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CASADA POR NEGÓCIO Matched To A Billionaire

Kat Cantrell

FELIZES PARA SEMPRE, LTDA. O investidor Leo Reynolds é casado com o trabalho, mas agora precisa de uma esposa. Ele tem apenas uma condição: amor não fará parte da relação. Ao menos, era o que Leo achava até conhecer sua pretendente. Daniella White estava disposta a trocar romance por amizade. Mas logo fará Leo quebrar as próprias regras.

Digitalização: Mariana N Revisão: Carmita


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Tradução Celina Romeu HARLEQUIN 2015

Querida leitora, Adoro me arrumar, e não consigo resistir a belos sapatos! É mágico encontrar o par ideal! Também acredito na magia do amor verdadeiro, e é por isso que me inspiro na história da Cinderela para escrever meus livros. Em Casada por negócio Daniella só quer tomar conta da mãe doente. Ela contrata uma empresa de casamento que realiza transformações como a de Cinderela, fazendo-a virar a esposa perfeita que o bilionário Leo pedira. O casamento era para ser de conveniência, mas a fada madrinha de Daniella tinha outros planos para o casal. Casada por negócio é um conto de fadas dos tempos modernos, sem baile ou abóbora, porém, eu não conseguiria deixar de lado a surpresa da meia-noite. Sempre quis escrever uma série, até porque, como leitora, adoro revisitar os personagens e também antecipar os romances que estão por vir. Estou muito feliz em apresentá-la a primeira história de Felizes para Sempre, LTDA. Espero que goste de Daniella e Leo... e de todos os outros romances inesperados que você encontrará nesta edição de Desejo! Boa leitura! Kat

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PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: MATCHED TO A BILLIONAIRE Copyright © 2014 by Katrina Williams Originalmente publicado em 2014 por Harlequin Desire Título original: MATCHED TO A PRINCE Copyright © 2014 by Katrina Williams Originalmente publicado em 2014 por Harlequin Desire Título original: MATCHED TO HER RIVAL Copyright © 2014 by Katrina Williams Originalmente publicado em 2014 por Harlequin Desire Projeto gráfico e arte-final de capa: Ô de Casa Editoração eletrônica: EDITORIARTE Impressão: RR DONNELLEY www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Dinap Ltda. — Distribuidora Nacional de Publicações Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, n° 167 s8 CEP 06045-390 — Osasco — SP Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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CAPÍTULO 1

Leo Reynolds queria poder se casar com sua assistente executiva. Tornaria sua vida muito mais simples. Infelizmente, era casada e tinha quase o dobro da sua idade. E as mulheres não ficavam por perto quando descobriam que trabalhava cem horas por semana. Toda semana. A solidão era o preço que pagava para levar a Reynolds Capital Management ao topo das empresas de investimento de capital. — Você sempre salva minha vida, sra. Gordon. — Leo lhe lançou um olhar de gratidão. Seu laptop se recusara a se comunicar com a impressora e um documento fundamental tinha ficado preso no meio da briga. A cópia assinada agora em suas mãos devia ser entregue a Garrett Engineering, do outro lado de Dallas, em menos de uma hora. — Imprimir um documento não é salvar sua vida. — A sra. Gordon olhou as horas de forma deliberada para mostrar como era tarde. — É noite de sexta-feira. Leve Jenna para jantar e deixe que eu cuide da proposta. Relaxe um pouco, será bom para você. Leo fez uma careta. — Jenna e eu rompemos. Ela já está saindo com outro homem. Esperava que o novo relacionamento a fizesse feliz. Merecia um homem que podia cobri-la de atenção e afeto. Lamentava não ser capaz de dar a ela o que queria e o resultado era a perda de uma companhia agradável. — É claro que está. Jamais conseguia se encontrar com você. — A sra. Gordon cruzou os braços e olhou para Leo, aborrecida. — Agora, quem vai levar ao evento de abertura no museu? Leo gemeu. Esquecera convenientemente o evento, mas não podia perder a abertura. O novo museu para crianças no Dallas Arts District tinha seu nome, afinal, já que doara o dinheiro para construí-lo. — Está livre no próximo sábado? A sra. Gordon riu. — Um destes dias, vou aceitar e complicar sua vida. Se Jenna está fora de cena, encontre outra mulher. Parece que há um bocado delas rodeando você. É, tropeçava o tempo todo em mulheres que gostariam de sair com ele. Ou, pelo menos, pensavam que gostariam até entenderem que não lhes daria o tempo e a atenção que queriam. Nunca demorava muito para chegarem a esta conclusão. Uma vaga sensação de vazio o tomou. Acreditava que era a crescente urgência de obter o sucesso que perseguia. Mas agora acontecia durante uma conversa sobre sua vida pessoal, o que significava que não era bem o que pensava. — Detesto encontros. — E conversa fiada. Aquele período necessário para conhecer uma mulher lhe tomava o tempo e a energia que não queria desperdiçar. A Reynolds Capital Management tinha total prioridade. Sempre. — É porque você não tem encontros frequentes. E lá estavam, falando do assunto favorito dela. Jamais se cansava de brigar com ele por causa da ausência de uma mulher permanente em sua vida. — Andou conversando com minha mãe de novo? — Almoçamos juntas na terça-feira. Ela mandou dizer alô. A sra. Gordon ergueu as sobrancelhas para lhe incutir culpa, como sempre fazia. Devia ligar para sua mãe. E ter encontros com mulheres adequadas. O problema era que detestava tanto encontros como desapontar as mulheres quando tinha que cancelar. Mas gostava do companheirismo e, bem, era um homem... e gostava de sexo. Por que a 5


mulher perfeita simplesmente não caía em seu colo para que pudesse se concentrar no trabalho? — Está tarde. — Leo tentou mudar de assunto. — Por que não vai para casa e eu levo a proposta a Garrett? Tinha até as 17h para entregar à Garrett Engineering um documento formal expressando seu interesse em fazer negócios com eles. Tommy Garret era para motores de combustão interna o que Steve Jobs era para celulares. Ou seria, assim que tivesse o financiamento necessário. Garrett havia inventado uma modificação revolucionária para diminuir o consumo de gasolina do motor de um carro comum e Leo queria que sua empresa de capitais fosse a escolha de Garrett para o empreendimento. A parceria seria muito lucrativa para os dois e Leo poderia fazer o que fazia de melhor, puxar as cordas nos bastidores. Se conquistasse o negócio. Não, não se. Quando. Leo jamais descansaria até que sua empresa atingisse aquele doce ponto de segurança no qual a longevidade era um fato, não uma dúvida. Seu primeiro milhão não lhe dera aquela tranquilidade. Nem os demais investimentos milionários porque os lucros eram destinados a outros negócios que só teriam o retorno necessário em algum ponto no futuro. Portanto, não podia descansar. — Já que afastou outra mulher com sua determinação canina de trabalhar até morrer jovem, faça o que quiser. Enchi o tanque do seu carro esta manhã. Não lhe faria mal algum se olhasse o marcador de combustível de vez em quando. — Obrigado. Você é gentil demais. E, por falar nisto — a sra. Gordon parou o movimento de pegar a bolsa na gaveta —, estava pensando em oferecer um jantar a Tommy Garrett em minha casa. Se pedir bem delicadamente, pode planejá-lo? — Não é função minha bancar sua esposa. — A expressão da sra. Gordon se tornou severa, o que significava que tinha muito mais a dizer mas não queria ser atrevida. Vira muito aquela expressão durante os oito anos em que trabalhava para ele. Leo riu. — É claro que não. Não faz parte do seu trabalho. Mas não era verdade. Quando seu cabelo crescia, a sra. Gordon programava um corte. O aniversário de sua mãe, era a sra. Gordon que comprava o presente. Mas o jantar tinha sido demais. A sra. Gordon desligou o computador. — Bem, devia fazer parte do trabalho de alguém. — O quê, como uma planejadora de festas? — Podia contratar uma profissional que cuidasse de todas as suas obrigações sociais. Era melhor do que nada. — Como uma namorada. Ou alguém que fique com você por mais de um mês. Contrate uma esposa. Precisa de uma boa mulher para cuidar de você. Verificar se seu carro tem gasolina. Preparar o jantar para Garrett e administrar sua vida. Manter você quente à noite. Contrate uma esposa. Seria possível? Parecia a solução perfeita. Não tinha tempo, nem vontade, de conhecer mulheres até encontrar uma que não esperasse que ficasse disponível para ela. A Reynolds Capital Management não se administrava sozinha. Seus funcionários e seus sócios dependiam dele. Uma esposa não poderia abandoná-lo sem aviso. Era a total segurança. Teria uma companhia permanente que o ajudaria a preencher aquela sensação de vazio, uma mulher sem interesse em seus bens e conexões. Ambos teriam o que queriam; estabilidade. Não haveria sentimentos feridos quando percebesse que não brincava sobre dedicar cem por cento de seu tempo ao trabalho e nada a ela. Tudo ou nada. Compromisso era a criptonita de Leo. Uma vez ligado a alguma coisa, entregava-se totalmente. Muito cedo, percebera que era um traço herdado e tentou não cometer os mesmos erros do pai. Então conhecera Carmen, que lhe ensinara a 6


profundidade de sua fraqueza e de como uma obsessão podia se tornar o centro de sua existência. Afastara-se de tudo, menos de seu objetivo. Amor ou sucesso. Sua personalidade não permitia ter os dois e, depois de se afastar penosamente da pobreza, recusava-se a jogar com o futuro. Se tivesse uma esposa compreensiva, o trabalho e sua vida pessoal poderiam continuar completamente separados. E, o melhor, Leo nunca mais precisaria se dedicar à conversa fiada com uma nova mulher ou experimentar aquela onda de culpa ao afastar mais uma. Ele entregou em mãos sua proposta ao pessoal de Garrett no minúsculo escritório que tinham no centro da cidade. Não seria minúsculo por muito tempo. Investidores de toda parte estavam loucos para lucrar com a tecnologia de Garrett. Depois que a empresa lançasse títulos no mercado, seu valor subiria como um foguete. Leo precisava fechar o contrato com Tommy Garrett e o jantar seria uma oportunidade fantástica de reforçar suas chances. Uma esposa lidaria com a logística da festa e deixaria Leo livre para conversar sem interrupções com Garrett sobre o que a Reynolds Capital podia fazer por sua empresa que outras empresas de investimento não poderiam. Sua proposta tinha um longo prazo de validade. Teria muito tempo para conseguir uma esposa. Quando voltou ao escritório vazio, Leo se sentou ao laptop. Em 15 minutos, o Google lhe forneceu diversas respostas sobre como contratar uma esposa. Um serviço de casamenteira. Sim, é claro. Leo sempre pensara que um dia se casaria, quando pudesse transferir sua energia para um relacionamento. No entanto, ali estava ele, com quase 35 anos e a Reynolds Capital Management ainda lhe tomava toda a atenção. E todo o tempo. Estudou a logomarca da EA International. O website era profissional e de bom gosto, com cores terrenas e uma abertura clássica. Mais importante, a casamenteira lidava apenas com clientes exclusivos, prometia discrição e a garantia da devolução do dinheiro se não conseguisse cumprir o que prometia. Leo ficou contente com a cláusula. A propaganda dizia tudo. Deixe-nos encontrar “o par” para você. O “par” para Leo precisaria ter as qualificações certas. A EA International faria a escolha, as entrevistas, as verificações do passado e afastaria as candidatas em busca de alguma forma de conexão mística. Amor não pagava contas e Leo jamais permitiria que seu poder o subjugasse, como fizera com seu pai. Era brilhante. A casamenteira faria todo o necessário para encontrar a esposa certa para Leo. Uma que jamais poderia desapontar. Tudo o que precisava fazer era dar um telefonema. Então, com o assunto em andamento, podia voltar ao trabalho. Daniella White sonhara com o dia do seu casamento desde que fora uma daminha pela primeira vez, encantada com a noiva. Algum dia usaria um lindo vestido de renda delicada e saltos prateados. Os convidados receberiam convites elaborados. O melhor de tudo seria o belo futuro marido esperando-a no altar. E, naquela noite, o amor de sua vida a levaria para uma lua de mel romântica em algum lugar exótico e maravilhoso. O deles seria um casamento de grande paixão e amor infinito. Quando finalmente chegou o dia do seu casamento, seria com um noivo que nunca tinha visto. Ou que, em alguns minutos, estaria se casando com Leo Reynolds na sala de estar de uma casamenteira com apenas alguns convidados. — O que acha, mãe? — Dannie sorriu para a mãe pelo espelho de corpo inteiro e ajeitou as mangas três quartos. Dannie gostava de roupas, mas não daquele vestido de casamento. Queria gostar 7


dele, mas não gostava. Enfim, faria o melhor que pudesse, como sempre. O sofisticado programa de computador da EA International a havia combinado com o homem de negócios Leo Reynolds e ele esperava uma esposa refinada, que se vestia para o papel, atuava de acordo com o papel, vivia o papel. Dannie havia passado o último mês sob a tutela intensiva da casamenteira para se tornar a pessoa certa para o papel. A mãe de Dannie tossiu longamente, a mão no peito como se pudesse limpar os tecidos cicatrizados dos pulmões apenas com a força de vontade. — Está linda, querida — conseguiu dizer depois que se recuperou. — A esposa perfeita. Estou tão orgulhosa do que conseguiu. É, foi mesmo uma façanha colocar meu nome numa database. Dannie segurou o comentário. Não era mais uma atrevida. De qualquer maneira, ninguém achava graça nas suas piadinhas. Duas batidas à porta fizeram o coração de Dannie disparar. Elise Arundel, a fadamadrinha de Dannie, enfiou a cabeça pela porta. — Oh, Dannie, está adorável. Dannie sorriu, modesta. Precisava de muita prática para ser modesta. — Graças a você. — Não fui eu que escolhi o vestido, foi você. É perfeito para sua estrutura esguia. Jamais preparei alguém como você. Tem um talento natural. — Compensei a total incompetência com os cosméticos. — Dannie franziu a testa. Tinha parecido ingrata? Era este o problema quando mudava a personalidade para se tornar uma esposa de sociedade. nada vinha naturalmente. O olho crítico de Elise passou pelo rosto de Dannie e ela descartou o comentário com um gesto de mão. — Não há uma falha em você. Leo vai ficar louco. E o coração dela disparou de novo. A figura no espelho olhou de volta para ela, quase uma estranha, mas com o mesmo escuro cabelo castanho e olhos cor de amêndoa. Leo gostaria do chignon sofisticado? Da postura ereta? Da mulher apavorada no vestido bege? E se não gostasse de morenas? Estava sendo tola. Ele vira seu retrato, como vira o dele. Haviam conversado duas vezes pelo telefone. Tinha sido muito agradável e esclareceram diversos pontos importantes do casamento: deixariam que o lado da intimidade evoluísse com o tempo, um esclarecimento fundamental para ela já que demonstrara que não pensava que estava comprando “serviços sexuais”. E havia ficado claro que eventualmente poderiam ter filhos. Nenhum dos dois tinha ilusões sobre o objetivo do casamento: um meio permanente para um fim. Por que estava tão nervosa sobre o que era, na essência, um casamento arranjado? A mãe passou a mão sobre o cabelo de Dannie. — Você logo será a sra. Leo Reynolds e todos os seus sonhos serão realizados. Pelo resto de sua vida, terá a segurança e a camaradagem que nunca tive. Acessos de tosse acompanharam as palavras e a mente de Dannie ficou tranquila. A fibrose pulmonar estava matando sua mãe. Dannie ia se casar com Leo para salvá-la. E nunca esqueceria o que devia a ele. O que devia a Elise. A mãe estava certa. Sempre quisera ser esposa e mãe, agora tinha a oportunidade. O casamento baseado em compatibilidade garantiria a segurança para ela e sua mãe. Não devia ficar triste por esta segurança não ter como base o amor. Talvez o amor crescesse com o tempo, com a intimidade. Ia se agarrar àquela esperança. Com um sorriso encantado, Elise abriu a porta. — Leo está esperando por você diante da lareira. Aqui, pegue seu buquê. Simples 8


e de bom gosto, com orquídeas e rosas, como você pediu. As flores quase fizeram Dannie chorar. — É lindo. Tudo está lindo. Não sei como agradecer. Ainda não conseguia acreditar que Elise a havia selecionado para o programa da EA International. Inscrevera-se como um último recurso. A mãe precisava de cuidados intensivos de longo prazo que não podiam pagar, assim Dannie fazia com satisfação o que quer que sua mãe necessitasse, marcar consultas médicas, cozinhar, limpar. O pai partira antes mesmo de ela nascer; tinham sido apenas as duas contra o mundo desde o começo. Infelizmente, os empregadores raramente gostavam do tempo que ficava fora do trabalho para cuidar da mãe. Depois de ser demitida do terceiro emprego seguido, a situação ficou muito grave. Procurara em vão um trabalho que pudesse fazer em casa com um horário flexível. Depois de horas no computador da biblioteca, estivera prestes a desistir quando vira um anúncio da EA International, com a foto de uma noiva e a pergunta: Já sonhou com uma espécie diferente de carreira? Como poderia deixar passar? A EA International convidava mulheres com habilidades administrativas superiores, o desejo de melhorarem de vida e a capacidade de se tornarem “a mulher por trás do homem” a se inscreverem num ousado e original programa de treinamento. Quem teria habilidades administrativas melhores do que alguém que administrava os cuidados com uma mãe sempre doente? Sem nada a perder, Dannie se inscrevera e, choque dos choques, recebera o telefonema. O destino ajudou; a sede da EA International era em Dallas, onde Dannie vivia. Elise poliu Dannie até ela brilhar, então a considerou compatível com um homem que precisava de uma elegante esposa de sociedade. Em troca de organizar e administrar a casa de Leo e preparar suas festas, das quais seria a anfitriã, Dannie poderia providenciar os cuidados para a mãe sem mais preocupação financeira. Um casamento que era pouco mais do que um contrato de trabalho pareceu um preço baixo a pagar. — Você é uma das minhas formandas mais bem-sucedidas. — Elise entregou o buquê a Dannie. — E garanto que o seu será um dos meus casamentos de maior sucesso. Você e Leo são totalmente compatíveis. O estômago de Dannie apertou. Queria gostar dele. Queria gostar de ser casada. Sentiria atração por ele? E se não sentisse? O lado íntimo do casamento jamais aconteceria? Talvez devesse ter insistido que se encontrassem pessoalmente. Mas não tinha importância. Atração não era um fator e, certamente, um dia teriam afeto um pelo outro. — Temos objetivos semelhantes e reconhecemos como é prática esta união. Acredito que seremos felizes. Leo tinha montanhas de dinheiro. Teria ficado feliz com apenas uma montanha. Tanta riqueza a intimidava, mas Elise garantira que poderia lidar com a situação. Afinal, Dannie teria uma posição valiosa na vida dele e poderia ser um dia a mãe de seus filhos. Seu treinamento deixara muito claro que a mulher por trás do homem trabalhava tanto como mulheres em carreiras profissionais. — Felizes é exatamente o que serão. — Elise verificou o fecho da corrente no pescoço de Dannie. O pingente de um coração aberto tinha sido um presente da casamenteira quando Dannie concordara em se casar com Leo. — Meu programa de computador nunca erra. A mãe de Dannie comentou: — Este é o melhor tipo de casamento e vai durar para sempre porque é baseado em compatibilidade, não em sentimentos. É tudo o que Dannie quer. Dannie se forçou a acenar, embora quisesse discordar, e pensou brevemente em 9


Rob. Tinha sido tão apaixonada por ele. E veja o que ganhara, um coração partido e a determinação de controlar seu gênio para que nenhum homem a chamasse de novo de franca e teimosa. Estragara completamente aquele relacionamento. Não estragaria este. A mãe não suportaria. — Sim, segurança e companheirismo. O que mais eu poderia querer? Contos de fadas eram sobre soluções mágicas para problemas e pessoas que se apaixonavam. Mas seus relacionamentos não venceriam o teste do tempo. Na vida real, mulheres tinham que fazer sacrifícios e Dannie estava fazendo o dela. Sem mais pensamentos melancólicos e ridículos, ela saiu para se encontrar com seu destino, rezando para que ela e Leo pelo menos chegassem a gostar um do outro. Se houvesse mais, ótimo. Seria um bônus. Seguida pela mãe e Elise, Dannie parou no alto da escadaria em curva e olhou a cena abaixo. Com otimismo, Elise havia colocado arranjos de flores na cornija e de cada lado da lareira. O coração de Dannie apertou com a delicadeza da mulher que havia se tornado uma amiga. Um fotógrafo estava a postos, pronto para capturar momentos preciosos, e o ministro de cabelo grisalho esperava diante da lareira. Ao seu lado direito, estava Leo Reynolds. Seu futuro marido. Um choque de... alguma coisa lhe percorreu o corpo. Era exatamente como sua foto, mas em pessoa: alôô! Moreno, cabelo liso comprido, um terno caro que envolvia um corpo masculino claramente em forma. Feições clássicas formavam um rosto tão bonito que seria capaz de vender uma edição inteira da revista GQ. Mais Ashley do que Rhett, o que era adequado já que banira sua Scarlett O’Hara interna para um lugar que o sol não iluminava. Leo também parecia educado, do tipo que não hesitaria em carregar as compras de mercearia de uma senhora até o carro. Dannie quase rosnou. Se Leo Reynolds já tivesse visto o interior de uma mercearia, comeria seu buquê. Era um homem ocupado, o que era bom para ela, ou não teria necessidade de uma esposa. Não pela primeira vez, perguntou-se por que precisara de uma casamenteira. Era bonito, rico e tinha boa reputação. A fila de mulheres elegíveis daria a volta ao quarteirão. Os olhos em Leo, desceu a escadaria com facilidade ensaiada, fizera aquilo sobre saltos de dez centímetros dezenas de vezes e não falhou naquele dia, apesar da tensão. Em poucos segundos chegou até Leo. Nos saltos altos, era quase da altura de Leo. Estudou-lhe o rosto enquanto ele fazia a mesma coisa. O que se dizia a um homem com quem estava prestes a se casar e via pela primeira vez na hora da cerimônia? Ei, imagine encontrá-lo aqui. Uma risadinha histérica ameaçou escapar. Não seria um bom começo. — Oi. — Bem, parecia seguro e razoável. — Oi. — Leo sorriu e lhe provocou uma onda quente e agradável. Visto de perto, era sólido e poderoso. Em teoria, sabia que Leo era sua segurança. Mas agora isto parecia muito mais. verdadeiro. E a afetava mais. Ficaram de frente um para o outro. Os nervos endureceram os joelhos de Dannie e ela tentou se compor. Se caísse no meio da cerimônia, Elise jamais a perdoaria. — Vamos começar. O ministro abriu a Bíblia e começou a recitar os votos que Dannie escolhera por insistência de Leo. Para o melhor e o pior, para a riqueza e a pobreza. Nada disto se aplicava ali; não era um casamento de verdade. Aqueles votos eram destinados a lembrar a casais apaixonados que deviam se manter firmes quando as coisas ficassem difíceis. Pela visão periférica, tentou sentir a reação de Leo a tudo aquilo. E, de repente, desejou que tivessem conversado mais antes. Mas Elise não escolheria um homem desagradável para ela. Seu processo de seleção era impecável e a combinação entre ela e Leo atingira 47 pontos na escala de personalidades. Desde que não fosse um criminoso ou um espancador de esposas, o que importava se tinha senso de humor ou gostasse de 10


dramas históricos? — Você aceita Leo como seu legítimo marido? Dannie limpou a garganta. — Aceito. Com a mão trêmula, colocou a simples aliança de platina no dedo de Leo. Ou tentou. Quando ele lhe cobriu a mão para ajudar, ela ergueu os olhos para os dele. O mesmo choque estranho que experimentara na escadaria lhe abalou o corpo. Como se ele fosse alguém que conhecia mas de quem não conseguia se lembrar. Afastou a sensação. Nervos. Era tudo. Então Leo também respondeu à pergunta com voz forte e clara. Não estava nervoso. Por que estaria, com toda aquela confiança masculina? Estava feito. O divórcio não era uma opção. Ela e Leo haviam declarado em seus perfis a intenção absoluta de manter o compromisso e aquele tinha sido o primeiro tópico sobre o qual conversaram ao telefone. Leo tinha sido generoso demais no contrato pré-nupcial original e ela exigira alterações profundas. No caso remoto de divórcio, os filhos teriam garantia financeira, mas ela nada receberia. Era sua melhor maneira de demonstrar a seriedade com que encarava o casamento. Leo representava segurança, não dinheiro. E, em troca da segurança, seria a esposa de que ele necessitava. Aquele casamento era uma solução permanente para seus problemas. O que estava ótimo para ela. Leo jamais a abandonaria como seu pai fizera e ela nunca mais teria que se preocupar se ele deixaria de amá-la se estragasse tudo. O ministro terminou a cerimônia com a frase tradicional. — Pode beijar a noiva. Oh, por que não cortara aquela parte? Seria tão estranha. Mas era seu casamento. Não devia receber um beijo do marido? Um beijo para selar o acordo? Leo se virou para ela, a expressão ilegível. Quando inclinou a cabeça, ela fechou os olhos. As bocas se tocaram. E se demoraram por um momento intenso. Suas entranhas deram nós. Talvez a possibilidade de haver mais do que apenas afeição entre eles não fosse tão remota como imaginara. Então ele se afastou como se tivesse mordido uma fatia de limão. Seu primeiro beijo. Tão... breve e desapontador. Houvera um indício de fagulha que não tivera tempo de desfrutar. Ele não sentira? Era evidente que não. Sua mãe e Elise bateram palmas e se aproximaram dela e de Leo para lhes dar os parabéns entusiasmados. Dannie engoliu em seco. O que havia esperado. que Leo se transformasse magicamente de financista em Príncipe Encantado? O programa de computador de Elise a combinara com o marido perfeito, aquele que cuidaria dela e de sua mãe e a trataria bem. Devia estar feliz. Não devia pensar em como Leo a beijaria se tivessem se encontrado em circunstâncias diferentes. Se estivessem se casando porque se amavam, durante a cerimônia ele a olharia como se não pudesse esperar pela lua de mel. Não devia, mas o pensamento não desaparecia, como seriam aqueles calmos olhos azuis quando estivessem ardentes de paixão?

CAPÍTULO 2

Daniella estava em pé perto da porta com as mãos cruzadas e o olhar baixo. A 11


esposa de Leo era refinada e modesta, exatamente como ele exigira e esperara. Mas não esperara que a foto tivesse mentido. E tinha sido uma mentira de proporções épicas. Não era atraente de um modo comum, como pensara. A mulher com quem se casara irradiava energia sensual, como se seu espírito estivesse preso atrás da barreira de carne. Se a barreira caísse, cuidado. Não era apenas linda; em pessoa, Daniella desafiava descrição. A musa da poesia e das canções de Michael Bublé. Se tivesse inclinação para aquele tipo de coisa. Até seu nome era exótico e incomum. Não conseguia parar de olhar para ela. Não conseguia parar de pensar naquele beijo rápido demais e que interrompera porque sentira o começo de alguma coisa que levaria muito tempo para terminar. Todo o corpo zumbia em reação à energia concentrada que queria tanto explorar. O que ia fazer com uma mulher como aquela? — Estou pronta para partir quando quiser, Leo. — A voz era suave e firme. Ele a levaria para casa. Apesar de ser distração com letras maiúsculas, estavam casados. Por que não havia se encontrado com ela pessoalmente antes do casamento? Porque achava que tinha tomado todas as providências necessárias, todos os cuidados. Conversara com clientes satisfeitos da EA International e estivera com Elise Arundel diversas vezes. Confiara em sua capacidade de encontrar a parceira perfeita e as informações que a sra. Arundel lhe dera confirmaram sua escolha. Daniella White era a mulher perfeita para ser sua esposa. As duas conversas pelo telefone haviam selado o acordo. Reconhecera imediatamente sua adequação. Por que adiar o casamento quando pensavam da mesma forma sobre tantas coisas e nenhum se importava se houvesse ou não atração entre eles? Era melhor agir logo. Se tivesse que fazer tudo de novo, incluiria uma nova exigência: não me faça formigar. Era Carmen de novo, apenas pior porque não era mais um menino apaixonado de 17 anos e Daniella era sua esposa. Mulher nenhuma teria permissão para levá-lo pelo mesmo caminho catastrófico que seu pai trilhara. E agora aquilo. Seu casamento era sobre compatibilidade e conveniência e não um mergulho insensato na loucura. Era importante que começassem com o pé direito. — Meu motorista já pegou sua bagagem? — Sim, obrigada. — Já se despediu? — Sim. Estou pronta. A conversa era quase dolorosa. Era por isto que preferia fazer um tratamento de canal a levar uma mulher para jantar, era por isto que não gostava de encontros. Estavam casados, eram compatíveis e deviam estar além da conversa fiada. Leo esperou até estarem no carro antes de falar de novo. Ela havia cruzado as longas pernas de maneira graciosa, os sapatos voltados para o mesmo lado. E a devorava com os olhos. Antes de começar a babar, afastou o olhar daquelas pernas. — Se não se importa, gostaria de convidar meus pais para conhecê-la esta noite. — Ficarei feliz de conhecer seus pais. Podia tê-los convidado para a cerimônia. Pelo seu perfil, sei como sua família é importante para você. Leo ficou perplexo pela alegria que sentiu por ela se lembrar. — Não ficaram muito entusiasmados com o casamento. Minha mãe preferia que eu me casasse por amor. — Lamento. — Tocou-lhe o braço por um instante. — Deve viver sua vida de acordo com o que faz sentido para você, não para sua mãe. Tudo nela era gracioso. Seu modo de falar, seus maneirismos. Classe e estilo a destacavam das massas comuns e era difícil acreditar que nascera e tinha sido criada no mesmo ambiente de pobreza que ele. Tinha força e compaixão e admirava sua dedicação 12


à mãe. E emanava uma sensualidade tão atraente que mal podia afastar os olhos dela. Apenas porque era novidade. No dia seguinte tudo desapareceria. Ele relaxou. Um pouco. Aquele casamento funcionaria e lhe permitiria manter o foco na empresa sem sentimento de culpa, enquanto a esposa cuidaria das coisas domésticas e não exigiria sua atenção. Pagara uma pequena fortuna à sra. Arundel para garantir que fosse assim. — Daniella, sei que mal nos conhecemos, mas gostaria de mudar isto. Primeiro, e principalmente, pode sempre conversar comigo. Dizer se precisa de alguma coisa ou tem algum problema. Qualquer problema. — Obrigada. É muito gentil. A gratidão brilhou no rosto dela e o deixou vagamente desconfortável, como se fosse o senhor da mansão distribuindo favores para as massas adoradoras. Eram iguais naquele casamento. — Como lhe disse ao telefone, tenho muitas obrigações sociais. Vou depender de você para lidar com elas, mas sempre pode me procurar se precisar de ajuda ou tiver dúvidas. — Sim, compreendo Ela começou a dizer alguma coisa, então mudou de ideia como se tivesse medo de falar demais. Provavelmente nervosa e insegura. — Daniella. — Leo fez uma pausa, pensando na melhor abordagem para amenizar a tensão que pairava no ar. Ela ergueu aqueles brilhantes olhos cor de amêndoa que tinham um traço de vulnerabilidade. O que o comoveu. — Estamos casados. Quero que confie em mim, que se sinta à vontade perto de mim. — Confio em você. — A expressão era tão séria que quase lhe contou uma piada para ver seu sorriso. — Você é tudo o que eu esperava. Estou muito feliz com a escolha de Elise. Mas apertava as mãos com muita força. A arte de conversar sobre nada não era o forte de Leo, mas certamente podia fazer melhor do que aquilo. — Também estou satisfeito. — Satisfeito, não feliz. Aquele casamento nunca tinha sido sobre felicidade, mas sobre sensatez. — Mas agora temos que viver juntos e deve ser confortável para nós dois. Pode falar comigo sobre qualquer coisa. Finanças. Religião. Política. Sexo. A mente dele não tinha ido lá... mas tinha, e desavergonhadamente, com imagens vívidas de como seriam aquelas pernas sob a saia modesta. Ela manteve o olhar no dele. Uma fagulha brilhou entre eles e, de novo, Leo sentiu sua energia sensual, domada mas pronta para se soltar. e o corpo dele se preparou para recebê-la. Pare, ordenou à imaginação desenfreada. Ele e Daniella tinham um acordo. Um acordo civilizado e racional que não incluía passar a mão pelas coxas dela. Os dedos se curvaram e ele colocou as mãos nos bolsos. Ela olhou para baixo e se moveu de leve, afastando-se. — Obrigada. — Era evidente que sua reação muito carnal a um simples olhar a havia constrangido. Ele limpou a garganta. — Ainda está bem para você deixar que o lado íntimo do nosso relacionamento ocorra naturalmente? Os olhos dela se abriram e ele quase gemeu. Que modo fantástico de deixá-la à vontade. Precisava mergulhar a cabeça num balde cheio de água gelada ou coisa assim antes de apavorá-la tanto. Embora talvez fosse melhor do que ela começar todas as sentenças com sim, como se achasse que esperasse que ela fosse um papagaio treinado. — Sim. — Encontrou-lhe o olhar de frente e ganhou pontos pela coragem. — Por 13


que não estaria? Porque você também sente esta atração entre nós. A química tinha sido um item irrelevante da lista dos dois. Apenas não previra que haveria tanta desde o começo ou que fosse uma possibilidade tão real do perigo de se tornar uma distração. Não era possível. Seu foco tinha que ser no trabalho. Não em despir a esposa. Prazeres indulgentes não estavam no cardápio. — Só quero ter certeza de que pensamos do mesmo modo. — Pensamos. Nosso casamento será amigável e haverá intimidade quando parecer adequado. — A voz falhou um pouco. — Como acordamos. Suas palavras, exatamente. E, de repente, ele desejou não tê-las dito. Desejou poder despertar um brilho de felicidade nos olhos dela. A sensação o tornou mais inquieto do que a química porque não fazia ideia do que significava ou de como deveria agir. — Vamos ter quartos separados, por enquanto. — Tinha sido sua intenção desde o começo e agora parecia ainda mais necessário, com o nervosismo dela. Mas sentiu uma onda inexplicável de desapontamento. — Fazer as coisas devagar. O celular tocou e ele o olhou. Tirara meio dia de folga para a cerimônia de casamento e dera aos funcionários o resto do dia também, mas nunca estava “fora do escritório”. O e-mail era uma mensagem do pessoal de Tommy Garrett dizendo-lhe que a Garrett Engineering estava agora apenas entre a firma de Leo e a Moreno Partners. Excelente. O momento não podia ser melhor. Sua esposa poderia organizar um jantar para Garrett assim que estivesse instalada. — Precisa fazer uma ligação? — A postura de Daniella era muito polida. — Não me importo. Finja que não estou aqui. Como se fosse possível. — Obrigado, mas é apenas um e-mail. Não é necessário responder. Precisava de uma estratégia diferente. Seria melhor pensar nela como uma funcionária. Afastaria anseio de passar o fim de semana na cama, fazendo a esposa rir e arquejar de prazer. E então apertar cem vezes o botão de repetir. Se conseguisse guardar Daniella numa caixa definida, ela se acomodaria em sua vida sem muita comoção. Era o que queria. Do que precisava. Garantia de plena segurança para manter seu foco na Reynolds Capital Management, mesmo se o preço fosse a total solidão. Dannie se manteve calada pelo resto do começo de sua nova vida. Na qual não partilharia um quarto com o marido. Sentia-se alternadamente contente pelo espaço e muito confusa. A onda de consciência entre eles devia ser apenas do lado dela. Ou simplesmente a imaginara. Leo não podia ter deixado mais claro seu desinteresse. Talvez tivesse percebido quem realmente era por trás da máscara fabricada por Elise. E a fantasia sobre como a beijaria se realmente a quisesse desapareceu. Que pena. Seu marido era atraente, de uma forma distante, como um astro de cinema mas, em sua imaginação, ele a beijava como um pirata. Lançou um olhar de esguelha ao homem com quem se casara para sempre. E se Leo decidisse que não gostava dela? Alegara ter um forte senso de compromisso, mas isto não significava que toleraria erros. E erros eram sua especialidade. Sua mãe contava com ela. Também contava consigo mesma. Se Leo quisesse o divórcio, não teria nada. Uma de suas primeiras providências depois que ela aceitara sua proposta, tinha sido contratar para sua mãe uma cuidadora em tempo integral que se especializara em reabilitação pulmonar. E devia começar naquele dia. Sem Leo, sua mãe certamente morreria de forma lenta e muito dolorosa. E Dannie seria obrigada a assistir tudo sem nada poder fazer. As unhas feriram as palmas e quase gritou de dor. Unhas longas. Mais uma coisa 14


com que precisava se acostumar entre as muitas mudanças que Elise promovera nela para ser a esposa perfeita para Leo. Organização e habilidades de conversação eram talentos naturais, mas o polimento... levara bastante tempo para alcançar. Precisava se lembrar de que o trabalho dela era ser o apoio nos bastidores para um homem bem-sucedido. Não se entregar a uma louca paixão pelo marido. — Chegamos. — A voz de Leo tinha a mesma maciez de sempre. Dannie tentou não arquejar quando viu a casa. Nas conversas com Leo sobre a administração de uma casa grande, imaginara uma casa de dois andares, com quatro quartos e um belo quintal, localizada num bairro do subúrbio. Aquela era a ideia que fazia de uma casa grande depois do pequeno apartamento de dois quartos que partilhara com a mãe. Jamais poderia antecipar aquilo. Portões de ferro forjado entre dois largos postes de tijolos e pedras se abriram como por magia e o motorista entrou pelo caminho de pedras que levava até a casa. Árvores colossais alinhavam os dois lados do caminho e bloqueavam o sol, dando ao terreno uma aparência difusa de outro mundo. E terreno era a única palavra adequada. Canteiros impecáveis se estendiam dos dois lados do caminho até os altos muros de pedra. A casa dela. A casa deles. O carro parou num caminho semicircular de cascalho diante da porta. A mansão de quatro pavimentos se espalhava pela propriedade, com seu telhado salpicado de chaminés altas. Devia ter pedido uma foto da casa antes de concordar em administrar uma propriedade daquele tamanho. O que ela estava fazendo ali? — O que acha? Não podia responder com sinceridade. — É muito. — gótica — bonita. Mordeu o lado interno do lábio superior. Todo o trabalho de Elise seria perdido se não conseguisse controlar seu gene atrevido. Tinha lhe ensinado tudo, desde como se sentar e andar até como apresentar pessoas. Sua aparência comum havia sido totalmente transformada e agora era digna de ser capa de uma revista de luxo. E aquele era um teste, saberia se era capaz de ser a pessoa que aparentava ou não. E seria um fracasso de dimensões épicas. Então sorriu para Leo. — É linda, Leo. Estou ansiosa para conhecer tudo. — Vou lhe mostrar. — Colocou a mão na base de suas costas e a levou pela escadaria de pedras que levava à porta da frente. — Por favor, pense nela como seu lar. Podemos conversar sobre qualquer coisa que queira mudar. Qualquer coisa. Menos a parte do casamento arranjado. Era ridículo pensar assim. Mas o dia do casamento tinha sido um anticlímax tão estupendo. E desapontador. Não devia querer que Leo a tomasse nos braços e a carregasse para dentro de casa. No estilo Rhett Butler. Ou desejar que tivessem um romance eterno. Aquela mão em suas costas significava segurança, não paixão. Uma parceria baseada em afeição mútua era suficiente. Era a esposa de Leo, não o amor de sua vida, e não podia sonhar em um dia ser as duas coisas. Leo a levou ao saguão. O interior da mansão se estendia diante dela, com tetos altos, janelas de cima a baixo e longos corredores. Parecia uma catedral, linda e opulenta. A visita a toda a casa durou meia hora. Quando Leo terminou na cozinha, ela estava sem fôlego e só pensava numa coisa que queria mudar imediatamente; seus sapatos. Havia quatro lances de escada na casa. Leo encostou o quadril na ilha de granito no centro da cozinha e pegou um celular da bancada. — Para você. O número já está gravado, assim como os códigos de alarme do 15


sistema de segurança e de acesso à internet. Ela pegou o celular caro. — Obrigada. Seu número também está aqui? — Sim. Aqui está o manual. Este modelo tem muitas utilidades. Sinta-se livre para acrescentar itens à minha agenda quando precisar. Está aí também o número da sra. Gordon, minha assistente executiva. Está ansiosa para conhecê-la. — Oh. Está bem, farei contato com ela. — O carro e o motorista ficarão à sua disposição pelo tempo que quiser. — A voz suave lhe tranquilizou os nervos enquanto ele percorria todos os itens de uma lista mental. — Mas, por favor, compre um carro para você. O que quiser. Precisa ter independência. Um carro. Do tipo que quisesse. Andava de transporte público havia tanto tempo que a ideia quase a fez desmaiar. Haveria alguma coisa em que não pensara? — Isto é muito gentil. Obrigada. Mas não havia terminado de dispensar seus favores benevolentes. — Abri uma conta bancária para você. Receberá depósitos todo mês, mas se precisar de mais, é só me dizer. Gaste como se fosse o seu dinheiro, não o meu. — Tirou um cartão de crédito negro e brilhante do bolso do paletó e entregou a ela. — Sem limite. — Leo. — Ele a deixara assombrada tantas vezes que mal podia falar e precisou piscar para afastar as lágrimas. — É muita generosidade. Lamento se lhe pareço atrevida, mas preciso perguntar. Por que me dá tudo isto sem esperar nada em troca? Ele franziu as sobrancelhas, confuso. — Na verdade, espero muita coisa em troca. — Quero dizer no quarto. Leo ficou imóvel. É, atrevimento demais. Mas, puxa, mesmo? Um cartão de crédito sem limites e não queria nem mesmo uma visita conjugal por mês? Havia alguma pegadinha e preferia não ser surpreendida por ela mais tarde. — Daniella. — Leo engoliu em seco, sem saber o que dizer. Por que não conseguia manter sua grande boca fechada? Devia ter ficado nos sim e obrigada. — Desculpe — disse depressa. — Tem sido apenas gentil e não tenho o direito de duvidar de seus motivos. As linhas no rosto bonito desapareceram e ele ergueu uma das mãos. — Não precisa se desculpar. Quero um bom relacionamento em que você sinta que somos iguais. A melhor maneira de conseguí-la é lhe dar seu próprio dinheiro e o poder para usá-lo como quiser. Ela ficou olhando para ele. Poder. Ele estava lhe garantindo o poder com aqueles gestos. O homem com quem se casara era cheio de consideração, generoso e capaz de entender a posição de outra pessoa. A gratidão lhe apertou o peito. — Não sei o que dizer. — Não precisa dizer nada. — Sorriu e ela se sentiu confortada. — Lembre que vou ficar muito tempo no escritório. Precisa encontrar um hobby ou ser voluntária em alguma obra beneficente para se manter ocupada. Um carro será uma grande vantagem. Estava lhe dando os meios para se divertir quando seu foco único devia ser ele e suas necessidades sociais. — Não vou ficar muito ocupada com suas obrigações sociais? — Não, não tomarão todo o seu tempo. Vai construir uma vida aqui e, quando nossos caminhos se cruzarem, devemos desfrutar da companhia um do outro. Pode me contar histórias sobre as coisas em que se envolver. Elise a havia treinado bem. Era parte de seu papel fornecer tópicos estimulantes de conversa para os associados de negócios de Leo. E poderia praticar a arte com o próprio 16


marido. Afinal, eram um casal conversando na cozinha. — Faz sentido. — Ótimo. Os olhos dele se tornaram calorosos e o transformaram de um belo ator de cinema em outra coisa completamente diferente. Ela prendeu a respiração. Se era assim que seus olhos ficavam quando estava contente, realmente queria vê-los quando estivessem cheios de desejo. Balançou a cabeça. Estavam falando sobre hobbies. Leo lhe tomou a mão casualmente, como se tivesse feito aquele gesto centenas de vezes. — Não quero que fique desapontada com o nosso casamento. No passado, foi uma luta equilibrar trabalho e relacionamentos porque as expectativas não eram claras desde o começo. As mulheres nos meus círculos sociais exigem uma atenção que não posso lhes dar e estou grato porque isto não será um problema para nós. A sensação da mão dele na dela subiu por todo o braço e a deixou inquieta. Devia ser por isto que não se segurou. — Não conseguiu encontrar uma única mulher além de mim que estivesse disposta a perdoar sua ausência em troca de uma vida de luxo? Sua mãe teria um ataque cardíaco se pudesse ouvir Dannie. Mas ele dissera no carro que podiam conversar sobre qualquer coisa. — Claro. Mas queria a mulher certa. E, de repente, entendeu o motivo por que ele procurara uma casamenteira. Tentara encontrar uma mulher sem se esforçar para fazer um relacionamento funcionar e suas namoradas anteriores o mandaram para o inferno. Para evitar a competição, comprara uma esposa. Ela. Não era de admirar que fosse tão incisivo sobre o cumprimento de deveres. Não queria que ela se afastasse quando descobrisse que ficaria sempre sozinha naquela imensa mansão a partir daquele momento. Realmente gótico. — Compreendo. — Daniella. — O olhar prendeu o dela, implorando-lhe que acreditasse. em alguma coisa. Mas, o quê? — Nenhum de nós tem ilusões sobre este casamento e é por isto que vai funcionar. Compreendo sua necessidade de segurança. Fico feliz de proporcioná-la a você porque é assim também para mim. Ela acenou e pediu licença para desfazer as malas, e conseguir um espaço para respirar. A segurança era importante e se casara com um homem bom e sólido que jamais a deixaria como seu pai. Apenas não esperara que a gratidão pela segurança se transformasse em alguma coisa calorosa pelo marido que a forneceria. E que prometera nunca estar por perto. Enquanto subia a escadaria para seu quarto, compreendeu seu apelo. Precisava tanto dela como ela dele.

CAPÍTULO 3

A seda definitivamente não estava lá Dannie quando fizera as malas. Segurou o baby-doll e percebeu o cartão: “Para a noite de núpcias. Elise”. Dannie ergueu a lingerie. Bojos de renda negra cobriam os triângulos vermelhos de 17


seda, que amarravam na nuca. Seda vermelha descia em cascata do busto e permitia a visão de uma tira de carne até a calcinha também vermelha. Ou permitiria se tivesse um ataque de loucura e usasse uma coisa tão sexy para o marido. Era um convite para uma quente noite de núpcias. Para outra mulher, não para Daniella Reynolds. Dannie havia se casado com um viciado em trabalho. Guardou a lingerie sexy bem no fundo da gaveta que escolhera para as roupas de dormir e suspirou. Bem, teria sido uma noite inesquecível se o marido tirasse os olhos de seu objetivo principal. E se estivesse atraído por ela. E se partilhassem um quarto. E o que esperava? Que Leo se apaixonasse loucamente à primeira vista? Precisava superar seus sonhos tolos e parar de agir como se Leo lhe tivesse negado alguma coisa que nem queria quando concordara em se casar com ele. Dannie fechou a gaveta com mais força do que deveria e voltou para a cama para terminar de guardar seu escasso guarda-roupa. Se fosse ficar sozinha, aquele era certamente o lugar certo. O quarto rivalizava com as suítes mais luxuosas que já vira em filmes. Havia um minibar com uma pequena geladeira bem estocada. Um tablet estava sobre a mesinha de cabeceira e provavelmente Leo havia feito o download de centenas de livros, já que seu perfil revelava que gostava de ler. O centro de entretenimento era equipado com uma televisão enorme de tela plana com canais a cabo, um DVD player, um sistema de som digno de uma boate e um controle remoto de luxo. Os manuais para os aparelhos estavam sobre o edredom de seda. Era evidente que Leo havia pensado em tudo. Quando dobrou o último par de meias, já era tarde. Os pais de Leo deviam chegar em trinta minutos. Ligou para a mãe, para saber como era a nova cuidadora, e recebeu excelentes notícias. Aliviada, Dannie foi ao banheiro, organizou seus produtos de maquiagem e se refrescou. Voltou ao quarto e se vestiu com uma saia simples cor de lavanda e uma blusa cinzenta fechada. Seu pequeno guarda-roupa de peças que podiam ser combinadas tinha sido outro presente de Elise. Calçou sandálias de salto e refez o chignon e a maquiagem. Então se olhou no espelho de corpo inteiro. Quem era aquela mulher no espelho? — Daniella Reynolds — sussurrou, então repetiu mais alto para se acostumar com o som. Apenas o pessoal de telemarketing e sua avó a chamavam de Daniella. Mas gostava do modo como Leo dizia seu nome. Hora de assumir seus deveres de anfitriã dos pais de Leo e descer. Leo não estava na luxuosa sala de estar. Ou na cozinha ou em qualquer outro lugar do primeiro pavimento. Finalmente viu a cabeça escura debruçada sobre a escrivaninha no estúdio. Leo estava trabalhando. Puxa, que choque. Por que não pensara em verificar primeiro no estúdio? Esperança? Observou-o por um momento, curiosa. Estantes até o teto deviam tornar pequeno o homem na sala. Mas não; a persona de Leo dominava tudo. Havia tirado o paletó do terno e enrolado as mangas da camisa até a metade dos braços. Com o cabelo ligeiramente desarrumado, era adorável. De repente, ele ergueu os olhos, distraído, com um meiosorriso, e o estômago de Dannie apertou. Certo, era mais do que adorável. Era delicioso e totalmente intocável, uma combinação irresistível. Sua Scarlett O’Hara interna imaginou um cenário que envolvia aquela lingerie e a escrivaninha de Leo. Ei, aqui está um assunto importante para você estudar. — Ocupado? — Estou, uh, apenas dando os retoques finais. — Lançou um olhar furtivo à tela do laptop como se houvesse ali alguma coisa de que se envergonhava. — O que está fazendo? Vídeos do YouTube? — Cale a boca, Scarlett. Não era da conta dela se estava monitorando os preços do mercado de ações ou participando de um fórum de jogos. — Quero dizer. — Não sabia o que dizer. 18


— Não. — Fechou o laptop e ela pensou que era o fim do assunto. Mas então seus lábios se moveram num pequeno sorriso. — Oriento alunos de faculdade on-line. Estava verificando um plano de negócios com um deles. — Isto é maravilhoso. — O que havia de vergonhoso naquilo? — Eles certamente devem prestar muita atenção quando seu nome aparece. É como ganhar na loteria de mentores. — Seu marido era generoso e gentil. É claro que era. Elise não a teria combinado com aquele homem se não fosse. — Eu oriento de forma anônima. — Oh. Por quê? — O mundo dos negócios é... — Aflito, passou a mão no cabelo já despenteado e os dedos dela coçaram para ajeitá-lo. — Vamos dizer que a competição não hesitaria em atacar a fraqueza. Não lhes mostro nenhuma. Orientar a nova geração de homens de negócios seria visto como uma fraqueza? — Richard Branson é mentor de crianças. Não sei por que ele pode e você não. — Ele é considerado um sucesso. — As palavras silenciosas eu não sou ficaram no ar. Então Leo se levantou, desenrolou as mangas e saiu de trás da escrivaninha, deixando claro que a conversa tinha chegado ao fim. — Vamos? Ela abriu a boca, então a fechou e engoliu as dezenas de perguntas que gostaria de fazer. A expressão dele se fechou. — Claro. A campainha soou e ela seguiu Leo até o saguão para conhecer o sr. e a sra. Reynolds. Leo fez as apresentações e Dannie apertou as mãos de um sorridente e grisalho sr. Reynolds. A mulher de cabelo escuro como os de Leo abraçou Dannie com força. — Estou tão feliz por conhecer você! — Eu também estou feliz de conhecê-la, sra. Reynolds. — Dannie inalou o perfume da sogra, que a lembrava de cookies de baunilha. — Oh, por favor, Susan. — Sinto muito, mas estava esperando alguém mais... — Fria. Crítica. Dura. — Velha. Susan riu. — Oh, você não é uma gracinha? Venha comigo à cozinha e deixe Leo conversar com o pai enquanto preparamos as bebidas. Depois de um olhar a Leo, Dannie seguiu Susan e observou enquanto a mãe de Leo abria armários, pegava copos e conversava como se fossem velhas amigas. Era evidente que Susan se sentia à vontade na casa do filho. Ao contrário da esposa do filho. — Peço desculpas por ter perdido a cerimônia, Daniella. — Susan lhe entregou um copo de chá e lhe tocou o ombro. — Foi um protesto inútil e idiota. Mas estou zangada com Leo, não com você. — Oh. — Precisava encontrar outra resposta, aquela estava gasta. — Ele é tão... Leo. Sabe? — Susan suspirou e Dannie acenou, embora não soubesse. Mas gostaria.— -Focado demais. Intenso demais. Tudo demais, menos no que interessa. — O que interessa? — Vida. Amor. Netos. Ele lhe contou que desenha? Quase se engasgou com o chá. — Desenha o quê? — Exatamente o que pensei. Leo prefere morrer a deixar que saibam que faz uma coisa tão frívola. Ele pode desenhar qualquer coisa. Animais. Paisagens. Pontes e edifícios. Tem muito talento. Como seu xará. — Leo recebeu o nome de alguém que desenha? — Imaginou um avô desenhando histórias em quadrinhos. 19


— Leonardo da Vinci. Dannie quase deixou cair o copo. O nome completo de Leo era Leonardo? Não Leonard? Não devia importar, mas importava. Casara-se com um homem com um nome romântico que criava arte com apenas lápis e papel. Queria ver alguma coisa que tivesse desenhado. Mais ainda, queria que mostrasse a ela voluntariamente. Partilhar aquela parte profunda de si mesmo. A mãe de Leo lhe revelara uma pequenina porção da personalidade do filho e estava ansiosa para saber mais. Tinham sido combinados e Dannie queria saber mais do que poderiam partilhar além do amor a livros e à família e o respeito a compromissos. — Daniella, sei que seu casamento com meu filho é um tipo de acordo e parece que está tudo bem para você. Não vou me intrometer. Mas Leo precisa de alguém que o ame, alguém que ele possa amar. Se não for você, por favor, afaste-se. O pulso de Dannie disparou. Aquele casamento era apenas um meio para um fim. Estabilidade para sua mãe e, para Leo, uma esposa para administrar sua casa, organizar suas festas e encantar seus associados de negócios. Mais importante, sua esposa deveria lhe dar o que precisava, o que não era necessariamente a mesma coisa que ele dizia precisar. A mulher por trás do homem tinha que ser inteligente para realizar melhor seu trabalho. A Scarlett interna respirou profundamente e disse novo plano. — E se for eu? O sorriso de Susan poderia iluminar o mundo. — Então, seja bem-vinda à família. Leo fechou a porta depois da partida dos pais e parou por um momento antes de se virar. Para se fortalecer. Não adiantou; continuou consciente demais de sua vibrante esposa. E, quando se virou, lá estava ela. Observando-o com aqueles olhos astutos, o peito subindo e descendo de leve, os seios lindos se esticando sob a blusa cinzenta. Notava como ela respirava. Precisava de um banho gelado. Seus pais haviam gostado de Daniella, felizmente, porque a conversa animada escondera o fato de que ele não participava muito. Estivera ocupado fingindo que não notava a esposa. Mas ela havia sido sensacional. Conversava bem. Era uma excelente anfitriã. Calorosa, amigável. Sexy. Agora eram apenas os dois. Conversar era inevitável. — Obrigado por ter sido tão amável com meus pais. Ela lhe lançou um olhar perplexo. — De nada. É para isto que estou aqui, não é? A pergunta devia ser retórica. — Sim, e fiquei contente. — Gostei de conhecer seus pais. Sua mãe é muito interessante. — O que ela lhe disse na cozinha? — Nada importante. O sorriso era gracioso e inocente. Demais. — Não dê ouvidos à minha mãe, Daniella. Ela sofre de uma síndrome terrível e sem cura; excesso de romantismo. — Dannie. — O quê? Ela se aproximou até estarem respirando o mesmo ar. E o peito dela quase tocava o dele. — Daniella é formal demais, não acha? Chame-me de Dannie. Ele balançou a cabeça. Quando mais formal, melhor. 20


— Não há nada de errado com o nome Daniella. É incomum. Lindo. Combina com você. Os olhos dela se iluminaram e, de repente, era a única a respirar porque tudo nele parou de funcionar. Nada ao sul da cintura sofreu o mesmo problema. E tudo lá estava em alerta total. — Acha que sou linda? Havia dito aquilo? O cérebro não funcionava direito. — Seu nome. Disse que seu nome é lindo. A alegria desapareceu do rosto dela e ele praguejou. Se pudesse conversar com sua esposa apenas por e-mail, talvez evitasse ferir seus sentimentos. — Claro, você também é. Suave. Bela saída, pensou com sarcasmo. Suave. Descrevia uma paisagem de inverno. Pela perspectiva de uma mulher de 80 anos. Naquele momento escapava para fazer uma coisa na qual era excelente: trabalho. Não olhou de novo para ela. — Boa noite. — Leo. — A mão firme em seu braço o impediu de continuar a andar. — Eu lhe pedi que me chamasse de Dannie porque é assim que meus amigos me chamam. Somos amigos, não somos? A voz calorosa acendeu um fogo lento dentro dele. Não se virou, não ousava olhar para ela. Alguma coisa fundamental havia mudado em seu comportamento; a coleira que mantinha sua energia sob controle se partira e precisava ter cuidado. Estava no ar. Com certeza não estava mais com medo de falar com ele. — Eu... sim, é claro. Ela roçou no braço dele quando o rodeou, aparentemente insatisfeita de falar com suas costas. A blusa se abriu de leve e revelou um pouco dos seios. O fogo lento cresceu. Estavam falando sobre serem amigos, não amantes. O que havia de errado com ele? Dannie. Não, íntimo demais. Daniella era atraente demais. Como devia chamá-la? Ei, você? Não conseguia compartimentar sua esposa, o que era péssimo. — Amigos. — A voz saiu rascante. Certo, bom. Daniella podia ser colocada na caixa de amigos. — Amigos. — Sem romper o contato dos olhos, ela estendeu a mão e lhe afrouxou a gravata, os dedos se demorando. — Que se ajudam a relaxar. Relaxar? Cada terminação nervosa no corpo estava em fogo com o poder do toque da esposa. O leve cheiro de morangos emanava do batom em seus lábios e ansiava para prová-los. — O que a faz pensar que preciso relaxar? — Estou sentindo a tensão daqui, Leo. Era assim que chamavam agora? Parecia-lhe a velha e boa atração sexual. Como se puxado por linhas invisíveis, seu corpo se aproximou mais do dela e a promessa de calor se transformou em realidade quando os quadris se encontraram uma vez, duas. A mão dele voou por vontade própria para a base das costas e a puxou para ele. Os dedos ainda presos à gravata solta, ela o puxou de leve. O rosto se ergueu, os lábios prontos para serem tomados em outro beijo, mas desta vez nada o impediria de mergulhar profundamente. De descer a boca para o torso da esposa, diretamente para. Ele praguejou, haviam concordado em manter as coisas platônicas e estavam no meio de uma conversa sobre amizade. No entanto, ali estava ele salivando à ideia de beijá-la, de rirem juntos de uma brincadeira, de serem mais do que uma conveniência um para o outro. Deu um passo deliberado para trás e a mão dela na gravata caiu. Se tinha este efeito tão forte sobre ele, estava mais atraído do que percebera. Não queria ficar obcecado pela esposa. 21


— Estou tenso porque tenho muito trabalho a fazer. Obrigou o corpo e sua irritante solidão a se submeterem. Ou tentou. Parecia que estava destinado a perder aquela batalha. Já que ela claramente não parecia mais com medo de falar, teria que abrir espaço entre eles de outra forma. — Vamos passar um tempo juntos, mas será apenas um relacionamento superficial. Se não funcionar para você, vamos anular o casamento. Um brilho de dor surgiu nos olhos dela e o peito dele apertou. Apenas lhe pedira que fossem amigos e lhe afrouxara a gravata. Por que estava transformando aquilo em um pecado capital? Não fazia parte do plano de deixar que o relacionamento se tornasse naturalmente mais íntimo? — O que aconteceu para torná-lo tão frio? — A voz era calma e nem um pouco amedrontada. Gostava mais quando dizia apenas sim e obrigada. — Não sou frio. Não tenho nada contra relacionamentos ou o amor em geral. Sem ele, não estaria aqui. Meus pais ainda namoram. Não percebeu? — É claro. São um casal muito feliz. Por que não quer a mesma coisa? Aquele era o motivo por que se afastava. Estavam casados e podiam até ser amigos, mas jamais seriam qualquer coisa a mais e não poderia deixar que Daniella tivesse esperanças. — Oh, são felizes, claro. E não pensam em outra coisa. Meus pais não têm dinheiro, não têm economias. E se recusavam a aceitar ajuda de Leo. Adoraria cuidar deles, oferecera-lhes uma casa, carros, até férias, sem resultado. Aparentemente, gostavam das gangues e das paredes pichadas do bairro em que moravam. — Você culpa seus pais por escolherem a felicidade em vez do dinheiro? — Não, não culpo meu pai por escolher trabalhos de salário baixo para poder voltar cedo para casa para mim e minha mãe. Apenas escolhi uma vida diferente. Jamais obrigarei um filho meu a se sentir grato por ter um único presente sob a árvore de Natal. A ficar em casa nos dias em que sua classe faz uma excursão ao zoológico porque não posso pagar a passagem dele. — Oh, Leo. A compaixão no olhar despertou uma sensação dolorosa em Leo. Aquilo precisava acabar. Seu casamento não era sobre sentir pena do pequeno Leo Reynolds do bairro pobre de Dallas, onde até as igrejas tinham barras nas janelas. Era sobre provar uma posição. — Está vendo tudo isto? — Indicou a casa com um gesto largo. — Trabalhei para ganhar cada tostão. Tive três empregos durante a faculdade para me formar sem dívidas e então mergulhei no trabalho para prosperar. Ainda não cheguei aonde quero. Se tirar os olhos do prêmio que me espera por um momento, tudo vai desaparecer. A esposa apenas olhou para ele, os lábios contraídos. Seios firmes esticavam o tecido da blusa, convidando-o a abri-la e... talvez precisasse se dedicar mais ao prêmio que almejava. Outras empresas de financiamento estavam descobrindo o próximo Google ou caçando iniciantes que venderiam suas descobertas por bilhões de dólares. A Reynolds Capital logo estaria lá se mantivesse o curso. Tudo o que precisava fazer era resistir à tentação. Casara-se com uma mulher que o ajudaria a evitar os riscos de se entregar. Isto é, se ficasse na caixa. Inalou o perfume de morango e sentiu a energia elétrica da esposa. — Eu trabalho, Daniella. O tempo todo. Não posso investir tempo e energia num relacionamento. Não seria justo deixar que acredite nesta possibilidade. Não podia se permitir pensar nas possibilidades também. Sem fraquezas. A indulgência levava à imersão e a imersão era o caminho para a ruína. Carmen havia provado isto, quase o fazendo perder seu último ano do ensino médio e, em 22


consequência, sua vida. Era mais fácil jamais começar a trilhar aquele caminho e não queria magoar Daniella.

CAPÍTULO 4

Dannie dormiu mal aquela noite. Leo a deixara cheia de nós. Agora que sentira o abalo que os olhos apaixonados lhe causavam, não sabia se algum dia se sentiria confortável de novo. Estava atraído por ela. Definitivamente. E determinado a ignorar a atração para não prejudicar seu foco no trabalho. Como, exatamente, ele pretendia ultrapassar a fase de serem estranhos educados? Seu novo plano precisava de aperfeiçoamento. Ela e Susan acreditavam que ele se beneficiaria com a afeição de uma mulher, mas Leo não. E, se Dannie o irritasse com avanços indesejados, podia muito bem buscar a anulação do casamento. O que significava que não teria nada e desapontaria sua mãe e Elise. E a si mesma. Mas, para ela, estavam casados para o resto da vida e queria que se tornassem amigos e amantes. Apesar da frieza das palavras de Leo, não entendia o motivo por que ele também não queria. E era este o motivo da noite de insônia. Acordou grogue na manhã seguinte, mas determinada a ser a melhor esposa que Leo Reynolds já imaginara. Rob quisera uma esposa que ficasse nos bastidores e ela estragara tudo. O treinamento de Elise lhe ensinara como sufocar aquela voluntariosa Scarlett interna. Leo teria o que queria. Se atendesse às suas necessidades. especialmente as que ele não sabia que tinha, talvez conseguisse levá-los a um relacionamento mais profundo e satisfatório. Vestiu-se, desceu e uma das criadas lhe informou que Leo já havia saído para o trabalho. Em vez de mergulhar no desapontamento que não tinha o direito de sentir, ela se familiarizou com a cozinha enquanto preparava ovos mexidos e torradas para si mesma. Na manhã seguinte, acordaria mais cedo para fazer o café da manhã para Leo. Dannie passou o resto da manhã realizando uma série de tarefas: aprendeu a lidar com um celular complexo que não era mais inteligente do que ela, memorizou as marcas das roupas de Leo, estudou a forma como gostava que seu closet fosse organizado, pesquisou os cuidados recomendados para todos os tecidos. Como dona da casa, era sua responsabilidade garantir que os serviçais fizessem bem seu trabalho. Na hora do almoço, a cabeça doía. E ainda nem tinha começado a estudar a agenda social de Leo. Depois de receber as informações da sra. Gordon, Dannie respirou com mais facilidade. A assistente executiva enviara dezenas de e-mails com links e instruções sobre os cuidados exigidos por um investidor capitalista. Ela leu tudo duas vezes enquanto comia distraidamente um sanduíche. A sra. Gordon terminou tudo com a lembrança de um convite para um evento de alunos da faculdade de Leo, que seria realizado naquela mesma noite. Delicadamente, concordou em apagar a entrada que já fizera na agenda dele para que Dannie pudesse praticar. Perfeito. Dannie pegou o celular idiota e mandou a mensagem. E quase dançou quando 23


apareceu a aceitação da mensagem. Até perceber que havia marcado o evento para a noite seguinte. Teve que mandar outra mensagem. Leo provavelmente estava no escritório balançando a cabeça enquanto aceitava a mensagem. Trabalho terminado com apenas um erro. Então foi verificar seu guarda-roupa escasso. Tinha que escolher a roupa certa. A primeira impressão era tudo. Ele entrou em casa exatamente às 18h. Dannie estava pronta e esperava por ele na cozinha. O vestido cor de salmão que escolhera acentuava sua figura, mas era de bom gosto e tinha linhas elegantes. Elise lhe ensinara a escolher roupas que combinavam com seu colorido e estava fantástica nele, especialmente com as sandálias Jimmy Choo. Leo notaria? — Como foi o seu dia? Então percebeu as linhas de tensão e as sombras em torno dos olhos que mostravam que ele também não dormira bem. Alguma coisa lhe apertou o peito e a fez querer afastar o cabelo escuro da testa e lhe massagear as têmporas. Ou fazer qualquer coisa que o acalmasse. Queria descobrir o que podia fazer por ele, o que ele gostaria. Leo deixou a pasta de couro marrom sobre a ilha da cozinha. — Bem. E o seu? — Ótimo. — Menos a parte em que ele saíra sem se despedir. Oh, cale-se, Scarlett. — A gala dos ex-alunos é no Renaissance Hotel. O motorista nos levará assim que estivermos prontos. Ele não dissera uma palavra sobre o vestido. Talvez devesse entender que não ficaria envergonhado de ser visto com ela. Elogios não eram o motivo por que se casara com Leo. — Está ótimo. Vou tomar uma chuveirada e me trocar. — Leo se dirigiu para as escadas, os dedos já afrouxando a gravata. — Vão dar um prêmio a um amigo meu e devemos levá-lo para jantar depois. Reservas. Onde? Para quantos? Mas Leo já se fora. Ligou para um restaurante luxuoso e reservou uma mesa para quatro. Leo voltou algum tempo depois e ela esqueceu tudo sobre coisas miúdas como reservas em restaurantes. De smoking, Leo simplesmente lhe tirou o fôlego. — Pronta? — Ergueu as sobrancelhas, provavelmente porque sua imitação de um peixe o divertia. Estava delicioso, todo arrumado e masculino, com uma leve aura sensual. Ele limpou a garganta e ela finalmente ergueu os olhos para os dele. Ainda esperava sua resposta. — Pronta — conseguiu dizer, e pegou a bolsa. Ele manteve uma conversa leve enquanto se dirigiam para o hotel. Ela imaginou, e ficou grata, que sua intenção era acalmá-la, mas não funcionou. Leo acompanhou-a pelo saguão do hotel com a mão na base de suas costas. Gostava da forma como a mão dele se encaixava ali. Tinha o objetivo duplo de lhe dar apoio e de mostrar a todos que estavam juntos. E as pessoas notaram. Cabeças se viraram quando entraram no salão de baile Renaissance. Um quarteto de cordas tocava Strauss sobre uma pequena plataforma no canto, mas a música não conseguia abafar a onda de sussurros sobre a mulher com Leo. Uma perfeita esposa de sociedade. Que não fizera faculdade, mas que seria brilhante no papel ou morreria tentando. Dannie endureceu os ombros. O decote do vestido escorregou, mostrando um saudável pedaço de seio. Sem alarde, ela o colocou no lugar. O profundo decote em V não era muito ousado, mas as alças eram longas demais para seu torso. Como o vestido custara a Elise setecentos dólares, pagar para alterá-lo pareceu um pecado. Escorregou de novo enquanto caminhavam e ela abaixou um dos ombros. Tentando fazer com que voltasse ao lugar sem levar a mão à tira. 24


— Você está bem? — sussurrou Leo. Devia ter usado o vestido o dia todo e praticado caminhar nele. Ou dado um jeito de consertar o problema. — Claro. — Abriu um sorriso quando pararam diante de um grupo de homens e mulheres conhecidos de Leo. Ela acenou, cumprimentou as pessoas e usou todos os truques que aprendera para se lembrar de nomes. Ser demitida tantas vezes tinha um lado positivo; poucas situações e poucas pessoas a intimidavam. — E esta é Jenna Crisp — terminou Leo, indicando uma linda ruiva no braço de Dax Wakefield, o amigo de Leo que ia receber o prêmio aquela noite. — Jenna, esta é minha esposa, Daniella Reynolds. Dannie apertou a mão da mulher, mas Jenna não olhava para ela, tinha a atenção voltada para Leo. Hum. Dannie olhou para ele. Não percebia o escrutínio de Jenna, estava conversando com Dax. — Fico contente em conhecê-la, Jenna. Conhece Leo há muito tempo? Jenna a olhou, a expressão gelada. — Bastante. Como vocês se conheceram? — O tom da ruiva era de desafio. Aquele era um ponto que não haviam discutido. Seus amigos sabiam que procurara uma casamenteira? Escolheu uma meia-verdade para não constranger Leo. — Uma conhecida em comum nos apresentou. — Interessante. — Jenna a examinou com cuidado. Dannie percebeu logo que a mulher não gostava dela. — Foi assim que Dax e eu nos conhecemos também. Leo nos apresentou. — Oh? — Leo também um casamenteiro? Aquilo era interessante. — Sei que ele deve ter ficado feliz em ajudar amigos a se conhecerem. — Você acha? Como Leo e eu estávamos saindo juntos na ocasião, não soube muito bem como entender. Oh, céus. Não era de admirar que Jenna a olhasse com tanta raiva. — Lamento. Não posso falar por Leo. Se está curiosa sobre seus motivos, é melhor perguntar a ele. Champanhe? — A expressão se tornou alegre enquanto pensava em como se distanciar da ex-namorada de Leo. Pelo menos até descobrir como navegar naquelas águas cheias de tubarões em que seu marido a jogara. — Seria ótimo. — Jenna também demonstrou alegria e pegou o braço de Leo para participar da conversa com Dax e cortou Dannie do grupo. Dannie saiu para pegar o champanhe. Na verdade, compreendia a animosidade da ruiva. Também ficaria confusa se Leo a tivesse jogado para um amigo e imediatamente se casasse com outra. Além disso, a posição de Dannie era superior, o que Jenna certamente percebera. No fim, o sobrenome de Dannie era Reynolds e o de Jenna não era. Tentou imaginar o que havia acontecido entre Jenna e Leo. Ele devia tê-la avisado. Homens. Não percebera a situação desconfortável em que a colocara? Provavelmente não, nem pensara no assunto como um problema. E não era. O casamento era um arranjo e suas emoções não eram prioridade para Leo. O que a fez endurecer a coluna. Tinha um trabalho a fazer. Quando voltou ao grupo, Leo lhe lançou um sorriso de gratidão pela taça de champanhe. E aquele sorriso muito particular foi o suficiente para ela perdoá-lo. Quase. Uma boa esposa escolheria esquecer a conversa com a ruiva. E garantiria que seu marido não sofresse um constrangimento. Mas, se Leo esperava que ela conversasse com seus associados, devia saber exatamente que tipo de associação havia. Certo? — Você namorou Jenna? — murmurou quando Dax começou a conversar com a namorada. 25


— Por pouco tempo. — O olhar de Leo se dirigiu para a ruiva e se tornou frio. — Ela lhe contou? Que falta de tato. Peço desculpas por colocá-la numa posição desconfortável. Inclinara-se enquanto falava e ela sentiu seu hálito quente e masculino no rosto. O quadril roçou o dela. Descartou o pedido de desculpas. — Nada com que não possa lidar. Você não fez nada de propósito. Pedira desculpas em vez de se irritar por ela se meter em assuntos dele. Foi um alívio. A linha entre ser um complemento para Leo e desaparecer nos bastidores era mais difícil do que antecipara. Mesmo assim, seria uma esposa estelar. Leo franziu a testa. — Saímos juntos por pouco tempo e evidentemente não funcionou, ou não a teria apresentado a um amigo. Jenna queria mais de mim e Dax lhe dá atenção. Pareceu perfeito. Oh. Claro, Jenna era o motivo por que Leo precisava de uma esposa que não esperasse que ele ficasse por perto, ela presumira que passaria tempo com um homem de quem gostava e se cansaria do discurso “sou um viciado no trabalho, lide com isto”. Os olhares desejosos que Jenna lançava a Leo faziam mais sentido agora. Tinha se envolvido e havia sido descartada. Era um aviso claro. Dannie tinha muito a perder se cometesse o mesmo erro. Mas não adiantou. Quando a mão do marido foi colocada de novo na base das costas, ela se sentiu satisfeita por Leo ter demonstrado interesse de ajudar Jenna a encontrar a felicidade com outra pessoa mais adequada para ela. Tinha um bom coração sob toda aquela determinação de trabalhar e conquistar a segurança financeira. E, apesar de dizer que a queria distante, precisava dela para romper aquela concha que mantinha em torno de si mesmo. Mas, como? O champanhe deixou um gosto amargo na boca de Leo. Se tivesse previsto que Jenna aborreceria Daniella deliberadamente, jamais teria levado a esposa para perto dela. Devia estar conversando com Miles Bennett, que estava prestes a lançar um software que parecia excelente. John Hu também estava no seu radar para uma conversa e lá estava ele no bar, conversando com amigos. Diversos investimentos recentes não tinham sido satisfatórios e precisava de sangue novo. E, em vez de fazer as dúzias de coisas que devia estar fazendo, observava sua esposa. Pelo canto dos olhos, enquanto fingia conversar com Dax. Daniella encantava todo mundo, apesar do comportamento mesquinho de Jenna. A mecânica do casamento ainda era nova e não tinha considerado as ramificações em potencial de apresentar as duas mulheres. Uma esposa devia ser menos complicada do que as outras mulheres, não mais. Estaria Daniella desconfortável por estar na mesma sala que Jenna? Ou aceitaria, como aceitava tudo o mais? Não parecia aborrecida. Parecia um presente embrulhado debaixo de uma árvore de Natal quando ainda faltava uma semana para abri-lo. Aquele vestido. Envolvia-lhe os seios e revelava apenas o bastante para ser interessante sem ser ousado. O zíper nas costas chamava seu nome. Um puxão e ele se abriria, para mostrar toda a beleza debaixo dele. Os sapatos delicados enfatizavam as pernas sensacionais e gostava daquilo mais do que devia. Daniella era a mulher mais linda do salão. E a mais interessante, a mais elegante e viva. E não era o único a pensar assim, o que lhe dava uma sensação de orgulho a cada olhar apreciativo que recebia. Observava-a enquanto conversava com um casal de 26


associados da Reynolds Capital para perceber se estava zangada com a indiscrição de Jenna. Não era difícil estudar os gestos graciosos das mãos e o movimento dos lábios rosados enquanto falava. Então ela riu e o vestido escorregou. E depois mais um centímetro, deixando à vista um pedaço do seio. Uma onda de calor lhe tomou o corpo e a calça apertou desconfortavelmente. Praguejou e Dax olhou para ele como se tivesse enlouquecido. O que não estava muito longe da verdade. — Preciso de outra bebida — explicou Leo, e ergueu a taça vazia para um garçom que passava. Quando o garçom voltou com a bebida, ele a tomou em dois goles. Não o esfriou. Alguma coisa precisava mudar, e depressa. Olhou para Daniella. Ela não virou a cabeça, mas os olhos se voltaram para ele com um sorriso secreto, como se dissesse mais tarde. Ou talvez fosse a parte inferior do seu corpo que entendia assim. A parte superior se recusava a até mesmo fantasiar sobre mais tarde. A intimidade devia ser alcançada por etapas e abandonar o plano no dia dois seria desastroso para a tranquilidade de espírito de Leo. Ainda não tinham se tornado amigos e já fantasiava sobre a etapa seguinte. A música cresceu, assinalando o começo da cerimônia de entrega de prêmios. Daniella se moveu em direção a ele ao mesmo tempo em que ele se aproximou para lhe segurar o braço. Os quadris esbarraram e o botão do paletó se prendeu no vestido dela. Um dos mamilos de Daniella se libertou do tecido; ele inalou com força e sentiu a onda de luxúria lhe percorrer o corpo. Ela arquejou com humilhação feminina e as mãos voaram para o peito. No mesmo instante, Leo virou-a num abraço forte e a escondeu. E, oh Deus, o corpo da esposa se alinhou ao dele como mel quente. — Ninguém viu — murmurou em seu cabelo e rezou para que ela não se sentisse constrangida com a ereção que lhe apertava o abdome. Não podia se afastar e se compor. A visão daquele mamilo rosado e nu estava gravada em seu cérebro e, pior, os dois mamilos agora se pressionavam ao seu peito, elevando exponencialmente a temperatura do salão. — Já está composta? — Era um murmúrio rouco. Ela tremia. Ou era ele? — Não consigo — sussurrou, a mão trabalhando entre seus corpos, roçando sua ereção e aumentando seu desconforto. — O botão está preso. Ele quase gemeu. — Temos que ir para o corredor. De alguma forma. Consegue se virar? — Sim. Se continuar com o braço em torno de mim. Deram uma boa impressão de gêmeos siameses arrastando-se até os fundos do salão, Daniella segurava Leo com uma das mãos e o vestido com a outra. O que significava que suas duas mãos estavam perto da ereção. Inferno! Mais um toque daqueles dedos e os fogos de artifício que deviam ser soltados em particular explodiriam. Leo perderia a cerimônia, mas Dax teria que compreender. Uma eternidade depois, chegaram ao corredor e Leo levou Daniella para uma alcova. — Estamos escondidos. Vai ficar tudo bem. Ela se afastou o máximo que podia com as roupas presas. A cabeça baixa, conseguiu soltar o botão. — Desculpe, Leo. Deve estar mortificado. — Eu? — Ergueu-lhe o queixo com a ponta do dedo. O rosto dela estava em fogo. — É você que tem motivos para estar mortificada. Não consigo nem imaginar como se sente. Primeiro eu a obrigo a ser gentil com Jenna e então quase rasgo seu vestido. Sou eu que peço desculpas. — Não foi culpa sua. Este vestido não me serve bem e não devia tê-lo usado. Cinco minutos antes ele teria concordado. Se tivesse usado alguma coisa mais 27


modesta, poderia estar conversando com John Hu naquele momento. Mas a alternativa. estar escondido numa alcova com a esposa, de repente não pareceu tão horrível. — O vestido serve perfeitamente. Ela balançou a cabeça enquanto ajeitava a cintura. — Foi tolice minha. Devia ter pensado nas consequências. Meu trabalho é fazer você parecer bem, não constrangê-lo em público. Desculpe. Não estou dando uma boa primeira impressão. Era com aquilo que estava preocupada? Que tivesse desagradado a ele? Sentiu um peso no peito. Achava que levava a coisa tão longe? — Ao contrário, causou uma ótima impressão. Exatamente como eu esperava. Observei você com meus associados. Gostaram de você. — Encantara-os com facilidade e podia vê-la fazendo a mesma coisa em eventos futuros. Daniella era maravilhosa. — Mesmo? A incredulidade em sua voz aumentou aquele peso. Parecia tão arrasada pelo que tinha sido um pequeno incidente. Daniella era sua esposa, não um encontro casual. O fato de tê-la transformado em esposa mudava tudo. Queria que ela fosse feliz, o que não havia planejado sentir. Não apenas queria que fosse feliz, queria também que se sentisse segura. Queria que soubesse que podia contar com ele, sempre. Procurou uma forma de colocar um sorriso de volta no rosto dela. — Pelo menos, pode se sentir aliviada por seu vestido não ter falhado numa rede nacional de televisão. Ela riu, como ele queria. Mas, como não queria, a ereção endureceu ainda mais. Ninguém poderia culpá-lo. A risada dela o atravessou como o fogo e lhe fez voltar à memória a visão daquele seio lindo. A alcova ficou ainda mais apertada quando lhe encontrou os olhos. — Obrigada por me salvar. Foi cavalheiresco. Ele ruborizou com a adoração nos olhos dela. Sentia-se uma fraude. Não tinha um só osso romântico no corpo. — Não a teria abandonado. A garganta ardia. Todo ele ardia. Observou fios finos de cabelo escuro solto no rosto dela e mal resistiu ao anseio de levá-lo para trás da orelha. Seria um prazer para ele. As mechas onduladas seriam suaves em seus dedos. — Vamos voltar? — Era uma demonstração incrível de coragem. A admiração por ela cresceu. — Se não me mexer muito, vou ficar bem. O olhar dele desceu para o decote automaticamente. Estava bem, mas a promessa do que havia por baixo do tecido o provocou. Como seria fácil descer a tira e passar os dedos por aqueles mamilos rijos. Nenhum esforço exigido. Ninguém os veria ali. Respirou com força. — Leo. — Passou os dedos esguios por suas lapelas, ajeitando-as enquanto desciam. — Hum? Estava tão perto que podia ver os pontos dourados nos olhos dela. Uma energia crua irradiava dela e o envolvia. — A festa? Os lábios rosados o fizeram se lembrar de como haviam reagido contra os seus no beijo da cerimônia de casamento. Era como um primeiro encontro, não era? Beijara mulheres em encontros, muitas vezes. Era até o que se esperava dele. Um grande desapontamento se não beijasse. Seria tão ardente da segunda vez? Mais ardente? A curiosidade só podia ser satisfeita de uma forma. — Devemos voltar? Mas ficou parada lá, olhando para ele sob os cílios, como se pudesse entender sua 28


intenção. Sim, deviam voltar. O corpo dele se estendeu para o dela, desesperado para ficar mais próximo. O cheiro de morangos chegou até ele numa nuvem sensual quando ela balançou de leve em direção a ele. Ou talvez tivesse sido ele a se mover. Como mel, pensou quando os corpos se encontraram. Os lábios se tocaram, hesitantes, então com mais firmeza e a mente dele expulsou tudo o mais exceto o sabor de carne na carne. A boca se abriu sob a dele; tomou-a nos braços e a beijou profundamente. As costas bateram na parede e mal percebeu enquanto Daniella se tornava viva, as mãos em seu cabelo, a boca ardente na dele. A fome lhe percorreu as veias. Os quadris circularam os dela involuntariamente, descontroladamente, como se buscasse amenizar a dor que ela despertara. Com uma das mãos lhe envolveu o pescoço e a puxou, virando-lhe a cabeça para trás para que a abrisse ainda mais para ele, então a língua buscou a dela. Dannie o afagou de volta, com força, profundamente. Leo gemeu contra sua boca. Ela beijava como numa fantasia de adolescente. Carnal. Molhada. Aqueles seios perfeitos o assombravam. Toque-os, exigia sua libido. A tentação era grande demais, no entanto temia se entregar e nunca mais emergir. Casa. Deviam ir para casa. Viviam juntos. Se a levasse para casa, poderia lhe tirar aquele vestido e provar cada vale e cada pico do corpo da esposa. Especialmente as partes que ainda não vira. O beijo se aprofundou, mais quente, mais ardente e lhe inflamou a pele. O desejo gritava em seu corpo. Jamais beijara uma mulher daquela maneira. Nunca. Não num encontro e não na cama. Ela o atraía para um poço escuro de necessidade e não queria sair. Trilhou beijos de boca aberta pelo pescoço e lhe empalmou de novo o sexy traseiro. Aquela mulher incrível era dele. Dannie gemeu sob seu toque e a cabeça foi jogada para trás. — Leo — murmurou quando ele tirou um grampo de seu cabelo. — Não precisa voltar à festa? A bolha de luxúria explodiu. Estavam no corredor de um hotel e a esposa lembrava a ele a importância de circular na cerimônia de ex-alunos. Afastou-se e respirou profundamente o ar frio da sanidade. — Preciso. — O rosto continuava composto, mas havia uma tempestade de desejo queimando nos olhos. E ela quisera tanto quanto ele. — Até mais tarde, então? Oh, não. Não podia. Foco, Reynolds. Havia pelo menos quatro pessoas com quem precisava conversar no salão de baile e apenas sua mulher, com o cabelo despenteado e os lábios inchados pelos beijos, ameaçava lhe roubar a compostura. Se precisasse sofrer pelo resto da noite com a perspectiva de mais tarde, não conseguiria nada. Você é fraco, disse a voz desagradável de sua consciência. E aquele era o verdadeiro motivo por que não podia perder seu foco único. Caso se permitisse a indulgência de desenhar, de ter uma mulher, de qualquer coisa que não fosse seu objetivo maior, estaria perdido. Veja o que acabara de acontecer com um simples beijo. Então a soltou. — Peço desculpas. Isto foi inadequado. Por favor, vá ao banheiro, se arrume e me encontre no salão de baile. Vamos esquecer o que aconteceu. O desapontamento substituiu o desejo na expressão dela e o fez se sentir como um canalha de classe mundial. — Se é isto o que quer. Não era de jeito nenhum. Mas precisava da distância para recuperar o controle. Aquele casamento devia ser a mistura perfeita de necessidade e conveniência. Devia ser.Mas a possibilidade de serem amigos já desaparecera graças à maldição de sua fraqueza e ficaria cada vez pior se cedesse uma única vez. 29


— Este é um evento para negócios e não estive me comportando como se fosse... — É claro. O tom havia se tornado profissional, como devia. Mesmo naquele momento, ela continuava firme, fazendo seu dever como prometido porque ela não era fraca. Odiava erguer aquela barreira entre eles, mas ela se tornara exatamente o que achava que seria. uma perturbação que não podia aceitar. Mas também provara ser exatamente o que esperava. O perfeito complemento como esposa. Merecia felicidade e não lhe daria a garantia da segurança. a nenhum dos dois. se afastasse, por um momento que fosse, o olhar do seu alvo: o sucesso da Reynolds Capital Management. Sua esposa não viveria uma vida de pobreza porque não era como seu pai. Nada mais de distrações. Era perigoso demais beijá-la. Ou pensar nela como uma amiga. Daniella estava de volta à caixa de funcionária. E precisava permanecer lá. Mas como poderia esquecer o que aqueles lábios com perfume de morango podiam fazer?

CAPÍTULO 5

Leo já havia saído quando Dannie se levantou na manhã seguinte. Apesar de ter colocado o despertador para bem mais cedo, ele ainda a vencera. Estragara tudo na gala dos ex-alunos. Leo a beijara, oh, meu Deus, e então desistira. É claro que o trabalho vinha à frente de tudo e a mulher atrás do homem nunca devia se esquecer disto. Mas fingir que aquele beijo não tinha acontecido? Impossível. Não era tão ingênua a ponto de pensar que romperia sua concha numa noite, mas acreditara ter feito uma pequena rachadura. Em casa, sua obsessão pelo trabalho não devia ser um problema, principalmente antes de sair para o escritório. Na manhã seguinte, acordaria trinta minutos mais cedo. Se chegasse antes dele à cozinha, teriam a oportunidade de conversar e, quem sabe, até rirem juntos. Depois pensarem com carinho um no outro durante o dia. Todos os bons elementos de uma amizade e de um casamento. Na manhã seguinte, perdeu-o de novo e continuou a se levantar depois de ele sair por uma semana. Quatro compromissos sociais recusados deviam tê-la avisado, mas foi apenas quando o pegou saindo do quarto uma manhã e viu sua expressão que percebeu que a estivera evitando. — Bom dia. — E sorriu apesar de sua expressão cautelosa e do fato de que estivera acordada desde a madrugada tentando se encontrar com ele. — Bom dia. — Acenou e passou por ela sem dizer mais nada. Atônita, viu-o descer a escadaria e prometeu a si mesma não pensar em Leo Reynolds pelo resto do dia. Tinha um trabalho a fazer. Dannie passou uma hora com a criadagem cuidando das contas da casa e depois entrevistando uma criada para substituir a que se demitira. Gostava de organizar a vida de Leo. Na gala dos ex-alunos, se dera bem nos círculos sociais de Leo, recuperara-se de um humilhante episódio com o vestido e sorrira durante todo o jantar com a ex-namorada do marido. O que mais Leo podia querer numa esposa? Às quatro, Leo lhe enviou uma curta mensagem de texto que já esperava: Vou 30


chegar tarde. Não me espere para jantar. Como vinha acontecendo havia uma semana. Era evidente que Leo pretendia mantê-la distante, apesar daquele beijo. Furiosa, ligou para a mãe e convidou-a para jantar. Podia muito bem usar a cozinheira que Leo pagava. Sua mãe derramou-se em elogios ao jantar de lagosta, ao casamento e à nova cuidadora. Dannie sorriu, mas nada penetrava a nuvem de frustração que estragava o que poderia ter sido uma noite muito agradável com a mãe. A mãe tinha sempre o mesmo conselho sobre relacionamentos: Os homens não permanecem. Não ouça suas lindas palavras e promessas. E algumas variações sobre os perigos de se apaixonar. Mas Dannie ainda era uma romântica. Nem todos os homens eram como seu pai. Leo não a encantava com charme falso e tinha sido sempre franco com ela. E a havia beijado apaixonadamente. Não podia fingir que não queria mais do casamento do que uma ocasional mensagem de texto. Jamais deixariam de ser estranhos se continuassem assim. Certamente podiam passar algum tempo juntos. E como lidaria com seus compromissos sociais e cuidaria de todas as suas necessidades se continuasse a evitá-la? Depois que a mãe partiu no carro com motorista, Dannie se sentou no sofá mais próximo da escadaria, decidida a esperar por Leo. Precisavam conversar. Uma hora depois, começou a imaginar se Leo pretendia dormir no escritório. Teria estragado tudo tão completamente que nem suportava ficar na mesma casa que ela? Deitou a cabeça numa almofada. Ele não mentira. Trabalhava o tempo todo e ela não fizera nada para encontrar diversões sozinha. Porque não queria. Queria ser esposa de Leo em todos os sentidos. Outra hora se passou. Era ridículo. Não apenas dificultava sua capacidade de cuidar dele, mas concordara que seriam amigos. Como achava que a amizade se desenvolvia? Precisava de uma nova tática. Antes de perder a coragem, enviou um texto a Leo: Ouvi um barulho, acho que alguém entrou. Pode vir para casa? Ele respondeu imediatamente: Chame a polícia e aperte o alarme de intruso. Ela rolou os olhos e enviou outro texto: Estou apavorada. Gostaria de que viesse para casa. Leo: Estarei aí o mais depressa possível. Conseguira. Leo tinha um bom coração e não deixaria a esposa com medo e sozinha. Vinte minutos depois, Leo chegou e Dannie saiu para encontrá-lo na varanda. — Você está bem? — O olhar estudava as sombras atrás dela. O corpo estava tenso e demonstrava a intenção de protegê-la de qualquer perigo. — Estou bem. — Modo de falar. Leo em estado de guerreiro, todo masculino e duro, a fazia salivar. — Chamou a polícia? — Levou-a para dentro, a mão em suas costas. — Não, não ouvi de novo o barulho e não quis dar trabalho. — Principalmente porque o barulho tinha sido fictício. Ele fez uma série de perguntas e ela respondeu até ele se tranquilizar. — Da próxima vez, aperte o botão de pânico. É para isto que serve o alarme de segurança. — Interrompi alguma coisa importante no trabalho? Ele relaxou e sorriu. — Tudo é importante. Mas está tudo bem. Recomeço amanhã. Leo relaxado era bom também. Sorriu e lhe segurou o braço. — Então se sente por um minuto e me fale sobre seu dia. Ele não se mexeu. 31


— Não há muito a contar. Por que não vai se deitar? Vou verificar o resto da casa e garantir que não há mesmo nada com que nos preocuparmos. Oh, não, não vai. — Não estou cansada. Você está aqui, eu estou aqui. Vamos conversar por um minuto. Ele ergueu a pasta. — Tenho que terminar o trabalho. — Também estará aí pela manhã. — Tomou-lhe a pasta com gentileza e a deixou sobre a mesinha lateral. — Não conversamos desde a gala dos ex-alunos. A simples menção carregou a atmosfera e ela se arrepiou. O olhar de Leo desceu para o dela e o silêncio se estendeu. Estaria ele se lembrando do beijo? Ou teria se esquecido? — Há um motivo para não conversarmos. O estômago dela apertou à franca admissão. — Foi o que pensei. E é por isto que quero conversar. — Pensei que quisesse saber sobre meu dia. — Quero. Mas precisamos conversar assim mesmo. — Talvez amanhã. Ele pegou a pasta, mas antes que pudesse se afastar, ela parou diante dele, bloqueou-lhe o caminho e cruzou os braços, os olhos nos dele. — Seja franco comigo. Está arrependido de ter me escolhido? A pasta escorregou e caiu. — Agora não, Daniella. — Como agora não igual a nunca? Quando vamos conversar se não for agora? — Zangada demais para se importar, espetou o dedo no peito dele. — Está me evitando e quero saber o motivo. Não estou atendendo às suas expectativas? — Não estou evitando você. — A expressão de culpa desmentia as palavras. — Três propostas que fiz foram recusadas, o valor das ações de um dos meus maiores investimentos caiu quarenta por cento na semana passada e uma empresa que financiei declarou falência hoje. Chega para você? Não tenho conversado porque estou ocupado demais tentando manter viva minha empresa. Sentiu-se culpada. — Lamento. Não devia tê-lo incomodado com o barulho. Apenas queria... — Ver você. Conversar com você. Saber se tem pensado em mim. — Não sentir medo. A expressão de Leo suavizou e ele lhe segurou os ombros de forma protetora. — Não devia ter sentido. Mandei instalar o sistema de segurança assim que concordou em se casar comigo e escolhi o mais sofisticado. Seria necessária uma equipe da SWAT para invadi-lo. Você está segura aqui. Acha que não está? Olhou dentro dos preocupados olhos azuis e se desmanchou. Ele realmente se importava. — Acho que estou. Entendeu então que Leo fazia muito nos bastidores. Quase como se preferisse que ninguém soubesse de todos os gestos que mostravam como era bom. Por quê? — Ótimo. — A expressão preocupada foi substituída por outra de afeto. — Não quero que se sinta ansiosa ou insegura. Perfeito. Partilhavam a necessidade de segurança. Certamente compreenderia que precisava saber tudo claramente. — Sabe o que me deixaria menos ansiosa? Saber o que está acontecendo entre nós. Devíamos gostar da companhia um do outro, mas nunca nos encontramos. — Saímos juntos uma semana atrás — protestou, e o brilho nos olhos dele lhe avisou que tivesse cuidado. Não pretendia ter. Se Leo pretendia desaparecer de novo, aquela podia ser sua 32


única oportunidade de saber. E ele dissera que podiam conversar sobre qualquer coisa. — Exatamente. Uma semana inteira e não nos falamos desde então, a não ser por um único e curto “Bom dia”. Não posso administrar sua vida se não faço parte dela. E nosso relacionamento não se desenvolverá sem interação. Da parte de nós dois. — Daniella. — Levou o polegar à têmpora. Ótimo. Agora estava lhe dando dor de cabeça. — O que quer de mim? — Para começar, me chame de Dannie. Quero que sejamos amigos. Você não quer? A postura dele se tornou cautelosa. — Depende de sua definição de amizade. Na última vez que tocou no assunto, tive a impressão de que era um eufemismo para outra coisa. — Quer dizer sexo? — Oh, Scarlett estava louca para se intrometer na conversa. Leo acenou. — Bem, isto é franco. Oh, não. Lembrou-se de sua última briga com Rob. Estaria tentando arruinar tudo? Mas Leo não era inseguro e medroso como Rob. Era seu casamento e estava preparada para lutar por ele. — Parece que nosso casamento exige franqueza. Já que posso não ter outra oportunidade de conversar com você neste século, vou soletrar. Meu oferecimento de amizade não é um convite velado para você pular em mim. — Então, o que é? Ela riu. — Acho que não sei soletrar bem. Não decidimos que em algum momento nosso relacionamento se tornaria íntimo? — Não era tão franco. — Desculpe, quis dizer que em algum momento faríamos sexo? Leo não recuou. — Sim, decidimos. E penso que acontecerá em algum dia no futuro remoto. Puxa vida. — Ótimo. Mas intimidade é muito mais do que apenas tirar as roupas, Leo. Pensou que um dia acordaríamos e apenas pularíamos na cama juntos? Não funciona assim. Há um lado intelectual na intimidade que se desenvolve quando passamos algum tempo juntos. Quando nos tornamos amigos. Quero conhecer você. Seus pensamentos. Seus sonhos. O sexo começa aqui. — Bateu a mão na testa.— Pelo menos, é assim para mim. — Você quer romance. — Sou mulher. A matemática não devia ser tão difícil. — Matemática é a minha especialidade. O que queria dizer? Ela e Leo precisavam falar sobre o mesmo assunto. — Como achou que íamos passar do ponto A para o ponto B? — Nunca tive problemas de conseguir o interesse de uma mulher. Geralmente, conseguir seu desinteresse é o problema. Ah, então adivinhara corretamente. — Nunca precisou investir num relacionamento, não é? Homens lindos, inteligentes e ricos provavelmente nunca precisavam, já que as mulheres se jogavam para eles. Devia ter passado por muitos encontros sem significado com mulheres diversas. — Não tenho tempo para um relacionamento, Daniella. — O tom era baixo e calmo, o que só enfatizou a mensagem. — Foi por isto que me casei com você. Franco. E devastador. Ele não queria investir num relacionamento. E era por isto que se afastava das pessoas. Esforço demais. Trabalho demais. Não havia amizade, não havia ternura, não havia um caminho para a intimidade. Esperava que ela ficasse nua, recebesse prazer e se afastasse. Um dia. — Compreendo. Vamos desfrutar da companhia um do outro quando nossos 33


caminhos se cruzarem, então nos afastarmos. Não tinha pensado em um casamento que era pior do que estar sozinha. Como o computador de Elise a havia combinado com Leo? Oh, certo, nenhum dos dois tivera interesse num casamento por amor, o que era mais do que uma pequena mentira no caso dela, mas nem mesmo serem amigos? Era deprimente. Leo pareceu aliviado. — Estou contente por termos conversado. Para responder à sua primeira pergunta, você é tudo o que eu esperava. Estou muito feliz com minha escolha de esposa. Jenna não era a mulher certa. — Porque violara a cláusula sacrossanta: não peça de Leo mais do que ele quer dar. — Falando nisto — continuou como se nada tivesse acontecido —, gostaria que planejasse um jantar para vinte convidados daqui a duas semanas. É tempo suficiente? — É claro. Duas semanas? O pânico lhe deu câimbras no estômago. Como poderia organizar um evento daqueles em duas semanas? Bem, simplesmente teria que fazê-lo. — Ficarei feliz de fazer isto por você. Pode me mandar a lista de convidados por email? Ele acenou. — Tommy Garrett é o convidado de honra. Escolha uma data em que ele esteja disponível. Alguma pergunta? Um milhão e cinco. — Não no momento. Vou começar imediatamente. Aquela era a chave para a permanência de um casamento que não era um casamento. Tinha que cumprir sua parte do acordo. Sua mãe estava sendo cuidada e ela também. Além do mais, dissera o que pensava e Leo não a expulsara. O que mais podia querer? Desejou a Leo uma boa-noite e subiu, cheia de planos para o jantar. Foi apenas quando a cabeça encostou no travesseiro que se lembrou do total desconforto de Leo quando pensara que amizade era um código para sexo. Se esperava que ela ficasse nua, recebesse prazer e se afastasse, por que não tirara vantagem do que ela parecia oferecer? A testa de Leo caiu na escrivaninha, bem no meio da cláusula que determinava a data em que terminaria sua proposta para financiar a empresa de software de Miles Bennett. O que o fez acordar rapidamente. Por que não subia para dormir? Eram 3h. Pessoas normais estavam dormindo àquela hora, mas não ele. Não. Leo Reynolds tinha superpoderes que lhe davam a capacidade de passar dias sem dormir. Porque, de outra forma, ficaria para trás. John Hu escorregara por seus dedos na gala dos ex-alunos e agora estava trabalhando com outro financiador. Podia ter sido Leo, se não tivesse perdido tempo e energia se lembrando do doce e lindo sorriso da esposa. Ou o quanto gostara de vê-la esperando por ele na varanda aquela noite. Sono era para homens mais fracos. Mais jovens. Afastou o pensamento. Tinha 35 anos, 36 dentro de dois meses, não era velho. Mas ultimamente estava se sentindo gasto. Dez anos atrás, poderia ter lido contratos e propostas até o amanhecer, tomado dois expressos e enfrentado o dia sem cansaço. Agora? Não tanto. E ficaria ainda pior quando chegasse aos 40. Tinha que fazer cada dia render enquanto podia. Sem distrações. Sem sedutoras amizades que certamente se tornariam outra coisa mais que não podia permitir. Mãos gentis em seus ombros o acordaram. 34


— Leo. — A voz suave de Daniella o acordou. — Você dormiu na escrivaninha. Ele se ergueu de repente. Olhos cansados se desviaram para Daniella, depois para o relógio. Seis e meia. Normalmente já estava no trabalho àquela hora. — Obrigado. Não sei como aconteceu. — Cansaço? Estava linda, arrumada, cheirosa. Afastou os olhos dela. — Talvez. Arrumou os papéis da proposta para Miles Bennett sem olhar a esposa de novo. Embora quisesse. Como podia parecer tão sensacional àquela hora da manhã? — Vou lhe fazer um café. — E encostou o quadril na escrivaninha como se planejasse se demorar. — Tenho que ir. Estou atrasado. Ela o fez parar com a mão quente no braço nu, abaixo da manga enrolada. — É sábado. Tire dez minutos para um café. Gostaria de fazê-lo para você. Por favor. Alguma coisa dentro dele se desmanchou. Depois de ter erguido tantas barreiras, ainda queria fazer café para ele. Como podia recusar? — Obrigado. Vou tomar uma chuveirada e a encontro na cozinha. O banho limpou o nevoeiro do sono. Vestiu-se de forma casual, já que era sábado. Uma concessão que nunca fizera antes. Por que aquele dia? Quando chegou à cozinha, o cheiro rico de café fresco o cumprimentou. Ela sorriu e lhe entregou uma caneca. Sentou-se à bancada e tomou um gole da bebida. Foi puro paraíso na boca. Não se surpreendia ao ver que ela sabia como passar seu café. — Você fez um café perfeito. — A prática leva à perfeição. Sentou-se diante dele e cruzou as mãos no colo, serena. — Há quanto tempo vem praticando? — Desde o casamento. Estive tentando acordar antes de você para lhe fazer o café, Hoje foi a primeira vez que consegui. O café não desceu tão bem depois disto. Por que se esforçava tanto por alguma coisa tão insignificante? — Não foi parte do acordo. Devia dormir até a hora que quiser. — O acordo inclui tornar sua vida fácil, especialmente em casa. Se quer café pela manhã, é meu trabalho garantir que você o tenha. Meu trabalho. Daniella estava na caixa de funcionários na sua cabeça, mas jamais esperara que ela se visse assim. Claro, como se veria de forma diferente quando tudo em que ele falava era no acordo? O café e as roupas limpas e passadas adquiriram novo significado e implicações importantes. Recebera tudo o que a EA International prometera. Daniella se adaptara ao seu papel como se sempre tivesse sido sua esposa. A criadagem gostava dela e lhe obedecia, o que o livrava de ter que lidar com as contas da cozinheira e as dúvidas do jardineiro. Era incrível. Se apenas tivesse conseguido a esposa que realmente quisera da EA International, uma que pudesse ignorar, sua vida seria perfeita. Não era culpa de Daniella que sofresse da síndrome do tudo-ou-nada. A intensidade era o pior defeito do seu caráter. Era por isto que não desenhava mais. Quando começava, enchia um caderno inteiro com paisagens, rostos, o lindo corpo de Carmen, e então procurava outro caderno para começar a enchê-lo também. Se não fosse pela intervenção oportuna de seu professor de cálculo, provavelmente hoje seria um artista morto de fome e amaldiçoando a mulher que tinha 35


sido seu primeiro modelo. E sua primeira amante. Vivia obcecado pela necessidade de capturar sua figura, obcecado por ela. Felizmente, ouvira o professor e voltara sua intensidade para sua formação acadêmica, então para a Reynolds Capital Management e jurara nunca mais permitir que sua personalidade obsessiva se dedicasse a nada além do sucesso profissional. Sabia que, no segundo em que se permitisse provar Daniella, ficaria obcecado por ela. — Obrigado pelo café. Preciso ir. Os calorosos olhos cor de amêndoa procuraram os dele. — Antes de ir, tenho algumas perguntas sobre o jantar para Tommy Garrett. Ele se sentou de novo. — Está bem. — Era o único assunto que o faria ficar. O jantar era essencial. Garrett estava em dúvida sobre duas financeiras. Não tinha intenção de perder para a outra. Ela se debruçou com toda a aparência de quem ia começar uma negociação. — O que a Garrett Engineering faz? — Não Que louça devo usar? — Que importância tem isto? — Estou curiosa. Mas também quero saber mais sobre o convidado de honra. De você. Posso ligar para sua assistente executiva, mas quero sua opinião. Vai me ajudar a planejar o cardápio e a decoração. Havia alguma coisa hipnótica na voz de Daniella. — Não teria pensado nisto. Ela sorriu docemente. — É para isto que estou aqui. Conte-me. — Tommy é uma espécie de garoto feiticeiro. — Leo pensou sobre as facetas mais importantes do homem, e homem era um termo gratuito, com quem queria fazer negócios. — Um desses gênios que usam tênis e moletons com capuz para trabalhar. Fala o que lhe dá na cabeça e ninguém se importa, pois se formou summa cum laude em Yale. Desenhou uma adaptação do motor que muda a forma como a gasolina é consumida num carro que vai praticamente dobrar a quilometragem por litro. É revolucionário. — Você gosta dele. — Sim. A constatação o surpreendeu. Não tinha pensado se gostava ou não de Tommy Garrett. Mas gostava. E do seu talento. Gostava da ideia de orquestrar o financiamento e deixar que Tommy fosse o rosto da empresa. Tommy era corajoso, inteligente e, apesar dos moletons, tinha uma ética de trabalho que respeitava. Impressionado, encarou a esposa. — Como percebeu? — Porque ouço com os olhos. — Ele rosnou e ela sorriu. — Vi em sua expressão. Leo tentou fechar a cara, mas estava adorando a conversa. — Não importa se gosto dele. Podemos ganhar muito dinheiro juntos e este é o ponto crucial da nossa associação. Este jantar é da maior importância. Ele tem outro parceiro em potencial e preciso convencê-lo a escolher a Reynolds. — Qual é o percentual que você ofereceu na proposta? — Ele abriu a boca e ela riu. — Estudei como funciona o financiamento de uma empresa. Como posso ajudá-lo a fechar o negócio se não souber do que estou falando? Talvez devesse ter tomado um café com a esposa bem antes. — Pensei que você cuidaria dos detalhes do jantar e eu lidaria com Garrett. Mas estou reconsiderando o plano. — Se jogasse a força formidável de Daniella em Tommy Garrett, o cara nem saberia o que o havia atingido. — Faça isto. Conte-me mais. O sorriso dela o relaxava. Tinha o melhor dos sorrisos, genuíno, espontâneo. 36


Gostava de vê-la sorrir e gostava ainda mais de ser ele o responsável. Fazer mulheres sorrirem não era uma habilidade de que se orgulhava. Talvez devesse aprender com a esposa. — Seu novo design serve a motores novos e pode ser adaptado a motores já existentes, portanto pode ser vendido a consumidores e fabricantes de carros. É quase um milagre. — Parece que você acredita no produto. Não posso imaginar por que o sr. Garrett escolheria outra financeira. — Porque são negócios. Nada pessoal. E eu não ligo a mínima para o produto se o empreendedor me apresentar um plano sólido de negócios e provar seu compromisso. — Todo negócio é pessoal, Leo. Se não passasse tanto tempo nos bastidores, saberia. — Funciono melhor nos bastidores. Garantindo que os atores jamais tivessem que se preocupar com o dinheiro enquanto estavam no centro do palco, era sua zona de conforto. Não podia se arriscar a se envolver, ou mergulharia no mesmo buraco negro da obsessão. A expressão dela se tornou mais suave e o atraiu. — Mas as melhores experiências estão no meio dos acontecimentos. Ele teve a impressão de que não estavam mais falando sobre Tommy Garrett e sim sobre outra coisa que não queria reconhecer. — Obrigado pelo café. Vou para o escritório. Se tiver mais perguntas sobre o jantar, não hesite em entrar em contato comigo. — Tenha um bom dia. — Cobriu-lhe a mão e apertou. — Não olhe agora, Leo, mas acho que acabamos de ter uma conversa amigável. Está chocado por não ter matado você? Não ficou chocado quando riu. O sorriso que ela lhe deu ficou com ele até entrar no carro. E, quando chegou, em vez de se concentrar no que devia, ficou pensando em Daniella. Dannie. Talvez pudesse ser Dannie para ele. Não, não podia ceder. Por mais que quisesse ignorar a esposa, não conseguia. Tinham um acordo que não estava funcionando e ela era de carne e osso, não um pedaço de papel. Ou uma funcionária. E acordos podiam ser desfeitos. Ele estava obtendo o que queria daquele casamento e ela não. Não completamente. Se quisesse mesmo que ela fosse feliz, precisava dar um pouco. Ou ela iria embora. A ideia de perder a mulher que se adaptara tão bem à sua vida lhe deu um aperto no coração. E de quem gostava. Amigos. Não parecia tão terrível. Certamente podia lidar com a amizade com a esposa.

CAPÍTULO 6

Dannie cantarolava enquanto preparava cardápio. Enquanto estudava a lista de convidados que Leo lhe enviara e saboreava a pequena mensagem que deixara no fim. Você fez um café perfeito. Cantarolava enquanto esperava para falar com a assistente executiva de Tommy Garrett ao telefone e depois, enquanto checava a lista de coisas a fazer. Estava feliz. Metade por ter finalmente se conectado com Leo mesmo num nível 37


superficial. E metade por ter finalmente encontrado seu nicho. Enquanto crescia, sua maior diversão era ver antigos filmes e séries de televisão nos canais livres e sempre quisera ser uma dona de casa como as mulheres encantadoras da década de 1950. E era exatamente o que esperava. Estar no comando do seu domínio lhe dava uma sensação maravilhosa de sucesso e objetivo que se transformava em canção. Quando Leo chegou às 18h com um sorriso, ela sentiu um aperto na garganta. — Pensei em jantarmos juntos. Se você não tiver outros planos. Jantar? Juntos? Por quê? — Oh. — Respirou profundamente. — Sem planos. Vou avisar à cozinheira. Roupas, pensou enquanto saía para dizer às criadas que Leo jantaria em casa. Devia trocar de roupa. E abrir uma garrafa de vinho. Era a primeira vez que jantaria a sós com Leo. Era praticamente um encontro. Melhor do que um encontro porque tinha sido ideia dele e uma surpresa completa. Queria que tudo corresse perfeitamente e que fosse tão agradável que ele quisesse repetir. Escolheu um vestido preto de coquetel, calçou os sedutores sapatos Louboutin e fez um chignon. Pronta. Era o melhor que podia fazer para parecer o tipo de esposa que um homem gostaria de encontrar quando voltasse para casa. Desceu lentamente a escadaria em seus saltos de dez centímetros e passou alguns minutos na adega escolhendo o vinho. Um sauvignon blanc que o Wine Spectator havia recomendado. Perfeito para um encontro. Quando a cozinheira avisou que o jantar estava pronto, foi buscar Leo que, naturalmente, estava no escritório trabalhando. Tinha tirado o paletó e a gravata e enrolado as mangas da camisa até o cotovelo. O Leo desarrumado era o seu favorito. Tinha a atenção concentrada na tela do laptop e se encostou no umbral para observá-lo. — O jantar está pronto. Ele ergueu os olhos sem levantar a cabeça e o olhar sob os cílios foi tão sexy que ela se sentiu aquecer toda. — Agora? — Hum, sim. Não queremos que esfrie. Ele digitou por mais dois segundos, fechou o laptop com um sorriso e se levantou. — O que seria uma pena. — Ela ficou onde estava, bloqueando a saída para ver o que ele faria. — Acredito que a melhor comida é a quente. — Parou a alguma distância dela quando percebeu que não se afastaria. — Estou louco por uma comida caseira. Pensei em começar a comer melhor. Tenho comido apenas coisas pedidas em restaurantes. E de quem era a culpa? — Só o jantar? A companhia não é uma atração? — Claro que a companhia foi um fator. Alguma coisa brilhou nos olhos azuis e o calor a tomou. Oh, havia todas as espécies de possibilidades interessantes no fundo daqueles olhos. Olharam-se por um longo e delicioso momento e ele não afastou o olhar. Então ele fez um gesto em direção ao corredor. — Vamos, sra. Reynolds? E, de alguma forma, chamá-la assim foi mais íntimo do que usar Dannie. Tinha sido deliberado? Oh, por Deus, esperava que sim. A palma de Leo na base de suas costas enquanto caminhavam a abalou até a alma. As coisas haviam mudado. Não haviam? Seu café seria assim tão bom? Sentaram-se à mesa e ele escolheu o lugar ao lado dela, em vez de em frente. — Para podermos conversar sem precisar gritar — explicou ele. Gestos pequenos mas tão essenciais para sua alma faminta por romance. Por algum motivo, estava tentando, realmente tentando, lhe dedicar tempo. Qual seria sua 38


intenção? A amizade ou apenas cortesia quando seus caminhos se cruzavam? Não se iludiria e veria mais no que era apenas um jantar. Enquanto comiam a salada grega com pão crocante, conversaram sobre os preparativos para o jantar. E, quanto mais vinho tomavam, mais relaxados ficavam. E então ela abordou um assunto que a interessava desde a noite do casamento. — Você ainda desenha? Leo congelou. — Como sabe que desenho? — Sua mãe me contou. — Devia ter adivinhado. Ela ainda tem cada desenho que fiz. O que não era uma resposta. — É um assunto delicado? — Não. Voltou a comer, uma tática que ela logo reconheceu. Não queria discutir seu talento. — Está bem. Não é importante. — Era mentira, mas sua reação mostrou que havia mais naquela questão e não queria que se afastasse. — Então me diga outra coisa. Por que investimentos de capital? Ele se animou. — Se você é bom, pode ganhar muito dinheiro. Apenas precisa reconhecer as oportunidades certas. — E você é bom? — Sabia a resposta, mas queria saber o que ele pensava do império que construíra. Sua pesquisa sobre as complexidades do investimento de capitais tinha sido baseada em artigos sobre a bem-sucedida empresa do marido. — Sou competente. Mas cometi erros. Como se fosse alguma coisa de que se envergonhar. — Todo mundo comete erros. E você se recuperou muito bem dos seus. A reputação da Reynolds Capital Management é inigualável. Ele sorriu, contente. — É um trabalho em progresso. Fascinada pela forma como os olhos azuis escureciam quando estava entusiasmado, ela tomou o vinho e apoiou o queixo na mão dobrada. — Como reconhece uma oportunidade? A copeira entrou, tirou os pratos vazios e os substituiu pela sobremesa, bananas Foster. Leo a provou e fez um som de aprovação. — Experiência. Instinto. Uma grande parte do sucesso é estar no lugar certo. O resto consigo chegando primeiro e ficando até todos os outros irem para casa. — Considera seu trabalho criativo? Dannie comeu uma pequena porção da sobremesa. Boca cheia não permitia conversa. — De certa forma, sim. Sem financiamento, muitas ideias de empreendedores jamais sairiam do papel. Forneço a plataforma de lançamento para a criatividade deles. Exatamente o que fizera por ela, dera-lhe a oportunidade e os meios de ser o que sempre quisera. Uma esposa. — Então é o titereiro. — De jeito nenhum. Jamais ponho a mão na massa. A microgerência não é a maneira mais eficaz de fazer negócios. Sou o dinheiro, não o talento. — Mas você tem talento. — Você nunca viu um dos meus desenhos. — Quero dizer que tem talento para reconhecer a oportunidade certa. Mas sinto que tem talento artístico também. Desenhe alguma coisa para mim e lhe direi. 39


Estava pressionando e sabia. Mas queria conhecê-lo e seu misterioso lado artístico a intrigava. — Não desenho mais. — A voz ficou fria. Mensagem recebida. Estavam apenas no começo, talvez algum dia ele se abrisse. Então ele se levantou. — Tenho trabalho a fazer. Obrigado pelo jantar. E fugiu, deixando-a sozinha. Arrasada, decidiu ligar para a mãe, que a amava incondicionalmente. — Dannie — atendeu a mãe, entusiasmada. — Louise acabou de me contar. Obrigada! — Pelo quê? — O cruzeiro, tolinha. As Bahamas! Estou tão excitada que mal consigo me segurar. Não acredito que escondeu isto de mim, menina má. Não tinha tomado tanto vinho assim. — Que cruzeiro? Não sei de nada! — Oh. Não sabe? Louise disse que Leo nos comprou passagens para um cruzeiro. O navio parte de Galveston na semana que vem. Pensei que você havia sugerido. Bem, agradeça a ele por nós. Por mim. O coração dela apertou. O marido era um homem cheio de surpresas sob um exterior frio. Dannie ouviu a mãe por mais alguns minutos sem prestar atenção. Os gestos gentis de Leo indicavam sentimentos profundos que não queria admitir por algum motivo. Homem nenhum faria coisas tão contraditórias sem uma razão. Alguma coisa havia mudado entre eles e precisava de uma resposta clara. Pelo visto, precisava de mais do que franqueza. precisava de sua Scarlett interna. Que estava esperando há muito tempo. Três taças de vinho deram muita coragem em Dannie. Terminou o telefonema e foi procurar o sr. Bastidores no escritório. Entrou sem bater e Leo ergueu os olhos, assustado. Ela rodeou a escrivaninha e o prendeu com o olhar, nem um pouco amedrontada pela quantidade de papéis espalhados. — O cruzeiro. — Bateu os quadris na cadeira e a fez girar para que ele ficasse de frente para ela. — O que tem? Deus do céu, o homem gelado era pura tentação. Como podia? — Vai negar que fez uma coisa muito gentil por minha mãe? — Não? — Ergueu as sobrancelhas. — Ou sim, dependendo de se você pensou se foi gentil ou não. A voz se modificou e ela quase não percebeu até notar o ardor crescente na expressão. Oh, nossa. Maravilha. Sua proximidade o afetava também. — Foi gentil. Ela está muito entusiasmada. Obrigada. Ele se recostou como se tentasse se afastar da eletricidade. — Por que está assim tão, ah, agitada? — Agitada. — Aproximou-se mais. Não lhe daria espaço e os joelhos roçaram a parte interna das coxas dele. — Estou agitada. Porque não entendo seus motivos para não admitir as coisas maravilhosas que faz. O olhar dele lhe percorreu todo o corpo, depois voltou lentamente. — Por que faria isto? O marido era todo cheio de matizes, e inacreditavelmente frustrante. Talvez se recusasse a admitir suas ações porque exigiria investimento emocional. Alguém poderia querer fazer a mesma coisa para que ele se sentisse bem e então haveria um ciclo completo de emoções. Ela rosnou e lhe cutucou o peito com o dedo indicador enquanto se debruçava. — Você faz estas coisas e é quase como se preferisse que eu não soubesse que 40


tem um coração generoso. Aceite, Leo. Ele lhe removeu o dedo do peito sem soltá-lo. Provavelmente sabia que ela não o machucaria, mas a pele dele queimava a dela. A lembrança daquele beijo a deixou toda quente. E ainda não sabia o que estava acontecendo entre eles. amigos, amantes, mais? Talvez nada. Se desse vazão à paixão que lhe percorria o corpo, ele desapareceria depois até a vez seguinte em que quisesse sexo? Ou poderia ser o começo de uma coisa especial? — Você tem uma imaginação muito ativa. — Sim, tenho. Você é um homem de negócios implacável e de sangue frio que prefere morrer a revelar seu nome para alguns estudantes. O que é preciso para tirar você dos bastidores e colocá-lo no centro da própria vida? Aquela tinha que ser a chave para destrancar sua postura de não investir emocionalmente no casamento. Se conseguisse colocá-lo no meio da ação e parar de se afastar, ele veria como um verdadeiro relacionamento podia ser maravilhoso. Satisfatório. Pleno. Precisava ajudá-lo a entender. O corpo de Leo ficou tenso e, lentamente, se levantou e lhe invadiu o espaço. — Gosto dos bastidores. Quase colados, olharam-se calados, o impasse quase tão palpável como a eletricidade entre eles. — Por que comprou uma passagem num cruzeiro para minha mãe? — Achei que ela gostaria. — Isto é só a metade da verdade. Fez isto por mim. Arriscado, mas achava que tinha razão. — E se foi? O pulso dela acelerou. Café, jantar e agora isto. — Bem, estou chocada por você admitir. Antes de perceber, estaremos comprando presentes de aniversário um para o outro e viajando juntos para férias. Como casais de verdade. Como no casamento de seus sonhos. O que podia haver de mais seguro entre duas pessoas do que o amor para sempre? Ele ergueu uma das mãos. — Não vamos exagerar. Ela avançou e apertou o seio contra a palma dele, que deu um passo para trás. Queria se ligar ao marido da forma mais elementar. Completar a jornada de A para B e descobrir o que poderiam ter juntos. — Gosto de exagerar. — Tem uma resposta para tudo? Os dedos dele se curvaram na pele macia do alto dos seios. — Se não gosta do que estou dizendo, então me faça me calar. A expressão dele se tornou carnal. Observou-a enquanto passava o dedo indicador pelo vale entre os seios e lhe segurava a barra do decote. De repente, puxou-a para ele e lhe capturou os lábios num beijo ardente. Ela se desmanchou nele enquanto os braços a envolveram e finalmente lhe deram o que queria. Faminta por ele, contentou-se com o gosto quente de Leo na boca. Com um gemido, dobrou a cabeça e lhe abriu os lábios. Mergulhou naquele calor, buscando sua língua, e ele a atendeu com investidas fortes e ardentes. Os braços se apertaram em torno dela, esmagaram-na contra o peito, alinharam-na aos quadris. A necessidade tomou os sentidos de Dannie quando a ereção lhe apertou o ventre. Passou os braços por seu pescoço enquanto a mão dele descia e lhe levantava o vestido para lhe acariciar a parte traseira da coxa. Sim. Ele podia dar um curso sobre técnicas de sedução. Passou os dedos pelo suave algodão da camisa para lhe explorar os ângulos e músculos das costas. Delicioso. 41


O corpo do marido era rijo e forte, exatamente como ela gostava, perfeito para mantê-la segura e saciada ao mesmo tempo. O beijo se aprofundou e a mão na coxa subiu mais, num caminho quente em direção ao ponto em que mais a desejava. Mexeu os quadris num convite silencioso para os dedos chegarem aonde ambos queriam. Então ele se afastou, o peito subindo e descendo com força, e a virou em direção à parede, o torso contra sua coluna. — Daniella — sussurrou, os dedos traçando a linha do decote, brincando com o zíper. — Vou descer isto aqui e provar cada centímetro seu até ambos não sabermos quem somos. É isto o que quer? A umidade a preencheu e ela estremeceu. — Só se me chamar de Dannie enquanto faz isto. Ele sufocou um gemido e a afastou. — Não posso fazer isto. — Não diga que não me quer. — Tão perto. Não se afaste agora. Virou-se e indicou com um gesto da cabeça o volume na calça. — Sei que não é verdade. Não beija uma mulher assim a menos que tenha a intenção de ir além. — É este o problema. Você quer que signifique uma coisa que não quero. Prefiro não desapontá-la e é assim que será. Fazer amor não vai mudar o fato de que amanhã ainda vou trabalhar 16 horas por dia e terei muito pouco tempo para você. Até nós dois aceitarmos isto, preciso que você se afaste. Estava se contendo de novo, mas a rejeição não a aborreceu. Como poderia? Dizia que não queria tratá-la como um caso de uma noite só. — Vou me afastar. — Por enquanto. Virou-se para sair enquanto ele se sentava e passava a mão no cabelo, a expressão angustiada. — Boa noite. — Este foi o melhor encontro que já tive. E saiu, deixando-o com seus papéis, já planejando como quebrar aquela concha e encontrar o coração forte e generoso que havia lá dentro. Pensava que ficariam afastados até ela aceitar o sexo sem emoção, mas já estava emocionalmente envolvido. Tinha medo de magoá-la. Era isto que havia mudado. De alguma forma, tinha que ajudá-lo a descobrir o que realmente precisava dela. Se grande parte do sucesso era estar lá e então vencer a competição, podia fazer aquilo. Sim, sua competidora era um desafio intangível chamado trabalho, mas a recompensa valia o esforço. Hora de elaborar um novo projeto.

CAPÍTULO 7

A sensação da pele de Daniella assombrou Leo por dias. E, quando conseguia bloquear a lembrança, surgiam as da reação ardente ao seu beijo. Parecia não importar quantas janelas de trabalho abria em seu laptop. Ou quantas novas propostas para financiamentos recebia. Ou se dormia no escritório porque não tinha forças para ficar em casa com Daniella. Dormir não funcionava quando a esposa invadia seu inconsciente para estrelar 42


sonhos eróticos. Não havia uma caixa em que pudesse fechá-la. Estava bagunçando sua vida. Não via Daniella havia quatro dias mas seu cheiro de morango ainda lhe tomava as narinas. Dedos estalaram diante de seus olhos e Leo piscou. A sra. Gordon estava junto à escrivaninha, observando-o. — Chamei seu nome quatro vezes. — Desculpe. Noite difícil. A sra. Gordon olhou para a área de lazer do escritório de Leo. — Porque aquele sofá é pequeno demais para um homem grande como você. Ele sorriu, apesar de ter sido apanhado devaneando. — Está flertando comigo? — Depende. Qual é o tamanho do problema que tem em casa? Tão grande que uma mulher velha pareça atraente? — Não tenho problemas em casa. Acha que fui mandado embora? Aquilo o incomodava porque, no fundo, sabia que havia tomado o caminho covarde. Ser amigo da esposa não funcionara. Era sexy demais, intuitiva demais. — Au contraire. Tem problemas, é evidente. — Isto é ridículo. Leo passou a mão no rosto e percebeu que havia feito a barba como um adolescente. O banheiro do escritório era excelente, mas apenas duas horas de sono pareciam ter afetado sua habilidade com a navalha. — Esqueceu o aniversário dela? Logo estaremos comprando presentes de aniversário um para o outro. E nem sabia quando era o aniversário dela. — Nosso casamento não é assim. — Por que tenho a sensação de que você e sua esposa têm opiniões diferentes sobre o casamento? Ele suspirou e o vazio que sentia piorou porque a sra. Gordon tinha razão. — Já recebeu notícias do pessoal de Tommy Garrett? — Não mude de assunto. Sabe que teria lhe contado se tivesse notícias de Garrett. Como sabe que tem um problema em casa e é melhor enfrentá-lo logo. Estou casada há 30 anos. Sei das coisas. — Deu uma risada. — Aceite meu conselho. Mas lhe compre flores antes de voltar a dormir na cama. Ele teve e impressão de que a sra. Gordon acreditava que sua esposa também estaria na cama. Não a corrigiu. Afinal, que espécie de fraqueza aquilo revelaria? Não podia fazer sexo com a própria esposa porque se colocara num impasse sem solução. Ela queria algum tipo de intimidade que não podia lhe dar e não queria magoá-la. Pensara que a amizade seria suficiente, mas parecia que amigos falavam de aspectos de si mesmos que não queria partilhar. Especialmente o desenho. Era ligado ao seu lado obsessivo, que mantinha sob controle rígido. Por quanto tempo Dannie esperaria antes de encontrar alguém que lhe daria o que queria? As mulheres em sua vida geralmente duravam dois meses. Nunca se importara. Nunca sonhara que teria ataques de pânico ao pensamento de Daniella repetir o padrão. Tinham um casamento de conveniência, o que significava que seria fácil para ela dissolvê-lo se não lhe fosse mais conveniente. Por volta das 21h, Leo não conseguiu mais argumentar contra a lógica da assistente. Seu corpo gritava para dormir, mas não conseguia se convencer a se deitar de novo naquele sofá. O que ganhava fugindo da esposa? Quando lhe dissera que se afastasse depois de quase despi-la no escritório, ela obedecera. Sem perguntas, sem histeria, sem acusações. Daniella não era o problema, ele era. Era um sonhador fraco que preferia rabiscar 43


um papel o dia todo a passar horas explorando o corpo nu da esposa. E repetir tudo no dia seguinte, trocando com facilidade seus objetivos na Reynolds Capital Management por um sexo incrível e alguns desenhos. Já fizera aquilo antes. E as consequências seriam muito piores com Daniella. Se podia resistir à atração de desenhar, poderia resistir à Helena de Troia com quem se casara. Desde que não a beijasse de novo, tinha uma boa chance de se controlar. Claro, o problema real era que, no fundo, não queria resistir. Dirigiu para a casa que comprara com o próprio dinheiro, onde criara um lar seguro que ninguém poderia lhe tomar. As luzes estavam sempre acesas e o boiler sempre aquecia a água. E morreria antes de permitir que aquilo mudasse. Daniella não estava no térreo. Ótimo. Talvez já estivesse dormindo. Podia chegar ao seu quarto sem encontrá-la. Quando passou pela porta do escritório, o sangue lhe subiu à cabeça ao se lembrar do sonho da última noite. aquele em que terminava o beijo deitando Daniella de rosto para baixo na escrivaninha, levantava aquele vestido sexy e mergulhava em seu calor úmido de novo e de novo até ela se convulsionar em torno dele gritando seu nome. O escritório era proibido agora. Compraria uma nova escrivaninha e a colocaria no quarto. Tão exausto que mal podia respirar, subiu a escadaria e foi para o quarto. Sem luzes. Claro demais para seus olhos cansados. A mão bateu em alguma coisa pesada e lhe tirou o equilíbrio. Praguejou e estendeu a mão para impedir a queda e encontrou. uma peça de mobília. Então o abajur da mesinha de cabeceira foi aceso. — Você está bem? — Era a voz de Daniella. Ergueu a cabeça, chocado. — O que está fazendo aqui? Por que está na minha cama? O cabelo amarrado num rabo de cavalo e pálpebras pesadas de sono, sua esposa o observou calmamente sob as cobertas da sua cama. — Agora é minha cama também. Eu me mudei para seu quarto. Se viesse para casa de vez em quando, teria visto que a mobília foi mexida. A dor na mão rivalizou com a dor que começou nas têmporas. — Eu não... Você... — Respirou fundo para se fortalecer. — Não tinha o direito. Ela o estudou, a expressão contemplativa e absurdamente linda sem maquiagem. — Você disse que esta casa é meu lar. Que estava disposto a conversar sobre qualquer mudança que eu quisesse. — Exatamente. Conversar. Ela cruzou os braços com firmeza, o que lhe mostrou que teria conversado se não tivesse se escondido no escritório por quatro dias. — Você está sangrando. Afastou as cobertas, saiu da cama e se aproximou para lhe pegar a mão, murmurando sobre o corte. Como usava um pijama curto e baixo nos quadris e um top apertado que lhe deixava a barriga nua, um pouco de sangramento era o menor dos seus problemas. — E você está com frio. — Mal conseguiu afastar os olhos dos mamilos rijos. Tarde demais. O calor se instalou na virilha e lhe apertou a calça desconfortavelmente. Não podia usar roupas que não lhe revelassem tanto o corpo? Como uma armadura medieval, talvez? — Estou bem. Vamos ao banheiro para eu cuidar deste corte. — Não é tão ruim. Volte para a cama. Vou dormir em outro lugar. Como se tivesse a chance. A adrenalina lhe percorria as veias. Os músculos endureceram para puxá-la para ele, arrancar aquele pedaço de pano que lhe cobria os quadris. Tomá-la nos braços. Tentou se afastar, mas ela lhe segurou a mão com uma força surpreendente para alguém com um corpo tão feminino e sensual. 44


— Leo. Por favor, deixe-me ajudá-lo. É minha culpa você ter se machucado. Era culpa dela ele ter uma ereção do tamanho de Dallas. Mas não era culpa dela tê-la evitado e portanto não saber mais onde estava a maldita mobília. — Está bem. Seguiu-a até o banheiro e notou o acréscimo de uma enormidade de frascos e potes femininos e misteriosos na bancada da pia. Daniella lavou e secou o corte. De pés descalços, era bem menor. Geralmente não tinha dificuldade de olhá-lo nos olhos quando estava em cima daqueles saltos. Gostava deles. E gostava daquela Daniella pequena e atenta que cuidava dele. A fadiga o tomou e lhe nublou a mente. Por um segundo esqueceu por que não era uma boa ideia partilhar uma cama com ela. — Assim está melhor. Deu-lhe uma palmadinha na mão e se debruçou para guardar o kit sob a pia, o pijama se esticando no traseiro a centímetros da ereção. Ele fechou os olhos. — Sobre dormir no mesmo quarto — começou Leo. Ela lhe roçou a carne sensível e Leo abriu os olhos. Havia se aproximado involuntariamente. Dannie ergueu os olhos para os dele no espelho. A imagem incongruente, ela quase nua e ele de terno, não devia ser tão erótica. Mas era. — Vai brigar comigo? Ou considerar as possibilidades? — Que são? — Você trabalha cem horas por semana. Nossos caminhos jamais se cruzarão a não ser no quarto. Assim, ambos teremos o que queremos. Ele lhe observou os seios delineados sob o top. — O que acha que eu quero? — Eu. — Virou-se para ele. — Todos os benefícios sem o esforço, ou assim diz você. Não acredito. Se fosse verdade, não continuaria vestida depois que jantamos. Partilhar um quarto lhe oferece a oportunidade de descobrir por que me mandou me afastar. Não invadirá suas horas de trabalho e me dá a chance de estabelecer a amizade que quero. Antes de nos envolvermos fisicamente. Aquilo o despertou. — Está dizendo que seremos colegas de quarto? — Parece desapontado. Gostaria de fazer uma oferta melhor? Oh, céus. Ela devia estar negociando seus contratos, não seu advogado. — Você está me enlouquecendo. Está me transformando num banana. Não. O que é pior do que banana? — Romã. São mais difíceis de comer e não são tão gostosas. Ele segurou uma risada. Sim, exatamente. — É por aí. — Pode tentar do meu jeito? Por uma semana. Se ainda achar que o sexo vai complicar, volto para o meu quarto. Prometo manter as mãos quietas. Se prometer fazer a mesma coisa. — Está propondo seriamente que partilhemos uma cama de modo platônico? — Estou. Prove que acha que nosso casamento vale isto. Partilhar um quarto é a única forma de descobrir, a menos que pretenda trabalhar menos. Não é nada ortodoxo, mas ser casada com um maníaco por trabalho me obrigou a ser criativa. Era definitivamente criativa, e isto o feriu. exatamente onde a culpa vivia. Se quisesse que fosse feliz no casamento e permanecesse nele, tinha que provar. A lógica de Dannie o deixou sem argumento e tinha que concordar. Mas era insano. Os sedutores olhos castanhos pareciam engoli-lo. — O que vai fazer, Leo? Ela fazia parecer que ele tinha todas as cartas. Como se tudo o que tivesse que fazer fosse murmurar algumas bobagens românticas e ela seria pudim em suas mãos. E 45


então ela deu o golpe de misericórdia. — Tente. O que de tão ruim pode acontecer? — Acho que vamos descobrir. O cansaço o dominou. Trocou o terno por uma camiseta e uma cueca e se deitou na cama ao lado de uma mulher que o enlouquecia de luxúria apenas por respirar. Uma mulher que concordara em não tocar. Apenas para provar que não era fraco. E dormiu imediatamente. Dannie acordou pela manhã bem contente consigo mesma, mas desconfortável por ter passado a noite na beiradinha da cama para não rolar acidentalmente para a metade de Leo. Ou sobre Leo. Provavelmente o torturara, mas não era tão forte como imaginara, não com o marido a uma pequena distância, onde podia tocá-lo e onde ainda dormia profundamente. O alarme dele havia soado uma hora antes, mas não o acordara. E quem era ela para acordá-lo quando precisava tanto dormir? Uma boa esposa garantia que o marido descansasse. A vista também influenciou sua decisão. Deus. Era tão lindo, o cabelo desarrumado no travesseiro. Como o havia convencido a dormir com ela e adiar a intimidade? Mas estava disposta a tudo. Se aquela coisa do quarto funcionasse, poderiam conversar. Rir de uma comédia boba na televisão. Acordar juntos. Então talvez ele entendesse que estava mentindo para si mesmo sobre o que realmente queria num casamento e perceberia como já estava envolvido. Teria intimidade. física e mental. Levantou-se silenciosamente e tomou uma longa chuveirada enquanto fantasiava sobre todas as coisas deliciosas que Leo faria com ela. Estava perto. Podia sentir. Quando saiu do banheiro, Leo estava sentado na cama e sua boca secou. Era tão masculino. — Bom dia — cumprimentou, alegre. — O que aconteceu com meu despertador? — Parecia zangado. — Desliguei depois que tocou por dez minutos. — Por que não me acordou? — Tentei — mentiu sem remorso. — Quer que seja mais criativa da próxima vez? — Não. — Fechou a cara, deixando evidente que interpretara sua pergunta da maneira mais sexy. — Quis dizer jogando água no seu rosto. O que achou que ia fazer? Ele rolou os olhos. — É isto que colegas de quarto fazem? — É. Até você querer ser outra coisa. Então saiu do quarto para verificar os últimos itens da lista do jantar para Tommy Garrett na noite seguinte. E seria espetacular, mesmo se tivesse que sacrificar seus Louboutin aos deuses das festas. Leo desceu um pouco depois e até se despediu antes de sair para trabalhar. Quando entrou no quarto aquela noite, o olhar cauteloso que lhe lançou disse que havia se preparado para aquele momento o dia todo. — Ocupada? — O tom de voz era casual. Dannie colocou o e-reader sobre a mesinha de cabeceira e cruzou os braços. — Nem um pouco. E peguei suas roupas na lav... — Ótimo. — Jogou a pasta sobre uma poltrona e passou os olhos pelo corpo dela, até os dedos dos pés sob o lençol de algodão egípcio. Ela ruborizou. Ele tirou o paletó do terno, então a gravata. — Você me pegou de surpresa na noite passada e não levantei alguns pontos importantes sobre este novo arranjo para dormir. — Oh? Quais? 46


A voz se ergueu quando ele tirou a calça, então começou a desabotoar a camisa. — Para começar, o que acontece se não mantiver minhas mãos longe de você? A camisa caiu no chão e o queixo dela quase a acompanhou. O marido tinha um físico sensacional debaixo daquela concha de maníaco por trabalho. Apenas com a cueca, ele ergueu as cobertas e se deitou. Ela afastou o olhar do peito definido e o ergueu para o rosto dele. Sorria de leve, como se soubesse no que ela pensava. Ruborizou de novo. — Vou brigar com você? — Engoliu quando ele se virou no travesseiro, a cabeça descansando na mão como se preparado para uma longa e agradável conversa, em vez de usar aquelas mãos para fazer alguma coisa bem mais... íntima. — Quero dizer, não seria muito justo. — Anotado. — Esticou-se e o lençol escorregou sobre o torso. — O que acontece se você não mantiver as mãos longe de mim? — Estava brincando com ela, tentando conseguir que rompesse o voto de castidade. Naquela mente masculina, estaria tudo bem se ela tomasse a iniciativa. — E, Daniella? Garanta que tudo fique muito claro para aquele de nós que não invadiu o quarto do outro e começou a ditar regras. Estavam conversando, o que era ainda melhor do que presumira. Agora precisava fazê-lo entender que não era uma competição. O relacionamento estava numa encruzilhada e ele teria que decidir que estrada tomar. — Não há regras — corrigiu. — Não tenho uma lista de castigos se você decidir não aceitar ser meu colega de quarto, se quiser voltar a quartos separados ou me despir bem agora. A iniciativa é sua. Foi você que me rejeitou. Afaste-se, você disse, e eu me afastei. Mas nenhum de nós queria. — É? — Trilhou um dedo preguiçoso no decote do pijama, tomando o cuidado de não lhe tocar a pele. — O que gostaria que lhe dissesse? — Sem joguinhos, Leo. — Encontrou-lhe o olhar diretamente. — Construí uma oportunidade de termos uma amizade. E admito que quero você. Quero sua boca em mim. Aqui. — Traçou um dedo em torno do mamilo. — Quero tanto que mal consigo respirar. — Sem joguinhos? Então, o que é isto? — Uma aula de soletração. — Era evidente que precisava deixar tudo claro. — Você me quer, então me pegue. Dispa-se emocional e fisicamente. E vamos ver como pode ser fantástico entre nós. Ele enrijeceu e se afastou. — É tudo? Não está pedindo muito. — Então esqueça o que disse. Não temos que procurar uma conexão que jamais acontecerá. Se um de nós não quiser ficar com as mãos longe, tudo bem. Tome-me agora. Não vou me queixar. Faremos sexo e será ótimo e então vamos dormir. — Ele não se moveu. — Qual é o problema? É apenas sexo. Certamente já fez. Nenhum esforço intelectual é exigido. Não tenho dúvida de que um homem com seu evidente, hum... talento é capaz de me dar um orgasmo sem muito esforço. Na verdade, estou ansiosa por ele. Quero você, Leo. Não me faça esperar. — Não é engraçado. Deixe de ser ridícula. Tradução: não gostava que seu próprio jogo se voltasse contra ele. — Acha que estou brincando? Não estou. Somos casados. Somos adultos. Ambos demonstramos um interesse saudável em despir o outro. Um dia vamos trilhar este caminho. Que tipo de experiência será é escolha sua. Ele mergulhou as duas mãos no cabelo. — Por que a escolha é minha? Pobre, pobre homem. Não tinha a menor noção de que ela não tinha escolha e não lhe revelaria. Ele teria que descobrir. Mas ela sabia exatamente do que ele precisava. se 47


soltar. — Porque eu... — Já estou emocionalmente envolvida — sou generosa neste quesito. Ela o arrastaria dos bastidores chutando e gritando para ter o casamento por amor que sentia que Elise havia orquestrado.

CAPÍTULO 8

Por volta de 21h, a reunião estava a pleno vapor, um total sucesso e todos se divertiam. Menos, talvez, Leo. Na última hora, não trocara nem duas palavras com Dannie. Ela tentou não deixar que aquilo a aborrecesse enquanto passava de grupo em grupo, garantindo que todos tivessem as taças cheias de champanhe e muitos assuntos para conversar. A lista final de convidados chegara a 25 e ninguém se recusou. A decoração da sala de estar estava perfeita, com temas chineses que davam colorido ao ambiente severo. Um dragão de papel machê lançava fogo sob a panela de fondue a intervalos regulares. A assessora executiva de Tommy havia mencionado que ele adorava coisas orientais. Alguns convidados haviam comentado como o tema era incomum, mas a assinatura de Tommy no contrato era o único elogio de que precisava. Bem, gostaria de um “você está bonita” de Leo. O vestido negro longo tinha sido difícil de encontrar, mas ficava ótima com ele. Não que ninguém tivesse percebido. Recebera elogios e olhares interessados. Observou os convidados que a rodeavam, determinada a ser a anfitriã que Leo esperava. E estava muito consciente do olhar que lhe queimava as costas com frequência. Quando se voltava, via os olhos azuis de Leo fixos nela com uma expressão um pouco perigosa. O plano de partilhar o quarto tinha sido um fracasso. Ele o odiava. E se fechara como uma ostra. Deu-lhe as costas e se viu diante de Dax Wakefield. — Está se divertindo? — Sim, obrigado. — Sempre educado, Dax acenou, mas seu tom era gelado. — O bufê está maravilhoso. Percebeu que não havia levado uma mulher. Um sujeito bonito como Dax, se gostasse de homens escorregadios, estava sozinho por escolha. Não se encontrava mais com Jenna? Ou Leo lhe teria pedido que não a levasse? — Fico feliz. — Sorriu, mas ele se manteve sério. Talvez fosse sempre assim, distante. — Parabéns de novo pelo prêmio. Leo me disse que foi muito merecido. — Obrigado. Levou algum tempo para ser concedido, mais do que para Leo. Mas nossas empresas são tão diferentes. O que aquilo significava? Havia uma corrente subterrânea que não entendia, mas Dax definitivamente não gostava dela. Alerta de problema. Dax e Leo eram velhos amigos e uma esposa era uma cidadã de segunda classe em relação à amizade entre dois homens. — Bem, seu império de mídia é impressionante. Dax sorriu e ela congelou. Se Leo queria que as pessoas acreditassem que era um homem de negócios implacável e frio, devia tomar algumas aulas com o amigo. Um dos criados contratados para a reunião fez um sinal e ela aproveitou a oportunidade para escapar. 48


— Pode me dar licença? O dever chama. — É claro. — E Dax se virou imediatamente para um dos associados de Leo e começou uma conversa sobre futebol americano. O serviçal lhe disse que diversas garrafas de champanhe tinham sido quebradas na cozinha e Dannie resolveu o problema pegando outras da reserva de Leo. Era um rosé muito bom e teria que servir. A maioria dos convidados era homem e uma bebida tão feminina poderia não ser bem recebida. Nota mental... da próxima vez, compre mais champanhe no caso de ter outro garçom nervoso com dedos de palha. Serviu duas taças do champanhe e procurou Tommy Garrett. Alguma coisa lhe dizia que ele gostaria. — Tommy. — Satisfeita por encontrá-lo sozinho, entregou-lhe uma das taças. — Parece que está com sede. Tome e finja que é cerveja. O jovem jogou para trás o cabelo longo e quase branco do sol. — Leu meus pensamentos. Conversar com todos estes ternos me deixou morto de sede. Tommy tomou metade da taça num gole. Ela olhou em torno e percebeu que ninguém estava jogando o rosé nos vasos de plantas. Crise evitada. — Obrigado, sra. Reynolds. — Ela lhe lançou um olhar de censura e ele piscou. — Quero dizer, Dannie. Desculpe. Mulheres lindas me fazem enrolar a língua. Ela riu. — Este papo de geek funciona? — Mais do que eu esperava. Mas esta noite não vou conseguir ação. — Suspirou dramaticamente e se inclinou. — Gostaria de ver minha coleção de calibradores? O sorriso dela cresceu. Gostava dele. — Ora, Thomas Garrett, devia estar envergonhado. Cantando uma mulher casada. — Devia, mas não estou. E, de qualquer maneira, não conseguiria tirá-la de Leo nem com um pé de cabra ou a atração da minha ilha particular. Conseguiria? — De jeito nenhum. Gosto dos meus homens adultos. Mas fique à vontade para continuar tentando suas cantadas. Talvez aprenda como flertar com uma mulher. Tommy apertou o peito com uma dor fingida. — Durona. Acho que me fez sangrar. Aquela sensação quente lhe atravessou as costas um instante antes de Leo se materializar ao seu lado. A palma na base das costas a fez estremecer. Por que usara um vestido com um decote tão baixo nas costas? — Ei, Leo. — Tommy ergueu a taça quase vazia num brinde. — Ótima festa. Dannie estava me contando o quanto gosta de calibradores. — É mesmo? — A voz era muito suave. Suave demais. Uh-oh. Virou-se para Leo e quase se encolheu com o brilho letal nos olhos dele. Dirigido a ela ou a Tommy? — Calibradores. Sim, eles fazem o trabalho, não fazem? Exatamente como Leo. Pense nele como um calibrador e no competidor da Reynolds, Moreno Partners, como uma régua. Por que não usar o instrumento certo para o trabalho desde o começo? Tommy a observou. — A Moreno tem uma abordagem bem conservadora. Talvez seja o que eu preciso. Ótimo, agora teria que discutir negócios. — Oh, não. — Dannie esperou que a postura rija de Leo não significasse que não estava gostando do modo como se intrometia nos negócios com Tommy. Principalmente naquele humor estranho e imprevisível. Era para isto que estava ali. — A Reynolds pode ajudá-lo. Leo tem muito mais experiência. Conexões. Expertise. Sabe que Leo é formado em engenharia também, não sabe? A mão de Leo desceu mais um pouco. O dedo invadiu a pele sob o vestido e lhe roçou o topo da calcinha. O cérebro dela virou mingau e ela se esqueceu de mencionar 49


que ele tinha também um diploma de administração de empresas. — Daniella — murmurou Leo — pode cuidar da sra. Ross? Está andando sem rumo perto da porta dupla de vidro e temo que acabe dentro da piscina. — Claro. — Sorriu para Tommy, depois para Leo e foi cuidar da convidada. Leo evitara lhe dizer diretamente, diante de um possível parceiro, que podia cuidar dos próprios negócios. O que ela agradecia. Enquanto levava a sra. Ross ao bufê e ria de suas brincadeiras, manteve um olho em Leo e Tommy. Ainda conversavam e a expressão de Leo havia perdido aquela tensão que não compreendia. Se tivesse ido longe demais com a ideia de partilhar o quarto, por que não lhe dissera? Aquela festa era uma medida de como podia realizar seu trabalho como esposa de Leo e como contribuía para seu sucesso. Com tudo aquilo e a tensão que vibrava entre eles, seus nervos estavam a ponto de estalar. Dannie levou o último convidado até a porta e passou longos trinta minutos com os criados contratados. Leo não estava em lugar nenhum. Por volta da meia-noite, finalmente se arrastou para o quarto com a última garrafa de champanhe aberta, com a intenção de dividi-la com Leo para celebrar o sucesso da festa. Certamente Leo concordava e, se não, queria saber o motivo. O quarto estava mergulhado na escuridão. Ela deixou a garrafa e as duas taças sobre a cômoda e acendeu um abajur no canto. Encostou-se na parede e começou a abrir a fivela da sandália. — Oh, devia ficar com eles. — A voz de Leo estava sedosa de novo. Ela se virou. Estava esparramado no sofá, a gravata solta e a camisa com os três botões superiores abertos. Não que estivesse contando. — O que está fazendo sentado aqui na escuridão? — Combina com meu humor. Parecia um aviso. Tirou a outra sandália no caso de precisar correr para a porta. — Gostaria de que eu apagasse a luz? Contemplou-a por um longo momento. — A escuridão tornaria mais fácil para você fingir que sou Tommy Garrett? Não conseguiu evitar. A risada soou no quarto silencioso. Pegou a garrafa, tomou um longo gole e limpou a boca com as costas de uma das mãos. — Ciúme? É tão... — Clichê. Bem, melhor abrir o jogo. — Clichê, Leo. O olhar dele a percorreu dos pés à cabeça e escureceu. — O que devia sentir ao ver minha esposa flertando com outro homem? — Gratidão? Estava preparando-o para você, Leo. Ele riu. Alto. — Devo chamá-lo de volta? Ver se topa uma sessão a três? Aquilo estava desabando depressa. Não tinha gostado da festa e havia se transformado num marido possessivo. — Está bêbado? Talvez também devesse ficar. Se tomasse todo o champanhe, entenderia melhor o marido. Ou suportaria melhor a rejeição. Desta vez podia incluir uma anulação do casamento. O álcool tinha o potencial de tornar qualquer uma dessas situações mais suportável. — Não o bastante. Já que está distribuindo favores com tanta liberdade, talvez me faça um. — O quê? — Mostre-me o que há debaixo deste vestido. Certo, não era a direção que tinha antecipado. Mais champanhe. Tomou outro grande gole. 50


— Por quê? Para você declarar sua posse? Ciúme não é motivo para me despir para você. — O que seria? — Diamantes. Uma viagem a Bora-Bora. Um Jaguar. — Se ele escolhia o clichê, ela também podia. — O preço típico de uma mulher sustentada. — E se a chamar... de Dannie? É a chave para a intimidade, não é? Deixou que Tommy a chamasse assim. Vocês dois estavam muito amiguinhos. Ela praguejou baixinho. Como ousava acusá-la de flertar com Tommy? — Ele tem 24 anos, Leo. Podia ser sua irmã mais velha. Pare de ser um Neandertal. — Então, é por isto que não quer Tommy? Por causa da idade? — Leo se levantou e avançou para ela, lentamente. — E Dax? É da minha idade. Talvez goste mais dele. — O que é tudo isto? — Ousada, manteve o olhar no dele enquanto ele se aproximava, decidida a ultrapassar a barreira que ele erguera para evitar o problema real. que fracassara em ser a esposa que ele queria. Em todos os níveis. — Não é ameaçado por Tommy. Ou Dax. Esteve esquisito a noite toda. Se tem um problema comigo, abra o jogo. Parou a um suspiro de distância e se avultou sobre ela. Sem os saltos não era assim tão menor do que ele, mas sua presença e seu humor intenso e sombrio a abalaram. — Sabe, tenho mesmo um problema com você. — Deixou o olhar descer por ela e foi então que ela viu a vulnerabilidade que escondia sob as falsas acusações. — Ainda está vestida. Impressionada, estudou-o. Viu indícios do que tentava esconder. E soube. Sentiase ameaçado por outros homens e, ao mesmo tempo, paralisado por sua consciência, que o impedia de tocá-la até ela se sentir bem com o que podia lhe dar. Sua linguagem corporal também era conflituosa. Os dedos se abriam e se fechavam sem parar, como se quisesse agarrá-la e não pudesse. Era a esposa dele, mas não a esposa no sentido mais verdadeiro. O coração dela suavizou. Ele queria alguma coisa sobre a qual nada sabia, não tinha uma palavra para definir. E ela o estivera forçando a admitir suas necessidades ao partilhar sua cama e lhe negar o alívio da única forma que compreendia, presumindo que seu jeito era o melhor. Bem, tudo era novo para ela também, mas não se negaria a mudar o curso para dar a ele o que queria. A conexão já existia. Então lhe mostraria. Era um bom motivo para se despir para ele. Prendeu o olhar ao dele e levou a mão à nuca para desabotoar o vestido. Leo sabia que estava agindo como um canalha. Mas não conseguia se controlar ou eliminar a onda constante de luxúria que o tomava só de olhar para a esposa. Vê-la rir com outro homem havia despertado alguma coisa feia e primitiva nele. Não gostava. Não gostava da forma como dedicara tanta energia e atenção por semanas ao negócio com Tommy Garrett e então passara a noite emburrado num canto em vez de usar a oportunidade para fazer seu trabalho. A esposa o substituíra. Sua esposa. Mais uma vez, ela lhe mostrara a importância da noite enquanto ele se deixava mergulhar no ciúme. Como ela ousava ser tão perfeita e imperfeita ao mesmo tempo? E então as mãos de Daniella se ergueram para a nuca. As entranhas dele apertaram quando percebeu o que ela fazia, mas o protesto morreu quando o vestido escorregou pelo corpo e se empoçou no chão, deixando-a nua para seu olhar faminto. Uma visão de beleza. Daniella em toda a sua glória. O fogo o tomou e quase caiu de joelhos. Seria adequado se ajoelhar diante de uma deusa. 51


— Daniella. — A voz era áspera. — O que está fazendo? Mas sabia. Ele praticamente a obrigara. Devia ter lhe dado uma bofetada. Ou sair do quarto, furiosa. Ou debochar dele. Desde que o castigasse por ser um canalha, qualquer resposta teria sido boa. Menos aquela. E era um castigo ainda mais adequado. Recebia o que pedira. — Estou eliminando os problemas. — Ergueu a cabeça. — Todos os problemas. Era impossível. — Vista-se de novo. Eu. — E não soube o que ia dizer. Nada poderia tê-lo preparado para se sentir tão... vulnerável diante de uma mulher que irradiava poder e energia sensual. Fechou os olhos. Dispa-se emocionalmente como despe o corpo, sugerira ela. Mas o simples ato da esposa de se despir, de se tornar vulnerável, conseguira, apesar de ainda estar vestido. Tudo nela o tocava em lugares que ninguém ousara invadir. A noite não ia acabar bem. Ela queria alguma coisa que não se permitia dar. Uma vez a tampa erguida, seria incapaz de se focar em qualquer coisa além de Daniella e perderia sua determinação. Então seria o fracasso, para Daniella e para ele. — Leo. Abra os olhos. Olhe para mim. Ele olhou. Não podia resistir. O olhar buscou o dela, não os lindos seios nus ali para o seu prazer visual. Queimava com o esforço de não descer o olhar. — Eu jamais, jamais o desonraria com outro homem, muito menos com um amigo ou um parceiro de negócios. Respeito você. Lamento se meu comportamento o fez suspeitar de mim. As palavras totalmente sinceras o abalaram ainda mais. Estava tratando-a mal por algum motivo que não conhecia e ela pedia desculpas. — Não fez nada errado. Estava apenas sendo uma boa anfitriã. Uma pobre descrição de como tinha sido sensacional a festa que preparara. Merecia mais do que acusações do marido. Muito mais do que o homem ausente e distante com quem se casara. — Espero realmente que sim. Você é o único homem que quero. Para sempre. Foi por isto que me casei com você. O sentimento o preencheu como mel quente. Era o tipo de idiotice romântica que tentara evitar ao procurar a EA International. Mas não estava descrevendo exatamente o que ele queria? Fidelidade e compromisso? Apenas parecia muito mais quando ela dizia, tão profundo e rico. O que devia fazer com aquilo? Com ela? — Você não me quer também? — A voz tinha se tornado um sussurro sedutor que o atingiu diretamente na virilha. — Muito mais do que devia. — E imediatamente se arrependeu das palavras. — Então venha aqui e me mostre. Os pés dele pareciam ter criado raízes no carpete. Não seria apenas sexo. Talvez apenas sexo não fosse possível com uma esposa. Mesmo assim, havia se casado com Daniella e consumar o relacionamento significava que estavam começando o para sempre naquele momento. Parte dele queria fugir. Mas teria que lutar com a outra parte, que exigia que aceitasse tudo o que ela oferecia, mesmo as coisas alarmantes e nebulosas que não pertenciam ao terreno físico. — Então a proibição de tocar foi suspensa? Ou é o começo de outro conjunto de regras? Se continuasse a enfurecê-la, ela poderia partir e voltariam a circular um ao outro e não descobriria exatamente como era fraco. Não queria que ela partisse. — Não é nada mais além de ficarmos juntos. Fazer o que quer que considere certo 52


para você. — Abriu os braços e os seios perfeitos se ergueram. Ele imaginou como seria prová-los. — Ficar aqui usando apenas uma tanga minúscula está me transformando em geleia. Realmente gostaria de que me beijasse agora. — Uma tanga? — Estivera tão atento à frente do corpo que nem mesmo registrara as costas. A sensação de seda quando mergulhara o dedo sob o tecido no decote baixo voltou à mente e ele gemeu. Ela se virou lentamente e ergueu o traseiro nu. — Usei-a para você. Esperava que escolhesse esta noite para me tornar sua esposa de verdade. Estava tão duro que não conseguia respirar. Ou andar. Ou beijar. Nunca estivera tão perto de cruzar a linha que o faria cair no buraco do coelho se cedesse ao redemoinho de desejo. Os lábios dela se curvaram num sorriso secreto, malicioso. As palmas na cintura, ela as desceu pelas curvas das nádegas, pelas coxas. — Se não vai me tocar, eu mesma faço isto. Provocante, passou um dedo pelos mamilos. Os olhos entrecerram com aparente prazer e ele praguejou. Chega. Nada mais de escolhas, regras, joguinhos. Ela o queria. Era tarde demais para lidar com todas as questões sobre as condições do relacionamento ou como poderiam mudar. Era tarde demais para escapar e fingir que era o que queria. Daniella seria colocada na caixa de amante. Agora. Num passo, fechou o espaço entre eles e a tomou nos braços. E engoliu seu arquejo quando lhe capturou os lábios. Apertou-a contra ele e mergulhou no desejo carnal que o atormentara a noite toda. Na verdade, desde que a vira pela primeira vez na escadaria no dia do casamento. E em cada momento até agora. As bocas se alinharam, se abriram, se tomaram. Ansiosa, roçou a língua na dele, convidando-o a aprofundar o beijo. E desta vez não haveria interrupções. Tornaria Daniella sua de uma vez por todas. Então recuperaria sua concentração e não perderia mais negócios em devaneios. O gosto dela cantou em suas veias e, em vez de enfraquecê-lo, fortaleceu-o. Deulhe a energia necessária para dar prazer àquela mulher até ela gritar. Dar-lhe o que queria. Amá-la a noite toda. Agarrou-se à força porque precisava se afastar na manhã seguinte. Era o único resultado que aceitaria, mergulhar no prazer físico sem se perder nele. Apenas aquela noite, apenas uma vez. Leo interrompeu o beijo para erguê-la nos braços. Com cuidado, deitou-a na cama e passou um longo momento admirando a vista do corpo lindo da esposa. Toda aquela pele divina implorava por seu toque e ele se entregou, roçando as pontas dos dedos sobre os braços, os vales e picos do torso até os dedos dos pés pintados de vermelho. Olhou para o rosto dela. Estava tão sensualmente perdida no prazer que o pulso dele disparou. Ela estremeceu. — Com frio? Ela se ajoelhou na cama e afrouxou-lhe a gravata. — Quente. Por você. Desceu o paletó pelos ombros e começou a trabalhar nos botões da camisa, o olhar preso no dele. Então estava nu. Tomou-a nos braços, rolou com ela para o meio da cama e retomou o beijo. Finalmente estavam juntos e nus. Pelo menos, fisicamente. Quase nus. Passou-lhe a mão pela coluna e segurou a tanga. Seda. Sexy. Usara-a para ele. Se soubesse antes, a festa teria terminado muito mais cedo. A palma de Daniella retribuiu a carícia e seu toque provocou um incêndio que não podia permitir. Teria o mínimo de prazer possível. Senão jamais deixaria a cama. Era um 53


equilíbrio delicado e mais complicado porque sabia que ela queria alguma coisa cataclísmica que não poderia lhe dar. A não ser fisicamente. Ainda mergulhado em sua boca, arrancou-lhe a tanga, então explorou-lhe o torso com pequenos beijos de boca aberta até chegar ao seu âmago. Que acariciou com a ponta da língua. — Leo — arquejou, e sua urgência cresceu. — Você tem gosto de paraíso. Queria mais e tomou-lhe o botão rosado na boca. Mordiscou-o de leve, então com mais força, a língua o acariciando até ela se contorcer. — Mais. Estou prestes a ter um orgasmo. E o jogou à beira do precipício. Sua ereção pulsou e a controlou, doendo com o esforço de continuar a exploração. Penetrou-a com um dedo, depois dois, e continuou a acariciá-la com a língua até ela arquear e se apertar em torno dele, despedaçada por um lindo clímax. Ergueu-se e lhe levantou o queixo para saborear o brilho saciado e feliz nos olhos enquanto lhe dava tempo para se recuperar. Mas não muito. Quando a respiração dela se tornou um pouco mais lenta, suspendeu-lhe os braços até a cabeceira. Se o tocasse, perderia o controle que se esforçava tanto para manter. — Segure-se. Ela obedeceu, tão confiante, tão ansiosa. Separou-lhe as coxas e lentamente a penetrou. A expressão de prazer no rosto dela o deixou louco. Envolveu-o e o apertou. Era maravilhosa, aberta, molhada, rendida. A visão ficou nublada quando Daniella lhe tomou os sentidos. Mais. Investiu. De novo. Então o calor o tomou e queria se entregar. Mas precisava que ela tivesse outro orgasmo antes. Para provar que não era fraco, que ainda podia resistir a ela. — Daniella — rosnou, e ela lhe capturou o olhar. Não conseguiu se libertar. Tudo se resumiu a este momento suspenso e os olhos castanhos e ternos o prenderam, encorajaram-no a apenas sentir. E ele sentiu, contra a vontade. Um peso lhe apertou o peito e afastou o que devia estar lá. Contra todas as possibilidades, ela despertou alguma coisa estranha e indefinível e magnífica nas profundezas. Apenas uma palavra a definiria. — Dannie. Saiu de sua boca num apelo e ela respondeu com um grito enquanto convulsionava em torno dele e lhe provocava o orgasmo. Ele derramou nela todo o seu desejo, toda a sua confusão. e o que temia ser parte de sua alma. gemendo com um prazer sensual que jamais quisera experimentar. Daniella havia lhe tomado o nome, o corpo, alguma coisa primitiva e física e a transformado em poesia. Assombrado, queria marcar cada centímetro dela e jamais parar. E permitir que ela fizesse o mesmo com ele. Racionalmente, sempre soubera que um pequeno gosto dela nunca seria bastante. Mas a experiência real havia feito explodir a pequena caixa, derrubado suas laterais e se mostrara mais e maior do que suas fantasias mais loucas. Não podia se entregar a isto de novo. Ou a esposa o engoliria inteiro e lhe tomaria cada gota de ambição.

CAPÍTULO 9 54


Dannie acordou enroscada em Leo. Seu marido, em cada sentido. Músculos doíam e imploravam para serem esticados de novo. Acima de tudo, ansiava por ouvi-lo dizer de novo “Dannie” com tanto anseio. Como na noite anterior. O plano de partilhar o quarto merecia um prêmio. Leo ainda dormia, mas segurava-a com força, as costas dela contra seu peito. A posição parecia incongruente para alguém tão determinado a se manter distante. Mas, no sono, o corpo dele lhe dizia o que sua boca não podia. Ansiava também por um relacionamento com ela. Sentia sua força em cada momento que passava com ele. Estava em todos os gestos gentis e secretos, que agora sabia que não tinham a intenção de evitar investimento emocional. Apenas não sabia como se expressar. E ela lhe ensinaria. Como ele a ajudara a atingir seu potencial pleno como esposa, faria a mesma coisa, obrigando-o a se manter aberto, dando-lhe o que ele precisava. E continuaria até que ele aceitasse tudo o que aquele casamento podia ser. As recompensas de ser a mulher por trás do homem não tinham preço. Detestava perturbá-lo, mas ele ficava cada vez mais rijo contra sua carne sensível. O calor se concentrou no centro de seu universo e a respiração se tornou difícil. Involuntariamente, arqueou as costas, apertando o sexo contra a ereção. Roçou-se nele. Oh, sim. Então todo o corpo dele endureceu, suas mãos lhe apertaram os quadris e a obrigaram a ficar imóvel. Acordado e claramente indiferente a uma sessão de amor pela manhã. Ela se jogou para trás e o provocou sem palavras. — Daniella, pare. Esqueci de preparar o despertador. Preciso sair para trabalhar. — Sim, precisa. — Apertou-se de novo contra ele. — Dez minutos. Quero você. O ar frio lhe tocou a pele das costas quando ele rolou para longe e saiu da cama sem mais uma palavra. O coração dela bateu com força enquanto ele desaparecia no banheiro. Nada havia mudado entre eles. A noite anterior tinha significado tudo para ela. E nada para ele. Parecia perfeitamente satisfeito em dormir com ela à noite e ignorá-la pelo resto do dia. Leo avisara que seria assim, não tinha o direito de se sentir desapontada. Dera-lhe o que ele precisava e esperava que fosse o início de um grande e maravilhoso caso de amor. Não era. Em que momento pedira mais? Desde que dissera sim, esforçara-se para não estragar tudo, convicta de que cada sucesso como esposa e dona de casa solidificaria seu papel de sra. Reynolds. Jamais lhe ocorrera que seu maior fracasso ocorreria quando inventara um futuro no qual Leo era o marido dos seus sonhos. Puxou as cobertas sobre os ombros e se enterrou na cama, os olhos secos, até Leo sair sem se despedir. Ficou lá, recusando-se a permitir que as lágrimas descessem Então o celular tocou. Leo. Sentou-se e pegou o telefone. Estava ligando para pedir desculpas. Para lhe desejar um bom dia. Dizer que a festa tinha sido ótima. Um gosto amargo lhe surgiu na base da garganta quando viu mãe no identificador de chamada. — Oi. — A voz se quebrou. — O que está errado, querida? Maravilha, agora preocupava sua mãe. — Nada — mentiu. — Ainda estou na cama, não acabei de acordar. Como você está? 55


— Ótima. — Um acesso de tosse desmentiu a palavra. — Quer almoçar hoje? Não podia. A mãe veria como estava magoada. — Estou muito ocupada. Pode ser amanhã? — Vou começar o cruzeiro amanhã, esqueceu? Queria ver você antes de partir. Sim, tinha esquecido e não poderia. A mãe era importante, não seus sentimentos feridos. — Posso mudar minha agenda. Vou buscá-la às 11h, está bem? — Ótimo! Até lá. Dannie desligou, suspirou e foi para o chuveiro lavar cada traço de Leo de seu corpo. Se apenas conseguisse tirá-lo da mente com tanta facilidade. Mas sua presença invisível contaminava a atmosfera da casa toda. Combateu as lágrimas pelos vinte minutos que levava para chegar à casa da mãe. O motorista parou ao lado da calçada e Dannie franziu a testa. A tinta descascava e ervas daninhas sufocavam o gramado da frente. Era um prédio pobre, o que nunca a incomodara antes. Era justo viver no luxo e sua mãe sofresse de uma doença pulmonar grave e vivesse na pobreza? Mas, o que podia fazer? Não tinha dinheiro, tudo era de Leo. Uma vozinha maliciosa lhe sugeriu que cobrasse de Leo a noite anterior, garantindo uma acomodação melhor para a mãe. Calou-a imediatamente. Leo não a tratara assim. Dissera-lhe mais de uma vez o que aconteceria e ela escolhera criar um conto de fadas no qual o amor conquistava tudo. A mãe entrou no carro e sorriu para Dannie. A enfermeira havia feito maravilhas para melhorar sua qualidade de vida com terapia pulmonar e apoio emocional. — Estou tão feliz de vê-la, querida — cumprimentou a mãe. O motorista suspendeu o vidro entre os bancos da frente e de trás, então entrou no trânsito para levá-las ao restaurante. Dannie beijou o rosto da mãe e sorriu. — Também estou feliz de ver você. O ardor das lágrimas piorou. As mãos da mãe em seu queixo ficaram mais firmes. — Uh, oh. O que aconteceu? Dannie afastou o rosto e desviou o olhar. — Nada. Leo e eu tivemos um pequeno... desentendimento. Vou superar. — Nada sério, espero. Dannie conseguiu dar uma pequena risada. — Não na opinião dele. A mãe suspirou de alívio. — Isto é bom. — Bem, ele não está pensando em pedir o divórcio, se é com isto que está preocupada. Pelo menos, ainda não. — É claro que me preocupo. — Tomou-lhe a mão. — Felizmente você se casou com um homem íntegro e respeitável que acredita em compromisso. Uma escolha muito sábia. Jamais terminará com um coração partido e sozinha como eu. Sim. Aquele tinha sido o motivo do casamento. Não uma paixão imensa e amor infinito. Era um trabalho. Ser esposa era uma carreira. Dannie endureceu o coração e acenou. — Tem razão. Leo é um homem bom. O som amortecido de sirenes encheu o carro um momento antes de uma ambulância passar na direção oposta. Tinha viajado numa ambulância poucos meses antes para levar a mãe ao hospital com enormes dificuldades respiratórias. Quando a conta chegara, fora à biblioteca em busca de uma forma de pagá-la. E agora estava num carro de luxo, com ar-condicionado e bancos de couro. 56


Leo havia salvado as duas e lhes dera segurança. Não podia mais perder aquele fato de vista. Ele mantivera as promessas com honestidade. Era hora de ela fazer a mesma coisa e parar de choramingar por causa de um romance que nunca estivera na pauta. O amor não funcionava para as outras pessoas. Por que seria diferente com ela? — O desentendimento não foi sobre a possibilidade de filhos, foi? Dannie balançou a cabeça, hesitante. Não haviam usado proteção. Na verdade, poderia estar grávida. Uma sensação calorosa lhe preencheu a alma gelada. Se Leo lhe desse um filho, seria mais fácil suportar sua ausência. Sua mãe a criara sozinha, podia fazer a mesma coisa. Interessante como não havia pensado nisto na noite anterior. No entanto, filhos eram um de seus interesses principais quando concordara em se casar com Leo. Sorriu para a mãe. — Conte-me sobre o cruzeiro. A mãe falou durante todo o almoço e Dannie respondeu, mas não se lembrou depois do que haviam conversado. Felizmente, Leo não voltou a ser abordado, o que não esqueceria. Leo não ligou e não apareceu para jantar. Ela se preparou para a cama, resignada a dormir sozinha. Ele entrou no quarto às 22h. O olhar dela passou por ele, faminto, buscando pequenos indícios de seu estado de espírito. De como estava o homem que passara a noite toda lhe beijando o corpo menos de 24 horas atrás. — Oi. — A voz era apenas educada e desligou a televisão. — Como foi o seu dia? — Bem. Tenho uma coisa para você. — Um presente? Ele ergueu a pequena sacola prateada, acenou e a entregou. Ela tirou de dentro uma caixinha quadrada e abriu. Brincos de diamante brilhavam contra o veludo azul. A caixa lhe queimou a mão e ela a jogou sobre a mesinha de cabeceira. — Agradeça à sra. Gordon por mim. Ela tem muito bom gosto. O rosto dele ficou totalmente inexpressivo. — Passei uma hora escolhendo. Para lhe agradecer a festa. Você foi maravilhosa. Devia ter lhe dito antes. — Lamento. — O que havia acontecido com a garota modesta que Elise havia criado? — Foi odioso o que disse. — E merecido. — Limpou a garganta e lhe procurou o olhar. — Desculpe por ter saído daquele jeito esta manhã. Aquilo foi odioso. E imerecido. — Oh. — Ele lhe roubara o poder de falar. O que era bom, já que a pergunta que queria fazer era Então, por que saiu daquele jeito? Mas não perguntou. Ele diria se quisesse que ela soubesse. Mesmo assim, pedira desculpas. Pedira desculpas. E lhe comprara um presente. Leo pegou a caixa e a entregou de novo. — Vai usar os brincos? Posso devolvê-los se não gostar. Um toque da vulnerabilidade que vira na noite anterior lhe cruzou a expressão. Os brincos eram um agradecimento e um pedido de desculpas e queria que ela gostasse deles. Quando pensava ter entendido a dinâmica entre eles, Leo a virava de pontacabeça. — Adorei. — Colocou os brincos e fez uma pose. — O que acha? — Lindo. — Mas o olhar estava no corpo dela. O desejo pulsava entre eles. Uma parte era física. Mas não tudo. Ele mesmo escolhera os brincos. O que aquilo significava? Na noite anterior, descobrira uma forma segura de se comunicar com ele. Jogou as cobertas e se arrastou em direção a ele. Leo a observava, o corpo preparado para a fuga, mas ela lhe segurou as lapelas antes que conseguisse. Sem falar, ela lhe despiu o paletó e lhe provocou os lábios com os 57


dela enquanto afrouxava a gravata. — Daniella. — Afastou-se um centímetro. — Os brincos não são. eu não. — Shh. Está tudo bem. A gravata se abriu e ela se debruçou nele, as mãos fazendo pequenos círculos em torno dos mamilos. Quase imperceptivelmente, ele balançou a cabeça. — Não espero sexo em troca de joias. Como uma declaração tão simples podia emocioná-la tanto? Estava tentando ser honrado, impedir-se de magoá-la com tanto sofrimento para si mesmo. — E não espero joias em troca de sexo. Agora está tudo esclarecido. Cale-se e ponha as mãos em mim. As pálpebras desceram e ele engoliu em seco. Era um sim para ela. Tomou-lhe os lábios, puxou-o para ela e aprofundou o beijo. Uma tempestade de desejo se espalhou nela. Com urgência, sem palavras, despiu-o, ansiosa para desnudar Leo da única forma que ele permitia. Ele lhe arrancou o pijama e caíram na cama já unidos. Leo a beijou longa e completamente. Aquele era o homem que a abraçara enquanto dormia. O homem que sussurrara seu nome com tanto ardor. Com a alma nos olhos. Como sempre soubera, a união dos corpos falava muito mais do que simples palavras. E lhe dizia que Leo tinha muito mais sob a superfície do que ousava mostrar. Enquanto aninhava o belo corpo do marido nos braços e olhava no fundo daqueles olhos azuis ardentes de paixão, alguma coisa floresceu. Alguma coisa imensa e descuidada que sufocou. Mas se ergueu de novo, ao lado de imagens do filho de Leo crescendo em seu útero. Imaginou a ternura de seu olhar ao ver o bebê recém-nascido e a garganta fechou de emoção. De repente, o medo de Leo se cansar de sua tolice romântica não era mais um problema. Ela o trocara pelo problema oposto do que aconteceria caso se apaixonasse por ele e se condenasse a um casamento com um homem que manteria seu coração generoso enterrado sob a concha de um maníaco por trabalho. Tap. Tap. Tap. Leo piscou e ergueu os olhos. Dax bateu a caneta mais algumas vezes, o rosto inexpressivo enquanto observava a tela do laptop em que estava o texto do negócio conjunto para financiar uma empresa que começava e se chamava Mastermind Media. — Cláusula dois? — observou Dax. — Eles concordaram em estender o prazo final para a meia-noite. Não temos muito tempo. Devia estar me dizendo por que não gosta dela. Não gosto porque está me impedindo de ir para a cama com minha esposa. Em teoria, isto se aplicava à proposta inteira que ele e Dax estavam analisando desde as 16h30 com apenas uma breve pausa para jantarem lá mesmo. Leo deu uma olhada no relógio. Nove horas de uma noite de sexta-feira. Se partisse agora, estaria em casa em vinte minutos. Dezesseis, se ignorasse o limite de velocidade. Podia até enviar uma mensagem de texto para Daniella enquanto dirigia para lhe dizer que logo estaria em casa. Talvez o recebesse vestindo apenas os diamantes que lhe dera. O que havia começado como um simples presente de agradecimento se transformara em outra coisa. E, inferno, não sabia o que era. Não pretendera fazer amor com ela de novo. Pelo menos não tão depressa, não enquanto ainda lutava para manter um pouco de controle perto dela. Mas, num minuto, Daniella colocava os brincos nas orelhas e, no seguinte. A 58


lembrança da noite anterior e de sua sexy esposa lhe invadiu a mente. De novo. Como acontecera o dia todo. — A cláusula está certa. — Não. Não estava. Leo balançou a cabeça e tentou prestar atenção. — Vai ficar com uma pequena modificação sobre as expectativas de marketing. Mais batidas. Então Dax jogou a caneta sobre a mesa. — Leo. Estou começando a achar que você não quer que fechemos este negócio. — O quê? — Leo se encolheu. Nada mais de devaneios. O que estava errado com ele? — Trabalhei nisto por sessenta horas. É uma proposta sólida. — Então o que está acontecendo? — A expressão era preocupada. — Estudamos a Mastermind Media por meses. Se está preocupado em fazermos negócios juntos, devia ter dito há muito tempo. Leo rolou o pescoço, hesitante. Conheciam-se havia mais de 15 anos, desde a faculdade. — Não é isto. — É o lado financeiro? — Dax franziu seu rosto de menino bonito. — Não está usando seu próprio dinheiro por causa do nosso relacionamento, está? — É claro que não. Investimento de capital era feito com o dinheiro de outras pessoas. — Cansei de esperar. Abra o jogo. Ou vou embora. Leo parecia estar perdendo um negócio de propósito porque queria ir para casa e dormir com a mulher. Suspirou. — Estou distraído. Desculpe. Não é a proposta, é outra coisa. Uma coisa que precisava parar. A vontade de ferro de Leo existia desde que tinha 17 anos. Como Daniella a havia destruído com tanta facilidade? Dax sorriu, irônico. — Devia ter adivinhado. Você está diferente desde que se casou com aquela mulher. Não estava não. Estava? — Cuidado com o tom. — Amigo ou não, Dax não podia se referir a Daniella como “aquela mulher”, como se a tivesse pegado na rua. Escolhera uma mulher de classe, elegante. Dax jogou as mãos para cima e ergueu os olhos para o alto. — Começou. Passamos por muitas mulheres juntos, meu amigo. O que há de especial nesta? A resposta devia ser nada. Mas não era. — Eu me casei com ela. E agora estava mentindo para seu melhor amigo. Não conseguia parar de pensar nela. Como lidara maravilhosamente com a festa. Sua risada. Como cuidava das coisas, especialmente dele, com uma espécie de percepção extrassensorial. Quando estava dentro dela, seu mundo se movia. Jamais imaginara que seu mundo podia se mover. Ou que gostasse tanto do movimento. Dax rosnou, olhou para a tela e digitou alguma coisa. — E daí? Não é como se você tivesse sentimentos por ela. É um meio para um fim. Quase protestou, mas Dax estava certo. Daniella era um meio para um fim, como Leo lhe contara. Apenas parecera frio da perspectiva do amigo. — Sentimentos de lado, é minha esposa, não uma namorada casual. É importante que ela seja feliz. — Por quê? Ela pode deixá-lo? Cavadoras de ouro não mordem a mão que as alimenta. A raiva queimou as entranhas de Leo. — Ela não é uma cavadora de ouro. Nosso casamento é benéfico para nós dois e 59


você sabe. Não é aceitável que eu trate mal minha esposa e espere que ela aguente tudo porque tenho dinheiro. — É como eu disse. Esta é especial. Leo rolou os olhos. Dax via coisas que não existiam. Mas eles se conheciam bem e se sentiu culpado. Seu passado com as mulheres era um testemunho. não ganharia nenhum prêmio por ternura, atenção ou compromisso. E talvez comprasse presentes caros para se desculpar. — Vamos ter esta conversa quando você se casar. — Ha. Esta é boa. Não há um quando e dificilmente haverá um se. Mulheres só são boas para uma coisa. Elas lhe dão um motivo para beber. Material perfeito para mudar de assunto. — As coisas não vão bem com Jenna? — Do que está falando? Ela é ótima. O sexo é fantástico. Bem, você sabe. Leo sentiu náuseas à alusão de que Jenna tinha sido amante dele primeiro. Teria sempre tratado as mulheres com tanta indiferença? Não. Nem sempre. Daniella era especial, mas não como Dax sugeria. Leo a tratara de modo diferente desde o começo, demonstrando um respeito saudável pela instituição do casamento. Era tudo. Estava fazendo tempestade em copo de água. Dax digitou mais algumas correções na proposta. — A julgar pela maneira como não conseguia manter os olhos longe de Daniella na festa na sua casa, deve ser uma gata selvagem. Avise-me quando se cansar dela. As rodinhas da cadeira rangeram quando Leo se ergueu de um pulo. O olhar furioso em Dax, cruzou os braços para não socar seu melhor amigo. — Sugiro que feche a matraca antes que a feche para você. — Puxa, Leo, calma. Ela é apenas uma mulher. — E você é apenas um amigo. — Dax ergueu os olhos, surpreendido. Não havia como não entender a expressão de Leo. — As coisas mudam. Supere. Dax se levantou lentamente. Olhos nos olhos, se encararam e Leo não gostou do brilho do olhar de Dax. — Não acredito que deixou uma mulherzinha se intrometer entre nós. Especialmente uma que encontrou através de uma casamenteira. Deixe o negócio com a Mastermind perder o prazo. Quando voltar da terra da fantasia e descobrir que perdeu o juízo por um par de realmente belos seios, estarei por perto para recolher seus pedaços. Somos amigos há muito tempo. Dax se afastou e Leo permitiu, embora as mãos ainda estivessem fechadas em punhos que ansiavam por mudar aquele rostinho bonito. — Concordo. Não é a melhor hora para fazermos negócios juntos. — Vá para sua esposa — disse Dax sobre os ombros enquanto pegava sua pasta e seu celular. — Espero que seja tão boa na cama que esqueça quanto dinheiro acabamos de perder. E saiu da sala sem um olhar para trás. Leo se deixou cair na cadeira mais próxima e olhou pela janela o prédio do outro lado da praça. Era ali que a empresa de Dax tinha sua sede e as palavras de despedida o atingiram com mais força. Sim, tinham perdido muito dinheiro. E a amizade. Sabia que a briga não seria esquecida com facilidade. Não por Leo se sentir traído e não porque Dax dissera coisas irreparáveis sobre sua esposa. Mas porque Dax estava certo. Leo havia mudado desde que se casara com Daniella. Não aceitava mais ser o cara que Dax descrevera, o homem que tratava mal as mulheres mas racionalizava seu comportamento lhes comprando presentes caros. Ou o cara que apresentava ex-namoradas a Dax porque não tinham significado nada para ele. Dax também não via um problema naquilo. 60


Leo não podia continuar a ser amigo de alguém que tinha uma opinião tão baixa sobre as mulheres. Por que não percebera antes? E o que seria necessário para Dax reconhecer o problema? Talvez devesse visitar uma casamenteira. Se Elise havia conseguido encontrar a mulher perfeita para Leo, podia fazer isto por qualquer um. Perder uma amizade doía. Perder o prazo para a proposta para a Mastermind Media doía ainda mais. Em toda a sua carreira, jamais desistira. E uma coisa não havia mudado e não mudaria nunca. Não queria ser o homem que perdia negócios ou sua habilidade nos negócios. Por motivo nenhum. Muito menos por uma mulher que o enlouquecia. Havia perdido dois grandes negócios. Seria Tommy Garrett o seguinte? Recusavase a permitir que isto acontecesse. O poder de Daniella sobre ele tinha que acabar. Imediatamente. Tentara ignorá-la. Tentara dormir no escritório. Tentara prová-la algumas vezes. Nada havia funcionado para exorcizar a esposa de sua mente. Então teria que tentar a última coisa. Passaria todo o fim de semana na cama com Daniella. Na segunda-feira, já devia estar fora do seu sistema e teria seu foco de volta. Podia partilhar uma casa com ela à noite e esquecê-la durante o dia, como sempre planejara. Tinha que funcionar. Trabalhara tanto para construir uma empresa segura e devia a todos que dependiam dele mantê-la assim. Especialmente Daniella. Prometera cuidar dela e cuidaria, custasse o que custasse.

CAPÍTULO 10

O livro que Dannie lia não lhe despertava o interesse. Havia se sentado no sofá do quarto na esperança de que Leo voltasse cedo para casa, mas já eram 22h e nada dele. Mais uma página. A história tinha que melhorar em algum ponto. Se não, se aprontaria para deitar. O despertador de Leo a acordara antes do amanhecer e ainda estava se ajustando à sua rotina. A atmosfera mudou e ela ergueu os olhos do e-reader. Leo estava à porta aberta com um buquê de rosas vermelhas. E a observava com uma deliciosa e evidente fome. O calor lhe tomou o âmago e se irradiou para todo o corpo. O e-reader caiu no carpete. — Rosas? Para mim? — De certa forma. — Estendeu a mão para ela, então a puxou. — Siga-me. Para qualquer lugar. Mistificada, acompanhou-o até o banheiro. Ele acendeu as luzes e começou a encher a banheira. — Provavelmente percebeu que trabalho muito. Tenho poucas oportunidades de me entregar a prazeres simples. Então estou corrigindo isto agora. Tive uma fantasia sobre mim, você e pétalas de rosa. A esta hora da noite, tive que comprar as flores inteiras. Arrancou as pétalas de uma rosa e as jogou na água. O coração dela apertou. — Tem fantasias comigo? A expressão dele fez a temperatura dela subir ainda mais. — O tempo todo. — O que faço nestas fantasias? — Mal conseguiu pronunciar as palavras. 61


— Geralmente me enlouquece. — Sorriu de um jeito tão diferente que ela quase desmaiou. — E vou tirar folga no fim de semana. Se não tiver planos, gostaria de passá-lo com você. Podemos considerá-lo uma lua de mel atrasada. Lua de mel? O fim de semana de folga? Ela colocou as mãos nos quadris e o encarou. — Quem é você e o que fez com Leonardo Reynolds? Ele ficou encabulado e deu de ombros. — Vamos dizer que tive uma revelação. Estamos casados. Tenho que fazer as coisas de modo diferente. Quero fazer as coisas de modo diferente. Porque você merece. É uma excelente esposa. Um nó doloroso se formou na garganta de Dannie. Ele queria passar algum tempo com ela. Namorá-la, como pedira. As rosas eram um começo, um excelente marido chegava. E mudava tudo. Não vou chorar. Não vou chorar. — Você ainda não viu nada. — É? — Fechou a torneira. — Anda escondendo coisas de mim? — Talvez. Fale-me sobre estas fantasias. Tem mesmo muitas sobre mim? Como o quê? — Oh, tenho sido tão negligente, não tenho? — Sentou-se na beirada da banheira. — Venha cá. Os dedos dos pés se curvaram enquanto se aproximava e então se esqueceu deles quando Leo a puxou para dentro das coxas separadas, os olhos de pálpebras pesadas cheios de promessas sensuais. — Tenho sido um péssimo marido. É evidente que não sabe como a acho sexy. Vamos corrigir esta negligência também. Ela se desintegrou por dentro e não soube como ainda era capaz de ficar em pé sem ossos. Ele lhe desabotoou a blusa lentamente, passou os braços por ela e a puxou. — Minhas fantasias não são páreo para a coisa real. A boca aberta se instalou na curva do seio, em que a barra do sutiã se encontrava com a pele. A língua circulou o mamilo. Um desejo absoluto lhe engolfou os sentidos. Segurou-se nos ombros dele e gemeu seu nome enquanto ele descia o zíper da saia, ainda lhe sugando o mamilo, molhando o sutiã. Impaciente, ele lhe libertou o seio e sugou o mamilo, arranhando-o de leve com os dentes. Ela se empurrou em sua boca e mergulhou nas sensações que ele evocava com uma combinação experiente de dentes rijos e mãos mágicas nas nádegas. — Daniella — murmurou, arranhando-lhe a pele com a barba nascente. Ela estremeceu. Leo ergueu a boca e ela quase soluçou. Ele lambeu os lábios para lhe mostrar como a achava deliciosa. Bebeu a visão do corpo dela vestido num conjunto de calça e sutiã de um rosa pálido. Então desabotoou o sutiã e lhe libertou os seios. E a observou quase com reverência. — Linda. Você é a mulher mais linda que já vi. E é toda minha. Os joelhos de Dannie perderam a capacidade de mantê-la em pé, mas as mãos dele a seguraram enquanto se inclinava para lhe beijar a cintura e lhe descer a calcinha. Os dedos trilharam entre as pernas e a enlouqueceram. — Leo. — Bem aqui. — Tomou-lhe a mão. — Entre. Ajudou-a a subir a pequena escada, entrar na banheira e se recostar. Pegou uma pétala de rosa e a passou pelo vale entre os seios, em torno dos mamilos sensíveis. Ela gemeu quando a roçou entre as pernas. — A brincadeira acabou. — Puxou-lhe a gravata. — Quero você aqui comigo. 62


Roupas caíram no chão e ela o observou, desavergonhada, enquanto o corpo rijo se revelava. Uma nuvem de pelos escuros lhe cobria o peito, gritando sua masculinidade, e as coxas musculosas enquadravam a ereção que queria tanto dentro dela. Entrou na água, acomodou-a contra o peito e lhe tomou os seios nas mãos. Ela arquejou quando sentiu a ereção nas nádegas. Pétalas de rosa flutuavam na água, prendiam-se à sua pele molhada e enchiam o ar com seu perfume quente. Ele murmurou coisas maliciosas no ouvido dela enquanto a tocava e a combinação de água quente e mãos habilidosas a enlouquecia. Virou a mão para trás e lhe agarrou a ereção. Era quente e rija contra sua palma e a acariciou. Ele gemeu, afastou-lhe a mão, segurou-lhe os quadris e a penetrou numa investida rápida. — Dannie — sussurrou. A voz rouca a invadiu, preenchendo-a tanto quanto ele lhe preenchia o corpo. Puxou-a para ainda mais perto e a segurou enquanto se uniam na água. Completavam-se perfeitamente. Depois de uma eternidade, ergueu-lhe os quadris e a puxou para baixo de novo. E estremeceram juntos no prazer. Aquilo era diferente. Leo estava diferente. Mais focado. Mais solto, permitindo-lhe ver como se sentia, como era muito mais do que apenas físico. O Leo intenso era o seu novo favorito. — Dannie — repetiu, e aumentou o ritmo hipnótico, sensual. Disse o nome dela de novo e de novo, como um cântico, enquanto a completava. Um tormento de calor se instalou no âmago e ela se entregou com um soluço. Ela lhe dera o que ele precisava e fora recompensada mil vezes. O que ele começara com diamantes terminara com pétalas de rosa. Não estava se apaixonando por ele. Já o amava. Completamente. Irrevogavelmente. — Leo, eu... Qual seria sua reação se lhe dissesse? Também estava abalado. O casamento havia se tornado muito diferente do que acreditavam no começo. Ele queria que fosse diferente. — Sem palavras? Você? — Riu suavemente. — Estou profundamente lisonjeado. Dannie precisou de cada grama do treinamento dado por Elise para segurar as palavras enquanto ele soltava a água, depois a enxugava com ternura. Era importante demais para deixar Scarlett tomar a iniciativa. Importante demais para estragar. Jamais dissera que a amava. Apenas que queria fazer as coisas de modo diferente. Talvez aquela falsa lua de mel fosse apenas sobre sexo. Deus sabia que lhe daria permissão para tomá-la sempre que quisesse. Mas, se não queria que se apaixonasse por ele, devia parar de ser tão maravilhoso. Leo vestiu um roupão, desceu e voltou com duas taças e uma garrafa de champanhe. Beberam na cama enquanto conversavam sobre tudo e nada. Ela esperou uma abertura para lhe dizer que o amava. Não sabia que a fazia loucamente feliz? Que seu casamento era exatamente como sonhara? Seus sentimentos por Leo eram tão mais profundos do que os que tivera por Rob. Encontrara objetivo e significado em ser uma esposa; casara-se com um homem que fazia seu corpo e sua alma cantarem em perfeita harmonia e sua mãe era bemcuidada. Leo era um sexy gênio da garrafa que realizava seus desejos. Queria lhe contar. O momento certo jamais chegou. Ele não lhe lançava olhares demorados e cheios de amor. Quando lhe tomou a taça e a amou de novo, não sussurrou as coisas que havia em seu coração. Então a abraçou e dormiu. Ela ficou acordada dentro do abraço dele, cercada por ele. Não tinha dificuldade de compreender aquela parte. Ele gostava de tê-la 63


na sua cama. Gostava da proximidade sem a exigência de se expor emocionalmente. Os sentimentos, a onda de amor e ternura, eram apenas de um lado. Por enquanto. Seu casamento era quase tudo pelo que ansiara desde que era uma garotinha. Tinha 48 horas para enfeitiçar Leo. As primeiras luzes do amanhecer acordaram Leo e ele não hesitou em realizar outra fantasia. a que se negara até agora. Segurou os quadris de Daniella e a puxou contra a ereção instantânea. Os dedos lhe trilharam os seios e ela suspirou, sonolenta. Erótico. — Leo. São... — Abriu um olho e o fechou de novo. — Seis e vinte e três. Da manhã. — Eu sei. — Esfregou o nariz na nuca de Daniella, que se arqueou sensualmente contra ele. — Dormi até tarde. É uma novidade. — Pensei que teríamos um fim de semana de folga. — E esfregou os quadris nele. Seus olhares se cruzaram. — Tiramos o fim de semana de folga para... conversar? Então arquejou quando Leo passou o dedo por suas dobras inchadas. Ele fechou os olhos e inalou o cheiro de rosas e da excitação de Daniella. E então mergulhou nela e foi maravilhoso. Havia alguma coisa sobre fazer conchinha com ela que quase o matava. Encaixavam-se bem assim e se moviam numa cadência perfeita como na noite anterior. Toda a beleza dela estava ao seu alcance e ele fez pleno uso do acesso, acariciando-lhe os seios e lhe circulando o botão enquanto mergulhava nela por trás de novo e de novo. A fricção cresceu e o orgasmo a tomou. Ele a seguiu, numa reação em cadeia de sensações intermináveis. Havia muito a dizer a favor de matar o trabalho. Leo se sentiu ligeiramente culpado por gostar tanto daquele fim de semana de folga, principalmente porque estava apenas começando. Havia muito mais prazer para sentir. Muito mais fantasias para realizar. Muito mais medo da volta ao que era antes na segunda-feira. Como conseguiria esquecê-la e se concentrar no trabalho? Era como mandar o coração parar de bater para que os pulmões funcionassem. Finalmente se levantaram e ela fez panquecas para ele. Seu café, como sempre, era sensacional. Desde aquela primeira vez em que ela o fizera, sempre levava uma caneca para o trabalho. E gostava de vê-la vazia sobre sua escrivaninha o dia todo. — O que vamos fazer neste tempo emprestado? — Levou à boca mais uma garfada da panqueca sensacional. Daniella o observou. — É isto que é? Emprestado? — Bem... sim. — Alguma coisa na postura congelada lhe disse que podia ter caído em areias movediças. — O trabalho no escritório não vai desaparecer por magia. Estou adiando até segunda-feira. — Compreendo. — Parece desapontada. Ela balançou a cabeça. — Apenas tentando entender a forma como o descreveu. Emprestado implica que terá que devolvê-lo em algum momento. Não quero que tenha que fazer isto. — Tomei a decisão de passar o fim de semana com você. Eu quis. Não se sinta culpada. — Não me sinto. Quero dizer, gostaria que não tivesse que escolher. Como se tivesse uma porção de bolas para fazer malabarismos e eu sou a que pegou por acaso. — Que escolha tenho, Daniella? — Frustrado de repente, soltou o garfo no prato com meia panqueca consumida. — Tenho uma empresa para administrar. Mas estou aqui agora com você, não estou? Estou fazendo malabarismos da melhor maneira que sei. 64


Verbalizara seus piores temores, de deixar uma bola cair. Ou todas. Era péssimo em malabarismos. Ela riu. — Sim, está, mas parece que nenhum de nós gosta de fazer malabarismos. Não há uma forma de diminuir o número de bolas até poder segurar todas? Talvez possa contratar mais funcionários especializados ou mudar seu foco. — Está me dizendo para diminuir meu envolvimento com a Reynolds Capital. Ter menos parceiros. As entranhas deram nó ao pensamento de como seria rápida a dissolução da empresa se fizesse o que ela sugeria. Investimento de capital era uma atividade muito arriscada. Um movimento errado e tudo podia desabar. — Não sei o que funcionaria melhor, mas você sabe. Por que não tenta? Então não teria que pegar tempo emprestado do trabalho para passar comigo. Mesmo? Transformara-se no oposto da esposa compreensiva que perdoava a agenda do marido maníaco por trabalho. Casara-se com ela para evitar aquele problema. Agora ela se juntava a todas as mulheres com quem já saíra. — Eu sou o Reynolds na Reynolds Capital. Passei uma década construindo a empresa do nada e... — Controlou a raiva. — Desculpe se ultrapassei os limites. Foi você que disse que queria fazer as coisas de modo diferente e apenas sugeri uma solução. Menos malabarismos seria diferente. — Sorriu e lhe cobriu a mão com a dela. Mas não se deixaria enganar. Ela tinha mais força no dedo mindinho do que muitos homens em todo o corpo. — Quis apenas mostrar que temos escolhas e você faz as suas todos os dias. É tudo. — Uh. — A raiva desapareceu. Estivera apenas tentando solucionar um problema que ele abordara. — É justo. — Vamos esquecer esta conversa e desfrutar do nosso fim de semana. Para Leo, as coisas não seriam tão simples assim. O dado tinha sido lançado e ela argumentara com lógica e estilo. Para o seu desconforto. Leo cumpriu sua palavra e nem mesmo olhou para o telefone ou o laptop. Ficou esperando sentir falta do trabalho. Não sentiu. Atribuiu a falha à consciência de que devia dar toda a sua atenção a Daniella até a manhã de segunda-feira. E havia seu talento para distraí-lo. No meio da tarde, estavam nus no spa ao lado da piscina. Esqueceu com facilidade as mensagens piscando no telefone enquanto batizavam a o spa. Mergulhara nas águas profundas da esposa e emergir era a última coisa em que pensava. Portanto, foi um choque se juntar a Daniella na sala de mídia para ver um filme e ouvi-la dizer com calma: — Precisa ligar para Tommy Garrett. — Tommy? Por quê? Como sabe? — Ele está tentando falar com você o dia todo. Ligou para meu celular e perguntou se você foi levado às pressas para o hospital. Cem dúvidas surgiram, porém a mais importante primeiro. — Como Tommy tem o número do seu celular? — A raiva que o tomou foi poderosa e chocante. — Não atire toda esta testosterona em mim. Eu o enviei a todos os convidados da festa. O estômago dele se acalmou. Um pouco. Tirou a rolha da garrafa de vinho e serviu duas taças. Tomou um gole e se sentiu envergonhado. — Desculpe. Não sei de onde isto saiu. — Está tudo bem. Fico feliz de saber que se importa. — Riu da expressão dele. — O filme pode esperar. Ligue para Tommy. Parecia urgente. Pegou o celular, resmungando. É, Tommy havia ligado muitas vezes. Quatro mensagens de texto em maiúsculas. Balançou a cabeça. Garotos. — Leo. Finalmente. Meus advogados mastigaram todo aquele palavrório. Vou ficar 65


com você, cara. Vamos arrebentar. Leo procurou cegamente um lugar para se sentar. — Está aceitando minha proposta? — Foi o que disse, não foi? Por que não atendeu minhas chamadas? Tive que procurar o número de Dannie, não o salvei nos meus contatos. — Tirei... — A boca de Leo secou — um tempo de folga. Era aquilo. O Santo Graal de tudo pelo que trabalhava. Agora Leo podia descobrir se era tão bom como pensava ao escolher um vencedor. Mas não naquele fim de semana. — Legal. Podemos conversar mañana. Leo sentiu dor física ao dizer as palavras. — Tem que ser na segunda-feira. — Mesmo? Bem, eu faria a mesma coisa se tivesse uma mulher como Dannie. Com certeza não fazem muitas assim. Estarei no escritório na segunda. Leo mordeu a língua. Com força. Como podia negar? Daniella era o motivo por que Leo não podia falar de negócios num domingo quando normalmente nenhuma hora do dia ou da noite era inadequada para cimentar a fundação do sucesso da Reynolds Capital Management. Mas era difícil de engolir. Mais difícil ainda foi se sentar ao lado da esposa no sofá e não lhe pedir que o libertasse de sua promessa. Mas conseguiu. Por que lhe dissera que ia tirar todo o fim de semana de folga? Ela teria ficado feliz apenas com o sábado. Mas era tarde demais. Depois que ela falara sobre escolhas, não lhe pareceu certo dizer que escolhia o trabalho acima dela. Enquanto o filme passava, Daniella esvaziou quase uma garrafa de vinho sozinha e então expressou seu agradecimento pelo banho de pétalas de rosa da noite anterior com grande criatividade. Quando o filme terminou, Leo não conseguiria dizer o próprio nome. O furacão Daniella o havia engolido totalmente. Não queria escolher o trabalho acima dela. Ou vice-versa. Estar entre uma mulher e sua ambição era o lugar mais difícil do mundo. E não era qualquer mulher, era aquela que fazia seu mundo virar e então o consertava no mesmo instante. E não apenas ambição, mas conseguir banir todos os temores da infância e alcançar as aspirações de adulto. No domingo, depois da última rodada de indulgência sexual matinal, Daniella o beijou com entusiasmo e tirou um pacote de debaixo da cama. — Para mim? — Um contentamento estranho lhe apertou o peito quando ela acenou. Rasgou o papel simples e encontrou um desenho emoldurado. — É um Da Vinci que você provavelmente conhece. Conhecia. Contemplou-o com reverência. Era um de seus favoritos, uma reprodução de um dos primeiros desenhos de Da Vinci do Vale do Arno. — O original está no Uffizi. Obrigado. O que a fez pensar nisto? — Da Vinci foi mais do que um pintor. Foi um inventor. Um desenhista. Um escultor e um matemático. E talvez outras coisas que esqueci. — Riu de leve, tomou-lhe o quadro e lhe segurou a mão. — Era tão mais do que a Mona Lisa. Como você é mais do que a Reynolds Capital Management. Queria que soubesse que compreendo. O presente de repente teve um significado de proporções exponenciais. E não sabia se gostava. — Está tentando fazer com que lhe mostre alguma coisa que desenhei? Seria inconcebível se expor assim. Desenhar era apenas para ele. Seria como abrir seu cérebro, permitir que seus segredos mais profundos fossem revelados e depois costurar a matéria cinzenta. Sempre haveria uma cicatriz e seus segredos seriam conhecidos pelo mundo. Sem proteção. 66


— Teria pedido se fosse isto que quero. — Então, o que quer? A expressão dela suavizou. — Nada sinistro. Todos os meus motivos estão bem aqui. — Traçou uma cruz sobre o coração. — O que isto significa? — O que acha, Leo? — Sorriu. — Dei-lhe o quadro porque amo você e quis expressar meu amor de uma forma tangível. Ele congelou. Amo você. As palavras ecoaram em sua mente. De onde viera aquilo? Ninguém nunca lhe dissera aquelas palavras. Bem, apenas sua mãe. Oh, Deus. Sua mãe romântica ficaria tão feliz. O casamento arranjado de Leo havia acabado de explodir em seu rosto. Sua esposa se apaixonara por ele. O que devia dizer em resposta? — Não pode me jogar uma coisa assim do nada. — Não posso? — Sentou, as cobertas, e seu estado de nudez, esquecidos. — Como poderia dizer? — Quero dizer, não precisava me contar. Isto. Nós não... — Apertou a ponte do nariz e tentou recuperar a capacidade de pensar antes de lhe dizer a verdade. Que gostara do som daquelas palavras mais do que esperava. — Este não é o tipo de casamento com que concordamos. Ela se encolheu e rapidamente se recompôs, mas não antes que ele visse o brilho de mágoa nos olhos. — Eu sei. Mas não apaga meus sentimentos. Você é um homem gentil e generoso que me faz feliz. Passamos um fim de semana romântico e você terminou de me conquistar quando se recusou a conversar com Tommy. Não prefere que seja sincera com você? Não, na verdade não. Não quando envolvia emoções nebulosas que não entendia. Emoções perigosas. Emoções maravilhosas, terríveis, que o abalavam. Amor era uma indulgência que não compreendia. Mas agora estava lá e não podia ignorá-lo. Como não podia ignorar o que precisava fazer. — Já que é uma defensora tão ardente da sinceridade, quero que saiba que perdi dois grandes negócios por causa das fantasias que não conseguia tirar da cabeça. Passei o fim de semana com você para poder voltar ao trabalho na segunda e finalmente me concentrar. A dor nos olhos dela o atingiu diretamente no plexo solar. Afaste-se antes de feri-la ainda mais. Não podia tocá-la. Queria. Queria lhe dizer que era tudo uma grande mentira e que Amo você era a frase mais doce em qualquer idioma. Quase fez valer a pena se livrar de Tommy no fim de semana e isto o apavorou ainda mais. Porque poderia fazer aquilo de novo. Então disse a coisa mais horrível em que conseguiu pensar. — As pétalas de rosa não foram usadas para fazê-la me amar. Foram um exorcismo. Que havia fracassado. Sua esposa o amava. Estava em toda ela, no seu rosto, no seu toque. Estivera por algum tempo e acabava de perceber como era precioso para ele. Pior, tinha que fingir que as palavras dela não tinham se alojado em seu coração. Que sua alma as revirava, examinava-as de todos os ângulos e queria agarrá-las com toda a sua força. Sussurrando ideias sedutoras. Podia ser como este fim de semana para sempre. Esqueça o trabalho, não sua esposa. Não precisa emergir. Não de verdade. Disse Satã sobre a maçã. 67


Amor era o destruidor da segurança, o último atoleiro que levava de volta à pobreza e jamais se entregaria às tentações de sua fraqueza. Não se transformaria no pai. — Temos um casamento de conveniência, Daniella. É tudo. — Compreendo. — Acenou e manteve os olhos nas mãos cruzadas no colo. Não ia bater nele ou fugir. O alívio que esperava sentir não se materializou. Ao contrário, tudo se tornou mais difícil. Agora tinha a tarefa de continuar a afastá-la para que não repetisse Amo você.

CAPÍTULO 11

A pílula era tão pequenina. Como uma coisa tão insignificante impedia outra tão imensa como uma gravidez? Dannie a colocou na boca e engoliu. A ação serviu ao duplo objetivo de se proteger e manter as lágrimas afastadas. A pílula era funcional e simbólica. Evitava a gravidez e significava sua desistência do amor e da paixão. Para sempre. Não podia ter um bebê com Leo. Não agora. Talvez em algum momento no futuro conseguisse tirar da mente aquelas imagens de Leo sorrindo ternamente para um filho deles. Não havia ternura nele. Certo, não era verdade. Tinha, mas a usava com grande economia. Não podia dar à luz um bebê que um dia precisaria da atenção do pai. Nenhuma criança merecia ter um pai que se recusava a participar de sua vida. Tivera todo um fim de semana para mostrar a Leo como o casamento poderia ser maravilhoso. E fracassara. Não havia gostado da ideia de abrir seu coração. No maior fracasso de sua vida, presumira que um dia gostariam um do outro. Jamais lhe ocorrera que se recusaria a mostrar até mesmo um pouco de afeto pela esposa. Era apenas uma conveniência. Como sempre dissera. A mudança de rumo apenas lhe causara um coração partido. Não podia reclamar, havia sido avisada. Então ele voltara a trabalhar 16 horas por dia e ela marcara uma consulta com um médico. Depois de passar três noites dormindo antes que Leo chegasse, a pílula parecia desnecessária. Pelo visto, dizer que o amava tinha sido o melhor controle de natalidade. O telefone idiota tocou no banheiro. Olhou o identificador de chamada. Elise. — Alô? — É Elise. Desculpe incomodá-la, mas estou com um problema e preciso da sua ajuda. — Claro, o que precisar. — Obrigada. Tenho uma nova candidata para o programa e estou com o tempo todo tomado. Mas não posso recusá-la. Pode passar pelos estágios preliminares com ela? — Quer que eu ensine alguém a fazer o cabelo e a maquiagem? Elise riu. — Não pareça tão surpreendida. Você é totalmente qualificada. — Desde que sejam apenas os preliminares. — Oh, vou lhe pagar. — Não é este o problema. — Mas começava a pensar que era quase como um trabalho de meio expediente. Bom momento. Podia afastar a casa vazia da mente. — 68


Faço de graça. — Eu insisto. Pode me ajudar ou está ocupada demais com seu casamento? Dannie sufocou uma risada histérica. — Posso. Dê-me trinta minutos. Aprontou-se para o dia. Parara de sair da cama de madrugada para fazer o café de Leo. De que adiantaria? Provavelmente ele nem notara. A elegante casa de dois pavimentos de Elise despertou lembranças agridoces. Ali, Dannie tinha sido transformada de uma mulher que falava demais, não tinha um tostão nem esperanças, em uma esposa modesta e adequada para o homem que o programa de computador de Elise a havia destinado. Bem, não tão modesta. De vez em quando Scarlett tomava as rédeas, especialmente quando Dannie tirava a roupa. E quando Leo a enfurecia ou sorria ou. certo, Scarlett estava lá para ficar. Dannie suspirou. A parte da adequação era verdadeira. Havia preparado uma festa sensacional e Tommy assinara com a Reynolds Capital. Era evidente que um pouco do treinamento de Elise funcionara. Elise a recebeu com um abraço apertado. — Olhe para você — entusiasmou-se Elise. — Tão linda e sofisticada. Obrigada por ter vindo. Venha conhecer Juliet. Dannie seguiu Elise até a sala de estar onde se casara com Leo. E nunca imaginara, quando pusera a aliança no dedo de Leo, que se apaixonaria por ele, lhe diria e seria totalmente rejeitada. Não rejeitada. Exorcizada. Se soubesse, ainda teria se casado com ele? O rosto da mãe lhe surgiu na mente. Sim, teria. A mãe era importante demais para desistir por causa de uma bobagem como um coração partido. A mulher sentada no sofá se levantou para cumprimentá-la. — Juliet Villere. — E estendeu a mão. Mesmo sem o leve sotaque, sua origem europeia era evidente. Dannie se apresentou e sorriu. Estava morrendo de curiosidade. Como Dannie, Juliet certamente tinha uma história que a levara a responder ao anúncio de Elise. — Está aqui para que Elise jogue um pouco de poeira mágica em você? — A magia ajudaria. Sorriu para Dannie, mas o sorriso não chegou aos olhos. Não era de admirar que Elise não tivesse conseguido dispensá-la. Havia uma aura de tanta tristeza nela que Dannie quis envolvê-la num cobertor e lhe dar chocolate quente. Elise se aproximou. — Juliet se descreveu como uma moleca e Dannie é uma dama perfeita. Já tenho mais candidatas do que posso lidar. É uma combinação perfeita. — Obrigada por me ajudar, srta. Arundel. — Juliet olhou para Elise, então para Dannie. — Ficaria agradecida se me arranjarem um marido americano. — Seu programa de computador já escolheu algumas possibilidades? Elise balançou a cabeça. — Ainda não foi incluída. Primeiro a preparamos, depois faço a combinação. O computador não liga para aparência, mas descobri que a preparação dá confiança à mulher para responder às perguntas sobre o perfil com o coração e não com o cérebro. Então o programa combina pessoas com base nas personalidades. — Então características externas não são parte do processo de perfil? — Claro que não. O amor não se baseia na aparência. — Mas... — Dannie se sentou no sofá. — Você me combinou com Leo porque ele procurava certas qualidades numa esposa. Organizada. Sofisticada. Capaz de receber convidados em festas e se misturar com a alta sociedade. — O que eram qualidades 69


externas. — Sim. O que cobre quatro pontos do seu perfil. O resto foi todo relacionado com suas opiniões sobre relacionamentos. Amor. Família. Como se sente sobre o sexo. Conflito. Você e Leo combinaram em todos os 47. — Isto é impossível. — Diga uma área em que isto não é verdade e devolvo o dinheiro de Leo agora. — Amor. Acredito em amor e Leo não. — Isto é completamente falso. A menos que ele tenha mentido no perfil. O que é possível, mas muito improvável. — Não pode ser assim tão absoluto. Por que estava discutindo? O computador a combinara com Leo porque ambos concordaram num casamento baseado em objetivos comuns e fazia sentido. Nenhum deles havia demonstrado interesse no amor desde o começo e Elise estava certa. tinha respondido às perguntas com o coração. Amava a mãe e estava se casando com Leo para salvá-la. Fim da história. — Não é. Mas eu sou. Eu mesma faço o perfil e fui eu que o elaborei. Mas alguma coisa está errada ou não estaríamos tendo esta conversa, certo? Alguma coisa era Dannie ter criado aquela confusão quando esquecera que o amor não dava segurança, mas honrar a palavra dava. Se tivesse seguido a visão de sua mãe sobre relacionamentos poderia ter evitado aquilo tudo. Apenas olhou para Elise, que recuou. — Desculpe. Preciso controlar meu lado analítico. Estou apenas desapontada e irritada comigo mesma por pensar que podia afastá-lo da atração do dinheiro com promessas de plenitude. Não é culpa sua. — Elise segurou o braço de Dannie num gesto de conforto. — Meu argumento é que você poderia ter conseguido. Lamento que esteja relutante em aceitar tudo o que você pode lhe dar além da habilidade de cuidar de seus compromissos pessoais. Mas você tem o que ele precisa emocionalmente. Tinha? E se tivesse apenas o que achava que ele precisava? Acreditara por tanto tempo que sabia qual era a diferença e que seu trabalho era levá-lo a compreender como expressar seus verdadeiros desejos. Na verdade, tinham sido as próprias necessidades que complicaram tudo. Dannie levou Juliet para cima, para a sala de guerra de Elise, completa com um longo espelho cercado de luzes, bancadas, araras de roupas e ferramentas para penteados e maquiagem. — Tudo isto é necessário? — O olhar de Juliet percorreu a sala. — O que é isto? Vai doer? As perguntas apavoradas melhoraram o humor de Dannie. — É uma chapinha. Para alisar seu cabelo. Não vamos prender seus dedos nelas a menos que não consiga andar com um livro equilibrado na cabeça. Juliet empalideceu e Dannie riu. — Estou brincando. Sente-se nesta cadeira e vamos começar. Uma bebida? — Dannie foi até a pequena geladeira. — Não, obrigada. Não estou com sede. — Precisa tomar muita água. É bom para sua pele e, se encher seu estômago, não vai ficar com fome. — Os ensinamentos de Elise estavam gravados no cérebro. — O limão dá um pouco de gosto, se preferir. — Prefiro velejar e nadar. Sinto falta da água. — De onde você é? — Dannie ligou o secador de cabelo, a chapinha, e os demais instrumentos. Ainda não havia decidido qual seria o melhor penteado para o longo cabelo de Juliet, mas certamente ficariam melhores com um corte mais elegante. E definitivamente precisava de um facial. Passou mentalmente mais alguns itens e 70


percebeu que cantarolava. Era o momento mais feliz da semana. — Sul da França. Delamer. — Juliet disse o nome do país como se fosse um leprosário e não o playground do Mediterrâneo para os ricos e famosos. — É um lugar maravilhoso. E vocês têm aqueles dois lindos príncipes. Li que o príncipe Alain vai se casar. Espero que passe na televisão. Juliet caiu no choro. Dannie a tomou nos braços. — Oh, querida, o que foi? Juliet fungou no ombro dela. — Problemas do coração. São os piores. Dannie não podia concordar mais. — Foi por isto que partiu de Delamer? Alguém partiu seu coração lá? Juliet se afastou de Dannie e passou a mão sob os olhos agora duros. — Quero esquecer que aquele homem existe. Em Delamer é impossível. Espalham o retrato dele por toda parte. Se me casar com um americano, não terei que voltar e vê-lo com sua princesa perfeita. Dannie finalmente entendeu. — O príncipe Alain partiu seu coração? Juliet acenou. — Houve um escândalo e precisei seguir em frente. O que precisamos fazer para me transformar numa mulher que atraia um americano? Dannie a deixou mudar de assunto e passou as duas horas seguintes ensinando a Juliet o básico da maquiagem e do cabelo. Era um desafio, ela não sabia nada. Não havia uma forma educada de dizer a Juliet que precisava ter estilo. Era uma moleca, até as unhas roídas e o bronzeado de um marinheiro do Mediterrâneo. Falou sobre o país, mas nada sobre o príncipe. Dannie adoraria saber como aquela mulher tão desmazelada se aproximara da realeza e tivera um relacionamento com um príncipe. Guardou a curiosidade para quando voltasse para casa. Sempre havia a internet. Elise apareceu para oferecer almoço. Como Dannie não tinha compromisso, ficou o resto do dia. Levou Juliet para fazer compras e, quando voltaram para a casa de Elise, já haviam se tornado amigas. Elise a acompanhou até a porta quando decidiu voltar para casa. — Você fez um trabalho fantástico com Juliet. Se quiser um emprego permanente, eu a contrato agora. Dannie olhou atônita para a casamenteira. — Está falando sério? — Completamente. Dá trabalho e toma tempo arrumar as mulheres e tenho mais homens no computador do que esperava. Homens de sucesso não têm tempo nem paciência para escolher mulheres e eu lhes forneço um bom serviço. Os negócios estão prosperando. Se tiver tempo, seria uma enorme ajuda para mim. — E lhe ofereceu um salário que fez o queixo de Dannie cair. — Deixe-me pensar a respeito. Seu trabalho era ser a Esposa de Leo Reynolds. Mas, de repente, não precisava ser. Podia ganhar dinheiro trabalhando para Elise e cuidar de sua mãe. Leo era casado com sua empresa. Fazia aquela escolha todos os dias. E agora Dannie também tinha escolhas. Não queria o divórcio. Queria ser a esposa de Leo e ter o casamento de seus sonhos, mas Leo era a metade daquela equação. Antes de decidir como passaria os 50 anos seguintes, devia lhe dar a oportunidade de compreender plenamente quais eram as suas escolhas. E como o afetariam. Talvez ela também fizesse um exorcismo.

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O exorcismo tinha sido um fracasso colossal. E Leo aprendera uma lição desconfortável. Não conseguia limpar o cheiro de morangos de sua pele. Tentara todos os tipos de sabonete. Uma bucha vegetal áspera. Então lixa de madeira começou a parecer muito atraente. Era totalmente irracional. O cheiro não podia estar lá depois de tantos dias, mas estava. A essência de Daniella. Leo fechou os dedos em torno do lápis, amarrotou a folha de papel e a jogou na lata de lixo já cheia. Nada estava correndo como devia. Normalmente, papel e lápis eram seu método para se acalmar até passar o bloqueio. Não funcionava. Logo Tommy Garrett ficaria furioso por ter assinado com Leo. Aquele negócio seria o auge do sucesso em investimento de capital e o cérebro de Leo estava uma polpa. Não tinha nada para mostrar. Devia fornecer a expertise nos negócios. Conexões na manufatura. Marketing. Ideias. Em vez disso, passara os últimos dias mergulhado em milhões de fantasias em que sua esposa era a estrela, a esposa que deliberadamente afastara. Por todo o bem que lhe fizera. O lápis fez um traço no papel e as linhas mostraram a forma de uma mulher. Gemeu e fechou os olhos. Então abriu. Inferno. Nada mais saía de seu cérebro. Sua longamente reprimida musa sussurrou e a mão transformou em visão concreta o que a inspiração ditava. Detalhes da forma de Daniella fluíram para o papel. Linda. Etérea. Tão sensual que seu peito doía. A dor se espalhou e lhe apertou os pulmões e os músculos. O suor brotou na nuca e a mão tremeu com a câimbra, mas não parou. Acrescentou mais detalhes, mais emoções que nasciam num lugar profundo. Outra vez. Mais papel. Desenhe. Como se os desenhos tivessem conjurado a mulher, Leo ergueu os olhos e lá estava sua esposa em pé junto à porta do escritório. Em carne e osso. Deus, Daniella estava luminosa num vestido azul e saltos altos que enfatizavam os arcos delicados dos pés. Com o coração disparado, cobriu os desenhos com uma folha em branco. Olhou as horas. Estava escuro e eram 20h30. Quando anoitecera? — O que está fazendo aqui? — Levantou-se. Linda maneira de receber sua esposa, idiota. — Vim ver você. Tem um minuto? E entrou, como se tivesse dito sim. Não a via acordada desde domingo, mas seu corpo reagiu como se tivesse se grudado a ele e não se sentado no sofá da área de lazer. — Gostaria de se sentar? — Convidou delicadamente, a própria senhora da mansão no escritório dele. Sentou-se no sofá em frente. Ótimo. Distância era ótimo. Mantinha o encontro impessoal. — Como você está? — Bem. Elise me ofereceu um emprego hoje. — Cruzou aquelas pernas gloriosas e ele as sentiu em torno do corpo. — Um emprego? De casamenteira? — De tutora. Pediu que a ajudasse a polir as mulheres que aceita em seu programa. Cabelo, maquiagem, este tipo de coisa. — Você será ótima. Está aqui para pedir minha permissão? Certamente não me importo se você... — Estou aqui para lhe perguntar se há a menor possibilidade de um dia você me amar. Um nó lhe endureceu o peito. — Daniella, já discutimos isto. — Não. Eu lhe disse que o amo e você enlouqueceu. Era um resumo preciso. 72


— Bem, não quero mais falar nisto. Temos um casamento arranjado com um objetivo útil. Vamos ficar por aqui. — Desculpe. Vamos falar de novo. Circunstâncias fora do meu controle me fizeram desistir do que queria num casamento. E circunstâncias fora do meu controle me fizeram reavaliar. Amo você e quero saber se pode me amar. Amo você. Por que o emocionava tanto ouvir aquelas palavras? — Você faz parecer simples e não é. — A voz era áspera de emoção. — Explique-me em que é complicado. Em tudo. — Você quer que a ponha acima da minha empresa e isto é impossível. — Não estou lhe pedindo que faça isto. Jamais tentaria lhe tomar uma coisa que é tão importante para você. Por que não pode ter as duas? Ela não entendia. E era hora de ser bem claro sobre o assunto. — Não sou feito assim. Não faço as coisas pela metade, o que você sabe depois deste fim de semana. Certamente se lembra de como me dediquei completamente a lhe dar prazer. — Passou o olhar por ela deliberadamente e um rosado lindo lhe subiu ao rosto. O que o fez se sentir ainda pior, embora só Deus soubesse o motivo. — Procurei uma casamenteira para me encontrar uma esposa que ficasse feliz com meu apoio financeiro e não se importasse com o número de horas que dedico à minha empresa. Porque também não faço isto pela metade. Um dos lados vai sofrer. Tudo ou nada. O olhar dela não se desviou e não foi difícil perceber o momento exato em que ela viu mais do que pretendia que visse. — Isto não significa que não tem sentimentos por mim. Apenas que tem medo de admitir que alguma coisa inesperada aconteceu conosco. — O que quer que eu diga, Daniella? — A voz se tornou mais profunda enquanto lutava para subjugar aqueles sentimentos. — Que tem razão? De tudo o que esperava que acontecesse no nosso casamento, esta conversa estava num ponto tão baixo da lista que é quase invisível. O lábio inferior dela tremeu. — Quero que diga o que está em seu coração. Ou tem medo? Ela não entendia. Não podia aceitar o que estava em seu coração. — Meu coração não está em discussão. Ela acenou e se levantou. — A segurança é fundamental para mim e me casei com você para tê-la. Era a única forma de garantir que minha mãe fosse cuidada. Elise mudou isto hoje. Posso sustentar minha mãe com o salário que vai me pagar. Ele congelou. — Está me pedindo o divórcio? Por favor, Deus, não. Não podia perdê-la. Ela balançou a cabeça. — Estou lhe dizendo que tenho escolha. Fiz votos para a vida inteira e pretendo honrá-los. Estou lhe dando a oportunidade de fazer uma escolha também. Saia dos bastidores, me ame e viva feliz para sempre. Ou vamos continuar casados e cuidarei da sua vida pessoal, mas voltarei para meu quarto. Corações separados, quartos separados. O que vai ser? Foi tomado pelo pânico. Ela queria uma coisa pior do que o divórcio. A única coisa que o dinheiro não podia comprar, ele. Seu tempo. Sua atenção. Seu amor. — Isto é ridículo — explodiu, então parou até conseguir controlar a voz. — Disse a você do que preciso. Quero que seja feliz com o que posso lhe dar. Você traçou uma linha. Você ou a Reynolds Capital Management. Uma lágrima lhe desceu pelo rosto. 73


— Não entende, Leo? Você traçou esta linha. Não eu. — Erro meu. A linha que você traçou é a que diz que não posso mais dormir com você a menos que esteja apaixonado por você. — Sim. Este erro é meu. — A cabeça dela abaixou e ele precisou de toda a sua força de vontade para se impedir de tomá-la nos braços. Mas ele era a fonte de sua dor, não a solução. — Minha mãe é uma mulher maravilhosa, mas muito cínica em relação a casamentos e me fez acreditar que seria feliz num arranjo sem amor. Provavelmente seria, se você fosse diferente. Se fosse alguém que não pudesse amar. Seja o marido de que preciso, Leo. Ergueu a cabeça e o que ele viu nas profundezas dos olhos brilhantes quase o deixou de joelhos, prostrado num pedido desesperado de desculpas, balbuciando “Sim, serei este marido”, ou pior, dizendo-lhe que faria qualquer coisa desde que o olhasse assim para sempre: como se fosse digno de amor, mesmo depois de tê-la rejeitado de novo e de novo. A lata de lixo cheia o atormentou. Falta de foco é o que acontece quando deixa sua esposa engolir você. Outras empresas de investimento de capital vão derrubá-lo e você vai desaparecer. Jamais atenderia ao pedido. Precisava resolver aquilo de uma vez por todas. Bem ali, bem agora, lhe daria o empurrão final para ela se afastar antes que cedesse às emoções e esquecesse todos os motivos por que não podia ter sua empresa e amar Daniella. — Fico nos bastidores por um motivo. É assim que equilibro minha personalidade obsessiva. — Era a coisa certa, para ele e para a Reynolds Capital. Por que não parecia certo? — Preciso que seja a esposa que pensei que teria da EA International. A expressão dela endureceu. — Então é o que terá. Vou agendar seus compromissos, ser a anfitriã de suas festas e fazer você parecer bem para seus associados. Não estarei na sua cama à noite, mas lhe darei cem por cento durante o dia e nunca falarei de quantas horas trabalha. Era tudo o que pedia. E o oposto do que queria. Seu cérebro parecia prestes a explodir. Como conseguia torcer as coisas de modo a voltarem ao acordo original e fazia parecer que acabara de lhe dar um soco no estômago? — Queria... — Cruzou os braços como se precisasse se segurar. — O amor também dá segurança. Queria que você compreendesse. Mas é escolha sua eu ser apenas uma espécie de assistente de luxo. Espero que o faça feliz. Apenas se lembre de que sua empresa e sua esposa têm o seu nome. Você sempre será parte das duas. E saiu, os saltos batendo no mesmo ritmo de sua alma se estilhaçando.

CAPÍTULO 12

— Doritos? — ofereceu Tommy estendendo o pacote. Leo balançou a cabeça. Doritos não caíam bem num estômago vazio. Nada caía bem num estômago vazio, especialmente o café na caneca. A sra. Gordon havia feito café quatro vezes e não acertara nenhuma. Afastou a caneca meio cheia, desejou que fosse uma caneca para viagem cheia pelo café da esposa e passou a mão no rosto. Esqueci de fazer a barba. De novo. — Então, amigo. — Tommy mastigou, distraído, e acenou para a tela da televisão 74


acoplada ao laptop de Leo. — Refiz o esquema duas vezes. O protótipo passou pela análise do governo. O que é preciso para deixar você feliz? Nada. Denominou aquela droga oficialmente de Praga de Daniella porque até ela dizer que esperava que sua escolha o fizesse feliz, não pensava no assunto. E aquela droga era o contrário de ser feliz. Sentia falta da esposa. Sua presença invisível invadia cada área de sua vida. Até seu carro tinha cheiro de morango. — O esquema ainda está errado. É por isto que lhe peço para refazer. — Leo virou o desenho na vertical. — Veja, não pode levar isto para a fábrica como está. Ainda precisamos tirar dois centímetros cúbicos em algum lugar. O telefone de Leo tocou. A foto de Daniella surgiu e ele o pegou. Mensagem de texto. Franziu a testa; a mensagem concisa lhe lembrava que tinha hora para cortar o cabelo. Claro que não o chamara para falar com ele. — Por que tem que ser tão complicado? — queixou-se Tommy. — Desenhei a coisa. Devia ser suficiente. Por que você não mostra como deve ser? Leo brincou com o lápis nos dedos e contou até 15 para se acalmar. Não adiantou. — Você é o designer. Tem que refazer o desenho quando não está bom. — Os dedos buscaram a pasta de couro em que estava o retrato que desenhara de Daniella. Acalmava-o no meio do caos. Estranho. — Entro no fim do processo. Já falamos sobre isto. Lembranças da última conversa séria que tivera com Daniella lhe tomaram a mente. Por que precisava fazer as pessoas se lembrarem de coisas que já deviam saber? Leo tinha um papel específico. nos bastidores. Sempre. Ninguém se lembrava que não queria o centro do palco. — Não sei como fazer as coisas de acordo com suas especificações! — explodiu Tommy como se tivesse 5 anos de idade. — Tentei e não consegui. Preciso de ajuda. Foi por isto que assinei um contrato com você. — Sou seu financista. Só estou falando com você sobre o esquema porque já ultrapassamos o prazo e preciso de um bom desenho para hoje. — Deu uma risada curta. — Por que acha que posso ajudar? Tommy jogou a cabeça para trás para tirar o cabelo do rosto. — Dannie. Acredita em você. Ela me convenceu que pode caminhar sobre as águas e, nos momentos de folga, investe no potencial das pessoas. Para ela, você é o messias. Suas entranhas contraíram. O que sua esposa teria dito a Tommy para lhe dar uma imagem tão ridícula? — É um exagero do que faço. Um exagero enorme para um homem que havia cometido tantos erros. Mesmo assim, a onda de alegria continuou no coração. Daniella pensava mesmo que era assim, heroico e infalível? Ou tinha dito aquelas coisas em seu papel de esposa devotada? Leo percebeu que provavelmente eram as duas coisas. E ele não merecia. As sobrancelhas erguidas, Tommy cruzou os braços. — É? Se me disser que não sabe o que precisa ser feito neste esquema, vou chamá-lo de mentiroso. Está tentando me dizer há uma hora e não entendo. Leo suspirou, frustrado. E, antes de pensar melhor, pegou uma folha de papel e desenhou a primeira linha. Tommy imediatamente se debruçou para olhar. O esquema do conversor de combustível começou a tomar forma. A cada linha, Leo explicava a Tommy a mudança que fazia no desenho original, por que a modificação era necessária, qual seria o efeito na manufatura. De vez em quando, Tommy fazia perguntas, objeções e uma vez exclamou: — Cara, é isto aí! Uma de suas objeções fez sentido e Leo reconsiderou. Apagou aquela parte do desenho e incorporou a sugestão de Tommy. A sra. Gordon foi para casa resmungando 75


sobre mentes criativas. Depois de muitas horas, de muitas discussões acaloradas e de alguns momentos de colaboração quase poética, tinham um desenho que os dois aceitavam. A última vez que Leo se divertira tanto tinha sido no fim de semana que passara com Daniella. Depois que Leo escaneou o produto final e o jogou na tela da televisão, Tommy assobiou. — Uma obra de arte. Tenho que usar todos os instrumentos de desenho para fazer uma coisa tão bonita assim. Não acredito que apenas desenhou. Com um lápis. — Um lápis faz a sombra certa. — Leo deu de ombros. — Acho que pode dizer que é um dom. — Sabia que podia fazer isto. Se tivesse escolhido a Moreno Partners, estaria ferrado agora. Beije sua esposa por mim. Ela sabe das coisas. Se apenas. — Ela tem uma espécie de percepção extrassensorial. É ela que anda sobre as águas. Ele não sabia, mas ela sim. Desde o começo, vira as possibilidades e insistira em levar o relacionamento a lugares mais profundos. Como havia acontecido sem que percebesse? E por que uma coisa pela qual nunca pedira e agora perdera o atormentava? Fizera tudo o que pudera para afastá-la para não feri-la e, em vez de deixálo, ela ficara. Por que não entendera a mensagem? Tommy acenou com um sorriso. — Dannie é fantástica. O apelido da esposa se alojou em suas entranhas e espalhou o veneno. Leo gostava de Tommy. Era entusiasmado, incansável, brilhante. Então, por que o fato de Tommy apenas dizer o nome da esposa o atormentava? Era mais do que ciúme, mais do que o medo de que houvesse alguma coisa entre Tommy e Daniella. Tommy havia erguido um espelho diante dele e Leo odiou seu reflexo. Aquele garoto era uma versão mais jovem, menos reprimida de Leo. Tommy podia chamar uma mulher de Dannie e achar natural, enquanto Leo não conseguia ter aquele tipo de intimidade a não ser quando estava intoxicado pela poderosa química de Daniella. E queria poder ser mais parecido com Tommy. Um Tommy sem um pacote de Doritos. — Você também é fantástico. Estou aqui absorvendo tudo como se fosse o Bob Esponja. Leo deixou escapar uma risada espontânea, purificadora. — Obrigado. É bom ter uma plateia lisonjeira. — Cara, você fala e eu ouço, não importa o que diz. Estou reverente diante de você. Acho que aprendi mais com você hoje do que em quatro anos em Yale. O que mais pode me ensinar? Oh, não. Aquilo ia além do seu papel. Ele e Tommy eram parceiros financeiros, com um contrato cuidadoso que os colocava em caixas separadas. Devia ser tudo o que os ligava. Devia ser. Tudo devia ser compartimentado numa caixa. E nada era, apesar de todos os esforços de Leo. — O que quer saber? Tommy sorriu com entusiasmo. — Tudo. Pode começar. E, pela primeira vez, Leo se tornou um mentor de carne e osso. O que lhe pareceu certo. Era uma conexão com sua margem de lucro, uma que jamais explorara e que, de repente, queria conhecer. Todos os negócios são pessoais. Sua esposa havia dito e afastara o conceito como um sentimentalismo idiota. Mas 76


agora fazia sentido. Não perdera o negócio da Mastermind Media porque não tinha talento, mas porque não quisera uma parceria com Dax; não o respeitava mais. Seu relacionamento com Daniella apenas enfatizara o conhecimento, não o causara. Tinha sido um farol que iluminara todos os cantos e afastara as justificativas, os medos. Não o deixara porque já sabia o que Leo devia ter visto há muito tempo. O arranjo entre eles estava morto. Agora tinham uma oportunidade de fazer do casamento alguma coisa maior. Em vez de ser como Tommy, talvez Leo devesse ser uma versão melhor de si mesmo. Uma que seria digna de Daniella Reynolds. O mau humor de Leo desapareceu. Combinou com Tommy sessões de ensino duas vezes por semana e o mandou embora para que também pudesse partir. Quando chegou em casa, parou diante da porta fechada do quarto de Daniella e colocou a palma aberta contra ela, como fazia todas as noites. De vez em quando imaginava que podia ouvir sua respiração. O cheiro de morangos no corredor o envolvia. Construíra sua casa como uma fortaleza, o lugar que representava a estabilidade que jamais tivera quando criança. Daniella havia se tornado uma parte inseparável dele. Como poderia viver ali sem ela? Como poderia lhe explicar o valor que levara à sua vida? A culpa o tomou. Ela merecia tão mais do que lhe dera. Devia tê-lo abandonado. O objetivo principal do casamento tinha sido a segurança. Estranho como agora sentia que o chão desaparecia sob seus pés quando tinha uma esposa apenas no nome. Bateu à porta. Não podia mais ter um casamento como aquele. Daniella abriu, o cabelo brilhante, vestida num pijama minúsculo. — Oi. Os olhos luminosos procuraram os dele. — Oi. — Preciso conversar. Você me enlouquece. Dormir em quartos separados não muda nada. Ela o estudou e o sorriso dele morreu. Não facilitaria as coisas. Antes era diferente, mas agora não. — Então quer sexo. O que queria que dissesse? Era muito mais do que sexo e não sabia explicar. — Não. Quero dizer, também, mas não é só sexo. Encarou-o por um longo tempo, e ele percebeu que estava fazendo tudo errado. Nada estava acontecendo como imaginara. Ela devia fazer o primeiro movimento. Cair em seus braços e lhe dizer que a separação a estava matando também. Se pelo menos ela lhe desse uma indicação, podiam seguir em frente. — Você sabe o que é? — Sei! É claro que sei! Ela ergueu as sobrancelhas. Mentira, não sabia. Nada entre eles era tangível. O que um cara que jamais ficava mais do que umas poucas semanas com uma mulher dizia à esposa? Ela devia ajudá-lo, como o ajudara antes. — O que quer que eu diga? — Quando souber, venha me dizer. Estarei aqui. E fechou a porta. Ela conhecia a verdade tão bem quanto ele. Mas ainda não lhe dera o que queria. tudo. Se esperava mudar o casamento, precisava cavar muito mais fundo. E ia doer muito. Dannie escorregou para o chão e sufocou o soluço. Palavras. Sexo. Por que tinha que ser tão difícil? Sua mãe estava certa; o amor era uma coisa idiota e não devia ser a base de um casamento. Doía demais. Tudo o que Leo precisava 77


era dizer: “Amo você.” Sua incapacidade de confessar seus sentimentos era horrível e tinha a sensação dolorosa de que ele não resolvera seu tumulto interno. Tentara, realmente tentara, mas não era mais suficiente. Uma vez acreditara que formavam um casal perfeito porque ambos valorizavam a segurança. A diferença era a maneira como a procuravam. Leo era um homem intenso e focado que se afastava das pessoas, não porque não quisesse fazer um investimento emocional, mas como algum tipo de compensação pelo que considerava um defeito de personalidade. E ela não podia passar a vida fingindo que estava bem para ele recusar mergulhar totalmente no relacionamento. O sono não chegou. Olhou as horas, convicta de que estivera deitada na cama por horas. Na verdade, apenas quatro minutos haviam se passado. Desistiu às 2h15 e ligou a televisão para ver um documentário sobre a Guerra Civil. Sua época histórica favorita. Mas, onde Scarlett O’Hara erguera um punho para o céu e jurara lutar, Dannie queria desistir. Um divórcio seria mais fácil. Podia cuidar da mãe, viver com Elise e tentar esquecer o homem com quem se casara e que se recusava a sair dos bastidores. Mas fizera votos. Não podia voltar atrás em sua palavra. O coração doía à ideia de ficar. O que era pior? Tudo o que sabia era que não podia continuar assim. Pela manhã, foi para a casa de Elise e passou o dia trabalhando com Juliet. Ambas estavam desanimadas e sinceramente Dannie não via motivo para embelezar uma mulher que já era linda. E não era como se cabelo e unhas impecáveis pudessem dar a Juliet o que mais desejava. — E se você for combinada com alguém a quem não possa amar? Ainda se casaria com ele? — perguntou Dannie enquanto ensinava Juliet a usar os rolos quentes. Algumas pessoas não se importavam com o amor. Algumas pessoas encontravam felicidade e plenitude ao alcançar seus objetivos pessoais. Mas Dannie não era algumas pessoas e mentira para si mesma ao abraçar a filosofia da mãe como sua. Juliet fez uma careta. — Eu me casaria com um javali se ele tivesse como me manter na América. Casamentos arranjados são comuns na Europa. Você aprende a aceitar. — Mas vale a pena se tornar outra pessoa? Juliet lhe lançou um olhar espantado pelo espelho. — Ainda sou eu. Com unhas. Estendeu uma das mãos em que uma manicure havia criado trabalhos de arte com extensões de acrílico. Dannie olhou para si mesma no espelho. Vivia com sua versão elegante havia tanto tempo que não era mais um choque ver a sofisticada sra. Reynolds no espelho em vez de Dannie White. Mas eram a mesma, com um toque de Scarlett. Elise a havia arrumado, mas o computador a combinara com Leo porque era perfeita para ele. Como era. Ainda sou eu também, mas melhor. Leo lhe dera a base para ser uma excelente esposa e a deixara ser tão atrevida e franca como queria. Para ele, estava tudo bem Dannie ser ela mesma. Eram suas personalidades que combinavam. Ouvira aquilo muitas vezes, mas só naquele dia a ficha caíra. Estivera com tanto medo de ser rejeitada por Leo se estragasse tudo que ficara cega ao problema real. Ambos tinham entrado naquele casamento em busca de segurança, mas havia uma diferença básica entre o que diziam que queriam e o que conseguiram. E estavam os dois tentando equilibrar aspectos de suas personalidades fortes por motivo nenhum. No fundo do coração, queriam a mesma coisa, a segurança de um laço tão forte que jamais poderia ser rompido. 78


O pingente do coração aberto no pescoço lhe atraiu o olhar. Elise o dera a Dannie quando concordara em se casar com Leo, um presente de uma amiga, presumira. Agora o via como a indicação do que o casamento exigia; dois corações abertos. Teria sido dura demais com Leo na noite anterior? Segurança era suficiente para Juliet. Uma parceria amigável tinha sido suficiente para Dannie antes. Insistira na intimidade na tentativa de preencher necessidades não verbalizadas de Leo e ignorara a necessidade que ele havia declarado. uma esposa de quem podia depender, que ficaria ao seu lado sempre. Mesmo com a dor de um grande caso de amor de um lado só. Uma coisa era certa. A vida real não era um conto de fadas, mas Dannie queria o “felizes para sempre” mesmo assim. Cinderela podia ter tido ajuda da Fada Madrinha, mas no fim foi ela que entrou sozinha no baile com a determinação de melhorar sua vida. Um conto de fadas era apenas uma história sobre perseverança, coragem e escolhas. Era hora de ser a esposa que Leo dissera que precisava, não a que presumira que ele precisava. O carro de Leo estava na garagem quando Dannie voltou para casa. Observou-o com apreensão e olhou as horas. Três da tarde de uma terça-feira. Alguém devia ter morrido. Dannie correu para dentro, um nó na garganta enquanto checava o telefone. Haveria uma ligação se fosse sua mãe. Não haveria? — Leo! — O grito ecoou no saguão. Silêncio. O escritório estava vazio. O estômago apertou. Agora estava apavorada. Não o encontrou na piscina, na cozinha, em lugar nenhum. Subiu correndo a escadaria e abriu a porta do quarto dele, temendo encontrá-lo no meio de uma poça de sangue. As cortinas fechadas bloqueavam a luz externa e a escuridão só era amenizada por um abajur na mesinha de cabeceira. Brilhava sobre ele. Estava sentado no carpete, debruçado sobre uma folha de papel presa a uma prancheta. Segurava um lápis e desenhava depressa. — Leo? Você está bem? — Parou à porta. Ele olhou para cima. A luz iluminou o rosto devastado. — Não consigo parar. Tentei lhe contar. — Tentou-me contar o quê? Do que está falando? O que precisa parar? — De desenhar. — Fez um gesto de mão mostrando o quarto e só então ela percebeu que havia papéis cobrindo cada superfície. — Há quanto tempo está aqui? Havia centenas de desenhos. Centenas. Ele não exagerara ao dizer que não fazia as coisas pela metade. — Desde ontem à noite. A voz tremia de cansaço. — Mas seu carro não estava aqui esta manhã. — Precisei de um apontador de lápis. Acha que chega? Olhe os desenhos, Daniella. Diga-me se chega. — Quer que eu veja seus desenhos? Em resposta, ele pegou uma porção deles e se levantou para levá-los a ela. A luz mortiça destacou o cabelo longo demais e a barba de alguns dias. A camisa estava fora da calça e desabotoada e aquela versão desarrumada de Leo era devastadora. Entregou-lhe os desenhos e esperou em silêncio. Ela olhou o primeiro e arquejou. — É você. — Folheou as páginas. — Todos são você. Lindamente feitos. Desenhados pela mão de um mestre que se conhecia intimamente e não tinha vergonha de mostrar ao mundo todos os detalhes gloriosos que formavam Leonardo Reynolds. 79


E estava completamente nu em todos eles. Leo fechou os olhos. — Eu me desnudei. Emocionalmente, fisicamente, espiritualmente. Para você. Não posso nem começar a explicar o que me custou colocar isto no papel. Mas está aí. Digame que é suficiente. Oh, meu Deus. — Leo. — A voz quebrou na garganta dolorida. Tinha sido tudo por ela. — Sim. Sim. É suficiente. Mais do que suficiente. Apertou as folhas no ventre. Era a mais profunda expressão de amor que podia imaginar e valiam mais do que mil palavras. Contavam a história que ansiava por ouvir, abriam a concha de uma vez por todas, revelavam tudo que era importante no homem que amava. O artista Leo lhe tocara profundamente a alma. Ele quase caiu. Mas então abriu os olhos e a tomou nos braços, puxando-a para seu corpo forte e sólido. Os joelhos dela também não estavam muito firmes e ela deixou os desenhos caírem para se agarrar a ele. Quente. Lindo. Dela. Não conseguia pensar. Então ele a beijou e esqueceu por que queria pensar. Foi um beijo faminto, de boca aberta, e tão poderoso. Enquanto a beijava, dizia palavras que ela não entendia. Afastou-se e murmurou em seu cabelo. E ela entendeu. — Quero ser o marido de que precisa. — Oh, querido, você é. Em cada sentido. Tinha sido desde o começo, fornecendo-lhe um lugar seguro onde florescera como sua esposa. Era seu par tanto quanto era o dele. Leo balançou a cabeça. — Não, não fui. Não mereço você. Mas quero você. Tanto. — Você me tem. Para sempre. Estamos casados, lembra-se? Ela sorriu, mas ele não retribuiu. — Não assim. Nada mais de acordos. Sem quartos separados. Sem corações separados. — Colocou a mão no peito como num juramento. — Podia ter contratado uma assistente pessoal. Mas não. Fui procurar uma esposa porque precisava de uma. De uma esposa que vê além dos meus defeitos e me ama mesmo assim. Não é tarde demais, é? Ela colocou a mão sobre a dele. — Nunca. Mas, Leo, você não foi trabalhar. Não vai trocar o sucesso de sua empresa por mim. Não vou permitir. — Não posso. tão cansado. — Seus joelhos se dobraram e ele caiu, levando-a com ele. Puxou-a para seu colo e lhe empalmou o queixo, apaixonadamente, como se não pudesse deixá-la se afastar. — É como disse. Não foi você que desenhou a linha, fui eu. É o que faço. — Indicou as folhas com um gesto de mão. — Não estava me obrigando a fazer escolhas impossíveis. As escolhas não eram suas. Apenas me mostrou que tinha opções. A Reynolds Capital Management é parte de mim e não posso desistir dela. E você também é. — Você quer as duas? A empresa e eu? — Quero tudo. Não sei como equilibrar, mas quero aprender. Preciso tentar. O coração dela apertou. Aquele era o homem que amava. Mas ela e Leo eram parecidos, tinham facetas de personalidade com as quais nem sempre seria fácil lidar. — E pode. Vamos fazer juntos. — Quem melhor para ajudar do que a mulher que ficava atrás dele, apoiando-o? — Amo sua intensidade e não quero que sinta que não pode ser você mesmo. Se quiser fugir num sábado porque tem uma nova e maravilhosa oportunidade de investimento, faça isto. Apenas não ache que vai dormir muito naquela noite. Jamais negue um pedaço de si mesmo. Preciso de você inteiro. Enquanto vivermos. Seu trabalho como a sra. Reynolds era tão simples: dar a base para ele florescer, 80


exatamente como ele fizera por ela. — Parece promissor. Se tiver que trabalhar num sábado, vai fazer café para mim? Ela sorriu. — Sempre. Cada um cede um pouco e o equilíbrio virá. Ele acenou. — Acho que é como ter filhos. Ama um de todo o coração. Então outro chega. E você encontra espaço para ele. Porque vale a pena. Filhos. Leo falava em filhos no mesmo momento em que prometia procurar o equilíbrio. Transformara-se diante dela e não era um pirata ou Rhett Butler, era completamente Leonardo e cem por cento o amor de sua vida. — É, acho que é assim mesmo. Temos corações que esticam. — O meu está completamente cheio. De você. Ele a beijou de novo e murmurou, mas desta vez ela não teve dificuldade de entender. Amo você. Então afastou o rosto. — Minha mão está doendo. Ela riu e a beijou. — Espere aqui. Tenho que jogar pílulas no lixo e um conjunto sexy para usar para você. Vai esquecer tudo sobre sua mão dolorida. Tecnicamente, não era sua noite de núpcias. Mas, para ela, cada noite era sua noite de núpcias quando estava casada com Leo, o homem que amava.

EPÍLOGO

Leo Reynolds queria poder se casar com sua esposa, mas já eram casados e Daniella se recusava a se divorciar dele para realizarem a fantasia de fazer o pedido de uma forma bem elaborada. — Vamos lá, não pode me enganar — provocou Leo enquanto seguravam a grade do deque de observação no terceiro andar da torre Eiffel. Abaixo, a cidade de Paris se espalhava até onde a vista alcançava. — Você sente falta do pedido e do casamento dos seus sonhos. Não gostaria de fazer tudo de novo? Daniella lhe beijou o rosto com um sorriso malicioso. — Estou vivendo a lua de mel dos meus sonhos. Com o marido dos meus sonhos. Todo o resto perde importância. Sua esposa sofria de uma condição sem cura; romantismo em excesso. Como a amava além de toda medida, era sua responsabilidade garantir que nunca a perdesse. — Então vai ter que me perdoar por fazer uma coisa tão sem importância como... isto. — Tirou uma caixa de anel do bolso e a abriu para ela ver o raro diamante vermelho. — Daniella Reynolds, amo você. Promete ser minha esposa pelo resto de nossos dias, sempre usar lingerie sexy e me deixar fazê-la tão feliz como me faz? Daniella arquejou. — Oh, Leo. Amo você também e é claro que prometo, com ou sem anel. Mas é lindo. — É único. Como você. Este anel simboliza o tipo de casamento baseado em amor. O que quero ter com você. Cada vez que o vir em seu dedo, vou pensar em como o amor é a melhor segurança e como poderia tê-lo perdido. — Deslizou o anel no dedo dela 81


para ficar junto com a aliança. Uma lágrima desceu pelo rosto dela. — Obrigada. Paris já era suficiente, mas isto. — Ergueu a mão e a virou para admirar o anel. — Isto é sensacional. Quando teve tempo para comprá-lo? Você e Tommy têm trabalhado tanto para lançar o produto e você poder fazer esta viagem. — Tommy me ajudou. — Leo rolou os olhos. — Acredite, ficou entusiasmado. Nunca imaginei, quando ele disse que queria aprender tudo, que incluiria a escolha de um diamante para uma mulher. Daniella riu. — Com você como mentor, ele vai fazer o futuro amor de sua vida muito feliz. Tommy havia anulado a proposta inicial de Leo. A Garrett Reynolds Engineering abriu as portas naquela semana e os resultados de se tornarem sócios tinham sido sensacionais. Leo não apenas se divertia muito, como pela primeira vez seu lucro chegava diretamente de seu trabalho e não por contratos de financiamento cuidadosamente elaborados. Leo estava bem no meio de todos os aspectos do negócio e sentia uma gratificação que jamais imaginara. Sem Daniella, jamais teria dado aquele passo. Ela investira em seu potencial e o transformara. Passaria o resto da vida amando-a. Também por isto. — Como estão as coisas aqui? — Leo abriu a mão sobre o ventre de Daniella e o pensamento de um filho um dia estar ali dentro lhe apertou a garganta com emoção e ternura. — Ainda não estou grávida. Mas não por falta de tentar. — O sorriso dela lhe aqueceu o coração. — É apenas uma questão de tempo. — Precisamos nos esforçar mais. Eu insisto. Um bebê era uma das muitas possibilidades pelas quais ansiava depois de adquirir uma nova perspectiva sobre o casamento e sobre a vida em geral. Leo beijou a esposa e sentiu o começo de alguma coisa que levaria muito tempo para terminar. o para sempre.

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(desejo 232 1)kat cantrell [felizes para sempre ltda ] casada por negócio  
(desejo 232 1)kat cantrell [felizes para sempre ltda ] casada por negócio  
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