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VENDIDO PARA O PRAZER À venda: Solteiro número nove. Bad boy reabilitado. O sonho de Juliana Alden era viver uma aventura. E ela soube que estava prestes a realizá-lo no instante em que seus olhos pousaram em Rex Tanner durante um leilão. Apenas precisava dar o maior lance! Embora dominado pelo desejo, Rex jurou que manteria seu lado selvagem preso, pois se Juliana realmente o conhecesse, ele perderia muito mais!

VENDIDO PARA A REDENÇÃO À venda: Solteiro número 13. Uma paixão ainda em chamas… Oito anos após Clayton Dean ter destruído o coração de Andrea Montgomery, ela vê a chance de tê-lo outra vez comprando-o em um leilão. Andrea iria dominá-lo e seduzi-lo completamente… Mas logo fica claro que é ele quem tem poder sobre Andrea. Clay sabia que ela apenas queria entender por que fora abandonada. Mas a verdade poderia ser devastadora!

VENDIDO PARA A SEDUÇÃO À venda: Solteiro número 23. Cada beijo pode render juros em curto prazo… Holly Prescott abdicara a riqueza da família em prol de uma vida simples. Porém, durante um leilão de solteiros, viu-se em uma enrascada: ter que arrematar o banqueiro Eric Alden. Eric não iria se submeter à mulher que desse o maior lance. Por isso, mirou Holly. Eric poderia confiar nela, ainda que sua proposta fosse um relacionamento rápido e sem compromisso…


Emilie Rose

LEILÃO DE SOLTEIROS

Tradução Ana Carolina Dantas Ligia Chabú Cydne Losekann

2015


SUMÁRIO

Vendido para o prazer Vendido para a redenção Vendido para a sedução


Emilie Rose

VENDIDO PARA O PRAZER

Tradução Ana Carolina Dantas


Querida leitora, Já imaginou poder comprar um homem alto, lindo e rico e ainda ajudar uma instituição de caridade? Pois é o que acontece em Leilão de Solteiros, edição tripla de Desejo. Em Vendido para o prazer, Juliana Alden está cansada da monotonia e decide que quer viver uma aventura. Porém, acostumada a sempre seguir regras, ela precisa de uma dica para começar. Até ver o sensual Rex Tanner sendo leiloado. Bad boy regenerado, ele é o objeto da fantasia de qualquer mulher. Rex sabe muito bem disso, tanto que abusa de seu poder de sedução, mas ignora como lidar com a paixão que Juliana desperta nele. Rex e Juliana conseguirão superar suas personalidades diferentes para viver um grande amor? Você está pronta para dar um lance? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três… Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


CAPÍTULO 1

– NOSSA TENSA auditora está pronta para ser corrompida? Seu solteiro é o próximo. Juliana Alden engoliu o champanhe grátis com a graça de um estivador bebendo avidamente sua cerveja, na esperança de afogar as dúvidas que se acumulavam em seu interior. Deixou a taça na bandeja de um garçom que passava e pegou outra para criar coragem antes de encarar Andrea e Holly, suas duas melhores amigas e companhias no audacioso plano daquela noite. – Nunca me senti tão nua na vida. Jamais darei carta branca a vocês quanto ao meu armário outra vez. Até minha camisola cobre mais do que esse vestidinho. Ela ajeitou a alça fina do vestido sobre o ombro outra vez, depois puxou para baixo a bainha curta que mal lhe cobria os quadris. Fugir pela porta dos fundos do clube lhe parecia cada vez mais interessante, mas Andrea e Holly jamais a perdoariam se fizesse isso. Por outro lado, foram elas as responsáveis por fazerem-na colocar um vestido que causaria um ataque cardíaco em seu pai caso ele a visse, então a opinião delas era suspeita. Andrea afastou suas objeções: – Você tem corpo para isso e vermelho fica ótimo em você. Não dê para trás agora, Juliana. Um mar de mulheres escandalosas, quase histéricas, as cercava, dando lances nos homens que eram leiloados para fins de caridade, com a mesma ferocidade de tubarões famintos. Podia apostar que as paredes do salão do prestigioso Caliber Club nunca reverberaram daquele jeito antes. O pandemônio apenas aumentava suas dúvidas sobre o plano que as três elaboraram durante muitas margaritas. Rezando por coragem e não a encontrando, Juliana respirou fundo e bebeu mais um gole de champanhe. O que dera nela para acreditar que poderia jogar fora trinta anos como moça certinha para dar um lance no solteirão mais cobiçado? Deveria ter começado com uma rebelião menor, mas não, escolhera pegar pesado na primeira tentativa. Como auditora de contas da rede bancária privada de sua família, era cuidadosa por natureza. Tinha um emprego previsível e dirigia um sedã razoável. Era confortável seguir as regras, ter sua vida precisamente organizada e ascender profissionalmente aos poucos como sua mãe fizera. Mas a pressão repentina para se casar para o bem da empresa abalou essa ascensão e fez com que Juliana se sentisse mais como uma mercadoria sendo permutada nas negociações de fusão entre a Alden Bank & Trust e a Wilson Savings & Loan do que um ser humano.


– Não acredito que deixei vocês me convencerem disso. Talvez eu não esteja pronta para esse tipo de homem “manche sua reputação”. Talvez devesse escolher alguém um pouco menos... – Na falta da palavra certa, deu de ombros. Como poderia descrever o homem cuja foto no programa de leilão de solteiros lhe causara calor? – Gostoso? – perguntou Holly com um sorriso malicioso. Eufemismo do ano. Juliana assentiu. O solteiro número nove subiu ao palco e o coração de Juliana bateu erraticamente. A multidão de senhoras normalmente honradas gritou, assoviou e bateu os pés calçados com sapatos caros. Se havia um homem que poderia tentar uma mulher a se arriscar a quebrar algumas regras, era aquele. Parecendo completamente à vontade sob os holofotes, ele lançou um sorriso desafiador e encorajou a plateia já descontrolada a fazer mais barulho, batendo palmas e mexendo os quadris ao som da música alta, como o artista que fora outrora. O cara sabia como se mexer. Ela deveria admitir. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. A camiseta preta apertada se esticava em seus ombros largos, moldando um tórax bem definido e envolvendo-lhe os bíceps volumosos. Os jeans, gastos naqueles locais intrigantes, para onde deveria estar envergonhada de olhar, eram bem baixos nos quadris, e ele usava botas de caubói – algo que não se via com frequência na cidade portuária de Wilmington, na Carolina do Norte. Considerando que todos os outros homens que subiram ao palco antes dele vestiam smoking, o visual casual do dono do bar gritava renegado – coincidentemente, o nome de seu bar e a palavra estampada nas costas de sua camisa. A pulsação de Juliana ressoava tão alto que mal podia ouvir a apresentação longa da mestre de cerimônias. Será que ela nunca tinha ouvido falar que “o silêncio vale ouro”? Se ela se calasse e deixasse que as pessoas olhassem para Rex Tanner, seu trabalho estaria feito. Que mulher não desejaria ser carregada naqueles braços musculosos ou ser coagida por aquele sorriso safado? – Sinta o poder entre suas pernas: um mês de aulas de equitação e motociclismo. – Andrea leu o programa em voz alta. – Juliana, se esse cara não conseguir mostrar o que você está perdendo, vou ter de conferir se você não está morta. Ele é exatamente o que você precisa para dissuadi-la da ideia louca da sua mãe. Juliana engoliu o resto de sua bebida. As bolhas fizeram seu nariz arder e seus olhos lacrimejarem. – Ainda não estou convencida de que tem algo errado com a sugestão da minha mãe. Wally é um cara legal. – Você não o ama e ele é chato – afirmou Holly. – Mais eficaz que um sonífero – acrescentou Andrea. – E ele é um fraco. Você seria o homem da relação. E aquilo era um problema? O papel de mulher no comando funcionara para seus pais. – Amo vocês por se preocuparem comigo e entendo a preocupação, mas, logicamente, Wally é uma boa escolha. Ele é estável, equilibrado e ambicioso, como eu, e é o único homem com quem já saí que entende as demandas da minha carreira e o tempo que ela exige. Podemos conversar por horas sem aquele silêncio estranho. Andrea bufou. – Sobre trabalho. O que acontecerá quando esse assunto se esgotar ou, Deus me livre, se você ainda estiver com ele quando se aposentar? Vai discutir créditos e débitos na cama? Conheço você, Juliana. Quando você se comprometer com um trabalho, ou um casamento, jamais desistirá. Esqueça a lógica


pelo menos uma vez. Essa é sua última chance de perceber que pode e deve haver mais que conveniência em um relacionamento. Última chance. A frase grudou na mente de Juliana. Sua última chance antes de concordar em se casar com Wallace Wilson – filho do dono do banco pronto para se fundir com o dos Alden – em uma união sensata, mas sem amor. Ela se mexeu, inquieta. Certo, talvez suas amigas tivessem razão. Wally não era o sr. Excitação, mas era gentil, bonitinho e firme. Se casasse com ele, provavelmente fariam o previsível “sexo por obrigação de sábado à noite” pelos próximos cinquenta anos. Por outro lado, rotinas eram boas e sexo não era tudo. Certamente não deveria ser a base para algo tão importante quanto o casamento. Emoções eram voláteis e imprevisíveis. Ética similar e respeito mútuo eram qualidades bem mais importantes e seguras. Se casasse com Wally, desenvolveriam outros interesses comuns e o amor cresceria com o tempo, como um investimento seguro. Não? Claro que sim. Se tivesse dúvidas, bastava olhar para seus pais. Casaram-se há quase quatro décadas para unir duas famílias de banqueiros, e permaneceram casados quando muitos de seus amigos tinham se divorciado. O vão da porta em direção à saída atraiu seu olhar novamente. Devia fugir antes de cometer essa loucura? Não. Uma promessa era uma promessa. Mas realmente odiava ser a primeira. Voltou-se para as amigas. – Prometam-me que não vão pular fora. Vocês comprarão solteiros hoje custe o que custar. Holly e Andrea sorriram angelicalmente e ergueram as mãos direitas como se jurassem sobre a Bíblia. Juliana não confiou naqueles sorrisos. Embora a vida das amigas não fosse tão metodicamente planejada quanto a sua, a escapada daquela noite era totalmente incomum para as três. Será que alguma delas recuperaria o juízo antes do fim da noite? O microfone chiou, chamando a atenção de Juliana de volta para o gato que comandava o palco – aquele a quem estava se esforçando para ignorar. Como alguma mulher podia resistir a ele? O cara era uma tentação e tanto desde o cabelo negro preso em um rabo de cavalo até as botas gastas. Ele não precisaria de um manual de instruções sobre como agradar uma mulher – presumindo que tal mulher pudesse ser agradada. Mas comprar o pacote do caubói exigiria mais que imprudência e coragem graças ao champanhe. Significava desconsiderar flagrantemente os desejos de sua mãe – algo que evitara com cuidado até então por medo das repercussões. Mas Juliana tinha de admitir que o noivado proposto e seu trigésimo aniversário a fizeram se perguntar se a vida não era mais que aquilo. Prometera a Holly e Andrea que avaliaria a possibilidade antes de concordar pacificamente com o futuro que sua mãe lhe planejara. Aquilo não evitou que Juliana pensasse se não teria aceitado um desafio maior do que poderia lidar quando escolhera seu solteiro – um homem completamente oposto de todos que namorara no passado. Rezou em silêncio para que o preço do rebelde ultrapassasse o limite estipulado por ela e as amigas, e então poderia escolher um homem menos intimidante. Covarde. Se fizer isso, seu plano falhará. Seu plano começava a parecer mais do que uma simples loucura causada pela tequila. Uma vez na vida, Juliana decidira quebrar as regras e, como não tinha ideia de por onde começar, escolhera Rex Tanner, um rebelde imprudente que ela esperava que a levasse para o mau caminho. Durante o mês


seguinte, se deixaria corromper e, depois que tivesse essa última aventura e tivesse certeza de que não estava perdendo mais nada que valesse a pena, poderia se casar com Wally sem arrependimentos. – Vá embora antes que arranje problemas. Juliana quase caiu ao ouvir o aviso de seu autoritário irmão mais velho. Recusou-se a admitir que queria mais que tudo sair correndo o mais rápido que seus saltos permitissem. Para irritar Eric, ergueu sua placa numerada, oferecendo o primeiro lance no sr. Gostosão. Andrea e Holly sorriram e fizeram sinal de positivo. Juliana não ousou olhar para o outro lado do salão, onde sua mãe, a principal organizadora do evento de caridade, observava-a com olhar de águia. Inclinou a cabeça para encarar o irmão. – Quantos problemas um mês de aulas de equitação podem causar? Vá embora, Eric. – Não estou preocupado com as aulas, porque você já sabe montar. É a outra metade do prêmio que me preocupa. Você vai se matar em uma moto. Seja razoável, Juliana. Você não é a pessoa mais coordenada do planeta. A alfinetada doeu – principalmente porque era verdade. Na verdade, recentemente limitou sua rotina de exercícios à natação, porque assim não cairia e se machucaria quando sua mente devaneasse para assuntos de trabalho. Eric tentou pegar a placa numerada, mas Juliana afastou-a de seu alcance e levantou-a no ar. – Tenho 30 anos. Estou muito velha para que você mande em mim. – Alguém tem de fazer isso. Você e suas amigas – olhou para Holly e Andrea – deviam estar fora de si para armarem esse plano. Comprar homens, pelo amor de Deus. Se quer apoiar a caridade, compre Wallace e não esse... – Gato – interrompeu Holly, recebendo uma cara feia de Eric. Juliana lançou o sorriso apaziguador que reservava para clientes difíceis. – Na verdade, Eric, a ideia do leilão foi da mamãe. Andrea, Holly e eu estamos apenas apoiando. – Droga, Juliana, você não dá conta de um cara como ele. Ele a usará e jogará fora. Pense. Compre Wally. Ele é... Seguro. – Avançou na placa de Juliana novamente e, de novo, ela a afastou. Seguro. Aquela palavra dizia tudo. Optara por segurança a vida inteira e aonde chegara? À frente em sua carreira, mas pateticamente atrasada em sua vida pessoal. Nunca se apaixonara perdidamente, e não podia evitar se perguntar se era capaz de sentir emoções tão intensas. Não que quisesse o sofrimento, mas era demais pedir por um pouco da parte boa e orgasmos de tirar o fôlego? Para uma mulher como ela – que confiava mais em fatos do que em sentimentos inconstantes? Provavelmente. Mas, por uma vez na vida, não queria a opção segura. Olhou para o homem no palco. Seguro não fazia sua pele arrepiar e sua respiração acelerar. Ergueu a placa no ar, desta vez segurando-a bem alto sobre a cabeça. Seu irmão era mais alto, mas tão conservador quanto ela. Não faria uma cena ou brigaria para impedi-la. – Não quero comprar Wally. Jantares no sábado à noite? Que falta de criatividade. Além disso, já tenho um jantar com ele às sextas. O que tem de errado em se divertir um pouco? Você deveria tentar de vez em quando. E então ela estremeceu. Eric fora dispensado publicamente há alguns meses e diversão provavelmente era a última coisa que tinha em mente. Ela suspeitava que seu coração não fora partido, mas seu orgulho levara um golpe sério. A pior parte era que desde que ele falhara em entrar para a família Wilson, sua mãe decidira que Juliana deveria tentar. Balançou a placa – um pouco mais desesperada dessa vez.


– Eric, já pensei bem nisso, sei o que estou fazendo, então me deixe em paz. – Vendido para o número 223 – gritou a mestre de cerimônias. – Pague e receba seu prêmio, senhorita. Juliana sentiu uma pontada no estômago. Olhou de Eric para a expressão horrorizada de sua mãe. Andrea e Holly aplaudiam e gritavam. Juliana não precisava conferir seu número para saber que ganhara, e não fazia ideia de quanto pagara por ele – um verdadeiro choque para alguém que trabalhava com dinheiro. Lentamente abaixando o braço, engoliu seco e fechou os olhos enquanto uma onda de puro pânico tomava conta de si. Não estava pronta para encarar o palco e as consequências de sua nova rebeldia. Talvez nunca estivesse. A vertigem a obrigou a respirar fundo. Forçou um sorriso falso para Eric e todos os demais. – Obrigada pela preocupação, irmãozinho, mas você não deveria estar atrás da cortina se aprontando para a sua vez no palco? Eric vacilou e empalideceu. Juliana sentiu uma pontada de culpa por cutucá-lo verbalmente com sarcasmo. Seu irmão não estava feliz por ter sido forçado pela mãe a participar do leilão. Mas Eric não era problema de Juliana agora. Tinha sua própria catástrofe em desenvolvimento para lidar. O pavor crescia dentro dela. Com as pragas murmuradas pelo irmão e os “vá pegá-lo” de Andrea e Holly ecoando em seus ouvidos, Juliana se encaminhou para a mesa no canto do salão e entregou o cheque para recolher seu... Prêmio. Sua mãe, com o olhar enfurecido, encontrou-a lá. – Juliana Alden, você enlouqueceu? E onde encontrou esse vestido vergonhoso? Juliana sentiu um nó no estômago quando todas as suas dúvidas a atacaram de uma só vez. Devia ter ficado temporariamente louca para concordar com a sugestão de Andrea de que celebrassem seus trigésimos aniversários gastando parte de seu fundo fiduciário em algo selvagem, imoral e totalmente egoísta. Não, não louca. Desesperada. Se não conseguisse sentir a paixão avassaladora que outras mulheres comentavam com um homem tão sensual como o rebelde, então era uma causa perdida, e estaria melhor com um homem como Wally, que não esperaria mais do que ela poderia dar. Mas embora admirasse a sagacidade para negócios da mãe e esperasse imitar a carreira de sucesso de Margaret Alden, as duas nunca foram próximas, então confessar a confusão de emoções que a levou a tal decisão não era uma opção viável. – Mãe, sempre fiz tudo que me pediu, mas hoje, isso – ele – é para mim. Olhou por cima do ombro da mãe. O prêmio de Juliana caminhava em sua direção em longos passos premeditados, e os pelos em sua nuca se eriçaram. Por que se sentia como uma presa encurralada? Determinada a não se deixar intimidar pelo olhar desafiador e pretensioso dele, assumiu a pose de debutante que sua mãe tanto lhe ensinara – alta e suntuosa, queixo erguido – e torceu para que seus joelhos não estivessem tremendo visivelmente sob a bainha escandalosamente curta de seu vestido. A uma distância de dez metros – e se aproximando rápido demais – o olhar sombrio do rebelde pairou sobre ela, deixando-a tensamente ciente de que não vestia nada além de um fio dental sob a roupa. Algum dia já conhecera algum homem que exalasse tanta sexualidade? Definitivamente não. Sua pulsação se agitou irregularmente e sua pele esquentou. – E Wallace? – sussurrou Margaret irritadamente.


Com muito esforço, Juliana desviou o olhar de seu prêmio e concentrou-se novamente em sua mãe. – Provavelmente passarei o resto da minha vida com Wally. Nenhum de vocês deveria me negar um mês de aulas de equitação. Os lábios de sua mãe relaxaram. – Um mês e espero que você recupere o juízo. Os Wilson são uma ótima família e Wallace tem conduta impecável. Saiba que seu pai não será tão compreensivo. Não, definitivamente não seria. Seria o que sua mãe lhe dissesse para ser. Por mais que amasse o pai, não era cega para os defeitos dele. – Ei, gata. – A voz rouca e profunda fez a pele de Juliana se arrepiar. Ignorou o espanto de sua mãe e encarou o homem que ficou parado a um metro de distância. O calor no sorriso maldoso e os olhos cor de café enfraqueceram as pernas de Juliana. Ele ofereceu-lhe a mão. – Sou Rex e vou ensiná-la a montar. Montar o quê? Ou quem? As perguntas surgiam involuntariamente em sua cabeça e mal podia respirar. Seus dentes se chocaram ruidosamente quando fechou a boca. Definitivamente aceitara um desafio maior do que podia aguentar. Rex Tanner era maior, mais sexy e bem mais intimidante de perto do que no palco ou na minúscula foto do panfleto. Mesmo de salto, os olhos de Juliana mal chegavam ao nível da boca dele. Que boca. E ele parecia saber como usá-la. Era o que você queria, não era? Não. Sim. Não. Oh Deus, Eric tinha razão. Não consigo dar conta de um homem como Rex Tanner. Consigo sim. E vou. Os cantos dos lábios dele curvaram-se para cima como se ele tivesse acostumado a deixar as mulheres embasbacadas. Envergonhada, Juliana deu um sorriso educado. Seus dedos tremiam enquanto deslizava sua mão na dele. – Olá, Rex. Sou Juliana. A pele quente e calejada arranhou a palma dela quando ele lhe segurou a mão, e quando ele deslizou o outro braço em volta dos ombros dela, puxou-a para perto e virou-a para o fotógrafo, cada célula do corpo de Juliana se alarmou com a pressão lancinante do corpo dele em sua lateral e os longos dedos dele curvados sobre seu ombro nu. – Sorria, gata – sussurrou ele com a voz áspera e penetrante. Ela sentiu o impacto em seu ventre. O cheiro dele de couro e ar livre a envolveu, e aquela proximidade a deixou tonta. Culpou o flash da câmera pelo brilho em seus olhos, mas sabia que mentia. Assim que Octavia Jenkins, a repórter do jornal que cobria o evento, e seu fotógrafo saíram, Juliana rapidamente se afastou para recompor-se de sua reação caótica. A tentação de descobrir como seria sentir aqueles dedos longos e levemente ásperos no resto de sua pele era uma experiência totalmente nova e um passo na direção certa se encontrasse a coragem para seguir com seu plano. Se? Você planejou isso durante semanas. Está absolutamente comprometida em seguir em frente. Sem dar para trás agora. Excessivamente consciente da reprovação de sua mãe e dos olhares dos outros benfeitores voltados para eles, Juliana olhou para Rex. – Por que não saímos daqui? – Suas palavras escaparam em um convite sem fôlego em vez do pedido firme que pretendia. Um sorriso envolvente surgiu nos lábios dele.


– É a melhor proposta que recebi a noite inteira. Após um olhar longo de censura, sua mãe se virou e saiu com uma irritação régia. Juliana virou-se para a direção oposta e encaminhou-se para a saída antes que se acovardasse e pedisse seu dinheiro de volta. Sem olhar para trás, sabia que Rex Tanner a seguia. Podia sentir sua presença, ouvir a batida ritmada de suas botas no piso de mármore, ver os olhares invejosos das mulheres em sua direção quando passaram e os comentários positivos direcionados a ele. Muitas daquelas mulheres eram casadas e algumas eram velhas o bastante para serem mães dele. Rex passou por ela para abrir a porta do clube, e uma rajada de ar soprou no rosto de Juliana quando ela saiu. Meu Deus. Comprara um cara rebelde. O que faria com ele? E até onde estava disposta a deixar essa experiência ir? COMPRADO POR uma riquinha mimada com mais dinheiro que juízo. Rex estudou a atitude arrogante de Juliana e questionou sua sanidade por concordar com a louca sugestão da irmã de usar o leilão de solteiros para divulgar seu bar. Se a nota promissória não fosse vencer em 60 dias, nada mais o teria convencido a subir em um palco na frente de mulheres escandalosas. Já passara por isso. Aprendera a lição. O desgosto não o impediu de apreciar a bela mulher em sua frente conforme ela movia os quadris vestidos de vermelho, afastando-se do barulho e confusão do salão. O vestido tipo lingerie dela parecia com algo que ela usaria para dormir em vez de em um clube privado luxuoso, e o cabelo escuro balançando entre os ombros brilhava como a rica pátina de sua antiga guitarra. Pela primeira vez desde que se mudou para Wilmington, ele se via atraído por uma mulher, mas tudo em Juliana, desde sua voz sulista e culta até seu traje caro e o bolo de dinheiro que gastara com ele, indicava riqueza. Garotas ricas como ela não ficavam com caras brutos da fazenda como ele por muito tempo, e ele já tivera suficientes encontros sem significado por toda uma vida. Quando saíra de Nashville e deixara as tietes para trás, jurara que jamais usaria ou seria usado por uma mulher outra vez. Desde que Juliana entendesse que comprara seu pacote de leilão e nada mais, se dariam bem. Mas antes de segui-la para onde quer que estivesse indo, precisava ter certeza de uma coisa. – Ei, Juli – chamou quando chegaram às escadas que levavam ao estacionamento. Ela parou e virou-se para olhá-lo. Aqueles brilhantes olhos azuis quase o fizeram esquecer do que ia dizer. Ela ergueu o queixo. – Meu nome é Juliana. Arrogante ou não, ela não parecia o tipo de mulher que tinha de comprar homens. – Sim, claro. Você tem um marido ciumento que virá atrás de mim com uma arma? Ela franziu a testa, confusa. – Marido? – O cara tentando impedir que desse um lance – esclareceu. – Era meu irmão. Não sou casada. – Tudo bem então, desde que você tenha mais de 21 anos. Ela franziu as sobrancelhas. – Tem maridos ciumentos perseguindo você? – Ignorara o comentário sobre idade.


– Não mais. Os lábios vermelhos de Juliana se abriram e seu colo – um belo colo – subiu. – Mas tinha? – Sim. A maioria dos caras não reagiu bem quando descobriu que suas esposas dormiram com outro homem. – Rex também não recebera bem a notícia de que algumas das tietes eram casadas, especialmente porque a informação fora muitas vezes entregue pelos punhos dos maridos após os encontros íntimos. Ele achou ter ouvido Juliana arquejar quando ela virou para descer as escadas. Teria de estar morto para não apreciar as pernas longas, esguias e sensuais sobre aqueles saltos vermelhos. Ela parou abruptamente no fim da escada com uma expressão aflita no belo rosto. – Algum problema? Ela passou os longos dedos delicados pela têmpora. – Vim de carona com amigas. Não tenho carro e quero... – Olhou por cima do ombro dele e o pânico era aparente em seus olhos. Ele se virou e viu a mulher poderosa que organizara o evento e um homem de aparência nervosa saindo pela porta da frente do clube. Logo entendeu. – Quer sair daqui? – Sim, rápido. – Fez um cheque sem fundo? Por mais impossível que parecesse, sua postura régia ficou ainda mais empertigada, como se ele a tivesse insultado. – Claro que não. Por favor, me tire daqui. Nos últimos tempos, ele evitava cenas desagradáveis. – Minha moto está ali. Seus olhos quase saltaram para fora da órbita. Ela apontou para sua roupa curta. – Não estou vestida para andar de moto. – Ele devia ir embora, mas concordara com aquele leilão estúpido e iria em frente. Além disso, não desejaria aquela megera a ninguém. – Não estou vendo táxis. Se quer sair daqui rápido, então sou a única opção. Para onde? Para casa? Ela fez uma careta. – Qualquer lugar, menos lá. – Vamos. – Segurou-a pelo cotovelo e levou-a até sua Harley. Ela apertou o passo para acompanhálo. Quando chegaram até a moto, um dos poucos itens que mantivera de seu passado, entregou-lhe o capacete extra e esperou para ver se ela sabia colocá-lo antes de vestir o seu. – Suba e se segure. Segundos depois, ela subira na moto atrás dele e agarrou-lhe a cintura com cuidado, mantendo vários centímetros de distância. Ele acionou o acelerador. O motor rugiu e a moto andou quando ele soltou a embreagem. O grito dela sobressaiu ao ronco da Harley, e então seus braços o envolveram com muita força, acabando com o espaço entre os dois. Grande erro. Ter aquelas pernas nuas em volta de seus quadris com o calor das coxas contra suas nádegas era de enlouquecer. E se não conseguisse ignorar a suavidade dos seios dela pressionados contra seus ombros e se concentrasse na estrada, acabaria batendo a moto. O ar quente e úmido passava por eles, balançando a saia curta de Juliana e revelando mais de suas coxas torneadas. Ele forçou-se a desviar o olhar da vista tentadora de volta para a estrada. Para onde poderia levá-la? Quanto mais rápida a carona, melhor. O barulho do motor tornava impossível


perguntar. Ele poderia levá-la para sua casa já que precisavam comparar suas agendas e marcar as lições de equitação. Seu peito encheu-se de orgulho ao ver as luzes do Renegado. Comprara a construção vazia de frente para o rio, no bairro histórico, há oito meses. Custara-lhe muito suor e quase todo seu dinheiro para transformar o térreo em seu negócio e o andar de cima em uma casa que a irmã Kelly e suas meninas pudessem visitar. Abrira as portas há quatro meses, mas o negócio não estava tão ativo como esperara, por isso sua participação no leilão. Parou em sua estreita garagem, contando automaticamente as vagas vazias à frente, conforme passava. Se queria ficar em Wilmington, perto de sua irmã, então tinha de conseguir lucro logo e pagar a promissória. Estacionou, desceu da moto e retirou o capacete. Juliana permaneceu sentada. Soltou o fecho do capacete e o tirou. Rex balançou-se sobre os calcanhares com um assobio silencioso de admiração. Aquilo era uma imagem digna de página central – sem os grampos –, garantia de manter um homem acordado a noite toda. Pernas longas de cada lado do banco negro da Harley, sandálias de tiras vermelhas, vestido curto, lindo rosto, cabelo bagunçado. Um pacote quente. Mas mulheres atraentes já lhe causaram problemas demais antes, então controlou sua resposta física e ofereceu-lhe a mão. Delicadamente, ela fechou os dedos macios em volta dos dele e esforçou-se para passar a perna por sobre o banco. Um vislumbre da calcinha vermelha dela o atingiu como uma bola de fogo. Ele segurou-lhe pelo cotovelo enquanto ela cambaleava sobre os saltos na calçada de pedra. A brisa da noite fez o tecido sedoso do vestido roçar contra seus mamilos rijos. Ela vestia algo além daquela calcinha sob o vestido? Seu pulso ficou ainda mais rápido. Esqueça, Tanner. Ela esfregou os braços e sua minúscula bolsa prateada brilhou nas luzes da rua como strass sob holofotes. – Podemos entrar? Ele fez um sinal para que ela o precedesse. Quando ele passou à frente para abrir a porta, o cheiro dela, uma mistura intoxicante de flores e especiarias, encheu-lhe os pulmões. Ela entrou e olhou ao redor. O que achava do lugar? Ele tocara na indústria cinematográfica e na televisão de Wilmington. O tema do bar era renegados e rebeldes do cinema – homens com quem Rex se identificara quando adolescente, que mal podiam esperar para se libertarem da tradição fazendeira da família. Fugira no dia em que completara 18 anos, mas, dezessete anos depois, a culpa de suas amargas palavras de adeus ainda o assombrava. O bar propriamente dito tomava a maior parte da parede de fundo. Ele enchera o local com mesas – muitas das quais estavam vazias em um sábado à noite. As garçonetes estavam recostadas na parede. – Você não tem objetos de recordação da sua carreira musical aqui. O comentário o fez parar de repente. Juliana sabia quem ele era embora ele tivesse excluído deliberadamente seu passado recente de seu perfil no leilão. Será que ela o comprara para se gabar de dormir com Rex Tanner, o antigo rebelde de Nashville? Não seria a primeira com esse objetivo. E por mais atraente que fosse a ideia de ir para a cama com Juliana, não queria que sua antiga vida interferisse aqui. – Não. Ela lançou-lhe um olhar avaliador.


– Não seria inteligente se aproveitar do que as pessoas sabem sobre você? E ser conhecido como um ex-famoso pelo resto da vida? Não, obrigado. – Minha carreira musical acabou. Se as pessoas procuram uma espelunca, podem ir a outro lugar. Posso oferecer uma bebida? – Não, obrigada. Posso ficar aqui por mais ou menos uma hora? Assim que o leilão acabar, posso chamar uma amiga para me dar carona. – Levo você para casa assim que agendarmos suas aulas. – Os olhos dela se arregalaram. – Tenho um caminhão se não quiser voltar na moto. – Obrigada, mas acho que ficarei com uma das minhas amigas hoje. Ela pode vir me buscar. Meu carro está na casa dela de qualquer maneira. Fomos para o leilão juntas. Por que uma menina rica precisaria se esconder? Ela parecia já ter passado da idade de consentimento, mas as aparências podiam enganar. – Quantos anos você disse que tinha? Ela hesitou. – Eu não disse, mas tenho 30, se precisa saber. Sua mãe não ensinou que é rude perguntar? A mãe dele lhe ensinara muitas coisas. E como um FDP ingrato, ele lhe atirara suas lições de volta na cara. – Não está um pouquinho velha para fugir de casa? – Você não entende. Meus pais... – Ela se calou e espiou ansiosamente por cima do ombro dele, como se esperasse que eles entrassem por aquela porta. – Eles não vão compreender o que houve hoje. – Não preciso saber a história toda para saber que fugir não resolverá nada. – Uma lição que aprendera da pior maneira. – Mas... Ele ergueu uma das mãos. – E não quero saber. Estou aqui para dar aulas de equitação. Só isso. Como ela conseguia aquele olhar superior quando era uns 15 a 20 centímetros mais baixa que ele? – Ótimo. Ele pensou em deixá-la no bar e ir até seu apartamento para pegar sua agenda, mas ela e seu vestido sensual já haviam chamado a atenção dos caras no canto do fundo. Os homens eram fregueses habituais, amigos de seu cunhado, e Rex não queria que acontecesse qualquer coisa que os impedisse de retornar. – Vamos subir. Ele acenou para Danny e apontou na direção da entrada privada que levava a seu apartamento. Pelo sorriso impertinente no rosto de seu gerente, Danny provavelmente pensou que estava prestes a se dar bem. O pensamento fez uma onda de calor passar pelas veias de Rex. Ele o reprimiu. Desviara de cada investida recebida desde a abertura, e não seria agora que cairia nessa. Rex tirou as chaves do bolso, abriu a porta e indicou para que Juliana subisse primeiro. Se ela queria mais do que aulas de equitação e Harley, ficaria decepcionada.


CAPÍTULO 2

QUEM PODERIA imaginar que depois de todos esses anos sem se deixar afetar ela poderia se excitar por algo mecânico? Embora Juliana suspeitasse que o passeio de moto não era o único responsável por seu desconcerto. – Sente-se. – Rex perambulou pelo apartamento, acendendo as luzes e revelando a masculina decoração de couro e madeira escuros. Os móveis pareciam caros, mas não novos. Relíquias dos tempos no topo das paradas de música country? Ele sentou ao lado dela no sofá, abriu uma agenda sobre a mesa de centro e depois se inclinou para olhá-la. A costura externa de seu jeans roçou no joelho e na coxa dela. Um arrepio percorreu-lhe o corpo até a boca do estômago. – Geralmente trabalho à noite, então suas aulas terão de ser no fim da manhã ou nos meus dias de folga. O que é melhor para você? – O clima de paquera que ele demonstrara no leilão desapareceu sob um comportamento profissional sem sentido. Como ela estava contando com ele para levá-la para o mau caminho, aquele não era um desenvolvimento desejável. – Trabalho nos dias de semana. – Com o quê? – Sou auditora de contas no Alden Bank & Trust. – Você não se parece com nenhum contador que já conheci. – Sua expressão cética roubou as palavras de qualquer elogio e atingiu uma ferida aberta. Após obter seu MBA na universidade local, Juliana aceitara um cargo no escritório do banco da família. Tivera de trabalhar em dobro para provar seu valor e abafar os rumores de nepotismo, e desde então vinha demonstrando sua capacidade. Mas ali não se tratava de trabalho. Queria que Rex a visse como uma mulher desejável, não como uma auditora altamente credenciada. – Sempre fui boa com números. – Minimizou a situação. O que lhe faltava era habilidade com pessoas. Durante a adolescência, seu irmão fora o socialmente adepto que tinha os títulos de representante de turma, rei do baile e qualquer outra posição desejável. Juliana fora um patinho feio que preferia livros e cavalos a pessoas. Andrea e Holly foram, e ainda eram, suas únicas amigas próximas.


– Nos encontraremos quando você sair do trabalho nas segundas e quintas, meus dias de folga. Isso nos dará algumas horas à luz do dia. Ela pegou-se observando o movimento dos lábios dele, piscou e concentrou-se outra vez nos olhos dele – olhos escuros e espertos que pareciam enxergar seu interior. – Aluguei uma moto menor para você – continuou –, mas não pode pilotá-la até obter sua licença de aprendiz e dominar algumas habilidades básicas. – Uma licença de aprendiz? – Exigida pela legislação da Carolina do Norte. Darei a você a apostila hoje. Comece a estudar. Terá de fazer uma prova no Departamento de Veículos Motorizados. Seu prêmio exigia que ela fizesse uma prova? Isso não estava nas cláusulas, e ela sempre as lia. – Trabalho de 50 a 60 horas por semana. Quando vou ter tempo de estudar e fazer uma prova? – Antes do fim do mês. A não ser que queira que os jornais digam que não conseguiu passar. Seus instintos competitivos se agitaram. – Está bem. Duas vezes por semana às 6h, por quatro semanas. – Avisarei à repórter. – Fechou a agenda e pousou as mãos nos joelhos. – Escute, Juliana. O Renegado precisa de toda a publicidade que eu conseguir nos jornais. Talvez não tenha notado, mas o local não está cheio. – Eu notei. Contas comerciais são boa parte do meu trabalho. Mesas vazias significam receita reduzida e receita reduzida significa... Ele se inclinou na direção dela. Sua mente se esvaziou e seu coração bateu forte em antecipação. Segurou uma respiração rápida, molhou os lábios e elevou a boca, mas Rex não a beijou. Em vez disso, tirou um boá felpudo e uma pequena bolsa rosa debaixo da almofada do sofá e sentou-se novamente. Ela piscou, surpresa. Comprara um transformista? – É seu? – Das minhas sobrinhas. O choque diminuiu. O rebelde tinha sobrinhas. E julgando pela sua expressão, tinha um fraco por elas. A ideia de usá-lo para sua... Educação física era bem mais fácil quando acreditava que ele era 100% malvado, um cruel sedutor de inocentes, um homem que faria o serviço e não pensaria duas vezes. Agora as imagens do rebelde imprudente, empresário preocupado e tio apaixonado se misturavam em sua mente. Mas em vez de desestimulá-la, a combinação a intrigou e a fez querer saber mais. Uma má ideia, já que aquele era um projeto de curto prazo. Ele ficou de pé e jogou os itens em um cesto de vime no canto. – Deixe-me esclarecer uma coisa. Você pagou por aulas de equitação e pilotagem e você as terá. Mas isso é tudo que ofereço. Segundos depois, ela entendeu. Ficou mortificada. Será que era tão transparente? Ele não poderia saber que ela imaginava como seria o beijo dele, o gosto dele e, mais especificamente, como ela reagiria ao abraço dele. Poderia? – Agradeço pela sua sinceridade. – Já está pronta para chamar sua carona? Ele mal podia esperar para se livrar dela. Que embaraçoso. Algum cara já tinha estado tão ansioso para que ela fosse embora antes? – Claro. – A noite não estava sendo como esperara e não tinha ideia de como colocá-la de volta nos eixos. O que sabia sobre sedução? Contava com ele para fazer todo o trabalho.


Por que não pensara em um plano B? – ENTÃO, ELE é ótimo como parece ou só bonito, musculoso e burro? – perguntou Holly quando Juliana entrou no jipe da amiga. – Ele não é só um rosto bonito. – Sua dedicação às sobrinhas e seu tino comercial em usar o leilão e um mês de cobertura jornalística como publicidade provaram que Rex era mais que um cara bonito de cabeça vazia. – Você pegou seu bombeiro? Holly ligou o rádio abruptamente e ficou mudando de estações. – Não. Que traíra. Ela e Andrea amarelaram depois de mandar Juliana para a guerra de lances como um cordeiro para sacrifício? – Você prometeu que ia comprá-lo. – Não, eu prometi que compraria um solteiro e comprei. O bombeiro custava mais do que combinamos, embora você certamente tenha quebrado essa regra, não é? Além disso, Eric estava desesperado. Juliana recuou. – Eric! Meu irmão, Eric? Holly lançou um olhar na direção dela e assentiu. – Você trapaceou. – Não. Eu queria um homem que me oferecesse jantares à luz de velas e me levasse para dançar. O pacote de Eric promete 11 Encontros Encantados. Juliana não gostou do sorriso feliz no rosto de Holly – não relacionado a seu irmão. – Mas é o Eric. – E daí? – Você queria romance. Eric não é um Príncipe Encantado. Estou tendo pensamentos nojentos sobre meu irmão te dando beijos de boa noite, e não quero pensar nisso. – Sei que não quer acreditar, Juliana, mas Eric é tão gato quanto seu rebelde. – Eca. – Tampou os ouvidos com os dedos. Não importava o que a amiga dissesse, Holly trapaceara escolhendo a saída mais segura. Destampou os ouvidos. – Você e Andrea me convenceram a me arriscar e comprar Rex. Não há risco envolvido em comprar alguém que conhece. Andrea também se acovardou? Quem ela comprou? – Clayton. Juliana sentiu pena e suspirou. – Então ela realmente vai seguir com isso? – Foi o que ela disse. – Holly também não parecia muito feliz com a situação. – Espero que ele não a magoe de novo. – Espero que seu rebelde não magoe você. Houve faíscas fortes entre vocês quando saíram. Faíscas? Da parte dela, talvez. Rex Tanner não pareceu nem um pouco interessado em alimentar as chamas que Juliana sentia. No momento, não sabia como o faria mudar de ideia, mas, considerando o que sabia de seu passado, não devia ser muito difícil.


– Você está completamente errada com essa observação, amiga, e eu ficarei bem, obrigada. Lembrese, meu tempo com Rex Tanner é limitado. Ele jamais se adaptaria aos meus objetivos profissionais em longo prazo, e duvido muito que uma auditora detalhista cuja ideia de aventura é experimentar uma nova cor de esmalte se adaptaria aos dele. REX DESVIOU o olhar do traseiro de Juliana pela quinta vez e sacudiu a cabeça. Calças de equitação. Deveria ter esperado isso de uma garota da alta sociedade que preenchia cheques com cinco dígitos sem piscar. – Use jeans da próxima vez. – Seu traje formal de equitação era bem diferente do vestido sensual e diminuto do sábado à noite, mas aquela calça parecia ter sido pintada com verniz sobre a voluptuosa curva de suas nádegas, e sua blusa de algodão sem mangas se conformava ao formato dos seus seios como as mãos de um amante. Ela prendera o cabelo brilhante para trás com uma presilha e colocou um daqueles chapéus chiques de veludo preto na cabeça – do tipo que se usava no hipismo. Já não usava mais o esmalte vermelho, nem maquiagem. Ficava mais bonita sem a pintura de guerra. E por que ele estava reparando? Sua pele lisa não tinha nada a ver com as aulas. – As botas estão ok, e posso aguentar o chapéu. – Pare. Seus elogios vão me deixar louca – respondeu com uma pitada de sarcasmo, fazendo-o se questionar se interpretara mal seus olhares demorados no sábado. – Se tiver tempo, comprarei jeans antes da quinta. Ele parou segurando a sela no ar. – Você não tem uma calça jeans? – Não. A sexta casual no banco nunca é tão casual. Você tem muitas exigências para este pacote que não estavam incluídas na descrição listada no programa. – A maioria é bom senso. – Ele ajeitou a sela e a almofada sobre Jujuba, a égua palomino que comprara para as sobrinhas. – Colocar uma sela ocidental é similar a uma inglesa. Aqui é onde você prende. – Após demonstrar, ele soltou tudo e se afastou. – Sua vez. Juliana aceitou a tarefa, mas a égua tendia a ficar preguiçosa em tardes quentes de verão. Ela inchou o estômago para evitar o aperto da cilha em sua barriga. Juliana não tinha a força para fazer Jujuba exalar. Posicionando-se atrás dela, do jeito como ele fazia com as sobrinhas, ele a envolveu para ajudá-la a puxar a correia de couro. Ter seus braços em torno de uma mulher atraente fez suas veias zunirem. Ele tentou ignorar. Diferentemente de suas pequenas sobrinhas de 3 e 5 anos, a figura mais alta de Juliana se encaixava perfeitamente. A égua se deslocou, fazendo Juliana e seu traseiro chocarem-se contra ele. Dentro de segundos, as calças dela não eram mais as únicas apertadas. Rex firmou-a e recuou, deixando vários metros e o poste entre eles. – Tente a rédea agora. Juliana definitivamente sabia como lidar com um cavalo. Ela repousou o focinho da égua contra seus seios enquanto passava as rédeas sobre as orelhas dela e penteou-lhe a crina, afastando-a dos olhos, e depois recompensou Jujuba por cooperar com um carinho no pescoço dourado e uma coçada nas orelhas arrebitadas. – Monte.


Ela ergueu um pé a alguns centímetros do chão até que o tecido em torno de seus quadris limitou seus movimentos, então abaixou a perna e olhou-o por cima do ombro. – Pode me dar uma mãozinha? Havia mais que um pedido legítimo de ajuda em suas palavras? Um sorriso educado abriu-se em seus lábios – nada de sedutor nele. Na verdade, ele juraria ter visto nervosismo em seu olhar. – Claro. – Assim como fazia com as meninas, segurou Juliana pela cintura e a levantou. Má ideia. Não precisava saber que sua cintura era tão fina ou que o calor do corpo dela penetraria pelo tecido fino da calça. Soltou as mãos tão rapidamente que Jujuba, o cavalo mais calmo que já conhecera, se assustou e se esquivou. Rex avançou novamente, esperando que Juliana caísse, mas ela agarrou-se na sela e conseguiu se manter. – Esse é outro teste? Mais sarcasmo. Ok, definitivamente a interpretara mal. Ela se mexeu na sela, ficou de pé sobre os estribos e sentou-se de novo. Repetiu o movimento algumas vezes. – Essa sela é estranha, mas confortável. Puxando a gola repentinamente apertada da camiseta, ele desviou o olhar, pigarreou e mudou de posição para aliviar o aperto do jeans. A última vez que vira uma mulher se mexer assim, ela estava montando nele. Há quanto tempo fora isso? Tempo demais. E, droga, ele não conseguia lembrar-se do nome dela ou rosto. Tivera muitos encontros sem nome no passado – não era algo de que se orgulhasse agora, mas, no tempo em que fora famoso, dando como certas as mulheres que se atiravam a seus pés e usando-as para fazê-lo acreditar que finalmente era alguém. Fora alguém mesmo. Alguém idiota. Seus colegas de banda usavam bebida ou drogas para ficarem altos depois de uma apresentação. Rex usara mulheres – uma prática que agora o enojava. Fora muito sortudo por suas orgias não terem o levado ao necrotério ou lhe dado uma DST como seu pai previra. Rex escapara por pouco, e planejava deixar seu passado sórdido para trás em uma nova cidade com uma nova carreira. Seria o tipo de irmão que deveria ter sido para Kelly e um tio de quem as filhas dela teriam orgulho. Com o pai em missão internacional, elas precisavam de alguém com quem pudessem contar quando a mãe precisasse de ajuda. De volta aos negócios. – O assento de uma sela ocidental é mais profundo que de uma inglesa. Se ajusta ao corpo. – E que corpo. – Pegue as rédeas com apenas um dedo entre elas. Ela fez como ele explicou, mas parecia insegura. – Os cavalos orientais fogem da pressão e preferem rédeas frouxas – explicou. – Se minhas rédeas estiverem frouxas, como vou controlar o cavalo? – Use um toque suave. Seus dedos e pulso fazem o trabalho, e confie mais nos toques de perna no que nas rédeas. Sabe como usar os toques de perna? – Sei. – Então sinalize para ela andar. Jujuba andou para a frente. Rex acompanhou ao lado. – O que houve? – Seu movimento. Você está se apoiando na sela em vez de sentar totalmente, e seus músculos estão tensos. Relaxe o tronco e as pernas. Afunde na sela.


– A vida inteira me ensinaram a sentar com postura e você me diz para relaxar? – Seu tom altivo era exatamente o que ele precisava para se lembrar das diferenças entre eles. – Não exatamente, mas aqui você precisa. – Bateu rapidamente na base de sua coluna com a ponta do dedo. – Aqui. – Cutucou-lhe a coxa com o nó do dedo. – E aqui. – Sua palma roçou-lhe o abdome inferior. Ele rapidamente retirou a mão. O calor do corpo dela lhe queimou a pele. Afastou-se do cavalo e atravessou para o centro do picadeiro. Dez metros não eram distância suficiente para apagar o fogo que ardia em seu interior. – Sinalize para que ela trote quando estiver pronta. – Juliana cutucou Jujuba para um passo levemente mais rápido. Rex rangeu os dentes. Já fora atraído por muitas mulheres, mas não desse jeito. Tinha de ser porque sabia que esse relacionamento – como aqueles do passado – não chegaria a lugar algum. Voltar aos velhos hábitos não estava em seus planos. – Acelere. – Co-mo as-sim a-ce-le-re? – A trepidação fez as palavras saírem cortadas. – Balance os quadris da cintura para baixo. Combine seus movimentos com os do cavalo. Como se estivesse com seu amante. Seus lábios se entreabriram e suas bochechas ruborizaram. Ela voltou o rosto para a frente para olhar diretamente entre as orelhas de Jujuba, mas, em questão de segundos, já fazia o movimento correto. – Desculpe. É que faz algum tempo, mas acho que consegui. Faz algum tempo? Montar um cavalo ou estar com um amante? Não é da sua conta, parceiro. Mas a imagem de Juliana como sua amante, sentada sobre ele e curvando-se para receber suas investidas profundas, brilhava em sua mente. – Sim. Conseguiu. Era essencial manter a distância da contadorazinha. Ela sabia quem ele era, sabia de seu passado. Pior, ele temia que ela tivesse o poder de trazer à tona o FDP que costumava ser. Não podia permitir que isso acontecesse. QUANDO ELE desligava o charme, era para valer. Juliana suspirou. Rex não lhe dera nenhum sinal de incentivo. E, caramba, ela não sabia como flertar sem parecer uma oferecida. Relutantemente, desceu da égua. Será que era tão pouco atraente, tão desprovida de encantos femininos que até um homem cuja fama era de ter mulheres em cada cidade onde seu ônibus de turnê passava não tinha interesse nela? Ai. Tinha de encontrar um modo de retomar seu plano. – Suponho que não pense em vender Jujuba. – Não que tivesse muito tempo para montar, mas aquele fim de tarde com a brisa leve em seu cabelo e o sol poente em sua pele a lembraram de como sentia falta de ter um cavalo. – Ela não é minha para que eu possa vender. Comprei-a para Becky e Liza. – E elas são...? – Minhas sobrinhas. – Você comprou um cavalo para elas? Também comprou essa propriedade para que elas tenham onde montar? – A fazenda não é minha. Aluguei o celeiro e alguns acres da dona. O marido dela morreu no ano passado. Ela arrenda o estábulo e o terreno em volta para pagar a hipoteca.


– O que o fez escolher abrir seu negócio em Wilmington? Aqui não é exatamente um local rural. Ele lançou-lhe um olhar irritado. Ops, será que parecera demais uma investigadora bancária? Por um momento, pensou que ele se recusaria a responder. – Meu cunhado está com a unidade antiterrorista da 4ª Brigada Expedicionária Marinha de Camp Lejeune. Queria estar por perto para ajudar minha irmã com as meninas enquanto ele está em missão. Ele está em Bagdá agora. Outra rachadura em sua armadura de valentão. Que outras discrepâncias encontraria se buscasse além da fachada rebelde? E queria realmente saber? Sua aversão a perguntas sem resposta pesava mais que sua necessidade de manter a distância emocional. – Você cresceu em um rancho na alameda dos tornados? – Sim – resmungou ele em um tom de “meta-se com a sua vida” e tomou as rédeas dela, guiando a égua para a sombra do pequeno celeiro de quatro baias. – Sentiu falta de seu rancho quando estava em turnê? Por alguns segundos, Rex ignorou sua pergunta enquanto trocava as rédeas por um cabresto e prendia a égua na baia. Enfiou a mão na sacola com as escovas e esticou uma escova de cerdas macias na direção dela. – Sim. Arrume-a. – Já pensou em voltar? – Você comprou aulas de equitação, não minha história de vida. – Não, Rex. Não comprei sua biografia, mas, se vamos passar aproximadamente 16 horas juntos pelas próximas quatro semanas, então precisamos ter algo para conversar além do clima. Minha história de vida nos daria sono, e como imagino que cochilar não seja recomendável ao pilotar ou dirigir, pensei que poderíamos ouvir a sua. Fique à vontade para sugerir outros assuntos se preferir. De cara amarrada, ele tirou a sela da égua e colocou-a sobre a meia porta de madeira da baia, e depois apoiou as mãos em cada um dos lados dela. Seus ombros, vestidos em outra camiseta do Renegado, pareciam tão rígidos e largos quanto as vigas, apoiando o telhado do celeiro. – Sim, senti falta do rancho. E queria ter voltado. Mas não voltei. Quando me dei conta, minha irmã tinha casado e se mudado e meus pais estavam mortos. Ela passou por baixo da viga de madeira, hesitou e, então, pôs a mão sobre os músculos rígidos das costas dele. – Sinto muito. Ele recuou e se afastou, depois se abaixou para pegar a sacola de utensílios. Ela sentiu o corpo esquentar com o breve contato, estimulando cada terminação nervosa de modo inquietante. Abaixou o braço e fechou a mão. Antes que ela pudesse identificar a avalanche de sensações, ele se ajeitou e virou. O vazio nos olhos dele fez o peito dela doer. – Não sinta. Tive o que mereci. Escove a égua. Vou guardar isso aqui e pegar aveia para ela. Temos de encontrar a repórter no Renegado em meia hora. – Ele empurrou a caixa de acessórios na direção dela, pegou a sela e as rédeas como se não pesassem nada e saiu. Juliana o observou. Se Rex achava que rosnar como uma fera ferida a assustaria, estava errado. O lampejo de delicadeza que ele tanto tentava esconder aguçara sua curiosidade, e quando Juliana tinha um enigma a resolver, não desistia até juntar todas as peças.


CAPÍTULO 3

– ENTÃO ME diga, srta. Alden, por que a herdeira de um império bancário precisaria comprar um encontro? – perguntou Octavia Jenkins, a repórter. Herdeira. A cadeira de Rex balançou perigosamente. Quase caiu para trás. Até agora, estivera completamente relaxado. Sua parte da entrevista correra bem. Divulgara o bar, servira alguns aperitivos à repórter e evitara discutir sobre sua carreira antiga. – Sua família é dona do banco? – perguntou Rex. Sua primeira impressão após o leilão era de que Juliana tinha mais dinheiro que juízo, mas não esperava que fosse tanto dinheiro. Minha nossa. – Eu disse que trabalhava para o Alden Bank & Trust. – Nunca me disse que sua família era dona do banco. – E dona dele, ou pelo menos da promissória em seu negócio. Seriam os criados da família dela que fechariam o Renegado se ele não pudesse pagar a promissória. E ele perderia tudo, o apartamento e o negócio, já que investira tudo o que tinha no Renegado. – Você nunca me disse seu sobrenome. – Você nunca perguntou. A repórter interrompeu as anotações frenéticas e olhou para cima com um brilho faminto no olhar e um rubor na pele morena. Rex vira bastante daquele olhar no passado para saber que era sinônimo de problema. – Você estava tentando manter suas ligações familiares em segredo? – Para quê? Todos os homens solteiros no sudeste sabem quem minha família é. E isso era um problema, pelo que Rex deduziu de seu tom de voz. – O que nos leva à minha pergunta original, srta. Alden. Você deve ter uma fila de homens interessados. Por que comprar um? – Minha mãe é a organizadora do leilão. Queria apoiá-la. Mentira. Rex não sabia como sabia daquilo, mas algo em sua voz e em sua pose de miss o dizia que aquele não era o real motivo pelo qual Juliana Alden, herdeira de banqueiros, tinha comprado seu pacote. Seu pacote de leilão – esclareceu ele quando uma parte negligenciada de sua anatomia contraiuse, chamando sua atenção. – E por que escolheu Rex?


É, por que ele? Ele repetiu a pergunta de Octavia em silêncio. Entrelaçando os dedos sobre a mesa, esperou a resposta de Juliana. – Ele é novo na cidade e eu nunca pilotei uma moto. Mais mentiras. Ele poderia apostar sua Harley. – Está fazendo a política da boa vizinhança? – Ele nem tentou disfarçar sua descrença. – Tem algo errado em ser simpática? – Encarou-o altivamente, mas a tensão em seus traços mostrava a verdade. O que ela estava escondendo? Estava curioso. Octavia insistiu. – Isso não teve nada a ver com seu recente aniversário de 30 anos, receber seu fundo fiduciário e com suas amigas Andrea Montgomery e Holly Prescott também comprarem solteiros? – Só porque, todo ano, Andrea, Holly e eu fazemos algo para comemorar nossos aniversários. E sim, esse ano, recebemos nossos fundos fiduciários, mas, como todas nós temos carreiras que pagam bem, não precisamos de verdade do dinheiro. Decidimos doar uma parte dele para caridade, e o leilão para ajudar o acampamento de crianças deficientes pareceu uma causa tão admirável quanto qualquer outra. Já ouviu sobre o barco que a DeanYachts ofereceu para projetar, construir e doar para a causa? – Farei uma reportagem sobre isso depois. Quero falar sobre você. – Inclinando-se para a frente, sorriu maliciosamente e inclinou a cabeça de modo conspiratório em direção à Juliana. – Você é uma banqueira e ele é um motoqueiro. Não dá para ser mais diferente que isso. Não estava nos seus planos ir para um lado mais selvagem? Juliana corou. Lançou um olhar de pânico na direção de Rex, abaixou a cabeça e mexeu com os talheres ao lado do prato. – Não. Não foi por isso. Bem, estou surpreso. Se a expressão culpada dela não lhe dera uma pista, então a resposta apressada e sem fôlego entregara tudo. A bela contadorazinha estava mentindo na cara dura. E, por algum motivo, a ideia de Juliana se tornando selvagem com ele o excitou na hora. – Se você diz. – Octavia fechou seu caderno e levantou. – Bom, isso é tudo por hoje. Vejo vocês na semana que vem. Rex se levantou. Sua mãe conseguira lhe ensinar um pouco de boas maneiras. Sentou-se novamente depois que a repórter saiu e avaliou Juliana. Ela simplesmente não parecia do tipo que se rebelava. E 30 anos não era velha demais para começar? Ela levantou-se rapidamente. – Devo ir também. Determinado a arrancar a verdade de qualquer jeito, Rex a seguiu até o lado de fora. – Por que comprou meu pacote? – perguntou ele ao se aproximarem do carro dela. – Eu disse. – Em off agora. Sem repórteres à vista. Vamos falar a verdade, Juliana. Por que eu? – Como é? Está me chamando de mentirosa? – Admita. Você falou um monte de besteira para a repórter. – Sr. Tanner... – Rex – corrigiu ele. Ela recuou, esbarrando no poste atrás de si. Uma brisa suave bagunçou-lhe os fios em volta do rosto. Ela inclinou a cabeça para trás, seus lábios se entreabriram em uma respiração irregular e sua língua rosada deslizou para umedecê-los.


– Rex, então. Por que você suspeitaria que eu teria um motivo secreto para comprar você? – Você ficou toda vermelha quando a repórter perguntou se queria ir para um lado mais selvagem. Pareceu-me bastante culpada. – Não estava. – Estava sim. – Aprendera com a vida que o único jeito de lidar com um problema era confrontá-lo. Fugir não funcionava. Ignorar também não. Apoiou um braço no poste acima da cabeça dela e recostou-se nele até que apenas alguns centímetros separavam seus rostos. – Queria ver se o rebelde de Nashville correspondia à sua reputação indisciplinada? – Claro que não – respondeu ela, rápido demais. Mas seu olhar desviou para a boca dele e sua respiração estava rápida e irregular. Os pontos rijos de seus seios marcavam-lhe a blusa. Ela o queria, e tinha certeza de que o sentimento era mútuo. Ele praguejou contra a indesejada reação, pulsando em suas veias. Beijar a filha do dono do banco seria um grande erro, mas parte dele queria esquecer o bom senso, provar-lhe os lábios vermelhos e sentir o corpo esguio dela contra o seu. Ele segurou-lhe a mandíbula com a mão direita. A textura aveludada e quente da pele dela o surpreendeu. Deixou-o tentado. Com as pontas dos dedos, provocou-a, acariciando-lhe o lóbulo da orelha, a nuca, e depois segurou-lhe o cabelo sedoso. Puxou-o, inclinando-lhe a cabeça para trás e deixando os lábios dela mais perto dos seus. – É isso o que quer, Juliana? – Agarrou-lhe as nádegas, trazendo-a para perto, e abaixou a cabeça. Em seu estado hipersensível, a respiração que ela rapidamente conteve pareceu tão alta quanto um motor. Os dedos dela correram por sua barriga e enterraram-se em sua cintura, iniciando um fogo que ele não sabia se conseguiria apagar. Mas ela não o afastou. Ela cerrou os olhos e as pálpebras dele se fecharam em resposta. Sua boca pairava sobre a dela, tão perto que podia sentir seu hálito doce, e então sua sanidade o atingiu de vez. Que diabos está fazendo, Tanner? Hesitou, examinando-lhe a face corada, lábios entreabertos e a sombra tremeluzente de seus longos cílios contra suas bochechas. Droga. A repórter acertara na mosca o motivo de Juliana. A herdeira estava usando-o. E, se cedesse ao desejo de beijá-la – que diabos, o desejo de possuí-la ali mesmo contra aquele poste –, estaria a usando também. Já passara por isso. Não faria de novo. Não queria ser aquele idiota egoísta outra vez, e arriscar ter qualquer tipo de envolvimento com uma mulher cuja família poderia puxar o tapete de seu negócio e causar seu suicídio profissional. Pois quando o relacionamento terminasse – e terminaria –, estaria com sérios problemas. Respirando fundo, lutou com a necessidade que o tomava como um tornado e se afastou. Um protesto sensual escapou dos lábios de Juliana, mas ele ignorou. – Se o que quer é ser selvagem, srta. Alden, encontre outro idiota. Dando as costas, deixou a tentação, e o desastre certo, para trás. A NOITE de quinta chegou bem antes que Juliana pudesse entender sua reação ao quase beijo e a dor da rejeição de Rex. Mas não deixaria uma pequena derrota estragar seus planos. – Plano B. Se a montanha não vai a Maomé... – murmurou enquanto entrava com o carro no estábulo.


Nos últimos dois dias e meio, realizara uma missão completa de descoberta de informações. Pelos seus cálculos, estava o mais preparada possível para a aula de hoje. Memorizara as revistas recomendadas por suas colegas de 20 e 30 e poucos, comprara roupas consideradas apropriadas para encontros casuais com um cara bonito e aprendera tudo da apostila do Departamento de Veículos Motorizados que Rex lhe dera. Para completar, no horário de almoço do dia anterior, visitara a concessionária de motos local. O vendedor lhe fornecera equipamento de segurança adequado no valor de várias centenas de dólares, e ela passara boa parte da última noite mergulhada em um livro – o manual de proprietário da Harley. Avistou Rex parado ao lado de sua moto. As borboletas em seu estômago despertaram. De novo, ele vestia jeans e uma camiseta do Renegado. Seu semblante fechado fez o rosto dela se aquecer. Ele não se esquecera do último encontro ou do desejo dela. Ela também não. Se podia mexer com ela tanto assim sem de fato beijá-la, então que tipo de estrago causaria se – quando – seus lábios se encontrassem? Vacilou em suas novas botas de motociclista com a possibilidade de explorar mais. Jamais fizera sexo só por fazer e não estava totalmente confortável com a ideia agora. No passado, cada relacionamento que deixara chegar até tal nível de intimidade fora porque pensara que poderia chegar a amor e casamento. Nenhum deles chegou, e logo admitiu que a culpa era principalmente sua. Nunca se apaixonara perdidamente e isso tornava muito fácil mergulhar no trabalho e esquecer seus namorados. Os caras acabavam se cansando de ficarem de lado e terminavam. Esqueça os fracassos. Concentre-se nos sucessos futuros. Envolvendo-se no conhecimento de que era jovem, estilosa e solteira, respirou fundo para tomar coragem, estacionou e desceu do carro. O olhar de Rex fixou-se nas roupas dela conforme ela se aproximava, e ficou alerta imediatamente. Sua expressão sombria parecia mais ameaçadora que as nuvens negras no horizonte distante. Não recue. Não se deixe intimidar por ele. – Boa noite, Rex. – Tirou a licença de aprendiz de moto do bolso de seus novos jeans e entregou-a a ele. – Estou pronta para minha aula. Ele pegou a licença, mas seus olhos examinavam Juliana, não a carteira. Ela lutou contra a vontade de subir sua calça de cintura baixa e cruzar os braços sobre sua camiseta justa com bojo embutido. No momento, Juliana aceitaria qualquer coisa que cobrisse a faixa de pele descoberta em sua barriga. Até o piercing no umbigo que a vendedora tentara convencê-la de usar, sem sucesso, seria bem-vindo, já que cobriria parte de seu umbigo. Aquelas roupas não tinham nada a ver com ela, embora tivesse de reconhecer a sensação inebriante de poder causada pelas pupilas dilatadas de Rex e seu olhar devorador. Rex piscou, devolveu a licença e rapidamente virou-se na direção da moto. – Começaremos com o básico. Juliana guardou a carteira no bolso e buscou a coragem para aguentar as próximas duas horas. – Peguei um manual e um vídeo emprestados na concessionária da Harley. Posso nomear a maioria das peças de uma moto. Seu estudo obviamente não o impressionara. Mas isso não era surpresa. Nunca conhecera um cara que gostasse de mulheres inteligentes. Deveria saber. Já tivera sua cota disso. Tome a iniciativa. Ela pigarreou. – Posso pilotar sua moto hoje?


– Minha moto é pesada demais para uma iniciante pilotar sozinha, e você não está vestida adequadamente. – Também não estava no sábado. Tenho uma jaqueta de couro e luvas no carro, se insistir, mas está um pouco quente para isso, não acha? Não pode ficar atrás de mim e me ajudar a manter a Harley de pé? A mandíbula de Rex retesou-se. – Mostre-me o que sabe. – Certo. Juliana tentou bloquear a presença de Rex atrás de si enquanto dava a volta na moto, nomeando as peças e repetindo toda a lengalenga do vendedor. Estava sem fôlego quando terminou e olhou para Rex outra vez. Aquele era um brilho de aprovação no olhar dele? – Essa foi a aula de hoje. A próxima também. Você memorizou o manual todo? – Praticamente. – Coloque o capacete e suba. Ela ficou tensa e moveu-se apressadamente para fazer como ele instruía antes que ele mudasse de ideia ou ela amarelasse. Ambas possibilidades muito reais. Suas pernas vacilaram ao subir na moto e suas mãos tremiam ao segurar o guidão de borracha. A Harley parecia maior e mais larga do que da última vez, mas ela estava atrás e não no banco do piloto. Rex vestiu seu próprio capacete. Ele estava tão sexy e rebelde todo de preto, desde as botas até o capacete, que Juliana ficou louca. E então ele sentou atrás dela. Seus corpos não se tocavam, mas o calor se espalhava entre eles, e os pelos finos de suas costas se eriçaram como se fossem atraídos para ele. Seus ombros apoiaram aos dela quando seus braços musculosos a envolveram, e suas mãos se colocaram ao lado das dela no guidão. – Quando estivermos prontos para partir, quero que coloque os pés sobre minhas botas para sentir como mudo as embreagens. Cobrirei suas mãos com as minhas para mexer no acelerador e nos freios. Darei partida no motor, e então daremos uma volta lenta em torno da fazenda. – Ela começou a tremer antes do motor ligar. – Relaxe. Falar era fácil. Ela não sabia o que a intimidava mais – o homem atrás ou a fera mecânica embaixo dela. O homem, decidiu, mas por uma pequena diferença. Rex empurrou a moto para a frente para desengatar o apoio da moto. Seu peito empurrou levemente as costas dela e sua respiração atiçou-lhe os pelos da nuca sob o capacete. A parte interna de seus bíceps musculosos roçava-lhe os braços, fazendo-a se arrepiar. Dessa vez, não havia como errar o motivo. Consciência sexual. Bom saber que não era incapaz. Esperava que a vibração do motor disfarçasse sua reação ou levaria outro fora. Depois, quando não estava em cima daquele monstro, avaliou aquelas sensações e o fato de que tinha zonas erógenas nos locais mais estranhos. Ter zonas erógenas já era uma novidade por si só. – Aperte a embreagem e engate a moto. E então você solta a embreagem de novo. Devagar e sempre. A moto avançou, fazendo Juliana chocar-se contra o peito de Rex. Sua respiração ficou mais curta – não por medo da moto, mas por causa do homem curvado contra seu corpo. O calor dele a envolvia e sua pequena camiseta não era bem uma barreira. Ela pensou em restabelecer a distância entre eles, mas o desejo de permanecer junto ao peito dele era grande demais para lutar contra. – Mude para a segunda. – Os pés e mãos dele se moveram e a moto ganhou velocidade na longa estrada de cascalho. A potência do motor pulsava através dela e cada solavanco fazia seu corpo colidir


contra o de Rex como em uma massagem completa. Ei! Você não pode aprender duas habilidades perigosas ao mesmo tempo. Concentre-se em aprender a pilotar a moto primeiro ou vai acabar se matando. Terá tempo para trabalhar nessa coisa homemmulher com Rex depois. Manter o foco não era tão fácil quanto deveria ser, mas Juliana concentrou-se nos sons do motor que mudavam e tentou bloquear o subir e descer do tórax de Rex contra suas omoplatas. Rex manteve a moto em um curso estável durante a estrada plana da fazenda por uma volta em torno da propriedade e depois mais duas. No terceiro circuito, Juliana já conseguia antecipar quando era o momento de trocar a marcha e se preparar para o roçar da coxa de Rex contra a sua antes que acontecesse. Seus músculos tensos relaxaram lentamente, permitindo que outras sensações penetrassem a névoa sensual que encobria seus pensamentos. Poderia me acostumar com isso. Poderia até gostar. Juliana Alden, motoqueira. Sua mãe teria um ataque. Uma risadinha escapou de seus lábios, e então ela agradeceu mentalmente por sua mãe ter decidido puni-la com o tratamento silencioso desde o leilão. Rex reduziu a marcha e parou a Harley. – Sua vez. – Já? Ela ergueu o olhar para ele. Por vários segundos, ele não desviou, e então os olhos dele baixaram para sua boca. Sua respiração ficou presa no peito. Exalou irregularmente. Tudo o que precisava fazer era se inclinar para a frente e... Rex soltou o guidão, deslizou para trás no banco e fechou as mãos sobre as coxas. – Você está pronta para pilotar. Juliana umedeceu os lábios e afastou o desapontamento. Se alguma vez já quisera tanto um beijo, não se lembrava da ocasião. Certamente nunca sentira nem uma fração dessa vontade com Wally. Wally, encolheu-se mentalmente e olhou para a frente outra vez. Como pôde ter se esquecido dele? Ele era legal e estável e seus pais gostavam dele. De acordo com sua mãe, a assistente dele, uma divorciada com três filhos, o comprara no leilão. Como Donna conseguiu pagar por um solteiro com os preços obscenos daquele sábado? Juliana sentiu a culpa sobre seus ombros. Wally provavelmente pagara. Será que esperava que Juliana o comprasse? Se sim, ela lhe devia desculpas. – Tem certeza de que consigo? – Sim. Estarei logo aqui atrás se precisar de ajuda. – Ele tirou os pés dos pedais do passageiro. As palmas suavam no guidão de borracha. Sentia falta do calor tranquilizante de Rex contra suas costas e abraço protetor dos braços e pernas dele, envolvendo-a. Ela testou a embreagem e o acelerador, e ergueu o pé para o pedal da marcha. As mãos de Rex pousaram em sua cintura. O contato inesperado em sua pele descoberta gerou uma onda de energia através dela. Soltou a embreagem rápido demais, a moto avançou e engasgou, empurrando Rex contra suas costas. – Calma. Tente de novo. Como podia se concentrar com as mãos dele queimando sua pele? Como se lesse os pensamentos dela, ele subiu as mãos, afastando-as da pele nua, mas repousando-as logo abaixo dos seios dela. Não exatamente uma melhoria se o objetivo era pensar claramente. O tecido fino da camiseta dela não fazia nada para bloquear a troca de calor entre suas peles.


Rangendo os dentes para conter a surpreendente vontade de cobrir-lhe as mãos e subi-las um pouco mais, colocou a moto de volta no ponto morto, deu partida no motor e tentou de novo. A máquina deu uma guinada e morreu. As terceira e quarta tentativas não foram melhores. Cada solavanco a empurrava contra Rex, aumentando sua tensão e frustração. – Não consigo fazer isso. – Consegue. Ajudaria se eu colocasse de novo as mãos no guidão? – Sim. É um pouco difícil me concentrar quando você... Toca em mim. – Pilote. – Parecia que ele havia forçado a fala entre dentes. Suas mãos apoiaram as dela ao lado dos controles. Fechando os olhos, Juliana tentou recuperar seu senso e visualizou as etapas necessárias. A moto andou. Rapidamente, ela ergueu as pálpebras e lutou para ficar longe das cercas brancas. Mudar para a segunda marcha foi mais fácil. Queria erguer os braços para comemorar, mas não ousou soltar os controles. Acabara de trocar para a terceira quando Rex moveu as mãos de volta para sua cintura. Sua mandíbula se retesou. Precisou de toda a sua atenção para evitar bater a moto. E então percebeu. Estava pilotando a grande e má Harley preta de Rex. Tudo bem, ele estava atrás dela, mas ela estava no controle. Sentiu a onda de adrenalina. Ergueu o rosto para o vento e riu alto. Sua alegria só durou cinco minutos. Uma gota de chuva grande pingou em sua bochecha. Momentos depois, a tempestade desabou. Rex se inclinou e gritou em seu ouvido. – Vá para o celeiro. Estacione lá. Juliana guiou a moto para o abrigo e pisou no acelerador o máximo que pôde. Em questão de segundos, sua roupa ficou encharcada e arrepios percorriam-lhe a pele. Ela reduziu e entrou pelas portas abertas do celeiro. Rex a envolveu para desligar o motor, então baixou o apoio e desceu da moto. Ainda extasiada com sua realização, Juliana o acompanhou. Tirou o capacete e colocou-o ao lado do de Rex, sobre o banco. A chuva batia no telhado de metal com força ensurdecedora, mas a tempestade não diminuía, e ela não conseguia tirar o sorriso do rosto. Queria gritar de alegria, rir alto e celebrar sua conquista. Em vez disso, jogou os braços em volta do pescoço de Rex e plantou-lhe um beijo na bochecha. – Obrigada. Obrigada. As mãos dele se fecharam em sua cintura descoberta, mas, em vez de afastá-la, Rex manteve-a presa. O calor dele penetrou o tecido frio e encharcado, fazendo sua temperatura subir por dentro e por fora. Os seios dela roçavam em seu tórax e suas coxas se entrelaçaram nas dela. Sua excitação, envolvida no jeans molhado, estava pressionada contra o ventre dela. Ela tremia, mas não de frio. Juliana inclinou a cabeça para trás e fitou-o no celeiro sombrio. Aqueles olhos castanhos fixaram-se nos seus antes de seguirem os rastros da chuva em seu rosto. Uma gota solitária tremia no canto de seu lábio. Ele curvou-se e sorveu-a. Ela ofegou com a força intensa da pequena carícia e seu coração disparava no peito. Seus dedos agarraram os ombros dele, e então a boca de Rex tomou a sua em um beijo devorador. Firme. Urgente. A língua dele se enredava com a sua, e as mãos dele em suas nádegas a traziam mais para perto. Uma represa se abriu. O choque passou e o prazer inundou as veias de Juliana. Ela segurou-lhe o rosto enquanto sensações estranhas, porém deliciosas, a tomavam por inteiro. O rosto e os lábios dele estavam molhados da chuva, mas muito, muito quentes. A barba dele arranhava-


lhe as palmas e então seus dedos alcançaram o cabelo dele. Ela puxou a tira de couro do cabelo dele e soltou-lhe as madeixas macias. As pontas estavam molhadas e geladas, um contraste completo com o fogo que crepitava dentro de si. As mãos dele subiram de seus quadris para sua cintura. Seus mamilos se enrijeceram e sua respiração ficou fraca de antecipação. Uma das mãos de Rex abarcou-lhe um seio e seus joelhos fraquejaram. Ele acariciou o mamilo rijo, provocando um formigamento de desejo em seu ventre. Jamais sentira nada tão intenso, tão incrivelmente urgente. A ereção dele pulsava contra as coxas dela e Juliana se aproximou mais, sem vergonha. O sangue corria quente em suas veias e um gemido de prazer formouse em sua garganta. Rex inclinou a cabeça para trás, praguejou e a afastou. Atravessou o celeiro para observar pela porta aberta a chuva caindo quase horizontalmente. O vento afastava mechas de seu cabelo do rosto. Confusa, Juliana piscou. Por que ele parou? Certamente, depois daquele beijo, ele tinha de saber que ela estava interessada. Talvez seu beijo seja péssimo. Você não tem muita prática. Seu rosto formigou com uma combinação de embaraço e do ardor causado pelo roçar da barba, mas sua pele ainda queimava de desejo. Lentamente, o calor evaporou de sua roupa molhada, deixando-a com muito frio. Examine os fatos. Rex Tanner a queria. Vira o desejo em seus olhos escuros e profundos, sentira em seu beijo e em seu jeans apertado contra a barriga dela. Mas ele não estava feliz com aquele desejo. Por quê? De acordo com sua pesquisa on-line, ele estivera com várias outras mulheres. Juliana tocou os lábios. Havia algo de errado com ela? Algum componente intrinsecamente feminino que lhe faltava? Talvez ele não gostasse de estar com uma mulher que o comprara mais do que ela gostava da ideia de pagar por um encontro. Deixando a vergonha sobre as circunstâncias de seu encontro de lado, Juliana vibrou com sua descoberta. Pela primeira vez na vida, sentira a paixão avassaladora da qual as mulheres tanto falavam. E se não era completamente incapaz de sentir desejo, o que isso significava para seu futuro com Wally? Não sabia a resposta, mas uma coisa era certa. Seu apetite por quebrar as regras que lhe regiam a vida até então foi estimulado, e não podia esperar até sua próxima aula.


CAPÍTULO 4

SERÁ QUE o dia poderia ficar pior? Em resposta à pergunta de Rex, a chuva transformou-se em granizo. Batia no telhado de metal como baquetas em um tarol. Para fugir da tentação da mulher atrás dele, Rex considerou entrar na chuva e deixar o gelo cobrir sua pele espessa e excitada, mas não tinha nenhuma roupa seca e tinha pilotado sua Harley. A temperatura caíra pelo menos vinte graus nos últimos dez minutos. Teria hipotermia antes que pudesse chegar em casa. Um raio cruzou o céu e um trovão fez o chão tremer. Um vento frio passou pela porta aberta, jogando seu cabelo sobre os olhos. O que Juliana fizera com sua tira de couro? Virou-se para questionar, mas a pergunta morreu em seus lábios. Juliana abraçava-se. Seus dentes batiam e arrepios cobriam seus braços e ombros desnudos, e até a tentadora faixa de pele mais clara em sua barriga. Seus instintos protetores emergiram. – Deixe-me ver se consigo achar algo para lhe cobrir a cabeça, e iremos até seu carro. – Não vou dirigir naquilo. – Seu carro tem aquecedor. – Não vale a pena ser atingida por um raio para chegar até ele. Bom argumento. Ela estacionara a uns 100 metros em uma área aberta. O calor da tarde já não existia, mas ele fechou a porta do celeiro mesmo assim. Tinha de aquecer Juliana. Tudo que tinha a oferecer era sua camisa molhada. Aquilo não ajudaria. – Venha. – Ele conduziu-a até a sala de equipamentos e fechou a porta. A temperatura dentro do cômodo de 3 m² sem janelas era levemente mais quente. Ele observou ao redor, esperando poder encontrar algo em que Juliana pudesse se enrolar, mas não encontrou nada. O celeiro estava um desastre quando o alugara. Os ratos haviam tomado conta e feito cama de todo o material disponível, então ele vasculhara todo o lugar de um canto a outro e jogara tudo fora. Tudo o que sobrou foi um baú de metal, um tambor de aço e um banco de cedro bruto. – Aqui. – Um forte rubor cobriu-lhe as bochechas quando ela ofereceu sua tira de couro trançado. Ele amarrou o cabelo e tentou ignorar os dentes dela batendo, mas não conseguia. Seu controle estava por um fio e, após aquele beijo, a última coisa de que precisava era tocá-la. Que azar sua libido


surgir após meses de hibernação por uma mulher que deveria evitar a todo o custo. O fato de que ela estava congelando sem reclamar o afetou. Os arrepios silenciosos dela o afetaram. Até o aroma úmido de flores e especiarias dela o afetou. Na verdade, tudo em Juliana Alden mexia com ele. – Vire-se. Apertando os olhos, ela hesitou e depois virou-se de costas. Ele tirou as mãos dela do caminho e esfregou-lhe rapidamente a pele fria dos braços. A respiração rápida dela causou-lhe uma pontada na virilha. A firmeza dos músculos sob suas mãos o surpreendeu. Esperava que uma funcionária de escritório fosse flácida, mas Juliana obviamente mantinha a forma desde seus braços firmes até sua b... Não pense nisso. Seus arrepios diminuíram, depois cessaram. Sua pele se aqueceu e seus músculos relaxaram sob as mãos dele, mas ele não queria soltá-la. Uma onda de puro desejo o atingiu com força. Fazia tempo demais desde que acariciara a pele suave e macia de uma mulher. Juliana recostou-se nele, e a vontade de envolvê-la com os braços, enterrar seu rosto no pescoço dela e abarcar-lhe os seios em suas mãos veio como um golpe. Ele abaixou as mãos e se afastou, mas não havia para onde correr naquele espaço confinado. – Ficaremos aqui até o granizo passar e depois você precisa ir para casa. – E você? – Vim de moto. Esperarei até a chuva cessar. – E se não cessar, onde vai passar a noite? Aqui? – apontou para o estreito banco de quatro pés. – Se for preciso... Já dormi em lugares piores. – Não vou deixar você aqui. – Não há necessidade de nós dois ficarmos com frio e desconfortáveis. – É exatamente por isso que você será razoável e aceitará minha carona para casa. Tenho uma jaqueta no carro, então, assim que o granizo e os raios pararem e eu puder chegar até ele, não ficarei com frio. – Seu olhar dirigiu-se até as pontas dos mamilos dele, claramente marcados na camiseta molhada. – E tenho uma colcha no carro. Você pode usá-la. Sua reação não foi causada pelo frio, mas ele não a corrigiria. Se ela olhasse mais para baixo, entenderia. Ela bateu um dedo em seus lábios inchados, e instantaneamente a lembrança do beijo reacendeu o fogo no sangue dele. Lábios macios. Língua sedosa. Ele rangeu os dentes, cerrou as mãos e lutou para apagar a chama. – Está preocupado que alguém roube sua moto se deixá-la aqui durante a noite? – Não. A dona tem alguns cachorros que ela solta à noite. Eles ficam de olho nas coisas. – Então te darei carona. – Não precisa... – Acho que você poderia pedir uma pizza e pegar uma carona de volta com o entregador se está com medo de ir comigo. – Não tenho celular. – O meu está no carro. Você pode usar... Se insistir em ser insensato. – Preciso ver Jujuba. Se a chuva não tiver parado até eu terminar, aceito a carona. Ele saiu da sala e seguiu para a baia da égua. Nunca rezara tanto para uma mudança de tempo desde seu primeiro show como artista principal em um local aberto. Vinte mil fãs apareceram para vê-lo na


tempestade. E ficaram apesar do clima. Fizera seu melhor para não decepcioná-los, e dali em diante faria o melhor para não se decepcionar cruzando a linha da tentação. Mas não havia garantias de sucesso. Juliana Alden conseguia contornar seu bom senso. Tinha de sair desse pacote de leilão. Não conseguiria pagá-la pelos milhares que ela investira nele, já que a maior parte de seu dinheiro estava presa ao Renegado, mas podia pagar os 400 que a concessionária local cobrou pelo curso de segurança do piloto de moto. E a dona da fazenda costumava participar do circuito de hipismo. Apostava que poderia convencê-la a dar aulas para Juliana em troca de que ele cuidasse de mais algumas tarefas por lá. Era isso. Juliana teria suas aulas – só que não com ele. Assim que a levasse de volta ao Renegado, diria-lhe adeus. – DEIXE-ME PAGÁ-LA uma bebida. Suas palmas ficaram suadas e a antecipação tomou conta. Ele a convidaria para subir? Ela queria abandonar sua imagem de moça certinha. Queria de verdade, e tinha uma caixa nova de camisinhas em sua bolsa para provar isso, mas, francamente, a ideia de ficar nua com Rex lhe dava palpitações, porque estava começando a gostar dele um pouco demais para que aquele encontro fosse do tipo pápum-obrigado-senhora. Última chance. – Claro... Adoraria. Ele deu a volta no carro, pegou o guarda-chuva dela e guiou-a até o Renegado sem tocá-la, mas Juliana estava muito consciente da mão dele pairando em sua cintura. O barman olhou para cima assim que eles entraram. – Sua irmã está lá em cima e, cara, ela está mal. – Só um minuto – pediu Rex a Juliana. Abriu a porta que levava a seu apartamento e subiu dois degraus por vez. Juliana olhou a multidão de pedreiros que a encarava maliciosamente no bar. Indisposta a lidar com o tipo de atenção que suas roupas minúsculas atraíam, seguiu Rex para o andar de cima. Ao entrar no apartamento, Juliana notou a mala ao lado da porta e depois a mulher chorando nos braços de Rex. Sem saber se estava sendo intrusa, Juliana hesitou. – O que houve, Kel? A pequena morena se afastou com o rosto manchado e vermelho do choro. – Mike foi ferido. Está em estado crítico em Landstuhl, na Alemanha. – O hospital militar? – perguntou Rex. – Sim. Talvez ele... – Sua voz falhou. – Disseram que talvez ele não sobreviva. – O que você precisa que eu faça? Diga-me e eu farei. – Preciso que fique com as meninas. – Ei – recuou –, onde estão Becky e Liza agora? – Dormindo. – Apontou para uma porta fechada. – Não posso levá-las comigo, Rex. Sei que tem de trabalhar, mas preciso ir. Tenho de ver Mike. – Sim, você tem, mas Kelly, não posso ficar com as meninas por mais de algumas horas. Que tal uma das outras esposas de militares?


– Você sabe que não as conheço bem o suficiente para pedir. Por favor, Rex, não tenho mais ninguém. E preciso chegar lá antes que... – Um soluço sufocou suas palavras. – Não posso fechar o Renegado. Eu mal... – Seu olhar desviou-se para Juliana e depois de volta para sua irmã. – Não posso fechar minhas portas e não tenho funcionários para me cobrir. As meninas não podem ficar lá embaixo, e não posso deixá-las aqui em cima sozinhas. Quero ajudar, mas não sei como. Juliana sentiu o coração apertar-se de pena. O marido da moça estava criticamente ferido e a milhares de quilômetros de distância. Se a situação fosse tão grave como Kelly disse, então não havia tempo para procurar alternativas de cuidado infantil. Além disso, pelo que os colegas de trabalho de Juliana diziam, boas creches tinham listas de espera. E então a resposta caiu do céu – uma resposta que poderia resolver vários problemas de uma vez só. Irma, a senhora que fora mais uma mãe do que uma babá para Juliana, ficara cada vez mais sozinha e infeliz desde que teve de se aposentar. Juliana se preocupava com ela. Ajudar Kelly significava ajudar Irma e não havia nada que Juliana não faria por ela. E, admitiu, não se importaria de ter a oportunidade de passar mais tempo com Rex e descobrir mais uma camada do homem complexo que comprara. – Talvez eu possa ajudar. Ambos se viraram para ela. – Não – protestou Rex. – Quem é você? – perguntou a irmã dele simultaneamente. – Sou Juliana Alden. Amiga... De Rex. Tenho as noites e os fins de semana livres, e acho que a senhora que costumava ser minha babá adoraria ficar com as meninas por algumas horas quando Rex ou eu não pudermos ficar com elas. – Você gosta de crianças? – Sim, embora deva confessar que não tenho muita experiência. Mas aprendo rápido e não desisto fácil. – Se puder ficar com as meninas à noite, então Rex poderia ficar com elas de manhã, e sua babá poderia cobrir meio-dia. Rex se colocou entre elas. – Não precisamos incomodar Juliana. Vou arranjar outro jeito. Posso ligar para uma agência de empregos ou uma creche... – As meninas já estão tristes o bastante. Elas não precisam desse tipo de perturbação. – Minha casa na cidade tem uma piscina e um play – acrescentou Juliana, recebendo um olhar de Rex. – Irma pode ficar com elas na minha casa, e eu cresci em Wilmington, então sei onde ficam os parques e as sorveterias deliciosas. Acha que vai ficar fora por quanto tempo? – Trouxe roupas das meninas suficientes para uma semana, mas não sei. Tudo depende de Mike. – Não queremos incomodá-la. – Rex não disse fique fora disso, mas ficou bem claro nas entrelinhas. – Não é incômodo algum. Na verdade, tenho certeza de que Irma adoraria ter algo para mantê-la ocupada. Ela se aposentou recentemente e não está gostando disso. Kelly abraçou Juliana. – Muito obrigada. Estou tão preocupada com Mike. E se ele... – Sua voz falhou e uma nova onda de soluços começou. – Tenho certeza de que ele está recebendo os melhores cuidados. – Juliana passou um braço em volta do ombro de Kelly. – Quando seu voo parte?


– Meia-noite. Juliana olhou para o relógio. – São quase nove agora. Precisamos levá-la ao aeroporto. Eu levo você. Rex pode ficar aqui com as meninas. – Virou-se para Rex. – Voltarei assim que Kelly fizer o check-in e acertaremos os detalhes. A última visão que Juliana teve de Rex conforme saía com sua irmã não foi muito tranquilizante. A cara fechada e os punhos cerrados não pareciam trazer nada de bom para a semana juntos. Irmão amoroso, gentil. Tio dedicado. Rebelde. E orgulhoso demais para aceitar sua ajuda. As contradições daquele homem a intrigavam mais do que uma conta falsa, e Juliana mal podia esperar para decifrá-lo. QUEM TERIA suspeitado que a contadorazinha seria tão difícil de dispensar? Rex convidara Juliana para pagar-lhe uma bebida e dispensá-la, e lá estava ela de volta a seu apartamento, bem depois da meia-noite. Pior, parecia que ficaria preso a ela até que Kelly voltasse. O que realmente o irritava era que, por mais que não quisesse a ajuda dela, não tinha outra opção, já que não podia pensar em outra solução. Relutantemente, sentou-se ao lado de Juliana no sofá. Ela estava um pouco amarrotada e incrivelmente sexy. Com as pálpebras semicerradas, parecia cansada o bastante para apagar a qualquer momento. O desejo de colocar a cabeça dela em seu ombro não era bem-vindo. Ela cobriu um bocejo com a mão. – Liguei para Irma a caminho do aeroporto e combinei tudo. Ela está animada para tomar conta das meninas, e Kelly está aliviada por elas estarem com alguém experiente na maior parte do tempo. Kelly, Irma e eu elaboramos uma agenda. As meninas passarão as noites aqui com você. Você cuida das manhãs e então as deixa na minha casa. Nos dias de semana, Irma ficará com elas até eu chegar à noite. Becky e Liza jantarão comigo e então eu as trarei de volta para tomarem banho e dormirem. Ficarei até que você possa assumir, e as olharei nos fins de semana. Juliana fizera planos, mas deixara de fora alguns detalhes críticos. – Espere aí. Na maioria das noites, eu não subo antes das duas. É muito tarde para você dirigir de volta para casa, e só tenho dois quartos... O das meninas e o meu. – Quartos não são um problema porque irei embora todas as noites assim que você chegar. Gostaria de passar aqui de manhã no caminho para o trabalho para que as meninas me conheçam. Acho que as deixaria mais confortáveis comigo amanhã à noite. Para alguém que supostamente era boa com números, ela não estava calculando bem. – Você mora a quanto tempo daqui? – Uns vinte ou trinta minutos, dependendo do trânsito. – E que horas você geralmente acorda? – Seis, mas vou acordar mais cedo para vir para cá. – Se for para casa, vai ter mais ou menos três horas de sono antes de ter de acordar e voltar aqui. – Por mais que Rex odiasse admitir, só havia uma solução. – Começando hoje, você terá de dormir aqui. – Não precisa. – Não tem outro jeito a não ser que consiga viver sem dormir. Está tarde, você está exausta. Fique com minha cama, os lençóis estão limpos. Eu durmo no sofá. – Mas não tenho roupas nem... Nada.


– Empresto uma camiseta. Podemos colocar o que está vestindo na máquina de lavar. Arrumaremos as meninas de manhã, e então você pode ir para casa se vestir para trabalhar. Eu sigo você. Você pode nos mostrar o lugar e apresentar-nos para Irma. – Eu... Está bem. Mas podemos, é... Dividir a cama? Ele sentiu o calor correndo por suas veias, quase acabando com seu bom senso. Ele sabia que não devia – não podia – tê-la, mas isso não significava que seria capaz de se controlar se tivesse de passar a noite ao lado dela. – E aí nenhum de nós dormiria. – Tenho certeza que podemos pensar em um jeito. – Não. Ele passou por ela, entregou-lhe a maior camiseta que tinha – quanto mais ela se cobrisse, melhor –, uma escova de dentes nova e uma toalha de banho. – Sabonete, xampu, pasta de dentes estão no banheiro. Grite se precisar de algo. – Obrigada. Ele hesitou, mas forçou-se a dizer o que devia. – Não, obrigado você, Juliana. Eu não tinha um plano B, e Kelly sabia. Se você não tivesse aparecido, não sei o que teria acontecido. Vou ficar te devendo uma. E queria muito não dever, porque esse tipo de dívida sempre era cobrado no futuro. REX ESTIVERA no quarto enquanto ela dormia. Juliana afastou o cabelo do rosto e olhou para a organizada pilha de roupas dobradas – sua calcinha em cima – em cima da cômoda ao lado de sua bolsa. Seu coração bateu em um ritmo irregular. Jogou as cobertas sobre a cama e se levantou. Dez minutos depois, após tomar banho e se vestir, seguiu o aroma de café fresco até a cozinha. Rex, vestindo apenas um jeans baixo, estava recostado no balcão, segurando uma caneca e encarando-a. Seu cabelo estava solto e bagunçado. – Bom dia. – A voz grave e sonolenta dele acendeu uma chama dentro dela. Ela ergueu os olhos e encontrou o olhar pesado dele. – Bom dia. Nunca havia passado uma noite inteira na cama de um homem – com ou sem ele – e, portanto, nunca vivera o dia seguinte. Era por isso que parecia tão íntimo e estranho? E mesmo assim não conseguiria ter saído do quarto se quisesse. – Café? – Por favor. – Por que ela não podia ser uma daquelas mulheres que levava um kit de maquiagem na bolsa? Não tinha nem um pente ou escova. Tivera de usar o dele. Sentindo-se exposta, abaixou a cabeça, deixando o cabelo cair sobre o rosto. Ele encheu uma caneca e passou para ela. – Leite? Açúcar? – Só açúcar. Ele apontou o açucareiro. – Sirva-se. – Obrigada por... Lavar minhas roupas.


– De nada. – Quer que eu prepare o café da manhã? – Não sei o que você vai encontrar. Não sou uma pessoa matinal. Geralmente não como até descer. – Posso procurar? As meninas deveriam comer antes de sairmos. E, honestamente, não tenho muita comida na geladeira também. Costumo fazer compras no sábado. Irma prometeu trazer almoço e lanches para elas. – Vá em frente. – Ela abriu a geladeira e o ar gelado refrescou seu rosto quente. Encontrou ovos e manteiga e depois viu pão sobre o balcão. Em um armário achou xarope para panquecas. – Rabanada? – Acho que serve. – O tratamento calmo dele a irritava. Tentou bloqueá-lo enquanto misturava a massa, mergulhava o pão e o colocava na frigideira. O que ele estava procurando? Ele reencheu sua xícara de café. – Você não é o que eu esperava. Cabum. Seu coração disparou. Ela ergueu o rosto. – Por que isso? – Você gastou 15 mil sem piscar por aulas que poderia ter comprado por muito menos. Achei que tivesse mais dinheiro que juízo. – E agora? – Eu estava errado. Aquela simples frase a encheu com uma quantidade idiota de satisfação. – Obrigada. – Mas isso não muda a decisão que tomei ontem à noite antes de Kelly aparecer. – Decisão? – Você precisa ter aulas com outra pessoa. – Por quê? – Porque não estou procurando por um caso e você sim. – Eu nunca disse isso. Os lábios dele se curvaram em um sorriso cético. – Está dizendo que quer se casar comigo? Quê?! – Não. – Mas não é avessa à ideia de dormir comigo. – O que faz você pensar isso? – Você tem uma caixa de camisinhas na bolsa. – E como sabe disso? – Sua bolsa estava aberta quando trouxe suas roupas de manhã. As camisinhas estavam por cima. Não conseguia se lembrar da última vez em que se sentira tão envergonhada, mas manteve-se firme. – Você se acha muito se pensa que são para você. Seu comentário ácido não o afetou. Provavelmente porque seu tom não fora nem um pouco sarcástico como pretendera. Como poderia se ele estava certo? – Também foi o que pensei, até que percebi que você não é o tipo de mulher que pega caras. – Não tenha tanta certeza. – Você é contadora.


– E daí? – Daí que você gosta das coisas organizadas, de estar preparada. Os CDs no seu carro são arrumados em ordem alfabética. Você memoriza manuais de instrução que a maioria nem tenta ler. Você coloca o cinto de segurança antes de pôr a chave na ignição, e confere os espelhos três vezes antes de mudar de pista. Aposto como não tem um só gene aventureiro em você. Nossa, ele a conhecia bem, e isso a irritou imensamente. – Comprei você, não foi? – Acho que você pesquisou meu passado antes, porque você sabe demais sobre mim para alguém que não é fã de música country. Culpada. Se ele percebera que seus CDs eram arrumados em ordem, provavelmente também notara que era fã de musicais da Broadway. Mal sabia ele que ela escondera os CDs dele sob o banco antes de deixá-lo entrar. – Não há nada de errado em estar preparada. – Não disse que havia. Mas o fato é que o que você quer não está disponível. Não posso negar que preciso da sua ajuda essa semana, mas cuidarei para que tenha o resto das aulas em outro lugar. Ela podia ceder à vergonha e às exigências dele ou permanecer no plano que definira. Última chance. Última chance ecoava em sua cabeça. – Como disse, você me deve uma e quero minhas aulas com você. Sem substitutos. Os olhos dele brilhavam de raiva e abriu a boca – para discutir, provavelmente –, mas fechou-a novamente quando a sobrinha mais nova chegou na cozinha. Ela ergueu os braços sem dizer nada. Rex baixou a caneca de café e pegou-a no colo. – Ei, florzinha. A criança colocou o dedão na boca, recostou a cabeça no ombro de Rex e então enrolou uma mecha do cabelo dele nos dedos da outra mão. A confiança absoluta no gesto e no beijo gentil que ele deu na cabeça da menina causou um nó na garganta de Juliana. – Liza, essa é Juliana. Ela vai me ajudar a tomar conta de vocês por uns dias. Um par de olhos escuros rapidamente encontrou os de Juliana e então a criança escondeu seu rosto no pescoço de Rex. Os dedinhos se emaranharam no cabelo dele e o coração de Juliana amoleceu. – Oi, Liza. – Juliana recebeu outra olhadela daqueles olhos tímidos e sorriu enquanto colocava as rabanadas em pratos. Kelly dissera que Liza tinha três anos, Becky, cinco, e que ambas adoravam o tio. Ouvindo Kelly falar na noite passada, você pensaria que Rex era um bobão, mas não foi esse o homem que Juliana encontrara. – As meninas devem passar bastante tempo com você. – Tento ajudar quando Mike está em missão. – Uma menina mais velha entrou correndo para Rex. Ele pegou-a com seu braço livre com tanta facilidade, que ficou claro que aquilo era comum, e então ele tinha uma garotinha sorridente de cada lado seu. Seu sorriso quase tirou o chão de Juliana. Ver a afeição óbvia entre ele e suas sobrinhas levou seus pensamentos em uma direção decididamente não temporária. Rapidamente afugentou os sentimentos indesejados. Nunca fora de escutar seu relógio biológico e não pretendia começar agora. Um mês com o rebelde seria tudo que se permitiria. – Esta é Becky. Becky, Juliana vai nos ajudar enquanto a mamãe está fora. Vocês vão passar o dia na casa de Juliana com a babá dela. – Olá, Becky. A menina mais velha avaliou Juliana desconfiadamente e perguntou a Rex: – Por quê? Por que não podemos ficar aqui com você?


– Porque tenho de trabalhar. Podia não ter muita experiência com crianças, mas Juliana percebeu os protestos se formando e decidiu afastá-los. – Minha casa tem piscina e play, e Irma, a senhora que tomou conta de mim quando eu tinha sua idade, está muito animada para que vocês a ajudem a fazer biscoitos. Ou a piscina ou os biscoitos funcionaram. Os olhos das meninas brilharam. Se seu tio fosse tão fácil de enrolar... Juliana reprimiu um suspiro. Tinha um plano e se agarraria a ele apesar deste pequeno desvio. Apesar do desinteresse de Rex em um relacionamento, o beijo dele mostrara o contrário, então seu plano ainda tinha chances. Ninguém amava um caso difícil mais do que ela, e não estava pronta para jogar a toalha ainda. – Preciso de uma chave do apartamento. E isso, a julgar pela expressão obstinada de Rex, era a última coisa que ele queria lhe dar.


CAPÍTULO 5

A VIDA de Rex estava fora de controle – bem parecido com quando assinara seu primeiro contrato com uma gravadora, e outras pessoas – seu empresário, seu agente e os executivos da gravadora – assumiram o volante e começaram a conduzir sua vida. Lutara muito para recuperar o controle e não gostou de ser desviado agora. Na noite anterior, fora enrolado por Kelly e Juliana. Hoje, Irma, a mulher mais maternal que já conhecera, o tirou do caminho assim que ele e as meninas chegaram. Levara Becky e Liza para a cozinha para ajudá-las a guardar as compras. Juliana subira para se arrumar para o trabalho, deixando-o sozinho na sala, pensando onde se metera. Não que tivesse escolha. Não decepcionaria Kelly outra vez. Quem era a verdadeira Juliana? A paqueradora que o comprara no leilão, a inocente sedutora que montara seu cavalo, a ousada e sensual motoqueira ou a mulher cuidadosa que planejara cada detalhe e conferira tudo três vezes? Havia contradições demais para contar – contradições que o deixavam confuso. Não podia planejar uma defesa sem conhecer seu oponente. Um barulho o fez virar. Ele olhou e viu pernas – incríveis, longas e sensuais – descendo as escadas. E então o resto de Juliana ficou à vista. Em seu terno cinza, cabelo preso e salto alto, parecia-se muito pouco com as versões de Juliana que encontrara até então. Essa mulher parecia com uma funcionária do banco. Fria. Reservada. Responsável. O barulho dos saltos no chão na madeira de lei enquanto ela ia em direção a um armário lhe chamou a atenção novamente para suas pernas de matar. Maldito fosse se não a achasse sexy em um jeito meio bibliotecária. Isso não era bom. Nem um pouco. Ela abriu uma gaveta, pegou algo e virou-se para olhá-lo. – Aqui está a chave da minha casa. Opa! Ele deu um passo para trás. Além de Kelly, nunca dera a nenhuma mulher a chave da sua casa ou até de seu caminhão. – Olhe, Juliana, eu lhe dei minhas chaves reserva hoje de manhã porque você e as meninas precisam ter acesso ao meu apartamento, mas... – Sim, e foi claramente muito doloroso para você – disse, com uma dose de sarcasmo. – Não preciso da chave da sua casa. – Precisará se chegar antes de Irma nas manhãs.


– Não irei. Vou me certificar disso. Mas se chegar, você pode me deixar entrar. – Isso não é prático. Você mora mais perto do banco, então faz mais sentido para mim ir direto do trabalho para o Renegado. Quanto mais cedo eu chegar no trabalho, mais cedo posso sair para ficar com as meninas. Irma está animada para ficar com elas, mas ela tem 70 anos, e está preocupada que sua energia não dure um dia todo. Juliana alcançou-lhe a mão e colocou a chave sobre ela. – Rex, é uma chave, não um anel de noivado. Sem laços ou expectativas. Pare de ser tão machão e aceite. Preciso ir. Estou atrasada. Mas vários segundos se passaram antes que ela soltasse sua mão. Pelo rápido pulsar da veia no pescoço dela, ele imaginou que não era o único sentindo o calor gerado pelo contato entre eles. – Deixarei Becky e Liza por volta de 9h30 ou 10h30 todas as manhãs. Ela assentiu. – Devo voltar às 18h no máximo. As meninas e eu o encontraremos para que possa dar boa noite antes que eu suba com elas. Fique à vontade para ficar aqui o quanto quiser. Irma faz um café ótimo. Parecia tanto com brincar de casinha que o assustou. Conhecendo seu passado e sua fraqueza, pensar em construir uma relação doméstica com alguém era um luxo que não poderia bancar. Ele recuou. – Certo. Vejo você hoje à noite. E então correu para a cozinha como um covarde. Fugindo do que não podia ter. WALLY WILSON era perfeito para ela em tantos níveis. Então por que Juliana não podia ser feliz com ele e esquecer essa última chance sem sentido? Ela olhou para sua companhia do outro lado da mesa. Bonito de um jeito sutil e formal, Wally era loiro de olhos azuis e razoavelmente em forma. Não, nenhuma mulher ficaria louca ou com os hormônios à flor da pele quando ele entrasse em algum lugar, mas ele era estável, responsável e infalivelmente educado. Ele gostava de ordem e ela também. Na verdade, tinham tanto em comum. Histórico, negócios, ambição... Preocupado com detalhes, como Wally parecia ser com tudo na vida, provavelmente seria um amante meticuloso. De acordo com seus amigos, Juliana devia a si mesma descobrir antes de casar com ele, mas a ideia não a animava muito. Além disso, detestava demonstrações de emoção. A vida com Wally seria navegar em um mar tranquilo. Sem altos. Nem baixos. Sem diversão? – Obrigada por concordar em mudar nosso encontro de jantar para almoço tão em cima da hora, Wally. – É sempre um prazer me ajustar ao seu horário, Juliana. Você disse que aconteceu o que mesmo? – Vou ficar de babá hoje. – Babá? Já fez isso antes? – É... Não. Mas as meninas têm três e cinco anos. Tenho certeza de que elas dirão se eu fizer algo errado. – Achei que pudesse ter algo a ver com seu solteiro. – Tem, indiretamente. Rex, meu solteiro, a irmã de Rex teve de sair do país de última hora. O marido dela é militar e está em estado crítico. Ela precisou ficar com ele. Rex e eu estamos tomando


conta das filhas dela. – Ela não podia contratar alguém para isso? – Irma está ajudando. – Ah, sim. Irma. Esqueci que você ainda tem contato com sua babá. – Exibiu um sorriso tolerante, mostrando dentes perfeitamente alinhados. Por que ela ficou com a impressão de que ele não aprovava muito sua amizade com a mulher que a criara enquanto Margaret Alden buscava sua ascensão profissional? – Irma e eu almoçamos juntas pelo menos uma vez por mês. Tenho me preocupado muito com ela. A aposentadoria não está lhe caindo bem. Wally, minha mãe parece pensar que você esperava que eu o comprasse no leilão. – Considerando o acordo entre nossas famílias, pensei que sim – disse em um tom inexpressivo. Pensando bem, Wally sempre falava sem muita inflexão. Sua voz tranquilizante seria valiosa no trato com clientes irritados. – O acordo é que sairíamos para ver se combinamos. – Não combinamos? – Ainda não sei, Wally, mas diga a Donna que agradeço a ela por ter aparecido. Embora eu confesse ter ficado um pouco surpresa por vê-la lá. – Sim. Alguns não conseguem esquecer as origens humildes dela. Como os pais dele, suspeitou Juliana. – Bem, peço desculpas se dificultei as coisas. – Não precisa de desculpas, Juliana. Na verdade, isso pode funcionar a nosso favor. – Como? – Porque temos permissão de ter encontros fora de nosso fechado círculo social sem medo de repercussão. Aquele fora o comentário mais estranho que Wally já fizera. Mais estranho era a suspeita de que Wally – o seguro e sensato Wally – poderia ter segredos. REX ENTROU em seu apartamento e parou ao ver Juliana relaxada em um canto do sofá com os joelhos dobrados e os pés encolhidos para o lado. Seu coração batia forte conforme se aproximava. A lâmpada lançava um brilho suave sobre o rosto adormecido dela. Os cílios longos tremulavam e seus lábios entreabertos deixavam escapar a respiração. Ela trocara o terninho por um pijama sem mangas. O tecido preto o lembrava dos lençóis de seda que tinha em seu ônibus de turnê. Macios. Escorregadios. Sexy. Afastando o pensamento proibido, olhou para o fim do corredor. Pela porta aberta, viu as meninas dormindo. Será que deram trabalho para Juliana? Era por isso que estava plantada ali como uma sentinela? Ou adormecera esperando por ele? O pensamento lhe causou uma onda de eletricidade. Ela deixara claro que o queria com sua insistência nas aulas e com aquela maldita caixa de camisinhas. Quase não pensara em outra coisa o dia todo. Seria tão fácil aceitar o que ela oferecia, levá-la para a cama e perder-se no aroma floral daquela pele e no calor do corpo dela. Por uma hora ou duas, ela poderia fazê-lo sentir-se mais que um cantor country fracassado que decepcionara sua família de todas as maneiras possíveis. Sim, ele começara a mandar dinheiro para casa assim que assinara seu primeiro contrato, mas nunca dera mais que dinheiro


e jamais se desculpara por machucar as duas pessoas que mais o amaram. Sexo casual podia curar muitas coisas – inclusive culpa – por um tempo. Ele deveria saber. Cerrou os punhos para conter a vontade de acariciar Juliana até acordá-la. Ah, sim. Seria tão fácil ser aquele FDP egoísta com ela. E era exatamente por isso que tinha de manter a distância. Não poderia voltar, não poderia arriscar decepcionar Kelly e as meninas como fizera com seu pessoal. Mas Juliana estar ali em vez de em sua cama poderia agir em seu favor. Tomaria um banho e mandaria embora a tentação junto com o cheiro de comida e bar, e então acordaria Juliana para que ela fosse para a cama. Sozinha. O mais silenciosamente possível, Rex entrou em seu quarto para pegar roupas limpas. Pegou o que precisava e seguiu para o banheiro, mas teve um impacto. Os itens de higiene dela estavam ordenadamente arrumados no balcão, e o xampu dela ao lado do seu na prateleira do chuveiro. Ontem ele queria livrar-se dela. Hoje ela estava se mudando. Definitivamente, sua vida estava fora de controle, mas aprendera do pior modo quão destrutivo aquilo poderia ser. Era um erro que não queria repetir. Tirou a roupa, entrou no chuveiro e ensaboou-se bruscamente, lutando contra os pensamentos traiçoeiros sobre as mãos ensaboadas de Juliana deslizando por sua pele, mas estava cansado demais para manter suas barreiras mentais. Em segundos, tinha uma dolorosa ereção implorando por atenção. Girou a torneira para o lado frio e estremeceu com a água gelada, enquanto enxaguava o sabonete e o xampu. Após se secar e colocar jeans limpos e uma camiseta, relaxou os ombros. Hora de colocar a tentação na cama e tentar pregar o olho antes que começasse tudo de novo. Sábado. Dia de folga de Juliana. Como se concentraria sabendo que ela estaria em seu apartamento o dia todo? Parou ao lado do sofá e lutou contra aquele pensamento. Não conseguia esquecer a maciez de sua pele ou o gosto de sua boca. Droga. Não conseguia se lembrar sem ficar logo excitado ou ter uma mulher assombrando seus pensamentos dia e noite. O celibato devia estar ferrando com sua cabeça. Uma semana. Poderia aguentar até Kelly voltar e, então, com ou sem dívida, dispensaria Juliana. – Juliana – sussurrou. Ela não se mexeu. Não queria subir a voz e arriscar acordar as meninas. – Juliana, acorde. – Nada. Droga. Teria de tocá-la. Mas onde? A pele desnuda em seu ombro era próxima à área obscura entre seus seios. Arriscado demais. Ele bateu em seu joelho. – Juliana. Ela se assustou, respirou rapidamente e sentou. – O quê? Ah, oi. – Vá para a cama. Ela piscou e olhou ao redor como se não lembrasse onde estava ou como chegara ali. Parecia nervosa, adorável e beijável. – E as meninas? – Dormindo. – Becky teve um pesadelo. Acho que cochilei. – Legal da sua parte prestar atenção nela. Lentamente, ela se esticou e levantou, e então se desequilibrou e caiu contra o peito dele. Ele segurou-a pelos braços. Seus dedos ficaram na direção do coração dele. Não pôde deixar de notar os batimentos acelerados. Seu olhar sonolento fitou o dele. – Desculpe. Meu pé está dormente. – E nem uma única célula no corpo dele estava. Ele cerrou as mãos. Queria-a tanto que doía. Queria sentir o gosto de seus lábios úmidos. Acariciar sua pele corada.


Enterrar o rosto no vale entre seus seios e deixá-la tão louca por ele como estava por ela. Queria jogá-la de novo no sofá e enterrar-se entre suas longas pernas. Ele lutava com a necessidade pulsante que deveria ter satisfeito no banho. Não, não seria tão bom quanto sexo de verdade, mas poderia ter aliviado um pouco de sua urgência. Aproveitador. Uma gota de água gelada de seu cabelo molhado escorreu por suas costas, trazendo-o de volta à lucidez. Ele a afastou, segurando-a apenas até ter certeza de que ela recuperara o equilíbrio. – Vá dormir, Juliana. TODA ARRUMADA e sem ter aonde ir. Juliana seguiu para o quarto de Rex. Como tinha o hábito de levantar cedo, acordara sem despertador. Precisava de café imediatamente e de um jornal. A edição de hoje devia ter a primeira reportagem de Octavia Jenkins sobre o leilão. Juliana não queria acordar Rex ou as meninas ligando a cafeteira, e não sabia se ele assinava o jornal local. Pegando sua chave do apartamento e sua carteira, abriu a porta do quarto. O mais silenciosamente possível, foi até a sala. Seu coração parou quando viu Rex esticado no sofá e logo acelerou quando seu olhar o admirou. Estava sem camisa e com o botão da calça aberto. O lençol que usara estava no chão ao lado dele. Ela voltou a olhar o botão aberto e seu umbigo, depois deixou a vista percorrer seu peitoral nu até seu queixo e os lábios entreabertos. Sua boca secou. Ele definitivamente sabia como usar aqueles lábios. A questão era como conseguiria fazê-lo usá-los novamente. Nela. Com cada encontro, seu desejo de sentir o corpo dele contra o seu aumentava e suas dúvidas sobre esse plano louco diminuía, mas ela não parecia estar mais perto de seu objetivo, então sua incerteza era um ponto discutível. O que ela faria para tentá-lo e até onde poderia ir com as meninas em casa? Foi até o quarto delas na ponta dos pés e viu que dormiam tranquilamente. Sentiu uma pontada leve no peito. Jamais pensaria que gostaria tanto de cuidar delas. Elas eram doces, engraçadas e, obviamente, adoravam o tio. Infelizmente, Juliana também estava começando a gostar demais dele. A ideia de um mês de emoções arriscadas e um rápido adeus não parecia nem um pouco atraente como já fora. Na verdade, perguntava-se se um mês seria o bastante. Queria saber mais sobre Rex Tanner do que suas pesquisas on-line revelaram. Como ele fez aqueles olhos serem tão sombrios. E o que levara um homem no auge da carreira a se autodestruir. Infelizmente, as meninas não saberiam dizer e ele não diria. Juliana saiu pela porta que levava às escadas externas em vez de ir pelo bar, em direção à cafeteria que vira no fim da rua no dia anterior. Comprou seu café e um jornal, e voltou para o apartamento. Pulou direto para a seção “Estilos de vida”, encontrou a matéria de Octavia e irritou-se com o título da reportagem: Amor a qualquer preço? Passou os olhos rapidamente pelas informações introdutórias. Parou quando encontrou seu nome, e então voltou e recomeçou o parágrafo. Solteiro nove. Rex Tanner e Juliana Alden alegam ter motivos puros para participar do leilão. O antigo cantor de Nashville diz que apenas quer publicidade para o Renegado, seu bar e restaurante às margens do rio. A srta. Alden declara seu interesse nas aulas de moto. Mas a repórter aqui acredita que a relação renderá mais do que receita maior e habilidades de pilotagem. As faíscas entre o motoqueiro e a banqueira quase botaram fogo no lugar.


Chocada, Juliana deixou o jornal sobre a mesa e pressionou as mãos frias contra seu rosto quente. Será que era tão óbvia? Todos em Wilmington saberiam que estava atrás de Rex. Inclusive sua mãe e Wally. As consequências disso não seriam agradáveis. Sua boca secou e o pânico fez seu coração bater erraticamente. Queria um mês quebrando regras, não um mês de constrangimento público. Tirou o celular do bolso e apertou para discagem rápida. – Alô – respondeu Andrea com a voz sonolenta. – Andrea, desculpe se te acordei, mas acabei de ler a matéria de Octavia Jenkins. É horrível. – Não me acordou. Eu vi. Ah, meu Deus. “Esse romance está pronto para ser aceso novamente. A srta. Montgomery está com os fósforos?” Eu não estou tentando mesmo voltar com Clay. Vou pedir que Octavia faça uma retratação. Juliana fez uma careta. Estava tão preocupada consigo mesma que nem lera sobre Andrea ou Holly. Olhou o final da página e leu a parte que Andrea citara. – Acho que não vai conseguir uma retratação. Ela não passou dos limites exatamente. – É o que você diz. – Já viu o que ela escreveu sobre Rex e eu? Agora todos sabem o que estou fazendo. E se isso não for humilhante o bastante, adivinha só? Não está adiantando. Você disse que ele era tão mulherengo que bastaria eu aparecer e continuar respirando que ele faria o resto. Bem, ele não está fazendo. – Do que está falando? Juliana olhou rapidamente sobre o ombro e sussurrou: – Fazer Rex me seduzir. – Ele não está interessado? – Está, pelo menos eu acho, mas eu... Queria alguém que me tirasse o chão e acabasse minhas dúvidas sobre essa loucura toda. Ele não está fazendo isso. – Homens são tão lentos. Você vai ter de dar um empurrãozinho nele. Vamos nos encontrar para tomar café e resolver essa bagunça. Vou ligar para Holly e dizer para nos encontrar no Magnolia’s Diner. – Não posso. – Por quê? – Porque estou de babá das sobrinhas de Rex hoje. – Babá? Não, não, Juliana, crianças e sexo não se misturam. Vou até aí. Precisamos conversar. – Não pode vir porque não estou em casa. – Onde você está? – Estou ficando no apartamento de Rex, em cima do Renegado. Alguns segundos silenciosos se passaram. – Tenho certeza de que há uma boa explicação para estar morando com ele e não conseguir nada. Além das crianças. Um barulho atraiu o olhar de Juliana para a janela do quarto das meninas. Dois rostos angelicais sorriam para ela. Retribuiu o sorriso e acenou, depois pressionou o dedo sobre os lábios no sinal universal de “fiquem quietas”. – É complicado, mas não posso explicar agora. Preciso ir. – Você não pode me deixar nesse suspense. – Desculpe. Preciso. Tchau. – Desligou apesar dos protestos de Andrea.


– CARA, VOCÊ está me enlouquecendo, e sua ronda está assustando os clientes. Vá embora. – Achei que eu era o chefe. – Rex, posso lidar com essa multidão. Vá ver as meninas ou a garota ou sei lá quem que te amarrou. Rex nunca esteve tão consciente do apartamento vazio no andar de cima. Droga, deveria estar vazio. Gostava de morar sozinho. Mas sentia-se irritado desde a manhã anterior quando acordara no silêncio. Como Juliana saíra com as meninas sem acordá-lo? Provavelmente porque dormir era quase impossível, sabendo que tinha uma mulher sexy e disposta em sua cama, e quando finalmente apagara, sonhara com a porta do quarto se abrindo e Juliana convidando-o para juntar-se a ela. Em seus sonhos, não recusara o convite. Sentiu o corpo se aquecer. Encontrara um bilhete de Juliana na cozinha dizendo que levara as meninas para sua casa, e que gostaria de passar o sábado à noite com elas para não incomodá-lo. Ele deveria ligar para seu celular se não gostasse da ideia. Não gostara, mas não sabia explicar por que, então não ligou. Um dia a menos com Juliana era um dia que não teria de lutar contra a tensão entre eles. Sem dúvidas as meninas adorariam dormir fora. Deveria estar agradecido, mas não estava. O jornal que Juliana deixara na mesa não melhorou seu humor. Claro, o artigo sobre o leilão gerara o movimento como ele esperava. Tiveram o maior público até então, mas muitos clientes perguntaram sobre o romance com Juliana. Queriam um final de conto de fadas e aquilo não iria acontecer. Terminou de limpar o bar e jogou a flanela no balde de desinfetante. – Não esperava que ela fosse ficar com Becky e Liza na casa dela o fim de semana todo. – Está reclamando do quê? Tem sua cama de volta, e elas não estão no caminho. Vá. Rex olhou o relógio. Cinco horas da tarde. Se saísse agora, teria tempo para um banho rápido e para brincar com as meninas antes do jantar. – Tudo bem. Eu vou. Ligue para Juliana se precisar de mim. O número está ao lado do telefone. Quarenta minutos depois, estacionou seu caminhão na garagem ao lado do sedã de Juliana, subiu as escadas e tocou a campainha. Ninguém atendeu, mas usar sua chave era domesticado demais para o gosto dele. Andou até os fundos da casa, mas as meninas não estavam no pátio, e não conseguia vê-las pelas portas francesas. Droga. Tirou a chave do bolso e entrou. Usar a chave não significava que Juliana e ele tinham um relacionamento além das meninas e das aulas. – Juliana? Becky? Liza? – Apenas silêncio como resposta. A bolsa de Juliana estava ao lado de livros sobre cuidado infantil, na mesa do corredor. O fato de ela se importar em aprender mais sobre suas sobrinhas não devia afetá-lo, mas afetou. Como poderia estar tão errado em sua primeira impressão de que ela tinha mais dinheiro que inteligência? Ignorou sua crescente admiração. A última coisa de que precisara era ser menos duro com ela. Gostar dela e apreciar sua generosidade não mudavam o fato de que ele estava coberto de dívidas com sua família, ou que ela queria ir para o lado selvagem e ele não. Ela queria aventura e ele queria... O quê? Raízes? Talvez. Um dia, quando o bar estivesse mais estável, não se importaria de ter alguém para quem voltar em casa, mas cometera muitos erros e decepcionara muita gente. Mesmo se decidisse se dar uma chance – uma que arruinaria – com algo a longo prazo, uma herdeira de banqueiros não se interessaria em nada permanente com um motoqueiro cabeludo cujo armário era basicamente jeans e camisetas com o logo do Renegado nas costas. Ela acabaria com algum cara estudado em um terno. Um homem como os outros solteiros no leilão. Juliana e as meninas não deviam estar longe se a bolsa e o carro dela estavam ali. Trancou a porta e foi para o play. Gritos felizes e animados o fizeram desviar para a piscina. Havia algumas pessoas na área


cercada. O grito de Becky chamou-lhe a atenção para a parte rasa. Ela pulou da lateral da piscina e caiu na água, mas logo voltou à tona graças ao novo colete salva-vidas rosa. Em seguida, ele viu Liza também com um colete amarelo, a cor favorita dela. Ela nadou cachorrinho até uma mulher esguia de cabelos escuros, cujas costas quase nuas estavam voltadas na direção dele. Juliana. Não precisava ver seu rosto para reconhecê-la. O biquíni dela não era tão pequeno para os padrões atuais, mas saber que apenas alguns pedaços de tecido o separavam de sua pele nua era demais para ele. Suor esvaía-se de seus poros. Sua camiseta e jeans pretos ampliavam sua reação absorvendo cada raio de sol da tarde. A risada baixa e rouca dela com as palhaçadas de Becky apenas aumentou seu desconforto. Aparentemente, a banqueira tinha um lado brincalhão e a vontade de brincar com ela estava ficando forte demais para ignorar. Segurou a cerca branca e lutou para conter seus hormônios enlouquecidos. – Tio Rex! – gritou Becky. Fora descoberto. Sorriu, ordenou que seu corpo se comportasse e abriu o portão. Juliana virou-se para olhá-lo e ele quase tropeçou. Os seios dela eram redondos, brancos, perfeitos e expostos demais em um top azul no mesmo tom de seus olhos. – Olha, tio ‘Lex’. – A voz de Liza desviou-lhe a atenção do território proibido. – Tô nadando. – E se saindo muito bem, florzinha. Ei, Beck, belo salto. – Becky respondeu saindo da piscina e saltando de novo, dessa vez molhando-o todo. A água fria foi muito bem-vinda em sua pele superaquecida. – Tivemos um dia agitado. – A voz de Juliana forçou-o a olhá-la novamente, algo que preferia não fazer até que ela estivesse vestida dos pés à cabeça. – Elas devem dormir bem hoje. – Ele assentiu. – Tem algo de errado? Você deveria estar trabalhando. – Danny vai fechar. Pensei em levar as meninas para jantar e depois voltar para casa. Amanhã é meu dia de folga, então posso ficar com elas e você pode dormir na sua própria cama. – Tínhamos planejado assar espetinhos hoje, e fizemos sorvete caseiro. Por que não janta conosco? Má ideia. Como sairia dessa? – Espetinhos? – Nós que fizemos – disse Liza. Ele pegou as mãos erguidas dela, tirou-a da piscina e a pôs no chão. Juliana mordeu o lábio, mas não pôde esconder o sorriso formando-se em seus lábios. – As meninas me ajudaram a montar os espetinhos. Compramos a sorveteira quando compramos os coletes. Cozinhar juntas pareceu uma boa atividade. – Certo. Jantar me parece bom. Mentiroso, mentiroso. Becky saiu e deu um abraço molhado nele. Ele bagunçou-lhe o cabelo com a mão surpreendentemente trêmula. Juliana saiu da piscina como uma ninfa em um sonho. Gotas de água percorriam as curvas de um corpo realmente digno de luxúria. Sentiu a garganta fechar e a pele queimar. A pequena saia de sua roupa de banho ficava a um centímetro de seu umbigo, e o tecido molhado agarrava-se a seu corpo como uma segunda pele. – Olha. – Liza ergueu as mãos. Ele piscou para desfazer a névoa sensual que lhe encobria a visão, ajoelhou-se ao lado de Liza e concentrou-se nas suas pequenas unhas pintadas de rosa-claro. – Juliana pintou. – Lindas.


Juliana parou ao lado deles. Suas unhas dos pés tinham o mesmo esmalte. Rex tentou lutar contra a vontade de percorrer aquelas pernas com o olhar, mas perdeu. Da posição em que estava, a visão daqueles seios perfeitos causou estragos enormes abaixo de seu cinto. Sentiu-se frustrado e fútil. Renda-se, homem, e acabe com isso. Nem pensar. Muito a perder. Ele se levantou e fitou a mulher determinada a deixá-lo caidinho. A não ser que quisesse se deixar fisgar, tinha de fazer algo rápido. Mas sentia que era tarde demais.


CAPÍTULO 6

REX VAGAVA pelo recanto de Juliana como um animal enjaulado. Examinando um item ali, olhando por uma janela acolá, mas nunca parado por mais que alguns segundos. Com seus sentidos hiperconscientes de cada mudança na estrutura muscular dele, Juliana bebeu um pouco de seu vinho favorito e puxou a barra do vestido que colocara após sair da piscina. – Pagarei por tudo que gastou com Irma, os coletes, as bonecas, tudo. Quanto te devo? Ela cruzou as pernas e ajeitou a barra do vestido, com Rex acompanhando cada movimento. Huum. Interessante. Uma sensação de poder feminino cresceu dentro de si. Ele estava atraído por ela. O que precisava para acabar com as reservas dele? Vamos, garoto, me corrompa. O que ele tinha dito mesmo? Ah, sim. – Sua irmã está pagando o salário de Irma. O resto... – Deu de ombros e apontou para onde as meninas brincavam de boneca no canto. – É um prazer. Estamos nos divertindo. – Eu insisto. – Sua irmã disse que o faria. A resposta ainda é não, Rex. – Kelly ligou hoje de manhã. Mike passou por uma cirurgia e está estável. Agora é só esperar, mas os médicos estão otimistas. Ela descruzou as pernas e ajeitou-se no sofá. O movimento fez seu vestido subir um pouco mais – um bônus que não previra. – Espero que ele melhore. Para o bem de Kelly e das meninas. – Sim. – Sua resposta foi mais um grunhido. Seu olhar jamais desviara das pernas dela. – Tem certeza de que não quer um pouco de vinho? Sinto muito por não ter cerveja. – Inclinou-se para pegar sua taça e apreciou o olhar dele para seu decote. Sentiu os mamilos enrijecerem. Nasce uma mulher fatal. A incongruência da frase quase a fez rir alto. Amava como os olhares de Rex a faziam se sentir inquieta e quente. – Não, obrigado. – Então poderia parar de andar e sentar? – Bateu na almofada ao lado dela.– Está deixando as meninas nervosas.


Mentira. As meninas já tinham parado de olhá-lo há uns dez minutos, mas, cada vez que aqueles quadris passavam em seu campo de visão, sentia-se mais perto de uma sobrecarga de sensações. Nossa, estava devorando com os olhos ele e suas... Partes, e realmente queria saber se ele atendia às expectativas sob aqueles jeans. Seus pensamentos ousados a fizeram corar. Ele sentou-se em uma cadeira do outro lado da mesa, apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Juliana examinou-lhe o cabelo espesso, a linha tensa de seus ombros e apertou os dedos contra a taça em vez de tocá-lo como queria. Nunca se considerara uma pessoa sensual ou tátil, mas, quanto mais conhecia Rex, mais difícil ficava resistir à vontade de tocá-lo. Seu cabelo, seu rosto, seus músculos. Não lhe faltava iniciativa na vida profissional, mas, na vida pessoal, definitivamente seria classificada como lenta. Em vista da reação de Rex hoje, quase quis dar o primeiro passo. Quase. Ele ergueu a cabeça repentinamente e seus olhos castanhos a imobilizaram. – Por que eu? A verdade dessa vez. Ele não aceitaria uma evasiva dessa vez, tinha certeza. Como ousaria explicar? – Porque tenho uma vida legal. – O quê? – Ele parecia achar que ela tinha enlouquecido. – Tenho 30 anos. Tenho um carro legal, uma casa legal e um emprego legal. Legal é chato e sem graça. Como eu. Esperava que seu pacote do leilão me tirasse dessa rota “legal”. Tem de haver mais na vida do que só legal, e se existe, eu não quero perder. Uma compreensão cautelosa fez a expressão dele suavizar, e então ele recostou na cadeira e entrelaçou as mãos sobre a barriga reta – uma pose relaxada, mas seu olhar intenso era qualquer coisa, menos relaxado. – Costumava querer mais também. Mas percebi que mais não era tão bom como parecia. – Sua carreira musical? – Sim. Mal podia esperar para sair do rancho e ser alguém além do filho de Reed Tanner. E fui. E todos queriam que eu fosse outra pessoa. – Não entendo. – Os executivos da gravadora, meu empresário e meu publicitário assinaram comigo porque eu era diferente. E então tentaram me transformar em uma cópia de todos os outros caras das paradas. – Mas você chegou ao topo sendo diferente de todos. – Não era fã de música country, então sua comparação não era originalmente sua, mas ela lera as reportagens on-line sobre o som único de Rex e gostou da música dele. – Consegui porque lutei contra eles o tempo todo. A questão é: você não tem de tentar ser quem não é. Mas quem era ela exatamente? Até que a pressão pelo casamento com Wally surgisse, Juliana tinha certeza de quem era. Pelo que se lembrava, sempre se preparara para assumir seu posto no Alden Bank. Aquele objetivo sempre viera antes de tudo e todos. E fora feliz com aquela decisão. Uma vida sem altos e baixos emocionais servia para ela. Assistira de camarote quando Andrea se apaixonou perdidamente e quando a amiga ficou com o coração partido. Depois disso, Juliana achou que seria boa ideia preservar seu coração e evitar o mesmo tipo de sofrimento. Mas agora tinha suas dúvidas. Pensava em Irma. Sua antiga babá dedicara-se a uma carreira de cuidar dos filhos de outras mulheres. Agora que a idade a forçara a se aposentar, o que lhe restava? Nada. Sem família. Sem hobbies. Juliana não queria ficar sem nada, mas não tinha certeza de que concordar com os planos de sua mãe era a resposta.


– Valeu a pena lutar pelo o que queria? Se sim, por que deixara os sonhos para trás? – Estar no controle da minha vida foi algo que tive de fazer, mas fui egoísta. Machuquei pessoas no caminho. E as decepcionei. Não deveria ter feito isso. Por que ele as decepcionara? E como? Antes que pudesse perguntar, ele voltou-se para Becky e Liza. – Meninas, precisamos ir. Peguem suas coisas e deem boa noite. Juliana queria investigar mais, mas, na pressa de pegar as coisas das meninas, não houve tempo ou oportunidade para perguntas. Acompanhou os três até o caminhão de Rex e ajudou-as a sentarem e colocarem o cinto. Primeiro Liza, depois Becky insistiu em abraçá-la e dar um beijo de boa noite, e o gesto tocou seu coração. – Obrigado pelo jantar – disse ele ao ligar o caminhão. Juliana recuou, cruzou os braços e os observou até sumirem de vista. Será que teria filhos algum dia? As chances não estavam a seu favor. Com 30 anos, nunca chegara perto de encontrar um homem com quem quisesse passar o resto da vida. Claro, tivera relacionamentos, mas sua dedicação ao trabalho sempre prevalecia sobre seu compromisso com o homem em questão, e nenhum de seus encontros a interessava o suficiente para fazê-la querer sair mais cedo do trabalho ou tirar o dia de folga. Se não fosse por Andrea e Holly, provavelmente nunca tiraria férias. Se casar com Wally, pode tirar férias. Mais um ponto para ele. Então por que não concordava de uma vez com o noivado e acabava com isso? Por que hesitar? Estava sendo irrealista ao querer mais do que uma relação harmoniosa com seu esposo? Intimidade verdadeira era uma ilusão perpetuada por livros e filmes românticos? E será que ela era capaz de deixar alguém chegar tão perto? A PORTA do escritório de Juliana abriu-se na segunda antes do almoço. Marcara o local onde parara no livro-razão com um dedo e olhou para cima. A carranca de sua mãe deixou Juliana nervosa. Era evidente que a punição com silêncio acabara. – Olá, mãe. Margaret Alden jogou um jornal na mesa de Juliana. – Isto é uma afronta! A edição de sábado abriu-se bem na coluna de Octavia Jenkins, “Amor a qualquer preço?”. Juliana disfarçou uma careta. Bobagem esperar que sua mãe não visse o artigo. – Octavia está tentando vender o jornal, e está apoiando sua caridade. Reparou que ela deu o endereço para envio de doações? – Você leu isso? Percebe o dano que ela causou ao seu noivado? Juliana deveria saber que sua mãe não perguntaria se ela tinha sentimentos por Rex ou se a coluna estava inventando. Nunca tiveram esse tipo de relacionamento. Não, Juliana compartilhava suas confidências com Irma, Andrea e Holly. – Não estou noiva ainda, e se você leu a reportagem toda, verá que Octavia também insinuou um envolvimento romântico entre Wally e Donna, e Eric e Holly. Juliana odiara ler sobre seu irmão e sua melhor amiga, e esperava que Octavia tivesse as informações erradas, mas, mesmo assim, tinha medo de ligar para Holly e descobrir. – Você sabe que não é verdade.


– De fato, espero que Eric não esteja envolvido com Holly. Ela desapontou terrivelmente os pais indo morar naquela cabana como uma boêmia. – Não é uma cabana. É uma fazenda restaurada e o ateliê dela. – E Wallace sabe bem. Aquela mulher não é uma de nós. – Quer dizer que ela não nasceu rica e não teve tudo de mão beijada? – Você e Eric não tiveram tudo de mão beijada. – Tivemos sim, mãe. Tudo menos respeito, que tivemos de lutar muito para conseguir. – E a atenção dos nossos pais, que parecia ligada a um comportamento perfeito, acrescentou silenciosamente. Os amigos que tinha na escola que ousavam desobedecer eram mandados para o colégio interno. Juliana sempre seguira as regras por medo de ficar longe de Irma, Andrea, Holly e sua casa. – Ligarei para o jornal para que tirem a srta. Jenkins dessa série. – Sexo vende, mãe. Octavia está fazendo o trabalho dela. – Está dizendo que está fazendo sexo com... Aquele homem? – Não, mas, se estivesse, não seria da sua conta. – Não torne da minha conta arruinando nossa fusão. A essa altura, no ano que vem, Alden-Wilson será o maior banco privado do sudeste, e eu serei a diretora executiva. – Só se o sr. Wilson deixar, e pelo que Wally disse, o pai dele não está nem um pouco interessado em ser o segundo no comando. Mãe, talvez você não vença essa. Juliana admirava a ambição da mãe. A vida inteira ouvira histórias de como Margaret Alden tivera tudo – marido, família e carreira. Juliana queria tudo também. – Deixe que eu me preocupe com isso. Você se preocupa em fazer as pazes com Wallace. E certificarse de que essa confusão não prejudicará você. Não me decepcione, Juliana. Essa fusão é importante demais para que você arruíne tudo por um flerte inadequado. Estamos entendidas? Ela saiu do escritório tão abruptamente quanto entrara. Juliana sentou-se novamente. Não me decepcione. O lema de sua vida. Mas, dessa vez, sentir que a fusão poderia ser mais importante para sua mãe do que sua felicidade a abalou. Foi tomada pela sensação sufocante que a levara a comprar o solteiro mais malvado. Última chance. Última chance. Tinha de sair dali. Fechou o livro-razão, pegou sua bolsa na gaveta e saiu, trancando a sala. No caminho, parou na mesa de sua assistente. – Estou saindo mais cedo hoje. E então deu as costas para a mulher boquiaberta, saiu na tarde ensolarada, respirou fundo o ar úmido e quente, sentindo a liberdade. PRESO EM seu próprio apartamento. Rex sabia que podia mentir, dizer que tinha trabalho a fazer e fugir, deixando que Juliana tomasse conta das meninas. Mas não era um covarde. No passado, seu fracasso em enfrentar seus erros lhe custou. Não fugiria novamente. Concordara com o leilão, concordara em ficar com as meninas. Isso significava que qualquer consequência dessas escolhas era unicamente sua. Mas que diabos. Um homem não podia aguentar tanto, e sua resistência vinha diminuindo desde que Juliana surpreendera a ele e às meninas com um piquenique no celeiro. Passara as quatro horas


seguintes rindo e brincando com Liza e Becky, e ele descobrira uma outra faceta da antes séria auditora. Um lado que gostava demais. Inquieto, tenso e muito excitado, acalmou os ânimos. Uma mulher bonita o desejava. O sentimento era recíproco. Por que continuar lutando com o desejo que o consumia? Porque dormir com Juliana seria misturar negócios e prazer. Sempre uma má ideia. Só que o mais importante era que ceder ao desejo abriria a porta para sua maior fraqueza. Mas ele a queria. Seu cheiro. Seu gosto. Seu toque. Senti-la junto a ele. Só uma vez. Idiota. Transar com Juliana é tão seguro quanto um gole para um alcoólatra em recuperação. Você voltará para o mundo que quase o destruiu tão rápido que nunca irá se recuperar. Juliana saiu do quarto das meninas e fechou a porta. Rex sentiu uma pontada no estômago. Ela parecia uma combinação de anjo e sereia com seu cabelos negro solto. As madeixas tocavam-lhe os ombros nus e o decote revelado por um top azul claro que terminava alguns centímetros acima de seu jeans de cintura baixa. Ele olhou para o meio-sorriso no rosto dela. Problema. Puro problema. Ele suava, deixando o lábio superior, o peito e as costas úmidos. Seu coração batia mais rápido e forte. Sua respiração estava curta. – As meninas já dormiram. – Você devia ir deitar. Acorda cedo amanhã. – São 21h ainda. Por que não coloca uma música? – Sentou no sofá e cruzou as pernas. – Não tenho rádio. – Você não tem rádio? Não é estranho considerando sua antiga profissão? – Música não faz mais parte da minha vida. – Por quê? Por muitas razões, as quais ele não compartilharia. – Falta de tempo. – Foi difícil se afastar de algo que amava? Droga. Por que ela insistia em entrar em sua mente? Cada vez que se encontravam, ela o enchia de perguntas. – Não. Mentiroso. Havia momentos – como hoje, como agora – quando sentimentos se acumulavam dentro dele, seus dedos ansiavam por sua guitarra para poder liberar essas emoções. Quando adolescente, e depois quando adulto, lidara com seus pensamentos confusos com música, cantando, compondo ou apenas tocando melodias à noite. Às vezes, pensava que música era a única coisa que o mantinha são. Quanto mais tempo passava com Juliana, mais seus pensamentos iam para a velha Fender no fundo do armário. Mas não a tiraria de lá, não a deixaria levá-lo de volta para aquele mundo. Um mundo que lhe custara sua família, sua casa, seus amigos e seu respeito por si mesmo. – Como você conseguiu? Como encontrou coragem para controlar sua vida? A incerteza nos olhos dela o deixou sem sentido. Se ela tivesse sido ousada, sussurrasse segundas intenções em seu ouvido, ou simplesmente colasse os deliciosos lábios vermelhos nos seus, poderia ter resistido. Provavelmente. Mas a dúvida em seus olhos derrubava-lhe as defesas. – O que há de errado na sua vida? – De seu ponto de vista, a vida dela parecia ótima. – Expectativas. Deles. Minhas. Às vezes, sinto que não sou dona da minha vida e que o que eu quero não importa.


Ele sentiu compaixão. Isso ela não contara à repórter, nem na primeira noite nem hoje. E podia apostar que esses demônios é que a levaram a comprá-lo no leilão. Ele queria saber mais e, ao mesmo tempo, não queria. Saber significava entender. Entender significava enfraquecer. Enfraquecer significava falhar. Consigo mesmo. Com Kelly. Com as meninas. Com Juliana. Não queria gostar dela, nem respeitá-la, mas, se havia alguém que podia entender a pressão das expectativas de outros, era ele. – Sei o que quer dizer. Por muito tempo, minha vida foi traçada. Perguntam para a maioria das crianças o que elas querem ser quando crescerem. Ninguém nunca me perguntou. Nasci para assumir a fazenda da família como meu pai e meu avô. – Mas não era o que você queria? – Não queria passar ano após ano preocupado com a seca, doenças ou se haveria dinheiro suficiente para colocar comida na mesa depois de um inverno difícil. Não queria morrer cedo porque trabalhei até a morte como meu avô. Queria mais. E queria ir embora. Sair da cidade pequena. Das rédeas do meu pai. – Por que nunca tentara explicar seus medos aos pais em vez de tratá-los mal? – Eu fugi. Mas não sem antes cortar meus laços. Segui meu coração. O que não quer dizer que não arrumei problemas. – Então você entende. E tudo que eu preciso é coragem para seguir meu coração? – Mais ou menos isso, mas sempre há consequências nas escolhas que faz, Juliana. E, às vezes, quando você percebe que pagou um preço alto demais, é tarde para voltar atrás. SÓ PRECISAVA de coragem, mas era o que mais lhe faltava no momento. Se fosse um embate com o chefão dos Fundos de Direitos Creditórios, estaria firme, mas tudo o que queria era sentir-se uma mulher, em vez de uma peça em uma negociação. A paixão do beijo de Rex poderia lhe dar isso. Inebriou-se com o calor e o cheiro masculino dele. Suas pernas tremiam e sentia-se um pouco tonta com a onda de adrenalina. Será que ele não via o quanto ela o desejava? Por que ele não a beijava? Por que você não o beija? Uma ideia nova. E assustadora. Mas tomar a iniciativa não era mais tão assustador quanto antes, porque gostava de Rex e confiava nele. E se ele a rejeitasse de novo? Teria de desistir e admitir que merecia seu romance frio com Wally? O pânico fez sua pulsação acelerar. – O que é que você tanto quer? – perguntou ele. – Quero mandar na minha vida, fazer algo porque quero, não porque esperam isso de mim ou porque é o mais inteligente a se fazer. – Umedeceu os lábios. – Quero você, Rex Tanner. Ele fechou os olhos e retesou a mandíbula. – Má ideia. – Acho que é uma ótima ideia. Fingindo a determinação que não tinha, ficou na ponta dos pés e pressionou seus lábios contra os dele. Ele ficou imóvel como uma parede enquanto ela roçava seus lábios nos dele uma, duas, três vezes. Se não fossem as batidas aceleradas do coração que sentia sob suas mãos, acharia que ele não estava sentindo nada. Encorajada por aquele sinal, lambeu-lhe o lábio inferior. Um gemido retumbou profundamente em sua garganta. – Mostre-me como assumir o controle, Rex.


Os olhos dele demonstravam o conflito interno. Bem quando ela se convencera de que usara suas armas e perdera, e suas esperanças se esvaíam, ele agarrou-a pelos braços, puxou-a para perto e tomoulhe a boca em um beijo descontrolado. O choque durou poucos segundos até que fosse engolida por várias sensações. O fogo da língua dele abrindo seus lábios para unir-se à sua, o calor das mãos dele espalmadas em seus quadris, pressionando-a contra sua ereção, combinado com o gosto e o cheiro dele dominando e excitando-a muito além do que podia imaginar. A infusão de pura paixão deixou Juliana embriagada de desejo e duplamente feliz por nunca ter sido exposta a tal nível de excitação, porque, sem dúvidas, a sensação era viciante. As mãos dele subiram até os polegares chegarem à pele descoberta acima de seu jeans. Os dedos dele traçavam círculos de cada lado de seu umbigo. Ela interrompeu o beijo para buscar ar. A simples carícia a fez amar jeans baixos para sempre. O olhar dela desviou de sua barba para seus lábios úmidos pelo beijo, e depois para seus olhos escuros e ávidos. Aquele olhar fixo a mantinha presa, enquanto ele a segurava pela ponta solta do cinto. A outra mão livre subia sob sua camiseta, passando por sua cintura até envolver-lhe o seio. Seu sutiã delicado não era barreira para o movimento do polegar dele sobre o mamilo sensível. Seu ventre pulsava de vontade, ficando cada vez mais tenso com cada carícia, até que cada pensamento era apenas em apagar o fogo que ele provocara. Suas pálpebras pesavam. Lutava para continuar focada no rosto de Rex. Nenhum homem a olhara daquele jeito antes, como se fosse arrancar suas roupas e possuí-la ali mesmo ou morrer tentando. Ela gostava daquilo. Gostava de saber que chegara ao limite do controle dele. E do seu. Sempre sonhara com um homem que a quisesse – ela –, não a herdeira Alden. E o encontrara. Pena que o para sempre não estava em questão. Mesmo que não fosse uma auditora chata que calculava as chances de cada tentativa, jamais conseguiria manter a atenção de um homem que crescera arriscandose, um homem que tinha a coragem de confrontar seus medos. Mas não pensaria nisso. Não agora. Ele fazia mágica com os dedos, provocando-a, atormentando-a. Suas unhas percorriam-lhe o peito, mas sua camiseta estava no caminho. Queria tocar-lhe a pele. Antes que ela pudesse puxar a barra da camiseta dele para fora da calça, ele abrira o fecho frontal de seu sutiã e tocou-a. Seu pensamento racional evaporou assim que aqueles dedos quentes a envolveram. Enterrou as unhas na cintura dele, agarrando-lhe a camisa e puxando-o para perto. A boca dele deslizou sobre a sua, mais suave desta vez, mas ainda voraz. Ele sugou-lhe o lábio inferior, mordeu-o delicadamente e depois acalmou-a com a língua. Um dos dois tremia. Ela? Ele? Quem se importava? Ele retirou a mão, e ela gemeu em protesto, mas então ele subiu-lhe a camiseta, tirando-a, e amassou o frágil tecido nas mãos. Levou-o ao rosto e respirou fundo, sentindo seu cheiro. Uau. Tão sexy. E então Rex foi em direção ao quarto, guiando-a pela ponta solta do cinto. O coração dela acelerou, mas seus pés pareciam mover-se em câmera lenta. Dentro do quarto, ele parou. – Você é uma mulher esperta. Peça-me para sair. Ela inspirou e respondeu trancando a porta. Ele soltou a blusa e deslizou as alças do sutiã pelos ombros dela. Juliana encolheu-se e deixou a peça de renda cair no chão. Rex percorreu as curvas dos seios dela com os olhos e depois com os dedos. Passou as unhas curtas pelos mamilos rijos, fazendo-a


ofegar. Puxando Juliana pelo cinto, sentou-se na cama, deixando-a entre suas pernas abertas para envolver-lhe o seio com sua boca quente. A cabeça dela tombou para trás com um gemido. Tampou a boca com a mão. Com as meninas no quarto ao lado, tinha de ficar quieta. E pela primeira vez na vida, ficar quieta durante o sexo podia ser um desafio. Rex desafivelou seu cinto, mas segurou as duas extremidades, mantendo-a refém – não que ela tivesse a intenção de ir a algum lugar agora que ele finalmente fazia o que ela sempre esperara. Ele explorava-lhe os seios com o roçar suave de sua barba áspera, leves puxões com seus lábios sedutores e toques sedosos de sua língua quente e úmida, até tê-los por completo em sua boca. Os joelhos dela fraquejaram. Ela agarrou-lhe os ombros e depois mergulhou os dedos em seu cabelo. A tira de couro estava atrapalhando. Ela desamarrou-a e deixou os dedos adentrarem nas madeixas longas e macias. Rex abriu o botão e o zíper do jeans dela. Quando os dedos dele roçaram em seu umbigo, os músculos de sua barriga contraíram-se involuntariamente. Lentamente, ele desceu-lhe a calça. Quando o tecido chegou aos joelhos, ela estava pronta para arrancar a calça, jogá-la longe e implorar que ele preenchesse o vazio que pulsava dolorosamente dentro dela. Apoiou-se nos ombros dele e livrou-se do jeans. Ansiosa, impaciente, ela ardia com uma urgência estranha. Rex afastou-se para examinar a minúscula calcinha com um olhar apreciativo. Alguma vez já se sentira tão desejável antes? Não. Bendita fosse aquela loja de lingerie. Os dedos dele envolveram a renda, descendo a peça por suas pernas e colocando-a de lado, e depois ele pegou o jeans no chão, tirou o cinto das traquetas e esticou-o entre suas mãos. Com movimentos lentos e deliberados, ele enrolou as pontas em volta de cada punho. O coração dela batia irregularmente. – Feche os olhos e vire-se, Juliana. A hora de ser selvagem chegara. A questão era: será que tinha coragem para seguir em frente?


CAPÍTULO 7

ÚLTIMA CHANCE. Última chance. Com o coração pulsando ensurdecedoramente, Juliana baixou as pálpebras e virou de costas para Rex. Um segundo depois, algo frio e duro envolveu-lhe os seios. Alarmada, ela deu uma olhada. Seu cinto. Ele arrastava os fios trançados de um lado para o outro, sem parar. As contas de vidro bordadas no cinto a provocavam como um dedo frio, enquanto os cordões similares aos leves calos das mãos de Rex arranhavam suavemente sua pele. O calor da respiração dele em seus ombros foi o único aviso antes que ele afastasse-lhe o cabelo e beijasse sua nuca, seu pescoço, seu ombro, suas costas... Mordendo. Beijando. Arranhando. Com os dentes. Os lábios. O cinto. Ela achava que implodiria com cada nova sensação. O cinto desceu, deslizando por sua cintura, quadris e pelos. Ofegou conforme as contas roçaram em seu ponto altamente sensível. E então ele fez o caminho de volta, estimulando suas terminações nervosas e amolecendo-lhe as pernas. – Vire-se. Ela forçou seus músculos teimosos a cooperarem. O cinto apertou-a abaixo da curva de suas nádegas. Ela cerrou os punhos com força e apertou os dentes em um gemido conforme os fios deslizavam por suas panturrilhas, tornozelos e subiam de volta. Rex a puxou mais para perto. Apoiou as mãos no peito dele e baixou-as para levantar-lhe a camisa. Tinha de sentir a pele dele na sua. Aquilo não poderia ficar melhor. Poderia? Tinha de descobrir. Subiu-lhe a camisa e abriu os olhos, deleitando-se com o desejo que vira nos olhos dele. – Rex, por favor, preciso sentir você. Ele jogou o cinto na cama e ajudou-a a tirar sua camisa. Ela dobrou os dedos, antecipando como seria tocá-lo. E então o fez, enterrando os dedos nos pelos escuros em seu peito, mas a realidade era muito melhor que a fantasia. Os pelos dele faziam cócegas em suas mãos. E então ela segurou-lhe o rosto e o beijou. Não conseguia encontrar as palavras para expressar como ele a fazia se sentir bem, mas podia mostrar em seu beijo. Rex envolveu-a com os braços, fundindo-a ao seu corpo enquanto devorava-lhe a boca avidamente. Não era o suficiente. Juliana queria mais, precisava de mais, ansiava


por mais. Como se ele lesse seus pensamentos, colocou-a sobre sua coxa musculosa. A posição deixou-a aberta e vulnerável, uma situação da qual se aproveitou colocando seus dedos entre as pernas dela para tocá-la, encontrar seu ponto úmido e acariciá-la com toques hábeis até ela começar a tremer. Ele pressionava mais fundo, tocava-a mais rápido e a tensão dentro dela era quase insuportável. Ela interrompeu o beijo buscando ar, e segurava-o ora pelo cabelo, ora pelos ombros. A barba dele arranhava a lateral sensível de seu seio, e então ele envolveu seu mamilo com os lábios, depois com os dentes, gentilmente torturando-a até o limite da sanidade. Sentiu uma onda de alívio percorrer-lhe todo o corpo. Forçou as pálpebras pesadas a se abrirem e sorriu. – Uau. – Camisinhas. Pegue. Ela virou para atender ao pedido dele, abrindo sua bolsa e pegando a caixa com as mãos trêmulas. Quando virou-se novamente, ele já havia retirado as botas e as meias e estava de pé. O coração de Juliana batia ansiosamente enquanto ele tirava os jeans e a cueca de uma só vez. O cabelo dele estava bagunçado, e tinha todo o jeito de rebelde com aquela barba por fazer e o olhar selvagem. Juliana percorreu o tórax dele com os olhos até chegar à ereção que despontava dentre pelos espessos. Grossa. Dura. Sua. Pelo menos por ora. Sua boca secou e sua pulsação acelerou. Rex a queria. Ela. Estava ali, visível. Nenhum homem já estivera tão excitado apenas por dar-lhe prazer. Na verdade, poucos se deram ao trabalho de garantir que ela aproveitasse o encontro. Ele retirou a manta da cama e estendeu a mão. Ela segurou-a e ele a puxou para perto. O impacto da excitação dele contra seu ventre desestabilizou sua respiração, até que os lábios dele encontraram os dela em um beijo profundo, de tirar o fôlego. As camisinhas caíram de suas mãos quando cedeu à necessidade de acariciar-lhe a pele e envolver o traseiro, que devorara com os olhos quando ninguém estava vendo. Ele colocou-a sobre o colchão. O roçar do cabelo dele em seus ombros e seios devia ser a coisa mais sensual que Juliana já vivera. Era de se imaginar por que tantos homens gostavam de cabelo comprido. O de Rex arrastava-se como seda sobre sua pele quente enquanto ele se banqueteava em seus seios, sua barriga. A língua dele mergulhou em seu umbigo e traçou um caminho de um lado a outro de seu quadril. Era demais e, ao mesmo tempo, não era o bastante. Quando ele finalmente abriu suas pernas e usou sua boca para satisfazê-la, Juliana teve de tapar a boca para conter seus gemidos. Queria experimentar paixão, e nossa, conseguira. Rápido demais, sentiu o alívio do clímax chegar. Jamais sentira algo tão intenso e, ao mesmo tempo, tão assustador. Assustador porque estava fora de controle, escrava de seu desejo, e porque sentia que Rex era mais do que ela – ou qualquer mulher – podia aguentar. Ele seria uma passagem direta para a decepção para qualquer uma que fosse tola o suficiente para esperar mais que breves aventuras. Que bom que ela só queria algo temporário. Não? Dúvidas brotavam em sua mente. Será que se contentaria com legal depois disso? O MONSTRO autoindulgente possuiu Rex, ansiando por satisfação sexual como fazia após um show – só que pior. As garras do desejo se agarravam mais fortes do que nunca. Doe-se, seu FDP egoísta. Uma vez na vida. Não pense só em você. Ele lutou para conter sua vontade louca e deixou Juliana arrastá-lo, dolorosamente e aos poucos, por seu corpo, e então pegou a caixa de


camisinhas e entregou a ela. Seu corpo todo tremia com o esforço para evitar possuí-la – usá-la – para saciar sua vontade. – Quer controle? Tome. – Sua voz saiu rouca, como se tivesse feito muitos shows em bares enfumaçados. Os olhos de Juliana brilharam de surpresa. Seus seios balançavam com sua respiração trêmula, alimentando o desejo de Rex. Ele a abraçou, maravilhado com a maciez da pele dela enchendo suas mãos e com os sons sensuais que ela fez quando ele acariciou-lhe os mamilos com as pontas dos dedos. Aqueles gemidos quase o levaram ao limite. As mãos dela tremiam ao abrir a caixa e pegar uma camisinha. Ele lhe delegara a tarefa, porque a queria tanto que estava longe da sutileza. Ele rasgaria a maldita caixa como um adolescente superentusiasmado. Juliana rasgou gentilmente a embalagem plástica com os dedos. Ele teria destruídoa com os dentes. E então ela retirou lenta e cuidadosamente o preservativo. Apostava que ela era do tipo que nunca rasgava papéis de presente. Se não estivesse prestes a explodir, apreciaria o cuidado dela e saborearia a antecipação de sentir as mãos dela, mas, no momento, estava ocupado demais enlouquecendo para apreciar qualquer coisa. Cerrou os punhos para se conter, mas nada poderia prepará-lo para o toque suave e delicado conforme ela colocava a camisinha nele. Rangeu os dentes e concentrou-se em um acorde complicado. O roçar dos dedos dela quase fizeram seu coração parar, e então ela o envolveu por completo. Acariciou-lhe da base até a ponta uma, duas, três vezes. Bom demais. Intenso demais. Mas ele prometera controle e, diabos, deixaria tê-lo nem que isso o matasse. O que era bem possível. Sua respiração escapava por entre os dentes, e tremia com o esforço para se segurar, mas não conseguia conter o gemido que se formava em seu peito. O brilho de poder feminino irradiava de seus olhos azuis, fazia seu rosto corar e curvar seus lábios vermelhos e úmidos. Ela pôs-se sobre ele, com uma perna de cada lado de suas coxas, e ele rezou para que ela acabasse com seu sofrimento. Quanto antes melhor. Ela esticou-se para pegar seu cinto e a pulsação dele acelerou. Submissão? Ela não parecia desse tipo. Não que não pudesse aprender a gostar de joguinhos sexuais se esse caso continuasse. Mas não deveria. Não podia. Não iria. Não podia rebaixá-la ao seu nível. Mas, em vez de amarrar o cinto em seus punhos, ela o deslizou sobre seu peito e barriga. Apertou o cinto em volta de sua ereção e lentamente soltou-o. Minha nossa. Ela o mataria. Ele se curvou para a frente, fazendo os seios dela roçarem contra seu tórax. Agarrando-lhe o cabelo, beijou-lhe a boca até perder o ar. – Pare de me torturar – sussurrou contra os lábios dela. – Estou torturando você? – Sabe que sim. – Ele segurou-lhe os quadris e puxou-a para a frente até seu corpo suado cobrir o dele, estimulando-a a recebê-lo onde ele precisava estar: dentro dela. Mas ela não o fez. Balançava-se, deslizando quente e úmida ao longo de seu membro, arrancando-lhe um gemido gutural. Ele agarrou os lençóis. Selvagem e impaciente, o demônio egoísta dentro dele o possuiu. Poderia ceder ao desejo e ser o FDP egoísta que usava as mulheres ou lutar e deixar Juliana fazer do jeito dela. Lutaria. Mas Deus, como era difícil. Então decidiu que duas pessoas podiam jogar aquele jogo de sedução. Deslizou as mãos pelas coxas de Juliana, encontrou seu ponto úmido e acariciou-lhe a área sensível até ela se curvar, gemendo de


prazer. Seus olhares se conectaram e o coração dele pulsava forte no peito. Tome-a. Tome-a. Vá. Agora. Os músculos dele se retesaram. Estava a um segundo de deitá-la na cama e satisfazer-se egoisticamente, quando Juliana o recebeu em seu interior molhado. Ele soltou o ar de uma só vez. Forçou-se a abrir os olhos e o prazer só aumentou. Jamais vira algo tão sedutor quanto Juliana montada nele. Com a pele corada e os lábios inchados entreabertos, ela buscava ar, e então abriu os olhos e encontrou o olhar dele com uma chama de paixão. Não se importava se cada movimento dos quadris dela destruísse seus neurônios, ele gostava de vê-la assim, gostava de ver Juliana perdendo o controle. Ele a acariciava, levando-a para mais um orgasmo, e então a respiração dela parou por um momento enquanto ela se contraía em volta dele. Rex não conseguiu mais. Agarrou-lhe a cintura enquanto penetrava-a rápida e profundamente, com seu corpo sendo tomado por contínuas explosões, fazendo-o tremer com o prazer mais intenso que já sentira na vida. Juliana deixou-se cair sobre ele, que automaticamente a abraçou, como se já tivesse feito aquilo antes. Não tinha. Jamais abraçara uma mulher após usá-la. Mas queria abraçar Juliana, mantê-la por perto. Droga, estava com sérios problemas. Olhou para o teto em silêncio enquanto Juliana deslizava para o lado, deitando-se em seu ombro. Seu coração desacelerou, mas seus músculos continuavam tensos. Não conseguia dizer uma palavra com a raiva e o desgosto que sentia consigo mesmo quando Juliana abraçou-o. Momentos depois, o corpo dela relaxou ao adormecer. Ela não dormiria tão tranquila e certamente não teria aquele sorriso satisfeito se soubesse a que tipo de homem se entregara. Ele estava limpo, sem doenças. Certificava-se disso fazendo exames regularmente. Mas Juliana merecia algo melhor. Qualquer mulher merecia algo melhor que um cara que não se lembrava dos nomes ou rostos das várias antigas amantes. Fora tão fácil acreditar na mídia, fácil demais acreditar que o mundo lhe devia e não o contrário. Tomara como direito as fãs que queriam mostrar seu carinho de modo sexual. Escolhera o sexo como sua droga e, agora que tinha êxtase puro correndo em suas veias, não sabia se resistiria à tentação outra vez. Não sabia como ter um relacionamento saudável. Claro que tentara algumas vezes, mas a monogamia não funcionou. Nunca ficara com uma mulher por muito tempo, pois não conseguia. Faltava-lhe o gene ou a moral, ou seja lá o que fosse que fizesse um homem capaz de se comprometer. Ele era falho. Fazer amor – não, amor não – sexo com Juliana despertara o monstro que usava mulheres, o idiota que desgraçara sua família e a si mesmo. Seus pais nunca foram aos seus shows. As exigências da fazenda tornavam quase impossível sair por um fim de semana. Até que uma noite, sua família o surpreendera após um grande show. Rex não sabia que eles estavam lá até que o roadie abriu a porta do camarim para eles. Sua mãe, seu pai e sua irmã pararam calados no vão da porta, olhando para Rex e para a fã seminua sobre ele. Rex fechara o zíper rapidamente e ajeitara a camisa. Mas o estrago já fora feito. Droga, estivera dentro da mulher, mas não sabia o nome dela e não podia apresentá-la à família. Ele viu a percepção estampada no rosto da mãe, logo seguida por constrangimento e vergonha. Virou-se


para o pai, esperando que fosse entendê-lo por ser homem, mas só vira decepção e desgosto. E então olhou para o rosto ruborizado de Kelly. O orgulho que sempre vira nos olhos da irmã não estava lá. Rex não fora educado assim. Aprendera desde novo a respeitar os outros – especialmente as mulheres. E estava fazendo exatamente o contrário. Usando. Descartando. Jamais esquecera da estranha tensão na sala quando a fã ajeitou as roupas, pegou um autógrafo – pois elas nunca saíam sem um – e saíra pela porta. Sua família saíra logo atrás dela sem dizer nada. O olhar reprovador e triste de sua mãe dissera tudo. Rex se tornara um homem que nem mesmo a mãe poderia amar. Estava envergonhado de seu comportamento. Mas aprendera a lição? Não, continuara na farra até o dia em que seus pais morreram. Sentiu repulsa por si mesmo. Hoje reiniciara o ciclo de autodestruição. Sem dúvida cometera um erro ao se envolver com Juliana Alden. A questão era: poderia desfazer o dano? Ou era tarde demais? JULIANA ACORDOU com o corpo pesado de satisfação, um sorriso que não saía do rosto e uma cama vazia. O último a incomodava, mas afastou suas inquietações. A noite passada fora incrível. Rex era o amante mais generoso que já tivera, e despertara um lado sensual seu que ela nem sabia que existia. Como chegara aos 30 sem viver uma paixão tão maravilhosa e deliciosa? Tinha de ser ele. Os orgasmos que se autoproporcionara e os amantes anteriores não chegavam aos pés de Rex Tanner. Mas ele tinha bastante experiência em agradar mulheres. Ela afugentou o pensamento estranhamente perturbador e olhou para o relógio na mesa de cabeceira. Estava cedo demais para que Rex ou as meninas estivessem acordados, mas tarde o suficiente para que Juliana considerasse se arrumar para o trabalho. Não queria. Pela primeira vez, queria ligar para o trabalho e dizer que estava doente para que Rex e ela pudessem repetir o encontro apaixonado da noite passada. Apaixonado. Ela. Sim, ela. Bolhas de antecipação flutuavam em sua corrente sanguínea. Mas a realidade rápida e brutalmente as destruiu. Era só luxúria, não era? Não teria dormido com Rex se não gostasse dele, mas nunca tivera a intenção de que aquele mês juntos fosse mais do que uma última oportunidade para provar a Andrea e Holly que não estava perdendo nada aceitando a sugestão de sua mãe de se casar com Wally. Não, essa sensação inebriante não podia ser mais que desejo. Não era uma pessoa impulsiva, e nunca tomara decisões importantes sem avaliar cuidadosamente suas opções. A lógica sempre prevalecia, e ela dizia que Wally era o marido adequado. Não podia se apaixonar por Rex e não iria. Simples assim. Tinha duas semanas e meia para aproveitar sua companhia, e depois cumpriria suas obrigações. Última chance. O peso das expectativas tornava difícil respirar. Arrepios percorreram-lhe a pele. Engolindo sua crescente ansiedade, Juliana sentou e tirou o cabelo do rosto com a mão trêmula. O ventilador de teto estava ligado, resfriando sua pele nua. Podia lidar com um relacionamento puramente físico. Não podia? Claro. Outras mulheres faziam isso o tempo todo. Saindo da cama, procurou por Rex no banheiro contíguo, mas não ouviu nada. Onde ele estaria? E então viu seu rosto no espelho e fez uma careta. Seu cabelo parecia ter saído de um furacão, e seu rosto


estava manchado embaixo dos olhos pelo rímel. A vaidade a forçou a tomar um banho rápido, escovar os dentes e passar um pouco de maquiagem. Penteou o cabelo molhado, vestiu o roupão, abriu a porta do quarto e parou no caminho. Déjà vu. Rex dormia no sofá, vestindo apenas um jeans desabotoado. Seu sorriso se desfez e uma sensação ruim a abateu. Por que ele dormiria ali quando tinha uma cama perfeita – e ela – em seu quarto? Será que ele não gostara da noite como ela? Seus músculos doloridos e as marcas deixadas pelos dentes e barba dele indicavam que sim. Mas talvez não fosse tão boa como as outras amantes de Rex. Horrorizada, levou a mão ao peito. Ele fingira? Com sua vasta experiência em fingir, será que não reconheceria? Talvez ele estivesse tentando poupar as sobrinhas do lado adulto de seu relacionamento com ela. Gostava mais dessa ideia do que pensar que ele preferia o sofá a dormir com ela. Parte de si queria acordá-lo e enchê-lo de perguntas. Seu lado mais cauteloso tinha medo das respostas. Não tinha problemas com confrontos no trabalho, quando conhecia a pessoa e geralmente tinha dados na sua frente, mas na vida pessoal era péssima e aquela manhã... Ela mordeu o lábio e apertou o laço do roupão. Por que não havia um manual para o dia seguinte? Entrou na cozinha e ligou a cafeteira. Juliana observava Rex, esperando que os ruídos da máquina o acordassem. De onde estava, podia ver o alto da cabeça, os ombros e o tórax dele. A mudança rápida no ritmo da respiração dele fez sua pulsação acelerar. Logo teria suas respostas. Gostasse ou não. Rex ergueu o punho esquerdo, olhando o relógio, imaginou ela, e então esfregou a mão no rosto. Ela queria poder ver sua expressão. Será que sorria como ela quando acordou? Ou estava arrependido? Ele respirou fundo, sentou e pôs o cabelo para trás. Virou a cabeça abruptamente e a viu. Ela percebeu o segundo exato em que ele relembrou a intimidade que tiveram. Podia ver a tensão em seus traços. Um sinal nada bom quando ela esperava um sorriso e um beijo de “olá, querida, vamos voltar para a cama antes que as meninas acordem?”. Agarrando-se à fala de que ele não era uma pessoa matinal e esperando que essa fosse a única causa de sua reação nada feliz em vê-la, Juliana engoliu em seco. – Bom dia. – Bom dia. – Levantou e encarou-a com um olhar sombrio. – Não precisava dormir aqui. – Precisava sim. – Porque não queria que as meninas nos vissem juntos na cama? – Porque a noite passada não deveria ter acontecido. Não vai se repetir. A excitação que crescia dentro dela se dissipou. Tivera o melhor sexo da sua vida e ele queria dispensar? – Sinto muito. Se importa se eu perguntar por quê? – Sim. – Sim o quê? – Sim, me importo. – Era uma pergunta retórica. Por que não podemos fazer amor de novo? – Juliana, você é uma mulher atraente. Faz um tempo que eu... Bem, já faz um tempo. Eu deveria ter me controlado. As coisas só pioravam.


– Está dizendo que estava só se aliviando e que qualquer mulher serviria? Ele hesitou e aqueles segundos de silêncio partiram seu coração. E então percebeu algo muito mais doloroso. Desejo não doeria tanto assim. Seus sentimentos por Rex podiam ser mais do que simples atração física. Estava se apaixonando por ele? Seu coração disparou. Não podia. Ele não se encaixava em seus planos de vida ou objetivos profissionais. – Juliana, sinto muito. – Eu não. Não sentia. Assumir o controle do relacionamento, de seu prazer e de sua vida era – como ele disse mesmo? – ah, sim, um caminho que ela tinha de percorrer. Mas não era a melhor auditora do Alden por nada. Quando queria algo, não desistia sem lutar. E queria mais da paixão que Rex Tanner demonstrara. Queria – precisava – guardar memórias para o futuro. Ele queria o mesmo? Ela não sabia, mas aprendera mais cedo que, se queria algo e não falava, conseguia exatamente o que pedira. Nada. E se isso significava que tinha de ser sedutora, assumiria esse papel. – Você não entende. Não posso ser o homem que você precisa. Você quer corações, flores, eternidade. Não sou assim. Eu magoo as pessoas, Juliana. É o que faço de melhor. Eternidade? – Eu não pedi eternidade, Rex. Só peço as duas semanas e meia que ainda faltam. Dezessete dias, Rex. É só o que eu quero. Agora que experimentou a paixão, pode viver sem ela? Claro que podia. Tinha sua vida traçada, e se queria chegar ao topo como sua mãe fizera, não podia ter desvios. Principalmente os do tipo que a faziam querer tirar dias de folga para ficar na cama com um amante.


CAPÍTULO 8

APARENTEMENTE, SUA mãe criara um bobo, Rex disse a si mesmo quando saiu do quarto. Do contrário, a oferta de Juliana de um relacionamento aberto não teria feito sua boca salivar e seu coração palpitar com a visão dela deitada em sua cama entre os lençóis emaranhados. Obviamente não aprendera nada de seu passado. Queria-a tanto quanto sua próxima respiração. Se o alarme dela não tivesse tocado assim que ela fizera sua proposta, ele provavelmente teria arrastado-a de volta para a cama – estando certo ou errado –, arrancado-lhe o roupão e enterrado-se dentro dela. Esqueça a cama. Teria possuído-a na cozinha mesmo. Estava nesse nível de excitação. Juliana conseguia aquilo sozinha, o que significava que ela tinha o poder de deixá-lo pior do que ficara quando chegara ao fundo do poço. Isso não era bom. Mas, diabos, ele ansiava por ela. Como um viciado anseia por uma dose. Pare de pensar com a outra cabeça, Tanner. Seus olhos ajustaram-se à escuridão do apartamento. No silêncio, às 2h, podia ouvir a respiração de Juliana. Estava deitada ao seu lado com o cabelo escuro espalhado pelo travesseiro, assim como estava na noite anterior quando ele se obrigou a deixá-la. Seu coração batia forte e rápido. Vá para o sofá. Mas seus pés não se moviam e seu olhar permanecia fixo na mulher que dominara seus pensamentos o dia todo. Aceitar a oferta dela não é o mesmo que usá-la. Não? Não estaria voltando a ser o FDP egoísta se desse o que ela queria? Droga, nunca pretendera passar o resto da vida como um monge. Se não celibato, tem o que em mente? Nada. A resposta o surpreendeu. Toda sua vida trabalhara voltado para um objetivo. Primeiro foi sair da fazenda, segundo conseguir um contrato com uma gravadora, depois chegar ao topo das paradas. Conseguira os três, deixando um rastro de feridos em seu caminho egoísta e autodestrutivo. Após a morte dos pais, concentrara-se em sair de Nashville. Quando conseguira, focou em abrir o Renegado e estar disponível para Kelly e as sobrinhas. Mais uma vez, missão cumprida, mas, dessa vez, não tinha intenção de machucar ou decepcionar ninguém.


Sua vida pessoal não aparecera na equação. E agora? Se encontros de uma noite estavam fora de cogitação, estaria procurando algo mais? Algo permanente? Será que era homem para casar? Provavelmente não. Mas, talvez depois que pagasse a promissória, poderia ser para alguém disposta a arriscar com um cara bruto que estava tentando reorganizar suas prioridades. Alguém forte o bastante para colocá-lo na linha quando ele quisesse ter o que queria sem dar nada em troca. Alguém como Juliana. Ops! Por mais que gostasse de Juliana, desejasse-a e apreciasse sua ajuda com as meninas, não conseguia imaginar a herdeira de banqueiros ficando com um cara quase falido. Mesmo que ela o quisesse, a mãe dela não o aceitaria, e ele se recusava a ficar entre Juliana e a família dela. Um dia ela perceberia o que ele lhe custara e o odiaria como ele odiava a si mesmo por deixar seu egoísmo destruir seu relacionamento com sua família. Mas um relacionamento – mesmo que temporário – com Juliana não seria outro encontro sem nome e sem rosto como os do passado, argumentou o advogado do diabo em sua mente. Não só sabia seu nome e onde morava, como sabia seu sabor preferido de sorvete – pêssego – e uma série de outros detalhes sobre ela, como sua natureza cuidadosa, o modo como ela avaliava os riscos antes de agir, o sarcasmo quando estava nervosa e sua tendência a pesquisar tudo desde manuais de motos até cuidado infantil. Quanto ao rosto dela, jamais esqueceria. Vá em frente. Ele deu um passo em direção à cama, mas parou. Juliana não só ressuscitara sua libido, mas o fizera pensar em música e isso o assustava demais. Ele tinha aquela maldita música – a que escrevera no dia que seus pais morreram – na cabeça o dia todo. Música já fora sua salvação, mas também se tornara sua maldição. Não podia deixar que a música voltasse à sua vida. Arriscado demais. Juliana se mexeu, virando de barriga para cima. – Rex, é você? – Sim. – Tranque a porta e venha para a cama. Diabos. Você já está condenado mesmo. Ele fechou a porta e seus pés o levaram até ela. Parou ao lado do colchão e pediu forças para resistir antes que fosse tarde. E então Juliana ficou de joelhos, e qualquer chance que ele tivesse de salvar sua alma condenada sumiu quando o rosto dela encostou em seu peito. Ele tirou a camisa e juntou-se a ela na cama. E esperava não odiar-se mais do que já odiara naquela manhã. JULIANA OLHOU para o playground ensolarado onde Rex estava agachado junto a Becky e Liza na caixa de areia e viu algo que nem sabia que perdera. Nenhum de seus pais teria faltado o trabalho para passar o dia fazendo castelos de areia ou deixaria sua garotinha segurar-lhe o rosto com as mãos sujas de areia e beijar-lhe a bochecha como Liza fazia com Rex. No mundo de Juliana, abraços só eram permitidos quando ela estava limpa e arrumada. Irma lidara com a bagunça, os beijos grudentos, as mãos sujas, os joelhos ralados e as perguntas difíceis de uma adolescente tentando entender as mudanças de seu corpo e os meninos malvados na escola. A alguns metros de Rex e as meninas, uma mulher fazia bolhas.


Seus filhos corriam atrás delas, gritando, rindo e rolando na areia. Em uma mesa de piquenique mais longe no parque, um grupo de crianças da pré-escola e suas mães comemoravam um aniversário com músicas e jogos. A alegria naqueles rostos, jovens e velhos, abrira um vazio no peito de Juliana. Se seguisse os passos da mãe, teria momentos assim algum dia? A risada de Liza atraiu o olhar de Juliana de volta para a caixa de areia. Rex levantou a cabeça e seus olhos se encontraram. Ele falou com as meninas, ficou de pé e foi na direção dela com um sorriso apaixonante. Ele fazia seu coração acelerar com apenas um olhar. Será que Juliana tinha o mesmo efeito sobre ele? Se sim, ele disfarçava bem. Não que ele não tivesse sido um amante incrível e generoso nas duas últimas noites, mas sentia que era a única a perder o controle na cama. Seu trabalho a ensinara a reconhecer os sinais quando alguém estava guardando informações. Rex estava escondendo alguma coisa e ela queria saber o quê. A camiseta que ele vestiu sobre a sunga ao sair da piscina ficava justa em seu peitoral musculoso. O olhar de Juliana desceu para as pernas dele. Suas mãos formigaram. Ela adorava a textura áspera das pernas dele em sua pele quando faziam amor, e fazer amor com Rex... Sentiu seu corpo esquentar. Bastava dizer que nunca mais duvidaria de sua capacidade para paixão. – Feliz por ter tirado o dia de folga? – Rex sentou-se ao lado dela no banco, com uma perna de cada lado, de modo que seus joelhos ficavam em volta dela. Uma das mãos dele acariciava-lhe as costas, enquanto a outra repousava em sua coxa sob a mesa. – Sim. – E bastante surpresa também. Matar o trabalho não era de seu feitio. Sua pulsação acelerou quando os dedos longos e calejados de Rex passaram por baixo da barra de seu short, chegando até o elástico de sua calcinha. Ela olhou rapidamente ao redor, mas ninguém podia ver sua travessura embaixo da mesa. A excitação latejava em seu ventre, desestabilizando sua respiração e fazendo-a salivar. Juliana lutou contra a reação que paralisava seus pensamentos. Jamais entenderia o que se passava com Rex se continuasse deixando que ele a distraísse. – O que você quis dizer quando disse que decepcionou pessoas? – O sorriso dele desvaneceu. Ele retirou a mão de onde estava e virou-se para ver as meninas. Instantaneamente, Juliana sentiu falta do calor do toque dele. – Quis dizer que decepcionei pessoas. – Essa parte eu entendi. Mas quem? Como? – Juliana... – O tom de “não é da sua conta” indicava que ele ignoraria sua curiosidade como fizera sempre que ela fazia perguntas pessoais. Ela não pretendia deixá-lo evitar responder dessa vez. – Por favor, Rex, já li tantas informações contraditórias sobre você... Só gostaria de saber a verdade. – Já disse que odiava a fazenda. O que não contei foi que minha família tentou me convencer a não sair de Nashville. Não queriam que eu fosse atrás de um sonho que provavelmente não se realizaria. As intenções eram boas. Não queriam que eu me machucasse. Mas eu não vi assim. Antes de partir, disse algumas coisas ofensivas sobre eles serem caipiras ignorantes sem ambição. – Quantos anos você tinha? – Dezoito. – Você era só uma criança. Todo mundo sabe que crianças, adolescentes principalmente, não fazem as escolhas mais inteligentes. Exceto ela. Sempre fizera a coisa certa por medo das consequências.


– Era grandinho para saber que deveria ter sido mais respeitoso. Mas não fui. Realmente exagerei. Não lembro metade das besteiras que falei. – Devo citar o clichê sobre aprender com os próprios erros? – Tive anos difíceis em Nashville. Minha mãe mandava dinheiro, e eu sabia que eles não podiam gastar. Não pedi, mas aceitei. Estava falido o bastante para me humilhar a esse ponto, mas não para me desculpar. Nunca me desculpei. Meu pai escreveu e disse que eu podia voltar. Eu disse que moraria na rua antes. – A dor e o arrependimento na voz dele fizeram o coração de Juliana apertar. Ela tocou-lhe o braço em um sinal silencioso de apoio. – Quando tinha 22 anos, tirei a sorte grande. Estava em um bar horroroso. Não podia nem pagar uma cerveja, então sentei em um canto e fiquei ouvindo a música. O cantor era péssimo. A plateia começou a vaiar. Alguém jogou uma garrafa nele, acertou-o na cabeça e ele desmaiou. Parecia que uma confusão ia começar e eu estava longe da saída. Então fui para o outro lado. Subi no palco, peguei a guitarra do cara e comecei a cantar o mais rápido que podia, esperando evitar que algo acontecesse enquanto a banda tentava reanimá-lo. A plateia se acalmou. O cantor acordou. Desci do palco em direção à porta. Um cara da plateia me seguiu e me ofereceu um contrato ali mesmo. Ele era um cara importante em uma das gravadoras. E o resto... – Ele deu de ombros. – O resto é história. Mas quero ouvir a parte que não posso ler na internet. Quem você decepcionou e como? – Você já decepcionou sua família? Recentemente, mas esperava que sua mãe superasse o fato de ter comprado Rex. – Sempre fui do tipo que seguia as regras. Andava na linha por medo de desapontar meus pais. – Foi o que pensei. Aquilo doeu. Mas não queria falar sobre sua covardia ou sobre as conversas difíceis por vir, porque levara trinta anos para achar a bravura que Rex tinha aos 18. – Admiro sua coragem em seguir seus sonhos. O que aconteceu depois de assinar com a gravadora? – Comecei a ganhar dinheiro. Mandei um pouco para casa. Acho que queria me desculpar por ser um idiota, mas não conseguia engolir o orgulho para fazer isso pessoalmente. Não tive coragem nem para falar por telefone. E então era tarde demais. Alguns anos atrás, meus pais morreram em um tornado. Nunca os agradeci por me apoiarem. E nunca me desculpei. Eles morreram pensando que o filho era um safado ingrato e egoísta. E estavam certos. – Não acho que seja egoísta. – É porque não me conhece. Eu tinha um show marcado para o dia do funeral. Acredita que tive de parar e pensar em onde queria estar? Onde devia estar? No fim, pedi que Kelly remarcasse o funeral para mais cedo e fretei um jatinho para que pudesse ir ao velório e depois fazer o show. Subi no palco naquela noite como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de enterrar meus pais. Na manhã seguinte, me olhei no espelho e percebi que não gostava do homem que me tornara. Tentei desfazer meus contratos, mas não havia brechas. Então me autodestruí, mais uma vez pensando só em mim em vez das 63 pessoas, banda e equipe, que dependiam de mim para viver. – Você estava sofrendo, Rex. Algumas pessoas lidam com a dor ignorando-a até ter certa distância. – Não tente me transformar em um cara legal, Juliana. Não sou para você. O que temos está bom por enquanto, mas não estarei por perto por muito tempo. Não conte comigo. E então ele deu as costas e voltou para as sobrinhas. Juliana pressionou o peito, tentando conter a dor que a consumia. Dor que sentia por ele, não por si mesma.


Não era nenhuma Bela, mas, sem dúvidas, Rex era uma Fera ferida que precisava de alguém que lhe mostrasse que não era um monstro. Esse alguém era ela. – REX, VISITA para você – chamou Danny no sábado à tarde. Rex deixou as planilhas sobre a mesa do Renegado, xingando. Provavelmente, outro cliente querendo falar sobre a reportagem. O segundo artigo de Octavia Jenkins saíra naquela manhã. Escrevera mais daquele conto de fadas sem sentido, comparando seu relacionamento com Juliana ao filme da Disney que suas sobrinhas assistiam durante a última entrevista de Octavia. Ele se levantou e foi até a entrada. Antes de sair para trabalhar, Juliana se ofereceu – não, insistiu – para dar uma olhada em seus registros, para ver se tinha alguma ideia para aumentar sua receita e diminuir as despesas. Não estava muito animado para deixá-la ver a gravidade de sua situação financeira, mas números eram o forte dela. Ela tinha o diploma e as credenciais para provar. Ele só tinha as cicatrizes da escola da vida. Olhou para os poucos clientes antes de ver o homem para quem Danny apontava, sentado no fundo do bar. Seus músculos ficaram tensos. – Quanto tempo, Rex. Tudo bem? – perguntou seu antigo empresário. Rex ignorou a mão estendida de John Lee. – Como me encontrou? – E o “olá, John Lee, que bom revê-lo depois de tanto tempo”? – Como Rex não respondeu, ele continuou: – Vi no jornal a matéria sobre você e o leilão de solteiros. Tinha de ver pessoalmente se era mesmo você. O cabelo comprido... Esse é um bom visual em você. Droga. Rex sabia do risco de ser descoberto ao participar do leilão, mas pensava que, depois da forma como deixara Nashville, ninguém se interessaria em procurar por ele. – O que quer, John Lee? – Você. Você foi embora antes que a gravadora ou os fãs se cansassem de você. Li sobre seu bar e sobre seus esforços para divulgá-lo. Sei de um modo melhor de atrair uma multidão. É só dizer e arrumo um contrato antes de começar o happy hour. – Não estou interessado. Prefiro perder o bar do que voltar para aquela vida. Num piscar de olhos, John Lee desfez-se da cara de bom moço e assumiu a pose de empresário que levara Rex ao topo das paradas. – Olhe, Tanner, você não pode pular fora quando ainda está no auge. – Notícia quentinha. Já pulei. – Sei que deve sentir falta das mulheres. Estranhamente, não sentia. Deus sabia que tivera sua cota de cantadas no bar, mas nenhuma o tentou. Até Juliana. Mas sua fraqueza com ela era um sinal de que não estava curado de seu vício. – Não. – Sei que peguei pesado depois que seus pais morreram, mas estava tentando ajudá-lo a não pensar nisso. Agora você já teve tempo de superar. Volte. Vamos fazer música e dinheiro. – Não, obrigado. – Deu as costas, indo em direção a seu escritório. – Você deve a bastante gente, Rex. As palavras o paralisaram. Virou-se lentamente.


– Não devo a ninguém. Paguei minhas dívidas. – E sua banda? Eles contavam com você por mais dez anos. – Arrumei empregos para todos. – Mas não com um artista do seu nível. Só existe um Rex Tanner. – Sim. E ele administra um bar. Boa viagem de volta, John Lee. – Estarei no Hilton por alguns dias. Pense em minha proposta. Ligue quando finalmente encontrar a luz. O celular é o mesmo, mas aqui está, caso tenha perdido. – Tirou um cartão de visita do bolso do paletó e ofereceu-o para Rex, que ignorou. John Lee deixou-o no bar e saiu. Rex pegou o cartão e amassou, voltou para o escritório e jogou-se na cadeira. Atirou o cartão amassado na mesa, sobre as planilhas. Seu olhar focou-se na linha inferior e sentiu uma pontada no estômago. Sem dúvidas, precisava de dinheiro. O leilão melhorara os negócios, mas não o bastante. A não ser que um milagre acontecesse, Rex provavelmente não pagaria seu empréstimo em 45 dias. Sentia falta de música. Não tinha dúvida. Mas poderia viver consigo mesmo se aceitasse a oferta de John? Aprendera da pior maneira que o dinheiro não vale a pena se você não consegue viver com as decisões que toma. Mas, se voltasse a cantar, poderia oferecer a Juliana o que ela merece. Ei. O pensamento o pegou desprevenido. Queria mais do que sexo e um caso breve com Juliana. Talvez. Nunca tivera uma amante tão compreensiva. Ela iluminara seu bar como ninguém. Gostava dela, de sua cautela, seu sarcasmo, sua generosidade e sua maldita curiosidade quase insaciável. Arrancara dele informações que ninguém sabia e de modo tão sutil que ele só percebia quando já tinha falado tudo. Cada dia que passava com ela e as sobrinhas o fazia pensar como seria ter uma família. Com alguém como Juliana, que dava tanto quanto recebia. Esfregou a mão na nuca. Não podia sustentar uma família com a atual renda do bar. Se voltasse a cantar, poderia, mas Juliana não iria querer nada com o tipo nojento que se tornaria. Não queria pensar por um segundo que não era forte o bastante para controlar o monstro egoísta dentro de si. Olhe como cedera rápido com Juliana. Mas tinha de admitir, queria tentar. Por ela. Mas, se a decepcionasse, seria incapaz de viver consigo mesmo. Sairia perdendo de qualquer forma. Bem, não merecia felicidade. UM RUÍDO fez Juliana despertar de um sono profundo. Abriu os olhos e escutou atenta. Suas costas estavam quentes e um braço pesado envolvia sua cintura. Rex não a acordara naquela noite. Antes de decidir o que significava aquilo, outro barulho a fez sentar-se na cama. O som vinha do quarto das meninas. Levantou-se da cama e vestiu o roupão. – O que houve? – perguntou Rex com a voz rouca. – Aconteceu alguma coisa com uma das meninas. – Ela queria perguntá-lo por que não fizera amor com ela quando fora para a cama, como tinham feito todas as noites, mas o choro no quarto ao lado ficou mais alto. Ela correu para o quarto das crianças. Becky chorava no travesseiro. Juliana sentou na cama, acariciou o cabelo de Becky e sussurrou: – Pesadelo?


– Papai. Quero meu pai. Juliana sentiu Rex atrás de si antes de ouvi-lo. – Lembra do que a mamãe disse quando ligou? Eles estarão aqui de manhã. Mas Becky estava inconsolável. Rex pegou a sobrinha nos braços. Liza acordou. – Que aconteceu? Juliana beijou-lhe a testa. – Becky teve um pesadelo. Está tudo bem. Volte a dormir. – Colo também. – Liza ergueu as mãos. Juliana não resistiu. Carregou Liza e sentou-se na outra ponta do sofá, onde Rex estava com Becky. – Mamãe falou que o papai estava machucado e que ele quase foi para o céu. – Becky engasgava entre soluços. – Ele está bem? Rex aninhou-a em seu peito e beijou-lhe o cabelo. – Ele se machucou, mas os médicos já o curaram. Ele pode ficar um pouco devagar um tempo, e provavelmente vai precisar da sua ajuda, mas vai ficar bem. Sei que vai ficar feliz em ver as meninas dele. – Ele vai ter de voltar para aquele lugar ruim? Juliana não sabia como responder. Elas eram novas demais para entender a importância do trabalho do pai. – Não por muito tempo. Talvez nunca mais, Becky – respondeu Rex. – Não quero que ele volte. Nunca. E não quero que ele vá para o céu e me deixe aqui. Os lábios de Liza começaram a tremer conforme a angústia da irmã a agitava. Juliana temia que elas não se acalmassem nunca. Seu olhar parou na guitarra em um canto. Vira a guitarra no fundo do armário quando se mudara para a casa de Rex e agora o instrumento estava ali no canto. O que fizera Rex pegá-la? Ele disse que música não fazia mais parte de sua vida? Aquilo mudara? – Por que não canta para ela? – O quê? – Cante para ela. Pode ser que a acalme. Tenho ouvido seus CDs no carro e ela gosta. Na pouca iluminação das luzes da rua entrando pela janela, ela pôde ver a tensão no rosto dele. Ele engoliu em seco e fez uma careta, como se sentisse dor. Finalmente, suspirou. – Você quer, Becky? Ela assentiu. – Eu também – acrescentou Liza. Rex pôs Becky no sofá e levantou. Pouco tempo depois, voltou com o instrumento e sentou-se no divã, hesitando. Becky encostou-se em Juliana. Liza aninhou-se ainda mais em seu colo. O aroma doce de morango envolveu Juliana, que sentiu uma pontada de tristeza. Sua mãe perdera momentos como aquele. Acalmar pesadelos era o trabalho de Irma. – Quer que acenda a luz? – perguntou Juliana, abraçando Becky. – Não. – A voz dele era rouca, natural. Dedilhou alguns acordes, parou e recomeçou. E então cantou, baixo e rouco, ganhando força conforme a música seguia. As meninas se acalmaram. Rex ergueu os olhos e fitou Juliana ao mudar para uma canção que ela nunca ouvira, uma sobre um homem que queria esquecer o passado e viver novamente. As músicas mais agitadas faziam Juliana bater os pés enquanto dirigia, mas as baladas geralmente a faziam chorar, como aquela fizera. Para um homem que


não falava muito, Rex a extasiava com seu dom para compor. Como seria receber uma serenata do homem amado, ouvir seus sentimentos mais profundos em forma de canção? Jamais saberia. Várias músicas depois, Rex encerrou e pôs a guitarra de lado. Só então Juliana despertou de seu encantamento e percebeu que as meninas haviam voltado a dormir. – Vamos colocá-las na cama. Rex se levantou. Depois de acomodarem as meninas e voltarem para o quarto, Juliana encarou Rex sob a luz da lua. – Aquilo foi lindo. Não sei como desistiu. – Desisti porque não gostei da pessoa que me tornei. – Não entendo. – Quando nos conhecemos, você me perguntou se eu tinha maridos ciumentos atrás de mim. Eu disse “não mais”. Mas, antes, tinha. Depois de um show, eu transava com qualquer mulher que meu empresário levasse até meu camarim. Não me lembro de seus nomes ou rostos. Eu as usava e descartava. Como se não tivessem valor. Chocada, Juliana apenas o olhava. Então as histórias da internet eram verdadeiras. – Não me importava se eram solteiras ou casadas. Só queria relaxar, extravasar a energia do palco. Alguns usavam drogas. Eu usava sexo. Usava pessoas. O homem que viera a conhecer nas três últimas semanas não se parecia nada com o egoísta que ele descrevia. Mas havia mais que a verdade sórdida na confissão de Rex. Havia dor e aversão por si mesmo. – Meu comportamento envergonhou e desagradou minha família. Provavelmente destruí alguns casamentos. – Seu olhar ferido fixou-se no dela. Esperava que sua revelação a repelisse. – Agora você sabe por que tem de ficar longe de mim. Sou um babaca egoísta que não sabe como ter um relacionamento saudável com uma mulher. Não sou bom o bastante para você, Juliana, e se você tiver metade da inteligência que acho que tem, irá embora e esquecerá que me conheceu. E ela soube na hora que não podia fazer aquilo. Não era só desejo. Estava se apaixonando por Rex Tanner.


CAPÍTULO 9

POR QUE Juliana não o mandou para o inferno? Por que não fugiu revoltada do apartamento? Não era isso o que ele esperava? O que queria? Sim, porque o quanto antes Juliana terminasse com ele, mais cedo poderia parar de esperar que isso acontecesse. Mas, em vez de revolta nos belos olhos azuis de Juliana, Rex encontrou compreensão. E em seu rosto iluminado, um emaranhado de emoções que não conseguiu decifrar. Juliana se aproximou e ergueu as mãos para tocar seu peito. Segurou o rosto dele nas mãos, puxando-o para baixo e salpicou suaves beijos em sua face e finalmente em sua boca. O pulso dele disparou. O sangue escorreu de sua cabeça para se fixar, com um insistente pulsar, na altura do zíper da calça. Rex cobriu as mãos dela e recuou. – O que você está fazendo? O olhar suave e sexy de Juliana encontrou com o dele e um sorriso terno tremeu em seus lábios. – Amando você. O coração dele parou e, depois, começou a bater contra as costelas, como disparos de uma arma automática. – Eu? Ou o cara da guitarra? Os polegares dela arranharam o queixo arrepiado de Rex. – O cara que acabou de cantar para colocar as sobrinhas para dormir. Aquele que me preenche com suas palavras e me derrete com seu toque. O homem que me ensinou a controlar a Harley dele e a minha vida. Você, Rex Tanner. Não compreendia metade do que ela dizia, mas não conseguia conjugar as palavras para pedir-lhe uma explicação. Um nó formou-se em sua garganta. – Péssima ideia. – Não consigo pensar em nada melhor. – E, de repente, a língua dela roçou seu lábio inferior, acendendo a chama do desejo em suas veias. Os dedos de Juliana se enroscaram no cabelo dele, e Rex lutou para se lembrar das razões para que isso não acontecesse. A música era parte disso. Não queria voltar para a estrada, mas acontece que só tinha duas opções. Voltar aos shows ou perder o bar.


Na primeira opção, magoaria Juliana ao voltar com os péssimos hábitos de antes. Gostaria de acreditar que não o faria, mas tinha dez anos de prova contrária. Mas, mesmo que pudesse controlar a besta egoísta que vivia agora adormecida dentro dele, ainda estaria fora de casa por cerca de nove meses do ano. Uma mulher bonita como Juliana não ficaria sentada, sozinha em casa, esperando por ele, que já havia visto os casamentos de membros de sua banda e equipe se desintegrarem exatamente por esse motivo. Esposas solitárias eram esposas infelizes. Na segunda opção, causaria uma crise entre ela e a família dela. A mãe de Juliana já não gostara muito dele no leilão. Não aceitaria um músico ou um dono de bar fracassado – especialmente um que estivesse falido e que lhe devesse dinheiro – como genro. Genro. Estava pensando em casamento? Com Juliana? Que diabos, sim. Mas como poderia fazer esse casamento funcionar? Não podia. Os dentes de Juliana beliscaram seu queixo e a mão dela agarrou o volume intumescido sob o jeans, tornando a tarefa de pensar quase impossível. Depois. Depois tentaria descobrir como fazer esse relacionamento funcionar. Agora precisava dela, ansiava por ela, e não tinha nada a ver com a emoção reprimida nas músicas. Tudo era ela. Seu perfume. Seu gosto. O fato de ela aceitar tudo dele, inclusive seus defeitos. Ele uniu os braços ao seu redor, segurando-a o mais firmemente que podia e cobriu sua boca, derramando seus sentimentos através de um beijo, mostrando tudo o que não podia dizer. Ele acariciou sua coluna com as palmas das mãos, para cima e para baixo, saboreando vê-la tremer, e então agarrou seu traseiro e enterrou sua ereção no calor do ventre dela. Jamais sentira algo tão bom. Pegou o vestido dela com as mãos, levantando um centímetro de cada vez até que a roupa estivesse fora do caminho e ele pudesse sentir a pele nua e suave de suas nádegas. Seu arfar o excitou. Mas ainda não era o suficiente. Queria ouvi-la gemer e gritar enquanto o orgasmo a sacudia. Os sons que ela fazia quando ele lhe dava prazer eram o bastante para deixá-lo louco. Nua. Precisava dela nua. Agora. Ele arrancou seu vestido e espalmou seus seios, provocando os mamilos intumescidos e excitados. A cabeça de Juliana curvou-se para trás, expondo sua garganta aos lábios dele. Ele sugou e mordiscou sua pele perfumada e mergulhou no pulsar vibrante da base do pescoço dela. Mas ainda não era o suficiente. Ele devorou sua boca, engolindo seus gemidos enquanto a acariciava, até que ela se contorceu e desabou por sobre ele. As unhas dela arranharam as costas dele, fazendo-o tremer-se todo, e então ela procurou, desajeitadamente, a abertura de seus jeans e arriou as calças e cuecas dele, até as coxas. Urgente e apressada, seus dedos suaves percorreram-lhe as nádegas, a cintura, os quadris, e, em seguida, fecharam-se em torno do membro dele, acariciando-o da base à ponta, quase fazendo ele estourar no êxtase. Rex curvou sua cabeça para trás ofegante e gemendo. Juliana caiu de joelhos para ajudá-lo a tirar o jeans, e suas mãos perigosas fizeram a viagem contrária, cobrindo as pernas dele com leves toques até chegar ao alto das suas coxas. Ela jogou a cabeça para trás e encontrou o olhar dele, enquanto o levava até sua boca. Minha nossa. Ele não merecia isso. Não a merecia. As mãos dele agarraram o cabelo dela e todos os músculos do seu corpo se retesaram enquanto lutava para segurar o orgasmo, mas o redemoinho sedoso da língua dela quase o derrubou. Fogo rugia através dele, que quase chegou ao ápice, porém mais do que sua própria satisfação, queria dar prazer a Juliana. Puxou-a e virou-a, até que ela caiu na cama, e se ajoelhou e a amou com a boca – algo que ele nunca havia feito com nenhuma das fãs. Ela era quente, úmida e doce, e exclusivamente Juliana.


Seus gemidos e súplicas soaram como música para os ouvidos quando ele a levou a um orgasmo atrás do outro. E então ficou sobre ela, abriu suas pernas e a penetrou longa e profundamente. Céus! Sem dúvida, poderia aprender a amar assim. Que inferno, já aprendera. Saiu e a penetrou. Novamente. Mais uma vez. Suas pernas macias rodearam os quadris dele e os calcanhares dela se enterraram em suas nádegas. Ela moveu-se por baixo dele, até ele pensar que ficaria louco. Abafou os gritos dela enquanto conduzia um ritmo que levaria ambos ao clímax. Seus pulmões queimavam. Seu coração disparou. Sua pele derreteu, fundindo-se com a dela. As mãos sinuosas dela causavam estragos no autocontrole dele. Ela o tocava, arranhava, acariciava e apertava. E ele sabia que ia perder a batalha. Calma, calma. Ele curvou-se para saborear um mamilo perolado e inchado, e o gozo percorreu Juliana. Rex deu graças a Deus quando o grito dela encheu seus ouvidos e, em seguida, se soltou. Uma série de explosões começou na base de sua coluna e subiu detonando tudo. Desabou. Mole. Totalmente acabado. Totalmente apaixonado. Que inferno! – ESTOU APAIXONADO por ela. – As palavras saíram do peito de Rex como um vulcão acumulando tanta pressão que não tinha escolha senão estourar. Kelly piscou e virou-se para o marido, que estava deitado numa espreguiçadeira no quintal. As meninas dançavam na grama ao redor dele, despejando beijos e perguntas. Rex achava que seu cunhado, apesar de estar muito pálido, estava com boa aparência. Seus ossos quebrados se solidificariam e as contusões desapareceriam. Se poderia ou não voltar à ativa, ainda era indeterminado. – Mike, Rex e eu vamos entrar para pegar bebidas. – Apontou para Rex. – Você. Para a cozinha. Agora. Rex a seguiu, já lamentando o desabafo, mas as palavras estavam se acumulando dentro dele desde a noite passada. Não dissera nada a Juliana, porque primeiro precisava de um tempo para digerir e planejar o que fazer em seguida. A melhor coisa a fazer seria deixá-la ir embora. Ele não era um prêmio e, certamente, ela merecia coisa melhor. Mas quem disse que conseguiria? Kelly entregou-lhe uma cerveja. – Beba. Rex devolveu a garrafa. – São 10h30. É muito cedo para beber. – Quero soltar sua língua. – Mas colocou a cerveja de volta na geladeira. – Comece a falar ou vou derramar cerveja direto na sua garganta. – Estou apaixonado por Juliana Alden. Ela é herdeira de um banqueiro, pelo amor de Deus. Boa demais para alguém que não passou do ensino médio como eu. E estou pensando em voltar a fazer shows. A preocupação encobriu o rosto de Kelly. – Certo. Uma coisa de cada vez. Você quer voltar a fazer turnês? – Não. – Então não volte. – Acho que quero casar com Juliana.


– Estou tentando seguir sua linha de pensamento, Rex, mas você não está tornando isso nada fácil. O que te impede de se casar com Juliana? Aliás, as meninas a adoram. Ele andou por todos os cantos da pequena cozinha. – Preciso de dinheiro. O bar não está rendendo nada, Kel. Pode ser que com o tempo comece a render, mas não tenho tempo. As dívidas estão se acumulando. Kelly deu um tapa no braço dele. – Você tem dinheiro, idiota. – Se tivesse, não estaríamos tendo esta conversa. E se eu pedir Juliana em casamento justo quando estou a ponto de dar um calote no empréstimo do banco da família dela, todos vão pensar que estou fazendo isso por causa do dinheiro. – Você tem a sua parte na propriedade de nossos pais. – Não é minha. Quando fui embora da fazenda, perdi meus direitos. – Droga, Rex, você mandou dinheiro para casa por 10 anos, dinheiro que o pai usou para manter a fazenda. Tentei discutir isso com você depois do enterro, mas você se desligou e o advogado diz que suas cartas voltaram ainda fechadas. Na verdade... – Ela parou. – Espere aqui. Kelly saiu da cozinha e voltou em minutos para entregar-lhe uma pasta. – Aqui estão todas as informações de nosso contador. Veja se é o suficiente para você sobreviver até que o Renegado saia do vermelho. Ele abriu a pasta e a surpresa lhe tirou o ar dos pulmões. Não era uma fortuna, mas era mais do que suficiente para pagar o empréstimo. Mas esse dinheiro não era dele. – Eu disse para você guardar esse dinheiro para você e as meninas em caso de algo ruim acontecer com o Mike. Guarde. Rex tentou lhe devolver a pasta, mas Kelly colocou as mãos atrás das costas. – Não é meu. É seu. Mike tem seguro de vida, seguro-saúde. Não deixe seu orgulho estragar o seu futuro. – Kelly, não mereço isso. Fui um babaca. – Eu sei. Eu estava lá. Mas mamãe e papai te amavam, Rex. Sempre te amaram, e entendiam a sua necessidade de cantar. Eram tão orgulhosos de você. Todos nós éramos. Não gostávamos de seu estilo de vida... – Deu de ombros. – Mas era porque tínhamos medo que você se matasse. – Não se pode dizer que não tentei. – Rex, você nunca teve medo de lutar por aquilo que queria. Então, por que não está lutando agora? Boa pergunta. – O orgulho sempre foi seu maior problema, irmão. Portanto... Engula-o, fique com o dinheiro e vá pegar a garota. – Ela merece coisa melhor, Kel. – Isso é que é estar apaixonado, é tentar ser a pessoa que quem você ama merece. – Ela enganchou os braços ao redor da cintura dele e o abraçou. – E pare de se punir pelo passado, negando a música que você tanto ama. Deve haver um modo de você ter a música de volta em sua vida sem ter de cair na estrada. – Ela ergueu a mão e puxou o cabelo dele. – E pare de esconder do mundo esse rosto lindo embaixo dessa cabeleira. Deixe-me fazer um corte de verdade. Há anos que eu estou morrendo de vontade de fazer mais do que aparar as pontas dele. Escondendo. Sim. Era o que estava fazendo. E Juliana o havia arrastado para fora da caverna, de volta para a luz.


A pergunta era se tinha coragem para abrir seu coração. SE OS cursos de etiqueta da Emily Post cobriam orientações sobre o fim de um “quase noivado”, então nenhuma das aulas que Juliana tinha frequentado, durante anos, as haviam incluído. No que lhe dizia respeito, não importava o que Juliana escolhesse, o almoço seria difícil de engolir. Colocou uns toques adicionais no frango ao molho de limão e aspargos assados que havia comprado no restaurante favorito de Wally e depois aumentou a iluminação de sua sala de jantar. Intimidade não era o objetivo deste encontro particular. Amava Rex Tanner. Naquele momento intenso de descoberta da noite anterior, os erros do passado de Juliana tornaram-se claros. Nunca experimentara uma chance no amor, porque tinha medo de deixar as emoções superarem a razão. Mas trilhar somente o caminho mais seguro não a fizera mais forte ou mais esperta do que suas amigas e colegas que haviam colecionado corações partidos ao longo dos anos. O caminho mais seguro a tornara emocionalmente covarde. Não tinha dúvidas de que sua decisão teria repercussões – repercussões difíceis. Em primeiro lugar e o mais importante: decepcionaria sua mãe – o que nunca fora uma experiência agradável, mas Juliana não era mais uma criança que temia ser enviada para um colégio interno. Podia até mesmo perder seu emprego no Alden, mas, apesar de gostar muito de trabalhar lá, preferia perder o emprego a perder Rex. E, sim, dizer adeus a Wally poderia comprometer a fusão de que o Alden precisava para permanecer competitivo no mercado bancário, porque o sr. Wilson era do tipo que guardava rancor. Mas não estamos na Idade Média. As empresas podem se unir sem que as famílias façam o mesmo. A partir de hoje, faria novos planos para o futuro – um futuro que esperava compartilhar com Rex. Ele não havia dito que a amava, mas nenhum homem poderia ser tão terno, tão dedicado ao prazer dela ou tão preocupado em não magoá-la como ele era, a não ser que tivesse profundos sentimentos por ela. Se ele não se importasse, teria usado e descartado-a como já fizera com todas as fãs no passado. Em vez disso, o rebelde indeciso tentara dissuadi-la com palavras, enquanto os olhos dele imploravam por compreensão. Hoje à noite, contaria que amava Rex. E amanhã... Sua boca secou e seu pulso se agitou. Amanhã lidaria com as consequências de sua decisão. A campainha tocou e o estômago de Juliana afundou. O convidado dela chegara. Puxando o ar dolorosamente em seu peito apertado, rezou por coragem para assumir esse enorme risco. Com seu futuro. Com seu coração. Abriu a porta. – Oi, Wally. Obrigada por conseguir vir para o almoço. Ele revelou um sorriso ensaiado e puxou um buquê de rosas vermelhas de trás das costas. – Como sempre, estou feliz em me adaptar a você, Juliana. – Obrigada. Por favor, entre. Vou colocá-las na água. Gostaria de tomar uma bebida antes do almoço? – Não, obrigado. Tenho uma reunião depois. Você também tem de voltar a trabalhar, não? – Sim. Sente-se na sala de jantar. Vou trazer o almoço. Cinco minutos depois, ela havia colocado a refeição na mesa e as flores em um vaso Waterford. – Você e Donna estão gostando dos jantares de sábado?


– Sim, estamos. E você está gostando das aulas de direção? – Sim. Mais do que as lições, adorei tomar conta das sobrinhas de Rex. Passar um tempo com as meninas fez-me mais ansiosa para ter meus próprios filhos. Não pensava muito nisso. Era uma possibilidade para um futuro muito distante. – Não tão distante. Você já tem 30 anos. E eu, 40. Precisamos começar. Vamos ter lindos filhos juntos, Juliana. Juliana engoliu em seco e respirou fundo. – Gostei muito do tempo que passamos juntos e agradeço a sua paciência enquanto esperava que eu chegasse a uma decisão sobre nós, mas sinto muito, Wally. Não posso me casar com você. – Claro que você pode. Somos perfeitos um para o outro. – Eu não te amo. – Eu também não, mas acho que nossos sentimentos vão mudar com o tempo. – Wally, eu amo outra pessoa. – O solteirão? – Sim. Rex Tanner. – Será tão difícil sua mãe o aceitar no seio da sua família quanto minha família acolher a Donna. Juliana ficou boquiaberta. – Donna? Você a ama? – Estou apaixonado pela Donna desde o primeiro dia em que ela pôs os pés em meu escritório, mas nunca partilhei meus sentimentos até que o leilão obrigou-me a assumi-los. Não sei se te abençoo ou te amaldiçoo por isso. Mas é fato que as Donnas e os Rexes deste mundo jamais serão aceitos em nosso círculo social. – É um risco que estou disposta a correr. – Então está sendo tola. Veja o que está prestes a perder. Meu pai me deserdará se eu me casar com Donna. É provável que sua mãe faça o mesmo se você se casar com o dono do bar. – Eu sei. Wally, passei a minha vida inteira tentando não decepcionar minha mãe, mas, ao trilhar este caminho, também me isolei do mundo real. Estive assistindo a minha vida dos bastidores, em vez de ser a protagonista. Não quero mais isso. – Então combinamos assim. Vamos nos casar. Nossas famílias e negócios serão beneficiados. Eu fecho os olhos para algum interesse especial que você possa ter se você fizer o mesmo. Naturalmente, vamos precisar oferecer um neto ou dois logo, para fazer nossos pais felizes, mas, além disso, pode viver a sua vida da maneira que quiser, desde que seja discreta. Juliana olhava para Wally, estupefata. Ele não poderia estar sugerindo o que ela achava que ele estava. Poderia? Wally enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena caixa quadrada, azul. Uma caixa de anel de noivado. Alguém bateu à porta da frente, mas os músculos de Juliana não quiseram obedecer a ordem de se levantar e atender. Ele estava doido? Uma proposta de casamento seguida de uma declaração de suas intenções de cometer adultério, concedendo a ela a permissão da mesma liberdade. Esta era uma faceta de Wally que Juliana nunca tinha visto antes. Wally abriu a caixa, revelando o maior e mais espalhafatoso diamante que Juliana já vira, quase ao mesmo tempo em que uma chave rangeu na fechadura e a porta da frente se abriu. Rex entrou. O olhar


dele buscou e rapidamente encontrou o de Juliana, e então visualizou num relance, a refeição, as flores e a imensa pedra na mão estendida de Wally. A mandíbula de Rex se contraiu e seus olhos ficaram duros e frios. Horrorizada, Juliana levantou-se rapidamente. – Rex, não é o que está pensando. E então ela viu o que ele havia feito. – Seu cabelo. Você cortou o cabelo. Ela deu um passo em direção a ele, mas Wally se levantou, bloqueou seu caminho e enfrentou Rex. – Sou Wallace Wilson, noivo de Juliana. E você é o solteirão dela, correto? – Você não é meu noivo, Wally – corrigiu Juliana. – Isso somente porque fomos interrompidos antes que eu colocasse meu anel em seu dedo. – Segurou o anel numa altura onde Rex não poderia deixar de vê-lo. – Estivemos noivos, extraoficialmente, por meses. Sua mãe já reservou a igreja e o bufê e marcou a data. Em 21 de outubro, você será minha esposa. – Não quero casar com você, Wally. Desculpe-me, mas não quero e não vou. – Abriu caminho e se aproximou de Rex. – Eu não ia aceitar a proposta dele. – Há quanto tempo estava saindo com ele? – Seis meses, mas... – E estava noiva dele enquanto dormia comigo? Juliana nunca acreditou em mentiras, mas tinha de admitir que a verdade não parecia nada boa no momento. – Não exatamente, nós... – Então, o que eu era? Uma passagem pela vida selvagem, como a repórter disse? – Sim. – Não! Como ela poderia explicar? – Rex, começou assim, mas então me apaixonei por você. ELE QUERIA ouvir essas palavras, mas não conseguia acreditar nelas agora. Deveria ter confiado em seus instintos. O que tinham vivido era bom demais para ser verdade. Nunca fora fiel a nenhuma mulher antes de Juliana. Por que esperara fidelidade da parte dela? Que diabos o fazia pensar que merecia isso? Tinha de sair dali. Atirou a chave da casa de Juliana na mesa da entrada, girou nos calcanhares e saiu pela porta. – Rex, espere. – Juliana o seguiu até a calçada da rua e colocou-se entre ele e a caminhonete na garagem. – Por favor, deixe-me explicar. – Se ele é seu noivo, então já disse o suficiente. – Não, não é. Não oficialmente. Não oficialmente. O que diabos isso significa? Esqueça. Não queria saber. – Meus pais querem que me case com Wally para fortalecer uma fusão entre o banco da família dele e o Alden. Concordei em ver se Wally e eu combinávamos. E isso é tudo. Nunca concordei em casar com ele. E o convidei aqui hoje para contar que não podia me casar com ele. Não tinha ideia de que ele traria um anel. – Juliana, você foge de seus pais, em vez de falar o que realmente pensa. Estava esperando que ele recusaria aceitar meus restos e salvar você de ter de encontrar a coragem necessária para dizer não para


a sua mãe? – Não. Não foi assim. Mas você está certo. Nunca tive a coragem de desafiar meus pais antes. Não até comprar seu pacote no leilão. Não sou boa em desafios e odeio confrontos, a menos que tenha bons argumentos. Mas não amo Wally e não vou me casar com ele, não importa quanto minha mãe deseje. Amo você, Rex, e vou fazer qualquer coisa para ficar com você. Ela era uma atriz e tanto. A dor nos olhos dela e a sinceridade em sua voz pareciam reais. – Você me usou para uma emoção barata. Não é melhor do que qualquer fã. – Rex, eu te amo. Você tem de acreditar em mim. – Esse é o problema, Juliana. Não consigo acreditar em nada mais que você diga. Segurou os pulsos dela, afastou-a e subiu em sua caminhonete. Disparou um último olhar para ela enquanto colocava o veículo em movimento e desejou que não o tivesse feito. Droga, essas lágrimas parecem de verdade. A vida na estrada, longe de Wilmington, parecia uma melhor escolha, a cada minuto.


CAPÍTULO 10

– POR QUE pediu esta reunião, Juliana? – Margaret Alden olhou para o relógio em cima da lareira da sala de estar dos Alden como se tivesse algum compromisso. – Não vou me casar com Wally. Almocei com ele na segunda-feira e disse que o noivado estava acabado. – Você está louca? Percebe o que isso pode fazer com a fusão Alden-Wilson? – Os bancos podem se juntar sem um casamento. Não sou um título de ações ou um ativo a ser negociado durante a transação. Sou filha de vocês. E estou apaixonada por outra pessoa. – O motociclista? – Rex Tanner, o solteirão que eu comprei no seu leilão. – Ele é totalmente inadequado. – Para você, talvez, mas não para mim. – Eric, faça sua irmã ter algum juízo. – Não posso fazer isso, mãe. Se Juliana está apaixonada, então precisa seguir seu coração. Você tentou me tornar parte desse negócio e fui estúpido o bastante para me deixar levar. A melhor coisa que já me aconteceu foi a Priscilla ter desistido de mim. – Richard! – Sua mãe esbravejou para o pai de Juliana. – Concordo com Eric. Juliana precisa seguir o coração. O banco é forte o suficiente para sobreviver com ou sem a fusão se Wilson for um cabeça-dura. Quando vou conhecer esse Reg, Juliana? – O nome dele é Rex. E você não vai conseguir encontrá-lo, a menos que eu possa fazê-lo entender essa situação complicada. Ele descobriu sobre o Wally e está furioso. Não atende meus telefonemas. Mas eu o amo, então ainda não vou desistir. Ela telefonara e deixara mensagens por dois dias, mas Rex não retornara suas ligações. Hoje a secretária eletrônica dele não atendera, então Juliana dirigira até o Renegado na hora do almoço para falar com ele, mas era seu dia de folga e Danny, o barman, dissera que Rex estava viajando. Tinha de encontrá-lo e fazê-lo entender. Especialmente agora. Sua menstruação estava atrasada. Juliana não conseguia se lembrar de uma única vez em sua vida em que seu corpo não havia funcionado como um relógio pontual.


Estaria grávida? Seu pulso disparou e o pânico ameaçou sufocá-la. Tinham usado camisinha todas as vezes, exceto na noite em que os gritos de Becky os acordaram. Sabia, desde as aulas de educação sexual do primeiro grau, que uma vez era o suficiente. Será que queria estar grávida? A ideia de ter um filho de Rex a animava e preocupava. Queria um homem que a amasse, e não um homem que se casara por causa de um equivocado senso de dever. Não forçaria Rex a ficar com ela por causa de um bebê. Ainda tinha de lidar com as consequências dessa conversa. A expressão aflita de sua mãe não trazia nada de bom. Se a mãe não pudesse perdoá-la, Juliana poderia se ver sozinha, grávida e desempregada. Certamente tinha suas economias, o restante de seu fundo como herdeira e alguns investimentos para contar, mas estes não iriam durar indefinidamente. Teria de arranjar outro emprego, e queria mais para seu filho do que ser uma mãe solteira que tinha de trabalhar sessenta horas por semana. Rex mostrara a ela o que lhe faltara quando criança e nenhuma carreira iria tornar o filho dela uma segunda opção. Não havia necessidade de criar pânico antes que ela tivesse certeza. O resultado do primeiro teste de gravidez tinha sido negativo, mas as instruções alertavam para a possibilidade de um falso negativo se o teste fosse feito cedo demais e havia a sugestão de se esperar alguns dias para fazer um segundo teste. Tinha uma segunda caixa esperando em seu banheiro. Nunca fora uma pessoa impaciente, mas a espera até o fim de semana a estava matando. – Isso é tudo o que eu tinha a dizer, mas queria que vocês soubessem de tudo antes de ir para a reunião com os Wilson amanhã. Espero que entendam. – Juliana, você nunca foi do tipo de tomar decisões ilógicas e impulsivas. Para o bem do banco, você vai repensar esse assunto. – Mãe, o Wally também está apaixonado por outra pessoa. Não vou arruinar quatro vidas por causa de um banco. Se você não pode aceitar isso, então vou ter de apresentar minha demissão. – VISITA PARA você – disse Danny, da porta do escritório, na terça-feira. Danny lhe contara sobre a visita anterior de Juliana. – Hoje é meu dia de folga. Não estou aqui. – Não é a Juliana. E não seria John Lee. Rex havia recusado formalmente a oferta de seu antigo empresário e o tinha levado ao aeroporto. Kelly e as meninas precisavam de Rex, agora mais do que nunca, enquanto Mike estava se recuperando. Não poderia voltar para a estrada e não poderia passar o resto da sua vida correndo e se escondendo. Um dia, ele teria de sair de seu escritório. Danny esperava à porta. – Tudo bem. Estou indo. Ele se levantou e seguiu Danny. Uma loira atraente esperava nos fundos do bar. Não a conhecia. Pelo menos achava que não. E se as mulheres de seu passado tinham visto os artigos de Octavia, assim como John Lee, e começassem a procurá-lo? Pediria desculpas pelo resto da vida. – Posso ajudar em alguma coisa? – Rex? – Sim. Eu te conheço? – Não, nós nunca nos conhecemos. Só um momento. – Abriu o celular e apertou um botão, mas não atendeu a ligação. – Mas vi você no leilão de solteiros. Bonito corte de cabelo.


A porta da frente se abriu. Ele olhou e Juliana entrou parecendo uma brisa num céu de verão, em um vestido azul da cor dos olhos dela. Não estava feliz em vê-la. Ela mentira para ele e o traíra. – Prazer em conhecê-lo, Rex. Espero vê-lo mais no futuro, mas estou caindo fora. – A loira desceu do banco do bar e dirigiu-se para a saída. – Ele é todo seu. Ligue para mim – disse para ele enquanto passava por Juliana. – O que você quer? – Precisamos conversar. – Não temos mais nada a dizer. – Rex. Estou atrasada. Ele levou cinco segundos para entender. – Venha. – Levou-a para o escritório. – Sente. Quanto tempo de atraso? – Apenas alguns dias. – Já fez um teste? – Sim. Deu negativo. Mas Rex, eu nunca fiquei atrasada. Nunca. Vou fazer outro teste neste fim de semana, mas achei que você deveria saber. – Então, se você não conseguiu escapar do indesejado casamento até agora, achou que um filho o faria? – Não engravidei de propósito. – Não se apresse. Você pode não estar grávida. Por que não tem coragem de simplesmente dizer não para esse casamento? – Toda a minha vida eu... Achei que meus pais só me amavam quando eu era perfeita. A aluna nota 10, a amazona campeã, a debutante mais graciosa. Sempre que saía da linha, minha mãe ameaçava me mandar para uma escola fora do estado. E eu sabia que ela faria isso. Quando completei 16 anos, várias das minhas colegas de escola haviam sido enviadas para um colégio interno. – Não tenho nada a ver com isso. – Tem. Quando comprei você no leilão, estava me rebelando. Minha mãe montou esse esquema para eu me casar com o Wally para fortalecer a fusão Alden-Wilson. Senti-me como uma mercadoria em vez de uma filha. Pior, todos os fatos, toda a lógica, apontavam para o casamento ser a escolha mais sensata. Sempre confiei nos fatos mais do que nas emoções e os deles diziam para concordar com tudo. Mas eu não queria. Pela primeira vez na vida, queria experimentar a paixão de que as outras mulheres falavam, embora duvidasse seriamente que eu pudesse, já que nunca... – As bochechas dela ficaram coradas. – Percebi que, se não pudesse encontrar o que estava procurando com um homem tão descaradamente sexy como você, então eu era uma causa perdida, e podia me casar com o Wally, porque não tinha nada a perder. – Você me comprou porque queria transar com alguém? O que a fez pensar que eu seria tão fácil? – Você estava certo quando me acusou de pesquisar o seu passado. Com tudo o que li, você soava como um cara que, depois de transar, iria seguir em frente sem pensar duas vezes. Mas aí você não era o selvagem que eu pensava. Não estava interessado em me corromper e era um fofo com Becky e Liza. Mas, estranhamente, isso me fez querer ser corrompida mais do que nunca. Estava fisicamente atraída por você, de uma forma que nunca estivera por nenhum outro homem, Rex. E gostei de você. Nunca persegui nenhum homem na minha vida, e o persegui. Comprei roupas que dariam um ataque cardíaco no meu pai, e agi como... Uma prostituta. – Isso não é desculpa para o que você fez.


– Não, não é. Comprei-o com a intenção de usá-lo e largá-lo no fim do mês. E isso é imperdoável. Mas, se alguém pode entender o quanto lamento tudo isso, esse alguém é você. Rex, minha vida era chata e vazia até conhecer você. Não quero desistir do que temos. E mesmo que os fatos digam que uma chata, seguidora de regras não é a mulher certa para você, meu coração diz que posso vir a ser se me der uma chance. Amo você, Rex. – Isso não muda os fatos. Farei minha parte com essa criança, se ela existir mesmo. Mas será só isso. – Mas... – Nada de mas... Já acabamos a conversa. E se estiver grávida, então vou querer um teste de paternidade o mais rapidamente possível. Não vou pagar pensão para o filho de outro cara. – Nunca dormi com Wally. – Diga isso para alguém que se importe. – O problema era que esse alguém era ele. Mas ia superar. – Você sabe onde fica a saída. Assim que a porta do escritório se fechou atrás dela, ele girou em sua cadeira e pegou a guitarra. – O QUE é isto? – Um teste de gravidez. – Isso eu sei. Por que está fazendo esse teste? A mãe dela não a demitira por terminar com Wally, mas esta poderia ser a gota d’água. – Mãe, você veio me dar uma carona para o trabalho enquanto meu carro está na oficina, não para fuçar meu lixo ou me fazer um interrogatório. – Não fucei seu lixo. Isto estava na cesta de lixo do banheiro. Logo em cima. Está esperando um filho daquele homem? – Rex. O nome dele é Rex. E ainda não tenho certeza. – E o que fará se realmente estiver? – Não sei. Rex e eu vamos pensar nisso juntos. – Conheço um médico bem discreto... – Não vou abortar! – Prefere desonrar sua família tendo um filho fora do casamento? – Mulheres solteiras têm filhos o tempo todo nos dias de hoje, mãe. Não é nada demais. – Não terei um neto bastardo. – Mãe, você não terá escolha. Esta decisão é somente minha. – Uma decisão da qual se arrependerá. – Margaret saiu da casa, cheia de raiva, seguida por Juliana. O caminho para o trabalho transcorreu num gélido silêncio. Odiava esse tipo de tensão entre elas, mas nada disso teria acontecido se a mãe fosse uma pessoa aberta ou se Juliana tivesse declarado sua independência, anos atrás. – Mãe, acredite ou não, não fui naquele leilão com a intenção de te ferir. E gostaria de ter seu apoio em qualquer escolha sobre meu futuro. – Você não tem ideia de onde está se metendo, e está enganando a si mesma se acha que a ilegitimidade não terá repercussões negativas para você ou para a criança. Duas horas depois, Juliana se sentou em sua mesa no escritório com a terceira xícara de café descafeinado, que não tinha o mesmo efeito da bebida com cafeína. Finalmente, conseguira entender a planilha à sua frente quando Eric entrou, parecendo furioso.


– Diga-me que ela está errada. – Quem está errado e sobre o quê? – A mãe disse que o desgraçado te engravidou. – Você poderia fechar a porta, por favor? Ele o fez e, em seguida, voltou para a mesa dela com raiva. O que estava acontecendo com Eric? Seu irmão geralmente era frio e calmo, não importavam as circunstâncias. – Ainda não sei se estou grávida. – Ele vai se casar com você? – Ele diz que não. – Filho da mãe. Vou matá-lo. – Eric, há coisas que você não entend... Mas ele virou-se e saiu sem esperar pela explicação de Juliana. Isso não era nada bom. Juliana abriu a gaveta da escrivaninha, pegou a bolsa e saiu correndo do escritório. Não havia tempo para o elevador. Desceu correndo dois lances de escada e chegou ao saguão antes de se lembrar de que estava sem carro. Preocupada e em pânico, Juliana correu de volta ao seu escritório. – Heather, pode me emprestar seu carro? – gritou para a assistente. Heather ficou confusa, já que este era um pedido que Juliana jamais tinha feito antes. – Meu irmão vai matar meu... – Seu o quê? O que era Rex exatamente? – Meu amado, se eu não conseguir detê-lo – explicou Juliana. Heather achou suas chaves e as jogou por sobre a mesa. – Boa sorte. Honda azul. Terceira fila. Juliana correu pela cidade, pegando todas as luzes verdes e dirigindo bem acima dos limites de velocidade pela primeira vez em sua vida. O SUV de Eric era o único carro estacionado em frente ao Renegado. Juliana estacionou, saltou do carro e correu para dentro do bar. Ouviu um baque e um gemido vindo da direção do escritório de Rex e correu. Derrapou até parar no fim do corredor a tempo de ver Rex interceptar o punho direito de Eric. – Parem com isso! – gritou ela. Seu grito distraiu Rex por uma fração de segundo. O olhar dele se encontrou com o dela. Eric acertou-lhe um soco que chegou a torcer-lhe a cabeça. Rex cambaleou alguns passos e, em seguida, se endireitou. O sangue escorria de seu lábio inferior ferido. – Eric, pare. – Juliana saltou, colocando-se entre Rex e seu irmão. – Disse para parar. Apesar de querer ver como estava Rex e avaliar seus ferimentos, não tinha coragem de afastar os olhos de Eric no caso de ele tentar golpear novamente. Será que seu irmão tinha ficado louco? – Vou arrebentar você, seu filho... – Então vai me arrebentar também, Eric. Eu o amo. E não vou ficar parada enquanto você ou mamãe ou qualquer outra pessoa tenta prejudicar Rex por algo que é minha culpa. Sim, minha culpa – acrescentou ela quando os olhos de Eric se estreitaram. – Ouça a história toda antes de surtar novamente. Ela catou um lenço de papel na bolsa e pressionou o fio de sangue em Rex. Ele afastou a cabeça, mas aceitou o lenço. Não confiava nela nem para tocá-lo. Aquilo doeu. – Sinto muito. A culpa é minha. – Por que diabos diz isso? Este desgraçado usou você! – bufou Eric. – Não Eric, eu o usei. Comprei Rex e o seduzi. – Como se eu fosse acreditar nisso.


– Bem, devia, já que é a verdade. E você deve desculpas a Rex. – Imagine. Se ele é inocente, então por que não se defendeu? – Porque meu pai sempre dizia que, se você comete um crime, então é melhor ser homem o suficiente para aceitar o castigo. Dormi com sua irmã e, se ela está grávida, posso vir a ser o pai do filho dela. E não vou me casar com ela. Mereço a sua raiva. Pode vir. – Está louco? – Não mais. – Sinto muito, Rex. Realmente sinto muito que eu tenha te machucado. Nunca foi minha intenção. Volte ao trabalho, Eric – disse ela sem se virar. – Não sem você. – Vá. Irei logo em seguida. Depois de uma pausa, Eric saiu. – Sinto muito. Não sei o que está acontecendo com Eric. Normalmente ele é equilibrado. Vou avisálo assim que souber... Assim que souber se estou grávida ou não. – Não vou me colocar entre você e sua família, Juliana. Não importa o que venha a acontecer. Vou fechar o Renegado e voltar para a estrada. – Vai voltar a fazer turnês? – Meu antigo empresário me fez uma boa oferta esta semana. A sensação de perda brotou dentro dela. Se ele fosse embora, ela nunca teria a chance de fazê-lo mudar de ideia. – Deve fazer o que te faz feliz, Rex. E se é preciso vender o Renegado... Tenho alguns contatos através do banco. Vou tentar ajudá-lo a encontrar um comprador. As lágrimas começaram a brotar por trás de seus olhos e um soluço bloqueou sua garganta. Ela engoliu em seco para evitar, mas não conseguiu. – Mas você me ensinou que fugir não resolve nada. Se puder encontrar espaço em seu coração para me perdoar, para me dar uma chance de provar meu amor, então vou segui-lo a qualquer lugar. Largo meu emprego, se é que ainda tenho um, e vivo em um ônibus de turnê ou onde mais você desejar. Não me importo com o que minha família pensa. Quero que você seja feliz mesmo que não seja comigo. E então saiu rápida e silenciosamente, com a máxima dignidade possível, considerando que seu mundo tinha acabado de entrar em colapso. NINGUÉM PODERIA atuar tão bem. Nem uma vencedora do Oscar poderia fingir a dor que Rex enxergara nos olhos e ouvira na voz de Juliana. Ela queria que ele fosse feliz enquanto ela claramente não estava. Deixaria a família por ele, mesmo que sempre houvesse tentado agradá-los. Será que Juliana estava dizendo a verdade? Sobre a infância dela, a mãe dela, e tudo o mais? E se era verdade, o que fazer agora? Ele flexionou os dedos e a pele tensa de sua mão direita esticou, fazendo-o estremecer. A dor não vinha dos socos que evitara, mas das bolhas nas pontas dos seus dedos. A música jorrara dele desde que pegara Juliana com aquele almofadinha idiota. Mal conseguia comer ou dormir com as letras e melodias brotando de sua cabeça. Escrever canções era o que mais gostava, e, considerando os últimos quatro dias, não perdera o dom de compor e vender tantos discos. Por Deus, as músicas que escrevera desde que perdera Juliana eram


dez vezes melhores do que qualquer coisa que já fizera, porque sua alma estava entranhada naquelas partituras. Talvez Kelly estivesse certa. Talvez pudesse ter a música de volta sem ter de cair na estrada. Também poderia ter Juliana? Ela dizia que o amava. Será? Poderia uma patricinha sofisticada ser feliz com um zé-ninguém? O que ele podia oferecer a uma mulher que tinha tudo? – VOCÊ TEM visita – disse Danny da porta do escritório numa tarde de sábado. De novo não. – Não estou aqui. – Não é a Juliana. – Sei. Foi o que você disse da última vez. – É uma senhora mais velha. Venha logo, cara, ela está assustando os clientes. Rex levantou-se da mesa e seguiu Danny. Ouviu a voz do gerente dizer “Ele já está vindo!”, quase ao mesmo tempo em que reconheceu a visitante. A megera. A mãe de Juliana. – Senhora Alden. – Senhor Tanner. Poderia falar com você em particular? – Meu escritório é por aqui – guiou ele. – Sente-se. As cadeiras de couro, mesa e estantes caras eram relíquias de seus dias de glória em Nashville, e ele sabia que a sra. Alden tinha avaliado cada item segundos depois de cruzar o portal. Ela sentou-se na cadeira em frente a ele. – Pago o que quiser para parar de ver minha filha. – Já parei de ver Juliana, e pago minhas próprias contas. – Tomei a liberdade de verificar suas contas. Não vejo as reservas que você vai precisar para fazer o pagamento no prazo. – Isso é porque minhas “reservas” não estão em seu banco. Na verdade, vou fechar todas as minhas contas com o Alden, a começar pelo empréstimo. – Abriu a gaveta da mesa e retirou um cheque administrativo que fizera naquela manhã com o montante devido em sua conta. Graças à herança de seus pais, poderia pagar as dívidas. Também criara um fundo de recursos universitários para Becky e Liza. Deslizou o cheque na mesa. – Você me poupou uma viagem. Ela não pegou o cheque. – Cancelarei a dívida se me prometer que não entrará em contato com Juliana novamente. – E se ela estiver grávida de um filho meu? – Isso não precisa lhe dizer respeito. Nós lidaremos com isso. Ele respirou fundo. Como assim, elas lidariam com isso se Juliana estivesse grávida dele? Será que a megera pressionaria Juliana a tomar uma decisão da qual todos se arrependeriam depois? O fato da sra. Alden ser tão insuportável quanto Juliana dissera dobrou sua ira. Juliana não mentira sobre a mãe. Será que isso significava que não mentira sobre as outras coisas? – Senhora Alden, pode pegar o seu dinheiro e enfiar... – Senhor Tanner, não diga algo do qual você pode se arrepender. Só farei esta oferta uma vez.


– Senhora, você tentou vender sua filha, e agora está tentando me comprar. A minha opinião sobre a senhora não poderia ficar pior. Se tem metade de um cérebro na cabeça, então é melhor começar a pensar em sua filha, em vez de no seu banco desgraçado. – Como é? – Não é a mim que você precisa se explicar. É à Juliana. Suas atitudes estão afastando-a e você vai perdê-la se não mudar. A mulher que me comprou ficou sob seu jugo por trinta anos. Era só uma questão de tempo antes dela se cansar de sua ditadura e se rebelar. – Só quero o que é melhor para Juliana. – E você tem certeza de que isso eu não sou. O que poderia ser melhor para ela do que um homem que a adora e coloca o coração aos pés dela? Porque é isso que você e seus esquemas acabaram por criar. A sra. Alden ficou lívida, mas Rex ficou satisfeito em abalar a confiança dela. – O senhor ainda vai ouvir falar de mim, sr. Tanner. – Sim senhora. Provavelmente. Mas vou lhe dizer uma coisa. Se Juliana estiver mesmo grávida de um filho meu, a senhora não vai conseguir subjugá-lo, como fez com sua filha. Vou te mandar para o inferno primeiro. E isso é uma promessa. Pegou o cheque e o enfiou na mão dela, escancarando a porta de saída do escritório.


CAPÍTULO 11

OUTRA REFEIÇÃO intragável. Juliana desejou estar em qualquer lugar exceto o restaurante à beira-mar com a mãe. Acordara irritadiça e cheia de dores esta manhã, e ainda por cima fizera o segundo teste de gravidez com outro resultado negativo. Não sabia se ficava desapontada, aliviada ou se devia comprar um terceiro teste. Precisava saber antes de ter maiores esperanças. Ela e a mãe nunca tiveram um relacionamento do tipo com almoços de domingo, a menos que fosse para discutir negócios. Se a mãe dela a demitiria, Juliana queria que acabasse logo. Depois de quase uma hora conversando abobrinhas, Juliana só queria ir para casa e se enfiar na banheira de hidromassagem. – Mãe, por que estamos aqui? A mãe dela parecia desconfortável e insegura, como Juliana nunca vira antes. – Percebi que nem sempre estive ao seu lado, e nem sempre entendo a sua determinação em fazer as coisas da maneira mais difícil, mas não quero te perder, Juliana. O sr. Tanner disse que isso poderia acontecer. – Hein? O que o Rex tem a ver com isso? – Você é igualzinha a mim. Tão completamente focada na sua carreira e... – Mas não sou você nem quero. Sempre pensei que queria, mas, recentemente, percebi o quanto você perdeu da vida. – Juliana desejou não ter falado isso. – Sinto muito. Isso foi rude de minha parte. – E merecido, suponho. Perdi grande parte da sua infância e da do Eric. – Tivemos Irma. Mas teria sido bom ter você também. – Sim, talvez, mas tinha tanta coisa para provar... Naqueles tempos, uma mulher tinha de trabalhar duas vezes mais que um homem para manter-se no topo do mundo corporativo. – As coisas mudaram. – Em alguns aspectos, mas você ainda é tão ingênua quanto aos homens e quanto eu era, Juliana. – Não entendo. – Também fui uma jovem rica. Tive homens que disputavam a minha atenção. Deixei-me levar e me apaixonei. Duas vezes. E cada vez, percebi que não era a atração principal e meu coração se partiu. Estavam atrás do dinheiro do meu pai. Não queria que isso acontecesse com você.


– Talvez você devesse me dar um crédito por ter sido capaz de reconhecer os caras que queriam dar um golpe do baú. Já namorei uns e terminei com vários. Mas isso não explica por que você está tão determinada a me empurrar para um casamento com Wally. – Queria que você tivesse um casamento estável com base em compatibilidade profissional e financeira. Meu pai me arrumou um casamento adequado. Estava tentando fazer o mesmo com você e seu irmão para protegê-los da dor que passei. – Você não amava o papai quando se casou com ele? Nem um pouquinho? – Eu o respeitava e tínhamos muitos interesses em comum. Isso soou familiar e triste para Juliana. A relação que sua mãe descrevera era exatamente o tipo de jogo que Juliana e Wally tinham vivido, e se não tivesse conhecido Rex, provavelmente estaria agora escolhendo porcelana e prataria e se contentando com uma vida sem amor. Quase. Foi por pouco. – Se não o ama, então por que ficaram juntos por 38 anos? – Porque aprendi a amá-lo. Não tão ardentemente quanto você parece amar o sr. Tanner, mas confortavelmente. – Mãe, não quero viver dessa forma. Quero mais do que isso. – Juliana, você pode se machucar. – Já estou ferida. Não posso imaginar uma dor pior. Mas sabe o que mais? Faria tudo novamente. Quando você falou com o Rex? – Se sua mãe tinha falado com ele recentemente, então ele não tinha deixado a cidade. – Ontem. Eu tentei suborná-lo. – Você o quê? – Meu pai tentou comprar cada um dos homens que partiram meu coração, e eles levaram o nosso dinheiro. Foi assim que soube que eles não me amavam. Rex me disse exatamente onde eu deveria colocar a minha oferta para cancelar o empréstimo bancário dele. Um lugar bastante inadequado, aliás. – Você não deveria ter feito isso. – Agi de maneira obtusa, mas quero o que é melhor para você, minha querida, e achei que sabia o que era certo. No entanto, estava errada. Acho que o sr. Tanner, Rex, pode ser o homem certo para você. – Pode ser tarde demais. Margaret se esticou sobre a mesa e cobriu a mão de Juliana. – Nunca é tarde demais. E você é minha filha. Se tem certeza de que ele é o homem que quer, então vai encontrar uma maneira de reconquistá-lo. – Não é assim tão fácil. – Nada que vale a pena é. E se há um bebê em jogo, então teremos de superar as dificuldades. Com ou sem casamento. Vamos? Imagino que esteja ansiosa para entrar em contato com Rex. – Mãe, Rex ainda nem disse que me ama. – Então imagino que fazê-lo dizer isso seja sua prioridade. – A conversa parecia surreal. Juliana seguiu a mãe até o carro, de forma automática. Amanhã era segunda-feira, dia de folga de Rex. Será que ela se atreveria a tentar mais uma vez? Poderia fazê-lo entender que os fatos estavam todos contra ela?


HAVIA MOMENTOS em que Juliana desejava que a cortesia não tivesse sido inculcada nela desde que nasceu. Este era um desses momentos. Queria ignorar a campainha da porta e ficar encolhida no sofá com seu café com sabor de amêndoas e chocolate suíço. Um café que lhe consolava o coração. Não estava grávida. Disse que estava doente no trabalho, porque não sabia o que fazer com a dor decepcionante da descoberta que fizera depois do almoço com a mãe. Precisava conversar sobre seus sentimentos confusos com Andrea e Holly, e ligara para elas mais cedo, mas não estavam em casa. Ainda bem. O que ela poderia dizer agora? Como poderia explicar essas emoções tão conflitantes? A campainha tocou novamente, seguida por uma batida forte à porta. Relutante, largou a caneca, levantou-se e se arrastou com os pés descalços até a porta. Provavelmente era Eric ou seu pai verificando se estava tudo bem. Olhou pelo olho mágico e sua respiração ficou presa. Rex. Seu coração bateu mais forte e as palmas das mãos se umedeceram. Secou-as no short. O que ele queria? Você nunca vai saber se não abrir a porta. Ela deu uma olhada no espelho sobre a mesa da entrada e fez uma careta. Seu cabelo estava embaraçado e a pele pálida. Não se maquiara. Até seu esmalte estava lascado porque tinha mordiscado as unhas. Você está um desastre. Não havia tempo de se arrumar. Atrapalhou-se com a fechadura, virou a maçaneta e abriu a porta. O ar sumiu de seus pulmões. Rex parecia maravilhoso, alto e bronzeado com seu queixo reluzente após o barbear da manhã. Seu lábio ainda estava um pouco inchado do soco de Eric. – Bom dia, Rex. – Um cumprimento tão formal, quando tudo o que ela queria era enfiar os dedos pelo cabelo dele e beijá-lo até que ambos ficassem tontos por falta de oxigênio. – Bom dia. Posso entrar? – Claro. – Afastou-se da porta. Olhou para a garagem, porque não tinha ouvido o rugido da Harley e viu a caminhonete dele estacionada ao lado do carro dela. Duas motos estavam lado a lado na carroceria da caminhonete. Duas motos? O que era isso? – Não precisava vir. Ia te ligar mais tarde ainda hoje. Não estou grávida. – Sinto muito. – Sente muito eu não estar grávida? – Sim. Não. – Ele passou a mão pelo cabelo, bagunçando os fios do jeito que ela tanto queria fazer. – Sim. – Balançou a cabeça, parecendo tão perplexo com sua resposta, quanto ela. – Adoraria te ver grávida de um filho meu. E essas palavras não fizeram nenhum sentido, já que ele havia terminado com ela. O fato de que ele não havia pulado de alegria quando ela deu a notícia devia ser um bom sinal. – Como você se sente quanto a isso? Sobre não estar grávida? – perguntou ele com os olhos apertados. – Desapontada. – Por quê? – O que quer dizer com “por quê”? Ele diminuiu a distância, parando apenas polegadas de distância dela. A tentação de se esconder em seu peito largo e de enrolar os braços em torno dele a atormentava.


– Você quer ter um filho? Um filho meu? – Isso importa? – Importa para mim. – Sim. Sim, eu gostaria de ter um filho seu. – Vamos dar um passeio. – Ele acenou com a cabeça em direção à porta da frente. – Por quê? – Tenho algo que quero mostrar. Pensei que você poderia querer tentar a moto. Tenho uma só para você na traseira da caminhonete. – Preciso trocar de roupa. – Eu espero. Dez minutos mais tarde, ela se sentou na caminhonete, usando seus jeans de cintura baixa – porque eram os únicos que tinha – e uma camisa de popeline para fora da calça. Passaram-se horas antes que ele falasse. – Sua mãe foi me ver. – Eu sei. Sinto muito. Ela não quis te insultar. Realmente pensou que estava fazendo a coisa certa. – Sim – disse ele, parecendo mais divertido do que irritado. – E você a ganhou quando recusou o dinheiro. Rex, não sei como posso me desculpar o suficiente. Você viu o pior da minha família nesta semana. Eles... – Amam você – interrompeu ele. – Sim, acho que amam. Mas ainda assim... – Você tem sorte de tê-los. A tristeza em sua voz bateu forte no coração dela. Ela se aproximou e cobriu a mão dele no assento do banco. Ele virou a mão e abriu-a, entrelaçando os dedos com os dela. Esse simples gesto deu esperança a Juliana, que se agarrou a esse sentimento enquanto eles se dirigiam para fora da cidade. – Estamos indo para a fazenda? – Sim. Quando chegaram, Rex direcionou a moto dele por uma rampa estreita de metal da carroceria da caminhonete até o caminho de cascalho, e depois repetiu a ação com uma moto menor, azul brilhante. Enfiou a mão no alforje da moto e retirou um manual do proprietário. – Preciso ler antes de sairmos? – Não. – Rex jogou o manual longe e lhe entregou um conjunto de chaves e um capacete da mesma cor da moto. – Ela funciona da mesma forma que a minha, mas tem metade do peso. Experimente. Vamos dar algumas voltas pela fazenda. O medo e a emoção correram por suas veias quando afivelou o capacete e montou na motocicleta. A sensação de liberdade preencheu Juliana enquanto o vento soprava sua camisa e acariciava seu rosto. Acontecesse o que acontecesse, compraria uma motocicleta, e não voltaria a ser a mulher que deixava o medo de decepcionar seus pais governar sua vida. E deste momento em diante, essa era a vida dela e pretendia viver cada segundo dela. Juliana seguiu Rex por um portão aberto, dirigiu por um caminho e subiu uma pequena ladeira. A grama recém-cortada tinha um aroma delicioso. Quando ele parou e desligou o motor, ela juntou-se a ele e fez o mesmo. Ele tirou o capacete e desceu. Ela também. Por que ele havia parado aqui no meio deste pasto? – Este é um bom lugar para uma casa – disse ele.


– É um lugar bonito. – Estou comprando a fazenda e vou construir exatamente aqui. – Você não vai voltar a sair em turnês? – Não. Todos que eu amo estão aqui. – Tenho certeza de que Kelly e as meninas ficarão felizes. – E você? – Eu? Rex segurou os ombros dela. O olhar dele enfraqueceu-lhe os joelhos e fizeram seu coração bater mais alto. A esperança trouxe um nó à sua garganta. – Eu te amo, Juliana. Quero me casar com você e construir um lar. Bem aqui. – Rex colocou a mão em seu ventre e desenhou um círculo lentamente. – Quero ter muitos bebês com você. – Comigo? – Sim, contigo. Tenho um fraco por garotas boazinhas que querem ser más. – Eu gosto de ser má com você. – Bom. Porque eu estou com vontade de ser muito mau agora e pelos próximos cinquenta anos ou mais. – As mãos dele se enredaram no cabelo de Juliana e, em seguida, ele se apoderou de sua boca em um beijo profundo, roubando-lhe a alma. Juliana sentiu-lhe o gosto, a aspereza de sua língua e o calor de sua respiração. Ela se contorceu, enrolando os braços em volta da cintura dele e fundindo-se ao seu corpo quente. Ele levantou a cabeça e acariciou ternamente o rosto dela. – Deveria ter acreditado em você quando me falou sobre sua mãe e de sua infância. Mas nunca vou acreditar nessa história de você ser uma amante indiferente, fria, apática, insensível. Querida, você é a mulher mais sexy que já conheci. – E disso você entende. – Sinto muito por todas as outras mulheres. Mas juro que nenhuma delas me excitou tanto quanto você. – Não se desculpe, Rex. O seu passado foi o que fez de você o homem que amo. – Diga novamente. – Amo você. Você, meu rebelde teimoso. – E caso você esteja com medo da sua mãe estar certa quanto ao seu dinheiro... – Não estou. – E não tem de estar mesmo. Minha parte na herança dos meus pais foi suficiente para cobrir o empréstimo e dar uma entrada grande nesta terra. Se eu precisar mostrar a seus pais uma situação financeira... – Não vai ter de fazer isso. Já ganhou a confiança da minha mãe, o que era o mais difícil. Ela levantou na ponta dos pés e pressionou os lábios contra os dele. As grandes mãos dele cobriram as nádegas de Juliana, levantando-a e pressionando-a com força contra o volume sólido de sua ereção. O beijo foi longo, lento e intenso. Ela queria chorar de desejo com o erotismo desse beijo. As mãos dele correram debaixo da camisa dela, a pele áspera friccionando sua cintura. Ela arfou, recuou e agarrou sua mão direita. Bolhas em vários estágios de cicatrização cobriam as pontas dos dedos. – O que aconteceu?


– Amar você me encheu de música. Não consigo tocar tão rápido quanto meu cérebro constrói as letras e melodias. As palavras dele a tocaram profundamente. Juliana ficou com o coração apertado. – Jamais iria pedir-lhe para desistir disso. Eu disse em seu escritório. Se quiser voltar para a estrada, largo o meu emprego e te sigo onde for. Ele ergueu a mão e beijou-lhe os dedos. – Você adora o seu trabalho. Não quero que você pare. Percebi que o que amo é a composição das músicas. Não é estar no palco, nem as fãs, nem as viagens. Posso ficar aqui com você, tocar o Renegado e escrever canções para outras pessoas cantarem. De acordo com o John Lee, meu empresário, consigo ganhar dinheiro suficiente para cuidar de você e de todos os bebês que vierem. A mão dele alisou-lhe o ventre, criando um turbilhão de desejo. Ele caiu de joelhos na grama e enfiou a mão no bolso. O solitário de diamante que mostrou brilhou como fogo à luz do sol. Não era tão chamativo quanto o anel de Wally, mas era dez vezes mais bonito. – Case comigo, Juliana Alden. Deixe-me amá-la para sempre. Com os braços em volta do pescoço dele, Juliana deslizou o corpo para baixo, aos poucos, até se ajoelhar com ele na grama e, em seguida, o beijou, derramando todo o amor dela nessa carícia. Os braços dele se uniram em torno dela, que ergueu os lábios e olhou nos olhos do homem que amava. – Só com uma condição. Você tem de se livrar dessa ideia maluca de que deve me sustentar. Ganho um bom salário, e sou boa no que faço. Posso diminuir minhas horas de trabalho para passar mais tempo com nossos filhos, mas este casamento sempre será uma parceria. Vamos cuidar um do outro. – Combinado. – Então sim, Rex Tanner, me caso com você e passaremos o resto da vida juntos. Não consigo pensar em nada mais perfeito do que fazer música e filhos com você. Rex deslizou o anel no dedo dela e Juliana sorriu em meio a lágrimas de felicidade. Esqueça o comum. Esqueça o chato. A aventura de uma vida inteira apenas começara. Poderia ser má quando quisesse e seria bom demais.


Emilie Rose

VENDIDO PARA A REDENÇÃO

Tradução Ligia Chabú


Querida leitora, Em Vendido para a redenção, meu herói, o arquiteto naval Clay Dean, é um homem torturado por um segredo que o levou a sacrificar seu amor por Andrea Montgomery. Anos após o rompimento, um leilão de solteiros é a oportunidade perfeita para ela arrematar Clay e, assim, realizar três desejos: superar o passado, promover a paz entre Clay e o pai, e fazer com que ele se arrependa amargamente por tê-la abandonado. Essa é uma história sobre tentações proibidas entre duas pessoas que foram o primeiro e único amor de suas vidas. Mas em Vendido para a redenção há muitas passagens com o amanhecer. Afinal, todas as vezes em que o sol se levanta, uma nova oportunidade nasce para todos. Aproveite! Emilie


CAPÍTULO 1

– ESTE VAI voltar para mordê-la, Andrea. Por favor, escolha outro solteiro. O coração de Andrea Montgomery disparou violentamente. Ela sentia um misto de antecipação e medo. Deu um gole de seu champanhe, pôs sua tarjeta numerada de leilão embaixo do braço, então pegou a mão de sua melhor amiga e apertou-a. – Holly, não posso. Você sabe que tenho de fazer isso. – Comprá-lo é um erro. Lembra como você ficou arrasada quando ele partiu? Como se eu pudesse esquecer aquele tipo de sofrimento. – Isso foi no passado. Eu superei totalmente o que sentia por ele. – E ela superara. Sem dúvida. Como poderia não ter superado sentimentos por um homem que a enrolara por anos, então a dispensara sem lhe dar um motivo convincente? Andrea liberou os dedos de Holly e puxou a seda preta de seu vestido. O pouco tecido que havia no traje aderia-se a ela como uma segunda pele. O decote era absurdamente avantajado, e, se a abertura da saia, que batia nos tornozelos, fosse um centímetro mais alta, ninguém precisaria imaginar se estava usando calcinha ou não. Ela mudou de posição em seus saltos altos... a única parte do traje que gostava... e olhou para a multidão superexcitada, mulheres bem-vestidas consumindo champanhe de graça e dando lances em solteiros. Ninguém naquele clube de campo conservador sofria da mesma superexposição que Andrea. – O que você e Juliana estavam pensando quando escolheram este vestido? Por mais que eu adore roupas sexies, este vestido é um exagero. Não podiam ter escolhido alguma coisa mais sutil? Sutil é sexy. Óbvio é cafona. Eu me sinto uma prostituta cara. – Quando sedução é o nome do jogo, você usa armas pesadas – respondeu Holly. – Você está planejando deixar Clayton Dean de joelhos. Juliana e eu achamos que deveria fazer o papel de fêmea fatal. Clayton Dean. Ouvir o nome dele aumentou o nervosismo de Andrea. – Vocês se enganaram. Uma fêmea fatal seduz o homem em questão. Eu não pretendo revistar os lençóis com Clay. Ele teve sua chance, oito anos atrás, e jogou-a fora. E quantas vezes eu preciso lhes dizer? Não quero me vingar. Tudo que quero é mostrar a ele que não há ressentimentos. – Hã-hã. – Holly não fingiu esconder seu ceticismo.


Sua amiga a conhecia muito bem. – Certo, então eu não me importarei se ele sofrer um pouquinho pelo que poderia ter tido. Mas isso é tudo. Eu seria uma tola em entregar meu coração a ele novamente. – Concordo. Por isso, vou continuar repetindo, como um disco quebrado: Esta é uma má ideia. – Holly, eu vivi a humilhação de Clay me dispensando uma vez. Foi difícil engolir a piedade dos meus colegas de trabalho, da primeira vez. E, segundo sra. Dean, Clay ficará em Wilmington apenas até que o pai dele esteja bem o suficiente para retornar ao comando de Dean Yachts, e então, Clay vai voltar para a Flórida. Eu prometo não esquecer que isso é temporário. – Você está tentando arduamente se vender numa má ideia, sra. Diretora de Marketing. – Lembre que isso não é apenas sobre mim. Sem Clay, os negócios podem ter de fechar as portas temporariamente, deixando diversos funcionários e eu desempregados. Joseph Dean tem sido como um segundo pai para mim. Estou preocupada com o humor dele, desde o derrame, três semanas atrás. Ele e Clay precisam resolver a situação, antes que seja tarde demais. – A possibilidade de perder seu mentor causou um nó em sua garganta. Holly franziu o cenho. – E se pai e filho fizerem as pazes e Clay retornar para sempre? Ele será seu chefe. Você ainda amará seu emprego, então? Andrea encolheu-se. Como se já não tivesse muitas dúvidas sobre trabalhar com Clay. – Eu preciso seguir em frente. Não posso fazer isso enquanto não deixar o passado para trás. Sou um imã perdedor, Holly. Tenho de quebrar o ciclo, e para tal fim, preciso saber o que há de tão errado comigo que Clay e todos os homens com quem saí nos últimos oito anos me dispensam quando eu começo a acreditar que o relacionamento pode ser sério. Holly bateu um pé no chão, em irritação. – Quantas vezes eu preciso lhe dizer que não há nada errado com você? – Assim você diz. A atenção de Holly desviou-se para alguma coisa além do ombro de Andrea. – Espero que você tenha superado o que sentia por ele, porque Clay está bonito. Muito, muito bonito. Andrea engasgou com seu champanhe. Então pôs a taça na bandeja de um garçom que passava e preparou-se, antes de seguir o olhar de Holly para o outro lado do opulento salão de bailes do Caliber Club. Sua primeira olhada para seu ex-namorado lhe tirou o fôlego. Clay estava realmente bonito. Maravilhoso, na verdade. A última coisa que queria ou precisava era ainda achá-lo atraente. Os ombros dele estavam mais largos do que lembrava, e o terno insinuava músculos que ele não possuíra aos 23 anos. Um sorriso nostálgico curvou os lábios de Andrea. Ele podia parecer mais sofisticado, porém ainda não aprendera a domar o cabelo castanho. As mechas longas no topo se curvavam em desalinho, como costumava acontecer depois que eles faziam a... Ela reprimiu o pensamento instantaneamente. Ele não a avistara, e Andrea queria que aquilo continuasse assim... até que ela o comprasse. Um misto de antecipação e desconforto a envolveu. – Deixar o passado para trás vai valer cada centavo que eu ofertar no solteiro número 13, esta noite. Quero que isso acabe. Seja esquecido. – Se você diz. – A voz de Holly era duvidosa. – Eu sei que nossos fundos fiduciários nos serão úteis, um dia, mas não acho que nossos avós pretendiam que comprássemos homens... nem mesmo por uma


causa beneficente. Juliana certamente gastou uma fortuna em seu rebelde. Juliana tinha sido a primeira do trio inseparável delas a comprar seu homem. Andrea esperava que sua amiga muito correta pudesse lidar com o dono de bar motoqueiro rebelde. – Eu espero que dê tudo certo com aquilo. – Amém. Espero que nenhuma de nós se arrependa da bobagem desta noite. – Holly, nós combinamos... – Não, você e Juliana combinaram. Eu fui persuadida, mas estou dentro para o melhor ou para o pior. O martelo soou como um tiro. Solteiro número 12 saiu do palco para conhecer sua parceira, e as mulheres na audiência enlouqueceram em antecipação à próxima oferta. Ela cobriu as orelhas e imaginou se poderia desistir do plano tolo e fugir. Não poderia. Queria uma vida, e isso significava lidar com seu passado doloroso. O próximo solteiro foi anunciado. Seu solteiro. Clayton Dean. Andrea afastou uma mecha de cabelo do rosto. Claro, fingia que comprar e confrontar o homem que partira seu coração e sua confiança, oito anos atrás, ia ser fácil, mas por dentro, tremia inteira. Ela amara Clay, planejara se casar com ele, ter seus filhos e dirigir Dean Yachts ao seu lado. A partida abrupta dele quase a destruíra. E se seu plano desse errado? Andrea reprimiu as dúvidas. Não daria. Aos 30 anos, estava madura o bastante para encarar um exnamorado, sem fazer papel de tola. Ademais, planejara cada detalhe... da mesma maneira que planejaria uma grande campanha de marketing. Comprá-lo, consequentemente obrigá-lo a sete encontros, lhe daria sete oportunidades para: Impressioná-lo com sua experiência adquirida nos negócios. Tentá-lo, mas manter distância. Descobrir por que era tão fácil de ser abandonada. Tirá-lo de sua cabeça e de seu coração. As mulheres a sua volta berraram loucamente quando Clay tomou seu lugar no palco. Quem não queria uma série de encontros com um arquiteto naval bonito e ganhador de prêmios como designer de iates? Mas estava determinada que Clay seria seu. Temporariamente. Andrea apertou sua tarjeta numerada com tanta força que o suporte de madeira rachou. Um mau presságio? Sua pele arrepiou-se. Holly inclinou-se para mais perto e falou no seu ouvido: – Tem certeza de que você pode lidar com Sete Pores do Sol Sedutores com Clay? – É claro – replicou, mas pôs a mão livre atrás quando percebeu que seus dedos estavam tremendo. Então levantou sua tarjeta e deu seu primeiro lance em seu ex-namorado... o homem que, em breve, seria seu chefe. SE ELE não a amasse, ele a mataria. Clay olhou para sua mãe com raiva quando entrou no palco. Sorria, ele leu nos lábios sorridentes dela. Ele deu um sorriso falso para a multidão. Sua mãe poderia tê-lo avisado sobre o leilão de solteiros para caridade, mas não, planejara o pacote de encontros, pusera a foto dele no programa de leilão, e


então o forçara a aceitar aquilo no momento em que ele atracara. Clay tentara escapar do fiasco com uma doação generosa, mas quando Patricia Dean botava uma coisa na cabeça ninguém tirava, e decidira fazer seu único filho de tolo. Mas ele lhe devia uma, então acabara concordando. Como se ele já não tivesse trabalho suficiente com sua própria empresa, precisava assumir o controle da Dean Yachts até que pudesse contratar um diretor-executivo temporário. Isso significava trabalhar com Andrea, a gerente de marketing da DY, em bases diárias. A situação era lamentável. Ele não queria estar aqui... não de volta em sua cidade natal, nem neste palco, sendo leiloado como um iate comprado. Havia muitos destroços sob a ponte, muitos desapontamentos, muitas promessas quebradas. As mulheres gritavam sugestões libertinas, mas ele não balançaria suas mercadorias como um stripper para a audiência. Se outros solteiros quisessem fazer papel de tolo, tudo bem, mas ele não faria. Clay permaneceu parado sob as luzes, rígido como um mastro. Olhando para as mulheres histéricas, ele mentalmente desafiou qualquer uma delas a comprá-lo. E então ele a viu... Andrea... na multidão. O ar ficou preso em seus pulmões e um nó se formou em seu estômago. O que ela estava fazendo lá? Ele pensara que tinha até segunda-feira para preparar-se para revê-la. Ele a amara... quase o bastante para que fizesse vista grossa para a descoberta que abalara seu mundo. A luz de um refletor moveu-se para o palco, cegando-o. Os lances estavam embaraçosamente altos comparados com os dois últimos solteiros. Ele deveria estar orgulhoso por isso, mas não estava. Queria sair daquele palco. Os licitantes usavam tarjetas numeradas, em vez de gritarem valores, e ele não podia ver quem levantava os números, por causa das malditas luzes, portanto não tinha ideia quem ofertara o quê. O martelo bateu no pódio. – Vendido – gritou o mestre de cerimonias. – Venha coletar seu prêmio, número 221. Ótimo. Finalmente acabara... pelo menos a primeira parte de sua tortura. Clay vagou o palco, seus olhos se ajustando a semiescuridão na base da escada, a tempo de ver Andrea dar um cheque para a mulher atrás da mesa. Choque enrijeceu seus músculos. Andrea o comprara! Ele teve um vislumbre do cabelo loiro ondulado e olhos cor de caramelo, um segundo antes que o impacto visual do vestido preto dela quase o derrubou de joelhos. Os seios alvos estavam praticamente saltando fora do decote avantajado, uma abertura na saia que ia quase até o topo das coxas mostrava pernas longas e sedosas. Calor explodiu no sexo de Clay. Ela andou na sua direção, sorrindo-lhe com uma confiança que não tivera quando era sua namorada. – Olá, Clay. Vamos achar um canto tranquilo e combinar nossos encontros? – Esperem. – Uma mulher afro-americana, na casa dos 30 anos, chamou. Um homem alto, de pele clara, segurando uma câmera estava ao lado dela. A mulher fez um gesto de espremer com as mãos. Clay moveu-se para mais perto de Andrea. – Abracem-se, por favor. E sorriam. Clay cerrou os dentes num sorriso e pôs um braço em volta de Andrea. Sua palma encontrou pele desnuda. Faltava tanto tecido na parte traseira do vestido quanto na parte da frente. Fogo percorreu o corpo dele. Fogo que tinha de ser extinto. Imediatamente.


Andrea arfou, a ação movendo os seios praticamente fora do tecido preto brilhante. Clay não pôde evitar olhar para a pele cremosa ali. E a foto foi sacada, capturando seu olhar. Antes que ele pudesse pedir para o repórter tirar outra foto, Andrea se libertou, virou-se nos saltos altos e saiu andando, os quadris balançando sensualmente. Uau. Esta não era a mulher de seu passado. A Andrea que ele conhecera nunca usaria um vestido que faria um homem esquecer o próprio nome. Perturbado pela onda de desejo, ele meneou a cabeça e percebeu o sorriso presunçoso de sua mãe. Ela estava aprontando alguma coisa... algo que, sem dúvida, o faria se arrepender de ter voltado para casa, mais do que já estava arrependido. Clay seguiu Andrea em direção à porta. Depois do jeito como a abandonara, ele imaginara que o quereria morto. Por que teria ido resgatá-lo, esta noite? E quanto isso custaria a ele? – QUE JOGO você está fazendo, Andrea? – A voz profunda e familiar de Clay continha uma rispidez da qual Andrea não se lembrava. Seu coração disparou... não um disparo causado pela fuga apressada dos olhos espreitadores do lado de dentro. Ela alcançou o gazebo deserto no fim do píer de Cape Fear River, e desejou que pudesse continuar andando. Apesar das duas semanas de planejamento, não estava pronta para este confronto, mas respirou fundo e virou-se. Com as luzes do Caliber Club atrás dele, sombras escondiam a maior parte do rosto de Clay. As feições pareciam mais definidas do que oito anos atrás. Um raio da luz da lua refletiu nos olhos dele, tornando-os mais azuis do que ela lembrava. – Eu não tenho tempo para jogos, Clay. – Então, do que se trata isso? – Ele indicou o clube. – Uma viagem pela estrada da memória? – Uma mulher não pode salvar um velho amigo das massas famintas por dinheiro? – Velhos amigos. É isso que nós somos? Eles algum dia poderiam ser amigos novamente? Duvidoso. Mas ela poderia fingir, para conseguir o fechamento que precisava. – Eu espero que sim. – Então, isso é você sendo autossacrificada? O sarcasmo de Clay a fez enrubescer, relembrando-a de que havia sido uma princesa mimada quando deixara a cidade. Mas isso mudara. Ela aprendera a não contar com nada como garantido... como felicidade, promessas ou pessoas amadas. – Você tem um problema com isso? – Você nunca soube mentir. Há um tremor em sua voz. Fale, Andrea, por que está realmente aqui? Ela amaldiçoou sua agitação e pigarreou. – Nós temos de trabalhar juntos. Então, qualquer coisa que facilitar a sua vida, facilita a minha. Salvá-lo daquilo – gesticulou em direção ao clube –, pareceu uma coisa boa a fazer. – Você está alegando que isso é sobre trabalho? – Mais sarcasmo. Ele não comprou sua história. Ela não poderia culpá-lo.


Andrea suspirou em resignação. Aquilo não estava indo tão bem quanto ela imaginara. Esperara que ele ficasse grato, não desconfiado. – Eu preciso saber que posso contar com você para não sair da companhia, até que Joseph esteja recuperado. – Eu tenho meus próprios negócios para dirigir. Ficarei até que a firma de caçadores de talentos que contratei localize um diretor-executivo substituo, e então vou embora. – Você não pode entregar a Dean Yachts para um estranho – protestou. – Seu pai... – Meu pai não tem nada a dizer sobre isso – interrompeu ele, ferozmente. Ela esforçou-se para fazê-lo entender. – Os médicos esperam que Joseph se recupere de oitenta a noventa por cento do derrame. As faculdades mentais dele estão claras, mas o vigor não é o mesmo que costumava ser. Ele somente concordou em ficar fora do escritório, enquanto se recuperava, por saber que você estará aqui. Uma brisa suave de junho moveu as laterais do decote do vestido, quase desnudando os seios. O olhar de Clay foi para a área em questão. Os bicos salientes pressionando o tecido causaram uma pulsação em seu sexo. – Eu não lhe pedi um relatório médico. – Clay moveu-se mais para as sombras. No escuro, ela não poderia ler sua expressão. – Pois deveria ter pedido – replicou Andrea. – Ele é seu pai. Em alguns meses, ele voltará ao trabalho, a menos que você o obrigue a voltar antes e arriscar a saúde. Dê-lhe tempo para se curar, Clay. Ele enfiou as mãos nos bolsos e virou-se, presenteando-lhe com suas costas largas. O barulho das tábuas estalando no píer e da água se movendo com os barcos quebrou o silêncio, mas os sons familiares não tiveram seu efeito calmante usual. Pergunte-lhe por que ele partiu. Mas ela não poderia. Não ainda. Porque não tinha certeza se estava pronta para ouvir a resposta. E se ele lhe contasse alguma coisa horrível, e então tivesse de encará-lo diariamente pelos próximos meses? Mas obteria tal informação antes que Clay fosse embora. Andrea suspirou e tirou alguns fios de cabelo de seus lábios exageradamente brilhantes... graças as suas amigas. Juntou-se a Clay no parapeito, e o aroma cítrico da colônia dele chegou a ela com a brisa. Memórias lhe vieram à mente. Memórias de uma noite como esta. Noite da formatura do ensino médio. A pequena cabine do barco dele. Fazendo amor pela primeira vez. Conhecendo-lhe o corpo enquanto ele conhecia o seu. Pare. Andrea reprimiu as lembranças. Certo, então ainda achava Clay fisicamente atraente. Mas isso não significava que cederia a tal atração. Tinha sido ferida muito profundamente para que confiasse nele novamente. Foque-se no seu plano, Andrea. No que você é boa... seu trabalho. E o resto virá. Ela respirou fundo. – A Dean Yachts tem um acúmulo de pedidos pendentes. Você terá de mergulhar fundo, se quiser que mantenhamos nosso plano de produção. Seu pai lhe dirá tudo que você precisa saber. O maxilar de Clay enrijeceu. – Eu não preciso da ajuda dele. Ela deu um suspiro frustrado.


– Talvez não, mas Joseph precisa que você peça isso. Ele está deprimido, e mais do que um pouco abalado por ter chegado perto da morte. Está ansioso para ter você em casa. Clay virou a cabeça e encontrou-lhe o olhar. Andrea nunca o considerara inflexível ou implacável no passado, mas os traços dele revelavam tais características agora. – Eu atraquei o barco em Dean. Vou ficar morando temporariamente lá. – O pessoal da segurança não me notificou. – Mamãe liberou o espaço para o barco antes de eu chegar. Sra. Dean nem a segurança tinham informado Andrea, o que era estranho, uma vez que ela estava, não oficialmente, no comando, no momento. Mas então, sra. Dean vinha agindo de maneira estranha desde que deixara escapar que Clay estava vindo para casa, e chegando a tempo de participar do leilão. Mas Andrea se preocuparia com isso depois. – Você vai a casa para ver seu pai, não vai? – Não. Outra onda de frustração envolveu-a. – Clay, Joseph precisa da família por perto. – É um pouco tarde demais para ele começar a pensar na família – replicou ele, em tom amargo. – O que isso significa? – Clay permaneceu silencioso, e a curiosidade de Andrea aumentou. O que tinha acontecido oito anos atrás para causar aquele desacordo? – Nunca é tarde demais para uma pessoa se desculpar. Ele estreitou os olhos. – É isso que você quer? Um pedido de desculpas? Andrea arfou. Como se um pedido de desculpas fosse consertar o que ele fizera. – Eu não estava falando sobre mim, e sim sobre você e Joseph. Ele é seu pai, Clay. Acorde. Você poderia tê-lo perdido. Use esta oportunidade para acertar as coisas entre vocês, antes que seja tarde. Talvez, não tenha outra chance. – Você não sabe o que está falando. – Então, me explique. Ele bufou. – Você não entenderia. – Tente. – Isso acabou, Andrea. Esqueça. Se apenas ela pudesse esquecer, mas mesmo agora, a proximidade de Clay a perturbava. Andrea deu alguns passos trêmulos ao longo do cais, cuidando para que seus saltos não prendessem entre as tábuas. – Caso você esteja preocupado, não estou interessada em continuar de onde nós paramos. Mas temos de trabalhar juntos, Clay. Eu preciso do seu apoio na frente do staff. – Você o terá. – Ele aproximou-se. – Minha mãe diz que você vem dirigindo a companhia, sozinha, pelas últimas três semanas. Era respeito que ouvia na voz dele? – Eu faço o que posso, mas nós temos mais de mil empregados. Tem sido um esforço de equipe. – Por que vocês não podem continuar sem mim? – Porque pessoas esperam que um Dean esteja no comando da Dean Yachts, e precisamos de alguém capaz de coordenar todas as equipes envolvidas em produção. Eu não posso fazer isso. – Ela pausou. – Sobre estes encontros... não espero, nem quero, o romance prometido em seu pacote de leilão.


– O pacote de leilão de minha mãe – corrigiu ele. – Eu não tenho nada a ver com isso. Ela planejou a coisa toda. Fui só um fantoche. Por que aquilo não a surpreendia? – Tanto faz. Quero que nós tenhamos um relacionamento civilizado, que mostremos aos outros que não guardamos rancores. Reputação é tudo, e não quero que rumores sobre desacordos dentro da companhia se espalhem, ou que a DY perca bons negócios. Se você tiver algum problema comigo ou com meu trabalho, então eu preferiria que os mantivesse para si mesmo, até que estejamos longe de olhos espreitadores. Clay praguejou. – Sinto muito se magoei você. Se nós pudéssemos voltar atrás... Se ele a magoara? Andrea deu uma risada sem humor e levantou uma mão, interrompendo-o. – Você ainda iria embora? Ele passou os dedos pelo cabelo, então exalou o ar. – Sim. De alguma maneira, ela conseguiu não gaguejar sob o impacto daquela resposta. Clay não podia imaginar o quanto ele a ferira e a humilhara, oito anos atrás. Ela jamais daria a ele... ou a qualquer outro homem... o poder de fazer isso, novamente. – Isso é tudo que preciso saber. Até segunda, Clay.


CAPÍTULO 2

ATRAVESSAR A calçada larga que levava do cais a Dean Yachts na segunda-feira de manhã era como voltar para casa. Mas lar era um lugar ao qual Clay não pertencia mais. Erguido sobre uma colina gramada, com vista para Cape Fear River, o prédio da divisão de vendas e marketing parecia mais uma casa de praia cara do que os escritórios principais da Dean Yachts. Ao chegar às portas da frente, Clay virou-se. Deste ponto de vantagem, podia ver a operação inteira. Uma série de prédios de metal azul, numa variedade de formatos e tamanhos, espalhava-se ao longo de uma seção uns oitocentos metros da propriedade em frente ao rio. Cada prédio hospedava um estágio específico de produção, e Clay trabalhara em cada um deles no começo de sua adolescência. Seu avô e seu pai acreditavam em aprender sobre os negócios desde pequeno. Durante a ausência de Clay, murais de diversos modelos da Dean Yachts tinham sido pintados nas laterais externas das estruturas, dando a impressão de um desfile de barcos de tamanho natural se dirigindo ao porto. Estaleiros, alguns cobertos, outros não, sobressaíam-se da margem da praia. Os atracadores possuíam iates quase completos. A menos que as coisas tivessem mudado em oito anos, o cais que ficava atrás do escritório de vendas era reservado para terminar barcos que estavam esperando para ser entregues. Ele e outro ocupavam os atracadouros. Clay percorreu o olhar pelo complexo novamente e tristeza o inundou. Uma vez se orgulhara em saber que, um dia, tudo isso seria seu. Porém, não mais. Tinha perdido tudo quando fugira da verdade. Reprimindo a memória amarga, e o resultante senso de raiva, traição e desapontamento, ele abriu a porta de vidro, entrou na área de recepção e parou. Nada parecia igual. O que havia sido uma entrada utilitária, agora era um salão luxuoso. Luz do sol se infiltrava pelas janelas, lançando faixas brilhantes no piso de madeira. Um balcão graciosamente curvado substituíra a velha mesa de metal, e, atrás deste, uma parede de vidro bloqueava o corredor largo que levava aos escritórios. A jovem sentada atrás do balcão olhou para cima e sorriu-lhe amplamente. – Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo? – Eu sou Clayton Dean. O sorriso esvaiu-se, e ela sentou-se ereta.


– Um momento, por favor. Eu avisarei sra. Montgomery que você está aqui. Sente-se, enquanto espera. Ela indicou cadeiras de couro contra a parede. Outra mudança. – Não é necessário. Eu a encontrarei. A mulher levantou-se e bloqueou seu caminho. – Sinto muito, sr. Dean, mas terá de esperar até que sra. Montgomery libere sua entrada. – O quê? – Você precisará de um passe de segurança. – Ela apertou um botão num dispositivo atado ao cinto, e falou baixinho em seu microfone quase invisível: – Sr. Dean chegou. Ele entrara na Zona do Crepúsculo? Quando partira, oito anos atrás, a empresa não tinha qualquer segurança além de trancar os prédios de noite, e uma ocasional patrulha do carro do xerife. Esta manhã, a porta dos fundos mais perto do cais... a entrada que Clay usara desde que era criança... estivera trancada, e ontem, ele vira diversos membros da equipe de segurança, quando saíra para levar sua motocicleta à oficina e alugar um carro. Eles tinham ligado para sua mãe, antes de deixá-lo passar pelo portão. – Ela já está vindo, sr. Dean. – A recepcionista sorriu. Clay não podia se sentar. Este prédio continha muitas memórias. Boas e ruins. Um movimento o fez olhar para a parede de vidro. Andrea vinha ao longo do corredor. Seu traje verde era totalmente profissional. O cabelo loiro estava preso no topo da cabeça, revelando o pescoço longo e alvo. A mulher elegante a sua frente era a antítese da garota insegura que ele deixara para trás. Uma parte do vidro abriu-se. – Obrigada, Eve. Eu assumo daqui. Bom dia, Clay. Por favor, venha comigo. Andrea o fitou brevemente, então voltou para o caminho de onde viera, antes que ele tivesse a chance de responder. Ele olhou para a curva dos quadris femininos, enquanto a seguia pelo corredor. Sentiu o perfume dela. Era um aroma floral do qual ele se recordava. Uma fragrância sedutora. Clay amaldiçoou sua reação. Reacender a velha chama estava fora de questão. Ele não poderia ficar em Wilmington e encarar a mentira que continuava corroendo-o em bases diárias. Seu pai mantivera sua palavra? Clay não podia perguntar, e duvidava que recebesse uma resposta honesta, se perguntasse. Como poderia confiar em qualquer coisa que seu pai dissesse? Como poderia confiar em si mesmo, com este DNA? Seus músculos enrijeceram quando ele se aproximou do escritório de seu pai. Lutando para controlar as emoções, Clay pausou no corredor, quando memórias o assaltavam. A última vez que andara por este lugar, estivera no topo do mundo. Tinha voltado para casa da Universidade de Nova Orleans um dia mais cedo, a fim de pedir que seu pai o acompanhasse para ir comprar o anel de noivado de Andrea, então abrira a porta sem bater, e seu mundo desmoronara. Determinado a enfrentar outro fantasma de seu passado, Clay forçou-se a entrar na sala. Todos os móveis do escritório... inclusive o maldito sofá em que Clay encontrara seu pai fazendo sexo com a mãe de Andrea... haviam sido substituídos por peças clássicas de aparência cara. Ele capturou o olhar reservado de Andrea. Ela sabia o que acontecera ali, debaixo de seu nariz? Ela e a mãe sempre tinham tido um relacionamento invejavelmente próximo, o tipo que Clay nunca compartilhara com seu pai. Se Andrea não soubesse sobre o caso, ficaria tão desapontada pelo comportamento da mãe como ele ficara pelo de seu pai. Ele não faria isso com ela. Gesticulou a cabeça em direção à porta.


– Por que toda essa segurança? – Estamos protegendo nossos bens. Nossos iates básicos custam um milhão de dólares. A maioria dos modelos que construímos excede tal valor. Não podemos arriscar vandalismo ou roubo. – Ela gesticulou para que ele sentasse atrás da mesa de madeira, e bateu num maço de papéis. – Eu preciso que você leia e assine estes papéis. Ele permaneceu de pé, mas levantou as páginas e leu alguns parágrafos. Surpreso, olhou-a. – O que é isto? – Uma cláusula de não concorrência. Nada que você ver ou descobrir aqui pode ser usado para competir contra os designs de Dean. – Você está brincando. – Não, não estou. Você é um arquiteto naval, com sua própria firma de design, mas temporariamente, é um empregado aqui. Temos de tomar precauções para que nossas ideias não sejam pirateadas. Fúria inundou Clay diante do insulto a sua ética. Ele lutou para contê-la. – Espera que eu dirija a companhia, mas isto – ele balançou os papéis –, diz que você não confia em mim. Ela ergueu o queixo. – Essa é uma decisão profissional, Clay. Emoção não entra nisso. Amargura o preencheu. Não era ele o traidor em sua família. – Ideia do meu pai? Um brilho desafiador surgiu nos olhos de Andrea. – Não. Minha. Aquilo extinguiu a raiva de Clay como nada poderia ter feito. Ele não tinha direito de reclamar. Ganhara a desconfiança de Andrea. Folheou as páginas, assinou no lugar indicado e passou o documento para ela. Andrea assentiu. – Eu deixei o resumo dos pedidos atuais e papéis com informações, para você se familiarizar de novo com a companhia, em sua caixa de entrada. Sugiro que dê uma olhada nos documentos até que Fran, sua assistente administrativa, chegue. Ela começa às 9h. A sala dela é por aqui. – Ela abriu uma porta num canto da sala. Andrea gesticulava enquanto falava, fazia pouco contato ocular, mas ele notou o leve tremor das páginas que ela segurava. Outra onda de arrependimento o envolveu. – Quando Fran chegar, fará seu cartão de identificação e o combinará com os equipamentos de segurança necessários. Você terá de passar seu cartão para acessar as áreas controladas e o portão da frente. Nós temos uma entrega amanhã e outra na próxima semana. Ambas estão anotadas em sua agenda. Há muita propaganda sensacionalista atada às celebrações de entrega. Novamente, Fran lhe dará os detalhes. Eu o levarei num tour pela área de produção, às 15h. Meu escritório é onde costumava ser, se você precisar de mim. – Ela se dirigiu à porta. – Andrea. – Clay esperou que ela virasse. – Eu não trabalharei aqui. Meu escritório é lá fora. – Ele apontou para a grande janela com vista para a água. The Expatriate, aquele com seus próprios designs, atracado no cais, nos fundos do escritório de vendas. Ela arqueou as sobrancelhas. – Espera que eu vá até o cais toda vez que precisar falar com você?


– Ou isso, ou você liga no meu celular. – Ele tirou um cartão da carteira e anotou o número de seu celular ali. Passou para ela, e seus dedos se roçaram. O contato o atingiu como um raio. – Verei se consigo mandar instalar uma linha telefônica no seu barco. – Você disse que o nome de minha assistente é Fran. Sua mãe trocou de cargo? – Não. Mamãe não trabalha mais aqui. Saiu anos atrás. Ótimo. Um fantasma a menos para enfrentar. DIA UM. Seis horas bem-sucedidas atrás de si, e mais três, incluindo o tour de Clay, antes que Andrea pudesse dar o dia por encerrado. Enquanto ela ia para o “escritório” de Clay no cais, depois do almoço, olhou para as linhas elegantes do grande barco. Era bonito. Hábito e bons modos fizeram-na remover os saltos antes de acessar a rampa para o barco de Clay, para evitar danificar o deck dele. Andrea geralmente reservava seus trajes mais finos para celebrações de entregas de barcos. Quando um cliente comprava um iate, o pessoal do departamento de vendas oferecia ao mesmo uma refeição com champanhe. Não havia um evento hoje, mas ela tivera um ataque de vaidade, esta manhã, sabendo que era o primeiro dia de Clay no trabalho. Antes de entrar nos prédios da produção, naquela tarde, a fim de apresentar Clay aos gerentes da área, teria de pegar seus sapatos com solas de borracha de baixo da mesa. Andrea avistou Clay através da porta de vidro que levava ao salão. O notebook dele estava aberto e ignorado num canto da mesa da cozinha, enquanto ele folhava brochuras familiares... brochuras que ela designara. Uma combinação de ansiedade e orgulho a percorreu. A Dean Yachts tinha progredido muito depois que ele partira, e Andrea sentia-se orgulhosa por ter sido instrumental na mudança. Velhas práticas aprendidas na escola ainda reinavam sobre tecnologia moderna no departamento de produção, mas isso era porque trabalho manual nos barcos era característica da empresa. Não havia produção em massas ali. Todavia, Joseph lhe permitira atualizar o jeito como eles interagiam com o público. Ela despejara seu coração no site da companhia, na área de recepção, nos escritórios e nas brochuras que estavam nas mãos de Clay. Ela bateu no vidro e Clay levantou a cabeça. Os olhos azuis prenderam os seus, momentaneamente impedindo-a de respirar. Controle-se. Ele levantou-se e atravessou o cômodo. Andrea não pôde evitar notar que a camiseta polo branca realçava os ombros largos e o peito musculoso. Não era justo que ainda o achasse tão atraente, depois de tudo que sofrera por ele. Mas superaria isso. A porta se abriu, e ela pigarreou. – Posso entrar? Precisamos discutir a imagem que queremos passar para a repórter. Entendo que estamos em horário de trabalho, e não deveríamos discutir assuntos pessoais, mas tenho planos para esta noite. Planos que incluíam sorvete de chocolate e telefonemas estratégicos para Juliana e Holly, suas parceiras do esquema do leilão. Também precisava se certificar de que Holly... que estivera relutante sobre toda a ideia do leilão de solteiros... tivesse comprado o bombeiro que Andrea e Juliana haviam escolhido do programa para ela. Sem mover um músculo, de alguma maneira, Clay pareceu mais cauteloso.


– Que repórter? – Você não sabia que o jornal local vai acompanhar cada casal pela duração do pacote de encontros? Ele afastou-se da porta. Andrea entrou e fechou-a. – Não. Minha mãe me sequestrou assim que atraquei. Passei a tarde de sábado tirando medidas para um terno, e cheguei ao clube minutos antes de entrar no palco... muito atrasado para ler as regras. Mamãe não me contou sobre o repórter, nem sobre o que o meu pacote envolve. Tudo que sei é o que ouvi o mestre de cerimônias falar para a multidão. Olhando em volta da cabine, Andrea sentou-se na cadeira de couro cinza e gesticulou para o notebook. – Você tem acesso à internet? – Sim. Sem fio. – Posso? – Ele assentiu, e ela digitou um site. Segundos depois, leu em voz alta: “A moça sortuda que ganhar o solteiro número 13 receberá o prazer de Sete Pores do Sol Sedutores, incluindo um passeio numa carruagem antiga através da parte histórica da cidade, passeio a cavalo numa praia local, um jantar a bordo de um barco, um passeio num balão de ar, jantar e dança em Devil’s Shoals Steakhouse, um dia de aventura navegando e uma fogueira particular na praia”. Clay estava praguejando baixinho? Ela não tinha certeza, porque ele virou-se e andou para a geladeira. Um segundo depois, voltou e estendeu-lhe uma garrafa de água. – Você está disposta a abrir mão dos encontros? Eu reembolsarei o que você pagou pelo pacote. – Tente explicar isso para a repórter. Publicidade negativa. Ele enrijeceu o maxilar. – Não há como escapar disso? – Sair comigo não costumava ser um sacrifício. – Andrea censurou-se mentalmente. Por que estava mostrando seu ego ferido? – Não, não era. Engolindo em seco, ela aceitou a água. – Mas isso foi no passado. Agora, somos dois profissionais que podem ganhar publicidade positiva em nossos respectivos negócios, se conduzirmos a situação de maneira apropriada. – É disso que se trata para você? Um truque publicitário? – Isso e uma oportunidade para que nós deixemos o passado para trás e sigamos em frente. – Ela gesticulou para o salão e a cozinha. – Aqui é... aconchegante. Clay inclinou o quadril contra o balcão da cozinha e cruzou os tornozelos. – Isso é porque aqui é lar. – Para você, quer dizer. Ele meneou a cabeça. – Eu moro no The Expatriate. – Permanentemente? – Ela não pôde esconder sua surpresa. – Sim. Andrea olhou ao redor, à procura de sinais de um ocupante feminino no barco. – Nós precisaremos de um passe para que qualquer outra pessoa entre a bordo? – Eu moro sozinho. Alívio inundou-a... um alívio que ela não deveria sentir. – Você alguma vez teve um lar? Além do barco, quero dizer.


Eles uma vez tinham falado sobre comprar uma casa na praia, com uma longa extensão de areia, na qual seus filhos e cachorros correriam. Andrea comprara a casa, mas faltavam as crianças e os cachorros. Tendo recentemente completado 30 anos, decidira que se quisesse que aqueles fatores mudassem... e queria... então precisava agir. – Eu tive um apartamento sobre a marina, logo que mudei para Miami – respondeu Clay. – Depois que projetei e mandei construir meu primeiro iate, me mudei para o barco. Vivo na água desde então. – Isso certamente facilita para mudar. – Ela mordeu a língua imprudente quando viu os olhos dele endurecerem. – Facilita para partir, você quer dizer? Seja agradável. Não comece uma briga. – Não foi isso que eu disse. – Você quer tirar as luvas? – Perdão? O olhar de Clay desceu de seu decote V para seus pés descalços, então voltaram a encará-la. Um friozinho de excitação percorreu a barriga de Andrea. – Você está apertando os dedos das mãos, e até mesmo curvando os dos pés. Está querendo brigar, Andrea? – É claro que não. – Ela detestava que ele podia lê-la tão facilmente. Exalando devagar, ela afrouxou seu aperto na garrafa de água e relaxou os pés. Quando você perdeu o controle deste encontro? Faça o que veio fazer e vá embora. – Precisamos de uma estratégia para nossas entrevistas. É importante esconder qualquer tensão entre nós de Octavia Jenkins. Ela é uma repórter de cidade pequena, com aspirações de cidade grande, e disposta a cavar sujeira, quando necessário. Ele estreitou os olhos. – Você tem sujeira escondida? Além de um relacionamento com um cliente da DY? – Eu? Não. Minha vida é um livro aberto. E a sua? Ele hesitou. – Não pessoalmente. O que aquilo significava? Pela primeira vez, Andrea imaginou se alguma coisa, que não ela, levara Clay a sair de Wilmington. Mas não. Tinha de agir conforme os fatos que conhecia. A mãe de Clay talvez acreditasse na história que ele saíra de casa porque não se dava bem com o pai, mas Andrea não acreditava nisso nem por um segundo. Os homens Dean costumavam discutir com frequência. Todos diziam que era porque eles eram muito parecidos. Mas o elo deles era forte, apesar das discordâncias. Clay bebeu de sua garrafa de água. – Andrea, nós fomos namorados. Se Jenkins é tão ambiciosa como você diz, não terá dificuldade em descobrir isso. – Não. Mas não é como se isso fosse novidade para qualquer um que importa. As sobrancelhas dele se uniram. – Quão agressiva ela é? – Eu não sei. Por quê? – Que tipos de segredo ele tinha? Ele apenas meneou a cabeça, em resposta.


Andrea afastou-se do computador e olhou para baixo da escada de escotilha. O quarto de Clay. Sua pulsação acelerou. Por que estar a dez passos da cama de Clay ainda mexia com ela? Andrea não pretendia voltar para a cama dele. Mas uma velha dor preencheu sua barriga. Nostalgia. Nada mais. Ignore isso. Precisava ir embora de lá, apesar de eles ainda não terem combinado uma história para contar a Octavia Jenkins. – Mais tarde, conversaremos sobre a repórter. Eu tenho uma reunião em alguns minutos. Vejo você em uma hora, para o tour pelos prédios da produção. CLAY FECHOU seu celular, e passou uma mão sobre o rosto. A jornalista persistente estragara seu plano de adiar os encontros com Andrea pelo máximo de tempo possível. Se os caçadores de fortuna de Miami encontrassem logo um diretor-executivo temporário, então ele poderia voltar para casa, sem cumprir sua parte do acordo no leilão. Covardia? Provavelmente. Mas ele não sabia se poderia sair com Andrea, passar horas com ela, a luz de velas e de uma fogueira, e partir novamente. Não, não era mais apaixonado por ela, mas Andrea ainda o atraía muito para sua paz mental. Apaixonar-se outra vez seria muito fácil. Mas nada mudara. Na verdade, sua inabilidade de ficar com uma mulher mais do que alguns meses, desde que abandonara Andrea, reforçava o fato de que, talvez, ele fosse como seu pai, e incapaz de fidelidade. Consultou seu relógio. Droga. Estava atrasado para sua reunião com Andrea. Pegou os óculos de segurança, requeridos em qualquer lugar da propriedade, exceto por este cais e pelo prédio de vendas, e saiu do iate. Andrea o encontrou no fim da calçada. Como uma mulher podia parecer atraente em grandes óculos de segurança e sapatos com solas de borracha? Mas Andrea parecia. Clay colocou os óculos. – Desculpe o atraso. Telefonema. Você pode mudar seus planos para esta noite? – Por quê? – perguntou ela. Ele acompanhou-a através do portão de segurança e em direção ao primeiro prédio de metal. – Porque a repórter está exigindo uma entrevista para discutir nosso primeiro encontro. Isso significa que precisamos ter um, a menos que você queria ignorá-la. – Não podemos fazer isso. – Ela puxou o lóbulo. Anos atrás, esse era um sinal de que Andrea estava desconfortável. Ainda seria? – Suponho que eu poderia mudar meus planos. – O jantar a bordo tem uma vaga esta noite. Onde você mora? – Tenho uma casa em Wrightsville. Uma onda de tristeza o envolveu. Oito anos atrás, eles haviam discutido comprar uma casa na praia. – Eu a apanharei às 19h. O barco sai às 19h30. Preciso de instruções sobre como chegar a sua casa. – Eu preferiria encontrá-lo lá. Isso nos dará mais tempo para nos arrumarmos. A porta do prédio se abriu, antes que ele pudesse responder. Andrea cumprimentou o homem, então, voltou-se para Clay. – Você se lembra de Peter Stark, não é? Ele é nosso gerente de produção agora. – Prazer em revê-lo, Peter. – Clay ofereceu a mão. O homem hesitou antes de apertar sua mão, deixando claro que Clay não era bem-vindo, sem ser diretamente rude.


O banho de água fria não deveria ter surpreendido Clay, mas surpreendeu. Peter tinha sido seu mentor desde a primeira vez que Clay colocara os pés na DY. A aliança do homem claramente pertencia a Andrea, agora. – Como estão as coisas, Peter? – perguntou Andrea. – Tudo no prazo, exceto por aqueles gabinetes. A madeira sofisticada que o dono pediu ainda não chegou. – Eu farei... – Andrea parou e olhou para Clay, como se percebendo que aquele seria o trabalho dele, agora. – Você pode ligar para o distribuidor e verificar se a madeira está a caminho, quando voltarmos para o escritório? – Poderíamos nos virar com mogno – insistiu Pete. – Meu avô sempre diz, “O cliente não está pagando para que nós nos viremos. Ele está pagando para que façamos o que ele pede”. – Sim, bem, a madeira está atrasando todo o trabalho. – Eu checarei isso, mais tarde. Se a madeira não estiver a caminho, nós cancelaremos o pedido e compraremos de um de meus fornecedores. – Seu pai não gostará disso – desafiou Peter. – Nós lidamos com essa firma há vinte anos. – Meu pai não está dirigindo a empresa no momento. Eu estou. Se uma firma não pode fazer uma entrega, acharemos uma que possa... assim como nossos clientes farão, se não lhe dermos o que eles pedirem. Se a espera está atrasando tudo, passe outro pedido na frente deste. Eu me certificarei de que o cliente entenda o atraso. A cena se repetiu, enquanto eles circulavam a fábrica e Clay cumprimentava pessoas familiares. Os empregados se dirigiam a Andrea. Ela os redirecionava para Clay. No momento em que eles saíram dos prédios, Clay se perguntou por que sua mãe lhe suplicara para voltar. Os funcionários confiavam em Andrea. Não confiavam nele. Considerando que Clay deixara a cidade, em vez de viver uma mentira ou arriscar trair Andrea do jeito como seu pai traíra sua mãe, tal falta de confiança esfregou sal numa ferida aberta.


CAPÍTULO 3

SE OS encontros deles eram necessários, Clay decidira escolher o menos romântico do pacote, primeiro. Quão íntimo um tour de três horas num barco carregando quatrocentas pessoas podia ser? Ele seguiu Andrea e a anfitriã para o salão principal de Georgina, onde as mesas estavam repletas de famílias, incluindo crianças barulhentas. Jantar com ela naquele ambiente seria como jantar com um cliente. Eles talvez até tivessem de compartilhar uma mesa com estranhos. Mas, em vez de levá-los a uma das mesas para oito pessoas, a anfitriã parou na frente de um elevador de vidro e aço, localizado na popa do navio. Eles entraram no cubículo. Clay teve um vislumbre do segundo andar, enquanto o elevador subia. O restaurante ali era parcamente iluminado. Um DJ ocupava um pequeno palco. A maioria dos clientes parecia jovens universitários. Nada com que ele não pudesse lidar. Mas o elevador continuou subindo, até chegar ao terceiro andar. Clay percebeu que se parabenizara rapidamente demais. O sol se pondo no horizonte enviava um brilho dourado sobre o átrio coberto de vidro do deck superior. Não mais do que uma dúzia de mesas para dois... bem espaçadas... ocupavam a área cercando uma pista de dança. No final desta, um trio de músicos ocupava um pequeno palco. As portas do elevador se abriram, e o som do saxofone os cumprimentou. Clay aprendera a gostar de jazz durante seus anos de faculdade, em Nova Orleans, mas jazz sensual, combinado com Andrea num vestido preto sexy, punha em risco seu plano de manter o encontro em bases profissionais. – Sr. Dean? – A anfitriã segurou as portas abertas. Seu tom de voz implicava que não era a primeira vez que o chamava. – Eu gostaria de acomodá-los. Com um senso crescente de desconforto, Clay seguiu Andrea e a anfitriã para uma mesa de canto. Sem multidões. Sem crianças barulhentas. Sem distrações. Muito íntima. Eles se sentaram. A mesa era tão pequena que ele poderia estender o braço e pegar-lhe a mão, se quisesse. O que não queria. Uma garçonete serviu seus copos com água, prometeu voltar com o champanhe e partiu. – Não o que você estava esperando? – perguntou Andrea. Como ainda podia conhecê-lo bem, depois de oito anos?


– Eu não sabia o que esperar. Minha mãe fez os arranjos para cada encontro. Tudo que faço é escolher o dia e a hora. – Ele deu um gole da água. – Este barco turístico não estava aqui, quando parti. – Não. Os donos o compraram dois anos atrás, como parte do projeto de renovação do centro da cidade. – Muitas mudanças aconteceram. – E não somente em sua cidade natal. Deveria ser impossível que Andrea estivesse mais linda hoje do que no vestido de sereia do leilão, mas estava. Luz do sol brilhava naquele cabelo solto cor de mel, a maquiagem era sutil, porém sensual, e o vestido preto de seda tinha um decote baixo, mas não revelava nada, exceto o fato de que estava usando sutiã, apenas insinuando as curvas deleitosas que havia por baixo do tecido. Os motores do barco ganharam vida. Clay saboreou a vibração. Alguns preferiam navegar no silêncio, mas ele gostava do barulho poderoso de um motor. O barco manobrou para fora do cais e começou a subir o rio. Clay focou-se na vista segura da praia, em vez de na vista mais perigosa da mulher a sua frente. Os pinheiros no banco do rio eram muito diferentes das palmeiras e edifícios altos em frente à praia de Miami. Ele se acostumara tanto com vidros, tijolos e construções modernas que esquecera como a natureza podia ser impressionante. O verde-escuro do topo das árvores e as camadas de vermelho e amarelo no banco do rio pareciam uma pintura. A garçonete retornou, serviu o champanhe e desapareceu, deixando um balde de prata com gelo sobre a mesa. Andrea deu um gole do seu drinque, e olhou o cenário através do vidro. – Wilmington nunca será tão cosmopolita quanto Miami, mas está se modernizando. Clay ignorou seu champanhe. Se quisesse passar a noite sem arrependimentos, era melhor manter a cabeça clara. Calculou sua chance de evitar a pista de dança e contato corporal, e decidiu que era quase zero. Andrea adorava dançar. Ela até mesmo aprendera dança de salão nas aulas de educação física na faculdade. – Por que você foi ao leilão? – perguntou ele. Ela piscou e hesitou, antes de responder: – Além do fato de que sua mãe e Juliana eram organizadoras do evento, e de que Holly, Juliana e eu fossemos informadas de que nossa presença era obrigatória? Ele suspeitara que a participação de sua mãe naquele fiasco aparecesse, mais cedo ou mais tarde. Ela colocara Andrea nisso? Parecia provável. Sua mãe costumava adorar Andrea, mas se estivesse sendo casamenteira, ficaria desapontada. – Sim, além disso. Andrea deu de ombros, chamando atenção para os braços e ombros levemente bronzeados. As alcinhas do vestido não cobriam muita pele. – Holly, Juliana e eu fizemos 30 anos, este ano, e ganhamos controle sobre nossos fundos fiduciários. Não precisamos do dinheiro, porque trabalhamos e temos um bom salário, mas decidimos investir um pouco e doar o resto para uma boa causa. O leilão beneficente pareceu uma ideia divertida. Ela continuava com as mesmas amigas do ensino médio. Clay cortara suas amizades quando partira da cidade, porque não quisera ninguém lhe contando quem Andrea escolhera para substituí-lo. Qualquer um de seus amigos, na época, teria ficado ansioso pela oportunidade. – Suas amigas também compraram homens? – Sim. Conte-me sobre sua empresa – disse ela depois que a garçonete serviu as saladas e retirou-se.


– Seascape me recrutou durante a faculdade. Rod Forrester, dono e projetista de iates, queria alguém que pudesse comprar a firma, quando ele estivesse pronto para se aposentar. Eu me candidatei como estagiário, e ele me ensinou o lado prático dos negócios, que a Universidade de Nova Orleans não podia ensinar. Rod aposentou-se no ano passado. – Seascape está indo bem? – Muito. Rod tinha uma cabeça mais aberta do que meu pai. Eu jamais teria ganhado os prêmios por design inovador trabalhando na Dean Yachts. – Havia amargura em sua voz. Os olhos cor de caramelo de Andrea o estudaram por longos segundos. – Seu pai não tem mais a cabeça tão fechada, hoje em dia. – Eu gosto das mudanças que vi. De quem é o crédito por desenraizá-lo do passado? – Meu. Eu disse a seu pai que ou nós nos modernizávamos ou ficaríamos para trás. Ajudou quando os negócios cresceram com nossas despesas em marketing, validando assim minha insistência por mudança. Andrea subiu mais um pouco em seu conceito... algo que não deveria acontecer. Ela conseguira fazer seu pai teimoso mudar de ideia, algo que Clay nunca fora capaz de fazer. Clay e seu pai haviam discutido sobre ideias “modernas”, e todas as sugestões de Clay tinham sido descartadas. A banda começou um ritmo acelerado e outros casais foram para a pista de dança. Clay fez o possível para ignorá-los. Não podia ignorar o balanço sutil do corpo de Andrea no ritmo da música. Ela olhou diversas vezes para os dançarinos, enquanto acabava sua salada. Ele se sentiu cruel. Andrea pagara uma pequena fortuna por aqueles encontros, e merecia alguma recompensa pelo dinheiro gasto. Dançar com ela seria difícil para ele, mas poderia lidar com isso. Levantou-se. – Vamos dançar? Andrea levantou a cabeça e o fitou com surpresa por um momento. Então curvou os dedos nos seus. Uma corrente elétrica percorreu o braço de Clay. Ele conduziu-a para a pequena pista, descansou uma mão na cintura delgada e entrelaçou os dedos da outra nos dela. Andrea deu um passo para o círculo dos seus braços e encaixou-se lá como se nunca tivesse saído. Ele esquecera como era bom senti-la em seus braços. E não queria lembrar agora. Procurou um assunto para distraí-lo. – Conte-me sobre a entrega de amanhã. – O serviço de bufê chegará às 11h. Um almoço com champanhe será servido ao meio-dia. A festa dura quanto tempo durar. A essas alturas, o cliente dá as ordens. Às vezes, eles ficam lá por horas ou dias, enquanto se familiarizam com o funcionamento de tudo. Use um terno, amanhã. – Certo. – Ele girou-a sob seu braço. Ela voltou para seu abraço sem um único passo em falso. Como nos velhos tempos. O aroma feminino preenchia seus sentidos. Foco no trabalho. – Eu ainda não tive tempo de olhar a programação. Quem é o cliente? Um sorriso dançou nos lábios dela. – Toby Haynes. Clay franziu o cenho. – O piloto de corrida de carro? – Sim. Esse é o terceiro barco Dean dele.


A notícia de que o famoso playboy de NASCAR estaria na empresa no dia seguinte distraiu Clay do roçar das coxas de Andrea contra as suas, mas não o bastante para conter sua reação de puxá-la para mais perto, sabendo que apenas alguns centímetros e um tecido fino o separavam da pele desnuda de Andrea. Ele culpou a abstinência por sua reação. Ele terminara com Rena cinco meses atrás, depois que ela tivera um acesso de raiva, quando ele lhe dera um colar de safira em vez de um anel de noivado, no Natal. Clay não a enganara, porque lhe dissera, desde o começo, que não estava procurando casamento, mas o rompimento desagradável deixara um gosto amargo em sua boca. Ele não saía com uma mulher desde então. Uma lista de pedidos de designs de barcos mantinha suas noites ocupadas. Clay olhou para a mesa. A comida... e sua desculpa para escapar... não tinha chegado. – Clientes que retornam são bons. O sorriso terno de Andrea o perturbou. – Sim, e Toby é sempre divertido. Ele gosta de participar do estágio de produção, e, uma vez que cada barco leva quase um ano para ser completado, nós o vemos muito. O staff fica ansioso pelas visitas dele. Andrea também ficava ansiosa pelas visitas dele? O estômago de Clay se contorceu com o pensamento. Pare com isso, homem. Você perdeu o direito sobre ela oito anos atrás. Mas ele não podia negar o ciúme que sentiu, e isso o irritou. Ele girou-a novamente, mas não estava concentrado nos passos. Desta vez, deu um passo à frente, quando deveria ter recuado. E colidiu com Andrea. Cada célula do seu corpo ganhou vida. Seria tão fácil esquecer, temporariamente, os demônios que o tinham mandado embora. Andrea arfou. Eles se entreolharam. A respiração dela roçava seu queixo. A música continuava, mas Clay não conseguiu se libertar da atração magnética para retomar a dança. Segurar Andrea nos braços era como voltar para casa. Seus lábios encontraram os dela, sem que ele tomasse uma decisão consciente de beijá-la. Desejo feroz percorreu suas veias enquanto ele provava o gosto familiar da boca de Andrea. Como podia lembrar-se do gosto dela, depois de todo esse tempo? Ela derreteu-se em seus braços, correspondendo ao beijo com paixão. Um gemido escapou da garganta de Clay. Mãos pequenas se abriram em suas costas por baixo do paletó. O roçar das unhas dela foi como um fósforo em madeira seca, inflamando-o. Ele segurou-lhe os quadris, puxando-a para mais perto. Um som preencheu seus ouvidos. Sua própria pulsação? O vento? Aplauso. Clay afastou-se num sobressalto. Os casais a sua volta aplaudiam a banda que terminara uma música, mas diversas pessoas que estavam jantando davam sorrisos na direção de Clay e Andrea. Droga. Ir para casa era um erro. Ele não podia apagar o passado, e, certamente, não queria revisitálo. Jamais sobreviveria se seu coração fosse partido uma segunda vez. OH, DEUS, eu não o esqueci. Sim, você o esqueceu. Andrea discutiu silenciosamente com a voz em sua cabeça. Seus hormônios lembraram. Isso era tudo.


Tinha superado seus sentimentos por Clayton Dean. Totalmente. Ela deu um passo atrás, mental e fisicamente separando-se do homem e das memórias, enquanto dizia a si mesma que sua libido estivera hibernando. Era bom saber disso, uma vez que ela achara que não possuía mais libido. Ela respirou fundo e lutou contra a vontade de cobrir seu rosto quente. – Nosso jantar está esperando – murmurou. A fisionomia fechada de Clay não revelava nada. Ele gesticulou para que o precedesse para a mesa. Andrea atravessou o salão sob pernas instáveis. Um dia. Um único dia, e seu plano já estava falhando. Onde tinha errado? Condenou seu corpo traidor por ter ignorado seus planos cuidadosamente traçados. Ela deveria fazer Clay desejá-la, e não vice-versa, mas não podia negar que o desejava. Todavia, Andrea se recusava a ceder ao desejo. Se ele esperasse retomar, temporariamente, o relacionamento físico que eles tinham compartilhado, oito anos atrás, ficaria desiludido. A palavra temporário não existia mais em seu vocabulário. Andrea queria para sempre, desta vez. Mas não com Clay. Jamais confiaria nas promessas dele, novamente. Ao se sentar à mesa, ela piscou em surpresa. Quando as pequenas luzes brancas delineando a moldura do átrio haviam sido acesas? Ela estivera muito envolvida com Clay para notar. As luzinhas brilhantes davam a impressão de eles estavam jantando sob um céu estrelado. Romântico. Romântico demais. Porém, escapar do barco era impossível, uma vez que eles estavam no meio do rio Cape Fear, e pular na água não seria uma boa ideia. Andrea, disfarçadamente, consultou seu relógio. Mais duas horas pela frente. Determinada a devotar sua atenção às costelas, abriu seu guardanapo no colo. – Eu devo me desculpar. Ao som da voz rouca, Andrea levantou a cabeça. Arrependimento preenchia os olhos azuis de Clay, e por alguma tola razão, aquilo a magoou. Ela esperara que ele subitamente percebesse que cometera um erro, deixando-a, e declarasse seu amor eterno? É claro que não. Queria um fechamento da história, não um recomeço. Precisava de um homem com quem pudesse contar, um que não a desapontasse. Clay abandonara suas responsabilidades e a abandonara, sem olhar para trás. Ela forçou um sorriso e uma leveza na voz. – Desculpar-se por um beijo? Imagine, Clay. Nós compartilhamos centenas desses no passado. Mas trabalhando juntos agora, portanto, não mais disso, certo? ENQUANTO CORRIA para se manter em forma, Clay pensava em sua ginástica mental para evitar um confronto que não poderia levar a nada, além de problema. Seus pés batiam no solo, enquanto seu cérebro buscava uma solução. Esta manhã, ele fugira da Dean Yachts, de Andrea parada sozinha no deck dos escritórios de venda, com uma caneca nas mãos e o rosto erguido em direção ao sol. Ele fugira da memória de incontáveis auroras que eles tinham compartilhado no deck de sua velha chalupa, e da vontade dolorosa de passar mais tempo com ela. Fugira do jeito casual que ela descartara um beijo que o virara do avesso.


Seus pulmões queimando e o suor escorrendo por seu corpo disse-lhe que ele exagerara na corrida. Virando-se, começou a voltar, e estava pegando o caminho de acesso para a DY quando o som de um helicóptero se aproximando quebrou o silêncio da manhã. O helicóptero estava indo em direção ao heliporto, que ficava ao lado do prédio de vendas... outra adição nos últimos oito anos. Quem poderia ser? O cliente deles era esperado para dali quatro horas. Clay chegou ao estacionamento, quando três passageiros do sexo masculino, cada um carregando sacolas de lona, desceram do helicóptero. Um deles acenou, e Andrea, ainda no deck do prédio de vendas, acenou de volta. Mesmo a distância, Clay podia ver o sorriso no rosto dela. Andrea costumava lhe sorrir assim. O pensamento abalou-o. – Andi! – O visitante acenando falou alto o bastante para ser ouvido sobre os rotores, e Clay fez uma careta. O sujeito não devia saber como ela detestava o apelido, mas o sorriso de Andrea ampliou-se, e ela começou a andar em direção ao heliporto. Clay acelerou os passos. Andrea encontrou os visitantes no meio do gramado. O homem liderando o grupo largou a sacola no chão, envolveu-a num abraço, tirou-lhe os pés do chão, e então plantou um beijo nos lábios sorridentes de Andrea. Clay quase tropeçou, tomado por uma onda de ciúme que não tinha o direito de sentir. Andrea não era sua. Nunca mais poderia ser sua. Então, ele reconheceu os convidados e seu desconforto aumentou. Toby Haynes e seu cortejo. Com o braço do garoto de NASCAR ainda em volta de sua cintura, Andrea cumprimentou os outros homens, antes de se virar na direção dos escritórios. Ela avistou Clay e seu sorriso desapareceu. Clay fechou a distância entre eles, enquanto o helicóptero levantava voo. Uma vez que o barulho morreu, Andrea disse: – Clay, conheça Toby Haynes, Bill Riley, o capitão dele, e Stu Cane, seu primeiro marinheiro. Rapazes, este é Clayton Dean. Ele substituirá o pai, hoje. Haynes o olhou de cima a baixo e ofereceu um aperto de mão. – Ei, cara. Como está seu pai? Os músculos rijos de Clay não tinham nada a ver com sua corrida. Ele não gostava do braço do homem em volta de Andrea. E não sabia como responder à pergunta de Haynes. Andrea ajudou-o. – Joseph está se recuperando bem. Ele lamenta não poder estar aqui hoje, mas ligará mais tarde, se Patricia deixá-lo chegar perto do telefone. Ela está tentando fazê-lo desligar-se do trabalho. Ele tem permissão de um único telefonema por dia. O estômago de Clay se contorceu. Seu pai ligara todos os dias desde sua chegada, e Clay se recusara a atender os telefonemas. – Quero muito ouvir Joe – disse Haynes. – Não será o mesmo, sem ele aqui. O que havia com este homem e apelidos? Ninguém chamava seu pai de Joe. – Você chegou adiantado – observou Clay. Para onde tinha ido sua famosa diplomacia? O sorriso de Haynes não vacilou. – Eu não pude esperar. Tinha de ver meu barco. Sorte eu não ter aparecido ontem à noite, quando nós chegamos. O motorista gesticulou a cabeça em direção ao cais. – De quem é aquele lindo barco, que está atrás de Checkered Flag 3?


– Meu – replicou Clay. – Muito bonito? Quer exibi-lo? Ele não queria, mas os Clay’s Designs era seu negócio próprio. Gostos pessoais não entravam nisso. – Deixe-me tomar um banho, primeiro. – Não precisa se embelezar por minha causa, Dean. Andrea estava entre eles, observando a troca. Cautela e alguma coisa que ele não podia identificar preenchiam os olhos dela. – Toby, ainda tenho muita coisa para fazer. Vocês podem esperar lá dentro, ou posso chamar Peter para lhes dar um tour no Checkered Flag 3. Clay não permitiria que Haynes babasse sobre Andrea pelas próximas quatro horas. – Eu cuidarei dos nossos clientes. – Até mais tarde, anjo. Dean júnior cuidará de nós. Faça suas coisas, mas não se embeleze muito. Meus olhos não aguentariam se você ficasse mais linda do que já é. Clay cerrou os dentes com tanta força que seu maxilar doeu. Certamente, Andrea não caía naquela lábia do playboy? – Eu adoraria um tour, Dean. Começando com o seu barco. Depois o meu. Clay engoliu as emoções borbulhando em seu interior. Ele é um cliente. – Você parece um homem que aprecia um iate de alta performance. Vamos entrar a bordo. Haynes andou ao seu lado. Os outros dois homens os seguiram. – Belo barco. – Meu melhor design até hoje – respondeu Clay. – Foi construído por uma firma em Key West. Ele falou sobre as especificações do barco, enquanto levava seus visitantes indesejados por um tour dentro do iate, então fora. Quando eles chegaram à proa, Haynes bateu na capa de fibra de vidro que batia na altura de sua cintura. – O que é isto? – Minha moto. – Clay tirou a capa branca para revelar sua Harley. Ele comprara a motocicleta para celebrar a compra de Rod. – Eu uso um turco hidráulico para colocá-la em terra firme. Haynes passou a mão ao longo do metal frio da moto, como se estivesse acariciando uma mulher. Não um pensamento que Clay quisesse entreter. – Incrível. Meu barco pode ser equipado para uma destas? – Claro. – Com que rapidez? – Eu teria de checar com a equipe de produção, e precisaríamos das especificações de sua moto. A capa é feita sob medida. – Eu tenho duas semanas. Programei tirar esse tempo de folga para estar com Andi, de qualquer maneira. – Os músculos de Clay enrijeceram. – Quero você na equipe de design do meu próximo barco. Seu design e a qualidade da DY farão um barco espetacular. Clay não estaria lá, mas não havia razão para revelar tal detalhe. Ele cobriu sua moto. – Fique à vontade e sirva-se de qualquer coisa que houver na geladeira. Depois do banho, ligarei para Pete, a fim de ver se podemos acomodar sua agenda. Haynes esperou que os outros homens circulassem o estibordo, então, virou-se e parou, bloqueando o caminho de Clay. – Ela é especial.


– Eu estou feliz com The Expatriate. – Estou falando de Andrea. Clay permaneceu silencioso. Não foi fácil. – Mas um jovem tolo feriu-a um tempo atrás, então agora ela é receosa. Um punho de ferro esmagou o coração de Clay. – Esse jovem tolo fui eu. Haynes sorriu. – Eu sei. A maioria dos seus funcionários estão aqui há muito tempo. Eles viram como você a machucou, e são protetores em relação a Andrea. Nenhum deles é tímido sobre avisar o homem errado para ficar longe dela. Nem pense em recomeçar de onde você parou, Dean. Eu estou tentando seduzir Andi há três anos, e não pretendo perder esta corrida. Ela será minha. Clay enfureceu-se com o desafio, porém, ao mesmo tempo, sentiu-se culpado pelo embaraço que causara a Andrea. Ela estivera trabalhando em Dean por um ano, quando ele a deixara, e não havia segredo do amor deles, antes disso. Os funcionários sabiam que ele planejara se casar com ela, e que não tinha feito isso. Mas o que ele poderia ter feito? Não poderia ter ficado diante de um altar, prometendo ser fiel a Andrea até que a morte os separasse, sabendo que duas pessoas naquela igreja zombavam de tais votos e de tudo no que ele acreditava. Se o casamento “perfeito” de seus pais era uma mentira, então no que ele poderia confiar? Ficar em Wilmington significara mentir por seu pai, ou revelar a verdade sólida e partir os corações das duas mulheres que ele mais amava... sua mãe e Andrea. Então, Clay fugira, porque sair da cidade levando o segredo sujo machucaria menos as duas mulheres, a longo prazo, do que a traição de seu pai e da mãe dela faria. Não, percebeu Clay, ele não podia ter Andrea, mas não permitiria que esse piloto de corrida a magoasse. Pelo que ele lera em revistas de esportes, Haynes não tinha relacionamentos sérios. Apenas relacionamentos de curta duração. Andrea merecia um homem que a amasse para sempre. – Se você não a conquistou até agora, Haynes, então não tem o que é necessário para isso. É hora de você mudar seu carro para outra pista de corrida.


CAPÍTULO 4

POSICIONADA ENTRE o homem que ela uma vez amara e o homem que acreditava que poderia amar, Andrea lutou para manter as mãos e a voz firmes. Esta era sua primeira entrega de barco sem Joseph, e seu mentor estava contando com ela para fazer tudo certo. Ela não o desapontaria. Graças a Deus, a maioria do trabalho tinha sido feito com antecedência, porque concentrar-se nos detalhes da celebração era quase impossível sob as circunstâncias. Como ela podia se concentrar no seu discurso ou na apresentação da bandeira assinada por cada funcionário que trabalhara no barco de Toby, com Clay colado a sua lateral? Ele poderia ficar mais perto do que aquilo? A colônia masculina, um delicioso misto de limão e sândalo, permeava o ar que ela inalava. As mãos e quadris deles se tocavam, e a pulsação de Andrea estava loucamente acelerada. E como ela poderia evitar comparar os dois homens, quando Toby parecia determinado a se espremer entre ela e Clay? Ambos os homens eram magros, altos e musculosos, mas era onde as similaridades acabavam. O cabelo castanho-escuro e olhos azuis de Clay eram muito diferentes do cabelo loiro e olhos acinzentados de Toby. Toby levava sua carreira como piloto a sério, porém não muito mais. Ele era uma boa companhia, para dar risada e se divertir. Enquanto Clay... o novo Clay... parecia sério sobre tudo. Onde estavam os sorrisos fáceis e sedutores dele? Não que ela quisesse ser seduzida, mas o jeito intenso que ele a olhava agora lhe causava um calor... bem, no corpo inteiro. Droga. Atração por Clay não era parte de seu plano. Seus sentimentos por cada um dos homens eram tão diferentes. Ela amara Clay cegamente e sem reservas... do modo que somente os jovens podem amar. Seus sentimentos por Toby eram mais maduros, mais cautelosos. Andrea aceitava que ele não era perfeito, e ele parecia disposto a aceitar o que ela podia dar. Não que ela lhe dera muito, até agora. Embora Clay e Toby sorrissem e parecessem corteses enquanto discutiam os elementos do iate, havia uma tensão inegável entre os dois. Eles obviamente não se gostavam, mas por quê? Andrea olhou de um homem para o outro, procurando pistas. Interpretando seu olhar como um sinal de encorajamento, Toby circulou seu quadril, afastando-a de Clay. Ele bateu a taça de champanhe na sua e murmurou:


– Com Júnior aqui para lidar com a companhia, você pode tirar suas férias, afinal de contas, Andi. Eu vou deixar o barco aqui para que alguns acessórios sejam colocados nele, mas você e eu poderíamos ir para Bahamas, festejar a noite inteira e passar o dia na cama. O coração de Andrea disparou, mas não com a antecipação que ela esperara sentir. Não ousou olhar por sobre o ombro para ver o que Clay achava daquele convite. Toby não falara especialmente baixo e, sem dúvida, todos ao redor tinham ouvido. Uma onda de emoções confusas a percorreu. Toby era atraente, e quando ele a beijava, ela sentia... alguma coisa. Não explosões, mas os beijos dele eram agradavelmente estimulantes. Meses atrás, ela aceitara o convite para passar duas semanas com ele, depois da entrega do iate, porque pensara que, talvez, eles pudessem ter um futuro, juntos. Não eram amantes ainda, mas se Joseph não tivesse tido um derrame, isso teria mudado esta noite. – Andrea é necessária aqui – disse Clay num tom tão autoritário que deixou Andrea alerta. Ela não pretendia sair da cidade. Na verdade, assim que soubera sobre o prognóstico de Joseph, ligara para Toby e o informara de que precisava cancelar a viagem, porque não poderia deixar Dean na mão. Mas o fato de Clay exigir que ela ficasse... indignou-a. Ela considerou discutir, mas não ia viajar, então, para quê? Com o retorno de Clay e a descoberta de que ele ainda a atraía, ela não ia se comprometer num relacionamento íntimo com Toby, no momento. Recusava-se a ir para cama com um homem, quando outro monopolizava seus pensamentos. Tinha de exorcizar Clay antes que pudesse seguir em frente. Ademais, necessitava realizar as tarefas que estabelecera para si mesma quando decidira comprá-lo. – Você pode nos dar licença por um momento, Toby? – Ela segurou o bíceps de Clay, e sentiu o calor queimando sua palma através da camisa dele. Precisou de muita concentração para conduzi-lo até o canto do salão, sem que seus joelhos cedessem. Assim que eles chegaram lá, ela removeu a mão e mudou a taça fria de champanhe para sua palma quente. – Minhas férias estão agendadas há meses. Se eu quisesse tirá-las, poderia. – Pensei que suas prioridades tivessem mudado. Onde está sua lealdade para com meu pai? – Onde está a sua? – Como ele ousava questionar sua dedicação? Raiva escureceu os olhos de Clay. – Eu estou aqui, não estou? E ansioso para partir assim que possível. A solução perfeita surgiu na mente de Andrea. Ela sorriu. – Eu adiarei minhas férias, se você cancelar os caçadores de talento. Fique até que Joseph volte ao trabalho, e farei o mesmo. Um nervo saltou no maxilar de Clay. – Você não costumava ser manipuladora. – Eu não precisava ser. Eu tinha tudo que queria. – E agora não era assim. Não que ela quisesse voltar a ser a garota mimada que costumava ser. Encontrara imensa satisfação em conquistar suas recompensas, em vez de receber tudo de mão beijada. Clay olhou em volta, então, aparentemente, focou em Toby. – Combinado. Eu ficarei, mas não esqueça que nós temos a entrevista com aquela repórter que você quer impressionar, na quinta à noite, e mais seis encontros. Certifique-se de estar disponível. – Eu estarei. Com licença. – Andrea voltou para Toby. Podia sentir Clay a seguindo. – Eu sou necessária aqui, enquanto Joseph está afastado, mas viajaremos numa próxima oportunidade.


– Vai me deixar dormir na sua casa, uma vez que você ia dormir na minha? Clay estava se aproximando, desaprovação irradiando-se dele em ondas. Por quê? Não havia regras na empresa proibindo confraternização entre staff e clientes. Ela voltou-se para Toby. – E deixar você perder a primeira noite no seu iate novo? Eu não sonharia com isso. Ademais, Checkered Flag 3 está bem estocado. Você e os rapazes podem ficar a bordo e consumir um pouco daquela comida. A tripulação da DY trabalhará ao seu redor. Toby tocou-lhe o rosto. – Então, pelo menos, deixe-me levar você para jantar. Clay chegou e pôs a mão na cintura de Andrea. – Você pode tê-la esta noite, mas amanhã ela é minha. Suponho que Andrea se esqueceu de mencionar que me comprou, e comprou sete encontros comigo, num leilão de solteiros. Nós temos outro encontro amanhã à noite. E foi quando Andrea entendeu. Ela era um osso, e fora colocada numa briga de cachorros. Mas aquilo não fazia sentido, porque Clay não a queria, a ansiedade em sair da cidade deixando isso bem claro. Então, qual era o problema dele? MAL-HUMORADO PELA falta de sono, Clay pausou seus alongamentos de aquecimento no momento em que Andrea saiu do deck traseiro do prédio de vendas, com uma caneca na mão. O ritual matinal de Andrea, ele descobrira, incluía chegar antes que os portões se abrissem e sentarse no deck para apreciar o sol nascer. O alívio que ele sentiu por ela não ter passado a noite no barco de Haynes apenas piorou seu humor. Não era problema seu onde ou com quem ela dormia. Mas ele queria que ela fosse feliz, e um piloto de corridas mulherengo não ia fazer o trabalho. Ele pegou sua garrafa de água e sua camisa, então saltou de seu deck para o cais e foi na direção dela. Seus músculos não descansados protestaram o movimento. Ele passara metade da noite em claro, esperando ouvir Haynes retornar do jantar, e imaginando se Andrea iria dormir com o imbecil. Enquanto ficara acordado, lembrara-se dos dias e noites que ele e Andrea tinham passado na cama estreita em sua chalupa. Pelo fato de ambos morarem em casa, quando não estavam nos dormitórios compartilhados da faculdade, privacidade havia sido escassa, e a maior parte das vezes que eles tinham feito amor fora na cabine abafada de seu barco. Ela alguma vez pensava nos dias e noites de verão, quando eles faziam amor até que suas peles estivessem molhadas de suor? – Como é a vista de sua casa? – perguntou ele agora, ao se aproximar. Ela virou-se abruptamente. – Perdão? – Vejo que você ainda é viciada em auroras. Imagino que tenha comprado sua casa na praia pela vista. Ela deu um gole de sua caneca. Café, ele supunha. – Sim, exatamente. E é adorável, mas não tão pacífico como aqui. O movimento da mão dela englobava um lago de peixes, uma garça voando e uma família de lontras brincando por perto. O olhar de Andrea percorreu seu peito desnudo, descendo para seu torso, então para suas pernas, e Clay ficou satisfeito que instalara uma academia de ginástica na The Expatriate. Ele


apertou os dedos na camiseta que carregava, e esperou que seu short fino de corrida escondesse a reação instantânea de seu corpo à proximidade dela. – A noite foi longa? – Haynes não voltara até às 2h da manhã. Ele estivera com Andrea o tempo todo? – Não é da sua conta, Clay, a menos que isso afete meu trabalho. – É, se você dormir enquanto estiver comigo. Eu marquei outro encontro para esta noite. Nós vamos andar a cavalo em Holden Beach, antes de encontrar Octavia Jenkins. Apanho você às 18h. – Não precisa. Nós podemos sair daqui. – O quê? Por que você não me quer em sua casa? Ela hesitou por tempo demais. – Não é isso. Minha casa ficaria fora do caminho. Eu mantenho algumas roupas esportes no meu escritório. Clay queria ver a casa dela, queria saber se ela construíra aquela que eles tinham planejado tantos anos atrás. Ele ia insistir quando um assobio de lobo veio do cais. Clay não precisou virar-se para saber que Haynes estava acordado. – Não me deixe atrasá-lo para sua corrida – disse Andrea, mas o olhar e sorriso dela foram direcionados para o piloto. Dispensado e irritado. Esse não era um ótimo jeito de começar seu dia? MAIS UM encontro terminado, e seu coração aguentara firme, pensou Andrea na quarta-feira à noite, enquanto se aproximava na área de estacionamento ao lado do estábulo, onde ela e Clay tinham pegado cavalos emprestados para uma cavalgada ao pôr do sol, em Holden Beach. O barulho das gaivotas, das ondas estourando e dos cascos batendo na areia, dificultara conversa, então não houvera toques ou fagulhas durante a cavalgada. Bem, quase não houvera fagulhas. Ela experimentara algum calor interno quando um motoqueiro sexy, usando jeans baixo na cintura, camiseta branca e botas, tinha parado ao lado de seu carro no estacionamento de cascalho. Clay. Por causa do pedido extra de Toby, ela soubera que Clay possuía uma motocicleta, mas ela não vira a moto de Clay, e seu cérebro não fundira as imagens de Clay e uma Harley. Era uma visão sexy sem a qual ela poderia viver muito bem. Ela avistou Octavia Jenkins esperando no começo da trilha e diminuiu os passos. – Boa noite, pessoal – disse a repórter. – Pensei em fazermos a entrevista à mesa de piquenique. Eu já acendi algumas velas de citronela para manter os mosquitos afastados. Era onde eles descobririam quando do passado a repórter pretendia sondar. Esperando que Octavia mantivesse seu artigo leve e interessante, Andrea atravessou o gramado e sentou-se à mesa. Clay acomodou-se do seu lado oposto. Octavia abriu seu caderno, e voltou-se para Andrea. – É difícil trabalhar para um homem com quem você, um dia, pensou que ia se casar? Andrea lutou contra a vontade de se contorcer no banco, e não ousou olhar para Clay. – Isso... faz muito tempo. Clay e eu estamos mais preocupados com a reabilitação de Joseph, e em manter a agenda de produção de Dean, do que com nosso relacionamento anterior. – Alguma chance de fazer as velhas brasas ganharem vida novamente? – Não – Andrea e Clay responderam simultaneamente.


Andrea o fitou, mas o olhar dele estava focado na repórter. Sabia que ela estava mentindo sobre a falta de atração, mas e Clay? Ele ficara completamente intocado pelo beijo de segunda-feira? – Eu poderia jurar que vi alguns sinais de fumaça. – Octavia pausou para escrever alguma coisa em caderno. Andrea desejou que pudesse ler a anotação, mas a luz tremulante da vela não permitia que ela enxergasse de seu lado da mesa. – Vocês começaram a namorar no último ano do ensino médio. Segundo os registros da escola, sua classe votou em vocês como o casal mais inseparável, o mais provável de ter uma dúzia de filhos e de celebrar bodas de ouro, juntos. O fato de vocês terem continuado namorando por cinco anos, depois da formatura, apesar de fazerem faculdades em cidades diferentes, apoia as predições de seus colegas de classe. Como eles puderam errar tanto? Andrea olhou para Clay. Por favor, não revele meu maior defeito... seja esse qual for... para esta repórter. – Pessoas e circunstâncias mudam – murmurou Clay, o olhar fixo em Andrea. A resposta dele aliviou-a e frustrou-a, ao mesmo tempo. Ela queria saber por que ele partira, mas não queria que o mundo soubesse. Octavia anotou alguma coisa, então olhou para cima. – Qual é a sensação de voltar para um emprego que estava destinado a ser seu, Clay? – Minha vida e minha empresa de design são na Flórida, agora. Isso é temporário. – Você gosta mais da sua nova empresa do que ser parte do negócio de família de sessenta anos, que seu avô fundou? Andrea não invejava Clay por estar na berlinda, mas secretamente aplaudiu Octavia por fazer as mesmas perguntas que giravam em sua própria mente. – Não é melhor ou pior. Eu vi uma oportunidade e agarrei-a. A repórter persistiu. – Eu só estou tentando entender o que o faz decidir abrir mão de um futuro garantido. Você é o único herdeiro da fortuna da Dean Yachts. O que acontecerá com a companhia e seus funcionários quando seu pai se for? A companhia será vendida, ou você assumirá o controle da mesma? Os punhos cerrados de Clay sobre a mesa sinalizavam o desconforto dele. Andrea subitamente queria tocar-lhe a mão e confortá-lo. Uma vez que a repórter obteria a ideia errada, se ela fizesse isso, Andrea estendeu a perna debaixo da mesa e roçou o pé contra o tornozelo de Clay. Aquilo era algo que eles costumavam fazer em jantares de famílias, uma maneira de permanecerem conectados, quando circunstâncias demandavam o contrário. Além de piscar brevemente, Clay não reconheceu o toque. Talvez, ela não lhe causasse mais qualquer efeito, pensou, então descartou a ideia. Não. Não podia acreditar que um relacionamento que a virara do avesso o tivesse deixado intocado. Ela encarou Olivia. – Esta decisão não precisará ser tomada em anos. Joseph teve um pequeno derrame. Está tomando medicação para prevenir outro, e ficará bem. Certamente, ele gostaria que Clay viesse para casa, mas entende a necessidade de Clay de provar o próprio valor. Clay a fitou como se perguntasse se o que ela dizia era verdade. Andrea assentiu de leve. Se Joseph Dean soubesse por que Clay saíra da cidade, ele nunca contara. Mas uma coisa que Andrea sabia, com certeza, era que Joseph, embora triste pela abrupta partida de Clay, nunca


condenara o filho. O que convencera Andrea que o problema que afastara Clay da cidade era ela. Do contrário, Joseph teria, sem dúvida, se revoltado com o abandono de Clay. – SEU PAI está na linha dois – disse Fran, na sexta-feira de manhã, pelo sistema de interfone que uma equipe instalara no escritório do barco de Clay. O coração de Clay bombeou freneticamente no peito. Pelos últimos dois dias, a pergunta da repórter não saía de sua cabeça. “O que acontecerá com a companhia e seus funcionários quando seu pai se for? A companhia será vendida, ou você assumirá o controle dela?” Como ele podia desistir do sonho que seu avô lutara tanto para tornar realidade... um sonho que Clay compartilhara por muitos anos? Como poderia não desistir? Ora, não podia sequer encarar a ideia de ir aos escritórios. Desde quarta-feira à noite, ele vinha evitando Andrea sempre que possível, e usado telefone e e-mail para se comunicar, em vez de andar a curta distância até os escritórios. Ver compaixão nos olhos dela, depois do jeito como a tratara o abalara muito. Enquanto estivera longe, em Miami, ele subestimara a dificuldade de estar perto de Andrea e não a tocar. A atração física não acabara. Se alguma coisa, ele achava a Andrea madura e confiante mais potente do que a garota que deixara para trás. – Sr. Dean? Clay alcançou o botão para dizer a Fran que não estava disponível... como fizera todas as outras vezes que seu pai ligara. Mas isso não faria as ligações acabarem. – Eu atendo – disse ele, e pegou o telefone. – Você precisa parar de desperdiçar seu único telefonema por dia comigo. Eu não tenho nada a lhe dizer – declarou ele, sem preâmbulos. – Clayton. Filho. Nós precisamos conversar. Ele não ouvira a voz do seu pai por oito anos. Soava diferente. Mais lenta e mais calma. Um lapso de memória ou um resultado do derrame? Clay endureceu o coração. – Você falou tudo que precisava quando me pediu para mentir em seu nome. – Eu me arrependi daquilo. Estava errado. – Não brinca. – Sarcasmo coloriu seu tom. – E vocês eram dois. Duas pessoas que juraram que tinham casamentos perfeitos. Casamento entre namorados do ensino médio. Como Andrea e eu. Era uma mentira. – Nunca traí antes ou desde então, filho. Eu juro. Ácido queimou a garganta de Clay. – Espera que acredite em você? – Eu contei a sua mãe que fui infiel. Ela me perdoou, Clay. Você não pode me perdoar? – Você contou que a traiu com a melhor amiga dela? Com uma mulher que ela amava como irmã? Silêncio se estendeu. – Não. Eu arrisquei um casamento de 25 anos confessando minha infidelidade. Não queria arruinar uma vida inteira da amizade de sua mãe com Elaine. Havia circunstâncias extenuantes... – Então, você continua vivendo uma mentira. – Eu aceitei a responsabilidade por minhas ações. Agora, você precisa aceitar responsabilidade pelas suas. Não deveria ter feito Andrea sofrer por meu erro. Você não tem o direito de machucar aquela garota, Clay. Minha fraqueza não tem nada a ver com ela.


Uma ponta de dor familiar o atingiu. Não, a fraqueza de seu pai não tinha nada a ver com Andrea, e tudo a ver com Clay. Todos diziam que Clay era a cópia do pai. Clay herdara de seu pai a inabilidade de ser fiel? Ele não quisera arriscar isso. Tivera medo. – Você não tem direito de me dizer o que é certo. – Clay, há uma coisa que você precisa saber. – Não quero ouvir mais nenhuma de suas confissões ou desculpas. – E não estou oferecendo-as. Por favor, filho, não pediria isso, se não fosse importante. Dê-me alguns minutos de seu tempo. – Eu estou dando a você e à Dean Yachts dois meses da minha vida. Não seja ganancioso e não ligue novamente. – E Clay desligou o telefone. – O QUE você está fazendo a bordo? Andrea arfou e virou em direção à porta da cabine. Ela não ouvira Clay se aproximar, sobre o som do motor do iate, o barulho da água contra o casco e as vozes dos membros da tripulação, enquanto eles testavam diversos mecanismos do barco. Se tudo estivesse em ordem, o iate estaria pronto na próxima semana. – Eu estou ajudando com o teste marítimo. Por que você está aqui? – Supervisionando o teste. Você não precisava ficar. – Seu pai me pediu que viesse. Clay cruzou os braços, enfatizando os ombros largos. – Eu lidarei com isso. – Você telefonará para Joseph e lhe dará o relatório, depois? Ele vai querer saber cada detalhe. – Stark ligará para ele. – Se tudo que seu pai quisesse fosse um relatório de Peter, eu o enviaria por fax. Joseph quer estar aqui. Ele nunca perdeu um teste. E, uma vez que não pode estar aqui, quer um relatório minucioso. De mim. Portanto, você pode voltar para seu escritório e fazer o que costuma fazer quando se esconde lá o dia inteiro. – Eu não estou me escondendo. Estou evitando os nauseantes olhares sedutores que você dá para Haynes. – Olhares sedutores! Eu não faço isso. Eu almoço e janto com Toby. Nada mais. – Se você for embora agora, pode almoçar com ele hoje. – Desista, Clay. Eu não vou sair deste barco. Fiz uma promessa e cumpro minhas promessas. Clay abaixou as mãos em suas laterais e fechou-as. Pela expressão dura nos olhos azuis, ele não estava pensando na promessa dela para o pai dele, mas na promessa que Clay quebrara oito anos atrás. Ela queria retirar o que dissera. Esta não era uma discussão que queria ter, quando qualquer dos três membros da tripulação poderia interrompê-los a qualquer momento, uma vez que o barco inteiro seria inspecionado. – Se me der licença, preciso de uma cópia da lista de inspeção. – Andrea tentou passar por ele, mas Clay permaneceu no seu caminho. O apito soou, sinalizando que eles estavam se afastando do cais, e então o barco se moveu sob seus pés. – Andrea, tive de partir. Ela olhou para a escada de escotilha. Vazia.


– Verdade? E não poderia ter arranjado tempo para se despedir pessoalmente? Precisou deixar um recado no meu telefone de casa, quando sabia que eu estaria sentada a minha mesa de trabalho? “Andrea, sinto muito, mas não posso me casar com você. Estou deixando a cidade e não voltarei. Esqueça-me.” – Ela imitou a voz de Clay, e detestou que ainda pudesse se lembrar das exatas palavras que ele usara para dispensá-la. Clay engoliu em seco, parecendo um homem em sofrimento. – Foi o melhor que pude fazer na época. Ela meneou a cabeça. – Se quiser que eu entenda por que você foi um patife sem consideração, então terá de fazer mais do que isso, Clay. – Sinto muito. – Eu não quero um pedido de desculpas. Quero uma explicação. Ele prendeu-lhe o olhar. – Um pedido de desculpas é tudo que estou oferecendo. – Isso não é bom o bastante. – Andrea tentou passar, mas ele segurou-lhe os braços e fechou a porta. Oh. Pronta ou não, parecia que eles iriam brigar agora.


CAPÍTULO 5

OS POLEGARES de Clay alisaram a pele sensível do interior dos braços de Andrea, e um arrepio óbvio a percorreu. Droga. Ela não queria que ele soubesse que ainda a afetava. – Acha que não detestei machucar você? Deixá-la? – Então, por que fez isso? Silêncio. – Eu... não podia ficar. Aquelas palavras a magoaram. Ela reuniu sua dignidade e tentou, em vão, desvencilhar-se do aperto dele. – Fico contente que você tenha achado tão fácil seguir com sua vida e esquecer sobre nós. Agora, deixe-me sair desta cabine. – Ouça. – Solte-me, Clay. A tripulação... – Está ouvindo isso? – Ouvindo o quê? – As ondas estourando contra o casco. Toda vez que ouço este som, penso em nós no Sea Scout. Quentes. Suados. Nus. Injusto. Desejo inundou-a, irradiando-se de dentro para fora, até que sua pele estivesse vermelha com a memória de fazer amor no barco de Clay. – Não ouse levantar esse assunto. – Eu não esqueci, Andrea. – Ele subiu as mãos para seus ombros, então, segurou-lhe o queixo. Andrea permaneceu imóvel, embora estivesse se derretendo por dentro. Isso não era parte dos seus pla... Quando lábios quentes tocaram os seus, ela esqueceu o protesto. O beijo suave logo se tornou ardente e profundo. Dedos longos se entrelaçaram em seu cabelo, e ele inclinou-lhe a cabeça para trás. Andrea ergueu as mãos para a cintura dele. Pretendia empurrá-lo. Realmente pretendia. Mas precisava se segurar. Para equilíbrio. Ele mudou de posição, e os seios dela roçaram o peito largo. Excitação a percorreu, deixando-a em chamas.


Por que nenhum outro homem poderia lhe causar esse tipo de sensação? As mãos dele deslizaram por suas costas e chegaram ao seu traseiro, puxando-a para mais perto, de modo que a ereção viril fizesse contato com sua barriga. Ele não estava inabalado por esta química entre eles. Bom saber. Andrea ergueu-se na ponta dos pés e abraçou-o, fundindo seu corpo à extensão do corpo másculo. Ele traçou-lhe os quadris, a cintura, as costelas, e então abriu uma das mãos sobre seu seio, moldando-a. O tecido leve do vestido sem mangas não ofereceu proteção do calor do toque. Ele roçou-lhe o mamilo com o polegar. Sem fôlego, ela parou o beijo para respirar. A boca de Clay encontrou seu pescoço. Beijou. Lambeu. Mordiscou. Ele impulsionou-a para trás, até que a cama bateu nas pernas de Andrea, e uma coxa grossa se posicionou entre as suas. Doce pressão. Fricção agonizante. Andrea roçou as costas largas com as unhas e ganhou um gemido rouco como recompensa. Tão delicioso. Tão não parte de seu plano. O som de passos penetrou seu cérebro. Ela saiu dos braços de Clay e cobriu a boca com a mão um segundo antes que a porta da cabine se abrisse. Peter parou abruptamente, os olhos estreitos observando os dois ocupantes com respiração acelerada. – Nós chegamos à baía. Eu trouxe cópias da lista de checagem. Clay, precisamos de você no deck superior. Comece na cozinha... Senhor – acrescentou ele, tardiamente. O rosto de Andrea queimava. Ela respirou fundo e encarou o homem que vinha sendo seu aliado leal na DY, ao lado de Joseph. O desapontamento nos olhos de Pete magoou-a, mas não tanto quanto sua própria autocondenação. Você enlouqueceu? Fechamento. É isso que você quer. Nada mais. Nada menos. O QUE ele estava pensando? Clay passou uma mão pelo cabelo e inclinou-se contra a antepara. Beijar e abraçar Andrea tinha sido incrível, mas ele soubera que seria. Nenhuma amante, durante os últimos oito anos, excitara-o ou o preenchera do jeito como Andrea fizera. Mas ele não podia começar alguma coisa com ela, porque seria incapaz de terminar. Então, por que se torturar? Porque ficar sentado em seu barco todas as noites e ouvi-la rir, enquanto ela e o piloto de corrida tomavam coquetéis no deck do outro iate o estava torturando. A única coisa pior do que a risada deles era o silêncio quando eles entravam no barco, uma vez que Clay não podia evitar imaginar se eles estavam na banheira de hidromassagem ou na cama king-size de Haynes. Andrea censurava Clay por não a ter dispensado pessoalmente, e ele não podia explicar a razão pela qual fugira dos escritórios de Dean, subira no carro e dirigira até que o tanque vazio de gasolina o obrigara parar. Ele ficara sentado no acostamento da estrada por horas, pensando nas repercussões de sua descoberta e procurando compreender. Até que uma viatura de polícia tinha parado atrás do seu carro e chamado o caminhão de guincho. Deus sabia que Clay precisara conversar com alguém, mas para quem teria ligado? Não confiava em ninguém como confiava em Andrea, e não podia lhe contar. Deixara um recado no telefone, porque


não confiara em si mesmo para lhe fitar os olhos, sem revelar a verdade dolorosa sobre os pais deles e suas próprias dúvidas. Ele poderia ter se comprometido com uma mulher para sempre... a amante de longa distância que ele apenas vira durante verões e férias escolares pelos últimos cinco anos? Ou seria fraco como seu pai? Clay nunca saberia. Fizera sua escolha e tinha de viver com esta. Ele checou o último item de sua lista e localizou Andrea e a tripulação no salão. – Feito. Sua pulsação acelerou no momento em que seu olhar encontrou o dela. Ainda podia sentir o calor do beijo de Andrea em seus lábios, e o desejo pulsando em seu sangue. Ela desviou o olhar, mas não antes que ele visse tristeza neles. E se ele lhe contasse por que partira? Andrea o perdoaria por ele destruir suas ilusões sobre a mãe e mentor dela? Ou o odiaria por, egoisticamente, tirar-lhe a venda, de modo que eles pudessem estar juntos? E Clay até mesmo queria outra chance com ela? Abandoná-la na primeira vez quase o destruíra, e ele não sabia se conseguiria ficar sem ela uma segunda vez e permanecer são. Era melhor manter distância, como originalmente planejado. Por mais que ele a quisesse. – Vamos finalizar o teste – Stark falou para o capitão. – Andrea tem planos, esta noite. Nós não queremos atrasá-la. Os músculos de Clay enrijeceram. – Com Haynes? Andrea ergueu o queixo. – Não. Com minha mãe. Não que seja da sua conta, mas sexta-feira é noite das mulheres. É tradição. Uma tradição que ela começara na faculdade, quando se mudara para o dormitório que compartilhara com Holly e Juliana, ele lembrou. Andrea ainda era próxima da mãe. Isso significava que Clay precisava guardar o segredo. Era melhor que ela pensasse mal dele. Ela poderia encontrar outro amor, mas não poderia encontrar outra mãe. Contanto que esse amor não fosse Haynes. Clay voltou-se para Stark. – Quanto tempo mais vai levar para construir aquela capa para a moto de Haynes? – Uma semana. Um molde teve de ser fabricado. – Apresse isso. Temos outra entrega na próxima sexta. Precisamos tirar o iate dele do cais assim que possível. – Podemos mudá-lo para outro cais. Ou você pode mover o seu. – Stark falou com um toque de agressividade. Clay quase discutiu com ele, mas demitir o gerente de produção apenas estenderia sua estada em Wilmington. – Faça o trabalho, Peter. Peça voluntários para turnos extras, se necessário. E, enquanto isso, decidiu Clay, ele manteria Andrea ocupada, marcando o maior número possível de encontros do pacote de leilão, enquanto Haynes estava na cidade. Tanto o filho pródigo, Clayton Dean, como Andrea Montgomery, o ex-amor da vida dele, juram que as cinzas do passado deles estão frias, mas esta repórter acredita que este romance está


pronto para ser reacendido. Srta. Montgomery está carregando os fósforos? E a Dean Yachts sobreviverá ao calor, quando esta dupla dinâmica pegar fogo? – Oh, meu Deus. – Andrea baixou o jornal de sábado sobre a mesa da cozinha e enterrou o rosto nas mãos. A primeira contribuição de Octavia Jenkins para o jornal de Wilmington embrulhou seu estômago. Como ela manteria a cabeça erguida no trabalho? Levantou a cabeça para espiar sua foto com Clay, em que eles compartilhavam um “selinho” no Georgina. Quem tirara aquela fotografia, e quando? Ela não vira a repórter ou fotógrafo no barco, mas então, Holly a avisara de que Octavia possuía um lado sorrateiro. Era tudo culpa de Clay. Raiva a consumia, enquanto ela tomava banho e se arrumava. Dirigiu como louca e foi diretamente para o barco de Clay. Bateu à parte de vidro da porta. Quando ele não respondeu, ela bateu mais forte, até que viu uma luz se acendendo do lado de dentro, e então ele saiu da cabine. Andrea devia tê-lo acordado. Clay subiu a escada, atravessou o salão e abriu a porta. Como ele ousava parecer tão sexy com aquela barba por fazer e cabelo desalinhado? Quase nu e excitado. A cueca amassada não podia esconder a ereção matinal. O corpo inteiro de Andrea esquentou. O que a irritou mais ainda. – O que aconteceu? – perguntou ele. Andrea bateu o jornal contra o peito dele. – Leia. Pior, olhe a foto. Eu não serei um caso de piedade, novamente, quando você partir. Já passei por isso e não gostei da experiência. Clay pegou o jornal da mão dela, acendeu a luz e leu o artigo. Andrea resmungou: – Você precisa parar de me beijar. Clay ergueu o olhar. – Pare de me beijar de volta. – Seu... Eu... – gaguejou com fúria. – Como você ousa me culpar por isso? – Não é você que usa traje agarrado ao corpo e saltos altos sexies para trabalhar, todos os dias? Ela enrubesceu. – Eu me visto para agradar a mim mesma. – Sim, certo. Você está jogando a isca para mim ou para Haynes. Para qual de nós? Sem fala, ela o olhou com raiva. Ele coçou o queixo. – Você sabe que horas são, Andrea? – Eu... – Em sua pressa de confrontar Clay, ela esquecera seu relógio, mas o sol mal começara a clarear no horizonte. – Não. – São 5h20 da manhã. Muito cedo para ficar aqui de pé, discutindo. Entre. Eu vou fazer um café. Ele virou-se e foi em direção à cozinha, jogando o jornal sobre a mesa, enquanto passava, acendendo luzes. Andrea permaneceu no deck, debatendo a inteligência de segui-lo. Para começar, Clay não estava vestido. Segundo, ele parecia delicioso demais com toda aquela pele bronzeada à mostra.


Terceiro, ela detestava que ainda se sentia atraída por ele... tão atraída que até mesmo Octavia Jenkins podia ver isso. Se a repórter era capaz de perceber o fato, então quem mais seria? E o que isso faria com o relacionamento que ela planejava ter com Toby? E, por fim, os funcionários de Dean leriam o artigo e a considerariam tola por se derreter por Clay, novamente. Ela perderia o respeito que lutara tão arduamente para conquistar. – Feche a porta. Você está deixando insetos entrarem. Contra seu melhor julgamento, Andrea atravessou a soleira, fechou a porta e seguiu-o. – Esse não é o tipo de publicidade que nós queremos, Clay. – Não, mas o que você pode fazer sobre isso? Ela está escrevendo a história. – Nós podemos parar de dar a ela coisas sobre o que escrever. Clay ligou a cafeteira. – Foi você quem insistiu que nós precisávamos ter os encontros. Mas isso era quando ela tivera um plano estabilizado. Agora, não tinha tanta certeza de que seu sucesso estava garantido. Todavia, abrir mão dos encontros do pacote apenas causaria mais especulação. – Nós precisamos ter os encontros. Do contrário, ela terá um dia de campo. – Falando em encontros, eu pretendia lhe telefonar, hoje. Agendei o passeio no balão de ar quente para amanhã, às 5h, se você estiver disponível. – Ele inclinou-se contra o balcão e Andrea lutou para ignorar-lhe a nudez. Por que aquele corpo magnífico ainda a hipnotizava? Não era justo. – Eu estou disponível. Para o passeio de balão. Você poderia vestir alguma roupa? Clay prendeu-lhe o olhar por um longo momento, então, afastou-se do balcão e desceu a escada, mas não fechou a porta do quarto. Andrea tentou desviar o olhar, mas a vista desimpedida da cabine e do canto da cama coberta em lençóis emaranhados a cativou, enviando-lhe uma onda de calor. Como ele ainda tinha o poder de afetá-la tanto? Mas ela não podia abandonar sua missão. Ainda não descobrira por que ele a deixara, ou o reunira com o pai dele. Seu trabalho não estava nem de perto terminado. Por mais que ela quisesse que estivesse. – EU NÃO acredito que deixei você me convencer a fazer isso – murmurou Andrea ao descer do carro alugado de Clay num campo aberto, no domingo de manhã. – De todos os encontros do leilão, este era o que eu mais temia. O sorriso de Clay brilhou na luz fraca da aurora. – Medo de altura? Andrea olhou para o outro lado do campo, onde um enorme balão de ar quente esperava, como uma sombra gigantesca. Não havia luz suficiente para distinguir as cores. Os faróis de uma van iluminavam quatro pessoas sentadas em volta da cesta do balão. Logo, ela e Clay estariam subindo... naquilo. – Talvez. Um pouco. E seu pacote prometia pores-do-sol, não nasceres-do-sol. – Você prefere nasceres-do-sol. Tocou-a que ele havia considerado suas preferências, mas um sol nascendo era muito romântico para palavras, e ela não queria romance de Clay. Especialmente não depois do artigo do jornal e de vê-lo praticamente nu. Já era ruim que os beijos dele ainda fizessem seu sangue esquentar. Certo, ferver, admitiu ela, mas bastava disso. Suas botas de caminhada e calça jeans justa roçavam na grama orvalhada enquanto eles se aproximavam da van da equipe do balão. Ela enfiou as mãos nos bolsos de seu casaco de moletom.


– Não há volante nem paraquedas. – Balões de ar quente existem desde sempre, e nosso piloto tem vinte anos de licença. – A experiência dele foi a única razão pela qual concordei com isso. – Ela vinha se perguntando se aquilo era loucura, desde que Clay lhe falara sobre o evento, na manhã anterior. – Bom dia. – Um homem de terno os abordou. Eu sou Owen, seu piloto, e estes são Denise, Larry e Hank, nossa tripulação terrestre. Eles nos pegarão do outro lado e levarão vocês de volta aos seus veículos. Se estiverem prontos para ver o mundo do ponto de vista dos pássaros, então subam a bordo. Ele entrou na cesta, antes de virar-se para dar uma mão a Andrea. Sobre pernas instáveis, ela subiu os degraus portáteis que a tripulação ofereceu, entrou e agarrou-se à borda da cesta. Clay seguiu. A primeira coisa que Andrea notou foi a falta de espaço. Se você não fosse amiga dos outros passageiros, seria antes de desembarcar. A segunda coisa que ela notou foi a proliferação de cordas e cabos conectados à cesta e ao balão. Rapidamente estudou as cordas, procurando desgastes, e, felizmente, não encontrando nenhum. – Prontos para irmos? – perguntou Owen. Tensa, Andrea assentiu. Seu coração batia com uma combinação de medo e excitação. A tripulação terrestre se moveu ao redor, então a cesta balançou sob seus pés. Andrea fechou os olhos. O barulho do maçarico sendo aceso a fez reabri-los. O balão começou a subir, lentamente. O coração de Andrea disparou. Ela queria se aproximar mais de Clay, mas não ousava se mexer e balançar a cesta. Além disso, Clay já a acusara de tentá-lo. Ela não lhe daria a satisfação de agarrar-se a ele. Então, concentrou-se em respirar normalmente. – Nós voaremos entre quinhentos e mil e quinhentos pés do solo, dependendo da direção do vento – disse Owen. Alto. Muito alto. Não bom saber. Clay cobriu-lhe a mão com a sua, e, covarde como ela era, Andrea deleitou-se no apoio silencioso dele. Minutos infinitos se passaram. – Olhe. – Clay posicionou-se atrás dela e falou no seu ouvido, de modo que ela pudesse ouvi-lo sobre o barulho do maçarico. Tremendo de leve, Andrea forçou-se a olhar sobre a cesta, e, estranhamente, não se sentiu tonta ou enjoada. O sol era um grande semicírculo no horizonte, pintando o oceano com cores. A luz do amanhecer brilhava na areia branca. – Já está vendo sua casa? – A respiração dele soprou em seu cabelo. Cada célula do seu corpo ganhou vida diante daquela proximidade. Quando ela meneou a cabeça, Clay descansou um braço na lateral da cesta e pôs o outro sobre o ombro de Andrea para apontar. Ela uniu as pernas num esforço de parar o formigamento entre elas. Como podia estar ali, com estranhos à sua volta? Olhou para a direção que Clay indicou e localizou seu chalé azul. Cinco anos atrás, ela comprara uma velha casa. Levara anos para reformá-la desde a garagem até o terceiro andar. – Sim. Uma transmissão por rádio dava indicações de velocidade e vento, mas Andrea mal prestou atenção na resposta do piloto, enquanto olhava, maravilhada, para Wilmington e para a costa sul da Carolina do Norte. Então Owen apagou o maçarico e silêncio envolveu-a. – É lindo. – Ela olhou para Clay por sobre o ombro. A respiração com cheiro de menta soprou no seu rosto e o corpo grande aninhou o seu.


Tentando reprimir as lembranças, ela virou-se e percebeu que estava muito perto dele, na cesta apertada. Clay parecia totalmente relaxado. – Você já fez isso, antes. – Rode, meu ex-chefe, participa de corridas em balões. Eu fiz parte da tripulação dele, algumas vezes. Não há nada como o silêncio e a sensação de estar à deriva numa corrente de ar. Andrea piscou em surpresa. Esse era um lado de Clay que ela não vira antes. Quando eles tinham namorado, ele era fanático por controle... não de uma maneira ruim, querendo controlá-la. Apenas queria as coisas do seu jeito. Precisas. Lógicas. Ordenadas. O que causara a mudança? – Eu nunca imaginaria você passeando numa cesta e deixando o vento levá-lo para onde quisesse. Ele prendeu-lhe o olhar. – Pessoas mudam, Andrea. E você tem mais controle sobre a direção aqui em cima do que imagina. Correntes de ar em níveis diferentes viajam em direções diferentes. Você escolhe seu caminho. Consciente de Owen parado a poucos metros de distância, ela assentiu. Clay mudara, assim como ela. Andrea passara de ingênua e confiante para sofisticada e reservada. Não acreditava mais em contos de fadas, com cavaleiros brancos, e, embora quisesse um final feliz, estava mais do que disposta a criar isso para si mesma, em vez de esperar o mesmo de um homem. Era disso que o leilão de solteiros se tratava. Escolher seu caminho... Tomar o controle, apontando sua vida na direção certa e seguindo em frente, alcançando o sucesso, independentemente do custo. – VOCÊ PODE entrar por um minuto? – perguntou Andrea quando Clay pegou o caminho de acesso para a casa dela. – Claro. – Ele mal vira a casa, na luz antes do amanhecer, quando a apanhara. Como a maioria das casas de praia, a de Andrea era alta, para se manter acima da linha da água. O estacionamento abaixo da casa havia sido fechado. Uma torre octogonal erguia-se como uma sentinela no canto esquerdo. Janelas arcadas ficavam do lado oposto. Os painéis reluziam no sol do meio-dia. Clay seguiu Andrea, pela escada em espiral, para a porta da frente. – Entre e sente-se. Quer beber alguma coisa? – Ela o conduziu para a sala espaçosa, com vista para as dunas e a praia abaixo. – Não. Eu estou bem. – Com licença por um minuto. – Ela subiu a escada, deixando Clay parado perto da janela, com suas mãos fechadas dentro dos bolsos, e um aperto no peito. O piso era cor de areia, e azul da cor do mar dominava os estofados. As mesas com tampo de vidro pareciam ter sido formadas de madeira flutuante. Tons de laranja, pêssego e amarelo iluminavam o espaço, reminiscentes da aurora na praia. Esta era a casa dos sonhos que Andrea descrevera durante aquelas noites na sua chalupa, a casa que eles haviam planejado compartilhar. Ela retornou momentos depois, aproximou-se e estendeu a mão. – Acho que é hora de eu devolver isto. Desculpe-me por não ter enviado antes, mas eu não tinha seu endereço na Flórida. Curioso, Clay estendeu a mão. Ela abriu os dedos e derrubou alguma coisa leve em sua palma. Um pequeno diamante brilhou na luz do sol se infiltrando pela parede de janelas. Seu anel de promessa. Aquele que ele lhe dera na noite que eles tinham se formado no ensino médio... na noite que fizeram amor pela primeira vez e prometeram passar o resto de suas vidas, juntos.


O anel simbolizava uma promessa quebrada e tudo que ele perdera. Porque duas pessoas haviam mentido. E porque Clay não tivera coragem de ficar e ver se era feito de material mais forte que seu pai. Mesmo se ele pudesse ter pensado numa resposta apropriada, provavelmente não poderia ter falado através do nó em sua garganta. Fechou os dedos ao redor do metal frio. – Nós precisamos deixar o passado para trás, Clay. – Os olhos de Andrea escureceram com dor... dor que ele infligira. – Sim. Mas você pode ficar com este anel. Ela pôs as mãos para trás. – Eu não o quero. Não quero lembrar mais. Ele também não queria lembrar. Mas não podia esquecer.


CAPÍTULO 6

– EU NÃO participo de uma corrida de carro, a menos que tenha uma boa chance de ganhar – Haynes gritou quando Clay passou o Checkered Flag 3, na quinta-feira de manhã. Mal-humorado, Clay parou no cais. A tripulação de Haynes partira no dia seguinte que eles tinham chegado, mas, para a irritação de Clay, o piloto de corrida ficara. – Eu estudo os outros carros e os outros pilotos, e, tenho de admitir, Dean, você é um concorrente muito difícil. Clay cerrou os dentes. O homem era um cliente, portanto Clay não poderia mandá-lo para o inferno, como gostaria. – Não há uma competição. – Júnior, você não acredita nisso mais do que eu. Três dias haviam se passado desde o passeio do balão. Três dias de Andrea almoçando no barco de Haynes e saindo com ele todas as noites. Três dias do anel de promessa queimando um buraco no bolso de Clay. A presença do homem irritara tanto Clay nesta última semana que ele tivera de encarar um fato inegável. Estava com ciúme. Ciúme. Queria Andrea para si mesmo, e, depois de ver a casa dela... a casa que eles poderiam ter compartilhado... percebeu que as raízes de seus sentimentos eram mais profundas do que ele esperara. Talvez, ele até mesmo ainda a amasse. – Pense o que quiser, Haynes. A capa para sua motocicleta deve ser instalada esta tarde. Você estará livre para ir embora. – Ele continuou andando para seu barco, seu refúgio. – Algo me diz que a levarei para cama antes de você, Dean. Os músculos de Clay enrijeceram, e ele teve vontade de quebrar alguns dentes de Haynes, mas continuou andando, saboreando uma pequena vitória. Andrea não dormira com Toby Haynes. E Clay faria qualquer coisa que fosse necessária para que isso continuasse assim. O ARREPIO agradável causado pelos beijos de Toby tinha desaparecido, pensou Andrea. E era culpa de Clay.


Como ela poderia pensar num futuro com Toby... ou com qualquer homem... quando seu passado com Clay continuava afetando-a? Cada toque e olhar a lembravam de como o relacionamento deles fora bom, antes que terminasse. Mas suas memórias tinham sido distorcidas pela juventude e amor cego, não tinham? Ele não lhe causaria o mesmo impacto agora, causaria? É claro que não. Ela virou a cabeça e olhou para Clay sentado no banco da frente de seu carro alugado. Ele estava encantador num terno cor de areia. A camisa azul, com os dois primeiros botões abertos, era do mesmo tom dos olhos. – Para alguém que queria pagar para se livrar destes encontros, alguns dias atrás, você parece ansioso para vivenciar todos eles. Clay entrou no estacionamento e desligou o motor. – Você não está se divertindo? – Sim. – Tanto, na verdade, que ela vinha negligenciando seu plano. Esta noite, erradicaria Clayton Dean de seus pensamentos. – Mas nós não precisamos nos apressar para ter os encontros. – Preferiria que eu ficasse a bordo, sozinho, todas as noites, enquanto você sai com Haynes? Ela não estivera com Toby todas as noites, mas não se importava se Clay pensasse assim. – Não. Você poderia visitar seus pais. Seu pai pergunta sobre você todos os dias. Está em casa há 13 dias, Clay, e nem sequer telefonou para ele. A expressão de Clay endureceu. Ele abriu a porta e rodeou o veículo para ajudá-la, pegando-lhe a mão. Andrea tentou se desvencilhar, mas Clay não a soltou. Para evitar criar uma cena, ela andou de mãos dadas com ele ao longo da calçada. Eles passaram o Renegade Bar and Grill, que pertencia ao solteiro que Juliana comprara. Por um momento, Andrea considerou entrar lá para ver se sua amiga e o rebelde estavam juntos, mas desistiu da ideia. Juliana precisava lidar com aquilo, sozinha, mas Andrea esperava que o motoqueiro oferecesse a sua amiga um pouco de excitação que estava faltando na vida de Juliana, antes que fosse tarde demais. Uma carruagem decorada com flores brancas, do tipo usada em casamento de conto de fadas, esperava no fim do quarteirão. Diferentemente dos cavalos sonolentos que Andrea normalmente encontrava em pontos turísticos, o cavalo branco brilhante nos arreios parecia alerta e ansioso para ir. O cocheiro inclinou o topo de seu chapéu. – Boa noite, sra. Montgomery, sr. Dean. Subam a bordo. Andrea subiu na carruagem e parou. Uma única rosa cor de pêssego descansava no assento. Aquela cor em particular... a cor do nascer do sol... sempre fora sua favorita. Clay comprara a rosa? Ou aquilo era parte do passeio da carruagem, e a escolha da cor, uma coincidência? E quanto ao champanhe no balde sobre o banco oposto? Obra de Clay? Ou a mãe dele arranjara aquilo, também? Ela preferia dar crédito a Patricia, porque não queria Clay lhe fazendo coisas boas. Ela levantou a flor e sentou-se no banco de frente para o cavalo. Clay acomodou-se ao seu lado e estendeu o braço atrás dela. Andrea aconchegou-se mais em seu xale, mas a linha tecida em crochê não a protegia do toque contra sua pele. Claramente, o vestido amarrado no pescoço tinha sido um erro. O cocheiro abriu o champanhe e serviu duas taças. Entregou uma para cada um deles, antes de ir tomar seu lugar próximo às rédeas. O súbito movimento do cavalo começando a andar jogou Andrea contra o braço de Clay. Ela rapidamente inclinou-se para a frente. Clay tocou sua taça na dela. – Ao passado e ao futuro.


A carruagem, flor e brinde tocaram o coração de Andrea. Ela não podia... não iria... cair no feitiço de Clay, novamente. Que jeito melhor de estragar o humor romântico do que descobrindo por que ele a dispensara? Uma segunda taça de champanhe e cinquenta minutos de conversa superficial foram necessários para que Andrea tomasse coragem. – O que fiz para você partir? – perguntou ela, nos minutos finais do passeio de carruagem. Clay fitou-a com olhos estreitos. – Nada. – Ora, Clay, nós dois sabemos mais do que isso. – Andrea, não foi você. Ele estava mentindo? Só podia estar. – Então, o que foi? – Esqueça isso. – Eu não posso. – Ela não lhe contaria sobre todos os homens que a tinham dispensado desde que Clay partira. Era orgulhosa, e não queria a piedade dele. – Se você tivesse tido outra de suas brigas com seu pai, então eu teria ficado sabendo. Joseph é famoso por extravasar verbalmente. Clay, parecendo tenso, desviou o olhar. – Ele nunca disse nada? – Nem uma palavra. Motivo pelo qual sei que fui a causa. – Não foi você. – Então, conte-me quem ou o que foi. Eu nem soube que você retornara de Nova Orleans, até o dia que a recepcionista me parou, quando eu estava saindo, para perguntar por que você encurtara sua viagem. – Andrea virou-se de lado para ele, no assento. – Clay, por que você passou reto pelo meu escritório, sem se incomodar em dizer olá ou adeus, quando nós não nos víamos em meses? Ele não a olhou. – Eu não posso explicar. Ela não sabia que aquela conversa seria tão dolorosa, ou que ele se recusaria a lhe dar respostas. – Você simplesmente acordou naquela manhã e decidiu recomeçar em algum outro lugar? Ele fitou-a então, e Andrea arfou diante da agonia nos olhos azuis. Agonia e segredos. Qualquer que fosse o motivo pelo qual ele a deixara, devia ser horrível demais para compartilhar. O que estava errado com ela? Faltava-lhe algum componente feminino essencial? – Andrea, não foi você. Se nunca acreditar em outra palavra que eu disser, acredite nisso. Ela queria acreditar. Realmente queria. Mas tivera anos de relacionamentos desastrosos, e o silêncio de Joseph era uma evidência de que Clay estava mentindo. – Você costumava confiar em mim, Clay. Ele gemeu. Olhou para as costas do cocheiro. – Eu costumava confiar em mim mesmo. As palavras mal audíveis a chocaram. Ele encontrara outra pessoa. Seguira em frente e a deixara presa no passado. A DOR nos olhos de Andrea feria Clay. Ela estava reticente desde o passeio de carruagem, apesar de todas as tentativas da parte dele de iniciar conversa.


Ele seguiu-a para dentro da casa dela. Uma única lâmpada estava acesa sobre uma mesa no grande salão. Ela removeu o xale de crochê que usara e colocou-o no espaldar de uma cadeira. A parte de trás do vestido deixava as costas desnudas até a cintura. Ela estava sem sutiã, e não havia marcas de biquíni na pele bronzeada. A frente do vestido parecia um maiô, com o tecido colado aos seios. Saber que um único nó na nuca de Andrea era tudo que o impedia de tocar aqueles seios deixara-o excitado a noite inteira. Andrea fechou as persianas, bloqueando a escuridão do oceano e as luzes de um barco de pesca na praia. Então, encarou-o, mordendo o lábio. – Ela era melhor do que eu na cama? Choque fez o coração de Clay parar. – O quê? – Você disse que costumava confiar em si mesmo. Isso significa que deve ter conhecido alguém em Nova Orleans. Alguém que o excitava mais do que eu. Que lhe oferecia mais do que nós tínhamos. – De onde você tirou essa ideia maluca? Não houve outra mulher, Andrea. – É claro que houve. Do contrário, você nunca teria abandonado a Dean Yachts. Eu sei o quanto a empresa significava para você. Mas você não é do tipo de esfregar outra mulher no meu rosto, e Joseph não teria me demitido. Então você partiu. Não precisava fazer isso, Clay. Eu poderia ter aceitado, se você tivesse me contado a verdade. Como ela podia acreditar que ele seria capaz de amar outra mulher mais do que a amara? Clay atravessou a sala, segurou-lhe os braços. A pele sedosa o queimou. Sabendo que não deveria, mas incapaz de conter-se, ele acariciou-a dos ombros aos pulsos, então fez o caminho de volta. – Você está errada. Totalmente errada. O que nós tivemos era bom. Bom demais. Todavia, não foi suficiente para eu esquecer... – Para que ele esquecesse a infidelidade de seu pai, ou o medo de que fosse igual ao seu pai. Não podia explicar sem falar alguma coisa que a machucaria ainda mais. – Não foi o suficiente para que eu ficasse. – Obviamente. Ela tentou se libertar, mas Clay não permitiu. Não conseguia encontrar as palavras para convencê-la de que o problema não tinha sido ela, então usou a única arma que possuía, a paixão fervilhando entre eles, e começou com o que vinha querendo fazer desde que ela o comprara, duas semanas atrás. Ele beijou-a. Os lábios de Andrea permaneceram imóveis no começo. Mas, logo, braços delgados circularam a sua cintura e ela estava correspondendo ao beijo. A pressão da carne suave contra a sua lhe roubou o ar dos pulmões. Ofegando, Clay levantou a cabeça. A respiração dela também estava acelerada. Um ponto pulsava loucamente na base no pescoço elegante. Ele puxou dois prendedores do cabelo dela e mechas douradas cascatearam sobre o dorso de suas mãos como seda fria. Clay pôs os prendedores sobre uma mesa próxima. Seu coração batia descompassado. Como o desejo podia ser mais forte agora do que quando ele estivera loucamente apaixonado por ela? Mas era. Ele queria jogá-la no sofá e tomá-la como um pirata selvagem. Queria tocá-la, prová-la e perder-se nela, até que ambos estivessem muito fracos para se moverem. Alisou o lábio inferior dela com o polegar, e sentiu-a tremer contra si. Desejo aumentava e escurecia os olhos de Andrea. Os saltos altos deixavam a testa dela no nível de seu queixo. Tudo que ele tinha de fazer era inclinar a cabeça e beijá-la de novo e de novo.


Bom senso o avisou para considerar as consequências de suas ações, mas ele não conseguiu. Anos negando quem realmente pulsava em suas veias. Segurou os seios de Andrea e provocou os bicos rijos, saboreando os gemidos de prazer dela. Traçou o topo do vestido, a ponta do dedo trilhando entre tecido frio e pele quente. Então descobriu o zíper traseiro na altura da cintura delgada e desceu-o. Suas mãos deslizaram sob o tecido para encontrar calcinha de seda e pele ainda mais macia. Ele segurou-lhe as nádegas e puxou-lhe os quadris contra os seus. Os seios de Andrea roçaram contra ele, enquanto ela ofegava e liberava sua camisa de dentro da calça. O toque em suas costas quase o deixou de joelhos. Isso não era sobre Haynes ou o maldito desafio. Era sobre fazer amor com uma mulher que Clay nunca esquecera. Se seus sentimentos por Andrea não tinham diminuído depois de oito anos de ausência, então talvez nunca diminuíssem. Talvez, ele não tivesse herdado a fraqueza de seu pai. Sem dúvida, Andrea merecia coisa melhor, mas ele sabia que tinha mais probabilidade de manter um relacionamento permanente do que Toby Haynes. Ela mordiscou-lhe o pescoço e Clay tremeu. Se ele fizesse amor com Andrea esta noite, não poderia abandoná-la, novamente. O que seria necessário para persuadi-la a lhe dar uma segunda chance? E se ele conseguisse isso, ela estaria disposta a pagar o preço? Eles não poderiam morar ali e dirigir Dean, juntos, como haviam planejado um dia. Clay teria de convencê-la a ir com ele para Flórida, sem lhe dizer por que eles não podiam ficar na Carolina do Norte. Talvez, esse fosse o trabalho mais difícil que ele já fizera na vida. REVISITAR O passado era sempre um erro. Esta noite, Andrea estava contando com o fato de que nada era tão grande, através dos olhos da maturidade, quanto às lembranças cor-de-rosa da juventude, e, se dormir com Clay era a única maneira de provar que aquele tempo exagerara a magia dele, então que assim fosse. O aviso de Holly soou em seu subconsciente. Ela estava tentando justificar uma má decisão? Aquilo era um erro? Não. Clay era como uma ressaca da qual Andrea não conseguia se livrar, e os homens em Dean juravam que a única cura para uma ressaca era outra dose da mesma substância que a causara. Ela pegou-lhe a mão e conduziu-o em direção à escada. Clay parou à base. – Andrea, você tem certeza? Certeza de que queria superar seus sentimentos por ele? Absoluta. Certeza de que este era um caminho para isso? Nem tanta. Mas nada que tentara nos últimos oito anos ajudara-a a esquecê-lo, então que escolha possuía, senão fazer a última tentativa? – Precisamos fazer isso, se quisermos colocar o passado atrás de nós. Ele franziu o cenho. – Precisamos? – Precisamos. – Andrea soltou-lhe a mão, removeu-lhe o paletó e pendurou-o no corrimão da escada, então, movendo-se rapidamente antes que mudasse de ideia, abriu os botões da camisa dele e deslizou as mãos pelo peito largo, descendo para o zíper da calça e para a ereção rígida sob esta. Arfando, ele levantou a mão dela, levando-a aos lábios e beijando seus dedos, seu pulso, a parte interna de seu cotovelo.


Atordoada de desejo, Andrea respirou fundo e subiu a escada, conduzindo Clay para seu santuário com teto de catedral. Luz da lua se infiltrava pelas janelas altas, iluminando sua cama. Ela nunca compartilhara seu quarto com outro homem. Nem mesmo com Toby. Toby. Seu futuro. Talvez. Toby, que tinha sido incrivelmente compreensivo sobre sua preocupação com trabalho... significando seu chefe temporário... e com sua recusa de mais intimidade. Todavia, a paciência dele parecia estar diminuindo nos últimos dias. E então, as mãos de Clay deslizaram de sua cintura para debaixo dos seus braços, e de volta para sua cintura. Os polegares entraram por baixo do corpete do vestido para roçar as laterais de seus seios. Pensamentos sobre Toby desapareceram. Os mamilos de Andrea enrijeceram até doerem. Ela queria... precisava... que Clay a tocasse. – Por favor. – Por favor, o quê? Isso? – sussurrou ele contra seu pescoço, roçando-lhe os mamilos com os polegares. – Ou isso? – acrescentou, rolando os bicos entre os dedos. – A-ambos. Ele obedeceu a ela e a provocou, até que os joelhos de Andrea estivessem fracos. Então, ele capturou seu rosto nas mãos e cobriu-lhe os lábios com os seus. O beijo apaixonado aprofundou-se, despertando memórias e emoções que tinham estado enterradas por muito tempo. Não, não, não. Sexo com Clay não deveria ser bom assim. Mas era. Desejo instalou-se em sua barriga, espalhando calor por todo o seu corpo. Ela movimentouse, tentando parar o formigamento entre as pernas, e conseguindo apenas exacerbar a situação, porque o movimento fez seus seios roçarem no peito dele. Não havia nada familiar sobre a pele quente da cintura e costas de Clay. Músculos que ela não lembrava se ondulavam sob seus dedos. O peito era o mesmo. Diferente. Mas o gosto dele... Disso ela lembrava. Clay a acariciava agora com uma determinação de enlouquecê-la, que Andrea não achava que poderia ter esquecido. Nem mesmo se tivesse tentado. Dedos longos entrelaçaram-se no seu cabelo e brincaram com sua nuca. Ele liberou-a e deu um passo atrás. Ar frio na pele quente a fez abrir os olhos e perceber que ele desatara o nó que prendia o vestido no lugar. O tecido escorregou para o chão, deslizando por sua pele sensível como uma carícia, para aterrissar ao lado da camisa que Clay descartara. Andrea voltou para os braços fortes, levou as mãos para a cintura dele, abriu-lhe o cinto e desceu o zíper. Calça e cueca deslizaram pelos quadris e coxas de Clay quase sem esforço, então ela arfou. A extensão e largura dele não tinha sido uma memória cor-de-rosa embelezada pelo tempo e distância. Os poucos amantes que ela tivera desde então não se comparavam a isso. Andrea o segurou, massageando carne quente e extraindo uma gota escorregadia da ponta. Clay gemeu, pegou-lhe a mão, detendo-a. – Preservativo. A enormidade do que estava prestes a fazer atingiu-a, e ela hesitou. Dormir com Clay era a coisa certa a fazer, ou era muito, muito errado? Ousaria arriscar? Tinha de arriscar. O resto de sua vida estava em jogo. Ela não podia continuar vivendo nesta prisão. – Primeira gaveta do criado-mudo.


Ele tirou os sapatos, e ela livrou-se de seu vestido e sandálias de salto. A súbita perda de altura fez Andrea sentir-se pequena e delicada. Segurando-lhe as nádegas, Clay abaixou a cabeça e beijou-a, então, impulsionou-a para trás até que as pernas dela tocassem o colchão. Ele a liberou apenas para virar o edredom. Então parou e olhou-a. Luz da lua inundava o quarto, mas sombreava o rosto de Clay. Ele gostava do que via? Ela esforçavase para ficar em forma. Queria que ele babasse. Que se arrependesse de ter ido embora. Ele estava olhando para seus seios. Costumava passar horas adorando seus seios com mãos e boca. – Lindos. – Ele circulou uma auréola com a ponta de um dedo, fazendo-a gemer. E então, o dedo desceu, chegando ao elástico de sua calcinha. Andrea tremeu em antecipação. O dedo de Clay deslizou para dentro da seda, provocou seus cachos, encontrou sua umidade e seu ponto de prazer com uma precisão que negava a passagem de oito anos. Tensão se construiu em seu centro. Mas ele apenas lhe permitiu um gostinho do que estava por vir, antes de remover a mão. Ela quase chorou em frustração. Clay ajoelhou-se a sua frente, roçou o rosto contra o triângulo de tecido e inalou profundamente, antes de remover-lhe a calcinha. Se isso era um erro, era tarde demais para voltar atrás. Cada célula do seu corpo suplicava por mais. De sua posição ajoelhada no chão, Clay inclinou-se para trás e estudou-a. Andrea não podia ver-lhe os olhos, e precisava ver, precisava saber se ele estava tão excitado quanto ela. Impacientemente, ela alcançou o abajur sobre o criado-mudo e acendeu-o. Uma luz fraca preencheu o quarto, mas antes que ela pudesse ler-lhe a expressão, Clay abaixou o olhar para seu sexo, seguroulhe os quadris e sentou-a na cama. Então, traçou o triângulo de pelos castanho-claros e massageou seu centro úmido com um dedo. Ela gritou diante da potência do toque. A respiração de Clay aqueceu sua coxa, então ele encontrou-a com sua boca. Olhos escuros cheios de paixão prenderam os seus, enquanto ele a provava, e cada célula do corpo de Andrea se tornou traidora. Não deveria ser bom assim. Ela agarrou os lençóis e inclinou a cabeça para trás. Pressionando os pés no chão, levantou os quadris, silenciosamente suplicando que ele lhe desse a liberação que ela almejava. Clay acariciou-lhe a barriga, as costelas, os seios. Ela estava tão perto. Sentiu-se balançando na extremidade do clímax, sua coluna se arqueando, sua respiração presa no peito. Então, ele levantou a cabeça. Desapontada, Andrea tombou contra o colchão, com um gemido abafado. Clay abriu a gaveta, achou o preservativo e protegeu-se. Erguendo-se sobre ela, levantou-lhe os joelhos e abriu-os, expondo-a. Encontrou sua entrada e penetrou-a numa única investida poderosa. Andrea passou os braços ao redor dele e entrelaçou as pernas de ambos, saboreando as sensações familiares que a percorriam. Ela não esquecera quão bem ele a preenchia, quão perfeitamente eles se encaixavam. Clay retirou-se, apenas para penetrá-la novamente, aumentando o ritmo e a força das investidas, enlouquecendo-a de prazer. Logo, o orgasmo abalou-a com a força de um furacão. Andrea abafou seu grito contra o ombro largo e enterrou as unhas nas costas dele. Mas Clay não acabara. Ele lambeu-lhe os seios com tanta avidez que provocou outra onda de desejo nela. Enquanto os quadris estreitos batiam vigorosamente contra os seus, ele beijou-a como se não pudesse ter o bastante. Andrea correspondeu com a mesma paixão. E então, Clay encontrou a liberação e gemeu seu nome uma vez. Duas vezes. A terceira vez levou Andrea a outro clímax. Clay apoiou-se sobre os cotovelos acima dela. Seus corpos permaneciam fundidos dos tornozelos ao peito.


Enquanto Andrea lutava para regular sua própria respiração, um pensamento trouxe-a de volta à realidade. Clay não desapontara. Nem perto disso. Droga.


CAPÍTULO 7

O TOQUE de uma campainha acordou Clay de um sono profundo. Ele abriu os olhos para um terreno não familiar. Não seu iate. O quarto de Andrea. A noite anterior lhe veio à mente, e desejo pulsou em seu corpo imediatamente. Pela primeira vez em oito anos, ele estava aonde pertencia. Na cama de Andrea. Virou a cabeça e encontrou o rosto corado dela no travesseiro. Virando-se de lado, aninhou-se mais ao corpo quente, segurou-lhe um seio e enterrou o rosto no cabelo sedoso, inalando. Sem perfume. Apenas o cheiro puro de mulher com um toque do xampu de coco de Andrea. Um sorriso curvou seus lábios. Ela enrijeceu, fazendo o sorriso de Clay desaparecer. Após uma rápida olhada para ele, Andrea afastou as cobertas, saiu da cama e correu para o banheiro. Ele franziu o cenho. – Está tudo bem? Ela reemergiu, apressadamente amarrando o roupão na cintura. – Você está aqui. Eu perdi a hora. Não, não está tudo bem. A campainha tocou novamente... um toque mais longo, desta vez. – Nada bom. Andrea saiu do quarto e desceu a escada. Ele ouviu a porta da frente se abrir, então vozes. Clay sentou-se, levando as pernas ao chão. Felizmente, ele e Andrea haviam tomado um banho às 3h, depois de fazerem amor a última vez, porque não parecia que um banho de banheira compartilhado aconteceria esta manhã. Mesmo sem a visita matinal, eles tinham menos de uma hora para chegar ao trabalho. Ele achou suas roupas e vestiu-se. Se tivesse sorte, poderia escapar para seu iate, fazer a barba e trocar de roupa, sem que ninguém em Dean notasse seu terno amassado. Não queria que Andrea fosse objeto de fofoca e especulação novamente, porém, mais cedo ou mais tarde, os funcionários de Dean descobririam que eles estavam juntos. Pela reação de Andrea esta manhã, ele soube que ela precisaria de um tempo para se acostumar com a ideia. Enquanto lavava o rosto no banheiro, Clay pensava sobre sua descoberta da noite anterior. Apaixonara-se por Andrea novamente. Talvez, nunca tivesse parado de amá-la. E não pretendia deixá-


la desta vez. Precisava convencê-la a se mudar para Miami. Ele penteou o cabelo, então desceu a escada. Quem teria ido à casa dela a esta hora da manhã? Era melhor que não fosse Haynes. O som de vozes vinha da cozinha. Um garoto com cabelo castanho-escuro estava sentado num banco de bar, de costas para Clay. Uma mochila ocupava o banco ao lado dele. Quem era a criança, e por que tinha ido à casa de Andrea tão cedo? Andrea virou-se da geladeira, avistou Clay e congelou no meio do passo com uma caixa de suco de laranja na mão. Sua boca abriu e fechou, mas nenhum som emergiu, então ela enrubesceu. Olhou para a criança, que se virou no banco. Clay abriu a boca para dizer olá, mas as palavras desapareceram. Ele olhou para uma figura de si mesmo como criança. O mesmo cabelo escuro. Os mesmos olhos azuis. O mesmo nariz reto. E a boca era de Andrea, com os lábios carnudos dela. – Clay, você deveria ter esperado lá em cima – disse Andrea. Ele nem a olhou. Não podia tirar os olhos do menino. – Qual é o seu nome, filho? – Tim Montgomery. Quem é você? Possivelmente seu pai. – Clayton Dean. Os olhos do garoto se iluminaram. – Tio Clay? Tio? – Sim. Quantos anos você tem, Tim? – Sete. O coração de Clay parou por um instante. Ele fugira de Wilmington há oito anos, sem olhar para trás para ver que repercussões deixara em seu rastro. Deixara uma grande. Ele tinha um filho. Por que Andrea não lhe contara? Como podia ter mantido seu filho em segredo? Como sua mãe podia ter feito isso? Patricia Dean soubera como contatá-lo. A velha raiva e traição subiram à superfície, mas ele as reprimiu. Não queria que a primeira impressão que seu filho tivesse do pai fosse de um lunático raivoso. Mas Clay estava furioso. Mais furioso do que já se sentira na vida. E estava com medo. Tinha um filho e não sabia nada sobre crianças. Tim movimentou-se no banco. – Andrea vai me levar para o trabalho hoje, por causa da escola. Talvez possa trabalhar um pouco com você, também? Andrea? Ele chamava a mãe pelo primeiro nome? Clay olhou para cima e viu um sorriso terno no rosto de Andrea. Ela encheu o copo do menino e bagunçou-lhe o cabelo. Carinhosamente. Como uma mãe faria. Outra onda de raiva o inundou. Ela lhe negara a oportunidade de amar seu filho. Ele obrigou-se a relaxar. – É junho. Por que você não está de férias? – Tim está num programa escolar de ano inteiro – Andrea respondeu pelo garoto. – Hoje é o dia de “leve seu filho para trabalhar”, mas, uma vez que minha mãe está aposentada e meu pai está viajando a negócios, eu me ofereci para levá-lo.


O pai e a mãe dela? – O que seus pais têm a ver com isso? Andrea guardou o suco, então, olhou-o por um longo momento. – Tim é meu irmão. Irmão? Mentira. A criança era a combinação perfeita de Clay e Andrea. Como ela podia negar o próprio filho? Por que nenhum dos funcionários fofoqueiros de Dean lhe contara que Andrea tivera seu filho? Porque eles a protegiam. Porque lembravam como Clay a machucara. – Andrea, posso falar com você, lá em cima? A expressão dela era cautelosa. – Claro. Preciso me arrumar, de qualquer forma. Termine seu cereal, Tim. Eu volto logo, e então iremos. Assim que eles subiram e entraram no quarto, Clay trancou a porta. – Como assim, seu irmão? O menino é meu filho. Choque estampou-se nas feições de Andrea. – Ele não é. – Você está mentindo. – Eu pareço ter tido um bebê? Você certamente esteve perto o bastante, ontem à noite, as três vezes, para ver qualquer marca ou cicatriz. – Ela soava insultada, indignada. Ele estivera muito ocupado compensando pelo tempo perdido, para notar algum sinal da gravidez no corpo dela. – Ele é meu – repetiu Clay. – Por que mais você pareceria em pânico quando o vi? – Porque meu irmãozinho não consegue guardar segredo. Ele contará para todo mundo que você estava aqui esta manhã, e que eu não estava vestida. Eu não preciso que a notícia seja anunciada em Dean. O que ela falava fazia sentido, mas ainda era mentira. Tinha de ser. – Ele se parece comigo. Como você pôde me negar meu filho? A expressão de Andrea tornou-se compassiva. Ela tocou-lhe o braço. Ele desvencilhou-se, não disposto a deixá-la diluir sua raiva com paixão. – Clay, Tim não poderia ser seu. Primeiro, eu saberia se tivesse dado à luz. Segundo, ele nasceu em fevereiro. A última vez que dormimos juntos foi no Ano Novo, antes de você se formar, em maio. Fevereiro. Ela estava mentindo? Você não poderia falsificar uma data de nascimento por seis meses. E então, ele entendeu, e a compreensão lhe roubou a força das pernas e o ar dos pulmões. Ele sentou-se na cama e abaixou a cabeça nas mãos. Fevereiro. Ele pegara seu pai com a mãe de Andrea em maio. Fez a conta e o resultado foi nove meses. Tim não era seu filho. Era seu meio-irmão, um produto do caso adúltero de seu pai com a mãe de Andrea. Clay era uma cópia do pai. Não era de admirar que o menino se parecesse com ele. – Não acredito que pense que esconderia um filho de você. Ou que seus pais me deixariam fazer isso. – Andrea pegou um travesseiro e jogou nele, as faces vermelhas de raiva. Ele podia sentir raiva nas palavras dela, vê-la na postura rígida, mas acima de tudo, viu honestidade nos olhos dourados. Seu coração, aos poucos, voltou ao normal, mas seu estômago estava embrulhado. Ele não era pai. Era irmão. Meio-irmão do meio-irmão de Andrea. Que confusão era essa? Seu pai sabia? Sua mãe? O pai de Andrea? Ela atravessou para a porta do quarto e destrancou-a.


– Por favor, vá, Clay. Eu preciso me arrumar. Estou atrasada e temos um dia de entrega hoje. Mais uma vez, a mãe de Andrea e seu pai tinham virado o mundo de Clay de cabeça para baixo. Tim era um lembrete vivo da infidelidade de seu pai. E Clay não poderia contar para Andrea. Ele levantouse. Havia tanto a dizer, e nada poderia ser dito. Da última vez, ele fugira. Desta, não poderia. Não fugiria de Andrea novamente. Ele não era seu pai. Ainda a amava, depois de todos aqueles anos de separação, então a amaria até o fim de seus dias. Todavia, isso não era mais somente sobre ele e Andrea. Um garotinho inocente poderia ser ferido. Clay precisava descobrir quem sabia a verdade sobre os pais de Tim. Isso significava que teria de falar com a mãe de Andrea, e, por mais que detestasse a ideia, teria de falar com seu pai. Clay pausou no vão da porta aberta e fitou-a. – Nós conversaremos esta noite. Ergueu um dedo para lhe roçar o rosto e abaixou-se para beijá-la, mas ela recuou. – Não haverá esta noite para nós, Clay. Ontem foi um erro. Culpe a nostalgia, os hormônios ou o que quiser. Eu não dormirei com você de novo. Tenho meu futuro planejado, e este não o inclui. Aquelas palavras o atingiram como um soco, mas ele não caiu. Faria com que ela mudasse de ideia. CONSIDERANDO A noite incrível que Clay tivera, esta estava se tornando uma manhã horrível. A primeira pessoa que ele viu, ao passar pelo portão de Dean, foi Toby Haynes. O piloto de corrida estava sentado no deck de seu iate, bebendo de uma caneca, e, embora Clay tivesse preferido ignorá-lo, cortesia demandava o contrário. – Bom dia, Haynes. – Dean. – Os olhos do homem viajaram do rosto não barbeado de Clay para seu terno amassado. – Noite selvagem? Por mais que Clay quisesse lhe contar com quem passara a noite, não faria isso. – Você está de pé mais cedo que o usual. – Esperando Andrea. Pensei que tomaríamos café juntos, esta manhã. Mas ela está atrasada. Clay hesitou. – Ela logo chegará, e virá com Tim. Hoje é o dia “leve sua criança para o trabalho”. – Nada surpreendente. Ela é louca por aquela criança. E como você sabe disso? Clay ignorou a pergunta. Ele não mentiria. – Aprecie seu café. Ele andou em direção ao The Expatriate. A risada de Toby o fez virar-se. – Desgraçado. Nunca digam que não sei perder. – O piloto levantou sua caneca em saudação. – Você ganhou esta, amigo. Mas não fique convencido. Eu não desisti. Voltarei. Andrea vale o esforço, e pretendo tê-la. Não pela primeira vez, Clay teve vontade de socá-lo. – Volte quando estiver pronto para encomendar Checkered Flag 4, mas Andrea e eu não estaremos aqui. – Por que isso? – Meus negócios estão em Miami. Um sorriso irônico brincou nos lábios de Haynes.


– Se você acha que ela vai deixar tudo aqui para acompanhá-lo, está muito enganado. Andrea não deixará Wilmington ou Dean. – Você está errado. – Quer apostar, Júnior? Porque esta parece uma vitória certeira para mim. PRESSÃO SE construiu no peito de Andrea até que ela estivesse prestes a gritar. No ritmo que estava indo, nunca estaria pronta para a celebração de entrega do barco a tempo. Respirou fundo, tentou reprimir as memórias da noite anterior. Não era fácil, quando cada movimento, cada roçar da roupa contra seus seios supersensíveis a fazia lembrar. O sexo tinha sido incrível. Do contrário, ela teria expulsado Clay da sua cama depois da primeira vez. Mas após vários orgasmos deliciosos, ela se deleitara no aconchego que Clay oferecera. Peter viera atrás de Tim, alegando que precisava da “ajuda” que apenas um menino de sete anos poderia oferecer. Andrea rezou para que as súplicas que ela fizera no caminho para o trabalho mantivessem a boquinha de Tim fechada sobre Clay estar na sua casa logo de manhã cedo. Clay entrara em seu escritório meia dúzia de vezes nas três horas desde que ela chegara. Adicionasse isso a uma visita surpresa de Octavia Jenkins, e a última coisa que Andrea precisava era ouvir um helicóptero se aproximando. Por favor, não deixe que os novos clientes cheguem adiantados. O iate deles nem mesmo está no cais ainda. Ela não tivera tempo para uma xícara de café, e a falta de cafeína estava lhe dando dor de cabeça. Uma batida à sua porta tirou seu olhar da janela e culpa a inundou. – Toby. Bom dia. – Bom dia, anjo. – Ele atravessou a sala, mas parou do lado oposto de sua mesa. Sem beijá-la. E isso a preocupou menos do que deveria. Ela não era do tipo que beijava um homem, então outro, apenas horas depois. – Eu vou embora hoje. Andrea piscou em surpresa. – Mas você tem mais uma semana de férias. Ele deu de ombros. – Eu vou voltar para as pistas. Não deveria ter tirado férias no meio da estação, de qualquer forma. Os rapazes levarão o iate. Não era alívio que ela estava sentindo, era? – Eu sinto muito vê-lo ir embora. – Eu voltarei. Pode esperar. – Ele piscou. Atrás de Andrea, o barulho do helicóptero aterrissando sacudiu as janelas. – Essa é minha carona e minha tripulação. Não dê seu coração para outra pessoa enquanto eu estiver longe, Andi. – Ele virou-se e partiu. Sem um beijo de despedida. Andrea sentou-se em sua cadeira, apoiou os cotovelos sobre a mesa e abaixou a cabeça nas mãos. Seu futuro acabara de sair pela porta, enquanto seu passado residia no fim do cais, como um borrão em sua paisagem pessoal. Ela contara com um fechamento de sua história passada. Em vez disso, estava cada vez mais confusa e deprimida. Não amava Clay. E nunca o amaria novamente. Mas duvidava seriamente que algum dia seria capaz de amar outra pessoa.


Logo depois que o helicóptero partiu, Clay entrou novamente em sua sala, carregando uma caneca de café. – O que foi, agora? – perguntou ela, mal-humorada. Clay estudou-a por um minuto e passou-lhe a caneca. – Cuidado. É café de Nova Orleans. Mais forte do que você está acostumada. Como ele sabia que ela precisava de cafeína? Mas então, lembrou. Eles haviam compartilhado manhãs suficientes no barco de Clay para que ele soubesse que ela não podia começar o dia sem café. Andrea segurou a caneca entre as mãos, inalou, então deu um gole. Maravilhoso. – Obrigada. – De nada. Importa-se se eu mostrar The Expatriate para Tim? Se ela se importava? Poderia beijá-lo. Não. Não poderia. Não mais disso. – Tenho certeza de que ele adoraria isso. – Eu posso mantê-lo ocupado até a festa, se isso ajudar você. Por que ele tinha de ser tão gentil? Ela não queria que ele fosse gentil. – Isso seria ótimo. Ela queria que Clay fosse o patife egoísta que partira seu coração. O patife esquecível que partira seu coração. Porque então, não seria difícil deixá-lo ir. Novamente. NO DECK dos fundos do escritório de vendas de Dean, Andrea olhou furtivamente ao redor, então discou o número de sua amiga no celular. Os novos donos chegariam a qualquer momento, e seus nervos estavam à flor da pele. – Rainbow Glass. Aqui é Holly. – Eu fiz bobagem – sussurrou Andrea. – Oh, Andrea. O que você fez? – Eu dormi com Clay. – Silêncio cumprimentou sua confissão. – Vá em frente e fale o que pensa. – Sou uma amiga muito boa para lhe dizer que a avisei. Então, por que você dormiu com ele? Andrea suspirou. – Minha racionalização parecia lógica no momento. Sexo deveria ser anticlímax, decepcionante. – E não foi. – Não. Foi ótimo. Melhor do que lembrava. – Você ainda o ama? – Não. Pelo amor de Deus, não. Está louca? – Ela deu uma olhada em direção ao cais. – Como poderia amar um homem que me machucou desse jeito? Eu teria de ser uma idiota para querer sofrer mais. – E quanto a Toby? – Foi embora. Partiu uma hora atrás, e, embora ele tenha dito que voltará, acho que isso não vai acontecer. Ele nem sequer me deu um beijo de despedida. – Andrea abaixou a cabeça. – Holly, fiz isso de novo. Destruí outro relacionamento promissor. – Eu sei que você não quer ouvir isso, mas foi melhor assim. Juliana e eu achamos que Toby só estava atrás da conquista. Uma vez que tivesse dormido com você, ele provavelmente perderia o interesse. Suas amigas estavam certas? Não, não poderiam estar. Elas não conheciam bem Toby, não haviam testemunhado como ele a tratava, como se ela fosse a coisa mais importante de sua vida... depois das


corridas de carro. – Eu acho que vocês estão enganadas, Holly. Esta minha coisa com Toby já dura há anos. – Ele está brincando com você há anos, quer dizer... uma brincadeira de gato e rato. Uma buzina soou e ela quase derrubou o telefone. Andrea virou-se em direção ao cais, enquanto a tripulação manobrava o mais novo iate na vaga recentemente liberada pelo Checkered Flag 3, a fim de prepará-lo para a celebração de entrega. Tim tocava a buzina na ponte de comando. Ela podia ver o sorriso feliz dele, a metros de distância. Acenou, então Clay subiu no deck do topo e parou ao lado de Tim. O estômago de Andrea se contorceu. Tim se parecia realmente com Clay. O pensamento roubou-lhe o fôlego. Mas como isso era possível? Não, não era. Era simples coincidência. – Holly, podemos almoçar juntas em breve? Eu quero ouvir sobre você e Eric. Ainda acho que você trapaceou comprando o irmão de Juliana, em vez de aquele bombeiro lindo, mas talvez Octavia tenha razão. Eric pode ser o homem certo para você. Opostos se atraem e tudo isso. – Cale-se, Andrea Montgomery. Aquele artigo foi indesculpável, e pode apostar que vou estrangular Octavia por isso. Eric é um amigo, não importa quão bonito ele seja. – Então, você admite que ele é bonito. – Holly suspirou, mas um sinal da recepcionista chamou a atenção de Andrea. – Ouça, Holly, preciso desligar... os novos donos chegaram e Tim está aqui comigo, hoje. Dia louco. – Depois de uma noite louca. Andrea, fuja de problemas e da cama de Clay, até que descubra o que quer. Ele não vai ficar. Lembre-se disso. Como ela poderia esquecer? Ele a deixaria, como fizera da última vez. E Andrea ainda não sabia por que era tão dispensável. ELAINE MONTGOMERY parecia chique e muito mais jovem do que a idade que tinha, com seu cabelo loiro bem penteado e suas curvas delgadas num traje elegante. Cabeças tinham se virado quando ela atravessara o restaurante, indo para a mesa onde Andrea esperava. Mas, como de costume, Andrea percebeu, sua mãe não notou a atenção. Andrea podia apenas esperar que tivesse uma aparência assim tão boa quando chegasse aos cinquenta anos. – Holly e Juliana não se juntarão a nós, esta noite? – perguntou sua mãe quando elas estavam sentadas à mesa de um restaurante em Market Street. – Não. Elas estão ocupadas com seus solteiros. E quanto a Patricia? – Ela está grudada em Joseph, como um selo a um envelope. Não sai do lado do marido desde o derrame, exceto pelo dia do leilão de solteiro, e então, ela contratou uma enfermeira. Eu tive esperança de que Clay ficasse um pouco com Joseph, e desse uma folga para Patricia. Não acho que ela concordaria de deixar Joseph com alguma outra pessoa. Deus sabe que seu pai e eu, assim como a maioria dos membros do Caliber Club, oferecemos. O anel de diamante que o pai de Andrea dera para sua mãe no aniversário de trinta anos de casamento deles, diversos anos atrás, brilhava na luz que vinha de cima, e Andrea sentiu uma ponta de tristeza. Do jeito como as coisas iam, ela nunca teria um anel de casamento, muito menos outra joia para celebrar anos da união. – Eu estou trabalhando em Clay, mas ele ainda se recusa a falar com o pai, e não me conta por quê. Então, somos só nós duas esta semana, novamente. – Andrea agradeceu silenciosamente a chegada do


garçom, porque isso lhe dava tempo para organizar seus pensamentos. Depois de ele anotar o pedido dos drinques e da entrada, e sair, ela notou a expressão tensa de sua mãe. – Está tudo bem? O sorriso de sua mãe pareceu forçado. – É claro. E, antes que esqueça, Timmy se divertiu muito hoje. Obrigada por tê-lo levado. Você sabe como ele adora passar tempo em Dean. Ele falou com seu pai sem parar sobre o dia que passou com Clay. Acho que ele tem um novo herói. Andrea escondeu seu temor e esperou que Tim guardasse segredo. – Como está sendo trabalhar com Clay? Sua mãe não tinha ideia da pergunta difícil que fizera. – Ele lida com os detalhes de Dean como um profissional. Joseph ficará satisfeito. – Mas? Por onde ela deveria começar? Com seu erro da noite anterior ou com a estranha acusação de Clay? Normalmente, ela e sua mãe eram tão próximas como irmãs, mas Andrea não estava pronta para compartilhar seu erro, porque não o compreendia. Racionalmente, sabia que dormir com Clay tinha sido um erro estúpido... um que ela não poderia repetir, por mais que seu corpo o quisesse. Mas toda vez que ele a tocara hoje... o que ele fizera frequentemente durante a celebração de entrega do barco... seus hormônios haviam entrado em ebulição. Ela deu um gole da água. – Quem na sua família tem cabelo escuro? Sua mãe olhou para cima, abruptamente. – Por quê? – Porque Clay pensou que Tim fosse filho dele. – Ela bufou em desgosto. – Como se fosse esconder dele uma coisa como esta. Mas Clay disse que Tim se parece com ele. E acho que parece um pouco, mesmo. Talvez, mais por causa da cor do cabelo e dos olhos. Papai tem olhos azuis, mas não sei de onde veio a cor do cabelo de Tim. O garçom chegou com as bebidas e saladas, então anotou os pedidos e se retirou. Sua mãe deu um gole de seu drinque. – Seu bisavô, meu avô, tinha cabelo escuro, e certamente há outros parentes do lado de seu pai, mas, no momento, não me recordo quem. – Então suponho que Tim puxou descendentes mais distantes – murmurou Andrea. – Sim. – Sua mãe pegou o garfo de salada. – Tim falou que era o carro de Clay que vi na sua garagem esta manhã, quando o deixei lá. O apetite de Andrea desapareceu. Ela brincou com sua salada. Lá se ia seu segredo. – Sim. – Você acha que é sábio envolver-se com ele, novamente? – Eu não estou envolvida com ele. – Andrea, havia orvalho sobre o carro dele, indicando que Clay não chegara recentemente. Andrea encolheu-se. – Eu só quero esquecê-lo, mamãe. Achei que dormir com ele me ajudaria com isso. Sua mãe cobriu-lhe a mão. – Oh, querida, isso nunca funciona. – Como você saberia? Conheceu papai no ensino médio e vocês estão juntos desde então. Por que não posso encontrar um amor perfeito como esse? Elaine abaixou o olhar, mas não antes que Andrea capturasse uma tristeza profunda neles.


– Amor nunca é perfeito, e tive uma vida antes de seu pai, sabia? Andrea piscou em surpresa. – Achei que papai tivesse sido seu primeiro amor. – Harrison foi meu primeiro amante, e é o amor da minha vida. Eu o agradeço a Deus todos os dias. Primeiro amante? Seus pais tinham namorado no ensino médio, e se casado logo após a faculdade... assim como Andrea e Clay haviam planejado. Quando sua mãe tivera tempo de ter outro amante? Se ela e o pai de Andrea tivessem se separado em algum ponto, e depois voltado, eles nunca mencionaram o fato. Por mais próximas que mãe e filha fossem, Andrea não queria ouvir sobre a vida íntima de sua mãe. Então, mudou de assunto, mas isso não impediu que as questões continuassem girando em seu cérebro.


CAPÍTULO 8

CLAY PAUSOU em sua corrida matinal tempo o bastante para comprar um jornal numa loja de conveniência. Leu a segunda publicação de Octavia Jenkins. Clayton Dean parece ansioso para monopolizar Andrea Montgomery. Fontes dizem que os exnamorados completaram quatro dos seus sete encontros em apenas duas semanas. Isso é porque Clay teme competir pelas atenções de Andrea com seu concorrente sexy, ou porque as velhas brasas não estão tão frias quanto eles alegam? Esta repórter descobriu que, além de pores do sol, eles compartilharam alguns nasceres do sol, também. Era um milagre que Andrea não tivesse batido a sua porta novamente esta manhã para brigar com ele. Ele detestaria isso. Clay dobrou o jornal e correu de volta para Dean. Sua pulsação acelerou, e não tinha nada a ver com a corrida. Ele queria ver Andrea novamente. Quanto antes, melhor. Restavam três dias a eles, e ele a convenceria de ir para Miami. Independentemente do que o piloto de corrida dissesse, Clay sabia que seria bem-sucedido. Fracasso não era uma opção. Clay pegou o caminho de acesso para Dean. Ainda não descobrira mais sobre os pais de Tim. No dia anterior, convidara sua mãe para jantar, a fim de questioná-la e ver o que ela sabia. Mas sua mãe respondera com outro convite... para que ele jantasse com ela e seu pai. Clay recusara. Ainda não estava pronto para encarar Joseph Dean. Quanto a Elaine Montgomery, ele pretendia abordá-la assim que possível, e tinha a desculpa perfeita. Tim esquecera seu videogame portátil no iate de Clay, no dia anterior. Duas horas depois, Clay tocou a campainha da casa dos Montgomery. Elaine abriu a porta. Os olhos, do mesmo tom de caramelo que os de Andrea, arregalaram-se em surpresa. – Clayton. Que... bom vê-lo. – Ela mentiu educadamente. – Posso entrar? A relutância dela não poderia estar mais clara. A noite anterior tinha sido a noite das mulheres. Andrea contara à mãe sobre a reação de Clay ao conhecer Tim?


– Eu trouxe o videogame de Tim. – Tim foi pescar com o pai. Eu entregarei a ele. Obrigada por ter trazido. – Ela estendeu a mão, mas Clay tirou o videogame do seu alcance. – Com o pai? – O tom de Clay foi sarcástico. Elaine empalideceu. – Entre. Ela o conduziu para a sala de estar, que parecia igual oito anos atrás. Ele e Andrea tinham namorado naquele sofá muitas vezes. – Aceita um drinque? Ele não podia fingir que aquela era uma visita social. – Meu pai sabe? – Sabe o quê? – Elaine fingiu ignorância, mas não era boa atriz. Estava visivelmente agitada. – Não faça jogos comigo, Elaine. Tim é filho do meu pai. Ela ergueu o queixo, do mesmo jeito como Andrea fazia quando se preparava para batalha. – Você está enganado. Harrison é pai de Tim de todas as maneiras. O nome dele está na certidão de nascimento de Tim. – Isso pode torná-lo responsável aos olhos da lei, mas aquele garoto carrega o DNA dos Dean. Ela abriu a boca, mas Clay interrompeu: – Não perca meu tempo com mentiras. Eu quero saber quem sabe, e se meu pai sabe, então por que o patife não fez alguma coisa? – E o que você queria que ele fizesse, me forçasse a um aborto? Que se divorciasse de sua mãe, a mulher que ele amou mais do que a vida, e destruísse duas famílias, baseado na possibilidade de que Tim fosse dele? – Se ele a amasse, não a teria traído. – Nós não somos perfeitos, Clay. Nenhum de nós. E isso inclui você. Todos cometem erros. – Elaine sentou-se numa poltrona e o encarou. – Não culpe seu pai por isso. Foi culpa minha. – É preciso dois para o que aconteceu. – Você não entende. – Então, explique-me. Como você pôde trair seu marido e sua melhor amiga? E quanto tempo durou o caso? Ela hesitou, antes de responder: – Foi apenas aquela vez. Seu pai e eu nos arrependemos do erro imediatamente. Sabíamos quanto nosso egoísmo poderia custar para nós e para aqueles que amávamos, e juramos que aquilo nunca mais aconteceria. E não aconteceu. Quando Joseph viu que você havia partido e não voltaria, ficou arrasado. E me senti duplamente culpada por ter sido uma parte do que o levou embora. O que você viu naquele dia jamais deveria ter acontecido. – Se você amava tanto seu marido, por que arriscar um caso? Tristeza preencheu os olhos de Elaine. – Porque, muito tempo atrás, fui apaixonada pelo seu pai, e então ele conheceu minha melhor amiga. Daquele momento em diante, Joseph não tinha olhos para ninguém mais. Patricia tornou-se o mundo dele. Surpreso, Clay sentou-se no sofá. – Você se casou com outro homem.


– Sim, e amo Harrison, mas não era igual o amor que eu sentia pelo seu pai. Você nunca esquece seu primeiro amor. Por isso, você nunca esqueceu Andrea, e ela nunca o esqueceu. Quando fiz 40 anos, comecei a questionar o que tinha perdido me casando tão jovem, e não ter visto o mundo, não ter me tornado amante de seu pai quanto tive a chance. Estupidez da minha parte... querer mais, quando eu tinha tudo. Um marido que me mimava. Uma filha linda e talentosa. Uma casa de um milhão de dólares. E eu... – Ela pausou, fechou os olhos e respirou fundo. Quando os reabriu, havia força e resignação neles. – Eu seduzi seu pai, Clay. Não de maneira deliberada ou maliciosa. Mas o resultado foi o mesmo. – Eu estava com 47 anos. Nunca me ocorreu que pudesse engravidar. Harrison e eu tentamos conceber outro bebê por diversos anos, depois que Andrea nasceu. Sempre quisemos uma família grande. Quando o médico me disse que estava grávida, fiquei radiante. Apenas bem mais tarde, dúvidas surgiram e percebi que não sabia quem o pai era. E poderia ser qualquer um dos dois. Clay encolheu-se. Muita informação. – Eu tive uma gravidez difícil desde o começo, então parei de trabalhar. E, honestamente, fiquei aliviada, porque então, não precisava encarar Joseph, ou a vergonha no rosto dele, todos os dias. Por causa da minha idade, estava mais preocupada se meu bebê seria ou não saudável do que de quem era o DNA que ele carregava. De qualquer forma, Tim foi uma benção. Era carequinha. Quando o cabelo nasceu, era castanho-claro, como o de Andrea é agora, e os olhos eram azuis, como os de meu marido. Não foi até que Tim se aproximou de seu terceiro aniversário que ambos escureceram. E temos parentes com cabelo escuro. Clay não queria sentir compaixão por ela, mas o ódio que alimentara por oito anos diminuiu um pouco. – Meu pai sabe? – Ele nunca perguntou, e nunca ofereci a informação. O mesmo vale para Harrison e para sua mãe. – Como ela pode olhar para Tim e não me ver? – Tim se parece comigo de muitas maneiras, e, Clay, amor é um sentimento poderoso. Pode fazer você não enxergar o que não quer saber. Na verdade, nenhum de nós sabe realmente quem é o pai de Tim. Não temos razões para fazer um teste de DNA. E os tipos sanguíneos são inconclusivos. – Seu marido sabe que você o traiu? Andrea sabe? – Não. Aquilo estava acabado. Não podia ser mudado. E não ia acontecer novamente. Contar-lhes apenas causaria dor a eles. Portanto, não contei. Harrison adora Tim. Eu jamais faria alguma coisa que os separasse. A confissão de Elaine confirmava que Clay não poderia contar a Andrea por que partira, sem ferir a Tim ou a ela. Então, o que ele faria? – Eu amo sua filha. – Ama? – Ela soou cética. – Eu não deixarei Wilmington sem Andrea, desta vez. – Se você a tivesse amado o bastante, não a teria abandonado da última vez. Clay arfou diante do ataque inesperado. – E se amasse seu pai, você o teria perdoado por não ser perfeito, e teria parado de punir sua mãe por alguma coisa que não foi culpa dela. Ele não ouviria um sermão de uma mulher que quase destruíra sua família, e ainda podia destruir, se a verdade fosse revelada. Clay levantou-se e foi para a porta, fechando a mão na maçaneta.


Elaine pressionou uma mão na porta, mantendo-a fechada. – Você era a coisa mais importante na vida de Patricia, Clay. Pode me odiar, se quiser, mas sua mãe não merece o que você fez com ela. E nem Andrea. Clay fitou Elaine Montgomery com raiva, abriu a porta e partiu. A verdade doía. ANDREA COSTUMAVA adorar segundas-feiras, a promessa de uma nova semana, a excitação do que poderia realizar nos próximos cinco dias, interagindo com os funcionários, enquanto eles davam forma aos sonhos dos clientes com fibra de vidro e madeira. Mas seu amor pelas segundas se transformara em medo desde o retorno de Clay. Ultimamente, ela estava muito tensa, esperando que Clay entrasse em sua sala, ou pior, que a chamasse no “escritório” dele, como fizera esta manhã. Ela reuniu seus arquivos necessários e foi para o cais em calça de moletom e sapatos de sola de borracha. Sem mais saias curtas ou sapatos sexies. Missão cumprida. Fizera Clay desejá-la. Todavia, seu objetivo se voltara contra ela, porque o contrário também era verdadeiro. Ele a fizera desejá-lo. O sol batia em sua pele, prometendo outro dia quente de junho, com humidade sufocante, mas hoje, graças ao artigo de Octavia, o temperamento de Andrea combinava com o tempo. Ela entrou no iate de Clay e o avistou sentado à mesa da cozinha, então bateu à porta com mais força do que a necessária. Clay ergueu os olhos do documento a sua frente, e o impacto daqueles olhos azuis atingiu-a em cheio. Ele gesticulou para que ela entrasse. Andrea abriu a porta, e o ar-condicionado esfriou sua pele, mas não fez nada para esfriar o calor que se instalou em seu baixo-ventre. – Sente-se. Você trouxe a lista dos clientes em potencial? Andrea depositou os arquivos na frente de Clay, e sentou-se o mais longe possível dele. Infelizmente, isso deu-lhe uma vista livre da escada de escotilha que levava à cabine. Tim falara muito sobre os objetos legais no barco de Clay, despertando a curiosidade de Andrea, mas ela não ousava pedir por um tour. Se ela descesse para o deck inferior, e ouvisse o barulho das ondas no casco, sua resolução de manter distância se desfaria com o peso das memórias de fazer amor com ele. Andrea focou-se em suas anotações. – Os Langford virão visitar amanhã para encomendar um barco de pesca de setenta pés. Os Richardson estarão aqui na sexta. Não sabem exatamente que modelo querem, mas eles têm condições financeiras de comprar quase qualquer coisa que construímos. Eu também incluí dois novos casais que não estão na sua agenda. Os quatro casais estão bem de vida. Ele olhou para a papelada, então, empurrou-a de lado. – Eu fiz reservas para nós em Devil’s Shoals Steakhouse, para amanhã à noite. Alarme a preencheu. Devil’s Shoals Steakhouse era o restaurante mais romântico e exclusivo da área. – Não. – Como assim, “não”? – Eu estou recebendo olhares compassivos do staff por causa da história de Octavia. Não sairei com você, para que eles pensem que sou estúpida o bastante para me apaixonar por você, novamente. A partir de agora, você me verá no trabalho e em nenhum outro lugar. Clay franziu o cenho.


– Ainda restam três encontros para nós. – Sendo aquela que comprou seu pacote de leilão, tenho direito de cancelar os encontros. Estou exercendo esta opção. – E quanto à publicidade? – Prefiro abrir mão da publicidade a... passar por isso. Um momento de silêncio se seguiu, então Clay murmurou em voz baixa: – Minha mãe me convidou para jantar. – Isso é maravilhoso. – Eu não vou sozinho. Cada músculo no corpo de Andrea enrijeceu com medo. Não peça. Por favor, não peça. – Tenho certeza de que você pode encontrar uma companhia. – Eu só vou se você for comigo. – Não seja ridículo. Seus pais querem ver você, não eu. – Eu não vou sem você. Andrea fechou as mãos sob a mesa. Prometera fazer qualquer coisa que fosse necessária para unir Clay e Joseph. Ir ao jantar realizaria aquele objetivo. – Tudo bem. Mas isso não é um encontro romântico. Eu o encontrarei lá. – Não. Eu iria, e você não apareceria. Eu apanho você às 18h, e nós vamos juntos, ou nada feito. Andrea queria gritar. Em vez disso, forçou-se a assentir. – Eu estarei pronta. UM REDEMOINHO de emoções girava na barriga de Clay. Raiva. Ressentimento. Traição. Culpa. Sua mão tremeu quando ele extraiu a chave da ignição e olhou para a grande casa Colonial onde crescera. Um homem mais esperto colocaria o carro em movimento e iria embora. Mesmo com Andrea linda e sexy, num vestido de verão amarelo, ao seu lado, esta não seria uma noite agradável. – Clay? Ele piscou. Andrea estava ao lado do seu carro na garagem semicircular. Ele nem mesmo a ouvira sair do veículo. A porta da frente se abriu, e sua mãe saiu na varanda. Não havia retorno agora. Ele chegara longe demais. E, ora, não era um covarde. Anos de raiva, aspereza e acusação ferviam como lava em seu interior, esperando por liberação. Esta noite, confrontaria seu pai com os fatos, no minuto que ficasse a sós com ele. Desceu do carro, juntou-se a Andrea e subiu para a varanda ao seu lado. – Olá, querida. – Sua mãe cumprimentou Andrea com um beijo no rosto, então, voltou-se para Clay, abraçando-o pela cintura com força suficiente para lhe roubar o ar dos pulmões. Quando ela afastou-se, lágrimas brilhavam em seus olhos. – Bem-vindo ao lar. Culpa o assolou quando as palavras de Elaine soaram em sua cabeça. Sua mãe não merecia o que você fez com ela. – Mamãe, é bom ver você. O que mais ele poderia dizer? Não era bom estar em casa. Clay estudou-a, notando as linhas de tensão que estivera muito zangado para ver no dia do leilão. Sua mãe parecia mais velha, cansada, nervosa.


– Entrem, entrem. Eu cozinhei o dia inteiro. Fiz tudo que você gosta, Clay. – Clay seguiu-a para dentro. – Onde estava Dora quando você invadiu a cozinha? – Cozinheira e governanta, Dora estava com eles desde a adolescência de Clay. – Ela jogou cartas com seu pai e a fisioterapeuta, enquanto eu cozinhava, e hoje é a noite de bingo de Dora. Fisioterapeuta? Clay olhou para Andrea, pedindo uma explicação. Tristeza tingiu o sorriso dela. – Pôquer ainda é a única maneira de convencer Joseph a fazer seus exercícios? Exercícios? Sua mãe dissera que o derrame de seu pai tinha sido leve, e que ele logo estaria novo em folha. Ela virou-se em direção à sala de estar, o que surpreendeu Clay. Sua família sempre preferira a saleta ensolarada nos fundos da casa, com sua vista para a Intracoastal Waterway, a sala formal raramente usada. Os móveis da sala de estar haviam sido afastados, e a mesinha de centro, removida. E então Clay viu seu pai e seu mundo parou. O homem curvado na cadeira tinha pouca semelhança com o homem robusto que Clay amaldiçoara por oito anos. Um sorriso torto levantava o canto direito da boca de seu pai, chamando a atenção para os músculos caídos do lado esquerdo do rosto. Ele tentou se levantar e, imediatamente, a mãe de Clay correu para o lado do marido, a fim de ajudá-lo, porque ele não podia fazer aquilo sozinho. Andrea, no disfarce de dar um abraço em Joseph, puxou-o sobre os pés e firmou-o. – Olá, bonitão. Eu soube que você só ganha da fisioterapeuta no jogo. – Preciso descontar o que ela me faz passar. – A voz de seu pai soava fraca. Foi somente então que Clay notou o andador de metal ao lado da cadeira de balanço dele. Andrea deu um passo ao lado, mas Clay notou que ela não se afastou muito. Uma das mãos descansava na cintura de seu pai, apertando-o quando Joseph levantou a mão direita e vacilou sobre os pés. Os sapatos de Clay pareciam de chumbo. Com grande esforço, ele deu um passo à frente para aceitar o aperto de mão de seu pai. – Bom ter você em casa, filho. – A voz de seu pai falhou, e lágrimas preencheram os olhos dele. – Pai. – Chocado pela fraqueza de seu pai, Clay desviou o olhar. Por que ninguém o avisara? E então, percebeu que Andrea tentara, e ele se recusara a ouvir. Nas duas últimas semanas, ele a interrompera cada vez que ela mencionara seu pai. Então, ele entendeu por que eles estavam na sala de estar. Seu pai provavelmente não conseguia descer os três degraus para a saleta dos fundos. – Por que vocês dois não se sentam e conversam? – sugeriu sua mãe, gesticulando para Clay ocupar a poltrona ao lado da do pai. Ela e Andrea tentaram ajudar Joseph a se sentar, mas ele dispensou-as com um gesto irritado da mão e, devagar, conseguiu se sentar. Sua mãe tocou o braço de Andrea. – Querida, eu poderia usar sua ajuda na cozinha. Andrea encontrou-lhe o olhar quando passou, a expressão compreensiva. Ela apertou-lhe a mão brevemente, então, soltou-a antes que mais do que uma faísca pudesse acender. A porta entre a sala e a cozinha foi fechada pelas mulheres. A sós, finalmente. Clay respirou fundo e encarou seu pai. Lá estava a oportunidade pela qual estivera esperando, para dizer ao seu pai o que pensava sobre ele. Para lhe contar sobre Tim.


Mas Clay não foi capaz de fazer isso. Não foi capaz de golpear verbalmente o homem fraco a sua frente. Mas faria isso. Mais tarde. Quando seu pai estivesse mais forte. Por enquanto, ele se contentaria com um assunto relativamente seguro... negócios. PREOCUPADA COM o silêncio de Clay, Andrea destrancou a porta de sua casa e virou-se para olhá-lo. Ele não falara desde que saíra da casa dos pais. – Clay, você está bem? A luz de sua varanda iluminava as feições fortes de Clay, a ruga entre as sobrancelhas. – Eu não sabia que ele estava tão mal. Onde estava a satisfação que ela esperara sentir? Quisera que Clay ficasse chocado, que se sentisse culpado por não correr para o lado de Joseph logo após o derrame, e por se recusar a ver o pai desde que voltara para casa. E, sim, ela quisera que Clay reconhecesse que poderia ter perdido o pai sem fazer as pazes com ele, antes. Todavia, em vez de vangloriar-se pelo sucesso da noite, Andrea sentia a dor de Clay, lembrava-se de seu próprio choque ao ver um homem que adorava caído... literal e figurativamente. Ela tivera cinco semanas para se acostumar com as mudanças em Joseph Dean. Clay tivera meras horas. – O prognóstico dele é bom. – Ele mal pode andar. A mão esquerda está praticamente inútil. – Os desafios físicos irão melhorar com fisioterapia. Ele já fez grandes progressos desde que aconteceu. Clay passou uma mão pelo cabelo. – Ele estava pior do que isso? Ela assentiu. – Os médicos dizem que ele fará a maior parte da recuperação nos primeiros meses, então vai continuar progredindo num ritmo mais lento por mais um ano. Ele piscou, mas os olhos ainda pareciam chocados. – Obrigado por ter ido comigo. – De nada. Você vai voltar para seu iate agora? Ele meneou a cabeça. – Eu preciso... pensar. Vou dirigir por um tempo. Distraído como ele parecia estar, dirigir não seria seguro. A estrada estava cheia de turistas de verão, que não tinham ideia para onde estavam indo. Era preciso concentração total para evitar um acidente. Sem dúvida, Clay precisava de conforto, mas Andrea temia que, se o convidasse para entrar, acabaria confortando-o na cama. Apesar de ter trocado os lençóis e espirrado perfume no colchão, seu quarto ainda tinha o cheiro de Clay. Ele habitava seus sonhos todas as noites, como se estivesse ao seu lado na cama. Em vez de apagar as memórias, dormir com ele aparentemente as refrescara. Ela não conseguia parar de pensar nele, de desejá-lo. – Quer andar um pouco na praia? Ele enfiou as mãos nos bolsos, olhou para seu carro e para rua, então de volta para ela. – Claro.


Ela o conduziu através da saleta, pausando para tirar as sandálias e deixar sua bolsa numa cadeira, enquanto ele removia os sapatos de couro e enrolava a calça cáqui até o meio da canela. Ele a seguiu para a porta dos fundos, e eles desceram os degraus para a praia. A lua refletia na água, e o calor do dia permanecia na areia. Uma brisa suave soprava do oceano, movendo a bainha de seu vestido contra seus joelhos. Eles caminharam alguns minutos em silêncio, lado a lado, como nos velhos tempos, mas no passado, teriam andado abraçados ou de mãos dadas. Andrea percebeu que Clay não estava mais do seu lado. Ele parara mais atrás, enquanto ela estava perdida em pensamentos. Ela voltou e parou ao seu lado. Clay suspirou. – Conte-me o que aconteceu. Ela esperara que ele perguntasse durante o jantar. Em vez disso, ele tinha sido educado, porém distante, mantendo a conversa impessoal e tratando os pais mais como clientes do que como família. – Joseph teve um derrame embólico. Isso é causado por um coágulo que se aloja no cérebro, interrompendo o fluxo do sangue e danificando as células afetadas. – Quem o encontrou? Andrea olhou para a água. – Eu. Nós íamos fazer um teste no mar, depois do almoço. Joseph estava atrasado, mas pensei que ele ainda estivesse ao telefone com um de nossos clientes exigentes, então continuei esperando. Quando finalmente fui procurá-lo, encontrei-o caído de joelhos no meio do escritório. – Culpa fechou a garganta dela. – Se eu tivesse ido mais cedo... Clay segurou-lhe o braço e virou-a de frente para si. Então a liberou, rapidamente. – De maneira alguma, você pode se culpar por isso. – Joseph nunca se atrasa. Eu deveria ter ido procurá-lo antes. – Por que ele não pediu ajuda? – Ele não conseguiu. A fala foi afetada. Por sorte, os remédios que ele tomou no hospital reverteram isso. Você deve ter notado que ele ainda está um pouco lento para achar as palavras, mas ele as acha, e o raciocínio de Joseph está claro. – Ele está muito... emotivo. O embaraço de Clay diante das lágrimas do pai havia sido óbvio. – Outro efeito colateral do derrame é ter problema em controlar emoções. Isso também deve melhorar. Clay balançou a cabeça. – Ele não será capaz de voltar ao trabalho em dois meses. – Os médicos dizem que talvez ele possa, mas terá de trabalhar menos. Ele precisa da sua ajuda, Clay, por quanto tempo você puder dá-la. – Eu tenho minha própria companhia para dirigir. Não posso ficar aqui. – Você não poderia relocar Seascape? – Andrea queria retirar as palavras no momento em que as falou. O que você está dizendo? Quer que ele volte para casa? Não. Definitivamente não. Não poderia lidar com seu desejo por Clay em bases diárias, porque nunca poderia confiar que ele não a machucaria, novamente. Se ele voltasse, ela teria de se demitir de Dean, e isso partiria seu coração. Investira o amor que não pudera encontrar em sua vida pessoal na empresa. O staff era como uma família.


Clay andou em direção ao mar, parando quando uma onda bateu nos seus tornozelos. – Eu voltarei para Miami. Não posso... ficar aqui. Andrea umedeceu os lábios. Amava Patricia e Joseph Dean quase tanto quanto amava seus próprios pais, e os Dean ficariam radiantes se Clay voltasse para Wilmington e assumisse seu lugar de direito na Dean Yachts. Ela precisava fazer tudo que estivesse em seu poder para que isso acontecesse. Inalando profundamente, preparou-se para a pergunta que sempre soubera que teria de fazer. – Você ficaria, se me demitisse? Clay virou-se e andou na sua direção, parando a poucos centímetros dela. – Andrea, já lhe disse que não foi por sua causa que parti. Ela ergueu o queixo e encontrou seu olhar. – Mas não explica por que partiu, então, até que você se abra comigo, Clay, tenho de acreditar no que os fatos me dizem. E os fatos me dizem que sou a razão pela qual você e seu pai não estão se falando. O maxilar dele enrijeceu. Por vários segundos, ele prendeu-lhe o olhar, e Andrea pensou que ele lhe contaria o que ela precisava desesperadamente saber. Ficou tensa com ansiedade. O que está errado comigo? Por que todo homem que gosto me dispensa? – Eu quero falar com o médico dele. Ela piscou diante da mudança de assunto, desapontada. – Tenho certeza de que isso pode ser arranjado. Peça para sua mãe marcar uma hora. E talvez, pudesse considerar se oferecer para ficar com seu pai, de vez em quando. Patricia mal sai do lado de Joseph desde que o derrame aconteceu, e ela precisa de uma folga, antes que adoeça, também. – Eu falarei com ela sobre contratar alguma ajuda. Mas ele não se ofereceria para ficar com o pai. Andrea suspirou. Seu trabalho estava longe de terminar.


CAPÍTULO 9

VOCÊ FICARIA, se me demitisse? Clay focou-se nas palavras de Andrea, enquanto eles retraçavam seu caminho. A pergunta provava que ela estava disposta a deixar Carolina do Norte. Haynes estava errado. Ele não queria pensar sobre ver seu pai bebendo de canudinho, porque não conseguia beber de um copo sem babar. Não queria pensar no que aconteceria com Dean quando ele voltasse para Miami. Não queria pensar. Ponto final. O que queria... precisava... era de uma noite de sexo ardente para distraí-lo da dor em seu peito que o jantar desta noite lhe causara. Azia. Era isso. A dor não tinha nada a ver com o choque de ver seu pai, e tudo a ver com a refeição apimentada... mesmo se comida italiana nunca tivesse lhe feito mal antes. Houvera um atraso em seus planos, mas isso não significava que ele não poderia tentar convencer Andrea a ir para a Flórida com ele. Na parte de concreto à base dos degraus, Andrea abriu a torneira para lavar a areia dos pés. Clay pôs um pé entre os dela sob a água. Roçou os dedos nos tornozelos e pés de Andrea, ouviu-a arfar e reprimiu um sorriso satisfeito. Andrea sempre gostara de massagem nos pés, e ele lhe daria uma boa. No andar de cima. Preferencialmente com eles nus. Ela segurou o corrimão da escada e deu-lhe um olhar desconfiado. – O que você está fazendo? Ele descansou a mão ao lado da sua na madeira, seus dedos se tocando. Apenas centímetros separavam seus corpos. – Lavando meus pés. E os seus. Ele moveu a perna, roçando o interior de sua coxa contra a dela, mas parando o joelho perto da calcinha de seda. A água fria correndo sobre seus pés não fez nada para esfriar sua libido. As pálpebras de Andrea se abaixaram. – Não, Clay. – Não o quê? – Não tente me provocar para me levar para cama. Clay sentiu um sorriso curvando seus lábios. – É isso que estou fazendo?


Ela subiu um degrau, pondo distância entre eles. – Sei que você está abalado. Esta noite, deve ter sido difícil para você, mas não estou interessada num caso temporário. Ele fechou a torneira e endireitou o corpo. – Quem falou alguma coisa sobre temporário? – Você, quando disse que vai embora. Segurando-lhe o queixo, ele fitou-lhe os olhos. – Volte comigo para Miami. Ela arfou, entreabrindo aos lábios. Antes que pudesse vociferar suas objeções, Clay cobriu-lhe a boca com a sua. Ao toque dos lábios suaves, desejo voraz e instantâneo correu em seu sangue. Ele subiu o degrau, rodeou-lhe a cintura e puxou-a contra si. Ele a queria. Muito. Mulher alguma tinha sido capaz de lhe despertar uma resposta tão imediata. Se isso não fosse amor, então o que era? Andrea abriu a mão contra a barriga dele, como se para empurrá-lo, mas não fez isso. Ele aproveitou para mudar de posição e apoiar as costas dela contra o corrimão. Então aprofundou o beijo. Ela correspondeu, gemendo quando ele segurou-lhe um seio e provocou o bico com o polegar. Era tão maravilhoso tê-la em seus braços. Como ele vivera sem ela por oito anos? Os seios deleitosos tremeram contra seu peito, e então ela o empurrou. – Pare. – Parar o quê? Isto? – Clay capturou o lóbulo delicado entre os dentes e mordiscou-o gentilmente. – Ou isto? – Ele rolou o bico do seio entre os dedos. – T-tudo. – Excitação corava as faces de Andrea. Clay levantou a cabeça e abaixou as mãos para a cintura dela, olhando-a. – Deixe-me dar prazer a você, Andrea. Ela enrijeceu. – Para quê? Para que possa me ferir novamente, mais tarde? – Eu não ferirei você, querida. Confie em mim. Ela saiu de seus braços e subiu os degraus correndo. No topo, virou-se para observar a subida mais lenta dele. – Esse é o problema, Clay. Eu não confio mais em você, e nunca mais confiarei. Aquelas palavras doeram. Andrea abriu a porta dos fundos, entrou, pegou os sapatos de Clay e entregou-lhes. – Vá embora. – Andrea... Ela virou-se, atravessou a saleta e abriu a porta da frente. – Vá, Clay. Certo, então talvez, ele estivesse se movendo muito rapidamente para ela. Tinha seis semanas para fazê-la mudar de ideia. Poderia ser paciente. – Vejo você pela manhã. – Não se eu o vir primeiro – murmurou ela, um segundo antes de bater a porta.


ANDREA CUMPRIU sua ameaça evitando Clay por um dia e meio. Aquelas 36 horas se arrastaram como semanas, distraindo-o de sua apreciação por seu trabalho temporário. Como arquiteto naval independente, Clay desenhava os projetos para iates, então os donos os levavam para o construtor de sua escolha para encomendar o barco. Com frequência, Clay não via o produto final. Esta semana, ele trabalhara com plantas para dois clientes... não seus designs originais, mas adaptações dos designs de Dean. Se ele ficasse, teria de ver os barcos terminados e batizados. Nem pense nisso. Você não vai ficar. O que significa que precisa focar-se em Andrea. O fato de Andrea evitá-lo estava impossibilitando sua decisão de seduzi-la para voltar a Miami com ele. Ela parara de chegar cedo para tomar seu café no deck, e toda vez que ele ia procurá-la, encontrava-a cercada pelos empregados de Dean. Hoje, Clay pretendia pôr um fim em tais táticas evasivas. Bateu à porta aberta da sala dela, e a expressão preocupada no rosto de Andrea confirmou sua teoria de que, no minuto que ela o visse saindo do cais, tornava-se inacessível. Ele estivera no prédio de fibra de vidro esta manhã, quando Andrea chegara, portanto, ela não o vira vindo. Ele inclinou-se contra o batente. – Eu vou levar Tim para pescar, esta tarde. – Por quê? Porque ele queria conhecer seu irmãozinho. – Nós não temos nada agendado, e pelo que Tim falou outro dia, ele adora pescar, tanto quanto eu adorava, na idade dele. – Mas Tim está na escola. – Sua mãe o trará aqui, depois da escola. Andrea piscou em surpresa. – Minha mãe aprovou isso? Elaine não ousara recusar, considerando que Clay conhecia o segredo dela. – Sim. Você é bem-vinda para nos acompanhar. Ela mordeu o lábio. – Mas eu... – Tire a tarde de folga. Eu coloquei Fran no comando. – Ele estudou-lhe a calça comportada. Se Andrea achasse que se vestir como uma freira o faria esquecer como eles eram bons juntos, estava enganada. Além disso, a blusa de seda que ela usava com a calça era sexy, de maneira sutil. – Eve também me disse que você tem protetor solar e maiô aqui. Leve-os. Andrea juntou papéis em sua mesa. – Clay, esta não é uma boa ideia. Talvez, outra hora... – Esteja no cais às 15h, ou nós iremos sem você. – Clay virou-se e deixou-a, antes que ela pudesse argumentar. Ele a reconquistaria. Fracasso não era uma opção. E estava contando que o fato de querer proteger o irmãozinho a levaria ao cais. PEGA NA cilada. Andrea suspirou e pôs uma mecha de cabelo embaixo do chapéu. Como se permitira ser coagida dessa forma? Porque não queria que Tim ficasse mais apegado a Clay do que já estava. Clay iria


embora, e Tim sofreria. Clay abaixou a âncora numa pequena baía de Masonboro Island. Não havia outra alma à vista, além de barcos ocasionais passando na água. Embora eles estivessem cercados por espaços abertos, compartilhar o pequeno esquife com o homem que a deixava tentada a jogar cautela ao vento era como estar presa numa cela com tentação. Ela não podia escapar, a menos que andasse através da água pantanosa para a ilha inabitada e arriscasse suas chances com as raposas e o jacaré que algumas pessoas alegavam ter visto na praia. O calção vermelho de Clay mostrava as pernas bronzeadas, os ombros largos e o abdômen reto. Toda vez que ele passava por seu assento na frente do console central, conseguia roçar a pele contra a sua e mexer com seus hormônios. Tim estava no paraíso. Não parara de falar desde que eles tinham saído do cais. E Clay... Andrea meneou a cabeça. Nunca imaginara que Clay tivesse a paciência de um santo, mas ele respondia cada pergunta de Tim... por mais tola ou repetitiva que fosse. Ele seria um bom pai. Andrea olhou para a praia. Oito anos atrás, pensara que ele seria o pai de seus filhos. Mas estivera errada. Dolorosamente errada. Tim inclinou a cabeça e riu de alguma coisa que Clay falou, levando o olhar de Andrea de volta para os pescadores. Mais uma vez, impressionou-se com a similaridade dos dois, então balançou a cabeça. As similaridades que via nos gestos, na postura, deviam ser produto de sua imaginação fértil. Tim provavelmente imitava os gestos de Joseph e os de Clay, fazendo com que se parecesse com os homens mais velhos. Que aparência teriam seus filhos com Clay? A pergunta a pegou de surpresa, e uma velha dor apertou seu peito. Esqueça isso. O passado acabou, e você não se permitirá que uma repetição aconteça. – Você está ficando vermelha – comentou Clay, tirando-a de seus pensamentos. – Eu me esqueci de passar protetor. – Andrea alcançou sua bolsa e retirou um tubo de dentro. Clay pegou-o da sua mão. – Eu posso fazer isso – protestou ela. – Não pode passar nas suas costas. Vire-se. Não era uma boa ideia. Mas com Tim observando, ela não poderia recusar sem parecer rude, e Clay sabia disso. Que jogo ele estava fazendo? Relutantemente, Andrea virou-se. Clay sentou-se atrás dela no banco estreito e pressionou a coxa contra seu traseiro. Então, as mãos grandes espalharam protetor pelos seus ombros e suas costas, e o calor do toque, combinado com a loção aquecida pelo sol, rouboulhe o fôlego. Enquanto ele a massageava, Andrea cruzou os braços para esconder os bicos salientes de seus seios. Não havia como esconder os pelos arrepiados. Dedos longos roçaram as laterais de seus seios. Excitação instalou-se sob a calcinha do biquíni. Ela manteve o olhar fixo em Tim, tentando recordar por que tinha ido hoje, mas desejo pesava em suas pálpebras. As mãos de Clay foram para seu colo, e ela arqueou-se, querendo que ele as descesse, que massageasse seus seios, provocasse seus mamilos com dedos de loção. Pegou-se inclinando o corpo contra ele, abriu os olhos e levantou-se num sobressalto. Droga. Não tinha força de vontade no que dizia respeito a Clayton Dean. Não era justo que um homem pudesse ter tanto poder sobre ela. Volte para Miami comigo, a voz dele ecoou em sua cabeça.


Ele não falava sério. Se Clay realmente a quisesse de volta, ele lhe contaria a verdade. E até que ela soubesse a verdade, não arriscaria que o passado voltasse para atacá-la. Qualquer coisa que o tivesse levado embora oito anos atrás ainda pairava como uma sombra pronta para envolvê-la em escuridão novamente... escuridão da qual ela quase não escapara. Se não fosse por suas amigas, seu emprego e, mais tarde, por seu irmãozinho, ela provavelmente não teria escapado. Andrea tirou o protetor da mão dele. – Eu posso passar na frente. O olhar ardente de Clay foi do seu rosto para seus seios, para sua cintura, e mais para baixo, e seu corpo respondeu como se ele a tivesse tocado. Ela desejou que tivesse um traje de banho menos revelador na gaveta, mas levara o minúsculo biquíni preto, com Toby e a banheira de hidromassagem no iate dele em mente. Não que tivesse tido a chance de usá-lo, uma vez que descobrira que não estava pronta para mais intimidade com Toby. – Tem certeza de que você não quer ajuda para espalhar o protetor? A voz rouca de Clay excitou-a ainda mais. – Tenho. – Avise-me se mudar de ideia. – Eu não mudarei. – Mas ela queria mudar. Queria as mãos dele no seu corpo. Onde estava seu bom senso? – Eu peguei um peixe! – Tim gritou, e Clay imediatamente foi ajudá-lo com o carretel. Aliviada, Andrea sentou-se no banco. Estava encrencada. E não tinha ideia de como iria sobreviver mais seis semanas sem atacar Clayton Dean. – EU PRECISO de um favor. Andrea ergueu os olhos da mais recente pesquisa de satisfação do cliente para ver Juliana Alden, uma de suas melhores amigas... e sócia no esquema do leilão... parada perto de sua porta. – Claro. Pode pedir. Juliana entrou e fechou a porta. – Rex está se recusando a me encontrar. Eu sei que parece coisa de adolescente, mas isso é muito, muito importante. Preciso que você vá ao bar dele e veja se ele está lá. Eu esperarei do lado de fora. Se você o vir, liga no meu celular, e eu entro, antes que ele possa se esconder, novamente. Sua amiga auditora de banco comprara o ex-bad boy de Nashville, esperando que ele pudesse ensiná-la como se divertir, mas pelo estresse no rosto de Juliana, não parecia que divertimento estivera no programa. – Parece fácil. Tudo bem com você? Está pálida. – Sim. Não. Eu não sei. – Andrea franziu o cenho. A indecisão não combinava com Juliana. – Eu não posso falar sobre isso, ainda. Mas logo. Prometo. Certo? Andrea assentiu. Ela, Juliana e Holly sempre se encontravam uma vez por semana para a noite das mulheres, ou para almoçar, mas a coisa do leilão atrapalhara seus encontros usuais. Todavia, agora, mais do que nunca, Andrea precisava conversar com suas amigas. – E quanto a Clay? – perguntou Juliana, como se lendo sua mente. Se alguém pudesse fazê-la ver a lógica, então Juliana... a rainha da lógica e do autocontrole... poderia, mas Andrea não sabia por onde começar.


– Eu dormi com ele. Foi... incrível. Não consigo tirá-lo da cabeça. Eu o quero. Mas não posso arriscar amá-lo novamente, porque tudo que Clay fala é sobre voltar para Miami. Ele até mesmo me pediu para ir junto. As sobrancelhas escuras de Juliana se arquearam. – Você estaria disposta a ir com ele? – É claro que não. Tudo que é importante para mim... minhas amigas, minha família, meu emprego... estão aqui em Wilmington. E eu jamais deixaria Joseph num momento como este. Ademais, Clay não fala sério. Ele só me quer de volta em sua cama. – E você também quer isso. – Bem... sim, mas ele está partindo – repetiu ela. – De novo. Juliana sentou-se na frente da mesa de Andrea. – Não foi você que me convenceu a comprar um solteiro que sabíamos que era totalmente errado para mim, apenas pela chance de ter sexo fantástico? Andrea encolheu-se. – Sim, mas isso é porque você está prestes a ficar noiva de um homem frio. Nunca teve sexo fantástico, então precisa ver o que está perdendo, antes que desista de sexo. – E não foi você quem falou que as mulheres deveriam ser mais como os homens e aprenderem a separar amor e sexo? – Ela ergueu uma mão, impedindo o protesto de Andrea. – Não foi você quem disse: “Por que devemos nos limitar a orgasmos autoinduzidos, quando há homens capazes aí fora”? Andrea considerou rastejar para debaixo da mesa. – Talvez, tenha sido eu, mas... Juliana bufou. – Não existe talvez sobre isso. Pratique o que você prega, Andrea, e durma com Clay enquanto tiver a chance. Sabe que ele vai embora, então não se apaixonará por ele, novamente. Será apenas sexo... sexo fantástico. Mas de curta duração, como sexo de viagem. Andrea franziu o cenho. – Quem é você, e o que fez com minha amiga conservadora? E sexo com Rex é tão incrível assim? Juliana enrubesceu. – Sua amiga conservadora está começando a relaxar um pouco, e, sim, fazer amor com Rex é melhor do que qualquer fantasia que eu poderia ter imaginado. Nunca mais me contentarei com sexo comum. – Ela levantou-se, parecendo embaraçada pela confissão. – Então, você pode sair agora? Eu realmente preciso falar com Rex. – Vou pegar as minhas chaves. – Andrea, vai pensar sobre o que falei? Sexo de viagem com Clay. Como ela podia pensar em qualquer outra coisa? – O QUE está acontecendo? – Andrea gritou de sua porta aberta. Clay parou no corredor, estacionando o carrinho carregado com caixas do lado de fora do escritório de seu pai. – Eu estou mudando meu escritório para dentro. Os lábios de Andrea se entreabriram, e os seios, cobertos por uma blusa cor de lavanda, se levantaram. Ela usava uma saia roxa reta, na altura dos joelhos, e, mais uma vez, saltos altos muito


sexies. – Oh. Por mais que detestasse trabalhar na sala onde seu mundo desmoronara, Clay achava que teria mais chance de conquistar Andrea se estivesse fisicamente mais perto dela. Andrea pôs uma mecha de cabelo dourado atrás da orelha. – Posso falar com você, quando tiver um minuto? Ele estudou-lhe a expressão séria. – Eu tenho tempo agora. Clay seguiu-a para dentro da sala dela. Andrea fechou a porta, andou em direção à mesa, então, virou-se para encará-lo. Ele silenciosamente agradeceu-lhe a oportunidade de saborear as curvas no tecido de seda. – Eu mudei de ideia sobre o jantar. Surpreso, ele fitou-lhe os olhos. – Por quê? – Eu preciso ter um motivo? – Andrea, você sempre tem um motivo, geralmente, uma lista de motivos. Ela corou. – Bem, também começo o que termino. Comprei seu pacote de leilão e quero usá-lo. Ela não parecia muito feliz, mas ele aceitaria o que pudesse ter, e faria isso trabalhar para sua vantagem. – Eu marcarei o encontro. – Mas tenho um pedido. Eu gostaria de manter o que acontece entre nós em segredo do staff e de Octavia Jenkins. Meus assuntos pessoais são pessoais. Uma onda de tristeza o envolveu. Se ele descobrira alguma coisa nas três semanas que estava de volta era que todos em Dean sabiam que ele dispensara Andrea. Também descobrira que os funcionários estavam apostando se ele e Andrea acabariam juntos, ou se ele a deixaria novamente. Desta vez, ela não teria de suportar as fofocas embaraçosas, porque Clay a levaria consigo quando deixasse Wilmington. Embora, depois de ver seu pai, ele não sabia quando isso seria. – De acordo. Manteremos isso o mais particular possível. Quando você gostaria de sair? – Quanto antes melhor. – Esta noite? – Tudo bem. – Ela sentou-se, alinhou canetas sobre a mesa, então encontrou seu olhar. – E, Clay? Arrume uma sacola para passar a noite fora. Choque o deixou boquiaberto, e fez seu sangue esquentar. Não sabia que jogo Andrea estava fazendo, mas não ia reclamar, uma vez que ela estava facilitando muito sua sedução. – Sim, senhora. Ele lhe daria uma noite inesquecível, e ganharia a confiança de Andrea. SEXO DE viagem. Oh, meu Deus. Essa devia ser a coisa mais louca que Andrea já fizera na vida. Sexo por sexo. Claro, ela acreditava que uma mulher tinha o direito de ir para a cama com um homem, sem esperar sinos de casamento, mas nunca quisera sexo sem significado. Até agora.


Com o coração batendo freneticamente, ela respirou fundo e abriu a porta da frente. Clay estava sobre o capacho, com uma sacola de lona pendurada no ombro, e uma grande sacola de plástico em cada mão. Estava lindo em calça preta e camisa branca aberta no colarinho. E cheirava a sabonete com um toque de limão. – O que é tudo isso? – Ela indicou as sacolas de compras. – Nosso encontro. – Nós não vamos ao Devil Shoals? – Eu pensei em ficarmos em casa, esta noite. – Ele deu um sorriso repleto de promessa sedutora. A pulsação de Andrea acelerou. – Então, espero que você tenha o jantar numa dessas sacolas, porque meus armários estão quase vazios. – Eu tenho o jantar... e muito mais. – O olhar dele percorreu seu cabelo solto, o vestido preto, suas pernas e seus saltos altos, voltando para seu rosto. – Linda e muito desejável, srta. Montgomery. Uma onda de calor a inundou diante da apreciação nos olhos dele. – Entre. Depois que ele entrou, Andrea fechou a porta e tentou recuperar o fôlego. – A cozinha é por aqui. Deixe-me ajudá-lo a tirar as compras das sacolas. – Não. Ela parou. – Perdão? Clay pôs sua sacola de lona ao pé da escada, então carregou as de plástico para a cozinha e colocou-as sobre o balcão. Retornou para o lado dela, segurou-lhe os ombros e conduziu-a para o sofá. – Você relaxa. Eu lidarei com tudo. Um sopro de ar quente foi seu único aviso, antes que os lábios de Clay roçassem sua nuca. Ela tentou virar-se, mas ele não permitiu. – Sente-se. Eu lhe trarei uma taça de vinho. Andrea sentou-se. O sofá ficava na frente da lareira, deixando-a de costas para a cozinha e Clay. Tecido farfalhou atrás dela, e então alguma coisa caiu sobre seus olhos. Uma venda? – Espere um minuto. Andrea alcançou o tecido preto, então a respiração de Clay provocou sua orelha. – Confie em mim. Engolindo seu nervosismo, ela abaixou as mãos. Esta noite era sobre prazer... prazer físico. E se Clay quisesse fazer jogos sexuais, ela podia ser mulher o bastante para participar. Ele deu um nó no tecido atrás de sua cabeça. – Isso é loucura. – Confie em mim – repetiu ele, antes de traçar-lhe a orelha com a língua. Ela tremeu. Esse era o problema. Andrea não confiava nele. Claro, sabia que ele não a machucaria fisicamente, mas não confiava nele com seu coração. Mas seu coração não estava em risco esta noite, estava? Ela o trancara seguramente. Sem amor. Apenas sexo. E se repetisse com bastante frequência, isso se tornaria verdade. Ele roçou-lhe a lateral do pescoço com os lábios, e Andrea arfou, perdendo a capacidade de raciocinar. Dedos quentes desceram pelos seus ombros e traçaram o decote V de seu vestido. Seus


mamilos se arrepiaram em antecipação, mas Clay retirou as mãos, frustrando-a. Os passos dele voltaram para a cozinha. Ela ouviu o barulho de armários sendo abertos e fechados, do manuseio de sacolas plásticas, seguido pelo estouro de uma rolha de vinho e por líquido sendo derramado. Passos se aproximaram, e sua pulsação acelerou. A borda fria de um copo tocou seus lábios. Ela deu um gole. Vinho branco gelado. Delicioso. Clay levantou-lhe a mão, envolveu-a na haste do cálice e voltou para a cozinha. Andrea sorveu o vinho e ouviu aos sons não familiares de um homem em sua cozinha. Ouviu-o pegar um prato do armário, mas não panelas e travessas. Ele devia ter levado comida pronta. Ela sentiu e ouviu a aproximação dele. Então o sofá afundou, e Clay estava sentado ao seu lado. Andrea inalou, mas antes que pudesse identificar os aromas tentadores, alguma coisa quente e úmida tocou seu lábio inferior. Ela traçou-o com a língua para provar. Manteiga? – Abra a boca. Ela obedeceu e, segundos depois, identificou seu prato favorito... lagosta com manteiga. A próxima garfada revelou vagem chinesa com molho de soja, seguida por uma colherada de arroz com passas e amêndoas. Ele lembrava-se de suas comidas favoritas. Ela tentou endurecer o coração, mas não teve muito sucesso. Com garfada pós garfada, Clay satisfez um de seus apetites, mas despertou outro, com o roçar dos dedos em seus lábios, a coxa contra a sua, a ocasional pressão do braço contra seus seios, quando ele inclinava-se para pegar a taça de vinho que deixara sobre a mesa lateral. Quando ele a deixou novamente, Andrea uniu as pernas com força. Como podia estar tão excitada por aquela rotina de sedução? Era ridícula a facilidade com que ele a manipulava. Se ela tivesse bom senso, tiraria a venda e... A almofada afundou outra vez, e adrenalina bombeou seu sangue. Alguma coisa fria tocou seus lábios. Ela abriu a boca. Sorvete de baunilha francesa, rico, cremoso e delicioso derreteu em sua língua. Mas após poucas colheradas, Andrea levantou a mão. – Eu não aguento mais comer. Ela o ouviu colocar o prato sobre a mesinha de centro, então lábios quentes cobriram os seus. Suas unhas enterraram nas palmas, enquanto ela lutava contra a vontade de abraçá-lo. Apenas sexo. Não fique sentimental. Rapidamente demais, Clay levantou a cabeça. – Eu já volto. Ela o ouviu se movendo em volta da cozinha. Uma sacola farfalhou, então ele subiu a escada. O que ele estava fazendo? E por que tê-lo andando por sua casa não a incomodava? Ela nunca dera liberdade em sua casa para nenhum outro homem. Confie nele. E Andrea percebeu que, de certa forma, nunca confiara em qualquer dos outros homens com quem pensara que talvez um dia se casasse. O que pareceu séculos depois, mas provavelmente não passou de cinco minutos, Clay desceu a escada correndo. Aproximou-se, capturou suas mãos e colocou-a de pé. Conduziu-a para o outro lado da sala, então deslizou um braço ao redor de sua cintura. – Cuidado nos degraus. Ele guiou-a para o andar de cima. O som de água corrente cumprimentou-a quando eles chegaram ao patamar, e aumentou de volume quando ela entrou no seu quarto. No banheiro, Andrea inalou um misto de flores e cheiros picantes. Não seu perfume ou seus sais de banho. Clay liberou-a e fechou a


torneira, antes de abraçá-la por trás, de modo que ela sentisse a ereção viril contra a parte baixa de sua coluna. – Andrea, se você não pretendia que nós acabássemos na cama esta noite, agora é a hora de me dizer – sussurrou ele contra a pele sensível de sua orelha. Ela lutou para encontrar a voz. – Eu pretendia. Eu pretendo. Ele abraçou-a com mais força. – Você não vai se arrepender. Era onde ele estava errado. Andrea tinha certeza de que iria se arrepender. Toda aquela sedução com venda e alimentos ultrapassara as defesas que ela lutara tão arduamente para construir. Ele achou o zíper traseiro no seu vestido e desceu-o. Ar frio a percorreu, fazendo-a tremer. Clay abaixou as alças sobre seus ombros, então, segurou-lhe a mão para que ela pisasse fora do vestido. Andrea endireitou os ombros. O que ele pensaria de seu sutiã com bojo e de sua calcinha minúscula? O gemido de Clay respondeu sua pergunta. – Você está ainda mais linda do que era oito anos atrás. O lembrete causou-lhe um leve desconforto, mas ela o reprimiu. Queria ver o rosto dele, fitar-lhe os olhos e ver se o elogio era sincero, mas fechou as mãos em suas laterais. A venda frustrava-a. Você é uma mulher de 30 anos. Participe do jogo. A camisa de Clay roçou contra sua coxa quando ele ajoelhou-se, então dedos longos se curvaram em seu tornozelo. Ele removeu um sapato, depois o outro. Subiu os dedos por suas pernas, abriu as palmas sobre a barriga dela e pressionou-a contra a masculinidade. Andrea balançou os quadris para atormentá-lo e foi recompensada por um gemido baixo. O rosto de Clay estava encostado no seu, e ela o imaginou observando os dois no espelho atrás da pia. Quando renovara a casa, Andrea convertera um quarto menor num banheiro hedonista enorme, completo com um Box e numa banheira grande o bastante para dois, erguida sobre uma plataforma. Clay entraria na banheira com ela? Desejo a inundava com força total. Ela nunca se sentira tão excitada na vida. Queria pegar a mão de Clay e colocá-la entre suas penas. Em vez disso, apertou um joelho contra o outro. A respiração de Clay tornou-se ofegante. As mãos dele roçaram acima do elástico de sua calcinha, então subiram e abriram o fecho de seu sutiã. Palmas quentes seguraram seus seios, e, tremendo de prazer, Andrea levantou as mãos para acariciar o maxilar dele, adorando a sensação da pele recémbarbeada contra seus dedos. Ele provocou seus mamilos até que ela quisesse gemer, mas então, afastou-se e deslizou as alças do sutiã pelos seus ombros, tirando a pequena peça do caminho. A calcinha foi a próxima a sair. Nua, Andrea esperou, tremendo com antecipação pelo próximo movimento de Clay. Ele segurou-lhe o cotovelo e conduziu-a para a banheira. – Entre. Ele não a liberou até que ela estivesse com o peito afundado na água quentinha. Os jatos de hidromassagem ligaram, provocando-a como carícias de um amante. Mas ela não queria os jatos, queria Clay. – Eu voltarei em dez minutos. Relaxe. – E então, a boca de Clay cobriu a sua num beijo apaixonado. Andrea levantou as mãos molhadas para abraçá-lo, mas ele afastou-se. Pôs uma taça de vinho em sua mão. – Mantenha a venda e não se mova. Não quero que você se machuque.


E Clay a deixou. Ela não podia ouvir os passos dele sobre o barulho dos jatos de água, mas foi como se a energia tivesse sido drenada do cômodo. Ele não queria que ela se machucasse. O que isso significava? Andrea sentou-se ereta e ergueu um canto da venda. Seu banheiro brilhava na luz de uma dúzia de velas, cada uma em seu castiçal de prata. Clay devia ter comprado tudo, porque aquilo não era dela. O gesto romântico tocou seu coração. Os atos de amor deles no passado haviam sido encontros apressados, em sua maioria. As poucas vezes que eles passavam mais tempo juntos tinha sido na pequena cabine do barco de Clay. Nunca houvera velas ou vendas. Apenas paixão desenfreada. Não se apaixone. Ele provavelmente aperfeiçoou suas técnicas com uma dúzia de mulheres desde que dispensou você. Recostando-se, Andrea tentou lembrar a dor, o embaraço e a confusão que sentira quando ele a abandonara, mas não foi tão fácil quanto antes. Ela arrumou a venda nos olhos e pôs o vinho de lado. Sua cabeça já estava girando sem mais vinho. Se Clay pretendesse seduzi-la, estava fazendo um bom trabalho, mas por que tanto esforço, quando ela já deixara claro que dormiria com ele esta noite? O ar girou em volta de seus ombros, então os jatos de água pararam. Ele voltara. Seu coração disparou e sua boca secou. O que ele planejava fazer, a seguir?


CAPÍTULO 10

CLAY QUERIA estar no controle, mas o estava perdendo como um adolescente. Durante a tarde inteira, pensara sobre dar banho em Andrea, entrar na banheira com ela, puxá-la para seu colo e deslizar as mãos por cada centímetro daquele corpo deleitoso, mas assim que soubera que isso não seria possível sem atingir um clímax prematuro, ele se retirara. Qualquer controle que ganhara sobre sua libido enquanto arrumava a cozinha, desapareceu no minuto que ele reentrou no banheiro. Esta noite era sobre Andrea, sobre lhe mostrar como o relacionamento deles podia ser bom, e sobre reconquistar a confiança dela, mas sentia-se a ponto de explodir. Estudou a venda de Andrea. – Você espiou. Ela mordeu o lábio. – Eu... – Não negue. Há a marca de um dedo molhado na venda. – Ele acariciou-lhe o rosto abaixo do tecido. – Sorte sua que perdoo fácil. Perdoa? Você não perdoou seu pai. Clay reprimiu o pensamento intrusivo. – Levante-se. Andrea levantou-se. Água cascateava sobre a pele dourada. Pingos tremulavam nos mamilos eretos. Clay perdeu o fôlego. Considerou jogar a toalha grossa no chão e tomá-la ali mesmo, mas então, lembrou-se das pétalas de rosa e do creme para os pés esperando no quarto. Droga. Talvez, não conseguisse chegar até a massagem dos pés. – Quantas outras mulheres você mimou assim? Atônito pela pergunta, Clay pausou. Ele tivera outras amantes, mas não houvera nenhuma intimidade nos relacionamentos, além do componente físico. Nunca tentara conhecer uma mulher num nível mais do que superficial, mas queria entrar em Andrea, dentro da cabeça dela, não apenas do corpo. – Nenhuma. Elas não valiam o esforço. Clay segurou-lhe o braço e ajudou-a a sair da banheira, então pegou a toalha e colocou-a sobre as costas dela. Não podia esperar. Puxou-a contra si. O corpo molhado ensopou sua camisa e calça, mas


ele não se importou. Andrea levou as mãos ao seu cabelo e puxou-o para um beijo. Clay rendeu-se. Não tinha forças para lutar contra. Ela ergueu-se na ponta dos pés, deslizando a pélvis contra a sua. Estrelas explodiram atrás das pálpebras de Clay, e um gemido gutural escapou de seus lábios. Ele vagamente recordou que deveria secá-la, mas fez apenas uma leve tentativa, antes de derrubar a toalha e preencher suas palmas com o traseiro quente e úmido. Amava senti-la. Amava o formato daquele corpo, o gosto de Andrea. Amava-a. Ponto final. Clay liberou-a para abrir os botões da própria camisa, mas seus dedos estavam trêmulos, e ele praguejou. Andrea assumiu o trabalho, cegamente usando o tato para desabotoar a camisa dele, antes de descer para a calça masculina e baixar o zíper da mesma. A palma suave abriu-se sobre sua cueca, e os joelhos de Clay se dobraram. Ele sentou-se na borda da banheira, ficando no nível dos seios dela. – Que bela vista – murmurou ele, antes de tomar um bico rijo na boca. Andrea entrelaçou os dedos no seu cabelo, enquanto ele brincava com seus seios. Ele acariciou-lhe a cintura, os quadris, então os cachinhos escorregadios. As unhas de Andrea se enterraram em seu couro cabeludo. Sabendo que ela já estava tão molhada, tão pronta para ele, tornou a espera quase insuportável, mas Clay lutou contra seu desejo e massageou-a. Ela mudou de posição, abrindo-se, as pernas tremendo visivelmente. E então Andrea estremeceu em sua mão, contra seus lábios e tombou sobre ele. Clay ergueu-a nos braços e carregou-a para a cama, onde a abaixou no centro do colchão. Ela sentou-se, espalhando as mãos sobre os lençóis. – O que é isto? Ele deitou-a com uma mão e alcançou o preservativo com a outra. A massagem nos pés teria de esperar. – Pétalas de rosas. Pegando um punhado, Clay derrubou as pétalas frias sobre a pele dela. Talvez, elas deixassem manchas cor de pêssego nos lençóis, mas ele lera em algum lugar que mulheres gostavam de pétalas de rosas. Clay colocou o preservativo, inclinou-se sobre ela para beijá-la, antes de encontrar o centro escorregadio e penetrá-la. Começou os movimentos lentamente, acelerando o ritmo das investidas aos poucos. No momento em que ela ergueu o corpo da cama, gritando quando outro clímax abalou-a, Clay extravasou seu prazer. Seu orgasmo lhe roubou o ar dos pulmões e fez sua cabeça girar. Ele arfou e gemeu, então tombou sobre Andrea. Esperou sinceramente que não a estivesse esmagando, porque não conseguiria se mexer nem se sua vida dependesse disso. Ela acariciou seu cabelo, seu rosto. Ele abriu os olhos a tempo de vê-la tirar a venda. O sorriso satisfeito de Andrea derreteu seu coração. – Da próxima vez, você usa isto. Deus, como ele a amava. Não achara possível amá-la mais do que antes, mas amava-a. Andrea era uma mulher mais forte, mais confiante e mais generosa do que a garota que ele deixara para trás. Isso fazia amá-la ser mais fácil do que antes. E mais perigoso. Deixá-la da última vez tinha sido difícil, e Clay sabia, sem sombra de dúvida, que não era forte o bastante para deixá-la novamente. Ele faria qualquer coisa que fosse necessária para manter Andrea em


sua vida... até mesmo propor uma trégua com seu pai. ELA O queria mais do que antes, Andrea admitiu com tristeza, enquanto estava deitada na cama, olhando para o teto, na luz do começo da manhã, e ouvindo aos sons de Clay no banheiro. E era mais do que o sexo fabuloso. Clay ouvia atentamente, não apenas a ela, mas cada membro do staff de Dean... desde o adolescente do ensino médio que varria os chãos para Peter, até o gerente de produção. O estudante impetuoso do ensino médio tinha se apaixonado, muito tempo atrás, e se tornado um homem de temperamento calmo. Algumas das atitudes mais indesejáveis dos funcionários haviam dado a Clay muitos motivos para perder o controle, mas ele não o perdera uma única vez. A gentileza dele também era evidente em como ele tratava Tim. E então, havia o jeito como ele seduzira seus sentidos. Sim, Andrea sabia qual era a intenção de Clay. Mas usar a venda na noite anterior a colocara numa posição de ter de confiar nele para alimentá-la, para banhá-la e para lhe dar prazer, sem deixá-la desconfortável. O plano dele funcionara com incrível eficácia. Por que ela não se sentia manipulada? Confie nele, Clay dissera. Ela queria confiar, mas como poderia, quando ainda não sabia por que ele a abandonara ou o que ela fizera para causar a briga entre Clay e Joseph? E o que seria necessário para que Clay falasse a verdade? A porta do banheiro se abriu e Clay pausou na soleira. – Você está acordada. Ele havia tomado banho e vestido calça escura e camisa azul-clara. O cheiro da colônia masculina chegou a ela numa nuvem de vapor. Andrea queria arrastá-lo de volta para cama, mas eles precisavam encontrar clientes novos esta manhã. E ela precisava controlar seus sentimentos internos. Afaste-se enquanto ainda pode. Com um flash de claridade, Andrea percebeu que era exatamente isso que tinha feito com todos os relacionamentos nos últimos oito anos. Assim que começava se sentir à vontade para dar o próximo passo, erguia barreiras ou procurava desculpas para terminar a relação, antes que se machucasse. Olhou para cima e descobriu Clay estudando-a. – Sinto muito não ter acordado a tempo de tomar banho com você. Paixão brilhou nos olhos dele. – E então, nós teríamos nos atrasado para o trabalho. Compensaremos por isso, esta noite. Ela meneou a cabeça. – Hoje é sexta. A noite das mulheres. Os olhos azuis se estreitaram. – Acha que você pode convencer minha mãe a sair com vocês, se eu ficar com papai? – Sim, com certeza. – Andrea nem parou para pensar em como realizaria aquela missão impossível. Se isso unisse Clay e o pai, então talvez eles pudessem resolver suas diferenças. – E então, posso vir para cá depois e passar o fim de semana aí – ele gesticulou para a cama –, com você. O coração de Andrea disparou. Recue. Mas ela não podia. Ainda não. Não até que tivesse suas respostas. – Parece promissor.


Ele atravessou o quarto em longos passos, plantando os braços em suas laterais e prendendo-a sob o lençol. Então abaixou a cabeça e beijou-a ardentemente. – Vejo você no trabalho – murmurou, endireitando o corpo. Clay pegou sua sacola de lona e partiu. Andrea respirou fundo e esperou sua pulsação normalizar. Poderia tê-lo em sua casa durante o fim de semana inteiro sem perder seu coração? Outras mulheres viviam casos que não tinham futuro algum. Então, por que ela não poderia? Levantou-se. Desta vez, quando Clay fosse embora de Wilmington, não haveria coração partido, promessas quebradas ou arrependimentos. Ela lhe agradeceria as boas memórias, e ponto final. Balançando a cabeça, foi para o banho. Apenas esperava que estivesse certa. – OBRIGADA POR ter vindo, querido. Eu prometo que não vou demorar – disse a mãe de Clay. – Fique quanto tempo quiser, mamãe. – Ele beijou-lhe o rosto e impulsionou-a em direção à porta. – Aproveite a noite das mulheres. Ela subitamente hesitou. – Mas Dora já foi embora pelo dia e... – E tenho o número do seu celular, se precisar de você. Vá. Divirta-se. – Andrea fizera mágica não somente nele. Ela ligara para sua mãe e a convencera de sair. Calor inundou Clay ao se recordar das últimas 24 horas. Em alguma hora no meio da noite, Andrea cumprira sua promessa de vendá-lo, e então o enlouquecera completamente. Suficiente dizer que eles não tinham dormido quase nada, e que ele não pretendia deixá-la repor o sono esta noite ou na noite seguinte. Enfiou as mãos nos bolsos do jeans. Precisava parar de pensar em Andrea, a menos que quisesse cumprimentar seu pai com uma ereção. Clay esperou que o carro de sua mãe saísse da garagem, antes de juntar-se ao seu pai na sala de estar. Ele tinha perguntas, mas, surpreendentemente, a raiva que sentira em sua última visita desaparecera. Pegou um baralho da ponta da mesa. – Pôquer? Joseph meneou a cabeça. – Sem jogos. Nós precisamos conversar sobre o que aconteceu oito anos atrás. Seu pai enunciou cada palavra cuidadosamente, lembrando Clay do que Andrea dissera sobre a fala dele ter sido afetada pelo derrame. E foi quando aquilo atingiu Clay. Ele poderia ter perdido seu pai. Um vazio se instalou em seu interior. Ele sentou-se na poltrona à direita de seu pai. Por mais que detestasse ouvir sobre o passado, teria detestado perder seu pai sem compreender os caminhos perigosos que ele tomara. – Apenas me conte por quê. – Não há uma boa desculpa. – Seu pai desviou o olhar. – Sua mãe e eu estávamos tendo problemas. Os negócios estavam em baixa, e eu estava trabalhando muitas horas e negligenciando-a. Ela começou a se esquivar. Saía três manhãs por semana, mas nunca mencionava isso quando lhe perguntava sobre seu dia. O coração de Clay disparou no peito. Por oito anos, ele condenara seu pai. Nunca considerara que pudesse haver dois lados da história, ou que o casamento “perfeito” de seus pais pudesse estar com problemas, antes de Joseph ter traído a esposa.


– Eu achei que ela estivesse tendo um caso. Que não me quisesse mais. Não poderia culpá-la. Eu estava impaciente e mal-humorado. A atenção de Elaine fortaleceu meu ego ferido. A situação foi longe demais. Eu pensei que estivesse me vingando, mas... – A voz de seu pai falhou e o rosto contorceu-se. Nervoso, Clay esperou que ele recuperasse a compostura. Passou um lenço de papel para seu pai. Joseph enxugou os olhos. – Patricia estava fazendo aulas de vitrais com aquela garota Prescott. Amiga de Andrea. Como ela se chama? – Holly. – Sim. Holly. Patricia estava fazendo um presente. Para mim. Não queria estragar a surpresa me dizendo aonde ela estava indo. Qualquer coisa que Clay estivesse esperando não era isso. Ele nunca perdoara o que seu pai e Elaine haviam feito, mas tendo ouvido os dois lados da história, começava a entender como duas pessoas podiam fazer escolhas tão horríveis. – Mamãe fez a paisagem marítima que está pendurada na janela do seu escritório? Seu pai assentiu. – Ela queria me alegrar. – É bonita. Eu a trarei para casa. Você pode pendurá-la aqui. – Clay hesitou, mas tinha de perguntar: – E quanto a Tim? Seu pai respirou fundo, então seus olhos se encheram de tristeza. – Ele é um bom menino. – Ele é seu filho. Você precisa ver isso. Lágrimas frescas se acumularam nos olhos de Joseph. – Eu não tinha certeza. Desconfiei que ele pudesse ser. O garoto se parece um pouco comigo. – Eu o conheci na casa de Andrea. Pensei que fosse meu filho. – Não, filho, Andrea não esconderia isso de você. – Ele se parece muito comigo. Seu pai balançou a cabeça. – Ele só se parece um pouco com você. Os olhos. O nariz, talvez. O resto é tudo de Elaine. Você viu o que queria ver. Clay fez uma careta. Estivera assim tão desesperado por um laço com Andrea? Provavelmente, uma vez que descobrira que ainda a amava na noite anterior que conhecera Tim. – O que você vai fazer sobre ele? – Nada. Reivindicá-lo machucaria muitas pessoas. Harrison é bom com Tim. Ele ama o garoto, e Tim venera o pai. Eu não destruiria isso por nada. – Mamãe sabe? – Eu acho que não. Espero que não. Ela sabe que tive um caso, mas não sabe quando. O caso feriu-a o bastante. Saber que Tim era meu, quando ela não podia ter mais filhos a machucaria ainda mais. Sua mãe teve uma ruptura uterina quando você nasceu. Eu quase a perdi. Uma histerectomia salvou-a. Mas isso significou não mais bebês. – Eu não sabia. – Ela se sente menos mulher por não ter o útero, então nós não discutimos o assunto. – Joseph cobriu o punho de Clay que estava sobre o braço da poltrona. – Eu errei, Clay. Errei em traí-la. Errei em pedir que você mentisse. Errei em afastá-lo de sua herança. Mas você errou em machucar Andrea.


– Estou trabalhando para acertar isso. Eu ainda a amo, papai. Quero que ela volte para Miami comigo. Joseph recolheu a mão. – Ela merece ser feliz, e você também. Aqui ou em Miami. – O que acontecerá com Dean, quando eu for embora? Seu pai olhou para fora da janela. – Eu não posso retornar período integral. E quero passar os dias que me restam com sua mãe, não preso a uma mesa. Se você não estiver interessado em assumir, nós venderemos. Somos fortes e financeiramente estáveis. Não nos faltará compradores interessados. Um dos conglomerados já ligou. Eles sabem que adoeci e querem tirar vantagem. O estômago de Clay contorceu-se. – Um conglomerado engoliria Dean e fecharia a fábrica de Wilmington. – Provavelmente. Mas os designs continuariam. E o nome Dean ainda estaria nos cascos dos barcos. Ácido queimou o estômago de Clay. Ele poderia ser responsável por vender o legado de seu avô? Por deixar centenas de pessoas sem emprego? Quando ele retornara de Miami, quisera que a verdade fosse revelada, e quisera que as partes culpadas fossem punidas pelo que tinham feito. Agora, não podia ver bem algum resultando disso. Seu pai e a mãe de Andrea haviam cometido um erro horrível, mas feito o melhor para remediar a situação e proteger aqueles que amavam. Expor o segredo apenas faria os inocentes sofrerem. Andrea. A mãe de Clay. O pai de Andrea. Tim. Clay levantou-se e andou para a janela. Se ele ficasse em Wilmington, não somente teria de conviver com o segredo que o mandara embora, como também nunca seria capaz de reconhecer seu irmãozinho, e teria de continuar mentindo para Andrea. Como reconquistaria a confiança dela se não lhe contasse a verdade? Mas não podia. A verdade precisava continuar escondida. – Clay, quase perdi a melhor coisa na minha vida, porque não foquei em minha prioridade. Clay virou-se para seu pai. – Mamãe? – Minha família, filho. Sua mãe e você. Não cometa o mesmo erro. Você tem uma segunda chance. E se Andrea o faz feliz, então vá atrás dela. Seu pai puxou o andador para frente da cadeira e esforçou-se para ficar de pé. Clay começou a aproximar-se para ajudar, mas Joseph levantou uma mão para detê-lo, então, deu um passo árduo atrás do outro, até chegar ao lado de Clay, perto da janela. – Eu não espero que você aceite o que fiz. Mas espero que um dia consiga me perdoar. Os olhos de Clay arderam. Ele abraçou seu pai com força. – Eu o perdoo, papai. Eu já o perdoo. MEIA-NOITE. HORA das bruxas. Areia escorria pela ampulheta de tempo de Andrea com Clay. Ela decidira, antes que ele chegasse, hoje, que daria a si mesma este fim de semana, e então terminaria o relacionamento deles, antes que fosse tarde demais. Antes que se apaixonasse novamente. Antes que ele partisse novamente. A lua crescente lançava um brilho fraco às sombras envolvendo seu sofá no deck de trás. Aconchegada nos braços de Clay e no cobertor que eles tinham puxado da cama, ela descansava a


cabeça no peito largo desnudo e ouvia as batidas do coração dele e as ondas do mar estourando na praia abaixo. Trinta minutos atrás, abrira a porta para Clay. Ele nem sequer a cumprimentara, antes de beijá-la com ardor e amá-la rapidamente no tapete do foyer. Houvera um desespero naquele ato de amor, um que Andrea não entendia, mas queria entender. – O que aconteceu com seu pai, esta noite, Clay? O peito dele subiu e desceu sob o rosto dela num suspiro deliberado. – Nada. Foi uma noite boa. Ela sentou-se ereta, puxando a ponta do cobertor sobre sua nudez. – Nada? – perguntou com incredulidade. – Papai e eu conversamos. Depois do jantar, nós jogamos cartas. Mesmo na luz pálida da lua, Andrea podia ver que ele estava mentindo. A recusa de Clay em encarála o entregava. Dor a envolveu. Mentira não machucaria tanto se ela o estivesse usando para nada além de sexo de viagem, como planejara. Ela fizera aquilo. Tinha ido longe demais. Apaixonara-se por Clayton Dean outra vez. Que tipo de tola se apaixonava por um homem que não era honesto com ela? Seu tipo, aparentemente. Fechando os olhos contra a dor da humilhação, Andrea abaixou a cabeça. Clay segurou-lhe o queixo e ergueu-o. Ela cerrou os dentes e encontrou-lhe o olhar. – Case-se comigo, Andrea. Atônita, ela abriu a boca, mas nenhum som emergiu. – Eu a amo. Nunca deixei de amá-la. Quero passar o resto da minha vida com você. – Ele falava sério. Ela podia ver amor nos olhos azuis e no sorriso esperançoso. Alegria inundou-a instantaneamente, mas Andrea reprimiu o sentimento. Ouvira estas mesmas palavras dos lábios dele antes, e não tinham significado nada. Ele a abandonara. – Como você pode dizer isso quando nem mesmo está sendo honesto comigo? Clay abaixou a mão para o colo e fechou os dedos. – Algumas coisas são melhores ficarem sem ser ditas. – Esta não é uma delas, Clay. Você me abandonou. Eu não sei por quê. E se eu não souber por que, então nunca terei certeza de que você não vai embora novamente. – Eu não irei. Juro. Ela meneou a cabeça. – Eu não preciso de um juramento. Preciso da verdade. Enrijecendo o maxilar, Clay desviou o olhar. Quando a encarou novamente, determinação era feroz em sua fisionomia. Ele não ia contar-lhe. Ela sabia antes que ele abrisse a boca. – Eu preciso que você confie em mim nisso. – E se eu não for capaz? – Eu conquistarei sua confiança. Não importa quanto tempo leve. Dê-me uma chance de provar que jamais machucarei você novamente. O lado racional de Andrea gritou, Não lhe dê a oportunidade de magoá-la de novo, mas seu lado emocional, o lado que ainda o amava, perguntou: Que mal isso pode fazer? Ele puxou-a contra seu peito e roçou os lábios no topo de sua cabeça.


– Dê-me uma chance, Andrea – repetiu Clay. – Prometo que não a decepcionarei. O que ela tinha a perder? Já perdera seu coração.


CAPÍTULO 11

TUDO EM Andrea gritava um aviso sobre confiar sem verdade, mas outro canto de sua mente relembrava-a dos relacionamentos passados. Ela não jurara quebrar o ciclo? Inclinou-se sobre o parapeito da varanda de seu quarto. Gaivotas gritavam acima, suplicando café da manhã. A praia abaixo estava deserta àquela hora. A brisa matinal, já pesada com humidade, prometia mais um dia abafado. Clay descera para fazer café. Acordar do lado dele era tão bom. Assim como fazer amor preguiçoso enquanto o sol nascia, enviando seus raios para a cama. Ela o amava. Amava tudo sobre ele. Exceto o maldito segredo. O que sua mãe dizia? Confiança nem sempre é cega, mas oferece o benefício da dúvida. Andrea afastou uma mecha de cabelo do rosto. Ela oferecera o benefício da dúvida para Clay? Não. Talvez, ele tivesse um bom motivo para guardar seu segredo. Ela poderia amá-lo completamente, sabendo que ele estava guardando alguma coisa que talvez a ferisse? Andrea não tinha a resposta. E mesmo se tivesse, eles ainda teriam de discutir onde morariam, se decidissem ficar juntos. Ela recusava-se a abandonar Joseph e a empresa neste momento crítico. A porta de vidro se abriu e, carregando uma bandeja com café da manhã, Clay saiu descalço na varanda e colocou a bandeja sobre a mesa de canto. Ele vestira o jeans, porém nada mais. Clay capturou seu olhar. – O jornal está aqui. Você não vai gostar. Andrea encolheu-se. Esquecera tudo sobre a coluna de Octavia. Antes que pegasse o jornal dobrado sobre a bandeja, Clay segurou-lhe a mão e puxou-a para seus braços. O coração de Andrea bombeou. Como podia desejá-lo tão em seguida? E como poderia deixá-lo sair de sua vida? Mãos grandes seguraram seus quadris, pressionando-a contra a ereção coberta por jeans. Então, ele beijou-a. Quando Clay a beijava e a abraçava, Andrea não tinha reservas. Eles eram perfeitos, juntos. Totalmente em sintonia. No beijo de Clay, provou café, paixão e a promessa de um futuro. Ele levantou a cabeça e entrelaçou os dedos no cabelo dela. A ternura nos olhos azuis causou um nó na garganta de Andrea. – Você me ama. Admita.


Andrea arfou. Confessar seus sentimentos era como alcançar o ponto sem retorno. Uma vez que vociferasse aquelas palavras, nunca seria capaz de retirá-las. – Andrea, ninguém poderia ter adorado meu corpo como você adorou, ontem à noite, sem me amar. Culpada. Mesmo sem palavras, já entregara seu segredo. Fechou os olhos brevemente, antes de encontrar-lhe o olhar. – Sim, amo você. Um sorriso lindo curvou a boca muito talentosa. Ele recompensou-a com um beijo rápido. – Você não vai se arrepender. Nós nos casaremos assim que... Andrea pressionou os dedos nos lábios dele. – Clay, nós ainda temos muitas coisas a discutir. Eu nem quero pensar sobre um casamento, até que Joseph esteja de volta na empresa. Clay suspirou, liberou-a e andou para o parapeito. Apoiou as duas mãos na madeira. A rigidez na postura dele a fez tremer. – Meu pai não vai voltar – disse ele, sem se virar. Alarme arrepiou os pelos nos braços de Andrea. – O quê? – Ontem à noite, ele disse que quer se aposentar e passar o resto de seu tempo com minha mãe. – Mas... e quanto a Dean? – Seu emprego e o de centenas de outras pessoas? – Ele pretende vender a empresa. Falou que um conglomerado já expressou interesse. O ponto sem retorno, realmente, percebeu ela com tristeza. Mesmo se tivesse deixado Clay sair da sua vida outra vez, nada seria igual. Não era de admirar que Clay estivera tão aborrecido na noite anterior. – Você poderia assumir a empresa – ofereceu. Ele virou-se. Reserva nublava os olhos azuis. – Não sei se estou pronto para dar este passo. Mas se Dean for vendida, nada impedirá você de ir para Miami comigo. – Apenas minha casa, minha família e minhas amigas. Clay aproximou-se e envolveu-a nos braços. – Nós não precisamos tomar uma decisão hoje. Coma seu café da manhã. Leia o jornal, e depois, tenho planos para aquela sua grande banheira. O jornal. Ela esquecera sobre o artigo. De novo. Como ele a fazia esquecer tudo? Andrea liberou-se, pegou o jornal e abriu-o na seção de entretenimento, para ler o artigo de Octavia. Rumores dizem que os encontros românticos foram cancelados, mas esta repórter descobriu que Andrea Montgomery e Clayton Dean não se desgrudam dia e noite. Os ex-namorados (e talvez atuais) irão navegar ao pôr-do-sol, juntos? Nós logo saberemos. Andrea pôs o jornal de sábado sobre a mesa e gemeu em frustração. – A mulher tem espiões. Eles devem ter vigiado a casa, porque seu carro está parado na garagem. – Sua garagem tem janelas. Alguém os estava observando mesmo agora? Andrea apertou mais o penhoar ao seu redor e olhou em volta da praia e das casas.


– Eu me sinto suja. – Então, deixe-me viver minha fantasia. Quero tomar um banho com você desde que vi aquela banheira. Quero explorar cada centímetro do seu corpo. O brilho ardente nos olhos azuis inundou-a de calor. Porque sua mente estava confusa, agarrou-se à única coisa que sabia que não a desapontaria. Fazer amor com Clay nunca era um desapontamento. CLAY REPRIMIU a culpa que sentia usando sexo para distrair Andrea. Mas tinha uma decisão difícil a tomar, e não estava pronto para tomá-la. Ficar em Dean ou voltar para Miami? Viver com o segredo ou fugir, novamente? Andrea o amava. Isso era tudo que importava. Eles resolveriam o resto. Ele levantou as mãos, segurou-lhe o rosto e beijou-a profundamente. Ela derreteu-se contra ele, moldando-se ao seu corpo, e fazendo a pulsação de Clay acelerar freneticamente. – Vamos entrar. – Esquecendo o café da manhã, ele murmurou contra os lábios de Andrea e impulsionou-a em direção à porta, fechando-a depois que eles atravessaram a soleira. Olhou para o penhoar dela. Saber que não havia nada por baixo do tecido de seda o enlouqueceu de desejo. Beijou-a novamente, desatando o nó do penhoar e deslizando-o pelos ombros delgados, até que estivesse finalmente nua. Então, Clay abaixou-se para capturar um dos seios na boca, rolando o bico com a língua. Andrea agarrou-se a ele, porém, brevemente demais, contorceu-se com impaciência. Ele endireitou o corpo. As palmas dela desceram para abrir o botão de seu jeans e descer o zíper, antes que dedos delicados se curvassem em volta de sua ereção. Os joelhos de Clay quase dobraram. Arfando entre dentes, ele livrou-se da calça, ajoelhou-se e encontrou-a com sua boca, brincando com o ponto doce de Andrea, até que os dedos dela entrelaçaram no seu cabelo. Ela puxou-os até que ele olhasse para cima. – Eu não aguento quando você faz isso. Minhas pernas estão tremendo muito. Clay ergueu-a nos braços e carregou-a para o banheiro. Colocou-a sobre a borda da banheira, abriu a torneira e ajoelhou-se no tapete aos pés dela. Deu-lhe prazer com seus lábios, língua e mãos, até levá-la ao clímax. Então percebeu que estava prestes a explodir e não tinha um preservativo. – Não se mova. Clay correu para o quarto, pegou o que precisava e voltou para o banheiro, para encontrá-la já dentro da banheira, um sorriso satisfeito curvando os lábios sensuais. Ele protegeu-se e juntou-se a ela na água quente. Puxou-a para seu colo e estendeu o corpo. Paraíso. Uma vida inteira disto não seria o bastante. Ele não via a hora de chegar ali, e nunca mais queria sair. Andrea estava sentada de pernas abertas sobre seus quadris. Ela levantou o corpo, antes de abaixá-lo devagar e tomá-lo profundamente. Repetidas vezes, ela o levou para a beira da sanidade e recuou, enlouquecendo-o completamente. – Provocadora. – Tudo que ele pôde fazer foi beijar o sorriso travesso dos lábios dela e esperar pela explosão. Seu orgasmo o atingiu como uma onda violenta, golpeando-o, afundando-o, destruindo-o. Clay mal conseguia respirar, mal conseguia pensar. Andrea estremeceu em seus braços quando atingiu outro clímax, então relaxou contra ele. Clay aninhou-lhe a cabeça contra seu ombro e tentou recuperar o fôlego.


Lucidez voltou aos poucos. Ele amava esta mulher. Não apenas por causa do sexo espetacular, mas porque ela dava generosamente. Seu tempo. Seu talento. Seu amor. Seu coração. Como ele poderia dar menos do que cem por cento? Não queria ver dúvidas nublando os olhos de Andrea. Mas não sabia como lhe contar a verdade sem feri-la. Encontraria uma maneira. Ele lhe devia isso. Fechou os olhos e descansou a cabeça contra a borda da banheira. Andrea saiu de seu colo e aninhou-se na curva de seu ombro. Ele passou um braço ao seu redor e beijou-lhe a testa. – O artigo está certo, sabe? Ela saiu de seu abraço, pegou um jarro de plástico ao lado da banheira, encheu-o de água e jogou sobre a cabeça de Clay. Tossindo, Clay sentou-se ereto. – Ei, pelo que foi isso? – O artigo pode estar certo, mas não quero que meus assuntos pessoais se tornem fofoca da empresa, novamente. Se eu perder o respeito dos funcionários, então como poderei... – Ela parou, a expressão triste. – Suponho que não importa mais o que o staff pensa. Não se seu pai vai vender a empresa. Mordiscando o lábio, Andrea saiu da banheira. Os olhos de Clay seguiram o traseiro molhado para o Box. Ela pegou seu xampu e voltou a entrar na banheira. Encheu a mão com o líquido e posicionou-se atrás dele. O cheiro de coco encheu as narinas de Clay, enquanto ela lavava o cabelo. – Eu quero tudo, Clay. Você, Dean e eu. Juntos, como uma vez planejamos. – Isso soa tentador, querida, mas... – Ele parou quando ela jogou outro jarro de água sobre sua cabeça. – Avise-me antes de fazer isso, por favor. As mãos de Andrea pararam, então pentearam o cabelo dele na altura da nuca. – Você tem uma marca de nascença. – Sim. – Uma marca vermelha em forma de lua crescente – sussurrou ela. Antes que ele pudesse entender por que uma marca de nascença colocaria tensão na voz dela, Andrea falou: – Tim tem esta mesma marca. Oh, não. O estômago de Clay se contraiu. E ele que pensara que encontraria as palavras certas ou o momento certo. ANDREA TENTOU dar sentido ao que via. Por que Tim e Clay teriam a mesma marca de nascença? Coincidência? Não, a pequena marca era muito distinta. O formato era idêntico. Assim como a cor. E escondida no mesmo lugar, abaixo do cabelo. – Andrea... Ela ergueu os olhos para Clay, e seu coração parou. Medo e apreensão preenchiam os olhos azuis. Este era o segredo. O segredo muito horrível para que ela suportasse. – Você e minha mãe? Não, isso não é possível – disse, rezando para que estivesse errada. – É? – Deus, não. Eu nunca... – Então, como? – As outras similaridades que notara entre Clay e Tim lhe vieram à mente. Os olhos. O nariz. O sorriso travesso. A postura arrogante. Ela achara que Tim imitava os gestos de Clay ou de Joseph.


Joseph. Não. Não. Sua mãe e Joseph. Tudo em Andrea rebelava-se diante da ideia de sua mãe e seu mentor juntos daquele jeito. Ela saiu da banheira, sentindo o peito apertado e a garganta queimando. Não. Por favor, não. Frio. Tão frio. Ela pegou uma toalha e pôs ao redor de seu corpo. Não. – Andrea, ouça. – Clay aproximou-se, mas encolheu-se do toque dele. Um abismo se abriu em seu peito. – Minha mãe e Joseph? Ele exalou e passou uma mão no rosto. – Sim. Confirmação apenas fez Andrea se sentir pior. – Você sabia. – Sim. – Quando? Quando você soube? Clay pegou uma toalha e enrolou-a em volta dos quadris. – Oito anos atrás. – E não me contou? – Ela andou para o quarto, virou-se para descobrir que Clay a seguira. Fatos se encaixaram como um quebra-cabeça complicado. – Foi por isso que você partiu sem se despedir. – Sim. O coração de Andrea bombeava com força ensurdecedora. – O que exatamente aconteceu naquele dia? Você foi para Dean, e o que houve? Ele parecia preferir estar em qualquer lugar a estar ali. – Eu os peguei juntos. – No escritório? Ele assentiu. – Eu fiquei horrorizado. E fugi. – No escritório – repetiu e sentou-se na beira da cama. O comentário de sua mãe sobre o pai de Andrea ter sido seu primeiro amante subitamente fez sentido. – Como é possível que eu não soube? Eles haviam tido um caso debaixo do seu nariz. Raiva inundou-a. As pessoas que ela amava e confiava... sua mãe, Joseph e Clay... tinham mentido para ela. – Aconteceu uma única vez. Andrea levantou a cabeça. – Como você sabe disso? – Eu conversei com cada um deles desde que vim para casa. – E você acreditou neles? Por que, quando eles traíram tanta gente? Eu. Meu pai. Sua mãe. Como pôde acreditar neles ou lhes dar cobertura? – Eu acredito neles, mas não lhes dei cobertura. – Clay ajoelhou-se na sua frente e pegou-lhe as mãos frias. Ela tentou se desvencilhar, mas ele não permitiu. – Foi por isso que parti. Por causa do caso. Eu não tinha estômago... – Ele suspirou. – Eu vim para casa naquele dia, a fim de fazer uma surpresa para você. Queria que meu pai fosse comigo comprar seu anel de noivado. Eu os peguei juntos. Agarrados. – Clay falou a última palavra com desgosto.


– E então, tudo em que eu acreditava desmoronou. Dois casamentos perfeitos entre namorados do ensino médio. Ambos mentirosos. E tive medo. E se fosse igual ao meu pai? Clay liberou-a e levantou-se. Andou em direção à porta de vidro. – Entrei no meu carro e dirigi por horas, tentando pensar o que faria. Então, dúvidas me inundaram. Ele encarou Andrea, e a agonia nas feições bonitas a fez engolir em seco. – Você e eu estávamos juntos há seis anos, e eu a amava. Todavia, por cinco daqueles anos, nós nos víamos apenas durante as férias de verão e feriados. Temi que estivéssemos cometendo um erro. Que acabasse seguindo os passos de meu pai. Temi que pudesse magoá-la um dia. Honestidade, finalmente. Se soubesse como esta seria devastadora, teria ficado com as mentiras. – Então você partiu. – Se eu tivesse voltado, teria de ter mentido. Fingido que nada aconteceu. E não podia. Andrea, eu não podia olhar para eles, trabalhar com eles e esquecer. E não podia ir para uma igreja, prometer fidelidade, sabendo que, atrás de mim, estavam duas pessoas que zombavam daqueles votos. Ela fechou os olhos contra a dor. – Você deveria ter confiado em mim o bastante para me contar, Clay. Quando ela levantou as pálpebras, ele meneou a cabeça. – Não. Você e sua mãe eram próximas. Como irmãs. Eu invejava o elo, e não queria destruir sua confiança nela. Meu pai e eu já não nos dávamos bem. Não considerei aquele relacionamento uma grande perda. – Você deveria ter me contado – repetiu. – Melhor do que me deixar agonizando durante oito anos sobre por que você não me amava. Clay praguejou. – Não foi você. Querida, nunca foi você. – Eu sei disso agora. Mas é tarde demais. – Não é tarde demais. Nós recomeçaremos. Aqui. Hoje. Nós iremos... – Ignorar a bomba embaixo da mesa? – Ela ergueu uma mão quando ele abriu a boca. – Vá. Agora. Por favor, vá embora. Eu preciso de tempo para pensar. – E então, muito arrasada para vê-lo sair de sua vida uma segunda vez, Andrea deu-lhe as costas. – Tim. Andrea arfou diante do nome falado suavemente, e sentiu-se nauseada. Pensara que a situação não podia piorar, e, é claro, podia. As mãos de Clay desceram em seus ombros. O toque era quente contra sua pele gelada. Mas não podia se apoiar nele. Estava muito confusa. Precisava se fortalecer. – Pense em Tim, Andrea. Se este segredo for revelado, o mundo do garoto será destruído. Seu pai o ama. Ele o amaria se soubesse que Tim não era dele? Oh, meu Deus. Ela nem mesmo considerara isso ainda. – Sei que você está zangada, ferida e se sente traída. Eu passei por isso também, mas na época, nós não tínhamos Tim para nos preocupar. Ele é seu irmão. E meu. Andrea pressionou a mão no estômago. Não juntara esta parte do quebra-cabeça ainda. – Foi por isso que você quis passar tempo com ele. Clay assentiu. – Eu queria conhecê-lo. Antes que você aja, pense nos inocentes que sofrerão se este segredo for revelado.


Ela saiu dos braços dele e cobriu as orelhas. – Pare. Eu não aguento mais. Vá embora. Por favor. Clay pegou-lhe as mãos e beijou-lhe os dedos. – Nós não acabamos. Entorpecimento envolveu-a. Ela liberou as mãos e abraçou a si mesma. – Eu não sei como nós podemos continuar. – Descobriremos um jeito. Andrea balançou a cabeça e pressionou a testa contra a porta de vidro. Ouviu enquanto ele se vestia, então sentiu os lábios dele tocarem sua nuca. – Eu amo você, Andrea. Nunca deixei de amá-la. E nunca deixarei. – E com isso, ele se foi. Exatamente como oito anos atrás. Apenas que, desta vez, ela sabia por quê. E desejou que não soubesse. Se tivesse havido alguma coisa errada com ela, poderia ter consertado. Mas isso... Ela não podia consertar isso. A única coisa que sabia, com certeza, era que entendia e perdoava Clay por ter fugido, porque queria fazer a mesma coisa. CLAY NÃO dormia desde que deixara Andrea, motivo pelo qual estava acordado quando o barco balançou às 5h da manhã de domingo, sinalizando que alguém entrara a bordo. Tinha de ser Andrea. Ninguém mais bateria a sua porta ao amanhecer. Ele saiu da cama, vestiu seu jeans descartado, foi para a escada de escotilha e desceu os degraus de dois em dois. Acendeu a luz e a viu parada do lado de fora de sua cabine. Alívio o inundou. Ela fora. Graças a Deus. Clay abriu a porta, antes que ela batesse. Andrea entrou silenciosamente e derrubou a mala que carregava aos seus pés. Havia círculos escuros sob os olhos dela, e o cabelo preso num rabo de cavalo apenas acentuavam as feições chocadas. Ela parecia tão arrasada quanto ele se sentia. Clay sabia exatamente pelo que estava passando. Vivenciara esse misto de emoções, oito anos atrás. – Você me pediu para ir para Miami com você. Bem, vamos. Agora. Hoje. Juliana e Holly arrumarão as minhas coisas e me enviarão. Eu venderei a casa e... – Ei, acalme-se. – Ele segurou-lhe os ombros. Chegara a uma conclusão na noite anterior... e estava seguro desta. – Nós não podemos ir. Andrea libertou-se, atravessou o salão e virou-se para olhá-lo, como se ele tivesse enlouquecido. – Como assim, não podemos ir? Você só fala em ir embora, desde que chegou. – Se nós deixarmos Dean, o sonho de meu avô morre. – E daí? Por que você se importa? Este não é mais o seu sonho. – Costumava ser. Poderia ser novamente. – Nossos pais mentiram, Clay. Eles traíram. E o que eles fizeram nos custou oito anos. Como você pode ficar aqui e aceitar isso? Como pode confiar neles novamente? – Eu fugi por oito anos, e finalmente aprendi minha lição. Fugir não muda coisa alguma. Cansei de fugir. Isto – ele gesticulou em direção à área de Dean. – Isto é minha vida. Meu futuro. Nosso futuro, Andrea. Muitas pessoas contam conosco. Ela meneou a cabeça.


– Como você pode perdoá-los? Como pode esquecer o que eles fizeram, ou viver com a possibilidade de o segredo estourar no seu rosto? – Eles cometeram um erro. Um erro terrível. Mas fizeram o melhor que podiam com a situação estragada. – Você está aceitando isso. – Ela falou em tom de acusação. – Nunca. Mas conversei com sua mãe e com meu pai, e entendo como aconteceu. – Bem, eu não. – Sua mãe tinha sido apaixonada pelo meu pai. Ela arfou. – O quê? – Eles nunca nos contaram essa parte, não é? Elaine estava apaixonada por Joseph, antes de perdê-lo para minha mãe. Ele foi o primeiro amor dela. E sabe o que sua mãe me disse? Que você nunca esquece o primeiro amor. E ela está certa, Andrea. Eu nunca pude esquecer você, e Deus sabe como tentei. Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. – Isso não torna certo o que eles fizeram. – Não – concordou Clay. – Sua mãe falou que, quando chegou aos 40 anos, começou a se questionar se cometera um erro em deixar meu pai escapar, e então as coisas foram longe demais. Andrea passou os braços ao redor de si mesma. Seu corpo inteiro tremia. Clay levou-a para o sofá, sentou-se e puxou-a para seu colo. Aninhou-lhe a cabeça sob seu queixo. – Eu não entendo. Joseph adora sua mãe. Por que ele faria uma coisa tão detestável? Ele acariciou-lhe as costas. – Lembra quando você começou em Dean? Os negócios estavam em baixa. Esse era um dos motivos pelos quais meu pai e eu sempre discutíamos. Eu tinha ideias de um garoto universitário sobre como aumentar as vendas, e meu pai insistia que o mercado voltaria ao normal. – Ele estava trabalhando demais e negligenciando minha mãe. Então, ela começou a sair e não lhe contar para onde ia. Joseph achou que mamãe o estava traindo. De alguma maneira distorcida, ele tentou se vingar, unindo-se a sua mãe. Mas mamãe não estava traindo. Ela estava fazendo aulas com Holly. Queria animar papai com um presente. Andrea arfou. – A peça na janela do escritório dele? – Sim. – Eu lembro quando ela deu aquilo a Joseph, mas ainda assim... Clay ergueu-lhe o queixo e encontrou seu olhar. – Andrea, o caso foi errado. Mas eles cometeram um erro que nunca repetiram, e do qual se arrependem profundamente. E por mais que eu os condene por mentir, eles fizeram isso para proteger aqueles que amavam. Você e eu. Seu pai. Minha mãe. Tim. Aceitação cobriu as feições dela. – E foi por isso que você não me contou. Estava tentando me proteger. Deste... deste buraco escuro no meu coração. – Sim. Mas a culpa de eu ter fugido não foi inteiramente deles. Temia acabar fazendo o que papai fez. – Você ainda se sente assim? Acha que seria capaz?


– Não. Agora, tenho certeza de que jamais seguiria os passos de meu pai. Você está no meu coração há 14 anos, Andrea. É minha alma gêmea. Isso nunca vai mudar. Eu a amo, e sempre a amarei. Ela suspirou. – Você não tem medo de que eu seja infiel, como minha mãe? Ele beijou-lhe a testa. – Não, meu amor, não tenho. Você pode gritar comigo ou jogar água na minha cabeça, mas nunca me machucaria deliberadamente. Andrea segurou-lhe o rosto e tocou os lábios nos seus. – Eu sempre pensei que você tivesse partido porque não me amava o bastante. Mas você partiu porque me amava demais. Um nó se formou na garganta de Clay. Ela entendia. Ele fechou os olhos e fez uma prece silenciosa em agradecimento. – Sim. Eu a amava muito para colocá-la no que eu estava passando. Apenas lamento que você esteja passando por isso agora. – Eu amo você. – Lágrimas rolaram pelas faces dela. Andrea beijou-o novamente, então levantou a cabeça. – O que fazemos agora? – Nós guardamos o segredo. Para proteger Tim, seu pai e minha mãe. E ficamos aqui para recolher os cacos para eles, no caso de a história ser revelada algum dia. Ela arregalou os olhos. – Por isso você estava preocupado sobre Octavia cavando sujeira. Clay assentiu. – Mas não acho que isso seja provável. Eles cobriram bem seus rastros. – Ele acariciou-lhe o cabelo. – Quer conversar com nossos pais? Ouvir o lado deles disso? Eu vou com você. Ela meneou a cabeça. – Não. Ainda não. Talvez um dia. Preciso de tempo para aceitar isso, então, por enquanto, prefiro que eles não saibam que descobri. – Certo. Seu segredo está seguro comigo. – Ele deslizou uma mão pelas costas dela. – Com uma condição. – Qual? – Case-se comigo. Construa uma vida comigo. E deixe-me passar o resto dos meus dias amando-a e conquistando sua confiança. Um sorriso tremeu nos lábios de Andrea. – Você já tem minha confiança, Clay. Minha confiança e meu coração. Mas tenho minha própria condição. – Fale. – Sem segredos entre nós. Nunca. Ele aprendera, da maneira difícil, que enganação podia destruir as melhores coisas na vida. Levantou os dedos dela para seus lábios. – Eu juro. – Então, sim, eu me casarei com você. – Você não se arrependerá, meu amor, e esta é uma promessa que pretendo manter enquanto estiver respirando.


Emilie Rose

VENDIDO PARA A SEDUÇÃO

Tradução Cydne Losekann


Querida leitora, Eu demorei semanas para redigir essa carta, e finalmente descobri o motivo. Porque assim que terminasse Vendido para a sedução, eu teria que deixar Holly, Andrea e Juliana para trás. Escrever Leilão de Solteiros me permitiu explorar partes da Carolina do Norte que normalmente não percebo, apesar de passar por elas todos os verões a caminho da praia. É como um velho amigo, que, de repente, se transforma em algo mais perante nossos olhos. Foi exatamente o que aconteceu entre Eric Alden e Holly Prescott. Ambos são diferentes entre si como o dia da noite, o sol da lua e o claro do escuro. Mas ao combinarem que Holly daria o lance mais alto por Eric para evitar que uma estranha o fizesse, acabaram descobrindo que era possível harmonizar suas diferentes opiniões sem precisarem deixar de ser as pessoas que são. Boa leitura! Emilie


CAPÍTULO 1

– OUTRO QUE vai beijar a lona! – resmungou Holly Prescott, ao avistar uma de suas melhores amigas sair, toda exibida, do Caliber Club com o solteirão recém-adquirido. Se tivesse alguma noção, sairia de fininho atrás deles. Em vez disso, estava com um salto alto e um vestido que merecia censura – para ela, ao menos –, cumprindo a parte do pacto ridículo que ela, Andrea e Juliana fizeram. Como fora se meter nesse plano desastroso? Sair comprando homens para se exibir por aí! Havia pelo menos uma dúzia de coisas mais interessantes que poderia fazer em seu trigésimo aniversário. E daí se não fazia sexo há tanto tempo que já nem lembrava como era? Iria se agarrar à sua nova condição de virgem renascida até que tivesse sob controle a sua tendência de escolher homens problemáticos, pois não conseguia mais suportar esses vira-latas de duas patas. O último custara-lhe caro e colocara em risco a sua independência, conquistada a duras penas. Não que quisesse expor a sua ingenuidade. Seria humilhante demais. Um jato de ar fresco vindo do ventilador de teto fez com que odiasse a própria roupa pela milésima vez naquela noite. Onde estava com a cabeça quando deixara as amigas a colocarem em um vestido que parecia mais uma roupa de baixo? Qualquer um poderia enxergar sua calcinha ou uma mordida de mosquito – caso tivesse alguma dessas coisas – por baixo daquela seda. De braços cruzados, Holly observou o salão, repleto de convidados bem-sucedidos. Sentiu-se um peixe fora d´água, mesmo com o seu pai sendo o dono daquele lugar. Ela não se encaixava ali. Como sempre acontecia em sua vida. – Nunca mais vou confiar em Andrea e Juliana – resmungou, sem preocupar-se em ser ouvida pelas mulheres que se amontoavam sobre o chão de mármore. O leilão incluía duas horas de champanhe grátis, e as senhoras, normalmente recatadas, estavam ocupadas demais berrando feito adolescentes para prestar atenção nela. O lado positivo era que a histeria delas poderia ser uma vantagem, quando começasse o leilão do solteirão. – Mais vinte minutos e poderei voltar para casa. – Falando sozinha? – O barítono ricaço atrás dela fê-la se encolher. Eric Alden, o irmão de sua melhor amiga, já havia discursado contra o seu plano arriscado daquela noite. Mas ele estava pregando


para convertidos. Não queria saber de mais sermão. No entanto, havia prometido dar uma chance ao leilão do solteirão. Agora que estava sozinha, Eric descarregaria toda a sua esperteza nela. Bem que poderia cortá-lo antes que começasse. Virou-se, mas não conseguiu proferir sua resposta. Uau. Como podia esquecer o quanto ele ficava lindo de terno? Seu cabelo preto curtinho estava bem arrumado e seu rosto robusto parecia recém-barbeado. Holly tentou retomar o raciocínio. – Estou xingando a sua irmã. O vestido que ela e a outra que se diz minha amiga escolheram para mim é uma indecência. Eric analisou-a com seus olhos azuis e Holly reprovou-se mentalmente por chamar a atenção dele para o seu vestido – ou o pouco que havia dele. Até então, provavelmente Eric jamais a havia visto de vestido – não daquele jeito, decerto. Ele soltou fogo pelas ventas e então andou em volta dela, lenta e deliberadamente, analisando-a como se fosse ela, e não ele, a ser leiloada. Holly ajeitou-se, puxou o bumbum, encolheu a barriga e torceu para que ele não imaginasse que ela estava completamente nua por baixo do vestido, exceto pelo vermelho de sua pele corada. Parou diante dela, e apenas alguns centímetros os separavam, o que era suficiente para invadir a intimidade dela. – Definitivamente indecente. Indecentemente linda. O tom rouco da voz dele, combinado com a proximidade, fez o coração dela disparar, sentir um inesperado arrepio na espinha. Controle-se. É o irmão da Juliana. O irmão certinho, workaholic e socialmente bem-sucedido. Isso bastava para fazê-la querer recuar, não fossem aquelas socialites embriagadas bloqueando o seu caminho. – Você está encantadora, Holly. Quase não reconheci você sem boné e as botas de proletária. Estava bom demais para ser verdade. O que ela podia fazer se o seu trabalho exigia aquele tipo de proteção? – Você também não está nada mal, Alden, mas com ajuda da Armani para projetar o seu terno, não é de se estranhar. O sorriso de Eric pareceu um tanto forçado. – Se foi um elogio, agradeço. Posso falar com você um pouquinho? Ela olhou para a esquerda, para a direita, e flagrou mulheres dando em cima dele em ambos os lados. Podiam ignorá-la tranquilamente, mas não o herdeiro de um verdadeiro império bancário. Inclusive, pareciam estar se deliciando com aperitivos sobre o corpo nu dele. – Comigo? Claro. Eric pousou seus longos dedos sobre o ombro dela, transmitindo um calor excitante para o corpo de Holly. Conduziu-a até um canto afastado do salão, um lugar um pouco menos barulhento, e soltou-a. Seus ombros largos a cercaram contra as paredes. – Por que todos esses elogios? – indagou ela, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Com seu salto alto, Holly só precisou ergueu um pouco o olhar para encará-lo – e justamente por isso nunca usava salto. Percebeu um ligeiro desgosto no lindo rosto de Eric. Ele colocou as mãos no bolso e aproximou-se dela – perto o bastante para que sentisse o cheirinho de menta em sua boca – para fazer-se ouvir entre a multidão que se amontoava diante de mais um solteirão no palco. Ficou com a boca seca. Ei, pare com isso.


– Preciso de um favor. Claro que precisava. Por que algum cara a elogiaria sem ter algum interesse por trás? Tentou controlar os seus hormônios e manter a cabeça fria. – Que tipo de favor? – Olhou para o palco. O solteirão dela seria o próximo a aparecer e, se tudo desse certo, ele seria o solteirão de alguma outra e ela poderia voltar para casa. Sozinha. – Compre-me. Voltou a encarar Eric. Só podia tê-lo ouvido mal em meio ao escândalo das mulheres. – Como? O corpo dele emanava calor, o que, perversamente, causava-lhe um arrepio. Ela deu um passo para trás – direto contra a parede. O gelado da superfície contra as suas costas fê-la lembrar que havia apenas umas tiras cruzadas entre sua cintura e suas costas, mantendo no lugar os dois triângulos inapropriados de sua parte de cima. – Salve-me disso. – Com um movimento no queixo, sinalizou para o que se passava atrás dele. Por que diabos ele precisaria de ajuda? Não sabia bem o que o seu pacote de encontro amoroso incluía, mas só o valor de sua companhia seria bastante elevado. Eric era lindo e rico, para quem não se importa com almofadinhas – o que ela evitava como a uma doença transmissível. – Por que eu? – Porque você não está atrás de um ricaço. – Amém. – Sair com ele não seria muito difícil, mas Holly não queria sair com ninguém. Mesmo que ela pudesse pagar por ele, não poderia sair com o irmão da melhor amiga, arriscando-se a perder a amizade mais importante de todas. – Não dá, Eric. Já escolhi o meu par. Você vai ter de aguentar e subir no palco. Tenho certeza de que vai fazer uma mulher sortuda bem feliz. Colocou a mão sobre o ombro dela; aquele mesmo, mantido apenas por uma tira. Seus mamilos, malditos fossem, ficaram durinhos – e o vestido dela não era capaz de disfarçar. Sem jeito, ela cruzou os braços. Se um mero toque despretensioso a deixara excitada, era sinal de que estava há muito tempo sem sexo. – Por favor, Holly. Em troca, dou o que você quiser. Só me poupe deste showzinho ridículo a que minha mãe me expôs. Ah. Showzinho. Disso ela entendia bem. Eric levara um fora da sua noiva socialite há alguns meses. O evento mais badalado do ano virara um desastre quando a cabeça de vento que se casaria com ele o deixara esperando no altar, esbravejando na frente dos convidados. O orgulho de Eric tomara um golpe fulminante, mesmo que ele evitasse demonstrar. – O que sua mãe acharia que você ficasse comigo, a única garota a ter sido expulsa do baile? Os ombros rígidos dele tornaram-se ainda mais rígidos. – Minha mãe me inscreveu sem a minha autorização. A opinião dela é irrelevante. A simpatia por ele entrou em confronto com a necessidade que Holly tinha de ir embora. Ela não tinha uma quedinha por caras em apuros? E ajudar homens em necessidade não era o seu dever? Ela gostava de Eric, mas o vice-presidente do Alden Bank and Trust, o maior banco privado da região, representava tudo aquilo que ela repudiava. Pretensão. Esnobismo. Expectativas às quais ela era incapaz de corresponder. Puxa, Holly, você vai deixá-lo à mercê de um bando de piranhas esfomeadas?


– Sua irmã não iria querer mais olhar na minha cara. Prometi a ela que compraria o “Incendeie suas noites com Franco, o bombeiro”. Eric apertou os lábios. – Eu conheci o Franco nos bastidores. Ele é mais baixo do que você e é burro como uma porta. Você vai achá-lo entediante. Como nunca havia reparado na sensualidade dos lábios de Eric? Ou que ele possuía cílios que eram de uma frivolidade única em um cara como ele? E por que estava prestando atenção a isso agora? Achou melhor deixar para lá. – Eu não pretendo sair com o Franco. Eric arqueou as sobrancelhas e analisou-a demoradamente com aqueles olhos intensamente azuis. Surpresa, curiosidade e algo mais, que ela não pôde identificar, tomaram conta da expressão dele. – Vai comprá-lo para quê? Para ser o seu garanhão? Holly ficou boquiaberta e suas bochechas ferveram – a maldição de toda pessoa ruiva. Foi atingida em cheio pelo próprio orgulho. – Acha mesmo que preciso pagar para dormir com alguém? Posso não ser uma supermodelo, como as que você costuma sair, mas eu me viro muito bem. – Exceto pelo fato de sempre escolher uns fracassados. E ela já havia feito muito sexo – nada que pretendesse incluir em suas Memórias de uma Debutante Rebelde, que escreveria algum dia. Ele recuou e contraiu os lábios. – Eu não disse isso. Holly juntou o que restava da sua dignidade. – Para sua informação, eu, a Juliana e a Andrea queríamos fazer caridade. Sim, é isso mesmo. A sua mãe – cutucou o peito dele –, a organizadora do evento, nos mandou fazer isso. Então nós concordamos em usar o dinheiro do fundo fiduciário que nós vamos receber no nosso trigésimo aniversário. Ela ergueu a mão para ele não interrompê-la e desejou não tê-lo tocado, mas seus dedos estavam formigando. – Mas aí vem a parte boa. Estabelecemos um limite de preço. O bombeiro vai custar mais caro do que o combinado. Depois disso, posso voltar para casa. Nada de solteirão. Nada de promessas vãs. Nada de encontros desagradáveis. – E se não der certo? Então acabaria com um cara com mais músculos do que cérebro. Pior: ficaria em uma situação financeira complicada. – Vai dar. Ele pousou para um calendário de bombeiros no ano passado. Aposto que todas essas mulheres vão querer saber se ele é tudo isso mesmo. A multidão rugiu e o bombeiro subiu ao palco. – Viu? Elas o adoram. E elas podem tê-lo. Eric sentiu-se tomado por frustração. Olhou para o palco e cruzou os braços, tão resignado quanto um capitão que afunda com o seu navio. Um músculo se mexeu em seu rosto. Holly acenou seu leque com um número para o alto, achando que desencadearia um frenesi de lances. O tempo passava em câmera lenta e o lance ficou milhares de vezes abaixo da sua cota máxima. – Que azar – murmurou baixinho e olhou para Eric. Trabalhava sozinha boa parte do tempo e pegara a mania de falar sozinha – hábito que precisava suprimir se não quisesse ser levada em uma camisa de


força. Mas, aparentemente, Eric não havia escutado. O público ficou em silêncio, apesar de o animador do evento tentar estimular mais lances. Holly ficou completamente resignada. Teria de aturar uma bomba loira e máscula – uma que ela não podia bancar –, tudo por conta de uma promessa feita sob efeito de tequila e de uma questão de orgulho, que não permitia que ela admitisse para suas amigas que, não pela primeira vez, graças ao seu excesso de confiança, teria de usar o seu dinheiro. – Eu também não queria estar aqui – comentou Eric, sem virar a cabeça. – É isso mesmo. Minha vida é quase perfeita. Por que iria querer um homem para estragá-la? – Mais do que um já o havia feito. Ela segurou firme na plaquinha, mas, antes que pudesse voltar a erguê-la, Eric segurou-a pelo pulso com força. Sua mão roçou na coxa dele e aquela sensação proibida voltou ao seu estômago. Certamente ele havia sentido o seu pulso acelerar sob a ponta de seus dedos. – Compre-me, Holly, e podemos deixar os encontros para lá. Vou reembolsar o que for preciso e você pode usar o dinheiro para pagar suas contas e gastos com bichos de estimação. Os cães de Holly sempre precisavam de alguma coisa. Muito esperto da parte dele apelar para o que era tão importante para ela. Mas nunca duvidara da inteligência de Eric – exceto pelo dia em que soubera do seu relacionamento dele com Prissy, aquela bruxa abusada. Bastante tentada, Holly pensou na oferta dele enquanto o animador fazia mais propaganda dos atributos físicos de Franco. Holly prometera às amigas que daria um lance em um solteirão naquela noite. Era o caso de Eric. Além disso, era provável que não houvesse outro homem que excedesse a cota dela. Era só escolher. Eric e o reembolso ou Franco e o aperto financeiro nos próximos meses. Independentemente disso, ficaria com um solteirão indesejável. Mas a opção de fazer um bom lance, ter o dinheiro reembolsado e se livrar dos encontros parecia a mais vantajosa. Ergueu a cabeça para encará-lo. – Nada de encontros. Promete? – Prometo. Compre-me. Se meu valor exceder a sua cota... Ela bufou de maneira pouco elegante e deu-lhe um soquinho no braço. – Meu Deus, Eric, você é bem pretensioso de achar que vai sair por mais de dez mil. – ... eu cubro os gastos, não importa o quão alto seja – prosseguiu, como se não tivesse sido interrompido. Andrea e Juliana ficariam irritadas, mas acabariam entendendo. Sentiu-se culpada por manipular as apostas, mas não fora dela a ideia de comprar um homem. Havia reclamado desde o início, mas não adiantara. – Tudo bem, Eric. Vou comprar você. Tão logo disse isso, o animador pegou uma cópia do calendário sensual e Franco ficou só de sunga, como na foto, com um sacolejo e um sorrisinho digno de um dançarino dos Chippendales. A histeria prevista por Holly explodiu. Ao baterem o martelo, Holly sentiu um aperto no estômago. O preço do seu solteirão ultrapassou a cota dela. Ela devia se sentir livre, mas tinha um problema: a sua segunda promessa naquela noite. – QUE TAL um beijo para selar o negócio?


O comentário do repórter chamou a atenção de Eric para uma região proibida: a boca grande de Holly. O vermelho chamativo do batom dela despertava fantasias sobre o que era possível fazer com aqueles lábios e onde ela poderia usá-los da melhor maneira – se estivesse disposto a pensar nisso. Eric não estava. Não com Holly. Então por que seus pensamentos perseguiam-na como um míssil teleguiado? A julgar pela expressão boquiaberta de Holly, ela havia gostado do pedido tanto quanto ele. E Holly apertou o olhar, contraindo seus lábios exuberantes. Ela balançou o dedo, apontando-o para a repórter: – Octavia Jenkins, não brinque comigo. – Estou só fazendo o meu trabalho, moça. – Octavia se aproximou deles enquanto o fotógrafo ajustava sua lente. – Você a conhece? – indagou Eric, seu rosto colado ao de Holly, abraçando-a pela cintura, posando para a foto que aparentemente era indispensável. Encostou diretamente na pele quentinha dela. Tratou rapidamente de colocar a mão sobre a cintura dela, coberta de tecido, mas o vestido fininho não ajudava a suprimir o calor do corpo. Sua mão estava queimando, calor que se espalhou pelo braço e pelo resto do seu corpo. – Ela é uma das minhas alunas – respondeu Holly enfaticamente. Sua irmã havia comentando que Holly, uma artista que trabalha com vidro, dava aulas de arte para bancar a bicharada que tinha em casa. Por isso teve a ideia de oferecer dinheiro para os bichos dela. – E isso vai ser um problema? – Não, se eu puder dar um jeito. – Holly forçou as palavras por entre o sorriso claramente falso dirigido ao fotógrafo. – Puxa, pessoal, vocês não vão ser fuzilados. Só um beijinho para as câmeras – insistiu a repórter. Beijar Holly parecia mais interessante do que deveria. Eric amaldiçoou a atração indesejada pelo vestido sedutor dela e seu salto alto fatal. Holly sempre fora a vizinha que usava jeans e roupas desajeitadas. Nunca fora muito feminina. Mas hoje, sem dúvida, estava diante de uma legítima mulher. Uma mulher com atributos generosos. Ergueu o olhar das curvas delicadas dos seios dela para a sua boca. – Nem pense nisso – resmungou Holly por entre os dentes cerrados. Suas bochechas ficaram rosadas e uma expressão de alerta tomou conta de seus olhos castanhos. A possibilidade de beijá-lo era horrível a ponto de não poder dar um selinho para satisfazer a repórter sedenta? Tal pensamento o fisgava sob a pele como uma farpa. Ela colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha e pela primeira vez Eric reparou nas unhas dela – o mesmo tom de vermelho dos lábios e das unhas dos pés. Nunca tinha visto Holly usar maquiagem e esmalte; também jamais vira um penteado naquele cabelo ruivo que não fosse de garoto. Hoje ele estava cacheado, desarrumado de um jeito sensual, como se tivesse recém-saído de baixo de um amante empolgado. Na verdade, nunca a tinha visto tão sensual e com um cheiro... Encheu os pulmões. O cheiro dela era de quem não usava perfume para disfarçar o seu aroma natural. Eric suprimiu os seus pensamentos inapropriados. A repórter aproximou-os ainda mais. Holly sacudiu a cabeça, baixou suas sobrancelhas arqueadas e encarou o fotógrafo ao lado da repórter: – Você tem três segundos para tirar a foto. Depois, vamos embora. Ele os fotografou.


– Com licença – disse Eric ao pessoal da imprensa e conduziu Holly para fora, com a mão sobre seu ombro. Octavia os acompanhou. – A cobertura do encontro de vocês pode ser uma matéria de destaque. Imagine só tudo o que essa exposição nos jornais pode trazer para você. É uma publicidade gratuita. Claro que o interesse pelos desdobramentos do seu namoro é só porque você é minha amiga. A última frase soou como um alerta para Eric, mas, antes que ele pudesse pedir à repórter que fosse mais específica, Holly resmungou um palavrão. Ouviu-se uma sucessão de gritos atrás deles, abafando tudo o que ela disse depois. Holly parou e apontou para o palco. – Olhe, Octavia, um novo solteirão vai para o abate. Vá cuidar do seu trabalho. Boa noite. A dupla de jornalistas virou-se. Holly bateu a porta, saiu andando pela calçada e adentrou, toda atrapalhada, a grama alta do campo de golfe. Era quase meia-noite e estava tudo deserto, somente sob a luz da lua. Eric a acompanhou, pois tinha coisas a combinar com Holly. Ela parou e se abaixou de forma tão brusca que ele quase caiu por cima dela. O toque do traseiro dela contra a virilha dele enquanto ela tirava os sapatos, e sua posição sugestiva, com as costas nuas, eram uma tentação para os hormônios dele. Ele se afastou um pouco. Eric não dormia com uma mulher desde que levara um fora de Priscila, há quatro meses. Não que estivesse de luto ou algo assim, mas a iminente fusão entre o banco Alden e o banco Wilson, outro banco privado, tirava todo o seu tempo. Com isso, ficara totalmente na abstinência. Holly ficou de pé, com seu sapato sensual pendurado entre seus dedos, e seguiu seu caminho. De repente, atirou-se em um banco e rapidamente se levantou, colocando a mão sobre o traseiro. – Estou molhada. O coração dele disparou. Então a ideia de beijá-lo não a desanimara? E por que isso o excitava tanto? Virou-se para esconder a reação do seu corpo. Ela deu um soquinho no estômago dele e encarou-o. – Do sereno no banco, Casanova. Ele não se sentiu frustrado. Constrangido, talvez. Tinha 36 anos, e já não devia ficar excitado com tanta facilidade. Ademais, era Holly, a garota com jeito de garoto, irmã caçula de Sam e Tony. Mesmo que ela fosse atraente, isso não ajudaria em nada. Havia uma regra tácita entre amigos. Ele não saía com as irmãs deles e eles não saíam com as dele. Qualquer coisa além de um encontro justificaria uma briga. Ele era bem forte, mas não queria conflito com os irmãos de Holly por conta de bobagem. Ademais, o Caliber Club era um dos principais parceiros do Alden Bank. Comprar briga com os Prescott poderia colocar os negócios em risco. Holly virou-se, conferindo-lhe uma visão clara do tecido umedecido colado em seu traseiro impecável. Não havia marca de calcinha. Ele conteve um gemido, tirou o paletó e colocou-o sobre o banco. Após um momento de hesitação, ela sentou-se sobre o casaco, inclinou a cabeça para trás e olhou para ele: – Temos um problema. – Além da repórter? – E sua atração indesejada e surpreendente por Holly. – A repórter é o problema. Eric, eu e você trabalhamos com o público. Temos uma reputação a zelar. Se negarmos nosso relacionamento, a Octavia vai publicar isso na coluna de sábado e ficaremos com fama de impostores. Acredite, conheço bem a Octavia. Ela vai nos tornar motivo de piada. E isso é algo que não quero. Imagino que você também não.


Logo em seguida ao humilhante fim do seu relacionamento. Ela não mencionou isso. Nem precisava. Seu orgulho ferido não aguentaria outra humilhação pública, e, com a fusão do banco chegando à sua etapa final, Eric não podia deixar que manchassem sua imagem e acabassem com o poder de barganha do Alden. Por que sua mãe não pensara nisso antes de envolvê-lo nesse escândalo? – Por que não falou antes da sua relação com a repórter? Holly respirou fundo. O jogo de luz e sombra da lua sobre o decote dela chamou a atenção dele. Ele sempre soube que Holly tinha esse físico avantajado, pois havia passado tardes jogando bola na rua com os irmãos dela há mais de uma década. Várias vezes Holly juntara-se a eles para completar o time. Ela até jogava bem, pelo que conseguia se lembrar. O que nunca havia percebido era que seus seios faziam jus à sua altura generosa e ao seu corpo em forma. Seus batimentos aceleraram. Droga. – Porque não imaginava que Octavia levaria para o lado pessoal. Além disso, você sugeriu que o comprasse, lembra? Meu plano era sair de lá sozinha. Ele se abaixou junto a ela sobre o casaco. Seus ombros e coxas estavam juntinhos. Chegou a sair faísca, mas ele ignorou. Tentou, ao menos. Ele sabia aonde isso iria chegar e não tinha ideia de como evitar. – O que você sugere? – Vamos por partes. Quando Octavia estiver por perto, quero que me trate exatamente como se estivesse saindo com você. Com sorte, logo ela cansará de me torturar. Na pior das hipóteses, temos mais onze encontros pela frente. Vamos sobreviver. De algum jeito – disse ela, totalmente sem entusiasmo. Sobreviveria a um encontro com ele? O comentário arrancou a casca da ferida feita em seu orgulho, e o comentário de Priscilla ecoou em sua mente. O único lugar onde não fico entediada com você é na cama. Se ele entediava a cabecinha quadrada da ex-noiva, alguém de espírito livre como Holly entraria em coma com ele, e a amiga dela certamente publicaria isso no jornal. Outra humilhação pública. Estava condenado, saindo ou não com Holly. – Não tenho como tratá-la como as outras mulheres. – Ela estava longe de ser um sapo, mas mencionar a beleza dela não seria uma boa. – Eu dormi com elas já no terceiro encontro, talvez antes. Ela ficou boquiaberta e então fechou a boca. Engoliu em seco. – Comigo não, parceiro. Nada feito. Não sou seu tipo. – E eu não sou o seu, presumo. Ela deu um sorrisinho. – Nem de perto. Mas é só um jantar, certo? O que pode dar errado? De fato, o que poderia dar errado? Como se fosse uma resposta, o regador automático da grama começou a funcionar. Depois do susto, Holly olhou para cima: – Foi uma pergunta retórica. Ela pegou os sapatos e ficou ziguezagueando entre os jorradores como um jogador de futebol correndo até a linha de fundo. Eric pegou o casaco e seguiu-a. Ela parou na calçada junto ao estacionamento. Seu cabelo e vestido estavam encharcados, colados ao corpo. Pedaços de grama ficaram grudados em seus pés e a maquiagem escorria pelo seu rosto. Em vez de reclamar, Holly voltou a olhar para o céu e falou: – Isso é por ter enganado as minhas amigas? Certo, certo, já entendi. Perdão.


Eric nunca tinha visto uma mulher que não surtasse ao ter o seu vestido arruinado. Pegou um lenço no bolso e ofereceu-o para Holly. – Obrigada. – Secou o rosto. Gotículas brilhavam em seus cílios enquanto ria para ele. – Você não tem uma toalha aí, tem? O sorriso descontraído causou-lhe um nó no estômago. Acabou rindo de volta: – Hoje, não. A gravidade formou um riacho no seu decote, entre os seios. Eric flagrou o ocorrido e seu sorriso desapareceu. O tecido molhado estava colado ao corpo dela, estendido sobre seus mamilos durinhos e escorrendo no umbigo. Ele já havia achado o vestido acetinado dela sensual, mas, ao vê-lo junto ao corpo dela, úmido, como uma segunda pele, teve uma reação ainda maior – bem na região proibida. Foi então que percebeu. Agira precipitadamente. Sua fuga do leilão o levara diretamente a um campo minado.


CAPÍTULO 2

DISPENSADA E abandonada. Uma situação com que Holly já estava familiarizada até demais. Afastou o cabelo molhado do rosto, puxou o vestido colado e encarou Eric. A umidade fez seu vestido branco ficar quase transparente. Conseguia ver os cabelinhos no peito dele e até os seus mamilos marrons. Sentiu um calor na barriga, e não tinha nada a ver com a noite úmida de junho. Pelo amor de Deus, você já o viu sem camisa antes. Faz algum tempo, mas, mesmo assim, qual é o problema? Suprimindo a surpresa indesejada, ela o encarou e disse: – Pode me dar uma carona para casa? Aparentemente, minhas parceiras me abandonaram. Alto, moreno e melhor do que qualquer modelo masculino que havia visto nas aulas na faculdade de artes, Eric se dirigiu ao Corvette preto. – Claro. Ainda não compensamos uma boa parte do seu lance. Ele deu um sorriso presunçoso. Holly revirou os olhos: – Tudo bem, pode se gabar. Sei que está louco para isso. Ele sorriu, parecendo tanto com o cara por quem tinha uma quedinha na adolescência que a deixou quase sem ar. – Nunca foi tão bom gastar quinze mil dólares. Ela bufou. – Homens e seus egos gigantescos. Devia ter deixado a Prissy ficar com você. O sorriso dele desapareceu. Ela se perguntou se o fato de a ex-noiva dele ter feito parte do leilão havia surpreendido a ele tanto quanto a ela. Talvez ele quisesse que Prissy o tivesse arrematado. – Obrigado por superar o lance dela. Holly tentou entender se ele estava sendo sincero, mas não conseguiu. Ele amara Priscilla Wilson? Ficara de coração partido quando ela friamente o dispensara? Talvez a irmã dele tivesse razão. Juliana dizia que ele tinha um coração de pedra. – Eu havia prometido, e sempre cumpro o que prometo. Ele abriu a porta para ela, ajudando-a a sentar no banco de couro. Ela não queria que ele ficasse tocando nela o tempo inteiro. Aquilo lhe causava uma sensação estranha por dentro. Ele a levou até a casa dela e, passados vinte minutos, estacionou junto à cerquinha branca de onde ela morava. Holly desceu do carro antes que ele pudesse abrir a porta e ouviu uma série de latidos de


cachorros. – Calma, pessoal. Sou eu – gritou ela, e os latidos se tornaram boas-vindas. Eric ficou parado, as mãos na cintura, admirando a fazenda. Holly morava sozinha e havia instalado várias lâmpadas para deixar o pátio bem iluminado. O cheiro das flores impregnava o ar úmido da noite. – Não é exatamente a casa caindo aos pedaços que você esperava, é? Voltou-se para ela: – É bonita. Ela encheu-se de orgulho. Seu avô materno havia construído a casa para a sua esposa na década de 30. Desde que se mudara para lá, há sete anos, Holly fizera reforma dentro e fora da casa, conforme seu orçamento permitira. Transformara o estábulo onde ficavam os cavalos e as vacas em um canil, e a garagem dos fundos em um ateliê. Um fazendeiro da região alugara dez dos quinhentos acres de terra e a abastecia com muito milho, pepino e tomate. Ela parou ao lado de Eric, junto à escada que conduzia a uma varanda. – Eu sei bem o que falam de mim. Que vivo na miséria, exilada na fazenda dos meus avós por não saber conviver em sociedade. A luz da lua iluminava os traços marcantes de Eric, lançando uma sombra sobre as maçãs do rosto. – Isto não tem nada de exílio. – Não é. É uma casa. Vamos entrar. – Ela subiu os degraus e abriu a porta da frente. Já havia recebido a visita de homens, mas eram caras estranhos, como ela. Eric, de acordo com a irmã dele, vivia em um ambiente decorado profissionalmente, em um condomínio sofisticado de frente para o mar em Wilmington. Holly aprendera com as madames para quem dava aulas que, mesmo com suas reformas, nunca chegaria ao nível dos bairros onde ficavam os ancoradouros de iates. Mas ela adorava a sua casa, seu refúgio. A porta da frente conduzia a um saguão minúsculo com escadas que levavam a um sótão inacabado. Quando seus avós construíram a casa, tinham planejado terminar o segundo andar para quando tivessem filhos e precisassem de mais quartos, mas só tiveram a mãe de Holly, e a expansão não se concretizara. A sala de estar ficava à esquerda e o quarto dela, logo à direita. – Quer um café ou alguma outra coisa enquanto me troco? – Não, obrigado. O ruído das unhas dos cães arranhando o chão de madeira aproximou-se da cozinha e os vira-latas os cercaram. – Down, Seurat, Monet. – Você deu nomes de pintores aos cachorros? – Eric abaixou-se para acariciar os cachorros. – Sim. O Seurat é manchadinho e as cores do Monet não têm contornos definidos. Eles estão aqui dentro enquanto se recuperam de uma cirurgia. Eles precisam de um dono. Se souber de alguém que goste de vira-latas... – Dificilmente. Os conhecidos de Eric gostavam de cães de raça. – E você está com eles por...? – Eu vivo no campo. As pessoas abandonam seus bichinhos aqui o tempo todo e, claro, as pessoas sabem que eu cuido de animais abandonados, então... – Deu de ombros. – O veterinário vai examinálos, castrá-los e então procurar alguém para adotá-los. – Apontou para o sofá e para as cadeiras. – Fique aí na minha caverna. Espere um pouco, vou vestir uma roupa seca, depois cuidamos dos detalhes do nosso encontro.


Holly entrou no quarto, abandonando Eric na caverna e deixando a porta entreaberta. Tirou a roupa encharcada e pendurou-a no canto do espelho de sua avó. O ventilador de teto ligado sobre ela causoulhe calafrios. Esfregou o antebraço enquanto procurava algo limpo para vestir. Quando fora a última vez que lavara roupa? – Eric, confesso que não fazia ideia de como seria um encontro com você antes de o animador descrever o seu pacote. – Elevou a voz para fazer-se ouvir por trás da porta enquanto se debruçava sobre sua gaveta de camisetas. Com sua voz grave, pouco feminina – uma maldição, segundo seus pais –, Eric conseguiria ouvi-la de onde estava. Ouviu um rangido de dobradiça que lhe era familiar e ficou em alerta. Olhou diretamente para o espelho. Seurat abrira a porta do quarto e Eric não estava na sala de estar. Estava exatamente onde o deixara e naquele exato momento observava o seu corpo nu, de costas, e uma vista privilegiada no reflexo do espelho. Holly apanhou o vestido molhado no espelho, colocou-o sobre o peito e virou-se. Mas o tecido molhado ficou grudado, recusando-se a cobrir o que realmente precisava. Eric, maldito, não desviou o olhar. Em vez disso, contemplou cada centímetro da sua pele exposta. Seu coração disparou. – Com licença. Holly avançou, fechou a porta, forçando-a, e se recostou nela. Para ele, não pareceu uma reação de repúdio. Pior ainda, o calor que sentia dentro de si em nada se parecia com vergonha ou aversão. Pior do que se envolver com outra pessoa carente era se envolver com um cara vindo de um mundo para o qual ela era um fracasso total, onde precisava se arrastar ouvindo um coro de “Eu avisei!” quando não conseguia achar o ex-amante que a fizera pegar dinheiro da poupança para emprestar-lhe. Droga, por que não havia quebrado a promessa de comprar Eric e fugido quando tivera a chance? Promessas são verdadeiras armadilhas. A IRMÃ de Eric invadiu o seu escritório na segunda pela manhã sem sequer bater à porta. – O que você está fazendo? – Bom dia, Juliana. Estou fazendo uma análise de conta para ver em qual ramo devemos nos estabelecer quando o negócio sair. Juliana tinha certo interesse na fusão entre o Alden Bank e o TrustWilson Savings and Loan – interesse posto em risco no sábado à noite, quando comprara o solteirão errado. – Alguém aqui precisa cuidar disso. Juliana ficou com uma expressão de raiva. – Com a Holly, eu quis dizer. Além do fato de ela ser minha amiga e, por isso, estar vetada para você, como ousa abusar da ingenuidade dela para convencê-la a comprá-lo? Ela merece alguém que a trate como a pessoa especial que ela é. Você não é nada romântico. As palavras dela feriram o seu ego. Sua ex-noiva dissera coisas parecidas e algumas outras palavras diferentes da esperada aquiescência em frente aos convidados do casamento antes de sair correndo. – E você? Você deveria ter comprado o Wallace Wilson, seu noivo, e não aquele motoqueiro de boteco. Você sabe o quanto o Baxter Wilson é chato e o quanto se preocupa com a aparência. Vai ficar ofendido por você não ter comprado o filho dele. Você chegou a pensar em como sua escolha equivocada reflete nos negócios, Juliana?


– O Wally ainda não é meu noivo, e a questão não sou eu. É você. Você trata as mulheres como se escolhesse gravatas. Não quero que Holly seja mais uma. – Meu envolvimento com Holly é só superficial. Nenhum de nós quer algo mais sério, mas a repórter, amiga dela, está pressionando. Vamos levar adiante até a Octavia Jenkins desistir. Só queria evitar fofocas que pudessem prejudicar os negócios, pensei que a Holly seria uma opção segura. Estava redondamente enganado. Embora Holly tivesse usado calça jeans e camisa larga no sábado à noite, sempre camuflando suas curvas generosas, sua nudez não saía da cabeça dele, tirando-lhe a concentração. Não gostava de coisas pendentes, mas ficou aliviado quando o telefone tocou e Holly teve de ir correndo pegar a irmã dele antes de fazerem as combinações sobre o encontro. Ligou para Holly pela manhã e marcou um encontro para a noite seguinte. Teve de prometer a ela um cheque reembolsando os gastos no leilão. – Holly? Opção segura? – Ela chegou a gargalhar. – Não fale besteira. – O que você quer dizer? – Quero dizer, meu irmão, que ela não é uma das suas debutantes impressionáveis. Ela não vai ligar para a sua carteira de ações, para o fato de você jogar tênis com o prefeito e golfe com um magistrado. Ela está mais interessada no que há dentro das pessoas do que em redes de influências, Eric. E você, como sua mãe, tem uma calculadora no lugar do coração. Surpreso com o tom enfático da irmã, Eric inclinou-se para trás em sua cadeira. – Acha que sou incapaz de ser agradável com a Holly? – Sinceramente? – Cruzou os braços e ergueu a cabeça. – Acho. Seu instinto competitivo, sempre presente, foi instigado. – Prepare-se para morder a língua, irmãzinha. ERIC GOSTOU do jantar em um dos restaurantes mais sofisticados de Wilmington, como de costume, mas Holly só mostrou-se empolgada com o crème brûlée. Durante o resto do jantar, pareceu tensa e constrangida. Ele assinou o recibo do cartão de crédito e levantou-se. Visivelmente ansiosa para ir embora, Holly levantou-se sem sequer puxar a cadeira, corroborando o que a irmã dele dissera. Ela não estava gostando do encontro. Mas Eric estava disposto a mudar aquilo. Mantenha o cliente satisfeito. Decidira que a melhor maneira de lidar com os encontros era tratar Holly como um cliente. Eles tinham um contrato verbal e ela tinha pagado pelos serviços dele, apesar de ele ter um cheque de reembolso integral no bolso. Não misturava trabalho e diversão. Na única vez que o fizera – seu relacionamento com Priscilla –, acabara se dando mal. Você nunca viu um cliente sem roupa. Tentou evitar esse pensamento. Do lado de fora do prédio, encostou no braço dela. Ela ficou dura. – Quer dar um passeio na orla? Sua hesitação voltou a atingir o ego dele. – Claro. Por que não? Uma nuvem cobria a lua, mas a luz dos postes era o bastante para iluminar a rua. Holly estava sem salto agora e com um vestido muito mais simples do que o da noite anterior, embora isso não o fizesse esquecer como ela ficara sensual de salto alto e nenhuma outra peça de roupa. Holly tinha um corpo


incrível. Nada rubenesco, mas também não excessivamente magra. Tinha belas curvas generosas que imploravam um mapeamento com um par de mãos masculinas. Ou com a boca. Percorreu o dedo pelo pescoço e afrouxou um pouco a sua gravata. Os passos longos de Holly pela rua deixariam um homem mais baixo comendo poeira. Eric acompanhou-a, até que ela parou subitamente na vitrine de uma loja de presentes. Um cartaz do tour histórico mal-assombrado em Wilmington chamou sua atenção. Ele levou as mãos ao bolso e esperou que ela continuasse, mas ela olhou para ele por cima do ombro. O olhar empolgado dela despertou-o. – Quer? Começa daqui a dez minutos. Preferiria rasgar dinheiro. Mas era orgulhoso e precisava agradar Holly, e até então não havia conseguido nada mais além de um jantar sofisticado e uma conversa pomposa. Se aquela coisa para turistas a divertia, ele seria capaz de – como é que ela tinha falado na noite de sábado? – sobreviver. – Vou comprar os ingressos. Meia hora depois, Holly estava bem próxima a ele no interior sombrio do teatro supostamente assombrado desde o século XIX. Desde o início do tour ela se assustava com qualquer ruído, junto com os outros bobos que os acompanhavam enquanto seguiam o guia através da área mal iluminada e arejada sob o palco. Ela tremeu e esfregou o braço. Quem diria que Holly acreditava em fantasmas? Eric ficou com pena e passou o braço por cima do ombro dela. Um equívoco, conforme viria a perceber. Holly se encolheu junto a ele, seus seios contra as costelas dele, mantendo-se o mais próximo possível enquanto pisavam no chão de madeira barulhento. O cheiro dela ficou impregnado em seus pulmões e o cabelo dela roçava em seu rosto. O calor dela junto a ele despertou a sua libido e ele sentiu um calor percorrer suas veias, como um fantasma. Precisou se concentrar muito para prestar atenção na conversa do guia, e não naquela mulher colada nele. Ao fim do tour, teve de admitir que, se ele fosse mais influenciável, teria gostado da performance do anfitrião, mas Eric era um cínico. Espelhos e fumaça não o atraíam. Gostava mesmo de fatos. Mas as bochechas coradas de Holly e seus olhos cintilantes faziam a entrada valer cada centavo. Na calçada em frente ao prédio, deu uma olhadela por cima do ombro, como se temesse ser seguida por um espírito maléfico. Sorriu para ele e disse: – Obrigada. Foi incrível. Seu sorriso largo e sem hesitação fê-lo lembrar da garota dos tempos em que brincavam na rua e do adolescente idealista bobão que ele era. Fazia só quatorze anos que ele ingressara no Alden? Parecia uma eternidade desde a época em que percebera que o pai era uma fonte de diversão para vários funcionários do banco – um líder que fazia o que quer que a mãe de Eric mandasse, como um cachorrinho. Alguém que preferia um bom charuto ou uma partida de golfe a uma declaração de renda. No dia em que ouvira uma risada na sala de descanso, decidiu que jamais seria motivo de piada. Havia sido mais homem do que o próprio pai, e fora bem-sucedido até ser feito de bobo por Priscilla. Agora, a cobertura daquela repórter podia arruiná-lo com mais rapidez do que o aumento da taxa de juros no mercado de ações, e com resultados tão desastrosos quanto. Onde sua mãe estava com a cabeça quando o obrigara a se submeter àquilo? – Fico feliz que tenha gostado. Holly arregalou os olhos com a intensidade involuntária da voz dele e desviou o olhar. – Acho que deveríamos voltar. O dia começa cedo amanhã.


Levou-a até seu Corvette e foi em direção à fazenda dela. Droga. Todos os pontos ganhos com a casa mal-assombrada foram perdidos com um único comentário. – Fale-me sobre seus negócios. Holly olhou-o como quem dissesse: “sei bem aonde você quer chegar”. – Você não leu o meu perfil? – Você tem conta no Alden? Mais hesitação. – Várias. Trabalho principalmente com questões comerciais, mas também faço janelas para casas. Dou aulas de pintura em vidro uma vez por semana. Não só por gostar de ensinar minha arte, mas porque as minhas alunas acabam me contratando para fazer as janelas das suas residências, fazem recomendações para as amigas e para as organizações das quais fazem parte, o que me traz mais contas comerciais. – Seu corpo inteiro parecia empolgado enquanto falava. – Ótima publicidade – elogiou ele. – Acho que sim. – Acha que fazer janelas é melhor do que trabalhar no Caliber Club? – Ah, sim. Sem comparação. As nuances na voz dela deixou a dúvida de por que ela deixara um trabalho bom e bem remunerado para se aventurar pintando vidros. Ele entrou na rua de Holly e avistou um sedan preto estacionado no escuro, sob uma árvore. Teria de segurar a curiosidade. – Você tem visita. – Ótimo – disse ela, de maneira sarcástica. – É a Octavia. A repórter e o fotógrafo acenaram ao passarem por eles, mas não fizeram menção de sair do carro. – O que eles querem? Holly olhou para seus dedos entrelaçados sob a luz fraca do carro. – Ver como nosso encontro vai acabar. Eric ficou em estado de alerta. – Como? Holly respirou fundo e olhou para ele. – As mulheres da minha aula conversam enquanto fazem seus trabalhos. Octavia acredita que o primeiro beijo dita o futuro de um relacionamento. Teria de dar um beijo de despedida em Holly. A novidade trouxe uma onda de ansiedade. Holly mordeu o lábio e ergueu o queixo. – Eric, imagino que não queira me dar um beijo, mas, por mais que odeie a ideia de um beijo por piedade, será que poderia me dar um beijo que parecesse bom? Isso vai mantê-la afastada. Nesta semana, ao menos. Ele sentiu um molhadinho na boca e seu coração acelerou como um exército marchando para o ponto final, logo abaixo do cinto. Gesticulou com a cabeça, pois as palavras na ponta de sua língua, com todo o prazer, eram impronunciáveis e completamente equivocadas. Ele desceu do carro e por um instante Holly esperou que abrisse a porta para ela. Com uma mão sobre as costas dela, conduziu-a até a porta. Ela voltou-se para ele e, sob a luz suave da varanda, respirou fundo e se preparou para o beijo dele. Preparando-se. Como se fosse um sacrifício. O orgulho de Eric rugiu de raiva. Ele respirou várias vezes, esperando suprimir a irritação, esperando que seus músculos relaxassem. Precisava usar de toda a


calma, controle e sedução. Seria o fim se uma mulher tivesse de aguentar um beijo seu. Esperava nada menos do que uma entrega total. Ele baixou a cabeça até que apenas alguns centímetros os separassem e esperou. Esperou a respiração de Holly percorrer o seu queixo. Esperou seus batimentos se estabilizarem. E, quando seu coração acelerou em vez de diminuir, ele cedeu e seus lábios se encostaram com um toque de pura leveza. Faíscas de eletricidade tomaram conta dele. Curioso, resolveu beijá-la novamente e uma corrente percorreu o seu corpo. A julgar por como Holly arfava, não era uma sensação unilateral. Beijou-a, mergulhando na suavidade provocante de seus lábios. Agarrou-a pela cintura e suas línguas se tocaram rapidamente, até ela recuar. Esqueceu completamente a técnica. Eric envolveu-a com os braços, seu corpo junto ao dela, investindo contra seus lábios quentes e acetinados, provando a riqueza do crème brûlée e, sobretudo a riqueza de Holly. Sentiu a mão formigar ao apertar as curvas da cintura dela. Era agradável, muito agradável, ter Holly em seus braços. Suas virilhas se roçavam, cada vez mais próximas. A reação dele era imediata, entusiasmada. Inaceitável. Imperdoável. Constrangedor. Ele não tinha mais idade para se empolgar com isso. Esperava que Holly não tivesse notado. Pegou o braço dela, ergueu a cabeça e afastou-os um pouco. – Boa noite. – Sua voz parecia cansada. Afinal, seus pulmões estavam praticamente inoperantes. – Boa. – Lambeu os lábios e ergueu o olhar, revelando olhos ligeiramente aturdidos. Em vez de largá-la e deixá-la ir, como seu cérebro mandava, Eric continuou abraçando-a, trazendo-a para mais perto. Beijou-a inúmeras vezes. Era inevitável. Enquanto fazia isso, sua consciência gritava: “O que está fazendo?”. Os braços dela envolveram o pescoço de Eric, pressionando os seios contra o peito dele. Os dedos dele deslizaram da cintura para cima. Precisava senti-la, tocá-la. Precisava. O barulho de um carro ligando e levantando cascalho na estrada passou despercebido, mas o latido dos cachorros do outro lado conseguiu adentrar a bruma em sua mente. Parou a alguns centímetros do seu alvo. Ergueu a cabeça e soltou uns palavrões. Holly enrijeceu, puxou as mãos do pescoço dele e encostou-se no peito dele. Olhou sobre o seu ombro e disse: – A Octavia já foi. Acho que, bem, fomos bem convincentes. Voltou a lamber os lábios e um desejo se apoderou dele, mas Eric soltou-a e afastou-se. O que havia acontecido? O que quer que tenha sido, não poderia ser repetir. Ele, mais do que ninguém, sabia o quanto os sentimentos enfraqueciam um homem. O caso do seu pai servia de exemplo. Afastou-se da tentação e foi embora, enquanto ainda era capaz de manter a dignidade. Já na estrada, lembrou-se de que estava com o cheque de Holly no bolso. Mas não podia arriscar-se a dar meia-volta. Até então, nunca uma mulher o havia perturbado a ponto de se esquecer do dinheiro e seu poder inerente.


QUEM TERIA imaginado? Holly encostou-se no outro lado da porta e sentou-se no chão. Monet e Seurat amontoaram-se sobre ela, exigindo sua atenção. Distante, acariciou-os enquanto esperava seu coração desacelerar. Se alguém dissesse que o beijo de Eric Alden era melhor do que o Kama Sutra, teria achado graça. Mas, droga, ela não podia virar a página para conferir o próximo capítulo. Que injusto. Finalmente encontrara um cara que a deixava molhada, mas não podia tê-lo. Não só havia tentado, sem sucesso, fazer parte do mundo dele, como prometera a Juliana que não teriam nenhum envolvimento sexual. Aqueles beijos arrancaram a sua máscara. Era uma mentirosa. Seu corpo ainda zumbia e seus lábios não pararam de formigar, não adiantava mordê-los. Se ele não fosse o Eric, ela o teria convidado para algo mais e quebraria o seu voto de “segunda virgindade”. Mas prometera a si mesma que só ficaria satisfeita com algo que a fizesse feliz para sempre, se é que isso existia. Esperar um príncipe – alguém sem defeitos e problemas financeiros – que a amasse, a despeito dos seus problemas, não havia funcionado até então. Melhor ficar sozinha do que enfrentar novas frustrações. Holly ergueu-se e enxotou os cães até a cozinha. Precisava se esforçar mais para se afastar de Eric Alden. Percorreu a pilha de revistas e correspondência acumulada sobre o balcão e conferiu a programação do Leilão de Partidões para refrescar a memória. Resmungou: – Quanta monotonia. Jesus. Contanto que não a beijasse mais, toda a coisa envolvendo restaurantes e atitudes condescendentes até por parte dos funcionários fariam com que o esquecesse facilmente. Cada encontro seria uma lembrança de um mundo deixado para trás – um mundo que se voltara contra ela quando resolvera se meter com trabalhos manuais. Juliana e Andrea foram as únicas a ficarem ao seu lado quando decidira deixar de ser infeliz fazendo o que esperavam dela, largara o emprego no Caliber Club e fora morar na fazenda dos avós. Ser feliz era mais importante do que ser aceito. Eric adequava-se à sociedade e suas restrições, expectativas e convenções, mas Holly era uma debutante rebelde sentindo-se reprimida até decidir ser livre. Ele era um banqueiro preocupado com os resultados. Ela, alguém que abrira mão de algo com que não sabia lidar, como era o caso de sua situação atual. Precisava resolver isso o quanto antes. Apesar de seus beijos escaldantes, ela e Eric não podiam ser mais incompatíveis – algo que ela não poderia esquecer, caso ele voltasse com um daqueles beijos tentadores.


CAPÍTULO 3

HOLLY TENTOU ignorar o bate-papo atrás dela enquanto verificava as medidas da janela da sala que fora contratada para fazer. Se não tivesse saído do Caliber Club, talvez estivesse ali com aquele grupinho. Mas, em vez de roupas sofisticadas e joias mais caras do que seu jipe, ela usava um jeans de loja de departamento, brincos de ouro bem simples e um Timex. Para variar, sentiu-se deslocada. Mas você não está aqui para se encaixar. Está aqui para fazer aquilo que tanto adora. – Por que resolveu dar um lance no Eric, Holly? A fita métrica reagiu tão rapidamente que quase arrancou o dedo dela. Encarou a cliente, uma mulher pouco mais velha do que ela, e tentou articular uma resposta convincente. Tudo, menos a verdade. Por fim, deu de ombros: – Por que não? Ele é bonitão. – E bom de cama – completou uma outra mulher. O olhar de Holly voltou-se rapidamente para a morena esquelética, que olhou para suas amigas e disse: – Ora. Não sou a única a ter dormido com Eric Alden antes de casar. E ele era fabuloso entre quatro paredes, não? Três das seis mulheres assentiram. Holly controlou-se para não ficar boquiaberta. Aquelas mulheres tinham dormido com Eric? Holly soprou uma mecha de cabelo que pendia sobre sua testa e virou-se para a janela, escondendo sua consternação. Por que a surpresa? As classes altas eram uma verdadeira escola para predadores. Geravam e caçavam uns aos outros. Esse era um dos motivos pelos quais resolvera cair fora. E Eric era... bom, era atraente, de uma maneira imponente. – Mas por que você comprou ele, Holly? Lindo ou não, ele não parece seu tipo – pressionou a anfitriã. Charlise Hardcourt era aluna de Holly fazia oito meses, quando então ela conhecera Lyle, o safado que fugira com seu dinheiro. Pense rápido. Por que as mulheres gostam de machos-alfa ricaços? – Hum... Para ser tratada como uma Cinderela?


As mulheres sacudiram a cabeça como verdadeiros brinquedinhos e Holly controlou-se para não mostrar sua revolta. Em sua opinião, a Cinderela e todas essas princesas precisavam acordar e resolver seus problemas em vez de esperar um príncipe cair do céu. – O Eric pode mesmo ser um príncipe encantado, sem esquecer que o baile termina à meia-noite. Ele não é de se envolver com alguém que não contribua com sua carreira. Um “E esse não é o seu caso” ficou implícito. – Aquele banco é como se fosse sua esposa e amante – comentou a morena. – Uma simples mortal não pode competir com ele. – Veja o último relacionamento dele – falou uma outra mulher. – Não era amor. Eric queria casar com ela para consolidar a fusão do banco. Pena que a Priscilla não foi esperta o bastante para ficar com o que tinha. Mil vezes ter um bom sexo e os bolsos sempre cheios do que amor. Para isso temos amigos, personal trainers e professores de tênis. – Seguiu-se uma gargalha uníssona e sugestiva. Era muita coisa. Muita. Holly tratou de juntar suas coisas: – Senhora Harcourt, vou aprontar um esboço do projeto que você descreveu para o início da semana que vem. – Seu telefone tocou. – Com licença. Holly ficou de costas para elas. – Vidros Arco-íris. Aqui é Holly. – Precisamos marcar nosso próximo encontro. Eric. Ficou com o coração na garganta e sentiu uma fisgada nas costas ao saber que tinha meia dúzia de pares de olhos sobre si. – Duas vezes em uma única semana? – sussurrou ela. – O pacote prevê pelo menos dois encontros semanais. Por que não lera o folder antes de se meter nisso? Porque tinha certeza de que poderia escapar dos encontros, ora. Ciente dos olhares xeretando-a, Holly mediu suas palavras: – Tudo bem, paciência. Mas não posso falar agora. – Estou com seu cheque. – Ele não havia entendido. – Foi o que você disse da última vez. – Contanto que fizesse o depósito e transferisse para a poupança antes do vencimento do cartão de crédito, tudo bem. Ela quase gargalhou. Um banqueiro comprado a crédito. Certamente ele ficaria consternado. – Precisa dele agora? Posso passar na sua casa na hora do almoço. – Não estou em casa, estou trabalhando e preciso desligar. – À noite, então. Pego você às 18 horas. – Pareceu mais uma ordem do que um pedido, mas estava em meio a um monte de fofoqueiras e não podia falar. – Certo. À noite. Como preferir. – Desligou sem deixá-lo falar mais nada e virou-se para se despedir. Os sorrisinhos das mulheres deixaram-na toda corada. – Volto a entrar em contato quando o esboço preliminar estiver pronto. Uma boa tarde. – VOCÊ JÁ deve ter ouvido falar que as aparências enganam. É o campinho mais perto da minha casa. Como eu não saberia onde o Ira guarda os tacos? Trapaceira. Seria possível trapacear no minigolfe? Certamente tirara conclusões precipitadas. Culpa dele mesmo. Subestimara-a. Isso não aconteceria novamente.


O tráfego estava tranquilo. Em vinte minutos conseguiria deixar Holly, voltar para casa e analisar os preparativos finais para o negócio que fecharia no dia seguinte. Por que aquilo parecia desinteressante? – Que outros esportes devo evitar se não quiser ser destruído por você? – O riso dela o atingiu como uma brisa quente de verão, e seu cheiro era tentador. Precisava comprar um perfume para ela. Sentir o cheiro de algo que milhares de mulheres usavam seria mais fácil do que sentir algo que era exclusivo de Holly. Aumentou o ar-condicionado. – Agradeça por Octavia não estar lá para testemunhar a sua humilhação. Do contrário, você teria sido estraçalhado na coluna dela de sábado. Ela adora dominar os homens. Mas seu segredo está seguro comigo. Holly escapara da pergunta dele trazendo uma questão mais ampla. Deixou-a fugir do assunto novamente. Como fugiria de um novo beijo? Não só hoje, mas pelos próximos nove encontros? – Acha que ela vai estar na sua casa à nossa espera? Holly lançou-lhe um olhar de culpa. – Não comentei com ela sobre o encontro. Feliz por poder terminar o encontro sem tragédias, ele assentiu: – Nem eu. – Segundo o panfleto do leilão, que eu finalmente li durante a tarde, temos de comentar com ela sobre cada encontro com antecipação, para que possa analisar o que é de seu interesse. – Todo mundo precisa ser amado. Entregou o filhotinho para ele, que ficou duro. – Acho melhor... – Um cachorro ajudaria você a relaxar, Eric. Ele segurou o cachorrinho e pensou consigo mesmo que precisaria lavar bem o terno no dia seguinte. Uma língua comprida e rosa percorreu seu queixo. Eca. – Não preciso relaxar. Ela suspirou. – Isso vindo de um cara que tinha uma empunhadura branca no taco. Por favor, Alden. Você é a caretice em pessoa. Ele nunca tivera um cachorro, sequer um peixe. Sua mãe não o deixava ter bichos em sua casa absurdamente decorada. Mas precisava reconhecer: segurar aquela criaturinha fofa e quentinha não era de todo ruim – apesar de tentar beijá-lo constantemente. Holly achou graça, pegou o filhote e colocou-o de volta em seu lugar. Dedicou-se a cada um deles antes de deixar o canil. – Ok, já que não consigo convencê-lo, acho que ficamos por aqui. – Podíamos colocar anúncios nos bancos. – O que ele estava dizendo? Os bancos tinham a ver com negócios. Nem os bancos nem a vida dele combinavam com aqueles bichinhos abandonados. Surpresa, Holly arregalou os olhos. – Seria ótimo, mas acho que sua mãe não vai aprovar. Aquilo o atiçou. Margaret Alden administrava a rede de bancos com punhos de ferro, mas ele não iria ceder quanto a isso. Não faria como o seu pai. Holly queria encontrar um lar para os bichinhos e ele podia ajudá-la. – É um serviço público e tem a ver com questões comunitárias. Ela vai concordar. – Não tinha dúvidas quanto a isso.


E, antes que cometesse a besteira de beijar aqueles lábios sem batom, Eric tratou de pegar o carro e sair. Holly fazia-o preferir o coração à razão, e isso era algo perigoso e que ele não pretendia alimentar. ENTRAR NO Alden Bank and Trust como cliente era uma coisa. Aparecer na matriz na manhã de sextafeira pedindo para falar com o vice-presidente sem ter horário marcado era outra. Os inúmeros olhares de funcionários curiosos enquanto subia as escadas de mármore que davam para os escritórios eram como cacos de vidro nas costas de Holly. Era como se tivesse mais dez quilos sobre as costas. Seu coração bateu mais forte. Por que estava nervosa? Crescera cercada por essa gente, e já havia estado ali antes. Inclusive a sala de Juliana ficava no segundo andar, do outro lado. Holly olhou para aquele lado e viu a cabeça da amiga debruçada sobre a mesa. As salas envidraçadas pareciam jaulas de zoológico. Como Juliana aguentava? Holly enlouqueceria se ficasse ali, exposta e trancada. Holly seguiu as orientações recebidas e chegou à sala de Eric, viu-o por entre as cortinas. Antes que pudesse dizer ao dragão que lhe servia como secretária que, sim, ela era a avoada que pedira para ser anunciada, Eric olhou-a lá de sua mesa. Os batimentos de Holly aceleraram e, quando seus olhares se encontraram através do vidro, ela diminuiu o passo. Excelente beijo. Ótimo na cama. Não entre nessa, garota. Preferia nunca ter ouvido sobre as qualidades de Eric entre quatro paredes. Era a última coisa que seu corpo abstinente precisava ouvir. Seus encontros com Eric não envolveram beijos ou sexo, mas seus hormônios necessitados captaram a mensagem. Sonhara com ele na noite anterior. Ridículo, considerando que tudo que ela queria era se livrar dos encontros para poder encontrar Lyle e recuperar seu dinheiro. Mas ver a expressão tranquila de Eric com o filhote no colo fora demais. Algo sugeria que ele não fazia ideia do quanto era certinho, mas, por um momento, deixou aquilo de lado e ela reconheceu o cara que Eric costumava ser quando jogavam basquete na rua. Antes de virar o cara que casaria só pelos interesses do banco. Pelo vidro, observou Eric levantar e abrir a porta. – Boa tarde, Holly. Entre. Ela deu um sorrisinho para a assistente dele e ingressou na sala. Estava usando mais um daqueles ternos de estilistas famosos que destacavam os seus ombros, sua barriga malhada e sua altura. Era cinza-escuro e valorizava os seus olhos azuis. A camisa branca valorizada o seu bronzeado e a gravata bordô era absurdamente conservadora. Um partidão – para quem gostava do tipo. E, claro, não era o caso dela. Gostava de caras divertidos, que não vivesse em um mundo de aparências e que não fossem simpáticos por mera conveniência. Alguém que seguisse o coração, e não a razão. Analisou a sala dele. O carpete era cinza. A mesa, preta. Cadeiras pretas de couro. Por que a falta de cor a surpreendia? A gravata de Eric era a única coisa colorida ali. Até as pinturas feitas com carvão nas paredes eram em preto e branco. Holly se controlou para não tremer. Amava coisas coloridas, não podia viver sem elas. Por isso gostava de pintar vidros. A mistura de cores e os padrões dependiam somente da imaginação, que era


fértil o bastante para lhe trazer problemas desde os 4 anos, quando tivera seu primeiro amigo imaginário. Passados alguns anos, Ametista, seu amigo imaginário, dera lugar a Andrea e Juliana, e as três tornaram-se amigas inseparáveis desde então. – Holly? A voz interrompeu seus pensamentos. Eric a encarava com a sobrancelha erguida, intrigado. – Trouxe as fotos dos cachorros. Um amigo que trabalha em uma galeria me ajudou a emoldurá-las. Vou passar todas as sextas à noite para trocar as fotos. – Escolhera as molduras mais bonitas em promoção para não ir à falência ou para que elas não se sobressaíssem aos mármores do banco. Não queria dar motivos para a mãe de Eric se negar a pendurá-las. – Uma para cada filial de Wilmington. Cinco ao total. Ele pegou as molduras da mão dela, seus dedos se tocando. Aquela sensação de algo proibido causava-lhe um arrepio por dentro. Deixou-as sobre os braços da cadeira de couro. Holly mordeu os lábios enquanto Eric as olhava. Havia seis fotos por moldura. O rapaz que trabalhava para Holly no canil ajudara a dar banho neles para que ela tirasse as fotos. Havia ficado melhor do que imaginara. Qualquer cachorro ficaria bonito. – Vou mandar pendurar uma no vestíbulo de cada filial. – Obrigada. – Deveria ir embora. Mas ficou estagnada. No dia anterior, depois de relaxar do sonho erótico que tivera com Eric, percebeu que ele poderia ajudá-la a encontrar Lyle. Indiretamente, claro. Não podia contar-lhe toda a verdade. Peça. Como fazer isso sem falar demais? Você precisa de ajuda. Isso era inquestionável. – Você já contratou algum detetive particular? Eric apertou os olhos. – Sim. O banco contrata, às vezes. Por quê? – Eu, bem, estou tentando encontrar um conhecido. – Posso recomendar alguns bons e não muito caros. Sente-se. – Sentou-se à mesa e mexeu no computador. Pegou um bloco de papel e anotou alguns nomes e endereços. Holly acomodou-se no braço da outra cadeira, tentando ignorar os dedos longos dele ou os pelos em seu punho. Precisava ignorar tudo aquilo e o que quase acontecera na terça à noite. Sentiu um calafrio só de pensar. Pegou o papel, dobrou-o e colocou-o no bolso da camisa, esperando que fosse o bastante para esconder seus mamilos duros. – Obrigada. Ele fez uma expressão de preocupação. – Holly, você está com algum problema? Sim, problemas financeiros. Poderia aguentar por mais algum tempo, mas os gastos com os cães deixavam-na no limite de seu orçamento a cada fim de mês. – Nenhum problema. – Exceto pelo dinheiro desaparecido. – As coisas nunca estiveram tão boas. – Outra verdade. Como pudera se enganar tanto quanto ao seu “ex”? Não suspeitara dos planos de Lyle e de suas boas intenções. Do contrário, jamais teria lhe emprestado dinheiro.


Mas era orgulhosa demais para admitir que havia sido enganada e perdera suas reservas financeiras. Diferentemente de Andrea e Juliana, Holly não tinha uma conta bancária muito gorda. Gastara uma pequena fortuna nos últimos anos reformando a fazenda. E, sim, ela tinha uma mania adolescente – ok, nem tão adolescente – de ajudar os necessitados. – Como disse, só estou procurando um amigo. Eric não pareceu ter acreditado, mas felizmente seu telefone tocou antes que fizesse mais perguntas: – Sim? – Estão esperando você na sala de reuniões em cinco minutos – falou uma voz fria. Holly girou na cadeira e viu a assistente amargurada dele observando-os. – Obrigado – respondeu Eric. – Não vou atrapalhá-lo. – Holly levantou-se e dirigiu-se à porta. – Obrigada pela ajuda. – Sem problemas. – Eric se antecipou e levou a mão à porta, mantendo-a fechada. O perfume dele tomou conta de seu nariz e fê-la sentir algo bem mais embaixo. – Quando vai estar livre de novo? Odiou-se por aparentar nervosismo. – Já saímos duas vezes nessa semana. O sorriso dele deixou-a corada. – Na semana que vem. – Estou livre quase todas as noites. – Não era deprimente? Ela mordeu o lábio. Mas virgens não saíam. Arriscado demais. Encarou-a e inclinou a cabeça. – Vou pensar em algo e ligo para você. – Vou ficar esperando. – Não. Mas seus batimentos acelerados a desmentiam. Era a pior notícia do dia. Por que, meu Deus, tinha de se sentir atraída pelo irmão da Juliana? Ele abriu a porta e sinalizou para que ela passasse primeiro. – Vou levá-la até a saída. – Não precisa. Conheço o caminho. – Precisava sair de perto dele antes que não conseguisse mais se livrar. – Fica a caminho da sala de reuniões. – Ah. Nesse caso... Não tinham dado nem dez passos, e a mãe dele apareceu. Seu olhar frio analisou Holly, então ela abriu um sorriso. – Boa tarde, Holly. Veio trabalhar hoje? Holly sentiu seu rosto ferver. Ok, ela acabara de sair do ateliê, mas sua roupa estava limpa. – Sim, estava fazendo a janela para a nova ala para mulheres e crianças no hospital. A senhora Alden a encarava sem ser abertamente estúpida – uma habilidade própria dessa gente rica que Holly detestava. Ela já havia sido bem-vinda na casa dos Alden, mas a porta se fechara quando ela resolvera dar as costas à sociedade e tudo que a envolvia. Adoraria poder dizer à presidente do banco o que fazer com sua condescendência, mas não podia. Ela era muito influente nos meios de onde Holly obtinha suas comissões. – Mamãe, Holly trouxe os anúncios de adoções de cães que comentei. A senhora Alden apertou os lábios. – E quanto aos...


– Cuidarei deles – interrompeu Eric, firmemente. Aparentemente, sua mãe não estava muito animada com a ideia de pendurá-los. Pelo que sabia, aquela mulher era uma cobra, e a maneira como usara a confiança de Juliana com o seu jeito manipulador fazia com que Holly quisesse sacudir aquela cabeça cheia de laquê. Era estranho Eric ainda não ter se rendido a ela. Seu pai certamente o teria feito. Jesus, seria horrível ter Margaret Alden como sogra. Felizmente, Holly não pretendia passar por isso.


CAPÍTULO 4

OCTAVIA JENKINS morreria ou viveria? Holly estacionou seu jipe ao lado de uma banca de jornal e desceu do veículo, procurando trocados no bolso da sua calça. Foi até a banca e comprou um jornal de sábado. A assinatura de jornal fora a primeira vítima de seus cortes financeiros, mas a edição de hoje trazia a primeira parte da cobertura do leilão feita por Octavia. Ou seja, o destino de Octavia. Holly tremia enquanto procurava a página certa. Bum! Deparou-se com a manchete “O amor a qualquer custo?”, mas a foto deles se beijando em sua sacada fez suas pernas tremerem. Apoiou-se no para-choque do jipe. Morte. Longa. Lenta. Torturante. Era o mínimo que Octavia merecia por colocar aquela foto no jornal. Holly passou os olhos pelo artigo, pulando as partes sobre Juliana e Andrea – leria isso depois –, até encontrar seu nome. É possível uma artista trazer cor a um homem que só vê o verde? Se a união entre a despojada Holly Prescott, dona da Vidros Arco-íris, e o discreto Eric Alden, herdeiro de um império bancário, servir de parâmetro, arrisco dizer que em breve o sr. Alden estará dizendo “Venha colorir o meu mundo!” e a ex-debutante terá algumas alterações a fazer em sua empresa. Os opostos se atraem? Eu apostaria minha poupança que sim. Holly ouviu o celular tocar enquanto ódio rugia em sua cabeça. Arrastou-se até a lateral do jipe para atender, mas quase desistiu ao ver o identificador de chamada. Mas o dever e a resignação falaram mais alto. – Oi, mãe. – Holly, por favor, diga que esse artigo é verdade! Você finalmente tomou juízo e achou o cara certo? Fiquei tão contente quando você comprou o Eric em vez do bombeiro. Espero que seja um sinal de que enfim reconheceu seus erros. Holly rangeu os dentes.


– Aquilo é pura mentira. Você sabe disso e conhece o motivo. Sua mãe soltou um longo suspiro do outro lado da linha. – Você poderia tentar se sociabilizar, em vez de ignorar deliberadamente o desejo meu e do seu pai. Aquele mantra familiar a deixava nervosa. Sua mãe se casara por dinheiro e pensava que Holly precisava fazer igual. – Não, obrigada. Há coisas mais importantes do que correr atrás de um ricaço. Além disso, se essa for minha única ambição, o que farei da vida depois de obtê-la? Esperar ser dispensada para voltar a usar minhas habilidades? – Hollis Cameron Prescott... Uau. Quando ela evocava o nome completo de Holly, era melhor cortá-la logo ou aturar um sermão longo e entediante, além de uma intensa dor de cabeça. – Mamãe, estou em fila dupla. Conversamos depois. Holly desligou e afundou-se no banco do carro, sentindo-se ligeiramente culpada por desligar na cara da mãe. O sol matinal bateu em seu rosto e ela se encolheu. Holly deixava o jipe todo aberto, exceto quando o tempo não ajudava. Hoje, na pressa para comprar o jornal, esquecera-se de passar filtro solar. Procurou um boné no banco de trás e puxou a aba sobre seus olhos para não ficar com o nariz todo vermelho. Sua pele branquinha não ajudava. Olhou o restante do artigo, surpreendendo-se com a audácia de Octavia. Em seguida, ligou para Andrea. Ocupado. O de Juliana também. Torceu para que estivesse tudo bem. Afinal, ninguém, exceto talvez o dono do jornal, poderia ter ficado satisfeito com o artigo. Octavia que se cuidasse. Holly não era a única a querer sua cabeça em um prato. Holly revirou o porta-luvas até encontrar o cartão que Eric lhe dera, olhou os números pessoais e ligou. Ele respondeu na segunda chamada. – Alden. – Estamos ferrados – disse, sem rodeios. – Bom dia, Holly. – Sua voz soou grave, seca e ofegante. Meu Deus, o que ela teria interrompido? Imaginou seus ombros largos e nus. Não, não, esqueça isso. Se Eric tivera companhia para o café da manhã, ela não queria saber. – Você viu o artigo da Octavia? E a foto? – Aliás, que horas eram? Percebeu que deixara o relógio em casa. Nenhuma surpresa, já que mal escovara os dentes. – Ainda não. – Nem preciso dizer que sua mãe vai comentar. A minha já ligou. Eu... acordei você? – Não. Sempre malho antes de tomar o café e ler o jornal. Estrutura. Ele tinha de sobra. Ela, segundo o seu pai, precisava de um pouco mais. – Só para informar que estou indo matar a Octavia. Se os policiais perguntarem, por favor, diga que o homicídio é justificável. – Holly... – Sua voz tinha um tom cauteloso. – Calma, Eric. É brincadeira. Sou uma garota rebelde, mas ainda não sou uma assassina. Pensou ter ouvido uma risada de Eric, mas devia ter se enganado. Eric não ria. Não mais, ao menos. Sua risada costumava ser uma das coisas mais atraentes nele. – Espere, vou pegar o jornal. – Segundos depois, ouviu o barulho das páginas. – Onde você está? – Em uma loja de conveniências. Por quê?


– É perto o bastante para tomarmos um café e combinarmos uma estratégia? Holly olhou para sua roupa nada charmosa. Mas não queria impressioná-lo, certo? Ademais, se a visse ao natural, talvez desativasse todo o seu magnetismo. – Claro. Será que o guarda do seu bairro vai me deixar passar? – Vou ligar para avisá-lo. – Até logo. – Ela desligou, suspirou e ligou o carro. – Certo, Holly. Seu dia começou no banheiro. Vai melhorar ou ir descarga abaixo? PASSADOS VINTE minutos, o guarda do bairro chique de Eric lançou um olhar desconfiado sobre Betsy, o jipe amarelo de Holly. Anotou o nome dela e abriu o portão automático. – Nossa, acho que ele nunca viu um carro da década passada. Betsy, talvez ele tenha medo de que você derrame óleo na calçada de luxo. Mal sabe que você é educada demais para sair babando. Seguiu pela estrada lisinha até chegar à casa de Eric, um lugar incrível, com estilo mediterrâneo, com janelas em arco e paredes em estuque em um telhado de azulejo terracota. – Bonita, mas por que uma casa tão grande? Três arcos altos cercavam o pórtico e, apesar do gramado bem aparado e da combinação de cores das flores, não era uma casa feminina. Não, era uma típica casa masculina – até as palmeiras que cercavam a entrada representavam gigantescos símbolos fálicos. Era algo tipicamente masculino. Estiloso. Caro. Másculo. Grande. Não vá. Balançando a cabeça, Holly desceu do jipe, deixou o chapéu no banco traseiro e bagunçou o cabelo. – Diferentemente da sua casa, que é uma mistura de coisas sem estilo. – Falando sozinha de novo? As bochechas dela coraram. Piscando sob a luz do sol, identificou-o em um canto sombrio da varanda. – Sempre. Ele segurava uma caneca – detalhe que a roupa dele, ou a falta dela, quase obscureceu. Seu short esportivo era, digamos, curto, expondo sua coxa bem musculosa e coberta de pelos. Sua camiseta regata revelava seu bíceps imponente e ombros largos. O resultado era devastador. Fazia tempo que Holly não via Eric usando algo além de um terno sofisticado. Ficou com a boca seca e seus batimentos dispararam. Ela evitou o rosto dele, que estava bem marcado pelos anos a mais, mas do pescoço para baixo Eric parecia bem melhor do que o cara por quem tinha uma quedinha. Tinha – esse era um detalhe importante. Seus olhos azuis passaram da camisa dela ao short jeans desfiado, depois para suas pernas – depiladas, felizmente – e para seus chinelos floridos. Depois, voltou para a parte de cima. Ela sentiu um calor no corpo. Não era muito nova para esses calores repentinos? – Café? – Segurou a porta aberta. – Seria ótimo. – Holly entrou e procurou manter a boca fechada. Já estivera em pequenas mansões, mas a de Eric superava todas elas. O piso era imenso e coberto de mármore. Do saguão, avistou uma piscina e a entrada atrás da casa. Todo o centro da casa tinha o pé-direito alto e só uma ponte interrompia o espaço aberto, apoiada sobre duas colunas, separando o imenso saguão da gigantesca sala


de estar e conectando a parte esquerda do segundo andar com a direita. À sua esquerda, a escada se curvava graciosamente ao longo de um piso de mármore e um corrimão de ferro. Nada mal, mas um vitral na janela sobre a entrada poderia alegrar o ambiente, a luz matinal colorindo através dos painéis lisos já existentes. O mesmo para as três janelas altas na parte de trás. Trabalhar naquela altura seria desafiador, mas já fizera isso antes. Não que Eric tivesse pedido a sua opinião. – Bela casa. Meio grande só para você, não? – Trago os clientes para cá frequentemente. Certo. Uma casa de eventos. Conhecia bem isso. Uma casa onde você mora, mas não mora exatamente. Nada de deixar os sapatos e o casaco atirados por aí. Tudo tinha de ficar tão perfeitinho quanto a casa em si. Ela crescera em um ambiente assim, mas não era sua praia. Se não podia relaxar em casa, onde relaxaria? Passaram por um escritório à esquerda e uma sala de jantar à direita – todos muito formais, com móveis de madeira lustrosos –, então chegaram à imensa combinação de cozinha e esconderijo. – Sente-se. Holly acomodou-se em uma banqueta com encosto acamurçado em uma ilha maior do que a mesa de sua cozinha. Sentiu as bancadas de granito polido geladas sob seu cotovelo. – Minha mãe adorou a ideia de eu sair com você. Sua mãe deve pensar o contrário. Talvez seja melhor sugerir uns remedinhos para ela não ter um derrame. – Esqueça a minha mãe. – Deslizou uma caneca e um pote de açúcar na direção dela. – Tenho leite, mas não tenho creme. – Café puro com açúcar é a minha perdição. – Aceitou uma colher de chá e misturou. – Como costumam ser seus encontros? Ela quase cuspiu o café. – Como costumam ser? Bem, com caras que precisam encontrar seu lugar no mundo, acho. – Vagabundos? Teve de se controlar. Vagabundo era uma palavra que seu pai usava. – Não exatamente. Caras em uma maré de azar ou fase de mudança. Não saio escolhendo mochileiros e indigentes por aí. – Vira-latas. Como os seus cães. Suspeitou que o calor em suas bochechas não fosse apenas por conta do vapor do café. – Para alguns, talvez. Andrea e Juliana, por exemplo, concordavam. Apontou para foto do beijo no jornal. – Precisamos pensar em uma estratégia para os próximos nove encontros sem passar por isso novamente. – Ei, foi você quem me beijou. – Você que pediu. Por que fora até ali? Não precisava disso. – Só da primeira vez. E podia ter sido beijo artístico, sem envolver línguas. – Está dizendo que não gostou? – indagou, com um tom desafiador. Ela devia estar toda corada.


– Não sou boba a ponto de negar algo óbvio mesmo para uma mulher em um carro a vários metros de distância. Digo, nossa, você parece ter muita prática. Você é bem bom com os lábios, Alden. Mas, como você falou, não pode acontecer novamente. Sua postura lembrava a de um predador esperando para atacar. – Bem bom? Ela deu de ombros, torcendo para que não tivesse soado como um desafio. Tinha irmãos mais velhos; sabia bem como era. Não queria que Eric voltasse a beijá-la. Não queria. Mesmo. Não. De jeito nenhum. E seu coração só estava acelerado porque havia tomado uma xícara de café em um só gole. Culpa da cafeína. Sem dúvida. Eric encarou-a por vários segundos. Ficou com a boca seca. Havia uma energia fluindo entre eles, e, quando ele olhou para a boca dela, Holly quase ficou sem ar. Se ele a beijasse, estaria perdida – não só pela química existente entre eles, mas porque sentia falta de ser abraçada, de receber a atenção incondicional de alguém, de ser desejada, aceita. Ele virou-se para o outro lado repentinamente e Holly soltou um suspiro cortado. Eric abriu a geladeira, pegou uma infinidade de ingredientes, empilhou-os no balcão e tirou umas frigideiras da ilha. – Já comeu? Precisou limpar a garganta antes de falar. – Não. – Ovos e bacon canadense? – Vai cozinhar para mim? – Algum outro cara já havia cozinhado para ela? Normalmente era ela quem fazia isso. – Prometo que você não vai precisar de um médico depois disso. Ao falar isso, não fez nada além de dar um sorrisinho, mas seus olhos brilhavam. Ora, ora, Eric não tinha perdido o senso de humor. – Vou arriscar. Acho que posso confiar em você. – Olhou para o jornal e analisou as fotos dos demais casais. Aparentemente, Octavia tinha algo com primeiros beijos. Nenhuma surpresa. Holly torcia muito para que os encontros de Juliana e Andrea tivessem sido tão bons quanto pareciam no jornal e que elas não acabassem se decepcionando. Holly ergueu o olhar. – Quanto aos nossos encontros... Acho que você vai ter de entrar na minha casa a cada despedida. A Octavia não vai conseguir ver os beijos – ou a falta deles – através da porta. Ele colocou o bacon em uma das panelas e quebrou os ovos em uma vasilha com a outra mão. – Boa ideia. – Mas você precisa ficar por um tempo para fazê-la pensar que está perdendo alguma coisa. Ele deixou cair um ovo no chão, mas nem se mexeu para limpá-lo. Em vez disso, direcionou seus olhos azuis aos dela. – Por que ela pensaria que está perdendo algo? Como poderia explicar sem humilhar-se totalmente? – Octavia tem um certo interesse na minha vida particular. Ele pegou papel toalha, secou os ovos e colocou tudo na lixeira.


– Por quê? Droga. Por que resolvera tocar no assunto? – Porque passei um tempo evitando os homens. – Sob pena de ser repetitivo: por quê? – Voltou-se para o fogão para mexer os ovos. A cada mexida na espátula, um movimento de suas nádegas. Esperava que ela articulasse palavras diante daquilo? Estava louco. Contemplá-lo ali era como um despertador para suas células de estrógeno. Precisava apertar o botão da soneca, definitivamente. O que ele tinha perguntado mesmo? Ah, sim. – Preciso arrumar minha vida antes de me preocupar com outra pessoa. Posso preparar uma torrada ou algo assim? Qualquer distração seria bem-vinda. Ele pegou um cesto e tirou de lá uma embalagem de pão – de padaria, não de uma loja de conveniência qualquer –, então abriu uma porta, revelando uma torradeira de aço inoxidável. – Fique à vontade. Ela se levantou e deu a volta na ilha. Estar ao lado dele não deveria deixá-la nervosa. Já havia compartilhado a cozinha com um homem. Mas nenhum deles a fizera se sentir daquele jeito, como se tivesse bebido o café rápido demais, e nenhum deles era tão incompatível com ela – mesmo que não tivessem acabado juntos. Começou a preparar a torrada e olhou para cima. Ok, chega de brincadeira. Não tem mais graça. – O interesse no detetive particular tem a ver com o fato de querer arrumar sua vida? Holly ficou paralisada. – Humm, o cheiro é ótimo. Faz anos que não como bacon canadense. Já estou com água na boca. Mal posso esperar... – Holly. – Seu olhar direto a manteve imóvel. Droga. Não conseguiu desviar o assunto. – Mais ou menos. – Tem ou não tem a ver? – Tem – admitiu ela, com relutância. – E? Ela ficou trêmula e pensou em ignorá-lo, mas vinha carregando esse peso há muito tempo e precisava de ajuda. Quem sabia mais sobre dinheiro do que Eric? Talvez pensasse em algo que ela não havia pensado. – Vou contar, mas você precisa jurar que não vai falar para ninguém. Não quero que minhas amigas ou minha família saibam. Passaram-se uns dez segundos até que ele assentisse. – Eu, bem, emprestei um dinheiro para o meu “ex” e agora quero que ele me pague. – Ele roubou de você? – Não. Eu emprestei um dinheiro para o Lyle. Ele foi embora da cidade e nunca mais o encontrei. – Quanto? Ela hesitou. Ele não ia gostar nem um pouco. – Cinquenta mil. Eric ficou tenso. – Com que garantia?


Ela já se arrependia da confissão. – Nenhuma. – Holly... – Ele tinha um planejamento sólido. Eu acreditei que pudesse cumpri-lo. Então tirei da poupança para bancar. Eric vestiu a máscara impassível de banqueiro. Ela praticamente podia ver as roldanas girando em seu cérebro enquanto separava os ovos e o bacon. Ela pegou torradas. O homem de negócios a encarou. Queria o cara bem-humorado de volta. – Ele é o tipo de cara com quem você sai? Ele acertou um calcanhar de Aquiles. Por que mentir? – No sentido de emprestar dinheiro? Sim. Mas nunca tanto. – Há quanto tempo ele sumiu? O presunto derreteu na boca dela. Seria grosseiro pedir para ele calar a boca antes que tirasse seu apetite? Talvez. – Treze meses. – Você tem algum documento com os termos do empréstimo? Ela escondeu uma careta atrás da xícara de café. – Mais ou menos. – Holly... Ela ergueu a mão para interrompê-lo. Não havia mais ou menos para Eric. Era ou sim ou não. – Tá, tenho, mas é escrito à mão. Não levamos no cartório e não tem prazos para a devolução do dinheiro. Eu sei que eu fiz uma lambança, mas... eu confiava nele. – E ficou na mão. Não era a primeira vez que alguém importante lhe dava as costas. Sua própria família, por exemplo. Quando iria aprender? Só podia contar consigo mesma. – Por que não me procurou antes de fazer o empréstimo? Ela deu de ombros e encheu a boca de ovo. – Porque você representa o banco. – E bancos emprestam dinheiro. – Mas você não teria emprestado nesse caso. Além disso, queria emprestar o meu dinheiro. Bem... vai ser, logo, logo. Por um tempinho, pelo menos. – Então você devia ter consultado um advogado. Já chamou a polícia? – Não! Eu já falei, não quero envolver minha família e meus amigos. – O sujeito roubou você, Holly. – Não temos certeza. Tudo o que sei é que ele queria desenvolver um protótipo e tentar patenteá-lo. Não é porque não tenho notícias dele há mais de um ano que o meu dinheiro sumiu. Patentes demoram. Eric inspirou. – Você confia demais. Não vai salvar o mundo ajudando um homem ou um cachorro de cada vez. Foi a gota d’água. Ela perdeu totalmente o apetite. Afastou o prato quase vazio. – Meu Deus, você virou o meu pai. – Você podia ter tentando conversar com ele antes de fazer o empréstimo. Colton é um bom negociante.


– Você está brincando? A única discussão que meu pai quer ter comigo é aquela em que falo que nunca devia ter saído do clube e imploro para voltar. – E seria tão ruim assim? – Seria! Eu tentei trabalhar lá. As únicas tarefas que me interessavam eram consideradas abaixo de mim. Sou muito criativa para me limitar a escolher que caneta usar a cada dia. Preciso projetar, botar a mão na massa, fazer parte do processo. É o que alimenta a minha alma. Prefiro morrer a passar o resto da vida atrás de uma escrivaninha. Ele retesou a coluna. – Todo negócio precisa de bons gerentes. Eric ficava atrás de uma escrivaninha. Insultara-o sem querer. – Não tem nada de errado com isso, se é o que a gente gosta, mas ser a gerente de eventos do Caliber Club não me deixava realizada porque era só um título bonito. O único planejamento que me deixavam fazer era no papel. Eu tinha de delegar a parte divertida para uma equipe tão eficiente que não precisava de uma supervisora de cartolina se intrometendo. Se me deixassem fazer mais, talvez eu tivesse ficado mais envolvida e não me sentisse tão... vazia e inútil. Aceite, Eric, eu sou uma ovelha negra em um rebanho de colarinho branco. Ele terminou de comer em silêncio e baixou o garfo. – E esse erro financeiro deixou você muito apertada? O olhar rápido dele a pegou desprevenida. Devia tentar enrolá-lo? Algo lhe dizia que Eric não iria cair, então admitiu: – O dinheiro seria útil. Como você disse, os cachorros são caros. – Dê uma passada no banco segunda. Vou ajudar você a estabelecer uma linha de crédito. – Obrigada, mas não. Já peguei muito dinheiro emprestado, e não quero usar a fazenda como garantia. É a minha casa. – E o único lugar em que se sentia bem. Se fosse absolutamente necessário, poderia vender parte do terreno, mas aí acabaria no meio de uma subdivisão. – Quando for tirar o resto da poupança no fim do mês, vou pagar o empréstimo. – Vai sobrar alguma coisa para você? Por que ele tinha que ser tão observador? – Não. – Então eu faço um empréstimo pessoal para o que você precisar. Quando foi a última vez que alguém tentara cuidar dela? Tocada, ela cobriu a mão dele. A consciência do toque atravessou seus dedos, subiu pelo braço, concentrou-se na barriga. Bem, então tocá-lo não era boa ideia. Tirou a mão. – Agradeço muito, Eric, mas vou arrumar um jeito de conseguir um dinheirinho extra. Ainda não sabia como, mas iria arranjar. Naquele momento, tinha de sair dali antes que seus olhos idiotas transbordassem. Ela levantou-se. – Nossa, olhe a hora. Tenho de correr. Marque o próximo encontro e me ligue. Eric segurou a mão dela, prendendo-a ao seu lado com firmeza. – Vou ligar para o detetive. Você vai ter notícias. – Eu liguei ontem. Não posso pagar. – Eu posso. – E a mão dele apertou a sua. A sensação borbulhou em suas veias. – Holly, vou ajudá-la, você querendo ou não. – Você não precisa fazer isso.


– É o preço do meu silêncio. Senão, vou recorrer ao seu pai. A raiva acabou com o prazer. Holly soltou a mão. – Traíra. Você prometeu guardar segredo. Ela enfiou o prato na pia e encarou-o. – Vou arrumar um jeito de pagar as contas do detetive, você querendo ou não. Pode ter certeza disso. PARA O diabo com a educação! Eric deixou Holly sair sem levá-la até a porta. Continuou sentado na banqueta, as mãos cerradas no balcão para não a agarrar. Do contrário, a gratidão que brilhava nos olhos marejados de Holly – somada à pouca roupa que usava – o levaria a cometer um erro maior do que quando lhe dera um beijo de boa noite. Fora por isso que a confrontara abertamente. Não iria trair a confiança dela. Sempre mantinha sua palavra, mas ela, obviamente, não sabia disso. Seu olhar baixou para a foto no jornal, e ele sentiu uma onda de calor ao lembrar-se de Holly enroscada nele. – Bem bons o cacete. Chegara muito perto de fazê-la admitir que seus beijos eram mais que bem bons. Tivera mais mulheres do que conseguia contar desde que fora seduzido aos 15 anos por uma universitária determinada a cravar as unhas na fortuna dos Alden. Fora a primeira de muitas a tentar pôr a aliança no dedo por meio da cama. Ele gostava de sexo. Que homem não gostava? Mas podia passar sem ele. Por que aquela mulher teimosa o fizera desejar o que não podia ter? Holly não se vestia para ele. O short rasgado – não sabia que ela tinha pernas tão longas – e a camisa larga eram prova disso. Eric tinha a impressão de que ela andava como se tivesse acabado de sair da cama. Amarrotada. Sem maquiagem. Vestia-se para o conforto. Talvez nem tivesse penteado o cabelo. Falava o que lhe dava na telha. Será que sua franqueza já lhe custara trabalhos? Holly era transparente. Franca. E adorava vira-latas. O dinheiro dele não a excitava. Mas os beijos, sim – ele preferia que ela tivesse guardado essa informação para si. Eric era inteligente, sabia que era melhor ignorar o desejo proibido entre eles a transformá-lo em um problema. Por causa da amizade com os irmãos dela, uma aliança temporária entre ele e Holly estava fora de questão, mas qualquer coisa séria seria desastrosa. Sem dúvida os dois iriam queimar os lençóis, mas, fora da cama... Ele balançou a cabeça e levou os pratos para a pia. Holly Prescott seria um obstáculo à sua carreira, que sempre vinha primeiro. Se resolvesse se casar de novo, escolheria uma noiva quieta e graciosa que soubesse se comportar. Como imaginava que Priscilla fosse. Nunca amara a “ex”, mas teria casado com ela por ser o tipo de mulher de que um vice-presidente precisa. Altiva. Educada. Bem-relacionada. Circunspecta... Era circunspecta até o casamento. Ele não previra aquela rejeição. Seu relacionamento com Holly era inapropriado, inconveniente e temporário, e precisava continuar assexuado. Com a fusão a caminho, não podia ter uma parceira assim. Eric pegou o celular. Precisava planejar os encontros. Encontros que não envolvessem beijos, gratidão, roupas reveladoras e uma repórter tentando fazê-lo de bobo.


CAPÍTULO 5

VESTIR-SE À vontade. Para os padrões dela ou de Eric? Holly examinou suas roupas na segunda à noite. Algo lhe dizia que um jantar com Eric no restaurante pomposo onde ele havia feito reserva nunca pediria jeans e camiseta – o que ela considerava à vontade. Por sorte, Andrea e Juliana insistiam em saídas às sextas, então Holly tinha roupas, mas, além de um vestidinho preto, tudo continha cores e estampas berrantes. Eric, o rei do preto, branco e cinza, teria de aceitar. Escolheu um vestido de seda com tons quentes. Um dos vermelhos era da mesma cor dos seus cabelos. Ela estava amarrando a fita na cintura, quando o coro de cachorros anunciou a chegada de Eric. Holly estava atrasada, porque, após a aula, tivera de dirigir quilômetros para pegar uma determinada cor de vidro iridescente para seu projeto. O vidro certo era fundamental. Não economizava nisso. Lembrou-se das provocações das alunas – principalmente de Octavia – e fez uma careta. Acabou ameaçando desligar as soldas se mencionassem Eric e seus dotes na cama de novo. Era como conversar sobre bolo de chocolate com alguém de dieta. Crueldade. Após dar uma rápida escovada nos cabelos bagunçados e passar brilho sabor cereja, ela calçou sandálias de salto baixo e correu para a porta. Abriu-a a tempo de ver Eric, de camisa polo, calça cáqui impecável e mocassim de couro, subir a escada da varanda. Ficava bem de roupas casuais. O coração dela acelerou dentro das costelas. – Boa noite, Holly. O timbre rouco da voz dele fez a pele de Holly se arrepiar. Pare com isso. – Oi. Você disse à vontade, mas eu não sabia se muito ou pouco, então foi isso mesmo. – Você está linda. – E, quando ele a agraciou com um olhar lento de cima a baixo, ela se sentiu atraente e feminina até a ponta das unhas sem esmalte. Por que nenhum outro homem a olhara assim? Por que tinha de ser o olhar de Eric Alden, proibido, que a excitava como uma carícia? A casa dela devia ser mal-assombrada, porque um fantasma apertou seu pescoço e cortou o acesso de oxigênio. – Obrigada – soltou pela garganta apertada, e agarrou a bolsa de cima da mesa. Quanto mais rápido começassem, mais rápido acabaria o encontro. Sem beijo de boa noite. E aquilo que sentia na barriga


não era decepção. Era fome. Não almoçara. – Sem Seurat e Monet hoje? Ela fechou a porta. – Eles já estão bem para ficar no canil. Ele só voltou a falar depois que pôs o carro na estrada. – Você falou com o detetive. Não erra uma pergunta, mas ela respondeu só para abafar o rimbombar do pulso no ouvido. – Falei. Ele passou aqui de manhã. Dei algumas fotos e umas cópias dos documentos. – Ótimo. Wes é bem rápido e cuidadoso. Você logo vai ter respostas. – Fora o rugido do motor, passaram o resto do percurso em silêncio, então ele dobrou numa rua que a deixou de cabelo em pé. O portão do Caliber Club surgia adiante. Ela recusava-se a jantar no estabelecimento da família sob olhares atentos e reprovadores. – Nada disso. Não como aqui de jeito nenhum. Ele cumprimentou o segurança ao passar e dirigiu em direção à marina. – Nós vamos jantar no iate. Servidos por um garçom discreto. Embora ela estivesse agradecida por ele ter ouvido suas reclamações e trocasse um restaurante cheio de garçons inconvenientes por um jantar a dois, não sabia se ficar sozinha com ele era uma boa. – É uma boa ideia mesmo? – Octavia e o repórter não vão conseguir tirar foto. – Verdade. Surpreende-me que ela não tenha insistido para vir junto. O sorriso que ele deu a deixou sem ar. Um humor cruel brilhava em seus olhos. – Ela sugeriu. Vamos chegar um pouco antes nas docas. Se ela passar pelo segurança, vai nos ver desaparecendo no horizonte. Holly deu uma risada. Octavia não ia gostar, mas ela, sim. Especialmente vendo Eric sorrir, mas não gostou do efeito que esse sorriso teve sobre ela. – Você é um homem inteligente, Eric Alden. – É o que dizem. – Ele desceu do carro. Holly tentou sair, mas a porta estava travada. Resmungou impaciente enquanto ele dava a volta, destravava a porta e estendia a mão. Ela não entendia esse negócio de funções masculinas e femininas. Sabia abrir portas sozinha. – Muito esperto, Alden. Já vi que vou ter de ficar de olho aberto. – Os dedos compridos fecharam-se nos dela, ativando uma sensação de comichão que atravessou os nervos de Holly. Ela afastou a mão. Ele segurou seu cotovelo e conduziu-a pela doca, passando por iates luxuosos. Ela já fora até o iate dos Alden, mas não com Eric. Inclusive ela, Juliana e Andrea tinham se aproveitado da hidromassagem semanas antes. Assim que subiu a bordo, percebeu, pela vibração do motor, que o capitão já estava a postos. Ao sinal de Eric, os empregados soltaram as amarras. Quando se deu conta, ele a levou para o salão como se fosse uma prisioneira de um navio pirata. Hein? De onde veio a metáfora? Eric era muito educado para ser pirata, e ela não era uma prisioneira indefesa. O iate classudo estava longe de ser um galeão pirata em ruínas. Mas seu pulso acelerou quando a marina desapareceu. O olhar examinou os estofados de couro, as mesas de vidro e a madeira brilhando, tão elegante quanto uma casa de luxo. – Vinho? – Eric ofereceu um cálice do líquido. – Claro. Obrigada. – Ela segurou a haste. – Aqui estamos. E agora?


– O jantar será servido assim que deixarmos a baía. Pode ir se servindo das entradas, se quiser. Holly bebericou o vinho e estudou os arranjos de frutas e canapés na mesa de centro. Apesar da fome, seu estômago se revirava diante de comida. Não podia ser nervosismo. Podia? Não era romântico. Era só mais um passeio de barco, e já fizera muitos. O pai tinha um iate quase do tamanho daquele e os irmãos viviam participando de campeonatos de pesca de marlim. Mas uma coisa era dizer isso a si mesma, outra era acreditar. O cenário era muito aconchegante. Muito intimista. Sua cabeça esvaziou-se de amenidades. Onde estava o garçom inconveniente quando precisava dele? Quase preferia ser olhada de cima a baixo em um restaurante pretensioso a ficar sozinha com Eric. O que dera nos seus hormônios rebeldes, aliás? Ela balançou a cabeça tentando esquecer os comentários das alunas, mas as palavras-chave apareciam. Eric. Cama. Lençóis. Gostoso. Pare. – Holly, sente-se e para de se preocupar. Ela olhou para ele e fez uma careta. – Evidente, hein? – Estamos só nós dois aqui. Ela bufou. – Jura, Einstein? O problema é esse. Ele expirou. – Você sempre fala o que pensa? – Em geral, sim. Melhor que dar voltas e não chegar a lugar nenhum. – Ela tomou um gole de vinho. Não limpou a tensão. – Eric, isso.. isso que temos não pode ir a lugar nenhum. Se ele tentasse negar que havia algo, ganharia um tapa. E vinho na cara. – Garanto que o único item na agenda é um jantar a dois longe de olhares intrometidos. Relaxe, Holly. A voz rouca dele a fazia querer relaxar, mas teria problemas se baixasse a guarda. Deixara a vida de riqueza e privilégios para trás porque aquele materialismo a esmagava e bagunçava suas prioridades, fazendo-a julgar os outros pelas posses, e não pelo que eram. Não podia se deixar levar por isso de novo. Por ser uma dos Prescott de Wilmington, a Carolina do Norte vinha com um caminhão de restrições e expectativas que a tolhiam feito uma camisa de força. Até que gostava de ser a ovelha negra, pois assim não esperavam nada dela. Pousou na beirada do sofá e Eric sentou-se ao seu lado – não perto o bastante para tocá-la, mas o suficiente para que ela fosse invadida pela colônia dele. Ela procurou um assunto seguro. – Sua mãe perturbou você por acabar comigo? – Eu sei lidar com a minha mãe. – Juliana, não. – É porque minha irmã faz do jeito errado. – E tem um jeito de lidar com Margaret Alden? – Opa. Mas Eric não pareceu ofendido.


– Tem, minha mãe respeita quem faz frente a ela. Juliana se esforça para agradá-la. Mas ela não é o nosso problema. Octavia, sim. Não vai ser tão fácil fugir da próxima vez. Holly suspirou. – Não. Hoje, na aula, ela disse que seríamos a melhor história dela. Foi por isso que gostei tanto de fugir. – Tenho uma estratégia. – Bom saber. – Mas Holly não queria falar sobre os oito encontros por vir e os beijos que precisavam evitar. Queria um assunto mais inócuo, como política e religião, mas resolveu ficar em terreno mais conhecido. – Voltando à sua irmã... Você pode estar disposto a se sacrificar pelo negócio da família, mas Juliana não devia. Ela nunca se apaixonou, então não sabe o que está perdendo com Wally Wilson, aquele chato. Os bancos podem se fundir sem um casamento, sabia? Não precisa de sacrifício humano. – Você já? – Já o quê? Fui um sacrifício humano? – Apaixonou-se – respondeu, ignorando o sarcasmo. Ela devia olhar para o lado e fugir daquele olhar hipnotizante, mas não conseguiu. Por que ele iria se interessar pela sua vida amorosa ridícula? – Já perdi a conta. – Um exagero. – Mas não estamos falando de mim. – E por que não deu certo? Ela suspirou. Se respondesse, talvez o fizesse escutar, e aí talvez o convencesse a abrir os olhos da irmã antes que cometesse o pior erro da sua vida. Holly tirou os sapatos e sentou-se sobre os pés, preparando-se para contar uma história velha e chata. – Quando meus namorados descobrem que a família realmente me excluiu, eles começam uma campanha para me reconciliar com ela. Quando engolir meu orgulho e aceitar um emprego de que não gosto se torna mais importante do que a minha felicidade, eu entendo o recado. É o dinheiro e o prestígio dos Prescott que eles querem. Então... fim do namoro. – Quantos? – Oi? – Quantos tentaram mudar você? – A tensão – ou raiva? – na voz dele a deixou arrepiada. – Não é da sua conta. Mas nem todos foram para a cama comigo. Sou meio exigente. – Ela se virou no sofá. Seu joelho roçou a coxa de Eric e ela sentiu pontadas na perna. Acabe com isso. Trocou de posição de novo, porque tocá-lo não era boa ideia. – Admito que passei meus vinte anos procurando o amor, mas semana que vem faço 30 e pretendo ser mais esperta. Se eu não for feliz comigo mesma, nunca vou ser feliz com um homem. É por esse motivo que isso... – Ela indicou os dois. – ... está confundindo a minha cabeça. Nunca seria feliz com você, então sentir atração sexual por você é desnecessário. Os nós dos dedos de Eric que seguravam a taça foram ficando brancos, e pareceu que ela iria quebrar. O olhar dele passou dos seus olhos para a boca, depois desceu para seios, cintura, quadris e pernas. Os mamilos de Holly endureceram e ela sentiu um calor de lava embaixo do umbigo. Como ele conseguia mexer com ela sem nem tocá-la? Tinha de parar. – Eric, estou há mais de um ano em abstinência e estou quase subindo pelas paredes. Se você não parar de me olhar com essa cara de que vai arrancar minhas roupas, vou me atirar em você e nós dois vamos nos arrepender. Pelados, satisfeitos e cheios de marcas de rolar no tapete, mas arrependidos.


Ele encarou-a. Xingou, levantou-se e atravessou o salão, tentando manter distância dela. A energia sexual saía dele em ondas, atingindo-a do outro lado do recinto. – Está tentando me provocar? Holly exalou devagar, endireitou as pernas e se calçou. – Não. Desculpe, mas eu nunca tive de lidar com uma atração tão descarada assim, e é um saco. Especialmente por ser com você. Ele ficou rígido e ela percebeu que o insultara de novo, mas então ele passou a mão pelo rosto e riu – uma risada forçada, mas uma risada. – Nunca sei o que vai sair da sua boca. Uau. Ele é muito sexy quando ri. – Mas você sabe o que vou botar nela. Ele recuou e encheu o peito. As pupilas se dilataram. Droga. Ela nunca iria aprender a pensar antes de falar? – Estava falando do jantar, Eric. Já está na hora? Eric deixou a taça na mesa e pôs as mãos no bolso. O músculo da mandíbula tremia. – Claro, vamos alimentar o único apetite que não vai nos trazer problemas. IRREVERENTE. Irrepreensível. Atraente para burro. Holly Prescott o excitava de um jeito inconcebível e inaceitável. O que iria fazer com ela? Comeu mecanicamente a sopa de lagosta, camarão à milanesa e torta de limão enquanto deliberava sobre o que fazer e lançava olhares à mulher confusa diante dele. Como pudera pensar que Holly seria uma saída segura do leilão? Ela olhou para ele. – Que foi? Estou com torta no nariz? – Não. Estou contente de ver que está gostando do jantar, em vez de ficar brincando com a comida que nem nos restaurantes. – Está delicioso. Estava mesmo? Ele nem reparou. Ela fez uma careta. – E a única pessoa me encarando aqui é você. Talvez ele houvesse sido menos discreto do que imaginava. – Perdão. Não estou acostumado a ver você tão bonita. – Guarde os elogios, Eric. Só vão lhe dar dor de cabeça. Onde foi que ele errara? Ele afastou o prato de sobremesa e repassou os fatos. Holly vinha do mesmo meio que ele. Praticamente a vira crescer, embora tivesse passado mais de uma década sem reparar nela. Holly frequentara as mesmas escolas e atividades que sua irmã, e era a melhor amiga dela desde sempre. Mas a franqueza de Holly em nada lembrava o comportamento conservador e reservado de Juliana. Como duas mulheres com a mesma criação podiam ser tão diferentes?


Os parâmetros da relação deles estavam bem estabelecidos. Graças à cobertura do jornal, suas opções eram limitadas. Iriam sair, pois do contrário teriam uma exposição negativa na mídia, e ignorariam aquela atração inadequada, que ele associava à bomba debaixo da mesa de Hitchcock. Mas Holly parecia resolvida a expor a bomba, sacudir o pacote e dançar em volta dele. Mais cedo ou mais tarde, se ela não parasse com a artilharia verbal, iria explodir. Se fosse uma funcionária, ele poderia tirá-la do terreno da tentação. Se fosse uma amante comum, simplesmente pararia de ligar. Correção: se fosse uma das suas habituées, já teria dormido com ela e saciado seu desejo. Estaria concentrado na fusão. Quando aquela situação saíra de controle? Como poderia retomar as rédeas? Tratá-la como uma cliente não dera certo. Tampouco lembrar que era melhor amiga da sua irmã caçula. Precisava de uma estratégia nova. Mas como fazer Holly respeitar as convenções de uma relação platônica e profissional, quando o forte dela era justamente quebrar essas regras? Deixando-a desestabilizada? Mas como desestabilizar a imprevisibilidade em pessoa? A convivência com a mãe agressiva lhe ensinara que, quando o adversário pressiona, temos não só de repelir o ataque, como também buscar vantagem. A vitória era a única opção. Desconfiava que Holly usava sua verborragia para afastar os outros. Então iria forçá-la a provar que não estava blefando e, como um valentão de colégio, a faria recuar quando pagasse na mesma moeda. Blefar não era exclusividade do pôquer. Era uma estratégia comercial que ele estava cansado de tanto usar. Se ela queria jogar duro, desafiara o homem errado. Assim que ela baixou o garfo, ele levantou-se. – Se já terminou, vou mandar o capitão voltar ao porto. Quarenta minutos depois, o carro de Eric entrou no jardim dela e passou pelo sedan da repórter. Ele estacionou e escoltou Holly com o plano na cabeça. O coração batia diante da perspectiva de um resultado positivo e da primeira noite de sono tranquilo desde o leilão. – Convide-me para entrar. Holly olhou para o carro de Octavia, suspirou e destrancou a porta. – Venha. Ele a seguiu, mas, antes que ela pudesse acender a luz, Eric fechou a porta, segurou-a pelos ombros e a pôs contra a porta. Os músculos dela retesaram-se sob seus dedos. – Ei! – O luar entrava pelos vitrais da porta e iluminava seus olhos surpresos. – Holly, se você insiste em atirar a atração entre nós na minha cara, eu vou presumir que você quer que eu tome alguma atitude. Percebeu o queixo dela cair. – Como é? Eric diminuiu a distância entre eles e aproximou a cabeça até sentir a respiração dela. Ele atribuiu o pulso acelerado à adrenalina da investida. – Você mencionou sua abstinência e ameaçou rolar comigo no tapete. Não está dando indiretas para eu tomar a iniciativa? Holly jogou a cabeça para trás tão rápido que bateu na porta. Fez uma careta e encarou-o. – Você acha que eu faço o tipo sutil? Não. Esse era o problema. Se ela tivesse sido sutil e seguido as normas de conduta, ele não teria de recorrer a meios pouco ortodoxos.


– Acho que você é uma garota esperta que sabe o que quer, e deixou bem claro que me deseja. – O cheiro dela o prendeu. Ele retesou os músculos, debatendo-se com o desejo e lutando para manter a estratégia, mas nem seu autocontrole lendário podia com aquilo. Holly umedeceu os lábios e ele sentiu uma ânsia de beijá-la. E aquilo não estava em seus planos. Lutou para se controlar e desejou que o corredor estivesse mais bem iluminado para ver se a estratégia estava funcionando. – Essa coisa de pirata lhe subiu à cabeça. Maldita. Não podia ser previsível nunca? Por que não estava implorando para ficar livre? Ela pôs as mãos no peito dele, mas não o empurrou. Provavelmente iria se arrepender de perguntar, mas não conseguiu entender. – Pirata? – Só porque você me enfiou no seu navio e me levou para o mar, não quer dizer que pode me pilhar. Pilhar. As palavras o atravessaram feito uma bala de canhão. A ideia era atraente. Atraente demais. Ele engoliu em seco. – Não ouvi você dizer “não”. Diga não, caramba. Grite comigo. Dê-me um tapa. – Não – sussurrou ela, e os músculos e a expressão relaxaram. Vários instantes depois, acrescentou: – Não ouviu. A estratégia dele se desintegrou. Antes que pudesse recuperar as defesas e planejar uma nova ofensiva, Holly ficou na ponta dos pés e beijou-o. Perdição. A pressão da boca dela enfraqueceu sua resistência. A língua dela recuava e avançava. A mandíbula dele ficou tensa. Os dedos dela pressionavam seu peito, e então ela o abraçou e atormentou com o contato dos seios macios. Outro erro de cálculo. Fizera muitos com aquela mulher. Recuar. Mas os músculos não obedeciam às ordens. Seu corpo estava pronto. Com um gemido, Eric rendeu-se e abriu a boca para receber cada estocada da língua dela. Ele pôs a mão na nádega dela e puxou-a contra si. Se ela queria brincar com fogo, ele estava pronto para detonar. Mas, em vez de se intimidar diante da ereção, Holly esfregou-se nele, posicionando os quadris de uma forma que aniquilava a força de vontade de Eric. Ele não conseguia raciocinar com aquela névoa de paixão. Só sentia a volúpia das curvas de Holly, a textura dos cabelos dela em sua mão, a voracidade que despertara nele. Devorava a boca dela, tentando saciar um desejo que só crescia desde o primeiro beijo. Mas não se satisfazia do gosto, da fragrância, da maciez dela. Subiu as mãos pelas costelas e desceu de novo, mapeando o terreno feminino. Os dedos dele passaram pelo nó na cintura dela. A consciência de Eric mandou alertas, mas ele os ignorou e desatou o nó. Recuou poucos centímetros para respirar, e a frente do vestido se abriu, revelando a renda de um sutiã escarlate. A virilha dele queimava. Devia ter imaginado que Holly não era de algodão branco. Os dedos dela apetaram seu peitoral enquanto ele separava as camadas de vestido para revelar mais da pele rosada e uma calcinha da mesma renda vermelha sedutora. – Linda – murmurou. E então suas mãos encontraram a pele desnuda. Quente. Acariciou a barriga, as costelas e, finalmente, segurou os seios e passou os dedos pelas pontinhas duras. O barulho que ela fazia – meio gemido, meio rugido – detonou uma explosão dentro dele. E a ideia de afugentá-la? E então Holly enroscou a perna na dele. Os joelhos de Eric quase cederam. Os dedos encontraram o fecho do sutiã e soltaram os seios dela, que encheram suas mãos. Ele queria mais. Queria prová-la.


Baixou a cabeça e pôs a aréola na boca. O gosto dela subiu-lhe à cabeça e o cheiro preencheu seus pulmões. Ele apalpou a coxa macia e pôs a mão dentro da calcinha para lhe massagear a nádega. Suave. Quente. E ele estava duro. Percorreu a umidade entre as pernas dela e acariciou as dobras. Os dedos de Holly puxavam seu cabelo enquanto ele a chupava e acariciava. – Isso aí – gemeu ela. – Muito bom. Agora, Eric. Agora. A voz rouca dela atiçou-o. Ele estava a segundos de abrir o zíper e possuí-la contra a porta, quando ela pôs a mão em seu rosto e beijou-o. – Eu não aguento esperar. – Ela lhe deu o beijo mais quente que ele já recebera, e aí ela desmanchou-se contra ele. Ele engoliu os gritos. Arfando, ela apoiou a cabeça na porta. As mãos agarraram os ombros dele. Ele arrancou os olhos do subir e descer dos seios, encarou-a e levou a mão livre à fivela do cinto. Holly segurou seus dedos. – Temos camisinha? Não quero um souvenir de hoje. Um banho de água fria não o teria despertado mais. A mão parou. Camisinha. Não, droga, não tinha. Por que teria, se não era para aquilo acontecer? O que raios você está fazendo, Alden? Eric tirou a mão da calcinha de Holly e fechou o vestido dela, mas já era tarde. A imagem das curvas generosas e da expressão saciada dela marcaram suas retinas. O sangue dele rimbombava no ouvido e pulsava na virilha. O corpo clamava por saciedade, mas nunca perderia o controle por uma mulher. Não seria fraco como o pai. Um títere das suas paixões. Um escravo dos sentimentos. Um capacho para os caprichos da mulher. Tentara encurralá-la e ela virara o jogo. Tinha de dar um jeito de afastá-la antes que o jogo de gato e rato fosse longe demais. – Você já matou seu desejo. Talvez possamos voltar para os encontros, conforme o planejado. A paixão nos olhos de Holly virou confusão, depois mágoa e, por fim, raiva. Ela endireitou-se e ajeitou o vestido. – Canalha. – Seu canalha, srta. Prescott, por mais oito noites. Mas nunca vou ser seu gigolô. – Afastou-a e escancarou a porta. – Boa noite.


CAPÍTULO 6

MENTIR, AINDA que por omissão, nunca compensava, admitiu Holly a contragosto. Dizer às amigas que não tinha dinheiro para comprar um solteiro teria sido menos constrangedor que encarar Eric de novo. Ela afastou o cabelo da testa e andou do jipe ao banco. Eric devia achá-la ridícula. Primeiro, jogara-se em cima de um homem que não a queria; segundo, explodira como uma bomba de pavio curto. A lembrança de agarrar-se a ele, implorar para que ficasse com ela e se dissolver nas mãos talentosas dele faziam seu sangue ferver. Lá se fora sua promessa. Mas era de surpreender? Ela gostava de sexo e chegava ao clímax com frequência. Mas não daquele jeito. Já ficara excitada tão rápido? Não. Por que agora, e justamente com Eric? Muito azar encontrar um sujeito que sabia exatamente onde tocá-la, mas era proibido. Os toques não podiam se repetir. Mesmo se Eric estivesse interessado – e, com seu comentário malvado, deixara claro que não –, não podia correr o risco de se apaixonar e abrir mão da sua suada independência. Ela não tinha lugar no mundo dele. Nunca tivera. Nunca teria. E não queria mais tentar. Não que ele tivesse pedido. Tentando passar despercebida, Holly entrou no vestíbulo da agência principal do Alden Bank para trocar as fotos de cachorro. Esperara para ir no horário de almoço de sexta, quando o banco estaria a toda, pois não queria esbarrar com Eric. Com tanto movimento no prédio, ela iria se misturar com a multidão. Cumprimentou o segurança à porta e foi tentar correr com a tarefa, mas seus dedos complicavam o trabalho simples. Tire a foto velha. Prenda uma nova. Qual era a dificuldade? Enorme: parecia que estava de luvas pesadas. Ande. Rápido. Menos uma foto. Faltavam cinco. Ela olhou de esguelha para trás e forçou outro sorriso para o segurança, mas ele estava falando pelo rádio e nem notou. Deu uma olhada rápida pelas portas de vidro do prédio de dois andares e para a escada de mármore que descia. Nada de Eric. Ufa. A noite de segunda a deixara tão envergonhada que passara a semana fugindo do telefone. Eric ligara duas vezes para marcar um jantar para aquela noite. Ela ignorara as


mensagens dele. Mais cedo ou mais tarde, teriam de continuar os encontros, mas não agora. Não podia ser agora. Ainda não estava pronta. Ela era covarde? Provavelmente. Paciência. As portas se abriam e fechavam, as fotos balançadas pelo ir e vir dos clientes. Holly os ignorava. Ande. Ande. Mais uma. Pronto! Acabou. A porta se abriu de novo e ela sentiu que alguém parou ao seu lado. Esperava que fosse alguém interessado nas fotos de cachorro que tirara da moldura e empilhara no balcão, mas os cabelos arrepiados em sua nuca indicavam que não. Aterrorizada, ela olhou para trás e estancou. Eric. O pulso dela acelerou e a boca secou. Droga. Por que tinha de se sentir atraída por ele? Alto. Moreno. E proibido. Ele ficou parado no vestíbulo de mármore, vestindo um terno de marca feito sob medida para seus ombros largos e quadris estreitos. A expressão impassível de banqueiro não entregava nada, mas as mãos cerradas indicavam que não era um prazer revê-la. Não pense em onde essas mãos estiveram. Tarde demais. Uma parte especialmente insistente do seu corpo queria gritar: “Ei, lembra-se de mim?”. O olhar de Eric passou pela sua regata, pelo jeans apertado que era a única peça limpa no armário e pela sandália rasteira antes de retomar o caminho. Ela xingou seus mamilos duros e torceu para que ele não percebesse ou achasse que era por causa do ar-condicionado. Ficou mortificada. – Er, oi, Eric. – Você não me ligou. – A voz rouca deslizou pela sua pele como veludo. Ela conteve um calafrio. – Andei ocupada. – Ansiosa para fugir, ela encostou na moldura. – Como você sabia que eu estava aqui? Ele indicou o vigia com a cabeça. – Pedi para Denny me avisar quando você chegasse. Faltam oito encontros, Holly, inclusive um hoje. Maldição. Pega por um bisbilhoteiro. – Nada feito. Hoje é sexta. Dia de sair com as amigas. Sempre janto com Juliana e Andrea. – Não que tivesse conseguido falar com elas para saber se ainda estava de pé. – Que tal nos encontrarmos em... daqui a uma, duas semanas? Até lá, talvez parasse de relembrar o calor do beijo dele ou a magia dos seus dedos sempre que fechava os olhos. Seu sangue voltava a ferver só de pensar, e a costura do jeans apertado tocava território sensível. Ela deus as costas a Eric e esticou-se para pendurar a foto. Os longos braços dele agarraram a moldura e penduraram-na no prego. O torso dele a encheu de suor, e as coxas e quadris tocaram o traseiro dela como se estivessem de conchinha. Ela inspirou fundo e um toque da colônia dele a deixou tonta. Não se apoie nele. Por mais que queira. E como ela queria! Então ele se afastou, levando o calor e a tentação. Aleluia. Relutante, de braços cruzados, ela se virou. – Obrigada. O rosto impassível dele não mudou. Ela o balançava de alguma forma? Seria injusto se não. Ele também devia se sentir preso pela tentação proibida. – Desmarque. Pego você às 18 horas.


– Eric, acho que não... – Um amigo com quem eu dividia o quarto na faculdade está aqui. Ele está noivo e quer me apresentar a futura esposa. Só vão passar a noite aqui. Amanhã, pegam um cruzeiro para as Bahamas. Os ombros dela estavam tensos. Não iriam estar sozinhos, mas Eric teria que deixá-la em casa e Holly teria de revisitar a cena da sua vergonha. Ela corara toda vez que passara por lá naquela semana. Hoje era o primeiro dia em que as lembranças associadas à porta da frente não a excitavam. Muito. – Podemos nos encontrar no restaurante? – Não. O noivo do Karl é artista. Você vai gostar de conhecê-lo. Ela perdeu a paciência. – Para vocês dois conversarem sobre coisas sérias sem ser atrapalhados por nós, artistas? Eric contraiu e descontraiu o maxilar como se estivesse tentando manter a calma. Esperou vários clientes saírem antes de responder: – Preciso levar alguém de cabeça aberta. Aquilo era um elogio, não? Talvez ele não a achasse uma idiota completa. Fácil, mas não burra? Fez uma careta. – Holly, quinze mil dólares e o segredo que você quer que eu guarde indicam que você vai estar disponível. – O tom dele alertava-a para não discutir e a irritou, mas então ela relembrou o que ele disse. – Espere aí, você disse noivo? Eric se aproximou, invadindo o espaço pessoal dela. Com a mesa atrás, Holly não podia recuar. – Karl é gay. Não conheço ninguém que não seria rude ou condescendente com ele e Nels, seu companheiro. Ou você é homofóbica? – Claro que não. – Droga. Não conseguia pensar em um bom motivo para recusar. – Vou estar pronta às 18 horas. – NÃO FAÇA nada que eu não faria – disse Karl. – Isso deixa muitas possibilidades em aberto – acrescentou Nels com sarcasmo. Eric jogou a cabeça para trás e riu, expondo o pescoço robusto. Seus dentes brilhavam de tão brancos. Holly mordeu o lábio e o examinou. A risada grave e a falta de tensão no rosto lembravam o cara por quem tivera uma queda quinze anos antes. O cara por quem estava voltando a ter uma queda. Menina, você vai ter sérios problemas se isso acontecer. Era apenas uma queda, não? Aquele sentimento estranho não podia ser mais que isso, pois os dois dariam um péssimo casal. Qualquer idiota podia ver isso. O banqueiro e a boêmia. Não daria certo. Mas, com quase 30 anos, não era meio tarde para paixonites? Então era um bom e velho caso de desejo? Ela nunca tivera um desses, mas Eric deixava seu corpo ligado. Ok, então era desejo. Tinha de tomar providências. Mas quais? Ignorar, burrinha. Que escolha você tem? – Boa viagem – gritou ela. Karl e Nels acenaram e partiram, deixando Holly sozinha com Eric. Que alegria. Ou não.


Foi divertido jantar em uma cervejaria local, não só porque Karl e Nels eram divertidos, mas porque eles faziam aflorar um lado de Eric que não via em muito tempo. Um lado muito atraente. A expressão de quem sabe se divertir de Eric se transformou na de banqueiro sério bem diante dos seus olhos. Ela balançou a cabeça, lamentando a perda. – A gente devia fazer mais isso. Ele franziu o cenho. – O quê? – Relaxar e se divertir com seus amigos. – Eles moram a quatro horas daqui, em Charlotte. – Ele a conduziu ao seu Corvette sem tocá-la. Passara a noite toda sem tocá-la, e, embora na semana anterior ela quisesse que ele largasse seu cotovelo, agora ela sentia falta do gesto galante. Burra. Burra. Burra. – O que você faz para se divertir, Eric? Ele destravou a porta, fez com que ela se sentasse e foi para o seu banco antes de responder. – Eu jogo golfe e tênis. – Tsc-tsc. Sei tudo sobre esses jogos. Meu pai e meus irmãos jogam, e são tudo, menos diversão. Fecham negócio nos gramados. Estou falando do tipo de saída só para se divertir mesmo. Como hoje. – Holly, eu trabalho de sessenta a setenta horas por semana. Não tenho tempo para ficar de bobeira, ainda mais com a fusão por encaminhar. – Você devia arrumar tempo, senão... – Poupe-me desses clichês. Já ouvi tudo. – Ele fez o carro entrar na rua. A luz de um poste revelava seus lábios desgostosos. Ele ouvira esses clichês da noiva, lembrou Holly. Na verdade, todos os convidados do casamento ouviram, logo antes de Priscilla jogar o buquê e a aliança com um diamante enorme em Eric e sair correndo da igreja com o vestido caríssimo. Holly fez uma careta e tentou mudar de assunto. – Como era saber que seu colega de quarto é gay? Você ficava constrangido? – Só soube depois de dois anos. Nessa altura, eu já conhecia Karl e confiava nele. Não era problema. E não, nunca fiquei constrangido. Ele respeitava minhas escolhas, e eu, as dele. Então Eric não era tão cabeça fechada quanto ela acreditava e devia se garantir muito para não se sentir ameaçado pela situação. Ele subiu um pouco em seu conceito, o que não era boa coisa. Não queria que, além dos hormônios no seu sangue, passasse a gostar dele, mas, a cada encontro, ficava mais difícil. Ele ameaçara contar o segredo ao seu pai e o comentário a deixara com o pé atrás, mas Eric estava ajudando a resolver o problema com Lyle e sugerira os pôsteres de cachorrinho. Então não era um completo imbecil. Pena. Não sentiria tesão por um imbecil. Ela virou-se para observá-lo. – Você já... se sentiu tentado a... experimentar? Eric virou a cabeça para ela tão rápido que foi um milagre o carro não ter batido em uma árvore. – Deus pai, você pergunta tudo? Ela deu de ombros. – Não. Mas, a título de curiosidade, nunca quis passar para o outro lado. Só gosto de homem. – Obrigado por dividir isso comigo – disse, entre dentes. – Você não respondeu minha pergunta.


Ele entrou no jardim dela, estacionou atrás do seu jipe e aí a encarou. – Não, nunca tive interesse em transar com um homem. – Era só curiosidade. – Holly passou o olho pelo jardim. – O carro de Octavia não está aqui. – Eu falei do encontro. – Talvez ela esteja assombrando outro casal hoje. Ela não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. – Holly tentou abrir a porta do carro, mas estava travada. Eric realmente fazia questão do cavalheirismo. Ela esperou impaciente no banco até ele destravar e abrir a porta, mas ignorou a mão dele e desceu sem ajuda. – Você não precisa me levar até a porta. – Ela estendeu a mão. – Eu me diverti muito hoje. Eric ignorou a mão dela. – Eu sempre levo até a porta. Sentindo-se meio boba, ela baixou o braço. – Tá. E sempre vai para a cama no terceiro encontro, mas já quebramos essa regra. Quer quebrar outra? Ele continuou em silêncio. Holly suspirou e foi na frente. Ela bem que tentou, mas não iria convidá-lo para entrar – para a cena do crime, por assim dizer. – Eu vou sentar na namoradeira de balanço e aproveitar um pouco a noite. Então... obrigada pelo jantar e por me apresentar aos seus amigos. Foi divertido. Boa noite, Eric. Ela atravessou a varanda e sentou-se na namoradeira. Em vez de ir embora, Eric sentou-se ao seu lado. Ela sentara-se ali com muitos outros, homens e mulheres, cães e gatos, mas nunca parecera tão estreita. Impulsionou a namoradeira com o pé, mas o balanço suave não a acalmou dessa vez. Estava muito consciente do dono da coxa e do ombro colados nos seus, e hipersensível ao calor do seu corpo e à colônia suave. – Você é muito talentosa – disse Eric. Ela piscou, tentando acordar do estupor sensual. – Hum? – Seu trabalho no restaurante. – Ah, sim. Obrigada. – Ela fizera a porta da cervejaria e várias peças de decoração no interior. Durante o jantar, o dono fora até a mesa cumprimentá-la e informara a todos que ela era a artista responsável. Deus o abençoasse. Como resultado, ela distribuíra alguns cartões de visita e, com sorte, poderia arrumar um trabalho ou outro. Eric estendeu o braço pelas costas da namoradeira e virou seu corpanzil para encará-la. O peito de Holly apertou-se e ela foi um pouco para a frente. – Sabe, não é boa ideia ficarmos aqui com essa lua. Melhor você ir. – É bom repassarmos as regras antes dos próximos encontros. – Você tem regras demais. Regras para o leilão. Regras de comportamento. Regras para os encontros. Nunca ouviu falar de viver um dia depois do outro? – As convenções repressoras foram um dos motivos para ela largar sua antiga vida. – Regra número um. Você vai retornar minhas ligações rápido. De preferência, dentro de vinte e quatro horas. Número dois: chega de dar em cima. A regra número dois encheu Holly de vergonha.


– Dar em cima de você? Está brincando? Eu não flertei com você. Se tivesse flertado, você iria perceber. – Número três: se ignorar as regras, vai ter de aceitar as consequências. Fui claro? Ela sentiu uma onda quente de raiva. – Para a sua informação, Eric, eu tendo a falar demais quando estou nervosa. E, sim, eu falo o que penso. Por acaso, eu acho você bonito e não sou hipócrita a ponto de mentir, mas isso não significa que a gente tenha de se agarrar sempre que der vontade. – De novo. – Ele pôs o braço no ombro dela. – Ei! Espere um min... Os lábios dele interromperam seu protesto e o pulso dela foi para a estratosfera. Eric se apossou da sua boca com a maestria do pirata que o acusara de ser no último encontro. Firme. Dominador. E muito habilidoso. Holly pôs os punhos fechados no peito dele, mas, com o pico de adrenalina, esqueceu-se de socá-lo. Os lábios dela se separaram e a língua dele penetrou pela abertura. Quente. Pecaminosa. O cara sabia como tirá-la do sério. Soltou um gemido. Seus dedos desobedientes acabaram emaranhados nos cabelos da nuca dele, e sua a perna de repente estava enroscada na dele. Eric passou a mão da coxa para o quadril e aí seu mundo mudou. O banqueiro a balançava. Ela deliciou-se com a carícia firme dele em seu traseiro, cintura e barriga. Quando os dedos de Eric brincaram com seus seios doloridos, ela arrepiou-se e sentiu contra si uma ereção impressionante. Ereção? Hein? Ela levantou a cabeça para respirar, abriu os olhos e percebeu que estava ajoelhada em cima dele com a barra do vestido levantada, expondo a calcinha roxa. Como fora parar no colo dele? Ela subira sozinha ou ele a botara lá? Não lembrava. Como ele fizera isso com ela? Seu rosto ardia. Atirada de novo. Jesus. – Espere aí. – Holly pôs as mãos no peito dele, que subia e descia rapidamente. Pelo menos ela não era a única excitada. Ela desceu da namoradeira e baixou a saia. – Eric, vamos parar com isso de eu ficar toda excitada e você ir para casa com uma tora e tanto nas calças. Uma expressão de dor cruzou o rosto dele. – Holly, você nunca edita o que pensa? – Sinceridade não é ruim – retorquiu. – É uma das coisas que estão erradas com a sociedade. A gente conta muitas mentirinhas educadas porque não tem coragem de ser sincero, aí as pessoas acabam falando mal pelas costas umas das outras. A verdade dói muito menos que ser traído por quem a gente confia. A compreensão amoleceu os olhos dele. Ela fez uma careta quando percebeu o quanto revelara. De sexo a história melosa em sessenta segundos. Falar corta o clima. O que devia ser bom. Devia, não; era bom. – O que quero dizer é que não podemos continuar assim. – Você pode parar. Se não seguir as regras... Balançando o dedo, ela adiantou-se.


– Ah, não. Você não vai me fazer engolir essa, Eric Alden. Eu não costumo ficar toda derretida assim. Nunca tive dificuldade em manter meus lábios longe de alguém. Então a culpa é sua. O olhar dele endureceu. – Só vou aonde querem que eu vá. Ela resmungou de frustração. – Eu não disse que não quero você. Mas eu não devia. Tenho muito a perder se me enrolar com você. – Por exemplo? – Minha melhor amiga. Eu... – Ela amaldiçoou a língua e logo foi para o outro extremo da varanda. Detestava a facilidade com que ele a perturbava. – Esqueça o que eu disse. As tábuas rangeram sob os passos de Eric, e Holly sentiu a presença dele ao seu lado. A droga do seu radar interno o detectava fácil. – Explique-se. Ela suspirou. Já se humilhara. O que mais tinha a perder? Ela virou-se e, como de costume, Eric tinha invadido seu espaço pessoal. Ela recuou para o parapeito. Encurralada. – Pela primeira vez na vida, gosto de onde estou e de quem sou. Minha casa. Meu trabalho. Os amigos. A maioria deles, pelo menos. Está muito difícil de gostar de Octavia agora. – Ela afastou um cacho da testa. – Bem, e eu continuo gostando de mim quando nossos encontros terminam. – E você não iria gostar se nos tornássemos... íntimos. – Aqueles olhos escuros feito uma noite sem lua a prendiam no lugar. – Provavelmente não. Nem sei. Com você e o dinheiro que emprestei a Lyle, botei tudo o que ganhei nos últimos sete anos em terreno perigoso. Se eu não encontrar Lyle e conseguir um pagamento, vou acabar tendo de mendigar um emprego no Caliber Club, como meu pai quer. Aprendi do pior jeito que não me encaixo naquele mundo. No seu mundo, Eric. E essa coisa entre nós dois... só complica uma situação complicada. Ele enfiou as mãos nos bolsos, mas a rigidez no rosto contradizia a pose despreocupada. – Como eu posso ajudar? – Só de pagar o detetive você já está ajudando. E quanto a nós... – Ela balançou a cabeça. – Não sei. Na metade do tempo, o bom senso diz para fugir de você, cancelar os encontros que faltam e aguentar a propaganda negativa de Octavia, apesar de eu não poder arcar com as perdas. Na outra metade, eu acho que a gente devia ir em frente e se livrar disso logo. – Desculpe? Ops. – Esqueça. Estou em pânico e não estou conseguindo pensar direito. – Holly... – Ele estendeu a mão. Ela desviou dele, correu pela varanda e enfiou a chave na porta. Entrou na casa e virou-se na soleira. – Eric, vá para casa antes que a gente cometa um erro enorme. E então ela fechou a porta na cara da tentação. ERIC FICOU parado na varanda encarando o jornal de sábado. Como Octavia conseguira aquilo? Tinha contatos tão bons que botara as fotos da véspera no jornal do dia.


Em geral, a seção de bem-estar era planejada com antecedência, e as fotos e histórias de última hora eram guardadas para as últimas notícias. Holly sentada em seu colo beijando-o não era notícia. A fome cravou as garras na sua carne e o sangue correu forte enquanto examinava a foto em preto e branco. Os dedos longos de Holly estavam agarrados ao seu cabelo. As mãos dele não estavam visíveis porque estavam debaixo da saia, agarrando o derrière. Ele devia agradecer por isso não ser perceptível, senão a foto seria quase pornográfica. Ele cerrou o punho ao lembrar-se da maciez da pele dela. Entrou na casa e apertou o botão da cafeteira com tanta força que derrubou a máquina no balcão. Ele desejava Holly Prescott. Por quê? Ela não parecia nada com as mulheres que escolhia. Não era sofisticada nem comportada. Nem gostava do mesmo tipo de restaurante que ele. Não podia culpar a abstinência, pois já passara quatro meses sem sexo antes sem ficar vinte e quatro horas excitado e pronto para agarrá-la à menor provocação. Holly e as exatas características que a tornavam a mulher errada para ele o excitavam. A energia sem limite e a sinceridade caíram no seu gosto e, durante o jantar, ela encantara Karl e Nels. E ele. Droga. Até Holly chegar, nunca encontrara uma mulher que não conseguisse compreender. Quando pensara que a tivesse encurralado, ela virara a mesa. Não só não a conseguira espantar com sua agressividade, como descobrira, graças ao relatório do detetive, que Holly Cameron Prescott era cheia de surpresas. Quando Eric voltou para casa depois do último encontro, encontrou cópias dos documentos relativos ao empréstimo no fax. Wes também incluíra uma cópia do histórico da faculdade de Holly – não que ele tivesse pedido, e tinha medo de saber como Wes os conseguira sem permissão dela. Ainda com o cheiro de Holly nas roupas e na pele, Eric examinou os documentos e descobriu que ela fizera economia e depois arte. Formara-se com 9 de coeficiente de rendimento – muito longe de ser a cabeça de vento que os irmãos pintavam. E ela era tão cuidadosa no negócio dela quanto ele no seu. A proposta, escrita na letra de Lewis e assinada e datada por ele, parecia perfeitamente convincente. Eric ficou surpreso ao perceber que Holly não era uma melosa de coração partido. Ele também teria caído e emprestado dinheiro a Lewis. Parecia ter sido um bom risco. Mas, enquanto Eric teria pedido uma garantia, Holly aceitara uma parte dos lucros da invenção de Lewis. Arriscado, mas poderia ser mais lucrativo no longo prazo. A cafeteira deu um engasgo. Eric voltou ao presente e encheu uma xícara. As descobertas do dia anterior só aumentaram sua admiração por Holly, o que não era bom. Mais sete encontros. Como iria sobreviver sem ficar completamente envolvido? Ele pegou o telefone e discou o número de Holly. – Vidros Arco-íris. Holly falando. A voz dela fez seu sangue correr feito o de um adolescente. – Você viu o jornal? Um resmungo frustrado chegou do outro lado. – Vi. Dessa vez, vou matar Octavia de verdade. Ela estava lá ontem, escondida que nem um francoatirador. – Um franco-atirador? – A palavra escolhida por Holly o surpreendeu.


– Sim, querendo abater nós dois com um só tiro. O que mais seria o artigo de hoje? Você espera que alguém veja a foto e pense que somos gente séria? Eu estou montada em você feito uma atriz de filme pornô. Minha mãe vai ter um treco. Eric fechou o maxilar diante daquela descrição exagerada típica. Não conseguia deter a faísca em seu sangue. Holly tinha razão. Era sério. Ele releu os trechos relevantes do artigo. A Rainha da Negação avança no Rei Midas. Quem sairá vitorioso? Da perspectiva da repórter, dividir o trono parece bem divertido. Não gostou de ser comparado ao rei ganancioso. – Por que Rainha da Negação? Passaram-se alguns segundos. – Porque ela diz que estou tentando esquecer minhas raízes. Bobagem. Não mudei meu nome nem fui morar em uma comuna. – Ela suspirou. – Olhe, Eric, não sei como evitar Octavia sem sair da cidade. Ele teve uma ideia. – Tenho uma casa em Bald Head Island. Vamos passar o fim de semana lá. Assim conseguimos mais alguns encontros longe dos olhos de Octavia e da câmera do fotógrafo. Busco você em uma hora. Ele desligou o telefone enquanto Holly protestava. Trinta horas ininterruptas juntos poriam fim àquela atração incomum. Ou acabariam indo para a cama para saciar a curiosidade, ou afastariam um ao outro antes de ir embora da ilha. Torcia para a segunda opção, pois a primeira traria complicações sem fim. Um plano perigoso, mas valia a pena arriscar.


CAPÍTULO 7

– TEMOS UMA reserva para o almoço – disse Eric, ao se afastar do terminal de barcas da Bald Head Island com o passo firme de um magnata prestes a fechar um negócio bilionário. – Podemos deixar as malas na casa antes de voltar ao clube. O golfe é às 15 horas, e a reserva do jantar, às 19 horas. Holly revirou os olhos e caminhou ao lado dele na doca, rebocando o isopor que insistira em levar, embora Eric tivesse insistido que não precisariam de comida no chalé. Ele pretendia fazer todas refeições fora. Ai. Ela se recusava a se arrumar para cada refeição. Além disso, o ar da praia lhe dava fome. – Você tem tudo agendado? – Claro. Ela já devia imaginar que um sujeito que planejava um fim de semana na ilha em menos de uma hora, convencia o capitão a ignorar a falta de reservas em um sábado de manhã e chegava de calça de sarja e camisa social teria tudo agendado. Que férias. Ela não tinha interrompido o serviço e arrumado quem cuidasse dos cachorros para chegar ali e se misturar com os ricos e famosos. De jeito nenhum. Ela conteve um calafrio. – Estamos no paraíso, Eric. Não precisamos de programação. – Reservei uma quadra de tênis para amanhã, às 9 horas. Vamos embora na barca de 13h30 – continuou, sem diminuir o ritmo. Ela puxou a alça da sua bolsa, que ele pendurara no ombro, e o fez parar. Os outros passageiros passavam por eles como cardumes de peixes. – Não. O olhar surpreso dele fazia crer que nunca fora contrariado. Ele a levou para longe da multidão. – Não? – Foi o que eu disse. Pare e sinta o cheiro de mar, pelo amor de Deus. Você deixou o terno em casa. Tome jeito. – Ela voltou para a fila do transfer. Os únicos veículos permitidos eram carrinhos de golfe e bicicletas. Nada de carros. Para ela, era o paraíso, pois não ter carros como símbolo de status deixava as coisas mais iguais. – Cancele as reservas. Pelo menos a minha. Eric manteve o passo atrás dela.


– O que você sugere para as próximas trinta horas? – Nada. Ou o mais perto de nada possível. Ela não via os olhos dele, escondidos pelos caros óculos escuros, mas, pela expressão, devia achar que ela estava louca. – Nada? – Isso. Não tem uma trilha por aqui? Não me incomodaria de caminhar. Adoraria andar de bicicleta pela ilha, e talvez a gente pudesse alugar uma canoa e remar pelos charcos ou pescar. Em sua infância privilegiada, ela conhecera gente que tinha casa de praia ali, mas nunca aceitara convites para a ilha exclusiva na costa da Carolina do Norte. Assim que Eric desligara o telefone de manhã, ela dera uma pesquisada sobre a ilha antes de fazer as malas. Embora nunca fosse admitir a ele, imprimira alguns mapas para o caso de ele não querer levá-la nos lugares que desejava ver. – Fazer trilha, andar de bicicleta e canoagem é fazer nada para você? – Bem, para falar a verdade, eu queria tirar um cochilo na praia debaixo do guarda-sol antes de ir cuidar do resto. Ele foi varrido por ondas de energia e frustação, mas manteve o olhar fixo à frente. – Eric, você nunca relaxa, deita na areia e deixa a maré levá-lo? A expressão dele ficou tensa. – Claro. Ela segurou o riso. Ele não sabia mentir. – Que bom. Porque é isso que eu pretendo fazer no fim de semana e, se você quiser que essa viagem substitua alguns encontros, seria bom se ficássemos juntos para o caso de Octavia nos flagrar. Ela parou diante do estacionamento de carrinhos de golfe e ficou boquiaberta. Havia carros de todos os tamanhos, formatos, cores e graus de luxo. Havia até um Rolls-Royce. A democracia já era. Balançou a cabeça e encarou Eric. – Você tem uma vara de pescar ou vamos ter de alugar uma também? Ele pôs os óculos na cabeça e, durante alguns segundos, ficou frente a frente com ela, com fogo saindo pelas ventas, de lábios crispados, e disse: – Vamos pegar o carrinho primeiro. A locadora é no caminho de casa. Ela sorriu. – Ótimo. Por que você não cancela as reservas enquanto faço compras? Meia hora depois, Holly alugou duas varas, embora Eric insistisse que não ia pescar, e pediu para entregarem duas bicicletas no endereço dele. Eric a ajudou a pôr as varas e a parafernália no carrinho, então saíram da cidadezinha em direção ao interior da ilha. Passaram por um farol e uma capela. Holly bateu fotos e fez planos para visitar as duas construções, se desse tempo. Eric acompanhou o olhar dela. – O Velho Baldy foi construído em 1817, é o farol mais antigo da Carolina do Norte. A Rodovia Federal era a via que levava do porto ao Velho Baldy. – Seu chalé fica perto daqui? – Eric jogou o carrinho para o lado para desviar de outro que ocupava o meio da estrada. O motorista estava muito ocupado conversando com alguém no banco de trás para ver aonde ia. O movimento súbito fez Holly cair em cima de Eric. O braço dele calcinou sua pele. Ela se afastou o máximo possível e conteve o impulso de esfregar o lugar para conter o calor. – Fica do outro lado da ilha.


Mesmo com Eric ao seu lado, Holly sentiu a tensão deixar os músculos quando adentraram mais a ilha. Tudo andava em um ritmo diferente lá. Carvalhos imponentes formavam um dossel sobre a estrada e, sem carros, os sons da natureza quase abafavam o ruído do carrinho. Ela ouviu gafanhotos, sapos e pássaros, mas não os mesmos que ouvia da sua varanda. Vislumbres de cor por entre a folhagem fizeram o dedo da câmera coçar. Podia tirar dezenas de ideias para o design de janelas dali. A estada podia ser ótima para sua criatividade e, consequentemente, para sua carreira. Só esperava que não fosse desastrosa para sua vida pessoal. – A trilha está à esquerda. Ela virou a cabeça para ver. Passaram por uma série de chalés, do novo ao mais velho, de palacetes a casinhas aconchegantes. Em que ponto do espectro estaria o de Eric? Quando ele finalmente parou na frente de uma casa, ela ficou boquiaberta e segurou o braço dele. – Pare. Eric deu uma freada brusca. – Que foi? – Essa é a sua casa? – Ela deu um pulo e ficou boquiaberta diante da estrutura surpreendente. Era encantadora e não tinha nada a ver com ele. Ela tirou uma série de fotos. – É. – É a antítese da sua casa de Wilmington. – A casa de praia era aconchegante e informal. O varandão gritava: “Sinta-se em casa”. A casa de dois andares ficava sobre palafitas, como a maioria das casas em uma área onde enchentes eram comuns. As ripas de madeira eram de um cinza-clarinho com bordas brancas e uma porta azul. As duas cumeeiras ladeavam uma grande lucarna no telhado íngreme. Uma telha tipo escama de peixe decorava a região acima das janelas de cada cumeeira – um toque muito engraçadinho para um dono tão prático. Ela ouvia barulho de mar enquanto tomava o caminho, examinando as dunas e as árvores densas que flanqueavam e casa. – Estamos muito perto da praia? Eric conduzia devagar ao lado dela. – Ela dá para o mar. Comprei a preço de banana. Vai ser um bom investimento e deve dar um retorno excepcional quando eu vender... Ela fez sinal para que parasse. – Não estrague dizendo que comprou por dinheiro. Deixe-me acreditar que você viu essa casa adorável, caiu de amores e comprou porque não podia viver sem ela. Ele tirou os óculos escuros, enfiou-os no bolso da camisa e olhou-a. – Claro. O toque de sarcasmo na voz dele a levou a estirar a língua. Devia saber que a compra dele não fora sentimental. – Adorei. Mostre-me por dentro. Depois levamos a mala. Ele estacionou o carrinho e a conduziu escada acima. A entrada dava em um vestíbulo com piso de madeira de lei e uma sala espaçosa. – Tem quatro quartos e três banheiros nesse andar. A sala principal e a suíte presidencial ficam lá em cima.


A casa cheirava um pouco a mofo, mas Holly quase não notou. A vista maravilhosa do Oceano Atlântico além das dunas a atraiu para as janelas. Ela forçou o trinco da porta e saiu para uma varanda que acompanhava os fundos da casa. Mal via as casas vizinhas pelas copas das árvores. O deck do andar de cima protegia parte da varanda do sol escaldante, e a escada que levava à areia a chamava. Mais tarde, prometeu. – Maravilhoso. Você vem muito aqui? – Umas duas vezes por ano. Isso explicava o cheiro de mofo e a falta de objetos pessoais espalhados. Ela virou-se para ele. – Você tem um pedaço do paraíso e só vem duas vezes por ano? Ele deu de ombros. – Trabalho em primeiro lugar. – Você precisa de um hobby, Eric. Um hobby que inclua esse lugar incrível. – Ela voltou para dentro e, sem avisá-lo, foi para o andar de cima e atravessou uma grande sala para olhar o mar. As paredes eram quase todas de vidro, fazendo-a se sentir lá fora, e a vista daquela altura era ainda mais espetacular. – Uau. Ela deu meia-volta e inspecionou os sofás cor de areia, mesas de vidro e o piso de carvalho envelhecido. No lado da rua, havia uma sala de jantar e uma cozinha com armários suficientes para fazer um chef babar, mas, de novo, não havia marcas da personalidade de Eric. Ele ficou parado no centro do cômodo e indicou uma passagem. – Meu quarto é por ali. O tom neutro atraiu seu olhar. Ela olhou-o nos olhos e viu algo. O quê? Um desafio? Um convite? O que quer que fosse, aquilo a deixou arrepiada. Venha ver minha casa, disse a aranha à mosca. Nós sabemos como isso acaba. – Bom saber. Vou escolher um quarto lá de baixo. UM DIA jogado fora, pensou Eric. Podia estar analisando os documentos em sua pasta ou fazendo contatos no clube da ilha. Em vez disso, estava sentado em uma cadeira na praia diante do chalé, com uma cerveja gelada – cortesia do isopor de Holly – na mão e olhando para a bunda de Holly. Uma bunda e tanto. Ele soltou um grunhido de autorreprovação e controlou os pensamentos inapropriados. Nas três horas em que estavam lá, Holly o reduzira a um adolescente. Cerveja. Mulher. Sexo. Era um líder, não um seguidor, mas, desde que chegaram, não parava de seguir o Furacão Holly. Se o deixasse sozinho, tinha receio de que fosse levar o caos aos vizinhos incautos. Naquele instante, Holly estava com o mar até os joelhos, de vara na mão e boné na cabeça. Seu biquíni verde-limão cobria mais que o da média das garotas com quem saía, mas a peça de baixo – “calção”, chamava ela –, cobria a parte inferior do corpo violão com uma dedicação de dar água na boca. E, toda vez que Eric lembrava-se do sutiã acomodando os seios dela, tinha que dar um mergulho. Olhou o relógio. Quanto tempo levaria para testar seu autocontrole passando mais filtro solar nas costas dela? Sobrevivera por pouco à primeira vez que massageara o creme na pele macia. Ah, como queria Holly Prescott, e cada vez era mais difícil lembrar por que não era boa ideia ter um casinho com ela. Tinha que anotar os pontos principais para não esquecer depois.


– Ei, pare com isso – gritou Holly, e espirrou água em sua direção. – Nada de olhar o relógio. Devia ter deixado seu Rolex no chalé. – Já mudou de ideia sobre a partida de golfe? O mar não está para peixe. Ela recolheu a linha e caminhou pelo raso até ele. Os músculos da coxa e os seios fartos o faziam desejar ter forças para desviar os olhos. O suor descia pelo decote dela. Uma gotinha pendia sobre o umbigo como um piercing. Ele morria de vontade de seguir o rastro dela com a língua. Os dedos dele se contraíram e a lata ficou amassada, derramando cerveja em sua mão. – Ah, Alden, não vai ser o fim do mundo se você tirar umas horas para relaxar. Você não precisa impressionar ninguém aqui. Não precisa puxar o saco de nenhum cliente. Não tem nenhum negócio para fechar. Dê um tempo. Vamos fazer a trilha. Deve ser mais fresco lá. Desde que chegaram, ela não pusera em prática o que pregava: não parava. Como ela conseguia parar quieta para criar seus vitrais? Ele tinha de admitir que se surpreendera com os detalhes dos painéis no restaurante. Holly era extremamente talentosa. Por algum motivo, nunca incluíam essa informação na hora de condenar o estilo de vida boêmio dela. E a família queria que ela desistisse. Eric sentiu algo muito parecido com orgulho nascer em seu peito. Ele o esmagou. Se Holly não cedia à pressão dos pais e da sociedade, não era com sua ajuda. Mas, depois de ver a arte dela, ficara contente que fosse assim. Se admirar a coragem dela, você só vai se meter em confusão. Ele levantou-se da cadeira. Como podia salvar o dia e evitar ficar sozinho em casa com ela se ela insistia em cancelar as reservas? Seu plano de preencher cada segundo fora sabotado. Quase tivera um troço ao ver que ela havia levado comida praticamente para todo o fim de semana. – A gente podia passar no clube para tomar um coquetel depois da caminhada. – Ele ofereceu-lhe uma toalha na esperança de que se cobrisse. Ela prendeu-a na cintura, tapando só metade dos seus magníficos atributos. Ele já não tinha idade para ter de lutar para não olhar para os peitos de uma mulher, mas foi o que fez. Ela soltou um grunhido e balançou a cabeça. – Melhor não. Foi a tequila que me meteu no leilão. Juro que nunca vou beber outra margarita na vida. – Holly, a alternativa é ficar na casa. Só nós dois. Ela engoliu em seco e crispou os lábios. – Então, que tal irmos à sorveteria depois do jantar? Alguma coisa gelada em uma atmosfera familiar seria menos íntima que o clube. – Excelente ideia. QUANDO O ato de tomar um sorvete virara uma preliminar? Holly lambeu o resto de sorvete dos dedos e tentou fingir que não percebeu os olhos de Eric acompanhando o movimento. Apesar das famílias que os cercavam na lojinha, o sorvete não era a única coisa que estava derretendo ali. Ela se remexeu na cadeira e aproximou os joelhos, mas os sinais da excitação persistiam. Estava sentindo calores desde que Eric ficara só de bermuda. Um burocrata não devia ter barriga definida e ombros enormes. E as pernas e a bunda... Nossa! Esguio. Musculoso. Uau.


O banqueiro tinha um corpão. Quem iria imaginar? Ela torcia para que não estivesse saindo fumaça das suas orelhas e da calcinha. Holly limpou a garganta e perguntou: – Acha que Octavia vai encontrar a gente? Eric parou com a colher entre os dedos longos. – As regras do leilão exigiam que eu contasse que viríamos para cá e desse nosso itinerário, mas temos vários fatores a nosso favor. Um: você mudou o itinerário. – Destruí, melhor dizendo – respondeu, com um sorriso satisfeito. – Isso. Dois: ela tem de seguir mais dezenove casais. Três: a não ser que ela alugue um barco, a barca é o único meio de chegar aqui. Ela não tem uma propriedade, então é mais difícil que o capitão a deixe passar sem reserva. Por último, não existe hotel aqui. Ela teria de vir apenas para passar o dia. Ele caçou a última lasca de chocolate da bola de sorvete no copinho e a levou aos lábios. Mais uma diferença entre eles. Ela era de duas bolas na casquinha, e ele preferia uma bola no copinho, mais arrumado. Mas descobriu que, no fundo, ele era um sensualista. Saboreava cada colherada como se fosse néctar, prendendo-a na boca antes de engolir, esperando derreter na língua. A decadência dela contra o autocontrole dele. Alguma vez ele já perdera aquela compostura? Se sim, onde? Na cama? Nem pense nisso, Holly. Ao lembrar-se dos comentários sobre os dotes de Eric na cama, ela sentiu outra onda de calor. Tomou um gole de água, esperando que a esfriasse. Mas não funcionou. – Você já pensou em quebrar as regras e não dizer a Octaviana que saímos de Wilmington? Ele deixou a colher no copinho e afastou-o. Devagar. Deliberadamente. Tudo nele era deliberado assim? Até satisfazer uma mulher? Jesus, você parece um cachorro no cio. – Já driblamos as regras quando deixamos de ir aos encontros da programação. Holly balançou o dedo. – Mas a letra miúda diz que pode haver alterações, se necessário. Eu considero fugir da minha examiga traíra uma necessidade. – É o trabalho dela. – Publicar artigos cheios de insinuações sexuais e se esconder no escuro para bater fotos? – Deixe suas opiniões pessoais de lado e pense do ponto de vista comercial. O que vai vender mais jornais? Encontros comuns ou sensuais? – Entendi, entendi, mas não é verdade. – Não? – A palavra rápida a deixou paralisada. A tensão cresceu entre eles. – As fotos são reais, Holly. Sua amiga só está sendo direta. Por mais que a gente não queira aceitar, não há difamação envolvida. – Nunca imaginei que fosse ficar do lado dela. – Não estou tomando partidos. Só quero que você examine a situação de forma objetiva e olhe para os artigos da perspectiva do marketing. Octavia Jenkins é uma jornalista ambiciosa que quer ver seu jornal no maior número de casas possível. – Eu sei, mas me sinto traída. Eu devia agradecer por ela não ter ouvido sua piada de gigolô, ou meu nome ia estar na lama, porque ela iria publicar. Ele fez uma careta.


– Desculpe. Ela ergueu a sobrancelha. Eric pedindo desculpas? Inacreditável. – Só peça desculpas se forem sinceras. – E são. – Então por que você falou? O ruído dos outros casais reunindo os filhos e deixando as mesas quando a sorveteria fechou preenchia o silêncio entre eles. O pulso de Holly acelerava a cada segundo. – Eric, pare de procurar a resposta “certa” e desembuche. Você sabe que o que eu mais respeito é sinceridade. O queixo dele se contraiu e ele expirou. – Porque você não é a única na corda bamba. Chocada, ela ficou boquiaberta, mas Eric prosseguiu: – Sinto atração por você e estou lutando comigo mesmo. Não preciso ter de lutar com você também. Eu estava tentando afastá-la. – Mas... mas... – A infusão súbita de hormônios no sangue congelou o cérebro dela. Não conseguia pensar, não achava palavras que expressassem o turbilhão dentro de si. – Mas eu... Ela o quê? Por que não podiam voltar a ficar juntos? Seu coração batia forte. Ah, sim, porque ela não se encaixava no mundo dele e não queria perder a amizade com Juliana. Mas Eric não queria um relacionamento permanente. E a irmã dele não precisava saber, não é? Holly enxotou o diabinho que tentava metê-la em apuros. – Achou que me fazer ter um orgasmo na minha varanda iria me afastar? – Minha intenção era fazer você cumprir o que dizia. Fui mais longe do que eu pretendia porque... – Ele cerrou o punho sobre a mesa. – Porque, no calor do momento, esqueci meu objetivo. Aquela confissão a espantou. Então ele não estava tão controlado naquela noite quanto queria levá-la a crer. – Você me quer? Eu? Uma amazona ruiva e desajeitada? Os olhos dele encontraram os dela com uma paixão que a deixou sem fôlego. – Quero tanto que até meu cabelo está duro. O calor acendeu-se dentro dela como em um forno. – Uau. Quando está sendo sincero, você é sincero mesmo. É, acho que gostei disso. Esqueça, Holly. Desista. Deixe que Eric seja a voz da razão, porque você não está conseguindo pensar direito. Mas ela não podia deixar para lá. Nunca sentira tanta atração física por alguém antes, e sabia muito bem que resistir só aumentaria o apetite. Se satisfizesse o desejo, iria passar. Ela amassou o guardanapo. – Então por que estamos aqui enquanto podíamos estar no chalé... nos conhecendo melhor? Ele inspirou fundo. – Foi você que disse que tinha muito a perder se ficássemos juntos. – E tenho, mas só se tentarmos fazer essa relação durar. Se for algo casual, pode ser bom. Muito, muito bom, pelo que já vi. Ele apertou os olhos, mas ela não esperou a resposta.


– Você já ouviu aquela música do Toby Keith que diz que o que acontece no México não pode sair do México? O mesmo pode valer para essa ilha. Os olhos de Eric brilharam, e então a expressão de banqueiro apagou qualquer traço de sentimento. – Muito arriscado. – E você nunca aposta? – Só quando o vento está a meu favor. Ela pôs os cotovelos na mesa, apoiou o queixo nos dedos entrelaçados e olhou-o. – E que parte de um caso de fim de semana não está a seu favor, senhor Alden? Eric xingou baixinho e observou a área. As famílias não estavam mais lá. Só restavam duas delas nas mesas. – Holly... – Vamos precisar de camisinhas. Não trouxe nada. Você trouxe? – Não – respondeu com rispidez. Antes de ela ser completamente tomada pela decepção, ele acrescentou: – Mas deve ter na loja da ilha. E está aberta. – Ele olhou para o Rolex. – Por mais dez minutos. O pulso dela foi nas alturas. O ar deixou seus pulmões. Ela inspirou profundamente. – Então vamos. Eles jogaram o lixo fora apressadamente e voaram até o carrinho. Instantes depois, Eric estacionou na frente da loja. – Última chance de mudar de ideia. – A voz dele parecia mais séria. Era o único sinal de que não estava tão calmo quanto parecia. – Nem pensar. – Prudente ou não, ela fizera sua escolha. – Quer vir comigo? Ela balançou a cabeça. Estava de pernas muito bambas para sair do carrinho. Ridícula. – Surpreenda-me. Eric entrou na loja. Para não correr o risco de pensar em pisar no acelerador e fugir, Holly ligou o rádio e o sintonizou em uma estação de música country. Cantou Chris Cagle, Kenny Chesney e Gary Allan antes de Eric sair da loja de sacola na mão. O coração dela parou. Estaria cometendo um erro? Talvez. Provavelmente. Mas não seria nem o primeiro nem o último. Erros eram o seu forte. Eric subiu no carrinho, encarou-a por um instante tenso e então o veículo disparou na escuridão. O luar era filtrado pelo dossel das árvores. Coelhos, gambás e uma rena fugiram dos faróis. Em condições normais, Holly iria querer parar para ver os animais. Mas não naquela noite. Naquela noite, ela tremia de desejo pelo homem ao seu lado, e, a julgar pelos olhares rápidos que ele lhe lançava, era recíproco. Levaram uma eternidade para atravessar a ilha e parar o carro. O silêncio, pontuado pelo coro de sapos e insetos, os encurralou. – Última chance – repetiu ele. Ela engoliu em seco e esfregou as mãos úmidas no short, mas não tentou sair do carrinho. – Você já disse isso. Ele continuou a olhar para a frente. As mãos apertaram o volante até as juntas ficarem brancas à luz baça. – Se eu beijar você aqui, não vamos conseguir entrar.


O sussurrou rouco quase a destruiu. Holly não conseguia se mexer. Não conseguia respirar. Os músculos se contraíram e o calor sibilava nos poros. – E isso nos traria problemas? Em resposta, outro carrinho de golfe passou pela estradinha, o farol brilhando na noite. Os passageiros buzinaram e acenaram. Holly e Eric devolveram o cumprimento mecanicamente. Eric deu uma risadinha sexy e balançou a cabeça. Virou-se para ela, e o sorriso em seu rosto fez o sangue dela cantar. – Sem dúvida. Ai meu Deus. Ela estava nervosa. Não lembrava quando fora a última vez que a ideia de dormir com um homem a deixara nervosa, fora a timidez de ser vista pelada. Era muito mais que aquilo. – Na... na sua cama ou na minha? – A sua é mais perto. – A voz dele era rouca e séria. – Tudo bem, então. – Mesmo assim, nenhum deles se mexeu. O coração de Holly martelava e o pulso latejava em seu ouvido. Ela não ia sair do carrinho, não? Iria parecer muito apressada se saísse antes dele. Não havia nem uma brisa naquele momento. A pele dela estava molhada, e as roupas, grudentas. Arrependeu-se de não ter tomado um banho para tirar o suor, a areia e o filtro antes de ir à sorveteria. Eca. Eric devia estar acostumado com o cheiro de mulheres limpas. – Eu, bem... devia tomar um banho antes. O peito de Eric subiu e desceu. – Cabem dois no meu chuveiro. Ui. Será que suas pernas aguentariam subir três lances de escada? Talvez sim, talvez não. – Tudo bem. Ele virou a cabeça e seus olhares se encontraram. – Tem um também na lavanderia, no lado do mar. Menor, mas mais perto. Ela ficou sem ar. – Lá embaixo? – Isso. – Aqui fora? – Parcialmente coberto. – Tem privacidade? – Dá para o gasto. – Longe? – A uns sete metros. Holly umedeceu os lábios secos. – Acho que consigo andar até lá. Outra risada irresistível saiu da garganta de Eric. – Eu também. Ele a queria. Muito. Cada linha tensa do seu corpo, o maxilar de pedra e a rigidez dos olhos negros transmitiam aquele desejo. Algo desabrochou dentro de Holly com aquela constatação, e o nervosismo se transformou em fome. – Então... o que estamos esperando?


CAPÍTULO 8

ERIC DEU uma última chance para que a sanidade se impusesse. Como ela não apareceu, ele agarrou a sacola de camisinhas com uma mão e pegou os dedos de Holly com a outra. Em seguida, puxou-a pelo banco. Ela desequilibrou-se ao sair do carrinho e caiu em cima dele. A eletricidade do contato o percorreu, dando um curto na sua razão. Holly olhou-o nos olhos. O desejo escurecia seus olhos caramelo e fez seus lábios se separarem. Ela os umedeceu com a língua, fazendo-o tremer. A pressão dele subiu a uma velocidade incrível. Ele rilhou os dentes enquanto o controle vacilava. – Por aqui. – A voz dele saiu rouca, como se houvesse engolido as conchas em que pisavam. Quando chegaram à ducha atrás da casa e ele apagou a luz, seus pulmões gemiam como se tivesse corrido morro acima. Ele arrastou Holly para o vestiário entulhado, largou as camisinhas no banco, segurou-a pelos ombros e a prensou contra o box do chuveiro. Mal podia esperar para beijá-la. Ela abriu a boca, recebeu a estocada da língua dele e enroscou-se em Eric com uma rapidez gratificante. Os narizes e dentes de chocaram, mas ele não podia ir mais devagar; não tinha controle sobre sua fome. Ele devorou a boca dela, mordiscou o lábio, acariciou a cintura, quadril e costas, então agarrou os cabelos curtos e sedosos, ajeitou a cabeça e beijou-a com mais intensidade, interrompendo apenas para respirar. Passou as mãos pelo top dela, subiu pelas costelas e parou no sutiã. Voltou, encontrou a barra da camisa, tentou puxá-la. O tecido elástico fisgou debaixo dos seios de Holly. Frustrado, ele soltou a boca dela e se afastou um pouco. – Como eu tiro isso? – Sutiã... preso. – Holly pontuava as palavras com beijos e mordiscadas incendiários em seu pescoço. – Fecho... atrás. Os dedos dele encontraram o fecho pouco familiar. Se não parasse de tremer, nunca conseguiria deixá-la nua. Nua. Imaginá-la nua em seus braços não estava ajudando-o. Ele se forçou a respirar fundo e expirou quando ela mordeu sua orelha. Fora a primeira vez. Nunca se sentira tão ansioso em seus 36 anos de vida. E, como na primeira vez, aquilo iria acabar antes que baixasse as calças se não conseguisse se controlar.


O top dela afrouxou. Finalmente. Eric o tirou pela cabeça dela e jogou para trás. Sem paciência. Sem elegância. E então os seios fartos e arredondados estavam bem ali diante dele, convidativos, aguardando sua boca, e tudo o que importava era acariciar aquela pele sedosa e quente, apalpando as pontas enrijecidas e sentindo-a. Ele baixou a cabeça e tracejou o círculo escuro com a língua antes de pô-lo na boca. A fragrância dela, uma mistura de sal, creme e Holly pura, encheu suas narinas e subiu-lhe à cabeça como um conhaque. Ela soltou um gemido e mexeu a cabeça de um lado para o outro enquanto ele chupava. Os dedos dela agarravam os cabelos dele, e Holly sentiu um calafrio. Mas a calmaria durou apenas alguns segundos: Holly logo tirou a camisa polo dele. As unhas curtas roçaram os cabelos do peito dele e o abdome se contraiu. Ela passou o braço pela cintura dele e os seios macios se uniram ao peitoral de Eric. Seios nunca foram a preferência dele, mas, naquele instante, ela o converteu. Eric gemeu e lutou para manter o controle, mas Holly pôs as mãos em seu rosto e ficou na ponta dos pés, os mamilos duros rasgando um caminho no peito dele. Ela o alimentava com um beijo entorpecente após o outro. O contato da barriga dela com sua ereção acabou com as resistências de Eric. Não podia esperar. Forçou a mão entre eles. O botão do short dela cedeu e, devagar, ele mergulhou a mão pela calcinha, baixando as vestimentas pelas nádegas redondas e pelas pernas compridas. Holly tirou as roupas e as sandálias rasteiras com um chute e ficou nua diante dele. Estendeu a mão na direção dele, mas Eric a segurou de uma certa distância para saborear as curvas voluptuosas e os cachos cor de cobre dela. – Incrível. Ela mordeu o lábio. – Não precisa mentir. Ele viu a dúvida nos olhos de Holly antes de ela desviar a cabeça. – Não estou mentindo. Holly, você é... uma obra de arte. Um sorriso hesitante surgiu em seus lábios inchados. Eric soltou-a, tirou os sapatos e fez menção de tirar o cinto. Holly segurou-lhe a mão. – Eu faço isso. Os dedos dela mergulharam atrás da fivela, soltando o couro. O zíper desceu com uma lentidão torturante, e então ela baixou o short cáqui e a cueca. – Eita, rapaz. – Ela pôs as mãos na carne dura e acariciou-o da base à ponta. Eric inspirou fundo e fechou os olhos, o desejo pulsando insistentemente sob as mãos dela. – Holly – gemeu ele. – Olhe. A risada mais sensual que ele já ouvira o dominou. – Quero fazer mais do que só olhar. Ele achou que ia explodir. O instinto de sobrevivência o levou a acertar a torneira do chuveiro com o cotovelo. O jato de água fria nas costas lhe deu um fiapo de autocontrole. Holly deu um pulo e gritou: – Cruzes. – Você queria tomar um banho. – Mas não frio. – Ela se encolheu ao lado dele, esfregando os braços molhados. Ele achava que seria impossível os mamilos dela ficarem mais duros, mas gostou de ver que estava errado. A água esquentou. Ele a pegou pela cintura e arrastou para baixo da ducha, agradecendo em pensamento aos empregados, que mantinham o porta-sabonete líquido cheio. Eric encheu a mão de


sabonete, esfregou-a nos ombros dela e virou-a para massagear suas costas. Os braços dele a envolveram, trazendo-a para si e acariciando os seios dela, a barriga e entre as suas pernas. Ele encheu a mão de sabonete novamente e a acariciou até o contato das nádegas com a sua ereção quase o fazer gozar. A única escapatória era dar banho nela sob a ducha. Ela arquejou e o empurrou para o banco. – Vai ter volta, canalha. E então ela o levou à loucura com suas mãos talentosas e ensaboadas. Ela lavou pescoço, ombros, costas e peito. A ligeira fricção dos calinhos em seu corpo lembrou-o de que Holly não era uma socialite mimada. Ela trabalhava com as próprias mãos, as mesmas mãos que o conduziam ao clímax. Quando ela foi pegar mais sabão, Eric resolveu intervir para não perder o que lhe restava de razão. Ele agarrou a sacola de camisinha, abriu a caixa e tirou um pacote. Holly estendeu a mão. – Eu boto. – Não – resmungou. – Não dessa vez. – Ele pôs a proteção e encostou a cabeça na parede. Queria beijá-la de novo, mas não iria suportar outro encontro com aqueles lábios. – Venha cá. Holly não titubeou. Apoiando os joelhos no banco, abaixou-se no colo dele. Eric agarrou os quadris dela e olhou-a nos olhos. – Devagar. O calor pegajoso dela provocou a cabeça e ela baixou devagarinho, sem perder o contato visual. As pupilas dela se expandiram. Os lábios se separaram. O rosto corou. E os seios enrijeceram-se quando ele a preencheu pela metade. A expressão de puro desejo hedonista o fez contrair os músculos e rezar para conseguir se segurar para satisfazê-la. – Não posso esperar – sussurrou ela, antes de descer rápido e envolvê-lo completamente. Ela levantou e repetiu o processo. Uma vez. Duas. Uma terceira. – Pare. – Ele passou os braços pelo corpo molhado, misturando as curvas suaves ao seu torso duro. – Parar agora? Ficou maluco? – Confie em mim – disse entre dentes e apertou o porta-sabonete. Ele ensaboou-a de novo. As bolhas desciam. Ele acompanhou-as com os dedos, entre os seios e depois sobre eles, e então mergulhou nos pelos até encontrar o botão delicado que a fez gemer e arquear-se toda. A água tamborilava na cabeça e ombros deles, lavando a espuma na mesma rapidez com que ele a criava, até que só restaram as gotículas onde seus corpos se uniam. Ele prendeu um mamilo na boca e Holly gemeu: – Eric, por favor! Ele acariciou e chupou, fazendo-a subir e descer de novo. Mais fundo. Mas devagar. Muito. Devagar. A cada subida e descida, ele ficava mais distante da sanidade. Ele tremia com o esforço de se segurar enquanto Holly se contorcia impaciente sobre ele. E então ela gritou e estremeceu. Seus músculos internos o apertaram, e o controle tênue de Eric se partiu. Ele estocou o mais fundo e rápido que pôde. As explosões começaram em sua virilha e subiram para o resto do corpo como em um edifício em demolição, até sobrar uma massa disforme sob Holly. E, então, fez-se silêncio no box, à exceção do eco de respiração ofegante e da água que chovia em seus corpos saciados. Holly desabou em cima dele, a cabeça apoiada em seu ombro, os arquejos queimando o pescoço.


Ele fechou a torneira e a noite úmida de verão o cercou. Droga. A noite era quente, mas a frieza da humilhação diminuiu seu desejo. – Peço desculpas. Holly enrijeceu-se e levantou a cabeça. – Pelo quê? Precisava perguntar? – Por ir muito rápido. Ela reclinou-se sem desconectar seus corpos. – Foi bom? Ele soltou uma risada autodepreciativa. – Não percebeu? Foi tão bom que me senti virgem de novo. E para você? Um sorriso abriu-se na boca dela e dançou em seus olhos. – Não deu para ver, pelos meus gritos? Deixe-me eu dar uma dica para o futuro, Alden. Não peça desculpas depois de fazer uma mulher gritar o seu nome. ERIC SORRIU, de verdade, como Holly nunca o vira sorrir antes. Estava feliz e à vontade. Algo amoleceu dentro dela. Com certeza não era ele. As mãos grandes acariciavam suas nádegas, acendendo cinzas que ainda não haviam esfriado, e o que devia estar mole não estava. Ele mexeu os quadris e ela ficou boquiaberta diante do vigor renovado dele. Rapaz, eu vou conseguir me acostumar com isso algum dia? Foi aí que percebeu: não poderia. Eles deixariam a ilha no dia seguinte e iriam esquecer que aquilo acontecera. Nada de mais. Ela daria conta. Nada de errado com um relacionamento só de sexo. Homens vivem fazendo isso. A maioria das mulheres, não. É, mas você não é uma delas. Se fosse, estaria feliz com a sua antiga vida de paparicos, delegando o trabalho sujo e levando a existência vazia e despreocupada de uma herdeira. Ela fechou os olhos para esconder os pensamentos tempestuosos e abriu-os de novo quando os dentes de Eric lhe roçaram o pescoço com um erotismo que fez seu coração acelerar. É, talvez ela fosse ter um probleminha no futuro, quando visse Eric numa sala lotada em alguma ocasião social pomposa e tivesse de fingir que ele não lhe dera orgasmos arrasadores. Mas iria superar. Era isso ou poria em risco tudo pelo que lutara. E, embora quisesse mais do que prometiam as mãos talentosas e o corpo bem-dotado de Eric, precisava de alguns segundos para pensar direito. Ela empurrou os ombros dele. – Não quer continuar lá em cima? Suas pernas devem estar dormentes do meu peso. – Nada em mim está dormente. – Ele pontuou o comentário com outra estocada de tirar o fôlego. Uau. – Eu sou grande. – E de proporções perfeitas. – As mãos dele delinearam sua silhueta, parando para lhe massagear os mamilos. Ela sentiu o estômago apertado. Se ele continuasse dizendo aquelas coisas, iria acabar esquecendo que não passava de sexo. Deu um soco no ombro dele.


– Deixe-me levantar. Eric a soltou e Holly tocou o chão, um pé de cada vez. Afinal, não se sentia vazia sem ele dentro de si. Eram as pernas dela que estavam dormentes. Ela cambaleou. Eric se levantou e segurou-a pela cintura até que recobrasse o equilíbrio. Ela cruzou os braços, tentou ignorar o corpo maravilhoso dele e concentrou-se na pilha de roupas suadas no chão. Vesti-las não seria nada excitante. – Deve ter toalhas na lavandeira. – Ele a agraciou com uma vista espetacular quando se abaixou, apanhou a calça e pescou a chave do bolso. Ela cerrou o punho para conter o desejo de acariciar-lhe as nádegas. Eric endireitou-se e abriu uma segunda porta no vestiário que ela não percebera antes. Mas antes estava meio distraída. Ele passou por ela e voltou com uma toalha de praia na cintura e outra na mão. – Obrigada. – Ela logo afastou os olhos da protuberância na toalha dele e se embrulhou na sua. – Então, er... Puxa, que situação constrangedora! E a culpa era dela. Fora Holly que ditara as regras. Não era culpa de Eric se estava... um pouco confusa. Ela queria e não queria. Ele a fizera se sentir tão bem. E, ao mesmo tempo, era completamente inadequado para ela. Ele ergueu o queixo dela até que o olhasse nos olhos. – Holly. – Quê? – Fico preocupado quando você não diz o que está pensando. Daquela vez, não queria expressar seus pensamentos. Logo foi socorrida por uma resposta espertinha. – Só estou imaginando se você é tão bom lá em cima quanto aqui embaixo. Ele encheu-se de surpresa, e suas pupilas se expandiram. Um sorriso voraz atravessou a boca. – Você vai descobrir já, já. HOLLY NÃO queria sair de baixo do braço masculino pesado que a prendia ao colchão e abandonar o calor da cama de Eric. Mas a campainha indicava que alguém teria de se levantar, e sobrou para ela. Eric estava num coma ao seu lado. Nenhuma surpresa. Ela deu um sorriso cansado. Passaram metade da noite acordados fazendo amor – sexo –, e já estavam na quarta ou quinta rodada. O banqueiro dela era bom de cama. E Holly não se incomodava com o fato de que as outras sabiam. Mentirosa. Ele não é seu banqueiro. Pelas próximas seis horas, é. Ficou parada ao lado da cama, saboreando cada centímetro dele, então procurou as roupas no chão. Nada. A campainha tocou de novo. Ela pescou do armário a camisa que ele usara no dia anterior e abotoou-a enquanto descia a escada. O odor masculino de Eric ainda a cercava. Ela abriu a porta para... ninguém. Um caleidoscópio de cores chamou sua atenção para o carpete. Flores em um vaso de cristal. Hum. – Deve ser engano – murmurou. Na esperança de alcançar o entregador, ela agarrou o arranjo e foi até a balaustrada. A mensagem de feliz aniversário no envelope a deteve. Era aniversário dela. E só Octavia sabia que Holly estava na ilha. A tensão invadiu seus músculos. – Droga. Droga. Droga.


E lá estava ela, só com a camisa de Eric, na frente de qualquer traíra com uma câmera. Não daria uma bela foto no jornal de sábado? Não. Holly deu uma olhada no entorno tentando achar a amiga traiçoeira, voltou rápido para o chalé e esbarrou em uma parede de músculo. Braços fortes a envolveram e puxaram para o calor de um peito desnudo. Um beijo marcou seu pescoço e fez o pulso acelerar. – Feliz aniversário – murmurou Eric ao ouvido de Holly, em sua voz sensual. – Você sabia? – Por que outro motivo eu mandaria flores? Não eram de Octavia? Holly enfiou o vaso nos braços de Eric e abriu o envelopezinho: “Feliz aniversário. Eric.” Ela fechou os olhos e apertou o cartão no peito. Sentia alívio por não ser a câmera intrusiva de Octavia misturado com alegria: fora Eric quem lhe dera flores. Não exagere o significado disso. Ele deve mandar flores o tempo todo. Mantenha a coisa casual. – Holly? Ela olhou-o nos olhos, enrugou o nariz e fechou a porta com o quadril. – Pensei que fossem de Octavia e quase tive um treco. Como você sabia do meu aniversário? Ele estava só de bermuda. O cabelo escuro estava exatamente como ela o deixara: bagunçado e sexy. E a boca sensual dele, cercada por uma barba matinal, deixou-a excitada. Ela sabia como era boa a sensação daquela barba em áreas sensíveis – áreas que formigavam diante da ideia de uma nova visita. – Você mencionou semana passada. Perguntei o dia a Juliana. Juliana. A irmã dele. Sua melhor amiga. Holly não queria se sentir culpada naquela manhã. Esmagou a lembrança. Juliana, Andrea e Holly faziam aniversário a poucas semanas umas das outras. Costumavam comemorar juntas, mas, naquele ano, o leilão interferira. Prometeram consertar isso depois dos encontros. – Quando você encomendou as flores? – Ontem, enquanto você estava conversando sobre iscas na loja. Antes de resolverem dormir juntos. Ela sentiu um aperto. Se ele continuasse a fazer coisas assim, Holly teria dificuldade de esquecê-lo. Quem você quer enganar? Já está com problemas. – Obrigada. – De nada. Enquanto você foi abrir a porta, eu mudei nossa reserva para a última barca da noite. Queria que completássemos toda sua lista. Andar de bicicleta, de canoa. Mas primeiro... – Ele passou os dedos pelos botões abertos da camisa dela. – ... temos de testar meu chuveiro. Desejo pulou dentro dela feito pipoca de micro-ondas. Sua ânsia por Eric não seria tão fácil de saciar quanto imaginara. FIM DO recreio. Eric deixou o fim de semana de lado e carregou as malas para o carrinho de golfe. Estava tenso. Não ficava tão relaxado assim desde que entrara para o negócio da família e descobrira a fraqueza do pai, mas agora teria de pagar por gastar quarenta horas sem se preparar para negociar a fusão. Baxter Wilson era terrível de lidar e iria procurar sinais de fraqueza no Alden Bank. O dever de Eric era minimizá-los e mostrar as vantagens daquela negociação.


Atrás dele, Holly virou a chave na porta. Era o que Eric precisava fazer com aquela atração. Ela o fizera esquecer suas prioridades. Viu-a levantar o isopor. Bastava olhar para ela que a desejava de novo. Para o inferno com o trabalho! Ele a deixara se aproximar, mas não era como o pai. Nunca seria controlado por uma mulher. Estava na hora de reestabelecer os limites. – Pode deixar, Holly. Eu pego. Ela resmungou. – Nem vem. Eu pareço frágil? Não. Ela parecia forte, capaz e sexy de short e top. Havia uma camada nova de sardas no rosto e nos ombros, pois não foram muito cuidadosos com o filtro. Ele jogou as malas no carrinho e tomou o isopor dela. Holly sorriu para ele. Sua fragrância preenchia o ar noturno. Ele resistiu à tentação de roubar mais um beijo, pois não queria acabar levando-a para o chuveiro de novo. Seu corpo encheu-se de eletricidade ao lembrar-se do banho. Determinado a ignorar a atração, marchou até o carrinho. – Não temos mesmo de limpar o chalé? – Holly caminhou até o carrinho e parou para olhar a casa. Se não estivesse escuro, provavelmente iria sacar a câmera. Tirara fotos por toda a ilha alegando que precisava delas para o trabalho, mas não era o trabalho que a fazia sorrir assim. – Devíamos pelo menos tirar a roupa de cama e o lixo. – Os empregados cuidam disso. – Aquele interlúdio idílico precisava acabar. Agora. Ele precisava voltar ao mundo real antes que fosse tarde. Se voltassem, ele podia não ter forças para partir sem fazer amor de novo e não conseguiria deixá-la. Fora a melhor transa da sua vida, mas ninguém era menos adequada a um banqueiro. Precisava de alguém que reconhecesse a importância de contatos poderosos, que soubesse conter suas emoções. Holly não só falava o que pensava, como seus olhos entregavam tudo. Teria odiado o clube. Os membros leriam seus pensamentos e acabariam com ela. Sentou-se no banco e olhou para o relógio. Estava em cima da hora. – Temos de sair agora. – Tá. – Ela deu alguns passos em sua direção e parou. – Er, Eric, temos um probleminha. – Qual? – Sua voz estava áspera de impaciência. A mágoa no rosto dela encheu-o de remorsos. Ela cruzou o braço. – Pneu vazio, Einstein. Ele pulou do veículo e foi até ela. O pneu do passageiro estava murcho. – Droga. – Você tem uma bomba ou algo assim? – Sempre prática. Via um problema e tentava corrigi-lo. Ele admirava mulheres que não dependiam do homem para botar a mão na massa. – Não. – Em casa, não seria tão descuidado com o carro, mas, ali, deixava esses detalhes para os funcionários. Não ia lá com tanta frequência. Ele passou a mão pelo cabelo. Se não corressem, iriam perder a última barca. Puxou o celular. – Vou chamar um transfer. O operador atendeu. Eric explicou o problema. – Desculpe, sr. Alden. O transfer já está reservado. Só vai estar disponível depois da última barca. Holly espreguiçou-se ao seu lado. Inclinou a cabeça para a direita, para a esquerda. O luar revelou uma nesga de pele entre o short e o top, atiçando-o. Ele afastou o olhar da tentação.


– Preciso ir embora hoje. – Desculpe, senhor. O único jeito é pedir carona para um vizinho. Ele rilhou os dentes. Não conhecia os vizinhos. As bicicletas já haviam sido recolhidas e o terminal era longe para ir a pé. Estavam presos. Amaldiçoou o pulso acelerado. – Então transfira a reserva para de manhãzinha e mande um carro. – Sim, senhor. O transfer pegará vocês às 5h45. – Obrigado. – Ele desligou o celular e tentou negar a expectativa que o percorria. – Estamos presos até amanhã? – Estamos – despejou, e xingou baixinho. Se tivesse bom senso, mandaria Holly para um quarto de hóspedes. – Não morra de alegria por passar outra noite comigo. O sarcasmo de Holly atiçou seus nervos. O problema era aquele. Em parte, estava extasiado com a ideia de passar outra noite com ela, o que era mau. A força daquele desejo o enfraquecia. – Você faz seus horários, mas eu tenho uma reunião importante amanhã. – Ele não podia perder a dianteira nas negociações e precisava preparar tudo. Ela pôs a mão na cintura. – Eric, eu não tenho empregados que dependem de mim, mas também trabalho amanhã. Tenho de preencher alguns contratos e dar aula. Sei que é inconveniente passar mais uma noite aqui, mas você não devia descontar em mim. Vamos conseguir chegar ao trabalho antes das 9 horas. – Preciso avisar Tina que tive um contratempo e pedir para ela cuidar dos cachorros até eu chegar. Você é um egocêntrico, Alden. Só pensa em você. – Tinha me esquecido dos cachorros. – Eles não o esqueceram. Graças às suas fotos, quatro arrumaram um lar e todos os filhotes estão reservados. Holly ajoelhou-se ao lado do pneu. – Olhe só. A tampa está do lado do pneu. Alguém deve ter feito de propósito. Chute quem. Eric bufou. – Jenkins. – Boa. – Holly levantou-se. – Quero torcer o pescoço dela. Seus lábios tremeram. Como Holly conseguia? Ela o fazia sorrir mesmo irritado. Não era a primeira vez. Mas precisava ser a última. Seus planos para o futuro não envolviam uma mulher capaz de destrambelhar sua carreira. Ele pôs as malas no ombro e subiu a escada. Se contasse a manhã na praia, a caminhada na trilha, a sorveteria, a andada de bicicleta e de canoa, só restavam mais duas saídas com Holly para se ver livre dela. E mal podia esperar para o último encontro.


CAPÍTULO 9

A PORTA do estúdio de Holly se abriu quinze minutos antes da aula. – Posso entrar? Octavia. Holly respirou fundo e deixou a folha de vidro líquido na mesa. – Traidora. – Estou tentando ajudar você, Holly. Holly engoliu um som sarcástico. – Fazendo-me de idiota? – Não, mostrando ao mundo e a você, minha amiga cega, que é uma mulher bonita que merece mais que os caras com quem sai. – Quando Octavia se empolgava, seus olhos brilhavam e a pele morena ficava corada. – Ah, vá passear. – Você passou o fim de semana na cama de Eric Alden ou não? – Octavia estendeu a mão antes que Holly pudesse responder. – Antes que conte lorota, saiba que o chupão no seu pescoço diz tudo. Holly segurou-se para não arrancar as luvas e cobrir o ponto, que devia estar brilhando feito um farol. – Como vai passar uma imagem boa de mim publicando tudo aquilo no jornal? Todos vão me achar uma vagabunda, menos minha mãe. Ela vai achar que superei minha “rebeldiazinha” e finalmente estou namorando um “homem aceitável”. Ela deixou três recados no meu celular dizendo que está orgulhosa por eu ter tomado jeito. Mal sabia ela que eu estava fazendo aquilo com ele na hora. E agora ela quer dar um jantar para nós e os pais de Eric. – Holly, você praticamente cortou relações com sua família. – Com motivo. Eles me consideram uma vergonha. – Então mostre que é boa no que faz em vez de ficar se escondendo. Pare de ser a Rainha da Negação. É sua herança, e família é só uma. – Ainda bem. Já dá trabalho suficiente. – Ela ligou o ventilador. – Você planeja trabalhar ou só tagarelar? – Quando eu tinha 14 anos, meus pais foram baleados na frente de casa por uma gangue de carro. A afirmação crua a fez parar. Sentiu uma onda de choque e compaixão.


– Não sabia. Sinto muito. – Foi o seguinte: eu era uma filha ressentida que detestava os pais... até perdê-los. Eu estava malhumorada no quarto depois de outra briga, quando ouvi o tiroteio. Quando cheguei, já era tarde. Depois disso, passei de parente em parente. Não demorou para perceber como eu tinha sorte de meus pais quererem o melhor para mim. Como os seus, Holly. A raiva de Holly murchou. Para esconder a compaixão nos olhos, alinhou as ferramentas em uma mesa. – Octavia, é diferente. – Não é. Faça as pazes enquanto pode. – Octavia foi até o cabideiro e puxou um macacão. Era imprescindível usar proteção para trabalhar com aqueles materiais. – E meus artigos não são ficção. A química entre vocês é enorme. – Era, até ele ficar frio comigo – despejou Holly, mas logo se arrependeu. – Como assim? Ela hesitou. – Quando você estava na ilha, o que viu? – Eu e Raymond chegamos domingo, quando vocês voltaram de bicicleta e entraram no chalé feito unha e carne. Voltamos na última barca, graças a dois passageiros que não apareceram. – Ela piscou. Holly tentou conter as faíscas acendidas por aquelas lembranças, mas sem sucesso. Elas ardiam baixinho, como se esperassem só um vento para começar um incêndio. Da primeira vez que fizeram amor – sexo – no sábado, até a hora de fazer as malas, Eric se dedicara a relaxar tanto quanto se dedicava ao trabalho. Conteve um sorriso, porque claramente fora difícil para ele. Não devia ser. Todos precisam de equilíbrio. Trabalho e diversão. Quem iria equilibrar Eric quando ela não estivesse mais em sua vida? Ela afastou o pensamento. Não é da sua conta. – Raymond? Seu comparsa fotógrafo? Octavia escondeu o rosto, mas Holly viu-a corar. Ela teria de fuçar aquele relacionamento quando resolvesse a questão com Eric. – Sim. – Vocês esvaziaram o pneu? – Pensei que vocês precisassem de mais tempo. – Por quê? Não é um relacionamento temporário? – Não precisa ser. Talvez ele seja o elo entre você e sua família. E é óbvio que vocês gostam um do outro. Holly bufou. – Pensei que você fosse uma repórter investigativa camuflada. Como conseguiu se enganar tanto? – Não me enganei. Agora explique a da frieza. Holly hesitou. Conhecia Octavia havia anos e, até o leilão, confiava nela. Precisava desabafar. Juliana era irmã de Eric, e Holly não queria envolver Andrea naquela situação. – Em off? – Em off. – Eric estava distante na noite de domingo. Dormimos juntos e o sexo foi ótimo. – Fez uma pausa. – Bom, seria ótimo se não tivesse a noite de sábado para comparar. Mas foi como se ele tivesse voltado a ser Eric Alden, vice-presidente do banco. Não era o mesmo cara de antes do pneu vazio.


Octavia mordeu os lábios. – Ele estava com raiva de mim e descontou em você? Holly sacudiu a cabeça. – Acho que ele estava de ressaca moral. – Holly, você não tem como saber. – Ele não precisa dizer. Eu pesquei o recado de “preciso de espaço” quando ele mal me deu “oi” essa manhã. – A volta fora silenciosa e tensa. Eric não fora grosseiro, mas sim solícito demais. Como seria com a avó. Quando ele a deixara em casa, estava tão nervosa que queria gritar. – O banco dele não está no meio de uma fusão? Talvez estivesse pensando no trabalho. – É, Juliana também está envolvida, mas acho que não foi só isso. – Bem, se você realmente se importa, e eu acho que sim, é melhor arrancar isso dele, e vai ter vários encontros para perguntar. Não se afaste como se afastou da família. Holly indignou-se. Não fora fácil admitir que nunca seria a filha que os pais queriam. – Não foi fácil. – Mas se reaproximar pode ser. Faça as pazes, Holly, e dê uma chance a Eric. Holly enfim pôde respirar. Os outros alunos chegaram, interrompendo a conversa. Infelizmente, eles não bloquearam seus pensamentos incômodos – um em especial. Sentia que estava muito envolvida com um homem que nunca poderia ter. A REUNIÃO estava um inferno, e, se Eric não saísse dali logo, iria mandar Baxter Wilson para aquele lugar. Holly poria o almofadinha no seu devido lugar na hora. E ele também. Eric deixou a caneta na mesa. – Suas exigências são ridículas, e nunca o banco vai aceitar uma participação de quarenta por cento. A mãe olhou-o chocada e desgostosa. Ela levantou-se. – Senhores, pausa para o almoço. Recomeçamos à tarde. Eric levantou-se de um pulo e foi até a porta. Assim que a abriu, a secretária lhe entregou um bilhete rosa. Ele leu-o e amassou. O detetive encontrara Lyle Lewis. Tinha de ligar para Holly. Precisavam confrontar o idiota que se aproveitara dela o quanto antes. Na semana seguinte, não precisaria mais vê-la. Ignorou o aperto no peito e virou-se para a mãe. – Vou dar uma saída à tarde. – Com licença, Baxter. – Ela fez sinal para que Eric a seguisse até sua sala e fechou a porta. – O que foi isso? Você foi grosso com Baxter a manhã toda. E agora sai da negociação? Já é ruim o bastante que Juliana não compareça. – Wilson não está negociando, mãe. Está fazendo escambo. E, se concorda com as exigências dele, você é tola. – O que dera nele? Costumava gostar de negociações difíceis, mas estava feliz de ter uma desculpa para se afastar. A mãe ficou séria. – Não tenho a mínima intenção de não conseguir fazer a negociação. É pose. Baxter sabe que Alden é o banco mais forte. Trate de voltar lá depois e provar com dados. – Tenho um assunto pessoal. – A negociação vem primeiro.


Correção: a ambição da mãe de liderar os bancos fundidos vinha primeiro. E, até pouco tempo, Eric também se importava. – Tire nossa oferta da mesa. – Ficou maluco? Precisamos da fusão para nos tornarmos o maior banco do sudeste. – Dê a entender que estamos dispostos a recuar. – Mas não estamos. E se ele perceber o blefe? – Não vai. Precisa mais da fusão que nós. – Eric olhou o relógio. Será que Holly estava em casa? – Não quero arriscar. – Então vai ficar por conta própria. Os dados estão no meu laptop. – Pôs a mão na maçaneta. – É aquela Prescott, não é? – Não é da sua conta. – Se vai custar a fusão, é. Não me surpreenderia se soubesse que foi por causa dela que Juliana se recusou a comprar Wallace Wilson. Ela é má influência. – Mãe, sugiro que guarde suas opiniões equivocadas para si. – Não se rebaixe ao nível dela. Ele ardia de raiva. A mãe não dizia nada que ele já não tivesse ouvido – inclusive da família de Holly –, mas estava sem estômago para isso. – Se acha que está acima de Holly, está enganada. Não se intrometa. Eric abriu a porta e saiu. Meia hora depois, estacionou na garagem de Holly. Tentara telefonar, mas ela não atendera. Ele bateu à porta, mas ninguém abriu. O carro dela estava ali. Holly tinha de estar. Pensou em olhar no canil, mas uma canção country conduziu-o pela varanda. Encontrou-a num quartinho atrás da casa. Uma placa em vitral a denominava “Vidros Arco-íris”. Canteiros de flores flanqueavam o caminho. Ele não esperava tanto profissionalismo. Quem mandara se deixar levar pelos comentários derrogatórios dos irmãos? Eric abriu a porta e entrou. Uma canção sobre a caminhonete errada estacionada na garagem de uma mulher preenchia o ar. Na mesa, alguém de macacão e capacete soldava os bastões de metal. Não sabia se era homem ou mulher. Procurou Holly. Seu olhar passou pelos vitrais terminados nas paredes, de todas as formas e tamanhos, do elaborado ao simples. Ela tinha talento, e, embora quisesse examinar as obras mais atentamente, tinha de encontrar Holly e depois Lewis. Talvez ele soubesse como contatá-la. Protegeu os olhos da luz do maçarico, aproximou-se e disse: – Com licença. O maçarico se apagou. Uma mão com luva pesada levantou a máscara de metal. Holly. Surpresa, depois desejo. Quanto tempo levaria para seu corpo superá-la? – Ah... oi. – Ela deixou o maçarico de lado e tirou o capacete. Estava pingando de suor. – O que faz aqui? Já terminamos os encontros da semana. Passara duas noites fazendo amor com ela em vez de dormir, mas ele nunca se sentira tão alerta. – O detetive encontrou Lyle Lewis. Ela arregalou os olhos. – E Wes ligou para você? – Ligou. Franziu o cenho. – Por quê?


– Eu pedi para ele me dar notícias. Lewis está em Raleigh. Nós podemos chegar lá em duas horas. – Nós? – Eu dirijo. Ela cruzou os braços e ergueu o queixo. – Pensei que você tivesse uma reunião importante. – E tinha. Mas temos de resolver isso, e não quero que vá abordá-lo sozinha. Ela parou diante dele e estendeu a mão. – Dê-me o endereço. Eu resolvo isso e você volta para o trabalho. – Não. – Não? – Ele se aproveitou de você. Quero garantir que não aconteça de novo.– Sua intenção não era dar um soco no idiota que a rejeitara e se aproveitara dela. Achava que, ao resolver a questão, pagaria sua dívida por trair os irmãos e usar Holly. Não, não tomara o dinheiro dela, mas usara seu corpo. E queria repetir. Ele esmagou o pensamento indesejável. – Sou adulta, posso me virar. Só me passe o endereço. – Eu devo isso a Sam e Tony. Eu iria querer que eles fizessem o mesmo por Juliana. Ela riu. – Sua irmã é muito sensata para precisar de ajuda. Verdade. Juliana era cuidadosa e confiável. Pelo menos até comprar um cantor country dono de bar no leilão. A mãe tinha razão ao temer pela fusão. O incidente deixara Wilson ainda mais irritadiço que de costume. Mas a irmã não vinha ao caso agora. – Em quanto tempo você se arruma? – Quando voltamos? – Depende do tempo que levarmos para encontrar Lewis, mas pretendo voltar à noite. Ela mordeu o lábio. Eric ficou com água na boca. Estaria com gosto de cereja hoje? Você não vai descobrir. Os beijos acabaram. De agora em diante, ninguém se toca nos encontros. Mas a resolução não impediu seu sangue de ferver quando Holly baixou o zíper do macacão até a virilha. A virilha dele latejou quando ela tirou as roupas largas para revelar um top e short indecente. Parecia um strip-tease, e ela parecia nem imaginar o poder que tinha sobre ele. Assim esperava. Jurar que o caso terminara não o impediu de devorar aquele corpo violão com os olhos. Ela se virou para pendurar o uniforme e se curvou para guardar a bota, revelando curvas deliciosas. Eric rilhou os dentes e cerrou os punhos para não tocar seu rosto. O fim de semana fora só um aperitivo. Ainda a queria, mas não podia tê-la. – Preciso pedir a Tina para que alimente os cachorros se não chegarmos a tempo. – Holly ergueu-se e se virou antes que ele conseguisse conter o desejo. Seus olhares se encontraram e ela ficou sem ar. Engoliu em seco e umedeceu os lábios. O top fino revelava mamilos duros. – Eric? – sussurrou. Ele se afastou, física e mentalmente, e desviou os olhos para a janela com desenho floral. – Você tem um portfólio? – A voz saiu rouca feito a de um tarado ao telefone. – Claro. Preciso ter o de mostrar aos clientes. – Ela puxou uma pasta grossa e fez sinal para que ele a seguisse até a casa. Passaram pela cozinha e chegaram ao seu refúgio. Ela deixou a pasta sobre a


mesinha e indicou o sofá. – Fique aí. Pode olhar meu trabalho enquanto eu me troco e arrumo uma mala, só para garantir. Ele lembrou-se da noite do leilão, quando ela trocara de roupa e ele a vira nua pela primeira vez. Sua boca ficou cheia d’água, e o pulso acelerou. – Vamos conseguir voltar. – Custe o que custar. Ou teria de passar outra noite com Holly. Seu coração pulou de frustração. Não de expectativa. Foi do que tentou se convencer. – VOCÊ AINDA o ama? – perguntou Eric, do banco do motorista. Holly despregou os olhos do prédio perto do campus onde Lyle Lewis supostamente havia se enfurnado e olhou para Eric. Um nervo tinha saltado no pescoço. Os olhos escuros, impenetráveis. Ainda gostava de Lyle? Ou estava mais preocupada com o dinheiro? Após o fim de semana com Eric, Holly estava um turbilhão de sentimentos. Nunca se sentira tão atenta à presença física de um homem quanto à dele. – Não sei. Eric encarou-a por vários segundos e fez um sinal com a cabeça. – Vamos. Holly o seguiu até o apartamento térreo. Era uma mulher forte, física e emocionalmente. Então por que estava aliviada de tê-lo ao seu lado? Ela deteve-o perto da porta. – Eric, quando eu investi o dinheiro, sabia que era um risco. Então, se o dinheiro sumiu... sumiu. Tenho de aceitar que eu me ferrei. De novo. A expressão dele suavizou-se. Ergueu a mão para tocá-la, mas desistiu no caminho. Queria que ela o tocasse. Ansiava por isso. Não podia ser bom. – Holly, se Lewis aparecesse no banco e me apresentasse o planejamento que lhe mostrou, também teria aceitado. Ela não sabia o que a surpreendeu mais: ouvir Eric dizendo que não fora tola ou a revelação de que ele revirara sua papelada. – Deixa-me adivinhar. Wes lhe deu cópias dos meus arquivos. – Deu. Eu queria ver se havia recurso legal. Deveria se sentir incomodada ou satisfeita por ele se dar ao trabalho de investigar? A família a teria condenado imediatamente. Antes que conseguisse decidir, Eric bateu à porta. Segundos depois, lá estava Lyle, seu ex-namorado. Ela esperava uma onda de comoção, mas não houve nada. O coração não batera como quando vira Eric no estúdio. Olhou para o homem de quem já gostara e percebeu que era mais baixo do que lembrava. O queixo não era tão forte, os ombros não eram largos. Ainda era bonitinho, meio nerd, mas não fazia sua temperatura subir. E parecia ter muito menos que 25 anos. Será que ela era papa-anjo? – Oi, Lyle. Surpresa e prazer genuíno surgiram em seus olhos antes de puxá-la e abraçá-la. – Que ótimo ver você.


Ela abraçou-o e... não sentiu nada. Estranho, não? Não pensara em um futuro com ele? Casamento, talvez? Ele olhava para Eric e depois para ela. – Mas por que você está aqui? Como você soube da boa nova? O advogado ligou? Pedi para ele esperar. – Que boa nova? – perguntou Holly, confusa. Eric pousou a mão nas costas dela. Eletricidade estática pulsou dos dedos dele, passou para o meio dela e depois para as extremidades. Lyle observou o gesto e examinou Eric. – Quem é você? – Eric Alden. Consultor financeiro da srta. Prescott. Holly abriu a boca para contradizê-lo, mas se conteve. Eric não a tocava desde a ilha. Estava sendo possessivo? Não podia ser. Então por que ficava excitada só de pensar nisso? Eles nunca poderiam ficar juntos. Só estava dando uma impressão de união. Né? – Holly? Você não achou que eu fosse... passar a perna em você, achou? – A expressão de mágoa dele a fez lembrar-se do motivo para ter se envolvido com ele. Lyle precisava de alguém que acreditasse nele – sentimento que ela conhecia bem. Pensando melhor, escolhera todos os namorados assim. Hum. Precisava revisar seus critérios. – Eu não sabia o que pensar, Lyle. Você sumiu com cinquenta mil dólares sem deixar endereço. E não ligou em treze meses. Tive de contratar um detetive para encontrar você. – Tanto tempo assim? Realmente parece esquisito, mas eu estava mergulhado no projeto e não queria ligar até poder provar que fez bem em confiar em mim. Entrem. – Ele indicou um apartamentozinho escuro. Lyle parou na cozinha entulhada e tirou uma pilha de papéis da mesa. – Passei a maior parte do tempo aperfeiçoando o projeto e tentando achar um comprador. Fiz um acordo com o diretor do departamento de engenharia elétrica para usar os instrumentos deles. Demorei para conseguir a patente, mas consegui mês passado. Andei negociando a venda, mas queria assinar o contrato antes de contar. Meu advogado disse que é uma boa proposta. – Posso? – Eric estendeu a mão. Lyle hesitou e, quando Holly concordou, entregou-lhe o documento. Ela devia ler o contrato também, mas estava meio... confusa. Foi inevitável comparar os homens. Lyle era um sonhador que falava sem parar de invenções, do seu futuro. Holly se animara com ele e queria ajudá-lo a realizar seus sonhos – coisa que a família não fizera por ela. Se não herdasse a fazenda e tivesse acesso a sua parte da herança no aniversário de 21 anos, nunca teria conseguido abrir seu negócio depois de longos meses infelizes trabalhando no clube. Eric, por outro lado, era só um homem bem-sucedido e autoconfiante que ela simplesmente queria. Ponto. Raramente falava de trabalho. Internalizara-o muito, e alguém precisava ensiná-lo a relaxar. Mas fizera várias perguntas sobre vitrais, e sempre ouvia as respostas – o que sua família não fazia. Preferiam tratar seu ganha-pão como um hobby excêntrico. Ele a fazia se sentir bem consigo mesma e com o trabalho, e não mais a ovelha negra. Sentia-se talentosa, eficiente e atraente. Você está em terreno perigoso, garota. Nesse ritmo, vai se apaixonar por ele. Seu estômago queimava. Estava se apaixonando? Não. Não, por favor. Nem se ele pedisse – e não pedira – poderia voltar àquele mundo. Melhor namorar desajustados que voltar a ser desajustada. E


preferira perder 50 pilas para Lyle a perder o coração para um homem que iria despedaçá-lo. Ela encarou Eric, tensa. Trocaram olhares, mas a expressão dele era impassível. – Você fez um excelente investimento. Os pensamentos dela voltaram ao presente. – Hein? – Seu lucro inicial vai ser de um milhão sem impostos. Boquiaberta, Holly sorria para Lyle e depois para Eric. – Um milhão? Não tenho mais problemas financeiros? – Não. – Um lampejo de aprovação cruzou os olhos de Eric, mas logo ele retomou a seriedade e voltou-se para Lyle. – Meu advogado tem cópias do contrato assinado. Ele fará todos os procedimentos necessários para garantir que a srta. Prescott tenha sua compensação. Por favor, mande cópias de todos os contratos recentes para este endereço. E sugiro que mantenha a srta. Prescott, seu principal investidor, a par dos acontecimentos, ou vai violar o contrato e teremos de entrar na justiça. – S-sim, senhor. – Lyle estava completamente intimidado. Não era de espantar: Eric fora duro feito um sargento. Os olhos preocupados dele procuraram Holly. – Posso falar com você um instantinho? Em particular? – Claro. Eric, pode me esperar no carro? Eric ergueu o queixo e tencionou os ombros. Ela pensou que ele fosse recusar, mas, após vários segundos, ele saiu abruptamente. Lyle esperou a porta fechar. – Obrigado por acreditar em mim. Desculpe por não dar notícias. Esqueço tudo quando estou imerso em um projeto. – Entendo, e de nada. – Eles se encararam. Um silêncio constrangedor se estendeu. O que dizer para um homem que não se ama mais? “Obrigada pelas recordações” não funcionava. Querendo fugir, Holly olhou para a porta. Lyle acompanhou seu olhar. – Acho que fui substituído. Seu “consultor financeiro” é bem possessivo. Eric, possessivo? Não mesmo. E não queria que ele fosse. Lyle pôs a mão no ombro dela. – Tudo bem, Holly. O que tivemos foi bom, mas sempre soube que você merecia mais que um inventor com renda e atenção bem esparsas. Você gosta de cuidar dos outros. Finalmente achou quem cuide de você. – Cuidar de mim! – Ela rejeitou a ideia. Nunca acreditara em contos de fadas, no príncipe salvador. Principalmente porque nunca aparecia. Aprendera do jeito mais difícil a só contar consigo mesma. – Eu cuido de mim. – Eu sei, mas às vezes é legal ter com quem contar. – Não, obrigada. – Ela sabia o que acontecia quando o pilar de apoio sumia. – E você errou feio sobre mim e Eric.


CAPÍTULO 10

DEIXAR HOLLY com seu namorado fora a coisa mais difícil que Eric já fizera. Mais difícil que ouvir os insultos de Priscilla diante de quatrocentos convidados no casamento. Mais difícil que descobrir que o pai era um fantoche. O sol da tarde queimava sua cabeça enquanto ele caminhava ao lado do Corvette. O suor descia pelas costas e pelo rosto. Ele tirou o paletó e jogou-o no carro. Por que deixar Holly com Lewis fora tão difícil? Eric não era tolo de se apegar a ela. Mas por que ele fora estúpido e distribuíra ameaças? Lealdade aos irmãos dela? Não. Porque sentia vontade de socar alguma coisa. Como Lyle Lewis conseguira esquecer Holly por treze meses? Não passava treze minutos sem pensar nela. Mais um motivo para terminar os encontros. Dois encontros. Podiam jantar hoje e aí só restaria um. Aquela lembrança não o acalmava. Holly saiu do apartamento com Lewis. Parou na entrada e abraçou o homem que a esquecera tão facilmente. Ele a beijou e Eric ardeu. Separaram-se, trocaram umas palavras e um olhar. Eric cerrou o punho. Holly Prescott não era e nunca seria sua. Não devia sentir ciúmes. Abriu a porta do carro antes que acabasse socando Lewis. Treinava com um saco de pancada toda manhã, mas não era um homem violento, e nunca se metera em uma briga. Sua reputação dependia do seu autocontrole, mas, se Holly não entrasse no carro logo, iria perder o último fiapo de civilidade. Finalmente, Holly chegou. O desejo de agarrá-la e tirar o gosto do outro dos lábios dela inflamou-se dentro dele. Com um esforço colossal, conteve-se. Ciúme. A palavra o trespassou enquanto manobrava o Corvette. Ele a repeliu, mas ela voltou. Deus. Estaria com ciúmes? Ele meditou sobre a possibilidade. Não podia ser ciúme, pois não se permitira nenhum apego. Vivia norteado pela razão, não pelo sentimento. Senão acabaria feito o pai. Não podia se dar ao luxo de envolver-se com ela. Aquele fascínio ridículo tinha de acabar imediatamente. Mas como tirá-la da cabeça? Posicionou o carro diante da estrada e se concentrou em mantê-lo entre as faixas enquanto o cérebro girava. – Podemos parar para comer? Não almocei; estou esfomeada.


A pergunta de Holly interrompeu seus pensamentos. – Sim. Ele tomou o primeiro desvio e estacionou em um restaurante qualquer. Holly observou-o. – Não é do seu estilo, Alden. – Não, mas é do seu. – Se quer dizer comida boa e ambiente descontraído, então é. Eles entraram e sentaram-se a uma mesa à janela. Ele pediu o prato do dia. Tudo o que comesse iria estar sem gosto. Olhou para a fachada do hotel a poucos metros. Holly. Hotel. Duas palavras que não deviam estar na sua cabeça. E não conseguia pensar em outra coisa. O hotel o atraía feito um ímã. – Eric. – Holly pôs a mão em seu queixo e virou-o para encará-lo. – Se continuar olhando para mim assim e depois para o hotel, vou ter de ir lá perguntar se alugam quarto por hora. Sua franqueza despudorada já não o chocava tanto. Seus olhares se encontraram e ele sentiu excitação no corpo. O toque dela queimou-lhe a pele. Em segundos, Eric estava duro feito pedra. – Holly... Ela soltou o rosto dele e recostou-se. – Eu sei. Editar meus pensamentos. Não faça isso. Estava começando a gostar da sua língua solta. Mas admirar a franqueza, a vitalidade e a generosidade dela era um caminho perigoso. Antes que conseguisse pensar em uma resposta, a garçonete trouxe as saladas e as bebidas. Holly brincou com o garfo um pouquinho antes de encará-lo. – Já que não podemos falar no que estamos pensando, me explique por que a fusão dos bancos é boa. Pelo que Juliana me disse, trabalhar com Baxter Wilson é dor de cabeça certa. Admirava Holly por abrir o jogo e depois lhe dar outro assunto no qual se concentrar. – A fusão vai trazer poder e prestígio. – E poder e prestígio são tão importantes assim? – O mundo gira em torno deles. Ela baixou o garfo. – Era por isso que você ia casar com a Priscilla. Não porque queria ficar com ela. Detestou admitir agora. Parecia mercenário. – Era. – Triste. Porque, quando não há mais dinheiro e só resta vocês dois nus na cama, você tem de gostar da pessoa com quem está. Ele concordou. Casar com Priscilla teria sido um erro não pelo escândalo que ela fizera quando descobrira que não poderiam passar meses viajando, mas porque os dois mereciam destino melhor. A única coisa boa era o sexo, que nem era tão bom assim comparado ao com Holly. Holly remexia um tomatinho. – Você acha que quem morre com mais vence? Porque... e se o dinheiro acabar antes? Tem de gostar da pessoa que se tornou para conseguir recomeçar. Um caminho que Holly trilhara com sucesso. Admirou-a ainda mais e, sem conseguir se conter, cobriu a mão dela. – Tem razão. Mas vamos parar com as menções à nudez.


Ela sorriu, diminuindo a tensão. O resto da refeição correu sem grandes incidentes, mas, embora Holly o tivesse bombardeado com os riscos da fusão, mostrando que seu diploma de economia não fora para o lixo, Eric continuava atento aos movimentos da língua dela, ao volume na blusa fina e nas centenas de camas do hotel ao lado. Não sabia como conseguiu conversar. Nunca desejara alguém com tanta força. Mais um motivo para acabar a relação o quanto antes. Demoraram-se na refeição deliciosa, na sobremesa e no café. Embora tivesse de voltar e ligar para a mãe para descobrir como correra a negociação, Eric não sentia vontade de pegar a estrada e se despedir de Holly. Mais um dia e não teria mais obrigações para com ela. Não precisava mais se preocupar com a situação financeira de Holly. Onde estava a alegria que era para a liberdade trazer? Holly afastou a xícara e apoiou os cotovelos na mesa, o queixo sobre os dedos entrelaçados. – Já pensou que o sexo entre nós pode ser bom assim porque não servimos um para o outro? Ele engoliu em seco. Nunca seria capaz de prever seus pensamentos? Ela sempre o deixava desconcertado. – Bom? Os olhos dela riram do tom indignado. – Fenomenal, se quer um carinho no ego. Acha que podemos passar por outro encontro sem acabar na cama? Porque, se você tivesse poderes telecinéticos, já teria uma chave na sua mão. – Ela dobrou o guardanapo e deixou-o na mesa. – Ou interpretei errado? Por que negar o óbvio? Havia fogo nele para lançá-lo feito um foguete para o hotel. Um dia, aquele fogo iria se extinguir, mas não hoje. – Não interpretou. Sincera. Inteligente. Bonita. O que mais um homem poderia querer? Era cada vez mais difícil lembrar por que Holly seria inadequada para um banqueiro. Ela mexeu a sobrancelha e o brilho travesso em seus olhos deixou-o na ponta da cadeira. – E aí? O que acontece em Raleigh fica em Raleigh? – Holly... – Calou-se e cerrou os punhos. A quem estava tentando enganar? Ele a desejava. Por que não aproveitar o tempo que restava? Talvez saciasse sua sede. – Com certeza. POR QUE parecia uma despedida? E por que isso a incomodava? Holly queria que Eric fosse rápido e extinguisse a dor na sua barriga e nos seios. Mas ele se demorava a cada beijo, cada carícia, enquanto tirava sua roupa no quarto de hotel. Eric passou os dedos pelas costas dela, que se arrepiou. A língua brincou atrás da orelha e as mãos grandes aninharam seus seios e massagearam os mamilos, fazendo-a morder os lábios. Ela não queria desejá-lo assim, ser hipersensível ao seu toque. Fizeram amor – sexo – tantas vezes que não podia culpar a abstinência. Já não era mais novidade. Nem de perto. Piscou na tentativa de se livrar daquela névoa sensual e, quando ele afastou seus cachos, percebeu que estava completamente nua, e ele, não. – Er, Eric, alguém está muito vestido. Ele soltou-a – aquelas marcas no braço dele eram das suas unhas? – e puxou as cobertas. Não parou de olhá-la enquanto desamarrava a gravata. Hipnotizada, Holly observou seus movimentos lentos e


estudados sem respirar. Ele pendurou a gravata na cadeira e tirou sapatos e meias. Ele tinha pés sensuais. Como era possível? Pés não são sensuais. São... pés. E grandes, no caso dele. Para combinar com o resto. Eric abriu o primeiro botão, revelando cabelos escuros. O segundo e o terceiro se abriram, expondo a pele bronzeada do peitoral. Quando a abertura aumentou, Holly ficou de boca seca. Aí a camisa fez companhia à gravata. Já era hora. Ele levou a mão ao cinto. Holly percebeu que estava tremendo. De joelhos bambos, afundou na cama. Os seios doíam. Cerrou os punhos para não os tocar, nem qualquer outra parte do corpo que exigisse atenção. Apertou as coxas. Nunca estivera tão excitada. Eric baixou o zíper devagarinho. Não dá para ele andar rápido? Não estou me aguentando aqui. Ela engoliu de novo, mas a boca ainda estava seca. Por quê? Por que ele tinha de ter esse poder? A calça escorregou no chão, deixando à mostra uma cueca preta apertada. Deus. – Nunca imaginei que você fosse de provocar, Eric – brincou. Ele prendeu os polegares no elástico, puxou a cueca e massageou o volume. – Não é provocação. É promessa. Ela estava tão excitada que quase soltava fumaça. Se ele não fosse mais rápido, iria derreter ali. Então o que está esperando? Apresse-o. Holly segurou as mãos dele e o puxou pela carne quente. Umedeceu os lábios e inclinou-se para pôlo na boca. Ele gemeu e segurou os cabelos dela. Ela passou a língua, saboreando o gosto, a textura, o gemido. Acariciou-o e chupou até ele gemer de novo e – aleluia – empurrá-la na cama, tapando a boca dela com a sua. Finalmente. A mão espalmada traçou um caminho do joelho dela até os caracóis. Bingo. Ele encontrou o botão mágico e massageou-o até ela se contorcer. Holly soltou a boca para respirar e arquejou quando ele mordiscou o mamilo. Ele era bom – bom demais. Aí percebeu que teria que devolvê-lo a uma socialite burra e interesseira quando o caso terminasse. Não queria deixá-lo. Não comece. Ela afastou aqueles pensamentos desconcertantes enquanto Eric a deliciava com a boca e as mãos, chupando, mordiscando, acariciando e quase a levando à loucura quando recuava. Enfiou as unhas na costa dele tentando fazê-lo penetrá-la, mas ele desceu em vez de subir. A boca dele traçou um percurso quente dos seios ao umbigo e baixou mais. O dedo acompanhou os cabelos ruivos. – Já disse que adorei? – perguntou ele. Glup. – Não. Cera quente. O calor no olhar dele fez a dor da depilação valer a pena. – Sexy. Uma seta apontando para a terra prometida. Ela gemeu na esperança de que ele a satisfizesse, mas Eric não pescou a indireta. Ele tracejou os pelos, as dobras da pele úmida e, finalmente, acertou na mira. O corpo dela enrijeceu-se. Obrigada. Mas a gratidão não durou muito: as mãos logo saíram de lá, deixando-a à beira do êxtase. Gemeu de frustração, depois gritou quando a boca dele a consumiu. Em segundos, veio o alívio. Logo depois do


primeiro orgasmo, ele levou-a às alturas de novo. Quando o efeito passou, ela desabou no lençol e abriu um olho. Eric sorriu entre suas pernas, um sorriso sexy. – Você não é inibida com o seu prazer. Com se ela tivesse outra opção... – E deveria ser? – Não. – Ele apanhou a carteira, tirou uma camisinha e a colocou. Curvado sobre ela, baixou entre suas pernas. – Não mude. Em nada. As palavras fizeram-na sentir um calor. E então ele a preencheu devagar, reacendendo o fogo. Os beijos e estocadas profundas a conduziram até uma explosão, ao som dos gemidos de Eric. Ela voltou ao colchão como uma pilha de cinzas, saboreando o peso do corpo dele misturado ao seu. Não mude. Quanto tempo esperara para ouvir aquilo? Mas por que tinha de ser Eric? O homem com quem só poderia ficar se mudasse. Teria de desistir de tudo por que lutara. Da independência. Da carreira. Da sua fachada confiante. Teria de se adequar aos limites da sociedade. A mulher de Eric precisava ser um pilar da comunidade, um exemplo para as outras, uma socialite filantrópica. Não uma rebelde feito ela. O choque surpreendeu-a. Estava pensando em mudar por ele? Perdera o juízo? Não, perdeu o coração. Holly mordeu o lábio e fechou os olhos. Estava apaixonada por Eric Alden e não queria se separar dele. Mas iria conseguir pagar o preço? – COMETI UM erro – admitiu Holly, quando Andrea abriu a porta da frente na quarta-feira. Andrea fez uma careta. – Somos duas. Holly ficou surpresa com o tom preocupado dela. A preocupação pela amiga a fez deixar seus problemas de lado. – O que houve? Andrea jogou os cabelos loiros para trás com a mão trêmula. – Não posso falar ainda. Entre. – Mas... – Não. Você está pronta para conversar sobre seu erro e eu, não. Quer tomar uma bebida? Descobri uma receita que leva licor de chocolate e vodca de framboesa. – Parece delicioso, mas hoje, não. Vou dirigir. – E, se bebesse, provavelmente iria chorar feito um bebê e desmaiar. Não conseguia dormir desde que fizera a descoberta, na segunda. Holly afundou no sofá e inspirou fundo. – Os encontros não correram como eu esperava. – Acho que nenhuma de nós conseguiu o que esperava do leilão. Desculpe por sugerir. Vá em frente. Diga que me avisou. Você sempre se opôs. – Não pensei em me gabar, mas talvez eu possa ajudar se você contar... Andrea levantou a mão.


– Não. Você conta. – Não quero envolver você, mas não sei com quem mais falar. Acho que me apaixonei por Eric Alden. Andrea ficou boquiaberta, mas Holly continuou. – Pura burrice. Eu não consigo me encaixar no mundo dele. – Holly, você já se encaixa. – Ah, por favor. – Não sei por que você insiste em separar sua vida atual da anterior. Os estilos são diferentes, mas você vai à casa dessas mulheres o tempo todo e elas vão à sua. Quantas fazem aula com você? Eu já fui às suas aulas, Holly. Tem união ali. Holly enrijeceu-se. – Você está enganada. – Não, você que não reconhece as amizades. Sim, algumas a desprezam por fazer trabalho manual, mas a maioria gosta de você. Elas vão às suas aulas, deixam você decorar a casa, apresentam-na às amigas e contam segredos íntimos. Encheu-se de ciúme ao lembrar-se da informação compartilhada sobre Eric. Tentou pensar em outra coisa. – Ok, suponhamos que seja verdade, mas e Juliana? Ela nunca vai me perdoar por dormir com o irmão dela. – Se você deixar Eric feliz, vai. Holly bufou. – Até parece que vou ter oportunidade. E minha família? Você sabe o que pensam da minha “distração”. – Sua família está tentando moldar você do jeito que ela compreende, mas acho que é por se preocupar. – Você não pode estar falando sério. – Estou. Sua mãe se preocupa com a sua segurança e o seu pai é antiquado. Ele quer cuidar das suas finanças até passar você para outro cara com segurança. Holly baixou a cabeça e pôs a mão na testa. Hora de falar a verdade. – Talvez ele tivesse motivos para se preocupar. – Eu nunca devia ter concordado em comprar um solteiro. Não tinha dinheiro. Ganho bem com a Vidros Arco-íris, mas gastei todo o dinheiro da poupança com os cachorros, a reforma e meus encontros. Escolhi o bombeiro porque pensei que ele fosse pedir mais dinheiro que o combinado, e eu poderia lavar as mãos. – Não. Eu e Juliana escolhemos. Envergonhada, Holly confessou: – Depois de muita insinuação minha. Eu não o achei bonito; parece um hidrante. Prefiro homens altos e esguios... – Feito Eric. – Er, é. Os lances pararam, e eu fiquei apavorada. Achei que fosse acabar com Franco. Aí Eric se ofereceu para me reembolsar se eu o comprasse. Como eu já tinha tirado dinheiro da poupança para financiar Lyle, agarrei a oportunidade. Não queria sair com Eric, mas Octavia nos encurralou e... hã, eu me apaixonei.


Os olhos de Andrea encheram-se de empatia, não condenação. – Puxa, Holly, por que não falou do dinheiro? – Vergonha. Queria me virar sozinha, provar para minha família que eu não sou cabeça oca. Queria tentar salvar minha independência e meu orgulho. – Você precisa de dinheiro? Posso dar... Ela ficou vermelha. – Não, mas obrigada. Eric contratou um detetive para encontrar Lyle e, no fim das contas, meu investimento teve um lucro enorme. – Então voltamos ao problema. Você aceita ajuda de Eric, mas não da família? Holly conteve um resmungo. – Não é a mesma coisa. Se eu aceitasse a ajuda do meu pai, teria de voltar ao clube. – Seu pai adorava quando você trabalhava lá. Dizia que tinha voltado a ter todos os filhos debaixo da asa. – O problema é esse. Eu não trabalhava. Eu ganhava um salário muito maior para trabalhar menos que os outros. Não era justo. – Não, não era. Então, por que acha que está apaixonada por Eric? Holly ficou surpresa com a mudança de assunto. Sabia por que Eric não era para ela. O que a levava a crer que havia uma chance remota de relacionamento sério? – Além do sexo maravilhoso? – Pôs as mãos no rosto. – Não conte para Juliana. Andrea sorriu. – Não vou. Além do sexo sensacional... – Ele me trata como igual, me escuta. De verdade, e entende que não é só um hobby. É um negócio. Ele até olhou meu portfólio, o que minha família nunca fez. – Com o coração na garganta, olhou para a amiga. – Andrea, ele me faz me sentir bem comigo mesma, até quando estou nervosa e falando pelos cotovelos. – Em outras palavras, seus muros não o afastam. – Muros? – Holly, você é uma irmã para mim, mas já a vi fazer comentários horríveis só para afastar as pessoas por anos. É como se tentasse se afastar antes de ser dispensada. Ela arquejou. – Eu o quê? – Pois é. Acho que vale a pena lutar pelo seu relacionamento com Eric. Holly ficou ansiosa. – E se eu tentar e não conseguir? – Não tentar é a mesma coisa que não conseguir. – E a gente sabe como eu odeio ser um fracasso. Então... acho que já tenho a resposta.


CAPÍTULO 11

ERIC NÃO se concentrava de jeito nenhum hoje. Nem ontem. Nem anteontem. Estava distraído desde segunda. O que quer que sentisse por Holly estava atrapalhando seu trabalho. Nenhuma mulher conseguira isso. E ele não gostou. Seria o último encontro com Holly na sexta, um jantar com os pais dela, e, embora devesse se sentir aliviado por se livrar da obrigação, não estava preparado para deixá-la. Algum dia iria estar? Ele se recostou na cadeira, brincando com a caneta, e olhou pela parede de vidro do escritório. Viu o pai fazendo uma rara aparição no banco. Justamente quem precisava ver. Ele precisava de respostas que só ele poderia dar. Eric atravessou a recepção e foi até a sala do pai, pouco usada. – Pai, está com tempo? – Claro. Quinta sempre é devagar. Entre. Que dia não era devagar para o pai? Eric segurou o comentário e lutou para conseguir formular a pergunta de forma que não parecesse um insulto, mas a diplomacia o abandonou. O pai indicou uma cadeira. Eric fechou a porta e sentou-se. – Por que você deixa a mamãe mandar em você? Se a grosseria pegou o pai desprevenido, ele não demonstrou. – Demorou anos para perguntar. Eu sei que você perdeu o respeito por mim quando começou a trabalhar aqui. E, sim, eu sei o que dizem. Sempre esperei que me perguntasse se os rumores são verdadeiros. Mas nunca perguntou. Eric nunca perguntara porque não queria ouvir o pai admitir que era fraco. – Eu deixo sua mãe tocar o negócio porque a amo. Agradá-la me deixa feliz. – Mas o banco é seu. É o seu nome na porta. – Nosso. O banco da família dela se fundiu com o da minha há trinta e oito anos. O meu lado da família manteve o nome, mas sua mãe gosta muito mais do Alden que eu. Ela cuida muito melhor do que eu cuidaria. Então eu deixo o que acontece aqui dentro com a sua mãe. Assim, nós dois ficamos felizes. – Você não se sente... – Castrado? Mas Eric não podia magoar o pai assim.


– Inferior? Não. Eu sou só um vendedor. Sua mãe cuida dos detalhes práticos como ninguém. Você e Juliana puxaram mais a ela do que a mim no sentido de preferir o lado dos negócios ao pessoal. Nem sempre foi assim. Você costumava encantar a todos quando era presidente da turma e capitão do time de basquete. Sempre o imaginei combinando os dois papéis. Mas, ultimamente... – Ele balançou a cabeça. – Você só pensa no lado prático. Eric contraiu os ombros. – Eric, eu faço minha parte fora do escritório e, se me subestimam por isso, problema deles e de vocês. Gosto de trabalhar com gente. Eu atraio clientes lucrativos. – Puxou um charuto, cortou a ponta e a examinou. – E ajo nos bastidores para convencer os diretores do Wilson a apoiar sua mãe na presidência e você como vice se a fusão sair. Espantado, Eric viu um sorriso maroto no rosto do pai. – Você falou com os diretores? – Só algumas rodadas de golfe e jantares, mas consegui deixar todos do nosso lado. Baxter é um canalha, ninguém o quer. Vai ganhar uma posição inócua ou ser forçado a se aposentar. Eric encarou o pai e sentiu um respeito renovado. Não era o fantoche que aparentava ser. Exercia sua influência por trás do pano em vez de buscar glória. – Seu safado! Eu nem desconfiava. Pensava... – Que eu era um marido submisso porque acreditava nas fofocas. Só quero o bem do banco. O sorriso de Eric sumiu. Ele acreditara no que os outros diziam de Holly, e do pai também. Devia ter sido mais direto – como Holly seria – e ido direto à fonte. – Mamãe tentou me fazer casar para o bem do banco, e agora está tentando com Juliana. Você nunca se meteu. O pai deu de ombros. – Um casamento de negócios deu certo com a gente. Você se safou por pouco, e só Juliana pode determinar que fim vai ter o relacionamento dela. Safara-se por pouco. Agora via que fora uma sorte não casar com Priscilla. Só percebeu quando Holly veio perturbar sua vida organizada. – Você não se incomoda de eu ser vendido feito uma ação? – Não. Eu fiquei louco pela sua mãe assim que a conheci. Era dinâmica, corajosa e linda. Independente. Admiro isso até hoje. É minha tigresa. Nem olharia duas vezes para mim se não tivesse sido obrigada. Somos um casal improvável, mas formamos uma ótima equipe. – Richard levantou-se. – Espero que você também encontre alguém assim, que admira suas forças e complementa suas fraquezas. Poderia ser Holly? Ou iria afastá-la muito mais rápido do que afastara Priscilla? EM MOMENTOS assim, Holly desejava ter resistência para bebida. Uma dose deixaria o jantar com os pais mais fácil de aturar e talvez lhe desse coragem para conversar com Eric depois. Pretendia abrir o coração. Ou ele iria despedaçá-lo ou aceitaria seu amor. – Entre, Eric – disse a mãe na entrada. – Pena que seus pais não puderam vir. – Eles também lamentam. A barriga de Holly encheu-se de tensão. Apertou a taça de vinho com mais força e olhou para a lareira vazia – vazia porque era arriscado expor a decoração branca da mãe à madeira e à borralha.


Quatro dias se passaram desde o hotel. Quatro dias agonizantes pensando no que fazer a respeito do fato de que se apaixonara pelo irmão da melhor amiga, um homem que representava a vida da qual fugira. Mas sempre acreditara em se arriscar pelo que acreditava, e acreditava que podia fazer Eric feliz. Ele precisava de alguém para fazê-lo relaxar, assim como Holly precisava de alguém que acreditasse nela. E Eric provara que levava fé nela. Talvez Andrea e Octavia tivessem razão, e Holly pudesse ter tudo: Eric e a carreira. Ousado supor que o interesse de Eric em você é permanente. Ela virou a cabeça quando ele entrou na sala com sua mãe. Seu amor por ele a deixou sem ar. Com um paletó que favorecia os ombros largos e uma camisa branca que realçava o bronzeado, Eric estava delicioso – muito mais palatável que o jantar sem graça que a mãe provavelmente iria servir. Ele cumprimentou o pai dela, então encontrou os olhos de Holly. Ela ficou com o coração na garganta quando ele atravessou a sala e lhe envolveu a mão com os dedos compridos. O calor do toque a fez ter arrepios e sentir uma umidade em locais que deviam ficar quietos perto dos pais dela. Ela o amava, e isso era apavorante. Tinha tanto a perder. – Boa noite, Holly. – Eric. – Ela se aproximou e baixou a voz. – Desculpe por não ter conseguido dissuadir mamãe. Preferia que nosso último encontro fosse a sós. Depois, podemos... conversar? Os olhos dele encheram-se de calor, fazendo-o apertar os dedos. – Podemos. O desejo girava na barriga de Holly. Era como se estivessem sozinhos no quarto, e os pais tivessem desaparecido. As lembranças da última noite faziam sua pele corar e a boca secar. Eric não podia olhar para ela com cara de predador e não sentir nada, podia? Ela examinou seu rosto atrás de um sinal de algo maior que desejo. – Algo para beber, Eric? – perguntou o pai, quebrando a intimidade. – Tenho um Bourbon novo de uma destilaria pequena. Eric soltou a mão dela e virou-se. – Obrigado, Colton, vou querer sim. O pai atravessou o recinto com o copo de Bourbon. – Ficamos muito orgulhosos quando Holly teve o bom senso de comprar você no leilão. Espero que esse mês tenha sido... agradável. Tolerável era o que o tom de voz indicava. Holly rilhou os dentes. – Sim, senhor. Sua filha é um encanto. – Não precisa forçar, filho. Holly não é como os garotos, que sabem qual é o dever deles no legado do Caliber Club. Mas ela pode aprender. Conto com você para convencê-la a voltar a trabalhar para mim. Eric parou com o copo a centímetros da boca. – Nem pensar. Você já viu o trabalho dela? – Algumas peças – respondeu o pai, indiferente. – Ela faz mágica com metal e vidro. O elogio aqueceu-a. – Fazer janelas é um belo hobby. – Não, senhor. A arte de Holly é a carreira dela, e as obras estão em várias construções da cidade. Não percebi a presença que ela tinha até ver o portfólio. Surpreende-me que você ainda não tenha encomendado nada para o clube.


O pronunciamento de Eric a deixou sem fala. Transbordava de gratidão... mas aí chegaram as dúvidas. Os homens só a elogiavam quando queriam alguma coisa, e todos os namorados que tivera tentaram ficar bem com a família dela para se aproveitar da fortuna e do prestígio deles. Seria esse o objetivo de Eric? O mundo gira em torno de poder e prestígio, dissera. Isso significava que a amava por causa da influência da sua família? Fora por isso que a ajudara com Lyle, para ganhar pontos com a família? Para garantir o negócio do clube? Eric estava disposto a casar com Priscilla pelo bem do banco. Seus encontros seriam mais do mesmo? Sentiu um aperto. Virou o rosto para o pai, e reconheceu o brilho especulativo nos olhos castanhos. O pai achava que tinha fisgado um cliente. Só que o que estava tentando vender era a filha. Foi tomada por constrangimento e incerteza. A noite seria longa. – OS FILHOS de Holly vão ser... criativos – disse Nadine Prescott, com um sorriso carinhoso para a filha única. Os filhos de Holly. Era o que ele queria. Uma vida com Holly. Filhos com ela. A descoberta deixou seus pensamentos a mil. Apaixonara-se por Holly Prescott, irreverente, linda. Antes, pensava que era a pior candidata possível a mulher de banqueiro. Agora era a melhor, a única possível. Ele a amava. Amor. Algo que jurara nunca permitir acontecer. Adorava o fato de ela ainda acreditar nos outros, enquanto ele perdera a fé há muito. Era sincera, inteligente, bonita, instruída. Seus sorrisos o incendiavam, e seu toque fazia-o se sentir adolescente. E aprendera a gostar da sua língua afiada... que passara a maior parte da noite quieta. Preocupado, procurou os olhos dela. Ela levantou-se de um pulo. – Parem de tentar me enfiar na goela do Eric! Só estamos saindo e vocês praticamente já escolheram o nome dos nossos filhos! Pai, você acha que eu não consigo segurar um homem sozinha? Acha que eu sou tão sem sal a ponto de ter que me comprar um? – Minha princesa, eu não... – E prometer o financiamento da expansão multimilionária que você planeja construir, o que é? E garantir um iate e apartamentos nos condomínios novos? – Seu olhar turbulento voltou-se para Eric. – Eu sou só isso para você? Outra aliança profissional? Outra Priscilla? A dor na voz dela deixou Eric sem ar. Nadine e Colton passaram a maior parte da noite distraindo-o com histórias da infância de Holly e suas traquinagens, dos amigos imaginários à competição com os irmãos. A menção aos condomínios de luxo era novidade para Eric. Ele se levantou. – Holly... Ela ficou branca. – Ninguém perguntou, mas vou casar com um homem que me ame, e não que case por interesse na relação com os Prescott. Aceito. Mas Eric cerrou os dentes e observou-a sair da sala. Uma sensação gélida o tomou. A denúncia de Priscilla feriu seu orgulho. Holly o crucificou. Como podia acreditar que ele a usaria assim?


Porque você quase casou com Priscilla pelo bem do banco. Sentiu nojo de si mesmo. Você é um idiota, Alden. E vai ser um imbecil se perder Holly. Ele se recompôs e voltou-se para os anfitriões em choque. – Obrigado pelo jantar. Boa noite. Ele saiu e encontrou Holly na garagem. Ela já estava no jipe com o motor ligado. Os dedos apertavam o volante com força, e os olhos machucados observaram-no se aproximar. – Holly, não foi pelo Alden que saí com você. O lábio dela tremeu. – Foi. Nós dois encenamos isso para Octavia não incomodar seu negócio. A questão é: até onde você vai pelo seu querido banco, Eric? Como discutir com fatos? – Só soube dos condomínios agora. – Eu tenho cara de burra para acreditar? Os homens só me elogiam quando querem algo de mim. E você e seus irmãos são tão próximos que devem saber o que cada um come no café. Tenho certeza de que eles deixaram escapar. – Ela pôs a mão na embreagem. – Você é bom na cama, mas não o suficiente para que eu me venda. Déjà vu. Sabia o que o esperava. Pelo menos dessa vez não haveria quatrocentas testemunhas. Eric parou um segundo para memorizar cada detalhe dela e respirou fundo. – Obrigado por um mês memorável, Holly. Sabemos que eu nunca vou ser o cara tranquilo que você quer, então é melhor acabar agora. Os olhos doloridos dela o fizeram balançar. Estaria errado? Ela não queria dispensá-lo? Conteve o impulso de beijá-la, mas perdeu a batalha para secar a lágrima em seu rosto. – Espero que encontre o homem que você quer. Mas me faça um favor: nunca empreste dinheiro para ele. Ela deu uma risada abafada e apertou a mão dele contra o rosto. – Acho que consigo prometer isso. Ela pôs a outra mão na lapela dele e puxou-o até seus lábios se tocarem. Eric teve parcos segundos para saborear seu gosto, então ela o afastou. O desejo pulsou pelo coração partido dele. Precisou de toda a força para não a pegar nos braços. – Seja feliz, Eric. – E então ela foi embora e o deixou tremendo. Amar Holly não o deixara fraco. Perdê-la, sim. COM UM vazio no peito, diante do computador, Holly estudava as fotos que tirara na ilha. Outra vez. Caíra no velho hábito de salvar homens. E, mais uma vez, queimara-se. Mas despedir-se nunca fora tão doloroso, porque, daquela vez, abrira o coração, e não a carteira. Passou o dedo por uma imagem do rosto sorridente de Eric e sua respiração parou. Estava muito cansada para alimentar a raiva, e a raiva devia ser de si mesma. Sabia que não se encaixavam. O banqueiro e a artista. Mas, agora, quem iria lembrar Eric de não devia pensar só em trabalho? Ela. Nem que fosse indiretamente. O pulso acelerou. Ajeitando a coluna, Holly apertou os olhos cansados. Precisava dormir antes da aula de segunda, mas primeiro tinha de encontrar a foto certa. Passou pelas imagens até achar a certa – um clique de Eric na casa da ilha, cercado de dunas.


Transformaria aquela imagem em um vitral que ele poderia pendurar no escritório. Assim, talvez se lembrasse do seu tempo juntos. E dela. Ela engoliu um soluço e pegou lápis e papel. O projeto seria grande e detalhado, e tomaria horas. Mas o que mais podia fazer? Não conseguia comer nem dormir, e terminara a última encomenda dois dias antes – na manhã do jantar desastroso. Não podia avançar sem os clientes aprovarem os esboços. Horas depois, ainda estava debruçada sobre o desenho em tamanho real, quando a porta se abriu. – Já posso entrar? – perguntou Octavia. Surpresa, Holly girou no banco, encarou a amiga e olhou para o relógio na parede. Passara sete horas naquilo? – Já são dez horas? – Você está péssima. Ficou tão incomodada com meu artigo assim? Holly fez uma careta. Tinha se esquecido de comprar o jornal da semana. – Na verdade, ainda não o li. – O que houve? – Charlise passou por Octavia, abrindo mais a porta do estúdio para revelar o resto das alunas de Holly. Holly reprimiu a emoção e esticou os músculos enferrujados. Forçou um sorriso profissional. – Bom dia, meninas. Fiquei envolvida em um projeto novo e perdi a hora. Todas as oito mulheres cercaram-na para olhar a imagem que esboçara e colorira e a foto que servira de inspiração. – Maravilhosa. De quem é a casa? –perguntou Charlise. Holly não conseguiu responder, e Octavia respondeu: – É a casa de praia de Eric. Só de ouvir aquele nome, o lábio de Holly tremeu. Mordeu-o para não se entregar, mas era tarde. A compreensão nos olhos das outras era demais para ela. Charlise pôs o braço em seu ombro. – Ah, Holly, a gente avisou para não se apaixonar por ele. Holly ergueu o rosto e sorriu. – Estou bem. Mesmo. Vamos trabalhar? Charlise lançou-lhe um olhar sério. – Não está. Você parece ter passado a noite em claro. Precisa de um banho, de café e de um cochilo. Octavia cuida da turma. Holly examinou os rostos preocupados e percebeu que Andrea tinha razão. Aquelas mulheres eram suas amigas, e as barreiras entre elas foram erguidas por Holly. Ela se exilara. Que burrice! Se havia se enganado quando acreditara ser uma pária, no que mais se enganara? – COM LICENÇA, preciso falar com Eric. – Holly tentou driblar o guarda do banco na hora do almoço, mas ele bloqueou a escada de mármore que dava nos escritórios. Uma reles falta de agendamento não iria detê-la. Ele olhou para o pacote nos braços dela e balançou a cabeça. – Ele está em reunião, srta...? – Prescott. Você sabe, já me espionou antes, Denny. Chame-o.


Ele corou. – Madame, acho que não... – Ou chama ou eu grito feito um elefante. Denny encarou-a de olhos arregalados. Ela deu um sorriso duro, fruto de uma semana sem dormir. Denny falou algo no walkie-talkie que Holly não conseguiu entender. Podia ter chamado a polícia. Logo depois, fez sinal para que prosseguisse. – Ele está lá em cima, srta. Prescott. – Obrigada. – Holly subiu. Nervosa, o vitral que carregava parecia dez vezes mais pesado. Uma porta se abriu quando ela chegou, e Eric, lindo de morrer, surgiu. A coragem dela caiu em queda livre, mas a recuperou. A raiva diminuíra nas últimas semanas, e a fossa... bom, às vezes, era suportável. – Holly. – Apesar da expressão impassível, olhou-a de cima a baixo. Ela teve de se entupir de maquiagem para esconder as olheiras. Tentara domar o cabelo e estava de vestido preto comportado e sapatos de verdade, em vez da amada sandália. Ele indicou o embrulho com a cabeça. – Mais foto de cachorro? – Não. Uma oferenda de paz. Condenei você antes que se explicasse, e não é isso que reprovo nos meus pais? Olhe, não podemos entrar? Tá pesado. Ele tomou o embrulho dela e foram até a sala. Holly forçou um sorriso para a secretária emburrada e esperou-o fechar a porta. Eric apoiou o embrulho nos braços da cadeira, como fizera com as fotos de cachorro. Fazia só três semanas? Holly engoliu para umedecer a boca. – Fiz isso para você se lembrar de relaxar de vez em quando. – Eric contraiu os lábios e ela se atropelou: – Não que você precise mudar, Eric. Você é perfeito do jeito que é. Mas precisa de um cutucão para se lembrar de equilibrar a vida. Quando ele não fez menção de abrir o presente, ela se adiantou. Suas mãos tremiam ao rasgar o embrulho. E aí ela se afastou e esperou... e esperou. – Pensei que talvez... você lembrasse como foi bom na ilha. Eric examinou o vitral em silêncio. Os nervos de Holly se reviravam. Ele tinha gostado? Detestado? A expressão nada dizia. Não aguentando o suspense, ela procurou o lugar apropriado para pregar a obra na sala cinza e branca, então seu coração parou. Relutante, olhou o vitral. Era seu melhor trabalho, e a dedicação era visível. Mas a peça vibrante não se encaixava no escritório monocromático, assim como Holly na vida dele. Estava se enganando. Acreditara mesmo que encontrar Eric hoje iria fazê-lo esquecer suas acusações e querer tentar de novo? Bem, Holly, você estragou tudo e levantou outra barreira. Os olhos pinicavam, mas nenhuma tirada espertinha veio lhe salvar. Escancarou a porta e fugiu. O salto matraqueava no piso de mármore. Tinha de sair. – Holly Prescott – ecoou uma voz no banco. Holly continuou correndo. – Quer casar comigo? Quê? Estarrecida, ela parou perto da saída e virou-se para ver Eric no topo da escada. Seus olhares se encontraram e ele desceu sem vacilar. Um silêncio tomou o banco movimentado quando os clientes pararam para olhá-los.


O coração dela batia tanto que devia ter entendido errado. Nunca Eric a pediria em casamento na frente dos clientes. Não depois da humilhação pública com Priscilla. Os clientes abriram caminho para Eric. Holly lutou para respirar. – Ficou doido? – sussurrou ela. – Fiquei. Doido por você. – Tomou a mão gelada dela. – Eu a amo, Holly, e quero tê-la ao meu lado para não me esquecer de relaxar de vez em quando. O queixo dela caiu e ela examinou-o. – Eu? A ruiva desajeitada aqui? Ele sorriu e acariciou o rosto dela. O amor que viu naqueles olhos a deixou sem ar. – A mulher crítica, irreverente e incorrigível aí. – Mas... Ele pôs o dedo nos lábios dela. – Sincera, inteligente, linda. Você me ama, Holly. Vejo isso no seu vitral. Ela fechou os olhos, engoliu em seco e seus olhares se encontraram de novo. – Sim, eu o amo. Foi bom falar. Assustador, mas foi bom desabafar. – E você vai casar comigo. – Eric... – Eu juro que não sabia dos condomínios. Holly fez uma careta. Errara feio quanto aos sentimentos da família. Andrea tinha razão. Eles a amavam. – Eu sei. Desculpe. Meu pai passou no estúdio ontem porque eu estava sem atender o telefone. Ele disse que viu como eu o amava e queria fazer o possível para ajudar a filhota. Não conteve uma lágrima. Eric era tudo o que queria. Mas seria suficiente para ele? – Eric, eu nunca vou ser a esposa perfeita. Sempre vou gostar de vira-lata e falar as coisas erradas. – Eu não quero uma esposa perfeita, e adoro sua sinceridade. Queria ter um pouco dela em mim. – Ele secou a lágrima do rosto dela. – Não estou pedindo para mudar e desistir do negócio. Peço para abrir um espaço na sua vida para mim. Eric estava oferecendo amor e aceitação nos dois mundos. Ele nem imaginava como era tentador. – Sua mãe me odeia. – A mãe dele vai amar você – interveio Margaret Alden de trás de Eric, trazendo Holly de volta à realidade. – Se você o faz feliz e se deixá-lo voltar ao escritório para assinar o documento da fusão. – Mãe, a papelada vai ter de esperar – disse Eric, sem se virar. – Ela não disse “sim”. – Claro que não. Você não perguntou direito. Ande. Por um instante, o banqueiro seguro ficou confuso, então abriu um sorriso demorado e sexy. Ele ajoelhou-se e beijou a mão de Holly. O contato fez o pulso dela acelerar. – Holly Prescott, você me concede a honra de se tornar minha mulher e me deixar passar o resto da vida amando você e sua boca grande? Ela encheu-se de amor. Devia ser muito difícil para ele fazer aquilo em público, mas Eric nem pestanejou. Ele a amava. De verdade. O sentimento era evidente. Ela puxou a mão dele. – Levante. Tá todo mundo olhando. – Não até você aceitar. Salve-me, Holly. Dê uma cor ao meu mundo. Diga “sim”. Contendo um sorriso extático, fez uma expressão pensativa.


– Prometi que não ia mais salvar homem nenhum, mas posso abrir uma exceção. Só dessa vez. – Ela acariciou o rosto dele, apreciando a barba rala e o amor nos olhos. – Sim, Eric, quero casar com você se você me deixar passar o resto da vida amando você... e sua boca sexy e talentosa. Ele abriu um sorriso. Levantou-se, segurou-a nos braços e deu-lhe um beijo intenso. Os clientes e empregados comemoraram. Devagar, Eric a pôs no chão. Holly piscou ao ver Juliana ao lado deles com um sorrisão. – Holly, você sempre foi uma irmã para mim. Agora é oficial! Holly abraçou a melhor amiga e agradeceu baixinho aos céus. Apostara tudo – carreira, amizade e coração – e tirara a sorte grande.


EPÍLOGO

Amor a qualquer preço de Octavia Jenkins

O AMOR se encontra nos lugares mais estranhos. Ele costuma aparecer quando não o estamos procurando, nos momentos mais inconvenientes. É com alegria e dor que escrevo esta última parte. A única dor é que essa tarefa tenha de chegar ao fim. A alegria vem do encantamento de ver casais se apaixonar. Nem todos os vinte casais do leilão encontraram a felicidade, mas muitos sim, inclusive esta que vos fala. Esta repórter vai tirar duas semanas para passar a lua de mel em Las Vegas com o homem que essa série me trouxe, Raymond, meu fiel câmera e comparsa. Voltarei em julho com fotos exclusivas e a história de um casamento triplo que ocorrerá na Capela de Bald Head Island. Ate lá... me chamem de cupido.


DOSE TRIPLA Maureen Child

– Você está onde? – Connor King não se importou em disfarçar o tom de riso. Empurrou a cadeira para trás, acomodou os pés na ponta da escrivaninha, e fitou pela janela a vista do oceano Pacífico. Apoiando o fone no ouvido esquerdo, escutou os resmungos de seu irmão gêmeo com um amplo sorriso no rosto. – Estou com os gêmeos no parque perto de casa. – Incrível como o selvagem foi domesticado – zombou Connor, balançando a cabeça. Apenas dois anos atrás, seu gêmeo idêntico, Colton, era solteiro, voluntarioso e destemido, procurando todas as aventuras perigosas que sua empresa oferecia na área de risco por todo o mundo. Até que Colton tomara conhecimento que sua ex-esposa, Penny, dera à luz gêmeos, um menino e uma menina e seu mundo virara de cabeça para baixo. Fora forçado a fazer grandes mudanças e encarar sérias verdades em sua vida. Embora quase tivesse estragado tudo, Colt amadurecera a tempo para construir uma nova vida. Agora tinha esposa e dois filhos, e era mais feliz que nunca. Mas isso não impedia que Connor o provocasse a cada oportunidade que tinha. – Um amiguinho das crianças – murmurou. – Quem diria. – Tá, tá – resmungou Colt. – Ria de uma vez e acabe com isso. Aí poderemos falar sobre os planos para a Irlanda. Ainda pretende voar até lá para checar as coisas? – É essa a ideia – respondeu Connor ainda rindo. No último ano Aventuras Radicais King havia se transformado em Aventuras em Família King. Quando por fim Colt percebera o que era mais importante em sua vida, eles haviam reavaliado seus planos comerciais. Aventuras radicais eram arriscadas e perigosas, e a base potencial de clientes, muito limitada. Por outro lado, mudando o foco de sua empresa para aventuras em família estavam se abrindo para uma clientela mundial. Naturalmente ainda mantinham as aventuras radicais para os que as desejavam, porém desde que haviam mudado o foco dos negócios a empresa crescera muito. – Estarei no Castelo Ashford e Jefferson vai me conseguir um guia para me mostrar a área. – Extraordinário – murmurou Colt. – Oferecíamos pacotes para esquiar perigosamente nos Alpes e agora passamos para excursões em família nos campos da Irlanda.


– As coisas mudam – lembrou Connor. – E você deveria saber disso melhor do que ninguém. – Não estou me queixando – replicou o gêmeo, e depois falou mais alto. – Reid, não jogue areia na sua irmã. Connor deu uma risadinha e comentou: – Riley pode tomar conta de si mesma. – Sim... e lá vai ela, jogou areia de volta no irmão. – Colt riu. – Penny está em casa pintando o quarto deles. – Então você optou pela tarefa mais arriscada que foi levá-los ao parque. Eu deveria ter adivinhado. Enquanto o irmão respondia Connor fitou sua gerente administrativa, Linda, que entrava na sala com a correspondência. Linda sorriu para ele, entregou-lhe um maço de cartas, e deixou a sala. Preguiçosamente, Con pegou um envelope pardo grande e atirou os outros sobre a escrivaninha. Sempre segurando o fone entre o ouvido e o ombro, rasgou o papel, retirou os documentos e leu, levando um segundo para exclamar: – Que diabo é isto? Colt parou de tagarelar do outro lado da linha e perguntou: – Qual o problema? – Não vai acreditar – resmungou Con se aprumando na cadeira e fitando os papéis em suas mãos. Sua visão estava embaralhada. Apesar da linguagem jurídica utilizada justamente para confundir as pessoas, Connor entendera o suficiente para saber que seu mundo virara de cabeça para baixo. – O que houve? – insistiu o irmão. A voz de Colt parecia muito distante. Connor cravou os olhos na frase que saltava a sua frente. Uma garra de gelo percorreu sua espinha dorsal até que ele conseguiu respirar novamente. Engoliu em seco e se esforçou para dizer: – Parece que me tornei pai.

E leia também em Motivos para Mudar, edição 235 de Desejo, Acordo de paixão, de Emily McKay.


235 – MOTIVOS PARA MUDAR Dose tripla – Maureen Child Dina Cortez jurara proteger os trigêmeos Sage, Sam e Sadie após a morte da mãe deles. Porém, quem irá salvá-la do desejo avassalador que sente por Connor King, o pai das crianças? Acordo de paixão – Emily McKay Wendy Leland precisa de um marido para conseguir a guarda da sobrinha. E quando o seu chefe se oferece para ajudá-la, Wendy sabe que está em apuros, pois não conseguirá reprimir o desejo que sente por Jonathon Badgon. Últimos lançamentos: 233 – TEMPO DE AMOR Um modo de amar – Barbara Dunlop Após uma tragédia, Cole Henderson deve cuidar do meio-irmão. Por sorte, o bebê está nas mãos capazes de Amber Welsley, uma mulher que Cole descobre ser impossível de resistir. Contudo, a batalha judicial ameaça destruir esse relacionamento… Breve ilusão – Kat Cantrell Quando o bilionário Michael Shaylen se torna o guardião de um bebê, sabe que somente uma pessoa poderia ensiná-lo a ser pai: a ex-amante, Juliana Cane. Ela aceita ajudar, porém, logo estaria desejando que esta reaproximação fosse algo mais do que apenas temporária.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ R718L Rose, Emilie Leilão de solteiros [recurso eletrônico] / Emilie Rose; tradução Ana Carolina Dantas, Ligia Chabú, Cydne Rosa Lopes Losekann. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: Paying the playboy's price; Exposing the executive's secrets; Bending to the bachelor's will Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1956-0 (recurso eletrônico) 1. Romance americano 2. Livros eletrônicos. I. Dantas, Ana Carolina. II. Chabú, Ligia. III. Losekann, Cydne Rosa Lopes. IV. Título. 15-24465

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: PAYING THE PLAYBOY’S PRICE Copyright © 2006 by Emilie Rose Cunningham Originalmente publicado em 2006 por Silhouette Desire Título original: EXPOSING THE EXECUTIVE’S SECRETS Copyright © 2006 by Emilie Rose Cunningham Originalmente publicado em 2006 por Silhouette Desire Título original: BENDING TO THE BACHELOR’S WILL Copyright © 2006 by Emilie Rose Cunningham Originalmente publicado em 2006 por Silhouette Desire Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo ePub: Ranna Studio


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Capa Texto de capa Rosto Sumário

VENDIDO PARA O PRAZER Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11

VENDIDO PARA A REDENÇÃO Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11

VENDIDO PARA A SEDUÇÃO Querida leitora Capítulo 1


Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Epílogo

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(desejo 234) emilie rose leilão de solteiros (3 hist)  
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