saindo da estante, encontrei esta passagem. — Eu devia ter fechado melhor a estante na última vez que a usei — observou ele. Erienne olhou para ele surpresa. — Quer dizer que hoje entrou por outro lugar? Ele sorriu. — Acha que ia arriscar a tentação de passar perto do seu quarto? Entrei pelo lado de fora. Sentindo que corava, Erienne não resistiu e perguntou: — E resistiu também à tentação de passar perto do quarto de Molly? Christopher franziu a testa, vendo o olhar hesitante de Erienne. — Molly? Por favor, madame. Sou mais discriminador do que isso. Disfarçando a sensação de felicidade que a envolveu, ela perguntou, indicando com um gesto o lugar onde estavam. — Para que é usada esta passagem? — Para o que for preciso. A mãe do seu marido fugiu por aqui, com os filhos, quando o velho lorde foi assassinado. — E para que a está usando agora? Por que está aqui? — É melhor que não saiba a resposta a essa pergunta. — Ergueu a sobrancelha, olhando atentamente para ela. — E espero que não fale sobre isto com ninguém, exceto Stuart. — Esperou a resposta. — Você é ladrão? — perguntou ela, sem rodeios. Christopher riu. — Longe disso. A voz dela traía a frustração e o desapontamento por não conseguir resposta às suas perguntas. — Gostaria que alguém me explicasse o que está acontecendo por aqui. — É parte de uma luta antiga — suspirou ele —, e os detalhes não são muito claros. — Gostaria de ouvi-los, Christopher — insistiu ela. — Stuart também não me conta nada, e tenho direito de saber. Não sou uma criança. com um largo sorriso, ele respondeu, com um olhar de apreciação: — Quanto a isso, tem razão, madame. — O sorriso desapareceu. — Mas precisamos agir com muito cuidado. Minha vida depende disso. — Acha que eu contaria a alguém, sabendo que podia causar sua morte? — perguntou, surpresa. — Já deixou bem claro o ódio que sente por mim, madame, e nunca me deu razão para acreditar que posso lhe confiar a minha vida. com os olhos nos dele, Erienne disse: — Não desejo nenhum mal a você, Christopher. Ele pensou nessas palavras durante um longo momento e então perguntou, bruscamente: — Seu pai? Quanta lealdade deve a ele? — Não devo a ele mais do que coisas do passado. — Está com frio. Confusa com a mudança brusca de assunto, Erienne tentou continuar: — Meu pai não merece coisa alguma...! — Então notou o olhar dele e olhando para


baixo viu que seus seios estavam eretos e firmes sob o robe. Corou intensamente e deu as costas para ele, cruzando os braços sobre o peito, com um gemido de frustração. Christopher riu, e apanhando seu casaco, a agasalhou com ele. — Prefiro vê-la sem roupa e macia — murmurou carinhosamente no ouvido dela —, com os cabelos soltos. A proximidade dele a sufocava. Era uma sensação envolvente, mas ela sabia que, se cedesse a essa fraqueza, o resultado só podia ser desastroso. Ainda de costas, disse: — Você ia me explicar tudo sobre esta caverna. com uma risada breve, ele esfregou as mãos uma contra a outra, e começou a andar pela caverna. — Acho que devo começar com a história do velho lorde. Broderick Saxton era um homem de paz, instruído, surpreendido entre dois fogos, o dos ingleses e o dos escoceses. — Foi até a extremidade da caverna e fechou a pesada porta, impedindo a entrada do vento frio, e voltou para perto dela. — Há uns cinqüenta anos houve um levante dos jacobitas. Alguns escoceses, a maioria das Terras Baixas, apoiaram a coroa inglesa, enquanto os das Terras Altas aliaram-se a Bonnie Charlie, empunharam suas armas, jurando libertar suas terras. A fronteira mudou várias vezes, e Saxton Hall ficou bem no meio desse jogo de cabo-de-guerra. O senhor da mansão tentou conseguir um acordo pacífico entre sua família e os ingleses. O pai dele era inglês e a mãe de um clã das Terras Altas. Por sua lealdade, permitiram que conservasse suas terras quando a luta terminou, e Cumberland passou a ser definitivamente parte da Inglaterra. Alguns o censuravam, e diziam coisas horríveis a seu respeito. Ele casou com Mary Seton, também de um clã das Terras Altas, e tiveram dois filhos. Mais de vinte anos atrás, quando o mais novo não tinha ainda dez anos, um bando de homens chamou o velho lorde para fora da mansão, quando a família já se retirara para a noite e quando ele saiu, confiante, o líder do bando o matou, antes que ele tivesse tempo de apanhar a arma. Alguns dizem que foi um ato de vingança dos escoceses das Terras Altas. Christopher ficou calado, pensativo, por um longo momento, depois continuou, andando de um lado para o outro, na frente dela. — Outros dizem que não foram os bandidos do norte, mas homens de sangue inglês, que odiavam os escoceses e que invejavam o poder e a fortuna do velho lorde. Seja como for, eles o assassinaram e atacaram a mansão, com o intuito de matar todos que tinham testemunhado o assassinato do velho lorde. Os criados desarmados fugiram, e Mary Saxton escondeu-se nesta passagem, antes de escapar com os filhos. — O que aconteceu com eles? — perguntou Erienne. Christopher parecia relutante em dar a resposta. Tomou um gole de água tirada de um balde. — O marquês tinha uma pequena casa no Sul de Gales e resolveram que Mary ficaria segura ali, durante algum tempo. Depois de alguns meses, houve uma tentativa frustrada para raptar e assassinar seus filhos. Ela saiu do País de Gales com os filhos e os bens que lhe restavam e foi viver em outro lugar, não revelando a ninguém seu nome e sua linhagem. Quando os filhos cresceram, as circunstâncias não permitiram a volta do mais velho. Mas ele solicitou à corte para que os direitos sobre as terras e ao título lhe fossem outorgados, e armado com suas lembranças e uma fortuna respeitável voltou para Saxton Hall, para reclamar sua herança.


— E tentaram matá-lo — disse Erienne, erguendo os olhos. — Como é possível que os mesmos homens tenham assassinado o velho lorde e ateado fogo à mansão, Christopher? Depois de tantos anos! Se algum deles ainda está vivo, sem dúvida seu ódio já desapareceu com o tempo. — Ódio. Cobiça, Inveja, Quem sabe se o tempo diminui ou aumenta esses sentimentos? Mas este lorde Saxton está resolvido a descobrir os responsáveis, quer estejam no inferno ou não. Erienne estremeceu, vendo a intensidade da expressão no rosto dele. Mas foi só um momento. Christopher virou para o lado, bruscamente. — A justiça será feita, mais cedo ou mais tarde — murmurou ela. Ele balançou a cabeça, concordando: — Acredito que Mary Saxton chegou também a essa conclusão. Ela já perdeu muita coisa para arriscar mais nessa luta. — Gostaria de conhecê-la algum dia. — Vai conhecer, se Deus quiser. — Segurou a mão dela e beijou os dedos gelados. Depois ergueu a cabeça, com os olhos nos dela. Por um instante, o tempo parou para Erienne e ela não conseguiu desviar os olhos. Era como se Christopher estivesse invadindo o âmago da sua mente, incendiando seu corpo com aquele olhar. Com esforço, libertou-se daqueles olhos hipnóticos e murmurou, nervosamente: — É melhor eu voltar agora, Já me demorei muito aqui. — Seu marido deve voltar em breve — murmurou Christopher. Erienne olhou para ele, atônita. — Como sabe? — Passei por sua carruagem na estrada. A não ser que ele tenha encontrado outro amor, logo estará ao seu lado. — Sorriu. — Pelo menos, é o que eu faria se fosse seu marido. com os dedos trêmulos, sentindo o calor na voz dele, Erienne apanhou a vela. — Quer acender isto, por favor? Preciso encontrar o caminho de volta. Christopher ignorou o pedido e apanhou o lampião pendurado na parede. — Eu a levo até lá em cima. — Não é necessário — disse ela, rapidamente, temerosa por vários motivos. — Jamais me perdoarei se lhe acontecer alguma coisa aqui — respondeu ele. Ele ergueu a lanterna e esperou, paciente, a decisão dela. Vendo o desafio nos olhos dele, Erienne hesitou. Se não aceitasse, ele iria zombar dela por muito tempo. Ajeitando o casaco grande demais sobre os ombros, aceitou o desafio, contra o próprio julgamento, e seguiu com ele pelo corredor de pedra. Já tinham passado a curva da caverna quando ouviram o ruído de alguma coisa que fugia e um guincho estridente. Erienne saltou para trás com uma exclamação de medo, Tinha extrema aversão a ratos. O salto do seu chinelo prendeu-se na ponta de uma pedra. O tornozelo cedeu ao peso do corpo e ela caiu. Imediatamente Christopher a segurou, aproveitando a oportunidade para apertá-la contra o peito. Embaraçada com aquele contato, sentindo intensamente a masculinidade dele, Erienne o empurrou, tentou andar mas parou, com uma careta de dor. Christopher, sem ao menos pedir licença, tirou o casaco dos ombros de Erienne, pôs o lampião na mão dela e ergueu-a do chão.


— Não pode me levar até lá em cima! — protestou ela. — Podemos ser vistos! com a luz dançando nos olhos verdes, ele disse: — Madame, começo a pensar que se preocupa mais com as aparências do que com sua própria pessoa. Os criados estão dormindo. — E se Stuart chegar? Disse que ele estava perto. Christopher riu. — Seria extremamente interessante encontrar com ele agora. Pode até me desafiar em duelo para defender sua honra, — Ergueu uma sobrancelha, — Ficaria triste se ele me ferisse? — Não percebe que isso pode acontecer? — disse, zangada com a indiferença dele. — Não se preocupe, meu amor. Se ouvir que ele está chegando eu corro e, aleijado como é, nunca vai me alcançar, — Apertoua mais contra o peito e sorriu. — Gosto da sensação de ter você nos meus braços. — Controle-se, senhor — disse ela, secamente, ignorando as batidas do próprio coração. — Estou tentando, madame, Estou tentando de verdade. Erienne passou o braço pelo pescoço dele e relaxou o corpo, segurando o lampião com o outro braço erguido. Subiram a escada em silêncio. Mesmo olhando para a frente, Erienne sentia o olhar dele. Logo chegaram ao corredor que levava à ala leste, e sem a menor hesitação, como se conhecesse bem o caminho, ele seguiu na direção do quarto dela. Erienne notou esse fato e lembrou a noite em que ele parará no lado de fora da sua porta. — Você parece conhecer muito bem a casa, Até o caminho pára o meu quarto. — Sei onde fica o quarto de lorde Saxton e sei que é lá que você está dormindo — respondeu ele, com os olhos nos dela. — Acho que nunca mais vou me sentir segura nesta casa — disse ela, com sarcasmo. com um sorriso malicioso, ele garantiu: — Eu jamais pensaria em forçar minhas atenções, madame. — Já me defendi muitas vezes, para acreditar nisso. Ele parou na frente do quarto dela, girou a maçaneta e empurrou com o ombro. Passou por uma mesa onde ela deixou o lampião e caminhou para a cama. — Sou apenas um homem com vigor incomum. Pode me culpar por admirar uma mulher de beleza incomum? As cobertas da cama estavam abertas, e ele a fez deitar-se no macio colchão de penas. A incerteza que viu nos olhos de ametista o intrigou e fascinou. Afastou-se um pouco, procurando controlar o desejo de beijar os lábios dela e saciar sua paixão, olhando para aqueles lagos azuis iluminados pela luz fraca da vela, Mas teria muito a perder se fosse precipitado, e o momento não chegara ainda. Galantemente, levou os dedos aos lábios e depois os encostou nos lábios dela. Apanhou o lampião e saiu rápido e em silêncio do quarto. Só depois de muito, muito tempo, Erienne parou de tremer e relaxou na cama quente e macia. O carrilhão do relógio do hall anunciou a passagem de meia hora. Então Erienne ouviu os passos do marido no corredor. Olhou para a porta, e quando o vulto escuro apareceu ela sobressaltou-se com a sensação de culpa que sentia, Recusando-se a admitir que estava cedendo à persistência do ianque, bateu com a mão na cama, convidando lorde Saxton para sentar-se ao seu lado, e ajoelhou para abraçá-lo,


encostando o rosto no ombro dele. — Vai ficar zangado comigo se eu disser que encontrei a passagem da caverna? A cabeça encapuzada fez um gesto brusco de surpresa. — Então, peço a sua discrição, madame. Não convém que outras pessoas saibam a respeito. — O segredo está seguro comigo, milorde. — É uma esposa leal, Erienne. Sem dúvida, melhor do que mereço. — Não quer se deitar? — convidou ela, procurando afastar a lembrança dos olhos de Christopher nos seus e do turbilhão de emoções que a envolveu. — Sim, meu amor. Deixe-me apagar as velas. — Não quer deixar acesas, para que eu o conheça melhor? — com alguma luz, talvez a imagem de Christopher desaparecesse. Começava a temer mais a própria imaginação do que o rosto que o marido escondia. — Na hora certa, querida. Na hora certa. Muito mais tarde, aconchegada ao peito dele, completamente satisfeita, Erienne estava ainda atormentada. Dessa vez, a lembrança de Christopher fora muito mais nítida e persistente, enquanto fazia amor com o marido. Aquela invasão nos momentos mais íntimos dos dois fazia com que Erienne se sentisse culpada. — Stuart? — Sim, meu amor? — Farrell virá amanhã, e você prometeu ajudá-lo a treinar com as pistolas, Faria alguma objeção em me ensinar também? Lorde Saxton afastou-se um pouco e olhou para ela: — Para que, meu amor? — Eu gostaria de saber atirar... para o caso de ficar sozinha em casa. Se for possível, quero ser capaz de defendê-lo. — Se é o que deseja, madame, por que não? Pelo menos poderá se proteger, se for necessário. — Pode me ensinar a atirar tão bem quanto você? — perguntou, com entusiasmo. A risada áspera ecoou entre as cortinas da cama, — O quê? E me arriscar a ser seu alvo quando se zangar comigo? —. Fez uma pausa, compreendendo que ela falava sério. — A habilidade, madame, vem com muitos anos de prática e com a necessidade premente de defender a própria vida. Só posso ensinar o uso e a conservação da arma. O resto vem com o tempo. — Beijou o pescoço dela. — É quase como o amor. Só melhora com a prática cuidadosa. Nos dias seguintes, os ouvidos de Erienne zumbiam quase continuamente, e seu braço e ombro sofriam com o peso e o recuo da espingarda de pederneira e da pequena pistola. De manhã e à tarde, ela aprendia a carregar, fazer a mira e atirar. O progresso de Farrell não era melhor que o dela, pois ele tinha de aprender a usar a mão esquerda para carregar a arma. Embora ansiosa para aprender, Erienne tinha dificuldades na pontaria. Só quando lorde Saxton ficou atrás dela, firmando seus braços, começou a compreender a posição da arma em relação ao próprio corpo e a necessidade de manter a mão firme. No fim da terceira semana, ela estava conseguindo acertar muito perto dos alvos. Farrell voltara para Mawbry na segunda-feira da semana anterior, e a partir desse dia ela teve a completa atenção do marido, dispensada com generosa familiaridade. Um


aperto no seio quando a ajudava a fazer pontaria, a virilha encostada nas suas nádegas, a mão enluvada ajeitando a arma no seu ombro, enquanto a palma pousava tranqüilamente num dos seios. Essa intimidade natural demonstrava o prazer que ele sentia em possuí-la, e quando as mãos enluvadas a acariciavam Erienne não sentia a menor repulsa ou medo. Só a imagem teimosa no fundo da sua mente não a deixava em paz. Erienne queria saber mais sobre a caverna. A curiosidade crescia a cada momento. A explicação de Christopher sobre o uso da passagem não a satisfazia. Ele fizera apenas um resumo da história da família, sem responder às suas perguntas sobre o uso atual da caverna. Quando perguntou a lorde Saxton, ele deu de ombros, garantindo que dentro de pouco tempo todas aquelas perguntas seriam respondidas. Ele estava ausente naquele dia, e os criados limpavam outra parte da casa. Erienne resolveu”voltar à antiga biblioteca. Dessa vez foi preparada, com um lampião do estábulo e um xale pesado nos ombros. Passou pela abertura na estante e a fechou com cuidado. Passava um pouco das duas da tarde, mas a caverna estava completamente escura. Além do círculo de luz do lampião, só havia o vazio negro e incerto. Quase perdeu a coragem ao ouvir o leve ruído dos ratos em fuga, mas sabia que, para descobrir o fim da passagem, tinha de controlar o medo. Desceu a escada estreita, passou pela curva e chegou ao lugar em que tinha encontrado Christopher. O corredor estava vazio, e olhando em volta ela viu apenas um conjunto de rédeas dependurado numa barra, uma arca trancada e um par de botas negras. Foi até a porta que Christopher fechara. Era de madeira pesada e fechada apenas com uma tranca, também de madeira, que podia ser levantada dos dois lados. Uma pequena réstia de sol passava sob a porta, e ela a abriu. A primeira coisa que viu foi uma moita cerrada de arbustos. Erienne passou pelo lado estreito da moita e chegou à entrada de um bosque na encosta de uma colina, que descia até a mansão. Acima das árvores, ela podia ver as chaminés altas do telhado. O chão era coberto de mato baixo, sem nenhum sinal de uma trilha através do bosque. Erienne não tinha pensado em ir além do fim da passagem, mas a marca recente de botas masculinas numa área coberta de neve indicava que alguém havia passado por ali fazia pouco tempo. Os passos eram curtos, e os pés muito grandes para serem de Christopher, e como evidentemente não pertenciam também ao seu marido ela concluiu que alguém mais sabia da existência da passagem. Curiosa, Erienne olhou para a imensidão do campo, lá embaixo. Viu apenas uma encosta coberta de árvores e um pequeno regato serpenteando entre as rochas do vale. Ia voltar para a passagem, quando percebeu um movimento rápido e furtivo ao seu lado. Olhou atentamente para as árvores, pensando que podia ser sua imaginação, mas então viu outra vez. Um homem com roupas escuras saiu do mato, quase escondido pelas sombras densas do bosque. com o coração disparado, Erienne notou que havia algo de familiar naquele vulto, e curiosa, resolveu descobrir quem era. Segurando a saia, ela correu pela encosta, com os pés escorregando e deslizando no solo molhado. A brisa fria penetrava a lã grossa do xale e tingia de rosa seu rosto. Os galhos baixos enroscavam no seu vestido e no cabelo, desmanchando o penteado cuidadoso. O homem continuou a andar, cauteloso, sem perceber a presença dela. Quase na saída do bosque, Erienne parou,


escondendo-se atrás de um arbusto alto, quando viu o homem parar e olhar em volta. Ele olhou para trás, na direção dela, e Erienne prendeu a respiração quando reconheceu Bundy. Cobrindo a boca com a mão, Erienne abaixou mais atrás do arbusto, imaginando o que ele estaria fazendo, com aquela atitude furtiva, e por que não estava com seu marido. Era capaz de jurar que vira os dois partirem na carruagem naquela manhã. Bundy continuou a andar, atravessou o regato que corria entre as árvores, e Erienne viu para onde ele se dirigia. Havia uma pequena casa no sopé da colina, quase invisível entre as árvores. Um dos lados era protegido por uma cerca alta de arbustos, e onde ela terminava Erienne viu as rodas de uma carruagem. Uma trilha estreita ia das árvores até a carruagem. Bundy passou pela cerca de arbustos logo depois da casa, e de onde estava Erienne não podia ver o que havia naquele lugar. Um cavalo relinchou e pateou, surpreendido com a chegada do homem. Ouviu Bundy rir baixinho e depois o rangido de uma porta ou portão. Curiosa, saiu do esconderijo e correu para o regato. Procurou e encontrou um lugar onde uma fileira de pedras permitia a travessia. Aproximou-se da cerca de arbustos, cautelosa, escolhendo onde pisava. Mesmo assim, o relincho e o bufo do cavalo indicaram que o animal percebera sua presença. — O que há com você, Sarraceno? — perguntou Bundy. — Fique quieto. O cavalo relinchou outra vez e pateou o chão, agitado. — Ah, já sei o que está ferindo seu orgulho. O patrão o deixou aqui e levou seu rival, é isso. Muito bem, não precisa se sentir tão rejeitado, meu belo e valente garanhão. Ele guarda você para o melhor. Não pode negar isso. Erienne espiou pela cerca e viu o animal, que não esqueceria durante muito tempo. Nervoso e agitado, o garanhão negro, de pêlo brilhante, balançava a cabeça e andava de um lado para o outro no pequeno cercado. Era um animal majestoso, com um porte orgulhoso e especial. A crina e a cauda esvoaçavam como o manto de um príncipe trajado de negro, e seu passo impaciente era preciso e firme. Parou por um momento, com as orelhas empinadas, as narinas dilatadas e os olhos alerta. Então, bufando, recomeçou a andar com a cauda erguida. Erienne examinou a área protegida pela cerca. Havia dois cercados, separados por uma passagem. Das seis baias fechadas, ao lado da casa, duas tinham portões que davam para os cercados. Quatro animais iguais estavam nas baias menores e a baia maior e o cercado na frente de Sarraceno estavam vazios. Erienne pensou por momento, intrigada. Estava nas terras do marido, mas até esse dia nunca soubera da existência daquela casa. Bundy, entretanto, parecia conhecê-la, bem como aos animais. Como aquela casa, Bundy era um homem muito reservado, exceto com lorde Saxton. Afastando-se da cerca, Erienne voltou para o regato. Uma vez que a lealdade de Bundy ao seu marido era evidente, ele não podia lhes fazer nenhum mal. Lorde Saxton, sem dúvida, conhecia aquele lugar, e ela queria acreditar que, independente do que ele e Christopher Seton estavam fazendo, não era contra a lei. Levou algum tempo para encontrar a entrada para a caverna. Alguns momentos depois, estava no quarto, tirando o vestido rasgado e molhado. Depois de se vestir, desceu, e três horas mais tarde, quando a informaram que o landau do marido estava chegando, foi esperá-lo na porta. Parada no hall, viu a carruagem puxada por quatro


cavalos aproximando-se da casa. Quanto mais perto ela chegava, mais crescia a surpresa de Erienne, pois os animais eram idênticos aos que vira nas baias perto da pequena casa. Embora não tivesse visto toda a carruagem parada ao lado da casa, podia muito bem ser o landau de lorde Saxton. Erienne olhou para o cocheiro e ficou gelada. Bundy estava na boléia. Ela procurou uma explicação, mas não encontrou. Lorde Saxton estivera fora durante toda a tarde. Então, como Bundy podia estar com ele? Erienne recebeu o marido com um sorriso um tanto forçado. A consternação diminuía o brilho dos seus olhos e, sabendo que não poderia sustentar o olhar dele, virou o rosto quando o marido se aproximou e passou o braço por sua cintura. Não podia pensar que ele estivesse envolvido num caso amoroso clandestino, mas alguma coisa estava errada. As peças não se encaixavam, e Erienne não podia explicar o mistério que envolvia o marido, Bundy e Christopher Seton.

Capítulo Dezoito O FESTIVAL em Saxton Hall tinha por objetivo saudar e atrair a primavera. Era um tempo de alegria e de dança, quando lorde e lady, criado e camponês se uniam nas comemorações. Era também a ocasião da feira, onde os arrendatários expunham o resultado do trabalho manual dos meses de inverno, para vender ou trocar. Estandes rústicos e pavilhões mais sofisticados eram erguidos ao lado das barracas onde expunham a mercadoria. Roupas de lã, rendas e outros objetos podiam ser comprados por um ou dois pence. Estava determinado que o tempo seria bom, sem nenhuma nuvem para lançar sombra nas festividades, e a determinação foi obedecida. O sol aquecia os sorrisos dos jovens e dos velhos. Mãos ásperas acostumadas ao trabalho batiam com entusiasmo, acompanhando a música e a dança. Pequenos grupos se formavam aqui e ali, para admirar a festa. Acrobatas e malabaristas demonstravam suas habilidades por algumas moedas, e os bufões vestidos como os cavaleiros antigos, com cavalos artificiais em volta da cintura, encenavam justas absurdas para divertir o povo. Lorde Saxton e sua dama passeavam pela feira, parando aqui e ali, nos estandes, ou para ver os cantores ou dançarinos. O povo abria caminho à sua passagem, mas logo se aglomerava outra vez. Sempre que eles paravam, a alegria se acalmava, e muitos, com canecas de cerveja na mão, olhavam imóveis para o lorde de aparência tão terrível. As crianças espiavam, curiosas, por detrás das saias das mães, olhando espantadas para o ogre com a máscara de couro e sua perna aleijada. Embora falassem dele com respeito, quase todos imaginavam o horror que a máscara escondia e comentavam a coragem da bela senhora, que tinha de vê-lo todas as noites. Contavam histórias exageradas do seu encontro com os assaltantes de estrada. Diziam que ele enfrentara outros, famosos, e vencido a todos. Porém ele era também aquele que fora até eles com seu guardalivros para saber como estavam vivendo e perguntar se o preço dos aluguéis, no passado, fora justo ou não. Depois da opressão sofrida sob lorde Talbot, ficaram surpresos e agradecidos quando ele reduziu para menos da metade o preço dos arrendamentos. Logo que ele voltou, a notícia correu rápido. O senhor de Saxton Hall estava de volta, e esperavam que agora tudo melhorasse. Criou-se um novo conceito de justiça, e


daquele dia em diante o que era direito era direito e o que era errado era errado. Não ia mais haver contas escondidas, nem dedo na balança. Era uma justiça severa, mas justa, que eles podiam entender e com a qual podiam viver. Nenhum truque ilegal para prejudicá-los. Não haveria mais mãos cobiçosas abertas e estendidas, quando a verdade e a justiça estavam ausentes. E todos estavam mais felizes com isso. Sob muitos aspectos, lorde Saxton deixou de ser o monstro desconhecido. Era agora um senhor honrado e digno de confiança. Agora eles zombavam dos que diziam que o tinham visto voando, à noite, como um enorme morcego. Na verdade, era como um herói para eles, já se ofendiam quando falavam mal dele. Porém, apesar de toda a lealdade e respeito, nada contribuiu tanto para desfazer a incerteza quanto a presença da bela dama ao seu lado. Esqueceram que Erienne, antes, vivia como eles e que a encontravam sempre no mercado. Agora a viam apenas como a senhora de Saxton Hall, e a tranqüila confiança com que ela tratava o homem que a acompanhava fazia muito para acalmar seus temores. Olhavam boquiabertos, vendo-a conversar e rir tranqüilamente com o marido. A mão no braço dele, a naturalidade com que aceitava o seu contato e a intimidade das conversas em voz baixa contribuíam para tranqüilizá-los. Na verdade, Erienne Saxton era a dama mais graciosa que já tinham visto. As mães sorriam quando ela acariciava seus filhos. Ela distribuía doces para as crianças e parava muitas vezes, chamando os menores para ela. As mulheres comentavam o modo como ela pegou um bebê no colo e o apertou com carinho contra o peito. Diziam que até o lorde achou graça no prazer do garotinho e deixou que ele brincasse com um dedo enluvado. O medo diminuiu com o passar das horas, transformando-se numa sensação de contentamento. Embora ele parecesse ter nascido nas chamas do inferno, convenciam-se agora de que estavam em melhor situação tendo como senhores aquele lorde e sua dama. Para muitos, essa idéia foi reforçada quando o prefeito de Mawbry resolveu visitar Saxton Hall na companhia do filho. Enquanto o jovem Fleming demonstrava seu interesse por armas de fogo, o pai demonstrou sua fascinação pelo jogo de azar. Podia ser qualquer um, desde esconder uma pedra sob um de três copos até um pequeno jogo de cartas. Afinal, era só por algumas moedas, talvez só o que os camponeses podiam arriscar, pensou Avery, mas quando chegasse o verão, eles podiam ganhar o suficiente para compensar a perda. Assim mesmo, Avery teve o cuidado de fazer seus jogos longe das vistas do seu anfitrião. com o passar das horas, o prefeito estava tão absorto no jogo que não notou que a filha o observava atentamente a uma certa distância. Ficou surpreso quando ela o chamou. Recolheu, apressado, o que tinha ganhado, escondeu dentro do casaco, pediu licença aos homens que o rodeavam e dirigiu-se para onde estava a filha, como se a idéia de roubar daqueles camponeses jamais lhe tivesse passado pela cabeça. Inclinando a cabeça para o lado, Erienne olhou, intrigada, para o pai. — Meu pai, espero que tenha lembrado que é nosso hóspede e não tenha procurado tirar vantagem do seu parentesco... relativo. Empertigando-se, Avery bateu as asas, como um galo ofendido. — O que quer dizer, menina? Pensa que não sei me conduzir num lugar como este? Aqui estou eu, com a maior parte da minha vida atrás de mim, e você querendo me


dar conselhos. Ora, já convivi com duques, condes e lordes mais importantes do que lorde Saxton. Agora, está preocupada com minha conduta com um bando de camponeses. Vai se arrepender! — Quem vai se arrepender é o senhor — murmurou Erienne, furiosa —, se andou enganando o povo do meu marido. Se eu souber que está usando seus truques aqui, hoje, pode estar certo de que nunca mais vai pôr os pés nestas terras. Avery ficou corado. Inclinando-se para ela, disse, rilhando os dentes: — Ora, sua atrevida traidora. Prefere acreditar na palavra dos camponeses e condenar seu pobre e velho pai, sem permitir a ele uma palavra de defesa. Só porque está toda elegante agora e tem um título, não precisa bancar a nobre comigo. Eu sei de onde você veio. — Uma palavra! Lembre-se! — advertiu Erienne, secamente, — Não vou admitir que engane essa gente. Enraivecido, Avery ergueu a mão, num gesto ameaçador: — Trate de falar direito comigo, menina! Não vou deixar que gente da sua laia me chame de ladrão! — esbravejou. Cego de ira, Avery não notou as exclamações escandalizadas dos camponeses e não viu a máscara negra voltar-se para ele, mas de repente o pulso erguido foi agarrado por uma mão de ferro. Virou para ver quem era e seu coração foi parar nos pés. Engoliu em seco, pronto para correr e se esconder, mas seus pés estavam grudados no chão e recusavam fazer qualquer movimento. Tremendo, ele olhou para a máscara de couro de lorde Saxton. — Alguma coisa errada por aqui? — perguntou a voz cavernosa e áspera. Os olhos, através das aberturas, fixaram-se no homem. O prefeito abriu a boca espasmodicamente, mas estava seca demais para formar qualquer palavra. Não podia se livrar de modo algum. Erienne viu a tentativa inútil do pai para dizer alguma coisa e, sem saber por que, teve pena dele. Avery jamais fora extravagante em piedade e bondade com ela. — É uma discussão muito antiga, milorde — defendeu ela. — Um assunto que nos irrita demais. Sem tirar os olhos do prefeito, lorde Saxton disse: — Prefeito, sugiro que de agora em diante pense na fragilidade do seu corpo mortal, antes de tentar o destino desse modo. Sua filha está agora sob minha proteção e não tem mais direito de maltratá-la de modo algum. Avery continuava sem poder falar e contentou-se com uma trêmula inclinação de cabeça. — Muito bem! — Lorde Saxton soltou o pulso dele. — De agora em diante, espero que trate minha esposa com o devido respeito e tenha muito cuidado quando tratar com qualquer pessoa nas minhas terras. Do contrário, as conseqüências serão muito desagradáveis. Avery, mudo ainda, esfregou o pulso dolorido. Erienne e lorde Saxton afastaram-se. Se viessem a saber que ele enganara os camponeses, perderia muito mais do que ganhara. Porém, eram só três aqui, um quarto de pence ali e mesmo que ele quisesse devolver não sabia a quem pertencia o dinheiro. No dia seguinte, no fim da tarde, Erienne, da janela da torre, Viu o landau se afastar da casa. Estava curiosa para saber até onde ele iria e intrigada ainda pelo mistério


que envolvia a pequena casa na floresta e o magnífico garanhão negro. Muitas dúvidas a assaltavam. Lembrou as acusações de lorde Talbot e do xerife a respeito do cavaleiro da noite. Apesar da confiança que tinha no marido, a visão de Ben, morto e ensangüentado, com o cavaleiro da noite de pé ao seu lado, empunhando a espada, não saía da sua mente, enchendo-a de pavor e destruindo a fé que até agora devotava ao marido. Quando o landau desapareceu de vista, levada por um impulso irresistível, ela desceu para a velha biblioteca. Começava a conhecer bem a passagem e chegou até o meio do caminho com segurança. Viu então uma luz no lugar em que encontrara Chistopher. Apagou o lampião e, com mais cautela, dobrou a curva da passagem. O lampião estava aceso, mas o lugar vazio. Quando ela estava quase no círculo de luz, ouviu um leve ruído e alguém começou a levantar a tranca da porta. Voltando para o escuro, ela se encostou na parede e conteve a respiração. A porta se abriu, e Erienne quase gritou quando viu Christopher, vestido todo de negro, como naquela outra noite. Ele foi direto para a arca trancada, ajoelhou-se e pôs a chave na fechadura. Quase sem respirar, ela o viu retirar da arca duas pistolas e um sabre longo numa bainha trabalhada. Passou o cinto com a espada na cintura e enfiou nele as duas pistolas. Trancou a arca rapidamente e saiu da caverna. com um suspiro de alívio, Erienne apoiou as mãos na parede por um momento. Sua mente voava num turbilhão caótico. Nenhum bem podia advir das armas que ele tirara da arca. Na verdade, só podiam significar um perigoso conflito. Mas contra quem? Outro Timmy Sears? Ou um velho bêbado? Então, Erienne lembrou-se. O cavaleiro da noite vestia-se de negro e percorria as estradas na escuridão, matando com a espada e deixando as vítimas num lago de sangue. Christopher tinha um sabre e estava vestido de negro. Escondido no bosque estava um enorme garanhão negro, capaz de voar como o vento. A combinação do homem com o animal devia ser assustadora. Erienne saiu da sombra, acendeu seu lampião e voltou correndo pela passagem. Não podia perder tempo. Queria descobrir o que Christopher estava fazendo. Se fosse a pé até a casa na floresta, ele e o garanhão podiam ter partido, quando chegasse lá, deixando sem resposta suas perguntas. Queria ver pessoalmente se seus receios eram infundados ou não. Só depois de entrar no estábulo e tirar Morgana da baia ela lembrou que sair à noite, vestida como estava, era muito arriscado. Enquanto pensava no que ia fazer, viu algumas peças de roupa dependuradas numa corda, certamente lavadas e estendidas ali para secar. Entre outras coisas havia uma camisa, um casaco curto e um calção justo, de menino, quase do seu tamanho. Deviam ser de Keats, mas, considerando que ele ficaria tão embaraçado quanto ela se Erienne pedisse suas roupas emprestadas, o mais certo era usálas sem que ele soubesse. Tirou as roupas da corda e correu para o canto de uma baia vazia, despindo rapidamente o vestido e a combinação. Arrepiada de frio, ela apressadamente vestiu a roupa de Keats. Não tinha tempo para fechar os cordões da camisa aberta até abaixo do seu colo. Vestiu o casaco e amarrou a faixa do seu vestido na cintura, para segurar o calção que chegava abaixo dos joelhos, deixando à mostra um bom pedaço da perna coberta pela meia de seda branca. Os saltos dos sapatos, não muito altos, não eram problema, mas o cabelo solto nas costas teve de ser enfiado num tricórnio sujo e velho que ela


encontrou. com uma careta, pôs todo o cabelo para dentro do chapéu, imaginando quantos parasitas ele devia conter. Escolheu uma sela masculina. Subiu num barril vazio e montou, parando um momento para se firmar bem. O contato quase direto com a sela era uma experiência nova que ela talvez não agüentasse por muito tempo. Ou ela era muito macia, ou a sela muito dura. Fosse como fosse, a combinação não conduzia a um grande conforto. Batendo com os calcanhares nos lados da égua, saiu do estábulo, deu uma volta para passar longe da casa e seguiu na direção do pequeno bosque. O fim do dia pintava a paisagem de violeta e rosa, mas as sombras da noite avançavam, devorando aos poucos a luz. Só por acaso ela viu um cavaleiro vestido de negro, num cavalo também negro, alguma distância à sua frente. Certa de que era Christopher Seton, Erienne foi atrás dele. Não pretendia alcançá-lo, mesmo porque seria quase impossível se ele a pressentisse. Só queria ver o que ele ia fazer e verificar se suas suspeitas tinham algum fundamento. A lua cheia separou-se da terra e subiu alto no céu, iluminando com sua luz prateada todo o campo, permitindo a Erienne acompanhar de longe o cavaleiro. Passando por vales e colinas, por regatos e pequenos lagos, Erienne o seguiu, às vezes vendo vagamente o vulto no topo de uma elevação. A distância entre os dois aumentava aos poucos e, quando o perdeu de vista, Erienne ficou preocupada. A estrada fazia uma curva e depois seguia ao lado de um regato raso. Resolvendo que o regato era o caminho mais curto, Erienne fez Morgana entrar na água. O ruído dos cascos no leito de pedra ecoava no túnel formado pelas árvores que ladeavam a estrada. Foi uma imprudência, pois o homem que ela seguia estava parado, mais adiante, no escuro. Christopher ergueu a cabeça quando percebeu a aproximação de outro cavaleiro. Há algum tempo sabia que estava sendo seguido e resolveu que a brincadeira já tinha ido longe demais. Fazendo o garanhão dar meia-volta, cavalgou ao lado da estrada por algum tempo. Conhecia um lugar onde podia surpreender o homem. Erienne levou Morgana para fora do regato, voltando para a estrada num galope acelerado. Não via mais o cavaleiro, e a idéia de que ele podia ter tomado outro caminho a fez apressar mais ainda sua montaria. Passava por uma parte plana da estrada cheia de árvores baixas quando um vulto escuro saiu das moitas bem na sua frente. Erienne gritou, quando uma coisa dura e pesada chocou-se contra ela, tirando-a da sela. Christopher percebeu imediatamente o seu erro, pois o cavaleiro com quem se chocou era muito leve e muito macio e só podia ser uma mulher. Girou no ar, aparando o impacto com o próprio corpo, para salvar seu perseguidor. Ao mesmo tempo, um relincho furioso cortou a noite, quando as rédeas foram arrancadas das mãos de Erienne, e Morgana tomou o freio nos dentes. Christopher acabava de se firmar no pó da estrada quando olhou para cima e viu a égua empinando, com as patas dianteiras no ar. Reconheceu imediatamente as patas brancas do animal e adivinhou quem era sua visitante indesejável. Imaginando que o animal pretendia se vingar do ataque, ele atirou-se em cima do corpo da mulher que segurava. Morgana saltou elegantemente por cima dos dois e voltou na direção de onde tinha vindo. Christopher olhou então para a coisa selvagem que tinha nas mãos. Procurando se libertar, ela enfiou as unhas no rosto dele e parecia querer arrancar até o último fio


dos seus cabelos. Defendendo-se, ele finalmente conseguiu segurar os dois pulsos no ar e Os abaixou com força, valendo-se do seu peso para dominá-la. Erienne estava presa, segura firmemente no meio da estrada. Na luta, seu cabelo soltou-se do chapéu, e suas roupas, em desordem, mal davam para proteger sua modéstia. com o casaco aberto e a camisa levantada, seus seios nus tocavam o peito dele. O calção justo acentuava a pressão do corpo dele contra o seu. Estava presa, quase face a face com seu captor e, embora não pudesse ver seu rosto, não tinha nenhuma dúvida quanto à sua identidade, nem quanto ao sorriso zombeteiro que ele devia ter nos lábios. — Christopher! Seu animal! Solte-me! — Tentou se libertar, mas ele não se impressionou com os protestos. Os dentes dele brilharam num largo sorriso. — Não, madame. Não até a senhora controlar sua paixão. Temo que daqui a pouco eu esteja um tanto descomposto com sua ardente atenção. — Devo dizer o mesmo do senhor! Ele respondeu com um suspiro desapontado. — Eu estava saboreando este momento. — Foi o que notei! — disse ela, sem pensar, e depois mordeu o lábio, esperando que ele interpretasse de outro modo sua observação. Mas ele não interpretou. Estava muito consciente do efeito do corpo quase nu sob o dele e respondeu com riso na voz. — Embora censure minhas paixões, madame, elas são sempre excitadas honestamente. — Sim! — zombou ela. — Por qualquer saia que passe por perto. — Juro que não estou sendo atacado por uma saia. — Segurando os pulsos dela com uma das mãos, desceu com a outra até quase o joelho-e disse, pensativo: — Parece mais um calção de menino. O que é isto? Será que peguei um cavalariço? Mais indignada ainda, vendo-se acariciada com tanta tranqüilidade, como se ele tivesse direito ao seu corpo, disse: — Saia de cima de mim... seu... seu, burro! — Foi o insulto mais contundente que conseguiu lembrar no momento, — Saia de cima de mim! — Um burro? — zombou ele, — Madame, permita-me observar que burros são para serem montados e no momento é a senhora quem está carregando peso. Eu sei que as mulheres são feitas para suportar,., geralmente o peso do marido ou da semente que ele planta nelas... mas nem de longe poderia sugerir que suas formas sequer se aproximam das de um burro. Erienne apertou os dentes, impaciente por ele transformar uma simples palavra num discurso de humor. Não podia suportar nem por mais um momento aquela proximidade íntima dos seus corpos. — Quer sair de cima de mim? — Certamente, querida. — Ele obedeceu, como se o menor desejo dela fosse uma ordem. Ajudando-a a se levantar, solicitamente . limpou a poeira das costas dela. — Chega! — gritou ela. O calção, muito usado e fino, não a protegia do contato das mãos dele. Christopher não olhou para o rosto dela, mas para baixo. Seguindo seu olhar,


Erienne viu seus seios nus e muito brancos no meio do decote da camisa. com uma exclamação abafada, fechou a camisa e procurou amarrar os cordões. Então ele abaixou mais os olhos e observou atônito as pernas dela. — Pode me dizer porque está andando por aí com essa roupa estranha? Erienne afastou-se dele com petulância e continuou a limpar a roupa, depois de ter resolvido o problema da camisa. — Certas pessoas — respondeu ela, secamente — costumam atacar uma mulher sozinha durante a noite e achei melhor me fazer passar por um garoto. Não sabia que o senhor tinha o costume de atacar um cavaleiro como um maluco. Os olhos de Christopher acariciaram o traseiro dela, admirando o modo com que o calção se esticou quando ela abaixou para apanhar o chapéu. — A senhora não estava apenas passando. Estava me seguindo. Por quê? Erienne voltou-se rapidamente. — Sim! Eu estava, e pelo que vejo, alguém deve segui-lo para ver o que anda fazendo de errado. — Errado? — Seu tom era de inocência e surpresa, — Ora, por que pensa que estou fazendo alguma coisa errada? com um gesto, ela mostrou a roupa dele. — Um cavalo negro? Roupas negras? Cavalgando à noite? Eu diria que tem os hábitos do cavaleiro da noite. Christopher sorriu com ironia. — E naturalmente imagina que eu assassino pessoas pobres e simples quando estão dormindo. Erienne olhou para ele. — Era isso que eu queria perguntar — respirou fundo para firmar a voz. — Se você fosse o cavaleiro da noite, por que mataria Ben? Ele respondeu com outra pergunta: — Se eu fosse o cavaleiro da noite, por que faria a bobagem de matar um homem que sabia muito sobre meus inimigos? Diria que isso seria sensato, madame? Não, eu digo que seria loucura. Mas se eu fosse um daqueles sobre os quais ele podia me dar informações teria um bom motivo para silenciá-lo antes que contasse tudo que sabia. Erienne conteve o suspiro de alívio, por que tinha outros nomes na lista. — E Timmy Sears? — O que tem ele? — perguntou Christopher. — Um ladrão. Um assassino. — Deu de ombros. — Talvez até mesmo um dos que atearam fogo a Saxton Hall. — Você o matou? — Se eu fosse o cavaleiro da noite, por que cometeria a tolice de matar um homem que contou histórias, citou lugares e disse os nomes dos meus inimigos? Também não seria sensato, madame. Acredito que o erro de Timmy foi confessar muita coisa aos amigos. Faltando-lhes a santidade da igreja, eles o mandaram para um tribunal mais alto. — E os outros que foram mortos? — insistiu ela. — Se eu fosse o cavaleiro da noite, madame, eu me protegeria matando todos que ameaçam a minha vida, todos que procuram tirar minha vida. Não acho que isso seja assassinato. — É o cavaleiro da noite, não é? — disse ela, com convicção.


— Madame, se o xerife lhe fizer essa pergunta a meu respeito, o que pode dizer a ele, com certeza? Por que eu confessaria, possivelmente obrigando-a à mentira? Erienne olhou para ele, confusa. Não podia suportar a idéia de vê-lo enforcado. Era tão assustadora quanto uma ameaça real à sua própria vida. Pior, talvez. — Veja bem, não estou fazendo nenhuma confissão, madame. — Também não está negando nada. com um largo sorriso ele ergueu as mãos abertas, num gesto de inocência. — Eu tinha negócios fora da cidade e com todas essas histórias de assaltantes soltos pelas estradas, tomei precauções para passar despercebido e, é claro, escolhi um cavalo veloz. O que mais póde dizer contra mim? — Não precisa gastar mais seu fôlego comigo, Sr. Seton. Estou convencida de que é o homem que o xerife procura. Não compreendo ainda suas razões, mas espero que sejam honestas. — Esperou, mas ele não negou nem afirmou. Batendo com a mão no chapéu para tirar a poeira, ela olhou em volta, à procura da sua montaria. — O senhor assustou meu cavalo. Como vou voltar para casa? Christopher ergueu a cabeça e assobiou longa e estridentemente. Logo os passos do animal soaram no silêncio da noite, e Erienne, com uma exclamação de espanto, viu o cavalo negro e brilhante galopando para eles. Teve a impressão de que o animal não ia parar. Por via das dúvidas, escondeu-se atrás de Christopher, agarrando a camisa dele, quando o cavalo parou derrapando ao lado deles. Como confiava muito pouco em garanhões e no temperamento deles, prendeu a respiração quando foi içada para o dorso do animal e graciosamente aceitou a presença do ianque às suas costas. Permitiu que ele a segurasse contra o peito forte e quente e naquele momento não tinha importância o fato de o calção fino não servir de proteção entre os dois. Segurando o tricórnio de Keats, ela balançou a cabeça, preparando-se para prender o cabelo sob o chapéu, mas ouvindo o pequeno acesso de tosse exageradamente alta de Christopher, virou para trás e viu o sorriso zombeteiro com os dentes brilhando à luz do luar. — Minha senhora — ele quase se engasgou —, acredito que esteja um pouco empoeirada. Acho que precisamos de um banho depois disto. Erienne ergueu a sobrancelha, e o sorriso ficou mais largo. — Banhos separados, é claro. Eu não ia ofender sua pureza virginal com o espetáculo de um homem nu. — Não sou virgem! — protestou Erienne. depois se encolheu, ouvindo a risada dele. Fez menção de pôr o chapéu, mas com a pressão, ele escorregou da sua mão. — Então, não ficaria escandalizada com um banho a dois, na mesma banheira? — perguntou ele. Pôs o rosto perto do ouvido dela, e Erienne ficou toda arrepiada. — A idéia seduz minha imaginação. O calor que ela sentia não podia ser atribuído só ao rubor que subiu ao seu rosto. — Tem uma imaginação muito maldosa, senhor. — Não, madame. Vivida, sim. Mas nada a seu respeito é maldoso, e é só nisso que eu penso. — É óbvio que o senhor é facilmente... — Parou, procurando uma palavra mais sarcástica e mais descritiva do que ”encorajado”. — Excitado? — sugeriu ele. com uma exclamação ofendida, ela disse:


— É claro que não! — Por acaso mudou de idéia? Disse, qualquer saia que passe por... — Sei muito bem o que eu disse! — Parece que pensa muito no assunto, minha senhora. — Não posso imaginar por quê — disse ela, com ironia. Era impossível ignorar o corpo dele junto ao seu. — Por que deseja o meu corpo? — perguntou ele, fingindo inocência. Erienne conteve a respiração, ofendida. — Senhor, sou uma mulher casada! Ele deu um longo suspiro. — Lá vamos nós outra vez! — Ora, seu palhaço! Por que não me deixa em paz? — Eu pedi para me seguir? — protestou ele. Erienne gemeu alto, frustrada. — Estou arrependida. — Por acaso se feriu? — puxou-a para mais junto dele. — Para mim, está em perfeito estado. — Christopher, se eu não tivesse tanto medo deste cavalo, o esbofetearia — ameaçou ela. — Por quê? Só perguntei sobre sua saúde. — Por causa das suas mãos. Agora, pare com isso! — Tirou a mão dele da sua coxa. — Nunca se cansa do papel de conquistador? — O esporte me aquece e me excita, madame — disse ele, bem perto do ouvido dela. Erienne abriu a boca para responder, mas desistiu, pois ele sempre tinha uma resposta pronta. Embora fosse difícil para ela, resolveu não discutir mais, e continuaram em silêncio. O luar banhava os vales e as colinas, e permitia a Christopher a visão de um espetáculo fascinante. Continuamente seus olhos pousavam no decote da camisa dela, onde os cordões amarrados frouxamente revelaram a linha dos seios com o vale profundo entre eles. Como pretexto, ele passou o peso do corpo dela para o outro lado sem tirar a mão da cintura fina, e gostou do resultado, uma visão mais ampla e tentadora com vislumbres das pontas mais escuras. Frustrada com o fato de não poder se livrar da proximidade dele, Erienne não dava atenção à própria roupa. Ele parecia bem aquecido naquela posição, e nada conseguia tirá-lo da sua mente. Estavam quase em Saxton Hall quando ela falou outra vez. — Deixei meu vestido no estábulo. Preciso voltar lá para me vestir. — Eu apanho sua roupa — ofereceu ele. — Diga onde está. Erienne não viu nenhum motivo para discutir e explicou onde tinha escondido o vestido e a combinação. — Deixe na passagem. Eu apanho mais tarde. No que pareceu um tempo muito curto, ela estava outra vez no quarto, mergulhada na água quente. Aggie dispensara Tessie por aquela noite e se encarregou de abrir a cama, tirar a camisola do armário e ajudar a jovem patroa. Deixou dois baldes com água ao lado da banheira e, com intenção de voltar quando Erienne começasse a lavar a cabeça, saiu para apanhar mais toalhas. Erienne ouviu quando ela saiu e fechou a porta e depois, quase como um eco, o carrilhão distante batendo onze horas. Sentou-se na banheira, surpresa, pois a noite parecia ter passado muito depressa. Lorde Saxton podia voltar a qualquer momento, e como ia explicar o banho àquela hora? Se ousasse mencionar Christopher, alguma


coisa nos seus olhos podia trair seu fascínio por ele. Apressando-se, ela molhou a cabeça, aplicou o sabonete perfumado e começou a esfregar o cabelo. A espuma, escorrendo da testa, entrou nos seus olhos. Para aliviar o ardor, ela lavou o rosto, rapidamente. Fechando os olhos com força, procurou o balde de água ao lado da banheira e então ouviu a porta se abrir e fechar. — Aggie, venha me ajudar, por favor. Entrou sabão nos meus olhos e não consigo encontrar o balde de água para enxaguar a „ cabeça. O tapete espesso do quarto abafou os passos, e Erienne sentiu que alguém chegava perto da banheira. O balde foi erguido, e ela, inclinando a cabeça para a frente, esperou a sensação da água morna nos cabelos. Erienne espalhou bem o cabelo com as mãos para tirar todo o sabão. O segundo balde foi esvaziado, e ela pediu a toalha. Depois de tirar o excesso de água do cabelo, ficou de pé na banheira para esperar a toalha e a enrolou na cabeça. com um suspiro, lançou a cabeça para trás, abriu os olhos que ardiam e viu o rosto sorridente de Christopher Seton. — Christopher! — A exclamação foi seguida de puro pânico, e ela pôs o braço na frente dos seios, e o outro desceu para o meio das pernas — Saia! Saia já daqui! Ele apanhou o robe dela. — Parecia que estava com um problema, minha senhora, e achei que precisava de ajuda. — Estendeu calmamente o robe. — Precisa disto? Embora tivesse de sacrificar uma das proteções da sua nudez para apanhar o robe, ela o tirou rapidamente da mão dele, encostando-o no peito. com os olhos em fogo, estendeu o braço para porta. — Fora! Para Fora! Agora! — Mas Aggie está no corredor — disse ele, com a sugestão de um sorriso. No espelho via as costas nuas e perfeitas. — Eu trouxe sua roupa, mas ela estava subindo a escada, e tive de entrar aqui, para não ser visto. — Eu disse para deixar a roupa na passagem! — disse ela, entre os dentes cerrados. — Mas está cheia de ratos e parasitas, madame. — Seus olhos dançavam, provocando-a. — Eu não queria que atacassem sua roupa. Erienne achou a desculpa razoável, pois a mera idéia de ratos na sua roupa a fez estremecer, mas perguntou: — E se Aggie o encontrar aqui? Ele ergueu os ombros largos, com indiferença. — Eu tranquei a porta. Ela vai pensar que seu marido voltou. — E se Stuart voltar? — perguntou ela, idiotamente. — É bem possível que ainda se veja na frente da pistola dele. com um largo sorriso, ele olhou para o espelho outra vez, admirando a curva fina da cintura e as cadeiras bem-feitas. — vou pensar nisso quando chegar a hora. Desconfiada, Erienne olhou para trás, e por um momento deixou de respirar quando viu as costas nuas refletidas no espelho. com uma exclamação de raiva, ela virou-se para ele com a mão fechada e o braço erguido, mas, rindo, ele a segurou com firmeza. — Agora está em minhas mãos, minha senhora. — Seus olhos brilharam. — E não vai escapar antes de ouvir o que tenho a dizer — Acha que pode entrar aqui como um lunático, sem nenhuma consideração pela decência e me obrigar a ouvi-lo? — Sua ira cresceu, com a idéia de que ele a julgava


presa fácil dos seus caprichos, — Pensa que, por causa do que aconteceu na carruagem, tem o direito de me importunar no meu quarto. Certamente que não, senhor! Não quero ouvir suas confidências. Insisto para que se retire antes que Stuart o encontre aqui! Ela saiu da banheira, procurando se enrolar no robe e teria saído da sala de banho se braços fortes não a erguessem do chão e, ignorando sua exclamação de protesto, a apertassem contra o peito largo e forte. — Erienne, escute — disse ele, muito sério. Os olhos azuis-violeta chisparam de raiva. Ela não queria ceder, com medo que se repetisse o que acontecera na carruagem e com resultados mais devastadores. — vou gritar se não me puser no chão agora mesmo! Juro que vou gritar, Christopher. A tensão dos músculos do peito dele diminuiu quando seus olhos se encontraram. Christopher compreendeu que o que tinha para dizer seria mais bem apresentado com mais calma, mas esperava poder finalmente esclarecer tudo. — vou deixá-la na sua cama imaculada, madame — resmungou ele —, mas primeiro há uma coisa que quero da senhora, e vou ter! Os lábios dele aproximaram-se dos dela, entreabertos, e o coração de Erienne deu um salto, quando percebeu suas intenções. Tentou virar o rosto, conhecendo o efeito dos beijos dele, mas a expressão nos olhos verdes a paralisou. Então, sentiu os lábios quentes e úmidos nos seus e o calor percorreu seu corpo como um cometa em chamas. Foi um beijo sensual e selvagem, que parecia tocar cada nervo do seu corpo, reduzindo a cinzas sua resistência com a força da paixão. A boca de Christopher invadiu a dela e todo seu corpo, até o âmago do seu ser. Um leve tremor percorreu suas pernas, abalando e despedaçando sua vontade, e ele não parou. Depois de uma eternidade, ele ergueu a cabeça. com os olhos nos dela, sem uma palavra, levou-a para a cama. Ciente da própria vulnerabilidade, Erienne sabia que não ergueria um dedo para evitar que ele a possuísse. Os olhos verde-acinzentados pareciam penetrar sua mente, e ela mal percebeu quando ele a pôs na cama, Quando ele se afastou, suas emoções foram do alívio ao desapontamento. Não queria que ele fosse embora, mas também não queria pedir que ficasse. Num instante ele estava na porta e então desapareceu. Erienne puxou as cobertas até os ombros e se enrodilhou sob elas. Aquela noite tinha esgotado suas emoções e não conseguia parar de tremer. Seu corpo era como uma corda esticada de violino, vibrando ainda depois do arco ter-se afastado dela. Cerrando os dentes, lutou contra o tumulto de emoções esfaceladas, mas nada podia acalmá-la. com um brado de frustração, sentou-se na cama, tirou a toalha da cabeça e desceu para o chão. Estremeceu de frio e correu para a banqueta na frente da lareira. com a cabeça nos joelhos, escovou os cabelos na frente do fogo, até ficarem secos. O calor da lareira restituiu o rosado da sua pele, mas não aliviou a tensão dos nervos. Voltou para a cama e num esforço de vontade se obrigou a pensar em outras coisas. Viu mentalmente o vulto escuro e claudicante do marido, afastando a imagem de Christopher do pensamento. O corpo deformado de lorde Saxton penetrou na sua consciência, e aos poucos ela parou de tremer. Encorajando os pensamentos calmantes, lembrou todos os momentos desde a primeira vez que vira lorde Saxton.


As lembranças começaram a brincar com sua mente, evocando visões indistintas, combinando-as, até se transformarem num conjunto de eventos complementares desligados da realidade. Através de uma névoa opaca, ela via presas longas e mandíbulas abertas, prontas para o golpe mortal, depois gêiseres subindo das pegadas de cascos negros. Um vulto negro apeou do cavalo irrequieto e atravessou o regato na direção dela. com um leve suspiro, Erienne deslizou para os braços protetores do sono. Orientados pela sua vontade, os sonhos seguiram o padrão determinado por ela. Estava entre cortinas esvoaçantes perdida na sua extensão infinita. Confusa, corria de um lado para o outro, mas as tiras de seda de vários tons pastel a mantinham prisioneira. Então, através dos véus suavemente coloridos, um vulto vestido de negro claudicou até ela. Procurou fugir mas não tinha por onde escapar, e ele se aproximava cada vez mais, até seu mundo se transformar num vazio escuro. Ela deslizou à deriva, insensível, querendo sentar-se, deitar-se ou gritar, mas paralisada na terra do nada, incapaz de se mover. Braços fortes se estenderam para trazê-la de volta. Sentiu o calor vibrante de um corpo masculino nas suas costas. Sua mente lutou para se livrar do sono, pois nenhum sonho jamais a dominara tão completamente. Embora seus olhos encontrassem apenas a mesma escuridão vazia do pesadelo, seus sentidos confirmaram o fato de que a realidade voltara para ela, sob a forma de um homem. Porém, a fantasia envolvia ainda a razão e as duas eram inseparáveis, pois ele era a escuridão para ela, quente e viva, mas sem forma ou rosto. Foi assaltada então pelo temor súbito de que o conquistador tivesse voltado para deitar na sua cama e sobressaltou-se, com uma exclamação abafada. A mão se estendeu para segurá-la e um murmúrio áspero a acalmou. — Não, nunca fuja de mim, meu amor. Venha e se aninhe nos meus braços. Erienne relaxou o corpo, deixando que os braços fortes a virassem para ele e ficaram ali deitados juntos, as curvas macias contra os músculos fortes. Ela conteve a respiração quando os lábios tocaram seus seios e os acariciaram com lentidão tantalizadora, deixando uma chama ardente por onde passavam. Seus sentidos subiram num vôo espiralado e estonteante, que a deixou sem ar. A realidade deixou de ser importante, Ele era todas as coisas para ela, um belo amante, um marido deformado, um vulto vestido de negro que a salvava das presas ameaçadoras dos cães de caça. Sentiu que ele se erguia sobre ela e estremeceu quando a mão passou pela curva dos seios, desceu até os quadris, depois subiu entre suas coxas. O desejo começou a crescer dentro dela, um vazio que clamava para ser preenchido. Ela ergueu a mão para levá-lo de volta aos seus braços e a encostou na penugem do peito dele. Os músculos sob seus dedos eram fortes e flexíveis e, extasiada, acariciou o peito largo, admirando a forma que nunca podia ver. Ficou de joelhos para olhar para ele, movendo-se lentamente para a frente, entre suas pernas, com as mãos na altura das costelas. Inclinou-se para beijar o pescoço, acariciando o peito dele com os seios. com o cabelo nos ombros dele, abraçou-o e deixou-se cair sobre ele. Ele conteve a respiração por um momento, e a sensação doce, extremamente suave, fez seu coração disparar. — Beije-me — pediu ela, num murmúrio. Queria que ele apagasse a marca de


Christopher dos seus lábios, para que nenhum pensamento do outro homem interferisse na sua intimidade. Os lábios dele pousaram no seu ombro, depois ele a fez deitar- se e beijou seus seios. Desapontada, ela sentiu que ele evitava beijá-la na boca, mas não podia mais negar a excitação e o êxtase provocados pelos lábios no seu corpo. Ele se moveu em cima dela, e sem pensar nas cicatrizes, ela o recebeu. Seus braços e seu corpo queriam ardentemente abraçá-la e traze-lo todo para ela. Encostou a cabeça no corpo dele quando sentiu que era atendida e o calor do membro dele dentro dela a levou a uma excitação tão intensa, quase insuportável. Seus dedos encontraram a cicatriz conhecida e suas unhas arranharam as costas dele, enquanto ela gemia baixinho e erguia os quadris ao encontro dos dele. Ela murmurou um nome e por um momento o universo parou. Ele se afastou, mas Erienne o puxou para ela, com a cabeça inclinada para trás, o cabelo uma torrente de seda que descia até a cama, debaixo dela. Ele beijou o pescoço macio e recomeçou, levando-a para mais alto, para o momento pulsante de satisfação final, até ela gemer alto e prender a respiração. A sanidade voltou aos poucos, lentamente, e Erienne desceu para a terra. Sentiu um movimento ao seu lado e sua mão roçou as costas largas, quando ele saía do refúgio aconchegante da cama. Reunindo toda a energia que lhe restava, ela rolou para o lado da cama iluminado pelo fogo, abriu as cortinas no momento em que a porta se fechava. — Stuart? — murmurou ela, com voz fraca, olhando para as chamas, que dançaram na lareira, perguntando a si mesma por que ele fora embora. O marido sempre ficava depois de fazerem amor, e ela gostava do calor do corpo dele ao seu lado. A intimidade entre os dois fora muito agradável e, nessa noite, nenhum rosto invadira sua mente, nenhuma visão de... Dedos frios apertaram o coração de Erienne e um horror intenso invadiu sua mente quando lembrou o nome que tinha murmurado, um nome que não era o de Stuart. Sentindo-se extremamente infeliz, ela escondeu o rosto ardente no travesseiro. — Oh, Stuart — gemeu —, o que foi que eu fiz?

Capítulo Dezenove COMEÇAVA a manhã, e Erienne, para reforçar sua coragem, fez uma toalete cuidadosa. Teria preferido ficar no quarto, mas não queria parecer covarde. com o vestido azul-claro de decote discreto e fitas entrelaçadas nos cabelos, era uma visão muito bela quando desceu timidamente para tomar café com o marido. Ele segurou a cadeira para ela, ao lado do fogo, com um olhar que prenunciava tempestade. Erienne sentou-se, sorriu para ele e depois olhou para a lareira, sem coragem de encará-lo. Não houve nenhuma explosão, nenhuma censura furiosa. Apenas o silêncio, e sabendo que teria de enfrentar o que a esperava muniu-se de coragem e determinação. Respirou fundo e ergueu os olhos, esperando bravamente qualquer pergunta do marido. — bom dia, minha querida — disse a voz áspera, quase alegremente, — Peço desculpas por deixá-la tão de repente ontem à noite. Eríenne, surpresa, não podia explicar todo aquele bom humor. Certamente ele ouvira o nome murmurado do


primo e devia saber que ela pensava em outro homem enquanto fazia amor com ele. — Achei que gostaria de um passeio a Carlisle hoje. Seria conveniente? — É claro, milorde, — Muito bem. Então, quando terminar o café, partiremos. — Preciso mudar de roupa? — perguntou ela, hesitante. — Não, madame. Está encantadora. Uma jóia rara para dar prazer aos meus olhos. Quero lhe apresentar alguém, em Carlisle. Conversaremos durante a viagem. Está na hora, madame, de pôr ordem na minha casa. Erienne ficou tensa, pois essa observação parecia ameaçadora. Certamente o marido tinha outros planos para ela. Lorde Saxton olhou para a mesa, com só um lugar arrumado. — Venha, Erienne. Deve estar faminta. Abriu a boca para negar, mas resolveu o contrário. A idéia de enfrentar Stuart lhe dava náuseas, mas de nada adiantava apressar as coisas, e, se comesse alguma coisa, talvez seu estômago se acalmasse. A cozinheira era perfeita, e Erienne não tinha nada a reclamar da refeição, Mas só conseguiu comer muito pouco, e quando Paine entrou para avisar que Bundy queria falar com lorde Saxton na sala de estar, aliviada, ela empurrou o prato. Voltou para a lareira e tomou o chá lentamente, esperando pelo marido. O carrilhão anunciou quinze minutos antes de lorde Saxton voltar à sala. Parou ao lado da cadeira dela e desculpou-se. — Desculpe-me, madame, mas preciso adiar nossa visita a Carlisle. Um assunto urgente foi trazido à minha atenção, e, por mais que me aborreça deixá-la, é preciso. Não sei ao certo quando estarei de volta. Erienne não questionou a sorte que a livrara do confronto esperado. Continuou a tomar o chá, sentindo diminuir a tensão. O landau foi levado para a frente da casa. Ela o ouviu partir e ficou imóvel, no silêncio, como uma pessoa salva do inferno. Uma sonolência a invadiu e lembrando que dormira pouco naquela noite, voltou para o quarto. Tirou o vestido, deitou-se e logo mergulhou no sono tão necessário. As primeiras tonalidades rosadas começavam a tingir o céu quando Erienne acordou. Completamente descansada e cheia de energia, sentiu que precisava de alguma atividade que não fosse os deveres de dona de casa. Pensou na égua Morgana e, embora não tivesse intenção de repetir a aventura da noite anterior, a idéia de um passeio a cavalo era convidativa. Sem nenhum plano definido, vestiu a roupa de montaria, Nem pensou em passar por um garoto outra vez. Preferia ser tratada com a deferência devida à sua feminilidade se encontrasse outra vez aquele conquistador ousado. Porém, lembrando do seu encontro com Timmy Sears, resolveu levar um par de pistolas. Amarrou uma moeda na camisa do cavalariço e levou a roupa dele para o estábulo, escondida sob o manto cinza-escuro. Keats saíra para apanhar água, e Erienne aproveitou a oportunidade para esconder a roupa sob uma sela, onde certamente logo seria encontrada. Quando o cavalariço voltou, Erienne, com um ar de inocência, estava admirando Morgana e graciosamente pediu a ele para selar a égua. — Senhora, lorde Saxton deu ordens estritas para que a senhora não saia sozinha. Como não posso desobedecer às ordens dele, posso ir com a senhora? Erienne ia concordar quando viu um cavaleiro que se dirigia para a mansão. Foi até a


porta e esperou que ele chegasse mais perto para identificá-lo. Quando reconheceu Farrell, a cavalo, seu coração se encheu de júbilo. O animal fora comprado com o produto do seu trabalho, e o fato de ele estar montado demonstrava que recuperara a autoconfiança. — Meu irmão está chegando — disse ela para Keats. — Pedirei a ele para me acompanhar. — Sim, senhora. vou selar a égua imediatamente. Quando Farrell chegou perto da torre, Erienne o chamou, acenando com o braço. com outro aceno, ele foi direto para os estábulos. — Boa tarde — disse ela, alegremente. — Preciso de um acompanhante, e como lorde Saxton não está em casa, pensei em pedir que consentisse em cavalgar comigo por algum tempo. — Lorde Saxton saiu? — perguntou ele, desapontado. Esperava treinar um pouco aquela tarde e para isso trazia algumas armas. Erienne riu, vendo o mosquete e as três pistolas na sela. — Sei que sou apenas sua irmã e por isso uma fraca substituta para quem você veio visitar. Farrell olhou para a entrada que levava à casa e respondeu, de bom humor: — Vamos. É o mínimo que posso fazer por uma irmã. Erienne montou, ajeitou a saia da roupa de montaria e fez um gesto afirmativo para o irmão. Ele saiu na frente e, depois de algum tempo, puxou as rédeas e olhou para ela, com um largo sorriso. — Você está ficando cada vez mais seguro, não está? Orgulhava-se da recuperação de Farrell e sabia que deviam isso a Stuart. — Que tal uma corrida? — desafiou ele, com um pouco do seu antigo entusiasmo. Erienne olhou em volta. Estavam na estrada que ia para o sul. Mas a noite começava a cobrir a luz do pôr-do-sol e depois da experiência com Christopher, não queria se afastar muito da casa sem maior proteção. Os assaltantes de estrada costumavam atacar os fracos e indefesos, e ela não queria ser vítima de nenhum tipo de violência. — Acho melhor voltarmos, Não percebi que já era tão tarde. — Vamos até o topo da colina — convidou Farrell. — Depois voltamos. Erienne bateu com os calcanhares nos flancos da égua e, olhando para trás, com uma risada, partiu no galope. Farrell saiu atrás, incitando seu animal com um grito, e a alegria ruidosa dos dois juntou-se à batida das patas dos cavalos e ao vento. Ela se entregou toda à corrida, batendo de leve o chicote no flanco de Morgana. Farrell emparelhou com ela e chegou no topo da colina um corpo na frente da irmã. De repente um tiro explodiu no ar, seguido por muitos outros. Farrell puxou as rédeas rapidamente. Erienne parou logo depois. Ficaram imóveis, procurando na luz fraca do cair da noite a origem dos tiros. Um grito de horror cortou o silêncio, seguido por uma súplica soluçante. ”Não!” E depois, outro tiro, que ecoou pelas colinas e foi acompanhado por um grito mais fraco, que terminou bruscamente, como que silenciado por um golpe. Erienne sentiu o cabelo arrepiar na nuca e, depois de olhar rapidamente para Farrell, conduziram os cavalos para a sombra dos carvalhos que ladeavam a estrada, subindo a encosta devagar. Um cavaleiro vestido de negro estava parado na colina próxima, vigiando a estrada. Farrell ergueu a mão e Erienne parou, contendo a respiração, mas


o vigia não deu sinal de tê-los visto. Então, uma voz distante chamou o homem e depois de uma breve troca de palavras, ele esporeou seu cavalo e abandonou o posto, juntando-se ao companheiro. Os dois suspiraram, aliviados. Procurando a proteção das árvores, seguiram em frente até o topo de outra colina, de onde avistaram o vale. Havia uma carruagem parada na estrada e vários homens, vestidos de negro, trabalhavam em volta dela, à luz dos lampiões. Um dos cavalos estava morto ao lado do varal e os outros estavam sendo levados pelos homens. As portas da carruagem estavam abertas e, com uma exclamação de espanto, Erienne viu o corpo de um homem ricamente trajado caído, com a cabeça para fora, O cocheiro e o cavalariço estavam caídos na estrada. A única sobrevivente era uma jovem amarrada, no pau da boléia, com os braços abertos, montada no varal. Os assaltantes divertiam-se, apalpando o corpo da mulher e tirando suas jóias. Suas súplicas e seus soluços eram abafados pelas gargalhadas dos homens. Farrell fez Erienne recuar mais para a sombra e murmurou com urgência: — Eles vão matá-la... ou fazer coisa pior.,. Não posso esperar até que chegue ajuda. — Eles são muitos, Farrell. O que podemos fazer? — Você acha que pode chamar o xerife? Verei se consigo distraí-los... de algum modo. — Seria loucura atacar sozinho — protestou Erienne. — Dê-me suas pistolas — murmurou ele, estendendo a mão e sacudindo-a impaciente, quando ela hesitou. — Depressa! Erienne teve uma idéia. — Farrell, talvez possamos distraí-los juntos. Está vendo aquelas árvores, na encosta, perto da carruagem? Podemos nos esconder lá, atrás dos ladrões. Se conseguirmos nos aproximar e atirar nuns dois ou três talvez os outros fujam antes de fazer qualquer mal à mulher. Você não pode atirar e segurar as rédeas ao mesmo tempo. — Tem razão — resmungou ele. — Não posso muita coisa só com um braço. — Não temos tempo para isso, Farrell. Aquela moça precisa de nós dois. — com todo o barulho que estão fazendo, um regimento inteiro pode atacá-los, saindo daquelas árvores, que nem vão perceber. — Ele riu — Você quer fazer isso, Erienne? - — Quero! — murmurou ela. Desceram a encosta até chegar às árvores, entre o mato alto. Pararam numa pequena elevação, ao lado da estrada, perto da carruagem, e apearam, abrigando-se atrás dos troncos e das rochas. Lá embaixo o choro abafado da jovem misturava-se ao riso e gritos dos assaltantes, que estavam agora abrindo as malas e revistando os corpos dos homens mortos — Erienne, pode me ouvir? — perguntou Farrell, em voz baixa. — Sim. — Se conseguirmos fazer com que fujam, eu desço e apanho a moça. Você fica aqui e os mantém à distância. Assim que eu a libertar, saia daqui o mais depressa possível. Compreendeu? — Não se preocupe — disse ela. — É o que pretendo fazer. Correr como se o demônio estivesse atrás de mim. Você tem uma faca para cortar as cordas?


— Tenho, e por uma vez na vida, seja uma boa menina. Erienne ouviu o riso na voz do irmão. Cerrando os dentes, para impedir que batessem como castanholas, Erienne verificou suas armas. Ainda bem que o irmão tinha todo o necessário para recarregar. As outras que tinha com ele podiam ser importantes para libertar a mulher. O plano de Farrell era atacar, dando a impressão de que não estava sozinho. com a saia longa de montaria, Erienne tinha de ficar onde estava. Seu suprimento de armas era pequeno comparado com o dos ladrões, mas, com um pouco de sorte, conseguiriam fazer com que eles fugissem e escapariam ilesos. Farrell afastou-se, tomando uma posição provisória atrás de uma árvore, e Erienne esperou o sinal do seu primeiro tiro. Estava tão tensa que duvidava poder acertar em alguma coisa, mesmo depois dos ensinamentos do marido. O horror do que estava vendo a fazia compreender o que Christopher devia enfrentar nas suas rondas noturnas. Embora ele não tivesse admitido que era o cavaleiro da noite, as provas eram muitas, e ela prometeu que seria mais compreensiva para a causa dele, no futuro. Ouviu o estampido da arma do irmão e segurou a sua com força, fazendo pontaria. Nauseada, viu dois homens caindo, perto do lampião. Um dos ladrões gritou e, tarde demais, eles se espalharam, saindo do círculo de luz. Erienne não parou para pensar no mérito do que estava fazendo, A vida daquela jovem dependia da rapidez com que conseguisse manejar sua arma. Tentou não fechar os olhos quando atirou, mas com dificuldade manteve a mão firme. Sua surpresa foi tão grande quando viu outro homem cair, que quase olhou em volta para ver se Farrell tinha atirado ao mesmo tempo. Então, ouviu um movimento furtivo no outro lado e compreendeu que ele estava voltando ao esconderijo, preparando-se para novo ataque. Passando a língua nos lábios secos, ela começou a recarregar a arma. Tremendo e rezando, procurava se controlar até terminar sua tarefa. A explosão ensurdecedora da arma de Farrell cortou o ar e o grito que se seguiu gelou seu sangue. Ergueu a mira da sua arma. Não havia ninguém no círculo de luz. Procurou no escuro e viu um pequeno movimento na base de uma rocha, perto da estrada. Fixou os olhos até certificar-se de que era um homem, subindo para onde ela estava. Erienne ficou de pé, segurou a arma com as mãos e apontou para o homem. Ele levantou a cabeça, olhou em volta e dessa vez Erienne fechou os olhos com força e atirou. O estampido a ensurdeceu, mas não o bastante para abafar o baque surdo do corpo, rolando pela encosta. Procurando não pensar em sangue, ela viu Farrell aproximando-se do cavalo. Erienne recarregou rapidamente e esperou no silêncio ameaçador, procurando nas sombras qualquer sinal de movimento. Ouviu o ruído de patas de cavalo, atrás dela, e logo Farrell apareceu. Saindo das sombras, ele galopou para a carruagem, apeou e, segurando as rédeas com a mão esquerda, correu para a moça. Parou então e começou a cortar as cordas que a prendiam. Erienne estava atenta a qualquer movimento suspeito. Não ouviu nem viu nada, mas de repente foi agarrada por trás. A mão passou sobre seu ombro para apanhar a arma e ao mesmo tempo a puxou para trás, fazendo-a encostar numa rocha. Antes que ela pudesse gritar, a mão enluvada tapou sua boca, e uma voz abafada e rouca disse no seu ouvido: — Mulherzinha atrevida, o que está tentando fazer? Suba naquele maldito pangaré e


saia daqui antes que a matem! O braço a fez virar para trás e a soltou. Erienne conteve a respiração quando viu o homem enorme à sua frente. A capa era uma continuação da noite e parecia não haver nenhum rosto sobe o capuz comprido. — Christopher? — perguntou, hesitante. — Vá! Saia daqui! — ordenou ele. A cabeça sob o capuz virou para a clareira. Dois homens saíam do bosque e aproximavam-se de Farrell pelas costas. A jovem estava quase livre das cordas e aparentemente não os viu. — Maldição! Num momento, o cavaleiro da noite desapareceu. Erienne recuou, cambaleando, quando ele surgiu outra vez montado no garanhão negro. Homem e animal passaram por ela como o vento. Os cascos do garanhão tiravam faíscas das pedras da encosta. Um brado longo e demorado a fez estremecer. O homem estendeu o braço e ela viu o clarão e ouviu o estampido da pistola. Um dos ladrões gritou e caiu, com a mão no peito e a arma desapareceu. O braço se estendeu novamente, agora empunhando uma lâmina brilhante. O sabre rodou no ar, e ela ouviu outra vez o brado de guerra. O cavalo atacou. O segundo assaltante deixou cair a faca e, apressadamente, tentou tirar a arma do cinto. O sabre desceu quando vulto passou por ele. A pistola caiu, e o homem, depois de dar alguns passos cambaleantes, caiu lentamente no chão. O cavaleiro negro deu uma volta pelo campo de batalha e se aproximou de Farrell, que interrompeu o que estava fazendo e brandiu a faca ridiculamente pequena que tinha na mão. O cavaleiro não deu a menor atenção a ele e, com a ponta do sabre, tirou uma das lanternas da carruagem e a jogou na estrada, apagando-a. Depois fez o mesmo com a outra, que voou num arco de luz, caiu no mesmo lugar, incendiando o óleo derramado. O vulto parou por um momento, olhou para Farrell, depois fez um gesto para a moça que estava ainda com os pulsos amarrados na carruagem. — Liberte a moça e saiam daqui! — O sabre apontou para a colina e a voz, embora baixa, tinha um tom de comando. — E leve aquela sua irmã atrevida com você! O garanhão negro passou pela carruagem, e o sabre mergulhou outra vez. A última lanterna voou e se espatifou no chão. A única luz na clareira era a da lua e das pequenas e ávidas chamas no óleo da lanterna. Num instante Farrell libertou a moça e procurou inutilmente ajudá-la a montar. Vendo que não ia conseguir, ele montou de um salto, ofereceu o estribo para a jovem e estendeu para ela o braço aleijado. — Não posso dobrar o braço. Segure nele que a puxo para cima. Use o estribo. Ela obedeceu e num instante estava montada na garupa dele. Sem precisar de nenhum aviso, apressou-se a passar os braços pela cintura do seu salvador, firmando-se bem na sela. Farrell esporeou o cavalo. Ouviram um tiro vindo do bosque, quando saíram velozmente, mas a bala passou longe. Farrell puxou as rédeas quando se aproximou da encosta onde deixara Erienne e chamou por ela. O cavaleiro da noite o seguiu, e a voz imperiosa disse num tom que não admitia desobediência: — Saia daqui! Saia daqui! Erienne já recuara para dentro do bosque e com a ajuda de um tronco caído montara


em Morgana. Esporeou o animal e afrouxou as rédias, passando velozmente entre as árvores. O cavaleiro continuou na estrada, seguindo-a de perto. Ele estava lá quando ela olhou para trás. Assim que Erienne desapareceu no alto da colina, ele puxou as rédeas e atravessou seu cavalo na estrada, para evitar que a perseguissem. Enquanto esperava, recarregou calmamente a pistola e olhou para a clareira. Sons abafados, vindos das moitas, em volta da clareira, quebraram o silêncio da noite. Um homem apareceu na estrada, segurado por outro. O cavaleiro da noite viu a presa se reunindo como um bando de aves voltando para comer. — Sim — murmurou ele. — E eles precisam de outra lição. Ergueu o sabre bem acima da cabeça, esporeou o cavalo e soltou seu grito de guerra. Os ladrões, quando viram aquele vulto mergulhando para eles como um falcão, o brilho do sabre e o trovão dos cascos do animal, esqueceram qualquer coragem que podiam ter. Um deles gritou, avisando-os, enquanto fugia. Os outros, tropeçando uns nos outros, voltaram correndo para as moitas, Todos, menos um. O destemido assaltante sacou a pistola com a mão esquerda, desembainhou a espada com a direita e, segurando uma de cada lado, esperou o cavaleiro, que avançava para ele. Ali estava um soldado experiente que não entrava em pânico diante do adversário. — Tolos! — rugiu ele. — Ele é um só! Se não querem ficar e lutar, eu me encarrego deste. — É todo seu, capitão — gritou uma voz. O garanhão negro, com as pernas traseiras um pouco dobradas, parou de repente. O ladrão desviou a vista do sabre e viu a pistola ameaçadora na outra mão. — Muito bem, Sr. Fantasma — desafiou o homem, corajosamente. — Vai ser um duelo à bala? — A pistola se ergueu devagar. — Ou vamos usar o aço? — Saudou o adversário com um rápido movimento da espada. Embora o assaltante estivesse também encapuzado, o cavaleiro reconheceu o leve sotaque do seu oponente. — Senhor xerife, finalmente nos encontramos. — Então me conhece, meu amigo. — Riu ele, com sarcasmo e desprezo. — Isso vai lhe custar a vida. O que vai ser? Seu sabre? — Não, tenho outra arma igual à sua — respondeu a voz abafada. Primeiro o sabre, depois a pistola foram guardados nas respectivas bainhas. Virando o cavalo de lado para protegê-lo de um tiro, o fantasma desmontou. Esperou que Allan Parker guardasse sua pistola e, então, deu uma palmada na anca do garanhão, para afastálo da estrada. Tirou do cinto um espadim e a lâmina fina e azulada cibilou ao luar. Calmamente, ele retribuiu a saudação. Parker inclinou um pouco o corpo e tirou um punhal do cano da bota. Estava claramente definido o estilo do duelo, o do cavaleiro borgonhês, um ataque violento no qual a finalidade era prender a lâmina do oponente ou enfiar a lâmina mais curta nas suas costelas. O falcão negro levou o braço para trás, segurou a ponta da capa e a enrolou no braço, como um escudo que podia ajudá-lo a prender a lâmina do adversário. Parker reconheceu o truque e compreendeu que aquele não era um oponente comum, mas um homem versado no uso de armas. Notou também as pequenas pistolas que ele tinha no cinto. Ia ser uma luta de morte.


As lâminas encontraram-se no ar, mas depois de ver os preparativos, o xerife ficou mais cauteloso. Suas primeiras investidas simples foram desviadas com facilidade e a resposta era tão rápida e segura que foi obrigado a se concentrar na defesa. Não tinha mais dúvida quanto à habilidade do adversário. com uma breve risada, o cavaleiro disse, com voz áspera e rouca, que não dava nenhuma idéia da sua identidade. — Ainda preocupado, senhor? Allan riu, erguendo a arma para se defender do ataque do oponente, mas encontrou só o ar da noite, quando o cavaleiro recuou, evitando o choque das lâminas. — Não o conheço, meu amigo, mas logo verei seu rosto — disse o xerife. Investiu atacando-o, mas teve de recuar rapidamente quando o espadim, aparando o golpe, ameaçou sua virilha. — Não tão fácil quanto Timmy Sears, hem? — riu o falcão com desprezo. Parker quase caiu, mas logo recuperou o equilíbrio. — Como... — Quem mais Timmy podia procurar depois da minha visita naquela noite? Você é o capitão dos ladrões e naturalmente o homem a quem ele contou tudo. Timmy foi um tolo, confessando tudo que me contara. Isso lhe custou a vida. A lâmina azul começou a se aproximar e, apesar dos melhores esforços do xerife, que eram consideráveis, aquela língua faminta de aço chegava cada vez mais perto do seu corpo. Sentiu uma dor aguda no braço esquerdo e então a adaga voou da sua mão e caiu no meio do mato. Procurando se proteger, Parker compreendeu que aquela sombra impiedosa podia matá-lo a qualquer momento. O suor brotou no seu rosto, e seu lábio superior tremeu. — E depois foi Ben — continuou o cavaleiro da noite. — Fugil, não era competidor para a sua habilidade. Suando copiosamente, Parker não respondeu. Uma dor surda começou no seu ombro direito, enquanto ele se defendia de golpe após golpe. — Será que ele ofereceu muita resistência? — zombou o cavaleiro. — Ou o surpreendeu quando estava dormindo? O xerife estava ofegante, e o suor espirrava da sua testa. Pela primeira vez na vida enfrentava alguém que podia matá-lo. — É muito jovem para ser o homem que eu procuro. Existe outro que mantém limpa sua roupa de seda, enquanto você faz o trabalho sujo. Lorde Talbot, talvez? — Seu bas... bastardo — ofegou Parker. — Lute como um homem. Mostre seu rosto! — Ver meu rosto significa morte. Não sabia disso, senhor xerife? — zombou o cavaleiro. Parker olhou de relance para trás do seu oponente e quase sorriu. com nova energia, lançou-se ao ataque com fúria selvagem. Sua lâmina, mais pesada, cortava o ar e investia para a frente, mas sempre encontrava apenas o aço. De repente ouviram um grito, e dois assaltantes saltaram das moitas onde tinham se escondido. O cavaleiro se abaixou defendendo-se. Um dos homens, no impulso, segurou o capuz negro e o puxou, antes de colidir no ar com o companheiro e caírem os dois no chão, atordoados. As duas lâminas se encontraram e os homens estavam agora face a face.


— Você! — exclamou Allan. Christopher Seton riu. — A morte, senhor xerife. Porém, mais tarde, Christopher investiu rápido, e o xerife recuou cambaleando sob o ataque violento e caiu, com o oponente em cima dele, brandindo a espada no ar, de forma ameaçadora. Um assobio estridente rasgou a noite, e o garanhão avançou. Christopher embainhou a espada e quando o cavalo chegou perto pôs uma das mãos na sela. Bateu com os pés no chão e com o impulso montou rapidamente. O xerife levantou-se, atordoado, e praguejando tirou a pistola do cinto. Abaixou a mira da arma para acertar o falcão negro, que já se afastava, mas não conseguiu. Praguejou outra vez e olhou em volta. Um homem, ajoelhado no chão, apontava um longo mosquete para o alvo. Allan tirou a arma da mão dele e atirou. Christopher sentiu uma dor aguda no lado do corpo antes de ouvir o estampido da arma. As rédeas caíram da sua mão direita, e ele inclinou o corpo para o lado. O solo era uma linha escura e opaca sob as patas do cavalo, pronta para consumi-lo, mas ele lutou para não perder os sentidos. Agarrou a crina esvoaçante com a mão esquerda e só com muita força de vontade sentou-se outra vez na sela. O cavalo diminuiu o passo quando ele deitou-se para a frente, na sela. Obedecendo ao grito vitorioso e à ordem do xerife, os homens montaram outra vez. — Atrás dele, seus idiotas! Não o deixem escapar! — Vai, Sarraceno. Vai! — dizia Christopher e cada passo do animal era uma tortura, — Mostre a eles seus calcanhares, garoto. Vai! O garanhão estava sem o controle das rédeas, mas não se afastou da estrada, que era o caminho mais fácil. Christopher ouviu um grito e uma bala passou zunindo muito perto dele. Sarraceno disparou, praticamente voando, perseguido pelo xerife e por seus homens, numa corrida desesperada à luz do luar. A estrada começava a descer depois da colina, atravessava o vale, virando para a esquerda, quando alcançava as colinas mais baixas. Logo que perdeu de vista os perseguidores, Christopher falou com o garanhão, e Sarraceno passou para um trote mais lento. Inclinando-se para a frente, conseguiu segurar, primeiro uma rédea, depois a outra, ganhando algum controle. Pôs o animal a passo e o fez descer a encosta até uma moita, no pé da colina. Parou, protegido pelas árvores, e enrolou a capa na perna direita, para evitar que o sangue deixasse uma pista que podia ser seguida à luz do dia. Erienne deliberadamente ficou para trás, deixando Farrell seguir na frente, Vendo que o cavaleiro encapuzado não a seguia mais, parou numa elevação e procurou por ele na estrada, esperando vê-lo aparecer a qualquer momento. Tinha certeza de que o cavaleiro da noite era quem ela pensava. Nessa noite, ele investira contra o bando assassino dos fora-da-lei como quem cumpre uma missão de justiça e estava convencida de que sua causa era honesta. Morgana tinha atravessado riachos e campos cobertos de orvalho e suas patas não eram mais brancas, O animal sapateava inquieto, impaciente com as rédeas que o prendiam, mas Erienne, indecisa, não sabia ao certo o que fazer. Um tiro de pistola ecoou na noite, seguido da explosão de um mosquete. Foi esta que a assustou, pois o cavaleiro da noite não tinha aquele tipo de arma. Perguntou a si mesma: devia voltar e ajudar? Podia ser de alguma ajuda para ele? Ou era melhor seguir em frente, dando a ele a liberdade que precisava para se defender?


Olhou atentamente para a estrada, tentando discernir entre as sombras das nuvens o movimento de um homem ou de um animal. Por um momento, seus olhos a traíram e ela julgou ver um homem a cavalo, mas quando o luar iluminou a estrada, não havia nada. Ergueu a cabeça, ao ouvir o ribombar distante, o som de homens a cavalo, em disparada. Erienne segurou as rédeas com força e esporeou o animal, que com um salto saiu num galope desenfreado. Sua capa esvoaçava atrás dela e quando o bando chegou no alto de uma colina, um grito uníssono comemorou o aparecimento do cavaleiro da capa negra. Uma bala de pistola passou assobiando, muito longe dela. Mais adiante, na estrada, Farrell puxou as rédeas do cavalo e o fez virar para trás, mas não viu nem sinal da irmã. O tiro fora disparado a certa distância, mas o soar das patas dos cavalos o fez se esconder nas sombras. Enrolou as rédeas na mão inútil e verificou suas armas. Depois, com uma recomendação para a jovem na sua garupa, esperou. Só depois de longo tempo, Erienne apareceu, e Farrell ergueu a pistola quando viu o bando de homens atrás dela. Deu o primeiro tiro e os homens pararam de repente, levantando uma nuvem de poeira na estrada. Farrell largou a pistola e apanhou o mosquete. Apoiando a arma na parte superior do braço aleijado, fez pontaria calmamente. O tiro acertou o alvo e um dos homens caiu, com um grito. Os companheiros desistiram da perseguição imediatamente, todos, menos o valente xerife, que gritou: — Voltem, seus idiotas! Podemos perder um ou dois homens, mas se ficarmos juntos podemos apanhá-lo. Voltem, estou mandando! Um dos ladrões, gritou, por sobre o ombro: — O idiota é você, se pensa que vamos ficar e levar o primeiro tiro daquele bandido! Leve você mesmo! Farrell apanhou a segunda pistola e atirou. A bala de chumbo passou perto da orelha de Parker que, resolvendo que a prudência era a melhor parte da coragem, deu meiavolta e acompanhou o bando, achando que era mesmo idiotice tentar apanhar o cavaleiro da Noite, quando o homem estava tão bem armado, e ele não podia contar com as armas dos seus asseclas. Sem dúvida, todas as probabilidades estavam contra ele nessa noite, mas um dia os dois iam se encontrar outra vez. Prometeu isso a si mesmo. Erienne viu o último assaltante desaparecer na noite, aliviada ao ver que tinham desistido da perseguição, mas ansiosa e preocupada por não saber onde estava Christopher. Se o bando de assassinos ainda o procurava, onde ele estava? Será que precisava de ajuda? Farrell cavalgou ao lado da irmã até chegarem às terras de Saxton Hall, e então, ela disse: — Leve a moça para a mansão. Aggie sabe o que fazer para ajudá-la. Estarei lá num momento. — Acha que não tem mais perigo? O cavaleiro da noite deve estar ainda por perto. — Cuide da moça, Farrell. Depressa! — disse Erienne, com autoridade. Esperou até perder o irmão de vista e entrou no bosque, seguindo na direção da pequena casa. O luar passava entre os galhos nus das árvores, desenhando formas variadas no chão coberto de folhas, dificultando a definição da trilha. Erienne seguia cautelosa e atentamente, esperando a qualquer momento alguma surpresa, e só


percebeu o quanto estava tensa quando viu a casa. As janelas estavam fechadas, e não se via nenhuma luz entre as frestas. Nada se movia. Não viu nem sinal do landau do marido. Tudo parecia deserto. Continuando a andar no meio do mato baixo, para não trair sua presença, passou pela frente da casa. Um cavalo bufou num dos cercados, atrás dos arbustos. Se Sarraceno estava ali, Christopher devia estar por perto. Apeou do cavalo e passou pela cerca de arbustos. O portão rangeu surdamente quando ela o abriu, e o cavalo que estava no cercado, do outro lado de Sarraceno, empinou as orelhas. O animal observou-a, alerta e atentamente, e relinchando baixinho, enfiou o focinho na cerca, na direção dela. Erienne cocou o pescoço dele, dando a atenção pedida. Estava muito escuro para ver a cor do animal, e ela começou a procurar um lampião. Achou um pendurado na parede do estábulo e, passando a mão na prate leira perto da porta, encontrou a pederneira. Logo a chama se acendeu, fraca, na pcnta do pavio e foi crescendo aos poucos. Erienne viu então que era o garanhão baio de Christopher. A baia e o cercado de Sarraceno estavam vazios, o que serviu para confirmar a identidade do falcão da noite, mas não para diminuir sua ansiedade. Queria ter certeza de que, onde quer que estivesse, Christopher se achava a salvo. O garanhão começou a andar inquieto, de um lado para o outro no cercado e, no outro lado da cerca de arbustos, Morgana respondeu, pateando e bufando, impaciente. Então o baio parou de repente, olhando para a cerca, com a cauda erguida, as orelhas empinadas e as narinas dilatadas. A reação podia ser causada pela proximidade da égua, mas Erienne não descartou a possibilidade de haver alguém ou alguma coisa no outro lado. Passou pela cerca com a lanterna na mão e iluminou com a luz fraca os troncos das árvores próximas, mas além delas a escuridão era impenetrável. Então, um vulto negro moveu-se na sombra e um cavalo bufou na escuridão do bosque. Atrás dela, Morgana ergueu a cauda e pateou, num passo elaborado e inquieto, puxando a rédea que a prendia. Não vendo nada ameaçador, Erienne aproximou-se das árvores e chamou, em voz baixa. — Christopher? Tem alguém aí? Nenhuma resposta, e ela sentiu um arrepio. Talvez não fosse Christopher. Talvez ele estivesse em algum lugar, ferido ou morto, e um dos assaltantes a seguira até ali. A preocupação por Christopher a fez avançar. Independente de quem estava no bosque, ela ia procurar até encontrar. Deu alguns passos para o meio das árvores e parou, com uma exclamação abafada, levando a mão ao peito. O garanhão negro apareceu, com o vulto alto vestido de negro, equilibrando-se precariamente na sela. — Oh, não — gemeu ela. Não precisava ver o sangue para saber que ele estava ferido. A luz da lanterna mostrou o rosto crispado e pálido. As pálpebras estavam quase fechadas sobre os olhos sem brilho. Christopher sorriu com dificuldade, tentando apaziguar os temores dela. — Boa noite, mad... O esforço acabou com o resto de energia que lhe restava, o mundo girou num louco redemoinho, e tudo escureceu. com um grito de susto, Erienne largou a lanterna e saltou para a frente, quando ele começou a escorregar da sela. Passou o braço pela


cintura dele, mas o peso era demais, e os dois caíram no chão, Christopher por cima. Por um momento, cheia de medo e de angústia, Erienne, chorando, acalentou a cabeça dele contra o peito. — Oh, Christopher, meu querido, o que fizeram com você? A sanidade voltou, imposta pela necessidade, e as mãos trêmulas de Erienne entraram numa atividade frenética. Endireitou a lanterna, que estava de lado, no chão, e começou a procurar o ferimento, tirando a camisa ensangüentada de dentro da calça justa. A lâmina fria do medo penetrou seu coração quando ela viu o ferimento de bala. Examinou atentamente e viu que o tiro entrara pelas costas. Dominou o pânico, sabendo que não poderia ajudá-lo se cedesse ao medo que ameaçava dominá-la. com mãos trêmulas rasgou uma tira da sua anágua e fez com ela uma compressa para estancar o sangue. Depois, amarrou outra fortemente em volta da cintura dele. Uma porta rangeu na casa, e Erienne, olhando para trás, viu um homem, segurando uma lanterna. Ele olhou para o bosque, tentando enxergar entre as árvores que os escondiam, depois perguntou em voz baixa: — É o senhor, patrão? — Bundy! Bundy, venha ajudar! — exclamou ela, reconhecendo a voz. — O Sr. Seton está ferido. Depressa! A luz do lampião moveu-se rapidamente quando o homem correu para eles. Não fez nenhuma pergunta quando viu o homem desmaiado perto dela e ajoelhou ao lado de Christopher. Ergueu uma das pálpebras do homem ferido, examinou o curativo feito por ela, e ficou de pé. — Acho melhor o levarmos para a casa principal, onde Aggie pode tomar conta dele — disse Bundy, com urgência. Segurou as rédeas de Sarraceno, depois levantou Christopher e o pôs com cuidado na sela. — vou levá-lo pela passagem para que os criados não o vejam. A senhora vem comigo, madame? Ou prefere levar seu cavalo para o estábulo? Posso vir buscar seu cavalo mais tarde, se quiser. — vou com você — disse Erienne, sem hesitar. Bundy foi na frente, na direção da mansão, e Erienne, atrás, não tirava os olhos de Christopher. Quando chegaram na porta pesada que dava acesso à passagem, Bundy pôs o homem inconsciente sobre o ombro. Erienne segurou a lanterna e seguiu na frente, no corredor. Para ela, foi uma eternidade até chegarem à biblioteca. — vou ver se o caminho está livre — murmurou ela, passando pela porta da biblioteca. Deixou a lanterna no chão, tirou a capa e passou a mão no cabelo, antes de entrar no corredor. Ouviu um choro abafado e outros sons vindos do quarto de hóspedes, que ficava depois dos aposentos de lorde Saxton, mas o corredor que levava à ala leste estava vazio e silencioso. Voltou para a biblioteca e chamou Bundy. — Depressa, antes que apareça alguém. — Vá chamar Aggie, senhora — pediu ele. — Ela sabe o que deve fazer para o Sr. Seton, e podemos confiar nela. Erienne voou escada acima. Parou na porta da torre, quando viu Farrell de pé, ao lado da lareira no salão principal. Diminuiu o passo, mas procurou passar por ele sem ser vista. Não conseguiu. intrigado, Farrell olhou para ela e depois para a porta da frente. Perguntou, simplesmente:


— Por onde você entrou? Eu estava à sua espera e já estava pensando em sair para procurá-la. E aí está você. Como chegou aqui sem que eu visse? Erienne deu uma desculpa, para guardar o segredo da passagem. — Talvez quando você estava com a moça. Como vai ela? — Pobre menina, mataram seu pai e ela não pára de chorar. Aggie a pôs na cama com uma bebida quente. Disse que ia ajudá-la a dormir. A mente de Erienne voou. Se Farrell descobrisse a presença de Christopher, podia informar o xerife. A bebida quente de Aggie talvez fosse a solução do seu dilema. com tanta coisa em jogo, não podia permitir que Farrell soubesse o que estava acontecendo naquela casa. — Talvez seja boa para você também a bebida quente de Aggie, Farrell. Vai ajudá-lo a dormir e é uma maravilha para rejuvenescer o espírito. Amanhã de manhã, vai se sentir descansado e pronto para conhecer a jovem. Farrell corou, pois não ficara indiferente à beleza da jovem. Aqueles olhos grandes e negros, o cabelo farto e avermelhado emoldurando o rosto delicado e pálido formavam uma visão digna de ser lembrada. — O nome dela é Juliana Becker — murmurou ele, com voz distante. — Tem só dezessete anos. Preocupada em voltar para Christopher, Erienne disse: — Se não se importa de jantar sozinho, Farrell, mando levar uma bandeja ao seu quarto. Estou preocupada demais para comer e provavelmente vou me deitar cedo. — Disse a última frase, já na porta, a caminho da cozinha. — Lorde Saxton já voltou? — perguntou Farrell. — Acho que não — respondeu ela, sem parar. — Pelo menos, ainda não o vi. — Se ele voltar, diga que eu gostaria de pedir a carruagem emprestada para levar a moça até a casa da mãe, amanhã cedo. Eles moram em York. — Tenho certeza de que ele vai concordar, Farrell, Basta falar com Paine, que ele manda Tanner trazer a carruagem, quando estiverem prontos. Erienne entrou na cozinha e fechou a porta, Mas Aggie não estava lá. Voltou, atravessando o hall outra vez, sem se importar o quanto podia estar confundindo Farrell com suas idas e vindas. Na ala oeste, encontrou a governanta saindo do quarto de hóspedes. — A Srta, Becker está muito mais calma agora, senhora — disse Aggie. — Ainda bem que ela... — Aggie, preciso da sua ajuda — interrompeu Erienne, ansiosa. — O Sr. Seton está ferido, e Bundy disse que você sabe o que precisa fazer. — É muito grave? A senhora sabe? — perguntou Aggie, agitada, correndo pelo corredor, atrás de Erienne. — Está com um buraco horrível no lado do corpo — explicou Erienne. — A bala entrou por trás e saiu pela frente, e acho que perdeu muito sangue. Aggie não perdeu mais tempo com perguntas. Segurando a saia, saiu correndo e só parou, bufando, até chegar à porta do quarto de lorde Saxton, que estava entreaberta. Erienne parou, surpresa, quando a mulher entrou, sem parar. Para seu maior espanto, viu Bundy inclinado sobre a cama, onde estava Christopher. As cobertas estavam dobradas, e toalhas forravam o corpo dele, sob o ferimento. A não ser por um lençol, que cobria a parte inferior do corpo, Christopher estava nu. A capa negra


e o resto da roupa estavam amontoados no chão ao lado das botas de montaria de cano alto. Bundy se afastou quando a governanta chegou perto da cama. Aggie cortou o curativo provisório e examinou atentamente o ferimento. Erienne ficou a certa distância e estremeceu como se sentisse a dor provocada pelos dedos da mulher. Um gemido partiu dos lábios pálidos, e todo o corpo de Christopher se crispou em agonia. Erienne abafou com a mão um soluço. Só naquele momento compreendeu o quanto o ianque significava para ela, vendo-o indefeso e precisando de cuidados. Seton era sempre tão forte, tão capaz.


nunca parecia precisar de ninguém. Os sentimentos dela ansiavam para se expressar, e seu maior tormento era não poder tocá-lo e murmurar as palavras que falavam do seu amor. — Sim, a bala o atravessou mesmo — disse Aggie —, mas parece um ferimento limpo. — Lavou o sangue das mãos e apontou para a lareira. — Vamos precisar de uma chaleira com água no fogo e alguns panos limpos. — Não é melhor levar o Sr. Seton para outro quarto? — perguntou Erienne, preocupada. Depois de ter murmurado o nome de Seton quando fazia amor com o marido, tinha medo que lorde Saxton chegasse e encontrasse o rival na sua cama. Não sabia se ele ia agir com violência, agravando mais ainda o estado do primo. Bundy olhou rápido para a governanta e pigarreou, escolhendo as palavras com cuidado: — Lorde Saxton vai demorar alguns dias, senhora, portanto, acho que o Sr. Seton pode ficar no seu quarto até ele voltar. Está mais seguro aqui. Os criados pensarão que lorde Saxton está doente e não vão bisbilhotar. Por segurança, é melhor não levantar suspeitas. — Mas, se lorde Saxton viajou, por que você não está com ele? — perguntou Erienne, intrigada. — E onde está o landau? — No estábulo, senhora. Eu o trouxe de volta há algumas horas. Lorde Saxton está hospedado na casa de amigos e não vai precisar do landau. Isso não amenizou sua preocupação, mas aceitou a ausência de lorde Saxton como uma bênção. Christopher precisava de cuidados, e seria mais fácil para ela se o marido não testemunhasse sua angústia. Só precisava agora se preocupar com Farrell e ia tratar desse problema imediatamente. — Meu irmão tem uma grande aversão pelo Sr. Seton. Se encontrá-lo aqui, pode contar a todo mundo que ele está ferido. Nessas circunstâncias, Aggie, acho conveniente você preparar uma bebida quente para ele. Aggie assentíu com um gesto. — vou tratar disso imediatamente, senhora. Por favor, fique com o Sr. Seton, enquanto apanho minhas ervas e poções na cozinha. Bundy saiu com ela à procura de um pote de ferro, deixando Erienne sozinha com o ferido. Ela rasgou em tiras um lençol velho e começou a limpar o sangue do ferimento. Pôs as mãos dele, longas e fortes, uma de cada vez na bacia e lavou as manchas de sangue. Beijou os dedos dele, com lágrimas nos olhos. Compreendia melhor agora as próprias emoções, embora não soubesse dizer exatamente quando aquele amor começara. Porém, tinha certeza de que o amava fazia muito tempo. E tinha pelo marido uma afeição profunda e verdadeira. Era perturbador saber que podia gostar de dois homens ao mesmo tempo. Era um amor diferente. Mas havia os momentos em que não conseguia separar um do outro. Christopher era atraente, encantador, bonito, um homem por quem qualquer mulher podia se apaixonar. Lorde Saxton, por sua vez, conquistara sua afeição, sem possuir nenhum desses atributos. Seu amor pelo marido seria, então, baseado em piedade? Imediatamente rejeitou a idéia. Sempre teve pena de Ben, mas não podia dizer que o amava. Stuart Saxton a fazia sentir-se como uma verdadeira esposa e, sem dúvida nenhuma, como uma verdadeira mulher. Contudo, era exatamente nos momentos mais ardentes da sua


intimidade que ela sentia dificuldade em afastar Christopher do seu pensamento. Às vezes, quando fazia amor com o marido, tinha lembranças tão vívidas do outro homem que precisava tocar a cicatriz dele para ter certeza de que estava com Stuart e não com Christopher. Só podia concluir que seu desejo pelo ianque era tão forte que ele passara seu nome e seu rosto para o homem que só a procurava no escuro. Aggie e Bundy voltaram, e Erienne ficou ao lado da governanta enquanto ela tratava do ferimento. Depois de fazer a limpeza, Aggie aplicou uma camada espessa de ungüento e depois compressas de pano limpo na frente e nas costas. Depois usou as ataduras bem apertadas com várias camadas de pano, passando pelo peito e pelo ombro, para ficar no lugar. Quando tudo terminou, Erienne se sentou, exausta, ao lado da cama. Não atendeu ao pedido de Aggie e Bundy para ir para o quarto dela e descansar até o dia seguinte. Disse, resolutamente: — vou dormir aqui esta noite. Aggie disse então, conciliadora: — Senhora, fico com ele enquanto a senhora se prepara para dormir. — Indicou com um gesto a roupa de montaria suja e amassada de Erienne. — Vai se sentir muito melhor com um vestido limpo e um agasalho. — Tem certeza...? — Erienne não teve coragem de terminar a frase. — Ele vai ficar bem, senhora — garantiu Aggie, com palmadinhas confortadoras no braço dela, — É um homem grande e forte. com um pouco de cuidado e descanso, logo estará recuperado. Convencida, Erienne deixou que a mulher a acompanhasse até a porta e prometeu: — Não me demoro. Cumprindo a promessa, ela voltou em pouco tempo e se sentou na poltrona ao ladoda cama, para passar com ele as longas horas da noite. com as pernas dobradas sob o corpo, encostou os ombros e a cabeça no colchão da cama e cochilou, aquecida e confortável, sob o cobertor de pele. A aurora já pintava o céu de leste quando Christopher finalmente se moveu. Erienne acordou, levantou a cabeça e viu que ele a observava. Num momento que pareceu uma eternidade, seus olhos se encontraram, e o coração de Erienne bateu mais forte sob aquele olhar que ia até as profundezas da sua alma. — Estou com sede — disse ele, num murmúrio. Ela apanhou um copo com água, passou o braço pelas costas dele e suportou o peso do corpo de Christopher, enquanto ele saciava a sede. Quando terminou, ele ergueu a mão e acariciou o rosto e o cabelo de Erienne. — Eu a amo — murmurou ele. Entreolharam-se por um longo momento e então, com um suspiro, ele abaixou o braço e fechou os olhos. Aproximou a mão da mão dela e seus dedos se entrelaçaram, como para provar o que acabava de dizer. As lágrimas assomaram aos olhos de Erienne, e ela agradeceu a ausência do marido, pois não era mais possível esconder seu amor por Christopher. Christopher passou o dia e a noite vagando entre o sono e a vigília, até o sol nascer novamente. Voltou à consciência quando a estrela da manhã já dominava o leste do céu. Aggie chegou com um caldo forte para o doente. Arrumou os travesseiros atrás dele, e quando Christopher recusou sua ajuda para tomar a sopa, ela providenciou para que ele tomasse sozinho com o menor esforço. Então, começou a arrumar o


quarto. Ele tomou a sopa na xícara, sem tirar os olhos de Erienne, que ajudava a governanta. Christopher não fazia nada para disfarçar seu interesse, e Erienne ficou preocupada. Não esquecia que Aggie era completamente devotada a lorde Saxton e que esperava, ansiosa, a continuação da família. Christopher dormiu quase todo o dia e toda a noite, acordando a intervalos para tomar líquidos ou o caldo forte, oferecidos por Aggie ou Erienne. No terceiro dia apareceu a febre, e os temores de Erienne voltaram, mas Aggie garantiu que era comum em casos de ferimento. Recomendou que Erienne banhasse o corpo dele com água tépida, para baixar a febre e foi tratar de outros afazeres, sem se preocupar com o fato de estar deixando a cargo da senhora de Saxton Hall uma tarefa de grande intimidade, com um homem que não era seu marido. Enquanto ele dormia, Erienne, sozinha ao lado do corpo semidespido de Christopher, perturbava-se com a freqüência com que seus olhos acariciavam os ombros largos, o peito forte, a cintura e os músculos do estômago e do abdome. Não teve coragem de tirar o lençol que cobria a parte inferior do corpo, e enrubesceu só com a idéia de fazer isso, embora não tivesse mais ninguém no quarto. Quando ele estava acordado, a tarefa era muito mais difícil, embora Christopher não estivesse completamente lúcido, com o rosto corado e os olhos brilhantes de febre. Mas em determinado momento, ela olhou para o lençol que o cobria e percebeu nitidamente o efeito das suas mãos no corpo dele. Ela corou e quando virou a cabeça encontrou o olhar perfeitamente calmo dele. Erienne fugiu para o quarto e abriu as janelas, para que o ar frio apagasse a chama que ardia no seu rosto. Lutava com um sentimento de culpa porque, nos últimos dias, sua percepção do corpo dele, da sua masculinidade, provocaram nela uma excitação intensa a cada olhar trocado, cada contato, cada palavra. No passado ela o odiara por causas que considerava justificadas, mas esse sentimento foi desaparecendo aos poucos. Não podia ignorar o fato de que ele havia arriscado a vida para salvar Farrell e a jovem Becker. A força estabilizadora do ódio desaparecera, deixando-a à mercê de sentimentos mais suaves, e o amor, aquela emoção perigosa e avassaladora, como um tigre selvagem, invadiu sua mente e seu coração, enfraquecendo para sempre sua vontade. Não voltou ao quarto de lorde Saxton naquele dia, deixando o doente a cargo de Aggie e Bundy. Ambos garantiram que o ferimento estava cicatrizando e que a febre desaparecera. Ao cair da noite, cansada da luta travada no seu íntimo, Erienne deitou-se, rezando para que o marido voltasse logo e se estabelecesse com maior firmeza nos seus pensamentos, expulsando o ianque para sempre. Embalada pelo calor do fogo e a maciez da cama, entregou-se às lembranças, claras ou vagas. A imagem de um vulto negro num garanhão também negro e inquieto surgiu, acompanhando os eventos dos últimos dias. Então, o vulto se transformou no seu marido,como que se inclinava para tirá-la da água gelada do regato. Atrás dele estava o mesmo garanhão negro e de repente a máscara de couro se transformou num longo capuz. com uma exclamação abafada e a mente num turbilhão, Erienne deitou-se de costas e olhou para o dossel da cama. Seria outra forma de loucura? Sua paixão estava inventando um rosto onde não havia nenhum? Seria um sonho? Uma fantasia nascida do desejo? Procurou ver suas lembranças com clareza. Não conseguia definir


a imagem ou a forma do homem que a salvara da água gelada e dos cães. A impressão de um cavaleiro negro e alado e do garanhão enorme estava gravada em sua mente, mas então lembrou que jamais tinha visto Stuart a cavalo. A suspeita de que teria sido Christopher trazia outra pergunta. O que ela vira à luz do fogo, naquela mesma noite? O vulto de um homem deformado e aleijado? Ou apenas o vulto de um homem normal, distorcido pelo efeito de luz e sombra das chamas da lareira? Se Christopher era o cavaleiro da noite e o homem que a salvou, então, o que mais podia ser? Sem dúvida, algo mais do que o conquistador despreocupado que parecia. Uma idéia assustadora começou a tomar forma em sua mente, mas era por demais absurda. Embora Stuart sempre a procurasse no escuro, Erienne tinha formado uma imagem dele, talvez indistinta em relação ao que ela não conhecia, mas que se tornou familiar. Uma perna aleijada, cicatrizes nas costas, a voz áspera e rouca eram parte dessa imagem e não condiziam em nada com a aparência de Christopher Seton. As peças desconexas giravam em sua mente, mas nenhuma se encaixava para uma visão mais ampla da verdade. A tediosa repetição aliou-se à fadiga, e ela mergulhou num sono pesado. Nenhum pesadelo invadiu seus sonhos, apenas as dúvidas, os temores desgastantes.

Capítulo Vinte AMANHÃ chegou, numa explosão de primavera, pontilhada com pancadas de chuva fria. O granizo, levado pelo vento forte, batia nos vidros das janelas, adornando-os com pequenas jóias de vapor, estalando nas telhas, e os beirais gemiam ao peso da chuva. Erienne acordou descansada e feliz. Quando estava escovando o cabelo, os pensamentos voltaram impetuosamente. com a mão parada no ar, sentiu as garras agudas e persistentes da inquietação cravadas em sua mente, determinando seu estado de espírito para aquele dia. Decidida a resolver suas dúvidas, foi diretamente ao quarto de lorde Saxton, pensando em enfrentar Çristopher e esclarecer de uma vez por todas o mistério do seu salvamento no regato. Quando chegou na porta, parou, ouvindo a voz de Aggie no quarto. A governanta falava em voz baixa e urgente, num misto de discussão e súplica. Erienne segurou a maçaneta e girou-a, procurando fazer o maior barulho possível para anunciar sua presença, e abriu a porta. Christopher, sentado na cama, recostado nos travesseiros, tinha nos lábios uma leve sugestão do sorriso irônico que Erienne conhecia tão bem, evidentemente muito melhor do que na véspera, e Aggie estava de pé, ao lado da cama, com as mãos na cintura e o rosto muito corado. Quando viu Erienne, Christopher tossiu discretamente, e a governanta começou a tirar a bandeja do café, sempre com os lábios cerrados e o rosto muito vermelho. Erienne imaginou que Aggie estava censurando Christopher por não se cuidar como devia ou talvez por desobedecer às suas ordens, prejudicando o próprio restabelecimento. — Vou descer agora e apanhar água quente na cozinha para limpar o ferimento, lady Saxton — disse Aggie, enfatizando o título. Com um olhar imperioso para Christopher. — Quer, por favor, retirar o curativo para mim?


Erienne assentiu, completamente confusa. A jovialidade natural de Aggie desaparecera, e ela não tinha a mínima idéia do motivo dessa mudança. Se era ciúmes, por causa de lorde Saxton, por que então a encarregava agora daquela tarefa? Aggie entregou a ela uma tesoura e, com uma leve inclinação de cabeça para Christopher, saiu do quarto. Erienne voltou-se e viu nos olhos dele uma expressão faminta que nada tinha a ver com o estômago. Procurou disfarçar as batidas loucas do coração, dizendo severamente: — Sr, Seton, se quiser que eu continue tratando do senhor, peço que procure se controlar melhor, pelo menos na presença de outras pessoas. A pobre Aggie é completamente devotada a Stuart e não vai suportar por muito tempo o seu atrevimento. Ignorando a censura, ele pôs a mão no curativo e perguntou: — Está certa de que tem estômago para isto? Erienne sentou-se na beirada da cama, do lado esquerdo dele. — Eu cuidei do braço de Farrell durante muito tempo. Garanto que posso tratar disto também. — Sorriu, com ironia. — Porém, devo pedir que fique quieto, do contrário, posso ser tentada a tirar um pedaço da sua pele, como recompensa. — Às suas ordens, senhora. — Ele abriu os braços, entregando-se completamente aos cuidados dela e a mão dele como por acaso descansou na cintura de Erienne, quando ela se inclinou para soltar a atadura do ombro. Sentindo os dedos dele descer para suas nádegas, Erienne parou, levantou o braço dele segurando-o pelo pulso e o colocou calmamente sobre a cama. — Também não vou permitir suas brincadeiras, Sr, Seton — advertiu ela. Christopher sorriu. — Está sendo muito formal, minha senhora. Será que de repente adquiriu aversão por meu nome? — Não quero encorajar sua atitude de completa indiferença ao meu status de mulher casada, é só isso — explicou ela, — Está se comportando indiscretamente na presença de Aggie, e é evidente que ela está furiosa com isso. — Acha que me chamando de Sr. Seton vai evitar que eu a deseje? — Acariciou-a com os olhos. — Sabe muito pouco a meu respeito... ou sobre os homens... se pensa que meras palavras podem conter o que sinto pela senhora. Não é simples desejo, Erienne, mas uma necessidade devoradora de estar com você a todo momento, de sentir sua maciez sob meus dedos e de tê-la só para mim. Não, nenhuma formalidade pode apagar o fogo que me devora. Erienne olhou para ele, abismada. Christopher representara tão bem o papel de garanhão conquistador que certamente essas palavras eram parte do plano para destruir as barreiras que os separavam e fazer dela mais uma na lista das suas conquistas. Porém, encontravam uma resposta idêntica nos desejos dela. Ele estava presente sempre que Erienne fechava os olhos, e ela desejava que a tomasse nos braços e a beijasse sem nenhuma restrição. O olhar dele prometia muito mais do que ela, em sã consciência, podia aceitar. Sob a calma aparente, seu pensamento debatia-se num turbilhão, e ela esqueceu por completo o que pretendia perguntar. Teve de recorrer a toda a força de vontade para superar o tremor das mãos quando começou a cortar a atadura. Então, ela levantou


com cuidado o curativo. Estremeceu quando viu que estava grudado na pele por uma substância negra esverdeada. Precisava tirar o curativo cuidadosamente para não provocar outra hemorragia. A despeito de todo seu cuidado e paciência para separar o curativo da pele saudável e rosada, Erienne sabia que era um processo doloroso, mas ele não moveu um músculo, e sempre que ela erguia os olhos encontrava aquele olhar insistente que parecia ler sua mente e o sorriso enigmático. — Vire-se para mim — disse ela, estendendo o braço para alcançar a atadura nas costas. Depois de soltá-la, ela a afastou o mais possível para limpar com a toalha molhada o sangue coagulado. A bacia com água morna estava sobre a cama, e Erienne estendeu a mão para torcer a toalha. Nesse momento, ele levou as mãos às costas dela e a puxou para baixo. Perdendo o equilíbrio, Erienne não pôde evitar o beijo ardente que transformou em cinzas sua vontade. A boca ávida moveu-se na dela, com uma urgência faminta, exigindo uma resposta. O desejo acendeu-se no seu peito, mas a visão de uma máscara negra a fez recuar, e ela o empurrou, com uma exclamação abafada. Erienne endireitou o corpo, com o rosto em chama, envergonhada com o própro ardor. Christopher a desafiou com um sorriso zombeteiro. Deve ter lido meus pensamentos, madame. Era exatamente o presente que eu queria. — É muito atrevimento seu tomar essas liberdades na casa do meu marido — disse ela, ofegante. — Certamente, vai se destruir se continuar assim. Um sorriso divertido ergueu os lábios dele, fazendo-a duvidar de jamais ser capaz de desencorajar aquela ousadia. Controlando-se, ela ergueu a mão, trêmula ainda. — Senhor, se quiser ter a bondade de virar-se para o outro lado, eu retiro a atadura. Christopher apoiou a mão esquerda no colchão e ergueu o corpo o suficiente para ela passar o braço por baixo dele. Mesmo nesse momento, Erienne não conseguia ignorar a proximidade dele, nem as batidas do próprio coração. Depois de algum tempo, encontrou a atadura e a retirou. Nesse momento bateram à porta, e, quando Erienne respondeu, Bundy entrou no quarto. Era a deixa para Erienne se retirar. Aliviada, ela procurou a privacidade do seu quarto. Quando fechou a porta, uma inquietação indefinida a envolveu. Apesar de tudo que resolvera fazer, resolvera apenas um mistério, a identidade do cavaleiro da noite. Estava convencida de que a causa de Christopher era justa, mas não sabia ainda quem era seu salvador sem rosto. Não podia mais acreditar que fosse o marido, e temia que sua fantasia estivesse substituindo Stuart por Christopher, como naquela noite de amor nos braços do marido. Era ali, na sua cama, que ela o recebia, à noite, e olhando para as cortinas de veludo sua mente divagou. Ultimamente Christopher era o ponto central de todas as suas fantasias, especialmente quando estava nos braços do marido. Alguma coisa, naqueles momentos ardentes, a fazia lembrar de Christopher, e agora a ilusão começava a invadir outras partes do seu casamento, tornando vagas as antigas certezas e confundindo as imagens dos dois., Teria a maldição do sangue dos Fleming? Será que era incapaz de ser leal e sincera? Ou seu desejo sempre traria a lembrança de outro homem, quando o marido a levava ao máximo do prazer e da satisfação? Viu mentalmente a máscara inexpressiva de couro, inclinando-se, como se fosse beijá-la e, lenta e inexoravelmente, se transformando no rosto e no beijo do outro que a atormentava.


Então, ela quase parou de respirar com a intrusão violenta de uma nova idéia. Seton! Saxton! Primos? Ou irmãos? Os Saxton tinham dois filhos. Stuart era o mais velho, mas onde estava o mais novo? Poderia ser o homem que ela conhecia como Christopher Seton? Que plano podia ser mais perfeito para descobrir e apanhar os responsáveis pelo incêndio da mansão do que um irmão assumir seu título enquanto o outro se encarregava de criar um personagem misterioso e ameaçador? Se eram irmãos, talvez estivessem trabalhando juntos para vingar o que um deles tinha sofrido. Christopher, sem nenhum impedimento físico, empunhava a espada e as pistolas em nome da justiça, como o falcão da noite, enquanto o mais velho atemorizava os assassinos com sua própria existência. Os responsáveis pelo incêndio só tinham como objetivo a sua morte, mas falharam. Erienne sorriu, certa de ter descoberto a verdade. Christopher tinha acesso livre à mansão e a conhecia muito bem, como se tivesse nascido ali. Erienne sentou-se nos pés da cama e a examinou atentamente. Sua mente rodopiava num turbilhão, sem respostas. Havia mais alguma coisa, alguma coisa que escapava ainda à sua compreensão. A suspeita de que algo estava errado não a abandonava. Esfregou as mãos e sentiu um calafrio, lembrando o momento em que estendera o braço para tirar a atadura das costas dele. A palma da sua mão direita acariciou a da esquerda, como se estivesse tocando as costas de Christopher, e de repente ela compreendeu o que seus dedos haviam tocado. Uma cicatriz de queimadura no ombro. A mesma que sentira no ombro de Stuart numa das noites em que ele a levou às alturas do prazer e da paixão. Um grito abafado saiu dos seus lábios. O marido mandara outro para fazer amor em seu lugar! Lentamente, ela reviu as intimidades partilhadas, o momento em que suas mãos se moviam pelo corpo dele, procurando satisfazer a curiosidade, os momentos em que as carícias experientes arrancavam suspiros de prazer dos seus lábios, exatamente como Christopher fizera na carruagem. Até os vidros das janelas pareciam zombar dela, e Erienne escondeu o rosto na colcha da cama para abafar os soluços. A dor no seu peito era insuportável, e nada podia aplacar a vergonha que sentia. Fora usada. Enganada! Suas mãos crisparam-se na coberta e, chorando, ela deslizou da cama e ajoelhou no chão. Cobriu os ouvidos com a coberta para não ouvir o riso que soava em sua mente. Fora usada! Usada como um brinquedo! Idiota! Idiota! Não podia se livrar da tortura do ridículo da situação que a envolveu como uma rajada de vento gelado, com a coberta da cama contra o corpo, balançando para a frente e para trás, ela ergueu o rosto para o céu e começou a esfregar a coberta, como para se limpar, mas havia alguma coisa que recebera e da qual não podia se desfazer. Encolhida no chão, ela soluçou perdidamente. Que direito tinham eles de negociar com uma coisa que pertencia a ela e só a ela? De passá-la de um para o outro sem nenhuma consideração por sua vontade ou por sua honra? Ficou de pé, com o coração ardendo de fúria. Enfrentaria o libertino e, se seu marido estivesse presente, o enfrentaria também, esclarecendo tudo, acabando com tudo. A palhaçada tinha terminado! Sua tristeza estava esquecida, Tinha uma tarefa para realizar e sabia que teria sucesso. Erienne arrumou a colcha na cama e, enchendo a bacia com água, lavou as manchas de sangue das mãos. Jogou a água suja no balde, tornou a encher a bacia e lavou o


rosto com um pano de linho. Enquanto fazia isso, começou a compreender em parte os motivos do marido. Se as queimaduras de Stuart o impediam de cumprir os deveres de marido, deixando que o irmão a possuísse, podia ter certeza de que se tivessem um filho seria do seu sangue. Mas isso não amenizava a dor que ela sentia. Não deram nenhuma importância ao seu orgulho ou aos seus sentimentos. Ouviu vozes no corredor e chegou perto da porta. Bundy e Aggie estavam saindo do quarto de Christopher e conversavam em voz baixa. O conquistador estava sozinho agora, e dessa vez ela não deixaria de perguntar o que queria saber. Era um momento tão bom quanto outro qualquer. Erienne saiu para o corredor, entrou no quarto de lorde Saxton e fechou a porta, para evitar interrupções. Guardou a chave no corpete do vestido e voltou-se para o confronto. Christopher, apoiado nos travesseiros, estava tomando conhaque com mel, uma poção receitada por Aggie para aliviar o desconforto do novo curativo. Perguntou com um olhar zombeteiro: — Acha que é seguro, madame? A fúria de Erienne cresceu, mas se esforçou para manter a calma e, com passo lento, atravessou o quarto, parando aos pés da cama. — Preciso resolver uma ou duas coisas, senhor. A voz era quase inexpressiva, e ele ergueu uma sobrancelha, intrigado com a seriedade dela. — E eu com a senhora, madame — sorriu, levando a xícara aos lábios, para outro gole. — Senhor, sei quem é. O braço dele parou no ar e, com os lábios entreabertos à espera da bebida, olhou para ela, surpreso. — Sei que o senhor e Stuart são irmãos. — Definido o assunto, ela continuou. — Não posso compreender o motivo, mas sei tudo a seu respeito. Parece ser muito mais a criatura da noite do que imaginei até este momento. Não sei por qual razão meu marido permitiu que o senhor tomasse o lugar dele na minha cama. Não compreendo por que estava neste quarto, naquela primeira noite, mas desde então sempre tem vindo a mim e, escondendo-se na escuridão, pôs um filho bastardo no meu ventre. Christopher engasgou, e a xícara tremeu quando ele a pôs sobre a mesa. Tossiu para clarear a garganta e ergueu uma sobrancelha para ela, lutando para recuperar a voz. — Madame, essa notícia é uma felicidade para mim, mas gostaria que a tivesse dado com mais gentileza. Quase me sufocou. — Gentileza! — zombou ela, esquecendo toda a calma com a resposta zombeteira. — Foram por acaso gentis quando brincaram comigo? — Ora, Erienne, meu amor querido... — Não venha com ”meu amor querido” para mim. Seu libertino! Ladrão da virtude de uma mulher! O senhor me usou! Possuiume, fingindo ser outra pessoa! — Meu amor, se deixar, posso explicar tudo. — E vai explicar mesmo, senhor! Por isso estou aqui! Para ouvir sua explicação. Pode falar. Diga-me por que me enganou! Ele abriu a boca, mas o ruído de passos apressados no corredor e uma batida pesada na porta o interrompeu.


— Preciso falar urgentemente com o senhor! — rugiu Bundy, no outro lado da porta. Erienne franziu a testa, furiosa. — Não vou deixá-lo entrar — disse, com os dentes cerrados. Bundy bateu outra vez. — O xerife está vindo para cá! Christopher começou a deslizar para o lado da cama. — Erienne, minha doçura, abra a porta. Falaremos sobre este assunto mais tarde... em particular. Dou minha palavra. Reconhecendo a urgência do momento, ela procurou e finalmente encontrou a chave no corpete e abriu a porta. Bundy passou por ela, resmungando um pedido de desculpa — Onde eles estão? — perguntou Christopher. Bundy parou ao lado da cama e disse, ofegante: — A mais ou menos um quilômetro. Keats estava exercitando um cavalo e viu quando eles... — Maldição! — resmungou Christopher, com uma careta de dor, quando tentou se mover. — Precisa escondê-lo, Bundy — disse Erienne. — Leve o Sr. Seton para a passagem. — Ela tem razão. Não posso ser apanhado — disse Christopher. — Parker providenciaria para que eu não vivesse nem mais uma semana, e duvido que nem mesmo lorde Saxton possa conseguir ajuda em tão pouco tempo. Minha roupa, Bundy. Depressa! Empurrou as cobertas e ficou de pé com o rosto crispado de dor, ignorando o fato de estar vestido apenas com as ataduras. Olhando para o corpo de ombros largos e cadeiras estreitas, Erienne corou. Rapidamente deu meia-volta e saiu do quarto, batendo a porta. Estava ofendida por ser tratada com tanta indiferença na frente de um criado e não podia evitar o sentimento de vergonha. com a mente outra vez em turbilhão, entrou no quarto e começou a andar de um lado para o outro. Em pânico, lembrou que, na ausência de lorde Saxton, teria de receber o xerife pessoalmente. A segurança de Christopher dependia de como fosse capaz de disfarçar sua preocupação. Procurou se acalmar, respirou fundo e imaginou a atitude de uma dama real, apegando-se a essa imagem com determinação. Levantou um pouco o queixo, Ela era Lady Erienne Saxton, disse para si mesma, a dona da mansão do marido, e não seria intimidada em sua própria casa. Abriu a porta e voltou ao quarto de lorde Saxton. Encontrou só Aggie, arrumando apressadamente a cama e o quarto. Quando entrou, Erienne pensou que provavelmente a governanta sabia mais sobre a mansão e seus ocupantes do que qualquer outra pessoa fora da família. Resolveu obter uma das respostas naquele mesmo instante. — Aggie? A mulher voltou-se rapidamente. — Sim, minha senhora? Erienne indicou com um gesto o livro que estava sobre a mesa do marido. — Certa vez você disse que esse livro contém o registro de todos os nascimentos e mortes acontecidos nesta casa e nestas terras. Se eu o examinar, vou encontrar o nome de Christopher registrado como o irmão mais novo de lorde Saxton? Aggie torceu as mãos consternada e desviou os olhos. Erienne viu a resposta na


atitude dela e procurou aliviar sua ansiedade. — Está tudo bem, Aggie. Compreendo sua devoção à família e não estou pedindo para revelar qualquer coisa que eu já não tenha adivinhado. — Por favor, senhora — pediu Aggie —, ouça o que o patrão tem a dizer, antes de pensar mal dele. — Oh, eu vou ouvir o que ele tem a dizer — garantiu Erienne, mas começava a ter sérias dúvidas também quanto ao senhor da mansão. Erienne desceu para esperar os visitantes no salão principal. Paine estava ao lado da porta, e ela o cumprimentou com uma graciosa inclinação de cabeça, quando passou. Entrou no salão e o sangue gelou em suas veias. Toda a sua dignidade se dissolveu, cedendo lugar à consternação, pois, sentado na sua poltrona ao lado da lareira, estava lorde Saxton, com a perna direita dobrada atrás da esquerda, a máscara voltada para a porta e a mão enluvada segurando o cabo da bengala. Embora aleijado e deformado, ele era na verdade uma figura impressionante. Erienne gaguejou uma desculpa: — Senhor, eu não... não fui informada da sua volta. — Nossos visitantes estão perto. — A voz áspera não parecia irritada, apenas inexpressiva. — Venha sentar-se ao meu lado. — com a mão esquerda, indicou a poltrona e segurou outra vez a bengala. Erienne sentou-se ereta, na ponta da poltrona, mas a posição acentuava o tremor de seus joelhos. Seus nervos estavam tensos como cordas de harpa. Levantando-se, ficou de pé, mais perto dele, com uma das mãos apoiadas no espaldar da poltrona. Esperaram assim, em silêncio, um nobre e sua dama pálida e tensa, enquanto o relógio do hall tiquetaqueava os segundos com dolorosa lentidão. Erienne sobressaltou-se quando ouviu o ruído de vários cavalos dirigindo-se para a casa. Paine girou a maçaneta, mas antes que tivesse tempo de abrir a porta, esta foi empurrada violentamente, e o xerife entrou, seguido de perto — muito de perto — por Haggard Bentworth, seu comparsa ”valente e sempre pronto para uma briga”. Um verdadeiro bando de homens entrou no hall. Vendo a porta do salão aberta, o xerife passou arrogantemente por Paine e parou bruscamente, quando sentiu a ponta da espada que Haggard empunhava espetar suas costas. com um berro, ele virou para trás e empurrou a espada para baixo, furioso. A lâmina cortou seu colete de pele de carneiro, ameaçando perigosamente sua masculinidade. Só quando o perigo passou Allan Parker respirou outra vez e olhou furioso para Haggard, que sacudiu tolamente a espada. — Guarde essa coisa, seu idiota! — rosnou Parker, com os dentes cerrados. — E desta vez, não em mim! O bom Haggard balançou a cabeça afirmativamente, enfiou a espada na bainha e depois levou o dedo cortado aos lábios para estancar o sangue. Erguendo o queixo, Paine fungou alto e, sem a menor sugestão de sorriso, disse: — Lorde Saxton o espera no salão. Depois de olhar furioso para Haggard, Allan Parker dirigiu-se para o salão, resmungando em voz baixa. Entrou, deu alguns passos e com a testa franzida observou a cena. Depois de uma rápida inclinação de cabeça para lorde Saxton e Erienne, voltou-se e chamou um dos seus homens. — Sargento, mande os homens revistarem a casa e ponha um guarda nesta porta.


Depois, verifique se os que estão lá fora... Foi interrompido por um duplo estalido, e ele e o sargento voltaram-se para o dono da casa. Viram-se à frente de duas pistolas enormes e não acharam prudente duvidar de quem era o alvo nem da precisão do atirador. A habilidade de lorde Saxton com armas de fogo era bem conhecida, e nenhum dos dois queria prová-la à queimaroupa. — Homem nenhum revista esta casa a não ser por ordem minha ou do rei. — A voz áspera ecoou no salão. — Não dei tal ordem, mas se o senhor tem uma ordem do rei eu gostaria de ver. Os dois homens tiveram o cuidado de manter as mãos fora do alcance das próprias armas, e Parker, mudando completamente sua atitude, apressou-se a pedir desculpas e dar explicações. — Perdão, senhor. — Tirou o chapéu, reconhecendo a presença de Erienne e cutucou o sargento com o cotovelo, até ele fazer o mesmo. — Não tenho nenhuma ordem da coroa, mas pretendo revistar sua mansão. Estamos procurando o cavaleiro da noite. Um crime covarde foi cometido há alguns dias, e temos provas de que um certo Christopher Seton é o cavaleiro, o mesmo que levou o cavaleiro Becker para o túmulo, assassinou brutalmente seu cocheiro e raptou sua filha. Erienne deu um passo à frente, pronta para negar as palavras do xerife, mas foi detida por uma das mãos enluvadas que segurava a pistola. Olhou para o marido, furiosa. — Mas, isso não... — Shhh — murmurou ele, só para os ouvidos de Erienne. — Procure se controlar, meu amor. Confie em mim. Erienne voltou para onde estava antes, mas sua mão crispou-se no espaldar da poltrona do marido. O xerife continuou, vendo que tinha outra vez atenção de lorde Saxton. — O homem é procurado também pelo assassinato de Timmy Sears e Ben Mose, para não mencionar uma porção de crimes menores. — Esfregou a mão envolta em ataduras. — Na cidade, disseram que ele é seu parente. — Xerife, tem certeza desses fatos? — perguntou a voz cavernosa, com uma sugestão de riso. — Christopher Seton e pistolas, isso posso acreditar, mas ele me parece um homem muito comum para saber manejar a espada. Parker pôs a mão ferida no bolso e deu de ombros. — Pelo menos o suficiente para matar um bêbado e um valentão de bar, que não sabiam nada sobre espadas. com uma risada amarga, lorde Saxton disse: — Ou um fidalgo idoso, tentando defender a filha. — com um tom preocupado, a voz áspera disse: — Sua mão, senhor? Está ferida? O xerife corou e gaguejou uma desculpa. — Eu... me cortei. Nada mais do que um arranhão. Lorde Saxton abaixou as pistolas e as guardou no cinto. — Permitirei que seus homens revistem a casa. Mas recomende que se apressem. Minha governanta não vai gostar de ver essas botas enchendo de lama a casa toda. — Certamente, senhor. — Parker fez um sinal para o sargento. — Encarregue-se disso.


O sargento ficou de pé na frente dos homens e deu suas ordens, apontando para todos os lados. Quando eles se dispersaram, ele subiu a escada, enquanto o xerife começou a revistar os cantos do salão principal. Lorde Saxton virou com cuidado na cadeira e disse para Erienne. — Minha querida, se quiser ter a bondade, um conhaque para o xerife. Sem uma palavra, Erienne foi até o aparador, lutando contra a tensão que tirava a força das suas pernas. Ela serviu um copo e quando se voltou lorde Saxton ergueu a mão. — Um pouco mais, meu amor. O tempo está péssimo lá fora e sem dúvida o xerife vai precisar de um estimulante para a viagem de volta. Parker admirou a bela mulher, quando ela estendeu o copo, imaginando como podia se contentar com um marido como aquele. Lembrou da dificuldade de Avery para encontrar um pretendente que a agradasse e achou que ela estava representando muito bem seu papel de esposa devotada. No quarto de Erienne, Aggie observava os homens, que abriam os armários e a cortina do quarto de banho. Estremeceu, vendo a bainha da espada de Haggard bater nos móveis, ameaçando vasos finos e lâmpadas. Os olhos dele brilharam quando passou pela penteadeira e parou para apanhar um frasco de pó perfumado. Curioso, ele ergueu o recipiente de cristal e levantou a tampa delicadamente. Encostou o nariz grande na borda e aspirou. com uma expressão de êxtase, por um momento ele esqueceu que o mundo existia. — Você não devia...? Haggard deu um pulo, o frasco voou da sua mão, girou no ar, derramando seu conteúdo em cima dele. Haggard estendeu as mãos e, com alívio, conseguiu pegar o frasco no ar, apertando-o contra o peito. Finalmente, viu o olhar de censura da mulher e sorriu, timidamente. — Você não devia estar procurando um homem? — lembrou Aggie. Como se uma luz tivesse acendido na sua cabeça, Haggard pôs o frasco de cristal na penteadeira. Olhou em volta, procurou tirar o pó das mãos, convencido de que não havia ninguém escondido no quarto. Chamando os companheiros, saíram para o corredor. Aggie abanou as mãos na frente do nariz e olhou o teto, como que oferecendo uma oração por aquele palhaço. Uma segunda dose foi oferecida ao xerife e aceita, quando seus homens voltaram ao salão. Haggard sorria com a satisfação do dever cumprido e não percebeu os olhares dos companheiros. Atravessou o salão para ficar ao lado do xerife, que engasgou com as últimas gotas de conhaque do seu copo quando sentiu o perfume. Tossindo e com os olhos cheios d’água, Parker olhou em volta. Perto da porta, Aggie sorriu, satisfeita por ter visto a cara do xerife. — Nem sinal de um homem ferido na casa — disse o sargento. — Satisfeito, xerife? — perguntou lorde Saxton. com relutância, o homem fez um gesto afirmativo. — Peço desculpas pela inconveniência, senhor. Vamos procurar o bandido em outro lugar, mas se ele aparecer por aqui peço que o detenha e mande um mensageiro me avisar. Lorde Saxton não respondeu, e o xerife empurrou Haggard na sua frente. Eríenne ficou imóvel, ouvindo a partida dos cavalos, até o silêncio voltar à mansão. Lorde


Saxton chamou Aggie e falou com ela em voz baixa. com um rápido olhar para Erienne, a governanta saiu da sala. Quando ficaram sozinhos, lorde Saxton levantou-se da poltrona e olhou para Erienne. — Gostaria de uma conversa em particular com a senhora, madame. Quer ter a bondade de subir comigo para meu quarto? Agora que a hora da verdade tinha chegado, Erienne não estava tão certa de querer ouvir. Considerando que Càristopher acabava de sair do quarto, imaginou se não seria melhor sugerir outro lugar, mas, desconfiando que Aggie já o informara da presença do ianque, resolveu não dizer nada. Saiu da sala e parou na porta, esperando por Stuart, que parecia se mover com mais dificuldade do que de hábito. Quando acabou de subir a escada ele parecia extremamente cansado. Erienne correu na frente para abrir a porta e com espanto viu as cobertas da cama dobradas e os travesseiros empilhados na cabeceira. Sem dúvida era obra de Aggie, e Erienne perguntou. — Está doente, milorde? — Tranque a porta, Erienne — disse ele com sua voz rascante, e sem responder à pergunta dela caminhou até a poltrona na frente da lareira. Erienne obedeceu e esperou, imaginando o que os próximos momentos lhe reservavam. A atitude do marido não era encorajadora, e, nervosa como estava, certamente seria difícil tratar do assunto do seu casamento, como pretendia. Hesitante, ela foi até a mesa e folheou ao acaso o livro, enquanto procurava o melhor modo de começar a conversa. Lorde Saxton virou a cadeira para ficar de frente para ela? — Quer me servir um conhaque, minha querida? Estranhando o pedido, ela olhou interrogativamente para ele, enquanto apanhava a garrafa de cristal e o copo na bandeja de prata. Serviu a bebida e percebeu que ele a observava com atenção. O marido jamais comia ou bebia na frente dela, pois para isso teria de tirar a máscara. Trêmula, ela voltou para pôr a tampa na garrafa de cristal. — Então, minha querida... Voltou-se para ele, com o coração disparado, sem perceber que apertava na mão crispada a tampa de cristal. - Disse que permiti que outro homem ocupasse a minha cama. Erienne abriu a boca para responder. Seu primeiro impulso foi dizer qualquer bobagem, uma palavra mágica que aliviasse a severidade daquele misto de afirmação e pergunta. Mas não encontrou nada, e só um som estranho saiu da garganta seca e contraída. Olhou atentamente para a tampa de cristal, girando-a devagar entre os dedos, para evitar os olhos dele, Por trás da máscara, lorde Saxton observava a mulher, sabendo que os próximos momentos formariam a base para o resto da sua vida ou a deixariam completamente vazia. Agora, não podia mais voltar atrás. — Eu acho, minha querida — as palavras dele a sobressaltaram —, que, seja qual for o preço a pagar, desta vez vai conhecer o monstro de Saxton Hall. Erienne engoliu em seco e apertou a tampa de cristal até as juntas dos dedos ficarem brancas. Lorde Saxton tirou o casaco, o colete e a gravata, e Erienne imaginou se seria impressão sua, ou ele estava mais magro. Então, encostando o calcanhar direito na


ponta do pé esquerdo, tirou o sapato grande e pesado. Erienne franziu a testa, intrigada. Não via nenhum defeito no pé descalço. Ele flexionou a perna por um momento, antes de tirar o outro pé do sapato. com movimentos que pareciam dolorosos, descalçou as luvas, e Erienne olhou para as mãos longas, bronzeadas e perfeitas, que se ergueram para a máscara e lentamente desamarraram os cordões que a prendiam. Erienne virou de costas, deixou cair a tampa de cristal e bateu com as costas na mesa quando ele segurou o capacete de couro dos dois lados e com um único movimento o tirou. Enchendo-se de coragem, ela virou-se para trás e viu os olhos brilhantes e risonhos. — Christopher! O quê...? — Não conseguiu terminar a pergunta, enquanto sua mente disparava à procura de alguma lógica no que estava acontecendo. com esforço, ele ficou de pé. — Christopher Stuart Saxton, lorde de Saxton Hall, — A voz não era mais cavernosa nem áspera. — Seu criado, minha senhora. — Mas... mas onde está.,.? — Apenas começava a vislumbrar a verdade e terminou a frase com voz fraca e insegura. — Stuart? — Um único homem, madame. — Ele se aproximou, com os olhos nos dela, — Olhe para mim, Erienne. Olhe de perto, — Não havia nenhuma sugestão de humor no rosto fino e forte. — E diga outra vez que eu podia permitir outro homem na sua cama, enquanto estiver vivo. A revelação era tão diferente de tudo que pensara que Erienne quase se recusava a compreender. Sabia que os dois eram o mesmo homem, mas não podia entender o motivo. — Como? Por quê? — O que você pensou que fosse lorde Saxton está morto. Era meu irmão mais velho, Edmund. Herdou o título, antes de mim, mas morreu no incêndio da ala leste. Um criado o encontrou... ou melhor... o que restava dele... nas ruínas, e o enterrou num túmulo anônimo no alto da colina que dá para o braço de mar. — Os músculos do seu rosto ficaram tensos com a raiva contida. — Eu estava no mar na ocasião e não recebi as cartas com a notícia da sua morte. Quando cheguei à Inglaterra, fiquei sabendo que meu irmão fora assassinado. — Morto? Há três anos? — disse Erienne, atônita, — Então, quando nos casamos era você,? — Sim, madame. Eu não podia cortejá-la de outro modo nem imaginar um plano melhor para confundir os que tentaram destruir a mansão do que ressuscitar meu irmão, que todos acreditavam estar morto. Foi a senhora quem me deu a idéia quando disse que preferia casar com um aleijado deformado. Erienne olhou em volta, sem realmente ver coisa alguma, enquanto sua mente voava num frenesi. Ele estendeu o braço, mas Erienne recuou, — Por favor... não toque em mim – disse ela, soluçando, e correu para a janela, sem olhar para ele. Sentindo-se dolorosamente culpado, Christopher ficou de pé atrás dela. Viu os ombros frágeis tremendo com o choro silencioso, e seu coração se apertou. — Venha, meu amor... — Meu amor! — Virou rapidamente para ele, com os olhos furiosos e cheios de lágrimas e a voz embargada pelos soluços. —Sou mesmo seu amor, uma esposa


respeitada para ter filhos com um nome honrado e orgulhoso? Ou sou apenas um brinquedo passageiro? Uma camponesa ignorante para satisfazer seus desejos por uma ou duas noites? Como deve ter se divertido, fazendo seu jogo comigo! — Erienne... escute... — Não! Nunca mais ouvirei suas mentiras! — Passou as costas das mãos nos olhos e no rosto e mais uma vez se desviou dos braços que se estenderam para ela. — O que você queria? Uma amante para algumas horas do dia? Sim! Uma virgem para se distrair, enquanto está aqui no frio do norte. Essa foi sua primeira proposta, não foi? — disse, revoltada. Caminhou para ele, meneando os quadris sugestivamente com a fúria brilhando entre as lágrimas. com a ponta de um dedo tirou a camisa dele de dentro da calça justa. — Quanto ganha uma boa prostituta pelo tempo que passei em sua companhia? Cinqüenta libras? Foi o que pagou por mim, não foi? Deu com uma das mãos e tirou com a outra. Christopher inclinou a cabeça para o lado, atônito com o gênio da mulher com quem estava casado. — Não tão pouco, madame... Deliberadamente dando outra interpretação às palavras dele, Erienne exclamou: — Oh?! Então, deve achar que me comprou barato, se qualquer prostituta ganha mais do que isso. — Sorriu tentadoramente. — Não acha que valho um pouco mais agora que aprendi alguns dos meus deveres? Talvez minha dedicação seja refinada demais. — Inclinando-se para ele, esfregou as coxas dele, enfiando a mão debaixo da camisa, numa carícia lenta. — Não valho mais do que uma libra para passar uma noite na sua cama, patrão? — Imitou o modo de falar das pessoas simples. Christopher olhou furioso para ela, disposto a responder na mesma moeda, mas achou que não seria prudente tentar a sorte. Erienne tinha direito de estar zangada, e competia a ele enfrentar a tempestade com paciência. — O que há, patrão? — perguntou ela, fingindo-se ofendida por não conseguir nenhuma reação. — Não sou boa para você? — Abraçando-o pelo pescoço, levou a mão dele ao seu seio esfregando-a de leve. — Não gosta de mim? — Eu gosto muito, madame — disse ele, com voz arrastada. Pôs a mão atrás das costas, abriu um armário e tirou um maço de papéis que sacudiu na frente dela. — Estes são os outros recibos das dívidas do seu pai que paguei em Londres. — Jogou os papéis na direção da cama, mas espalharam-se no chão. — Um total de mais de dez mil libras. — Dez mil? — repetiu ela, atônita. — Sim, e eu teria pago duas vezes isso, se fosse necessário. Não podia aceitar a idéia de permitir que se casasse com outro homem. Assim, quando seu pai me proibiu de entrar no leilão, usando meu título de lorde Saxton mandei meu guarda-livros dar os lances por mim. Erienne recuou, recusando ceder. — Você me enganou. Enganou meu pai... e Farrell... toda a cidade. Você nos enganou a todos — soluçou, com lágrimas nos olhos. — Quando penso em todas aquelas noites que me possuiu... que me tomou nos braços... o tempo todo, rindo de mim.


Como deve ter rido de nós todos! — Madame, jamais zombei da senhora. Eu a desejava e não tinha outro modo de tê-la só para mim. — Podia ter me contado... — exclamou ela. — Lembre-se que me odiava e ria das minhas propostas. — Tirou a camisa e a jogou para longe. Começou a andar no quarto, esfregando a mão fechada na palma da outra como procurando as palavras certas para acalmar a ira de Erienne. — Eu vim para o norte à procura de uma pista sobre a identidade dos assassinos do meu irmão e durante essa aventura conheci uma jovem cuja beleza conquistou meu coração. Ela me enfeitiçou como uma sereia, e eu a desejei como nunca havia desejado outra mulher. Quis o destino que tudo nos separasse e recebi ordens para ignorar aquela que eu queria. Os obstáculos só serviram para aumentar meu desejo. Eu a cortejava sempre que podia, e, embora suas palavras esfriassem minhas esperanças, vislumbrei uma pequena chance de que um dia ela cederia ao meu amor. Ergueu o braço direito e passou a mão esquerda nas ataduras, como para aliviar a dor. — Porém, aproximava-se o momento em que ela ia casar com outro. Tive de fazer a escolha... deixar que ela se fosse para sempre, ou fazer o papel de um monstro e tirar vantagem do plano que poderia me ajudar de vários outros modos. Quanto mais eu pensava no assunto, mais me convencia das suas possibilidades. Era um plano plausível, e me permitiria cortejar minha dama tranqüilamente. Erienne disse, com a voz carregada de emoção: — Então me fez acreditar que estava casando com um animal horrível. Se gostasse mesmo de mim, Christopher, teria me contado. Teria vindo a mim e acalmado meus temores. Mas deixou que eu sofresse nas primeiras semanas do casamento, quando meu medo era tanto que eu só queria morrer! — Teria ficado satisfeita sabendo que estava casada comigo? Ou teria voltado para seu pai e contado tudo a ele? Eu precisava resolver o caso da morte do meu irmão e não sabia se podia confiar em você. Muitos tentaram nos matar. Minha mãe foi para as colônias depois do atentado contra a vida dos filhos. Ela estava assustada, pois nosso inimigo parecia ter o braço muito longo. Contratou um homem e sua filha para viajarem conosco e comprou nossa passagem em nome dele. Quando chegou nas colônias, passou a usar o nome de solteira e criou uma nova vida para nós todos. Tinha medo de voltar, mas tinha de acontecer. A rebelião nas colônias interferiu; mesmo assim, depois de reencetar as relações com os amigos, meu irmão voltou para reclamar seus direitos. Nada mudara. Ele estava aqui fazia pouco tempo quando eles chegaram com suas tochas e o assassinaram. Eu estava decidido a ser mais cauteloso, mesmo com a mulher que amava. O pai dela não era digno de confiança e ela disse várias vezes que me odiava. Os olhos dela se encheram de lágrimas outra vez, e Erienne, irritada, enxugou-os com as costas da mão. — Eu tentei desesperadamente ser uma esposa honrada e durante todo o tempo fui apenas uma peça no seu jogo de vingança. — Justiça, madame, e ainda vou conseguir, embora veja que o xerife está trabalhando diligentemente para me destruir. — Allan Parker? — Esquecendo a zanga por um momento, ela olhou atônita para


Christopher. — Ele também não trabalha pela justiça? — Dificilmente, madame. Ele é o homem que os assaltantes chamam de capitão. Dirigiu o ataque à carruagem dos Becker e foi assim que ficou sabendo que eu sou o cavaleiro da noite. Erienne, embora chocada com essa revelação, não podia duvidar das palavras dele. Mas tinha outras reclamações a fazer. — Esteve envolvido em tantos jogos. O cavaleiro da noite não é o menor deles. — Sua perturbação era evidente. — Representou o papel de conquistador para mim e esforçou-se ao máximo para destruir minha honra e meu auto-respeito. Seduziu-me, na carruagem. Fez o seu jogo e teria me possuído, deixando-me pensar que eu estava traindo meu marido. Então, mais tarde, quando eu vim a esta cama, fez amor comigo me enganando, fazendo-me pensar que era outra pessoa. Christopher franziu as sobrancelhas. — Eu a desejava loucamente, Erienne. Eu a vi como um homem deseja ver sua mulher... no banho... na cama., sempre tão perto, e tão bela, que era uma tortura olhar para você. Fui completamente apanhado na armadilha, Nunca imaginei que fosse ceder a lorde Saxton, e quando você veio a mim, eu não podia por nada no mundo negar o que você queria e eu desejava, embora quando a possuí tenha tornado mais difícil a revelação da verdade. Depois de satisfazer meu desejo, passei a desejá-la mais ainda e tinha medo de perdê-la para sempre. — Não tem idéia do quanto eu sofri por causa dessa brincadeira? — perguntou ela, com a voz embargada. — Toda vez que vinha a mim como lorde Saxton, a imagem de Christopher Seton me atormentava, Eu já não podia separar um do outro em minha mente. E agora diz que tudo não passou de um jogo? Não compreende que quase enlouqueci? — Minhas desculpas, madame. — Olhou ternamente para ela. — Nunca tive certeza de que gostava de mim, até o momento em que murmurou meu nome no escuro. Erienne continuava confusa. Sabia que ele era um homem que lutava para conseguir o que queria, contudo, o método que usara para conquistá-la parecia pouco honroso. Mas, se ele não tivesse agido assim, ela estaria casada com Harford Newton ou outro dos pretendentes, que tanto desprezava. Ficara sentida com Christopher, depois do leilão, porque ele não fizera nada para salvá-la de um casamento desagradável. E agora, como podia ficar tão revoltada sabendo que ele tinha feito exatamente isso? — Mentiu muito para mim; não sei se posso acreditar no que me diz agora. Christopher aproximou-se dela. — Eu a amo, Erienne. Seja o que for que pense de mim, nunca menti sobre isso. Erienne recuou, sabendo que, se ele a tocasse, ia desmoronar e tinha muita coisa para resolver ainda. — Todo o resto foi mentira! Disse que tinha cicatrizes... — E tenho. A cicatriz do tiro do seu irmão... e algumas outras... — De queimadura. — Também. Houve um incêndio a bordo de um dos meus navios e um pedaço de lona com piche grudou na minha perna, deixando uma cicatriz, não muito grande — olhou para ela, com um leve sorriso —, o bastante para satisfazer a curiosidade de uma moça. Erienne olhou para ele sem compreender e então lembrou da noite em que passara a


mão na perna dele e só nesse momento compreendeu que ele não estava dormindo. Afastou-se, bruscamente. — Disse que era primo de lorde Saxton, — Se está lembrada, meu amor, Anne disse que os Seton e os Saxton eram primos, o que é verdade. Você presumiu o resto. Eu só entrei no jogo. — Sim, e jogou muito bem, senhor — zombou ela, — Na cama! Fora da cama! Possuía-me, quer fosse como lorde Saxton ou Cristopher Seton. Ele disse, com um largo sorriso: — Madame, eu não estava disposto a arriscar um prêmio tão valioso. Erienne recuou ao lado da mesa-de-cabeceira quando ele avançou para ela. A parede a fez parar e não podia mais escapar do animal que a tinha encurralado. O olhar ardente de Christopher derreteu toda sua resistência. Pensou que, afinal, ele era seu marido e era perfeitamente apropriado ceder às suas carícias, aos seus beijos e a qualquer coisa que ele tivesse em mente. Mas seu orgulho estava ferido, e ela procurou se controlar usando toda a força de vontade que possuía, pois, na sua opinião, ele merecia ser castigado. Um braço forte passou pela cintura dela e a apertou contra o peito largo e firme. Erienne pensou em permanecer passiva e não ofereceu resistência. Quando os lábios tocaram os seus, compreendeu que a idéia era absurda e que tinha superestimado sua capacidade de ficar indiferente às carícias, pois o beijo a envolveu com o impacto do costado de um navio, com uma urgência que exigia resposta, inundando seu corpo de prazer, acariciando cada nervo, até incendiá-la de desejo. Seu mundo começou a se inclinar, e ela se perdeu num limbo de sonho onde a única coisa que importava era a proximidade do corpo musculoso e a proteção dos seus braços. Percebeu que estava abraçando o pescoço dele e retribuindo o beijo com um ardor que traía seu desejo. Passou os dedos pela cicatriz conhecida, abandonando qualquer idéia de resistência. Afinal, não precisava agir como uma donzela ofendida, quando estava satisfeita, muito satisfeita, com o resultado daquele dia. Christopher acariciou mais uma vez os lábios dela com os seus e recuou para a cama, levando-a com ele. — Já é dia — murmurou ela, olhando para a janela. — Eu sei. Não precisavam dizer mais. Não estavam condenados à escuridão, e ele a desejava naquele momento. Quando a parte de trás da sua perna tocou na cama, Christopher parou e beijou-a outra vez, a boca possuindo a dela, as mãos soltando as presilhas da calça justa. — Quer abrir meu vestido, por favor? — murmurou ela com os lábios nos dele, e a resposta flamejou nos olhos de Christopher. Erienne virou de costas, levou o cabelo para um lado e esperou que ele a atendesse. Quando Christopher abaixou os ombros do vestido, um estremecimento percorreu o corpo dela, sentindo a carícia das mãos no seu corpo. Os lábios dele susbstituíram os dedos, e ela inclinou a cabeça para a frente, fechando os olhos em êxtase, enquanto os beijos acariciavam sua nuca. Despiu as mangas do vestido, sentou-se na beirada da cama e olhou para trás. Christopher tirou a calça e jogou-a para o lado, e Erienne notou a expressão de dor no seu rosto, quando ele deitou-se nos travesseiros. Foi muito rápido, e Christopher não parecia se importar em mostrar sua masculinidade


quando ela se voltou. — Está demorando muito, madame — disse ele, com um largo sorriso, dando uma leve palmada no traseiro dela. Erienne hesitou. Fazer amor no escuro não mostrava muita coisa e, embora suas mãos conhecessem o corpo dele, vê-lo despido, em plena luz do dia, era bastante assustador. A despeito das cicatrizes, Christopher era um espécime impressionante, e uma vez que era sua mulher teria de se acostumar a vê-lo sem roupa. Sorriu, virando-se para ele, pensando que não ia ser muito difícil. — Devia estar cuidando dos seus ferimentos, e não se entregando a estas atividades, milorde. — Não tenha medo, madame — disse com um sorriso. — Preciso lhe ensinar uma ou duas coisas a respeito de satisfazer um homem. — Quer que eu o satisfaça, milorde? — perguntou ela, carinhosamente. O calor dos olhos dele incendiou seu sangue, espalhando fagulhas por todo o seu corpo. — Meu maior sonho, madame. Os lábios dela ergueram-se num sorriso sublime e o olhar ardente prometia mais do que ele jamais podia esperar. Erienne moveu-se com graça sensual na frente dele. Deliberadamente abaixou as alças, deixando a combinação descer sobre os seios, enquanto desatava nas costas os cordões da anágua. Quando se inclinou para livrar os quadris do vestido e da anágua, o espartilho empurrou os seios para cima, ameaçando rasgar a combinação. A roupa caiu aos seus pés, e as alças desceram um pouco mais, revelando uma ponta do seio acima da renda, enquanto ela desatava o espartilho, que foi jogado em cima da calça dele, e então, movendo o corpo de um lado para o outro, fez a combinação descer até os quadris, e depois para o chão. Os olhos de Christopher cintilavam de desejo, acariciando os seios macios, a curva da cintura e as pernas longas e bem-feitas. Estendeu o braço, num convite, e ela olhou para o corpo dele, e Christopher quase parou de respirar quando os olhos dela pararam por um momento, com franca admiração. Erienne ajoelhou ao lado dele e inclinou-se, para beijá-lo. A língua dela brincou com a dele, com o sabor do mais forte conhaque, e as mãos quase tiravam a respiração de Christopher com o prazer que provocavam. Os lábios dela desceram para onde o coração batia forte no peito, beijaram a parte descoberta acima das ataduras, depois subiram para o pescoço, acariciando-o com a ponta da língua. Os dedos dela deslizavam por todo seu corpo e a força da paixão era quase insustentável, cada carícia levando-o para mais perto do prazer. Christopher era um estopim pronto para ser aceso, e as mãos e os lábios dela, a tocha que soltava fagulhas e ameaçava acendêlo. As mãos dele a ergueram e a conduziram. Uma onda de calor o invadiu quando ela se deitou sobre ele, e Christopher viu os olhos azuis quase se fecharem e os lábios se entreabrirem, enquanto todo o seu corpo estremecia de prazer. Erienne moveu-se sobre ele graciosamente, unindo seus desejos na corrida para o prazer. Era o momento que tinha de ser, quando se uniram, um perfeitamente consciente da presença do outro, eternamente ligados pelo amor, como as estrelas no céu, os peixes no mar, incapazes de viver muito tempo separados. O mundo podia desmoronar, e eles ainda seriam um só. Ela pertencia a ele. Ele pertencia a ela. Conflitos e iras


desapareceram, e as palavras de amor murmuradas misturavam-se aos suspiros de êxtase, os dois unidos na deliciosa expressão do seu amor.

Capítulo Vinte e Um DUAS semanas se passaram numa paz celestial com a rapidez igual à intensidade do prazer. A primavera indefinida não parecia se decidir por nenhum caminho. Numa noite, lançava grandes flocos de neve e, de manhã, a chuva fina escondia os contornos das colinas, correndo em riachos cristalinos pela face inexpressiva dos rochedos. Os pássaros marinhos subiam nas correntes de ar espiralando aos pares, e os falcões soltavam seus gritos de desafio a todos que se aventuravam no seu território. Nas moitas e nos arbustos os pequenos pássaros cantavam as canções da primavera. Outra noite chegava, e o lusco-fusco trazia o coaxar dos sapos e o canto distante do tímido rouxinol. Para Erienne, era como se os dias, mal tendo começado, chegassem ao fim. À noite, aninhava-se nos braços do marido e quando não estava sendo alçada aos picos mais altos do prazer descansava contra o peito forte, sentindo a carícia dos lábios dele nos cabelos ou na orelha. Conheceu o rosto dele, a curva dos lábios quando fazia alguma brincadeira. Os olhos que se entrecerravam quando falava de coisas sem importância, a risada franca e aberta, quando ela não percebia o humor do que ele dizia. Aprendeu a solidez dos sentimentos dele, quando a erguia nos braços, não admitindo nenhuma negação, quando seus beijos podiam ser selvagens e exigentes, sua paixão devoradora. O entusiasmo amoroso dele quase a fazia parar de respirar, satisfeita na morna segurança dos seus braços. Naqueles momentos, depois da paixão, quando sentia ainda o calor dele dentro do seu corpo, os olhos de Erienne o acariciavam cheios de amor, Ele era o marido com que toda mulher sonhava, e Erienne, às vezes, mal podia acreditar que fosse todo seu. Naqueles dias descobriu nele uma sensibilidade que percebia e atendia sua necessidade de ternura. Sereno e em silêncio, ele admirava o vôo célere de um pássaro ou sentava-se durante longos momentos, com os braços em volta dela, deliciando-se com a glória do pôr-do-sol. Seu estado de espírito mudava como as estações do ano, às vezes, infinitamente delicado, outras vezes, impaciente e revoltado contra uma injustiça ou ofensa. Ela aprendeu a ler a tensão dos músculos do seu rosto e o franzir das sobrancelhas como prenúncios de tempestade, e ficava feliz vendo que sua ira era sempre a favor da justiça. Podia ser uma fonte de prazer dispensando uma ternura infinita que quase o fazia parecer um menino, e podia ser um homem, seguro de si mesmo, experiente e conhecedor do mundo. No começo, Christopher descansou para acelerar o processo da cicatrização. Antes de uma semana, começou a se levantar à primeira luz do dia. com cuidado, vestia a calça justa, atiçava o fogo para amenizar o frio no quarto e então — à luz que aos poucos entrava pela janela — empunhava a espada, para experimentar a força do braço, investia contra o inimigo imaginário e parava, com uma careta de dor, passando a mão sobre a atadura. Movia-se devagar para não agravar o ferimento, levando a espada para trás e para a frente, tensionando os músculos, tentava a investida e recomeçava o exercício.


No começo da segunda semana, já podia manejar a espada com agilidade suficiente para cortar o pavio de uma vela ou um graveto. A lâmina cintilava quando executava uma série de ataques e respostas mais rápidos do que a vista podia detectar. Erienne observava em silêncio, na cama, com um misto de orgulho e preocupação, admirando o movimento dos músculos dos ombros e das costas, mas temendo o momento em que ele estivesse finalmente preparado para voltar a ser o cavaleiro da noite. — Você me assusta — disse ela, quando ele se sentou na beirada da cama. — Atormenta-me a idéia de vê-lo morto e ser obrigada a fugir, como sua mãe, e encontrar um refúgio seguro para nosso filho. — com a graça de Deus, madame, serei melhor e mais sensato do que meu inimigo. — Deitou a cabeça no colo dela e acariciou ternamente o ventre macio através da fina fazenda da camisola. — Pretendo ver nosso filho e plantar outras sementes onde esta foi plantada, portanto, não precisa temer, não farei nenhuma insensatez. Erienne passou os dedos pelos cabelos do marido. — Espero que muito em breve possa abandonar a máscara e o disfarce. Quero dizer ao mundo e a todas as mulheres que você é meu. — Deu de ombros. — Também não seria desagradável contar ao meu pai. Christopher riu. — Ele vai coaxar de raiva. Rindo, Erienne inclinou-se para ele. — Sim, vai mesmo e mais alto do que qualquer sapo que já existiu no mundo. Vai bater o pé, clamar por justiça, mas, com seu filho crescendo em mim, duvido que consiga uma anulação. — Seus olhos brilharam divertidos. — Além disso, quem irá olhar duas vezes para mim, quando eu estiver gorda do nosso filho? Christopher, apoiado num cotovelo, ergueu a cabeça e olhou para ela. — Madame, se pensa que seu pai ou qualquer pretendente pode nos separar, pode ficar certa de que os assaltantes de estrada não viram ainda a ira de que serei capaz se isso acontecer. — Ergueu a sobrancelha, interrogativamente. — Duvida do que digo? com um erguer de ombros, Erienne rolou para a beirada da cama e ficou de pé. Seu riso cristalino ecoou no quarto. Porém, antes que ela pudesse apanhar o robe, Christopher virou rapidamente para os pés da cama e a segurou, apertando-a contra o peito. Seus lábios se encontraram num beijo longo e lento, e só depois de algum tempo Erienne abriu os olhos, encontrando os dele, sorridentes e ternos, e passou os braços pelo pescoço do marido. — Acredito em você — suspirou ela. Os lábios dele voltaram aos dela por outra eternidade e quando ele ergueu a cabeça outra vez Erienne suspirou. — Sei por que nunca me beijou como lorde Saxton. Eu o teria reconhecido imediatamente. — Era o que eu temia, madame, mas não sabe como foi difícil. — Os beijos dele brincavam nos lábios de Erienne, leves como asas de borboleta. Então, ele a afastou e respirou fundo. — Por mais que eu deseje passar o dia em sua companhia, madame, acho que devo vestir meu disfarce e me aventurar para fora deste quarto. — Teremos toda a noite — murmurou ela.


Christopher sorriu. — Não estarei mais preso à escuridão. — Podemos acender uma vela — sugeriu ela, docemente. — Melhor ainda — sorriu ele —, venha quando eu a chamar. Exceto por Bundy e Aggie, nenhum dos criados sabia a verdade. Quando os aposentos de lorde Saxton não estavam em uso, Aggie os mantinha trancados, e ninguém entrava nos de Erienne sem sua permissão. Os criados, intrigados com a reclusão dos patrões, imaginavam coisas, mas nenhuma se aproximava da verdade. Quando lorde Saxton desceu finalmente para a realidade, ao lado da sua dama, a preocupação desapareceu. Alguns perceberam uma mudança útil em Erienne. Atribuíram sua alegria e jovialidade à convalecença do marido e continuaram a admirar sua devoção a um homem tão assustador, devoção que se evidenciava na aceitação do braço oferecido, no sorriso doce com que olhava para o rosto mascarado e na disposição de estar sempre ao lado dele. Lady Erienne estava mais bela ainda, e seu riso cristalino e sua alegria eram contagiantes. com sua presença o dia ficava mais claro e o sol mais quente. com os corações leves, todos os criados entregaram-se às tarefas da primavera com ardor renovado, procurando agradá-la. A grande casa de pedra tomou vida e não era mais uma mansão escura e triste. A primavera espalhou-se pelo campo como os círculos provocados por uma pedra na superfície da água. Os fazendeiros puxavam os arados, exercitavam os cavalos e aparavam e ferravam seus cascos, preparando-se para a messe da primavera. O casal encantado passeava pelas terras da mansão, e o homem aleijado parava aqui e ali para admirar as maravilhas da natureza. Nos redis havia ovelhas recém-nascidas e perto do estábulo uma potranca ensaiava os primeiros passos, ao lado da mãe. Um arrogante par de gansos levava a ninhada para o lago e, esticando os pescoços, grasnaram para o casal, que passava por eles. Ouvindo o riso claro de Erienne, calaram-se, inclinando a cabeça para o lado, surpresos com o novo som, depois voltaram a contar a ninhada atentamente. O caminho descia atrás da casa, atravessava um espaço aberto e entrava no bosque. Na sombra das árvores, longe dos olhos curiosos, lorde Saxton, empertigando-se, começou a andar com maior agilidade, de mãos dadas com Erienne. Chegaram à pequena casa no bosque, e o homem vestido de preto a pegou no colo para entrar. Se alguém estivesse observando, teria esperado mais de uma hora até vê-los de novo. Esse suposto espião poderia imaginar muitas coisas, pois reapareceram como Christopher Seton e Erienne Saxton. Os dois, como ninfas do bosque, dançaram na clareira, ao som de uma valsa cantada em dueto, às vezes desafinado, às vezes interrompido pelo riso jovial. Quase sem fôlego, Erienne deixou-se cair numa pequena elevação coberta de musgo macio e rindo, de pura alegria pela beleza do dia, abriu os braços, como uma flor amarela e frágil, contra o verde-escuro da relva. Ela ergueu os olhos repletos de felicidade para as copas das árvores onde os galhos dançantes, enfeitados pelo primeiro verde da primavera, acariciavam as brisas frescas, e no alto os flocos de nuvens corriam como um rebanho de ovelhas no azul do céu. Passarinhos faziam o jogo da conquista e outros tomavam conta dos ninhos. Um esquilo saltou no ar seguido por outro, maior, intrigado com a suposta timidez da companheira.


Christopher ajoelhou no tapete macio da relva, na frente dela, e, abraçando-a, inclinou-se para a frente, até seu peito tocar os seios da mulher. Por um longo momento, beijou os lábios, que se abriram para ele com uma avidez bem diferente da jovem fria e agressiva de antes. Então deitou-se ao lado dela e, juntos, de mãos dadas, deliciaram-se com a beleza do dia. Murmurando doces bobagens, falaram de sonhos, esperanças e outras coisas, como fazem os amantes. Erienne virou-se de lado e, sem tirar a mão da mão dele, passou a outra pelo cabelo escuro e despenteado. — Está precisando de uma tosa, milorde — brincou ela. Christopher olhou para os olhos azuis. — Será que a minha senhora me vê como um cordeirinho inocente pronto para ser tosado? — Vendo o olhar de dúvida, continuou: — Ou um garanhão de crina longa? Um pretendente ávido para seduzi-la? Os olhos de Erienne cintilaram, e ela fez um gesto afirmativo. — Um namorado apaixonado? Um cavaleiro com armadura prateada num cavalo branco, correndo para salvá-la? — Sim, tudo isso — concordou ela, com uma risada. Ajoelhou na relva e segurou a camisa dele com as mãos. — Tudo isso e muito mais. — Beijou os lábios dele e, sentando nos calcanhares, murmurou: — Eu o vejo como meu marido, protetor do meu lar, senhor daquela mansão. Mas, acima de tudo, eu o vejo como o amor da minha vida. Christopher afastou o cabelo do rosto dela e a puxou para o peito. Foi um beijo longo, ela inclinada sobre o peito dele, as mãos de Christopher acariciando seu ombro. — Sim — murmurou ele —, e muito em breve vou jogar fora a máscara e andaremos pelo mundo exatamente como somos. — com a ponta do dedo, traçou a linha da orelha delicada. — Existe ainda muita maldade para ser julgada, e estou ainda comprometido por juramento com essa missão, mas não vai demorar, meu amor, eu prometo. Levantaram-se e caminharam lado a lado, tirando os sapatos para pisar na relva macia na margem do regato, que atravessava a clareira. Embora contra a vontade deles, o sol atravessou o céu e desceu para o poente. Lorde Saxton subiu a colina com sua dama, em silêncio, porque o disfarce como que embotava parte da alegria juvenil da tarde. Jantaram no quarto dela, de mãos dadas sobre a mesa estreita. com as cabeças muito juntas, falaram em voz baixa de coisas de amor. Quinze dias se passaram rapidamente e, como um sinal das profundezas do inferno, a privacidade da mansão foi quebrada. A carruagem de aluguel de Mawbry puxada por um pangaré cansado parou na porta de Saxton Hall. Avery desceu primeiro, deixando a bagagem a cargo de Farrel. O prefeito esperou pacientemente até tudo ser descarregado e então caminhou com arrogância para o cocheiro, procurando algumas moedas no bolso do colete. Escolheu a menor de todas e a depositou na mão do homem. — Tome. Fique com o troco — insistiu ele, com magnanimidade. — Foi uma viagem longa, por isso, estou pagando um pouco mais. Avery deu as costas para o homem e não viu a testa franzida numa expressão de dúvida, quando ele olhou para a palma da mão. Mordeu a moeda para ver se era verdadeira e com um grunhido descontente guardou toda aquela fortuna no bolso,


sacudiu as rédeas irritado e partiu. — Está vendo? — Avery indicou com um movimento da cabeça a carruagem e apanhou duas malas pequenas, enquanto Farrell se encarregava da mais pesada, dos dois mosquetes e várias pistolas. — A gente precisa planejar tudo. Agora, pelo menos, vamos voltar de graça na bela carruagem de sua senhoria. — Devia ter me deixado avisar Erienne da sua vinda — resmungou Farrell. — Bobagem, meu jovem. Você está aqui o tempo todo. Parece que mora na mansão. Não vejo como podem se ofender com a minha presença. — Lorde Saxton não gostou nada do senhor ter ameaçado Erienne, na sua última visita. — Aquela atrevida — disse Avery. — Ela merece mais do que a minha mão para acabar com sua arrogância. — Apontou para a torre. — Tem tudo isto e até agora não ofereceu nada para o pobre pai. Um lugar tão grande e elegante, é uma pena que eles tenham tanto e nós tão pouco. Se não fosse por mim, eles não estariam juntos agora. Farrell olhou para o pai com ar de dúvida, mas Avery parecia nem imaginar que alguém pudesse encontrar alguma falha nas suas atitudes. Pôs as malas no chão na frente da porta, puxou o colete para baixo sobre a barriga pendente, ergueu o braço e bateu com a aldrava. Paine os fez entrar no hall, ajudou Farrell com a bagagem, o que lhe valeu um olhar de censura do pai, e disse: — Lorde Saxton não tem estado muito bem ultimamente. Está agora almoçando nos seus aposentos com Lady Saxton. Importam-se de esperar por eles no salão? Avery olhou para o homem e disse, disfarçando suas esperanças: — Disse que sua senhoria está doente? Alguma coisa grave? — Acho que foi bastante grave por algum tempo, senhor. A senhora não o deixou um só instante, mas agora está se recuperando muito bem. — Paine estendeu a mão para as armas de Farrell. — Levo isto para cima com sua bagagem, senhor. — Olhou para Avery. — O senhor vai ficar também? Avery empurrou as malas com o pé e pigarreou. — Sim, achei que, como Farrell vai ficar aqui, eu podia aproveitar o tempo para visitar minha filha. — Muito bem, senhor. Volto para apanhar sua bagagem quando seu quarto estiver preparado. Paine subiu a escada com a bagagem e, quando ele desapareceu de vista, Avery bufou com desprezo. — Menina idiota! Como lorde Saxton não tem parente próximo, ela seria uma viúva rica. Farrell ficou calado, mas os olhos e as linhas da boca traíram seu descontentamento. Começava a compreender o desapontamento de Erienne com o pai e imaginou como ela poderia ter algum prazer com essa visita. Ultimamente, ele passava cada vez menos tempo em casa, preferindo visitar a Srta. Becker e a mãe, em York, a ouvir as queixas do pai o dia inteiro. Erienne desceu correndo a escada, passando a mão nos cabelos e ajeitando a gola do vestido. Parou na entrada do salão, percebendo que, com a pressa, não tinha abotoado toda a blusa e aproveitou para tomar fôlego e se recompor. Estava corada e sentia-se levemente despreparada para o encontro, porque Aggie bateu na porta do


quarto num momento bastante inconveniente. O almoço estava esfriando na pequena mesa, enquanto o ardor de Christopher incendiava sua paixão. A interrupção e a notícia de que o prefeito viera visitála foi como um banho de água fria, e eles se separaram rapidamente. Erienne entrou na sala procurando parecer calma. Foi até o irmão e, ficando na ponta do pé, o beijou no rosto. Depois sorriu para o pai. — Meu pai, há muito tempo não aparecia — disse, delicadamente. — Pode ficar conosco por algum tempo? — Pensei em ficar, mas teria me sentido mais bem-vindo se me tivessem convidado. — Enfiou os polegares nas cavas do colete e olhou atentamente para a filha, que continuava a sorrir, notando que ela não tinha se apressado em pedir desculpas. — Venham sentar-se perto do fogo e tomar um copo de vinho — convidou ela, ignorando a reclamação. — Devem estar famintos depois da longa viagem. vou mandar a cozinheira preparar alguma coisa enquanto conversamos. Chamou Aggie, que começou a arrumar a mesa, enquanto Erienne servia o vinho. Avery tomou um gole e franziu a testa, depois pigarreou ruidosamente para chamar a atenção da filha. — Ah, menina. Será que tem alguma coisa mais própria para tirar a poeira da estrada da garganta de um homem? Erienne riu encantadoramente. — Tome o seu vinho, meu pai. É melhor para o senhor. Logo poderá jantar e tomar um conhaque depois. Avery não gostou, mas como não era homem de desprezar um copo de qualquer bebida começou a beber, com certa relutância. Quando entregou o copo para Farrell, ela tocou de leve o braço aleijado do irmão. — Como vai seu braço, Farrell? Está melhor? Farrell se animou um pouco. — Estive em York há algumas semanas. Se está lembrada, pedi emprestada a carruagem de lorde Saxton para a viagem. Conheci um cirurgião especialista em ferimentos de bala. Ele acredita que a bala ainda está no meu braço, bem na junta, e que pode ser isso que impede o movimento. Ele diz que pode operar, mas há um certo risco. — Ergueu o braço e deu de ombros. — Não sei o que é pior, um toco cortado ou um galho morto. Erienne pôs a mão no ombro dele, com carinho. — Perguntaremos a lorde Saxton. Ele conhece muitos cirurgiões. — Sentou-se e indicou uma cadeira para ele. — Agora, diga-me, como vão as coisas com a senhorita... — O braço aleijado bateu levemente nela e Erienne viu a expressão de advertência do irmão. — O senhor... bem... o que ia dar emprego a você no seu estaleiro, em Wirkinton? — Foi a única coisa que ela pôde pensar no momento. — Como é o nome dele? — Sr. Simpson — disse Farrell, com um sorriso, tomando um gole de vinho. — Estou pensando em procurar emprego em York agora, por isso desisti desse. — com um movimento da mão que segurava o copo, ele indicou Avery. — É claro que nosso pai acha que eu o estou abandonando. Erienne riu, puxou o irmão pela manga, inclinando-se para ele, e disse em tom confidencial: — Ele gosta de você, Farrell. Faça as vontades do pobre velho.


— Arrump! — O rosnado indicava que Avery estava acompanhando a conversa, ou que pelos menos ouvira a última observação. Ele resmungou, amuado. — Agulhas e dardos e sua língua cheia de farpas apenas picam a minha pele, menina. — Nunca ouviu dizer que o sal conserva muito bem a pele, meu pai? — respondeu Erienne. Avery olhou para ela, sem compreender, e a filha riu, erguendo a mão num gesto leve. — Não tem importância, meu pai. Tome seu vinho, se quiser. Mando Paine apanhar uma caneca de cerveja na adega. Talvez o senhor prefira. — Arrump! — rosnou ele outra vez, tomando um bom gole de vinho e passando as costas da mão na boca. —- Não pode conquistar o amor de um pai com doces tentações, menina. Erienne ergueu a sobrancelha e perguntou: — Não quer a cerveja? Avery levantou-se da cadeira, furioso. — Você torce minhas palavras como sua mãe fazia. Eu não disse nada disso! — Acalmou-se um pouco, amaciando a voz, pois lembrou que podia perder a coisa que mais desejava. — Aceito a cerveja. Os olhos de Erienne cintilaram, divertidos. A suspeita de que ela estava zombando dele foi demais para Avery. Resolveu acabar com aquela alegria, dizendo: — Estão dizendo na cidade que o Sr, Seton é o cavaleiro da noite. — Para seu desapontamento, ela continuou a sorrir. Avery tentou outra vez. — Na verdade, Allan pensa que ele deve estar gravemente ferido, talvez morto, uma vez que não tem aparecido para matar ninguém. Erienne deu de ombros, calmamente. — com todo mundo percorrendo os campos à sua procura, acho que alguém já devia ter encontrado o homem. O xerife esteve aqui e revistou a casa... — Hem? — Avery ficou alerta. — Por que Allan viria procurar aqui um bandido daquela laia? — Então não sabia? — perguntou Erienne, fingindo inocência, — Os Seton e os Saxton são primos. Christopher nos visitou várias vezes depois do meu casamento. Até me acompanhou ao baile de lorde Talbot. — Ele fez o quê? — rugiu Avery, e perguntou, profundamente ofendido: — Quer dizer que seu marido confiou você àquele sacana miserável? Ouvindo o barulho dos pratos na mesa, Erienne ergueu os olhos e viu Aggie ocupada com os talheres e pratos. A governanta estava com os lábios cerrados e lançou um olhar furioso para o prefeito. — Meu pai, tenha cuidado com sua linguagem aqui — disse Erienne, esforçando-se para manter a calma. Afinal, ele estava ofendendo a pessoa que ela mais amava na vida. — Alguém pode se ofender. Ele bufou com desprezo. — Ora, não preciso me preocupar com o que os criados pensam. — Eu não estava falando dos criados, meu pai, — Ela respondeu ao olhar intrigado dele com um sorriso frio, quase o desafiando a questioná-la. Quem fez a pergunta foi Farrell. — Erienne, você não está tolerando o homem agora, está? Voltou-se para ele, com expressão suave.


— Farrell, tenho ouvido muitas acusações contra esse homem, mas acabei me certificando de que a maioria delas é falsa. Farrell franziu a testa. — Mas ele acusou nosso pai de roubar no jogo. Erienne olhou para o pai, que enfiou a cabeça entre os ombros, timidamente. — Sei disso, Farrell, e sugiro que você procure conhecê-lo, antes de formar uma opinião definida. Ele pode ser um amigo valioso. — Será que ficou maluca, menina? — perguntou Avery, rudemente. — Veja o que o homem fez ao pobre Farrell. Fez dele um aleijado inútil. — Pai! — exclamou Erienne, furiosa e ofendida. Avery se acalmou. — Farrell não é aleijado, e não vou admitir que o chame assim. Aggie se aproximou e esperou, em silêncio respeitoso, que a patroa olhasse para ela. — Os cavalheiros querem — ela enfatizou a palavra ”cavalheiros” olhando severamente para o prefeito — comer agora, senhora? Avery levantou-se, apressado, e Erienne fez um gesto afirmativo. Aggie voltou para a mesa e serviu mais vinho. Erienne esperou que Farrell e o pai estivessem sentados e pediu licença. — Preciso ver por que lorde Saxton está demorando. Aggie pode servi-los. Por favor, fiquem à vontade. Avery não perdeu tempo e serviu-se do pão e do vinho, depois, com as mãos ocupadas, apontou com o queixo para a filha, que saía da sala. — Foi limpar o traseiro de sua majestade, sem dúvida. — Olhou para Aggie, que abriu a boca, surpresa, e continuou, provocantemente. — Ora, a tolinha com certeza tem de dar banho nele, como se fosse um bebê. Aggie olhou firme para ele por um momento, depois para o rosto muito corado de Farrell, e saiu, deixando que se servissem sozinhos. Tentando controlar a raiva, apoiou os braços na mesa da cozinha e, entrecerrando os olhos, imaginou o que uma daquelas facas de cortar carne faria na barriga de Avery. Descartou várias alternativas sangrentas e, quando seus olhos pousaram na prateleira dos temperos e ervas medicinais, brilharam satisfeitos. Conhecia muito bem os efeitos da sena e da coniza que, quando aplicadas liberalmente, isoladas ou combinadas, podiam provocar a reação que ela desejava. — Deve estar na hora dele começar a comer outra vez — murmurou ela. Aggie começou a trabalhar ativamente, adicionando a mistura à comida do prato separado para servir o prefeito. O queijo derretido nas torradas disfarçaria o gosto das ervas e como o homem comia com tanto entusiasmo provavelmente não ia notar coisa alguma. Aggie voltou para a sala com as tigelas de comida quente na bandeja de prata. com um sorriso de orelha a orelha, pôs um prato na frente de Farrell e outro na frente do prefeito. — Um pouco de queijo com torrada, senhor — ofereceu ela, quando o aroma chegou ao nariz de Avery. Ele ergueu a colher e provou. Achou delicioso e devorou tudo que estava no prato. Finalmente, empurrou a cadeira, com um arroto estrondoso, para demonstrar sua apreciação à cozinheira. Passaram o resto da tarde tranqüilamente. Os convidados fizeram uma visita aos


estábulos, onde foram mostradas algumas éguas de raça. Ficaram intrigados por não verem nenhum garanhão. Avery percorreu bocejando o terreno próximo da casa, mas a excursão não incluiu a ala leste, incendiada. Ele ansiava pelo conforto da cama no quarto do segundo andar. Passaram a falar sobre armas de fogo, para satisfação de Farrell, e lorde Saxton elogiou a precisão de uma nova arma dos ianques, de baixo calibre e novo desenho do cano. Avery achou que podia entrar na conversa e discursou longamente sobre a solidez e segurança do mosquete inglês Brown Bess. Afirmou que sua precisão era fenomenal a trinta passos e zombou da idéia de que qualquer arma pudesse matar um célere esquilo. A máscara impassível não discutiu, mas o dono da casa fez uma pequena demonstração e, para desapontamento do prefeito, o assunto foi resolvido a favor da arma colonial. com o rosto muito vermelho, Avery notou que tanto a filha quanto o filho pareciam satisfeitos com o resultado da disputa, como se o homem desfigurado fosse seu novo campeão. Podia desculpar Erienne, pois ela parecia estranhamente devotada ao homem, mas não seu próprio filho. Avery ficou perplexo. Ultimamente Farrell parecia gostar demais de armas e gastava o dinheiro arduamente ganho nesse novo interesse, dando uma ninharia, uma vez ou outra, ao dedicado pai. Notara também que Farrell não passava mais as noites nas tavernas com os amigos, tomando cerveja. Viajava com freqüência para York, e Avery começava a imaginar se essas viagens tinham como objetivo a procura de um novo emprego. Estou perdendo meu filho, pensou ele, e para gente como esse homem deformado, vestido de negro que, provavelmente, nunca montou um cavalo nem deu um tiro numa verdadeira Juta. Avery apressou-se em se juntar aos outros três, notando que se haviam afastado e que conversavam em voz baixa. Farrell parecia preferir a companhia dos dois à sua, e em várias ocasiões parara de falar quando o pai se aproximava. Avery os acompanhou até a sala de estar, onde aquele aleijado grotesco retirou-se para as sombras protetoras onde estava o cravo e tocou várias músicas. Ele ficou perto da filha, esperando o momento propício para falar no assunto da sua visita, ou seja, o fato de precisar de uma boa parte da sua riqueza. Planejara cuidadosa mente o que ia dizer, e naquela tarde dera alguns retoques ao discurso. Sem dúvida, ela sabia que Farrell precisava de dinheiro e tratamento para seu braço. Para seu desapontamento, Erienne aproximou-se do cravo e ficou ao lado do marido. Avery não teve coragem de se juntar a eles, pois tudo indicava que iria perturbar o momento de privacidade entre os dois, quando a voz suave de Erienne começou a acompanhar a música tocada pelo marido. Era uma leve canção de amor e Avery achou que Erienne era uma tola por encher a cabeça do homem com idéias de devoção. Durante o dia, ele ficou sabendo que lorde Saxton e Erienne ocupavam quartos separados e concluiu que a afeição entre os dois não se estendia à cama. Foi com alívio que Avery viu Paine entrar na sala e anunciar que o jantar estava servido. Sentaram-se à mesa iluminada por velas, lorde Saxton na cadeira grande e pesada, na cabeceira, Erienne à sua direita e o pai e filho no outro lado. Farrell e Avery notaram então que a mesa estava posta só para duas pessoas e que Erienne apenas tomou um copo de vinho. Isso intrigou o prefeito, mas ele atribuiu a um capricho dos ricos e aproveitou a oportunidade para se fartar com os pratos


delicadamente preparados. Foi Farrell quem fez a pergunta, depois de erguer o copo, desejando saúde e prosperidade ao anfitrião. com um gesto, indicou o lugar vazio da irmã e perguntou: — Não vai jantar conosco esta noite? Erienne sorriu e explicou: — Não temos intenção de ofendê-los. — Pôs a mão sobre a mão enluvada do marido e a apertou ternamente. — Meu marido, como sabem, prefere jantar sozinho, e esta noite resolvi lhe fazer companhia. Avery ficou abismado, sem compreender como a filha podia preferir ver aquele rosto terrível, enquanto jantava, a fazer sua refeição com pessoas normais. Pensando nisso, ele franziu os lábios e recostou-se na cadeira. As mulheres sempre o deixavam confuso, mas aquela tolinha o deixava quase louco. Primeiro, recusou todos os pretendentes por serem feios e velhos, e agora parecia atender quase com devoção total cada desejo do marido, como se ignorasse o fato de que muitos o consideravam uma espécie de monstro. Ora, ela até segurava amorosamente o braço dele e olhava para a máscara com adoração e ternura, como se ele fosse um nobre cavalheiro. Um prato com caldo espesso e pedaços de legumes e carne foi posto na frente de Avery, interrompendo suas elucubrações. Paine serviu mais vinho e pãezinhos quentes, antes de se afastar da mesa. Dispensando a faca, Avery partiu o pão em grandes pedaços e começou a molhar na sopa. com o pão numa das mãos e a colher na outra, começou a comer. A cada três ou quatro colheradas, ele molhava o pão e o levava à boca, com o caldo escorrendo para a toalha. Aos poucos, foi se formando uma trilha entre sua camisa e o prato de sopa. De repente, Avery parou. Arregalou os olhos e encheu as bochechas com um arroto quase gritado. Um ronco úmido e gorgolejante soou na sala, e o pescoço dele ficou rubro com o esforço de dominar uma imperiosa e urgente necessidade. Aos poucos, o mal-estar passou, e ele relaxou. Depois de um olhar constrangido e rápido para os outros três, o prefeito voltou ao trabalho. Molhar o pão. Comer o pão com o caldo pingando para fora do prato. Várias viagens da colher entre o prato e a boca, e seu rosto se contraiu outra vez. A colher tilintou no prato, e as mãos dele se apertaram sob a mesa. Avery se contorceu e agitou os pés, com o rosto manchado de vermelho e branco. O queixo ficou rígido, enquanto os pés começaram a se mover mais depressa. Finalmente, a dor passou, Ele olhou zangado para a testa franzida de Farrell e depois para Erienne, até ela levar o copo de vinho aos lábios, mas sem deixar de observá-lo. Podia ser imaginação, mas até a máscara impassível do seu anfitrião parecia olhar para ele, intrigada. Avery empurrou o prato ainda pela metade, tomou um pouco de vinho e mastigou um pedaço de pão seco. A combinação aparentemente acalmou seu estômago, e aos poucos Farrell e Erienne recomeçaram sua conversa. Quando foi servido o segundo prato, Avery estava perfeitamente disposto a atacá-lo. Na verdade, quando sentiu o aroma da comida, aceitou alegremente, Aggie, com um sorriso, chegou até a servi. lo de uma porção dupla. Quando Paine pôs o prato na sua frente, Avery estava com água na boca e ergueu o garfo e a faca, antes mesmo que o mordomo tirasse a mão do prato. Atacou a comida, enfiando um enorme pedaço de carne na boca e mastigou, deliciado, entrecerrando os olhos. Engoliu ruidosamente e resmungou, erguendo outra garfada: — Está bom. Está muito bom, — Sacudiu a faca, — O melhor que já comi. Levou o garfo à boca e já se preparava para outro pedaço quando, de repente, os


cabos do garfo e da faca bateram na mesa, seguros ainda por ele. Avery inclinou-se para a frente, quase se levantando. Um lento gemido de agonia passou entre os dentes cerrados, e seu corpo ficou rígido como uma estátua de bronze, enquanto o rosto tomava quase a mesma cor desse metal. Largou o garfo e a faca e agarrou com força a borda da mesa. Rilhou os dentes, e sua respiração ficou curta e sibilante, Ficou naquela posição por algum tempo, e então disse rapidamente em voz muito alta, — Está-uma-noite-tão-bonita. Acho-que-vou-dar-um pequeno-passeio. Pediu licença com uma rápida inclinação da cabeça, saiu voando da sala, com as abas do casaco esvoaçando atrás. A porta da frente foi aberta com estrondo e depois fechada. Farrell olhou para Erienne e ergueu os ombros. Ela olhou para Paine que, com sua pose absolutamente estóica, não moveu um músculo. Aggie também estava impassível, mas um corado intenso subia do seu pescoço e ela parecia ter adquirido um tique nervoso nos ombros e nos cantos da boca. Sob o olhar insistente de Erienne, ela tossiu estranhamente e saiu correndo da sala. Quando a porta se fechou atrás dela, todos ouviram algo que se parecia muito com uma risada abafada. Na noite seguinte, o estômago de Avery tinha-se acalmado o suficiente para permitir que ele deixasse seu quarto e se dirigisse ao de Erienne. Era tarde, e todos já se haviam retirado para a noite. Era sua última oportunidade de falar a sós com ela, antes de voltar para Mawbry, na manhã seguinte. Passara a noite anterior num esforço frenético para aliviar o turbilhão do seu intestino. Não tinha idéia da doença que o acometera. Atribuiria a comida estragada se não fosse pelo fato de ninguém mais sentir nada. Assim, ficou com medo que fosse alguma coisa grave, o que aumentou sua ansiedade para conseguir um bom dinheiro da filha. Somente algumas velas estavam acesas no corredor. Respondendo às suas perguntas aparentemente inocentes, naquela tarde Farrell informara ao pai onde ficava o quarto de Erienne e o de lorde Saxton. Avery caminhou com cuidado e parou na porta de lorde Saxton por um momento. Não via nenhuma luz nem ouviu nenhum som, o que parecia garantir que o dono da casa estava dormindo. Mais confiante, mas sempre procurando não fazer nenhum ruído até certificar-se de que a filha estava sozinha, Avery seguiu para o quarto de Erienne. Encostou o ouvido na porta, sob a qual podia ver uma réstia de luz fraca. Desapontado, ouviu que a filha conversava com alguém, em voz baixa, mas pensou que podia ser com uma criada. Ouviu então uma risada masculina. Assustado, Avery recuou um pouco, mas depois, controlando-se, voltou a encostar o ouvido na porta. A voz de Erienne dissipou qualquer dúvida quanto à identidade do seu acompanhante. — Christopher, não brinque. Como posso me concentrar na escolha de um nome para nosso filho se você não fala sério? Avery arregalou os olhos, e seu rosto ficou corado, como na noite anterior, à mesa. Queria arrombar a porta, arrancar aquele aventureiro sujo de perto da filha e transformá-lo numa massa informe, mas o medo de que Christopher pudesse fazer muito pior com ele o fez desistir da idéia. Mas isso não diminuiu a raiva que o consumia. Avery desprezava Christopher Seton, e a idéia de que o homem engravidara sua filha era demais para ele. Parente ou não, lorde Saxton era um tolo


em confiar nele. Não admira que ela fosse tão atenciosa com lorde Saxton quando aquele miserável Seton estava se esgueirando entre suas pernas à noite. Avery voltou para seu quarto. A vantagem era que agora podia convencer a filha a pagar para esconder sua traição, e isso seria ótimo para ele. Erienne deixou os braços do marido e desceu do quarto muito cedo, na manhã seguinte. Atônita, viu o pai à sua espera, com uma expressão estranha. com os lábios contraídos e a cabeça enfiada no colarinho alto, Avery parecia uma tartaruga satisfeita. Quando se aproximou com uma xícara de chá para ele, Erienne teve a impressão de ver um sorriso de desprezo. — Alguma coisa errada, meu pai? — Talvez. Ela sentou-se de frente para ele e começou a tomar o chá. — Quer falar a respeito? — Pode ser. Pensando em evitar uma conversa que provavelmente seria cheia de queixas e autopiedade, ela tomou o chá e esperou. Avery recostou a cabeça no espaldar alto da cadeira e examinou os artefatos de cavalaria, as tapeçarias e os retratos nas paredes. — Minha filha, você sabe que fui um homem generoso para sua mãe e para minha família. Enquanto tive dinheiro, não faltou nada para vocês. Embora pudesse negar essa afirmação, Erienne ficou em silêncio. Avery Fleming era conhecido por sua auto-indulgência, e só devido aos esforços de sua mãe ela e Farrell tiveram um lar e algum estudo. Não se deixou comover pela opinião que o pai fazia de si mesmo. — Desde a morte de sua mãe eu vivi sob grande pressão — lamentou ele. — Lamentando aquela perda, algumas vezes procurei afogar meu sofrimento nas mesas de jogo. O dia da minha desgraça foi quando conheci aquele maldito ianque, que me acusou de roubar no jogo. — Mas o senhor estava roubando — disse Erienne, secamente. O pai olhou para ela, boquiaberto. Erienne ergueu uma sobrancelha. .,. — Admitiu para mim que estava roubando, lembra-se? Avery pigarreou e desviou os olhos, dando de ombros. — Foi num momento de desespero. — Ergueu a mão, como para se defender. — Além disso, o homem podia muito bem perder aquele dinheiro. Era ele ou eu, menina, e o dinheiro não lhe faria falta, ao passo que para mim... bem, você sabe o que me restou. — Meu pai — disse Erienne, com voz inexpressiva —, trapacear no jogo é o mesmo que roubar, e o senhor estava trapaceando. — E como você chama os crimes de morte do poderoso Christopher Seton? Os olhos azuis flamejaram. — Ele matou bandidos que mereciam ser mortos por assassinarem pessoas inocentes. — Ergueu a mão. — E, nesse caso, eu também matei. Farrell também. Surpreendemos um bando de ladrões atacando uma carruagem e atiramos neles, matando alguns, para salvar a moça. — Uma moça? — A Srta. Becker — disse Erienne, com um sorriso gelado. — Se for preciso, ela confirmará o fato de que o cavaleiro da noite atacou os bandidos e ajudou Farrell a


fugir com ela. Avery ficou curioso. — Farrell não me falou nela. Erienne lembrou da relutância de Farrell em falar sobre a jovem Becker na frente do pai e resolveu não dizer mais nada. — Provavelmente Farrell vai preferir contar ele mesmo. Depois de um breve silêncio, o prefeito disse: — Você parece muito satisfeita, menina. Viver aqui com lorde Saxton parece que lhe fez bem. — Estou muito satisfeita, meu pai. Talvez mais do que o senhor pode compreender. — Oh, eu compreendo muito bem. — Enfiou o queixo no colarinho alto, com um sorriso confiante. Erienne olhou para o pai, imaginando por que parecia estar saboreando algo muito doce. — Quer me dizer alguma coisa mais? Ele olhou para as mãos gorduchas por algum tempo. — Estive pensando que você não tem sido muito generosa com sua família desde que ganhou um título e tudo o mais. — Não ouvi nenhuma queixa de Farrell. — O pobre rapaz está deslumbrado com sua caridade mesquinha, mas o que realmente fez por ele? Deu alguma atenção à deficiência dele? Farrell está mais rico depois que começou a vir aqui? Não, tem de trabalhar duro para ganhar algum dinheiro. — Na minha opinião, o caráter de Farrell melhorou muito desde que ele deixou de viver mergulhado em autopiedade e começou a fazer alguma coisa útil — disse Erienne, com convicção e um pouco zangada. — Caridade ou simpatia, quando em excesso, podem arruinar um bom homem. A pessoa consegue auto-estima quando vê os resultados do próprio trabalho. Sim, devemos ser caridosos e bons para com os desafortunados, mas ajudá-los a fazer alguma coisa para eles mesmos é infinitamente mais caridoso do que permitir que se entreguem à autopiedade. O trabalho bom e honesto é necessário ao bem-estar. Além disso — ela não resistiu em acrescentar —, dá à pessoa menos tempo para sentar-se às mesas de jogo. Avery olhou para ela, furioso. — Nunca me perdoou por vendê-la em leilão, não é mesmo? — Detestei o modo como me vendeu — admitiu ela. Então, com um leve sorriso, disse, alisando a saia do vestido: — Mas não posso mais me queixar. Eu amo o homem com quem casei e estou grávida dele... — É dele? — perguntou Avery, rapidamente. — Ou daquele safado que estava no seu quarto ontem à noite? Erienne ergueu os olhos, surpresa, e seu coração quase parou. — O que está dizendo? — Fui até seu quarto para conversar com você e aquele demônio do Seton estava lá, bem debaixo do nariz do seu marido. E eu a ouvi falar alegremente do bebê que vocês dois fizeram. Está carregando o bastardo de Seton no seu ventre, não o filho do seu marido. Erienne corou muito. Queria responder com a verdade, mas sabia que não devia. Era


melhor que o pai a julgasse infiel do que prejudicar a vida do homem que ela amava. — Não pode negar, pode? — O sorriso de Avery, um misto de desprezo e satisfação, atingiu em cheio seu orgulho. — Você é a prostituta de Seton e carrega o filho dele. É claro que não pretende contar a lorde Saxton que a semente de onde brotou esse filho não foi a dele. Erienne, com os lábios cerrados, ouviu em silêncio, mas estava fervendo por dentro. — Suponho que devo ficar calado também — olhou atentamente para ela. — Seria mais fácil se eu soubesse que você se importa comigo, se mandasse uma perna de carneiro ou um ganso para a minha mesa, uma vez ou outra. Imagine, eu tenho até de fazer a minha comida, sem ninguém para cozinhar para mim, para lavar minha roupa, para arrumar minha casa. Considerando todos os criados que tem aqui, não ia fazer mal a ninguém se mandasse alguém para tomar conta de mim. Mas, é claro, teria de ser pago, e não tenho dinheiro para isso. A propósito, eu bem que preciso de um novo casaco, um par de sapatos e algumas moedas no bolso. Não estou pedindo muito, você compreende, o suficiente para viver com conforto. Erienne levantou-se vagarosamente da cadeira, furiosa com a ousadia do pai. A idéia de que ele queria uma recompensa para ficar calado era desprezível. Como sempre, Avery só se preocupava com o que podia ganhar. — Como se atreve a tentar me extorquir dinheiro? Durante toda a vida eu o ouvi se queixar da sorte, mas não vou ouvir mais. Vi o senhor usar as pessoas. Usou minha mãe, meu irmão e me usou. Tentou usar Christopher, mas ele não deixou, então fez Farrell lutar para defender sua honra mesquinha. Agora, quer me usar outra vez, mas não vou permitir. — Tem um coração muito duro, menina — acusou ele, furioso. Levantou-se de um salto e começou a andar na frente dela. — Age com tanta arrogância e orgulho quando está recebendo um criminoso na sua cama e não pode ceder umas poucas moedas ao seu pai para que ele possa viver com mais conforto. Tenho de andar pela cidade e manter minha cabeça erguida na frente dos meus amigos. — Parou e deu um murro na mesa. — Que diabo, menina! O que você faria se eu informasse lorde Saxton de que você o está enganando com aquele miserável Seton? — Olhou furioso para ela e teria continuado, mas, ouvindo o som de um pé arrastando na sala, voltouse e abriu a boca, surpreso. Lorde Saxton vinha da torre, arrastando o pé aleijado no chão de pedra. Ficou de pé ao lado da mulher e olhou para o prefeito. — Será que ouvi meu nome? — A voz baixa e áspera cortou o silêncio da sala. — Deseja falar comigo, prefeito? Avery olhou nervoso para Erienne e ficou atônito com a calma dela. Era como se a filha o desafiasse a falar. Lorde Saxton esperou pacientemente a resposta, mas ele não conseguia articular uma palavra. O marido da filha era a única pessoa cuja ira ele temia. Sabia que o homem gostava de Erienne e não receberia de bom grado a informação de que ela o traía e certamente sua ira seria descarregada no informante. — Minha filha e eu estávamos conversando, senhor. — Avery pigarreou, embaraçado. — Não tinha nada a ver com o senhor. — Tudo que diz respeito a minha esposa me interessa, prefeito — disse lorde Saxton, quase cortesmente. — Temo que minha afeição por ela me faça um pouco superprotetor. O senhor compreende, não é?


Avery fez um gesto afirmativo, sem ousar dizer nada contra ela, pois certamente aquele homem não receberia bem suas palavras ou sua opinião.

Capítulo Vinte e Dois O REMORSO pode ser uma grande inconveniência, especialmente quando o que fizemos ou deixamos de fazer pode ter conseqüências muito sérias. Erienne não confiava no pai, e se ele revelasse o que sabia ao xerife ou a qualquer outra pessoa a vida do seu amado estaria em perigo. Começava a pensar que fora precipitada quando negou o pedido de Avery. Todos sabiam que um bom pedaço de carne podia fazer calar os uivos de um cão. Tomando uma decisão, Erienne escolheu um vestido de seda azul cintilante, com uma fileira de botões na blusa, desde a gola alta até a cintura em ponta. Pediu a carruagem e foi procurar o marido para informá-lo de que ia visitar a família. Christopher estava examinando a contabilidade das suas terras, mas afastou os livros e papéis e a recebeu com um beijo longo e ardente, para lembrar que ia esperar ansiosamente pela volta dela. Rindo, Erienne murmurou uma promessa provocante no ouvido dele e, com um suspiro e um beijo atirado na ponta dos dedos, caminhou para a porta. Ele admirou o meneio do corpo dela e, a contragosto, voltou aos números dos livros. A primavera pincelava com cores novas os campos do norte. As colinas estavam mais verdes, o céu mais azul, as águas dos regatos e riachos mais claras sobre os leitos de pedra. Flocos de nuvens brancas deslizavam no alto, levados pela brisa leve, que ondulava a relva nova e verde. Era um belo dia para passear, e Erienne esperava que não fosse estragado por sua visita ao pai. A ansiedade que a atormentava desde a partida do pai de Saxton Hall, na semana anterior, diminuía à medida que ela se aproximava de Mawbry. A carruagem atravessou a ponte de madeira, e Tanner parou na frente da casa. O cavalariço desceu rapidamente, pôs a banqueta no chão e abriu a porta. Erienne imaginava ainda a casa do modo que a deixara. Porém, embora poucos meses tivessem se passado, a fachada lhe pareceu estranha. O pequeno jardim não estava tratado e as hastes secas, com as flores mortas, eram uma triste lembrança da antiga beleza. Erienne pediu a Tanner para esperar e aproximou-se da porta, tirando o capuz da capa, que cobria seus cabelos. Parou no degrau, com a mão erguida para bater, lembrando o momento de êxtase da primeira visita de Christopher, quando pensou que ele era um pretendente à sua mão. Sorriu com a lembrança. Comparado aos homens escolhidos por seu pai, ele era um perfeito cavalheiro de sonhos. Bateu de leve e ouviu passos dentro da casa. A porta foi aberta, e Avery apareceu. A longa camisa de dormir estava enfiada descuidadamente na calça larga, sustentada por suspensórios puídos, e Erienne sentiu o cheiro forte de suor e cerveja. A surpresa logo foi substituída por uma expressão maliciosa no rosto que há dias não era barbeado. — Lady Saxton! — Recuou e com uma mesura zombeteira disse: — Por favor, entre em minha humilde casa. Erienne entrou, observando a desordem. Era evidente que o pai nem tentava manter


a casa limpa e arrumada. — Veio me visitar, ou procura Farrell? Ele foi a York e só Deus sabe quando vai voltar. — Vim falar com o senhor, meu pai. — Oh? — Avery fechou a porta e olhou para ela, como se não pudesse acreditar. — Estive pensando sobre aquele assunto. — Tirou uma bolsa de debaixo da capa. — E embora eu deteste a idéia de ser ameaçada resolvi conceder uma pequena mesada para o seu conforto. — Muita generosidade sua! — Ele riu com desprezo, entrando na sala. Servindo-se de uma dose de bebida, disse, por sobre o ombro: — É estranho que tenha vindo hoje. Erienne se sentou, depois de tirar uma camisa usada da cadeira. — Estranho por quê? — O xerife esteve aqui. — Oh? — Exclamou ela, esperando para saber o que Allan Parker queria. — Isso mesmo. — Avery foi até a janela e olhou para fora, dizendo pensativo: — Tivemos uma longa conversa. Parece que lorde Talbot está aborrecido comigo por causa de umas coisas sem importância e quer me demitir. Erienne ficou calada. Ele continuou: — Procurando algum modo de evitar isso, pensei que, se eu e o xerife trouxermos seu amante para ser enforcado na frente do povo, lorde Talbot estaria disposto a me perdoar. O medo enterrou suas garras no coração de Erienne e foi em tom de desalento que ela perguntou: — O que o senhor fez, meu pai? Avery deu alguns passos e parou entre ela e o hall. Ergueu os ombros. — Contei a Allan Parker o que eu sabia... sobre você e seu amante, quero dizer. — Como pôde fazer isso? — Erienne levantou-se, ofendida. — Como teve coragem de trair a própria filha? Avery bufou com desprezo. — Você não é nada minha, menina. Com uma expressão abafada, Erienne levou a mão ao pescoço. — O que está dizendo? Com as pernas separadas, Avery cruzou os braços sobre o peito. — Você não é minha filha. É filha daquele irlandês. Erienne balançou a cabeça, atônita. — Minha mãe jamais o trairia com outro homem. O prefeito riu com desprezo. — A semente já estava crescendo quando conheci sua mãe. Ela se apaixonou pelo homem, casou com ele contra a vontade da família e menos de quinze dias depois ele foi enforcado. Sua mãe fez questão de me contar a verdade, antes de casar comigo, mas durante todos esses anos tenho desejado que ela jamais me tivesse dito nada. Foi uma coisa difícil de engolir. Eu só podia pensar na minha mulher nos braços daquele homem. — com um esgar de desprezo, continuou: — Ela nunca deixou de amá-lo. Eu via como olhava para você, que é a imagem perfeita dele.


— Se conheceu minha mãe depois que meu pai foi enforcado — disse Erienne, como se fosse difícil para ela compreender o que o pai estava dizendo —, como podia saber... — Como ele era? — Avery terminou a frase. Riu com amargura. — Sua mãe nunca soube, mas fui eu quem deu a ordem final para enforcar o homem. — Ergueu os ombros, ante o olhar incrédulo de Erienne. — Eu não conhecia sua mãe então, mas isso não teria me impedido de dar a ordem. O homem era arrogante e dizia que era um lorde e não o bastardo que realmente era. Eu o vejo ainda caminhando na frente dos guardas, como se a morte fosse uma brincadeira. Ok, ele era bonito, com cabelo preto e olhos azuis. Era alto e elegante como seu amante. Um homem como eu jamais conseguiria tirar uma mulher dos seus braços. Sua mãe chorou por ele durante toda a vida. Quando você nasceu, eu via alegria nos olhos dela. Você era dele, sem dúvida, não tinha nada de mim. Riordan O’Keefe, o homem que me tem atormentado todos esses anos. Erienne franziu a testa, depois perguntou, com um sorriso: — E o senhor, meu pai... não, nunca mais o chamarei de pai. De agora em diante, vou chamá-lo de qualquer outro modo. — Começou de novo: — E o senhor tem me atormentado durante todos esses anos. — Eu? — Avery balançou a cabeça, confuso. — O que quer dizer, menina? — Talvez nunca venha a comprender, mas tirou um grande peso dos meus ombros. Durante todos esses anos pensei que tinha seu sangue e estou muito feliz por saber que não é verdade. — Guardou a bolsa de dinheiro e aproximou-se com os olhos nos dele. — Quero lhe dar um aviso, prefeito. Não serei tão magnânima quanto minha mãe. Se insistir em enforcar Christopher agora, eu viverei para vêlo enforcado, ao lado de muitos outros. Avery perguntou a si mesmo onde Erienne encontrara tanta coragem. com um calafrio na espinha, compreendeu que ela falava sério. — vou lhe dar um conselho, em troca de seus cuidados, senhor — enfatizou as últimas palavras, com desprezo. — Se não quer ser enforcado, recomendo que fique bem longe do xerife Parker e dos seus amigos. — E pode dizer por quê? — perguntou ele, ofendido. — Talvez seu lorde Saxton arranje uma posição confortável para um pobre velho. Depois que a história for contada, acha que ele vai ouvir ainda sua mulher? Por que vou abandonar meus amigos para seguir o conselho de uma adúltera? O olhar de Erienne o gelou até os ossos. — Eu o avisei. Faça como quiser. Allan Parker não tem amigos, e pode aprender alguma coisa nova sobre cordas antes que tudo isto chegue ao fim. — E o que ele vai aprender, lady Saxton? — perguntou uma voz atrás dela. — Quem vai me ensinar mais sobre cordas? Erienne voltou-se rapidamente e ficou imóvel, vendo Allan Parker na porta da sala. Dois capangas estavam com ele. A porta da cozinha bateu, e ela sobressaltou-se. Lembrou-se do cruel terror do assalto que vira naquela noite e o sorriso quase gentil do xerife transformou-se num esgar de ódio. Erienne girou o corpo para fugir, mas ele a segurou com mãos fortes. A mão do homem tampou sua boca antes que ela pudesse gritar por socorro. Um dos homens arrancou o cordão da cortina, Parker pôs uma mordaça na boca de Erienne e amarraram suas mãos na frente do corpo. O xerife a atirou para uma


cadeira e apontou para a porta. — Fleming, livre-se da carruagem e do cocheiro — ordenou. — Mande o homem para casa. Diga que ela vai passar o dia aqui. Avery estava preocupado com a bolsa de dinheiro, temendo que os outros a encontrassem. — Não vai machucar minha filha, vai? — É claro que não, Avery. — Parker passou a mão pelo ombro dele e o levou até a porta, explicando: — Mas com esta isca podemos apanhar o Sr. Seton. Isso vai melhorar nossa posição com Talbot, não vai? Avery fez um gesto afirmativo, animado com a perspectiva, e abriu a porta. Depois de pigarrear, chamou: — Alô, Sr. Tanner. — Sim, senhor? — Ah... minha filha quer passar o dia comigo. Disse que o senhor pode voltar para casa. Tanner e o cavalariço entreolharam-se preocupados e, franzindo a testa, o cocheiro aproximou-se da casa. — Lorde Saxton me deu ordens para tomar conta da sua senhora. Devo esperar por ela. Avery deu uma risada. — Não se preocupe, rapaz. Ela estará a salvo com o próprio pai. — Indicou a estalagem. — Tome uma cerveja ou rum para aquecer um pouco. Mande pôr na conta do prefeito e eu mandarei lady Saxton para casa antes da noite. Agora, vá. Tanner relutou, mas não podia discutir com Avery. Subiu para a boléia, estalou a língua e partiu, Passou pela estalagem sem parar e assim que saíram de Mawbry pôs os cavalos a galope. Avery voltou para a sala, evitando os olhos de Erienne. O rosto dela, acima da mordaça, estava corado e os olhos ardiam de fúria. Parker olhou para a prisioneira, esfregando o queixo, pensativo. — Lady Saxton é, afinal, amante de um criminoso e adúltera. Isso é motivo suficiente para mantê-la presa, e enquanto isso faremos com que o Sr. Seton saiba que ela está em nossas mãos. Isso o trará para nós. Chamou os homens. — Você, Vá alugar a carruagem. Diga ao cocheiro que não vamos precisar dos seus serviços e que voltaremos antes do anoitecer. — Pôs algumas moedas na mão do homem. — Ele vai ficar satisfeito com isso. — Quando o homem ia saindo, disse: — E procure arranjar um cavalo decente. Olhou outra vez para Erienne. — Não se preocupe, minha senhora. Está tão segura aqui quanto em sua casa. — Riu, vendo a dúvida nos olhos dela, e assegurou: — Pelo menos até lorde Talbot voltar da sua viagem de negócios. Então temo que terá de usar seus próprios recursos. Erienne olhou furiosa para ele, depois virou o rosto, ignorando-o completamente. Podia estar presa e amarrada, mas não estava morta, e prometeu a si mesma dar a eles o maior trabalho possível.


Os estalos de madeira e juntas soltas anunciaram a chegada da carruagem de aluguel. Depois de olhar pela janela, Parker ergueu Erienne por um braço. — Venha, minha senhora. Eu a acompanho até a sua carruagem. Avery interpôs o corpo gordo entre os dois. — Bem, Parker, ah. Ela tem uma bolsa. — Estendeu a mão e esperou. O xerife olhou para ele e disse com um sorriso: — Seria capaz de roubar da sua própria filha? Tss, tss, Avery, como pode fazer isso? Tome, fique com a minha, se está precisando. — Pôs uma bolsa muito mais leve que a de Erienne na palma ávida do prefeito. Sopesando a bolsa, Avery franziu a testa. — Tenho muito mais do que isto a receber. Ora, lorde Talbot está me devendo três meses, contando com este. Além dos serviços dos últimos dias. — Entrecerrou os olhos cobiçosos, — Sim, ele me deve muito mais do que isto. — Esse dinheiro pode pagar seu rum por muitos dias. — Parker deu de ombros. — Pode resolver isso com lorde Talbot, quando ele voltar. Eu providencio seu encontro com ele, — Continuou, com um largo sorriso: — Suponho que sabe quem vai aparecer quando lady Saxton não voltar para casa esta noite. Se fosse você, Averi, eu faria uma visita a Wirkinton, Carlisle ou outro lugar qualquer, bem distante daqui. O xerife tocou a aba do chapéu com as pontas dos dedos e, cobrindo a cabeça e o rosto de Erienne com o capuz, saiu com ela da casa. Quando estavam ainda no jardim, ela pisou com força com o salto do sapato no pé dele. Antes que ele tivesse tempo de reagir com algo mais do que um rosnado de dor, ela ergueu as mãos amarradas e atingiu, com um golpe violento, o pomo-de-adão do xerife. Sem poder respirar, o homem cambaleou para trás com a mão no pescoço. A tentativa de fuga de Erienne foi interrompida pelo homem que saiu da casa atrás do xerife. Agarrando-a por trás, ele a levantou do chão e atirou-a para dentro da carruagem. Erienne caiu sobre o banco e estendeu as mãos para a maçaneta da porta oposta, mas o homem a segurou outra vez, puxando-a para ele. Mas ela não desistira ainda. Voltando-se no banco começou a atacá-lo com pontapés, sem escolher o lugar que acertava. Então, ele estendeu o braço, o punho fechado colidiu com o queixo dela, e Erienne desmaiou. Ainda com a mão no pescoço, Parker olhou em volta e, aliviado, viu que não havia ninguém por perto. Entrou na carruagem, sentou-se ao lado da mulher desmaiada e fechou as cortinas. A carruagem partiu seguida pelo auxiliar do xerife, montado e levando pela rédea mais dois cavalos. Avery bateu a porta da casa e foi para a cozinha, ainda sopesando a bolsa de dinheiro. Lembrou da fatia de toucinho defumado que vira na despensa e sua boca encheu-se de água. Tinha muito tempo para saciar a fome antes de fugir. Parou de repente, com os olhos arregalados quando lembrou que o xerife levara a única carruagem da cidade. —- Como vou sair de Mawbry, se não tenho montaria? — Tente ir a pé. Avery olhou para a porta da cozinha paralisado de medo quando viu o homem com botas altas vestido de cinzento, Seus joelhos começaram a tremer, e então ele reconheceu o filho. — Farrell! Você quase me matou de susto. — Atirou a bolsa para o alto e a aparou na mão, — Está vendo isto, meu rapaz? Encontrei um modo de mudar a nossa sorte, e


tem muito mais no lugar de onde veio este. — Eu ouvi, meu pai — disse Farrell, com desprezo. — Vi o xerife e seus homens parados na nossa porta e ouvi., o bastante. — Ora, ora, Farrell, meu rapaz — disse Avery, — Nossa desgraça acabou, mas vou precisar do seu cavalo... — O senhor a vendeu outra vez — disse Farrell, secamente, ignorando o pedido do pai. — E desta vez por uma ninharia. — vou ter muito mais, meu rapaz. Muito mais! Farrell olhou para ele, vendo o pai sob uma luz bem diferente. — O senhor roubou mesmo no jogo com Seton, não roubou? — Bem, o homem não precisava do dinheiro. — A voz de Avery estava chorosa. — Ele tinha tanto e nós tão pouco... — Então deixou que eu me batesse num duelo sem honra, pouco se importando com o que podia acontecer. — Olhou para o braço direito imóvel. — Um acerto de contas com o ianque estava muito abaixo do seu orgulho. — Eu não tinha dinheiro para pagar o homem! — Então, vendeu Erienne em leilão! — Os lábios de Farrell crisparam-se com repugnância. — Sinto náuseas só em pensar que tomei parte nisso. — Não me sinto melhor do que você, meu rapaz, mas era o único modo. — Então, o senhor a vendeu naquela ocasião. E a vendeu outra vez hoje. Sua própria filha! — Minha não! — gritou Avery, querendo que o filho compreendesse. — O quê? — Farrell aproximou-se, parando à distância de um braço do pai e os olhos, tão parecidos com os de Avery, fervendo de fúria. — Ela nunca foi minha! Sempre foi a filha de um irlandês rebelde. — Ela é minha irmã! — gritou Farrell. — Só meio-irmã — insistiu Avery. — Não está entendendo, rapaz? Sua mãe dormiu com um bastardo irlandês e eles fizeram um filho! Erienne é filha dele! Não minha. A fúria de Farrell cresceu. — Minha mãe não era dessa laia — Oh, ela casou com o safado, isso é verdade — disse Avery, — Mas, mesmo assim, você não compreende, você e eu... somos do mesmo sangue. Você é meu! com uma expressão de desprezo, Farrell disse: — O senhor nos vendeu... minha mãe, minha irmã... e eu... todos nós vivemos na pobreza por causa de seu gosto pela bebida e pelo jogo. — Eu o criei nos meus joelhos — protestou Avery. — E mostrei a você boa parte da boa vida. Eu o carreguei para casa de madrugada quando estava bêbado demais para ficar de pé. — Nos últimos meses, Erienne fez muito mais por mim do que o senhor jamais pensou em fazer! — acusou Farrell. — Ela me deu compreensão... e amor... e a vontade de me apoiar nos meus próprios pés... e a força para deixar de sentir pena de mim mesmo e de culpar os outros pela minha desgraça. — Você está a favor dela e contra seu próprio pai? — rugiu Avery. — Não o considero mais meu pai! — com voz mais suave e uma calma fria, ele continuou: — vou deixar esta casa e morar em York, onde vou me casar. O senhor não será bem-vindo nem ao casamento nem à minha casa. Agora eu o deixo para


fazer o que quiser. — Mas, rapaz, eu preciso de um cavalo. Lorde Saxton logo estará aqui... Farrell fez um gesto afirmativo. — Sim! Lorde Saxton logo estará aqui. Se eu fosse o senhor, procuraria um buraco bem fundo para me esconder. — Deu meiavolta, e atravessando a cozinha disse: — bom dia, senhor! Avery encheu a barriga, calçou as botas e vestiu o casaco sobre a roupa amassada. Levantou bem a gola para esconder o rosto e saiu de casa, com a magra sacola de dinheiro no bolso. Levou um garrafão de cerveja e o resto do toucinho embrulhados, pois não sabia quando ia poder voltar para casa. O tempo estava agora frio e ameaçador, como se um mau presságio tivesse roubado o calor do sol de primavera, embora fosse ainda pouco mais de meio-dia. Andou sem destino, por algum tempo, e depois parou na ponte. Certificando-se de que ninguém o via, atravessou-a e saiu rápido da estrada. Voltou, passando por baixo da ponte, e entrou na moitá espessa na margem do regato, parando brevemente no lugar em que tinham encontrado Timmy Sears. Sentiu o cabelo eriçar na nuca, pois todos diziam que ele fora morto por Christopher Seton. Se fosse verdade, e se aquela mulher estava carregando o filho dele, o ianque podia sair à procura do homem que a vendera outra vez. Era outra preocupação para Avery. Diziam que o velho Ben Mose tinha uma cabana rústica em alguma parte do mato alto, acima da cidade. Se pudesse encontrá-la, esperaria passar a fúria de Seton e de lorde Saxton e poderia então conseguir uma boa posição com lorde Talbot. Farrell Fleming entrou a cavalo na última curva da estrada antes de Saxton Hall e esporeou o animal. A carruagem estava na entrada, na frente da casa, os cavalos cobertos de suor da disparada a que Tanner os obrigara. Um cavalariço puxava o landau, e Keats, subindo rápido para a boléia da carruagem, sacudiu as rédeas e conduziu os animais para o estábulo, para arranjar lugar para o landau. Farrell puxou as rédeas do seu cavalo ao lado do landau e saltou para o chão quase antes do animal parar. Praticamente atirouse contra a porta da mansão e a abriu, quase derrubando Paine, que estendia a mão para a maçaneta. — Lorde Saxton... — ofegou Farrell, vendo o homem que procurava claudicando no hall. Bundy e Tanner estavam atrás dele, tentando acertar o passo com o patrão. — Não tenho tempo agora, Farrell — disse lorde Saxton, diminuindo um pouco o passo. — Erienne foi visitar seu pai e não voltou com a carruagem e estou preocupado com sua segurança. Preciso ir. Bundy e Tanner passaram pelos dois e subiram para a boléia do landau. Lorde Saxton deu um passo, mas Farrell segurou o braço dele. — Ela não está lá, senhor. — O quê? — O senhor da mansão parou, e a máscara negra voltou-se para o jovem. — O que disse? — A voz tinha perdido a rouquidão habitual, mas ecoou cavernosa, dentro da máscara. Farrel soltou o braço dele e passou a mão na testa. — Por mais que me custe dizer isto, senhor, o prefeito entregou Erienne ao xerife. Lorde Saxton rosnou furioso: — Eu devia ter matado aquele... — com espantosa agilidade, fez meia-volta e ergueu


a bengala como uma espada, na frente do corpo. — E Talbot? Onde ele está? — Acho que ouvi o xerife dizer que está viajando. — Para onde a levaram? — Não sei — respondeu Farrell. — Para que lado foram? — Eu sinto muito — disse Farrell, timidamente. — Eu estava na cozinha e não vi. Por um momento, lorde Saxton balançou a cabeça como um touro raivoso à procura de um inimigo invisível. Então gritou para a porta. — Bundy! O homem saltou da boléia e entrou correndo. — Sim, meu senhor? — Mande homens com cavalos velozes a Carlisle, Wirkinton, ao cruzamento das estradas, em todas as direções. Quero que procurem saber notícias de... — Voltou-se para Farrell, que se apressou a responder, sem esperar a pergunta: — A carruagem de aluguel. Eles a levaram, sem o cocheiro. — Tanner! — Sim, meu senhor? — Ele já estava na porta. - Não vou sair agora. Prepare a carruagem e esteja pronto para partir a qualquer momento. — Sim, meu senhor! — Bundy. Preciso escrever algumas cartas. Ponha guardas nas estradas de Saxton Hall e fique preparado para partir a cavalo. — Caminhou para o salão principal, acompanhado de perto por Farrell. — O que posso fazer para ajudar, senhor? Ela é minha irmã. Preciso fazer alguma coisa. — Vai fazer, Farrell — garantiu lorde Saxton. — Quero que vá a Wirkinton, procure o capitão Daniels, no Cristina, e entregue uma carta a ele. — Mas é o navio de Seton. Como... — Farrell estava confuso. — Para que vai querer ajuda do ianque quando Erienne... quero dizer... — Não encontrou palavras para terminar a frase. Se lorde Saxton ignorava a infidelidade da mulher, Farrell não queria ser o primeiro a contar. — É claro que eu vou. Qualquer coisa para ajudar. Passando para a sala ao lado do salão, lorde Saxton sentou-se à mesa, apanhou pena, tinta e papel e ficou imóvel por um momento. De repente, recostou-se na cadeira com um rugido: — Avery, aquele maldito idiota! Vai ter muita sorte se eu não arrancar cada pedacinho da pele dele! — Só então, lembrando a presença de Farrell, olhou para ele. — Desculpe-me, Farrell. Não tive intenção de insultá-lo. — Fique descansado, senhor — disse Farrel, tristemente: — Eu me antecipei ao senhor. Não reconheço mais o prefeito como meu pai. Nas horas seguintes uma corrente se formou nas terras dos Saxton que só foi conhecida por lorde Saxton algum tempo depois. Bundy percorreu várias fazendas escolhendo os homens para ficarem de guarda nas suas terras, para o que fosse preciso. Nenhum recusou seus serviços, e Bundy recomendou que não dissessem nada a ninguém para não prejudicar mais a situação de lady Erienne. Porém, no fim da tarde, não havia quem não soubesse o que acontecera à senhora da mansão. Enquanto os homens limpavam os mosquetes e afiavam as foices, as mulheres


resolveram levar suas carroças a todos os povoados, cidades e mercados aos quais podiam ir e voltar com um dia de viagem. Juraram que não permitiriam que seu amo fosse expulso do lugar que lhe pertencia. Erienne voltou a si aos poucos. Primeiro foi a sensação de frio e desconforto, depois uma pressão nos pulsos e na boca. Ergueu a cabeça e viu que estava deitada numa esteira de palha sobre o estrado de uma velha cama, com um cobertor solto dos lados. Completamente desorientada, não conseguia reconhecer nada do que a rodeava. Grandes pedaços de argamassa tinham saído das paredes de pedra, e o que restava das janelas não era suficiente para deter o vento. Uma mesa e uma cadeira pareciam ter sido jogadas num canto. A porta pesada com a portinhola com barras de ferro parecia ser o único acesso ao quarto, mas não tinha maçaneta. Ao lado da porta ficava o cubículo com a privada, com a porta dependurada numa dobradiça. Erienne ergueu o corpo, apoiada no cotovelo, e o quarto girou acompanhando uma dor latejante na cabeça. Lembrou do que tinha sentido quando caiu do cavalo no regato. E logo viu a imagem de Christopher, saltando do cavalo com a capa aberta e entrando na água, indiferente ao frio, para erguê-la nos braços fortes. Lembrou do calor do corpo dele e do cheiro masculino tantalizador que a perseguia durante os meses passados com lorde Saxton. Sua mente clareou, e ela compreendeu a seriedade da sua situação. Era uma prisioneira e não sabia o que pretendiam fazer com ela. Certamente exigiriam Christopher em troca de sua liberdade. Se isso acontecesse, duvidava que os dois tivessem muito tempo de vida. com esforço, sentou-se na beirada da cama e, levando as mãos à mordaça, começou a desfazer o nó que lhe machucava o rosto. Estremeceu quando conseguiu abaixá-la e o pano roçou por um ponto dolorido. Jogou a mordaça para longe e com os dentes puxou as cordas dos pulsos. Quando libertou as mãos, massageou os pulsos vermelhos. Um balde com água limpa, perto da janela, serviu de espelho para examinar a contusão no rosto, e ela mexeu o queixo de um lado para o outro, para verificar a gravidade do golpe. Parecia estar em ordem, mas duvidava de poder suportar outra agressão igual sem que seus ossos se partissem. Passos pesados na escada de pedra no outro lado da porta anunciaram a chegada de visitantes, e Erienne endireitou o corpo para esperar o carcereiro. A chave girou na fechadura, com um estalo a pesada porta se abriu para dentro, e Allan Parker entrou, seguido de perto por um homem com uma bandeja onde havia um prato coberto e a metade de um pão preto. — bom dia, minha senhora — disse Parker, bem-humorado. — Espero que tenha dormido bem. — Ignorando o olhar furioso de Erienne, o xerife chegou muito perto dela e examinou a contusão arroxeada, logo acima do queixo. — Fenton precisa ter cuidado com sua mão pesada. Ele é muito bruto para tratar de coisas delicadas. Erienne simplesmente virou o rosto, negando a ele qualquer resposta. O outro homem endireitou a mesa e pôs a bandeja sobre ela. Obedecendo ao leve sinal de Parker, ele saiu, fechando a porta. — Ora, Erienne — disse Allan. — Não me ignore. Sabe que sempre gostei de você e sinto vê-la maltratada por força das circunstâncias. Certamente vai ficar aqui por algum tempo, até conseguirmos pegar aquele Seton. Erienne finalmente olhou para ele. Isso a interessava.


— Pensa que Christopher vai ceder a um bando de assassinos e ladrões? — O que está dizendo, madame? — Allan fingiu surpresa. — Estamos dentro da lei. Christopher Seton é o assassino, e a senhora é sua amante. — Você faz parte do bando de assassinos que há anos assola esta região! — acusou ela. Ele ergueu as sobrancelhas. — Um homem precisa sobreviver, madame. — Sobreviver! Chama a isso sobreviver? — Olhou em volta com ironia, — Escondendo-se como coelhos assustados? — Só até apanharmos o falcão, madame — respondeu ele, com calma. — Sentimos suas garras muitas vezes e não confiamos nele, e agora temos a isca que o trará para as nossas mãos. — Christopher jamais cairá na sua armadilha! Ele sabe que isso significará sua morte e talvez a minha. Vocês não tolerariam nenhum de nós no seu meio. — Seton, certamente, mas não a senhora! A senhora, bela Erienne, é uma coisa muito diferente. — Passou a mão no cabelo dela, mas a retirou quando Erienne virou a cabeça, evitando seus dedos. — Peço que considere sua situação. Lorde Talbot estará de volta dentro de poucos dias, e acredito que sua persistência vai ser muito inconveniente para sua reserva. Nem eu posso negar qualquer coisa a ele. O poder dele se estende a regiões muito além desta. E existem outros. Erienne ergueu a sobrancelha, numa pergunta silenciosa. — Os homens abaixo de nós — explicou ele. — Acreditam que a mulher só tem uma missão na vida e procuram diligentemente fazer com que ela seja cumprida. Têm uma tendência para a brutalidade e, embora sejam valentes numa luta, não são grande coisa como amantes. — Então, estou encurralada entre o lorde lascivo e afetado e a alcatéia de lobos famintos. — Riu com desprezo. — Não sei qual é pior. — Há outro porto de fuga, minha senhora. — Olhou para ela, com um sorriso. — com um pouco de incentivo, posso arranjar para Talbot uma boa mulher, capaz de saciar seus apetites a ponto de ele só desejar ficar bem longe da senhora. Quanto aos meus homens, não ousarão ultrapassar os limites impostos por mim. Para isso, basta me dar o que deu a Seton. Quero deixar claro que, se eu quiser, posso tomar sem pedir. Erienne lançou a cabeça para trás e disse, com sarcasmo: — Sim! Eu vi como preparou a jovem Becker. com uma breve expressão de surpresa, ele ignorou a observação. — Meus homens perdem facilmente o controle. É claro que ela não teria sobrevivido àquela noite. Nem a senhora, se eu a entregar para eles. — Sorriu outra vez. — Deve agradecer por eu a desejar para mim. O olhar de Erienne teria derretido o maior bloco de gelo do mar do Norte. — E pensa que é homem bastante para tomar o lugar de Christopher? — Já provei minha capacidade com várias senhoras — respondeu ele. — Não tenho dúvida nenhuma a respeito da minha habilidade. Posso ser muito carinhoso com uma mulher que possua seu encanto e sua graça. — Carinhoso! — Ela riu desdenhosamente e levou a mão ao rosto. — Se isto é uma amostra do seu carinho, senhor xerife, eu não gostaria de experimentar sua raiva. — Peço desculpas por isso, querida Erienne. Fenton foi avisado de que sua fuga não


seria tolerada. Procurando bem servir, ele escolheu o caminho mais rude, e também o mais simples, para garantir o êxito da sua missão. Se me disser o que precisa, terei o maior prazer em atendê-la... como recompensa, é claro. — Oh, bondoso senhor — zombou Erienne —, sua atenção me comove. Minhas necessidades, é claro, são muitas. Alguns pedaços de pano para tampar as janelas, uma ou duas toalhas para me lavar e uma bacia. Uma vassoura, escovas e uma pá para tirar o lixo. — com um gesto, indicou as folhas e a terra que se espalhavam sobre o chão de pedra. — Um grupo de criados podia limpar este lugar com quinze ou trinta dias de trabalho, mas como isso não é possível eu mesma me encarregarei disso. Um cobertor limpo e roupa de cama seriam também interessantes. — Farei o possível, minha senhora — disse ele, rindo. — Nesse intervalo, há alguma possibilidade de considerar a minha sugestão? — Sim, uma possibilidade. — Balançou a cabeça afirmativamente e depois olhou para a janela e disse: — Tanto quanto a de um homem voar até a a lua e me trazer um pedaço dela. Allan Parker olhou por alguns momentos as costas de lady Saxton, admirando a linha perfeita, com a certeza de que, com o tempo, ela ia mudar de opinião. Quando ele saiu e fechou a porta, Erienne ouviu a tranca de ferro sendo abaixada no lado de fora. Começou a andar de um lado para o outro, sem encontrar alívio para sua ansiedade. Rezava para que Christopher ignorasse o desafio e permanecesse escondido atrás do seu disfarce de lorde Saxton. Erienne não queria viver sem ele, e enquanto soubesse que estava vivo teria esperança de ser libertada algum dia. Sem nada melhor para fazer, experimentou o guisado, mas a carne de veado estava fresca demais para seu gosto. Erienne comeu porque precisava conservar as forças e as do filho que carregava. Durante muitos meses, ia carregar aquela carga preciosa, feliz pelo fato de ter uma parte de Christopher dentro do seu corpo. Pensou num menino ou numa menina com o cabelo avermelhado do pai e olhos que refletiam a luz. Alimentaria a criança no peito, pensando em Christopher, o homem que ousara roubá-la bem debaixo dos narizes de todos que o odiavam. Ele faria isso outra vez? Levantou a cabeça de repente, e por um momento sua serenidade se evaporou. Ele viria. Era esse seu modo de agir. — Oh, por favor, não — gemeu ela. — Por favor, não permita que ele venha. Por favor. Não poderei suportar sua perda! Voltou para a cama e enrodilhou o corpo sobre a esteira de palha, sem coragem de pensar na possibilidade de perdê-lo. Tentou dormir, para esquecer seus temores, mas não conseguiu. A chave girou na fechadura, e ela levantou-se com uma exclamação abafada, esperando ver o xerife com mais exigências. Ficou surpresa quando viu Haggard. — Seu perdão, senhora. — Ele inclinou a cabeça despenteada. — O xerife me mandou trazer alguma coisa para a senhora. Admirada, Erienne o viu enfiar uma porção de trapos nas janelas. Bem-intencionado, ele apanhou uma velha vassoura e começou a varrer o chão, mas levantou tanta poeira que Erienne teve um acesso de tosse e pediu para ele parar. Desapontado, ele limpou as mãos nas pernas da calça e foi embora. Outro prato com o mesmo guisado de veado, com a outra metade do pão preto, foi servido na hora do jantar. Erienne conseguira tornar a cela mais apresentável, mas


era impossível fazer grande coisa naquele lugar. Haggard levou meia dúzia de velas curtas e grossas e um estojo com isca e pederneira para acendê-las. A noite estava chegando quando ela terminou de comer e acendeu duas velas, uma na mesa, a outra na cabeceira da cama. A luz dava ao quarto muito antigo uma aparência fantasmagórica, quando a noite desceu e um clarão avermelhado pintou o céu no oeste. Erienne começou a sentir frio e se deitou, enrolada na sua capa e no cobertor. A solidão e o desespero afastavam o sono. Erienne procurou se animar fazendo alguns dos jogos mentais da sua infância, mas não lembrava mais muito bem deles. Nada podia desviar-lhe a atenção do medo que sentia e lenta e inexoravelmente voltou os pensamentos para seu íntimo. Fechou os olhos e imaginou os braços do marido em volta dela, os beijos acendendo sua paixão. Estremeceu e puxou o cobertor para o queixo, lembrando as duas semanas de felicidade completa que tinham vivido. Ansiava pelas carícias das mãos dele e pelo calor do seu corpo, que a aquecia e excitava. Como demônios negros da noite, a dúvida e o medo apareceram para atormentá-la, solapando sua força e sua vontade. As lágrimas subiram copiosas aos seus olhos e os soluços estremeciam seu corpo, enquanto ela procurava desesperadamente se agarrar a um fio de esperança. Então, sentiu o toque tranqüilo no fundo da consciência e como a maré vazante o peso caiu dos seus ombros. Enquanto houvesse vida, havia esperança. O cansaço e a tensão daquele dia a dominaram, e lentamente, passo a passo, foi invadida por uma sensação de paz e suas defesas desmoronaram, dando passagem ao sono abençoado. Sentado à sua mesa, lorde Saxton cumpria mecanicamente seus deveres de senhor de Saxton Hall. Impaciente, esperava alguma notícia da sua mulher. Mas nenhuma chegou, e o senhor da mansão sentou-se em silêncio para a refeição da noite, enquanto Aggie torcia as mãos e se agitava porque ele não estava fazendo nenhum esforço para comer ou para conversar, respondendo apenas laconicamente às suas perguntas. Quando viu Bundy de volta, Christopher se animou, mas voltou à impaciência e ao desespero, quando soube que o criado não tinha nenhuma notícia. Disse apenas que todas as suas ordens estavam sendo cumpridas. Atormentado com a solidão, Christopher convidou o criado para jantar com ele, mas o resultado não foi o que esperava. Os dois já haviam comido juntos muitas vezes, em várias circunstâncias, mas Bundy estava agitado demais, diante da impossibilidade de fazer alguma coisa pelo amo. Foram momentos dolorosos para ambos, e, quando achou que se demorara o bastante para não ser indelicado, Bundy pediu licença e saiu para verificar os guardas e todos os que procuravam obter notícias do paradeiro de lady Erienne. Voltou perto da meia-noite e, vendo a luz da vela no quarto de Erienne, imaginou o tormento e a frustração de Christopher. Até as pedras da mansão pareciam gemer dolorosamente. Bundy não podia fazer nada. Não suportava a idéia de dizer outra vez ao seu amo que não havia nenhuma esperança, nenhuma palavra, que a busca fora infrutífera. Levou o cavalo para o estábulo e foi para a cama para descansar do longo dia. Christopher Seton, sozinho no quarto da mulher, não encontrava alívio para o peso


no seu peito. Olhou para as escovas e pentes na penteadeira e pensou no cabelo negro, brilhante e longo, que caía em cascata pelas costas dela, pedindo suas carícias. ”Até onde essa mulher me conquistou”, pensou ele. ”Prendeu minha mente e minha alma. Como um falcão, ela as roubou em pleno vôo.” Balançou a cabeça. ”Mas, ao contrário do pássaro selvagem, ela não as feriu. Não, ela as abraçou contra o peito, dando-lhes nova vida, e meu coração está a ponto de explodir. Antes de chegar a estas praias, eu jurava que meus navios eram as únicas coisas que eu podia amar, pois mulher nenhuma jamais me dera a sensação indescritível de cruzar os mares sob as velas enfunadas. Então, no caminho da missão de vingar a morte de meu irmão, encontrei aquela que me negou tudo, uma recusa sem trégua, mas que me conquistou a ponto de se tornar a essência da minha felicidade. Sem ela, os dias são vazios e as coisas sem importância.” Encostado num dos postes da cama, lembrou os momentos de felicidade que tinham partilhado. com um gesto brusco de revolta, fechou as cortinas para não ver aquele ninho de prazer. Olhou então para a banheira atrás da tapeçaria. Viu outra vez a curva dos seios e o calor do sorriso com que ela convidava suas carícias e seus beijos. Passou a mão trêmula pelos cabelos, lutando contra o impulso de ajoelhar e soluçar de agonia. A dor no peito era agora física, e começou a andar pelo quarto, procurando aliviá-la. — Sua lembrança me atormenta! — disse para as sombras negras nos cantos do quarto. — Maldição! Ela está comigo a cada momento! Como posso pensar na vida sem ela? A mera idéia gela meu coração e enche de medo minha mente, como morcegos enormes e negros, perturbando a minha paz! Não suportando mais aquele quarto, saiu para andar no corredor. Não havia ninguém para partilhar sua inquietação. Farrell fora para Wirkinton. Bundy podia estar com ele, mas estava se punindo por sua incapacidade para resolver a situação. Aggie ia se agitar e perder o controle. Vagueou pela casa, atormentado, até o relógio bater as duas horas. Foi então para o seu quarto, mas até ali a presença dela zombava da sua impotência. Deitou-se de costas na cama e olhou para o dossel, sem ousar cerrar as cortinas de veludo, temendo que sua imaginação voltasse a torturá-lo. Lenta e imperceptivelmente, o sono aliviou seu sofrimento com sonhos de cabelos escuros e sedosos acariciando seu rosto, de braços macios que o abraçavam, de um beijo, leve como uma pluma, levando-o, finalmente, ao repouso tranqüilo. A primeira luz do sol iluminou o quarto, e Christopher saltou da cama, olhando em volta, à procura do inimigo. Acordando completamente, procurou dominar a fúria que sentia. Depois de tirar a roupa amassada e de uma rápida ablução, vestiu-se. Aggie levou o café no quarto e, depois de um olhar rápido e preocupado, evitou os olhos dele. Fez uma arrumação rápida, nervosa, e embaraçada, como se algum segredo queimasse sua mente, e com uma mesura, saiu do quarto. Christopher pôs o disfarce detestado e, como lorde Saxton, desceu a escada lentamente para a rotina de Saxton Hall, Assinou vários papéis e esperou notícias da mulher. Deu uma volta pela propriedade, acompanhado por Bundy e pelo jardineiro, aprovou várias alterações propostas e esperou notícias da mulher Ouviu e julgou os argumentos de alguns conflitos entre os fazendeiros, procurando


beneficiar os dois lados... e esperou notícias da mulher. Almoçou sozinho, e um mensageiro chegou com uma carta de Farrell. O jovem dizia que seguiria para o norte a bordo do Cristina. Seria uma viagem difícil na direção noroeste, contra o vento, e deviam aportar no fim da tarde do dia seguinte. Christopher procurou alguma atividade para preencher o vazio da tarde, desejando que o tempo tivesse passado tão devagar quando estava com Erienne nos braços. com a aproximação da noite, começou a ficar irritado e impaciente com todos, mas os criados compreenderam sua frustração e desespero com a falta de notícias. Para Erienne, o dia passou quase do mesmo modo. As diferenças diziam respeito à monotonia da sua prisão. Depois da refeição matinal, que consistiu no mesmo guisado da véspera, dessa vez servido com uma coisa meio queimada que se fazia passar por pão, ela empilhou os pratos na bandeja e varreu o quarto. Lavou-se da melhor maneira possível com a água fria de um balde, usando uma vasilha rasa e sem sabonete. Procurou pentear o cabelo com os dedos, e varreu o quarto outra vez, Ficou irritada quando o mesmo guisado apareceu no jantar, agora muito mais espesso, como se tivesse passado o dia no fogo. Viu o dia morrer através dos poucos vidros intactos da janela, Os olhos encheram-se de lágrimas quando pensou que Christopher devia estar vendo as mesmas cores magníficas do pôr-do-sol, Teve certeza absoluta de que ele pensava nela naquele momento. — Oh, meu amor — disse ela, com um suspiro, enxugando as lágrimas, — Eu quero ser corajosa, por você, mas seu filho está no meu ventre. Dizem que a criança antes de nascer é marcada por situações dolorosas como esta e eu queria que nosso filho não conhecesse todo o ódio que estou enfrentando. Lembrou-se do dia, num passado distante, quando, brandindo uma espada imaginária, fizera ameaças verdadeiras na privacidade da sua casa. Olhou para a prisão, empertigou-se e segurou a espada imaginária ao lado do corpo. Erguendo a mão no melhor estilo de duelo, falou para sua audiência invisível. — Se eu fosse um cavaleiro prateado e tivesse jurado fazer justiça em nome do direito, eu atacaria este ninho de bandidos que querem caluniar seu nome. Eu os enfrentaria, um a um, com minhas armas possantes e os obrigaria a dobrar o joelho e pedir perdão, antes de cortar suas cabeças e proclamar a vitória de verdade. Parou e abaixou o braço lentamente. O momento tinha passado. As lágrimas desceram livremente pelas faces. Erienne ajoelhou-se ao lado da cama tosca e chorou. — Oh, Christopher, meu amor querido — murmurou. — Se eu fosse aquele cavaleiro, jamais teria conhecido o toque das suas mãos, sua ternura, seus braços me abraçando, seus lábios nos meus, sua carne morna e macia contra a minha, seu filho. — Depois de algum tempo, sentou-se na cama e viu a última luz do dia desaparecer na janela. — Preciso ser corajosa. — Enxugou as lágrimas com a bainha da saia. — Se for um menino, preciso ser forte para ele, se for menina, quero que conheça a força do verdadeiro amor. ”Meu querido Christopher — uniu as mãos em prece —, não quero que arrisque sua vida, mas descubra um meio de me libertar e mate para sempre o meu monstro. Eu encontrei uma rosa no inverno. Você é o meu amor precioso, prometido para sempre. Venha, meu amor, o monstro só pode desaparecer quando estivermos juntos. Christopher viu o fim do dia se aproximar com um profundo desespero. Conhecia os


espectros que a noite traria, depois de ter visto boa parte deles na noite anterior. Na extremidade do corredor da ala oeste, passou o dedo pelo caixilho de uma janela mandada fazer pelo avô e olhou a luz do pôr-do-sol tingir de rosa as nuvens baixas. Aquela luz não trazia medo, mas o temor do que sua mente podia trazer para atormentá-lo. De repente, sua mente ficou clara. Se não deixasse a mansão ia gastar suas energias com a espera que o estava destruindo. Ia à procura dos assaltantes, onde quer que estivessem, e dizimá-los e torturá-los até que um deles dissesse tudo o que ele queria saber. Então, caçaria o xerife, o atacaria como o lobo ataca o gamo. E, se sequer tivessem tocado em um cabelo da sua mulher, ele jurava, aquele homem ia pedir para morrer durante um século ou mais. A noite envolvia as colinas quando a porta externa da caverna se abriu e um homem alto, envolto numa capa longa, saiu com passos largos e decididos, levando na cinta a espada escocesa de dois gumes que conhecera a força da mão do pai. O garanhão percebeu o estado de espírito do dono e pateou e bufou, ansioso para partir. O homem montou, e a vingança cavalgou pelos campos, enquanto a lua pálida escondia o rosto para não ver o banho de sangue. A amada daquele homem fora roubada pelos inimigos e nenhum selvagem jamais viveu na terra com a fúria tremenda que lhe enchia o coração. O hálito do garanhão negro era como o de um dragão no frio ar da noite. Os cascos tiravam fagulhas das pedras. Percorreram os campos e as charnecas, as colinas e os vales, parando num celeiro vazio, sem encontrar sinal de homem ou de animal, apenas os restos de um acampamento recente. Uma caverna escondida não revelou nada sobre o paradeiro dos ladrões. — Eles se foram — rugiu ele. — Estão reunidos junto da armadilha, com uma isca à qual sabem que não posso resistir. Mas onde? Malditos sejam! Onde? Era tarde, a lua, mais baixa, continuava a se esconder atrás das nuvens, com medo da ousadia e da fúria do homem. Consumido pela raiva, ele incitava o garanhão a uma disparada louca. Eram uma sombra que passava pelos vales e colinas, voando baixo com as asas imensas de um falcão caçador em busca da presa.

Capítulo Vinte e Três MUITOS pensaram que era o velho Ben que voltava do túmulo. O homem andrajoso, escondido nas sombras, perto da porta dos fundos da Estalagem do Javali, tomava lentamente a cerveja. Não aparecia de dia, só à noite, sentava-se na cadeira do canto, em silêncio, e batia com uma moeda na mesa até Molly servir a caneca de cerveja. O homem a fazia lembrar o prefeito, mas fedia a fumaça e suor, e a barba ensebada e emaranhada desafiava qualquer identificação no canto escuro do bar. Suas moedas eram dadas com relutância, e nunca deixava uma gorjeta. Desse modo, ela não se demorava muito ao lado dele. Os olhos de Avery Fleming não descansavam um momento. Estava sempre preparado para fugir, e algum homem com capa negra o fazia lembrar lorde Saxton, ou quando uma cadeira era arrastada no chão, como o arrastar do pé deformado. A bolsa que Parker lhe dera estava quase vazia, e aos poucos morria sua esperança de que o xerife lembrasse de recomendá-lo a lorde Talbot. com Saxton e Seton atrás dele, sua vida podia acabar de um momento para o outro. Não podia saber quanto tempo levariam para descobrir o barraco no meio do mato, mas tinha certeza de que


estavam à sua procura. Na noite anterior, um cão de caça quase o matara de susto, acordando-o de um sono profundo com seus uivos e fazendo-o fugir da cabana em pânico, certo de que Saxton o encontrara. Na fuga, mergulhou nas águas lamacentas do pântano e só o frio o fez voltar à sua casa para trocar de roupa. Mas, mesmo em casa, foilhe negada a cama macia. Resolveu passar a noite sem acender a lareira ou um lampião, mas no escuro cada som o fazia tremer de terror, e várias vezes seria capaz de jurar que tinha visto aquele horrível capacete de couro flutuando para ele ou ouvido o farfalhar da capa negra ou o ruído da bota alta no tapete. Pelo menos, na cabana ele podia dormir! Um homem que ele não conhecia entrou na estalagem e, depois de apanhar uma caneca de cerveja, começou a andar pelo salão, examinando todos os fregueses, até chegar ao canto escuro. Tomou um gole de cerveja e falou só para Avery ouvir: — Fleming? Avery deu um salto, mas se acalmou quando viu que não havia perigo. — Sim. — Parker me mandou. Há um cavalo nos fundos. Ele o espera no primeiro cruzamento ao norte da cidade. O homem afastou-se e foi conversar com Molly, no bar. Avery saiu discretamente pela porta dos fundos e encontrou a montaria. Alguns minutos mais tarde, estava cavalgando para o norte, animado com a perspectiva de dinheiro na mão. Abandonaria todos para viver num lugar no sul, aquecido pelos ventos quentes do mar. Parker estava à sua espera na companhia de uns doze homens. com Christopher Seton ainda livre, ele não queria correr riscos. Avery desmontou, e os dois afastaramse um pouco do grupo, que ficou escondido num pequeno bosque de carvalhos, perto da estrada. Lembrando ainda da espada cintilante e das fagulhas dos cascos do garanhão negro, estavam tão nervosos que quase fugiram quando Avery apareceu na estrada. Avery, por seu lado, também não estava muito confiante e manteve a mão na pistola enfiada no cinto. Via ainda o grito não consumado no rosto morto de Timmy Sears e não estava convencido de que Seton era o único suspeito. Seus temores diminuíram quando percebeu que Allan Parker tinha numa das mãos uma carta e na outra uma bolsa de peso considerável. — Infelizmente, tenho más notícias para você, Avery. Lorde Talbot enviou uma mensagem de York, destituindo-o do cargo, que começou a vigorar um mês atrás. Mas não fique desanimado. Mandou pagar a você duzentas libras, o dobro do que lhe deve pelos últimos dois meses. Se usar o dinheiro com cuidado, pode sair da cidade tranqüilamente. Quanto ao pagamento pela entrega da mulher, ele não gostou da idéia de você vender sua filha... outra vez. — Mas sem ela vocês não poderiam pegar Seton! — protestou Avery. Parker estendeu para ele a bolsa com dinheiro e a carta supostamente escrita por Talbot, sorrindo satisfeito com a própria esperteza. Era verdade que Talbot estava resolvido a demitir o homem, mas sua senhoria não sabia ainda dos últimos acontecimentos, e Allan decidiu se livrar ele mesmo de Avery. Era divertido imaginar o ex-prefeito fugindo de cidade em cidade, com as mandíbulas ferozes do medo abertas nos seus calcanhares. Avery, ao contrário de Timmy, não possuía


nenhuma informação importante que pudesse prejudicá-los. — Aceite isso, Avery. É pouco provável que consiga mais. Desapontado, Avery aceitou a oferta. Esperava muito mais, mas a mão do xerife, agora descansando na coronha da pistola, o intimidou. Guardou a carta no bolso do casaco e o dinheiro no bolso do colete. — Agora, Avery, considerando a nossa amizade — Parker passou o braço pelos ombros dele —, vou lhe dar o cavalo que usou para chegar aqui e um conselho. Um dos meus homens viu um homem alto com capa negra rondando sua casa ontem à noite. — Sorriu quando Avery se sobressaltou. — O homem tinha um cavalo grande e negro e desapareceu nos pântanos. Aparentemente, estava à sua procura. No seu lugar, Avery, eu procuraria pôr uma grande distância entre minha pessoa e Mawbry, o mais depressa possível. Avery concordou plenamente. — Não voltarei para casa. com um cavalo e algum dinheiro, vou para o sul e não pretendo parar no caminho. — Muito bem, Avery. — Allan Parker deu umas pancadinhas nas costas dele. — Desejo que tenha sorte. — Esperou que o exprefeito montasse e, erguendo o braço, despediu-se. — Adeus! — Capitão — disse um dos homens, aproximando-se de Parker —, porque deu ao prefeito o cavalo do velho Charlie Moore? Sabe muito bem que quando Charlie voltar e souber que levaram seu cavalo vai matar quem estiver montado nele, com a melhor sela. Parker riu e montou no seu cavalo. — Pobre Avery. Tantos lobos estarão caçando aquele coelho miserável que ele vai evitar até mesmo erguer a cabeça acima do solo, com medo de ser apanhado. Queria saber quem vai ser o primeiro. — Os homens riram, mas Parker ergueu o braço, comandando silêncio. — Calem a boca, seus idiotas! Seton pode estar por perto, e não quero sentir suas presas na minha carne. Vamos voltar para ver como Haggard está se saindo com aquela mulher Saxton. Avery estava satisfeito, não completamente, mas o bastante para deixar Mawbry sem nenhuma pena. Já estava bem longe do xerife e começava a respirar quando o tropel de cavalos na estrada o fez olhar para trás apreensivo. Tremendo de medo e com um gemido alto e longo, viu o fantasma sair da sombra das árvores, materializando-se na estrada. Um único pensamento o deixou paralisado. A morte o encontrava, afinal. Apavorado, bateu com os calcanhares no cavalo, desejando ter esporas e um chicote. Olhou para trás e viu a capa do cavaleiro aberta, esvoaçando, dando a impressão de um morcego gigantesco que ia mergulhar sobre ele e sugar até a última gota do seu sangue. Uma risada sinistra cortou a noite, provocando calafrios na sua espinha. Começou a bater no cavalo com as mãos e as rédeas, e o animal, sentindo e partilhando o pavor do cavaleiro, já estava no limite da sua velocidade. Entraram num trecho sinuoso da estrada, que acompanhava um desfiladeiro no fundo do qual corria um regato. Por um momento, ele perdeu de vista o cavaleiro da noite, mas isso não o tranqüilizou. Na verdade, ficou mais preocupado porque o caminho era sombreado por árvores e com sulcos profundos no solo. O cavalo tropeçou, e o cavaleiro perdeu os estribos. Nem bem tinha recuperado o equilíbrio, o animal pisou em outro buraco. Dessa vez Avery perdeu as rédeas com o esforço de permanecer


firme na sela. Era o seu fim? A trilha à sua frente era cheia de pedras e cascalho. O cavalo, na corrida desesperada, escorregou, cambaleou e adernou na beira do desfiladeiro. com as rédeas nos dentes, o animal girou o corpo para não cair no abismo e Avery levantou vôo. Navegou acima de algumas moitas de espinheiro e do tronco alto de uma árvore morta. Alguma coisa puxou-lhe os suspensórios, e ele caiu, rolou, deslizou no meio de uma moita, passou raspando por troncos de árvores, bateu em pedras e foi experimentar a densidade da moita de espinheiros. Uma pancada surda tirou o ar dos seus pulmões e outra o repôs com um clarão de estrelas, antes da noite se fechar em volta dele. Na estrada, a certa distância de onde Avery caíra, o cavaleiro da noite segurou o cavalo e examinou a sela, procurando lembrar o ponto exato em que o homem a deixara. Não fora fácil apanhar o animal assustado e mais veloz sem o cavaleiro. Olhando rápido para trás, Christopher voltou para Saxton Hall, levando o cavalo. Talvez tivesse apenas imaginado que o homem, visto rapidamente, lembrava Avery, mas, independente de quem fosse, teria de continuar sua viagem sem a ajuda do cavalo. A mansão estava escura e silenciosa, como se tivesse perdido uma parte essencial à sua vida. Christopher vagueou pelos corredores por algum tempo, sentindo a intensidade da sua solidão. Pela primeira vez na vida, experimentara a companhia de uma mulher amada e que o amava. Agora, sem ela, tinha apenas a lembrança para saciar sua sede. No salão uma única vela estava acesa perto da janela. A lareira estava fria, e as sombras traziam lembranças doloridas de um riso, um sorriso, da alegria quente e descontraída. Apertou o punho da espada, pensando em vingança e em sangue. A sala de estar do velho lorde parecia estagnada no tempo. Distraidamente, ele levou a mão ao cravo. A nota isolada soou cavernosa e sem vida, privada da voz que lhe dava calor e sentido. Christopher ficou imóvel, com a cabeça inclinada para a frente, e o relógio do hall anunciou a segunda hora. Foi para o quarto e, tirando apenas as botas, deitou-se. com esforço, afastou da mente os pensamentos, substituindo-os pelo ranger dos mastros de um navio em alto-mar. Precisava descansar, nem que fosse por poucas horas. Então o sono chegou, misericordiosamente sem sonhos. O sol nas pálpebras de Avery era como uma luz vermelha em sua mente. com o corpo todo dolorido, mal podia mover o braço esquerdo, mas uma verificação provou que o pulso continuava no lugar. A cabeça latejava, e o tremor do corpo, provocado pela exposição ao frio da noite, não parecia ceder nem com o calor do sol. Ficou deitado imóvel, sentindo as pedras aguçadas nas costas e o ardor dos ferimentos provocados pelos espinhos. Não tinha coragem de se mover, para não aumentar a dor nos músculos. Um pássaro passou no alto e depois mergulhou, pousando num galho baixo, para examinar aquele monte desconjuntado de humanidade. Avery olhou para a criatura alada, que cantava alegremente, saudando o novo dia, certo de que o pássaro zombava dele. Uma rajada de brisa leve passou por ele, e Avery sentiu que estava com as pernas nuas. com uma careta, ergueu a cabeça e viu que a calça fora arrancada na queda,


deixando apenas os suspensórios dependurados debaixo do colete. Deitou outra vez a cabeça na margem do desfiladeiro e olhou para cima. Lá estava o que restava da calça, tatalando no toco de uma árvore morta. Depois de um longo tempo, Avery teve certeza de que nenhum osso estava quebrado. Virou de lado com esforço, ergueu-se de quatro e rastejou, cauteloso, entre os arbustos na direção dos pedaços da calça. O que restava da peça de roupa não valia o esforço despendido. O melhor que conseguiu foi uma espécie de avental, que resguardava precariamente sua vergonha. É claro que não viu nem sinal do cavalo, e lamentou a perda da boa sela também, que, com o animal, podia render umas cinqüenta libras ou mais, o suficiente para procurar um jogo de cartas e reconstruir sua fortuna. Ora, lembrou, as duzentas libras podiam servir para isso. Avery não resistiu ao impulso e tirando o dinheiro do bolso do colete espalhou as moedas sobre uma pedra entre as pernas abertas. Então, seu queixo caiu. Grande parte do conteúdo da bolsa era de discos espessos e escuros. Avery mordeu um dos discos, e seus dentes deixaram uma marca profunda no material mole. Era chumbo! Balas de chumbo amassadas, fingindo moedas, para aumentar o peso da bolsa. Contou o dinheiro. Pouco mais de vinte libras. Praguejando, Avery jogou parte do chumbo no mato. Enganado como um idiota! Seus olhos encheram-se de lágrimas. Todos aqueles planos, toda aquela conspiração, todas aquelas manobras, por nada, a não ser umas miseráveis vinte libras. Furioso, enxugando uma lágrima, jurou que ia procurar lorde Talbot e reclamar aquela afronta. Enfiou o chapéu na cabeça e se arrastou na direção da estrada. Quando ia ficar de pé ouviu o tropel distante de cavalos, que vinham na sua direção. Agachado entre as moitas, viu uma carruagem negra puxada por quatro cavalos. Esperou que ela se aproximasse e com uma exclamação abafada enfiou o rosto no chão quando viu o brasão dos Saxton na porta. Claudia bateu com o envelope fechado na palma da mão, curiosa para saber o que continha. Prometera ao mensageiro entregar a carta ao pai assim que ele voltasse, mas, se fizesse isso, não tinha certeza de ser informada do conteúdo da missiva. Às vezes o pai agia secretamente e não comentava com ela seus negócios. Ultimamente, Claudia ouvira partes das conversas de lorde Talbot e Allan Parker e percebera a freqüente menção do nome de Christopher Seton. Sabia que suspeitavam que o ianque era o cavaleiro da noite, e Claudia achava a idéia excitante. Imaginava a figura galante cavalgando no escuro da noite, não para assassinar, como diziam, mas para satisfazer seu desejo com belas mulheres, mantendo-as cativas durante horas deliciosas. Evidentemente, ela não se importaria se o cavaleiro da noite tivesse assassinado Timmy Sears e Ben Mose, pois eram homens que não serviam para nada. Pensativa, ela passou a mão pelo lacre do envelope e, aproximando-se da lareira, estendeu a carta para o calor do fogo. A cera amoleceu, e levando a carta para a mesa do pai ela levantou a parte inferior do lacre. Tinha certeza de que o pai não ia notar depois que o lacre fosse reaquecido e posto no lugar. Mas precisava agir depressa. Lorde Talbot dissera a Parker que estaria de volta antes do meio-dia. Claudia desdobrou o papel e começou a ler. Começou a formar as palavras com os lábios contraídos, depois, com os dentes cerrados.


”...me informou que sua filha, lady Saxton, está grávida de Seton. Eu a tomei em custódia para servir de isca para o cão ianque. Eu a manterei prisioneira, até sua chegada, nas ruínas do castelo, na extremidade oeste do braço de mar. Allan Parker.” com o rosto selvagemente crispado, Claudia jogou longe a carta e saiu como uma fúria do escritório do pai. Precisava descarregar sua raiva naquela cadela Saxton, e ninguém ia impedi-la. — Charles! — gritou, atravessando o hall na direção da escada. O mordomo entrou correndo no hall e, quando a viu perto da escada, derrapou, e mudando de direção parou bruscamente ao lado dela. — Sim, senhora? — disse, ofegante. — Mande Rufus trazer a carruagem — ordenou Claudia. — vou sair dentro de alguns momentos. — Sim, senhora. — O homem fez uma mesura rápida e saiu correndo para obedecer à ordem. Chamando a criada aos berros, Claudia subiu a escada, e a moça saiu do quarto para o corredor, tremendo muito. — vou sair um pouco. Prepare minhas roupas. — Qual... — O traje vermelho de viagem e o chapéu de plumas — rugiu Claudia. — E não se demore, estou com pressa! A moça fez meia-volta e ia entrar no quarto quando lembrou e parou, esperando que a patroa passasse à sua frente. Claudia olhou furiosa para ela, e a criada estremeceu. Sentia ainda a dor das equimoses da última repreensão e, vendo a fúria da patroa, esperava outras muito em breve. Meia hora depois, Claudia saiu do quarto e desceu para o hall ricamente adornado, calçando as luvas. Olhou surpresa para o mordomo quando ele correu para a porta. Claudia não ouvira a batida, mas quando Charles abriu a porta, lá estava o homem que ela mais temia: lorde Saxton. — Quero falar com lorde Tal... — Lorde Saxton interrompeu a frase quando viu Claudia na escada e ela, em pânico, olhou em volta, procurando um lugar para se esconder, mas o homem aleijado, passando pelo mordomo boquiaberto, claudicou até a escada e ergueu a cabeça para ela. — Srta. Talbot — a voz áspera parecia zombar —, eu esperava que seu pai já tivesse voltado, mas a senhora pode me dar a informação que procuro. — Não sei para onde eles a levaram! — mentiu ela, com voz estridente. Ahh! — Lorde Saxton, apoiado na bengala, inclinou a cabeça pensativamente para o lado, olhando para ela. — Então sabe por que estou aqui. Claudia mordeu o lábio trêmulo, sem ousar responder e, nervosa, acabou de calçar a luva. — Desculpe a intrusão — disse o visitante indesejável, no mesmo tom de zombaria. — Vejo que está de saída. — Eu — ela procurou uma desculpa —, preciso de um pouco de ar fresco, senhor, A mão enluvada fez um gesto largo na direção dela. — Por favor, não precisa ter medo de mim. — O riso abafado zombou da ansiedade evidente da mulher. — Raramente faço mal às pessoas, só quando sou provocado. Claudia engoliu em seco e olhou para cima, imaginando se teria tempo de chegar ao


quarto antes que ele a agarrasse. Viu a criada no corredor perto da balaustrada, com os lábios feridos e sangrando, e imaginou que truques sua imaginação estava inventando. Juraria que tinha visto uma expressão de desprezo no rosto da jovem. — Srta. Talbot, venha comigo — disse lorde Saxton, com voz inexpressiva. Ela obedeceu, mas não conseguiu passar do último degrau. Não foi preciso. Ele se aproximou, e Claudia recuou, encolhendo-se. — Sabe para onde o xerife levou minha mulher? As palavras, embora calmas, a assustaram. Via na voz áspera a sugestão de violência. — Charles... — choramingou ela. Lorde Saxton voltou-se, quando o mordomo deu alguns passos em sua direção. — Fique onde está se gosta da sua pele. Não vou tolerar qualquer interferência. Charles recuou o mesmo número de passos e, nervoso, fechou a porta, para fazer alguma coisa. Claudia empalideceu quando a máscara se voltou outra vez para ela e viu o brilho dos olhos através das aberturas. — Então? — rugiu ele — A senhorita sabe? — Allan mandou um bilhete para meu pai — apressou-se em explicar. — Eu não sabia o que ele fizera até ler a carta. Ele a mantém prisioneira numa casa abandonada, no sul de York, eu acho. Eu ia até lá para ver como está Erienne. Quer que leve algum recado... — Parou de falar, percebendo que ele não acreditava na sua mentira. — Se não faz objeção, Srta. Talbot, eu a acompanho. Minha carruagem pode nos seguir. — Mas... — Ela procurou uma desculpa, mas, olhando para as aberturas da máscara outra vez, compreendeu que estava encurralada. Num esforço para se libertar, perguntou: — Sabe que sua mulher está grávida... do renegado Christopher Seton? Os olhos dele continuavam ameaçadores. — Ouviu o que eu disse? — Sim, ouvi. — A cabeça encapuzada balançou levemente. — Preciso muito falar com ela. Claudia ergueu as sobrancelhas com uma idéia alentadora. Talvez sua vingança fosse mais completa se conduzisse aquele monstro à outra mulher. Ele podia usar de violência contra Erienne, e ela assistiria ao castigo merecido da outra. Sorriu, pensando nisso. Quando lorde Saxton acabasse com a mulher, Christopher Seton não ia querer nem olhar para ela, e é claro que Claudia se apressaria em consolá-lo pela perda da amante. com um gesto quase jovial, ela convidou o aleijado a segui-la. — Venha, então. Será uma viagem um tanto longa, e precisamos sair agora para chegar ao castelo ao meio-dia. Lorde Saxton a seguiu, arrastando o pé aleijado, e passaram pelo mordomo, que olhou para os dois, atônito. Sabia que a patroa era frívola e caprichosa, mas duvidava da sensatez de sair sozinha com o monstro que praticamente a ameaçara na escada. Ele fechou a porta, balançou a cabeça, e atravessou o hall. Notou um movimento no andar de cima e viu a criada debruçada na balaustrada. O ódio era evidente no rosto da jovem, longe da presença da patroa. — Espero que ele a jogue numa privada bem usada, em algum lugar por aí. Avery conseguiu que uma carroça o levasse até a entrada da propriedade dos Talbot.


O criador de carneiros, dono da carroça, olhou intrigado para as pernas brancas e flácidas que apareciam sob o saiote estranho do homem. Mas quando Avery começou a caminhar tão depressa quanto permitiam suas pernas doloridas, no atalho que levava à mansão, pouco estava se importando com a opinião do homem. A carruagem dos Talbot passara pela carroça, na estrada, e Avery viu lorde Talbot dentro dela. Estava ansioso demais para falar com Talbot antes que ele saísse outra vez, para se preocupar com o que vestia. Abaixou rapidamente o saiote quando uma brisa ousada acariciou o traseiro, mas não diminuiu o passo, vendo que a mansão estava perto e a carruagem parada na porta. Ajeitando a roupa em frangalhos do melhor modo possível, subiu os doze degraus que levavam à entrada da mansão. Bateu insistentemente, e o mordomo apareceu, recuando com cara de nojo quando viu Avery. Olhou desdenhosamente para aquela figura repugnante e depois, recobrando a pose, perguntou; — Sim? — Ah, vejo que sua senhoria está em casa. — Avery pigarreou. — Gostaria de falar com ele por alguns momentos. Charles ergueu as sobrancelhas, depois o queixo, e explicou, em tom arrogante: — Lorde Talbot não tem tempo para visitas agora. Vai sair para tratar de negócios importantes. — Preciso falar com ele urgentemente — insistiu Avery. Os olhos semivelados do mordomo pousaram nele rapidamente outra vez e quase com relutância ele respondeu: — vou perguntar a sua senhoria se deseja falar com o senhor. Seu nome? — Avery Fleming! — disse o ex-prefeito, ofendido. — Não está me reconhecendo? Já estive aqui antes. A surpresa de Charles era evidente. — O senhor se parece com o prefeito. — Examinou Avery com atenção e balançou a cabeça, — Perdoe-me, senhor, mas parece que teve alguns problemas. — Sim, eu tive. — Avery apressou-se em confirmar. — Por isso, preciso falar com sua senhoria. — Volto num minuto, senhor. Avery esperou, mal contendo a impaciência. O mordomo desapareceu no interior da casa, e tudo ficou em silêncio. Quando ele voltou, os olhos de Avery brilharam esperançosos. — Lorde Talbot está com muita pressa, senhor. Não vai poder recebê-lo. — Mas é importante! — Sinto muito, senhor — desculpou-se Charles, com arrogância. Vencido, Avery recuou com passo incerto e, quando a porta se fechou, desceu os degraus. As pernas enfraqueceram de repente, e ele apoiou-se na roda da carruagem, completamente exausto pelos acontecimentos dos últimos dias. Se pudesse expor seu caso a lorde Talbot, tinha certeza de que o homem ia compreender e se apiedar dele, pelo menos para lhe dar algum dinheiro e um cavalo. De repente seus olhos pousaram no bagageiro da carruagem, coberto com uma lona. Tinha lugar para um homem e, além de servir de transporte, poderia representar uma oportunidade para falar com lorde Talbot. Avery olhou em volta, furtivamente. O cocheiro cochilava na boléia. Os dois


cavalariços conversavam perto da parelha da frente e, depois de um rápido olhar, desinteressaram-se completamente da sua presença. Não havia mais ninguém por perto. Era a sua chance, talvez a única, e seria um idiota se não a aproveitasse.

Capítulo Vinte e Quatro QUANDO a carruagem que levava Claudia e lorde Saxton se aproximou da costa oeste, que dava para a ponta do Soloway Firth, a estrada tornou-se desprovida de árvores e pedregosa. Uma parede de granito erguia-se a grande altura e mergulhava, em degraus desiguais, para a espuma branca do mar batendo na rocha lá embaixo. Longe da margem, e em parte protegida pela parede de granito, as ruínas de um antigo castelo repousavam como um animal ferido na plataforma de pedra. Foi para essa estrutura meio desmoronada que eles se dirigiram, com a carruagem dos Saxton cerca de cem metros atrás, bem além do alcance de um tiro de mosquete. Tanner deu meia-volta, virando os cavalos para a direção de onde tinham vindo, pronto para fugir, caso precisasse, enquanto a carruagem dos Talbot seguiu ousadamente em frente, subindo a colina e atravessando a ponte feita com restos de argamassa e tábuas, sobre o fosso seco. Uma voz de homem anunciou sua chegada, e a carruagem entrou no pátio interno, não muito grande, e atulhado com pedaços de pedra dos muros antes orgulhosos do castelo. À direita, um pórtico de madeira protegia a entrada do alojamento dos soldados. À esquerda, só o primeiro e segundo andares da torre de vigia estavam de pé. Na frente, a torre central, a residência, estava completamente desmoronada. Ali um espaço fora limpo para abrigar os cavalos e para que as carruagens pudessem fazer a volta. Allan Parker apareceu na porta do alojamento e esperou que a carruagem de lorde Talbot parasse na sua frente. Lorde Talbot certamente apressara os negócios em York e voltara antes do meiodia, pensou ele, adiantando-se para receber o patrão. O cavalariço pôs a banqueta ao lado da carruagem e abriu a porta, que logo foi invadida pela saia vermelha e um enorme chapéu de plumas. com um gemido disfarçado, Allan cerrou os dentes quando viu a pessoa que menos queria ver naquele momento. Recobrando-se da surpresa, sorriu amavelmente e estendeu a mão para ajudá-la a descer. Não era o seu dia de sorte, pois, como se não bastasse a visita inconveniente da mulher, o outro visitante apareceu na porta da carruagem. Parker olhou mesmerizado para lorde Saxton, quando o homem alto pousou o pé aleijado no chão. — O senhor me surpreende, lorde Saxton — disse ele, sem rodeios. — É a última pessoa que eu esperava ver por aqui. Uma risada rouca veio da máscara. — A Srta. Talbot me informou da sua intenção de visitar minha mulher, e uma vez que nossos objetivos são idênticos achei mais prudente viajarmos juntos por esta região hostil. Eu trouxe a minha carruagem, como pode ver, e homens para proteção. Oh — ergueu a mão para acentuar o que ia dizer —, meus homens estão bem armados, xerife, e talvez mais do que um pouco nervosos. Sabe das histórias que correm por aí. — Estalou os dedos enluvados. — Se algum dos seus homens... bem... chegar muito perto, não respondo pelas conseqüências. Foi a vez de Parker dar uma risada. De certo modo, ele admirava a coragem daquele


aleijado. — Vindo de qualquer outro, senhor, eu consideraria isso uma advertência ou até mesmo uma ameaça. —- De modo algum, senhor — garantiu lorde Saxton. — Nem pense nisso. Não é uma coisa nem outra. Sei apenas que meus criados andam um tanto inquietos ultimamente. O senhor sabe, os assaltantes de estrada, esse tal cavaleiro da noite, e todos esses assassinatos. Estamos vivendo tempos muito perigosos. Lorde Saxton notou a meia dúzia de homens mal-encarados e malvestidos que se haviam aproximado do xerife. Olhavam com indisfarçada curiosidade para ele, e alguns apontavam para Claudia, trocando comentários com risadas e olhares lascivos. A jovem, acostumada a outra classe de admiradores, ficou constrangida com aquela atenção. — Vim ver a filha do prefeito e é o que vou fazer agora — disse ela e depois perguntou: — Onde ela está? O xerife ignorou-a por um momento. — E o senhor, lorde Saxton? Está também armado? Se não me engano, da última vez que nos encontramos... — Não terminou a frase. Lorde Saxton procurou se firmar desajeitadamente, com o pé aleijado. — Apenas isto. — Estendeu a bengala pesada para o homem e abriu a capa. — Pode me revistar, se quiser. Não tenho outra arma, a não ser que encontre alguma coisa que me escapou. Allan sopesou a bengala. — Uma arma formidável — procurou girar o cabo de prata, sem resultado —, mas vou devolvê-la. Talvez a tentação — disse isso em voz alta, virando um pouco a cabeça para seus homens — o leve a usá-la de forma insensata. — Atirou a bengala para lorde Saxton, enquanto os homens riam alto, acariciando as coronhas das próprias pistolas. — Muito bem — disse lorde Saxton com impaciência —, como a Srta. Talbot sugeriu, vamos ver lady Saxton. — Como queira. — Parker ofereceu o braço a Claudia e disse, por sobre o ombro: — Se quiser me acompanhar, senhor. Parker caminhou apressado, e só o passo miúdo e cauteloso de Claudia permitia a lorde Saxton não ficar muito longe deles. Mesmo assim, ele quase caiu várias vezes, quando a bengala escorregava nas pedras, e cada tropeção era acompanhado pelo riso zombeteiro dos homens. — Ei, ele deve ser parente de Haggie — disse um deles. Uma trilha fora feita entre os entulhos que cobriam os degraus, que levavam à torre da ala leste, e o xerife adiantou-se para abrir a porta do quarto no fim da escada. Cinco homens jogavam, sentados a uma mesa coberta com uma manta de lã. Quando o xerife entrou com os visitantes, Haggard Bentworth, o fiel escudeiro, sempre pronto para servir, levantouse de um salto. Adiantou-se para cumprimentá-los, sem notar que o punho da sua espada tinha enganchado no canto da manta, e com o movimento derrubou a mesa, espalhando dados e as canecas de cerveja no chão empoeirado. Haggard abaixou para evitar o punho enorme que voou na direção da sua cabeça e, ignorando as ameaças e as pragas, desenganchou a manta da espada e a jogou para longe. com um sorriso alegre, ele deu um passo à frente e colidiu com a cadeira quebrada,


mergulhando de cabeça em cima do xerife. Praguejando, Parker o empurrou com força, perguntando a si mesmo por que permitira que Haggard os acompanhasse nessa empreitada, a não ser pelo fato de o pobre coitado ser muito inocente — ou muito burro — para pensar em abusar da prisioneira. A orelha de Haggard tremeu quando olhou para o homem mascarado, e depois ele olhou para o xerife. — Posso fazer alguma coisa pelo senhor? — Pode. Dê-me a chave da cela da senhora. — Os lábios de Parker quase se contraíram numa expressão zombeteira, mas se controlou, e recebeu a chave apenas com um leve franzir das sobrancelhas. — Providencie chá e alguma coisa para comer, para nossos convidados. Haggard inclinou a cabeça rapidamente e saiu. O xerife, com o pé no primeiro degrau da escada em espiral, disse: — Por aqui, por favor, mas com cuidado — avisou ele. — Como podem ver, não tem corrimão. Ele subiu na frente até chegar a uma porta pesada. Os degraus continuavam além da porta, espiralando em volta da torre, mas terminavam a céu aberto. Parker pôs a chave no cadeado que prendia a barra de ferro horizontal, que parecia ter sido colocada recentemente. Inclinando-se para a abertura da porta, ele disse: — Minha senhora, eu voltei. Uma voz zangada disse, quando ele acabou de abrir a porta. — Já dei a minha resposta! Se duvidou dela, talvez isto possa convencê-lo! Parker abaixou a cabeça para evitar a xícara, que bateu na porta, e a pancada ecoou na cela quase vazia. Atrás dela, veio um prato, atirado com melhor pontaria. Ele o aparou com a mão e, com três longos passos, entrou no quarto, segurando aquela gata brava, que procurava mais alguma coisa para atirar nele. Parker a ergueu do chão e a virou de frente para a porta, quando Claudia entrou. — Eu lhe trouxe companhia, minha senhora — disse ele, rindo. Erienne rilhou os dentes, dando pontapés e agitando os braços para se livrar dele. — Tenho tanta necessidade da companhia da Srta. Talbot quanto de... — Ela conteve a respiração quando lorde Saxton entrou na cela, abaixando a cabeça para passar na porta. — Nããão! OOh, nãão! — gemeu ela. — Por que o senhor veio? — Tss, tss, isso é modo de cumprimentar seu marido? — censurou Parker. Olhou para o outro homem com fingida simpatia. — Ela não parece muito satisfeita por vêlo, senhor. Talvez prefira a presença do ianque. — Ponha lady Saxton no chão — ordenou lorde Saxton, asperamente. — Certamente, senhor. — Parker obedeceu e observou os dois com um sorriso de expectativa. Erienne ia correr para o marido, mas ele ergueu a bengala e ela parou. — Fique onde está, madame, Não vou me comover com as lamentações de uma adúltera. — Falou com voz firme, que não admitia desobediência, e Claudia sorriu, satisfeita. Ele continuou: — Eu vim para ouvir dos seus próprios lábios. É verdade que dormiu com o ianque e aceitou sua semente no seu ventre? Erienne inclinou a cabeça numa afirmação hesitante, compreendendo que devia entrar no jogo em benefício dos outros dois. Torcendo as mãos, olhou para Claudia,


que interpretou o gesto como desespero, e com um sorriso arrogante, retirou as luvas, sem tirar os olhos dela. Erienne voltou-se para o marido e respondeu timidamente: — Ele foi muito persuasivo, meu senhor. Não pude evitar. Ele insistiu até conseguir o que queria. — E a senhora o ama? — perguntou a voz cavernosa. Os olhos azuis-violeta suavizaram-se, fitando as aberturas da máscara. — Preferia que eu mentisse, meu senhor, e dissesse que não? Eu passaria satisfeita o resto da minha vida nesta prisão, sabendo que ele está a salvo. Se ele estivesse neste momento na minha frente, eu pediria que fugisse antes que o apanhem. — É muito generosa — zombou Claudia. Jogando as luvas sobre a mesa, ela se aproximou arrogantemente dos dois. com a mão de unhas pintadas na cintura, perguntou: — Seria tão generosa se soubesse que seu precioso amante dormiu com várias outras mulheres? Lorde Saxton ficou de frente para a mulher. Claudia sentiu um calafrio, mas esqueceu o medo que tinha dele e voltou-se outra vez para a prisioneira. — A própria Molly disse que viu uma mulher na cama de Christopher Seton na estalagem, e, pelo que disse, parecia muito íntimo com ela. — Comentam também, Srta. Talbot, que a senhora foi uma dessas mulheres — observou lorde Saxton, secamente. — Será que também cedeu à insistência dele e dormiram juntos quando seu pai estava viajando? - É claro que não! — disse Claudia. — Allan sabe onde eu estava nas noites em que meu pai estava fora! Ele... — Parou ouvindo o xerife pigarrear e só então percebeu o que dissera. — Quero dizer... ele me visitou para saber se eu estava bem... Disfarçando um sorriso divertido, Allan pediu licença: — Preciso tratar de outras coisas. Eu os deixo para uma breve visita. — Caminhou para a porta e parou, olhando para Claudia. — Como viu, tenho guardas lá embaixo. Se precisar de alguma coisa, ou se quiser sair, eles terão o maior prazer em servi-la — avisou. Abriu a porta e saltou para o lado quando Haggard, tropeçando num bloco de granito, mergulhou para dentro do quarto. Os pés enormes do homem deslizaram, agitando-se loucamente, enquanto ele tentava equilibrar o corpo e a bandeja ao mesmo tempo. Colidiu com a mesa e, com um matraquear de louça contra louça, pôs a bandeja no tampo de madeira. Examinou as xícaras e, com um suspiro de alívio, brindou os espectadores com um largo sorriso. — Eu trouxe o chá — anunciou. — A comida vem logo. Allan Parker controlou-se com esforço e, procurando ficar longe do perigo ambulante, com um gesto mandou Haggard sair do quarto. — Quer que eu fique de guarda na porta, senhor? — ofereceu Haggard, alegremente. — Para o caso da senhora precisar de alguma coisa? O xerife olhou para o homem mascarado. Não acreditava que o aleijado fosse bastante idiota para tentar alguma coisa, mesmo que estivesse resolvido a perdoar a mulher, mas não faria mal algum deixar alguém de guarda na porta. — Se a Srta. Talbot precisar da sua assistência — recomendou ele, duvidando dessa possibilidade —, procure não machucá-la com seu entusiasmo. Haggard assentiu, alegremente, mas parou de repente, perplexo com as palavras do


xerife. Parker olhou para ele, imaginando se já encontrara alguém mais burro e depois, com uma inclinação de cabeça para as senhoras, saiu do quarto. Haggard o seguiu de perto e desceu alguns degraus atrás dele, dando proteção ao seu chefe. A porta fechou-se e a tranca foi abaixada. Claudia andou pelo quarto, observando tudo com desdém. Parou ao lado da janela estreita e sorriu, vendo os trapos enfiados no lugar do vidro quebrado. — Você desceu muito na vida desde a última vez que a vi, Erienne. Naquela noite, em minha casa, provocou muitos comentários com o modo com que se atirou para Christopher. — Virou rapidamente para Erienne, com uma sobrancelha erguida: — Onde está seu amante agora? Não o vejo correr para salvá-la. Lorde Saxton, ignorando a mulher, ergueu delicadamente o queixo de Erienne e examinou a mancha roxa. Erienne inclinou-se para ele, mas temia demonstrar sua emoção. Seus olhos, fixos nas aberturas da máscara, conversavam com seu amado. Claudia, aborrecida com a falta de atenção dos dois, disse: — Parece que trataram sua mulher com brutalidade, mas não mais do que ela merece pelo que lhe fez. Ficar grávida daquele renegado Seton. Tss, tss. Ora, quem pode dizer com quantos outros ela dormiu, ou se tem certeza de que o filho é do ianque? Talvez não seja, mas de algum empregado. Porém, acho que isso na verdade não importa. Ela admite que o ianque dormiu com ela. — Parou de falar quando o senhor de Saxton Hall aproximou-se da janela onde ela estava, e depois continuou, com voz fraca, percebendo que Haggard não a podia ver. — Pôs os cornos no senhor. Lorde Saxton encostou a bengala na perna e inclinou a cabeça para o lado, para vê-la melhor. — Pôs os cornos? Diga-me, Srta, Talbot, como um homem pode pôr cornos nele mesmo? Claudia arregalou os olhos quando a mão enluvada se ergueu e desamarrou as ataduras do elmo negro. Deixou escapar uma exclamação abafada quando a outra mão começou a tirar a máscara de couro. Ela teria fugido, mas ele estava na sua frente, e ela olhou apavorada quando finalmente tirou o elmo. Então, sua mente girou como louca quando viu o belo rosto de Christopher Seton. — Srta. Talbot? — disse ele em tom de censura. O olhar atônito de Claudia foi dele para Erienne, que continuava preocupada. — Mas onde está.., — sua reação não foi muito diferente da de Erienne —... lorde Saxton? Christopher fez um gesto largo e com uma pequena mesura, disse: — Às suas ordens, — Lorde Saxton? — repetiu ela, cada vez mais espantada. — Você...? Mas ele — seus olhos voaram para a bota pesada — é aleijado. — Um mero disfarce, Claudia, Como já deve ter notado, não tenho nenhum defeito na perna. Os olhos dela se entrecerraram quando começou a entender a situação. — Se pensa que pode escapar daqui com sua amante está muito enganado! — Não amante — corrigiu Christopher, suavemente. — Erienne é minha mulher e senhora legítima de Saxton Hall. Carrega o meu filho e nunca esteve com outro homem. Disso eu tenho certeza. — Mulher de um renegado que logo será morto — disse Claudia, abrindo a boca,


mas, antes que pudesse tomar fôlego para gritar, Christopher segurou a bengala e, apertando um pequeno botão, fez sair uma lâmina delgada da bainha de madeira. Claudia viu-se à frente da ponta da espada e quando ergueu os olhos viu os de Christopher ameaçadores e frios. — Nunca matei uma mulher — afirmou ele, calmamente. — Mas também nunca fui tão tentado antes. Sugiro que fique quieta. com voz trêmula, Claudia perguntou: — O que vai fazer? Um sorriso ergueu os lábios dele. — Vim para apanhar minha mulher, e você, Srta. Talbot, vai me ajudar. — Eu? — Os olhos escuros se arregalaram. — O que posso fazer? — Dizem que a sabedoria vem àqueles que a procuram. — Christopher sorriu. — Srta. Talbot, quer ter a bondade de tirar o chapéu? Intrigada, ela obedeceu. — Agora, Srta. Talbot, se não se importa, o vestido também. — Ignorando a exclamação indignada, voltou-se para Erienne. — Precisamos tirar vantagem da semelhança entre vocês duas. Sei que os trajes da Srta. Talbot são um tanto vulgares, mas se importaria de trocar os seus pelos dela? — Erienne respondeu com um sorriso e balançou a cabeça. Então, Christopher olhou para Claudia, com a testa franzida. — Minha querida Claudia, não precisa temer que eu fique tentado por qualquer coisa que revele. Mas insisto. O vestido, por favor. com um olhar irado para ele, Claudia entreabriu os lábios como se fosse gritar. A ponta da espada desenhou um pequeno oito na frente do seu rosto, captando sua total atenção. Começou a soltar os colchetes e a desatar as fitas, e o medo substituiu a fúria nos seus olhos. Não foi assim que ela imaginou seu cativeiro nas mãos de Christopher. Christopher estendeu a mão para Erienne e, sem uma palavra, ela lhe deu a corda com que tinham amarrado seus pulsos. Assim que o vestido caiu no chão, ele cruzou os pulsos de Claudia e os amarrou bem junto ao peito, passando a corda pelos cotovelos e dando o nó final atrás dos braços, onde não podia ser desfeito com os dentes. — Assim que saírem deste quarto — sibilou, furiosa —, eles vão descobrir e matar os dois, — Estou disposto a arriscar a fuga, em vez de esperar que nos matem aqui dentro — disse Christopher, estendendo outra vez a mão para Erienne. Ela passou a mordaça, que num instante foi aplicada à boca de Claudia. Christopher olhou para a porta e viu as costas largas de Haggard. Pôs a capa dele nos ombros de Claudia e a máscara de couro na cabeça. Os protestos dela ficaram bem abafados pela mordaça e pela máscara de couro, e ele a levou até a mesa e as cadeiras. Virando as costas da cadeira para a porta, Christopher a fez sentarse, e Erienne rapidamente rasgou tiras da sua anágua, que Christopher usou para prender a prisioneira, amarrando os quadris e os pés na cadeira. Depois arrumou a capa de modo a escondê-la completamente da porta. Quando terminou, brandiu a espada na frente da máscara, onde ele sabia que Claudia podia ver. — Silêncio, agora — murmurou ele. — Um único som, e seu pai morre algumas horas depois de você.


Os olhos atrás da máscara o acompanharam quando ele chegou até perto da cama. Então Christopher abriu os braços para receber a mulher, que correu para ele. Seus lábios se encontraram num beijo que, na opinião de Claudia, era mais apaixonado do que a situação permitia. — Oh, meu amor — suspirou Erienne, quando ele beijou-lhe a testa. — Eu tinha medo e ao mesmo tempo queria que você viesse. Abraçando-a ternamente, ele beijou o rosto e a testa da mulher, saboreando aquela proximidade enquanto podia. — Eu teria vindo antes, se soubesse onde você estava. Não esperava isso do seu pai, mas ele vai responder pelo que fez. Erienne balançou a cabeça e disse em voz baixa: — Ele não é meu pai. Christopher a afastou um pouco e perguntou intrigado: — O que você disse? — Minha mãe casou com um rebelde irlandês e ficou grávida


antes de ele ser enforcado. Avery casou com ela, sabendo de tudo, mas nunca contou a minha mãe que foi ele quem deu ordem para o enforcamento do meu pai. Christopher afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. — Eu sabia que você era bela demais para ser filha dele. Erienne abraçou a cintura do marido e se aninhou no seu peito. — Oh, Christopher, você se tornou todas as coisas para mim. Eu o amo, meu querido. Christopher ergueu o queixo dela, bebendo avidamente a devoção que viu nos olhos azuis. — E eu a amo, minha senhora. Talvez mais ainda do que eu sabia antes deles a tirarem de mim. — Beijou ternamente a equimose no rosto dela. — Farei com que paguem por isto. — Não importa, Christopher. Desde que eu tenha você e seu filho dentro de mim, nada mais importa. — Devemos nos concentrar na fuga, agora. — Afastou-se dela, tirou o casaco e o colete e depois o bloco de madeira que deformava a bota do pé direito. Erienne desabotoara apenas alguns botões do vestido quando a voz de falso baixo de Haggard anunciou: — O grande senhor xerife aproxima-se. Erienne apanhou o casaco e o colete do marido, mais o vestido vermelho de Claudia e atirou tudo para dentro da alcova da privada e, apressada abotoou outra vez a blusa, enquanto Christopher balançava a ponta da espada na frente dos olhos de Claudia, para lembrá-la de sua presença. — Lembre-se, vai estar a poucos centímetros do seu pescoço. Negando a ameaça, atravessou o quarto e se encostou na parede, ao lado da porta. Erienne desistiu de abotoar o vestido e sentou-se na cadeira de frente para Claudia, servindo o chá e pondo uma xícara na mesa, perto da sua prisioneira. Viu o ódio nos olhos atrás da máscara e, apesar da seriedade da situação, apontou para a xícara. — Não tome muito depressa, minha querida. Pode engasgar. O xerife chegou ao último degrau e perguntou para Haggard: — Tudo em ordem? — Sim, senhor! — berrou o homemO xerife fez uma careta e passou pelo homem, procurando manter distância, como se ele fosse um felino perigoso. Olhou pela portinhola, mas não fez menção de abrir a porta. — Onde está Claudia? Erienne aproximou-se da porta, notando os olhos dele nos botões abertos do seu vestido. Sentia o olhar de Christopher, mas se conteve para não olhar para ele. Indicou a privada, fingindo embaraço. — Claudia está indisposta. A longa viagem... na carruagem, eu creio. — Mostrou a figura sentada na cadeira, e Claudia inclinou-se para a frente, com um gemido surdo. — Lorde Saxton também está um pouco indisposto. — Eu compreendo por quê — disse ele, com malícia. Olhou para ela com apreciação. — Pensou mais um pouco no meu pedido? Lorde Talbot estará aqui dentro de uma hora, mais ou menos, e tem de resolver antes disso. — Shh. — Erienne olhou para a figura na cadeira. — Ele pode ouvir. — Não tem importância — garantiu Parker.


Erienne olhou para ele, intrigada. — O que quer dizer? Parker deu de ombros. — Seu marido deixou-me curioso para ver o que essa máscara esconde. Acredite, antes de ele deixar seu quarto, vou ver o que tem debaixo desse elmo. Erienne torceu as mãos, fingindo ansiedade. — Tenho certeza de que não vai gostar. — Seja como for, vou satisfazer minha curiosidade. — Olhou para Haggard e ordenou: — Avise-me quando a Srta, Talbot estiver pronta para partir. com essas palavras, ele fez meia-volta e desceu rapidamente a escada. Haggard voltou para seu posto, e suas costas largas tomaram toda a abertura da portinhola. com um longo suspiro, Erienne olhou para o marido e apanhou o vestido vermelho que ele lhe estendia. — Depressa, agora — murmurou ele, em tom urgente. — Vista-se! Claudia contorceu-se na cadeira, e Christopher voltou para perto dela, enfrentando o olhar furioso com um sorriso. — Minhas desculpas, Srta. Talbot, mas temo que tenha de agüentar a máscara por mais algum tempo. — Mmmmm! — Ela balançou a cabeça, ferozmente. Christopher guardou a espada na bainha de madeira e sentou-se na cadeira, de frente para Claudia, esperando e deliciando-se com o espetáculo de Erienne que se vestia, apressada, num canto ao lado da porta. O vestido ficou largo na cintura e apertado no colo. O tempo era curto para acertar essas diferenças. Erienne pôs todo o cabelo para cima, prendendo-o com grampos, e pôs o chapéu. — Que tal? — perguntou, preocupada, de pé na frente do marido. Não podia imaginar até que ponto poderiam manter o disfarce e se ela teria coragem para ir até o fim. — Fica bem com essa cor, minha querida. — Segurou a fazenda que sobrava na cintura e olhou para ela com um largo sorriso. — Dentro de alguns meses, talvez você possa usá-lo. Claudia bufou desdenhosamente e se contorceu na cadeira. Calmamente, Christopher fez Erienne sentar-se nos seus joelhos. Pôs um braço nas costas dela e o outro no colo e mais uma vez beijaram-se, longa e apaixonadamente, aumentando a ira da mulher amarrada na sua frente. A voz estentórea de Haggard interrompeu o beijo: — A comida está chegando. Ouviram passos na escada, e Erienne foi para perto da janela, virando o rosto para fora. Christopher apanhou a bengala e foi até a alcova da privada. A chave girou na fechadura, a porta abriu-se e dois homens morenos e com a barba por fazer entraram, um com a bandeja, enquanto o outro ficou de guarda do lado de dentro da porta, com Haggard. — Ponha a comida na mesa — disse Haggard, desnecessariamente, e depois cutucou o companheiro com o cotovelo. — Acho melhor ficarmos de olho em sua senhoria ali — avisou, falando pelo canto da boca. — Um homem que usa máscara está sempre tentando esconder alguma coisa. A lógica dessa afirmação passou despercebida ao homem, que preferiu admirar a mulher de vestido vermelho. Puxando para cima o cós da calça, ele gingou na


direção de Erienne. A filha de Talbot era mais bonita de perto do que de longe, e ele pigarreou antes de expressar essa idéia. — Me chamo Irving... minha senhora, e quero que saiba que acho a senhora uma mulher muito bonita. Erienne olhou em volta, nervosamente, vendo o homem moreno e Haggard, que caminhava para ela. O outro, depois de deixar a bandeja na mesa, ia começar a arrumar os pratos quando viu a figura sentada na cadeira mexer furiosamente com os joelhos. A capa caiu para o lado, revelando um bom pedaço de anágua. A cabeça encapuzada balançou vigorosamente, e o homem, curioso, estendeu a mão para a máscara. Não teve tempo nem de ver o homem que apareceu atrás dele. Uma bengalada violenta na nuca escureceu seu mundo, e antes que ele caísse no chão, foi puxado para dentro do cubículo da privada. Erienne olhou do guarda moreno para Haggard, tentando um sorriso para manter o interesse dos dois, mas Irving olhou para trás e viu as botas do companheiro desaparecendo na alcova. — Ei! O que você está fazendo — perguntou, tirando a pistola do cinto e dirigindo-se para o cubículo. Haggard foi atrás dele, e Erienne apanhou o braço quebrado de uma cadeira. Não sabia qual dos dois devia atacar primeiro, mas como Haggard estava mais perto, ela o escolheu. Ergueu o pedaço de pau para acertar a cabeça do homem, mas, para seu espanto, Haggard ergueu a pistola e atingiu a cabeça de Irving com uma violenta coronhada. Ele despencou como se tivessem tirado todo o ar de dentro do seu corpo. com um largo sorriso para Erienne, que não tinha ainda se recobrado do espanto, Haggard tirou a pistola da mão do homem e a atirou para Christopher, que saía do cubículo. — Quantos? — perguntou Christopher, verificando a arma. — Três embaixo. Parker provavelmente está no alojamento com os outros. Erienne só fechou a boca quando o marido se aproximou dela e fez as apresentações. — Você nunca o viu antes, minha querida, este é Haggard Bentworth. Embora ninguém saiba, ele foi criado do meu irmão. Um homem muito leal. — Muito prazer — disse Erienne, sentindo os olhos úmidos e estendendo a mão para o homem, que a segurou e inclinou a cabeça. — O prazer é meu, senhora, e sinto não ter podido dizer antes quem eu era. — Olhou para Christopher e deu de ombros. — Também não consegui sair para lhe dizer onde ela estava, senhor. Eles não confiam em mim. — Talvez seu coração não seja suficientemente negro para o gosto deles — sorriu Christopher, e depois apontou para a porta. — Acho melhor pôr alguém naquela porta, para igualar as diferenças. Haggard tirou o colete de Irving e o entregou a Christopher, que o vestiu imediatamente. Os dois carregaram o homem inconsciente para a alcova e o deixaram ao lado do companheiro. Depois de repetir sua advertência para Claudia, Christopher assumiu sua posição ao lado da porta, enquanto Erienne voltava para a janela. Haggard foi até a escada e chamou: — Ei, homens. A Srta. Talbot quer um pouco de vinho para acompanhar a comida. Vão apanhar a garrafa que separamos para lorde Talbot. Então ele voltou para perto da mesa e depois de alguns momentos ouviram passos na escada. Um homenzarrão parou na porta e estendeu a mão com a garrafa, sem


fazer menção de entrar. Haggard indicou com a cabeça a mulher de vermelho. — A senhora quer falar com você. O homem empurrou o chapéu para o alto da cabeça e espiou para dentro do quarto, desconfiado. — Onde estão Irving e Bates? Haggard abanou a mão calmamente para onde Christopher estava, grudado à parede. — Estão ali. Não vendo ninguém, o homem deu um passo para dentro. Sua cabeça saltou para trás quando o punho forte o atingiu no queixo e, por segurança, Christopher deu uma pancada na cabeça dele com a coronha da pistola. Depois, segurou o homem antes que ele caísse e o arrastou para a coleção na alcova. Confiscou o chapéu dele e o enterrou na cabeça. — Você disse que faltam dois? — perguntou para Haggard, enfiando a pistola no cinto. Haggard fez um gesto afirmativo. — Então, vamos. Saíram do quarto, Christopher atrás de Haggard, que desceu a escada aos tropeços. Erienne esperou, tensa, ouvindo o riso dos dois quando se aproximaram do último degrau. Só um dos dois homens ergueu os olhos quando Haggard apareceu. — Venha, Haggie — disse ele, com uma risada. — Precisamos do seu dinheiro para o jogo ficar bom. O outro homem virou a cabeça e só conseguiu dar um grito estrangulado antes do punho de Christopher se chocar violentamente com sua cabeça. Ele deslizou da cadeira para o chão, e ao mesmo tempo Haggard ergueu a pistola e acertou a cabeça do outro com uma violenta coronhada. O primeiro rolou no chão, tentando apanhar a arma, mas Christopher pôs o pé no braço dele e o esmurrou outra vez. O homem ficou imóvel, desacordado. Chrístopher recolheu as armas e as pôs no cinto, depois voltou para a torre, com Haggard. Erienne deu um suspiro de alívio, e Christopher, segurando a mão dela, inclinou-se ao lado de Claudia. — Srta. Talbot, chegou a hora de nos separarmos. Pode ficar com a máscara e a capa, como troca pelo vestido ou, se preferir, como uma lembrança da nossa eterna gratidão. Mostre para seu pai quando ele chegar e diga a ele que lorde Christopher Saxton veio a estas paragens para vingar a morte do irmão e do pai. A avidez por dinheiro e poder foi a ruína do seu pai. O protesto dela foi abafado pela mordaça e seus pés se agitaram, como se quisesse atacá-lo aos pontapés. Olhou para ele, através da máscara e, se olhar matasse, ele teria sido feito em pedaços. Tocando a aba do chapéu com as pontas dos dedos, Christopher disse: — Tenha um bom dia, Srta. Talbot. Um dos bandidos no alojamento, encostado no batente da porta, observou os dois homens e a mulher que saíam da torre. — Olhem só aquilo — riu ele. — Haggard quase não pode andar, de tanto que tropeça. Quase derrubou a cadela Talbot no chão. — Nada mais do que ela merece — resmungou Parker, levantando o chapéu, que cobria os olhos. Estava cochilando na frente da lareira com os pés numa banqueta


baixa, esperando o chamado de Haggard. Depois de longo silêncio, o homem riu outra vez. — Lá vai ele outra vez. Juro que ele vai se matar antes de chegar ao portão. — O portão? — Os pés de Allan bateram no chão e ele se levantou de um salto. — A carruagem dos Talbot está perto do estábulo, não do portão. — Foi até a porta e arregalou os olhos. — Seu idiota! Aquela é lady Saxton, não Claudia. E Seton! Como diabo ele...? Às armas, seus cretinos idiotas! Às armas, estou mandando! Eles estão fugindo! Homens correram para todos os lados, numa caótica confusão, colidindo uns com os outros, à procura das armas. A ordem gritada e o movimento foi o toque de alarma para os três. Estavam perto do portão e correram para ele. Erienne levantou a saia até os joelhos enquanto Christopher a puxava pela mão. O chapéu vermelho de plumas voou para longe, marcando sua passagem. Assim que passaram pelo portão, Christopher soltou um assobio estridente, que despedaçou a quietude do campo. — Corram! — gritou ele — A carruagem logo estará aqui! vou procurar detê-los. — Oh, por favor, Christopher! — exclamou Erienne, assustada. — Venha conosco. — Haggard, tome conta dela! — ordenou ele. Haggard a segurou pelo braço e a arrastou para longe do marido, fazendo-a correr encosta abaixo. Christopher parou a pequena distância do portão e apontou uma pistola. A bala passou pelo portão estreito, e por pouco não acertou Parker, que liderava o ataque. Outro tiro acertou uma janela e assobiou ameaçadoramente pela sala, obrigando os homens a se deitarem no chão. Foi o bastante para mantê-los por algum tempo com as cabeças abaixadas. — De pé, seus covardes! — berrou Parker, não ouvindo outro tiro. — Aos cavalos! Vão para cima deles! — Furioso com a demora dos homens e sem nenhum aviso, ele ergueu a pistola e atirou no teto de madeira, atraindo a atenção de todos. — Atrás deles, malditos, ou o próximo tiro será em um de vocês. Todos correram para a porta e ficaram entalados, cada um procurando obedecer com maior presteza à ordem do capitão. Quando conseguiram passar, correram para os cavalos, atropelando-se outra vez. Os sapatos de Erienne não eram próprios para correr sobre pedras desiguais e pontudas, mas, mesmo assim, surpreendeu Haggard com sua velocidade quando Christopher correu para juntar-se a eles, alcançando-os quando a carruagem surgiu da sombra das árvores. Tanner atiçou os cavalos com o chicote e aproximava-se velozmente. O coração de Erienne se apertou outra vez quando Christopher parou a quarenta metros do fosso. Uma bala de mosquete penetrou no chão ao lado dele e outra passou por cima, quando três homens a cavalo passaram pelo portão. Christopher não teve pressa, mas quando atirou foi com um movimento brusco e rápido. A arma recuou, o ar se encheu de fumaça e um dos cavaleiros caiu da sela, Os outros dois perderam a coragem quando Christopher apontou a outra pistola para eles. Mergulharam de cabeça no fosso seco, sem se importar com o chão pedregoso ou a dor da queda. A carruagem adiantou-se, e o tropel dos cavalos encheu o ar quando Tanner estalou o chicote acima das cabeças dos animais. Quase imediatamente ele puxou as rédeas e pisou nos freios, para parar a carruagem ao lado da mulher e do homem que corriam


para ele. — Onde está lorde Saxton? — gritou Tanner. — Aquele é lorde Saxton — disse Bundy, apontando para Christopher, que se aproximava rapidamente, — Aquele é ele, sem a máscara. — Mas aquele é o Sr. Se... — Saxton! — rugiu Bundy, apanhando dois rifles ianques longos e ameaçadores, que estavam atrás do banco e atirando-os para Christopher. Enquanto alguns homens estavam ainda perseguindo os cavalos soltos no pátio do castelo, outros tinham montado e atravessavam a ponte sobre o fosso seco. Christopher ajoelhou-se no chão, ao lado da carruagem, enquanto Haggard erguia Erienne, ajudando-a a entrar. Christopher molhou a mira do rifle e o levou ao ombro. A arma leve recuou e saltou, e embora a fumaça fosse pouca um dos homens deu um grito e caiu da sela. Christopher ergueu o outro rifle e outro homem caiu. Haggard estava dentro da carruagem, e seu mosquete rugiu. — Acertei! — gritou ele, com entusiasmo, quando Christopher saltou para dentro. Mal seus pés deixavam o solo, Tanner sacudiu as rédeas e a carruagem partiu. O xerife Parker estendeu o braço na direção da carruagem. — Atrás deles! Não os percam de vista! Sei para onde estão indo, mas quero todos nos calcanhares deles, até chegarem em casa! — Outros homens montaram, e ele gritou: — Vão chamar mais homens e nos encontrem em Saxton Hall! vou para lá depois de cuidar daquela imprudente Talbot! Rilhando os dentes, Parker atravessou o pátio na direção da torre. Trabalhava para lorde Talbot fazia mais de cinco anos, e só nos três últimos como xerife. Os dois acharam muito engraçado o disfarce que ajudava a afastar as suspeitas dele. O incêndio de Saxton Hall fora idéia sua, depois que Edmund Saxton invadiu o acampamento deles, por acaso, e o viu entre os assaltantes. Talbot concordou de imediato com o plano, pois sempre odiara os Saxton e cobiçava suas terras e sua riqueza. Cerca de vinte anos antes, lorde Talbot tinha assaltado Saxton Hall e assassinado o velho lorde quando suas acusações de traição contra Broderick Saxton não foram , aceitas pela justiça por falta de provas. Embora Talbot tivesse amigos na corte, ainda defendendo sua causa para expulsar os Saxton de suas terras, aparentemente a família tinha também amigos influentes e poderosos trabalhando para restabelecer a casa e a honra dos Saxton. Entretanto, a despeito de todos os esforços de Talbot, as coisas não iam bem. Grande parte desse insucesso era culpa de Christopher Seton. Além de ter firmado os pés naquela parte do país, ele começava a atormentá-los e a transtornar seus planos. Conseguiu apavorar Timmy Sears, e Timmy, com todo seu tamanho, confessou quase chorando tudo que revelara ao cavaleiro da noite. Deixou de dizer os nomes dos chefes, e por isso teve de ser morto antes de revelar isso também. Ben Mose também sabia mais do que devia, e por isso foi assassinado. Agora, com Seton livre para se vingar do rapto de sua mulher, os problemas tornavam-se mais sérios. Claudia seria o primeiro a ser resolvido. Parker passou pelos corpos inertes dos seus homens na torre e subiu a escada de três em três degraus. Entrou cauteloso na cela e franziu a testa, intrigado especialmente pelo vulto vestido de negro, na cadeira, de costas para a porta. Desembainhou o


sabre e, aproximando-se em silêncio, tirou o elmo de couro. O penteado elaborado de Claudia apareceu, e ela virou a cabeça, olhando furiosa para ele. Parker tirou a mordaça, mas logo percebeu seu erro. — Seus idiotas! Não podiam ver que Christopher estava brincando com vocês? Ele é lorde Saxton. A suspeita do xerife desapareceu aos poucos, à medida que começou a compreender. É claro! Por que não pensara nisso? Timmy Sears afirmara que o cavaleiro da noite era o Sr. de Saxton Hall, ressuscitado para atormentá-lo. Idiota, pensou ele. Deixei que o homem mascarado me enganasse com seus truques! Claudia não hesitava em culpar os outros, esquecendo que ela também se deixara enganar. Enquanto desfazia os nós que a prendiam, Allan ouviu sua reputação mergulhada na lama — não, açoitada e destruída —, seus antepassados analisados sob o ponto de vista de legitimidade e do conteúdo de características humanas, e até alguns epítetos deselegantes descrevendo o pai da jovem. Quando finalmente a libertou, Parker estava convencido de que a linguagem dos seus homens era a mais delicada do mundo. Claudia jogou longe a capa negra e apanhou o vestido azul de Erienne. Enquanto o vestia pela cabeça, ela disse: — Quero ver aquele bastardo esquartejado antes do fim do dia. A saia cobriu as anáguas, e Claudia começou a fechar o corpete do vestido. Arregalou os olhos, e o sangue subiu ao rosto quando percebeu que os dois lados do vestido recusavam a se encontrar, deixando uma abertura de um palmo na frente. Allan engasgou, tentando disfarçar o riso, e foi brindado com um olhar de raiva feroz. — Ajude-me a fechar o vestido — rugiu ela. — Sinto muito, mas não temos tempo — disse Parker, contendo-se para não explicar que era uma tarefa impossível. Muitas vezes, tinha observado a figura delgada de curvas bem-feitas de Erienne e, embora as duas mulheres se parecessem um pouco de rosto (e mesmo nessa área Claudia levava a pior), eram muito diferentes de corpo. Em poucos momentos, eles estavam atravessando apressadamente o pátio do castelo na direção da carruagem de Talbot, e enquanto Claudia se esforçava para não tropeçar na capa longa de lorde Saxton, Parker procurava convencê-la da conveniência de voltar para casa. — Não vai ser um bom lugar para uma mulher — argumentou ele. — Eu insisto! Quero ver a cara de Erienne quando você retalhar o marido dela. Allan suspirou, exausto. Sabia que nenhum dos Talbot era capaz de perdoar, e tinham sede de sangue nos seus planos de vingança. — Você tem a sua carruagem, não posso impedi-la, mas seu pai vai me censurar severam