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– Comecei a ter sonhos com você. Conosco. – Que tipo de sonho? – Deus, ele mal conseguia respirar. – Sonhos com sexo. Explícito. – São apenas sonhos, Tawny. Por que você permitiria que alguns sonhos interferissem em um relacionamento verdadeiro? – Não foi uma escolha, e não foram apenas alguns sonhos. Foram quase todas as noites. Primeiro eu não queria ir dormir, porque não desejava sonhar que fazia amor com você. Simon foi tomado pelo calor. Tawny olhou para baixo e passou a avaliar as próprias unhas. – E agora chegou a um ponto em que dormir se transformou na melhor parte do meu dia. E eu tenho me sentido muito culpada em relação a Elliott, porque o que nós dois fazíamos em meus sonhos era tão melhor que o que eu fazia com ele na vida real… As palavras dela o seduziram, dispararam pelas terminações nervosas de Simon, lhe enrijeceram o corpo como se ela de fato tivesse trilhado suas mãos por ele. – Sabe qual foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando ele disse que vocês dois queriam me ver esta noite? Um ménage à trois. Porque, do jeito que as coisas estão agora, Simon, temo que você tenha me arruinado para qualquer outro homem.


Querida leitora, A inspiração para esta história surgiu da subtrama do ilme Simplesmente Amor, na qual um dos personagens está apaixonado pela mulher do melhor amigo. Como escritora, adorei a premissa, mas dei o meu toque pessoal ao enredo. Estava ansiosa para escrever esta história, principalmente porque os personagens já haviam tomado forma em minha imaginação. Então fiquei empolgada quando minha editora aprovou a ideia. Pegue um melhor amigo encantado (Simon), um noivo in iel (Elliott) e uma mulher no centro disso tudo (Tawny), con igure o livro inteiro dentro do período de 24 horas e mergulhe Nova York em um blackout, prendendo o herói e a heroína no apartamento dela. Juntos. No escuro. Em uma noite quente de verão. Dizer que foi uma história di ícil de escrever é um eufemismo, mas também não deixou de ser uma enorme diversão. Espero que goste da jornada de Simon e Tawny rumo à descoberta do próprio inal feliz, principalmente depois da meia-noite. Eu adoraria conhecer alguma história sua em um blackout. Dê uma passadinha no site www.jenniferlabrecque.com ou escreva para P.O. Box 298, Hiram, GA 30141. Delicie-se com o calor, Jennifer LaBrecque


Capítulo Um

ELA APOIOU a cabeça no ombro dele, porém continuava a encarar o espelho. Sabia que não devia desviar o olhar. Se fizesse aquilo, ele parava de tocar… e o toque dele a enlouquecia. E, sim, olhar para o espelho deixava tudo tão mais intenso, tão mais quente. Aqueles olhos insondáveis encontraram os dela no re lexo. Ela, no colo dele, as costas tocando o peito largo, as pernas abertas. Ele a tocou entre as coxas, e os dedos longos a entreabriram, descerrando-a para seu toque e seu prazer. Os dedos dele eram bronzeados de encontro à pele nua e rosada, deslizando por sua abertura ávida… ah, sim… era tão bom… por favor, não pare… de olhar… de desejar… ah, estou quase lá… O toque estridente do telefone no criado-mudo destruiu o momento, arracando-a do sonho. Com o corpo tenso, as coxas úmidas, Tawny tateou para achar o aparelho. – Alô. – Estava cochilando? – indagou Elliott, a voz normalmente alegre soando um pouco forçada. É claro, Tawny podia simplesmente estar transferindo a tensão que se prolongava por ter estado à beira do orgasmo durante o sonho. Ou poderia ser Elliott a criticando, o que parecia ocorrer com cada vez mais frequência. Era quase como passar um tempo com os pais dela. – Hum… – Como planejadora de eventos para um grupo de advogados na área central de Manhattan, Tawny não trabalhava das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira. – Ontem foi o coquetel para os clientes alemães, lembra? E depois os sócios tiveram um café da manhã adorável às 6h30. Era tudo o que eu queria fazer: me arrastar da cama às 4h30 de um sábado. De qualquer modo, não há nada de errado em tirar uma soneca à tarde. A excitação sexual intensa e a culpa conferiam um tom rouco à voz dela. – Você trabalhou até tarde ontem à noite? – Ela quis saber. Elliott investia uma quantidade incrível de horas em sua galeria de arte,


mas valia a pena por causa da reputação e clientela crescentes. – Tarde o bastante. – Ele soou estranhamente conciso. Talvez fosse só impressão de Tawny, mesmo. Sentia-se tão tensa e tão desejosa que tinha vontade de chorar. Ou de chegar ao êxtase. Deveria rir, confessar ao seu futuro marido que acabara de ter o sonho erótico mais incrível e que ainda precisava chegar ao orgasmo; e então pedir a ele para ajudá-la. Em outras épocas, Tawny teria considerado que o relaxado e descontraído Elliott se renderia a uma rodada vespertina de sexo por telefone e a levaria ao auge. No entanto, não tinha mais tanta certeza assim. De uns tempos para cá, ele não andava nem relaxado, nem descontraído. E se em algum momento ela revelasse que ele não era o homem abrindo suas coxas e levando-a ao clímax nos sonhos? E se aquele com quem ela concordara em se casar “até que a morte nos separe” não fosse capaz de retomar de onde o sonho fora interrompido e levá-la até aquele lugarzinho mágico? Elliott continou a falar, e a oportunidade se foi: – Pensei em dar uma passada aí depois que a galeria fechar, no início da noite. – Tudo bem, contanto que você traga o jantar e fiquemos em casa. Tawny não estava com a menor disposição para cozinhar, ainda mais tão em cima da hora. Elliott era mais adepto de boates e de sair para ser visto por aí do que ela. Uma noite tranquila em casa cairia bem. – Tudo bem se ficarmos em casa. Eu preciso conversar com você. Tawny se apoiou sobre o travesseiro. Ela e Elliott conversavam sempre, mas quando alguém anunciava que precisava conversar… – O que é? – É complicado demais para falar por telefone. – Que atitude chata trazer o assunto à tona e me deixar curiosa. – Desculpe. Mas vamos deixar para nos falar esta noite. Não era imaginação dela. Ele definitivamente soava tenso. – Tudo bem… – Sexo. Deve ser sobre sexo. É claro que àquela altura o cérebro dela seguia em um rumo só. – Comida tailandesa está bom para você? – Claro. Você sabe do que gosto. Elliott não deixaria aquela insinuação sedutora passar. Talvez ele mesmo fosse dar início ao sexo por telefone sem que Tawny precisasse pedir.


Porém, ele pigarreou, como se a provocação o tivesse deixado desconfortável. – Hum, sim, vou pedir o frango ao curry. Esqueça o sexo por telefone. – Frango ao curry parece bom. Elliott tornou a pigarrear. Ou estava nervoso ou prestes a falar alguma coisa. – Pensei em levar Simon. Tawny apertou o telefone, ao mesmo tempo que sua temperatura interna atingia o ponto de fervura. – Simon? – Ela umedeceu os lábios subitamente secos e se deitou de bruços. – Por que ele iria querer vir ao meu apartamento? Desde o ensaio fotográ ico, tem me evitado como se eu fosse uma praga. É óbvio que não gosta de mim. – Ele é um sujeito ocupado. Não acho que não gosta de você, Simon é só… – Sombrio. Fechado. Cínico. Intenso. Creio que isso o define. E sexy de um jeito que lhe causava calafrios na espinha, que a fazia precisar de um exame mental. Mas aquela não parecia a observação mais prudente a ser feita sobre o melhor amigo de seu noivo. Elliott riu, e Tawny icou grata por ele não ter se incomodado por ela ter interpretado Simon da maneira errada. Algumas vezes Tawny se perguntava se Elliott não preferia que fosse daquele modo, mas rejeitou a ideia, considerando-a indigna de seu noivo. – Simon é apenas Simon. Ele pode ir também? Se ele poderia vir? Ela icou ainda mais úmida, o corpo inteiro enrubescendo e os mamilos se tornando mais duros. Simon, intenso e fechado, com seu leve sotaque britânico, era o homem que protagonizara o sonho dela. – Tawny? – chamou Elliott do outro lado da linha. Ela se contorceu sobre o colchão duro. – Não. Eu não me importo se ele vier. – Só de dizer aquilo, ela icou ainda mais excitada. A culpa e a vergonha alimentavam o desejo obscuro que Simon incitava nela quase todas as noites. Agora estava icando ainda pior… Tawny tirara só uma soneca vespertina. Simon era o melhor amigo de seu noivo, ele a desprezava, e em todas as noites era a fonte do sexo demolidor nos sonhos dela.


– Chegaremos pouco depois das 21h, então. Tawny desligou e fechou os olhos. Por que Simon viria com Elliott? Por que os três? O que fariam? Com o corpo tenso e zunindo de excitação, uma fantasia obscura desabrochou dentro dela. Os três, ali, no seu quarto. Elliot, cabelo dourado e belo; e Simon, taciturno. Dois homens sensuais com a intenção de tocar e degustar cada centímetro dela, ambos com o único propósito de dar lhe prazer. Tawny abriu os olhos e se esticou para a gaveta do criado-mudo, pegando seu vibrador. Não conseguiria passar a tarde daquele jeito. Elliott era seu noivo. Ele era engraçado, generoso e caloroso, na maior parte do tempo. Ela podia até não controlar seus sonhos, mas estava totalmente acordada agora. Apesar de todos os seus esforços para se concentrar em Elliott, foi Simon quem surgiu quando Tawny estremeceu rumo a um orgasmo. – VOCÊ ESTÁ um desastre. – Simon Thackeray colocou a bolsa da câmera sobre uma poltrona alaranjada de vinil num cantinho privado da sala de Elliott, e sentou-se na outra. Loiro, bonito, extrovertido e dono de um senso de estilo que sempre o fazia parecer saído direto das páginas de uma revista de moda, Elliott fazia pescoços virarem no meio da multidão. Uma garota da faculdade certa vez comparara os dois amigos aos deuses Apolo e Hades. Eles eram constrastantes, tanto em visual quanto em personalidade. Elliott, alegre e extrovertido. Simon, sombrio, calado, reservado. Elliott, porém, soara cansado e preocupado ao telefone quando pedira a Simon para ir lá. A aparência dele estava tão ruim quanto o tom ao telefone. – O que há? Elliott se empoleirou na beirada da mesa de aço inoxidável, com uma perna pendendo. – Somos amigos há muito tempo. Simon assentiu diante do óbvio. Desde que se conheceram em uma turma iniciante de fotogra ia no início do ensino médio, descobriram um amor mútuo por arte, e uma amizade que resistiu aos anos. Elliott foi a tábua de salvação que poupou Simon de se afogar na própria solidão. Por


outro lado, Simon foi uma âncora para Elliott, dando a ele uma estabilidade muito necessária. Os pais de Elliott eram calorosos e extrovertidos, porém volúveis. Simon não saberia dizer se teria seguido a carreira na fotogra ia se Elliott não houvesse acreditado nele e o incentivado. E Simon apresentara contatos valiosos quando Elliott resolvera abrir uma pequena galeria. – Você é o irmão que eu nunca tive, e sabe disso – continuou Elliott. – Sempre achei que poderia lhe contar qualquer coisa. Compartilhar qualquer coisa. Em determinada época, Simon se sentira da mesma forma. Até descobrir que havia situações e fatos que não podia compartilhar com seu melhor amigo. Como o de estar apaixonado pela noiva dele. – Espero que você sempre seja meu amigo. Simon suspirou diante da tendência de Elliott ao melodrama. Se Elliott não tivesse aproveitado sua graduação em história da arte e o dom artístico montando a própria galeria, sem dúvida poderia ter se dedicado à Broadway. – Elliott, a menos que você tenha assassinado uma velinha a machadadas, sempre serei seu amigo. – Simon deu de ombros. – Bem, acho que seria seu amigo até mesmo nesse caso. Por que simplesmente não me conta o que está acontecendo? – Eu sou gay. – Certo. Primeiro Elliott telefonou e fez um grande discurso sobre a amizade. Agora fazia piada quando Simon tinha uma sessão de fotos agendada para dali a 45 minutos. O senso de humor de Elliott era distorcido, e sua noção de timing, péssima. Elliott entrelaçou as mãos. – Isto não é brincadeira. Estou falando sério. Eu sou gay. Simon icou sentado, aturdido. Elliott era… gay? Como isso era possível? Eles eram melhores amigos fazia mais de uma década. Simon era o hétero esquisitão em uma pro issão que atraía homossexuais como um míssil teleguiado; no entanto, nunca suspeitara, nem uma vez, de Elliott e sua heterossexualidade flagrante. Pelo amor de Deus, Elliott estava noivo de Tawny, dormia com ela regularmente e acabara de anunciar que era gay?! – Quando… como…


– Talvez bissexual seja uma estimativa mais adequada. – Elliott passou as mãos com unhas manicuradas pelo cabelo loiro curto. – Eu me lagrei incrivelmente atraído por homens ao longo dos últimos anos. – Balançou a cabeça e ofereceu uma risada áspera, isenta de alegria. – Não se preocupe. Você não foi um deles. Sendo muito sincero, Simon não dava a mínima se Elliott sentia atração por ele ou não. Bem… talvez estivesse um pouco aliviado por seu amigo não ter professado amor in inito ou desejo por ele, mas sem dúvida deixara algo passar. Simon se lembrava muito bem da primeira vez em que vira Tawny. Fora na galeria, em frente ao escritório de Elliott. Simon aparecera durante um evento particular, uma festa e exposição privada que Tawny havia organizado para sua empresa. Ela estava absorta em uma discussão exaltada com o fornecedor. Uma simples olhada nela e o mundo dele ganhou um foco mais nítido. Em seguida, Tawny desapareceu, e ele procurou por Elliott, com a intenção de descobrir quem ela era, só para icar sabendo que Elliott chegara na frente. Antes que Simon pudesse abrir a boca, Elliott anunciara que havia conhecido a mulher de seus sonhos e conseguido um encontro com ela. A intuição de Simon lhe dissera se tratar da mesma mulher. E acertara. – O que foi aquilo há seis meses, quando você disse que tinha acabado de conhecer a mulher de seus sonhos, Elliott? – Ela era quente e sensual, e tão diferente das outras mulheres em Nova York que pensei que pudesse me curar. Ela fora usada como uma maldita cura? Simon se levantou e foi até a janela que dava vista para a rua, necessitando olhar para algo que não fosse o amigo, a quem nem tinha certeza se conhecia mais. Elliott sempre fora um pouco egocêntrico, mas isso… Lá fora, habitantes de Manhattan compartilhavam a calçada com turistas. Clientes se aglomeravam desde a loja de eletrônicos do outro lado da rua, passando pela barraquinha de faláfel na esquina até as lojas pelo caminho. Um taxista desviou de uma van de entregas que o cortou. Como se fosse uma tira de negativos diante de si, Simon enxergava as fotos em sua mente, momentos no tempo comprometidos à memória. Ele apostara que quanto mais tempo passasse perto de Tawny, mais


conhecesse a respeito dela, mais a atração iria diminuir. Em vez disso, a cada encontro sentia-se mais atraído por ela, descobrindo que sua personalidade, sua inteligência e coragem eram ainda mais profundas e certeiras do que sua beleza física. E então afastou-se ainda mais. Temendo trair-se com uma olhadela descuidada, com um comentário equivocado, ele se escondeu atrás de comentários sarcásticos. Ainda tinha esperanças de que se recuperaria, mesmo depois de Elliott tê-la pedido em casamento. Simon conseguiria esquecê-la. Foi no dia da sessão de fotos, aquele que ele passou fotografando Tawny, a pedido de Elliott, que Simon soube estar profunda e irrevogavelmente apaixonado por ela. Agarrou o parapeito da janela e oscilou sobre os calcanhares, olhando para dentro em vez de focar na rua movimentada abaixo. Foi a única vez em que icara a sós com ela, e Simon vislumbrara algo tão doce, tão ilusório que ao im daquele dia sentira algo que beirava a dor física. E Tawny servira apenas como uma maldita cura para Elliott. Simon se virou para encarar o amigo, esforçando-se para manter um tom sereno. – E pedi-la em casamento foi parte da cura ou você se considerou curado naquele momento? Estou um pouco confuso. Isso é algum programa de 12 passos, como no Alcoólicos Anônimos? – Por acaso você se sente bem sendo esse canalha sarcástico? – Não exatamente. – Simon experimentou uma ânsia estranha de bater a cabeça de Elliott contra a parede marrom-escura. – Você a pediu em casamento sabendo que se sentia atraído por homens? Elliott corou diante da censura de Simon. – Mas eu também sinto atração por ela. Achava que, se me entregasse o su iciente ao relacionamento, esses sentimentos iriam desaparecer. – Ele ficou de pé, enfiou as mãos nos bolsos e começou a caminhar pelo cômodo. – Mas não desapareceram. E você traiu Tawny? Elliott aprumou os ombros, na defensiva. – Só uma vez. Ontem à noite. Você conhece Richard, o pintor de quadros com tinta acrílica que estamos lançando? Eu o lagrei olhando para mim, me observando algumas vezes. De qualquer forma, icamos trabalhando até tarde ontem à noite, dividimos uma garrafa de vinho e uma coisa levou à outra.


Talvez fosse um engano enorme, o qual Elliott estava expondo além das proporções por causa da culpa. Elliott também tinha um pouco de dramaturgo, e a culpa era capaz de distorcer a mais nítida das situações, como Simon bem sabia. – Vocês beberam vinho demais? Estavam bêbados? Com os olhos azuis solenes, Elliott balançou a cabeça. – Não. Seria um pretexto fácil. Eu não estava bêbado, e sim curioso. Pensei em experimentar e me certi icar do que sentia, de um modo ou de outro. – Passou a mão na testa. – Eu gostei. Sinto alguma coisa por Richard. Simon reprimiu uma careta de desgosto. Aquilo não devia ser diferente de ouvir Elliott falando de uma mulher. Mas era. Completamente diferente. Simon ergueu uma das mãos. – Não quero e não preciso dos detalhes. – Eu não ia dar detalhes. Foi apenas a título de esclarecimento. – Elliott meneou a cabeça, um tanto ofendido. – Preciso contar a Tawny. Ela merece saber. – E como merece. – A preocupação, tanto com Tawny quanto com Elliott, deixaram seu tom mais ríspido: – Espero que você tenha usado preservativo. – É lógico que usei. – Elliott se jogou em uma poltrona e apoiou a cabeça no encosto. – E esse é só um dos motivos pelos quais preciso contar a ela. Se continuarmos juntos… O punhal foi retorcido no âmago de Simon. – Ela precisará tomar uma decisão consciente. – Você gosta de sexo com Richard, mas vai dormir com Tawny? – indagou Simon. Elliott amassava uma folha de papel entre os dedos. – Eu a amo. Como não amar? Tawny é sensual, inteligente, calorosa e generosa. Mas não estouramos fogos de arti ício no quarto. Sinto atração por ela, mas não é tão excitante quanto estar com Richard. Elliott acabara de lhe oferecer muito mais informações em diversas vertentes do que Simon jamais quisera saber. E estava enlouquecendo Simon, brincando com aquele pedaço de papel. – Dá para largar essa folha?! Elliott o fuzilou com o olhar, porém largou o papel sobre a mesa. – Quer dizer que você não quer romper o noivado? – questionou Simon, a cabeça começando a latejar de tensão.


– Não sei. Tawny é uma mulher incrível. Preciso de tempo para pensar. Acho que se rompermos o noivado, será por decisão dela. – Passou a mão pela nuca. – Será uma conversa terrível – Elliott respirou fundo e depois bufou. – Ajude-me a contar a ela. – Não. Aquilo era entre Elliott e Tawny. E falando em con lito de interesses… Simon a desejava, mas não com um coração partido ou como uma amante se recuperando de um baque. No entanto, ele estaria disponível se aquilo terminasse como achava que iria terminar. Elliott apoiou as mãos na mesa e se inclinou para Simon. – Por favor. Preciso de você para me dar apoio moral. Essa vai ser uma das coisas mais difícieis que já fiz. Elliott odiava encarar tarefas complicadas sozinho. Desde que ambos se conheceram e se tornaram grandes amigos, ele arrastava Simon consigo para encarar professores, tutores, seus pais. Elliott sempre a irmava que Simon era mais forte que ele. Mas pela primeira vez Simon não seria envolvido nas confusões de Elliott. Dessa vez o amigo iria sozinho. Ele balançou a cabeça. – Isso é assunto particular, Elliott. – Você estava lá quando eu a pedi em casamento – argumentou Elliott. Simon cruzou os braços. – Se eu soubesse que você iria pedi-la em casamento, não teria estado lá. Extrovertido e doido por uma plateia, Elliott escolhera um encontro em dupla para fazer a proposta. Simon se recordava do sofrimento que o rasgava enquanto Elliott presenteava Tawny com um anel de ouro e diamante na hora da sobremesa. A mulher que acompanhava Simon, Lenore, achou muito romântico. – Isso está uma confusão. Preciso de você comigo quando eu contar a ela. Telefonei e pedi a Tawny para eu ir lá depois que a galeria fechar. – Elliott, que àquela altura caminhava de um lado para o outro, estacou e encarou Simon, o comprimento da sala separando os dois. – Falei para Tawny que você estaria lá também. Simon esmagou a ânsia adolescente de perguntar a Elliott o que Tawny dissera sobre o fato de que ele também iria estar presente. Simon e Elliott sempre se apoiaram. Sempre cuidaram um do outro. Mas ele não tinha certeza se seria capaz de suportar ver a dor e a sensação de traição estampadas no rosto de Tawny. Nem se tinha o direito de


testemunhar esse momento. – Você não devia ter feito isso. – Por favor, Simon. Bem, Simon não vinha sendo um bom amigo para Elliott quando todas as noites em que jazia em sua cama solitária e fazia amor com Tawny em sua cabeça. Sua consciência o espicaçava. Aquilo não era de sua conta, ele não queria ir, mas devia a Elliott – soubesse ele ou não –, por todos os pensamentos libertinos que tivera com Tawny. Por todas as vezes e todos os jeitos que a possuíra em sua mente. A culpa era capaz de controlar os homens… e obrigá-los a concordar com coisas das quais, de outro modo, estariam fugindo. – Tudo bem. Eu vou. Mas terei que encontrar vocês lá. – Simon se levantou a pegou sua bolsa com o equipamento fotográfico. Elliott tornou a desabar na poltrona, o alívio evidente. – Às 21h. Na casa dela. Lembra-se do caminho? Simon deixara Tawny em casa com Elliott, certa vez. – Claro. – Ele jogou a bolsa sobre o ombro e se virou para a porta. – Simon? – Ele tornou a se virar para encará-lo. – Você é o melhor. Ahã… Quem mais merecia esse título senão um homem que estava obsessiva e compulsivalmente apaixonado pela namorada de seu melhor amigo?


Capítulo Dois

TAWNY OLHOU para o relógio na penteadeira. Quinze minutos até Elliott e Simon chegarem. Largou a saia no chão do closet e, num desa io, vestiu um short. Ela chegara em casa depois de uma saída breve para resolver alguns assuntos, e teve muito tempo para tomar banho e depilar as pernas. E agora hesitava sobre o que vestir. Como se fizesse diferença. Seu noivo e o melhor amigo dele – o homem que a detestava –, chegariam a qualquer momento, trazendo comida tailandesa. Depois de um ano morando ali, uma das coisas que Tawny ainda amava em Nova York era a variedade de pratos fabulosos em cada quadra, mesmo sendo uma garota vinda do Sul que não conseguia encontrar sêmola ou chá bem doce. Tawny olhou para as roupas no closet. Não era como se estivessem indo a algum lugar ou se ela quisesse impressionar alguém. Escolheu uma camiseta desbotada de sua primeira maratona de cinco quilômetros e a descartou de imediato. Não, Elliott gostava quando ela se arrumava, mesmo quando iam icar em casa. E, muito embora não fosse entrar em nenhum concurso de beleza, sua criação sulista impunha limites na relação entre receber visitas e vestir aquilo. Riu de si mesma. E não, ainda não conseguia vestir roupas brancas depois do Dia do Trabalho ou antes da Páscoa. Podia estar morando no Upper West Side em Manhattan, mas sempre seria a Tawny Edwards com a sensibilidade de Savannah, na Georgia. Engraçado… Viera para Nova York para descobrir quem era e o que queria da vida. Tawny sorriu. Sua mãe não icaria surpresa com o fato de a rebelde da família Edwards ainda seguir as regras de etiqueta para vestir branco? Em vez disso, escolheu uma blusa frente única. Casual, porém sexy. E, mais importante, fresca: uma vantagem extra considerando o quanto fazia calor lá fora.


Tawny terminou de se vestir e fechou a porta do closet sobre as roupas rejeitadas espalhadas no chão. Prendeu o cabelo no alto despretensiosamente com uma presilha imensa. Mesmo com o arcondicionado ligado, o calor sufocante parecia se infiltrar ali dentro. Borrifou perfume atrás das orelhas e, com um capricho desa iador, espargiu entre os seios. Simon podia até não gostar dela, mas, droga, ele pelo menos iria apreciar seu cheiro. Uma regravação de Roberta Flack tocava no rádio no outro cômodo, e Tawny cantarolava junto. Adorava aquele programa noturno, Músicas sensuais e dedicatórias decadentes , que oferecia uma mistura de músicas românticas novas e antigas. E quem se importava se ela cantava fora do tom? Puxou o short. Não saíra para correr naquela manhã e sentia a roupa justa. Algumas mulheres eram abençoadas com corpos esbeltos e delgados que de fato se adequavam à moda feita para corpinhos de síl ide. Tawny, no entanto, não fazia parte desse clube. Aprendera fazia muito tempo que tudo o que a impedia de se assemelhar a um hipopótamo com roupas femininas era comer metade do que estava no prato. Ah, sim, e se exercitar todos os dias. O biotipo mingon e curvilíneo podia se transformar muito facilmente no tipo baixinha e gorda. Tawny cometeu o erro de veri icar seu bumbum outra vez no espelho enquanto cantarolava “Killing me softly”. Urgh… Ainda estava lá… tudo e um pouco mais. Elliott tinha razão. Na última vez em que estiveram na cama, ele mencionara que o traseiro dela estava maior. Não era bem o que Tawny desejava ouvir, mas supunha que a verdade às vezes doía. Cogitara fazer uma lipoaspiração nos glúteos com o último abono que recebera, mas e se aquelas células de gordura se realocassem nas coxas ou em algum outro destino igualmente abominável? Sem desejar arriscar a transferência de células adiposas, passou a fazer uma série extra para o bumbum na ginástica, de vez em quando. E, pelo visto, era hora de começar a transformar isso em um hábito diário. Um uivo ultrajado em outro cômodo desviou sua atenção de suas de iciências, ou melhor, de sua superabundância na retaguarda. Tawny foi até a cozinha e despejou uma medida de comida de gato na tigelinha vazia ao lado da geladeira. – Ahã. Você está tão perto de de inhar quanto eu. – Tawny riu e pegou


Peaches no colo para um abraço breve antes de ele se contorcer para voltar para o chão. – Mas eu compreendo. Também estou com fome. Pôs o gato diante da vasilha de comida. Peaches, um gato da raça maine coon, de garras cortadas e 5 anos – que foi abandonado pelo ex-dono e prontamente resgatado do abrigo de animais no última dia antes da eutanásia –, de maneira alguma se assemelhava a um pêssego, como sugeria o nome em inglês, fosse em coloração, aparência ou personalidade. No entanto, Tawny lhe dera o nome Peaches porque ele a fazia se lembrar de suas raízes na Georgia sem precisar estar muito perto de casa. O que decerto não faria sentido para o restante do mundo, mas fazia perfeito sentido para Tawny. Podia-se dizer que Peaches teria icado tão grato por ter sido arrancado das garras da morte certa que bajularia apropriadamente sua salvadora. Um erro. Pois fora justo a arrogância de Peaches diante de sua morte iminente que roubara o coração de Tawny e selara o destino do felino. O som da campainha reverberou no apartamento, e a pulsação de Tawny martelou no peito. Simon e Elliott. A ideia de icar cara a cara com Simon a atormentara durante toda a tarde. Ela não o via desde que ele começara a invadir seus sonhos – e mais tarde seu corpo – de um jeito satisfatório, mas muito perturbador. Ela engoliu em seco e, a caminho da porta, baixou o volume do rádio. Espiando pelo olho mágico, o coração martelou ainda mais quando o rosto magro de Simon começou a encarar… não a porta, mas o corredor, como se ele preferisse estar em qualquer outro lugar do que diante do apartamento dela. No rádio, Etta James cantava com sua voz grave e sensual sobre seu amor ter surgido en im, e sobre o término de seus dias solitários. Isso não ajudou em nada a dissipar o nervosismo de Tawny e a expectativa sexual que espiralava dentro dela. Deixe disso, mulher! Componha-se! Então ela havia feito sexo selvagem com Simon em seus sonhos. Mas em nenhuma extensão de sua imaginação hiperativa e tomada pela luxúria ele era seu verdadeiro amor surgindo. Tawny endireitou os ombros, exibiu seu melhor sorriso charmoso sulista, deslizou a tranca e abriu a porta. – Olá, Simon. – Ei, Tawny. Era perversamente injusta a maneira como a voz dele, com sua pitada de


sotaque britânico, a deixava acelerada. Aquele era um item de seus sonhos… Simon conversava com ela durante o sexo, o que sempre a excitava. Agora não era um sonho, mas Tawny já estava condicionada, e sentiu um calor familiar dentro de si. Ela olhou para além dele. – Onde está Elliott? – Tive uma sessão de fotos hoje, então viemos separados. – Não havia nem um lampejo de sorriso na profundeza de seus olhos escuros. Tawny lhe deu passagem. – Entre. O cabelo escuro dele, cortado bem rente e penteado para trás, conferia ao rosto um visual asceta. Tawny sentiu o calor do corpo de Simon quando ele passou por ela, a bolsa com o equipamento fotográ ico pendurada no ombro. Aquilo era muito pior do que ela previra, muito mais potente que qualquer sonho. O aroma sutil e límpido dele a provocava. Em seus sonhos, o perfume de Simon não seduzia tal como agora. Ela prendeu o fôlego e se esforçou para assumir um tom sereno. – Como foi sua sessão de fotos? – Bem. E rápida. Eu já havia fotografado Chloe antes – disse Simon. O nome evocou a imagem de uma linda modelo alta e magra. Tawny não sentiu a menor pontada de remorso por odiar a desconhecida e inocente Chloe… esse era o preço pago por mulheres lindas e magras sem o traseiro do tamanho de um principado. Algumas semanas atrás, depois do noivado deles, Simon fotografara Tawny a pedido de Elliott, que tinha um olho clínico para a arte, mas não era um artista. Simon, no entanto, era um gênio com uma câmera. Tawny não era modelo pro issional, e por isso foi necessário um dia inteiro de esforço de Simon, ajudando-a, incentivando. Entretanto, as fotogra ias icaram fantásticas. Tawny fora ela mesma de um modo diferente. Ela passava força, mas também uma vulnerabilidade sensual. Simon fora paciente e quase charmoso, como se, ao se postar detrás da câmera, se esquecesse de quem era, ou talvez pudesse ser ele mesmo de verdade. Durante a sessão, Tawny pensou inalmente ter se conectado ao melhor amigo de Elliott, e o conquistado. Foi um dia mágico. Mas, depois, Simon se


retraíra ainda mais atrás daquele muro, icando mais frio e mais distante do que nunca. Ainda bem que seus caminhos não se cruzaram desde então. Exceto à noite. Na cama dela. Nos sonhos dela. Na noite seguinte à sessão de fotos, Tawny tivera um sonho erótico de sexo explícito com Simon. E isso vinha se repetindo todas as noites desde então. Agora, o objeto de seu desejo doloroso se achava em seu apartamento, e passara o dia fotografando alguma modelo magricela. Tawny conteve um comentário maldoso. – Não tive oportunidade para lhe dizer que achei ótimas as fotos que você fez de mim. Não que eu seja ótima, mas as fotogra ias, sim. Você é muito bom no que faz. Uau. A imagem instantânea de Simon lhe proporcionando um orgasmo durante o sonho… – Quero dizer, você é bom com sua câmera. – Ela fechou a porta. Tawny querida, encontre uma célula cerebral e se agarre a ela. Começava a parecer uma idiota hesitante. – Você é muito fotogênica. Tem um ótimo sorriso e uma boa estrutura óssea – afirmou ele. Simon falou de maneira muito despretensiosa. Poderia estar discutindo o clima. Portanto, não havia motivo algum para o coração dela palpitar como se Simon tivesse acabado de comparar sua beleza à de Helena de Troia. Tawny sentiu-se tão desajeitada quanto sentia-se na 3ª série e Henry Turner puxava suas trancinhas. Exceto pelo fato de que ela gostava de Henry Turner. E, apesar dos sonhos enlouquecedores que vinha tendo com Simon, Tawny não estava muito certa de que gostava dele. – Obrigada. Seu equipamento deve icar seguro aqui. – Ela indicou um canto entre a porta e a cristaleira antiga, à direita. Transportar aquela monstruosidade andares acima quando ela se mudara no ano anterior fora uma verdadeira festa. – Gostaria de beber alguma coisa enquanto esperamos por Elliott? Vinho tinto? Simon colocou a câmera e o equipamento no chão, próximo à cristaleira, com mais cuidado e consideração do que muitas mamães tinham com seus bebês. Ele olhou por sobre o ombro. – Claro. Terra chamando Tawny. Devia parar de admirar o modo como a blusa preta dele envolvia os ombros e o contorno esguio das costas. Também


deveria parar de espiar a modelagem do jeans sobre o belo – na verdade muito belo – traseiro dele. Simon se levantou, girando para encará-la em um movimento luido. Arqueou uma sobrancelha questionadora. – Precisa de ajuda? Não se incomode comigo. Eu só estava conferindo esse colírio que você é. – Não. Já vou trazer. – Tawny indicou o sofá com um movimento do pulso. – Fique à vontade. Já volto. E saiu depressa, ansiando que Elliott chegasse logo. Aqueles sonhos estavam bagunçando muito a cabeça dela. Tawny sentia como se o olhar de Simon, quente e demorado, tivesse lambido seus ombros desnudos pela blusa frente única e o vão das nádegas exposto pelo short. Recostou-se no balcão e inspirou calmamente, descartando aquelas percepções ridículas. Simon se mantinha distante como sempre desde que chegara. O único calor que ela sentia emanando dele era produto da própria imaginação depravada, hiperativa e inadequada. Tawny passou por Peaches e foi até a pequena prateleira de vinhos acima da geladeira, de onde pegou uma garrafa de cabernet. Peaches, que passava a maior parte do tempo em cima da geladeira, ofereceu-lhe um olhar preguiçoso. Tawny tirou a rolha da garrafa. – Sabe, gatos normais se enroscam em cima da cama ou no canto do sofá, ou se empoleiram nas costas de uma poltrona. Por que você acampa em cima da geladeira? É claro, o gato não se dignou a responder. Tawny pegou três taças de vinho no armário. Pessoalmente, achava que Peaches gostava de se mostrar inacessível. E o que o fato de ela amar aquele gato revelava a seu respeito? – Não se incomode comigo. Estou saindo agora. Ela retornou à sua saleta. Simon, sentado na poltrona roxa de chenile, analisava a sala. Tawny ficou constrangida, sabendo que ele enxergava o seu espaço pessoal através dos olhos de um artista. O gosto de Tawny tendia para o eclético. Ela apreciava gravuras, uma ou outra antiguidade, e a mobília, mais confortável do que estilosa. Colocou o vinho e as taças sobre o baú de bambu que servia também como mesinha de centro. Simon concentrou nela a atenção, e Tawny


desejou muito que ele voltasse a espiar o apartamento mais uma vez, em vez disso. O brilho da luminária de chão feita em vitral ao lado do sofá iluminava Simon por trás. Cabelo escuro, sobrancelhas escuras acima dos olhos escuros, visual sisudo, blusa preta e calça jeans. Ele era um anjo negro vindo para atormentá-la. Os olhos dele a laçaram. O cômodo encolheu, se limitando aos poucos metros que os separava. Se aquele fosse um dos seus sonhos, Tawny se juntaria a ele no sofá, onde ela mordiscaria e lamberia para superar a reserva perpétua de Simon, até ambos começarem a se despir… – Precisa de alguma ajuda, Tawny? – Obrigada. Está tudo certo. – Não se importe comigo; estou aqui feito uma doida ninfomaníaca fantasiando sobre tirar suas roupas enquanto aguardamos que Elliott apareça. Ela sentia com nojo de si. – Taça de vinho chegando. Tawny serviu duas taças. Entregou uma a ele, tomando cuidado para não tocá-lo no processo. – Você estava conversando com alguém na cozinha? – perguntou ele. Certamente não havia diversão à espreita nos olhos austeros de Simon. Tawny se sentou na poltrona ao lado da mesinha de centro, o ponto mais distante de Simon nos con inamentos de sua saleta. Evitar até mesmo o contato físico mais casual parecia um bom plano. – Meu gato. – E ele responde? Quem diria? Simon de fato possuía senso de humor. – Não. Ele é um macho típico. Audição seletiva. Só se manifesta se isso envolver sua barriga vazia. Ou o controle remoto. – Esse gato faz meu tipo. – O sorriso espontâneo de Simon mexeu com Tawny. Ele ergueu a taça em um brinde silencioso, e então bebericou. Os dedos dele, longos e inos, seguravam a haste da taça e faziam Tawny se lembrar de seu sonho vespertino e dos lugares onde os dedos dele tinha estado. Só de pensar ela se sentia libertina e úmida outra vez. Que ótimo. Lá estava, sentada diante de Simon, bebendo vinho e esperando seu futuro marido aparecer… e acabaria com uma mancha úmida na roupa. Pare. Tawny não ira icar sentada ali fantasiando com aquele homem. Era errado. A culpa revirava dentro dela. Pensar nele a deixava excitada


mais depressa e com mais intensidade do que quando sentia o toque real de Elliott. Ela precisava apenas aguentar por aquela noite. Só algumas horas. E na semana seguinte iria entrar na terapia. Alison, uma das secretárias executivas da empresa, ia a um terapeuta toda semana. A primeira coisa que Tawny faria na segunda-feira de manhã seria pedir referências a Alison. Aquela coisa por Simon começava a sair do controle. Sabe-se lá o que aconteceria se ele oferecesse um pouco de interesse ou de incentivo. Que tipo de mulher alimentava o desejo perene pelo melhor amigo de seu noivo? E aquilo a izera começar a pensar, com bastante frequência, sobre como se sentia exatamente em relação a Elliott, e se casar-se com ele seria mesmo uma ideia tão boa. Tawny e Elliott icavam bem juntos. Davam-se bem. Divertiam-se na companhia um do outro. Mas nada se comparava à paixão sombria com Simon que assombrava os seus sonhos. E, como quem não quer nada, citemos uma vaga sensação de descontentamento com suas horas na cama com Elliott… Será que essa sensação a respeito de alguém irrompia baseada em sonhos quentes com uma terceira pessoa? O que veio primeiro? O descontentamento dela com Elliott ou sua atração sexual obscura por Simon? Será que estava mesmo atraída ou era apenas medo de compromisso? Sim, era hora de procurar um terapeuta. – É um bom vinho. Obrigado – disse Simon. – Claro. – Nervosa, Tawny engoliu todo o vinho em vez de beber um gole, e engasgou. Então engasgou mais. Droga, estava sem ar! Simon contornou o baú e pegou a taça de Tawny. Ele se ajoelhou e, tal como condicionada pelos sonhos, automaticamente entreabriu as pernas para acomodá-lo. Ele lhe agarrou os ombros. – Consegue respirar? Balance a cabeça. Ela obedeceu, fazendo que sim. Simon, porém, não removeu as mãos da sua pele exposta. Por im, o instante de as ixia cessou. E Tawny icou ali com Simon ajoelhoado entre suas coxas, os dedos envolvendo a curva de seus ombros, o rosto quente de humilhação, o corpo ainda mais quente por causa da proximidade dele.


– Estou… bem – disse ela, a voz oscilando. Não por ter engasgado, mas por causa do toque dele, pelo roçar do corpo incrível contra suas coxas nuas. A realidade do toque dele era mil vezes mais potente que em um mero sonho. Por acaso a mão de Simon estremeceu contra o ombro dela; ou foi a própria reação de Tawny? Simon a soltou e icou de pé de repente. Ainda entre as pernas dela, ele a fitou. – Talvez você queira deixar para cuspir quando estiver bebendo suco ou cerveja. – Ele se virou, apanhou a própria taça de vinho e voltou a se sentar no sofá. Vá para o inferno! Tawny o odiou naquele instante. Como Simon podia se mostrar tão preocupado e atencioso em um minuto e tão sarcástico e desagradável no instante seguinte? Ela ignorou o comentário – que, a propósito, nem entendeu direito – e se concentrou em Elliott, em vez disso. Consultou o relógio de pulso. Quase 21h25. – Elliott deve estar chegando. Assim espero. Estou morrendo de fome – disse ela. Isso mesmo. Simon passara o dia todo fotografando uma mulher que era pele e osso, e Tawny simplesmente apresentava seu traseiro recheado faminto. – Bem, não morrendo de fome, claro, mas com fome. – Ela simplesmente não conseguia dizer ou fazer nenhuma coisa certa diante dele. Contudo, isso já não importava, pois agora ela não estava diante de Simon. Achava-se na total escuridão e no silêncio repentinos. – Que diabos… – disse Simon. Tawny pensou a mesma coisa. – SIMON?! – A voz dela soou cheia de pânico. – Estou bem aqui. – Simon permaneceu de pé, sem enxergar nada na escuridão. Ele bateu as canelas no baú. Deixou a taça de lado com cuidado. Que bom que fez isso, porque Tawny agarrou o braço dele, assustando-o, o tremor incomum na voz dela refletindo nos dedos. – Desculpe. Não me dou muito bem com o escuro. Movimentando-se devagar, Simon foi tateando pela mobília até chegar ao lado dela. Nunca experimentara uma escuridão tão absoluta. Ele não


conseguia vê-la, mas sentia o calor de seu corpo, seu perfume, a energia dela pulsando através da mão em seu braço, ouvia o leve ofegar de pânico de Tawny. – Não se dá muito bem? – É, eu não gosto nada dele. – A risada dela beirou o patético e tocou o coração de Simon. Como se tudo o que ela fazia já não fosse capaz de tocá-lo. – A curiosidade me dominou, e eu consegui me trancar em um armário durante algumas horas quando tinha 4 anos. Fiquei desesperada. Desde então, a escuridão me apavora. Ela riu outra vez, e se Simon não estivesse tão sintonizado às nuanças da voz dela, poderia não ter percebido o nervosismo ainda à espreita. Indo contra todo seu bom senso – pois tocá-la, conforme ele descobrira minutos antes, de initivamente era insensato –, Simon segurou a mão de Tawny. – Está tudo bem. Estou aqui. Seu prédio ica sem energia com muita frequência? – Já aconteceu duas vezes. Mas sempre durante o dia. – A voz dela soou mais segura, menos amedrontada, e a mão icou mais irme. Tentou se soltar dele. – Estou bem agora. Sua ligeira falta de ar a entregou. Tawny não estava bem, mas fazia seu melhor para causar essa impressão. Simon lutava contra a ânsia de puxá-la para si, abraçar sua vulnerabilidade delicada e assegurar que estava tudo em ordem. Em vez disso, ele se contentou em apertar mais os dedos dela. – Bem, eu não. Estou cego feito um morcego aqui. Onde guarda sua lanterna? – Ele quis saber. Tawny se voltou para ele, e seu rosto corou de encontro ao ombro de Simon, fazendo o coração dele acelerar. Era uma agonia estar tão perto dela, tocá-la, sentir o cheiro de Tawny. – Não tenho uma. Quebrou quando me mudei, e eu vivo me esquecendo de substituí-la. – A respiração dela era leve de encontro ao pescoço dele, e o cabelo brincava ao longo da mandíbula. – Tudo bem. Sem lanterna. Vamos ao plano B. Onde há uma janela? Os dedos de Tawny se fecharam sobre os dele. – No meu quarto. Há uma no banheiro, mas é pequena. – Tudo bem. Guie-me até seu quarto. – Apesar da escuridão, ele fechou os olhos quando falou. Sob outras circunstâncias…


– Por aqui. – Ela o puxou pela mão. Em segundos ele trombou na parede. – Ai! Droga! – Desculpe, Simon… – Ele deu de ombros. – Presumo que você não tenha batido contra a parede. – Não. Estou no vão da porta. Brilhante. Ela ria dele. Na verdade, bater na parede foi um tanto engraçado, mas um golpe no ombro. – Andar ao seu lado não vai funcionar. Irei atrás de você. – Ele pôs as mãos nos ombros expostos dela. Na escuridão, Simon podia muito bem imaginá-la nua. Correção: era como se ela estivesse nua, do mesmo jeito que ele a imaginara tantas vezes antes. Os ombros de Tawny eram macios, a pele, como camurça quente e suave. O perfume dela o cercava, o seduzia. Ele estava louco para puxá-la para si, para baixar a cabeça e beijar a carne delicada da nuca, para despejar beijos pela curva do ombro. Queria absorver o calor dela, o sabor, ela. O desejo lhe perfurava a alma. Tê-la nos braços, mas ainda fora de alcance, era cruel além da conta. Só uma provinha dela… Simon se inclinou para a frente, e Tawny oscilou muito ligeiramente de encontro a ele, tensionando sob os dedos másculos. Tufos de cabelo roçaram o rosto dele. O que diabos estava fazendo? Simon afastou a cabeça para trás. – Simon? O modo rouco como Tawny pronunciava o nome dele sempre o deixava quente por dentro. – Dê-me um segundo para eu me posicionar. – Roupas. Ele precisava tocar nas roupas. – Que tal assim? Simon agarrou as curvas fartas dos quadris dela, logo abaixo da cintura, do mesmo jeito que faria se estivessem brincando de trenzinho. Sim, ou fazendo sexo, possuindo-a por trás. – Está bom assim. A voz dela soou tensa. Ou talvez fosse apenas ele. Aquela proximidade o deixava quase maluco. – Certo. Guie o caminho. – Dane-se se pareço mal-humorado. Era melhor que ela o considerasse rude do que notar que estava excitado.


Simon caminhava atrás dela, mantendo um aperto irme em seus quadris, tentando ignorar o doce requebrar sob seus dedos. Tawny não icaria impressionada? Enquanto ela lutava para afastar um ataque de pânico, Simon se excitava só de tocá-la e inalar seu perfume a cada vez que inspirava. No cômodo detrás deles, o celular de Tawny tocou. Ela hesitou, tensionando, virando-se de leve em direção ao toque. Simon a apertou ainda mais. – Continue andando. Não temos a menor chance de alcançá-lo antes de cair na caixa postal. Isso sem mencionar o tanto que vamos trombar nas coisas ao longo do percurso. Eles retomaram sua jornada na escuridão. Quase de imediato, o celular de Simon vibrou em seu bolso lateral. – Espere um pouco. Alguém está me ligando. – Ele pegou o celular e o abriu usando apenas uma das mãos, mantendo a outra no quadril de Tawny. – Thackeray falando. – Simon, você está com Tawny? – perguntou Elliott sem preâmbulos. – Sim. Ela está bem aqui. – Acabei de tentar telefonar, e Tawny não atendeu. – A voz de Elliott carregava um tom petulante. – O apartamento dela está um breu. Tawny não conseguiu chegar ao celular a tempo. Onde você está? Que droga, Elliott! Ele deveria ser a pessoa a estar ali com a mão no quadril de Tawny, sendo torturado pelo toque da pele delicada dela e por seu perfume feminino. Só que não seria uma tortura para Elliott, porque ela não estava fora do alcance dele. – Estou na galeria. Também estamos sem energia elétrica. – Por que você está aí, Elliott? O que está acontecendo? – Não acho que estejamos em estado de sítio, se é isso o que você quer dizer. Deve ser um daqueles apagões como o que tivemos há alguns anos. Eu estava atrasado. Richard e eu tínhamos algumas coisas para resolver, e aí a luz se apagou. Simon agradeceu pela escuridão, pois assim Tawny não conseguiria ver sua expressão. Ele não dava a mínima para os detalhes sobre Richard e Elliott, mas se Elliott estivesse ali com a comida tailandesa, conforme combinado, Simon não estaria segurando Tawny na escuridão. A sós.


Tentado quase além da conta. – Excelente. Quanto tempo acha que vai levar para chegar aqui? – Simon mantinha a entonação neutra, de propósito. – Estamos trancados. Quando o sistema elétrico ica comprometido, o sistema de segurança entra em bloqueio total. Aquilo ficava cada vez melhor. – Você está trancado na galeria? – Resumindo, é isso. Simon ouviu os cochichos de outra voz masculina ao fundo, seguida pela risada arfada de Elliott. – Ouça, você não tem de fazer companhia a Tawny. Sei que ela icará bem. Simon sentiu uma raiva intensa diante do descuido e da soberba de Elliott em relação a Tawny. Naquela tarde, irritara-se com Elliott. Agora, Simon estava furioso com o amigo. Será que o outro não sabia ou simplesmente não se importava com o fato de que aquela mulher, que encarava a vida de cabeça erguida, morria de medo do escuro enquanto ele se aconchegava com seu novo amante? Que diabos Elliott estava fazendo, icando com Richard, em vez de encontrar-se com Tawny, do jeito que ele mesmo havia combinado?! E de onde saiu aquele tom possessivo de Elliott ao dizer a Simon que ele não precisava icar? Só que de jeito nenhum Simon iria dizer algo daquilo a Elliott com Tawny ao seu lado, ouvindo tudo. – Claro, vou icar com ela até a energia elétrica voltar. Eu nem sonharia em deixá-la sozinha. Tawny se aproximou mais dele, e Simon, sem pensar, apertou mais ainda o quadril dela. Ambos haviam trocado de posição quando ele atendeu ao telefone, e agora o lado esquedo do quadril dela o cutucava; a mão de Simon ainda estava do outro lado, o braço envolvendo o cóccix dela. Aquilo era ruim… muito, muito ruim. Até quando ele icaria preso naquele apartamento com aquela mulher, que o deixava louco? Que o tocava em algum lugar bem lá no fundo? Que parecia conseguir transpor cada barreira já erguida por ele? O corpo dele achava aquilo sensacional; a mente, no entanto, reconhecia a situação como um grande erro. – Não. Eu disse que você não precisa ficar – rebateu Elliott. Que diabos? Simon não queria que Tawny soubesse que Elliott era tão


egocêntrico a ponto de dizer ao amigo para deixá-la sozinha na escuridão. Era melhor que seu amigo egoísta parecesse o noivo atencioso que deveria ser do que feri-la com a verdade. – Não pense mais nisso. Não irei embora até a eletricidade voltar. – Tanto faz. Vá em frente e banque o nobre cavaleiro. – Elliott, o canalha, de fato soou mal-humorado. Simon desligou e recolocou o telefone no cós da calça. – Era Elliott. Ele está bem. Acha que houve um blackout. Ficou preso na galeria com o pintor de tinta acrílica. Quando há falha elétrica, o sistema de segurança trava tudo lá. – Pelo visto, Elliott pediu a você para icar. Não precisa cuidar de mim, Simon. Vou ficar bem. Mas que droga. Aquele era um belo dilema. Simon nunca desejara tanto ir embora de um lugar, para poder se livrar dos cães do inferno que mordiscavam seus pés: os monstros da avidez e do desejo que tornavam quase insuportável tolerar a presença de Tawny. Por outro lado, Simon não achava que ela gostaria de ser abandonada durante um blackout, e não era capaz de deixá-la sozinha. Ele sabia que fora aterrorizante e instintivo quando Tawny apertara sua mão, mais cedo, mas que agora ela não queria se tornar uma obrigação. – Eu sei que não preciso icar, mas pre iro voltar para casa usando dos benefícios do metrô. Você se importa se eu esperar até a luz voltar? – De jeito nenhum. Sinta-se à vontade. Ele tentou abrandar o momento: – Negócio fechado então. Você vai icar presa comigo até lá. – Por favor, que isso não demore muito. A risada dela soou mais relaxada, e ele soube que fizera a coisa certa. – Muito bem. Parece que estamos presos um com o outro. Simon não soube exatamente como aconteceu, mas naquele momento… ele se mexeu… no completo breu, e sua mão se fechou sobre um seio. Durante vários minutos surpreendentes Simon só conseguiu icar parado ali, a mão em volta do seio macio, o mamilo espetando sua palma através da blusa. Como numa tempestade de verão repentina, a atmosfera mudou e icou mais densa. Uma carga sexual pulsou entre os dois. Por um instante maluco, Simon poderia ter jurado que Tawny se inclinara de encontro ao toque, pressionando o cume duro contra a mão dele.


O desejo o atingiu, o universo reduzido à sensação do seio na palma, o desejo quente que o deixava excitado. Tawny soltou um som inarticulado, abafado. Simon não tinha certeza se havia sido um gemido ou um protesto, mas serviu como um jato de água fria. Ele puxou a mão. – Desculpe. Foi um acidente. – É claro que foi… Tenho certeza de que… Você nunca faria… – Estamos muito longe do seu quarto? – perguntou ele, o tom tão tenso quanto o próprio corpo. – Simon… Tawny acharia que ele só precisava tocar seu seio e ele estava pronto para deitá-la e expor toda sua malícia? Pronto para acariciá-la e saboreá-la até ela estar tão envolvida na paixão deles que se esqueceria de toda escuridão? Infelizmente, Tawny estaria certa se assim pensasse. E se ela fosse dele, Simon faria exatamente isso. Mas ela não era dele. – A janela… É ali que fica a janela, não é? – Sim. Era alívio, constrangimento ou ambos naquela única sílaba? Ele preferiu ignorar. Seguiram pelo corredor curto que dava no quarto, passaram pela cama e foram até a vidraça. Tawny abriu as cortinas e levantou as persianas. A cidade se achava envolta em trevas, fazendo lembrar um desenho bem reproduzido em carvão, os céus escuros com as sombras de prédios mais escuros em contraste. A distância, luzes de emergência nos edi ícios, sentinelas ardentes guardando a cidade. Rua acima e abaixo, velas, lanternas e faróis forneciam iluminação. Apesar do barulho abafado das pessoas e do ruído inevitável das buzinas de carros, a escuridão os isolava, os prendia na ilha do apartamento dela, os tirava do restante da civilização. Nuvens escuras corriam pelo céu, destruindo o pouco de luz que o firmamento noturno poderia ter proporcionado. – Uma tempestade vem aí – comentou ela. – Parece que sim. Você tem velas? – Não tenho lanterna, mas muitas velas. Ela afastou a mão dele e deu meia-volta. O criado-mudo icava a alguns metros da janela. Abriu a gaveta e tateou. Pegou um objeto longo.


– Meu lança-chamas. Tawny apertou um acendedor manual de bico longo e acendeu uma vela perto da cama. Cruzou o quarto, acendendo também dois castiçais de parede. Eles ladeavam a pintura de uma mulher seminua reclinada em um divã. Muito sensual. Como Tawny. Como o quarto. Uma cama marquesa dominava a parede repleta de janelas. Uma manta de lã com padronagem em vermelho-escuro, marrom e dourado estava em cima. Almofadas com franjas douradas combinando se empilhavam contra a cabeceira de maneira convidativa. Uma penteadeira com espelho preenchia o espaço na parede entre a porta do quarto e o closet. Tawny foi até um grande pilar triplo para velas em sua penteadeira. Voltou-se para Simon, sorrindo. – Eu lhe disse que tinha muitas velas. Ela icava ainda mais linda sob a luz bruxuleante que dançava por seu rosto, pelos ombros nus, transformando o vale entre os seios em um lugar misterioso e sombrio que ele ansiava por explorar. O sorriso dela esmoreceu. O aroma das velas lutuava ao redor, perfumes exóticos que evocavam imagens de um sexo quente, que o despiam de suas reservas, fazendo de Simon um homem que ansiava pela mulher que queria e não podia ter. Tawny entreabriu os lábios, e Simon poderia jurar ter captado um calor recíproco nos olhos dela. – Você não deveria acender todas. Não fazemos ideia de quanto tempo durará a falta de energia elétrica. – Nada como um pouco de censura para dissipar o clima. – Há muitas. Tenho uma quedinha por velas. – E pelo que mais você tem essa quedinha? – perguntou ele, a língua se movimentando mais rápido sob as cincunstâncias do que seu censor interior. E Simon era apenas humano. Eles estavam a sós no apartamento dela, sob a luz de velas, com a cama bem ali, e menos de um metro e meio os separava. Tawny umedeceu os lábios como se a boca de repente estivesse seca demais, e Simon sentiu mais uma pontada da culpa familiar, dessa vez por deixá-la desconfortável. – Foi brincadeira. Minha tentativa equivocada de fazer humor. Você tem um rádio com pilhas para podermos descobrir o que está havendo? –


De initivamente era hora de apresentar o mundo real. Ele precisava de estímulos externos para não cair em mais uma fantasia com os dois. – Meu aparelho de som tem compartimento para pilhas. – Ela abriu a porta do closet e saltitou por sobre o monte de roupas no chão. Ajoelhou-se e se curvou. Simon deveria desviar o olhar, voltar a atenção para o quadro na parede, itar o horizonte escuro de Nova York. Diabos, assistir a uma pintura secando seria melhor, bem mais nobre, a icar encarando-a ali, ajoelhada, com seu traseiro fantástico, sedutor e de fazer babar erguido no ar. Tawny retornou do closet, aparelho de som na mão, e se aprumou. Girou o botão. Nada aconteceu. – Tudo bem. Pilhas funcionando seriam um bônus. – Ela deitou o rádio na cama e abriu o compartimento de pilhas. – Seis pilhas médias. Vou resolver isso rápido. Mantenho pilhas extras à mão. Ela contornou a cama, indo à gaveta do criado-mudo, bem onde Simon estava. Pegou duas pilhas e as jogou na cama. Caçou mais algumas, sacando uma terceira. – Três não vão servir. A pele dela brilhava sob a luz suave, os olhos eram delicados e brilhantes, o perfume emitia o canto de uma sereia. Simon en iou as mãos nos bolsos para evitar tocá-la. Estava furioso por ter concordado em ir para lá naquela noite. – Não. Eu diria que é óbvio que precisamos de mais três. – Está tudo sob controle. – O sorriso dela dizia que Tawny estava cansada de vê-lo agindo como um idiota. E ele estava cansado de agir como um idiota, mas era melhor que se render ao impulso de deitá-la na cama, despi-la e se tornar bem íntimo de cada centímetro delicioso de seu corpo nu. Tawny voltou a esquadrinhar a gaveta, obviamente a principal do quarto, e pegou… o maior vibrador que Simon já vira. Bem, na verdade, ele acreditava nunca ter visto um vibrador em primeira mão. Era bem… grande. – Simon, conheça Mindinho. Mindinho era um tanto intimidador sob o ponto de vista de um homem. Não que de repente parecesse inadequado ou coisa assim. Tawny desatarrachou a extremidade, pegou duas pilhas e voltou a tampá-lo.


Colocou-o de volta na gaveta e então pegou um vibrador bem menor, com uma haste mais compacta na parte superior. – Este é Beto Balanço. – Ela sacudiu o brinquedo de maneira generalizada em direção a ele. – Hum, suponho que esse rapaz seja “Balanço” porque ele… – Isso. Você entendeu. Ele balança para cima e para baixo. Simon se lembrou de respirar, mas não de forma ofegante. Aquilo só melhorava. Ele devia tê-la largado ali, com seus princípios, e saído do apartamento quando teve a oportunidade. Se antes achara que estava quente, agora Simon se encontrava em chamas. – Creio que isso responde à pergunta sobre pelo o que mais você tem uma quedinha. Ela pegou uma única pilha e a jogou na cama, junto às outras. – Pronto. Seis pilhas médias; e garanto que estão todas funcionando. Por que você não as coloca no aparelho de som?


Capítulo Três

TALVEZ ELA tivesse ido um pouco longe demais ao apresentar seus vibradores pelo nome, mas já estava farta da reprovação e do sarcasmo silencioso de Simon. De acordo com Elliott, o comportamento de Simon tinha origem na primeira geração americana. O pai dele, um britânico, se realocara em Nova York, antes de Simon nascer, para fazer a curadoria de museus aqui e ali. Tawny não dava a mínima se o pai dele era o próximo da ila na linha de sucessão do trono britânico, estava farta da postura instável de Simon. E, para ser honesta, não se sentia nem um pouco satisfeita consigo por ele a ter excitado ao enésimo grau, aniquilando sua compostura. Quando perto dele, Tawny parecia não conseguir pensar em nada além de sexo. Com Simon. Quase izera papel de boba quando ele colocara a mão em seus ombros. E então quando tocou seu seio… ela chegou perto de implorar a Simon que a possuísse ali, naquele momento, de forma rápida e intensa, contra a parede do corredor. Simon despertava nela uma sensualidade que Tawny jamais conhecera e, em alguns aspectos, sua intensidade a apavorava. Em silêncio, Simon colocou as pilhas no aparelho de som. As mãos dele não estavam exatamente irmes quando se atrapalhou com a última. Talvez o confinamento o estivesse afetando também. O rádio bradou para a vida: – “…então, pelo visto, houve um bom e velho apagão causado pela alta demanda de aparelhos de ar-condicinado ligados para aliviar o calor extremo. Infelizmente o apagão atingiu a região metropolitana de Nova York, Nova Jersey e Connecticut, e as autoridades nos informam que não têm certeza de quando a energia será restabelecida. Parece que será uma noite quente, então não saia daí. Em homenagem ao apagão, vamos abrir nossas linhas telefônicas para pedidos e recadinhos relacionados ao calor e ao verão. E acho que teremos um monte de bebês daqui a nove meses. Ei,


temos que achar um jeito de passar o tempo, não é? Vamos começar nosso bloco com uma antiga. “Love The One You’re With.” Tawny girou o botão e desligou o rádio. Presa em seu apartamento com Simon durante a noite toda? Tawny conteve o pânico. Sinais de perigo explodiam em seu cérebro – ela, Simon, luz de velas –, e já parecia que a temperatura no apartamento havia subido alguns graus. – Bem, podemos esquecer a comida tailandesa para viagem. Está com fome, Simon? Claro, deixe que a garota gordinha fale em comida . Mas, droga, ela estava morrendo de fome. E aquilo tirava o sexo de sua mente. E Simon. E o sexo com Simon. Bem, provavelmente não, mas Tawny continuava com fome. Simon sorriu, e Tawny foi desarmada pelo lampejo de seus dentes brancos sob a luz fraca. – Estou faminto. Eu seria capaz de comer pregos. – Não costumo armazenar muita comida. Há uma delicatéssen a um quarteirão e meio daqui. Será que estaria aberta? – Deveria. Durante o apagão de 2003 as lojas de comida estavam dando im aos estoques porque não se sabia por quanto tempo icariam sem energia. Melhor vender tudo do que deixar estragar. Eu ainda tenho algum dinheiro aqui. Vamos arriscar. – Simon sorriu com um toque de ansiedade constrangida. – E eu não me importaria em queimar um rolo ou dois de filme. Bem, ele era fotógrafo. É claro que iria gostar de tirar fotos. E era incrível como todo o comportamento dele mudava quando falava sobre fotografia. – Certo. Comida e fotografia. Por mim está bom. – Ela deu de ombros. Assim que Tawny disse tais palavras, um relâmpago brilhou no céu e um trovão ribombou. A chuva veio em um ataque repentino. Nada, pelo jeito, era sutil ou aconteceria aos poucos naquela noite. – Ou não. Tudo bem. É isso. Não vou planejar mais nada hoje, porque tudo o que eu planejo é arruinado. – Tawny deu uma risada nervosa. Estavam presos ali. Ela pegou uma pequena vela para guiá-los de volta ao corredor. – Não sou a rainha da culinária, mas não será preciso comer pregos. Ela não fez comentários quando Simon apagou as outras velas no quarto antes de pegar o aparelho de som e segui-la. Havia velas su icientes no


armário para uma semana, mas não valia a pena discutir. Tawny estava mais do que disposta a fazer as pazes, já que teriam de permanecer juntos ali. A caminho da cozinha, ela apanhou sua taça de vinho. – Seria péssimo desperdiçar uma boa bebida. – Ah, algo com que concordamos. Tawny esperou Simon trocar o rádio por sua taça e pela garrafa de vinho. Considerando a metragem mínima do apartamento, eles não teriam problemas para ouvir o rádio da cozinha. Ele a seguiu até o outro cômodo, e em poucos segundos, várias velas iluminavam o ambiente. – O que é isso? – perguntou Simon. Tawny seguiu o olhar dele até o topo da geladeira. Na penumbra, Peaches se assemelhava mais a um borrão de uma ave de rapina do que a um felino. – Peaches, meu gato. Ele gosta de icar em cima da geladeira. É ele quem se comporta mal e tem audição seletiva. – Pobre companheiro. Você também teria um mau comportamento se fosse um cara chamado Peaches. – Simon emitiu um som de compaixão e surpreendeu Tawny quando esticou a mão para acariciar o gato atrás da orelhas. Peaches sibilou e fez menção de arranhá-lo na hora. – Ele não é o sr. Amigável. – Nem eu – disse Simon com um sorriso autodepreciativo enquanto se recostava no balcão e cruzava os braços. – Bem, esqueça, não vou adotá-lo se você estiver abandonado – disse ela com um sorriso maroto, apesar do frio na barriga diante da ideia de ter Simon para si. – Você decerto seria tão mal-humorado e ingrato quanto ele. – Anotado. – E esboçou mais um sorriso que duplicou o ritmo cardíaco de Tawny. – Por que resolveu ficar com o pilantrinha? – Porque foi amor à primeira vista… da minha parte. – Ela desviou o olhar dele. Aquilo quase soou como se ela tivesse declarado ter sentido amor à primeira vista por Simon. Uma concepção totalmente ridícula. – Peaches vai mudar de ideia, mais cedo ou mais tarde. Simon ergueu uma sobrancelha sarcástica em direção a Peaches. – Acredito que você seja uma eterna otimista. – Pode me chamar de Pollyanna. – Ela abriu a porta da geladeira e espiou o buraco negro, considerando as opções limitadas de comida. – O


micro-ondas ou o forno não vão funcionar. Tenho sobras de pizza. E dá para fazer uma salada de frutas. O que acha? – Melhor que pregos. Tawny riu, gostando da provocação sutil e relaxando na companhia dele. Apanhou a comida e fechou a porta da geladeira. – Você é sempre tão gentil e entusiasmado? – Sim, exceto quando estou de mau humor. Simon bebericou o vinho e, como se a camaradagem entre os dois fosse inaceitável, ela quase podia vê-lo recuando. Queria que ele ficasse. – Foi um desencontro totalmente desastroso eu não ter sido o atrasado e Elliott não estar aqui com você. Elliott. Certo. O noivo dela. Tawny girou a aliança com o polegar. A culpa a inundou. Não reservara nem um pensamento, por minúsculo que fosse, a Elliott desde que o celular de Simon tocara. Tawny deu de ombros. – É uma emergência. Todos fazemos o melhor possível. Tenho certeza de que Elliott preferiria não estar preso na galeria com o pintor. E, embora você possa não se sentir empolgado por estar aqui, é melhor que icar preso no metrô. Tawny pegou a tábua de corte, uma faca e uma tigela. – E por que você acha que eu não estaria empolgado por estar aqui? – perguntou ele. Tawny começou a fatiar o abacaxi fresco. Quase respondeu que não era tão burra quanto parecia, mas pensou duas vezes. – Eu deveria acreditar que você se sente feliz por ter de permanecer preso neste apartamento comigo? – Você acreditaria em mim se eu dissesse que não há outro lugar onde eu preferiria estar? – Algo na profundeza do olhar dele roubou o fôlego dela. Tawny riu para disfarçar sua falta de ar e tirou o miolo de uma maçã. – Não. Deve haver uma lista de um quilômetro com os lugares onde você preferiria estar, mas é bonzinho demais para admitir. – Muito. Sou um sujeito tão legal… – Seja honesto. Não seria muito melhor estar com sua namorada? Ou, se a sessão de fotos tivesse demorado um pouco mais, você estaria com Chloe. Certo, ela admitia: jogara a isca. Ela e Elliott haviam saído em dupla de casais com Simon várias vezes. Em cada ocasião era uma mulher diferente.


Mas, após a sessão de fotos com Tawny, Simon sempre implorava para ser liberado em todas as ocasiões em que Elliott o convidava. Tawny acrescentou maçãs em cubinhos à tigela e pegou uma banana. A vida amorosa de Simon a intrigava. Não que Tawny tivesse algo a ver com ela. Mas se vinha tendo sonhos altamente sexuais com ele, podia pelo menos conhecer a vida amorosa de Simon. – Não tenho namorada, e Chloe não faz meu tipo. – Simon deu de ombros. Uma modelo magra e linda não fazia o tipo dele? Tawny olhou para Simon, analisando as implicações. Talvez ele fosse… – E não, não quero dizer que não faz meu tipo desse jeito. Não sou gay. Chloe é uma boa garota, mas não me causa nada. Ufa! Ela não deveria icar tão aliviada. Fatiou uma laranja. Que tipo de mulher fazia o tipo dele? Quem seria atraente para um sujeito autossu iciente como Simon? E por que ele não tinha namorada? De um modo sombrio, diabólico, ele era sexy a ponto de causar arrepios, de enlouquecer. – Então que tipo de mulher causa alguma coisa em você? – Nunca pensei no assunto, de fato. – Claro que pensou. Todo mundo tem um tipo favorito. – Eu realmente não tenho um tipo. Ele precisava relaxar um pouco. Tawny misturou as frutas. – Lógico que tem. Aposto que se parar para pensar no assunto, há um determinado tipo de mulher que o atrai, que faz seu sangue ferver. – Isso é algum tipo de jogo, Tawny? Quer que eu responda que é uma mulher como você? – A voz dele saiu baixa, perigosa em sua intensidade silenciosa. Não era exatamente o que ela queria? Saber que em todas as vezes que se contorcera, gritara o nome dele no meio de um orgasmo, acordara úmida e extenuada, ele não era totalmente imune a ela? Sim e não. O único jogo que ela estava fazendo era consigo, e parecia bem perigoso. Tawny desviou o olhar daqueles olhos escuros, feliz por estar se ocupando em apanhar duas tigelinhas no armário. – Não seja ridículo. Já deixou bem claro o que acha de mim. Só estou surpresa por você não estar mais saindo com Lenore. Vocês formavam um belo casal. Lenore fora a acompanhante de Simon na noite em que Elliott pedira


Tawny em casamento. A loira alta e esbelta fora um belo complemento ao visual urbano e moreno de Simon. Ela dividiu duas porções, e eles se sentaram à mesinha de ferro forjado, no canto. Simon deu de ombros. – Lenore é legal. É por isso que parei de vê-la. Estou meio que numa situação de amor não correspondido, e não parecia justo sair com ela quando minha cabeça e meu coração estavam ocupados de outra forma. Delicioso, a propósito – disse ele, indicando a salada de frutas e a pizza. – Obrigado. – Que bom que gostou. As outras palavras dele a atingiram. Um ciúme obscuro espiralou dentro dela diante da ideia de que uma mulher havia conquistado o coração distante de Simon. Essa mulher misteriosa devia ser um belo exemplar. Linda, so isticada, magra, espirituosa, na certa com alguns doutorados no currículo. Tawny já a odiava imprudente, inconsciente e instintivamente. Odiava a tal mulher por tê-lo conquistado e também por desprezá-lo. Assim, claro que ela comentou: – Sinto muito. Essa é uma posição di ícil. Quer falar sobre isso? A respeito dela? Algumas vezes, quando conversamos com alguém, as coisas não soam tão desesperadoras como parecem. – Pelo visto não conseguia calar a boca, obcecada que estava em expiar sua luxúria. – Talvez eu pudesse ajudá-lo a descobrir um jeito de conquistá-la… Sabe como é, sob a perspectiva de outra mulher. Tawny mordeu a pizza, encontrando algo mais para fazer com a boca em vez de tagarelar. Simon a olhou por cima da borda da taça de vinho, a expressão indecifrável. – Está oferecendo ajuda para minha triste vida amorosa? Aquilo poderia se provar ser exatamente a cura de que ela precisava para superar aquela… aquela coisa por ele. Tawny assentiu e engoliu. – Claro. Por que não? Simon pôs sua taça vazia sobre a mesa. – Que generosidade. Ela, porém, está indisponível. Ai… – É casada? – Não. Mas está em um relacionamento sério. Aquilo a irritou. Será que Simon estava mesmo apaixonado ou era o fator


de indisponibilidade? As pessoas, sobretudo homens, sempre desejavam o que não podiam ter. Era só colocar um rótulo de tabu em cima e eles tinha que possuir aquilo. – Até ela dizer eu aceito, não estará indisponível. Precisa saber o quanto ela é importante para você, Simon. Se está disposto a abrir mão de outros relacionamentos, ela deve ser muito importante. Acorde, Simon, e sinta o cheiro do café. O que fará? Ficará sentado em um estado estranho de celibato… – Eu nunca mencionei celibato. – Simon tentou lançar um olhar soberbo sobre ela. Tawny revirou os olhos. – Ora, vamos… Se você não vai sair com uma mulher porque não quer ser injusto, então não está dormindo com ninguém. – Era alarmante o quanto aquilo a agradava. Então é claro que Tawny se esforçou ainda mais para pressioná-lo: – Vai icar orbitando pelo celibato por alguns anos ou até mesmo pelo resto da sua vida porque ela está em um relacionamento, mas não casada? O quanto você a deseja? – Com cada fibra do meu ser. A intensidade silenciosa dele fez Tawny sentir um arrepio na espinha e uma pontada no coração. Qual era o problema dela? Quem ele deseja e o quanto deseja nada têm a ver comigo. – Nesse caso, é hora de você ir atrás do peixe ou jogar a isca fora. – OBRIGADO PELO seu conselho ao apaixonado. Vou manter o “ir atrás do peixe ou jogar a isca fora”. Aquilo não era uma confusão? O objeto de afeição não correspondida, e portanto também de culpa intensa – a inal, ela era noiva de seu melhor amigo –, estava sentado do outro lado da mesa, banhado pela luz de velas, usando uma blusa sensual e short, e aconselhando-o a investir nela. Pelo menos, foi assim que Simon interpretou a charmosa expressão coloquial usada por Tawny. Ela encheu sua taça de vinho e também serviu a dele. – Bem, acho que você deveria mandar ver. O que tem a perder? O que ele tinha a perder se investisse nela naquele exato instante? – Nada, na verdade, além daquelas coisinhas como orgulho e autoestima. – É bem di ícil abraçar e se aconchegar a essa coisas. Ou saborear uma


taça de vinho ou um banho à luz de velas com elas também. Simon se esforçava para manter a expressão de diversão sarcástica ao mesmo tempo que, em seu íntimo, as palavras de Tawny brincavam em sua cabeça como instantâneos. A ironia de compartilhar uma taça de vinho com ela sob a luz de velas quase o matou. Ele era um total masoquista por participar daquela conversa. Diabos, era um masoquista por ao menos estar ali! – Mas uma taça de vinho acaba, cedo ou tarde; as velas por im se queimam inteiras; e a água da banheira esfria. Assim, talvez seja necessário fazer a escolha mais duradoura. – Só que a vida é passageira. O amanhã pode não chegar antes de o vinho parar de fluir e de a água esfriar. – Estou na companhia de uma hedonista? – perguntou ele, recordandose muito claramente das apresentações recentes a Mindinho e Beto Balanço, seus namorados sob encomenda. Tawny enfiou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – A vida é curta, e é uma pena desperdiçar oportunidades. Essa mulher pode ser o amor da sua vida, e você a está deixando escapar. E quem sabe? Ela pode sentir o mesmo por você. Ele era mesmo patético. Estava lisonjeado por ela não o considerar tão repugnante a ponto de ser incapaz de imaginar uma mulher atraída por ele. – Talvez ela apenas não saiba ainda. Ou pode ser tímida e estar com medo de lhe dizer. Simon gargalhou. Nada disso lhe vinha à mente num exercício de associação de palavras a Tawny. Tirando sua aversão ao escuro, ela nunca demonstrara nenhuma característica. – Não creio que tímida ou medrosa sejam fatores quando se trata da minha amada. Tawny apoiou o cotovelo na mesa e franziu os lábios, tamborilando um dedinho no canto da boca enquanto o espiava com atenção. Sua boca era mesmo adorável, farta, mas sem os preenchimentos de colágeno tão populares atualmente. – Bem, talvez seja algum tipo de amor cortês. – Ela estalou os dedos. – É isso! Você sabe, nobreza e tudo o mais. Cavaleiros só amavam suas damas de longe. Vai ver, você só está com medo de se declarar porque o amor não é de verdade. É possível que você não soubesse o que fazer com ela se de


fato correspondesse à sua atração. Tawny cruzou os braços como se tivesse resolvido um pequeno quebracabeça. A época da juventude de Simon, quando via a si mesmo como um cavaleiro arrojado, já tinham acabado fazia muito tempo. Não havia nada de cortês ou nobre no turbilhão de emoções que Tawny evocava nele. Simon ardia totalmente por ela. E já estava cansado daquela especulação. Era hora de dar im à conversa. Simon conhecia um jeito certeiro de matar o assunto e provar a Tawny o quão longe estava de suas percepções românticas. Ele trilhou o dedo pela borda da taça e sorriu para Tawny, do outro lado da mesa, oferecendo um lampejo da paixão obscura que fervia sob sua superfície. – Não sei nada sobre amor cortês. – Simon escolheu as palavras seguintes com cuidado, cruas e fundamentadas, para expor seu ponto de vista: – Eu sei que transaria com ela de maneira insana durante uma semana, se tivesse ao menos meia oportunidade. Tawny arregalou os olhos e engoliu em seco com força; no entanto, não desviou o olhar. – Ah… De maneira insana… por uma semana… Tudo bem, então. Certo. Talvez ele tivesse exagerado um pouco. – Desculpe se choquei você. Ela empinou o queixo. – Não estou nem um pouco chocada. Acho que toda essa paixão é… bem, quente. Não tenho certeza se há uma mulher na terra que não iria querer conhecer um homem com tanto desejo por ela a ponto de ele querer… – Fez uma pausa e enfatizou as palavras que ele proferira: – …transar com ela de maneira insana durante uma semana. Contanto que em algum momento dessa semana ele quisesse conversar um pouco e conhecê-la melhor em meio à maratona sexual. Longe de ser ofensivo, aquilo soou sexy e excitante quando ela devolveu as palavras. Especialmente quando pronunciou naquele tom baixo e adocicado, com um brilho no olho que falava além de interesse e paixão. Simon estava atolado na lama até os joelhos, mas ao que parecia não tinha bom senso suficiente para parar de prosseguir. – Eu nunca agi exclusivamente a partir de um estado de luxúria. O cérebro e a personalidade da mulher correspondem à metade do fator de


atração. Do contrário, eu iria desejá-la durante apenas alguns dias. E não me preocuparia com a parte insana. O sorriso maroto deTawny o destruiu. – Você é malicioso, Simon Thackeray. Aquilo parecia um lerte sexual perigoso, e Simon precisava pôr um im nele. E iria fazê-lo. Em breve. Simon se inclinou para a frente, atraído pelo calor nos olhos de Tawny, atraído por seu sorriso. – Talvez meu amor permaneça não correspondido até de inhar porque eu seja malicioso demais para amar. Ela se curvou adiante, o joelho roçou o dele, e o contato ondulou dentro de Simon. Um sorriso sedutor curvou a boca exuberante de Tawny. – Eu duvido disso. Você não sabe que toda essa malícia simplesmente leva as mulheres à loucura? Tudo o que ele sabia de fato era que ela o levava à loucura. Para além da cautela. – Está falando isso por experiência própria? – Na última vez que verifiquei, eu era uma mulher, então acho que sim. Havia algo nos olhos dela. Algo que dizia que Tawny sabia o quão perverso Simon podia ser, e ela gostava daquilo, apesar de todas as próprias limitações. O que era ridículo, pois ele fora muito cuidadoso ao limitar sua exposição a Tawny. Ele arqueou uma sobrancelha questionadora. Como se de repente Tawny tivesse percebido o que Simon enxergara em seus olhos, ela piscou, e aquilo evaporou. Tawny se recostou na cadeira, impondo uma distância entre eles que ia além de mero espaçamento. Graças a Deus um dos dois tinha algum bom senso. – O que você faz com toda essa energia reprimida? Deus do céu, que mulher implacavelmente curiosa! Não era nem um pouco di ícil acreditar que ela havia se trancado em um guarda-roupa. O que, aliás, era mais um motivo para ele ter se retirado da esfera da qual Tawny e Elliott faziam parte. Por um instante, Simon cogitou dizer que se masturbava muitas vezes, só para ver se aquilo a horrorizaria e faria cessar as perguntas, mas tal tática já falhara uma vez. E ele simplesmente não conseguia ser tão bruto. Assim,


optou pela verdade: – Eu corro. Muito. A essa altura devo estar oscilando na faixa de treinamento de maratona. – Ele riu de si. – E nunca subestime a e icácia do proverbial banho frio. Dito isso, um banho frio soava melhor em muitos aspectos. O suor escorria nele, e a pele de Tawny brilhava com uma ina camada de umidade. E ele era um animal doentio se até uma mulher transpirando lhe parecia sexy. – Eu não sabia que você era corredor. Não estou nem perto do treinamento para maratonas. Corro cinco vezes por semana. – Também é sexualmente frustrada, Tawny? – Já que ele ia levar a fama, era melhor deitar na cama logo de uma vez. – Não. Tenho um bumbum rechonchudo – disse ela com um sorriso atrevido que continha uma pitada de constrangimento. Simon conteve o protesto de que o bumbum dela era perfeito e longe de ser rechonchudo. Tawny continuou: – Podíamos correr juntos qualquer hora dessas. De algum modo, correr com ela para aliviar o estresse pela luxúriainduzida-por-Tawny parecia autodestrutivo e depravado. Simon gostava disso. – Talvez devêssemos mesmo. – Que tal amanhã? – sugeriu ela. Dependendo de quanto tempo levasse para a energia elétrica ser restabelecida, ele definitivamente iria precisar. – Está marcado o encontro, então. – Péssima escolha de palavras. – Eu não quis dizer encontro como em encontro. – Outro motivo pelo qual ele evitava icar perto dela. Seu cérebro parecia se transformar em nada mais do que fezes de rato rolando numa cabeça vazia quando Tawny estava por perto. Ela ergueu as sobrancelhas. A diversão diante da trapalhada verbal dele dançava nas pupilas dela, fazendo-a contrair os lábios. – Entendi o que você quis dizer. No outro cômodo, o celular dela tocou. Tawny arrastou a cadeira para trás, pedindo licença. Simon continuou na cozinha para lhe dar privacidade, e começou a limpar a mesa. Sem o zumbido da geladeira, do ar-condicionado e de todos


os ruídos associados à eletricidade, ele não pôde evitar ouvir a conversa, mesmo com o rádio ligado. – Sim, mãe, estou bem… Não, ele não está aqui. Ficou preso na galeria… Não, não estou sozinha. Um dos amigos de Elliott passou por aqui… Sim. Ele é fotógrafo… Não, eles não sabem quando vai voltar… Não. Nenhum sinal de pilhagens ou vandalismo, mas pode deixar, vamos icar em casa. – Ela baixou a voz: – Mãe, o conceito de impróprio aqui não é o mesmo que aí em casa. E eu preferiria não ficar sozinha… Sim, eu ligo mais tarde. Elliott voara para o Sul para conhecer os pais de Tawny depois do noivado, enchendo os ouvidos de Simon depois. Muito conservadora, muito sulista, muito adequada. Eram todos membros nobres de sangue azul de Savannah: o pai de Tawny era cirurgião, e a mãe, membro vitalício do clube de jardinagem. Eles almoçavam no country club. Foi necessário menos de um dedal de imaginação para imaginar que a mamãe Edwards censurara Tawny pela impropriedade de estar a sós em seu apartamento com outro homem durante um apagão. Deus me livre de a mãe dela ter escutado nossa conversa… E pelo menos a mãe ligou para ver como a ilha estava. Simon duvidava que ele ao menos passasse pela mente dos próprios pais. Achava-se fora do radar deles desde que saíra de casa. A quem ele queria enganar? Simon nunca fora registrado como ativo na telinha do radar deles. Tawny retornou à cozinha assim que Simon acabara de enxaguar e colocar as tigelas no escorredor. – Minha mãe – con irmou ela. – Meus pais viram na TV a notícia do apagão. – Percebeu a cozinha limpa. – Você limpou tudo! Se já não tivesse dona, Simon, eu ficaria com você para mim. As palavras provocadoras foram um punhal no coração dele. – Ah, mas há o Elliott, não é? – Simon usou um tom frio de propósito. – Sim, há o Elliott. – Tawny colocou o celular no balcão e se voltou para ele. – Mas isso me lembra uma coisa… exatamente por que você e Elliott combinaram de vir para cá esta noite?


Capítulo Quatro

SIMON CRESCERA em Nova York, e nunca vira um cervo de verdade encarando os faróis de um carro, mas, de repente, foi assim que se sentiu. Droga. Se ele tivesse usado o cérebro em vez de icar farejando atrás de Tawny como algum cão levado pela luxúria, teria previsto isso, teria previsto a pergunta. Como isso não aconteceu, ela o pegou, igurativamente, com a calça na mão. Simon não se sentia muito inteligente agora. – É meio que um mistério para mim. – Ele era péssimo mentiroso. – Ahã. Ela não acreditava nele. E ele podia esconder a verdade para protegê-la do que percebia ser egoísmo de Elliott, mas não podia mentir para Tawny de caso pensado. No entanto, como Elliott planejava lidar com aquele iasco iminente era um mistério para Simon. Tawny pegou o celular. – Vamos ligar para Elliott. Não é como se ele estivesse ocupado ou coisa assim, se está trancado na galeria sem energia elétrica. Simon cerrou as pálpebras. Tawny icaria arrasada ao saber o quão ocupado Elliott poderia estar no momento. Ela apertou o botão de discagem rápida e tamborilou os dedos no balcão. – Oi, Elliott. Está tudo tranquilo por aí? Que bom… Nada. Comemos pizza fria e frutas. Perguntei a Simon sobre o que você queria conversar esta noite. Pelo jeito, ele está tão no escuro quanto eu… Não, esse trocadilho não foi intencional… Então vamos conversar agora… Sei que você queria estar aqui, mas pode muito bem me contar por telefone por que estimulou minha curiosidade. Não me faça esperar mais. Você precisa satisfazer minha curiosidade. Estimulou… esperar mais… satisfazer. Ela falava desse modo com Elliott e ainda assim ele saiu com outra pessoa? Aquilo dizia a Simon tudo o que precisava saber sobre o amigo. Como Elliott não estava morto, devia mesmo ser gay.


– Sim. Ele está bem aqui. Tudo bem. – Tawny bufou e esticou o telefone para Simon. – Ele quer falar com você. Simon pegou o aparelho, relutante. Tawny plantou as mãos nos quadris e o encarou. Brilhante. Esqueça uma conversa em particular. Não que ele a culpasse. Tawny não tinha como não se sentir enganada. O instinto dizia Simon que ele não ia gostar do rumo que aquilo ia tomar. – Elliott? – Tawny quer saber sobre o que eu queria conversar. – Elliott soava horrorizado. Simon se recostou no balão e cruzou os pés. – Certo. – Não posso dizer pelo telefone – disse Elliott, como se Simon tivesse exigido que ele fizesse desta forma. Simon dirigiu um olhar para Tawny. – Não creio que você tenha escolha. – Tenho sim. Simon reconheceu o tom persuasivamente animado de Elliott. O que quer que fosse ocorrer, os instintos de Simon já estavam berrando não. – A escolha certa. Você diz a ela. Simon quase deixou o celular cair. – Não. – Sim. Quanto mais penso no assunto, melhor isso funciona. Talvez para Elliott. No dia em que o inferno congelasse e coisa e tal. – De jeito nenhum. – Ah, vamos lá, Si. Vocês dois já não se gostam. E sobre o que mais irão conversar? O que vocês têm para fazer, presos aí no escuro, um com o outro? Esse apagão poderia durar várias horas. – Sem chance. – Pense nisso. Seria melhor assim. Fazia só 12 horas que Simon declarara que nada que Elliott izesse iria comprometer a amizade deles? Estava repensando essa posição. – Você não conhece Tawny como eu conheço, Simon. Ela não vai desistir disso até um de nós contar a ela. Posso tentar enrolá-la com alguma coisa sobre os planos do casamento, mas quando ela descobrir a verdade, isso só vai deixar as coisas mil vezes pior. – Não vejo por que sua conversa não possa esperar.


– Estou dizendo, ela é sexy e doce, mas debaixo daquelas curvas delicadas e dos imensos olhos verdes ela é implacável quando quer alguma coisa. É uma flor de aço. Simon reconhecia aquela verdade. Ele havia experimentado isso em primeira mão quando Tawny cravou os dentes no assunto da vida amorosa dele. Cogitou bater a cabeça contra o balcão ou talvez contra o armário. Qualquer objeto sólido serviria. Será que havia jeito de essa noite icar melhor? Primeiro ele estava preso com uma mulher a quem desejava além da razão. Agora, a dita-cuja estava prestes a acuá-lo in initamente para receber a notícia que, sem dúvida, a arrasaria. E ele era o pobre-diabo para a dupla função. Não apenas estava na linha de fogo para levar o tiro como mensageiro, como também era o único ali para suportar as consequências da confusão? E, quando tudo estivesse dito e feito, ele iria ao inferno e voltaria se achasse que ela precisava dele. – Vou cuidar disso. – Simon, você é o melhor amigo que um sujeito poderia ter. – Conversaremos a respeito mais tarde. Aquilo não era por Elliott. Era por Tawny. Porque merecia mais que ouvir a verdade por telefone enquanto Elliott estava trancado com seu novo amante. Porque aquilo a deixaria despedaçada, mas ele iria lhe oferecer um ombro forte para chorar, e estaria ali para ela. – Certo. Agradeço. Serei eternamente grato. Deixe-me falar com Tawny por um minuto. Simon devolveu o telefone para Tawny. – Sim?… Ele vai?… Tudo bem. Fique em segurança aí e eu falarei com você depois. – Ela fechou o celular, encerrando a chamada. Pegou sua taça e a poliu. Colocando a taça vazia sobre o balcão, olhou para Simon, cheia de expectativa, um pouco da irritação anterior se demorando nos olhos e na boca. – Creio que você tem algo para me contar. A apreensão deu um nó no estômago de Simon. A sujeira proverbial estava prestes a atingir o ventilador proverbial. – Vamos para outro cômodo. É melhor que você esteja sentada. SIMON ESTAVA sério. Nada mais da teoria do “vamos todos pular na cama e


fazer um ménage à trois”, muito embora Tawny já soubesse que isso fora um engano. O que estaria conferindo aquele ar rígido e resignado à mandibula dele? E por acaso aquilo foi um lampejo de piedade nos olhos dele quando a encarou? A verdade a abateu. Tawny inspirou calmamente. Elliott estava morrendo. Ele havia recebido algum diagnóstico terrível, e os dois tinham resolvido dar a notícia a ela. Tawny era a pior mulher que já existiu, tendo sonhos eróticos com Simon e chafurdando em um festival particular de luxúria enquanto o pobre e corajoso Elliott encarava o espectro da morte sozinho. Simon se inclinou para a frente, apoiando os braços nos joelhos, os dedos entrelaçados. Ele voltou o rosto para ela. – Elliott é quem deveria estar lhe contando isto… Eu só aceitei vir para oferecer apoio moral… Não sei bem por onde começar. Tawny aprumou os ombros e se sentou mais ereta na ponta do sofá. Seria corajosa. – Há quanto tempo ele sabe? Simon parou de repente. – Há quanto tempo você sabe? – Bem, desde agora. Simon lançou um olhar questionador a ela. – Agora? – Eu imaginei, e Elliott pode contar comigo para apoiá-lo, mesmo que o casamento não aconteça. Ele poderia estar muito doente ou simplesmente não ter tempo suficiente para chegar ao altar. – Tawny, o que você acha que sabe? – Elliott está morrendo, não é? Do que se trata? Câncer? Quanto tempo ele tem? Elliott vinha agindo diferente de uns tempos para cá, mas pensei que… Simon ergueu uma das mãos, interrompendo-a. – Vamos recuar um pouco. Você acha que Elliott está morrendo? – Não está? Você parece a figura da morte. – Sempre me pareço com a igura da morte. – Simon suspirou. – Até onde sei, Elliott está saudável como um cavalo. Ufa! Tawny se sentou no sofá, lácida de tanto alívio. Contanto que Elliott estivesse saudável, nada poderia…


– Ele está saindo com outra pessoa. O quê? Tawny se levantou de um salto. – Desgraçado! – Ela o mataria. Sentira tanta culpa por causa de seus sonhos, enquanto Elliott se esbaldava com outra pessoa. – É alguém que eu conheço? – Acho que ele já foi apresentado a você. Demorou alguns segundos para Tawny absorver o ele direito em meio à névoa de choque e raiva. – Ele? Você acabou de dizer ele, como em “Elliott está saindo com um cara”? Simon fez que sim. – Foi isso o que ele me contou de manhã. – Um homem? Um homem! Fui largada por um maldito homem?! Outra mulher já seria ruim o suficiente, mas um homem?! Tawny nunca se sentira tão furiosa e humilhada em sua vida, além de traída. Ela sentiu a pressão quente das lágrimas se reunindo. Droga. Não icava zangada com tanta frequência, mas, quando acontecia, em vez de berrar e bufar, ela chorava. Era um horror. Simon balançou a cabeça. – Não acho que ele quer romper o noivado. Elliott só queria abrir o jogo. Ele diz que só aconteceu uma vez e acha que é bissexual. – Simon estava mais sério do que nunca. A frieza de Elliott a chocou. Ele não queria terminar? Que precioso… E aquilo alimentou a raiva dela. Tawny não tinha nada contra homossexuais, mas não iria se casar com um. Deu um puxão na aliança, que icou presa quando chegou à junta do dedo. Aquele detalhe inal a desequilibrou de vez. Tawny, a desgraça da família, mais uma vez conseguira fazer besteira. A ira jorrou em forma de lágrimas quentes rolando pelas faces. Ela puxou outra vez. En im conseguiu arrancar o anel. En iou-o nas mãos de Simon. – Não precisarei mais disto. – A última palavra terminou em um soluço. Ela estava tão brava que tremia. E choramingava. Simon deslizou pelo espaço que os separava. Tawny captou um vislumbre do rosto dele. Simon parecia sinceramente abalado. Tomou Tawny nos braços, colocando-a de encontro à muralha que era seu peito,


aninhando-a, ninando-a. – Por favor, não chore, Tawny. Vai ficar tudo bem. O severo, austero e sarcástico Simon lhe ofereceu consolo. Pronto, aquele homem que não gostava muito dela resolveu consolá-la, e passou um longo tempo acalmando sua raiva e seu pranto. Chorar quando ela icava furiosa se provara uma maldição de constrangimento desde a infância. Aquilo era tão humilhante quanto ser inadequada o suficiente a ponto de Elliott buscar uma companhia masculina. Ela deveria ter algum orgulho e se afastar, mas de algum modo era menos constrangedor simplesmente icar ali onde estava, de encontro ao peito de Simon. Além disso, era um belo peito. – Que irônico eu ter oferecido conselhos para sua vida amorosa quando a minha ia descarga abaixo, e eu nem mesmo tive bom senso su iciente para perceber isso – disse ela contra a camisa dele. – Que patético. – Tawny, nunca se re ira a si mesma como patética. – Simon lhe abarcou o rosto entre as mãos e inclinou sua cabeça até ela o encarar. Em seguida, enxugou-lhe as lágrimas com os polegares. A pele dela formigava sob o toque dele. A perna vestida com jeans pressionava sua pele nua. – Não há nada remotamente patético em você, Tawny. É uma mulher linda e sensual. Simon era um ótimo mentiroso, ela decidiu. Tawny sabia que seus olhos e seu nariz estavam inchados de chorar. Algumas mulheres choravam de um jeito bonitinho. Ela não era uma delas. Estava bastante certa de que não se achava no seu melhor visual. E além disso, havia aquele probleminha de Elliott ter en iado sua varinha… de initivamente no lugar errado. – Sim, sou tão linda e sensual que transformei meu noivo em um gay. – Neste momento, estou muito bravo com Elliott. E, muito embora ele seja meu amigo, é um idiota. – Simon bateu desajeitado no ombro dela. Pobre Simon. Não era de admirar que ele estivesse tão relutante em abordar o assunto. – Já foi ruim o bastante ele ter envolvido você nisso tudo. Não precisa dizer isso, Simon. E não se preocupe, eu sou chorona. Quando me zango, eu choro. Uma peculiaridade pouco encantadora. – Tawny limpou as últimas lágrimas. – Elliott representa todos os idiotas.


Ela fungou. Aquele era o homem que ela vira no dia em que ele a fotografara, o homem que vislumbrara detrás de uma muralha de reservas. Simon sabia mesmo ser um amor. – É muito nobre de sua parte dizer isso. – Eu não tenho um único osso nobre no corpo. Estou declarando o óbvio. Você é linda e sensual, e Elliott é um idiota – reafirmou Simon. Tawny abriu a boca para argumentar, e Simon a interrompeu – Talvez isto a convença. – Ele baixou a cabeça e a beijou. O SABOR de Tawny era exatamente igual a ela: fruto proibido. Doce, quente, entorpecente, viciante. Simon sentiu a hesitação e a surpresa dela, sentiu o gosto da salmoura das lágrimas. Simon interrompeu o beijo, afastando-se da tentação de pilhá-la e explorá-la. Passou a mão pelo cabelo. – Isto foi passar dos limites. Desculpe-me. Tawny balançou a cabeça. – Não. – Ela envolveu o pescoço dele com seus braços e puxou-lhe a cabeça para si. – Por favor, não se desculpe. O hálito dela o aqueceu. Os lábios carnudos se moldaram aos dele, e a fantasia ganhou vida. Tawny o beijou; foi quente e intenso. Simon sabia que ela estava furiosa com Elliott. Sabia que ele era uma vingança. Sabia que devia ir embora. Mas ao mesmo tempo que sua cabeça lhe dizia uma coisa, o coração dizia outra. Que Deus o ajudasse, pois retribuiu o beijo. Seis meses de paixão reprimida se desencadearam dentro dele. Simon havia convivido com as fantasias. E agora envolvia a personi icação em carne e osso daquelas fantasias em seus braços. A língua dela sondava os lábios dele, e o último vestígio de resistência o abandonou. Simon enterrou as mãos no cabelo dela e a puxou para si. Tawny fazia pressão contra ele, a raiva, a frustração quase palpáveis. E então aquilo se foi, sendo substituído por alguma coisa menos volúvel… e muito mais perigosa. Ela se acalmou, a boca agora oferecendo mais do que tomando. Oferecendo. Ele aceitou e retribuiu. Simon deslizou as mãos do cabelo dela para a seda cálida dos ombros nus. Tawny gemeu de encontro à boca dele e estremeceu. A razão tirou férias. Simon afundou de costas no sofá, e Tawny o seguiu,


deitando-se de encontro a ele, entre as coxas musculosas. Os quadris dela pressionavam a ereção que ele era incapaz de negar. Os dedos de Tawny penetraram o cabelo dele enquanto Simon explorava cuidadosamente a tepidez quente da boca sensual. Ele passava as mãos pelas curvas das costas dela. Adoraria fotografar a curva adorável de seu pescoço, desnudada pelo cabelo preso. Simon a tocava com a reverência de um artista e a valorização de um homem. A intensidade do beijo dela o chocou. Tawny se pressionava de encontro à ereção dele em súplica, e Simon gemia de encontro à boca delicada. Simon enchia as mãos com a fartura arredondada do traseiro dela e a puxava com mais força para si. Tawny deslizou uma das pernas para cima de Simon, capturando a coxa dele, se abrindo para ele. Simon correu os dedos pela seda das pernas dela, as juntas roçando o meio da calcinha. Ai, Deus do céu, ela estava úmida! – Simon… – gemeu Tawny –, você sempre me… Ela forneceu a ele, com essa frase, uma veri icação de sanidade ativada por voz. Simon recuou e se apoiou sobre um cotovelo, embora Tawny permanecesse entre suas coxas. O que diabos ele estava fazendo? Encontrava-se a um segundo de deslizar o dedo por sob o elástico da calcinha dela e tocá-la intimamente. Simon tomou fôlego e buscou algum grau do autocontrole que se perdera instantes atrás. Tawny permanecia em cima dele, o corpo pressionado de encontro ao de Simon. A excitação dela se misturava ao perfume, era um aroma inebriante. – Desculpe. – Mas o quanto Simon lamentava se continuava com uma das mãos na deliciosa parte de baixo dela? Afastou a mão e esfregou a testa. Tawny fugiu para a outra ponta do sofá. Simon se sentou, sentindo falta da pressão dela entre suas pernas, como se uma parte vital sua tivesse sido amputada. Ela ainda tinha lágrimas pendendo dos cílios. A paixão pesava suas pálpebras. Os beijos dele haviam deixado seus lábios inchados e vermelhos. – Sinto muito. – Simon tornou a se desculpar. – Eu não queria… isto não devia ter… Perdi o controle. – Por favor, não peça desculpas, Simon. Você não forçou coisa alguma para cima de mim. Eu deitei em cima de você. – Ela desviou o olhar,


deixando a linha tênue do nariz e a curva da bochecha em um relevo sombrio. – Deve estar me achando uma ordinária. Ele esfregou a nuca, arrependido. Nutria o máximo respeito por ela… ordinária nunca lhe cruzara a mente. Simon a beijara para mostrar a Tawny o quanto era desejável, porque dizê-lo não iria funcionar. Em vez disso, ele comprometera ainda mais a autoestima dela. – Nunca. Você estava chateada, eu passei dos limites, e não vai acontecer de novo. Jamais tive a intenção de me aproveitar de você. Ela balançou a cabeça. – Você não se aproveitou de mim. Fui eu que passei dos limites. – Tawny tocou a mão dele, e então recuou num tranco quando percebeu o que acabara de fazer. – Não quero que ique constrangido, Simon. Não vou me jogar em cima de você outra vez. Simon quase comentou que ela devia fazer uma boa ideia do quanto ele havia gostado, já que Tawny estivera cavalgando sobre a crista de sua ereção. Aquilo o deixou excitado, mas de modo algum representou um problema. Seu corpo berrava que ela podia se jogar em cima dele a qualquer dia, de qualquer jeito, a qualquer hora. Tawny se encolheu, posicionando um dos pés sob o corpo. Ela alisava o encosto do sofá com os dedos. – Você sabia sobre Elliott? Elliott. Muito melhor do que falar sobre aquele beijo. – Não. Em nenhum dos aspectos. Ele nunca nem ao menos deu uma pista sobre ser gay ou sobre estar interessado em alguém que não fosse você. Embora talvez os sinais tivessem estado lá, mas Simon não os notou por ser obtuso demais para isso. Elliott era um desgraçado por traí-la e envolver Simon na história, mas Simon acreditava que Elliott se importava com Tawny. Agora ela se sentia magoada a traída, mas ainda devia se importar com Elliott. Como amigo, era papel de Simon se assegurar de que nem Tawny nem Elliott izessem nada precipitado a respeito do futuro dos dois, algo do qual se arrependeriam mais tarde. Era assim que um homem honrado se comportava. Ela bufou. – Sinto-me um pouco menos estúpida por você também não ter percebido nada. – Achei que Elliott estivesse brincando quando me contou.


– Bem, eu sei que ele nunca iria orquestrar um blackout, mas que conveniente… Assim Elliott poderia prender você para me contar, aquele tratante desgraçado! Simon conteve uma risada. Tawny de initivamente tinha um vocabulário bem variado. Nunca ia querer aquela mulher com raiva dele. – Sei que está magoada, Tawny. Eu também icaria. Mas de manhã irá se sentir diferente. Você e Elliott podem resolver isso. Ela cruzou os braços, gesto que fazia coisas incríveis com seu decote já incrível, e lançou um olhar altivo para ele. – Por que não telefona para ele? – arriscou Simon, mais uma vez. Simon passara tempo su iciente com mulheres para saber que conversar, desabafar era importante. E Elliott, que evitava con litos em todas as oportunidades, não haveria de iniciar uma conversa. – Fale com Elliott. Eu vou para o quarto para lhe dar um pouco de privacidade. Tawny ergueu a mão com firmeza, o nariz empinado. – Isso não vai acontecer. Não tenho nada para dizer a Elliott. Bem, talvez uma coisinha ou duas, mas não enquanto ele estiver lá, com seu novo amante. – Ela balançou a cabeça. – Não, obrigada. E nem mesmo quero pensar no que eles devem estar fazendo agora. – Somos dois, então. – E o que há para se dizer senão que ele é um traidor? Espero apenas que Elliott não tenha me passado nenhuma doença que pegou enquanto transava por aí… – Ele disse que foi sexo seguro. – Espero que não tenha mentindo a respeito disso. – Não. Eu perguntei a Elliott sem rodeios. – Que alívio. Então, além de obter satisfação por xingá-lo, não tenho mais motivos para falar com Elliott. Não tem volta, e não há como seguir em frente. Estamos jogando em times diferentes agora. Eu tinha umas dúvidas há algumas semanas, e isso resolveu tudo. Ela teria tido dúvidas, mesmo? O ceticismo de Simon devia ter icado evidente. – Eu sei o que está pensando, Simon. Claro que é um jeito conveniente de salvar minha reputação, mas é verdade. Desde que comecei a ter… – Tawny parou, como se quase tivesse revelado algo que não deveria. – Bem, desde que comecei a pensar duas vezes. E eu vinha tendo uma sensação


crescente de que Simon tentava me moldar para ser o que ele queria que eu fosse. Elliott dissera brincando certa vez, durante um encontro em casais com Simon, que tinha melhor senso de estilo do que Tawny. Simon também recordou de outro comentário, de que Elliott precisava levá-la às compras. Nas duas ocasiões, Simon achou que Elliott passara dos limites. Simon gostava do senso de estilo dela. Não sabia muito bem o que dizer. – Elliott tem ideias muito específicas. – Sei. Acredite, Simon, meus pais têm tentado me moldar por tempo su iciente. Eu reconheço os sinais. Independentemente disso, Elliott e eu somos passado. O que deixava Tawny livre. Simon, porém, continuava limitado pelas fronteiras da amizade.


Capítulo Cinco

SERÁ QUE Tawny poderia ter deixando mais claro do que se segurasse um cartaz convidando-o a beijá-la outra vez? E mais uma vez. E então ir além. Recomeçar de onde pararam, com dedos roçando sua calcinha úmida… Eles desejavam um ao outro, isso era óbvio. Simon sentira a roupa íntima úmida dela, e Tawny experimentara a ereção dura como rocha dele. E ela acabara de dizer com todas as letras que não tinha mais futuro com Elliott. O cabelo de Simon estava arrepiado no lugar onde Tawny correra seus dedos. Ela gostava disso, porque aquilo o fazia parecer muito menos intimidador e provava que era humano. – As pessoas dizem e fazem muitas coisas que não são verdadeiras quando estão com raiva – comentou ele em tom apaziguador. Será que aquilo era uma insinuação de que ela era irracional e deveria fazer concessões ao pênis errante de Elliott? Ora… Simon estava muito em contato com o pensamento racional. – Não estou com raiva. Simon a encarou. – Tudo bem. Talvez eu esteja um pouco furiosa porque ele me traiu e por ter sido com um homem. – Tawny se encolheu por dentro, sentindo-se gorda, feia, carente e indesejada. – Como posso ao menos competir quando não tenho o mesmo equipamento? Simon balançou a cabeça, um toque de raiva marcando seu rosto e o gesto. – Você não entende… Por mais di ícil que seja acreditar, não é você o problema. Fácil para ele falar. – Alguma namorada sua já confessou ter descoberto sua lésbica interior depois de transar com você? – Hum, não… – Achei mesmo que não. Não acha que isso poderia fazê-lo se sentir um pouco de iciente? Como se seu equipamento não fosse páreo ou tivesse um


erro grave de operação acontecendo? Simon pareceu um homem diante de um pelotão de fuzilamento. – Sei que a sensação é essa, mas não é porque há um problema com você, Tawny. Elliott é quem tem um problema. E eu, com certeza, gostaria que ele tivesse falado comigo antes de fazer algo estúpido que arruinasse o relacionamento com você. A veemência e aparente reprovação ao comportamento de Elliott a surpreenderam. Em geral, estando certos ou errados, os homens eram unidos. E Tawny sempre sentira que Simon não gostava dela. Assim, a reação dele a surpreendeu duplamente. Tawny pegou um exemplar da People no revisteiro de bambu e se abanou. – Estou surpresa por você não achar que é o dia de sorte dele por ter conseguido se livrar de mim. Simon sentou-se ereto. – Lamento por você ter se enganado assim em relação às minhas atitudes. O quê? Como se ela fosse uma diaba neurótica que interpretara mal o comportamento amigável dele? Tawny estava furiosa, com calor e suando. Simon escolhera o dia e a garota errados para vir com aquela bobagem de “tenho mais virtudes que você”. Ela icou de pé, apoiando um joelho no sofá, e plantou as mãos nos quadris. – Opa! Pode parar. Você lamenta por eu ter interpretado mal suas atitudes? Se vai pedir desculpas, faça direito. Se não, poupe seu fôlego. Mas nem mesmo sonhe em me oferecer algum pedido de desculpas indireto. Simon teve a decência de parecer um tanto envergonhado, mas ainda arrogante. E muito, muito sensual sob a luz da vela bruxuleando da mesinha ao seu lado. – Você está certa. Agi como um idiota, e ainda estou agindo como tal. Aquilo a surpreendeu. Mas en im, Tawny nunca sabia direito o que esperar de Simon. E isso não mudara. – Não o chamei de idiota. Não exatamente. Bem, talvez eu tenha insinuado isso. – Estava farta de todas as tergiversações. De que adiantava? – Vamos direto ao ponto, sim? Você nunca gostou de mim. Mal se esforçava para ser civilizado comigo, e eu nunca soube o motivo. Naquele dia em que você me fotografou, achei que foi diferente… Eu


pensei que… bem, não importa. Sou crescidinha, e depois de descobrir que meu noivo prefere homens, não acho que as coisas podem icar piores. Desse modo, enquanto estamos sentados aqui sem mais nada para fazer, por que não esclarece as coisas, Simon? Diga-me por que nunca me suportou. Dizem que confessar faz bem para a alma. – Eu não acho que… – Ah, qual é, Simon? Deixe disso. Há algo na escuridão da noite que incita a ousadia. Você sabe como é. Pensamos coisas nas quais nunca pensaríamos à luz do dia. Dizemos aquilo que jamais diríamos em outra ocasião. É incrível, mas, de algum modo, tudo isso parece certo quando está escuro. O beijo quente entre eles – a língua de Tawny na boca de Simon e as mãos dele no traseiro dela, puxando-a mais de encontro à ereção – ainda permanecia entre os dois. Ela via isso no rosto dele. – Nós dois sabemos que eu nunca tive coragem de perguntar isso antes e provavelmente não terei para repetir a pergunta. Na verdade, depois desta noite creio que nossos caminhos não tornarão a se cruzar. Portanto, vamos ousar na escuridão e ter uma conversa de verdade – disse ela. A ideia de não ver Simon de novo era bem mais inquietante que a possibilidade de não tornar a encontrar Elliott. Tawny estava al inetando Simon, mas era melhor que se jogar em cima dele. O que ela realmente queria fazer era se perder nos braços dele, sentir as batidas pesadas do coração de Simon junto ao seu, saborear o calor da paixão dele, chafurdar no desejo que a deixava ávida, úmida e sentindo-se desejável. Tawny ansiava por descobrir em primeira mão se a paixão real entre eles era tão potente e incrível como aquela de seus sonhos. – Se nossos caminhos não vão mais se cruzar, que diferença faria? – argumentou ele. A luz oscilante pregava peças nela. Por um breve segundo Tawny poderia jurar ter visto desânimo nos semblante de Simon. – Porque isso vai me incomodar até eu ter uma resposta. Meu apelido quando criança era buldogue, porque eu não conseguia largar nada. O motivo de você não gostar de mim vai icar atormentando o fundo da minha mente, como um negócio pendente, até, daqui a dez anos, eu precisar caçar você e exigir uma resposta, de modo que eu possa parar de tomar antidepressivos.


Simon franziu a testa, confuso. – Está tomando antidepressivos? Tawny sorriu para ele. É meio esquisito tentar encantar um homem para convencê-lo a dizer por que não gostava de você. Mas nada a respeito dos sentimentos que Simon despertava nela era normal ou confortável. Entre Simon e Elliott, a jornada de autodescobrimento havia tomado um rumo abrupto. – Não, mas se você não me der uma resposta, isso vai me enlouquecer, e terei de começar a tomar. Então, vá em frente e livre-se disso. Simon balançou a cabeça, porém pareceu relaxar, alongando o braço pelo encosto do sofá. Ele tinha belos braços. A quantidade exata de músculos e um punhado de pelos escuros. A quem ela tentava enganar? Tudo nele icava registrado em seu sexômetro. E, uhuuu, ela não precisava mais se sentir culpada por causa disso! Podia entregar-se completamente à luxúria sem nem mesmo uma pontada na consciência. – Mais alguém na sua família se comunica deste jeito, Tawny? – Não. – Ela riu e jogou a bola de volta para ele: – Mais alguém na sua família tenta se esquivar do assunto enfiando outro tópico na conversa? Simon sorriu, e uma dose saudável de luxúria livre de remorso a atingiu. – Não. Eles simplesmente não conversam. Aquele era o máximo que Simon já revelara sobre sua família, e ela estava curiosa de saber mais. – Britânicos emburrados? – Algo assim. E a cabeça deles é cheia de artefatos e civilizações antigas. De acordo com Elliott, o pai de Simon era curador de um museu, e a mãe, professora de arqueologia; ou talvez de antropologia. – Eles consideram o mundo moderno uma espécie de inconveniente. Foi necessário um nanossegundo para Tawny sentir a solidão do garotinho que sempre pairava na periferia da atenção dos pais. Tawny sabia com a mesma certeza que tinha do próprio nome que Simon fora uma espécie de inconveniente também. Ela revelou: – Eu não fui uma inconveniência, mas sempre uma decepção. – Nunca disse que fui uma inconveniência. – Não precisava ter dito.


Simon inclinou a cabeça para o lado. – Como é possível seus pais considerarem você uma decepção? Tudo bem. Então Simon tentava desviar o foco da conversa de sua pessoa. Mas parecia genuinamente confuso pela a irmação de Tawny de ter decepcionado o dr. e a sra. Carlton Jonathan Edwards III. – Fácil demais. Não sou exatamente a empreendedora que minha irmã Sylvia é… magna cum laude da Universidade de Yale e membro em ascensão do tribunal de Savannah. Como num tique nervoso, Tawny começou a girar a aliança no dedo e percebeu que não estava mais lá. A unha arranhou o dedo nu. – Betsy, minha irmã caçula, se casou com o ilho de um dos sócios de papai. Ela e Tad têm uma casa linda em Wilmington Island, em um prestigiado condomínio fechado. Eu? Não sou tão inteligente quanto Sylvia nem tão re inada e graciosa como Betsy. Falo demais, sou assertiva demais. Graduei-me em administração, porém ganho a vida planejando eventos. Cometi o pecado de initivo de ir embora de Savannah, na Georgia. Quando voltei para casa com Elliott, eles icaram encantados, embora ele não fosse sulista. Agora ficamos sabendo que é gay. Ela estava se saindo melhor do que o esperado naquela situação. E tudo enquanto expunha todos os seus defeitos para averiguação… – Ah, sim, e Sylvia e Besty puxaram a meus pais, que são altos e magros. Graças aos genes recessivos, puxei à minha avó Burdette, baixinha e com traseiro grande. – E acrescente falar demais e dizer a coisa errada na lista. Por que diabos ela mencionara seu traseiro imenso? Simon cruzou os braços, a força concentrada no músculo esguio, sinuoso. Ele nivelou um olhar firme em Tawny. – E você tem certeza de que quer a verdade, aqui, no escuro? Oh-oh… Algo no tom dele a fez se lembrar de Jack Nicholson no ilme Questão de honra, assegurando a todos que não conseguiriam aguentar a verdade. Tawny pedira por isso, mas agora não tinha tanta certeza assim de querer. No entanto, Tawny nunca fugia de nada, nem en iava a cabeça na areia. Não iria começar a fazê-lo agora. – Totalmente. – Se é mesmo assim que seus pais se sentem, tudo o que você precisa fazer é superar. Largar essa festa de autopiedade e enxergar as coisas como de fato são. Você diz que planeja eventos como se fosse uma


conquista menor. Você é uma organizadora de eventos para um escritório de advocacia com 150 advogados ativos. De acordo com Elliott, realiza um trabalho incrível de planejamento, Tawny, e executa uma in inidade de funções. Isso requer uma tremenda organização e capacidade de negociação. Ela abriu a boca para dizer que tinha uma assistente, mas Simon se antecipou erguendo a mão. – Deixe-me terminar, e então o espaço será seu. Acho que você veio para Nova York para fugir da censura de seus pais, mas pode muito bem fazer as malas e voltar para casa se pretende continuar a se enxergar através dos olhos deles e se julgar sob um padrão mítico. Simon abrandou o tom: – Nunca será livre para ser você mesma até aceitar e gostar de quem é. Não sei como suas irmãs são, e não me importo. Seu corpo deixaria a maioria dos homens de joelhos. Qualquer homem com meia dose de testosterona iria dizer que você tem o traseiro perfeito. Eu gostaria de achar que os homens não são tão super iciais a ponto de se apaixonar pelo seu traseiro e se esquecerem de todos os seus outros atributos e qualidade óbvios; mas garanto que qualquer um iria amar seu bumbum. Ele seria capaz de levar um sujeito à loucura. Bem, era a vez dela de falar, e Tawny não sabia o que dizer. Simon tomara a palavra e dissera muito. E talvez estivesse certo. Ela teria se mudado para a Big Apple para se livrar dos limites e das restrições da aristocracia de Savannah, mas ainda se media de acordo com os padrões? E quanto de sua atração por Elliott e seu noivado subsequente tinham a ver com a necessidade de receber a aprovação evasiva deles? Tawny pensaria a respeito disso tudo. Mais tarde. Agora, seu ego frágil e ferido pelo noivo que sucumbiu ao charme de um homem, se agarrava à parte que dizia que seu corpo deixaria qualquer um de joelhos e que seu traseiro o levaria à loucura. – Mesmo? À loucura? Simon arqueou uma sobrancelha para Tawny como se para dizer que sabia de onde ela estava vindo, e então sorriu-lhe; o primeiro sorriso que Tawny recebera dele que de fato chegara aos olhos. A respiração dela icou presa na garganta. Mesmo agora, o sorriso de Simon não o englobava totalmente. Ela sempre tivera a sensação de uma parte dele ser fechada, como se Simon mantivesse um segredo muitíssimo


bem guardado. – Pelo menos, à distração. Em um breve espaço de tempo, a autopercepção de Tawny mudava drasticamente. O jeito como enxergava a si mesma começava a se modificar. Talvez tivesse começado com os sonhos dela com Simon e sua reação a ele esta noite; o jeito como se enxergava desde que descobrira a in idelidade de Elliott; o modo como Simon a retratava em relação a seus pais. Durante uma janela temporal muito curta, o mundo dela se deslocara e se alterara, deixando-a perdida. Talvez o último ano em Nova York tivesse sido um aquecimento, e o mais perto que Tawny estivera de descobrir seu verdadeiro eu tivesse surgido nos últimos minutos. E aquilo entre ela e Simon estava icando real. Tawny tivera um vislumbre do verdadeiro Simon quando ele a fotografara para Elliott. O que Tawny veria em si agora, se ele fosse fotografá-la de novo? Ela não queria que ele voltasse a recuar. Não queria sonhar com Simon esta noite. Queria o homem de carne e osso em sua cama. Uma ideia começou a tomar forma. Simon icava tão mais acessível quando estava atrás da câmera… Se Tawny pudesse convencê-lo a fotografá-la, ela também teria uma boa chance de levá-lo para a cama. – Simon, você faria uma coisa por mim? – Depende. Do que se trata? Ah, o sempre cauteloso e sempre reservado Simon não estava mais tateando em um limbo de escuridão. – Estou mais do que disposta a pagar a você por isto. Um sorriso malicioso fez o coração dela trovejar. – Você tem toda a minha atenção agora. Havia algo de obscuro e sensual sob o tom de gracejo divertido na voz dele, algo que enviou uma onda de desejo por Tawny. Atenção era bom para começar, mas ela definitivamente queria mais. – Você me fotografaria enquanto esperamos a luz voltar? Não para Elliott, mas para mim, desta vez? – NÃO ESTOU à venda de aluguel – disse ele. Concordar em fotografar Tawny seria um ato combinado de loucura e desespero.


– Ah… – A decepção dela foi genuína. A quem ele queria enganar? A realidade era que, para Simon, fotografála seria uma doce tortura. Fazer amor com Tawny usando a câmera era um substituto lúgubre para tocá-la e prová-la de fato, porém bem mais seguro. E, no fundo, ele seria incapaz de negar qualquer coisa a ela. Simon lhe daria a lua se pudesse. – Mas vou fazer de graça. Tawny balançou a cabeça, soltando algumas mechas do cabelo que de pronto roçaram sua bochecha. Ela as afastou. – Não. Insisto em pagar. – Con ie em mim. Sou um desgraçado egoísta. Você é muito menos propensa a chorar diante de uma câmera. Isso não é gratuito, é autopreservação. – Eu só choro quando estou de fato furiosa. Então você estará seguro, a menos que me deixe brava. – Ela sorriu. – Começo a achar que você não é de jeito nenhum um desgraçado egoísta, mas que essa é a imagem que gosta de projetar. – Semicerrou os olhos para ele. – Então façamos uma troca. Eu planejo uma festa para você um dia. – Com certeza. – Certo. Simon só tinha um amigo. Elliott. E não estava com vontade de dar uma festa para ele nesse instante. – Ou eu poderia planejar algo mais particular, para você e sua amada, quando você resolver abordá-la – ofereceu Tawny, como se tivesse lido a mente dele. – Você pretende mesmo me ajudar com minha vida amorosa fracassada, não é? – Eu poderia armar algo muito legal e romântico. Você deveria mesmo se aproximar dela, Simon. Tem tanto a oferecer a uma mulher… – Eu já concordei em fotografar você. Mentiras descaradas não são necessárias. – Simon riu para encobrir o palpitar do coração. Tawny sorriu e o pegou totalmente de guarda baixa quando jogou uma almofadinha nele, que quicou em seu peito. – Talvez você precise de uma pequena dose da sua verdade dura. Quem quer que seja essa mulher maravilha, seria muito sortuda por ter você. Acho que está escondendo um sujeito muito legal detrás da sua indiferença, Simon. É um cara inteligente, muito engraçado vez ou outra, talentoso, sensual, e vou dar muitos pontos no quesito beijo. Ele não sabia o que diabos dizer.


– Está bem. – Pelo menos pense nisso – disse ela. – Resolva que tipo de noite você gostaria de ter com seu único e verdadeiro amor. Aposto que se a chamar para sair ela dirá “sim”, e eu cuidarei do resto. Tawny o encarava, da outra ponta do sofá, como um pedaço de fruta delicioso porém fora do alcance. Bem, infelizmente mais perto do alcance dele do que era confortável. E Simon não precisava pensar demais no assunto. Ele iria querer algo similar ao que tinha agora. Luz de velas. Uma garrafa de vinho. Ela. Ele. Música suave e sedutora. Simon icaria sentado em uma poltrona, e Tawny estaria um pouco além de seu alcance; e tiraria as roupas devagar até ficar esplendidamente nua. Ela se aproximaria, o su iciente para Simon tocar o veludo de sua pele, abarcar a plenitude de seus seios, colher o orvalho de seu desejo, inalar o perfume da pele e da excitação dela… Simon se afastou do precipício de luxúria onde quase pulara de cabeça. – Prometo que pensarei no assunto. – É só me avisar quando vai querer. – Claro. – Simon se levantou do sofá e foi até seu equipamento, armazenado do lado da porta. – Agora que temos um acordo, qual é o seu cômodo favorito? Seu lugar predileto? Onde passa a maior parte do tempo? Ele pegou a câmera e começou a encaixar as lentes. Ficou relaxado durante a tarefa rotineira, satisfeito por se concentrar em algo tangível, algo além de seus sentimentos por Tawny. Ela hesitou. – Este sofá é meu local favorito. Simon não acreditou. Ela pensou demais na resposta para levá-lo a crer nela. Ele a itou, do outro lado do cômodo iluminado por velas. Ela estava empoleirada sobre as pernas dobradas, apoiando os braços no encosto do sofá, encarando-o de volta. – Qual é, Tawny? O que aconteceu com aquela conversa de honestidade na penumbra e tudo o mais? Vamos tentar de novo. Qual é o seu lugar favorito no seu apartamento? Ela ergueu um pouco o queixo. Ah, aquela era a garota dele… – A banheira. É antiga, com pés de metal. Ótima para ficar imersa. Clique. Uma foto instantânea na cabeça dele. Tawny, o cabelo preso no alto da cabeça, o vapor subindo, a pele reluzente. Simon engoliu em seco.


– E seu segundo lugar favorito? Lógico que Tawny não deixou de notar a rouquidão na voz dele. Mas, diabos, Simon era humano! – O quarto. Apenas ligeiramente mais seguro que a banheira, com a imensa cama marquesa; mas pelo menos a nudez não era garantida. – E meu local menos favorito é a cozinha. Não gosto dela, nem desta sala sem janelas. Parecem claustrofóbicas. – Sendo assim, vamos fotografar no seu quarto. – Ele se esforçou para adquirir um tom profissional. Ela havia encontrado a solução perfeita para o problema. Ao fotografá-la, Simon se evocou o fotógrafo envolvido em uma sessão de fotos, em vez de o Simon Thackeray obcecado por Tawny Edwards. – Quero trocar de roupa, Simon. Estou com calor e melada de suor. – Tudo bem. Fique à vontade. Vou terminar de arrumar meu equipamento. – Não demoro. – Ela pegou uma vela e hesitou. – Você se importaria… hum… de me acompanhar até o quarto até que eu acenda as velas de lá? Pois é, ele as apagara mais cedo. – Odeio entrar em um cômodo escuro. Tawny tinha grandes problemas com a escuridão. E, por sua vez, Simon tinha grandes problemas em icar muito íntimo nos relacionamentos. Ele sabia disso. Sobretudo depois que uma de suas namoradas o acusara disso antes de abandoná-lo. Todos tinham suas neuroses para tolerar. – Claro. Vou guiar o caminho, assim você não precisará entrar no quarto sem iluminação. – Obrigada, Simon. A voz de Tawny, com seu sotaque sulista adocicado e arrastado, deslizou sob a pele dele. Isso foi ridículo, na verdade, pois o olhar dela fazia parecer que Simon acabara de matar dragões para salvá-la. Ainda mais ridículo foi como aquilo o fez sentir-se bem. – Disponha, Tawny. Segurando uma vela imensa, Simon abriu caminho, ciente da presença dela bem perto detrás de si. Infelizmente, para Simon, ele agora sabia que a boca de Tawny tinha um sabor delicioso, que as curvas dela se encaixavam no seu corpo, como se ela tivesse sido feita sob medida para ele. Pouco antes de chegar ao quarto, Tawny colocou a mão nas costas dele,


de leve. O toque dela zumbiu através dele. – Espere um minuto, Simon. Vamos parar perto do banheiro. Uma bela toalhinha fria molhada na pele seria o paraíso agora. Aposto que você vai querer uma também. Que tal um bom banho gelado? Mas ele icaria satisfeito com uma toalhinha úmida. – Claro. Simon adentrou pela porta à esquerda, a vela iluminando o cômodo retangular com uma janela alta. Abaixo dela, uma banheira antiga com pés de metal e uma cortina circular toda franzida para um lado. Um espelho acima da pia refletia a luz dele e iluminava o banheiro. Simon respirou fundo quando o quadril e o seio de Tawny roçaram na lateral do seu corpo, os dedos deslizando pelas costas enquanto ela passava por ele naquele espaço apertado. – Desculpe – murmurou ela. – Sem problemas. Tawny colocou a vela votiva em uma pequena prateleira ao lado da pia. Toalhas densas e fofas, e toalhinhas de mão cuidadosamente dobradas, se encontravam dentro de um armário aberto. Ela pegou duas toalhinhas da pilha e as colocou sob a torneira gelada aberta. Ele esperava ao lado da pia, próximo à porta. Tawny espremeu o excesso de água das toalhas e entregou uma a ele. Simon a passou pelo rosto quente e observou Tawny fazer o mesmo. Ela deslizou a toalha pelo pescoço, virando a cabeça para um lado e depois para o outro. Um som, meio gemido, meio suspiro, escapou dela. – Não é gostoso isto? – perguntou Tawny, a voz baixa, rouca, íntima. – É mais do que gostoso. Gotas geladas escorriam pelo pescoço dele, causando arrepios. Simon não icaria surpreso se ouvisse a água fazer barulho de fervura sobre sua pele. Tawny de initivamente o deixava perturbado e com calor. A toalhinha poderia até esfriá-lo, mas Tawny o fazia ficar quente outra vez. – Aqui. Deixe-me molhá-la outra vez. – Ela pegou a toalhinha e segurou sob a torneira fria. em seguida, devolveu-a a ele, pingando. Simon pôs a vela sob o lado mais largo da pia e pegou a toalha dela, os dedos roçando os de Tawny durante a troca. O breve contato o incendiou. – Você já sentiu tanto calor assim antes, Simon? Se eu entrar em combustão espontânea, jogue água em mim para apagar as chamas.


Simon não fazia ideia de onde viera aquilo, mas seguiu seu impulso: – Assim? – Ele se aproximou dela e espremeu o pano, fazendo a água cair em cascata sobre o ombro de Tawny. Ela arfou, talvez pelo choque por causa da água gelada ou pela audácia dele; ou por ambos, e então riu. – Ah, seu… – Ou assim? – Simon mandou mais uma rodada de gotas, que escorreram pelas costas desnudas. – Talvez mais assim. – Tawny pegou sua toalha e a espremeu na base do pescoço de Simon, mandando uma correnteza gelada pela frente da blusa dele. Ele riu e retaliou. Ela soltou um gritinho e não se deu o trabalho de usar a toalhinha, colocando a mão em concha sob a torneira, enchendo de água e jogando nele. Em segundos, estavam ambos encharcados. Um deles mirou tão mal que acertou a vela grande. Ela se apagou e acabou com a brincadeira da água. Só a velinha votiva ainda bruxuleava, mergulhando-os em intimidade. – Ops… – disse Tawny. – Isto foi divertido. O cabelo dela pendia desajeitado do prendedor. A água reluzia na pele. A água gelada deixara seus mamilos em completo alerta de encontro ao material molhado da blusa. Simon engoliu em seco com força e a olhou nos olhos. Apenas não olhe para baixo. Ele pigarreou. – Foi divertido. Simon não fazia ideia de que podia ser tão brincalhão. Guerrinhas de água nunca aconteceram na casa dele. Diabos, a diversão jamais ocorrera na casa dele. Seus pais levavam seus empregos e suas vidas muito a sério. Isso acontecia ainda hoje. Tawny apanhou uma toalha na pilha, e Simon esticou a mão para pegála. Tawny ignorou a mão esticada dele e, em vez disso, começou ela mesma a esfregar o cabelo de Simon. – Posso fazer isto sozinho, Tawny. – Eu sei. – Ela passou a toalha gentilmente pelo queixo dele, deslizando o algodão macio do tecido pelo pescoço. – Mas aí está, já cuidei disso. Tawny deu um passo para trás e, usando a mesma toalha, secou o próprio rosto. Simon esticou a mão, e ela lhe entregou o pano. – Posso fazer isto sozinha – disse ela, repetindo a declaração anterior


dele. – Eu sei. – Ele deslizou a toalha pelo pescoço dela, pela linha delicada da clavícula, pelo vale criado entre os seios. Simon certi icou-se de que apenas o tecido tocasse a pele dela. Ele seguiu para a parte de trás e, gentil, com todo o cuidado, lhe secou os ombros e a pele suave ao longo da espinha. Ele se abaixou sobre um dos joelhos e passou a toalha pelas coxas, pela parte de trás dos joelhos, pelas panturrilhas. – Vire-se para mim. Tawny girou devagar, e mais uma vez ele deslizou a toalha pelas pernas, o tecido um sussurro na pele dela. Simon se ergueu e entregou a toalha a Tawny, em silêncio. – Obrigada. – Sem problemas. Pelo menos não seria um problema assim que eles saíssem daquele espaço con inado, onde o cheiro dela era tão bom, ela era tão linda, sentiase tão bem… Simon pegou a vela que Tawny levara para lá. Quanto mais cedo ele a levasse para o quarto e colocasse a câmera entre os dois, melhor seria para ambos.


Capítulo Seis

ELA ESTAVA em uma tremenda enrascada. Algo acabara de acontecer ali, no banheiro, sem nem mesmo um beijo ou um toque evidente. Tawny saíra do mero desejo para a paixão. Cada centímetro dela sabia que não era mais uma questão de se eles iriam acabar na cama dela juntos esta noite, mas quando. Não havia possibilidade de Simon tocá-la com tanta ternura e não desejá-la. E, visto que parte dela estava tensa de expectativa, saber daquilo também a deixava à vontade, de certo modo. Simon acendeu as últimas velas no quarto. – Tenho algumas blusas que icam grandes em mim. Elas na certa icariam apertadas em você, mas pelo menos não estão molhadas. – Tawny pescou uma blusa com a qual dormia às vezes, pois era dois tamanhos acima do seu. – Que tal esta? – Obrigado. – Vou esperar você tirar essa que está molhada. – Ela sabia o que queria e iria correr atrás: Ele. – Estava planejando observar? – A menos que você seja contra. Uma garota deve conseguir emoções fortes onde for possível. – Não tenho certeza se posso me qualificar como emoção forte. – Eu garanto que pode. Simon puxou a blusa do cós da calça e a retirou. Deus do céu, o corpo daquele homem era de matar. Ombros largos, quadris estreitos e bem moldados no meio. Ela se sentia a Cachinhos Dourados acabando de descobrir o homem perfeito. Ai, Deus, esse é imenso e peludo. E, céus, aquele outro era magrelo e muito pelado. Mas, nossa, este à sua frente era exatamente perfeito. E por mais clichê que fosse, ela achava tão sexy o modo como os pelos trilhavam o abdome, passando pelo umbigo, desaparecendo sob o cós da calça jeans… – Você, Simon Thackeray, nasceu para causar fortes emoções. Eu estou muito… emocionada.


Ele sorriu. Não o sorriso arrogante de um ego superin lado, mas aquele de um homem que gostava de ser valorizado. – Quer que eu vista essa camisa que está segurando? – indagou ele. Ela riu alto. – Só se for absolutamente necessário. Não se sinta obrigado a vesti-la por minha causa. – No entanto, ela a jogou para ele. Simon a pegou com uma das mãos e ficou sério. – Está flertando comigo, Tawny? – Sim, Simon, estou. Descaradamente. – Acha que esta é uma boa ideia? – Não. Na verdade, não. Creio que é uma ideia muito, muito ruim, mas estou gostando bastante dela. E você? – Quer saber se estou gostando ou se acho uma boa ideia? – Os dois. – Devo concordar com você em ambos os casos. Estou gostando e tenho certeza de que é uma péssima ideia. – Ele passou a camisa pela cabeça, escondendo o físico delicioso. Desmancha-prazeres… Mas tudo bem, ela planejava tirar aquela camisa dele de novo muito em breve. HAVIA ALGO de muito íntimo no fato de estar no quarto de Tawny à luz de velas, sabendo que ela se achava prestes a se despir. – Espere um minuto. Não saia daí. Já volto. – Simon correu para a saleta, pegou a câmera e retornou ao quarto rapidamente. – Quero capturar o momento, a expectativa, a preparação, não apenas o produto final. Diabos, talvez não devesse fazer aquilo. Na verdade, ele estava muito perto de se encrencar de verdade. Bem, o que podia ser pior que estar ali agora? E, sejamos francos, fotografá-la era mais seguro que beijá-la. Quando Simon clicou, fundiu-se à sua câmera. Simon podia ser ele mesmo detrás das lentes. – Quer me fotografar trocando de roupa? – Não enquanto você estiver se trocando de fato, mas quando estiver se arrumando. Isso a ajudará a icar à vontade diante da câmera. Simplesmente esqueça que estou aqui.


Ela olhou para o outro lado do quarto e o encarou. Foi um olhar, a um suspiro de pegar fogo, que o mostrou como o homem que ela havia beijado mais cedo. – Não consigo fazer isto. – Consegue esquecer que a câmera está aqui? – Simon se orgulhou de seu tom firme. Pois estava longe de se sentir assim. – Acho que sim. Ele tirou algumas fotos, para deixá-la acostumada aos cliques. Tawny sorriu, sentindo-se constrangida e estranha. – Apenas relaxe – a lembrou Simon. Se conseguisse mantê-la falando, uma torrente de conversa para distração, ela também relaxaria. – Você mantém seu cabelo preso no alto porque assim ica mais fresquinho? – Sim. Mas está tão quente agora que não acho que fará diferença. E eu deveria fazer algo com o cabelo, de qualquer forma. – Tawny se virou de costas para ele e tirou o prendedor, deixando o cabelo cair pelos ombros. O obturador zuniu. Tawny balançou a cabeça e passou os dedos pelos ios. Ele fotografou outra vez. Tawny olhou para Simon pelo re lexo do espelho, uma mistura sedutora de desejo e incerteza, e o coração dele acelerou. Havia algo mais encantandor, mais íntimo, que uma mulher soltando o cabelo? – Melhor assim? – perguntou ela. Clique. – Perfeito. Continue fazendo isto. Ela ergueu os braços, colocando-os sob a cascata de sua cabeleira. – Linda. Lindo contorno do pescoço, dos ombros e braços. Um estudo da perfeição. Uma obra de arte. – Você não precisa dizer estas coisas, sabe? – Sei. Mas é verdade. – E icaria tão melhor sem a interferência dessa blusa frente única… – Mantenha-se de costas para mim e tire a blusa – pediu Simon, instruindo-a automaticamente à posição que lhe renderia o melhor clique de suas costas. – É assim que convence as mulheres a se despirem para você? Com alguns elogios? – Ela olhou por sobre o ombro, rindo, provocando, mas com um brilho sexy no olhar. – Garota esperta… – A risada de resposta dele saiu enferrujada. Via de


regra, Simon não ria muito. – Nada de fotos safadinhas. Só quero capturar o contorno das suas costas sem a blusa. Afaste-se do espelho, continue de costas para mim, tire a blusa e erga o cabelo do mesmo jeito que fez. Assim. Fique aí. Simon a afastou do espelho e posicionou o candelabro triplo, o mesmo que ela disse ser capaz de durar uma noite inteira, até a luz clarear-lhe as costas. – Só um pouquinho para a direita. Por força do hábito, ele a tocou de leve, para dirigi-la. Simon já havia tocado mulheres vestindo muito menos do que Tawny centenas de vezes, mas foi como se nunca tivesse tocado ninguém. E não havia mesmo. Não desse jeito. O desejo o inundou, ameaçando sua compostura. Ele a sentiu inspirando, a rigidez repentina da curvatura outrora flexível das costas. Simon tirou a mão e se afastou dela, agarrando a câmera como se esta fosse um cordão salva-vidas. – Você não precisa tirar a blusa se não quiser. – Aquele tom irme do qual ele se orgulhara mais cedo fora embora fazia tempo. – Eu quero tirar. – Tawny en iou as mãos sob o cabelo e desatou a parte de cima, e ele viu as laterais caírem à frente do corpo dela. Ela baixou os braços e desatou na frente. Era um modelo transpassado amarrado na barriga, sob o seio esquerdo, ele notara. O tecido que atravessava as linhas e curvas elegantes das costas dela caiu. – Brilhante. Verdadeiramente impressionante – disparou ele. Aquilo icaria incrível. – Muitas mulheres com belos rostos não são adoráveis desse ângulo. Erga o cabelo mais uma vez. Do mesmo jeito que fez antes. Tawny seguiu as instruções. Ele nunca fora capturado emocionalmente ao fotografar. Era arte, e era a arte dele, e de muitas maneiras era uma extensão de Simon, mas também havia um compromisso que não era pessoal, que não amarrava as emoções a ele. Mas aquilo era completamente diferente. Ela se virou um pouco para a direita, apenas o su iciente para revelar uma alusão da curva do seio, a ligeira queda que mostrava que eles eram verdadeiros, e não comprados no cirurgião plástico. Ela baixou os braços e se virou para encará-lo, os cachos sedosos acortinando o declive dos seios e mamilos, porém a curva suave da parte interior revelada. Apesar do fato de Tawny ter se virado para encará-lo, aquilo era algo mais. Uma mudança sutil na linguagem corporal dela, como


se Tawny tivesse descoberto alguma coisa, decidido algo. – Simon, você faz alguma ideia de por que eu tive dúvidas a respeito de mim e Elliott? Era um daqueles comentários aos quais ele devia ter prestado atenção, mas que se perdera em meio ao drama do momento. Simon pensava com mais cuidado no assunto agora. A reviravolta na orientação sexual de Elliott sem dúvida surpreendera Tawny, então não foi esse o problema. Ela mesma não parecia possuir nenhuma ambiguidade quanto a si. O que signi icava que ela saíra com outra pessoa ou pelo menos conhecera outra pessoa. Ele se encheu de rancor. Não queria ouvi-la confessando sobre a atração por outro. Ou talvez fosse exatamente o que ele precisava ouvir para extirpá-la de seu coração, de sua mente, de suas emoções. – Meu primeiro palpite é que você também conheceu outro alguém. – Não exatamente. Era patético o quanto ele estava feliz por ouvir isso. – Não do jeito como você pensa, a inal. Desenvolvi um interesse por outra pessoa, muito embora a coisa não tenha avançado. Bem, mais ou menos. Tawny tinha toda a atenção de Simon agora. A quem ele estava enganando? Ela sempre tinha a sua atenção. Era dona da atenção dele desde a primeira vez em que a vira do outro lado do cômodo. – Por que você não explica? – Prometi mais cedo que não iria me atirar em cima de você outra vez. E não vou. Mas é hora de ser honesta, e acho que deveria saber. Era você, Simon. Era muito provável que ela conseguisse ouvir o coração dele palpitando do outro lado do quarto. Tawny duvidara de seu relacionamento com Elliott por causa dele? Simon não acreditava nas palavras dela. Não conseguia acreditar. O que diabos poderia haver de mais atraente nele do que em Elliott? – Não, Tawny. Nem pense nisso. Elliott pode ter se comportado mal, mas não sou um sujeito particularmente agradável, e não quero ser en iado no papel de fantoche de vingança porque Elliott feriu seu orgulho ou partiu seu coração. Ela virou a cabeça para trás, a raiva e a mágoa relampejando em seus olhos, atingida pela crítica e visivelmente inconsciente de que um mamilo


maduro e intumescido espiava através do cabelo. Mas Simon estava ciente o bastante por ambos. Diabos, ele estava consciente o bastante por um exército inteiro. – Acha que estou inventando isto para me vingar de Elliott? – Não está tentando me seduzir? – Estou procurando ser honesta, seu cretino sarcástico, cabeçadura, arrogante, sangue-frio! E você está realmente… me irritando! – Bem, posso ver, considerando essa descrição brilhante, por que eu seria o homem a fazê-la pensar duas vezes sobre se casar com Elliott. Talvez sentisse que precisava romper com base nas péssimas amizades que ele mantém. Ela dissera estar irritada. Agora estava furiosa, maluca. – Eis a verdade, Simon Thackeray, se você puder lidar com ela. Não sei por qual maldito motivo, mas comecei a ter sonhos com você. Conosco. Eles começaram depois que passamos aquele dia juntos na sessão de fotos. – Que tipo de sonho? – Deus, ele mal conseguia respirar. – Sonhos com sexo. Explícito. – São apenas sonhos, Tawny. – Estou bem ciente disso, Simon. Mas esses sonhos, você, estavam começando a afetar meu relacionamento com Elliott. Em vez de clarear, as coisas começaram a icar mais obscuras e mais confusas. Era quase mais fácil quando ela e Elliott ainda eram feitos um para o outro. Tawny passara dos limites com Simon, e o papel dele icara bem definido. – Por que você permitiria que alguns sonhos interferissem em um relacionamento verdadeiro? – Não foi uma escolha, e não foram apenas alguns sonhos. Foram quase todas as noites. Primeiro eu não queria ir dormir, porque não desejava sonhar que fazia amor com você. Simon foi tomado pelo calor. Tawny olhou para baixo e passou a avaliar as próprias unhas. – E agora chegou a um ponto em que dormir se transformou na melhor parte do meu dia. – Ela voltou a encará-lo. – E eu tenho me sentido muito culpada em relação a Elliott, porque parecia errado fazer o que eu vinha fazendo com você enquanto era noiva dele. O olhar dela capturou o de Simon. – E duplamente errado porque o que nós dois fazíamos em meus sonhos


era tão melhor que o que eu fazia com Elliott na vida real… As palavras dela o seduziram, dispararam pelas terminações nervosas de Simon, lhe enrijeceram o corpo como se ela de fato tivesse trilhado suas mãos por ele. – Talvez você deixe de ter esses sonhos, agora. Ela balançou a cabeça. – Nesta tarde, eu tirava um cochilo quando Elliott telefonou. Estava sonhando e prestes a chegar ao clímax. Com você. E Simon não tinha certeza de que, caso Tawny resolvesse dar mais detalhes, ele se seguraria e não chegaria ao clímax ali. Ela conseguia fazê-lo ficar rijo e latejante. – Eu me sentia a maior ordinária a leste do Mississipi. Sabe qual foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando ele disse que vocês dois queriam me ver esta noite? Claro que a mente de Tawny era um total mistério para Simon, já que ele não fazia ideia de que estivera fazendo o que soara a ele como um sexo muito intenso. – Não faço ideia. – Um ménage à trois. Esse é o tanto que você me deixou depravada. Estou tentando seduzi-lo. Não para me vingar de Elliott. Eu preciso da realidade do seu toque para exorcizar aqueles sonhos. Porque, do jeito que as coisas estão agora, Simon, temo que você tenha me arruinado para qualquer outro homem. QUANDO TINHA 7 anos, frustrada pela ausência de progresso nas aulas de natação, sem de fato pensar com cuidado no assunto, Tawny tomou fôlego e pulou de cabeça. E daquele dia em diante sua iloso ia de vida tomou forma: ela nadaria ou morreria tentando. Obviamente, ela nadou. E acabara de nadar para a parte mais funda com Simon. Mas era verdade. Ela temia que ele a tivesse arruinado para outro homem. E se Tawny podia lhe oferecer uma saída para seu amor não correspondido, por que não? Simon avançou para ela, começando a clicar foto após foto. – Tawny, tenho certeza de que não arruinei você para os outros homens, conforme descobrirá assim que voltar à… circulação. Circulação. Ele se referia à cama de outro homem. E obviamente não


tinha intenção ou interesse em ser tal homem. Assim, ela foi inundada por mais uma dose de humilhação. Por que simplesmente não ico de boca fechada? Por que ela permitira que alguns sonhos eróticos e um tremendo beijo ao vivo a convencessem de que ela e Simon tinham química juntos? Parecia óbvio que tudo aquilo era pura imaginação dela. Simon queria fotografá-la, sem dúvida. Ele lhe oferecera consolo mais cedo, e Tawny confundira a situação. E agora ela teria de vestir algumas roupas e tentar manter alguns iapos de sua dignidade até a energia se restabelecer e Simon cair fora do apartamento. E da sua vida. – Você está certo. Quando entrar em circulação, vou icar bem. – Tawny procurou parecer leve e risonha, mas aquilo soou rijo e abrupto. Estava pecaminosamente perto da humilhação completa. – Deixe-me vestir minhas roupas. Ela seguiu para o closet. Talvez pudesse passar uma hora ou algo assim lá dentro… só que estava escuro. Tawny nunca mais se permitiria ser pega em tal situação sem uma lanterna outra vez. – Tawny… Simon tocou o ombro nu dela. Tawny congelou por fora ao mesmo tempo que o calor a tomava por dentro. – Simon, por favor, não me toque. – Não foi isso o que você disse um instante atrás. Ela ansiava por ele. E o que era a inal aquela pequena questão do orgulho? Tawny já havia se humilhado mesmo. – Sabe o que quero dizer. Não tenho certeza se consigo aguentar você me tocando sem levar as coisas adiante. E como você não está interessado em ir além, é melhor que simplesmente não me toque de jeito algum. Simon manteve a mão no ombro dela. Tawny foi tomada por um desejo diferente de qualquer coisa que já conhecera. Ela o desejava com um desespero que beirava a obsessão. – Eu não disse que não estava interessado. – Os dedos dele correram pela pele nua em uma carícia leve como pluma. – Só não quero que você se arrependa disto amanhã. Movimentando-se em câmera lenta, ela se virou para encará-lo. – Não estou procurando por nada eterno. Quero você esta noite. Sei que você está apaixonado por outra pessoa. Deixe-me ser ela para você esta


noite. – Iria para a cama comigo sabendo que posso muito bem ingir que você é outra mulher? Ela empinou um pouco o queixo. – Sim. Você me excita a esse ponto. – Ela não era exatamente tímida e reservada, para começar, mas havia uma qualidade fantástica em estar em seu quarto à luz de velas com Simon. Tawny dizia coisas que nunca teria coragem su iciente para dizer sob a dura luz do dia. – Vou aceitar o que quer que esteja me oferecendo, só que não quero particularmente ser objeto de piedade. – Não estará substituindo ninguém, Tawny. Isso tem a ver comigo e com você. Eu não a insultaria ingindo que você era alguém além de quem é de fato. – Ele inclinou a cabeça de Tawny para trás com um dedo sob seu queixo e a encarou bem nos olhos. Não havia nem um iapo de piedade nos olhos dele. Na verdade eles queimavam com um calor e uma paixão restrita a ela. – E eu não quero ser objeto de vingança. – Nunca. – Tawny jogou os braços em torno do pescoço dele, sentindo a tensão de Simon, já úmida por ele, ansiando pelo seu toque. – Isto não é uma vingança. Ela queria saciar o desejo por Simon, que a consumia, e queria que ele a izesse se sentir uma mulher desejável. Certa ou errada, Tawny necessitava de um pouco de validação sexual. Simon roçou o polegar na face dela. – Quer mesmo isso, Tawny? Tem certeza de que me quer? Porque vai ser uma tortura parar uma vez que eu a tocar e provar. Ela se inclinou, encaixando perfeitamente seus quadris nos dele. O membro de Simon estava duro como rocha de encontro a ela, oferecendo estímulo instantâneo. A calcinha dela estava encharcada, e o corpo, pegando fogo. Tawny roçou os seios nus contra a camisa dele, deliciando-se com o contato do algodão macio nos mamilos rijos. Ela inspirou o perfume masculino e lhe acariciou a mandíbula. A respiração de Simon acelerou. – Sim, tenho certeza absoluta de que o quero. E não pretendo que você pare. Quero tê-lo nu em cima de mim… – Ela lhe mordiscou o lóbulo. – Embaixo de mim… – Passou a ponta da língua ao longo da borda. – Ao meu lado…


Simon estremeceu de encontro a ela. – Atrás de mim… – O desejo deixava a voz dela mais grave e dedilhava pelo corpo de Tawny – Mas, principalmente, dentro de mim. AS PALAVRAS e o toque dela destruíram todas as defesas que ele havia erguido. Simon estava prestes a perder o único amigo que já tivera de fato – Elliott – ao dormir com Tawny. Mas trocaria sua amizade e seu senso de honra, e todos os seus dias subsequentes, por uma noite com ela, para abraçá-la, tocá-la, fazer amor com Tawny. E se ele era menos homem por sua decisão, teria o resto da vida para lidar com isso. Talvez fosse provar o fruto amargo do arrependimento quando a manhã chegasse, mas esta noite Tawny era sua. Simon deslizou a câmera até o chão, largando a alça. – Tawny… – Ele tomou a cabeça dela nas mãos. Sem pressa, beijou-a com delicadeza e cuidado, uma promessa silenciosa de que, naquela noite, eles pertenciam um ao outro. Em um beijo, Simon disse a ela todas as coisas que não conseguia ou não iria dizer em voz alta: o quanto a queria, o quanto a achava linda, por dentro e por fora; que dentre todas as mulheres ela era a mais desejável; que durante anos ele carregara a analogia ao deus Hades em sua mente, e que ela se tornara sua Perséfone; mas que depois desta noite ele a deixaria livre, depois de oferecer e receber consolo dela. Tawny retribuiu o beijo, fundiu-se a ele, se conectou à alma dele. O beijo icou mais quente, mudou para uma intensidade mais alta quando Tawny deslizou as mãos por sob a camisa de Simon, acariciando a pele nua de maneira voraz. O toque de Tawny o acendeu. Ele esticou as mãos e abarcou os seios, roçando os mamilos com os polegares. Ela se sentiu tão bem. Tawny fez mais pressão contra ele e gemeu de encontro à boca aberta de Simon, que icou perdido, desapareceu. Ele afundou na beira da cama, puxando Tawny consigo, colocando-a entre suas coxas. Ela o seguiu, se acomodando entre as pernas dele. – Parece que esperei uma eternidade para tocá-lo – disse ela. Tawny deu um beijo abaixo do queixo dele enquanto explorava seu peito com as mãos, carícias ousadas que estimulavam o fogo dentro de Simon, as chamas mais quentes e mais altas.


Ela pôs a mão no cinto e no cós da calça dele. – Espere um segundo. Deixe-me descalçar as botas – pediu Simon. Tawny icou de pé. Ele se abaixou e desamarrou as botas… in initamente melhor que arregaçar a calça no tornozelo. Ela despiu o short e a calcinha sumária, jogando-os no chão diante de Simon. Ele tirou o segundo pé de bota Doc Martens e olhou para cima. Sentia-se feliz por estar sentado ao ter a primeira visão dela gloriosamente, espetacularmente nua. Ela era toda curvilínea, desde as pernas modeladas, passando pelos quadris sinuosos, pela cintura ina até os seios fartos. E obviamente uma defensora da depilação total da virilha. O desejo o atingiu, contraindo seus testículos. – Você é tão linda, me deixa sem fôlego… Ela sorriu e demonstrou uma timidez que deixou Simon tocado. Tawny seguiu para a cama, se pondo atrás dele, e deu uma risada suave, o hálito quente contra o ombro nu de Simon. Ela passou as mãos pelos ombros dele e se aninhou em seu pescoço, os seios de encontro às suas costas. O toque dela fazia as terminações nervosas dele chiarem. – Estou feliz por não o ter mandado embora – disse ela. – Sem chance. – Simon se despiu, e Tawny se deitou na cama com ele. Ela rolou e se pôs debaixo dele, os braços de Simon posicionados um de cada lado dela. As pupilas de Tawny se dilataram, e ela entreabriu os lábios, umedecendo a plenitude do lábio inferior com a pontinha da língua. – A única coisa que poderia me fazer ir embora é… – ele baixou a cabeça e provou a doçura do pescoço, do ombro dela – se você me disser que mudou de ideia. – Não… Isso… não vai… acontecer. Tawny arqueou as costas, erguendo-se, convidando-o a beijá-la. Banhada pela luz de velas, a pele dela brilhava como uma pérola rara. Simon lambeu a cavidade do pescoço dela e ecoou o tremor de Tawny. O perfume dela, o leve sabor salgado da pele, o gosto de Tawny. Ele queria fazer amor com ela a noite toda, explorar cada centímetro de seu corpo com a boca, com a língua, com as mãos. Mas Simon a desejava há tanto tempo que não pensava ser capaz de esperar mais nessa primeira vez. Circundou um mamilo intumescido com a língua. Ela gemeu profundamente. – Simon… – disse Tawny em um tom agonizante. Ele pincelou o outro com a ponta da língua e então voltou ao primeiro,


provando-a, torturando a ambos. Os dois estavam suados e melados, e a pele dela deslizava na dele, a coxa amortecendo a extensão da ereção de Simon. Ela o deitou de costas e o beijou como se não fosse se fartar nunca. A língua duelava contra a dele. As mãos dela o exploravam, quase frenéticas, e Tawny soltava gemidinhos profundos, deixando-o mais excitado e mais duro. Tawny parecia desejá-lo tanto quanto Simon a desejava. Ela se deitou de lado outra vez, puxando-o consigo, tateando algo atrás de si sem descolar a boca da dele. Simon interrompeu o beijo. – O que está fazendo? – perguntou ele. – Pegando um preservativo. Ele era um imbecil, tinha se esquecido da proteção. Isso nunca acontecera antes. Simon sempre fora cuidadoso. O fato de ela manter um estoque à mão não era particularmente surpreendente, considerando seu arsenal movido à pilha. Tawny olhou para ele, os olhos luminosos, quentes. – Tenho tanto medo de isto ser mais um sonho – disse ela. – Não quero acordar. Mas se eu acordar, vou ficar irritada, com razão. Simon gargalhou. Tawny possuía jeitos nada ortodoxos de elogiálo, mas ele estava imensuravelmente lisonjeado por ela não querer acordar caso estivesse sonhando. – Não. Nós não estamos sonhando – garantiu ele acariciando as costas dela, a curva exuberante de seu bumbum. A realidade nunca fora tão doce. Ela segurava um preservativo no ar, triunfante. – Sabor morango. – Tawny rasgou o pacotinho. – Importa-se se eu izer as honras? – Por favor. Fique à vontade – cedeu ele. – Meu prazer é… – Tawny colocou o preservativo nele, a mão quente, usando da quantidade exata de pressão, e Simon fechou os olhos em um momento de delírio – seu prazer. Até então, ela apenas o tocara. Fechou a mão e investiu de novo. Ele abriu os olhos. – A não ser que você queira as preliminares mais rápidas da história da humanidade, não precisa fazer isso de novo – disse ele, a rouquidão refletindo o esforço para não chegar ao êxtase. – Estou pronta se você estiver pronto. Sonhei com você durante


semanas. Foram muitas preliminares. Simon encarou então um instante de ansiedade por seu desempenho. E se seu eu real não izesse jus ao amante dos sonhos que ele fora para ela? E, sendo a mulher curiosa, mística e mágica que era, Tawny obviamente enxergou isso no rosto dele. – Nem mesmo pense a respeito. – Ela se inclinou para Simon e espalhou beijos pelo seu peito, lambendo os mamilos másculos, barriga abaixo. Lambeu ao longo de seu membro rígido e o tomou na boca ávida, quente. Simon intimou cada grama de seu autocontrole para não explodir enquanto Tawny o acariciava com a boca. Ela o libertou, e ele deu um jeito de respirar de novo. O cabelo de Tawny roçava a barriga dele, as mechas provocando a pele. – Na verdade, provar você, tocar você, sentir seu cheiro é tão melhor do que já foi em todos os meus sonhos… – disse ela, o tom tão quente quanto a paixão que cintilava em seus olhos. Ela se deitou de costas, entreabriu as pernas e disse, com um sorriso doce: – Agora você vai fazer amor comigo ou terei de implorar primeiro? Quando ela disse aquilo, Simon foi ao limite. Se ele icasse mais quente, iria derreter. Simon se posicionou entre as pernas dela e a cutucou com a ponta embainhada. – Não será necessário implorar. Simon delizou para dentro dela devagar, totalmente capturado pela expressão em seu rosto, o calor e prazer permeando as feições dela. Tawny sentia-se tão bem, tão à vontade, e quando ele deslizou para ela, centímetro por centímetro, ela o agarrou, como se acolhendo-o em seu lar. Ela enlaçou as pernas em torno dele e enganchou os pés atrás de suas coxas. Arqueou para encontrá-lo. Algumas investidas breves e ambos chegariam lá. Simon inspirou profunda e tremulamente e desacelerou de propósito. Eles não estavam tentando quebrar nenhum recorde… ambos se achavam muito tensos, não tinham muitas chances de ir longe, porém Simon recuou devagar até estar quase fora dela, e então ofereceu a ambos uma reentrada lenta. Tawny arfou alto e pressionou o corpo no dele, fazendo-o mergulhar. – Você é deliciosamente perverso, Simon Thackeray.


O sotaque sulista adocicado envolvendo o nome dele ao mesmo tempo que a quente intimidade envolvia o membro quase o fez perder o controle. Era como se ela tivesse elaborado alguma mágica ao redor dos dois, unindo-os em um vínculo que ia além do campo ísico. Era como se ela tivesse aberto uma parte de si e o convidado a adentrar no calor e na luz que eram mais do que simplesmente superficiais. Tawny se mostrava tão aberta, tão entregue, e Simon queria se entregar em retribuição. Simon deu o máximo de si que conseguia. Investia cada vez mais rápida e intensamente. A cabeça de Tawny ia para a frente e para trás na cama, as mãos agarravam o edredon, e ela o incitou até que fossem capturados pelos espasmos de um orgasmo ruidoso, literalmente. Sua Tawny não era nenhuma lor murcha. Era ousada e linda, e se em algum momento Simon teve um instante de hesitação por possivelmente estar fazendo o papel de Elliott, ela dissipou aquela percepção em particular ao arfar o nome dele sem parar enquanto estremecia debaixo de seu corpo. Será que ela costumava gritar o nome de Elliott do mesmo jeito? Será que ela se agitava e se arqueava para ele como se fosse morrer sem o seu toque? Simon não precisava pensar nisso de jeito nenhum; no entanto, não conseguia se controlar. Ela icou imóvel debaixo dele, os olhos fechados, e Simon poderia achar que Tawny estava dormindo se ela não estivesse respirando de forma tão pesada. Um sorriso lento desabrochou nos lábios generosos, e ela abriu os olhos. – Isto foi… incrível… Muito melhor do que jamais sonhei. Simon foi preenchido por uma sensação estranha. Foi necessário um instante para reconhecer que era contentamento… uma satisfação completa. Ele retribuiu o sorriso dela. Não tinha como não sorrir a essa altura, era uma reação totalmente involuntária. – Com certeza. – E então, porque ele queria compartilhar seus sentimentos, mas não fazia ideia de como expressá-los, beijou Tawny, com toda a ternura, uma consequência da paixão. Ele trilhou pela curva da lateral do corpo dela, os dedos moldando a maciez da pele. Havia sido dolorosamente honesto mais cedo… agora que a tocava, não tinha certeza se era capaz de parar. Intelectualmente, Simon sabia que a pele era pele, uma fusão de tecido, nervos e células, mas a pele


de Tawny era diferente da de todas as mulheres. Ele era tão absolutamente apaixonado por ela, a amava tão completamente, que todo seu ser doía com aquele toque. Simon levantou a cabeça e olhou para ela. Ousou tão mais no escuro. Escondendo-se nas sombras formadas pelas luzes das velas, ele a sorveu. O cabelo estava espalhado em desarranjo pela cama, os olhos eram sombrios e misteriosos, os lábios icaram inchados por causa dos beijos, o corpo relaxado pelo ato de amor. Sem pensar, Simon correu os dedos pelo contorno delicado do queixo dela, sorvendo sua fragrância. Tawny segurou sua mão, levou os dedos aos lábios e os acariciou da forma mais suave. – Simon… – Ela hesitou. – Sim? – Não quero deixá-lo desconfortável… – Ela desviou o olhar. – Mas eu… Eu não tenho certeza de como dizer isto. O coração dele, não totalmente recuperado da ginástica sexual, começou a acelerar de novo. – Apenas diga. Ele estava muito bruto e aberto para sufocar a onda de esperança de que ela pudesse confessar sentimentos recém-descobertos por ele. – Eu… nós… Ai, isto é tão estranho… Simon mal conseguia respirar. Será que ela havia descoberto, como consequência do ato de amor – pois foi isso o que signi icou para Simon –, sentimentos mais profundos por ele? – O que foi, meu amor? – Palavras carinhosas nunca tinham feito parte do vocabulário dele. Nunca foram dirigidas a ele quando Simon era criança, e ele nunca as cultivara quando adulto; porém aquela simplesmente saiu rolando pela sua língua. – Estou suada e melada, e temo estar… bem, cheirando mal. Preciso de um banho. Certo. Ele riu de si, de como havia passado longe do alvo. Ainda devia estar pensando com seu pênis. Deus era testemunha, ele sabia que não era o sujeito mais amável do planeta. Nem mesmo os pais o tinham amado. Aquela não era bem a declaração sincera que Simon construíra, mas ela estava certa: ambos se encontravam suados e melados, e, embora ele pudesse ser um tolo, não era bobo o su iciente para declinar de uma oportunidade essa noite: – Precisa de alguém para esfregar suas costas?


Capítulo Sete

V

– ENHA. A água está ótima. – Tawny se inclinou para trás, recebendo o beijo frio e delicado da porcelana em suas costas. – Dê-me um segundo. – Simon saiu do banheiro. Eles podiam até estar presos sob as circunstâncias, mas estava tudo muito romântico com velas banhando o cômodo em uma luz suave e sombras contrastantes. Tawny colocou as velas votivas em vários pires no chão, ao redor da banheira. Nada como a criatividade. A luz das velas conferia um ar de sonho ao ambiente. Contudo, era mais que isso. A noite inteira estava surreal. Simon Thackeray se achava prestes a entrar em uma banheira com ela depois de terem acabado de fazer um sexo fantástico, que tinha sido tanto carinhoso quanto explosivo. Ela descobrira uma consideração por trás da reserva de Simon que nunca previra, uma qualidade que nunca izera parte de seus sonhos, mas que a envolveu além da questão física. Simon voltou, a câmera pendurada no pescoço. Devia estar parecendo meio bobo usando só a câmera, mas não havia nada de remotamente bobo na figura de Simon nu. Impressionante. Sensual. De fazer babar. Tawny foi tomada pelo calor, e não por causa da água morna que a cercava. O que lhe elevava a temperatura eram as pernas musculosas, um belo pacote na frente, um bumbum totalmente durinho. Uau! Clique. Ela riu. – Por acaso você acabou de tirar uma foto minha enquanto eu o cobiçava da banheira? – Com certeza. Muito sexy. E havia um bônus ao se levar uma conversa com um homem nu. Quando ele dizia que considerava algo sexy, bem, havia uma prova visual para endossar a declaração. Simon não estava mentindo… parecia que a achava muito sexy de fato. – Não estou mesmo nua nesta foto, estou? Ele sorriu.


– Não. Deste ângulo e com a água nesse nível, não dá para ver os detalhes… o que é uma pena, considerando que você tem detalhes muito belos. – Cuidado, senhor. Vai me fazer desmaiar – provocou ela com um sotaque sulista exagerado. Sob o exterior sóbrio de Simon batia o coração de um galanteador, e era ainda mais poderoso porque ele não lertava indiscriminadamente como alguns homens faziam. Tawny nunca vira antes o lado galanteador dele, mesmo quando ela e Elliott saíram em dupla de casais com Simon. Elliott. Tawny não queria dedicar nem uma única célula cerebral a Elliott nesse instante; nem remotamente. – O que acha que vai acontecer quando eu entrar na banheira com você, Tawny? Ele era um diabinho por provocá-la com aquele tom baixo e sugestivo. – Continue falando desse jeito e será sua culpa se a água estiver aquecida quando você chegar aqui – disse ela. Simon riu e continuou a tirar fotos. Tawny havia perdido a timidez diante da câmera. Ela simplesmente ignorou e flertou com Simon. – Está perdendo sua chance de se resfriar e se refrescar. – Úmido e quente soa ainda melhor – disse ele. – Ficando mais quente a cada minuto. Por que você não vem para cá e descobre exatamente o quão quente e úmido está? – Tawny se sentou, abraçando os joelhos. – Não esqueça, você prometeu esfregar minhas costas. – Planejo cumprir esta promessa com toda a atenção dentro de um minuto. Esse ângulo está ótimo. Fique assim para mim. Ao mesmo tempo que podia estar impaciente, Tawny sabia que Simon iria se juntar a ela mais cedo ou mais tarde. Tawny espiou a ereção lisa e irme dele… mais cedo, pelo jeito. A expectativa zunia dentro dela, e ele exprimia tal sensação num sorriso. – Linda… Ah, isto está brilhante! – Simon tirou foto após foto. – Aposto que você diz isso para todas – provocou Tawny, embora um lado dela se revoltasse por ser só mais uma fotografada em uma longa fila. – Eu digo isso mesmo para todas. Ela sentiu um aperto no estômago. Aquilo não era o que Tawny queria ouvir. Ele olhou em volta da câmera e sorriu para ela. Parecia jovial e despreocupado, duas palavras que nunca associaria a Simon. O coração


dela deu uma cambalhota engraçada. – Mas eu não entro na banheira com elas depois. Canalha! – Tenho certeza de que não é por falta de oportunidade – cogitou Tawny. – Obrigado… acho. – Simon quase pareceu constrangido. – Tive uma boa parcela de convites. Não diga. A inal, ele era lindo e sexy. Tawny sentiu mais calor ainda… Simon queria entrar na banheira com ela, Tawny Edwards, ao contrário de Chloe e de outras mulheres requintadas e magras que ele fotografava. Claro, havia o problema da mulher dos sonhos dele, a tal indisponível, mas Tawny não iria pensar nisso porque agora ele estava nu e ali com ela. Carpe diem. – Está na hora de largar a câmera, Simon. Ele ergueu as sobrancelhas para ela, o divertimento dançando nos olhos escuros. – Acha que sou só um fantoche para ser controlado? Você é sempre tão mandona? Ela era. E sabia disso. – Só quando quero demais alguma coisa. – E eu sou demais? – O sorriso sensual e malicioso dele fez e pulsação dela tremular. – Isso depende muito da perspectiva. Pela minha experiência, você foi demais na cama. E posso garantir que o quero desse jeito. Simon colocou a câmera perto da parede. A expectativa icou mais intensa dentro dela quando Simon cruzou a pequena área. Assim que largou a câmera, Simon começou a se portar com uma dose de timidez que não havia apresentado antes. Ela achou cativante o fato de, apesar da arrogância, ele não sair se pavoneando por aí como se seu órgão sexual fosse um presente de Deus para a população feminina. Tawny tivera todos aqueles sonhos quentes com ele, então o sexo ótimo foi… bem, ótimo, mas não uma surpresa de fato. Porém ela não havia previsto que iria gostar dele de verdade. E gostou. Simon era carinhoso, engraçado, sexy e… Simon entrou na banheira, atrás dela, e mandou a linha de raciocínio de Tawny para o inferno. Ele se sentou, deslizando a perna de modo que cada uma icou de cada lado dela. Simon a abraçou, encaixando-a no V de seu corpo, com se tivesse


sido feito sob medida só para ela. A curvatura das costas de Tawny estava de encontro ao peito e à barriga dele, a cabeça descansando entre o ombro e o pescoço de Simon. Apesar de sua tagarelice galanteadora anterior, Simon parecia igualmente contente por usufruir daquele momento. Tawny fechou os olhos e absorveu as sensações. O ritmo dos batimentos cardíacos dele ecoavam nas costas dela, os braços eram fortes e carinhosos em torno de seu corpo. Ela tivera um namorado certa vez cujo abraço equivalia a ser envolvida por uma morsa. Eddie poderia tomar uma aulinha ou duas com Simon, que de initivamente sabia como abraçar uma mulher. Ele cheirava sedutoramente a sexo, suor e ao próprio perfume. As luzes das velas dançavam pelas paredes e pelo teto. Tawny estava vivendo um daqueles momentos perfeitos e loucamente românticos retratados em ilmes e revistas. Suspirou, feliz por estar ali, naquele momento, agora. – Confortável? – perguntou ele. – Hum. Muito. Você é uma bela almofada de banho. – Ótimo. Agora fui de fantoche para almofada – resmungou ele. Tawny sorriu e beijou-lhe um dos bíceps. – Mas você é uma almofada de banho muito sexy. Nem seus sonhos tinham sido tão bons. Tawny era a primeira da ila quando o assunto era apreciar um sexo ótimo, mas também havia muito para se louvar naquela provocação preguiçosa e confortável com uma propensão oculta à expectativa. Simon roçou os lábios no cabelo dela, e Tawny podia ter jurado que todos os seus ossos tinham sido substituídos por manteiga. Ela derreteu de encontro a ele. – Tem um lugar perto da fazenda dos meus avós aonde eu costumava ir com meu primo Reg. Há um charco no meio da loresta, com uma pequena cachoeira. O charco é raso o su iciente para a água chegar a ser aquecida pelo sol. Você pode deitar e pegar sol em uma imensa rocha plana. A água é cristalina, e o ar é gostoso. Quando éramos crianças, pensávamos que fadas moravam lá. – Ele se recordava do lugar, e Tawny era capaz de enxergá-lo. Ela também via um Simon jovem e intenso procurando por fadas. Um calor que nada tinha a ver com desejo ísico a preencheu. Sabia, pela


quantidade de tempo que havia passado com ele e pelas coisas que Elliott divulgara sobre Simon, que ele era um homem reservadíssimo. Talvez fosse apenas a loucura das noite ou as circunstâncias incomuns, mas Tawny tinha certeza de que ele havia acabado de compartilhar um lado seu do qual poucos tinham ficado a par. E a percepção de um garoto jovial e romântico que acreditava em fadas não a surpreendeu tanto quanto teria surpreendido em determinada época. Ele era um homem complexo, complicado. Tawny desejara tê-lo em sua cama, mas agora descobrira que queria conhecer mais sobre o homem em si. – Parece adorável. – E é. Você ia gostar de lá. – Tenho certeza de que sim. – Leve-me até lá. A ideia furtiva a tomou de assalto. – Você vai à Inglaterra com frequência? – Eu costumava ir uma vez por ano, durante o verão. Agora vou algumas vezes ao ano. Os pais do meu pai faleceram há muitos anos. Os pais da minha mãe ainda moram em Devon. Eles são fantásticos. Estão na casa dos 80 e ainda mantêm uma fazendinha ativa. – Você é próximo deles? – Tawny só havia conhecido seus avós paternos, e eles eram ainda mais formais e conservadores que seu pai. – O mais próximo que dá para ser com um oceano separando você. Passei verões gloriosos lá durante a infância e a adolescência. Ela ouviu o sorriso dele. – Você ia com seus pais? – Não. – A frieza repentina no tom de voz de Simon foi um contraste ao calor apresentado mais cedo. O corpo dele tensionou de encontro às costas dela, os braços a apertaram de leve. Tawny detestava os pais de Simon, muito embora nunca os tivesse conhecido. Em virtude do pouco que ele contara, Tawny tinha uma imagem muito clara de duas pessoas egocêntricas e arrogantes que não reservavam tempo para o ilho. Ela podia ser o estranho no ninho em sua família, mas ainda sabia que eles a amavam, muito embora costumassem reprová-la. – Não consigo imaginá-lo em uma fazenda – a irmou Tawny num tom leve, provocador. – Devo informar que sou bastante experiente na coleta de ovos e na ordenha das vacas.


– Duvido. Essa é uma coisa que eu gostaria de ver. – Apesar da provocação dela, era verdade. Adoraria ver Simon desconectado. – Tinha uma namorada lá? – Não. – Qual é o problema com as garotas da Inglaterra? Não consigo acreditar que você não teve uma namorada. – Devon não é bem uma metrópole como Nova York ou Londres. – Está me dizendo que a área rural era totalmente desprovida de garotas? Você nunca impressionou uma leiteira de uma fazenda vizinha com sua técnica de coleta de ovos? Simon riu, mas soou forçado. – Havia uma garota… o pai dela era o vigário. Às vezes ele não era o mais acessível com informações. Felizmente Tawny não se importava em fazer perguntas. – Que britânico… a filha do vigário. E o nome dela era…? – Jillian. Jillian Carruthers. – E o que aconteceu com Jillian Carruthers? Ou você ainda a encontra quando vai à Inglaterra? – Eu ainda encontro Jillian, em quase todas as viagens. – Ah… Droga. De repente a provocação e Jillian deixaram de ser tão engraçadas. Na verdade, Tawny ficou meio enjoada. – Ela se casou com meu primo Reg. Eles estão esperando gêmeos para o próximo outono. – Ah… Certamente não havia sido agradável ver seu alvo amoroso se casando com seu primo. Será que Jillian era a tal mulher inatingível? Se bem que Simon dissera que a tal mulher inatingível não era casada. Tawny sabia que era uma megera maligna por sentir-se tão aliviada por Jillian estar seguramente fora da questão. – É esquisito quando você os encontra? – De jeito nenhum. Isso foi há muito tempo. Ela acariciou o braço dele com o polegar, sentindo a peça de músculos sob a pele. – Já contou a ela como se sentia? – Na verdade, sim. Mas ao im do verão ela concluiu que eu não fazia seu tipo. Jillian e Reg viraram um casal; e foi isso.


Hum. E havia mais ali do que ele revelava. O tom de Simon era leve e indiferente, porém Tawny sentia a tensão no corpo dele. – Você ficou arrasado? – Só um pouco. Eles combinam. Aconteceu desse jeito por um motivo. A vida tem seus meios. Ela não queria que ele recuasse por causa da lembrança de um amor perdido. Então trouxe a conversa de volta a eles: – Posso dizer que estou feliz por ter sido assim, caso contrário eu não estaria aqui com você. Jillian não faz ideia do que perdeu. – Tawny se contorceu, apertando as nádegas contra ele, um lembrete não tão sutil de onde Simon estava, de com quem estava, e do rumo que as coisas tinham tomado. – Acho você muito divertido. – Acha agora? – Ele lhe deu um beijo na nuca, parecendo conhecer intrinsecamente o ponto mais sensível dela. E achou graça da tomada de fôlego e do tremor que ela não pretendeu esconder. – Sim – disse Tawny. Simon roçou os dentes no ombro dela, e Tawny tornou a estremecer diante da sensação deliciosa. – E sou particularmente apaixonada por este tipo de diversão. – A diversão está só começando. Eu lhe devo uma esfregada de costas. – Simon a soltou, e ela lhe passou o sabonete. – Incline-se para a frente um pouquinho. Tawny cruzou os braços por sobre os joelhos e apoiou a cabeça neles. Simon passou os dedos ensaboados pelos ombros, trilhou pela linha da espinha dorsal e em seguida desenhou pequenos círculos pelas costas. Ela quase ronronou, era tão bom… – Ahhh… Você sabe mesmo como lavar as costas de uma garota. – Suas costas têm contornos lindos. – Ele cerrou os dedos na lateral direita. – Essa curva. Muito graciosa. Ah, as coisas que ele fazia e dizia, o jeito como a fazia se sentir… O que havia em Simon que abria mais sentimentos, mais reações nela com um único toque do que qualquer homem já conseguia com muito mais que isso? – Obrigada. E nem pense em parar e pegar sua câmera. – Não vou a lugar algum. – O calor enfatizou o tom de provocação dele. A água batia ao redor de Tawny enquanto ele passava as mãos escorregadias de sabonete em suas laterais, os dedos mal roçando os seios,


rumo às axilas. Deus, ninguém nunca havia lhe acariciado as axilas, ela nunca soube que poderia ser tão gostoso. Tawny ergueu a cabeça e descruzou os braços quando Simon colocou as mãos em concha e as deslizou por eles. Simon acariciou os membros de Tawny, e ela se recostou nele outra vez, os seios formigando, tensionando de expectativa sobre quais lugares as mãos másculas iriam percorrer a seguir. Ele a contornou, debaixo dos braços, e fez sua mágica digital ao longo da clavícula, ao longo do peito, levando ao declive dos seios, e então à curva deles, pelos lados, abaixo deles, mas sem tocá-los de fato, ou os mamilos. Por im, Simon os abarcou, e Tawny jogou a cabeça para trás, o baque dos batimentos cardíacos de Simon fortes de encontro ao seu ombro. – Isso. – Era isso que você queria? – O hálito dele soprou no pescoço dela. – Era isso o que esperava? – Sim. – Eu também – ronronou ele junto à orelha dela, com os dedos encontrando os mamilos. O calor corria por entre as coxas de Tawny, e ele puxava, massageava e acariciava. A julgar pelo modo como o membro dele avolumou-se nas costas dela, Simon gostava de acariciar os seios dela tanto quanto ela gostava de “diversão” proporcionada por ele. Simon pôs as mãos em concha mais uma vez e jorrou água pela parte da frente do corpo de Tawny, enxaguando o sabonete. – Agora suas costas. Ela se inclinou para adiante, e ele enxaguou. Simon a acomodou em seu peito outra vez. – Sente-se melhor? – Ele contornou a concha da orelha dela com a ponta da língua. – Muito. Simon esperava que ela pensasse com coerência… que falasse… quando a língua e boca estavam… Ohhh… – Acho que você pode se sentir ainda melhor – disse ele, em tom baixo e sedutor. Tawny fechou os olhos quando Simon lhe beijou o pescoço. Ela amava ter seu pescoço beijado. Sentia um formigamento pelo corpo todo, até os dedos dos pés. Ele poderia passar horas beijando seu pescoço e ela ficaria feliz.


– Eu não sei… Estou me sentindo… Ohhh… Muito bem. – Vejamos quanto a isto. Ao ouvi-lo, a expectativa a percorreu Tawny. Simon deslizou as mãos pelo monte arredondado do ventre dela, e Tawny tentou murchar a barriga. Sentiu o hálito quente de Simon em sua orelha: – Pare, Tawny. Relaxe. Você tem as formas que uma mulher deve ter. Macia, com curvas em todos os lugares certos. Você é o primeiro da turma por essa resposta, Simon. Ele estava em sintonia total com ela, parecia ler cada nuança de sua linguagem corporal. Simon passou os dedos, o mais leve dos toques, pelas coxas dela. – Abra as pernas para mim. – A voz dele era espessa como sua ereção, que a cutucava por trás e a fazia se lembrar do sonho daquela manhã. Era a mistura perfeita de fantasia e realidade, e a deixou mais quente ainda. Tawny entreabriu as pernas, e a água fria avançou contra seu calor melado. Simon tocou entre as coxas dela, os braços e as mãos morenos em contraste à pele pálida, e a entreabriu usando os polegares. – Ah, amor, gosto da sua depilação total. Ela precisara beber duas margaritas para de fato ganhar coragem para ter outro ser humano a depilá-la bem ali, e doeu demais. Entretanto quando icou tudo pronto, e uma vez desnuda, ela decidiu que dali em diante não adotaria nenhum outro estilo. Tawny abriu as pernas ainda mais. – Eu também. É melhor para sentir você. E ela o sentiu então… todas as terminações nervosas de seu corpo desejosas e clamantes concentradas entre as pernas. Simon a contornou com um dedo até encontrar o clitóris, então o estimulou. Tawny choramingou e fez pressão de encontro à mão dele. Tudo bem, talvez seu pescoço não fosse o ponto mais sensível. – Devagar. Relaxe. Não tão depressa. Sente-se e aproveite. Saboreie. Você gosta quando faço isto? – Sim. – E isto? – Ele deslizou um dedo para dentro dela, e Tawny se obrigou a não se arquear para ele, mas contraiu os músculos ao redor do dedo de Simon. – Sim.


– Você é tão gostosa. É muito mais quente que a água. É como en iar meu dedo em mel morno. A voz dele, baixa e sexy, as palavras, o toque, a sensação do corpo dele atrás dela, os braços ao redor dela, o hálito dele contra a pele delicada quando Simon falava, o raspar de suas costeletas no ombro de Tawny, a água fria batendo na pele quente, tudo concentrado nela, através dela. Simon alternou carícias ao longo de sua fenda e delizou um dedo, então dois dedos para dentro dela, ao passo que o polegar estimulava magicamente o clitóris. Abarcou o seio esquerdo com a outra mão, brincando com o mamilo, puxando, apertando. Tawny agarrou as laterais da banheira e abriu mais ainda as pernas, pressionando-se contra as pernas peludas de Simon, uma de cada lado dela. Por favor. Ela não conseguia tolerar algo tão bom assim por mais tempo, mas também não queria que parasse. – Com mais força. Mais rápido. Sim… isso… assim… ah… – Ela investiu os quadris para que encontrassem os dedos dele, levando-o mais fundo, roçando o clitóris contra a pressão do polegar. – Assim, amor. Você é tão linda. Quero que chegue lá para mim. Isso… – A voz de Simon a levou ao limite. Tawny virou a cabeça e mordeu o ombro dele, sugando-o, sentindo o gosto salgado e quente da pele na língua enquanto tinha espasmos de prazer. Ela desabou de encontro a Simon, simplesmente porque não parecia ter nenhum osso sobrando no corpo. Tawny sentia-se tão luida e amorfa quanto a água que a cercava. Simon lhe beijou o cabelo e a abraçou com mais firmeza. – Ah, Tawny… – Hum – murmurou ela e roçou a bochecha no braço dele, a única reação que conseguia expressar no momento. Aos poucos, Tawny foi se recompondo, totalmente ciente do cume rijo atrás de si, dos músculos tesos da barriga e do peito dele, da tensão nos braços de Simon. Ela deslizou para a frente e girou para encará-lo, de joelhos. A excitação e o desejo gravados no rosto dele, reluziam dos olhos. Com um sorriso lento, ela pegou o sabonete. – Sua vez.


– NÃO CONSIGO erguê-lo – disse Tawny, a frustração evidente no modo com tirava o cabelo da testa. – Quer tentar? – Claro. Vou tentar. – Deus, seria constrangedor se ele não conseguisse se levantar para ela, mas não havia garantias. Simon concentrou o peso nas costas, puxando o caixilho da janela. – Estes prédios velhos foram pintados tantas vezes, e em algumas a janela foi pintada quando estava fechada. – Ele sentiu que cedia um pouco. – Acho que vai dar. Sim. A janela cedeu e abriu alguns centímetros. Simon a forçou pelo restante do caminho. – Meu herói! – Tawny o provocou com um sorriso, porém os olhos brilhavam com algo que envolveu o coração dele. Deus, Simon era impossível mesmo. Sentia-se com 3m no entanto só porque havia aberto a maldita janela para Tawny. – Não é nenhuma rajada do Ártico, mas está um pouco mais fresco aqui. A chuva torrencial havia trazido um pouco de alívio para o calor implacável, que subia do asfalto abaixo. – Quando chove na minha terra natal, também forma vapor. Mas Nova York nunca tem o cheiro fresco de Savannah depois da chuva – disse Tawny, com uma nota melancólica. Ela puxou o edredon e a coberta e se acomodou nas almofadas encostadas na cabeceira da cama. – Pelo menos os lençóis estão friozinhos. Ela obviamente não tinha a intenção de se sentar no con inamento nauseante de sua saleta. Por ele, tudo bem. Simon se esticou na ponta da cama, uma toalha em torno dos quadris. As roupas úmidas estavam estendidas no suporte da cortina do banheiro. Tawny tinha a vantagem das roupas limpas e vestia uma calcinha preta, muito simples, porém muito sexy, e uma camisetinha preta. – Você sente falta de Savannah? – perguntou ele. – Sinto falta de determinadas coisas. Do cheiro depois da chuva de verão. Do som da carruagem puxada pelos cavalos nos paralelepípedos. Do musgo espanhol drapeando as árvores tão antigas e esparramando seu dossel pelas ruas. Você já esteve lá? – Não. Não sou muito viajado fora de Nova York e da Inglaterra. Ela traçava um desenho preguiçoso na panturrilha dele, com o pé. Simon gostava do jeito casual com que Tawny o tocava, como se necessitasse e tivesse o direito de fazê-lo. – O ritmo mais lento pode deixá-lo louco, mas você adoraria a cidade em


si. Estavam deitados sob a luz oscilante das velas, com os sons de Nova York entrando pela janela, e ela descrevia sua terra natal para ele, sua história, arquitetura e cultura. Estando Tawny ciente disso ou não, a voz dela icou mais baixa, assumiu um pouco mais daquele sotaque sulista arrastado e melado que sempre forrava suas palavras. Simon imaginou os dois aproveitando um passeio de carruagem ao longo das ruas de paralelepípedos sob carvalhos cheios de musgo. – Você ama aquele lugar, Tawny. Por que resolveu ir embora de lá? – Eu amo, e de certo modo foi di ícil partir, mas não realmente. Deixei Savannah porque precisava sair de lá. – Precisava ou queria? – Precisava. Eu tinha de sair da minha zona de conforto, descobrir novos lugares, novas coisas, me descobrir. Ela o deixava intrigado com sua mistura de coragem, atitude, sensualidade óbvia e insegurança. – E conseguiu? Descobrir-se? – questionou ele. – Eu achava que tinha conseguido. A noite de hoje meio que estragou tudo. Mas creio que inalmente descobri que é um processo contínuo. Todos os dias trazem algo novo e diferente, alguns mais que outros, como hoje. Tenho certeza de que não sou a mesma pessoa que era quando fui embora, e isso é bom. Como Tawny se sente em relação às mudanças do dia de hoje? Depois do fracasso com Elliott, será que pensaria em voltar para casa? Ela não dava a impressão a Simon de ser do tipo que voltava para a casa da mamãe, mas ele precisava perguntar. – Depois dessa coisa com Elliott, está pensando em voltar para lá? Tawny balançou a cabeça e lhe lançou um olhar engraçado. Cachos soltos do cabelo dançavam pelos seus ombros. – Não em um futuro previsível. Amo Savannah, e aquele sempre vai ser meu lar. Fico ansiosa pelas minhas idas para lá, mas Nova York tem um lugar bem seguro no meu coração também. E você? Já quis morar em outro lugar? Era fácil conversar com Tawny, e a escuridão também não era um problema. Simon se lagrou contando coisas que nunca revelara a ninguém, nas quais talvez nunca tivesse pensado duas vezes.


– Quando eu era criança e passava meus verões em Devon, queria icar lá para sempre. Quando cresci, percebi que eram meus avós que me atraíam para lá, e não o lugar em si. Assim que fui morar sozinho, Nova York pareceu mais meu lar. – Meus pais também não ficaram exatamente alegres e entusiasmados. Eles não estavam nem mesmo se tocando… Bem, exceto pelo pé de Tawny na panturrilha de Simon. Mas ele se sentia mais próximo dela emocionalmente do que jamais se sentira de qualquer pessoa, até mesmo de Elliott. Simon quase disse a ela que não havia feito tal comentário sobre os próprios pais, mas ele supunha que izera, sim. Indiretamente. Tawny tinha um jeitinho de enxergar através dele. E conforme ela dissera antes, de que adiantava mentir? – Mas você é ardente e extrovertida. Como isso aconteceu? – Sou uma anomalia, a peça que não se encaixa. – Tawny riu, e a nota de pesar partiu o coração dele. – Eu sempre fui o estranho no ninho também. – Simon achara isso inúmeras vezes. Era libertador dizê-lo. – Como eles são? – Meus pais? Tawny assentiu. – Inteligentes, envolventes, articulados. São uma unidade autossuficiente. Grandes anfitriões de festas e péssimos pais. – Sem irmãos ou irmãs? – Não. Sou só eu. – E havia sido só ele em todos os aspectos. Os três não eram uma família. Crescer tinha sido uma experiência solitária até Simon e Elliott se tornarem amigos, fato que ele particularmente não queria revisitar. – Como foi crescer com duas irmãs? – Simon mudou o rumo da conversa para ela. Tawny olhou para ele, e Simon soube que ela havia percebido a manobra. Ainda assim, porém, começou a contar histórias sobre as irmãs.Ela era uma contadora de histórias nata. Ele adorava o ritmo e a cadência de sua voz. Havia uma característica calmante na entonação dela, mesmo quando Tawny o regalava com suas travessuras de infância. – Você pode ser o bebê da família, mas estou vendo um padrão aí. Garanto que é a líder. – Hum. Eu lhe disse… Sou a única que não se encaixa de fato. – A fala


ficou excessivamente arrastada. – Você parece cansada. – E estou. Que horas são? Simon verificou o relógio de pulso luminoso. – Quase meia-noite. – Ainda é cedo, mas acho que estou emocionalmente exausta. Além disso, tivemos muita diversão… – Durma um pouco. – Hum… Boa ideia. Eles tinham feito sexo duas vezes, mas havia tal intimidade no ato de dividir uma cama com outra pessoa de fato, baixar a guarda o su iciente para mergulhar na inconsciência… – Prefere que eu vá para o sofá, Tawny? – Não. Fique comigo. Não interprete além do que ela quer dizer. – Está mais fresco aqui… e eu não quero que você vá. Troquei os lençóis esta manhã, se estiverem… sabe, se você se sentir estranho com isso… Estou fazendo uma confusão. – Não está fazendo confusão nenhuma. – Ele deslizou em direção à cabeceira para se deitar ao lado dela. Tawny era uma mulher em um milhão… preocupada com o fato de ele icar incomodado por dormir nos mesmos lençóis que Elliott. Simon contornou o nariz dela com um dedo e deu um beijo casto de boa-noite em sua testa. – Obrigado por me informar. Durma; estarei bem aqui. Ela sorriu de maneira sonolenta, facilmente o sorriso mais lindo que ele já vira, diante ou detrás das câmeras. – Tente dormir também. – Ela encontrou a perna dele com o pé. – Vou tentar. Simon se deitou na cama dela e icou ouvindo os sons abafados de uma cidade que nunca dormia, mesmo no meio de um blackout, e a cadência suave da respiração de Tawny. Sem pensar, ele tirou delicadamente o cabelo do rosto dela, desejando apenas tocá-la enquanto ainda pudesse, sem querer dormir para não perder o tempo que tinha com ela. Tawny emitiu um som meigo, satisfeito. – Simon? – Hum?


– Estou feliz por esta noite ter acontecido. – O sono iminente embaralhou as palavras dela. – Eu também – disse ele. Apesar do calor sufocante, Tawny se aproximou dele, e – que diabos, eles já estavam suados e melados – Simon a puxou para si. As coxa dela deslizou para icar entre as dele, e Tawny pôs o braço no peito largo. Deulhe um beijo carinhoso e sonolento ali, e Simon silenciosamente sentiu-se um pouco mais profundamente apaixonado por ela. Se é que isso era possível.


Capítulo Oito

NÃO! VOLTE!

Que diabos! Simon se levantou num tranco, por instantes desorientado pela cama estranha, pelas velas e pela mulher gritando. Certo. Tawny. A cama dela. Blackout. – O que houve? – Ele icou de pé e agarrou Tawny, que tremia feito uma folha. – Peaches. – Ela engoliu em seco e fez um gesto para a janela do quarto. – Ele forçou pela tela e saiu pela janela. Está no beiral. – Tawny agarrou o braço dele, apavorada. – As garras da frente de Peaches foram aparadas. E se ele escorregar? Ela amava aquele gato. Assim, Simon não hesitou, não pensou, simplesmente fez. Mexeu na tela solta, puxou-a de volta para dentro e enfiou a cabeça na janela. – Consegue vê-lo? – Tawny se espremia pela abertura da janela. – Ai, Deus… Peaches, agora que a proeza estava feita, percebeu o erro de suas escolhas e se encolheu na borda a muitos metros de distância. Tawny baixou a voz, que tremia: – Venha, querido. Venha cá, Peaches. Tenho um bom petisco esperando por você.Peaches começou a miar em histeria felina, mas não se mexeu. Brilhante, se os moradores do apartamento ao lado abrissem a janela, o gato na certa levaria um susto e cairia. Tawny agarrou o braço de Simon outra vez, e ele tentou reconfortá-la. – Apenas fique calma. – Vou sair atrás dele – disse ela. – O diabo que vai. – Não posso simplesmente largá-lo ali. – Eu vou pegá-lo. – Não. Não posso deixar que faça isso. E ele não conhece você, afinal. Sobre seu cadáver que ela iria até aquela borda molhada. Simon olhou


para fora, todos os sete andares abaixo, e podia muito bem ser o corpo dele no asfalto… mas de jeito nenhum: não tinha como deixar Tawny ir. – Animais em pânico reagem melhor a estranhos em situação de resgate. Vi isso no Animal Planet. – Uma besteira das boas, usando a expressão favorita do vovô Dickie, e ele mentiria outra vez para mantê-la longe do beiral. Simon afastou Tawny da moldura da janela, de volta ao quarto. – Espere aqui, vou pegá-lo para você. Ele não lhe deu a chance de discutir: saiu pela janela até o beiral. Era bem mais estreito do que parecia visto do lado de dentro. Simon agarrou o caixilho da janela com a mão esquerda e icou de pé lentamente, lutando para manter o equilíbrio. Apoiou a mão direita nos tijolos, desejando que o beiral fosse feito do mesmo material em vez de mármore molhado e escorregadio. Abraçou o prédio. Cometeu o erro de olhar para baixo. A vertigem o embalou. Tonto, oscilou, mas recuperou o equilíbrio. Droga. Droga. Droga. Não gostava nada de altura. – Simon, volte aqui – disse Tawny, a cabeça en iada para fora da janela, perto do joelho dele. – Voltarei quando pegar o gato. – Ele manteve os olhos treinados no prédio e em Peaches. – Como irá fazer isso? Ela escolheu uma bela hora e lugar para bater um papinho. – Não sei. Estou bolando um plano agora. – Não acha que devia ter pensado nisso antes de sair? – Acho que funciono melhor sob pressão. – Mais um monte de besteira. Simon se esticou em direção a Peaches, e sua toalha, com o nó frouxo por causa da escalada na janela, desceu até os quadris. Que beleza. Ele estava vestindo apenas uma toalha, que começava a cair. Movimentando-se muito lenta e cautelosamente, Simon a tirou e jogou sobre um ombro. Melhor icar em um beiral com o bumbum à mostra do que tropeçar na toalha. Droga mais uma vez. Ele não ia nem mesmo morrer com digni idade. Honra, talvez, mas dignidade, não. Anime-se. Con ie em si. Ele podia fazer aquilo. A chave para não morrer era mover-se devagar e com firmeza. Pelo menos, Simon assim o esperava. E a chance dele de pegar o gato era equivalente a ter uma bola de neve no inferno. O animal dera uma patada nele mais cedo, quando tentara


acariciá-lo. Simon fez a única coisa que sabia fazer: continuou a deslizar em direção ao gato, falando de homem para homem… de homem para gato, num sussurro. – Certo, amigão. Fique irme. Veja só, o negócio é o seguinte. Você pode ter sete vidas, mas eu só tenho uma… – O quê? – perguntou Tawny. Simon virou a cabeça em direção a ela. – Só estou conversando com o gato. Dê-nos um minuto, certo? E eu ficaria muito grato se houvesse silêncio e nenhum movimento brusco. Ele voltou a olhar para Peaches, dando batidinhas na coxa para chamálo. – Muito francamente, acho que sou jovem demais para morrer. De todo modo, cair pelado no asfalto não era bem o jeito como eu queria partir deste mundo. E quem sabe, você pode já ter usado todas as suas vidas. O gato deu outro miado arrepiante. Um sopro de brisa gelada esfriou o suor que escorria entre as escápulas de Simon. – Ouça, tenho uma proposta para você. Apenas escute. Eu o pego, nós voltamos lá para dentro, e juro que vamos fazê-la arranjar outro nome para você. Peaches… Eu também estaria aqui fora se tivesse que conviver com isso. Mas, palavra de honra, você vai ser rebatizado assim que meu traseiro nu passar por aquela janela com você. Peaches baixou as orelhas. Be-le-za. Aquilo não era um bom sinal. Simon estava quase lá… só mais alguns centímetros… – Eu vou passar por cima de você, para chegar ao outro lado. Simon respirou fundo. Era fazer ou morrer, e ele não gostava da segunda opção. Ergueu o pé direito e passou por cima do gato, o que o deixou escarrapachado acima de Peaches na borda, meio esparramado, mas pelo menos ele podia se segurar na moldura e na tela da janela do vizinho de Tawny. Olhou para o gato. O gato olhou para Simon. Ou, mais especi icamente, para partes dele. Peaches se concentrou no “pequeno Simon” balançando ao vento com um brilho malicioso nos olhos felinos, como se tivesse acabado de descobrir um brinquedo de gato ultramoderno. – Nem pense nisso… – Simon colocou a mão protetora sobre seu equipamento. De repente, uma senhora apareceu à janela. – Tarado! – berrou ela.


Ela baixou a persiana bem na cara dele. Assustado, Simon vacilou. Ele enterrou os dedos na moldura da janela. Opa! Firme. Firme. Só mesmo em Nova York. Ele se reequilibrou e passou o pé esquerdo por sobre o gato. Ufa! Simon tirou a mão de seu tesouro. Agora, a parte realmente assustadora… como se ele não tivesse ficado apavorado até então. – Sou pegar você com esta toalha. Eis a parte capciosa. Preciso que ique bem quietinho ou vou perder o equilíbrio e ambos iremos nos esborrachar… Não é um final feliz. Simon tirou a toalha do ombro. – Aqui, isso. Apenas lembre-se, você vai ganhar um nome novo. Algo legal. Algo másculo. Algo durão para combinar com a sua imagem. – Enquanto falava, Simon se inclinava e, com muito cuidado, embrulhava o gato na toalha. – Fique frio. Estamos a apenas um minuto de você ganhar um novo sopro de vida… e de eu manter a minha. Surpreendentemente, Peaches não ofereceu resistência e não se contorceu quando Simon o pegou sob o braço como se o gato fosse uma bola. Ele não fazia ideia de quanto tempo aquilo tinha levado – pareceram horas –, mas continuava a falar bobagens e a caminhar pela borda até a janela de Tawny. En im, passou o gato pela janela. Tawny pegou o Gato Que Havia Ganhado Um Nome Novo e o abraçou. Simon usou a mão livre para agarrar o peitoril da janela aberta. – Precisa de ajuda para entrar? – perguntou Tawny. – Apenas me dê um pouco de espaço. – Simon passou os pés primeiro. Com o piso sólido debaixo de si e o parapeito da janela atrás, os joelhos de Simon começaram a tremer. Ficar con inado entre quatro paredes nunca fora tão bom! Ele se virou, fechou a janela e a trancou. Eles assariam feito porcos no inferno antes de Simon abrir aquela janela outra vez. Simon se virou no instante em que Peaches perdeu a paciência por estar no colo e saltou dos braços de Tawny, disparando para outro cômodo. Simon ainda não havia recuperado o fôlego quando Tawny o contornou, os olhos brilhando, o cabelo saindo em ângulos estranhos, como se ela tivesse estado em uma briga e os fios houvessem sido quase arrancados. – Essa foi a coisa mais estúpida e idiota que já vi! – berrou ela.


Hein? – Que diabos! Que tal um “obrigada”? – Obrigada? Obrigada?! – A voz dela aumentava a cada obrigada, o que ele realmente pensava não ser possível. – Eu deveria dizer “obrigada” quando você poderia ter morrido lá fora, seu idiota?! Tawny se lançou sobre ele e o esmurrou no peito. – Você poderia ter caído. Eu senti tanto medo… E você estava nu. Poderia ter morrido! Deus, ela estava quase histérica. Simon segurou os pulsos dela, tentando não machucá-la. – Shhh. Shhh. Está tudo bem. Eu estou bem. Estou legal. Você está bem. Nós estamos todos bem. Nós? De onde tinha vindo aquilo? Tawny encostou a cabeça no peito dele. Simon correu as mãos suavemente pelo cabelo dela, que lhe enlaçou o pescoço, puxando-o para mais perto, com mais força de encontro a si, como se não conseguisse se aproximar o suficiente. – Nunca mais faça algo assim. Nunca tive tanto medo na vida. Se você tivesse caído… Tawny lançou a boca para a dele e o beijou com toda a paixão despertada pelo medo e pela raiva. Ela apertava a boca contra a de Simon, desencadeando uma onda de adrenalina nele pós-beiral-da-janela. Tawny travava uma guerra com a língua. Simon retribuía o beijo como se a estivesse devorando. Droga. Ele poderia ter morrido lá. Não teve tanta certeza disso até fechar a janela detrás de si. Mas não morrera, e Tawny estava em seus braços. E ela se importava – muitíssimo, pelo que parecia – por ele ter arriscado a vida. Eles saíram cambaleando até a cama, ambos tentando devorar um ao outro vivo. Caíram no colchão. Dessa vez Simon foi até o criado-mudo para pegar um preservativo, a mão tremendo. Ele a desejara antes, tinha icado ardente por ela, sonhado com ela, feito amor com ela, mas jamais conhecera algo assim… o desejo avassalador e intenso de se enterrar tão fundo e com tanta força dentro de Tawny, para comemorar por ter saído daquele beiral, para reivindicá-la. Enquanto ele vestia o preservativo, Tawnyn tirava a calcinha e a camiseta e se deitava de costas, as pernas entreabertas, o sexo brilhando,


pronto. – Não. Role. Fique de joelhos. Ela permaneceu de costas, porém fechou as pernas, uma expressão rebelde no rosto. Direção errada. – Não. Não até você apagar todas as velas – disse ela. Tawny não era exatamente a mulher mais lógica que ele já conhecera. – Mas você tem medo do escuro. – Tenho mais medo ainda do tamanho imenso do meu traseiro. E estamos desperdiçando tempo. – Ela esticou a mão e envolveu os dedos em torno dele, daí acariciou. Droga, como era bom, mas Simon era mais resistente que isso. Ele se afastou dela e se ajoelhou ao lado da cama. Tawny o espiou com desconfiança e uma boa dose de frustração. – Estou aqui para adorar no altar de seu magní ico bumbum delicioso. Por que acha que me arrastei por aquele beiral? Pelo gato? Assim eu poderia admirar seus lindos olhos verdes depois? Assim você poderia tentar me espancar depois de eu completar minha missão? Ah, não, amor. Eu subi ali por isto. – Ele acariciou a curva de seu belo bumbum e afundou as mãos nas nádegas. Tawny pareceu dividida entre rir e socá-lo, mas por sorte ela ainda estava com aquele brilho nos olhos tipo você-tem-um-parafuso-a-menosno-cérebro. – Como eu disse antes, isso… – Simon lhe acariciou a curva do bumbum – seria capaz de deixar os homens de joelhos. Veja só. Estou de joelhos. E gostaria de vê-la de joelhos também, com o máximo de luz possível. Assim poderei desfrutar não apenas da sensação e do sabor, mas da visão dessa bela obra-prima em ação. Ele não ia desistir daquilo. Não apenas cada palavra sua era sincera – queria vê-la se agitando e rebolando enquanto ele a penetrava por trás –, como também desejava que ela superasse aquela timidez, que percebesse que seu traseiro era motivo de comemoração, e não algo para se esconder no escuro e sobre o qual fazer comentários depreciativos. Simon acariciou a carne macia em questão. Totalmente convencido de que ações falavam mais que palavras, ele se dedicou a mostrar a ela o quanto valorizava seus atributos. Demorou-se beijando… lambendo… sugando pelo doce terreno. Tawny o recompensou com gemidos baixinhos de satisfação, contorcendo-se de encontro à boca de Simon.


Ele ardia por ela… Simon tinha de fato um grande apego pelo bumbum de Tawny, e o aroma almiscarado da excitação dela era enlouquecedor, a umidade se in iltrando entre os lábios inferiores… Simon colheu uma provinha de seu doce néctar com a língua. – Simon… Ele olhou para o rosto corado dela de seu ponto de vista privilegiado entre as coxas. – Você me negaria mesmo algo que me faria feliz? Ofegante, frenética, quente, Tawny rolou tão rápido que o pegou de surpresa. Ele se levantou, a ela já estava de joelhos, as pernas abertas, as nádegas redondas empinadas, o sexo nu reluzindo em um convite úmido. – Você está me deixando louca. Vamos fazer do seu jeito. Mas simplesmente faça. – Tawny olhou para Simon por sobre o ombro e deu um tapinha em uma nádega deliciosa. – Se é isto o que você quer, então venha e monte, caubói! Isso mesmo, ele era um vaqueiro em uma peregrinação. Simon subiu na cama, posicionando-se atrás de Tawny. Ele deslizou um dedo por entre as nádegas dela. – Cheguei ao templo da divindade. Posso entrar? – Mas que droga, Simon… Não está certo você me fazer rir depois de me deixar tão excitada. Ele deslizou a ereção coberta pelo preservativo pelo canal escorregadio e a roçou no clitóris. – Eu gostaria de me voluntariar em sacrifício. Tawny investiu de encontro a ele e Simon inalizou o serviço, adentrando, as mãos lhe agarrando os quadris. – Issoooo – choramingou Tawny. – Estou feliz. Está feliz agora? Ela era quente e apertada, e ele acertou o ritmo da cavalgada. E confessou enquanto aguentava falar: – Não. Estou em êxtase. – QUER QUE eu faça o quê? Esqueça. Não farei isso – disse Tawny, e rolou, deitando-se de costas, bufando. Mas que droga, ali estava ela, sentindo-se molenga e maravilhosa depois de um sexo muito, muito quente, e agora Simon estragara tudo. Simon rolou para o lado da cama, gracioso, todo poder e músculos, e


seguiu até a porta. Irritada com ele ou não, Tawny se contentava por vê-lo caminhar por ali, nu, durante muito tempo; só que agora ele estava seguindo porta afora. – Aonde você vai? – Ela quis saber. – Pegar minha câmera. – Você precisa da sua câmera para discutir isso? – Não. Preciso dela para captar o jeito que você ica quando faz beicinho. Lembre-se, eu deveria estar captando seu eu verdadeiro. – Isso foi uma coisa idiota de se dizer! – berrou ela para ele. – Desculpe. Desculpe uma ova. Simon não parecia lamentar nem um pouco. – É minha especialidade – gritou ele do outro cômodo. – O quê? Fotografar ou ser um idiota? – sussurrou Tawny para si, totalmente irritada com ele. – Eu ouvi isso. – Simon reapareceu à soleira, usando a calça jeans, sem camisa, a câmera pendurada no pescoço. – Os dois. – Eu concordo. Ele se aproximou da cama, a câmera zumbindo. Tawny lhe lançou um olhar altivo, empinou o nariz e depois virou o rosto. – Perfeito. Tawny de mau humor. Ela se voltou para ele. – Não estou de mau humor. – Mesmo? E do que você chama isso? – Chateada. Estou chateada. Você não tinha o direito de prometer ao meu gato que eu mudaria o nome dele. Adoro o nome dele. Se você quiser dar um nome a um bicho, vá arrumar um bicho para você. Tawny não dava a mínima se estava sendo rude. Durante toda a vida recebera ordens sobre o que fazer, quando fazer, como fazer. Finalmente se achava por conta própria, e para o diabo que alguém – independentemente do quão lindo ele fosse nu ou como a satis izesse completamente na cama – iria rebatizar seu gato arbitrariamente. Peaches era a primeira coisa que ela possuíra que era só sua. Dane-se, Simon! – Eu estava desesperado. Foi a única coisa na qual consegui pensar ali. E dei minha palavra a ele. – Bem, você devia ter me consultado antes. – Sério? Eu deveria ter conduzido as negociações do beiral da janela, onde por acaso eu estava pendurado nu?


– Não precisa ser sarcástico, Simon. – Não precisa ser irracional, Tawny. Ela iria deixar aquele comentário passar, pois a outra opção era matá-lo. E pensar que começara a gostar dele. Argh… Simon a enfurecia. – Eu lhe pedi para ir lá fora? Não! Na verdade, eu disse a você para não ir. – Achou mesmo que eu iria deixar você ir lá fora? Tawny não conseguia se lembrar de já ter falado cuspindo, de icar tão furiosa a ponto de não conseguir se expressar verbalmente. Nem mesmo há uma eternidade, quando descobriu que Elliott mudara de time. – Hum… hã… você… você… machão total… acha que só porque é homem é mais corajoso? – Corajoso? – Ele jogou a cabeça para trás e riu, mas não soou como se de fato achasse graça. – Coragem não tem nada a ver com isso. Eu estava tão apavorado que não conseguia enxergar direito ali. E você pode esquecer essa coisa de machão, porque o sr. Machão não iria admitir isso. – E eu sou irracional? Há! Se você estava com medo, por que simplesmente não deixou para lá? – Porque eu não conseguia… parecia a coisa certa a se fazer. Ele saiu do quarto. Típica atitude masculina simplesmente sair no meio de uma conversa que não o favorecia. Tawny vestiu a calcinha e a camiseta e foi marchando pelo corredor atrás dele. – Bem, eis uma explicação. Isso realmente esclarece tudo para mim. Obrigada – disse ela. – Você não consegue simplesmente deixar nada para lá? – Simon sentouse no sofá. Se ele pensava que podia se livrar dela ou fazê-la se calar se en iando naquela saleta claustrofóbica… bem, estava errado. Tawny sentou-se na outra ponta do sofá. – Não, Simon, não consigo. Então atire em mim só porque gosto de um pouco de lógica na minha vida. – Claro! Você não é exatamente a mulher mais lógica que já conheci. Ele devia estar brincando! – Que precioso… ainda mais vindo de um sujeito que escalou uma janela nu e prometeu mudar o nome do meu gato… sem minha permissão, devo acrescentar, porque parecia a coisa certa a se fazer. Ah, sim. Você é o rei


da lógica. – Você quer lógica? Tente isto. Fui lá fora porque, se eu não fosse, você iria, e eu não conseguiria suportar se algo lhe acontecesse. – Simon fechou a boca com força, como se tivesse falado demais. E, bem, na verdade, ele falara demais mesmo. Simon fora para o beiral porque estava preocupado com ela? Um calor que nada tinha a ver com sexo, e sim com emoção, a permeou. Ele não era o centro da situação… numa tentativa de parecer corajoso e machão. Simon se arriscou para resgatar o gato por causa dela. – Ah… – disse ela um tanto taciturna. – Portanto, desculpe se você está chateada, mas eu prometi a ele um nome novo. Simon não era apenas um maníaco por controle querendo estragar a rotina dela. A culpa substituiu a raiva. – Talvez eu tenha exagerado um pouco com tudo isso. – Ahã. O que acharia se você fosse um gato grande e malvado com um nome como Peaches? – Simon estremeceu. Sério, ele não precisava soar tão desdenhoso, e podia parar com a ceninha. – Não é como se eu o tivesse castrado sozinha. Simon esticou o braço pelo encosto do sofá e roçou os dedos pelo ombro dela. – Não. O veterinário ajudou, mas o nome faz um bom trabalho. – Tudo bem. Vamos ouvir você fazer melhor. Qual é sua sugestão? – Como? O olhar vago dele lhe pareceu um tanto cômico e bonitinho. Tawny não achava que Simon ficasse inexpressivo com frequência. – Nomes, Simon. A ideia foi sua. Você deve inventar um nome para ele. – O gato é seu. – De acordo com algumas culturas antigas, como você salvou a vida dele, Peaches essencialmente lhe pertence agora. – Mas eu não o quero. – Simon pareceu apavorado diante da perspectiva. – Não o estou dando a você literalmente. Pense de maneira igurada. Estou lhe dando a tarefa de dar um nome a ele. – Mas eu não quero. – Ora… Você prometeu um novo nome ao gato… Então dê você um.


– Mas eu não sei nada sobre dar nome a animais. Ela revirou os olhos. Deus. Simon era sensual, maluco e irritante. – O que quer dizer com não saber como dar nome a animais? Você simplesmente dá. Nunca teve um bichinho de estimação? Ele cruzou os braços. – Não. Simon estava puxando a perna dela. – Nenhum gato, cachorro, hamster, porquinho-da-índia quando era criança? – Não. Ela desceu então para uma cadeia animal que não considerava bem como animais de estimação. Não dava para simplesmente se abraçar um réptil. – Nem mesmo um lagarto, uma cobra ou… talvez um sapo? – Nenhum bicho. Tawny entendeu. – Deixe-me adivinhar: seus pais. – Eles não eram fãs de bichos. Tawny cerrou os dentes, colocando em risco os milhares de dólares em ortodontia que seus pais investiram. Que tipo de pessoa negligenciava seu ilho emocionalmente e ainda por cima lhe negava um animal de estimação? Mesmo a formal família Edwards tivera um cão, um hamster e vários peixinhos dourados ao longo dos anos. Um sapo teria sido melhor que nada. – Deixe-me adivinhar outra vez. Um bicho daria trabalho demais? – Isso mesmo. – Devo lhe dizer que não gosto dos seus pais. – Ela estava louca para dar sua opinião. Simon pareceu chocado, como se surpreso por Tawny ter criticado os pais em nome dele. Então sorriu. Uau! Ele devia sorrir com mais frequência. – Não se preocupe, Tawny, eles também não icariam encantados com você. É muito… soltinha para eles. – Soltinha? Gosto disso. – E Tawny icaria apavorada se aquelas pessoas gostassem de fato dela. – Não pense que você vai sair pela tangente e não rebatizar Peaches. Ou dá um nome a ele ou meu gato será Peaches para sempre, e você terá descumprido sua promessa.


– Você é uma mulher durona, Tawny Edwards. – Humpf! Só o estou obrigando a fazer em vez de só falar. – Brutus. – Simon sorriu. – Céus, não posso morar com um gato chamado Brutus. Tente outra vez. – Magnus. – Um sorriso ainda maior. Tudo bem. Ela entraria no jogo dele… e o venceria. – Esqueça. Acabei de ter uma ideia genial. E é uma ideia genial se você considerar o quanto ele geralmente é di ícil, distante e irascível. Em vez de você dar um novo nome a Peaches, eu vou dar um nome a ele por você. – Por mim, tudo bem. Qual é, então? – O sorriso deu lugar à apreensão. Ele devia ficar desconfiado. – Simon. Em sua homenagem. – Não acabou de mencionar distante, irascível e geralmene difícil? – Pois é. Cai como uma luva… Interessante. Simon não pareceu descon iado, perplexo ou no mínimo irritado. Quem teria pensado nisso? O sujeito maluco parecia satisfeitíssimo por ter um gato homenageando seu nome. – ELE PARECE feliz com o novo nome. O que você acha? – indagou Tawny. Simon, o gato, antes conhecido como Peaches, estava em cima da geladeira, olhos fechados, como sempre ignorando-os. Simon, o homem, achava Tawny louca, totalmente irracional e completamente adorável. – Eu diria que ele está fora de si. Tawny balançou a cabeça e o açoitou com um olhar. – Eu o conheço melhor do que você, e estou dizendo que ele está feliz. – O que você disser. Prometi ao rapazinho um nome machão, e estou bastante certo de que Simon não se enquadra nessa categoria – argumentou ele, sabendo que era inútil. Tawny riu, e Simon tirou uma foto mental. Queria se lembrar daquele momento para sempre. Eles estavam envolvidos em uma conversa fútil na cozinha, que estava um forno, sem luz, e Simon não conseguia se lembrar de já ter se sentindo mais feliz do que naquele momento. – Como se Magnus fosse o chefão? Certo. – Sabe, você pode desencadear um complexo em um cara com isso – disse ele. – Melhor tomar cuidado ou você pode virar gay, como Elliott – brincou


Tawny, mas sem dúvida continuava perturbada com a revelação de Elliott. – Não é uma possibilidade remota. Eu sei que você está brincando, mas a preferência sexual de Elliott não é um re lexo da relação com você. – Simon sorriu e se permitiu olhar para ela com a familiaridade de um amante bem satisfeito. – Eu sei em primeira mão. – Tawny icou na ponta dos pés e deu um beijo na bochecha dele, a mão repousando de leve em seu ombro. – Obrigada. Quer goste de admitir, quer não, você é mesmo um cara muito legal. A ternura dela o abalou. – Você não me chamou de idiota agora há pouco? – Não são características mutuamente excludentes. Você pode ser isso também. O jeito como Tawny o olhava, como se ele fosse perfeito, deixou a boca de Simon seca e o coração palpitando. Ela estava errada. Podia achar que o conhecia, mas não conhecia. Ele era 99 por cento idiota em 99 por cento do tempo. Tawny estava repercutindo os bons momentos e pintando-o como alguém que não era. – Você vai ter que conversar com Elliott, Tawny. – Tecnicamente, não tenho que fazer nada… mas acho que sim. – Precisa encerrar essa história, ou vai terminar perseguindo-o porque estará viciada em antidepressivos – disse ele. Era fácil ficar com ela. Fácil provocá-la. – Você me conhece muito bem. – Tawny jogou um pano de prato na cabeça dele. Simon o pegou com uma das mãos. – Você parece lidar bem com isso. – Não sou propensa à histeria. Simon arqueou uma sobrancelha, se recordando da cena que ela izera quando ele retornada do peitoril da janela. Tawny beirara a histeria. Com ele. Simon ainda se recuperava. – Certo. Bem, se pensar que você está prestes a ver alguém que conhece e com quem se importa morrer, isso é um pouco diferente. Mas, via de regra, não costumo icar histérica. – Tawny o itou da cabeça aos pés, o olhar se prolongando na parte da frente da calça. – E você de initivamente ajudou a aliviar minha dor por ser rejeitada. – Fico feliz por servi-la. – E ele estaria pronto para mais serviço se ela não parasse de encarar sua virilha daquele jeito.


– Você pode pensar “Ah, até parece”, mas estou quase aliviada. Não por Elliott ser gay e não por ele ter me feito perder meu tempo… isso é um pouco complicado de encarar… mas acho que nós dois sabíamos que algo não estava funcionando. E então, quando comecei a ter aqueles sonhos com você… bem, isso meio que faz uma garota pensar que não está exatamente pronta para se amarrar. Simon ainda se sentia aturdido por ter sido objeto de fantasia de Tawny, mesmo que ela estivesse inconsciente no momento. – Sonhos são um indicativo muito duvidoso, Tawny. Você teria cancelado tudo se Elliott não tivesse se envolvido com outra pessoa? Ela pensou na pergunta dele por alguns segundos, os lábios franzidos, antes de tirar o cabelo do rosto. – Não sei. É provável. Espero que sim. Eu não o odeio, embora tenha chegado bem perto disso quando você me contou. Não me surpreendo com o fato de Elliott ter me traído e então despejado a história em você para que me contasse. – Ainda o ama? Sem dúvida o amou em algum momento. – A pergunta lhe causou um aperto no estômago. – Não tenho certeza. – Ela mexeu no ponto do dedo onde a aliança ficava. Simon tinha certeza de que Tawny não se dava conta de seu gesto. – Eu o amei. Na verdade, acho que quando já não estiver tão chateada vou continuar amando. O estômago de Simon afundou na barriga. – Mas não o amo do jeito que deveria amar para me casar com Elliott. Nós nos divertimos juntos, mas não existe uma paixão verdadeira entre a gente… – O olhar dela enlaçou o dele, o prendeu com o fogo de suas profundezas – Nenhuma intensidade. Entende o que quero dizer? Simon desviou o olhar antes de Tawny notar a resposta ardendo em seus olhos. – A menção do nome dele lhe causa um frio na barriga? Faz você ter vontade de ir ao inferno e voltar por ele? O som da voz dele lhe causa arrepios? Entendo muito bem o que você quer dizer. – Elliott e eu não temos isso. Com certeza, Tawny era adulta e podia tomar decisões sozinha. Mas em algum momento estivera bem segura a ponto de concordar em se casar com Elliott. Simon sabia em primeira mão que Tawny podia ser muito emotiva e ilógica, e não queria vê-la tomando uma decisão da qual se


arrependeria mais tarde. – A paixão não dura. Queima e se transforma em algo bem diferente – disse ele, bancando o advogado do diabo. – Não sou ingênua. Não acho que as pessoas ainda tenham esse tipo de coisa depois de 20 anos. Ou, quem sabe, talvez tenham. Mas é imprescindível que se tenha isso no início do relacionamento. O amor não deve ser totalmente confortável, como um velho par de chinelos. Deve ser um par de sapatos de salto alto: sensual e excitante, a ponto de o desconforto valer a pena. E se foi isso o que Elliott encontrou, dou meu apoio. – Ela deu de ombros e sorriu. O sorriso de Tawny era tão ela – natural, irresistível, ensolarado – que Simon não conseguia evitar sorrir de volta. – Essa é nova. Nunca vi o amor ser comparado a um par de sapatos de salto alto. – Eu não percebia que me sentia assim até… bem, acho que começou com aqueles sonhos, e agora com isso, com Elliott tendo me obrigado a reavaliar tudo. E não posso evitar se você acha que estou sendo cafona quando digo que o sexo entre nós, entre mim e você, tem sido incrível. Simon precisaria estar morto ou ser burro demais para não sentir a onda de orgulho masculino por ter sacudido o mundo dela a um grau que Elliott obviamente não conseguira. Ele tinha certeza de que estava ostentando um sorriso idiota. – Tem mesmo, não é? – Já que estamos falando de Elliott… Quero que você saiba que não tenho a intenção de mencionar para ele o que houve esta noite… você sabe… nós dois… Aquilo tirou o sorriso do rosto dele. – Porque você tem vergonha? – Não. – Tawny lançou um olhar para informá-lo de que ele era mais esperto que isso. – Porque ele é seu amigo, e eu não quero me meter na amizade de vocês. Mais que isso, Simon, porque não quero que pense que dormi com você para me vingar dele. Tudo aconteceu porque você me enlouqueceu nos meus sonhos, e então quando chegou aqui… foi ainda pior. – Pior? – Você sabe o que quero dizer. O som da sua voz, o toque das suas mãos em meus ombros, seu perfume.


Todas as características da paixão. Ela o excitava sem nem mesmo tocá-lo. E só havia uma reação lógica a isso. Simon a prensou contra o balcão e a beijou.


Capítulo Nove

TAWNY CORREU as mãos pelo peito molhado de suor de Simon. Dar uns amassos de initivamente havia aumentado a temperatura dela, mas a cozinha estava como uma fornalha. Algo que ela lera em uma revista certa vez e arquivara para referências futuras lhe ocorreu. Agora parecia o momento ideal para tentar. – Que tal um picolé? Se icarmos muito mais tempo sem eletricidade eles vão derreter de qualquer forma. Pelo menos nos refrescará. Ele se afstou para o lado de modo que ela não estava mais prensada entre o balcão e o corpo duro, com algumas partes dele icando mais rígidas. – Claro. Não chupo um picolé há anos. – Eu mantenho um estoque quando está muito calor. É meio que uma espécie de solução doce sem todas as calorias. – Tawny abriu o congelador e pegou uma caixa. – Ótimo. Ainda estão congelados. Cereja, morango ou uva? – Com certeza cereja. Ela entregou um a ele. – É meu favorito também. – Tawny recolocou a caixa no congelador. Tawny dissera a ele que o picolé iria refrescá-lo, mas não sem que antes que ela pudesse aquecê-lo. Tawny tirou a embalagem, bem devagar. Fazendo uma produção toda sensual, lambeu um lado, e então foi descendo pelo outro. – Hum… – Olhando para ele, Tawny en iou o picolé todo na boca e sugou, baixando e subindo a cabeça em direção à guloseima congelada. E gemeu. Simon ficou paralisado, segurando seu picolé. – Não tenho certeza se consigo observar você chupando sem ter um infarto. – Ele se recostou no balcão, como se estivesse igualmente incerto sobre se suas pernas iriam sustentá-lo. Tawny sorriu e mordiscou a pontinha. Ela nem imaginava o quanto o estava excitando. Excitando a ambos. Ela deslizou a camisetinha pelos


ombros e baixou a parte da frente, libertando os seios. – Bem, então o que acha disto? – Tawny trilhou o picolé pelos mamilos. O contato do gelo na pele era incrível, a sensação disparava dentro dela. – Uau! É garantido que refresca bem rápido. Simon emitiu um som de engasgo. – Tawny… Havia uma protuberância bem de inida pressionando a parte da frente da calça dele. – Quer levar nossos doces para o quarto? Acha que seria mais confortável lá? – Tawny não tinha a intenção de fazer sexo com picolé, ou qualquer outro tipo de sexo, aliás, diante de seu gato. Ela pegou uma tigela. – Vamos. – Simon lhe agarrou a mão e quase a arrastou pelo corredor até o dormitório. – Hum… Gosto de homens com entusiasmo… – Você e seu picolé sem dúvida levantaram meu entusiasmo – disse ele. Rindo, ela pegou do chão a toalha que Simon tinha usado, esticou-a sobre a cama e sentou-se na beirada. Simon fez menção de tocá-la, e ela recuou. – Entusiasmo é uma coisa, mas impaciência é outra. Ainda não está na hora. Nós só começamos a saborear nossos picolés. Ela trilhou o doce pelos mamilos – Deus, a sensação era incrível! –, e então pela barriga, por cima das coxas. – Amor, por favor… Tawny sentia-se tão malvada… E adorava aquilo. Ela estava muito molhada, e não era de suor. – Vou lhe dizer qual parte preciso resfriar… – Ela se deitou de costas, se apoiando em um cotovelo, e abriu as pernas. Pôs um pé no colchão, mantendo-se exposta, dando a Simon uma visão do quanto já estava úmida. – Tawny… – disse Simon, meio gemendo, meio aprovando. A voz baixa dele, com seu leve sotaque, vibrou dentro dela, excitando-a ainda mais. O beijo gelado na parte interna de sua coxa zuniu dentro dela. Devagar, Tawny contornou sua parte mais íntima com o picolé, a sensação deliciosamente excitante. Tawny sentia-se muito perversa e ainda mais estimulada. Passava o picolé derretendo e o contornava ao redor. – Ahhh… – Era duro, gelado, e ela estava muito quente.


Simon não tirou os olhos dela nem por um segundo enquanto abria e removia a calça. Ela passava o picolé por dentro e por fora, e lambia os lábios. Simon foi até a beirada da cama. – Chupe o meu. Tawny estava tão perto que poderia ter chegado ao clímax sem muito esforço quando ele usou aquele tom erótico, dominante. Simon passou o picolé provocativamente pelos lábios dela, e então o deslizou para dentro da boca. Ela en iava e retirava o picolé de suas partes íntimas e ele seguia o mesmo ritmo com o picolé na boca de Tawny. Ela não tinha certeza se já havia icado tão excitada na vida. Sentia tanto calor por dentro que estava derretendo o picolé em tempo recorde, deliciosamente gelado de encontro àquele incêndio. E o olhar de Simon… Ela retirou o picolé da boca e lambeu ao longo do comprimento. – Você parece com calor… – Ela espiou a ereção dele – …e desconfortável. Tenho a coisa certa para refrescá-lo. Gelada por fora, quente por dentro. Simon não precisou de um segundo convite. Vestiu um preservativo e, em uma única investida suave, estava dentro. – Ai, meu Deus! – Tawny não tinha certeza de qual dos dois dissera aquilo. Talvez ambos. Talvez nenhum deles. Será que já havia existido coisa mais gostosa que o membro quente dele de encontro à carne gelada dela? Quente e frio. Duro e macio. Era bom demais… Tawny estava tão excitada… que não iria aguentar mais tempo. Sexo com picolé e com Simon: garantia de orgasmo em três minutos ou menos. SIMON ACORDOU no susto. Levou um segundo para perceber que seu celular estava tocando no bolso da calça, jogada em algum lugar sobre o piso escuro. Ele lançou as pernas para fora da cama e se abaixou, tateando em busca do jeans. Assim que o encontrou, perdeu a chamada. Olhou para o relógio. Quem estaria telefonando para ele àquela hora da madrugada?


Tawny se apoiou em um dos braços. – Hum… Quem ligou, Simon? – Vou ver agora. Ele ouviu o recado na caixa postal: – “Simon, é seu pai. Ligue de volta… espere, você não pode me ligar aqui.” – E desligou. O que era aquilo? Os pais dele nunca telefonavam. – Era meu pai – disse Simon a Tawny, que havia se sentado, bem acordada agora. – Primeiro pediu para eu retornar a ligação, e então disse que eu não podia ligar para onde ele estava. Mas vou tentar, de qualquer forma. – Foi tomado pela apreensão. O que quer que fosse, não podia ser bom. Antes que apertasse o botão de discagem para o número no visor, o celular tornou a tocar. O mesmo número apareceu na tela. Simon atendeu. – Pai? – Simon, graças a Deus você atendeu! Estou no hospital City North. Achamos que sua mãe teve um infarto. As palavras do pai o atingiram como um golpe ísico. Ele afundou na beira da cama. – Onde ela está agora? – Aqui, no City North. – Não. – Simon conteve a impaciência. – Na UTI? – Não. Eles estão no pronto-socorro fazendo um eletrocardiograma e veri icação das enzimas. Ela precisa que você venha, Simon. – Houve uma longa pausa. – Eu preciso que você venha. Simon não hesitou. Por bem ou por mal, eram os seus pais. Eram tudo que ele tinha. – Eu irei. Pode levar um tempo, mas estou a caminho. Estarei com o celular. Ligue-me se algo mudar. – E desligou. De forma isolada, distante, como se estivesse observando outra pessoa, Simon notou as próprias mãos tremendo. – O que foi? Qual é o problema? – Minha mãe infartou. – Dizer aquilo em voz alta o deixou enjoado. Simon desabou na beirada da cama, sem saber se suas pernas iriam sustentá-lo. – Ah, Simon… – Tawny o abraçou por trás, os braços oferecendo conforto de um ser humano para outro.


– Qual hospital? – City North. Ela o soltou e saiu da cama. Abriu a gaveta da cômoda e vestiu um short de corrida. Simon pegou seu jeans e a camisa. Sem nenhuma timidez, Tawny tirou a camisetinha e vestiu um sutiâ de ginástica. – O que está fazendo? – perguntou ele. – O que parece? Estou me vestindo. O City North ica a noroeste daqui. Não tenho carro, e não sei se conseguiremos encontrar um táxi a essa hora da madrugada, mas nós podemos ir correndo… – Tawny olhou para onde ele estava sentado, na beira da cama, amarrando as botas Doc Martens – … se achar que consegue com essas botas. Infelizmente nenhum dos meus tênis serviria em você. – Nós? Algumas escovadas e ela prendeu o cabelo num rabo de cavalo. Olhou para ele pelo reflexo da penteadeira. – Eu irei com você. – Isso não é necessário. – Ele icou de pé, vestiu a camiseta e fechou o zíper da calça. – Sim, é. – Tawny vestiu um colete de corrida. – E se eu não quiser que você venha? – Está dizendo que não me quer lá? O problema era que Simon estava apavorado por perceber o quanto queria que ela fosse. Apavorado por quão fácil era se apoiar nela após ter passado tanto tempo sozinho. E que diferença fazia se ele a queria lá ou não? Conhecia Tawny. Ela iria de qualquer maneira. – Ai, droga… Venha se quiser. – Você é tão gracioso, Simon. – Ela deu um beijinho breve na bochecha dele. – Mas eu o perdoo. Sei que está preocupado com sua mãe. Ela se movimentou rápido pelo quarto, pegando um pequeno tubo da cabeceira apartentemente sem fundo da cama e prendendo-o no cós do short. – Spray de pimenta. Uma garota nunca deveria sair sem ele. – Tawny calçou os tênis e os amarrou. Parou e olhou para Simon. – Está pronto? – Sim. Tem certeza de que sabe para onde estamos indo? – Ele queria já estar lá.


– Positivo. Tenho um ótimo senso de direção. – Isso é bom. Eu não tenho nenhum. – Simon acendeu uma pequena vela votiva e apagou o castiçal triplo. Com a velinha na mão, guiou o caminho até a porta da frente. Tawny apagou as duas velas que ela deixara queimando na saleta. O apartamento parecia um forno. Eles ainda nem tinham começado a correr, e o suor já gotejava a pele de Simon. Ela se juntou a ele na porta, pegando o celular. – Apenas apague e deixe aí. Isso vai nos atrasar demais na escada. Simon segurou Tawny e lhe deu um beijo breve na boca. Ela morria de medo do escuro, mas não queria atrasá-lo para encontrar a mãe. – Você é uma mulher e tanto, Tawny Edwards. Vamos deixá-la acesa no primeiro lance da escada, assim poderemos contar quantos degraus são antes de cada intervalo. Desse modo, se ela se apagar, conseguiremos fazer a contagem no escuro. – É um bom plano. Eles seguiram pelo corredor, e Tawny fechou a porta atrás dos dois. – A escada é para este lado. Tawny agarrou a mão livre de Simon e o guiou pelo corredor escuro. Ele abriu a porta pesada sob a placa que indicava a saída de incêndio. A porta bateu detrás deles, deixando-os no silêncio frio e misterioso da escadaria. Simon agarrou a mão de Tawny com mais força ainda. Deus, ela devia estar odiando aquilo. E estava prestes a piorar. – Pronta? – A voz dele ecoou de volta para eles. – Vamos lá. Simon contava em voz alta enquanto eles desciam pelo andar. Só faltavam seis. A vela piscara precariamente várias vezes na descida do último lance de escadas, e eles nem sequer estavam indo tão depressa. Levaria uma eternidade naquele ritmo. Tawny deteve Simon no sexto andar. – Pode apagar, Simon. – Tem certeza? Ela respirou fundo. – Você vai segurar minha mão? – Prometo que não a soltar, não importa o que aconteça. – Então vamos. – Ela se apoiou nele e apagou a velinha, mergulhando-os


na escuridão completa. De acordo com o código de incêndio, as luzes de emergência deveriam se acender acima das portas. Obviamente o prédio de Tawny tinha problemas de conformidade às normas. Seguiram de maneira insegura no início, e então estabeleceram um ritmo. Simon contava em voz alta, a voz ecoando, mas a ideia era oferecer uma dose de conforto a Tawny ao ouvir a voz dele e segurar sua mão naquele breu. Logo chegaram ao primeiro andar. Não levou muito tempo, mas sem dúvida pareceu uma eternidade para Tanwy, a julgar por sua palma úmida. Um calor abafado os tomou de assalto no instante em que saíram do prédio. Alguns cochichos soavam dos prédios e nas saídas de incêndio, e em algum lugar no im do quarteirão uma mulher gargalhou. Ao longe, carros buzinavam. A atmosfera festiva de antes de initivamente se dissipara. – Parece um conto de fadas, quando jogam algum feitiço, não é? – perguntou ela, se abaixando para se alongar. Simon começou a fazer os próprios alongamentos pré-corrida. Ele sabia muito bem a que Tawny se referia. A cidade que nunca dormia se achava diante deles em um sono inquieto. – É como o proverbial gigante adormecido, não é? – Isso mesmo. Escute, Simon, sei que você está ansioso para chegar lá, mas lembre-se que são nove quilômetros e meio. Vamos manter um ritmo. Acredito que ela ficará bem. Pelo menos está no hospital e em boas mãos. – Vá na frente e eu a seguirei. Tawny se dirigiu para o leste pela escuridão em direção a Nova Jersey, e Simon foi atrás. Na esquina, onde havia uma loricultura num silêncio intenso, ela virou para o norte. Simon lembrou a si mesmo de acompanhar a passada dela. Eles correram numa quietude amistosa por várias quadras, com apenas alguns carros passando e um pedestre aqui e ali. Simon precisava daquilo, de correr, de exigir de si. Estava uma bagunça por dentro. Ele não era próximo aos pais. Em muitos aspectos o relacionamento deles beirava a hostilidade. Mas Simon não queria que nada acontecesse à mãe. Ela não era exatamente uma educadora, mas ele também não tentara


se aproximar de nenhum dos dois. Pelo menos não durante muito tempo. Simon ignorara todas as aberturas ocasionais de ambos nos últimos anos. Correndo na escuridão, pelas ruas silenciosas, Simon dava voz às emoções que torturavam sua alma. Tawny compreenderia. – Eu não devia ter este ressentimento. Esta situação deveria eximi-lo. Eu devia deixar para lá, Tawny, mas não consigo. Que droga, não consigo! Sempre foram os dois, comigo do lado de fora, olhando. Eles tinham um ao outro, e eu, apenas meu ressentimento, que foi minha companhia durante a infância e adolescência. Por todos esses anos eu o alimentei, o abracei, e não consigo abandoná-lo agora. Mas a parte realmente louca é que eu a amo tão desesperadamente… Simon parou de falar, em conflito, quase chorando. – É claro que ama. Ela é sua mãe. E você pode se ressentir de ambros, mas isso não signi ica falta de amor. É seu papel icar enlouquecido por causa dos seus pais. Eles nos deixam doidos, mesmo. Nós vamos enlouquecer nossos ilhos. Essa é uma das leis implícitas da natureza. No entanto, não signi ica que eles não o amam, Simon, nem que você não os ama. As palavras dela acalmaram a alma confusa de Simon enquanto o calor opressivo da noite absorvia o ritmo de seus pés. Simon ignorou a dor cortante de uma bolha no calcanhar esquerdo. Botas Doc Martens não eram o calçado ideal para correr. Era incrível como conversar com Tawny o fazia se sentir melhor. – Como consegue ser tão inteligente, Tawny? A resposta dela icou perdida quando um holofote se ixou acima deles e uma voz berrou: – Parem! Polícia! Tawny tropeçou, e Simon segurou o braço dela, irmando-a. Eles pararam na calçada, ofegantes, aguardando. Cegos pela luz, só ouviram a batida da porta de um carro e passos se aproximando. – Qual é o motivo da pressa? E você, não é meio estranho estar correndo no meio da noite vestido de preto? Estão fugindo de alguma coisa ou de alguém em especial? Droga, como se ele precisasse de um policial grosseiro. Será que aquele homem não tinha coisa melhor para fazer? – Você não tem nada me…


Tawny pisou no pé de Simon e o interrompeu. – Bom dia, policial. – O sotaque sulista veio com vontade, espesso e doce como melaço. – Estávamos a caminho do hospital City North. A mãe de Simon teve um infarto. Não tenho carro, e não há táxis na rua, por isso estamos correndo. Tawny sorriu para o policial, que permanecia uma silhueta sem rosto contra a luz cegante. – Sei que parece esquisito, mas Simon não tinha roupas de corrida no meu apartamento, por isso está correndo todo de preto. – De onde você é? Jesus, que péssima hora… Fazia mais calor que no inferno, eles estavam no meio de um blackout, e aquele homem, aquele policial, resolvia lertar com ela. – Nasci em Savannah. – Ah, um pêssego da Georgia. Tawny riu, aquela risada calorosa, rouca, que rastejava pela pele de Simon e o virava do avesso. – E você parece um nova-iorquino. – Nascido e criado. Ei, que tal se eu der uma carona para vocês dois até o hospital? Mais cedo, Tawny acusara Simon de ser um machão, sendo que ele nunca o fora de fato. Mas agora ele estava com uma ânsia esmagadora de dizer àquele sujeito para pegar seu carro e enfiá-lo… – Seria adorável. Realmente agradeceríamos se chegássemos ao hospital o mais depressa possível. Não é, Simon? – Ela pisou no pé dele outra vez. – Ah, sim. Quanto antes, melhor. – Receio que vocês dois terão de se sentar lá atrás. – O policial lançou um olhar de desculpas a Tawny. – É o regulamento. Só quem tem distintivo pode se sentar na frente. – Lá atrás está bom por mim. – Tawny passou pela calçada acidentada e puxou Simon para o veículo. O próprio policial abriu a porta traseira. Tawny lhe ofereceu um sorriso que provavelmente lhe causou um frio na barriga. Teria causado o mesmo efeito em Simon se tivesse sido para ele. – É tão gentil de sua parte… – disse ela entrando no banco detrás do carro, o short de corrida agarrando cada curva deliciosa do seu lindo traseiro.


E, sim, o cretino usando distintivo notou. Simon se arrastou para o banco, icando ao lado dela. Um gradeado de aço os separava da parte da frente. Ele nunca estivera antes em um carro de polícia. O rádio grasnou, e o policial retransmitiu sua localização e seu destino. Tawny segurava irme a mão de Simon enquanto levava uma conversa com Dan Berthold, o policial-chofer deles. Com as ruas desertas, o policial Berthold não pareceu se importar em violar a lei que ele jurara cumprir, e em minutos eles chegaram ao hospital, que parecia um farol em um mar de escuridão. – Você se importaria de nos deixar no pronto-socorro? – perguntou Tawny. – Sem problema. – Berthold virou para a entrada do pronto-socorro, colocou a viatura no estacionamento e saiu para abrir a porta traseira. Simon não deixou de notar o jeito como o policial espiou as pernas de Tawny quando ela saiu, e reprimiu o desejo de nocautear o outro. Atacar um policial que acabara de levá-lo à sua mãe doente parecia uma péssima ideia… mesmo que o sujeito merecesse, por olhar para Tawny daquele jeito. Tawny apertou a mão de Berthold. – Muito obrigada. Sei por que os policiais de Nova York têm boa fama. – Querem que eu aguarde? Eu poderia aguardar. – É muito gentil, mas não sabemos quanto tempo iremos demorar. Muito obrigada. – O prazer foi meu. – Berthold se voltou para Simon. – Espero que ela fique bem, cara. – E estendeu-lhe a mão. Simon segurou a mão estendida e a apertou. Talvez o camarada não fosse tão mau, a inal. Ele não lertou com Tawny abertamente, e eles chegaram bem mais rápido do que chegariam correndo. – Obrigado pela carona. – Sempre que precisarem. – Com uma olhadela inal de apreciação para o bumbum de Tawny no short de corrida, Berthold entrou no carro e se foi. – Ele ficou doidinho por você. Tawny revirou os olhos para Simon. – Ele nos trouxe, e levamos 15 minutos a menos do que levaríamos correndo. – Tawny seguiu em direção às portas duplas. – Venha. Quando entrarmos, não se preocupe comigo. Ficarei esperando no saguão. Simon parou na calçada diante das portas escancaradas do pronto-


socorro. – Não. Quero que você venha comigo. – Não me importo de esperar no saguão. Não quero me intrometer. Simon acariciou o maxilar dela com as costas de mão, necessitando tocála, admitindo algo que não era fácil para ele: – Eu gostaria de verdade que você viesse comigo. Tawny virou o rosto para encontrar a mão dele. – Então eu irei com você. – Tawny segurou a mão de Simon. – Vamos encontrar sua mãe. Eles adentraram em meio a um caos esmagador, luzes luorescentes reluzentes, brilhantes demais depois de tanta penumbra, e a brisa gelada do ar-condicionado. Simon olhou ao redor, sem saber para onde ir. Tawny o puxou. – Qual é o nome da sua mãe? – Letitia. Letitia Marbury. Ela não adotou o nome do meu pai quando se casaram. Dra. Letitia Marbury. Tawny marchou até um balcão. Em minutos, seu sorriso e charme sulista suscitaram a localização da mãe de Simon. Ela pôs a mão no braço dele. – Vá subindo. Eu gostaria de ir ao banheiro me refrescar. – Eu espero. – Agora que ele estava ali, não queria subir, temendo encontrar o que achava que estaria à sua espera. – Não. Suba. Você precisa de alguns minutos a sós com eles. Vou encontrá-lo lá em dez minutos. – Ela deu um beijo no rosto dele e o empurrou em direção aos elevadores. A blusa encharcada de suor de Simon gelava sob o jato de arcondicionado. – Prometo que já subirei. – Tawny tocou o braço dele. – Vá, Simon, ela está esperando por você.


Capítulo Dez

UMA VEZ que Simon desapareceu pelas portas duplas, Tawny correu para a saída. Ela foi no encalço de dois paramédicos que empurravam uma maca vazia porta afora. O calor estava ainda pior, depois de sair do arcondicionado. Ela foi de fresquinha para grudenta e suada em dois segundos. Tentou ignorar as mechas de cabelo que escaparam do rabo de cavalo e grudavam no pescoço, e pegou o celular. Usar o celular na área de emergência do hospital era proibido. Tawny bufou. Queria fazer aquela ligação tanto quanto abrir um buraco na cabeça. Duplamente não. Usou a tecla de discagem rápida. Ele atendeu no segundo toque: – Tawny? Ela entrou no assunto sem preâmbulos: – Estamos no hospital City North. A mãe de Simon infartou. Você precisa chegar aqui o mais depressa possível. – Ela caminhava na calçada, passando por um casal que dividia um banco e um cigarro. – Mas estou trancado na galeria – protestou Elliott. – Então destranque-se. Não ouviu o que acabei de dizer? A mãe de Simon teve um infarto. Ele precisa de você. Aqui. Agora! – Eu não sei se… Elliott esgotava sua paciência. – Eu sei. Sei que seu melhor amigo no mundo precisa de você agora mais do que jamais precisou. E se for necessário, arranque a maldita porta das dobradiças! Venha para cá imediatamente! Uma ambulância com as luzes piscando, porém com a sirene silenciosa, encostou perto das portas. – Não me faça ir aí buscar você, Elliott. – Tawny… – Elliott, não estou brincando. Se precisar, eu irei até aí e vou arrastá-lo para cá.


– Espere um segundo. A porta traseira da ambulância se abriu, e os paramédicos tiraram a maca com uma mulher hispânica muito grávida. Muito grávida. Muito angustiada. Agora havia algo pelo qual agradecer: o fato de ela não ser aquela mulher. Uma conversa abafada veio da linha telefônica, e então Elliott retornou: – Richard irá comigo – disse ele, o desafio gritando em sua voz. Tanto faz. – Não me importo se você trouxer toda a coligação do arco-íris junto, apenas venha para cá. – Mas não há táxis na rua, e o metrô está desativado. – Elliott, você é um nova-iorquino, pelo amor de Deus. Venha andando. – Seja razoável, Tawny, estou usando meus sapatos Bruno Ms. Se mais um homem dissesse a ela para ser razoável essa noite… Tawny mal continha o temperamento. Ela não se tornava a pessoa mais paciente depois de apenas uma hora de sono. – Elliott, eu sei o quanto você gosta desses sapatos e vou pagar pessoalmente pela troca de solado deles. Agora me ouça, e ouça direitinho. Finja que você não é o centro do universo. Finja que se importa tanto com seu amigo quanto se importa com esses malditos sapatos. Você colocou Simon em uma situação para lá de di ícil esta noite, e ele lhe deu cobertura. Eu não me importo se tem que vir rastejando, mas venha para cá. Você tem uma hora para aparecer. Eu juro, se você não vier, irei transformar sua vida em um inferno. – Tudo bem. Estou a caminho. A petulância dele não o tornou mais estimado. – E, Elliott… – Sim? – Não reclame dos sapatos quando chegar aqui. – Ela desligou, certa de que Elliott iria aparecer em menos de uma hora. Importuná-lo para vir por Simon não fora tão e iciente quanto lhe prometer uma vida de infortúnios se ele não aparecesse. E Elliott sabia que ela cumpriria a ameaça. Tawny voltou para o mar de gente en ileirada no pronto-socorro e entrou no banheiro. Odiava banheiros públicos. Torceu o nariz diante do cheiro de antisséptico. Devia ser um requisito para hospitais usar um limpador com odor tão enjoativo. Por que a vontade de fazer xixi sempre


atacava nos momentos mais inoportunos? Ela fez o que tinha que fazer e parou diante da pia para lavar as mãos. Com certeza estava assustadora. Sem maquiagem. Suada. Cabelo desgrenhado, oleoso. Olheiras por ter dormido pouco. Sem dúvida assustaria criancinhas. Jogou água gelada no rosto e arrumou o cabelo do melhor jeito possível, mas ainda não estava digna de vencer nenhum concurso de beleza essa noite. Saiu do banheiro e começou a circular pelo labirinto de corredores que levavam aos elevadores. O hospital City North era limpo, e ostentava uma reputação por cuidados excelentes, porém era um dos hospitais mais antigos da cidade, e seus elevadores eram lentos. Por im, ela chegou ao quarto andar, um corredor relativamente silencioso que não fazia parte da Unidade de Terapia Intensiva… Um bom sinal para a mãe de Simon; isso demonstrava que ela estava bem o suficiente para se garantir num quarto comum. Duas enfermeiras sentadas se mantinham absortas em uma conversa atrás do balcão. Tawny seguiu a placa que indicava o lado do número do quarto que haviam informado no andar de baixo. As solas de borracha guinchavam no piso imaculado à medida que ela caminhava pelo corredor. Um homem de aparência distinta que carregava uma semelhança impressionante com Simon se achava em frente à porta. Um pouco mais alto que Simon, cabelo grisalho, cavanhaque aparado, calça cáqui, uma camisa de botões de mangas curtas e sandálias cartago grossas. O fato de ele ser distinto não a impressionava. O pai dela e seus colegas eram todos distintos, e isso não os tornava seres humanos menos ou mais decentes que os outros. Tawny respirou fundo. Precisava se livrar da sua antipatia por eles. Não seria bené ico para ninguém. Aquilo não tinha a ver com ela. Estava ali para apoiar Simon, não para se misturar aos pais dele. Aquele homem não fora exatamente o pai do ano para Simon, mas ainda era o pai dele. E Simon, apesar de sua história e das de iciências óbvias deles como pais – de initivamente, essa era só a opinião dela –, se importava com eles. Eram os pais dele, independentemente do fato de Simon merecer pais melhores. É claro, Simon também poderia ter um amigo melhor que Elliott,


que precisava de intimidação para ir até ele. Simon era doce, terno, e um dos melhores homens que Tawny já conhecera, e merecia o melhor que a vida tinha a oferecer. O homem olhou para cima quando ela se aproximou, e a encarou. – Sr. Thackeray? Ele fez que sim. – Sou Tawny Edwards, uma amiga de Simon. – Ela estendeu a mão. Depois de um instante de hesitação, ele a apertou. – Muito bem. Muito bem. Charles Thackeray. – Como está a dra. Marbury? Ele passou a mão fatigada pelo rosto. – Estável. Letitia descansa confortavelmente, agora que Simon está aqui. O cansaço evidente dele dissipou um pouco da animosidade fomentada. Bom pai ou mau pai, ali estava um homem preocupado com a mulher que amava. – Simon correu quase nove quilômetros para chegar aqui. – Tawny achava que ele deveria saber. Charles pareceu surpreso. – Ele correu? – Sim. Correu. De botas. Não havia táxis, e eu não tenho carro. Simon estava morrendo de preocupação. – Ela achou melhor não contar a história de terem sido interceptados pela polícia. Simon realmente podia aprender uma lição ou duas sobre diplomacia. Tawny tivera tanta certeza de que ele se achava prestes a ofender aquele policial, e o único lugar para onde tal atitude os levaria seria a cadeia. O único lugar pior que o apartamento dela durante um apagão. – Ah… Simon não mencionou isso. Charles Thackeray lhe parecia um acadêmico imerso em outras épocas e lugares, e que não investia muito no aqui e agora. – Não. Ele não mencionou, não é? – respondeu ela. – Não, e não acho que me contaria isso. Sempre foi um pouco solitário, nosso menino. E um pouco distante. Tawny deu um jeito de não icar boquiaberta, e mordeu a língua para evitar falar besteiras sobre o roto falando do esfarrapado e sobre a maçã não cair muito longe da árvore. Em vez disso, contentou-se em dizer: – Vocês só precisam se esforçar um pouco para conhecê-lo. Simon sem dúvida vale o esforço.


Charles olhou para ela como se Tawny tivesse acabado de contestar uma nova hipótese científica, mas não fez comentários. – Então… Foi mesmo um infarto? – Ela quis saber. – Sim. Letitia acordou com dores no peito por volta da meianoite. Ela é uma das mulheres mais sensíveis que conheço, mas não sabia se era o calor, indigestão ou um infarto. Em vez de ignorar, Letitia me disse para trazê-la ao hospital. Disse que era preferível icar constrangida caso fosse uma indigestão do que morta se não fosse. Uma mulher muito sensível. – Tenho acompanhado as estatísticas. Um número assustador de mulheres morre desnecessariamente todos os anos de infarto porque esperam tempo demais para buscar tratamento, ou ignoram os sintomas – disse Tawny. Pelo visto Charles Thackeray não era tão distinto como parecia. Lágrimas inundaram seus olhos. Ótimo, Tawny. Faça-o chorar lembrando-o do quão perto sua esposa esteve de morrer. Ela deu tapinhas no braço dele, um tanto desajeitada. – Estou feliz porque ela está bem agora. Charles assentiu. – Tem alguma coisa no meu olho. Sim, é claro. Que bom que ela é uma mulher tão sensível. Vamos entrar para que Letitia possa conhecê-la. Tawny achava que, já que havia aberto sua boca grande falando em morte, só precisava se assegurar de que a esposa dele estava bem de fato. – Vou esperar aqui até Simon terminar a visita, sr. Thackeray. – Bobagem. Simon vai querer saber que você está aqui, e tenho certeza de que Letitia adorará conhecê-la. Sem querer causar confusão, o que não parecia a coisa certa a se fazer, Tawny não tinha muita escolha senão permitir que Charles a conduzisse até o quarto. Em uma olhadela breve, Tawny captou a situação. Simon estava à direita da cama hospitalar, parecendo terrivelmente desconfortável e constrangido. Ela olhou para Letitia. Preparara-se mentalmente para uma criatura repulsiva, por isso estava bem surpresa agora… A mulher na cama parecia normal, muito embora estivesse conectada ao equipamento de telemetria. Cabelo escuro com re lexos grisalhos num corte chanel na altura do queixo emolduravam um rosto anguloso, lívido, e os olhos eram da mesma cor e do exato formato dos de Simon.


– Letty, esta é Tawny Edwards. – Charles fez uma pausa signi icativa e então continuou: – Ela está aqui com Simon. Sem pensar, Tawny seguiu para icar ao lado de Simon e segurou-lhe a mão, mais para bene ício próprio do que dele. Não sabia por que estava sofrendo uma súbita crise de nervos. – Fico tão contente por conhecê-la. – O nítido sotaque britânico de Letitia era muito mais acentuado que o do marido. – É um prazer conhecer você também… – Tawny fez uma pausa para sorrir. – Muito embora eu desejasse que fosse em circunstâncias melhores. – Encolheu-se, tímida. Sua fala sulista veio tão espessa quanto melaço em contraste ao tom contido de Letitia. – Como se sente? – Estou bem. Uma pequena falha no sistema, mas ficarei bem. – Ela olhou de Tawny para Simon, e então para Tawny outra vez. Charles sorriu para a esposa. A ternura entre os dois quase deixava Tawny sem fôlego. Charles assentiu. – Viu só? É assim mesmo. – É assim mesmo o quê? – perguntou Simon. Ninguém respondeu para ele. Tawny também não fazia ideia do que Charles quis dizer. Era como se Charles e Letitia compartilhassem um idioma próprio. – Ah, maravilha… – Letitia sorriu para Tawny de seu travesseiro. – Simon nunca trouxe uma garota em casa para nos conhecer. Em casa para conhecê-los? Notícia de última hora: eles não estavam sentados em uma sala de estar bebericando chá e mordiscando bolinhos. E entenderam completamente errado a relação entre Tawny e Simon. Diabos, ela e Simon não tinham um relacionamento. Falando em interpretar mal… Tawny tentou largar a mão dele. – Mas… Em vez de soltá-la, Simon apertou-lhe os dedos e olhou para o monitor bipando ao lado da cama da mãe. Tudo bem, então. No momento eles tinham um relacionamento. E seria o que quer que a mãe dele quisesse que fosse. Tawny sorriu para a mulher acamada, esperando que seu sorriso não estivesse tão fraco como se sentia por dentro. – Sim… bem, eu queria ter conhecido vocês dois em circunstâncias diferentes. – Não, querida.


Aquilo estava indo depressa… Tawny já era querida. – Isto é maravilhoso. – Letitia baixou a voz e assumiu um tom de con idência: – Charles e eu estávamos começando a icar preocupados que nosso ilho pudesse ser meio frutinha. Você sabe… gay. – confessou ela com certo preconceito. A família dele tinha sérios problemas de comunicação. Simon emitiu um som de quem engolia em seco, e suas orelhas adquiriram um tom vermelho-vivo. – Mãe… – Ele definitivamente não é – afirmou Tawny sem pensar. Ai, droga. Não devia ter dito aquilo com tanta ênfase. Não para os pais dele. Ela, Tawny Marianne Edwards, iria selar os lábios até que eles saíssem dali. Não ia dizer mais nem uma palavra. Longe de icarem ofendidos, os pais de Simon pareceram satisfeitos com a efusividade dela. Charles piscou para Letitia. – Viu só? É isso mesmo. Tawny olhou para Simon. Enxergou a bondade e integridade nos olhos castanhos, o tom cativante de vermelho ainda queimando suas orelhas. Entrelaçou os dedos nos dele, o agarrar dele firme e seguro. O coração dela deu uma cambalhota estranha quando Tawny percebeu que era, de fato, assim mesmo. – SIMON E Tawny correram nove quilômetros para chegar até aqui, Letty. E Simon está usando botas – disse Charles, com um toque de admiração e orgulho. – Você correu para me ver? – perguntou Letitia, uma pitada de admiração refletindo na voz e nos olhos. Simon sabia que chafurdava na lama, mas resolveria isso quando a mãe não estivesse deitada em uma cama de hospital e ligada a monitores com um tubo de oxigênio em seu nariz. Letitia pareceu tão satisfeita – assim como Charles – quando ambos interpretaram mal o relacionamento dele e de Tawny. E então quando Tawny olhou para ele como se estivesse estupefata… – Bem, não foram bem nove quilômetros. Conseguimos uma carona no último trecho. – De botas?


Simon nunca teria imaginado que era tão importante assim para eles. A emoção obstruiu sua garganta. – Eu precisava ter certeza de que vocês estavam bem. – Aquilo saiu de forma brusca e entrecortada. Letitia não pareceu se importar. – Isso é maravilhoso. – Simon é um homem maravilhoso. Vocês deveriam passar mais tempo com ele. – Apesar da voz suave, os olhos de Tawny desafiavam os pais dele. A declaração dela icou no ar, o único som no quarto, o do bipe da telemetria. Charles se aprumou um pouco, a boca contraída. Ninguém dizia a Charles Thackeray ou Letitia Marbury o que fazer. O queixo de Simon quase caiu quando o rosto do pai se suavizou e ele tomou a mão da esposa. – Talvez você esteja certa, minha jovem. Descon io que nosso ilho seja bastante maravilhoso. Aquilo era o mais perto que sua família já tinha chegado de um momento perfeito como em um cartão de Natal. E provavelmente o mais próximo que chegaria. Simon estava prestes a chorar. Foi nesse instante que Elliott entrou, quebrando o momento. – Dra. M., o que faz aqui? O que Elliott fazia ali? Ele passou por Simon e Tawny e foi abraçar letitia. Nesse meio-tempo, Simon olhou para Tawny e murmurou: – Você fez isso? Ela pareceu culpada, mas não arrependida. – Eu não sabia o que você ia encarar. Achei que pudesse prcisar dele – disse ela, baixinho, ao ouvido de Simon, inclinando-se sob o pretexto de espanar alguma coisa da blusa dele. Elliott se aprumou e abraçou Simon. – Simon. Obrigado por cuidar da minha garota. – Sua garota? Achávamos que… – Letitia silenciou, franzindo a testa em confusão. Elliott ofereceu um sorriso charmoso. – Claro. Tawny e eu estamos noivos. Simon não lhes contou? – Não. Esse detalhe em especial não foi mencionado. – O pai de Simon também franziu a testa. – Mas Simon e Tawny… – A mãe dele beirava as lágrimas.


– Elliott é um brincalhão. – Tawny golpeou Elliott, virando-se num ângulo de forma que só Elliott e Simon captaram o brilho de seriedade nos olhos dela. – Pare de provocar a dra. Malbury. – E voltou a se dirigir a Letitia: – Precisamos deixá-la descansar. Aliás, venham, rapazes, vamos pegar um café. Tawny parou pouco antes de estalar os dedos para eles. A mãe de Simon sorriu em aprovação. – Ah, uma mulher parecida comigo, uma que sabe como comandar. – Ela assentiu para Simon. – Você escolheu bem, filho. Gostei dela. – Eu também gostei dela – afirmou Charles. Bem, excelente, então eram três de três, porque Simon também gostava dela. Aquilo seria uma bela encrenca depois. – Sou um cara de sorte. – Eu sou a sortuda – disse Tawny lançando um olhar adorável para ele. – Mas… – Elliott ficou olhando de um para o outro, sem dúvida confuso. Tawny o interrompeu: – Um café seria o paraíso agora, não seria? Vamos encontrar a cafeteria. – Ela agarrou Elliott pelo braço. – Ai! Você me beliscou… – protestou ele. – Ah, desculpe. – Tawny se virou para Letitia. – Tente descansar. – Descansarei. Obrigada por vir com Simon. – A mãe olhou para o ilho. – Você voltará aqui antes de ir embora, não é? – Sim. Durma um pouco. Tawny guiou Elliott para fora do quarto. Simon os seguiu. Tawny no comando era uma visão formidável. Eles mal tinham chegado ao corredor quando Elliott disse: – O que foi aquilo… – Abafe o caso, Elliott – rebateu Tawny. – Preciso desesperadamente de uma xícara de café para me sentir pelo menos semelhante a um ser humano. Aí conversaremos. Ela saiu andando na frente como uma rainha. Elliott merecia toda e qualquer coisa que Tawny estivesse lhe atirando, e Simon se sentia muito feliz por não estar na pele dele. Richard se aprumou de onde estava, recostado na parede perto do balcão da estação das enfermeiras, e se aproximou de Elliott. O olhar entre os dois foi aquele inequívoco compartilhado pelos amantes. – Vejo que você está realmente levantando a bandeira do arco-íris –


disse Tawny. Richard a fitou e enlaçou o braço no de Elliott. Simon achou um tanto desconcertante ver seu melhor amigo de braços dados com seu amante gay. Mas, no esquema geral, não era mais desconcertante do que se lagrar na cama de Tawny ou descobrir que os próprios pais achavam que ele pudesse ser gay. Em suma, fora uma noite muito curiosa. E ainda não acabara. Eles tomaram o elevador seguinte. Às 3h30, eram os únicos ocupantes. As portas se fecharam, e Elliott respirou fundo, fungando no ar como um cão de caça. Ficou muito pálido, olhando de soslaio primeiro para Tawny e depois para Simon. – Vocês dois dormiram juntos. – Não foi uma pergunta. – Do que você está falando? – desafiou-o Tawny. – Vocês dois… estão cheirando a sexo. – Elliott contornou Simon. – Não posso acreditar que transou com minha noiva. Simon sabia que eles teriam aquela conversa um dia; só não previra que iria ser tão cedo. Olhou diretamente para Elliott. – Você não tem muita moral para ficar indignado. Tawny se pôs diante de Elliott, o corpo berrando confronto. – Vamos deixar algumas coisas bem claras. Eu não sou sua noiva. Com quem transei, quando transei e como transei não é mais da sua conta. Eu poderia transar com o time inteiro de futebol americano do NY Giants durante o intervalo do jogo e não seria da sua conta. Uma vez que você mergulhou sua varinha aqui… – Ela apontou na difereção de Richard. – nunca mais a coloca aqui. Literal ou figurativamente. – Querida, a varinha dele não está mais interessada em nada do que você tem – cortou-a Richard. – O que é bom – arremessou ela de volta. Simon conteve uma risada. Bem feito. Tawny colocou tudo em seu devido lugar. Era mesmo uma mulher magnífica. As portas se abriram para o primeiro andar, e Simon conduziu todos para fora do elevador. – Acho que poderíamos beber uma xícara de chá… ou de café – disse ele, indicando a direita, seguindo as placas da cafeteria. Tawny resmungou para Elliott: – Você deveria aparecer para dar apoio a Simon, não para agir como um cretino.


– Bem, acho que se Simon não está gostando, você sempre pode dar um beijinho para fazer sarar – disse Simon com um sorriso de escárnio. Simon fazia uma boa ideia de quanta força de vontade Tawny empregara para ignorar o comentário de Elliott. Sem dúvida, esfregar a noite dela e de Simon na cara de Elliott era tentador, ainda mais considerando que Elliott trouxera seu novo amante. Mas, pelo visto, ela fora sincera quando disse que não dormira com ele por vingança. Em vez disso, Tawny ignorou o comentário insultuoso. – Como chegou aqui tão depressa, Elliot? De jeito nenhum daria para você sair da galeria nesse tempo. – Meu apartamento ica a poucas quadras daqui – deixou escapar Richard. Simon sentiu-se um perfeito idiota. Sem dúvida ele era um renomado imbecil. Elliott não icara trancado na galeria. Ele o usara. Mentira para ele e o usara. A amizade dos dois teria resistido ao eventual distúrbio, mas Simon nunca teria acreditado que Elliott mentiria para ele. Simon parou diante da entrada da cafeteria, detendo Elliott com a mão em seu braço. – Obrigado, Richard. Eu adoraria que você me pagasse uma xícara de café – disse Tawny, muito em tom de gozação, mas obviamente tentando afastar Richard para que Elliott e Simon tivessem um instante de privacidade. Elliott olhou para o namorado. – Por favor. Faça isso por mim. – Bem, já que é por você… – Richard lançou um olhar de desgosto para Tawny e a seguiu até a cafeteria, relutante. – Você por acaso icou trancado na galeria em algum momento? – perguntou Simon com uma fúria silenciosa. – Sim. Ela entrou em modo de travamento. – Durante quanto tempo? – A ira de Simon o estava deixando quase sem palavras. Elliott enfiou as mãos no bolsos e pareceu envergonhado. – Por cerca de uma hora. O pessoal do sistema de segurança me ensinou a destravá-lo. – Isso foi antes ou depois de você me pedir para contar suas novidades a Tawny? – Depois. Definitivamente depois. Juro para você, Simon.


Ele se sentiu um pouco melhor… Mas e se Elliott estivesse mentindo? Durante 15 anos eles foram tão próximos como irmãos, e em menos de um dia Simon já não sabia mais se podia confiar em Elliott. Simon não conhecia mais aquele diante de si. O homem que ele amara como a um irmão não teria traído a noiva, não teria deixado a bagunça para Simon limpar. – No entanto, quando saiu da galeria, você não achou que precisava ir à casa de Tawny? – Você já estava cuidando de tudo. Pensei que seria melhor deixar passar uma noite, para ela dormir e se acalmar. Eu só não sabia que ela estaria dormindo com você. A raiva de Simon se dissipou tão depressa quanto o invadira, deixando a exaustão em seu encalço. Ele não havia usado Elliott, mas o traíra de alguma forma. Simon percebeu que se assemelhara a algo como um tremendo hipócrita. Duas mulheres utilizando uniforme hospitalar passavam, e ele esperou até que estivessem fora do alcance auditivo. – Elliott, você colocou nós dois naquela posição. Sabia que Tawny tem medo do escuro? – É claro que sim. Estamos juntos há seis meses. – Então por que me disse para deixá-la sozinha? Aquilo me pareceu um tanto insensível. Elliott evitou o olhar de Simon. – As coisas já estavam um pouco abaladas entre nós. Eu lhe disse que a gente não estava se acertando muito na cama… Certo, e Tawny dissera basicamente a mesma coisa. – Ela diz que sou um reclamão egoísta. – Sim, você é. Elliott o encarou. – Talvez eu seja um pouco, mas ela é tão mandona… – Ela é. – Simon achava que isso era parte do charme dela. Era algo que naturalmente fazia parte do pacote. Tawny também era inteligente, corajosa e muito valente. Ele pensou na história de descer aqueles sete lances de escadas sem nem mesmo uma vela. Fora assustador até para ele, que não tinha medo do escuro. Mas Elliott ainda não entendera o ponto. – E o que isso tem a ver com você ter me pedido para abandoná-la no


escuro? – Não sei. Só sei que as coisas não estavam bem entre a gente, mas eu não queria pensar nela a sós com outro homem, mesmo que fosse você. – Um caso de “se eu não tenho então ninguém pode ter”? – Sou um canalha egoísta – disse Elliott. – Em resumo, sim. – Não precisava concordar comigo tão depressa. – Você só afirmou antes que eu pudesse fazê-lo, Elliott. – Acho que enlouqueci um pouco esta noite. – Está repensando suas decisões? – questionou Simon. – Não em relação a Richard e Tawny. Eu só me arrependo do jeito como lidei com isso tudo. Tomei algumas decisões muito ruins esta noite, e não tenho certeza de como consertar isso. Receio que tenha prejudicado nossa amizade. – Foi mais uma pergunta do que uma afirmação. – Você não matou nenhuma velhinha a machadadas, matou? – Não que eu me lembre. – Creio que está tudo bem então. Esta noite… com Tawny… Eu não pretendia que acontecesse. E se o magoei… bem, desculpe por isto. Elliott balançou a cabeça, como se para clarear os pensamentos. Olhou para Simon exibindo o remorso evidente. – Simon, eu não mereço um amigo como você. – Verdade. – Dá para deixar que eu me autoflagele sem me interromper? – Vou tentar. – Eu estava sendo uma bruxa ciumenta. Sabia que, uma vez que Tawny descobrisse sobre Richard, nosso relacionamento estaria acabado. Eu a conheço bem o su iciente para saber disso. Mas quando entrei e você estava abraçado com ela… bem, posso garantir que ela nunca olhou para mim do jeito como olha para você. Simon balançou a cabeça. Era tarde, todo mundo estava cansado e nervoso. – Aquilo foi pelo bem da minha mãe. Ela e meu pai saltaram para conclusões precipitadas, e pensei que, naquelas circunstâncias, seria melhor deixar mamãe pensar o que ela queria. – Como você ficou sabendo que ela estava internada? – Meu pai telefonou. A surpresa no rosto de Elliott dizia tudo. Simon achou graça.


– Eu sei. – Você está bem? – Sim. Mais ou menos. – Ele sacudiu a cabeça. – Tawny lhes disse que eles precisavam passar mais tempo comigo. – Sério? O que seu pai fez? – Achei que fosse explodir, mas ele e mamãe falaram que ela estava certa, ou uma outra bobagem qualquer. – Talvez eles estejam mudando, Simon. Já estava na hora. – Bem, não faz sentido. Ainda sou a mesma pessoa que sempre fui. – É aí que você se engana, onde sempre se enganou. Eu tenho dito isso há anos… Você acha que eles são o problema. Se você é a mesma pessoa ou não, isso é irrelevante, porque eles sempre foram o foco. Eram eles os problemáticos, não você. Tawny lhes deu um ultimato. – Elliott riu. – Lamento ter perdido essa parte. Tawny é uma flor de aço. – Ela é um pouco implacável. Disse que seu apelido de infância era buldogue. – Não consigo acreditar. Eis outra coisa que você interpretou errado, Simon. Eu conheço Tawny. Ela não sabe ingir. Expõe seus sentimentos e suas opiniões abertamente. O jeito como Tawny o olhava não era pelo bem da sua mãe. O próprio Elliott dissera que seu julgamento fora distorcido esta noite. – Você está errado. – Simon, nós nos conhecemos há muito tempo, e você não sabe como estou aliviado por não ter estragado totalmente nossa amizade. – Sinto um mas vindo aí, e tenho um pressentimento de que não vou gostar dele. – Creio que não. Pelo amor de Deus, não consigo entender por que você tem tanto medo de ser feliz.


Capítulo Onze

TAWNY BEBIA um café gelado que tinha gosto de água de esgoto gelada – ou pelo menos era o gosto que imaginava que água de esgoto gelada devia ter – e ignorava Richard a duas mesas de distância. Ela não se lamentava por ter perdido Elliott, mas não estava muito preparada para aceitar o novo objeto de desejo dele. Sentia-se feliz porque Elliott e Simon tinham icado do lado de fora da cafeteria conversando. Precisava de alguns minutos sozinha para organizar a cabeça. Não tinha certeza se ria ou se chorava. Estava apaixonada por Simon. Em algum lugar entre “Elliott está saindo com outra pessoa” e “É assim mesmo entre eles dois”, ela se apaixonara perdidamente por ele. Mas que droga, e não é que ela conseguira exatamente o que queria: o amor tipo salto alto? Não havia nada de chinelo velho confortável a respeito de Simon. Ele era alternadamente cáustico e carinhoso, corajoso e vulnerável. Tawny sabia com uma certeza quase assustadora que a intensidade do que sentia seria a mesma dali a 1 ano, ou 20, ou 50. Talvez tivesse começado quando eles passaram o dia juntos fazendo o ensaio fotográ ico para Elliott, e seus sonhos eróticos tivessem sido uma tentativa de dizer a ela o que seu coração e sua mente não estavam prontos para ouvir. Por estar perdida em conjecturas, Elliott a assustou quando se jogou na cadeira ao lado. – Simon disse que precisamos conversar. Ela estava apaixonada, de um jeito grandioso. Um arrepio a atingiu ante a mera menção do nome dele. Elliott, no entanto, continuava no topo da sua lista de idiotas. – Então fale. – Lamento, Tawny. Tinha que lamentar mesmo. – Elliott, você é um mero arremedo de ser humano. Não apenas me traiu como mentiu esta noite quando liguei para falar da mãe de Simon. Você me


fez achar, de propósito, que ainda estava trancado na galeria. – Sei disso. Foi um erro. Você não tem como me xingar de nada do que eu já não tenha me xingado. Eu sabia que você icaria furiosa e, se Simon descobrisse, ele também icaria. Só não queria encarar o problema esta noite. Não queria lidar com ele. – Você criou o monstro, dr. Frankenstein. Lide com isso. – Você está certa. – Estou. Como era possível continuar a repreender alguém que concordava com você? O que ela queria dizer a ele quando o visse cara a cara era que esperava que seu pênis caísse, mas agora… Elliott decerto concordaria com ela; e onde estaria a satisfação nisso? – Peço desculpa por tantas coisas, Tawny… Por não ter tido a coragem de contar como eu estava em con lito com minha sexualidade antes de as coisas irem além com Richard. E aí eu devia ter sido homem o su iciente para icar a sós com você e lhe contar. E desculpe por ter sido um cretino mais cedo. Tawny nunca fora do tipo que guarda rancor. Ela perdoava até fácil demais. Não sabia se isso era uma bênção ou uma maldição. E a habilidade dela de perdoar tão facilmente a traição dele também revelava que não o amava do jeito que deveria amar o homem com quem iria se casar. E apesar de sua lógica e seu raciocínio estarem impugnados esta noite, Tawny era uma mulher muito lógica. Se Elliott não tivesse se comportado do jeito como se comportara, a noite de hoje com Simon poderia nunca ter acontecido. E ela estava imensamente, intensamente feliz por esta noite com Simon ter ocorrido. Não tinha arrependimentos. – Acho que isso resolve nossa situação. Aceito suas desculpas e não espero mais que seu pênis caia. A surpresa, seguida de perto pelo alívio, transpareceu no rosto dele, que riu. – Eu não queria que você ficasse chateada comigo para sempre. – Não posso dizer que gosto de Richard, mas se você se importa com ele, e ele o faz feliz, então estou feliz por você. – Obrigado. Isto é mais do que mereço. – É sim, não é? – Tawny sorriu. Elliott esticou a mão e colocou o cabelo dela atrás da orelha.


– Você é uma mulher e tanto, Tawny. Uma parte de mim queria que as coisas tivessem dado certo entre nós. – Nunca teria dado certo, Elliott. E devo dizer que estou feliz porque não deram. Eu estou bem, mas você resolveu as coisas com Simon? Elliott assentiu. – Conversamos sobre o que aconteceu mais cedo, e esclarecemos tudo. – Ele fez uma careta. – Eu tive que comer bastante torta da humildade esta noite. – Só a fatia que lhe era justa. – Será que poderia facilitar as coisas para mim? – Não sei se você merece, mas vou tentar. – Nós conversamos sobre os pais dele. – É estranho. Eu os detestava pelo jeito como haviam tratado Simon, mas não consegui evitar gostar deles quando os conheci. – Bem-vinda ao meu mundo. Eles acabaram totalmente com a cabeça de Simon… que está uma bagunça… mas não são cruéis de propósito, só descuidados. Sempre foram corteses. Nunca me senti mal recebido na casa deles quando éramos adolescentes, mas sempre havia essa distância. Não tem problema quando se é um amigo, mas é terrível quando se é o ilho. Simon inge que isso não tem importância, inge que não liga, mas tudo o que ele queria era que os pais o notassem. – Pareceu profundamente desgostoso. – Eles nem mesmo foram à nossa formatura do ensino médio. Tawny se doía por Simon, e pensava nele mais do que nunca. – Simon não hesitou quando o pai telefonou e lhe pediu para vir. E, pelo jeito, isso é muito mais do que eles mereciam. Simon merece pais melhores. Elliott esboçou um fraco sorriso diante da veemência dela. – Muitas pessoas merecem. Mas temos que jogar com a mão de cartas que recebemos. Simon é um dos melhores sujeitos que já conheci, mas eles o deixaram cheio de cicatrizes. Ela suspirou e pisou no fundo do poço com os dois pés. – Eu amo Simon, Elliott. Tudo pareceu renovado, fresco e mais real ao ser verbalizado. Mesmo agora, quando Tawny estava ciente da presença dele do outro lado da sala com cada fibra de seu ser. A melancolia nos olhos de Elliott a emocionou. Ele assentiu. – Eu sei. – Sabe? Como poderia…?


– Eu soube no segundo em que vi vocês dois juntos no quarto da dra. M. – Elliott vincava um guardanapo que estava entre eles na mesa. Ela riu, constrangida. – Isso é ridículo, não é? Ontem você e eu estávamos noivos; agora estou sentada aqui lhe dizendo que estou apaixonada por Simon. – Eu não diria que é ridículo de jeito nenhum. É apenas o jeito como as coisas são, da mesma forma como foi comigo e Richard. – Você é o melhor amigo dele. Preciso que esteja de acordo em relação a isso, Elliott. – Não era particularmente fácil pedir pela bênção dele. – Eu preciso estar de acordo com isso, do contrário você irá me atormentar até a morte e acabar comigo até lá. Ambos riram. Elliott ficou sério. – Você terá de lutar por ele, Tawny. Ela sentiu um aperto no estômago. – Sei que Simon está apaixonado por outra pessoa… ou pelo menos pensa que está. Quem é ela? – Eu sei que tem alguém… Alguém sobre quem Simon não vai falar, o que não é incomum para ele, porque é muito reservado. Mas não é disso que estou falando. – Os olhos dele tinham um vestígio de dó. – É contra Simon que você vai ter de lutar. – ACHEI QUE encontraria você aqui. Ela está dormindo. Surpreso, Simon ergueu os olhos do café que adoçava. Foi um lapso de tempo em sua pior forma: seu pai envelhecera dez anos no intervalo de uma noite. Conversar com o pai era sempre mais esquisito que conversar com um estranho. – Posso lhe pagar um café? – ofereceu Simon. – Alguma chance de conseguir uma xícara de chá? – Pegue uma mesa para nós e verei o que posso fazer. Em tempo recorde, Simon retornou com uma xícara fumegante de água fervente, um saquinho de chá, creme e açúcar. – Foi o melhor que consegui. A mesa tremeu quando ele se sentou. – Obrigado. Parece que peguei uma mesa manca. – Tudo bem. – Simon não achava que eles icariam ali por muito tempo,


de qualquer forma. Charles colocou o saquinho de chá em infusão, e um silêncio estranho se instalou entre os dois, a mesma rigidez generalizada que Simon sentira durante toda a vida ao lado dos pais. Simon pigarreou. – Como mamãe está bem e descansando, eu e Tawny não vamos subir de novo. Explique a ela, sim? Diga que eu não quis acordá-la. – Charles meneou a cabeça grisalha. – Avisarei a ela. Obrigado por vir. Será que ele duvidara que Simon viria? – Disponha. Estou feliz por você ter me ligado. O silêncio se prolongou entre eles como um arame ino esticado. O pai, com seus movimentos precisos e contidos, preparava seu chá. Uma colher de açúcar. Uma bola de creme. Sem limão. Misturou duas vezes. Quando criança, o ritual de preparação de chá do pai fascinara Simon em sua mesmice inabalável. Charles ergueu o olhar da xícara, pegando Simon distraído. – Ela queria que você viesse… e eu também. – Tudo o que você precisava fazer era telefonar. – Talvez fosse a exaustão. Ou a coragem de dizer coisas nas primeiras horas da manhã. Mas Simon disse: – Tudo o que eu sempre quis foi que vocês me amassem. Os movimentos sempre aprumados de Charles vacilaram. Parecia um velho cansado. Ele balançou a cabeça. – Temo que tenhamos sido péssimos pais. Sempre amei tanto sua mãe que não abri espaço para mais ninguém. Foi um erro, um erro terrível. Quando achei que pudesse perdê-la esta noite, percebi o quanto ela é não apenas para mim, mas você também. Para nós dois. Creio que Tawny tinha razão; temos um filho maravilhoso e precisamos conhecê-lo melhor. O calafrio que Simon sentiu nada teve a ver com o ar-condicionado. – Não quero ser a massa que preenche a lacuna só porque você acha que pode perder mamãe. – Não. Não é isso, nunca. Sua mãe e eu temos sentido saudade de você nos útlimos anos. Porém, as coisas deram uma tremenda guinada. Não sei se era sua intenção, mas você nos cortou da sua vida. Não havia nada a dizer, então Simon permaneceu em silêncio. Charles assentiu em reconhecimento. – Não era nada além do que merecíamos. Não podemos mudar o


passado. Só temos o futuro. Sua mãe e eu gostaríamos de fazer parte da sua vida. Simon esperara uma eternidade por isto. Devia estar em êxtase. Mas construíra um muro em torno de suas emoções. Cada dor, cada hora solitária colocara mais um tijolo no lugar. Uma oferta bemintencionada não seria capaz de derrubar algo tão irmemente sedimentado. Simon esfregou o pescoço, tenso. – Não sei. – É justo. – Charles bebericou o chá. Simon terminou seu café. O pai pigarreou. – Bem, e Tawny? Ela é a noiva de Elliott? Simon preferia in initamente se concentrar em Tawny e em Elliott em vez de focar em seu relacionamento, ou na falta dele, com seus pais. – Até ontem à noite, ela era noiva de Elliott. Não sou gay e nunca serei. Elliott, no entanto, acabou de sair do armário. Charles piscou. Duas vezes. – Isso é bem semelhante a alguma série dramática picante da TV. Simon sorriu. Seu pai nunca pretendia ser engraçado, mas às vezes… bem, ele simplesmente era. Simon balançou a cabeça. – É bem complicado, mas a questão é que Tawny e eu não somos um casal. Fiquei preso no apartamento dela ontem à noite… esta noite… e quando mamãe achou que… bem, simplesmente deixamos que ela pensasse isso. – Ah, são só detalhes, e eu não preciso icar sabendo disso tudo. Só o que importa é a expressão que vi no seu rosto quando ela entrou no quarto. Charles envolveu a xícara com as mãos, e Simon notou as veias azuis proeminentes por causa do envelhecimento. – Você e ela compartilham a mesma coisa que eu e sua mãe sempre compartilhamos. Uma ligação profunda, uma conexão que poucas pessoas têm. Simon explicara que eles não possuíam um relacinamento, mas não tinha intenção alguma de discutir seus sentimentos com o pai, que nunca antes mostrara o menor interesse em nada que lhe dissesse respeito. – Não acha que é um pouco tarde para resolver que você está interessado na minha vida, pai? – Isso é você quem sabe; mas não, eu não acho. Não posso mudar o passado, mas posso mudar o futuro.


Simon não sabia o que dizer. Não iria prometer nada que não pudesse cumprir, e não fazia a menor ideia se era ou não tarde demais. Charles pareceu decepcionado. – Tudo bem. Você vai voltar amanhã, ou hoje mais tarde, para ver sua mãe? – Amanhã. – Era o máximo que ele podia prometer. – O DESTINO deve estar recompensando você pelo seu bom comportamento. Quais são as chances de se conseguir uma vaga em uma rua de Manhattan? – disse Tawny assim que Simon estacionou o velho Jaguar de Charles em uma vaga a meia quadra do prédio dela. – Deve ser por causa de todos os pobres coitados presos no trabalho. – Ele esboçou um sorrisinho. Charles Thackeray oferecera o carro, já que não iria a lugar algum e Simon retornaria na manhã do dia seguinte… bem, nesse dia, mais tarde. Tawny se sentia mais do que satisfeita por voltar para casa sob o arcondicionado, em vez de ter que ir correndo. Eles voltaram no automóvel pelas ruas escuras em um silêncio sociável, já que cada um estava envolto nos próprios pensamentos. – Papai disse que há uma lanterna no porta-malas. Dê-me um minuto que vou pegá-la. – Simon abriu sua porta e saiu. Por ela, tudo bem. Os assentos gastos de couro eram macios como luvas. Não era esforço nenhum ficar sentada ali mais um pouco. O porta-malas foi fechado, e Simon reapareceu à porta, lanterna em mãos, o facho de luz deixando a escuridão ao redor ainda mais densa. Ele abriu a porta para ela. – Pelo menos não vamos precisar enfrentar as escadas no escuro desta vez. – Serei eternamente grata ao seu pai. – Tawny desceu do carro, a mão de Simon lhe firmando o cotovelo. Ele era um homem completamente moderno com um senso de cavalheirismo adoravelmente antiquado. A rua estava silenciosa, deserta. Tawny e Simon pareciam ser as únicas duas pessoas acordadas na cidade. Até mesmo as poucas vozes que eles tinham ouvido ao sair, mais cedo, agora cessaram. Caminharam até a frente do prédio.


– Foi bom vir dirigindo. – Os dentes dele reluziram a brancura em um sorriso cansado: – Muito melhor do que voltar andando. Uma vez à porta da frente, Simon segurou a mão de Tawny enquanto eles seguiam a faixa de luz, cruzando o saguão que levava à escadaria. – Não tenho certeza se papai teria oferecido o Jaguar se eu estivesse sozinho. Aposto que nunca conheceu ninguém que não gostasse de você – disse Simon enquanto eles subiam as escadas. Tawny tinha certeza de que Simon tagarelava daquele jeito para distraíla do breu. Mesmo com a lanterna, aquele pretume era o palco de seus maiores medos. Ela se concentrava na conversa e tentava não pensar sobre ser engolida pelas trevas. – Isso não é verdade. Mas na maior parte do tempo, me dou bem com todo mundo. Gosto de pessoas. Acho que é por isso que iquei tão incomodada quando você pareceu não gostar de mim quando nos conhecemos. – Nunca desgostei de você. Ela emitiu um som de escárnio, mas não discutiu. – E a sra. Hinky não gosta de mim. – Sra. Hinky? – Minha vizinha de porta. No entanto, ela não gosta de ninguém. Pessoalmente, acho que é um pouco maluca, meio paranoica. Ela está convencida de que todos a espionam. Simon arfou. – Por acaso ela mora à sua direita, para quem está de frente para o prédio? – Sim. Como Simon conhecia a sra. Hinky? Simon relatou seu improviso no beiral da janela. Tawny gargalhou até ficar sem ar. – Ai, meus Deus! Isso teria feito qualquer um surtar, que dirá a sra. Hinky! – Ela riu mais ainda. – Pobre mulher. Tenho certeza de que fui o pior pesadelo dela ganhando vida. – Eu já o vi nu, e garanto que não é pesadelo nenhum. Mas é melhor eu ir até lá e explicar a ela amanhã… bem, hoje mais tarde… assim a sra. Hinky não vai ficar completamente surtada. – Não é má ideia. – Ele puxou a mão de Tawny para fazê-la parar. –


Chegamos. Até que foi bem rápido. – Tem certeza? – Sim. – Ele jogou o feixe de luz sobre o número estampado na porta. – Sétimo andar. Seguiram em silêncio pelo corredor. Chegando ao apartamento, Tawny destrancou a porta e eles entraram. Lá dentro estava tão quente quanto na hora em que saíram. – Espere um segundo, vou acender isso – disse Simon. Uma pequenina vela votiva bruxuleou para a vida. Ele desligou a lanterna. – Não quero desperdiçar as pilhas. Com um miado, Simon, ex-Peaches, a saudou. Surpresa, Tawny o pegou no colo. – Ei… Sentiu saudade de nós? – Tawny olhou para Simon, o homem, que agora havia acendido duas velas de sete dias. – Uau! Ele nunca me cumprimentou antes. O gato bateu no queixo dela com a patinha com garras aparadas. Ela riu e voltou a colocá-lo no chão. – Certo. Já chega, não é? – É a mudança de nome – a irmou Simon, o espectro de um sorriso pairando em seus lábios. – Pode ser. Ou foi minha fé de que meu gatinho mudaria de ideia um dia. Nossas percepções se tornam nossa realidade. Nossa, de onde viera aquilo? Ela devia estar cansada para expelir pílulas filosóficas. A exaustão a tomou de assalto. Fisicamente, emocionalmente, mentalmente sentia-se esgotada. Tawny se espreguiçou e captou o cheirinho sob a axila. Eca! – Eu poderia dormir por uma semana, mas preciso tomar um banho antes. Quer vir comigo? Só para tomar banho mesmo – completou ela, assegurando que Simon soubesse que não estava oferecendo sexo. – Claro. – Simon riu. – Não sou capaz de mais nada agora. Não acho que conseguiria nem levantar o meu amiguinho. Nem mesmo para você. Tawny sorriu. Aquela era uma das coisas que adorava em Simon. Ele era tão genuíno… Quantos homens admitiriam isso? Ela contornou o sofá. – Ótimo. Eu não conseguiria fazer nada além de deitar aqui e provavelmente apagar, mesmo que você conseguisse levantá-lo.


Simon passou o braço em torno da cintura dela, e Tawny acolheu o apoio. – Tudo bem então. Só banho. Com a velinha em uma das mãos e o outro braço ao redor dela, Simon a conduziu pelo corredor e para o banheiro. Colocou a vela na pia, o espelho refletindo a luz. Tawny tirou os tênis e removeu o short, a calcinha e as meias. A camiseta e o sutiã se juntaram à pilha de roupas sujas no chão. Ela observava Simon terminando de se despir… foi um pouco mais demorado para tirar as botas e a calça jeans. Absolutamente adorável. Esguio e musculoso. Ele olhou para cima e flagrou Tawny a apreciá-lo. – O que foi? – Estou cansada, Simon, não inconsciente. Só estou tirando um tempinho para aproveitar a vista. Simon sorriu para Tawny e seguiu para ligar o chuveiro. Aqueles ombros, a cintura estreita, o traseiro irme, as coxas musculosas. Ela sentiu a excitação esvoaçar no baixo-ventre. E a onda instantânea de desejo sendo traduzida em um calor úmido, quente e escorregadio entre as coxas. – Se eu não estivesse tão cansada, tentaria seduzi-lo para um sexo suado, sujo e enlouquecedor no chão. Simon arqueou uma sobrancelha para ela, olhando por sobre o ombro, e Tawny riu baixinho. A expressão dele era metade esperança, metade uma descrença cansada. Tawny balançou a cabeça. – É uma pena desperdiçar o momento quando você está completamente nu e… – ela olhou para a coxa dele, as nádegas expostas – bem, nu. Mas de fato estou cansada demais. Ele deu risada e saltou sobre as roupas empilhadas para segurar a mão dela. – Acho que vou ter de queimar essas peças quando chegar em casa. – Simon a guiou para o chuveiro. Tawny não queria pensar em Simon indo para casa. Não queria que a magia da noite terminasse. – Não sei sobre queimá-las… talvez só uma fumigação. Ela se posicionou sob o jato gelado do chuveiro. A água fria era deliciosa contra a pele suada, pegajosa. Um silêncio fácil os envolveu, e ela e Simon alternaram a vez sob a água. Após Tawny e Simon já terem passado xampu e esfregado cada


centímetro do corpo, ela desligou a água. Tawny vacilou. Agora, limpa e fresca, se rendia à fadiga que pesava em seus membros e entorpecia sua mente. – Espere. – Simon pegou a toalha dela no gancho e começou a secá-la com delicadeza. – Eu mesma posso fazer isto – protestou Tawny, mas não se mexeu para tomar a toalha dele. – É claro que pode. – Simon a contornou e lhe secou a água das costas. Ela cedeu à tentação e apoiou a cabeça no ombro forte. – Aguente só mais um pouquinho. – Simon se levantou e passou a toalha nos braços, no peito e na barriga dela. Tawny icou olhando, fascinada pela água pingando dos cílios escuros dele com as gotas presas no queixo com barba por fazer. – Hum… – Era bom ser mimada. – Acredite ou não, preciso de mais do que uma hora de sono. Simon riu quando se ajoelhou para secar as pernas dela. A luz fraca da vela dançava ao longo da ondulação dos músculos dos ombros dele, re letindo o brilho e a umidade ao longo do contorno esbelto das costas. Ele se aprumou, passou a toalha molhada no cabelo dela e começou a fazer uma massagem maravilhosa em sua cabeça. Tawny gemeu. – Se você não parar com isso, vou dormir em pé. Simon colocou a toalha em volta dos ombros dela e sorriu. – Isso não seria bom. – Pegou outra toalha e secou-se rapidamente, enquanto Tawny permanecia ali e o observava como uma garota-zumbi na terra da inconsciência. Simon saiu da banheira. Antes que ela se desse conta do que ele estava fazendo, Simon pôs um braço atrás dos ombros dela, o outro sob seus joelhos e a pegou no colo. A pele nua dele estava fria e limpa de encontro à dela. Tawny deveria protestar. Dizer que era pesada demais. Que não era necessário. Mas a exaustão a emudeceu. Em vez disso, passou os braços ao redor do pescoço dele e apoiou a face no peito largo, inalando o aroma de sabonete de Simon. O ritmo constante do coração dele tocava como uma canção de ninar sob o rosto dela. Apoiada pelos braços fortes, a pele dele contra a sua, cercada pelo perfume dele, Tawny se entregou ao sono…


Capítulo Doze

SIMON OBSERVAVA Tawny dormir, o sol batendo em suas nádegas e pernas, o braço jogado no rosto, o cabelo uma meada castanhoavermelhada sobre o travesseiro. Ele rolou para fora da cama e caminhou até o banheiro. Vestiu a cueca e o jeans. Ficar passeando nu na noite anterior era uma coisa, mas outra bem diferente era fazê-lo pela manhã. A magia da noite evaporara ao amanhecer. Pegou sua câmera e a ajustou para a luz intensa que luía no quarto. Nenhum deles pensara em baixar as persianas quando caíram na cama, quatro horas atrás. Ela estava deitada parte na sombra, parte na luz. Ele tirou várias fotos, captou a brincadeira do sol na pele dela, recuando mais uma vez para a segurança detrás de sua máquina fotográfica. Tawny abriu os olhos, piscando, e sorriu, sonolenta, para ele. A pulsação de Simon acelerou. Ela espiou a câmera. – Por favor, diga-me que não está tirando fotos de mim na cama com esta cara amassada e sem maquiagem. Ela era uma mulher quixotesca: inabalável com sua nudez, mas preocupada com sua ausência de maquiagem. – Você está linda – disse ele sem pensar. E estava mesmo, com o cabelo emaranhado sobre os ombros e os olhos suaves e pesados de sono. – Ahã… – Tawny estendeu a mão diante da câmera. – Chega de fotos de manhã cedo. Por favor. – Tudo bem. Ela estava mesmo linda, mas icaria tímida agora. Simon foi até a janela e olhou para a cidade, oferecendo a Tawny um instante de privacidade sem de fato sair do quarto. O colchão estalou, anunciando que ela estava se levantando. Ele ouviu os passos pelo quarto e o rangido em protesto da porta do banheiro.


Mais uma vez as pessoas se amontoavam lá embaixo, na rua, mas poucos carros circulavam. Ele tirou algumas fotos desinteressadas. Seu coração não estava no ato de fotografar a cena diante de si. Ele ouviu a porta rangendo outra vez e Tawny retornou ao quarto. – Obrigado por ter ido ao hospital comigo ontem à noite – disse ele sem se virar. Ambos haviam icado cansados demais para conversar sobre qualquer coisa antes. Ela abriu e fechou a gaveta da penteadeira. – Estou feliz por ter conhecido seus pais. Que alívio sua mãe estar bem. – Sim. É. – Simon fez uma careta por dentro. Aquele era um péssimo caso de síndrome aguda da manhã seguinte. Ambos soavam como personagens em uma peça mal escrita. – Gostei mais deles do que pensei que gostaria – disse ela, a voz abafada de dentro do closet. – Eles estavam… diferentes. E isso era um eufemismo. Era tão típico que as decisões dos pais de participar da vida de Simon girassem em torno das próprias necessidades. Eles não o procuravam porque se orgulhavam dele, ou porque tinham se dado conta de que haviam deixado de conhecer um ótimo ser humano. Não. Eles estavam sentindo a própria mortalidade, a própria vulnerabilidade, então Simon era seu apoio. Simon ainda não era prioridade na pauta deles. E não acreditava em nada daquilo. Agora que sua mãe estava bem, ele esperava que eles retornassem ao seu mundinho insular de dois. – Meus pais gostaram de você. – Tentei não ser muito soltinha com eles. – Tawny olhou para Simon e para a rua abaixo. O cabelo de Tawny roçou no braço de Simon, o perfume dela o cercou, e a urgência de tomá-la nos braços era quase insuportável; porém, a loucura noturna havia acabado. – Você os encantou – disse ele, se afastando da janela, e de Tawny. – Há! Teriam icado empolgados com qualquer um que tivesse salvado você de ser… como foi mesmo?… um frutinha. Apesar do peso em seu coração e do constrangimento generalizado entre eles, Simon riu. – Certo. Aquilo foi de uma preciosidade, não é? Se eu nunca levei uma


mulher para conhecê-los, óbvio que devo ser gay. Encare, Tawny, você encanta todo mundo. – Sei! Não se esqueça da sra. Hinky. E posso lhe garantir que não deixei Richard encantado. – Você e Richard tiveram um começo abaixo de estelar. – Eufemismo enorme. – Conseguiu se acertar com Elliott? Simon precisava ter certeza antes de ir embora. – Estamos bem. Encerramos a história, assim eu posso abrir mão do antidepressivo. – Tawny sorriu. – E vocês, trocaram beijinhos e izeram as pazes? Simon deu de ombros. – Pulamos a parte dos beijinhos. Eu não queria Richard arrancando meus olhos por ciúme… mas estamos bem. – Ele estava fazendo piadas estúpidas, estranhas… definitivamente era hora de ir embora. Simon começou a seguir em direção à porta, e Tawny se colocou diante dele, impedindo-o. Ela pôs as mãos no peito nu, e a pele dele parecia estar pegando fogo. Tawny umedeceu os lábios com a pontinha da língua. – Simon, quero que você saiba que a noite de ontem foi a melhor da minha vida. Ele deu um passo atrás, fugindo do toque dela. – Essa é uma reação bem incomum para um noivado rompido. Tawny deixou as mãos caírem ao lado do corpo e repreendeu-o com o olhar. – Não é isso o que quero dizer, e você entendeu. Você foi a melhor parte da noite passada. – Estou lisonjeado. – E estava, mas um deles precisava ser sensato. Simon saiu do quarto. O estojo da câmera continuava perto da porta de entrada. Não estava escuro feito breu como na noite anterior, mas uma melancolia sombria acortinava a sala depois da luz cintilante do sol no quarto. Implacável, Tawny o seguiu. – Não estou tentando bajulá-lo. Estou sendo honesta. Lembra-se de ontem à noite, quando seu pai disse à sua mãe que era “assim mesmo” entre nós dois? Simon pegou o estojo da câmera sem fitá-la. – Sim. E lamento que isso tenha acontecido. Eu não queria chatear minha


mãe depois de ela ter sofrido um infarto. – Eu não lamento. Quando ele disse aquilo, bem… eu percebi que seu pai tinha certa razão. Simon ergueu a cabeça bruscamente. Será que Tawny adivinhara que ele estava loucamente apaixonado por ela? – O que quer dizer? – Percebi que é assim mesmo para mim – disse ela, a voz baixinha no cômodo na penumbra. Simon reprimiu a dor dentro de si. Tawny estava frágil e vulnerável na noite anterior. Muito provavelmente sentiria o mesmo por qualquer outro sujeito que entrasse ali e a tratasse com a mínima dose de decência. – Não. Tawny, a noite passada foi um atenuante das circunstâncias. Você se encontrava emocionalmente exausta. Não confunda as circunstâncias da noite comigo. – Está insinuando que não sei como me sinto? – Desta vez o tom suave anunciou uma tempestade iminente. Mas o que ele tinha a dizer precisava ser dito. Simon já se aproveitara dela de algum modo, na véspera. Ele seria um total idiota se a deixasse prosseguir com isso agora. E se contasse a ela como se sentia? No dia seguinte, na semana seguinte ou talvez no mês seguinte, Tawny iria perceber quão imperfeito ele era, enxergaria a obscuridade nele, e Simon veria a aversão nos olhos dela. Era bem melhor assim. – A noite de ontem foi uma montanha-russa emocional para você. Dê a si mesma alguns dias, e esta vai ser apenas a noite na qual todas as luzes da cidade se apagaram. – Não ouse me tratar com condescendência. – Só estou sendo racional. Um de nós precisa ser. – No instante em que a frase saiu de sua boca, Simon soube que aquela era a coisa errada a se dizer. – Diga-me que não ouvi você dizer isso, Simon Thackeray. Simon simplesmente queria que ela enxergasse o que era dolorosamente óbvio para ele. A noite anterior havia sido um espaço fora do compasso. Se Tawny simplesmente fosse racional, veria que o dia de hoje estava de volta à normalidade. Contudo, talvez, mais uma vez, Tawny não conseguisse sê-lo agora. Talvez fosse aquele período do mês em que os hormônios femininos enlouqueciam.


– Acho que você está se preparando para começar. – Para começar o quê? – Você sabe… com sua TPM? – perguntou ele. O gato miou do outro cômodo. – Sorte sua que não estou. Se estivesse, você estaria morto agora. – Tawny irrompeu até a cozinha. Simon a ouviu colocando ração na vasilha do gato ao passar por ali. Pegou sua camisa, as meias e as botas. Vestiu a camisa. Sentou-se na beira do sofá para calçar as meias e as botas. Tawny retornou da cozinha e acendeu algumas velas sem dizer palavra. – Ouça, não é de admirar que você não esteja pensando com clareza, com Elliott tendo saído do armário, o apagão, e depois de ter sido arrastada para o hospital no meio da madrugada. Está mais quente que no inferno, e você não dormiu muito. – Simon deu um laço no cadarço da bota. – Isso tudo pode ser verdade, mas tenho bom senso su iciente para saber como me sinto. – Você irá enxergar tudo de maneira diferente assim que a energia elétrica voltar. Um quarto fresco, um chuveiro quente, uma refeição decente e uma boa noite de descanso farão uma diferença enorme. Tawny plantou as mãos nos quadris, o calor e seu humor obviamente exigindo o máximo autocontrole. – Toda a eletricidade do mundo não vai mudar o fato de que eu te amo, seu arrogante… – Tawny se calou, fechando bem a boca. – Não. – Simon cerrou as pálpebras por apenas um segundo. – Nós dois sabemos que não tem como você me amar. Uma mulher não vai de noiva de um sujeito a apaixonada por outro em menos de 24 horas. E certamente nem ele, não o verdadeiro Simon à luz do dia em vez de alguma versão romantizada que ela criara baseada na véspera. Tawny ergueu o queixo, desafiadora. – Coisas estranhas aconteceram. Para algumas pessoas, isso é amor à primeira vista. – Eu sei. – Bastou uma simples olhadinha para ela para Simon saber. Mas Tawny não dera uma olhadinha para ele e se apaixonara. Simon servira apenas para amortecer o impacto da traição de Elliott. Um pouco da ira dela se evaporou. – Ai, Deus! Eu fiquei tão envolvida… Desculpe por ter me jogado em cima de você. Esqueci que já tem alguém.


Simon balançou a cabeça. – Existe alguém, mas… Alguns de nós fomos feitos para ficar sozinhos. – Não. Eu não acredito nisso. Você é maravilhoso, carinhoso e… Recusome a acreditar que foi feito para icar sozinho. Se a ama de verdade, vá atrás dela, Simon. Não espere até que seja tarde demais. Circunstância perfeita, levando em conta que ela ainda estava exausta e emocionalmente instável. – Decida-se, Tawny. Se você me ama como diz, por que está me jogando nos braços de outra pessoa? Ela acariciou o rosto dele, os olhos sombreados por uma tristeza que o perfurou. – Porque não posso obrigá-lo a me amar se você não me ama. E orgulho é só uma coisa. Não tenho vergonha de ter me apaixonado por você. Recebi exatamente o que desejei. Este é o tipo de amor salto alto. – Ela recuou a mão e ofereceu um sorriso fraco. – Isto é di ícil, Simon. A tenacidade sempre me levou para o caminho errado. Consegui quase tudo o que quis persuadindo ou chateando. Sei muito bem disso. Mas não posso agir como um buldogue para fazê-lo me amar. No entanto, é por isso que estamos aqui. É parte de nosso propósito na vida: amar e ser amado. Desse modo, se você está apaixonado por essa mulher, precisa dizer a ela. Não sou uma psicopata que quer que você ique infeliz e sozinho só porque não me quer. Quero que seja feliz. Tawny só pensava que o amava. Simon sabia que não era possível. – Tawny, você é muito especial… Ela balançou a cabeça e ergueu a mão para detê-lo. – Não acho que posso escutar você me colocando a par de meus atributos. E, antes de chegar a esse ponto, deixe-me dizer que não consigo sentir o que sinto por você e ser só sua amiga. Ele balançou a cabeça. – Não. Não acho que possamos ser amigos. Foi uma noite ótima, e você é uma pessoa maravilhosa, mas estava certa ontem quando disse que era improvável que nossos caminhos se cruzassem outra vez. Você vai fazer algum sortudo muito feliz um dia… Tawny virou o rosto, abraçando o próprio corpo como se estivesse com frio, apesar do calor sufocante. – Creio que é hora de você ir embora. Simon pendurou o estojo da câmera no ombro.


– Mande-me a cobrança junto com as fotos. – Não. Nós já discutimos isso. Nada de cobrar. – Se você não me cobrar, então eu lhe deverei uma festa. Seria mais tranquilo e correto se você simplesmente me enviasse uma fatura. – Tawny empinou um pouco o queixo, desafiando-o a discutir com ela. – Espero que você encontre o homem dos seus sonhos, Tawny. Ela o encarou. – Eu encontrei. Simon saiu e fechou a porta detrás de si. Ela estava errada. E um dia Tawny lhe agradeceria por isso. O CELULAR de Tawny tocou. Por um segundo digno de parar o coração ela pensou que pudesse ser Simon. Tinha esperanças de que ele concluisse que a noite anterior fora especial, e que o que quer que houvesse entre eles também era. Não. O número de Elliott brilhava no visor. – Oi, Elliott. – Tawny, Simon ainda está por aí? – Não. Tente o celular dele. Por que Elliott simplesmente não telefonou para Simon, para começar? Ela não tinha tempo para icar bancando a telefonista. Estava ocupada demais sendo infeliz. – Não preciso falar com ele. Eu só estava me perguntando se Simon estava por aí. Preciso dar uma passadinha na sua casa. – A empolgação tingia a voz dele. Tawny, porém, não pretendia ter de encarar nenhum drama de Elliott. – Não acho que seja uma boa, Elliott. É uma hora ruim. Não estou nem um pouco a fim. – Tenho uma coisa que você precisa ver. – Ele soava trêmulo. Tawny se sentia letárgica e aborrecida demais para discutir. Elliott, o egoísta, decerto queria mostrar a ela um anel de compromisso que havia concebido para Richard ou algo igualmente fútil. – Tanto faz. Venha. – Posso levar Richard? Pelo menos ele pedira permissão. – Vocês dois estão unidos pelo quadril agora? Elliott riu.


– Safadinha, safadinha, Tawny… Péssima escolha de palavras. – Esqueça o que eu disse. Venha quando quiser. Tawny se manteve ocupada limpando o apartamento e se arrumando até Elliott chegar, com Richard a tiracolo. Ela podia estar rejeitada e abatida, mas não precisava parecer uma bruxa ou viver feito uma porca relaxada. Elliott e Richard chegaram trazendo frappuccinos gelados e meia dúzia de pãezinhos com cream cheese e um salmão defumado do Abrusco’s. Cafeína era bom. Comida era melhor ainda. Tawny pegou a comida oferecida e a apoiou no baú entre o sofá e a cadeira. – O salmão do Abrusco’s foi ideia de Richard – disse Elliott. Obviamente ele queria que ela gostasse de Richard. Tawny não tinha certeza se um dia iria gostar dele, mas almejava a civilidade. – Obrigada. – Tem um pão de passas com canela com seu nome aí. – Richard deu de ombros. – Meu favorito. Obrigada de novo. – Tawny caçou o pãozinho e o lambuzou com cream cheese gorduroso; a melhor cobertura. Ela mordeu. Mesmo sendo do dia anterior e estando frio, era delicioso. – Não quer saber o que Richard e eu temos para mostrar? – perguntou Elliott, pegando um pãozinho de cebola. – Elliott, é melhor que isso seja bom, porque não estou no melhor dos humores. – Com pãozinho ou sem. – Deixe-me adivinhar. – Elliott untou o pãozinho de cebola com salmão… agora Richard iria aguentar hálito de cebola com salmão. – Você falou para Simon como se sentia, ele racionalizou tudo por você e então foi embora. – Como sabe? Você falou com ele? Tawny preferiria ter aquela conversa sem Richard, mas na verdade não tinha importância. E ele se mantinha calado. Nem perto de estar tão ofensivo essa manhã quanto estivera de madrugada. É claro, ela ainda não o havia cutucado também. – Não precisei falar com ele. Somos amigos há muito tempo. – Elliott gesticulou para Tawny com uma faca de plástico. – Eu lhe disse que teria que lutar por ele. Ela se sentiu vazia.


– Não posso obrigá-lo a me amar se ele não quiser. – Se ele a amasse, você lutaria por Simon? Ela fez uma careta. Sabia que Elliott era quase sempre imprudente, mas nunca cruel. – Se eu achasse que ele me amava, você sabe que eu lutaria. Elliott sorriu como o gato que acabara de engolir o canário. – Descobri esta manhã que Simon escondia um enorme segredo de mim. – Sim? – Eu sabia que ele estava apaixonado por alguém, só não sabia quem. E Simon não é o tipo de cara que você consegue pressionar para obter detalhes. E… bem, talvez eu seja um pouco autocentrado, então não insisti muito. Por acaso aquilo era um lampejo de autoconsciência da parte dele? – Sabe, Elliott, há esperanças de você não ser um completo narcisista. Richard riu, mas Elliott ignorou o comentário dela. – Descobri esta manhã quem é a mulher misteriosa de Simon. O coração dela se despedaçou. Saber que Simon amava outra pessoa era uma coisa. Mas realmente conhecer… – Achei que você não tivesse falado com ele – disse ela. – Não falei, querida. Mas uma imagem vale mais que mil palavras. Lembra-se de nossa festa de noivado na galeria? – É claro que me lembro. Foi só há dois meses, e quem planejou fui eu. Por que Elliott precisava dar voltas para fazer qualquer coisa? – Será que tudo com você precisa ser dramático? Não pode simplesmente ir direto ao ponto? Quem é ela? – Tudo a seu tempo, Tawny. Delicie-me por um momento. Richard tirou fotos naquela noite, na nossa festa de noivado. Estávamos revendo as fotos esta manhã. Richard tirou uma fotogra ia de um envelope acolchoado que Tawny não notara, e a entregou a Elliott, que passou a Tawny. – O que você acha? Simon, obviamente sem saber que estava sendo fotografado, olhava para alguém fora da câmera. O desejo brilhava no rosto dele. A ternura e a dor nos olhos foram como uma facada no coração dela. A expressão dele, em seu olhar, era tão particular, tão pessoal que Tawny sentiu-se uma intrusa só de itá-lo. Richard havia capturado a beleza e a tristeza do amor. Ela baixou a cabeça.


– Eu diria que esse é o rosto de um homem amando apaixonadamente. – Tawny teve de enfrentar o bolo que se formou em sua garganta. Ela sentiu enjoo. Se aquilo foi na festa de noivado dela, havia chances de conhecer a mulher que ele amava tanto. Ou talvez não. A maioria dos convidados eram conhecidos pro issionais de Elliott. Tinha sido uma boa oportunidade para ele levar visibilidade à galeria. Como Elliott podia parecer tão satisfeito quando ela sentia vontade de vomitar? – Concordo, querida. Essa foi tirada com zoom. Richard tirou esta outra aqui com lente comum. – Elliott lhe entregou outra foto. – Dê uma olhada no amor da vida dele. Tawny se preparou para olhar para baixo. A fotogra ia lutuou até a mesa, caindo de seus dedos inertes. Atordoada, ela icou encarando a foto de si mesma sentada sozinha a uma mesa. Todos haviam se levantado para dançar, e ela precisara de alguns minutos sozinha. Simon estava a uma mesa de distância. Aquele desejo, aquela paixão eram direcionados a ela. – Mas esta sou eu – sussurrou. – Sim. Como eu disse, uma imagem vale mais que mil palavras. Ele ama você. – Elliott esboçou um sorriso triunfante. O choque a anestesiou. – Mas não faz sentido. Esta manhã eu disse a Simon como me sentia, eu declarei o meu amor, e ele simplesmente foi embora. Elliott assentiu. – E iria mesmo. – Mas por quê? Eu disse que o amava. Simon me fez pensar estar apaixonado por outra pessoa e essencialmente me disse para ser feliz na vida. – Desde que o conheço, ele foi emocionalmente negligenciado. Letitia e Charles não são maus, nem cruéis, e acho que eles inalmente descobriram o que fizeram e querem compensar. Os dois sempre tiveram um ao outro, e Simon foi largado sozinho. Agradeça aos avós dele. Se não tivesse sido por eles… Mas Simon está totalmente convencido de que é indigno de ser amado. Tawny havia tirado conclusões semelhantes a partir do mínimo que ele lhe contara sobre sua infância. Mas como Simon podia se achar indigno de ser amado?


– Ele já lhe disse isso, Elliott? – Nem precisa. Vou voltar aos clichês desta manhã, mas se uma imagem vale mais que mil palavras, ações falam mais ainda. Simon mantém todo mundo distante. Eu tenho pensado muito em Simon desde que estivemos no hospital, de madrugada. Não acho que ele sempre foi desse jeito, muito embora já fosse quando o conheci. Creio que, quando ele era criança, os pais o excluíam de tudo, e Simon acabou concluindo que doeria menos se fosse ele a pessoa a fechar as portas. E foi o que fez com os pais dele. Com Jillian, uma garota da Inglaterra. Com você. Até mesmo comigo, algumas vezes. Meio que começava a fazer uma triste espécie de sentido. – Jillian se casou com o primo de Simon. Elliott arqueou as sobrancelhas. – Você sabe sobre Jillian? – Ele mencionou, ontem à noite. – Estou surpreso. – Então… Como Jillian terminou casada com o primo dele? – Ela disse que, assim que o conheceu melhor, percebeu que Simon não fazia seu tipo – disse Elliott. E tão de repente como tinham se apagado, sem alarde, as luzes piscaram de volta. – Bem, acho que isso acaba de lançar uma luz sobre tudo – brincou Elliott. Foi piegas, e Tawny revirou os olhos, mas riu mesmo assim. – As coisas estão ficando mais claras a cada minuto. – Ai! Essa foi péssima. Acho que vou pedir licença e ir ao seu banheiro bem iluminado depois dessa. – Elliott ficou de pé e saiu da sala. Simon a amava. Não algum paradigma magricela sem rosto e sem nome, mas sim Tawny Marianne Edwards e seu traseiro grande. Ele a amava! Se Tawny não entendesse a lógica distorcida de Simon, poderia icar tentada a lhe arrancar a cabeça por fugir dela de manhã. O apartamento dela já parecia dez graus mais frio, o que Tawny sabia ser impossível. Talvez fosse porque seu coração parecia muito mais leve. Richard pigarreou, e Tawny deu um pulo. Esquecera-se dele. – Eu lhe devo desculpas. Foi errado… Eu estava errado… – Ele suspirou. – Isso não está saindo direito. Não estou dizendo que ser gay é errado. Não consigo acreditar que amar alguém seja errado. Mas pelo jeito como


aconteceu… enquanto você ainda era noiva… Desculpe-me por isso. Desculpe por qualquer dor que eu tenha lhe causado. Não espero que seja minha amiga, Tawny, mas, pelo bem de Elliott, não quero ser seu inimigo. Tawny estava ocupada perambulando pela sala para apagar as velas. Ela se aprumou após apagar a última e olhou para Richard. Não havia animosidade nos olhos azuis dele, apenas cautela. – Não acredito que os ins justi iquem os meios, Richard, mas foi melhor Elliott ter descoberto isso agora do que depois que estivéssemos casados. – Ela fez uma pausa e alisou o short. – Não tenho certeza se consigo ser sua amiga, mas não sou sua inimiga. – Encarou-o. – A menos que você magoe Elliott… Aí será o fim de qualquer trégua. Richard piscou, sem dúvida surpreso. Ele sorriu e assentiu. – É justo. Elliott retornou do banheiro e olhou de um para o outro. – Sinto como se estivesse interrompendo algo. – Só estou colocando Richard a par de todos os seus defeitos, mas quase não tive tempo suficiente para listá-los – disse Tawny. Elliott fingiu espanto. – Eu não estava ciente de que tinha algum. Tawny sorriu de maneira angelical. – Eu poderia atualizá-lo rapidamente se você tivesse uma hora ou coisa assim. – Você é um doce por oferecer isso, mas descon io que tenha coisas melhores a fazer com seu tempo. – Elliott pegou a foto de Simon e Tawny, e a avaliou. – É o seguinte, Tawny. Acho que ele está com medo de acreditar que alguém poderia realmente amá-lo. Isso não é só um erro. Simon sabe tudo sobre amar. Ele só não sabe como ser amado. Ela cruzou os braços e sorriu. – Bem, está prestes a aprender. Elliott lhe entregou a fotografia e sorriu também. – Sentir isso por você deve deixá-lo morto de medo. E depois de você dizer que o amava… Posso jurar que Simon está apavorado. – Elliott balançou a cabeça. – Se eu não soubesse que você é a melhor coisa que poderia acontecer a Simon, ficaria com pena do pobre sujeito… Quase.


Capítulo Treze

SÓ UM minuto! – berrou Simon.

Será que um homem não podia ter um momento de paz em seu apartamento? Primeiro, Charles ligou para o celular depois de deixá-lo em casa; daí, foi a vez de Elliott ligar falando algo sem sentido sobre icar em casa; agora tinha alguém à porta. Simon desceu ruidosamente as escadas de seu loft. Pelo menos a energia elétrica voltara, e ele não precisava se preocupar com o que iria acontecer a Tawny depois que escurecesse. Se a energia não estivesse restabelecida ao anoitecer, Simon planejara aparecer no apartamento dela, assim Tawny não precisaria suportar a escuridão sozinha. Teria sido esquisito, mas ele não a queria só e assustada no escuro. Agora isso não seria mais necessário. Apesar do retorno da luz, e portanto do ar-condicionado, o calor não diminuíra nada. Simon tomara banho, sem fazer a barba, e vestira short de corrida e camiseta. Estava limpo, porém mal arrumado; o que combinava com seu humor. Ele abriu a porta e então desejou não tê-lo feito. Tawny estava do outro lado. Usava um vestido de verão agarrado às suas curvas. O cabelo estava preso no alto. Óculos de sol escondiam seus olhos. Trazia uma mochila no ombro. – O que você está fazendo aqui? – perguntou ele. Ser rude e abrupto costumava afastar as pessoas. – Você pode ter tido pais desligados, mas eu tenho certeza de que eles lhe ensinaram maneiras melhores que essa. Não vai me convidar para entrar? Claro, rude e abrupto não parecia funcionar tão bem com Tawny. – Entre. – Simon passou a mão pelo cabelo, porém deu um passinho para o lado. Não se sentia particularmente disposto a ser cortês, o que já não era seu ponto forte em um dia bom. E aquele não era um dia bom. – O que faz aqui?


Simon deixou a porta entreaberta, como uma dica não tão sutil. Tawny fechou a porta e colocou os óculos no alto da cabeça. Os olhos cintilavam. Ela parecia radiante, e ele estava aturdido. – Vim cobrar uma promessa. Ela se aproximou, e a mistura única de perfume e Tawny desencadeou todas aquelas coisas sensoriais que tornavam quase impossível raciocinar direito em vez de pensar em mergulhar o rosto no pescoço dela e o “pequeno Simon” na… Ela não precisava mesmo se aproximar mais. – Eu não fiz nenhuma promessa. – Não foi bem uma promessa. Estava mais para uma promessa de intenção. – Tawny tirou a bolsa do ombro e a segurou com uma das mãos. Fitou-o da cabeça aos pés, o calor sexual irradiando-se dela, queimando-o. Simon mudou o peso do corpo de um pé para o outro, totalmente perdido. Fugira dela de manhã, e agora ela estava parada observando-o como se ele fosse um picolé em um dia de verão. E, Deus do céu, Simon sabia o que Tawny fazia com picolés. – Você andou bebendo? O sorriso lento dela ferveu dentro dele, aquecendo-o. – Só um frappuccino. Concentre-se, Simon. Não no sorriso dela ou em picolés, ou no jeito como o vestido de Tawny se achava agarrado a todas as curvas. Concentre-se nesta conversa e faça-a sair deste apartamento antes de você fazer algo muito estúpido, como beijá-la e implorar que ela fique. – O que é essa promessa de intenção? – Você disse que se estivesse com sua amada saberia o que fazer com ela. Mais um passo de Tawny a colocou no espaço pessoal dele. Apenas alguns centímetros de ar muito quente os separava. Ela colocou a mão na barriga dele, bem no cós elástico do short, e o coração de Simon disparou feito louco. – Bem, estou aqui, esperando para… como era mesmo?… transar loucamente durante uma semana. E como aquilo não iria captar a atenção do “pequeno Simon”? Ele precisava fazê-la ir embora agora. Quando ela falava daquele jeito… Simon tentava manter a cabeça fria. As duas. – O que a faz pensar que é ela? Tawny não tinha como saber. Ele nunca dissera uma palavra a ninguém.


– Diga que não sou eu. – Tawny tirou uma foto da bolsa e a estendeu. Simon, lagrado em um momento de fraqueza e tristeza absoluta, olhava para ela. – Convença-me de que isto é uma mentira, Simon. Ele, dentre todas as pessoas, conhecia o poder de uma fotogra ia. Que ironia. Durante todos aqueles anos escondera-se atrás da câmera, só para ser desnudado da forma mais crua em uma foto. Adoro ironias. Simon jamais convenceria Tawny de que não a amava. Mas sabia que ela não o amava de verdade. Não poderia. Ele segurou os ombros dela e a afastou. – Tawny, você está se recuperando emocionalmente depois de um trauma. É cedo demais. E não me conhece de verdade. – Certo, acho que você expôs todos os argumentos possíveis. Agora vou desmascarar esses mitos que você criou nessa cabecinha sexy. Primeiro, vamos esclarecer. Elliott feriu meu orgulho. – Tawny o apunhalou com o dedo. – Você partiu meu coração. Segundo, é cedo demais para o quê? O amor não vem em uma linha do tempo, não é um treinamento pro issional que você precisa frequentar durante determinadas horas para obter o certificado. E, por fim, não diga que não o conheço. Tawny tomou a mão dele e a levou aos lábios. – Eu o conheci no segundo em que você subiu naquele beiral para resgatar meu gato. Eu o conheci quando você segurou minha mão no escuro. Eu o conheci quando você deu cobertura a Elliott. Eu o conheci quando você correu até seus pais, literalmente, porque eles precisavam de você, independentemente de seu histórico com eles. Eu o conheci quando você me secou e me carregou para a cama quando eu estava cansada demais para me mexer. Há muitas facetas suas que não conheço ainda, mas não diga que não conheço você. Era uma das coisas mais di íceis que ele já tinha feito, porque queria muito, muito acreditar nela. Mas Simon sabia de coisas que Tawny ignorava. Se ela de fato o conhecesse, descobrisse aquele núcleo oco dentro dele, nunca poderia amá-lo. Simon esticou os braços e criou uma boa distância entre os dois. – Você não compreende? – Simon lutava para fazê-la entender. – Eu sou como o deus Hades. O Senhor da Escuridão. Você é Perséfone. Luz e beleza. Você não foi feita para mim. Tawny ficou boquiaberta por uns bons cinco segundos.


– Por favor, diga-me que não acredita em nada dessa baboseira que acabou de sair da sua boca. Bem quando ele achara que tinha ouvido todos os eufemismos sulistas dela. – Você acabou de dizer “baboseira”? – Não ouse rir de mim e não pense que pode me distrair. Que tal isto: você acredita mesmo nesse monte de besteira que acabou de jogar para cima de mim? Isso é simplesmente um erro. E por que eu quereria ser aquela Perséfone covarde? Se você vai fazer alguma analogia mítica maluca, pelo menos me transforme em uma deusa durona, tipo Atena ou Artemis. Não em alguma pateta que precisou ser resgatada pela mamãe. – Ela jogou a mochila no sofá. – Sabe, eu ia telefonar para marcar um terapeuta para mim na segunda-feira. Você devia agendar uma consulta no meu lugar. – Não preciso de um terapeuta. E se sou tão maravilhoso, por que já está tentando me mudar? – Não estou fazendo isso. – Ela jogou as mãos para o alto. – O que quero é en iar um pouco de autoconsciência positiva nessa sua cabecinha dura. E você de initivamente irá precisar de um terapeuta se continuar jorrando esse tipo de porcaria maluca. – Acha que é uma porcaria maluca e isso então invalida totalmente meu ponto de vista? – Ouça, idiota, você foi o único que disse que eu precisava arrumar minhas coisas e voltar para casa se eu fosse deixar a opinião dos meus pais guiar minha vida. Aceite seu próprio conselho e pare de permitir que pais ruins arruínem sua habilidade de ter um relacionamento. Aquilo foi notavelmente familiar. – Por que você precisa de um terapeuta? Ela meneou a cabeça. – Eu sei que você está mudando de assunto de propósito. Tem o hábito de fazer isso quando a conversa não vai para o rumo que você quer. – Tawny deu de ombros. – Mas eu ia precisar de um terapeuta porque você estava me enlouquecendo. Simon cruzou os braços. Em seguida ela estaria comentando sobre a linguagem corporal dele. E Tawny ainda tinha a coragem de dizer que ele a enlouquecia. Ela o deixava doido. – De que modo eu a estava enlouquecendo?


– Bem, não você pessoalmente, mas o você daqueles sonhos. Eu não conseguia entender como podia amar Elliott e ter aquele tipo de sonho com você todas as noites. Mas agora icou fácil o su iciente de entender sem a ajuda de um terapeuta. – Tawny colocou as mãos nos ombros dele. – Eu não amo Elliott. Bem, exceto como algo que seja um cruzamento de irmão com amigo. Não do jeito como amo você. Ela fazia soar assustadoramente lógico. – Oh… – É isso? “Oh”? Depois de tudo aquilo, a única coisa que você tem a me dizer é “Oh”? – O que queria que eu dissesse? – Simon descruzou os braços e deixou as mãos caírem nas laterais. Tawny fechou os olhos, como se sua paciência estivesse se esgotando, e bateu a cabeça com delicadeza no peito dele. – Simon, eu acredito que temos um futuro longo e feliz adiante. Sei do fundo do meu coração que você me ama. Mas seria legal ouvir isso sem que eu precisasse arrancar de você. – Ela tomou o queixo dele na mão. – Eu te amo, Simon Thackeray. Agora, é mesmo tão complicado colocar isso… – Olhou para a foto – …em palavras? A fotogra ia berrava essa verdade, mas Simon disse o que ela precisava tanto ouvir: – Eu te amo. – A beleza gritante naquela frase simples e a vulnerabilidade que a acompanhava estremeceram dentro de Simon. – Obrigada. – Tawny ficou tão feliz que ele quase desabou. E se ele não correspondesse às expectativas dela? E se simplesmente não detivesse em si a capacidade de ser o homem que Tawny pensava que era? – Mas isso não muda nada. – O diabo que não muda! Você nunca irá se livrar de mim, porque eu te amo e sei que você me ama. Vá em frente, recolha-se atrás dessa sua muralha. Se eu tiver que ir tijolo por tijolo e levar uma eternidade, vou derrubá-la. Rastejarei até o inferno e voltarei, se necessário. Toda vez que fui implacável e corri atrás do que eu queria foi só o aquecimento. Este é o grande evento para o qual vim treinando. Portanto, esteja avisado: isto é guerra. – Você vai se cansar. Irá descobrir, mais cedo do que tarde, que não sou essa versão romantizada que pintou em sua cabeça.


– Está tão errado… Por favor, nunca diga que sou irracional. Não estou dando guarida a ilusões. Você é arrogante, teimoso e sarcástico, e também meio mandão. – Acabou de me chamar de mandão? – É por isso que somos tão perfeitos juntos. Você não me intimida porque eu jogo a bola de volta para você. – Tawny sentou-se no sofá e o puxou para sentar-se ao seu lado. – Você me disse que icou apavorado quando subiu naquele beiral. Não é problema nenhum sentir medo. Bravura e coragem envolvem exatamente isso. Não é necessário ter coragem para encarar quando você não tem medo. Não é problema nenhum sentir medo; mas é um problema fugir dele. Elliott não dissera a ele, mais cedo no hospital, que Simon tinha medo de ser feliz? Talvez ele tivesse acertado em alguma coisa. – Você não parece temer nada, com exceção do escuro. – Mesmo tendo dito isso, Simon percebeu que, embora ela temesse a escuridão, Tawny descera aqueles sete andares da escadaria escura feito breu; por ele. – Isso não é verdade. Morro de medo de não chegar até você. Sinto tanto medo de perdê-lo que estou tremendo por dentro. – Tawny esticou a mão, e Simon pôde constatar que estava, de fato, pouco firme. – E você acha mesmo que isso seria ruim? – In initamente mais do que icar presa sozinha no escuro. Onde mais vou conseguir encontrar alguém para adorar e louvar este traseiro? – Tawny lhe deu um grande sorriso e depois icou séria. Estendeu a mão, a palma para cima. – Estou aqui, emocionalmente nua, Simon. Suba nesse beiral comigo. Tawny o estava vencendo pelo cansaço, fazendo-o acreditar. Realmente havia algo semelhante à magia nela, porque Simon se lagrou acreditando. À beira de ser convencido de que só ela poderia amá-lo, com defeitos e tudo. Ela adentrara a escuridão com ele, precisando apenas que Simon lhe segurasse a mão. E agora ela oferecia o mesmo em retribuição. Simon temia o vazio escuro dentro de si, que sempre parecera pairar na periferia de sua alma, escapar-lhe. Ele colocou a mão sobre a dela e levou as mãos entrelaçadas aos lábios, dando um beijo na dela. – Você me ama mesmo, não é? – Simon não tentou disfarçar o espanto. Ela sorriu como se ele tivesse lhe entregado a lua, e Simon era humilde


em relação à própria capacidade de fazê-lo. – Era isso o que eu estava lhe dizendo. Sabe, você tem um problema sério de déficit de atenção. Simon se acomodou no sofá e a puxou para o colo, colocando os braços dela ao redor de seu pescoço. Simon tomou a cabeça de Tawny nas mãos. – Eu te amo. – E ele a beijou, uma promessa carinhosa. – Eu te amo – repetiu.Aquilo tinha um ótimo som, e não soava nem perto de ser tão assustador quanto ele previra. Simon tornou a beijá-la, gostando do padrão que se criava. Só que dessa vez beijou mais demoradamente, com mais intensidade, pronfundidade, unindo a língua à dela. Eles pararam para tomar fôlego, e Tawny roçou o bumbum delicioso na ereção dele. Tawny o deixava excitado e duro apenas com um beijo. E, antes que ele se entregasse totalmente ao prazer, Simon queria uma resposta para algo que parecera desimportante mais cedo. – Amor, tenho uma pergunta. – Só para que ique registrado: eu gosto dessa coisa de amor. Excita tanto… Agora pergunte. – Onde você conseguiu a fotografia? – Elliott me deu. – Ela se aninhou no pescoço dele. – Você devia ver minha calcinha. Acho que vai considerá-la… interessante. Simon deslizou a mão debaixo do vestido – Elliott tirou aquela foto? –, passou pelas coxas, prevendo um io dental ou uma renda sexy. Em vez disso, os dedos encontraram a carne quente e escorregadia cercada por renda. Ele foi tomado pelo calor. – Ah, amor, é muito interessante. – Simon trilhou o contorno dos lábios úmidos dela, desnudo pela abertura da renda, usando um dedo. – Com abertura frontal. Vim armada para uma batalha pesada. – Tawny sorriu e o provocou passando a pontinha da língua no lábio inferior dele. – A foto foi tirada por Richard. Simon arrancou o vestido dela por baixo, expondo a calcinha com fenda frontal e as dobras úmidas. – Então Elliott me entregou. Ela riu e abriu as pernas. – Sim. Foi Elliott. Simon deslizou um dedo para dentro do canal sedoso, e Tawny gemeu, excitando-o ainda mais. – Eu amo quando você geme assim. Isso me deixa duro.


– E eu amo quando você fala assim e me toca desse jeito. Isso me deixa molhada. Mas você sabe disso em primeira mão. Sim. Ele sabia daquilo intimamente, provocativamente. – Lembre-me de agradecer a Elliott mais tarde. Bem mais tarde. Na semana que vem talvez. Agora tenho uma promessa a cumprir.


Epílogo

Um ano depois… –

NERVOSA? – PERGUNTOU Simon, segurando a mão dela.

Tawny olhou de seu ponto vantajoso no escritório de Elliott para os convidados zanzando pela galeria. Tudo estava no lugar. Música. Bufê. Convidados. – Um pouco. Nunca planejei um casamento. Mesmo um extrao icial. Por quê? Você está nervoso? Simon enfiou o dedo na gola da camisa do smoking. – Não sou muito fã desta maldita roupa, e preferiria não ter que icar parado diante de uma multidão, mas em geral estou bem. Tawny o olhou de cima a baixo, flertando com ele. – Você fica muito bem arrumado desse jeito. E aquela era uma distorção grosseira. Ele icava de dar água na boca, delicioso de smoking. – Posso querer que você use smoking com mais frequência. O olhar dele era como água em super ície quente na pele dela, colocando seus hormônios em um frenesi. É claro, no caso de Simon não era necessário muito mais para estimulá-la. – Eu preferiria que você se concentrasse em tirar meu smoking. – Isso pode ser providenciado mais tarde. Acha que seus pais virão? Simon deu de ombros com uma indiferença estudada. – Espero que sim. Ele ainda icava tenso, ainda existia uma rigidez em Simon sempre que Letitia ou Charles eram mencionados. Mas os três haviam progredido, embora devagar, no último ano. – Acho que eles se arrependem sinceramente pelo desastre que foi sua infância. Pelo menos estão tentando. – Também estou. Acha mesmo que as pessoas podem mudar?


– Você conhece a resposta para isso. A única coisa que nos limita é o medo. Além, claro, dos obstáculos que estabelecemos para nós mesmos. – Nosso relacionamento me ajudou a compreendê-los melhor. – Simon passou a mão no queixo. – Acho que mamãe e papai têm uma relação similar à nossa. Mesmo depois de 30 anos, ele ainda é loucamente apaixonado por ela. En im, depois de um ano, Simon começava a acreditar, de verdade, no coração e na alma, que Tawny o amava. Que ela não iria acordar e concluir que não existia conteúdo su iciente nele, ou que esse conteúdo era intragável. Ele de fato fora para Savannah com ela alguns meses atrás para conhecer a família de Tawny, depois que a poeira por seu noivado rompido baixou. Foi um im de semana interessante. Enquanto Elliott, com sua personalidade extrovertida, os encantara, eles gostaram mais de Simon… Sobretudo depois de descobrirem a opção de sexual de Elliott. O pai de Tawny declarara que Simon era um homem profundo. A irmã Betsy simplesmente o considerara estranho; porém, todos que não jogavam golfe ou não faziam parte do clube de jardinagem eram estranhos para ela, que vivia em um mundo microcósmico. E Tawny teve certeza de que Simon começava a icar confortável com o relacionamento deles quando ele a convidou para ir à Inglaterra no outono para conhecer seus avós. Quem sabe? Em uma década ou algo assim, seu amor com fobia a relacionamentos poderia resolver fazer algo louco e impensado, como se casar. – Falando em loucamente apaixonado… onde está o casal feliz em seu dia especial? – perguntou ela. Simon sorriu. – Richard estava nervoso, então Elliott achou melhor icarem a sós por uns minutinhos antes de cerimônia. – Ele ajeitou a gravata. – Uma cerimônia de casamento gay em uma galeria de arte… não é exatamente convencional. Achei que fossem escolher algo um pouco mais vanguardista do que smoking. – Você quer uma guarnição para acompanhar esse chororô? De qualquer modo, Richard quis smokings, e Elliott queria ter certeza de que tudo seria como Richard desejava. Acho doce da parte dele. Richard tem sido bom para Elliott.


– Sem dúvida. Ele está mais atencioso do que nunca. – E acho que é muito legal eles terem escolhido o aniversário do blackout para se casar. – Muito sentimental. Muito comovente. Tawny deu um empurrãozinho no ombro dele. – Não banque o idiota. – Ela sabia melhor que ninguém como, no fundo, Simon era um romântico sentimental. – Mas eu sou tão bom nisso… – Ele sorriu, fazendo o coração dela vibrar e um calor florescer em seu baixo-ventre. – Você é bom em muitas coisas – disse ela, e retribuiu o sorriso. – Pare com isso. Não é adequado armar minha barraca com insinuações safadinhas antes da cerimônia. – Você sabe como estragar a diversão de uma garota. – Eu a compensarei depois, amor. E compensaria… e um pouco mais. – Sabe que dia é hoje, não sabe, Tawny? Estamos juntos há um ano e temos negócios pendentes que precisamos resolver. – Negócios? Do que ele estava falando? E o timing dele deixava muito a desejar. – Entreguei suas fotogra ias, mas você ainda precisa planejar minha festa. – Você devia ter me cobrado – disse ela, a mente vagando por uma lista mental. Será que o bufê pedira o champanhe extra que Elliott requisitara? Droga! Ela achava que eles tinham respondido ao seu e-mail, mas não se lembrava de ter as garrafas extras. – Não é hora de icar discutindo, amor. Eu preciso que um evento seja planejado. Os homens escolhiam os momentos mais estranhos para fazer as coisas. Tawny voltou a atenção para Simon. – Que tipo de evento? Simon não era do tipo festeiro. Ele poderia muito bem receber o título de “Menos Provável de Comparecer a uma Festa” no anuário do colégio. – Algo muito similar a isto. Só que talvez um pouco mais re inado. Talvez em uma igreja, e depois uma festa para dançar. Ele estava mesmo dizendo o que ela achava que ele estava dizendo? O coração de Tawny pareceu falhar. Talvez o timing dele fosse impecável,


afinal. – Está falando de um casamento e de uma recepção? Ele estalou os dedos. – É isso. – Tem certeza? Dá muito trabalho, caso você pense em mudar de ideia depois. – Nunca estive tão certo de algo em toda minha vida. – Presumo que tenha alguém em mente. – Para falar a verdade, há uma criatura encantadora que tem me fascinado completamente… – E você já pediu a mão dela? – Estou providenciando. – Simon segurou a mão dela e se abaixou sobre um joelho. – Tawny Marianne Edwards, quer se casar comigo? Ela sempre achara meio pateta quando os homens se ajoelhavam, nos ilmes. Mas não. Era doce e terno; e se Simon a izesse chorar e seu rímel borrasse, ela o mataria. – Eu adoraria, Simon Trevor Thackeray. Ele enfiou a mão no bolso e pegou uma caixinha de veludo. – Eu ficaria honrado se você usasse meu anel. Ai, meu Deus. Ele estava fazendo certinho. Simon abriu a caixa e pegou uma joia com diamante em forma de gota. – Gostou? – perguntou ele. – Não. Eu amei. Ele deslizou o anel no dedo dela. – É lindo. – Tawny icou mexendo a mão, captando a luz nas inúmeras facetas da pedra. Podem me chamar de cafona, tola, super icial e/ou materialista, mas eu sempre quis um anel imenso, e meu amor me deu um. – É um diamante. – É maior que o diamante da sua irmã? Ela sorriu para ele. – Sim. Isto vai cegá-la. – E é maior que o de Elliott? Tawny presumia que eles ainda estivessem falando do diamante. – Muito maior que o de Elliott. Deve ter custado uma fortuna. Simon a abraçou e lhe deu um beijo doce na têmpora. – Você merece, amor. E, de qualquer forma, foi um dinheiro fácil. Vendi


algumas daquelas fotos suas no banheiro para um site pornográfico. Tawny sorriu para o senso de humor perverso e distorcido dele e passou o abraço por seu pescoço. O clique inconfundível de uma câmera soou. Tawny e Simon olharam em direção ao som no instante em que Richard tirou outra foto. – Agora que já captei o inal feliz, acham que podemos ir logo com este casamento? – perguntou Richard com um sorriso tenso. Tawny achou graça e não o corrigiu. Aquele não era um inal feliz… era apenas o começo.

FIM

(flor da pele 06) blackout (jennifer labrecque)  
(flor da pele 06) blackout (jennifer labrecque)  
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