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DESEJO POSSESSIVO Inherited By Her Enemy

Sara Craven

“Deixo todos os meus bens para Andre Duchard... Ao serem lidas as últimas palavras do testamento do padrasto de Virginia Mason, o silêncio no gabinete se torna ensurdecedor. De repente, a vida da inocente Ginny é destruída. Sem dinheiro, sem trabalho e sem casa, seu futuro fica inteiramente nas mãos do enigmático Andre Duchard. Ele é muito atraente e dominador, tudo o que Ginny detesta em um homem. Mas depois de um beijo roubado, ela se rende a um desejo inconfessável. Como Ginny poderá convencer Andre de que não é parte da herança quando tudo o que mais quer é ser possuída por ele? Digitalização: Silvia Crika Revisão: Carmita


Tradução Ana Death Duarte HARLEQUIN 2015 Querida leitora, Quando um desconhecido aparece e clama a herança de seu padrasto, Ginny Mason sabe que precisa tomar uma atitude. Desamparada, ela confronta o misterioso Andre Duchard. Mas logo a raiva se transforma em um desejo tão intenso que nenhum dos dois consegue resistir. Andre e Ginny conseguirão superar os constantes desentendimentos que os distanciam cada vez mais? Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: INHERITED BY HER ENEMY Copyright © 2015 by Sara Craven Originalmente publicado em 2015 por Mills & Boon Modern Romance Projeto gráfico de capa: Núcleo i designers associados Arte-final de capa: Isabelle Paiva Editoração eletrônica: EDITORIARTE Impressão: RR DONNELLEY www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Dinap Ltda. — Distribuidora Nacional de Publicações Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, n° 1678 CEP 06045-390 – Osasco – SP Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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CAPÍTULO 1

Ginny Mason sorriu com gratidão para o último convidado que se despediu e depois fechou a pesada porta da frente, livrando-se do friozinho do fim de janeiro e soltando um profundo suspiro de alívio. A pior parte do dia já passou, pensou ela secamente, apoiada no batente da porta. Pelo menos, assim esperava que fosse. A capela do crematório estivera cheia, porque seu padrasto, Andrew Charlton, era popular e um funcionário bem respeitado na localidade, o diretor recém-aposentado de sua própria e bem-sucedida empresa de engenharia elétrica. Porém, apenas um punhado daqueles que estavam presentes aceitaram o convite de Rosina Charlton para voltarem à casa para o extravagante bufê que ela providenciara e poucos haviam ficado por muito tempo. Eles ainda pensam em nós como intrusos, disse Ginny a si mesma, fazendo uma careta, e eles provavelmente sentiam que Andrew deveria ter sido enterrado ao lado de sua primeira esposa depois de um serviço funerário na igreja. Talvez houvesse rumores sobre os planos de sua mãe. Hoje, Rosina fora a melancólica e graciosa castelã, frágil de preto. Na noite passada, ela declarara, com raiva, que mal podia esperar para vender a Casa Barrowdean e ir para algum lugar com um pouco de vida que fosse. — Sul da França, eu acho — assentiu ela. — Um daqueles solares nas colinas, com piscina. Tão belo para os netos quando vierem me visitar — acrescentou, olhando para sua filha mais nova. — Pelo amor de Deus, mamãe — disse Lucilla, impaciente. — Eu e o Jonathan acabamos de ficar noivos. Não estamos pensando numa família por muitíssimo tempo. Quero me divertir também. Nenhuma novidade nesse departamento então, pensou Ginny, embora achasse que mal poderia culpar Cilla por isso. Ela era “a bela”, enquanto Ginny, como sua mãe frequentemente ressaltava, puxara o pai. Sua pele cremosa e silhueta esguia não compensavam pelo fato de que seu cabelo era castanho-claro e não louro, e que seus olhos eram cinza, e não azuis. E a melhor descrição de seu rosto seria: comum! Por outro lado, Cilla era uma verdadeira garota de ouro, mimada por todos desde que nascera. Nem Andrew fora imune a Cilla, embora ele falasse algo sobre ela arrumar um emprego após ter concluído seus estudos em uma escola cara na Suíça. Mas nunca insistiu nisso. E, quando ela chamou a atenção do único filho de sir Malcolm e lady Welburn, e o namoro logo deu lugar ao noivado, ele assentira, resignado, como se pesasse o provável custo do casamento. Que ele não vivera para ver, pensou Ginny, com um nó na garganta, lembrando-se do homem bondoso que lhes provera segurança nos últimos dez anos. Enquanto começava a recuperar-se do choque imediato da morte de Andrew, ela já estava se perguntando por que não tinham sido avisadas sobre o problema de coração dele. Ainda agora, ela não tivera nenhuma oportunidade real de sentir o luto. A reação histérica de sua mãe e de Cilla à perda ocupara todo seu tempo e toda sua atenção, e depois viera a bomba da decisão de Rosina de vender a Casa Barrowdean e mudar-se de lá assim que arrumasse um comprador. Não havia nada que a prendesse ali, dissera sua mãe, porque Cilla ficaria bem, 3


casando-se com o queridinho do Jonathan. — E você tem o seu emprego naquela pequena cafeteria, Virginia. Tenho certeza de que alguém no vilarejo terá um quarto vago que você possa alugar. Ginny quase respondera que a cafeteria era mais do que um emprego, era um prospecto para o futuro, e acomodação poderia não ser um problema, mas decidira segurar a língua. Indecisa por um instante, Ginny saiu de perto da porta, ouvindo os murmúrios de vozes e estalidos de porcelana e talheres da sala de jantar, onde a governanta, a sra. Pelham, junto com Mavis, do vilarejo, limpavam os resquícios do bufê... os quais elas provavelmente comeriam pelo restante da semana. A sra. Pel era outro problema para preocupar Ginny. Não que a velha senhora tivesse alguma ilusão. Ela sabia que Rosina estivera tentando livrar-se dela desde que fora morar ali, usando a idade da mulher e sua crescente enfermidade como desculpa, mas Andrew ignorara tudo isso. Além de pessoalmente gostar dela, disse Andrew, a sra. Pelham fazia parte de Barrowdean, além de administrar a casa diligentemente. Ela falaria com ele quando decidisse aposentar-se... Até lá, nenhuma mudança seria feita. Mas agora... a demissão da governanta estaria no topo da lista de Rosina. Ginny sabia que deveria ter dado uma ajuda a eles, como costumava fazer, por causa da artrite da sra. Pel, mas foi até o escritório de Andrew para certificar-se de que tudo estava pronto para a leitura formal do testamento. — Coisa ridícula — disse Rosina, injuriada. — Afinal, somos as únicas beneficiárias. Espero que seja simples assim, pensou Ginny, com uma ponta inexplicável de ansiedade. Porém, o sr. Hargreaves, o advogado que sempre lidara com os assuntos jurídicos de Andrew, fora inflexível em relação ao fato de que os desejos de seu cliente deveriam ser observados, e ele ligaria às 17h. Ginny sempre gostara do escritório, provavelmente por causa dos livros alinhados nas paredes, e ela adorava aninhar-se numa cadeira perto da lareira, enquanto Andrew trabalhava à sua escrivaninha. Desde que ele morrera, ela não entrara ali, e apoiou-se para abrir a porta, mal acreditando que ele não estaria mais ali para recebê-la com um sorriso. Mas ali estava Barney, o labrador de 5 anos de seu padrasto, estirado no tapete na frente da lareira. Ele ergueu a cabeça e abanou o rabo quando ela entrou, mas não saiu pulando, nem aninhou o focinho na mão dela, privilégio este ainda reservado apenas ao seu mestre que não voltaria mais. — Pobre velho menino. Achou que eu tinha me esquecido de você? Prometo que vou levá-lo para passear de novo assim que terminar esse negócio de leitura de testamento. Barney era outro problema. Sua mãe, que não gostava de cachorros, nem da bagunça que faziam, nem do cheiro, já falava de levá-lo ao veterinário para que fosse sacrificado, o que deixava Ginny com vontade de vomitar. Ela mesma pegaria o cachorro sem pestanejar, mas estava de mãos atadas até saber qual seria seu próprio destino. Colocou lenha na lareira, acendeu as lâmpadas, verificou se tinha cadeiras suficientes, e, ao puxar as cortinas, viu o lampejo dos faróis de um carro aproximando-se da entrada. Olhou no relógio e notou que o sr. Hargreaves, que primava pela pontualidade, estava adiantado, provavelmente por não ser algo agradável de se fazer e ele quisesse acabar logo com isso. Quando a campainha tocou minutos depois, surpreendentemente Barney 4


acompanhou-a, animado, provavelmente achando que Andrew tinha acabado de voltar, o que a deixou com a garganta apertada. Ela segurou o grande e exuberante labrador pela coleira e abriu a porta. Começou a dizer “Boa noite”, e então parou com as palavras “sr. Hargreaves” congelando-se em seus lábios.... porque o homem à sua frente certamente não era o advogado da família. Por um instante, ele parecia parte da escuridão, com seu negro sobretudo aberto por cima de um terno cinza, carregando uma bolsa de couro com uma tira longa pendurada em um dos ombros. Seus cabelos também eram escuros, tão brilhantes quanto as asas de um corvo, um pouco crescido demais e levemente desmazelado. O homem era alto, com um esguio rosto bronzeado e olhos castanho-escuros. Não era bonito, sua boca era fina e o nariz parecia um bico que fora quebrado em algum momento antes, embora o queixo ameaçasse qualquer punho cerrado que dele se atrevesse a aproximar-se. E ela achou perturbador que ele lhe fosse, de alguma forma incompreensível, levemente familiar. Mas Barney não teve reserva nenhuma em relação ao recém-chegado. Lamuriando-se de deleite, ele se soltou e se empurrou junto às pernas do estranho. — Barney! Sente-se! O cão obedeceu a ela, abanando o rabo e erguendo os olhos em adoração. — Sinto muito. Geralmente ele não é assim com... pessoas que ele não conhece. Nem com pessoas que ele de fato conhece... O homem abaixou-se e fez carinho na cabeça macia do animal, puxando com gentileza as orelhas de Barney. — Sem problemas — disse ele com uma voz levemente rouca e meio grave, definitivamente com um sotaque não local. Enquanto ele se endireitava, Ginny percebeu que agora era ela o alvo de análise. Apesar da expressão neutra, Ginny sentiu que não o havia impressionado. Somos dois, pensou ela. — Desculpe-me, sua presença está sendo esperada aqui? — O sr. Hargreaves espera por mim. Ele me disse para encontrá-lo aqui. — Ah, sim... Neste caso, é melhor entrar — disse ela, não relacionando este homem à ultraconservadora firma de direito Hargreaves e Litton. Ela se dirigiu até o escritório, seguida pelo homem recém-chegado, com o cão ao lado dele. — Por favor, queira esperar aqui. Gostaria de um pouco de café? — Obrigado, mas não. Civilizado, mas tenso. E o jeito como ele olhava ao redor, apreciando o que via, como fizera com ela, deixava Ginny ainda mais inquieta. — O sr. Hargreaves deve chegar a qualquer minuto — disse ela, ao que ele respondeu com um silencioso inclinar de cabeça enquanto colocava sua bolsa de lado e tirava o sobretudo. Vestia uma camisa cinza-perolada, aberta no pescoço, e uma gravata preta negligentemente frouxa. Sentindo que o observava demais, Ginny murmurou algo sobre sua mãe e sua irmã e retirou-se. Na sala de visitas, Rosina levantou-se, alisando a saia. — Presumo que o sr. Hargreaves tenha chegado e que possamos acabar logo com isso. — Não, era outra pessoa... aparentemente do escritório dele — disse Ginny, franzindo levemente o cenho ao lembrar-se dos dedos bronzeados e calosos que fizeram carinho em Barney... não era a mão de alguém que trabalhasse em um escritório. Então, 5


quem seria... ? Seus pensamentos foram interrompidos quando a campainha tocou de novo. Ela se levantou, mas sua mãe disse: — Fique aqui, Virginia. É trabalho da sra. Pelham atender a porta enquanto permanecer sob este teto. — Como se ela não soubesse da ajuda de Ginny nas tarefas de casa nos últimos seis meses. A porta da sala de visitas abriu-se de novo, e a sra. Pelham entrou, andando com a ajuda de uma bengala. — O sr. Hargreaves está aqui, madame. Levei-o até o escritório. Rosina assentiu. — Logo vou me juntar a ele. Rosina e Cilla subiram para arrumar os cabelos e retocar as maquiagens. Ginny, satisfeita com sua aparência em saia cinza e suéter creme, lembrou-se da inesperada chegada daquele homem e pegou uma cadeira extra a caminho do escritório. Ao entrar ali, ela viu o homem numa profunda e baixa conversa com o sr. Hargreaves, que imediatamente parou de falar com ele e foi pegar a cadeira com ela. O rosto dele, normalmente calmo, exibia sinais de preocupação. — Lamento por sua perda, srta. Mason. Sei como era ligada ao seu padrasto. Até mesmo agora, mal parece possível... Ele fez uma pausa, deu uns tapinhas no braço dela e colocou a cadeira ao lado da sua. Então Rosina e Cilla entraram no escritório, os cabelos louros brilhando em contraste com seus vestidos pretos. A companhia desconhecida do sr. Hargreaves olhou ao seu redor e sua atenção foi totalmente prendida pela bela visão melancólica delas, especialmente de Cilla, que até mesmo segurava um lenço, e cujo vestido justíssimo revelava cada contorno deleitável de sua belíssima silhueta. Nem pense nisso, aconselhou-o Ginny, falando baixinho. Você não faz o tipo dela. — O que o cachorro está fazendo aqui? — disse Rosina. — Virginia, você sabe muito bem que o lugar dele é na cozinha. Tenho que fazer tudo aqui? — Por que não um meio-termo? — pronunciou-se o estranho, estalando os dedos, e Barney levantou-se do tapete e foi se aninhar debaixo da mesa, longe da vista de Rosina. Algo que um funcionário de um advogado não faria na frente do chefe, pensou Ginny, alarmada. E definitivamente o sotaque dele era estrangeiro. Então, quem seria este homem? Ginny segurou a mão da mãe e guiou-a até uma grande cadeira perto da lareira, esperando que seu sexto sentido, que frequentemente a avisava de problemas à frente, estivesse errado neste caso. O sr. Hargreaves começou de modo tradicional, detalhando os legados pequenos primeiro, para o jardineiro, e diversas instituições de caridade. Havia também uma generosa pensão para Margaret Jane Pelham, “em reconhecimento de seus anos de devotado serviço”, e o uso das propriedades do vilarejo que eram de Andrew enquanto ela vivesse. Ela deveria estar aqui para ouvir isto, pensou Ginny, cansada, cuja mãe vetara essa ideia. — Agora nós iremos para as maiores provisões no testamento — prosseguiu o sr. Hargreaves, e Rosina ficou na expectativa. — Para a minha esposa, Rosina Elaine Charlton, minha instrução é que ela receba uma anuidade de quarenta mil libras, pagáveis no dia primeiro de janeiro de cada ano, assim como o uso do chalé do caseiro enquanto ela viver, devendo seus reparos e sua manutenção ser pagos com o meu espólio. 6


— Uma anuidade... um barraco? — Rosina, com a voz trêmula, estava em pé. — Do que você está falando? Deve haver algum erro. — Mãe. — Ginny guiou sua mãe de volta à cadeira, e ela também tremia. — Deixe o sr. Hargreaves terminar. — Obrigado, srta. Mason — disse ele, pigarreando. — Todas as outras quantias em dinheiro e propriedades de minha posse no momento da minha morte, incluindo a Casa Barrowdean e minhas ações na Charlton, eu deixo como herança ao meu filho natural, Andre Duchard, de Terauze, França. Silêncio. Choque. Ginny encarou o homem... Andre, pensou ela, versão francesa do nome Andrew. E embora ela notasse certa familiaridade, o cachorro, Barney, havia reconhecido o homem como sendo da família. — Filho natural? — repetiu Rosina, erguendo a voz. — Você está me dizendo que Andrew deixou tudo... deixou tudo... tudo... para um filho bastardo? Um francês de quem nunca ouvimos falar até agora? — Mas eu, madame, ouvi muita coisa ao seu respeito — disse Andre com a voz sedosa. — Estou encantado em finalmente conhecê-la. — Encantado? — Rosina deu risada. — Encantado em pensar que roubou minha herança, claro. Mas pretendo lutar contra isso nem que tome tudo que eu tenho. Quarenta mil ao ano e o uso de uma cabana, pensou Ginny, era tudo que sua mãe tinha agora. Que se danasse todo o resto. A prioridade era limitar os danos. — Sinto muito, sr. Hargreaves, mas eu creio que estamos chocadas. Como disse a minha mãe, não tínhamos a mínima ideia da existência de monsieur Duchard, mas imagino que Andrew tenha verificado devidamente as credenciais de seu herdeiro. — Para falar a verdade, sim. O sr. Charlton sempre soube que tinha um filho e obteve o reconhecimento legal de sua paternidade segundo as leis francesas. Ele também tem cartas e fotografias da época do nascimento do menino, que seu pai guardou para ele numa caixa nos nossos escritórios, por discrição, pois a sra. Josephine Charlton ainda estava viva na época, e nosso cliente não queria perturbá-la. — E os meus sentimentos? — disse Rosina, chorosa. — Ele não se preocupou tanto com meus sentimentos. Dez anos de devoção recompensados por uma ninharia e o uso de um casebre. Ginny gemeu baixinho, ciente do sorriso sardônico de Andre Duchard, e ficou paralisada quando ele olhou diretamente para ela, franzindo o cenho como se estivesse resolvendo um quebra-cabeça que ainda tinha que dominar. Ela se apressou em evitar o olhar dele. — Mãe, por que a senhora não sobe e se deita? — sugeriu Ginny com gentileza. — Vou pedir que a sra. Pelham prepare um chá e... — Não quero nada daquela mulher. Você não percebeu que Andrew me tratou como a ela? Como a uma empregada? Na porcaria do testamento dele? Como pôde...? Ele deveria estar bem louco... — Seu olhar de repente ficou pungente. — Claro, é isso! Ele não devia estar bem da cabeça... — Acredito que esteja se referindo a suicídio, madame. — Andre Duchard a corrigiu gentilmente. — Que seja. Ainda podemos revirar esse caso — disse a sra. Charlton. A gente ouve que essas coisas acontecem o tempo todo. — A senhora não tem razão aqui — disse Robert Hargreaves, sério. — Seu marido era um homem são e racional, que desejava reconhecer abertamente seu filho nascido fora do casamento. O testamento que acabei de ler foi redigido há dois anos. — Mas se este homem é mesmo filho do Andrew... por que se chama Duchard? — Duchard, madame, é o sobrenome do meu padrasto, que me adotou quando se casou com a minha mãe — disse ele com a mesma voz sedosa. 7


Vendo que Rosina tinha ficado bem vermelha, o sr. Hargreaves interveio: — Sugiro que a senhora aceite a sugestão de Virginia e descanse um pouco. Nós nos falaremos de novo dentro de um ou dois dias, quando a senhora estiver se sentindo mais calma. Há outras questões importantes que precisam ser discutidas. — Quer dizer que eu ainda tenho um quarto nesta casa? — Rosina olhou com ódio para os dois. — Ele não vai se mudar para cá agorinha mesmo? — Eu não faria uma coisa dessas, madame — disse Andre, com uma nota velada de diversão em seu tom tranquilo. — Tenho uma reserva num hotel no vilarejo, onde discutirei certos assuntos com o monsieur Hargreaves. — Posso oferecer-lhe uma carona, monsieur? — questionou Robert Hargreaves, enquanto guardava documentos em sua pasta. — Merci, mas, com o voo e o translado até aqui, fiquei muito tempo sentado. Acho que vou andando. Ele vestiu o sobretudo e jogou a bolsa de couro no ombro. Quando se viraram para ir embora, Barney apareceu e ficou vendo enquanto saíam, com as orelhas baixas e o rabo caído, como se tivesse sido abandonado uma segunda vez. Ginny compartilhava os mesmos sentimentos, mas os acompanhou até a porta, desejando-lhes um educado “Boa noite... espero que entendam que minha mãe está muito chateada”. — Claro que sim — disse o sr. Hargreaves, relutante. — Adiarei as reuniões com ela até a semana que vem. Adeus, querida. Tenho certeza de que as coisas parecerão diferentes pela manhã. Ela sorriu e assentiu, sabendo que a noite seria longa. — Au revoir, Virginie. A versão francesa arrastada de seu nome soava mais terno conferindo a ele uma entonação quase sensual. Não que ele tivesse algum direito de chamá-la assim. Ela ficou embaraçada e teve que se controlar para não recuar um passo, aumentando assim a distância entre eles. — Et à bientôt — acrescentou Andre. A zombaria nisso era inconfundível, já que ele deveria saber que seria a última pessoa que ela gostaria de ver de novo, cedo ou tarde. Ginny murmurou uma evasiva e fechou a porta. Suspirando, foi para a cozinha, onde encontrou a sra. Pelham sentada à mesa lendo uma carta. — Pode ficar onde está, sra. Pel. Vim preparar chá. Receio que todas nós ficamos chocadas. Parece que o sr. Charlton tem um filho ilegítimo, um francês chamado Andre Duchard, e fez dele seu único herdeiro. Mas talvez a senhora já soubesse disso. — Não, srta. Ginny, eu não sabia. — Ela ficou em silêncio por um instante. — Então esse cavalheiro francês fica com tudo. — Mas isso não afeta a senhora. O sr. Charlton certificou-se de cuidar disso. — Disso eu já sabia — disse, com calma, a sra. Pelham. — Ele falou comigo sobre isso há dois meses, e quando o sr. Hargreaves chegou, ele me deu esta carta com tudo que ele decidira. — Ela acrescentou com repentina ferocidade: — Ele era um bom homem, o mestre, e nunca direi o contrário, mesmo que ele nem sempre encontrasse a felicidade que merecia. — Sra. Pel... a senhora tem alguma ideia de quem poderia ser a mãe do sr. Duchard? — Não tenho certeza, srta. Ginny — disse a governanta, levantando-se e arrumando xícaras e pires em uma bandeja. — Mas eu me lembro de Linnet Farrell, a companheira da falecida sra. Charlton. Ela ficou aqui por um ano e então um dia ela se foi... disseram que fora para cuidar da mãe doente, mas ela havia me dito uma vez que seus pais tinham morrido. Ginny pegou o leite da geladeira e encheu um bule com ele. 8


— Como ela era? — Não muito bonita, mas uma doçura, e deixava a casa mais animada. E a sra. Josie também gostava dela. — Ela era inválida, não? — questionou Ginny, devagar. — Foram os nervos — disse a sra. Pelham. — E desapontamento. No começo, foi isso. Ela queria um bebê, sabe? O que não aconteceu. Três abortos, todos nos quatro meses de gravidez, e os médicos avisando que nunca chegaria ao fim de uma gestação. Ela entrou em depressão. Acabou indo parar em uma casa de repouso, mais de uma vez. — A mulher suspirou. — E, quando estava em casa, vivia na cama ou deitada no sofá. O pobre do sr. Charlton tinha que dormir em outro quarto. — Ela abaixou o tom de voz. — Tenho certeza de que ela o amava, mas não acho que gostasse muito da vida de casada em si. Não a menos que tivesse um bebê para fazer com que valesse a pena, mas um homem não vê as coisas assim. — Não... imagino que não — disse Ginny, esvaziando o açúcar numa tigela. — E de repente aquela garota alegre e de coração bom estava morando na casa e ele era um homem atraente quando jovem. Não que alguma vez eu tivesse visto algo inapropriado — apressou-se ela a dizer. — E Linnet era boa para a sra. Josie. Passeava com ela para toda parte, dirigia o carro dela e até mesmo fazia coisas no jardim. Mas um dia ela foi embora. Veio até a cozinha para despedir-se, e ficou claro que estivera chorando. E depois, a sra. Josie ficou realmente doente, pobrezinha, mal de Parkinson, e o sr. Charlton foi tão bom para ela quanto qualquer marido poderia ser. — Ela assentiu com um tom de quem tinha terminado de falar e mudou de assunto. — O bule está fervendo, srta. Ginny. A mente de Ginny estava a mil enquanto carregava a bandeja até o escritório, mas a torrente de ressentimento com a qual se deparou trouxe-a de volta à terra. — Bem, pelo menos você tem essa coisa da anuidade, mãe — Cilla estava dizendo, furiosa. — Ao passo que para mim ele não deixou nenhum centavo, o velho avarento. Ginny colocou a bandeja na mesa e disse: — Talvez porque ele achasse desnecessário, já que você vai casar-se e entrar numa das famílias mais ricas do condado. — E você também não ficou com nada. Vai ficar pior do que qualquer uma de nós — disse Cilla, quase triunfante. — Parece que sim — concordou Ginny, soando mais animada do que realmente estava, enquanto servia o chá. — Mas, por favor, não se preocupe com isso. — Não vou me preocupar. Eu só quero saber como vamos pagar pelo meu casamento. Mãe, você vai ter que falar com o sr. Hargreaves e arrancar algum dinheiro dele de alguma forma. — Onde está Barney? — quis saber Ginny. — Eu o coloquei lá fora. Não conseguia aguentar aquele animal na sala nem mais um instante — disse a mãe, abanando-se com o lenço. — Você sabe que ele pode ter se perdido? — E daí se isso acontecer? Falei a você que ia me livrar dele... — Você não pode fazer isso, mãe — disse Ginny, dirigindo-se até a porta. — Como todo o resto nesta casa, o cachorro provavelmente pertence ao sr. Duchard. E é muito valioso. Ela vestiu um casaco e calçou as botas, pegou uma coleira e uma lanterna e saiu pela porta dos fundos. A temperatura lá fora não estava muito acima de congelante, e Ginny podia ver a nuvem formada por sua respiração enquanto dava a volta na casa, chamando por Barney, esperando que ele estivesse no terraço, ansioso para voltar para dentro da casa. Mas não havia nenhum sinal dele. Mordendo o lábio, ela foi até o portão lateral da 9


casa, que estava aberto, e saiu na rua. Depois de chamar o cachorro de novo, ela assoviou, como Andrew costumava fazer. Ao longe, houve um latido em resposta e, um instante depois, ela avistou Barney, com a língua de fora e balançando o rabo. — Bom menino — disse Ginny, suspirando aliviada enquanto prendia a coleira nele, mas, quando se virou em direção à casa, o animal resistiu, ficando imóvel que nem uma pedra, olhando para onde tinha vindo e lamuriando-se, como se estivesse esperando por alguém. Ela ergueu a lanterna e perguntou: — Quem está aí Sem resposta nem indicação de movimento, depois de um instante, Barney saiu do modo de alerta e virou-se obedientemente para voltar para casa. É bom, minha menina melancólica, disse Ginny a si mesma, que você pare com essa sua imaginação e seja prática: como pensar em para onde você vai e como vai ganhar dinheiro para manter-se. Voltando para casa, Ginny desejava, com um amargo desespero, nunca ter ouvido o nome de Andre Duchard. Melhor ainda, ela desejava que ele nunca tivesse nascido.

CAPÍTULO 2

Quando Ginny voltou para a casa, encontrou sua mãe sozinha na sala de visitas. — Onde está Cilla? — Foi consultar Jonathan em relação a essa situação terrível. — Como assim... consultar? — Sobre como podemos lutar contra esse testamento fraudulento, é claro — disse Rosina, o tom agourento de volta em sua voz. — Oh, mal posso aguentar pensar no Andrew... na traição dele. Em nosso amor. — Ela balançou a cabeça. — Ter um filho... em segredo... todos esses anos, sem falar nada sobre isso a mim... esposa dele. Inacreditável. Quase me faz desejar... — Ela interrompeu abruptamente a frase. — Virginia, pegue um brandy para mim. Dos grandes. Preciso de algo para acalmar meus nervos. Enquanto Ginny pegava a jarra para servi-la, ela prosseguiu: — Você é tão afortunada por não sofrer desse jeito. Eu e Cilla somos muito sensíveis, mas nada parece afetar você, Ginny. — Isso não é verdade — disse Ginny baixinho, levando o brandy para sua mãe. — Mas não vejo por que ficar falando de coisas que não posso mudar. — Mas se todas nós nos unirmos... — Poderemos parecer umas tolas. — Você mudaria de ideia se fosse você a viver na miséria... Como se eu não soubesse, pensou, com amargor, Ginny. — Não é miséria, mãe. Famílias inteiras têm que se virar com muito menos. Por que não vamos amanhã dar uma olhada na cabana? Pode não ser tão ruim quanto você pensa. — Vá você, se quiser. Eu me recuso a pisar naquele lugar. Ah, Andrew, como você pôde fazer isso comigo? Ginny esperou Rosina beber um pouco do brandy, e depois sugeriu que elas fossem ver algo na TV, imaginando, corretamente, que seria mais uma vez acusada de não ter sentimentos. Mesmo assim, Rosina acabou sendo persuadida e logo estava bem envolvida 10


numa série de drama de que ela gostava, deixando Ginny pensando sozinha em coisas infelizes. Meadowford Café era o nome oficial de onde ela atualmente trabalhava, mas o lugar era conhecido no vilarejo como Miss Finn’s. A Miss Finn original fora cozinheira de famílias de nome antes de abrir seu próprio estabelecimento numa área em que passara várias férias e que amava. A boa mão com bolos e massas tornara seus negócios imensamente bemsucedidos, abrindo para o café da manhã, servindo almoços leves de quiches caseiros, sanduíches abertos e saladas, fechando após o chá da tarde. Quando por fim ela se aposentou, o lugar foi assumido por Emma Finn, sua sobrinha solteira, e os altos padrões mantidos. Ao terminar a escola com respeitáveis resultados nos exames, Ginny havia considerado a carreira de professora, mas sua mãe protestara, horrorizada, dizendo que precisavam de Ginny em casa. Apesar de relutante, por fim Ginny concordou, mas, depois de três meses fazendo quase nada, ela viu um anúncio na janela do Meadowford Café para uma vaga de auxiliar em meio período e conseguiu o emprego. — Você vai ser garçonete? — A sra. Charlton ficou exasperada. — O que o Andrew vai dizer disso? E acabou sendo um “Que bom para você”, acompanhado de uma piscadela e um tapinha amigável no ombro dela. Para a surpresa da própria Ginny, ela gostava de trabalhar no Miss Finn’s e logo aceitou a oferta da srta. Emma para fazer período integral. Três anos depois, Ginny ainda gostava do emprego, além de agora ajudar em casa também. No entanto, havia poucos meses que, para a surpresa de todos, a srta. Emma havia anunciado seu noivado, junto com a notícia de que se mudaria para Bruxelas depois de casada. Visto que o imóvel do restaurante era alugado, ela só teria que encontrar alguém que comprasse o negócio em si, e primeiro o ofereceu a Ginny que, apesar de jovem, tinha talento, e os fregueses gostavam dela. Era uma oportunidade maravilhosa, mas claramente a srta. Finn não fazia ideia da situação financeira de Ginny, que recebia uma mesada de Andrew, um salário e só. Ela fora ao banco, com um plano de negócios, mas não dera em nada. Era muito jovem e não tinha garantias. Relutante, levou seu plano a Andrew, que a ouviu e perguntou: — Então você realmente quer se tornar a nova Miss Finn? — Sim, é um negócio maravilhoso! — Entregue-me sua papelada, querida, vou dar uma olhada nisso e direi qual é a minha decisão. Mas Andrew viajara logo a negócios e Ginny começou a ficar ansiosa, embora não quisesse pressioná-lo quando ele estava em casa. Mas Emma queria uma resposta, e Ginny estava nervosa só de pensar em falar com Andrew de novo quando ele se pronunciou. — Não se preocupe, querida, eu não me esqueci de seu projeto de ser a nova srta. Finn. Mas ele esqueceu, pensou Ginny, cheia de dor. Porque morreu dois dias depois, sem aparentemente deixar nenhuma instrução que fosse garantir o futuro dela. Ali estava Ginny, apenas uma garçonete, e na segunda-feira teria que dizer à srta. Emma que não compraria o negócio. Foi então que a sra. Charlton quis saber se haveria jantar naquela noite ou se a sra. Pelham estava fazendo greve. — Eu disse a ela que poderíamos nos virar. Tem bastante frios na geladeira. 11


— Comida de funeral. É pedir demais ter uma refeição quente? Até mesmo uma omelete serviria. Enquanto preparava a omelete, Ginny refletia sobre como sua mãe havia se acostumado a ser a esposa de um homem rico, e como seria difícil para ela cozinhar a própria comida e fazer a limpeza. Enquanto colocava as duas metades da omelete em pratos aquecidos, acrescentando tomates grelhados, Cilla entrou. — Isso é a ceia? Graças a Deus, estou morrendo de fome. Ela apanhou os dois pratos e talheres e se foi, deixando Ginny ofegante. Ela fez um sanduíche para si e voltou para a sala de visitas. — Não consigo acreditar nisso — disse Cilla. — Eu contei a eles o que tinha acontecido e como tudo era terrível e eles não falaram nada. Nenhuma palavra de consolo ou preocupação que fosse. — Você acha que eles já sabiam? — perguntou Rosina. — Não, obviamente ficaram surpresos. Sir Malcolm disse que achava que o sr. Duchard estava hospedado no Rose and Crown, e ela disse “É claro que você tem que ligar para ele e chamá-lo para jantar”. — Cilla balançou a cabeça. — Quando ouvi isso, fiquei pasma! Eu esperava que Jon dissesse alguma coisa, como tudo isso é constrangedor para nós, mas ele não disse nada, só ficou olhando para o carpete. — Cilla, geralmente Jonathan concorda com a mãe dele. Cilla voltou-se para Ginny, com uma repentina malícia reluzindo em seus olhos azuis. — Nem sempre. Se fosse assim, você estaria noiva dele, não eu. Tenho certeza de que os Welburn prefeririam você como nora mas, para a sua infelicidade, eu voltei e Jonathan decidiu que me preferia. — Querida, dizer uma coisa dessas não é algo muito bondoso — disse a sra. Charlton. — Nem é verdade — disse Ginny. — Eu e Jonathan só nos encontramos casualmente poucas vezes. — Certamente não é isso que diz Hilary Godwin. Ela vive falando às pessoas o quanto você era louca por ele. Ginny deu de ombros. — Hilary namorou Jonathan um tempo, talvez ela tenha seus próprios motivos secretos. Mas isso não importa. Eu acho que nós, e não os Welburn, deveríamos convidar Andre Duchard para jantar. — Você deve ter enlouquecido! Quer que viremos motivo de chacota para a vizinhança? — Pelo contrário, mãe. Isso é exatamente o que estou tentando evitar. Se queremos manter algum crédito por aqui, temos que aceitar o que aconteceu com o máximo de elegância possível. Aceitar o herdeiro escolhido por Andrew. — Seguiu-se um silêncio repleto de choque. — Amanhã deixarei um bilhete para ele no Rose and Crown. Não para um jantar formal, nem nada simples demais também. E convidaremos também os Welburn. — Ela se voltou para a mãe. — Vou ligar também para o escritório do sr. Hargreaves e pegar a chave da cabana. Dar uma olhada nos arredores e fazer uma lista do que precisa ser feito por lá. — Você está assumindo muitas responsabilidades — disse-lhe Rosina, com pungência. — Alguém tem que fazer isso. Agora, com licença, vou comer meu sanduíche no meu quarto. O dia foi infernal e tenho que escrever uma carta. Enquanto fechava a porta, Ginny ouvir Cilla dizer, furiosa: — Francamente... Ginny foi até o escritório de Andrew para pegar papel na escrivaninha dele. Ao 12


procurar por um envelope, roçou os dedos por algo maior. Meu Deus, pensou ela, zombando de si mesma, será que agora eu encontro um novo testamento e é o fim dos nossos problemas? Mas ela achara um mapa da região de Burgundy, na França, para o qual ela ficou olhando, lutando contra sua curiosidade com ressentimento. Disse a si mesma que não tinha interesse algum de onde vinha Andre Duchard enquanto abria o mapa sobre a escrivaninha. Deparou-se com Terauze, circulada de preto, saltando à sua vista. Também viu que o mapa estava começando a rasgar nas dobras, evidência de muito uso. Todas aquelas viagens ao exterior, dispensadas pela mãe dela como mais negócios chatos... Ginny perguntara certa vez à mãe: — Alguma vez Andrew chamou você para ir com ele nessas viagens? — Minha querida, é uma reunião atrás da outra. Ele ficará bem melhor indo sozinho — fora a resposta dela. E Rosina também ficaria melhor com suas aulas de golfe, seus amigos de carteado e as amigas do clube. Andrew provavelmente preferia as coisas assim, pois encorajava a esposa a ficar em casa. Será que ele não se importava nem um pouco com os efeitos da revelação do segredo dele?, ponderou Ginny. Ele era um homem bondoso, e assumir uma viúva com duas filhas era muita responsabilidade. Então, o que havia mudado? Suspirando, ela voltou a olhar para o mapa. Burgundy, área de produção de vinho e mostarda Dijon e também, aparentemente, cidade de Andre Duchard. Mas se ele era mesmo filho de Linnet Farrell, como ela havia ido parar lá? Tantas perguntas que provavelmente ficariam sem respostas. O melhor era Ginny estabelecer melhores relações com o homem. Parando de pensar no assunto, ela colocou o mapa de volta na gaveta, pegou papel e envelope e dirigiu-se ao seu quarto. No dia seguinte ela encontrou facilmente a chave do chalé, que ficava nos limites da propriedade Barrowdean. A propriedade parecia uma moradia desenhada por uma criança, com uma porta central flanqueada por duas janelas quadradas, mais três janelas no andar de cima e chaminés em cada ponta do teto inclinado. O dia estava nublado, com promessa de neve no ar, e Ginny apertou seu casaco de lã de carneiro para se proteger do vento intenso. Ao entrar na casa, notou que os aposentos no andar de baixo não eram grandes, mas ficariam agradáveis quando redecorados. A cozinha, adiante da sala de jantar, tinha um fogão elétrico e armários na parede com espaço sob o balcão para uma máquina de lavar e uma geladeira. No andar de cima havia dois quartos de frente um para o outro, e um banheiro, cuja louça azul-clara fazia com que parecesse ainda mais frio. O único outro aposento do andar de cima era tão pequeno que nunca poderia nem aspirar a virar um quarto. Até um berço de bebê o deixaria entulhado. Rosina consideraria esse lugar uma sentença de exílio e talvez tivesse razão. Mais uma vez, Ginny pôs-se a ponderar sobre a instituição do casamento. Mas o que eu sei de casamentos? Ou de amor, para falar a verdade? Ginny gostava de Jonathan, sentia um arrepio quando ele ligava para ela, mas não passava disso. O retorno de Cilla garantira que não passasse disso. E suas dores provavelmente não passavam de orgulho ferido. Se eu me importasse, teria lutado por ele. De qualquer forma, isso ficou no passado, e em junho ele será meu cunhado. Mas só Deus sabe onde estarei e o que será de mim. Ginny ficou paralisada quando ouviu do andar de baixo o inconfundível ranger da porta da frente que se abria e era fechada. Não poderia ser um ladrão, pois não havia nada além do fogão a ser roubado ali. 13


Ao tentar pegar o celular na bolsa, ela se lembrou de que estava carregando a bateria, então ela olhou, com cautela, lá para baixo, onde estava, totalmente à vontade, Andre Duchard. — Virginie — disse ele. Mais uma vez, ela ficara tocada pelo som de seu nome em francês, como se ele tivesse passado o dedo em sua pele. — Eu não me lembro de ter permitido que você me chamasse pelo nome. O que está fazendo aqui? — Examinando minha herança e minhas novas posses — disse ele, e sorriu. — Era isso que você estava fazendo na noite passada? — Eu precisava desanuviar a mente um pouco. Ginny mordeu o lábio. — O sr. Hargreaves sabe que você está aqui? — Claro. Expliquei para ele que nunca tinha visto um chalé antes e queria ver como era, o que ele entendeu perfeitamente e me deu uma chave, que não precisei usar naturellement, pois você chegou aqui primeiro. — Por acaso ele disse a você que talvez eu estivesse aqui? — Não, isso deveria importar? Bem, a casa estava vazia e ela não esperava ficar sozinha com ele em lugar nenhum... nunca. Passou pela sua cabeça que a presença dele ali, estranhamente, fazia com que o corredor parecesse menor ainda. E o silêncio prolongado estava começando a se tornar inexplicavelmente perigoso. — Lamento pelo comentário sobre o chalé... — Ginny apressou-se a dizer. — Receio que minha mãe estivesse perturbada demais ontem quando o chamou de barraco. — Mas hoje tudo se arranjou? Ela aceitou as coisas? Gostaria de acreditar nisso... — Ele olhou de relance ao redor. — O que ela vai achar daqui? Em vez de dizer o óbvio, Ginny falou: — Bem, é meio pequeno, precisa de reparos... mas acho que com o tempo pode ficar... charmoso. — Tout de même, ela não veio ver a casa com você. — Acho que você não entende o choque disso tudo para nós, que nem mesmo sabíamos que... seu pai estava doente. — Nem eu sabia. Foi algo que ele escondeu de todos. — Como outras questões — disse Ginny, sem pensar. A face do homem era cínica. — Talvez ele soubesse que as notícias sobre minha existência não seriam bemvindas. — Minha mãe não o culparia por algo que acontecera bem antes de ele a conhecer. Se ela soubesse... poderia não ter tido essa... sensação de ter sido traída. — Ela se sente traída? Interessante... Ginny ficou aparentemente nervosa. — Bem, não vim até aqui para discutir nada disso. Vou deixá-lo sozinho com sua inspeção. — Ela começou a descer as escadas. — Quase esqueci. Tenho um convite a fazer... — Convite? — Sim... para que jante conosco. Amanhã. Ela viu a incredulidade na face dele, desejou nunca ter pensado nisso, menos ainda ter feito o convite. Mas agora era tarde. Ginny continuou a descer, e, ao buscar o envelope na bolsa, tropeçou na escada, mas ele a segurou com braços que pareciam de aço. Por um instante, com o rosto no peito dele, Ginny sentiu o cheiro de lã limpa, sabão 14


e o aroma de pele masculina. — Deveria tomar mais cuidado, mademoiselle. Sua família não precisa de outra tragédia. Ginny ruborizou-se. — Geralmente não sou tão desajeitada assim. — Ela entregou o envelope a ele. — Claro que não precisa decidir imediatamente. Não ficaremos ofendidas se estiver muito ocupado. — Naturalmente que vou aceitar o convite — disse ele com a voz sedosa. — Fico intrigado que sua mãe esteja dando o braço a torcer. O convite vem dela, não? — Oh, sim — apressou-se a dizer Ginny, mas sua breve hesitação foi fatal. — É preciso prática para ser uma boa mentirosa, ma mie. Esperemos que você não tenha que fazer isso com tanta frequência, pois duvido que um dia será uma excelente mentirosa. Mas claramente seus poderes persuasivos com a mamãe são formidable. — Se deseja franqueza, posso perguntar-lhe se algum dia você faz a barba? — Bien sur... de vez em quando. Especialmente se eu for para a cama com uma mulher. Mas duvido que eu tenha tanta sorte — disse ele, pensativo. — Sua bela irmã já tem um amante, hélas. — Minha irmã vai se casar, monsieur. Ela tem um noivo. — Um noivo rico, segundo as conversas no bar ontem à noite. — Ele deu de ombros. — O que ninguém pode decidir é se o caso terminará em casamento ou se vai terminar quando ele decidir que já pagou muito por seus prazeres. Ginny ficou ofegante, e ele segurou em seu pulso. — Então, a menina educada aqui tem caráter. Imagino o que mais você tenha... Ele a puxou para junto de si, circundando-a com o outro braço, e, enquanto ela abria os lábios para protestar, ele levou sua boca para junto da dela.

CAPÍTULO 3

Ela não conseguiu lutar, nem gritar. Mal era capaz de respirar. Ele a segurava muito perto de si, de modo que as mãos dela ficaram presas entre os corpos. E ela não conseguiu resistir aos movimentos experientes dos lábios dele, nem a lenta exploração sensual da língua dele enquanto invadia a inocência de sua boca, saboreando sua doçura. Bebendo dela. Drenando-a. Ginny estava chocada, mas não queria que acabasse... E de repente ele a soltou. — Ah, meu Deus — disse ela, entre a raiva e a decepção. — Como você se atreve? Como se atreve? — Sois tranquille. — Ele teve a audácia de exibir um largo sorriso. — Precisei de coragem, sans doute, mas qual experimento não requer coragem? Então, ma douce, ainda estou convidado para o jantar ou a ofendi demais? Ginny estava entre a cruz e a espada e não viu saída. Se mentisse para se ver livre, ele poderia entregá-la. Engolindo em seco, disse: — O convite permanece. — Você me surpreende. Sua família deve querer muito alguma coisa. — Trégua — disse ela, indo até a porta da frente. — É o que mais esperamos. Sete 15


e meia, então. — Mal posso esperar. À demain. Dentro do carro, Ginny segurou o volante, esperando que o tremor feroz dentro de si se acalmasse antes de dar a partida. Passando a ponta da língua nos lábios, ela notou que ainda podia sentir o gosto dele e que seu corpo respondia a isso... Controle-se, pensou ela, tensa. Você foi beijada por alguém que sabe como fazer isso. Tentou atingi-la. Ele lhe ensinou uma lição. Só isso. Lição que ela dispensaria. Depois de dirigir por alguns minutos, parou o carro e ficou sentada até se acalmar e ganhar foco. Você tem que se preparar para um jantar, Ginny. Concentre-se nisso. Esqueça o resto. Ginny havia deixado a chave no escritório do sr. Hargreaves e estava saindo da queijaria na High Street, quando viu sir Malcolm e lady Welburn também saindo do Rose and Crown. Acenou para eles. Depois de atravessar a rua, disse: — Que bom encontrá-los. Sei que é terrivelmente em cima da hora, mas minha mãe ficaria encantada se viessem jantar amanhã, com Jonathan, se ele estiver livre, para conhecer o filho e herdeiro de Andrew, Andre Duchard. — Minha cara Virginia, que ótima ideia! — disse lady Welburn. — Nós procuramos por ele no hotel, mas ele saiu. — Ela abaixou a voz. — Confesso que fiquei um pouco preocupada com a atitude de Lucilla ontem à noite, então fico bem feliz que Rosina tenha decidido fazer o que é certo. Agradeça à sua mãe e diga a ela que estaremos todos lá amanhã. Ginny sorriu em resposta, ciente de que lady Welburn sabia muito bem de quem havia partido a iniciativa para o jantar. — Ela ficará encantada. Ginny voltou para casa duas horas depois, carregada de sacolas do supermercado em Lanchester, quando encontrou sua mãe no corredor. — Oi, vou desempacotar as coisas e depois lhe falo sobre o chalé. — Não precisa, não vou me mudar para lá. — Onde você pretende morar? — Vou ficar bem aqui. É a solução óbvia. — Para qual problema exatamente? Rosina acenou, impaciente. — O futuro de Barrowdean. Esse tal de Duchard voltará em breve para a França. Aqui não é o lugar dele, que deve saber disso, mas ele é dono desta casa e precisa que alguém cuide dela em sua ausência. Eu continuo morando aqui, sem pagar aluguel, e, em troca, certifico-me de que a propriedade floresça. Obviamente. — Minha definição do que é óbvio é bem diferente da sua. Como você fantasiou isso? — Questões práticas. Você parece ter esquecido o casamento de Cilla. Tudo já está planejado e mais de duzentas pessoas estarão aqui. Talvez esse esquema de jantar não seja tão ruim quanto pensei. Teremos uma oportunidade de falar com ele sobre esse assunto. — Que bom — disse Ginny, seca. — Amanhã à noite. E os Welburn também vêm. Rosina franziu o cenho. — Bem, vamos esperar que ele dê ouvidos à razão, especialmente com o fato do casamento. Você o viu, não foi? Como ele reagiu ao convite? Bem perigosamente, pensou Ginny, com um calafrio. — Surpreso — respondeu. — Pela aparência dele, não acho que seja convidado para muitas festas e jantares. 16


Só espero que saiba usar garfo e faca. — Ela estremeceu. — Não consigo imaginar como Andrew se envolveu com alguém como a mãe dele. — Preciso cuidar dessa comida. — Bem, resolva isso logo. Temos mais várias cartas de condolências... talvez você pudesse responder em meu nome... — Talvez Cilla possa ajudá-la. Rosina soltou um suspiro. — Cilla está deitada, com dor de cabeça. Ela é tão sensível, pobrezinha, e essa coisa horrível abalou-a demais. Ginny foi até a cozinha e começou os preparativos para o jantar. Quando Ginny tinha preparado o chá da tarde, Cilla desceu e se estirou numa poltrona. — Você visitou o tal chalé? — perguntou à irmã sem tirar os olhos do filme antigo em preto e branco que via na TV. — Como era? Quantos quartos tem? — Dois de um tamanho razoável e um parecendo uma dispensa — foi a rápida resposta de Ginny. — Ouviu isso, mamãe? Dois! Como vamos fazer? — Deixemos para nos preocupar com isso depois, querida. Vou querer limão no meu chá, Virginia. Preciso cuidar do meu peso. — Bem, nunca vou dividir um quarto — disse Cilla. — Nem com Jonathan? ��� perguntou-lhe Ginny, entregando o chá à mãe. Cilla deu de ombros. — Muitos casais têm quartos separados. Torna as coisas mais excitantes. Dá um ar de mistério. — Ela riu. — E quando ficamos disponíveis... isso os deixa mais gratos. Ginny pegou seu chá e um sanduíche e saiu, depois de dizer: — Eu não sabia que você era tão romântica. Ela pegou a pilha de cartas no corredor e levou-as até o escritório, onde Barney estava deitado perto da lareira recém-acesa. — Somos apenas eu e você, querido — disse ela ao cachorro enquanto se sentava. Lidar com as cartas foi tão difícil quanto ela imaginara. Estavam imbuídas com pesar pela morte de Andrew e gratidão pela vida dele, sua generosidade, justiça e bondade. Depois da primeira meia dúzia, ela chorou um pouco e perguntou-se para onde esse homem tinha ido e por que ele mudara tanto. Na noite de domingo, o inverno havia voltado tanto fora quanto dentro da casa, e, para piorar, nevava. Rosina não desistira da ideia de cuidar da casa e nem queria conversar com Andre em particular, como Ginny sugerira. — Não, é uma oportunidade perfeita. Os Welburn são nossos vizinhos mais próximos e ele vai querer causar uma boa impressão. — Bem, não creio que o sr. Duchard ligue a mínima para o que os vizinhos pensam dele — disse Ginny, cansada. — O lar dele é na França e ele não ficará aqui por tempo suficiente para importar-se com vizinhos. — Virginia, por favor, pode parar de ser tão negativa? Que depressivo! E isso não faz parte da viuvez?, pensou Ginny, com amargura. A preparação do jantar com a sra. Pel deixou-a animada, e ela ficaria ainda mais animada se não tivesse que participar. Ginny nem sabia o que vestir. A maior parte de suas roupas era de trabalho. Depois de passar o dia inteiro na cafeteira em pé e resolver demandas domésticas de Barrowdean, ficava grata em evitar 17


rodas sociais. Ela teria que usar o vestido. Bem abaixo dos joelhos, de mangas compridas e gola alta, comprado dois Natais antes, com seu pouco tempo e pouca paciência também. E o vestido não a deixava nem um pouco bonita, mas que importância isso teria? Ginny tomou banho, secou os cabelos, colocou o vestido e desceu, sabendo que a mãe e a irmã só apareceriam no último minuto. Checou a lareira na sala de visitas e a bandeja de bebidas, depois foi para a cozinha pegar os antepastos. Ao entrar, ficou chocada: lá estava Andre Duchard, empoleirado na beirada da mesa, algo que a sra. Pel nunca permitia, servindo-se de um pacote de castanhas-decaju. Ele estava de novo com o terno escuro mas agora com uma camisa branca que destacava a magnificência melancólica de uma gravata de seda de cor cinza. Os cabelos dele ainda pareciam longos demais, mas estavam penteados, e ela percebeu, na hora, ruborizando-se, que ele tinha feito a barba. Andre olhou para ela, para o vestido... e depois inclinou educadamente a cabeça, cumprimentando-a. — Bonsoir. — Eu... não sabia que os convidados estavam chegando. — Cheguei cedo demais, mas queria falar com Marguerite, que era amiga da minha mãe. — Ele sorriu para ela, e comeu outra castanha. — Mas acho que você já sabe disso. — Era de se imaginar. Então a sra. Pel chegou com um álbum de fotografias. — Eu sabia que o encontraria — disse ela, feliz. — Oh, srta. Ginny. Os outros convidados estão chegando? — Não, eu só me lembrei de umas coisas de última hora. Ela colocou o restante das castanhas numa tigela e pegou pratos de queijo, mas algo a fez ficar mais um tempo na cozinha. — Aqui está ela — dizia a sra. Pel. — No jardim com o sr. Charlton. Aqui também. Como ela era adorável! Andre Duchard disse, baixinho: — Si jeune. Si innocente. — Era mesmo. Ela não tinha nenhum pingo de maldade, digo isso até morrer. — Ao soar da campainha, ela voltou a assumir ares de governanta. — Com licença, senhor. Ginny, com Andre Duchard ao seu lado, foi correndo até a sala de visitas, sorrindo, enquanto os Welburn eram recebidos. Inspirando fundo, ela fez as devidas apresentações, e ofereceu bebidas. Sherry para sir Malcolm e lady Welburn e scotch para Jonathan e Andre Duchard. Jonathan foi ajudá-la a servir e disse, baixinho: — Isso deve ser um pesadelo. — A vida já foi mais fácil — retrucou, e foi então que Rosina entrou em cena, pedindo profusas desculpas pelo atraso, ostentando suas admiráveis pernas em um vestido preto, justo e de seda. — Eu realmente espero que Virginia esteja cuidado bem de vocês. Gin e tônica para mim, querida. Está nevando de novo? Depois de um tempinho, Cilla chegou, parando na entrada para causar impacto: usava um vestido estilo túnica violeta e meia-calça preta. Estava sexy e sabia disso. Ginny olhou de relance para Andre Duchard, observando que ele curvara a boca, achando graça e sabe-se lá mais o quê. Essa ideia do jantar foi a pior possível! Quando todos foram chamados à mesa, Ginny viu que seus planos para os lugares 18


à mesa haviam sido descartados. — São desnecessárias formalidades numa ocasião familiar — disse Rosina, radiante, à cabeceira da mesa, indicando que os Welburn deveriam sentar-se cada um ao lado dela. Andre Duchard sentara-se ao lado de Cilla, e Jonathan teve que se sentar em frente a eles. A mousse de salmão foi comida com grande apreço, e Rosina aceitava os louvores sobre a comida, como se ela tivesse preparado tudo. — Cozinhar sempre foi um dos meus grandes prazeres — comentou. — Achei que essa fosse uma das maravilhosas especialidades da sra. Pel... — disse lady Welburn. Rosina não perdeu a oportunidade. — Ah, não. Está mais do que na hora de ela se aposentar. — Voltando-se para Ginny, ela acrescentou: — O próximo prato, querida. Sir Malcolm oferecera-se para ser o sommelier, erguendo as sobrancelhas quando viu que Ginny escolhera um St. Emilion depois do Chablis servido com o primeiro prato. — Bordeaux, meu camarada, não Burgundy — disse ele, enchendo a taça de Andre Duchard. — Espero que não veja isso como uma afronta. — De jeito nenhum. Um vinho maravilhoso sempre é maravilhoso, não importa de que uva seja feito. Ginny ruborizou-se. — Não sei muito sobre vinhos — mentiu ela, que foi salva por lady Welburn. — Onde você mora em Burgundy, monsieur Duchard? — Terauze, madame. — Terauze... me soa familiar — disse sir Malcolm. — Você está envolvido com a indústria vinicultora, sr. Duchard? — Trabalho no domaine baron Emile, monsieur. Para o horror de Ginny, Rosina fuzilou lady Welburn com um olhar que dizia que ela sabia que ele era de classe social inferior. Entretanto, voltou-se graciosa para Andre Duchard. — Você é um dos que pisoteiam as uvas, sr. Duchard? — Non, hélas — disse ele, sombrio e impassível. — Não se esmaga mais as uvas desse jeito. Embora ainda sejam colhidas com as mãos. — Ah, então imagino que você tenha pouco a fazer nesta época do ano — disse Rosina. — Talvez neste preciso momento, madame. — Ele deu de ombros. — Mas em dez dias, depois do festival de St. Vincent, o patrono dos vignerons, começaremos com a poda. — Fascinante — disse Rosina, voltando-se para lady Welburn e mudando de assunto. Andre Duchard, ainda sorrindo, voltou a devotar sua atenção a Cilla... quer dizer, flertando descaradamente com ela na cara do noivo. E sua “bela irmã”, pensou Ginny, estava flertando com ele também! Ginny ouvira que flertar era como fazer amor sem tocar, e estava diante de uma demonstração, com Andre sorrindo para Cilla, murmurando para ela, com os lábios bem próximos a sua orelha... Com Ginny ele havia agido diferente: ele a agarrara e a beijara. Os Welburn fingiam não notar nada, mas Jonathan usava seu sorriso agradável como se fosse uma máscara. A situação parecia tensa, e, inspirando fundo, Ginny decidiu resolver o assunto dando um aviso à irmã no momento que fosse mais conveniente. 19


Todos comeram tudo, então Ginny presumira que era a única que se sentia como se estivesse mascando luvas de couro velhas. As gelatinas de champanhe decoradas com uvas foram um encerramento perfeito para a refeição, com apenas sir Malcolm e Andre Duchard optando também por queijo. — Vamos tomar o café na sala de visitas. Virginia, querida, por favor, cuide disso. Enquanto a sra. Pel preparava o café, Ginny tirava a mesa. Após colocar a louça na máquina de lavar, viu seus temores confirmados ao ouvir o que sua mãe dizia a Andre. — Não? Você está recusando minha oferta perfeitamente razoável sem mesmo pensar nisso? Oh, é inacreditável! Seu pai teria desejado... Com o coração na mão, Ginny entrou na sala para servir o café. Não que todo mundo tivesse notado. Todos estavam encarando a mulher furiosa e o jovem de olhos frios que se confrontavam, cada um de um lado da lareira. — Desejo do meu pai, madame? Não... Talvez você não saiba que há poucas semanas ele arranjou para que esta casa fosse alugada por três anos a começar do fim do mês, nem que ele planejava mudar para a França. En effet, ele ia se juntar a mim em Terauze. O contrato com os inquilinos foi assinado e não está em meu poder desfazê-lo, nem que eu quisesse. O que não quero. No silêncio que se seguiu, Ginny pôs a bandeja de café na mesa antes que a derrubasse. Firmando a mão, pegou a pesada cafetière e começou a servir o café nas xícaras, com a mente a mil. — Gostaria de um pouco de creme, lady Welburn? Foi então que o clima ali passou do dramático ao prosaico. — Obrigada, querida — disse, grata, lady Welburn, voltando-se para sua futura nora que começara a chorar. — Calma, criança. Isso não é o fim do mundo. — Ah, isso é muito cruel da parte de Andrew! Como ele pôde fazer isso sem nos falar nada? Provavelmente para evitar uma cena como esta, pensou Ginny. — Não acredito em nenhuma palavra — disse Rosina, furiosa. — Então sugiro que confirme os detalhes com o monsieur Hargreaves. — Hargreaves? Vou arrumar meu próprio advogado que não permitirá que eu seja traída desse jeito e lesada nos meus direitos. — Traída? Talvez, madame, esse seja o último argumento que especialmente a senhora deva usar. Ginny viu sua mãe ficar pálida e sir Malcolm foi rapidamente para o lado dela. — Sente-se, sra. Charlton. Naturalmente Andrew pretendia discutir os planos com você, só que não houve tempo. Mas será animado para vocês todos, uma nova vida! — Viver na França? Com esse bastardo? Eu jamais concordaria com uma coisa dessas! E ele devia saber disso. — E o meu casamento? — irrompeu Cilla. — Como vai ficar? Todos os meus planos? Estão arruinados — disse ela, aos soluços. — Não estão arruinados, Lucilla, apenas teremos que alterar os planos. Podemos discutir depois — disse lady Welburn. — Você sabia disso? Aposto que sabia! — disse Cilla a Ginny quando ela se aproximou com o café. — Não quero café! — disse ela, estapeando a xícara, cujo conteúdo caiu sobre o vestido da irmã. Estava claro que lady Welburn não aprovava a cena. — Acho que chegou a hora de partir, querido — disse ela ao marido. — Au contraire, madame. Está claro que eu sou de trop aqui e devo ir embora. Desculpem-me por estragar uma noite agradável, embora eu não tenha culpa quanto à causa do desacordo. Bonsoir. Só não lamento pelo estrago em seu vestido, mademoiselle. Hélas, isso seria impossível. Foi intervenção divina. E, com isso, ele se foi. 20


Ginny teria se sentido insultada, mas se controlou para não rir. — Está vendo, lady Welburn — disse Rosina. — Como é impossível lidar com... essa criatura! Só Deus sabe a pressão que ele fez sobre o meu pobre Andrew, que nunca teria aberto mão desta casa de livre e espontânea vontade, sabendo o quanto ela é importante para mim. Em seguida, voltou-se para Ginny, que acabara de catar os cacos da xícara de café. — Isso é tudo culpa sua. Eu sabia que convidar esse tal de Duchard para jantar seria um desastre. Lady Welburn também se levantou. — Acho difícil que Virginia possa ser culpada pelas decisões do padrasto dela, sra. Charlton. — Ela fez uma pausa, abrindo um bondoso sorriso para Ginny. — Por que você não sobe e troca o vestido, querida? Talvez deva mergulhá-lo em água fria, não? Ou jogá-lo na lata do lixo, pensou Ginny. Além de ser sem graça, o vestido seria um lembrete de uma noite que era melhor ser esquecida. Em seu quarto, ela vestira o robe de veludo cor de rubi que ganhara de Andrew no último aniversário. Ela queria ir dormir, mas havia coisas a serem feitas na casa, então esperou que os Welburn fossem embora antes de descer de novo. Ao chegar no corredor, a porta da frente abriu-se e Jonathan entrou, com brancos flocos de neve nos cabelos e no sobretudo. — Ah, meu pai esqueceu o cachecol dele aqui. — Está lá na mesa do corredor — disse ela, indo buscar o cachecol. — Por favor, Jon, desculpe-se com seus pais. Eu não fazia ideia de que a noite terminaria assim. — Nem eu. O que Cilla estava fazendo? Jogando-se para cima de um homem como aquele? Ginny mordeu o lábio. — Ela queria um favor dele. Talvez só estivesse tentando melhorar as relações... — Ginny tentou sorrir. — Você sabe como é quando o coração dela está envolvido. — Estou começando a perceber... Mas, depois desta noite, não sei se sou eu que estou no coração dela. Ginny soltou um gemido baixinho. Ah, isso era coisa séria! — Jon, você não pode acreditar nisso. Cilla interessada num homem como Andre Duchard? Nunca, nem em um milhão de anos! O comportamento dela pode ter sido inadequado no jantar, mas nenhum de nós está completamente racional no momento. Além do mais, ninguém em sã consciência haveria de preferir aquele homem a você. — Você é uma boa amiga, Ginny. Melhor do que eu mereço. Ele se curvou de repente e ela, surpresa, sentiu os lábios dele tocarem os dela. Uma carícia rápida, mas ela recuou instantaneamente. — E eu serei uma cunhada ainda melhor. Boa noite, Jon, e não se preocupe. Tudo dará certo, você vai ver. Ginny lembrou-se de uma época em que esperava que Jon fosse tomá-la nos braços e beijá-la. E agora, de repente, isso tinha acontecido... e ela sentira... o quê? Apenas uma leve vergonha, além de um profundo alívio porque nem Cilla nem sua mãe apareceram no corredor naquele momento inoportuno. E amanhã terei que ir trabalhar e contar à srta. Finn as más notícias.

CAPÍTULO 4

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Ginny acordou na manhã seguinte e deparou-se com o mundo tomado por um cobertor de neve. Nada sério, apenas o suficiente para incomodar, enquanto ela levava Barney para um passeio matinal. Barney claramente achava a neve bela e estava saltitante e feliz. Na volta, o cachorro foi direto para a cozinha e chacoalhou-se vigorosamente no exato momento em que Rosina descia as escadas. — Esse cachorro! — disse ela, num tom de desprezo. — Vamos resolver isso assim que o veterinário puder vir aqui. — Você não pode fazer isso. Andrew amava esse cachorro! — Aparentemente mais do que ele amava qualquer uma de nós! — Pelo menos deixe-me tentar arrumar outro lar para ele — suplicou Ginny. — Você tem uma semana. Até lá não o quero dentro de casa e nem quero pôr os olhos nele de novo. E eu não queria acordar hoje, pensou Ginny, cansada. Sua noite fora miserável e ela não descansou nada. Rosina e Cilla eram só lamentos. Ginny achava que Andrew deveria estar fazendo os arranjos há um bom tempo, e, sem dúvida ele havia enganado a todas elas. Ainda assim, Ginny não conseguia esquecer a inesperada reação de Andre Duchard quando sua mãe falara em engodo. Falarei com ela sobre isso assim que a oportunidade surgir, pensou Ginny. Pelo menos Rosina parecia aceitar a inevitabilidade de ir morar no chalé. Finalmente concordara em dar uma olhada no local e considerar as sugestões de reforma de Ginny. Agora Barney era mais um item na lista de problemas de Ginny. Sua conversa com Emma Finn durante a hora do almoço fora tão difícil quanto ela temia que seria. — Tenho certeza de que você sabe das muitas fofocas sobre o testamento o sr. Charlton — disse-lhe sua chefe. — Infelizmente, é tudo verdade. Não fiquei com nada. — Você não acha que o novo herdeiro a ajudaria? ��� Tenho certeza de que ele não faria isso — disse Ginny, enfática. — Ah, querida... — disse Emma. — Bem, Ginny, não vou fingir que estou desapontada, mas tenho a oferta de Iris e preciso fechar esse negócio o mais rápido possível. — Ela franziu o cenho. — Embora eu suspeite de que, quando eu me for, tudo haverá de mudar. Como tantas outras coisas, pensou Ginny, voltando ao trabalho. A tarde fora agitada. O mal tempo criava uma alta demanda por sopa e chocolate quente, e Ginny recebia condolências de todos a quem servia, mas ficava ressentida com a curiosidade que vinha junto com a empatia. O que era apenas natural. Andrew parecia o último homem no mundo que teria um filho ilegítimo, ainda mais em segredo. Ginny estava sozinha na cafeteria, limpando as mesas, quando Andre Duchard entrou e sentouse num canto. Por um instante, ela ficou ali, paralisada, ciente das fortíssimas batidas de seu coração e da repentina secura em sua boca. Real, mas inexplicável. E não havia nada que ela pudesse fazer a respeito, com o orgulho proibindo-a de sair correndo para a cozinha, deixando que outra pessoa lidasse com o freguês em nada bem-vindo. Enquanto Ginny se aproximava da mesa dele, Andre disse, baixinho: 22


— Então é assim que você passa seus dias... — Sim. Foi por isso que você veio até aqui? Satisfazer sua curiosidade? — Pas entièrement. — Ele olhou de relance para o cardápio. — Un café filtre, s'il vous plaít. — Certo. — Ela anotou o pedido e depois fez uma pausa. — Leite e açúcar? Ele fez uma leve careta. — Merci, mas talvez um conhaque. Ginny balançou a cabeça. — Não temos licença para vender álcool. — Quel dommage... Mas este é um estabelecimento bem feminino, n'est cepas? — Não exclusivamente. Nossa comida agrada homens também. Embora nenhum dos outros clientes do sexo masculino tivessem aquele tipo de presença, aquela energia bruta e intimidadora. Ela achou perturbador e apressou-se a falar de novo. — Talvez você devesse frequentar o Rose and Crown. — O café deles não pode nem ser chamado de café, mas o lugar serve ao seu propósito de outras formas. Descobri que aquele lugar é une veritable mine de renseignements. Ele se calou e percebeu a expressão confusa no rosto de Ginny. — Uma mina de informações — explicou. — Além disso, as meninas que trabalham lá são mais sorridentes. — Talvez elas tenham mais motivos para estarem felizes. Você parece esquecer que perdi alguém que considerei um pai durante muitos anos. — O que não aconteceu comigo. Durante a maior parte da minha vida, ele era apenas um nome. E, quando isso mudou, a princípio eu não fui receptivo. — Enquanto nós nem sabíamos de sua existência. — E gostariam que ficasse assim, n'est-ce pas? — Gostaria que estivéssemos preparadas em vez de receber um choque atrás do outro. — E você odeia Andrew por isso? — Não, não... claro que não! Como poderia? — questionou ela, alarmada. — Eu só não entendo como ele pôde manter isso tudo em segredo por tanto tempo. — Mas todos nós temos segredos, não? Coisas que preferimos esconder do mundo? Por um segundo ele manteve o olhar fixo nos lábios abertos dela, como se a lembrando daqueles breves e devastadores momentos em que ela esteve em seus braços. Ginny sentiu sua pele ficar cálida, uma reação que ela não tinha como controlar. — Quanto a meu pai... talvez ele acreditasse que sempre haveria mais tempo... para explicar o passado e falar sobre seus planos para o futuro. Lição esta que deveríamos valorizar, peut-être. — Devo lembrar-lhe que trabalho aqui e, portanto, vou pegar seu café, monsieur Duchard. — E traga um para si. Eu gostaria de conversar com você. — Isso é contra as regras. Nós não nos sentamos com os fregueses. — Oh là là. Nem mesmo com um membro da família? — Nós não temos nenhuma relação de parentesco. Ainda bem. — Enfin, nós concordamos em alguma coisa. — Ele sorriu. — Agora, quebre esta regra que creio não existir e beba café comigo. Bien sur, que não joguemos os cafés um no outro. Ginny voltou a ele um olhar fulminante, indo, relutante, para trás do balcão onde preparou dois cafés pretos, ciente de estar sob o escrutínio daquele homem. Ela se viu no espelho e notou que parecia uma empregada que trabalhara o dia 23


todo. Seu avental lhe dava aparência de um pacote mal embrulhado. Ele não tem ilusões quanto a mim. Só veio aqui para conversar. Com as mãos tremendo, conseguiu levar as xícaras até a mesa sem derramar o líquido nos pires. — Sobre o que você quer falar? — Vamos começar com seu desejo extraordinário de comprar o negócio aqui. — Como você sabia disso? — Meu pai me contou. Por favor, entenda que ele não queria decepcionar você, mas não era a favor de sua proposta. — Ele disse isso a você? Mas por quê? — Não queria que você fosse a próxima Miss Finn. Ele achava que você é jovem demais para ser enterrada em uma cafeteria. Ela mordeu o lábio. — Bem, agora isso mal vem ao caso. A cafeteria será vendida a outra pessoa. — Então você terá que procurar um novo começo, longe daqui, peut-être... — Não decidi ainda. — Sem dúvida há muito a se considerar. Mas aconselho você a ignorar as esperanças da sua mãe de dispensar o testamento do meu pai para que ela seja favorecida. Isso não vai acontecer, não importa qual avocat ela escolha no lugar do monsieur Hargreaves. — No lugar dele? Não estou entendendo... — Eles se falaram ao telefone hoje. Ela estava com raiva por ele não a ter avisado sobre o aluguel da propriedade. Ele explicou que não desejava dar a ela mais uma má notícia de imediato. Ela não quer continuar sendo representada por ele. Ela o culpa, tu comprends, por obedecer às instruções do meu pai. Como ela diz, por não fazer com que ele desse ouvidos à razão. — Claramente você não entende como minha mãe se sente. Como está... magoada por ser tratada assim... depois de 11 anos... felizes. — É assim que você vê as coisas? Une vraie idylle? Foi assim que começou, n'estce pas? No deque de um barco, sob as estrelas... um homem e uma mulher, nos braços um do outro, deixando tragédias passadas para trás, encontrando novas esperanças juntos? — E o que há de errado nisso? — questionou Ginny na defensiva. — Muitas pessoas começam relacionamentos duradouros nas férias. — E muitas mais tratam como um interlúdio agradável, e nunca pensam nisso de novo quando voltam às suas vidas diárias. Talvez seja mais sábio assim. — E isso é o que você acha que minha mãe deveria ter feito? — Não posso falar por ela. Mas, meu pai? Certainement. — Creio que você esteja partindo para os insultos. Ele deu de ombros. — Creio que eu esteja sendo... honesto. Ginny pôs-se de pé, tremendo. — Que direito você tem de julgá-la? Ou de julgar qualquer uma de nós? Minha mãe ficou viúva com duas filhas jovens e muito pouco dinheiro. Ele torceu a boca, com cinismo. — Ainda assim, ela era sócia num salão de beleza, n'est-ce pas, e tinha dinheiro para pagar por um caro cruzeiro no Mediterrâneo, sem incluir nem você nem sua irmã. Incroyable. Sócia? Sua mãe era manicure. Uma empregada do salão. Do que ele estava falando? — Você fala como se ela nos tivesse abandonado nas ruas. Ficamos com minha madrinha e o marido dela em Fulham e nos divertimos muito. Além disso, mamãe só pôde 24


viajar porque ganhou um prêmio na loteria, mas não um dos grandes, claro — disse Ginny. — E ela precisava disso. — Sans doute. E, ao final do cruzeiro, quelle surprise, ela estava com um novo marido rico. A voz de Ginny estava trêmula. — Como você se atreve? O que está querendo dizer com isso? — Não estou querendo dizer nada. Estou citando fatos. Pense bem... o casamento deles não foi conveniente? — Eles se conheceram e se apaixonaram. Foi esse tipo de veneno que você foi passando para o Andrew esses anos todos? Voltando-o contra sua própria esposa? Bem, eu não... não acredito em nenhuma palavra disso. — Lealdade familiar? Creio que seja um pouco tarde para isso. E eu não disse nada ao meu pai. Au contraire, ele mesmo tinha todas essas dúvidas. Você não é nenhuma tola, Virginie, então se pergunte por quê. Ele bebeu todo o café e levantou-se, deixando cair um punhado de moedas na mesa. — Mas seu café é excelente — acrescentou e saiu andando. Ela queria jogar o dinheiro de volta nele. Ainda por cima, ela não tinha conseguido falar com ele sobre Barney e seus planos de arrumar um novo lar para o cão. Mas e daí? Ela faria isso mesmo assim. Ao chegar em casa, Ginny viu que sua mãe não estava num estado de espírito para responder às perguntas que ela queria lhe fazer. — Vou achar um escritório em Londres para me representar. — Disputas na corte são muito caras. Isso sem falar nas verdades inesperadas que às vezes vêm à tona durante as disputas... — Mas meus custos serão pagos pela outra parte. E, embora seja tudo sub judice, vou insistir em ficar aqui. Não tenho nenhuma intenção de me mudar para aquela casinha odiosa. — Precisa de reforma, mas poderia ficar bem aconchegante — disse Ginny. — Aconchegante? O lugar é minúsculo. E, com dois quartos, você precisará achar outro lugar para morar. — Mas Cilla vai se casar. Podemos dividir um quarto até lá. — Não seja tola, Virginia. Quartos minúsculos, e sua irmã precisa de espaço para as roupas dela. — Rosina fazia com que isso soasse tão lógico. — De qualquer forma, já está na hora de você se tornar independente. Não pode esperar que eu a sustente pelo resto de sua vida. Ginny queria protestar e dizer que se tivesse feito faculdade para ser professora teria um diploma agora, mas a mãe lhe impedira de estudar. Porém, o que ela disse foi: — Não, mãe, nunca esperei isso. Vou achar alguma coisa. Onde está Cilla? Rosina deu de ombros. — Imagino que esteja na casa dos Welburn. — Fortalecendo as relações, espero — disse Ginny, lembrando-se sem prazer dos poucos e desajeitados minutos com Jonathan no corredor. — Isso dificilmente se faz necessário. Não quando se é bonita como Cilla. — Rosina balançou a cabeça. — Pobre Virginia. Você nunca realmente entendeu como tudo funciona, não é? — Obviamente que não, mas estou aprendendo rápido. — Ginny levantou-se. — Acho que vou tomar um banho. 25


No corredor, Ginny encontrou a governanta. — Não vou querer jantar, sra. Pel. Vou dormir cedo. Fechar os olhos. Apagar esta noite... — Não me surpreende, mas não vai dormir com fome. Vou levar alguma coisa para você. “Alguma coisa” acabou sendo uma tigela fumegante de caldo escocês, acompanhado de pão crocante, um bom pedaço de queijo e maçã. Não vou chorar, porque senão não vou parar, e preciso ser forte. — A senhora está me mimando, sra. Pel. — Isso não acontece com frequência. Além disso, pode ser minha última oportunidade de agradá-la, porque a sra. Charlton quer que eu vá embora no fim da semana. — No fim da semana... Mas... — Ora, ela vem tentando se livrar de mim faz tempo. Você sabe disso. E não tenho desejo de ficar aqui sem o mestre, não com a minha bela casinha esperando por mim. E você deveria fazer o mesmo. Abrir asas e voar. A sopa estava deliciosa. Ela comeu tudo, até a última gota, raspando a tigela. Terminou também de comer o pão com o queijo, e depois se encostando nos travesseiros, começou a comer a maçã, que estava a seu gosto. Como aquelas da árvore no jardim da tia Joy na grande e confortável casa em Fulham... Fazia anos que Ginny não pensava nisso. Se não tivesse sido pelas odiosas insinuações de Andre Duchard, ela nem estaria se lembrando. Ainda assim, um pouco da conversa deles deixara seu alarme ligado. E fizera com que ela voltasse sem querer ao tempo em que tinha 11 anos e sua vida a transformara para sempre. De volta a Lorimer Street. Uma casa com terraço como a de todos os vizinhos. Uma área pavimentada na frente e quintal nos fundos. Casa que sua mãe sempre odiara, embora Ginny se lembrasse de seu pai dizendo que com seu salário de professor primário era tudo que ele podia pagar. Quando ele fosse promovido, poderiam melhorar. Em vez disso, ficou doente, e, embora Ginny fosse nova demais para entender o que era leucemia, seu instinto lhe dizia que aquilo estava levando seu gentil e divertido pai para longe dela, e bem rápido. Rosina trabalhava em meio período em um salão de beleza local, mas começara a trabalhar em período integral quando enviuvara. O salário, aumentado com as gorjetas de uma clientela rica, não era generoso, mas a família sobrevivia, com a ajuda dos vizinhos, durante os tempos de aulas, e da tia Joy, nas férias. Ginny levava Cilla para o salão todos os dias depois das aulas, distraindo-a até a hora de irem para casa. — É seu dever cuidar de sua irmã mais nova — dizia-lhe sua mãe, e Ginny lhe obedecia. Tia Joy e seu marido não tinham filhos e sempre ficavam encantados em verem as filhas de Rosina. Mas Ginny notava que sua mãe com frequência ficava calada quando voltavam para a casa em Lorimer Street, como se estivesse comparando sua vida com a deles e odiando-os, do mesmo modo que odiava seus clientes no salão quando falavam de suas mansões e viagens e joias e vestidos de grife. Até o dia em que Rosina ganhou uma certa quantia na loteria e seguiu num cruzeiro pelo Mediterrâneo, enquanto ela e Cilla ficavam com tia Joy. Quando Rosina retornou da viagem, elas não voltaram para a casa em Lorimer Street. Ela havia alugado por um tempo um apartamento moderno. E, depois que a tia Joy as deixara lá, ouviram os sons de briga e depois o distante som de uma porta batendo. Enquanto sua mãe queria que elas explorassem “o palácio”, Ginny pensava no quanto odiava o suntuoso lugar. 26


— Quando vamos voltar para nossa casa em Lorimer Street? — quis saber ela por fim. — Não vamos. E não quero mais ouvir falar nisto. Nunca mais. Rosina fez parecer que a antiga vida jamais existira. E elas nunca ouviram falar de novo na tia Joy e no tio Harry. Nem podiam falar neles. Então, certo dia, Rosina as levara para tomar chá numa grande loja de departamentos. Ginny lembrava-se de como Rosina segurara nas mãos delas como se estivesse nervosa até se encontrarem com um homem alto e grisalho, sentado sozinho em uma mesa, que se levantou e sorriu. Somente então, Rosina relaxou e sorriu também. — Queridas. Este é um amigo meu muito especial. E assim, pensou Ginny, foi nosso primeiro encontro com Andrew. Franzindo o cenho, ela pôs a bandeja de lado e abraçou os joelhos. Ficou claro que Rosina havia “melhorado” seu status social e alugado o apartamento para impressionar o novo homem em sua vida, o que não era estritamente ético, mas que não era também nenhum crime federal. Nem o bastante para fazer com que seu marido se sentisse traído, se algum dia ele ficasse sabendo dessas mentiras. Além disso, Rosina, com seus 30 e poucos anos, e até mesmo agora, era uma bela mulher, com seus cabelos ainda louros, embora agora com ajuda, e pele, impecável. Não era de se admirar que Andrew tivesse ficado tão atraído por ela a ponto de propor-lhe casamento. E, mesmo que a vida deles juntos não fosse perfeita, certamente era melhor do que muitos casamentos por aí. Então, Andre Duchard não tinha nenhum direito de sugerir algo diferente. Nenhum direito! O melhor que tenho a fazer é deixar isso para lá e pensar no que o futuro me reserva. E tentar não pensar em quão triste esse futuro poderia ser.

CAPÍTULO 5

As apreensões de Ginny em relação ao seu futuro aumentaram quando a nova compradora do Miss Finn, Iris Potter, começou a falar abertamente sobre as mudanças que planejava. Pelo menos Andre Duchard não voltara, para o alívio de Ginny. Ele bem que poderia ter retornado a Burgundy. E já teria ido tarde. A última pessoa de que ela precisava por perto seria alguém que a pegava com a guarda baixa. Que a forçava a relembrar coisas que deveriam ser esquecidas. E, pior ainda, que a fazia ciente de sensações que ela preferiria ignorar. Ele era perturbador além da conta. Mas seu instinto lhe dizia que ele ainda estava por perto... Pare com isto, pensou ela, afundando as unhas na palma das mãos. Não pense nele. Ponto final. Rosina ainda parecia infernalmente determinada a não arredar os pés de onde estava, pensou Ginny, com amargura. Tampouco se esquecera de Barney. — Você arrumou um novo dono para o cachorro, Virginia? Caso contrário, em uma semana... — Deixei um cartão em uma loja... 27


— Você acha que isso vai fazer chover respostas? — Uma pessoa que realmente o queira já está bom... Ao que parece, essa pessoa é apenas eu, pensou Ginny, com amargura. Ninguém estava interessado no cão, e a dona da loja falara para que ela esperasse até a primavera, que estava longe, por sinal. Ao sair da loja, ela avistou a fachada do Rose and Crown. A fúria ergueu-se em meio à inicial sensação de derrota: ali estava ele. O homem que aparecera do nada, a quem fora dado tudo, e que parecia não valorizar coisa alguma. Ginny avistou, com a respiração entrecortada, como se tivesse recebido um soco no peito, Cilla, de cabeça baixa, descendo com cuidado pela calçada em direção ao estacionamento, e depois sumir. Não! A palavra ecoava pela cabeça de Ginny com uma força tão tremenda que, por um instante, ela achou que tivesse gritado, mas ninguém se virou para encará-la, então ficou onde estava, sob o toldo da loja da sra. Betts, tentando recompor-se. Tentou convencer-se de que havia vários motivos inocentes pelos quais Cilla visitaria o Rose and Crown, mas foi incapaz de pensar em um que fosse. Sua irmã prefiria os pubs com cardápios interessantes e cartas de vinhos caros, os tipos de lugares aonde Jonathan a levava... Ginny engoliu em seco, lembrando-se de que, no jantar, Andre Duchard e sua irmã, Cilla, flertaram descaradamente. O tempo todo, Cilla ignorou a irritação e o ressentimento de Jonathan. Mas com certeza o flerte não continuara após o jantar, certo? Sim, certamente! Porque Cilla não poderia encontrar-se com Andre em segredo... ou poderia? Será que ela havia tentado persuadir o homem a deixar que ela usasse Barrowdean House para sua cerimônia de casamento? Persuadi-lo de alguma forma... Ginny foi tomada por fortes emoções, raiva, principalmente, que lhe causaram náuseas. Será que Cilla não via que se Jonathan suspeitasse que ela estava se encontrando às escondidas com Andre Duchard não haveria casamento? Ela devia ser louca por correr tal risco! O que quer que fosse teria que acabar ali, antes que Cilla arruinasse de vez sua vida. Ela ainda é minha irmã caçula e tenho que cuidar dela, pensou Ginny, engolindo em seco. Ginny entrou no hotel. Não havia ninguém na recepção, por isso ela subiu as escadas sem ser vista nem ouvida. Ao chegar à porta do quarto dele, viu o aviso de “Não perturbe”. Oh, Cilla, sua tola!... De repente, a porta foi escancarada e Andre Duchard confrontou-a. Ele estava nu, exceto pela toalha enrolada na cintura. E com cara feia. Que ficava pior a medida em que ele olhava para ela. — O que você está fazendo aqui? O que você quer? — Os cabelos dele estavam molhados e os ombros, o torso e as longas e musculosas pernas brilhavam com a água. A barba estava por fazer. — Quero que você deixe a minha irmã em paz. — Sua irmã? Do que você está falando? — Ah, não precisa fingir. Ela esteve aqui esta tarde. No hotel. Eu vi quando ela foi embora. — E disso você deduz... quoi? — Ele a puxou pelo pulso para dentro do quarto e bateu a porta. Estavam trancados. Sozinhos. Ela se soltou. 28


— O que você está fazendo? — questionou ela com a voz trêmula. — Acho que chamam isto de conversa. Em particular. Então você acha que ela esteve comigo e que somos amantes? Ginny engoliu em seco. O quarto era pequeno, opressor, e se ela se afastasse dele, cairia na cama, então se manteve onde estava. Ela era a única com o direito de sentir raiva. Precisava continuar sentindo raiva. — Você a acha atraente — disse Ginny, desafiadora. — Seu comportamento na outra noite deixou isso perfeitamente claro. E ela é inexperiente, sentiu-se bajulada. Mas está noiva... apaixonada. E não vou deixar que você prejudique a vida dela para satisfazer um interesse passageiro. — Noiva, certainement. Pelo menos por enquanto. Apaixonada? — Ele deu de ombros. — Vai saber? Acho que a inocente aqui é você, Virginie. Mas sejamos francos. Você não ficaria feliz se monsieur Welburn, rico e valoroso, não fosse mais o noivo da sua irmã e pudesse, peut-être, se contentar com o prêmio de consolação... toi-même? Agora quem não deve fingir é você. Ou acha que seu abraço, tão terno abraço, com ele não foi notado naquela noite? Ela se lembrou do som da porta se fechando. — Você estava lá? — questionou ela com a voz rouca. — Tinha ido dar boa noite a Marguerite. Quando vi... bem, saí por outro lado. Ginny ergueu o queixo. — Você não viu... nada demais. Aquilo foi perfeitamente inocente. A noite foi um fiasco e ele estava... chateado, só isso. — E quando ele e sua irmã estiverem casados, e todas as noites dele forem ruins, atrás de quem ele irá? Porque la belle Lucille requer um homem mais forte do que o infeliz Jonathan. Alguém que dará propósito à vida dela a cada dia, e que a ensinará a ser uma mulher na cama à noite. — Suponho que com essa baboseira de macho você esteja se referindo a si mesmo. — E se for? Eu estaria fazendo um favor a você, n’est cepas? Não é isso que você quer? Num turbilhão de emoções, sendo a principal a fúria, ela pensou, desesperada: O que estou fazendo? Desafiando-o deste jeito? Deveria estar falando com Cilla e não com ele... Devo estar louca... — Eu não deveria ter vindo aqui. Sinto muito... Eu... tenho que ir... Embora daqui enquanto ainda posso... Ela deu um passo em direção à porta, mas ele permaneceu onde estava, bloqueando sua passagem. — Não até que você tenha respondido a minha pergunta. Com a verdade. O que você mais deseja, Virginie? Ela desviou o olhar, tremendo. — Não posso lhe dizer. Porque eu... não sei mais o que quero. — Então eu, moi-même, vou dizer o que você quer — falou ele, com a voz mal passando de um rouco sussurro. Ele arrancou o casaco dela pelos ombros, deixando que caísse no carpete, e então a puxou para perto de si, buscando a boca de Ginny com a dele, com uma fome que não podia ser negada. Por um momento ela sentiu pânico, e disse a si mesma que deveria lutar. Chutar. Arranhar seu rosto e seu peito. Qualquer coisa para livrar-se dele. Ainda assim, de alguma forma, ela não fez nada disso. Porque estaria lutando contra si mesma. Porque partilhava dessa fome, concluiu, com os lábios se abrindo para permitir-lhe o acesso que ele exigia. Isso não pode... não deve acontecer. As palavras ecoavam na cabeça dela, mas o 29


som fora afogado pela urgência em seu corpo, pela sensação de que o sangue em suas veias corria lento e doce como mel. Ela foi receptiva ao calor da língua dele na sua, tremendo com o deslizar das mãos deles sob seu suéter e suas costas. Admitiu que era isso que desejara desde a primeira vez em que ele a beijara. Andre soltou o sutiã dela, enchendo as mãos com os firmes, redondos e pequenos seios, provocando os mamilos com os polegares até ficarem enrijecidos, fazendo com que ela ofegasse com um choque de prazer. Ele puxou o suéter dela por cima de sua cabeça e jogou-o no chão, e depois o sutiã, abraçou-a com força, beijando-a ainda mais profundamente. Pela primeira vez na vida, ela vivenciava a excitação, o estímulo do peito peludo e áspero de um homem roçando por seus seios desnudos, e derreteu-se nele, retribuindo seu ardor com beijos. Ginny estava zonza, mas ciente de que ele tirava sua roupa, deixando-a apenas de calcinha e meia-calça. Andre puxou-a pelos quadris de modo que seu corpo se juntasse ao dele e sentisse sua formidável ereção, fazendo-a se lembrar da própria inexperiência sexual e falta de sofisticação. Como se sentindo a repentina incerteza dela, Andre relaxou um pouco a pegada. Acariciou-a, beijou-a novamente, só que dessa vez com suavidade e langor. Infinitamente. E, enquanto isso, explorava cada curva delicada e angulosa dela, acariciando com as pontas dos dedos seu pescoço, seus ombros, seus braços, voltando aos seios e erguendo-os para a sedosa calidez de sua boca, saboreando-os. Ginny sentiu o corpo reagindo com ferocidade. Não havia mais volta, pois ela assim o decidira. Ela envolveu o pescoço dele com os braços, enterrando o rosto no ombro desnudo de Andre enquanto ele a erguia e a carregava até a cama, jogando as cobertas de lado e deitando-a no colchão. Agora sem a toalha, ele se curvou sobre Ginny, tirando a calcinha e a meia-calça dela devagar, deixando-a completamente descoberta para a urgência de suas mãos que acariciavam sua barriga lisa, explorando os quadris e descendo para pairarem, de forma provocativa, sobre o macio triângulo na junção de suas coxas. Ela ofegava, arqueando-se para junto dele, enquanto se rendia a essa nova intimidade, temendo enquanto ele começava a passar o dedo em seu sexo, cada movimento sensual dos dedos dele fazendo com que ela tremesse com as sensações, revelando dentro dela uma capacidade de ficar excitada com a qual sequer sonhara. Ginny também o tocou, passando os dedos, maravilhada, sobre a pele dele, conhecendo a não familiar forma masculina dos ombros musculosos e largos até os quadris estreitos e as nádegas firmes. E ele pegou a mão dela, beijou-a e a levou até sua ereção, deixando que ela sentisse seu tamanho e sua força, ao mesmo tempo em que a explorava com os dedos, devagar, deliciosa e provocativamente. Ela soltou um minúsculo gemido, erguendo os olhos para a face dele, percebendo seu olhar se tornar mais intenso, enquanto sentia Andre se mexendo sobre ela, acariciando-a e a erguendo para si. — Abra-se para mim, ma douce, ma belle. E ela obedeceu, guiando-o para dentro da calidez que o desejava... Veio a dor inesperada, e ela afundou os dentes no lábio inferior, para abafar o instintivo grito de protesto. Sua necessidade de conhecer e ser conhecida era tudo que realmente importava. Ela o agarrou pelos ombros, e o envolveu com as pernas, sentindo sua carne ceder, sendo receptiva enquanto ele a penetrava por completo. Andre alternava-se entre um ritmo rápido e lento, forte e ritmado, roubando o pouco autocontrole que ela ainda tinha, levando-a a um novo nível numa longa espiral de prazer. Ah, meu Deus!, pensou Ginny, enquanto um gemido subiu-lhe à garganta. Ela 30


estava deixando que este homem, meio anjo, meio demônio... fizesse isso com ela? Como se sempre soubesse como seriam as coisas entre eles? E como se em algum momento tivesse escolha? E depois não restava mais pensamento algum, apenas sensações crescentes, selvagens que, no auge, jogaram-na numa onda atrás da outra, fazendo-a gritar junto à boca dele, ouvindo sua resposta rouca enquanto ele mesmo chegava ao clímax. Depois, quando ambos estavam exauridos, seguiu-se um silêncio e uma sensação de grande paz. Ginny sabia que havia coisas a serem ditas, mas depois, agora ela aninhava a cabeça no peito dele. Tinham todo o tempo do mundo. Quando ela acordou, no escuro, completamente desorientada, a primeira coisa que percebeu foi que ainda sentia dor dentro de si. E a segunda, que havia algo pesado deitado sobre seus seios, prendendo-a à cama. Ela se virou, com gentileza, quase temerosa, e viu a cabeça de Andre no travesseiro ao seu lado, e viu que era o braço dele que a aprisionava na cama. E, com isso, todas as memórias das últimas horas voltaram, gritantes, para ela, jogando-a na terrível e vergonhosa realidade do que havia feito. Sentiu total necessidade de distanciar-se dele. De todas as maneiras possíveis. Para sempre e já. Ela tentou sair sem que ele notasse. Ao olhar de relance seu relógio de pulso, percebeu que estivera com ele por duas horas e meia. Além das implicações éticas, ela perdera quase a tarde inteira de trabalho. Embora esse fosse o menor de seus problemas. Para sua sorte, a recepção estava vazia novamente, e ela conseguiu escapar sem ser notada. Como sua irmã tinha feito mais cedo... Ela parou e lutou contra a náusea que ameaçava sobrepujá-la: porque o que ela fizera não era simplesmente imoral, era pura insanidade. Desde o começo, Andre Duchard mal havia se dado o trabalho de esconder que desprezava a mãe e suas filhas. Agora, ele tinha ainda mais motivos para isso. Ginny engoliu em seco, e começou sua jornada de volta para casa. Apesar de tudo, reconheceu que, debaixo de toda aquela fúria, o que ela realmente queria era ir para a cama com Andre. Obra de algum relógio sexual que ela nem sabia que estava fazendo uma contagem. Duas irmãs na mesma cama na mesma tarde. Encontros que não pareciam tê-lo deixado com alguma baixa energética, pensou ela, sentindo como se a vergonha estivesse arrancando a pele. Ginny só machucara a si mesma, traíra seu autorrespeito... mas Cilla fora infiel a Jonathan, o homem com quem se casaria. Como ela poderia se perdoar? Enquanto isso, Andre Duchard no auge de sua hipocrisia repreendera Ginny pelo que ela chamava de beijinho de despedida. Ao chegar em casa, Ginny ficou aliviada por estar vazia, e foi direto para seu quarto. No banho, usou uma esponja de massagem embebida em gel para esfregar cada centímetro de seu corpo, tentando remover qualquer evidência das mãos e da boca de Andre em seu corpo. Quem dera pudesse limpar do mesmo modo a memória do toque dele, pensou Ginny enquanto passava xampu nos cabelos. Esquecer a sensação dele dentro de si... Apagar as lembranças do prazer que ainda a faziam tremer... Em poucas horas ela havia se tornado uma estranha para si mesma. A garota que ela fora por vinte e dois anos nunca teria acreditado em se render ao desejo. Nunca pensaria uma coisa dessas. E aquilo não passara de desejo. Raiva transmutada em outro tipo de paixão bem mais perigosa. 31


Não era mais aquela menina que havia nutrido esperanças de apaixonar-se, de descobrir as alegrias do sexo em um relacionamento importante. Em vez disso, ela cedera sem pensar em um colchão bem usado de hotel a um homem que era seu inimigo. Degradante. O que poderia falar em sua defesa? Alegar insanidade temporária? Ginny deveria ter falado em particular com sua irmã, tentar cuidar dela, como sempre, não? Em vez disso, ela se tornara uma aberração temporária. Algo que não poderia dar-se o luxo de ser. Quando chegou ao andar de baixo, Ginny deparou-se com a sra. Pel. — Oras, srta. Ginny! Eu não esperava vê-la agora. A cafeteria fechou cedo? — Não, eu não estava me sentindo muito bem, então vim para casa — disse Ginny, esperando que seu rubor fosse atribuído à calidez da cozinha em vez de estar mentindo. — Por que não vai para a cama então, e levo a você chá quente de limão? — Já passei tempo demais na cama — disse Ginny, ficando ainda mais vermelha. — Seria bom levar Barney para passear. A sra. Pel olhou pasma para ela. — Ele não está aqui, srta. Ginny. Logo pela manhã um homem veio buscá-lo. Disse que estava tudo combinado. — Combinado? — Ginny sentiu um aperto no coração. — Qual era o nome dele? — Não ouvi, foi a srta. Cilla que falou com ele, mas parecia agradável. E colocou Barney dentro da gaiola na traseira de seu Land Rover. — Gaiola? — questionou Ginny, temendo pelo pior, quando a campainha da porta da frente tocou. — Ora, quem poderia ser agora? — Não faço ideia. Outra mentira. Porque ela sabia quem era como se ele estivesse na frente dela. — ...mas minha mãe e Cilla saíram, e eu preferiria não ver ninguém. Então você pode dizer a quem for que nenhuma de nós está? — Claro que sim, você parece mesmo doente. Vá lá que eu cuido disso. Do corredor, Ginny ouviu quando a sra. Pel abriu a porta e disse: — Bem, sr. Andre, que surpresa! Mas receio que a família toda tenha saído. — Mademoiselle Virginie também? — Todas elas — disse a sra. Pel. Depois de um curto silêncio, ele disse: — Oui, je comprends. À demain, terei que voltar à França, Marguerite. — Bem, eu vou sentir sua falta, monsieur Andre. Fico feliz de que sua mãe tenha encontrado a felicidade que ela sempre merecia. Quer que eu dê algum recado a... alguém que seja? — Obrigado, mas não. No momento, tudo que posso dizer é... au revoir. De repente, parecia que ele estava falando mais alto, no entanto, isso poderia ser fruto da imaginação de Ginny. — Mas eu voltarei. E logo. Depois que ele foi embora, Ginny deu-se conta de que ele não tinha sido enganado em momento algum, e tremia. Tudo que ele dissera fora para ela. — Mas quando você voltar, monsieur Duchard, já terei ido embora daqui. Juro.

CAPÍTULO 6 32


Embora pretendesse mudar-se, Ginny não havia esperado que o destino a levasse tão ao pé da letra. Depois de passar uma noite miserável, temendo dormir e sonhar com a inacreditável estupidez daquela tarde — além de pensar no que acontecera com Barney, embora sua mãe negasse qualquer envolvimento e Cilla nem se lembrasse do nome do homem — ela estava cansada e deprimida quando chegou ao trabalho. Vinte minutos depois, estava desempregada. — Iris é bem insistente — disse a srta. Finn, cansada. — Ela disse que você não é confiável, saindo no meio de um dia cheio sem permissão e não voltando. Ela não quer saber de explicação nenhuma. A srta. Finn entregou a ela um envelope. — Aqui está seu salário de duas semanas em vez de aviso prévio e uma carta de referência escrita por mim. Embora seja uma boa hora para pensar em novos ares para sua vida. — Sim. Já decidi isso — disse ela, e foi embora. Perdida em pensamentos, ela estava esperando para atravessar a rua quando sentiu a mão de alguém em seu braço. Para seu horror, deparou-se com Andre olhando para ela, com ares sombrios. — Ou vas tu? — quis saber ele. — Eu estava indo até a cafeteria para falar com você. — Bem, eu acabei de ser demitida e não quero falar com você, logo, siga seu rumo que seguirei o meu. — Ora, você está sendo ridícula. Há coisas que devem ser ditas e sair correndo não vai resolver nada. Você vem comigo, ou vou ter que carregar você no colo? — Ponha a mão em mim e vou gritar! — Briga de amantes? Porque é isso que vou dizer, e vão acreditar em mim. — O que faz você pensar isso? — Você tem uma pequena marca, de nascença, creio eu, debaixo do seio esquerdo. Quer que o mundo saiba que beijei essa marca ontem? Non? Alors, venha comigo agora. Ele segurou com firmeza a mão dela e a conduziu até o Rose and Crown. — Não voltarei lá. — Qu’as tu? Mon Dieu, você acha que tenho tempo para isso? Ele a levou até a deserta sala de jantar do hotel e, quando uma surpresa garçonete apareceu, ele pediu café. — Por que você não me disse que era virgem? — questionou ele abruptamente. — Eu precisava saber disso. E não tente negar... você sangrou um pouco. Ginny ruborizou-se. — Não percebi... De qualquer forma, isso não importa. — Não usei proteção, ma mie, então isso poderia importar e muito. Tu comprends? — Entendo, mas não acredito nisso. — Não acredita em como bebês são feitos? — Não é isso — disse ela, enfurecida. — Quero dizer que não é tão fácil assim ficar grávida, pessoas tentam por anos, tomam remédios para fertilidade, essas coisas. Não é algo que possa acontecer assim... na minha primeira vez. — Mas para milhões de pessoas, ma belle, isso acontece todos os dias. E você pode ser uma delas. Pelo que eu me culpo entièrement. Eu deveria ter sabido que você era realmente inocente e tomado precauções adequadas. — E minha irmã? — questionou ela, numa voz que não reconhecia. 33


— Não se preocupe. Ela sabe muito bem se proteger. Nem parece que é a mais nova. — Isso... isso é tudo que você tem a dizer? — Pelo momento, sim. Quanto a você, Virginie, está na hora de pensar apenas em si e na criança que podemos ter feito. Ela engoliu em seco. — Bem, se isso aconteceu, é meu problema, não seu. E, se necessário, posso lidar com isso. — Lidar como? Poucas horas numa clinique e foi-se o bebê? Você acha que consegue fazer uma coisa dessas? — Se tiver que fazer, sim. — E eu digo que não. Que, pelo menos para você, tal coisa nunca poderia ser esquecida e você se arrependeria pelo resto da sua vida. — Não seria meu único arrependimento — disse ela num tom gélido. Ele fez uma reverência cínica. — Pelo menos nós podemos concordar com isso, mas não podemos mudar o passado, apenas lidar com o presente. E com o futuro. — Eu consigo me virar sozinha. — Vraiment? Duvido. Você perdeu o emprego e logo pode ficar sem ter onde morar, a menos que tenha esperanças de ir para a cabana com sua mãe. — Ela ficou ainda mais ruborizada. — Eh, bien, eu tenho outros planos. Você me ouviu dizer que estou voltando à França, não? Venha comigo. — Isso é ridículo! Você deve estar doido! — Às vezes também acho que sou maluco, mas não agora. Você tem um passaporte. Sabe onde está sua certidão de nascimento? Porque vai precisar dela. — Para quê? — Para as formalidades legais. Antes que possamos nos casar. Depois de um instante de silêncio, ela disse: — Agora eu sei que você é maluco. Porque eu nunca me casaria com você. Nem que... — Nem que eu fosse o último homem na face da terra? Merci du compliment... Virginie, não é fácil ser mãe solteira. Se minha própria mãe ainda estivesse viva, ela lhe diria isso e lhe diria também como ficou grata em ter recebido a oferta da proteção do nome de um homem. Ofereço o mesmo a você. — Isso é impossível! Para começo de conversa, somos praticamente estranhos! — Dificilmente... depois de ontem. — Eu não queria ter feito aquilo. — Perdoe-me... estou um pouco confuso aqui. Você está dizendo que a tomei contra a sua vontade? Ginny mordeu o lábio. — Bem... não... não exatamente. — Fico feliz em saber. — Mas isso não muda nada. Casamento está fora de questão, especialmente quando nós não sabemos se estou grávida. — Então, até que possamos saber com certeza, eu lhe farei uma proposta diferente. Um teto e um emprego com salário. — Emprego de quê? — Claramente não o que você está pensando. Nunca paguei para uma mulher dividir a cama comigo, e você, ma mie, não será a primeira. Ouvi do meu pai sobre o quanto você contribuía para manter a casa em ordem. Alors, uma solução se apresenta. — Você quer que eu seja sua governanta? Eu não sonharia com isso... — Sonhos ficaram no passado, Virginie, e você tem que encarar a realidade. Quais 34


são seus planos para o futuro? — Encontrar um emprego que valha a pena e que seja permanente. Posso até voltar para Londres. — Para ta marraine? Sua madrinha? Ela negou com a cabeça. — Ela e minha mãe brigaram. Perdi o contato dela. — Mas você tem outros amigos lá, não? — Não. Não que isso seja da sua conta. — Isso é muito da minha conta. Uma cidade como Londres não é um lugar para uma moça sem emprego, família nem conexões. Vou fazer uma outra oferta a você. Venha comigo a Burgundy até que saiba se está ou não enceinte. Se não estiver, vou lhe dar dinheiro para que retorne à Inglaterra e sustentá-la enquanto você faz um treinamento para qualquer que seja a profissão que desejar. — Por que fazer isso por mim? — Porque acredito que meu pai teria desejado isso. Ele mesmo teria feito algo do tipo se estivesse vivo. — Você torna difícil recusar a proposta. — Então, por que recusar? — Porque tem o outro lado da moeda. Se eu estiver grávida... não quero ficar lá. Nem casar-me com você. — E você acha que eu a forçaria a fazer isso? — Ele deu de ombros. — O casamento, na França, Virginie, é tratado com respeito e realizado na frente do prefeito. A cerimônia não seria realizada caso achassem que era contra a sua vontade. — Ele fez uma pausa. — D’ailleurs, quando você entender isso, pelo bem da criança, tornar-se minha esposa será a única opção racional. Talvez meu único pedido de casamento, pensou Ginny, tomada pela dor interna. — Não posso prometer isso. E gostaria de um tempo... para pensar. — Para pensar ou para fugir? — Para tomar uma decisão. Talvez, monsieur Duchard, esteja na hora de começarmos a confiar um no outro, se você quer que seus planos sejam bem-sucedidos — disse ela, pondo-se de pé. Ele fez o mesmo. — E eu ficaria mais otimista, mademoiselle, se você me chamasse de Andre. A essa altura, essa formalidade entre nós não faz sentido. — Imagino que não. — En tout cas, preciso da sua resposta hoje, se formos pegar o voo da tarde para Dijon. A sensação da pele dele junto à dela... Ah, meu Deus, o gosto dele... — Sim, então eu concordo. Com uma condição. Que você me trate como uma funcionária. Que me dê o meu próprio espaço. — Soit. Conforme você desejar. Vou buscá-la ao meio-dia. Coloque nas malas apenas suas roupas mais quentinhas. E nada do vestido hediondo, hein? A caminho de casa, ela ligou para o banco e sacou o pouco de dinheiro que tinha, deixando apenas o bastante para manter a conta aberta. Isso, mais seu salário, dava-lhe uma impressão de independência. Ao chegar lá, ela se deparou com Rosina e Cilla rindo e conversando, preparandose para o que pareciam ser férias na praia. — Virginia — disse Rosina, levemente na defensiva. — Por que você está em casa a essa hora? — Fui demitida. O que é isso? — perguntou ela, apontando para o que pareciam ser compras de roupas para as tais férias. — Coisas para as férias, eu e Cilla vamos para Seychelles, e fizemos umas 35


comprinhas. — Jonathan vai ficar feliz com isso? Cilla deu de ombros. — E já que você não está mais naquela cafeteria, pode cuidar das coisas aqui — disse Rosina, animada. — Só que também não estarei aqui. Andre Duchard ofereceu-me um emprego na França enquanto considero meu futuro. O silêncio que se seguiu foi agourento. Quando Rosina se pronunciou, sua voz soava dura: — Se isso é uma piada, não é engraçado. — Estou falando bem sério. Vamos partir dentro de quarenta minutos e vim fazer as malas. — Você... e aquele homem? Que coisa baixa! Sua... Judas! — disse-lhe Rosina. — Pelo menos não vou drenar seus recursos, mãe. — Ginny ergueu o queixo, tentando não olhar para a expressão de ressentimento e descrença de Cilla. Ela não demorou muito, pois suas roupas e outros pertences pessoais mal encheram a mala que ela não havia usado desde os tempos do colégio interno. Ela incluiu também a foto de Andrew com Barney que pegara no escritório dele, algo que apenas ela valorizaria. — Então você está mesmo indo embora, srta. Ginny? E sua mãe está fora de si, falando horrores sobre a senhorita e o sr. Andre. Tem certeza do que está fazendo, minha querida? Ginny tentou sorrir. — Achei que a senhora fosse ficar satisfeita com isso, afinal, sra. Pel, foi a senhora que me disse para abrir asas e voar. — Sim, mas apenas pelos motivos certos. — Farei com que tudo fique certo — disse Ginny, colocando a mala no chão e abraçando a mulher. — Vou escrever, pode deixar. — Mas eu ficarei feliz em ir embora daqui agora. Esta casa nunca mais será a mesma. Enquanto o relógio do corredor começava a anunciar o meio-dia, Ginny ouviu o som de um carro aproximando-se da entrada. Com a cabeça erguida, ela saiu, e fechou a porta. Assim que o avião tinha alçado voo e ela sabia que não tinha volta, Ginny sentouse, rígida, com as mãos juntas no colo, ciente da proximidade da coxa de Andre perto da sua em seus assentos. Lutando contra as memórias que isso lhe trazia. Temendo a conversa inevitável. Mas Andre disse muito pouca coisa. Depois de certificar-se de que ela estava bem aquecida e de pedir café, ele se ocupara com alguns documentos. Logo aterrisaram em Dijon, onde um homem, apresentado a Ginny como Jules Rameau, esperava por eles com uma velha Range Rover, para levá-los a Terauze. Atrás no carro, Ginny sentia uma mescla de cansaço e depressão. A briga com sua mãe fora inevitável, mas ela estava arrependida. Tentaria fazer as pazes com a mãe e a irmã ao voltar para a Inglaterra. Talvez uma ou duas semanas numa ilha ensolarada fizessem com que elas... bem, era mais fácil porcos criarem asas. Quando o carro parou, Ginny sentiu o frio intenso da noite. Ao sair do carro, Ginny foi trazida ao presente. Junto a Andre, andaram em direção à entrada da casa, dirigindose à cozinha, onde Ginny se sentiu envolta por uma abençoada calidez. Além disso, havia o aroma celestial vindo de uma panela de ferro em cima do grande fogão. Ela passou os olhos pela ampla lareira e pela cadeira de balanço ao lado dela, a 36


cristaleira repleta de porcelana, e olhou para o teto, onde havia fios de cebolas e ervas secas pendurados em ganchos. Quando fosse embora, tudo isso lhe seria familiar. Mas agora, Ginny sentia como se tivesse ido parar em outro planeta, e estava com medo... especialmente do que aconteceria durante a noite. Ele disse que me deixaria em paz, pensou ela. Mas como vou saber que ele vai manter sua palavra em relação a qualquer coisa que seja? — Lamento que meu pai não esteja aqui para lhe dar as boas-vindas, mas ele ficará em Paris até amanhã. Eles se acomodaram à grande mesa de jantar, enquanto Jules colocava o cozido em tigelas e Andre enchia taças com um vinho tinto sem rótulo que estava no centro da mesa. — Boeuf bourguignon — anunciou ele, entregando uma tigela a Ginny e sentandose do outro lado da mesa, em frente a ela. — Salut. E bem-vinda a Burgundy. Mesmo cansada, Ginny viu o olhar cáustico de relance de Jules para Andre. Talvez a chegada dela não agradaria todo mundo, e Andre viesse a se arrepender depois. Ela achara que estaria cansada demais para comer, mas a suculenta carne, belamente cozida com vinho, ervas, minúsculas cebolas e cogumelos convenceram-na de que estava errada. O vinho também era incrível, enchendo sua boca com ricos sabores terrosos, acariciando sua garganta como se fosse veludo... ou o toque de um amante. Ela até mesmo comeu um pouco do queijo forte e cremoso depois do cozido, e suspirou ao terminar sua refeição. — A comida estava... supremamente deliciosa — disse ela, e olhou para Jules. — Meus parabéns para o monsieur. Por um instante o homem ficou pasmo, mas então abriu um largo sorriso e disse algo ininteligível a Andre. — Jules está lisonjeado, mas o crédito é da tia dele, que cozinha para nós há anos. Madame Rameau está ocupada esta noite, mas amanhã você a conhecerá — traduziu Andre. Pondo-se de pé e ainda sorrindo, Jules disse: — Bonne nuit, Andre, mam'selle. Et dormez bien, n'est cepas? — Aonde ele foi? — perguntou Ginny a Andre. — Para casa, dormir. Ele mora numa casa na divisa do vinhedo. La Petite Maison é sempre ocupada pelo gerente. Em seguida, Andre pegou o casaco e a mala de Virginia. — Está na hora de você dormir também, Virginie. Viens avec moi. Depois de subirem por uma escadaria elegante com cortinas de veludo, ciente de que estava sozinha com Andre, Ginny engoliu em seco ao ver que ele havia aberto uma das portas duplas ornamentadas ao fim do corredor. Ela entrou no aposento, e deparouse com o maior quarto que já tinha visto na vida. Todos aqueles móveis entalhados, o imenso armoire, a penteadeira e a cadeira, os criados-mudos, o baú de roupas ao pé da cama, tudo era claramente antigo e feito de madeira castanho-escura. Enquanto a cama em si... A cama era gigantesca! Mais do que o dobro do tamanho de sua cama queen size em Barrowdean. Se aquela era a cama de uma rainha, essa seria do quê? De um imperador? Ditador? Era ainda mais imponente com seus quatro dosséis entalhados, sua liteira e suas cortinas com brocados dourados. E totalmente inapropriada para uma única pessoa... — Tenho certeza de que Clothilde lhe providenciou tudo de que precisa. Permitame que lhe deseje boa noite — disse ele. Enquanto ele se aproximava da porta do quarto, ela disse, rouca: 37


— Só um momento. Deve haver algum erro. Este não é o quarto de uma empregada. — Tu as raison. Este é o quarto sempre ocupado pelo baron de Terauze e sua esposa. Por ser viúvo, papa Bertrand dorme em outro lugar. E, embora eu não seja ainda nem baron nem casado, decidi que você dormirá aqui como minha noiva escolhida até que, legalmente, eu tenha o direito de me juntar a você. — O sorriso dele tocava-a como uma carícia por sua pele. — Vivo por essa noite, ma belle. — Mas isso é o equivalente a fazer um anúncio público! Você não pode fazer isso. Ele deu de ombros. — Mesmo assim, está feito. — E quando for confirmado que não tem bebê nenhum e eu voltar para a Inglaterra, o que você fará então? — Só cruzarei essa porta se for necessário. — Quando... não se. Mais uma coisa. Você deixou que pensássemos que você trabalhava num vinhedo! — E trabalho. Duro. Assim como o papa Bertrand e Jules. Se sua mãe queria acreditar que além de bastardo eu era um camponês, problema dela. Mas eu não acho que você foi enganada em momento algum, Virginie. A pele dela ficou cálida quando ela se lembrou claramente do estranho choque de reconhecimento quando abriu a porta para ele e, depois, da bela sofisticação dele fazendo amor. — Jogo baixo aquele... — Vraiment? Achei que fosse do seu agrado, ma mie, descobrir que você não tem que viver num barraco. — Você se engana. Nada em relação a esse... acordo me agrada, nem nunca haverá de agradar-me. — Então esperemos que uma boa noite de sono lhe faça bem. Porque é meu futuro também, não só o seu, e você bem que poderia aceitar isso, assim como eu. À demain. Por um instante, Ginny ficou fitando a porta que ele havia fechado depois de sair, e então fechou a tranca, como se desejasse que a madeira e o ferro virassem uma barreira entre eles. E sentia vergonha até a alma porque percebia que isso era necessário.

CAPÍTULO 7

Ginny acordou devagar, como se estivesse nadando em camadas e mais camadas de um lânguido conforto. Desorientada por apenas um instante, foi tomada pelas lembranças da noite inacreditável. Puxou as cobertas para o lado e pisou no chão, sentindo as placas de madeira do assoalho frias sob seus pés. Pegou seu robe cor de rubi e colocou-o sobre o pijama antes de ir até a janela e abrir as persianas. E ficou ali, imóvel, boquiaberta com a inesperada glória com que se deparou. Havia geado durante a noite e a bola vermelho-dourada do sol do início do dia havia transformado as encostas cobertas de vinhas em chamas ardentes até onde ela conseguia ver. 38


Um contraste bem-vindo com a escuridão de sua chegada. Talvez, de agora em diante, ela fosse ver as coisas com mais clareza em outros pontos também. Porém, o mesmo não aconteceria em relação a falar e ouvir, com apenas seu francês de escola. Mas essa provavelmente seria a menor de suas inadequações, pensou, puxando o robe e estremecendo enquanto olhava pela última vez para o brilho vibrante da paisagem antes de virar-se. Ginny estava a caminho do banheiro quando ouviu alguém bater à porta e chacoalhar a maçaneta. — Quem é? Como se ela não soubesse. — Andre. — Ele chacoalhou a maçaneta de novo. — Abra a porta, Virginie. Relutante, ela abriu a porta, girando a chave na fechadura. Ele entrou e ficou com as mãos nos quadris, com ares sombrios olhando para ela de cima para baixo. — Achei que tivéssemos concordado em confiar um no outro — comentou ele, com frieza. — Então, por que trancar a porta? — Minha primeira noite numa casa estranha. Fiquei... nervosa. E estava nervosa agora. Sentia-se pequena perante ele. — E se tivesse acontecido alguma coisa...? Alors... — Ele pegou a chave da porta e colocou-a no bolso da calça jeans. — Vim dizer-lhe que madame Rameau vai preparar o café da manhã. Espero que você se junte a nós. — Sim, claro, logo estarei pronta. Ele se virou em direção à porta, mas depois se voltou para ela novamente, segurando com os dedos o macio tecido cor de rubi do robe dela. — Eu não gosto disto aqui também. Mais uma coisa que eu deveria ter dito para você deixar para trás, ma mie. E antes que ela pudesse protestar, ele saiu. Bem, embora ela tivesse aceitado o acordo, ainda havia parâmetros a serem estabelecidos. Limites a serem observados. Ela não conseguiu ligar na tomada seu secador de cabelos e teria que descer com os cabelos molhados e lambidos. No momento em que tirou o robe, tremendo de frio e apenas de sutiã e calcinha, Andre entrou no quarto. — Você não sabe bater à porta? — Já vi você com menos roupa que isso — disse ele, enquanto ela cobria a parte de baixo do corpo com a calça jeans na frente. — Não preciso ser lembrada disso. O que você quer? — Achei que você fosse precisar disto — disse ele, jogando um adaptador de tomada ao lado do secador. — Não quero que você acrescente pneumonia à lista de males que estou lhe causando. — Obrigada. — Ela mordeu o lábio. — Isto foi... consideração sua. — Você diz isso, chérie, como se estivesse mascando vidro quebrado. Eu esperava que ficasse mais grata. Gostaria de um sorriso... — Talvez eu não tenha muito do que sorrir. E quanto à pneumonia, eu gostaria de me vestir em paz. — Hélas, posso apenas oferecer-lhe privacidade. Paz, ma mie, é algo completamente diferente. Para nós dois. Somente depois que a porta se fechou Ginny percebeu que estava prendendo a respiração. Após deixar os cabelos parecendo uma cortina brilhante com o secador e a escova, ela sentiu que estava minimamente apresentável. Ao chegar ao andar de baixo, parou na porta da cozinha, ensaiando em silêncio um pedido de desculpas por estar atrasada. Mas, ao entrar lá, viu que os preparativos para o café da manhã aparentemente nem tinham começado. 39


Ginny sentiu uma estranha tensão no aposento que ficou em silêncio, como se sua chegada tivesse interrompido uma conversa. Havia uma mulher perto da lareira, alta, com cabelos curtos e grisalhos. E Ginny se perguntara sobre a falta de semelhança entre ela e Jules. Ginny sorriu e foi cumprimentá-la. — Bonjour, madame Rameau? Comment allez vous? Je suis Virginia Mason. — Madame Rameau — repetiu a outra mulher, surpresa. — Isso é alguma piada? — Au contraire, este é um erro da minha parte, Monique — disse Andre, tranquilo. — Nós não estávamos esperando pelo prazer de vê-la, e mademoiselle Mason achava que iria encontrar Clothilde aqui. Virginie, esta é mademoiselle Chaloux. — E Clothilde, naturellement, está atrasada. Ocupada com alguma emergência médica, sem dúvida. Que prazer inesperado encontrar mademoiselle Mason aqui. Passei aqui, mon cher, para dizer que Bertrand espera que você esteja aqui no fim da tarde. — Que bom, Monique, mas ele me disse isso ontem à noite. — Ah! — Ela se voltou para Ginny. — Au revoir, mademoiselle. Nós nos encontraremos de novo muito em breve. Provavelmente no jantar desta noite. — Non, hélas. — O tom de Andre transmitia um lamento educado. — Hoje à noite pretendemos jantar en famille, para darmos as boas-vindas à mademoiselle Mason. Tenho certeza de que você compreende. — Claro que sim — disse Monique, e foi embora. Ginny ouviu Jules murmurar algo inaudível. Em seguida, foi perceptível o quanto a atmosfera ficou relaxada. Ah, então eu não estava imaginando coisas! — Lamento ter me confundido. Espero que mademoiselle Chaloux não esteja muito chateada. — Ça ne fait rien. — Andre deu de ombros. — Ela e Clothilde sempre tiveram atritos, por vários motivos. O pai da Monique foi o médico daqui durante alguns anos, e ela era recepcionista e secretária dele, que acreditava na medicina ortodoxa e em partos em hospitais para todas as mães. Clothilde, par contraste, é a parteira não oficial do vilarejo, além de preparar remédios com ervas em sua cozinha. Por isso, muitos consultam ela primeiro. Jules disse, com ares sombrios: — Em séculos passados, sans doute, la famille Chaloux teria denunciado minha tia por bruxaria. Andre abriu um sorriso que fez o coração de Ginny bater acelerado. — Eu acho que bruxa é como Clothilde chamaria Monique. Então uma mulher entrou no aposento, carregando uma bolsa de lona e várias baguetes. Ela era o oposto de mademoiselle Chaloux, baixinha, cabelos grisalhos aqui e ali, com seios fartos e quadris largos. — Então ela está aqui... a filha de monsieur ton père? — Sa belle fille. Enteada dele — corrigiu Andre. Ela voltou a ele um olhar arguto de relance, franzindo os lábios, e depois voltou a olhar para Ginny, examinando-a lentamente da cabeça aos pés. — Soyez bien-venue, petite. Asseyez-vous. Rapidíssimo, o café da manhã estava na mesa, com pães e croissants ainda quentes da padaria, geleia de pêssego e de cereja e café au lait servido em xícaras que pareciam tigelas. Enquanto comia, Ginny observava Andre, vendo-o pela primeira vez em seu território. Ouvindo a conversa dele com Jules, vendo seus movimentos. Tudo em relação a ele não deixava dúvida de quem era o chefe ali. E chefe dela também, pensou Ginny, sem prazer. Terminou seu café, e viu, pasma, quando madame Rameau começou a esvaziar a bolsa de lona, descarregando uma caixa 40


de patisserie seguida de tomates, cebolas, um repolho, um punhado de cenouras e um grande frango, junto com jarros e recipientes. — Bem, o jantar parece que vai ser bom — disse Ginny. Andre abriu um largo sorriso. — Só que isso é para o almoço. O jantar será outra coisa totalmente diferente. Ela fechou os olhos. — Meu Deus! Enquanto Andre bebia o restante de seu café, Ginny inclinou-se sobre a mesa e disse a ele, baixinho: — Eu vim aqui para trabalhar. Talvez você devesse explicar meus deveres para que eu possa começar. — Eh bien. Você pode começar vindo dar uma volta comigo. Quero mostrar-lhe os vinhedos. S'il te plait, Virginie. Por favor. Ela ficou ruborizada, sem saber se era pelo tom de Andre ou porque madame Rameau olhava para eles, com ares benignos e as mãos nos quadris. — Vou pegar meu casaco — disse ela, levantando-se. — Mas, antes de irmos, talvez você queira ligar para sua mãe e dizer a ela que chegou bem, sã e salva aqui. — Já fiz isso. Caiu na caixa postal. — Ela não ligou de volta. — Duvido que queira fazer isso. — Ginny desviou o olhar, mordendo o lábio. — Não foi... muito boa... nossa despedida. — Ah... mas pelo menos dê a ela uma chance de fazer isso, ma mie, ou você pode se arrepender. — Você quase lamenta por ela. O que houve? — Eu lamentaria por qualquer um que tivesse virado as costas para o dom da felicidade. O que ele quis dizer com aquilo?, perguntava-se Ginny, sentada na beirada de sua cama para calçar as botas antes de fechar seu casaco quentinho. Estava frio lá fora, o sol agora era um pálido globo no nebuloso céu do inverno. Eles saíram pelos fundos, passando por um jardim que esperava pela primavera. Além dos portões estavam as vinhas, não mais invisíveis pelo fascínio da manhã, mas se estirando, fileiras e mais fileiras delas, até onde ela conseguia ver, plantadas com uma precisão militar. — Você está surpresa. — Bem... sim. Eu não esperava que fosse tão arrumadinho, tão ordenado. — Como diz meu pai, como a escrivaninha dele em seu escritório. Ginny deu-se conta de que Andrew deveria ter estado ali, absorvendo esse mundo diferente. Talvez formulando as decisões que resultaram nas tumultuosas repercussões em sua própria vida. — Também não achei que fosse tão grande. — Temos mais de trinta acres... aqui está plantada Pinot Noir, a uva que é a joia de Burgundy. Daqui produzimos nosso Grand Cru Baron Emile, nosso vinho mais valioso. — Foi esse o vinho da noite passada? Ele riu. — Non, hélas. Aquele era o nosso Bourgogne Villages, também tido em alta conta, especialmente entre donos de restaurantes. — Ele apontou. — E ali cultivamos as uvas Chardonnay para nosso vinho branco, Clos Sainte Marie de Terauze. Mas não espero que você ande até tão longe — disse ele, enquanto voltavam para casa. — Nem que se lembre de todas as informações, espero. Ele é um homem que ama seu trabalho, e mal posso culpá-lo por isso. — Andrew pode ter amado esse refúgio de tranquilidade e charme rurais, mas por 41


favor, não espere o mesmo de mim. — Terauze pode ser charmosa, mas raramente é tranquila. Fazer uma safra maravilhosa exige trabalho duro e grande risco. Não é fácil trabalhar em harmonia com a natureza, quando a natureza frequentemente apresenta tantas resistências. Meu pai veio a entender isso. Veio a desejar fazer parte disso. E ele pretendia que você viesse com ele para partilhar disso também. — Morar aqui? Você quer dizer... com minha mãe e Cilla? — Non. Ele sabia que elas jamais concordariam, então, como você viu, ele fez outros arranjos para elas. — E ele achava que eu simplesmente as deixaria? Não creio... — Ele sentia, peut-être, que elas não mereciam tal lealdade. Queria mostrar a você que há outras possibilidades neste mundo, ma mie. Uma forma diferente de viver. — Que nunca será a minha. Nem creio que eu vá ser punida pelo resto da minha vida por um erro idiota e abominável. — É assim que você se lembra de como foi? Eu não. Certamente não foi sábio, mas abominável? De jeito nenhum. — Não faz diferença. E assim que soubermos que não existe nenhum motivo para que eu fique aqui, voltarei ao meu lar. — Que seria...? — Vou encontrar um. Posso arrumar trabalho e me virar. Não sou como minha irmã. — Você faz injustiça a ela, que nunca tem a chance de se provar... — Que pena que você não a trouxe em vez de mim! — Ela teria recusado. Prefere a segurança de um casamento com o rico monsieur Welburn. — Mas você é rico agora, graças ao Andrew. Poderia ter feito uma proposta a ela. Que com certeza o acha mais do que atraente... — Como a maioria das meninas bonitas, ela gosta de flertar — disse ele, irônico. — Alors, duvido que ela achasse que trabalhar ao meu lado todos os dias, dividir a cama comigo à noite e cuidar de nossos filhos seria tão agradável. — Quando tudo isso acabar e eu me for, você pode procurar alguém para encaixarse em seu plano aconchegante... se essa pessoa existir. — Pas de problème — disse ele, baixinho. — Como você disse, sou um homem rico e tenho que ser realista quanto a essas coisas. D'ailleurs, isso pode não ser necessário. Talvez, après tout, você não vá embora. — Por favor, não conte com isso. Ao alcançarem o topo da colina, fizeram uma pausa, durante a qual suas respirações se misturaram no frio ar. Raiva e outras notas de emoções contidas deram o tom à fala de Ginny: — Obrigada pelo passeio, mas eu tenho que lhe dizer que uma vinha se parece muito com a outra para mim. Eu gostaria de voltar agora. — Como desejar, embora haja uma última coisa que eu gostaria que visse. — Quer dizer que perdi algo? Mal posso esperar! — Sarcasmo e você não combinam. Ele a pegou pelos ombros... e ela sentiu o pânico dentro de si, pois não podia permitir que ele a tocasse. Ela não se atreveria... Mas em vez de puxá-la para si, Andre virou-a de frente para a direção de onde tinham vindo, e ela viu, como uma joia protegida pelas colinas do bosque, um amplo e magnificente retângulo de pedra cor de cinza, com o telhado inclinado num vermelho desbotado, e uma torre alta em cada canto. — Meu Deus, não é apenas uma casa! É um castelo! Como num conto de fadas! — O Château Terauze. Eu gostaria que você o visse pela primeira vez daqui. 42


Ela fez um gesto ao seu redor. — Então, além de herdeiro de Andrew, você deverá herdar tudo isto também. — Mais oui, porém somente daqui a muito tempo. Papa Bertrand está bem e forte. — Seu... pai adotivo, ele sabe de mim? — Bien sur. Ele ouviu muito ao seu respeito pelo próprio Andrew. — Andrew falou de mim... aqui... e com ele? — Ela desviou o olhar. — Tudo isso estava acontecendo... e eu não fazia a mínima ideia. Inacreditável! Como ele e monsieur Duchard se tornaram tão amigos? — Você quer dizer quando eles se apaixonaram pela mesma mulher? Muito devagar... Até mesmo quando eu era criança, conseguia notar a estranheza nas visitas do meu pai. Eu via que a minha mãe achava as visitas dele difíceis, às vezes quase insuportáveis. — Então por que ela permitia isso? — O senso de honra dela. Não aceitava dinheiro dele, mas concordou que ele tinha o direito de ver a criança. Além disso, era grata porque ele não se opôs ao desejo de Bertrand de me adotar quando se casaram. — Parece uma situação terrível, mas não entendo por que ela optou por vir para cá. — Minha mãe tinha uma amiga em Terauze que era sua correspondante dos dias de escola. Ambas se visitavam, mas minha mãe adorava aqui e vinha várias vezes depois da escola ficar com a amiga e ajudar a colher uvas. Era como o seu segundo lar. Alors, quando precisou de ajuda, ela veio até aqui encontrar refúgio onde podia pensar com calma e sem pressão no futuro dela e do filho. Ginny mordeu o lábio. — A história parece estar se repetindo. — Au contraire. Você não veio até aqui para se encontrar sozinha. Minha mãe não teve tanta sorte assim. Ela descobriu que, um ano antes, a amiga dela tinha se mudado para Provence com a família, sem deixar endereço. — E o que ela fez? — Ela estava com dinheiro para pagar a estada no auberge por uma ou duas noites, mas, no caminho, quase desmaiou e sentou-se nos degraus da igreja para recuperar-se. Papa Bertrand estava de passagem em seu carro, reconheceu-a e insistiu em trazê-la de volta para o Château. — Ele se lembrou dela dos dias em que colhera uvas? Andre sorriu. — Ah, mais do que isso. Eles conheciam bem um ao outro. Quando criança, ele a provocava. Quando ela era uma menina, ele se apaixonou por ela. E, quando ela, uma mulher, voltou, ele estava determinado a fazer dela sua esposa e criar o filho dela como se fosse dele. — Andre fez uma pausa. — Mas não foi fácil convencer o pai dele. — E ela não queria causar problemas para a família. — Ginny suspirou. — É compreensível. — Ele se mudou do château para La Petite Maison, onde eu nasci, mas, tristemente, o pai dele recusou-se a aceitar o casamento até o dia em que morreu. E, por um bom tempo, minha mãe não queria mudar-se para o château, pois tinha lembranças infelizes de lá. O lado negro do conto de fadas, pensou Ginny, estremecendo. — Está com frio? Vamos voltar para a casa... mas ainda não. Antes que ela percebesse a intenção de Andre, ele a virou para si, puxando-a para seus braços e buscando sua boca. O céu e a terra estremeceram com o prazer que ela sentiu com a pressão do corpo dele, a insistência dos lábios abertos dele no beijo pelo qual ela ansiava e que fez com que percebesse, num momento devastador, que ela não resistiria a ele, nem, para sua 43


eterna vergonha, queria fazer isso. Mas então ele a soltou, e recuou como se nada tivesse acontecido. — O que foi isto? — Digamos... boas-vindas ao meu mundo. — Seu mundo. Mas não meu. Ginny virou-se e começou a descer a inclinação, resistindo à premência de sair correndo, com vontade de chorar, pois não poderia se dar o luxo de cometer tal autotraição. Ela não haveria de derramar uma lágrima antes de deixar Terauze para sempre.

CAPÍTULO 8

Quando Ginny voltou, a cozinha já começava a ficar repleta com o aroma maravilhoso de frangos e legumes sendo cozidos, mas ela não se demorou correu para o quarto, tentando, sem sucesso, tirar a mente daquele momento agonizante de desejo que devastava suas defesas contra Andre. Seria loucura expor-se a tal perigo. Mais loucura ainda fingir que o perigo não existia. Enquanto Ginny estava perdida em pensamentos, Andre entrou, o rosto com ares de preocupação e sem sorrir. — Você já falou com sua mãe? — Ela não responde. Vou tentar de novo mais tarde. — Vai perder seu tempo. Monsieur Hargreaves também está tentando encontrá-la. Ele quer arranjar as coisas para que Barrowdean esteja vazia para os novos inquilinos. E ele ficou sabendo que ela partiu de férias para Seychelles com sua irmã, e está incomunicável. — Andre fez uma pausa. — Você sabia disso? Ginny mordeu o lábio. — Bem, sim, mas eu não fazia ideia de que ela partiria tão cedo. Ou, o que era mais preocupante, que não deixaria detalhes sobre sua viagem. Andre franziu o cenho. — Decisão curiosa a dela. Sua mãe entende plenamente os termos do testamento do meu pai? As implicações financeiras para ela? — Creio que sim. — Ginny ruborizou-se. — Mas você também tem que entender como tudo foi estressante para ela... a perda de Andrew e tudo que veio em seguida... — Incluindo a minha decisão de vir para cá. — Provavelmente ela estava desesperada demais para ter um tempo longe disso tudo e considerar os custos. — Então ela deveria fazer do jeito certo — disse ele num tom seco. Após uma pausa, continuou. — Mas você não quis ir com elas... Ginny desviou o olhar. — Isso nunca foi uma opção. Eu... precisava encontrar trabalho permanente. Ainda preciso, claro. — Então sua estadia em Terauze é seu próprio... tempo para pensar, peut être? — Não... está mais para ficar entre a cruz e a espada. Mas eu vim para trabalhar, então, se você me explicar a rotina, posso começar. — Sem pressa. Primeiro se acostume com um novo país e uma nova vida. — Mas eu quero fazer minha parte. Preciso que você saiba que seu dinheiro está 44


sendo bem gasto. Ele abriu um sorriso malicioso. — Vraiment? — disse ele, com a fala arrastada. — Então só é preciso que minhas roupas sejam trazidas para este quarto e tudo se arranja. — Tudo se arranja nada, nem aqui nem no inferno! — Ficava difícil parecer confiante quando ela estava ficando novamente ruborizada. — Não tenho a mínima intenção de dormir com você. — Acredite em mim, ma belle, dormir também não era meu propósito — disse Andre, rindo. — Mas, se você insiste, posso esperar até que seja minha esposa. — Outra coisa que também não vai acontecer. — Alors, se você quer fazer alguma coisa, então desça e faça um pouco de café e nós podemos bebê-lo enquanto conversamos. — Não quero café... e preciso arrumar meu quarto. — Mesmo que tenhamos coisas a serem ditas? Perguntas a fazer? — Mesmo assim. Não quero... dar mais trabalho para a madame Rameau. — Como desejar. Então nos encontraremos de novo a midi et demi, para almoçar. Assim que ele se foi, Ginny pegou o celular e ligou para os Welburn. Para sua surpresa, quem atendeu foi Jonathan, pasmo com a ligação dela. — Onde você está? — Na França — disse ela, animada demais. — Visitando a outra família do Andrew. Mas eu preciso urgentemente falar com minha mãe e com Cilla e não consigo lembrar o nome do hotel delas. Você sabe? — O advogado de vocês já me fez essa pergunta, e não sei. Sua irmã deixou-me uma mensagem curta e sem informação. E a sra. Pelham disse que nem Cilla nem sua mãe deixaram telefones. Então, estamos todos no escuro. — Creio que foi tudo de última hora e às pressas — disse Ginny, desconfortável. — Receio que isso não me sirva de consolo. Ainda mais quando eu e Cilla estamos para nos casar em poucos meses, mas condiz com o tudo o que anda acontecendo. Agora, com licença, estou de saída. O que levara sua irmã a afastar-se do mundo e de seu noivo, acima de tudo? Todos os acontecimentos... As palavras soavam infelizes. Claro que Andre nunca admitira ter tido alguma ligação íntima com Cilla, mas não havia negado a atração mútua que começara no jantar e... Mas como Cilla podia... enquanto amava Jonathan? Talvez ela não conseguisse evitar. Como eu. Se Andre cumprisse com sua parte no trato, logo, como esperava e rezava para que acontecesse, ela estaria de volta para uma nova vida e carreira que valesse a pena. Ela baixou o olhar para sua barriga, pensando que o destino não haveria de pregar uma peça feia dessas nela. Para esquecer a situação, Ginny pôs-se a ler um livro. Mais tarde, quando voltou à cozinha, ela viu que o almoço parecia delicioso. E estava, pois comeu todas as porções generosa que lhe foram servidas, e ainda encontrou espaço para uma grande fatia de tarte tatin, sob o olhar indulgente de madame Rameau. Para ela, Ginny era tão magra, que uma brisa a levaria, enfin, que um homem gostava de uma mulher que ele sentisse enquanto a tinha nos braços. Era óbvio a que homem ela se referia, pensou Ginny, evitando o olhar irônico de relance de Andre, do outro lado da mesa. Ficou furiosa porque ruborizara de novo, como se estivesse disputando o recorde de passar vergonha. Quando o almoço terminou, Andre disse: — Tenho que voltar a Dijon esta tarde, Virginie, então você não precisa esconderse em seu quarto de novo. Clothilde acendeu a lareira para você no petit salon, que é mais confortável. Lá estão também alguns livros da minha mãe. Escolha o que quiser. 45


— Obrigada. — A menos que você queira vir comigo. Talvez goste de ver Dijon à luz do dia. Pode ser agradável e... — Bondade sua, mas não. — Como desejar. — Au revoir. Assim que ele foi embora, madame Rameau recusou qualquer ajuda com a limpeza, e levou Ginny até o baronial salão da entrada, onde havia uma imensa lareira, que facilmente acomodaria um boi na ponta, enquanto o centro do salão era ocupado pela maior mesa que ela já vira na vida, cuja extensão era medida por uma série de elaborados candelabros de prata. Se o jantar fosse servido ali, qualquer conversa teria que ser feita aos gritos. E o petit salon não era nem um pouco pequeno, embora os móveis fossem mais surrados do que chiques. Mas a sala era convidativa, com o pálido sol entrando pelas longas janelas e lenha estalando na grade. No centro do consolo da lareira havia um relógio bem antigo, dois belíssimos castiçais de porcelana e uma fotografia num porta-retratos de prata. Uma foto de família, tendo no centro uma mulher esguia, de cabelo escuro e olhos castanhos, cujas feições tranquilas eram iluminadas por um brilhante sorriso. Sua mão repousava sobre o ombro de um adolescente. Atrás deles, um homem de ombros largos, protetor. Até mesmo nessa idade, Andre era inconfundível. E vendo a mãe dele, Ginny entendeu o que a sra. Pel dissera: ela não era nenhuma beldade, mas sua doçura reluzia. Por seu lado, Bertrand Duchard, que Ginny haveria de conhecer naquela noite, tinha um rosto duro, que parecia dizer “não mexa comigo!”. Então ela decidiu que, antes de deixar Terauze para sempre, daria a Andre a foto de Andrew que ela havia levado consigo. Afinal de contas, Andrew realmente desejara estar ali, e não em sua bela e luxuosa casa... nem em seu casamento... Rosina muito provavelmente não teria ido para Terauze, mas era esposa dele, e certamente merecia ter sido consultada. Ainda assim, por algum motivo insondável, Andrew acreditava que aqui seria meu lugar. Ó, céus, por quê? Ela pretendia continuar lendo seu thriller, mas o livro estava lá em cima. Então, ela foi até a estante para encontrar outra coisa para ler, em meio à profusão de Dickens, Hardy, Tolkien e modernas histórias de detetives, junto com um pouco de ficção literária. Ali ela achou Madame Bovary, de Flaubert, assim como vários romances de Honoré de Balzac e Dumas tanto no original como em suas traduções em inglês, além de uma gramática de francês bem folheada, sugerindo que a falecida madame Duchard estivera melhorando seu conhecimento do idioma adotado. Ambição que não pretendo seguir, pensou Ginny, determinada. Seria como sentirme em casa... o que não estou nem nunca estarei. Em casa. No fim das contas, por pura nostalgia, ela escolheu O Hobbit e foi até o confortável sofá em frente à lareira. Mas talvez conhecesse bem demais a história, pois, depois de um tempinho, sua mente divagava, e ela fechou os olhos um pouco. Quando os abriu novamente, ficou alarmada ao ver a sala escura e a lenha na lareira transformada em cinza. Meu Deus! Devo ter dormido por horas!, pensou Ginny, levantando-se. E havia sonhado. Sonhara que estava de volta em Barrowdean, caminhando em meio a uma série de salas com as quais não era familiarizada, buscando algo desesperadamente. Por fim, ouviu o eco de um latido ao longe e, chamando por Barney, começou a correr. Devo ter dito o nome do cão em voz alta, e foi isso que me acordou. 46


Só que ela ouviu o latido de novo, animado e próximo. Ela se virou e ficou encarando a porta, que se abriu e alguém acendeu a luz. Então Barney estava ali, jogando-se para cima dela e lambendo-a. Não era um sonho! — Barney. Oh, menino querido! Ela saiu do sofá e ajoelhou-se no tapete com os braços em volta do animal, o rosto molhado por incontroláveis lágrimas. Ela olhou para Andre, na entrada, cuja expressão era inescrutável. — Oh... como você o encontrou? — Ele nunca esteve perdido. Ou você achava que eu o deixaria na Inglaterra? — Mas... e as vacinas, papelada...? — Meu pai cuidou disso. Só tive que mudar as datas da coleta e do voo dele. — Ele veio de avião? — Bien sur. Há empresas especializadas. — Eu não sabia! Achei que nunca mais fosse vê-lo de novo. Você poderia ter me dito. — Você poderia ter me perguntado. Alors, foi Marguerite quem me contou da sua aflição com o ultimato da sua mãe. Não você. Ela ficou ruborizada. — Minha mãe nunca gostou de cachorros. E achei que você não se importasse... — Tem muito que aprender... Você dormiu? — Bem... sim. Andre estalou os dedos e Barney foi até ele, com o rabo batendo como um metrônomo, como ele sempre fazia com Andrew, forçando Ginny a morder o lábio com força. — Não tenho como lhe agradecer. — Vraiment? Eu posso pensar em vários modos prazerosos de você me agradecer e... Ela ficou ainda mais ruborizada. — Com esses comentários você não facilita as coisas para mim... — E, quando você for minha esposa, espera que eu segure a língua ou poderei dizer a você o quanto a desejo e como pretendo dar-lhe prazer na cama? Ela ficou sem fôlego e sentiu uma onda de tremor com o que e como ele disse. Rapidamente, ela se recompôs. — Apesar de você ter a certeza de que este casamento vai acontecer, não posso dizer o mesmo. — Declarou ela, curta e grossa. — C’est ce que nous verrons — disse ele, sorrindo. — Isso, ma mie, é o que vamos ver. Ele se virou e saiu, com Barney ao seu lado. Ela acompanhou os dois até a cozinha. — Ele teve um período traumático — disse Ginny. — Viagem de avião e agora num lugar estranho... — Mas não com estranhos. — Andre curvou-se para acariciar as orelhas de Barney, gesto de que ele se lembrava. — E a menina que o acompanhou disse que ele era um viajante nato. — Mesmo assim, acho que seria melhor que ele ficasse aqui esta noite, para acalmar-se. — Não há necessidade disso, ma mie. Ele também faz parte da família agora e vai jantar conosco. Droga!, pensou Ginny. Não posso dizer que estou cansada, visto que dormi quase a tarde toda, e se eu reclamar de dor de cabeça, ele provavelmente terá um armário cheio de analgésicos. Ao que parece, terei que fazer o melhor nesse jantar en famille, mesmo querendo estar a quilômetros daqui. Viajando, sem parar, até chegar a um 47


lugar onde a vida seja simples de novo. E ela sabia, com uma dor no coração, que sua ambição não seria assim tão fácil de se realizar. Ginny raramente usava maquiagem, mas precisaria disso, já que sua roupa mais respeitável era a saia cinza que usara no funeral de Andrew, dessa vez com um suéter de gola alta cinza-claro. Não exatamente roupa de gala, mas melhor do que aquele vestido... , pensou ela passando blush e destacando seus olhos com sombra prateada e um lápis cinza. Seu único batom tinha uma cor neutra entre o cor-de-rosa e o bege, mas teria que servir. Passando um pouco de perfume, ela se olhou de relance no espelho e desceu. Jules estava sentado à mesa e olhou para Ginny surpreso, depois para Andre, seus lábios formando um assovio silencioso. Andre abriu um largo sorriso em resposta, num daqueles momentos em que homens se conectam e as mulheres tanto adoram, pensou Ginny, perguntando-se se seu decote não estava um pouco baixo demais. — Papa espera por nós no grand salon. Nesta noite, o Château Terauze está en fête em sua honra, ma belle. Andre estalou os dedos e Barney saiu de sua cesta para juntar-se a eles. Repentinamente nervosa, Ginny pensou em dizer algo e o que saiu foi: — Jules tem namorada? — Uma nova a cada semana. Por quê? Quer juntar-se à lista? Ginny pensou em como ele reagiria se dissesse que sim, mas resolveu não se arriscar. — Pular da frigideira para o fogo? Não, só estava... curiosa. — Você não é a única. Segundo Clothilde, a mãe dele está desesperada achando que não viverá para ver os netos. — Ela está muito doente? — Só na cabeça dela — disse Andre, lacônico. Ginny riu, ele sorriu, e pegou na mão dela, de leve, mas ela sentia a mão dele em cada curva e cavidade de seu corpo, como se estivessem novamente nus, seus corpos juntos na suprema intimidade. No ato de loucura que a levara até ali. Então ele empurrou e abriu uma porta e Ginny viu o salão imponente, com papel de parede de seda em tom pastel e cadeiras formalmente agrupadas e pequenos sofás, totalmente diferente do le petit salon quanto possível. Na verdade, era mais uma exibição de uma era passada do que uma sala de estar. Até mesmo o fogo parecia elegante, ardendo modestamente em sua elaborada lareira de mármore. E, ao lado dela, languidamente ocupando uma das poltronas, de pernas cruzadas, parecendo que Chanel inventara o vestidinho preto apenas para ela, estava Monique Chaloux. Por um instante, Ginny sentiu os dedos de Andre apertarem os dela, e depois ele a soltou enquanto o homem que estava do outro lado da lareira vinha à frente, sorrindo. Ele tinha estatura mediana, ombros largos, cabelos prateados, mas ainda podia ser reconhecido por aquela fotografia. — Andre, mon gars — disse ele, com afeto genuíno, e abraçou-o. Enquanto Andre respondia com igual calidez ao cumprimento de seu padrasto, Barney foi explorar os novos arredores. — Mon Dieu. — Mademoiselle Chaloux pôs-se de pé. — Um animal desajeitado e sujo no belo salon do baronne Laure? — Ela olhou para Ginny. — O cachorro é seu, mademoiselle? — Era do meu pai, Monique, logo ele é meu. E tem perfeitos modos. 48


O comentário foi estragado por Barney, que rosnou para sua detratora. Mademoiselle Chaloux encolheu-se. — E perigoso também. Bertrand... eu insisto para que o animal use uma focinheira. — Por favor, não — pediu Ginny. — Ele nunca rosnou para ninguém antes. — Nem mesmo para Rosina em seus piores momentos, pensou ela. — Verdade. Ele está tendo um dia difícil. — Quelle bêtise — disse a mulher, bufando. Bertrand Duchard estendeu a mão para que Barney a cheirasse. — Eu não diria que ele é perigoso. É mais... um novo amigo que precisa de um tempinho. — Ele se voltou para Ginny. — E agora, mademoiselle, permita-me dar-lhe as boas-vindas. Je suis enchanté de faire votre connaissance. Não tão encantado assim, pensou Ginny, ciente de que o sorriso dele não estava mais refletido em seus olhos. — O senhor é muito bondoso, monsieur le Baron. Sua casa é muito bonita. — Você ouviu falar dela, talvez, do seu beau-père? — Não, ele nunca a mencionou. Depois de um silêncio, o baron inclinou a cabeça, cortês. — Então que bom que nos conhecemos, por fim, como ele desejava. Andre, certifique-se de que a estada dela conosco seja agradável. Burgundy, mademoiselle, tem uma fascinante história e uma bela arquitetura. — Ele se voltou para mademoiselle Chaloux. — Toque o sino, por favor, Monique, e Gaston trará os aperitifs para brindarmos à nossa visitante. Tudo isso soava muito hospitaleiro e agradável, mas Ginny não se deixou enganar. Ele não me quer aqui, pensou ela, tristemente se dando conta de que seu lar não era mais em lugar nenhum.

CAPÍTULO 9

O silêncio que se seguiu foi por fim quebrado pela voz cortês do baron. — Sua mãe e sua irmã estão bem, mademoiselle? — Sim, obrigada. Elas saíram de férias por um tempinho. — E por que você não foi com elas? — perguntou-lhe Monique Chaloux. Ginny ficou mais do que tentada a dizer “Não, porque não tenho nenhum centavo e o futuro baron acha que talvez ele tenha me engravidado”. Mas ela se controlou, nobremente, e disse: — Não, não dessa vez. Então a porta abriu-se e um homem de ares solenes entrou, carregando uma bandeja com taças cheias de algo cor-de-rosa e borbulhante. — Merci, Gaston — disse o baron. — Já experimentou o Kir Royale, mademoiselle? — Sim, e adorei. Crème de cassis e champanhe. Maravilhoso. — Ah, mas esse não é champanhe — apressou-se a dizer Andre. — Nosso cremant du Bourgogne é feito de um método similar, mas o nome “champanhe” só pode ser usado para o vinho que vem de sua própria região em torno de Epernay. As regras são rígidas. Ginny franziu o cenho. 49


— Não tinha me dado conta de que isso podia ser tão complexo. — Nós nos orgulhamos muito de nossa indústria, e do que cada região tem a oferecer. E o crème de cassis também é feito em Burgundy. — Andre ergueu sua taça. — À votre santé. Depois do brinde, Ginny sorveu um gole e sentou-se na cadeira que lhe foi oferecida, descobrindo que era tão desconfortável quanto parecia. Talvez aquele monte de roupa volumosa servisse como amortecedor, pensou ela. Ginny olhou de novo ao redor. Havia vários quadros com molduras douradas como os móveis, na maioria paisagens, com a exceção do retrato de uma mulher sobre a lareira. Uma mulher austera, uma beleza um tanto quanto fria, com os negros cabelos puxados para trás num coque, e o décolleté de seu vestido vermelho-escuro mostrando um elaborado colar do que pareciam ser rubis. — Você está admirando a baronne Laure, a mãe do monsieur Bertrand — disse Monique Chaloux. — É uma tradição de Terauze que um retrato da baronesa sempre seja pendurado nesta sala. Infelizmente, parece que notre chère Linnet jamais consentiu em ser pintada. — Minha esposa era uma mulher muito modesta. — Mas é claro que sim — concordou rapidamente mademoiselle, mas Ginny interpretou aquilo como um e havia tanta coisa de modesta nela, o que a irritou. — Certamente não é tarde demais. Há uma fotografia adorável dela na outra sala de visitas. Alguém poderia pintar um retrato a partir da foto, não? — Etpourquoipas? — retrucou Andre. — O que você acha, Papa? — Que seria adorável ver minha querida lembrada de tal forma. Ele olhou para Ginny sem disfarçar sua surpresa. — Merci, mademoiselle. Excelente ideia. — Bravo — disse Monique, deixando Ginny com a desconfortável impressão de que ela acabara de fazer uma inimiga. Ela ficou bem feliz quando Gaston os chamou para jantar numa sala bem mais aconchegante, decorada com tapeçarias de cenas medievais de caçada, cuja figura central era um homem alto com um grande nariz meio torto e roupas que reluziam com ouro. — Philippe Le Hardi. Duque Philip, o Ousado — disse-lhe Andre baixinho. — Um homem incrível, regente de França, com feitos e gastos lendários. Morreu pobre. — Mas nós nos lembramos dele por seu interesse na indústria vinicultora, e pelas medidas que tomou para proteger sua qualidade, o que levou, com o tempo, ao sistema Appellation Contrôlée. Monique Chaloux jogou as mãos para cima. — Misericórdia, messieurs. Vocês esquecem que mademoiselle Mason não é Dominique Lavaux e que essa conversa sobre vinho vai deixá-la entediada. Vamos falar dos nossos planos para entretê-la enquanto ela passa um tempo conosco. Você arrumará tempo para visitar uns lugares, n’est-ce pas? — Assim que a poda terminar, e começando, creio eu, com Beaune. Isso lhe agradaria, Virginie? — perguntou-lhe Andre. — Obrigada, mas isso não é necessário. Você tem trabalho a fazer e tenho muita coisa para ler, além de levar Barney para passear. Ficarei bem. Monique Chaloux bateu palmas. — A hóspede perfeita. Mas não Dominique Lavaux, pensou Ginny, imaginando quem seria ela. A refeição, servida por Gaston, começou com consommé, seguido de peixe defumado com um molho cremoso e bife grelhado, servido com gratin dauphinois e ervilhas. — Melhor bife do mundo — disse Bertrand com satisfação. 50


O jantar foi encerrado com crème brülée e uma seleção de queijos locais. — Que refeição maravilhosa — disse Ginny com um suspiro. — Não melhor do que aquela que você me serviu — declarou Andre, sorrindo, do outro lado da mesa. E ela se deu conta de que não havia nenhuma ponta de zombaria no sorriso dele. Ao contrário, o sorriso a hipnotizava e tornava difícil para ela pensar ou respirar... — Não deixe que Gaston o escute, Andre. — A voz de Monique quebrou o encanto. — Ou ele pode contar à esposa e nossos estômagos sofrerão por isso. Vamos tomar café no salon? — Iremos depois. Preciso falar com meu filho sobre o chato assunto de vinho. O café, embora forte e delicioso, foi servido em minúsculas xícaras que mal se equilibravam nos pires, enquanto Ginny, por sua vez, equilibrava-se na beirada de uma frágil cadeira. Um movimento em falso e o estofado de cetim da baronesa nunca mais seria o mesmo. Por um tempinho o silêncio reinou, exceto pelos estalidos da lenha na lareira e os fracos roncos de Barney, deitado no tapete. Até que Monique se pronunciou: — Diga-me, mademoiselle, quanto tempo pretende ficar em Terauze? — Não sei ao certo. — Então posso lhe dar uns conselhos? A não ser que tampasse a boca da mulher e a derrubasse no chão, Ginny não via como impedi-la de falar. Então, murmurou algo que soava como consentimento. — Se você tem algum sonho romântico em relação a monsieur Andre, abandone-o agora. — A voz de mademoiselle soava baixa, quase intensa. — Ele pode ser charmoso, e as mulheres o acham atraente. — Ela contorceu a boca num rosnado. — Algo de que ele se aproveita totalmente, embora prefira louras. Mas nunca a sério, nem por muito tempo. Talvez nisso ele seja como o pai biológico. — O sr. Charlton era um bom homem. Creio que ele realmente amava a mãe do Andre. Além do que, um caso não faz de um homem um sedutor compulsivo. Quanto a Andre, a vida particular dele não é da minha conta. Ou talvez eu também não o leve a sério. — Vous avez raison. Casamento é algo sério, e Andre não é do tipo que daria um bom marido. — Ela examinou suas unhas imaculadas. — Você deve entender que sua esposa precisará ser uma moça discreta, do próprio mundo dele, que também possa contribuir para o domaine. — Para a minha felicidade, não tenho nenhum interesse em estar casada — disse Ginny baixinho. — Então por que, com a morte do monsieur Charlton, você aceitou esse convite? A pergunta de um milhão de dólares. — Talvez porque eu também precisasse ficar longe do trauma das últimas semanas. E admito que fiquei curiosa em relação a essa parte da vida do meu padrasto, mademoiselle. — E quando sua curiosidade estiver satisfeita? — Pretendo voltar para a Inglaterra. E rezar em silêncio para que nada a impedisse disso, ou que pelo menos convencesse Andre disso. Monique Chaloux assentiu, parecendo satisfeita. — Você é sábia. Quaisquer que fossem as esperanças de seu beau-père, mademoiselle, não há nada para você aqui, exceto, talvez, um coração partido. Permitame oferecer-lhe mais café. Ginny recusou, educada. Ela havia acabado de comer uma refeição deliciosa, mas 51


se sentia oca por dentro como se tivesse feito jejum por uma semana. Estava abalada também. O que era ridículo, porque tal revelação não era de se esperar? Devo ter sido uma de suas conquistas mais fáceis, pensou ela amargamente e com autorrepulsa. E presume-se que essa tal de Dominique Lavaux tenha todos os atributos necessários de uma futura baronesa, mesmo que eu esteja temporariamente ocupando a cama dela. Quando a porta se abriu e os homens entraram, Ginny sentiu em seu corpo um choque de necessidade, e sabia que não era de se admirar que as mulheres sucumbissem à pura força da atração de Andre. O que não deixaria que acontecesse com ela. Não outra vez. Enquanto observava Barney entre as pernas de Andre, a quem agora o animal devotava fidelidade, ela se sentiu mais sozinha do que nunca. Todos se retiraram logo depois, e, para o alívio de Ginny, Andre também não parecia querer se demorar ali. — Você está muito calada — observou ele enquanto entravam na cozinha. — Monique deixou você entediada falando do bom gosto da baronesa para móveis? — Não, mas ela deve ter achado que era uma causa perdida. Os móveis podem ser valiosos, mas prefiro conforto. — Certamente custaram caro. Papa me disse que uma das poucas vezes que vovô perdeu a paciência com a baronesa foi quando descobriu que ela havia sido enganada e comprado uma imitação por preço de original. Heureusement, esse foi o fim da incumbência dela com a decoração de interiores. — Andre sorriu para Ginny. — Mas se você tiver alguma ideia para melhorias no château, eu adoraria ouvi-las. Ginny mordeu o lábio. Ele estava falando de uma situação que não poderia... que não deveria existir, Ginny pensou, com ressentimento. Agindo como se eles fossem um casal de verdade, apaixonados, planejando seu futuro lar. — Fiquei surpresa ao ver mademoiselle Chaloux aqui esta noite. — Eu não. Monique tem seus próprios motivos obscuros... — Ela é uma amiga íntima? — Sim, mas também uma empregada. Alguns dias da semana ela mantém os registros da casa e do domaine e cuida das contas, tudo com grande eficiência. — Ele fez uma pausa. — Além disso, ela espera casar-se com papa Bertrand. — Oh. — Ginny engoliu em seco. — Você acha que isso vai acontecer? — Eu tento, ma belle, não pensar nisso, mas sinceramente acredito que ela ficará desapontada. — Na nossa conversa, ela mencionou Provence. Não foi lá onde a amiga da sua mãe foi morar? — Mais oui. Monique era a amiga em quem mamãe erroneamente confiava. Ela ficou em Provence até umas poucas semanas depois do funeral da minha mãe, depois voltou sozinha para cá. Presume-se que ela tivesse outra correspondante que a mantinha informada. Ginny ficou boquiaberta. — Você quer dizer que... ela esperou para voltar depois que sua mãe estava morta? — Ela não teria por que voltar enquanto mamãe estava viva. André fez uma pausa. — Clothilde sempre disse que Monique, quando jovem, se jogava em cima do papa constantemente, e saiu de Terauze com os pais apenas quando se deu conta de que o coração dele já pertencia à amiga inglesa. — Ele curvou a boca com desdém. — Não se deve aceitar tão prontamente as referências de mademoiselle sobre notre chère Linnet. — E eu não aceito. Gostaria de perguntar outra coisa. Eu entendi errado ou Gaston 52


é mesmo casado com madame Rameau? — C’est incroyable, n’est ce pas, mais c’est vrai. E eles têm três filhos crescidos, casados, com famílias, dois em Dijon e um em Lyon. — Céus... — Você, ma belle, está pensando coisas indecentes. — Ele tirou o casaco, pendurou-o na cadeira e foi até o fogão. — Du café? — Não, obrigada. Vou dormir. — Ainda é cedo — disse ele. — E ainda quero conversar com você. Vou me juntar a você no petit salon, e vamos tomar um digestif juntos. S’il te plaít, Virginie. Relutante, Ginny saiu da cozinha e foi até o salon, onde o fogo da lareira deixava o ambiente deliciosamente aconchegante. Quando Andre entrou, ele carregava uma garrafa de brandy e dois copos em que serviu doses generosas da bebida antes de sentar-se ao lado dela. — A la tienne — disse ele, erguendo seu copo num brinde. — Eh bien, o que mais disse Monique que a deixou tão pensativa? — Algo que eu já sabia. Que aqui não é meu lugar e que eu deveria ir para casa. Depois de um tenso silêncio, Andre disse: — Quanta bondade da parte dela interessar-se com seu bem-estar mal a conhecendo. — Talvez ela também esteja falando pelo monsieur Bertrand, que claramente não ficou feliz com a minha presença aqui. Andre deu de ombros. — Peut-être ele tenha ficado surpreso. Ginny tomou um pouco de brandy, apreciando o sabor. — Mesmo assim, quero acabar logo com esta visita. — Não até que a situação entre nós esteja resolvida. Como você concordou. — Isso foi antes de saber como seria difícil manter o acordo. Eu não gosto de enganar as pessoas e não consigo tratar isso tão levianamente quanto você. — Você se engana, estou levando a sério. — Nesse caso, por favor, deixe-me ir para casa. — Casa? Que casa? Sem respostas vagas. Onde você vai morar e como vai viver? As palavras dele tocaram em seu ponto fraco, lançando-a em águas perigosas. — Você quer dizer, como vou sobreviver agora que não tenho mais Andrew para pagar minhas contas e me alimentar? — questionou ela em tom de desafio. — Era assim que você o via? Mas Ginny não trairia a memória de Andrew. — Não, claro que não. Eu o amava, e achei que ele gostasse de mim, de nós. A voz dela ficou embargada e ela desabou num pranto incontrolável pela morte de Andrew. Ela mal notou quando Andre pegou o copo de sua mão. Ele a abraçou e ela sentiu sua face entre o pescoço e o ombro dele, os lábios dele em seus cabelos enquanto a abraçava. Sentiu a calidez, o cheiro de sua pele, o infinito conforto de sua mão movendose com gentileza pela coluna dela. — Você não deve chorar mais. Meu pai era um homem que tinha amarguras na vida, mas, por favor, acredite, você não era uma delas. Mas as lágrimas dela não eram facilmente interrompidas, e ela se agarrou a ele, puxando-o com desespero, como se precisasse ser absorvida, consumida. Uma oferenda muda de todo seu ser. Ela o ouviu murmurar algo com a voz rouca, então a mão de Andre estava sob seu queixo, erguendo seu rosto, e os lábios dele encontraram os dela, abrindo-se para a irresistível invasão de sua língua. O beijo foi intenso. As mãos dela exploravam os músculos já conhecidos do corpo 53


de Andre, acariciando-os até chegar a nuca e afundar os dedos em seus cabelos espessos. Conforme seu beijo se tornava mais profundo, ele a trazia para si pelos ombros, ao mesmo tempo em que puxava para baixo as alças do sutiã dela. Seus dedos procuravam os seios de Ginny, libertando-os do sutiã e acariciando-os com delicada sensualidade. Ela estava perdida, a emoção bruta do luto se transformando em outra sensação diferente. O corpo arquejava em sua própria demanda de entrega, enquanto Ginny se lembrava do prazer de estar nua nos braços de Andre. E com o desejo fazendo uma bruta pressão, impossível de ser ignorado ou negado. Ele disse o nome dela, baixinho e com a voz rouca. Depois, fechou a boca no mamilo descoberto dela, lambendo-o com a ponta da língua, antes de sugá-lo com gentileza e volúpia, descendo as mãos, afastando a saia dela e acariciando a calidez sedosa de suas coxas abertas. Mas não era o bastante. Ela queria sentir o toque dele excitado em sua pele desnuda, reviver a maravilha daquele primeiro despertar devastador, e arquear-se para junto dele, convidando-o silenciosamente a libertá-la de sua meia-calça e de sua calcinha. Depois de soltar um suspiro, ele a deitou lentamente e com cuidado na maciez do tapete de pele à frente da lareira e se abaixou em seguida. O único som na sala era o crepitar da lenha e o som urgente dos dois enquanto se despiam entre beijos, desajeitados em sua pressa. Desnudos, Andre deixou a boca de Ginny e começou a tracejar uma trilha pelo corpo dela abaixo, explorando cada curva, fazendo-a tremer com tamanhos deleite e expectativa que ela mal entendia e quase temia. E então ele fez uma pausa, erguendo a cabeça em direção à porta. Ela também ouviu o fraco som de passadas combinadas com o assovio de um homem. Ao longe, Barney latindo ferozmente. — Ah, Dieu — disse Andre, gemendo. Vestiu-se rápido e arrumou os cabelos com os dedos. Olhando para Ginny, ele disse: — Gaston. Fazendo suas rondas antes de trancar tudo. Eu tinha... esquecido. Vou retardá-lo na cozinha enquanto você se veste. Quando ele se foi, ela ficou ali deitada por um instante, pensando no que acontecera.... ah, se Gaston tivesse entrado ali e os encontrado nus e... Ela se sentou e se vestiu em pânico, com as mãos trêmulas, ouvindo o murmúrio distante de vozes e temendo sua aproximação. Mesmo quando estava quase decente, decidiu que não poderia arriscar-se a ser pega ali. Então, com a roupa de baixo enrolada na mão, ela saiu do salon nas pontas dos pés, subindo as escadas para o santuário de seu quarto. Mas que espécie de santuário poderia ser aquele? Com a porta destrancada e a chave com Andre? Ela afundou na beirada da cama e cobriu o rosto com as mãos. O que acontecera com ela? Numa questão de dias, ela passara de uma existência relativamente sem nada do que se envergonhar até uma em que ela vivia um desastre atrás do outro? E tudo era totalmente culpa dela, especialmente essa noite. Porque fora salva pelo acaso de mais uma loucura abjeta, essa era a verdade que teria que encarar. Só que agora precisava dar um basta. Depois de hesitar um pouco, pegou a cadeira da penteadeira e colocou-a sob a maçaneta da porta. Pelo menos ela esperava que estivesse bem presa. Aprendera o truque em um livro de suspense à moda antiga, sem nenhuma garantia de que fosse impedir um homem forte e determinado. Ou uma mulher fraca e idiota... Ela tirou os sapatos, apagou a luz e se enfiou debaixo das cobertas, ainda de saia e com a blusa. Ouvindo... esperando no escuro. E, por fim, ela ouviu: Andre batendo à porta baixinho e dizendo seu nome. 54


Ela percebeu que ele estava esperando que ela o convidasse a entrar... em seu quarto, em sua cama, em seu corpo. Para completar o que aquela estranha tempestade de emoções tinha deixado no caminho. Ela tampou a própria boca com as mãos, para que nenhum som escapasse. Nenhuma palavra que fosse, nenhum suspiro, nada. Para que ele pensasse que ela estava dormindo, e não tentando sobrepujar a dor ardente de sua carne não preenchida. Sabendo que suas recordações de fazer amor com ele já eram um tormento difícil de ser tolerado. Pelo bem de sua sanidade, ela não podia arriscar mais. Esperou até que o pesado silêncio lhe dissesse que ele se fora.

CAPÍTULO 10

Bebi muito ontem à noite. Ginny ensaiou essas palavras em sua cabeça repetidas vezes enquanto se preparava, relutando, para descer e tomar café da manhã no dia seguinte. Essa seria a história que ela contaria, tratando tudo levianamente como um erro de julgamento, embaraçoso, porém não fatal. Haveria de manter-se firme nessa história, não importando como Andre reagisse. Afinal, o brandy fora a gota d’água depois do vinho servido tão generosamente no jantar. Além disso, ela fizera uma injustiça a ele: a cadeira, agora no devido lugar, tinha sido uma precaução desnecessária, pois ele nunca teria entrado no quarto sem o consentimento dela. Soltando um suspiro, ela abriu as persianas e viu que mademoiselle Chaloux estava certa em relação ao tempo: o céu estava cinza uniforme e as vinhas ocultas por uma espessa camada de chuva. As previsões de Mademoiselle Chaloux em outros assuntos ainda seriam confirmadas. Ao entrar na cozinha, ela viu que só madame Rameau estava lá, preparando uma travessa com pães, croissants e um jarro de picles na mesa. Até mesmo a cesta de Barney estava vazia, provavelmente porque Andre o havia levado para passear. — Bonjour, mademoiselle. — Ela olhou para Ginny de cima abaixo. — Vous avez bien dormi? — Oui, merci — disse Ginny, ciente de que estava mentindo. Aceitou o café que a madame lhe entregou e sentou-se. — Está pálida, pequena, e nada feliz. — Madame soava quase severa. — Você ficará plus contente, peut-être, quando conhecer mais de Terauze e da vida aqui. Então, mais tarde, quando a chuva parar, não quer dar uma promenade comigo até o vilarejo, n'est-cepas? Ela assentiu. — E não fique perturbada se a encararem, mon enfant. Tudo que acontece aqui é de interesse de toda Terauze. É natural que sua chegada cause brouhaha mas tudo ficará bem. Palavra de Clothilde. E agora, vou dar de comer às galinhas. Ginny ficou sozinha para terminar de comer sua tartine. Ela estava limpando a mesa quando o baron entrou, parecendo incomodado e murmurando algo que pareciam xingamentos. — Perdão, mademoiselle. Eu não sabia que estava aqui. 55


— Algum problema? — Um problema com meu computador, hélas. — Está tudo bem agora? — Não, está além de mim e Monique não trabalha hoje — disse ele, impaciente. — Mas monsieur Andre voltará logo... — Ele demorará algumas horas, mademoiselle, e preciso urgentemente acessar alguns números. — Eu usava computador em casa e no trabalho na Inglaterra, monsieur. Entendo um pouco de sistemas de escritório. Talvez eu possa ajudar. A hesitação dele foi muito momentânea. — Se puder, eu realmente ficaria grato. Ele a levou por um corredor até uma escadaria de pedra que subia serpeando. Santo Deus!, pensou Ginny, subindo. Estou dentro de uma torre. E o que espera por mim no topo? Monique Chaloux curvando-se sobre uma roca de fiar, com a esperança de que eu fure o dedo e durma por cem anos? Em vez disso, ela estava numa sala circular cuja austeridade medieval fora transformada num escritório funcional e bem equipado com uma grande mesa e um computador bem no meio. Ela parou, hipnotizada. — Que lugar maravilhoso para se trabalhar! O baron parecia levemente surpreso. — Fico grato por você pensar assim. Foi escolhido pela minha esposa. — Foi uma bela escolha. Havia uma série de janelas na parede curvada. Ginny foi até lá e ajoelhou-se no assento acolchoado sob elas, desfrutando, apesar da chuva, da vista panorâmica do vinhedo e do bosque adjacente. Ela se virou e foi até o computador, cujo sistema, como ela imaginava, lhe era familiar, ainda que ultrapassado. Ela teve pouca dificuldade para recuperar as informações requeridas pelo baron, embora as páginas de números parecessem confusas. — Creio que o senhor pode achar mais fácil de ler isso numa planilha, monsieur — disse Ginny, pressionando o botão de imprimir. — E seu sistema de segurança é muito antigo, o que pode ser perigoso. Por exemplo, não é possível fazer o backup dos arquivos. Mademoiselle Chaloux nunca mencionou essas coisas? — O baron deu de ombros. — Ela parece contente em trabalhar do jeito dela, mademoiselle. E eu sei pouco de tecnologia. Mas, por favor, aceite o meu mais sincero agradecimento por sua ajuda. Talvez você possa sugerir a Monique algumas melhorias no sistema. — Creio que ela veria como interferência indevida, monsieur, afinal, sou apenas uma visita. — Peut-être, vous avez raison, mademoiselle. Falarei primeiro com Andre. Se as sugestões vierem dele, então ela terá que dar ouvidos. Ele é tão patrão dela quanto eu. Ao que parece, ele não vê a dama como futura esposa de seu pai, pensou Ginny. Tampouco vê Ginny como algo além de temporário, o que era uma coisa boa. Não era? Como previra madame Rameau, a chuva aliviara durante a manhã permitindo que elas fossem passear no vilarejo. Terauze era um aglomerado de ruas estreitas, e todas elas davam para uma praça central, onde o mercado diário, disposto à volta da estátua de um homem sobre um pedestal, começava a fechar. — Veja, mademoiselle — disse madame, apontando para a estátua. — Aquele é 56


o baron Emile, que plantou o primeiro vinhedo em Terauze. — Ela suspirou. — Todos os anos, no Château, era costume convidar o vilarejo e nossos vizinhos para celebrar o aniversário dele, mas não fazemos mais isso. Não depois que madame Linnet foi tirada de nós. É como se monsieur Bertrand não seja capaz de tolerar tal ocasião sem a esposa. Ela suspirou de novo e continuou andando, mas o mau humor esvaneceu a medida em que dirigia cumprimentos joviais e familiares por todos os lados. Porém, Ginny logo viu que era ela o foco real de todo o interesse. Sussurros e olhares fixos a seguiam enquanto marchava pela praça, dando a volta, passando pela mairie, onde a bandeira tricolor voava, e depois passando pela padaria, pela patisserie, pelo açougue e pela charcuterie. Em seguida foi a farmacie, mas como madame estava engajada numa conversa animada com uma mulher que claramente era uma velha amiga, Ginny entrou sozinha. Assim que estava dentro, duas mulheres se viraram, alertadas pelo sino, e ficaram olhando para ela com a mesma curiosidade, só que sem a bonhomie. Ginny hesitou. Seu impulso imediato era voltar à rua. Porque sua brilhante ideia transformara-se numa Missão Impossível. Mesmo que reconhecesse algo em francês, como poderia comprar um teste de gravidez e correr o risco de cair nas bocas e nos ouvidos de toda Terauze quase imediatamente? Por mais que quisesse saber o resultado, para garantir que logo estaria livre para ir embora, não podia virar assunto de fofoca. — Vous voulez quelque chose, mademoiselle? — perguntou-lhe uma mulher, sem sorrir. — Aspirinas, s'il vous plait, madame. Madame Rameau entrou, cumprimentou a mulher e as clientes civilizada, porém bruscamente, e logo Ginny estava na rua acompanhada por ela de novo. — Ela não parecia muito amigável. Madame soltou uma bufada. — Madame Donati e seu marido acham que sou rival para os negócios deles. Quelle absurdité. Além disso, ela é amiga íntima daquela mademoiselle Monique, que aluga o appartement em cima da loja deles. — E que também não é amigável, pelo menos não comigo. Madame deu de ombros. — Você é inglesa, mademoiselle, e outra inglesa capturou o coração do homem que ela queria, o que ela não esquece nem perdoa. Moi, ela não gosta de mim porque eu estava lá e vi tudo, mas faz muito tempo e não se muda o passado. — Ela viu Ginny encolher-se e olhou para os analgésicos com reprovação. — Vous avez un mal de tête? Melhor eu preparar um tisane para você. Seria melhor se eu estivesse na Inglaterra, onde é meu lugar, pensou Ginny, cansada, enquanto voltavam para o château. Seria mil vezes melhor se pudesse mudar o passado, de forma que eu e Andre nunca tivéssemos nos conhecido. E eu não sentiria essa dor que me corrói por dentro... que me come viva. Que me dilacera. No caminho, passou por elas uma jovem num cavalo, cujos longos cabelos louros estavam presos para trás. Atraente, mas com feições fortes demais para ser realmente bela. Ela ergueu as rédeas em resposta ao cumprimento de madame. — Bonjour, mademoiselle. Ça va? Então apertou os olhos e olhou para Ginny, antes de seguir cavalgando. — Quem era? Madame franziu os lábios. — Dominique Lavaux. O tio dela tem um lote de terra adjacente ao nosso domaine. Ela também é afilhada de mademoiselle Chaloux. 57


Bem, você quis saber, pensou Ginny. Agora sabe. De volta ao château, ela admitiu que estava com dor de cabeça e aceitou o tisane antes de retirar-se para seu quarto. Ginny tirou o casaco, chutou as botas e então se deitou na cama, em cima das cobertas. Fosse pelo tisane, pela caminhada, pelo ar fresco ou pelo profundo e sólido conforto do colchão, ela relaxou, tirando um cochilo sob a pálida luz da tarde. Acordou com o brilho das lâmpadas que flanqueavam a cama, sinalizando que horas haviam se passado. Além do mais, percebeu alarmada, ela não estava sozinha. Ela viu Andre sentado na poltrona, com o olhar melancólico voltado para o chão e as mãos entrelaçadas nos joelhos. Ela foi atacada pela repentina e inesperada agonia de querer, acima de tudo, ir até ele e tomá-lo nos braços, segurar sua cabeça junto aos seus seios, fazer carinho nos cabelos dele e dizer-lhe que tudo ficaria bem. O que, é claro, nunca haveria de acontecer, porque ele parecia um homem que se dava conta do que uma tarde de loucura num hotel inglês havia realmente lhe custado, e agora lutava contra amargos arrependimentos. Ela se mexeu, inquieta, tentando sentar-se, e ele ergueu a cabeça. — Sua dor de cabeça... passou? — Sim... acho que sim. É por isso que você está aqui? Para falar da minha saúde? — Não, esse não é o único motivo. Oh, meu Deus, ele vai me falar que, se eu disser de novo que quero ir embora, não vai me impedir. E por que agora, quando eu sei que essa é a última coisa no mundo que quero que aconteça? E se eu for embora, como vou aguentar isso? Ciente de que estava prendendo a respiração, ela esperou que ele se pronunciasse. — Virginie, desejo pedir-lhe perdão pela noite passada. Eu não tinha nenhum direito de comportar-me como me comportei. Eu lhe dei minha palavra, e me envergonho de como agi. Por favor, acredite que eu não pretendia nada além de oferecer-lhe algum conforto. Ele parou de falar, buscando os olhos dela com uma espécie de desespero. Ela sabia que ele tinha mais a dizer, mas não conseguia encontrar as palavras. Palavras que poderiam destruí-la. — Sinto muito também. Eu bebi um pouco além da conta, mas recobrei o bom senso antes que mais algum mal fosse feito. — Mal — repetiu ele. — É assim que você define o que vem acontecendo entre nós desde que nos conhecemos? — O que mais seria? — Ela voltou a ele um olhar desafiador. — Cometemos um terrível erro, mas não temos que arruinar nossas vidas por causa disso. — Nem deveríamos prejudicar o futuro da criança que você pode estar carregando. — Mesmo que isso seja verdade, sei que ficar aqui e casar-me com você seria um desastre. — Como pode ter tanta certeza? E tão cedo assim? — Porque, quando você foi para a Inglaterra, casamento deve ter sido a última coisa que tinha em mente. — Como para a maioria dos homens, não era uma prioridade para mim. Até agora. — E porque não nos amamos. — Amor? — retrucou Andre, ponderando, como se nunca tivesse ouvido essa palavra antes. — Quando foi que isso se tornou parte de nossa barganha? Barganha, repetiu ela em silêncio. Trato, acordo, fosse o que fosse, como poderia em algum momento ter achado que seria o bastante? Ou será que, desde o começo, ela estivera secretamente esperando por muito mais? Ah, sua idiota, tola patética! — Você está certo. Nunca fez. Eu me expressei mal, então vou tentar de novo. Não 58


faço seu tipo e certamente você não faz o meu. Ele ergueu as escuras sobrancelhas. — Então qual é o seu tipo? O estimável monsieur Welburn? — Se é isso que você quer pensar... o que eu realmente quis dizer é que não quero você. — Vraiment? — O tom dele expressava um interesse educado. — Ainda assim, nós dois sabemos que se não tivéssemos sido interrompidos por Gaston, teríamos passado a noite aqui e você teria acordado nos meus braços. Ela deu de ombros. — Como eu disse: brandy e emoção. Uma combinação letal, que nunca se repetirá. Eu deveria esquecer que quero dar aulas e me tornar atriz, pensou ela, com dor. Quase consegui me convencer agora. — Tentarei lembrar-me disso enquanto você estiver conosco. — Andre olhou de relance para o relógio de pulso e pôs-se de pé. — Está na hora do jantar. Papa espera que você se junte a nós. Acho que ele quer falar com você sobre computadores. Ela mordeu o lábio. — Espero que você não ache que estou interferindo nas coisas. — Au contraire. Foi mamãe que insistiu que o domaine entrasse na era da informática. Desde que a perdemos, sei que as coisas desandaram, mas você parece têlo persuadido a se atualizar. Permita-me agradecer-lhe isso. Espero que, quando você voltar à Inglaterra, não vá sentir que seu tempo aqui foi totalmente desperdiçado. Enquanto observava Andre saindo, passou pela cabeça dela que eles tinham dado o primeiro passo no processo da separação. Não um passo gigante, mas era um começo... e também claramente um fim. O baron estava cheio de energia, comendo a sopa de legumes, o cordeiro maravilhosamente assado no alho e a musse de chocolate. Ele já tinha entrado em contato com um escritório de informática em Dijon, e um representante faria uma visita no dia seguinte com suas recomendações. — Ele acredita que nós deveríamos ter o que ele chama de website — disse ele, servindo-se de um pouco de queijo. — Você aprova a ideia, mademoiselle? — Essa é uma ideia maravilhosa. — Já deviam ter um há muito tempo, pensou ela, perguntando-se como mademoiselle Chaloux permitiu que as coisas chegassem a tal ponto. — Ah, mas não terminei — disse ele, voltando-se para Andre. — Mon fils, decidi que neste ano vamos novamente celebrar o nascimento do baron Emile. Andre ergueu as sobrancelhas. — Não está um pouco tarde para isso? Temos menos de um mês para os preparativos. O baron fez um aceno com a mão. — Falei com Gaston e Clothilde e eles concordam que a memória dele foi negligenciada por tempo demais e que tudo sairá bem. — Ele sorriu para Ginny. — Mademoiselle Mason verá o Château Terauze en fête e a presença dela acrescentará graça a uma ocasião que já é feliz em si. Amanhã farei uma lista dos convidados. E devemos pedir os convites. Lembro-me que minha querida sempre usava os serviços da mesma empresa. Vou procurar o nome — anunciou ele, e foi fazer isso, levando consigo seu café. Assim que ficaram sozinhos, Andre disse baixinho: — Você sabe o que vou lhe pedir, Virginie. Eu não o via assim tão animado há um bom tempo, e espero que você possa encontrar algo em seu coração para ficar pelo menos até a festa. E, embora isso possa não ser um incentivo, terá a minha gratidão. Gratidão, pensou ela. Será o suficiente para me impedir de sentir como se estivesse morrendo por dentro? 59


— Então parece que não tenho escolha. Só mais um dia, disse Ginny para si enquanto voltava do vilarejo. Então as mais difíceis três semanas e sua vida teriam acabado. Ela parou um pouco para mudar a bolsa de lona da madame de mão. Comprara apenas alguns legumes, ainda assim, a bolsa parecia infinitamente mais pesada do que de costume. Talvez ela só estivesse cansada. Era impossível fingir que estava dormindo bem. As tensões internas por ter que dividir um teto com Andre não a deixavam descansar. Não que o encontrasse muito. Apenas durante as refeições, sendo que ele, invariavelmente, tomava o café da manhã antes de ela descer. Ele passava os dias podando as preciosas vinhas, e frequentemente, depois do jantar, desculpava-se cortesmente e retirava-se para La Petite Maison, onde passava a noite bebendo e jogando cartas com Jules. E sempre acompanhado de Barney, que transferira de coração sua devoção do pai para o filho. No entanto, se Andre achava que estava tendo consideração ficando longe dela, não poderia estar mais enganado. Ela vivia esperando o retorno dele. Sentia algo em seu coração quando ele voltava. Ansiava por vê-lo abandonar a máscara formal e sorrir. Era menos doloroso lidar com a situação durante o dia, imersa nas preparações para a festa. Enviando convites, ficando pasma com a quantidade de confirmações, incluindo questões mais práticas, como ajudar a lavar a louça do século XVIII que Gaston tirara com reverência de um armário, e limpar candelabros que ficariam no centro da longa mesa no salão. Nas últimas vinte e quatro horas, ela se tornara assistente de cozinha da madame, ajudando na preparação dos fragrantes presuntos, do bife, dos perus e da caça a serem servidas aos convidados. Além disso, o cunhado da madame, um excelente pescador, prometera pesca para um bouillabaise tradicional. — E vou mostrar a você, mon enfant, como fazer jambon persille — prometeu a madame, referindo-se ao famoso prato de Burgundy. O baron divertia-se. — Clothilde guarda suas receitas com cuidado, mademoiselle. É uma honra para você, que claramente tem tudo para ser uma excelente cozinheira. Mas que provavelmente vai comer comida de micro-ondas nos próximos meses, pensou Ginny, enquanto murmurava uma resposta apropriada. Monique Chaloux ficou petrificada quando chegou e se deparou com um engenheiro de informática trocando o sistema atual por algo mais moderno. Protestou com vigor contra o que dizia ser despesas desnecessárias, fuzilando Ginny com o olhar Mas após receber um laptop de última geração para uso pessoal, o baron lhe disse que as verdadeiras despesas viriam de ficar para trás de seus concorrentes, alegando ainda que se Monique tivesse problemas com o uso do software, ela poderia pedir ajuda à mademoiselle Mason, como ele pretendia fazer. — Mas não é justo ocupar o restante do tempo dela aqui com tais questões triviais — disse mademoiselle. — Pelo contrário, monsieur le baron sabe que fico feliz em ajudar. Com esse tantinho eu retribuo a bondade que me foi demonstrada aqui — disse Ginny, tentando ignorar o olhar irônico de relance de Andre. Ela não pretendia estar na festa por todos os tipos de motivos, sendo um deles não ter roupa adequada para tal. Planejara inventar alguma doença, não complexa, mas ruim o bastante para confiá-la ao seu quarto no dia. Mas madame Rameau removera um obstáculo importante ao exigir saber o que ela 60


pretendia vestir na festa. Enquanto faziam compras, pararam numa loja de grife. Lá dentro, a dona, tremendamente chique de cinza, apresentou vários vestidos de noite, apesar de Ginny achar que os preços de quaisquer peças ultrapassavam seus modestos recursos. No entanto, dois vestidos atraíram sua atenção de imediato: um longo de seda com manga comprida na cor marfim de estilo imperial, que ela pôs de lado por parecer muito um vestido de noiva, e um belo vestido preto de tafetá, com uma saia cheia abaixo do joelho e um decote quadrado que fazia com que sua pele reluzisse como se fosse pérola. Não havia uma etiqueta de preço, mas ficou pasma ao ver que era metade do que ela esperava e, portanto, podia comprá-lo, especialmente porque já tinha um par de sapatos pretos de salto alto quase novo. Em poucos minutos ela fez a compra e ficou olhando para o vestido sendo embrulhado em papel de seda e colocado em uma reverente caixa listrada prateada presa com fitas. Enquanto ela carregava o embrulho pelo mercado, sentiu-se momentaneamente como Cinderela, voltando logo à realidade quando a madame gritou com um vendedor por causa do preço de uma mercadoria. Em seguida, retornaram ao château. Na véspera da festa, ela entrou pela porta dos fundos na cozinha, onde Jules conversava com a tia. Foi então que Ginny viu dois coelhos em cima da mesa. — Bonjour, mademoiselle. Ça va? — Jules cumprimentou-a animado, apontando para os coelhos. — Esta noite tante Clothilde vai cozinhar para você os coelhos no especial molho de mostarda dela. — Jules beijou os dedos. — Formidable. Ginny ficou com o olhar fixo nos coelhos, enquanto desabotoava o casaco. Pele, pelos. Orelhas e rabos. Vão ter que tirar isso tudo. — De onde eles vêm? — perguntou ela. — Matei-os hoje de manhã cedo. — Ele parecia surpreso. — O barulho da minha arma não a perturbou? Ginny balançou a cabeça em negativa, o que se mostrou um erro sério, pois ela largou a sacola de legumes no chão e saiu correndo em direção à pia, onde vomitou. Com o mundo ainda girando enquanto se ajeitava, deram-lhe um copo d’água. Apoiando-se no braço da madame, foi guiada para fora da cozinha até o petit salon, onde acomodou-se no sofá na frente da lareira. — Sinto muito — sussurrou Ginny. — Foi... ver aqueles coelhos. Geralmente não sou assim. Madame assentiu. — Mas tudo muda quando a gente está enceinte, mon enfant. — Ela sorriu, um sorriso confortador, para Ginny. — E para o jantar de hoje, farei simplesmente um frango assado. — Enceinte — repetiu Ginny, amortecida. — Você quer dizer... — Que você vai ter um bebê, petite. — Não... você deve estar enganada. Tem que estar. Madame balançou a cabeça em negativa. — Eu soube desde o começo. E monsieur Andre vai lhe dizer que eu nunca erro. Ginny fixou o olhar nela. — Você disse isso a ele também? — Que ele vai ser pai? Com certeza. É uma notícia importante para um homem. — Ela deu tapinhas amigáveis no ombro de Ginny. — É uma nova geração para o Château Terauze, que trará grande felicidade. Felicidade... Que felicidade poderia vir de casar-se com um homem por causa do senso de dever dele?, pensou Ginny quando estava sozinha. E quando há alguém mais adequado por perto? Ela cerrou os olhos e apoiou-se nas almofadas. Apaixonar-se por alguém, querer 61


passar a vida com o seu amor deveria ser uma coisa maravilhosa. Não essa confusão e esse desespero que ameaçavam derrubá-la, mas que deveria, para sempre, permanecer como seu segredo. Pelo menos, sussurrou ela bem baixinho, até que eu esteja bem longe daqui... muito em breve.

CAPÍTULO 11

Ela havia se preparado para a chegada de Andre, mas quando ele entrou no quarto e ela viu a expressão dele, disse em voz baixa: — Sinto muito. E era verdade. Fora sua tentativa de intervir no que quer que estivesse acontecendo entre ele e Cilla que dera origem a esse desastre. Ela deveria ter feito vista grossa e mantido distância. Porque sabia desde o começo que Andre era perigoso para ela. Mas achava que não gostava dele e que se ressentia dele. Muito inexperiente para reconhecer o desejo sexual, ou para perceber que era o ciúme tanto quanto a fúria que a levara até ele naquele dia. E que o amor a levara até Terauze. — Eu também me arrependo... de tudo — disse ele abruptamente, balançando a cabeça. — Gostaria que desta vez Clothilde estivesse errada. Ela se encolheu por dentro. — Mas isso não muda nada. Voltarei à Inglaterra. — Au contraire. Amanhã, na festa, anunciarei nosso noivado, e estaremos casados assim que as formalidades legais estejam finalizadas. — Não... você não... você não quer mesmo fazer isso. — Você esquece, Virginie, que eu sei o que meu pai sofreu sabendo que seu único filho estava sendo criado em outro país por outro homem, e os extremos a que isso o levou. Acha que vou deixar que isso aconteça comigo? Que eu ficaria contente em prover apoio financeiro e fazer uma visita ocasional? — Ele inspirou com pungência. — Nunca nesse mundo. — Mas você não está entendendo... — Não — disse ele, com ares sombrios. — É você, ma belle, que não consegue entender como eu me sentiria se nosso filho estivesse doente ou sofresse um acidente e eu não pudesse estar com você ao lado do leito dele. Ou a dor de não ver o primeiro passo dele... ouvir sua primeira palavra. — Ele fez uma pausa. — E apesar de suas crenças, ainda há um estigma ligado a uma criança nascida fora do casamento. Bastardo é uma palavra feia que algumas pessoas não hesitam em usar. Assim que voltou para Terauze, mamãe teve o apoio de papa Bertrand, mas, mesmo assim, ela não era invulnerável. Nem eu. Ginny ficou em silêncio, lembrando-se de sua própria juventude e de como as crianças podiam ser cruéis se você não tivesse as roupas da moda, ou se levasse lanche de casa, coisas do gênero. — Mas quem vai defender você, Virginie? Sua mãe? Acho que não. Ela achava o mesmo, visto que suas tentativas de entrar em contato com Rosina nas últimas semanas não deram em nada. Mesmo assim, ela disse, desafiadora: — Você está determinado a pensar o pior dela. 62


Andre deu de ombros. — Eu gostaria que você encarasse a realidade e aceitasse o abrigo do casamento pelo seu próprio bem e pelo bem de nosso bebê. Não devemos nos esquecer de que a criança pode ser o futuro herdeiro de Terauze. Mas casamento é a realidade que não consigo encarar, pensou Ginny. Viver com você, dormir com você, precisar de você. E, quando não estiver comigo, imaginar onde e com quem está. Como posso fazer isso? Como posso... quando o abrigo que me oferece só vai me tornar mais vulnerável? A voz dela estava um pouco trêmula: — Não seria melhor para esse herdeiro nascer num casamento com amor em vez de conveniência? — Peut-être, num mundo ideal, mas nós devemos lidar com a situação como ela se apresenta. Ele foi andando até o sofá e ajoelhou-se, pegando na mão dela. — Virginie, eu imploro que você me dê a honra de tornar-se minha esposa. Eu juro que vou tentar fazê-la feliz. À custa da infelicidade de outro alguém..., pensou ela, mas não disse isso. Ela olhou para os dedos bronzeados que seguravam os seus e assentiu, relutante. — Então imagino que a resposta seja sim. — Ela soltou a mão da dele. — Eu... não sei mais como lutar contra você, Andre. Ele sorriu e ela se ergueu. — Vraiment? Então você será a esposa perfeita, ma mie. Agora eu devo ir contar as boas-novas a papa Bertrand. — Tudo? — perguntou ela, apreensiva. Ele deu de ombros de novo. — Pourquoipas? Como se ele já não soubesse... Ele se curvou e ela, percebendo sua intenção de beijá-la, encolheu-se junto às almofadas. — Mantenha a distância de dia, se quiser, chérie. Mas as noites compensarão os dias. — Ele foi andando até a porta e virou-se. — Para nós dois. E tenho certeza de que você lembra como é. Deixou Ginny encarando-o, o coração dela batendo em ritmo selvagem. O vestido preto de tafetá parecia ainda melhor do que na loja, ao que ela ficou grata, pois poderia ser a única ocasião em que ela o vestiria. Os sapatos de salto alto com a meia-calça preta faziam com que suas pernas parecessem infinitas. Fazia muito tempo desde que estivera numa grande festa, e mais tempo ainda desde que colocara um vestido tão... sexy. Apesar de suas preocupações em relação ao futuro, ela se sentia animada. Eu me saí muito bem, pensou ela, enquanto zombava de si mesma. Ela telefonara para Rosina e sua irmã no dia anterior para anunciar seu casamento. Novamente, suas mensagens foram direto para a caixa postal, e ela não recebeu nenhuma ligação de volta. Ainda assim, certamente elas não poderiam ainda estar em Seychelles. Era como se Ginny tivesse deixado de existir para elas, reconheceu enquanto descia. A mesa no centro do salão estava repleta de comida iluminada por candelabros. Num canto, um grupo de músicos locais afinava os instrumentos, e duas meninas do vilarejo, resplandecentes em saias escuras e imaculadas blusas brancas e aventais, esperavam para servir bebidas. Gaston, verificando se tudo estava preparado, abriu seu cálido e tímido sorriso para 63


ela e disse-lhe que o baron e monsieur Andre se encontravam no salon. A porta estava escancarada quando Ginny parou para alisar sua saia e inspirar fundo. Nesse momento, ouviu o baron dizer: — Você espera que eu fique feliz? Em aceitar essa menina como sua esposa, quando eu esperava para você, mon fils, um casamento muito diferente. E a resposta de Andre: — Papa, isso é o melhor pelo que posso esperar. E a culpa é somente minha. Por um momento cheio de abalo e entorpecimento, Ginny ficou imóvel. Sua vontade era de voltar para o quarto, fazer as malas e desaparecer noite adentro. Mas essa seria a saída dos covardes, assim como abalaria uma noite importante para o Château Terauze, quando Andre fosse atrás dela, o que ele certamente faria. Além disso, ela já sabia qual seria a reação. Aceitara as coisas como eram e seria pura hipocrisia fingir que poderiam ser diferentes. Ela empurrou a porta e entrou, com a cabeça erguida e um sorriso pregado no rosto. Ambos se viraram para ela, mas o baron foi o primeiro a olhar. — Ravissante — declarou ele, forçando um sorriso. — Não é, Andre? — Tu as raison, mon père. Você está muito... muito adorável, Virginie. Ela murmurou um “obrigada” sem graça e desviou o olhar, sentindo o rubor assomar a sua face. Afinal, o que mais ele poderia dizer?, pensou ela. As coisas ficaram um pouco mais fáceis quando as pessoas começaram a chegar, e tudo que tinha a fazer era ficar entre Andre e o pai dele, sorrindo e dizendo Bonsoir, enquanto era apresentada para uma pessoa após a outra. Espero não ter que responder perguntas depois sobre quem conheci esta noite, pensou ela, enquanto as faces mesclavam-se num borrão. Quando os últimos convidados chegaram, ela conseguiu sair de perto de Andre, que conversava com outros vignerons. Encontrou um canto quieto onde podia respirar. Porém, logo em seguida, foi acostada por Monique Chaloux em um brocado verdeescuro. — Mal dá para reconhecê-la, mademoiselle. Que diferença roupas caras podem fazer. — Eu não teria como saber disso. Não posso pagar por tais prazeres. Mademoiselle estreitou os olhos. — Ainda assim você está usando um vestido de Louise Vernier. Um presente de monsieur Andre, talvez, para pagar-lhe por quaisquer serviços que você tenha provido, antes de ele se livrar de você? Ele foi generoso, então você não pode ser tão sem graça quanto parece na cama. — Como se atreve? — questionou Ginny, com a voz trêmula. — Eu mesma paguei pelo vestido. — Você tem dois mil euros para esbanjar? Duvido. — Dois mil? — Ginny ficou encarando a mulher. — Não seja ridícula. Custou menos de duzentos. — Não — disse Monique, cortante. — Mas se você acredita nisso, é uma tola, mademoiselle. Mas monsieur Andre vai logo se cansar de você, então aproveite sua boa sorte enquanto pode. Ela foi embora, deixando Ginny tremendo com uma mescla de emoções, sendo raiva a predominante. Quando Andre apareceu ao seu lado, ela disse, furiosa: — Você pagou mesmo por este vestido? — Ah, eu estava pensando em por que notre chère Monique havia lhe procurado. Quanta bondade da parte dela contar-lhe isso. — Então é verdade. — Ginny inspirou fundo. — Como eu pude ser idiota de pensar 64


que poderia pagar por um lenço que fosse naquela loja? Minha vontade é tirar esse vestido e jogar na sua cara. — Bem, que pena, mas agora não dá, pois neste instante, temos um anúncio a fazer. Ele a pegou pela mão e a conduziu em meio às risadas e conversas da festa até o pequeno palco que acomodava a banda. — Messieurs et mesdames. — Ao som da voz dele, um silêncio caiu sobre a sala. — Vocês juntaram-se a nós nesta noite para lembrar o aniversário do baron Emile, mas eu tenho um outro motivo para celebrar. Para minha grande alegria, mademoiselle Mason, Virginie, consentiu em tornar-se minha esposa. Apresento-lhes... a futura baronne de Terauze. Depois de ficarem boquiabertos, os convidados aplaudiram enquanto o baron dava um passo à frente, radiante, e tirava de uma caixa de veludo o colar de rubi do retrato no salon, reluzindo um fogo carmesim. As palmas continuaram enquanto Andre colocava o colar no pescoço de Ginny, antes de beijar a mão e os lábios dela. Ginny se encaixou na curva do braço do Andre, forçando-se a sorrir em resposta a toda boa vontade. Quando ela e Andre desceram do palco, foram saudados por várias pessoas desejando-lhes o melhor, apertos de mãos e abraços, com uma exceção: parada perto de uma parede, o rosto de Monique era uma máscara de fúria e descrença. Andre guiou Ginny em meio à multidão, com as mãos levemente envolvendo sua cintura, parando aqui e ali para receberem os parabéns. Enquanto isso, Ginny pensava em como seria se Andre estivesse se casando com ela por amor. Quando Gaston anunciou o jantar, a atenção de todos voltou-se para a refeição. Enquanto se serviam, Ginny deparou-se com Andre novamente ao seu lado. Ele tocou nos rubis radiantes no pescoço dela, dizendo, baixinho: — Foram feitos para você, mignonne. — Descendo os dedos até onde os seios dela se erguiam em seu decote baixo, murmurou: — Assim como você foi feita para mim, ma belle. — Ele se abaixou e falou ao ouvido dela: — Durma comigo esta noite, Virginie. Permita-me saber que você me pertence. — O olhar dele era intenso. — Virginie... Ginny queria tanto dizer que sim e saber que, por uma hora ou duas, ele também pertenceria a ela, perdido nos prazeres sexuais. Mas ela poderia acabar dizendo algo que ele não queria ouvir, e que nunca deveria ser dito: eu te amo. Enquanto hesitava, Ginny viu um surpreso Gaston sair correndo até a porta da frente. E meio à massa de pessoas, ela viu uma mulher, cujos cabelos louros caíam nos ombros quando ela puxou seu gorro de lã. Por um instante, Ginny pensou que fosse Dominique Lavaux, que não respondera ao seu convite, mas depois ela ouviu numa voz bem conhecida: — Estou aqui para ver minha irmã, Virginia Mason. Onde ela está, por favor? Ginny ficou entorpecida no lugar enquanto Cilla, com seu casaco violeta, atravessava a multidão, mas passou por ela como se ela fosse invisível. — Oh, Andre. — Havia uma ponta de histeria na voz dela. — Eu tive que vir, porque tudo está simplesmente horrível e não sei o que fazer. E, com um choro soluçado, ela se jogou para cima de Andre, enterrando a face na camisa dele enquanto ele a segurava. Por um instante, houve um total e pasmo silêncio, até que Jules apareceu do nada com uma cadeira. Ele soltou a menina que chorava com fria autoridade, fez com que se sentasse e, quando sua tia chegou com brandy, encorajou-a a bebê-lo. Ginny, repentinamente transformada em espectadora, pensou que essa festa não seria tão rapidamente esquecida por ninguém, nem por ela. Ela deu um passo à frente e, erguendo a voz, disse em seu claro francês de escola: 65


— Madame Rameau, a senhora teria a bondade de preparar um quarto para a minha irmã? Ela fez uma longa e cansativa viagem e precisa descansar. Madame olhou para Cilla, mas assentiu e foi fazer os preparos. Ginny foi até a cadeira onde Cilla estava e colocou a mão no ombro da irmã: — Mamãe veio com você? Está em algum lugar? — Mamãe? Você deve estar de brincadeira. Ela virou as costas para mim e nem fala comigo... desde que Jon desfez nosso noivado. Por que outro motivo eu estaria aqui? Por que mesmo?, pensou Ginny. Consciente dos olhares e dos ouvidos ao redor delas e da expressão de choque na face do baron Bertrand, ela disse: — Falaremos disso depois. Por que não vamos lá para cima para você usar meu banheiro? — Seu banheiro? — Parecia que Cilla estava se focando nela pela primeira vez, estreitando os olhos ao ver os rubis. — O que está acontecendo aqui? Que celebração é esta? — Entre outras coisas, o meu noivado com Andre — disse Ginny. — Noivado — repetiu Cilla. — Isto é alguma piada? — Au contraire, madame — disse Jules. — O casamento do nosso futuro baron é uma coisa séria, e também um momento de muita felicidade para o Château Terauze. Cilla pôs-se de pé. — Mas... eu pensei que... Andre... Então, quando Andre deu um lento passo na direção dela, Jules interveio novamente. — Mademoiselle claramente está fora de si. Permita-me ajudá-la. E, antes que qualquer coisa pudesse ser dita ou feita, ele calmamente ergueu Cilla nos braços e carregou-a escadaria acima, deixando um silêncio pasmo atrás de si. — Você esperava que isso acontecesse? Ou tinha alguma ideia...? — perguntou Andre a Ginny. Eles estavam no petit salon após os últimos convidados terem saído e o baron ter se recolhido. Embora não tivesse ocorrido um êxodo em massa da festa, a chegada de Cilla abalara a atmosfera da noite, e dera aos convidados o que pensar. Em particular, para Ginny e André. — Não — protestou Ginny. — Claro que não. Eu disse à minha mãe que íamos nos casar, mas achei que ela simplesmente estivesse me ignorando, como sempre. E claramente ela não contou a Cilla. — Mas que ironia, n'est-ce pas, que na noite do nosso noivado sua irmã chegue para dizer que o relacionamento dela com monsieur Welburn acabou! — Por que você está dizendo isso? — Porque le bon Jonathan está agora livre novamente. Você pode estar lamentando ainda mais nossa tarde de deleite. E quanto a você?, pensou ela. Todo mundo viu quando você deu um passo na direção dela. Se Jules não tivesse aparecido, você a teria levado para cima. Quando, minutos antes, estivera me pedindo para dormir com você... Porque obviamente ela veio para ver você, não eu. — Vai falar com ela? — perguntou-lhe Andre. — Pela manhã. Ela tomou uma xícara de bouillon, seguida de um dos tisanes da madame. Fui instruída a deixar ela dormir. Ele assentiu. — Clothilde é muito sábia. Todos nós precisamos dormir. Tudo será diferente amanhã. Tudo já mudou... Inclusive os rubis que agora pareciam gotas de sangue na pele de Ginny. 66


— Devo devolver isto, você vai colocá-lo num cofre ou algo assim, não? — Por favor, deixe que eu tiro o colar. Você consegue tirar o vestido? — Ah, sim — foi sua resposta involuntária enquanto ela pensava em como acabaria se ele o tirasse... As mãos dele demorando-se em seu corpo depois que o vestido caísse no chão, numa persuasão erótica enquanto ele explorava sua carne desnuda. Permita-me saber que você me pertence. Pelo menos ela não dissera “sim”, evitando um embaraço odioso, o que não era realmente um consolo. — Bem... boa noite. — Bonsoir, Virginie, et dors bien. Ela subiu as escadas devagar, mas ao chegar lá em cima, foi correndo para seu quarto como se estivesse possuída por demônios, fechando a porta em seu mundo que se fragmentava. Na manhã seguinte, Ginny encontrou Cilla. — Oh, é você — disse Cilla, reclinada sobre travesseiros e encantadora em sua camisola de seda rendada azul, com uma bandeja sobre a cama contendo um café da manhã mal tocado. Não há vestidos de grife que possam me transformar em páreo para ela, pensou Ginny, com uma pontada de dor. — Não está com fome? Cilla deu de ombros. — Não quero pão com geleia. Isso é tudo que vocês comem de café da manhã por aqui? — Basicamente, embora você possa comer croissants ou pains au chocolate, se pedir. E ovos, claro. — Ginny tentou sorrir. — Acabei de dar comida para as galinhas. — Não tem empregados para fazer isso? A mulher que me serviu aquela bebida revoltante na noite passada, por exemplo. — Cilla estremeceu. — Achei que ela estivesse tentando me envenenar. E hoje de manhã ela aparece com o café da manhã. Não é de se admirar que eu não tenha vontade de comer. — O que deu errado, Cilly-Billy? Quero dizer, entre você e o Jon? Cilla ergueu a cabeça ao ouvir o tolo apelido de infância, mas em vez de surtar, parecia que lutava para não chorar. — Nada que já não fosse um problema, mas acho que a gota d’água foi a viagem a Seychelles. Só quando estava no avião foi que descobri que nossa mãe deixara deliberadamente nossos celulares para trás, para que ninguém pudesse falar conosco. Quando chegamos no hotel, tentei ligar para o Jon, mas foi a mãe dele que atendeu, então desliguei, afinal, ela jamais gostou de mim. Eu deveria tê-lo deixado para você, mas ele era o bom partido da vizinhança e, para falar a verdade, eu gostava da ideia de ser a lady da mansão e de morar naquela bela casa. O que eu não queria era a conversa infinita sobre cavalos e fazenda e os longos discursos de lady Welburn sobre jardinagem e a importância de um bom estrume. Não me via passando o resto da minha vida assim. — Você não pode estar falando sério — protestou Ginny. — Para falar a verdade, estou sim. Seychelles me deu um tempo para pensar, e percebi que se Jon fosse meu único e verdadeiro amor, eu nunca teria simplesmente deixado que ele se fosse desse jeito... eu ia falar para repensarmos as coisas, mas ele fez isso antes de mim. — Ela mascava o lábio. — Veja bem. Eu fiz uma visita a Andre no hotel dele uma tarde, e uma das empregadas me viu saindo do quarto dele, e fofocas foram disseminadas e chegaram à mansão dos Welburn. Jon exigiu que eu dissesse a ele o que tinha acontecido. — Ela deu de ombros. — Falei que ele não ia gostar de saber e devolvi a ele o anel de noivado. Então tive que contar tudo isso à nossa mãe. E foi aí mesmo que a casa caiu. Ela começou a gritar comigo, dizendo que eu devia ser louca. 67


Que eu a tinha humilhado na frente de toda a vizinhança e que ela nunca me perdoaria. Que eu morreria de fome na sarjeta porque de jeito nenhum ela deixaria que eu a parasitasse, nem viraria um fardo para Howard. A mente de Ginny estava a mil, mas ela conseguiu perguntar: — Quem é Howard? — O homem que ela conheceu jogando bridge no nosso hotel. Quieto, até que bonito, mora em Hampstead. É nosso futuro padrasto. Ou meu, de qualquer forma. Acho que ela nem mencionou sua existência. — Mas ela acabou de ficar viúva! — disse Ginny. — Ele sabe disso? — Não seja tola! Na primeira semana ela botou o olho nele e o amarrou! Ela é boa nisso, nossa mãe! E dessa vez não haverá nenhum obstáculo nesse casamento, porque ele já tem um filho e herdeiro. — Como assim? Cilla deu de ombros de novo. — Parece que ela e o Andrew tinham um acordo. Ele queria um herdeiro legítimo. Ela prometeu isso a ele, mas as coisas foram difíceis quando nasci e ela fez ligação de trompas. Ela achou que conseguiria enganar Andrew, mas, no fim das contas, ele insistiu que ambos fizessem testes quando ela não engravidava, e a verdade veio à tona. Ginny inspirou fundo. — Ah, meu Deus! Ele deve ter contado isso a Andre, que por causa disso a chamou de enganadora! — Mas ela não via as coisas assim — disse Cilla. — Ela queria dinheiro e conforto, então, para ela, os fins justificavam os meios, e ela ainda pensa assim, porque não acho que esteja mais apaixonada por Howard do que esteve por Andrew. — Ela olhou de relance para o espaçoso e belo quarto. — E você... uau! Quem diria? Ginny mordeu o lábio e levantou-se. — Lamento que você tenha passado por tudo isso, mas tenho certeza de que nossa mãe acabará voltando atrás com você. Nesse ínterim, tenho certeza de que Andre deixará que fique aqui enquanto arranja seu futuro. — Oh, já sei disso. Ele veio aqui me ver mais cedo, tão doce da parte dele, e disse que eu poderia ficar aqui o quanto quisesse. Então quanto a isso está tudo bem. Ginny assentiu e foi até a porta, mas se virou e perguntou, com a voz um pouco trêmula: — Cilla, o que aconteceu naquela tarde no quarto do Andre? O sorriso de sua irmã ficou ainda mais zombeteiro. — Você não ia querer saber. E ela começou a dar risada enquanto Ginny, nauseada, saía aos tropeços do quarto.

CAPÍTULO 12

Quando os longos e agonizantes dias viraram semanas, Ginny começou a sentir como se tivesse virado uma espectadora da própria vida, vendo de longe enquanto Cilla assumia o papel de futura esposa de Andre. Baron Bertrand, após se recuperar do choque da chegada dela, agora era abertamente indulgente. Até mesmo madame Rameau, a princípio inclinada a olhar torto 68


para ela, estava ensinando a Cilla o básico de cozinhar. Ela estava dominando as compras diárias também, falando com os donos de lojas e tendas em francês perfeito, graças a seus estudos na Suíça. Cilla exibia o que parecia ser um interesse genuíno em todas as coisas da vida do domaine, como a produção de vinhos, e passava horas entre as vinhas ou no chai, e falava sobre o que aprendia no jantar. O que eu nunca fiz, pensou Ginny, infeliz. Porque eu me dizia que era perigoso demais me envolver. Que isso tornaria a despedida ainda mais difícil. Então eu mal posso começar a fazer perguntas agora, não sem parecer ciumenta, o que causaria embaraços a mim e a eles. Especialmente a Andre. Eles ainda estavam noivos oficialmente, mas um noivado podia ser facilmente terminado, como Cilla demonstrara, especialmente quando não se falava do casamento em si desde a noite da festa. Nas poucas ocasiões em que Ginny ficava sozinha com Andre, o único tópico das conversas educadas deles era a saúde dela. — Clothilde me disse que você ainda está sentindo enjoos — comentara ele recentemente. — Assim que acordo pelas manhãs. Quase sempre no mesmo horário. Mas ela me disse que isso vai parar logo. — Que bom — disse ele, e deixou-a. O que ele nunca mencionava era aquela outra manhã, em que ele dissera a Cilla que ela poderia ficar ali, deixando Ginny livre para imaginar e sofrer com o que mais poderia ter sido dito. Ele também não tinha expressado nem com palavras nem com olhares, nenhum interesse que fosse em dormir com ela de novo. Em vez disso, passava as noites na Petite Maison. Provavelmente acompanhado. Mas ela não se permitiu pensar nisso, concentrando-se em como poderia ser resolvido o problema do bebê que esperava. O que acontecia com um homem que era pai de um filho de uma mulher que ele não mais queria? Afinal de contas, ele não poderia esperar que sua nova noiva fosse criar o filho de outra mulher, ainda mais da própria irmã. A situação era complicada... Ginny achava que o mais razoável seria que Andre deixasse que ela voltasse para a Inglaterra e tivesse o bebê lá. Ele era muito honrado para não dar apoio financeiro a eles, e ela poderia trabalhar meio período até que a criança fosse maior de idade. E se a mãe dela ia se casar com um ricaço de novo, ela bem que poderia ficar no chalé. Segundo a carta mais recente da sra. Pel, que se tornara uma correspondente regular, a ausência de sua mãe e o fim do noivado de Cilla fomentavam as fofocas locais. E o novo regime na cafeteria não agradou aos clientes, que se afastaram de lá aos montes, e diziase que Iris Potter pretendia vender o lugar. Eu poderia voltar ao Plano A, pensou Ginny, suspirando. Tentar de novo ser a nova Miss Finn. Mas não importava o que fizesse, era provável que Andre fosse querer visitar o filho e ter alguma forma de acesso regular à criança. Um acordo teria que ser feito, por mais doloroso que fosse. A atitude de Monique Chaloux só piorava as coisas. — Sua irmã caçula... Quelle enchanteresse. Quelle jolie blonde. Não é de se admirar que todos os homens, inclusive monsieur Andre, fiquem bouleversé pela presença dela. — É mesmo — concordou Ginny, inexpressiva, ciente de que os comentários dela eram uma forma de puni-la pelo novo sistema que Monique ainda não dominava. De certa forma, Ginny ficava quase grata pelos constantes erros que tinham que ser corrigidos, os arquivos deletados que precisavam ser recuperados, os dados atribuídos aos arquivos errados ou até mesmo completamente omitidos. Afinal, além de 69


levar Barney para passear ocasionalmente, Ginny tinha pouco com que se ocupar. Pelo menos, corrigir aqueles erros davam-lhe algo em que pensar, melhoravam suas próprias habilidades com o computador, algo que seria bom futuramente, quando voltasse à Inglaterra. Sozinha. Mas o sistema labiríntico de arquivamento de mademoiselle era uma tremenda dor de cabeça, os documentos sumiam inexplicavelmente. Então, quando o bom tempo de primavera fez com que Andre sugerisse que fizessem uma adiada visita ao Beaune, Ginny concordou sem hesitar, mesmo que a viagem fosse mais para o prazer de Cilla do que o dela. Diferente da paz de Terauze, a repentina confluência de estradas principais cheias de grandes caminhões passando estrondosamente foi meio que um choque, porém logo esquecido assim que Ginny avistou os primeiros sinais de Beaune, protegida por suas impressionantes muralhas medievais. — Oh, que lindo! — disse Ginny, impulsivamente, quando Andre virou por um portão arqueado, entrando num labirinto de ruas estreitas. Ela o viu sorrir. — Essa também foi a opinião de seu beau-père quando eu o trouxe aqui. Agora vamos andar um pouco. Nada fica longe demais. Ele as guiou por mais um labirinto de ruas aconchegantes que dava para uma praça dominada por um edifício colossal, erguendo-se acima de suas muralhas de pedra. É aqui onde eles desovam visitantes indesejados?, pensou Ginny, mordaz, enquanto cruzavam uma entrada nada animadora com a aldrava da porta ilustrando uma salamandra comendo uma mosca. Então ela entrou num mundo diferente. Ofegante, deparou-se com um dos mais incríveis edifícios que já vira na vida. Era claramente antigo, com pedras quase douradas sob a luz do sol do início da primavera. Mas foi a arquitetura colorida que a hipnotizara, desde as esguias pilastras arcadas que suportavam a ornamentada varanda superior até as belas janelas de teto. O teto era de um tipo que ela nunca vira antes. Azulejos de estampas geométricas, mescla espetacular de verde, cor de ferrugem e preto em contraste com fundo dourado, e cata-ventos dourados erguendo-se em direção ao céu. Ela se voltou para Andre. — Que lugar é este? — O Hotel-Dieu, construído há seis séculos por Nicholas Rolin, Chanceler de Philippe le Bon, como hospital para os pobres. Talvez, como comentara o rei de França, para compensar por todos aqueles que ele ajudou a empobrecer. Quaisquer que fossem os motivos de Rolin, tornou-se um símbolo de nossa região. — Ainda é um hospital? — Não, é um museu. Os enfermos e idosos foram transferidos para prédios modernos há uns quarenta anos, mas todos eles, inclusive o Hotel-Dieu, ainda são mantidos pela instituição de caridade Hospices de Beaune, fundada por Nicholas e sua esposa. Ginny olhou de novo, admirada, para a fachada deslumbrante do edifício. — Isso deve custar uma fortuna. Andre balançou a cabeça. — Não é nada quando a instituição de caridade é dona dos maiores vinhedos em Burgundy. E, em novembro, durante os Trois Glorieuses, suas novas safras são vendidas em leilão a compradores do mundo todo, levantando até cinco ou seis milhões de euros. — É então que eles acendem a vela e têm que dar o lance antes que ela se apague? — perguntou-lhe Cilla, ansiosa. Ele abriu um largo sorriso. — Não, isso é apenas para o lote mais importante, La Pièce de Presidents, geralmente com a presença de uma celebridade. 70


Cilla suspirou. — Oh, eu adoraria ver isso. Andre disse baixinho: — Então tudo que você precisa fazer é ficar aqui. Você sabe que a escolha é sua. Para Ginny, o brilho do dia se fora quando ela viu o rubor na face da irmã, e a ouvira murmurar algo tímida, confusa, totalmente atípico dela, antes de desviar o olhar. Porque ela sabia que todo aquele brilho tímido só podia significar uma coisa: dessa vez, Cilla estava genuína e profundamente apaixonada. E, olhando de relance para Andre, Ginny viu quando ele sorriu com uma calada e profunda satisfação enquanto seguia na frente pelo Hotel-Dieu adentro. Sentiu seu coração revirar-se em agonia. O interior era simplesmente tão surpreendente quanto o lado de fora e, sob outras circunstâncias, Ginny teria se deleitado com a história do lugar, mas não agora. A dor aumentava dentro dela enquanto analisava, obediente, os imensos detalhes da pintura através de uma das lupas fornecidas aos visitantes como se sua vida dependesse disso. Sei que nunca é certo arruinar três vidas, mesmo me condenando a um inferno miserável de arrependimento. Mas isso seria pior do que estar com um homem que só se casaria comigo por dever?, pensou Ginny. Sim, Cilla ficará chocada e magoada quando souber do bebê, mas amando Andre, ela haverá de perdoá-lo. E ele, amando-a, será fiel a ela no futuro. E eles serão felizes juntos. Tenho que acreditar nisso. Tenho que... Com esses pensamentos, quando saíram na luz do sol, Ginny tropeçou nos cascalhos. — Fais attention, ma mie. Andre estava ao lado dela, e a segurou pela mão, envolvendo-a com o braço, algo simples, mas que fez com que ela se sentisse desconfortável com a resposta de seu corpo a ele. — Solte-me — disse ela, com a voz rouca, soltando-se dele. Ginny viu o choque no rosto dele transformar-se em algo próximo à angústia, e percebeu que Cilla os observava, arregalando os olhos no silêncio. Ela deu risada. — Desculpe-me, você me assustou. — Evidemment. Eu também sinto muito. Palavras simples, mas que abrangiam toda a situação. E colocavam um ponto final em tudo. Ela queria ficar sozinha, cuidar de suas feridas, fazer seus planos, mas como isso era impossível, resolveu bancar a turista e aproveitar ao máximo suas últimas horas em Burgundy. Antes que minha própria vela se apague... Quando voltaram a Terauze, Ginny estava cansada de sorrir e sua garganta doía pelas perguntas forçadas que ela fez para parecer interessada no lugar. Ginny notara que, apesar de os pais de Andre serem ingleses, ele já havia se tornado um verdadeiro filho de Burgundy, comprometido de coração e alma a essa antiga e histórica região e a suas grandes vinhas. E agora ele estava claramente comprometido com a ideia de comprar o pacote completo de um futuro ali com a garota que ele amava, soando apaixonado a cada palavra que dizia. No château, Gaston esperava pelo retorno deles. — Seu pai deseja vê-lo, monsieur Andre. Monsieur Labordier e monsieur Dechesnes estão aqui. Andre soltou xingamentos baixinho. — Irei lá falar com ele imediatamente. — Ele se virou para Ginny. — Precisamos 71


conversar. Para começar, você precisa saber de uma coisa sobre Lucille. A qual, notou Ginny, havia prudentemente desaparecido cozinha adentro. — Isso não será necessário. — Ginny ergueu o queixo. — Não sou cega nem idiota e estou bem ciente do que está acontecendo. Prefiro não falar sobre isso. — Entendo que foi um choque. Tout de même, eu esperava uma resposta bem mais graciosa da sua parte, Virginie. — Talvez em algum momento eu acabe pensando em uma. Agora vou descansar no meu quarto. — Se ainda for meu... Lá em cima, ela tirou o casaco e os sapatos e deitou-se na cama, o olhar fixo no teto, tentando esvaziar a mente, relaxar e deixar que seu cansaço tomasse conta de si. Quando ela começava a cochilar, alguém bateu à porta: era Cilla. — Oh, eu receava que você estivesse dormindo. — Ela entrou, nervosa, aproximou-se da cama e sentou-se na beirada. — É só que... troquei uma palavrinha com Andre, e ele me disse como você se sente. Mas, Ginny, por favor, acredite que não vim até Terauze para me apaixonar. Na verdade, essa era a última coisa no mundo que eu esperava acontecer. Nunca soube que seria capaz de me sentir assim. Eu... eu mesma ainda não consigo acreditar nisso. — O sorriso dela era forçado, apreensivo. — E tenho certeza de que você acha que é cedo demais, que não vai durar. Mas sei que ele é o único homem que sempre haverei de querer, então você... não pode simplesmente ficar feliz por mim? “Ginny, eu tive um pesadelo. Posso dormir com você?” “Ginny, perdi meus trocados. Você pode comprar doces para mim?” “Ginny... não conte à mamãe que quebrei o jarro.” Palavras de um passado distante ecoavam na mente de Ginny, da menina vulnerável e dependente que precedera a beldade mimada. — É claro que ficarei feliz por você, Cilly-Billy... eu só preciso me acostumar com isso, só isso. — Ela se forçou a sorrir. — E agora eu realmente gostaria de relaxar. Estou bem cansada. Cilla assentiu, levantou-se, olhou para Ginny, franzindo os lábios. Ela se apressou a dizer: — Mas isso pode acontecer com você também, Ginny. Você poderia se apaixonar. É só deixar acontecer. Ginny continuou sorrindo. — Talvez nem todos sejam tão sortudos. Sozinha novamente, ela virou-se e ficou deitada como uma pedra, a face enterrada no travesseiro. Foi uma verdadeira luta não chorar torrencialmente por tudo que perdera. Recusava-se a encarar a verdade de que estava e sempre estivera apaixonada por Andre. Provavelmente desde aquele primeiro momento. E por que ela via isso agora com tanta clareza? Quando já se tornara tarde demais? Quando ela estava feliz por ter vencido a batalha contra as lágrimas, dez minutos depois, Andre escancarou a porta e entrou com tudo. Ela se sentou, com o olhar fixo nele. — Achei que você tivesse visitas. — Eles se foram. — E eu falei que não queria conversar. — Mesmo assim, temos que conversar. E sobre seu futuro, e não o de Lucille. Como se pudesse haver alguma diferença... — Eu digo que nós dois não temos nenhum futuro. Que devemos sair desta situação perdida e seguir caminhos separados. — Separados? — Ele quase cuspiu a palavra. — Como podemos fazer isso se estaremos para sempre ligados pela criança que você está carregando? Quando... — Ele 72


parou de falar, balançando a cabeça. — Eu... eu não faço ideia. Só sei que não posso permanecer aqui. Que você tem que me deixar ir embora. Quanto mais cedo, melhor. Depois de um silêncio, ele disse, baixinho. — Não posso mais argumentar em relação a isso. Há detalhes a serem acertados, naturellement, que meu advogado, Henri Dechesnes, discutirá com você. E, visto que ele era um dos visitantes, sem dúvida a maior parte da discussão já ocorreu... Ela assentiu. — Provavelmente é melhor assim. Não se preocupe, Andre. Não lhe pedirei muita coisa. — Você não tem que me dizer isso, Virginie. Je crois bien. E fui um tolo de em algum momento achar... ter esperança demais... — disse ele, com uma amargura repentina. — Vou agora contar ao meu pai o que foi decidido. — Tenho certeza de que ele já sabe... e vai achar que fizemos as escolhas certas. — Au contraire, tenho certeza de que ele ficará profundamente decepcionado com nós dois, e direi isso a ele no jantar. — O que não seria justo com Cilla. Então talvez você deva desculpar-se por mim e pedir que Clothilde me traga um pouco de sopa aqui. — D'accord... se é isso que você quer. Não, não é isso que eu quero! Mas tudo que eu realmente desejo deve permanecer em segredo até que eu esteja fora daqui. E, provavelmente, para sempre.

CAPÍTULO 13

Ginny acordou alarmada, e ficou um instante deitada perguntando-se o que a haveria perturbado. Ela nem esperava conseguir dormir, mas dormira profundamente, notou, ao ver que sua bandeja com a ceia, entregue com desaprovação por madame Rameau, fora retirada dali e ela nem percebera. Na primeira manhã em que acordara em Terauze, ela não acreditara que acharia a vista das vinhas tão atraente algum dia, nem como sentiria falta delas. Sentiria falta de tudo. E de todo mundo. — Preciso olhar na internet e pegar informações sobre voos para o Reino Unido. Enquanto ainda tenho uma casa. Quando Ginny entrou no escritório, ela viu Monique Chaloux ajoelhada, irritada, destruindo folhas e mais folhas de papel na máquina picotadora, não notando que estava sendo observada. Mas ela nem deveria estar aqui, pensou Ginny, alarmada. Hoje não é dia de trabalho dela. E aquelas coisas que está picotando... parecem extratos bancários! Então... o que está acontecendo? — Bonjour, mademoiselle. Ça va? — disse Ginny, baixinho, e a mulher ergueu o olhar de relance, branca como o papel que picotava. Sua aparência estava horrível, negligenciada. — Ah, é você — disse ela, quase cuspindo as palavras. — O que está fazendo aqui? 73


Ginny aproximou-se, erguendo as sobrancelhas. — Creio que eu deveria fazer a você esta pergunta. — Não é da sua conta. Você ainda não é a lady da casa. — E você não está em seu horário de trabalho. Então, quem a autorizou a destruir esses documentos e por quê? Eu gostaria que você me respondesse... — Gostaria, gostaria — disse mademoiselle, desligando a máquina da tomada. — Você não passa de outra inglesinha enxerida como aquela lá. Pálida e tosca do mesmo modo. Ela se levantou desajeitada e mesmo do outro lado da sala, Ginny podia ver que tremia. — Acreditei que ela fosse minha amiga, mas, em vez disso, fiquei vendo enquanto ela tomava o homem que eu amava. Mesmo quando ela foi embora daqui, ele não a esqueceu. Quando voltou, enceinte de outro homem, ele se casou com ela! C'etait incroyable. Ele deveria ter me amado! Eu poderia ter lhe dado um filho dele e não de algum Anglais! Quando ela morreu, achei que fosse ter outra chance, então voltei, na esperança de que pelo menos ele me visse como a esposa que deveria ter tomado. E ele foi grato a mim, ah, oui, e bondoso, todos esses anos, tão grato e tão bondoso! Até a noite do aniversário do baron Emile, quando vi Andre colocar os rubis da baronne no seu pescoço, e então eu soube que desperdiçara minha vida numa vã esperança! Percebi que veria outra putaine Anglaise no lugar que deveria ter sido meu e que novamente eu sairia de Terauze sem nada! — Ela balançou a cabeça, com um pouco de saliva nos lábios, abertos em um sorriso rígido. — Mas não dessa vez! — Ela olhou para o que sobrara dos papéis em sua mão. — Todos esses anos de devoção merecem uma recompensa generosa dos Duchard e eu a tomei! Ginny ficou rígida. Meu Deus! Ela vem roubando dinheiro! Talvez os problemas com o computador fossem deliberados. Para encobrir o que estava fazendo. Isso é um grande problema. E estou começando a ficar com medo, pensou Ginny. — Tenho certeza de que o baron Bertrand realmente lhe dá valor, mademoiselle. Então, por que você não vai até ele para conversar? Antes que as coisas fiquem sérias. — Vai chamar a polícia? Você é uma tola! Bertrand pode pagar pela perda e não vai querer o brouhaha de uma ação nos tribunais. O nome Duchard tem orgulho e a desgraça do affaire da sua irmã é o bastante pelo momento. En plus, fui esperta, cuidei de couvrir ma marche. Eles ficarão felizes simplesmente me deixando ir embora. — Você diz que ama monsieur Bertrand, e ainda assim é capaz de fazer isso com ele — disse Ginny, aos sussurros. Monique Chaloux riu dela. — Amor? O que você sabe disso? Garota tola com água no lugar do sangue? Não é de se admirar que monsieur Andre se divirta em outras praias. Você não é merecedora! Et maintenant, eu acabei o que tinha a fazer aqui. — Mas eu não. — Ginny ergueu o queixo. — Porque você não vai se safar disso. Vou direto agora falar com monsieur Bertrand. Ela se virou e desceu rapidamente as escadas. Na virada, foi violentamente empurrada quando Monique passou como um trem descontrolado por ela, que se agarrou desesperadamente ao corrimão de corda de seda na parede, mas não conseguiu, e caiu para a frente, gritando enquanto rolava escada abaixo pelos restantes degraus de pedra, colidindo na porta lá embaixo. Ela sentiu uma repentina dor na cabeça, e seu mundo perdeu a luz. Havia alguma coisa brilhando acima dela, uma luz tão brilhante que conseguia, de alguma forma, penetrar em suas pálpebras cerradas, fazendo com que a escuridão 74


anterior parecesse amiga. Ela tentou pedir para alguém desligar a luz, mas sua voz não saía. Alguém falava ao longe: — Virginie, mon ange, mon amour. Acorde, chérie. Olhe para mim, je t'en supplie. A voz era familiar, mas as palavras não faziam nenhum sentido. Sentido nenhum. Mesmo assim, ela tentou obedecer, mas forçar seus olhos a se abrirem era demais. Além disso, estava ciente da dor feroz, como se as mandíbulas de um animal faminto estivessem esperando para devorá-la. Era mais fácil concluir que deveria estar dormindo e sonhando, e permitir-se voltar para o tênue conforto de sua noite interna. No entanto, a voz não a deixava descansar, chamando-a, exigente: — Ma douce, ma belle. Reveille-toi. A essa voz juntavam-se outras, nenhuma das quais ela reconheceu, exceto a de Cilla, que soava estranhamente engasgada, enquanto implorava: — Oh, Ginny, por favor, fale comigo. Por favor, diga-me que está tudo bem com você. É claro que não estou nada bem, era o que Ginny queria dizer, porque não conseguia mais controlar a dor que dominava cada simples movimento seu. Quando, por fim, ela abriu os olhos, deparou-se com uma diferente forma de luz. O sol entrava pela janela, de um quarto com paredes azul-claras onde ela estava deitada numa cama alta e estreita. Onde estou? O que aconteceu comigo? Ela virou a cabeça que latejava devagar, encolhendo-se de dor. Viu Andre, com a barba por fazer, desmazelado e dormindo numa cadeira ao lado. Ele estava com uma aparência terrível, e ela sentiu um desconforto quase físico ao lembrar-se das palavras dele... mas então se lembrou de que tudo tinha sido um sonho. Ginny disse o nome dele, com a voz baixa e rouca, mas ele ouviu porque abriu os olhos na hora. Por um instante a contemplou com ares de incredulidade. Depois, correu até a porta e gritou um nome: — Philippe. Em poucos segundos, o quarto estava cheio de gente conduzida por um homem que acendeu o que parecia uma lanterna de bolso nos olhos dela e mediu sua pressão antes de lhe perguntar se ela sabia em que dia estavam. Demorou um pouco, mas ela respondeu a ele. — Você sabe por que está aqui? — perguntou-lhe o médico. — Sabe o que aconteceu com você? Por um instante, Ginny ficou em silêncio, então, como se uma cortina em sua mente fosse lentamente erguida, ela lembrou de tentar salvar-se, mas de ir com tudo para a frente na escada. — Caí. Da escada. Ele assentiu. — Très bien. Vous êtes couverte de bleus, mademoiselle, mais rien est cassé. Vous comprenez? — Estou bem machucada, mas não tenho nada quebrado. Mas... o bebê! Eu não perdi o bebê, perdi? — Heureusement, non. — Ele sorriu reconfortando-a. — Como eu disse a Andre, nem sempre uma queda leva a une fausse couche, e a criança está a salvo. E continuou: — Não, nossa preocupação era de que você tivesse sofrido une commotion cerebrale. Uma concussão. — Ele assentiu. — Vamos fazer mais alguns testes, mas não há hemorragia interna e acredito que o ferimento não seja grave. Mas havia ocorrido um dano grave de outra espécie, pensara Ginny, lembrando-se 75


dos eventos, cujos resultados poderiam ser temerosos. Ela disse, com tom de urgência: — Andre... tenho que falar com ele. Quelque-chose très importante. — É mais importante que você descanse e se recupere, mademoiselle, mas permitirei que tenha uns instantes com seu fiancé, se primeiro tomar o analgésico e o sedativo que a enfermeira vai lhe dar, para que durma quando ele for embora. E quantos mais seriam necessários para me deixar apagada à noite quando ele se fosse para sempre?, pensou ela, engolindo os comprimidos. Quando Andre entrou, parecia prestes a ter um ataque. Talvez o amigo médico dele devesse prescrever um sedativo para ele também, pensou Ginny, com o coração se revirando enquanto ele se aproximava dela e sentava. — Philippe me disse que você pediu para falar comigo. Que tem algo a me dizer — falou ele, gaguejando um pouco. Ele esticou a mão, como que buscando a dela, mas Ginny recuou, sabendo que o mais leve toque dele, ainda mais por compaixão, poderia causar-lhe mais dor do que qualquer machucado. — É Monique Chaloux. Encontrei-a no escritório picotando extratos bancários na máquina. Ela vem roubando de vocês... provavelmente, muito dinheiro. Eu... estava descendo para contar isso a vocês, quando caí... — disse Ginny, sem fôlego. O silêncio que se seguiu foi esquisito, e quando ela arriscou olhar para ele, viu que ele empalidecera apesar de seu bronzeado. A expressão em seus olhos era de choque e havia um quê de desapontamento cheio de desespero. O que não é de se admirar, afinal de contas, era a última coisa que alguém ia querer ouvir de uma pessoa conhecida e em quem confiaram por tanto tempo. — Acho que você quis dizer... quando foi empurrada. Monique admitiu isso também. — Admitiu? — Sim. Neste exato momento, ela está, digamos, ajudando a polícia com seus inquéritos. — Mas você não deve deixar que ela faça isso! Ela vai dizer coisas horríveis sobre a Cilla no tribunal. — Ela desviou o olhar, engolindo em seco. — Sobre o casamento dela. Será horrível... para todo mundo. Ele deu de ombros. — Monique est terriblement esnobe, todo mundo sabe disso. E se papa recebe bem o casamento, como é o caso, o que mais importa? — Claro, você está certo — disse ela, baixinho, controlando suas emoções. — Como você descobriu sobre a Monique? — Jean Labordier do Crédito Regional notificou-nos sobre uma nova conta que foi aberta em nome do domaine, e ele queria verificar a carta de autorização, que, claro, era falsa — disse ele, com uma careta. — Mas demos um jeito para que a conta fosse aberta, para vermos o que ia acontecer. Descobrimos que Monique estava saindo do appartement dela, então papa tentou várias vezes falar com ela, quase para avisá-la, mas não conseguiu. — Mas como ela pôde fazer isso com seu pai, que ela dizia amar? — Porque o amor dela não era correspondido. E nunca aprendeu a entender como uma coisa dessas pode acontecer... nem aprendeu a perdoar... — Essa... não é uma lição fácil. — Não preciso que me digam isso. Bem... ontem, Jean ligou para dizer que mil euros tinham sido transferidos para a nova conta. Nesta manhã ela foi presa, com tentativa de assassinato acrescentada às acusações. Ginny ficou ofegante. — Isso não é ir longe demais? 76


— Você acha? Quando poderia ter fraturado o crânio? Quebrado o pescoço? Sabe das agonias que senti quando você não recobrou imediatamente a consciência? Quando percebi que Philippe estava tentando me avisar que por ter batido a cabeça, você poderia ter um dano cerebral ou sofrer uma hemorragia fatal? — disse ainda, com a voz trêmula: — E você poderia ter perdido nosso filho. Sim, pensou ela. Meu único e precioso elo com você, tirado de mim. Deixando-me com menos do que nada. — Ainda assim, aqui estou eu, sã e salva, e logo ficarei bem de novo. Bem o bastante para ir embora e deixar que você siga em frente com a sua vida. — Mil obrigados — disse ele, com uma intensa amargura. — E agora, ao contrário de Monique, suponho que eu deva aprender a perdoar você. Até mesmo ter esperanças de que encontre a felicidade que me foi negada. Tudo com que sonhei foi que se eu fosse paciente com você eu descobriria o amor da minha vida. Apesar de seus machucados, Ginny sentou-se. — Você se atreve a me dizer isso? — perguntou ela, incrédula. — Falar como se eu fosse culpada por terminar esta farsa de noivado? Quando você pretende se casar com a minha irmã? — Eu... casar-me com Lucille? Que loucura é essa? — Ah, não finja! — disse ela, furiosa. — Você dormiu com ela na Inglaterra e, quando ela apareceu aqui, vocês recomeçaram o caso. Você nega que a encorajou a ficar aqui por quanto tempo quisesse? — Não... pelo menos a última parte disso que você falou é verdade. Mas foi por causa do Jules, não por mim. Eu podia ver que ele também estava sofrendo com o coup de foudre... aquele momento em que a gente olha nos olhos de uma mulher e sabe que a vida da gente mudou para sempre. Ele me implorou para persuadi-la, e, contra meu bom senso, fiz o que ele me pediu. — Jules... Jules Rameau? — Quantos outros Jules você conhece? — perguntou-lhe Andre, impaciente. — Você está me dizendo que Cilla e Jules estão juntos e pretendem se casar? — Sim. C'est incroyable, n'est-cepas, o que o amor pode fazer? — Bem, sim — disse Ginny, com ares de dúvida. — Você não os vê como um casal, não é? Ainda assim, Jules é o homem forte que eu sabia que ela realmente precisava. Com ele, Cilla passou a ser uma mulher, não a criança mimada e egoísta que foi até o meu quarto de hotel naquela dia, entediada com o noivo e querendo um pouco de aventura. Ginny ficou ofegante. — Ela lhe disse isso? — Claro que sim — disse Andre, num tom seco. — E ela ficou bem chocada quando deixei igualmente claro para ela que estava perdendo seu tempo e a mandei embora. — Mas ela permitiu que eu achasse que vocês eram amantes. — Ela não é mais aquela pessoa, Virginie. Pergunte isso a ela de novo e ela lhe contará a verdade... mas, quando Cilla chegou aqui, foi essa capacidade para criar encrenca que me deixou preocupado quando ela e Jules começaram a passar um tempo juntos. Eu não sabia ao certo dos verdadeiros sentimentos dela até o dia em que fomos a Beaune. Eu precisava saber se ela estava verdadeiramente comprometida a passar a vida dela aqui em Burgundy ou se decidiria, no fim das contas, que a Inglaterra tinha mais a oferecer. Porque eu sei que Jules nunca iria embora daqui. — Ele acrescentou, com melancolia: — E eu não podia suportar que ela partisse o coração dele, Virginie, como você estava partindo o meu. — Mas você só me trouxe para cá porque se deu conta de que eu podia estar grávida e sentiu-se culpado. 77


— Sim, havia certa culpa... porque eu tinha apressado você a entrar num relacionamento para o qual não estava preparada. Mas eu sempre pretendi trazer você comigo para cá, ma mie, porque sabia muito bem que não conseguiria viver sem você. Quando fui para a leitura do testamento, eu estava atrasado, cansado e com raiva, porque sabia dos problemas que aquilo haveria de causar. Então a porta se abriu e você estava lá, com o cão do meu pai ao seu lado, como se vocês estivessem esperando por mim. Vi como era pálida e infeliz, e queria pegá-la nos meus braços e mantê-la em segurança para sempre. E, naquele momento, eu soube que a maior felicidade que a vida poderia me conceder seria voltar para casa todos os dias e encontrar você esperando por mim. — Mas você ainda estava com raiva! — Isso é verdade... porque era algo que eu não esperava, e não gosto de choques. Além disso, era uma coisa que eu não queria. Uma esposa, um dia, peut-être, mas não de imediato. Ela desviou o olhar, o rosto ficando quente. — Mas não sou bonita. Cilla sempre foi a irmã bonita. — Virginie, chérie, minha doce tolinha, para mim, você sempre foi um encanto. E, na noite do nosso noivado, naquele vestido preto, com os rubis no pescoço, você era a essência da beleza! — Ele balançou a cabeça. — Mon Dieu, eu queria tanto você! Estava ficando maluco já... — Você me pediu para dormir com você... mas nunca chegou perto de mim. E começou a dormir lá embaixo, na Petite Maison. — Porque eu não confiava em mim mesmo. Clothilde havia me avisado de que fazer amor nos primeiros meses nem sempre é bom para o bebê, e, como nosso filho parecia ser o único motivo pelo qual você estava comigo, senti que não podia me arriscar, por isso fiquei longe. E quando ficou sabendo que Jonathan Welburn era um homem livre, mal me permitiu encostar em você, fazendo com que eu acreditasse que ainda gostava dele. E, se você não mais me queria, como eu poderia mantê-la presa aqui, num casamento sem amor e nem mesmo um pouco de calor humano? Papa me disse como ele lutou com isso, quando soube que minha mãe não tinha se casado com ele por amor, embora ela tivesse vindo a gostar profundamente dele. Mas isso poderia não ter acontecido, e ele não queria que eu sofresse do mesmo jeito. — Achei que você gostasse da minha irmã, que ela estivesse assumindo meu lugar, me substituindo... pensei que, se eu me distanciasse de você, poderia não doer tanto. Em vez disso, foi mil vezes pior. Ele soltou um gemido. — Perdoe-me, ma belle. Eu só queria que você descansasse mais, pelo menos até os enjoos pararem, e que Lucille fosse um pouco útil e ajudasse você. Clothilde me disse que você não é tão forte quanto ela gostaria. Ginny curvou os lábios lentamente num sorriso. — Bem, eu e o bebê sobrevivemos a uma queda pelas escadas, talvez então não sejamos tão frágeis quanto você pensa. Ela esticou a mão, que ele tomou na sua, segurando-a por um bom tempo, como se fosse algo infinitamente delicado, infinitamente precioso, antes de levá-la à boca. Então ele passou os lábios e a língua numa carícia sensual pela palma da mão dela, sugando as pontas dos dedos. Ele deve ter sentido o tremor do voluptuoso desejo de Ginny, porque ergueu a cabeça e sorriu, os olhos vívidos com uma ternura apaixonada. — Então, quando seus ferimentos estiverem curados, poderemos colocar isso à prova? Na nossa lua de mel, peut-être? — Com a condição de que você retire a acusação de Monique Chaloux de tentar me matar. Não estou preparada para ser um problema a mais dos que ela já tem. Não quando conheci eu mesma a dor do ciúme e do amor não correspondido. — Você não pode estar me pedindo isto! — Andre balançou a cabeça. — Mon 78


Dieu, Virginie, quando eu vi você lá deitada, achei que a tivesse perdido! — Em vez disso, você me achou. Nós dois nos achamos, talvez graças a ela. Seguiu-se uma pausa e então ele soltou um suspiro. — Soit. Como você quiser. De repente, Ginny percebeu que estava bocejando. — Ah, não. Deixei que me dessem um remédio para dormir. — Durma, então. — Andre ainda segurava na mão dela, seu olhar contemplativo aquecendo-a. — Sonhe comigo, mon ange, e, quando você acordar, estarei ao seu lado. — Promete? — Pour le restant de nos jours — sussurrou enquanto ela cerrava os olhos. — Enquanto eu viver.

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SEM DEFESAS Caitlin Crews

Havia uma química, uma eletricidade entre eles que pairou no ar e depois moveuse para dentro dela, acendendo alarmes e a deixando com a sensação de que desmaiaria pela primeira vez na vida. Como a noiva dos tempos antigos, usada como escambo que ela personificava hoje. Talvez tudo isso possa representar umas férias divertidas de toda a situação, sugeriu uma vozinha, como se tudo em que acreditava, toda sua postura até então, tivesse se afogado naqueles olhos azul-escuros. E então ele desviou o olhar e o tempo acelerou. Ouviu aplausos, a música do órgão e os cochichos das centenas de convidados escandalizados que por fim se deram conta de que Chase Whitaker, presidente e CEO da Whitaker Industries e um dos mais adorados herdeiros e playboys, tinha acabado de se casar com a filha errada da família Elliott. Zara também partilhava desse assombro, mas não teve tempo para refletir. Chase a segurava pelo braço de um jeito como se ela fosse sua prisioneira, e não noiva; apesar disso, ela se sentiu mais querida do que quando Amos fizera a mesma coisa. Só que agora eles percorriam a aleia da igreja. Ela viu o rosto sorridente do pai ao passar por ele. Viu a madrasta enxugando as lágrimas e pensou que a avoada Melissa talvez fosse a única pessoa na igreja que tivesse achado a cerimônia emocionante. Que Deus a abençoasse. Viu vizinhos antigos e amigos da família e as expressões especulativas de centenas de estranhos, mas a única coisa real era aquela mão firme que a mantinha perto daquele corpo esbelto de deus grego. E então fez-se o silêncio. Chase a conduziu para fora da igreja, desceram os degraus e o frio da tarde de dezembro os atingiu antes de entrarem na parte de trás da limusine. — Para casa — ordenou ao motorista. — Já. — A recepção vai ser aqui na aldeia, não perto de sua casa, seja lá onde ela for — avisou Zara, incapaz de manter a boca fechada. Chase se atirara no assento de couro ao lado dela e quando voltou aquele olhar furioso e incrédulo de novo em sua direção foi como se estivesse sendo queimada vida. Sentiu-se vítima de um feitiço. Ele a encarou. Minutos se passaram ou talvez anos. O carro afastou-se da igreja. O mundo poderia explodir do lado de fora da janela e ela nem notaria. Só havia aqueles olhos azuis selvagens e o resto do calor onde a boca e a palma da mão tinham tocado sua pele, como se ele tivesse marcado sua pele a ferro e fogo. Então o carro parou num sinal e Chase piscou e voltou a olhar para a frente. Zara acreditou ter imaginado aquela sensação surpreendente, de enfeitiçamento, de estarpegando fogo. Era a estranheza da situação, só isso. Era aquele vestido ridículo de Ariella que lhe cortava a pele como um corpete dos infernos, dificultando a respiração. Não havia motivo nenhum para achar que, apesar de tudo, nunca se sentira mais viva em toda sua existência do que naquele momento, na parte de trás de uma limusine que se dirigia só Deus sabe para onde, com um estranho lindo e zangado. — Ah, peço desculpas — disse, pois afinal era melhor manterem um clima cordial. A avó teria agido assim. — Acho que não fomos apresentados. — Ela sorriu com toda a educação possível para esse homem, seu marido, e estendeu a mão. — Prazer, Zara.

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(desejo 458) sara craven desejo possessivo