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Paixão sem Disfarce Natalie Anderson Trabalhar nunca foi tão gratificante! Um romance frustrado durante a adolescência ensinou a Penny Fairburn que o fingimento seria o único caminho a escolher. Porém,ao ser , convidada a prestar assistência para o belíssimo Carter Dodds, percebeu o quanto estava enganada! Carter é o tipo de homem que pode se servir de qualquer mulher,e gosta de variedade!No entanto,depois de algumas noites ardentes com Penny,ele muda de opinião. Embora ela estivesse sendo verdadeira. Carter impôs um desafio inteiramente novo: fazê-la admitir seus sentimentos por ele!

Título original: The End of Fakingit Distribuição e Digitalização: Marina


Revisão: Meg / Formatação: Edina

CAPÍTULO UM Já era tarde, e ela queria tanto ir embora, mas um ou dois minutos a mais não fariam diferença. - Vamos lá, Audrey - murmurou Penny. - Precisamos cuidar da sua saúde. - Ela espalhou o fertilizante, recolocou o pacote na última gaveta do armário e apanhou o jarro de água. - O que está fazendo? Seus dedos tremeram, e ela girou ao som de uma voz acusadora. Ela viu um homem de porte grande, que vestia roupas pretas. Alguém que ela nunca vira antes. Um homem alto, moreno, com duzentos por cento de testos-terona, estava em seu escritório, tarde da noite. Não era Jed, o vigilante, mas um predador voraz que vinha na direção dela rapidamente. Ela deu um passo à frente, em reflexo. Ele soltou um palavrão, pois ela jogou água em seus olhos. Ela lançou também o jarro de vidro, tentando atingi-lo. Dedos fortes apertaram seu pulso. Ela imediatamente deu um puxão para livrar seu braço. Ele nitidamente torceu seu pulso. Ela respirou ofegante. Os dedos dela se abriram, e o jarro caiu entre eles. O choque da água gelada espirrando em seu tórax sufocou um grito agudo. Ela recuou, mas ele avançou implacavelmente, ainda segurando seu pulso. Ela se apoiou e bateu contra uma gaveta, que se fechou com um barulho. - Quem é você e o que está fazendo aqui? - perguntou ele. Choque, dor, medo. Ela não conseguia se mover, só piscava, tentando pensar em uma forma de fugir. Mas ele se aproximou ainda mais. - O que está fazendo com os arquivos? - perguntou ele, em tom ameaçador. Ela se encostou no gabinete de metal gelado. Mas o homem não estava frio. Ela poderia sentir seu calor até mesmo com a distância que havia entre eles. A mão dele ficou marcada em seu pulso. Seu grito não conseguia sair, não com sua garganta tão apertada e seu coração sem bater. Ele empurrou o cabelo para trás com a mão que estava livre e piscou várias vezes, seus olhos estavam molhados com a água que recebeu do jarro, não com lágrimas como os dela. Ele então sorriu, não por gentileza, e apertou seu pulso ainda mais. - Não achei que seria tão fácil. - Ele a examinou com desprezo. - Você não levará um centavo desta empresa. Penny deu um passo para trás. Ele era louco. Completamente insano. - O vigilante fará sua ronda a qualquer momento -disse ela. - Ele está armado.

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- Com o quê? Uma lanterna? A única pessoa a ir para a cadeia esta noite será você, querida. Sim, totalmente insano. Infelizmente ele também estava certo sobre Jed estar desarmado. O máximo que ela podia esperar era um cassetete. E era uma esperança sem sentido, porque ela estaria mentindo de qualquer forma, pois Jed não fazia rondas. Ficava sentado atrás de uma mesa. E ela estava dez andares acima. Estava sozinha com um louco que ia... Que ia... A respiração ofegante em seus ouvidos, como se alguém estivesse tendo um ataque de asma. Ela custou a perceber que era ela e pressionou sua mão que estava livre contra a barriga, mas não conseguiu parar de tremer. Seus olhos se encheram de lágrimas, seus músculos tremiam. Ela escutou vagamente quando ele prometeu algo. - Não a machucarei. - disse ele em voz alta, olhando para ela. - Já está me machucando - disse ela entre os dentes. Ele largou seu pulso de imediato, mas não se moveu, ainda bloqueando sua saída. Mas ela conseguiu respirar novamente, e seu cérebro começou a responder. Seu coração voltou a funcionar, lançando sangue em suas veias. Tudo o que ela tinha que fazer era fugir dali de alguma maneira e descer correndo para encontrar Jed na recepção. Ela podia fazer isso, certo? Ela se forçou a respirar fundo mais algumas vezes, conduzindo seu corpo e seu cérebro para o modo de sobrevivência. - Quem é você e o que está fazendo aqui? - perguntou ele, um pouco mais tranquilo dessa vez, mas ainda com aquele tom decidido. - Responda você - disse Penny. Ele olhou o jarro que estava caído no chão ao lado dela, onde estava a jardineira. - Você é a copeira? - Ele a olhou dos pés à cabeça lentamente. - Não parece uma copeira. - Não. Quem é você e o que você está fazendo aqui? - Agora ela conseguia ver, e quase pensar, e pôde avaliá-lo. Alto e moreno, com calça jeans e camisa preta bem talhada, como que feita por um alfaiate. E ele não usava um gorro. Não era o tipo de roupa que um criminoso, em geral, usaria. O olhar aborrecido havia desaparecido. Seu rosto estava bronzeado como se ele tivesse passado uma temporada esquiando ou velejando. Seus músculos definidos também sugeriam um tempo na academia. Em seu pulso estava um daqueles relógios que chamam a atenção, bem masculino, de metal, com vários pequenos ponteiros e funções que a maioria das pessoas não seria capaz de entender. E agora que a água já tinha escorrido de seus olhos, ela podia ver que eles tinham uma linda cor entre o azul e o verde. Claros e brilhantes e vibrantes e... Eles a estavam observando? - Perguntei primeiro - disse ele suavemente ao apoiar as mãos na estante de arquivos, passando os braços ao lado de seu corpo, que faziam uma longa, forte e bronzeada barra de prisão. - Sou a assistente pessoal - respondeu ela mecanicamente. - Esta é a minha mesa. - Você é a Penny? - Ele ergueu as sobrancelhas e deu uma olhada novamente em seu corpo. - Você não se parece com o tipo de assistente pessoal que o Mason teria. Como ele sabia seu nome? E como conhecia Mason? Ela apertou os olhos quando ele começou a observá-la mais de perto. O corpo dele irradiava calor, esquentando seu sangue e deixando sua pele mais sensível. Não era possível. Ela não podia permitir que ele olhasse para ela assim. Ela tentou ser um pouco sarcástica. - Na verdade, Mason gosta da minha saia. Ele inclinou a cabeça e estudou seu corpo mais um pouco.

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- Então é uma saia? Achei que fosse um cinto. - Ele sorriu. Não era o sorriso de um psicopata, mas com certeza faria algumas pernas tremerem, como as dela começaram a fazer. Ela precisou ordenar conscientemente que seus lábios não sorrissem de volta para ele, como uma tonta. - E um modelo antigo. -Ah, isso explica. Você não percebeu que as traças roeram a bainha? - Seu rosto se iluminou ainda mais. -Não que eu esteja reclamando. Tudo bem, sua saia jeans era minúscula, seus sapatos tinham saltos altíssimos e a blusa cor de champanhe deixava seus ombros à mostra. Claro que ela não usaria essas roupas para trabalhar. Estava vestida para ir a uma festa, em seu momento de lazer. Ela até poderia ter se vestido daquela forma se tivesse algum outro interesse. Só porque não namorava há algum tempo, não significava que precisaria perder as esperanças. Agora sua linda blusa de seda estava ensopada, justa em seu corpo, revelando muito mais do que ela pretendia. E ela não sentia qualquer atração por um estranho que apareceu de repente. - Antes que eu grite, quem você é? - Não que houvesse qualquer necessidade de gritar agora, e ela sabia disso. - Eu trabalho aqui - disse ele lentamente. -Não pode ser verdade. Conheço todos que trabalham neste prédio. Ele tirou um crachá do bolso. Ela leu rapidamente o nome: Carter Dodds. Não significou nada para ela a princípio; ela nunca escutara falar dele. Depois ela olhou a foto e percebeu que ele estava usando a mesma camisa preta que vestia agora. Seu cérebro rapidamente chegou à simples conclusão: - Você começou hoje. - Oficialmente, começarei amanhã - assentiu ele. - Então porque está aqui agora? E como? - Jed podia não fazer rondas, mas podia saber quem permanecia no prédio após o horário. E certamente Mason não deixaria um funcionário recém-contratado ter livre acesso a tudo sem ninguém por perto para supervisionar. - Eu queria ver como era o local quando estava tranquilo. - Por quê? - Sua suspeita cresceu. O que ele queria ver? Não havia dinheiro guardado ali, mas havia arquivos, contratos, dados contábeis, várias informações sigilosas sobre investimentos, que valeriam milhões. Ela olhou para a porta aberta do escritório de Mason, mas não conseguiu escutar nenhum barulho de alguém trabalhando no computador. -Por que você está regando as plantas às 21h30? -perguntou ele. - Esqueci de regá-las mais cedo. - E então voltou apenas para fazer isso? - acrescentou ele com total descrença. Na verdade, ela estava no andar de baixo, nadando na piscina, quebrando todas as regras, porque a sala de ginástica já estava fechada. Mas ela não queria envolver Jed nesse assunto. - Recém-contratados não conseguem me atrapalhar. -Não? Ele sorriu, mas antes de conseguir formular outra pergunta, ela se antecipou: - Como conseguiu ficar aqui sozinho? - Mason quis ir embora mais cedo. Começaremos o trabalho amanhã. - Ele não me contou que você começaria esta semana. - Ele sempre conta tudo? - Geralmente, sim. - Ela levantou a cabeça com uma expressão desafiadora, mas ele não percebeu, seu foco já havia se voltado para o corpo de Penny outra vez.

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- Mason é apaixonado pela esposa - disse ele abruptamente. - Não conseguirá nada com ele, mesmo usando saias tão curtas. Ela ficou boquiaberta. -O quê? - Você não seria a primeira menina bonita a se jogar para um homem mais velho. O que ele estaria sugerindo? - Mason tem 80 anos. Ele deu de ombros sem esconder sua raiva. - Para algumas mulheres, isso o tornaria ainda mais atraente. - Bem, não é o meu caso. Ele é como um avô para mim. - Ela fez uma careta. - Foi você quem disse que ele gosta da sua saia. - Só porque você não conseguia tirar os olhos dela. - Mas não é essa a razão para você usá-la? Ela fez uma pausa. Ele não tinha receio de desafiá-la diretamente, não é? Bem, nem ela, quando conseguia pensar. Agora seu cérebro não estava funcionando direito. - Acho que você não deveria estar aqui agora. -É mesmo? Vá em frente e pergunte ao seu chefe. Pode usar meu telefone. - Ele tirou o celular do bolso, digitou os números e entregou a ela. Tocou algumas vezes. - Carter, já encontrou alguma coisa? Penny segurou mais firme o telefone ao observar o tom ansioso na pergunta feita por Mason. -Não, Mason, desculpe, é a Penny, não o Carter. -Ela gaguejou ao ver um sorriso súbito no rosto de Carter, diabólico. - Veja, acabei de esbarrar com alguém no escritório. - Carter - disse Mason. - Sim. - Penny estremeceu com o sentimento de que se surpreenderia ainda mais. Ele me emprestou o celular para que eu falasse com o senhor. - Penny, desculpe, eu deveria ter dito a você, mas Carter pensou que seria melhor aguardar até ele chegar. Pensou que poderia aguardar até ele chegar? Por que Carter ditava as regras? O que estava acontecendo? - Carter comanda o Dodds WD em Melbourne. Pedi que ele viesse a Sydney e ficasse por duas semanas. Precisava de sua ajuda. - Para quê? Carter sabia que continuava parado muito perto dela. Na verdade, recolocou as duas mãos ao redor do seu corpo. Dessa forma, ela não poderia escapar. Ele tinha certeza de que ela tentaria fugir, então quis garantir que ela não conseguiria. Ele estava tentando se concentrar para não cair na tentação de sussurrar que deveria avançar aqueles poucos centímetros. Ele empurrou as mãos com força contra o metal frio e a observou apertar o telefone para mais perto de sua orelha e virar a cabeça para longe dele. Ela corou, e Carter não pôde deixar de se divertir com a situação. Mason era o melhor amigo de seu avô. Ele o via algumas vezes por ano durante toda a vida e estava registrado na agenda de chamadas do telefone de Mason para provar isso. Era a primeira vez que Mason pedira sua ajuda, e ele ajudaria. Distração. Com letra maiúscula. - E claro. - Penny afastou ainda mais a cabeça, claramente para evitar que ele escutasse o que quer que Mason estivesse falando. Carter não fazia questão de saber o que ele dizia. Estava completamente perdido, olhando para ela. Ela tinha os olhos maiores e mais escuros que ele já vira. Eles o atraíam. O formato de olhos para que se pode olhar por toda a eternidade.

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Perifericàmente, partes de seu corpo estavam sendo observadas e a parte de trás do seu cérebro tirou conclusões rápidas. Uma saia tão curta, uma blusa sexy, um corpo tão perfeito, lábios provocantes... Essa mulher sabia o quanto era atraente e ressaltava todos os seus melhores atributos. Tudo era planejado para ser sensual à perfeição. Ela não era uma secretária tímida e encolhida. Era uma sirene. E todas as células do corpo de Carter queriam muito responder à sua provocação. -Alô? Ela estava segurando o telefone para ele. - Oi, Mason, desculpe incomodá-lo tão tarde. - Não se preocupe. Acho ótimo que você tenha começado tão rápido. Não conseguirei retribuir a ajuda. - Então Penny é sua atual assistente pessoal? - Carter continuou olhando para ela, ainda custando a acreditar que aquele senhor tão conservador de 80 anos havia contratado uma secretária tão sexy. - Ela está trabalhando até tarde. - Ela sempre trabalha até tarde. - Mason parecia satisfeito. - Ela é um anjo. Chego pela manhã, e está tudo tão organizado que facilita muito o trabalho. Um anjo? A suspeita de Carter reapareceu. Penny não seria a primeira jovem atraente a virar a cabeça de um homem mais velho. Carter sabia exatamente como era fácil para uma mulher ambiciosa usar sua beleza para deixar um senhorzinho tolo ficar bastante deslumbrado. Apesar da reação dela, quem diria que isso não estava acontecendo por aqui? - Ela está com o senhor há quanto tempo? - Ele não pôde deixar de perguntar. Houve uma pausa. - Desde quando o problema começou. - A voz de Mason se tornou fria. - Pensei que isso já tivesse ficado claro. De fato, Mason mencionara sua assistente pessoal mais de uma vez. - Pode contar a ela o que está acontecendo - disse Mason abruptamente. - Eu já devia ter feito isso. Carter, ela não é quem você está procurando. Carter olhou para a tentação personificada que estava à sua frente. Sua boca era brilhante e vermelha como uma cereja, que ele queria provar. Esse era o verdadeiro problema. Ele já estava saindo do caminho certo antes mesmo de começar. - O senhor tem razão - disse ele. - Ela não é. Penny o observou guardar o telefone no bolso. Ele parecia não estar nada contente com a situação; não sorriu nem se desculpou. Ele parecia tão nervoso quanto da primeira vez em que a interrogou. Ele estava aqui para fazer exatamente o quê? Mason não dera detalhes, só disse a ela para ajudá-lo caso lhe fizesse perguntas. Não haviam anunciado um novo cargo, era ela quem divulgava as novas vagas, então saberia. Era nepotismo e estava relacionado ao conhecimento do pai dele com o senhor Mason nos tempos de escola. Mas ele não parecia ser um recém-formado que recebe o primeiro empurrão do amigo do pai. - Você conhece Mason pessoalmente - disse ela asperamente, aborrecida com o fato e por ele ser tão atraente. - Há muitos anos. Essa era a razão para a vaga não ter sido anunciada. Mason provavelmente criara uma função para ele exercer. - Não parece que você precise retribuir favores para conseguir um emprego. - Não mesmo? - respondeu ele suavemente. - Como você poderia saber? É assim que você faz? - Ele se aproximou mais dela e sussurrou como se fossem íntimos. - A que tipo de favores você se submete para conseguir um emprego, Penny?

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Tudo bem, ela passara um pouco dos limites, mas ele estava exagerando. - Que tipo de favores você pensa que eu faço? - respondeu ela sem pensar. Os olhos dele flamejaram, as pupilas se expandiram rapidamente. Seu rosto tinha a simetria perfeita. As palmas das mãos dela estavam dormentes, quentes. Agora ela estava ficando quente, a pele dura e sedosa, acariciando mais e mais rápido e... Meu Deus, de onde vinha aquilo? Ela recuou àquela loucura. Ela não podia pensar assim. Ela olhou para baixo e apertou a boca, fechada, consciente de que sua respiração havia passado de rápida para audível, outra vez. Ela deu uma olhada para ele. O sangue incendiava todo o seu corpo, fazendo a face dela corar. Pelo menos, ele não estava ofegante como ela, infelizmente, estava. Ele não disse nada, ela não disse nada. Mas estava no ar entre eles, uma atração muito intensa. Seus desejos mais básicos, quase incontroláveis. - Há um problema na contabilidade, alguém na empresa está roubando - disse ele subitamente, levantando a cabeça. - O quê? - Estou aqui para verificar os arquivos e descobrir quem e como. Alguém estava roubando? E Carter estava aqui para pegá-lo? Mason disse que ele administrava uma empresa em Melbourne, então devia ser um contador ou algo do tipo? Na verdade, ele não parecia ser dessa área. Não usando jeans e com o cabelo tão desalinhado. Ele parecia ser muito desleixado para passar o dia debruçado sobre os números. - As únicas pessoas que saberão a verdadeira razão para eu estar aqui serão você, Mason e eu - continuou ele. - Vamos contar ao pessoal da empresa que sou um amigo do Mason que pediu uma sala de escritório emprestada por algumas semanas. Seus olhos verdes adquiriram um tom neutro de azul. A curva sensual da sua boca ficou reta, em uma linha severa. Penny observou, percebendo aquela informação e suas implicações. Então ela se deu conta. - Você pensou que fosse eu? - Ela praticamente gritou, com sua temperatura quase a ponto de ebulição. Ela podia ser qualquer coisa, menos uma ladra. - Sou a melhor funcionária desta cidade, trabalhadora e honesta. Como ousou aparecer aqui e despejar suas acusações sobre mim? - Eu sei. - Sua expressão se tornou muito intensa. -Peço desculpas. Mason já havia me dito que não poderia ser você. Ele suspirou e a desarmou com um leve sorriso, o que abriu sua armadura e deixou o calor inundá-la outra vez. Mas ela se recusou a deixar a raiva desviar sua atenção. - Você ainda acha que sou eu - acusou ela. - Bem, você tem que admitir que parecia... Parecia... O corpo dela, apesar do frio por causa da blusa molhada, estava fervendo. Era impossível parar aquela atração. O mais simples de se fazer era fugir. - Então, agora que já observou tudo - disse ela com sarcasmo, os olhos fixos nos dele. - Poderia dar um passo para trás e me deixar passar? -Ainda não - disse ele. - Ainda estou observando. Penny estava tão nervosa que queria gritar. Ele baixou os olhos, e seu sorriso perdeu o brilho. Ela também olhou para baixo. Agora sua blusa de seda estava molhada, estava da cor da pele e grudada em seu corpo, como se ela não estivesse usando nada. Ainda pior, ela estava dolorida... E horrorizada ao perceber que isso estava evidente.

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- Você está com frio - disse ele suavemente. Sim, era óbvio. - A água da jarra estava no congelador. - Então é por isso que... Ela não tinha muito o que fazer. Ela ergueu a cabeça, e seus olhos foram diretamente ao encontro dos dele. - Que outra razão poderia haver? Ele deu um leve sorriso. No rosto bronzeado, seus dentes eram brancos e perfeitamente alinhados. Na verdade, tudo em seu rosto era perfeito. E vestindo camisa e calça escuras, ele parecia um pirata, principalmente com o cabelo um pouco comprido. A intensidade de seu olhar era devastadora e agora estava fixado em uma coisa, em sua boca. Ela percebeu qual era a sua intenção. Ela já sentia em seus lábios o anseio ao toque. Mas até para ela isso seria insano. Ela não gostou da forma como ele apertara seu pulso. Não gostou do modo como seu corpo estava gostando tanto de suportar o impacto. - Não acrescente outros insultos à lista - disse ela, tentando retomar o controle sobre seu corpo. Mas as palavras não saíram com a força que ela queria. Ao invés disso, ela sussurrou com dificuldade para respirar, porque mal podia se mexer o suficiente. - Como o ato de apreciar sua beleza pode ser um insulto? Ela estava acostumada a lidar com homens confiantes. Era o tipo de que ela gostava, quase à prova de balas. Mas isso era mais do que impetuosidade superficial. Era inata, absoluta arrogância. Ele ficou ainda mais perto, sentindo seu calor. O sangue dela passou por todos os lugares mais secretos de seu corpo, e seu cérebro não conseguia operar. O sorriso dele, de repente, ficou mais iluminado. Ele ergueu a mão e passou o dedo nos lábios de Penny. Ela estremeceu. Choque. Ela estava em choque. Esse era o problema, a razão para ela não estar resistindo... A expressão dele se aqueceu ainda mais. - Você está bem? - Estou - murmurou ela. O dedo dele entre seus lábios amorteceu as palavras que ela, de qualquer maneira, não conseguiria pronunciar com força. Ela estava muito ocupada apertando os lábios com firmeza para impedir que sua boca se abrisse em convite à dele. Mas, de alguma forma, ele percebeu o convite porque tirou o dedo e rapidamente o substituiu por sua boca. Oh. Foi suave. Um beijo morno, suave, que prometia mais do que entregou. Mas o que entregou foi bom. Ele chegou mais perto, sem parecer ameaçá-la, mas com uma pitada de tempero masculino e pressionando só um pouco, o suficiente para fazê-la aceitar. Para fazer com que ela quisesse mais. Surpresa, ela relaxou. Seus olhos se fecharam automaticamente enquanto seu corpo se concentrava na doçura do toque. Havia muito tempo que ela não sentia nada tão bom... Uma magia sutil que enfraqueceu sua resistência. Seus lábios se abriram, ela não conseguia se negar. A resposta dele foi imediata e poderosa. Ela ouviu seu som de satisfação e suas mãos movendo-se do móvel para seu corpo macio. Ela tremeu dos pés à cabeça quando ele passou a mão por suas curvas, apertando seu corpo contra o dele. Ela precisou agarrar seus ombros ou cairia para trás. O beijo esquentou outra vez. Ela soltou o pescoço para trás quando ele acariciou sua boca. Ela ergueu a mão, deslizando o dedo por seu cabelo grosso. Ele não mostrou

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nenhuma resistência, beijou seu rosto e seu pescoço e voltou a beijar sua boca, dessa vez mais confiante, com autoridade carnal. Ela estremeceu com o impacto e ainda sentia seu corpo pressionar o dela, apertada entre ele e o armário. Mas ela não tinha nenhuma vontade de fugir. Não agora. Sua arrogância era de tirar o fôlego. Mas de forma alguma tão surpreendente quanto a forma como ele a beijava. Era como se ele estivesse determinado a maximizar o prazer para eles dois, e o controle que ela costumava ter começou a desmoronar com tanto desejo. Ela quis sentir todo o corpo de Carter contra o dela. Ela o queria como não quis mais ninguém por muito e muito tempo. Tudo bem, como nunca. Desejando sua força e sua paixão, ela o beijou, derretendo contra seu corpo, procurando sua boca com a língua, tão ávida para explorar mais. E ele sabia. Colocou a mão que estava na cintura dela em seu seio e, oh!, acariciou ligeiramente seus mamilos rígidos. Ela sentiu o toque como se sua pele estivesse nua. E ficou muito quente. Ela o empurrou para trás. Seus olhos se encontraram a centímetros de distância. Uma chama de algo perigoso se acendeu... Diferente da fúria de mais cedo, mas igualmente amedrontadora para Penny. Ela tentou afastar-se o quanto pôde na direção do móvel de metal, respirando com dificuldade. Ela balançou a cabeça, o único meio de comunicação que ela conseguia usar. Enquanto ele ficou parado, petrificado, olhando fixamente para ela. Um milhão de pensamentos passou por sua cabeça... Pensamentos desesperados, esquecidos, assustadores. Ele demonstrara que sempre estaria no controle. Ela gostava de sexo, a provocação, a diversão do toque, a proximidade passageira. Mas ela nunca, nunca perdeu o controle. Ela tinha que estar no comando, precisava ser desejada, mesmo se só por pouco tempo. Ela era muito cuidadosa sobre com quem dividir seu corpo porque depois sempre iria embora. E tinha certeza de que um amante entendia aquilo. Compromisso não era algo que ela sempre ofereceria. Nem era completamente submissa. Então as sensações que agora ameaçavam subjugar toda a sua capacidade de pensar de forma racional eram muito novas. E muito indesejáveis. Mas havia uma explicação lógica. Menos de cinco minutos atrás, ela pensou que estava sendo atacada. Seu coração não tivera chance de parar seu descompasso e ainda estava enviando o comando "escapar agora" pelo seu sangue. - Bem, foi uma maneira de diminuir o fluxo de adrenalina. - Ela tinha que agir friamente. - Era o que você estava fazendo? - Com certeza. Você sabe, eu ainda estava tremendo de medo por você ter me atacado no meu próprio escritório. Ele deu um passo para trás, levando seu calor. Mas seu olhar parecia ainda mais intenso do que antes. - Ah. Então o que foi para mim? Ela se aventurou a fazer uma suposição simples: - Normal? - Não. - respondeu ele. Seu corpo não estava esfriando, mas ela precisava se recompor. Ela não tinha medo de se divertir quando fosse possível, mas não havia diversão ali. Algo tão quente assim em algum momento devia doer. E qualquer emoção tão intensa a assustava. Em dez minutos com Carter, ela já tinha passado uma série de terror, fúria e luxúria.

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- Preciso ir. Estou atrasada. - Quanto mais cedo pudesse chegar ao bar, melhor... Ela precisava acalmar a energia que circulava aleatoriamente por seu corpo, como uma mosca atordoada dentro de um jarro. Ficar livre em uma pista de dança pelas próximas oito horas poderia resolver isso. - Um encontro quente? - Muito - mentiu ela, feliz por frear qualquer coisa entre eles, evocando seu amigo imaginário. Carter se afastou um pouco. Não sabia o que acontecera com ele. Acabara de beijar uma desconhecida. Uma estranha que ele inicialmente pensou que estava roubando Mason. Ele provavelmente deveria se desculpar. Mas como poderia pedir desculpas por algo tão bom? Ela parecia chocada e quase amedrontada, quase vulnerável. E então ela teria culpado a química da adrenalina? Com quem ela pensava que estava brincando? E agora ela estava aparentemente atrasada para seu encontro. Ela tirou a blusa, direcionando o ar quente do secador de cabelos para o tecido. Então ergueu a gola e apontou para baixo do decote para secar sua pele macia. Ele ficou ainda mais excitado. Uma luz iluminou sua mesa. O celular da Penny, com uma mensagem na tela. Onde vc tá? Kat e Bridge já estão na pista e se acabando de dançar. Vem logo. Seu encontro quente era com Mel, Kat e Bridge? Um grupo de mulheres que saíram em missão, numa noite de segunda-feira. Ele tirou o secador da mão dela e apontou para seu cabelo molhado. -Aqui está muito frio! O rosto dela corou. - Ah, pensei que você estivesse com calor. - Ele não está funcionando bem - disse ela abruptamente. Carter apertou outro botão e colocou o secador na direção dela como uma arma. - Ou talvez seja porque você ligou o secador para o ar frio. Bum! Outras manchas vermelhas apareceram em sua pele. Ela desligou o aparelho. -Aqui está seu telefone. - Ele entregou a ela. Ela olhou para a tela e fez uma careta. - Você leu minha mensagem? - Ela apareceu quando peguei o aparelho. - Ele deu de ombros quase inocente. - Você não precisava pegá-lo. - Mas gosto de pegar em coisas bonitinhas e pequenas. - Tenho certeza de que tem muita prática nisso. - Bem, a prática leva à perfeição. - É isso que você pensa que oferece? A perfeição? Ele sorriu ao tom de sua voz. Ela fazia provocações de uma forma tão irresistível. - Você não acha? Os olhos dela estavam fixos nos dele. Céus, como ele gostava disso. - Acho que você pode conseguir se praticar mais. - Está se oferecendo? Ela se virou, recolheu o jarro do chão e andou até o refrigerador para enchê-lo novamente. Ela queria literalmente apagar as chamas outra vez? Mas não, ela derramou a água ao redor da base do vaso de planta.

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- O que é isso? Algum tipo de planta carnívora? -Ele observou os caules, que pendiam sobre o móvel. - Se ela crescer mais, não haverá espaço para ninguém trabalhar aqui. - Ela pertence à Carol, e a planta estará aqui quando ela voltar. Bem saudável. - Você acha mesmo que isso vai acontecer? - Carter sabia que a assistente de longa data de Mason teria de vencer uma batalha contra o câncer. Ela estava fora havia meses, e Mason pagava seu salário integral do próprio bolso. Por isso, encontrar a pessoa que estaria roubando o escritório era uma prioridade. Ele estava pagando por duas assistentes pessoais. Ele era muito trabalhador, um patrão generoso que merece mais do que funcionários ingratos e que colocam a empresa em perigo. - Claro que ela vai voltar. - Penny colocou o jarro sobre o móvel e, finalmente, olhou para ele diretamente outra vez. As chamas ainda estavam lá. - Alguém está mesmo roubando? Carter assentiu. - Acho que sim. - Mas Mason é uma pessoa tão boa. Faz tanta caridade. Não merece isso. - É por isso que estou aqui. A avaliação dela foi aguçada. - Bem, é melhor seguir com seu jogo. - Eu também estava pensando nisso. - Ele assentiu com a cabeça, mas o jogo a que ele se referia era o que podia ser praticado junto com ela. E ele não deixou de perceber sua luta contra o desejo e o antagonismo na expressão dela. Ele andou junto com ela pelo corredor, e entraram no elevador num silêncio torturante. O espaço entre eles era muito pequeno, mas ele queria que fosse ainda menor... Para que pudesse sentir sua pele. Como um tigre, ele estava pronto para lançarse sobre ela. Pelo menos, seu corpo estava. Seu cérebro advertia freneticamente contra essa ação, como se ele não tivesse tempo para isso, como se precisasse focar. O vigilante saiu da mesa para abrir a porta para ela. - Boa noite, Penny. - Seu sorriso se iluminou ao observá-la andando pela recepção na direção dele. Esse sorriso perdeu o brilho quando ele olhou para trás dela e viu Carter. - Boa noite, senhor. - Subitamente de forma bastante respeitosa. Carter acenou e sorriu. - Espero que Maddie esteja melhor quando você chegar em casa - disse Penny suavemente. - Eu também. - O vigilante voltou a sorrir. - Nos vemos amanhã. Ela riu ao passar pela porta. -Divirta-se, Penny. - disse Carter ao chegarem ao térreo. Ela se virou para ele e piscou. - Ah, espero que sim. Ela também não conseguiu resistir. E ele sabia o tipo de diversão de que garotas como ela gostavam... O tipo "durma comigo". Ele sorriu feliz em fazer parte da brincadeira, caso ela quisesse, porque a experiência fez com que ele amadurecesse. Ela não conseguiria descobrir se tentasse. Ela foi embora, com as pernas compridas naquele pedacinho sexy de saia, andando elegantemente sobre os saltos altos e finos. Seu cabelo castanho e brilhante caía sobre os ombros quase até a cintura. Ele podia apostar que ela se cuidava perseguindo a perfeição. Não que ela precisasse se preocupar. Ela conquistaria tudo isso só com atitude. Testosterona... E outras coisas... Vieram à tona outra vez. Assim como sua oculta natureza combativa. Aquela vulnerabilidade que ele viu lá em cima no escritório quando ele a assustou e outra vez quando a beijou? Uma miragem. Penny, a assistente pessoal,

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sabia como brincar com um homem, o olhar de assassina que ela há pouco lançara sobre ele podia provar isso. Mason faria tudo por ela. O segurança se desdobrou em cuidados com ela. Ela teria vontade de pisar em Carter como fazia com todos os outros homens. Sim, ele vira seu desejo de dominar a situação. Ela pensou que podia brincar com ele como faria um gato com um rato. Ela estava muito enganada. Mas ele mal podia esperar para que ela começasse.

CAPÍTULO DOIS Penny piscou para Jed ao entrar no prédio nove horas mais tarde, três das quais ela passou dançando, e as outras seis, dormindo. - É muito cedo Penny. - Ele disfarçou o bocejo. - Muito cedo. A primeira a chegar naquele dia, ela queria se antecipar e já estar com o trabalho adiantado quando Mason chegasse. Definitivamente pronta quando Carter Dodds aparecesse. Uma enorme caneca de café que ela tinha nas mãos ajudaria. Mas ela mal havia se sentado quando a porta à sua frente se abriu. - Resolvi trazer para cá antes de ir embora. Jed entrou... Bem, ela conseguiu reconhecê-lo pela voz. Seu corpo estava completamente escondido atrás de um buquê de flores tão grande que quase não passou pela porta. - Acabou de chegar - disse ele. - Mais nada? - Penny se acomodou na cadeira. Ela sabia de quem eram. Aaron, um playboy mimado, o tipo de homem pelo qual Penny sempre procurou quando precisava de companhia por algum tempo. Só faltava a chama. Na semana passada, ela disse a ele não e adeus, achou que havia sido clara, mas as flores continuavam a provar o contrário. - Obrigada, Jed - disse ela, enquanto ele apoiava o enorme arranjo de flores sobre sua mesa. - Bom descanso. - Não sou eu quem precisa descansar. Penny disfarçou um suspiro. Ela levaria as flores de volta para a recepção, mas aguardaria até Jed ir embora, pois ele estava exausto depois do turno da noite e não tinha que ficar levando flores para ela de um lado para o outro. Ela pegou o telefone e discou um dos botões pré-programados. - Speed Freaks. - Oi, Kate - disse Penny. - Tenho uma entrega de flores, por favor. - Penny? Mais uma? - Sim. - Ela tentou não parecer muito negativa. Era patético ficar decepcionada por ter ganhado um enorme buquê de flores; a maioria das mulheres ficaria maravilhada. - Você poderia vir buscá-las o mais rápido possível? - perguntou ela, desconcentrada ao observar o rosto simetricamente perfeito de Carter, que apontava no corredor. Seu corpo todo se derretia. Graças a Deus, ela ainda estava usando sua jaqueta, porque seus seios estavam gritando pela blusa branca. Recordações daquele beijo suave a atormentavam desde a noite passada. - Estarão na recepção. Ele era ainda mais atraente durante o dia. Ainda mais agora que ela não estava cega de medo e que seus sentidos não estavam apurados por uma onda de adrenalina.

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Não, agora era outro hormônio que ondulava por seu corpo, fazendo com que ela ficasse trêmula. Hoje ele não estava de calça jeans e camisa. Estava de terno escuro. O coração de Penny batia forte. Ela se virou para sua mesa, baixando o tom de voz. - Obrigada, Kate. - Ela queria desligar o telefone. -Tem certeza de que não quer ficar com elas? Ou com ele? - Kate não entendeu a intenção de Penny de desligar o telefone. - Ele deve ser rico para continuar mandando esses buquês enormes para você. E está claramente apaixonado. Penny estremeceu. Depois, estremeceu novamente ao perceber que Carter também conseguiria escutar o que Kate estava dizendo, pois o volume do telefone estava muito alto. Ela olhou por cima do ombro e deu um salto. Ele já não estava mais no portal. Estava a cerca de três centímetros de distância, no máximo. - Não. Vou soletrar se for preciso. - Mas Penny ficou tensa. Ela não sabia ser mais clara. Ela pensou que Aaron gostaria de se encontrar com ela algumas vezes por diversão e depois dizer adeus. Mas não foi o que aconteceu. Ela percebeu, pelas constantes entregas de flores, que ele não estava acostumado a ouvir "não" e agora estava determinado a fazer com que ela mudasse de ideia. - Onde você quer que elas sejam entregues? - Que tal no hospício? Mande as flores para a sala dos funcionários. Eles trabalham tanto! - Certo. Carter lançou sua última arma: aquele sorriso, que agora era divertido, tornando sua boca mais sensual. Os olhos verde-azulados eram brilhantes e claros. - Não quer ficar com elas? - Ele estava bem perto. Por que ele não poderia ficar do outro lado da mesa dela? Ele observava o enorme buquê e olhava para o cartão, as milhões de miniaturas de corações vermelhos na capa obviamente mostravam que era um presente romântico. De alguma forma, ele sabia que isso a incomodava ainda mais. E ele já sabia que ela não queria ficar com as flores, pois escutou a conversa ao telefone. - Sou alérgica. - Ela mentiu e- sorriu. Ela queria se livrar dele e das flores. Como ela conseguiria se concentrar com sua mesa coberta de flores e um homem mais atraente do que o novo modelo do momento fazendo a sala encolher a cada respiração? Ele apertou os olhos. - É mesmo? - Sou. Preciso levar essas flores até a recepção. - Ela se levantou para pegar o buquê e fugiu. Mas com a pressa, raspou o dedo contra um dos caules, se arranhando em um espinho. - Droga. - Ela olhou para a pele e viu um pouco de sangue escorrer. Odeio esse arranjo. - Deixe-me ver. - Ele pegou em seu pulso antes mesmo que seu cérebro pudesse reagir. Ela puxou o braço. - Está tudo bem. Um pequeno curativo vai resolver - balbuciou ela. Todos os seus músculos tremiam, e ela desejava que ele a puxasse para um abraço mais íntimo. - Chupe o seu dedo. - Seus olhares se encontraram. -Ou posso fazer isso se quiser. Por uma fração de segundos, sua boca se abriu. Oh, ele estava tão lindo quando ontem à noite. E ela estava perigosamente sensível. - Não foi nada. - Ela puxou a mão, fechando os dedos. - Preciso tirar essas flores daqui.

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- Ei! - Ele fez uma careta e puxou outra vez o braço dela, observando que tinha machucado seu pulso. - Fui eu quem fez isso? - Oh. - Ela olhou as marcas roxas que circulavam seu pulso. - Não se preocupe. Minha pele fica roxa e marcada com facilidade. Ele olhou para o rosto dela, toda sua expressão erótica deu lugar à preocupação. - Peço mil desculpas. - Não precisa. - Ela balançou a cabeça rapidamente. - Como eu disse, não foi nada. - Honestamente, o apertão que ele deu só fez piorar. Sua pele realmente ficava marcada com facilidade, e sua mudança para um semblante mais sério só fez com que ele ficasse ainda mais atraente. E agora ele estava tocando bem de leve em cada mancha com os dedos. - Não está bem. Penny precisava sair dali ou faria algo estúpido. Aquelas carícias suaves estavam tendo algum tipo estranho de efeito hipnótico, fazendo seu desejo ficar mais íntimo, fazendo com que ela quisesse ficar ainda mais perto dele. Em vez disso, ela se virou para as flores. - Vou levá-las. - Ele pegou o grande buquê com uma das mãos. Foi bom porque ele se foi e ela teria alguns minutos para colocar a cabeça no lugar e deixar seus hormônios se reorganizarem. Ela deveria ser gentil e dizer algo. Mas não sabia se deveria agradecer. As sensações ainda reverberavam em seu corpo, fazendo com que ela tremesse mais do que com qualquer terremoto. -Penny... - Mason deve estar aqui a qualquer minuto - disse ela rapidamente. - Mason não virá hoje - respondeu Carter. - Ele está trabalhando de casa e lhe enviará um e-mail. Ela se espantou. Mason nunca trabalhara de casa. Ele podia ter 80 anos, mas era quase sempre o primeiro a chegar todos os dias. - Levarei o que ele precisa até lá. - Na verdade, ela queria ver como ele estava. - Isso seria ótimo. Seus olhares se encontraram outra vez. -Vou descobrir quem o está apunhalando disse Carter com determinação. Penny assentiu. Ele se preocupava com Mason, isso estava claro. - Voltarei em um minuto. - Ele deixou a sala. Penny sentou na cadeira. Carter carregou o enorme buquê até a recepção, preferindo usar as escadas em vez de esperar pelo elevador. Ele precisava gastar energia. Penny entrara em sua mente. Ele havia pensado nela durante toda a noite, em vez de ter a cabeça livre para refletir sobre o que estava acontecendo na empresa. O encontro de hoje só fez com que isso piorasse. Ela pareceu incrivelmente diferente. O jeito sexy havia desaparecido, dando lugar a uma visão perfeita do estilo conservador e perspicaz. Ela agora usava saia com comprimento adequado, a blusa branca estava coberta por uma jaqueta bem talhada. Tinha um colar de pérolas em seu pescoço. O cabelo negro e brilhante estava preso para trás. Normalmente, Carter não era contra misturar negócios e prazer. Quando o trabalho tomava muito de seu tempo, às vezes era a única forma de encontrar espaço para o prazer. Até que a mulher entenda que o interesse seria algo temporário e que não haveria nenhum benefício além do prazer físico. Ele geralmente não se envolvia com alguém diretamente subordinada a ele, mas alguém de uma das empresas coligadas ou escritórios das filiais. Mas ele não deveria se envolver com Penny, não tendo apenas uma ou duas semanas para encontrar o mau caráter que estava roubando Mason. Felizmente, ele per-

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cebia que ela era uma mulher que entenderia o tipo de relacionamento de que ele gostava, e o curto espaço de tempo poderia salvá-los de qualquer possível confusão. Ele só precisava ter certeza de que ela entenderia os seus limites. Na privacidade do hall de escadas, ele abriu o cartão que ainda estava preso às flores. "Espero revê-la hoje à noite, Aaron." Os músculos de Carter se tencionaram. Ela o teria visto na noite passada? Talvez ela tenha tido um encontro depois de se reunir com as amigas. Ele não estava nem um pouco surpreso de pensar que ela procuraria outro homem só para tentar parar de pensar nele; ele estava bem acostumado com mulheres que manipulavam e brincavam com um homem para esquecer-se de outros. Sua ex tinha feito exatamente isso, tentando forçá-lo a ter algum compromisso com ela provocando ciúmes. Não funcionou. E ele tinha certeza de que não sentia ciúmes agora. A tensão que afligia seu corpo neste minuto era causada pela ameaça a Mason. Não por Penny. Ele chegou à recepção e colocou as flores sobre o balcão. - Acho que alguém virá buscar este arranjo. A recepcionista sorriu ao olhar para o buquê. - Penny pediu para que você as trouxesse? - Ela balançou a cabeça. - E o terceiro buquê essa semana. Ela é louca de não querer ficar com ele. O terceiro essa semana? E ainda era terça-feira. Sim, ela gostava de despertar o interesse de vários homens. Seu cinismo ficou mais forte, não havia dúvidas de que Penny era tão gananciosa e carente como todas as outras mulheres que ele conhecia. Quase uma hora se passou até que Carter reapareceu, com um pedaço de papel na mão e uma sobrancelha erguida. - Penny, preciso de você para... Ele fez uma pausa quando o telefone dela começou a tocar. Ela encolheu os ombros em sinal de desculpa e atendeu. - Nicholls Finance, Penny falando. - Você recebeu as flores? -Aaron - sussurrou ela entredentes. Ela lançou um olhar para Carter e virou sua cadeira para que ele não pudesse perceber que ela corou. Ela já sabia que ele era maleducado o suficiente para ficar e ouvir a conversa. A melhor alternativa, então, seria terminar a ligação o mais rápido possível. - Não posso falar agora... - Você recebeu o buquê? - Recebi. Desculpe, eu devia ter telefonado, mas foi uma manhã movimentada. - E ela mal conseguia dispensá-lo com privacidade. - Posso telefonar para você em outra hora? -As rosas fizeram com que eu me lembrasse de você. Uma beleza estonteante, mas com alguns espinhos perigosos. E... Ela encontrara um daqueles espinhos. Ela se encolheu ainda mais na cadeira. - Olha, foi muito gentil da sua parte, mas... - Jantamos hoje à noite. Sem desculpas. Ela respirou fundo e tentou manter a calma. - E uma ótima ideia, mas... - Já fiz a reserva. E minha única noite de folga essa semana, e quero passar um tempo com você. -Aaron, peço desculpas, mas... O telefone foi arrancado de sua mão. - Olha, cara, não amola. Ela tem um novo namorado e é alérgica a flores. Ela já mandou o arranjo ser entregue no hospício do fim da rua.

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Penny ficou parada, olhando Carter se apoiar sobre sua mesa. Ela não conseguia escutar a resposta de Aaron, mal conseguia processar o que Carter acabara de dizer. - Sim, eu sei. Economize seu tempo. Isso não vai funcionar. - Carter desligou o telefone e olhou friamente para ela. - Então, eu dizia que precisava que você encontrasse algumas pastas para mim. Por um momento, ela estava tão chocada que mal conseguia sentir a fúria subindo pelo. seu corpo. Em seguida, perguntou: - O que você acabou de fazer? Carter olhou para ela tranquilamente. - Resolvi o seu problema. Ele não voltará a perturbar. - Como pôde fazer isso? - Foi simples. E você já deveria ter feito isso antes. Sua linguagem corporal dizia uma coisa, sua boca outra. Um homem como esse não entende as coisas sutis, Penny. Você precisa ser clara. - Eu não precisava que você fosse claro para mim. -Ela balançou a cabeça. - Foi uma atitude tirana. - Foi uma conversa de homem para homem - respondeu ele. - E mais honesta do que a historinha que você contava. - Eu estava me preparando para falar - disse ela, procurando defender-se. - Você estava brincando com ele. - Agora ele não parecia tão calmo. Tinha aquele tom um pouco sórdido. As mãos dela tremiam. Ela não estava brincando com Aaron, estava tentando ser legal com ele. -Três buquês de flores essa semana, Penny? Você nem é honesta o suficiente para dizer a ele que não quer recebê-los e que não quer ficar com ele. Porque ela não queria ser rude. Ela nunca quis magoar ninguém. Nunca. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela entrou em pânico ao imaginar a reação de Aaron à falta de tato de Carter. - Por que você está tão chateada? - Ele se aproximou dela. - Você gostava de deixá-lo na expectativa? Fazia bem para o seu ego? Você gosta de brincar com os homens. - Não é isso. - Ela se levantou da cadeira, magoada com as palavras que acabara de ouvir. - É, sim - insistiu ele. - Por qual outra razão você não o teria dispensado antes? - Eu tentei. - Ela pegou o papel da mão dele, marchou até a estante de arquivos e deu um puxão na gaveta. - Aquela não era uma tentativa. - Ele a seguiu e ficou na sua frente enquanto ela revistava os arquivos. - Você não é tola, Penny. Você poderia ter dispensado aquele cara bem antes. - Talvez eu não seja tão arrogante ou tão rude quanto você. - Ela jogou as pastas sobre o móvel. - Eu não gosto de pisar nos sentimentos das pessoas. - Você não acha que é ainda pior amarrá-lo assim só para seu ego inflar um pouco mais? - Não era isso o que eu estava fazendo. - Ela cruzou os braços na frente do peito. - Ah, não me diga que você realmente gostava dele? - Ele parecia surpreso. - Só estava dificultando as coisas para ele? Brincando com ele para que fizesse tudo o que você pedisse? - Claro que não! — Ela cerrou os dentes. - Eu estava tentando deixar claro que nada aconteceria entre nós. Ele não merecia esse tipo de humilhação. - O que ele não merece é você o enrolando até enjoar de se divertir com ele. Ela respirou fundo e olhou para ele furiosa.

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- Nossa, você pensa mesmo tão bem de mim, não é, Carter? Ele deu de ombros. - Se você realmente quisesse livrar-se dele, precisaria ser cruel para ser gentil. - Bem, não sou cruel. E nunca serei. - E você consegue ser honesta? - perguntou ele. - Não se realmente for magoar alguém - murmurou ela. - Não. - Ele balançou a cabeça. - Essa é a forma covarde de pensar sobre isso. Bem, o que ele sabia sobre qualquer coisa? De acordo com seu clichê "seja cruel para ser gentil", ela apostaria seu último centavo que ele nunca teria magoado alguém da forma como ela. Ela piscou para tentar disfarçar suas lágrimas e continuou olhando para ele. Agora, mais perto, ela podia ver ainda mais cores em seus olhos, não apenas verde e azul, mas também alguns tons de dourado. A atmosfera mudou completamente. Parecia que ele também esquecera sua raiva. Mas não havia menos emoção no ar, ela só se transformou e se intensificou. De alguma forma, fez com que ela se sentisse ainda pior do que quando ele foi tão rude ao telefone. Por alguma razão, ela estava mais preocupada. Ela não conseguia se mover, não conseguia falar. - Você quer outro beijo, Penny? - perguntou ele. - É esse o problema aqui? Isso trouxe sua voz de volta. - Você é tão convencido. - Então você não consegue mesmo ser honesta. Ela abaixou a cabeça para procurar os últimos arquivos, tentando encontrar as malditas pastas. Ele conseguia fazer com que ela perdesse o equilíbrio com tanta facilidade que ela precisava voltar a se concentrar. Mas agora ela só conseguia administrar o silêncio. - Então, o que o cara deveria ter mandado para você, uma grande caixa de chocolates belga? - Seu tom estava mais leve. - Não como chocolates - disse ela rapidamente, sem levantar os olhos. -Talvez devesse comer, para adoçar seu temperamento. Chocolate não é melhor do que sexo? - Você certamente não está fazendo a coisa certa, se as mulheres que você conhece dizem isso. Ele deu um leve sorriso. - Viu, você está brincando. Você só quer que os homens a desejem. Ela olhou bem para ele, para colocá-lo em seu devido lugar. Ah, o arrogante Carter Dodds podia lidar com isso. - Você me desejar não é um elogio. - Você não acha? - Ele sorriu. - Bem, não vou perturbá-la com um bilhão de flores ou telefonemas. Se você quiser levar isso adiante, me avise. - E você virá correndo? Ele balançou a cabeça. - Não corro atrás de nenhuma mulher. - Porque todas elas se jogam aos seus pés? - Como os homens fazem com você, querida - murmurou ele. - Mas já sei o quanto você me quer, então talvez faça você implorar. - Pode esperar sentado, Carter. - Não esteja tão certa disso, só se arrependerá mais tarde. Ela segurou a respiração, para conseguir raciocinar por um momento. - Você sempre consegue tudo o que quer?

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- Já tenho tudo o que quero. Qualquer outra coisa será pura diversão. - Ele sorriu de uma forma que fez com que ela também quisesse sorrir para ele. Mas como ela poderia querer sorrir se estava brava com ele? Porque, de fato, ele era honesto e, sim, mais honesto do que ela. Ele podia estar brincando, mas não estava dizendo nada que não tivesse um pouco de verdade. - Admita, você adora se divertir também. - Que diversão? - De flertar. - É isso o que você está fazendo? - É isso o que nós estamos fazendo desde o momento em que nos vimos pela primeira vez. Você não pode negar isso - disse ele. - Você gosta do que vê. E eu gosto do que vejo. Ela baixou o olhar. Era isso mesmo. Uma atração superficial, com base no instinto e no que os olhos achavam bonito. Cada um deles era um belo exemplar do sexo oposto. - Isso não significa que devemos fazer algo a respeito. Você precisa se concentrar, pois tem um trabalho a fazer aqui. - E ela precisava de algum espaço para respirar. - E farei esse trabalho muito bem. O que não quer dizer que não possa ter alguns momentos de descanso às vezes. - Você não acha que isso é uma distração? - Acho que é distração maior não ceder a isso. - Ah, certo, então eu realmente deveria aceitar, para o bem de Mason. Ele riu. - Você deveria aceitar porque não conseguirá continuar dizendo não. Ela tinha conhecido muitos sujeitos convencidos. Tinha ouvido falar sobre vários homens assim. E ela também tinha certeza de que ele a desejava. E, na verdade, ela também o desejava, mas num grau muito assustador. Em um nível que não poderia ser saudável. Ele se aproximou e, apesar do impulso de agir com cautela, Penny não pôde deixar de fazer o mesmo. Ela precisou abrir os lábios só por aquela pequena fração para... Respirar, certo? Ele sorriu, ergueu novamente a cabeça e pegou as pastas que ela tinha colocado sobre o móvel. - Vejo você no bar mais tarde. - Você vai hoje à noite? - Ela se virou para tentar esconder um súbito rubor em sua face. Seu sangue ficou quente de pensar que ele estaria lá. - Uma boa oportunidade para me entrosar socialmente com o pessoal do trabalho. - Não consigo acreditar que algum deles possa estar roubando. - Ganância. Você nunca sabe quem tem qual vício, que necessidade os levará a ultrapassar os limites morais. Estou pesquisando sobre todos eles - respondeu Carter com um tom subitamente frio. Penny foi diretamente para o banheiro e passou algum tempo lavando o rosto. Mas, então, ela começou a refletir. Será que Carter estava certo? Ela teria enrolado Aaron? Ela detestava a forma como Carter tinha falado com ele, mas o que ela estava fazendo seria melhor? Ela podia ter deixado tudo mais claro. Podia ter interrompido o que ele estava falando e dizer tudo com firmeza. Ela era sempre tão cuidadosa para estabelecer as regras antes de entrar em qualquer relacionamento. Seus casos eram tão poucos e raros e logo terminavam. Ela só queria algo fácil e despreocupado. Nenhuma dor, só frivolidade e prazer superficial. Ela gostava de sexo. Mas não fazia nada que se aproximasse disso. Só passava muitas noites

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dançando. Preferia se resguardar. Mas essa atração que sentia por Carter era a sensação mais extrema que ela já tinha experimentado. Ele podia oferecer tudo o que ela sempre quis, só o prazer físico, nenhum vínculo, nenhuma confusão. Ela observou a forma como ele olhou para ela. Bem, ela sabia exatamente como ele se sentia. Mas sua reação a ele era muito forte para ser segura. Quando as emoções estavam fora de controle, as pessoas saíam magoadas. Ela não estava magoando ninguém e nunca mais ficaria magoada. Essa era sua regra número um. E essa atração ameaçava o controle que ela tinha, então o perigo era muito grande para ela lançar-se. E ele era pura tentação. Ela balançou a cabeça. Claro que ela ficou caída pelo homem alto, moreno e bonito. Qualquer outra mulher de carne e osso também teria sentido o mesmo. Mas Carter não tinha apenas esses três atributos. Também tinha um corte de cabelo desleixado, um brilho malvado nos olhos e o diabo no sorriso... Ela parou de olhar no espelho e saiu do banheiro. Ele estava muito autoconfiante. E, para Penny, nenhum outro homem era tão bom assim.

CAPÍTULO TRÊS — Champanhe, por favor. - Depois de nove horas de trabalho e trinta voltas na piscina, Penny agora usava sua roupa de sair à noite, com salto alto, e havia sido servida, no bar, na frente de oito pessoas que já estavam na fila antes dela. - Então você é amiga dos garçons? -E dos DJs. - Ela pegou o copo e se virou para Carter. - E dos seguranças acrescentou ela com um pouco mais de ênfase. Ele sorriu. - É mesmo? Pensei que você não gostava de intrometidos arremessando pessoas para fora da sua vida. Ele estava novamente vestido de preto, com roupas mais casuais. Ela provou o champanhe e fingiu ter toda a audácia de que precisava. - Para toda regra, há uma exceção, Carter. - Isso é verdade. - Ele ergueu a sobrancelha ao examinar cada centímetro da saia e da blusa que ela vestia. - Então, este é o seu terreno de caça. - Ele olhou para a pista de dança. - Um pouco barulhento, não é? - Ele sorriu. - Como você consegue conhecer bem alguém se nem consegue escutar o que estão conversando? Ela se aproximou do bar e sussurrou em seu ouvido: - Chegando mais perto. - Ela rapidamente se afastou quando sentiu ele se mover. Penny avistou os colegas de trabalho mais adiante, perto do lugar em que costumavam ficar. Outros já estavam na pista de dança. - Vamos nos juntar aos outros? - Se for preciso. Ela deliberadamente entendeu mal sua relutância. - Você não gosta de dançar? Ele deu de ombros. - Você não tem ritmo? - perguntou ela. Ele pegou o copo da mão dela e provou um gole.

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- Posso me cuidar sozinho. - Tudo bem. - Ela não tentou esconder o tom de desafio em sua voz. Ele se virou para olhar para ela. Havia provavelmente mais de cento e cinquenta pessoas ali, mas, de repente, eram somente ele e ela. - Ficarei feliz em observar um pouco primeiro. E isso que você quer, não é? Ser observada? E por isso que você se veste assim. - Seus dedos passaram pela bainha de sua saia e deslizaram sobre a pele nua. Ela pegou seu copo de volta. - Eu me visto assim porque não gosto de sentir muito calor. E, assim, posso me mexer com facilidade. - Ah, com muito mais facilidade. - Não está tirando conclusões precipitadas outra vez, está? - perguntou ela. -Não, estou examinando os detalhes e avaliando tudo de forma racional. - Como fez ontem à noite? - Admito que, num primeiro momento, meu instinto de suspeitar de tudo e de todos suplantou o meu hábito de analisar a situação. - Então você admite que estava errado? - Já admiti. E me desculpei na noite passada. Pare de tentar voltar a esse assunto, podemos seguir adiante, você sabe. - Ele pegou o copo dela mais uma vez. - Ou você está com muito medo de fazer isso? Ela mordeu o lábio, e ele sorriu e tomou mais um gole de champanhe, intencionalmente observando a reação dela. Ele não estava brincando. - Você sabe que queremos a mesma coisa. - Talvez sim, talvez não - respondeu ela. - Definitivamente. - Tudo o que eu quero agora é dançar. - Com ele. Mas ela precisava guardar alguns segredos. Ele sorriu. - Eu também. Ela virou as costas para ele, andando para onde estava o pessoal do escritório. Essa era uma das coisas das quais ela mais gostava na empresa. O clima de festa, saudável, era muito bom. Eles trabalhavam bastante e depois saíam para se distrair. Ela tinha muita energia para gastar. Alguns colegas se reuniam ao lado do bar, e a pista de dança estava lotada. Sim, era disso que ela precisava: liberdade com diversão. A música estava alta, o que ela gostava, a batida, forte. William estava lá e andou na direção dela. E isso era exatamente o que ela queria. Carter e William tinham quase a mesma altura, mas Carter chamava mais atenção. Sua aura e seu físico eram responsáveis por isso. Tinha os ombros mais largos, era mais forte. O corpo dela instintivamente se virava para o homem que parecia oferecer mais proteção. O sorriso dele não estava precisamente seguro, entretanto. E outros instintos avisavam a ela que, aproximando-se de Carter, não teria proteção alguma. Mas aquele olhar a hipnotizou outra vez. Ela não conseguia se mexer, como uma presa gelada a caminho do predador. Nem um pouco seguro. Mas então, nesse momento, ela não queria que fosse. A mão dele deslizou em volta da dela. Mas não havia nenhum beijo para sua boca; ele era muito esperto para fazer isso. A respiração dela se libertou em um suspiro áspero de decepção, e então ela inspirou. Agora ela estava completamente nos braços dele.

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Mas ela evitou trocar olhares com ele. Os olhos dos colegas de trabalho a observavam. Esta noite, havia quebrado algumas regras; ela nunca dançava tão perto com alguém do escritório. Entretanto, Carter não estava oficialmente na folha de pagamento. Ela já não conseguia mais pensar. Ela não conseguia mais fazer nada a não ser mexer-se junto com ele. Ele não disse nada, nem precisava dizer, só mexia as mãos para guiá-la como queria, um dançarino nato, um líder nato, um amante nato. Tinha facilidade com o ritmo. Os sentimentos se intensificaram. Ela não conseguia respirar. Ela queria colocar a cabeça em seu ombro por um instante, queria fugir da multidão e do sentimento de claustrofobia. Ela queria se mover lentamente com ele. Mais do que isso, ela queria que o tempo parasse. Mas isso era impossível. Dançando era quando ela se sentia melhor, mais livre. Ela gostava quando a música estava rápida e alta, mas agora ela só conseguia escutar as batidas do seu coração, fortes e regulares, e isso a assustava. Seu próprio coração trovejava. Ela precisava fugir, precisava ficar sozinha. Ela se virou e avistou William a apenas alguns metros de distância. Ela andou na direção dele, aproveitando uma pausa de Carter. Respirando fundo, mais calma. Sim, ela precisava de um tempo para se recuperar e voltar ao equilíbrio. William era um homem atraente, o mais bonito do escritório até a chegada de Carter, mas ela não sentia nada por ele parecido com o que sentira dançando com Carter. Não tinha dificuldades para respirar, ou para pensar, ou para controlar seu corpo. Ela respirou fundo novamente e sorriu para ele. William retribuiu o sorriso. Assim era melhor. Carter ficou na pista de dança e observou Penny dançando com outro homem. William. O cara cujo trabalho ele acabara de passar horas examinando, e estava tudo correto. Ele cerrou os punhos. Não havia esperanças de que ele poderia recobrar a calma, não agora que tinha observado a maneira como ela caminhou na direção dele. Mas lá estava ela. Se fosse qualquer outra mulher, ele nem se importaria. Mas precisou sair de lá antes de esbofetear William. E nem era culpa dele. Era Penny quem estava brincando, não ele. Havia milhões de mulheres bonitas no mundo, mas seu corpo reagia como se Penny fosse a única em que ele poderia tocar. Vê-la usando uma blusa molhada ontem à noite foi como um feitiço, porque agora era só nisso que ele conseguia pensar. Nela, só nela. Bem, ele conseguiria superar isso. Ele saiu do bar, sabendo que provavelmente seria motivo de fofocas, porque não fez questão de cumprimentar o resto do pessoal. De qualquer forma, era melhor que conversassem sobre esse episódio do que sobre a real razão de ele estar por lá. Parecia um bom disfarce. Mas, para ele, era um pesadelo. A acusação de Penny esta manhã tinha acertado no alvo. Ela era mais do que uma distração, era catastrófica para sua concentração, e ele não podia deixar seu apetite sexual afetar o trabalho que ele estava fazendo para Mason. Ele tinha conseguido uma sala no andar de baixo, para não precisar encontrar-se com ela durante o dia. Só se falariam se fosse absolutamente necessário. E isso talvez não fosse suficiente. Havia só uma maneira de continuar: ele teria que esquecê-la e prosseguir com o trabalho. Ela podia brincar com aquele outro cara. Ele não ligava.

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CAPÍTULO QUATRO Penny percebeu que tinha exagerado na dose. Seu coração bateu forte, ela estava inquieta. Alerta, ela contava cada segundo, esperando que ele viesse falar com ela. Mas ele não veio. Minutos se arrastaram como décadas. Mason enviou um e-mail para dizer que passaria outro dia trabalhando de casa. Talvez Carter estivesse com ele. Ou talvez estivesse trancado em sua sala no andar de baixo. Ela não iria até lá para ver. Ela não desperdiçaria nem mais um minuto se perguntando onde ele poderia estar ou porque desaparecera na noite passada. E ela certamente não lamentaria o fato de ele ter ido embora. Finalmente, ela saiu para caminhar. Um pouco de ar fresco a ajudaria a retomar seu equilíbrio. Vinte minutos mais tarde, ela voltou ainda mais quente e irritada. Quando a porta automática deslizou e se fechou atrás dela, Carter saiu do elevador. Ele não hesitou ao vê-la, só cruzou o saguão como um homem possuído. - Você aproveitou o restante da noite? - perguntou ele, dez passos adiante. - Aproveitei. - Ela tinha detestado a noite. Ela tinha dançado e dançado até não poder mais fingir estar se divertindo e foi para casa ficar olhando para o teto. - É mesmo? - Agora ele parecia bravo e andou ainda mais rápido. E, de repente, ele fez o que ela queria que ele tivesse feito há mais de doze horas: passou a mão por sua cintura e inclinou sua cabeça para trás com força. Não que ele precisasse fazer força, porque ela se derreteu para ele. Por horas pela manhã, ela ficou deitada na cama, meio adormecida, sonhando com isso. Agora ela não tinha certeza se ainda estava sonhando. Ele a beijou, e estavam bem no meio da recepção. Como ela poderia dizer não? Ela estava perdida, completamente perdida. Mas, da mesma forma, de repente, ele se afastou. - Você ainda está com fome? - Ele sussurrou as palavras. Atordoada, ela olhou para ele. Até que ela conseguisse forças para dizer algo, ele já tinha saído pela porta atrás dela. Ela pôde sentir toda a sua raiva. O que ele pensava que estava fazendo, agindo daquela maneira em público? Graças a Deus, nenhum cliente estava aguardando para ser atendido. Só a recepcionista estava ali. Embora isso significasse que toda a empresa saberia sobre aquilo agora, ela já teria enviado e-mails informando a todos. Não que fossem ficar surpresos depois da dança quente que encenaram na noite passada. Penny cerrou os dentes. Sim, seria bom ela ir logo porque algumas coisas estavam fugindo ao controle. Ela subiu as escadas e se sentiu ainda mais quente e furiosa ao chegar ao andar de cima. Arquivos, ela jogaria fora os malditos arquivos. Ela parou em frente ao móvel e abriu a gaveta, conferindo se todas as pastas estavam na ordem certa. Estavam. Mas, com sua atitude perfeccionista, ela precisava revisar. -Trouxe um chá para acalmar seus nervos - disse Carter suavemente. Ela se virou rapidamente para olhar para ele. Ficou tão perto, tão rapidamente, que ele precisou dar um passo para trás e apoiar a xícara na superfície mais próxima, em cima do móvel de arquivos. Ela se aproximou ainda mais, ficando a centímetros de distancia dele. -Não fico me distraindo no trabalho, Carter. - Ela sussurrou furiosa, usando a raiva para esconder a confusão de sentimentos que estavam dentro dela e o desejo que ele despertara com tão pouco esforço. - Não me envergonhe daquela forma outra vez.

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Ele passou as mãos pela cintura dela, puxando seu corpo contra o dele, fazendo com que ela percebesse o quanto ele se sentia atraído por ela. Seus nervos tremiam, seus músculos derreteram. - Você gostou, Penny. Gostou tanto quanto eu. Ela tinha gostado e não fez nada para negar isso, agora, não fez nada para se livrar-se do seu abraço. Nada poderia negar a força daquele sentimento. Ela respirou ofegante quando ele apertou seu corpo ainda mais contra o dela. Mas ele também estava bravo. - Quem foi que terminou aquele beijo, Penny? Quem se afastou? - Ele sorria e rosnava. - Se dependesse de você, estaríamos suados e sem respirar até agora. Se estivéssemos a sós, você teria me deixado fazer qualquer coisa. O sangue dela pulsava com tanta força que ela se sentiu atordoada. - Bem, então, no que você estava pensando ao fazer aquela cena lá em baixou. Ele fez uma pausa, e, apesar se seu corpo continuar duro feito uma pedra, ela sentiu sua raiva se dispersar. No instante seguinte, ele riu. " - Não estava pensando em nada. Isso não ficou claro? Balançando a cabeça, ele olhou para ela. - Sempre tenho o desejo de beijar você, sem parar. Na verdade, suas palavras não soaram como se ele vibrasse tanto com isso. Mesmo assim, uma onda de prazer percorreu seu corpo. É bom que ele a quisesse assim. Igualou o placar. Ela se inclinou sobre o móvel de arquivos e olhou para ele. Carter deu um passo à frente, estreitando o espaço até que estivesse completamente debruçado sobre ela. Seus olhos azul-esverdeados percorriam todo o seu corpo. Ela gostaria que ele se apressasse para beijá-la. Ela passou a mão pela sua face outra vez, sem conseguir resistir em tocá-lo. - Continua, Penny. - Com a voz suave, ele a desafiou. Como ela poderia resistir? - Bem - uma voz grave soou. - Parece que finalmente consegui conhecê-lo. Penny deu um salto, ou teria dado se Carter não a estivesse apertando. -Matt - disse ela. Com os olhos arregalados, ela olhou por cima do ombro de Carter para a figura que estava em pé ao lado de sua mesa. - Ouvi falar muito sobre você, mas não achava que o encontraria aqui. - Matt chegou mais perto, com seus olhos inteligentes observando Carter e piscando para ela. Penny, você não nos contou que ele trabalhava com você. Ela ainda estava tentando desvencilhar-se de Carter, mas ele a apertava ainda mais. - Sim. - Ela tentou dizer, mas Matt não escutou. - E você, não? - Matt perguntou diretamente a Carter. - O "homem" sobre quem ela nos conta nos e-mails, que a convida para jantar, para dançar e a leva para sair todo fim de semana. Penny gostaria que o chão se abrisse para sugá-la para dentro agora mesmo. O que Carter pensaria sobre todos aqueles detalhes? O que Matt pensaria quando soubesse a verdade? Ela olhou nos olhos de Carter e pressionou seu corpo contra o dele só mais um pouco, com a esperança de que ele se afastaria. Bem, ela estava tentando. Mas Carter parecia poder ver sua alma com seu olhar penetrante. Carter a desejava, mas não pensava muito sobre ela, e ela sabia disso. Então, não estava preocupado em livrá-la daquela situação. E Matt aguardava uma resposta. - Sim - disse Carter finalmente. - Sou eu o homem.

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Aliviada, mas chocada, Penny relaxou seu corpo contra o de Carter, mas sentiu que todos os seus músculos estavam rígidos. - Sou Matt Fairburn, irmão da Penny. - Matt deu um de seus raros sorrisos e apertou a mão de Carter. Após uma ligeira hesitação, Carter também estendeu a mão. - Carter Dodds, com quem Penny está saindo. Foi um aperto de mão firme. Penny pôde sentir. Durou aquele curto espaço de tempo, como se estivessem testando a força um do outro. O que era ridículo, porque a última vez que ela viu Matt, ele ainda era um garoto. Um estudioso, que ficou sério para seu próprio bem. Mas agora ele estava... Diferente. Durante as apresentações, ela aproveitou a oportunidade para se livrar do pequeno espaço em que estava literalmente espremida. Emocionalmente, ela estava ainda mais presa. - O que você está fazendo aqui, Matt? - Ela deu um largo sorriso ao perguntar, porque tinha uma vida feliz e fictícia para viver até então. - Vim para ter certeza de que você estaria por aqui para jantar comigo. Precisa ser esta noite porque estarei em uma conferência nos próximos dias. Ela não sabia que ele estava na cidade. Por que não mandou um e-mail para ela? - Claro que posso ir jantar - respondeu ela. - Não tem outros planos? - perguntou ele. - Nada que não possa ser alterado. Matt ergueu as sobrancelhas. - Você também virá, certo? - Ele se virou para Carter. - Quero saber tudo sobre você. Sou o único da família que conheceu você até agora, então tenho a responsabilidade de saber quem você é. Ele falou de forma casual, mas Penny entendeu as entrelinhas. Seu irmão mais novo estava cuidando dela. Ela tentou relaxar, mas seu sorriso era artificial. - Carter precisa trabalhar hoje à noite. Desculpe Matt. Ele tem uma reunião. - Na verdade, querida, foi cancelada. - Carter passou uma mecha do cabelo dela para trás da orelha, como se tivesse todo o direito de agir com aquele nível de intimidade. - Foi isso que vim lhe dizer, mas me distraí. Vou adorar está lá com vocês, Matt. Penny se contorceu. -Mas... - Pode confirmar mais tarde - disse Matt com a expressão impassível. - Também tenho que conhecer seu apartamento, Penny. Mamãe me disse para fazer isso. - Você deveria ter me avisado. - Penny sorriu. - Eu teria arrumado a casa. Matt respondeu com um sorriso, mas Carter não estava sorrindo. - Vou acompanhá-lo até a porta - disse Penny rapidamente, com a intenção de organizar os planos sem que Carter pudesse ouvir. - Por que você não me contou que viria mais cedo? Eu poderia ter planejado algumas coisas. - Quis fazer uma surpresa. Seu irmão mais novo tinha crescido muito rápido e agora queria protegê-la. Ele deveria estar se divertindo, e não se preocupando com ela. Ela tinha tentado amenizar isso com seus e-mails tolos e fantasiosos. Mas agora ela sorria e o abraçava. - É tão maravilhoso ver você. Vou mandar uma mensagem com detalhes sobre onde devemos nos encontrar, tudo bem? - Você tem mesmo o meu número? - perguntou Matt. - Desconfio que não. Pois é, ela só mandou um e-mail, raramente escrevia, e nunca se falavam. Assim era mais fácil. Ela voltou ao elevador e, hesitante, apertou o botão para subir. Carter olhava pela janela no escritório de Mason, observando uma cena na calçada. Ela fechou a porta atrás de si e esperou.

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Depois de um tempo, ele se virou. -Quantos homens você tem, Penny? Esse homem que Matt mencionou é algum cafetão com quem você passa os fins de semana? Ela corou. -Não. -Não? Penny engoliu o orgulho que ainda restava. - Eu o inventei. Carter piscou. - O quê? - Eu o inventei. Nos meus e-mails para casa, inventei um relacionamento. Pela primeira vez, ela viu Carter perder as palavras e ele deu alguns passos a frente. - Você está me dizendo que esse "homem" não existe? Você não tem um namorado de verdade? -Não. -E não tem ninguém com quem esteja saindo ou dormindo, ou amizades coloridas ou como você quiser chamar? - Não, não estou saindo com ninguém. - Quando você saiu com alguém pela última vez? -perguntou ele. - Faz alguns meses. - Seu rosto estava vermelho, por raiva e vergonha. - Não me lembro exatamente há quanto tempo. - Mas Aaron não conta? Ela ergueu o queixo e respondeu sugestivamente. - Alguns beijos não contam. - Então quantos beijos você não contou nos últimos meses? Ela ergueu as sobrancelhas. - Aaron. Outro homem. E você. - Meus beijos não contam? - perguntou ele. - Claro que não. - Entendi. - Entendeu o quê? - Como saber quando você está mentindo. Ela sorriu. - O quê? Como? Ele balançou a cabeça e riu. - Não vou dizer, senão você vai parar de fazer. - Parar de fazer o quê? - Ela suspirou e desistiu, sabendo que ele não diria. Além disso, havia algo mais importante que ela precisava saber. - Você acredita mesmo em mim, não acredita? Ele ficou sério outra vez. - Acredito. Ela estava bastante aliviada. Ela fora muito tola com seus e-mails, mas isso não importava tanto quanto ele acreditar nela quando ela dizia a verdade. Ele andou em volta da mesa, pegou a mão dela e passou o dedo em seu pulso, ainda marcado. - Você sabe que eu só disse aquilo sobre ir jantar hoje à noite com vocês para brincar com você... Invente qualquer desculpa. - Ele lançou um olhar irônico. - Você tem experiência com isso. Penny puxou a mão. Jantar com Matt. Ela quase se esqueceu disso na pressa de esclarecer a situação com Carter. Mas agora que pensou sobre o assunto, ela já temia o encontro, as

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perguntas, a busca por conversa, toda a ansiedade... Ela não queria encarar isso. Ela passara anos sem precisar encarar isso. Na verdade, talvez fosse uma boa ideia ter alguém com ela. Agora ela olhava para Carter. Bonito, charmoso, socialmente bem relacionado. - Acho que você deveria ir comigo - disse ela. Ele ergueu as sobrancelhas. - Acho mesmo. - Ela deu um passo à frente. - Venha jantar conosco. De qualquer forma, Matt está esperando por você agora. Sua atenção se desviou para seu corpo e voltou. - Bem, já não é um problema enganá-lo com um homem imaginário? - Mas você entrou no jogo. O mínimo que pode fazer é continuar com seu papel. Carter se apoiou na mesa e deu um leve sorriso. Na realidade, quanto mais Penny pensava sobre isso, mais a ideia parecia boa. Matt poderia aprender algumas coisas com Carter. E Carter poderia desviar a atenção sobre ela. Ela não sabia se conseguiria manter as aparências. O mais importante, a conversa ficaria num nível seguro. Matt não falaria sobre o passado na presença de Carter. - Vi você conversar com o pessoal que trabalha aqui. Você é sociável. - Isso foi um elogio? Porque da forma como está dizendo, não tenho certeza... Ele olhou para ela. Ela não conseguia disfarçar o sorriso. Ele era encantador e sabia disso. - Vem jantar comigo, seja meu namorado inventado. O sangue de Carter ainda fervia por ter visto Penny dançando com outro homem. Ele não era hipócrita, não esperava que as mulheres tivessem menos experiência do que ele, mas pensar nela na cama com outro homem fazia seu estômago ferver. Ele precisou disfarçar o ciúme. Passara a noite acordado tentando imaginar se ela teria levado William para casa. E, apesar de querer esquecê-la, quando a encontrou na recepção naquela tarde, o desejo falou mais alto. Ele precisava sentir e descobrir, alguma coisa, qualquer coisa, como um animal sentindo o cheiro da ameaça. - Porque você o criou? - Eu queria que todos em casa pensassem que estou feliz. Ela estava feliz? - E você precisa ter um namorado para provar isso? - Não - disse ela rapidamente. - Tenho uma vida ótima, excelente trabalho, eu viajo muito. Mas o homem era mais um reforço. Eu sei que eles se preocupam por eu estar sozinha. Ela tinha centenas de pretendentes. Poderia ter um homem por noite se quisesse. Mas era interessante que ela não queria aquilo. Era interessante que era ele quem ela queria beijar. - Então você quer que eu seja esse homem? - Porque se isso significasse que ela usaria sua língua com ele, Carter ficaria feliz em obedecer. Ela lançou a cabeça para trás. - Isso é tudo o que devemos querer, não é? Companhia, comprometimento. Todo aquele clichê. Ela achava que querer um companheiro para a vida era um clichê? Bem, onde ela estava por todo esse tempo? Porque ele também não queria alguém para a vida toda. Ele só queria se divertir sem complicação. - Mas é isso o que você realmente quer para a sua vida? Ela só queria alguém para passar uma ou duas noites? Estava bom para ele, apesar de ele poder precisar esticar por mais algumas noites.

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- Então, o que disse a eles sobre o homem com quem está saindo? -Nunca disse seu nome, sempre deixei tudo muito vago. - Há quanto tempo contou sobre ele? - Há uns dois meses. Eles estavam fazendo pressão para que eu fosse visitá-los, e ele era minha única desculpa para dizer não. Porque estávamos fazendo várias pequenas viagens. Ela não queria visitar a família? - Há quanto tempo você não volta para casa? Ela desviou o olhar. - Há alguns anos. Tenho viajado muito. Mas havia vários aviões cruzando o país diariamente. Ela podia ir à Nova Zelândia visitá-los e voltar no mesmo dia. Era óbvio que havia mais alguma coisa que ela não queria contar. Ele queria mesmo saber o que era? Na verdade, ele estava um pouco curioso. Mas claramente ela não queria dizer, e ele a respeitava por isso. Melhor do que ter uma mulher tão emotiva como sua exnamorada sempre fora. Ainda assim, ele não poderia deixar de tentar saber algo. - Ainda não consegui entender porque você precisou inventar sobre um relacionamento - disse ele. - E porque você quer tanto que eu vá hoje à noite. Ela gelou. O radar de Carter era eficiente. Ela estava mesmo escondendo alguma coisa. E ele era humano. Então ele esperou, com muita expectativa com relação à resposta. - A verdade é que eu era uma daquelas meninas introspectivas na adolescência. Carter cerrou os dentes. - Eu era gordinha, tinha espinhas, usava roupas sem graça. - Ela se virou para ele. - O pior que você puder imaginar. Seu tom fez com que ele sentisse uma emoção que mal pôde definir. Ele não conseguia imaginar. Ela tinha uma pele tão suave, nenhuma cicatriz de acne, era tão magra, com a cintura, pulsos e tornozelos finos. Mas tinha algumas curvas. - Queria ser uma nova mulher, magra, com vida social, um ótimo emprego, um namorado maravilhoso. Ele suspirou. Então ela queria parecer bem, com um homem como acessório. Mas todos não têm cicatrizes desses anos turbulentos? Ele certamente também tinha, e foi graças às mulheres que passaram por sua vida que ele tinha decidido proteger seu coração. - Tudo bem. - Ele a puxou para perto dele. - O que ganharei com isso? O que você irá me oferecer? Seus cílios se ergueram, e suas pupilas brilharam. - Você me deseja tanto que se venderia como algum tipo de acompanhante? Ele estava feliz de ouvir sua língua afiada outra vez e se inclinou para recompensá-la, sussurrando de tão perto que seus lábios se encostavam a sua orelha. -Você precisa concordar que nos beijamos como mais ninguém. Estou muito interessada em ver o que poderá acontecer se fizermos mais alguma coisa. - Se queria mais alguma coisa, então porque foi embora tão rápido ontem à noite? - Por que você foi dançar com outro? - Isso incomodou você? - Ela observou sua expressão enquanto ele respondia. - Eu não me comprometo, Penny - disse ele honestamente. - Mas quero exclusividade. E também respeito isso. Ela respirou fundo. - Eu também. Ele a observou atentamente. Nenhum sinal das duas piscadas rápidas que ela deu quando estava mentindo. Interessante.

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- Tudo bem então. Irei com você hoje à noite se você concordar em ficar bem longe de qualquer outro homem na semana que vem. - Acho que consigo fazer isso - disse ela suavemente. - Melhor ter certeza disso. - Ele sorriu ao perceber que seu olhar era verdadeiro. - Não estou prometendo mais nada. - Nós dois sabemos que isso não é necessário - concordou ele. - Não haverá complicação, Carter. De qualquer forma, ele achava que as coisas ganhariam um tom mais complicado a cada segundo.

CAPÍTULO CINCO Penny não via Matt há um ano. Ela esteve em Tóquio, se organizando para voltar a trabalhar no sul do Pacífico, depois de ter passado alguns anos na Europa. Ele estaria mudado, teria dado aquele último passo de menino para homem. E quase a teria surpreendido em sua teia de mentiras. Ela sabia por que ele estava ali, era o início de uma pressão ainda menos sutil. O aniversário de casamento de seus pais estava chegando, e eles queriam fazer uma grande festa em casa, na Nova Zelândia. Ela provavelmente não iria. Ela estava tentando economizar dinheiro para comprar as passagens para que eles viessem visitá-la nas férias. Eles poderiam comprar, é claro, mas ela queria presenteálos. Ela esperava que fosse suficiente, porque ela não queria ir visitá-los. Lá as recordações vinham à tona, naquela casa grande com um abundante pomar. A fileira de árvores levava à propriedade vizinha, a casa dos pais de Dan. Ela tentava não pensar nisso e sempre conseguia. Mas a chegada de Matt trazia tudo à sua cabeça. Foi quase há sete anos, mas às vezes ela sentia como se tivesse sido ontem. A escuridão daqueles últimos meses em casa invadia seus pensamentos. E ela se lembra do estranhamento de sua família e de seus amigos quando ela se entregou à aflição e ao sentimento de culpa. Ela estava fora daquilo agora. Ela era forte, estava feliz e saudável. Mas a distância entre eles ainda estava lá, literalmente, emocionalmente. Ela não achava que a ponte poderia ser reconstruída. Na verdade, ela não queria. E na sua mente, ela poderia vê-lo, como sempre viu, um dia antes de ele morrer. Ela apagou as imagens rapidamente, concentrando-se em guardar o documento que estava à sua frente. Seus dedos dobravam o papel, enquanto ela tentava recuperar a calma. Porque ela não conseguiu lidar com o que aconteceu. Impactou toda a família, e ela se sentiu ainda pior. A perda tinha rompido os laços, e só indo embora ela conseguiria recuperar-se. Ela precisava de que eles soubessem que ela estava bem. Mas ela não conseguiria ficar frente a frente com eles e provar isso ao vivo. Não lá. Ela achava que nunca mais conseguiria voltar e olhar para aquele lugar. Carter não conseguia se concentrar no trabalho. Ele continuava pensando, querendo saber mais. No fim, ele subiu as escadas e puxou uma cadeira para perto dela. - Precisamos combinar a história que vamos contar hoje à noite durante o jantar. Ela olhou completamente surpresa, ainda não tinha pensado nisso. - Então como nos conhecemos? Há quanto tempo estamos namorando? Ela se virou para ele.

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- Não sei. Você não consegue improvisar? - Confia em mim para fazer isso? - Claro. O que teria acontecido esta tarde para fazer com que ela parecesse tão magoada e cansada? - Tudo bem, pensarei em alguma coisa - disse ele com uma necessidade súbita de fazer com que ela ficasse tranquila. - Mais ou menos a verdade. Nós nos conhecemos no trabalho. Ela assentiu. - E houve uma atração imediata. Ela concordou outra vez. - Não conseguimos lutar contra isso. E não nos separamos desde então acrescentou ele. Ele se inclinou, sentindo um desejo incontrolável. Ele queria beijá-la. Tinha que beijá-la. E não parar sem que ela estivesse com ele. Ali mesmo. Porque a tristeza naqueles olhos fundos era insuportável. Ele vira a atenção que ela conquistava de outros homens. Ele não era o único a notar a combinação de calor e vulnerabilidade. Ela lançava um ar de paixão e fragilidade com um só olhar. E se eles tivessem alguma ideia de como ela beijava, ela precisaria ter um grupo de guarda-costas para protegê-la. Isso seria só um truque dela para chamar atenção? Ele achava que não, porque ela já conseguira o que queria com ele. Ele passou os dedos suavemente por seu cabelo e massageou sua cabeça. - Relaxe. Serei o namorado perfeito. Atencioso, carinhoso, divertido... Por que ele estava dizendo aquilo? Ele deveria ser um perfeito investigador, verificando todos os arquivos e encontrando os pontos em que havia discrepâncias. Não planejando como passaria as noites fingindo ser seu namorado. Mas ela ainda parecia muito ansiosa. - Podemos sorrir e conversar um pouco. Impressionar seu irmão e ir embora. - Ele gostava da ideia de ir embora. Gostava da ideia de arrumar-se para sair com ela, dançar um pouco e depois ir dançar em algum outro lugar mais privativo. Sim, ele era mesmo tolo. - Você vai nadar antes? - Ele sabia que ela costumava fazer isso. Ela balançou a cabeça. - Não vai dar tempo. - Você quer ir para casa e se trocar? - Tenho algumas roupas aqui - disse ela. - Você sempre trás uma roupa para sair à noite depois do trabalho? Ela pareceu surpresa por ele ter perguntado. Ele foi para sua mesa, mas só conseguia pensar nela. Ela estava nervosa. Por quê? Ele não achava que era por causa dele, na verdade ela estava confiando nele para ajudála com isso. Então por quê? O que a incomodava? Por que ela não voltou para casa depois de tanto tempo? Penny ficou debaixo do chuveiro quente da academia até conseguir esquentar seu corpo. Ela continuava afirmando para si mesma que daria tudo certo porque Carter viria e ajudaria a manter o tom social durante o jantar. Ele o conheceu na recepção. Ela sabia muito pouco sobre ele. E como gostaria de descobrir mais. - Você não tem mesmo uma namorada? - Acha mesmo que eu agiria assim com você se tivesse uma? - A expressão dele se tornou mais séria. - Não engano ninguém, Penny. E espero o mesmo de você.

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- E só esta noite. - Ah, é claro. Pode pensar assim se faz com que se sinta melhor. - Ele pegou a mão dela e andaram pela rua, com a luz do sol ainda batendo nas suas costas. Penny detestava demonstrações públicas de afeto. Detestava ser tocada, a menos que estivesse na cama ou perdida na multidão na pista de dança. Mas Carter não deixaria que ela empurrasse sua mão. Ele passou a outra mão por sua cintura, e seus lábios se encontraram. Ela afastou a cabeça. - O que...? - Se você continuar tentando soltar a minha mão, eu vou continuar beijando você. Se quiser que eu finja ser seu namorado, vou agir como seu namorado. Isso inclui tocar você. - Não, não inclui - disse ela rapidamente. - Sou um namorado carinhoso - disse ele. - Gosto de tocar. - Beijar em público é um comportamento grosseiro. - Acariciar alguém por horas na frente de todo mundo seria grosseiro. Então é melhor você me deixar segurar a sua mão, não é? Ou então ele a acariciaria por horas na frente dos outros? Ela não ficaria tentada. - Não brinque com isso. - Por quê? Você achava que eu estaria aqui para facilitar as coisas para você? - Claro que é por isso que você está aqui - disse ela. - Para de brincar comigo pediu ela, falando entre os dentes. - Por favor, venha e converse com ele. Mas, ao se aproximarem, um sentimento estranho retornou. Já sentado na mesa, Matt observou enquanto eles se aproximavam, uma correção, ele observava Carter. - Oi Matt - disse Penny. Seu irmão parou de olhar para Carter para olhar para ela e deu um leve sorriso. Uma hora havia se passado, e Carter tentava entender porque ela insistira tanto para ele ir até lá. E porque ela estava tão ansiosa. Não parecia que seu irmão poderia mordê-la. Carter estava achando divertido, mas as perguntas de Matt eram astutas e inteligentes. E não foi ajudado em nada pela mulher que estava ali para salvar socialmente. Ela observava atentamente enquanto ele respondia. Ela provavelmente aprendeu mais coisas sobre ele nesses minutos do que soube durante os últimos dias. Ele gostaria de ter feito o mesmo. Ele estava certo de que o tempo se arrastaria, para que ele ficasse ainda mais incomodado. Porque ele queria ficar a sós com ela. Sozinho e no seu apartamento. - Então, o que você faz Matt? - Seria ruim se ele já devesse saber sobre isso. - Estou vivendo em Wellington. Acabei de me formar em advocacia. - Então está começando seu primeiro trabalho como advogado? - Matt trabalhará como pesquisador sobre os julgamentos da Suprema Corte durante o ano - interrompeu Penny. - Eles escolhem três formandos. Só os melhores. Ela estava orgulhosa por ele. Então tinha seu futuro traçado. - Você quer se especializar em direito criminal? - Isso mesmo. Isso explicava o exame criterioso pelo qual ele havia passado. Carter esperava que Matt não descobrisse a mentira logo à sua frente. Apesar de não ser uma mentira total, Carter queria mesmo ser o namorado de Penny. Mas não ser para sempre "o seu homem". Ele estava ali somente por aquela noite. Só hoje. Agora.

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Mas se forçou a escutar educadamente enquanto a conversa se desviou para a família, e Matt a atualizou sobre os acontecimentos. Ela estava interessada, fez várias perguntas, fazendo com que ele quisesse saber ainda mais sobre a razão pela qual ela teria esperado tanto para visitá-los. - Vi Isabelle outro dia. Carter levou um tempo para perceber o silêncio. A temperatura devia ter caído muito porque ele podia ver manchas no braço da Penny outra vez. - Você a viu? - perguntou ela finalmente. - Como ela está? - Ela está bem. - Matt parou de comer e também a observava. - Está trabalhando na biblioteca. Carter não fazia ideia de quem era Isabelle, mas o que sabia é que Penny estava petrificada. O que ela tentava esconder? Ele olhou para ela. Mistério. Mistério absoluto. E ela se esforçava para manter o sorriso. Ele lançou um olhar para Matt para ver se ele registrara a reação de Penny. Sim, ele tinha registrado. Ele tinha os mesmos olhos escuros da irmã, agora só um pouco mais escuros e focados nos dela. Ela deu um sorriso e fez outra pergunta gentil. Carter passou o braço pelo espaldar de sua cadeira. Ela precisava de apoio, e era para isso que ele estava ali. E ele não era insensível. - Vou pedir uma sobremesa. Vocês me acompanham? - perguntou Penny. Ela acenou para o garçom e pediu musse de chocolate. - Com licença, já volto. - Matt lançou um olhar para Carter e saiu. Penny recostou na cadeira quando ele saiu, e Carter olhou para ela. Agora ela estava ainda mais pálida, e seus dedos tremiam visivelmente. Sua boca se abriu como se ela estivesse com dificuldade para respirar. Ela parecia aterrorizada. Carter sabia que desconhecia grande parte desse cenário. Mas chegaria lá. Tudo o que importava agora era ajudá-la. - Penny? - Ele deslizou o braço das costas da cadeira para passá-los ao redor do seu ombro. Ela se virou para ele. - Você está bem? - murmurou ele ao se aproximar. Por puro instinto, ele precisava protegê-la, queria fazer com que ela se sentisse melhor. Ele não podia deixar de beijá-la. Por um momento, ela não fez nada, como se estivesse atordoada. Em seguida, retribuiu o beijo. As mãos dela apertavam seus ombros. Ele quis puxá-la para mais perto, detestando o fato de estarem em público. Ele queria tirar sua blusa, vê-la e senti-la. Queria tocá-la. Ela não se mexeu. Mas seu olhar ficara atento. A cor voltou à sua face, e seus lábios estavam mais vermelhos do que estavam segundos atrás. Ela respirou fundo. Assim, ela voltou para sua imagem perfeita. Como se aquele momento de terror nunca tivesse acontecido. Como se aquele beijo nunca tivesse acontecido. Carter nunca tinha se sentido tão confuso em toda a sua vida. Só havia uma maneira de lidar com isso. Não era possível desistir agora. Na verdade, não havia como desistir desde a primeira vez que ele colocara os olhos nela. Ele seria seu namorado na vida real. Ele a veria excitada e viva. E, para alguém que teria dito que beijar em público seria um comportamento grosseiro, ela estava se saindo muito bem. Matt voltou para sua cadeira.

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Alguns minutos depois, Carter ficou surpreso ao observar Penny comer feliz sua musse de chocolate. Ele pensou que ela não gostava de chocolate. Matt olhou para Carter e sorriu. Como se achasse engraçado ver a irmã deliciando-se com a sobremesa. Mas como ela estava tão ocupada com o doce, Carter e Matt teriam que continuar a conversa. Carter lançou um olhar suspeito para Penny. - Matt pode me dar uma carona para casa - disse ela, logo depois de Carter pagar a conta. - Ele queria conhecer meu apartamento, lembra? E você precisa trabalhar naqueles arquivos, você não quer ficar tão atrasado amanhã. Quando Matt saiu para pedir um táxi, Carter a puxou para seus braços, tão perto que seu corpo ficou apertado contra o dele. Não tão perto como ele queria, mas era melhor do que nada. Ele a beijou suavemente. - Foi um prazer conhecê-lo, Carter. - Matt voltou do ponto de táxi estendendo a mão e sorrindo. Deve ter sido aprovado então, no placar, pelo menos, a noite tinha sido positiva. E ele reclamaria seu prêmio amanhã. Penny amava seu irmão. Mas bocejou e disse que estava cansada. Ele pareceu entender, pedindo para o táxi aguardar enquanto conhecia seu apartamento para poder contar aos pais quando voltasse para casa. Ele se virou, já com uma das pernas dentro do táxi. - Desculpe se a menção a Isabelle a desagradou. - Ah, não. - Penny balançou a cabeça. - Foi ótimo ver você, Matt. Foi uma noite muito legal. Apesar daquele momento. - Você deveria ir nos visitar - disse ele, de repente desajeitado. - E deve levar o Carter. Sua garganta ficou seca, e seus olhos lacrimejaram. Ela piscou, assentiu de cabeça e subiu as escadas para entrar em casa. Isabelle era irmã gêmea de Dan e foi a melhor amiga de Penny desde que ela tinha 1 ano. Elas eram próximas, como irmãs. Brincavam sobre se tornarem irmãs de verdade quando Penny e Dan ficassem juntos. Mas depois aquele acontecimento, mudou tudo. Um peso que ela carregava e que nunca poderia ser aliviado. E seu fardo não era nada perto do de Isabelle ou dos pais de Dan. Por várias razões, a morte de Dan foi um ponto decisivo em sua vida. Agora ela sabia que a vida devia ser vivida, ela viajaria, experimentaria e veria o mundo. E sempre manteria sua distância. E isso significava manter distância de Carter também. Especialmente dele.

CAPÍTULO SEIS — Você dormiu bem? - Carter apareceu na sua mesa. - Dormi. - Penny mentiu. - Eu não - disse ele. - E a culpa é sua. Ela queria correr. Essa era sua resposta habitual para tudo. Mas não poderia. Ela decepcionaria Mason, que tinha sido tão bom para ela e já tinha preocupações suficientes. Ele não merecia mais traições ou ver pessoas fugindo do navio que podia estar afundando, se os investidores percebessem qualquer indício de dificuldade que poderiam parar o fluxo de dinheiro.

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Então ela estava presa ali por mais um ou dois meses. E Carter só ficaria por mais uma semana. Assim que ele se fosse, ela ficaria bem outra vez. Ela conseguiria ser forte, claro que conseguiria. - O quê? Agora que a ajudei com seu irmão você está me ignorando? - Carter falou, olhando diretamente para ela. - Só acho que é melhor se mantivermos isso no nível profissional. - Querida, nunca fomos profissionais um com o outro. - Somos adultos, Carter. Podemos tentar. - Para provar seu ponto de vista, ela olhou rapidamente para ele e deu um leve sorriso. E se virou diretamente para a tela do computador. - Por que as mulheres sempre têm que jogar? - Ele gritou. - Mordem e assopram. Se eu a beijasse agora, você diria sim por dez minutos. - Não estou brincando, Carter - disse ela com frieza. Ele riu. Mas ela não voltou a vê-lo durante todo o dia. Ela trabalhou até tarde, ignorando o nó em sua garganta e o tom de descrença na voz" dele. O escritório foi esvaziando aos poucos, mas ela não conseguia relaxar. Ela realmente queria ir nadar um pouco, sozinha, o que significava ser bem depois do horário do expediente. Era a única maneira de conseguir relaxar seus músculos, que se tencionaram durante todo o dia. Ela estava com sorte, porque esta noite era o turno de Jed. Ela pegou sua bolsa de ginástica e desligou o computador. Agora ela só queria mergulhar na água fria. Ela passou por seu posto de segurança para avisá-lo. - Não devo demorar. - Ela sorriu para o vigilante. -Meia hora no máximo. - Tudo bem. Vou fechar daqui a quarenta minutos então. - Obrigada. Ela se trocou no vestiário feminino. Apoiando a bolsa sobre o banco, tirou a toalha e a levou para a beira da piscina. Ela mergulhou e sentiu a água fria em sua pele. Então baixou os óculos de proteção e nadou várias voltas. Levou mais tempo do que o usual para entrar no ritmo e ainda mais tempo para organizar seus pensamentos. Então saiu da piscina e se virou para pegar a toalha. Mas alguém estava lá aguardando por ela. Alguém que a abraçou com os braços quentes e fortes. - Por que você sempre aparece de repente? - Ela tentou gritar com Carter, mas só saiu um sussurro, pois sua garganta estava fechada por causa do susto. - Desculpe. - As mãos dele passavam suaves por seus ombros. - Não quis assustála. Você não deveria estar aqui. - Nem você - disse ela. - O que está fazendo aqui? - Não é óbvio? Estou procurando por você. Por que está aqui? - Não é óbvio? - Ela estava nadando, não estava? Ela estava tentando tirá-lo dos seus pensamentos. - Você está se molhando. - Ela fez uma última tentativa patética de defender-se. - Não faz mal. - Carter... - murmurou ela. - Você não quer que eu a beije? Que eu a toque? Não quer me tocar? Claro que ela queria, estava louca para tocá-lo. Ele riu. Foi como se fosse aquela primeira noite. As mãos dele deslizaram pelos braços dela. - Para. Ele levantou a cabeça e olhou para ela. - Você está brincando, certo, Carter? - murmurou ela sem fôlego. - Isto não significa nada. - Não se você não quiser.

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- Só diversão - respondeu ela. - Mais nada. E então ele a beijou. Ela fechou os olhos. Ela tremeu ao sentir seu toque, insanamente sensível. Ele subiu rapidamente, a boca com a língua passando ao redor de um mamilo. Ela queria que fosse forte e rápido. Mas ele estava lento e brincando e a tocando por toda parte. As mãos dele passando em partes macias que ela normalmente resguardava. Ela tentou distraí-lo, mas ele estava focado em explorar o seu corpo. O corpo inteiro dela estava quente. Era como se ela tivesse entrado numa sauna a vapor, de repente ela sentia tanto calor, que se contorceu sob o corpo dele, tentando fazer com que se movesse mais rapidamente. Ela precisava que aquilo terminasse, porque ela não conseguiria aguentar o calor. Tudo o que ela queria era senti-lo dentro dela, liberando sua força. Sua mente e seu corpo se fixavam no prazer dele, não no dela. Era isso o que ela queria. -Carter! - Ela estava ofegante, sentindo os dedos dele a acariciarem entre as pernas dela. Ela se contorceu, tentando escapar de repente. Ela estava se afogando, afogando-se no calor intolerável. Ela não conseguia respirar, não conseguia pensar, não conseguia controlar nada. Os dedos dela cravaram nos ombros dele quando as sensações ficaram tão fortes que a assustaram. - Relaxa - disse ele. Como ela poderia relaxar? Ele chupou o mamilo dela e deslizou um único dedo para dentro. A agonia era muito intensa, e ela o empurrou violentamente. Ele perguntou: - Machuquei você? Ela balançou a cabeça, respirando fundo e ainda tremendo como as sensações. - Penny? - Só preciso de um segundo. - Ela se virou para ele, tentando retomar o controle da situação. Ela queria que ela estivesse no controle. E ela sabia como abraçá-lo, beijálo. Sem dizer nada, ela se ajoelhou na frente dele. Mas ela sentia a respiração confusa dele quando ela percorria seu tórax com as mãos. Ela passou as mãos por suas coxas, até chegar ao seu alvo. Ah, sim, ela amou o tamanho. Mas, de repente, ele agarrou as mãos dela e fez com que ela parasse. Ela olhou para ele. - Você não quer? - Este cenário não está funcionando para mim - disse ele. - Precisamos sair daqui. De repente, ela sentiu frio e percebeu que estava quase nua. Ela vestiu o maio molhado e frio, sem nenhuma dignidade. Não seria capaz olhar novamente para ele até estar completamente vestida. Passou a toalha em volta do corpo. Ele estendeu a mão para ela. - Vem comigo. Ela não pôde recusar a oferta de ajuda. Mas assim que ficou de pé, largou sua mão. Ele teve o cuidado de afastar-se dela um pouco. Ela teve o cuidado de não olhar diretamente para sua calça. Ela realmente desejou que ele a deixasse fazer algo. Mas sabia que Carter não deixaria isso acontecer. Eles andaram até a porta, e Carter girou a maçaneta. Mas ela não se mexeu. Ele tentou girar outra vez. Agora para o outro lado. Ainda não se mexeu. - Está trancada - disse Penny. - Você não a trancou quando chegou? -Não.

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Penny fez uma careta e tentou abrir a porta. Depois olhou pela pequena janela para o salão escuro. - Jed deve ter trancado. Ele deve ter dado uma rápida olhada e visto a piscina vazia, não deve ter percebido seus corpos entrelaçados no canto escuro no fim do espaço. Ele pensou que ela tivesse ido e, então, trancou a porta. - Então estamos presos aqui? - Parece que sim. - Podemos bater na porta, e ele nos escutará, certo? Ela balançou a cabeça. - Ele está um andar acima e fica escutando seu ipod. Não vamos causar problemas para ele - disse Penny rapidamente. - Falei para ele sobre isso. Na verdade, a culpa é minha. - Por que você vem até aqui depois do horário? Por que não vem quando a piscina está aberta? - Gosto de ter a piscina só para mim. Fica muito movimentada antes e depois do horário do expediente. - Você não acha que pode ser perigoso? - Eu nado muito bem. E Jed sabe que estou aqui. - Ele não é um bom vigia, é? Ele nem sabe que também estou aqui. - Ele deve ter escutado o elevador em que você estava e deve ter pensado que eu estava indo embora. Ele provavelmente acha que deixei o prédio enquanto desceu para trancar a porta. - Não tente inventar desculpas para ele. - Ele tem uma família grande, não dorme muito e precisa do trabalho, Carter. -Bem, se você realmente se importa com ele, não faça com que quebre as regras. - Tudo bem. Ele suspirou e voltou a olhar para ela. - Você pode nadar na piscina do meu apartamento. E grande e quase ninguém nada lá. - Você nada? - Nado, mas pela manhã. Você pode usá-la sozinha à noite. E eu vou assisti-la. - Não irei à noite. -Ah, acho que sim. - Ele deu um passo à frente e colocou a mão no ombro dela. Você precisa se vestir. -A única forma de acessar os vestiários é por esta porta. - Você está brincando - disse ele e tentou abrir a porta outra vez. Ela balançou a cabeça. Carter se inclinou e bateu com a cabeça na parede. Porque eles não tinham nenhum celular, nenhum preservativo, nenhum sofá, nenhuma almofada, nada para cobri-los durante esta noite longa, fria e frustrante. Ele fez uma careta ao sentir que ela tremia ao seu lado. As roupas dele estavam úmidas e geladas. Todo o ambiente estava gelado. E tudo o que ela tinha era um maio e uma toalha molhados. - A que horas eles abrem a porta de manhã? - As 6h - respondeu ela. - Acho que o funcionário da piscina chega quinze minutos antes. Faltam oito horas. Oito horas sozinhos, ela quase nua, e ele nem podia aproveitarse desse fato. - Tudo bem, então vamos tentar ficar confortáveis. Ela andou para o canto da piscina. Pranchas não eram

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os objetos mais macios do mundo, mas era melhor do que o concreto frio. Carter tentou não encará-la muito obviamente ao tentar entender o que tinha acontecido quando ela o afastou tão abruptamente. Ele pensou que poderia tê-la machucado; mas sabia que tinha sido muito suave e feito tudo de forma muito lenta. Era como se ela tivesse se apavorado de repente, e ele tinha pensado que ela queria algo assim mais íntimo. Ela tinha tentado fazer algo mais íntimo com ele. Isso era o problema? Ela não queria sentir prazer? Ele tremeu com essa ideia. Era tão improvável. Quem não gostaria de ter um orgasmo? Talvez ele tivesse tocado em algum ponto sensível muito depressa. O que significava que ele deveria agir ainda mais lentamente. Talvez ela tivesse ficado surpresa. Não era como se ela fosse alguma virgem excitável, o modo como ela o beijou era uma maldição, quente, como um convite. Mas quando ele realmente tinha começado a querer mais... Bum! Ela simplesmente preferiu parar? Na verdade, ele achava que não. Porque sua recusa não fora total. Ele não achava que ela estava jogando, o fato de ela ter tentado se abaixar para ele provava isso. Mas parecia que ela não queria sentir prazer. Isso seria alguma maneira estranha de se manter no controle? Ela gostou do poder de se ajoelhar e ver ele lhe implorar que o engolisse inteiro? Ou será que ela estava um pouco assustada? Nossa! Ela era mesmo um mundo de contradições e complicações. E ele também estava intrigado. Seus músculos se contraíram. Paciência não era uma de suas virtudes. Mas para Penny Fairburn, ele poderia abrir uma exceção se fosse preciso. Ele esticou as pernas e respirou fundo para aliviar a tensão que ainda percorria o seu corpo. A pergunta agora era como preencher o tempo. Como tentar entendê-la e como tentar descobrir que segredos ele precisava revelar. Ele não queria ir mais adiante, não naquele lugar, não sem calor, conforto e um preservativo. Só restava uma saída. Conversar. - Você sempre nadou? - Estranho, mas era um começo. Ele não podia perguntar diretamente algumas questões mais intensas, não podia fazer as perguntas mais íntimas que reverberavam em sua mente. - Desde que comecei a viajar - respondeu ela. - Na maioria dos lugares, há uma boa piscina. Penny continuou a conversa de forma mecânica, tentando processar em seu cérebro o que tinha acabado de acontecer. Estava tentando entender que precisaria passar a noite ali. Sentindo frio. Com Carter. Era a parte "com Carter" que realmente a incomodava. As partes mais sensíveis do seu corpo ainda tremiam. Ficar no controle pelas próximas oito horas exigiria muita concentração, e ela precisava ficar no controle. A avalanche de sensações que ele tinha ativado nela trazia surpresas, apesar dos sinais de advertência que ela tinha tido dos beijos dele mais cedo. Muitas emoções, até mesmo a luxúria, levavam à desavença, não à diversão. Ela não conseguia lidar com a desavença. Na verdade, ele não estava tentando fazer nada agora. Na realidade, ele estava tentando manter cuidadosamente uma distância, fazendo com que o ambiente parecesse mais frio a cada segundo. Ele nem estava mais olhando para ela. E, agora, as luzes que entravam pelas janelas estavam ficando mais tênues. Então ela não conseguia captar sua expressão. Mas ele parecia querer conversar. E ela estava definitivamente inclinada a fazer perguntas. - Então, sua família é de Melbourne. - Ela captara aquela informação no jantar da noite anterior. - Meu pai é de lá. Minha mãe morreu quando eu tinha 14 anos. - Ah, sinto muito.

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- Tudo bem. Meu pai está em seu terceiro casamento agora. Ele se casou outra vez há um ano - continuou Carter. - Ela é vinte anos mais jovem do que ele. Todo o clichê que você possa imaginar, mas ainda pior. -Oh. - Ele tinha terminado um relacionamento, mas logo se casou de novo. Com uma mulher ainda mais nova, Lucinda. Tiveram um bebê no ano passado. - E mesmo? - E, o Nick. -Você tem um meio-irmão que ainda é um bebê -disse ela. - Você lida bem com isso? - Na verdade, ele é pequenininho. Por que, você não gosta de crianças? - Não é que não goste... Ele se virou para olhar para ela. - Você não quer ter filhos? - Definitivamente, não - respondeu ela. - Não agora ou nunca? - Nunca. - E mesmo? - Ele pareceu surpreso. - Nem eu. Isso é o que eu gosto no Nick. Ele é a nova geração dos Dodds, e não precisarei cuidar dessa parte. Agora não tem mais nenhuma pressão sobre mim, meu pai já agiu. - Você acha que eles terão outros filhos? - Penny não podia imaginar ter uma irmã com idade para ser sua filha. - Não sei. Lucinda provavelmente não vai querer arriscar seu corpo outra vez. Ela agora tem um novo herdeiro, tem o meu pai a seus pés. - Talvez ela o ame. - Penny teve que lançar aquela possibilidade porque suspeitou que Carter não estivesse nem um pouco satisfeito com aquela situação. - Ela ama o dinheiro e o status dele. - Você não gosta mesmo dela, não é? - Já conheço o seu tipo. Desde a minha primeira madrasta. - Então não é próximo do seu pai? - Ela achou que sua atitude severa pudesse ser explicada por esse afastamento. - Na verdade, somos muito próximos. Ele se aposentou há alguns anos, principalmente para ficar com ela. E uma parte de mim espera que o casamento deles dure, porque acho que eu morreria se precisasse ficar longe do Nick, mas acho que não durará. E, então, sem dúvida, ele encontrará outra. Tento tratar Lucinda com respeito. Mas ele sabe que não confio nela. Ele me diz que o tempo cuidará disso, e acho que vai. Eles terminarão ou se distanciarão. - Você não acha que é um pouco romântico? - Não acho que nada seja romântico. Penny se sentou melhor e arrumou a toalha. - Quem o ensinou a pensar assim? Mesmo no escuro, ela podia ver os olhos dele reluzirem. - A professora de ioga da minha madrasta. - Você está brincando. - Ela não pôde deixar de sorrir. - Uma professora de ioga. Você não se contentará com nenhuma mulher. - Você acha que ela deixou minhas expectativas muito altas? - perguntou ele maliciosamente. - Uma leoa que ensinou a você o lado quente da ioga? Muito alta. - Sem pensar no fato de fazer com que ela subisse no telhado com um simples toque, provavelmente algum truque tântrico.

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- Minha madrasta só tem oito anos a mais do que eu -indicou ele com tom sarcástico. - E a Renee tem só seis anos de diferença. O nome dela era Renee? Penny manteve o sorriso, mas cerrou os dentes. - Mas você tinha quantos anos? - 16. O quê? - Ele sorriu. - Muito novo? - Muito novo para ter o coração partido. Ele riu. - Não foi isso que aconteceu. Foi só sexo. - Sua primeira vez nunca é só sexo - disse ela. - Então o que aconteceu? - Ela era noiva, mas eu não sabia. Ela queria uma brincadeira. E quis me envolver. Penny teve a impressão de que nenhuma mulher jamais conseguiu envolver Carter e que nenhuma conseguiria. Mas ele definitivamente sentira algo. - O que acontece na sua primeira vez pode realmente deixar uma marca. - Ela sabia disso. - Você acha? - Ele riu. - Renee foi só diversão. Foi a segunda que realmente mexeu comigo. - Oh? Quantos anos ela tinha? Ele riu. - Ela era três meses mais nova do que eu, querida. Éramos ambos representante de turma na escola. O par perfeito... Na teoria. - Você foi representante de turma? Ele deu de ombros, pareceu um pouco acanhado. - E dos bons. Ela sabia quais eram os requisitos para a escolha dos representantes nessas escolas de elite, excelentes notas, bom desempenho nos esportes ou algum talento musical e espírito de grupo. O menino de ouro saindo com a menina de ouro. Ela sabia bem como era. - Vocês foram o rei e a rainha do baile de formatura. Então, o que aconteceu? - Ela foi estudar na mesma universidade que eu. - Oh. - Penny sorriu. - Seu primeiro erro. - Só tínhamos 18 anos, entende? Não estava preocupado em me comprometer. Ela também entendia isso. E uma década depois, Carter ainda não queria se comprometer. - Então foi se desgastando? - Ela começou a levar a sério a possibilidade de nos casarmos. Muita pressão e ansiedade. As vezes, ela usava outro cara para me pressionar. - Ela tentou provocar ciúmes? - Tentou, mas não senti ciúmes. Francamente, eu nem ligava muito, por pior que isso possa parecer. Então não funcionou. Percebi que eu não podia confiar. Ele não acreditava em nenhuma mulher. Mas, então, quem poderia culpá-lo? Sua mãe o deixou. Tudo bem, ela morreu. Mas, de certa forma, ele foi deixado. Seu primeiro amor o usou, sua primeira namorada séria tentou manipulá-lo para que fizesse algo que ele não queria... E ele foi ficando um pouco amargo. Bem, ele não precisava confiar nela. Ele só queria um pouco de diversão. Na teoria, ele era perfeito. Porque na teoria ele não a ameaçava, ele não pediria nada que ela não quisesse dar. Exceto o que já tinha dado. Quando ele a beijou, seu corpo exigiu que o dela se rendesse. Ainda era um passo muito grande para ela, mas estava tão tentada por ele que sabia que teria que encontrar uma maneira de ficar no controle. Ele olhava para ela com um ar dissimulado. - Então, o que aconteceu com a sua família?

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- O que você quer dizer? - Ela levantou as pernas e abraçou os joelhos. A temperatura estava mesmo caindo. - Você não visita seus pais há anos e me levou para lhe acompanhar em um jantar com o seu irmão. Alguma coisa está acontecendo. - Claro que não - disse ela. - Tenho uma ótima família. - Então o que é? Você é uma fugitiva sem causa? -Ele pareceu cético. - Tem que haver algo. Uma razão para você não querer se casar ou ter filhos. A maioria das mulheres não pensa assim. A maioria passa a metade da vida tentando manipular sua trajetória nessa direção. - Você tem uma impressão muito boa das mulheres. - E como eu vejo as coisas. E gosto muito das mulheres. - Você quer dizer que gosta de muitas mulheres. Seu sorriso não pôde negar. - Mas o que aconteceu? Seus pais tiveram um divórcio horrível ou algo assim? - Não, eles estão casados há quase trinta anos e ainda são felizes. - O coração dela bateu mais forte. - Oh. - Carter pareceu surpreso. - Isso é bom. - Eles se dão bem e não são como você. Eles acreditam que a felicidade será para sempre. - Então porque você não acredita? - Gosto da minha liberdade. Gosto de viajar. É isso que eu faço. - E não quer mesmo crianças? Oh. Ele voltou a esse assunto? - Não, não quero ter filhos. A maioria dos homens que quer se casar também quer filhos. Não quero desapontá-los. É mais fácil estar com um homem que também não quer essas coisas. Ele pareceu sério. - Você não pode ter filhos, Penny? - perguntou ele. - Não é isso - disse ela rapidamente. - Não. Até onde eu sei, está tudo bem. Mesmo com a luz suave, ele viu que ela corou. - Não quero trazer uma criança para esse mundo. É tão cruel. - Quem é Isabelle? - O quê? - Ela voltou a ficar tensa. - Você se calou quando Matt mencionou o nome dela ontem e está fazendo o mesmo agora. Penny respirou fundo. - Ela é só uma pessoa que mora na nossa cidade. -Então ela deixou que o silêncio evidenciasse o óbvio, que ela não estava mais falando. Ela disfarçou um calafrio e apertou os dentes para não baterem de frio. - Você está com frio. - Carter se aproximou dela. -Precisamos nos aquecer. Seria impossível naquela friagem. Ela ficou mais tensa quando ele chegou mais perto a ponto de tocá-la. Ele suspirou e passou o braço ao redor dela, ignorando sua resistência. - Tenta dormir - disse ele. - Não vai acontecer nada. Penny não queria acordar, não queria se mexer. Ela estava tão aquecida, até seus pés, que antes estavam como blocos de gelo. Ela voltou a se sentar. - Onde estão as suas roupas? - Você estava congelando - respondeu ele. - Então você precisou se despir para me emprestá-las? - Pele com pele, Penny. Foi a melhor forma que encontrei para aquecer você. Você não acordava, e comecei a pensar que você estava ficando com hipotermia.

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- Estamos no verão. - E você está em um porão que está tão frio quanto uma caixa de gelo. Você está mais aquecida agora, não está? - Estou. - E está consciente, então funcionou. E você gostou; se encostou bem em mim, não podia ter chegado mais perto. - Ele voltou a passar os braços ao redor de seu corpo. - Não tente escapar. Agora eu estou com frio. É a sua vez de cuidar de mim. O corpo dele tremeu, mas ela pôde ouvi-lo rir. Estava fingindo. Ela disfarçou um sorriso com o braço para que ele não pudesse ver. Mas não tentou fugir outra vez. Só mais cinco minutos, que mal poderia acontecer? Então seu estômago roncou. - Você está com fome. O estômago dele também roncou. - Você também. - Não jantamos. O que você come no café da manhã? - Frutas, iogurte e uma pitada de canela. - Sua boca se encheu de água quando ela imaginou. - Canela tem um cheiro muito bom. - Muito melhor do que sentir cheiro de cloro. Você não está bem sentado. - Tudo bem. - Tem certeza? - Por quê? Você está sé oferecendo? Ele ficou debaixo dela. Ela abriu um pouco as pernas. Sim, ela estava se oferecendo. Porque sabia que não conseguiria mais negar. O desejo finalmente superou o medo. Ter dormido um pouco tinha restabelecido sua perspectiva. Além disso, levando em conta o quanto ele estava excitado agora, ela se sentiu mais confiante em sua habilidade de dar prazer. Ele olhou para ela. Ela sentiu seu corpo ainda mais tenso. Ele sorriu e se aproximou dela, que fechou os olhos, antecipando-se à explosão que se seguiria ao beijo. Ele só passou os lábios suavemente em sua testa, face e nariz. - Temos uma química insana, Penny. Não faça jogos, seja honesta. Seja sempre honesta comigo. - Tudo bem. - Ela podia concordar com ele. - Temos química. - Na verdade, eles tinham mais do que quími ca. Tinham experiências e gostos em comum. E também não queriam ter nenhum tipo de compromisso. - E vamos fazer essa experiência. - Como em um projeto científico? - Quase. - Você não estava brincando sobre não ser romântico. - Você não gosta de flores. Não gosta de chocolates. E também detesta romance. - Não detesto diamantes. - Ela riu. - E o que você faria se um cara entregasse para você um anel de diamantes? Correria tão rápido a ponto de quebrar a barreira do som? Ela mordeu os lábios. - Vamos ter um caso - disse ele. Eles seguiam essa trajetória desde que se conheceram. Tudo o que ela podia querer agora era conseguir controlar essa situação. -Sim.

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Para sua surpresa, ela ficou aliviada ao aceitar. Agora que tinha admitido, queria começar imediatamente. Quanto mais rápido pudessem começar, mais rápido ela poderia controlar a situação. - Hoje à noite. - Ele se levantou e se afastou dela. Ela se sentou. - Hoje à noite? Ele sorriu ao perceber seu desapontamento. - Não temos preservativos aqui. - Você não quer que eu o ajude a se excitar agora? -Ela queria sentir o corpo dele tremendo em seus braços. Ela podia dar esse prazer em segundos. - Poderei fazer o mesmo com você? Ela piscou rapidamente. - Hoje à noite - repetiu ele. Ela assentiu. - Só um pouco de diversão. - Você consegue? Ela esperava que sim. Se pudesse ficar em cima. - É claro. Você consegue?

CAPÍTULO SETE — Vinte minutos depois, eles escutaram um barulho na fechadura e se esconderam outra vez do lado mais escuro da piscina. - Tente vestir sua roupa bem rápido - sussurrou ele. Ao entrar no vestiário feminino, Penny se vestiu bem rápido, pegou a bolsa e saiu em um minuto. Carter estava esperando na porta, com a camisa úmida e amassada. Ele parecia mais sexy e perigoso do que nunca. - Vou carregar a sua bolsa. Penny andou depressa. - Não precisa. As pessoas já estavam chegando para usar a sala de ginástica, e ela queria sair de lá antes que alguém a visse naquele estado. - Não, deixa que eu carrego - insistiu ele, bloqueando sua passagem. - Olha, vamos tentar sair daqui o mais rápido possível. - Não tente bancar a inocente. Você sabe exatamente o que pode fazer comigo. Da mesma forma que eu sei. -Ele lançou um olhar para ela. - Se você deixar. Penny sentiu como se uma injeção de adrenalina tivesse atingido diretamente seu coração. O sentimento percorreu suas veias. Ele sorriu. A excitação ondulou por sua barriga, bloqueando seus nervos, sua memória, seus medos. Tudo foi engolido por esse calor. Ela balançou a cabeça, mas sorriu. Ele a puxou pela mão e correram rapidamente pelas escadas e pela recepção. - Droga, você já está aqui, Penny? - Com os olhos arregalados, Jed a observou por trás de sua mesa. Ela balançou a cabeça. - Você nunca me viu. - Você e eu teremos uma pequena conversa mais tarde. - Carter olhou para Jed e segurou a porta para Penny passar. Ele acenou para dois táxis. - Não podemos dividir um? - perguntou ela. - Se entrarmos em um deles juntos, você sabe que não voltaremos. Tenho trabalho a fazer.

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Onze horas depois, ela percebeu que ele tinha muito trabalho. Ela chegou a casa, tomou banho, trocou de roupa, e, ao voltar para o escritório, eleja estava lá, concentrado. Ele não se levantou da cadeira por horas. Ela sabia, porque foi à sua sala algumas vezes para entregar pilhas de faxes e pacotes que chegaram pelo correio, mais daqueles miseráveis arquivos, e ele a ignorava. Nem mesmo levantava os olhos, perdido no mundo de números, transações e pequenos detalhes. E ela não conseguiu se concentrar em nada, estava sobressaltada, entusiasmada e impaciente. Até que o cansaço pelas poucas horas de sono consumiu seus nervos, e agora ela estava desanimada e pronta para ir para casa sozinha, porque ele havia passado o dia sem nem mesmo cumprimentá-la. O pior de tudo: ainda era cinco horas da tarde. Teoricamente ela ainda teria mais duas horas de trabalho pela frente. Ela olhava para a tela do computador e digitava. - Então... - Ele, de repente, veio à sua mesa. - Na sua casa ou na minha? -Quanta sutileza, Carter. - Ela digitou um pouco mais. - Só responda - disse ele, colocando a mão sobre a dela. - Mal consigo combinar duas sílabas. Ela olhou para ele e ficou feliz por estar sentada. Ela não conseguiria ficar em pé com aquele calor nos olhos dele. Fez com que ela se sentisse bem melhor com relação à distância que ele impôs durante o dia. - Na sua casa. - Ela ficou feliz por ele ter perguntado. Se ela fosse para a casa dele, poderia ir embora quando quisesse, não precisaria esperar até que ele decidisse sair da casa dela. - Então vamos. - Agora? O táxi já estava esperando, e, melhor ainda, o caminho era curto. O coração dela batia cada vez mais forte, e ela tentou manter a respiração em um ritmo adequado. Ele pegou a mão dela ao entrarem no elevador. - Você está cansada? Ele deve ter lido sua mente porque se virou para ela na hora em que fechou a porta atrás de si. Ela se derreteu e se ofereceu para ele, feliz por ele estar tão faminto. Ela queria que ele estivesse incontrolável, para ser seu escravo. A paixão era poderosa, e ela queria aumentar seu prazer. Ela se aproximou dele, dançando como ela sabia fazer de melhor, sua boca se abriu para ele, seus dedos trabalhando nos botões de sua blusa, querendo que ele ficasse cada vez mais quente. Mas ele riu. - Por que você está com tanta pressa? Porque assim ela conseguia controlar a situação. Ela deu de ombros e sorriu. Mas ele, de repente, reduziu a velocidade. Por que ele estava demorando tanto para tirar a roupa dela? Droga, eles nem precisavam ficar sem roupa, ele podia somente empurrar a saia dela para cima e colocar sua calcinha para o lado. Ela estava pronta para ele e queria muito sentir o seu prazer. - Quero que você aproveite. - Vou aproveitar - respondeu ela suavemente. Mas ela sabia o que ele queria dizer. Ele queria a ouvir gritando seu nome. - Você não quer que eu me abaixe para você? Ela assentiu e ficou feliz por não precisar ela mesma dizer isso. -Na verdade, eu não gosto... Não me sinto... Confortável. Ele pareceu agradecido. - Mas fará para mim? - Sim, eu gosto.

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- Bem, isso é ótimo. Mas o que mais excita você, Penny? - Ele olhou para ela. O calor ficou mais intenso, e ela tentou mudar de assunto. - Várias coisas... - murmurou ela. - Gosto de... Muitas coisas. Ele inclinou a cabeça levemente para a esquerda ao observá-la. - Meu Deus... Você finge. - Eu gosto muito, me sinto bem. Mas... É assim que eu sou. - Você sempre finge? - Ele arregalou os olhos. - As vezes, é mais fácil assim. - Ela lambeu os lábios, não de forma convidativa, mas porque ficaram secos. -Os homens gostam de sentir como se... Carter passou os dedos pela testa. - Não vai ferir seu ego ou algo assim? - perguntou ela. - Você preferiria que eu tivesse fingido? Ela nunca havia sido tão honesta. O fato é que ela havia fingido. Mas isso não quer dizer que ela não tenha gostado. Ela gostou. Ela queria aquilo e queria Carter. - Meu ego pode lidar com você - disse ele. - Então não finja. Total honestidade. De acordo? - Quero ficar com você - Ela não pôde deixar de dizer. - Você me excita e sabe disso. Mas eu só não... - Não quer ir até o fim. - Mas gosto de todo o resto. Ele riu. -Não se sinta pressionada a me agradar, querida. Podemos sentir prazer um com o outro, cada um a seu modo. Vamos ver o que acontece, tudo bem? Ela soltou a respiração que estava segurando há um tempo. -Tem certeza? - Até mesmo para um homem tão confiante como ele, ela estava surpresa por ele ter entendido tão facilmente. - Sim - assentiu ele. - Tenho certeza. Para ele, aproveitar o sexo estava tão ligado a atingir o orgasmo, que foi como se ela estivesse falando em outro idioma. Ele tentou entender, ela seria fisicamente incapaz de atingir o orgasmo? Na verdade, ele achava que não. Perto da piscina, ele a sentiu tremer em seus braços, sentiu o desejo em sua boca, sentiu o fluxo de desejo entre as pernas dela quando a tocou. Fisicamente, ela teve todos os sintomas. Talvez fosse sua mente que não pudesse chegar até lá. Claro, ela era totalmente descontrolada. Fazia sentido. Era esse o seu trabalho, manter tudo em seu lugar e em perfeita ordem. Mas ao mesmo tempo, não fazia sentido. Na noite em que se conheceram, ela parecia a imagem perfeita do egoísmo. Uma jovem bonita que gostava de diversão e aparentemente segura que poderia alcançar o sucesso. Mas parecia que não queria isso, pelo menos não ao nível que não pudesse controlar. Ela dava prazer aos seus namorados e permitia que lhes dessem prazer? Porque isso não era certo. Para ele, sexo ela um prazer mútuo. Prazer para os dois, dar e receber. Parecia um desafio para Carter. Porque ela conseguia sentir prazer. Ele podia senti-la tremendo, quente. Ele sabia quanto ela o queria. Então como ele podia ajudá-la? Ela era tão sensível, e talvez ele a assustasse. Então ele teria que ter cuidado. Ela o observava com um olhar assustado. - Provavelmente fiz você perder a vontade agora. - E ela o olhou como se lamentasse isso. Ele sorriu. Ela não precisava se preocupar, teria tudo o que ele pudesse dar. - Não. - Agora ele estava ainda mais louco para tirar toda a roupa dela e, devagar, excitá-la.

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Mas, antes, o que eles precisavam era de um pouco de tempo. Só um pouco. -Você sabe que não comemos nada -.disse ele. -Vem, vou preparar alguma coisa. Ela pareceu surpresa. - Não sentiu falta de jantar? - Agora que pensou sobre isso, ele estava faminto. Ela balançou a cabeça. - Nem tive tempo de pensar sobre isso. Carter sorriu para ela. O segredo era fazer com que ela parasse de pensar. Ele foi para a cozinha. - Você não se importa de comer o que tinha para o jantar? - Ela estava endireitando as roupas quando Carter serviu o vinho, frio o bastante para condensar no copo. Ele apontou para o banco do outro lado da mesa. - Senta aqui e conversa comigo. Sobre o quê? Ela tinha esfriado a situação e queria tanto ficar com ele. Ela queria sair correndo, ir dançar e esquecer tudo. - Você está fazendo algum progresso ao tentar entender o problema do Mason? Ela preferiu falar sobre o trabalho. Tudo o que ele fez foi dar de ombros ao tirar uma tigela da geladeira. Uma salada verde. Ele fatiou tomate, pepino, queijo e adicionou algumas azeitonas. Sua boca encheu de água; ela adorava saladas coloridas. Ele tirou um pacote da geladeira e puxou com um garfo o salmão defumado para servir nos pratos. Então pegou uma tábua de madeira e tirou de um saco de papel um pedaço de pão. O estômago dela roncou enquanto ele fatiava o pão. - Não me diga que foi você quem fez o pão - disse ela. - E da padaria italiana no fim da rua. Parece bom, não é? Parecia divino. Em cinco minutos, ele preparou um jantar delicioso, e ela ficou muito impressionada. - Você sempre mantém uma alimentação saudável? -Trabalho por muitas horas, sou responsável pelo emprego de muitas pessoas. Preciso ficar em forma para poder ter um ótimo desempenho. Ele pegou os dois pratos. - Vem, vamos para a varanda. Pode trazer a salada. Ele abriu as portas. O sol ainda estava alto e quente, mas um toldo fazia sombra na mesa, e a vista do porto era incrível. - Por que você mesmo está ajudando Mason, não um de seus empregados? - Por todos os telefonemas e faxes que ele tem recebido, ela sabia que ele não costumava passar os dias cuidando de um caso detalhado como esse. Ele era o chefe de mais de uma unidade. - Ele confia em mim - Carter levantou os ombros. - E um velho amigo. E eu precisava de um tempo de qualquer forma. - Então está sendo como férias para você? - E uma boa mudança. - Mas você ainda mantém contato com o escritório de Melbourne o tempo todo. Ele deu de ombros outra vez. - Sou responsável por muitas atividades. - E você adora. - Gosto da minha carreira. Trabalho duro para ter sucesso. Sim, isso ela havia notado. Agora que ela começara a comer, pôde sentir o quanto estava com fome. Dentro de mais cinco minutos, ela terminaria.

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Ele olhou para o prato dela e ficou satisfeito. - Melhor agora? - Muito. Ele entrou e programou seu ipod. Voltou à varanda e estendeu a mão para ela. - Vem, você não gosta de dançar? - Com um ritmo bem mais rápido do que esse. - Mas se levantou mesmo assim. - Você precisa aprender a relaxar, Penny. A música lenta de jazz fez com que ela relaxasse, eles apenas balançavam o corpo. Ele estava com a camisa desabotoada, e ela podia sentir sua pele. A dança estava sendo uma tortura. Ela estava desconfortavelmente quente outra vez, ofegante. Meia taça de vinho não podia ser a causa de ela estar derretendo, e ela tinha acabado de comer, então também não era falta de açúcar no sangue. Era ele. Só ele. E ele queria senti-lo dentro dela. Ela ficou na ponta dos pés, deliberadamente passando os seios contra seu peito. No mesmo instante, ele a beijou. - Podemos continuar? - Que pressa, Penny. - Ele sorriu. - Espera. Ele a conduziu pela sala até o quarto. Ela gostou do anonimato do quarto, quase uma suíte de hotel. Não havia nada de pessoal para fazê-la pensar em algo além do que ela já sabia. Ele iria embora dentro de uma semana. Mais um mês, e ela também iria. Ele apertou um botão, e cortinas espessas se fecharam, dando ao quarto um ar ainda mais intimista. - Você quer as luzes apagadas? - Não. - Ela sorriu. - Gosto delas acesas. Ele tirou os sapatos e a calça. Ela estava encantada com o corpo dele. Ele percebeu seu olhar. - Você gosta de ficar por cima, Penny? Quer controlar? Ela queria, mas não esperava que ele aceitasse tão facilmente. Ele sorriu e a beijou, mas foi para a cama. Ele se deitou. - Vem para cá. Ela tirou a roupa. A expressão dele ficou mais quente quando ela revelou os seios. - Vou gostar de ter você por cima - sussurrou ele. Ela tinha ficado preocupada, e ele ficou com a expressão mais séria. Ela renunciaria ao prazer, e os dois ficariam insatisfeitos. Mas ela parecia estar totalmente feliz e queria aproveitar tudo. Ainda bem. Quando ela chegou à cama, ele se virou para a mesa de cabeceira, pegou um preservativo e abriu rapidamente. Então ele estava pronto, assim como ela. Ela ajoelhou sobre a cama, olhando para ele, e começou a rastejar sobre o seu corpo. O sorriso dele era desafiador e podia transmitir toda a satisfação que ele estava sentindo. Mas ela o veria realmente satisfeito. Ela arrastou os dedos para cima as pernas dele e deu alguns beijos, lambidas. Só alguns toques, para atormentar, em suas coxas, seus lábios, seu abdome, seus mamilos. Ela queria que ele sentisse prazer, que implorasse para que ela continuasse. - Está com medo de me beijar? - perguntou ele. Ela se ajoelhou e riu. Não, ela não estava com medo. Ela se aproximou mais alguns centímetros e apertou a boca contra dele, sentindo seu sorriso.

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As mãos dele acariciavam os quadris dela, puxando para ela se sentar sobre ele. Como ele beijava bem. De vagar e firme, seus lábios apertando e sua língua deslizando. Cada vez mais intenso. Ela queria excitá-lo ainda mais. Mas ele prendeu seus quadris, e ela já não conseguia mais se mover. Então ele a beijou intensamente. Só beijando. Como se eles fossem adolescentes. Agora ela estava desesperada para tocar mais, sentir mais, porque ela estava ficando louca com seus beijos, fazendo seu desejo crescer. Cada um parecia ir mais fundo e aumentar sua temperatura. Cada um a fazia retribuir o beijo com a mesma paixão, até que estivesse em outro nível. Ela fechou os olhos, sem fôlego. Finalmente ele a beijou no pescoço, de leve. Ela tremeu ao primeiro toque. - Está com frio? - murmurou ele. Ela balançou a cabeça. Ela estava muito quente. Eles estavam completamente nus. E seus corpos quentes se tocavam. Ela quis difundir o poder dele e tê-lo como um escravo só para ela, só para os momentos em que eles estivessem juntos assim. Era como ela sempre gostava, de estar perto, de ser agarrada por ele. Mais intimidade era muito para ela. Mas Carter não parecia inclinado a aceitar nada diferente de intimidade absoluta. Ela não deveria ter admitido nada para ele. Ela se mexeu outra vez, tentando aumentar o ritmo. - Temos a noite inteira, querida - murmurou ele entre os beijos. - Não vou explodir se você não sentir prazer nos próximos dez segundos. Mas ela estava com medo, estava muito intenso. Ela subiu sobre ele e foi escapando de seus abraços, enquanto ele avançava. Ela olhou para todo o seu corpo, para seu tórax definido. Ele fora trabalhado, bem trabalhado. E antes que ele pudesse tentar fazer com que ela parasse, ela o agarrou e sentiu que ele deslizava duro e rápido dentro dela. O abdome dele ficou mais tenso e ela sentia sua respiração rápida, apesar de sua expressão ter permanecido calma. Ela sorriu porque ele se sentia tão bem. E ela poderia fazer com que ele se sentisse ainda melhor. Ela apertando seus músculos e, ao mesmo tempo, assistiu a reação dele, o brilho dos seus olhos, olhando diretamente para ela. Agora ela tinha retomado o controle. De certa forma. Ela se mexeu cada vez mais rápido. Ela procurava o olhar dele, a expressão de um homem logo antes de perder totalmente o controle. Mas Carter ficou relaxado enquanto contemplava o seu corpo e a excitava lentamente, tocando as partes mais sensíveis do seu corpo. Só de olhar para ela, sentia que ela gostava de sentir prazer, o prazer que ela estava oferecendo a ele. A respiração dela se descompassou. Ela não conseguia mais controlar as sensações que percorriam seu corpo, e sua cabeça se inclinou para trás, seus olhos se fecharam. Todos os centímetros da sua pele estavam sensíveis, e Carter deslizou a mão sobre o seu peito. Ela ficou ofegante, se curvando em um movimento involuntário. Ele pegou a parte de trás da cabeça dela, os dedos enrascaram no seu cabelo, puxando para que ela sentisse a sua força. Ele a beijou novamente e, com a outra mão, passava os dedos em seus mamilos sensíveis. Ela gemeu de prazer, querendo desesperadamente que ele parasse, mas ainda não. E ele não parou. Em vez disso, ele a puxou para mais perto de seu corpo. Seu abdome estava ainda mais rígido. Ele não a deixaria escapar de seus beijos, de suas carícias. Devagar, com

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um movimento regular, os dedos dele refletiram o ritmo ao acariciar seu seio. E ela queria correr, queria uma pausa para diminuir o ritmo por um segundo, para poder recobrar algum sentido. Mas ele não conseguiria parar. Seus beijos não a deixariam escapar, e tudo se combinou para dar a ela um nível máximo de sensação de que ela não poderia mais escapar. Era devastador. Ela gemeu novamente, desesperada, alarmes estavam tocando, seus nervos estavam todos gritando ao mesmo tempo. Ele lambeu os seus lábios, aumentando a pressão, a mão no seio dela deslizando para baixo, para aquele ponto em que seus corpos se uniam. Ela não conseguia mais pensar agora. Não conseguia mais se mexer. Não conseguia fazer mais nada. Tudo o que ela fazia estava sendo guiado por ele, e isso era muito, muito assustador. As mãos dele apertavam e controlavam seu corpo, suas ações. Ele preencheu seu corpo, todos os seus sentidos, ao seu redor, dentro dela, a segurando mais de forma mais firme do que ela jamais havia sido segurada. E, de repente, ela percebeu, ela não poderia cair porque ele a segurava de uma forma muito mais íntima. Ela estava segura e livre. Aprisionada em seus braços, ela podia ser livre. E agora o calor estava delicioso. Delirante com isso, ela dançou nas chamas e não teve nenhum desejo de escapar. Porque a fuga estava aqui mesmo neste momento, enquanto ela se movimentava com ele. Gemendo, ela se derretia em seus beijos, seu corpo se rendendo a todos os estímulos. Ela não poderia fazer nada. Só absorvia tudo o que ele oferecia para ela naquele momento. Ela estava tão quente, tão incrivelmente quente, selvagem e livre. Era como se um rio tivesse estourado dentro de seu corpo, um fluxo de lava, de sensações e de felicidades aquecidas. Sem parar, ele a empurrou, intensificando o calor. Os olhos dela se abriram por um segundo, e ela o beijava com a respiração ofegante. Seu coração e sua mente pararam de funcionar. Não havia um grito, um gemido, só uma tentativa de respirar fundo. Seus músculos ficaram tensos e, então, convulsionaram violentamente. Ela estremeceu, liberando seu corpo com um gemido incoerente, tão descontrolado. Ela era intensamente vulnerável e ainda totalmente segura no casulo que ele fez para ela em seus braços. Ela foi negligente, totalmente sua, para que ele controlasse tudo o que quisesse. E ele o fez ao puxá-la para mais perto. A realidade estava em algum outro planeta, e ela estava protegida porque flutuava em uma piscina do paraíso, com sua água na temperatura perfeita. Ela nunca tinha saído de sua mente antes, nunca tinha ficado tão vulnerável, mas toda a sua razão havia subitamente se esvaído. Agora ela mantinha seus olhos fechados ao tentar recobrar os sentidos. Todos os músculos de seu corpo tinham entrado em um estado de êxtase, como se todos estivessem em greve. Ela não conseguia falar, não conseguia abrir os olhos, nunca moveria seu corpo novamente. Ele se deitou a alguns centímetros de distância, ao lado dela, depois de ter de recostado por um tempo sob os lençóis. Ela não conseguia saber por quanto tempo. O tempo era algo que ela não podia querer tentar entender. Não naquele momento. Os dedos dele apertavam o seu pulso livremente, naquela pequena conexão que, naquela situação, era o suficiente. Qualquer coisa mais íntima do que aquilo seria demais para ela, mas parece que ele entendia isso. Parece que ele entendia muitas coisas. Mas ele não estava se regozijando, não estava deitado e batendo no peito como um herói vitorioso. E ele tinha todo o direito de fazer isso se quisesse. Ela não se im-

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portaria, não conseguiria, porque estava completamente relaxada. Na verdade, ela estava exausta. Mas tudo bem, porque ela não queria pensar, nem falar, nem ver. Nesse momento, ela só queria existir. Carter queria puxá-la para mais perto, mas achava que ela podia estar muito sensível agora, e não queria sobrecarregar seu sistema ou desequilibrá-la emocionalmente. Assim, ele suprimiu seu instinto de abraçar, de embalar. Em vez disso, ele a observou tranquilamente, enquanto esperava por algum sinal de vida. Por alguma reação consciente que ela pudesse ter. Eleja a conheceu inconsciente. Ele soltou os dedos de seu pulso. Ele poderia sentir seu coração batendo forte, descompassado, tão rápido quanto o seu. Ela não conseguia fingir. Faíscas de satisfação incendiaram o peito dele, e o sorriso súbito que ela deu reacendeu as chamas. Porque aquele sorriso estava cheio de calor. - Nossa! - A voz dela mal saiu, mas ele leu seus lábios. - É. - Ele não conseguiria resistir e começou a acariciar seu cabelo com as mãos, lentamente. Os braços dele doíam, até mesmo para acariciar seu cabelo. Normalmente, ele detestava carícias após o prazer, porque, em geral, sentia muito calor ou estava suado. E ele estava suado e com calor. Mas ele queria abraçá-la, manter a conexão aberta entre eles. E sentindo que ela estava quase desmaiada em seus braços, ele podia perceber que sentia o mais puro prazer de sua vida. Ele nem conseguia se preocupar com o próprio orgasmo depois disso. Mas agora ele observava que os pensamentos dela passavam por seus olhos e que ela estava muito cansada para tentar esconder toda a sua vulnerabilidade. - Preciso ir. Ele se virou para o lado dela, sentindo seus músculos reclamarem com o movimento de mudar de posição na cama. - Só vou ficar mais uma semana na cidade. Não pense que você vai passar nem mais um minuto desse tempo sozinha. - Você não disse isso antes. - Seus olhos estavam ainda mais escuros. - Vou estranhar a cama para dormir. - Você dormiu bem do meu lado na piscina ontem à noite. Ela não tinha nada a dizer. Então acendeu as luzes do quarto. - Vai ser mais fácil ficar do seu lado no trabalho sabendo que passarei a noite com você. - Ah, você vai insistir nisso? -Vou. - Mas eu preciso mesmo... - Honestamente, você tem energia para se levantar, se vestir e sair daqui agora? perguntou ele. Um segundo de silêncio, depois ela respondeu suavemente: - Não. - Então não fale nada e dorme um pouco. O sorriso dela estava sonolento e complacente, e ele apagou a luz ao se virar para o interruptor. No escuro, ele escutou sua respiração se acalmar. Ele estava machucando seu braço, mas ele não conseguia parar de pensar na experiência a que tinha acabado de sobreviver. Sim, o momento mais desafiador de sua vida. Agora ele sabia por que ela gostava das luzes acesas. Ela o observou enquanto eles se moviam, percebendo suas reações e ajustando seus movimentos. Pensando muito e só nele. Por um lado, ela estava tentando entender do que ele gostava. E isso era

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ótimo. Mas não estava aproveitando o momento. Como no trabalho, ela estava determinada a ser perfeita. A melhor. A maioria dos homens ficaria deitada, adorando. E ele tinha adorado. Ela tinha deixado ele louco de desejo. Mas ele queria mais. Queira que ela se rendesse ao excepcional. Queria que ela entendesse e aceitasse que isso era excepcional. Agora ele queria que o tempo passasse rápido. Ela dormiria por, pelo menos, uma hora. E ele também precisava recuperar suas energias. Porque, embora ele estivesse totalmente satisfeito, podia esperar para fazer tudo outra vez. Adormecida ontem à noite na beira da piscina, ela tinha se enrolado tão facilmente em seus braços, como se isso fosse a coisa mais natural no mundo. Como se fosse familiar. E, honestamente, ele gostou. Pensou que foi porque eles estavam com frio. Mas ele não estava com frio agora e queria dormir daquela maneira com ela em sua cama grande e confortável. Então programou o ar-condicionado para deixar o quarto mais frio para que precisassem se cobrir com um lençol. E para que ela quisesse encostar-se a um corpo mais quente. CAPITULO OITO Ainda bocejando, Penny abriu a geladeira com os olhos arregalados ao observar seu conteúdo. - Não imaginava que você gostasse de iogurte. - Não gosto. - Ele pegou o leite. - Mas você disse que gosta, e eu não sabia qual escolher, então peguei um de cada. Ele não estava brincando. Havia uma prateleira cheia de embalagens de iogurte. - Comprei canela, e a fruteira está cheia - acrescentou ele. Quando exatamente ele tinha comprado tudo aquilo? Ela disse o que mais gostava de comer no café da manhã ontem à noite na beira da piscina. Ele deve ter comprado tudo antes de voltar ao trabalho, depois que eles finalmente saíram de lá. Isso é o que ela chamada de eficiência. E ele merecia uma recompensa. Ela se inclinou na direção onde ele estava sentado no banco. - O que você gosta de comer no café da manhã? Ele passou a mão pela sua cintura e a beijou. - Você. Ela gostou da resposta. - Você precisa de algo mais, para manter você de pé. -Torradas, ovos, frutas, cereais. O café da manhã para mim é uma refeição importante, principalmente aos fins de semana. Você sabe que preciso trabalhar muito. - Já percebi. - Ela sorriu. - Mas preciso da sua ajuda. - Com as duas mãos na cintura dela agora, ele a puxou para sentar no banco. - Bem, Mason me orientou a fazer o que quer que você pedisse - disse ela. - Excelente. Por isso você está aqui. - Vem, precisamos passar algumas horas no escritório. - Vou buscar um café para você no caminho. Carter foi se espreguiçando para se levantar da cama. Ela ainda podia ficar deitada por horas. Em pouco tempo, ele estava completamente vestido e pronto para ir ao escritório. Penny podia ficar ali descansando por toda a eternidade, testando a paciência dele e, até mesmo, tentando sentir se ele queria fazer mais sexo com ela. Entretanto, compensou isso se vestindo na frente dele.

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Ela foi tão rápida. E ele não teria se importado se ela tivesse levado muito mais tempo... Assim, ele assistia a todos os seus movimentos. Ela tinha um corpo lindo. O pescoço longo. Os ombros mais perfeitos. Ele dirigiu o carro que alugara no aeroporto diretamente para o flat dela, para que ela pudesse pegar algumas roupas. Ele insistiu para que a quantidade fosse suficiente para uma semana, e, para sua imensa satisfação, ela concordou. Ele deu uma olhada em sua caixa de sapato, enquanto ela preparava uma mala pequena. Ele olhou alguns objetos que ela havia trazido de viagens. Parecia que tudo era pequeno o suficiente para caber em algumas malas. Bem, todo o apartamento podia caber em uma mala. Ele sabia que ela morava sozinha, mas ele estava desapontado por não conseguir descobrir mais nada sobre ela por meio de alguns pertences. Um leitor de e-book estava no braço do sofá. Seus dedos queriam abri-lo para espiar quais títulos ela havia escolhido. Ele colocou a bolsa dela no porta-malas do carro, e seguiram para a cafeteria que ficava bem perto do escritório. Eles dividiram o jornal, e ele percorreu as manchetes. Ela se concentrou nos artigos que mais chamavam sua atenção, principalmente a sessão de fofocas internacionais sobre casos amorosos. Ele perguntou sobre os lugares nos quais ela já havia morado e se recusou a acreditar quando ela listou. E ela pôde provar ao dizer quem era o primeiro-ministro ou o presidente de cada um desses países. Bem, ela poderia ter inventado alguns, e ele nem saberia. Mas ela falava um pouco de vários idiomas e ficava totalmente empolgada ao falar sobre os principais pontos turísticos de cada lugar. Quando chegaram ao escritório, ele precisou se esforçar para manter a atenção. Mas logo a sua mente se desviou para pensar em tudo o que pudesse ser sensual. Ele a acordara durante a noite, ele a esquentara novamente. Ela estava começando a ficar um pouco mais rápida, se transformando facilmente nos braços dele, confiando nele com muito mais tranquilidade do que antes. Mas ainda não o bastante. Ele queria dar prazer a ela de todas as formas. Ele queria que ela confiasse nele para fazer tudo e para sentir prazer com ele. Ela ainda tentava dar mais do que receber, o que era tão maravilhoso quanto difícil. Mas ele estava determinado a conduzi-la ao ponto de somente se deitar e deixá-lo fazer amor com ela. Como ele tinha menos de uma semana, precisava aproveitar o tempo. Não que isso fosse um problema. Ele adorava pensar em formas de excitá-la para que ela ficasse totalmente submissa. E talvez ele precisasse levá-la em algum lugar em que ela pudesse ficar mais a vontade, na pista de dança ou dentro da água. Ela passava horas no chuveiro. Ele tinha várias fantasias com o chuveiro. De volta ao seu apartamento naquela noite, ele preparou o jantar o mais rápido que pôde, para conseguir se concentrar nela. Eles foram a um bar e a uma discoteca por um tempo, mas voltaram para casa e continuaram sua própria festa. Ela não o deixaria colocar uma música de jazz para tocar. Em vez disso, sintonizou na sua estação de rádio preferida. Ele nunca poderia imaginar que fazer sexo com aquele ritmo ao fundo seria uma experiência tão maravilhosa. Na manhã de domingo, Penny caminhou com ele até o mercado dos produtores. Carter pegou uma bolsa. - Ovos de granja e morangos frescos, estou feliz. Ela também estava feliz, mas não pela mesma razão. - Existem excelentes mercados em Melbourne - disse ele. - Você já foi? Ela balançou a cabeça. - Você esteve em todas essas outras capitais da cultura e não em Melbourne? - Ele lançou um olhar de reprovação.

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Ela ainda não tinha ido e não moraria lá agora de jeito nenhum. Quando essa semana terminasse, ela não queria vê-lo outra vez. Ele se tornaria a recordação perfeita. Era tudo o que isso podia ser. Para acabar com aqueles pensamentos melancólicos, ela prestou mais atenção aos produtos do mercado, como mel orgânico, tecidos, temperos, molhos, cerâmica, vidros, bijuteria... Ela provava amostras, tocava nos objetos. - É perfeito para o Nick - disse Carter, algumas baias mais adiante. Ele mostrou a ela um jogo de quebra-cabeça colorido de madeira. - Vai ajudá-lo a aprender os números. - Mas quantos anos ele tem? - Oito meses - respondeu Carter, imperturbável. -Nunca é cedo para começar a aprender os números. Ele precisará assumir os negócios da família. - Agora falou o contador. Olha. - Ela mostrou outro quebra-cabeça que tinha seis círculos, cortados como pizzas. - Compre esse, e ele conseguirá unir as peças em segundos antes de completar 1 ano. - Boa ideia. - Carter pegou o jogo. - Você está brincando. Na verdade, parecia que não. Ela balançou a cabeça. - Que tal esse? É bem mais legal. - Como um globo, uma cena subaquática fantástica com tubarões e baleias, cavalo-marinho, polvo e pérolas falsas. - Acho que é para meninas, não é? Tudo bem, agora são três. Será que estou exagerando? -Não. - Certo. - Carter pegou a carteira e pagou. - Ele vai adorar. Penny não podia deixar de imaginar como Nick seria, um Carter em miniatura? Será que ele teria os lindos olhos multicoloridos do irmão mais velho? Ela esperava que sim. Ela adoraria ter um bebê com grandes olhos azuis e um lindo sorriso. Ah, droga, aqui ela estava tão embevecida por causa do sexo fabuloso, que já estava tendo fantasias sobre como seriam os bebês que eles teriam. Com quem se pareceriam. Ela era patética. Ela nunca quis ter filhos. E Carter certamente também não queria. O que ele queria era ter um caso por uma semana, nada mais. Nem ela queria. E assim seria. Tudo bem, ele a teria feito sentir tudo o que ela jamais sentira antes. Mas agora que ela aprendera a se deixar levar, poderia fazer o mesmo com outros homens, certo? Ela fechou os olhos para conter uma súbita onda de lágrimas. Ela não queria que nenhum outro homem a tocasse. Ela só queria Carter. E queria outra vez, agora. Ela se sentia tão bem com ele. A não ser que ele não fosse realmente tudo isso, um bom-moço, muito divertido, com quem ela podia rir o tempo todo. Ele parecia sempre despreocupado. Ela não queria que ele fosse tão livre e tranquilo. Não era justo. Ela queria que ele a desejasse com o mesmo tipo de intensidade que ela sentia ao pensar nele. A intensidade que ela estava tentando disfarçar e negar. Mas ela queria poder controlá-lo. Porque ela sabia que eles compartilharam o sexo mais surpreendente. Mas também entendia que era ela quem tinha perdido o controle primeiro e mais facilmente. Ele sempre aguentou até que ela estivesse verdadeiramente satisfeita. E, se por um lado ele já era o único homem que conseguiu fazer isso com ela, por outro, parte dela não gostou. Fez com que ela sentisse uma ligação mais fraca. Ela sabia que isso realmente não importava e que aquilo nem duraria por mais de uma semana. Mas ela desejava poder conseguir controlá-lo pelo menos uma vez. Mas era ela quem estava se despedaçando.

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Ela segurou a mão dele e se virou para olhá-lo. - Me beije. Carter olhou para ela e conseguiu sentir os tremores sob sua pele. O que tinha acontecido nos últimos sessenta segundos para fazer com que ela estivesse tão irritada? - Achei que você não gostava de ser beijada em público - disse ele, sorrindo. - Só me beije. - disse ela. Como um homem conseguiria resistir a um pedido desses? Carter puxou com força o cabelo dela, para sua cabeça se inclinar para trás. Ele beijou seu pescoço, beijou sua boca. Com a outra mão, que ainda estava livre, ele empurrou sua pélvis, encostando todo o seu corpo no dela. Ele a puxou para trás de uma fileira de bancas de vendedores de brinquedos. Sinceramente, ele nunca havia feito nada em público, também não gostava de se exibir dessa forma. Mas, nesse momento, quando ela o tocou, ele estava perdido. Não conseguia se preocupar com o que ninguém poderia pensar. Precisou se concentrar para controlar o seu corpo. E não conseguia parar de beijá-la. - Você é maravilhoso. - Respirando fundo, ela olhou para ele com os olhos brilhando. De repente, sorriu. -Você me faz sentir tão bem. Ele se arrepiou. Nossa! Essa sensação era muito agradável. Ele entendeu que não era só o fato de beijá-la que fazia com que ele se sentisse bem. Na verdade, ele se sentia bem em todos os momentos que passava ao lado dela. Depois de caminharem por todo o mercado, eles voltaram ao escritório para mais uma longa tarde que Penny mal podia esperar que terminasse. Imagens de bebê não paravam de aparecer em sua cabeça. Imagens de Carter pequeno e fofinho. Que bobagem. Quando finalmente voltaram ao apartamento, ele foi para a cozinha, enquanto Penny foi nadar na piscina, pois precisava de, pelo menos, vinte minutos sozinha para reorganizar seus pensamentos. Mas várias voltas não a ajudaram a se concentrar, então ela voltou para tomar um banho. Algo na cozinha cheirava bem, e Carter estava ocupado no seu computador. Ela pensou que ele nem tinha notado quando ela havia passado por ele a caminho do chuveiro. Tudo o que ela sentia após se exercitar na piscina era cansaço, mais emocional do que físico. Ela queria ficar nos seus braços outra vez e deixar que ele a levasse ao paraíso. Ela queria que ele a segurasse e que nunca mais a quisesse soltar. Foi o sexo. Seu corpo frágil de mulher queria ficar embalado por ele até absorver suas forças. Mas ele agora estava mentalmente há milhas de distância, muito longe, em um escritório em Melbourne, que controla todas as empresas dele. Assim, talvez ela pudesse tentar controlá-lo, não poderia? Ela acendeu as luzes do banheiro, tirou a roupa e entrou debaixo do chuveiro morno. E deixou os jatos fortes de água massagearem os seus ombros. - Posso entrar no banho também, junto com você? Os ossos dela se dissolveram, ela se encostou contra a parede, querendo se agarrar a ele, quase sem conseguir acreditar que ele estava ali. O rosto dele se iluminou, e ele abriu um sorriso vitorioso. Ela fechou os olhos, porque toda a beleza do corpo dele fazia seus músculos tremerem. Mas quando ela voltou a abrir os olhos, logo em seguida, tudo ainda estava escuro. O cômodo todo estava escuro. - Carter? - perguntou ela rapidamente. - O que aconteceu? - A lâmpada deve ter queimado. - Ele entrou no box molhado.

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Ela deslizou as palmas das mãos por todo o seu peito, adorando sentir a água morna percorrer o seu corpo. Ela tentava descobrir todo o seu corpo só com o toque, não com a visão. Ele também a tocava e sentia todo o cor po dela. De alguma maneira, parecia mais íntimo, mais intenso. Ele se aproximou dela ainda mais e a beijou. Ah, ela amou esses beijos. Ela amou o modo como ele puxava agora o seu cabelo, beijando o seu pescoço, os seus seios. E então ele foi se abaixando. Ela respirava ofegando e apertava seu corpo contra os azulejos frios, molhados, quando ele lambeu a sua barriga. Ele passou as mãos pelos seus seios, primeiro deixando a água cair sobre eles e, depois, passando a língua por eles dois. O corpo dele estremecia com sensações que ela adorava. Na escuridão daquele momento, tudo o que ela pudesse fazer, todas as carícias eram seguidas do barulho da água caindo entre os seus corpos. Ele suavemente, e com um ritmo próprio, passou cada mamilo pelos seus lábios, e os joelhos dela tremiam. Ele agarrou a cintura dela, enquanto a deitava no chão. Continuou acariciando todo o seu corpo. Oh, era cruel a forma como ele acariciava tão deliciosamente o seu corpo com a língua e com as mãos. Ela gemia de prazer, e seus beijos faziam com que ela ficasse cada vez mais relaxada. Ela passou a mão pelos ombros largos dele, amando sentir a pele lisa e a água caindo sobre seu corpo. Ela se curvou, incapaz de deixar de responder aos estímulos de seus toques largos, molhados, atentos, querendo sempre mais. Ela respirava ofegante. Mas a língua dele continuava percorrendo o seu corpo. Ela se mexia incontrolavelmente, enquanto balançava seu corpo para conhecer todas aquelas possibilidades de prazer. Ela estremeceu. Ela estava tão sensível ao modo como ele brincava com ela, no escuro, com o calor molhado. O orgasmo percorreu todo o seu corpo. Ela perdeu totalmente a cabeça. Estava, outra vez, completamente vulnerável. A água percorria o seu corpo, e ela tentava voltar a controlar sua respiração. - Você está se sentindo bem? - perguntou ele finalmente. - Foi muito desconfortável para você ficar aqui? - Carter. Eles sorriram um para o outro. - Você não se incomodou mesmo? - O sorriso dele se tornou um gemido quando ele encurvou cuidadosamente os lábios e passou ás mãos ao redor dos quadris dela. Como ela poderia se incomodar? - Me dê meia hora, e depois vamos fazer tudo outra vez. Você faz? Quer fazer? - Você não precisa de meia hora. - Ele a carregou nos braços e a levou para a cama com ele. E fez amor com cada centímetro do seu corpo, tudo outra vez. Na segunda-feira pela manhã, ela não conseguia se mexer. Simplesmente não conseguia. Ela não conseguia mais parar de pensar no fim de semana. Ela manteve os olhos fechados. Ele já estava vestido com um de seus ternos e a esperava em frente à cama. Eles já precisavam estar prontos para sair para o escritório. - Não me peça para levantar, por favor. Ela só conseguia pensar em se aconchegar debaixo dos lençóis e desfrutar de total abandono físico por, pelo menos, mais algumas horas. Ele era perfeito, era divertido. Ele nunca ia perguntar qualquer coisa mais sobre ela. E agora ele estava fresco, havia saído do chuveiro. E ela não poderia deixar de pensar sobre isso. Ela estava fascinada pela sensualidade dele. Sem contar que eles eram parecidos em muitas coisas. Na forma como pensavam sobre muitas coisas.

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Ele arrastou o lençol para fora da cama, descobrindo o seu corpo completamente. Ela tentou impedir e gritou. Seus músculos doíam. De qualquer forma, ela de fato não queria levantar. Então, ele baixou sua calça. E ela se enrascou um pouco mais no colchão, encantada. - Nossa - murmurou ela. - Você quer que eu marque um recorde pessoal ou algo assim? - Bem, é como qualquer coisa, quanto mais você pratica, melhor fica. - Então vem logo praticar comigo. - Ah, ela era assim agora, totalmente livre no jogo físico com ele. Ele ergueu as sobrancelhas. - Vem cá - implorou ela. - Você me fará ter um orgasmo só de pensar nisso. - Só de pensar nele. - Você está reclamando? - Não. - Ela deu risada de como ele se aninhou abaixo do estômago dela, como um leão brincalhão. De repente, ele parou e observou o corpo dela nos olhos dela. - Sério, agora, você não está muito dolorida? - Não ouse parar! A segunda-feira se arrastou. Segunda-feira significava que outras pessoas estariam circulando pelo escritório, então ele não poderia ir até a sala dela e beijá-la livremente. Assim, Carter se trancou no seu escritório e iniciou uma tarefa enfadonha. Começou a analisar todos os arquivos, todas as pastas, para procurar pequenas irregularidades financeiras. Ele não se mexeu durante horas na sua mesa, só queria provar para ele mesmo que conseguiria se concentrar naqueles processos por um longo período de tempo. Porque tudo o que ele realmente queria fazer estava relacionado a ir até a mesa de Penny e passar o resto do dia com ela. A terça-feira se arrastou da mesma forma, outra noite se foi, e as que faltavam eram muito poucas. Bobagem. Porque ele sabia que ela era só dele e que teria o resto da semana para aproveitar bastante. E agora se empenharia ao máximo para encontrar uma agulha no palheiro. Ele precisava inspecionar todos os documentos, avaliando linha por linha, tentando desvendar todo o funcionamento da contabilidade da empresa, com todo o cuidado. Quando tivesse compilado todas as provas, todos os documentos com discrepância de cálculos, de registros e outras informações, precisaria juntar todo o material, e seu trabalho estaria concluído. Ele obtivera sucesso em tudo a que se propôs fazer na vida. Ele poderia voltar para o seu próprio negócio, em outra cidade, e seguir dessa forma. Assim, ele não precisava se sentir tão entediado. Na quarta-feira, ele estava mais desanimado, a evidência era quase completa, mas Penny estava fora do escritório, e ele quis que ela se apressasse para voltar, para que eles pudessem sair juntos para almoçar. Ele foi até sua sala para ver se ela já tinha voltado. Lá estava alguém que não era Penny, mas, sim, seu irmão. - Oi, Matt. - Carter estendeu a mão para ele. - Penny não está. Foi levar algumas pastas até a casa do Mason. Ela deve estar de volta em menos de meia hora. - Mal posso esperar. Preciso ir para o aeroporto. - Ela ficará chateada se não alcançar você. - Como aquela família tinha problemas de comunicação. Durante esses quinze dias em que Carter esteve fora, ele e seu pai usaram o Skype várias vezes, e ele até recebera a última foto de Nick. Não havia desculpas na era da tecnologia. Mas Matt parecia desapontado. Carter se sentiu mal por ele. - A conferência foi boa?

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- Foi. - Matt sorriu, mas parecia distraído. - Quer que eu chame um táxi para você? Matt não respondeu, ainda parecendo desapontado e distraído. - Você cuidará dela, não é? - disse ele de repente. -Ela precisa de muito apoio. Está sozinha há tanto tempo. Sim, isso era óbvio. Carter esperou. Mas Matt parecia ter algo em mente que gostaria de compartilhar. E não parecia feliz com esses pensamentos. - Ela não nos visitou nenhuma vez desde que se foi. Faz sete anos. Meus pais estão desesperados para revê-la. Talvez ela vá com você. - Vou conversar com ela sobre isso. - Sobre isso e sobre outras coisas. Carter queria saber muito mais, queria saber sobre tudo. - Sei que não deveria ter falado com ela sobre Isabelle. Mas queria ver o que poderia acontecer. Carter sabia que estava em águas escuras sem qualquer equipamento de flutuação, então só assentiu e esperou que ele pudesse falar algo que esclarecesse mais esse assunto. Felizmente Matt logo continuou. - Vi você cuidando dela. Carter fingiu um leve sorriso. - Não pensei que ela fosse superar o que aconteceu com Dan e se aproximar tanto de outro homem - continuou Matt. - Quando ela começou a falar sobre você nos emails, não pude acreditar. Por um tempo, pensei que ela pudesse estar inventando. Mas você é real. E vejo como vocês se dão bem. O cérebro de Carter processou até mais rapidamente do que em sua velocidade habitual. Dan? Quem poderia ser Dan? Eles não estavam conversando sobre alguém chamada Isabelle? - Ela parece melhor. Perece mais bem disposta do que quanto a encontrei em Tóquio no ano passado. Você obviamente faz bem para ela. Carter estava com raiva. Era isso o que ele sentia agora. O que significava que ela agora parecia mais bem disposta? Talvez seja por isso que ela não queria rever a família, eles seriam muito obcecados pela imagem perfeita? Quem se importaria se ela tivesse ganhado alguns quilos ou não tivesse cumprido suas voltas na piscina tão religiosamente? Ele não ligaria, é claro. Ele gostava de seu sorriso. Então respondeu rispidamente: - Ela gosta muito da minha comida. - Depois que ele morreu, ela nunca comia conosco. -Matt balançou a cabeça. Aqueles últimos meses foram como se ela não estivesse lá. Ela não queria estar. Então ela ficou tão magra que conseguíamos ver todas as vér-tebras de sua coluna. Cada costela. Cada osso. Carter sentiu como se o chão tivesse se aberto sob os seus pés. Como se o mundo tivesse caído. Ele não conseguia nem falar nada agora. Ele encarou Matt, escutando suas palavras, tentando saber mais. - Mas ela parece estar muito feliz agora. - Matt limpou a garganta dele e continuou encarando duro algum edifício em cima da estrada. - Quero que ela continue assim. Então foi por isso que Matt tinha observado com tanta satisfação enquanto ela comia aquela musse de chocolate no restaurante naquele dia? Por que Penny tinha estado alguma vez tão triste que havia sofrido com fome e doente? Todos os seus músculos estavam tensos. Ele podia sentir. Carter cruzou os braços na frente do peito, tentando imaginar. - Ela não vai se mudar outra vez, vai? Ela está bem estabelecida com você, não está?

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O cérebro de Carter ainda estava apressando, e ele não soube como poderia responder a isso. Carter colocou a mão dele no ombro de Matt. - Não se preocupe. - Ele evitou responder à questão diretamente. - Cuidarei dela. - Que bom. Muito obrigado por se preocupar com ela. Matt estava evitando novamente agora os olhos dele, e Carter estava feliz, porque assim conseguiria tentar esconder seu estado de total confusão mental. - E melhor eu já ir andando. Carter colocou a mão no bolso e tirou um cartão. - Mantenha contato. Matt deu o dele também. Carter guardou dentro do bolso e voltou ao edifício tão rápido quanto pôde. Ele tomou as escadas lentamente. Dan. Quem seria Dan? Alguém que já teria morrido. E Matt não achou que Penny se aproximaria de nenhum outro homem. Penny, que não voltava para casa desde... Há sete anos, ela tinha 17 ou 18 anos. Não levou muito para ele fazer as contas e perceber isso. Enquanto ainda pensava qual poderia ser o lugar de Isabelle nesse quadro. Pois os outros personagens pareciam bem mais óbvios. Dan deve ter sido o primeiro amor de Penny, e ela não tinha dito uma vez que o primeiro deixou uma marca? Que nunca era só sexo? Carter estava chateado, detestava pensar que Penny sofrerá algo assim. Ele nunca se sentira assim. Ele tinha sido traído, mas isso tinha significado um orgulho ferido, não um coração partido. E, desde então, ele não tinha deixado nenhuma outra mulher se aproximar o bastante a ponto de conseguir magoá-lo. Mas amar alguém tão profundamente e o perder, especialmente ainda em uma idade tão jovem? Sim, isso podia mudar a vida de alguém. Podia realmente ferir uma pessoa. Era estranho, mas Carter se sentia traído por ela ter escondido aquela informação dele. Ele queria muito que ela tivesse contado. O que era bobo, porque não era como se eles compartilhassem qualquer coisa mais significante que alguma oportunidade de diversão. Mas ele sabia como a perda podia afetar as pessoas. Ele não tinha visto isso no pai dele? Os pais dele tinham sido os companheiros de alma, tão felizes, até que o câncer roubou muito cedo a mamãe dele, há décadas. E o pai dele não tinha superado, não conseguia ficar só, caminhando de uma relação errada para a outra. Procurando, procurando, procurando pela mesma felicidade. E falhando toda vez, porque nada poderia fazer com que conseguisse atingir em algum momento aquele ideal. Pela primeira vez, ele sentia alguma condolência pelas esposas subsequentes do pai dele. Imagine sempre saber que elas estavam em segundo lugar. Elas nunca poderiam competir com aquela memória dourada. Mas Lucinda estava tentando, não estava? Dando ao pai de Carter a única coisa que ele tanto queria: aumentar a família. E tendo estado agora com ele por muito mais tempo do que Carter um dia conseguiu imaginar, proporcionando o senso de lar, de família e de segurança que eles tinham desde então. O respeito de Carter por ela havia crescido naquele momento. Então a atenção dele voltou a cair sobre Penny. Várias perguntas vinham à sua mente cada vez mais rapidamente, caindo sobre seus ombros, se empilhando em um mundo de confusão dentro de sua cabeça. Ele queria saber tudo. Queria entender tudo aquilo. Mas não queria ter que perguntar a ela e ouvi-la tentando disfarçar ou inventar ou, pior, mentir. Ele queria que ela contasse toda a verdade. Queria que ela confiasse nele o bastante para fazer isso. O sentimento de mágoa estava em seu peito, ferindo seus

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sentimentos. De alguma maneira, ele não pensou que isso poderia acontecer com ele, de uma hora para outra. Ele sabia que isso era errado. Mas ele era um homem detalhista e tentaria saber tudo o que conseguisse. Ele sabia que tinha alguns pontos de vantagem sobre ela. No escritório, ele abriu o gabinete de arquivos e procurou pelo arquivo pessoal de Penny. Logo encontrou sua pasta. Pelo temperamento dela, ele sabia que não haveria muito o que olhar. Só uma cópia de seu currículo, sua ficha de registro e as referências da agência, que eram brilhantes. Mas foi no currículo que ele preferiu focar. A lista de empregos era longa. Assim como a lista das cidades pelas quais ela havia passado. Ela estava dizendo a verdade ao contar sobre as suas viagens. Ela se mudava quase que exatamente na mesma época do ano. Já havia morado em países como Inglaterra, Espanha, República Tcheca, Grécia, Japão, Austrália. A regularidade com que ela se mudava fez com que ele se arrepiasse. Nunca passara mais de um ano nã mesma cidade. Ele olhou a capa da pasta que continha a data em que ela começou na Nicholls, há sete meses. Mas antes, ela exercera outro trabalho temporário na cidade por quatro meses. Então seu ano em Sydney estava mesmo quase terminando. Quando o tempo se esgotasse, ela se mudaria para outro lugar? Se sim, para onde? Não pare cia haver um padrão nos destinos. Ela simplesmente se mudava, fugindo de algo importante. Seu coração estaria assim tão machucado? O coração dele também batia forte, dolorosamente, porque havia alguém no passado dela cuja morte havia influenciado tanto as suas decisões e a forma como ela conduzia sua vida. Que a afastou dos relacionamentos por tanto tempo na vida. Ela agia como se quisesse diversão, mas ela não conseguia se deixar levar e se envolver em um relacionamento mais duradouro. Ela não era a mulher caçadora que ele pensou que ela fosse logo quando se conheceram. Não era egoísta nem centralizadora. Certamente, tinha o espírito livre. Ela trabalhou conscienciosamente e se preocupou. Ela era Uma doadora generosa, que lutava para não aceitar quando lhe ofereciam algo em troca. E ele conseguia perceber claramente a vulnerabilidade e a solidão nos olhos dela. Ela estava escondendo até algo que não conseguia admitir para si mesma. Ele percorreu os olhos outra vez por seu currículo e agora prestou a atenção em outro fato. Ela havia sido representante de classe na escola? Ele riu. Ela não tinha comentado nada, nem demonstrado nenhum interesse quando ele próprio comentou com ela que tinha sido representante de classe. Ela não tinha dito nada, como uma moça reservada. Ele olhou com mais atenção. Suas notas eram excelentes. Exemplares. Ele fez uma careta. Por que ela não tinha ido para a universidade? Ela teria podido escolher a instituição e o curso, com notas brilhantes como essas. Mas ela preferiu viajar assim que terminou o colégio e nunca mais voltou. Ela devia estar devastada. Ela obviamente ainda estava. Ele detestava o fato de ela ter escondido tudo dele. Ele gostava dela e queria mesmo saber se ela estava bem. Ele queria ser seu amigo. Na verdade, queria mais. Bem, isso era uma novidade. Ele nunca tinha conhecido uma mulher que escondesse as emoções do modo como ela fazia. Bem, ele queria ajudá-la a superar aquilo. Será, que ele poderia ajudá-la a esquecer o outro? Até mesmo se ele suspeitasse que pudesse machucar-se ao tentar. Ele poderia aguentar saber até que ponto ela tinha amado aquele sujeito? Por mais patético que fosse, ele estava com ciúmes. Ela se importava tanto com Dan que estava sofrendo. Carter queria que ela se importasse com ele próprio. Mas como ele poderia competir com a perfeição do primeiro amor? Ele estremeceu até mesmo ao perceber no que tinha pensado. Ele não poderia competir. Ele

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queria que ela realmente gostasse dele, não queria? Ele queria realmente ser o único, o homem número um em sua vida? Não. Certamente não. Mas em tão pouco tempo, ela se tornara tão importante para ele. A felicidade dela passara a ser algo muito importante para ele. E ele queria que ela confiasse nele o bastante para contar tudo. Seguramente, ela tinha se aberto sexualmente, mas só se abrira dessa forma. E, de certa forma, para tentar se proteger. Era uma maneira que ela tinha usado durante anos para se proteger, e era a defesa que ele também tinha usado durante anos, até mesmo com Penny. E não tinha sido tão ruim até agora? Ele nunca tinha estado em uma situação tão confusa assim, tão complicada. Uma mulher mais velha e adúltera e uma namorada manipuladora que fazia de tudo para conseguir ganhar uma aliança de noivado não tinham relação com Penny e sua falta de habilidade para compartilhas. Para contar sobre sua vida, para dividir seus sentimentos. Droga, ela deveria estar com medo. A raiva dele aumentou porque ele queria que ela conseguisse passar por cima daquilo e se sentir livre para se apaixonar novamente. Preferencialmente por ele. Durante a noite, no apartamento dele, ela era uma mulher sorridente, enquanto o excitava, a brincadeira que, enquanto diversão, não deveria se aprofundar. Ele teve que morder seus lábios para não perguntar para ela o que tinha acontecido. Desesperado para saber onde o coração dela estava agora. Mas ele queria esperar o tempo dela, não queria forçar nada. Ele a beijou com carinho. Como se ela fosse uma das flores frágeis que ela disse que não gostava. - Não faz isso. - Ela fez uma careta e passou as mãos nas costas dele. Ele sabia que ela estava tentando apressá-lo. - Não fazer o quê? - Não seja tão legal. Ele a observou com atenção. - Você acha que não merece alguém que seja tão legal com você? Ela simplesmente fechou os olhos. E então ele a dominou. Intensamente focado em fazer com que ela sentisse prazer, em fazer amor com ela. Era mais sobre dar prazer, mais sobre fazer com que ela se sentisse mais próxima, mais íntima. Depois, ele fazia carinho em cada parte de seu corpo e contava um pouco mais sobre o trabalho dele em Melbourne. Contava algumas histórias sobre sua juventude. De seus tempos na escola. Tentando cultivar a conexão entre eles, construir confiança. Esperando cegamente que ela pudesse responder. Mas tudo o que ela fez foi simplesmente escutar.

CAPÍTULO NOVE Carter pegou um táxi para se encontrar com Mason. Ele estava com todas as pastas, o trabalho estava concluído. Em teoria, após esse encontro, ele estaria livre para partir. Mas não conseguia pensar em comprar a passagem. Mason envelhecera mais durante esta semana do que nos últimos dez anos. Deu um aperto de mão sentindo-se culpado, Carter deveria ter ido vê-lo antes. Mas Penny havia feito visitas trazendo alguma papelada e artigos diários.

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- Tenho a informação de que você precisa. - Ele colocou o pequeno pacote de cópias impressas sobre a mesa de jantar. - Está tudo aqui. Uma vez identificado, o padrão é bem óbvio. - Eu sabia que podia confiar em você. - Mason se recostou em sua cadeira preferida. - Recai sobre um de seus auditores. Não levarei muito tempo para organizar tudo. - Ele precisará ser processado. - Sim - assentiu Carter. - Mas acho que o impacto será mínimo porque o pegamos. - Ele tentou olhar pelo melhor ângulo. - E rapidamente também. Os investidores ficarão impressionados com a eficiência de seu sistema de verificação. - Foi o instinto, Carter. - Mason balançou a cabeça. -Só um sentimento. - Bem, você sempre teve bom instinto, Mason. - E agora meu instinto está me dizendo que falhei. - De que forma? - Surpreso, Carter quase derramou o café que estava servindo. - Aquela empresa é a. minha vida. - Mason olhou para um grande quadro que estava na parede. - E, no clima atual, poderia ter sido varrida tão depressa se isso não tivesse sido descoberto a tempo. Fico me perguntando o que vai ficar quando eu partir. Provavelmente será vendida e seu nome será trocado. Estará tudo terminado. Carter respirou fundo. Mason tem sido seu mentor há muito tempo. Ele admirava sua dedicação, seu direcionamento, seus casos de sucesso. E ele havia atingido um grande sucesso. - Você já construiu um legado impressionante, Mason. - O quê? Uma casa? Algumas obras de arte que serão leiloadas? Onde estão as recordações? Onde está o calor? O constrangimento no peito de Carter cresceu. A esposa de Mason tinha morrido cedo, logo no início do casamento deles, antes que tivessem tido tempo para ter filhos. E Mason tinha enterrado sua vida ao lado dela. Até onde Carter sabia, ele nunca tinha tido outra mulher, totalmente diferente de como aconteceu com o pai dele. Até agora, Carter sempre tinha mais respeito por Mason por isso. Mas agora ele não estava tão seguro, não quando ele foi confrontado com as preocupações e os pesares de Mason, que tinham fundamento. E solidão. Outra pessoa solitária. - Você doou tanto para caridade, Mason. Ajudou a tantas pessoas. - Que têm suas próprias vidas e famílias. - Mason sorriu. - Eu não deveria ter sido tão covarde. Devia ter tentado conhecer outra pessoa. Em vez disso, só trabalhei. - E fez um ótimo trabalho. Empregou muitas pessoas, ajudou a muita gente. Essa foi uma grande realização. - Como está Nick? - perguntou Mason. - Está muito fofinho. - Seu pai é um homem mais corajoso do que eu. Sabe, eu me arrependo de não ter uma família, de ter dedicado toda a minha vida a acumular papéis. - Ei. - Carter se inclinou e colocou a mão no braço de Mason. - Você tem a mim. Mason não disse nada por um tempo, só adicionou leite ao seu café. - Todo o resto está em ordem no escritório? - Penny tem tudo sob controle. - Disse a você que ela é um anjo. Carter estremeceu ao dar um gole no café. -É. Um anjo com o coração partido. Ele se recostou na cadeira. Passaria a tarde com Mason. Ele precisava de um tempo para pensar. Penny estava desesperada para que Carter voltasse da casa de Mason, ele tinha ido dar notícias e conversar sobre os detalhes do que tinha descoberto na empresa, mas

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estava demorando muito. Ela estava viciada na companhia de Carter, estava impaciente com sua necessidade não realizada. Se ressentindo com o desperdício dos poucos minutos preciosos, ela foi embora. Finalmente ele apareceu, no momento em que ela estava a ponto de fazer as malas e ir para seu próprio apartamento. E se sentar para chorar. Em vez disso, então, ela foi para o apartamento dele. Ela não tinha vergonha, nem pensava em dizer não. Eles só teriam mais uma ou duas noites, e ela queria passar todos os momentos possíveis com ele. Porque ela não estava pensando em nada além do momento presente. Ela não podia se permitir pensar em mais nada. Ele estava estranhamente quieto ao entrarem no prédio. Talvez algo não estivesse bem. - Mason estava bem? - Finalmente ela quebrou o silêncio. - Satisfeito ao receber o resultado. Tudo bem. Ele não parecia estar bem-humorado. Ao entrarem, ele colocou a chave sobre a mesa e se virou para olhar para ela. Ela caminhou em direção a ele. Ela andou devagar e beijou o rosto dele. Ele queria que ela tomasse a iniciativa desta vez? Parecia que sim. Ela o beijou, passando os dentes e a língua em seus lábios. Os olhos dele se fecharam, e ela ouviu o seu gemido. Isso a excitou, talvez aquela pudesse ser a chance de fazer com que ele perdesse o controle. Ele estava cansado e necessitado e impaciente? O pensamento a excitou completamente porque ela queria muito que ele a desejasse, para perder toda a sua sutileza. Depressa, ela lutou para tirar as roupas dele. Ah, sim, ele a queria, ela poderia sentir o calor que queimava em seu corpo. Mas as mãos dele fizeram com que ela parasse de acariciar seu corpo. - Matt foi ontem ao escritório. Ela se virou para olhar para ele. -Foi? - Passou por lá no caminho para o aeroporto. Ela estava triste por não ter se encontrado com ele. Seria melhor se tivesse mantido contato. Mandaria uma mensagem para ele mais tarde. - Conversamos um pouco. - Sério? - Ela corou, porque a expressão de Carter ficou mais tensa. - Ele disse que você parece melhor do que quando a viu em Tóquio. E muito melhor do que estava há alguns anos. Ela empalideceu ao tom amargo de sua voz. - Você ganhou peso, Penny. Não foi? - Ah, não, Carter. - Ela desviou o olhar. - O quê? Fale a verdade. Penny, o que está acontecendo? - Nada. - Você mentiu para mim. Disse que teve sobrepeso quando adolescente. Mas não, estava um palito. - Isso realmente importa? - Sim, importa. - Por quê? - Você tem me usado durante todo esse tempo. Para esconder os seus pesadelos. E o que havia de errado com isso? Ele também não estava oferecendo nada a ela. - Pensei que o principal nisso tudo seria nos divertirmos. - Sim, bem, se são só orgasmos o que você quer, Penny, use o seu vibrador. Ela ficou brava agora. - Não estou interessado em ser seu brinquedo sexual. - E mesmo? Melhor dizer isso ao seu pênis.

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- Não consigo controlar. - Ele se afastou. - Se você quer se envolver com alguém, porque não procura outro? Um daqueles analistas do escritório vai querer sair com você. Droga, você poderia ter todos ao mesmo tempo se quisesse. Ela não queria outro homem. Nenhum. Nunca mais. - Eu não estou interessado em ser sua prostituta - rosnou ele. - Tenho mais respeito por mim do que isso. -Você está interessado em quê, então? - disse ela, nervosa com a súbita rejeição dele. - Você foi o único que olhou para mim assim. - Assim como? - Você sabe como. Ele sorriu. Isso a chateou ainda mais. - Você estava me desejando com o olhar e sabe disso. - E você estava adorando. - Então o que você quer? - Por que ele estava falando assim com ela se eles queriam a mesma coisa? - Quero a coisa real, se você sabe o que é isso. Porque talvez você tenha fingido o tempo todo. Você mesma disse que sempre finge. Como eu saberia? Você mente tão bem. - Você acha que eu estava fingindo? - Agora ela estava furiosa. E realmente magoada. Ela nunca se sentiu assim com ninguém, nunca tinha sido dispensada... Não daquela forma. - Eu não estava fingindo. - Idiota. Como se aquele tipo de reação acontecesse todos os dias! Ela não teria praticamente se mudado para o apartamento dele e teria feito dele um idiota e dela, uma mentirosa, deixando que ele fizesse tudo com ela, se ela não sentisse algo muito forte por ele. E ela não seria tão completamente mesquinha com relação a isso durante toda a semana se não estivesse gostando dele, de tantas formas, além do prazer físico. Mas os olhos dela estavam piscando. Furiosamente, ela tentou parar e fugir. Mas os braços dele se tornaram barras de ferro, que a puxaram para mais perto do corpo dele, com carinho. - Sei que você não estava fingindo. - Ele sorriu. -Peço desculpas. - Então qual é o seu problema? - resmungou ela, totalmente confusa agora. As mãos dele acariciavam as suas costas. Toda a sua frieza amoleceu. - Quero saber o que eu significo para você - disse ele. As palavras suaves fizeram com que ela se arrepiasse. - O que você quer dizer? - Ela inclinou a cabeça para trás para ler a expressão em seus olhos e tentou relaxar seus músculos, que estavam todos tensos. - Não há muito o que dizer. Estamos tendo um caso. - Dizer isso não é suficiente. O coração dela batia de medo agora, em lugar da raiva. O olhar dele não vacilava, e, então, ele falou: - Eu quero mais do que isso. Como mais? Quanto mais? Qualquer coisa a mais do que isso era impossível. Amanhã seria sexta-feira. Eles estavam quase se despedindo. -Você está indo embora... - Sua respiração ficou mais curta. - No sábado. Era só... - Diversão. - Ele terminou a frase para ela. - E, isso mesmo. Mas ainda podemos ser amigos, não podemos? Amigos? Ela não tinha muitos amigos. Vários conhecidos, mas não muitos amigos. E que tipo de amigos ele queria depois daquela semana? Porque ela não poderia fazer isso, ela precisava manter aquilo guardado naquele curto espaço de tempo. Ela

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precisava manter aquelas emoções guardadas. Ela tentou se afastar, mas as mãos dele a apertaram. Ela desviou o olhar. - Acho que não precisamos complicar nada, Carter. - Conversar não tornará nada mais complicado. Ele queria conversar? Sobre o quê? - Você não consegue deixar que eu entre na sua vida só um pouquinho, Penny? - Você pode se vestir? - Ela não conseguia pensar com ele assim. - Por quê? - respondeu ele com frieza. - Não tenho medo de ficar sem roupa com você, Penny. Estou disposto a descobrir tudo. - Não seja ridículo, Carter. Foi um caso de uma semana. - Ela se soltou dele. Você não quer conversar mais do que eu. Por que perder nosso tempo precioso? - Quando poderemos ficar juntos como animais? - Você gosta assim. Não foi isso o que você quis desde que nos conhecemos? - Ela se virou para ele, escondendo o medo com agressividade. - Você não está interessado que eu me abra para você de nenhuma outra forma que não física. - Não é verdade. - É verdade. Você acha que todas as mulheres são manipuladoras, tentando induzir os homens ao casamento. - Muitas das mulheres que conheci são assim. - Bem, não sou como elas. - E essa é uma das coisas com as quais concordamos. Ela piscou. E balançou a cabeça. Essa conversa estava ficando surreal. Por que ele estava ficando tão sério? -Acredite em mim, você não quer saber mais nada sobre mim, Carter. - Quero sim. Por quê? O que teria acontecido para torná-lo o Sr. Sensibilidade? Ela queria que ele voltasse a ser o Sr. Sofisticado. - Você sabe, desde que nos conhecemos, você pensou o pior sobre mim - provocou ela. - Eu era uma ladra, estava "fazendo favores" para conseguir um bom emprego... Ele corou. - Eu não quis dizer... - Deve ser muito difícil para você engolir o fato de o seu ladrão ser o homem mais conservador daquele prédio. - E, nós dois sabemos que eu estava errado. Tirei algumas conclusões precipitadas. Você é bem diferente de como eu imaginei no início. - E se a verdade fosse pior? - Como pior? - Ele parecia surpreso. Muito, muito pior. Mas ela balançou a cabeça e se esquivou. - Você tem tanto medo de se comprometer quanto eu. Não podemos só nos divertir um pouco, Carter? Só temos mais uma ou duas noites. Muitas mulheres na vida de Carter foram rainhas do drama, vivendo suas vidas de uma grande cena a outra, em situações que exageravam como se fossem estrelas de um reality show. Penny não gostava de grandes cenas, embora sua vida parecesse ter tido algumas pitadas reais de drama. Ela ti nha minimizado isso, tentando viver da forma mais simples possível, pelo menos em termos de relacionamento. Se envolvendo o menos possível. Mas ela não poderia negar suas necessidades o tempo todo. Ela precisava ser desejada, consequentemente ela assumiu a determinação de ser indispensável em qualquer trabalho. Ela precisava se preocupar com alguém, não da forma como cuidava de

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Mason. Ela precisava de contato físico, como ela encontrava no corpo de Carter. Mas ele queria que ela quisesse mais com relação a ele. Mais do que sexo, mesmo sabendo que isso tinha sido tudo o que ele oferecera inicialmente. Agora ele queria que ela quisesse tudo. Ele sempre fugira de todas as mulheres que queriam muito, então não era irônico que agora que ele queria dar tudo, a mulher em questão estava determinada a não querer? Perfeitamente feliz no passado em oferecer nada além de prazer, agora ele queria manter sua geladeira cheia, preparar para ela salmão e salada, assistir enquanto ela nadava à noite. Ele queria sua companhia, seu sorriso tranquilo, sua conversa interessante, sua compaixão. Ele queria sua cozinha com cheiro de canela. Queria viajar o mundo com ela, explorá-lo da forma como ela fazia, imerso em uma cultura diferente por um tempo, explorando a arte e a política. Havia aquela descoberta, aquela vontade de ver e segurar um corpo pequeno e doce. O pensamento de um bebê com olhos castanhos e pele clara fez seus braços doerem. Ele queria tudo com ela. E ele queria que ela tivesse tudo. Ela precisava disso, e ele queria dar a ela, fazer com que ela sorrisse livremente. Dar a ela um lar. Ele, que ficara feliz por tanto tempo em seu apartamento, agora estava pensando em um lugar com uma quadra de tênis, uma piscina e espaço para brincar com ela. Mas ele estava enrascado. Porque apesar de ela ter aberto o corpo para ele, ele tinha muito trabalho a fazer para conseguir ir mais perto do seu coração. Carter não estava acostumado a querer coisas que poderia não ser capaz de atingir. Não estava acostumado com o fracasso. E a ameaça de fracasso fez Carter ficar bravo. Ele queria que ela contasse sobre Dan, mas ela não faria isso. A frustração resultante dessa constatação fez com que ele ficasse descontrolado. Ele a beijou, forte, apaixonado e demoradamente. Ela queria esse beijo. Ele podia sentir que ela estava tremendo. Ela pensou que tinha ganhado, que o calaria. Naquele momento, ele se retirou e pegou ela desprevenida e incapaz de esconder uma resposta honesta. - Sei sobre Dan. Os olhos dela ficaram enormes. Covas cintilantes de negridão como tinta. - O quê? - Sei sobre Dan - repetiu ele. A necessidade de se comunicar fazendo com que ele tropeçasse. - Sei que você o amou. Sei o quanto você o amou. Sei que sua aflição a consumiu. - O quê? - Penny não conseguia sentir seu corpo, e sua mente ficou vazia. O que Carter tinha acabado de dizer? - Sei o quanto você está magoada. - Você não sabe nada. - Ela saiu dos braços dele como um fantasma atravessa as paredes. Sem resistência, sem sentir nada. Ela não sabia com quem ele tinha falado sobre esse assunto, mas era claro que ele não conhecia nem metade da história. - Você não pode deixar que a perda impeça você de amar outras pessoas - disse Carter. - Você não pode ser solitária assim. - Não sou solitária. - Você está se prejudicando com a solidão. Está pedindo por afeto, mas tem medo de admitir isso. Ela o encarou com um horror absoluto. Isto não pode estar acontecendo, ele não podia estar perguntando sobre isso. - Por favor, conta para mim - pediu ele. - Me deixa ajudar você.

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Ela não conseguia aguentar a preocupação nos olhos dele. A compaixão. A sinceridade. Ele realmente não sabia de nada. Seu estômago doía, e ela se virou, tirando sua blusa. - Droga, não esconda de mim. - Ele aumentou a voz. - Você prometeu ser honesta comigo, lembra? - Você quer mesmo honestidade? Ele fez uma pausa com os olhos arregalados de surpresa. Ela suspirou furiosamente. Ele não fazia ideia de que aquele assunto abrira uma ferida em sua alma. E derramar o veneno estragaria seus últimos dias juntos. Mas não havia razão para evitar isso. Ele cruzou a linha como ela não permitira que ninguém fizesse no passado, e um olhar dele mostrou a ela que ele não desistiria. - Não foi aflição que acabou com o meu apetite, foi culpa. Eu não o amava. Esse é o ponto. Carter gelou. A respiração dela acelerou ainda mais. Ela o odiava pelo que ele estava pedindo que ela fizesse. Pensar sobre isso, relembrar, falar... Foi há tanto tempo, mas ainda crucificava seu coração. Éla tentou contar de forma simples, rápida. Para que pudesse ir embora em seguida. Porque Carter iria querer que ela se fosse. - Dan era irmão gêmeo da minha melhor amiga. Ela conseguia perceber que ele estava processando, rapidamente. - Isabelle. Ela assentiu. - Éramos vizinhos. Nascemos no mesmo ano, crescemos juntos. Como trigêmeos, sabe? Mas quando tínhamos 16 anos, Dan e eu... ficamos mais próximos. Aconteceu. Foi muito fácil. Ainda éramos crianças... Mas não havia desculpas pelo que ela tinha feito. Ela fechou os olhos; não queria ver a reação de Carter. Sua respiração se acelerou ainda mais. Parecia que ela não conseguia puxar ar suficiente para seus pulmões. - Tudo mudou naquele último ano na escola. Eu mudei. Isabelle mudou. - Penny balançou a cabeça. - Dan não mudou, pelo menos, não na mesma direção. - Ela sorriu. Estávamos juntos há mais ou menos um ano, mas eu estava entediada. Eu tinha planos, que eram diferentes dos dele. O suor frio escorreu pela sua testa. Seu coração também batia frio. - Ele não queria que nos separássemos. Chorou. Eu não queria vê-lo chorar. Não tinha o visto chorar há anos. E você sabe o que eu fiz? Lágrimas escorreram de seus olhos. - Eu dei risada. Na verdade, eu ri dele. Olhando para trás, foi a reação de uma menina tola pela surpresa pela reação extrema dele. Ela não percebera que ele não tinha visto o fim deles chegando, que ela o deixara descontrolado. Mas foi ela quem não tinha visto os sinais mais importantes de todos, sua distância, sua depressão, seu desespero. Ela continuou: - Nosso pomar fica entre nossas casas e estava cheio dessas grandes árvores altas. Seu coração se acelerou quando a lembrança tomou sua mente. - Ele estava mais decepcionado do que eu pude perceber. Na manhã seguinte, eu acordei e olhei pela janela. E ele... E ele... Ela não conseguia terminar. Não conseguia expressar o horror da sombra que ela podia ver do seu quarto. Ela sentiu medo ao descer as escadas, a umidade do orvalho sob seus pés enquanto ela corria, escorregando, vendo a escada caída na grama. Carter murmurou algo. Ela não escutou, mas, de repente, seus braços passaram por sua cintura. E, dessa vez, ela escutou sua horrível conclusão.

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- Você o encontrou. Pendurado. Penny levantou as mãos, tentando se esconder da lembrança. Ela se virou para correr, mas os braços dele a abraçavam com mais força. Ela gritou. Um longo choro de agonia que ela guardou por tanto tempo. A expressão de uma dor que nunca parecia diminuir, que ela tentava enterrar há séculos, há dias, semanas, meses, anos até que alguém trouxe à tona e deixou-a chorar. Ela odiou tudo isso. Odiava que ele a tivesse feito dizer isso. Odiava se lembrar. Odiava a culpa. Odiava Dan por ter feito isso. Odiava a si mesma por não ter impedido que ele o fizesse. Por não ter sido capaz de impedi-lo. Ela chorou e chorou e chorou enquanto Carter a embalava. Ela não tinha sido abraçada assim por muito tempo. Não deixou que ninguém a abraçasse assim, mas não conseguia se afastar dele agora. Ela estava péssima. Ele não disse nada, algo de que ela gostou porque realmente não havia nada a ser dito. Aconteceu. Era uma parte dela. Nada podia melhorar essa situação. Nada podia fazer com que fosse embora. Nunca ficaria bem. Nunca deixaria de pensar naquilo como algo que abalara completamente a sua vida. Aquilo nunca poderia deixar de interferir em seus pensamentos, em suas ações, em suas decisões. Finalmente ela se acalmou. Ela fechou os olhos e utilizou as últimas gotas de força que ela sabia que tinha, porque ela era uma sobrevivente. Mas para sobreviver, ela precisava ficar sozinha. Ela tentou se soltar de seus braços. Não queria olhar para ele, seus olhos já estavam doendo o suficiente. - Conversa comigo - disse ele suavemente. - Por quê? - Qual era o motivo? Ela passou as mãos no rosto. - Você está indo embora, Carter. Não quer levar nenhuma bagagem com você, e eu tenho uma tonelada de bagagem. Mil toneladas. Finalmente, ela olhou para ele. Ele estava pálido. Ela não estava surpresa. Era muito para despejar em qualquer pessoa. E a última coisa que Carter queria era complicação, ele fez com que isso ficasse claro desde o início. E ele não estava olhando mais para ela. Todo o pretexto se foi. Toda a diversão se foi. Ele gostaria que ela ficasse nua? Bem, agora ela havia despido sua alma para ele, e o que restara não era bom. Agora a raiva tomava conta dos seus pensamentos. Carter não conseguia entender se havia feito a coisa certa. Por que ele tinha forçado aquela situação? Por que fazia tantas perguntas sobre um assunto a respeito do qual ele não tinha nenhum direito de perguntar e de insistir por respostas? Esse era o balanço de uma semana, que deveria ter sido muito divertida e que ele, agora, tinha acabado de estragar. E nem haveria tempo para consertar. E para quê? Qual foi o lado "divertido" de insistir nisso? - Penny... - Não diga mais nada. - Ela não queria sua pena. Ela não queria que ele pensasse que precisaria ser superle-gal com ela agora porque ela tivera problemas em seu passado. - Quero que você converse comigo. Quero ajudá-la. Ela não queria aquilo. -Não, você não quer. Você acha que é muito adulto e maduro com seus casos amorosos sofisticados. Muito charmoso e satisfatório. Mas você não quer lidar com nada realmente adulto. Não quer se envolver emocionalmente. -Penny...

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- E eu também não quero nada mais do que isso. -Sua fúria cresceu. Desesperadamente, ela queria perdão e compreensão e alguém para amá-la apesar de todos os seus erros. Queria que Carter a amasse. Mas ele queria ser seu amigo. E ela não conseguia aceitar aquilo porque havia aquela parte tola e desesperada dela que queria voltar para seus braços e implorar que ele a abraçasse, que a desejasse, que a amasse. Ela não conseguia fazer isso. O fim já doía bastante, e ele se sentiria desajeitado para se despedir dela agora. Ela precisou se esforçar para continuar ali. Lágrimas fluíram novamente pelo seu rosto, e, então, ela se mexeu rapidamente. Ela se preparou e, literalmente, saiu correndo. - Penny! Ela ouviu que ele a chamava. Mas não podia parar. Não podia voltar. Não queria voltar. Então ela continuou correndo. Correr era a única resposta certa. Por horas, ela correu pelas ruas, tentando se encontrar. Colocar suas lembranças de volta na caixa era algo que ela estava acostumada a fazer. Mas expor seus sentimentos para Carter era bem mais difícil. Eles eram novos, frágeis e dolorosos. Ela preferiu fugir o mais rápido possível, ela queria ser tão egoísta quanto ela tinha sido na adolescência, querendo o que sempre sonhou. Querendo tudo para ela. Mas ela não conseguiria. Logo em seguida, ela pensou sobre tudo o que havia comido durante aquele dia. Quase nada. Não o suficiente. Ela se obrigou a comprar um sanduíche. Mastigou cada pedaço e engoliu mesmo sentindo doer sua garganta. Comprou uma garrafa de suco. Não ficaria doente outra vez. Não deixaria que sua mágoa destruísse seu corpo e sua mente. Ela conseguiria superar de qualquer forma, ela já tinha passado pelo pior. Ela ficaria forte. Reconstruiria sua vida. Ela já havia feito isso antes e faria de novo. Só um pensamento a fazia desanimar. Sempre sozinha. Ela estava cansada de fazer tudo isso sozinha. Mas ela sempre estaria sozinha, porque ela não merecia mais ninguém. Ela não merecia alguém como Carter. Divertido, inteligente e bonito, que conseguiria qualquer mulher numa bandeja. Seus olhos se encheram de água, e aquilo doía porque eles ainda estavam doloridos por ela ter chorado mais cedo. Patético. O que ela precisava era se refazer e seguir em frente. Porque não havia chances de ela ficar por mais tempo em Sidney agora.

CAPÍTULO DEZ Carter estava furioso. E desesperado. Penny escapou tão rápido. Ele só tinha conseguido começar a correr e tropeçar, porque se esqueceu totalmente que sua calça ainda estava em volta de seus tornozelos. Ele levou três segundos para arrancá-la de seu corpo, o que foi tempo suficiente para Penny desaparecer diante de seus olhos. Ele foi ao seu flat. Ela não estava lá. Foi ao seu escritório. Ela não estava lá. Foi à sua discoteca preferida. Ela não estava lá. Ele foi a todas as cafeterias que estavam abertas na vizinhança e nos bairros mais próximos. E recomeçou a busca. Ela não estava em nenhum lugar.

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Ele procurou por toda a noite. Mas não conseguia achá-la. Nem conseguia pensar no que dizer ou fazer quando a encontrasse. Ele estava fora de si. Tão chateado por ela e furioso com sua estupidez. Ele havia dito sempre que eram os detalhes. Ele não havia percebido o absoluto horror do detalhe. Pobre Dan. Pobre Penny. Coitados de todos dessas duas famílias. Como todos haviam superado? O que ele podia dizer para que ela pudesse se sentir melhor? Não havia nada. Ele se sentia tão inútil. Agora ele era inútil. Agora ele entendia a razão de como ela ficou pela forma como ele falou com Aaron. Não admirava que ela tivesse passado pela vida com somente um caso ocasional com um jogador confiante. Ela tinha pavor de intimidade. E ele não a culpava. E ela estava certa, ele não queria aquilo. Ele detestava esse tipo de complicação, nunca quis esse tipo de tumulto em sua vida. Ele gostava de diversão. Não de preocupação. Mas era muito tarde. Muito, muito tarde. Eleja tinha investido muito. Como todo o seu coração. E apesar da forma como ela constantemente se desconectava da vida, ela não podia impedir a natureza e suas necessidades. Ela era a única que sabia tudo sobre a vida familiar do vigilante, era quem cuidava de Mason. Ela não conseguia deixar de se preocupar com as pessoas. Não conseguia deixar de se relacionar. Mas não podia aceitar ninguém por perto para lhe oferecer nada. Certamente, em seu coração, ela queria. Aquele namorado perfeito que ela descreveu nos seus e-mails não é o 'deal que ela achou que sua família iria querer, mas seu próprio ideal secreto. Estava lá, em cada detalhe. Isso era ela projetando sua fantasia íntima, mas ela estava muito assustada para tentar transformá-la em realidade. Bem, ele poderia fa zer ela rir. Ele jantaria e dançaria com ela e faria curtas viagens todos os fins de semana. Ele estaria lá para ela. Sempre lá. Companhia. Compromisso. Felizes para sempre. E, talvez não houvesse nada que ele pudesse dizer para a fazê-la melhorar. Mas havia algo que ele podia fazer. Ele poderia oferecer segurança a ela. A segurança emocional e o compromisso que ele nunca pensou que ofereceria a ninguém. Pela possibilidade de sua felicidade, ele ultrapassaria todos esses limites. Ela precisava de segurança mais do que ele de liberdade. De qualquer forma, ele não estava mais livre. Era só dela. Ele só precisava fazer com que ela aceitasse. Como fez com que ela aceitasse ter prazer físico com ele. Então ele poderia fazer com que ela aceitasse o amor que ela merecia. De alguma maneira. Ele só não sabia como. Ele rodou pelas ruas e olhou em todos os bolsos procurando o número de Matt. Não se importava de telefonar para a Nova Zelândia em um horário insano. Ele queria saber de todos os detalhes. Penny tocou a campainha da casa de Mason, feliz por ele estar passando outro dia em casa e por ela não precisar ir até o escritório. Ele abriu a porta e a recebeu com um grande sorriso. Ela se esforçou para retribuir, mas sabia que não conseguiria. Estava nervosa e o seguiu até a sala. Mas seu coração disparou quando ela viu que alguém já estava sentado lá. - Não se preocupe com o Carter. - Mason sorriu. -Isto é para mim? - Ele olhava para o envelope nas mãos dela. Penny não conseguia tirar os olhos de Carter, mas ele olhava para o envelope.

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Ela o entregou para Mason, satisfeita por não tê-lo derrubado. Ele leu em segundos. Triste, culpada, ela aguardou. A expressão de decepção de Mason não era nada perto do olhar estéril de Carter. - Sinto muito mesmo, Mason - disse ela. - Tudo bem, Penny. Estou certo de que você tem suas razões. Ele deixou a frase em aberto, não como uma pergunta, mas o senso de inquisição estava lá. Ela não conseguiria respondê-lo. Ela nem corou, seu sangue estava congelado. - Bem, você ficará para tomar uma xícara de chá? -perguntou Mason, agora parecendo preocupado. - Peço desculpas - disse ela mecanicamente. - Preciso mesmo ir. - Agora? - perguntou Mason. - Tudo bem. - Carter se levantou, tocando levemente no ombro de Mason ao passar por ele. Acompanharei você, Fenny. - Não precisa fazer isso, você sabe. - Você está feliz aqui, Penny. Não, ela estaria mentindo para si mesma fingindo que tudo estava bem. Mas ele viria, rasgaria a miragem e mostraria como não realizada ela realmente era. Ela estava envergonhada por tudo. Ela queria ir para algum lugar novo e recomeçar. Talvez tentar ficar por mais tempo, trabalhar um pouco mais. Porque a maneira como ela estava fazendo as coisas agora não estava dando certo. Era só uma fachada. Ela sabia que nunca esqueceria o que aconteceu entre eles, mas não podia ficar em Sidney e se confrontar diariamente com a lembrança de quão perto ela esteve da felicidade. - E tempo de seguir em frente, de qualquer forma. - Então está se demitindo? Você vai embora? E o Mason? E a empresa? Vai deixálo no meio da confusão? - Sou só uma funcionária temporária, Carter. - Você sabe que não - disse ele. Ele faria tudo por você. Jed faria tudo por você. Todos os homens fariam tudo por você. Eu... - Ele interrompeu a frase. - Penny, essas pessoas querem você na vida delas. - Daqui a uma semana, elas já estarão bem sem mim. - Enquanto você estará presa nas mesmas lembranças, como tem estado há sete anos. - Ele balançou a cabeça. - Você não pode deixar o que Dan fez arruinar o resto da sua vida. Ela não faria isso. Mas sabia o que podia ou não administrar e não poderia administrar a responsabilidade de um relacionamento mais íntimo. Isso a assustava muito. E não era só o que Dan havia feito, era o que ela havia feito. - Eu tive muita influência no que ele fez, Carter - disse ela. - Fui mimada, imatura e estraguei a vida dele. Fui horrível para ele. - Ele não estava sóbrio, Penny. Você sabe que encontraram drogas nos exames dele. Ele estava indo mal na escola, com a pressão do time de futebol, sentindo-se deixado de lado pelo seu sucesso. Estava deprimido. Você não sabia disso naquela época. Bem, ele sabia de toda a história agora. Deve ter conversado com Matt. E mesmo sabendo que aquilo era verdade, ela ainda se sentia responsável, algumas de suas ações foram o último- golpe para Dan.

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- Mas eu deveria saber, não deveria? Se me preocupasse com ele. Em vez disso, perdi a paciência. Disse que ele precisava crescer. Fui insensível e egoísta - ela admitiu. - Foi culpa minha. -Não. - Carter colocou as mãos sobre os ombros dela. - Você não o matou. Foi uma decisão que ele fez quando estava descontrolado. Ele estava doente. -E eu deveria ter ajudado. Ou encontrado alguém para ajudá-lo. Devia ter dito a alguém que queria terminar com ele. - Havia muitos fatores envolvidos. O que aconteceu com você foi só mais um. Se ela, pelo menos, tivesse contado a alguém sobre como Dan reagira mal. Se ela tivesse contado a Isabelle que ele ficara realmente decepcionado e tivesse pedido a ela para cuidar dele. Mas ela foi tão egoísta que nem pensou nisso. Ela foi para casa se sentindo livre, porque ficara livre dele. Mas ele havia voltado para casa e decidido a forma como se mataria. Mesmo agora, sua consciência a aterrorizava. - Não se feche para o mundo, Penny. Não deixe que duas vidas sejam arruinadas por um trágico erro de adolescentes. -Não estou me fechando para o mundo. Vou viajar, Carter. Estou feliz. - Você está péssima. - Quero ir para um lugar novo. - Era sua única opção. - Tudo bem, então tenho uma alternativa para você. Mude-se para Melbourne. Venha morar comigo. Foi bom que ele ainda estivesse com as mãos nela, ou ela teria caído. - O quê? - Venha morar em Melbourne comigo. Ele não podia estar falando sério. No que ele estava pensando? -Penny, passei as últimas 12 horas sem conseguir pensar, preocupado com você. Não quero mais isso. Lá estava a sua resposta. Ele não estava pensando. Era pena e responsabilidade que ele estava sentindo, e exaustão. Não um desejo real de estar com ela. Ele não a amava. Ela não conseguia acreditar que ele pudesse amá-la. - Não quis preocupar você - disse ela. Essa era a última coisa que ela queria que ele fizesse. Esse também era o problema com a família dela. Ela trouxe muita preocupação para eles. Foi por isso que ela enviava e-mail para casa fingindo ter uma vida tranquila e feliz. Mas ela sabia que Carter tinha conversado com Matt. E conspiraram juntos para que Carter a fizesse pensar que ele queria ficar com ela. Isso era pior do que qualquer coisa que seu ex tivesse tentado. - Não preciso que você me salve, Carter - disse ela. - Não é o que estou tentado fazer. -Não? - Quero que fiquemos juntos. - Bem... - Ela respirou fundo. - Eu não. - Sei que está mentindo. Quer que eu prove para você? Ela se afastou. Não, ela não queria. Ela não aguentaria se ele a beijasse agora. - O que você vai fazer? Vai incluir nossa história em sua lista de e-mails e mandar detalhes da nossa vida fíc-cional? No momento em que você se vê fincando raízes, você quer fugir outra vez. Isso é um suicídio emocional. Como ele ousava dizer aquilo para ela? - E isso, Penny. Você tem muito medo de viver a vida. Sua única forma de defesa era a ofensa.

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- E você está vivendo a vida? - Eu quero viver. Quero você. - Não, não quer. - Então você simplesmente desiste? Foi essa a lição que você aprendeu com Dan, desistir? - Você nunca vai entender o que aconteceu. - Talvez não, mas posso tentar, eu tentaria se você me deixasse. Penny, eu não quero mais só diversão. Quero ser feliz. Quero que você seja feliz. Quero tudo. E quero isso com você. Podemos fazer tantas coisas juntos. - Como o quê? - Como ter uma família. Ela pegou a respiração dela em um suspiro rápido, piscando rapidamente enquanto ela negava com a cabeça. Mas ele sabia, não? Ele tinha visto seu ar de quem desejava aquilo. - Você me disse que era egoísta. Mas não acha que está sendo egoísta agora? Dispensando não só a si mesma, mas também a mim? - A última coisa de que eu preciso é de mais culpa, Carter. - Não, eu sou forte, Penny - respondeu ele. - Você pode me mostrar seus maiores defeitos, e eu posso aguentar. Você também sobreviverá. Você sabe que encontrou uma forma de sobreviver Mas você tem muito medo de viver. Você é corajosa o bastante para lutar pelo que realmente quer? - Não quero magoar ninguém como magoei o Dan -disse ela. - Não, você não quer ser magoada. Não vou magoá-la. Estou oferecendo a você tudo o que eu tenho. Tudo o que nunca quis dar é seu, você só precisa aceitar. - Não posso. - Por que não? Porque ela nunca acreditaria que ele estava sendo verdadeiro. E ele estava errado sobre o quão forte ela era. Ela não sobreviveria quando ele percebesse o erro que havia cometido. - Simplesmente não posso. Carter Sr; levantou e, em seguida, pôde observá-la afastar-se, lá fora. Ela arrancava lentamente o coração dele ao dar cada passo. Ele não tinha dito a ela tudo o que queria, não quando ele estava bravo e ela também. Ele sabia que ela precisaria de um tempo. Mas ela não conseguia dar nenhuma oportunidade a ele. Preferia fugir a toda velocidade. Ele só conseguia perceber sua intenção de correr e a rejeição dela. E isso doía.

CAPÍTULO ONZE Escolha um destino. Qualquer destino. Qualquer lugar tinha que ser melhor do que ali. Penny olhava para o quadro de partidas, mas o único lugar que seus olhos pareciam querer ver era Melbourne. Melbourne, Melbourne, Melbourne. Ela podia ir para Perth, sempre fazia sol em Perth. Mas havia artes e esportes em Melbourne. Quem sabe Darwin ou Alice Springs, talvez ela merecesse ir para uma cidade com clima ruim. Mas Melbourne tinha shoppings fabulosos. Ela se sentou.

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Carter estaria voando para lá agora. Se já não tivesse ido. Esse era o ponto negativo. Melbourne tinha Carter. Ela deveria mesmo ir ao terminal internacional e dar meia-volta ao redor do globo. Em vez disso, ela se sentou em uma das cadeiras disponíveis, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Algumas lágrimas escoavam de seus olhos e pingavam sobre sua roupa. As pessoas olhavam de rabo de olho, mas ela não ligava. Tudo bem. Era normal que algumas pessoas chorassem em aeroportos. Isso sempre acontecia. Tudo bem, talvez não fosse tão normal se sentar por horas olhando para o quadro de destinos só com uma mala pequena e sem nem mesmo ter comprado o bilhete ainda. Sem nem ao menos ter escolhido para onde ir, sem saber o que fazer ao chegar ao destino. Ela se arrependeu de ter tomado aquela decisão. Mas era a única decisão que ela seria capaz de tomar, e isso doía. Muito. Ela não voltaria atrás. Não podia, voltar atrás. Ela nunca poderia ter o que o seu coração mais queria. Ele diria que ela estava errada. Mas ela não estava de todo errada. Ele estava mais certo ao dizer que ela estava com medo. Isso era mesmo verdade. E se ele estivesse sendo sincero? Ela poderia viver o resto da vida com essa dúvida? E mesmo se ele não estivesse sendo sincero, mesmo se ele pudesse mudar de ideia, não seria hora de ela ser honesta com suas próprias emoções, de qualquer forma? Ele merecia sua honestidade. Essa era a única coisa que ele havia pedido a ela, mas ela mentiu para ele no momento crucial, e isso era muito injusto. Ele estava certo. Ela descartava seus relacionamentos quando as pessoas se aproximavam demais. Ela era muito covarde. Não mais. Mesmo se nada mais acontecesse, ela precisava provar para si mesma que podia ser mais do que isso. Ela precisava expressar seus sentimentos abertamente. Já estava passando da hora de enfrentá-los. Para sua família. Para tudo. Carter mostrou a ela como seu corpo bonito podia trabalhar se ela deixasse, talvez seu outro presente tenha sido ajudá-la a ter coragem. Ela se levantou e foi até o guichê. Gastou menos de três minutos para comprar a passagem. O salão de embarque não era longe. Ela se sentou e aguardou a chamada para embarcar. Antes disso, ela não conseguiu pensar. Finalmente ela escutou a chamada. Se abaixou para pegar sua mala e andou até a fila de passageiros. Mas logo ao lado de sua mala, havia um par de grandes botas pretas. Alguém estava em pé na frente dela. -Eu estava sentado naquela lanchonete logo ali -disse ele. - Observando, esperando, querendo saber o que você faria. Para onde você iria. Tomei quatro cafés. Foram quase duas horas. - Ele se sentou ao lado dela. -Então, para onde você está indo? E claro que ele já sabia. Eles tinham acabado de anunciar o voo. Ela levantou o cartão de embarque para ele ler: Melbourne. Ao olhar para a passagem, a cor se esvaiu de sua face, fazendo com que ele ficasse tão pálido quanto na noite anterior. Então ele olhou outra vez. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas, mas ela não conseguia piscar, não conseguia parar de olhar para ele. Queria que ele soubesse, que acreditasse, sem qualquer dúvida, o quanto ele significava para ela. Ele se virou abruptamente, olhando para a janela. O avião aguardava por ela na pista. Ela voltou a ter dúvidas, será que ele tinha se arrependido do que disse mais cedo? Ele a conduziu para longe da fila de passageiros para aquele voo. Ela não conseguia entender para onde eles estavam andando. Suas lágrimas caíam muito rápido.

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E ela continuou olhando para baixo, sem ter certeza se conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. - A melhor coisa dos aeroportos é que sempre há um hotel bem perto. Você precisa tomar um banho e descansar, Penny. Você parece abatida. E eu preciso... -Ele fez uma pausa e fechou os olhos por um momento. Depois respirou fundo e voltou a falar. Viajarei amanhã. Então saíram do aeroporto e tomaram um táxi. - Como você me encontrou? - perguntou ela, assim que Carter deu o" endereço ao motorista. - Segui você o dia inteiro. - Por que esperou tanto? - Pensei que você fosse para algum outro lugar. Sentei lá e esperei. Foi uma tortura. A cada minuto eu esperava que você se levantasse, fosse ao guichê e comprasse a passagem não sei para onde. Mas então você comprou, e eu precisava conferir se você embarcaria mesmo. - Era o único lugar para onde eu podia ir. Ele ficou em silêncio por um momento. - Por que demorou tanto tempo para se decidir? - Porque eu estava com medo. - De quê? - Dos meus sentimentos por você. E dos seus sentimentos por mim. Ele se virou para ela, mas o táxi parou, interrompendo a conversa. Levaram apenas alguns minutos para darem entrada no hotel, mais algum tempo para subirem até o quarto e estarem em privacidade. Ela andou até o meio do quarto e continuou a falar: -Não quero que você sinta como se precisasse me salvar, Carter. Não quero que sinta pena de mim. - Não tenho intenção de salvar você. Quero me salvar. - Do quê? - De uma vida com sentimento sem sentido. Na verdade, não haveria mais outros casos de qualquer forma. Não quero mais dormir com nenhuma outra mulher. Só com você. Então é você quem tem que me salvar de uma vida de celibato e tédio. - Carter... - Não sou a pessoa que eu era há algumas semanas - disse ele. - Acredito em você como nunca acreditei em nenhuma outra mulher! Confio em você como nunca confiei em nenhuma outra mulher. Você me faz querer e amar só uma mulher. Ela mal conseguia acreditar. - Não sou uma pessoa empolgante. Não sou famosa ou incrivelmente talentosa nem nada. Só faço trabalhos temporários como assistente pessoal. Ele se aproximou dela. - Você quer saber o que você é, Penny? Você é quente, divertida. E competitiva. As vezes, você é confusa, mas é apaixonante em tudo o que faz. Tem um coração enorme. Isso você não pode esconder. E é isso o que eu quero. Mas ainda era um coração muito assustado. - Você vai gostar de Melbourne - disse ele. - Podemos procurar uma casa. Meu apartamento é legal, mas precisamos de mais espaço, nossa própria piscina e um deque grande o suficiente para dançarmos, para você fazer suas festas em casa. Leva algumas semanas para organizarmos os papéis, mas nos casaremos o mais rápido possível. Ela balançou a cabeça, precisava interromper a fantasia naquele ponto.

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- Carter, essa conversa é louca. Só nos conhecemos há uma semana. - Há quase duas - corrigiu ele. - Estou falando sério, não podemos tomar uma decisão como essa tão rápido. -Tudo bem, faremos um trato. Você se muda para Melbourne e começa a morar comigo. Estou fazendo esse convite e estou orgulhoso. Esperamos seis meses para nos organizarmos, e, depois, perguntarei outra vez. Garanto que seremos ainda mais felizes lá. E você responderá que sim. - Seis meses ainda é muito rápido. - Não é, você sabe que não. Pode confiar em mim. Não há nada sobre você que me desagradará. Já sei que você não é perfeita, Penny. Ninguém é. Mas nós dois podemos ser melhores juntos. Ela não conseguia se mexer. Ela estaria assim tão perto de ter mdo? Ainda havia sombras em seu coração que faziam com que ela duvidasse. - Seis meses para o dia, querida - disse ele. - E vou dizer mais. Vou levar você para visitar os seus pais. Vamos à fest.i de aniversário de casamento deles. Matt me contou. E você me mostrará a árvore. Vamos encará-la juntos e, talvez, plantaremos algo sob ela. Um arbusto ou outra planta para que, a cada primavera, uma nova flor cresça e morra e outra cresça no lugar. Você gosta de ver as flores crescerem, não gosta? Mas nós também cresceremos, caminharemos juntos na vida. E talvez em um ano ou dois, cuidaremos juntos da nossa família. Penny não conseguia dizer nada. - Sei que você está com medo. Mas estarei com você e não a decepcionarei. - Também não quero decepcioná-lo. -Não me decepcionará. Precisamos de um tempo. Você sabe que sim. Sabe o quanto seremos felizes. Já somos. Você só precisa deixar que aconteça. - Você já pensou rios detalhes. - Já. Você me prometeu ser honesta. Vai ser honesta comigo agora? - Vou. - Essa era a única coisa que ela conseguiria dizer a ele. Ele fez uma pausa, tentando escolher as palavras. - Você realmente... me quer? - É claro. - Ela chorou. - Isso dói tanto. - Não tem que doer, querida. Não precisa. E então ele a beijou. E, pela primeira vez, perdeu a paciência. - Preciso ficar com você. Preciso sentir você. Agora ela viu sua vulnerabilidade. Viu o quanto a sua partida teria magoado ele. O quanto ele escondeu dela, ou o quanto ela esteve cega de medo para conseguir ver. O quando ele a queria, e o quanto se preocupava com ela. Eles ajudaram um ao outro a se despirem. Ele a puxou para perto e a beijou como se não houvesse mais nada no mundo que ele quisesse fazer, como se precisasse dela mais do que de qualquer outra coisa. Ela adorava sentir o peso dele sobre ela. A forma como ele segurava seu cabelo para poder beijá-la. A forma como segurava o seu corpo. Ela estava reduzida a pura emoção. - Me desculpe - disse ele. - Não consegui me segurar. Ela se virou para ele e sorriu. Ele desencostou do travesseiro. - De jeito nenhum. Ela assentiu. - Você não está falando por falar?

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- Nunca vou mentir para você. Nunca menti. Nunca vou mentir. - Ela sorriu para ele. - Eu adorei. Adorei sentir o quanto você estava desesperado para me tocar. - Estive desesperado para tocar você desde o minuto em que nos conhecemos. Ela se aconchegou mais nele, tão feliz que poderia explodir. E começou a fantasiar com o que ele havia imaginado para eles. - Você quer mesmo ter filhos? - Não quero que Nick continue mimado, como se fosse filho único. Ele precisa de um sobrinho ou de uma sobrinha para ter com quem dividir as coisas - brincou ele. Mas, no momento seguinte, voltou a ficar sério. -Eu nunca pensei que iria querer ter filhos. Ou me casar. Você sabe disso. Mas foi só conhecer a mulher certa para me fazer perceber o quanto quero essas duas coisas. O problema antes era que eu não tinha conhecido você. Agora é diferente. Então agora você sabe. O sentimento mais incrível de paz caiu sobre Penny, como se ele tivesse tirado todo o peso de suas costas. - Seu coração está batendo tão forte. Deve ter sido o café. Carter sorriu. - Não, foi você. Só você. - Eu te amo - ela finalmente sussurrou. - Amo você tanto. Quero viver com você do meu lado. - E onde eu vou estar. - Carter tremeu. Nunca havia tremido antes na vida e tremeu agora ao sentir que ela o aceitava completamente. O futuro deles acabara de começar.

CAPÍTULO DOZE Cinco meses e meio depois. Penny estava grudada em seu laptop, tentando fazer passar a última hora antes de Carter chegar em casa. Graças ao fuso horário, Matt ainda estava no trabalho na Nova Zelândia, e ela podia trocar mensagens com ele. Você já chamou aquela menina que trabalha na livraria para sair? Estou tentando ganhar coragem. Concentre-se na sua própria vida. Também estou tentando ganhar coragem. Por que está com medo? Ele vai amar você. Ele ama você. Ele aguentou mamãe e papai por uma semana por você. Está provado. Ainda com medo. Tudo bem, empolgada. Bem empolgada. - Onde você está? Penny deu um pulo quando Carter chamou por ela antes de subir as escadas. Ela não tinha escutado a porta. Ela deu um sorriso de felicidade, e seu coração bateu muito forte em seu peito. Preciso ir. Ele está aqui. Ela bateu a tampa do laptop e correu abaixo as escada para encontrar seu homem mais do que real. Nervosa como ela estava, não conseguia conter o sorriso, levantando o rosto para beijá-lo. Ela chegara mais cedo do que ela esperava. E ela adorou. - Então porque pediu para eu chegar do trabalho tão cedo? - Uma aventura - disse ela. - Vou dirigir. Você só precisa sentar e apreciar a paisagem. Ele a seguiu até p carro. - Um tour misterioso?

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- Sim. - Ela mordeu os lábios, ainda sem conseguir parar de sorrir. Ele estava certo, é claro, aquele dia no hotel do aeroporto. Tudo melhorou. Eles visitaram os pais dela, ela conheceu o pai dele, sua mulher e o Nick. Viam Mason regularmente, e a empresa superou o escândalo. Até o sexo entre eles continuava maravilhoso. Ela nunca pensou que poderia melhorar, mas melhorou. Ela também havia se apaixonado por Melbourne. Ela tentou evitar trabalhar para Carter, reivindicando que precisava ter um pouco de independência. Algo sobre o qual ela sabia que ele não ficara inteiramente feliz. Mas ele não precisava se preocupar com isso. Ela, por outro lado, ainda estava nervosa. Ela dirigiu na estrada pela qual passara milhões de vezes. Nas últimas cinquenta vezes, ela tinha imaginado esse momento. Mas a realidade não era nada como ela imaginava. Cada célula estava tão ciente e à flor da pele era como se ela tivesse visão e ouvido aguçados e um coração que batia ainda rapidamente. Mas de uma forma boa. Ela queria que fosse tão bom. Era o finzinho do inverno, então o jardim estava na fase menos colorida. Mas ainda assim estava muito bonito, privado, tranquilo e espaçoso. Ela andou um pouco à frente dele, esperando que ele não se importasse com a queda de temperatura do fim da tarde. Ela mostrou a ele o gramado, apontou uma passagem que conduzia a um jardim privativo. - O verão chegará daqui a seis meses, e tudo será bem mais colorido. Flores por toda parte. - Ela se virou para olhar para ele. - Não precisarei de um buquê porque es taremos no meio de um. - Um buquê? - Sim - disse ela. - Eu queria saber se... - Ela respirou fundo. - Você quer se casar comigo? Aqui? Ele não se mexeu. Nem ela. Era um daqueles momentos que duravam horas, mas em que a ansiedade estava lá. Um momento do qual ela se lembraria pelo resto da vida. Ele sorriu. Seus olhos sorriram. -Sim. Eles se abraçaram e se beijaram apaixonadamente. - Você não se importa que eu tenha feito o pedido? - Gosto mais quando você me faz os pedidos. - Queria perguntar para você. Queria oferecer a você tudo o que eu tenho. Porque ele já tinha dado tudo a ela, e ela sabia disso e queria fazer o mesmo para ele. - Estou honrado que você tenha pedido - disse ele. -Sei o que está dizendo. Ela acreditava nele, neles e, finalmente, nela. - Quero que você entenda o quanto eu estou feliz. -Ela sorriu. - Eu entendo. - Ele sorriu para ela. - E nada me deixaria mais feliz do que ser seu marido. Somos um excelente time, Penny. - Você entende que isso significa passar mais tempo com os meus pais? - E mais tempo com a minha madrasta. - Você sabe que ela é adorável. - Tanto quanto você sabe que seus pais são adoráveis. Assim como Matt. Ela assentiu, e os dois sorriram. A diferença na vida dela era tão gritante, uma família, diversão, a cada dia e a cada noite. - Estou muito feliz que você tenha superado o fato de não gostar de demonstrar carinho em público.

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Mas não havia ninguém por perto para observá-los. Ele a pegou e girou seu corpo contra o vento. E eles entraram na estufa que abrigava algumas plantas exóticas durante o inverno. E lá, sob os galhos de algumas plantas gigantes, eles se amaram.

Fim

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(modern sexy 57) natalie anderson paixão sem disfarce  
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