Page 1


O herdeiro protegido – Charlene Sands A filha do inimigo… A noite impulsiva que Tagg Worth teve com Callie Sullivan não passara de uma loucura. Lembranças do encontro ainda o assombravam, porém o cowboy não pretendia repetir o erro. Callie era estritamente proibida, principalmente porque o maior objetivo do pai dela era levar Tagg à falência. Mas o cenário mudou ao descobrirem que havia um bebê a caminho… Tagg jurou que faria a coisa certa, sem se importar com as consequências, ainda que sua noiva inconveniente seduzisse seu coração solitário a ir por um caminho que nenhum Worth jamais ousou seguir.

Promessas de um cowboy – Marin Thomas Ela tinha um fraco por cowboys… Trabalhar com cavalos podia ter dado errado, mas Amy Olson não era do tipo que desiste fácil. Mesmo que tivesse de lidar com um ex-cowboy de rodeio que chegara para cobrar uma dívida e depois seguir estrada. Mas os planos de Matt Cartwright ficaram de lado quando ele decidiu ajudar a viúva e suas duas filhas. Ele nunca conseguiu dar as costas para uma mulher em apuros, e Amy não seria exceção. Matt trouxe consigo apenas uma promessa e um sonho. Mas quando começa a se apaixonar por Amy e suas animadas meninas, fica determinado a realizar ambos.


Charlene Sands Marin Thomas

COWBOYS CATIVADOS

Tradução Maria Vianna Celina Romeu

2015


SUMĂ RIO

O herdeiro protegido Promessas de um cowboy


Em 2005, o senado dos Estados Unidos aprovou uma lei que decreta que o quarto sábado de Julho é o Dia Nacional do Cowboy Americano. “Esses homens e mulheres pioneiros ajudaram a criar o Oeste americano. O espírito do cowboy continua a inspirar a nação com o seu caráter sólido, fortes valores familiares e grandioso senso de comunidade. O cowboy é a personificação de honestidade, integridade, coragem, companheirismo, respeito, ética e patriotismo.” Vida longa ao cowboy!


Sobre a autora Charlene Sands Charlene Sands gosta de criar heróis ousados, apaixonantes e de parar o coração. Casada com o namorado da época de colégio, ela adora tudo o que é romântico. Charlene é vencedora do Readers’ Choice Award e duas vezes ganhadora do Booksellers’ Best Award. Quando não está escrevendo, gosta de ir ao cinema com o marido, jogar cartas com os filhos, ler, beber muito café, visitar as praias do Pacífico, ouvir música country e comer chocolate. Ela também adora conversar com as leitoras. Você pode encontrá-la em charlenesands.com e no Facebook.


Charlene Sands

O HERDEIRO PROTEGIDO

Tradução Maria Vianna


Querida leitora, Você já encontrou o homem dos seus sonhos? Alguém tão lindo, charmoso e honrado que toda essa perfeição a faz acreditar que ele é inalcançável? Por sorte, casei com o homem dos meus sonhos, mas essa é outra história. Contudo, pensei que estava na hora de minha heroína, Callie Sullivan, encontrar o seu príncipe encantado. Então surgiu Taggart Worth, um ex-peão de rodeio, fazendeiro, empresário e dono do coração de Callie. Os Worth são os maiores concorrentes do pai de Callie e, por toda a sua vida, ela foi proibida de se aproximar de qualquer membro dessa família. Porém, só precisou de um encontro ao acaso com Tagg para que ela se entregasse completamente a um romance proibido. Bem-vinda a Red Ridge, Arizona, e ao Rancho Worth, onde o céu é azul, o horizonte é vasto e o topo das montanhas são de um vermelho profundo. Espero que goste da história de Tagg e Callie! Tudo de bom! Charlene Sands

Para minhas queridas amigas do colégio Mary, Robin, Allyson, Pan, Denise, Susan, Cindy e Kathy. Garotas que sabem reconhecer um bom partido. Nossa amizade envelheceu bem e eu amo todas vocês! Um agradecimento especial para meu editor Charles Griemsman pelos maravilhosos insights para essa história.


CAPÍTULO 1

O RUÍDO abafado dos cascos e o resfolegar alegre dos cavalos costumavam abrir um sorriso no rosto de Taggart Worth, mas não era o que acontecia naquele momento em que, apoiado na cerca do curral, ele tomava café e observava suas três éguas premiadas circularem pela arena com as crinas agitadas pela brisa do Arizona. Mais uma vez, o rancho Worth perdera um bom negócio de gado para o rancho Big Hawk. Hawkins Sullivan jogara mais alto e vencera. Sullivan. Ele era um vizinho e um transtorno. Embora os dois ranchos estivessem no mesmo nível, Tagg odiara perder uma cartada que considerara ganha. Ele bebeu um gole do café que se tornara tão amargo e frio quanto se sentia. Jogou o resto no chão, colocou a caneca no mourão da cerca e pensou na noite que passara com a filha de Sullivan, Callie, no mês anterior, em Reno. Ela não lhe saía da cabeça, e isto não convinha ao diretor financeiro da Worth Enterprises. Enquanto deveria estar trabalhando e tentando suplantar Hawk, o Falcão, ele estivera pensando em sua filha e se perguntando se ela não teria sido mandada de propósito àquele rodeio para distraí-lo e fazê-lo perder a cabeça. Sullivan era famoso por ser inescrupuloso, mas teria sido capaz de sacrificar sua filha por uma disputa de gado? Tagg pensou que Callie não parecia ser o tipo de mulher que se deixava manipular facilmente, mas, quando se tratava de mulheres, ele já se enganara antes. Embora os dois se conhecessem desde crianças, ele passara anos sem vê-la, até que ela aparecera de repente no bar Cheatin’ Heart e o puxara pelo braço, arrastando-o para a pista de dança. A noite fora selvagem. – Dance comigo, cowboy. Mostre como você se mexe – dissera ela, passando os braços pelo seu pescoço, balançando o corpo e dando um sorriso provocador. – Você consegue me acompanhar? – Ele a segurara pelos quadris e a puxara. Ela era deliciosa, macia e flexível, e ele estava a um passo do desespero que costumava sentir durante os rodeios que sempre lhe recordavam o que perdera. E a bela Callie suportara todo o seu peso. – Ah, sim, Tagg. Acompanho qualquer passo que você queira dar comigo – dissera com a respiração ofegante, os lábios muito próximos aos seus, olhando-o dentro dos olhos como se lhe fizesse um convite. Ele sentira o seu autocontrole enfraquecer e perdera a cabeça. Há meses que não saía com uma mulher, e Callie parecia dizer “me possua” e ansiar, como ele, por uma noite de sexo desenfreado. Ele a levara para o seu quarto de hotel, sem perguntar nada. Mal haviam entrado pela porta e já estavam se despindo...


– Ela é uma linda fêmea. Tagg se virou e deu de cara com seu irmão mais velho, a poucos metros dele, encostado no curral. Ele e seus irmãos possuíam 35.000 hectares de terra no distrito de Red Ridge. A propriedade pertencia à família Worth há gerações. Clay morava na casa principal, Jackson passava a maior parte do tempo em um apartamento de cobertura em Phoenix, e Tagg vivia nas montanhas, num rancho que mandara construir no lugar onde estivera a casa original da família. – Trick? – perguntou Tagg, olhando para a égua acinzentada. – Ela tem uma ótima linhagem. As outras fêmeas a aceitaram bem. – Você lhe deu o nome de “ardilosa”? – É uma longa história, mas não foi fácil comprá-la. Na verdade, foi muito difícil. Precisei ser muito eloquente. – Faz tempo que você não vai ao casarão. – Clay empurrou o chapéu para trás. – Quando cheguei, você parecia pensativo. Tudo bem? Tagg não costumava ser comunicativo. Sentia-se culpado por ter abandonado Callie na manhã seguinte, deixando apenas um bilhete no travesseiro. Nunca fizera isto com uma mulher, mas não pretendia discutir este assunto, nem a derrota que sofrera na compra de gado, com Clay. O problema era seu. Ele apreciava a sua privacidade e, graças à moderna tecnologia dos computadores e celulares, não precisava ir muito longe do rancho para administrar os negócios. Clay lidava com os empregados e Jackson tomava conta de outros empreendimentos dos Worth em Phoenix. Os três não se incomodavam por sujar as mãos e trabalhar na terra. – Tudo bem. Estou atolado em pilhas de formulários. E você? – Ocupado com Penny’s Song. A obra está quase acabada. As primeiras crianças chegarão dentro de algumas semanas. – Ótimo. Pretendo ajudar no que você precisar. Penny’s Song fora uma ideia de Clay e de sua ex-esposa, e recebera este nome em homenagem a uma criança que morrera de uma doença debilitante, aos 10 anos. Com o dinheiro e o nome da família Worth, a instituição daria abrigo a crianças que se recuperavam de doenças potencialmente mortais, ajudando a reintegrá-las socialmente, através de uma temporada no rancho. – Estamos contando com a sua ajuda. – Mais tarde eu dou um pulo até lá para ver como estão as coisas – disse Tagg. Clay caminhou para o carro, mas, de repente, parou e se voltou. – O que foi? – Faz quatro anos, Tagg. Tagg respirou profundamente, mas controlou a impaciência ao ver a preocupação no rosto de seu irmão. – Eu sei quanto tempo faz. Ninguém precisa me lembrar. – Talvez esteja na hora de você esquecer – disse Clay, entrando no carro e indo embora. Tagg ficou sozinho com seus pensamentos. Como queria. Da maneira que deveria ser. Ele perdera a esposa, Heather, há quatro anos, e isto era algo que jamais esqueceria. CALLIE SULLIVAN estava parada à sombra das montanhas Red Ridge, a poucos passos da porta da casa de Tagg. Tremia mais de ansiedade que de medo. Ele não a procurara e não iria gostar de vê-la, mas ela


mal conseguia esperar para revê-lo. Ela subiu os degraus da entrada e tirou do bolso o bilhete que ele lhe deixara. Já o lera tantas vezes que o papel estava gasto e amassado. Callie se lembrava do que sentira ao acordar e encontrar o bilhete, e não Tagg, ao seu lado. Já sabia as palavras de cor: “Callie, foi incrível. Estou voltando cedo para casa. Não quis acordá-la. Tagg.” Ele era um homem de poucas palavras, mas a sua falta de desenvoltura social era plenamente compensada no quarto. Ela não se arrependia daquela noite. Sentira-se ansiosa, frustrada e infeliz durante a estada em Reno, até que encontrara Tagg sozinho, sentado num banco do bar. Ela se deixara levar por uma espécie de loucura que lhe dizia para ir atrás do que queria. E sempre quisera Tagg. Esta é a sua chance, Callie. Ela aproveitara a chance e, naquela noite, a sua fantasia com Tagg se transformara em realidade. Ela voltou a guardar o bilhete no bolso do jeans e bateu à porta. Silêncio. Bateu novamente. Nada. Callie desceu a escada, colocou a mão na testa para evitar a claridade do sol e olhou em volta, procurando algum sinal de Tagg. A casa de um andar se espalhava no topo da colina de onde se tinha uma visão panorâmica das montanhas Red Ridge. O cenário pitoresco fazia com que ela se lembrasse de por que amava tanto aquela região do Arizona. A mais de uma hora de distância da movimentada cidade de Phoenix com os seus bairros históricos, estádios esportivos e lojas elegantes, o rancho de Tagg parecia estar muito distante daquele estilo de vida. Do jeito que ele queria, Callie pensou. Todos conheciam a história do campeão indomável que se casara com a rainha dos rodeios, como num conto de fadas. Mas o seu final não fora o costumeiro “...e eles viveram felizes para sempre”, porque Heather Benton Worth morrera quando o avião em que estava caíra na pista de pouso dos Worth, e Tagg se afundara no luto. As circunstâncias do acidente eram pouco conhecidas e, se alguém sabia algo, nada dizia. Fora um final trágico para uma vida perfeita. E fora como se Tagg também tivesse morrido naquele dia. Ele abandonara os rodeios, os amigos e a carreira, construíra uma casa modesta nas montanhas, e a sua vida solitária tivera início. O pai de Callie dissera que Clay Worth dera à Tagg a posição de diretor financeiro da empresa para arrancá-lo da tristeza. A distância, Callie viu surgir um cavaleiro, vindo do pasto. Ela avançou alguns passos e o seu coração acelerou. Não via Tagg há cinco longas semanas e carregava um precioso segredo. Um segredo que não iria contar a ele naquele momento. Esguio e aprumado sobre a sela, Tagg tanto parecia um cowboy quanto o diretor financeiro do rancho Worth. Usava perneiras de couro sobre o jeans, uma camisa de brim azul e óculos escuros. Enquanto ele subia o caminho empoeirado que levava ao estábulo, Callie continha o fôlego e sentia os nervos à flor da pele. Se Tagg ficou surpreso com a sua presença, não demonstrou. Manteve a expressão impassível, enquanto desmontava da égua suada, cuja crina Callie afagou. – Você é muito bonita. – Ela segurou o bridão e acariciou o cavalo. Gostava de animais, mas amava os cavalos e se considerava uma excelente amazona. – Eu poderia lhe dizer o mesmo – disse Tagg. Callie não conseguia ver seus olhos, mas estava consciente de ter recebido um elogio. – Olá, Tagg.


– Callie. – Ele a olhou de cima a baixo. Ela desejou estar vestindo algo mais feminino, em vez de jeans. – Procurando por mim? – Sim. Tagg esfregou a nuca e suspirou. – Olhe, estou feliz por você ter vindo até aqui... – Está? – perguntou Callie depressa. Tivera medo de que ele não quisesse vê-la novamente. Ele tirou os óculos, ela viu os seus olhos azuis acinzentados e sentiu o sangue correr mais depressa. Aqueles olhos haviam percorrido o seu corpo inteiro com um brilho de desejo e de admiração que ela jamais esqueceria, assim como jamais esqueceria o efeito que lhe haviam provocado. Callie sempre fora proibida pelo pai de ter qualquer amizade com os Worth, que ele não considerava dignos dos Sullivan. Na cabeça de seu pai, ninguém era bom o bastante para a filha. Mas ela conhecera Tagg na escola, sempre o vira pela cidade, e mais tarde o vira domar cavalos em rodeios. Tagg Worth ocupara as suas fantasias de adolescente, e ela passara a achar que o mundo girava por causa do lindo vizinho de quem fora proibida de se aproximar. Seis meses antes, quando voltara de Boston para cuidar do pai que sofrera um infarto, nada mudara, além do fato de que agora se tornara adulta e de que não obedecia mais às normas restritivas de seu pai. – Estou. Estive pensando em você – disse Tagg, fazendo com que ela se agarrasse à esperança e contivesse o fôlego. – Esteve? – Desculpe... – disse Tagg, corrigindo o que dissera. – Estive pensando em Reno: não deveria ter acontecido. Callie murchou como um balão furado. Sentiu um nó no peito e uma queimação no estômago. Ela se mostrara ousada naquela noite, mas jamais se arrependeria por ter ido atrás do que queria, por ter dado a ele tudo que tinha para dar. Ela lhe dera mais do que o seu corpo, em Reno. E agora ele pedia desculpa? Dizia que não deveria ter acontecido? O orgulho e a raiva ocuparam o lugar da decepção. – Eu não costumo abandonar as mulheres daquele jeito – disse ele num tom arrependido. Quantas mulheres? Quantas aventuras de uma noite? Ela queria que os dois tivessem acordado abraçados e que tivessem mutuamente declarado eterno amor? Mas não era tola a ponto de acreditar que isto aconteceria. – Você deixou um bilhete – falou ela de um jeito que o levou a se encolher. Ele se arrependia de tudo, enquanto ela guardava as maravilhosas lembranças no fundo do coração. – Eu deveria ter ficado e explicado. – Não há nada a explicar, Tagg. Nós dois obtivemos o que queríamos. Ele balançou a cabeça. Não acreditava. Sem conseguir suportar o olhar de remorso por mais um segundo, Callie voltou os olhos para a égua. – Você não vai escová-la? Ela está resfolegando. – Antes que ele respondesse, ela levou a égua para dentro do celeiro e sentiu o cheiro familiar de feno, de ração e de umidade. Tagg ficou parado por um momento e depois a seguiu. Callie nunca se sentira tão dolorida por dentro, tão sensível, mas viera até ali para dizer algo a ele e não iria embora sem dizer. Ela tirou o bridão da égua enquanto Tagg tirava a sela. – Não precisa fazer isso – disse ele. Ela o aborrecera. Ótimo. – Faz parte da minha natureza. Eu também cresci num rancho. – Ela sorriu. – É difícil esquecer o nosso maior adversário.


Callie pendurou o bridão em um gancho e pegou uma escova. – O problema é este? Eu ser filha de Hawk? – Não – respondeu Tagg. Callie lhe entregou a escova e os seus dedos se tocaram por um segundo. Foi eletrizante. Ela sentiu a energia percorrê-la até os pés e notou o brilho fugidio que passara nos olhos acinzentados. – Eu não esperava flores e bombons – falou ela calmamente. – Você recebeu menos do que merecia. – Ele começou a escovar a égua. – Eu sabia o que estava fazendo, Tagg. Foi realmente... Incrível. Você vai negar? Ele parou e olhou para ela com um ar sério. – Não, eu não nego, mas não pode acontecer novamente. – Nem eu quero – falou ela depressa, movida pelo orgulho. – Portanto, antes que o seu ego inche até sair pela porta do estábulo, é melhor eu falar o que vim lhe dizer. Achei que seria melhor você saber por mim, que por seu irmão. A partir de agora, você vai me ver no rancho Worth. Vou trabalhar como voluntária em Penny’s Song. É uma causa que defendo com fervor, e mal posso esperar para começar a trabalhar com as crianças. – Você? – Tagg praguejou intimamente. Callie Sullivan era a última pessoa que ele queria ver diariamente na propriedade dos Worth. Não acreditava que ela estivesse ali, naquele momento. Durante semanas, ele pensara naquela noite em Reno, lembrando-se de como havia sido incrível estar com ela. A sua pressão subira no momento em que a vira na sua casa. E quando os seus dedos haviam se tocado, a sua cabeça fora ocupada pelas lembranças alucinantes do que havia acontecido. – Por quê? – Eu já disse. Quero trabalhar com crianças. Sou formada em Psicologia e serei útil na instituição. Clay me achou perfeita para o cargo, já que também entendo de cavalos. Clay? Ele precisava falar com o irmão. Além de Callie ser filha de Hawkins Sullivan, Tagg não queria lutar contra a tentação que ela representava na sua vida. Ele voltou a escovar a égua. Clay não sabia que ele passara uma noite com Callie, e não precisava saber. Porque, se alguém soubesse, a família tentaria lhe arranjar um casamento, embora ele tivesse deixado bem claro que não estava à procura de um relacionamento. – Obrigado por me contar. – É uma maravilhosa obra assistencial. O seu irmão é muito bondoso. Eu pedi a ele que esquecesse que sou filha de Hawk enquanto eu estiver no rancho. O meu único objetivo é ajudar a Penny’s Song a funcionar. – Tenho certeza de que ele agradece. – Ele bateu na traseira da égua e encheu um balde de aveia, mas Callie se adiantou e esbarrou nele de leve. Tagg sentiu o perfume de flores que se misturava ao seu cheiro natural, resultando num aroma único que lhe despertou lembranças: os dois dançando sensualmente no bar, o gosto da sua pele quando ele a beijara... – Aposto que ela vai preferir isto. – Ela tirou alguns cubos de açúcar do bolso e os ofereceu à égua. – Agora somos amigas, garota? – Ela afagou a crina do animal. – É, acho que somos. Qual é o nome dela? Tagg colocou a ração diante da égua e se afastou para pendurar a escova. – Russet. – Castanha... – Callie sorriu. – É perfeito. Tagg assentiu e observou enquanto ela interagia com o animal. Callie vestia um jeans e uma camisa de algodão. Nada que elevasse a temperatura de um homem, mas ele sabia o que havia por baixo: uma pele macia e clara, quadris levemente arredondados e seios perfeitos que, quando expostos, levavam um


homem à loucura. Ela conhecia cavalos. Sabia como falar com eles, como tratá-los. Isto não o surpreendia tanto quanto o deixava satisfeito. Tagg se apoiou na parede e ficou a observá-la, até que Callie percebeu o que ele estava fazendo e lhe lançou um olhar interrogativo. – Por que fez isso, Callie? Nós mal nos conhecíamos. Por que eu? Ela ficou pensativa por um instante, e ele imaginou se ela seria sincera. – Quando o vi sentado no bar... Você parecia se sentir como eu. Sozinho. Desiludido. Desejando que a sua vida fosse diferente. Achei que precisávamos um do outro, que talvez pudéssemos nos ajudar. Tagg não esperava tamanha sinceridade. Callie parecia tê-lo enxergado por dentro. Ele jamais falava a respeito de Heather com alguém. Era como se, evitando dizer as palavras em voz alta, elas não fossem verdadeiras e não magoassem tanto. E agora, ele sentia a necessidade de se explicar para Callie. – Era aniversário da morte da minha mulher. Ela era tudo para mim. Eu fui para Reno, supostamente a negócios, para tentar esquecer. Callie olhou para ele com simpatia e compreensão. – Sinto muito. – Não mais que eu. – Ele olhou para a porta e mais além, para a terra que pertencia aos Worth há gerações, mas tudo que via era o avião partido em dois na pista de pouso, imagem sempre presente em seus pesadelos. Tagg se voltou para Callie e olhou dentro dos seus olhos. – Quando eu disse que aquela noite não deveria ter acontecido, falei sério. Não vai dar em nada, Callie. Seria melhor esquecermos. – Concordo – respondeu ela imediatamente. – Como disse, eu vim aqui quebrar o gelo para o caso de nos esbarrarmos em Penny’s Song. Não suporto situações constrangedoras. – Nem eu. Eu não tenho habilidades sociais. Ela abafou uma risada e concordou. Ele quase se sentiu ofendido, mas Callie sorriu e continuou de maneira doce: – Isso você compensa em outras coisas. – Compenso? – Sempre era bom saber que quando levava uma mulher para a cama, ela não tinha do que reclamar. Ele pensou na linda moça de olhos cor de caramelo, gemendo o seu nome. Droga! Não queria que ela percebesse o que ele estava pensando. Tagg tentou imaginar de que tipo de solidão e de dor Callie tentara fugir naquela noite. Mas não era da sua conta, e ele não queria saber. Não queria mais se envolver com Callie Sullivan, por mais linda que ela fosse. Ela assentiu e os dois ficaram se olhando em silêncio. – Eu preciso ir. – Claro que sim. – Então, tudo certo. – Ela saiu do celeiro e Tagg foi atrás. Callie parou de repente e se voltou. Ele lhe deu um esbarrão, ela perdeu o equilíbrio e Tagg instintivamente a segurou. – Maldição, mulher. Você devia ter dado algum aviso... – E ali estava ele, com a linda Callie Sullivan nos braços. Ele a aprumou e sentiu seu cabelo lhe tocar os dedos. – Obrigada. – Por que parou de repente? – Eu tenho mais uma coisa a lhe dizer. – Diga. – Ele sentiu o perfume de flores e pensou novamente na noite que haviam passado juntos. Soltou-a assim que teve certeza de que ela estava firme. Callie colocou as mãos nos quadris, exatamente nos pontos onde ele a segurara. Foi um gesto inconsciente, mas que o perturbou.


– Eu não costumo pegar homens em bares. – Ela parecia desafiá-lo a duvidar. Tagg arqueou as sobrancelhas. Ela corou. – Quer dizer, nunca tive uma aventura de uma noite. Não é do meu... – Entendi. – Ele queria acabar com aquela conversa e esquecer as lembranças daquela noite. – Entendeu? Você acredita em mim? – Não faz um pingo de diferença se eu acredito ou não, mas, sim, eu acredito. Posso não ter habilidades sociais, mas tenho instintos. – Faz diferença para mim. Fico contente que você acredite. Quero dizer, já que a partir de agora vamos nos encontrar. A sua opinião é importante. Ele queria dizer que não deveria ser, mas ficou calado. E se sentiu aliviado quando o seu celular tocou e os interrompeu. Callie estava com uma expressão vulnerável, e Tagg era sensível a mulheres em dificuldades. – Preciso atender – falou ele. Ela sorriu levemente e concordou. – Até logo, Tagg. Ele a observou entrar no carro e esperou que ela pegasse a estrada. Só então atendeu o telefonema de Clay. – O que diabos estava pensando quando contratou a filha de Sullivan? – FICO FELIZ por você ter ligado, Sammie. Hoje eu realmente precisava ouvir a sua voz. – Callie se jogou na cama enquanto falava com sua melhor amiga e antiga colega de quarto na universidade. O seu quarto no rancho Big Hawk era o mesmo de quando criança. Os tons de amarelo e azul das paredes refletiam uma luminosidade que não correspondia à maneira como ela se sentia no momento. Voltara de Boston porque ficara sem trabalho quase ao mesmo tempo em que a saúde de seu pai piorara. E fora o momento certo. Sentia muita falta do rancho. Porém, desde que voltara, percebera que todos haviam seguido sua vida, e que a dela ficara estagnada. O quarto que sua mãe decorara quando ela era menina era um perfeito exemplo. Hawk não quisera mudá-lo e ela acabara por concordar. – Você está parecendo abatida. Há algo de errado. O que está acontecendo? – perguntou. – Eu... Estou com saudade de você. – Eu também – disse Sammie. – Não há nada que a prenda aí. Você pode voltar para Boston a qualquer momento. O meu apartamento tem um quarto extra, reservado para você. Mas, querida, o que houve? – O de sempre: meu pai. – O Falcão? De novo? O que ele fez desta vez? – É um tanto complicado. – Callie não estava preparada para desabafar com Sammie, principalmente quando se sentia tão culpada por manter um segredo. Mas poderia contar que atingira o seu ponto de ebulição com o pai. Ela achara que ter um diploma, que ter vivido fora do rancho por tantos anos, que ter completado 26 anos, que tudo faria diferença para o pai. Mas percebera que ele jamais mudaria. Ah, ela o amava e, sob vários aspectos, ele era um ótimo pai, mas a necessidade que ele tinha de controlar a sua vida se tornara exagerada. – Você sabia que eu estava saindo com um rapaz chamado Troy, certo? – Certo. O carpinteiro alto e louro. – Ele viera ao rancho para construir um novo abrigo na piscina, e Callie saíra com ele. – Pensei que ainda estivesse. Da última vez que conversamos, você não disse o contrário.


– Eu não lhe contei porque estava furiosa. Precisava de tempo para me acalmar. O meu pai não admite que eu seja capaz de tomar qualquer decisão sozinha. Ele não vê isso como controle. Acha que está cuidando de mim como um pai deve cuidar. – Ele está compensando o fato de você não ter mãe. Está tentando ser pai e mãe ao mesmo tempo. – Eu sei, e sempre o desculpei por saber que ele sentia muita falta da minha mãe. Mas ela morreu há 11 anos e, em vez de seguir com a sua vida, ele depositou em mim todo o amor que sentia por ela. Eu me vejo forçada a enfrentar um pai superprotetor, controlador e sufocante. Que sorte! – Ah, Callie, sinto muito. Pensei que ele ia melhorar depois que você voltasse de Boston. – Pelo contrário. Ele queria que eu trabalhasse para ele. E, da última vez, jogou forte com a culpa. O legado dos Sullivan iria desaparecer se eu não tomasse as rédeas do rancho. Tudo que ele construiu iria se transformar em cinzas. O céu iria desabar e destruir tudo pelo qual ele tanto trabalhou. Afinal, eu cedi. Trabalhei com ele durante meses. Eu realmente tentei, Sammie, mas o Falcão e eu não vemos as coisas do mesmo jeito. – Aquela era uma maneira delicada de dizer que seu pai era um homem de negócios demasiadamente impiedoso. Callie seguia uma rígida ética profissional que seu pai não compreendia. Os dois haviam batido de frente a respeito dos negócios. – Por fim, eu disse não. Não desta vez. Quero trabalhar no que me interessa, na área que me dediquei a estudar durante quatro anos. E ele cedeu um pouco, mas depois mergulhou como um falcão sobre Troy. – O que ele fez? – Troy realmente é um bom rapaz. Eu gostava dele, mas não era nada de abalar o mundo. – Não se comparava ao que ela sentia por Tagg Worth. Ainda mais agora. E ela por enquanto deveria manter seus sentimentos escondidos. Estava enganando Tagg por omissão, mas não podia fazer nada. Inquieta, Callie se levantou da cama, foi até a janela e sorriu ao ver o seu Palomino, Freedom, marchando ao redor do curral. Ela pensou que, quando a mãe ainda estava viva, fora feliz morando no Big Hawk. Ainda gostava do rancho, mas não tolerava a maneira de seu pai fazer as coisas. – Eu saí com Troy durante um mês. Papai estava sempre insinuando que ele não era bom o suficiente para mim. Pelo visto, trabalhadores braçais não servem para uma garota criada em um rancho – comentou ela com sarcasmo. – Eu estava começando a gostar de Troy, mas ele parou de me procurar. Um dia, fui atrás dele e perguntei o que havia acontecido. Agradeço por ele ter me dito a verdade. – Ah, o seu pai o ameaçou? – Sammie soltou um suspiro. – Não... Nada de tão óbvio. Ele lhe propôs um negócio lucrativo: reformar o rancho de um amigo em Flagstaff, trabalho que levaria pelo menos seis meses. A única exigência é que Troy não mantivesse nenhum contato comigo. – Callie deu uma risada sarcástica. – Pode imaginar? Quase morri de vergonha e, apesar de Troy ter simplesmente recusado, o Falcão acabou com qualquer possibilidade de que pudesse existir algo entre nós. – Ah, Callie, isto é terrível. Callie concordava. Depois da experiência humilhante, ela fizera as malas e fora para Reno, onde se hospedara na casa de uma prima, Deanna, que sempre a convidara para visitá-la. Desabafara parte da sua raiva e da sua humilhação nos ouvidos da prima e, quando estava voltando para casa, parara no Cheatin’ Heart e vira Tagg sentado num banco do bar. O homem dos seus sonhos. O pior pesadelo de seu pai. Ela apenas aproveitara a oportunidade. Não, não era inteiramente verdade. Ela fizera com que as coisas acontecessem porque o queria e estava profundamente indignada com seu pai. Não sabia se apenas um dos motivos teria lhe dado coragem, ou se fora a combinação dos dois que tornara tudo


irresistivelmente tentador. Não poderia ter previsto como aquela noite acabaria. Porque não planejara se apaixonar por Tagg. Não planejara conceber um filho com ele. Mas as duas coisas tinham acontecido. Callie terminou a conversa com Sammie e desligou. Colocou a mão na barriga, maravilhada com a nova vida que se desenvolvia dentro dela, imaginando se seria um menino ou uma menina, se teria os seus olhos castanhos, ou os lindos olhos azuis acinzentados de Tagg, se teria a pele dourada do pai, ou a sua pele translúcida de fada. Só nos seus sonhos mais loucos admitia a possibilidade de ter um futuro com Taggart Worth. Não usaria o bebê como isca para prendê-lo num relacionamento. Não o faria cair numa armadilha e se casar. Sim, Tagg tinha o direito de saber que teria um filho. Mas não por enquanto. Callie tentou esquecer a culpa por ainda não ter lhe dito a verdade e se agarrou às suas convicções. Precisava de tempo para ter a chance de conquistá-lo: se apaixonara por ele e não aceitaria menos que reciprocidade antes de lhe contar que carregava um filho seu. Callie dera início ao processo. No dia seguinte, começaria a trabalhar em Penny’s Song.


CAPÍTULO 2

OS OLHOS de Tagg ardiam ao fitar a tela do computador. Passara a manhã inteira fazendo um inventário e encarando números. O escritório fora construído como um anexo da sua casa e era formado por três salas: uma, onde ele trabalhava, com estantes de nogueira, vigas de madeira cruzadas no teto, armários e a sua mesa, de frente para a porta. As outras duas salas eram menores. Uma estava sendo usada temporariamente como sala de estar. Na outra, ele guardava antigos arquivos e equipamentos sem uso, já que, por exigência de Jackson, todos os equipamentos de trabalho dos Worth deveriam ser de última geração. – Chega – resmungou ele, desligando o computador e apertando os olhos. Aos 31 anos, era jovem demais para se sentir tão cansado antes do meio-dia. – Você trabalha demais – disse Jackson, entrando no escritório. – Por que diabos você não cede e contrata alguém para ajudá-lo? Uma secretária, pelo amor de Deus. – Quando foi que você chegou? – perguntou Tagg, assustado. Estivera tão concentrado que não percebera a chegada do irmão. – Não mude de assunto. Você sabe que eu tenho razão. Tagg olhou para Jackson, seu irmão dois anos mais velho e muito mais refinado, que calçava botas de couro de US$ 600, vestia-se como um modelo da revista Cowboys & Indians, e administrava os escritórios dos Worth no centro de Phoenix. – Estou pensando no assunto – admitiu Tagg a contragosto. Gostava da solidão do rancho e um empregado seria um estorvo. Quando mais jovem, passara noites com companheiros de rodeios, bebendo uísque até o sol raiar, sem sentir uma gota de sono, mas seus olhos jamais haviam ardido como ardiam agora, depois de ter passado horas diante da tela do computador. Ele sorriu ao pensar nos dias loucos de rodeio, nos amigos que deixara para trás, mas se tornou sombrio ao recordar o motivo que o levara a abandonar aquela vida. – Fico feliz – disse Jackson. – Posso pedir a Betty Sue que dê uma olhada nos currículos que temos no escritório central. – Talvez. Mas não agora – disse Tagg. – O melhor tempo é o presente – insistiu Jackson num tom compreensivo. Tagg levantou e olhou para o irmão.


– Ah, me poupe. Eu disse que estou pensando no assunto. – Por mim, tudo bem. Então, esta tarde você vai ajudar no projeto de Clay? – Sim. Ele quer que eu escolha os cavalos mais adequados para as crianças. Você vai? – Tagg olhou com ironia para o terno do irmão. – Hoje, não. Tenho uma reunião no meio da tarde. Preciso voltar a Phoenix. – Algo importante? – Talvez. Acho que os Worth deveriam entrar no ramo de restaurantes. – O quê? – Tagg ficou surpreso. – Seria um bom negócio. Eventualmente, poderíamos conceder franquias. Tagg sacudiu a cabeça. Jackson era o empreendedor da família e se dera individualmente muito bem fora da Worth Enterprises. Ele possuía um dom para ganhar dinheiro. – Isto estaria um tanto fora da nossa área, não acha? Jackson deu um enorme sorriso. – Não. Creio que está na hora de expandirmos os nossos horizontes. – Gado, terras e, agora, restaurantes? Você está com tempo livre demais, Jack. – Estou mais ocupado que nunca. – Então, talvez você precise de algum outro interesse que não seja o trabalho – disse Tagg. – Veja só quem fala... – Jack falou com ironia. – Isto dito por um homem que não arreda o pé do rancho. Talvez você esteja precisando ter uma vida. – Eu tenho uma vida bem aqui. Não sou um eremita. Eu saio. – Raramente, mas de vez em quando ele se arriscava. Da última vez, fora para Reno e passara uma noite de sexo ardente com uma linda mulher. – Tudo bem. Como quiser. Você tem tempo para almoçarmos juntos, antes de ir para Penny’s Song? – Sim. Talvez eu possa laçar o almoço para nós – brincou Tagg. UMA HORA depois, Tagg entrou no jipe e se dirigiu a Penny’s Song. Ele precisava dar crédito ao irmão. Clayton Worth, grande astro da música country, abandonara a vida de cantor aos 37 anos para viver uma vida mais simples no rancho. Ao longo do caminho, ele tivera a inspiração de criar Penny’s Song e agora a transformava em realidade. Os três irmãos haviam colaborado igualmente para fundar a instituição, mas Tagg se sentia mais ligado ao projeto por motivos particulares. Ele desceu do jipe e examinou a construção. Havia no mínimo dez homens trabalhando, embora a maior parte da obra já estivesse acabada. Algumas telhas estavam sendo colocadas, as portas estavam sendo encaixadas e, em algumas casas que reproduziam uma rua do velho oeste, a tinta das tabuletas do “Escritório do xerife” e do “Armazém” ainda estava úmida. O Red Ridge Saloon tinha uma cozinha onde seriam servidas as refeições. O dormitório onde as crianças iriam dormir seria supervisionado por voluntários bem treinados. – Está quase pronto – disse Clay, aproximando-se de Tagg e empurrando o chapéu para trás. – Está melhor do que eu pensava. As crianças vão adorar. – A intenção era esta. – Então, sem ressentimentos em relação ao outro dia? – perguntou Tagg. Clay riu e balançou a cabeça.


– Está se referindo ao fato de brigar comigo por eu não ter recusado a filha do Falcão? Sem ressentimentos. Eu nunca culparia Callie pelo que o velho faz. Mesmo depois de você ter me dito que ele nos venceu nos negócios. Ela é muito capaz e qualificada. Nossa mãe não criou um tolo – Clay falou com ironia. – Sei distinguir algo bom quando o vejo. – Tagg mordeu a língua. – O fato é que ela teve uma ótima ideia para o “Armazém”. As crianças vão receber uma ficha cada vez que cumprirem uma tarefa e poderão trocá-las por algo. Ela está doando alguns objetos e brinquedos que servirão de brindes. – Mesmo? – Tagg precisava admitir que a ideia fora boa. Que criança não sentiria uma sensação de realização ao receber um pequeno prêmio por um trabalho benfeito? O pai lhes ensinara que o trabalho duro compensa, que, se você se esforça, colhe benefícios. – Você deveria ter pensado nisso. – Talvez, mas fui esperto o bastante para contratar uma garota que sabe trabalhar com crianças. O crédito será todo meu. Antes que Tagg pudesse responder, ouviu-se uma gargalhada cristalina atrás deles. Ele se voltou e viu Callie Sullivan com uma expressão alegre no rosto, no meio dos trabalhadores que olhavam para ela e também riam. Ele sentiu o peito se retorcer. Vê-la de novo, feliz e sorrindo no meio dos homens, deixou-o de mau humor. Ela estava linda, mesmo vestindo um jeans desbotado e uma camiseta, e com o cabelo preso num rabo de cavalo. Não precisava usar rendinhas para provocá-lo, nem estar de cabelo solto para que ele se lembrasse de como eram macios entre seus dedos. Callie se voltou, pegou-o olhando para ela, sorriu e acenou discretamente. – Ali está ela – disse Clay, fazendo um sinal para que ela se aproximasse. – Fiquei extremamente surpreso quando ela apareceu na minha porta, perguntando a respeito de Penny’s Song. Eu não a via há muitos anos. Mas ela também foi até a sua casa, não foi? E foi o bastante para aborrecê-lo. Tagg mordeu a língua. Já vira Callie Sullivan o bastante para que ela assombrasse seus sonhos. – Eu não me aborreci. – Com Callie se aproximando, ele não poderia dizer muito mais. – Olá, rapazes. – Callie sorriu para Tagg e se voltou para Clay. Ela estava com um fiapo de palha preso no cabelo e Tagg sentiu o impulso de soltá-lo, mas não se mexeu. – Estou orgulhosa por fazer parte disto, Clay. Não se esqueça: ficarei feliz em também ajudar a levantar fundos. Tive algumas ideias para estimular a colaboração da comunidade. – É muita bondade sua, Callie. – Clay arrancou o pedaço de palha do cabelo de Callie. Tagg trincou os dentes ao vê-la colocar a mão na cabeça e sorrir para seu irmão como se ele fosse um herói. – Ah, obrigada. – No momento, dependemos de voluntários, mas, se tudo der certo, vamos precisar de reservas para contratar funcionários – disse Clay. – Lembre-se de mim. – Claro que sim. – Ele se voltou para Tagg. – Fico feliz por estarem aqui. Tenho uma tarefa para os dois. Callie deu uma olhada para Tagg e voltou a encarar Clay. – Tudo bem. Estou pronta para o que você precisar. – Precisamos escolher os cavalos mais apropriados para crianças entre 6 e 13 anos. Devem ser animais mansos e muito pacientes. Não podemos nos dar ao luxo de ceder muitos dos mais bem treinados, mas se vocês selecionarem alguns nos nossos estábulos, já será um começo. Tagg podia fazer aquilo de olhos fechados, não havia necessidade de incluir Callie. – Eu adoraria – respondeu Callie imediatamente.


– Eu posso fazer isso, Clay – declarou Tagg. – Se você precisar que Callie faça outra coisa... – Ele viu que ela o olhava com censura e evitou encará-la. – Não. Prefiro que os dois o façam. Os dois conhecem cavalos, mas Callie já trabalhou com crianças, e, já que nenhum Worth tem muito contato com crianças, vocês formarão um ótimo time. Tagg desistiu e deu de ombros. Não seria problema passar uma tarde com Callie sem agarrá-la. – Tudo bem. Vamos escolher algumas éguas mansas do rebanho. – Está ficando tarde. Vou deixar a equipe sob sua direção. Tenho um compromisso na cidade. Mantenha os rapazes na linha, Tagg. Parece que todos já se encantaram com Callie. – Clay deu uma piscada para ela e Callie riu. – Algo me diz que ela sabe se cuidar sozinha – falou Tagg irritado, deixando o ambiente tenso. – Não se preocupe comigo. Os rapazes estão me tratando muito bem. – Fico feliz em saber. – Clay olhou para os dois com um ar de curiosidade, como se tentasse entender o que acabara de acontecer, e se despediu. Tagg ficou sozinho com Callie, diante do “Armazém”. Os dois se olharam por alguns segundos constrangedores, até que ela sorriu. – Bem, estou contente por ter ido até a sua casa quebrar o gelo, porque aquilo não foi desagradável. O comentário acabou com a tensão. Tagg relaxou e sorriu. – Você sempre diz o que lhe vem à cabeça? Callie também sorriu e os seus olhos se iluminaram. – Na maioria das vezes, digo. – E quando você não diz? Como isto funciona para você? Callie pensou um pouco e respondeu: – Funciona bem. Quando eu me calo, geralmente é para manter a paz com o meu pai. – O Falcão – rosnou Tagg. – Meu pai. – Você tem medo dele? – Claro que não. Digamos que é mais fácil lidar com ele sem fazer um drama. E seria um drama se eu realmente lhe dissesse o que penso. – Então, você se cala. – Na maioria das vezes, eu lido com ele do meu jeito e consigo fazer o que quero. E quanto a você, Tagg? Você sempre esconde o que sente? Tagg não gostava de conversar a respeito de sentimentos. Que homem gosta? – De que sentimento você está falando exatamente? Callie pareceu distante por algum tempo. – Do medo. Do que o levou a deixar um bilhete para uma garota na cama do hotel, em vez de enfrentá-la. Tagg preferiu ignorar o comentário. Seria mais seguro para os dois. Ele colocou a mão na cintura de Callie e a empurrou com gentileza. – Vamos ver os cavalos. Eu dirijo. Os dois caminharam até o jipe em silêncio. Tagg estava bem consciente da proximidade de Callie, do seu perfume que lembrava coisas que ele queria esquecer. O seu mau humor aumentou. Eles entraram no carro, ele deu a partida, mas não engatou a marcha: ficou olhando pela janela. Haviam tido uma aventura de uma noite. Ela não estava isenta, fizera a sua parte ao levá-lo a perder o controle, mas ele


jamais fugia às responsabilidades, e se sentia responsável pelo que acontecera entre os dois porque sabia que, por mais de um motivo, Callie Sullivan era proibida. Ela era filha do seu maior adversário, a vizinha com quem esbarrara várias vezes e, mais importante, ele sabia que ela não era o tipo de mulher que tinha aventuras casuais. Callie não era rápida e fácil como as mulheres com quem ele ultimamente se relacionara. Depois de muito pensar, Tagg concluiu que devia uma explicação a ela. – Eu não estava com medo, Callie. Precisava ir embora e não queria acordá-la. Esta é a verdade. – Toda a verdade? Ele se apoiou no volante e a encarou. – Olhe, eu não quero ser grosseiro, mas aquela noite não envolveu sentimentos. – Isto é mentira. – Tudo bem... Envolveu, mas não sentimentos que eu tivesse por você. – Eu sei. Você estava sofrendo. – Sim, estava. E você estava lá. Fácil, conveniente, linda. – Ah. – Callie arregalou os olhos, fechou-os como se quisesse apagar a mágoa deles, e voltou a abrilos, enquanto Tagg se amaldiçoava silenciosamente. – Compreendo. – Não foi isso que eu quis dizer. – Ele se sentia um canalha e estava odiando aquela conversa. Era por causa de momentos como aquele que ele evitava se envolver com as mulheres. – Ah, não. Você foi perfeitamente claro. – Callie evitou olhar para ele. Ficou sentada rigidamente, olhando para frente. Tagg engatou a marcha e pegou o caminho dos estábulos. Cinco minutos depois, ele ficou surpreso quando ela começou a conversar como se nada houvesse acontecido. – Passei quatro anos na Universidade de Boston. Durante esse período, eu só vinha para casa nas férias e nos feriados. – Sim, eu sei. – Ela parecia ter relaxado e voltara a encará-lo. – Numa cidade pequena não há segredos. Todos acharam que a filha do Falcão estava ansiosa para se afastar dele o máximo possível. – Ele não é tão ruim, Tagg. Ele me ama. E eu o amo, mas realmente gostei de poder viver quase sem interferências. – Imaginei que a mais de quatro mil quilômetros de distância ele não pudesse interferir. – Ele deu um jeito, mas a minha estada em Boston foi maravilhosa. É uma cidade interessante em vários sentidos. – Então, por que você voltou? – Senti saudade do Arizona, do rancho. Que tola! Eu não sou uma mulher urbana, e o meu pai teve um problema de saúde. Ele é o único parente que eu tenho, a não ser pela família da minha mãe. Tenho uma tia e uma prima em Reno. O jipe passou por cima de alguns buracos na estrada, e os dois foram jogados para frente. Tagg instintivamente esticou o braço para impedir que ela batesse no painel e a sua mão encontrou a resistência e a maciez dos seios de Callie. Ele sentiu a pressão subir e engoliu em seco ao se recordar de tê-los tocado, de ter pressionado os lábios contra os seus mamilos rosados, de ter sentido o seu gosto. – Você está bem? Ela deu um sorriso que o abalou, um sorriso que parecia dizer “pode me tocar a qualquer momento e me levar para onde quiser”. – Sim. Ele se voltou para a estrada e bloqueou as lembranças, ignorando o convite que via no rosto dela, recusando-se a reconhecer que estava tremendamente atraído por Callie Sullivan.


CAPÍTULO 3

CALLIE PULOU para fora do carro de Tagg, tentando manter o ânimo. O que ele dissera a magoara, mas ela não se deixaria abater. Quando se aproximara de Tagg naquela noite, em Reno, sabia que ele era um solitário, que sofrera no passado. Não esperava que ele lhe declarasse amor eterno depois de ter levado anos se remoendo de tristeza. Os dois haviam tido uma noite maravilhosa de sexo, mas, entre os lençóis, não houvera apenas efervescência. Tagg fora gentil, delicado, e haviam compartilhado uma intimidade da qual ela sempre iria se recordar. Ela não planejara conceber um filho com ele, mas jamais diria que a criança fora um erro e, mais que nunca, desejava tê-la. Callie sabia que pisava em terreno perigoso. O terremoto Taggart Worth poderia derrubar uma mulher menos determinada, mas ela nada tinha a perder, e muito a ganhar, e não deixaria que a língua ferina de Tagg a abalasse. Assim que chegaram ao estábulo, perto da casa principal, Callie foi até um curral onde havia uma dúzia de cavalos. – Estes, não – disse Tagg. – São muito rebeldes. Callie já percebera apenas pela sua aparência, pelo jeito como erguiam os focinhos e ficavam atentos, como se fossem empinar a qualquer momento. – São fogosos – concordou ela. – Nossos melhores cavalos boiadeiros estão ali – disse Tagg, indicando um curral atrás do estábulo. Eles entraram no curral e ela viu que alguns cavalos levantavam a cabeça, olhavam para os dois com indiferença e voltavam a pastar. Outros pareciam não ter notado a presença dos dois, ou não se importavam. – Acho que encontramos nossos candidatos. – Ela se aproximou de uma égua de cor castanha de pelo lustroso que não parecia se sobressaltar facilmente. Callie sabia que deveria se movimentar devagar, principalmente quando chegava perto de um animal que não conhecia. – Olá, garota. Qual o seu nome? – Sunflower. Ela já fez sua parte no rancho. – Quantos anos ela tem? Dez? Onze? – Onze – disse Tagg. Callie afagou o focinho da égua.


– Ela pode ser uma boa escolha. Tem uma idade boa e também não é muito alta. Gostaria de passar algum tempo com ela. Talvez uma cavalgada, para ver como ela se comporta em campo aberto. – Boa ideia – disse Tagg. Ele caminhou em direção a um cavalo que tinha as extremidades das patas brancas e uma lista branca ao longo do focinho. – Este é Tux. – Por causa da coloração preta e branca – disse Callie. – Sim, ele era ótimo no seu auge. – Tagg passou a mão na crina do cavalo. – Ele tem 12 anos. Eu costumava montá-lo quando voltava dos rodeios. Ele ainda tem muita energia. – Você confia nele? – Callie se aproximou do cavalo. – Tanto quanto confio em qualquer outra coisa, o que às vezes não é muito. Quero sair com ele e ver o que ele faz. Callie imaginou se Tagg estaria se referindo apenas ao cavalo. – Hoje? – Não, hoje não. Já que Clay me passou o cargo, é melhor que eu volte o mais depressa possível a Penny’s Song. Precisaremos fazer isso outro dia. – Tudo bem. – Callie observou os outros cavalos e concluiu que alguns estavam muito velhos e abatidos. Tagg concordou e sugeriu que dessem uma olhada no estábulo. Ela foi atrás dele, apreciando a vista sensacional que ele lhe proporcionava: o cabelo negro saindo por baixo do chapéu fazia com que ela desejasse poder enroscar os dedos nele; as costas largas que se estreitavam na cintura e acentuavam os quadris estreitos e um traseiro perfeito, que mostravam que Taggart Worth ficava bem como ninguém no seu jeans. Com a respiração ofegante, Callie entrou no estábulo. Levou um tempo para que seus olhos se adaptassem à obscuridade, depois de terem saído da claridade. Ela viu Tagg dentro de uma baia, ao lado de uma velha égua que parecia muito cansada e debilitada. – Esta é Sadie. Ela era... Minha. – Tagg olhou para a égua com devoção. Callie sentiu o coração se enternecer e resolveu ficar afastada, dando-lhe espaço. Nunca o vira demonstrar tão claramente uma emoção: os olhos dele brilhavam de ternura, e ele falava carinhosamente com a égua enquanto a afagava. – Ela será ótima para as crianças. Vai gostar de receber atenção e as crianças irão adorá-la. Ela não tem muito tempo de vida. A égua encostou o focinho no pescoço de Tagg. – Ela ouviu o que você disse e vai lhe provar que está enganado. – Pode ser. Vamos levá-la para um passeio e ver como ela se comporta. Callie se aproximou. – A égua que eu tinha quando criança morreu. Eu gostaria que ela ainda estivesse viva. Eu tinha 8 anos quando presenciei o seu parto. Eu já tinha visto outros potros nascerem, mas, daquela vez, o meu pai prometera que o filhote seria meu. Quando ela se levantou e deu os primeiros passos, eu chorei. Foi amor à primeira vista. – Callie sorriu e olhou para Tagg. Ele também se aproximara, e ela via um brilho nos seus olhos, desta vez, dirigido a ela. Sadie recuou, mas o farfalhar da palha não perturbou nem interferiu no olhar intenso de Tagg. – O que mais? – O nome dela era Jasmine, como a princesa do conto de fadas. Eu me imaginava voando num tapete mágico com ela. – Ou ela voaria e a levaria na garupa. – Tagg sorriu.


– Não se brinca com os devaneios de uma criança. – Callie também sorriu. Ele era tão bonito... A sua fantasia de homem. Quando ela entrara no estábulo, o ambiente parecera escuro e fresco, mas, agora que estavam frente a frente, parecia ter se aquecido e exalava um cheiro forte de terra e de feno. – Suponho que você não tenha tido nenhum. – Estou tendo um agora mesmo. Callie olhou para a boca de Tagg com ansiedade. Ela o desejava. Sempre o desejara. – Eu também, Tagg. – Quando ele a puxou, ela não resistiu e o abraçou pelo pescoço. Semanas de ânsia, de desejo, de incertezas, tudo virou cinzas quando os lábios dos dois se tocaram. Tagg soltou um gemido abafado quando os seus corpos se colaram, obedecendo a uma atração impossível de evitar. Callie entreabriu a boca ao sentir que ele passava a língua em seus lábios e perdeu o fôlego, enquanto o seu corpo se incendiava. Ele a puxou pelos quadris e ela sentiu a sua ereção pulsar sob as roupas. – Ah! – Callie sentiu os joelhos enfraquecerem. O que a mantinha de pé era o braço que ele passara pela sua cintura, enquanto lhe soltava o cabelo. Ela resolveu realizar o desejo que tivera há poucos minutos: tirou o chapéu de Tagg, jogou-o longe, enfiou os dedos no cabelo que caía sobre a sua nuca e se afastou um pouco para recuperar o fôlego. – Fácil? – Tudo, menos isso. – Ele a beijou outra vez. – Conveniente? – perguntou ela. Ele riu. – Você deve estar brincando! – Ele a beijou novamente e depois olhou para ela. – Mas, de fato, linda. Ela sorriu e suspirou. – Obrigada. Tagg a abraçou novamente, mas, naquele momento, os dois perceberam que alguns empregados se aproximavam do estábulo. Ele se afastou imediatamente, pegou o chapéu e voltou a colocá-lo, olhando para ela com um ar constrangido. Quando os empregados entraram, ele pigarreou e falou em voz baixa: – Vamos sair daqui. – Ele pareceu querer pegá-la pela mão, mas mudou de ideia. Os dois saíram do estábulo caminhando lado a lado e entraram no jipe. Tagg acenou para os empregados e dirigiu em silêncio, de volta a Penny’s Song. Callie agradecia por ele nada dizer, por não declarar que não deveria tê-la beijado, por não negar que havia algo que os atraía como uma força da natureza. Ela esperava estar fazendo progressos com Tagg. ELA SÓ o pegara num momento de fraqueza, pensou Tagg, parando o carro perto de Penny’s Song. Num minuto, tudo se limitava ao pedido de Clay para que selecionassem os cavalos, mas ele vira Sadie e se tornara sentimental. Nada pior que um homem deixar que uma mulher perceba o quanto ele está vulnerável: no minuto seguinte, ele se deixara levar pelos olhares de compreensão e de compaixão de Callie e a beijara. Não iria se desculpar. Não negaria que tinha sido bom. Diabos, fora maravilhoso, mas Callie era uma mulher perigosa e ele jurara não se envolver com ela. Não podia esquecer quem era ela, quem ele era. Ele já tivera a sua chance no amor e a desperdiçara. Tagg saiu do carro e deu a volta para abrir a porta, mas Callie já a abrira e saía. Os dois se olharam, e ele falou primeiro, antes que ela dissesse algo que ele não quisesse ouvir. – Vou ver se os trabalhadores precisam de algo. Você vai ficar por aqui? – Só mais um pouco. Preciso fazer algumas coisas. – Tudo bem. Vou deixar que você faça o seu trabalho. Até logo. – Ele tocou a aba do chapéu e se afastou, mas Callie o chamou. Ele se voltou, preparando-se para o que ela teria a dizer. Não gostava de


analisar as coisas como as mulheres faziam. Ele a beijara. Fora ótimo. Ponto final. Duvidava que acontecesse outra vez. – Fizemos um bom trabalho na escolha dos cavalos, mas eu ainda quero montar Sunflower. Vou perguntar a Clay se posso fazê-lo amanhã. – Acho que amanhã eu não posso – disse Tagg, esfregando o queixo. – Pelo amor de Deus, eu não o estou convidando para um encontro. Posso cavalgar sem você e resolver sozinha. Ele escondeu a surpresa: Callie o colocara no lugar. – Claro, quanto mais cedo resolvermos, melhor. – É disso que se trata. – Despenteada, corada, afogueada, ela o encarava a distância. Tagg ficou parado, olhando para ela, enquanto ela ia embora. Fora ele que a deixara daquele jeito, e isto lhe causava uma estranha sensação de posse. Jed Barlow se aproximou e desmontou do cavalo. – Ei, Tagg. Que bom encontrá-lo aqui. Clay acha que você estará livre para o jogo desta noite. Os Diamondbacks vão jogar e depois eu vou tirar o seu dinheiro na mesa de pôquer. Precisamos de um parceiro: a filha de Brett Williamson vai casar, e ele ficará fora por uma semana. Baseball e pôquer eram o que ele precisava para tirar Callie da cabeça, pensou Tagg, que só jogava quando precisavam de um substituto. – Claro. Por que não? – Ótimo. Eu o vejo às 19h. – Jed se dirigiu ao estábulo, mas parou de repente. – Era com Callie Sullivan que você estava conversando? – Era. – Nunca pensei vê-la por aqui. Jed frequentara a mesma escola que os Worth. O seu pai possuía um pequeno rancho ao norte da propriedade. Depois de anos de luta para competir com os grandes ranchos da região, Kent Barlow desistira da criação de gado, e Clay imediatamente contratara Jed, que há cinco anos se tornara um leal empregado dos Worth. – Somos dois. – Tagg observou. – Ela é muito bonita. Quando estávamos na escola, eu gostava muito dela. Ela era uma ótima aluna, e eu estava afundando em inglês. Eu deveria ter uns 16 anos. Um dia, ela se ofereceu para me ajudar a fazer o dever de casa, e eu fui até o rancho Big Hawk. – Jed se interrompeu e deu um sorriso. – Acho que eu tinha algum instinto autodestrutivo. Mal eu tinha colocado o pé na porta, o pai dela me apontou uma espingarda e disse que Callie não receberia nenhuma visita. Disse que, se eu sabia o que era bom para mim, daria meia-volta e iria embora. – Deixou você apavorado, não foi? – Mais do que apavorado. Aquele homem é ignóbil. – Ele nunca me deu medo. – Você já tentou sair com a filha dele? – perguntou Jed. Tagg sacudiu a cabeça. O que acontecera entre ele e Callie não poderia ser chamado de encontro. – Não. Ela era mais moça. Eu mal conhecia Callie na escola. – Isto é bom. O Falcão não gosta dos Barlow e dos Worth. Uma vez, Callie me disse que fora proibida de falar com vocês. Parece que isso mudou.


– Ela se ofereceu para trabalhar em Penny’s Song como voluntária. Acho que o pai dela não tem mais muito a dizer a respeito do que ela faz. – Tagg não sabia por que se sentia impelido a dar explicações a Jed. – Ela se casou? – Não – disse Tagg. – Ah, então, tudo bem. – Jed abriu um enorme sorriso. – Posso tentar me reaproximar. Tagg viu Jed entrar no estábulo e tentou controlar a irritação. Não havia motivo para se zangar. O que Jed fazia quando estava de folga não era da sua conta, e o mesmo se aplicava a Callie. Porém, naquela noite, Tagg sentiu imenso prazer ao vencer o amigo na mesa de pôquer, embora atribuísse a sua satisfação apenas ao seu temperamento competitivo. – OLÁ, PAPAI. – Callie beijou a testa do pai e sentou ao lado dele, à mesa do jantar. Seu pai insistia em usar a sala de jantar, ao invés de comer na cozinha como faziam antes de sua mãe morrer. Dizia que pagava um bom salário à cozinheira e à empregada e que iria desfrutar do seu trabalho. Callie percebia que não era uma questão de formalidade, mas que aquela era uma maneira de seu pai fugir às lembranças. – Callie, querida. Onde você tem estado? Parece que eu tenho um fantasma, e não uma filha. Ouço você se movimentando, mas você sai cedo todo dia. Fazia apenas três dias que ela começara a trabalhar em Penny’s Song. – Todas as noites eu estou em casa para o jantar. Você prometeu me dar algum espaço. – Espaço – resmungou ele, pegando um copo de chá gelado. – Você e a sua lengalenga de psicologia. Eu tenho deixado que você faça o que quiser, não é? – Eu tenho quase 27 anos, pai. Já era de se esperar. – Você ainda está zangada por causa daquele tal de Troy. – Ele comeu uma garfada de salada e fez uma careta. Embora nunca tivesse comido uma verdura até que Callie insistisse para que ele comesse melhor, ele acabara por concordar e ficara grato por ter alguém que lhe dedicasse algum cuidado. – Você não tem direito de interferir na minha vida particular. Sabe como me sinto a respeito. E outra coisa: se não quer que eu mude o meu quarto, vou me mudar para outro que eu possa decorar do meu jeito. Eu não tenho mais 12 anos, pai. – Tem razão. Quando criança, você nunca me desrespeitou desse jeito. – Eu não o estou desrespeitando. Estou dizendo como me sinto. – Se redecorar o quarto vai fazer com que você passe mais tempo em casa, tudo bem. Faça o que quiser. Callie pegou na mão dele e a apertou. Sabia que intimamente seu pai sofria com a solidão. Ele sempre fora autoritário e sua mãe sabia como dobrá-lo, mas, depois que ela morrera, Hawkins se tornara ainda mais exigente. – Eu não vou mudar o quarto. Ficarei em outro. – Se isto a deixa feliz... Então, para onde você vai todas as manhãs? – Estou trabalhando como voluntária em uma obra assistencial. Hawkins olhou desanimado para o frango grelhado. Até Callie voltar para casa, sempre comera frango frito com purê de batatas feito com creme e molho. Ela precisou conter uma risada ao vê-lo parecendo um garoto que relutava em comer o que estava no prato.


– Essa obra assistencial tem um nome? – Penny’s Song. – Toda a comunidade conhecia o projeto que Clayton Worth lançara sozinho e que recebera o apoio de todos, formando uma longa lista de voluntários da cidade. – Está me dizendo que todos os dias você vai para o rancho dos Worth? Ela não se deixava intimidar por ele, como ele gostaria. Callie se lembrou de que morava ali para evitar que o pai cavasse prematuramente o próprio túmulo. Podia se mudar quando lhe aprouvesse. Não precisava concordar com os seus métodos impiedosos, mas ele era seu pai, e ela gostava de morar no Big Hawk. – Sim, é isto que eu estou dizendo, pai. – Ela não queria discutir e falou com calma. – Vou trabalhar com as crianças que irão para lá. Espero fazer alguma diferença na vida delas. – Os Worth não são... – Não se trata dos Worth, e sim das crianças e do que eu quero fazer. – Você prefere trabalhar de graça para eles a trabalhar para o seu pai? – Ele ergueu a voz com um tom de censura. – Este é o seu ponto de vista, pai, não o meu. Eu... Ele bateu na mesa com força, e esta balançou. – Este rancho é o seu legado, maldição! Callie não se assustou com o drama: cortou um pedaço de frango e comeu. Hawk se afastou na cadeira, vermelho de raiva. – Você não pode ir lá. Eu a proíbo. Você sabe que os Worth fariam qualquer coisa para me derrubar. Há anos que eles tentam. – O que eu faço nada tem a ver com o negócio de gado. – Callie suspirou, resolvida a não brigar. – E você não pode me proibir de fazer nada. – Callie... – falou ele num tom ameaçador, levantando-se da cadeira. – Você sabe como me sinto a respeito dos Worth. – E eu nunca entendi isso, pai. Sim, vocês são competidores, mas também são vizinhos. E um não prejudicou o outro. Você manteve o rancho Big Hawk no topo. Há espaço para todos, não há? – Pensando desse jeito, antes que eu vire de costas, você nos levará à miséria. – Então será melhor que eu não trabalhe para você – falou ela com um sorriso. O pai ficou ainda mais vermelho. – Callie... Você está testando a minha paciência. – Pai, eu não quero discutir com você. Sente-se e coma. Ele olhou para a comida no prato e esticou o dedo. – Você chama isto de comida? Isso é ração de cavalo. Callie fechou os olhos, frustrada. Pensou no filho que carregava: um Worth. Não queria nem pensar na reação do pai ao descobrir, e não estava na hora de lhe contar. Tagg deveria ser o primeiro a saber. Ela se levantou. Perdera o apetite. – Bem, então devemos ter cavalos muito saudáveis, porque eles sabem o que é bom para eles. Eles não irão morrer de problemas coronários. – Ela passou pelo pai e saiu pela porta da frente. Mal se afastara dois passos, quando o ouviu gritar para a empregada. – Mattie, faça-me um bife! Um bem grande, suculento, temperado e com molho! Ela suspirou, entrou no carro e deu a partida, feliz por se afastar de Hawkins Sullivan, feliz por estar longe do rancho que tanto amava.


NO DIA seguinte, Callie conversava com Jed Barlow à sombra de uma árvore, perto dos estábulos dos Worth, enquanto escovava Sunflower. – Foi uma boa cavalgada. Acho que Sunflower é bem domada o bastante para as crianças, mas eu precisava ter certeza. – O mesmo se aplica a Tux. Ele é muito manso – disse Jed. – Fico feliz por ter cavalgado com você. Callie sorriu para Jed. Os dois haviam sido colegas de escola, mas ela não o encontrara desde que voltara a Red Ridge. Ela escovava Sunflower, e ele escovava Tux. Fora agradável cavalgarem juntos, antes que o sol ficasse mais forte. Desde que ela voltara ao Big Hawk não tinha com quem cavalgar. Desejaria ter ido com Tagg, mas ele se recusara abertamente. Talvez realmente tivesse algum compromisso, já que administrava o império dos Worth, da sua casa. – Será agradável reatarmos a nossa amizade, Callie – Jed sorriu. – Eu também acho. Desde que voltei para casa eu não reatei a amizade com muitas pessoas. Alguns colegas de escola se mudaram, alguns se casaram e têm suas vidas. Portanto, será muito bom. – Eu também acho. – Jed parou de escovar o cavalo e olhou para ela. – Você sabia que eu era apaixonado por você no tempo da escola? – Não. Eu não achava que os meninos pudessem ficar apaixonados. – Jed era alto, louro e relativamente bonito, mas Callie não estava gostando do rumo daquela conversa. – Nós ficamos, mas somos machistas demais para admitir. O seu pai deu um jeito nisso. – Como? – perguntou ela, olhando para o céu. Tudo sempre terminava em seu pai. – Ele me expulsou do rancho uma vez. Você se oferecera para me ajudar nos estudos, e eu fui até lá. – Espingarda? Jed ficou surpreso. – Você sabia? – É um milagre que eu não tenha fugido de casa. Ele colocou alguns garotos para correr desse jeito. – Eu era muito jovem para perceber que ele blefava. Callie colocou a mão no braço de Jed, sacudiu a cabeça e riu. – O mais triste é que ele não estava blefando. Ele sempre foi superprotetor. Jed olhou para a mão dela e sorriu. Callie puxou a mão instintivamente. – Ainda é? – Eu tento não deixar que ele interfira na minha vida – disse ela com tristeza, imaginando como Jed deveria ter ficado apavorado. – Sinto muito não ter sabido. Claro que o meu pai não me contou. – Talvez possamos compensar a situação. Você gostaria de sair comigo um dia desses? Que tal no sábado à noite? Callie não previra aquele desfecho. Estava tão envolvida no que sentia por Tagg que se deixara confundir com o jeito amigável de Jed. O que poderia responder sem magoá-lo? – Ela não estará disponível – disse uma voz. Os dois se voltaram e viram Tagg encostado na árvore, de braços cruzados. – Tagg, o que faz aqui? – perguntou Callie. – Olá, Tagg. – Jed parecia confuso. – Eu vim para montar Tux. – Ele olhou para Callie com um ar de recriminação. Ela sentiu o coração acelerar e o seu corpo se incendiar. – Há quanto tempo você está aí? – perguntou ela, imaginando se ele teria ouvido a conversa.


– Acabo de chegar – respondeu ele. Ela percebeu que era mentira. – Parece que Jed me venceu na cavalgada. – Diabos, pelo menos posso vencê-lo em alguma coisa. Você me arrasou ontem à noite. – Arrasou? – Callie olhou para os dois. – No pôquer. Quando nos encontramos ontem à noite, eu ia me encontrar com Tagg e os rapazes para jogar. – Você se encontrou com ela? – perguntou Tagg, olhando fixamente para Jed. – Não foi bem assim. Eu estava dirigindo pela estrada e ela passou por mim no conversível vermelho, a mais de oitenta quilômetros por hora. – Não é verdade. – Ela se defendeu. – Estava – insistiu Jed. – Pé na tábua, como dizia minha mãe. E, de repente, ela parou o carro na beira da estrada. – Se eu estivesse na velocidade que você diz, nunca teria visto aquela vaca, Jed. – Ela se voltou para Tagg. – Ela ficou presa na cerca. Jed parou e me ajudou a soltá-la. Ela estava bem. – Callie tem um fraco por animais – disse Jed. Tagg não parecia estar satisfeito com os dois. Callie se lembrou do que ele dissera: “Ela não estará disponível.” Não que ela não estivesse contente por vê-lo. Ele evitara que ela tivesse que recusar o convite de Jed, mas a sua curiosidade era maior: – Por que eu não estarei disponível? Tagg se aproximou o suficiente para que ela visse o brilho cinza dos seus olhos e piscou para ela. – Porque no sábado temos um encontro para ver alguns cavalos. – Ah, tudo bem – disse Jed de bom humor. – Isto não levará o dia inteiro. Tagg olhou para ele rapidamente e voltou a fitar Callie. – Em Las Vegas.


CAPÍTULO 4

CALLIE FICOU boquiaberta. – Em Las Vegas? – Ela tentava entender. – Por que lá? – Eu tenho um amigo que nos ofereceu o melhor do seu haras. Ele vai nos doar dez cavalos, purossangues ou selvagens. Eles já fizeram a sua parte, mas estão velhos como Sunflower. – Tagg afagou a égua. – Só precisamos selecionar os que nos servem e providenciar o transporte. Callie imediatamente pensou no benefício que isto traria para as crianças. – É fantástico. E é preciso que eu vá? – Clay faz questão que você vá. A ideia de passar algum tempo com ele a atraía em todos os sentidos, mas Callie se perguntou se Tagg não estaria aborrecido. – Temos assuntos a discutir, Jed. Poderia cuidar dos cavalos? Eu levo Callie de volta ao carro. – Claro – disse Jed, despedindo-se e levando os cavalos. Callie passou a mão na cabeça, pensando que acabara de se livrar de uma situação constrangedora. – Você ia sair com ele? – perguntou Tagg. – Jed? Não. – Ela ergueu o queixo. – Não que isto seja da sua conta. – Certo. Tem razão – falou ele com malícia. – Eu não tenho muitos amigos aqui. Eu e Jed fomos colegas de escola. É bom reatar algumas amizades. – Ele tinha uma queda por você. – Tagg sorriu. – Você ouviu! Estava escutando a nossa conversa! – Foi fascinante. Eu não quis interromper. – Mas interrompeu. No momento em que Jed me convidou para sair. – Ela olhou para ele desconfiada. – Não finja que não salvei a sua pele. Você estava procurando uma desculpa. Callie abriu a boca para protestar, mas ele tinha razão: percebera o seu dilema. – Verdade. – Ela odiava admitir. – Então, algum problema em ir para Las Vegas? Você não precisa ir, mas é a “especialista em crianças”...


– Isto é um pedido? – provocou ela. Ele assentiu. – De Clay? Tagg olhou para o chão e coçou o queixo. – Eu ainda não disse a ele. – Mas você disse que... – Callie se calou. Seria possível que Tagg quisesse que ela fosse? Que a ideia tivesse sido sua? – Devemos partir hoje às 17h. John é um velho amigo dos rodeios. Ele nos convidou para jantar. Considerando as circunstâncias, eu não podia recusar. Você vai? – Sim! Estarei pronta às 17h. – Tocando sinos, ela pensou. VOCÊ É uma garota de sorte, Callie Sullivan, ela pensou, enquanto fazia a mala, dando graças a Deus por seu pai ter ido para Houston naquela manhã. Não haveria discussões a respeito de onde ia, nem repercussões quando voltasse. Com sorte, voltaria antes do pai e ele não saberia que ela viajara. Quando Tagg telefonara há algumas horas para dizer que a pegaria em casa, ela ficara contente por lhe dizer que seu pai não estava em casa. – Quer dizer que não vou encarar uma espingarda? Callie rira da piada, embora soubesse que jamais o deixaria ir até lá se o pai estivesse no rancho. Ela fechou a mala e escolheu a roupa que usaria naquela noite: um vestido preto, cruzado no peito e fechado por um botão de strass, que caía suavemente até os joelhos. Era apropriado e não muito provocativo. Calçou sandálias de tiras pretas e saltos altos, penteou o cabelo, aplicou uma maquiagem suave e se vestiu. Estava pronta às 16h30. Pontualmente às 17h, um Lincoln preto parou diante da porta. Da janela, ela viu Tagg sair do banco de trás e parar ao lado da limusine. Ela soltou uma exclamação de admiração. Ele estava lindo, vestindo uma camisa branca, paletó preto de lapelas largas, calça jeans, e usando um chapéu escuro. Ele bateu na porta e, quando ela abriu, sentiu o seu perfume. O pacote completo fazia com que o coração de Callie batesse mais forte e mais depressa. Ela deu um sorriso, percebendo que era a sua grande chance de impressioná-lo. Queria estar tranquila e elegante naquela noite, saber o que dizer, mantê-lo intrigado e interessado. Mas, então, ela se lembrou de que iriam escolher cavalos em um rancho, e não sair para um encontro. Tagg olhou para ela e os seus olhos brilharam de aprovação ao ver que ela prendera o cabelo parcialmente para trás, deixando-os cair pelas costas. Ele desceu os olhos para o seu pescoço e para o decote. Callie sentiu os mamilos se eriçarem e, ao vê-lo franzir a testa, imaginou se ele teria percebido. Tagg terminou a inspeção descendo os olhos até suas pernas. – Bonita. Ela ficou feliz. – Você também não está mal, cowboy. Callie trancou a porta e os dois se encaminharam para o carro. O rancho Big Hawk era semelhante a todos os outros, incluindo o dos Worth: a casa de dois andares se espalhava pelo terreno, pintada de branco e com acabamentos em madeira, um celeiro, os estábulos, o alojamento dos rancheiros e alguns barracões que se espalhavam por mais de 3.000 hectares de terra de primeira qualidade. O gado pastava a distância e o ar exalava o aroma de flores do campo e de capim, misturado com o cheiro de terra e de gado. Um motorista os esperava ao lado da porta do carro e Tagg lhe entregou a mala de Callie.


– Obrigado, Emmet. Callie reparou que o banco traseiro tinha espaço suficiente para esticarem os braços e as pernas, embora ela estivesse bem consciente da proximidade de Tagg, que insistia em se manter distante e frio. Ela se perguntou se conseguiria ultrapassar as defesas que ele construíra, se ele a deixaria se aproximar o bastante para tentar, antes de lhe contar a respeito do bebê. Esconder alguma coisa de um homem como ele podia ser perigoso. Ela rezava para não estar cometendo um erro. TAGG NÃO gostava de aeroportos, nem de voar, mas isto nunca o impedira de ir onde precisava. Não se tratava de medo, mas de um profundo ódio por aviões. Quando chegava perto de alguma pista de pouso, logo se lembrava do acidente de Heather. Depois daquele dia fatídico, ele deixara de voar no jato da família e seus irmãos haviam resolvido desativar o campo de pouso em consideração à sua falecida esposa. Ele e Callie pegaram um voo regular no aeroporto Sky Harbor, e Tagg providenciou para que viajassem de primeira classe. Não queria que ela se sentisse apertada e desconfortável, e sim que fizesse uma viagem agradável, embora não quisesse saber por que isto lhe importava. Assim que o avião levantou voo, ele abriu o cinto de segurança e se voltou para ela. – Eu sei que você conhece tudo a respeito de cavalos. É o que se espera de alguém que cresceu num rancho, mas estou curioso para saber como você se tornou especialista em crianças. – Eu... Hã, isto é realmente impossível – disse Callie, tentando tirar o cinto de segurança. Tagg se inclinou sobre ela, abriu o cinto e sentiu o perfume a que tanto resistira dentro do carro. Ela cheirava tão bem! Ele se aprumou na poltrona. – Obrigada. Respondendo à sua pergunta, eu sou formada em Psicologia pela Universidade de Boston. Durante algum tempo, trabalhei no Departamento de Serviço Social. Era um trabalho árido, aborrecido, não o que eu realmente queria fazer. Mas então, algo me aconteceu: eu fui assaltada. – Você foi assaltada? – Fui. – A expressão de Callie se tornou doce e pensativa. – Foi algo estranho. Eu não acreditava que estivesse acontecendo. – Ele a machucou? – perguntou ele, sem entender o jeito dela. – Ah, não. E não era ele, era ela. E ela devia ter, no máximo, 11 anos. – Uma criança a assaltou? – Sim. É difícil de acreditar. Eu estava andando numa rua cheia de gente, em um bairro nobre da cidade, e senti que arrancaram a bolsa do meu ombro. Ela me pegou tão desprevenida que, mesmo ao vê-la correr, eu não entendi o que tinha acontecido. Ela era tão jovem e obviamente carente... Dava para perceber, pelas roupas e pelo cabelo espetado, que ela não tomava um banho há várias semanas. – Você chamou a polícia? – Não. Eu corri atrás dela. – Você? – Claro. Eu fui criada correndo atrás de cachorros e montando cavalos, e havia algo... Eu não sei... Havia uma vulnerabilidade e uma vergonha no rosto daquela menina, e eu senti que precisava ir atrás dela. Precisava alcançá-la e... Recuperar a minha bolsa. Ela me fez correr vários quarteirões. Eu acabei numa parte muito pobre da cidade, com edifícios precários e tudo mais. Por fim, ela parou e se voltou para mim. Ficamos nos olhando, as duas sem fôlego. Ela estendeu a mão e me devolveu a bolsa. Quando pensei que ela iria fugir, ela começou a chorar convulsivamente. – Callie se virou no assento e


olhou para Tagg. – Ela se chamava Amber e tinha um irmãozinho chamado George. A mãe estava doente há muito tempo, e eles não tinham dinheiro. Amber me disse que nunca roubara antes, e eu acreditei. – Callie contou como ela providenciara assistência médica para a mãe da menina e como começara a trabalhar em uma fundação destinada a atender crianças carentes. Amber e George tinham sido as primeiras crianças que ela atendera na fundação. – A partir daí, eu soube que queria trabalhar com crianças. – Mas, se você gostava tanto, por que voltou? – Nunca pretendi morar no leste. Sou uma garota do campo, e quando meu pai teve um problema de saúde, eu soube que era hora de voltar para casa. Mas nada do que faço parece dar certo. Ele é como um tornado. Não consigo fazê-lo parar ou se acalmar. Até hoje ele acha que sabe o que é melhor para mim... Tagg não queria conversar a respeito do pai dela e deixou a conversa morrer. Quando chegaram a Las Vegas e o táxi que os trazia do aeroporto parou em uma larga entrada da Las Vegas Strip, Callie se espantou. – O Bellagio? Pensei que iríamos ficar hospedados no rancho do seu amigo. – Temos um apartamento na cobertura. Eu gosto de me espalhar quando estou na cidade. – Mas Tagg precisou admitir que, depois de ter visto Jed se jogando em cima de Callie, espalhar-se era a última coisa que ele gostaria de fazer naquela noite. Ele recusara o convite de John para ficarem em sua casa. Queria ficar com Callie, se ela concordasse. Estava cansado de negar. – Você vem muito aqui? – Algumas vezes por ano. Venho a negócios, ou para assistir às finais de rodeios. – Ele a ajudou a sair do táxi, apoiou a mão nas suas costas e a fez entrar no lobby do hotel. Tagg chamou a atenção de Callie para o enorme candelabro que havia no teto, composto por milhares de pétalas de cristal colorido. – Aquelas pétalas sempre me deixam fascinado. Parece algo de contos de fadas. Callie olhou para o teto e comentou que parecia estar sonhando, que já ouvira falar do candelabro, mas nunca o vira. Eles entraram no elevador, e Tagg a levou para o apartamento, que não passava de um capricho de seus irmãos. Ele abriu a porta, e Callie entrou devagar. A suíte era maior do que muitas casas, e elegantemente mobiliada. A vista da janela dava para a avenida iluminada. – É bonito, Tagg. Entendo porque você falou em se espalhar. – Os Worth gostam de espaço. – Ele mandou que o camareiro colocasse a bagagem de Callie na suíte principal e a sua no outro quarto. – Só temos tempo para nos refrescarmos antes do jantar. Meia hora depois, eles chegaram a um pequeno restaurante italiano, conhecido apenas pelos residentes locais. Assim que Tagg entrou, sentiu o cheiro de azeite, alho e pão fresco. John elogiara a comida e Tagg apreciara a ideia de ficarem longe dos turistas. Eles encontraram os Cosgrove sentados num canto, em uma mesa enfeitada com flores e iluminada pela chama de velas, e a conversa fluiu com facilidade. John Cosgrove e sua esposa, Sadie, estavam na casa dos 60 anos, mas pareciam ter metade da sua idade. Além de amigo, John fora o mentor de Tagg nos seus tempos de rodeio. – John não é apenas rancheiro. Ele tem o seu próprio rodeio – disse Tagg a Callie. – Foi assim que eu conheci Tagg. Ele domou alguns dos meus cavalos premiados. E quanto a você? Como se envolveu com este cara? Cara ficou sem graça. Sadie olhou para o marido com um ar de advertência. – Callie é minha vizinha. Ela é filha de Hawk Sullivan – respondeu Tagg. – Verdade? – perguntou John.


– Verdade – disse Callie, olhando para Tagg. Ele sorriu: gostava de tudo às claras. – Acabo de voltar de Boston, onde fui estudar e trabalhar. Ouvi falar a respeito de Penny’s Song e percebi que gostaria de ajudar. Tagg e eu estamos... Trabalhando juntos no projeto. – Eu tenho alguns negócios com seu pai. Ele é um negociador muito esperto – disse John. Callie suspirou. Não se sentia à vontade falando sobre seu pai. – Obrigada. Eu sei que você está sendo gentil. Sadie entrou na conversa e mudou de assunto. – Tagg, sabia que Blue Yonder reproduziu um garanhão? Ouvi dizer que ele também é magnífico. – É mesmo? Aposto que ele já está reservado. – Tagg suspirou. Fazia três anos que ele tentava comprar o cavalo árabe, mas o dono se recusava a vender. – Os Kent se recusam até a falar comigo. Não posso culpá-los. Se aquele cavalo fosse meu, eu não deixaria ninguém chegar perto dele. – A lista de lances pelo potro tem alguns quilômetros. – Qual é o nome dele? – Wild Blue – disse John. – Belo nome. Acho que é uma causa perdida. Aposto que eles vão ficar com o cavalo. – Nunca se sabe – disse Sadie. A refeição foi servida e Tagg não se recordava de já ter comido tão bem. Callie pedira uma enorme salada e ele ficou satisfeito ao ver que ela já comera mais da metade. Ela comia pouco e recusara o vinho que todos bebiam. Tagg reconheceu que Callie estava extremamente elegante. O vestido preto acentuava a sua pele clara e macia, e a luz das velas fazia sombras sobre o seu cabelo e sobre os olhos escuros, fazendo com que ele se arrepiasse de desejo e se lembrasse de como ela era sem o vestido, uma lembrança que não o abandonava e que ele gostaria de duplicar. Depois do jantar, os Cosgrove os levaram de volta ao hotel e combinaram de se encontrar com eles na manhã seguinte. Tagg entrou na suíte e foi direto até o bar. Lembrou-se do que Callie bebera em Reno, serviu-se de uma dose de uísque e preparou um rum com refrigerante para ela. – Você deve estar cansada. Foi um longo dia. – Ele lhe ofereceu a bebida e ela recusou, voltando-se para a janela. Tagg pensou que ela parecia nervosa e pensativa. – Está tudo bem? – Ele parou ao lado dela e bebeu um gole de uísque. – Hoje você não está bebendo. É porque não quer que o que aconteceu em Reno se repita? Ela se voltou para ele com um olhar amável. – Se é isso que você pensou, eu não dormi com você porque estava bêbada. – Parece que naquela noite eu não estava pensando em nada. Callie deu uma risada amarga. – Foi o que você deixou bem claro. – Ela cruzou os braços e se voltou para a janela. – Eu não disse isso como um insulto, Callie. – Também não foi um elogio. Tagg pousou o copo na mesa, ergueu o queixo de Callie e olhou dentro dos seus olhos. Ela se encolheu, descruzou os braços e suspirou. – Foi um cumprimento. Você me fez esquecer coisas que eu resolvi jamais esquecer. – Ele notou que os lábios de Callie tremiam. – Por que está tão nervosa? – Não estou. – Ela recuou e ergueu a cabeça. – Não há nada para me deixar nervosa. Eu estou cansada. Vou me deitar. Tagg esqueceu a prudência e a abraçou pela cintura.


– Você está realmente cansada? Ela balançou a cabeça e olhou para ele. O silêncio ocupou a sala. A luz das estrelas entrava pelas janelas, brincando com as sombras. Tagg abaixou a cabeça e chegou mais perto. Os seus corpos se tocaram, ele sentiu a ânsia aumentar e encostou os lábios nos dela. Callie ficou imóvel e os seus lábios resistiram por um segundo. Quando ele estava a ponto de se afastar por não querer seduzir uma mulher que não o desejava, ela o abraçou pelo pescoço e o beijou com paixão. Da maneira que ele se lembrava, do jeito que haviam se beijado antes. Ela era docemente atraente, hesitante, mas firme. Tagg adorava tê-la nos braços. Um minuto depois, os dois se afastaram para recuperar o fôlego. – Eu achei que você não queria que isto acontecesse outra vez – disse ela. Sim, ele dissera e fora sincero. – Acho que eu estava me enganando. – O que mudou? – perguntou ela. Você, Tagg queria responder. A minha maneira de vê-la. Ele passara a conhecê-la e gostara do que vira. Ela amava os cavalos, o Arizona e a vida em cidades pequenas. Amava até o miserável do pai. A história que ela contara a respeito de Amber e de George despertara o seu instinto de proteção, mas ele não deixaria que ela soubesse. Não deixaria que ela percebesse que o atingira, que a melhor coisa que lhe acontecera fora tê-la encontrado em Reno. Porque isto não fazia sentido: no seu coração, não havia lugar para outra mulher. Ele resolvera se isolar emocionalmente e não havia volta. Tagg resolveu que seria melhor dizer uma verdade que Callie pudesse entender. – Jed. Ele estava cercando você e eu resolvi ajudá-la. – Você resolveu me salvar? Tagg olhou para longe e voltou a fitá-la. – De certa maneira sim. Callie parecia perplexa. – Você ficou com ciúmes? – Não – mentiu ele. Vira tudo mais verde que o pasto depois da chuva. Callie fez cara de quem duvidava. Aproximou-se e roçou os lábios nos dele. – Nem um pouco? – Ela o viu sacudir a cabeça, e lhe lambeu os lábios. – Tem certeza? Tagg sorriu. Aquela era a mulher ousada e sexy de quem ele se lembrava. – Callie... – advertiu ele. Sem dar a ela uma chance de recuar, ele a puxou pelos quadris, pressionando-a contra a sua ereção, e a beijou com desespero. Callie gemeu de satisfação, e gemeu novamente quando ele lhe tirou o vestido. Os dois se despiram mutuamente num frenesi, até que ela ficou nua em seus braços, e ele quase despido. Tagg a carregou para o quarto, colocou-a sobre a cama e se demorou a admirá-la. Deitada, com o cabelo espalhado sobre o peito, os seios tentadores e arredondados. Callie sorria para ele, enquanto ele acabava de se despir, incentivado pelo brilho de desejo que via nos seus olhos. ELE PEGOU um preservativo na gaveta da mesinha e ela estremeceu, sentindo-se culpada. Ele já a engravidara, mas não sabia. O preservativo era o símbolo da sua farsa. Ela odiava enganá-lo, mas não tinha coragem de dizer a Tagg que ele seria pai, depois de ter lhe escondido o fato durante semanas. Se lhe contasse agora, tudo entre os dois estaria acabado para sempre antes de começar.


Callie mordeu os lábios e fechou os olhos, desejando que, de alguma maneira, tudo desse certo. Precisava de um milagre, mas não era otimista a ponto de acreditar que lhe fosse concedido. O colchão afundou quando ele se deitou ao seu lado. – Callie? Para onde você foi? Ele cheirava a uísque e desejo, e o corpo de Callie reagiu. Seus mamilos endureceram ao ouvir o som da voz de Tagg. Ela abriu os olhos e viu o seu rosto encostado no dela. Ele aspirava o perfume dos seu cabelo. – Estou aqui, Tagg – sussurrou ela, relaxando. Não iria dizer a ele. Os dois precisavam de tempo. Não era egoísmo da sua parte. O futuro do bebê estava em jogo. Seria errado esperar pelo prêmio, esperar que, com o tempo, ele se apaixonasse por ela? Seria errado esperar por um final feliz? Ela sentiu que ele lhe mordiscava o pescoço e deslizava seus lábios até o meio dos seus seios. – Ótimo. Fique comigo. Era o que ela pretendia: ficar com Tagg, pertencer-lhe pelo resto da vida, mas, no momento, a sua pretensão parecia difícil de alcançar e, embora estivesse com ele, a culpa não a abandonava. Mesmo quando ele a beijava, quando passava as mãos ao longo do seu corpo, fazendo-a gemer de prazer, mesmo ao acariciá-la entre as pernas, até levá-la a um orgasmo que a fez gritar. – Você chegou lá muito rápido – disse Tagg com um inconfundível tom de satisfação. Callie esqueceu seu conflito e se entregou ao prazer. O remorso teria de esperar. Ela estava com Tagg e não havia outro lugar onde preferisse estar. Ela o sacudiu pelos ombros e ele caiu na cama, dando uma risada. – Você me provoca isso facilmente – sussurrou ela. – Está dizendo que você é fácil? Callie se levantou na cama e ajoelhou em cima dele, acariciando a sua ereção. – Só com você. Ele olhou para ela com os olhos pegando fogo. – É bom saber. – Vamos ver quão fácil você é. – Callie baixou a cabeça em direção à virilha dele, até que ele soltou um gemido rouco. Ela se lembrou de que ele não fechava os olhos quando fazia sexo: gostava de olhar e, naquele momento, a sua expressão era exultante, deliciada. Ela o amava tanto que chegava a doer, e tudo que podia fazer era demonstrar. Callie percebeu que ele estava pronto, e se afastou. Os dois estavam em sintonia. Tagg pegou o preservativo, e ela o ajudou a colocá-lo. Ele a puxou para cima. – Tagg – gemeu ela, começando a ondular os quadris. Sentia-se tão bem e completa! Fora com aquilo que sonhara: tê-lo dentro do seu corpo. Ela o ouviu soltar um palavrão e sorriu. Sabia que ele estava olhando para ela, e isto também a excitava. Ela começou a se movimentar e a acariciar os seus seios para que ele visse, levantando o corpo e abaixando-o novamente, enquanto os dois gemiam de intenso prazer. – Fique comigo, Callie. Estamos quase chegando lá... – falou ele com dificuldade. Os dois estavam tão perto... – Depressa, Tagg. Foi tudo que ele precisou ouvir. Ele a agarrou pela cintura e a puxou sobre o corpo com uma energia que ela não conseguiria ter, assumindo o controle, fazendo com que ela se entregasse. – Eu estou pronta – gemeu Callie. Ele a segurou pelos quadris e a balançou para frente e para trás, e os dois atingiram o êxtase juntos, soltando gemidos de completa satisfação. Ele a abraçou, enquanto os


dois retomavam o fôlego. Fora lindo, maravilhoso, mas, agora que terminara, ela não conseguia olhar para ele, por medo que ele visse o que sentia. – Você está bem? – perguntou Tagg. Callie assentiu e engoliu em seco, mas não conseguiu falar. Ele lhe beijou o pescoço e deslizou os lábios na direção da sua boca, mas ela virou o rosto. Ele lhe pegou o queixo e fez com que ela o encarasse. – Tem certeza? – Tenho. Ele soltou um suspiro de alívio e a abraçou. – Isto foi muito bom. – Ele a viu concordar com a cabeça. – Callie? – Só muito bom? – Ela o amava e perdera a cabeça e o coração por um simples “muito bom”? Para ela, não se tratava apenas de sexo, mas sim de emoções, de sentimentos, de amor. Embora soubesse que deveria estar encantada e satisfeita por terem feito sexo, sentia-se vazia e culpada por ter um segredo. – Ótimo. Incrível. Perfeito. Você não me desapontou, Callie. – Nem você. – Ela deitou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos. Ele passou a mão no seu cabelo. – Mas você acha que foi um erro? Ele ficou rígido e hesitou por um tempo, começando a preocupá-la. – Eu não conseguiria ficar longe de você. Então, não foi um erro. E quanto a você? – Absolutamente, não. – Ficar com ele jamais seria um erro. Callie sabia que as conversas depois do sexo sempre eram carinhosas e agradáveis, até que o dia raiava e com ele se voltava à realidade. Tagg não queria ter um relacionamento, mas tentava fazer com que ela se sentisse melhor. Os homens não costumavam analisar os próprios sentimentos depois de terem feito sexo. Ela resolveu não dizer mais nada para não estragar o momento. – Você quer alguma coisa, uma bebida? Algo para comer? – perguntou ele. – Não, mas se você quiser, fique à vontade. Ele riu. – Realmente? O que eu quero não está na cozinha. – E o que é que você quer? – perguntou ela, sorrindo para ele. TAGG ACORDOU antes do amanhecer, com a cabeça de Callie aninhada no seu ombro, o cabelo espalhado pelo seu peito, e com o perfume único que o deixava louco. Ele pousava as mãos em suas nádegas. Convencera Callie a dormir nua, mas agora se questionava a respeito da sabedoria daquele capricho. Ele teria dormido melhor se não tivesse insistido. Acordara excitado há 20 minutos e não esperaria mais. Estava ansioso como um adolescente. Callie se mexeu e comprimiu os seios contra o seu corpo. Ele praguejou ao sentir o corpo latejar e se perguntou se não teria cometido um enorme erro ao levá-la para a cama. Não: tinha sido extraordinário. Mas ele não podia esquecer quem ela era. Não podia esquecer que ela não era o tipo de mulher de quem ele se desvencilhava depois do sexo. Ele já fizera aquilo uma vez com ela e se arrependera. Callie se mexeu novamente e Tagg conteve a respiração, esperando que ela acordasse. Ele a desejava. Ela era um privilégio que ele não podia se conceder, mas ao qual não conseguia resistir. Callie abriu os olhos e olhou para ele, sonolenta. Ele a beijou ternamente. – Bom dia. – Ainda não era dia realmente. – Bom dia – respondeu ela, enfiando os dedos nos pelos do peito de Tagg. – Você dormiu bem?


Ele passou a mão pelos seus quadris e ela se arrepiou. – Eu estou acordado há algum tempo, esperando por você. Callie olhou para ele, desceu os olhos pelo seu corpo, até abaixo da cintura, e sorriu. – A culpa não foi minha. Você me pediu para não ir embora. E para que eu não vestisse a camisola. – Fique nua. Durma comigo, ele dissera. – Não faria diferença. Ter você sob o mesmo teto é suficiente. Callie mordeu os lábios e lhe lançou um olhar malicioso. – O que vamos fazer a este respeito? Tagg a fez deitar de costas e se colocou em cima dela. – Eu tenho um plano. Horas mais tarde, saciado e abraçado com Callie, Tagg acordou com o sol invadindo o quarto. Estava na hora de levantar e começar o dia. Ele percebeu que poderia ficar uma semana na cama com Callie, e isto o abalou. Ela era uma amante fantástica, lhe proporcionara o melhor sexo que já fizera na vida. E isto o preocupava. Ele não sabia o que fazer. Não tinha o que oferecer a ela. Um relacionamento, um namoro: cansara dessas coisas, não estava disposto. E ele não podia esquecer que ela era filha de Hawkins Sullivan. Quando Callie se espreguiçou languidamente, ele lhe acariciou o braço. – Ah, é tão bom... Estou tão... Cansada. Tagg lhe beijou a cabeça – Volte a dormir. Ainda temos algum tempo. – Eu não vou acordar com um bilhete no travesseiro, vou? – Ela esperou que ele respondesse, antes de cair no sono. – Eu estou aqui, Callie. Não vou a lugar algum.


CAPÍTULO 5

TAGG OLHOU o relógio e contraiu o queixo enquanto perambulava pelo escritório de Clay. Há 15 minutos esperava pela reunião que teria com Clay e com Callie, para discutirem a respeito do levantamento de fundos para Penny’s Song. O rancho normalmente cheio de atividade parecia um necrotério. Não havia ninguém à vista. Tagg costumava gostar de solidão, mas naquele dia estava extremamente ansioso para ver Callie. – Desculpe o atraso. – Clay entrou na sala e jogou o chapéu no sofá. Tagg soltou um grunhido. – Jackson não virá. Ficou ocupado na cidade. Você quer uma bebida? – Clay foi até o bar e se serviu de chá gelado. – Não para mim – disse Tagg, olhando para o relógio. Passava das 11h20. – Para que hora você marcou a reunião? – Onze. Onde está Callie? Era isto que Tagg queria saber. Ele a deixara no rancho Big Hawk depois de terem concluído os negócios com os Cosgrove, e dissera que iria lhe telefonar. Haviam se passado dois dias, enquanto ele tentava encontrar o que dizer a ela. E quando ele descobrira, no dia anterior, ela não atendera o celular. Ele deixara duas mensagens, mas ela não respondera. – Não sei. Não a vejo desde que voltamos de Las Vegas. – Como foi a viagem? Eu não vi vocês desde que voltaram. – Tudo bem. Os Cosgrove nos deixaram experimentar alguns cavalos e escolher os que mais se adequavam a Penny’s Song. Estou providenciando o transporte para o rancho. Eles deverão chegar a tempo. – Obrigado. Foi de grande ajuda. Você e Callie trabalharam bem juntos? Tagg assentiu. O que poderia dizer? Que ele e Callie haviam dividido os lençóis no Bellagio? Que ela lhe concedera mais uma noite de sexo sensacional? E que, a partir daquele dia, ele deliberadamente se afastara, por saber que não daria em nada? – Nós nos demos bem. Ela entende de cavalos. Clay sentou numa cadeira e esticou as pernas. – Estou surpreso por ela não ter chegado. A reunião foi ideia dela. Tem certeza de que nada fez para aborrecê-la? Eu sei que você não gosta dela.


– Não ponha palavras na minha boca – falou Tagg irritado. – Então, você gosta dela? – Você a contratou. Eu tenho que trabalhar com ela. – O fato é que ele gostava de Callie, mas isto nada mudava. – Que mau humor! – observou Clay. – Não mais do que o normal – respondeu Tagg, olhando pela janela. Onde estaria Callie? Odiava admitir, mas queria vê-la. Ele voltara para uma casa vazia e, embora isto normalmente o agradasse e o deixasse à vontade, sentira-se agitado e tenso. Ele pensara em ter um caso passageiro com ela e imaginara se ela iria querer a mesma coisa. Estivera a ponto de tocar no assunto durante o voo de volta, mas Callie encostara a cabeça no seu ombro e dormira. Ele a abraçara e fechara os olhos, sentindo uma estranha sensação de paz que atribuíra às emoções despertadas por mais uma noite satisfatória de sexo. E só. E mudara de ideia quanto a se envolver ainda mais com ela. – Não é típico dela se esquecer – disse Clay. – Eu sou bom juiz de caráter, e Callie me pareceu ser alguém em quem se pode confiar. Você acha que aconteceu alguma coisa com o pai dela? – Não teríamos tanta sorte – disse Tagg. Clay riu. – Ele realmente lhe revolta o estômago. – Ele nos roubou um negócio bem debaixo do meu nariz. Ainda não descobri como ele fez. Pensei que estava tudo acertado. – Este foi um negócio duro de perder. – Clay olhou para o relógio. – Acho que ela não vem. Enquanto você telefona para ela, vou falar com Jed. Talvez ela esteja à nossa espera na obra. Clay foi telefonar na outra sala. Tagg pegou o celular e ligou para Callie, mas a ligação caiu na secretária eletrônica. – Aqui é Tagg, Callie. Estamos esperando por você na casa principal. Tínhamos uma reunião às 11h. Clay deseja saber se você vem. Ele falara num tom frio e direto. Não queria que Clay desconfiasse do que houvera entre os dois. Se seus irmãos soubessem o que acontecera entre ele e Callie em Las Vegas, não lhe dariam mais descanso. Clay voltou à sala. – Jed não a viu. Ela iria parar na obra para deixar alguns livros infantis no dormitório, mas não apareceu lá também. – É claro que ela não vem – falou Tagg, frustrado. – Não adianta esperarmos mais. Eu preciso trabalhar. – É, eu também. Eu o aviso se ela me telefonar. Tagg saiu da casa com um mau pressentimento que não conseguia explicar, mas, se encontrasse Callie mais tarde, naquele dia, iria até o fundo para descobrir. NAQUELA NOITE, depois de mais dois telefonemas sem resposta, Tagg bateu na porta do rancho Big Hawk, desta vez, sem a expectativa de passar um fim de semana com a filha do seu inimigo. Odiava admitir, mas estava preocupado com a segurança de Callie. A empregada abriu a porta. – O meu nome é Taggart Worth. Preciso falar com Callie. Ela está? – Ela está em casa, sr. Worth, mas não está...


– Eu cuido disto, Antoinette – disse uma voz atrás dela. A empregada se afastou imediatamente e deu lugar ao patrão. Tagg se viu cara a cara com o Falcão. – Estou à procura de Callie. – Eu soube. – E sei que ela está aqui. Gostaria de vê-la. – Tagg viu o homem sacudir a cabeça e olhá-lo, de cima a baixo, com os olhos chispando de ódio. – Eu deveria expulsá-lo da minha propriedade. – Vai pegar a espingarda e me botar para correr? – Depois do que você fez com a minha filha, estou tentado a fazer mais do que apenas colocá-lo para correr. Tagg hesitou. Já vira Sullivan furioso antes, mas a sua indignação era mais séria do que pensara. O que ele fizera com Callie? Ela era adulta, sabia o que estava fazendo. Se o seu pai não aprovava, que aguentasse. – Eu gostaria de falar com Callie. – Para descobrir por que ela não responde aos meus telefonemas. – Primeiro você vai falar comigo. Tenho algo a lhe dizer. – Sullivan se afastou e Tagg aproveitou para entrar. A casa tinha o piso de carvalho e acabamentos em madeira. Enquanto seguia o Falcão, Tagg admirava a mobília antiga e procurava Callie. Talvez ela estivesse no primeiro andar. Sullivan fechou a porta do escritório, sentou do outro lado da escrivaninha de mogno e foi direto ao assunto. – Você engravidou a minha filha – disse ele. Tagg olhou para o velho e perdeu a fala. – É isso. Ela está lá em cima, vomitando as tripas. Não consegue engolir nada. Logo reconheci os sintomas. A mãe dela ficou do mesmo jeito quando estava grávida. Aquilo era a última coisa que Tagg esperava ouvir. Callie estava grávida de um filho seu? As emoções se sucediam dentro dele, e ele não sabia qual delas iria permanecer: negação, revolta, perplexidade. Ela não podia ter engravidado em Las Vegas. Até ele sabia que era muito cedo para que ela sentisse náuseas em apenas dois dias. Isto significava que Callie engravidara em Reno, há seis ou sete semanas. Sullivan apoiou as mãos na mesa e se inclinou para frente, com um sorriso maldoso. – Você parece surpreso. Ela não lhe contou, não é? Tagg sacudiu levemente a cabeça, viu a expressão de satisfação do velho e precisou recorrer a toda a sua força de vontade para não lhe dar um soco. Ele também se apoiou na mesa e se inclinou. – Há quanto tempo ela sabe? – Isto faz diferença? – Hawk sacudiu os ombros. – Faz – resmungou Tagg. – Um mês, talvez mais. – E por que eu deveria acreditar em você? – Callie gosta de beber uma taça de vinho no jantar. Ela parou de beber. Está tomando limonada a pretexto de que o vinho tem lhe dado dor de estômago. – Talvez seja verdade. – Besteira. E você sabe. O fato é que ela foi visitar a prima em Reno porque eu briguei com ela. Estava muito zangada por eu interferir no seu romance com um carpinteiro pobretão, e o que fez? Levou você para a cama! Foi um ato de provocação, uma maneira de se vingar de mim, de me mostrar que eu não mando mais na sua vida. Ela sabe o que sinto pelos Worth.


Tagg se lembrou claramente do que Callie dissera naquela noite: “Quando o vi sentado naquele bar, você parecia se sentir como eu: sozinho, desiludido, desejando que a sua vida fosse diferente.” Agora tudo fazia sentido. Callie se jogara em cima dele, tentadora como o pecado, e o seduzira apenas para contrariar o pai. Usara-o como arma de vingança, e agora a vida de uma criança inocente estava em jogo. Ele sentiu uma onda de fúria: servira de joguete, e desta vez não poderia culpar o velho. A culpa não fora do Falcão, embora tivesse que lhe dar crédito por ter ensinado a filha a manipular os outros. – Onde está ela? – Tagg se dirigiu à porta. – Não tão depressa! – disse Hawk secamente. – Sente-se, Worth. Você vai ter de me ouvir. – Ele apontou uma cadeira, Tagg se aproximou, mas não sentou. – Fale, mas seja rápido. Sullivan abriu uma gaveta e dela tirou um grosso envelope, jogando-o na direção de Tagg. – Dê uma olhada. Contrariado, Tagg obedeceu. – É o contrato Bender. – Exato – falou Sullivan de mau humor. – E daí? Você o está esfregando no meu nariz? – Não. Eu o estou oferecendo a você. Se observar, ele não está assinado. Eu desisto dele. – Por quê? – Ele vale uma pequena fortuna. Mais de 3 milhões em dois anos, se o preço da carne for mantido e a venda de gado correr sem problemas. – Eu sei disso. – Eu retiro a minha proposta e a Worth Enterprise pode fazer a sua oferta. Tudo que você precisa fazer é ir embora agora mesmo. Deixe Callie comigo. Deixe que ela tenha o bebê, e eu arranjo alguém adequado para se casar com ela. Ela não precisa do seu dinheiro, você sabe. Apenas diga a ela que não quer se responsabilizar pela criança. Tagg apertou o envelope e trincou os dentes. – Deixe-me ver se entendi. Você me dá o contrato, contanto que eu abandone o meu filho? Que desista dele? – É o que eu lhe ofereço. – Para dizer de outra maneira, você está usando a sua filha? – Esta é uma maneira de ver. – Não acredito – disse Tagg. Sullivan retorceu a boca com desprezo. – Você não quer a minha filha, nem o filho que ela carrega. E não queremos nenhum Worth por aqui. – Você acha que todos são canalhas como você? – perguntou Tagg, indignado. – É uma ótima oferta. – Fique com o seu maldito contrato. – Tagg jogou o contrato sobre a mesa com tamanha violência que algumas folhas se espalharam e atingiram o rosto de Sullivan. Ele não sentiu nenhuma satisfação: estava furioso demais para sentir alguma coisa. – Vá para o inferno. – Ele deu meia-volta, saiu da sala e subiu a escada. – Callie! Callie! – Ele a viu antes de chegar ao topo da escada: ela estava parada perto de uma janela, vestindo um roupão bege, e a luz que restava do dia a iluminava por trás. Teria a aparência de um anjo, não fosse pelo rosto abatido e pela falta de brilho nos olhos. Os dois se encararam por algum tempo. Tagg achara que conhecia Callie, que gostava dela, mas acabara de descobrir que não a


conhecia e que, no momento, detestava qualquer um que levasse o nome de Sullivan. – Vista-se. Você vai dar uma volta comigo. Callie concordou sem dizer uma palavra. Tagg deu uma olhada para o seu ventre e voltou a encarála. Não precisava perguntar. Embora ela ainda não mostrasse sinal da gravidez, o seu olhar culpado a entregava. Ele não queria Hawkins Sullivan perto de seu filho. Não deixaria que a criança fosse influenciada por ele, e muito menos que crescesse em sua casa. E só havia um jeito de conseguir isto. Callie precisava concordar. Ele não aceitaria um não como resposta. – NÃO DIGA nada, Callie. Nem uma palavra. Não até estarmos fora deste maldito rancho. Ele não conseguia olhar para ela. Fixou os olhos no para-brisa do jipe e engatou a marcha. Callie sentiu o estômago se contorcer ao ouvir o tom de Tagg. Não queria que ele soubesse que seria pai, até ter certeza de que ele sentia alguma coisa por ela. Ele sente algo por você: ódio. Ela fechou os olhos. Os últimos dias tinham sido difíceis. O médico dissera que os enjoos iriam passar, mas não se sabia quando. Ela vomitava há três dias, praticamente desde o momento em que o avião que os trouxera de Las Vegas aterrissara. De início, achara que fosse uma virose, mas o médico confirmara que ela estava tendo os enjoos tão comuns no primeiro trimestre de gravidez. Ela colocou a mão na barriga e Tagg percebeu. Olhou para a mão dela e o seu olhar se enterneceu por um segundo, mas ele logo endureceu o queixo e apertou a boca. Callie se virou para a janela e aspirou o ar fresco. Sentia-se melhor fora de casa, longe do rancho. E, por incrível que parecesse, sentia-se melhor por estar ao lado de Tagg, ainda que ele estivesse muito zangado. Ela deveria ter sido sincera com ele desde o início, mas quisera tempo para tentar conquistá-lo, para que os dois pudessem ter um relacionamento de verdade. Ela só quisera ter uma chance, mas, quando o pai a vira passar mal, imediatamente percebera que ela estava grávida e exigira saber quem era o pai. Ela não tivera forças para mentir: num momento de fraqueza, confessara-se ao pai e o acusara de tê-la enfurecido a ponto de ela querer desafiá-lo, tendo um caso com Tagg. Nunca esperara que Tagg fosse procurá-la, e quando o ouvira discutindo com seu pai, ficara apavorada. Quando o vira subindo a escada, percebera que ele sabia de tudo e que estava furioso. Depois de alguns minutos correndo pela estrada a mais de setenta quilômetros por hora, Tagg diminuiu a velocidade, passou por um bosque de choupos, por um campo cheio de flores e parou perto da margem do lago Elizabeth, cujas águas refletiam a luz do sol que se retirava. Parecia ter se acalmado. – Vamos dar uma volta. – Ele lhe ofereceu a mão e a ajudou a sair do carro, mas se soltou assim que a viu pisar em terreno sólido. Ela se enganara: a sua raiva não diminuíra, estava apenas contida, pensou Callie. Ele olhava para ela de maneira fria e severa. Era um péssimo sinal. – Vamos sentar ali. – Ele indicou um pedaço de terra coberto de grama. Esperou que ela sentasse, sentou-se ao seu lado e olhou para o lago. – A criança é minha? Callie já deveria ter esperado, mas engoliu um nó na garganta. Sentira-se magoada por ele ter perguntado. – É. Você foi o único homem com quem eu estive desde que saí de Boston. – E quanto ao carpinteiro? O tal com quem você estava saindo? Callie ficou surpresa. Aparentemente, seu pai lhe contara tudo. Ela sacudiu a cabeça. – O relacionamento não foi tão longe. Eu... Troy... Nunca se tornou algo físico.


– Você estava furiosa com o seu pai e resolveu me seduzir para desafiá-lo? – Ele se voltou para ela com um olhar cheio de raiva. – Ele nunca a deixou chegar perto de um Worth. Você não podia falar com nenhum de nós. Naquela noite, quando me viu parecendo sozinho, vulnerável, você pensou: vou me vingar dormindo com Tagg. Ainda que o seu pai não descobrisse, você teria a satisfação de saber. Você empatou o jogo me fazendo perder a cabeça. Foi uma jogada e tanto, Callie. – Não foi assim, Tagg. Você está enganado. Eu posso explicar. – Acho que não. Agora tudo faz sentido – falou ele com convicção. – Isto foi apenas parte da razão. – O que ela poderia dizer? Que ficara frente a frente com o homem dos seus sonhos? Que vira uma chance de finalmente obter o que queria, de fazer algo de insólito, fora do seu padrão de comportamento? Como dizer a ele que o amava? Não faria diferença. Ele jamais iria acreditar. – Você engravidou de propósito, Callie. Foi sua maior vingança: ter o filho de um Worth. Você não pretendia me contar? – Você não pode acreditar no que está dizendo! – Diabo, eu não sei no que acreditar. – Ele contorceu o rosto e olhou para o outro lado. – Sinto muito se eu não lhe disse antes. Eu estava esperando o momento mais apropriado. Nunca pensei que ficaria grávida. Nunca. Você precisa acreditar. Eu não sou... Sem coração. – Você é uma Sullivan. – Tagg se voltou para ela. Isto dizia tudo. Os olhos de Callie se encheram de lágrimas. – Eu não sou o meu pai, Tagg. – Então, por que você não me disse? Vegas teria sido uma ótima ocasião. Estávamos juntos, sozinhos a noite inteira. Você poderia ter dito: “Ah, a propósito, Tagg, eu estou grávida...” – Eu não consegui. – Ela se sentia exausta. O seu corpo se vergava. Não tinha mais energia. – Eu deveria ter contado. Sinto muito. – Você me enganou. Devo admitir que me fez de bobo. Nunca me deixei enganar desse jeito. Nem mesmo pelo seu pai sem escrúpulos. Mas você... – Ele sacudiu o dedo na direção de Callie. – Você não teve problemas em mentir para mim. Você brincou comigo, Callie. – Tagg, por favor... – Mas não importa. Eu não quero que o meu filho fique perto de Hawkins Sullivan. Aquele homem não exercerá nenhuma influência sobre o nosso filho. Nenhuma. – Por que está com tanto ódio do meu pai? – Ele é um verdadeiro canalha, Callie. Eu não sabia o quanto, até hoje. – Tagg pegou uma pedra e a atirou na direção do lago. A pedra tocou várias vezes na superfície da água, antes de afundar. – Ele me ofereceu o contrato Bender, um negócio de milhões de dólares que ele tinha roubado bem diante do meu nariz, se eu abrisse mão dos meus direitos sobre a criança. Ele tentou me subornar para me afastar de você e do meu filho. Afirmou que iria lhe arranjar um marido adequado. Callie ficou boquiaberta e soltou um gemido. – Ah, não. – Ah, sim. E me revoltou o estômago que ele tivesse usado uma criança como moeda de troca. O meu filho. Ele realmente achava que eu abriria mão da minha carne e do meu sangue, em troca de um contrato? Ele deixou claro que não quer que você tenha alguma coisa a ver comigo. O estômago de Callie, que já travara uma guerra naquela semana, voltou a se revoltar. – Tagg, eu não sabia que ele tinha reagido desse jeito.


– Como eu disse, não importa, Callie, porque você vai se casar comigo e eu vou educar a criança no rancho Worth. O velho está sem sorte. – Ele olhou para ela, desafiando-a a refutá-lo. O coração de Callie se encolheu. Como proposta de casamento, não poderia ter sido mais terrível, mas era tudo que ela iria ouvir. Tagg levantou e a ajudou a levantar, mas, assim que ela ficou de pé, sentiu-se tonta e os seus joelhos dobraram. – Ah, eu não... – Ela se sentiu pequenina, frágil e segura quando Tagg a segurou. – Apoie-se em mim, Callie. Era o que ela pretendia fazer. Ele a levou até o jipe e a fez sentar. – Qual é a sua resposta? Callie piscou e tentou raciocinar. Sua resposta? Ele achava que a sua proposta de casamento exigia uma resposta? Havia alguma escolha? Ela o amava, mas tudo se resumia ao bebê e ao que seria melhor para ele. Tagg seria um ótimo pai. O bebê teria o seu nome e a sua proteção e, depois do que seu pai fizera, ela também não queria que o filho crescesse na casa dos Sullivan. Ainda que tivesse outras opções, apenas uma lhe parecia certa. – Sim, Tagg. Eu me caso com você. Ele balançou a cabeça e fechou a porta do carro. Bem diferente do que ela imaginara e, talvez desta vez, o fim não justificasse os meios. TAGG OBSERVOU Jackson sair do carro e andar até o curral, vestido como se tivesse acabado de ser fotografado para alguma revista. Os únicos traços de cowboy que ele tinha eram o chapéu preto e aquela gravata, conhecida como bolo tie. – Você veio de algum enterro? Jackson deu o sorriso perfeito que derretia os corações femininos. – Só mais um dia de trabalho, mano. Acabo de ter uma reunião na cidade. Dirigi até aqui porque você disse precisar me ver pessoalmente. Qual é o problema? – Clay está para chegar. Vou esperar mais alguns minutos. – Como queira. – Jackson olhou para o cercado e observou as éguas. – Pretende cruzá-las? – Espero que sim. – Tagg sabia vaquejar, mas adorava cavalos. Um dia, gostaria de criar uma manada de puros-sangues, mas agora tinha mais com que se preocupar. Na noite anterior, pensara em várias maneiras de contar aos irmãos a respeito de Callie e, por fim, resolvera que lhes devia não menos que a verdade. Ele não queria que a julgassem severamente. Sentia uma estranha necessidade de protegê-la. Ela carregava seu filho e, quer ele quisesse ou não, passaria a fazer parte da família. Depois da conversa que tinham tido, ele a levara de volta ao rancho Big Hawk e lhe dissera que queria que o casamento fosse o mais rápido possível para proteger a criança da ameaça que Hawkins Sullivan representava. Clay parou o carro perto da casa. Tagg e Jackson se aproximaram. – Vamos conversar lá dentro – disse Tagg, abrindo a porta, enquanto seus irmãos trocavam um olhar de curiosidade. Os três jogaram os chapéus num cabide que Tagg fizera com o que sobrara do velho cabide da casa da fazenda. Três chapéus, três irmãos. Ele imaginou se em breve teria que colocar mais um gancho para o filho. Ou talvez fosse uma menina, ele pensou, sorrindo por um instante, até que se lembrou da esposa morta e em como falhara como marido. – Certo. Eu não pretendia dizer... – disse Jackson, sentando-se numa cadeira. – Mas parece que você voltou de um funeral. Se tem más notícias, diga. Perdemos outro contrato de gado, ou algo semelhante?


Clay também sentou e Tagg ficou andando de um lado para o outro. – Algo semelhante. Eu vou me casar. Os dois irmãos levantaram imediatamente. – O quê? – falaram eles ao mesmo tempo. – Vocês me ouviram. – Eu não sabia que você estava saindo com alguém – disse Jackson. – Eu não estava. Quer dizer... É Callie Sullivan. Ela... Nós vamos ter um filho. – Não diga? Você vai ser papai? – Jackson sorriu e apertou a mão de Tagg. – Parabéns. – Obrigado. Clay estava confuso. – Você viajou com Callie na semana passada. Como ela ficou... Ah, é realmente inesperado, Tagg. Você não ficou animado por ela trabalhar em Penny’s Song. Eu me lembro que você brigou comigo. – Eu sei. Creia: nada disso foi planejado – Tagg explicou a situação aos irmãos, deixando os detalhes de fora. Ele lhes contou a respeito da proposta de Hawkins Sullivan, afirmou que ele não era confiável e que por isso queria apressar o casamento. – Parabéns, Tagg – exclamou Clay, assim que entendeu a situação. – Não é o ideal, mas você está fazendo o que é correto. Eu o apoio cem por cento. Vamos fazer com que Callie se sinta bem-vinda. Ela terá o primeiro herdeiro dos Worth. Isto é algo para comemorar. Tagg não sentia vontade de comemorar. Ele não confiava no Falcão e em sua filha. Em sua opinião, Callie era mentirosa, mas ele nada podia fazer: pelo bem do filho, ele se casaria com a filha do inimigo.


CAPÍTULO 6

UMA SEMANA depois, agradecendo silenciosamente à mãe pelo vestido que lhe coubera como uma luva, Callie se olhava no espelho do quarto de hóspedes da casa de Tagg. O vestido de noiva que sua mãe usara era de renda e todo bordado de pérolas. Ela prendera o cabelo e deixara alguns cachos soltos ao redor do rosto. Ao invés de véu, ela colocara uma faixa bordada com pérolas e strass em volta da cabeça. – Você não fica nada a dever a Cinderela – disse Sammie. – Bem, eu consegui o lindo príncipe, mas receio que o conto de fadas acabe aqui. – Não pense assim. Tagg tem sorte por se casar com você. Você será uma ótima esposa, Callie. E uma mãe maravilhosa. Eu sei que sim. Callie abraçou a amiga com ternura. – Obrigada pelo que disse. Hoje eu realmente precisava de você. – Eu não teria perdido isto por nada. – Eu sei que você moveu céus e terras para vir ontem de Boston. Não posso lhe dizer o quanto isto significa para mim, principalmente porque eu não tenho parentes aqui. – E quanto a Deanna e sua família? – Eu não poderia pedir a eles. Sem o meu pai presente, seria estranho. É melhor que o casamento seja simples. Era o que Tagg queria. – Eu sei que isso é difícil – disse Sammie, pegando a mão de Callie. – Mesmo depois de tudo que ele fez, você gostaria que o seu pai estivesse com você. – Se as coisas fossem diferentes, claro que gostaria. Mas quando se trata dos Worth, ele nada tem de racional. Quando eu lhe contei que ia me casar com Tagg, ele explodiu, fez ameaças. Eu o deixei desabafar e disse que o amava, que gostaria que ele entendesse. Mas nunca estive tão zangada com ele como fiquei ao saber o que ele propôs a Tagg. Eu precisava sair de lá. Foi por isso que me mudei para o hotel Red Ridge. – Sinto muito, Callie. Callie deu de ombros. O que poderia fazer? Seu pai não mudaria. Gostaria que ele a levasse ao altar, mas precisaria se resignar com a sua ausência. Embora estivesse furiosa, não podia esquecer que seu pai tivera um infarto, e a única maneira de manter alguma paz fora sair de casa. E ele não fora atrás dela.


Ela resolveu esquecer a tristeza e se concentrar nas coisas positivas da vida: iria se casar com o homem que amava; os enjoos matinais haviam se reduzido a intermitentes sensações de mal-estar; o seu bebê estava se desenvolvendo bem e com saúde. – Eu vou ficar bem. Você está aqui. – Callie sorriu e os seus olhos se encheram de lágrimas. – Não ouse chorar. Vai estragar a maquiagem. Callie endireitou o corpo. – Tem razão. Nada de lágrimas. Hoje é dia do meu casamento. Alguém bateu na porta e perguntou se elas estavam prontas. – É o Jackson – disse Callie. – Se ele for bonito como o seu noivo, eu desmaio – disse Sammie com um gesto teatral. Ela abriu a porta para Jackson e o viu elegantemente vestido num smoking preto, voltou-se para Callie e fez uma cara de quem diz: “Você deve estar brincando.” Callie riu e fez as apresentações. – Jackson Worth, gostaria que conhecesse a minha melhor amiga, Sammie, que veio de Boston. – Prazer em conhecê-la, Sammie – disse Jackson com um sorriso devastador. – O prazer é meu – respondeu Sammie com aparente indiferença, mas, pelo seu jeito, Callie percebeu que ela ficara impressionada com ele. – Você está linda, Callie – disse Jackson. – Obrigada, senhor. Ele riu. Callie se sentia à vontade com Jackson, que tinha uma personalidade confiante e um grande senso de humor. Passara a conhecê-lo depois que começara a trabalhar em Penny’s Song. – Tagg é um homem de sorte. – Obrigada pelo elogio, mas nós dois sabemos por que estamos nos casando. Jackson olhou para ela com o ar pensativo. – Diga, onde foi que ele lhe propôs casamento? – Não foi bem uma proposta... – Foi mais como uma exigência? – interrompeu ele. Ela assentiu. – É típico. Tudo bem. Onde? – Ele me levou até o lago Elizabeth. – É onde todos os homens da família propuseram casamento às suas esposas, desde o tempo do meu tataravô. Chance Worth batizou o lago em homenagem à sua esposa, Lizzie, no século XIX. Callie ficou admirada. – Verdade? – Eu não mentiria para você. Estão prontas? – Ele ofereceu um braço a cada uma delas e as acompanhou até uma pequena colina de onde se tinha uma visão panorâmica das montanhas Red Ridge. Ali seria o lugar onde Callie Sullivan e Taggart Worth fariam seus votos de casamento. – AÍ VEM a noiva – disse Clay, parado ao lado do pastor. Tagg parou de andar de um lado para o outro e engasgou ao ver Callie caminhando na sua direção, segurando um único ramo de lírio branco. Ele mal reparou em Sammie, ou em Jackson. Só tinha olhos para a sua futura esposa. Jurara nunca mais se casar, mas a situação não poderia ser ignorada. Engravidara Callie e estava fazendo o que era correto. – Ela está linda. Tagg insistira numa cerimônia simples, apenas com a presença da família e de alguns amigos mais próximos. A pequena colina perto de sua casa sempre fora o seu refúgio preferido, um lugar para onde


ele ia quando queria pensar e admirar a maravilhosa vista de Red Ridge. Agora ele se deparava com outra linda visão: Callie. Ela estava mais que linda. Jackson e Sammie beijaram o rosto de Callie e a deixaram diante do pastor McAdams, enquanto Jed tocava a “Marcha Nupcial” no violão. Ela se aproximou. Suas mãos tremiam e os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Por um segundo, Tagg pensou que deveria ter lhe proporcionado um casamento apropriado, com os dois fazendo seus votos em uma igreja e, depois, oferecendo uma recepção aos convidados, mas ele resolveu esquecer e aproveitar o momento. Callie agora seria sua esposa, e ele não podia negar a atração que sentia por ela. Saboreava a ideia de fazer amor com ela à noite e de acordar ao seu lado todas as manhãs. Ela carregava o filho que iria ajudá-la a criar e que seria o primeiro herdeiro dos Worth. Precisava respeitá-la por isto. E foi nisso que ele se agarrou ao pegar na mão de Callie e encarar o pastor. Os dois fizeram seus votos e Tagg sentiu um aperto no coração. Ele encarava o casamento como algo sério e, para ele, a cerimônia tinha um significado. Apesar de estar zangado com Callie e de sentir desprezo pelo seu pai, tentaria fazer com que o casamento desse certo. Era o que seu filho merecia. Quando o pastor os declarou marido e mulher, Tagg ergueu o rosto de Callie e roçou os lábios em sua boca. Ela reagiu com um suspiro que o atingiu como um atiçador de fogo. Se ele não tomasse cuidado, sua esposa se tornaria uma obsessão. Todos bateram palmas e saudaram o novo casal. – Felicidades, Tagg – disse Jed, estendendo a mão para Tagg. – Ela é o máximo. – Jed olhou para Callie, que estava sendo cumprimentada por todos os rapazes que tinham comparecido à cerimônia. Tagg agradeceu e concordou ao vê-la sorrir graciosamente. Por insistência de Clay e de Jackson, o casamento foi celebrado com um jantar para os convidados, na casa principal do rancho. Sammie se sentou entre Clay e Jackson. Jed e o pastor conversavam com os outros convidados. Tagg e Callie se sentaram à cabeceira da mesa. Ele estava faminto e, assim que o serviram, começou a comer. Depois de algumas garfadas, ele percebeu que Callie não tocara na comida que havia no seu prato. – Você não está com fome? – Não. Eu não vou conseguir comer agora. – O rosto de Callie, que estivera iluminado durante a cerimônia, parecia muito pálido à luz das velas. Tagg pousou o garfo no prato. – Você está ficando enjoada? – Estou tentando evitar – disse ela, colocando a mão no estômago. – Eu não queria ficar enjoada no dia do nosso casamento. – E você consegue controlar? – Geralmente não. O mal-estar vem e vai. E agora está vindo, mas ainda dá para aguentar. – Ela deu um sorriso encorajador, mas ele não se iludiu. Percebia que ela estava tentando manter as aparências. Tagg levantou e a pegou pela mão. – Vamos dizer boa noite a todos, mas, por favor, fiquem e aproveitem o jantar. Vocês vão se arrepender se perderem a sobremesa. – Todos riram. Tagg olhou para os irmãos. – Agradeço por tudo que fizeram, mas está na hora de irmos para casa. – Ir para casa. Assim que ele pronunciou as palavras, elas lhe soaram estranhas. Callie levantou, e ele lhe apertou a mão. Não ficaria bem caso a noiva desmaiasse diante dos convidados. – Sim, agradeço a presença de todos. Foi maravilhoso tê-los aqui. Clay e Jackson, a cerimônia, o jantar, tudo foi além do que eu poderia esperar.


– As suas expectativas são um tanto baixas, Callie – disse Jackson, sorrindo – Sim, você se casou com o nosso irmão... – Clay deu uma piscada para ela. Tagg nada disse. Normalmente não deixaria que seus irmãos o provocassem, mas aquele não era um dia normal. Agora ele tinha uma esposa e um filho em quem pensar e, naquele momento, a sua prioridade era tirar Callie dali. Ele se manteve perto dela, enquanto todos vinham se despedir. Assim que saíram de casa, ele colocou a mão nas costas de Callie e a guiou na direção do carro. – O ar fresco irá ajudá-la, não acha? – Às vezes, sim, mas agora... Eu ainda me sinto nauseada. Nauseada. A palavra não era boa. Não era aqui e nem lá. Era como estar no limbo. Tagg percebeu que não podia impedir a natureza de agir, mas faria o que estivesse ao seu alcance para deixar Callie confortável. – Então, vamos para casa. CALLIE SENTIA o estômago se retorcer. Parte do problema era a gravidez, mas também havia a sua situação com Tagg. Ela sentia os nervos à flor da pele e franzia a testa com preocupação. Jurara diante de Deus que seria uma boa esposa e pretendia ser, mas receava que Tagg jamais viesse a amá-la. Ele fora casado e perdera o amor da sua vida. Ficara devastado quando Heather morrera. Ele ainda a amaria? Como poderia competir com as lembranças da primeira esposa de Tagg? Ele parou o carro na frente de casa e se virou para ela com um ar preocupado. Estava lindo de morrer. Callie sentiu vontade de gritar. Tagg tirara o paletó do smoking, afrouxara a gravata e abrira os primeiros dois botões da camisa. Ela não conseguia tirar os olhos do seu peito. O luar entrava pela janela do carro e o cheiro dos cavalos e da terra úmida se espalhava pelo ar. – Estamos em casa, Callie. Ela olhou para ele, sentiu vontade de repetir que não planejara nada daquilo, mas não teve coragem. Não queria estragar o dia com acusações e negativas. Tagg fora cordial. A raiva que sentia dela desaparecera. Talvez as coisas melhorassem. – Não é o que nós dois queríamos, mas vou tentar, Callie. É o melhor que posso fazer. Ele iria tentar? Tentar o quê? Tolerá-la? Viver com ela? A ideia de tê-la como esposa era tão indigesta que ele se esforçaria para tentar? O coração de Callie pareceu afundar. A declaração de Tagg a magoara tanto, que ela sentiu um espasmo no estômago e colocou a mão na barriga para amenizar a dor. Era como se fosse desmaiar. Na mesma hora, Tagg saiu do carro, deu a volta, tirou-a do carro e a carregou para dentro de casa. Quando ele a colocou no chão, Callie se agarrou a ele, com medo de soltá-lo. Ele a acolheu nos braços, sem se mexer. – Avise se você precisar... – Eu já estou me sentindo melhor, Tagg. – Tem certeza? – Ele se afastou um pouco para encará-la. – Não está mais enjoada? – Neste momento, não. Estou um pouco cansada. – Foi um longo dia. – Você me carregou ao entrarmos em casa. – Ela sorriu. Tagg olhou para a porta que ficara aberta e foi fechá-la. Um sorriso aparecera no seu rosto. – Tem razão.


E ele a pedira em casamento no lugar onde todos os Worth haviam proposto casamento às suas respectivas esposas. Aquilo deveria ter algum significado. Ou ela estaria se agarrando a alguns fios de esperança? Callie continuou a sorrir enquanto tirava a fita bordada do cabelo. – Ah, assim está bem melhor. – Ela sacudiu a cabeça para soltar o cabelo, e ele lhe caíra sobre os ombros. Tagg deu um profundo suspiro. – Você deveria ir para a cama. – E quanto a você? – perguntou ela. – Eu vou me deitar mais tarde. Vá em frente e aproveite para conhecer a casa. Eu levo as suas malas para o meu quarto. – Mas elas já estão no quarto de hóspedes. Eu e Sammie as trouxemos hoje à tarde. Tagg passou por ela, atravessou o corredor e entrou no quarto de hóspedes. Callie foi atrás dele. – Você desmanchou as malas aqui? – Eu não sabia... Quer dizer, considerando as circunstâncias. Eu não sabia o que esperar... – Você vai dormir comigo, no meu quarto, Callie. Todas as noites. Aquele seria o seu jeito de tentar? Callie não sabia o que pensar, mas sabia muito bem que não gostava do tom autoritário de Tagg. Quem decidiria se ela iria ou não dormir com ele era ela. Mas... A quem enganava? Era o que ela queria e por isso rezara, com fervor, para que ele não a exilasse no quarto de hóspedes. – Isto é uma ordem? – O quê? – Quer dizer, agora eu sou sua esposa, Tagg. Você não pode me dar ordens como faria com um empregado. – Exatamente. Agora você é minha mulher. E as esposas dormem com seus maridos. Pelo menos as esposas dos Worth. Portanto, é assim que será. – Você está mandando novamente – insistiu Callie, esperando não estar abusando da sorte. Tagg olhou para ela e franziu a testa. – Vire-se. – Por quê? – Vire-se. Confie em mim. Confiar? Aquele jamais tinha sido um problema. Ela confiava nele, pensou Callie, virando-se de costas. – Você jamais conseguiria tirar este vestido sozinha. – Ele começou a desabotoar os botões de pérola do vestido. Callie sentia seus dedos lhe roçarem a pele e se arrepiava. O fato de Tagg estar atrás dela e de poder sentir seu perfume a excitava. Ela segurou o vestido para que ele não caísse. – Solte, Callie. Ela soltou o vestido e deixou que ele caísse aos seus pés. Desculpe, mamãe. Ela se voltou e o encarou, vestindo apenas uma calcinha de seda. Tagg a olhou com um olhar guloso. – Você vai acabar comigo, Callie Sullivan. – Callie Worth – corrigiu ela. Ele a levantou do chão e ela se abraçou ao seu pescoço. – Ah! Eu já deveria ter me acostumado: homem forte carrega a mulher... Tagg riu, carregou-a para o quarto, puxou as cobertas da cama e a deitou. – Durma um pouco Callie. O dia foi cansativo.


Ela puxou as cobertas até o pescoço. O sentimento de rejeição foi suplantado pelo conforto proporcionado pela cama de Tagg. – Você não vem? – perguntou ela, sonolenta. – Mais tarde. Antes de cair no sono, ela ouviu os passos de Tagg, que saía do quarto. O SOL entrava no quarto e aquecia o rosto de Callie. Ela se rebelou e se recusou a abrir os olhos. Afofou o travesseiro e aproveitou o momento de despertar na cama mais gostosa em que já dormira, desejando poder dormir o dia inteiro. De repente, ela abriu os olhos. No dia anterior, casara-se com Tagg Worth. Callie virou para o outro lado da cama e não o viu, mas o travesseiro e o lençol revirados diziam que os dois haviam passado a noite de núpcias juntos, embora não do jeito que os recém-casados normalmente costumavam passar. Ela sentou na cama e percebeu que não estava enjoada: isto prenunciava que o dia seria bom. Na noite passada, chegara tão cansada que não reparara no quarto de Tagg. Ela olhou ao seu redor. O ambiente era espaçoso, simples e tipicamente masculino: teto alto com traves de madeira, a cama, que ocupava metade do quarto, uma cômoda com gavetas, duas mesinhas de cabeceira e uma TV. Um arco ligava o quarto a um closet duplo e, em seguida, ao banheiro. Ela levantou e foi até o lado do closet onde Tagg colocara suas malas, pensando na maneira como deixara a casa de seu pai. Fora a melhor solução para evitar uma cena e dar tempo para que ele se acalmasse, diminuindo a possibilidade de que fosse novamente acometido de palpitações. Não fora fácil enfrentá-lo, e ele agora estava sozinho por sua própria culpa. Mas isto não a impedia de amá-lo e de se preocupar com a sua saúde. De repente, Callie ouviu o som abafado do celular que colocara na frasqueira. Sabia que deveria ser seu pai, que já deixara três mensagens na caixa postal. A primeira, na noite em que saíra de casa, dizia: “Como ousa me abandonar!” “Você vai se arrepender por se casar com um Worth” fora a segunda pérola de sabedoria, que ela recebera quando estava no hotel. “Callie, sua ingrata. Ligue para mim imediatamente” fora a última que ela recebera pouco antes do casamento. Os olhos de Callie se encheram de lágrimas e ela sentiu o coração se apertar. Por que não podia ter uma relação estável, normal, com seu pai? Por que ele não conseguia apoiá-la, ao invés de parti-la em dois? Por que com ele as coisas eram sempre tão difíceis? Ela se arrependeu por não ter atendido e resolveu ouvir a mensagem que ele deveria ter deixado. Talvez seu pai não estivesse bem, talvez precisasse dela... “Callie, doçura. Você estava linda no vestido de noiva de sua mãe. Eu observei a distância. Ouvi você fazer os votos de casamento. Afinal, parece que um dos malditos Worth tem compaixão. Um deles permitiu que um pai visse a sua garotinha caminhar até o altar. Você sabe que eu a amo, Callie, mas nada mudou. Você não deveria ter se casado com alguém dessa família. Assim que recuperar o juízo, volte para casa.” – Ah, papai... – Ela estremeceu, deixou que as lágrimas rolassem e deslizou até o chão. Seu pai presenciara o seu casamento com Tagg. Sentira-se arrasada, sabendo que seu pai não a veria usando o vestido de noiva da mãe, que não a entregaria ao noivo, que não lhe daria a sua bênção. No fundo, esperara que ele mudasse de ideia, mas o ódio que ele sentia pelos Worth fora mais forte. Callie chorou até não ter mais lágrimas. O que seu pai dissera não lhe saía da cabeça: alguém arriscara o pescoço e desafiara Tagg, deixando que seu pai visse a sua garotinha caminhar até o altar.


Aquele fora o trecho da mensagem que mais a abalara. Quem teria sido? Talvez Clay, sempre razoável e decente? Ou Jackson, que só fazia o que queria e costumava romper as normas? Não importava quem tivesse sido, ela ficaria eternamente grata. Quando ouviu o ruído das botas de Tagg no corredor, Callie levantou, correu para o banheiro e se trancou. Abriu a torneira do chuveiro e esperou, olhando-se no espelho. Estava totalmente descomposta, com os olhos inchados, o rosto vermelho e o seu nariz brilhando. Ela se encolheu ao ver a maçaneta da porta girar. – Callie? Ela mordeu os lábios. Não tinha coragem de responder. Não poderia deixar que Tagg a visse daquele jeito. Ele iria perguntar o que tinha acontecido, e ela não poderia lhe dizer a verdade. Não queria começar o casamento com uma mentira. Callie resolveu deixá-lo acreditar que ela estava tomando banho. Para se sentir menos culpada, despiu-se, abriu a torneira do chuveiro e entrou debaixo d’água. Meia hora mais tarde, ela se sentia muito melhor ao entrar na cozinha e encontrá-lo sentado à mesa do café, lendo o jornal. – Você dormiu bem? – perguntou Tagg. – Dormi. A sua cama é o paraíso. – Fico feliz por você ter descansado. Sirva-se. – Ah, eu não posso tomar café. Não faz bem para o bebê. Tagg dobrou o jornal e olhou para ela. – Acho que tenho muito a aprender a respeito de bebês. – Ele olhou para o ventre ainda liso de Callie. – Eu também. Acho que aprenderemos juntos. Ele concordou, e a conversa morreu. – Eu vou fazer o café da manhã. O que você quer? – Callie abriu a geladeira e viu que ela estava bem abastecida. – Temos ovos, bacon, pão, verduras, massa de panqueca, leite, suco. Estou impressionada. A maioria dos homens não tem nada além de cerveja e geleia na geladeira. – Eu não sou a “maioria”. Uma vez por semana a empregada de Clay, Helen, faz compras para mim. – Ah, tudo bem. – Isto explicava o cream cheese e o pão, os bolinhos, a farinha de trigo e os pacotes de açúcar. – O que devo fazer para você? Tagg olhou para Callie como se ela estivesse invadindo o seu território. E estava. Obviamente, ele não a queria ali. – Uma torrada. Obrigado. – Só uma torrada? Isto eu posso fazer. – Mas Callie se sentia desajeitada na casa de Tagg, e tão deslocada que acabou por queimar a primeira torrada. Por fim, ela conseguiu passar manteiga em duas torradas e colocá-las em um prato. – Aqui estão. – Você também vai comer? – Vou. – Ela sentou à mesa e os dois comeram em silêncio. Callie mordiscou a torrada. A torradeira tinha problemas para torrar o pão uniformemente, mas o resto da cozinha era de primeira linha, com balcões de granito, eletrodomésticos de aço inox e armários cor de conhaque. A casa tinha um tamanho modesto para o padrão dos Worth: quatro quartos, um estúdio, uma sala de jogos, sala de estar e sala de jantar. Callie estava contente por ela não ser colossal como a casa de seu pai no rancho Big Hawk, nem em estilo rústico como a casa de Clay. Para ela, a casa de Tagg tinha o tamanho perfeito para fazer dela um lar.


– Quais os seus planos para hoje? – perguntou Tagg, levantando-se e jogando o resto de café na pia. Callie foi apanhada de surpresa. A maioria dos casais recém-casados estaria em lua de mel, preocupando-se apenas um com o outro e esquecendo o resto do mundo. Ela esperara que Tagg tivesse alguma maravilhosa sugestão para o dia. – Por quê? O que você tem em mente? Ele esfregou o queixo e Callie notou que ele não fizera a barba, não se penteara, mas estava lindo. – Desculpe, mas tenho trabalho a fazer no escritório. – Tudo bem. – As esperanças de Callie se desmancharam. – Nesse caso, vou passar um tempo com Sammie antes que ela vá embora. – Ótimo. Tenha um bom dia com a sua amiga. Vejo você mais tarde. – Ele saiu da cozinha e entrou na porta que dava para o escritório, anexo à casa. Callie fechou os olhos. Certo. Era assim que ele iria tratá-la: com tolerância e educação. Aquela era a tentativa de Tagg? Ela saiu da cozinha e foi buscar o celular. Queria se despedir de Sammie, mas primeiro iria telefonar para o pai. Pena que nenhuma das duas coisas lhe traria paz. AS EMOÇÕES de Callie subiram e desceram durante o dia. Mais tarde, naquele dia, ela foi à casa de Clay, onde almoçou com Sammie. As duas sentaram na enorme varanda de onde podiam ver quilômetros e quilômetros de pasto. Ali perto havia uma enorme piscina com uma cachoeira e um deque de pedras. Os jardins eram bem cuidados e repletos de flores coloridas. Sammie parecia agitada. As duas estavam preocupadas. – Eu gostaria que você pudesse ficar mais tempo, Sam. – Eu também, mas agora eu estou sobrando. Você acaba de se casar, e eu tenho muito trabalho à minha espera, quando voltar. – Você jamais iria sobrar. Clay gosta de tê-la aqui, tanto quanto eu. – Callie engoliu as lágrimas. Já chorara demais naquele dia. – Eu não poderia ter feito isso sem você. Tê-la aqui representou muito para mim. Sammie apertou a mão de Callie. – Eu sei que as circunstâncias são complicadas, mas você se casou com um bom homem e será uma ótima esposa. E lembre-se: eu estarei aqui quando o bebê nascer. – É melhor estar! Você será a madrinha. – Callie deu um sorriso triste. – Vou sentir sua falta, Sammie. Sammie se inclinou sobre a mesa e abraçou a amiga pelos ombros. – Tudo vai dar certo. Eu sei que sim. – Espero que tenha razão. – Callie abaixou a cabeça. – Hoje eu telefonei para o meu pai. Eu sei que disse que não iria telefonar, mas ele me deixou várias mensagens e eu não podia ignorá-lo. – Eu sei que ele é um homem duro, mas é seu pai – disse Sammie em tom compreensivo. – Vocês tiveram uma boa conversa? Callie pensou no que haviam dito. Seu pai tentara ser civilizado, mas não conseguira esconder que ainda era o Falcão. Dera-lhe um sermão e exigira que ela fosse vê-lo. – Foi breve. Eu não posso riscá-lo da minha vida, Sammie, mas ele quase estragou tudo com Tagg. Não se trata mais de mim. Eu preciso pensar no bebê. Nós vamos construir uma família, e eu não posso me dividir em dois. Foi o que eu disse ao meu pai: que ele precisa aceitar a minha escolha e me apoiar.


– Imagino que ele não tenha engolido isto muito bem. – Tem razão. – Callie sorriu e Sammie caiu na gargalhada. Era bom poder rir de alguma coisa. Callie olhou para o relógio. – Odeio ter de dizer, mas, se não sairmos agora, você vai perder o avião. – Não precisa me levar, Callie, mas agradeço que tenha se oferecido. Jackson ficou de mandar um carro para me buscar. – Jackson, hein? Vocês dois fizeram uma bela amizade no jantar de ontem. – Ele estava sendo gentil porque eu não conhecia ninguém além de você. Acho que ele sentiu pena de mim. – Jackson? Sentir pena? Não. Se ele lhe deu atenção, foi porque gostou de você. – Então, qual é a história dele? – perguntou Sammie em tom casual, mas Callie teve a impressão de que ela estava mais que interessada na resposta. – Tudo que sei é que ele administra a Worth Enterprises nos escritórios de Prescott e Phoenix. Ele não fala da sua vida pessoal, mas eu soube que ele se apaixonou por alguém que lhe partiu o coração. Sammie assentiu, como se o que ouvira fizesse sentido para ela. – Você se uniu a uma ótima família. Os Worth valem a pena. Eu queria ter a mesma sorte. – E um dia desses terá – afirmou Callie, convicta. Quando o carro chegou para levar a amiga para o aeroporto, Callie teve dificuldades para se despedir. Sammie fora o seu suporte, a sua rocha de estabilidade durante os últimos três anos. Embora tivessem prometido não chorar, a despedida foi cheia de lágrimas. Callie voltou para o que ela ainda tinha dificuldade de chamar de “casa”. Ainda não desfizera todas as malas e, além disso, precisava buscar o resto de suas coisas na casa do pai. Um passo de cada vez, Callie. Lidaria com o pai mais tarde. Quando ela chegou a casa, Tagg saía do estábulo, puxando uma égua pelas rédeas. Callie se aproximou enquanto ele ajustava as correias da sela. – Olá. Como foi o seu dia? – perguntou ela. – Ocupado, mas não ruim. Geralmente eu fecho o dia com uma cavalgada. – Ah? – Callie gostaria de acompanhá-lo. Sabia que os cavalos precisavam ser exercitados diariamente, e esperou por um convite que não veio. – Você passou o dia com a sua amiga? – perguntou ele, endireitando as rédeas. Evidentemente era um suplício conversar com ela, mas ela não deixaria que isto a detivesse. – Passei. Almoçamos na casa principal. Foi bom ela ter vindo ao casamento. Eu não sei como teria... – Ela notou o seu olhar frio. Não desanime, Callie pensou, dando de ombros. – Sammie está a caminho do aeroporto. Pensei em voltar para casa e desfazer as malas. – É uma boa ideia. – Tagg colocou o chapéu que pendurara na sela. Ela sempre adorara o jeito como seu cabelo saía por sob o chapéu e caía sobre o colarinho da camisa. – Eu não conheço todos os seus cavalos – observou ela. – Esta é Starlight. – A égua negra tinha uma mancha branca em forma de estrela na cabeça. – Olá, Starlight. – Callie afagou o animal. – Você vai dar uma boa cavalgada. – Nós sempre damos – disse Tagg, colocando os óculos escuros. – Depois de me instalar, pretendo passar uma hora ou duas em Penny’s Song, mas estarei de volta para o jantar. – Espero que sim. Vejo você depois, Callie. Ela ficou olhando até que ele desaparecesse de vista. Sentia-se mais só do que já se sentira em toda a sua vida.


NAQUELA TARDE, Callie desfez as malas, arrumou suas roupas e sapatos, ocupando apenas metade da sua parte do armário, e colocou seus artigos de toucador na parte das prateleiras que aparentemente tinha sido desocupada para lhe dar espaço. Tagg gostava de manter tudo em ordem. Morara sozinho durante quatro anos e agora ela o aborrecia, conspurcando o seu mundo perfeito. A última coisa que Callie colocou no lugar foi a sua escova de dente, e aquilo lhe deu a sensação de realmente estar em casa. Ela sorriu e voltou para o quarto. Olhou para a cama confortável e a tentação foi grande demais. Mulheres grávidas têm o direito de tirar um cochilo durante a tarde... Ela puxou as cobertas, despiu o jeans e deitou, desistindo de ir até Penny’s Song, e logo adormeceu. Meia hora depois, ela vagamente percebeu que a porta dos fundos se abria e fechava, e depois ouviu os passos de Tagg no corredor. Quando ele parou, ela entreabriu os olhos e o viu parado na porta do quarto. Tirara a camisa e as botas, e provavelmente as deixara na lavanderia, nos fundos da casa. – Eu não estou dormindo – disse ela. – Parecia estar. Eu a acordei? – Não. Eu só estava descansando. Esta cama é confortável demais. O que houve com você? – Starlight resolveu que queria nadar. Há um regato a dois quilômetros daqui, onde ela gosta de sapatear. Acho que nós dois nos deixamos levar. Ela tomou o seu banho, e agora eu preciso tomar o meu. – Vá. Não deixe que eu o perturbe. Tagg entrou no quarto, sentou na beirada da cama e se despiu. – Volte a dormir. Não farei barulho. Callie engoliu em seco ao ver a pele bronzeada das suas costas. Sentia vontade de tocá-lo, de passar as mãos pelos seus ombros, pela sua cintura. Ele levantou e atravessou o quarto, despido. Ela percebeu que todos os seus sentidos despertavam e clamavam de desejo. Tagg entrou no banheiro e ela o ouviu abrir a porta do boxe. Ficou deitada na cama, imaginando-o molhado e ensaboado. Com um suspiro, ela levantou da cama, tirou a blusa e entrou no banheiro, antes que o bom senso a impedisse. Num impulso de insanidade, ela abriu a porta do boxe: se iria balançar o mundo de Tagg, bem poderia se aproveitar durante o processo. Ele estava ensaboado dos pés à cabeça e pareceu ficar confuso. – Estou me sentindo um tanto pegajosa. – A desculpa era esfarrapada, mas ele olhou para ela e indicou a sua roupa de baixo. – Você vai entrar vestida? Foi o estímulo que ela precisava. Callie sacudiu a cabeça, abriu o fecho do sutiã e soltou os seios. Tagg observava, enquanto o vapor se espalhava pelo banheiro. Ela se inclinou para tirar a calcinha e, quando levantou, ele esticou o braço e a puxou para dentro do boxe. – Você sabe como isto vai acabar? – perguntou ele em voz rouca, pressionando-a contra a parede de mármore. – Vamos economizar na conta de água? – Isso também – disse ele, beijando-a de um jeito que mostrava que o jogo acabara. Pressionou os quadris contra os dela, e Callie fechou os olhos. Ele estava excitado e a desejava. Não havia outra coisa que ela mais desejasse do que estar com ele naquele momento. Ela o enlaçou pelo pescoço e o beijou, lambeu-lhe os lábios. Tagg se abaixou e a acariciou com a boca, proporcionando-lhe um orgasmo imediato. O corpo de Callie estremeceu e suas pernas amoleceram. Ele a levantou do chão e a encaixou sobre o corpo. Os gemidos dos dois ecoavam nos azulejos das paredes.


– Tão gostoso, Callie... – disse ele, fazendo com que ela subisse e descesse sobre ele, com que ela contorcesse os quadris, seguindo o seu ritmo. Os dois atingiram o orgasmo ao mesmo tempo e ficaram abraçados até que suas respirações se acalmassem. Tagg fechou a torneira do chuveiro e a abraçou pelas costas. Callie se apoiou no seu peito e deixou que ele lhe acariciasse os seios, lhe beijasse a nuca. – Obrigado. Era ela quem deveria agradecer, Callie pensou, sorrindo. Nunca pensara que o sexo poderia ser daquele jeito, que o amor ampliasse as sensações. Ela sabia que Tagg não a amava, mas os dois haviam acabado de consumar seu casamento e a sensação fora gloriosa. – Foi um prazer – sussurrou ela. – Estava difícil ficar longe de você. A confissão a deixou confusa. Ele não a queria ali, não queria estar casado. Pior: não confiava nela. Mas eles tinham isto, e talvez pudessem construir algo a partir dali. – Então não fique, Tagg.


CAPÍTULO 7

CALLIE PASSAVA os dias trabalhando em Penny’s Song, dando os toques finais no dormitório com pequenos detalhes que lembrassem uma casa. Espalhara porta-retratos onde as crianças pudessem colocar fotos de seus pais ou de amigos nas mesas de cabeceira, despertadores, e em um canto do quarto arrumara um espaço de leitura com livros escolhidos de acordo com a faixa etária. Ficara ocupada a semana inteira, procurando e comprando livros para adicionar à coleção. Selecionara textos de histórias para as crianças mais jovens, romances e aventuras para os adolescentes. Para todos, ela destinara livros a respeito de cavalos e de criação de gado. Organizar o “Armazém” fora ainda mais divertido. Ela fizera uma lista de tarefas que as crianças precisariam cumprir para receber fichas que seriam trocadas por algo que desejassem. Para algumas que haviam vivido grande parte de suas vidas doentes, aquele seria o seu primeiro “trabalho pago” e também uma recompensa positiva, depois de uma penosa recuperação. Ela mandara imprimir a lista em papel amarelo e chamuscara as beiradas com um fósforo para lhe dar uma aparência verdadeiramente rústica. Acabara de colar a lista na vitrine e recuara para admirá-la. – Limpar os estábulos vale apenas dez fichas? – falou Tagg atrás dela. Callie se sobressaltou. Ele riu, abraçou-a pela cintura e encaixou a cabeça em seu pescoço, para ler a lista. – Este é um trabalho extremamente desagradável. Deveria valer pelo menos 25. Callie se apoiou em Tagg e sorriu. Não era sempre que ele se aproximava tanto. Ela sabia que ele estava tentando, mas ainda mantinha distância durante o dia. Ainda dava longas cavalgadas solitárias todas as tardes. Trabalhava durante horas no escritório, e ela se perguntava se ela não seria o motivo pelo qual ele só voltava para casa na hora do jantar. As refeições em geral eram silenciosas e rápidas, e ele a ajudava a arrumar a cozinha. Estavam casados há uma semana e, embora ela não tivesse visto progressos durante o dia, não podia se queixar das noites. Tagg fazia amor com ela como se sempre fosse a primeira vez. E se ela estivesse muito cansada ou não se sentindo bem, ele simplesmente a abraçava, fazendo com que ela se sentisse segura e protegida, antes de cair no sono. – Você está questionando a minha capacidade de avaliar as tarefas? – Ela se voltou para encarar os olhos acinzentados que sempre faziam com que o seu coração acelerasse. – Não, senhora. Só estou dizendo que me lembro de como é limpar os estábulos. O meu pai nos fez passar por todas as tarefas rotineiras do rancho. Todos nós carregamos os nossos fardos. Isto fazia com


que os empregados respeitassem mais a sua ética de trabalho. – Eu também carreguei o meu fardo. O Falcão insistia que, se eu iria ser rancheira, deveria conhecer o trabalho. O meu pai... – O sorriso de Tagg desapareceu e ele a soltou. Os dois ficaram se olhando. – Desculpe, Tagg, mas ele é meu pai, e isto eu não posso ignorar. – Não. Você não pode – falou ele, afastando-se. – Nem eu, e não pretendo fingir que é de outro jeito. Callie ficou olhando para ele, sentindo-se confusa. Ficara feliz ao vê-lo se comportando como seu marido. Ele parecera genuinamente feliz ao vê-la, mas o clima se estragara quando ela mencionara seu pai. – Eu não espero que você esqueça, mas que me julgue por quem eu sou. – Você mentiu para mim, Callie. – Eu não menti. Só não pulei em cima da primeira chance que tive de lhe dizer que estava grávida. Você tinha dito que dormir comigo fora um erro. – Eu não tenho certeza de que naquela noite você não tenha engravidado de propósito. Callie não sabia como fazê-lo acreditar na verdade. Ele era desconfiado, e a proposta sem escrúpulos que seu pai lhe fizera não a ajudava. Tagg acreditava que o fruto jamais caía longe da árvore, mas, no seu caso, ele caíra a quilômetros de distância, e ela não desistiria de lutar. – Olhe para mim, Tagg. Olhe de verdade. Você acha que eu seria capaz de usar uma criança inocente para me vingar do meu pai? Concordo que estava furiosa com ele, mas eu jamais faria algo tão baixo para provar alguma coisa. Acho que você sabe que eu não faria isso. No fundo, você sabe que é verdade. Tagg contraiu o maxilar, respirou profundamente e olhou para o outro lado. Por fim, ele se voltou para encará-la. – Estou começando a perceber. Gostaria que, a partir de agora, esquecêssemos tudo isso, Callie. – Eu também. – Os cavalos dos Cosgrove chegaram e estão sendo tirados do trailer. Pensei que gostaria de vê-los. – Claro. – Certo, então, vamos vê-los juntos. – Ele pegou na mão de Callie, e aquele simples gesto fez com que ela se emocionasse e que os seus olhos se enchessem de lágrimas. Tagg realmente estava se esforçando e talvez aquilo lhe custasse mais do que ela pensara: ele não queria um casamento, um bebê, uma família, e, além disso, ela suspeitava que algo mais grave o afligisse. Algo que tinha a ver com o seu amor pela primeira esposa. TAGG FICOU parado na porta, observando Callie se movimentar pela cozinha, descascando batatas, assando um frango para o jantar. Ela parecia à vontade, como se estivesse no seu lugar e não se importasse com o estilo de vida simples. Ele tinha mais dinheiro do que jamais iria precisar, mas era o único Worth que não contratava alguém para fazer o que ele mesmo podia fazer, além dos cinco empregados que trabalhavam em regime de meio expediente, cuidando dos cavalos e dos estábulos. Uma vez por semana, Helen trazia as compras para a casa. O seu estilo de vida atendia à sua necessidade de isolamento, mas atenderia às necessidades de Callie? Ela fora criada no rancho Big Hawk, onde Sullivan tinha um empregado para cada tarefa.


– Ei, cowboy. Quer me ajudar com a salada? – Ela sorriu para ele, segurando um escorredor. Tagg entrou na cozinha. – Isso eu posso fazer. – Ela lhe entregou uma faca e empurrou a tábua que estava em cima da bancada. – Corte os tomates e os pepinos, que eu preparo a alface. – Se você precisar, nós podemos contratar alguém para ajudá-la. – Obrigada, mas eu não preciso de ajuda. – Você passa o dia em Penny’s Song e ficará ainda mais ocupada quando as crianças chegarem, na semana que vem. – Eu sei, mas não me importo. Faz com que o tempo passe mais depressa. Além disso, você não iria gostar de ter alguém atrapalhando a sua vida. Ele já tinha. Só que ultimamente estava contente demais por ter a companhia de Callie. – Você vai precisar de ajuda quando tiver o bebê. Callie sorriu e o seu olhar suavizou. – Vamos ver. Enquanto escolhia livros para Penny’s Song, aproveitei e comprei alguns a respeito de gravidez e de cuidados com o bebê. Quero aprender a fazer tudo certo. – Suponho que precisaremos fazer algum tipo de curso...? – Você iria comigo? – perguntou ela, colocando a mão no braço de Tagg. – Você pensou que eu não iria? – Eu não tinha certeza. Esperava que você fosse. – Eu também quero fazer tudo certo. – Tagg olhou para a barriga de Callie, como se acostumara a fazer, esperando que, ao ver algum sinal do filho que crescia dentro dela, tudo se tornasse mais real. Porém, ainda era cedo demais. O único sinal de gravidez que ele notara nela era o volume dos seus seios, que também haviam se tornado mais sensíveis às suas carícias. Só de pensar nas noites de sexo enlouquecido que os dois compartilhavam, ele já sentia uma contração na virilha. De uma coisa ele estava certo: adorava fazer amor com ela. – Eu vou pegar o voo noturno para Tucson. Callie franziu a testa. – Você não me disse nada. – Foi inesperado. Tenho uma reunião amanhã de manhã, a respeito de um negócio de gado que eu estou tentando fazer. – Então, eu acho melhor servir o jantar agora mesmo. Tagg olhou para o frango que ela tirou do forno, para o purê de batatas com molho, feito do jeito que ele gostava, e percebeu que o seu apetite não era do tipo que poderia ser saciado pela comida. Callie pegou dois pratos, mas ele a segurou pelo pulso. – Eu não estou com fome de comida. – Ele a abraçou pela cintura. – Então, o que você quer? – Você, Callie. – Ele lhe mordiscou o pescoço e inalou o seu delicioso perfume. – Preciso de você esta noite. Antes de ir embora. – Tagg – falou ela em voz doce e com um olhar carinhoso. – Eu também preciso de você. Callie sempre se mostrava disponível. Ela jamais lhe dissera não. Ele começou a beijá-la e Callie começou a gemer, acabando com a intenção que ele tinha de possuí-la lentamente. – Nunca fizemos isto na cozinha – sussurrou ele junto aos lábios dela. Ela soltou uma risada. – Você me quer como jantar?


Mas o balcão de granito estava ocupado pela comida, e Tagg não tinha tempo a perder, tirando tudo do lugar. – Pensando bem, acho que vamos jantar na cama. – Ele tentou pegá-la no colo, mas Callie o impediu, empurrando-o pelos ombros. – Siga-me. – Ela o pegou pela mão e o levou para o quarto. Tagg adorava quando ela tomava a iniciativa, e adorou ainda mais quando ela o empurrou sobre a cama e começou a se despir para ele. – O que gostaria como aperitivo? – sussurrou ela, tirando a blusa. – Tire esta coisa e venha até aqui. Ela obedeceu e tirou o sutiã. Aproximou-se e montou sobre ele. Tagg a abraçou e a puxou, fazendo com que ela se inclinasse até ficar com os seios ao alcance de sua boca. E saboreou um deles, fazendo com que ela ronronasse de prazer. – Você tem um gosto bom – falou ele em voz rouca. – Mas agora eu quero o prato principal. Callie sorriu e o ajudou a se despir. A camisa voou para um lado e ele despiu o jeans e a sunga. Quando ficou nu, Callie começou a acariciá-lo. – Ainda não. Há um prato que deve ser servido antes. Ela abaixou a cabeça e o acariciou com a boca de um jeito que ele jamais esqueceria. – Você é boa nisto. – Ele conseguiu dizer. – Só com você. Ela dissera isso tantas vezes, que ele começava a acreditar. Com os olhos cheios de desejo, o corpo inclinado sobre o seu, Callie estava linda e vibrante, mas Tagg via nela algo de mais poderoso e de genuíno que ele não tinha vontade de analisar naquele momento. Algum tempo depois, de banho tomado e vestindo uma camisa de Tagg, Callie o acompanhou até o escritório, onde ele iria pegar os documentos que levaria para a reunião. – Eu estive pensando que poderia ajudá-lo aqui, que poderia ser sua assistente – sugeriu ela, enquanto ele enchia a pasta com papéis e formulários. – Você quer trabalhar para mim? – Ele parou o que estava fazendo e olhou para ela. Callie sorriu. – Claro. Você trabalha demais. Faz praticamente tudo sozinho. Aposto que posso cortar o seu tempo de trabalho pela metade. Você não precisaria ficar o dia inteiro neste escritório. Tagg sorriu, puxou-a pela gola da camisa e olhou para o seu corpo quase nu. – Doçura, se você trabalhasse comigo, garanto que passaríamos muito mais tempo aqui. E não seria trabalhando. Callie o abraçou pelo pescoço. – Eu quero ajudar. – Você tem responsabilidades em Penny’s Song. – Ele lhe beijou o pescoço. Callie sentiu o perfume da sua loção pós-barba e percebeu que sentiria saudade dele, assim que ele saísse. – Eu poderia dividir o meu tempo. – A ideia de trabalharem juntos era atraente. Seria uma maneira de estar mais perto dele. Sabia que o estava colocando contra a parede, mas Tagg estava tão carinhoso que ela desejava que a proximidade dos dois se prolongasse. Além disso, queria provar que podia ser uma boa esposa, que sempre iria ajudá-lo e apoiá-lo. – Com a chegada do bebê e tudo mais, seria muita coisa. – Eu me sinto muito bem. Se for demais, eu aviso. – Eu estou acostumado a fazer as coisas do meu jeito. – Jackson disse que você pretendia contratar alguém para ajudá-lo.


– Jackson é um “linguarudo”. Ele não sabe o que fala. – Por que você resiste tanto, Tagg? Eu estou aqui. Conheço os negócios de gado. As esposas ajudam os maridos. Gostaria de ajudá-lo. Ele sacudiu a cabeça e não disse nada. Depois, ele olhou para o relógio e se despediu dela com um beijo. – Preciso ir, Callie. Quando eu voltar, conversamos sobre este assunto. Só depois de ele ter partido, Callie percebeu por que Tagg não queria que ela trabalhasse com ele e soltou uma risada desgostosa. Embora ela desejasse que não fosse verdade, tudo se resumia ao fato de ela ser filha de Hawkins Sullivan. Tagg não conseguia esquecer quem era ela, assim como seu pai também não se esquecia de que os Worth eram seus inimigos mortais. E ela não entendia por quê. Estava na hora de chegar ao fundo daquela questão, de descobrir o motivo daquele ódio. NO DIA seguinte, Callie estava sentada diante do pai no Café Greenhouse, em Red Ridge. Ele chegara com uma cara de mau humor que piorara ainda mais ao ver o peito de peru e a salada que ela pedira para os dois. – Não é tão ruim, pai. Na verdade, é delicioso. – Ela provou o que dizia, comendo uma garfada. Pretendia manter o ânimo, principalmente para evitar que o pai desconfiasse que havia algum problema com o seu casamento. – Como a sola do meu sapato – resmungou ele, embora comesse uma garfada. Callie sorriu. Seria pedir demais que ele mudasse. – Então, como você vai? – Eu estou ótimo. A minha filha se casa e permitem que eu veja a cerimônia a distância de um campo de futebol. – Pai, quando concordamos em almoçar juntos, também concordamos em não discutir. Vamos ficar apenas felizes por nos encontrarmos. – Ele ficou calado, mas concordou. Callie viu as rugas pronunciadas em volta dos seus olhos. O seu rosto parecia estar mais pálido. – Eu amo você, pai. – Você tem um estranho jeito de demonstrar. – Pai... – advertiu ela. Era como se ele fosse a criança, e ela a adulta. – Eu também amo você. – Eu sei. – Ela bem que desejava que ele não a amasse tanto. – Preciso saber uma coisa, pai. É muito importante. Eu me casei com Taggart Worth... – Não me lembre disso. O meu coração pode não aguentar. – Viu só? É isto que eu não entendo. Você tem outros competidores na região, embora não sejam tão fortes como os Worth, mas não parece se importar em ser vencido por algum deles. – Eu me importo. Apenas não me deixo afetar. – Mas você odeia perder para os Worth. – Não posso negar. – Por que, pai? Você os ataca repetidamente. Nada o deixa mais feliz que vencê-los no próprio jogo. Desconfio que você prefira perder dinheiro a deixar que eles façam algum negócio. Eu não compreendo. Você mal consegue ouvir o nome Worth, e sempre foi assim. O velho apontou o garfo na direção de Callie.


– E você... Você vai ter um bebê dos Worth – pronunciou ele o nome como se fosse veneno. Callie precisava descobrir por que ele os odiava tanto, mas primeiro precisava emendar o pai. – O nosso bebê será metade Sullivan, pai. – Humm! – Eu quero este filho. – Você nunca sabe o que é bom para você. – E obrigada por perguntar como eu estou. – Eu posso ver que você está saudável. As cores voltaram ao seu rosto. Você está se alimentando e está bonita como um quadro. – Obrigada. – Callie sorriu. Quando recebia algum elogio do pai, era sempre atravessado. – Mas ainda não o perdoei por ter tentado afastar o bebê de Tagg. – Eu o enfureci, não foi? – Os olhos dele brilharam, enquanto ele comia a salada. – Eu amo Tagg. – Ele não ama você. Aquilo magoou. Ouvir o pai dizer o que ela mais temia abriu um buraco no coração de Callie. Ela não poderia negar. Não poderia provar que o pai estava errado. Queria ser amada por Tagg. Queria várias coisas, mas não era gananciosa. Naquele momento, o que ela mais queria era obter a confiança do marido. – Por que você sente tanta raiva dos Worth? Eu sei que o motivo vai além dos negócios. Por favor, pai... – implorou ela. – Isto não é piada. É a minha vida. Eu me sinto dividida entre dois homens que amo. A expressão do velho mudou. A dureza dos seus olhos suavizou e ele deu um sorriso triste. – Está bem. Eu vou lhe dizer. Mas você nunca vai contar isto para ninguém. Nem para os seus amigos, nem para o miserável do seu marido. Callie fechou os olhos. Odiava ouvir o pai falar daquele jeito a respeito do homem que ela amava. – Você precisa jurar, Callie. – Eu juro. – Por sorte, eles haviam sentado em uma mesa de canto. O restaurante não estava cheio e, com certeza, estavam fora do alcance de ouvidos estranhos. Ainda assim, o pai de Callie diminuiu o volume da voz. – Eu só estou lhe dizendo isso na esperança de que você deixe o seu marido e volte para casa, que é o seu lugar. – Ele fez uma pausa, mas Callie não respondeu. – Tem a ver com a sua mãe. – Com mamãe? – Callie ficou surpresa. – O que ela tem a ver com isso? – Quando eu a conheci, ela estava apaixonada por Rory Worth. – Mamãe e o pai de Tagg? Eu nunca soube... – Ninguém sabe disso, só eu. E agora, você. Rory está morto e já foi tarde. Ele nunca contou a ninguém o que havia feito. Callie desejou não precisar ouvir. – Ele tirou a virgindade da sua mãe e a engravidou. Catherine tinha apenas 19 anos naquela época. Callie realmente não queria ouvir, mas precisava saber. – Quando a sua mãe percebeu que estava grávida, foi falar com Rory. Você pode imaginar como ela estava assustada. Confiara nele, e ele brincara com ela. Rory disse que não a amava, que não podia se casar com ela porque estava noivo de outra garota. – Ah, não. – Callie não podia acreditar no que ouvia. – Deveria ser Isabella Worth, mãe de Tagg.


Hawk concordou. – Parece que Rory e Bella tiveram uma briga que durou apenas duas semanas, e ele não ficou se lamentando. Pelo contrário: uma noite, ele se embriagou e aconteceu de Catherine estar no lugar errado. Esta foi a desculpa que ele alegou. Rory a seduziu e a levou para a cama. Ah, ela estava loucamente apaixonada por ele, como sempre fora. Eu fiquei de coração partido porque a amava tanto quanto ela o amava, e ali estava ela, grávida de um filho de Rory. Era a minha chance de consertar as coisas: eu lhe propus casamento. Ela me disse que havia uma parte sua que nunca deixaria de amar Rory Worth, e eu entendi, odiei, mas ainda assim queria me casar com ela. Sua mãe recusou, disse que não seria justo comigo. Eu insisti. Eu a amava pelos dois. – A voz dele soara rouca e cansada. Hawk abaixou os olhos e ficou pensativo. E, de repente, ele deu um sorriso satisfeito. – Uma noite eu dei uma surra no miserável. Rory nunca perguntou o motivo, e ninguém falou a respeito do assunto. Ele sabia por que, e isso era o bastante para mim. – Pai, você? – Eu estava em melhores condições físicas, Callie. Não fique tão surpresa. – Eu... Não estou. – Mas estava. – Você disse que mamãe se recusou a casar com você. – Sim, naquele momento. Ela perdeu o bebê pouco tempo depois e ficou arrasada. Entrou em depressão. As pessoas que a conheciam achavam que o filho era meu. E por mim, tudo bem. Eu não queria que pensassem mal a respeito dela, e todos sabiam que eu a pedira em casamento várias vezes. Acho que venci pelo cansaço. Por fim, ela aceitou a minha proposta. Callie bebeu a limonada que lhe caiu como ácido. – Pensei que vocês fossem felizes. O pai pegou na mão de Callie, e ela o imaginou ainda jovem, cheio de vitalidade, apaixonado por sua mãe de uma maneira que o levaria a fazer qualquer coisa para protegê-la. – E éramos. Tivemos uma vida muito boa. Depois que você nasceu, Callie, ela nunca mais olhou para trás. Você compensou tudo. Acho que é por isso que sou excessivamente apegado a você. Callie compreendeu. Sempre entendera, mas agora sabia por que. Sempre soubera o quanto seu pai gostava de sua mãe, e agora percebia por que ele tanto odiara Rory Worth. Deveria ter sido difícil para ele morar na mesma cidade, fazer o mesmo tipo de negócios, sabendo que a mulher que ele amava sempre estaria apaixonada pelo seu adversário. – Agora você sabe por que eu não queria que você se aproximasse dos Worth. – Sim. Agora compreendo os seus motivos. – Mas eles nada tinham a ver com Tagg e seus irmãos. Por que seu pai não enxergava isto? A sua maneira de se vingar era derrotá-los nos negócios. – Você está errado ao culpar os filhos de Rory pelo que ele fez. – Você sabe o que dizem a respeito dos pecados dos pais – replicou Hawk com teimosia. – Eu não estou errado. Os olhos de Callie se encheram de lágrimas. A sua situação não parecia ter saída. Ela amava Tagg com todo o seu coração, mas ele ainda a via como inimiga e sempre a veria como filha do seu implacável competidor. – Pai, você não está fazendo planos para se aposentar, está? – De jeito nenhum. Para quem eu deixaria o meu legado? Você não está interessada. Santo Deus! A vida se tornava cada vez mais complicada.


CAPÍTULO 8

NAQUELA TARDE, quando Tagg entrou pela porta e os olhares dos dois se encontraram, o coração de Callie bateu mais depressa. Ela soltou as amostras de tinta e de tecidos que estivera escolhendo sobre o balcão da cozinha e se aproximou para recebê-lo. – Como foi a viagem? Tagg empurrou o chapéu para trás e sorriu. – Foi boa, mas estou contente por estar em casa. – Está? – Estou. – Ele parecia um tanto admirado por admitir. – Foi o que percebi assim que passei pela porta. – Ele lhe deu o beijo típico do marido que chega a casa, e ela ficou imensamente feliz. – Estou contente por você estar em casa. Está com fome? – Não, mas aceitaria uma bebida. – Fraca ou forte? – Definitivamente forte. – Tagg a seguiu até a cozinha e jogou o chapéu sobre uma cadeira. Callie se movia com eficiência, tirava um copo do armário e ia até a sala para pegar a bebida. Enquanto isso, Tagg se aproximava do balcão e observava as amostras que ela estivera escolhendo. Callie voltou e serviu a bebida. – O que é isto? – perguntou ele, pegando o copo que ela lhe oferecia. – Não me ache tola, mas andei pensando em decorar o quarto do bebê. Algumas cores e formas insistiam em aparecer na minha cabeça, e, a caminho de casa, parei e peguei algumas amostras. – Parece uma boa ideia – disse Tagg. – Ainda é um pouco cedo, mas eu estou animada. Tagg olhou para a barriga de Callie e levantou as sobrancelhas ao notar um pequeno volume na sua cintura. Os jeans estavam ficando apertados e ela vestira uma calça fuseau preta que revelava ainda mais o volume do seu ventre. – Talvez não seja cedo demais. – Ele se aproximou, abraçou-a por trás e colocou a mão no ventre de Callie. Ela fechou os olhos. – Você já sente alguma coisa? – Só que o meu jeans não cabe mais. O bebê... – Callie começou a dizer, sentindo-se realmente grávida pela primeira vez ao reconhecer que estava com a barriga arredondada. – A minha barriga está


saltando do jeans. – Ela sentiu que ele lhe acariciava a barriga e rezou para que ele não dissesse algo que fosse estragar o clima. – Eu passei apenas uma noite fora, mas percebo que ela está diferente. – É estranho, não é? – Não é estranho, Callie. É natural e coerente. Ela colocou a mão em cima da mão dele, e os dois ficaram abraçados, aproveitando o instante de serenidade. – Eu senti saudade, Tagg – falou ela docemente. Ele lhe beijou o pescoço e a abraçou com mais força. – Fiquei feliz em voltar para casa, Callie. Os lábios de Callie tremeram. Jamais pensara em ouvi-lo dizer aquelas palavras. Não fora uma declaração de amor, mas assim mesmo ela ficara feliz por ele dizer. – Por que você foi até a cidade? – perguntou ele, soltando-a para beber um gole da sua bebida. Callie se aproximou do balcão e olhou para as amostras de tinta e de tecido. Minta. Minta e não mencione o nome do Falcão. Mas ela fitou os olhos de Tagg e não teve coragem. Deveria ser verdadeira com ele e com o relacionamento que mantinham. – Eu fui almoçar com meu pai. Tagg bebeu mais um gole para engolir a informação, balançou a cabeça e mudou de assunto. – Então, de que cor você gostou? – perguntou ele, apontando as amostras. – Ah, eu não sei. Acho o verde adequado para o caso de ser menino. Por outro lado, no caso de ser menina, eu adorei o tom de rosa. Tagg pegou a placa rosa que estava entre as amostras. – Seria a primeira vez na família Worth. – Seria ruim? – Apenas diferente. Eu cresci em uma casa cheia de homens. Não estamos habituados com cor-derosa. Callie soltou uma risada, aliviada por ele não ter ficado de mau humor ao ouvir o nome de seu pai. – Acho que coloquei o carro na frente dos bois. Não posso decorar o quarto antes de saber se será menino ou menina. – E quando vamos saber? – perguntou ele. – Em um mês ou dois. – Nesse caso, acho que deveríamos nos dedicar a Penny’s Song. Vou organizar um pequeno rodeio para quando as crianças chegarem, para lhes mostrar como se cavalga e se laça. Callie gostou da ideia. – Eu era boa na corrida de barris. Embora nunca tenha participado de algum rodeio, acho que ainda consigo percorrer aquele caminho. – Não, Callie. Prefiro que não. É muito perigoso. – Eu apenas faria o circuito. Não há nada de perigoso nisso. Eu colocaria os obstáculos e mostraria às crianças como contorná-los. – Ela riu do jogo de palavras. – Você se acha engraçada – disse Tagg, coçando a cabeça e suspirando. – Está bem. Callie sentia que estava vencendo pequenas batalhas na luta para ganhar a confiança de Tagg. Depois da conversa com o pai naquela manhã, sentira-se sem saída, mas a mudança de atitude de Tagg renovara as suas esperanças. Se ela aproveitasse a oportunidade, teria chance de vencer.


LEMBRANÇAS CRUÉIS ocupavam a cabeça de Tagg, enquanto ele se revirava na cama, tremendo e com o coração acelerado. Durante o dia, ele ficava ocupado demais com o trabalho para se lembrar da morte de Heather. Mas, à noite, era diferente. Às vezes, quando ele estava deitado no escuro, as lembranças o pegavam desprevenido, e aquela era uma das noites em que ele não conseguia se livrar das recordações que alimentavam o seu sentimento de culpa. Tagg entrou em casa, ansioso para encontrar Heather. Sentia necessidade de abraçar a esposa, de sentir o seu cabelo cor de trigo entre os dedos, de ver o brilho do amor em seus olhos. Ela era o seu esteio, a sua paz. Tornava a sua vida completa. Ele nunca amara alguém daquele jeito. Bastara um olhar para saber que a rainha dos rodeios seria sua esposa. Ele a encontrou na sala, sentada ao lado de um homem. Os dois estavam muito próximos, seus corpos quase se tocavam. O sorriso de Tagg desapareceu e ele contraiu os lábios. Nunca vira aquele homem, mas ele evidentemente conhecia Heather muito bem. Tagg parou na porta da sala e se apoiou no batente. – Heather? Ela fechou os olhos e, quando voltou a abri-los, o seu olhar era culpado. O homem levantou e estendeu a mão para cumprimentá-lo. – Pierce Donnely. – Taggart Worth. – Desconfiado, Tagg também estendeu a mão e retribuiu o cumprimento. – Eu já estava de saída. Tagg segurou o homem pelo braço. – Quem é você? – Deixe-o ir, Tagg. Eu vou explicar – disse Heather, levantando-se do sofá. Tagg soltou o homem, esperou que ele saísse e se voltou para a esposa. Heather confessou que Pierce era o seu primeiro marido, um amigo de infância com quem ela se casara assim que saíra da escola. Os dois haviam ficado juntos por apenas dois meses, antes de anular o casamento. Com os olhos cheios de lágrimas, Heather confessou que se correspondia com ele e que lhe mandava dinheiro sempre que necessário, e que não queria que ninguém soubesse que já tinha sido casada. Chocado com a revelação, Tagg a condenou veementemente, enquanto tentava entender por que ela lhe escondera a verdade. Acusou-a de traí-lo, de enganá-lo, ainda que ela negasse e que se desmanchasse em lágrimas. Mas ele estava furioso demais para ouvir explicações. Não importava que ela conhecesse Pierce desde criança, que ele tivesse um problema com bebida e que precisasse de ajuda profissional. Não importava que Heather não quisesse abandonar Pierce à sua sorte e que ele se apoiasse na sua amizade. Tagg só se importava com o fato de que sua esposa perfeita mentira deliberadamente, acabando com a imagem que ele fazia dela e dos dois. Ela tentou mais uma vez. – Eu ia lhe contar... Tagg lhe deu as costas, recusando-se a olhar para ela, a aceitar suas desculpas. – Deveria ter me contado, Heather. Deveria ter confiado em mim. – Eu sei, Tagg. O que posso fazer para levá-lo a entender? Ele se voltou para ela e sacudiu a cabeça. – Eu não sei. – Estava mais furioso com ela do que já estivera durante toda a sua vida. E profundamente magoado. – Agora eu não consigo raciocinar direito. Preciso me afastar durante alguns dias para me acalmar. Eu vou para algum lugar. Talvez para a casa de Jackson, em Phoenix. Ela o pegou pelo braço e o olhou com sinceridade.


– Não, Tagg. Você não deve sair da sua casa. Eu vou. Vou lhe dar espaço para respirar. Preciso visitar minha mãe. Esta noite eu vou partir para Denver e, quando eu voltar, nós conversamos. Prometo que vou consertar as coisas. – Ela deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto. – Eu o amo tanto... Tagg assentiu, sem ser capaz de sequer esboçar um sorriso, sem dizer o que ela queria ouvir. Ele não pediu que ela ficasse. Deixou que o orgulho dominasse o seu coração. Mais tarde, naquela noite, alguém bateu na porta da casa de Tagg. O choque ao receber a notícia foi tão forte que quase o destruiu. – Sinto muito ter que lhe dizer, mas a sua esposa morreu em um acidente de avião, sr. Worth. Tagg estava molhado de suor e tremia convulsivamente. A recordação fora muito vívida, muito real. Desta vez, ele vira tudo em cores. O seu peito doía e ele tinha dificuldade para respirar. Sentou-se na cama e abriu os olhos, tentando esquecer as lembranças que o perseguiam e os erros que cometera com Heather. O luar entrava no quarto e iluminava o corpo da mulher que estava deitada ao seu lado. Sua nova esposa, Callie. Ela se mexeu e ele ficou com medo de acordá-la. Sem fazer o menor ruído, ele levantou da cama. Suas pernas ainda tremiam quando ele saiu de casa e caminhou na direção do curral. Princess levantou a cabeça quando Tagg se aproximou. Ela era a sua égua mais sensível: estava sempre alerta, sempre em guarda. Trick, Russet e Starlight dormiam. Nas noites de verão, as éguas geralmente preferiam dormir fora do estábulo. Ele ficou satisfeito ao ver que a égua não se aproximava. Não queria perturbá-la. Não queria que nada fosse perturbado. O enorme pasto e o vasto céu iluminado pelas estrelas o acalmaram, dando-lhe um mínimo de tranquilidade. Tagg olhou ao redor, sentindo-se grato pelo rancho, pela terra que pertencia à sua família há várias gerações. Ele construíra a sua casa exatamente no lugar onde Elizabeth e Chance Worth haviam morado há mais de cem anos. Era como se pudesse vê-los começando o rancho, lutando contra a seca, as doenças, os ladrões de gado e, apesar dos obstáculos, forjando o futuro através do seu amor e devoção. Eles tinham tido a sua cota de adversidade, e Tagg imaginou se a terra, as montanhas Red Ridge e o céu infinito tinham lhes proporcionado a mesma sensação de conforto que lhe davam. – Tagg? Ele ouviu a voz doce de Callie, voltou-se e a viu parada na porta, vestindo uma camisola branca que mal lhe chegava aos joelhos. O cabelo lhe emoldurava o rosto e caía em cachos sobre o peito, enquanto ela se aproximava guiada apenas pela luz da lua. Talvez fosse apenas o momento, ou a maneira como ele se sentia, mas a presença de Callie ao seu lado preenchera o vazio que havia dentro dele. – Você está bem? – perguntou ela. Tagg afastou um cacho que caíra sobre o rosto dela e o prendeu atrás da sua orelha. Passou o dedo de leve sobre o seu rosto e lhe levantou o queixo. – Estou. – Não conseguiu dormir de novo? – perguntou ela, preocupada. – Veio procurar consolo junto às suas éguas? Tagg sorriu. – Mais ou menos. Sinto muito se acordei você. – Fiquei preocupada. – Obrigado, Callie. – Ele pegou a mão de Callie e lhe apertou os dedos. Ela apertou a mão dele e sussurrou: – Eu estou aqui para apoiá-lo. Como posso ajudá-lo?


– Isto vai me ajudar – disse ele, beijando-a com ternura. – Fico feliz. Os dois ficaram calados por um instante, olhando para o céu. Quando uma brisa fez com que Callie se arrepiasse de frio, Tagg a abraçou pelos ombros e a levou de volta para casa. – Vamos voltar para a cama. Os dois entraram em casa em silêncio e, quando deitaram na cama, Tagg a abraçou até que ela dormisse. O peso do seu fardo diminuíra naquela noite, e ele se agarrou à tranquilidade que sentia e fechou os olhos, livre das terríveis lembranças que a escuridão costumava lhe trazer. Naquela noite, ele esquecera quem era o pai de Callie. Naquela noite, sentira um pouco de amor por sua mulher. E, para sua surpresa, esta ideia não o amedrontava como antes. DOIS DIAS depois, Tagg fechou a gaveta do seu escritório com a força e um vendaval, fazendo com que a mesa sacudisse e o ruído ecoasse nas paredes da sala. A xícara de café não suportou o abalo e o líquido se espalhou pelas pastas, antes de formar uma poça no chão. Ele não encontrara alívio em quase quebrar a gaveta e voltou a abri-la e fechá-la com violência. – Filho da mãe! – Tagg soltou todos os impropérios que sabia, mas isto não lhe trouxe alívio. Olhou para a tela do computador, sem acreditar no que via, e releu o e-mail que acabara de receber da PricePoint Foods, em Tucson. Ele praticamente estava com o contrato assinado no bolso, e eles não tinham tido sequer a coragem de lhe telefonar para comunicar o que haviam resolvido. Haviam lhe mandado um e-mail: “A PricePoint lamenta não poder fechar negócio com a Worth Enterprises neste momento. Como cortesia, um representante da nossa empresa em breve fará contato com vocês”. – Eu não vou esperar. – Tagg queria chegar ao fundo da questão. Devia ser culpa de Sullivan. O Big Hawk era o único rancho do Arizona grande o suficiente para atender à demanda daquele contrato altamente lucrativo. Os ranchos dos dois se equivaliam em extensão e produção. – Maldito Sullivan! Alguém bateu na porta e antes que Tagg tivesse tempo de responder, Clay entrou, tirou o chapéu, olhou para ele e sentou. – Bom dia, mano. O que foi? O que lhe provocou esta cara azeda? Tagg controlou a raiva. Olhou mais uma vez para o computador e depois para o irmão. – O rancho Big Hawk nos fez perder mais um contrato. – Verdade? Tagg esfregou a testa e soltou um forte suspiro. Precisava reagir racionalmente. – Sim. O que eu não entendo é que eu estou lhes dando o melhor preço do mercado. Um pouco mais baixo e estaríamos perdendo dinheiro. Eu trabalhei nesse contrato durante semanas, consultei os nossos advogados e voei até Tucson para tentar fechar negócio. – Tem certeza de que foi Sullivan? – Supõe-se que as propostas sejam confidenciais, mas os executivos da PricePoint deixaram escapar algumas informações nada sutis. Para eles, é melhor manter os competidores numa guerra de preços. Portanto, tenho certeza de que foi Sullivan. – Não há muito que você possa fazer a esse respeito, não é? Tagg piscou. Sullivan o vencera duas vezes no próprio jogo, e ele não gostava de perder para o pai de Callie. Precisava vencê-lo na próxima rodada. Não que o rancho Worth fosse afundar sem aqueles


contratos: eles tinham clientes leais ao seu nome e à sua reputação, mas agora se tornara uma questão de orgulho e de afirmação. – E como vai o resto? – perguntou Clay, inclinando a cadeira para trás e cruzando as pernas. Tagg percebeu que fora uma maneira do irmão perguntar a respeito do seu casamento. Ele não tinha o hábito de comentar a sua vida pessoal, mas resolveu dar um tempo a Clay naquele dia, porque precisava se distrair. – Está tudo bem. Eu e Callie estamos preparando um pequeno show para quando as crianças chegarem. Eu vou cavalgar e jogar o laço. Ela vai mostrar como funciona a corrida de barris. Clay ergueu as sobrancelhas e olhou para Tagg com um olhar curioso. – Então vocês estão se dando bem? – Precisamos nos dar, não é? Somos casados. – Nem todos os casais conseguem – falou Clay casualmente, embora fosse evidente que ele se referia ao seu casamento desfeito com Trish Fontaine. O nome de Trish era um tabu e Tagg sabia que não deveria mencioná-la. – Nós vamos ter um filho, você se lembra? – Pensar no pequeno ser que se desenvolvia na barriga de Callie melhorava o seu humor. – Callie está começando a mostrar os primeiros sinais... – É mesmo? – Eu estou o quê? – Callie entrou na sala, carregando uma bandeja de biscoitinhos de aveia recémsaídos do forno e dois copos de limonada. – Nossa, isso tem um cheiro delicioso. Olá, Callie. – Clay endireitou a cadeira. – Bom dia, Clay. – Ela cozinha? – perguntou Clay a Tagg. – Cozinho – respondeu ela. – Nunca tive muito tempo antes, mas ultimamente estou gostando cada vez mais da cozinha. – Ela colocou a bandeja em cima da mesa e olhou para a sujeira que o café derramado fizera no chão. – O que aconteceu aqui? Tagg lançou um olhar de advertência na direção de Clay. Não estava pronto para contar a Callie a última derrota que sofrera. Precisava de tempo para pensar no que acontecera. E, de repente, lhe ocorreu uma suspeita a respeito de Callie e de seu pai: assim que ele deixara a cidade, Callie fora visitar o Falcão. Ela tinha acesso às suas contas, ao escritório e ao computador. Ele não queria pensar o pior a respeito da esposa, mas como poderia saber a quem ela realmente dedicava a sua lealdade? Ele não tinha provas, ou em que se basear, e resolveu deixar a sua desconfiança de lado. – Eu derramei por acidente. Callie pegou alguns guardanapos de papel na bandeja e limpou o chão. – Sirvam-se, rapazes. O que vocês não comerem vai para a equipe de Penny’s Song. Clay pegou dois biscoitos e um copo de limonada, e Tagg pegou um biscoito. Os dois agradeceram, e ela se apoiou na beirada da mesa e olhou de um para o outro. – Então, o que Callie está fazendo? – Ela não se esquecera da conversa que ouvira ao entrar. Tagg mordeu o biscoito. – Está ótimo. – Ele começou a mastigar e deixou que Clay respondesse. Callie franziu a testa e esperou. Clay pigarreou. – Tagg estava dizendo que você está começando a mostrar... Sinais da sua gravidez. – Ele olhou para a barriga de Callie, e ela sorriu. – Eu sei. É só uma barriguinha, mas é o bebê.


– Eu não vejo nenhuma barriguinha. – Mas está aí – disse Tagg. – E você não vai ver de mais perto. – Sim, e, graças a Deus, os enjoos matinais pararam – disse Callie. – Que ótimo. Porque no próximo fim de semana eu vou dar uma festa para os operários e voluntários, e principalmente para a família. Será uma maneira de agradecer a todos, antes de começarmos a funcionar oficialmente. Eu vim aqui para convidá-los pessoalmente. – É uma ótima ideia – disse Callie. – Você precisa de ajuda para preparar a festa? – Se você estiver disposta, sim. Podemos conversar mais tarde? – Claro, Clay. O que você precisar... – Callie lhe ofereceu mais um biscoito. – Será black tie. – Black tie? – gemeu Tagg, como se lhe doesse fisicamente. – É. Você vai ter que se vestir a caráter – disse Clay, dando uma piscada para Callie. – Parece até coisa de Jackson – resmungou Tagg. – Na verdade, a ideia foi dele. TAGG PASSOU os dias seguintes preparando uma proposta para uma grande empresa de carne. Pretendia ir a um leilão de gado em Flagstaff dentro de três semanas, e entrou em contato com alguns clientes regulares. Não estava acostumado a fazer longas negociações para fechar contratos e não sabia como falar sobre futilidades com os clientes. Sempre fora direto e rápido, e odiava cada minuto daquelas conversações. Depois da terceira chamada, ele desligou e juntou as pastas de documentos, formando uma pilha sobre a mesa, e notou que uma mostra de tecido ficara embaixo de um relatório financeiro. Ele pegou o pedaço de pano onde se viam bichinhos espalhados num fundo formado pelo verde das árvores e de brotos de bambu, lembrando um desenho animado da Disney. Tagg pegou a amostra de tinta que estava junto e viu que Callie colara um papel no verso da placa: “Ótimo para um menino. O que você acha?” Eles iam ter um menino? Por um momento, Tagg ficou animado, mas logo se recordou que ela dissera que ainda era muito cedo para saber. Dentro de duas semanas, teriam uma consulta com o médico. Ele ainda não acreditava que seria pai. Jamais pensara que teria outra chance de ser feliz. Nunca imaginara que iria readquirir paz suficiente para deixar que alguém se aproximasse dele. Durante anos, ele achara não ser merecedor. E Callie conseguira mudar tudo? Seria possível que a filha de Hawkins Sullivan tivesse sido a pessoa capaz de enxergá-lo para além do seu sofrimento e da sua culpa? Tagg olhou para as amostras em suas mãos, sorriu e imaginou o que Callie escolheria se eles fossem ter uma menina. Cavalos voadores cor-de-rosa? Ele ouviu a voz de Callie do lado de fora, colocou as amostras sobre a mesa, foi até a janela e viu um reboque de cavalos parado perto de casa. Callie tentava falar mais alto que os relinchos do Palomino. Tagg colocou o chapéu, saiu e correu até a carreta. Sabia que era melhor ficar longe de um cavalo agitado. Callie, pelo contrário, se colocava no meio da confusão. – Você precisa de ajuda? Ela olhou para ele e sacudiu a cabeça. – Não. Freedom não gostou do reboque. Ela é um tanto nervosa. – A égua dourada começou a sair da carreta ao ouvir os apelos de Callie. – Vamos, garota. Esta é a sua nova casa. Assim... Senti saudades


de você. Tagg olhou a parte interna do reboque. – Ela destruiu as laterais. – É o que ela faz. – Callie afagou o focinho da égua, que ergueu a cabeça em protesto. – Está tudo bem, Free. Calma. Nada mais de reboques para você. – O seu pai sabe que você a trouxe? – Ainda não. Eu me certifiquei de que ele não estaria em casa quando eu fosse lá. Mais tarde eu telefono para avisá-lo. – Ela é uma beleza. – Obrigada – disse Callie, sorrindo. – Eu esqueci que ela chegaria hoje. – Eu lhe disse ontem à noite. Tagg se lembrava vagamente. Ele se aproximou e afagou a crina da égua, falando no ouvido de Callie: – Você quer que eu me lembre de alguma coisa depois da noite passada? Você acabou com todos os meus neurônios. Mal me lembro do meu nome. Callie deu uma olhada para o motorista do jipe, que se afastara para verificar o motor. – Está reclamando? – sussurrou ela. Sabia que ele não estava. Fazer sexo com Callie estava ficando cada vez melhor. – Eu não sou bobo. Conheço algo bom quando o vejo. Callie tirou os olhos do cavalo e o olhou de cima a baixo. Gostava de vê-lo de jeans e botas. Ela ergueu as sobrancelhas com um ar de aprovação e lhe lançou um olhar malicioso que o atingiu direto na virilha. – Eu também – disse ela baixinho. Ele teve vontade de levá-la de volta ao quarto e... – Hoje eu vou sair com Free – anunciou ela, mudando o curso das ideias de Tagg. – Vou levá-la para conhecer a sua terra e para se acostumar com o cheiro dos outros cavalos. – Parece uma boa ideia. – Ela não vai gostar de dividir o paddock com as suas éguas. Ela é muito sensível. – Foi o que eu percebi. – Mas, no fundo, ela é um doce. Tagg imaginou se o mesmo não se aplicava a Callie. – Quando você pretende sair para o seu passeio? – Depois do almoço. – Gostaria de ter companhia? – Você quer cavalgar comigo? – perguntou Callie ansiosa. – Por que não? – Tagg sabia por que ela estava surpresa. Ele jamais a convidara, apesar de ter visto sempre o seu olhar ansioso e percebido a sua necessidade de se sentir aceita no rancho. Mantivera as suas cavalgadas solitárias para se isolar com seus pensamentos, mas também como uma forma de colocar alguma distância entre os dois, para impedir que ela se aproximasse demais, ou talvez para puni-la por seus erros passados. Tagg odiava admitir, mas era verdade. Ele tivera que se casar com ela e aceitá-la em sua casa por causa do bebê. Também tivera que tolerar o seu pai imoral e odioso. – Porque você nunca me convidou antes. Por que agora?


Tagg observou o pequeno volume na cintura de Callie, sentiu uma sensação de orgulho e também um poderoso instinto de proteção. Callie era uma amazona experiente, mas sua égua era nervosa. Depois de ter visto as paredes do reboque destruídas pelos coices, ele não queria que ela saísse sozinha com a égua. Preocupava-se com a segurança do bebê, isto era certo, mas também se espantava pelo tanto de preocupação que sua esposa lhe causava. Ele deu de ombros. – Seria melhor se eu fosse com você. Isto é tudo. – Combinado, cowboy. – Ela fez menção de dizer mais alguma coisa, mas pareceu mudar de ideia e sorriu.


CAPÍTULO 9

– A SUA esposa é muito atraente – disse Jackson, bebendo um gole de vinho e indicando Callie, que conversava com dois companheiros de trabalho de Penny’s Song perto de uma árvore enfeitada com centenas de lâmpadas, ao lado da varanda da casa de Clay. Tagg olhou para o irmão. – O quê? Só estou dizendo o óbvio. – Mantenha os olhos grudados em outro lugar. Jackson sorriu e tomou outro gole de Pinot Noir. – Só estou apreciando a mulher mais bonita do lugar. Tagg precisava concordar. Ele não conseguia tirar os olhos de Callie, apesar de tê-la visto nas circunstâncias mais íntimas e acariciado o seu corpo inúmeras vezes, fazendo com que ela gemesse o seu nome até perder o fôlego. Callie prendera o cabelo num intricado coque e deixara alguns cachos caírem cuidadosamente sobre sua nuca. Uma faixa bordada com strass ajustava o vestido vermelho sob os seios, fazendo com que o tecido caísse em pregas suaves até seus tornozelos. Quando ela saíra do quarto, vestida daquele jeito, Tagg deixara cair a revista que estivera lendo. Nunca a vira tão bonita. Clay se aproximou, parou ao lado deles e seguiu a direção dos olhares dos dois. – Ela me parece feliz esta noite, Tagg. – Por enquanto – disse Jackson. Tagg piscou e suspirou. Seus irmãos não o deixavam em paz. Desde que haviam descoberto a respeito da gravidez, haviam resolvido pintar um quadro cor-de-rosa a respeito de seu casamento. Ele se ressentia. Precisava de mais tempo. Os sentimentos que tinha por Callie o assustavam e dúvidas atrozes o mantinham afastado. Ele ainda não se entregara e não sabia se um dia iria conseguir. – Por que ela não estaria feliz? Clay coçou a cabeça. Jackson bebeu o resto do vinho. Os dois ergueram as sobrancelhas e olharam para Tagg, que pegou uma taça de vinho da bandeja de um garçom que passava e bebeu o seu conteúdo de um só gole. Ele sabia por que Callie não era feliz com ele, mas como Jackson sabia? Callie teria dito alguma coisa, ou seu irmão estaria apenas provocando-o? A única cavalgada que haviam dado juntos não tivera bom resultado. Freedom estivera agitada e Tagg elevara a voz várias vezes ao falar com Callie. Os dois haviam discutido a respeito das táticas de


comando e de controle de cavalos, e Callie acabara cavalgando em outra direção. Ele ficara preocupado com a sua segurança e a do bebê. Desde então, as coisas haviam ficado tensas entre eles dois. A voz de Clay trouxe Tagg de volta à conversa. – Você arranjou uma ótima esposa. Não estrague tudo. – Clay, que normalmente agia com extrema diplomacia, olhou para Tagg com um ar de advertência. Droga, teria Callie dito algo a seus irmãos? – Sabe, você não é grande coisa – disse Jackson. – Eu nunca disse que era – protestou Tagg, apertando o copo vazio com força e praguejando intimamente, mais por ver que um dos rapazes levava Callie para dançar, que por seu irmão tentar fazer com que ele se sentisse culpado. No instante em que ele viu o rapaz colocar o braço em volta de Callie, sentiu suas vísceras se retorcerem. – Você está ficando verde, Tagg. Talvez tenha sido o camarão – debochou Jackson, deixando Tagg irritado. – Nenhum comentário? – Tagg deu de ombros. Não iria deixar que o irmão o provocasse. – Talvez você devesse dançar com a sua mulher. Ou, talvez, eu dance. – Jackson fez um movimento na direção do tablado que fora colocado no jardim. Tagg lhe bloqueou a passagem com um braço de aço. – Não seja idiota. O sorriso usualmente irônico de Jackson desapareceu e os olhos dele escureceram de preocupação. – Estou tentando evitar que você seja. Ou você é estúpido, ou covarde. Eu conheço os nossos genes. Você não é estúpido, Tagg. Se não se soltar, vai perdê-la. – O que foi que ela lhe disse? – perguntou Tagg, encarando Jackson. – E precisa dizer alguma coisa? – perguntou Jackson. – E se precisar, é você quem deveria estar dizendo para ela. Nem Jackson, nem Clay sabiam algo a respeito do seu relacionamento com Callie. E Tagg não iria explicar. Primeiro, porque não era da conta deles e, segundo, porque nem ele sabia como defini-lo. Quando o trio que tocava fez um intervalo, Clay ocupou o centro do palco. Ele se superara na organização da festa. Não apenas convidara a família, os voluntários e todos os operários que haviam trabalhado com eles, mas também o prefeito, o delegado e os membros do conselho de Red Ridge, assim como alguns moradores da cidade. Clay já fora um astro e sabia controlar uma plateia, mas, naquela noite, não se tratava dele e da sua celebridade, e sim de agradecer a tantos que tinham contribuído com tempo e trabalho para o seu projeto. Clay chamou o resto da família Worth para se juntar a ele em cima do palco diante do qual os convidados haviam se juntado. Tagg procurou por Callie e viu que ela se retirara para o fundo, parara ao lado de uma das árvores iluminadas e bebia um gole de cidra. Ele foi até ela. – Callie? – Ele estendeu a mão. – Você não vem? Estamos sendo convocados. – Tagg. – Ele ouviu Clay chamar no microfone. – Pegue a sua linda esposa e venha até aqui. Não posso começar sem vocês dois. Callie olhou para Clay, que os esperava, soltou um suspiro e entregou a mão para Tagg, que a apertou com força. Ele a fez subir no palco e ficar ao lado de Jackson, que sorriu para ela com cara de bobo. Clay começou o seu discurso. Tagg segurava a mão da mulher, enquanto seu irmão falava para o grupo, agradecendo a cada um por ter apoiado Penny’s Song, citando as pessoas que haviam colaborado ao longo do caminho e dando crédito aos irmãos pela participação que haviam tido no projeto, embora Tagg soubesse que ele e Jackson haviam construído tudo praticamente sem a sua ajuda. Em seguida, Clay oficialmente deu boas-vindas a Callie na família Worth, elogiou o seu árduo trabalho e a sua generosidade, e a beijou no rosto, gesto que resultou em calorosos aplausos.


– Você não dançou comigo nem uma vez – disse Tagg, levando-a de volta para o lado da árvore. A frase soara seca, embora a sua intenção fosse aparentar indiferença. – Você não me convidou. – Você estava ocupada – disse Tagg, brincando com um cacho do cabelo de Callie. – Clay pediu que eu fizesse o papel de anfitriã. – Clay deveria ter sua própria esposa. Callie riu. – Você não está com ciúme. – Não fora uma pergunta, mas uma simples constatação. Callie não sabia quanto ciúme ele sentira de cada homem que dançara com ela, que lhe dera atenção, que lhe provocara um sorriso. Tagg a abraçou pela cintura e a apertou com força sobre o peito. Sentiu o seu estranho perfume sexy e cítrico e suas entranhas se contraíram. Ficara longe dela por muito tempo e a desejava. Não deixaria que ela o afastasse. Ela olhava para ele com um ar de desafio, mas os seus olhos brilhavam de excitação. Callie nunca se mostrava resistente, e isto a tornava extremamente atraente. Além disso, não parecia estar mais zangada com ele. – Eu estou com ciúme – admitiu ele. Callie fechou os olhos. – Isto não é um jogo, Tagg. Ele lhe beijou os lábios de leve. – Eu jamais achei que fosse, Callie. Nem por um segundo. CALLIE NÃO era de desistir. Desde criança, jamais desistia de alguma coisa que queria muito. Fora assim com o campeonato de soletração, aos 9 anos, com o concurso de Melhor Amazona Adolescente, e com as crianças aparentemente perdidas e sem esperança com quem trabalhara na With Care Foundation, em Boston. Todas as vezes enfrentara o seu terrível pai e mantivera a cabeça erguida, fazendo algo de que pudesse se orgulhar, apesar do seu DNA. E, agora, não desistiria de Tagg. Só precisava recuperar o fôlego... Callie se apoiara na velha árvore enquanto observava o marido, que Jackson chamara para participar de uma conversa com o prefeito. Ela percebia que Tagg estava ali a contragosto e que olhava para ela enquanto tentava dar atenção ao que o prefeito dizia. Callie reparou que Tagg estava lindo de smoking, com o cabelo escuro descendo sobre a gola do paletó preto e com a pele queimada pelo sol do Arizona. Ela adorava o jeito dele de se mexer, como se estivesse se sentindo confortável dentro da própria pele. Adorava o tom rouco da sua voz. Não havia nada que ela não gostasse em Taggart Worth, a não ser a maneira como ele a mantinha distante. Disto ela não gostava nem um pouco. Ele lhe dava o suficiente para que ela desejasse tudo. Era cansativo tentar ser uma boa esposa quando o que ele lhe dava em troca era tão pouco. Callie se sentia como uma fonte que estava sempre jorrando, sem ter onde se reabastecer. Os golpes que ele lhe dava começavam a atingi-la. Ela fora feita de matéria resistente, afinal, era uma Sullivan, mas as mudanças hormonais a haviam tornado mais sensível, insegura. Ultimamente, sem querer, ela explodia em lágrimas que não conseguia controlar. E sempre por algo que tinha a ver com Tagg. Naquela semana, algumas vezes ela pensara que casar com ele fora um erro. Que amá-lo não era suficiente. Algumas vezes, ele se abrira com ela e lhe dera um fiapo de esperança, mas, em seguida, dissera algo que o desmanchara. Callie se sentia como uma unha que se encravava cada vez mais fundo, e o seu único recurso fora mergulhar dentro de si mesma, como uma tartaruga que se


esconde dentro do casco. Ela precisava de consolo e de proteção, mas ainda não estava vencida e não iria desistir, e isso fazia com que ela fosse mais tola que Tagg. Quando o conjunto começou a tocar novamente, Tagg se desculpou com Jackson e com o prefeito e se aproximou de Callie, e o coração dela começou a bater mais rápido quando ele lhe ofereceu um sorriso devastador. – Quer dançar comigo? – Você só está querendo fugir da ladainha do prefeito. – Eu só quero dançar com a mulher mais linda da festa... E você estaria me salvando da interminável ladainha do prefeito. – Tagg fez uma careta. – Nesse caso, considere-se salvo. – Callie ofereceu a mão ao marido e, quando ele a abraçou, ela se derreteu e perdeu o fôlego. Sentira saudade de Tagg. Eles dançaram sobre o gramado, longe do tablado e dos convidados, como Tagg gostava, como costumava fazer. Ele era um solitário e ela invadira a sua vida, virando-a de cabeça para baixo. – Mal posso esperar que esta festa acabe. – Ele beijou o pescoço de Callie. Ela o abraçou pelo pescoço e enfiou os dedos em seu cabelo. – As pessoas já começaram a ir embora. – Este é um bom sinal. – Tagg encostou o rosto no dela e a abraçou com mais força. Os dois se encaixaram como duas peças de um quebra-cabeça. Ela percebeu que ele estava excitado. Ah, como sentira falta de Tagg! – Eu estou cansada – disse ela. Ele se afastou um pouco, preocupado. – É mesmo? – Posso recorrer ao papel de grávida para escaparmos daqui. – Como fez a semana inteira comigo? – Você mereceu. – Talvez. – Tagg soltou um suspiro. – Mas hoje à noite você não vai se salvar com esta. – Ele a beijou com uma ternura que dissolveu todas as dúvidas que ela poderia ter. – Esta noite eu vou tirá-la de dentro deste vestido. Callie se arrepiou dos pés à cabeça. Mal podia esperar. O seu corpo ansiava pelo dele, e alguns lugares latejavam. – Acho que vou desmaiar, Tagg. – Então vamos sair daqui. – Ele a pegou pela mão e a levou para o carro, sem lhe dar tempo para se despedir de seus irmãos, mas Clay e Jackson os viram sair e trocaram um olhar de compreensão. – EU LHE compro outro vestido, querida. – Tagg estivera tão ansioso para deixá-la nua, que rasgara as alças do vestido ao tentar descê-las pelos braços de Callie. O ruído do tecido apenas aumentara a excitação que ela sentia por fazer sexo com ele novamente. Os dias em que haviam dormido juntos sem se tocar a haviam afetado da mesma maneira que a ele. A única coisa que compartilhavam, a única coisa que jamais deixava de ser fantástica, noite e dia, era o sexo. Tagg jamais a decepcionava. Ele era o tipo de homem que fazia as coisas até o fim, com perfeição. E fora o que fizera naquela noite, duas vezes. Callie estava deitada, em paz e quieta, depois de fazerem amor. Sentia o cheiro de homem e de sexo lhe invadir as narinas. Ela pousou a cabeça no ombro de Tagg e lhe acariciou o peito. O ventilador de


teto agitava o ar morno que prenunciava o verão, refrescando a sua pele coberta de suor. Tagg enrolou os dedos em seu cabelo distraidamente, enquanto a sua respiração voltava ao normal. Aquele era o momento que Callie mais gostava: o momento em que ela sentia que nada poderia separá-los, quando, depois de partilharem de corpo e alma uma noite de satisfação, ela voltava a ter esperança. Tagg a fez rolar na cama e se deitar de costas. Colocou-se sobre ela e os dois se olharam. Ele tinha os olhos límpidos, espantosamente acinzentados. E quando ela achava que ele iria beijá-la novamente, ele a surpreendeu tocando-lhe o ventre, fazendo círculos com as pontas dos dedos sobre o pequeno volume da sua barriga, com ternura. – Você acha que vai ser menino ou menina? – Eu não sei – disse ela baixinho. – Qualquer dos dois me deixará feliz. E quanto a você? Tagg deitou na cama e olhou para o teto. – Não faz diferença. – As palavras a teriam magoado se não tivessem sido ditas com paixão. Ele soltou um suspiro. – Só quero que seja saudável. Callie sorriu. Como ela, ele também estivera imaginando como seria ter um filho em sua vida. Uma menina toda enfeitada de babados e lacinhos, ou um menino vestido de azul, andando de carroça e de patinete, e se enfiando em todo tipo de confusão. Ela deu uma risada. – O quê? – perguntou ele. – Eu estava imaginando: e se tivermos uma moleca? E se ela preferir usar os seus chapéus e botas, cavalgar até Red Ridge nas suas éguas premiadas, ao invés de passear num triciclo cor-de-rosa cheio de flores e sininhos? – Eu imaginei várias coisas, mas isso não foi uma delas. – Tagg riu. Callie se emocionou e mal conseguiu falar. – Você esteve imaginando como seria o nosso filho? Tagg demorou a responder. Ele inspirou profundamente e sentiu a garganta se contrair de emoção. – Estive – confessou ele por fim. Não se tratava mais de um dever. A sua honra não estava em jogo. Ele não estava protegendo o filho do terrível vilão Hawkins Sullivan. Era mais que isso. Aquela simples palavra de admissão, cheia de ânimo e de expectativa, dizia algo de muito importante a Callie: Tagg queria o filho. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas, desta vez, havia um bom motivo. Por dentro, ela dançava de alegria e sentia que, se era possível, o seu amor por Taggart Worth acabara de se aprofundar um pouco mais. E, pela primeira vez, Callie pensou que talvez tudo fosse dar certo na sua vida.


CAPÍTULO 10

NA MANHÃ seguinte, Callie ficou deitada, aproveitando o conforto do maravilhoso colchão da cama de Tagg. Afundou a cabeça no travesseiro macio e fechou os olhos, prevendo que o dia seria bom. Nunca se sentira tão bem, desde que viera morar na casa de Tagg. Na noite anterior, algo mudara entre os dois, algo de muito importante, que lhe dava esperança e que ela sentia vontade de celebrar. Ela se deliciava por estar dolorida, satisfeita e cansada. Os ruídos da manhã entravam pela janela. Os pássaros cantavam, as éguas resfolegavam e batiam os cascos na terra. Um novo dia se anunciava, o sol surgia no horizonte. Tagg lhe beijou a testa ao levantar. – Fique na cama e descanse. Eu vou até Phoenix. Volto mais tarde. Cansada demais para responder, Callie assentiu. Ouviu-o abrir e depois fechar o chuveiro, percebeu que ele se movimentava dentro do banheiro, e a tentação de observar a sua rotina matinal foi grande demais para resistir. Com olhos sonolentos, ela o viu entrar no quarto. O seu corpo nu, ainda úmido, brilhava; o cabelo molhado, puxado para trás, acentuando o seu belo rosto. O seu queixo firme, sempre tenso depois que haviam se casado, parecia estar relaxado. A sua expressão era de calma. Tagg era firme onde um homem deveria ser: os músculos dos seus braços se juntavam a ombros de aço; a sua cintura estreita e a sua virilidade em nada deixavam a desejar. Ele era completo. Ela se regozijou com a sua beleza quando ele se virou e vestiu a sunga, e disse adeus ao seu traseiro perfeito ao vê-lo desaparecer dentro do jeans. Tagg sentou na beirada da cama e o colchão afundou. Callie observou os músculos de suas costas quando ele se abaixou para calçar as botas. Quando ele se levantou, ela fechou os olhos, não querendo que ele descobrisse que o estivera observando. Ele era o homem dos seus sonhos. E foi pensando nisso que ela voltou a cair no sono. Callie acordou e olhou o relógio. Passava das dez. Ela levantou, sentindo-se culpada por ter dormido tanto, e foi para o banheiro. Tomou um banho e se vestiu rapidamente, foi para a cozinha, preparou uma xícara de chá e cozinhou alguns ovos. O bebê precisava de proteínas, e ela precisava de um bom café da manhã. Não podia pular refeições. Assim que acabasse de comer, iria tomar providências para fazer uma surpresa para Tagg. A ideia lhe ocorrera naquela manhã, tomara forma e não a deixava mais em paz. Ela precisava fazer alguma coisa, ou, pelo menos, tentar.


Callie foi até o escritório de Tagg e se sentou à sua mesa. Juntou algumas pastas de arquivo e abriu espaço para trabalhar. Ligou o computador e digitou a senha de acesso à sua conta bancária. Ela tinha uma grande soma que recebera de herança ao completar 25 anos, e que seu pai não tinha como controlar. Além disso, ainda tinha uma pequena poupança que fizera enquanto estava trabalhando em Boston. Usara uma parte do dinheiro para fazer uma doação anônima à obra de Clay. Comprara livros e prendas para o “Armazém”. Ela consultou o saldo da conta e assim que constatou estar em boa situação financeira, desligou o computador. Precisaria obter algumas informações e sabia onde conseguir. Encontrou a agenda de endereços de Tagg com facilidade, na gaveta esquerda da mesa. Achou o número de telefone que procurava e ligou. Para sua decepção, ninguém atendeu. Callie deixou um recado, soltou o celular sobre a mesa e abriu algumas gavetas do arquivo. Deu uma olhada dentro de algumas pastas, mas elas se relacionavam apenas a negócios: relatórios financeiros com mais números do que ela gostaria de ver, relatórios de estoque e balanços. Não era o que ela precisava. Ela olhou para a porta que dava para o depósito. – Talvez o que eu quero esteja lá – resmungou ela, desejando ter dado mais atenção a Tagg quando haviam estado em Las Vegas. A conversa fora breve e, se ela não estivesse sonhando durante o jantar, não teria deixado passar algo tão importante. Callie abriu a porta do depósito e entrou. Nunca entrara naquela sala. Nunca precisara, uma vez que Tagg recusara a sua proposta de trabalhar com ele. Ele não queria que ela invadisse o seu espaço, não queria que ela se aproximasse demais. Ela esperava que isto mudasse. Sentia-se excitada só de pensar que o que queria fazer por ele poderia dar certo. Ela sentiu o cheiro de papel velho, de poeira, e espirrou. E espirrou mais uma vez. Agitou os braços para fazer o ar circular, mas isto só agitou a poeira. Callie se voltou para esconder o rosto e viu algo que lhe chamou a atenção, em cima de um arquivo. Ela se aproximou e conteve a respiração ao ver os dois porta-retratos colocados entre os prêmios recebidos por Tagg nos rodeios. Um deles tinha a foto de Heather montada num cavalo, vestida com a roupa de rainha dos rodeios, usando uma coroa de prata e uma faixa azul atravessada no peito. Ela montava um Palomino um pouco mais alto que Freedom, mas não tão claro. Heather sorria e o seu rosto estava cheio de alegria. Era a mulher que Tagg amara com todo o seu coração. Callie pegou o porta-retratos. Não se ressentia por causa de Heather, nem podia, considerando a maneira como ela morrera tragicamente, mas não podia deixar de invejá-la. Não podia deixar de desejar ter encontrado Tagg antes de Heather e de ter sido a primeira mulher a lhe roubar o coração. As mãos de Callie tremiam quando ela colocou o porta-retratos no lugar. A outra foto mostrava Tagg e Heather juntos. Ele passara o braço sobre o ombro dela, e os dois estavam diante da casa principal do rancho. A felicidade que os dois transmitiam dizia tudo. Callie nunca vira aquela expressão no rosto de Tagg durante todo o tempo que se conheciam: uma expressão que parecia dizer “o mundo é um lugar feliz”, e um sorriso que dizia “eu amo a vida”. Ela levou as mãos ao rosto e as lágrimas escorreram por suas faces, apesar do esforço que fazia para contê-las. O seu coração se despedaçou e a sua inveja se dissolveu. A sensação era incontrolável e de retorcer a alma: sentia a dor que Tagg deveria ter sentido com a sua perda, ao ver a maneira como ele passara o braço no ombro de Heather. Podia sentir a sua tristeza. Ela também conhecia a tristeza. Perdera a mãe muito cedo e achara que a sua vida também havia acabado. Sua mãe, a mulher que a apanhava quando ela caía, que sorria quando se esperava que ficasse zangada, que resolvia seus problemas com um beijo e sempre com os olhos brilhando de amor. Callie


conhecia a tristeza e se entristecia por Tagg e pelo sofrimento que ele suportara ao perder a pessoa que mais amara no mundo, e deixou que as lágrimas rolassem. Precisava vertê-las por ele. O seu corpo tremia, a sua cabeça latejava, e, quando o poço finalmente secou, ela respirou profundamente, recuperou o fôlego e se recompôs. A vida continuava. Fora o que aprendera com a história de sua mãe, que achara que o mundo existia em função de Rory Worth. E ele a abandonara quando ela mais precisara dele. Sua mãe não desistira e não desabara. Fora forte e corajosa, e se permitira ter outra chance de felicidade. E tivera uma boa vida com seu pai, amara-o e vivera sem olhar para trás. Era isto que as pessoas faziam. Era o que Tagg deveria fazer, e ela, Callie, iria ajudá-lo. Com as forças renovadas, Callie continuou a procurar o que viera buscar. O seu coração estava mais leve e ela se sentia mais esperançosa e determinada que nunca. Tagg em breve faria 32 anos, e ela queria marcar a data com um grande gesto. Uma voz retumbante a fez tremer. Callie se voltou bruscamente e viu Tagg parado na porta, com um ar aborrecido. – O que diabos você está fazendo com os meus arquivos? – TAGG? AH, meu Deus. Você me assustou! – Ela bateu com as costas no arquivo de metal. Claro que ela se assustara, Tagg pensou. Não o esperava de volta tão cedo. E Callie parecia se sentir culpada. – Você não esperava que eu voltasse tão cedo, não é? – Não – falou ela, colocando a mão na garganta e tentando recuperar o fôlego. – Pensei que você tinha ido para Phoenix. Você disse que ficaria fora a maior parte do dia. Ele retorceu os lábios. – Querida, cheguei! – Tagg? – Ela não deixara de notar o sarcasmo e tinha motivos para estar confusa. – O que houve? – O que está fazendo aqui? – Eu... Eu só vim procurar... – Ela ficou vermelha e desviou os olhos. Tagg a pegou pelo braço e a levou para fora da sala empoeirada. Soltou-a no meio do escritório. – Você usou a minha mesa? As minhas pastas estão fora do lugar. – Ele olhou ao redor e notou que as gavetas não estavam fechadas direito. – Sim, eu sei. Eu estava procurando uma coisa. – Você estava procurando uma coisa? – A voz dele parecia se conter por um fio. – E você encontrou? – Não – respondeu ela, sacudindo a cabeça. – Acho que encontrou. – Tagg, qual é o problema? – Ela olhou para ele com um ar inocente e altamente convincente. Ele sentiu a raiva crescer e não sabia por quanto tempo conseguiria se controlar. – Acho que você sabe os danos que causou. Callie contorceu o rosto, e mesmo com os lábios repuxados de desgosto, ainda estava linda. Ele a amaldiçoou por fazê-lo acreditar que ela poderia ser confiável, por fazê-lo acreditar que o que sentia por ela era algo mais que uma atordoante satisfação sexual. Ela provara que ele errara em ambos os casos e que fizera papel de tolo. – Que tipo de dano? Tagg, eu nunca vi você desse jeito!


– Você provoca o que há de melhor em mim, querida – retrucou ele. – Eu saio e volto cedo para encontrá-la bisbilhotando o meu escritório, mexendo nos meus arquivos. Não foi nada inteligente. Você deveria ter tido mais cuidado, Callie. – Tagg andava em torno dela, rodeando-a, tentando ver a verdadeira Callie, e não a mulher que ela fingia ser. – Eu não estava bisbilhotando. – Ela fechou os olhos e, quando os reabriu, tinha um olhar culpado. Tagg perdeu a esperança de estar errado. – Tudo bem. Eu estava bisbilhotando um pouco. – E toda vez que eu saio da cidade, você visita o seu pai. – Você sabe que eu vejo o meu pai. – Você encontrou com ele hoje? – Não. – Então, ele ainda não lhe disse? – Disse o quê? Ela começava a ficar impaciente. Ótimo. A verdadeira Callie Sullivan começava a se mostrar. – Adivinhe. Ela deu de ombros, exasperada. – Não tenho a menor ideia. Tagg remexeu as pastas que ela empilhara, separou uma que dizia respeito ao Conglomerado Mosley Beef e a sacudiu diante do nariz de Callie, como se ela já soubesse o que ele iria dizer. Quando ele falou, foi em voz baixa, controlando a tempestade que rugia dentro dele: – Você não tinha ideia de que hoje eu iria perder este contrato para o rancho Big Hawk? – Não. Eu... Como eu saberia disso? Tagg jogou a pasta sobre a mesa e olhou para ela. – Como sempre, a minha proposta foi vencida. Mais uma vez. E pelo mínimo suficiente para garantir que eu perdesse o contrato. Este era um dos meus maiores clientes. Callie ficou confusa por algum tempo. – Sinto muito – falou ela de olhos baixos. – Eu não sei o que dizer. Não sei como isto aconteceu. Isto nada significava. Ela o traíra e ele não deixaria que ficasse impune. Tagg olhou para ela, não se deixando convencer, por mais que ela clamasse ser inocente. – Não sabe? – Levou um tempo para que ela começasse a entender. Ele viu a expressão de Callie mudar e os seus olhos se arregalarem. – Você acha que eu fiz isso, que eu... Eu... – Ela engasgou e não completou a frase. As lágrimas lhe inundaram os olhos. – Diga que ele a chantageou, que ameaçou deserdá-la. – Não, não Tagg. O meu pai não me ameaçou, nem me chantageou. Isto é ridículo. Você não pode achar que eu tenho algo a ver com isso. Você precisa acreditar em mim. – Eu encontrei com você em Reno, e logo em seguida perdi três contratos importantes. Três, Callie. Um após o outro. Nós brincamos de casinha e a minha empresa vai pelo ralo. – Muito tenso, ele apontou o dedo na direção de Callie. – Quero saber como você fez. Você me espionou? Ouviu as minhas conversas? Leu os meus arquivos? Invadiu o meu computador enquanto eu dormia? Ela ergueu o queixo e os seus olhos brilharam. As lágrimas haviam desaparecido. Com que facilidade ela ligava e desligava a fonte... – Eu não fiz nada disso, e você sabe. Tagg não acreditava. Não acreditaria em mais nada que saísse daquela linda boca traiçoeira.


– Você me enganou. Eu estava começando a amar você. Você é muito boa, Callie, e me manteve distraído. O seu pai sabe como você é boa na cama? Ele lhe paga para me distrair com sexo? Callie lhe deu uma bofetada. – Canalha. A raiva de Tagg veio à tona. Ele cerrou os punhos e se afastou. – Nunca mais faça isto. – Não posso prometer – retrucou ela. O celular de Callie tocou em cima da mesa, e ela olhou para Tagg. Os dois ficaram se encarando. Ele sentia o rosto arder por causa da bofetada, mas não iria tocá-lo. Era o que precisava para se lembrar de como a mulher o manipulava. – É o seu pai, não é? – Não, não é o meu pai. – Atenda, Callie, ou eu vou atender. – Tudo bem. Eu atendo. – Ela pegou o celular e pareceu reconhecer o número que aparecia no visor. – Alô. – Não havia como confundir a voz masculina que se ouvia do outro lado da linha. – Sim, é Callie. Tagg pegou o celular da mão dela e o colocou no ouvido. – Ah, olá, Callie. Aqui é John Cosgrove. Eu investiguei Wild Blue para você e consegui o nome do proprietário. Ele está pensando em vender. É provável que você o convença por um preço justo. Abalado, Tagg ficou olhando para o celular. Sentia o peito se retorcer. Confuso, ele se voltou para Callie com se estivesse vivendo um pesadelo. – Você estava tentando comprar... – Feliz aniversário, Tagg – falou ela. Tagg fechou os olhos e praguejou ao perceber o erro que cometera. O aviso de Clay lhe martelava a cabeça: “Você arranjou uma ótima esposa, Tagg. Não estrague tudo.” Era tarde demais. Callie correra para a porta e fora embora. Ele desabou na cadeira. O que estivera pensando? Ou melhor, não pensara. Talvez estivesse apenas reagindo às emoções que guardara por tanto tempo, talvez tivesse ficado apavorado demais para encarar seus sentimentos. Ele tratara Callie como uma pessoa de segunda classe, mantivera-a a distância e a magoara repetidamente. Ela não merecia aquele tipo de tratamento. Tagg levantou e olhou pela janela. Callie selara Freedom e saíra em disparada, na direção do caminho acidentado das montanhas Red Ridge. Ele correu para a porta. – Callie! – Mas ela não podia mais ouvi-lo. Tornara-se um pontinho no horizonte. Tagg se sentiu derrotado, zangado, envergonhado, e de repente se lembrou de outra discussão, com outra esposa, e a sua sensação de culpa voltou com força renovada. Ele deixara que Heather fosse embora depois de terem discutido. Fora teimoso e orgulhoso. Algo de terrível havia acontecido porque ele não cedera e a deixara partir. Ele voltou a pensar em Callie e na expressão de mágoa que vira em seus olhos quando a acusara de sabotagem e não lhe dera chance de se explicar. Ela ficara paralisada, parecera confusa e inocente, e ele achara que fosse fingimento. Ele escrevera o próprio drama: cometera um erro ao julgála. Não deveria ter sido preciso um telefonema de Cosgrove para despertá-lo. Deveria ter sabido e confiado mais em Callie. Ela fora uma boa esposa, tolerara seus humores. Tagg pensou nas crianças que ela ajudara em Boston, no fato de que trabalhara como voluntária em uma fundação de assistência, em como voltara para casa para cuidar do pai, em como se juntara aos Worth para ajudá-los a construir Penny’s Song. E


fizera tudo isso sem esperar algum retorno. Callie gostava de fazer com que os outros se sentissem bem. Fora o que tentara fazer com ele. Tentara ligar a vida dos dois para que um dia se tornassem uma verdadeira família. Não deveria ter sido fácil, tendo ele e o pai puxando-a para lados contrários. Não poderia culpá-la se ela se afastasse dos dois. Tagg pensou na casa que construíra para desfrutar sozinho, para afastar os outros e se esconder por medo de voltar a sentir algo significativo. Era apenas uma casa, não um lar. Uma casa sem vida, sem alegria. Uma casa sem Callie. Ele não sabia se ela um dia iria perdoá-lo pelas coisas que lhe dissera, pelo modo como a tratara. Ele recebera uma segunda chance e esperava não tê-la desperdiçado. Precisava de Callie na sua vida. Fora um tolo. Sem esperar nem mais um minuto, Tagg pegou o chapéu e correu para o estábulo. Precisava recuperar sua esposa, ele pensou, selando o cavalo mais veloz que encontrou. CALLIE CONTEVE o cavalo e o fez trotar assim que deixaram o pasto. Dirigia-se ao leste, subindo as montanhas, percorrendo o caminho contrário ao do sol. Fora preciso algum tempo para o seu coração parar de saltar dentro do peito. Ele quase voltara ao normal e a sua respiração estabilizara, mas ainda se sentia como se tivesse levado uma martelada na cabeça, ou tivesse sido espancada. Ficara horrorizada com as acusações de Tagg. Nunca percebera a extensão do ódio que ele sentia por seu pai e das consequências que recaíam sobre ela. Tagg nunca confiara nela. Provavelmente, sempre desconfiara que ela o sabotava e fora por isso que a mantivera longe do escritório. Callie sempre tentara ser uma boa esposa. Uma esposa que Tagg jamais quisera. Ela fizera tudo para que ele a visse como era e a amasse, mas não fora suficiente. Ela chegou ao cânion e a égua escalou um platô de onde a vista era magnífica. A distância, algumas nuvens brancas no límpido céu azul pareciam tocar os picos das montanhas, e o panorama a curta distância não podia ser mais impressionante. Callie desmontou e deixou que a égua pastasse. Com o coração pesado, ela admirou as montanhas e os desfiladeiros profundos que se abriam a seus pés. Sentia-se incapaz de apreciar a beleza do que via. Toda a luminosidade da sua vida parecia ter diminuído e o que restara começava a se apagar. Exausta e desanimada, ela procurou uma pedra onde pudesse sentar, escondeu o rosto nas mãos e fechou os olhos. Alguns segundos depois, ela sentiu o solo vibrar de uma maneira que passara a reconhecer, depois de anos de cavalgada. Quando ele chegou ao platô, ela não levantou os olhos. – Se você está aqui por causa do bebê, pode dar meia-volta e voltar para casa. Eu conheço os meus limites e nunca forçaria Freedom além do que fosse seguro. Eu nunca colocaria o meu filho em perigo. – Nosso filho – falou Tagg carinhosamente. Callie percebeu que ele desmontava e se aproximava. – Eu não estou aqui por causa do bebê. – Vá embora. – Não posso. – Taggart Worth não pode fazer alguma coisa? Esta é nova. – Ela se manteve cabisbaixa, olhando para o pó das botas. Ouvia Freedom resfolegar: forçara demais a égua. – Callie, desculpe. Eu tenho sido um tolo. – Sim, você tem. – Por fim, ela olhava para ele. – Eu jamais quis magoá-la. Juro.


– Você nunca me viu como outra coisa além de filha do seu inimigo. Você nunca me deu uma chance. Eu... Eu não aguento mais e não vou suportar. – Eu não espero que você o faça. Callie olhou para longe, sentindo o coração arder de dor. Sabia que o seu casamento acabara. Precisava ser forte e corajosa. – O que me dói mais é que você pensou que o meu pai precisasse da minha ajuda para sabotá-lo e que eu iria ajudá-lo! Ele sempre esteve à frente dos seus adversários, e você também o venceu várias vezes. E não se esqueça que eu vim para o rancho depois que você já havia perdido para ele uma vez neste ano. O fato de me conhecer não teve nada a ver com isso. Você não sabe que ele paga, corrompe, perde dinheiro e até faz ameaças veladas para vencê-lo? O Falcão não joga limpo, mas você é honesto e honrado demais para perceber. Você tem princípios. Você jamais faria isso com um competidor. – Você me ama – falou Tagg, sorrindo. De todo o discurso que ela fizera, ele só percebera isto? O desespero de Callie se transformou em revolta. Ela se levantou. – É claro que eu amo você, seu idiota! Por que acha que eu dormi com você em Reno? Por que, Tagg? Eu apenas escolhi o cowboy mais atraente do grupo e o arrastei para a cama? Você... Você era a minha fantasia. Eu só o conhecia de longe, da escola, dos rodeios. Mas, naquela noite, quando eu o vi sentado naquele bar, parecendo precisar de alguém que o ajudasse a esquecer a tristeza, resolvi me arriscar com você. Até então, você era proibido. Eu resolvi desprezar as regras do meu pai, e agora me arrependo. – Você não queria dizer isto. – Tagg se aproximou. Callie ficou perturbada. Precisava se distanciar daquele homem. Precisava mantê-lo distante, embora soubesse que a dor de perdê-lo seria capaz de matá-la. Já estava matando. Ela percebeu a implicação do que acabara de dizer. – Não, eu não quis dizer isto – falou ela docemente, colocando a mão no ventre e sentindo o seu amor pelo filho crescer. – Eu quero este filho, Tagg. Eu o desejo mais que qualquer outra coisa. Tagg suspirou profundamente. – Eu também. Eu quero manter a nossa família. Eu amo você, Callie. Ela sacudiu a cabeça, recusando-se a acreditar. Isto só a faria sofrer mais, e a ferida nunca mais iria cicatrizar. – Não, não. Você não me ama. – Amo, sim, Callie. Por muito tempo eu tentei negar. – Como posso acreditar? – Ela lutava contra as lágrimas. Precisava ser forte. – Você não acredita na minha palavra? – Não desta vez, Tagg. Para você, existe muita coisa em jogo. Eu sei que você quer proteger o bebê da influência do meu pai. Eu sei que você não quer que eu deixe o rancho. – Eu amo você, Callie. Vou repetir um milhão de vezes se for preciso. Vou dizer isto até o último dia da minha vida. Callie engasgou, querendo e tentando acreditar. Ele esperou que ela decidisse e, quando ela pensou que ele já desistira, Tagg tomou fôlego como se acabasse de travar uma batalha e a encarou com gravidade. – Eu sei que o seu pai foi ao nosso casamento. Callie se encolheu. Seria mais uma acusação? – Eu não tive nada a... – Tagg a puxou e colocou o dedo sobre os seus lábios.


– Shh... Eu sei que você não teve nada a ver com isso. Fui eu que dei um jeito de levá-lo até lá. – Você! – Callie não podia acreditar que Tagg, odiando seu pai como odiava, tivesse permitido que ele entrasse em sua propriedade e que presenciasse o casamento. – Não você, Tagg. Você jamais... – Fui eu. Até hoje ele não sabe que fui eu quem planejou tudo. E eu não fiz por ele, fiz por você. Eu não queria que você se arrependesse de ter se casado comigo e que um dia ficasse ressentida por ele não estar ali. Por mais que eu estivesse zangado com você, queria que você tivesse pelo menos isso. – Ah, Tagg... – Como ela poderia deixar de amá-lo? Como poderia abandoná-lo? – E ainda há mais, Callie. Está na hora de lhe contar toda a verdade. Você tem o direito de saber por que eu não podia lhe dar o que você desejava. A minha primeira esposa... – Eu sei o que aconteceu com Heather. – Disso você não sabe. Ninguém sabe. Eu mantive em segredo, mas agora você precisa ouvir, tanto quanto eu preciso dizer. Na noite em que Heather morreu, nós tínhamos tido uma briga. A verdade é que Heather tinha sido casada antes. O casamento durara apenas alguns meses, e tinha sido anulado antes que eu a conhecesse. O ex-marido dela apareceu na nossa casa e eu os encontrei conversando. Apenas conversando. Ela tentou me explicar, mas eu estava com ciúme demais e muito zangado para escutar. Era algo que eu deveria ter deixado passar, mas a discussão tomou uma enorme dimensão. Nunca havíamos brigado daquele jeito, e ela não aguentou. Fez as malas e disse que iria passar algum tempo com a mãe. Eu fui tolo o bastante para deixar que ela fosse embora. Achei que eu estava certo e que ela estava errada, e que, assim que ela percebesse isso, voltaria para mim de joelhos... – Tagg, você não podia saber... – Eu sei, mas isso não me consola. Se eu a tivesse impedido de ir, ela ainda estaria viva. – O rosto dele se retorceu de tristeza. – Sinto muito. – Callie sentia a dor de Tagg, mas não sabia o que dizer. Ela o viu fechar os olhos como se revivesse o que tinha acontecido. – Heather estava grávida – falou ele num tom quase inaudível. – Ah, não. – Ela ainda não havia me contado. O médico disse que ela pretendia esperar... Até o meu aniversário. Ela queria me fazer uma surpresa. Callie não podia esconder a perturbação. Por dentro, ela lamentava a vida perdida, a criança que não pudera nascer por causa de um acidente que não deveria ter acontecido. Todos sabiam do acidente, da decolagem que dera errado, da morte de Heather, mas ninguém sabia a respeito do bebê. Tagg carregara o seu fardo sozinho. Perdera também o filho, naquela noite. A culpa e a dor deveriam ter sido insuportáveis, mas ele escolhera enfrentá-las sozinho. Ela não podia ignorar as semelhanças que havia com o relacionamento entre os dois. A gravidez que ela escondera dele, a surpresa de aniversário, a briga que tinham tido aquela noite, a sua partida intempestiva, a sua cavalgada. Tudo lhe parecia fantástico. – Tagg, eu... – Mas ela não conseguia pronunciar as palavras. – Eu me fechei, Callie. Eu me recusei a deixar que alguém entrasse. Eu já tinha destruído um relacionamento. Perdi alguém que amava muito, perdi um filho. E a culpa foi toda minha. Eu não queria sentir mais nada por alguém. Eu não me deixaria amar novamente. – Ah, Tagg... – Ela deixou as lágrimas rolarem, comovida com a dor que havia na voz dele. – Quando Clay começou a construir Penny’s Song, eu pensei que poderia contribuir e, de alguma maneira, compensar o filho que perdera.


– Porque você é um homem bom e honrado. – Ela enxugou as lágrimas. – E também um grande idiota. Você tinha razão. Eu sei que não mereço você. Eu a usei como bode expiatório, culpando-a por algo que você não podia evitar. O seu pai tem uma sede de vingança contra a nossa família, da qual você nunca participou. O que importa agora é que você saiba que eu moveria céu e terra para recuperar o seu amor. Deixe que eu ame você, Callie. Juro que vou compensá-la, que vou consertar as coisas... Ele pegou a mão de Callie, e ela sentiu o seu coração ferido começar a se recuperar. Tagg lhe confiara algo que não contara a mais ninguém. Confiara-lhe o seu segredo. Abrira o seu coração e desnudara a sua alma. Ela não iria dizer nada a respeito do pai dele e de sua mãe, não naquele momento, mas talvez as duas famílias um dia pudessem se juntar e conversar sobre aquele assunto, colocando o passado no seu devido lugar. Ela faria com que o pai ouvisse a razão. Se necessário, daria um ultimato ao Falcão: se ele não esquecesse o passado e aceitasse Tagg por seus próprios méritos, não teria lugar na sua vida e na de seu filho. Ela não se deixaria mais dividir entre os dois. Tagg se ajoelhou diante de Callie. Ela começou a tremer, com os nervos à flor da pele. – O que está fazendo? – Estou lhe pedindo que se case comigo, como deveria ter feito antes. Deixe que eu faça isto direito. – Está bem – sussurrou ela. – Callie Sullivan Worth, você se casaria comigo? Deixaria que eu a amasse e que a tratasse do jeito que merece ser tratada? Deixaria que eu fosse seu marido, que lhe desse toda a minha confiança, a minha fé, o meu amor? Se você me der uma segunda chance, juro que não vou decepcioná-la. Prometo que viveremos felizes juntos. Juro que vou amá-la para sempre e um pouco mais além. Callie sentiu a ternura aquecer seu coração e se derreteu de felicidade. Perdoava Tagg pela sua falta de confiança, pelo mau humor, pelas acusações injustas. Perdoava-o por tê-la feito se sentir uma estranha no rancho, por afastá-la a cada oportunidade que tivera. Ao vê-lo de joelhos, confessando o seu amor por ela, seria capaz de perdoá-lo por qualquer coisa. Afinal, sempre o considerara perfeito. Não, ela se corrigiu: ele era o homem perfeito para ela. Tagg a amava, Callie repetia para si mesma. Aquilo não era um sonho. Ele me ama. Ele realmente me ama. Ela balançou a cabeça e deixou que as lágrimas de felicidade lhe escorressem pelo rosto. – Sim, Tagg. Sim, sim, sim. Tagg levantou e ela o abraçou pelo pescoço, querendo se certificar de que ele era real. Ele enxugou as lágrimas do seu rosto com carinho. – Eu amo você, Callie. – Eu acredito em você. – Nós seremos felizes juntos. – Eu sei. Nós seremos. – Ela tinha certeza. Ele a beijou de um jeito que parecia querer fundir as almas dos dois, garantindo-lhes um futuro de felicidade. Quando os dois por fim se separaram, Tagg olhou dentro dos olhos de Callie e algo incrível aconteceu: os lábios dele se levantaram e ele lhe deu aquele sorriso que parecia dizer que o mundo era um lugar feliz e que ele amava viver. Callie sabia que nunca amara Tagg como o amava naquele momento. Ele a virou de costas para ele e a abraçou, e os dois ficaram admirando o majestoso esplendor das montanhas Red Ridge, como se aquele lugar estivesse lhes dando uma visão do que seria o seu futuro juntos.


Callie suspirou com intensa satisfação. Ela se casara com o homem dos seus sonhos. Quantas garotas poderiam dizer o mesmo?


Sobre a autora Marin Thomas Assim como a maioria dos jovens de uma cidade pequena, tudo o que Marin Thomas, nascida em Janesville, Wisconsin, podia pensar era em mudar-se após terminar o colégio. E a altura foi o passaporte. Através do basquete universitário, ganhou uma bolsa de estudos e jogou por duas grandes instituições do Missouri e do Arizona. Ao mesmo tempo, cursou jornalismo. Ainda na faculdade, se apaixonou pela arte da ficção. O trabalho de seu marido os levou a morar em várias cidades, como Arizona, Califórnia, Nova Jersey, Colorado, Texas e Illinois. Atualmente, Chicago se tornou seu lar. Contudo, Marin diz ser a prova viva de que “você pode tirar a pessoa da cidade pequena, mas não pode tirar a cidade pequena da pessoa”. Seu coração ainda pertence à vida tranquila de Janeville. Por isso, adora criar cenários que a fazem se lembrar de onde nasceu.


Marin Thomas

PROMESSAS DE UM COWBOY

Tradução Celina Romeu


Querida leitora, Deparei-me com o primeiro livro da Harlequin quando estava na sala de espera de um dentista há vinte anos. Desde então, fiquei viciada. O que mais gosto neles é a garantia do suspiro apaixonado que damos ao final de cada história. Adoro especialmente os personagens que são como nós, pessoas comuns, que vivem em cidades grandes ou pequenas, e que estão em busca do seu “felizes para sempre”. Muitas vezes, esses personagens retratam as batalhas cotidianas que várias leitoras enfrentam: trabalhar, criar filhos e resolver problemas financeiros. Esses livros nos lembram do que realmente importa na vida – família, amigos e amor! Sinto-me privilegiada por poder escrever para a Harlequin e espero que Promessas de um cowboy a faça suspirar. Boa leitura! Marin Thomas


CAPÍTULO 1

– ELE AINDA está lá fora, mamãe – disse Rose, a filha de 7 anos de Amy Olson, em pé sobre uma cadeira diante da janela da cozinha. Dez minutos antes, uma brilhante 4x4 negra, puxando um trailer para cavalos, grande o bastante para transportar confortavelmente seis animais, estacionara na entrada de cascalho. Amy duvidava que o carro fosse de Pebble Creek... ninguém na região tinha dinheiro para comprar um veículo tão luxuoso. E, ao contrário de seus vizinhos na pequena cidade do leste de Idaho Valley, Amy mal podia manter suas terras. Amy limpou a vidraça diante do nariz da filha com a ponta da camisa que usava. O tecido ficou sujo de poeira e gordura. Há quanto tempo não lavava as vidraças? O cowboy estava dentro do carro, falando ao celular, sorrindo e mexendo os braços. Quem quer que estivesse do outro lado da linha era engraçado. Vá descobrir quem ele é, disse Amy a si mesma, embora não gostasse do cowboy e de seu veículo de luxo. Na verdade, perdera o resto do senso de humor quando o dono do último cavalo que hospedava removera-o na semana anterior, acabando com sua única fonte de renda. Quem é ele e que assunto tem com o rancho Broken Wheel? – Ele está perdido, mamãe? Deus, espero que sim. Não estava com disposição para receber a visita de um dos muitos credores do marido. Mas não devia ser. Desde quando as empresas de cobrança enviavam seus agentes em picapes puxando um trailer para cavalos? A porta da picape se abriu e Amy prendeu a respiração. Um chapéu de cowboy apareceu, então um par de ombros largos. Estimou sua altura em 1,90m. Ele andou em torno do carro e Amy o analisou da cabeça aos pés. Quase teve um ataque cardíaco. Amy tinha uma fraqueza por cowboys. Ele parou e seu coração voltou a bater normalmente. Virou a cabeça em direção ao estábulo, mostrando um queixo firme e uma boca larga, que não estava sorrindo agora. Depois de um momento, voltou a andar em direção à casa, com aquele modo lento e atraente, típico de cowboys que achavam que eram um presente de Deus para as mulheres. Subiu os degraus da varanda dois de cada vez e bateu na porta com força.


– Vá para cima e veja como está Lily – disse à filha. – Mas não a acorde se estiver dormindo. E fique em seu quarto até eu chamá-la. Rose obedeceu, pegando uma caixa de cereais sobre a mesa da cozinha, o alimento favorito da irmã, antes de sair. Sem prestar atenção no que fazia, Amy arrumou os cabelos. Quando viu seu reflexo na janela, fez uma careta. Você realmente se importa com o que o homem pensa de você? Não, não se importava. Há muitos anos colocara cowboys bonitos em sua lista de “nunca mais”. Quando abriu a porta, olhos azuis frios a prenderam. Hipnotizada, arquejou, sem se importar que o homem a achasse rude. Uma fantasia de um milésimo de segundo lhe tomou a mente... ela e o cowboy deitados nus num campo de trevos, sob um céu muito azul... – Senhora. A voz profunda destruiu o sonho. – Posso ajudá-lo? – A voz era aguda. Ele tirou o chapéu. Ela desejou que não o tivesse feito. Mechas de cabelos escuros, da cor da terra depois da chuva, lhe caíam na testa e sobre as orelhas. Imaginou-o no Havaí, com uma bermuda estampada de flores, surfando uma onda do oceano. Então ele sorriu. Deus do céu. Era de partir corações. De fazer a alma parar. De matar mulheres. O olhar a percorreu da cabeça aos pés, sua indiferença quase insultuosa. Amy não era uma mulher bonita... pelo menos não nos últimos meses. Todas as manhãs o espelho do banheiro a lembrava de que tinha dois centímetros de cabelos escuros na raiz. Mas o dinheiro era curto e não ousava gastar um tostão com um corte e uma pintura. Além disso, uma visita ao salão de beleza não apagaria as rugas de preocupação em seu rosto. – Matt Cartwright – apresentou-se, estendendo a mão. Os dedos eram marcados por calos e uma cicatriz lhe atravessava a palma... queimadura de corda, suspeitou ela. Ele se moveu e a luz do sol se refletiu na fivela de prata do cinto. De acordo com a inscrição – Dodge National Circuit Finals Rodeo –, o homem era um autêntico cowboy de rodeios. Cowboys de rodeios eram uns inúteis. Ela deveria saber disso, pois se casara com um deles. Enrijecendo, apertou-lhe a mão, ignorando a pontada de eletricidade que se espalhou por seu corpo. Nossa, seus seios estavam formigando. Quando fora a última vez que isso acontecera? – Tenho negócios com Ben Olson. Ele não sabia? A atenção de Amy se voltou para o trailer de cavalos. – Ben não está. – Alguma ideia de quando voltará? – Nenhuma. – Isso era uma certeza. O sr. Cartwright coçou o queixo, passando os dedos pela sombra da barba por fazer, o som íntimo demais para um primeiro encontro. – Liguei para o celular dele diversas vezes, mas ele nunca atendeu e, semanas atrás, descobri que o número não estava mais em uso. Amy não pudera pagar a conta do telefone e a empresa cancelara o serviço.


– Talvez eu possa ajudar. – Desculpe, mas quem é você? – Amy Olson, mulher de Ben. – Ele arregalou os olhos. Evidentemente, não sabia que Ben era casado. – Quer deixar um recado para o meu marido? – perguntou ela, esperando conseguir algumas semanas antes que ele descobrisse a verdade. – Na verdade, gostaria de deixar três de minhas éguas com ele. – Perdão? Sobrancelhas negras se contraíram acima do nariz, um nariz que fora quebrado pelo menos uma vez. – Seu marido não lhe falou sobre um acordo de negócios que fez comigo? Maldito marido sonhador, cheio de planos sem sentido. – Não. O cowboy se mexeu, claramente agitado pela falta de progresso na conversa. – Ben e eu nos encontramos em Pocatello em dezembro passado. Não era surpresa. Ben perseguia o sonho do rodeio desde antes de se casarem. Se não estivesse competindo, estava na arquibancada aplaudindo. Mas jamais fora bom o bastante para ganhar uma fivela como a daquele cowboy. Um tremor de medo percorreu a espinha de Amy. Pedia aos céus que o negócio que o marido fizera com o homem não tivesse relação com aquele animal no estábulo. – Estou ouvindo. – Na véspera das Finais Nacionais de Rodeio, um grupo de cowboys organizou um jogo de pôquer e... – A versão resumida; tenho tarefas a fazer. Não era verdade. Havia poucas tarefas no rancho desde que o negócio de hospedar cavalos fracassara. Mas ela queria que aquele cowboy fosse embora... ontem. – A versão resumida, sra. Olson, é que seu marido perdeu para mim no pôquer e vim receber a dívida. Maldição, Ben. Não podia jogar cartas, não sabia disfarçar as emoções nem que sua vida dependesse disso. Na verdade, não podia caminhar, dormir, se sentar ou falar direito. Fora o homem mais desajeitado que conhecera. – Quanto Ben lhe deve? – Trinta mil. Um zumbido lhe percorreu o cérebro. Abriu a boca para falar, mas não conseguiu. – Como seu marido não foi capaz de levantar o dinheiro, fizemos um acordo. – Um acordo? – Os serviços de garanhão em troca do dinheiro que me deve. Isso certamente não aconteceria; além do mais... – A maioria dos criadores de cavalo prefere inseminação artificial. Aquele sorriso diabolicamente malvado revelou um conjunto perfeito de dentes cor de pérola. – Pode me chamar de antiquado, mas uma dama adequadamente cortejada tem um comportamento melhor no quarto, ou melhor... na baia. Quebraria a maçaneta se a apertasse com mais força. – Lamento pela dívida de jogo, mas não pode deixar suas éguas aqui. Tentou fechar a porta, mas uma bota grande a bloqueou e ele estendeu um pedaço de papel.


Não havia dúvida de que era a letra de Ben. Ela o leu e dizia exatamente o que o sr. Cartwright alegava... serviço de garanhão para três éguas no valor de 30 mil dólares... com a diferença que seu marido deveria ter entregado o Son of Sunshine há mais de um mês no Lazy River Ranch, no município de Tulsa, Oklahoma. – Como eu disse... não posso ajudá-lo. Quando ele não se mexeu para pegar o papel, ela o guardou no bolso da camisa, ignorando a dura parede de carne que lhe amolecia os joelhos. – Sra. Olson, não vou embora sem falar com Ben. O ressentimento e a frustração que se acumulavam nela nos últimos três meses se libertaram, traduzidos numa onda de raiva. – Acho que vai ter que esperar muito. Os olhos semicerraram, deixando visível apenas uma fatia de azul. – E por quê? – Porque Ben está morto. A boca do cowboy se abriu. – Morto... morto? – Morto e enterrado ali. – Apontou para um outeiro gramado a cem metros de distância do estábulo, o cemitério da família. Era difícil não perceber a pedra da sepultura de seus bisavós, com um metro de altura. – Lamento a inconveniência que Ben lhe causou. Bom dia, sr. Cartwright. Desta vez a porta não encontrou bloqueio e se fechou com força. MORTO? Ben Olson não podia estar morto. Matt jogara cartas com aquele peão bronco em dezembro passado na Holt Arena, no campus da Idaho State University. Embora tivessem se encontrado em rodeios por alguns anos, Matt não o conhecia bem, a não ser por sua reputação de jogador... e perdedor. Jamais imaginara que o homem fosse casado, depois de vê-lo flertando tanto nos rodeios. E, falando em esposas... a viúva certamente não parecia arrasada com a perda do marido. A menos que... teria sido enganado pelo casal? Pôs o chapéu na cabeça e subiu a colina em direção ao pequeno cemitério cercado por uma cerca de arame farpado. Recusava-se a pensar na possibilidade de que seu plano de se aposentar dos rodeios encontrava um obstáculo que não pudesse remover. Parou do lado de fora do portão e observou as lousas de granito dos túmulos. Ben... Ben... Ben... Oh, inferno. Benjamin Olson Marido e pai amoroso Matt desviou a atenção da lápide para as colinas verdejantes que se estendiam até os picos ásperos da ponta sul da cordilheira Teton. Seu primeiro pensamento foi: lugar agradável para ser enterrado. O segundo: e agora? Era evidente, pela expressão no rosto de Amy Olson, que o marido não lhe contara sobre a perda de 30 mil dólares num jogo de pôquer. Quando Matt descobrira que Olson havia comprado o famoso quarto de milha americano Son of Sunshine, ficara obcecado com a ideia de cruzar suas éguas com o garanhão. Com oito anos de idade, o


garanhão era considerado um dos dez melhores cavalos do país. Fosse carma ou providência, Matt acreditara que seu encontro com Olson nas Finais Nacionais de Rodeio tinha sido um sinal de que aquele era o momento para sua carreira mudar, como planejara. Criar cavalos puros-sangues e começar essa nova atividade com potros filhos de Son of Sunshine era uma oportunidade que Matt não podia perder. A criação de cavalos puros-sangues era um momento decisivo na vida de Matt e lhe permitiria parar de competir em rodeios. Continuava a ser um dos primeiros cowboys do Prairie Circuit, mas aos 34 anos estava cansado da estrada, de dormir em motéis, de comer em lanchonetes todos os dias. Na verdade, estava pronto para parar com o esporte quando fizera 30 anos, mas então não sabia o que queria fazer com o resto de sua vida. Sabia apenas que não queria trabalhar no negócio de petróleo do pai. Matt preferia o cheiro de um estábulo sujo ao do petróleo cru. Seu acordo com Olson determinava que o homem lhe entregaria o garanhão no rancho de seu pai em Oklahoma até o fim de abril. Maio chegara e nada do garanhão e nem contato com Olson. O tempo estava passando, e a época natural de reprodução das éguas era de maio a setembro. Quando a primeira semana de maio acabou e Olson continuou ausente, Matt decidira tomar providências e levou suas éguas para Idaho. De onde estava, no alto da colina, via que o rancho estava praticamente abandonado. A pintura da casa de dois andares, de madeira e pedra, estava rachada e se soltando, as venezianas, quebradas. E uma delas desaparecera. Olson não gastara dinheiro com a conservação, o que não era incomum. A maioria dos rancheiros e criadores de cavalos usava os lucros para ampliar suas atividades. Matt observou o estábulo, em melhores condições do que a casa, e os padoques vazios. O medo lhe apertou a base do estômago ao pensar que a viúva poderia ter vendido o garanhão premiado. Matt achou melhor descobrir e voltou à casa. Ergueu o punho para bater, quando a porta se abriu inesperadamente. Teve que jogar o braço para trás para evitar atingir a testa da mulher. – Precisa de mais provas da morte de Ben, sr. Cartwright? O nariz dela enrugou como se tivesse sentido um cheiro ruim... dele. Seria seu comportamento irritadiço o resultado da morte do marido ou apenas sua agradável natureza? Tirou o chapéu. – Meus pêsames pela morte de seu marido. Os olhos castanhos se tornaram mais suaves quando murmurou: – Obrigada. Só agora prestava atenção ao rosto dela. Parecia jovem demais para ser viúva – a pele clara, feições comuns e cabelos louros que balançavam quando ela mexia a cabeça. Era de altura mediana e tinha um corpo bem feminino, com quadris arredondados e belos seios. Não que tivesse interesse naquele corpo. Então ergueu suas defesas, pois aprendera do jeito mais difícil que o sexo oposto geralmente tinha objetivos. Fora queimado uma vez por uma mulher em apuros e não pretendia passar por essa estrada de novo. E Amy Olson, com os olhos castanhos cheios de tristeza, era o exemplo perfeito de uma mulher em apuros. – Espero fazer um acordo em relação à dívida do seu marido. – Você deve estar brincando. Ele enrijeceu o queixo e respirou profundamente. – A senhora tem duas escolhas. Ou me paga os 30 mil dólares ou deixo minhas éguas aqui e venho buscá-las no fim do verão. Pode escolher.


Ela protestou. – Não tenho condições de cuidar das suas éguas. – Ótimo. Aceito um cheque. – Acha que tenho 30 mil dólares, sr. Cartwright? Ponto para a viúva. – Sugiro que venda alguns de seus bens para levantar o dinheiro. Ela ergueu a mão para o pescoço. – Não tenho mais nada a não ser a casa e as terras, e isto não está à venda. Maldição. Amy Olson podia imprimir as palavras me ajude na testa. – Mamãe? Matt olhou além da viúva e viu uma menina com cabelos escuros segurando pela mão outra bem menor, com cabelos louros e cacheados. – Rose, doçura, vá para cima. A viúva não tirara os olhos dele e Matt adivinhou que a cautela indicava que não havia homens na casa. Então a menor choramingou e ergueu os braços para a mãe. Não era a hora de fazer negócios. – Vou deixar minhas éguas no curral e amanhã de manhã continuamos a negociar. Estava no último degrau, quando as palavras dela o fizeram parar. – Não há nada para negociar, sr. Cartwright. Melhor o senhor tomar seu caminho. – Não vou embora enquanto não pagar a dívida de seu marido ou garantir os serviços de garanhão para minhas éguas. A cabeça doeu quando ouviu o barulho da porta batendo. – ELE AINDA está lá fora, mamãe. – As mesmas palavras de Rose ecoaram duas horas depois, a menina de sentinela à janela da cozinha enquanto Amy preparava o jantar. Depois de um lanche de Cheerios, Lily dormira de novo, permitindo que Amy tivesse um momento raro de paz e quietude. Lily estava resfriada e dando mais trabalho do que o normal. Se tivesse uma infecção de ouvido, o que geralmente tinha quando se resfriava, teria que levá-la à clínica médica em Rockton. Não sabia de onde tiraria o dinheiro para pagar a visita a um médico. A morte de Ben mostrara como sua vida era um desastre financeiro. Nas primeiras semanas, ficara atordoada. Então, passara para o estágio de sobrevivência, com um único objetivo: manter o rancho. Agora, até esse objetivo estava prestes a ficar fora de alcance. A realidade mostrara a Amy que ela precisava arranjar um emprego para sustentar as filhas. Hospedar cavalos não era mais uma opção, pelo menos até ela decidir o que fazer com aquele pavoroso garanhão no estábulo. – Rose, ponha a mesa, por favor. – Amy passou manteiga nas fatias de pão e viu que Rose pusera quatro pratos na mesa. – Só três pratos, Rose. – E o amigo do papai? Amigo do papai fora como ela explicara à filha a visita inesperada de Matt Cartwright. – Assim que as éguas descansarem, ele vai embora. – Fez os sanduíches, levou-os ao forno e se aproximou da janela.


A filha estava certa: as éguas eram lindas. Voltou os olhos para o cowboy. Matt. Ben. O que havia em homens com nomes de uma sílaba só? Matt era mais bonito do que Ben. E aonde o desejo dela por Ben a levara? Era melhor manter a cabeça fria e descobrir um jeito de fazer Matt Cartwright ir embora. Maldito seja você, Ben. Trinta mil dólares? O marido tinha prometido não jogar mais, e ela acreditara nele. Estúpida, estúpida, estúpida. Enquanto cuidava dos sanduíches, calculava mentalmente o valor das contas que se acumulavam. O pagamento da hipoteca estava atrasado, o que a fez ficar ainda mais zangada. Há quatro gerações as terras pertenciam ao lado materno da família. Seus pais deixaram o rancho sem dívidas quando morreram num acidente, alguns anos atrás. Como as dívidas de jogo de Ben se acumularam, aceitara fazer uma hipoteca sobre a propriedade, com a condição de que ele frequentasse o “Jogadores Anônimos”. Ele concordara. Mas, em vez de pagar as dívidas de diversos cartões de crédito, comprara o Son of Sunshine e jogara com o que sobrara. Quando aparecera no rancho com o garanhão, mentira, dizendo que usara seus ganhos no jogo para comprá-lo. E então, como se não fosse o bastante, Ben teve a coragem de morrer, deixando-a com dívidas dos cartões de crédito, uma hipoteca de 1.600 dólares por mês e um garanhão cujo comportamento inconstante levara seus clientes a retirarem os cavalos hospedados no rancho, deixando-a sem fonte de renda. Se pudesse, venderia o garanhão, mas quem compraria um cavalo perigoso? – Ele está com fome – disse Rose. Amy olhou sobre o ombro da filha. O cowboy havia descarregado feno da picape e o espalhara em torno do curral, então fora até o tanque de água, olhara e sacudira a cabeça. Não havia água fresca depois que perdera todos os cavalos hospedados. Ele foi até a bomba de água e encheu o tanque. – Como sabe que ele está com fome? – Porque está trabalhando. Não seria bom se todas as perguntas da vida tivessem uma resposta tão simples? Com os sanduíches prontos, Amy partiu uma maçã e levou o alimento para mesa, servindo um copo de leite para Rose. – Lave as mãos. Eu já volto. Amy saiu de casa e foi até onde o cowboy estava, junto à cerca do curral, os braços cruzados no topo, observando as éguas correrem. – Suas éguas são espetaculares. Ele virou a cabeça e fitou-a com aqueles olhos azuis. Como seria fácil ficar enfeitiçada por aquele homem. – Lamento mesmo a morte de seu marido. Embora as palavras fossem sinceras, Amy já aguentara tudo o que podia de olhares de piedade. Além disso, condolências não a ajudariam a pagar a hipoteca. – Temos sanduíches quentes de queijo para o jantar e está convidado. Ele lhe deu um sorriso frio. – Obrigado, mas comi alguma coisa na cidade. Homem grosseiro.


– Não vai tornar as coisas fáceis para mim e desaparecer, vai? – Não, senhora, não vou. – Se não se importa que eu diga... – fez um gesto em direção ao trailer para cavalos – ...você parece ter dinheiro bastante para suportar uma perda de 30 mil dólares. – Não se trata disso. Negócio é negócio. Pretendo cruzar minhas éguas com o Son of Sunshine. Não adiantava discutir. Amy se virou para voltar a casa, mas ele a fez parar colocando uma das mãos sobre o ombro dela. – Como Ben morreu? Tinha o direito de saber. – Foi atacado pelo Son of Sunshine.


CAPÍTULO 2

UM HOMEM inteligente compreenderia quando parar de lutar por uma causa perdida. Um homem inteligente saberia quando parar de apostar e deixar o jogo. No momento, Matt Cartwright não se importava se era inteligente ou não. Enquanto se afastava do Broken Wheel, no final da tarde daquele sábado, olhou pelo espelho retrovisor. Depois do convite para jantar que os dois sabiam que ele recusaria, a viúva ficara parada no caminho de cascalho, observando a picape desaparecer. Quando chegou à estrada, Matt estacionou no acostamento. A raiva que sentia não era nada comparada à vergonha que o consumia. Matt não conseguia se livrar da sensação de que um estúpido jogo de pôquer, instigado por ele, dera origem à série de fatos que culminara com a morte de Ben. E se o jogo jamais tivesse ocorrido... teria o futuro sido diferente e Ben estaria vivo hoje? Matt queria acreditar que, se soubesse que Olson tinha uma esposa, jamais o tentaria para jogar, sabendo que era um jogador compulsivo. Não tente se enganar. Você faria qualquer coisa para ter acesso ao Son of Sunshine. A traição de Kayla lhe causara mais do que um coração partido e o orgulho em trapos? Teria canalizado sua dor para uma determinação impiedosa que ignorava tudo e todos, inclusive seu código moral? Esqueça, homem. O que está feito, está feito. Matt teria de lidar com os destroços que deixara para trás, provocados por seus interesses egoístas, uma viúva, duas meninas órfãs de pai e um garanhão premiado cujo comportamento havia se tornado imprevisível e errático. Que diabos faria agora? O pai desaprovava seus planos de entrar no negócio de criação de cavalos e Matt não gostava da ideia de voltar para Oklahoma com o rabo entre as pernas. Você é um canalha... cheio de pena de si mesmo, enquanto Amy Olson luta para juntar os pedaços de sua vida depois da morte do marido. Havia alguma coisa na jovem viúva que o abalara, mas não sua aparência, isso era certo. Amy Olson nem chegava perto das admiradoras que o perseguiam na estrada. Era um anúncio vivo de lar e lareira... filhos incluídos. Um mundo de mágoa e orgulho teimoso brilhava nos olhos castanhos dela, no


entanto se mantinha de pé, ombros retos, o queixo alto, como se estivesse pronta para enfrentar o próximo teste: ele. Matt considerou suas opções. O estômago roncou de fome, assim ligou o motor e tomou a estrada em direção à cidade. Cinco minutos depois, parou em Pebble Creek. O centro da graciosa cidadezinha consistia de um quarteirão de prédios de tijolos de 1920, todos dedicados ao comércio. Postes antigos se alinhavam junto às calçadas. Um tanque de água para animais, cheio de flores, ficava ao lado do salão de beleza Snappy Scissors Hair Salon. O empório Mendel’s Drug oferecia um banco de jardim para os clientes do lado de fora da loja. O Smith Tax Consultants ficava entre o salão de beleza e o empório. Mais abaixo, o Wineball Realty tinha o nome pintado de branco e, no fim do quarteirão, ficava o United Savings and Loan. Do outro lado da rua, havia uma casa vitoriana da virada do século, transformada em taverna, e o nome “Joe’s” estava pintado em vermelho sobre a janela da frente. A Roxie’s Rustic Treasures ocupava a esquina e os tesouros eram cabeceiras de cama de ferro, móveis quebrados e uma coleção de ferramentas e pratos. Ao lado da Roxie’s, uma estátua de um cavalo, de tamanho real, se erguia sobre as patas traseiras em frente ao Pebble Creek Feed & Tack. Um anúncio do lado de fora do Pearl’s anunciava estacionamento nos fundos, assim Matt dobrou a esquina, estacionou atrás do quarteirão e entrou pela porta dos fundos do restaurante, decidido a pedir um sanduíche de carne. – Estamos sem carne para sanduíche – disse a garçonete, quando foi receber o pedido no balcão. A mulher de meia-idade, com cabelos pintados de louro, estudou-o através dos óculos bifocais. – Você não é daqui. Matt leu o nome dela na etiqueta. – Sou de Oklahoma, Pearl. – Conheci um okie há muitos anos e não gostei. Mas talvez mude de ideia – disse ela, batendo os cílios falsos. Matt sorriu. – O que recomenda para um cowboy faminto? – Se gosta de comida caseira, peça o bolo de carne. Se não, o Reuben não é ruim. O bolo de carne de Pearl, famoso em todo o mundo... Matt balançou a cabeça. Cada restaurante daquele tipo na América ostentava alguma coisa famosa no mundo inteiro. – Então é o bolo de carne e café. – Certo. Depois de Pearl servir o café, Matt estudou a atmosfera. Durante anos, enquanto viajava pelo circuito, comera em restaurantes como aquele em cidades pequenas. Depois de algum tempo, não distinguia mais um do outro. No de Pearl, as mesas eram cobertas por toalhas quadriculadas em verde e vermelho. Os assentos gastos, de couro barato, estavam rachados. Havia cicatrizes de queimaduras de cigarro no balcão de fórmica, que tinha a mesma cor vermelha das toalhas. A parede em frente à rua mostrava uma coleção de placas de carros de todos os cantos dos Estados Unidos... até mesmo do Havaí. Fotos emolduradas estavam penduradas perto da porta... pessoas famosas como a Rainha da Primavera de 1978 e o campeão de soletração da escola distrital. A música do ambiente não vinha de uma jukebox, mas de um rádio localizado ao fundo do restaurante. – Passando para o próximo rodeio? – perguntou um cliente sentado a dois bancos de distância. Olhos cinzentos amigáveis sorriam num rosto cheio de rugas. – Vi a fivela.


– Estou aqui a negócios – disse Matt, virando o tamborete e estendendo a mão para cumprimentar o homem. – Matt Cartwright, de Tulsa. – Jake Taylor, capataz do Gateway Ranch. – Cavalos? – Sim, senhor, esta parte de Idaho é dedicada à criação de cavalos. O que o traz aqui? – Tenho negócios com o Broken Wheel. – Quanto está oferecendo a Amy pelo rancho? Amy não dissera que suas terras não estavam à venda? Matt não queria ouvir que a morte de Ben Olson obrigaria a esposa a vendê-las. – Não estou interessado no rancho. – Espero que seu negócio não seja com aquele garanhão. – Então é verdade que o cavalo atacou Olson? – Difícil dizer. Amy encontrou Ben no chão dentro da baia, o peito afundado. O garanhão pode ter ficado louco, ou pode ter sido um acidente. Matt não gostou da cena que lhe surgiu na mente. Ninguém gostaria de lidar com um garanhão com um comportamento volátil, não importava o quanto fosse famoso. – Estou surpreso por ela não ter mandado matar o cavalo. – Acho que ela tem esperança de vender o animal e, assim, manter o rancho – disse o velho. – Amy dirigia um negócio de hospedagem de cavalos, mas seus clientes retiraram os cavalos. Não se pode culpá-los, pois ninguém quer seu animal no mesmo estábulo em que está SOS... o apelido que Ben deu ao garanhão. – Isso é péssimo. Matt tinha uma fraqueza por gente carente e era grande a tentação de salvar a viúva, mas achava que Amy não apreciaria sua interferência. – Ela é uma lutadora, não há dúvida – continuou Taylor –, mas não vai manter o rancho sem renda. – O bolo de carne já está a caminho, cowboy – informou Pearl, enquanto enchia de novo as canecas de café. Taylor acenou, agradecendo, e disse: – É uma vergonha o Payton Scott, do banco, ficar apertando Amy. Matt odiou saber que o banqueiro local perseguia a viúva. O que havia acontecido com a solidariedade em pequenas cidades? – Ouvi dizer – disse Pearl, intrometendo-se na conversa – que Payton ofereceu a Amy um emprego de caixa, mas ela não quis. Por que a viúva recusou o emprego? Não pergunte. Matt continuou em silêncio, observando os saleiros no balcão. – O rancho está na família da mãe dela há gerações – resmungou Taylor. Pearl se afastou e Matt continuou a conversa. – Conheci Ben em Pocatello, nas Finais Nacionais de Rodeio, em dezembro passado. – Ben não tinha nada que participar desses rodeios. Amy dizia que ele não se segurava em nada, incluindo uma sela. Nunca entendi por que a mãe de Amy permitiu que se casasse com aquele preguiçoso. – Pronto, aqui está.


Pearl colocou o famoso bolo de carne diante de Matt e um sanduíche Reuben em frente a Taylor, antes de se dirigir ao caixa. Matt estudou a carne queimada. – O bolo de carne de Pearl tem gosto de couro cru – disse Taylor, e mordeu o sanduíche. – Tente o Reuben da próxima vez. Por alguns momentos, os homens pararam de conversar e os pensamentos de Matt se voltaram para a briga que tivera com o pai antes de sair de Oklahoma. Sua irmã, Sam, inadvertidamente deixara escapar o plano de Matt, de parar com os rodeios e se dedicar à criação de puros-sangues, e Matt fora obrigado a revelar sua intenção de cruzar suas éguas com o SOS. O pai agira como se Matt o tivesse traído e a briga crescera até o pai garantir que não liberaria o fundo da herança de Matt até ele decidir participar da Cartwright Oil e esquecer seu sonho de criar puros-sangues. Matt ignorara as ameaças do pai e comprara as três éguas com parte da poupança que fizera com suas muitas vitórias no circuito de rodeio no último inverno. Maldição, detestava o pensamento de voltar para Oklahoma e enfrentar o “eu não disse?” do pai. – Alguém já se aproximou do SOS depois que ele atacou Ben? – perguntou Matt. – Não, ninguém é doido. Talvez fosse idiota por acreditar que podia trabalhar com o garanhão. Havia um milhão de motivos para um cavalo enlouquecer. Teria Ben maltratado Son of Sunshine? Matt achava que não. – Preciso correr – disse Taylor. – Espero que seu assunto com o Broken Wheel se resolva bem. Os dois homens se cumprimentaram e Taylor saiu. O que fazer agora... voltar para casa com suas éguas ou tentar convencer a viúva Olson a lhe permitir que julgasse por si mesmo se SOS era perigoso ou não? – Sobremesa, cowboy? – perguntou Pearl. – Não, obrigado. Como é aquele Sleep-Ezee Motel na estrada? – Arlene mantém os lençóis limpos. Agora, tudo de que Matt precisava era de uma boa noite de sono e mais alguns minutos com Amy para salvar sua viagem e atender às ordens de sua consciência. AMY FICOU em pé na varanda na manhã de domingo observando o nascer do sol. Precisava de toda a coragem para enfrentar o belo cowboy que subia o caminho para sua casa. Tinha que admirá-lo... ao contrário do marido, Matt Cartwright se levantava cedo. Amy achava que, sob aquela aparência bonita, o homem era trabalhador e determinado. Admirava as duas qualidades. Sua única experiência com cowboys de rodeio fora o marido. Ben não gostava de se dedicar a coisa nenhuma. Preferia passar o tempo em busca de um pote de ouro no fim do arco-íris de outra pessoa. O cowboy parou o carro ao lado do trailer de cavalos, desceu e foi em direção a ela. Vestia camisa e jeans de trabalho... desbotados e enrugados, ao contrário do que usara no dia anterior. Quando chegou à escada da varanda, parou e, embora não sorrisse, cumprimentou-a levando a mão à aba do chapéu. – Bom dia. – A voz profunda passou por ela como mel quente. – Café? – Podia tratá-lo bem antes de mandá-lo embora. – Gostaria. – Vou buscar.


Entrou e encheu uma caneca bem grande de café e voltou. – Obrigado. – Quando pegou a caneca, os dedos roçaram nos dela e enviaram uma explosão a todas as suas terminações nervosas. Ela ficou no degrau superior... ele continuou no último. Olho no olho. E, puxa, ele era uma tentação! Encostando-se na lateral da escada, Matt olhou para dentro do café. Quantas vezes ela fizera isso... olhar para dentro da caneca, como se o líquido escuro tivesse as respostas para suas perguntas? – Soube que hospedava cavalos. – Não mais, graças ao garanhão. As pessoas temem deixar seus animais aqui. Matt voltou a atenção para as éguas no curral e ela aproveitou para estudá-lo. Não tinha passado da virilha, quando ele perguntou: – Agora que seu marido morreu, são apenas as duas meninas e você? Ela tirou os olhos do jeans dele. Aquela era sua propriedade... tinha o direito de olhar para aquilo de um homem. – Minha família morreu e a mãe de Ben mora no Kansas. Nunca tivemos contato com ela. – Amy telefonara para Wynona para lhe contar que Ben morrera, mas tudo que a mulher dissera fora: “Não me surpreende”. – Não quero me intrometer... – Então não se intrometa. Ele ignorou a advertência. – Mas é evidente que você tem tido pouca sorte nos últimos anos. Sete anos, para ser exata. Sua falta de sorte começara no dia em que se casara com Ben. – Meus problemas não são da sua conta, sr. Cartwright. – Matt, Amy. O som íntimo do seu nome na língua dele fez seu estômago dar um nó. – Gostaria de fazer um negócio com você – disse ele. – Dê-me uma semana para trabalhar com o Son of Sunshine e se... – Não – homem estúpido –, enterrei um cowboy por causa daquele cavalo. Não pretendo enterrar outro. Os olhos dela brilharam. – Lidei com cavalos a vida toda... bons cavalos e cavalos ruins. Em alguns dias saberei se o SOS está louco ou não. – A prova está enterrada na colina. – Alguém viu o cavalo atacar seu marido? Amy balançou a cabeça. Não tinha ideia de quanto tempo Ben ficara lá morto. Quando não respondera ao chamado para jantar, fora ao estábulo e o encontrara. – Há uma chance de que tenha sido um acidente. – O peito dele era um buraco, sr. Cartwright. Acidente ou não, o cavalo não é confiável. – Minha irmã levou uma patada de cavalo na cabeça quando tinha 16 anos porque o feriu sem querer. Alguma coisa parecida pode ter acontecido com o SOS e Ben foi apanhado desprevenido. – Sua irmã sobreviveu? – Sim. Matt não entrou em detalhes e Amy teve medo de perguntar se ela sofrera alguma sequela.


– Uma semana – pressionou ele. – Se o garanhão continuar arisco, voltarei para Oklahoma com minhas éguas. Amy ficou tentada a ceder porque odiava a ideia de matar qualquer animal. Mas, se alguma coisa lhe acontecesse, a morte dele ficaria em sua consciência. – Não. – SOS pode salvar seu rancho. Os fofoqueiros de Pebble Creek fazendo seu trabalho de novo. – Quem disse que meu rancho precisa ser salvo? – Jake Taylor disse que você corre o risco de perder o rancho. – Jake Taylor tem boa intenção, mas fala demais. – Se eu puder provar que o SOS não atacou Ben, poderia vendê-lo. – Fez um gesto em direção à casa e ao estábulo. – O dinheiro da venda daria para melhorar muito o lugar. Esperava que usasse o dinheiro extra para embelezar o rancho? Primeiro pagaria as dívidas de Ben e, qualquer dinheiro que sobrasse, seria guardado para emergências. – E se ninguém quiser o cavalo depois que você trabalhar com ele? – Então pagarei a você o que puder e levarei o garanhão. Agora sabia que Matt Cartwright estava louco. Estudou-o com olhos cautelosos e viu piedade. Uma névoa vermelha se formou diante dela. O maldito cowboy sentia pena dela. Como ousava agir como um orgulhoso cavalheiro? Não pedira sua piedade e não lhe permitiria bancar o cavaleiro da armadura branca para salvá-la. Mas e se pudesse provar que a morte de Ben fora um acidente? Ousaria perder a oportunidade de pagar as dívidas? – Está falando sério? – Muito sério. – Seu olhar se voltou para o alto da colina. – Desculpe, não pretendi ser desrespeitoso. – O que acontece se eu entrar no estábulo um dia e o encontrar morto como meu marido? Os médicos haviam explicado que o coice do cavalo havia esmagado as costelas de Ben e um pedaço de osso lhe perfurara o coração. – Mande meu corpo de volta para Oklahoma e fique com minhas éguas, o trailer e a picape pelo trabalho. – Ele sorriu. – Sou um laçador, sei a diferença entre um cavalo que se assustou e reagiu e um que foi maltratado. – Quando Amy continuou em silêncio, ele acrescentou: – SOS é um cavalo valioso demais para não ter uma segunda oportunidade antes de ser sacrificado. Oh, droga. Pensara que toda aquela compaixão fosse fingida, mas era evidente que o homem pretendia fazer a coisa certa pelo garanhão. Estaria preocupado também em fazer a coisa certa por ela e as meninas? – Não posso comprar alimentos para as éguas nem cuidar delas. – Pagarei pelos custos dos animais em troca de um chuveiro quente e um lugar para descansar a cabeça à noite. Era sua imaginação ou os olhos dele se desviaram para seus seios quando falara em descansar a cabeça em algum lugar? – Sou uma mulher sozinha com duas crianças, sr. Cartwright. – Eu lhe darei uma lista de referências. Posso até chamar Jake Taylor, no... – Gateway Ranch – terminou ela. – Taylor e eu jantamos juntos no Pearl’s a noite passada.


Amy confiava em Jake Taylor, fora um grande amigo do seu avô. Se Jake tivesse dúvidas sobre o caráter de Cartwright, ele lhe diria. – Com licença um minuto. Entrou e ligou pelo telefone da cozinha. – Oi, Jake, é Amy. – Oi, Amy, tudo bem? – Tudo bem. Escute, estou ligando para falar sobre Matt Cartwright. – O cowboy de rodeio? – É, ele disse que o conheceu no Pearl’s ontem. Está pedindo uma chance de trabalhar com o Son of Sunshine. Acha que posso confiar nele? – Aposto meu melhor par de luvas de montaria que é um homem de palavra. E mais ninguém está disposto a se aproximar daquele cavalo. – Estou inclinada a lhe dar uma chance. – Vou passar aí mais tarde e conversar com ele. – Obrigada, Jake. – Despediu-se e desligou. Um sorriso de “eu lhe disse” a recebeu quando foi para a varanda. – Passei no teste? – Passou. – Ela mordeu o lado interno da bochecha para não sorrir. – Onde posso guardar minhas coisas? – No estábulo. Ele ficou pálido. – Você quer trabalhar com o Son of Sunshine. Pode também dormir com ele. – Amy sufocou uma risada diante da expressão preocupada. – Empresto um travesseiro e um cobertor para o catre na sala de arreios. – Ouviu ruídos na cozinha. As meninas tinham se levantado. Dirigiu-se até a porta e parou. – Não me daria ao trabalho de desfazer as malas, senhor... – Matt. – Tenho a impressão de que vai desistir antes que o dia termine. – Veremos, não é, Amy?


CAPÍTULO 3

AMY ESTAVA no andar de cima, procurando lençóis no armário enquanto as filhas brincavam no quarto, quando o som de passos no cascalho da entrada lhe chegou aos ouvidos. Ele voltou. Amaldiçoou a fisgada de excitação que lhe percorreu o corpo. Mais cedo, naquela manhã, depois que a convencera a lhe dar uma semana, Matt alimentara e dera água às éguas, depois pegara a picape e saíra. Não devia ficar aflita para saber aonde fora ou o que fizera, mas se viu observando o relógio e contando os malditos minutos até a volta de Matt. Carregando lençóis, cobertores e um travesseiro, fechou a porta do armário com o salto da bota. No mesmo instante, a campainha da porta tocou e ela correu para atender, então parou. O que estava fazendo? Queria que Matt pensasse que estava tão desesperada por companhia masculina que correria cada vez que a chamasse ou tocasse a campainha? Céus, bancaria a idiota pela segunda vez na vida! Como a mãe, Amy se apaixonara por um rosto bonito e descobrira que o homem não tinha substância. Quantas vezes ouvira a mãe dizer que o marido só era bom em sonhar? Amy e a mãe trabalhavam duro para cuidar dos animais hospedados e fazer as outras tarefas do rancho, enquanto o pai passava os dias fazendo anotações num caderno, que jamais deixava de lado, de ideias para ganhar milhões de dólares. Amy decidiu que era melhor deixar Matt esperar. A campainha tocou de novo. – Mamãe – disse Rose. – Quer que eu vá atender? – Obrigada, doçura, eu vou. – Amy desceu a escada vagarosamente e, quando chegou ao fim, decidiu deixar os lençóis e cobertores no sofá da sala de estar. Quando terminou de dobrar os lençóis, o cowboy já esperara o suficiente. Evidentemente, esperara demais... não estava em lugar nenhum quando abriu a porta. Então olhou para baixo e arquejou ao ver as sacolas de mantimentos deixadas junto à porta. Não tinha certeza se havia lugar na geladeira para tanta comida. Levou as sacolas para dentro e começou a tirar os pacotes de barras de fruta Silly Nilly, cereal Cap’n Crunch, doces, queijos, biscoitos e frutas. Não era comida de cowboy; era para crianças. Um nó se formou em sua garganta. Matt concordara em alimentar a si mesmo e às éguas... não a ela e suas filhas também. Engoliu com força. Sua generosidade devia ter uma razão... esperava tornar impossível a Amy expulsá-lo do rancho.


– Uau! – Rose estava junto à porta da cozinha, com Lily ao seu lado chupando o polegar. – Sem polegar, Lily. – Amy temia que a filha não se livrasse do hábito desagradável e tivesse problemas com os dentes mais tarde. Não teria como pagar um aparelho. – Quem trouxe tudo isso? – Rose subiu numa cadeira para observar a mãe e Lily seguiu seu exemplo, subindo em outra cadeira. – O sr. Cartwright comprou umas coisas para mim. – Não era realmente mentira... não importava quem tivesse pagado a conta, que devia ter sido uma pequena fortuna. Lily viu as bananas e bateu palmas. – Nana! Eu nana! Amy descascou a fruta e deu-a a Lily. – O que você quer, Rose? Uvas? – Está bem. Enquanto as meninas faziam o lanche, Amy guardou os alimentos, admirada por Matt ter comprado até sabão em pó para roupas e sais para banho. – Olhe, Lily! – gritou Rose, quando viu a caixa de barras de frutas Nilly, um produto que Amy parara de comprar quando o orçamento apertara. – Lily, se você deixar Rose ajudá-la a usar o vaso e depois lavar as mãos, pode ganhar uma barra de fruta e se sentar no balanço enquanto faço o jantar. – Tá bem. – Lily comeu o resto da banana, desceu da cadeira e saiu. – Ela usou, mamãe – anunciou Rose, pouco depois. Amy ajeitou a calça de Lily e entregou as barras às duas meninas. – Fiquem no balanço. Assim que saiu, Lily gritou: – Carro! Payton Scott dirigia seu vulgar Mustang vermelho pela estrada do rancho. Amy seguiu as meninas até a varanda e esperou. O gerente do banco saiu do carro e ficou olhando a picape e o trailer de Matt. – O que posso fazer por você, Payton? Ele se juntou a Amy na varanda. – De quem é aquele equipamento? Preferia não falar sobre Matt diante das meninas. – Entre. Assim que fechou a porta de tela, ele exigiu: – De quem são aqueles cavalos? – De Matt Cartwright, um amigo de Ben. – Até saber o motivo da visita, recusava-se a revelar seu acordo com Matt. Fez um gesto para ele se sentar, mas Payton preferiu ficar de pé. – O que o traz aqui? – Notícias ruins. – Oh? – Pegou uma tábua e uma faca e começou a cortar vegetais. – Conversei com meu pai e ele recusou lhe conceder o prazo de 90 dias para pagar a hipoteca. – Por quê? – Amy pedira o prazo para fazer um curso de treinamento grátis que começaria em uma semana. O curso levaria três semanas e a habilitaria a arranjar um emprego enquanto decidia o que fazer com o SOS. Esperava não ter que pagar a hipoteca até setembro.


– Devia ter aceitado o emprego que lhe ofereci no banco – disse Payton, evitando responder à pergunta. O emprego tinha condições que a levariam diretamente à cama de Payton, então recusara. Sim, estava desesperada para manter o rancho, mas não tão desesperada para dormir com um porco barrigudo. – Não posso pagar uma babá – mentiu. – Presumi que seria teimosa. O banco entrou em contato com a Wineball Realty para tomar as providências para pôr a propriedade no mercado. Amy soltou a faca para não se sentir tentada a usá-la em Payton, e não num tomate. – O rancho não está à venda. O sorriso dele foi sinistro. – Estará, se você não tiver o dinheiro para pagar a prestação de maio. ESCONDIDO NAS sombras da porta do estábulo, Matt tinha uma visão clara do homem e do carro esporte. Ignorando as meninas, que estavam sentadas no balanço da varanda, o homem seguira Amy para dentro de casa. Matt teve a impressão de que a visita não era social. Não se envolva. Fora, diria Amy também, se tentasse se intrometer. Deixou de lado o forcado e se dirigiu para a casa, dizendo a si mesmo que sua curiosidade era apenas solidariedade de vizinho, e não territorial. Não se intrometeria, a menos que Amy quisesse, mas pelo menos ela saberia que estava ao seu lado. – Alô, mocinhas – cumprimentou as meninas com um sorriso, enquanto subia a escada da varanda. A mais velha apenas o olhou com expressão solene, mas a pequena lhe deu um sorriso e estava com a boca vermelha, da barra mastigada. – Nilly. Gostou de ver que estavam aproveitando as compras. – Acho que não fomos oficialmente apresentados. – Tirou o chapéu e se curvou. – Matt Cartwright. Podem me chamar de sr. Matt. – Tentou se lembrar do nome da pequena. Uma flor, sim, era isso, as duas meninas tinham nomes de flores. – Então Daisy... – Daisy não é meu nome. – Bem, então, Narcisa, eu... A menina riu e balançou a cabeça. – Não, não sou Narcisa. – Camélia? – Não, bobo, sou Rose. – É isso mesmo... Rose. E sua irmã, Violeta... – Mais risadas, e dessa vez a pequena entrou na brincadeira e bateu palmas. – Quero dizer, Tulipa. – O nome dela é Lily. Matt riu junto com elas. Eram encantadoras. – Preciso falar com sua mãe, e vocês, botões de flores, fiquem aqui. Pensou em bater, mas mudou de ideia quando ouviu a voz alta do visitante. – É sua única opção, Amy, tem que vender.


– Por que seu pai não me concedeu o prazo para pagar a hipoteca? O banco não vai sentir falta de 1.600 dólares por mês. – Você é um risco. – Ben era um risco, não eu. – Você não tem renda e ninguém vai trazer cavalos para cá até se livrar daquele animal. Nem isso será o bastante. Acumulou dívidas demais no cartão de crédito. – Dívidas de Ben, não minhas. – Não faz diferença. Matt ouvira o bastante. Entrou na cozinha sem ser anunciado e se aproximou do banqueiro. – Matt Cartwright. – Estendeu a mão. – Payton Scott. Matt olhou para Amy diante do fogão, a boca uma linha fina. – Não parece que a sra. Olson esteja interessada em vender a propriedade. – A sra. Olson não tem opção. – As meninas não têm para onde ir, Payton. Você não pode me expulsar de minha casa. Scott nem piscou, percebeu Matt. O canalha não tinha escrúpulos em jogar uma mulher e as duas filhas na rua. – O rancho é seu enquanto fizer os pagamentos. – Não contou a ele? – perguntou Matt a Amy, esperando que ela compreendesse. A cabeça de Scott virou de Matt para Amy. – Contou o quê? – Estou pagando à sra. Olson uma taxa mensal pelo uso de Son of Sunshine. – Passou a mão no queixo. – Quanto foi mesmo que combinamos? O canto da boca de Amy mexeu. – Mil e seiscentos dólares. – O... o quê? – Você ouviu a sra. Olson. Mil e seiscentos dólares. – Baixou a voz. – A quantia exata da prestação da hipoteca. Scott cerrou os punhos e endireitou os ombros, até parecer que os botões da camisa pulariam. – Está desperdiçando seu dinheiro. Aquele cavalo não vale nada. Scott saiu furioso da casa e, um minuto depois, o som do motor do Mustang foi ouvido. – Podemos entrar agora? – Rose segurava a mão de Lily do outro lado da porta de tela. Matt abriu a porta e as meninas correram para Amy, abraçando-lhe as pernas. Teriam sentido a angústia da mãe? A boca de Amy se abriu, então se fechou de novo. – Que cheiro bom é este? – Fajitas. O jantar estará pronto em alguns minutos e, se quiser se lavar, a porta do banheiro fica no corredor. Ele deu um passo, então se lembrou das botas... botas que pisaram num estábulo sujo o dia todo. Voltou para fora, tirou-as e entrou de meias, dirigindo-se ao corredor. O banheiro era do tamanho de um armário, com espaço apenas para uma pia e um vaso. Ele se apertou, fechou a porta, então respirou fundo. Não suportava homens que perseguiam mulheres.


Lavou as mãos e o rosto e pensou que não fora até ali para cuidar de uma viúva. Tudo o que queria era cruzar o garanhão com as suas éguas, depois pegar a estrada. Por que tivera o forte impulso de proteger a viúva e as filhas? Socorrera uma mulher em perigo uma vez e levara um belo fora. Não queria mais ser um cavaleiro andante. Pagaria a prestação da hipoteca porque era a coisa certa a fazer, nada mais. Quando voltou à cozinha, as meninas estavam sentadas, Lily numa cadeira alta. – Onde quer que me sente? – Qualquer lugar. – Amy colocou na mesa uma grande tigela de carne e vegetais. Matt escolheu a cadeira entre as duas meninas e Lily sorriu. – Ei, você. – Ei, você – respondeu Matt. Lily riu. – Ela sempre diz isso. – Rose virou os olhos. Amy se sentou em frente a Matt. – Crianças de dois anos de idade repetem tudo que ouvem – explicou, depois segurou as mãos das filhas. Com a cabeça baixa, ele esperou e esperou. Então ergueu os olhos. As três o fitavam. – O quê? – Temos que dar as mãos, sr. Matt – explicou Rose. Sentindo-se estúpido, segurou gentilmente os dedos de Rose e a mãozinha de Lily coberta de cuspe. – Senhor, pedimos que abençoe este alimento e... abençoe o sr. Cartwright, por nos fornecê-lo hoje. Amém. Decidiu deixar passar o comentário sobre as compras. Se Amy cozinharia, ele compraria os alimentos. – Sr. Matt, como sabia que gostamos de Silly Nilly? – perguntou Rose. Não ousou confessar que ficara parado no setor de cereais por cinco minutos antes de pedir conselhos a uma mulher. – Vocês duas parecem meninas Silly Nilly. Rose riu e fez uma careta, e Lily imitou-a. Amy passou as tortilhas quentes para Matt. – Obrigado por ter feito o jantar. – Encheu o prato. Não almoçara, para adiantar a limpeza do estábulo, e estava com muita fome. – Como foram as coisas hoje? – perguntou Amy. – Bem, limpei a baia. – Matt desinfetara tudo com que o garanhão teria contato, inclusive o chão de cimento. Queria que o animal sentisse o cheiro dele e de nada mais no estábulo. – O SOS está comendo? – Comeu tudo o que viu. – Matt comprara cenouras e cubos de açúcar para recompensar o cavalo por bom comportamento. Naquela tarde, colocara um pedaço de cenoura sobre a porta da baia e ficara perto, presumindo que o animal teria medo de se aproximar. Mas o garanhão pegara a cenoura, sem se importar com a presença de Matt, uma indicação de que não fora maltratado. Suspeitara então de que a morte de Ben fora um acidente e imaginou que alguma coisa ou alguém havia enfurecido o cavalo. Precisava apenas descobrir o quê.


Depois de SOS comer a cenoura, Matt pensara em examinar seu pelo em busca de ferimentos ou cicatrizes que pudessem mostrar que o garanhão fora maltratado, mas quando abrira a porta da baia o cavalo ficara inquieto. Fechou a porta e o animal se acalmou, o que o deixou ainda mais intrigado. – Rose, diga ao sr. Matt qual é a regra sobre o estábulo – declarou Amy. – Lily e eu não podemos entrar no estábulo. – A menina suspirou. – Nunca. – É uma boa regra, Rose. Aposto que você ajuda sua mãe cuidando de Lily para que ela não se aproxime do estábulo. – Rose é uma grande ajuda no rancho. – Amy sorriu, tirando as mechas de cabelo da testa da menina. O gesto maternal lembrou a Matt que sua mãe abandonara os filhos quando eram muito pequenos. Crescera com o amor do pai e a atenção de Juanita, a governanta. Quando o pai se casara de novo, já era adolescente e não queria cuidados maternais. – Eu “cabei”! – anunciou Lily. – Eca. – Rose apontou para a cadeira alta da irmã. Estava toda suja de comida amassada, que se espalhava também pelo rosto e cabelos de Lily. – Não compreendo por que ela se recusa a usar a colher – suspirou Amy. Matt se contentou em ficar sentado e observar as três. O hábito de Amy de inspirar profundamente depois de cada garfada chamou a atenção dele para os seios dela, que eram grandes para uma mulher tão pequena. Ele preferia mulheres altas, ruivas e de pernas compridas, não louras pequenas e cheias de curvas. Mas a feminilidade suave de Amy lhe despertou o interesse. – Terminaram? – perguntou Amy. Ela o teria visto encarando-a? Matt tirou os olhos da frente da camiseta dela. Amy acenou para o prato vazio. – Vou esquentar mais tortilhas... – Não, obrigado, estou satisfeito. Estava tudo ótimo. Na verdade, a carne estava meio dura e sentiu saudades da comida de Juanita. Observou ao redor e viu a confusão de panelas e pratos sujos, então olhou para a porta, pensando em fugir. Então viu Amy esfregando as têmporas e se perguntou se seria cansaço ou preocupação. Provavelmente os dois. A visita do gerente do banco tinha sido um golpe, depois fizera o jantar e agora enfrentava a tarefa gigantesca de limpar uma cozinha e uma menina suja. – Rose e eu podemos arrumar a cozinha, se quiser dar um banho na srta. Lily – ofereceu. Ela franziu o nariz. – O que você disse? – Não sei cozinhar, mas sou ótimo para lavar pratos. – Percebeu que não havia uma máquina de lavar pratos. – Tem certeza? – Positivo. Vá cuidar de Lily. Com os olhos brilhantes, Amy quase soluçou. – Será ótimo, obrigada. – Então limpou a garganta. – Rose, ajude o sr. Matt, mostre onde guardar as coisas. – Ergueu Lily da cadeira. Assim que Amy saiu com Lily, Rose contou: – Papai nunca lavou os pratos. – Acho que tenho a tendência de salvar damas em apuros.


CAPÍTULO 4

NA MANHÃ de sexta-feira, Amy ligou para a vizinha, tentando convencê-la de que Matt Cartwright era inofensivo. – Mary, Matt Cartwright é um homem de honra – garantia Amy pela milésima vez. – Telefone para Jake Taylor, ele conhece Matt e pode garantir a reputação do homem. A vizinha continuou a relutar em permitir que a filha de 15 anos cuidasse das meninas para que Amy fizesse o curso de computação que começaria na segunda-feira seguinte. – Mary – interrompeu Amy –, você permitiria que Kristen cuidasse das meninas se eu conseguir que o sr. Cartwright fique fora do rancho enquanto ela estiver aqui? Amy não sabia se convenceria Matt a passar cinco horas fora do rancho todos os dias. Mary concordou em discutir a situação com o marido e telefonaria à noite. Amy agradeceu e desligou. – Maldição! – Problemas? Ela se virou e viu Jake Taylor na varanda. – Entre, Jake. – Onde estão as meninas? – Dormindo. Rose pegou o resfriado de Lily, então achei melhor colocar as duas para descansar. – Posso ajudar? – Jake acenou em direção ao telefone. – Quem dera! – Pegou uma caneca e a encheu de café. – Sente-se. Estava tentando convencer Mary Hainestock de que Matt não é um assassino em série e que podia deixar Kristen cuidar das meninas nas próximas semanas, enquanto faço um curso de informática em Rockton. Jake tomou um gole de café e suspirou de prazer. – Disse-lhe que você podia garantir a integridade dele, mas acho que Mary não vai lhe telefonar. – Andei pesquisando a vida de Cartwright. – Verdade? O que descobriu? – Cartwright é um dos melhores laçadores do país. – Notei a Fivela de Prata no outro dia – confessou Amy. – Também fez faculdade enquanto participava de rodeios. Faculdade?


– Formou-se em administração de empresas pela Oklahoma State, depois voltou aos rodeios em tempo integral. – Quando Jake coçou a cabeça e depois passou o dedo na mesa, Amy ficou intrigada. – Diga logo, Jake. – Cartwright tem muito dinheiro. – Todo mundo tem dinheiro se comparado a mim. – O pai dele lida com petróleo – disse Jake. – Tem poços de petróleo no valor de milhões de dólares em Oklahoma e no leste de Arkansas. Por que diabos estaria Matt tendo trabalho com um cavalo louco quando tinha dinheiro para comprar um rancho cheio de garanhões? – Não faz sentido. – O homem tem seus motivos para querer trabalhar com o SOS – disse Jake. – Cartwright acha que o cavalo estava assustado quando escoiceou Ben. Podia ser possível, mas não tornava mais fácil aceitar. – De qualquer modo, o cowboy sabe o que está fazendo com o animal. Se Matt provasse que o SOS não era louco, ela o venderia e pagaria quase toda a sua dívida. Mas falar não provava nada. O pai e Ben falavam muito e não faziam nada. Mas Matt jamais terá a chance de fazer isso se você obrigá-lo a sair do rancho enquanto Kristen estiver aqui para cuidar das meninas. – Cartwright é um cowboy direito – continuou Jake. – Nunca se casou, não tem filhos. – Matt tem competência para lidar com o SOS? Jake assentiu. – Está com ele no padoque agora, cavalgando como se o animal nunca tivesse escoiceado ninguém. Bastava de falar sobre Matt e cavalos. – Como está Helen? A mulher de Jake tinha problemas de saúde. – O médico passou um remédio novo e ela está se sentindo bem melhor. – Qualquer dia desses vou visitá-la. – Amy se sentiu culpada por evitar a mulher de Jake, que adorava suas filhas. Mas, desde a morte de Ben, sua vida parecia ter se transformado numa roda gigante, girando sem sentido num mundo que encolhia cada vez mais. – Obrigado pelo café – disse Jake. – Preciso ir andando. Amy o acompanhou até a porta. – Obrigada por cuidar de nós, Jake. – Seu avô teria... espere. – Tirou do bolso do jeans um caderno de anotações. – Quase esqueci o motivo por que vim aqui. Estava limpando aquela escrivaninha que me vendeu e encontrei isto entre duas gavetas. – É do meu pai – murmurou Amy, folheando o caderno. – Levava isto para todo lado. Escrevia as ideias que tinha ou desenhava invenções que achava que o tornariam rico algum dia. – Bem, veja se tem alguma coisa que dê dinheiro. – Você será o primeiro a saber se eu descobrir um esquema que valha a pena. – Dê a Cartwright uma chance, Amy. Se provar que o garanhão não atacou Ben de propósito, poderá vendê-lo por um bom preço. Depois que Jake partiu, Amy guardou o caderno numa gaveta da cozinha e foi para o estábulo. Como diria a Matt que ele teria de ficar fora do rancho por algumas horas todos os dias, enquanto ela


fazia o curso, especialmente depois de ele ter pagado os 1.600 dólares da prestação da hipoteca? – Estava indo até a casa – disse Matt com um sorriso, quando a encontrou na porta do estábulo. – Gostaria de jantar fora com as meninas hoje? É sexta-feira e achei que seria bom sair um pouco. Então ele percebera que ela e as meninas não tinham saído durante a semana, a não ser Rose, que ia para a escola. – Pretendia fazer... – Você cozinhou a semana inteira. Deixe-me levar você e as meninas para jantar fora. De repente, ela teve uma intuição. – Você não gosta muito da minha comida, não é? O sorriso dele aumentou e Amy quase perdeu o fôlego. – Sua comida é ótima, Amy. Certo. Era por isso que a garrafa tamanho gigante de ketchup estava quase vazia. – Agradeço o convite, mas as meninas e eu ficaremos bem em casa. O Bailey’s, em Rockton, tem peixe frito às sextas-feiras. E a Cantina tem uma boa cozinha mexicana... bem apimentada. O Da Vinci tem um ravióli sensacional. – Ficou com água na boca só de pensar. – As meninas gostam de comida italiana? – Bem, claro que sim, mas... – Vamos, Amy, jantem comigo esta noite. Então se aproximou e o cheiro dele quase a sufocou. Cheirava a estábulo, colônia e sabonete. Amy esqueceu de que era uma viúva, que tinha duas filhas, esqueceu tudo, embriagada pela visão, o cheiro e, sim, o toque... baixou os olhos para os dedos do homem, que brincavam com os dela. – As meninas vão se divertir – insistiu ele. – Estão resfriadas. – Por que sua voz parecia tão distante? – Leve agasalhos para elas. Por que um cowboy como Matt queria sair com uma viúva e duas crianças... por que era gentil ou por que queria agradá-la, para que não o mandasse embora? Como se isso importasse, quando tudo o que queria era sair um pouco do rancho. – Só se eu pagar pelo nosso jantar. – Não, senhora, o convite é meu. O orgulho a dominou. – Não gosto que as pessoas tenham pena de mim. – É isto que pensa... que tenho pena de você? – Talvez. – Não tenho. O tom de convicção lhe derrubou as defesas. – Então está bem, as meninas e eu aceitamos. – Estejam prontas às cinco e meia. – Piscou e voltou para dentro do estábulo. Com o coração disparado, Amy correu para casa. O que vestir para o jantar era mais importante do que pedir a Matt para deixar o rancho quando a babá chegasse na semana seguinte. ENQUANTO AMY se mexia na cozinha, Matt ficou no balanço da varanda, muito nervoso. Depois de voltarem do restaurante em Rockton, Amy lhe oferecera um café depois de pôr as meninas na cama.


O jantar com a mãe e as filhas tinha sido melhor do que esperara. Como Amy dissera, a comida no Da Vinci era excelente. Mas, depois de uma garfada ou duas, esqueceu-se da comida, observando Amy saborear cada ravióli. Cortava um no meio, punha-o na boca e fechava os olhos enquanto mastigava. Perguntou-se se ela fazia amor como comia... lentamente, saboreando. O prazer no rosto de Amy depois de engolir fora a coisa mais sexy que já vira. Temendo que, se não parasse de pensar sobre Amy, comida e sexo, ficaria numa situação embaraçosa quando se levantasse para ir embora, Matt tentou se distrair ensinando Rose a enrolar o espaguete usando um garfo e uma colher. Durante a refeição, a conversa foi dominada pelas meninas. Rose gostava de falar, principalmente sobre seu último amor, Butch. E Lily, com seu sorriso doce, atraiu a atenção de muita gente. Gostaria que Amy se apressasse com o café. Depois de lhe observar a boca mastigando comida, queria beijá-la, saboreá-la, sentir a suavidade daqueles lábios, talvez mergulhar a língua na maciez daquela boca. Um beijo amigável, nada mais, um beijo de agradecimento por ter saído com ele para jantar. O telefone tocou e Amy atendeu. Um minuto depois, chegou à varanda com duas canecas de café. – As meninas já se deitaram? – Bateu a mão no balanço. – As estrelas parecem mais brilhantes aqui do que em Oklahoma – disse ele, esperando romper a tensão. Matt estava intrigado com Amy. A viúva tinha mais bagagem do que um avião, mas isso não o desanimava. Cada vez que se perdia nos olhos castanhos de Amy Olson, uma sensação de lar o dominava. Seu pequeno rancho no vale fértil ao longo do braço sul do Snake River enchia sua alma de contentamento e paz. Mas a paz é temporária. Não importava o quanto admirava o rancho ou quisesse conhecer Amy melhor, não ousava perder seu coração para a mulher... porque ela o mataria se descobrisse como tratara seu marido. Além disso, jurara ficar longe de mulheres depois do que Kayla lhe fizera. Amy não é Kayla. Ela não seria capaz de usá-lo. Talvez sim, talvez não. Tivera certeza de que Kayla era a mulher. Jamais imaginara que a mulher e o ex-namorado estavam planejando lhe dar um golpe... Kayla se casaria com Matt e depois se divorciaria, com um acordo financeiro substancial. Você não é melhor do que Kayla. Usou o vício de jogar de Ben Olson para tirar proveito dele, o que foi tão ruim como o que Kayla tentara fazer. Amy lhe entregou uma das canecas e se sentou no balanço, o mais distante possível dele. Matt não se importou. Fechou os olhos e inalou o cheiro do café e do xampu cítrico de Amy. – Rose disse que vai ensinar a Butch como enrolar o espaguete. Matt sorriu. – Como as meninas estão lidando com a morte do pai? – Bem, ele não ficava muito em casa. Aparecia uma vez por mês, demorava alguns dias e viajava de novo. As meninas sabiam que ele era o pai, mas preferiam ficar comigo. – Então perguntou abruptamente: – Notei a queimadura de corda na palma da sua mão. O que aconteceu? A linha em diagonal lhe dividia a palma do pulso ao dedo indicador. – Uma lembrança da minha primeira experiência com touros. – Jake disse que você é laçador.


– Minha carreira de domar touros durou só essa vez. Minha mão ficou presa na corda e o touro me puxou pela arena como se eu fosse um boneco de pano. Depois disso, decidi que era melhor ficar com cavalos. – Ben também não gostava de touros. Preferia cavalos bravos. Matt sabia quem eram os melhores cowboys do circuito e o nome de Ben jamais se destacara. As palavras de Amy apenas confirmaram o que sabia. – Ele adorava a imagem de ser um cowboy de rodeios. Ficou no esporte depois que nos casamos porque era uma justificativa para sair do rancho. Deu de ombros, como se não tivesse importância, mas Matt percebeu a mágoa na voz. – Como você e Ben se conheceram? – Num rodeio, é claro. Ele me atraiu com sua atitude arrogante e seu sorriso. – Ela lhe deu um olhar de lado. – Todos os cowboys de rodeio têm um sorriso muito atraente. Isso significava que o sorriso de Matt era especial ou igual a milhares de outros? – Tinha 21 anos e era ingênua. Fiquei envaidecida pelo interesse de Ben e achei que era... amor. Passamos uma noite num quarto de motel e, na manhã seguinte, Ben foi embora. Não me importei. Na realidade, fiquei aliviada. Uma dessas lições de vida que a gente aprende, aceita e vai em frente. Voltei para casa e três meses depois descobri que estava grávida de Rose. – Ben devia ter usado proteção. – Nós usamos. Na segunda vez. – Então vocês se casaram. – Ele tinha o direito de saber que ia ser pai. Não esperava que me pedisse em casamento, mas, quando pediu, aceitei... principalmente por causa de minha mãe. – O rosto de Amy ficou ruborizado. – Segui os passos de minha mãe, que ficou grávida de mim antes de se casar com meu pai. Depois que nos casamos, Ben trouxe algumas coisas dele para o meu quarto. – Vocês não queriam uma casa só de vocês? – Ben me convidou para segui-lo no circuito, mas viver num trailer não me agradava. Além disso, minha mãe não conseguiria cuidar dos cavalos sozinha. – Ela tinha seu pai... – Meu pai foi um inútil. Mamãe e eu cuidávamos de tudo. O rancho pertence à família de minha mãe. Meu pai não tinha nenhum interesse na prosperidade dele. Além disso, eu tinha medo de ter um filho sozinha e queria o apoio de minha mãe. – O que aconteceu com seus pais? – Morreram há alguns anos num acidente de barco. Ben vinha para casa com mais frequência depois disso e eu, estupidamente, acreditei que pretendia trabalhar aqui. Lily foi o resultado. – Importa-se se eu perguntar como ficou com problemas financeiros? – Ben jogava. Há um ano, descobri que tirava dinheiro em diversos cartões de crédito. Quando ameacei me divorciar, ele implorou por uma nova chance e concordou em se juntar aos “Jogadores Anônimos”. Uma parte de mim esperava que ele mudasse... pelo bem das meninas. – Olhou para o espaço por um longo tempo. – Fui tão idiota. – O que aconteceu? – Ele pediu para fazermos uma segunda hipoteca sobre o rancho para pagar os cartões de crédito e eu concordei. Mas Ben usou o dinheiro para comprar o SOS. Garantiu que o garanhão renderia mais do que o necessário para pagar as dívidas. Um mês depois, ele morreu.


Matt não conseguia ignorar seu papel nos problemas de Amy. – Você está mesmo com dificuldades. – Pagaria as prestações da hipoteca o resto do verão... era o mínimo que podia fazer. Se tivesse o dinheiro, compraria o SOS e resolveria os problemas dos dois. Pensou em pedir um empréstimo ao pai, mas ele odiava cavalos e Matt duvidava que emprestasse um tostão da fortuna dos Cartwright para realizar o sonho de Matt. Talvez fosse melhor. Quanto mais ajudasse Amy, mais ela pediria. Não, Amy não era outra Kayla e seu instinto lhe dizia que ela lhe pagaria o empréstimo. Isto foi o que Kayla disse quando se ofereceu para comprar o novo equipamento para o salão de beleza. Acreditara em Kayla quando dissera que não queria nada dos milhões dos Cartwright. E, enquanto financiava a instalação de seu negócio e pagava as contas, ela o enganava com o ex-namorado. Amy se moveu e seu cheiro feminino espantou as lembranças ruins. – A partir de segunda-feira, vou fazer um curso de informática de três semanas e, quando terminar, pretendo arranjar um emprego. – Por quê? Depois que vender o SOS... – Mesmo se vender, preciso de um emprego que tenha um plano de saúde decente para mim e as meninas. Matt admirou a sensatez de Amy. Não esperava ajuda, e enfrentava o futuro da família sozinha. – Mas tenho um problema. Na verdade, dois problemas. – O quê? – Não tenho o dinheiro para pagar a prestação de junho da hipoteca. Eu lhe disse. – Eu cuido disso. Com o queixo para cima, ela disse: – Vou reembolsá-lo assim que arranjar um emprego. Talvez fosse um idiota, mas acreditou nela. – E o segundo problema? – Os pais da babá não deixarão que ela venha cuidar das meninas enquanto você estiver trabalhando aqui. – Por que não? – Você é um estranho e, embora eu tenha dado garantias por você, tal como Jake Taylor, esta é uma comunidade pequena e as pessoas não confiam em quem não conhecem. Matt insistiu. – Tenho que trabalhar com o SOS todos os dias para prepará-lo para cruzar com minhas éguas. – Lamento, mas levar as meninas para o curso comigo seria um desastre. – Isso não foi parte do nosso acordo. Falarei com os pais da babá e lhes garantirei que não sou ameaça para a filha deles. – Disse a eles que você faria isso, mas ele se recusaram a recebê-lo. Matt deixou a caneca no parapeito da varanda e se levantou. – Sinto muito, Amy. Terá que providenciar alguma coisa para as meninas, porque vou ficar bem aqui com o SOS. Saiu para o estábulo, perguntando-se como diabos seus planos para um beijo de boa-noite falharam.


CAPÍTULO 5

– O QUE está fazendo? De pé sobre um tamborete no meio da sala de arreios, forcado acima da cabeça, Matt congelou. – Cuidado, Rose, há um rato enorme aqui. O suor cobriu a testa de Matt. Quando menino, fora mordido por um rato e tivera que passar por uma série de dolorosas injeções contra raiva. Depois disso, manteve-se distante de qualquer animal parecido com um rato. Apontou para o catre do outro lado da sala. – Suba na cama antes que ele saia de novo. Ela obedeceu, e Matt, dominado pelo medo, só agora percebia que ela havia desobedecido à regra de ouro do rancho. – Você não devia estar no estábulo. – Por que não come mais com a gente? Matt se levantara na manhã de sábado furioso com a exigência de Amy. Devia ter esperado que ele fosse embora antes de se matricular num curso. – Tive que resolver um assunto em Rockton ontem. – Sentiu-se mal por sua ausência ter magoado a menina. O assunto tinha sido o jantar na Maria’s Cantina. Com o lábio inferior espichado, Rose disse: – Mamãe guardou seu prato, mas você não apareceu. Amy guardara jantar para ele? Não era de admirar que essa manhã não tivesse respondido ao seu cumprimento, quando fora à casa dela para usar o banheiro e pegar uma caneca de café. Percebeu um movimento num canto da sala e atingiu-o com o forcado. – Ah, peguei você, seu monstro! A cauda longa e fina do monstro negro apareceu sob o banco de trabalho, então o bicho se virou, os olhos vermelhos brilhando. Matt estremeceu à ideia de dormir num catre 12cm acima do chão com um rato à solta. – Espere! – Rose pulou do colchão e, sobre os joelhos e as mãos, se arrastou em direção ao banco. – Ei! – Matt bloqueou seu caminho com o forcado. – O que está fazendo?


– Esta é Sophia, minha amiga. – Amiga? Isto é um rato, Rose. Volte antes que morda você. – Sophia é meu bichinho de estimação e às vezes trago restos de comida para ela. – Matt se perguntou se Amy sabia sobre a amiga da filha. – Mas então papai morreu e mamãe me fez ficar longe do estábulo. – O rato fugiu e saiu da visão. – Não vai descer daí? Deus, ele queria. – Assim que tiver certeza de que Sophia foi embora. – Ela não vai machucar você. – Não vou me arriscar. – Por que diabos estaria discutindo com uma menina de 7 anos? – Vai matá-la quando eu for embora? A pergunta evocou uma imagem horrível. Supunha que teria de comprar uma ratoeira ou seria o cowboy mais cruel do mundo. – Não, estou tentando assustá-la para que fique fora do meu caminho. – Ela se sente sozinha. Ratos não sentem solidão. Matt estudou o chão mais uma vez, então pulou do tamborete, mas não largou o forcado. Precisava agora lidar com Rose. – Melhor não encontrar você aqui de novo, mocinha. Na maior parte do tempo, SOS ficava no padoque, mas Matt detestava a ideia de uma das meninas entrar na baia do garanhão. Com as mãos nos quadris, Rose fez beicinho. – Vai contar a mamãe? – Não. Você é que vai dizer a sua mãe que violou a regra. Ela bateu o pé. – Então vou contar a mamãe que você tem medo de ratos. E vou contar a todos os meus amigos da escola que você tem pavor... – ela juntou o polegar e o indicador – ...de um camundongo deste tamaninho. – Sophia é um rato de dois quilos! – protestou ele. – E daí? Maldição, a menina o pegara. Ficou tentado a chamá-la de mentirosa, mas seria mesquinharia. – Está bem, você não conta a ninguém que tenho medo de ratos e não conto a sua mãe que você veio aqui. Rose deu um grande sorriso. – Obrigada, sr. Matt. – Mas só se prometer que nunca mais virá aqui. – Mas quem vai alimentar Sophia? – Eu. – Adoraria dar veneno ao rato, mas não faria isso. Quando a pegasse na ratoeira, ele a soltaria num lugar bem distante. – Promete? – Sim. – Acenou para a porta. – Como pretende sair do estábulo sem sua mãe ver? Ela deu de ombros. Ele estendeu a mão e a menina a segurou. – Venha. À porta do estábulo, ele olhou ao redor, com exagero.


– Ninguém à vista. – Então ouviu o rangido da porta da varanda e escondeu Rose nas sombras. – Rose! Rose, onde você está? – “Tô lascada.” – A expressão no rosto da menina foi uma visão patética. – Não se preocupe, sr. Matt, não vou contar seu segredo. – Fique aqui – sussurrou Matt, e então saiu. – Alguma coisa errada, Amy? – Você viu Rose? – Ela entrou há alguns minutos – mentiu ele. – Devemos ter nos desencontrado. – O olhar dela vagou pelo pátio, sem se encontrar com o dele. Queria fazer contato com aquele olhar... aqueles olhos castanhos o faziam se sentir quente, acolhido. – Bem, acho melhor preparar o almoço. Ergueu o olhar e Matt sentiu como se tivesse sido engolido por uma tigela cheia de chocolate quente e doce. Seu estômago roncou alto. – Você não veio fazer as refeições. – As palavras eram inocentes, mas havia um tom de acusação na voz. – É, desculpe. – Evitara a casa e Amy temendo outra discussão. – Vai almoçar conosco? – Ah... Hesitou por tempo demais e ela ofereceu: – Deixarei dois sanduíches para você na geladeira. – Obrigado. Ainda bem que Rose estava escondida perto dele. Teve uma vontade insana de passar a mão no rosto de Amy para afastar um cacho de cabelos. – Melhor ver se acho minha filha. Assim que Amy desapareceu, Matt tirou Rose das sombras. – Corra como o vento, garota. – Obrigada, sr. Matt, você é bacana. Matt não se sentiu bacana enquanto observava Rose atravessar o pátio. Amy o fazia se sentir como o rato que se escondia no estábulo... uma chateação. NA MANHÃ de segunda-feira, primeira semana de junho, Matt estava inquieto. Dormira mal, assombrado por pesadelos de ratos gigantes o perseguindo. Às 5 horas da manhã, levantou-se, vestiu-se e saiu para ver como estavam as éguas e SOS. No dia anterior, deixara o garanhão fora do estábulo a noite inteira pela primeira vez. Não quisera levar o animal para a baia, caso Rose decidisse voltar para ver Sophia. SOS ficava nervoso quando confinado à baia, e Matt ainda precisava descobrir o motivo disso. Parou no curral e fez um som com a língua. O garanhão relinchou suavemente, então trotou em direção a ele. Matt lhe ofereceu um cubo de açúcar, que o cavalo pegou de sua mão como um cavalheiro. Seu ritual matinal terminado, Matt limpou o curral, deu água e alimento às éguas, limpou-as e inspecionou-as para ver se estavam chegando ao cio... ainda não. Matt planejava selar SOS depois que ele comesse, mas no momento o garanhão estava observando Chloe, a mais bonita das três éguas. Chloe correu até a cerca que separava os dois padoques... como se dissesse “venha me pegar”. SOS fingiu que não estava interessado.


Matt se sentou no alto da cerca e apreciou a exibição dos animais e o nascer do sol. As verdes colinas do rancho, com seus carvalhos, era uma bela vista. Tinha planos de ficar longe da babá quando ela chegasse, à tarde, e esperava que Amy concordasse com ele. Depois de algum tempo, desceu da cerca e foi até a casa. Bateu e, quando ninguém abriu, entrou, ouvindo o som de pés de crianças na parte de cima. Amy acordara Rose para ir à escola. Preparou o café e se serviu de uma tigela de cereais. Pouco depois, Lily, com os cachos dourados desarrumados, entrou na cozinha, segurando um pequeno cobertor rosa e chupando o polegar. Parou perto da cadeira de Matt e estudou-o com os grandes olhos castanhos da mãe. – Bom dia, Lily – disse ele. Ela tirou o polegar da boca. – Dia – repetiu ela, então pôs o polegar na boca de novo. – Quer comer? A menina se aproximou da cadeira alta e esperou. Matt tentou levantar a bandeja, mas a tarefa era superior à sua capacidade de cowboy. Admitindo a derrota, deitou a cadeira no chão, pôs Lily nela e, então, endireitou-a. O cobertor estava no caminho do cinto de segurança, então o segurou... grande erro. A menina deu um grito capaz de acordar os avós enterrados na colina. Matt improvisou, jogando o cobertor sobre a cabeça da menina para fechar a fivela. Quando tentou tirar o cobertor, Lily gritou: – Não! E agora? Não sabia nada sobre meninas de dois anos. – O que quer comer, Lily? Um abafado “churros” foi a resposta. – Posso lhe dar Cheerios, garota. – Pegou a caixa do cereal no armário e serviu, então pegou a caneca rosa que vira a menina usar às refeições e encheu-a de leite. – Coma. A menina franziu a testa, os olhos indo de Matt para o cereal. – Você tem que parar de chupar o dedo para comer, Lily. Ela chupou o dedo com mais vontade. A voz de Amy, o tom agudo mostrando que Rose não estava cooperando, chegou à cozinha. – Parece que sua mãe está de muito mau humor, mocinha. Se eu fosse você, comeria tudo. A ameaça não fez efeito. A menina continuou a chupar o dedo. Matt olhou fixamente para ela. Lily olhou fixamente para ele. Estavam num impasse. Divertido com a teimosia da criança, Matt pegou um pedaço do cereal e jogou na direção dela. – Pegue. – O cereal bateu no nariz de Lily. – Um a zero – disse, e pegou outro Cheerio. Então repetiu: – Pegue. – Mas o cereal atingiu a testa da menina e os seus lábios se retorceram de leve. Matt falou: – Tente pegar com a boca. – Mas errou novamente a boca da menina, e o Cheerios caiu nos cabelos dela. Lily riu. Ele se entusiasmou com a brincadeira e começou a atirar Cheerios em rápida sucessão, o que lhe valeu uma gargalhada da menina. Quando o dedo escorregou da boca de Lily, Matt atirou um cereal


em sua língua. Os olhos de Lily se arregalaram, então ela fechou a boca e mastigou. Assim que engoliu, disse: – De novo. – E abriu a boca. Matt elogiou-a enquanto lhe jogava Cheerios. Havia comido quase todo o cereal, quando Amy chegou e olhou espantada de Matt para a filha, que tinha Cheerios nos cabelos. – O que está fazendo? Ela não é cachorro, para você atirar comida para ela. – Quero brincar. – Rose subiu na cadeira em frente a Matt, debruçou-se na mesa e abriu a boca. – Rose, pare. Sabe que não está certo. É evidente que o sr. Cartwright não sabe. Estavam de volta ao sr. Cartwright? – Desculpe – resmungou Matt, perguntando-se se Amy pretendia lhe dar umas palmadas... bem, havia essa possibilidade. Admirou-lhe o traseiro enquanto ela punha um waffle na torradeira. Devia ter sentido os olhos dele, porque olhou por sobre o ombro e o pegou em flagrante. Apesar do delicado rubor, os olhos brilharam de advertência e ele sorriu. – Olhar não machuca. – Olhar o quê, sr. Matt? – perguntou Rose. O atraente traseiro de sua mãe. – Nada – disse Amy. – Rose, pegue a garrafa de mel. – Amy passou pela cadeira alta e tirou o cobertor das mãos de Lily. Não houve nenhum som de protesto. Mães faziam tudo parecer fácil. – Coma depressa, doçura. O ônibus vai passar em 15 minutos. – Amy pôs um sanduíche na merendeira e encheu uma garrafa térmica com suco de maçã. Percebendo que sua conversa com Amy teria de esperar até Rose sair para a escola, Matt relaxou na cadeira e observou a rotina matinal das meninas. – Gosta da escola, Rose? – É legal. Gosto de leitura. – Também gosto. – E de andar no ônibus? – Também. Sento perto de Butch e ele me deixa ler para ele. Que tipo de garoto era esse Butch? Matt não ficaria perto de uma garota ouvindo o que ela lia. Voltou o olhar para Amy e percebeu suas olheiras. O que a mantivera acordada a noite passada? Amy olhou as horas no relógio da parede e franziu a testa. – Você se incomodaria de levar Rose para o ponto do ônibus? – É, sr. Matt, você pode ver o ônibus – disse Rose. – Bus! – gritou Lily, assustando Matt, que pulou na cadeira. Rose riu e Lily também, até Amy zangar: – Chega! – Então disse para a mais nova: – Lily fica com a mamãe. Rose se levantou da cadeira. – Melhor a gente ir porque minha irmã vai chorar. Ele não se lembrava de ter concordado com o serviço de motorista, mas não objetou quando viu o rosto de Lily ficar vermelho. Matt abriu a porta. Rose abraçou a mãe, pegou a merendeira e saiu correndo da casa. A porta de tela ainda nem tinha fechado, quando Lily soltou o primeiro grito. Matt e Rose entraram na picape, e ele dirigiu até a estrada e estacionou para esperar o ônibus.


– Você gosta de música country? Ouça isto. – Procurou entre os velhos CDs e tocou These Boots Are Made For Walkin’, com Nancy Sinatra. Matt cantou junto e Rose também. Estavam dançando sentados e não perceberam o ônibus chegar até a motorista buzinar. – Chegou – disse Rose. Matt acompanhou-a até o ônibus e sorriu para a motorista. – Bom dia. – Até logo, sr. Matt – despediu-se Rose. – Diga a Amy que Rebecca mandou um alô – disse a motorista. – Certo. Matt preferiu o rádio na volta para o rancho e ouviu a previsão de uma tempestade no fim do dia. Teria que mudar os planos e passar a manhã limpando o estábulo para abrigar as éguas e o garanhão. Quando chegou ao rancho, já esquecera a intenção de discutir o problema da babá com Amy. As horas passaram depressa e, quando o estábulo ficou limpo e preparado, montou em Chloe e cavalgou pelos limites da propriedade, consertando os pontos da cerca que poderiam não aguentar um vento forte. Eram 2h30 quando voltou ao pátio do rancho e encontrou Amy andando na varanda. Assim que o viu, pegou Lily e marchou em direção a ele. Não estava sorrindo. Matt tirou a sela de Chloe e deixou-a sobre a cerca. Depois de soltar a égua no padoque e fechar o portão, Amy jogou Lily nos braços dele. – Ei, o que está acontecendo? – A menina pulava nos braços dele. – Vou chegar atrasada. – Atrasada para quê? – Olhou para Lily, mas ela não sabia a resposta, então seguiu Amy. – Meu curso. – Parou junto à caminhonete dela. – Fiz jantar, só precisa esquentar. – Entrou, abriu a janela e acrescentou: – Lily já dormiu, então não a deixe dormir de novo, ou não irá para a cama à noite. Deixei instruções sobre a mesa junto com os telefones de diversos vizinhos, em caso de emergência. – Ligou o motor. – Não se esqueça de pegar Rose no ponto do ônibus às 15 horas! Com a boca aberta, Matt observou o velho Ford se afastar. Que diabos acabara de acontecer?


CAPÍTULO 6

COVARDE. Amy ficou na caminhonete, criando coragem para entrar na própria casa. Depois do modo como jogara as filhas para Matt, não o culparia se ele pegasse as éguas e tomasse a estrada naquela noite. Rezou para que não tomasse. Amy se sentira ansiosa sobre o curso de informática, mas o professor a encorajara, e os outros estudantes – pessoas se recuperando dos golpes da vida, como ela – tinham sido amigáveis. Pela primeira vez em meses conversara com pessoas que não a olhavam com pena. Saíra da experiência se sentindo mais confiante e determinada de ficar sobre os próprios pés em pouco tempo. Mas não podia fazer isto sozinha. Não importava o quanto a incomodava depender de alguém... especialmente de outro cowboy... mas Amy precisava de Matt. Para fazer o curso e conseguir um emprego com plano de saúde, precisava de uma babá. E, para vender SOS e pagar as dívidas de Ben, Matt precisava provar que o garanhão não estava louco. Depois que o vendesse, retomaria o negócio de hospedar cavalos. Com dois empregos e as dívidas pagas, não seria considerada um risco financeiro e o banco não poderia lhe tomar o rancho. Por mais que detestasse admitir, o futuro de sua família no Broken Wheel dependia dela e de Matt. A perspectiva de enfrentar Matt, arrumar as meninas para dormir, limpar a confusão que certamente a esperava na casa e depois fazer as tarefas do curso abateram sua animação. Quando entrou na cozinha, congelou. Estava tudo limpo, arrumado. Amy deixou a pasta de lona sobre a mesa, então abriu a geladeira. Sem sobras do jantar? As meninas comiam pouco, assim Matt deveria ter comido tudo. Seu olhar caiu sobre a lista do que fazer e não deixar fazer que deixara para Matt. Todos os itens haviam sido checados, e mais... ele fizera o trabalho doméstico. Ouviu as risadas das meninas no andar superior. Amy tirou os sapatos e subiu a escada, ouvindo o barulho de água. Andou na ponta dos pés pelo corredor e olhou pela fresta da porta do banheiro. Lily e Rose estavam na banheira, cobertas até o queixo por bolhas, e Matt estava sentado no chão, encostado na parede, as longas pernas esticadas. – Sr. Matt, Lily vai ter um novo penteado. – Rose passou o sabão nos cachos da irmã e puxou diversas mechas para cima.


– Você está linda, srta. Lily. – É, Lily – riu Rose. – Você está linda. Então Rose bateu a mão na cabeça da irmã, para desmanchar as mechas, e Matt advertiu-a. – Não com tanta força, ou ela vai escorregar para debaixo da água. – Pode me fazer um novo penteado, sr. Matt? – pediu Rose. Com os olhos arregalados, Amy se perguntou o que o cowboy faria. Viu, atônita, ele se dirigir para a menina e fazer dois chifres com os cabelos dela. Enquanto Matt cuidava dos cabelos de Rose, os olhos de Amy se voltaram para o glorioso traseiro dele, que preenchia com perfeição o jeans desbotado. Amy teve uma visão daquelas coxas musculosas enlaçando seu corpo, segurando-a com força enquanto ele... Oh, meu Deus. Respirou fundo e forçou a imagem a desaparecer. Não tinha nada que fantasiar sobre Matt Cartwright. – Pronto. – Quero ver – pediu Rose. – Segure-se. – Quando ergueu a menina, Amy percebeu que Rose usava um biquíni e se perguntou de quem teria sido a ideia. Ele tirou Rose da banheira e a segurou diante do espelho sobre a pia. – Legal! Então ele a pôs de volta na banheira. – Você não vai lavar nossa cabeça? – As bolhas não são para isso? Rose balançou a cabeça e um dos chifres se desmanchou. – Mamãe lava nossa cabeça e esfrega Lily porque ela é muito pequena. – Nunca dei banho em meninas. Acho que isso é uma coisa que sua mãe deve fazer. Ou você. – Eca! – protestou Rose. Hora de intervir. Amy recuou até a escada, então chamou: – Onde está todo mundo? – Mamãe chegou! – Mamãe chegou – repetiu Lily. Amy entrou no banheiro. – Uau, que montanha de bolhas. – O sr. Matt nos deixou usar os sais para banho – explicou Rose. – Como o sr. Matt é bonzinho. Amy lançou um olhar para o cowboy e o brilho azul a deixou sem fôlego. Não parecia cansado depois de passar a tarde cuidando de duas meninas. A barba lhe sombreava o queixo e as faces, acrescentando um toque perigoso ao rosto sexy. O que faltava era seu sorriso letal, e ela aceitou a culpa total pela expressão sóbria. Matt se levantou lentamente, sua expressão... não realmente fria, mas também não calorosa. Engoliu em seco e disse: – Obrigada pela ajuda com as meninas. – Acho que pode continuar agora. Ele passou por ela, mas parou na porta quando Rose gritou: – Noite, sr. Matt. – Noite, sr. Matt. – Lily imitou a irmã.


– Bons sonhos, mocinhas. – E então partiu. Amy prestou atenção ao som dos passos dele, depois ouviu a batida da porta. Então Rose disse: – Mamãe, a água está ficando fria. – Então é melhor correr. Meia hora depois, as meninas estavam limpas e vestidas com pijamas. – Lanche – gritou Lily. Amy teria que esperar para pedir desculpas. – Vão para a cozinha. Eu chegarei logo. Voltou para o banheiro, enxugou o chão, pegou o biquíni de Rose e as toalhas molhadas, até a de Matt. Mergulhou o rosto nela e inspirou o cheiro dele... uma combinação de sabonete, xampu e creme de barbear. Ouviu um grito de Rose e correu para baixo. Depois do lanche, transferiu as toalhas da máquina de lavar para a secadora e levou as meninas para cima. – Como foi a escola hoje? – Boa. – Era a resposta invariável de Rose. – Alguma tarefa para casa? – Soletrar palavras, mas o sr. Matt me ajudou. – Ele ajudou? – Aham. – Você agradeceu? – Aham. Amy queria saber como Lily passara a tarde, mas o vocabulário da menina era limitado demais. Prestar atenção à aula tinha sido difícil, com a preocupação constante. Medo de Matt não cuidar das meninas. Medo de as meninas entrarem no estábulo. Medo de Matt deixar o gás do fogão aberto depois de esquentar o jantar. No intervalo, telefonara para casa, mas ninguém atendera. Imediatamente ligara para Jake Taylor, pedindo-lhe que passasse pelo rancho. Depois ligara para a vizinha, Mary, e pedira a mesma coisa. Ficou na dúvida, mas resolveu perguntar. – Como foi a viagem de ônibus? Só depois que Matt e Rose saíram Amy percebera o que fizera. Rebecca, a motorista do ônibus, certamente espalharia a informação de que havia um homem no rancho de Amy. Da espécie de homem cowboy, bonito, sexy. Nada ficava em segredo em pequenas cidades, e Pebble Creek não era exceção. – A srta. Rebecca fez perguntas sobre o sr. Matt? – Não, ela disse que ele é... – Rose sibilou como uma cobra. – Quente. Deus do céu. – Você não contou ao sr. Matt, contou? Rose negou com a cabeça. – Algum dos vizinhos apareceu para dizer “alô”? – O sr. e a sra. Taylor vieram. A sra. Taylor trouxe biscoitos e ficamos na varanda enquanto o sr. Taylor ajudava o sr. Matt no estábulo. – Mais ninguém? – Não.


– Alguém telefonou? – A mãe de Kristen ligou e o sr. Matt conversou com ela. – Mais alguém? Rose deu de ombros. Amy beijou as filhas. – Boa noite, doçuras. Antes de Amy apagar a luz, Rose perguntou: – O sr. Matt vai cuidar de nós amanhã também? – Vamos ver. – Gosto do sr. Matt. Ele não ficou furioso quando Lily fez xixi na calça. – O que ele fez com a calça suja? – Deixou de molho na pia da cozinha. Próxima tarefa... desinfetar a pia. – Boa noite. – Fechou metade da porta, deixou a luz do corredor acesa e foi para a cozinha. Limpou a pia, calçou as botas e saiu, rezando para encontrar as palavras certas para convencer Matt a cuidar das meninas no dia seguinte. AÍ VEM ela. Matt estava à porta do estábulo, os olhos na casa. Sabia que Amy o procuraria. E, depois de passar diversas horas bancando o “Senhor Babá”, tinha algumas coisas a dizer à mulher. Até conhecer Amy Olson, ninguém ousara dar ordens a Matt... exceto seu pai. O fato de tê-la deixado o preocupou. Ainda precisava decidir se admirava Amy por ter a coragem de manter seus planos e deixar as meninas com ele, ou pensar que era uma péssima mãe por deixar as filhas com um estranho. Certo, não era mais um estranho, mas certamente não era o tio Matt. Então Lily começara a chorar e chamar a mãe. Levou-a para a cozinha e lhe entregou uma caixa de Cheerios, o que a fez parar de chorar. E então viu o bilhete de Amy. Ela deixara uma lista com dez coisas a fazer. Lera as instruções duas vezes, mas quase se esquecera de buscar Rose no ponto do ônibus. De modo geral, o dia fora melhor depois que Rose chegara. O dia seguinte era o núcleo do dilema de Matt. Se Jake Taylor e a esposa não tivessem aparecido, não teria conseguido trabalhar com SOS. – Matt? – chamou Amy. Ele saiu das sombras e Amy pulou, pressionando a mão no peito. Os olhos dele pararam nos seios... hã, nas mãos dela. – As meninas estão na cama? – Dormiram logo. – Ela passou a pontuda bota no chão de cimento. O som fez as éguas relincharem. – Você trouxe as éguas para dentro? – Há previsão de tempestade esta noite. – Não sabia. Chuva forte? – Chuva forte e ventos com rajadas. – Você ficará bem aqui?


– Tempestades não me incomodam. – Fez uma pausa. – Não gostei de você ter jogado as meninas para mim. – Eu lhe devo um pedido de desculpas. – Prefiro uma explicação. – Os pais de Kristen se recusaram a deixá-la vir. – E você presumiu que eu não me importaria de substituí-la? – Sabia que diria “não” se eu pedisse ajuda. – Mas você as jogou no meu colo mesmo assim. – Estava desesperada – sussurrou. Ele resmungou e ela bateu o pé. Agora sabia de onde Rose herdara a teimosia. Fechou os lábios com força para se impedir de sorrir diante da birra de uma mulher adulta. – Para manter o rancho, não posso só hospedar cavalos. Preciso de outro emprego que forneça uma renda regular. – Bem, seu objetivo está interferindo no meu. – Jake disse que você é podre de rico e pode comprar mil garanhões. Por que não considera os 30 mil dólares um prejuízo e vai em frente? Matt endureceu ao som de apelo na voz dela. – Deixe-me esclarecer as coisas. Primeiro, meu pai é podre de rico, eu não. Pago meu estilo de vida, sempre paguei, sempre pagarei. Segundo, não quero qualquer garanhão para minhas éguas, quero SOS. Terceiro, pare de mudar de assunto. Não vou cuidar das meninas de novo, portanto faça outros arranjos. – Elas deram tanto trabalho assim? O que o comportamento das meninas tinha a ver com tudo? – Não mais do que gado, que tem que receber alimento, água e limpeza. Ele não queria dizer a Amy que gostara de cuidar das meninas. – Rose disse que Jake e Helen vieram aqui. – Jake me ajudou um pouco no estábulo e a mulher dele cuidou das meninas. – Está fazendo progresso com SOS? – Não tanto quanto esperava. – Não vai me perguntar sobre o curso? – Deu-lhe um sorriso tímido. Deixando de lado a irritação, resmungou: – Como foi o curso? – Afastou-se até um monte de feno que empilhara num canto e Amy o seguiu. – Há oito estudantes, contando comigo. – Ela riu, o som mais sensual do que bem-humorado, e o sangue dele esquentou. – Fiquei surpresa por não ser a mais velha. – Quantos anos você tem? – Vinte e oito, mas alguns dias me sinto como se tivesse 40 anos. Ele passou o olhar pelo corpo de Amy. – Não parece ter 40 anos. – Obrigada, acho. E você, quantos anos tem? – Trinta e quatro. – Você também não parece ter 40 anos. Ele sorriu, achando difícil continuar zangado quando ela brincava assim. Enquanto jogava feno nas baias, Amy falava e Matt não prestou atenção às palavras, concentrando-se no som da voz... melodiosa


e quente. Os gemidos e os suspiros seriam doces assim quando fazia amor? – Matt? – O quê? – Você não ouviu uma palavra do que eu disse, ouviu? – Desculpe – resmungou. – Escute, ser sua babá não faz parte do acordo. Se não tiver tempo com SOS, minhas éguas não ficarão prenhes e você não poderá vender o garanhão. – Ele parou e praguejou. Lágrimas? Ah, maldição. Uma lágrima escapou de um dos olhos cor de chocolate, rolou pela face e mergulhou na boca de Amy. Se tivesse um pingo de juízo, poria as éguas no trailer e fugiria dali. Ela fungou. – O curso é só por três semanas. Maldição. – Eu lhe darei uma semana para arranjar uma babá, mas é só. Nada de mudanças. E nada de lágrimas. Amy se atirou nos braços dele, derrubando o forcado de suas mãos. Ele lhe segurou a cintura e quase perdeu o equilíbrio, mas conseguiu evitar que os dois caíssem. – Obrigada, obrigada, obrigada. Com os seios apertados ao peito dele, e o nariz de Matt mergulhado nos suaves cachos de cabelo dela, Matt rezou pela força para resistir à tentação. Então Amy ergueu o rosto, roçando-o no dele. O hálito de Amy lhe acariciou a orelha. Ele congelou. Ela congelou. Eles se olharam. Matt não sabia quem se aproximara primeiro... não que isso tivesse importância. As bocas se tocaram, roçaram, se abriram. Logo estava perdido no doce sabor de Amy Olson.


CAPÍTULO 7

MATT ENTROU no Pebble Creek Feed & Tack na terça-feira de manhã com um plano que esperava lhe permitir trabalhar com SOS no curral e, ao mesmo tempo, cuidar das meninas. O armazém estava limpo, as prateleiras, bem-arrumadas. – Posso ajudá-lo? Um homem de meia-idade aparecera diante dele e lhe estendera a mão. – Clifford Burns. – Matt Cartwright. – Os dois se cumprimentaram. – Preciso de algumas coisas. A primeira da lista é tapume macio para fazer uma cerca. – Gôndola seis. O que está pretendendo manter dentro ou fora? – Crianças. Também quero walkie-talkies. – Tenho. – Armadilhas para animais? – Que tamanho de animal? – Um rato de estábulo. – Mais alguma coisa? – Um sino, como aqueles antigos que as mães usavam para chamar as crianças na hora das refeições. – Preciso pegar as armadilhas no depósito. O dono do armazém foi ao depósito e Matt reuniu o restante junto à caixa registradora. Então a porta da frente se abriu. – Bem, bem, o faz-tudo da viúva. Os ombros de Matt ficaram tensos. Reconheceu a voz antes de se virar... o banqueiro com cara de fuinha. Vestido de terno e gravata, Payton Scott andou pelo armazém. – Para que é tudo isto? Não é da sua conta. – Pretendia passar no banco para pagar a hipoteca de Amy. Obrigado por me poupar o trabalho. – Matt tirou o cheque que havia preparado e guardou-o no bolso do paletó de Scott. – Está apenas adiando o inevitável. Amy está enterrada demais para conseguir sair do buraco. – Olhou para Matt com desconfiança. – Você não está lá realmente para trabalhar com o garanhão, está?


– Do que está falando? – Você quer o rancho. – Está doido, Scott. Não quero o Broken Wheel. Você é que parece ter a intenção de prejudicar Amy. – Parece que ambos estamos usando Amy. Matt se perguntou se estaria usando Amy, e achou que não. Comprava os mantimentos para todos, acabara de pagar a segunda prestação da hipoteca e ainda seria babá por uma semana. Achava que Amy tinha a vantagem no acordo. Ou não? – Por que está perseguindo Amy? Pensei que os moradores de cidades pequenas ajudassem uns aos outros. – Escute, grandalhão, sei quem você é. – Então devia saber que não perco tempo conversando com banqueiros de pequenas cidades. – Se é verdade, o que quer com uma vagabunda de cidade pequena como Amy? – Deveria pensar melhor antes de se referir à dama dessa maneira. – Então é assim que as coisas estão entre vocês, é? Se soubesse que Amy estava tão necessitada, teria me apresentado como voluntário para... O punho de Matt bateu com força no nariz do banqueiro e o som de osso quebrado reverberou no armazém silencioso. Sangue se espalhou na camisa de Matt e escorreu pelo queixo de Scott. – Você quebrou meu nariz! – gritou o banqueiro, cambaleando e apertando o nariz. Clifford veio do depósito, uma armadilha nas mãos. – O que aconteceu? – Cliff, Cartwright me deu um soco. – Quer que chame Nathan? Quem diabos era Nathan? – Nathan é o veterinário daqui. A clínica médica fica a 60km. – Devia chamar o xerife para jogá-lo na cadeia. Matt estendeu o celular. – Vá em frente. Tenho certeza de que o xerife ficará interessado em saber como você difamou Amy. Scott olhou-o com ódio antes de sair do armazém. – Desculpe a perturbação. Não tenho o hábito de socar pessoas, mas Scott estava pedindo. A expressão de Clifford continuou severa e Matt decidiu ir embora. – Quanto lhe devo? Matt guardou as compras na picape e decidiu ir até o Pearl’s e tomar uma caneca de café forte para se acalmar. Ainda havia alguns remanescentes do desjejum. – Meio cedo para o almoço, não é? – perguntou Pearl. – Hora de um café. – Certo, cowboy. – Pearl lhe entregou uma caneca cheia. – De quem é o DNA que está usando na frente da camisa? – De Payton Scott. – Flexionou os dedos e Pearl foi à cozinha, voltando um minuto depois com uma bolsa de gelo, que colocou sobre seus dedos. – Obrigado, Pearl. – Qualquer um que nocauteia Payton Scott é um herói. Payton não é de lutar, mas de falar. – É, de falar demais. – De quem ele falou?


Matt detestava fofoca, mas, se não esclarecesse as coisas, Scott provavelmente mentiria a respeito do incidente. – Ele insultou Amy e insinuou que estou dormindo com ela. – Não é da conta de Payton com quem Amy dorme. Mas ela deve ter um parafuso solto se fechou a porta para você. – Amy e eu não estamos tendo um caso. Matt não tinha certeza de a quem estava querendo convencer. Ele e Amy podiam não ter feito sexo, mas certamente fantasiara com ela depois do beijo da noite anterior. A boca de Amy o incendiara. Não esperava que a mãe de duas garotas pudesse usar a língua de forma tão maliciosa. Deixara-o com uma enorme dor na virilha quando saíra do estábulo. A atração que Matt sentia por ela o surpreendia. Não possuía uma beleza de derrubar um homem. Era Amy, e sua beleza era suave e sutil. Um homem precisava estudar-lhe bem o rosto para ver seu encanto e doçura. Até conhecer Amy, não sabia que sutil podia ser sexy. Matt temia que tudo o que Amy precisasse fazer seria dobrar o dedo e chamá-lo, e ele iria correndo para ela. Acordara nessa manhã satisfeito por ter que cuidar de Rose e Lily pelo resto da semana. Seus rostinhos o lembravam que Amy tinha bagagem demais... as meninas, um marido morto, um negócio falido. Kayla também tivera muita bagagem, mas não se dera ao trabalho de mencionar o filho e o salão de beleza quase falido até que ele tivesse se apaixonado por ela. Poderia até perdoá-la se não tivesse descoberto que o ex-namorado estava dormindo com ela. – Assim que minhas éguas estiverem prenhes, vou voltar para Oklahoma – disse a Pearl. – Quero duas porções de macarrão com queijo e salsicha e um sanduíche Reuben para viagem. Pearl recebeu o pedido e um homem entrou. Jake se sentou no banco ao lado de Matt. – Pensei ter visto sua picape no estacionamento. – E aí, Jake, tudo bem? – Vai cuidar das princesinhas hoje de novo? – Vou. – Quer que passe mais tarde com Helen? – Obrigado, mas estou com tudo sob controle. – Soube que teve um entrevero com Payton Scott no armazém. – Acho que toda a cidade já sabe. – A julgar pela condição da sua camisa, você venceu. – Scott disse algumas coisas sobre Amy e eu não gostei. – Bom ouvir que a garota tem um homem cuidando dela. Matt não explicou seu relacionamento com Amy. Pearl colocou uma sacola sobre o balcão. – Aqui está, cowboy. – Obrigado. – Acrescentou uma gorjeta de dez dólares à conta, esperando que o dinheiro calasse a boca de Pearl. Não queria que Amy descobrisse que pretendia alimentar as meninas com outra coisa que não a comida dela. – Leve isto com você. Fazemos entregas. – Pearl lhe entregou um cardápio.


Antes de sair, Matt fez a Jake a pergunta que ocupara sua mente nos últimos dias. – Tem alguma ideia do motivo por que Payton Scott está tão interessado no rancho de Amy? – Acho que é porque a propriedade é excelente para a criação de cavalos e gente rica de cidade grande está sempre procurando por um lugar no campo. Se Payton esperava que Amy desistisse do rancho, estava muito enganado. Gostasse ou não, a maneira como Matt brigara com o banqueiro provava que ele se tornara o que jurara não ser: o salvador de Amy. AMY ESTAVA diante da janela da cozinha... um hábito que estava se tornando frequente desde que Matt chegara ao rancho. Lily estava dormindo e Amy já preparara uma panela de frango com arroz para o jantar. Dobrara a receita, esperando encontrar sobras quando voltasse do curso. Eram 12h30 e faltavam duas horas para sair em direção a Rockton. Devia estar lavando roupa, passando o aspirador de pó, lavando o banheiro... qualquer coisa, menos admirando o modo como o sol do meio-dia se refletia no peito nu de Matt. O pelo castanho-escuro do garanhão brilhava de suor enquanto Matt o fazia andar em torno do curral com uma corda. Depois de cada volta, homem e animal paravam. Depois de um minuto, SOS acariciava o ombro de Matt com o focinho e Matt voltava a andar. Amy não sabia para que servia o exercício, mas percebeu que o cavalo parecia mais relaxado e tranquilo no curral do que na baia do estábulo. Esperava que o garanhão fizesse progresso e que Matt pudesse soltar as éguas para cruzar. Ansiava para Matt passar todo o verão no rancho. Tudo por causa de um beijo. Uau! Fora seu primeiro pensamento depois que as bocas se separaram. A dele, ao mesmo tempo gentil e exigente, a deixara querendo que a beijasse em outros lugares do corpo. O suor lhe cobriu a testa ao imaginar o corpo dele nu. Balançou a cabeça, esperando afastar as imagens sensuais de seu devaneio. Não havia futuro para ela e Matt... nem mesmo um futuro medido em dias ou semanas. Uma vez desejara um cowboy e isso a deixara viúva, com duas filhas e uma montanha de dívidas antes dos 30 anos de idade. Aprendera da maneira mais difícil que a única pessoa com quem podia contar era ela mesma. Mas você precisou de Matt para cuidar das meninas e ele não a desapontou. Verdade. Amy jamais deixara as meninas com Ben. Ainda se preocupava em deixá-las com Matt, mas sabia, instintivamente, que ficariam em segurança com ele. Sua determinação e dedicação ao trabalho com SOS provavam como queria ter sucesso com o garanhão. Se não pudesse vender o garanhão, não seria culpa de Matt. O homem não era preguiçoso e, exceto pelo fato de ser cowboy e bonito, não tinha nada em comum com Ben, o que tornava Matt ainda mais perigoso para o coração de Amy. A tentação de se entregar a ele era imensa, mas jamais seria outra coisa a não ser uma aventura de verão. O cowboy podia conseguir coisa melhor do que ela. Não era sexy ou bonita. Era mãe e viúva, uma mulher precisando de um corte e pintura de cabelo. Outros 15 minutos se passaram, e ela achou que Matt pretendia pular o almoço, assim decidiu fazer um sanduíche para ele. O telefone tocou enquanto o fazia. – Amy falando.


– Sua sortuda! – Chrissy? – Como é que sua melhor amiga... melhor amiga, sim... – Chrissy era dona do Snappy Scissors Hair Salon em Pebble Creek. – ...é a última a saber que está envolvida com aquele garanhão... – SOS está... – Não esse garanhão – cortou Chrissy. – Estou falando daquele de duas pernas. – Quem está falando de mim dessa vez? – Ele não lhe contou? – Conte logo, Chrissy. – Seu cowboy de rodeio quebrou o nariz de Payton Scott. Oh, Deus. – O que aconteceu? – Eles discutiram no armazém. Clifford disse que, quando saiu do depósito, Payton estava sangrando como um porco e seu Matt parecia mais furioso do que um touro bravo. E Pearl disse... – O que Pearl tem a ver com isso? – Matt parou no café depois de sair do armazém. Ela disse que eles brigaram por sua causa. O coração de Amy suspirou. Talvez fosse tolice se sentir toda amolecida por dentro por Matt ter brigado por sua causa, mas se sentia. – O que começou a briga? – Payton falou mal de você. O canalha provavelmente a tinha chamado de prostituta. Talvez a briga com o banqueiro fosse o motivo por que ele não fora almoçar. – Meu relacionamento com Matt Cartwright é estritamente profissional. Ele está aqui para salvar SOS do matadouro, nada mais. – E se ele quiser mais? – Um cowboy como Matt não quer uma mulher como eu... – O resto da sentença morreu na garganta, quando viu Matt observando-a através da porta de tela. Estaria ouvindo? – Preciso correr. – Amy desligou. O olhar de Matt prendeu Amy. Ela se concentrou em respirar e manter os olhos longe da parede de músculos suados. Estava empoeirado e parecia tão quente. Conseguiu dizer em voz normal: – Ia levar um sanduíche para você. Ele entrou. Esqueceu-se de respirar quando passou por ele e sentiu o cheiro de homem e da colônia que ele usava. Resistindo à tentação de mergulhar o nariz no pescoço suado e beber seu cheiro, Amy pegou um pacote de batatas fritas na despensa. – O que gostaria de beber? – Água está ótimo. Ela pegou um copo do armário, encheu de gelo e depois de água. – Não vai comer? – perguntou ele, sentando-se à mesa e tomando água. – Já comi um sanduíche. – Com o estômago cheio de nós, não conseguiria comer. – Um homem como Matt não quer... – os olhos azuis semicerraram-se – ...o quê? – Chrissy, do salão de beleza, gosta de falar demais.


– Ela lhe contou que dei um soco em Scott. – Você quebrou mesmo o nariz dele? – Quebrei. Não pergunte. – Por que bateu nele? – Não gostei das coisas que ele insinuou sobre você. As palavras de Matt eram música aos ouvidos de Amy. – Agradeço por me defender, mas Payton já insultou cada morador de Pebble Creek. Ninguém lhe dá atenção. – Não se incomoda de ser chamada de vagabunda? Ela ruborizou. – Foi disso que Payton me chamou? Matt assentiu. – Da próxima vez, ignore o Neandertal. – Não haverá próxima vez, mas se houver... eu lhe arrancarei os dentes e o farei engoli-los – prometeu Matt. Um calor se espalhou no coração de Amy. Ben jamais a teria defendido assim. Matt terminou o sanduíche e levou os pratos para a pia. Parou junto à porta de tela. – Para que fique registrado – o olhar dele passeou pelo corpo dela –, um homem como Matt quer.


CAPÍTULO 8

– O NEGÓCIO é o seguinte – disse Matt, entregando a Rose uma caixa de Silly Nilly. – Você e sua irmã, sentem-se no balanço da varanda e comam seu lanche enquanto instalo esta cerca. Pretendia fechar uma pequena parte sombreada do pátio junto à casa de Amy, que podia ver dos currais. Uma vez que as meninas estivessem dentro do espaço fechado, poderia trabalhar com SOS sem interrupção. As meninas se sentaram no balanço e ele levou a casa de brinquedo para a área que logo estaria cercada, distante dos canteiros de flores de Amy. – Mamãe vai ficar uma fera. Você mudou o castelo de Lily de lugar. Mamãe não vai dizer nada se quiser manter a babá feliz. Matt não sabia quem ficara mais chocado quando deixara escapar que queria fazer sexo com ela. Dissera a si mesmo que o escorregão tinha sido porque queria que ela soubesse que era uma mulher atraente. Melhor acreditar nisso do que admitir que ela o atraía de uma forma que jamais experimentara. Matt imaginava que não seria muito difícil seduzi-la e uma parte de si queria fazê-lo. Mas sabia que não deveria, não poderia, não o faria. Ela merecia coisa melhor que ele... um cowboy que descera tão baixo a ponto de usar a fraqueza de um homem para tirar vantagem. Deixando os pensamentos de lado, Matt mediu o espaço para os postes da cerca e marcou-os. Rose o chamou e ele tentou ignorá-la, mas ela não parou e, finalmente, ele desistiu. – O quê? – Você alimentou Sophia? Maldito rato. A primeira coisa que fizera quando voltara da cidade fora instalar a armadilha com parte do sanduíche Reuben como isca. – Sophia não tem aparecido. – É porque ela sabe que você não gosta dela. Houve um silêncio. – Oh. – O que há de errado agora?


– Lily está fazendo cocô. – Então cubra com terra para não precisar sentir o cheiro. – Se Lily faz cocô, precisa ir ao banheiro. – Está bem, você a leva e a ajuda. Rose deu um suspiro dramático. – Vamos, Lily, vamos fazer cocô. Rose saiu do balanço e a irmã a seguiu. Assim que a porta de tela se fechou, Matt deu um suspiro de alívio e aproveitou o sossego para acabar de enterrar os postes. Impressionante o que um homem conseguia fazer sem mulheres gritando com ele. Estava terminando de fazer a cerca, quando Rose o chamou pela porta de tela. – Sr. Matt! – O quê? – Tem que vir depressa. O cocô de Lily caiu no chão do banheiro. – Já vou entrar. Pendurou o rolo num poste e correu para a casa. Parou do lado de fora do banheiro e olhou. Lily estava diante do vaso, a calcinha no meio das pernas. Rose apontou para o chão. – Lily sujou tudo de cocô. Oh, cara! – Não se mexa, Lily. E você, Rose, também fique parada para não pisar no cocô. Matt coçou a cabeça, se perguntando o que fazer. – Mamãe joga o cocô no vaso – ensinou Rose. Ele levantou Lily, pretendendo deixá-la no corredor, quando percebeu que a calcinha estava cheia de cocô. Suspendeu-a sobre o vaso e balançou-a. A menina sorriu, depois exigiu: – De novo. Ele riu. Ela riu. – De novo. Balanço, risos. Um por um, os pedaços caíram no vaso. Matt pôs Lily de pé no corredor, pegou um monte de papel higiênico e entregou-o a Rose. – Limpe sua irmã. Rose cruzou os braços. – Eca! Matt entregou o papel a Lily. – Limpe-se, Lily. A menina se dobrou à frente, o pequeno traseiro alto no ar, então tentou se limpar, mas o braço curto não dava a volta. – Vire-se, Lily. A menina se virou até o pequeno traseiro estar voltado para Matt. – Não precisa. Parece bem limpo. – Tirou o papel das mãos de Lily e usou-o para apanhar o cocô do chão. – Rose, vista a calcinha de Lily, por favor. Enquanto Rose subia a roupa da irmã, Matt deu descarga. Uma crise vencida.


– Vão para fora agora. – Lily tem que lavar as mãos. Matt suspendeu-a sobre a pia e a ajudou a lavar as mãos. – Balance as mãos para secá-las, mocinha. Lily obedeceu. – Não vai lavar o chão? – perguntou Rose. Boa ideia. – Onde fica o material de limpeza? – Na despensa. O pequeno sargento o levou até a cozinha, Matt pegou o material de limpeza e voltou ao banheiro. Jogou bastante no chão e enxugou com papel higiênico. Depois levou as meninas para fora e, 20 minutos depois, a cerca estava pronta. O próximo item da lista... o sino. Rose se aproximou e olhou dentro da caixa. – O que é isto? – Para tocar em caso de emergência. – Que tipo de emergência? – Se você ou Lily se machucarem brincando no pátio, toque o sino e virei correndo. – Mas posso ir buscá-lo – argumentou. – Não, você e sua irmã têm que ficar dentro da cerca. – Por quê? – Porque preciso trabalhar com os cavalos. Lily se aproximou para participar da discussão. Rose estudou a cerca, como se planejando um meio de fugir. – Tudo que preciso fazer é levantar a parte de baixo e passar. – Melhor não, mocinha. Preciso de você para cuidar de Lily. Sentiu uma pontada de culpa. Amy não o deixara encarregado das filhas para que ele passasse essa responsabilidade para a filha mais velha dela. – Mas não quero tomar conta de Lily. – Você não está tomando conta, vocês estão brincando juntas. – E se eu não quiser brincar com ela? Lily puxou a manga da blusa da irmã. – Ro, brincar. Rose se libertou da mão de Lily. – E meu dever de soletração? – Eu a ajudarei durante o jantar. – Quando vamos jantar? Que Deus me ajude. – Depois que eu trabalhar com os cavalos por uma hora, vamos comer. – Mais alguns parafusos e o sino estava instalado na varanda, ao alcance das meninas. – Posso tocar? – perguntou Rose. – Claro. Rose tocou diversas vezes.


– Eu – exigiu Lily, empurrando Rose. Depois de diversos toques de perfurar os tímpanos, ele segurou a corda. – Isto não é um brinquedo, certo? Toquem só se precisarem de ajuda. Alguma pergunta? – Não – disse Rose. – Não – imitou Lily. Então Matt se lembrou dos walkie-talkies ainda no carro. – Só mais uma coisa. – Começou a descer, andou alguns passos, então parou. Inferno! Ficara preso dentro da cerca. – Fiquem aqui – ordenou ele, entrando na casa e saindo pela outra porta. Precisava instalar uma fechadura na porta de tela para impedir as meninas de fazerem o que ele estava fazendo. A situação era cada vez mais complicada. Pegou os walkie-talkies e, depois de colocar as pilhas, chamou as meninas. – Isto é um rádio para falar e ouvir, Rose. – Passou um dos aparelhos para ela. – Podemos conversar quando eu estiver no estábulo ou no curral. Aperte este botão e mantenha apertado enquanto fala. Quando acabar, solte o botão. Ele foi para trás do carro e se escondeu. – Aqui é o sr. Matt. Pode falar. – Quando Rose não respondeu, ele olhou. – Aperte o botão e segure enquanto falar. – Oi, sr. Matt. Pode me ouvir? Ele olhou de novo. – Solte o botão agora. – Quando ela soltou, ele respondeu: – Posso ouvir você, Rose. – Lily quer falar. Um segundo depois: – Sô Matt, sô Matt. Rose se lembrou de soltar o botão e ele respondeu. – Oi, Lily. Então foi até as meninas. – Ponha este cinto na cintura, Rose, assim ficará com o walkie-talkie o tempo todo. – Passou a mão sobre a cerca e ajudou a menina a apertar a fivela. – Meninas, comportem-se enquanto trabalho com os cavalos. – Até logo, sr. Matt – disse Rose no radio, depois se abaixou e entrou na casa de boneca com Lily. Com a atenção no garanhão, Matt entrou no curral. SOS ficou tenso, mas não se afastou quando Matt se aproximou. As éguas estavam começando a mostrar os primeiros sinais do cio. Se tudo corresse bem, Matt presumia que, até o fim de junho, as éguas estariam prenhes. Então deixaria o Broken Wheel, Amy e as meninas para trás. Se não tivesse gastado quase toda a poupança nas éguas, compraria o garanhão e pouparia a Amy o trabalho de encontrar um comprador. Quando ficou a três metros do garanhão, Matt desviou e parou perto de sela que deixara antes na cerca do curral. Esperava que SOS se aproximasse dela para investigar. Matt fez bastante barulho mexendo na sela. Depois de alguns minutos, SOS se aproximou. Matt ficou parado. – Sr. Matt, pode me ouvir? – A voz aguda de Rose através do walkie-talkie fez SOS se erguer nas patas traseiras e Matt se afastou para evitar as patas do animal. Então o garanhão correu para o outro lado do curral. Matt ajustou o volume para o mais baixo. – Qual é o problema?


– Não tem nada pra gente fazer. Ele coçou a testa, sentindo uma dor de cabeça chegando. – Por que não brincam com as bonecas? – Espere um pouco. – Rose não soltou o botão e ele a ouviu perguntar: – Lily, quer brincar com bonecas? – Não – gritou Lily. – Sr. Matt, pode me ouvir? – Sim, estou ouvindo, Rose. – Lily não quer brincar com as bonecas. – Que tal colorir? – Quanto tempo teremos que colorir? – Trinta minutos. – Está bem, até logo. Matt soltou a respiração e levou a sela em direção a SOS. O garanhão se afastou. Matt repetiu o exercício cinco vezes... avançando para o garanhão, com a sela na mão... antes de SOS ficar parado. – Ei, cowboy. – Uma voz abafada chegou aos ouvidos de Matt. – Aqui é dedos mágicos, câmbio. Matt percebeu que havia um carro pequeno diante da casa. Distraído com o trabalho com o garanhão, não ouvira a aproximação do veículo. Por que Rose não tocara o sino para avisar que tinham visita? – Que tal se você vier até a casa para conversar? Câmbio. Ele olhou para a varanda e viu uma ruiva sentada no balanço entre as meninas. Maldição, não tinha tempo para conversar. – Já vou – resmungou no rádio, então deixou a sela de lado e saiu do curral. – Posso ajudá-la? – perguntou, parado do lado de fora da cerca. A ruiva falou no walkie-talkie, embora pudesse ouvi-lo muito bem. – Sou Chrissy, câmbio. Matt franziu a testa e ela pôs o walkie-talkie de lado. – Sou dona do Snappy Scissors Hair Salon. A cabeleireira usava mais maquiagem do que um palhaço de rodeio. – Amy não está. – Eu sei. Está no curso. – A mulher piscou. – Decidi parar e oferecer ajuda com as meninas. Bem, não iria olhar os dentes de um cavalo dado. – Obrigado. As meninas estão com fome. Quem sabe possa alimentá-las? – Dera três passos, afastando-se, quando ela disse: – Oh, não posso demorar tanto assim! Foi o que pensei. A mulher atravessou a varanda, os olhos presos no peito de Matt, que ficou satisfeito por não ter tirado a camisa. Não se incomodava com os olhos de Amy devorando-o, mas a luxúria da ruiva o deixou desconfortável. – Parei para convidá-lo a levar as meninas para um corte de cortesia. – Isso deve ser feito por Amy... – Amy não vai ao meu salão desde antes do Natal. – Chrissy desceu os degraus balançando os quadris. – Não tem dinheiro para pagar um corte para as meninas e gostaria de fazer-lhe uma surpresa.


A cabeleireira desviou o olhar e Matt teve a certeza de que o corte grátis não era para agradar Amy, e sim para levá-lo ao salão. – Rose e Lily, querem um novo penteado? – perguntou Chrissy sobre o ombro. Lily bateu palmas. – Novo ado, novo ado. Rose correu para a cerca. – Podemos, sr. Matt? Chrissy pinta minhas unhas quando corto o cabelo. – Agora não, Rose. Estou ocupado. – Não gostou de a cabeleireira usar as meninas para conseguir o que queria. – Vamos, sr. Matt – ronronou a mulher, batendo as pálpebras. – Prometo que não vai demorar. – Por favor, sr. Matt, por favor – implorou Rose. Não era páreo para os olhos da menina. – Levarei as meninas depois do jantar. Chrissy sorriu. – Ótimo, até mais. – Entrou na casa e saiu pela porta da frente, requebrando até o carro. Que Deus o ajudasse... um cowboy não podia treinar um cavalo sem a interferência de mulheres? MALDIÇÃO. Amy estava no posto enchendo o carro de gasolina, quando a maior fofoqueira da cidade a viu e acenou. – Oi, Amy. – Francine Willington estacionou o carro e caminhou em direção a Amy. Os dedos de Amy apertaram com força o gatilho da mangueira, forçando o combustível a fluir com mais rapidez para dentro do carro. – Tenho que dizer, Amy, jamais esperei que arranjasse um namorado tão depressa depois da morte de Ben. O quê? Francine baixou a voz. – Mas não a culpo. Se um homem tão bonito como aquele cowboy tivesse aparecido quando era mais jovem – a viúva estalou os dedos –, eu o teria agarrado. Oh, céus. – Onde conheceu Matt? – Fui ao Snappy Scissors marcar hora há alguns minutos e seu cowboy e as meninas estavam cortando o cabelo. Chrissy... maldição. Amy sentiu uma fisgada de ciúme. Por que estava tão chocada por Matt ter se deixado enfeitiçar por Chrissy? Porque esta manhã ele dissera... “um homem como Matt quer”. Cowboy mentiroso. Cowboys de rodeio geralmente podiam escolher mulheres maravilhosas. No dia em que conhecera Ben, uma dúzia de mulheres estava em torno dele. Matt era duas vezes mais bonito e dez vezes mais bem-sucedido que o marido fora. Mesmo assim... Matt dera a Amy a impressão de que estava interessado nela. A bomba parou; o tanque estava cheio.


– Tenho que correr, Francine. – Passou pela mulher e pagou a gasolina. De volta à caminhonete, dirigiu-se para o salão de beleza. Menos de dois minutos depois, o sino sobre a porta do salão anunciava sua chegada. – Mamãe! – gritou Lily da cadeira alta onde seus cabelos eram cortados. – Oi, doçura. – Estamos cortando o cabelo. Até o sr. Matt. – Rose mostrou a cadeira ao lado da dela. Outra cabeleireira estava cortando os cabelos de Rose. Amy olhou para Matt. Os dedos de Chrissy estavam mergulhados nos cabelos dele, dando-lhe a famosa massagem por dois dólares, mas que ele certamente estava recebendo de graça. – Voltou cedo para casa. Alguma coisa errada? – Matt fechou os olhos e gemeu. Traidor. Chrissy virou a cadeira, deixando Matt de costas para Amy. Então se debruçou sobre ele a amassou os seios grandes no ombro dele. – Nada errado – disse Amy. – O professor teve uma emergência e a aula terminou mais cedo. – Respirou fundo para acalmar sua frustração. – Não fiquei para estudar com meus colegas para lhe dar mais tempo para trabalhar com SOS. Se soubesse que tinha decidido brincar de salão de beleza, teria ficado em Rockton. Matt começou a se virar em direção a Amy, mas Chrissy segurou-lhe o rosto, mantendo-o onde estava. – Pare de se mexer. A cabeleireira acenou, mostrando revistas. – Amy, leia um artigo sobre produtos de beleza na revista Glamour. Rá. Rá. O insulto da antiga rainha do rodeio não a aborreceu; sabia qual era sua aparência. O que a magoava era ter seus defeitos destacados diante de Matt. O fato de que gostaria que ele a achasse atraente e desejável a convenceu de que estava caminhando para ter o coração partido. Estúpida, estúpida, estúpida. Já não decidira que jamais dependeria de novo de um homem? Quanto mais conhecia Matt, mais se sentia tentada a se apoiar nele... mas o que seria dela quando ele fosse embora? Amy se sentou para esperar e olhou para Chrissy, que continuava a fazer massagem na cabeça de Matt. Quando as meninas terminaram de ter o cabelo cortado, ganharam pirulitos. Amy se aproximou do caixa para pagar, lamentando ter que usar o dinheiro destinado à gasolina. – Guarde a carteira – exigiu Chrissy. – Os cortes foram uma cortesia. – Piscou um olho. – Vocês três podem sair. Matt vai demorar mais um pouco. – Vamos, meninas. – Levou-as para a porta, tentada a pegar uma tesoura e furar os olhos de Chrissy. – Espere, Amy. – Matt jogou as chaves da picape e ela as pegou no ar. – A cadeirinha de bebê – lembrou ele. Sem outra palavra, ela e as meninas saíram. Amy jamais se considerara uma mulher ciumenta. Nem quando acompanhara Ben a um rodeio e o vira cercado de admiradoras bonitas e com pouca roupa se sentira enciumada. O ataque súbito a assustou. – Mamãe. – Rose puxou a mão de Amy. Não percebera que havia parado. – Onde o sr. Matt estacionou?


Rose apontou para uma esquina distante. Quando chegaram à picape, Amy parou. O orgulho exigia que fosse para casa, para mostrar a Matt que não ligava se ele queria ter um caso com a cabeleireira. Mas o ciúme exigia que ficasse e lembrasse ao cowboy que tinha preferência. Antes de se decidir, Matt apareceu. Olhou para o molho de chaves na mão dela, cobriu-a com a dele e apertou o botão de segurança, abrindo a picape. – Quer que eu leve as meninas ou passe a cadeirinha para a sua caminhonete? A pele de Amy se arrepiou ao som da voz dele. Deus, fora atingida com força. – Você não cortou o cabelo. – Não quis. Será que se preocupara com os sentimentos dela? – Acho que as meninas podem ir com você. Matt ergueu Rose, depois colocou Lily na cadeirinha. Enquanto fechava os cintos das meninas, Amy percebeu como elas tinham se ligado a ele. Hora de pensar em como arranjar outra babá. Podia não ser capaz de proteger seu coração, mas faria tudo para as filhas não sofrerem. Matt parou diante dela. – Vamos conversar sobre isso, ou vai fingir que não existe? – Conversar sobre o quê? – Ela dobrou a cabeça para trás para olhá-lo nos olhos. – Isto. – Ele se debruçou e roçou os lábios nos dela, então se afastou... cedo demais. Felizmente não havia ninguém no estacionamento. – Estamos atraídos um pelo outro – declarou ele. Ela balançou a cabeça. – Negue o quanto quiser, Amy, mas está aí, nos seus olhos. Ela estava mesmo encrencada. – Sei que você me observa pela janela da cozinha. Ele se aproximou ainda mais, afastando-a das janelas da caminhonete, por onde as meninas podiam vê-los. – Por que acha que tenho trabalhado sem camisa? Oh, Deus. Ele sorriu e ela apertou os joelhos para não desmaiar. – Mas... mas... Chrissy – disse ela, como uma idiota. – O quê? – Ela também o quer. – Ótimo, agora ele sabia que Amy estava com ciúmes da cabeleireira. Com os olhos azuis brilhando, ele sussurrou: – Não quero Chrissy. Amy sentiu que ia desmaiar e segurou-lhe os braços para se equilibrar. Ergueu o rosto, tentando respirar enquanto esperava por sua boca... seus lábios... – Para o melhor ou para o pior... quero você. – Beijou-a de novo, desta vez a língua mergulhando na boca de Amy, antes de se afastar. Então entrou na caminhonete, deu uma ré e saiu, deixando Amy parada no estacionamento com os lábios ansiando por mais.


CAPÍTULO 9

AMY ACORDOU no sábado às 5h e se sentou na cama. Depois de anos acordando cedo para cuidar dos cavalos que hospedava, seu relógio interno ainda funcionava. Nos últimos meses, limitara-se a se sentar no balanço da varanda, tomando café, vendo o nascer do sol e se preocupando com as contas. Levantou e foi ao banheiro. O perfume da loção pós-barba de Matt ainda estava no ar e era estranhamente confortador... como se ele fizesse a barba e tomasse banho ali há anos, e não apenas uns dias. Em menos de cinco minutos, estava com o rosto lavado e os dentes escovados. O som de um relincho de cavalo atraiu-a para a janela. Sob um céu cor-de-rosa e em meio à neblina matinal, Matt cavalgava SOS em torno do curral. O cowboy cumprira a palavra... conseguira montar o garanhão, embora tivesse levado duas semanas, e não apenas uma. O que significava... que Matt ficaria pelo menos um mês, talvez mais. E ele a quer. A excitação lhe acelerou o pulso. Tinha que tomar uma decisão... dormir ou não com Matt. Fechou os olhos e imaginou-o nu. Amy não tinha experiência com homens, graças a sua paixonite por Ben quando ainda era muito jovem. Deixara-se encantar por sua aparência e a aura que cercava os cowboys. Matt era muito mais atraente, muito mais cowboy do que Ben jamais fora. Estava prestes a ter o coração partido? Definitivamente sim. Mas Matt fora o primeiro homem que a fizera acreditar que tudo ficaria bem... que arranjaria um bom emprego, reabriria seu negócio de hospedar cavalos, pagaria suas dívidas e manteria o rancho. O garanhão trotava em círculos e Matt o encorajava com palmadas no pescoço. Por quanto tempo a esperaria dar um sinal de que estava pronta para fazer amor? Não importava que ele tivesse dito que não estava interessado na cabeleireira, Amy temia que, se não agisse logo, Chrissy o faria mudar de ideia. Vestiu jeans e camiseta e calçou uma sandália. O cheiro de café a atraiu quando desceu a escada. Podia se acostumar a ter um homem em casa que sabia passar um bom café. Tomou a primeira caneca em pé diante da pia, apreciando a vista do jardim florido. Queria ampliálo, mas adiara os planos por causa das dívidas. Uma onda de tristeza lhe encheu os olhos de lágrimas. Embora ela e Ben não vivessem bem, jamais desejara sua morte de maneira tão trágica. Amy deixara de amar Ben logo depois do nascimento de


Rose. Depois que Lily nascera, tivera a esperança de que Ben mudasse, mas ele não mudara, e ela procurara um advogado para preparar o divórcio. Então Ben morrera. Depois de se servir de outra caneca de café, saiu de casa pela porta da frente. Quando descobrira a cerca de fita amarela na noite anterior, não soubera o que pensar. Matt e Rose tentaram explicar: – É uma cerca para eu e Lily não ficarmos no caminho. Amy não viu a lógica do plano de Matt... se as meninas quisessem fugir, tudo o que precisavam fazer era sair pela porta da frente. Então Lily mostrara o sino na varanda e o tocara até quase ensurdecer todo mundo. Mais tarde, quando Matt se recolhera ao estábulo e ela ficou no balanço com as duas meninas, Rose pegou o walkie-talkie. – Domador de Cavalos, aqui é Rose Selvagem, câmbio. – Ouço você alto e claro, Rose Selvagem. Você e Lily Almofada estão bem? Câmbio. Domador de Cavalos, Rose Selvagem e Lily Almofada. Santo Deus. Amy pegou o aparelho e disse: – Domador de Cavalos, aqui é Betty Crocker. O jantar ficará pronto logo, câmbio. Nos dez minutos seguintes, riram ao conversar nos walkie-talkies, Matt impressionando-a com a paciência, apesar de o estarem interrompendo em suas tarefas. Amy admirava muitas coisas em Matt, mas era seu comportamento gentil com Rose e Lily que o elevara ao status de herói aos olhos dela. Temia que aos olhos das meninas também. Assim que Amy circulou a casa, Matt a viu e acenou. Ela se aproximou da cerca do curral e ficou observando-o. O garanhão brilhava com os cuidados dele e demonstrava ser o puro-sangue que era. Sentado à vontade na sela, Matt fez o cavalo executar diversas manobras e SOS respondeu muito bem. Então cavalo e cavaleiro se aproximaram dela e Amy segurou a respiração, desejando... esperando... que ele a beijasse. O ar saiu de seus pulmões com força quando ele se debruçou... e pegou a caneca de café. – Obrigado. Isto foi ótimo. Desapontada, Amy acenou em direção ao cavalo. – Acho que você merece parabéns. O sorriso dele rivalizou com o brilho do sol. – Jamais tive dúvidas de que conseguiria cavalgá-lo. Ela estendeu a mão e SOS lhe cheirou os dedos. – Ele não parece o mesmo garanhão. – Cinnamon... – Matt apontou para a égua castanha – está entrando no cio. Vou soltá-la no pasto e, mais tarde, levarei SOS para lá, para ver o que acontece. Se ele se comportar como um cavalheiro, eu o deixarei lá; se não, eu o levarei de volta ao curral. – Depois de um silêncio tenso, perguntou: – Quais são seus planos para hoje? – Limpar a casa, lavar roupas, preparar as tarefas do curso. – E observar você. – Excitante. – É a história da minha vida. – Ela tirou um cacho de cabelos do rosto. – Como estamos partilhando boas notícias... encontrei uma babá. A mulher de Jake, Helen, telefonou e disse que a neta de um vizinho veio passar o verão e quer ganhar algum dinheiro. Nicole está no primeiro ano da faculdade. – Você conhece a moça?


– Parei na casa dela a noite passada, quando voltava do curso. Nicole deve saber cuidar das meninas, mas se você perceber... – Não se preocupe, vou manter o olho nas três. Ele acenou em direção à cerca na cor laranja. – Quer que tire aquilo? – Vamos deixar por uns dois dias. – Os olhos dela desceram para a boca de Matt. – O que pretende fazer depois que acabar de cuidar de SOS? – Não tenho planos, por quê? – Pensei em levar as meninas para um piquenique. Quer se juntar a nós? – Não consigo imaginar um modo melhor de passar a hora do almoço do que com três damas adoráveis. Amy ruborizou. – Vamos sair às 11h30. – Estarei pronto. QUANDO MATT se afastou, Amy decidiu que ele era tão impressionante de costas como de frente. Matt se reclinou ao lado de Amy no cobertor que haviam aberto no gramado sob uma árvore. A dez metros de distância, as meninas brincavam num riacho. – É isto que falta em Oklahoma – disse Matt, observando o perfil de Amy. – O quê? Você. – O verde, muita vegetação rica e verde. – Acho que não gostaria de viver em Oklahoma. – Já esteve lá? Ela balançou a cabeça. – O clima é muito ruim para o meu gosto. Prefiro uma tempestade a tornados. Matt estudou a paisagem, o vale verde e arborizado, e decidiu que era um lugar ótimo para criar cavalos. Voltou o olhar para Amy, o corpo tão cheio de curvas como o terreno de Idaho. Como pudera achar que não era bonita? – Devia ter me deixado fazer o lanche, em vez de gastar dinheiro pedindo comida da cidade – disse ela. Matt não ousou confessar que pedira comida de Pearl’s todos os dias da última semana para ele e as meninas. Virou-se de lado, atingindo o quadril de Amy com a coxa, então se debruçou para beijá-la. – As meninas. – O hálito de Amy roçou-lhe os lábios. Olhou para elas e viu que estavam distraídas apanhando flores. – Elas estão bem. – Amy fechou os olhos e, considerando isso um sim, Matt tomou-lhe a boca com a dele. Nada forte, apenas um roçar de lábios... o bastante para fazer seu sangue esquentar, elevar o nível de testosterona e fazer o pulso disparar. Quando a língua macia e úmida de Amy escorregou por seu lábio inferior, ele moveu a mão para a frente da blusa dela e lhe apertou o mamilo. Então Lily gritou e Amy se ergueu de repente, quase lhe atingindo a boca com a cabeça. – Desculpe – sussurrou Amy, o que não ajudou a diminuir a dor na virilha dele. Com os olhos nas meninas, ela disse:


– Fale-me de sua família. A curiosidade sobre a família dele dissolveu o nevoeiro erótico em que estava envolvido e despertou lembranças amargas. Amy não é Kayla. Bem no fundo, Matt sabia que Amy não era interesseira e mentirosa. Era clara como o céu azul daquele dia. Mesmo assim... ter sido enganado o tornava um homem cínico e desconfiado. Desde o começo, Kayla fizera muitas perguntas a Matt sobre seu pai e sua irmã. Tolamente acreditara que queria saber por que fora adotada... mais uma de suas mentiras. – Tenho uma irmã, Samantha, dois anos mais nova do que eu. Trabalha na empresa do meu pai, mas acho que vai sair logo. – Por quê? – Meu pai se intromete demais nas nossas vidas. – É por isso que está aqui? Por que seu pai lhe dá nos nervos? O impulso de confiar em Amy foi forte demais. – Quero me aposentar dos rodeios e criar cavalos puros-sangues, mas meu pai prefere que eu trabalhe no negócio de petróleo com ele. – Amy ficou em silêncio e ele continuou: – Fiz bastante dinheiro com rodeio, mas, ao contrário do que pensam, não recebo nada do meu pai. – Entendi, ele é rico e você não. – Tenho um fundo de renda, mas meu pai se recusa a liberar o dinheiro porque não gosta de cavalos, gado ou qualquer outra coisa que não seja petróleo bruto. – Matt hesitou antes de contar tudo. – Usei a maior parte da minha poupança para comprar aquelas éguas e, se elas não ficarem prenhes... – Elas ficarão. – Apertou-lhe a mão. Ele queria ter tanta certeza. – Então são apenas você e sua irmã? – Não, tenho um irmão de criação, Duke, que é um ano mais velho do que eu. Minha mãe deixou meu pai quando Sam e eu éramos pequenos e eu já tinha 15 anos quando papai se casou com a mãe de Duke. Recentemente, Duke transferiu sua empresa de informática para Detroit e em fevereiro se casou com Renée, uma assistente social. Estão construindo um abrigo para crianças sem lares que meu pai está ajudando a financiar. – Parece que seu pai é um homem generoso. Ficaram em silêncio por um momento, então Amy perguntou: – Se as éguas não ficarem prenhes, vai voltar para os rodeios? – Não. – Por quê? – Uma porção de coisas, mas principalmente porque estou ficando velho para isso. – E, se fosse sincero, a traição de Kayla lhe tirara a alegria de participar. – Você já desejou poder recomeçar a vida e fazer tudo diferente? – Se não tivesse ido para aquele quarto de hotel com Ben, não teria Rose e Lily. – Sorriu suavemente. – Ben não era tão ruim, era gentil com as meninas. E, por um tempo, conseguiu parar de jogar. Os encontros no “Jogadores Anônimos” ajudavam, mas ele foi para Pocatello e teve uma recaída. Como uma pancada na cabeça, a dor foi imediata. Matt tirou os olhos do rosto triste de Amy. Esperava que ela jamais descobrisse que sabia do vício de Ben, que ele fora responsável pela recaída de Ben. Se soubesse que Ben estava mergulhado em dívidas, nem teria se aproximado dele... ou pelo menos era isso que dizia a si mesmo. Mas a verdade é que Matt estava tão furioso com o pai que naquela noite só pensava em uma coisa... nele mesmo.


– Sr. Matt, venha depressa! – chamou Rose. – Estou vendo um peixe! Usando a desculpa para correr do sentimento de culpa que estragava o piquenique, Matt se levantou e se juntou às meninas. E AGORA o quê? Amy parou de lavar a trempe de churrasco quando viu o carro de Payton Scott chegar, levantando uma nuvem de poeira. Não estava com humor para lidar com o banqueiro safado. Desde que tinham voltado do piquenique, Amy cuidara da casa num estupor, tentando imaginar o que havia afastado Matt. Estavam sentados no cobertor, conversando sobre sua carreira em rodeios e, de repente, ele fugira como se estivesse escondendo alguma coisa dela. Payton saiu do carro e se aproximou, os passos curtos fazendo-a pensar numa galinha perseguida por um cão. Ele não se deu ao trabalho de cumprimentar Rose e Lily, que desenhavam com giz nas pedras do jardim. – Amy, precisamos conversar. Ela escondeu um sorriso ao ver a saliência no nariz e os hematomas roxos em torno dos olhos dele. Matt certamente arrebentara a cara do banqueiro. – Oi, Payton. – Você tem me evitado. – O cheiro da colônia pesada lhe causou náuseas. – Tenho andado ocupada. – Ela lavou com mais força a trempe e se recusou a se sentir mal por não ter retornado seus telefonemas. – Acho que encontrei um comprador para o seu rancho. Ela parou de limpar. – Como já disse muitas vezes, não estou interessada em vendê-lo. Ele lhe deu um sorriso falso. – Você e eu sabemos que é só uma questão de tempo para seu cowboy fazer as malas e ir embora. Então, quem vai pagar a hipoteca? Amy não queria pensar em ficar sem Matt. – Quem está interessado no meu rancho? Payton desviou os olhos. – Ninguém que você conheça. – Parecia que o banqueiro estava preparando alguma para ela. – Seu pai tentou convencer sua mãe a vender – disse ele. Amy não se surpreendeu. Vender o rancho devia ser outra das ideias de milhões de dólares do pai. – Pare de me aborrecer. Enquanto eu pagar a hipoteca, o banco não pode me tomar o rancho. – E por quanto tempo acha que será capaz de fazer os pagamentos, depois que Cartwright for embora? – Não esperou resposta e perguntou: – Onde está o cowboy? – Matt está no estábulo cuidando de SOS. – Você jamais encontrará um comprador para aquele cavalo. Todos sabem que ele matou Ben. E ela tinha certeza de que fora Payton quem espalhara a notícia. – Foi um acidente. – Acho que Cartwright está querendo morrer – disse Payton. – Quando ele for embora e a deixar na mão, me telefone. Embora não possa garantir que consiga uma oferta tão boa quanto a de agora para a propriedade. O carro de Payton ainda não desaparecera, quando um relincho alto cortou o ar.


– Fiquem aqui, meninas! – Ela soltou a trempe e correu para o estábulo. Por favor, que Matt esteja bem, por favor, que Matt esteja bem. Os relinchos do cavalo continuavam e o som de patas quebrando madeira lhe chegou aos ouvidos quando Amy entrou no estábulo. Os olhos seguiram diretamente para a baia de SOS. O garanhão arrancara a porta e batia as patas no ar. – Matt! – chamou, receando se aproximar. Oh, Deus, onde ele estava? Seu estômago apertou de medo. Um segundo depois, a pata do garanhão quebrava o trinco da porta nos fundos da baia e ela se abriu. SOS correu para o curral. Com o coração disparado, Amy correu para a baia. – Matt. – Ela o descobriu deitado num canto, segurando a coxa. Com os olhos enevoados de dor, ele sussurrou: – Sei o que assustou SOS. – O quê? – Ela mal ouvia enquanto se agachava ao lado dele e passava os dedos em seus cabelos, procurando machucados. Quando moveu as mãos para a perna dele, Matt as afastou. – Ratos – resmungou ele, enquanto Amy o ajudava a se levantar. Sem fôlego e com uma dor evidente, ele se dobrou e tentou respirar. – O rato deve ter entrado na baia quando Ben estava com SOS. – Que rato? Não vejo um rato por aqui há anos – argumentou ela. – O rato de estimação de Rose. Presumindo que ele tivesse levado uma pancada na cabeça, Amy disse lentamente: – Rose não tem um rato de estimação. Matt acenou em direção ao canto mais distante da baia e a respiração de Amy congelou quando viu os restos destroçados de um grande rato preto. – Ela não quis lhe contar, mas vem alimentando Sophia há algum tempo. Sophia? Sua filha dera um nome ao rato como se fosse seu... animal de estimação. Deus do céu. O peito de Amy apertou com a culpa. A filha fizera amizade com um rato porque não lhe permitira ter um cachorro. Se Rose descobrisse que Sophia fora a responsável pela morte de Ben, ficaria arrasada.


CAPÍTULO 10

MALDIÇÃO. MALDIÇÃO. Maldição. A perna de Matt doía como os diabos. Apoiando-se em Amy, saiu mancando do estábulo. O fato de conseguir pôr algum peso sobre a perna lhe mostrou que o garanhão não havia lhe quebrado o osso. Enquanto se arrastava em direção à casa de Amy, o incidente se repetia em sua mente. Matt entrara na baia e fechara a porta. SOS estava calmo enquanto lhe limpava o pelo, uma rotina que começara uma semana antes e da qual o cavalo gostava. Quando Matt passou para o traseiro do animal, as coisas começaram a ficar feias. SOS relinchara e começara a se movimentar, inquieto. Matt pensava que o cavalo sentira o cheiro do rato mesmo antes de o bicho entrar na baia. Em poucos segundos, SOS passara de inquieto a louco. Felizmente Matt estava de pé ao lado do cavalo quando ele pulara e escoiceara. Uma das patas roçara a coxa de Matt e a força do impacto o jogara no canto da baia. Conseguira rolar e ficar fora do caminho das patas até o garanhão derrubar a porta e fugir. – Vou chamar o médico. – Mal registrou a declaração de Amy em meio ao nevoeiro de dor. Pararam antes de subir a escada da varanda. – Pronto? Seis degraus... seis malditos degraus. Ele segurou o corrimão. – Vamos logo. A perna ferida quase se dobrou, e ele praguejou. Quando chegaram à varanda, seus músculos tremiam de cansaço. – Sente-se – ordenou Amy, assim que chegaram à cozinha. – Tome isto. – Colocou um copo de água e um vidro de pílulas analgésicas e anti-inflamatórias sobre a mesa. Ele pegou quatro e as tomou. – Vamos tirar o jeans antes de a perna inchar e eu ter que cortá-lo. – Proposta interessante. Amy ignorou a tentativa de levar a coisa na brincadeira. – O osso pode não estar quebrado, mas talvez tenha uma pequena fratura. Ligou para o médico e Matt não protestou; sentia dor demais para bancar o durão. Depois de uma breve conversa, Amy desligou e informou:


– O dr. Murphy estará aqui em uma hora. Mandou pôr gelo na perna. – Amy ficou em pé diante dele. – Consegue subir a escada? Ficará mais confortável deitado numa cama do que no sofá. – Se soubesse que tudo o que precisava fazer era me machucar para ser convidado para a sua cama, eu... – Não tem graça, Matt. – A voz dela falhou, surpreendendo-o. – Você quase morreu, como Ben. Que idiota por não ter percebido que seu ferimento lembraria a Amy a morte de Ben. Enxugou-lhe uma lágrima com a ponta do dedo. – Desculpe, não quis... – Não tem importância. Ela o fez se levantar e ajudou-o a subir a escada. Levou-o para o quarto em frente ao banheiro e ele segurou a porta quando viu um sutiã no canto. – Este é seu quarto. – Você é grande demais para as camas das meninas. – Sem quarto de hóspedes? – O terceiro quarto é usado como depósito. Enquanto cruzavam o quarto em direção à cama, ela percebeu que ele olhava o sutiã. Ajudou-o a se sentar, guardou a tira de renda na gaveta da cômoda e se ajoelhou diante dele. Antes que tivesse a oportunidade de fantasiar com o erotismo da posição, ela lhe segurou uma das botas e tirou-a, depois a outra. Ele gemeu de dor. – Desculpe. Ele desabotoou o cinto e baixou o zíper. – Não vai fechar os olhos? – brincou. Ela estava tão vermelha como o sutiã. – Consegue tirar você mesmo? E perder a oportunidade de sentir o toque dela? – Não. Ele baixou o jeans e se sentou de novo. – Isto vai se tornar um hematoma bem feio. – Quando os dedos dela roçaram as marcas púrpuras na coxa, ele gemeu... e o som não tinha nada a ver com a dor, e sim com a carícia gentil. Depois que ela tirou o jeans, Matt se reclinou no colchão e Amy pegou um cobertor para cobri-lo. – Vou buscar o gelo. – Ela praticamente fugiu do quarto. Menos de cinco minutos depois, voltou com uma toalha de plástico, diversas toalhas e uma bolsa cheia de gelo. – Para que tudo isso? – Para não molhar o colchão. – Abriu a toalha. – Erga-se. Ele fez como ela mandou, apoiando-se nos pés e nos ombros para levantar o traseiro. Amy estendeu a toalha debaixo dele, esperou que ele se acomodasse, enrolou as toalhas nos quadris dele, evitando cuidadosamente a virilha, colocou a bolsa de gelo e o cobriu. – Obrigado. – Segurou-lhe a mão e os dedos dela apertaram os dele. – Não se preocupe, vou ficar bem. Com os lábios trêmulos, ela pediu: – Por favor, não conte a Rose sobre o rato. – É claro que não. – Rose se culparia pela morte do pai, e criança nenhuma merecia sentir-se assim. – Não é culpa dela, Amy. Não sabia que SOS tinha pavor de ratos.


– O que há de errado com o sr. Matt? – Rose e Lily entraram no quarto. Lily não esperou resposta e se atirou contra a perna machucada de Matt. Com os dentes cerrados, ele engoliu um gemido. Amy pegou Lily e a colocou no chão. – Não encoste nele, doçura. O sr. Matt machucou a perna. – Está doendo muito? – perguntou Rose. – Vou ficar novinho em folha logo. – Odiava pensar em contar a Rose que Sophia tinha sido esmagada. – Meninas, brinquem no quarto de vocês. O sr. Matt está cansado. Amy levou as meninas em direção à porta e Rose disse: – Estou com fome. – Vou fazer o jantar. – Depois que elas saíram, perguntou: – Posso fazer mais alguma coisa por você? Que tal um beijo? Ou dois, ou três? – Não. – Assim que o médico chegar, eu o trarei aqui. Se precisar de mim, grite. É claro que precisava de Amy, mas não daquele jeito. Matt dormiu e, quando abriu os olhos, viu um homem baixo, gordo, com cabelos brancos e óculos de lentes grossas. – Este é o dr. Murphy – disse Amy aos pés da cama, torcendo as mãos. – Doutor, este é Matt Cartwright. – Voltou a olhar para Matt. – Contei ao médico o que aconteceu. O homem tirou um estetoscópio. – Aquele garanhão levou a melhor com você, foi? – Não foi culpa do cavalo – resmungou Matt. Não queria que a notícia de seu ferimento aumentasse os rumores já fortes sobre SOS. – Vamos ver esta perna. – Melhor eu ver as crianças. – Amy fugiu do quarto. O médico puxou o lençol e assobiou. – Deve doer como o inferno. – Examinou a perna cuidadosamente. – O senhor é um homem de sorte, sr. Cartwright. – Tirou uma seringa da maleta preta com uma enorme agulha. – Para que é isto? – É um remédio para dor. – Sem injeções – protestou Matt. – Vire-se. – Dois segundos depois, a cueca de Matt foi abaixada e ele se encolheu com a fisgada da agulha. – Quando acordar, caminhe um pouco para manter a circulação das pernas. Se tiver qualquer problema ou a dor piorar, faça Amy levá-lo até a emergência em Rockton. De qualquer maneira, passarei aqui em alguns dias. – Obrigado, doutor – resmungou Matt, já adormecendo. MATT ACORDOU no enorme silêncio da casa. Pela luz do sol que entrava pela janela, percebeu que já passava da hora do jantar. Com a bexiga reclamando, sentou-se, impressionado porque a perna já não doía tanto. O médico devia ter lhe dado uma injeção dos diabos. Tirou as toalhas e a bolsa de gelo e afastou as pernas da cama.


Quando o quarto parou de rodar, ficou de pé e testou a perna machucada. Satisfeito ao ver que suportaria seu peso, mancou para fora do quarto. Olhou o corredor, viu que não havia ninguém e capengou até o banheiro. Depois de terminar o que fora fazer, pensou em dormir de novo, mas a banheira lhe pareceu muito atraente. Mergulharia os músculos doloridos em água quente e depois pediria a Amy para lhe levar alguma coisa para comer, pois seu estômago roncava de fome. Pegou o vidro de sais de banho, despiu-se, entrou na banheira e abriu a torneira. Enrolou uma toalha, colocou-a sob a cabeça e, quando a água lhe chegou ao queixo, fechou a torneira e os olhos. – Sô Matt! Matt se assustou, sentou-se e o movimento súbito fez a água derramar, molhando as sandálias de Lily. – Epa. – Segurando um pato amarelo de borracha, a menina ergueu o pé molhado. – Desculpe, Lily – Matt pegou outra toalha da prateleira perto da banheira. – Pode enxugar o chão? A menina lhe jogou o brinquedo. – Pato. – Estou vendo. – Trocou o pato pela toalha. – Obrigado pelo brinquedo. Dobrada na cintura, o pequeno traseiro no ar, Lily passou a toalha pelo chão, espalhando mais a água. – Está ótimo. Obrigado, Lil. Deixando a toalha no chão, ela foi até o vaso, baixou a tampa e se sentou. – Fique à vontade, garota. – Ele sorriu e Lily o imitou. Amy ouviu a voz de Matt saindo do banheiro quando chegou ao alto da escada. Estava no jardim com as meninas, quando viu Lily subindo a escada da varanda e entrando em casa. Depois de dizer a Rose que ficasse onde estava, Amy seguiu a filha, temendo que ela perturbasse Matt, que dormia desde que o médico saíra, três horas antes. Era evidente que Matt estava tomando um banho, e Amy ficou no corredor. Espiar o cowboy estava se tornando um hábito... o que não a incomodava nem um pouco. Olhou pela fresta da porta e viu Matt enterrado sob uma montanha de espuma branca. Encostando-se à parede, Amy levou o mão à boca para segurar a risada. – Bolha – disse Lily. – Bolha. – Não pegue o vidro de sais, Lil. não queremos bolhas de sabão no chão – advertiu Matt. – Bolha eu! Amy estava morrendo de vontade de saber quem ganharia a batalha... o cowboy ou a menina de dois anos. – Depois será sua vez. – Matt abriu a torneira por alguns segundos. – Estou ficando sem bolhas, Lil. Tenho que ficar coberto. – Pato. Matt apertou o brinquedo e o som fez a menina rir. – Quero seu conselho, Lil. O que vou fazer com sua mãe? – O ar gelou nos pulmões de Amy. – Gosto dela. Para falar a verdade, gosto muito dela. Há alguma coisa em Amy que me agarra e não me solta. Como você, ela é bonita e graciosa. – Pato. Matt apertou e Lily riu.


– De novo! Ele apertou e ela riu outra vez. – Tenho este impulso forte de proteger sua mãe e ajudá-la a sair da confusão em que seu pai a deixou, mas... – ansiosa para ouvir, Amy se aproximou mais da porta. – Quero sua mãe como jamais quis ninguém. Amy exalou lentamente. – Mas, se formos até o fim, ela vai achar que estou nisso para sempre, e não posso ficar para sempre com sua mãe. Era nisso que dava sonhar que Matt gostava dela. – Sabe, Lil, estou com medo de andar com sua mãe pela mesma estrada que já percorri com outra mulher. Kayla e sua mãe têm muito em comum. No começo, Kayla recusou meu dinheiro, quando o salão de beleza dela teve problemas. Mas não demorou para ela mudar de ideia sobre aceitar minha ajuda. Logo estava mergulhando fundo nos meus bolsos, mas não reclamei porque pensei que íamos nos casar. – Matt parou. – Adivinha o quê, Lil? Lily estava mais interessada nos botões de sua blusa do que na confissão de Matt. – Ela me enganou. Amy sentiu náuseas e raiva. Tinha pena de Matt e, ao mesmo tempo, raiva. Como ousava acreditar que queria o dinheiro dele? Talvez porque lhe pediu para pagar a prestação da hipoteca? Mas pretendia lhe reembolsar cada centavo, com juros. – Descobri Kayla namorando outro cowboy depois de um rodeio. Só mais tarde soube que os dois já tinham um filho, mas não eram casados. E sabe o que foi pior, Lil? Foi descobrir que Kayla e o namorado estavam tentando me dar um golpe. Ela se casaria comigo, pediria o divórcio e iria embora com uma conta bancária cheia de dinheiro do petróleo dos Cartwright. Amy fechou as mãos, desejando apertá-las no pescoço daquela Kayla. – Parece que não consigo uma dama que apenas me queira, Lil. Não meu dinheiro ou meu nome, apenas eu, maldição. – Feio. – É, essa é uma palavra feia. Não repita, certo? – “Ceto”. – Quero uma mulher que consiga cuidar de si mesma sozinha. – “Ceto”. – Se alguma mulher precisa de ajuda, Lil, é sua mãe. Com os olhos queimando, Amy se afastou. Fora ajudada uma vez na vida por um cowboy que fizera a coisa certa e se casara com ela. E certamente aquilo tinha sido o pior que já lhe acontecera. De uma forma ou outra, mostraria a Matt Cartwright que não precisaria de seus serviços como cavaleiro andante. O RANGER rítmico do balanço da varanda acordou Amy por volta da meia-noite. Sentou-se no sofá e foi até a cozinha, parando na porta de tela. Matt estava no balanço, a perna machucada estendida ao lado. Quase não conversaram a tarde toda. Depois de esquentar uma panela de galinha com arroz para ele, dera banho nas meninas e ajudara-as a se deitar. Depois tomou um banho de chuveiro e preparou a


cama no sofá, insistindo para que Matt dormisse em sua cama, onde teria mais conforto. Ele reclamara um pouco, mas dormira antes que ela saísse do quarto. Ela abriu a porta e saiu. O balanço parou de se mover. – A perna está doendo? – Um pouco. – Quer que pegue o remédio? – Tomei algumas pílulas há meia hora. Ele pôs a perna ferida no chão e bateu no espaço ao lado para ela. Amy não devia, mas se sentou. Assim que ela se acomodou, Matt voltou a balançar, e o doce perfume de lilás dos arbustos em flor a envolveu. Por alguns minutos, ouviram apenas o som do balanço e da vida da noite. – Desculpe – pediu Amy. – Pelo quê? – Ele tirou um cacho do rosto dela e o toque gentil quase a fez esquecer a culpa. – Você ter sido ferido por SOS foi culpa minha. – Ele franziu a testa e ela explicou: – Alguns meses antes do Natal, Rose pediu um cachorro. Não tive coragem de dizer a ela que não tínhamos dinheiro para comprar um. Apenas disse que pensaria a respeito. – Amy se arrependia do que fizera; não devia ter dado esperanças falsas a Rose. – Toda semana ela pedia um filhote e eu inventava desculpas. Então Rose mudou a tática e começou a falar sobre salvar um cachorro do abrigo. – O nó na garganta de Amy ficou maior. – Continuei a dizer “não”. Quando ela finalmente parou de pedir, pensei que tinha esquecido. Se soubesse que estava tão desesperada por companhia que tornaria um rato de estábulo seu bichinho de estimação, teria encontrado um jeito de arranjar um cachorro para ela. Matt passou o braço nos ombros dela e Amy se encostou, aceitando o abraço. – A morte de Ben foi minha culpa. – Oh, não, de jeito nenhum. – Matt segurou-a pelos braços. – A morte de Ben não foi sua culpa, nem culpa de Rose. Acho que SOS foi mordido por um rato e agora entra em pânico sempre que sente um roedor nas proximidades. – Mas se Rose não estivesse alimentando o rato, então... – Então nada, Amy. Sophia provavelmente vivia no estábulo há muito tempo. Um dia ela apareceria, se Rose estivesse alimentando-a ou não. Foi pura coincidência ter aparecido quando Ben estava na baia com SOS. Amy queria aceitar a explicação de Matt. Os dedos dele lhe enxugaram as lágrimas e, antes que percebesse sua intenção, ele a beijou... não um beijo simples que lhe dizia que esperava que se sentisse melhor. Mas um beijo do tipo quero você. Amy enlaçou-lhe o pescoço com os braços e apertou-o, bebendo o conforto que ele oferecia. O beijo se tornou mais apaixonado, as bocas se abriram, línguas se exploraram, suspiros se misturaram. A mão de Matt encontrou os seios e ela se empurrou contra os dedos, morrendo para sentir a palma contra a carne nua. Sabendo o que ela queria, escorregou a mão para baixo da camisola. – Quero você – sussurrou Matt, os dedos fazendo coisas malvadas com o seio de Amy. – Também quero você. Cuidado para não se machucar, avisou-a uma voz interior. Machucar-se? Não era possível, quando sabia exatamente onde Matt estava... longe dela. Fazer amor com ele seria apenas um exercício de puro prazer... nada mais. Sem compromisso, sem futuro, sem expectativas, a não ser o aqui e agora. – Tem certeza?


Nenhum homem a olhara com tanto desejo como o que via nos olhos dele. – Mais do que certeza.


CAPÍTULO 11

MATT INTERROMPEU o beijo e enrolou um cacho de Amy em torno do dedo. – Por mais que queira fazer amor com você neste balanço, minha perna não vai cooperar. Levantou-se e estendeu a mão, mas o brilho da lua se refletiu no rosto de Amy e o calor que viu em seus olhos obrigou-o a voltar para outro beijo. Com os lábios nos dela, garantiu a si mesmo que fazer amor não mudaria as coisas entre eles. Havia uma certeza na qual Matt se agarrava... voltaria para Oklahoma quando as éguas ficassem prenhes. – Tudo ficará bem – sussurrou ele, perguntando-se se queria acalmá-la ou a si mesmo. Enquanto as línguas brincavam uma com a outra, Matt se concentrou em bloquear a voz de sua consciência. Amy não faria amor com você se soubesse que atraiu Ben para aquele jogo. Está dormindo com você porque pagou a hipoteca, comprou alimentos e cuidou das meninas enquanto não arranjava uma babá. Matt não queria que a decisão de Amy de fazer amor com ele fosse baseada em gratidão. Queria que ela o quisesse, o desejasse. Levou Amy para a porta, então terminou o beijo. – Última chance. Se entrarmos, não pode desistir. – Enterrou o nariz nos cabelos dela, que tinha o doce cheiro de cabelos limpos. Amy passou o polegar no queixo dele. – Você já está arrependido? Maldição, Amy era viúva, mãe e uma mulher lutando para se erguer sozinha. Todas essas coisas eram suficientes para ele manter o zíper fechado. Lutou para acreditar que ajudar Amy por uns dois meses, enquanto conseguia o que queria, os serviços do garanhão para suas éguas, compensaria o fato de ter tirado vantagem da fraqueza de Ben. Mas não era idiota a ponto de não admitir que Amy, Rose Selvagem e Lily Almofada haviam lhe conquistado o coração. – Tenho certeza de que quero uma coisa, Amy, você. – Beijou-a de novo, a paixão afogando suas dúvidas, sua autorrecriminação. Agora, tinha apenas um objetivo: levar aquela mulher para a cama com ele. Assim que entraram na cozinha, ele pegou a bainha da camisola de Amy e tirou-a pela cabeça. Os seios nus imploravam por suas mãos e boca. Chegaram ao corredor e ele apertou Amy contra a parede.


Os seios lhe enchiam as mãos e ele se curvou para saboreá-los. Com os dedos nos cabelos de Matt, os suspiros de Amy lhe encheram os ouvidos. Encorajado por seus movimentos sensuais, passou as mãos sob o elástico da calcinha e segurou-lhe as nádegas firmes, puxando-a com firmeza contra seu membro ereto. Com a respiração difícil, Matt percebeu que não podia mais esperar e apertou-a com força contra a parede. Quando Amy ergueu a perna e repousou um joelho no quadril dele, abrindo-se completamente para suas mãos, Matt brincou com os cachos úmidos entre as coxas, a boca nos seios. Amy arqueou, os movimentos erráticos. Determinado a dar-lhe prazer, Matt caiu de joelhos, ignorando a dor na perna machucada. – Matt, o que... o que você está... oh... Enquanto as mãos lhe acariciavam os seios, tomou-a com a boca e a língua. Alguns momentos mais tarde, tomada por espasmos, a cabeça de Amy bateu na parede e ela gemeu. As pernas se dobraram e ela escorregou e caiu sentada, a respiração arquejante. – Matt... eu... santo Deus... Depois de um longo beijo, ele pediu: – Ajude-me a levantar. Amy vestiu a calcinha, saiu de baixo de Matt e segurou-o enquanto ele apoiava as mãos na parede e se levantava. A perna doía, assim como outra parte de seu corpo. – Aqui. – Ele tirou a camiseta e vestiu-a em Amy. – Para o caso de as meninas acordarem. Subiram a escada devagar, parando para trocar beijos. As mãos de Amy lhe acariciavam todo o corpo... não que estivesse reclamando, mas as carícias tornaram a viagem até o quarto lenta demais. Quando chegaram, trancaram a porta e, em segundos, ela lhe abrira o zíper do jeans, libertando seu sexo ereto. – Humm – murmurou ela, os dedos dentro da cueca dele. Dessa vez, foi a cabeça dele que bateu na porta. Mais algumas carícias e o controle de Matt quase desapareceu. Ele arrancou o resto da roupa e Amy também. Finalmente nus, os dois se olharam, sedentos. Quando Amy passou a língua nos lábios, Matt gemeu. Levou-a de costas até a cama e Amy caiu, puxando Matt consigo. Descansou a perna machucada nos quadris dela, o que deixou a parte inferior de seus corpos perfeitamente alinhada. – Você é linda, Amy. – Uma onda de rubor lhe tomou o rosto e Matt a seguiu com beijos. – Não precisa dizer isso – protestou. – Sei que sou simples. – Simplesmente linda. – Passou um dedo ao longo da veia levemente azul que lhe dividia o pescoço. – Seus seios são cheios e sexy e me fazem querer enterrar o rosto neles. Arqueando, ela o convidou a se aproximar ainda mais. Matt passou o nariz sobre os montes suaves, inalando o cheiro inebriante antes de mergulhar o rosto no farto tesouro. – Minha vez. – Amy virou-o, os dedos brincando com os mamilos de Matt. Prestes a perder o controle, puxou Amy para baixo dele. – Quero ficar dentro de você. Puxou a carteira da mesinha de cabeceira e tirou um preservativo. Amy ajudou-o a colocá-lo e Matt se esqueceu de tudo, a não ser deles. Queria dizer o quanto gostava dela, a admirava, mas temeu se enrolar nas palavras. Em vez disso, usou o corpo para mostrar-lhe.


Amy revelou um lado brincalhão, fazendo-o rir num momento, e no seguinte excitando-o com murmúrios sedutores. Disse a ele como era bonito, como achava seu corpo sexy. Já ouvira as mesmas palavras de outras mulheres, mas só a opinião de Amy tinha importância. A verdade brilhava nos olhos castanhos dela, e ele se sentiu feliz com a aprovação de Amy. – Nunca me senti assim – suspirou Amy. Emocionado com a confissão, Matt beijou-a gentilmente. Amy era dele e, no momento, era todo o seu mundo. Abraçou-o com as pernas e ele a penetrou, as bocas unidas, a língua repetindo os movimentos do membro. O tempo passou numa neblina de sensações eróticas, culminando numa espiral que subia e que os levou para um mundo onde o passado foi esquecido, o futuro não existia e só o presente importava. ÀS 3H da manhã de domingo, Amy acordou aninhada no corpo quente de Matt. Passou um dedo pelas costelas dele, então lhe cobriu a virilha com o joelho. Perfeito. Ouviu-o ressonar e sorriu, esfregando o rosto no peito macio. O pobre cowboy estava exausto. Matt era tão mais do que imaginara quando chegara ao rancho. E o brilho possessivo nos olhos dele quando a penetrou lhe roubou o coração. Sim, apaixonara-se por outro cowboy. E, dessa vez, não era uma paixonite de adolescente. Dessa vez, era amor. Matt era honesto, decente e bom para suas filhas. Amy fechou os olhos e imaginou os quatro como uma família, criando cavalos no rancho. Viu-se passando os dias e as noites com ele ao seu lado. Ele a fazia se sentir feminina e bonita... como se os quatro quilos que tentava perder nos últimos dois anos apenas aumentassem sua beleza. Estava embriagada de felicidade ao pensar que aquele cowboy de rodeio, que podia ter a mulher que quisesse, preferia ficar com ela. Então se lembrou da mulher sobre a qual ouvira Matt conversar com Lily no banheiro. Kayla partira o coração de Matt e Amy se perguntou se ele seria capaz de amar outra mulher. Amy fez uma lista mental de coisas que ela e Matt tinham em comum, além do amor a cavalos. Não encontrou mais nada, então fez uma lista do que não tinham em comum. Ele era rico... e ela mal conseguia se sustentar. Era famoso... e ela... bem, era apenas Amy, a velha e comum Amy. Não tinha filhos... e ela, duas filhas. Via o copo da vida meio cheio... ela o via meio vazio. Tinha grandes planos para sua operação “criação de cavalos”... Amy apenas queria um pouco de segurança para ela e as meninas. Tudo sobre Matt era ousado e maior, até seu sorriso sexy. Ele estava sob a luz das ribaltas da vida e ela se perdia nos bastidores. Suas vidas caminhavam para direções diferentes... a dele para Oklahoma e a dela bem ali, no rancho. Vê-lo partir no fim do verão lhe partiria o coração. – Posso ouvi-la pensando. – A voz profunda a tirou dos devaneios. Sorrindo, ela passou os dedos pelo abdome liso e ergueu o rosto para vê-lo, percebendo as linhas rígidas em torno da boca. – Sua perna está doendo. – Saiu da cama e vestiu o roupão. – Vou buscar o remédio. – O fato de ele não protestar confirmou sua suspeita. Correu à cozinha, encheu um copo com chá gelado e pegou o vidro de analgésicos.


– Aqui. – Colocou as pílulas e o chá na mesinha de cabeceira e ajudou Matt a sentar. – Por que está sorrindo? Ele ergueu as sobrancelhas, olhando para a frente do roupão, de onde os seios ameaçavam escapar. – Pare com isso – protestou ela, apertando o cinto antes de lhe passar o dedo no rosto. – Você é incrível. – Ele segurou-lhe a mão e levou-a aos lábios. Com os joelhos fracos, Amy sentou na beirada da cama. Sua consciência lhe dizia que era certo amar aquele homem. Ali, no quarto, podia ser o que quisesse, fazer o que desejasse, sonhar o que quisesse... até que todos os seus amanhãs incluiriam Matt. Desde que compreendesse que, quando saísse do quarto, tudo voltaria ao normal, o que significava que um dia Matt iria embora e a deixaria. Ofereceu-lhe a boca e Matt a tomou. O beijo foi suave e gentil. – Volte para a cama comigo – sussurrou ele, então a beijou novamente. Incapaz de recusar, tirou o roupão. Matt segurou-a pelos quadris nus, então a mão se curvou em sua cintura, desceu para as nádegas, pelas coxas. Os dedos calejados excitaram a pele sensível atrás dos joelhos antes de viajarem para a coxa e subirem... e entrarem. Os mamilos endureceram e a cabeça de Amy caiu para a frente, enquanto ela se entregava às carícias. Matt tirou os lençóis, sentou-se na beirada da cama e puxou-a para o meio das coxas. E daí, se ele não se permitisse amar de novo? Sabia que não era apenas mais uma na vida desse cowboy. Ansiava por dizer que o amava, mas limitou-se a expressar seus sentimentos com suspiros de prazer. Com cuidado, sentou-se no colo dele, uma perna de cada lado do corpo de Matt, seu sexo roçando seu âmago úmido e quente. – Tudo o que quero é estar com você – sussurrou ele. – Em torno de você, dentro de você. Amy agarrou as palavras e guardou-as num canto do coração. Palavras que teriam que ser o bastante, agora e para sempre. Ele colocou o preservativo e os dois iniciaram uma nova viagem na qual Amy sonhou que havia um futuro para ela e Matt juntos. MATT ACORDOU aos poucos e relutou em abrir os olhos. Lembrava-se de cada detalhe daquela noite incrível que passara com Amy. Tivera tanta certeza de que podia lidar com seus sentimentos por ela, mas, depois de fazer amor com Amy, de abraçá-la... seria louco se pensasse que podia ir embora depois que as éguas estivessem prenhes. No momento, a ideia de fugir de Amy lhe causava um gosto amargo na boca. Por que tinha que se sentir atraído por uma mulher que lutava contra fases ruins, que queria sua ajuda, não ele? A luz que lhe atingia as pálpebras fechadas lhe dizia que já passara muito do amanhecer. Uma parte dele queria ficar na cama, para não enfrentar Amy. Teria ela fantasiado que o amor que haviam feito equivalia ao “felizes para sempre”? Esperava que não, e decidiu se concentrar em SOS e nas éguas. A partir de agora, só cuidaria de negócios... negócios de cavalos. Abriu um olho e se surpreendeu ao ver que não estava sozinho no quarto. – Vai dormir o dia inteiro? – As duas florzinhas o olharam dos pés da cama. Lily se aproximou e colocou o pato de borracha sobre seu peito. – Pato. – Obrigado, Lil. – Olhou para Rose. – Onde está sua mãe? – Lá fora, cuidando dos cavalos.


Chega de preguiça. Passou as pernas para fora da cama, tendo o cuidado de manter os lençóis no lugar para esconder a nudez. – Meninas, vão brincar lá fora enquanto tomo um banho. – Mamãe disse que temos que cuidar de você. – Há quanto tempo estão me vendo dormir? – Há séculos. – Rose apertou o botão do walkie-talkie. – Mamãe, o sr. Matt acordou, câmbio. – Diga ao sr. Matt que irei para casa num minuto. Matt pediu o rádio. – Bom dia, benzinho. – Com está se sentindo? Câmbio. – A voz dela era distante. – Solitário. Venha me fazer companhia. Câmbio. Depois de uma longa pausa... – Amy está ocupada alimentando os cavalos, mas ficarei feliz em lhe fazer companhia, câmbio. O rosto de Matt ficou vermelho. – Ei, Jake, câmbio. – Soube de sua perna e vim ajudar Amy com os cavalos, câmbio. – Obrigado, câmbio. – Sem problema. Tenho que ir agora. – Jake ficou em silêncio por um momento, então disse: – Amy me contou sobre o rato. Matt cobriu rapidamente o rádio, mas percebeu que Rose ouvira. – Preciso desligar, câmbio. – Desligou o walkie-talkie. – O que aconteceu com Sophia? – Lágrimas encheram os olhos de Rose. – Espere lá embaixo. Explicarei tudo depois que me vestir. – Você a matou! – Rose correu do quarto. – Lily, vá com sua irmã. Assim que a menina saiu, Matt vestiu a mesma roupa que usara no dia anterior e saiu atrás das meninas. Quando chegou à cozinha, encontrou-se com Amy, que entrava. Ela congelou e a mente dele imediatamente a viu nua, deitada sobre seu corpo. Balançou a cabeça para apagar a imagem e se concentrar na crise do momento. – Onde está Rose? – Não está aqui com você? – Amy correu para fora e desceu os degraus da varanda. Incapaz de acompanhá-la, Matt foi atrás, sentindo dor nos músculos. Rodeou a casa mancando e encontrou Amy tentando atrair a filha, que soluçava, para fora da casa de bonecas. – Deixe-me falar com Rose. – Os olhos dele lhe enviaram uma mensagem silenciosa. Isto é entre mim e Rose. Você não devia saber, lembra-se? Com um aceno, Amy levou Lily para dentro de casa. Os soluços de Rose lhe partiam o coração. As mulheres Olson certamente tiveram uma grande parcela de infelicidade nos últimos tempos. – Posso entrar? – Pode. Matt abriu a porta em miniatura e arrastou a parte superior do corpo para dentro da casa de bonecas. O que devia fazer, mentir ou dizer a verdade? Nenhum dos dois o atraía, então decidiu por um pouco


de cada. – Ontem Sophia saiu da sala de arreios e entrou na baia de SOS. O queixo delicado da menina se ergueu. – Você não lhe deu comida? – Dei, mas acho que não foi o bastante e ela saiu para procurar mais. Rose soluçou. – O que aconteceu com ela? – Foi esmagada pelas patas de SOS. – Ela chorou? – Não, aconteceu tão depressa que ela não sentiu nada, doçura. – Posso vê-la? – Devia ter sentido a relutância dele e acrescentou: – Por favor. – Claro, mas não agora. Vou preparar uma caixa para colocá-la dentro e então você decide onde quer enterrá-la. A criança respondeu com outro soluço. – Lamento, doçura, sei que você e Sophia eram amigas. Então a menina se jogou para ele e abraçou-o pelo pescoço, soluçando. Ele a segurou com gentileza. – Não chore, querida. Por favor, não chore. Os soluços ficaram mais fortes e Matt estava desesperado para fazê-la parar. – Amanhã vamos adotar um cachorro – disse rapidamente. Rose ergueu a cabeça e passou as mãos nos olhos cheios de lágrimas. – Posso ter um cachorro? Droga. O que fizera? – Sim, pode ter um cachorro. – Se conseguir convencer sua mãe. As lágrimas secaram. – Promete? – Prometo. – Vou contar a mamãe e Lily! – Pulou sobre o corpo de Matt e correu para casa. Matt ficou onde estava; não havia sentido em sair. Assim que Amy descobrisse o ele que fizera, estaria frito.


CAPÍTULO 12

NO FINAL da tarde de sexta-feira, Amy estava sentada na caminhonete em frente ao United Savings and Loan, em Pebble Creek, e estudava a fachada do banco. Quase uma semana se passara desde que ela e Matt haviam feito amor... cinco dias, e nem um beijo ou um roçar acidental de mãos. Nada, apenas respostas curtas, de apenas uma palavra, e olhares que faziam Amy se sentir gelada. No começo, ficara constrangida com o desinteresse de Matt e pensara que ele não havia gostado tanto do sexo como ela. Mas, depois de uma avaliação detalhada dos acontecimentos daquela noite, concluíra que Matt tivera uma noite realmente maravilhosa. Depois, ficou magoada; afinal, era mulher e queria um pouco de reconhecimento: um sorriso, um elogio, uma palavra gentil que lhe mostrassem que, depois de ter duas filhas e enterrar um marido, ainda atraía um homem. Seria agradável. A raiva foi o estágio seguinte. Ficara – e ainda estava – irritada consigo mesma por presumir que fazerem amor mudaria as coisas entre ela e Matt. Achava que poderia ter um caso rápido de verão sem permitir que suas emoções se misturassem à experiência, mas Matt a conquistara em tão pouco tempo que fazer amor com ele lhe causara danos sérios ao coração. Havia apenas três semanas desde que acreditara que Matt era apenas outro cowboy sexy com grandes sonhos. Não demorara para ele mostrar que estava enganada. Matt Cartwright era um dos bons sujeitos. Seu coração soubera e se apaixonara por ele. Era mais do que um cowboy de rodeio bem-sucedido. Era responsável, orgulhoso, determinado e tinha bom coração... gostava das meninas e daquele arremedo de cachorro que trouxera para casa do abrigo da prefeitura na última segunda-feira. Além disso, era paciente e carinhoso... Que outro homem cuidaria de duas meninas, e uma delas sem nem saber usar o banheiro ainda? Amy não compreendia por que a evitava e temia que fosse por causa daquela mulher idiota de seu passado, que quisera apenas seu dinheiro e lhe partira o coração. Por que Matt não conseguia ver que Amy era diferente? Mais do que nunca, Amy desejava que ele jamais tivesse pagado as prestações da hipoteca, jamais tivesse feito todas aquelas compras de comida.


Seu olhar caiu no envelope no assento ao lado. Finalmente usara suas noites de insônia para ler o caderno de anotações do pai. E tomara conhecimento da descoberta que ele fizera pouco antes de morrer: a de que o Broken Wheel tinha uma fortuna em fosfato, um mineral usado na produção de fertilizantes e outros produtos químicos. Amy acreditava que Payton Scott sabia sobre o fosfato, e esse era o motivo pelo qual a pressionava para vender suas terras. Porque pretendia ser o comprador daquela fortuna desconhecida por Amy. Embora ansiosa para partilhar sua descoberta com Matt, Amy decidira esperar os resultados de uma pesquisa geológica que confirmasse a alegação do pai. Quando tivesse a prova de que não queria o dinheiro dele, ela se dedicaria a conquistá-lo no que restava do verão. Mas havia coisas mais importantes agora. Pretendia dizer a Payton exatamente o que pensava dele. – Oi, Shelly. – Ela cumprimentou a recepcionista quando entrou na recepção do banco. – Payton está? Shelly assentiu, sem tirar os olhos da tela do computador. Amy entrou no escritório de Payton sem ser anunciada. A revista de mulheres nuas em que o rosto dele estava mergulhado voou de suas mãos, derrubando uma lata vazia de soda. Ele pegou a revista e, com o rosto vermelho, guardou-a numa gaveta. – O que você quer? – Sobre o pagamento da hipoteca... – Deixe que eu adivinhe. Não pode pagar a próxima, certo? Está pronta para vender? Vá sonhando. – Estou aqui para lhe informar que consegui um emprego na Vista Insurance. – Caso ele não acreditasse, tirou uma brochura da empresa e jogou-a para ele. Os lábios grossos de Payton se abriram, mas ele não emitiu nenhum som. – Meu curso de informática termina na próxima sexta-feira e na segunda seguinte começo a trabalhar em casa para a Vista. A empresa prometera entregar e instalar um computador em sua casa, com o programa da empresa, permitindo que ela trabalhasse com seguros sem sair de casa. O emprego tinha plano de saúde para ela e as meninas, assim como licença remunerada em caso de doença e férias. O professor de Amy soubera do emprego e a considerara uma boa candidata. Depois de conversar com ela, marcara uma entrevista para dois dias atrás, quando então ela conseguira o emprego. – Trabalho de meio expediente, Amy? – desdenhou Payton. – Horário integral. – Quanto vão pagar por hora? – Dez dólares. – Você jamais fará 1.600 dólares por mês, e isso sem contar os impostos e o seguro social, que são descontados de seu salário. – Não esqueça, Payton, que vou voltar a hospedar cavalos. Ele rosnou. – Soube que o garanhão escoiceou Cartwright. – Mas Mat descobriu que SOS ficou assustado com ratos. Esperava que Payton espalhasse a notícia e assim SOS não seria culpado pela morte de Ben. – Ben morreu por causa de um rato? – Payton riu e completou: – Espero que tenha sorte de encontrar um comprador que não tenha ratos no estábulo.


Se conseguisse vender SOS, pagaria as dívidas e, com o que ganhasse no emprego e a hospedagem dos cavalos, teria o bastante para pagar a hipoteca e as contas mensais. Não poderia pagar luxos, mas manteria o rancho. Se as coisas não dessem certo, venderia parte dos direitos de exploração de minerais em suas terras e pagaria toda a hipoteca. Hora de soltar a bomba e tirar aquele sorriso idiota do rosto de Payton. – Por que você concordou que fizéssemos uma segunda hipoteca, quando sabia que Ben era um risco? – Isso sempre foi parte do plano, Amy. – Por plano, você quer dizer isto? – Ergueu o resultado da análise que o pai mandara fazer. Payton pulou da cadeira. – O que é isso? – Um documento confirmando a presença de fosfato nas minhas terras. Acho que você já sabia e por isso queria meu rancho. – O técnico sugerira o estudo geológico em profundidade para confirmar a quantidade e o valor, mas o pai morrera antes de dar o passo seguinte. Gotas de suor surgiram na testa de Payton. – Onde conseguiu isso? Seu pai mantinha todos os papéis pessoais numa caixa de depósito do banco. – É, engraçado como este documento estava faltando quando peguei as coisas dele depois que morreu. Por sorte minha, ele guardou o original em casa. – Dentro do caderno. – Se não pagar a mensalidade de julho a tempo, vou executar a hipoteca tão depressa que sua cabeça vai rodar – ameaçou Payton. – Enquanto viver, você jamais porá as mãos nas minhas terras. – Chegava. Saiu enfurecida do banco. Amy entrou na caminhonete e segurou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. A descoberta de fosfato no rancho garantia a ela e às filhas segurança por um longo tempo, mas não a ajudava a resolver o problema imediato. Onde arranjaria 1.600 dólares para pagar a mensalidade de julho da hipoteca? Matt. Se lhe pedisse novo empréstimo, ele acharia que ela não era melhor do que a vadia Kayla. Não ousava contar a Matt sobre a descoberta de fosfato até que a Idaho Geological Survey realizasse uma série de testes no solo. Se os resultados confirmassem que havia fosfato, teria provas de que poderia pagar a ele. Deixando de lado seus problemas de dinheiro, Amy foi para casa. Pela primeira vez em muito tempo, tinha esperanças. Essa noite queria celebrar... talvez levar as meninas para comer pizza em Rockton. Mais tarde, depois de levar as meninas para a cama, arranjaria coragem para pedir a Matt outro empréstimo. A grande pergunta era... antes ou depois que o seduzisse? MATT FICOU do lado de fora da baia de SOS e observou Nathan examiná-lo. Alguns dias antes, vira o garanhão cruzando com Cinnamon no pasto e pedira a Nathan para examinar a égua e ver se estava prenhe... não estava. A mãe natureza se recusava a ser apressada, mas seria melhor para todo mundo, principalmente para ele e Amy, se o processo não demorasse todo o verão. Fazer amor com Amy tinha sido mais do que sexo ótimo.


O modo como os olhos dela suavizavam quando a penetrava lhe capturara o coração e o fazia ansiar por ficar ao lado dela e protegê-la para sempre. Mas o que mais o incomodava sobre Amy era saber que ela o amava. Não, ela não dissera as palavras, mas o amor brilhava em cada sorriso, cada olhar que dirigia a ele. Aquela suavidade nos olhos de Amy era o motivo por que Matt tinha que ir embora. Não poderia viver consigo mesmo se Amy descobrisse a verdade sobre aquele jogo de pôquer em Pocatello. O amor que tinha por ele morreria se ela descobrisse que ele atraíra Ben para o jogo para se beneficiar. Para não sofrer, decidiu que era melhor manter o zíper fechado e evitar Amy. Era um desafio maior do que laçar um novilho bravo. Cada vez que seus olhos se encontravam, os dela sussurravam faça amor comigo. O veterinário tirou sangue do garanhão para testes. SOS não estava agitado ou nervoso. Parecia saber que Sophia não era mais uma ameaça, mas, por precaução, Matt espalhara diversas armadilhas no estábulo. Nathan guardou o frasco de sangue na maleta, então examinou os testículos do garanhão. – Qual foi a última vez que cruzou? – Há um ano, na primavera. – Matt descobrira o fato quando pesquisara sobre SOS na Internet. O animal era pai de uma lista impressionante de potros. – Quando Ben o comprou? – Não tenho certeza. Fim de novembro ou começo de dezembro do ano passado. – Os arquivos de saúde estão incluídos nos papéis do garanhão? – Não que eu saiba. Nathan fez uma careta e as entranhas de Matt deram um nó. – O que é? – Um dos testículos é menor do que o outro. Nathan saiu da baia e trancou a porta. – O que significa...? – Pode ter levado um coice de uma égua enquanto tentava montá-la, ou ter sofrido uma infecção que se instalou nos testículos. – Não vi nenhuma inflamação... – Ele sofreu o ferimento há meses... antes de Ben comprá-lo. – Um testículo menor impedirá SOS de emprenhar uma égua? – Antes de tirarmos conclusões apressadas, mandarei seu esperma para análise. – Pode recolher uma amostra hoje? – Se você quiser. Há uma égua falsa por aqui? – Na sala de arreios. – Matt encontrara uma égua falsa quando limpara o estábulo. Era usada para diversas finalidades, entre elas recolher amostras de esperma. – Vou instalá-la aqui. – Com sorte, ele e Nathan teriam terminado com SOS antes de Amy chegar de Rockton. Não queria que tivesse mais uma preocupação... bastava as que tinha. Em parte, Matt esperava que o garanhão estivesse saudável, o que permitiria que Amy vendesse o animal, mas em parte esperava que não, assim não teria mais motivos para ficar.


ENQUANTO DIRIGIA para casa, Amy viu a caminhonete do veterinário. As três éguas estavam no curral, assim Matt devia tê-lo chamado por causa de SOS. Esperava que não fosse nada sério, pois queria Matt de bom humor naquela noite para seduzi-lo... isto é, se descobrisse como. Estacionou a caminhonete e começou a andar em direção ao estábulo, mas parou ao som de um latido. Moose, como era chamado, correu pelo pátio, seus queixos balançando como a saia de uma dançarina havaiana. No começo, ficara irritada por Matt prometer o cachorro a Rose, mas seu sentimento de culpa predominou e, no fim, concordara em manter o cachorro com a condição de que não fosse um pequeno. Queria um cachorro que ficasse fora de casa, mas não esperava um mastim. Moose era 60 quilos de afeição e, a princípio, Amy temera que fosse rude com as meninas. Mas, depois de observar os três correndo pelo pátio, ficou evidente que era um gigante gentil. No abrigo, um funcionário contara a Matt que Moose fora deixado lá quando o dono, um militar, tivera que viajar para o exterior e não tivera com quem deixá-lo. Era o animal mais preguiçoso que Amy já vira. Dormia o dia inteiro na varanda ou à sombra de uma árvore. E, quando as meninas entravam, ficava junto à porta, observando-as. – Oi, Amy! – Nicole saiu da casa com Lily e Rose. Amy chamou Moose e se apressou a alcançar as meninas. Depois de beijos e abraços, perguntou à babá: – Como correram as coisas? – Bem. – Nicole olhou as horas. – Voltou cedo para casa. – A prova não levou muito tempo. – Pagou a babá. – Muito obrigada por cuidar das meninas. – Rose e Lily não dão trabalho, mas Moose é um bebezão. Lily apontou para o cachorro. – Eu, Moo. Nicole pôs Lily no chão e a menina se jogou sobre o cachorro, apertando-lhe o pescoço e mergulhando o rosto em seus queixos. Agora a casa e as meninas tinham o cheiro forte de Moose. – Vejo vocês na segunda. – Nicole foi para o carro e saiu. – O que há de errado com SOS? – Não sei. – Rose bateu na perna. – Venha, Moose, jantar. O cachorro seguiu as meninas, e Amy, depois de um olhar para o estábulo, entrou em casa. ELE NÃO pode evitá-la para sempre. Amy estava na cozinha, inquieta, criando coragem para procurar Matt no estábulo. Quantas vezes por dia olhava pela janela, tentando ver o cowboy? Nathan fora embora no fim da tarde, e a hora do jantar, agora, já tinha passado. Ela tocara o sino para avisar que o jantar estava na mesa, mas Matt não se juntara a elas. Não fizera nem uma refeição com ela e as meninas durante toda a semana. Uma hora antes, pusera as meninas na cama, tomara um banho rápido e vestira um vestido de algodão. Sentiu lágrimas lhe queimando os olhos e praguejou. Devia estar comemorando, não se lamentando como uma idiota. Melhor confrontar Matt logo e saber o motivo de seu distanciamento. Se Matt descobrira alguma coisa sobre ela aquele mês, era que jamais desistia. Não abriria mão dele sem lutar.


Uma sombra saiu do estábulo e Amy prendeu a respiração ao ver Matt andando em direção à casa. Ouviu-o subir as escadas e abrir a porta de tela. – Oi, Moose, cuidando das minhas meninas? A nota de carinho na voz de Matt fez o coração de Amy apertar. Admitisse ou não, gostava dela, de Rose e de Lily. – Oi, Matt. Ele parou, a cabeça se virando para ela. – Achei que vocês tinham ido para a cama. Ela havia presumido isso. Amy apagara as luzes mais cedo, sem querer que ele a visse na janela. Seu cheiro masculino de suor, cavalo e um leve traço de colônia pós-barba chegou a ela, e Amy respirou profundamente. – Vi Nathan aqui. – Nada com que se preocupar. A resposta fria a fez ver tudo vermelho. – Por que ele... – Deixe-me tomar um banho rápido e conversaremos. – Então ele saiu, deixando Amy sozinha de novo na escuridão.


CAPÍTULO 13

VESTIDO COM jeans e camiseta limpos, Matt atravessou o corredor descalço e parou no alto da escada, passando os dedos nos cabelos. Esperava que Amy lhe fizesse duas perguntas quando entrara na cozinha: por que o veterinário fora lá e por que ele a estava evitando? Não queria responder a nenhuma delas. Criou coragem e desceu, encontrando Amy onde a deixara... em frente à janela, olhando para o céu que escurecia. Havia só três semanas que chegara? Engraçado como o tempo passava devagar, cada dia parecendo mais longo do que o anterior. Sentia-se tão bem com Rose e Lily que a funcionária do abrigo de animais pensara que eram filhas dele. Engraçado você não ter corrigido a mulher. Devia ter feito um som porque Amy se virou e lhe dirigiu aquele sorriso sexy e doce, que vira a semana inteira. Havia luz suficiente para Matt ver a ansiedade em seus olhos. Amaldiçoou-se por ter feito amor com ela, quando devia ter mantido as coisas em um nível apenas profissional. Mas cruzara a linha e se apaixonara pela viúva. Amy não precisava fazer muito para lhe despertar uma resposta física. Bastava um olhar, um sorriso, um suspiro, e estava pronto. Naquele exato momento, ansiava por tomá-la nos braços e substituir a incerteza do olhar pelo sorriso saciado, relaxado, que vira depois de fazerem amor. Amy não disse uma palavra, mas seus olhos o chamavam. Parou a centímetros dela, enrolou um cacho sedoso de cabelos no dedo e puxou gentilmente, aproximando o rosto do dele. O pequeno arquejo na garganta dela foi diretamente para sua virilha, e usou a boca para lhe mostrar o quanto sentira sua falta naquela semana. Quanto sentira falta de tocá-la, de sentir seu cheiro... sua maciez. Pretendia apenas beijá-la, mas a mão encontrou-lhe o seio. Não usava sutiã e ele abaixou o vestido e olhou. Ela era um quadro erótico, em pé diante dele, os seios nus, o vestido enrolado na cintura. Abaixou a boca para o mamilo... brincou, atormentou, lambeu e mordiscou. Com os dedos lhe passando pelos cabelos, Amy admitiu: – Senti sua falta. As três palavras o fizeram lançar ao vento as boas intenções... Nada importava, a não ser fazer amor com Amy. Mãos e bocas se tocaram, a camiseta caiu no chão. Ele a sentou na bancada e ficou entre as pernas dela.


– E sua perna? – A perna está bem. – Levou a mão de Amy para o seu sexo rígido. – Isto dói. Ela riu. – Posso dar um jeito nisso. – Então baixou o zíper e, juntos, tiraram o jeans. Depois, ele ergueu o vestido dela. – Você não está usando calcinha. – Os dedos acariciaram os cachos úmidos. – Estava com a esperança... – Suspirou as palavras na boca de Matt. Amy planejava seduzi-lo? Homem de sorte. Nenhuma palavra mais foi dita. Ela encontrou o preservativo, colocou-o e Matt a penetrou. O sexo foi quente e feroz e nenhum dos dois queria que terminasse. Então ela mergulhou as unhas nos ombros dele e enterrou a cabeça no pescoço, gemendo com o orgasmo. Matt deu mais uma estocada e atingiu o clímax. Ficaram muito tempo abraçados, então se separaram e se vestiram. Tomando a mão de Matt, ela o levou para o balanço da varanda. Sentindo-se relaxada e amada, aninhou-se ao corpo de Matt. Com os braços dele envolvendo o corpo dela, Amy sentia que estava preparada para enfrentar qualquer problema. – O que Nathan veio fazer aqui? Algum problema com SOS? – Está tudo bem. Não tenho muita experiência com as éguas e Nathan veio ver se já estão no cio. – E? – Cinnamon é a única. Graças a Deus. Amy esperava que o verão jamais acabasse. Matt ficou olhando para o espaço e Amy teve medo do distanciamento. – Adivinhe. – O quê? – Arranjei um emprego. – Arranjou? – Virou-se para olhá-la. – Vista Insurance. O instrutor do curso soube do emprego e me recomendou. Fiz uma entrevista e eles me ofereceram o emprego hoje. – Parabéns. – Debruçou-se para lhe beijar o rosto, mas ela o virou no último segundo e os lábios se encontraram. Dessa vez, o beijo foi suave e gentil e, quando terminou, Amy quis mais. – Dentro de dez dias a empresa vai instalar um computador aqui. Assim poderei trabalhar em casa e não precisarei pagar uma babá. Quando vender SOS, meus clientes antigos voltarão e minhas preocupações acabarão. – O que quer dizer? – Mesmo que não receba muito por SOS, o dinheiro dará para pagar boa parte das dívidas. O salário do emprego e a renda da hospedagem de animais será suficiente para eu pagar a hipoteca e bancar as despesas do mês. – Você já planejou tudo. – Bem, mais ou menos. – Criando coragem. – Sei que lhe devo o pagamento das mensalidades de maio e junho da hipoteca, mas pode me emprestar mais 1.600 para a de julho? Quando Matt não respondeu, Amy garantiu: – Assim que receber meu primeiro salário da Vista, começarei a lhe pagar. – Claro. – Matt se levantou e se dirigiu para a escada da varanda. – Passo no banco amanhã e faço o depósito na sua conta.


Por que não olhava para ela? – Hora de dormir – disse ele. Era isso? Não iam fazer amor de novo? A garganta dela se fechou. – Não está se sentindo bem? – Só cansado. Boa noite. – E ele se foi. Deixando Amy se sentindo abandonada e esquecida. – O QUE está fazendo? – perguntou Rose, quando Matt saiu do estábulo. – Há quanto tempo está aqui? – Não sei. – Onde está Lily? – Dormindo. – E sua mãe? – Matt ansiava ver Amy. O peito de Rose se encheu, então ela suspirou dramaticamente. – Estudando. Hoje era a última aula do curso de informática de Amy. Sete dias haviam se passado desde o encontro de Matt e Amy na cozinha. Conseguira manter as mãos longe dela desde então e a vira muito pouco. Mas “longe dos olhos, longe do coração” não estava funcionando com ele. – Quer que lhe mostre um truque que ensinei a Moose? – Claro. Matt riu. O cachorro dormia, morto para o mundo. Enquanto observava Rose correr para acordá-lo, o peito de Matt se contraiu de emoção. Sentiria falta das filhas de Amy quando fosse embora. – Olhe isto. Apesar dos esforços de Rose, o cachorro não foi buscar a vareta que ela jogara. – Vá pegar, Moose, anda. – Rose bateu o pé e resmungou: – Cachorro estúpido. – É preciso tempo e paciência para ensinar, Rose. Já tentou jogar uma bola? – Quando Rose negou com a cabeça, Matt continuou: – Deixei SOS na pastagem, assim pode entrar no estábulo. – A menina seguiu Matt. – Vamos ver se achamos alguma coisa aqui. Abriram um baú cheio de quinquilharias e encontraram uma bola de borracha. Quando saíram, o cachorro ficou excitado e latiu. Rose chutou a bola e Moose correu como um foguete. O grito de alegria de Rose morreu quando o cachorro se recusou a levar a bola de volta, preferindo empurrá-la com o nariz. – Moose é jogador de futebol. Rose foi jogar também e Matt voltou os olhos para a casa. Viu Amy na varanda, sorrindo enquanto observava a filha brincar com o cachorro. A brisa brincou com os cachos em torno do rosto de Amy. Então aqueles belos olhos castanhos se voltaram para ele e, mesmo a distância, soube o que ela pensava... O que fiz de errado, Matt? Nada, Amy. Então por que está me evitando? Porque eu a amo.


Amo você também. Não amaria, se soubesse a verdade que estou escondendo de você. – Mamãe – gritou Rose. – Moose sabe jogar futebol! Amy foi obrigada a olhar para a filha e Matt entrou no estábulo, olhando-a das sombras. Quando Amy descobriu que ele se afastara, baixou a guarda, fechando os olhos e segurando a ponte do nariz com as pontas dos dedos. Maldição, Amy, não chore, não por minha causa. Depois de um momento, Amy chamou Rose para almoçar. O som de um carro chegando chamou a atenção de Matt. O veterinário parou no pátio. Esperava que tivesse boas notícias. – Matt – cumprimentou ele. – Alguma notícia do laboratório? – Telefonaram hoje. – E...? – SOS é estéril. – Oh, inferno! – Lamento, Matt. Lamenta o quê? Que Ben era um idiota e não mandara examinar o garanhão antes de comprá-lo? Lamenta que o garanhão não tenha utilidade para Amy, que agora não teria como pagar as dívidas que o marido deixara? Lamenta que Matt tivesse que voltar para Oklahoma com o rabo entre as pernas e confessar que seus planos de criar puros-sangues falharam? – Quer que conte a Amy? – Nathan interrompeu a agonia interna de Matt. – Não, eu conto. – Jamais diria a Amy que SOS era estéril. – Obrigado por vir trazer as notícias pessoalmente. – Sem problema. – Despediu-se e foi embora. Chocado, Matt voltou ao estábulo e se sentou sobre um molho de feno. Tentou sentir raiva, mas sua única emoção era alívio... finalmente tinha um motivo legítimo para deixar Broken Wheel. O que diria a Amy? Matt sabia que Amy não se parecia em nada com Kayla. Jamais aceitaria dinheiro dele por SOS se soubesse que o garanhão era estéril. Mas seria melhor para ele se acreditasse que Matt ia embora porque achava que ela queria o dinheiro dele. Contar a Amy o motivo real por que ia embora não era uma opção. Não tinha a coragem de enfrentar a dor e a amargura nos olhos dela se soubesse como tratara o marido. E para quê? Ninguém saíra vencedor daquele jogo de pôquer. Havia um meio de compensar Amy e, se tivesse que se ajoelhar e implorar para receber um empréstimo do pai, ele o faria. Matt pretendia pagar as prestações da hipoteca do rancho até o fim do verão e comprar SOS. Era o mínimo que podia fazer. Então embarcaria os cavalos e sua consciência pesada no trailer e voltaria para Oklahoma, deixando Amy e as filhas. Nessa noite abrigaria os cavalos no estábulo e faria as malas. Queria estar pronto para sair assim que possível. Matt não precisou esperar muito. Na manhã de sábado, Amy disse que as meninas queriam apresentar Moose a Jake e Helen. Quando o carro de Amy desapareceu, Matt começou a correr.


– AS COISAS estão bem entre você e Matt? – perguntou Jake a Amy, enquanto esperavam as meninas e Helen saírem da casa. – Claro, por quê? – Matt é um bom homem. Você não poderia encontrar um marido melhor. Amy raspou a terra com a ponta da bota e não ousou dizer que fantasiara sobre um casamento com Matt. Nada seria melhor do que dar a Rose e Lily um pai de verdade... que lhes daria atenção e carinho. E certamente gostaria de um marido que tivesse interesse nela. Se soubesse o que atormentava Matt... Mas não podia fazer nada enquanto ele não contasse o que o incomodava. A espera era terrível... e o constante anseio, exaustivo. Fora uma luta estudar na última semana com o pensamento voando todo o tempo para Matt e para o amor que haviam feito. – Matt tem seus próprios planos para o futuro – disse ela. – Ele me disse que pretende criar puros-sangues e seu rancho é grande o bastante para um plantel pequeno. – O pai dele tem um rancho enorme, Jake. – Pode ser, mas você e as meninas não estão em Oklahoma. – Não é assim entre nós, Jake. Jake grunhiu. – Bem, devia ser, se ele está ocupando sua cama. Amy não teve resposta, e Jake perguntou: – Você o ama? Quis dizer a Jake que não era da conta dele, mas não disse. Ele e Helen ficaram ao lado dela no enterro dos pais, enquanto Ben não se dera ao trabalho de deixar o circuito de rodeios. Helen preparara a comida para receber as visitas depois do enterro e Jake cuidara dos cavalos hospedados enquanto Amy ainda estava em choque. Mas... discutir sua vida amorosa com ele era constrangedor. – Sim, eu o amo – admitiu. – Espero que tudo dê certo. Amy engoliu o nó na garganta. – Obrigada por se importar, Jake. As meninas chegaram, seguidas por Moose, e entraram no carro. Amy se despediu e partiram de volta ao rancho. Vinte minutos depois, Amy estacionou no pátio do rancho e o coração quase parou. A caminhonete e o trailer para cavalos de Matt não estavam lá. Poria as meninas na cama e ligaria para o celular dele, para saber o que estava acontecendo. Quando terminou, Amy se dirigiu ao telefone, viu o envelope branco sobre a mesa e congelou. Seu nome estava escrito com a letra de Matt e, com mãos trêmulas, leu a nota. Amy, sei que não quer meu dinheiro, mas é evidente que precisa de ajuda. Antes de deixar a cidade hoje, vou parar no banco e pagar a hipoteca até setembro, o que lhe dará tempo para organizar suas finanças. Estou levando SOS comigo (pensei em lhe poupar o trabalho de encontrar um comprador). Vou depositar 50 mil dólares na sua conta pelo garanhão. Mandarei o recibo do depósito pelo correio. Use o dinheiro para pagar as dívidas e guarde o resto para comprar suprimentos, assim


poderá hospedar cavalos de novo. Diga adeus às meninas por mim, e a Moose também. Vou sentir falta delas. Cinquenta mil dólares? E não sentiria falta dela? Como ousara acreditar o pior a respeito dela? Por que não acreditaria? Você lhe pediu um empréstimo para pagar a prestação de julho. Oh, Deus. A ideia de que Matt acreditava que o estava explorando lhe partiu o coração. Amy tinha tanta certeza de ter mostrado que seus sentimentos por ele eram sinceros. Mas você nunca lhe disse que o amava. Uma batida na porta a surpreendeu e, por um momento, pensou que Matt tivesse mudado de ideia. Quando abriu a porta, porém, viu Nathan, que a olhava com preocupação. – Más notícias? Fez um gesto para ele entrar e não respondeu. – O que houve? – Eu me esqueci de dizer a Matt que há outro exame que podemos fazer em SOS e que nos dará uma ideia melhor... – Esteve fazendo exames no garanhão? – Matt não lhe contou? – Contou o quê? – Que SOS é estéril. Amy apenas o olhou, perplexa. – Lamento, Amy, SOS deve ter sofrido um ferimento nos testículos antes de Ben comprá-lo. Oh, Ben tinha sido tão idiota. E Matt, que Deus o abençoasse, comprara SOS porque sabia que agora Amy não conseguiria vender o garanhão. Nathan se dirigiu à porta. – É difícil, mas podemos avaliar o esperma disponível de SOS e, se houver o bastante, nós... – A visão das lágrimas de Amy fez o veterinário se apressar. – Diga a Matt para me ligar. – Nathan saiu e a porta de tela bateu. Amy faria melhor do que telefonar a Matt... ela lhe daria a mensagem de Nathan pessoalmente. Tinha algumas coisas pessoais a dizer ao cowboy teimoso.


CAPÍTULO 14

– PAPAI A mandou aqui, não foi? – Matt olhou fixamente a irmã, Samantha. – Está preocupado com você. Eu também. – Sam lhe deu uma palmada no ombro e se aproximou da cerca do curral, olhando as éguas. Quando Matt chegara, três semanas antes, não contara os detalhes de sua viagem a Idaho. Ficara chocado quando o pai não pedira explicações sobre os 50 mil dólares que pedira emprestados, mas feliz também porque não queria falar do jogo de pôquer. – Já decidiu o que vai fazer com o garanhão? – perguntou Sam. Matt lhe contara que SOS era estéril. – Vou vendê-lo a Cole Sanders pelo preço que ele oferecer. – Matt estava preparado para dar o animal. SOS era uma lembrança dolorosa de Amy e das meninas e queria se livrar logo dele. – Papai lhe pediu para trabalhar com ele? – Sim, e recusei, como sempre fiz. – E seu sonho de criar puros-sangues? – Está suspenso por enquanto. Sentia-se envergonhado por ter agido tão impensadamente. Devia ter investigado a história de SOS antes de levar as éguas para o rancho de Amy. Era um idiota tão grande quanto Ben. Se tivesse investigado, jamais conheceria Amy. – Vou voltar ao circuito em alguns dias. – Laçaria novilhos pelo tempo necessário para pagar ao pai. – Você disse que ia se retirar dos rodeios. Isso fora antes de estragar tudo. – Planos mudam. – Seus novos planos estão relacionados a uma mulher? Não falara sobre Amy com ninguém. – O que lhe deu a ideia de que estou envolvido com uma mulher? – Nunca o vi tão triste. – O nome dela é Amy. O marido dela, Ben, era dono de SOS. – E... – E é uma confusão que eu mesmo criei. – Matt fez uma longa pausa. – Agradeço o ombro amigo, Sam, mas... – A voz desapareceu e a irmã viu a dor nos olhos dele. – Você não conta nada para


ninguém? – Claro que não. – Quando cheguei ao rancho, descobri que Ben estava morto e deixara uma viúva e duas filhas. – Matt Cartwright, espero que não tenha tirado vantagem de uma viúva recente. – Não foi nada disso. – Então você a ama? – Amy não se parece em nada com as mulheres com quem saio. – É claro que não, ela tem filhas. – O marido de Amy a deixou com uma tonelada de dívidas e um garanhão estéril. – Oh, Matt, você comprou SOS para ajudá-la, não foi? Como as mulheres conseguiam ler a mente de um homem? – Amy não sabe que o garanhão é estéril. Se soubesse, não aceitaria meu dinheiro. – Não compreendo. Se a ama, por que não estão juntos? É por que você não quer crianças? – De jeito nenhum. Rose e Lily são adoráveis. – Ela não o ama, é isso? Ele engoliu com força. – Tenho certeza de que ela me ama. Mas não devia, não merecia seu amor. – Então, qual é o problema? Fiquem juntos e sejam felizes. Antes que Matt respondesse, foram interrompidos. – Vocês se importam se me juntar a vocês? – Dominick Cartwright se aproximou e Matt se perguntou o quanto o pai ouvira. – Vou entrar e ajudar Juanita a fazer cookies. Sam beijou Matt e saiu. O silêncio se prolongou até Matt rosnar: – Se há alguma coisa que quer me dizer, vá em frente. – O orgulho pode mudar a vida de um homem para sempre. Agora Matt sabia que o pai o ouvira falar sobre Amy. – Aonde quer chegar, pai? – Eu devia ter ido atrás de Charlotte quando ela me deixou. Acho que dei um mau exemplo. O pai raramente falava sobre a primeira mulher. – Eu a amava e devia tê-la procurado, mas estava magoado pelo caso que teve. Caso? A infidelidade tinha destruído o casamento dos pais. – Era orgulhoso e pensava que sua mãe voltaria se arrastando... se não por mim, pelo meu dinheiro. Mas os anos se passaram sem uma palavra dela. Um dia, acordei e compreendi que sua mãe jamais voltaria. Mas poderíamos ter consertado tudo se eu engolisse o orgulho e a procurasse. Matt queria que as coisas tivessem sido simples assim. Perdoar Amy seria muito mais fácil do que lhe pedir perdão. – Obrigado pelo conselho, pai, pensarei nele. – O que vai fazer com o garanhão? – Vender. Na semana que vem, volto ao circuito. – Não ia parar? – Isso foi antes de pedir o empréstimo a você.


– Esqueça o dinheiro, filho. Não devia ter imposto condições para liberar sua herança. Não posso dizer que estou feliz por nenhum de vocês querer lidar com petróleo, mas, se criar cavalos é o que quer, então vamos discutir o assunto. Matt ficou comovido com o apoio do pai, dado o fato de que detestava cavalos. – Pai, isso é muito generoso, mas... – Chegou visita – disse o pai, observando uma onda de poeira a distância. Alguns segundos depois, Matt reconheceu a caminhonete e respirou fundo. Amy. Quando o veículo parou perto deles, Rose balançou com os braços fora da janela. – Senhor Matt! Senhor Matt! A porta da varanda se abriu e Sam se juntou a Matt e ao pai. – Uau! Uma família pronta! – exclamou ela. Matt ignorou a sobrancelha erguida do pai e saboreou a sensação de esperança que o preenchia. Amy saiu da caminhonete e o encarou, a boca fechada e os ombros retos. Mas os cachos suaves, voando na brisa, lhe emolduravam o rosto bonito. Mesmo a distância, ele se lembrou do doce cheiro de seus cabelos e de sua pele. Sam assobiou baixinho. – Ela está furiosa. O que fez com ela, irmão? A coragem de Amy acabou quando viu a bela mulher que se juntara a Matt e ao homem mais velho. Pare com isto. Não tinha mais importância o que Matt sentia ou não por ela. Fora até lá por um motivo, e apenas um motivo: ter uma última conversa sobre seu relacionamento, se pudesse chamar assim aquelas semanas. Contornou a caminhonete e abriu a porta. Rose pulou e Lily ergueu os braços assim que Amy a colocou no chão ao lado da irmã. Então as duas correram em direção a Matt, o cachorro as seguindo. – Senhor Matt! Senhor Matt! – Rose mergulhou em Matt e ele a tomou no colo. – Você não se despediu – acusou, abraçando-o pelo pescoço. E então se ouviu a voz de Lily. – Sô Matt! Sô Matt! – Agarrou uma das pernas de Matt e sorriu, tímida, para a mulher morena ao lado dele. Moose chegou correndo e ficou em pé nas pernas traseiras, lambendo Matt. – O senhor deve ser o pai de Matt, Dominick Cartwright – disse Amy, juntando-se ao grupo. – Sou Amy Olson, de Pebble Creek, Idaho. – Apertou a mão do homem e ficou surpresa quando ele lhe segurou os dedos mais tempo do que o necessário, estudando-lhe o rosto como se tentasse ler sua mente. – Estas são minhas filhas, Rose e Lily, e este monstro é Moose. – Sou Samantha, irmã de Matt. – A bela mulher sorriu para as meninas. – Oi, Rose, oi, Lily. Gostariam de ir até a casa e ajudar Juanita na cozinha? Ela está assando cookies e aposto que lhes dará um. – Podemos, mamãe? – pediu Rose. As meninas tinham sentido uma falta enorme de Matt. Voltou os olhos para a mão dele, que descansava protetoramente sobre a cabeça de Lily, e seu coração quase parou. – Claro, mas tenham modos. Samantha lhes deu as mãos e saiu, Moose atrás. – Bem-vinda a Lazy River, sra. Olson. Espero que a senhora e suas filhas jantem conosco. – Eu lhe responderei mais tarde. Pode querer retirar o convite depois que eu conversar com seu filho.


Os olhos do sr. Cartwright se abriram, então brilharam com malícia. – É justo. – Ergueu a mão até o chapéu e saiu. Assim que o pai se afastou, Matt se virou para Amy. – Desculpe. – Não. – Amy ergueu uma das mãos, amaldiçoando o ardor nos olhos. – Não estou aqui para implorar que volte para mim e as meninas. – Fez uma pausa e Matt ficou pálido. – E certamente não estou aqui para lhe pedir que me ame. – A tristeza nos olhos azuis a fez parar por um momento. – Vim para lhe dizer que não quero seu dinheiro. Tirou um cheque dobrado do bolso do jeans e o jogou no peito dele. Matt teve que segurá-lo para não cair no chão. – Isto cobre o que me pagou por SOS e as cinco prestações da hipoteca. Matt viu a quantia e franziu a testa. – Não sou Kayla. Matt endireitou os ombros. – Quem lhe contou sobre Kayla? – Você. – Com o rosto vermelho de constrangimento, concluiu: – No dia em que foi ferido por SOS, ouvi você conversando com Lily enquanto estava na banheira. – Você compreendeu mal. – Acho que não. E vim aqui para dizer as coisas claramente. Quando Jake me contou sobre a fortuna de seu pai, nem uma vez pensei em pôr as mãos no dinheiro dele. – A garganta secou. – Só quero manter meu rancho e cuidar de minhas filhas. Não tenho medo de trabalho pesado nem de sujar as mãos. Ao aceitar aquele emprego com a seguradora, provei que estou disposta a garantir sozinha o futuro de minhas filhas. – Amy, eu nunca... – Deixe-me terminar. Ia lhe dizer isso naquela noite na cozinha, depois que nós – segurou-lhe o olhar – fizemos sexo. Matt se encolheu e Amy teve um momento de satisfação. Pensara que estavam fazendo amor, mas imaginara que, para Matt, era apenas sexo. – Levou tempo para avaliar a legitimidade da alegação. – Que alegação? – Meu pai acreditava que havia fosfato no rancho, mas morreu antes que as pesquisas fossem feitas. – Suponho que aquele banqueiro safado sabia disso – disse Matt. – Era por isso que Payton queria que eu vendesse as terras. Consegui que fizessem a avaliação depois que você veio embora. Os resultados chegaram há dois dias. – E...? – Há muito fosfato. – Ela sorriu. – O cheque não será devolvido. Os olhos de Matt ficaram enevoados enquanto olhava a distância. Amy estremeceu, apesar do calor. – Oh, Deus – sussurrou, os dedos sobre a boca –, você não veio embora por causa de dinheiro, não é? Os olhos azuis se voltaram para o rosto dela. – Não. Teria se enganado tanto? Ele não a amava? A dor quase lhe parou o coração.


– Você realmente não me ama. – As lágrimas a cegaram. As meninas... tinha que pegar as meninas e Moose e partir antes de cair aos pés de Matt e lhe implorar... que a amasse. – Está enganada, Amy. – Havia uma emoção crua nas palavras. – Vim embora porque a amo. – Não compreendo. Ele se afastou dela. – Queria que você acreditasse que vim embora porque pensava que estava atrás do meu dinheiro. – Por quê? – Porque, se lhe contasse a verdade sobre o jogo de pôquer em Pocatello, você deixaria de me amar. – Nunca lhe disse que o amava, Matt. – Talvez não em palavras, mas dizia quando me tocava, quando sussurrava em meu ouvido. Quando me tomou dentro de você. – Estou ouvindo. Maldição, dizer a verdade não devia ser tão difícil... tão doloroso. – Todos os cowboys no circuito sabiam do vício de jogar de Ben, inclusive eu. – Matt engoliu com força. – Não vou embelezar as coisas, Amy. Atraí Ben para um jogo de cartas porque sabia que ganharia e ele não teria condições de pagar. – Por que fez isso? – Sabia que era dono de SOS e decidi que seria perfeito para minhas éguas. Então fiz Ben perder muito dinheiro e ofereci cancelar a dívida em troca dos serviços do garanhão. Matt examinou o chão por muito tempo, então olhou nos olhos de Amy. – Ficava dizendo a mim mesmo que, se soubesse que era casado e tinha filhas, jamais o colocaria naquela posição. Mas não posso dizer com certeza se isso faria diferença. Estava determinado a deixar os rodeios e criar cavalos e duvido que qualquer coisa me impedisse naquela noite. Ele se obrigou a ficar, embora quisesse se afastar. – Todas aquelas coisas gentis que você fez... cuidar das meninas... o dinheiro que me emprestou... Moose... foi tudo por culpa? – Não me entendeu, Amy? Se não tivesse atraído Ben para aquele jogo... – Outro cowboy atrairia, Matt. – Isso não justifica meu comportamento. E, para completar, tive a audácia de me apaixonar pela viúva do homem que prejudiquei. – Se já não fosse viúva quando chegou ao rancho, Matt, estaria divorciada. Provavelmente vou dizer tudo errado, mas primeiro deixe-me garantir que realmente senti a morte de Ben. Não como uma mulher que perdera um marido amado, mas por Ben ter morrido daquela forma tão sem sentido. – Não compreendo. – Ben era o pai de minhas filhas, mas não havia amor entre nós. Nosso casamento era um fracasso e ele morreu antes de eu criar coragem de lhe dizer que havia procurado um advogado para cuidar do divórcio. Amy estava enganada se acreditasse que seu plano de se divorciar de Ben diminuiria sua culpa. – Matt, tem que aceitar que Ben era viciado em jogo. Esse era o problema dele, não seu. – Mas sou melhor do que me mostrei aquela noite em Pocatello. Não tenho orgulho do que fiz, não gosto de tirar vantagem de pessoas. – Ninguém é perfeito, Matt. Se eu tivesse deixado Rose ter um cachorro, provavelmente Ben... – O rato teria continuado no estábulo, mesmo se Rose não o alimentasse.


Depois de algum tempo de silêncio, Amy disse: – É hora de nos perdoarmos e seguir em frente. Não sei todas as respostas das perguntas da vida, mas talvez o motivo para a morte de Ben tenha sido simplesmente que... era a hora dele. – Talvez – admitiu Matt –, mas isso não me dá o direito de ter o que pertenceu a ele. – Ben jamais me quis, nem quis as meninas, ou teria nos tratado melhor. Matt tentou encontrar sentido no que Amy dissera. Talvez Ben não tivesse amado Amy e as meninas como devia. Olhou para a casa, onde Rose e Lily estavam agora. Amava as duas meninas como se fossem suas. Ben não gostaria que as filhas tivessem um pai que as amasse? Amar Amy e as meninas seria o bastante para compensar seus pecados? Deus, esperava que sim, porque não teria forças para deixá-las. – Amo você, Amy, amo também Rose e Lily. Se puder perdoar o que fiz com Ben, quero que sejamos uma família. – Se está me pedindo porque se sente culpado, não me casarei com você. – Não foi capaz de esconder o amor que brilhava em seus olhos. Matt lhe acariciou o rosto com gentileza. – Estou pedindo porque a amo e não quero viver sem você e as meninas. – Encostou a testa na dela e sentiu-lhe o perfume sutil. – Não somos muito bons com palavras, somos? – sussurrou Amy, encostando o rosto no dele. – Vamos melhorar. – Lamento por ter sido tão magoado por aquela mulher, Matt. – Eu não. – Roçou os lábios nos dela. – Se não tivesse sido enganado, jamais descobriria o amor verdadeiro. – Outro beijo leve. – O amor verdadeiro que está bem aqui diante de mim. Amy se aninhou a Matt, abraçando-o pela cintura. – Amo você, Matt – disse ela, as palavras um bálsamo para sua alma atormentada. – Porque comprou Silly Nilly para as meninas, porque pegou o cocô de Lily do chão do banheiro. Porque se importava tanto com Rose a ponto de comprar armadilhas para Sophia, em vez de espalhar veneno para matá-la. Por comprar Moose para curar o coração partido de Rose. Por pagar por em garanhão estéril para que eu conseguisse manter meu rancho. – Parou e respirou profundamente. – Mas sabe por que, acima de tudo, amo você? Porque faz meu coração cantar, a grama parecer mais verde, o sol ficar mais quente. Você torna meu mundo mais brilhante e mais rico. – Se me der a oportunidade, Amy, prometo lhe mostrar a cada dia, a cada hora, a cada minuto, o quanto amo você e as meninas. – Eu lhe darei mais do que uma oportunidade, Matt, eu lhe darei a eternidade. – MAMÃE ESTÁ beijando o sr. Matt – anunciou Rose, de seu posto junto à porta. – Sô Matt. Sô Matt. – Lily bateu o copo de estanho na porta de tela. Dominick se aproximou e ergueu Lily, apoiando-a no quadril. – Agora pode ver melhor. – Ele e as meninas observaram o casal se abraçando. Acho que meu filho arranjou uma nova família. Dominick estava triste e feliz ao mesmo tempo. Os filhotes deixavam o ninho. – Um casamento à vista – murmurou Samantha, olhando por cima do ombro do pai. Acariciou os cachos louros de Lily. – Você é tão linda.


Lily sorriu. – Minha irmã faz cocô na calça. Isso não é nada lindo. Dominick riu. – Rose, você e eu vamos nos dar muito bem. – Está bem, se você quiser. – Abriu a porta e foi para a varanda. – Vou ver se mamãe vai se casar com o sr. Matt. – Você gostaria que o sr. Matt fosse seu pai? – perguntou Dominick. Os olhos castanhos da menina brilharam. – Oh, sim, ele é o melhor. Jamais contou a mamãe sobre Sophia. – Quem é Sophia? – perguntou Samantha. – Era meu rato de estimação, mas SOS a esmagou e por isso o sr. Matt comprou Moose. Lily se mexeu nos braços de Dominick e ele a pôs no chão. A menina seguiu a irmã para fora. – Idaho é muito longe – murmurou Dominick. – Detroit também é, papai, e você visitou Duke e Renée duas vezes desde que se casaram. Dominick passou um braço em torno da filha e sorriu para as meninas, que logo seriam suas netas. Seguidas por Moose, as meninas correram em direção ao curral e logo se ouviram as risadas do grupo e os latidos do cachorro, que levantava mais poeira do que um tornado de Oklahoma.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S211c Sands, Charlene Cowboys cativados [recurso eletrônico] / Charlene Sands, Marin Thomas; Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: A cowboy's promise; Carrying the rancher's heir Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1951-5 (recurso eletrônico) 1. Romance americana. I. Thomas, Marin. II. Vianna, Maria. III. Romeu, Celina. IV. Título. 15-23555

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: CARRYING THE RANCHER’S HEIR Copyright © 2011 by Charlene Swink Originalmente publicado em 2011 por Harlequin Desire Título original: A COWBOY’S PROMISE Copyright © 2009 by Brenda Smith-Beagley Originalmente publicado em 2009 por Harlequin American Romance Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380


Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Sumário Introdução

Sobre a autora

O HERDEIRO PROTEGIDO Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10

Sobre a autora

PROMESSAS DE UM COWBOY Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11


Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14

Créditos

(cowboy 02) cowboys cativados charlene sands, marin thomas  
(cowboy 02) cowboys cativados charlene sands, marin thomas  
Advertisement