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Aprendendo a amar – Diana Palmer Autora Bestseller do NEW YORK TIMES

Ela terá que reconquistar o coração de um cowboy… Shelby Jacobs jamais teve a intenção de machucar Justin Ballenger quando rompeu o noivado com ele, seis anos atrás. Na verdade, Shelby sempre o amou, porém foi forçada a se afastar. Com a família passando por momentos difíceis, ela está sozinha em Jacobsville e precisa desesperadamente da ajuda de Justin. Shelby fará de tudo para se reaproximar desse cowboy amargurado. Mas será que Justin permitirá que o amor derrube as defesas de seu coração?

O coração de um cowboy – Roxann Delaney Laçando o amor! Tanner O’Brien importava-se somente com duas coisas: rodeios e cuidar do sobrinho. Não havia motivo nenhum para ter ficado tão distraído com a garota da cidade grande que visitava a pequena Desperation. Jules Vanderveer era o oposto do que Tanner considerava atraente em uma mulher. Mas por trás da bondade dela com seu sobrinho havia algo escondido que fez Tanner desejar uma cura para sua dor. Penetrar o interior frio de Jules e conquistar seu coração seria uma tarefa árdua… mas Tanner era o cowboy perfeito para o trabalho!


Diana Palmer Roxann Delaney

TUDO POR UM COWBOY

Tradução Gracinda Vasconcelos Celina Romeu

2015


SUMÁRIO

Aprendendo a amar O coração de um cowboy


Em 2005, o senado dos Estados Unidos aprovou uma lei que decreta que o quarto sábado de Julho é o Dia Nacional do Cowboy Americano. “Esses homens e mulheres pioneiros ajudaram a criar o Oeste americano. O espírito do cowboy continua a inspirar a nação com o seu caráter sólido, fortes valores familiares e grandioso senso de comunidade. O cowboy é a personificação de honestidade, integridade, coragem, companheirismo, respeito, ética e patriotismo.” Vida longa ao cowboy!


Sobre a autora Diana Palmer Diana Palmer começou a escrever aos 13 anos e nunca mais parou. Trabalhou por dezesseis anos como repórter e colunista de um jornal. Porém, quando vendeu o primeiro livro para a Sillhouette Books, em 1980, decidiu deixar a carreira de jornalista para dedicar-se exclusivamente aos romances e a criar as histórias surpreendentes que as leitoras tanto adoram. Diana se casou com James Kyle cinco dias depois de conhecê-lo, e, mesmo após décadas, continuam juntos e felizes. O casal vive na Geórgia e tem um zoológico particular que inclui: quatro cachorros, três gatos, vários lagartos exóticos e um emu chamado George.


Diana Palmer

APRENDENDO A AMAR

Tradução Gracinda Vasconcelos


Querida leitora, Justin Ballenger mal pode acreditar que Shelby Jacobs voltou para a cidade. Seis anos antes, ela rompeu o noivado afirmando tê-lo traído com outro homem, e foi embora de Jacobsville sem olhar para trás. Justin passou todo esse tempo tentando se convencer de que jamais amaria novamente. Mas ter Shelby por perto outra vez desperta sentimentos que nem mesmo esse cowboy durão consegue domar! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


CAPÍTULO 1

A MANHÃ estava quente, e a meteorologia já prometera temperaturas na casa dos trinta graus para a tarde. Mas o calor não parecia diminuir o ímpeto dos licitadores, e o leiloeiro, postado na elegante entrada da alta mansão branca, mantinha sua ladainha monótona, apesar de enxugar de tempos em tempos as bagas de suor que lhe escorriam pelas papadas. Enquanto seguiam o andamento do leilão, os olhos pretos de Justin Ballenger se estreitaram sob a aba do caro e macio chapéu Stetson. Não estava ali para comprar. Não hoje. Mas tinha um interesse pessoal neste leilão em particular. A mansão dos Jacobs estava sendo leiloada, e ele deveria ter uma sensação de triunfo ao ver o legado de Bass Jacobs ir pelo ralo. Mas, estranhamente, isso não acontecia. Sentia-se vagamente perturbado com todo o processo. Era como se predadores estivessem atacando uma vítima desamparada até só restarem os ossos. Continuou a procurar, por entre a multidão, Shelby Jacobs, mas ela não estava à vista. Possivelmente, ela e o irmão, Tyler, estavam dentro da casa, ajudando a selecionar a mobília e outras antiguidades a serem leiloadas. Um movimento à esquerda lhe chamou a atenção. Abby Ballenger, sua cunhada há seis semanas, estava a seu lado. – Não esperava encontrá-lo aqui – disse-lhe, sorrindo. Vivera com ele e Calhoun, seus quase meiosirmãos, desde a trágica morte do pai deles e da mãe dela, que estavam de casamento marcado. Por isso os irmãos tinham decidido levar Abby para morar com eles e tomar conta dela. E, há apenas algumas semanas, ela e Calhoun tinham se casado. – Nunca perco um leilão – respondeu ele. Olhou em direção ao leiloeiro. – Não vi os Jacobs. – Ty está no Arizona. – Abby suspirou, e não deixou de reparar o súbito brilho nos olhos escuros de Justin. – Ele também não foi sem oferecer resistência, mas houve algum tipo de emergência no rancho que ajuda a gerir. – Shelby está sozinha? – As palavras foram-lhe praticamente arrancadas. – Receio que sim. – Abby olhou-o e desviou o olhar, mal escondendo o sorriso. – Ela está no apartamento que alugou na cidade. – Abby alisou uma prega na saia cinza. – Fica em cima do escritório de advocacia onde trabalha…


O escuro e severo rosto de Justin se tornou ainda mais tenso. O cigarro ficou esquecido em sua mão ao se virar para Abby, o corpo esguio bem mais alto que o dela. – Aquilo não é um apartamento, pelo amor de Deus, é um depósito velho. – Barry Holman lhe deu autorização para restaurá-lo – disse Abby, os olhos pálidos e sem malícia, o próprio retrato da inocência sob o cabelo escuro. – Ela não tem muita escolha, Justin. Com a venda da casa, onde mais poderia morar com aquilo que ganha? Foi tudo embora, sabe? Tyler e Shelby pensaram que poderiam pelo menos ficar com a casa e a propriedade, mas precisaram dos últimos tostões para saldar as dívidas do pai. Justin murmurou algo ininteligível, olhou fixamente a casa grande e elegante que, de algum modo, simbolizava tudo o que ele passara a odiar na família Jacobs nos últimos seis anos, desde que Shelby terminara o noivado e o traíra. – Não está contente? – Abby provocou-o gentilmente. – Afinal, você a odeia. Deveria gostar de vê-la de joelhos em público. Ele não deu mais uma palavra. Virou-se abruptamente, a expressão dura como pedra, e caminhou para o local onde seu Thunderbird estava estacionado. Abby sorriu para si mesma. Ela sabia que obteria uma reação dele se conseguisse fazê-lo ver o quanto isso afetaria Shelby. Durante todos esses longos anos, ele evitara qualquer contato com a família Jacobs, até mesmo a menção desse nome em casa. Mas nos últimos meses começara a aparentar uma grande tensão. Abby tinha quase certeza de que ele ainda sentia alguma coisa pela mulher que o rejeitara, e que Shelby também sentia alguma coisa por ele. Abby, delirantemente feliz em seu próprio casamento, queria que o resto do mundo fosse tão feliz como ela. Talvez, empurrando Justin na direção certa, ela conseguisse tornar felizes duas pessoas infelizes. Justin soubera da venda da mansão apenas naquela manhã, quando Calhoun tocara no assunto no escritório do posto de engorda para gado em que eram sócios. Tinha sido anunciada na imprensa, mas Justin estivera fora da cidade, vendo gado, e não lera a notícia. Não estava surpreso em saber que Shelby se mantinha afastada do leilão. Ela tinha nascido naquela casa. Tinha vivido ali toda a sua vida. Na realidade, seu avô fundara a pequena Jacobsville, no Texas. Pertenciam à riqueza antiga, e os meninos maltrapilhos dos Ballenger, do precário rancho de gado no final da rua, não eram o tipo de amigos que a sra. Bass Jacobs queria para os filhos, Tyler e Shelby. Mas ela tinha morrido, e o sr. Jacobs se mostrara amigável com os Ballenger, especialmente quando Justin e Calhoun abriram o posto de engorda. E quando o velho senhor soube que Shelby pretendia se casar com Justin Ballenger, disse a Justin que não podia estar mais satisfeito. Justin tentava não pensar na noite em que Bass Jacobs e o jovem Tom Wheelor tinham ido vê-lo. Agora tudo voltou. Bass Jacobs estava perturbado. Disse-lhe, sem preâmbulos, que Shelby estava não só apaixonada por Tom, como o casal vinha dormindo junto durante toda a farsa do “noivado” com Justin. Ele estava envergonhado por ela, lamentara Bass. O noivado tinha sido a forma de pressionar o relutante admirador, mas agora que Justin tinha servido a seu propósito, Shelby não precisava mais dele. Com tristeza, entregou a Justin o anel de noivado, e Tom Wheelor murmurou uma desculpa envergonhada. Bass até chorara. Talvez a vergonha tivesse desencadeado seu próximo passo, porque imediatamente prometera a Justin a retaguarda financeira necessária para tornar o novo posto de engorda um sucesso. Havia apenas uma condição – que Shelby nunca ficasse sabendo de onde viera o dinheiro. E então foi embora. Justin não era capaz de julgar alguém sem provas, e mal esperou Bass ligar o motor do carro para telefonar para Shelby. Mas ela não negou o que Justin acabara de ouvir. Na verdade, confirmou tudo,


até o fato de ter dormido com Wheelor. Ela só tinha querido provocar o ciúme de Tom para que ele a pedisse em casamento, disse a Justin. Esperava que ele não ficasse muito aborrecido, mas ela sempre tivera tudo o que queria, e Justin ainda não era suficientemente rico para satisfazer seus desejos. Mas Tom era... Justin acreditara. E como ela o tinha afastado na única vez em que tentara fazer amor com ela, a confissão soou verdadeira. A bebedeira que tomara a seguir se tornara lendária. E durante os últimos seis anos, nenhuma outra mulher sequer chegara perto o suficiente para causar qualquer dano a seu coração. Tinha permanecido impermeável a todas as propostas, e não faltaram algumas. Ele não era um homem bonito. O rosto moreno era duro demais, as feições, irregulares demais, a fisionomia sisuda, proibitiva demais. Mas ele tinha riqueza e poder, e isso era um chamariz para as mulheres. Era, no entanto, amargurado demais para aceitar esse tipo de atenção. Shelby o magoara como ninguém mais em sua vida, e durante anos vivera apenas com o desejo de vingança. Mas vê-la agora de joelhos, sem dinheiro, era insatisfatório. Tudo em que conseguia pensar é que ela seria magoada, sem ter família ou amigos para confortá-la. O apartamento em cima do escritório de advocacia em que trabalhava era pequeno, e a proximidade constante com o patrão solteiro não lhe agradava nem um pouco. Conhecia a reputação de Holman, e os mexericos diziam que ele gostava de mulheres bonitas. Shelby, com o longo cabelo preto, corpo esbelto e olhos verdes brilhantes, mais do que se encaixava nessa categoria. Estava agora com 27 anos, não tão nova, mas não parecia mais velha do que quando ficara noiva de Justin. Tinha ainda um ar inocente que fazia Justin ranger os dentes. Era falso; ela mesma o admitira. Ele parou à porta do apartamento, a mão pronta para bater. Havia um som abafado dentro. Não eram risadas. Lágrimas? Seu queixo se retesou, e ele bateu com força. O barulho cessou abruptamente. Houve um rangido, como o arrastar de uma cadeira, e o ruído de passos ligeiros que pareciam ecoar as batidas rápidas e firmes de seu coração. Shelby abriu a porta vestindo um jeans justo e desbotado e uma camisa azul axadrezada, o longo cabelo escuro despenteado, caindo em ondas até as costas, os olhos verdes, úmidos e avermelhados. – Veio tripudiar, Justin? – perguntou com calmo amargor. – Não me dá nenhum prazer vê-la humilhada – respondeu ele, o queixo erguido, os olhos apertados. – Abby me disse que você estava sozinha. Ela suspirou, baixando os olhos para suas botas empoeiradas e gastas. – Tenho estado sozinha há bastante tempo. Aprendi a viver assim. – Mexeu-se, irrequieta. – Há muita gente no leilão? – O jardim está cheio – avisou. – Tirou o chapéu e segurou-o numa das mãos, enquanto passava a outra pelo cabelo escuro liso e espesso. Ela olhou para cima, pousando os olhos desamparados nas linhas vincadas de seu rosto duro, na boca bem talhada que ela beijara tão sofregamente seis anos antes. Ela fora tão desesperadamente apaixonada por ele nessa época. Mas ele tinha se revelado ousado demais na noite do noivado, e seu ardor a amedrontara. Ela lutara para se desvencilhar dele, e a lembrança de como tudo tinha sido entre eles, até o medo se tornar tangível, era formidável. Ela desejara tão mais do que tinham experimentado, mas tinha mais razões do que a maior parte das mulheres para temer a intimidade. Mas Justin não sabia disso e ela fora tímida demais para explicar seu comportamento. Virou-se com um gemido angustiado.


– Se conseguir suportar minha companhia, preparo-lhe um copo de chá gelado. Ele hesitou, mas só por um instante. – Seria bom – disse em voz baixa. – Está um calor infernal lá fora. Foi atrás dela, inconscientemente fechando a porta. Mas parou atônito ao ver com o que ela tinha de lidar. Ele se enrijeceu e quase praguejou em voz alta. O apartamento improvisado só tinha dois quartos. Estavam vazios, a não ser por um sofá surrado, uma cadeira, uma mesa de café em mau estado e um pequeno aparelho de televisão. As roupas estavam aparentemente guardadas em algum closet, porque não se via vestígio de cômoda. Na cozinha, havia um forninho, uma chapa elétrica e uma pequena geladeira. Isto, quando ela estava acostumada a empregados, vestidos de seda, pratarias e mobília Chipppendale. – Meu Deus – sussurrou. Suas costas se retesaram, mas ela não se voltou ao sentir a pena em sua voz profunda. – Não preciso de pena, obrigada – disse secamente. – Não foi culpa minha termos perdido a casa, foi do meu pai. E afinal a casa era dele. Posso abrir meu próprio caminho no mundo. – Não assim, raios! – Bateu com o chapéu na mesa do café e tirou o bule de chá das mãos dela, pondo-o de lado. Suas mãos longas, endurecidas pelo trabalho, seguraram os pulsos dela, e olhou-a com determinação. – Não ficarei parado vendo-a tentar sobreviver numa ratoeira como esta. Barry Holman e sua caridade que vão para o diabo. Shelby estava chocada, não apenas pelo que ele dizia, mas por sua atitude. – Não é uma ratoeira – hesitou ela. – Comparado ao que você estava acostumada, é – retrucou. Seu peito subiu e desceu com um suspiro irritado. – Pode ficar comigo por enquanto. Ela ficou vermelha como um pimentão. – Na sua casa, sozinha com você? Ele ergueu o queixo. – Na minha casa – concordou. – Não na minha cama. Não terá que me pagar por um teto sobre sua cabeça. Lembro-me com bastante clareza de que não gosta de minhas mãos em você. Ela teve vontade de se enfiar num buraco, diante da amarga ironia dessas palavras. Não conseguia encarar aqueles olhos negros ou desafiar as secas palavras sem causar embaraço a ambos. De todo modo, tinha sido há muito tempo. Já não importava agora. Em vez disso, olhou para sua camisa, para a massa de pelos pretos sob a seda branca. Ele deixara que ela o tocasse ali, uma vez. Na noite do noivado, tinha desabotoado a camisa e permitido que as mãos dela fizessem o que bem entendessem. Beijara-a como se morresse de vontade de beijá-la, mas assustou-a de verdade quando os beijos foram longe demais. Até aquela noite, nunca tinha tentado tocá-la ou ido além de beijos rápidos e leves. Sua contenção, de início, a deixara perturbada, depois, curiosa. Certamente Justin era tão experiente como o irmão, Calhoun. Mas talvez tivesse dúvidas quanto à diferença social entre eles. Naquela altura, Justin mal podia ser considerado de classe média, e a família de Shelby era rica. Isso não a incomodava, mas podia ver que incomodava Justin. Especialmente depois que ela o rejeitara, devido à insistência traiçoeira do pai. Ela, no entanto, ajustara as contas com o pai. Este tinha planejado casá-la com Tom Wheelor, numa fria fusão de propriedades, e Justin tinha-se interposto. Mas Shelby tinha recusado as investidas de Tom Wheelor e nunca permitira que a tocasse. Dissera a Bass Jacobs que não se casaria com seu jovem e rico


amigo. O velho senhor não se dera por achado na ocasião, mas pouco antes de morrer, ao perceber o quão desesperadamente Shelby amava Justin, arrependera-se do que tinha feito. Não contara a Shelby que a culpa o levara a bancar o posto de engorda para gado de Justin, mas se desculpara. Ela olhou para cima, procurando silenciosamente os olhos escuros de Justin, lembrando. Tinha sido difícil viver sem ele. O sonho de amá-lo, de ter filhos dele tinham morrido há muito, mas ainda era um prazer indescritível poder olhar para ele. E as mãos dele em seus pulsos faziam seu corpo brilhar e vibrar com desejos reprimidos, como a ameaça de seu corpo forte cheirando a água-de-colônia. Se pelo menos seu pai não tivesse interferido. Inevitavelmente, ela teria conseguido explicar a Justin seus medos, pedindo que fosse gentil, que fosse devagar. Mas agora era tarde demais. – Sei que não me quer mais, Justin – disse suavemente. – Até entendo por quê. Não precisa se sentir responsável por mim. Vou ficar bem. Posso tomar conta de mim. Ele respirou devagar, tentando manter o controle. A sensação de sua pele sedosa estava-lhe causando problemas. Relutantemente, seus polegares começaram a acariciar os pulsos dela. – Sei disso – disse ele. – Mas você não combina com este lugar. – Neste momento não posso pagar um apartamento melhor – disse ela. – Mas vou ter um aumento após dois meses de trabalho, e então talvez possa alugar o quarto que era de Abby na sra. Simpson. – Pode alugá-lo agora – disse laconicamente. – Empresto-lhe o dinheiro. Ela baixou os olhos. – Não, não ficaria bem. – Só nós saberíamos. Ela mordeu o lábio inferior. Não podia lhe dizer que detestava a ideia de estar neste lugar, tão próximo a Barry Holman, que era um bom patrão, mas um inveterado mulherengo. Hesitou. Antes de poder dizer sim ou não, alguém bateu à porta. Justin a soltou com relutância e a viu andar até a porta. Lá estava Barry Holman, de jeans e camiseta de mangas compridas, louro, de olhos azuis, e esperançoso. – Oi, Shelby – disse amavelmente. – Pensei que precisasse de alguma ajuda com a mudança. – A voz lhe faltou ao ver Justin atrás dela. – Não é o caso – disse Justin, com um sorriso frio. – Ela está de saída para a casa da sra. Simpson. Vai ficar com o antigo quarto de Abby. Estou ajudando na mudança, embora saiba que ela ficou agradecida pelo oferecimento deste – olhou ao redor com desagrado – apartamento. Barry Holman engoliu em seco. Conhecia Justin há muito tempo, e estava a ponto de se convencer de que os mexericos entreouvidos eram verdadeiros. Justin podia não querer Shelby para si próprio, mas logo aparecia se outra pessoa qualquer tentasse se aproximar dela. – Bom – disse sorrindo –, é melhor eu voltar para baixo. Tenho que dar alguns telefonemas. Prazer em vê-lo, Justin. Vejo-a na segunda de manhã cedo, Shelby. – Obrigada assim mesmo, sr. Holman – disse ela. – Não quero parecer ingrata, mas a sra. Simpson também serve refeições e lá é muito tranquilo. – Ela sorriu. – Não estou acostumada a viver na cidade, e a sra. Simpson está com o quarto imediatamente disponível… – Nenhum problema, vá em frente. – Barry sorriu. – Até logo. Justin olhou-o fixamente. – Galãzinho – murmurou. Era só o que lhe faltava. Ela virou-se, olhando-o docemente.


– Tenho 27 anos – disse. – Quero me casar e, com o tempo, ter filhos. O sr. Holman é simpático e não tem maus hábitos. – Exceto que dormirá com qualquer coisa que use saias – respondeu sucintamente. Não gostava de pensar em Shelby tendo filhos de outro homem. Os olhos negros examinaram seu corpo. Sim, estava envelhecendo, não que aparentasse. Em oito ou dez anos, a gravidez poderia ser arriscada. Sua expressão endureceu. – Ele nunca me faltou com o respeito. – Ela titubeou, confusa pela maneira como ele a olhava. – Dê-lhe tempo – inspirou profundamente. – Eu disse que vou lhe emprestar o suficiente para alugar o quarto na sra. Simpson. Se está tão obstinada com essa coisa de independência, pode me pagar de volta quando for conveniente para você. Ela teve de engolir o orgulho, e doía ter de aceitar sua ajuda quando sabia o quanto ele ainda estava amargurado em relação ao passado. Mas era um homem atencioso, e ela, uma pessoa desgarrada no mundo. O coração de Justin era grande demais para lhe permitir virar as costas para ela, mesmo depois do que pensou que ela lhe fizera. Lágrimas quentes e rápidas afloraram aos seus olhos verdes ao pensar no que fora forçada a lhe dizer, no quanto o magoara. – Eu sinto tanto – disse inesperadamente, mordendo o lábio enquanto se virava. As palavras, e as emoções que ocultavam, o surpreenderam. Certamente não estava arrependida a essa altura. Ou estaria apenas representando para ter pena dela? Não podia confiar nela. Ela se recompôs e afastou o cabelo solto do pescoço enquanto servia o chá em dois copos com gelo. – Vou deixar que me empreste o dinheiro, se realmente não se importa – disse, estendendo-lhe o copo sem o olhar. – Não gosto da ideia de viver sozinha. – Eu também não, Shelby, mas isso é uma coisa com a qual a gente se acostuma depois de algum tempo – disse mansamente.Ele sorveu o chá, mas não conseguia desviar os olhos do doce rosto oval. – Como se sente, tendo que trabalhar para seu sustento? Ela não reagiu à ironia de suas palavras. Sorriu. – Eu gosto – disse surpreendentemente, e ergueu os olhos para ele. – Eu tinha coisas para fazer, sabe, quando tínhamos dinheiro. Pertencia a uma porção de grupos voluntários e de caridade. Mas o escritório de advocacia lida com pessoas infelizes. Quando consigo fazê-las se sentirem um pouco melhor, esqueço meus problemas. As sobrancelhas negras dele se juntaram enquanto bebia o líquido âmbar e adocicado. O copo estava gelado sob seus dedos magros. Ela procurou os olhos negros dele. – Não acredita em mim, não é, Justin? – perguntou de modo perceptivo. – Via-me como uma socialite; uma mulher razoavelmente atraente com dinheiro e de origem refinada. Mas isso era uma ilusão. Você, na verdade, nunca me conheceu. – No entanto, eu a queria – respondeu, observando-a. – Mas você nunca me quis, meu bem. Não fisicamente, em todo caso. – Você me apressou! – gritou ela, enrubescendo à medida que se lembrava daquela noite. – Apressei! Até aquela noite não a tinha sequer beijado intimamente, pelo amor de Deus! – Seus olhos negros faiscaram com a lembrança da rejeição e de sua própria certeza doentia de que ela não o amava. – Vinha mantendo você num pedestal até então. E durante todo esse tempo você estava dormindo com o garoto milionário! Ela levantou as mãos.


– Nunca dormi com Tom Wheelor! – Você disse que sim – lembrou-lhe com um sorriso frio. – Na verdade, jurou que sim. Ela fechou os olhos tomada por uma onda amarga de arrependimento. – Sim, disse – concordou cansada e virou-se. – Tinha quase esquecido. – E ficar falando sobre o que já aconteceu não leva a nada, não é? – perguntou ele. Pousou o copo e pegou um cigarro, acendendo-o sem tirar os olhos da rígida expressão dela. – Não importa mais. Vamos. Levo-a até a sra. Simpson e você pode tratar o quarto. Shelby sabia que ele não cederia um centímetro. Ele não esquecera coisa alguma e ainda a desprezava. Sentiu-se como se carregasse o mundo sobre os frágeis ombros, ao pegar a bolsa e segui-lo. Não olhou para ele enquanto saíam.


CAPÍTULO 2

JUSTIN ENFIOU um maço de notas na bolsa de Shelby quando parou o Thunderbird na rua lateral perto da casa da sra. Simpson. Ela tentou protestar, mas ele simplesmente deu uma tragada no cigarro e a ignorou. – Disse-lhe antes que a questão do dinheiro ficava entre nós – falou em voz baixa, os olhos escuros desafiadores; desligou o motor. Virou-se no assento, as longas pernas estendidas enquanto alcançava o controle das janelas no painel. Era uma estrada rural e pouco frequentada. Tinha parado sob os ramos frondosos de um carvalho. Apoiou o cotovelo na janela aberta para examinar Shelby minuciosamente. – É verdade. Se quiser encarar isso como um empréstimo, é com você. Ela mordeu o lábio inferior. – Vou conseguir lhe pagar um dia – disse obstinadamente, embora duvidasse da promessa. Com o que ganhava, já ia ser difícil comer e pagar o aluguel. Roupas novas talvez se tornassem uma coisa impossível. – Não estou preocupado. – Mas eu estou. – Olhou para cima, todas as dúvidas nos olhos verdes. – Ah, Justin, o que vou fazer? – lastimou-se. – Estou só pela primeira vez na vida. Ty está no Arizona, não tenho família… – Dominou-se, evitando olhá-lo. – É só pânico – disse de modo firme. – Só medo. Acabarei me acostumando. Desculpe ter falado assim. Ele se manteve calado. Nunca tinha visto Shelby indefesa. Ela sempre fora composta e calma. Era uma sensação nova e ligeiramente perturbadora vê-la amedrontada. – Se as coisas ficarem difíceis demais – respondeu ele em voz baixa –, pode vir morar comigo. Ela riu sem vontade. – Isso faria muito bem para nossa reputação. Ele exalou uma nuvem de fumaça. – Se os mexericos a incomodam tanto, podemos nos casar – disse em tom de indiferença, mas seus olhos escrutinavam o rosto dela. Ela sabia que não estava respirando. Olhou para ele, sentindo as velhas feridas se abrirem dolorosamente. – Por quê?


Ele não queria responder. Não queria admitir, nem para si mesmo, que continuava vulnerável. Encolheu os ombros. – Você precisa de um teto. Eu estou cansado de viver sozinho. Desde que Abby e Calhoun se mudaram, a maldita casa parece um mausoléu. – Está com pena de mim – acusou ela. Ele deu outra tragada no cigarro. – Talvez esteja. E daí? Neste momento você não tem muitas opções. Ou me pede emprestado para pagar a pensão da sra. Simpson ou se casa comigo. Estudou a ponta do cigarro. – É claro que sempre pode voltar para o depósito transformado em apartamento em cima do escritório de Barry Holman e mostrar a ele que está disponível. – Pare com isso – murmurou ela. Mexeu-se agitadamente. – O sr. Holman não é esse tipo de homem. E você não tem razão para se sentir possessivo em relação a mim. – Não tenho? – Seus olhos negros procuraram os dela. – Mas sou, mesmo assim. E me lembro de você dizer a mesma coisa sobre mim. Fomos noivos, Shelby. Esse tipo de envolvimento não desaparece. – Grande envolvimento – disse ela com um suspiro cansado. – Nunca cheguei a entender por que queria se casar comigo. – Você era um motivo de orgulho para mim – disse ele friamente, mentindo descaradamente. – Uma rica sofisticada. Eu era apenas um garoto do interior com estrelas nos olhos, e você me enganou direitinho, minha senhora. Agora é minha vez. Eu tenho dinheiro e você não. – Estreitou os olhos escuros. – E não pense que quero me casar com você por causa de alguma paixão recolhida. Ele não tinha esquecido. Estava em seus olhos, em todo o seu semblante. Ele se casaria com ela e faria com que ela ansiasse por um amor que ele nunca sentiria, não poderia sentir por ela. Ele a desprezava por pensar que ela tinha dormido com Tom Wheelor, e essa era a maior de todas as piadas. Ela ainda era virgem. E descobrir isso da forma mais difícil não o deixaria desconcentrado? – Não – suspirou, respondendo à pergunta com atraso. – Não sou tão estúpida a ponto de pensar que você ainda me quer, depois do que fiz a seu orgulho. – Levantou os olhos para examinar a postura orgulhosa e arrogante de sua cabeça, os olhos sombreados pelo Stetson que sempre usava. – Costumava pensar que gostava um pouco de mim, embora você nunca tivesse dito isso. Essa era a verdade. Nunca tivera certeza do que o fez querer se casar com ela. Com exceção daquela única noite, nunca tentara levá-la para a cama nem parecia envolvido emocionalmente. Mas ela estava tão apaixonada por ele que não percebera quão pouco envolvido ele parecia até depois do rompimento do noivado. Ele ignorou as observações dela. – Se quer segurança, posso proporcioná-la – disse sossegadamente. – Agora tenho dinheiro, embora nunca venha a me equiparar a seu pai. Ele tinha milhões. Ela fechou os olhos, envergonhada. Tinha que agradecer ao pai e à própria ingenuidade a amargura de Justin. Mas Justin queria vingança, e ela seria uma tola se se oferecesse numa bandeja de prata. – Não, Justin. Não posso me casar com você – disse um minuto depois. Sua mão buscou a maçaneta da porta. – Foi uma ideia maluca! – Virou a cabeça de forma a que ele pudesse ver apenas seu perfil. Ele pôs sua mão sobre as delas por um instante, segurando-a, mas retirou-a com igual rapidez. Sua expressão endureceu. – É uma casa grande – disse. – Com Calhoun e Abby morando em outro lugar, só Maria e Lopez estão comigo. Você não precisaria trabalhar, se não quisesse, e teria segurança.


Ele estava lhe oferecendo o céu, só que de maneira impessoal. Mais do que tudo, ele sentia pena dela. Mas sob a pena havia uma necessidade mais sombria; ela podia senti-la. Alguma coisa nele pedia vingança pela rejeição de seis anos atrás. Seu orgulho queria reparação. Bem, será que ela não lhe devia isso, perguntou-se amargamente, depois do que o pai lhe havia custado? E estaria perto dele. Faria as refeições com ele. Podia se sentar a seu lado à noite, enquanto ele via televisão. Podia dormir sob o mesmo teto. Seu coração faminto queria tanto isso. Demais. – Suponho que não… imagino que nunca quererá… – Ela nem conseguia dizê-lo. Um filho, era no que pensava, embora só Deus soubesse como conseguiria lidar com o processo necessário para produzir um. – Não vou querer um divórcio – disse ele, enganando-se quanto ao que ela estava pensando. Os olhos dele se estreitaram. – Não sou exatamente um Mister América, caso você ainda não tenha percebido. E não quero uma mulher que precise comprar, a menos que seja nos meus termos. Ela suspeitou que essa era uma indireta sarcástica, já que ele pensava que ela o tinha rejeitado por falta de dinheiro. Ergueu os olhos para ele. – Ainda me odeia, Justin? – precisava saber. Ele a encarou sem falar durante um longo momento, fumando calmamente seu cigarro. – Não tenho certeza do que sinto. Era uma resposta suficientemente honesta, mesmo não sendo uma declaração de amor eterno. Havia tanta mágoa entre eles, tanta amargura. Era provavelmente uma loucura fazer uma coisa dessas, mas ela não conseguiu resistir à tentação. Ela fixou os olhos no cigarro, e não nele. – Então me caso com você, se quer mesmo. Ele não se moveu, mas alguma coisa dentro dele vibrou com essas palavras. Ela não podia saber quantas noites ele passara ansiando apenas por vê-la, quão desesperadamente ele a queria perto dele. Mas nunca poderia confiar nela de novo, e isso era um inferno. Ela era apenas uma pessoa desgarrada, ele disse a si próprio. Apenas alguém que precisava de ajuda. Tinha de pensar nela dessa forma, e não sonhar com a lua. Ela podia até fingir para ele por gratidão, portanto, teria que estar alerta a cada minuto. Mas, Deus, ele a queria tanto! – Então não precisamos ver a sra. Simpson até termos feito planos. – Ele ligou o carro, pegou a estrada e virou o Thunderbird em direção a sua casa. Suas mãos tremiam perceptivelmente. Ele agarrou o volante com força para evitar que Shelby se desse conta do quanto a resposta dela o tinha afetado. Se Maria e Lopez ficaram chocados ao ver Shelby com Justin, nada disseram. Lopez desapareceu na cozinha enquanto Maria dispensava cuidados a Shelby, trazendo café e doces para a sala de estar onde Justin se esparramara em sua poltrona e Shelby se sentara na beirada do sofá. – Obrigada, Maria – disse Shelby com um sorriso caloroso. A mexicana retribuiu o sorriso. – O prazer é meu, señorita. Estarei na cozinha se precisar de mim, señor – acrescentou para Justin antes de sair, fechando discretamente a porta. Shelby reparou que Justin nada comentou sobre as óbvias conclusões de Maria. Talvez Maria tivesse pensado que Justin ia querer derrubá-la no sofá, mas Shelby sabia que não. Justin tinha agido assim uma vez – uma única vez. Ela, de tanto medo, reagira estupidamente. Nunca se tinha perdoado por isso. Justin provavelmente achara que seu ardor lhe era desagradável, e ele tinha sido tudo menos isso.


Ela suspirou, abaixando os olhos até as botas pretas dele. Não eram botas de trabalho; eram as que usava quando estava bem-vestido. Tinha mãos e pés tão grandes. Ela sorriu, lembrando-se de como tinha sido o início do namoro. Pareciam crianças, fascinados com a companhia um do outro, ambos um pouco tímidos e reservados. Nunca tinham ido além de uns beijos, exceto na noite do noivado. – Perguntei se quer café? – repetiu Justin, segurando o bule de prata sobre a xícara que acabara de encher. – Oh, sim, obrigada. – Ela gostava dele puro, e aparentemente ele se lembrava de sua preferência, porque não lhe ofereceu nem creme nem açúcar. Encheu a própria xícara até em cima, colocou um pouco de creme e acomodou-se, equilibrando o pires e a xícara de porcelana no joelho cruzado. Shelby olhou-o e se perguntou como pôde pensar em viver sob o mesmo teto que ele. Ele era tão distante. Obviamente queria vingança. Ela seria uma tola de lhe dar a corda com que iria enforcá-la. Por outro lado, se estivesse morando com ele, teria mais chance do que nunca de fazê-lo mudar de ideia a seu respeito. Tudo que tinha a fazer para provar sua inocência era levá-lo para a cama. Mas aí é que estava todo o problema. Ela tinha um medo mortal de intimidade. – Por que está vermelha? – perguntou, observando-a. Ela pigarreou. – Está quente aqui – disse. – Está? – Riu sem alegria e tomou um gole de café. – Caso esteja cogitando, você terá seu próprio quarto. Não espero qualquer retribuição em troca do teto. O rubor tornou-se vermelho vivo. Teve de se controlar para não jogar a xícara nele. – Faz com que me sinta como um caso de caridade. – Aposto que isso a incomoda – concordou. – Mas Tyler não pode ajudá-la e manter um emprego ao mesmo tempo. E você nunca se safaria com o que Holman lhe paga, com todo o respeito. Secretárias em cidades pequenas não ganham muito. – Não sou mercenária – disse em tom de defesa. – Com certeza – respondeu ele. Sorveu o café sem mais uma palavra. – Ouça, Justin, foi tudo ideia do meu pai, aquele noivado falso com Tom Wheelor… – Seu pai nunca teria feito isso comigo – interrompeu-a friamente, e seus olhos escureceram, ameaçadores, ao se inclinar para a frente. – Não tente usá-lo como bode expiatório só porque está morto. Era um dos meus melhores amigos. É o que você pensa, cismou amargamente. Obviamente, falar com ele não adiantaria nada. O fato de seu pai ter feito uma encenação, fingindo que gostava dele, não era razão para colocá-lo num pedestal. Só Deus sabia por que Justin tinha tanto respeito por um homem que lhe infligira anos de amarga humilhação. – Nunca mais vai confiar em mim, não é? – perguntou ela suavemente. Ele estudou o lindo rosto, os olhos verde-claros que o fitavam, esse olhar queimando-lhe a alma. – Não – respondeu com a honestidade que o caracterizava, tanto quanto o rosto duro ou o espesso cabelo escuro. – Já passou muita água debaixo da ponte. Mas não pense que estou cuidando de um coração partido. Percebi quem era você um pouco cedo demais. Meu orgulho sofreu, mas você nunca atingiu meu coração. – Suponho que nenhuma mulher tenha chegado perto o suficiente para conseguir isso – disse ela com voz macia. Passou os dedos pela borda da xícara de porcelana. – Abby me disse uma vez que fazia tempo que não saía com ninguém.


– Tenho 37 anos – lembrou-lhe. – Tive minha primeira relação há muitos anos, bem antes de começar a sair com você. – Terminou o café e pousou a xícara. Seus olhos negros encararam os dela. – E ambos sabemos que você também teve e com quem. – Você definitivamente não me conhece, Justin – disse. – Nunca conheceu. Disse que eu era um símbolo de status para você, e, olhando para trás, acho que, naquela altura, era isso. – Riu com amargura. – Você costumava sair comigo para me mostrar a seus amigos, e me sentia como aqueles cavalos puros-sangues que Ty costumava levar para as corridas de obstáculos. Ele olhou-a através do cigarro. – Mostrava-a porque era linda e doce e gostava de estar com você – disse pesadamente. – Foi um monte de bobagem essa de querer você como símbolo de status. Ela recostou-se cansada. – Obrigada por me dizer. Mas na realidade não faz diferença agora, faz? – Terminou o café e pousou a xícara. – Vamos nos casar na igreja? – Não somos um pouco velhos para esse tipo de cerimônia? – perguntou. – Vejo que continua a comer cascavéis cruas para manter seu veneno potente – disse ela sem pestanejar. – Quero me casar na igreja. Ele bateu a longa cinza do cigarro no cinzeiro. – Seria mais rápido irmos ao juiz de paz. – Não estou grávida – lembrou-lhe, desviando o rosto. – Não há tanta pressa, não é? Ela o estava encurralando. Ele a olhou fixamente. – Muito bem, faça seu casamento na igreja. Pode ficar na sra. Simpson até o casamento, só para sermos discretos. – Os olhos escuros se estreitaram quando se levantou e apagou o cigarro. – Apenas uma coisa. Não ouse entrar na igreja de vestido branco. Se fizer isso, saio porta afora e continuo andando. Ela ergueu o queixo. – Não sabe o que todas as mulheres da congregação vão pensar? A suave acusação em seus olhos verdes fez com que se sentisse culpado. O caso de Shelby com Tom Wheelor continuava a magoá-lo. Queria alfinetá-la, mas não contara com a mágoa em seus olhos. – Pode usar alguma coisa em tom de creme – murmurou relutantemente. O lábio inferior dela tremeu. – Leve-me para a cama. – Seus olhos o desafiavam, mesmo ela ficando vermelha e estremecendo diante de sua própria ousadia. – Se pensa que estou mentindo quanto a estar inocente, posso provar que estou dizendo a verdade. Seus olhos escuros se voltaram para ela sem pestanejar. – Sabe tão bem quanto eu que é necessário um médico para estabelecer a virgindade. Mesmo um homem experiente não saberia dizê-lo. O rosto dela enrubesceu. Podia lhe dizer que, em seu caso, seria mais do que evidente, e que seu médico podia com facilidade acabar com qualquer dúvida. Começou a fazer isso, apesar do embaraço em falar de assuntos tão íntimos, mas antes que pudesse abrir a boca, Lopez bateu à porta e entrou com um recado para Justin. – Tenho gado na estrada – disse a Shelby. – Venha. Deixo-a na sra. Simpson, primeiro. Pode telefonar para Abby e fazer planos para o casamento. Ela ficará feliz em ajudar com os convites e tudo


mais. Ela nem discutiu. Estava por demais esgotada. Eles iam se casar, mas ele ia fazer com que ela ficasse publicamente difamada, como uma adúltera obrigada a desfilar pelas ruas. Cerrou os dentes a caminho do carro. Bem, ela daria um jeito. Não iria usar nada que não fosse um vestido branco para chegar ao altar. E se ele a deixasse parada ali, tudo bem. Talvez nem quisesse ter dito aquilo. Precisava continuar acreditando nisso, por seu próprio orgulho. Ele não sabia de nada, e ela o tinha ferido. Mas, oh, como as coisas tinham sido diferentes há seis anos. Shelby conhecia os Ballenger de toda a vida. Ty, seu irmão, e Calhoun, irmão de Justin, eram amigos. Isso queria dizer que ela naturalmente via Justin de vez em quando. De início, mostrara-se frio e reservado, mas Shelby encarara-o como um desafio. Começara a provocá-lo de modo delicado, flertando timidamente. E a mudança operada nele tinha sido devastadora. Tinham ido a uma festa de Halloween em casa de amigos comuns, e alguém dera a Shelby um violão. Para surpresa de Justin, ela o tocara com facilidade, tentando acompanhar os esforços ineptos do anfitrião, que estava aprendendo a solar. Sem uma palavra, Justin sentara-se numa cadeira ao lado dela e estendera a mão. O anfitrião, com um sorriso que Shelby na época não entendera, entregara o instrumento a Justin. Ele acenou para Shelby, marcou o ritmo com a bota e iniciou uma interpretação de “San Antonio Rose” que fez a casa vir abaixo. Passado o primeiro choque, os dedos longos e graciosos de Shelby pegaram o ritmo e o acompanharam com perfeição. Ele a olhou nos olhos, quando estavam terminando, e sorriu. E, nesse momento, Shelby lhe entregou o coração. Não tinha sido uma coisa repentina, na realidade. Ela sabia há anos o quanto ele era atencioso. Tinha acolhido Abby em sua casa quando a mãe dela e o sr. Ballenger tinham morrido tragicamente num desastre de carro. Justin estava sempre por perto quando alguém precisava de ajuda, e não havia ninguém tão generoso e trabalhador em toda Jacobsville. Também tinha gênio, mas ele o mantinha sob controle a maior parte das vezes, e seus empregados o respeitavam porque não lhes pedia nada que ele próprio não estivesse disposto a fazer. Era o patrão, juntamente com Calhoun, mas Justin era sempre o primeiro a chegar e o último a sair quando havia trabalho. Tinha muitas excelentes qualidades, e Shelby, jovem e impressionável, estava na idade certa para se apaixonar perdidamente por um homem mais velho. Após essa noite, parecia ver Justin em toda parte. No restaurante onde almoçava com uma amiga às terças e quintas, em eventos sociais, em bazares de caridade, quando cavalgava pelos caminhos que levavam à propriedade Ballenger. Não lhe ocorrera se perguntar por que uma pessoa tão ocupada, tão trabalhadora teria de repente tanto tempo livre e o passava em lugares sabidamente frequentados por ela. Estava apaixonada, e cada segundo passado com Justin alimentava seu coração sequioso. No começo, não pensou que ele estivesse interessado nela. Tinham muito em comum, apesar da diferença de meio, e ele parecia gostar de conversar com ela. Então, de repente, tudo mudou. Estavam andando por uma trilha, perto de onde tinham amarrado os cavalos, e Justin tinha parado e se encostado a uma árvore. Ele não dissera uma única palavra, mas a expressão de seus olhos dizia tudo. Segurava um cigarro numa mão, mas estendera a outra para Shelby. Shelby não sabia o que esperar quando a pegou. Seu coração martelava, ela olhava para a boca de Justin e a queria obsessivamente. Talvez ele tivesse percebido, mas não tirou vantagem disso.


Puxou-a para junto de si. Somente as mãos se tocavam. Depois, os olhos negros dele procuraram pelos verdes suaves dela, inclinou-se vagarosamente, dando-lhe todo o tempo do mundo para recuar, para hesitar, para lhe mostrar que não o queria. Mas ela queria. Permaneceu muito quieta enquanto seus lábios roçaram os dela, os olhos abertos, observando-o. Ele ergueu a cabeça e procurou seus olhos. Jogou fora o cigarro e amassou-o com a bota, enquanto o coração dela disparava. Seus braços a enlaçaram, trazendo-a para junto dele, mas não intimamente. Ele se inclinou de novo e a beijou com ternura e respeito. Ela o beijou de volta da mesma maneira, os braços em torno dos ombros dele, a mente mergulhando em camadas de prazer. Ele recuou um minuto depois, soltando-a sem uma palavra. Pegou a mão dela e começaram a andar. – Quer um casamento grande ou basta o civil? – perguntou como se estivessem discutindo o tempo. E assim, com essa rapidez, ficaram noivos. Naquela noite foram dar a notícia ao pai dela. Embora sua primeira reação fosse explosiva, eles não notaram. Ele se virara o tempo suficiente para se recompor e depois iniciara uma conversa amena e dera boas-vindas a Justin, acolhendo-o na família. Justin levou Shelby até sua casa para contar as novidades a Calhoun e Abby, mas Abby estava passando a noite com uma amiga, e Calhoun tinha voado para Oklahoma a negócios. Tinham a casa toda à disposição deles. Shelby se lembrava vivamente de como tinham rido e brindado à felicidade futura. Então ele a puxara para si, beijando-a de maneira totalmente diferente, e ela enrubescera diante da intimidade de sua língua tentando penetrar delicadamente entre seus lábios. – Vamos nos casar – sussurrara, encantado com a inocência dela. – Não vou machucá-la. – Eu sei. – Enterrou o rosto na camisa de seda branca. – Mas é tudo tão novo, ficar assim com você. – É novo para mim também – respirou. Seu peito subia e descia pesadamente. Ele levou as mãos dela um pouco para o lado dos botões de sua camisa e apertou-as com força contra ele, enquanto os desabotoava, e então guiou os dedos dela para a farta camada de pelos que cobria seu peito musculoso e queimado de sol. – Agora – respirou – toque em mim, Shelby. Ela estava chocada com essa nova intimidade, mas quando ele se inclinou e a beijou na boca, ela se esqueceu do choque e relaxou. Seus dedos se curvaram, gostando de senti-lo, gostando de seu cheiro que permanecia como especiarias em suas narinas. – Mais forte – sussurrou ele em voz rouca. Pressionou as mãos dela e viu uma expressão em seus olhos que nunca tinha visto nas semanas em que haviam saído juntos. Alguma coisa impetuosa e descontrolada era visível ali. Ela estremeceu ao vislumbrar o desejo que não esperava encontrar naquele homem tão controlado. Então ele a agarrou pela nuca, erguendo-a até sua boca, e beijou e mordiscou seus lábios, provocando nela um efeito inesperado e inacreditável. Soltou um gemido desamparado, assustada diante das novas sensações. Mas para Justin um gemido tinha um significado completamente diferente. Ele pensou que ela estivesse imersa em prazer como ele estava, e sua boca, de repente, tornou-se invasiva, insistente. Suas mãos desceram até os esbeltos quadris de Shelby e, subitamente, suspenderam-na contra ele, num abraço que a deixou sem sentidos. Ela sabia muito pouco sobre os homens e intimidades, mas a mudança nos contornos do musculoso corpo de Justin mostrou-lhe graficamente o que ele estava sentindo. Ele gemeu dentro de sua boca, enquanto se movia contra ela com óbvia excitação.


Ela lutou, mas ele era forte e estava fora de si de paixão. Não percebeu que ela estava tentando se libertar até ela afastar a boca e empurrá-lo, implorando-lhe para parar. Ele levantou a cabeça, arfando, os olhos negros de frustração. – Shelby… – suspirou em agonia. – Solte-me! – gemeu. – Por favor, Justin, não! – Paro antes de chegarmos ao limite – sussurrou ele contra sua boca, e inclinou-se para beijá-la de novo. Com os protestos dela abafados sob sua boca quente e entorpecedora, ergueu-a e a carregou para o sofá, deitando-a gentilmente, ao comprido, nas macias almofadas. Ele estremeceu de desejo, a boca firmemente pressionada contra a dela. Deslizou o corpo sobre o dela, apertando-a contra as almofadas, pesado, duro e íntimo. Ela sentiu a perda de controle dele com verdadeiro medo. Ela sabia o que podia acontecer e que estavam noivos. Ele podia não se esforçar muito para parar. – Justin! – Não vou tirar sua virgindade, Shelby – suspirou ele em sua boca. Seu cenho se franziu num prazer agonizante enquanto suas mãos deslizavam sobre os quadris de Shelby. – Oh Deus, meu bem, não se reprima comigo. Deixe-me amá-la. Beije-me também… As palavras desapareceram contra a boca macia. Ele a beijou com mais sofreguidão, sua perda de controle evidente nos movimentos rápidos de seus quadris contra os dela, as mãos em movimentos exploratórios sobre seus seios. Então colocou o joelho entre suas pernas e ela entrou em pânico. Começou a brigar com ele, com medo da desconhecida intimidade que ultrapassava sua experiência. Empurrou-o. Finalmente, ele pareceu sentir sua relutância. Levantou a cabeça, os olhos chispando com avidez, e apenas a olhou por um instante, desorientado. Então, quando se deu conta da rejeição, quando a percebeu na rigidez do corpo dela, de repente largou-a e levantou-se. Quando ela conseguiu respirar de novo, ele estava de pé a alguns metros, fumando um cigarro. Passaram-se alguns minutos de tensão antes que ele se virasse para servir conhaque em dois copos. Estendeu-lhe um e sorriu zombeteiramente pela maneira como ela evitava tocá-lo. Afastou-se dela para olhar pela janela enquanto bebericava o conhaque. Suas costas estavam duras como pau. – Dormiremos juntos depois de nos casarmos – disse. – Espero que saiba que não pretendo ter quartos separados. – Eu sei. – Ela sorveu a bebida com mãos trêmulas, querendo explicar, mas a atitude dele era pouco convidativa. – Justin, sou virgem. – E acha que eu não sabia? – perguntou secamente. Olhou para ela com expressão fria e totalmente impenetrável, escondendo emoções que ela nem podia adivinhar. – Meu Deus, vamos nos casar. Devo parar completamente de tocá-la até o anel estar em seu dedo? Ela começou a falar e abaixou os olhos até o copo. Enrijeceu. – Talvez seja mais prudente. – Tendo em vista minha falta de controle, é o que quer dizer. – Falou gelidamente, num tom que ela desconhecia. Ele bebeu o conhaque e, após alguns momentos, a raiva parecia ter desaparecido, para alívio de Shelby. Ele não se desculpou, mas foi até ela, pegou gentilmente sua mão, sorrindo-lhe como se nada tivesse acontecido. Beberam o conhaque e ele lhe ensinou uma canção mexicana, depois que o conhaque envelhecido e os efeitos secundários da noite começaram a produzir resultados. Maria e Lopez tinham então voltado para casa de uma festa, e Justin levara Shelby para casa. Maria tinha


ralhado com ele em espanhol, e só mais tarde Shelby ficou sabendo que a canção que ele lhe ensinara não podia ser cantada em público. Ela esperava pelo casamento com alegria, mas também com apreensão. A paixão de Justin a deixara inquieta, fazendo-a duvidar de sua capacidade de se equiparar a ele. Ele era experiente e ela não, e sentia mais medo do que nunca de Justin voltar a perder o controle ao fazer amor com ela. Mas não houve razão para alarme, porque não houve mais atividades sexuais acaloradas. A atitude mais ardente da parte dele nos dias que se seguiram foi beijá-la no rosto ou ficar de mãos dadas e, o tempo todo, mantendo aqueles olhos negros a examiná-la com uma expressão estranha. Ela relaxou e começou a gostar de novo de sua companhia, perdendo o nervosismo, uma vez que ele nada exigia dela. Então, de repente, seu pai tinha posto um fim àquilo. Abra mão de Justin – ordenou-lhe – ou veja-o perder tudo que tem. Justin acabaria por odiá-la, disse o pai. Ele a culparia por ter ficado pobre e o casamento não teria a menor chance. Seu orgulho acabaria com ele. Ele, nessa época, era muito jovem e ingênua, e o pai era tarimbado em conseguir o que queria. Obteve a ajuda de Tom Wheelor, que se interessou, motivado pela expectativa de uma vantajosa fusão. E ela tinha feito o que o pai queria: mentira para Justin, admitira tê-lo traído com Tom, enfatizara sua necessidade de fortuna e posição, coisas que Justin não podia lhe dar. Há tanto tempo, pensou. Tanta dor. Estivera apenas protegendo Justin, tentando poupar-lhe a agonia de perder tudo o que ele e a família tinham construído ao longo de tanto tempo e com tanta dificuldade. Mas, nesse processo, sacrificara a própria felicidade. Era a única culpada pela frieza de Justin. E não apenas se culpava pela traição, como também por não ter sido honesta com ele quanto às razões pelas quais tivera medo de que a tocasse. Agora ele ia se casar com ela por piedade, e não por amor. E, além disso, havia também o desejo de vingança. Não sabia como iria viver com ele, mas só a proximidade faria com que ele mudasse de opinião a seu respeito. E morar com ele seria tão doce. Mesmo que ela não pudesse ser a mulher de que ele precisava, era paradisíaco poder estar a seu lado. Talvez um dia ela tivesse a coragem de lhe contar a verdade sobre ela, de fazê-lo compreender. Todas as dúvidas voltaram. Mas dera sua palavra de que se casaria e não podia voltar atrás. Tinha que fazer o melhor possível e esperar que a sede de vingança de Justin não fosse o motivo que o induzia a se casar com ela.


CAPÍTULO 3

ABBY TINHA sido requisitada para ajudar Shelby nos preparativos do casamento. Shelby sempre gostara da pupila dos irmãos Ballenger. Abby parecia compreender tão bem o que se passava entre Justin e sua ex-noiva. – Imagino que Justin não esteja facilitando as coisas – disse Abby, enquanto preenchiam os envelopes dos convites que tinham acabado de trazer da gráfica. Shelby afastou uma mecha do cabelo escuro, suspirando gentilmente. – Ele tem pena de mim – disse com um pálido sorriso. – E talvez queira se vingar. Mas receio que isso seja tudo que tem para me dar. – Ele parecia estar se recuperando bem, na noite em que fomos dançar quadrilha e Calhoun passou quase toda ela dançando com você – lembrou Abby, com um sorriso irônico. Era fácil rir do passado agora, embora ela e Justin tivessem ficado arrasados na ocasião. Shelby pigarreou. – Justin disse o que pensava enquanto dançávamos. Depois, imagino que tenha caído em cima de Calhoun, a julgar por sua expressão. Estava furioso. – Furioso! – Abby riu. Seus olhos azul-acinzentados procuraram os de Shelby. – Ele foi para casa e tomou um porre. Pior – confessou com pesar – me fez tomar um também. Quando Calhoun voltou, após tê-la levado em casa, estávamos escarrapachados no sofá tentando encontrar um jeito de ficarmos em pé e trancá-lo do lado de fora. Os olhos de Shelby brilharam, divertidos. – Abby! – Oh, ainda tem mais – continuou –, Justin me ensinou uma canção espanhola horrivelmente obscena. Shelby enrubesceu, lembrando-se da primeira vez em que ouvira essa canção. – Ele a ensinou para mim também, na noite de nosso noivado, e tínhamos começado a cantá-la quando Maria entrou e ficou furiosa. Abby acabou um dos envelopes, colocou um convite dentro dele e o fechou distraidamente, enquanto estudava a expressão pensativa de Shelby. – Justin nunca conseguiu esquecer você, sabe disso.


Shelby ergueu os olhos. – Nunca conseguiu esquecer o que fiz, você quer dizer. Ele é tão rígido, Abby. E não posso culpá-lo pelo que sente. Naquela ocasião dilacerei seu orgulho. – Por quê? A outra mulher apenas sorriu. – Pensei que o estivesse salvando, veja só – disse em voz baixa. – Meu pai não queria um vaqueiro como genro. Tinha um ricaço escolhido para mim, um casamento vantajoso financeiramente. Mas eu não quis entrar no jogo dele, e quando descobriu que tinha aceitado me casar com Justin pôs-se em campo para destruir nossa relação. – Virou um envelope fechado nas mãos. – Nunca tinha me dado conta do quanto meu pai era implacável até então. Ele prometeu arruinar Justin se eu não fizesse o que ele queria. – Alisou o envelope enquanto relembrava a amargura. – Não acreditei nele e o enfrentei. O banco executou a hipoteca do posto de engorda e os irmãos Ballenger quase perderam tudo. – Foi há muito tempo – disse Abby, gentilmente tocando a mão dela. – O posto de engorda está próspero agora. Na realidade, já era naquela época, não era? – Meu pai prometeu que, se eu aceitasse sua proposta, ele mexeria alguns pauzinhos para dissuadir o banco de pôr o posto em leilão público. Justin me falou sobre os procedimentos de falência – acrescentou. – Ele estava arrasado. Falou mesmo em terminar o noivado. Foi quando pensei que, se ia perdê-lo de um jeito ou de outro, melhor seria que fosse de forma vantajosa para ele. Nessa época – continuou, lembrando-se do distanciamento e da frieza de Justin – pensei que ele pudesse ter mudado de ideia quanto a se casar comigo. Eu era bastante reservada. – Não aprofundou o assunto, mas recordou claramente a maneira como Justin tinha reagido quando ela lutara para se afastar dele no sofá. Mas certamente isso não tinha ferido seu orgulho. Devia ser um homem bastante experiente. Abby inclinou-se para a frente. – O que é que seu pai fez? – Ele fabricou Tom Wheelor, meu novo noivo, e levou-o para conhecer Justin. Disse a Justin – continuou sem entonação – que eu só saíra com ele para obrigar Tom a se declarar, porque Tom era rico e Justin não. Agiu como se toda a culpa fosse minha, eu era a culpada. Justin acreditou. Acreditou que o tinha deliberadamente iludido apenas para tornar Tom ciumento o bastante para se casar comigo. Então papai disse a Justin que Tom e eu éramos amantes, e Tom confirmou. Abby ergueu os olhos. – Mas não eram – disse com firmeza. Shelby sorriu. – Deus a abençoe por ver a verdade. Lógico que não. Mas, para salvar o negócio periclitante de Justin, tinha que concordar com a mentira de meu pai. Portanto, quando Justin me telefonou e me pediu que lhe contasse a verdade, disse-lhe o que tinha sido instruída para dizer. – Olhou para o tapete. – Disse-lhe que queria dinheiro, que nunca o tinha querido, que era tudo um jogo que fizera para me divertir enquanto fisgava Tom. – Fechou os olhos. – Acho que nunca vou conseguir esquecer o silêncio na linha ou o modo como desligou, sem fazer barulho. Algumas semanas depois, toda a conversa sobre a falência morreu, e concluí que meu pai convencera o banco de que os Ballenger eram um bom risco. Tom Wheelor e eu saímos por algum tempo para convencer Justin, e então fui para a Europa por seis meses e fiz o que pude para me matar em saltos de esqui por toda a Suíça. Finalmente, voltei, mas alguma coisa em mim morreu por conta do que meu pai fez. Ele acabou percebendo isso, um pouco antes de falecer. Até se desculpou. Mas era tarde demais.


– Se pelo menos conseguisse fazer com que Justin ouvisse… – Abby suspirou. – Ele não o fará. Não consegue me perdoar, Abby. Foi como uma execução pública. Todos ficaram sabendo que lhe dera o fora por um homem mais rico. Você sabe como ele odeia mexericos. Isso destruiu seu orgulho. Abby fez uma careta de reprovação. – Ele deve ter percebido que seu pai não o aprovava. – Oh, essa é a melhor parte. Meu pai recebeu Justin na família de braços abertos e fez um estardalhaço de como ficaria orgulhoso de seu novo filho. – Riu amargamente. – Mesmo quando foi falar com Justin, acompanhado por Tom, meu pai desempenhou seu papel à perfeição. Estava quase em lágrimas pela forma como tratara o pobre do Justin. – Mas por quê? Só por uma fusão? Ele não se preocupava com sua felicidade? – Meu pai era um construtor de impérios – disse simplesmente. – Não deixava que coisa alguma interferisse nos negócios, muito menos os filhos. Ty nunca ficou sabendo – acrescentou. – Teria ficado furioso se tivesse suspeitado de alguma coisa, mas fazia parte do trato que nada dissesse a Ty. – Nunca contou a verdade a Ty? – Não me pareceu necessário – respondeu Shelby. – Ty é um solitário. É difícil até para mim conversar com ele, me aproximar. Acho que talvez seja por isso que nunca se casou. Não consegue se abrir com as pessoas. Papai foi duro com ele. Ainda mais do que comigo. Ele ridicularizou Ty e o intimidou durante quase toda a nossa infância. Ele se tornou durão porque precisou, para poder aguentar a vida familiar. – Nunca imaginei. Gosto do Ty – disse Abby com um sorriso. – É um homem muito especial. Shelby retribuiu o sorriso. Não contou a Abby que Ty tivera um fraco por ela. Além de ter perdido a herança e ter sido forçado a trabalhar para terceiros, o fato de ter perdido as esperanças em relação a Abby fora a última gota. Ty partira para o Arizona e seu novo emprego sem uma palavra de arrependimento. Talvez a mudança lhe fizesse bem. A sra. Simpson trouxe uma bandeja com café e bolo, e as três mulheres ficaram sentadas, conversando sobre o casamento, até que Abby precisou ir embora. Shelby não contara a ninguém a conversa que tivera com Justin sobre o vestido. Mas, no dia seguinte, foi à pequena butique que uma de suas amigas de infância tinha em Jacobsville, e o elegante conjunto de linho que comprou para se casar era branco. Isso não a preocupava, porque sabia que podia provar a Justin que tinha todo o direito de usar o simbólico vestido branco. Foi, então, fazer os exames pré-nupciais. O dr. Sims fora seu médico a vida toda, e esse homem alto e grisalho era como se fosse da família para todos os seus pacientes. A calma explicação que lhe deu após o exame, e após o hemograma feito em seu laboratório, deixou-a completamente doente. E mesmo que ela tivesse protestado, ele fora inabalável quanto à necessidade. – É apenas uma cirurgia sem importância – disse ele. – Não vai sentir nada. E, francamente, Shelby, se não for feita, sua noite de núpcias vai ser um pesadelo. – Ele lhe explicou em detalhes e, ao terminar, ela percebeu que não tinha escolha. Justin podia jurar que nunca mais iria procurá-la na cama, mas ela sabia que era pouco realista partir do princípio de que podiam viver juntos sem ultrapassar os limites. E a pequena cirurgia evitaria a dor. Finalmente concordou, mas insistiu em que a operação fosse feita apenas parcialmente, de forma a não haver dúvidas quanto à sua virgindade. O dr. Sims resmungou alguma coisa sobre idiotice fora de


moda, mas fez como ela pediu. Murmurou alguma coisa sobre a dificuldade que ela ainda poderia ter, por causa de sua teimosia, e que ela poderia precisar voltar a procurá-lo. Ela não quis discutir o assunto, porque era importante que Justin acreditasse nela. Era a única prova que lhe restava. O problema é que ela não contara com a perspectiva desse desconforto e não conseguia deixar de pensar no assunto. Teria feito a coisa certa? Queria que Justin descobrisse, sem que fosse preciso contar a ele, que ela era inocente. Mas a perspectiva da dor era tão amedrontadora como no passado, talvez mais. O casamento foi o acontecimento social da temporada. Shelby não esperava que tantas pessoas se reunissem na igreja metodista de Jacobsville para assistir a seu casamento. Certamente havia mais pessoas do que ela convidara. Abby e Calhoun estavam sentados no banco reservado à família, de mãos dadas, o homem alto e louro e a mulher morena, tão apaixonados que irradiavam felicidade à sua volta. Ao lado deles estava Tyler, o irmão de Shelby, moreno de olhos verdes, mais alto que todos, à exceção de Calhoun. Havia vizinhos e amigos, e Misty Davies, a amiga de Abby, do outro lado da igreja. Justin não estava à vista, e Shelby quase entrou em pânico ao se recordar da ameaça que ele fizera de ir embora caso ela vestisse branco. Mas, quando deram início à marcha nupcial, o ministro e Justin estavam à espera dela no altar. Ela precisou morder com força o lábio inferior e apertar o buquê de margaridas para não tremer a caminho do altar. Ela e Justin tinham decidido prescindir dos padrinhos e madrinhas e de muita cerimônia, optando apenas pelo serviço religioso. Havia muitas flores no altar e um candelabro com três velas brancas apagadas. O ministro em suas vestes e Justin num terno escuro formal, muito elegante, esperavam que a noiva se juntasse a eles. Quando o alcançou e ocupou seu lugar ao lado dele, Shelby levantou os olhos. Os olhos verdes captaram os olhos negros, e a expressão dela o convidava a fazer o que tinha ameaçado: sair da igreja. Foi um momento de grande tensão e, por um terrível segundo, pareceu que ele estava pensando nisso. Mas o momento passou. Ele pousou os olhos frios no ministro e repetiu as instruções dadas, sem traço de expressão em sua voz profunda. Colocou uma delicada aliança de ouro na mão dela. Não tinha havido anel de noivado e ele sequer mencionara essa possibilidade. Comprara a aliança pessoalmente, numa de suas idas à cidade, e não tinha perguntado se ela queria que ele também usasse uma. Provavelmente ele não queria. Responderam às últimas perguntas e acenderam duas velas, cada um juntando a chama da sua à terceira, significando a unidade de duas pessoas em uma. O ministro pronunciou-os marido e mulher e convidou Justin a beijar a noiva. Justin virou-se para Shelby com uma expressão que ela não conseguiu decifrar. Olhou-a por um longo momento antes de inclinar a cabeça e roçar-lhe os lábios com um leve e frio beijo. Em seguida, tomou-lhe o braço e guiou-a em direção ao saguão, onde em poucos segundos foram cercados pelas pessoas que queriam lhes desejar felicidade. Não houve tempo para conversas. A recepção ocorreu no salão da igreja destinado a essas e outras reuniões, onde ponche, doces e canapés foram consumidos, enquanto Justin e Shelby entretinham os convidados. Alguém com uma câmera pediu-lhes que posassem para uma foto. Não tinham contratado um fotógrafo, descuido que deixou Shelby secretamente desapontada. Esperava pelo menos ter uma foto dos dois juntos, mas essa talvez servisse.


Postou-se atrás dele e sorriu, sentindo o braço dele puxá-la para seu lado. Levantou os olhos para ele, mas era difícil manter o sorriso com aqueles olhos negros cortando os dela. Assim que a câmera desapareceu, ele a fuzilou com os olhos. – Eu disse qualquer cor menos branco. – Sim, Justin. Sei que disse – respondeu calmamente. – Mas pense em como você se sentiria se insistisse em que você usasse um vestido azul, em vez de um terno preto para se casar. Ele piscou, como se não tivesse ouvido bem. – Um vestido branco significa... – começou com indignação. – … um primeiro casamento – terminou ela. – E este é o meu. Os olhos dele chisparam. – Você e eu sabemos que há uma segunda razão implícita para o uso do branco, e você não tem esse direito. Ele reparou que alguma coisa escureceu os olhos dela, e os seus próprios se estreitaram. – Mas você me disse que poderia prová-lo, não disse, Shelby? – Sorriu friamente. – Sou até capaz de deixar que faça isso antes de terminarmos. Ela enrubesceu e desviou o olhar. Por um instante, ficou acovardada, pensando em como seria difícil se ele não fosse delicado, se a tratasse como a mulher da vida que achava que era. Não valia a pena pensar nisso, e ela estremeceu. – Não tenho que lhe provar nada. Ele riu, com um som de gelo partido. – Não pode, não é? Foi tudo uma bravata para me manter em suspenso até que nos casássemos. Ela ergueu os olhos para ele. – Justin… – Pouco importa. – Pegou um cigarro e acendeu-o. – Já lhe disse que não vamos dividir a cama. Não dou a mínima para sua castidade. Ela sentiu uma dolorosa tristeza pelo que poderia ter havido entre eles; olhou com terna adoração suas feições talhadas. Ele era tão bonito. Não lindo, mas bonito como homem, desde a compleição flexível e robusta até o farto cabelo e olhos negros, e a pele de cor azeitonada. Ele era exatamente como um homem deveria ser, concluiu. Ele olhou para ela, surpreso por aquela calorosa apreciação. Com o cigarro parado no ar, procurou seu olhar, sustentando-o por tanto tempo que o coração dela bateu descompassadamente no peito. Ela baixou o olhar até sua boca bem-feita e subitamente foi tomada por uma paixão quase incontrolável. Se pelo menos ela conseguisse ser aquela mulher desinibida que gostaria de ser, e não esta amedrontada inocente. Justin a intimidava. Ele devia ser tão experiente quanto Calhoun. Ela o tinha desapontado, mas talvez conseguisse lhe dizer a verdade e lhe pedir que fosse delicado. Estremeceu só de pensar em contar a ele uma coisa tão íntima. Foi uma bênção que Tyler tivesse escolhido esse momento para se despedir, poupando Shelby do embaraço de ouvir Justin caçoar de sua fraqueza. – Tenho de pegar o voo de volta para o Arizona – disse à irmã, enquanto inclinava a cabeça para lhe dar um beijo no rosto. – Minha patroa temporária morre de medo dos homens. Os olhos de Shelby brilharam. – Ela o quê? Ty parecia francamente desconfortável.


– Ela fica nervosa com homens por perto – disse com relutância. – Diabos, ela se esconde atrás de mim nas festas, nas reuniões… é constrangedor. Shelby teve de se conter para não rir. Seu independente irmão não gostava de mulheres grudentas, mas esta parecia o estar afetando de modo muito estranho. A patroa temporária era a sobrinha do patrão permanente. Morava no Arizona, onde estava tentando resolver o problema do rancho endividado. O patrão de Ty em Jacobsville o tinha mandado lá para ajudar. De início, tinha detestado, e ainda parecia detestar, mas talvez a misteriosa senhora do Arizona estivesse mexendo com ele. – Quem sabe ela se sente segura com você? – perguntou Shelby. Olhou-a aborrecido. – Bom, isso tem de parar. É como ter uma hera venenosa se enroscando por todo o seu corpo. – Ela é feia? – insistiu Shelby. – Meio sem graça e sem sofisticação – murmurou. – Não é de todo má, acho, se a gente gosta do tipo moleque. Eu não gosto – acrescentou obstinado. – Por que não se demite? – perguntou Justin. – Pode vir trabalhar comigo e com Calhoun; já lhe oferecemos emprego antes. – Sim, sei e fico muito agradecido, considerando as dificuldades entre nossas famílias – Ty respondeu honestamente. – Mas este trabalho é como um desafio, e gosto dessa parte. Justin sorriu. – Venha ficar conosco quando sentir saudades. Ty apertou a mão estendida. – Sou capaz, um dia. Gosto de crianças – acrescentou. – Alguns sobrinhos e sobrinhas não me incomodariam. Justin parecia capaz de matar e Shelby ficara vermelha. Ty franziu a testa e Justin deu graças a Deus que Calhoun e Abby tivessem se juntado a eles a tempo de evitar problemas. Ele não queria pensar em crianças. Shelby certamente não iria querê-las, não a julgar pela forma como reagira na única vez em que ele se mostrara ardente. Ela sentia repulsa por ele. – Não é um lindo casamento? – perguntou Calhoun a Ty, juntando-se ao pequeno grupo, o braço ao redor de uma sorridente Abby. – Isso não lhe dá ideias? Ty sorriu para Abby. – Dá sim, com certeza. Faz com que queira me vacinar depressa – respondeu secamente. – Vai superar essa atitude um dia – assegurou Calhoun. – No final, caímos todos no laço – acrescentou e desviou-se quando Abby o acertou no peito. – Desculpe, meu bem – brincou, dando-lhe um beijo na testa. – Sabe que não estou falando sério. – Podemos lhe dar uma carona até o aeroporto ou alugou um carro? – Abby perguntou a Ty. – Aluguei um carro, mas obrigado assim mesmo. Por que vocês dois não me acompanham até o carro? – beijou Shelby novamente. – Seja feliz – disse gentilmente. – Espero que sim – disse ela e sorriu em direção a Justin. Ty concordou, mas não parecia convencido. Quando saiu do salão da igreja com Abby e Calhoun, estava preocupado e de cenho franzido. Parecia que a recepção não terminaria nunca, e Shelby ficou satisfeita quando finalmente puderam ir para casa. Justin mandara Lopez buscar os pertences de Shelby na casa da sra. Simpson naquela manhã. O quarto de hóspedes tinha sido preparado para Shelby. Maria tinha questionado isso, mas apenas uma vez, porque os olhos frios de Justin a tinham silenciado. De todo modo, Maria percebia mais do que ele


supunha. Ela, como todos na propriedade, sabia que, apesar da amargura, Justin mantinha um carinho especial por Shelby. Ela estava só e empobrecida, e não foi surpresa para ninguém Justin ter-se casado com ela. Se ele sentia a necessidade de uma pequena vingança no decorrer do processo, isso tampouco surpreendia. – Graças a Deus acabou – disse Justin cansadamente quando se encontraram sozinhos em casa. Tirou a gravata e o paletó, desabotoou o colarinho e enrolou as mangas. Parecia dez anos mais velho. Shelby pôs a bolsa na mesa do hall e tirou os sapatos de salto alto, massageando os pés no macio tapete da sala. Era agradável não estar seis centímetros mais alta. Justin olhou-a e sorriu para si próprio, mas se virou antes que ela percebesse. – Quer sair para jantar ou ficamos aqui? – Tanto faz. – Suponho que iria parecer estranho se fôssemos para um restaurante em nossa noite de núpcias, não é? – acrescentou, com um sorriso irônico. Ela o olhou zangada. – Vá em frente – convidou. – Estrague o resto todo também. Deus me livre de me divertir no dia de meu próprio casamento. Ele a olhou com desagrado, à medida que ela se virou e começou a subir as escadas. – De que está falando? Ela não olhou para ele. Apoiou-se no corrimão e olhou para cima. – Não conseguiria ter deixado seus sentimentos mais claros se exibisse um cartaz com todas as suas mágoas pintadas com sangue. Sei que me odeia Justin. Casou-se comigo por piedade, mas parte de você ainda quer me fazer pagar. Ele acendera um cigarro e o fumava encostado no batente da porta, o rosto calmo, os olhos negros curiosos. – Sonhos custam a morrer, meu bem, não sabia? – disse friamente. Ela se virou, os olhos verdes firmes nos dele. – Você não foi o único a sonhar, Justin – disse ela. – Eu gostava de você! O queixo dele enrijeceu. – Claro que sim. Foi por isso que me traiu com aquele garoto milionário. Ela golpeou o corrimão distraidamente. – É estranho que não tenha me casado com ele, não é? – perguntou casualmente. – Muito estranho quando queria tanto o dinheiro dele a ponto de rejeitar você, não acha? Ele levou o cigarro à boca. – Suponho que ele a deixou, ao descobrir que você queria mais o dinheiro do que ele próprio. – Nunca me interessei por ele ou pelo dinheiro dele – disse honestamente. – O meu era suficiente. Ele sorriu para ela. – Era mesmo? – Certamente ela não esperava que ele acreditasse que ela não sabia das dificuldades financeiras que o pai vinha atravessando. – Você se recusa a ouvir – resmungou ela. – Sempre se recusou. Tentei lhe contar por que terminei o noivado… – Pois sim que você me contou! Não suportava que a tocasse, mas já sabia disso. – Seus olhos brilharam perigosamente. – Você me repeliu na noite em que ficamos noivos – acrescentou com voz


rouca. – Tremia como uma folha e seus olhos estavam do tamanho de pires. Não via a hora de fugir de mim. Os lábios dela se entreabriram, respirando lentamente. – E você pensou que fosse por repulsa, naturalmente? – perguntou, sentindo-se infeliz. – O que mais podia ter sido? – retrucou ele, os olhos brilhando. – Não nasci ontem. – Ele se virou. – Troque de roupa e vamos jantar. Não sei quanto a você, mas estou com fome. Ela queria poder lhe dizer a verdade. Desejava isso, mas ele parecia muito distante, e sua atitude desligada a intimidava. Com um suspiro, virou-se e subiu as escadas, de forma entorpecida, pensando em como iria viver com um homem com quem não conseguia sequer ter uma conversa íntima. Tiveram um calmo jantar de núpcias. Maria pôs tudo sobre a mesa, e ela e Lopez tiraram folga pelo resto da noite, apresentando discretas congratulações antes de saírem. Justin reclinou-se na cadeira quando terminou seu bife com salada, observando Shelby beliscar o dela. Sentiu-se vagamente culpado pelo dia do casamento. Mas, de certa forma, estava se escondendo dela. Escondendo seus verdadeiros sentimentos, escondendo sua apreensão de perdê-la uma segunda vez. Isso o torturara emocionalmente há seis anos. Achava que não conseguiria suportar uma segunda vez, por isso tentava se proteger para não ficar vulnerável demais. Mas o pequeno rosto triste dela o incomodava. – Droga, Shelby – rosnou –, não fique com essa cara. Ela ergueu os olhos. Estavam sem vida. – Estou cansada – disse suavemente. – Você se incomoda se for me deitar depois de comermos? – Sim, me incomodo. – Pôs de lado o guardanapo e acendeu um cigarro. – É nossa noite de núpcias. Ela riu com amargura. – É mesmo. O que você tem em mente? Mais alguns comentários sobre meu passado promíscuo? Ele franziu a testa ligeiramente. Não parecia Shelby. Aquele som cortante em sua voz era perturbador. Seus olhos se estreitaram. Ela tinha perdido o pai, a casa, todo um estilo de vida, até o irmão. Tinha perdido tudo nas últimas semanas e se casara com ele porque precisava de um pouco de segurança. Ele tinha transformado a vida dela num inferno, e hoje parecia ter sido a gota d’água. Não tinha sido sua intenção. Não queria magoá-la. Mas não conseguia ficar calado; eram tantas as mágoas. Ele suspirou pesadamente. Os olhos negros procuraram o rosto abatido, relembrando dias melhores, mais felizes, quando podia olhá-la e se embriagar só de ver seu sorriso. – Tem certeza de que quer continuar a trabalhar? – perguntou em voz baixa, apenas para mudar de assunto, para manter a conversa num nível mais ameno. Ela olhou para o prato. – Sim, gostaria – disse ela. – Nunca trabalhei antes, a não ser em funções sociais e como voluntária. Gosto do meu emprego. – E Barry Holman? – perguntou ele, com um sorriso de desafio. Ela se levantou. Ainda usava a saia branca e a blusa rosa-claro, e estava feminina, elegante e muito desejável. O longo cabelo caía em ondas sobre os ombros, e Justin queria poder se levantar, pegar duas mãos cheias deles e beijá-la até ela não conseguir ficar de pé. – O sr. Holman é meu patrão – disse ela. – Não meu amante. Eu não tenho um amante. Ele também se levantou, chegando mais perto, os olhos apertados e calculadores, o corpo tenso com anos de desejo frustrado. – Você vai ter um – disse secamente.


Ela não recuou. Não lhe daria a satisfação de vê-la fugir. Ergueu o rosto orgulhosamente, embora os joelhos estivessem fracos e o coração batesse descompassadamente. Tinha medo dele por causa do passado, porque ele queria vingança. Tinha medo porque ele pensava que ela fosse experiente, e mesmo com a pequena cirurgia, ela sabia que não iria ser fácil. Justin era enganadoramente forte. Ela conhecia a força daquele corpo esguio e musculoso, e ser subjugada por ele, num momento de paixão, era um pouco assustador. Ele viu o medo em seus olhos e compreendeu imediatamente. – Está equivocada, meu bem – disse calmamente. – Muito equivocada. Nunca a machucaria na cama, nem por vingança nem por qualquer outra razão. O lábio inferior dela tremeu num soluço abafado e lágrimas encheram-lhe os olhos. Abaixou o olhar até o largo peito dele, sem reparar no leve choque provocado por sua reação no rosto dele. – Talvez não conseguisse evitá-lo – sussurrou. – Shelby, você realmente tem medo de mim? – perguntou, com voz rouca. Os frágeis ombros dela se mexeram. – Sim, lamento. – Teve medo com ele? – perguntou. – Com Wheelor? Ela abriu a boca para responder, mas desistiu. De que adiantava? Ele não ia ouvir. Ela se virou e foi em direção à escada. – Fugir não resolverá nada – disse ele, sucintamente, vendo-a ir com uma mistura de sentimentos, sendo o maior deles a raiva. – Nem tentar falar com você – replicou. Parou ao pé da escada, os olhos verdes brilhantes pelas lágrimas reprimidas e por ter recuperado o sangue-frio. – Aja como quiser. Faça-me pagar. Acabei de ficar sem as coisas que me são caras e não tenho absolutamente mais nada a perder, portanto, preste atenção, Justin. Não vou fazer o papel de mulher de sociedade. Vou ser eu mesma, e sinto muito se isso destrói alguma de suas antigas ilusões. Ele a olhou, quieto. – E isso quer dizer? – Nenhum caso – respondeu ela, lendo os pensamentos dele. – Apesar do que pensa a meu respeito, não estou sofrendo por falta de homem. – Esse tanto eu acredito – disse breve. – Meu Deus, obtenho mais calor de um cubo de gelo do que alguma vez recebi de você! Ela sentiu o impacto dessas palavras como punhais contra a pele nua. Devia ter percebido que ele a julgava frígida, mas isso nunca lhe tinha ocorrido. – Talvez Tom Wheelor tenha conseguido mais – jogou-lhe na cara. Seus olhos negros encheram-se de raiva. Chegou mesmo a dar uns passos em direção a ela, antes que o controle férreo que mantinha sobre seu gênio o detivesse. Shelby percebeu o movimento e agradeceu a Deus ele ter parado. Ergueu o queixo. – Boa noite, Justin. Obrigada pelo teto sobre minha cabeça e um lugar para morar. Os olhos dele pestanejaram enquanto ela subia a escada. Olhando para ela recordou-se dos anos de sonhos, da deliciosa lembrança de apenas estar com ela, da frustração de ter se contido e perdê-la mesmo assim. Ele ainda gostava dela. Mentira para salvaguardar seu orgulho, mas ele gostava tanto! E a estava perdendo uma vez mais.


Ele queria dizer que não tivera a intenção de acusá-la de frigidez. Ele a desejara com loucura, e ela não o tinha querido. Isso o magoara muito mais do que o fim do noivado, particularmente quando descobrira que Tom Wheelor era seu amante. Isso quase o matou. E aqui estava ela, jogando isso em sua cara, atingindo-o nos lugares mais vulneráveis. Ele se perguntara muitas vezes se ela o acharia repulsivo fisicamente. Foi que o fez acreditar que ela era sincera ao dizer que não o queria, que preferia Tom Wheelor – sua relutância em permitir que ele se aproximasse. E agora ela estava diferente. Não era mais a tímida e introvertida jovem que conhecera há seis anos. Estava estranhamente inquieta, espirituosa e desinibida quando conseguia relaxar. Mas ele não podia se dobrar. Não conseguia se dobrar o suficiente para lhe dizer o que tinha no coração, o quanto ainda a queria, porque não ousava confiar nela de novo. Ela o magoara demais. Olhou-a subir a escada, com os olhos negros, suaves e ávidos. Não se moveu até perdê-la de vista.


CAPÍTULO 4

SHELBY ESPERARA para além da esperança que Justin ainda a amasse. Que tivesse se casado com ela não tanto por compaixão, mas também por amor. Mas o dia do casamento a convencera de que o pouco de emoção que lhe sobrara depois de anos de amargura tinha desaparecido. Ele ainda a culpava pelo que pensava ter feito com Tom Wheelor e achava que ela era frígida. Ela não sabia como lidar com seus próprios medos e a raiva dele. Seu casamento ia ser tão vazio como tinha sido sua vida. Não haveria bebezinhos de cabelo escuro para cuidar, nada de amor, doce e suave, na escuridão, não se compartilhariam as delícias de uma vida em comum. Haveria apenas quartos separados e vidas separadas e a fome de vingança de Justin. A depressão que ela levara para a cama na noite de núpcias só fez piorar. Justin tolerava sua presença, mas passava a maior parte do tempo fora de casa. Durante as refeições, falava-lhe apenas quando necessário e nunca a tocava. Comportava-se como um anfitrião educado, não como um marido. E com o passar de cada miserável dia, Shelby começou a sentir uma inconsequência até então desconhecida. Um fim de semana em que Justin estava fora, ela participou de uma corrida de canoa nas corredeiras com Misty Davies, a amiga de Abby. Tentou saltar de paraquedas. Inscreveu-se num curso de esgrima. Voltou aos dias mais despreocupados da adolescência. Justin nunca a conhecera de verdade, pensava às vezes. Ele parecia surpreso com as coisas que ela apreciava e, em uma ou duas ocasiões, parecia incomodado com o estilo de vida dela. Bem, o que ele esperava que ela fizesse, pensou com irritação, ficasse em casa fazendo arranjos de flores? Talvez fosse essa a imagem que tinha dela; uma bonita mulher de sociedade sem cérebro. Ela continuou a trabalhar após o casamento, mas Barry Holman insistira para que tirasse alguns dias de folga. Não estava certo, ele disse, trabalhar durante a lua de mel. Ela teve vontade de rir e lhe dizer que seu marido não queria uma lua de mel. Justin voltara para casa depois de sua última viagem, tendo ido diretamente para o posto de engorda, com um cumprimento seco e friamente polido. Depois de algumas horas de tédio, Shelby telefonou para o escritório apenas para saber como iam as coisas. Ela gostava de seu emprego. Sentia uma terrível falta do trabalho. Era alguma coisa para fazer; ajudava-a a tirar a cabeça do casamento e de suas próprias insuficiências. Quando ela ligou, a pobre secretária temporária Tammy Lester atendera o telefone, obviamente semienlouquecida, tentando lidar com um frustrado e impaciente Barry Holman. Então, Shelby pôs


uma roupa de verão branca e vermelha, sapatos altos brancos e foi trabalhar. O velho sedã que dirigia quebrou na metade do caminho e ela teve de mandar rebocá-lo até o pátio da revendedora onde consertava as avarias mecânicas. Enquanto Shelby estava na revendedora, como quis o destino, reparou que o carrinho esporte de Abby estava lá e à venda. A visão do carro lhe trouxe recordações. Shelby tinha dirigido um carro igual àquele durante os seis meses mais negros de sua vida, o período que passara na Suíça após ter devolvido o anel de noivado a Justin. Ela adorava aquele carro, mas o destruíra acidentalmente. No entanto, os destroços não tinham diminuído seu gosto por carros velozes. Agora queria um – isso agradaria ao seu lado aventureiro que não tinha desaparecido de todo. Não era um traço suicida; apenas gostava de um desafio. Ela gostava de carros esporte e da adrenalina provocada ao dirigi-los numa via expressa. Justin não sabia que ela tinha um traço aventureiro porque aceitara a ilusão do que ela parecia ser em vez de se perguntar o que existia sob a superfície. Bem, ele que se preparasse para alguns choques a partir de agora, pensou Shelby. Por saber que Shelby tinha acabado de se casar com Justin, o negociante nem sequer pediu a assinatura de um avalista. Vendeu-lhe o carro imediatamente, em prestações que ela podia pagar com seu salário. Estacionou o veículo bem em frente ao escritório, encantada com a pintura nova. Abby tinha mandado pintá-lo de vermelho com riscas brancas pouco antes de trocá-lo por um carro mais tradicional. As novas cores combinavam bem com Shelby. Suspirou, feliz por poder comprá-lo e até mesmo pagando ela própria as prestações. A vida toda dependera do dinheiro do pai. Havia algo de desafiador e satisfatório nessa independência financeira. Agora lamentava ter entrado em pânico por estar sozinha e ter casado correndo com Justin. Desejava algo mais que um teto sobre sua cabeça, mas isso não ia acontecer. Justin estava tomando conta dela como tomara conta de Abby e, se ainda tinha algum desejo remanescente por ela, não o demonstrava. Depois que ele a acusara de frigidez, ela tinha se mantido totalmente fora de seu alcance. Se pelo menos ela não fosse tão reprimida, podia ter-lhe dito qual era o problema e o quanto temia qualquer intimidade. Mas não tinha jeito. Justin provavelmente ficaria tão embaraçado quanto ela se porventura tocasse no assunto. Portanto, tudo deveria continuar como sempre fora, até que um deles decidisse romper o silêncio. Ao chegar ao escritório, encontrou Barry Holman andando de um lado para o outro, e a secretária temporária chorando. Ambos se viraram quando ela pôs a bolsa na gaveta de cima da escrivaninha e sorriu. – Posso ajudar? A mulher à escrivaninha chorou ainda mais. – Ele grita – queixou-se, apontando Barry Holman, que parecia furiosamente enraivecido da cabeça loura até os enormes pés. – Só com os incompetentes! – retrucou. – Vamos, vamos. – Shelby apaziguou-os. – Estou aqui. Vou tomar conta de tudo. Tammy, por que não faz uma xícara de café para o sr. Holman enquanto ponho as coisas em ordem, e depois lhe mostro como arquivar e você pode se ocupar disso. OK? Tammy sorriu, os suaves olhos castanhos calmos. – OK. Ela se levantou e Shelby se sentou. Suas sobrancelhas se ergueram quando Barry Holman lançou-lhe um olhar desconfortável.


– Está de férias – disse. – Não deveria estar aqui. – Por que não? Justin está trabalhando, por que não eu? Ele franziu a testa. – Bem... – Diga-me o que tem de ser feito e depois lhe mostro meu carro novo. – Ela sorriu. – Era de Abby e eles me deixaram comprá-lo mesmo sem um avalista. – Naturalmente, tendo em vista o crédito de seu marido – refletiu. Ela lhe lançou um estranho olhar, mas ele o ignorou, encantado com sua boa sorte. – Veja, isto é o que está fazendo com que Tammy tenha ataques. Mostrou duas folhas manuscritas em papel-ofício, que queria transcritas e postas em inglês corrente, em vez das abreviações e rabiscos, com cinquenta cópias e cabeçalhos diferentes em cada uma. – Simples, não é? – perguntou. Olhou para a parte de trás do escritório. – Ela chorou. Shelby também quis. Levaria uma hora apenas para transcrever a caligrafia dele. Mas ela estava familiarizada com o processador de texto do computador; Tammy tinha aberto três manuais simplificados em cima da mesa, mas nenhum deles iria ensinar o programa a quem nunca tivesse usado um computador. – Ela me perguntou para o que serviam. – Barry Holman suspirou e tirou um dos disquetes da capa. Olhou para cima. – Ela achou que eram negativos. Shelby precisou morder o lábio inferior. – Ela nunca aprendeu a lidar com computadores – lembrou-lhe. – Isso não é desculpa para não ter um cérebro – retrucou acaloradamente. – Sr. Holman! – exclamou Tammy, olhando-o zangada ao voltar com três xícaras de café numa bandeja. – Foi injusto e cruel. – Não lhe disseram na agência de serviços temporários que era necessário ter experiência em computadores para este emprego? – retrucou. – Eu tenho experiência em computadores – respondeu Tammy com altivez. – Jogo sempre Atari com meu irmão. Era a vez do sr. Holman parecer que queria chorar. Cerrou os dentes, voltou para o escritório e fechou a porta. – Disse-lhe umas boas. – Tammy sorriu maliciosamente. Do escritório chegou até elas, em alto e bom som, a imprecação “Raios”! Shelby e Tammy trocaram olhares divertidos. – Eles não me falaram em computador – confidenciou Tammy. – Perguntaram-me se tinha experiência como secretária, e tenho. Posso bater mais de cem palavras por minuto e tomar nota de noventa no ditado. Mas não sei ler sânscrito – sussurrou, apontando os rabiscos no papel-ofício. Shelby deu risada. Era tão bom poder rir, e agradeceu a Deus o emprego que iria manter sua sanidade. Ela balançou a cabeça e, colocando os livros de lado, começou a explicar a Tammy como operar o computador. Após o trabalho, pegou o longo caminho para casa. O sr. Holman tinha relaxado depois do almoço e mostrava maior tolerância com Tammy agora. Na realidade, nem sequer rosnara quando Shelby disse que talvez fosse econômico ter duas secretárias no escritório, devido ao acúmulo de documentos para dar entrada, arquivar e atualizar no computador. Ele tinha falado em arranjar um sócio e, se empregasse Tammy em tempo integral, poderia fazê-lo.


Shelby virou abruptamente o pequeno carro esporte para a via expressa, deliciada com a direção de cremalheira, de fácil manuseio. Ela acelerou, acelerou e acelerou, adorando a velocidade, adorando a liberdade e o vento que despenteava o longo cabelo. Sentia-se audaciosa. Como dissera a Justin, nada tinha a perder. Ia aproveitar a vida daqui para a frente. Ele que fizesse o que quisesse. Havia um carro vagaroso à sua frente, mas ela não diminui a marcha. Ultrapassou-o, e mal voltara para sua pista quando um carro branco passou chispando na direção oposta. Ela o achou familiar, mas não olhou pelo espelho retrovisor. Ia em direção ao posto de engorda. Ela passou pelo retorno, aumentando a velocidade. Ainda não estava pronta para voltar para sua cela em casa. Calhoun estava rezando quando parou em frente ao posto de engorda. Aquele era o velho carro de Abby com Shelby ao volante. Quase não a tinha reconhecido naquele segundo, o rosto sorridente com o prazer da velocidade, o cabelo esvoaçando ao vento. Comparada a ela, Misty Davies, a amiga de Abby, parecia uma motorista confiável. Justin levantou os olhos de sua mesa de trabalho quando Calhoun entrou e fechou a porta. – Está quase na hora de ir para casa – disse, olhando seu Rolex. – Pensei que você não fosse voltar hoje de Montana. Calhoun sorriu. – Sinto saudades de Abby. Por falar em Abby – acrescentou, encostando-se preguiçosamente na borda da escrivaninha do irmão. Uma louca, guiando um carro esporte, por uma questão de centímetros não se chocou comigo. – Abby não o vendeu? – observou Justin. – Pode ter certeza que sim. Eu insisti. – Entendo. – Justin sorriu palidamente. Reclinou-se, segurando o cigarro entre os dedos magros. – Suponho que a mulher de outro idiota esteja ao volante dele? – Pode-se dizer que sim. Ela estava a 130 quilômetros por hora ou mais. – Seus olhos negros se estreitaram. – Tem certeza de que quer que Shelby fique com ele? Fez-se um incômodo silêncio. – O que quer dizer com quero que Shelby fique com ele? – Justin sentou-se abruptamente. – Está me dizendo que Shelby estava ao volante desse carro esporte? – Receio que sim – falou Calhoun em voz baixa. – Não sabia? A expressão de Justin tornou-se severa. Shelby não estava feliz e ele sabia disso. Seu comportamento recente já o preocupava, embora tomasse cuidado para não o demonstrar. Mas comprar um carro esporte era ir longe demais. Ia ter que falar com ela. Evitara confrontações até então, deixando-a se instalar, mantendo distância enquanto tentava lidar com a angústia de ter Shelby em casa e vê-la recuar no minuto em que ele entrava na sala. Mas isto era demais. Não podia deixar que ela se matasse. Levantou-se sem mesmo olhar para Calhoun, pegou o chapéu no cabide e andou em direção à porta. – Ela estava indo na direção de casa? – perguntou de forma curta. – Na direção oposta – disse Calhoun. Seus olhos se estreitaram. – Justin, o que está havendo entre vocês dois? O homem mais velho olhou para ele, os olhos brilhantes. – Minha vida particular não é da sua conta. Calhoun cruzou os braços.


– Abby diz que Shelby está ficando desatinada e que você aparentemente não faz nada para impedila. Será que está tão decidido assim a se vingar? – Fala como se ela fosse suicida – disse Justin friamente. – Ela não é. – Se estivesse feliz, não agiria assim – insistiu o homem mais novo. – Tem que parar de tentar viver no passado. Já é hora de esquecer o que aconteceu. – É muito fácil para você dizer isso. – Os olhos negros de Justin chisparam. – Ela me rejeitou e dormiu com outro homem! Calhoun olhou-o fixamente. – Você não tem o meu currículo, mas não é mais santo que eu, irmãozão. Suponha que Shelby não conseguisse aceitar as mulheres de seu passado? – É diferente com homens – disse o homem mais velho, irritado. – É mesmo? – Ela era minha. Tomava tanto cuidado para sempre andar na linha. Eu me contive e cerrei os dentes para não a amedrontar, mas ela se afastava de mim toda vez que a tocava. E durante todo esse tempo ela estava dormindo com aquele garoto milionário com cara de pastel. Como acha que me senti? – explodiu ele. – E então ela me disse que era pobre demais para satisfazer seus gostos dispendiosos, queria alguém rico. – Ela não se casou com ele, casou? – respondeu Calhoun. – Ela foi para a Europa e ficou descontrolada, exatamente como está fazendo agora. Teve um acidente na Suíça, Justin. Com um carro esporte – acrescentou, vendo o horror crescer nos olhos do irmão –, exatamente igual ao que está dirigindo agora. Ela sofria por você. Até o pai dela chegou a essa conclusão, finalmente. Justin pôs um cigarro na boca e o acendeu. – Nunca me disseram isso. – E quando foi que você quis ouvir alguma coisa a respeito dela? – respondeu Calhoun. Foi só nos últimos meses que você se acalmou o suficiente para falar de qualquer coisa relacionada aos Jacobs. – Eu a amava – exclamou Justin. – Você não pode imaginar como me senti quando ela terminou o noivado. – Sim, posso – respondeu Calhoun. – Eu estava lá. Sei como se sentiu. Mas você nunca sequer parou para pensar que Shelby poderia ter tido uma razão. Ela tentou lhe explicar uma vez por que tinha terminado o noivado. Você se recusou a ouvir. – O que havia para ouvir? – perguntou Justin impaciente. – Ela já tinha me dito a verdade, logo no início. – Nunca acreditei naquilo – respondeu Calhoun. – E nem você teria acreditado, se não estivesse apaixonado pela primeira vez na vida e inseguro quanto à sua própria capacidade de segurar Shelby. Estava sempre preocupado em perdê-la para outro homem. Mesmo para mim. Está lembrado? Era difícil discutir com a verdade. Justin sabia que tinha sido possessivo com Shelby. Droga, ainda o era. Mas como poderia evitar isso? Ela era uma linda mulher e ele era um homem comum, sem graça. Nunca tinha conseguido compreender por que Shelby tinha ficado com ele por tanto tempo. – Mesmo agora – continuou Calhoun em voz baixa – parece-me que está fazendo de tudo para que ela o deixe. Justin sorriu em tom de caçoada. – O que espera que eu faça? Que a amarre no porão? – perguntou moderadamente. – Não posso fazê-la ficar se ela não quer. Inferno – riu friamente –, não posso nem a tocar. Ela se retraiu na única


vez em que tentei fazer amor com ela – disse cruamente, recordando-se. Seus olhos ficaram mais escuros e ele desviou o olhar. – Não consigo chegar perto dela. Ela tem medo de mim desse jeito. – É interessante – disse Calhoun, escolhendo as palavras – que uma mulher tão experiente e vivida possa ter medo de sexo. Não é? Justin franziu o cenho. – O que quer dizer? Calhoun não respondeu. Sorria ligeiramente quando se dirigiu para a porta, mas Justin não podia ver esse sorriso. – Tenho que ir para casa. Até mais tarde, irmãozão. – E antes que Justin pudesse responder, saiu. Justin demorou um minuto para recobrar o controle. Seguiu Calhoun porta afora sem uma palavra para a secretária, os olhos cheios de preocupação. Calhoun o tinha atrasado muito. E se Shelby tivesse destruído o carrinho? Foi e voltou pela estrada, mas não viu vestígio do carro esporte. Mais tarde, foi para casa e quase se ajoelhou de alívio ao ver o carro estacionado na entrada. Teve de se esforçar para proceder normalmente quando suas mãos estavam quase tremendo do medo de encontrá-la numa vala qualquer. Entrou em casa, arremessou o chapéu no cabide e foi para a sala de jantar, onde Shelby estava sentada numa cadeira no meio da longa mesa de cerejeira, falando com Maria sobre uma nova receita. Ela olhou para a porta, mas quando o viu toda a alegria e animação sumiram como uma luz que de repente se apaga. Ela usava um vestido vermelho e branco, o lindo cabelo escuro e ondulado emaranhado na altura dos ombros. O vento, ele pensou distraidamente, despenteou seu cabelo no conversível. – Troquei de carro – disse ela desafiadora. – Gostou? Era de Abby. Você nem precisa servir de avalista, pois posso pagar as prestações com meu salário. Justin olhou para Maria que, reconhecendo o olhar, escafedeu-se. Ele se sentou à cabeceira da mesa, acendeu um cigarro e reclinou-se na cadeira para olhar concentradamente para Shelby. – A última coisa que você precisa neste mundo é de um carro esporte. Já dirige depressa demais. Ela procurou seus olhos escuros, percebendo a mal velada preocupação. – Alguém me viu no carro esta tarde – adivinhou. Ele assentiu com um movimento de cabeça. – Calhoun. – Achei que era ele. – Ela examinou as mãos no colo, virando a fina aliança de ouro no dedo. – Gosto de velocidade – disse acaloradamente. – E não gosto de funerais – retrucou. – Não pretendo ir ao seu. Você vai devolver esse carro esporte amanhã ou vou eu. – É meu! – gritou ela. Os olhos verdes chisparam de raiva. – E não vou devolvê-lo! Ele tragou longamente o cigarro. Em sua posição reclinada, a camisa de seda branca colava-se aos músculos queimados de sol. Os pelos do seu peito apareciam por entre os botões abertos da parte de cima da camisa. Estava sem jaqueta, as mangas arregaçadas. Ele parecia devastadoramente masculino, desde o cabelo despenteado até a boca sensual. – Não vou sequer discutir o assunto, meu bem – respondeu. Através de uma nuvem de fumaça, seus olhos procuraram os dela. – Calhoun me contou que você destruiu um carro na Europa. Ela enrubesceu.


– Aquilo foi um acidente. – Você não vai ter nenhum acidente aqui – disse ele. – Não vou permitir que se mate. – Pelo amor de Deus, Justin, não sou suicida! – protestou. Levou a xícara de café aos lábios e tomou um gole fortificante do líquido negro. – Não disse que era – concordou ele. Moveu o cinzeiro sobre a toalha, olhando-o girar. – Mas precisa de uma rédea mais curta do que a que tem tido. – Não sou Abby – disse ela. Suas feições delicadamente talhadas endureceram ao olhá-lo. – Não preciso de um guardião. Ele olhou de volta, os olhos negros perscrutadores, quietos. – E já que estamos falando nisso, não gosto que trabalhe para Barry Holman. Ela piscou. Sentiu como se o controle de sua própria vida lhe estivesse sendo tirado. – Justin, não lhe perguntei se gostava – lembrou-lhe. – Disse-lhe antes do casamento que pretendia continuar trabalhando. – Há coisas em quantidade mais do que suficiente para fazer aqui – afirmou. Bateu a cinza no cinzeiro. – Pode tomar conta da casa. – Maria e Lopez fazem isso muito bem, obrigada – respondeu. Enrijeceu. – Não quero ficar em casa rodopiando em pijamas de seda e dando festas, Justin, caso você ainda não tenha percebido. Já preenchi minha quota de obras de caridade, arranjos de flores e trabalhos sociais. Ele olhava para o cigarro, não para ela. – Pensei que pudesse sentir falta dessas coisas. Nos velhos tempos, você não precisava mexer um dedo. Ela estudou as bem cuidadas mãos em seu colo, que faziam pregas no tecido vermelho e branco do vestido. – Meu pai me via como um objeto de decoração de sala de visita – disse. – Ele teria ficado ultrajado se eu tivesse tentado mudar essa imagem. Ele franziu ligeiramente a testa. – Tinha medo dele? – Eu pertencia a ele – respondeu. Suspirou, erguendo os olhos até os de Justin. A curiosidade ali presente a desconcertou, mas pelo menos estavam conversando, para variar, em vez de brigar. – Ele não era um homem com quem fosse fácil conviver, e tinha formas terríveis de se vingar quando Ty e eu desobedecíamos. – Ele a mantinha bem vigiada – ele recordou. – Embora tivesse confiança em mim. – Tinha mesmo? – Ela riu com um som abafado. – Justin, você foi o segundo homem que namorei e o primeiro com quem saí sozinha. Parece chocado. Achou que meu pai me permitia levar uma vida de farrista? Ele tinha pavor que algum caçador de fortunas pudesse me seduzir. Vivi como uma reclusa enquanto ele era vivo. Justin não tinha certeza de ter entendido o que estava ouvindo. Inclinou ligeiramente a cabeça e semicerrou os olhos. – Poderia me repetir isso? – perguntou. – Nunca tinha saído sozinha com um homem antes de mim? – É isso aí – concordou. – Nunca saí da vista de meu pai até romper o noivado e ir para a Suíça. – Sorriu com tristeza. – Acho que a liberdade foi excessiva, porque me tornei desatinada. O carro esporte era só um escape, uma forma de comemorar. Nunca tive intenção de destruí-lo. – Ficou muito ferida?


– Quebrei a perna e fissurei duas costelas – respondeu. – Disseram que tive sorte. Ele acabou o cigarro e apagou-o. – Não me dei conta de que você era tão protegida – disse ele em voz baixa. Estava apenas começando a entender o quanto ela era inocente naqueles dias; se pelo menos ela tivesse namorado alguém... Então seu primeiro contato íntimo tinha sido com ele. Pensou nisso e sentiu que foi ficando tenso. Contara que ela tivesse um pouco de experiência, mesmo sabendo que era virgem. Mas se não tivera nenhuma, era fácil compreender por que seu ardor a amedrontara. – Não podia conversar sobre esse tipo de coisa com você – confessou. – Era jovem e absurdamente ingênua. Ele a olhou de perto, os olhos chamejantes. – Assustei você na noite em que nos tornamos noivos, não foi? – perguntou subitamente. – Foi por isso que se afastou, não porque sentia repulsa por mim. Ela susteve a respiração. – Nunca senti repulsa por você – explodiu. – Oh, Justin, não! Você não pensou isso? – Não sabíamos muito um do outro, Shelby – disse ele, com voz profunda e controlada. – Acho que ambos tínhamos ideias preconcebidas. Eu a via como uma sofisticada e elegante mulher de sociedade. E embora soubesse que era inocente, pensava que tivesse alguma experiência com homens. Se tivesse a menor suspeita do que acaba de me contar, nunca teria exigido tanto de você. Ela ficou vermelha e desviou os olhos. Não conseguia encontrar as palavras certas. Era surpreendente que estivessem casados, que ela tivesse 27 anos e que esse tipo de conversa ainda pudesse embaraçá-la. – Tive medo de que não conseguisse parar – murmurou evasivamente. Ele suspirou profundamente e levou a xícara de café aos lábios, esvaziando-a. – Também tive – disse inesperadamente. – Corremos esse risco durante alguns segundos. Tinha estado em jejum por muito tempo. – Não pensei que, nos dias de hoje, os homens precisassem fazer isso – falou mansamente. – Quer dizer, a sociedade sendo tão permissiva e tudo mais. – A sociedade pode ser permissiva, eu não – disse secamente. Os olhos negros chisparam em sua direção. – Nunca fui, no sentido em que pensa. Um cavalheiro não seduz uma virgem ou tira vantagem de mulheres que não conhecem as regras do jogo. Isso deixa de fora as garotas de programa. Segurou a xícara nas mãos, grandes e longas, alisando-a com o polegar. E só para ser franco, meu bem, esse tipo nunca me atraiu muito. Os olhos suaves dela estudaram as feições endurecidas dele, demorando-se na boca esculpida. – Imagino que, ainda assim, não lhe tenham faltado propostas – disse ela, baixando novamente o olhar até o colo. – Sou rico. – Havia um cinismo frio em suas palavras. – É claro que recebo propostas. – Examinou o rosto dela calculadamente. – Na realidade, Shelby, recebi uma enquanto estive no Novo México, semana passada, anel de noivado e tudo. Os dentes dela se cerraram. Não queria que ele percebesse que isso a incomodava, mas era difícil de esconder. – Foi mesmo? Ele pousou a xícara. – Você é tão possessiva em relação a mim quanto sou em relação a você – disse então, cruzando o olhar dela com o seu numa lenta e eletrizante troca. – Você não gosta da ideia de outras mulheres se


interessando por mim, gosta Shelby? Ela cruzou as pernas. – Não – disse honestamente. Ele sorriu ironicamente enquanto acendia outro cigarro. – Bem, se lhe serve de consolo, desanimei-a. Não pretendo traí-la, meu bem. – Nunca imaginei que o fizesse – respondeu. – Assim como tampouco eu o faria. – Essa seria a oitava maravilha do mundo – retrucou com enganadora suavidade –, considerando seus problemas. Estamos casados há quase duas semanas e você continua parecendo um cordeiro pronto para o sacrifício cada vez que me aproximo. Ela respirou profunda e uniformemente. – Sim, eu sei – disse ela, infeliz. Sorriu com amargor. – Tenho consciência de minhas insuficiências, Justin. Acho que não vai acreditar em mim, mas você não conseguiria me culpar mais do que eu própria me culpo por ser como sou. Ele fez uma expressão de desagrado. Não pretendia colocá-la na defensiva. Seu orgulho estava mordido e estava rebatendo, mas não queria mais magoá-la. Já tinha feito isso o suficiente. – Não quis dizer isso – falou num sussurro fatigado. – Foi a maneira como as coisas aconteceram, só isso. – Por um minuto aparentou a idade que tinha... expressão desolada, olhos negros assombrados. – Você acabou com meu orgulho, Shelby. Tem-me custado muito superar isso. Acho que ainda não consegui. – Também não saí ilesa – murmurou ela. Os frágeis ombros se curvaram. – Tive minha quota de sofrimento pelo que fiz. – Por quê? – perguntou ele rápido. Ela fechou os olhos e se encolheu. – Fiz pelo seu bem – sussurrou. Ele soltou um suspiro irritado. – Bem, essa pelo menos é uma nova saída. – Esmagou o cigarro meio consumido e se levantou. – Tenho algum trabalho para fazer antes de Maria servir o jantar. – Parou perto da cadeira dela, observando a forma como ela se retesava diante de sua proximidade. Ele se abaixou e apanhou um punhado de seu longo cabelo, obrigando-a a inclinar a cabeça para trás, de modo a poder olhar em seus olhos. – Medo – disse, perscrutando-os. – É tudo o que vejo em seus olhos quando chego perto. Bem, não se preocupe, querida, não será chamada para o supremo sacrifício. Não estou desesperado! Soltou-a e passou por ela, o corpo musculoso tenso de raiva, sem mais uma palavra ou olhar para trás. Shelby sentiu as lágrimas virem e nada fez para impedi-las. Ele não sabia a razão de seu medo e ela não podia lhe contar. Ele simplesmente partira do princípio de que ela recuara porque não o queria. Nada estava mais longe da verdade. Ela o queria, desesperadamente. Mas o queria controlado e gentil, lembrando-se de como tinha sido quando ele não o fora. Levantou-se da mesa e foi até o quarto para se recompor por alguns minutos antes do jantar. Era tão difícil conversar com ele, contornar sua crescente impaciência. A rejeição dela estava fazendo um mal terrível a ele, mesmo que sua vontade fosse a de protegê-lo. Queria dar a ele o que queria, apagar aquelas linhas vincadas de seu rosto. Mas tinha tanto medo das exigências que poderia fazer.


Se pelo menos conseguisse dizer a ele. Mas o meio protegido em que crescera tornava muito embaraçoso explicar por que ela era como era. AtÊ conseguir um jeito de fazer com que ele entendesse, isso ia provocar um desgaste ainda maior no casamento deles.


CAPÍTULO 5

SE

SHELBY esperava encontrar Justin menos irritado durante o jantar, estava fadada ao desapontamento. Ele se sentou à cabeceira da mesa como um homem de pedra, quase sem falar. Ela não conseguiu conversar com ele. Não sabia o que dizer. Mais tarde, saiu porta afora, sem dizer uma palavra, e Shelby sentiu um enorme desespero. Se pelo menos pudesse ir até ele e abraçá-lo, explicar como se sentia, por que ela era como era. Mas será que ele acreditaria, tendo em vista o passado? A infelicidade a envolveu como um cobertor. Pegou a bolsa e foi até o carro. Se Justin achava que ela ia ficar sentada sozinha pelo resto da noite, estava enganado. Ligou o motor, acelerou, deu marcha a ré e saiu ventando. A coisa maravilhosa deste pequeno carro era a deliciosa sensação do controle da velocidade. Ela adorava a estrada sem curvas, o sentimento de liberdade que sentia com o vento em seu longo cabelo, a excitação de estar sozinha com seus pensamentos. Justin a odiava, mas isso não era novidade. Sempre a odiara. Ela o magoara e ele nunca iria perdoála. Não sabia por que tinha concordado em se casar com ele; nunca daria certo. Ela tinha sido tola em ter aceitado, para início de conversa, portanto só podia culpar a si mesma por sua infelicidade. Ela estava tão imersa em seus pensamentos que não notou o sinal de parar até estar muito em cima, e o alto som abaritonado de uma buzina de caminhão fez gelar seu coração. Uma enorme carreta vinha a toda pela estrada. O carrinho de Shelby não ia conseguir desenvolver velocidade suficiente para atravessar o cruzamento antes daquela jamanta, e havia o risco de ela não conseguir frear a tempo. Com o coração na boca e a certeza surda da morte enrijecendo seu corpo, pisou no freio. O carro girou sobre si mesmo, o chiado horrível dos pneus na calmaria do fim da tarde, seu rosto petrificado de terror ao perder o controle, e o céu rodou, rodou e rodou... O carro foi parar em uma vala funda e ficou de lado, balançando como se estivesse embriagado, mas surpreendentemente não virou de cabeça para baixo. Shelby permaneceu sentada, abalada, mas sem ferimentos, uma náusea amarga na garganta e o mundo a girar em torno dela. Ouviu-se o barulho de outro carro freando até parar. Uma porta se abriu. Ouviu-se o som de pés correndo e então, subitamente, um grito angustiante de um homem.


– Shelby! – O rosto do homem era familiar, mas ao mesmo tempo não conseguia localizá-lo. Estava rouco, engasgado e furioso. – Você está bem? Ela sentiu que mãos morenas, finas e trêmulas removiam o cinto de segurança. Sentiu aquelas mesmas mãos correrem sobre seu corpo, à procura de sangue ou ossos quebrados, com rara delicadeza. – Você está bem? – perguntou Justin com voz rouca. – Está sentindo dor em algum lugar? Pelo amor de Deus, querida, responda! – Eu…eu estou bem – sussurrou entorpecida. – A porta…? – Não abre, está empenada. Devagar agora. – Ele se abaixou cuidadosamente para segurá-la por debaixo dos braços e, com incrível força, retirou-a do carro. Quando estava no chão, ainda tonta, pegou-a com imensa ternura e carregou-a para fora da vala. O motorista do caminhão parara mais abaixo e estava vindo ao encontro deles, mas Justin não parecia vê-lo. Sua expressão estava rigidamente controlada, mas não conseguia fazer os braços pararem de tremer sob o esguio corpo dela. O fato finalmente foi registrado na cabeça estonteada de Shelby. Ela olhou para cima e viu o rosto dele, e sua respiração se agitou. Estava branco como um lençol, apenas os olhos negros vivos e brilhantes no rosto assaltado. Ele baixou os olhos para ela, os braços puxando-a convulsivamente contra o peito. – Sua bobinha! – gaguejou. Por mais que vivesse, ela sabia que nunca iria esquecer o horror que vira nos olhos de Justin. Ergueu o braço para segurá-lo, só pensando em tirar aquela expressão de seu olhar. – Está tudo bem – murmurou Justin docemente. A reação dele a deixou fascinada. Nunca o tinha visto abalado antes. Aquele pequeno furo em sua fria armadura fez com que ela se sentisse protetora. – Estou bem, Justin – sussurrou. Seus olhos procuraram os dele, estarrecida ante tanta vulnerabilidade. Ela tocou sua boca, os dedos macios acariciando-o até deslizarem por entre o espesso cabelo negro. – Querido, estou bem, de verdade! – Puxou-o para si e colocou suavemente sua boca na dele, amando a forma como ele se deixava beijar, mesmo que fosse apenas devido ao choque, o que, de fato, era. Por alguns segundos ela saboreou a novidade, depois alguma coisa se agitou em seu corpo esbelto, e sua boca se ergueu, ansiando por um contato mais forte, mais profundo que este. Há anos que não se beijavam de verdade. Ela gemeu baixinho e ele pareceu sair do transe. O braço se contraiu e sua boca rígida abriu-se faminta contra a dela, com um gemido selvagem. Sua boca doía, conforme pressionava a dela, murmurando alguma coisa violenta e ininteligível contra os macios lábios dela. Afastou-se com visível relutância diante da aproximação do motorista do caminhão, que corria em direção a eles. – Ela está bem? – O homem perguntou, ofegante pela longa corrida. – Meu Deus, eu estava certo de que ia bater nela…! – Ela está bem – respondeu Justin com brevidade. – Mas aquele maldito carro não estará quando eu puser as mãos numa espingarda. O motorista do caminhão suspirou de puro alívio. – Puxa, dona, a senhora sabe o que faz – disse com admiração. – Se tivesse perdido o sangue-frio e levantado os braços, seria uma mulher morta, e eu, um doente mental. – Sinto muito. – Shelby chorava, os nervos fragilizados por ter escapado da colisão e pelo estranho ardor da boca firme de Justin. – Sinto muito. Nem sequer o vi. O motorista do caminhão, um rapaz de cabelo vermelho, apenas abanou a cabeça, mal conseguindo recuperar o fôlego.


– Tem certeza de que está bem? – Estou bem – disse ela, forçando um sorriso ainda trêmulo. – Obrigada por ter parado. Não foi culpa sua. – Isso não faz com que me sinta melhor – ponderou. – Bem, se tem certeza, vou andando. Olhou para Justin e quase ofereceu ajuda, mas o brilho naqueles olhos negros não era encorajador. – Como disse minha mulher, obrigado por ter parado – disse Justin. O homem mais novo aquiesceu, com um gesto de cabeça, sorriu e se afastou visivelmente aliviado, perguntando-se por que uma mulher tão bonita se casaria com aquele facínora. Estava contente por ela não estar ferida. Não teria gostado de ter de enfrentar aquele marido de olhos selvagens desarmado. Justin não disse mais nada. Virou-se, carregando Shelby para o Thunderbird. Equilibrou-a nos joelhos, abriu a porta do passageiro e a colocou dentro do carro gentilmente. – E o meu carro? – ela perguntou. Seus olhos negros encontraram os dela. – Para o inferno com seu carro – disse com voz rouca. Bateu com a porta e deu a volta para se sentar ao volante. Mas não ligou o motor. Permaneceu sentado, os nós dos dedos brancos, agarrando a direção por um longo momento, enquanto Shelby esperava pela iminente explosão. Justin tinha ficado abalado e alguém ia pagar por isso. Agora que tinha certeza de que ela estava bem, imaginava que ele estivesse colocando munição em ambos os canos. – Vá em frente, grite comigo – disse chorosa, procurando por um lenço de papel no porta-luvas. – Eu estava dirigindo depressa demais e não estava olhando. Eu mereço todos os sermões. – Assou o nariz. – Como chegou aqui tão rápido? Ainda assim ele não falou. Após um minuto, reclinou-se no assento e procurou um cigarro no bolso. Acendeu-o com mãos que ainda tremiam, olhando para a frente. – Eu fui atrás de você – disse secamente. – Quando ouvi você acelerar o carro na entrada, imaginei que podia querer descontar sua fúria na via expressa, portanto fui atrás. – Virou a cabeça e seus olhos negros a fulminaram. – Meu Deus, paguei por pecados que nem cometi quando vi seu carro rodar. Ela podia imaginar o que ele tinha sentido. Mesmo que ele não a amasse, teria sido horrível. – Sinto muito – disse ela inadequadamente, cruzando os braços no peito trêmulo. O peito dele subia e descia com um arfar raivoso. – Sente mesmo? – questionou ele. Estava de novo controlado, e o sorriso frio em seu rosto a deixou furiosa. – Bem, pode dizer adeus àquele maldito carro esporte. Amanhã vou acompanhá-la à cidade e fazê-la comprar um mais seguro. – O que tem em mente, um tanque de guerra? – perguntou, com gelo na voz. – Uma bicicleta, se continuar assim – corrigiu, bravo. – Já lhe disse antes, Shelby, seus dias de desatino acabaram. – Você não vai começar a mandar em mim! – gritou por entre lábios trêmulos e dentes cerrados. – Não sou sua tutelada! – Não – concordou com um sorriso irônico. – Você é minha mulher, não é? Minha santa e intocável mulher que aceita todas as mãos menos as minhas. Era demais. Ela começou a chorar de novo, voltando o rosto para a janela, enterrando os olhos no lenço encharcado. – Não – lamentou. – Pelo amor de Deus, pare com isso. Não suporto lágrimas! – Então não olhe, droga – murmurou, batendo o pé.


Ele praguejou grosseiramente, procurando no bolso o lenço de linho recém-lavado. Enfiou-o nas mãos trêmulas dela, sentindo-se como se alguém o tivesse chutado. – Vai ficar doente. Pare. Você está bem. Um erro é um erro, não é? – perguntou, já com uma voz mais gentil, mais profunda. Tocou hesitantemente o cabelo dela. Pouco a pouco tudo começava a ficar claro. Ele franziu a testa, porque acabara de se lembrar de uma coisa que o pânico o tinha feito esquecer. Ela tocara seu rosto e murmurara alguma coisa, e colocara sua boca na dele para confortá-lo. O que tinha dito…? – Você me chamou de querido – disse alto. Ela se moveu, sem jeito. – Chamei? Devia estar fora de mim, não é? – Ela fungou e passou o lenço pelo rosto. – Podemos ir para casa, Justin? Preciso beber alguma coisa. – Um uísque puro também me faria bem – disse ele, demonstrando cansaço. Seus olhos estudaram o pequeno rosto pálido e triste. – Tem certeza de que está bem? – Sou forte – murmurou ela. – Forte – concordou ele. – E desatinada, estúpida, impulsiva… – Pare com isso! – protestou. Os olhos verdes chispavam, avermelhados. – Você me beijou. Ela passou do branco ao vermelho e desviou o olhar. – Você estava perturbado. – Já estive perturbado antes, mas você nunca me beijou, Shelby. – Os olhos negros se estreitaram ao ligar a ignição. – Pensando bem, em todos estes anos que nos conhecemos, é a primeira vez que toma a iniciativa. Ela se reclinou no assento, os braços cruzados. – Justin, minha bolsa ainda está no carro – murmurou evasivamente. Ele abaixou-se para pegá-la e a colocou em seu colo. – Você a pegou antes que eu a retirasse do carro – disse ele. – Veio de carona. – Não vai realmente atirar no antigo carro de Abby, vai? Ele virou o carro e controlou-o, fazendo um círculo perfeito para retomar o caminho por onde viera. – Se tiver sorte, pode ser que receba um tratamento tão delicado – falou entre os dentes. – Justin! O carro não tem culpa! – Encoste-se e relaxe agora, Shelby. Em um minuto estará em casa. Ela cerrou os dentes enquanto ele corria pela estrada com velocidade em nada inferior àquela com que ela dirigira. – Bolas! – murmurou. – Perdão? – Bolas! O roto falando do esfarrapado! Você está indo a quase cem quilômetros por hora. – É um carro grande. – E o que isso tem a ver? – Não importa. – Fumou um cigarro, franzindo a testa pensativamente. As coisas tinham estado muito claras em sua cabeça dez minutos atrás. Agora começou a cismar se não teria se enganado. Ele tinha partido do princípio de que Shelby o achara repulsivo todos aqueles anos passados e que ainda achava. Mas os lábios macios tinham se mostrado quentes e ansiosos e, durante aqueles segundos, ela tinha sido positivamente ardente. É claro que estava assustada, tinha de admiti-lo, e o choque provoca


reações engraçadas nas pessoas. Mas, se ela se preocupara tanto quando ele estava perturbado, era porque existia algum carinho da parte dela. Parou em frente à casa e, apesar de seus protestos, carregou-a até a entrada, onde a equilibrou até conseguir abrir a porta. – Não há motivos para preocupação, Maria… – ele começou, mas nem bem tinha terminado a frase e Maria veio correndo do hall. Quando viu o rosto branco de Shelby, irrompeu num chorrilho em espanhol. – Estou bem – contou Shelby. – O carro caiu numa vala, foi só isso. Maria olhou para Justin. Isso não era tudo, mas sabia que não devia criar uma confusão. – O que quer que eu faça, señor Justin? – perguntou Maria. – Vou levá-la para cima. Que tal me servir um uísque puro e trazer um conhaque para Shelby? – Sí, señor. – Por que não posso tomar um uísque puro? – perguntou Shelby. Os olhos negros de Justin procuraram os dela e ele a aconchegou um pouco mais ao subir com facilidade a escada com essa leve carga aninhada contra o peito. – Você é apenas um bebê. – Tenho 27 anos – lembrou-lhe. Ele sorriu gentilmente. – E tenho 37 – lembrou-lhe. – O que faz com que haja uma boa diferença de dez anos a meu favor, meu bem. O tratamento carinhoso a fez corar. Abaixou os olhos para sua camisa. Ele a tinha trocado antes do jantar. Esta era de estilo western, azul e axadrezada. Ficava-lhe bem. Cheirava a detergente e goma, fumo e colônia. Ela adorava ficar em seus braços. Se pelo menos pudesse lhe dizer isso e explicar por que tinha medo dele. Mas não podia. Ele a carregou até o quarto e a pôs na cama, olhando avidamente a forma como o vestido vermelho e branco se amoldava aos lugares certos. Não era decotado, mas fazia sobressair os seios altos da melhor forma possível, e só o fato de olhá-los fazia doer. Shelby franziu a testa ante a expressão de seu rosto. – O que foi? – perguntou, com sinais de fadiga na voz macia. Ele se empertigou. – Nada. Vou providenciar para que Maria traga o conhaque. É melhor tomar um banho quente e depois a levarei ao médico. Quero que seja examinada para ter a certeza de que não houve nenhum dano. Ela se sentou, os olhos do tamanho de pires. – Justin, estou bem! – Você não é médica, e eu também não. Você levou um baita sacode e estava quase em choque quando a tirei daquele carro. – A teimosia transparecia em seu queixo. – Você vai. Ande depressa e mude de roupa. Use alguma coisa… – ele hesitou – menos sexy. As sobrancelhas dela se ergueram. – Perdão? Ele virou-se em direção à porta. – Vou telefonar para o médico enquanto toma banho. Ela olhou para ele inexpressivamente.


– Não quero ir ao médico. Ele apenas fechou a porta, sem dar atenção ao que ela queria ou não. Assumindo o controle, como sempre, irritou-se. Teve vontade de atirar objetos longe. Ela estava bem, será que ele não podia perceber? Explodiu em lágrimas de contrariedade e foi para o banheiro. Ela se sentia como se os joelhos tivessem desaparecido. Depois do banho, secou o cabelo e vestiu uma simples blusa branca e saia cinza, alegrando o conjunto com um lenço cinza e vermelho no pescoço. Ficou se perguntando por que ele queria que ela usasse uma roupa menos sexy, e então seu coração falhou quando se deu conta de que ele devia ter achado o vestido vermelho e branco sexy. Sorriu acanhadamente. Era a primeira vez, desde o casamento, que ele admitira achá-la atraente. Se pelo menos pudesse ter certeza de que ele não perderia o controle, teria tido coragem suficiente para ir além do beijo. Pegou o copo de conhaque que Maria tinha deixado com a quantidade de uma colher de chá dentro e sorveu-o vagarosamente. Ela o beijara sim. Ele ia se agarrar a isso até a morte. Mas ele estava abalado, e ela queria confortá-lo tão desesperadamente que suas inibições usuais não constituíram uma barreira entre eles. E o beijo tinha sido delicioso. Sua boca ainda vibrava com a doçura áspera da dele. E então lembrou por que tinha sido tão doce. Ele tinha permitido que toda a iniciativa fosse dela. Ele não tinha tirado o controle dela. Começou a cismar. Uma batida na porta interrompeu suas ponderações. Abriu-a. Justin já estava com um ar impaciente. – Como se sente? – Estou dolorida… – começou ela. – O médico está esperando. Vamos. – Tirou-lhe o copo, colocou-o sobre a cômoda e escoltou-a para fora do quarto. O médico que encontrara estava na sala de emergências do hospital. Shelby sentiu-se nervosa e tensa porque mal chegara perto de um hospital desde o acidente na Suíça, com exceção da ida ao dr. Sims para os exames pré-nupciais. Mas este não era o dr. Sims. Este era um jovem médico chamado Hays, bem-apessoado e bondoso e, obviamente, um pouco divertido com a impaciente preocupação de Justin. – Vai se sentir dolorida por alguns dias, mas estou certo de que seu marido ficará aliviado ao saber que não há qualquer dano permanente – disse o dr. Hays após terminar o exame e ela ter respondido às perguntas pertinentes. – Apenas mais uma coisa: existe alguma possibilidade de estar grávida? – Ele perguntou calmamente, com a curiosidade despertada por ela ter enrubescido e Justin ter desviado o olhar. – Uma experiência como esta pode ter seus riscos… – Não estou grávida – disse roucamente. – Então vai ficar bem. Vou prescrever um relaxante muscular no caso de vir a precisar. Pode tomar um analgésico, exceto aspirina, para a dor e um pouco mais de descanso amanhã seria benéfico. Naturalmente, se tiver outros problemas, avise-me. Shelby agradeceu, e Justin murmurou alguma coisa antes de acompanhá-la para fora do consultório e ao longo do hall para pagar a conta. Quando terminaram e se puseram a caminho de casa, eram quase oito horas e estava escuro. Justin manteve-se silencioso durante todo o trajeto. Shelby sabia a razão. Tinha sido a pergunta bastante natural do médico sobre gravidez. Justin tinha ficado embaraçado e provavelmente irritado porque o assunto era o pomo da discórdia entre eles. – Devia ter-lhe dito que poderíamos incluí-la no Guinness Book of World Records se estivesse grávida – comentou ele entre os dentes ao estacionar o carro na entrada e desligar o motor.


Ela brincou com a bolsa no colo. Agora que a tensão estava diminuindo, sentia-se apenas cansada e dolorida. – O que fez com meu carro? Não estava na estrada quando passamos pelo cruzamento. Os olhos negros viraram para ela e se desviaram. – Não quer falar sobre isso, quer? – Sou frígida – retrucou ela prontamente. – Vamos deixar as coisas assim, a não ser que queira o divórcio. – Eu quero uma mulher – disse ele asperamente. – Quero filhos. – O queixo endureceu quando levou o cigarro à boca. – Ah meu Deus, quero filhos, Shelby – disse num tom levemente vulnerável. Nunca tinham mencionado esse assunto, a não ser logo nos primeiros dias de sua relação. Ela recostou a cabeça contra o assento, mordiscando o lábio inferior, o olhar no colo. – Provavelmente não vai acreditar, mas eu também, Justin. Ele se virou para olhar o rosto abatido, seus olhos escuros e calmos. – Como pretendia fazer isso sem ajuda? As mãos dela apertaram a bolsa. – Tenho medo – disse suavemente, porque, pelo menos uma vez, estava cansada demais para mentir, para encontrar desculpas. Houve uma longa pausa. – Bem, o parto não é mais o terror de antigamente, pelo que ouço dizer – respondeu, entendendo de maneira equivocada. – E existem drogas para amenizar a dor. Ela olhou-o, chocada. – O quê? Era incrível que ele acreditasse que ela tinha medo de ter um filho. Olhou-o sem se mover. – E também não há necessidade de ser imediatamente – disse obstinado, desviando o olhar como se o assunto o embaraçasse. E provavelmente embaraçava. Shelby se lembrou de que ele sempre achara difícil falar de coisas como gravidez e que nunca discutia assuntos íntimos em companhia mista. A seu próprio modo, era tão reticente quanto ela. Era uma das coisas de que sempre gostara nele. Ainda estava tentando compreender o que ele tinha querido dizer quando ele deu uma última tragada e apagou o cigarro. Havia um rubor desconcertado em seu rosto que o impedia de olhar para ela. – Podia conversar com o médico sobre o que deve tomar – disse ele sucintamente. – Ou eu poderia usar alguma coisa. Não precisa engravidar se não quiser. Não vou forçar você a ter um filho. Ela ficou vermelha como um pimentão e olhou pela janela, as mãos trêmulas e frias, ao finalmente compreender o caráter íntimo do que ele acabara de dizer. Limpou a garganta. – Eu… podemos ir para dentro, agora? – sussurrou. – Estou cansada e com dores no corpo todo. – É difícil para mim também abordar esse assunto – disse calmamente. – Mas queria que você soubesse. Que pensasse no assunto. Se é por isso que não me deixa tocar em você... – Ah, não! – Enterrou o rosto nas mãos. Ele suspirou ruidosamente. – Sinto muito. Não devia ter dito nada. – Desceu do carro e deu a volta para ajudá-la. – Ele lhe deu algum relaxante muscular ou preciso ir até a farmácia comprar? – Deu-me algumas amostras – disse ela. Caminhando ao lado dele, subiu os degraus da escada, envergonhada pela forma como tinha mudado de assunto e fugido da conversa. Ela queria lhe dizer o


que havia de errado. Mas falar sobre isso com Justin era tão difícil. – Suba e procure dormir cedo – disse, tão distante como se estivesse falando com uma desconhecida. – Vou pedir a Maria que lhe leve um chocolate quente. Quer alguma coisa para comer? – Não, obrigada. – Ela parou ao pé da escada e alisou o corrimão com a mão. Ela não queria ir. Seus olhos ergueram-se até os dele do outro lado do hall e ela o fitou com um anseio impossível e uma vergonha angustiada. – Não devia ter casado com você – sussurrou roucamente. – Nunca tive a intenção de fazer você infeliz. O queixo dele enrijeceu. – Tampouco tive a intenção de fazê-la infeliz, mas foi o que acabei fazendo. Ela hesitou. – Ainda não me contou o que fez com o carro esporte – disse, depois de um minuto. – Posso tê-lo de volta? – Com certeza – confirmou, erguendo o queixo e apertando os lábios. – Podemos transformá-lo num cinzeiro ou numa peça de arte moderna. As sobrancelhas dela se ergueram. – O que quer dizer? Ele encolheu os ombros. – O tamanho dele agora é de aproximadamente 13cm de largura por 1,2m de comprimento. Acho um pouco grande para um cinzeiro, mas emoldurado e pendurado na parede teria um ótimo efeito decorativo. – Do que está falando? O que fez com ele? – Dei ao velho Doyle. Ela virou a cabeça ligeiramente quando registrou as palavras. – O dono do ferro-velho. Ele sorriu levemente. – Isso mesmo. Ele acabou de comprar um novo compactador. Você sabe, uma daquelas máquinas enormes usadas para transformar carros velhos em sucata… Ela corou. – Você fez de propósito! – Pode ter certeza disso – disse ele, com um desafio metálico no olhar. – Se o tivesse levado de volta para a revendedora, nada me garante que você não iria lá correndo para comprá-lo de novo. Assim – acrescentou, puxando a aba do chapéu até quase cobrir os olhos – garanto que não. – Ainda estou devendo dinheiro! Era um bocado caro! Ele sorriu agradavelmente. – Estou certo de que vai conseguir explicar tudo isso à seguradora. Pressão atmosférica? Cupins…? Ela não conseguiu encontrar uma resposta enquanto ele se encaminhava para a cozinha. Subiu a escada fumegando. Tinha sido um dia perturbador, sob todos os aspectos, e não estava melhorando. Sua cabeça girava com perguntas e problemas. DE INÍCIO, não quisera tomar o relaxante muscular, mas as dores aumentaram com o passar da noite. Finalmente cedeu, engolindo-os com um gole de chocolate quente. Vestiu os pijamas de cetim cinza e deitou-se entre as cobertas. Minutos mais tarde, adormeceu.


Foi quando os sonhos começaram. Viu-se vezes e mais vezes no carro esporte, mas na Suíça. Dirigia pelos Alpes com destreza e facilidade até quase chegar ao sopé da montanha. Aí, escorregara num pedaço de gelo, e toda a sua experiência ao volante não tinha podido salvá-la. O carro, dessa vez, tinha rolado. E rolado. E rolado. Ela estava descendo pela lateral da montanha branca, céu e neve misturados numa descida terrível. Esperou pelo impacto, esperou, gritando… Mãos levantaram-na do travesseiro, sacudindo-a gentilmente. – Está tudo bem – avisou alguém. – Está tudo bem. Acorde, Shelby, você está sonhando. Ela acordou como se um interruptor tivesse sido ligado em seu cérebro. Justin abraçava-a, os olhos negros apertados de preocupação. – O carro – sussurrou ela. – Estava desabando montanha abaixo. – Estava sonhando, menina – disse ele. Afastou uma mecha de cabelo do rosto corado e dos ombros. – Apenas sonhando. Está em segurança, agora. – Com você, sempre estive – disse involuntariamente, encostando a cabeça no ombro dele. Ela suspirou pesadamente e relaxou, segura. Moveu o rosto e ele enrijeceu, e ela se deu conta de que estava repousando ao encontro da pele nua, e não na parte de cima do pijama. Com a luz acesa, ele estava sentado a seu lado na cama, o cabelo despenteado. Ela quase perdeu a presença de espírito ao afastar o rosto de seu musculoso antebraço, mas respirou aliviada quando viu que ele estava nu apenas da cintura para cima. Ele vestia calças de pijama de seda escura, mas o peito musculoso estava completamente nu. Cabelo negro encaracolado ia até a cintura baixa do pijama, e só de olhar para ele perdia o fôlego. Shelby sentiu a respiração lhe faltar diante da proximidade de tanta masculinidade. Ela sabia, sem que lhe dissessem, que ele nada usava por baixo das calças do pijama, e isso fez com que se sentisse ameaçada. – Tomou os comprimidos que o médico receitou? – perguntou ele, em voz baixa. – Sim. Fizeram com que a dor diminuísse, mas agora estou tendo pesadelos. – Ela riu sem jeito. Afastou o farto cabelo, olhando-o apreensivamente. – Acordei você? – Na realidade, não. – Ele suspirou. – Não tenho dormido bem esses dias. Acordo com qualquer coisa. Ouvi você gritar. Ela tampouco dormia bem, e provavelmente pela mesma razão. Abraçou os joelhos, enroscando-se para apoiar a cabeça neles. – O acidente de hoje trouxe de volta o da Suíça – murmurou estonteada. – Estava machucada e fiquei dormindo e acordando. – Encostou a testa no cetim macio. – Disseram-me que chamei por você dia e noite depois que me levaram para o hospital – disse ela, sem essa intenção. – Por mim, e não por seu amante? – perguntou friamente. – Eu nunca tive um amante, Justin – disse timidamente. – Claro. E sou o rei do Sião. – Ergueu-se, olhando-a meio irritado. Ela estava linda naquele pijama. Ele nunca pensara sobre o que ela usaria para dormir, mas agora tinha certeza de que não conseguiria pensar em outra coisa. O casaco tinha um decote baixo que lhe permitira uma visão tentadora dos seios firmes assim que ela acordara. Eles eram pequenos, pensou especulativamente, mas bemproporcionados, a se confiar no contorno sob o casaco. Semicerrou os olhos e teve de desviar a vista, porque queria olhar para eles com tal sofreguidão que o deixou rígido.


Virou-se para ir embora. – Se você está bem, vou tentar dormir. Tenho um compromisso no banco cedo pela manhã, na cidade. Ela o viu ir embora com profunda tristeza. A distância entre eles se aprofundava o tempo todo, e ela o fazia mais infeliz a cada dia que passava. – Obrigada por ter vindo me ver – disse. Ele parou com a mão na maçaneta, o olhar preocupado. – Sei que você preferiria morrer a fazer isso – disse ele vagarosamente. – Mas se sentir medo de novo pode vir ficar comigo. – Ele riu friamente. – É suficientemente seguro, caso você esteja preocupada. Não vou colocar meu ego em risco novamente com você. Ele se fora antes que ela pudesse contradizê-lo. Ela estremeceu diante da dor que essas palavras revelaram. Sentia-se pior do que nunca, sabendo o quanto o magoara. E era tão desnecessário. Tudo que tinha a fazer era contar a ele. Pelo amor de Deus, ela tinha 27 anos! Sim, e protegida obsessivamente pelo pai louco por dinheiro, que tivera medo de perdê-la para um homem pobre. Ela nem sequer tinha sido beijada intimamente até a noite do noivado. Perguntavase se ele sabia disso. Ele provavelmente não sabia, concluiu. Levantou-se da cama, acendeu a luz e dirigiu-se para a porta. Talvez tivesse chegado a hora de contar.


CAPÍTULO 6

NÃO LHE ocorreu até se encontrar no hall, descalça, em frente à porta de Justin, que três da manhã não era a melhor hora para trocar intimidades secretas com um homem que estava sedento por satisfação física desde o casamento. Ela hesitou, mordiscando o lábio inferior. A luz ainda estava acesa no quarto dele, mas o silêncio era total. Ela franziu a testa, pensando no que fazer, e afastou o cabelo rebelde com um suspirou. – Ele não está aí dentro – falou uma voz baixa e divertida às suas costas. Ela se virou e deu de cara com Justin, segurando um copo de uísque. – O que está fazendo aqui fora? – perguntou ela. – Olhando-a perambular pelo hall. O que tencionava fazer, entrar ali e violentar-me? Ela caiu numa gargalhada, surgida de algum lugar desconhecido, e seus olhos brilharam. – Não sei como – confessou. Ele até sorriu. Ela ficava bonita quando ria. Era bonita de qualquer jeito. Ele ergueu o uísque melancolicamente. – Pensei que pudesse me ajudar a dormir – disse. – Acho que nada vai me ajudar – murmurou ela. Mudava de um pé descalço para o outro, consciente da curiosa atitude examinadora dele e da forte batida de seu coração. – Quer dormir comigo? – perguntou ele. Ela corou. – Não foi só por essa razão que vim. – Ela olhou para cima e depois novamente para baixo, até os pés grandes dele, também descalços. – Você sabia que nunca alguém tinha me beijado intimamente até que você o fez? Ele piscou. – Você veio até aqui às três da madrugada para me dizer isso? Ela deu de ombros. – Pareceu bastante importante na hora – disse. Olhou-o com tristeza, os pálidos olhos verdes procurando o rosto magro e esculpido, a boca sensual, os músculos firmes de seu peito e estômago. – É incrível – murmurou ela, os olhos fascinados pela extensão nua de músculos bronzeados.


– O quê? – Ele franziu a testa, observando como os olhos dela o examinavam. Era perturbador. E ela devia saber disso. – Que você não tenha que afugentar as mulheres do seu quarto com um cabo de vassoura – murmurou distraída. As sobrancelhas dele se arquearam. – Andou chegando perto do meu uísque? – Parece, não parece? – Ergueu os olhos para os dele. – Posso dormir com você, Justin? Ainda estou bastante abalada. Se… – Limpou a garganta e olhou para outro lado. – Se não for incomodá-lo muito, quero dizer. Não quero tornar as coisas mais difíceis para você do que já estão. – Não estou certo de que consigam piorar – disse ele em voz baixa. Procurou os olhos grandes e suaves dela. – Muito bem. Venha. Ela o seguiu. Nunca tinha estado no quarto dele antes, embora tivesse passado por ele algumas vezes, lançando-lhe uma olhadela curiosa. A mobília era antiga. Antiguidades, como aquelas da casa onde crescera. Ela se perguntou se também na casa dele elas vinham de longa data, se tinha herdado dos pais. Passou a mão por uma das quatro colunas da cama, admirando a madeira polida e os lençóis listrados de bege e marrom. – Não pensei que gostasse de lençóis coloridos – contou. – Maria disse que não gostava. – E não gosto – disse sucinto. – Maria gosta. Ela jura que perdeu todos os lençóis brancos e teve de substituí-los. – Bem, estes são bonitos – murmurou. – Venha para dentro deles. Ele puxou o lençol de cima para trás e deixou que ela deslizasse para debaixo dele. – Vou regular o ar-condicionado, caso esteja muito frio para você – ofereceu. – Não, está bem assim – disse ela. – Detesto quartos quentes, mesmo no inverno. Ele sorriu debilmente. – Eu também. – Apagou a luz e voltou para a cama. O colchão cedeu quando ele se sentou, obviamente terminando seu uísque. – Você, hum, você dorme com a parte debaixo dos pijamas? – perguntou ela, agradecida pela escuridão que encobria seu rubor… Ele até riu. – Ah meu Deus. – Bem não precisa zombar de mim – murmurou, alisando o travesseiro antes de deitar a cabeça nele. – Sempre pensei que você fosse uma garota sofisticada – disse simpaticamente. – Sabe, do tipo liberada, com uma fileira de homens atrás de você e o tipo de sofisticação que combina com champanhe e brilhantes. – Menino, que choque iria levar – murmurou ela. – Até você aparecer, só tinha namorado um homem, e o máximo que ele fez foi tentar me agarrar e levar um tabefe de volta. Meu pai era obcecado em me manter inocente até que ele pudesse me vender para alguém que o tornasse ainda mais rico. Mas isso você não sabe, naturalmente, porque acha que ele era um santo. Ele acendeu a luz. Seus olhos estavam negros e firmes nos dela, reparando no rubor que cobria seu rosto. – Pode apagá-la, por favor? – perguntou, tensa. – Se vou falar desses assuntos, não pode ser olhando para você.


– Pudica – acusou ele. Ela o olhou fixamente. – Veja quem fala. Ele sorriu melancolicamente e apagou as luzes. Ela sentiu o colchão se mover à medida que ele se deitava e puxava os lençóis até os quadris. – Muito bem. Se quer falar, vá em frente. – Meu pai nunca quis que nos casássemos, Justin, apesar da encenação que ele montou para você – disse ela sucintamente. – Ele queria que me casasse com os haras de Tom Wheelor para que houvesse uma fusão e ele saísse do vermelho. – Essa é uma pílula difícil de engolir, considerando aquilo que sei sobre seu pai – disse ele, recordando-se de que fora o dinheiro do pai dela que possibilitara o sucesso do posto de engorda pertencente à sua família. Ele se perguntava se ela teria conhecimento desse fato, e quase o revelou quando a ouviu suspirar. Ela se mexeu. – No entanto, é verdade. Ele estava pronto para arruiná-lo se eu não colaborasse com esse esquema inventado de me casar com Tom. – Você admitiu que tinha dormido com Tom – lembrou-lhe. Seu tom ficou mais pesado. – E sei o quanto você não queria dormir comigo. – Mas não porque o achasse repulsivo – disse. – Não? Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele rolou sobre ela. Um braço magro enlaçou seu corpo, puxando-a contra ele. Na escuridão, ele procurou sua boca com a dele e a beijou com abandono impetuoso. As mãos dela se ergueram contra o peito cabeludo e áspero, empurrando os sólidos músculos quentes, enquanto a boca de Justin pedia coisas que a amedrontavam. Quando o joelho dele se insinuou entre os dela, ela se contraiu e empurrou com mais força, debatendo-se. Ele a soltou sem uma palavra e se levantou. Sua mão ligou o interruptor de luz. Voltou-se para ela, os olhos brilhando como incêndios na floresta, o rosto lívido com mal controlada fúria. – Saia! – disse furioso. Ela sabia que, naquele momento, não havia palavra capaz de acalmá-lo. Se tentasse amaciar a situação, talvez desencadeasse alguma reação física que a amedrontaria ainda mais do que seu ardor de seis anos atrás. Saiu da cama, os olhos culpados e cheios de lágrimas, e fez o que ele mandou. Não olhou para trás. Fechou a porta gentilmente e, ainda chorando, desceu a escada. O escritório de Justin estava silencioso. Ela acendeu a luz, dirigiu-se ao bar e, com mãos trêmulas, pegou um copo. Despejou nele um pouco de conhaque e o agitou. O que ela queria era pular do telhado, mas talvez o conhaque resolvesse. A casa estava tão silenciosa. Tão pacífica. Mas sua cabeça era um turbilhão. Por que ele não podia compreender que sexo violento a amedrontava? Por que ele se recusava a escutar? Ela o afastara, por isso. Tinha se debatido. Mas se não tivesse feito isso e ele perdesse o controle… seus olhos se fecharam com um tremor. Não conseguia sequer pensar no assunto. As pernas tremiam quando se sentou no sofá, o corpo dobrado, a testa encostada na borda do copo. As lágrimas nublavam sua visão. Ela tomou gole após gole até que finalmente o álcool começou a acalmar seus nervos.


Ao perceber que já não estava sozinha, nem olhou para cima. – Sei que me odeia – disse entorpecida. – Não precisava ter vindo até aqui para me dizer. Justin recuou, diante das lágrimas em seu rosto, da angústia em sua voz macia. Seu orgulho fora novamente estilhaçado. Mas doía vê-la chorar. Ele se serviu de outro uísque e sentou na beirada da pesada mesa de centro na frente dela. – Estava lá em cima, xingando-a – disse depois de um minuto. – Até que de repente compreendi o que você havia dito, sobre nunca ter deixado nenhum homem beijá-la de forma mais íntima. – Embora seja uma mulher da vida – disse ela amarga. – Dormi com Tom. Até lhe contei. – Acabou de me dizer que seu pai mentiu sobre isso. – Os olhos negros se estreitaram. Tomou um gole de uísque e pousou o copo. Ajoelhou-se bem na frente dela, sem tocá-la, seus olhos ao mesmo nível que os dela. – Também me lembrei de outra coisa. Logo após o acidente de carro, você me beijou. Não teve medo de mim e não sentiu aversão, Shelby. Mas você estava tomando todas as iniciativas, não estava? Ela levantou os olhos. Então ele fizera a conexão. Ela suspirou, preocupada. – Sim – disse finalmente. – Não tive medo. – Mas até então – acrescentou com os olhos perspicazes fazendo rápidas avaliações – tinha sido muito bruto com você quando tentamos fazer amor. Ela enrubesceu, evitando seu olhar. – Sim. – E não era repulsa. Era medo. Não de ficar grávida, mas da própria intimidade. – Deem um prêmio a este homem – murmurou ela, com humor forçado. Ele suspirou, observando-a afagar o copo de conhaque. Tirou-o das mãos dela e o pôs sobre a mesa. – Levante-se. Espantada, sentiu-o erguê-la do sofá, colocá-la de lado e deitar-se nas almofadas. – Agora, sente-se. Ela obedeceu, hesitante, porque não conseguia entender aonde ele queria chegar. Ele pegou uma de suas mãos e a levou ao peito. – Pense em mim como um sacrifício humano – murmurou ele secamente. – Um primeiro passo no processo educativo. Seus lábios se entreabriram numa respiração profunda, ao perceber o que ele estava fazendo. Seus olhos fugiram para os dele, curiosa, tímida. – Mas você… você não gosta disso – lembrou ela, mostrando discernimento, porque no passado fora sempre ele a tomar a iniciativa, nunca a tendo encorajado nesse sentido. – Vou aprender a gostar – disse ele francamente. – Se isso é o que é preciso fazer para que você chegue perto de mim, estou mais do que disposto a lhe dar essa vantagem, Shelby. As lágrimas arderam em seus olhos. Mordeu o lábio inferior para que parasse de tremer. – Oh, Justin – murmurou estremecendo. – Deste jeito você consegue? – perguntou ele baixinho, os olhos negros vivos de ternura. – Se eu deixar, você consegue fazer amor comigo? Lágrimas brotaram de seus olhos e escorreram pelo rosto. – Eu queria lhe dizer – soluçou ela. – Mas estava constrangida demais. – Está tudo bem. – Ele colocou a grande mão sobre a dela e percorreu o traçado das pequeninas veias azuis. – Já deveria ter percebido isso há muito tempo. Não vou machucar você. Nunca vou machucar


você. Ela riu por entre as lágrimas. Incrível que ele tivesse descoberto por si mesmo. Ela sorriu e se inclinou, hesitantemente, até encontrar sua boca quente, e a roçou com os lábios. Justin sentiu como se seu coração fosse explodir. Só Deus sabia como é que ele não entendera antes. É óbvio que Wheelor a tinha magoado, e ela se afastara de qualquer intimidade daí para a frente. Ele odiava pensar que outro homem tinha sido seu primeiro amante, mas não podia mais ficar parado vendo Shelby se destruir emocionalmente por conta disso. Precisavam de um ponto de partida para a construção de uma vida em comum, e este parecia o melhor de todos. Ele sentiu sua boca macia e tímida com uma sensação maravilhosa. Ela ainda não sabia beijar direito, e ele sorriu sob seus lábios pesquisadores. Ele vinha se mantendo celibatário há muito tempo, mas em sua juventude sua falta de atrativos não o tinha impedido de adquirir experiência. Ele sabia o que fazer com uma mulher, mesmo que falar desse assunto em público o constrangesse. Ele não a tocou. Como prometera, ficou deitado, com o corpo atormentado, deixando que sua boca brincasse com a dele. – Chegue mais perto – respirou contra os lábios dela. – Está tão segura quanto quiser. – Não está machucando você? – perguntou ela, preocupada. – Quando chegar a esse ponto, eu lhe digo – prometeu, mentindo desbragadamente, porque já tinha chegado lá. Ela sorriu, movendo-se de modo a deixar que os macios seios se apoiassem totalmente no peito dele, suas pernas castamente ao lado das dele, e não sobre elas. Havia um pequeno tremor nos lábios dele quando ela tornou a se inclinar, mas ele ainda não tinha tentado puxá-la ou tornar o beijo mais íntimo. As mãos dela subiram até o espesso cabelo dele, despenteando-os, e seus lábios percorreram as linhas de seu rosto, amando sua força. Ele era tão doce de se beijar. Ela riu, deliciada com esta nova liberdade de tocá-lo como tinha querido durante tantos anos de solidão. Ele abriu os olhos e a examinou com curiosidade. – O que aconteceu? – Se você soubesse – disse ela – há quanto tempo queria fazer isso… O queixo dele se contraiu. – Você poderia ter-me dito. – Não pude. – Ela tocou seu peito largo. – É uma coisa tão íntima para se falar. – Impulsivamente, ela se inclinou e roçou os lábios pelos fortes músculos de seu peito. – Justin, senti tanto sua falta. O peito dele arfava sob a carícia delicada. – Também senti a sua – disse com voz rouca. – Meu Deus, Shelby, não posso…! – Cerrou os dentes. Ela olhou para cima. – Não é suficiente para você, não é? – perguntou ela, hesitante. – Acho que ainda tenho muito que aprender. Os olhos dele escureceram. – Quero tocar em você – arfou. – Quero que você se deite de costas, sem esse pijama na minha frente. O corpo dela estremeceu sobre o dele. – Se você perder o controle, vai acontecer o mesmo que lá em cima – disse ela. – Eu fico com medo. – Juro que não vou perder o controle – disse ele, rápido. – Nem que tenha que sair correndo noite afora, gritando.


Ela acreditou. Foi a coisa mais difícil que já tinha feito, confiar nele nesse momento. Mas engoliu com dificuldade e se pôs de costas ao lado dele, vendo-o mudar de posição para ficar em cima dela. – A confiança é difícil, não é? – perguntou ele baixinho. – Sim. – Ela examinou seu rosto com calma. – Eu podia ter morrido esta tarde. Fico pensando nisso e em quanto as coisas parecem insignificantes nessa hora. Eu só pensava em você e na triste lembrança que iria deixar. – Tudo se resume nisso? – Ele deu um sorriso. – Não realmente. – Estudou sua boca rígida. – Eu estava louca por você quando me deixou beijá-lo. Queria saber se conseguiria deixar de ter medo. Mas lá em cima, quando você me agarrou, desabei. – Não vou agarrá-la desta vez. – Ele se inclinou, mal encostando na boca de Shelby. Roçou-a, mordiscou-a, até que os lábios dela começaram, aos poucos, a acompanhar os dele. Ele sentiu a respiração dela mais rápida. Então seus dedos começaram a se mexer como se desenhassem figuras no casaco do pijama. Primeiramente ela se contraiu, mas os movimentos dele eram muito vagarosos e complacentes, e a boca, muito gentil. Ele levantou a cabeça, ao senti-la relaxar, e sorriu tranquilizadoramente. – OK? – murmurou. A ternura era nova. Os olhos dela sorriram. – OK. Ele olhou para os seios dela e viu os bicos endurecerem onde seus dedos brincavam. Pressionou com o polegar um dos bicos endurecidos, ouviu-a ofegar e seu corpo estremecer. Ele gostou da reação, então tornou a fazer a mesma coisa, e desta vez o corpo dela arqueou um pouco. – Gosto disso – disse ele brandamente, encarando-a. – Faça de novo. Ela fez, mas só porque não conseguiu evitar. – Estou me sentindo... estranha – sussurrou. – Trêmula. – Eu também – murmurou ele de volta, e roçou a boca preguiçosamente pelos lábios dela até que se abrissem. – Quer que lhe diga o que vou fazer agora? O coração dela bateu descompassadamente. – Sim – disse ela contra sua boca. Ele sorriu. – Vou desabotoar seu pijama. Sua respiração tornou-se rápida contra os lábios dele, à medida que seus dedos ásperos desabotoavam o pijama. Quando o tecido estava aberto até a metade, ele começou a afastá-lo. Afastouo até a curva do seio e olhou-a nos olhos, registrando tanto a leve timidez como a excitação que ela não conseguia esconder. – Você é pequena – murmurou ele. Seus dedos acompanharam uma curva macia. – Gosto das minhas mulheres pequenas. Ela estremeceu pela forma como ele disse isso, pela sabedoria em seus olhos negros, pela experiência dos dedos que acariciavam seus seios e paravam bem ao chegar ao duro e dolorido bico. Ela estremeceu quando ele fez isso. Ele tornou a fazê-lo e ela exalou um suspiro. O nariz dele roçou o dela. Sua respiração, quente e com gosto de fumo, misturou-se com a dela. – Sim, você quer, não quer? – Ele zombou baixinho. Tornou a percorrer seu corpo, mas desta vez não parou. Sua mão alisou-a de cima a baixo, segurando o bico duro em sua palma suada, pressionando-o. Ela gritou. O som pareceu chocá-la porque engoliu, umedecendo os lábios com a língua.


– Você age – murmurou ele, afastando o tecido sensualmente – exatamente como uma virgem com seu primeiro homem. – Ele afastou o cetim de seus seios e olhou para eles. Prendeu a respiração, porque os montes cremosos com suas pontas malvas tinham uma conformação tão maravilhosa que lhe tiraram o fôlego. – Realmente não se importa que seja tão… pequena? – Ela se ouviu perguntar. – Ah Deus, não – respondeu. Seus olhos retinham os dela e seus dedos percorriam a pele macia. – Ficará chocada se puser minha boca neles? – Sim – admitiu sorrindo. Ele sorriu de volta e inclinou a cabeça até o corpo dela. Ela se arqueou ao primeiro toque dos lábios em seus seios, pensando que, em toda a sua vida, nunca sonhara que pudesse haver tanto prazer em ser tocada. Suas mãos agarraram o farto cabelo dele e ela o segurou contra si enquanto as carícias leves e sutis a faziam tremer. Ela gemeu e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Ele sentiu o corpo dela tremer e entendeu a razão. Era o sinal que esperara. Suas mãos magras e calosas desceram até os quadris dela, sobre a barriga lisa. Fizeram o cetim deslizar com tal suavidade, que ela não se incomodou nem protestou. As mãos dele a tocaram como se ela sempre tivesse pertencido a ele, e ela amou o toque, a ternura vagarosa das rudes mãos em sua pele. Sua boca se abriu, úmida, a sucção em seu seio fazendo-a arquear de prazer. Sentiu suas mãos, indefesas, agarrarem os musculosos braços, puxando-o. Ela estava sussurrando alguma coisa que nem entendia, pedindo-lhe alguma coisa que sequer conhecia. Ela precisava de… alguma coisa. Sua boca mordeu o ombro dele. Quando ele ergueu a cabeça e olhou para ela, ela mal podia vê-lo através da bruma vermelha. Ela achou que ele sorria quando sua boca se prendeu à dela. Então sentiu a língua dele se mexendo vagarosa e sutilmente dentro de sua boca, e seu corpo enlouqueceu sob o dele. Ela o puxava, os braços ao redor do pescoço dele. Sentia-o contra ela, sentia o contorno duro e quente de seu corpo e o calor da pele áspera contra sua pele macia. Ela percebeu vagamente que as calças do pijama dele tinham sumido, mas o toque dele contra ela era tão especial que ela não queria que ele parasse. – Vai acontecer agora – murmurou ele em sua boca, quando seu joelho abriu caminho entre suas longas e trêmulas pernas. – Não vou machucá-la. Não vou apressá-la. Ainda pode me fazer parar, se quiser. Vamos fazer isso com tanta ternura que não ficará com medo de mim. Agora apenas fique quieta e confie em mim por mais alguns… segundos… Ela tremia e ele também, mas ela nunca quisera alguma coisa na vida com a intensidade com que queria pertencer a ele. Este era Justin. Ele era seu marido e ela o amava mais que a própria vida; ele tinha sido tão paciente, tão terno, que ela sentia vontade de lhe dar seu corpo juntamente com seu coração. – Justin – murmurou ela cheia de desejo, olhando seu rosto se crispar. Ela sentiu o primeiro toque dele e se contraiu um pouco. – Shh – sussurrou ele. Sorriu-lhe, obrigando-se a se conter. – Vou ficar observando você – falou roucamente. – Se você sentir um leve sinal de dor, vou perceber na mesma hora. Era incrivelmente íntimo. As luzes estavam acesas. Mas tudo que ela podia ver era o rosto dele. Podia sentir seu hálito, rápido e forte em seu rosto, podia ver a veia pulsando em seu pescoço. Mas não sentia medo, nem mesmo do peso dele sobre ela, esmagando-a nas almofadas. Ele era dela, e ela ia tomar posse dele.


Ela sentiu a dor como uma faca quente. Agarrou-se a ele e seus olhos ficaram do tamanho de pires. Ela gritou e lágrimas desceram pelo seu rosto. Os olhos negros de Justin escureceram e as pupilas cresceram e cresceram e ela percebeu então que ele estava congelado como uma estátua em cima dela. Os lábios dele se entreabriram. Respirou profundamente. Olhou-a com incredulidade. Moveu-se uma vez mais e viu-a cerrar os dentes, mesmo sabendo o porquê disso. – Sinto muito – murmurou ela. Suas mãos se ergueram. – Não pare – disse ela. – Está tudo bem, acho que… posso… aguentar. – Meu Deus. Ele retraiu-se, afastando-se de forma a se sentar de costas para ela, dobrado, o corpo tremendo violentamente. – Meu Deus, Shelby. – Justin, você não... não precisava parar – murmurou, mordendo o lábio. – Tudo iria correr bem. Ele não estava ouvindo. Tinha a cabeça nas mãos e tremia. Alcançou o copo de uísque que ainda tinha um gole de líquido, e suas mãos tremiam tanto que ele quase o derramou antes de conseguir tomá-lo. Levantou-se e Shelby enrubesceu e desviou o olhar chocado de sua ostensiva masculinidade. – Sinto muito – disse ele sumariamente. Pegou a parte de baixo do pijama e a vestiu distraidamente. Depois ficou olhando para ela até que ela ficou vermelha e tentou se enrolar. Mas ele não permitiu. Ele se abaixou para levantá-la. Aninhou-a nos braços e se sentou na poltrona, segurando-a com maravilhosa ternura, murmurando carinhos com a boca no cabelo escuro, segurandoa enquanto ela chorava. Quando ela parou, ele enxugou seus olhos com um lenço. O rosto dela estava encostado no largo peito trêmulo, aninhada contra os espessos pelos, os seios apoiados suavemente em seu estômago. Ela tremeu diante dessa intimidade, porque estava nua. – Você é minha mulher – disse ele ao notar seu constrangimento. – Não faz mal que a veja sem roupa. Ela enroscou-se mais para perto. – Sim, acho que sim. Só que… é novo. – Meu Deus, sim, sei. Havia uma nota inconfundível em sua voz. Ela levantou os olhos, proporcionando-lhe uma súbita e total visão dos lindos seios. Ele teve que arrastar os olhos de volta para os dela. – Minha noiva virgem – murmurou roucamente. Seus dedos tocaram os seios dela hesitantemente, como que com reverência. – Oh, Shelby, Shelby. – Eu… o dr. Sims me submeteu a uma pequena cirurgia, mas resmungou quando não o deixei fazer o trabalho completo – disse ela, desviando os olhos dele. – Acho que não foi suficiente... – Ficou vermelha. – Por que não o deixou fazer como devia? – Para que eu pudesse provar que não tinha dormido com Tom – disse simplesmente. – Sua bobinha! – Levantou os olhos dela até ele. – Se eu não tivesse parado lá em cima ou se alguma vez tivesse perdido a cabeça com você… Meu Deus, é bom nem pensar. Ela mordeu o lábio, olhando o peito largo coberto de pelos. – Justin, teria parado de doer – começou ela timidamente.


– Teria, uma ova! – Ele se reclinou com um suspiro profundo. – Detesto ser o portador de más notícias, meu bem, mas terá que voltar e fazer a cirurgia como deve ser. – Mas… Ele levantou seu rosto. – Uma pequena dor é uma coisa, mas você tem uma baita quantidade de prova ali – disse ele sumariamente. Mexeu-se inquieto, notando o embaraço dela e mesmo o dele ao tentar explicar esse tipo de coisas para ela. Ele apertou a cabeça dela contra o peito e se abaixou para roçar os lábios sobre sua boca. – Vista-se enquanto completo o seu conhaque. Só sentir você já faz com que a deseje. Ele se levantou e a pôs no sofá com apenas uma olhadela superficial. Enquanto ela enfiava o pijama, ele colocou conhaque no copo dela e uísque no dele, e então foi procurar um cigarro. Ela sentia o rosto flamejar. Nunca imaginara que aquela intimidade fosse tão... íntima. Mas, juntamente com a timidez, havia uma espécie de excitação pelas novas descobertas em relação a Justin. Ele não tinha perdido o controle, ficando enlouquecido e a machucando. Tinha sido vagaroso, paciente e respeitoso. Isso a fez corar ainda mais. – Quem lhe disse que os homens enlouquecem e machucam as mulheres quando fazem amor? – perguntou ele em tom de conversa. – Porque parece ter pensado que era isso que ia acontecer lá em cima. Ela pegou o copo de conhaque e olhou-o voltar para a poltrona onde se sentou e alcançou um cinzeiro. – Você disse – respondeu, hesitante. – No dia em que ficamos noivos e você perdeu o controle. As sobrancelhas dele se ergueram. – Perdi a esse ponto? – Eu achei que sim. – Ela estudou o copo. – Eu sabia que tinha esse problema e que teria de me submeter a uma cirurgia antes de minha primeira relação. – Ela levantou os ombros. – Vivo apavorada com isso desde os meus 15 anos, quando fui examinada por causa de um problema feminino. Algumas pessoas sofrem um pequeno desconforto, mas o médico disse que, no meu caso, seria impossível se não fizesse a cirurgia. Por isso, quando você veio com tanto ímpeto e pensei que não pudesse pará-lo… – Você não me disse nada disso – falou em voz baixa. – Como poderia? – Ela suspirou, infeliz. – Oh, Justin, tenho 27 anos e sou tão verde como uma préadolescente! Não consigo sequer falar no assunto agora sem ficar vermelha! – Eu pensava que tivesse aversão a mim – disse ele, com a voz profunda da dor recordada. – Nunca sonhei… e depois me disse aquilo sobre Wheelor e o meu ego se despedaçou. – Os ombros largos subiam e desciam. – Não teria sido tão bruto com você se tivesse sabido a verdade. Doía tanto saber que você tinha estado com outra pessoa, e quando me afastou, fiquei doente. – Pelo menos agora você sabe por que me afastei – disse com um suspiro. Ele deu uma tragada no cigarro. – Eu a desejo muito – disse sem preâmbulo. Ela baixou os olhos até o tapete. – Eu também desejo você. – Então vamos tomar uma providência a esse respeito. Vá ver o dr. Sims. Faça a cirurgia. Vamos ter um casamento de verdade. Daqueles em que duas pessoas dormem juntas, compartilham, fazem filhos juntos. O rosto dela ficou ainda mais afogueado, mas ela olhou para cima.


– Você quer mesmo filhos, não quer? – Quero filhos com você – disse simplesmente. – Nunca os quis com qualquer outra mulher. – Então não vou precisar tomar… nada. Ele sorriu vagarosamente. – Não. Ela se levantou, novamente nervosa e tímida. – Acha que não seria uma boa ideia dormirmos juntos? – perguntou, sem se dar conta do quanto soava melancolicamente desejosa. Ele se levantou, bem mais alto que ela, atraindo seus olhos. – Talvez não seja, mas vamos assim mesmo. Ainda que não possamos fazer amor, posso abraçá-la. Ela soltou a respiração. – Justin, lamento por tantas coisas. – Eu também, mas não podemos voltar atrás. – Ele se inclinou e lhe deu um leve beijo na boca. – Vamos viver um dia de cada vez. Não vou tornar a apressá-la. Ela sorriu para ele. – Obrigada. Ele sorriu de volta, mas não disse nada. Ela o observou colocar tudo em ordem antes de apagar a luz. Ainda tinha o cigarro na mão quando subiram juntos. – Você está bem? – perguntou ele quando estavam na cama, ela aninhada ao seu lado. – Não a machuquei muito? – Não – sussurrou ela, escondida pela escuridão. – Também não a amedrontei? – Ele insistiu, como se isso importasse. – De jeito nenhum – assegurou, aproximando-se mais. Ele era quente e musculoso e ela adorava senti-lo junto de si. – Nem uma vez. – Esfregou o rosto contra o dele – Você é muito terno. – É como fazer amor deve ser – contou ele em voz baixa. – Mas estou enferrujado, sra. Ballenger. Fiquei celibatário tempo demais. Ela prendeu a respiração. – Alguns meses, quer dizer? – Hum, não exatamente. – Beijou-a na testa. – Cerca de seis anos, Shelby. Ela prendeu a respiração. – Meu Deus! Nunca sonhei…! – Ainda bem – murmurou ele. – Acho que você teria saído correndo e gritando se tivesse sabido, pensando que um homem que tivesse jejuado por seis anos estaria esfomeado e incontrolável. – Mas não estava. – Você precisava de ternura, portanto foi o que teve. Nem sempre vai ser assim, depois de algumas vezes – disse ele. – Não gosto que seja assim o tempo todo. A cabeça dela fantasiou sobre o que ele gostaria e ela se deu conta de que ele reprimira seus instintos, se contivera para tornar as coisas mais fáceis para ela. – Justin... – Shhhh. – Beijou-a de leve na boca. – Vá dormir. Está me deixando excitado. – Sinto muito. Ele a beijou de novo e se deitou de bruços, com um longo suspiro. – Boa noite, bonequinha.


– Boa noite, Justin. Mas ela custou a adormecer. Havia milhares de perguntas zumbindo em seus ouvidos e apenas umas poucas respostas. Pelo menos tinha tirado um grande obstáculo do caminho e Justin ainda a queria. Já era alguma coisa. Mesmo que não a amasse, talvez desenvolvesse algum tipo de afeto por ela outra vez. Não podia culpá-la totalmente pelo passado, já que a sabia inocente. Ou podia? Ocorreu-lhe que talvez ainda quisesse se vingar pela amargura e humilhação que sofrera. Esse era um pensamento capaz de restituir sua sobriedade, e fez com que ela se mantivesse acordada por bastante tempo.


CAPÍTULO 7

JUSTIN MAL pôde acreditar no que viu quando acordou na manhã seguinte. Estava tão acostumado a que os sonhos com Shelby terminassem ao alvorecer. Mas aqui estava ela, com o longo cabelo escuro em seu travesseiro, as delicadas e pequenas feições relaxadas no sono, a boca cheia e doce e tentadora. Ficou deitado, apenas a olhando por um bom tempo. Tinha se sentido solitário sem ela. Mais solitário do que se dera conta até terem recomeçado a falar; quando namoravam, ele sonhava com Shelby em sua cama, relaxada no sono, ele fazendo exatamente isto: olhando-a dormir. Ela não podia saber como era preciosa para ele ou como a noite passada tinha sido uma revelação, o culminar de todos os seus desejos, mesmo que não tivesse podido terminar o que começara. O fato de tê-la descoberto virgem fora um choque de puro deleite. Nem chegou a pensar nas razões que a levaram a enganá-lo. Estava deslumbrado demais pela visão do lindo rosto adormecido, pela cabeça deitada tão confiante em seu travesseiro. Como ela não se mexesse, ele esboçou um sorriso gentil e se inclinou para roçar seus lábios. Viu as longas pestanas tremerem e abrirem-se. Ela suspirou, viu-o e sorriu, uma nova maciez nos pálidos olhos verdes. – Bom dia – murmurou. – Bom dia. – Ele tornou a beijá-la. – Dormiu bem? – Nunca dormi tão bem em toda a minha vida. E você? – Posso dizer o mesmo. – Ele a cobriu com o lençol. – Não precisa se levantar ainda. – Vai trabalhar assim tão cedo? – murmurou ela, dando uma olhada sonolenta para o relógio. – Tenho de voar até Dallas, meu bem – disse ele, levantando-se. – Um cliente novo. Estarei de volta ao anoitecer. – Só tenho de chegar ao trabalho às 9h – disse ela, com um sorriso malicioso. – Gostaria que deixasse de trabalhar – falou ele, franzindo a testa. – Justin, gosto de trabalhar – protestou, sem veemência. – Não gosto de deixá-la tão ao alcance de Barry Holman – murmurou. Ela olhou para ele. – Talvez ele seja mulherengo, mas não comigo – disse ela. – Ele é um homem decente e gentil comigo.


Justin voltou-se. Não convinha fazer com que ela soubesse o ciúme que sentia de seu atraente patrão. – Vou tomar uma chuveirada. Ela o observou mexer na gaveta à procura de roupa de baixo e se dirigir ao banheiro, sem tirar os olhos ávidos de seu peito nu. Parecia tudo tão irreal, a intimidade compartilhada na noite anterior. Ela corou só de lembrar, mas ele já tinha ido e não viu o rubor que invadiu suas faces. Ficou pensando se devia lhe contar sobre Tammy Lester e o interesse do sr. Holman por ela. Talvez mais tarde. Mas adormeceu enquanto ele estava no chuveiro, e quando tornou a acordar, ele já estava pronto, vestindo um terno cinza-claro que se ajustava lindamente ao musculoso contorno de seu corpo magro, e endireitava a gravata listrada vermelha e cinza no espelho. – Maria já está de pé tão cedo assim para lhe servir uma refeição? – murmurou sonolenta. – Vou tomar café no avião. – Ele se virou, remexendo no bolso, e jogou as chaves do carro na cama, ao lado dela. – Leve o T-bird para o trabalho. Seu problema de transporte vai ter que esperar até amanhã. Ela se sentou, segurando as chaves. – Mas como vai chegar ao aeroporto? Ele levantou uma sobrancelha. – Será que meu coração vai aguentar toda essa preocupação? Os doces olhos dela o examinaram e a noite anterior voltou com surpreendente clareza. Ela o viu do modo como ele estivera lá embaixo com ela, tornou a sentir a intimidade… – Meu Deus, que rubor intenso – murmurou, amando a reação dela. – Suponho que se enfiaria debaixo da cama se começasse a recordar? – Pode ter certeza – disse ela, com um último grão de orgulho. Depois deitou tudo a perder, ao sorrir e esconder o rosto nas mãos. – Oh, Justin – sussurrou, lembrando-se. Ele se sentou na beirada da cama, puxando a cabeça dela contra seu peito. Ele cheirava a água-decolônia, e só o fato de estar perto dele a deixava mole e tonta. – Você está com vontade de ir trabalhar? – perguntou ele, olhando-a nos olhos. – Não é obrigada. – Eu sei. – Suspirou delicadamente. – Mas estou apenas dolorida. Estava mais amedrontada do que propriamente ferida, a bem da verdade. – Não foi a única – murmurou ele. – Tenho cinco novos fios de cabelo branco esta manhã, graças a você. Ela se ergueu e tocou o cabelo bem penteado nas têmporas, onde o cabelo grisalho misturava-se ao negro. – Sinto muito. Acho que estava fugindo. Você parece me detestar de vez em quando. – Às vezes cheguei a achar que sim – confessou sem sorrir. – Seis anos é um longo período para se remoer. Acreditei em você quanto ao Wheelor. – Deslizou a mão sob sua nuca. Os dedos contraíram-se subitamente, não o suficiente para machucar, mas para apertar sua cabeça ao encontro do seu paletó. – Por quê? – perguntou, numa voz enganadoramente amável. – Por que mentir para mim a esse respeito? Não bastava terminar o noivado, sem precisar destroçar também meu orgulho? E ali estava, pensou ela, a amargura transparecendo. Ele nunca iria superar o que ela tinha feito, e sua inocência física parecia não fazer grande diferença. Certamente não iria fazer com que ele parasse de culpá-la pelo passado, mesmo que a desejasse desesperadamente. Ele sempre a desejara, mas isso só já não era suficiente. Seus olhos ficaram turvos de tristeza. Ele lhe dissera, na noite anterior, que tinha


ficado seis anos sem uma mulher. Isso revelava que ele sentira tamanha amargura que nem queria mais uma mulher. Mas ele a queria, e ela podia imaginar que isso fizera com que esquecesse o passado quando estava perto dela. Anos de celibato provavelmente fariam com que um homem esquecesse um bocado quando estava nas garras da paixão. O mundo dela ruiu. Fechou os olhos com um pequeno suspiro. – Eu lhe disse ontem à noite. Foi ideia de papai. – E já lhe disse antes que seu pai gostava de mim. Fez tudo para me ajudar. Na noite em que ele e Wheelor vieram me ver ele até chorou, Shelby. Os olhos dela ergueram-se até os dele. – Tudo isso remete a uma questão de confiança, e sei como você confia pouco em mim – disse ela. – Não que a culpa seja toda sua, Justin. Não melhorei as coisas, mentindo deliberadamente para você no início. Mas você não tem um pingo de confiança em mim. O queixo dele enrijeceu. – Não consigo – disse. Soltou-a subitamente, ficou em pé e se afastou. – Eu quero você, sabe disso. Mas não consigo deixá-la se aproximar. Uma mulher que trai um homem uma vez tornará a fazê-lo. – Eu ainda sou virgem – lembrou, sem jeito. – Não me referi a isso. Você mentiu. Me traiu. – Respirou profundamente e pegou um cigarro. – Nem mesmo tenho a certeza de que não o faria agora, com aquele seu patrão escorregadio. – Olhou para ela, os olhos brilhando. – É fácil perceber como ele precisaria apenas de um pequeno encorajamento de sua parte, e ele é bonitão, não é meu bem? Não há nada de insípido nele. – Você não é insípido – murmurou. – Como você é esperta por ter percebido que estava falando de mim – retrucou. – Não se meta em encrencas enquanto eu estiver fora e não pressione seu pé no meu acelerador. – Nem toco no seu precioso carro, se preferir – respondeu, os olhos verdes chispando. – Vou tomar um táxi e fazer com que toda Jacobsville veja. Olharam-se fixamente. De súbito, ele fez uma careta, esboçou um sorriso, e finalmente o riso explodiu de seus lábios e brilhou em seus olhos. – Bruxa – murmurou ele. – Selvagem – retrucou ela. Ele jogou o cigarro no grande cinzeiro sobre a cômoda e foi até ela de forma decidida. Ela jogou longe as cobertas e tentou pular para o outro lado da cama, mas ele foi mais rápido. Antes que conseguisse, ele a agarrou, deitou-a de costas e a prendeu com a força de seu corpo musculoso. – Isso mesmo, lute – encorajou com um gemido. – Meu Deus, pode sentir o que está acontecendo comigo? Ela podia. Parou, as faces escarlates. – Bem, o mundo não vai se acabar – disse ele meio divertido. – Você sabe como me sinto quando estou excitado, e na noite passada não tínhamos várias camadas de roupa entre nós. – Pare! – Ela enterrou o rosto no pescoço dele, agarrando-se, tremendo de embaraço e excitação. – Sua boba – falou ele, mas de forma terna. Virou-se para ficar de costas, puxando-a para cima dele, os olhos negros à procura dos pálidos olhos dela, enquanto ela se equilibrava sobre seu peito. Ele olhou o profundo decote de seu pijama e a leve protuberância de seus seios bem acima dele, no lugar onde estavam apertados contra ele. – Assim está melhor? – murmurou. – Você é um homem horrível e não sei se quero continuar a viver com você – disse ela, queixosa.


– Quer sim. – Ele forçou sua boca até a dele puxando um punhado do cabelo sedoso e comprido. – Beije-me. – Vai amassar seu terno – avisou. – Tenho muitos outros ternos, mas quero ser beijado. Vamos, tenho que tomar um avião. Ela cedeu à amável provocação. Todas as discussões foram esquecidas no minuto em que sua boca macia tocou a dele. Ela sentiu a mão dele deslizando por entre seu cabelo, puxando-o delicadamente, e seus lábios se entreabriram para a procura suave e intensa da boca quente de Justin. – Depois da cirurgia temos de esperar uns dois dias antes de podermos terminar o que começamos ontem à noite – sussurrou ele. – Portanto, não comece a ficar preocupada e nervosa desde já, OK? – Os olhos negros procuraram os dela. – Não vou apressar você, Shelby. Desta vez vai ser exatamente como você quer. Ela beijou os olhos dele, fechando gentilmente as pálpebras, demorando-se nas espessas pestanas numa fúria de ternura. Ela queria murmurar que o amava mais do que a própria vida, que tudo o que fizera e que o magoara tinha sido para protegê-lo. Mas ele ainda não confiava nela e seria preciso conquistá-lo para poder dividir com ele seus segredos mais profundos. – Você vai acreditar se disser que não tenho mais medo de você? – sussurrou ela. – Meu bem, é difícil não acreditar, considerando-se a posição em que estamos – sussurrou de volta. – Que posi… Justin? Ele riu, ao virá-la de costas e deslizar para cima dela, mordiscando seus lábios. – Esta posição – murmurou. – Um beijo de despedida e vou embora. – Já dei… várias… vezes – murmurou ela, as palavras intercaladas com beijos longos e macios. – Dê mais alguns e terei de encontrar uma maneira de minhas pernas me sustentarem – murmurou ele, secamente. – Meus joelhos estão bastante fracos neste momento. – Os meus também. – Colocou os braços em volta do pescoço dele e mordeu-lhe o lábio inferior. – Agora você é meu – disse em voz baixa, seu olhar sustentando o dele. – Não vá sair por aí flertando com outras mulheres. A possessividade dela mexeu com ele, que pôs as mãos sob as costas dela e a levantou, demorando-se ao se inclinar sofregamente sobre sua boca. Beijou-a com insistência crescente até que seu próprio corpo exigiu que parasse ou fosse em frente. Ele se afastou com relutância e se levantou, cheio de orgulho ao olhar o resultado de seu trabalho. Ela estava esparramada sobre os lençóis num delicioso abandono, o cabelo como um halo à sua volta, a boca macia, vermelha e inchada de seus beijos, os olhos sonhadores de desejo. – Se eu tivesse uma foto sua de como você está agora – disse roucamente –, teria que andar dobrado sobre mim mesmo cada vez que olhasse para ela. Nunca vi uma mulher tão bonita como você. – Eu não sou nem bonitinha – corrigiu. – Mas fico contente que goste de mim como sou. Também gosto de você. Ele respirou profundamente. – É melhor dar o fora daqui enquanto posso. Pensar no seu problema já ajuda. Ela desviou os olhos para os lençóis, sentindo-se nervosa. – Você realmente teria deixado que continuasse, não teria? – perguntou ele, a voz cheia de sentimento. – Mesmo sabendo o quanto iria machucá-la, você não teria me impedido. – Eu queria que você soubesse.


– Foi preciso ter muita coragem. – Ele franziu a testa, olhando-a. – Magoei-a quando disse que era frígida? – Um pouco – respondeu, tentando poupá-lo. Ele suspirou com raiva. – Um bocado, imagino. Tente se lembrar de que eu não sabia a verdade e não me queira mal por isso. Há muitas coisas que você também não sabe a meu respeito, Shelby. – Ele se virou, pegando o cigarro do cinzeiro. – É melhor eu ir indo – disse após um rápido olhar ao fino relógio de ouro em seu pulso. – Sem pressa – avisou ele na porta. A advertência a intrigou, mas ela sabia que ele não ia lhe dizer nada além do que gostaria que ela soubesse. – Tudo bem. Faça uma boa viagem. – Vou fazer o possível. Ele não disse até logo. Lançou-lhe um último olhar e saiu, fechando a porta. Shelby observou-o sair com emoções diversas. Às vezes desejava poder ler sua mente, porque era a única maneira de ficar sabendo como ele realmente se sentia em relação a ela. Ficou se perguntando se ele próprio o saberia. Ela se levantou, se vestiu e dirigiu o Thunderbird até o escritório, após marcar uma consulta com o dr. Sims. Quando chegou em casa, estava exausta pela combinação de um dia inesperadamente longo, tentando manter a paz entre um irritável sr. Holman e uma venenosa Tammy Lester, e a cirurgia, tão embaraçosa quanto desconfortável, porque precisara contar ao dr. Sims o porquê dessa decisão. Mas uma xícara de café e um bom jantar a deixaram mais calma. Subiu para seu próprio quarto, desejando ter o direito de ir diretamente para o de Justin. Mas ele nada dissera quanto às acomodações, parecendo, portanto, ter encarado a noite anterior como uma coisa temporária, em função do que tinha acontecido. Foi dormir cedo. Não ouviu o carro chegar nem as passadas de Justin encaminhando-se, cheio de expectativa, para seu quarto. Não o ouviu praguejar de forma abafada ao ver a cama vazia, ou o silêncio chocado ao encontrar Shelby dormindo na dela. Ele fechou a porta com firmeza e foi para seu quarto, os sonhos se desvanecendo em seus olhos. Ele esperava que ela estivesse acordada, ou pelo menos dormindo na cama dele. Mas ela não estava, e ele não sabia se ela apenas se sentira insegura sobre o que fazer ou se estaria erguendo um muro entre eles por causa da discussão daquela manhã. Shelby, alegremente alheia ao que se passara desde que fora dormir, desceu para tomar o café da manhã cheia de esperança. Encontrou um Justin frio e taciturno, olhando-a como se ela tivesse acabado de lhe dar um tiro. Parou de repente na soleira da porta. Usava uma longa saia de jeans até os tornozelos, e suas mãos mexiam nervosamente na blusa de algodão azul e no lenço que a complementava. – Bom dia – disse, hesitante. – Raios, não é não – disse ele. Suas sobrancelhas se arquearam. – Não? Ele levantou a xícara de café e tomou o forte líquido negro. – Vou mandar um dos rapazes levá-la para o trabalho – disse ele. – Pode me dar as chaves do Thunderbird?


Ela as tirou do bolso da saia e as pôs ao lado dele na mesa, mas ele segurou sua mão antes que pudesse se afastar. Ele levantou os olhos, sua expressão preocupada. – Por que voltou para seu próprio quarto? Ela suspirou e depois sorriu. – Porque não sabia se ainda queria dormir comigo – disse com tristeza. – Você estava meio bravo quando saiu esta manhã e não disse nada. – Seus ombros subiram e desceram. – Não quis me impor. – Meu Deus, querida, somos casados – disse ele com voz rouca. – Não poderia se impor mesmo que quisesse. Ela olhou para a mão grande e magra que segurava a dela. Sua força quente a fez vibrar. – Você tem estado muito distante desde que nos casamos. – Acho que está começando a compreender por que, não está? – perguntou baixinho. Ela olhou para os olhos negros e calmos e aquiesceu. – Porque você... me quer. – Isso é parte da razão – concordou sem maiores explicações. – Foi ao dr. Sims? Seu rubor deu a resposta antes que ela assentisse com um gesto de cabeça. Ele a puxou para a cadeira ao seu lado. – Vou levá-la para o trabalho – disse, empurrando-lhe um prato com ovos. Ela sorriu, mas não permitiu que ele percebesse. Justin tinha-se acalmado quando entraram em Jacobsville, mas Barry Holman fez com que a irritação voltasse ao chegarem ao escritório. O atraente advogado louro estava na rua, olhando em volta, e, para alguém de fora, podia parecer que estivesse esperando impacientemente por Shelby. Para Justin, infelizmente, foi exatamente isso que pareceu. Holman ergueu a cabeça quando Justin parou o Thunderbird junto ao meio-fio e seu rosto se iluminou. Ele sorriu com prazer exagerado e apressou-se ao encontro de Shelby, enquanto apenas acenou para Justin, cuja expressão se tornou mortífera. – Ainda bem que está aqui – exclamou Barry, abrindo-lhe a porta. – Estava com medo que chegasse atrasada. Como está bonita esta manhã! – Ele estava ciente dos acontecimentos do dia anterior, é lógico, mas Shelby ficou alarmada com sua solicitude e começou a se perguntar o que o estaria levando a agir daquela maneira enquanto ele a ajudava a sair do carro. – Vou tomar bem conta dela, Justin – disse ele, jogando lenha na fogueira, sorrindo para o marido fumegante. Justin não respondeu nem falou com Shelby. Bateu a porta do carro, os olhos chispando na direção de Shelby, e saiu ventando rua abaixo. – O que houve? – perguntou Shelby, ainda preocupada com a inesperada atitude de Justin. O sr. Holman tinha certamente transmitido uma impressão errada de suas relações de trabalho. – Aquela mulher tem de ir embora – disse sem preâmbulo, abanando as mãos. – Trancou-se no meu escritório e não me deixa entrar. Já chamei os bombeiros, entretanto – acrescentou, com um brilho malicioso no olhar. – Eles vão arrombar a porta e tirá-la de lá, e então ela pode ir embora. Para sempre. Shelby levou a mão à cabeça. – Sr. Holman, por que Tammy se trancou em seu escritório? Ele pigarreou. – Foi por causa do livro. – Que livro?


– O livro que joguei em cima dela – disse irritadamente. – O senhor jogou um livro na Tammy? – perguntou, ofegando. – Bem, era um dicionário. – Ele ficou revirando as mãos nos bolsos. – Tivemos uma pequena desavença sobre como escrever um termo legal que, obviamente, eu sabia, Shelby – acrescentou irritado. – Afinal, sou um advogado. Sei como escrever termos legais; eles nos ensinam isso na faculdade. Shelby, que já tivera algumas amostras dessa sabedoria do sr. Holman, não disse uma palavra. Ele tornou a se remexer. – Bem, eu disse algumas coisas. Aí ela disse algumas coisas. Então meio que atirei o livro na direção dela. Foi quando ela se trancou no meu escritório. – Só por causa do livro – espicaçou ela. Ele olhou para a calçada. – Hum, sim. Isso. E o vidro quebrado. Os olhos dela se alargaram. – Vidro quebrado? – A janela, sabe? – Ele se moveu, envergonhado, em direção ao meio-fio, tendo achado o que estivera procurando antes. Pegou no dicionário rasgado com um sorriso pálido. – Aqui está! Sabia que deveria estar em algum lugar por aqui. Shelby estava dividida entre o riso e as lágrimas quando o caminhão dos bombeiros chegou com a sirene a toda e encostou, fazendo chiar os pneus no meio-fio. – Por acaso lhes disse por que precisava deles aqui? – perguntou Shelby enquanto olhava os bombeiros que desenrolavam uma longa mangueira. – Não, pensando bem, não – disse. – Alô, Jake! – O sr. Holman cumprimentou o chefe dos bombeiros com um grande sorriso. – Que bom que vieram. Hum, não há exatamente um incêndio. Preciso de uma ajuda um pouco diferente. Jake, um homem grande de rosto vermelho, chegou mais perto. – Não há incêndio? Bem, para o que precisa de nós, Barry? – perguntou, fazendo um gesto para que os homens enrolassem a mangueira de novo. – Preciso que arrombem a porta do meu escritório com um machado – disse o sr. Holman. – Por quê? – Perdi minha chave – improvisou o sr. Holman. – Nesse caso não teria sido melhor chamar um chaveiro? – continuou Jake. Começava a olhar o patrão de Shelby com um olhar estranho. O sr. Holman franziu a testa pensativamente. – Oh, não, acho que não. Não chegaria nem perto da impressão causada por um machado. Jake olhava intrigado. – Uma de nossas... funcionárias... se trancou no escritório e se recusa a sair – explicou Shelby. – Bem, minha nossa, Barry, derrubar a porta com um machado fará com que ela morra de medo – disse Jake. – Sim. – O sr. Holman sorriu pensativamente. – Certamente fará. Assim que Jake voltou a falar, Tammy Lester saiu furiosa do edifício, dirigiu-se para Barry Holman e bateu nele com toda a força de que foi capaz.


– Demito-me – disse furiosa, quase tremendo de raiva. – Desculpe-me, Shelby, mas vai voltar a ser a única mulher no escritório. Não consigo aguentar nem mais um único dia com o sr. Presente dos Deuses para as Mulheres! E o senhor não sabe ortografia, Senhor Grande Advogado! – Sei escrever melhor do que você, sua fugitiva de curso supletivo de ortografia de ensino médio! – gritou atrás dela. – E não espere que venha correndo pedir que volte! Deve haver centenas de mulheres estúpidas que não sabem ortografia nesta cidade precisando de trabalho! Jake olhava de boca aberta o advogado normalmente calmo. Shelby também. Ela estava com dificuldades de controlar o riso. Isso, é claro, só complicaria as coisas. Passou com facilidade pelo chefe dos bombeiros e entrou rapidamente no escritório para não presenciar o que viria a seguir. E, na verdade, mal pisara no escritório acarpetado quando Jake soltou todos os cachorros em cima do sr. Holman. Falou-se qualquer coisa sobre alarmes falsos e prisão preventiva... e, nessa altura, Shelby fechou a porta e foi para o computador. Ela estava preocupada pela forma como Justin reagira ao fato de o sr. Holman estar esperando por ela na rua. Não causou boa impressão, e Justin já tinha ciúmes doentios do homem. Não fazia muito sentido, mas Shelby não sabia muito a respeito de homens. Ela partiu do princípio de que se tratava de um ciúme superficial, uma vez que Barry Holman era atraente e mulherengo, e Justin, possessivo e cônscio de seus territórios. Nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser mais do que isso. E porque isto a perturbava, telefonou para casa a fim de explicar a Justin o que tinha acontecido. Mas Maria lhe disse que ele ainda não tinha voltado. Tentou novamente na hora do almoço, mas ele estava fora com um cliente. Portanto, voltou ao trabalho e esqueceu completamente o assunto, enquanto o sr. Holman dizia cobras e lagartos de Tammy durante o resto do dia, finalmente fechando o escritório uma hora mais cedo porque não estava conseguindo trabalhar. – Não se preocupe em recuperar o tempo perdido – disse a Shelby em voz baixa. – No mês que vem começam as audiências e terá possivelmente que fazer hora extra organizando os processos e me ajudando com as pesquisas. – Ao chegar à porta, olhou com expressão zangada. – Eu ia deixar a srta. Lester nos ajudar com isso, já que ela parece ter jeito para trabalho externo. Mas uma vez que ela se demitiu por uma razão tão estúpida é você que terá de fazê-lo. – A maioria das secretárias ficaria nervosa se seus chefes atirassem livros nelas – observou Shelby. – Não a acertei, não é? – perguntou ele caçoando. – Eu acertei a janela. Isso me lembra que é melhor chamar Jack Harper para trocar o vidro amanhã. – Parecia desconfortável. – E, hum, não precisa entrar em detalhes sobre a forma como foi quebrado. Precisa? – Eu lhe direi que uma águia voou ao encontro dele – concordou. Ele olhou fixo e saiu pisando duro em direção ao carro. Shelby encaminhava-se para o lugar onde costumava estacionar o carro quando se lembrou de que não tinha carro. – Oh, sr. Holman – chamou sem pensar –, podia me deixar no posto? Não consegui entrar em contato com Justin e ele só virá me buscar daqui a uma hora. – Com certeza. Venha. Ele a ajudou a entrar no Mercedes preto e saiu rapidamente em direção ao estabelecimento dos Ballenger. – O que aconteceu com seu carro novo? – perguntou. – Problemas com o motor? Ela sorriu nostalgicamente. Não tinha lhe contado sobre o carro esporte embora ele a tivesse visto dirigindo o carro de Justin no dia anterior.


– Justin o entregou ao sr. Doyle. – Mas é um ferro-velho – lembrou-lhe o sr. Holman. – É verdade; é isso mesmo. E ele tem um compactador novinho em folha. – Ela suspirou. – Justin disse que se eu quisesse poderia ter o meu carro transformado num belo objeto de decoração de parede. Cerca de 13 centímetros de espessura… – Por que ele fez uma coisa dessas? – perguntou o advogado. – Ele me acha estouvada – disse Shelby. – Acho que ele está pensando em me comprar alguma coisa mais sóbria. Como um tanque Sherman. O sr. Holman sorriu. – Espero não ter causado nenhum problema esta manhã – disse ele com atraso, quando virou na longa estrada que dava no posto. – Não estava raciocinando. Fiquei contente por vê-la porque sabia que conseguiria tirá-la do escritório, caso os bombeiros não funcionassem. – Tammy é realmente uma boa mulher – disse ela. Ele fechou a cara. – É uma chata. – Se lhe desse meia oportunidade, ela seria capaz de surpreendê-lo. Ela é muito eficiente. Ele se remexeu no assento. – Notei que está bastante sobrecarregada. Não foi minha intenção privá-la de sua ajuda. Ela olhou para ele. – Poderia considerar a hipótese de pedir a Tammy que volte. Talvez ela também esteja arrependida. Ele apertou os lábios. – Talvez esteja. Suponho que poderia dar uma passada pela casa do pai dela e apenas mencionar que ela pode vir trabalhar amanhã. – Talvez fosse melhor telefonar primeiro – disse Shelby, lembrando-se do gênio de Tammy. – Vou fazer isso. – Parou o carro em frente aos escritórios do posto e sorriu. – Obrigado por ser tão compreensiva. – O prazer foi meu. Não, não saia. Consigo abrir a porta sozinha. – Ela riu. Saiu do carro sorrindo e acenou para ele. Atrás dela, Justin a observava, um cigarro entre os dedos magros, sua altura enfatizada pelo jeans, a camisa de chambray e as botas que costumava usar no posto. O chapéu estava puxado sobre os olhos e ele parecia perigoso. Shelby se virou, o viu e parou subitamente. – Ei, alô. Levou o cigarro à boca. – Chegou uma hora mais cedo. – Tivemos um problema no escritório. – Ela ficou vermelha e isso tornou as coisas piores. – Preciso de uma carona até em casa. – Calhoun vai para aqueles lados – retrucou. – Pode deixá-la. Ele entrou no prédio, deixando-a em pé ao sol, com o barulho do gado que mugia e se remexia no complexo soando em seus ouvidos. Calhoun apareceu vestindo um terno bege, e zangado. – Justin está sentado atrás da mesa com os pés cruzados, sem fazer nada, e me tirou de uma reunião para levá-la em casa – disse ele, perplexo. – Não que me importe, Shelby. Estou apenas curioso. Está de


novo no seu pé? – Quando é que não está? – respondeu ela sumariamente. – O sr. Holman me trouxe até aqui. Acho que Justin pensa que o seduzi na autoestrada! – Shhh! – Calhoun levou o dedo aos lábios e puxou-a em direção ao seu Jaguar branco. – Não torne as coisas piores do que estão. A secretária dele já ameaçou se demitir. – Ele tem esse efeito sobre tantas pessoas – disse ela venenosamente. – Arrogante, insensível, insuportável…! – Ora, ora – acalmou-a. – Vai conseguir apenas se irritar e não resolverá nada. Ele está apenas com ciúmes. Você é mulher. Deveria saber exatamente o que fazer. Ela enrubesceu e desviou o rosto, enquanto ele a ajudou a entrar no carro e se sentou a seu lado. Olhou curiosamente para ela, notando sua vermelhidão. Espantava-o como Justin e Shelby eram parecidos: ambos antiquados e cheios de problemas. Ele ligou o motor e pigarreou. – Você se incomoda se lhe disser uma coisa bastante pessoal, Shelby? Já que agora somos parentes e tudo mais? Ela não conseguia encará-lo. – Depende do que for. – Sim, imagino. Você reage da mesma forma que Justin – disse ele. Entrou na estrada e acelerou. – Bem, é o seguinte. Meu irmão não é exatamente um lírio de pureza, mas nos últimos anos tem sido um eremita. Não namorou ninguém. Está um pouco enferrujado com as mulheres. É aonde quero chegar. – Eu poderia lhe dizer o que ele é, se não fosse irmão dele – murmurou ela, agarrando a bolsa. – Shelby – disse pacientemente –, a melhor maneira de conquistar a atenção de um homem e amansá-lo é abraçá-lo tão apertado quanto puder e deixar a natureza seguir seu curso. Ela ficou roxa. Sabia que Calhoun era muito parecido com seu patrão, um homem que conhecia bem as mulheres. Mas se não conseguia falar de intimidades com Justin, certamente não o conseguiria com Calhoun. – Ele não gostaria disso – disse ela com voz rouca. – Gostaria, sim – retrucou ele. Estendendo o braço, deu-lhe tapinhas no ombro gentilmente. – Ele é tão louco por você que não consegue enxergar direito. Acredite no que estou dizendo, meu bem, ele vai se dobrar como um acordeão se você usar a abordagem certa. E é tudo que vou dizer. Como vão indo você e seu carro esporte? Ela o olhou boquiaberta. Ele não sabia? – Justin não lhe contou? – Justin não fala muito quando está no escritório – disse simpaticamente. – A maior parte do tempo ele trabalha e, quando não trabalha, resmunga. – Eu tive uma quase batida com o carro, na realidade, disse ela entre os dentes. – Eu rodei e quase bati num caminhão. – Ela sentiu seu olhar espantado. – Justin pegou o carro e mandou esmagá-lo. – Justin fez muito bem – disse inesperadamente. – Aquele carro era perigoso. – Ele olhou fixamente para ela. – E você sabe o quanto melhor que ninguém. Ela pigarreou. – A Suíça foi há muito tempo. – De todo modo, Justin estava com a razão. Ele não iria querer enterrá-la tão pouco tempo depois do casamento, como sabe.


– Não mesmo? – perguntou ela amargamente. – Acho que ele me odeia. – Gostaria de poder convencê-la do quanto isso que disse é uma piada. – Ele encostou em frente à casa e sorriu para ela. – Eu desafio você. Provoque-o e veja o que acontece. Ele é tão inexperiente em relação a mulheres como você em relação a homens, portanto, tenha isso em mente. E não mencione, pelo amor de Deus, que fui eu que falei – disse. – A única vez em que Justin e eu discutimos, ambos tivemos de levar pontos, OK? – OK. – Ela abriu a porta e olhou para trás timidamente. – Você é um homem bom. – É claro que sou – disse ele. – Pergunte a Abby, se não acredita. – Ele sorriu com o ar de um homem que sabe o quanto é amado. – Até logo. – Dê um alô a Abby por mim. Ele riu e acenou ao voltar para a estrada. Shelby pensou no que ele acabara de dizer e se perguntou se teria coragem suficiente para seguir seu conselho. Se Calhoun estivesse certo e Justin fosse tão conservador como ela própria, seria realmente interessante ver o que iria acontecer. Então lembrou-se de seu ardor e ficou pensando se Calhoun conhecia efetivamente o irmão. O Justin que Shelby conhecera no sofá não era um homem que não sabia o que fazer com as mulheres. Justin era meio caladão com todo mundo, e Calhoun podia não saber exatamente o quanto seu irmão mais velho era experiente. Mas a ideia de provocar Justin era deliciosa, e agora não tinha mais razões para ter medo. Ela sabia que ele podia ser terno e que não perderia o controle cedo demais. E agora, graças a Deus, não haveria mais nenhuma dolorosa barreira para inibi-la. Ela sorriu pensativamente enquanto subia os degraus, já fazendo planos excitantes para a noite.


CAPÍTULO 8

JUSTIN FINALMENTE voltou para casa bem depois de escurecer, cansado e mal-humorado. Lançou um olhar à mesa de jantar onde Shelby comia sua refeição solitária, e subiu a escada sem sequer um alô. Ela suspirou, em dúvida se o pior ainda estava por vir. Terminou a sobremesa e estava tomando o café quando ele voltou. Tinha obviamente acabado de tomar banho, porque o cabelo ainda estava úmido nas têmporas. Vestia uma camisa em estilo western cinza e azul axadrezada, com calça jeans cinzenta, e seu humor não tinha melhorado. Sentou-se à cabeceira da mesa e começou a encher o prato com bife e molho mornos e batatas passadas na manteiga. – Maria pode aquecer para você no micro-ondas – arriscou Shelby. – Se quiser que Maria faça alguma coisa, peço a ela – disse ele. Então ia ser aquele tipo de noite. Ela pôs o guardanapo de lado e alisou a saia do vestido vermelho e branco que vestira propositadamente porque Justin achara sexy. Ela não sabia bem como chegar até ele. Parecia tão distante, exatamente como nos primeiros dias de sua relação. Examinou calmamente seu rosto firme. – Justin, se ainda está aborrecido por causa desta tarde, o sr. Holman fechou o escritório uma hora mais cedo, e já estava na rua quando me dei conta de que não tinha carro – disse. – Ele foi suficientemente amável para me deixar no posto a caminho de casa. Ele passa por lá, sabe? Ele levantou a cabeça, os olhos negros chispando. – E você sabe como me sinto em relação a seu maldito patrão. Ela o encarou, aborrecida. – Sim, sei, mas achei que não se incomodaria de eu pegar uma carona. Ele é um perfeito cavalheiro comigo – disse ela cortante. – Já lhe disse isso até não poder mais, Justin! – Poderia ter me telefonado – retrucou. – Teria ido buscá-la. – Eu nem sabia se você estaria no posto – disse ela. Pousou o garfo devagar. – Não sabia nem se você viria, depois de ter saído ventando, sem se despedir, esta manhã. Ele empurrou o prato mal começado. – Ele estava à sua espera andando de um lado para outro – respondeu geladamente. – E depois praticamente carregou você para a calçada. Eu quase saí do carro e parti para cima dele. Não gosto que


outros homens a toquem. Se ele esperava que ela se irritasse com aquela declaração direta estava enganado. A afirmação fizera o coração dela pular uma batida. Ela o fitou, perguntando-se se ele pelo menos percebia o que estava admitindo. Suspirou sagazmente e sorriu-lhe. – Fico contente. Ele franziu a testa. – O quê? – Fico contente que não goste que outros homens me toquem. – Pegou o café e tomou-o. – Também não gosto que outras mulheres o toquem. Ele se remexeu na cadeira. – Não estávamos falando disso. Ela sorriu porque ele parecia ter esquecido sobre o que estavam falando. Ela afastou o longo cabelo escuro e seus olhos brilharam ao procurarem os dele. – Calhoun disse que você o tirou de uma reunião e o fez me trazer para casa. Ele procurou um cigarro e pareceu desconfortável. – Estava de cabeça quente. Ela ficou imaginando se seria por ciúmes de seu patrão ou frustração. Calhoun a deixara intrigada com o que dissera sobre a reação de Justin se ela o provocasse. Queria descobrir por si própria. Mas pensar e fazer eram coisas completamente diferentes. Ali sentada, olhando o homem taciturno e severo à sua frente, ela não conseguia de fato imaginar como seria chegar perto dele e se sentar em seu colo. No entanto, teria sido maravilhoso sentir-se bem recebida se ela fizesse isso. Ela enrubesceu delicadamente com os próprios pensamentos e pousou a xícara de café. – E o meu carro? – Esqueci – murmurou ele. – Vamos amanhã. – Está bem. Ele ignorou a torta de abacaxi num prato a seu lado e terminou o café. – Recebi um novo filme pelo correio – contou ele. – Um filme de guerra em preto e branco dos anos quarenta. Pensei em vê-lo. – Sei que vai se distrair. Ele olhou para ela cautelosamente. – Você poderia assistir comigo. Se quiser – acrescentou descuidadamente, para que ela não soubesse o quanto ele queria que ela o fizesse. Mas ela o percebeu. Sorriu. – Se não for incomodá-lo, gostaria. Gosto de filmes de guerra. – Gosta? – Ele sorriu lentamente. – E de ficção científica? Os olhos dela se acenderam. – Oh, gosto sim. Ele até riu. – Tenho uma boa coleção dos antigos e muitos novos lançamentos. – Tudo de que precisamos agora é de pipocas – comentou ela. – Maria – chamou. A governanta veio até a porta. – Sí, señor Justin?


Ele fez o pedido a ela num espanhol relâmpago, e Maria sorriu e respondeu de igual forma. Riu, fez outro comentário, que coloriu o rosto de Justin de vermelho, e voltou para a cozinha com uma piscadela para Shelby. – O que ela disse? – perguntou Shelby, porque apenas arranhava o espanhol e não tinha a facilidade de Justin para línguas. – Que ia fazer as pipocas e trazê-las aqui – respondeu ele sucintamente. – Bem, se você vem, venha logo. Ele se levantou e saiu da sala, deixando que ela o seguisse. A sala de estar estava acolhedora, apenas com uma lâmpada acesa. Shelby enroscou-se no sofá, descalça, com a tigela de pipocas entre ela e Justin. Maria apareceu apenas para dizer que ela e Lopez iam visitar a irmã, e a casa ficou silenciosa, exceto pelo barulho das bombas e das metralhadoras, à medida que os Aliados e as tropas do Eixo lutavam de novo na tela. Quando chegaram aos inevitáveis grãos de milho encruados no fundo da tigela, Justin a pôs de lado e descalçou as botas antes de pegar um cigarro, descansando as longas pernas na mesa de centro. No decorrer do filme, Shelby percebeu que chegava cada vez mais perto dele. Sua mão deslizou hesitante até a dele, apoiada no sofá. Começou a acariciá-la, mas parou, tímida e insegura. Ele percebeu o movimento e virou a cabeça. – Você precisa de permissão para me tocar, Shelby? – perguntou, em tom profundo, lento e delicado. – Não sei – respondeu ela. – Preciso? – Não. – Ele a olhou, paciente e divertido, até que ela tornou a mover a mão em direção à dele e a tocou, vibrando ante a força quente de seus dedos ao se entrelaçar aos dela, apertando-os. Ela sorriu timidamente e voltou sua atenção para o filme. Mas nada ouviu nem nada viu porque o polegar de Justin esfregava gentilmente sua palma úmida. Sentiu o movimento como se fosse uma marca a ferro quente, queimando seu sangue, tornando-a faminta. Os lábios se entreabriram quando recordou a última vez em que tinham estado naquele sofá e o que tinham feito. Lembrou-se do couro frio contra suas costas, do peso do corpo de Justin sobre o dela, numa intimidade que ainda fazia com que seu rosto ficasse escarlate. – Gosta de mistérios? – perguntou, para ter alguma coisa que dizer numa trégua da cena de batalha. – Com certeza – disse ele, à vontade. – Tenho alguns suspenses do Hitchcock e uma cópia do Arsênico e alfazema, com Cary Grant. – Adoro esse – contou ela, pensativa. – Ri de chorar na primeira vez em que o vi. – E os westerns do John Wayne? – perguntou ele com um olhar de soslaio. Ela riu. – Vi Hondo tantas vezes que posso latir junto com o personagem do cão. – Eu também. – Ele a examinou por um longo momento, admirando sua aparência no vestido vermelho e branco, apreciando o comprimento do cabelo escuro. – Sempre tivemos muito em comum, Shelby. Principalmente o violão. – Ele passou o polegar pelas pontas dos dedos dela. – Você ainda toca? Ela abanou a cabeça. – Não mais. Perdi… o gosto. – Eu também – confessou, porque depois do fim do noivado não suportava as lembranças que o violão lhe trazia. – Talvez possamos voltar a praticar juntos um dia desses. – Seria bom. – Ela sorriu para ele, que lhe retribuiu o sorriso. E o aparelho de televisão parecia estar a léguas de distância, à medida que os sorrisos foram murchando, e o olhar foi ficando longo e


intensamente excitante. Os dedos dele apertaram fortemente os dela e ele inspirou profundamente. – Venha aqui, meu amor – disse ele baixinho. Ela vibrou com a forma como ele disse o carinhoso termo porque raramente o empregava. Ele fazia com que se sentisse jovem e vulnerável. Ela chegou mais perto, com controlada ansiedade e se enroscou nele com a cabeça descansando naturalmente em seu ombro. – Não vá cair no sono – murmurou ele secamente. – Não estou com sono – respondeu suspirando. Ela sorriu e esfregou o rosto nele. – Você tem cheiro de especiarias. – Você tem cheiro de gardênia – murmurou ele. – É um aroma que nunca associei a outra pessoa que não você. – É o perfume que eu usava – disse ela. Ele retirou a mão e fez uma pausa para apagar o cigarro. Depois, ergueu-a e virou-a para ele, de forma que ficasse deitada em seu colo, com a cabeça em seu peito. – Se preferir outro filme, não me importo – disse ele baixinho, sabendo perfeitamente que o filme era a última preocupação de qualquer dos dois. Ela não estava dando a menor importância para o que se passava na tela, porque tudo que ela vira desde o começo do filme fora o duro perfil de Justin. Mas não disse isso. – Este está bom – assegurou. – OK. Ele alisou o longo cabelo, segurando a mão delgada contra seu largo peito enquanto fazia de conta que estava interessado no filme. Ele agora estava consciente da presença de Shelby, de seu cheiro, da maciez dos seios apertados contra seu peito forte, da mão quente a tocá-lo. A carícia de seus dedos fez com que seu coração batesse mais rápido. Ele sentiu as primeiras notas de desejo no corpo vigoroso e, ao olhar para baixo e pressentir a ânsia nos olhos suaves, deixou de lado toda a dissimulação. Sem nenhuma pressa, abriu os botões de pérola de sua camisa e, devagar, guiou a mão de Shelby até o pelo espesso e o músculo forte e quente, induzindo-a a tocá-lo. Enquanto os dedos dela trabalhavam em seu corpo, sua boca começou a fazer floreios em sua testa, nas pálpebras fechadas, no nariz, nas faces, no queixo e no pescoço. Ela sentiu sua respiração se tornar mais rápida à medida que chegava mais perto. O nariz dele roçou o dela. Sua boca começou a procurar os lábios dela e, quando os encontrou, o toque foi explosivo. Ela o ouviu expirar fortemente enquanto sua boca se tornava autoritária, íntima. Os dedos se emaranharam no cabelo em sua nuca, fazendo-a arquear o pescoço de forma que sua boca fosse ao encontro da dele, respondendo a seu ardor faminto. O coração dela enlouqueceu. A respiração rápida e irregular se igualou à dele. Ela enterrou as unhas em seu peito forte e ele gemeu contra os lábios dela. – Desculpe – balbuciou ela. Ele pegou seu lábio inferior entre os dentes e percorreu-o com a língua. – Gostei disso – murmurou, e sua boca abria a dela, muito devagar, enquanto se deitava ao comprido a seu lado. Ele suspirou, e ela sentiu seu corpo da cabeça aos dedos dos pés, enquanto o beijo se tornava mais quente, mais vagaroso e mais intenso. – Beije-me com força, Shelby – falou com voz rouca. Ela se ergueu, suas inibições desaparecendo sob as profundas carícias. Seus dedos penetraram no espesso cabelo escuro e apreciaram sua calma enquanto sua boca respondia à dele.


O filme fazia um barulho estridente, as cenas de batalhas gritavam na quietude, mas nenhum deles ouviu. Os beijos se tornaram mais longos, anestesiantes, doridos, enquanto as mãos de Justin tentavam abrir os botões e fechos. Shelby sentiu o peito nu contra seus seios sem protestar. Era delicioso, o toque de pele contra pele, como tinha sido há algumas noites. Mas, desta vez, os velhos medos tinham diminuído bastante, porque agora sabia que o que ele fez não ia machucá-la. Sabia o quanto podia ser delicado e paciente. Ela sentiu as mãos dele tirando-lhe o vestido, fazendo-o escorregar pelos membros trêmulos. Ela suspendeu a respiração e, na pálida luz do abajur, ele sorriu para ela. – Está tudo bem – murmurou ele. – Não vou depressa demais. Ainda pode me parar, se quiser. Isso lhe devolveu o poder de decisão e fez com que tudo ficasse bem. Ela começou a relaxar, deixando as mãos deslizar com avidez por seus músculos fortes e peludos. Era paradisíaco tocá-lo assim, ter a liberdade de conhecê-lo com as mãos. Ela olhou para os olhos dele com essas descobertas expressas nos olhos suaves e ele sorriu para ela. – Oh, Justin – murmurou com voz rouca. – É tão doce! Ele se inclinou e colou a boca na dela, sentindo as palavras suspirarem em seus lábios. Deslizou a mão gentilmente sobre ela, sentindo o arrepio de sua pele. Ela era como cetim ao toque, e ele a desejara pelo que parecia uma eternidade. No fundo de sua mente, sabia que não haveria possibilidade de parar, mas ela não parecia preocupada com isso. Ela o puxou para junto de si, sua boca subitamente tão ardente e desinibida como a dele. Sem parar de beijá-la, ele conseguiu tirar as próprias roupas, tendo-a então contra ele, tremendo, enquanto ele diminuía o ritmo e começava a excitá-la de novo com rara paciência, até sentir a paixão sacudir seu corpo esbelto. – Agora – sussurrou quando ela estava gritando de desejo. Ele abrandou, virando o rosto dela para o seu com mão acariciadora. – Não. Não se vire. Eu quero ver. Ela corou febrilmente, mas olhou para ele no instante que o corpo dele tomou posse do seu. Os lábios dele se entreabriram. Foi a experiência mais profunda de sua vida. Todos aqueles anos amando-a, precisando dela e finalmente ia acontecer. Ela era sua. Sem mais barreiras. Ele a sentiu aceitando-o totalmente e prendeu a respiração. Ela se contraiu um pouquinho diante da novidade e da completa intimidade, mas ele diminuiu o ímpeto e hesitou. – Está tudo bem – murmurou ele ternamente, e dobrou-se para beijá-la, induzindo-a a relaxar, a deixar acontecer… – Sim, assim. – Ele riu desajeitadamente diante da facilidade, diante da extraordinária sensação de unidade. – Oh, Shelby! O rosto dela estava escarlate, mas ela não desviou o olhar. O rosto dele estava tenso e os olhos brilhantemente negros com a vitória. Ela esticou as mãos trêmulas até o rosto dele para baixar sua cabeça e poder beijar sua boca. – Me… ame – pediu, a voz faltando-lhe à medida que ele se mexia e ela sentiu o primeiro doce prazer da penetração. – Justin… me ame! As palavras acabaram com o controle dele. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo, menos ainda no que estava sentindo. Ele sucumbiu numa vaga de calor branco, gritando enquanto a força do prazer o privava de qualquer contenção, deixando-o entregue ao impulso da realização.


Em algum lugar do fundo de sua mente, Shelby sabia que deveria estar amedrontada ante o descontrole dele. Mas seus movimentos estavam provocando uma espécie de tensão prateada que fazia seu corpo vibrar de prazer. O êxtase estava quase a seu alcance, e ela se esticou em direção a ele com o último fio de força que lhe restava bem na hora em que Justin segurou seus quadris e puxou. Ela sentiu o mundo virar de cabeça para baixo e gritou o nome dele de novo, de novo e de novo… Ele riu. Ela sentiu os lábios dele em suas têmporas, suas faces, sua boca, com beijos que eram tão ternos como reconfortantes. – A primeira vez – ofegou, rindo novamente ao cobrir sua boca com a dele, tremendo. – Meu Deus, a primeira vez! Ela abriu os olhos, ainda tremendo pelo súbito declínio de um tipo de prazer que ela nunca sonhara existir. Ela o olhou, fascinada com o jeito dele. Ele parecia muito mais jovem. O cabelo estava úmido, o rosto suado, os olhos brilhando, exultantes de prazer. Ele estava tremendo, o corpo pesado sobre o dela, úmido. – Justin? – chamou ela, desorientada. – Você está bem, meu amor? – perguntou ele baixinho. – Não machuquei você? – Não. – Ela corou e baixou os olhos para o latejar em seu pescoço. – Olhe para mim, sua covarde. Ela forçou o olhar até o dele e ele se inclinou e roçou a boca em suas pálpebras cerradas. – Eu… eu nunca imaginei… – Ela não conseguia encontrar as palavras. Agarrou-se a ele, escondendo o rosto em seu pescoço úmido. Ele se virou, segurando-a calorosamente junto a ele no comprido sofá de couro, suspirando com estranho prazer pelo modo como ela o abraçava. – Tantas noites solitárias, Shelby – murmurou. – Tantos sonhos. Mas nem os sonhos eram tão doces. – Puxou-a para mais perto. – Beije-me, meu bem. Ela ergueu o rosto para o dele, obedientemente, colocando os lábios inchados contra os dele. Ele estremeceu e a pôs gentilmente de costas, de forma a ficarem completamente unidos. Ele olhou nos olhos dela com uma pergunta escura e macia nos seus. Ela não respondeu. Ergueu o corpo contra o dele e ele viu as palavras em seus olhos. Inclinou-se, suspirando irregularmente, e sua boca abriu-se sobre os lábios entreabertos dela. Ele fez um movimento para baixo, ela se agarrou nele e o mundo voltou a cair no esquecimento compartilhado. Ele a carregou escada acima muito tempo depois, aninhando-a em seus braços como o mais precioso dos tesouros. Colocou-a na cama e deitou-se a seu lado, apagando as luzes. Ele a enroscou em seu corpo cansado e suspirou com prazer. Ela adormeceu apenas segundos antes dele. SHELBY SENTIU um beijo nos lábios. – Justin – murmurou baixinho, abrindo os olhos. Ele estava sentado a seu lado na cama, vestido com jeans e uma camisa de chambray, sorrindo. – Tenho de ir trabalhar – sussurrou. – Não – gemeu ela, tentando alcançá-lo. Ele afastou as cobertas e a trouxe para junto de si, tocando-lhe os seios macios com rara ternura enquanto a beijava. – Nós fizemos amor – sussurrou.


– Várias vezes – sussurrou ela de volta, mas em seguida estragou sua nova imagem ruborizando-se furiosamente. Ele roçou os lábios dela. – Eu não tomei qualquer precaução – disse ele baixinho, tentando ler os olhos dela. O rubor tornou-se mais vivo. – Eu também não. Ele tocou os lábios dela com um dedo magro. – Eu sei. Vai haver problema se você engravidar? – sussurrou. – Não – gemeu ela. – Quero um filho seu. Ele prendeu a respiração e se inclinou para beijá-la com aguda ternura, mais contente do que podia expressar em palavras pelo modo como ela dissera isso, pela necessidade que sentia nele, nela. – Dormiu? – Ainda estou dormindo – murmurou ela nos lábios dele. – Foi tudo um sonho e não quero acordar. – Não foi um sonho. – Ele a beijou. – Machuquei você? – Oh, não – murmurou ela depressa. – De maneira nenhuma. Os olhos negros dele percorreram o rosto dela com adoração. – De agora em diante vai dormir comigo – disse ele. – Sem paredes, sem olhar para trás. Nós começamos aqui, agora, juntos. – Sim – murmurou, suspirando, o coração nos olhos. – Não vá trabalhar. – Tenho de ir. E você também. – Olhou-a fixamente. – Mas sem carona do patrão, entendeu? – Telefono para você. Prometo. – Ela se esticou e o beijou no rosto. – Não é possível que você tenha ciúmes depois de ontem à noite. Sua mão magra afagou-lhe o seio. – Não se engane – disse ele em voz baixa. – Vou ser dez vezes mais possessivo agora que fiz amor com você. Você é minha. – Sempre fui, Justin – disse ela tranquila, cismando com a forma como ele a olhava, o calor da possessividade em seus olhos negros. Certamente teria confiança nela agora? Ele procurou os olhos dela e deixou seu olhar percorrer sofregamente o corpo esguio. – Extraordinária – murmurou. – Você toda. Nunca senti nada em toda a minha vida que chegasse à metade do que senti com você. Eu me sinto… inteiro. O coração dela deixou de bater porque era como ela própria se sentia. Mas ela o amava, e ele apenas a desejava. Ou seria possível que ele estivesse finalmente começando a sentir alguma coisa por ela? – Também me sinto assim – disse ela. Ele sorriu. – Mas você era virgem, meu bem – ponderou ele, roçando sua boca no nariz dela. – Eu não. Ela o olhou fixamente. – Eu me dei conta disso. Esse olhar o fez se sentir incrivelmente masculino e poderoso. Ele se inclinou e mordiscou os lábios dela com os dentes, excitando-a docemente. – Foi há muito tempo e não teve nada a ver com você. Nos últimos seis anos sequer beijei uma mulher, essa é a verdade. Não há nada de que você possa sentir ciúmes. Ela o abraçou ardentemente, a cabeça encostada em seu peito nu.


– Desculpe-me. – Não há por que pedir desculpas – respondeu ele. Beijou-a na testa com uma ternura de tirar o fôlego. – Tenho que ir – rosnou. – Não quero, mas Calhoun vai estar fora do escritório o dia todo, e tenho de estar lá. – Eu sei. – Esfregou o rosto nele. – Vai me deixar no trabalho? – Sem dúvida. O que gostaria de tomar no café da manhã? Ela olhou-o com a resposta brilhando em seus olhos. Ele riu com puro deleite, levantou-se com ela nos braços e jogou-a no meio da cama, olhando-a embolar-se nos lençóis com divertida indulgência. – Agora não – murmurou ele secamente diante do flagrante convite de seus olhos, apesar da timidez. – Vista-se antes que todo este estoico controle derreta. – Desmancha-prazeres – disse ela suspirando. – Não quero que exageremos – disse ele, com súbita seriedade. – Isto tudo é novo para você. Não quero machucar você. Os olhos dela amaciaram. – E eu que tinha medo de você. – Abanou a cabeça. – Posso entender por quê. Mas não precisará ter de novo, jamais. – Ele se virou, espreguiçando-se com vontade. – Só Deus sabe como vou me concentrar no trabalho, mas sempre há hoje à noite – acrescentou, já da porta, com um sorriso malicioso. – O que quer para o café? – Ele repetiu. Ela sorriu timidamente. – Ovos com bacon. – Vou estar esperando. Ele saiu, e ela se levantou e se vestiu, sentindo-se como se seus pés não tocassem o chão que pisava. Ele estava à mesa, esperando, quando ela chegou. Ela tinha vestido uma saia cinza lisa e uma blusa azul-clara para trabalhar, com o cabelo preso num coque. Era uma roupa simples como ela pretendera que fosse. Desde que descobrira como Justin era possessivo, não queria estragar a nova relação entre eles, fazendo com que parecesse que ela tivera um cuidado especial com sua aparência para ir trabalhar. Ele levantou os olhos quando ela entrou na sala de jantar e sorriu diante de sua aparência. – Muito executiva – disse com aprovação. Ele se reclinou na cadeira, fazendo com que a camisa se esticasse no peito musculoso. Parecia arrasador assim, com a luz brilhando no cabelo negro e enfatizando a pele queimada. Ele não era um homem bonito, mas Shelby achava que era o homem mais atraente que jamais vira. – Fico contente que aprove – disse ela, sorrindo para ele. Ele se levantou e se sentou a seu lado, parando para beijá-la vagarosamente na boca. Seus olhos procuraram os dela, quentes, macios e com um brilho escuro. – Linda criatura – murmurou ele. – Coma os ovos antes que eu a transforme em refeição. Ela riu com puro deleite e voltou o olhar para o prato. Mal podia acreditar na forma como tudo tinha mudado nos últimos dias. Seus olhos o adoravam. Ele era dela, agora. Pela primeira vez, ela se sentiu realmente casada. Finalmente estavam a caminho de uma duradoura relação. Os dias que se seguiram foram de confirmação. Ela pensava em Justin no trabalho e, quando chegavam em casa, à noite, não havia mais discussões, mais barreiras. Ele a beijava na ida e na volta e todas as noites faziam amor e ela dormia em seus braços. Era o mais perto do céu que ela estivera, era como um sonhar acordada que nunca terminaria. Passavam o tempo juntos, cavalgando, tocando


violão, vendo filmes no vídeo. Era um novo começo, e Shelby quase pôde acreditar que o que tinham era perfeito. Mas mesmo com a aproximação física, mesmo com o tempo passado juntos, Shelby ainda sentia a distância emocional entre eles. Justin não dividia com ela seus sentimentos mais profundos. Nunca falava de amor, mesmo quando estavam na maior intimidade. Não falava do passado ou do futuro. Parecia-lhe que ele estava vivendo um dia de cada vez, sem se preocupar com o amanhã. A reticência dele a preocupava. Ela estava tão apaixonada por ele agora como estivera no começo, mas Justin era mestre em esconder os sentimentos. Tinha um semblante de jogador de pôquer que ela nunca conseguira decifrar. Ele a desejava. Isso era óbvio e maravilhoso. Mas, se havia mais do que desejo nele, Shelby nunca vira. Ela continuou no emprego, mesmo sabendo que Justin gostaria que ela se demitisse. Ele estava apenas um pouco menos ciumento de seu patrão, mas não fazia mais afirmações cáusticas. Entretanto, Barry Holman conseguira que Tammy Lester voltasse ao trabalho, e as coisas vinham correndo muito bem entre eles. Shelby esperava uma definição a qualquer momento, porque já havia uma troca de olhares calorosos entre os dois. Em casa também havia outra novidade. Já se tinham passado quatro semanas desde que Shelby e Justin se tornaram íntimos, e havia sinais crescentes de que essa intimidade iria gerar frutos. Ela não chegara a mencionar suas suspeitas, mas tinha quase certeza de que estava grávida. Esse pensamento a deixava extremamente feliz. Ter um filho de Justin faria com que sua felicidade fosse completa, e ele próprio dissera que queria filhos. Seria o bálsamo final na cicatrização da brecha existente entre eles. E quando o bebê chegasse, Justin talvez começasse a gostar dela, assim como da criança. Ela estava enroscada no sofá quando ele entrou na sala, praguejando. Estivera ao telefone e parecia preocupado. – Há alguma coisa errada? – perguntou ela gentilmente, sentando-se de forma ereta. Parecia bastante sombrio para variar. Ele olhou para ela e fez uma expressão de desagrado. – Tenho de ir a Wyoming por alguns dias. Fui intimado a comparecer ao tribunal como testemunha abonatória de um amigo que está sendo processado. – Suspirou. – Não quero ir, mas ele faria o mesmo por mim. Acho que está passando um mau pedaço. Ele se sentou ao lado dela, puxando-a para si enquanto fumava um cigarro e explicava como o fazendeiro estava sendo acusado de vender carne contaminada para uma indústria de empacotamento. – Tem certeza de que ele não fez isso? – Tenho certeza – respondeu ele. Beijou-a distraidamente. – Gostaria de levá-la comigo, mas vou ficar com Quinn Sutton. Ele não é muito dado a mulheres. – Sei. É um velho eremita grisalho – ela brincou. Ele riu. – Na realidade, tem mais ou menos a minha idade e está acabado. Perdeu a mulher para outro homem há cerca de dez anos e nunca superou isso. Ela tinha um filho, um garotinho. Deixou o garoto para trás e Quinn o criou. Não sei o que o garoto fará se o pai for para a cadeia. – Abanou a cabeça. – Uma baita duma confusão. – Espero que ele não tenha que ir para a cadeia – disse. Seus pálidos olhos verdes procuraram o rosto dele. – Vou sentir saudades, Justin. Ele a abraçou com mais força e a beijou com sofreguidão.


– Não mais do que eu, meu bem – murmurou ele. – Vou telefonar todas as noites. Talvez não demore muito. – Tomara que não. Se me deixar sozinha à noite por muito tempo, vou fugir com algum homem sexy – brincou, sabendo não existir homem vivo mais sexy que seu marido. Mas Justin, ainda inseguro, mesmo depois das semanas de intenso prazer, não atinou com o que ela dizia. Tomou-a nos braços, seu queixo no cabelo dela, e olhou fixamente por sobre a cabeça dela, pensando se ela já estaria se cansando dele. Ela era uma linda mulher e ele não era um homem bonito. Ela parecia gostar de fazer amor com ele, mas ele queria muito mais do que seu corpo esguio na escuridão. Queria que ela o amasse. – Não dirija depressa enquanto eu estiver fora – advertiu ele em voz baixa. Ela riu brandamente. O pequeno carro americano que ele lhe comprara não era um automóvel para grandes corridas. Tinha-se certificado disso primeiro, mas aparentemente não iria confiar totalmente nela. – Não o farei – prometeu ela. – E Maria e Lopez estarão aqui de noite, portanto, não precisa se preocupar comigo. Ficarei bem. Apenas solitária – acrescentou ela, endireitando o corpo. Procurou os olhos dele. – Justin, você está preocupado. O que há? Ele mudou de posição. – Apenas negócios, meu bem – disse evasivamente. Os olhos dele se estreitaram ao procurar os dela. – Não está ficando cansada do casamento, está? Ela chegou a ofegar. – O quê? – Você me ouviu. Não posso lhe dar tudo que seu pai lhe dava. Apenas espero que seja o suficiente. Ela o puxou, trazendo seu rosto até o dela. – Oh, Justin, você é tudo que quero. Ela o beijou, sentindo a vibração percorrer seu corpo vigoroso ao toque de sua boca contra a dele. Ainda a deixava estarrecida aquela reação forte provocada ao tocá-lo ou beijá-lo. Ele nunca se referia a isso, mas parecia gostar quando ela tomava a iniciativa, quando o procurava. Ela não o fazia com frequência, porque continuava um pouco tímida em relação a ele. Mas ia se tornando mais fácil. A resposta dele era encorajadora. Ele a ergueu, virou-a e sua boca ficou voraz. A paixão entre eles parecia nunca diminuir. Era até ainda mais intensa que no início. Ela não se segurava, e sua falta de inibição desencadeava idêntica reação nele. Ele continuava carinhoso, mas ocasionalmente seu ardor tornava-se autoritário e feroz e, nessas ocasiões, ela experimentava uma realização que ultrapassava seus sonhos mais loucos. – Quando é que você tem que ir? – sussurrou, tremendo, porque as mãos dele estavam por baixo de sua blusa, tocando-a. – Amanhã. – Tão cedo? Ele a ergueu, pondo-se de pé com um movimento suave e elegante. – Temos a noite toda – murmurou ele sobre sua boca antes de tomá-la. – Meu Deus, como a quero. Quero-a o tempo todo… Ela gemeu sob a boca rude, amando o toque, precisando da doçura ardente daqueles braços. Agarrou-se a ele enquanto ele abria a porta e a carregava até em cima. Se pelo menos ela pudesse lhe dizer o quanto o amava, compartilhar o maravilhoso segredo que guardava. Queria fazer isso. Começou


mesmo a tentar. Mas ao abrir a boca para lhe contar seus lábios começaram a provocar os dela ternamente. E, como sempre, a faísca do desejo apagou todos os pensamentos de sua cabeça exceto Justin, e o intenso prazer de amá-lo na escuridão. Ao acordar na manhã seguinte, ele já tinha saído. Ela mal se lembrava de ter sentido sua boca roçar a dela, murmurando um até logo. Mas estava cansada demais e não acordara de todo. Quando finalmente acordou, desejou que o tivesse feito ouvi-la. Tinha um estranho pressentimento de que deveria ter tentado com mais empenho, uma premonição de que a harmonia deles estava prestes a acabar. Mas talvez isso se devesse apenas a seu estado e à insegurança que sentia em relação aos sentimentos de Justin por ela. Com certeza estavam tão próximos agora que nada poderia reerguer a velha barreira que os mantivera afastado por seis anos.


CAPÍTULO 9

AS SESSÕES no tribunal tinham começado, e havia mais trabalho do que nunca no escritório para Shelby e Tammy. O sr. Holman estava trabalhando em dois casos de divórcio, uma disputa de terras, um processo de indenização resultante de um acidente de carro, e estava defendendo um habitante local acusado de homicídio. Mal acabava de pesquisar um, Tammy começava outro. A disputa de terra envolvia uma complicada pesquisa junto à administração municipal à procura de títulos e mapas. Um dos divórcios incluía alegações de abuso sexual e isso requeria o depoimento do médico de plantão que atendera a criança; o sr. Holman se ocupara disso, naturalmente, com a estenógrafa do tribunal. Mas a cargo de Tammy tinham ficado os dados médicos, o depoimento potencial de um psicólogo e a verificação da ficha criminal do marido. O acidente de carro significava mais pesquisas nos arquivos policiais e entrevistas com testemunhas potenciais, e só o caso de homicídio parecia ser um trabalho de tempo integral. Shelby não invejava a função de assistente jurídica da jovem. Tammy tinha frequentado cursos noturnos numa faculdade próxima, e agora estava recolhendo os benefícios. O sr. Holman já tinha aumentado seu salário e ela vinha se ocupando de assuntos que Shelby sequer conhecia. Era uma coisa boa, pensava Shelby, que ela não tivesse querido fazer esse estágio. Com sua quase certa gravidez, não iria poder trabalhar por muito tempo mais. Sabia que Justin iria insistir para que ela ficasse em casa nos últimos meses da gravidez. Secretamente, ela também queria isso. Queria ter tempo para planejar as coisas, comprar mobília e preparar o quarto do bebê. Ela sorriu, pensando na expressão de Justin quando ela lhe contasse a novidade. – Eu disse – o sr. Holman interrompeu seus pensamentos gentilmente – que receio que tenham de fazer algumas horas extras esta semana, você e Tammy. O tribunal cível está a mil e o tribunal superior vai ser convocado na semana que vem. Não temos muito tempo para pôr nossos casos em ordem. – Não me importo – assegurou. – Justin está fora da cidade, portanto, não tenho nada para fazer à noite. – Azar o dele, sorte a minha. – O advogado louro sorriu. – Obrigado, Shelby. Não sei o que faria sem você. Tenho de correr até o tribunal e depois vou almoçar no Café Carsons. Estarei de volta lá pela uma. – OK, patrão.


Ele ia saindo pela porta quando se chocou com Tammy, que entrava apressada. Ele segurou-lhe os braços para equilibrá-la, e ela apoiou as mãos no peito dele para se suster. Eles se olharam e ficaram como que congelados, um quadro que Shelby achou particularmente comovente. – Você está bem? – Barry Holman perguntou à jovem. Os lábios cheios de Tammy se entreabriram. – Sim – respondeu. Não ergueu os olhos, e estava ruborizada. As mãos dele se contraíram por um minuto, depois a soltaram. – Tenha cuidado – disse em voz baixa, e sorriu. – Não quero perdê-la. – Sim, senhor – murmurou Tammy roucamente. Deixou que o olhar fitasse sua boca por um longo minuto, depois saiu, franzindo a testa e impaciente como sempre. Shelby precisou esconder o sorriso. Depois de brigarem como cão e gato, aqueles dois tinham-se tornado tímidos, reservados e desconfortáveis um com o outro. Tammy efetivamente parecia vibrar cada vez que o patrão entrava na sala, e seu rosto se acendia como um anúncio de néon. – Eu, hum, tenho algumas notas para bater – disse Tammy, hesitantemente. Shelby sorriu. – Vou sair e comprar nosso almoço. O que você quer? – Salada de atum, biscoitos de água e sal e chá gelado. E, obrigadíssima! Amanhã vou eu. – Tammy deu um sorriso. – Feito. Não me demoro. Defenda o forte. Shelby dobrou a esquina até a loja e encontrou Abby, debruçada sobre o balcão de cartões. – O que está procurando? – perguntou à cunhada em tom conspiratório. Abby riu, os olhos azul-acinzentados se acendendo. – Um cartão para meu maravilhoso marido. O aniversário dele é daqui a duas semanas – lembrou a Shelby. – Como poderia esquecer, se estamos preparando a festa dele? – respondeu Shelby. – O que me faz lembrar que deveria ter chamado você há dois dias para combinar os preparativos. Mas estive ocupada… – Ela ficou vermelha. O que tinha acontecido era que Justin a tinha derrubado no tapete quando ela pegara o telefone para ligar para Abby, e nada mais fora feito pelo resto da noite. – Imagino que tudo esteja indo bem em casa – falou Abby, reparando no rubor de Shelby. – Calhoun diz que Justin fica sentado sonhando no posto em vez de trabalhar, e que tem uma fotografia sua na mesa dele para a qual fica olhando o tempo todo. Shelby riu, encantada. – É mesmo? – Vocês, recém-casados... – Abby sorriu. – Fico contente que tudo esteja se arranjando. Eu sabia que daria certo. Vocês dois sempre foram metades iguais de um todo; até Tyler notou isso na noite em que você e Justin dançaram a quadrilha. Shelby enrubesceu. – Nunca imaginei que fosse dar tão certo assim – confessou ela. – Nunca fui tão feliz. – Imagino que Justin sinta o mesmo. – Estudou o rosto de Shelby curiosamente. – Por que ainda continua trabalhando? Não gostaria de ficar em casa? – Bem, achei que não seria correto simplesmente ir embora e deixar o sr. Holman – confessou Shelby. – Tammy Lester está se saindo muito bem e, mais dia, menos dia, irei para casa. Só queria


experimentar minhas asas. Nunca fui independente antes. É divertido. – O casamento também. – Abby sorriu. – Estou me divertindo à grande apenas como dona de casa, por mais que isso soe como uma traição, vindo de uma mulher moderna. Foi Tammy que vi na janela esta manhã? – acrescentou. – A persiana estava abaixada, mas estava escuro e havia uma luz atrás dela. Ela estava debruçada sobre o sr. Holman. Ela se parece muito com você. Talvez não pessoalmente, mas suas silhuetas são mesmo parecidas. – Provavelmente porque ambas temos o cabelo comprido, somos altas e esbeltas – disse Shelby. – Mas ela tem um fraco pelo patrão e, aqui entre nós, acho que é mútuo. Começaram por se odiarem. Agora estão no estágio de pigarrear e não saber onde pisar. – Adivinhe qual será o próximo passo – disse Abby maliciosamente. Shelby riu baixinho, desviando os olhos. – Bem, suponho que chegarão a esse estágio em breve. Calhoun não sabe da festa surpresa, não é? – perguntou ela para desviar a mulher mais nova do assunto. – Céus, não, e juro que não arrancará isso de mim nem que me ameace com um revólver. Justin telefonou outra noite dizendo que convidou umas pessoas que não estavam na minha lista. Suponho que não falou com você a esse respeito? Shelby franziu a testa. – Bem... não. Quem você acha que ele convidou? – Os olhos verdes chisparam. – Certamente não convidaria nenhuma de suas antigas namoradas? – Cismou com seus botões. – Não me preocuparia muito com isso – murmurou Abby, porque Justin tinha lhe confessado uma vez que não chegava aos pés de Calhoun em matéria de mulheres. Mas Shelby não precisava saber disso, e cabia a Justin dizer-lhe onde e quando quisesse. – Então, quem? – insistiu. – Teremos de esperar para ver. Pode perguntar quando ele voltar. Pena isso do sr. Sutton, não é? – Abby suspirou. – Eu o conheci, com o filho, numa das convenções de gado de que Calhoun e eu participamos há dois meses. Ele não é lá essas coisas, é muito reservado, mas irradia masculinidade, se sabe o que quero dizer. Nem olhou para mim, e tinha uma mulher que se interessou por ele… – Abby estremeceu. – Eu costumava pensar que Justin era meio distante quando fui morar com os Ballenger, mas o sr. Sutton faz Justin parecer um extrovertido. Ele odeia mulheres. – Pior para ele – disse Shelby com um sorriso pálido. – Obviamente, nunca encontrou mulheres de nosso calibre. Abby soltou uma gargalhada. – Que vergonha. Shelby também riu. – Ligue para mim quando tiver tempo para terminarmos os preparativos para a festa. Tenho de correr. Tammy está sozinha no escritório. – OK. Vou dar mais uma olhada nesses cartões. Bom almoço. – Até mais. Shelby pensou no que Abby tinha dito durante a volta para o escritório. Ela não conseguia deixar de pensar quem Justin teria convidado sem falar com ela. Teria de perguntar a ele. Ele tinha voado para Wyoming na quarta-feira, e embora tivesse esperança de poder voltar dois dias depois, tinham surgido complicações, e a audiência tinha sido suspensa até segunda. Ele não conseguiria voltar para o fim de semana.


– Oh, Justin – gemeu ela. – E tenho de fazer horas extras na semana que vem. Temos tribunal. – Largue esse maldito emprego – disse ele sumariamente. – O lugar de uma mulher é em casa, tendo filhos e cuidando de tudo. Uma voz fria e profunda, ao fundo, deu uma risada, e fez uma pequena observação que Justin respondeu. – O que foi isso? – perguntou Shelby curiosamente. – O sr. Sutton acha que as mulheres ficam bem quando passadas na farinha, salgadas e fritas em banha – disse ele. – Diga ao sr. Sutton que os homens precisam ser marinados primeiro – retrucou. Houve um murmúrio de vozes e uma risada muito agradável ao fundo. – Que vergonha – murmurou Justin. – Tenho de ir. Este cara vai para a cama às nove, e vou ficar às escuras se não desligar. Comporte-se, meu amor. Vejo-a na segunda de noite. – Pode me pegar no trabalho se eu não estiver aqui, OK? – perguntou ela baixinho. – OK. Boa noite. – Boa noite, Justin – disse ela maciamente, e beijou o fone antes de recolocá-lo na base. Já tinha saudades quase insuportáveis dele. Queria tanto que ele voltasse para casa. Os dois dias que se seguiram passaram muito vagarosamente, mas a segunda-feira foi caótica, e ela não teve tempo para ficar pensando na volta do marido. Era um problema atrás do outro. O telefone não parava de tocar e Tammy teve de ir correndo até o tribunal duas vezes para levar informações para o sr. Holman. No final do dia, Shelby se perguntou se alguma hora conseguiria ir para casa. O sr. Holman voltou, pedindo que datilografassem cartas e redigissem um novo sumário. Eram muitas páginas e, mesmo com o computador, tomou um longo tempo de Shelby. Entretanto, Tammy esvoaçava pelo escritório cumprindo ordens, enquanto o sr. Holman ficava mais e mais impaciente. Shelby sabia que ia haver problemas pela forma como Tammy mordia o lábio inferior e olhava furiosa para a sala do patrão. Às nove horas, ele veio até a porta e fez um comentário sarcástico sobre uma linha de demarcação que Tammy tinha anotado incorretamente e a jovem explodiu. – Você espera milagres! – disse ao irado homem louro. – Estou fazendo horas extras, não jantei, tive que ficar de quatro para conseguir algumas dessas informações e você está gritando comigo! Odeio você! – Você, cara de pastel – retrucou. – Se pensa que isto é muito trabalho, tente praticar advocacia, meu bem! Ele lhe deu um sorriso convencido e voltou para seu escritório. – Oh, não, não vai não, figurão – falou Tammy entre os dentes. Seguiu-o e bateu com a porta. Ouviram-se vozes alteradas, o ruído de uma cadeira e depois alguma coisa caindo. Então fez-se um longo, pungente silêncio, que foi ficando cada vez maior. Shelby, sentada diante do computador, sorriu para si mesma. Parecia que o tal próximo passo tinha acabado de ser dado pelo patrão. Mas, para o homem sentado do outro lado da rua no Thunderbird preto, as duas silhuetas bem próximas uma da outra, recortadas contra a escassa sombra na janela, não pareciam as de Barry e Tammy. Pareciam as de Barry Holman e Shelby. Desde a altura até o cabelo longo, parecia ser Shelby nos braços daquele homem.


Justin sentiu o coração deixar de bater no peito. Viera diretamente do aeroporto para a cidade, desesperado para tornar a encontrar Shelby, tão desejoso de vê-la que apostara na hipótese de ela ainda estar no escritório. Apenas para encontrar…isto. Pensou que a dor não iria sumir nunca. Ver Shelby nos braços daquele homem estava acabando com ele. Não podia ser, mas tinha de ser. Ela tinha brincado com ele sobre encontrar outro homem se ele ficasse muito tempo fora. Ela não era mais virgem; agora, era uma mulher sensual. Talvez o desejo a tivesse dominado. Não era racional, mas o ciúme tampouco o era, e ele estava sendo devorado por ele. Queria entrar e matar aquele homem. Queria jogar Shelby fora de sua casa, fora de sua vida. Ele confiara nela e ela o traíra novamente. Não queria acreditar, mas em que mais podia acreditar? Aquela era Shelby na janela, Shelby com o patrão. Ele a conhecia bem demais para confundi-la com outra pessoa, e que outra pessoa poderia ser, uma vez que havia apenas uma mulher no escritório e essa mulher era Shelby! Ele deu partida no carro e seguiu pela rua, os olhos negros feridos, vendo o fim de seus sonhos. Ela tinha sido como fogo em seus braços, amando-o, abraçando-o, dando-lhe tudo o que ele sempre quisera. Mas ela o tinha traído no passado, e ele tinha esquecido isso devido à nova proximidade existente entre eles. Ele esquecera o que ela tinha feito antes. Ela não dormira com Wheelor, mas ainda assim o traíra, rejeitando-o. E agora a história se repetia e ele não sabia o que ia fazer. Dirigiu até em casa sem mesmo saber como chegar lá, doente e já sofrendo por Shelby de novo. Como podia ter feito isso com ele? Como podia! No escritório, Shelby finalmente acabou suas tarefas e ficou sem saber se deveria bater à porta do escritório de Barry Holman. Decidiu que não. Se eles estivessem se abraçando seria cruel interrompêlos. Ela telefonou para casa e perguntou por Justin, mas Maria lhe disse que ainda não havia chegado. Então ela foi embora, deixando um bilhete em sua mesa, entrou no carro e dirigiu de volta à casa. Justin não cumprira a promessa de vir buscá-la. Mas talvez ainda não tivesse chegado. Ela sorriu, confortando-se com esse pensamento. Estacionou o carro em frente aos degraus da entrada, ansiosa por saber se ele já tinha chegado. Correu através do hall até seu escritório e lá estava ele. – Oi! – Ela riu. Mas o homem cujos frios olhos negros procuraram os dela através da sala em nada recordavam o carinhoso amante que viajara para Wyoming na última quarta-feira. Fumava um cigarro e olhou-a com a indiferença de um desconhecido. – Está atrasada – comentou. – Eu… tivemos tribunal – disse ela, hesitante. – Eu avisei que trabalharia até tarde. – É verdade. – Deu uma nova tragada no cigarro. – Parece preocupada. Há alguma coisa errada? – Pensei que fosse ficar contente em me ver – disse ela, com um sorriso hesitante. Ele sorriu de volta, mas não era um sorriso agradável. Estava morrendo por dentro, mas não iria permitir que ela visse. – Pensou? – perguntou distraidamente. – Suponho que não se lembra do que me fez há seis anos. Sinto muito desapontá-la se pensou que iria sucumbir a seu encanto novamente. Não sucumbi. O que tivemos durante estas semanas foi uma pequena recompensa pela agonia que me fez sofrer no passado. Mas não tinha me dado conta de que você pretendia construir um futuro sobre isso. – Riu friamente. –


Desculpe, meu bem. Uma vez foi suficiente. Mas não pense que não consigo viver sem você. Você é como o vinho: não preciso me embriagar de você para sentir prazer com um gole de vez em quando. Ela não podia acreditar no que estava ouvindo. Sabia que seu rosto se tornara pálido. Ela tinha quase certeza de estar grávida e Justin estava lhe dizendo que não a queria mais. – Eu pensei… que você tivesse percebido que não tinha dormido com Tom. – Lógico que sim – admitiu ele. – Mas, de todo modo, você terminou o noivado, não foi, e disse a quem quisesse ouvir que não era rico o suficiente para satisfazê-la. – Seus olhos brilhavam friamente. – Agora é minha vez. Sou rico e não quero mais saber de você, meu bem. Experimente esta para ver se gosta. Ela se virou e correu, um soluço preso na garganta ao subir confusamente a escada até seu antigo quarto. Trancou a porta e jogou-se na cama, chorando incontrolavelmente. Era como um pesadelo. Passaram-se alguns minutos. Ela pensou, esperou que não fosse verdade o que Justin dissera. Ela escutou e aguardou, com a esperança desesperançada de que ele viesse atrás dela, de que reconsiderasse o que dissera. Mas nenhuma passada se fez ouvir na escada e ela foi forçada a concluir que ele não viria atrás dela. Também não pareceu incomodá-lo que ela tivesse voltado para seu antigo quarto. Ela ouviu, muito tempo depois, seus passos no hall em direção ao quarto que haviam compartilhado. A porta se fechou e permaneceu fechada. Shelby não podia compreender o que dera errado. Quando Justin viajara para Wyoming tudo estava perfeito entre eles. A distância emocional dele a tinha perturbado, mas tinha certeza de que ele começava a sentir alguma coisa por ela. Agora era um desconhecido. A vingança que ela não pensara que ele quisesse se tornara evidente. Ele a olhara como se não se importasse nem um pouco com ela, e o que dissera a ferira até os ossos. Finalmente adormeceu, pensando como faria para prosseguir. Exausta, as lágrimas escorrendo pelas faces pálidas, ela encarou a perda de tudo o que sempre amara. E Justin ocupava o primeiro lugar nessa lista. Do outro lado do hall, o homem que apenas regressara de Wyoming também estava acordado, sentindo falta da respiração familiar de Shelby, da sensação de seu corpo macio contra o dele na escuridão. Ele se sentia culpado e doente pela forma como tinha falado com ela, pelas lágrimas e a mágoa que tinha causado. Mas ele também estava magoado. Ele pensara que Shelby o amava e ela se casara com ele apenas porque tinha perdido sua casa e segurança. Ela o estava fazendo de bobo novamente, mantendo outro homem na obscuridade. O fato de ser seu atraente patrão só piorava as coisas. Agora sabia por que ela brigara para manter o emprego. Ela estava apaixonada pelo patrão playboy, por isso se recusara a ficar em casa. E agora ele tinha visto a prova de sua deslealdade. Mal conseguia suportar a dor. Não sabia como ia continuar a viver com ela depois do que vira. Por um minuto, considerou a possibilidade de confrontá-la com a verdade. Mas de que serviria? Ele a tinha confrontado com Tom Wheelor e ela tinha mentido. Ela mentira naquela ocasião e vinha mentindo o tempo todo desde então. Ele tinha sido conduzido a uma falsa sensação de segurança. Ele tinha realmente começado a confiar nela de novo. Ainda bem que tinha ido à cidade sem avisar para trazê-la para casa. Agora ela não poderia enganá-lo outra vez. Ele tinha visto a verdadeira Shelby e se sentia enojado. Ele sabia que ela era virgem quando se casara com ele, mas agora que ele a livrá-la do obstáculo de sua primeira vez ela provavelmente estava desfrutando uma relação totalmente nova com o patrão.


Essa era a última gota. Com um suspiro raivoso, fechou os olhos e forçou-se a não pensar mais nela. Na manhã seguinte, desceu com uma expressão devidamente estudada, determinado a não permitir que Shelby percebesse sua devastação emocional. Ele morreria antes de mostrá-la. Shelby também levantara cedo, e estava tomando café preto e beliscando uma torrada. Olhou para ele quando entrou na sala de jantar, os olhos dela inchados por ter chorado a noite toda, com uma expressão de esperançosa incerteza. – Não quis dizer o que disse ontem à noite, quis? – perguntou ela. Os olhos verdes procuraram os dele. – Quis, Justin? Ele passou por ela e se sentou displicentemente à cabeceira da mesa, pondo café na xícara antes de responder. – Quis dizer cada palavra, Shelby – respondeu ele. Serviu-se de bacon, ovos e biscoitos, indiferentemente, como se ela fosse uma colega de trabalho. – Quer ovos? Ela não podia sequer vê-los, muito menos comê-los. Há muito perdera o apetite, e estava a ponto de perder os pequenos pedaços da torrada que comera. Abanou a cabeça. Os olhos negros se estreitaram enquanto a examinava. Estava abatida. O cabelo longo era exuberante, mas o rosto estava pálido e macilento, mesmo com maquiagem. – Não estou com muita fome – acrescentou ela. – Como quiser. – Ele não deu a perceber sua própria falta de apetite. Ficou em silêncio o tempo necessário para limpar o prato, mas podia sentir os olhos de Shelby e eles o deixavam desconfortável. – Que tipo de relação tem em mente para nós agora? – perguntou ela com o resto de orgulho que lhe restava. Ele empurrou o prato para o lado e bebeu o café. – Você é minha mulher – disse ele friamente. – Vai morar na minha casa e vou tomar conta de você. Mas vamos ter quartos separados, e vidas separadas de agora em diante. Os olhos dela se fecharam numa onda de tristeza e vergonha. E quanto ao bebê que estou carregando, ela queria perguntar. E quanto a nosso filho? – Certamente não vai se incomodar de dormir sozinha – provocou. – Uma vez que já satisfez sua curiosidade. – Não me incomoda – disse ela, rouca. Não conseguiu terminar o café. O cheiro virou-lhe o estômago. Levantou-se vagarosamente. – Vou chegar atrasada se não sair agora. Os olhos dele faiscaram. – Deus nos livre de que você chegue atrasada ao… trabalho – disse ele. Ela estava enjoada demais para notar a hesitação ou o veneno em seu tom. Saiu enquanto pôde, esforçando-se para não demonstrar fraqueza. Era a única coisa que não podia se permitir no momento. Ela foi trabalhar e ficou violentamente enjoada no banheiro, no minuto em que chegou lá. Passou lenços de papel molhado pelo rosto e sentou-se, quieta, em sua mesa, até que a náusea estivesse sob controle. Ia levar tempo para se conformar com a nova frieza de Justin. Era como ter vislumbrado o céu para, em seguida, ser forçada a retornar à realidade. Ela não conseguia entender por que Justin escolhera este modo para lhe dar o troco. Ia ser quase impossível ficar com ele, mas não tinha para onde ir. Ainda não, pelo menos por enquanto. E certamente não antes de passar a primeira fase do enjoo matinal e ela poder se mexer melhor do que agora. Quando o patrão e Tammy chegaram ao escritório, ela tinha o enjoo temporariamente sob controle. Mas trabalhar até tarde era difícil para ela, e tinha perdido de fato e completamente o apetite. À


medida que se passavam os dias, o simples ato de pôr um pé adiante do outro se tornara um sacrifício. Abby apareceu uma noite e elas decidiram os detalhes para a festa de aniversário de Calhoun. Abby percebeu a atmosfera e quase fez um comentário, mas Shelby parecia tão abatida que ela mordeu a língua e ficou quieta. Obviamente alguma coisa dera errado. – Não se esqueceu da festa de Calhoun? – perguntou Shelby a Justin numa das cada vez mais raras refeições que fizeram juntos antes da festa. Ele levantou por um instante os olhos calmos e, de alguma forma, assombrados da comida que nem provara, para logo piscar e fazer sumir a expressão. Ela estava com mau aspecto. Sua cor era terrível e parecia fraca e sem brilho. Ele sabia que era por causa de sua frieza, mas não podia fazer nada, assim como não podia superar seus sentimentos de traição e mágoa. – Não esqueci – respondeu. Inclinou-se na cadeira e examinou-a. – Você não parece bem. – Foi uma longa semana, Justin – disse ela sem entonação. – E um pouco inesperada. Não precisa se preocupar. – Riu de maneira desmaiada. – Estou bem. Na verdade, estou muito bem. Tenho um teto sobre a cabeça, comida para comer e um emprego. Tenho tudo que você me prometeu quando nos casamos. Não tenho do que me queixar. Ela pousou o garfo e se levantou, oscilando um pouco. Agarrou-se à cadeira, rezando para que a repentina escuridão passasse antes que ela caísse. Passou, e ela se esquivou do movimento rápido de Justin em sua direção. – Você está bem? – As palavras foram arrancadas dele. Ele detestava o aspecto dela. Fazia com que se sentisse culpado. Incrível, quando tinha sido ela a magoá-lo e não o contrário. – Já disse, estou bem. – Ela deixou a sala com a cabeça erguida e subiu sem uma palavra. Não ficavam mais juntos, agora. Era raro comerem na mesma hora. Em seguida, ele sempre ia para o escritório e ela subia para o quarto. Maria notou, mas ela e Lopez permaneceram em silêncio. Com Justin nesse humor era melhor assim. Na noite da festa, Shelby descansou antes de se vestir. Ela achara um vestido de veludo verdeesmeralda que tinha usado no ano anterior. Estava um pouco apertado quando ela e Justin se casaram, mas devido à perda de peso agora lhe caía bem. Era longo, sem mangas, com uma saia enviesada trapézio e um decote redondo. Ela prendeu o cabelo e complementou o vestido com um delicado colar de esmeraldas que tinha pertencido a sua avó. Parecia frágil, mesmo maquiada, e gostaria que as coisas estivessem diferentes entre ela e Justin. Abby certamente teria mencionado sua breve felicidade a Calhoun. Quando Calhoun viesse esta noite e visse a distância existente entre o irmão e a cunhada, talvez dissesse alguma coisa a Justin. Shelby achava que não resistiria a mais um confronto. Ela apalpou a barriga, pensando quando deveria procurar o médico. Ela sabia que a gravidez podia ser detectada com seis semanas, e tinha quase isso. Mas o problema era como esconder isso de Justin numa comunidade tão pequena como Jacobsville. Talvez pudesse ir até Houston e ser examinada numa clínica. A música tocava lá embaixo. Pôs uma gota de perfume e desceu, segurando-se cuidadosamente no corrimão. Sentia-se cambaleante. A semana que passara fora muito estressante devido ao excesso de trabalho e à inexplicável atitude fria de Justin. Ela localizou Abby e Calhoun quando chegou ao primeiro patamar. Estavam de braços dados, parecendo tão felizes que faziam partir seu coração. Calhoun era grande e louro, e Abby, esbelta e morena. Faziam um bonito contraste, Calhoun num traje de noite escuro, e Abby num vestido de seda azul que combinava com seus olhos.


Shelby não viu Justin até chegar lá embaixo. Ele estava usando um smoking e estava muito elegante. Shelby ficou se perguntando se ele faria uma encenação para os convidados ou se iria ser ele mesmo. Não se atrevia a olhá-lo muito de perto. Ele poderia ver a mágoa e a saudade em seus olhos. Ela se virou para a porta, onde Lopez, de jaqueta branca, acabava de abri-la para receber os recémchegados. Shelby ficou petrificada ao ver o homem que estava no hall, trocando nervosamente os pés, tentando descobrir na sala um rosto que lhe fosse familiar. Os olhos de Shelby faiscaram. Não podia acreditar que Justin tivesse tido a audácia de convidá-lo. Era o aniversário de Calhoun, e ela sabia que Justin não esperaria uma cena de sua parte. Mas nem sequer pensou nisso quando se dirigiu ao hall, ignorando Justin, e pegou um vaso antigo, de grande valor, a caminho. – Alô, Tom – cumprimentou Tom Wheelor com polidez glacial. – Que bom vê-lo novamente. E, sem diminuir o passo, levantou o vaso e o atirou bem na cabeça quase calva de Wheelor.


CAPÍTULO 10

SHELBY OLHOU fascinada quando o vaso antigo passou raspando pela orelha esquerda de Tom e se espatifou contra o cabideiro, atirando o surrado Stetson preto de Justin no chão. – Shelby? – Tom perguntou recuando um passo. Ela começou a pegar o arranjo de flores que Maria tinha criado a duras penas para a mesa do hall. – Shelby, não! – Tom deu meia-volta, as mãos na cabeça, e correu porta afora. Shelby saiu atrás dele, cega aos olhares chocados dos outros convidados, incluindo o de seu marido, arregalado de espanto. – Inseto – enfureceu-se ela. – Fracote endinheirado! – Ela o deixou chegar à metade da escada antes de lhe arremessar o arranjo de flores no vaso de cerâmica. Tom quase perdeu o equilíbrio, espremido junto à balaustrada, com os cacos de cerâmica se espatifando em volta dele. Esforçou-se para vencer o resto dos degraus e correu para o carro. Shelby o viu ir embora com fúria nos olhos. Ele tinha sido indiretamente responsável por todas as suas desgraças. Como tinha tido a coragem de vir logo nesta noite, e a convite de Justin? Será que Tom realmente acreditava que ela tivesse esquecido sua participação em sua agonia? Ela chegara mesmo a lhe dizer, na época, o que pensava a seu respeito. Ela se virou e subiu os degraus. Sequer olhou para Justin. – Boa noite – cumprimentou os convidados como se nada tivesse acontecido. – Feliz aniversário, Calhoun! Estamos muito contentes por Abby ter permitido que déssemos esta festa para você. Aproximou-se e beijou seu rosto queimado de sol. – Obrigado, Shelby – murmurou Calhoun. – Vamos jantar? – Shelby acenou para os demais, em sua maior parte amigos de Justin e Calhoun que ela mal conhecia. Deu o braço a Justin como se temesse que o toque dele fosse queimá-la. Não o olhou nem falou com ele. – Que diabo foi aquilo? – perguntou ele quando estavam temporariamente fora do alcance dos outros, a caminho da elegante sala de jantar. Ela ignorou a pergunta. – Como se atreve a convidar aquele homem para vir aqui? – perguntou ela, por sua vez. – Como ousa trazê-lo para nossa casa depois da forma como ele se deixou usar pelo meu pai para nos afastar?


– Queria verificar se tinham sobrado algumas brasas no fogo – disse ele com um sorriso frio. – Brasas? – Respirou agitadamente. – Sorte a sua não o ter matado. Lamento não ter feito isso. – Que gênio, que gênio. – Pode ir para o inferno, Justin, querido – disse ela com um sorriso tão gélido quanto o dele. – E leve seus humores, seu gosto por vingança e seu coração frio com você. Os olhos negros dele se estreitaram. – Ainda se agarrando à história de que seu pai a obrigou a terminar comigo? – Por que não pode acreditar em mim? – Muito simples – respondeu, enquanto os convidados enchiam a sala. – Foi o dinheiro de seu pai que tirou o posto para engorda da falência. Ele pagou toda a maldita dívida. – Seus olhos registraram o choque que ela sentiu. – Surpresa? Não parece o gesto de um homem que quisesse nosso rompimento, não concorda? Shelby achou que seu coração ia parar de bater. Agarrou-se às costas de uma cadeira e quase caiu, para surpresa de Justin. – Aqui, sente-se, pelo amor de Deus – disse entre os dentes, ajudando-a a se sentar. – Você está bem? – Não, não estou. – Ela riu, trêmula. Abby, notando a súbita palidez de Shelby, sentou-se rapidamente à sua frente. – Posso fazer alguma coisa? – murmurou ela olhando de relance para os outros. – Vou ficar bem, se Justin se afastar de mim – ofegou, olhando-o com uma raiva controlada. Ele se empertigou, perscrutando seus olhos furiosos por um longo momento. – Com prazer, sra. Ballenger – disse friamente, e voltou sua atenção para os convidados. Shelby nunca ficou sabendo, mais tarde, como conseguiu chegar ao final do jantar. Sentou-se como uma estátua, respondendo às perguntas, sorrindo, comportando-se como a anfitriã perfeita. Mas ao escapar até em cima para refazer a maquiagem Abby estava dois passos atrás dela. – O que aconteceu? – perguntou a cunhada sem preâmbulo. – Para começar, estou grávida – disse Shelby, rígida. Abby expirou e seus olhos se suavizaram. – Oh, Shelby! Justin já sabe? – Não sabe e não é para lhe contar. – Shelby se sentou em sua bergère e encostou a cabeça. – Ele está novamente alvoroçado por causa do passado. Por apenas um curto tempo as coisas correram tão bem. Ao voltar de Wyoming era um perfeito desconhecido. Tem sido gélido deste então. Como posso lhe contar sobre o bebê quando está agindo assim? – Talvez melhore seu humor – sugeriu Abby. – Não preciso de piedade. – Pôs o rosto entre as mãos com um pequeno estremecimento. – Nunca vai dar certo, Abby. Ele não consegue esquecer o passado. Não sei o que fazer. Não consigo mais viver assim. As lágrimas escorreram por entre seus dedos e Abby se inclinou, abraçando-a, dizendo todas as coisas adequadas, enquanto o que realmente queria era descer e acertar os joelhos de Justin com um pedaço de pau. – O que vai fazer? – perguntou Abby, quando as lágrimas diminuíram e Shelby enxugava os avermelhados olhos verdes com um lenço.


– Vou tratar de encarar o prejuízo, é claro – disse Shelby, cansada. – Vou a Houston amanhã. Tenho uma prima lá com quem posso ficar até decidir para onde ir. Vou telefonar para ela mais tarde. Só preciso de algum tempo para pensar. Não consigo fazer isso aqui. – E o emprego? – insistiu Abby, tentando de tudo para impedir que Shelby fizesse alguma coisa estúpida. – Tammy e o sr. Holman estão se dando muito bem – contou Shelby. – Aliás, acho muito provável que acabem por se casar num futuro não muito distante. Tammy pode tomar conta de tudo. Vou telefonar para ela também hoje à noite. – Não pode abandonar Justin assim, sem tentar falar com ele – disse Abby docemente, escolhendo as palavras. – Não sei o que aconteceu de errado, mas sei como Justin se sente em relação a você. Shelby, você não o viu naquela noite em que Calhoun a levou para casa depois da quadrilha. Ele estava com o coração partido por ter feito você chorar. Ele gosta muito de você. – Ele tem uma bela maneira de mostrar sua afeição – disse Shelby. – Primeiro ele diz que vamos dormir em quartos separados e depois traz… aquele homem aqui. – Acho que ele percebeu que você não está exatamente interessada no querido Tom. – Abby riu. – Tom e meu pai eram da mesma laia, ambos prontos para aumentar suas já substanciais fortunas – disse Shelby. Olhou para o lenço amassado. – Mas o que mais dói é que meu pai bancou o posto de Justin e Calhoun, e eu não sabia disso até Justin me dizer hoje à noite. – Ela suspirou. – Não admira que não tenha acreditado no que lhe disse sobre papai querer nosso rompimento. Meu pai certamente pensou em tudo. Justin nunca mais vai acreditar em mim. – Pode ser que ele ouça, se souber do bebê. – Mas não vai ficar sabendo – disse Shelby obstinadamente. – É o meu bebê, não dele. Ele pode ir para o inferno. Abby expirou. Shelby não parecia bem e continuar falando não iria resolver nada. – Não vamos falar sobre isso agora. Você tem que dormir e pensar mais sobre o assunto quando não estiver tão cansada. Por que não vai para a cama? Bancarei a anfitriã em seu lugar. Direi a Justin que você está com uma indisposição de estômago ou com dor de cabeça. – Ele é a única dor de cabeça que tenho – disse Shelby cansadamente. Abby se levantou e estava pronta para descer quando a porta se abriu e Justin entrou. Ele parecia estranho. Indeciso e quieto e francamente desconcertado. – Tem uma mulher lá embaixo. Uma srta. Lester – acrescentou. – Diz ela que trabalha com você. – É nossa assistente jurídica – disse Shelby sem entonação. Recusava-se a olhar para ele. – O que ela quer? – Está subindo a escada agora. Pode perguntar a ela. – Mexeu-se desconfortavelmente. – Há quanto tempo ela trabalha com você? – Há várias semanas – disse Shelby. Ela olhou quando Tammy entrou no quarto radiante e com os olhos brilhando. – Oi – disse com um sorriso. – O que está fazendo aqui? – Não consegui esperar até amanhã para lhe mostrar meu anel. Veja! – Ela estendeu a mão esquerda, em que faiscava um enorme brilhante. – Ele me deu esta noite. Shelby riu e levantou-se para abraçar a jovem. – Estou tão contente por você. Eu tive a sensação de que isso iria acontecer naquela noite em que vocês dois entraram no escritório dele e fez-se um silêncio tão grande.


Tammy sorriu. – Sim. Bem, parece que demos início a um grande falatório na cidade, visíveis como estávamos contra a sombra da janela. – Ela corou. – Nenhum de nós imaginou que estava sendo observado. Mas uma vez que estamos noivos fica tudo bem. Justin empalidecera. Abby viu seu rosto e franziu a testa, mas Shelby não percebeu. Continuava a falar com Tammy. – Onde está o patrão? – perguntou ela. – Lá fora no carro, esperando impacientemente. Estamos a caminho da casa dos pais dele para contar a novidade. Ele não quis entrar por causa da festa, mas tinha de lhe contar! Não é o máximo? – Tammy riu. – Com certeza. Parabéns! – Obrigada. É melhor me apressar. – Ela abraçou Shelby de novo. – Vejo-a amanhã cedo, OK? Shelby queria lhe dizer que não estaria lá na segunda-feira, mas não podia, diante de Justin. Seus planos de ir embora tinham de ser mantidos em segredo. – Sim – concordou. – Vejo-a amanhã. Diga ao patrão o quanto estou feliz por ele também – acrescentou com uma risada. – OK. E me desculpem pela interrupção – acrescentou Tammy com um olhar em direção a Justin e Abby. – Mas não consegui me conter! Boa noite. Ela saiu. Shelby sentou-se pesadamente. – Deus permita – disse a Abby com uma risada sufocada. – Agora o escritório vai poder voltar ao normal novamente. Tem sido inacreditável trabalhar lá nessas últimas semanas. – Ela se parece com você – disse Justin secamente. – Sim, parece – concordou Abby. Olhou para Justin. De repente ela se deu conta de que Justin tinha visto Barry Holman e Tammy na janela, suas silhuetas contra a luz, e pensara que era Shelby. Talvez se ela saísse eles pudessem conversar e acertar as diferenças. – É melhor eu descer. Tem certeza de que já está bem? – perguntou a Shelby. – Estou bem – afirmou Shelby. – Obrigada, Abby. – Eu apresento suas desculpas. Justin olhou-a sair, procurando as palavras certas para desfazer o mal que causara. Shelby parecia tão ferida, tão frágil. Ele podia se matar por ter causado aquela fragilidade. Ele fora o causador disso tudo por ter tirado conclusões precipitadas sem conversar com ela. Não tinha confiado nela e agora se perguntava se alguma vez poderia reparar esse dano. – Shelby – começou ele, devagar. – Não me sinto bem – disse ela sem preâmbulo. – Gostaria de me deitar. – Você emagreceu – comentou ele. – É mesmo? – Ela riu. – Por favor, vá embora, Justin. Não tenho nada para lhe dizer. Não quero nem olhar para você depois do que me fez. Convidando aquele homem para vir aqui…! – Eu tinha que saber! Ela olhou para ele e se levantou. Seus olhos faiscaram de raiva. – Eu lhe disse a verdade. Você não quis ouvir. Nunca quis. Prefere sua própria interpretação, portanto, vá em frente e divirta-se. Já não me importo com o que possa pensar. Ele enrijeceu. Seu orgulho ia receber alguns golpes antes que tudo estivesse terminado, e ele sabia que os mereci, depois da forma como a tratara.


– Por que seu pai fez com que rompêssemos? – Ele queria que me casasse com Tom – disse ela, dando-lhe as costas. – Ele não queria um genro pobre. Por outro lado, não gostava de fazer inimigos, não numa comunidade pequena, portanto fez com que fosse o bode expiatório. Você caiu direitinho no jogo dele quando abriu seu próprio negócio. Isso deu a ele o impulso, e ele a usou. – Então por que me emprestou o dinheiro? – perguntou secamente. – Pelo amor de Deus, foi esse empréstimo que acabou por causar sua derrocada. Levei anos para pagá-lo, mas não a tempo de lhe ser útil. Ela olhou fixamente para a cama, ainda de costas para Justin. – Foi há muito tempo. Você pode achar o passado reconfortante, mas eu não. Eu tinha grandes esperanças para o presente até você decidir começar a se desforrar de antigas ofensas. Agora estou apenas cansada e quero me deitar. Ele abriu a boca, mas as palavras não saíam. Ele não sabia o que dizer. – Eu… vi você. Pelo menos pensei que fosse você. Na janela de seu escritório, quando fui buscá-la na noite em que cheguei de Wyoming – confessou ele hesitante. Ela se virou. Os olhos se arregalaram. – Você achou que tinha me visto beijando meu chefe? Os largos ombros subiram e desceram. – Você e a Tammy têm perfis parecidos, e você nunca me disse que havia outra pessoa no escritório com você. Ela levantou o queixo. – Obrigada – ela engasgou, rouca – por sua brilhante opinião sobre meu caráter e minha moral. Obrigada por ter acreditado que nunca trairia você com outro homem. As faces dele ficaram rubras. – Você me traiu uma vez! – retrucou ele. – Você me deixou por outro homem. – Nunca fiz isso – disse ela com firmeza. – Nunca! Meu pai ameaçou arruiná-lo e me fez dizer o que disse. Ele prometeu salvá-lo, mas nunca imaginei que o fizesse com seu próprio dinheiro. – Você namorou Tom Wheelor – acrescentou ele. – Não; parti o coração de meu pai quando me recusei a me casar com Tom – disse ela com uma risada fria. – A vida sem você foi o pior inferno que conheci. Tentei lhe contar, mas você não me ouviu. Você continua a não me ouvir. – Lágrimas turvaram seus olhos. – Bem, estou cansada de falar com você, Justin. Você é muito amargo e apaixonado demais pelo passado para abrir mão de seus rancores. Não posso mais viver assim. Magoou-me mais do que jamais chegará a saber, embora deva admitir que minha própria covardia ajudou. Mas o que fiz, fiz para protegê-lo, porque amava você demais para deixá-lo perder tudo. Tudo que sempre quis foi você. Mas você sempre me quis de uma única forma, e agora que... como é mesmo que você disse... satisfez seu desejo por mim, até isso acabou, não é? Ele cerrou os dentes numa onda de dor. – Ah Deus, Shelby – murmurou ele com voz rouca. – Bem, não perca seu sono por causa disso, Justin. Talvez estivéssemos condenados desde o início. Sem confiança não temos nada. – Ela afastou do rosto as mechas de cabelo soltas. – Pensei que houvesse uma oportunidade para nós antes de sua ida para Wyoming. Mas se ainda não tem confiança em mim, então não temos sequer um chão comum onde construir. Estou tão cansada, Justin – disse ela então, sentando-se na borda da cama. – Estou tão cansada de brigar. Só quero dormir.


Ele passou a mão pelo farto cabelo preto, observando-a. – É claro – disse ele calmamente. – Falamos amanhã. Ela não estaria aqui no dia seguinte, mas não tinha intenção de lhe contar. – Sim, amanhã. Ele queria abraçá-la. Falar com ela. Confessar que sua frieza fora provocada por puro ciúme, porque acreditava que uma mulher tão linda nunca poderia realmente amá-lo. Nunca acreditara, e sua própria insegurança quanto à possibilidade de ser atraente para uma mulher como Shelby era a maior parte do problema. Mas ela parecia exausta, e seria cruel tornar sua noite ainda mais difícil do que já estava. – Descanse. Se precisar de mim, é só chamar. – Você é a última pessoa na face da terra de quem preciso, Justin – disse ela calmamente. Ele inspirou vagarosamente. – Meu Deus, sei disso. Sempre fui. Os olhos negros deslizaram sofregamente sobre ela. – Embora pareça não ter feito nenhuma diferença. Não consegui parar de querê-la. Nunca conseguirei. Saiu pela porta sem olhar para trás, e Shelby se deitou por cima da coberta e chorou pelos muitos anos de felicidade que não teria com ele, pela criança que carregava e de quem ele sequer tinha conhecimento. Chorou por todos eles e adormeceu, ainda vestida, deitada sobre as cobertas. Justin encontrou-a assim na manhã seguinte. Não a acordou. Ela parecia tão frágil com o cabelo, como um halo, em volta do rosto adormecido. Estava pálida, e ele se sentiu culpado até o fundo de sua alma. Ele a magoara. Era a coisa mais preciosa de seu mundo e ele nada fizera que não a magoar. Ele tirou os sapatos dela e a cobriu com a coberta acolchoada, os olhos negros cheios de adoração em seu rosto. – Eu lutaria contra o mundo por você, menina – disse docemente. – Que ironia que não consiga parar de magoá-la. Ela não o ouviu. Ele tocou sua face com delicadeza, indo até as sobrancelhas. Seus olhos escuros amaciaram, tornaram-se ternos. – Eu amo você – disse roucamente. – Ah Deus, amo tanto! Por que não consigo lhe dizer? – Ele se curvou e roçou sua boca com extraordinária ternura, um leve toque que não iria acordá-la. Endireitouse, respirando pesadamente enquanto examinava o rosto adormecido. – Disse que eu não confiava em você. A verdade talvez seja mais do que não confiar em mim mesmo. Você precisa de alguém mais gentil do que eu. Alguém menos rebarbativo e de costumes estáveis. Eu sempre soube, mas nunca encontrei força suficiente para desistir de você. – Ele segurou a mão esguia entre as suas e saboreou sua maciez. Ele riu melancolicamente. – Seria bem feito se a perdesse. Mas acho que não permaneceria vivo se isso acontecesse. Ele pousou a mão dela sobre a coberta e, com um último olhar para o rosto adormecido, virou-se e saiu do quarto. Talvez mais tarde pudessem conversar e ele lhe diria todas essas coisas quando ela estivesse acordada e ouvindo. Se continuasse a se reprimir, correria um risco muito grande de perdê-la. Shelby acordou uma hora depois que ele saiu e se deu conta do vestido de noite e da coberta que tinha sido puxada. Perguntou-se se teria feito isso ou se Maria a cobrira. Bem, não tinha importância. Ela tinha coisas para fazer e pouco tempo para fazê-las. Tentou telefonar para Tammy, mas Tammy devia ter ido para o escritório. Bem, ela telefonaria da casa da prima Carey em Houston. Telefonou para a prima Carey e perguntou se podia ficar um ou dois


dias, sendo imediatamente convidada a ficar lá por mais tempo. Ela e Carey se conheciam desde o primeiro grau, e eram amigas, além de parentes. Prometeu estar com a prima mais tarde nesse dia, desligou e fez uma reserva para o voo de meio-dia que saía do aeroporto de Jacobsville para Houston. Fez a mala, levando apenas o necessário, e rezou para que o enjoo matinal aguentasse até que ela fosse embora. Esgueirou-se escada abaixo, chamou um táxi e estava quase do lado de fora da porta quando Maria entrou no hall para chamá-la para o café da manhã e encontrou Shelby com uma mala na mão e um táxi à espera. – Señora! – exclamou Maria, sem saber o que fazer. – Vou ficar fora apenas por uns dois dias – disse Shelby, hesitante. – Abby sabe onde me encontrar. Não diga nada a Justin. Prometa-me. Maria fez um trejeito, mas acabou por concordar. Olhou Shelby entrar no táxi e partir. Prometera nada dizer a Justin. Não prometera não telefonar para Abby. Pegou o telefone e rapidamente discou o número de Abby. JUSTIN ESTAVA ao telefone quando Abby entrou no escritório, vestindo jeans e uma camisa axadrezada, o cabelo despenteado e sem maquiagem. Ela fechou a porta e se sentou na cadeira das visitas, observando as expressões que atravessavam o rosto de seu antigo tutor enquanto ele terminava abruptamente a conversa telefônica e desligava o telefone. – O que há de errado? – perguntou, porque ela parecia preocupada. – Tudo! – murmurou ela, franzindo o cenho. – Eu estava meio adormecida quando Maria telefonou. Shelby a fez prometer que não ligaria para você, portanto telefonou para mim. Ultrapassei todos os limites de velocidade para chegar aqui. E agora que cheguei – suspirou – não sei como lhe dizer isso. Ele enrijeceu à menção do nome de Shelby. Tinha tido um pressentimento em relação a ela. Sabia o quanto a tinha magoado e ela dissera, na noite anterior, que não aguentava mais. – Ela me deixou, não é, Abby? – perguntou ele calmamente. – Sim, deixou. A pergunta é: o que você pretende fazer a esse respeito? Ele acendeu um cigarro com mãos firmes, enquanto o mundo ruía a seu redor. Ele olhou fixamente a mesa. – Vou deixá-la ir – disse depois de um minuto. – Já a magoei o suficiente. A respiração de Abby parou na garganta. – Justin! Ele levantou os olhos, a dor estampada neles fazendo-os parecer ainda mais escuros. – Você não sabe como a tratei – disse ele. – Estava com ciúmes e morrendo de medo de perdê-la… – Ele parou para passar a mãos com força pelo cabelo. – O que tenho para oferecer a ela? Como prendêla? – Podia tentar dizer a ela que a ama – disse Abby simplesmente. – É tudo que ela sempre quis. Ele apertou os maxilares. – Ela não me ouviria, depois de ontem à noite. – Você viu Barry Holman e Tammy, não viu? – perguntou Abby. Ele a olhou sem expressão.


– Vi. – E em vez de falar com Shelby e deixar que ela explicasse, você resolveu jogar tudo para o alto. Ele sorriu fracamente. – Bingo! – Oh, Justin. – Ela abanou a cabeça. – Ela está a caminho de Houston. – Talvez lá ela ache alguém que possa lhe dar o que ela precisa – disse, sentindo-se amargo por ter destruído todas as suas chances. Abby não estava conseguindo chegar à parte alguma, e se Justin não fosse atrás de Shelby, as coisas iriam desmoronar. Ela mordeu o lábio inferior. Não queria contar o segredo de Shelby, mas Justin estava sendo difícil. – Justin… como se sente em relação a bebês? Ele estava escutando apenas parcialmente, o coração como chumbo no peito. – Gosto de bebês – disse distraidamente. – Ótimo. Então, por que não vai atrás de Shelby e traz o seu de volta? De início, Abby pensou que ele não tivesse ouvido. Voltou os olhos para ela, encarando-a fixamente. – Como foi que disse? – Eu disse que Shelby está grávida. Se quer mesmo um bebê, é melhor chegar ao aeroporto antes que ela leve o seu para Houston com ela. – De que está falando? – Ele explodiu. – Vamos, Justin…! Mas ele já estava de pé e a cadeira no chão. Agarrou-se à mesa para se equilibrar. Os olhos estavam desatinados e havia um tremor na mão esguia que segurava o cigarro. – Um bebê? Shelby está grávida e não me disse nada? Abby estava insegura quanto ao que fazer, por isso saiu correndo do escritório e encontrou Calhoun. – Venha. – Puxou-o pela mão enorme. – Preciso de você. Ele riu. – Ora, meu bem, este não é o lugar… – Justin está em estado de choque. Isso apagou o sorriso de seu rosto. Ele a seguiu até o escritório de Justin. O homem mais velho estava exatamente onde Abby o tinha deixado, ainda branco e parecendo como se tivesse sido apunhalado. – Você tem que levá-lo ao aeroporto – Abby instruiu. – Aeroporto uma ova, ele precisa de um médico. O que foi que você fez? – perguntou ele muito baixinho. – Eu disse a ele que Shelby está grávida. Calhoun assobiou entre os dentes. – E que ela está a caminho de Houston. – Eu posso dirigir – disse Justin sem firmeza. Encaminhou-se para a porta, mas suas pupilas estavam dilatadas e as mãos tremeram quando tentou apagar o cigarro, batendo a ponta acesa na mesa. Calhoun colocou-a no cinzeiro e segurou firmemente o irmão pelo braço. – Não se preocupe, irmãozão, vou fazer com que chegue a tempo. Ele olhou para Abby. – Em que terminal? Ela fez uma careta.


– O aeroporto de Jacobsville só tem um terminal. – Você é uma grande ajuda – murmurou Calhoun. – Em todo caso, acho que só há dois voos para Houston fora das horas de grande movimento. – Ela está grávida – disse Justin roucamente. – E não me contou. Ela sabia e não pôde me contar. É tudo culpa minha. Falhei com ela. – Tudo vai correr bem – disse Abby para tranquilizar. – Meu Deus, espero que sim. – Justin olhou para ela. – Obrigada, meu bem. – Não diga a Shelby que eu contei – respondeu Abby. – Cabe a ela contar a você, mas fiquei com medo que a deixasse ir embora se não contasse. Ele apenas acenou com a cabeça e, finalmente, afastou-se de Calhoun e saiu. Mas não discutiu quando Calhoun fez um gesto em direção ao Jaguar e se sentou ao volante. – E se o avião já tiver levantado voo? – perguntou Justin, fumando como uma chaminé durante o trajeto até o aeroporto. – Então, compramos uma passagem para Houston. – Fez um trejeito. – Vou ser tio. Imagine só. – Olhou para seu taciturno irmão. – E eu que pensava que você e Shelby estavam vivendo castamente. – Cale a boca – disse Justin, disfarçando o constrangimento com mau humor. – Você é quem manda, irmãozão. – Ele assobiou para si mesmo enquanto entrava na via expressa e pisava no acelerador. Chegaram ao aeroporto em tempo recorde. Justin saiu do carro antes mesmo que Calhoun parasse e foi quase correndo para o terminal. Localizaram o voo para Houston e Justin dirigiu-se ao balcão apenas para ser informado de que o avião iria decolar em menos de cinco minutos. Justin ultrapassou Calhoun a caminho do saguão, os olhos fixos nos distantes portões de embarque, o coração explodindo de medo de que ela pudesse partir antes que ele chegasse lá. Desatou a correr à medida que os números nos portões de embarque foram se tornando maiores, disposto a chegar a tempo. – Só mais um minuto – disse a si mesmo – e poderei vê-la. – Então poderia conversar com ela, fazê-la compreender o quanto a amava. Ultrapassou um grupo de passageiros no saguão e chegou ao balcão vazio bem a tempo de ver o funcionário tirar o letreiro de Houston e substituí-lo por outro para outra cidade. – O voo para Houston – perguntou Justin sumariamente. – Onde é? – Partiu há cerca de dois minutos – informou simpaticamente o funcionário. – Está taxiando na pista agora. Justin sentiu o coração parar. Contornou a mesa e foi até a janela. Os aviões estavam decolando e um deles levava Shelby. Shelby e seu filho. Ele ficou parado ali, estático, o coração despedaçado. Era culpa sua. Ele a levara a isso. Mas não sabia como iria viver assim. Mal podia imaginar a angústia que a levara a fugir. Calhoun tocou seu ombro de leve. – Que tal comer alguma coisa? Depois compramos uma passagem para você no próximo voo. – Não sei nem mesmo onde procurá-la, você se dá conta disso? – perguntou com voz rouca. – Meu Deus, Cal, não sei para onde ela foi! – Vai ficar tudo bem – disse Calhoun com firmeza. – Vamos encontrá-la. Juro que sim. Justin se afastou da janela.


– A comida que se dane, quero uma bebida. – Começou a andar em direção ao letreiro brilhante que dizia Restaurante e Lounge. Calhoun o seguiu, pensando em como manter o irmão mais velho sóbrio depois deste devastador desapontamento. Justin estava despedaçado e Calhoun não sabia exatamente o que fazer por ele. Ele dissera que encontrariam Shelby, mas sabia como proceder tanto quanto Justin. Não ia ser fácil encontrar uma grávida solitária numa cidade do tamanho de Houston. Principalmente se ela não quisesse ser encontrada. Parou no corredor e observou Justin entrar no salão e se sentar a uma mesa próxima à janela. Ele fez o pedido à garçonete e Calhoun suspirou profundamente. Bem, talvez fosse uma boa ideia ir ao balcão e perguntar quando seria o próximo voo para Houston e reservar um lugar para Justin. Estava se encaminhando para o saguão quando um rosto familiar chamou sua atenção. Ele parou no meio do corredor e olhou. Não estava sonhando. A mulher vestida de cinza, com uma pequena mala, era Shelby, e estava vindo diretamente em sua direção.


CAPÍTULO 11

SHELBY SENTIU o chão tremer ao ver Calhoun barrar seu caminho. Ela estava segura de que Maria não iria contar nada, mas agora não tinha certeza. A não ser, claro, que Calhoun estivesse ali para receber um cliente. – Hum, oi, Calhoun – disse com um sorriso trêmulo. Ele suspirou. – Oi, Shelby. – Reparou na pequena mala que ela carregava. – Vai viajar? Ela mudou de posição, inquieta. – Sim – murmurou. Olhava para o terno dele, e não para seu rosto. – Estou deixando seu irmão. – Eu sei. Maria telefonou para Abby. Justin também sabe. Shelby sentiu-se empalidecer, mas uma rápida vista de olhos não mostrou Justin, e ela suspirou de alívio. – Ele não está com você, então? Ele a pegou gentilmente pelo braço. – Acho que ajudaria bastante se você o visse. Venha, ele não vai morder. – Isso é o que você pensa – murmurou ela. – Onde ele está? – Lá dentro. – Ele a levou até a entrada do salão e apontou em direção ao canto onde Justin estava sentado, sem chapéu e curvado, com uma garrafa de uísque e uma dose num copo diante dele. Estava olhando a garrafa, absorto, enquanto um cigarro esquecido lançava espirais de fumo de sua mão livre. Shelby franziu a testa. Justin, de um modo geral, não costumava beber. Ela se lembrava de Abby ter dito qualquer coisa sobre ele ter se embriagado na noite da quadrilha, mas ela sabia que isso acontecia raramente. Gostava de manter o controle o tempo todo. Não gostava que sua mente ficasse confusa. – O que é que ele está fazendo? – perguntou Shelby. – Embebedando-se, imagino. – Calhoun pegou a mala e olhou para suas feições pálidas e frágeis. – Agora, Shelby, você diria que ele parece um homem feliz? Ela fez um trejeito. – Não. – Ele se parece com um homem que está satisfeitíssimo porque sua mulher foi embora e o deixou?


Ela abanou a cabeça. Na realidade, parecia exatamente o oposto. Parecia um homem vencido. Os pálidos olhos verdes o percorreram amorosamente, com uma suave tristeza lá no fundo. – Tive que trazê-lo até aqui porque ele tremia tanto que não podia dirigir o carro – disse calmamente, fazendo um movimento de cabeça diante de sua expressão chocada. – Ele não vai gostar de relembrar isso, e quando estiver recomposto, vai me fazer passar o diabo por tê-lo visto assim. Mas queria que soubesse o quanto ele está perturbado. Aquele homem ama você, meu bem. Há anos você tem sido a única estrela em seu céu. Tem estado sozinho todo esse tempo, e apesar de ter infernizado sua vida, sei que morreria por você. Se não o ama, a melhor coisa que tem a fazer é ir embora. Mas se gosta dele não fuja. Entre ali e converse com ele. – Eu o amo – disse simplesmente. – Mas ele acredita em coisas horríveis sobre mim. Ele não ouve… – Se lhe disser como se sente, ele vai ouvir. Acredite. Ela olhou para ele, fraquejando. – É tão difícil... – E a vida não é? – Ele se abaixou e a beijou gentilmente no rosto – Vá. Acabe com isso. Vou me sentar no saguão, como se fosse um passageiro, e tomar café. Tomo conta de sua mala também. Ela sorriu docemente. – Obrigada, Calhoun. – O prazer é todo meu. Agora, vá. Ela hesitou, mas apenas por um minuto. Calhoun tinha razão. Ela tinha de enfrentar Justin. Caminhou nervosamente em direção à mesa onde ele estava sentado. À medida que chegava mais perto, pôde ver a palidez de sua pele, os novos sulcos em seu rosto. – Justin? – disse ela hesitantemente quando o alcançou. Ele ergueu os olhos. Alguma coisa faiscou neles enquanto percorriam o corpo dela reverentemente. – Você não está aqui – disse quietamente. – Você foi embora. Ela mordeu o lábio. Ele parecia estar falando com um fantasma. – Ainda não – disse ela com suavidade. Sentou-se numa cadeira ao lado dele e olhou suas mãos esguias. – Sinto muito por estar indo embora assim, mas aguentei tudo que podia. – Eu sei disso – disse ele, a voz macia, terna. – Não estou culpando você. Nunca lhe dei uma oportunidade. – Ele levou o copo aos lábios, mas os dedos dela tocaram as costas da sua mão, incitando-o a não fazer isso. Ele soltou um riso oco. – Eu detesto álcool, alguma vez já lhe disse? Mas não é todo dia que um homem perde tudo aquilo que ama. Lágrimas umedeceram os olhos dela. Ela pegou a mão dele e a manteve entre as suas, o rosto erguido, a expressão aberta, amando. – Você nunca disse que me amava, Justin – murmurou ela. – Mas nunca deixei de amar você. Nunca deixarei. Tudo o que sempre quis foi você. Os dedos dele contraíram-se convulsivamente em torno dos dela. Os olhos negros brilharam em seu rosto. – Não sabia, mesmo sem as palavras? – Ele respirou profundamente. – Meu Deus, teria andado sobre fogo se tivesse me pedido. Você era o meu mundo. Eu amava você... Ela encostou a cabeça nos ombros dele, odiando o salão abarrotado, porque não queria outra coisa na vida que não abraçá-lo e segurá-lo e beijá-lo e lhe dizer todas as coisas que nunca tinha dito antes. O braço dele a envolveu, segurando-a, e ele reteve uma respiração trêmula.


– Meu Deus – murmurou ele contra sua testa. – Eu pensei que tivesse se casado comigo porque estava sozinha e com medo. – E pensei que você tivesse se casado comigo porque tinha pena de mim – respondeu ela, deixando que as lágrimas corressem livremente pelo rosto. – E durante todo esse tempo, eu o amava tanto. Seus dedos esguios afastaram as lágrimas. Procurou seus olhos turvos. – Temos que sair daqui – murmurou ele. – Tenho que fazer você compreender como me sinto. Não posso perder você agora. Ah Deus, Shelby, sem você vou morrer – disse com voz rouca, e estava tudo em seus olhos, faiscando deles como fogo negro. As lágrimas voltaram a correr. Ela se levantou, segurando a mão dele. Ele a seguiu, retendo-a junto a ele, mesmo enquanto pagava a conta, como se não suportasse deixá-la nem por esse curto espaço de tempo. Calhoun os viu saindo do salão. Sorriu e pegou a mala de Shelby. – Vou deixá-los em casa – ofereceu. – Depois tenho que ir a uma reunião. Eles mal o ouviram. Justin estava completamente absorto, e Shelby, de tão próxima, parecia fazer parte dele. Ele os sentou no banco traseiro e arrancou, com um sorriso satisfeito pelo papel desempenhado nesta reunião. Não que eles parecessem tomar conhecimento dele. Estavam ocupados demais olhando um ao outro. Deixou-os nos degraus da entrada da casa dos Ballenger, colocando a mala ao lado deles. – Telefonei para Abby enquanto vocês dois estavam no salão. Ela perguntou se não gostariam de vir jantar? Maria vai visitar a irmã hoje à noite e Shelby, com certeza, não está a fim de cozinhar. – Isso seria muito bom – disse Justin calmamente. Deu uma palmada no ombro do irmão. – Obrigado. – Faria o mesmo por mim – Calhoun respondeu. E sorriu. – Na verdade, fez, ou já se esqueceu? Vejo-os às seis. Até logo, Shelby. – Obrigada, Calhoun – disse ela, sorrindo-lhe. Justin pegou a mala e a ajudou a entrar em casa. Maria veio correndo, um chorrilho em espanhol saindo de seus lábios. Justin abruptamente agarrou-a pela cintura e sapecou-lhe um beijo sincero no rosto queimado de sol. Ela deu risadinhas quando a pôs no chão. – Señor! – ralhou. Estava vestida para sair. – Lopez e eu vamos sair agora, mas tinha que esperar para ter certeza de que tudo estava bem. Señor, e o jantar desta noite? – Calhoun nos convidou para comer com ele e Abby. – Shelby a abraçou. – Obrigada por ter telefonado para Abby. Nunca esquecerei o que fez por nós. Maria sorriu. – Teria encontrado uma saída, señora. – Ela riu. – Só ajudei um bocadinho. Lopez e eu temos de nos apressar. Voltaremos amanhã, señor. Vou preparar um magnífico café da manhã! – Vamos aguardar ansiosamente. Vão com Deus. Maria sorriu e atravessou o hall em direção à cozinha, onde Lopez esperava por ela. Justin levou Shelby até a sala de estar, onde Maria tinha colocado uma bandeja com café e bolinhos. Depois que ela se sentou, ele serviu o café. Mas antes de entregar-lhe a xícara, inclinou-se e beijou-a com extraordinária ternura. – Eu amo você – murmurou ele baixinho, perscrutando seus olhos. – Sempre amei, mesmo não conseguindo encontrar a maneira certa de lhe dizer.


Ela o beijou de volta. – Era tudo o que precisava dizer – respondeu. – Eu também o amava, Justin. Mas você nunca pareceu acreditar que eu pudesse. Ele lhe entregou a xícara de café e se sentou a seu lado para tomar o dele. – Eu era um homem pobre naquele tempo, e não sou lá essas coisas – confessou ele. – Você vinha de um ambiente abastado, era linda e requisitada. – Ele riu. – Nunca achei que eu fosse páreo para homens como Wheelor. – Dinheiro e aparência nunca significaram muito para mim – disse ela com firmeza. – Você tinha outras qualidades bem mais importantes. – Os olhos dela estudaram os dele calmamente. – Mas o mais importante era que eu o amava – disse. – O amor não depende de coisas superficiais ou posses. Ele a olhou com indisfarçável volúpia. – Não. Suponho que não. Estava inseguro em relação a você. Ela sorriu. – E agora? – E agora. – Ele riu baixinho. Sua mão livre tocou o rosto dela. O sorriso esmaeceu. – Eu a fiz infeliz. Magoei-a e desprezei-a, tudo porque não tinha confiança em você. Mas se tivesse sabido como você se sentia, não teria havido dúvidas. Nenhuma. Pode acreditar nisso e me perdoar pelo modo como a tratei? – Eu amo você – disse ela simplesmente. – Nada mais importa. – Ela se esticou e o beijou avidamente. – Entendo por que pensou o que pensou, Justin. Foi o esquema maldoso do meu pai, e não alguma coisa que um de nós tivesse feito, que causou toda essa dor de cabeça. Mas agora basta saber que você me ama. Isso é tudo. Ele pousou as xícaras e a puxou para seu colo, abraçando-a com sofreguidão. – Eu apagaria os últimos seis anos se pudesse – sussurrou ele roucamente. – Faria qualquer coisa para compensá-la. – Justin… você já me compensou – disse com delicada hesitação. Ela pegou a mão esguia e a apertou devagarzinho, gentilmente, contra o ainda liso abdômen. Ela a segurou lá e procurou os olhos dele. – Estou carregando seu bebê. Ele sabia. Mas ouvir isso dela foi profunda e infinitamente tocante. Ele acariciou a maciez gentilmente e, inclinando-se, trouxe sua boca até a dele para beijá-la com infinito cuidado. – Shelby – sussurrou. Beijou-a de novo. – Shelby. Você e um bebê… – Não está arrependido? – sussurrou, brincalhona. Ele sorriu para ela com orgulho e amor nos olhos escuros. – Não estou arrependido de coisa alguma. Vamos ter um filho ou uma filha? – Não me importa, desde que seja um bebê saudável. – Ela se ergueu para abraçá-lo. – E vou deixar meu emprego, caso ainda não tenha mencionado isso. Acho que Tammy e o patrão ficarão muito felizes sem mim. – E vou ficar muito feliz com você, se é o que realmente quer. – Ele passou um longo dedo pelos lábios dela. – Não vou frustrar você em relação a outros interesses, se você os quiser. Não vou insistir para que seja apenas mulher e mãe. – Não vou ser – assegurou-lhe –, embora este passe a ser o meu trabalho mais importante por algum tempo. Depois posso fazer uns cursos ou trabalhar como voluntária. Mas, neste momento, o bebê é minha preocupação maior.


Ele riu suavemente. – Quanto tempo? – murmurou. – Acho que estou com seis semanas – murmurou de volta. – Vou ao médico na semana que vem para ter certeza. – Na primeira vez em que fizemos amor – ele respirou, sustentando o olhar dela. – Não foi? Ela escondeu o rosto nele, rindo com tímido embaraço. – Sim. – Eu sou bom – murmurou ele causticamente. Ela chegou mais perto. – Você é muito bom – murmurou e ergueu o rosto. Ele se inclinou, levando sua boca à dela, acariciando-a. Ela relaxou contra ele, adorando seu toque, adorando a força de seu corpo tão perto do dela. Ela suspirou, e o som desse suspiro entrou pela boca de Justin, provocando um novo e arrebatador desejo. As mãos dela deslizaram para trás da cabeça dele e ele puxou seus quadris contra os dele, virando-a, enquanto sua boca tornava-se mais e mais exigente. Ele a queria. Ela conhecia os sinais agora, como não conhecera antes. E ela gemeu, porque ele a amava e ela o amava, e desta vez ia ser diferente das outras. Ia ser a época mais emocionante de suas vidas. – Você me quer? – perguntou ele contra os lábios dela. – Porque quero você. Aqui mesmo. – A primeira vez… foi exatamente aqui – ela respirou, estremecendo um pouco quando ele deslizou a mão entre eles para desabotoar os botões aperolados da frente de seu vestido cinza. – É prático. – Ele riu, o som rico e profundo de amor. – Mas sempre há o tapete. Os olhos dela procuraram os dele. – Que esquisito. – De jeito nenhum. É espesso e macio… e não há ninguém nos vendo. E apenas para garantir… Ele se levantou, ainda sorrindo, e foi fechar e trancar a porta. Despiu a camisa, observando o modo como os olhos dela focaram a massa de pelos encaracolados abaixo da cintura de seu jeans. Ele gostava do modo como ela o olhava. Os olhos dela ficaram macios e escuros e vagamente sensuais. Ele a ergueu do sofá, colocando as mãos dela em seu peito, deslizando-as contra o músculo quente e latejante. – Tem algum perigo para o bebê? – perguntou gentilmente. Ela abanou a cabeça e pressionou os lábios contra os dele. – Não se você for delicado. E quando foi que me machucou? – Sem arrependimentos, Shelby? – hesitou. Ela se ergueu para colocar sua boca contra a dele. – Nem sequer um. As suas mãos agarraram os quadris dela, puxando-os contra ele, movendo o corpo dela com o seu para que ela sentisse a força de seu desejo. O corpo dela reagiu de um jeito agora familiar, e ela endireitou-se para chegar mais perto, mostrando seu desejo de formas sutis. Ela o beijou até seus lábios ficarem inchados e sensíveis, até seu corpo começar a sentir a vibração quente que ele provocava tão facilmente nela. Ele a deitou gentilmente no tapete, deslizando ao lado dela com facilidade. Ele desabotoara seu vestido e tirara a lingerie do caminho com preguiçosa destreza, e então ela sentiu sua boca, e todas as


suas inibições saíram pela janela. Ela segurou sua boca contra ela, inebriando-se nas carícias úmidas, adorando a forma como ele estava com ela. Nunca tinha existido medo de intimidade desde a primeira vez. O corpo dela sabia que tipo de prazer estava por vir, e agora respondia com deleite, não com apreensão. Por longos e preguiçosos minutos, ele a excitou, só ficando satisfeito quando ela tremeu dos pés à cabeça, completamente à sua mercê. Só então ele se despiu, deleitando-se com as curvas macias e a pele cremosa, enquanto tirava o resto das roupas, e voltou a se deitar ao lado dela. Shelby olhou para cima com olhos nebulosos quando ele se arqueou sobre ela, aguentando seu peso nos braços fortes, e ela sentiu o extraordinário toque de sua pele na dele quando desceu sobre ela. Sua respiração ofegou ao primeiro toque dele e ele riu travessamente. – Já não devia chocá-la – sussurrou nos lábios dela, movendo-se para mais perto. – É uma velha senhora casada, agora. – Não é choque, é… prazer! – Ela se agarrou a ele quando ele começou a se mover. Enterrou a boca em seu ombro, gemendo novamente, à medida que seu corpo se unia gentilmente ao dela. – Justin! – Eu amo você – murmurou ele baixinho. – Nunca lhe mostrei efetivamente o quanto, mas agora vou mostrar. Fique quieta para mim, menina. Deixe-me levá-la diretamente até o sol. – Ele encostou sua boca na dela e começou a falar em murmúrios roucos, em espanhol fluente. Palavras de amor. Palavras descritivas que ele acentuava com carícias vagarosas e desenhos ternos que a fizeram chorar com novo prazer. Desta vez não havia contenção, preocupações ocultas, barreiras. Ele ajustou os movimentos às necessidades do corpo dela, sem pressa, tratando-a com rara ternura. E em algum lugar desse vagaroso incêndio, ela ouviu sua voz gritar ao mesmo tempo em que o acompanhava na voragem da realização. Depois, ela não conseguia parar de tremer. Agarrou-se aos ombros dele, tentando regularizar a respiração, tentando não tremer com a batida de seu coração. Mas ele parecia estar igualmente afetado, o que tornava tudo menos inibidor. – Está tudo bem. – Ele a acalmou com as mãos, beijando seu rosto gentilmente com lábios que a adoravam. – Está tudo bem. É apenas o choque de descer de tanta altura, meu amor – ele respirou. – Também sinto isso. – Mas nunca foi assim antes – sussurrou ela. – Mas nunca tínhamos feito amor assim antes – sussurrou ele de volta. Ele levantou a cabeça para procurar os olhos espantados dela. – Não tão completamente. Ela tocou sua boca com dedos trêmulos, perdida nele, totalmente dele. – Eu não quero parar. – Eu também não – sussurrou ele baixinho. – E nem precisamos. Estamos sozinhos em casa, sem mais nada para fazer. Vamos subir e ver se conseguimos ultrapassar o que acabamos de fazer juntos. Ele se levantou devagar, tomou-a nos braços e se dirigiu para a porta. – Justin, nossas roupas – murmurou, olhando o evidente tumulto em que se encontravam e a visível trilha deixada por elas. Ele a equilibrou numa perna e destrancou a porta. Abriu-a e começou a subir a longa escadaria com ela aninhada em seu peito úmido e espessamente cabeludo. – Elas ainda estarão lá quando voltarmos – prometeu. – Mas estamos sem nada no corpo – protestou ela. Ele olhou o bonito corpo cor-de-rosa em seus braços com o puro orgulho de posse. – Eu notei. – Mas Maria e Lopez…


– ... não vão voltar esta noite. – Colocou sua boca sobre a dela. Após alguns segundos, ela começou a se agarrar a ele, adorando a sensação dele contra sua pele nua. Amar, pensou enquanto pôde, era o mais incrível dos prazeres. Ela o beijou de volta, qualquer argumentação sumindo do turbilhão de sua mente. A segunda vez foi mais longa. Ele demorou intencionalmente, a voz macia e lenta, falando parte em espanhol, ensinando-lhe novas palavras e orientando-a quanto ao modo de pronunciá-las. E durante o tempo todo, ele a tocava, a adorava com as mãos e os olhos, murmurava tudo o que ela significava para ele, como estava feliz com o bebê que haviam feito. Atingiram alturas nunca antes alcançadas e já estava escuro quando acordaram nos braços um do outro. – Adormecemos – murmurou ela. – Pudera. – Ele sorriu, rindo quando ela enrubesceu. – Estou com sede – sussurrou. – Eu também. – Ele levantou, espreguiçando-se, enquanto os olhos dela demonstravam estar adorando sua flagrante masculinidade. – Que tal alguma coisa gelada? E algo para petiscar? – Isso seria ótimo. – Ela moveu-se entre os lençóis, os olhos provocantes. – Não demore. Ele deu uma risadinha. – Estarei de volta antes que sinta saudades minhas. Olhou ao redor, à procura de alguma coisa para vestir. Suas roupas estavam embaixo. Finalmente, foi ao banheiro e voltou com uma imensa toalha de praia colorida, estampada com um enorme sapo. Estavam no quarto dela e havia uma nítida falta de roupa masculina ali. – Coisa mais extravagante – murmurou ele, olhando-a divertido enquanto enrolava a toalha em volta da cintura. – Suponho que não podia ter comprado uma mais simples. – Gosto de sapos – contou ela. Ele levantou uma sobrancelha e, ignorando as risadinhas de Shelby, desceu. Encheu dois copos com gelo e chá adoçado da geladeira, fez sanduíches de presunto e pôs tudo numa bandeja. Saiu da cozinha para o hall e parou ao pé da escada para ajeitar a toalha quando a porta da frente se abriu subitamente e Calhoun entrou. Ele estacou atônito, olhando seu taciturno e muito digno irmão parado no hall, com uma toalha estampada com um sapo gigantesco enrolada em volta dos magros quadris. Justin estava carregando uma bandeja cheia de comida e bebida e parecia… estranho. – Pensei que você e Shelby viessem jantar – disse Calhoun. – Jantar? – repetiu ele. – Jantar. São quase sete. Você não telefonou e seu telefone parece estar fora do gancho. Estávamos com medo que pudesse ter acontecido alguma coisa, por isso vim até aqui ver. Justin piscou. Ele tirara o fone do gancho quando levara Shelby para cima. Olhou para a toalha. – Não há nada de errado. Eu estava, hum, tomando um banho – improvisou, um pouco embaraçado por ter sido apanhado numa situação tão comprometedora, mesmo estando em sua própria casa. Calhoun notou a porta aberta para a sala de estar e a trilha de roupas. – Na sala de estar? – perguntou ele. – E desde quando usa vestido? Justin olhou-o fixamente, os lábios finos como uma linha. – Estava escolhendo roupas ao mesmo tempo. Aí fiquei com fome. – Vocês foram convidados para jantar.


– Fiquei com fome antes. Ia fazer um lanchinho antes de me aprontar. – Sua tez tinha se tornado vermelha. Calhoun sorria de orelha a orelha. – No chuveiro? – Ia comer primeiro – disse Justin teimosamente. – Onde está Shelby? – perguntou Calhoun curiosamente. Justin pigarreou. – Lá em cima. Estava cansada. Nesse momento, uma voz queixosa veio lá de cima. – Justin, vai voltar ou não vai? Estou me sentindo sozinha. O rosto de Justin tornou-se escarlate. – Já estou indo! – disse ele, sucinto. Olhou mais duramente para Calhoun. – Ela também está tomando uma chuveirada. Calhoun teve de abafar o riso. Fez um trejeito intencional para o irmão mais velho e girou nos calcanhares. – Quando terminarem o lanche no chuveiro e acabarem de escolher as roupas, venham até lá em casa e nós vamos alimentá-los. Ele olhou para a toalha. – Melhor vestir umas calças primeiro, não vamos querer escandalizar Abby. Pelo amor de Deus, Justin, um sapo? – Foi a única coisa que achei, e o que você tem a ver com isso? – perguntou Justin afogueado. – Oh, acho que lhe cai bem – respondeu Calhoun. – Eu gosto de sapos. – Não nos demos conta da hora – disse Justin, rígido. – Estaremos lá em trinta minutos, se for conveniente para você. – Sem pressa. – Calhoun sorriu maliciosamente. – Se você acha o tapete da sala de estar um bom lugar, devia tentar numa Jacuzzi – murmurou, e saiu correndo, porque Justin parecia dividido entre chocado e homicida. Justin levou a bandeja para cima, sua dignidade ferida, e a pôs na mesa de cabeceira. – Chá gelado! Estou seca. – Shelby riu e bebeu sedentamente do copo que havia pegado. – Ouvi vozes. – Calhoun veio ver onde nos metemos – murmurou Justin. – Fomos convidados para jantar, lembrase? – Nem pensei no assunto – confessou Shelby. – Nem eu. Podemos ir daqui a meia hora. Ainda quer o lanche antes? – Talvez seja melhor esperar. Sempre podemos comer alguma coisa antes de dormir. Vou embrulhálo e colocá-lo na geladeira assim que estiver vestida. Olhou com amor para o marido. – Calhoun e Abby também são casados – lembrou-lhe. – Não é tão chocante ser apanhado passando a tarde na cama com sua mulher, é? Ele mudou de posição. – Não. Mas é bastante desconfortável – confessou com um olhar oblíquo. – Seis anos de celibato torna um homem cauteloso, acho. – Seis anos. Ela se ergueu e o beijou ternamente. – Eu achei que o tinha tornado amargo demais para querer dormir com outra pessoa. Mas não foi isso mesmo, foi Justin? – perguntou ela suavemente.


Ele tocou os dedos dela com os lábios. – Eu não queria outra pessoa – disse com um suspiro. – Eu a amava demais. Era você ou ninguém. Ela teve de morder o lábio para evitar as lágrimas. – Foi como me senti. Tentei tanto protegê-lo – murmurou ela. – Estava fazendo o mesmo por você quando nos casamos. No entanto, acho que ambos exageramos. – Mas não mais. – Ela sorriu. – Agora vamos usar nossos instintos protetores com nosso bebê. – Parece uma boa ideia. – Ele se inclinou e a beijou. – É melhor nos vestirmos e irmos ver os cunhados, mamãezinha – murmurou ele. – Antes que voltem. – Foi gentil da parte de Abby nos convidar. – Sim. Espero que esteja pronta para o que vem por aí – acrescentou. – Conhecendo Calhoun, vai ser um jantar exasperante. Ela riu, escondendo o rosto nele. – Eu amo você. – Eu também amo você, meu bem. – Ele se levantou, com sapo e tudo. – Shelby, você teria me contado sobre o bebê, se Calhoun não tivesse conseguido me levar a tempo para o aeroporto? Ela assentiu com a cabeça. – Era um direito seu. Eu não estava realmente abandonando você, Justin. Precisava de tempo para pensar devidamente. Teria voltado. Já não consigo mais viver sem você. – Ela o olhou com desejo. – Você estava indo atrás de mim? – É claro. – Deu uma risadinha. – Imaginei que ia levar meses vasculhando a cidade à sua procura, mas isso não teria me detido. Eu me sentia mal com o que tinha dito e feito. Mas teria sido por amor que iria atrás de você, meu bem, não por culpa. – Sim, agora sei. – Ela suspirou preguiçosamente, tão apaixonada por ele que se sentia capaz de explodir. – Eu poderia comer um cavalo. – Vou telefonar para Abby e pedir que cozinhe um. Levante-se e vista-se, mulher. Estou morto de fome. – Não olhe para mim. Foi sua a ideia de não comermos. Ela saltou da cama e ele a puxou para perto, os olhos cheios de ternura. – Sem dúvida que foi. Faço essas coisas de vez em quando. – Ele se curvou e a beijou. – Você se incomoda? Ela passou o braço por seu pescoço e o segurou bem perto. – Não me incomodo nem um pouco. Lá fora o céu noturno tornou-se mais e mais escuro, e alguns quilômetros mais abaixo, Abby esquentava a carne e os legumes do guisado irlandês uma última vez. Ela tentara dizer a Calhoun que champanhe não combinava com um prato tão simples, mas ele estava ocupado demais, gelando-o, para prestar atenção. Portanto, Abby apenas riu e pegou as melhores flûtes de champanhe. Talvez ele estivesse com a razão. Parecia mesmo uma boa noite para comemorações.


Sobre a autora Roxann Delaney Roxann Delaney não consegue se lembrar de uma época em que não estivesse lendo ou escrevendo. Nativa do Kansas, viveu em uma fazenda no interior por muitos anos e adora a vida do campo. Contudo, não conseguiu ficar muito tempo longe da cidade natal. Suas quatro filhas e netas a mantém ocupada nos momentos em que não está escrevendo, criando web sites ou planejando as reuniões da turma do colégio. Roxann ganhou o Maggie Award em 1999. Ela adora conversar com as leitoras através do e-mail roxann@roxanndelaney.com e do site www.roxanndelaney.com.


Roxann Delaney

O CORAÇÃO DE UM COWBOY

Tradução Celina Romeu


Querida leitora, Eu amo cidades pequenas. Amo as grandes e as médias também. Porém, como vivi em uma cidade pequena durante a minha juventude, posso afirmar que há algo de especial nelas. Quando chegou o momento de decidir o cenário de O coração de um cowboy, nasceu a cidade de Desperation, Oklahoma. Desperation é repleta de moradores peculiares, de histórias sobre o passado e de amor sempre à flor da pele. Julie Vandeveer não se apaixona apenas por Tanner O’Brien, mas também pela cidade e pelas pessoas que vivem por lá. Espero que goste de visitar Desperation. Tudo de bom! Roxann

Um agradecimento especial para meu amigo Keith Woods, um verdadeiro cowboy do Oklahoma. Obrigada por todas as informações sobre rodeios. Também agradeço a todos os cowboys e cowgirls que desfrutam dos rigores e das alegrias da vida de rodeios.


CAPÍTULO 1

– NÃO SEI se foi uma boa ideia. Jules Vandeveer não percebeu que falara em voz alta enquanto ela olhava para a arena da AgriPlex. De seu assento na primeira fila, ao lado da melhor amiga, observou o cowboy vestido com uma camisa azul brilhante montar um cavalo. – Podemos ir embora – disse Beth Anders. Jules ficou tentada, mas recusou. – Não, preciso fazer isso. Conhecia os perigos de modalidades esportivas com animais, mas fugir não resolveria seu problema. Chegara a hora de enfrentar seus medos. Embora tivesse dificuldade de compreender como uma pessoa podia ser tão louca para fazer carreira tentando o destino nas costas de um animal que corcoveava e girava, sabia que sua reação tinha como base aqueles medos. – Vamos ficar. Beth segurou o braço dela, a expressão preocupada. – Aguente firme, está quase no fim. Esta pode ser a melhor exibição de montaria sem sela em cavalos chucros. Em segundos, o animal e o peão surgiram na arena. O cavalo corcoveava, empinava e girava na tentativa de derrubar o homem. Com um dos braços erguido acima da cabeça, o cowboy se segurava com o outro. Quando o cavalo e o peão giraram mais perto da arquibancada, a poeira e a terra tomaram o ar. Jules deixou de receber partículas de terra nos olhos e na boca quando se debruçou para pegar a bolsa sob o assento. Acima do barulho da multidão, que se erguera ao seu redor, ouviu o som que sinalizava o fim da montaria de oito segundos e suspirou de alívio. Antes de se erguer, alguma coisa atingiu sua cabeça abaixada e caiu a seus pés. Era um chapéu preto de cowboy. – De onde veio isso? Pegou o chapéu, levantou-se e olhou para a arena, onde o último peão estava em pé acenando, sem chapéu, para a multidão que o aplaudia e gritava. – Segure firme – disse Beth.


– Segure você – retrucou Jules, jogando-lhe o chapéu. Beth devolveu-o, sorrindo. Quando um som agudo se fez ouvir, Beth resmungou e tirou o celular do bolso. – Tenho que atender a esta chamada – explicou, levantando-se e passando por Jules. – Volto já. Jules se ergueu num pulo. – Mas... – Será apenas um minuto. Não saia daqui. Beth abriu caminho entre a multidão que aplaudia e desapareceu. Jules se virou e deparou, do outro lado da cerca, com os olhos mais azuis que já vira, emoldurados por cílios negros, espessos e longos. O coração parou e a mente esvaziou. – Meu chapéu, benzinho. As palavras, ditas num barítono lento e suave, fizeram Jules piscar, mas a mente se recusou a funcionar. Rugas se formaram na pele profundamente bronzeada em torno dos olhos de safira. Um cacho de cabelos de um negro profundo caiu sobre sobrancelhas também negras. – Se o quer tanto assim... – disse ele, a voz lenta, o sotaque forte de Oklahoma. O olhar dela caiu sobre o chapéu que segurava com força e o coração disparou. Ele a chamara de benzinho? Atônita, negou com a cabeça. Ele sorriu. – Tem certeza? O coração de Jules pulou quando acenou, incapaz de emitir um som. O que estava acontecendo com ela? – Você está bem, benzinho? – A voz profunda demonstrava preocupação. Jules piscou e enrijeceu com a sensação que o som daquela voz enviava às suas terminações nervosas. Estendeu-lhe o chapéu com as mãos trêmulas. – Tome seu chapéu... O cowboy o pegou, os olhos com uma expressão perplexa, e o colocou na cabeça. Levando a mão à aba, sorriu antes de se virar e atravessar a arena. – O que você disse a ele? Jules se virou e viu Beth retornando. – Nada, apenas lhe devolvi o chapéu. – Só isso? Ele parecia aborrecido. – É claro que foi só isso – disse Jules, sorrindo e se recusando a explicar sua reação inexplicável diante dele. – Sabe, Beth, se não fôssemos tão amigas, este cowboy seria a última palha. Quase riu da ironia da escolha da palavra. Desde que haviam chegado à arena de Ada, Oklahoma, vira palha suficiente para sufocar uma manada de búfalos. E pensara que palha era algo exclusivo ao mundo dos concursos de salto! Rodeios eram ainda piores. Pensara que um rodeio fosse diferente de saltar, mas até os cheiros e os sons da noite trouxeram mais lembranças do que esperara. Ver cowboys sendo derrubados por cavalos apenas tornara tudo pior, embora Beth a tivesse advertido de que isso poderia acontecer. – Tem certeza de que está bem? – perguntou Beth, preocupada. – Estou ótima – respondeu levantando-se, feliz porque a noite acabara. Beth segurou seu braço, os olhos castanhos brilhando de expectativa.


– Então, vamos. – Para onde? Puxando Jules através da multidão, Beth disse, com um sorriso malicioso: – Vamos a uma festa. Jules sorriu, sabendo que aguentaria uma pequena reunião e uma taça de vinho para limpar a poeira da garganta. Claramente precisava de férias, se um cowboy podia deixá-la com a língua presa. TANNER O’BRIEN encontrou a mulher que vira na arquibancada com Beth Anders no instante em que entrou no bar barulhento. Música country, tocada em volume máximo, feriu os ouvidos dele e as luzes multicoloridas atingiram seus olhos enquanto um enorme grupo de admiradores o cercou, parabenizando-o. Mas não conseguiu tirar os olhos daquela mulher. Andando pelo piso de madeira, sentiu tapinhas amigáveis nas costas e, sem nada dizer, aceitou os elogios que os acompanharam com um sorriso e um aceno, enquanto outra pessoa lhe entregava uma caneca de cerveja gelada. Peões e admiradores eram sempre uma grande família em qualquer parte do país. Agradeceu, sorriu e acenou, sem parar de andar em direção a um rosto familiar. Puxou uma cadeira, virou-a e se sentou como se a montasse. – Oi, Dusty. O cowboy sentado do outro lado da mesa jogou o chapéu para trás com um dedo. – Aquela última exibição pareceu fácil demais – disse Dusty. – Sim, claro – concordou Tanner com um leve sorriso. Seu corpo de 33 anos doía, desmentindo as palavras. Debruçou-se e manteve a voz baixa. – Você viu Shawn? – Não desde sua última exibição esta noite. Estava atrás das rampas e desapareceu assim que anunciaram sua vitória. Seu sobrinho está lhe dando trabalho? Antes que Tanner respondesse, uma voz feminina sussurrou em seu ouvido: – Pode autografar meu programa? O vale entre os seios dela estava ao mesmo nível de seus olhos, mas Tanner ignorou a visão. Bonecas que perseguiam cowboys não lhe interessavam mais. Assinou o programa e entregou a ela, sem se dar ao trabalho de olhar para o rosto da mulher. Dusty riu depois que ela saiu. – Você tem tanto jeito com as damas como com os cavalos chucros. Tanner riu. – Aposto que tenho idade para ser pai dela. – Isso não o incomodaria há pouco tempo. Tanner tomou um gole de cerveja e pensou no assunto. – É, mas naquela época não sabia o que sei hoje. Incapaz de evitar, passou os olhos pelo salão, parando finalmente na loura que vira da arena. Certamente era uma beleza. Quando a vira, depois de atirar seu chapéu na arquibancada, sentira uma pontada de interesse. Pretendia conhecer a dama quando foi recuperar o chapéu, mas desistiu com o gelo que ela lhe dera. – Sua amiga? – Dusty interrompeu os pensamentos. – Não. – E não queria que fosse; não pretendia se importar com a reação dela, mas estava curioso. – Parece ser amiga de Beth Anders.


– Sorte dela – disse Tanner, olhando para a loura. Era mesmo um colírio para olhos cansados. Cabelos louros e longos, presos numa trança, e olhos verdes como a grama das pradarias na primavera. Quando ela olhou em sua direção, Tanner desviou o olhar para Beth Anders, que lhe acenou. – Seja um cavalheiro e vá cumprimentar as damas – aconselhou Dusty. – Certo, melhor fazer isso logo. Beth me fará um sermão da próxima vez em que for ao rancho atender a um chamado de veterinário. Tanner atravessou lentamente o salão e, quando chegou à mesa onde as duas mulheres estavam sentadas, ergueu a aba do chapéu para a bonita morena. – Boa noite, Beth. – Fez um aceno rápido na direção da amiga. – Oi, Tanner. – Onde está o professor? Seu noivo precisa tomar conta de você. – Michael ligou assim que você terminou. Foi uma bela exibição! Outra vitória! Deve estar perto da Fivela de Ouro. Ele deu de ombros; sempre se sentia desconfortável com elogios. – Consegui um bom cavalo no sorteio. – Isso é o que você sempre diz. – Beth riu. – E a sorte deve ter tido alguma influência quando você jogou o chapéu. – Olhou para a loura e depois para ele de novo. Tanner entendeu a indireta e arriscou um olhar para a amiga dela. – É – concordou. A loura parecia interessada na camisa dele. Fria, fria mesmo. Então por que o salão pareceu ter ficado muito mais quente? – Jules, este é Tanner O’Brien, campeão de montaria sem sela – disse Beth. – Tanner, conheça minha mais antiga e melhor amiga, Jules Vandeveer. – Senhora. – Tanner tocou a aba do chapéu quando a loura ergueu a cabeça para cumprimentá-lo e os olhares se cruzaram. Ele ficou com a boca seca. Maldição, ela mexia mesmo com um homem. – Sr. O’Brien – acenou, com um leve sorriso. Estendeu-lhe a mão. A gentileza do toque o apanhou desprevenido. O perfume suave que usava também não ajudou, mas um homem tinha que respirar. – Não quer se sentar, Tanner? A voz de Beth o trouxe de volta à Terra. Com relutância, soltou a mão de Jules, sentou-se e tentou ignorar a dor nos joelhos. – Esta noite é especial para Jules. É seu primeiro rodeio – informou Beth. – Ah, é? – Sorriu para a loura silenciosa. – O que achou? Jules o observou por alguns segundos. – Foi... interessante. Ele percebeu a frieza na voz dela e o sorriso desapareceu. – Não é grande admiradora de rodeios, parece. Sustentou o olhar dela, pronto para provocar mais, então ela passou a língua nos lábios. O pulso dele acelerou. Lábios como aqueles tinham sido feitos para ser muito bem beijados. Precisou se esforçar para afastar o olhar. – Você deve gostar do que faz. Olhou de volta para ela e lutou para se controlar. – Gostar? Benzinho, é minha vida, sempre foi e sempre será.


Se o seu corpo suportasse. Ela lhe deu um sorriso hesitante. – Acho que todos têm uma vocação. – Jules está de férias – explicou Beth. – Quanto tempo vai passar aqui? – Ela o fascinava de um modo estranho. – Mais ou menos um mês. Até depois do casamento de Beth. Por quê? Era evidente que precisava descansar. Com a esperança de desarmá-la, ele decidiu que um pouco de flerte não faria mal. – Ora, benzinho, posso lhe ensinar muito sobre cowboys de rodeio em um mês. Os olhos dela se abriram de surpresa por um momento, então ela lançou um sorriso. – Obrigada, mas dispenso; cowboys não fazem meu tipo. Olhou-a sem saber o que pensar. Provavelmente merecera o fora. Ela não parecia do tipo que cairia naquela conversa, e ele sentia-se idiota em usá-la. Não que tivesse importância, já que dificilmente se encontrariam de novo. E não queria se envolver, tinha coisas a fazer. Um rancho para administrar e se classificar para as Finais Nacionais de Rodeio. Beth riu e pôs a mão no braço da amiga. – Ela é uma moça da cidade, Tanner, não está acostumada com cowboys como você. – Vocês se conhecem há muito tempo? – Nós nos conhecemos no hospital quando tínhamos 12 anos. Fui parar lá por causa de um envenenamento grave e ela estava... A loura interrompeu. – Descobrimos que vivíamos perto uma da outra e nos tornamos amigas. – Moça da cidade, hã? Beth assentiu. – Advogada, nada menos. – Beth... – começou a amiga, o tom de advertência. – Bem, acho que isso me deixa de fora. Sou apenas um rapaz simples do campo que não sabe muito sobre moças sofisticadas da cidade, muito menos sobre uma dama advogada de classe. A intenção era elogiosa, mas não pareceu. E, quando se levantou para sair, seus olhares se encontraram. – Então moças da cidade não fazem seu tipo – disse ela. – Acho que empatamos. Como advogada, provavelmente estava acostumada a vencer batalhas verbais, mas ele não era o cowboy ignorante que ela achava que era. – Acho que sim – replicou. – Prefiro uma moça da roça, uma que conheça a diferença entre a cabeça e o traseiro de um cavalo. Jules sorriu, mostrando dentes brancos e bonitos e uma covinha. Devastador. Malvada. – Ah, conheço a diferença – disse ela. A voz era tão baixa que parecia rouca e perpassou por ele até se fixar bem abaixo de onde devia. Era boa e ficou tentado a prosseguir com o duelo, mas temeu dizer alguma coisa de que se arrependeria. – Acho que empatamos de novo. Ela assentiu. Tocando a aba do chapéu com um dedo, Tanner se virou para Beth. – Senhoras, foi um encontro realmente muito... interessante.


– Você não vai embora agora, vai? – perguntou Beth. Ele se levantou. – Preciso ir. É uma longa viagem de volta e amanhã trabalho o dia inteiro. Depois de ambas lhe desejarem boa-noite, quase se arrependeu de deixá-las. Mas esqueceria a loura antes de chegar em casa. Não fazia seu tipo, e sua roupa, uma camisa branca e calça preta de grife, lhe mostrou que estava fora do seu alcance. Parecia ter dinheiro, e o que um cowboy rude, que passava metade da vida em cima de um cavalo, teria em comum com ela? Não precisava de muita imaginação para responder a esta pergunta. JULES OBSERVOU o cowboy se afastar. Ombros largos esticavam o algodão da camiseta, apertada nas costas amplas. Podia ver os músculos se movendo a cada passo que dava. Mas o que lhe chamou a atenção foi o modo de andar, que destacava o traseiro mais espetacular que já vira. – Bela vista, não é? – perguntou Beth. – O quê? – Jules se virou para olhar para a amiga. Beth riu. – De volta à Terra, Jules. É evidente. – E exatamente o que quer dizer com isso? – Ah, apenas aquela eletricidade entre vocês. – Ele tem uma mente rápida, é tudo. – É tudo? – repetiu Beth. – Você fica presa tempo demais naquele seu escritório de advocacia. Precisa sair mais. E, afinal, qual é o seu problema? Não combina com você ser tão... – Rude? Desculpe, mas a tentação foi forte demais. Não podia se sentir atraída por ninguém. Não agora, havia coisas demais a fazer e lutar contra seu medo de cavalgar era apenas um deles. Não podia deixar um cowboy bonito lhe tirar a concentração. Quando Jules ergueu o olhar, esperando não ter demonstrado nada, percebeu uma expressão pensativa no rosto da amiga. – Acho que jamais vi Tanner tão... – Beth deu de ombros. – Ele é sempre um perfeito cavalheiro. Jules riu. – Está bem, eu me rendo. Ele pareceu agradável e não devia ter implicado com ele. Acho que passo tempo demais num tribunal. – Quando vai relaxar e se divertir? – Quando encontrar alguma coisa que me relaxe. – E Tanner não é isso? Doçura, você realmente tem um problema. Jules se obrigou a não olhar pelo salão em busca do assunto da conversa. No momento em que olhara para aqueles olhos azuis na arena, seu sangue parecera se tornar mel quente, correndo por suas veias, devagar e dourado. Não estava acostumada a reagir assim a homem nenhum. Jamais se sentira atraída por um traseiro perfeito e ombros largos. Ou uma voz sexy acompanhada por um sorriso igualmente sexy. Jamais fora obcecada por meninos; cavalos e saltos tinham sido sua vida... até os 12 anos, quando sua montaria empacou num obstáculo e sua vida mudou num segundo. Duas semanas em coma e meses de terapia para voltar a falar a fizeram olhar para a vida de forma diferente. O direito e as crianças eram agora seus maiores interesses, mas estava numa encruzilhada, mesmo nesses aspectos.


– Mais do que pensa, Beth. É por isso que estou aqui. Você sempre foi capaz de me ajudar a ver as coisas mais claramente. Depois do casamento de Beth e do fim de suas férias, Jules esperava voltar para casa se sentindo renovada. – Farei o que puder – disse Beth. – Para falar a verdade, trabalhar no tribunal todos os dias e ser uma advogada de crianças no meu tempo livre é exaustivo. Se não fosse por seu casamento e essas férias... Detesto ficar afastada do meu trabalho. Sei o quanto sou necessária, mas não quero me exaurir, e é isso que vai acontecer se não fizer uma pausa. – E insistiu em ir a um rodeio – disse Beth. – Isso pode ser relaxante. – Será, se eu conseguir lidar com meu medo de cavalgar. Não posso ajudar os outros a superar seus medos se não superar o meu, especialmente quando os deles são muito mais graves. Beth voltou os olhos para Tanner O’Brien. – Ah, não, Beth – advertiu Jules, sabendo o que a amiga estava pensando. – Não invente coisas. – Tem razão. Apenas quero vê-la feliz, é tudo. Você precisa sair e se divertir, conhecer novas... pessoas. Jules riu. – Agora sei por que me convidou para vir para Oklahoma quando lhe disse que precisava de férias. Obrigada, mas acho que não vou aceitar. – Não sei, Jules. Você, como seus pais, tem se dedicado aos outros há muito tempo e é hora de pensar em si mesma. De repente, Jules sentiu um cansaço profundo. Sabia que estava diante de uma decisão sobre sua carreira. Esperava que, afastando-se, encontrasse seu caminho e tivesse tempo para enfrentar seu medo. – Podemos ir embora agora? Esperava não se encontrar de novo com o cowboy. Quando aquele chapéu caíra a seus pés, algo estranho acontecera. Começara a sentir coisas que jamais sentira e não queria lidar com aquilo, tinha muito em que pensar. E um cowboy de olhos azuis para esquecer. Beth se levantou. – Já está tarde e tenho que acordar cedo amanhã. Estou de plantão de emergência até sexta-feira para o dr. Waters. Com a minha sorte, o cachorro de alguém vai mastigar uma corda e engoli-la. – Dra. Anders! – Alguém chamou enquanto se dirigiam para a porta. – Vá em frente, eu a encontro no carro – disse Beth. Jules acenou e continuou a andar, saindo na noite quente de verão. Dirigiu-se ao estacionamento e, de repente, viu um certo peão discutindo com um adolescente que se parecia muito com ele. O menino, com cerca de 14 anos, estava em pé com os punhos fechados encostados no quadril e o queixo para cima. Suas vozes se ergueram, mas Jules não distinguiu o que diziam. Quando Tanner O’Brien estendeu a mão, o adolescente afastou-a e recuou. Jules pensou se devia ignorá-los ou ver se podia ajudar. TANNER OLHOU para Shawn à luz fraca do estacionamento. Detestava ser o mau sujeito, mas a situação com o sobrinho estava saindo do controle. Se não encontrasse logo uma forma de lidar com ela,


perderia Shawn como perdera o pai do menino. – Você devia ter arranjado uma carona para casa, Shawn. O menino cruzou os braços e olhou intensamente para o tio. – Não vi você indo cedo para casa. Shawn tinha razão, mas isso não justificava o comportamento do menino, pronto para lutar. Tanner prometera a si mesmo não perder a calma, uma coisa que estava se tornando cada vez mais difícil. – Sou adulto, Shawn, o que me dá o direito de estabelecer meus horários. Mas não é este o ponto. Você me disse que tinha uma carona depois do rodeio. Por que ainda está aqui? A expressão de Shawn era de antagonismo. – Estava por aí com alguns amigos. – E todos são pelo menos três anos mais velhos do que você. Por que não arranja amigos da sua idade? – São apenas crianças – disse Shawn com desprezo. E você também, Tanner quis rebater, mas preferiu contar até cinco mentalmente. – Não posso confiar em você para voltar para casa quando deve. Nada de rodeios até você mostrar mais responsabilidade. – Ficou observando o menino, esperando uma explosão. Um ombro jovem se ergueu e se abaixou. – Tanto faz. Shawn caminhou na direção oposta, onde a picape de Tanner estava estacionada. – Entre na caminhonete – chamou Tanner. Quando o menino não diminuiu a velocidade dos passos, Tanner foi atrás dele e segurou-lhe o braço. Shawn se virou. – Prefiro andar. – Com licença. Tanner se virou ao som da voz e viu Jules Vandeveer. – Isso não é da sua conta – disse ele e se voltou para o sobrinho. A voz dela, ainda baixa e calma, chegou a ele em meio à escuridão. – Tem razão, não é, mas talvez eu possa ajudar. Relutante, Tanner soltou o sobrinho, esperando que ele corresse, mas Shawn apenas recuou alguns passos e parou, observando-os. Desconfiado, Tanner olhou para Jules. – Não sei por que deveria ouvir uma mulher que pensa que sou um... – Peço desculpas – disse Jules, interrompendo-o. – Fui muito grosseira e lamento. A raiva de Tanner desapareceu diante da sinceridade na voz e a preocupação nos olhos dela, até se lembrar de que estava se intrometendo no que não era da conta dela. – Posso cuidar disso. Ela andou um passo. – Já vi centenas de meninos passarem pelo sistema judicial – disse ela – e trabalho com eles. Há maneiras melhores de solucionar problemas do que discutir, e lugares melhores para fazer isso do que o estacionamento de uma taverna. – Ei, espere aí. – Tanner plantou os pés no cascalho e fitou-a nos olhos. – Estou tentando fazer com que ele entre na caminhonete para irmos para casa. Se tivesse feito o que devia... – Tente conversar com ele.


Tanner abriu a boca para dizer a ela que estava tentando fazer exatamente isso; então fechou-a, a raiva desaparecendo, substituída por algo como admiração. Ela tinha coragem para enfrentá-lo. Ela pousou uma das mãos no braço dele e ele sentiu o calor atravessá-lo como uma dose de uísque antes de Jules romper o contato. Parecia que ela também sentira alguma coisa. – Você está zangado, deixe que eu converse com ele. Tentando analisar sua reação ao toque, Tanner assentiu. Observou-a se aproximar de Shawn e viu-a conversar com o menino em voz baixa. Ficou impressionado ao ver Shawn concordar com um aceno de cabeça ao que ela estava dizendo, o que era raro nos últimos tempos. Ficou ainda mais surpreso quando o sobrinho foi para a caminhonete e entrou sem discutir. – Ele ficará bem – disse Jules quando voltou, sorrindo. – Tente conversar com ele amanhã, quando vocês estiverem mais calmos. O calor do sorriso dela embaralhou o cérebro dele. Não bebera nada mais do que uma caneca de cerveja, mas a mulher lhe causava um efeito intoxicante. – O que disse a ele? Ela deu de ombros e olhou para a caminhonete onde Shawn esperava. – Disse a ele que é tarde e estamos todos cansados. Talvez amanhã seja um dia melhor para conversar sobre as coisas. – Só isso? O sorriso dela era doce, mas cansado quando acenou e se virou. Tanner observou-a andar até um sedã recém-lançado, sabendo que era um idiota por ficar tão abalado. Shawn e a qualificação para as Finais Nacionais eram suas únicas preocupações. Mas não levara em conta conhecer uma mulher como ela. Lamentava saber que não a veria novamente.


CAPÍTULO 2

JULES OBSERVOU a opulência do Grand Ballroom do Oklahoma City’s Waterford Hotel, pegou uma taça de champanhe da bandeja de um garçom que passava e se voltou para Beth. – Isso é lindo. Estou contente por você ter me convidado e começando a sentir que realmente estou de férias. – Queria não estar tão ocupada – respondeu Beth. – Assim que o dr. Waters voltar, poderemos passar mais tempo juntas e ter férias de verdade. – Não se preocupe, apenas ficar longe de tudo é bom. Jules observou a multidão enquanto tomava um gole de sua bebida. Ouvia acordes suaves da música da pequena orquestra e risadas femininas ocasionais acima do som da conversa. – Não sabia que você frequentava círculos sociais tão impressionantes. Beth riu. – Agradeça a Michael por isso. Ser noiva de um professor tem suas vantagens. Agora que o estado de Oklahoma fundou sua universidade aqui em Oklahoma City, as coisas estão realmente animadas. – Baixou a voz. – Todos são agradáveis, mas, mesmo assim, estou contente de você estar aqui para partilhar a festa comigo. Embora não conhecesse ninguém, Jules se distraía observando as pessoas, bem-vestidas e usando joias caras. Crescera num ambiente rico, conhecia o poder do dinheiro e estava contente por esta festa se destinar a levantar fundos para o conselho de arte local. Seus pais, conhecidos por sua filantropia, ficariam felizes de saber que estava participando de alguma coisa que valia a pena. – E onde está Michael? – Está aqui em algum lugar. – Ela riu. – Provavelmente conversando com alguém enquanto nós duas ficamos sozinhas como duas almas perdidas. Vendo um grupo de homens de smoking, Jules o observou para ver se o noivo de Beth estava entre eles. As costas de um deles chamaram sua atenção e ela arquejou involuntariamente. – Alguma coisa errada? Jules balançou a cabeça e silenciosamente riu de si mesma; é claro que não era quem imaginara. Que coisa ridícula!


Mas a semelhança era impressionante. Observou os cabelos negros e seus olhos desceram pela ampla extensão dos ombros, vestidos com um smoking de primeira qualidade. Os olhos foram para os sapatos de couro preto brilhante. Nada de botas de cowboy. Suspirou, aliviada. – Pensei que aquele homem ali fosse... Ele se virou e Jules segurou outro arquejo. O que estava Tanner O’Brien fazendo numa festa de levantamento de fundos para as artes? E com uma aparência tão magnífica? Segurou o braço de Beth, virou-a na direção oposta e começou a caminhar. – Vamos procurar Michael. – O que há de errado? – Não há nada de errado, apenas achei que devíamos encontrar Michael. – Mas você disse alguma coisa sobre um homem. – Ah, sim, bem... – Jules levou-a através da multidão e parou, esperando estar longe o bastante para se perder no meio de tanta gente. Irritou-se consigo mesma por ser tão tola. Não precisava ter medo de Tanner O’Brien. Não precisava correr só de vê-lo, como uma estudante idiota apaixonada. – Boa noite, senhoras. Jules se voltou ao som da voz macia e lenta e se viu olhando para um par de olhos intensamente azuis. Olhos que pensara nunca mais ver. Beth tomou a iniciativa. – Ora, Tanner, que surpresa! Não esperava vê-lo aqui, pensei que estaria cavalgando em algum lugar. – Apenas cumprindo meu dever cívico. – Sorriu para Beth e então direcionou o olhar para Jules, observando-a lentamente de cima a baixo. Jules se sentiu ruborizar. Forçou um sorriso e o cumprimentou. – Olá, sr. O’Brien, quase não o reconheci sem seu uniforme. Está bem limpo agora, não está, Beth? O sorriso de Tanner congelou e, então, ele riu. – Pode nos dar licença, Beth? – disse ele, segurando o braço de Jules. – Esta dama me deve uma dança pela observação. – Não, realmente não posso... – protestou Jules. Beth não ajudou. – É claro que pode, Jules, vocês dois têm muito em comum. – O quê? – perguntou Tanner. – Temos? – perguntou Jules ao mesmo tempo. – Conte-lhe como ajuda crianças com problemas, Jules – disse Beth. – Ah, e também sobre cavalos. Agora vão, vocês dois. Acho que encontrei Michael. Jules deixou Tanner levá-la através da multidão até o outro lado do salão. É claro que Beth encontraria o noivo bem naquele momento. Na pista de dança, em meio aos outros casais, Tanner a tomou nos braços. Jules engoliu com força ao sentir o calor do corpo dele, tão perto do dela, e desejou que não percebesse como seu coração disparara. – Relaxe, benzinho – sussurrou ele –, eu não mordo. Embora você mereça ser mordida por causa dessa sua língua ferina. Jules tentou encontrar uma resposta, mas não conseguiu. Levou um momento para se controlar e responder. – Pensei que a dança do Texas fosse mais o seu estilo.


A risada de Tanner alcançou os dedos dos pés dela. – Dança do Texas? Não deixe ninguém aqui ouvir o que está dizendo, benzinho. Você daria início a um linchamento e esse seu pescoço é bonito demais para uma corda. Ela olhou para ele e viu os olhos dele acariciando seus ombros nus. Deus do céu, pensou ela enquanto seus joelhos amoleciam. O que esse homem podia fazer com um olhar! Reunindo a coragem, ela sorriu. – Você sabe o que nós, do Kansas, dizemos sobre as pessoas de Oklahoma? – É, sei, os okies idiotas – replicou, com outra risada que a abalou de novo. – Deve ser porque temos tantas pessoas ricas e famosas no estado. Mas achei que isso não a impressionou muito. – Há coisas que o dinheiro não pode comprar. – O que o dinheiro não comprou para você, benzinho? Sei que não viveu sem dinheiro. O comentário a fez se sentir desconfortável. Vira o que a falta de dinheiro fazia com algumas pessoas e como aqueles que o tinham podiam ajudar. – O quanto é lucrativo montar cavalos chucros? – Tudo depende do quanto o peão é bom. – E o quanto você é bom? – Bom, benzinho, realmente bom. Jules não compreendia a expressão dos olhos dele. Seria a atração pelo perigo? Ou alguma outra coisa? – Sobre a outra noite... – começou ela. – Obrigado por nos ajudar. – Ele endureceu o queixo, transmitindo-lhe a mensagem de que ela interferira quando não devia, mas rapidamente relaxou. – Conte-me um pouco sobre o que Beth disse, como você trabalha com jovens com problemas. – Vi tantas crianças necessitadas que senti que podia ajudá-las. Tudo o que é preciso é a pessoa certa descobrir alguma coisa da qual elas gostam apaixonadamente e ajudá-las a encontrar o seu caminho. Algumas vezes isso significa tirá-las do ambiente em que vivem e colocá-las em outro, mais benéfico, ou ajudar suas famílias a melhorarem a relação com elas. Na maior parte das vezes, tudo de que precisam é de alguém que as ouça e lhes dê a compaixão e a compreensão de que precisam. – Isso é extremamente intuitivo da sua parte. E como ser uma advogada ajuda? Ela olhou para cima e percebeu que ele a estudava. – Você ficaria surpreso com que frequência não ajuda, então, agora tenho uma tarefa dupla. No meu tempo livre, sou o que é chamado uma advogada para crianças, convocada pelo tribunal, e trabalho com um jovem de cada vez, fazendo dele ou dela meu foco total, não apenas o foco da lei. – Então você já está completamente envolvida nisso? Ela sorriu. – Há quase um ano e meio. Quando a música parou, Jules sentiu uma pontada de desapontamento por ele devolvê-la a Michael e Beth, dizendo amigavelmente, antes de se afastar: – Tenha uma boa noite, benzinho. Tanner O’Brien despertou-lhe curiosidade suficiente para fazê-la querer encontrá-lo de novo. Sem mencionar outras coisas que despertara nela e sobre as quais não queria pensar.


JULES OLHOU pela janela do jipe de Beth até Oklahoma desaparecer e ser substituída pelo campo. – Aonde você disse que vamos? – Recebi um chamado cedo esta manhã para ajudar uma novilha que vai ter seu primeiro bezerro. – Não vou ter que olhar, vou? – Não, a menos que queira. Pensei que gostaria de visitar um rancho. – Criamos gado no Kansas, Beth, ou esqueceu? Você fala como se eu tivesse sido criada na cidade de Nova York. – Não me lembro de você dar muita atenção a fazendas e ranchos perto de sua casa. – Passei muito tempo na sua fazenda quando éramos crianças – lembrou Jules. – Conheço cavalos, embora não consiga mais cavalgar, e não é como se jamais tivesse visto gado. Tenho muitas lembranças de nós duas alimentando as galinhas, recolhendo ovos e fazendo uma porção de outras coisas. Beth riu alto. – Galinhas não são exatamente gado e passei mais tempo com você em sua casa ou saindo para nos divertirmos. – E arranjando problemas – disse Jules, rindo. Tinha lembranças maravilhosas das ocasiões em que ela e Beth ficavam juntas. Até conhecer Beth, sua vida girava em torno de cavalos. Então aconteceu o acidente. Ainda se lembrava da primeira vez em que se encontraram no hospital e, embora Beth tivesse sido liberada bem antes dela, visitava-a quase todos os dias e a encorajara durante a terapia. – Se não fosse você, talvez não tivesse conseguido. – Você estava indo muito bem. – O sorriso de Beth era suave. – Poderia ter levado um pouco mais de tempo, mas conseguiria superar. Sempre foi forte. – Talvez. A paisagem se desenrolava diante dela. O ar era claro e fresco, ainda frio, mas esquentando com o sol da manhã. Parecia um cartão-postal da serenidade rural. Quando viraram numa estrada de terra, Jules leu o nome gravado no arco de madeira acima delas. Rocking O. – É um rancho grande? – Não tanto como alguns, mas não é pequeno. E é muito bem-sucedido. – Eles criam gado? – Alguns cavalos. Se você quiser tentar... – Galinhas? Beth riu e parou o jipe em frente a uma casa grande de fazenda, pintada de branco, de dois andares. – Não tenho certeza – disse ela, desligando o motor. – Pode perguntar a Bridey, se estiver interessada. Jules admirou a casa, com um gramado na frente que parecia um veludo verde e muitas árvores antigas. Um olhar rápido mostrou-lhe que, quem quer que cuidasse tão bem do rancho, o fazia com amor. Uma mulher com pouco mais de 60 anos saiu da casa e caminhou em direção a elas. Beth desceu do jipe. – Bom dia, Bridey. – Bom dia, Beth – respondeu a mulher, adiantando-se para ajudá-la com suas coisas. – Eles estão no estábulo. Ficaram lá quase a noite toda. Acenando, Beth começou a se afastar, parou e se voltou.


– Quase esqueci – disse a Bridey com um sorriso. – Você se importaria de mostrar o rancho à minha amiga Jules? – Será um prazer. Faça o que puder para trazer aquele bezerro ao mundo. Jules saiu do jipe e estendeu a mão à mulher. – Oi, sou Jules Vandeveer. Beth e eu somos amigas desde crianças. A mulher enxugou as mãos no avental e apertou as de Jules. – Bridey Harcourt. – O rancho é adorável – disse Jules, enquanto Bridey a levava para uma área cercada. – Meu irmão o construiu quando se casou. Ele já morreu, mas o filho dele o mantém sempre em ordem, apesar do trabalho que dá. – Tenho certeza de que dá. – Jules percebeu um adolescente montando um cavalo bravo na área cercada. – Aquele é meu sobrinho-neto – explicou Bridey, o rosto cheio de orgulho. – Um desses dias vencerá as Nacionais, assim como o tio vencerá em breve. – Nacionais? Bridey respondeu sem olhar para ela, reparando no menino. – As Finais Nacionais de Rodeio. Jules observou o menino se segurar sobre o cavalo que corcoveava e, alguns segundos depois, voar pelo ar e cair com um forte barulho. O coração subiu à garganta e ela arquejou, temendo o pior. – Ele está bem – disse a mulher, um brilho nos olhos. – Ser jogado no chão por Temptation é uma rotina diária para ele. Jules só se acalmou quando o viu se levantar, sem parecer estar machucado. Viu-o melhor enquanto se limpava da poeira e o reconheceu como o adolescente que estava com Tanner na noite do rodeio. – Shawn, venha aqui e conheça a amiga de Beth – chamou Bridey. O menino olhou e, mesmo a distância, Jules pôde ver seu rosto contraído de aborrecimento. Com relutância, dirigiu-se a elas, o andar arrogante. Parou antes de chegar à cerca e olhou para Jules. Conhecia bem aquela postura, mas isso não a incomodava. Geralmente era um disfarce para a timidez. – Srta. Vandeveer, este é meu sobrinho-neto, Shawnee O’Brien. Shawn... – É, eu sei, conheço a srta. Vandeveer. – Me chame de Jules. Ele observou a mão estendida, depois a olhou no rosto. O menino se parecia muito com o pai. Cabelos e cílios espessos e negros, pele bronzeada e olhos azuis. Jules sentiu que ele devia ser um dos adolescentes mais populares com as meninas na escola. Olhou além dele, para o cavalo que estivera montando e que agora trotava pacificamente na área confinada. – Aquele é um belo cavalo. Há quanto tempo você monta? – Shawn praticamente nasceu sobre um cavalo, como todos os homens da família – respondeu Bridey em seu lugar. Shawn lançou a Jules um olhar avaliador. – Você monta? – Costumava montar quando era menina, mas nada tão bravo como esse aí. – Temptation não é bravo. Pode até ser gentil. – Não havia desprezo na voz do menino. – Venha, eu mostro a você, pule a cerca.


Jules observou o cavalo com inquietação. Não estava pronta, não ainda. – Talvez outra hora. – Não tenha medo, srta. Vandeveer, este cavalo adora Shawn – disse Bridey. – E ele não permitirá que nada lhe aconteça. Jules não seguiu Shawn quando ele se aproximou do cavalo. Ela viu as orelhas do animal se erguerem e depois o suave relincho quando ele acariciou sua cabeça. Queria poder fazer a mesma coisa. – Venha, srta... Jules – disse Shawn em voz baixa e calma. Jules ouviu pássaros cantando a distância e sentiu uma brisa suave passar por ela. O cheiro de cavalos a cercava, mas não conseguiu dar um passo à frente. Fora há muito tempo, e tudo o que podia se lembrar era do cavalo empacar no salto e ela voar por cima de sua cabeça. Perder duas semanas de vida não fora demais, mas a luta para voltar a falar tinha sido longa e dolorosa. Ansiava para dar aquele primeiro passo, pular a cerca e tocar o animal, mas não podia, não estava preparada. DEPOIS DO nascimento, e novilha e filhote passando bem, Tanner saiu do estábulo para o pátio e parou. – Ora, maldição! Beth, que o seguia, esbarrou nele. – Desculpe, você parou e... – Por que não me disse que a havia trazido? Beth olhou na direção em que Tanner olhava. – Esqueci. Estávamos ocupados, lembra-se? – Estávamos mesmo, e tudo está bem graças a você. Do estábulo, ouviram a voz de Shawn no curral. – Venha, Jules. A atenção de Tanner estava na mulher que não saía de sua cabeça havia mais de uma semana. – Vamos – disse ele, pegando o braço de Beth e puxando-a. Ela parou, os saltos enfiados no chão. – Não, Tanner, não faça nada. Eu devia estar louca ao trazê-la aqui. Mas tinha esperança... Ele se virou e ela viu a teimosia de que ouvira falar, mas jamais presenciara. – O quê?! – Ela está... você não a conhece, Tanner. E não tenho certeza se quero que isso aconteça. Não devia ter apresentado você a ela. Começou a andar em direção ao curral, mas Tanner a fez parar. – Espere um minuto. O que quer dizer? Beth olhou para Jules, que estava diante da cerca balançando a cabeça, e disse a Tanner: – Ela é uma boa pessoa, Tanner. Não que você não seja, mas conheço seu tipo. Você é um cowboy do tipo me ame e me deixe, um homem de uma noite só. Ele se sentiu com cinco centímetros de altura. – Quem disse? – Todo mundo. E, a menos que seja sério, deixe-a em paz. – Bem, são histórias antigas – disse ele. Acabara com os casos de uma noite só há muito tempo. – Inferno, nem mesmo sei se quero conhecê-la. – Fechou a boca e chutou a poeira. Não podia dizer que estava imune aos encantos da loura. Era um desafio e adorava desafios. Mas não magoaria a amiga de Beth.


Sem dizer uma palavra, seguiu em direção ao curral. – Estou vendo que gosta de cavalos, srta. Vandeveer. – Tanner, estou falando sério. – Atrás dele, a voz de Beth tinha um tom ameaçador. – Você e Shawn são bons em domar cavalos. Não tente a mesma coisa com Jules. – Não farei nada disso. – Observou Jules se virar para eles, elegante e à vontade em um jeans azul apertado que lhe destacava os quadris e as longas pernas, e uma camiseta esmeralda, da cor de seus olhos. – Oi, sr. O’Brien – disse Jules, quando ele parou ao lado dela. – Seu filho é muito talentoso e inteligente. – Meu o quê? – Seu filho. – Jules olhou para Beth, depois de volta para ele. – Shawn é sobrinho de Tanner, Jules – disse Beth. – Filho do irmão dele. – Ah, devia ter perguntado. Tanner riu. – E você também acha que tenho uma esposa escondida em algum lugar. – Pensei... eu não... – Está tudo bem – disse ele com um sorriso. – Há algumas pessoas por aqui que não têm uma boa opinião sobre mim. – Lançou um olhar a Beth, depois o voltou para Jules. – Não há motivo para ter medo de Temptation. Parece mais bravo do que é, e Shawn o mantém de rédea curta. – Não duvido. Mas não parecia convencida e ele se perguntou qual seria o problema. – Não gosta de cavalos? – Nem todo mundo é louco por cavalos, Tanner – disse Beth depressa. – Você pode ser especialista nisso, mas nem todo mundo é. – Está tudo bem, Beth – disse Jules. – E, segundo o ditado, é preciso todo tipo de pessoas para povoar o mundo. Ele pode achar que não consigo distinguir uma cabeça de cavalo do traseiro, mas posso. E tenho certeza de que conheço mais leis do que o sr. O’Brien. – Você me pegou, srta. Vandeveer. Mas todos estamos abertos para aprender coisas novas, não estamos? – Sim, é claro. Alguma coisa na maneira como ela olhou para Beth lhe disse que havia algo errado. Ela não parecia uma mulher que tivesse medo de alguma coisa. – Tem certeza de que não quer conhecer Temptation, Jules? – perguntou Shawn, juntando-se a eles. – Ou podemos selar outro cavalo para você. O rosto dela ficou pálido e ela balançou a cabeça. – Obrigada, Shawn, não quero cavalgar, obrigada. – Só pensei... Beth interrompeu. – Temos outra parada a fazer e depois algumas coisas sobre o casamento. Jules e eu temos que voltar. – Obrigado pela ajuda, Beth – disse Tanner, caminhando até o jipe com as duas mulheres. – Ela é uma dama agradável – anunciou Shawn quando as duas saíram no jipe. – Você gosta dela, não gosta? – Gosto, é ótima pessoa. Disse que costumava cavalgar.


– Disse o quê? – Que costumava cavalgar – repetiu Shawn. – Mas talvez ache que não consigo controlar Temptation. – Se pensa assim, está enganada. – É, está. O sorriso confiante de Shawn foi o bastante para Tanner. Não podia ser mais orgulhoso do menino e de sua habilidade com cavalos. – Acho melhor voltarmos ao trabalho – disse ao sobrinho. – Vá ver o que Rowdy tem para você fazer. – Certo. – Mas a expressão endureceu. Tanner suspirou. Quando achava que as coisas estavam melhorando, pioravam. Cansado de pensar no assunto, foi trabalhar. Mas trabalho pesado não evitava que pensasse nos problemas com Shawn. Até a lembrança perturbadora de um par de olhos verdes não conseguia apagar a preocupação com o adolescente. Depois do jantar, Tanner foi para o escritório, onde havia muito trabalho burocrático a fazer. – Vejo que está nesta maldita máquina. – Tanner ergueu os olhos do computador para seu capataz, parado no umbral da porta. – Você devia aprender a usá-lo. Rowdy Thompson entrou no escritório e sentou diante da escrivaninha de Tanner. – Não, não quero atrapalhar sua diversão. Tanner riu, afastou a cadeira e pôs um pé sobre a escrivaninha. – Ajuda com os números. – Esse é seu departamento – respondeu Rowdy, com sua maneira ríspida. Tanner sorriu, pensando que Rowdy gostava de fazer as pessoas pensarem que era um cowboy ignorante, mas isso não era verdade. Tinha um diploma universitário e era inteligente e dedicado. Tanner se perguntava com frequência por que ele ficara no rancho por tanto tempo, mas aprendera a não olhar os dentes de um cavalo dado. Rowdy pegou um charuto da caixa sobre a escrivaninha e o mordeu. – Shawn parece ficar mais difícil cada dia que passa. – Pegou um fósforo e acendeu o charuto. – Talvez, se você frequentasse os rodeios mais importantes, como deveria, as coisas não fossem tão ruins para ele. – Já discutimos isso. Se eu viajasse por todo o país, tudo provavelmente estaria pior. Ao me concentrar nos rodeios menores, perto de casa, ele pode ir comigo e isso é o que importa. Rowdy mastigou o charuto, uma expressão pensativa no rosto. – Você está se prejudicando por um menino de cabeça quente. Precisa participar dos grandes rodeios. – Esta é a sua opinião, Rowdy, e tem direito a ela. Mas os rodeios de circuito não são pequenos e você sabe disso. Os resultados contam para a Professional Rodeo Cowboy’s Association e posso chegar às finais do mesmo jeito. Mas sou responsável pelo menino, sou o guardião dele. E ele não vai fugir de casa aos 15 anos, como o pai. Mesmo se isso significar que preciso desistir dos rodeios. Rowdy grunhiu. – Seria uma idiotice, com seu talento. Se fizer isso, pode parar de contar comigo. Tanner sabia que Rowdy não o deixaria na mão, mas se o capataz queria dar sua opinião, não discutiria. – Talvez, quando as aulas recomeçarem no outono, as coisas melhorem.


– Só podemos ter esperanças. – Rowdy olhou para Tanner. – Você não está ficando mais jovem. Era verdade em relação a rodeios, mas Tanner forçou um sorriso. – Ainda tenho alguns anos. Rowdy grunhiu, apagou o charuto e saiu, deixando Tanner com seus pensamentos. Mais um ano. Se pudesse ter mais um ano, talvez conquistasse o campeonato e sua Fivela de Ouro do Nacional. Isso e Shawn eram os principais assuntos que deviam ocupar a mente dele, não uma mulher de cabelos dourados e olhos verdes que nada tinha em comum com ele, a não ser um cérebro de primeira classe e uma língua afiada.


CAPÍTULO 3

JULES OBSERVOU a caixa que a funcionária do correio lhe entregara. – É alguma coisa que pode quebrar? Atrás do balcão desgastado, a mulher balançou a cabeça. – Quando é, geralmente tem a palavra “frágil” impressa. – Não me incomodo de apanhá-la – disse Jules. – Fazer algumas coisas para Beth, enquanto atende chamados como veterinária, me faz sentir útil e me dá a oportunidade de conhecer algumas pessoas da cidade, como você, Betty. – Prazer em conhecê-la também. Espero que sua estada em Desperation seja agradável. Quando Jules se virou para sair, Tanner entrou e sorriu em sua direção. – Bom dia, Jules. – Oi, Tanner. – Oi para você também, Betty – disse ele, aproximando-se do balcão. – E Jed, como está? – Mal-humorado como sempre, sabe como ele é. Jules sorriu à conversa amistosa e teve de admitir que Tanner O’Brien era um belo exemplar de homem. Pena que não estivesse procurando por um. Era mais difícil do que imaginara deixar de pensar nele, mas tentava, ocupando-se com as tarefas para Beth. Estava gostando das férias e de conhecer as pessoas agradáveis de Desperation, uma cidade pequena que aceitava estranhos sem preconceitos. Quando estava de saída, Tanner a chamou: – Espere um pouco, Jules, se tiver tempo. Assim que terminar aqui, saio com você. Jules esperou que ele terminasse, se aproximasse dela e ambos deixaram o prédio. – Desculpe por fazê-la esperar. – Sem problema. – Enquanto caminhavam pela calçada, Jules tentou não prestar atenção a ele e preferiu olhar o lindo céu azul de julho. Estava contente por não ter saído de carro. Era um dia perfeito para andar... uma coisa que não fazia muito em sua cidade. Na verdade, não fazia quase nada em casa, a não ser uma ida ocasional às salas de concertos e teatros. Mas era raro ter alguma atividade ao ar livre. Beth tinha razão, ficava tempo demais fechada no seu escritório de advocacia em Wichita.


– Lindo dia – disse Tanner, como se lesse seus pensamentos. – É mesmo. Estava pensando em como estou contente por ter decidido caminhar. – O que acha da nossa cidade? O centro ocupava dois quarteirões e os prédios, quase todos de um só andar, se alinhavam dos dois lados da rua. As palavras original e único lhe vieram à mente para descrevê-lo. Cada prédio ligado ao outro tinha uma característica muito individual. – É muito agradável, bonita e encantadora. Mas me pergunto... – Ela hesitou. – O quê? – Eu me pergunto de onde veio o nome. “Desperation” é um pouco estranho. – Mais estranho do que Monkey’s Eyebrow, Arizona? – Não – respondeu ela, rindo. – E Hygiene, Colorado? Ainda rindo, ela balançou a cabeça. – Está bem, você ganhou, estes são estranhos. Mas por que Desperation? – Bem, dizem que as pessoas começaram a se mudar para essa região durante a corrida por terra no fim do século XIX, mas a cidade só foi construída depois que encontraram petróleo alguns anos mais tarde. Eram tempos selvagens, antes que Oklahoma se tornasse um estado. As pessoas vinham para cá desesperadas para encontrar seus poços de petróleo. Afinal descobriram que havia pouco petróleo, e muita gente, desiludida, foi embora, enquanto outros ficaram e se tornaram fazendeiros. – Então “Desperation” faz sentido. Andaram em silêncio por alguns minutos até Jules perceber um grande prédio de estilo vitoriano perto do fim do primeiro quarteirão. Parou e perguntou: – O que é aquele prédio? – É a antiga Ópera. Está fechada, mas há um comitê estudando sua restauração. – Isso é maravilhoso. Para que será usado? – Talvez para diversas coisas, como uma sorveteria, espaço para um centro juvenil, salas de conferências, alguns escritórios. Estão recebendo doações particulares, se estiver interessada. – Acho que estou. Sempre fizera doações para boas causas e tinha um carinho especial pela restauração de prédios e casas antigos. Ele a observou como se achasse que estava brincando, mas ficou calado até recomeçarem a andar. – Queria lhe fazer uma proposta. – Ah, é mesmo? E que tipo de proposta? – É sobre Shawn – explicou ele, sério. – Mas agora que a mencionei, acho que ainda não estou pronto. – Por que não? – Nenhum motivo. Talvez o dia esteja bonito demais para falar de coisas sérias. Embora tentada a insistir, Jules decidiu ficar calada. E se a proposta não lhe interessasse? E se interessasse? – Vai chover – disse ele de repente. Jules olhou o céu claro. – Não parece. Como você sabe se vai chover ou não? – Quer dizer que não consegue sentir o cheiro?


Ela inspirou e balançou a cabeça. A risada dele saiu do fundo do peito e pareceu ecoar no corpo dela. – Teremos chuva dentro de um dia ou dois. Ela achou que ele era louco, mas nada disse. – Shawn disse que você costumava cavalgar. Desejou não ter contado a verdade a Shawn. – A palavra importante é costumava – disse ela e esperou por mais perguntas. Ficou surpresa quando ele não as fez. Enquanto andavam, pessoas de todas as idades o cumprimentavam e Jules viu o quanto gostavam dele. – As pessoas o têm em grande consideração aqui em Desperation. – Sempre me incentivam quando participo de rodeios, ganhe ou perca. São pessoas boas. Se alguém precisa de ajuda, há sempre alguém ou um grupo pronto para ajudar, não importa o que seja. Jules admirava a maneira como as pessoas de cidades pequenas se uniam. Nunca vira coisa igual em Wichita. – Preciso voltar para o rancho – disse ele, parando no meio da calçada. – Há muito trabalho a ser feito antes da festa de sexta-feira. Você vai, não vai? Ela sabia que ele se referia à celebração de Quatro de Julho. Beth e diversas outras mulheres a haviam convencido a ajudar a preparar a cidade para a festa. – Vou, claro. – Ao rodeio também? – Bem... – Foi o que pensei. Diga a Beth que mandei um alô. Ele se virou e voltou pelo caminho que haviam percorrido, deixando Jules intrigada. Com um suspiro de frustração, continuou seu caminho. Não podia evitar que seu coração subisse à garganta a cada vez que via alguém montar um cavalo. Suspeitava que seria ainda pior ver Tanner cavalgar de novo. – Chuva – disse para si mesma, rindo enquanto chegava à casa de Beth. Ele só podia estar brincando. – VOCÊ PODIA tentar prestar mais atenção ao que está fazendo – disse Shawn. Tanner olhou para o sobrinho por sobre a longa mesa que carregavam. – Estou prestando atenção. – Não, não está – disse Shawn, sorrindo. – Não tirou os olhos de Jules desde que chegamos. Tanner começou a negar, mas decidiu que não adiantaria. – É difícil não olhar. Colocaram a mesa no chão no espaço vazio entre dois prédios. – E por que não vai falar com ela? – Porque estou trabalhando. – Posso arrumar a mesa sozinho, não sou criança. Também não era um adulto, mas Tanner ficou calado. Olhou de novo para Jules, que ajudava Beth com as bandeirolas de papel que pretendiam pendurar. O dia ainda estava claro e havia muito tempo antes do anoitecer para preparar tudo para a celebração do Quatro de Julho no dia seguinte. Mas Tanner percebera que a umidade do ar aumentara muito e


via as nuvens de tempestade crescendo e se aproximando da cidade. Sabia que, quando a chuva caísse, aquelas bandeirolas se rasgariam. Só podia esperar que a chuva que ameaçava cair não durasse até a manhã seguinte. A celebração do Quatro de Julho em Desperation sempre era um sucesso. – Sabe, tio Tanner – disse Shawn, tirando-o de seus pensamentos –, você é dez vezes mais teimoso do que qualquer outra pessoa que conheço. Rindo, Tanner deixou que Shawn terminasse de arrumar a mesa e se dirigiu para onde as duas mulheres estavam trabalhando. Depois de cumprimentá-las, disse: – Espero que essas bandeirolas não fiquem molhadas. Jules olhou para ele. – Você continua a falar da chuva, mas ainda não a vi. – Já olhou para o céu? Ela ergueu os olhos. – Nossa, acho que estava certo sobre... Antes que terminasse a frase, um raio cruzou as nuvens, seguido imediatamente por um trovão e uma forte chuva. Todos correram em busca de abrigo, enquanto Jules e Beth recolhiam as poucas bandeirolas que haviam pendurado. – E nós que pensamos que seria uma noite boa para uma caminhada – disse Beth a Jules. Tanner abriu espaço para elas sob a marquise da farmácia. – Não se preocupe, Beth, eu lhes darei uma carona para casa. – Se a chuva não parar, aceitaremos, obrigada – disse Beth. Jules parecia preocupada. – O que foi? – perguntou Tanner. Jules ergueu as bandeirolas molhadas. – Estou com medo de que a chuva estrague a celebração. Tanner se perguntou por que ela se importaria. Esta não era sua cidade. Mas a preocupação nos olhos de Jules lhe mostrou que estava enganado e a cada dia se convencia de que sua primeira impressão sobre ela estava errada. – Vão secar – disse ele, tirando as bandeirolas das mãos de Jules. – É só pendurá-las durante a noite. – Não sei onde. A casa de Beth está lotada com os preparativos para o casamento. O desapontamento dela o comoveu. – Vamos levá-las para o rancho, há muito espaço na casa. – Mas teremos tempo de colocá-las amanhã? – Chego cedo para o rodeio e as coloco. – Sozinho você não consegue. – Então – disse Beth –, vamos nos encontrar aqui bem cedo e aprontar tudo. Isto é, se já tiver parado de chover. Tanner olhou para as nuvens. – Vai parar, é apenas uma chuva de verão. – Vou procurar Wanda e dizer a ela que temos um plano B – disse Jules, referindo-se à presidente do comitê encarregado da festa. – Eu faço isso – interrompeu Beth. – Preciso conversar com ela sobre outra coisa e encontro vocês aqui em alguns minutos.


Tanner e Jules só voltaram a conversar quando a chuva parou. – Agora é uma boa hora para me fazer aquela proposta – disse Jules. – Mudei de ideia, não tenho mais nenhuma proposta. – Por quê? Tanner não conseguiu ficar calado. – Tive a impressão de que você não gosta de rodeios. – Quando eu disse que não gostava de rodeios? – Você jamais disse que gosta. – Eu simplesmente... – Parou, balançou a cabeça e lhe deu as costas. Para Tanner, foi um alívio a chegada de Beth e Bridey, seguidas por Rowdy e Shawn, o que impediu a continuação da conversa. Por que diabos tinha que se sentir atraído por uma mulher que detestava rodeios? Não podia negar seu sentimento especial por ela, pensou, aborrecido, enquanto se afastava. – Onde está a caminhonete? – gritou para os outros. Shawn o alcançou. – Rowdy nos deixou aqui e estacionou em algum lugar. Finalmente viram a caminhonete e Tanner seguiu em frente, sem se preocupar se os outros o seguiam. – Rowdy, me dê as chaves – gritou, quando chegou perto do carro. Zangado consigo mesmo por deixar uma mulher o aborrecer tanto, ele resmungou alguns palavrões. – Por que está tão nervoso? – perguntou Rowdy quando chegou e lhe entregou as chaves. – Nada. Destrancou a porta, entregou as chaves e as bandeirolas a Shawn e disse: – Ponha esta e as outras na carroceria. Entrou e esperou que os outros entrassem. – Vamos logo, não quero ficar aqui a noite toda – resmungou. Em segundos, Jules estava entre ele e Rowdy no assento da frente, enquanto Bridey, Shawn e Beth se acomodavam no banco de trás. Em silêncio, Shawn lhe entregou as chaves e Tanner deu a partida. Ela se sentou em silêncio e ele tentou ignorá-la, mas onde o corpo de Jules o tocava sentia calor. No ombro, no braço, na coxa. – Me dê um pouco de espaço – resmungou. Instantaneamente, Jules se afastou. Tanner bateu a porta, ligou o motor e acelerou com força, mas nada aconteceu. – Maldição dos infernos! O que você fez, Rowdy, estacionou num buraco de lama? – Não havia lama nenhuma quando estacionei aqui – replicou Rowdy. Tanner destrancou o carro e desceu. – Saiam todos. Não demorou para verem o que havia acontecido: os dois pneus traseiros estavam afundados na lama. Se não tivesse tentado sair com tanta ferocidade, nada disso teria acontecido. – Vou empurrar e você, Shawn, pegue o volante. Tanner esticou os braços e pôs as mãos na parte traseira da carroceria. – Vamos ajudar – disse Jules. – O inferno que vão.


Colocando-se ao lado dele, Jules o empurrou com os quadris e lhe deu um olhar rápido e furioso. – Beth, fique do outro lado dele e você, Rowdy, observe os pneus. – Jules... – Cale a boca, Tanner! Será mais rápido assim. Debruçou-se sobre ele para dizer alguma coisa a Beth e Tanner viu o decote do top. Ficou com a boca seca. – Preparem-se – disse ela, distraindo-o. – Prontos? Tanner só conseguiu assentir. – Certo, Shawn, vá com calma. Tanner ouviu o motor e, pelo canto do olhou, viu Jules empurrando com toda a força, a cabeça entre os braços. Praguejando, ele empurrou e, com um salto súbito, o carro ficou livre. – Segure firme, Shawn – gritou Tanner, e amparou Beth, que lutava para ficar de pé ao lado dele. Equilibrou-a e se voltou para Jules, que estava de joelhos na lama, tentando se levantar. Incapaz de se mover, ele a viu se erguer e olhar para as roupas. Tinha lama das pernas ao peito, no rosto e nos cabelos. Ele estendeu a mão para tirar uma mecha de cabelo enlameado do rosto dela. – Tenho que dizer. – Ele se esforçou para não rir. – Você fica linda toda cheia de lama, benzinho. MESMO SE quisesse, Tanner não conseguia parar de procurar Jules no meio da multidão na tarde seguinte. Parecia que toda a população de Desperation aparecera para a festa de Quatro de Julho. A rua principal estava iluminada por milhares de lâmpadas pequenas dos dois lados, fazendo uma trilha colorida até a praça, no fim da área central. Também iluminada com as mesmas lâmpadas, a praça proporcionava a maior parte das diversões da noite e lá se reunia quase todo mundo. – Lá estão Beth e Jules – disse Shawn. Tanner olhou na direção indicada, mas não viu ninguém parecido com nenhuma das duas. Então percebeu duas mulheres que se aproximavam e seus olhos se arregalaram. – Aquela não pode ser Jules! Quando ela parou a menos de um metro dele, a aba de um chapéu de cowboy encobrindo seu rosto, ele estendeu o braço para virá-lo para trás com a ponta do dedo e olhar sob ele. – Jules, é você? Ela sorriu e seus olhares se encontraram. – Boa noite, Tanner. Ele afastou a mão como se tivesse tocado em ferro em brasa. O que estava fazendo? Envolver-se num relacionamento com ela seria perigoso. Queria tocá-la, mas se afastou. – Ela fica bem bonita quando está limpa, não é, Beth? – disse ele. Esteve com ela pela última vez quando ela mergulhou na lama na noite anterior... uma situação da qual até ela acabou achando graça. Chegara tarde naquela manhã e só tivera tempo de descarregar as bandeirolas antes de seguir para o rodeio. – Ora, Tanner! – disse Beth, segurando o riso. Jules riu alto. – Está tudo bem, Beth, acho que agora empatamos. – Vamos ao baile ou não? – exigiu Shawn.


Beth colocou uma das mãos sobre o ombro dele. – É claro que vamos. Shawn liderou o caminho em direção ao som de uma banda ao vivo até encontrarem um lugar onde poderiam participar da festa. A multidão rodeava uma pista de dança improvisada, abaixo do coreto iluminado, onde ficavam a banda e um cantor. – Nada mal – disse Tanner bem atrás de Jules. Assistiram à quadrilha e depois a banda começou a tocar músicas country, levando diversos casais à pista. Quando Tanner colocou uma das mãos sobre o ombro de Jules, ela se assustou, mas ele passou o braço pelos ombros dela e a levou pelo meio da multidão. – Chegou a hora de você aprender os dois passos, benzinho. Ela olhou para ele quando entraram na pista. – Tanner, não acho... – Está certo – disse ele, vendo apenas indecisão e não medo nos olhos verdes. – Não ache, apenas faça o que lhe digo. – Eu nem mesmo gosto... – Mas vai gostar. – Virou-a de frente para si e colocou a mão no ombro de Jules. – Confie em mim, benzinho. – Tomando-lhe a mão, sorriu. – É muito simples, apenas me siga. Ela o seguiu e moveu-se com ele. – Assim? – É, é, quase. – Colocou a mão dela no braço dele. – Tente de novo. – Tanner – o sorriso dela era incerto –, está tentando me seduzir? O sorriso dele se ampliou e ele riu. – Ora, benzinho, aqui estou eu, tentando ensinar você a dançar e você me acusa de uma coisa dessas! Ela assentiu, o sorriso mostrando que não acreditava. – Sei. Ele percebeu o sarcasmo. – Dance – ordenou ele, rindo. Jules obedeceu. Logo aprendeu os passos básicos e ele a guiou em torno da pista, ficando longe dos pares mais experientes. Com a prática ela seria tão boa quanto os outros e, no fim de semana seguinte, ele a levaria a algum lugar... Tanner perdeu o passo. – Desculpe, benzinho – disse, automaticamente. O que estava pensando? Fazendo planos como se tivesse algum futuro com ela? Tinha que chegar às Finais Nacionais de Rodeio e talvez vencer. Seu futuro estava planejado e nada podia estragá-lo, nada. Mas a mulher em seus braços não era “nada.” Sentia uma enorme atração por ela. Mas e se um dia o abandonasse? Seu passado lhe dizia que sim, um dia iria embora. A música terminou e outra, mais lenta, começou. Tanner percebeu que o chapéu dela o impedia de aproximá-la mais, então, tirou-o e a enlaçou pela cintura. – Meu chapéu! – Não se preocupe com seu chapéu, benzinho, não vou deixar que nada aconteça a ele. Quando ela sorriu e passou os braços pelo pescoço dele, Tanner soube que não podia se afastar do que quer que sentia, não importavam as consequências. Nesse momento, o futuro era a segunda coisa


em sua mente, bem atrás de como era bom abraçá-la. – Sobre aquela proposta – disse ele, os lábios contra os cabelos sedosos. Ela recuou para olhar para ele. – Agora? Ele olhou fundo nos olhos verdes. – É uma hora tão boa quanto qualquer outra. – Se você diz. – Você comentou que ajuda adolescentes, então, achei que talvez esteja interessada numa troca. – Como o quê? – Talvez possa ir ao rancho por algumas horas, descobrir o que podemos fazer por Shawn. – Não, essa não é uma boa ideia. Sem aceitar um não como resposta, insistiu. – Estaria me fazendo um favor. Shawn tem sido muito difícil e parece que gosta de você. Precisa de uma amiga bem agora... mesmo uma moça da cidade que detesta cowboys. – Eu não... – Pode ser exatamente o que ele precisa – continuou Tanner, observando as emoções que se sucediam na expressão dela. – Não consigo alcançá-lo, mas você... – Ele é um bom garoto – disse ela, ainda indecisa. Precisava convencê-la. No momento, parecia a única pessoa capaz de ajudar. Além disso, ele... Não, não pensaria em si mesmo agora. – Em que espécie de troca está pensando? – Ah, não sei, mas pensaremos em alguma coisa. – Tenho um pressentimento que é alguma coisa relacionada a cavalos. – Pode ser. Ela balançou a cabeça. – Pense em outra coisa. – O que você quiser, desde que diga sim. Ela olhou para onde Shawn estava parado, conversando com o noivo de Beth. – Ah, Tanner, não sei. Pelo que posso ver, é um adolescente normal. – Talvez, mas tudo o que estou pedindo é que tente. – Se tivesse que implorar, imploraria. Qualquer coisa que impedisse Shawn de fugir de casa como o pai dele. Como quase todo mundo de sua família. – Por favor. Ela hesitou, então assentiu. – Está bem, vou conversar com ele. Uma onda de alívio o tomou. – Assim está bom para mim. Mais tarde, quando a multidão começou a diminuir e uma brisa suave esfriou a noite, ele a acompanhou até a casa de Beth. À porta, ela pegou uma chave do bolso e o ouviu sussurrar em sua orelha. – Jules. Ela respirou fundo e a mão congelou na fechadura. Virou-se para fitá-lo. Tanner tomou a chave, tirou o chapéu da cabeça dela, colocou as mãos na porta de cada lado dela e debruçou-se, os lábios a um centímetro dos dela.


– Tenho sonhado em fazer isso desde a primeira vez em que a vi, com meu chapéu nas suas mãos. – Fazer o quê? – suspirou Jules. O som de risadas próximas o fez se afastar. Fitou-a nos olhos e o que viu era tudo o que precisava saber. – Parece que a festa acabou – disse ele, recuando. – Você irá ao rancho amanhã? – Segunda-feira pela manhã. Acenando, ele abriu a porta, entregou-lhe a chave, deu boa-noite e se afastou.


CAPÍTULO 4

– SEU TIO me pediu para conversar com você. Shawn se mexeu na cadeira e olhou-a nos olhos. – Por quê? Sentada na sala de estar ensolarada do rancho dos O’Brien, Jules viu a desconfiança nos olhos de Shawn e sorriu antes de responder. – Não sei se o seu tio lhe disse, mas sou advogada. – Ah, é? – O sorriso dele era quase sarcástico. – Sabia que você era inteligente. Ela se sentiu ruborizar e riu para disfarçar o constrangimento. – Sim, bem, não é este o ponto. Quando tinha 12 anos, descobri como as coisas podem ser difíceis para alguns jovens. Tive sorte. Meus pais me amavam e me deram o que havia de melhor, mas não é assim para muitos adolescentes. Então, decidi ajudar aqueles que não eram tão afortunados como eu e, anos depois, me tornei advogada. Agora trabalho em varas de família, prestando assistência a adolescentes com problemas ou às famílias que não são capazes de cuidar deles. Shawn deu de ombros, mas pareceu desconfortável. – Não estou com problemas e tenho uma família. Tio Tanner, tia Bridey e Rowdy são minha família. – Sim, todos gostam muito de você – disse ela, tomando uma nota mental para perguntar a Tanner sobre Rowdy. Uma expressão zangada surgiu no rosto dele. – Algumas vezes. – Só algumas vezes? Ele deu de ombros de novo e desviou o olhar. A linguagem corporal de Shawn mostrava que a conversa não lhe era agradável, mas Jules sabia que não seria. Meninos tinham a tendência de se fechar e fingir que estava tudo bem. Algumas vezes era mais fácil conversar com meninas, mas a maioria das crianças e adolescentes com problemas emocionais se fechava. – Quando eles não gostam de você? – Quando quero competir. Ela esperou que ele explicasse.


– Você sabe, num rodeio. Tio Tanner diz que a escola vem em primeiro lugar, mas a escola não me ajudará em nada no circuito. – Ele a fitou nos olhos, esperando que ela tomasse o partido do tio. – Você não acha que a escola é importante? – Bem, claro que sim, mas outros caras fazem as duas coisas. – Outros rapazes da sua idade? – É, alguns colegas meus e outros que... – Desviou o olhar. – Não estão na escola. – Que abandonaram a escola? – Quando ele assentiu, Jules começou a compreender melhor a situação e por que Tanner se preocupava. – É isso que você quer fazer? Ele deu de ombros de novo. – Sei lá. Ela sabia que, quando um adolescente dava de ombros tantas vezes, podia significar que não queria falar ou que não conseguia expressar seus sentimentos. E partilhar sentimentos com os que queriam ajudar era de vital importância. – Então me fale sobre os que estão na escola – disse ela, esperando abrir uma porta para uma comunicação real. – Como conseguem competir em rodeios durante o período de aulas? – Eles pertencem à NHSRA. – Ele percebeu que ela não compreendera o que disse. – National High School Rodeo Association. – Não sabia que existia uma coisa assim – admitiu ela. – Fale-me sobre essa associação. Shawn explicou que era uma instituição internacional para estudantes interessados em participar de rodeios. Também explicou que os membros tinham obrigação de frequentar a escola e ter notas boas. A escola de Desperation também tinha um clube de rodeio, do qual ele era sócio, mas não participava mais dos encontros. – Por que não? – É coisa de criança. – Deu novamente de ombros. Jules riu suavemente. – Espero que participar de um clube não seja coisa de criança, porque participo de diversos. São lugares onde as pessoas que partilham um interesse comum ou uma carreira se reúnem. Seu clube de rodeio é assim? – Bem, é – admitiu ele. – Os outros membros não participam ativamente de rodeios? – Claro que sim, é só que... – ele balançou a cabeça – ... não sei. Não me dou bem com os colegas da escola e tio Tanner não gosta dos meus outros amigos porque são mais velhos do que eu. E, bem, ele tem medo que eu fuja para participar de rodeios, como meu pai. – Ele se debruçou, os olhos azuis brilhantes de paixão. – Mas, quando faço perguntas sobre meu pai, ele não me conta quase nada. E há coisas que quero saber. Jules ficou surpresa. Achava que Tanner responderia honestamente às perguntas do sobrinho, especialmente quando estava tão preocupado com ele. – Ele se recusou a responder algo? – Não, mas sei que não responderá. – Por que acha isso? – Eu... – Ele baixou a cabeça, escondendo o rosto. – Eu apenas sei. Jules percebeu que era um adolescente típico, incapaz de saber como perguntar e com medo de as respostas não serem as que gostaria que fossem. Não sabia o que acontecera aos pais dele ou por que


não estava com eles. Mas sabia que Tanner não esconderia a informação de Shawn se perguntasse diretamente. Percebendo que o relacionamento com Tanner era o problema, havia apenas uma coisa que ela podia fazer. – Gostaria que eu conversasse com ele? Shawn olhou para ela e Jules percebeu sua luta interior. Estava apavorado, não era fácil para um adolescente. Há quanto tempo receava fazer perguntas que tinha todo o direito de fazer e de receber respostas honestas? Estendeu a mão e colocou-a sobre a dele. – Acho que deve perguntar o que quiser. – Eu não acho... – Você só saberá se tentar. Acredite, Shawn, não será tão ruim como você pensa. A antecipação é pior do que o fato. Se apenas pudesse convencer a si mesma, pensou. Precisava intensamente superar seu medo de cavalgar, mas cada vez que se imaginava sobre um cavalo revivia a queda. Essa era sua expectativa. – Talvez eu converse com ele – disse Shawn. Sentindo que fizera tudo o que podia num dia, ela se levantou. – Acho que talvez vocês possam também resolver suas diferenças sobre rodeios. Ele a olhou, os olhos cheios de esperança. – Verdade? – Bem, com o tempo, mas esse é o primeiro passo e é você que o está dando. Só isso mostrará a seu tio que você está crescendo e que vocês podem começar a conversar sobre rodeios. Acenando, ele sorriu. – Obrigado, Jules. – É por isso que estou aqui – disse ela, encaminhando-se para a porta. Quando a abriu, encontrou Tanner do outro lado. Estaria escutando? TANNER VIU os olhos de Jules se semicerrarem e pensou com rapidez. – Como foi? Sem responder, ela pôs um dedo sobre os lábios, fechou a porta e se afastou. – Estava escutando? – perguntou em voz baixa, olhando para a porta. – Só por um minuto. É meu sobrinho. Queria saber o que estava acontecendo. – Espionar nunca é uma boa ideia. – Virou-se e se afastou, e ele a seguiu. Jules parou e se virou para ele. – Há algum lugar onde possamos conversar em particular? – Claro. Fez um gesto para que o seguisse e a levou para fora da casa. – Não estou afastando você do trabalho, estou? – perguntou ela enquanto se dirigiam para o estábulo. – Não, Rowdy cuida de grande parte do trabalho do rancho. – Rowdy? – Rowdy Thompson, nosso capataz, que está conosco desde que eu era criança.


Chegaram ao estábulo e entraram. Ela parou por um momento para acostumar os olhos à relativa escuridão, depois do sol forte. – Há um pequeno escritório nos fundos – disse ele, apontando para o fim da aleia entre as duas filas de baias. Ela começou a andar ao lado dele, mas parou quando ouviu o relincho de um cavalo. – É apenas um dos cavalos – disse ele. – Isto é um rancho, lembra-se? A risada dela tinha um toque de tensão, mas continuou andando. – É claro que é, estava apenas pensando na minha conversa com Shawn. Ao chegarem à porta da pequena sala, ele a abriu e decidiu não fazer perguntas sobre a reação que tivera. Agora só se interessava por Shawn. – Sente-se – disse ele, indicando uma cadeira diante da escrivaninha velha e puxando outra para si. Eles se sentaram e ela sorriu. – Só para você saber, Shawn não é diferente de nenhum outro rapaz dessa idade. E, se você não se lembra, é difícil ter 15 anos. – Ele só fará 15 anos em novembro, mas acho que isso não faz muita diferença. – Não, não faz. Como muitos adolescentes da idade dele, Shawn está ansioso para se tornar um adulto, mas ainda não se encontra emocionalmente maduro. Precisa de você mais do que nunca. Tanner estava consciente disso. – Compreendo, mas não sei como lidar com isso... ou com ele. – É um momento difícil para todo mundo – concordou ela. – Lido mais com adolescentes do que com crianças porque há tantas coisas acontecendo com eles. São levados em muitas direções diferentes. Pais, amigos, suas próprias necessidades e vontades... e não sabem como se comunicar, especialmente com adultos. Não dizem sempre a verdade, portanto não se preocupe. – Tento conversar com ele – disse Tanner. – Deixe que ele escolha o momento. Fique disponível, não julgue, apenas ouça. Será um bom começo. Tanner confiou na sugestão dela e soube que havia feito todas aquelas coisas. Quando conversava com Shawn, muitas vezes ficava zangado quase antes de começar. – Vou seguir seu conselho. Admito que tenho muito a aprender. – Todos têm, você não está sozinho. Fez um bom trabalho, muitos pais e guardiões nem mesmo tentam. – Sinto que um “mas” está chegando. Ela assentiu. – Ele tem perguntas. O rosto dela era sério, não dava qualquer pista a ele, e Tanner sentiu que era mais sério do que imaginava. – Perguntas sobre o quê? – Os pais dele. Tanner ficou tenso. O assunto dos pais de Shawn era difícil de explicar. Não sabia como abordá-lo, por isso não o fizera. – E o que é, em relação aos pais? – Sentia-se na defensiva. – A família de Shawn o ama. – Não duvido disso e não sei o que ele quer saber, não foi específico. Mas ele sente que você não responderá ao que quer que precise perguntar.


– Jamais me recusei a responder nada, mas não somos do tipo que vive no passado, seguimos em frente. – Ninguém deve viver no passado, mas precisa concordar que é nosso passado que nos molda para o presente e para o futuro. – Bem, é claro – disse ele. – Apenas não quero que se afunde em questões sobre as quais não teve nenhum controle e se esqueça do que tem agora. Do jeito como está, posso ver isso acontecendo. – Ele descobrirá sobre o passado em algum momento e pode não ser da maneira como você quer que ele saiba. – E suponho que será melhor ele saber por mim do que por um estranho. Você tem razão, isso pode acontecer. – Algumas vezes, não é fácil ouvir a verdade, mas é melhor saber do que descobrir no momento errado e pela pessoa errada, que pode omitir informações importantes. – Então acha que devo me sentar com ele e contar tudo? – Não necessariamente. Acho que ele virá a você com as perguntas que quer fazer. Talvez não tudo de uma vez, mas aos poucos, especialmente porque ele não sabe se você está disposto a ser honesto com ele. A cabeça de Tanner se ergueu às últimas palavras. – Não sabe? Bem, isso está errado. Sempre fui franco com ele, desde o dia em que a mãe dele foi embora. É apenas que, nos últimos seis meses, não fui capaz de me aproximar quando ele mais precisou de mim. – Espero que isso torne as coisas mais fáceis para vocês dois. – Não mais fáceis, mas saber qual é o problema já é uma grande ajuda. Obrigado. Levantando-se, ela lhe estendeu a mão e ele apertou-a. – Estou feliz por ter ajudado. Ele não queria soltar a mão de Jules. Ela podia ter se recusado, ou dito a ele para procurar outra pessoa quando lhe pedira ajuda. Mas concordara, mesmo sem uma explicação. – Não vá embora ainda. Você não sabe de tudo e lhe devo pelo menos isso – disse ele, soltando a mão dela. Ela sentou-se de novo. – Seria importante para mim se soubesse mais sobre os pais de Shawn. Ele se recostou na escrivaninha. – Acho que sim, mas aviso que não é uma história bonita. Ele se perguntou como começar, por onde começar. – Sou responsável por Shawn desde que ele foi deixado à minha porta, há mais de 14 anos. Meu irmão, Tucker, fugiu de casa quando tinha 15 anos. Era obcecado por rodeios, não que fosse o único da família – acrescentou quando viu a expressão dela. – A mãe de Shawn devia ter menos de 17 anos quando ficou parada aquela noite na minha varanda, com um bebê de seis meses. Ainda posso ouvi-la dizendo que não podia mais tomar conta dele, que era filho de Tucker e que sabia que eu cuidaria bem dele. – Ah, meu Deus! Tanner tentou sorrir. – Antes que eu pudesse compreender o que estava acontecendo ou perguntar onde estava Tucker, ela me entregou o bebê e desapareceu. Eu me tornei um pai substituto para meu sobrinho de seis


meses. Se não fosse tia Bridey, acho que nem teria sobrevivido aos primeiros anos. – O quanto disso Shawn sabe? – Apenas que a mãe dele o deixou conosco. – E o pai dele, onde está? – Não sei. Nunca mais soubemos dele desde que foi embora. Assim, como vê, não tenho muitas respostas. – Você tentou encontrá-lo? – Em todas as oportunidades que tive. Deve ter deixado os rodeios, porque ninguém o vê há anos. Se ainda estiver... – Balançou a cabeça, incapaz de dizer a palavra. Respirou fundo e continuou: – Shawn é um peão por natureza, sabe como lidar com os cavalos. Tem potencial, potencial verdadeiro. Com um pouco de autodisciplina, pode ser um campeão em poucos anos. Do modo como as coisas estavam, seria preciso um pequeno milagre. Olhou para a mulher diante dele e se perguntou se Jules seria o milagre de que precisavam. – Mas você era tão jovem. Por que decidiu criar um bebê? – Não sabia nada sobre a mãe dele e, quando descobri, não quis devolvê-lo. Estava mais preocupado em encontrar meu irmão. – Mesmo assim... – A família cuida de seus membros. – Tanner... – Sei o que vai dizer. – Debruçou-se, encontrando o olhar dela. – Eu já era maior de idade. Meu advogado e o tribunal concordaram que eu devia ter a custódia, parcialmente, porque Bridey estava aqui para ajudar. Jules assentiu. – E o que há sobre Shawn e rodeios? Pelo que compreendi, você não o quer competindo. – Não é assim. Ele é membro da NHSRA, mas tem sido descuidado com suas responsabilidades na escola. Suas notas caíram muito e fez amizade com alguns rapazes mais velhos, que não estudam e não são bons exemplos. Quando tirar notas mais altas, e ele é um menino inteligente, poderá competir de novo. Essas não são minhas regras, são as da NHSRA. – Ele me falou sobre isso. Mas acho que você precisa contar a ele o que acabou de me contar sobre a mãe dele e como veio viver com você. Precisa contar tudo. Que tentou encontrar seu irmão. Ele tem que saber. Tanner se levantou, tirou o chapéu e passou os dedos pelos cabelos. – Tudo o que posso contar é o que sei, se você acha que vai ajudar. Jules também se levantou e colocou a mão no braço dele. O calor do contato e do sorriso dela o abalou e ele precisou se controlar para não tocá-la. – Sei que ajudará, e estarei por perto até depois do casamento de Beth, se um de vocês precisar conversar sobre o assunto. – Obrigado – disse ele, a voz rouca. Ficou aliviado quando ela tirou a mão e se virou para sair. Não estava acostumado aos sentimentos que ela despertava nele. Não sabia o que fazer com eles, e, também, não sabia nem se queria fazer alguma coisa. Mas ainda havia algo que podia e precisava fazer. Oferecera a Jules uma troca e ela cumprira sua parte. Agora precisava fazer a sua.


– Antes de você ir... – disse ele, fazendo-a parar. Ela se voltou, uma pergunta nos olhos. – Volte na sexta-feira. Vou pedir a Bridey que prepare um jantar especial, então terei cumprido minha parte do acordo. – Ficou surpreso por ela não se recusar, mas ficar contente, também. – Pensei à tarde, 15 ou 16 horas? – Acho que estarei disponível – disse ela, com um grande sorriso, então saiu. Ele pensou naquela noite do Quatro de Julho, quando quase a beijara. Uma parte dele desejava que não tivessem sido interrompidos, mas outra lhe dizia que tinha sido melhor assim. Não sabia para onde estava indo, no que se referia a Jules. Sabia apenas que era diferente de qualquer outra mulher que conhecera. Fria por fora, solidária por dentro. Era uma contradição instigante. Talvez descobrisse mais na sexta-feira. JULES CHEGOU ao rancho Rocking O na sexta-feira às 15h30. Tanner dissera entre 15h e 16h, então 15h30 parecia a hora certa. Valorizava a pontualidade, um dos bons hábitos que aprendera com os pais. Também gostava que as pessoas fossem claras sobre suas intenções, mas não tinha ideia do que Tanner planejava. Esperava ter a oportunidade de ver os cavalos, então se vestiu com um jeans e uma camiseta. Agora que sabia que os cavalos eram mantidos no estábulo, não ficaria tão assustada. Pensou que esta poderia ser a melhor chance de dar o primeiro passo para superar seu medo de cavalgar. – Jules, venha ver o novo potro! – gritou Shawn assim que ela estacionou o carro e desceu. Ela caminhou em direção a ele. – Uma potranca? Ele assentiu quando ela chegou ao lado dele. – É, uma beleza, venha ver. Seguindo-o para dentro do estábulo, viu Tanner mais adiante da aleia, debruçando-se sobre a porta de uma baia. Detestava o modo como seu coração perdia uma batida quando o via, mas negar o fato seria tolice. – Pensei ter ouvido o barulho de um carro chegando – disse Tanner. – O que acha da nova moradora? Jules parou ao lado dele e olhou por cima da porta de madeira que batia em seu peito. – Ah, é linda! Você tem razão, Shawn, é uma beleza. E que cor maravilhosa. Os castanhos sempre foram os meus favoritos. – Então sabe alguma coisa sobre cavalos – disse Tanner. – Um pouco. – Preparou-se para evitar mais perguntas e ficou satisfeita quando alguém chamou Shawn da porta do estábulo. Shawn resmungou. – Droga! Um homem mais velho, com as pernas curvadas, caminhava em direção a eles. – Você ainda tem uma tarefa, rapaz – disse a Shawn. – Quando terminar, ficará livre para conversar fiado com a dama, mas não antes. Jules ouviu a risada silenciosa de Tanner. – Devia saber que ele viria atrás de você, Shawn.


Quando o homem os alcançou e parou, os punhos fechados e um olhar zangado para Shawn, Tanner se adiantou. – Jules, quero lhe apresentar Rowdy Thompson, capataz do rancho e um constante espinho nas costelas de Shawn. Rowdy, esta é Jules Vandeveer, amiga de Beth Anders. Ela é do Kansas. Rowdy ergueu a mão e tocou a aba do chapéu com um dedo, porém mal a olhou. – Prazer em conhecê-la, senhora. Agora, se der licença ao seu jovem amigo... – Vá, Shawn – disse ela. – Vou ficar por aqui algum tempo. Pelo menos até depois do jantar. – Esperava ter agradado Rowdy ao concordar com ele. A resposta de Rowdy foi um grunhido, enquanto se virava para sair. Shawn o seguiu. – Vamos esperar por você, Shawn – gritou Tanner. Voltando-se para Jules, explicou: – Ele gostou de saber que você estaria aqui hoje. Vou lhe mostrar o rancho enquanto ele termina de dar água ao gado. Jules o seguiu, desejando não ter sido motivo para um problema, mas aquilo era responsabilidade de Shawn e não havia nada que pudesse fazer. – Quantos cavalos você tem? – perguntou, enquanto saíam do estábulo. – Nove, com a nova potranca, dez. – É muito. São todos quarto de milha? Ele assentiu e apontou para um grupo de animais numa pastagem próxima. – Criamos alguns também para rodeios. Bons cavalos dão bom dinheiro, pelos parâmetros dos cowboys. – Sei que os quarto de milha são a base do trabalho de um rancho. Tenho mais conhecimento de cavalos de raça e saltadores, mas um cavalo é um cavalo e você tem alguns que são realmente belos. Quando olhou para ele, viu que a estudava cuidadosamente. – Então você sabe bastante sobre cavalos. Jules percebeu que havia falado demais, mas agora não tinha mais jeito. Ele a olhava como se tivesse encontrado um tesouro. Mas não perguntou mais nada e ficou aliviada. Relaxou... até ver Shawn puxando três cavalos do outro lado do estábulo, todos selados e prontos para uma cavalgada. Ficou paralisada de medo. – Acho que você adivinhou a minha parte da proposta – disse Tanner enquanto Shawn se aproximava. – Sim, compreendo, mas... – Não são saltadores – disse ele, pegando as rédeas de um dos cavalos e estendendo-as para ela –, mas este cavalo é uma boa montaria. Ela recuou um passo e sentiu o peito apertar. Atingiu-a rapidamente, como sempre... aquele pavor que acelerava seu coração e a impedia de dar o passo que poderia pôr fim ao medo de uma vez por todas. – Eu... eu... não posso. Lamento, mas não posso. – Pelo canto do olho, viu os ombros de Shawn caírem, seu desapontamento evidente. Mas não podia fazer o que eles esperavam. Tanner devolveu as rédeas a Shawn, e quando o menino se afastou lentamente, se virou para ela. – Você não gosta mesmo de cowboys e cavalos, não é? É uma pena, porque Shawn estava feliz por cavalgar com você. Apesar da voz baixa, Jules percebeu o desprezo e se defendeu. – Não é verdade, cowboys não têm nada a ver com isso, é só que... – Ela parou e respirou, esperando acalmar seu coração acelerado. – Adoro cavalos! Mas não posso cavalgar, Tanner, simplesmente não


posso. Quando começou a se virar, esperando que não a detestasse por fugir, sentiu-o tocar-lhe o ombro. – Talvez possa explicar. – Sofri um acidente cavalgando quando era menina. Ele a olhou como se esperasse mais. – É só isso? Posso compreender, mas, como você disse, não odeia cavalos ou cowboys. Talvez se você apenas... – Não, tenho que fazer do meu jeito, na minha hora. – Sabe, dizem que, se você é derrubada, deve montar de novo imediatamente. Para Jules, era seu antigo treinador falando e mal ouviu as palavras de Tanner. Seu treinador exigira demais, depressa demais, quando ela não se sentia pronta. Sempre o culpara pelo acidente. Sabia que sua ansiedade tivera um papel importante na recusa do cavalo em pular. Balançando a cabeça, ela recuou um passo, mas Tanner continuou: – Podemos ajudar, Jules, se você permitir; não deixaremos que nada... – Pare de me pressionar! – Ela se ouviu gritar. Quando percebeu o que fizera, era tarde demais.


CAPÍTULO 5

A MULTIDÃO na hora do almoço no Chick-a-Lick Café era grande e barulhenta como sempre. Era um lugar tradicional de reunião dos moradores de Desperation desde que abria para o café da manhã até bem depois do jantar. Tentando ignorar o barulho, Tanner olhou para cima enquanto ajudava a tia a se sentar, e viu Jules e Beth entrando no café. A última vez em que vira Jules tinha sido no jantar no rancho uma semana antes. A conversa à mesa havia sido tensa. Ele a pressionara e depois não soubera o que dizer; ainda não sabia como lhe pedir desculpas e revelar o quanto gostaria de ajudar. Bridey viu as duas ao mesmo tempo e acenou, chamando-as para a mesa com um gesto da mão. – Vocês, venham se juntar a nós. Há muito espaço para mais duas. Quando Jules olhou para ele, Tanner acenou, com um leve sorriso. – Podemos encontrar outra mesa, Bridey – disse Jules –, mas obrigada. – E quanto tempo acha que vai esperar? Não há uma só mesa vazia. Não, sentem-se aqui. Ficaremos contentes se vocês se juntarem a nós. Tanner pode arranjar mais duas cadeiras. Com sorte, Tanner conseguiu as duas cadeiras e posicionou-as à mesa. Jules ficou sentada diante dele e naquele momento Darla, a garçonete, se aproximou. Depois que fizeram os pedidos, começaram a conversar e a cumprimentar amigos e vizinhos até a refeição chegar. Tanner voltou a atenção para a comida, sem participar da conversa, que tratava do casamento de Beth. – Devia ser uma cerimônia simples – disse Beth. – Não em Desperation, Beth – refutou Bridey. – Sabe que, numa cidade pequena, todos esperam ser convidados para os eventos mais importantes. Espere só até você ter um bebê! Beth riu. – Acho que vou esperar algum tempo. E estou contente de Michael ser de uma cidade pequena também. Duvido que alguém de uma cidade grande compreendesse. Tanner lançou um olhar a Jules, que concordava e parecia estar se divertindo. Bridey percebera como ficara silenciosa no jantar no rancho e comentara com ele depois de Jules sair. Tanner recebera um sermão quando contara o motivo.


– Descobri que gosto da vida numa cidade pequena – disse Jules. – Passei muito tempo na fazenda da família de Beth quando era menina, mas raramente vínhamos à cidade. Desperation tem tantas pessoas agradáveis e é óbvio que adoram Beth. – É impossível não adorá-la – disse Tanner, finalmente capaz de um sorriso de verdade. Agora tudo o que precisava era pedir desculpas a Jules. – Ora, obrigada, Tanner – disse Beth, ruborizando. – Queria perguntar a você quando será seu próximo rodeio. – Viajo depois de amanhã para Pretty Prairie – respondeu ele. – Kansas? – perguntou Jules. Ele acenou. – Talvez vocês possam ir? Beth balançou a cabeça. – Queria poder, Tanner, mas há coisas demais de última hora a fazer para o casamento. Se não fosse Jules, acho que não conseguiria fazer tudo. Nem acredito que falta só uma semana! E é melhor que esteja lá, com rodeio ou não! – Ah, estarei lá. Não perderei o enforcamento do professor por nada. Darla se aproximou para encher de novo as xícaras de chá e disse a Beth: – Seu casamento é o assunto da cidade. Se precisar de mais um par de mãos para qualquer coisa, pode me chamar, estou livre à noite. – Obrigada, Darla, acho que vamos aceitar. Tanta coisa a fazer, e tão pouco tempo! – Ela suspirou, mas deu um grande sorriso. Quando Darla se afastou para atender a outros clientes, Jules balançou a cabeça. – É tão impressionante, na verdade é... – Olhou para Shawn e sorriu. – Bem, espantoso é a palavra que me vem à mente. Compreendo por que você não quer sair daqui, Beth. – Talvez você pudesse se mudar para cá – disse Shawn, que ficara calado durante quase toda a refeição. – Quase queria poder, mas é uma viagem longa de ida e volta para Wichita todos os dias. Ficaria mais tempo na estrada do que no escritório. – Podemos ter mais um advogado em Desperation – disse Shawn, sem querer desistir da ideia. Tanner estava impressionado com a rapidez com que o menino se tornara amigo de Jules. Sabia que devia muito a ela. Shawn o abordara apenas um dia depois de conversar com ela e fizera perguntas sobre seus pais. Tanner contou-lhe sobre o dia em que sua mãe o deixou no rancho e explicou que não sabia onde o pai poderia estar ou o que acontecera a ele. Shawn parecera um pouco desapontado, mas disse que compreendia. – Talvez algum dia eu o encontre num rodeio – comentou ele. Tanner respondeu que isso sempre seria possível e não acrescentou mais nada, mas esperava que Shawn entendesse que fugir de casa não era a coisa mais inteligente a fazer. Tucker podia estar em qualquer lugar... ou em lugar nenhum. – Melhor voltarmos para casa – disse Tanner, levantando-se e pegando a carteira. Jogou algum dinheiro sobre a mesa, para a gorjeta de Darla, e se voltou para Beth. – Me dê as contas de vocês. – Não, Tanner, vamos pagar nosso almoço – disse Beth, e pegou sua conta e a de Jules. Tanner tomou-as da mão de Beth.


– Considere como parte do presente de casamento. Foi bom passar algum tempo com vocês. Bridey fica cansada de ter apenas a companhia de homens. Beth olhou para Jules e deu de ombros. – Não dá para discutir, ele é maior do que nós duas juntas. Tanner riu e foi ao caixa pagar as contas. Quando terminou, as duas estavam saindo e ele as seguiu. – Você tem um minuto? – perguntou a Jules. Ela olhou para Beth e Bridey, que estavam conversando animadamente perto do carro, estacionado em frente. – É claro. Ele ficou muito perto dela. Não queria que todos na cidade soubessem desta conversa. Se apenas uma pessoa ouvisse, no fim do dia já teria se espalhado como um incêndio. – Quero pedir desculpas por não ter compreendido seu medo de cavalgar. Ela olhou para baixo, depois ergueu os olhos em direção aos dele. – Não, por favor, está tudo bem. Ficou aliviado por perceber que ela não estava mais aborrecida. – Então acho que posso ficar mais tranquilo. Da próxima vez, vou me lembrar. O sorriso dela era suave e um pouco triste. – Duvido que haja uma próxima vez. Vou voltar para casa no dia seguinte ao casamento. Ele tentou ignorar o desapontamento que sentiu. – Mas você não será uma estranha – disse ele. – Sabe que é bem-vinda a Rocking O a qualquer momento. E, da próxima vez, vou ser mais atencioso com você. – Tenho certeza de que sim, mas será melhor se eu fizer as coisas do meu jeito – disse ela. – Parei de pensar em cavalgar por tantos anos que levará algum tempo até que me acostume com a ideia. Não era isso que eu esperava, mas... Interrompida pelo som do celular, ela deu um sorriso para ele e tirou o telefone da bolsa. – Alô! – disse ela, os olhos brilhando de felicidade. – Pensei que não ligaria. Tanner se afastou para ela falar à vontade. Imediatamente ela tirou o telefone da boca e lhe disse: – Se não tiver oportunidade de conversar com você no casamento de Beth, quero que saiba que adorei conhecê-lo. Espero poder voltar a Desperation um dia. Mudo com a forma como ela o dispensara, tudo o que pôde fazer foi acenar quando ela voltou à conversa ao telefone. Seria isso o fim de tudo? Jules voltaria para casa e se esqueceria dele e de Desperation? Observando-a sorrir enquanto conversava, não esperou que ela terminasse e se juntou à tia e ao sobrinho. A EXPRESSÃO perplexa no rosto de Tanner antes de se virar deixou Jules se sentindo um pouco culpada, mas o telefonema era importante e não podia adiar a conversa. – Desculpe, mamãe, mas o que estava dizendo? – Estamos de volta aos Estados Unidos e seu pai e eu queremos saber como vão suas férias com Beth e com quem estava conversando. Jules sorriu. – Estou passando dias maravilhosos e, com o casamento daqui a uma semana, Beth e eu estamos atoladas com os detalhes de última hora e desejando que acabe logo.


A risada da mãe foi calorosa e cheia de amor. – O tempo vai voar, como verá, e o casamento será apenas uma linda lembrança. – Será um belo casamento – disse Jules. – Com você ajudando, quem pode duvidar? Agora me diga com quem estava conversando. – Era um rancheiro amigo de Beth. – Ah. – Havia desapontamento na voz. – Ele é casado? Foi a vez de Jules rir. – Não, não é, mas isso não tem importância. – É bonito? – Muito bonito, mamãe. Você diria que é um pedaço de mau caminho. – Ah, conte mais! Jules riu de novo. – Talvez deva chamar papai para falar comigo antes que ele fique tão curioso quanto você sobre o amigo de Beth. – Ele está pagando ao motorista do táxi, mas queria falar com você antes de viajarmos de novo. Jules sentiu uma pequena, mas familiar, fisgada de desapontamento. – Estava esperando que pudessem vir para o casamento de Beth. – Queria poder, mas vamos viajar para a África do Sul, para ajudar a Fundação AIDS de lá. Nem preciso lhe dizer como é importante, e sei que Beth compreenderá. – É claro que sim, mas teria sido bom passar algum tempo com vocês. – Em breve, doçura, prometo. Seu pai mandou dizer alô, que a ama e sente saudades de você. Está me mandando correr – disse ela, rindo. – Vou ligar de novo antes de viajar, mas tenho que me despedir agora. – Diga a papai que o amo. Desligou com um suspiro. – Pronta para ir embora? – perguntou Beth. Jules sorriu e se aproximou da amiga. Estava acostumada com as constantes viagens dos pais e com as curtas conversas ao telefone, portanto, não ficou aborrecida. – Foi bom o encontro com os O’Briens – disse Beth enquanto andavam até a casa dela. – Sim, foi. – Percebi você conversando com Tanner. – E? – Apenas me perguntei como as coisas estavam funcionando. – Como o quê estava funcionando? O sorriso de Beth era amplo e malicioso. – Você sabe, você e Tanner. – Ah! Você está tentando nos unir. Eu sabia! Bem, pode esquecer. – Por quê? Ele é alto, moreno e bonito, além de inteligente. O que mais você pode querer? Jules riu. – Tem razão, ele é tudo isso e mais, porém há diversos motivos para isso não funcionar. Quer que eu faça uma lista? Beth olhou em torno e depois para o céu. – É um dia lindo e temos tempo. Por favor, continue, senhora advogada.


Jules pensou um pouco. – Em primeiro lugar, há outras coisas prioritárias para mim e você sabe disso. – Então, se não tivesse essas... prioridades, estaria interessada em, hã, conhecê-lo melhor? Recusando-se a responder, porque o que Beth sugeria não era uma possibilidade, Jules continuou: – Em segundo lugar, romances a distância não dão certo. – Não seria tão difícil assim e você sempre poderia fazer o que Shawn sugeriu e se mudar para cá. – Impossível. – Não sei por quê. Mas Jules não via razão para discutir. Estava bem estabelecida na carreira, apesar dos problemas que enfrentava, e não havia motivo para deixar a cidade e se mudar para Desperation ou qualquer outro lugar. – E terceiro – continuou ela –, nós realmente não temos muito em comum. Beth parou no meio da calçada. – Isso é o que torna tudo tão interessante. E não me diga que não se sente atraída por ele. Jules saiu andando. – Teria que ser cega para não me sentir, mas atração é um pilar muito fraco para um relacionamento. E acho que é nisso que você está pensando. – Não posso evitar. Vocês foram feitos um para o outro. Jules suspirou. – Duvido que ele pense assim e eu também não. Desista, Beth. Ele ficará fora até seu casamento e então irei embora. – Vamos ver. Aposto que logo estará com saudades dele e voltará bem depressa. – Aceito a aposta – disse Jules, certa de que ganharia. É claro que sentiria falta dele e de todos os O’Briens, assim como teria saudades de Beth e das outras pessoas que conhecera em Desperation. Mas, a despeito do que Beth pensava ou queria, realmente não via Tanner O’Brien fazendo parte de sua vida. – Vai perder a aposta – disse Beth. – Que tal vinte dólares? Rindo ao chegarem à casa de Beth, Jules assentiu. – Bem razoável, mas será você quem vai pagar. – Não teria tanta certeza, se fosse você. Mas Jules tinha certeza. Por mais que gostasse de Desperation e das pessoas de lá, não havia superado seu medo de cavalgar e havia muitas outras coisas em sua vida que a impediam de até mesmo considerar se envolver com um homem. Um homem que achava atraente e fazia seu coração disparar loucamente sempre que estava perto, mas um homem com o qual não tinha quase nada em comum. BRIDEY LANÇOU a Tanner aquele olhar quando ele se sentou no banco da igreja ao lado de Shawn. Estava atrasado para o casamento de Beth e Michael. Na parte da frente da igreja, à esquerda da noiva, estava Jules, parecendo um presente dos céus. Mas não era um presente para ele. Nos últimos dez dias, tentara convencer a si mesmo de que a atração que sentia era superficial. Mas, ao revê-la, percebeu que não era verdade e agora não sabia o que fazer. Cavalgar potros selvagens o ensinara a manter o foco e, no momento, só podia se concentrar em Jules. Sabia que teria de falar com ela e sua última conversa não o deixara exatamente feliz.


Estava conversando com alguns rancheiros quando ergueu os olhos e a viu olhando para ele; se não fosse o sorriso, cauteloso mas esperançoso, teria ficado onde estava. Pediu licença aos outros e dirigiu-se a ela, o colarinho e a gravata de repente muito apertados. – Parece que tudo o que faço ultimamente é pedir desculpas – disse Jules, quando ele parou diante dela. – Não compreendo. – O telefonema. – Ora, está tudo bem – disse ele, hesitante. – Não, não está tudo bem. – A risada dela era insegura e nervosa. – Sei que pareceu muito rude e não era essa a minha intenção. – Ele apenas ficou parado lá, se sentindo um idiota. E não gostava disso. – Sabe – continuou ela, sem olhar diretamente para ele –, era minha mãe e algumas vezes ela... bem, vamos dizer que é muito curiosa e tem uma imaginação muito fértil, especialmente sobre a filha dela. Tanner compreendeu e sorriu. – Está tudo bem, não precisa pedir desculpas. – Meus pais passam muito tempo no exterior, então não falo com eles com frequência – revelou ela. – Às vezes, descem de um avião para embarcar em outro poucos dias depois, e não temos tempo para longas conversas... – Estava um pouco curioso para saber o motivo de você me dispensar daquele jeito. – Ah, não, não foi isso – garantiu ela. – Sabia que nos veríamos de novo, no casamento, é claro. Só depois percebi como fui indelicada. – Eu teria feito a mesma coisa – admitiu ele. – Família é uma coisa maravilhosa, mas de vez em quando eles... – Levam as coisas a sério demais? – É por aí. O sorriso dela era sincero e não estava mais nervosa, o que o fez relaxar também. – Como foi o rodeio em Pretty Prairie? – Foi bom. – Isso quer dizer que você venceu? – Bem, eu trouxe para casa uma boa premiação pelo primeiro lugar. – Não conseguiu deixar de sorrir. – Isso é maravilhoso. – A rodada de Dodge City é no próximo fim de semana. É um pouco mais distante do que Pretty Prairie, mas gostaria que você fosse. Algo mudou nos olhos dela, mas desapareceu imediatamente. – Obrigada, mas estou fora do escritório há tanto tempo que ficarei atolada de trabalho quando voltar na segunda-feira. Já recebi convocações para o tribunal e não terei tempo para fazer o que gostaria. Então, assistir a um rodeio e vê-lo competir era algo que ela gostaria de fazer? Considerando sua reação ao convite para cavalgar com ele e Shawn, não conseguia acreditar que gostasse de ficar numa arquibancada e vê-lo tentar ficar no lombo de um cavalo selvagem por oito segundos. – Haverá outros – disse ele. – Isto é, se tiver tempo e vontade de ir. – É claro que tenho – admitiu ela. – Talvez em outro fim de semana.


Quando Michael e Beth se juntaram a eles, Tanner ficou aliviado. Conversou um pouco e então decidiu que era hora de partir. – Tenho que me levantar cedo amanhã, então, é hora de dizer boa-noite. – Cedo assim? – perguntou Beth, lançando um olhar para Jules. – É, lamento. Parabéns aos dois. Que tenham muitos anos felizes juntos. – Virou-se para Jules e disse apenas: – Foi um verdadeiro prazer conhecê-la, benzinho. Se puder ir a um dos rodeios, não deixe de me procurar. O sorriso dela quase desapareceu, e ele percebeu que Jules compreendia que o que ele sentia por ela não ia a lugar nenhum. Compreendia e podia viver com isso. Mais tarde, porém, em casa, quando todos dormiam, ele se sentou no escritório, os pensamentos em Jules. Talvez não devesse ter desistido dela tão depressa, talvez devesse ter se entregado aos sentimentos que nutria por ela... sentimentos que pareciam não querer desaparecer, não importava o que fizesse ou pensasse. Acreditava que ela também os tinha por ele e talvez devesse fazer uma nova tentativa. Ficaria surpreso se o que havia entre eles fosse duradouro. Afinal, muitos de sua família, aqueles por quem tinha mais afeição... o haviam deixado. Com o tempo, Jules também o deixaria. Devia tentar? Valia a pena correr o risco? Talvez. Queria tentar? Admitia que sim, embora ele e Jules tivessem muito pouco em comum. Talvez devesse, mas como faria, agora que ela estava retornando ao Kansas?


CAPÍTULO 6

TANNER VIU a entrada para a cidade e virou o carro. – Ei, não devíamos virar aqui – disse Shawn. – É a estrada para Wichita. – Tenho que fazer uma parada antes de irmos para Dodge City – disse ele, a atenção no trânsito. – Para onde vamos? – Bem, pensei que você ficaria meio entediado na arquibancada. – Nunca é um tédio quando você está competindo. Tanner quase podia ouvir o aborrecimento na voz dele. Shawn estava mal-humorado desde que Jules se despedira. – Então, me diga, por que pegou esse caminho? Tanner riu, pensando em seu plano. Podia ganhar ou perder, mas pelo menos tentaria. – Uma tática diversionista. – Ahn? – Você verá. Observando as placas das ruas, virou à esquerda e, alguns quarteirões adiante, à direita. – Tem certeza de que sabe para onde estamos indo? – Espero que sim. Finalmente encontrou o que procurava e parou no estacionamento de um edifício comercial. Desceu e pegou uma sacola de compras no banco de trás. – O que é isso? Tanner sorriu de leve. – Uma oferta de paz ou um suborno. Depende de como o considera. Shawn olhou-o com mais interesse. – Para quem? – Não posso dizer. – Tanner puxou a aba do chapéu para baixo. Se o seu plano não funcionasse, não queria que Shawn ficasse desapontado. – Me deseje sorte. – Tudo bem. – A voz denotava aborrecimento. Com um suspiro de frustração, Tanner se dirigiu ao edifício comercial. Suas mãos estavam suadas quando abriu a porta e entrou no saguão fresco, procurando o número de um conjunto de salas.


Perguntara o endereço a Beth, que acabara de voltar da lua de mel. Quando o encontrou, respirou profundamente, abriu a porta e entrou. Jules estava em pé, segurando uma pilha de papéis, e conversava com uma jovem sentada atrás de uma escrivaninha. Ela não o viu de imediato e ele aproveitou os poucos minutos para observá-la. Vestida com um terninho risca de giz, os cabelos presos, era a imagem de uma senhora advogada. A mulher sentada à escrivaninha o viu e sorriu. – Oi, posso ajudá-lo? Ele tirou o peso do corpo de um pé para o outro, incapaz de pensar no que dizer. – Eu... hã... Jules olhou para cima e abriu a boca, a mão voando para o peito. – Tanner! Ele recuperou a razão e tocou a aba do chapéu. – Boa tarde, benzinho. Jules olhou para a outra mulher, certamente sua secretária, e para ele de novo. – O que está fazendo aqui? Limpando a garganta, ele deu um passo à frente. – Shawn e eu estamos a caminho de Dodge City e quis lhe trazer uma coisinha. – Ele sorriu e estendeu a sacola para ela. Jules deixou os papéis sobre a escrivaninha, aproximou-se dele e sorriu. – O que é? – Abriu a sacola e tirou de dentro um chapéu preto com uma faixa prateada, com uma turquesa. Quando olhou para ele, os olhos estavam úmidos. – Ah, Tanner. – Aqui. – Tomou-o dela e, para sua surpresa, as mãos tremiam um pouco quando o colocou em sua cabeça. Com a voz rouca de emoção, Jules se virou e perguntou à outra mulher. – O que acha, Deb? A jovem olhou-a e sorriu. – Bem, não combina com a roupa, mas você está maravilhosa. É uma nova Jules. Jules se virou para Tanner, os olhos brilhando. – Sim, é. Obrigada, Tanner, mas não sei onde vou usá-lo. Este não era o lugar para conversar. – Seu escritório é aqui? – perguntou ele, indicando uma porta à esquerda. Ela acenou e acompanhou-o. Entraram e ela fechou a porta. Jules tirou o chapéu e segurou-o, acariciando a faixa prateada. – Foi uma surpresa, Tanner, não esperava vê-lo de novo. Quando ela ergueu os olhos para ele, Tanner não conseguiu compreender sua expressão. – Shawn e eu estamos a caminho de Dodge City. Vou competir esta noite no rodeio. – Vou cruzar os dedos para você ganhar – disse ela, a voz suave, o sorriso quase ansioso. – Benzinho, vim convidá-la para passar o fim de semana conosco. Temos quartos reservados num hotel. Um caleidoscópio de emoções passou pelo rosto de Jules. – Ah, Tanner, não posso. – Por que não?


– Ainda não tive tempo para pôr meu trabalho em dia depois das férias. Estava agora mesmo repassando tudo com minha secretária. E tenho compromissos com clientes a tarde inteira, não posso cancelar. Ele não desistiu. – E amanhã? – Tenho que estar no tribunal bem cedo. Lamento, realmente gostaria de ir com você. Ele a olhou, a esperança crescendo. – De verdade? – De verdade – respondeu ela, sorrindo, com tristeza, mas sorrindo. – Está bem – disse ele, tentando pensar numa alternativa. – E amanhã à tarde, pode ir quando terminar? – Talvez no final da tarde, sim, acho que posso. Vou no meu carro. – Não, benzinho, venho pegar você. – Não queria correr o risco de que alguma coisa a impedisse de ir. – Apenas me diga onde mora e eu a apanharei depois das sete da noite. – Mas e se você não puder, se estiver competindo? Tanner pegou de volta o chapéu e o colocou na cabeça de Jules. – Não se preocupe com coisa nenhuma, benzinho. E solte os cabelos para o chapéu servir melhor. PASSAVA UM pouco das sete da noite no dia seguinte quando Jules viu a picape de Tanner parar no estacionamento do edifício onde morava. Observou-o descer, seu coração dando o salto previsível, e lembrou a si mesma que não devia deixar que as coisas fugissem ao controle. Sabia que os dois não combinavam, mas não podia negar a si mesma algum tempo com ele. Estava verificando a maleta para ver se não esquecera nada quando o ouviu bater à porta. Abriu-a e deparou com o sorriso mais encantador que já vira. Ele estava diante da porta, encostado ao umbral, um pé cruzado sobre o outro. – Boa noite, benzinho. – Boa noite, benzinho – repetiu ela, abrindo a porta completamente. Ele entrou, o sorriso mais amplo. – Você abre a porta assim para qualquer um? – Sabia que era você, eu o vi estacionar. – Ah, bom – disse ele, observando o apartamento. – Puxa, Jules, isso é a coisa mais refinada que já vi. Você está mesmo acostumada com o que há de melhor, não está? – O sorriso se transformara numa carranca. – É como sou, Tanner – disse ela com suavidade, pondo a mão no braço dele. – Ganho bem e só preciso gastar comigo mesma. Além disso, sou ótima para pechinchar, precisa me ver em ação. – Ela se abaixou para pegar a maleta e ele a tomou de suas mãos, os olhos se encontrando. O coração dela disparou. – Shawn está esperando na caminhonete. – Ótimo, estou com saudades dele. – Ele também teve saudades de você, benzinho. Enquanto seguiam para o estacionamento, ela não conseguiu pensar em nada para dizer e ficou contente de Shawn estar com eles para preencher o silêncio. Levariam quase três horas para chegar a


Dodge City. Shawn abriu um sorriso enorme quando chegaram à caminhonete. – Jules! Ei, isso é ótimo! – Ele desceu e esperou até ela se acomodar no banco da frente antes de se sentar ao lado. – Cara, que bom ver você de novo! Tanner riu e se sentou atrás do volante. Jules sorriu, lembrando-se do dia anterior, quando Tanner lhe dera o chapéu. – Devia ver minha surpresa ontem, quando Tanner entrou no meu escritório. Se pudesse, teria ido com vocês. – Voltou-se para Tanner, muito consciente dele ao seu lado. – É uma longa viagem. Tem certeza de que não está cansado demais? Shawn respondeu no lugar de Tanner. – Sem problema, acho que ele sabia que só chegaríamos tarde em Dodge City. Tio Tanner lhe disse que está em primeiro lugar? – Tanner, isso é maravilhoso! – Temos um ditado na família, não temos, Shawn? O adolescente deixou o corpo cair ao lado dela, o queixo sobre o peito. – Hã-hã. Ela olhou de um para o outro. – O que é? – Não gaste o dinheiro da premiação antes da última rodada – disse Tanner, quando Shawn continuou calado. Jules não podia deixar de gostar de Tanner. Era sensível, bom, trabalhador. O que mais uma mulher poderia querer? Um homem que não arrisque a vida sobre um potro selvagem todo fim de semana. – Posso contar a ela sobre sua exibição? – Ela é que decide. Quando Jules disse que adoraria saber, Shawn se animou e, ajudado por Tanner, contou cada detalhe da exibição e como vencera a rodada da noite. – Ele está perdendo tempo no circuito Prairie – terminou Shawn. Jules sentiu Tanner enrijecer ao seu lado. – Desculpem, mas o que é o circuito Prairie? – Apenas os rodeios nas imediações – explicou Shawn. – Oklahoma, Kansas, Nebraska. Tudo o que precisa fazer é observar seus pontos. Ele é bom o bastante para as PRCA. – Agora chega, Shawn – disse Tanner. – O circuito está muito bom por enquanto. Shawn não respondeu e Jules sentiu a tensão entre eles aumentar. – Vocês dois terão que me ensinar a diferença. – É complicado – disse Tanner. – Então me explique. – Talvez mais tarde. Continuaram em silêncio por algum tempo e Jules se perguntou o que havia sobre a PRCA... o que quer que fosse... e o circuito Prairie que causasse um problema entre Tanner e Shawn. – Desculpe – disse ela, perguntando-se se não cometera um erro ao concordar em ir para Dodge City com eles. – Pelo quê?


Shawn dormira e ela sentiu que era seguro continuar. – Não pretendia causar problemas. – Você não causou, o problema já existia. – Posso ajudar – ofereceu. – Você já ajudou. – Pelo menos me diga o que significam as letras. – PRCA é a Professional Rodeo Cowboy’s Association. – E o que você está fazendo é diferente? – Você não vai desistir do assunto, vai? – Deveria? Ele ficou calado por um momento. Quando falou, as mãos seguravam o volante com mais força. – Não, acho que você tem todo o direito de perguntar. – Se você não... – Não, está tudo bem, eu lhe devo uma explicação. Nos últimos anos, competi em rodeios maiores, rodeios da PRCA. Este ano, comecei assim também. Mas, à medida que os meses passavam, percebi que Shawn precisava da minha atenção e tinha que garantir que ele não fugiria. – Ele não vai fazer isso. – Talvez não agora, mas... Competir em circuitos menores me mantém mais perto de casa e Shawn pode vir comigo. Estou indo bem e há uma boa chance de eu ter vitórias suficientes para me qualificar para as Finais Nacionais em Las Vegas. – Você está fazendo o possível para equilibrar as coisas, não está? – É necessário. – Então ele mudou de assunto. – Ainda estamos bem longe de Dodge. Não ficarei incomodado se você dormir. – Ela tentou, sem sucesso, reprimir um bocejo. – Apenas se encoste em mim e durma. Jules descansou a cabeça no ombro forte. Se apenas pudesse ficar ali para sempre, pensou ela, se apenas não ficasse tomada de pânico só de pensar em montar de novo. Como poderia ter um futuro com este homem se não dominasse seu medo? COM A mão na porta de madeira, Tanner se abaixou para dizer no ouvido de Jules: – Eles podem ser um bando de desordeiros depois de um rodeio, então, fique perto e ignore o que estiver acontecendo. – Já estive num bar antes, Tanner – respondeu ela, rindo. – Nós nos conhecemos num bar. – Não como este aqui. – Abriu a porta e deixou que ela entrasse primeiro no salão barulhento. Shawn a seguiu e desapareceu imediatamente. Jules parou e Tanner passou um braço em torno dela. – Eu falei. O lugar estava completamente lotado, as pessoas usando roupas do estilo do campo em todas as cores do arco-íris. As botas pisavam o chão de terra, dançando ao som de música country, enquanto luzes coloridas piscavam e giravam. – Onde está Shawn? – Não se preocupe, o balcão fica numa área separada. Esta noite não vendem álcool nesta parte do bar. Venha. – Mantendo-a perto dele, abriu caminho no meio da multidão, para onde vira Dusty, como


Shawn vira. Cumprimentado por muitas pessoas, ele respondia com um sorriso ou um aceno, mas não parou até chegarem à mesa onde os outros dois estavam. Dusty olhou longamente para Jules antes de voltar a atenção para Tanner. – Então esta é a dama sobre quem Shawn estava falando. – Um sorriso malicioso surgiu no rosto dele. – Não a conheço de algum lugar? Tanner puxou uma cadeira para ela. – De Ada – respondeu. – Ela estava com Beth. Dusty lhe deu um sorriso encantador e piscou para Tanner. – Hã-hã. Tanner se sentou ao lado de Jules e se debruçou, mas garantiu que todos o ouvissem. – Jules, lembra o que lhe disse sobre ignorar o que acontece? Jules assentiu. Tanner virou um polegar para Dusty. – Comece por ele. Dusty jogou a cabeça para trás e riu. – Isso é que é jogar sujo. – Pode apostar – respondeu Tanner com um sorriso. – Jules, apresento-lhe um dos melhores peões de touros do país, Dusty McPherson. Dusty virou-se para Jules com um sorriso. – Jules Vandeveer – disse ela, estendendo a mão. – Também está competindo neste rodeio? Tanner pôs um braço nas costas da cadeira de Jules e estendeu o outro para afastar sua mão da de Dusty, que a segurara por mais tempo do que Tanner gostou. – Ele está fora até ficar bom. – Ficar bom? – Quebrou um par de costelas, precisa ter cuidado. Dusty riu. – Mensagem recebida. Mas você não se importa se eu convidá-la para dançar, não é? – Ela não gosta de música country – explicou Tanner. – Tanner, eu nunca disse isso – protestou Jules. Dusty empurrou a cadeira e se levantou, sorrindo. – Isso é porque ela ainda não aprendeu a gostar. Eu darei uma lição rápida. Shawn pulou da cadeira. – Jules, deixe que eu ensine a você, é muito fácil. – Sorriu para Tanner e a levou rapidamente para a pista de dança. Tanner não tirou os olhos dela. Assim como muitos dos outros cowboys no salão, ele observou. Dusty estava apenas brincando, mas os outros podiam ser um problema. – Percebi que sentia alguma coisa por ela em Ada. O comentário de Dusty o fez ficar alerta. Ele podia ser seu melhor amigo, mas não ia revelar nada a ele. – O que posso dizer? Ela é diferente. Dusty manteve os olhos na garrafa de cerveja que mantinha entre as mãos. – É bom ver você tendo um interesse verdadeiro numa mulher. Acho que nunca o vi tão... – Tão o quê?


Dando de ombros, Dusty balançou a cabeça e não disse mais nada. A atenção de Tanner se voltou de novo para Jules e Shawn, tentando dançar. Os cabelos longos e louros balançavam sedutoramente e Tanner percebeu que ela não sabia como era bonita. – Isso vai dar em algum lugar? – perguntou Dusty. – É sério? – Não posso dizer, ela é de um mundo diferente do nosso. – Mas é isso que o atrai. Parece uma dama realmente agradável. E Shawn gosta muito dela. Tanner voltou a observá-los. A música mudara para um ritmo mais acelerado de rock e eles haviam se juntado aos outros dançarinos. Jules estava virada na direção dele e ele viu a pura alegria no rosto dela. Era um grande contraste com sua imagem de advogada. – Shawn é louco por ela. – Acho que não é só ele. Tanner não sabia o que responder. – Compromissos não são meu estilo – lembrou ao amigo. – Conhece meu passado. Primeiro minha mãe, depois meu pai, depois Tucker. E não se esqueça da pressa com que Marlene se afastou quando Shawn foi morar conosco. – Marlene foi um erro e você teve sorte de se livrar dela. Tanner concordava plenamente e só de pensar que quase se casara com ela sentia náuseas. Assim que soube que Tanner decidira criar o filho do irmão, desapareceu. Mas Marlene era o passado, e Jules o presente. Não sabia se seria o futuro. – Jules é diferente – repetiu, embora não pretendesse contar nada a Dusty. – Mas quem sabe o que acontecerá quando a novidade se tornar rotina para nós dois? – Talvez não se torne. – Talvez você deva encontrar uma dama para você. – Há tempo para isso, mas parece que você encontrou a sua. – Ela não gosta de rodeios. – Você não vai cavalgar para sempre. – Jules sofreu um acidente cavalgando quando era criança e tem pavor de montar de novo. Que espécie de futuro um velho cowboy pode ter com alguém assim? – As pessoas mudam. Tanner não sabia se Dusty estava se referindo a ele ou a Jules. A dança terminou e Shawn e Jules voltaram para a mesa. Tanner se levantou, estendendo a mão. – Acho que é a minha vez – disse, levando-a para a pista de dança. Tomando-a nos braços, ele olhou para baixo ao mesmo tempo em que ela ergueu os olhos. O sorriso dela seria capaz de degelar a calota polar. Quando ele sentiu um tapinha no ombro alguns minutos depois, virou-se para dizer a quem quer que fosse que desaparecesse, mas era Dusty. – Shawn está muito cansado – disse o amigo em voz baixa. – Se vai praticar um pouco comigo amanhã, precisa dormir. Tanner assentiu e começou a soltar Jules, mas Dusty manteve a mão em seu ombro. – Eu o levo para o hotel, fiquem aqui e se divirtam. – Obrigado. Quando Dusty se afastou, Jules olhou para ele. – Talvez também devamos voltar para o hotel.


– Não é necessário, vamos esperar um pouco até Shawn dormir. Umas duas horas de sono serão o bastante para mim, não durmo muito quando participo de rodeios. – Talvez devesse. Ele beijou-lhe a ponta do nariz. – Está bem, mãezona, mas tenho feito isso a maior parte da minha vida. Os olhos dela se encheram de preocupação. Começou a falar, então balançou a cabeça e olhou para baixo. Ele correu uma das mãos pelas costas dela. – O que foi, benzinho? Ela hesitou. – Eu ia fazer uma pergunta. – Então faça. – Não é importante. – Sorriu para ele. – Realmente não é. – Você parece cansada. Talvez devamos encerrar a noite. – Estou cansada – admitiu ela. – Essa é a primeira vez que tive a oportunidade de relaxar desde que voltei ao trabalho. E depois, há aquele pequeno detalhe de seu encontro com um cavalo amanhã. – Um cavalo que não gosta de um cowboy em suas costas – disse ele rindo, enquanto a levava para a porta. O fim de semana estava apenas começando e ele já estava se sentindo bem sobre sua decisão de descobrir para onde isso o levaria. A prova seria no dia seguinte. Descobriria se ela seria ou não uma distração para ele, levando-o a fazer uma exibição pior ou melhor. Estava disposto a descobrir agora, antes que seu relacionamento se aprofundasse. Depois disso, haveria outras coisas em que pensar. ANDANDO DEPRESSA atrás da arquibancada, Jules procurava Shawn. Só mais três competidores antes da última exibição de Tanner e o adolescente desaparecera. Não era o comportamento normal de Shawn num momento tão importante. Esperava que ele se juntasse a ela antes, mas não o via há bastante tempo. Não desde que Dusty ficara com ela na arquibancada por alguns minutos. Gostava de Dusty, mas ele a deixava nervosa. Tinha medo de que sentisse sua tensão em meio a tantos cavalos. Preocupada, observou a área e depois ampliou o campo de busca. Perguntou por Shawn a um grupo de adolescentes reunidos no estacionamento. Ninguém o vira, e ela começou a ficar em pânico. Era responsável por ele enquanto Tanner estava ocupado, preparando-se para sua exibição. E o menino não estava em lugar nenhum. Tanner jamais a perdoaria se alguma coisa acontecesse a seu sobrinho. Entrou cautelosamente na área atrás das rampas, perto dos currais, e ouviu alguém chamá-la. Viu o rosto preocupado de Dusty. – O que está fazendo? Não devia estar andando por aqui. – Olhou para trás enquanto a segurava pelo braço e a levava para fora. – Tanner espera que você fique na arquibancada e não aqui atrás. – Não consigo encontrar Shawn. Os dedos dele apertaram seu braço e ele praguejou baixinho. – A apresentação de Tanner é a próxima. Venha, vamos observar daqui. Shawn sabe que tem que ficar na área. Provavelmente está do outro lado da rampa e nós o encontraremos depois. Quando Jules assentiu, ele a levou até uma cerca que fechava a arena.


– Se subir na cerca, pode ver muito bem. – Está tudo bem, posso ver daqui... – Jules? – chamou Dusty. Ela parou de se afastar da cerca e olhou para ele. – Você fica apavorada de vê-lo cavalgar? Observando a preocupação nos olhos dele, ela hesitou, depois confirmou. Ele suspirou antes de fixála com o olhar. – Isso vai parecer cruel, mas... Ela precisava ouvir o que ele tinha a dizer, embora suspeitasse que não fosse gostar. – Vá em frente, por favor. A determinação e um pedido de desculpas se uniram à preocupação nos olhos dele. – Ou se acostuma com isso ou saia da vida dele agora. As palavras dele a atingiram com força. Ela se virou para olhar para a arena, mas não viu nada através da neblina das lágrimas. Ele estava certo, cada vez que via Tanner cavalgar compreendia que não podia continuar a se enganar. Ou aceitava quem ele era ou voltava para a vida que tinha antes de conhecê-lo. Tanner foi anunciado e ela segurou as lágrimas, acenando para Dusty. Ele lhe segurou o ombro com uma das mãos. – Se precisar de alguém para conversar, Jules, conte comigo, talvez possa ajudar. Minha esposa... – Ele parou e sorriu. – Minha ex-esposa se sentia da mesma forma em relação a mim e não quero ver nada disso acontecendo com Tanner ou com você. Diante deles, o portão se abriu e a exibição de Tanner começou. Jules sabia que Tanner lhe dera o poder de feri-lo, vira isso nos olhos dele. E era a última coisa que queria fazer, mas não sabia como evitar. Não importava o que fizesse, corria o risco de magoá-lo.


CAPÍTULO 7

TANNER VENCERA em Dodge City e a alegria que sentira não se comparava à de ter a companhia de Jules. Desde então, passara a semana nas nuvens. Jules voltara para Wichita e ele estava agora em Ponca City, competindo de novo. Sentia-se solitário, o que era estranho, já que nunca se sentira assim antes. Na verdade, era o oposto, nunca tivera problemas em se afastar do rancho e agora não sabia como lidar com essa nova sensação. Estava procurando alguma coisa em sua mala de equipamentos e não encontrava. – Maldição – resmungou enquanto procurava. – Perdeu alguma coisa? Franzindo o cenho, olhou para Rowdy, que se aproximava, jogando a caixa de resina. Tanner se ergueu e a pegou. – Encontrei-a na picape – disse Rowdy. Tanner resmungou, agradecendo. Pegou a mala e se virou para se afastar. – Sabe – disse Rowdy atrás dele –, você foi realmente bem a noite passada. Mas, se não parar de pensar naquela mulher, não conseguirá nem montar esta noite. Tanner parou e se virou, olhando o capataz. – O nome dela é Jules e ela não tem nada a ver com isso. – Não precisa me dizer que ela não tem relação com seu mau humor. – Todo mundo tem um dia ruim – respondeu Tanner, tentando se afastar de novo. Rowdy pegou-lhe pelo braço. – Não pode ter um dia ruim quando pretende montar um cavalo chucro e sabe disso. Quando vai começar a agir do modo certo? Tanner começou a se afastar, mas pensou melhor. Vira seu pai se destruir lentamente por causa de uma mulher e não queria passar por aquilo. Uma boa apresentação não dependia de Jules estar lá ou não. Precisava manter seus sentimentos por ela longe da arena. – Está certo. Viu o sorriso satisfeito de Rowdy. – Encontro você mais tarde no hotel – disse Rowdy, afastando-se.


O sol quente de agosto não melhorou o humor de Tanner quando ele pegou a picape para voltar para o hotel. Não dormira bem na noite anterior e lembranças das oscilações de desempenho do pai o atormentavam. Brody O’Brien frequentara os circuitos em busca da esposa, Sally, que o deixara com dois filhos pequenos. Jamais a encontrara. A pata de um touro partiu sua cabeça, dando fim à sua busca e à sua vida. Brody tivera o talento para ser um dos melhores peões de touros do país, mas, por causa de Sally, desperdiçara-o em pequenos rodeios. Seu sonho de ir para as Finais Nacionais fora substituído pela obsessão de encontrar a mulher. Tanner não era um idiota, não faria a mesma coisa. Aprendera cedo que o amor pode destruir um homem. Amava a família, mas não acreditava em nenhum outro tipo de amor. Sabia, tentara uma vez e se magoara. Rowdy não precisava se preocupar. O que sentia por Jules não era amor, era... bem, era... Apenas que gostava da companhia dela e, droga, sentia sua falta. Tanner deu partida no carro e saiu em alta velocidade. Deixara Shawn no hotel e Rowdy estava passando a tarde com velhos amigos. Diminuiu a velocidade antes de entrar na estrada, olhou à direita, então à esquerda... e parou. O carro que entrava no estacionamento parou ao lado do dele e Tanner esperou que Jules abrisse a janela. Os olhos estavam escondidos atrás de óculos de sol e o sorriso era cauteloso. – Oi, Tanner. – Boa tarde, benzinho. Saiu para um passeio? Jules sorriu. – Eu, hã, pensei em vir assistir às finais. Estava contente em vê-la, mas, na última vez em que se falaram, quando ele a levara de volta a Wichita na semana anterior, ela lhe dissera que não poderia vir. E agora estava aqui. – Para alguém que não gosta de rodeios, é uma surpresa. – Quando o sorriso dela desapareceu, ele acrescentou, depressa: – Não que não esteja feliz de vê-la. Estou voltando para o hotel, para nadar, ver Shawn e descansar. Basta me seguir. Jules sorriu, acenou e fez uma volta no estacionamento para ficar atrás dele. Tanner pegou a estrada, olhando pelo espelho retrovisor para ver se ela o seguia, e se dirigiu para o hotel. Quando chegaram, Jules parou ao lado da picape e ele esperou que ela descesse do carro. Quando não desceu, ele pôs o chapéu na cabeça, saiu da picape e andou até o carro dela, debruçando-se na janela. – Estou contente por você ter vindo. – Não tinha certeza de que era uma boa ideia. Surpreender uma pessoa assim nem sempre dá certo. Incomodado com os óculos que não lhe permitiam ver os olhos dela, Tanner estendeu um dedo e abaixou-os, percebendo incerteza naquelas profundezas verdes. Abriu a porta e a ajudou a sair do carro. – Você não precisa se preocupar com isso. O sorriso substituiu a incerteza. – Preciso conseguir um quarto. Espero que haja um. – Se não houver, damos um jeito. – Achou melhor não dizer a ela qual era sua ideia. E não seria um bom exemplo para o sobrinho. – Posso lhe ceder meu quarto e dormir com Rowdy e Shawn.


– Não o deixarei fazer isso. Posso me hospedar em outro lugar, se for preciso. Não quero que minha presença faça diferença. – Faz diferença para mim. Dessa vez, o sorriso dela foi caloroso. – Não quero que faça diferença na forma como cavalga. Se for obrigado a dividir um quarto com Rowdy e Shawn... – Você se preocupa demais e não gosto disso. – Já há diferenças demais entre nós. – Há vantagens e desvantagens em diferenças e você não prejudicou minha apresentação na semana passada. Assim, tudo o que sei é que sua presença é boa para mim. – Como dizem, todas as coisas boas chegam ao fim, em algum momento. Só de ouvir falar na possibilidade de perdê-la, Tanner sentiu-se mal. Aproximou-se dela, pôs um dedo sob seu queixo e levantou a cabeça dela, obrigando-a a olhar para ele. – Talvez sim, talvez não. Senti saudades de você, benzinho. São... o que, seis dias, desde Dodge City? – Cinco, mas quem está contando? – Quando a soltou, ela olhou em direção à piscina. – Aquele lá é Shawn? Tanner riu e olhou para o sobrinho. – É, ele adora piscinas. – Bem, melhor eu ir arranjar o quarto. – Quer que eu vá com você? – Sou crescidinha, Tanner, posso alugar meu quarto. Quanto tempo falta para sua apresentação? – Algumas horas. – Foi até a picape e pegou a mala. – Quanto tempo vai ficar? – Todo o fim de semana. Cancelei alguns compromissos para ficar com o dia livre. – Talvez deva fazer isso com mais frequência. – Talvez. E talvez você deva aproveitar a piscina enquanto alugo o quarto. – Acho que vou. Ela o deixou com um sorriso que lhe deu esperanças. Não para algo permanente, mas estava disposto a viver o momento. Estava na piscina quando ela voltou. – Tudo certo, e você não precisa abrir mão do seu quarto. Ele saiu da piscina e pegou uma toalha. – Vou ajudá-la com as malas. – Não precisa, viajo com pouca bagagem. Shawn fora para o quarto e estavam sozinhos, então ele a enlaçou pela cintura e puxou-a para si. – Mulher inteligente. – Você está todo molhado – disse ela, brincando. – E tenho que me arrumar, vou me apresentar daqui a pouco. – Acho que vou para o rodeio enquanto você se veste. – É, acho que é uma boa ideia. Não queria que ela fosse, mas, se ficasse, talvez não chegasse a tempo de se apresentar. Tinha a impressão de que seria sua melhor cavalgada da temporada e sorriu, pensando em Rowdy.


EM VEZ de procurar logo um lugar na arquibancada, Jules passeou pela área em torno da arena. Mas não se aproximou dos cavalos, ficou perto do estacionamento, para esperar a chegada de Tanner e Shawn. Só então iria para as arquibancadas. Suportara bem o rodeio em Dodge City, apesar da constante ansiedade que tentou ignorar. Tudo piorava quando Tanner entrava na arena. Depois de seu acidente, e sabendo como uma queda podia ferir, não conseguia se impedir de se preocupar com ele. Logo viu a picape de Tanner entrando no estacionamento e foi na direção do carro, enquanto ele parava e Shawn descia. – Shawn! Os três olharam na direção de Jules. Tanner acenou e Shawn correu para se encontrar com ela. – Estamos atrasados, vamos encontrar um lugar para sentar. Rowdy vai ficar com tio Tanner. – Então vamos. Não demoraram a encontrar dois bons lugares. Observaram dois cowboys se apresentarem, enquanto Shawn contava a Jules o que fizera durante a semana. – Agora é tio Tanner. – Estou com os dedos cruzados. Quando o nome de Tanner e suas vitórias em exibições anteriores foram anunciados, a ansiedade cresceu. Aqui vamos de novo, pensou. Mas era para isso que ele vivia e não podia lhe negar o que amava. Apenas rezou para ele vencer e ficar no lombo do cavalo por oito segundos. Quando o portão se abriu, o barulho da multidão aumentou, e ela direcionou a atenção para a arena. Não importava o que sentia, assistiria à exibição de Tanner até o fim, até ele estar seguro fora da arena. O cavalo pulava e girava sob ele, mas Tanner manteve-se firme, o braço levantado na postura tradicional. Virando de um lado para outro, o animal estava determinado a se livrar do peso nas costas, mas Tanner permaneceu inabalável. – Ele está ótimo! – gritou Shawn ao lado de Jules. A apresentação estava quase no fim quando o cavalo girou de forma súbita e inesperada. – Maldição – disse Shawn. – O que foi? – perguntou Jules. – Viu como o cavalo se virou? Isso torna muito mais difícil para tio Tanner continuar montado. Jules segurou a respiração. Tanner escorregou para o lado e o animal virou de novo, jogando-o para a outra direção. Mas Tanner se manteve montado, tentando se endireitar. Então o som do berrante anunciou o fim da apresentação. – Quer ver o próximo? – perguntou Shawn e, pela sua expressão, Jules percebeu que ele queria. Mas ela queria apenas ver Tanner. – Acho que vou procurar Tanner, mas você fica, se quiser. Depois nos encontramos no estacionamento. Ela passou pela multidão e encontrou Tanner, em pé com os braços cruzados em cima da cerca da arena, observando o cowboy que estava em primeiro lugar. – Tanner? Ele se virou, sorrindo. – Aí está você, benzinho. Já ia procurá-la. – Queria ver como você estava. Enquanto andava em direção a ela, os pontos do último cowboy foram anunciados e o sorriso dele aumentou.


– Como agora estou em primeiro lugar, me sinto ótimo. – Abraçou-a pelos ombros. – Mas devo admitir que estou exausto. Aquele cavalo não estava para brincadeira. Estou pensando em pegar alguma coisa para comer e voltar para o hotel. – O quê? Sem celebração esta noite? – Não, benzinho. Vivo esquecendo que não sou mais tão jovem, mas um animal como aquele me faz lembrar. – Você não é velho. – Nem tão jovem como já fui. – Para dizer a verdade, também quero me deitar cedo. De trás, veio outra voz. – Concordo com isso. Jules se virou e viu Rowdy e Shawn, que os alcançaram. – O que acham de comprarmos algo para comer e voltarmos para o hotel? – perguntou Rowdy. – O rodeio ainda não acabou e você tem o dia todo amanhã. Melhor dormirmos mais um pouco. Todos concordaram e, de volta ao hotel, fizeram a refeição à beira da piscina, conversando sobre rodeios até Shawn e Rowdy se retirarem para dormir, deixando Tanner e Jules sozinhos. – É uma linda noite – disse Jules, observando o céu estrelado. Tanner tirou as botas e as meias e enrolou as pernas do jeans. – Venha, vamos pôr os pés na piscina. Julie também tirou as botas e as meias, enrolou as pernas do jeans e se sentou ao lado de Tanner, os pés na água fria. Tanner se debruçou para trás, apoiando o corpo nas mãos abertas. – Para uma dama que não gosta de rodeios, você parece que está se divertindo. Com medo de olhar para ele, Jules observou o jogo de luzes na água. – É diferente – disse ela e riu. – Talvez tenha chegado a hora de você tentar cavalgar de novo. – Não posso fazer isso ainda, Tanner – respondeu, a voz mais áspera do que pretendia. – Só queria ajudar. A voz era mais suave do que antes e ela se esforçou para relaxar. Decidiu contar seu passado a Tanner, para que ele compreendesse com o que ela estava lidando. – Há muitos anos, participei de uma competição de saltos – começou. – Tinha 12 anos de idade, minha montaria empacou na hora do salto e fui atirada sobre a cabeça dela. – Estremeceu e abraçou-se. Tanner se moveu, como se fosse tocá-la, mas não o fez. – Você se feriu? – Fiquei em coma por duas semanas, e quando despertei os ferimentos haviam afetado minhas cordas vocais e não podia falar. – Lamento, não sabia. – É claro que não – disse ela, depressa. – Eu é que lamento por... reagir tão intensamente. – Como disse, apenas quero ajudar. Sabia que ele estava sendo honesto e sincero e merecia o mesmo dela. Estendeu a mão e tomou a dele. – Você não sabe o quanto isso significa para mim. Mas há mais que preciso lhe contar. – O que é, benzinho? – perguntou, virando a mão e enlaçando os dedos nos dela. – É... acho que precisa saber que tenho medo de você se machucar.


– Acidentes acontecem – disse ele, roçando os lábios nas costas da mão de Jules. – Sou um peão experiente e conheço os riscos. Tudo o que vale a pena é arriscado. Jules sabia que ele tinha razão, mas ainda não estava preparada para assumir o risco. Perguntou-se se algum dia estaria e se isso afetaria o modo como se sentiam um pelo outro. Era o que lhe dava incentivo para criar coragem, mas era mais fácil falar do que fazer. NA TARDE seguinte, Jules estava sentada na carroceria da picape entre Dusty e Tanner no estacionamento da arena, observando Shawn laçar um novilho de madeira. Gostara imediatamente de Dusty e o considerava um amigo. As palavras dele sobre Tanner e ela lhe deram o incentivo para decidir se queria ou não acabar com o que já considerava um relacionamento com Tanner. Estava contente de ter decidido que não queria. – O rapaz tem um talento natural – disse Dusty. – Não vai demorar para ele começar a participar de rodeios. – Ele ainda não tem 15 anos – disse Tanner. – Não vai resolver nada impedindo que ele participe. Há muitos rapazes da idade dele competindo. – É jovem demais ainda. Jules viu a expressão teimosa de Tanner e se preocupou. O adolescente se ressentia da resistência do tio em deixá-lo participar de rodeios. – Tanner – disse Dusty –, Shawn não vai fugir como Tucker se você o deixar... – Acho que a decisão é minha. Tanner saiu da picape e se afastou, gritando instruções para Shawn. – Ele é tão teimoso como Rowdy, aquela mula velha – disse Dusty. À menção do nome do capataz, Jules suspirou. – Acho que Rowdy não gosta de mim. – Rowdy nem sempre sabe o que é melhor para Tanner. Ela se virou e viu Dusty estudando-a, os olhos sérios. – Se está se referindo a mim, nada ainda é definitivo. – Não se aqueles cavalos já não lhe tiverem tirado a razão. Sem saber o que ele queria dizer, Jules continuou calada, observando a cena diante dela. Tanner gritava instruções para o sobrinho, que estava de cara amarrada de novo, a alegria da noite anterior desaparecera. De repente, Shawn desmontou, jogou a corda, saiu andando e gritou: – Esqueça! – Shawnee! – gritou Tanner. O menino parou, mas não olhou para ele. – Por que não mostra Sundancer a Jules? Shawn respondeu com um breve aceno e amarrou o cavalo a um poste. – Quem é Sundancer? – perguntou Jules a Dusty. – O cavalo extra que trouxeram. Ela pulou da picape, a mão estendida para fazer com que Shawn, que se aproximava levando um cavalo, parasse. – Ah, não, não vou montar. – Não precisa, se não quiser – disse Shawn. – Apenas se acostume a ela. Tio Tanner e eu não vamos obrigá-la a montar.


Tanner desaparecera e ela pensou que mais uma vez ficara desapontado com ela. Respirando fundo, voltou-se para Shawn. – Ah, está bem. Shawn lhe estendeu as rédeas. – Por que não caminha com ela? Deixe que ela se acostume com você, não precisa montá-la. – Está bem. Jules deu um passo e, antes de perceber, um braço forte enlaçou-a, suspendeu-a e a puxou para cima de um cavalo. Ela gritou e viu Tanner atrás dela, o hálito quente acariciando-a. – Não vou deixar nada lhe acontecer, benzinho, sabe disso. O medo a deixou muda e pôde apenas acenar. Tremendo dos pés à cabeça, Jules fechou os olhos e rezou. – Passe a perna para o outro lado. – Não posso. – Jules – disse ele, paciente –, estou segurando você com força. Não vai cair. Eu teria que cair também e isso não vai acontecer. E este cavalo não vai jogar nenhum de nós no chão, prometo. Ela teve que acreditar, afinal, era o homem que montava cavalos selvagens e não caía. – Está bem. Rezando de novo, ela abriu um pouco os olhos e, devagar, moveu a perna sobre o pescoço do cavalo. Ainda trêmula, mas se sentindo triunfante, suspirou. – Segure no arção da sela, se encoste em mim e relaxe. Ela obedeceu, menos pela parte de relaxar, o que era pedir demais. Sob ela, a força do cavalo era evidente. Andaram e ela fechou os olhos de novo. Lembranças da queda lhe encheram a mente e abriu-os para espantá-las. – Tanner? – Vamos apenas andar um pouco. – Tirou o chapéu dela e o jogou para Shawn, que sorria para eles. Movendo as rédeas, ele virou o cavalo. – Você está bem? – Acho que sim. – Uma sensação de segurança começou a nascer dentro dela. – Mas você podia ter me avisado. – Não funcionaria, se avisasse. Ela sabia que ele estava certo e não discutiu. Cavalgaram lentamente em torno da área do estacionamento, conversando pouco, e Jules começou a se sentir mais à vontade. – Pronta para cavalgar sozinha? – Ainda não, mas não é tão ruim como achei que seria. Ele fez o cavalo trotar. – Se isso a incomodar, me diga. Surpreendida por não se sentir incomodada, ela riu. – É maravilhoso. Virando a cabeça para olhar para ele, suspirou. Tinha sido uma idiota por não confiar completamente neste homem. Ele comprimiu os lábios na orelha de Jules e sussurrou: – Feliz por ajudar, benzinho.


Quando voltaram para onde Shawn e Dusty estavam, começara a sentir a felicidade que cavalgar lhe dera quando criança. Podia não estar pronta ainda para cavalgar sozinha, mas dera o primeiro passo, graças a Tanner. Mesmo assim, a questão do seu medo de cavalgar não era o único obstáculo entre eles. A preocupação com ele montado em um cavalo selvagem num rodeio continuava.


CAPÍTULO 8

– SHAWN VAI para Coffeyville conosco. A voz de Tanner, dentro da casa, chegou até Jules, que esperava com Bridey na ampla varanda do rancho. Era impossível não ouvir a resposta de Rowdy. – Você está recompensando o garoto por criar problemas? – Quer ficar aqui e cuidar dele? A resposta de Rowdy foi inaudível, mas não a de Tanner, que se erguera ainda mais. – Não, ela está aqui para ir ao rodeio conosco, comigo, não para cuidar de Shawn. Ele não é problema dela, é meu. E digo que ele vai conosco. Agora tenho de cavalgar. – Então vamos falar sobre isso. – O quê? – Você sabe muito bem, o que aconteceu no último fim de semana. Houve um momento de silêncio, então Tanner disse: – Não sei. – Precisamos descobrir o que saiu errado. – Agora não. – Escute, menino... – Eu disse, agora não! E não sou seu “menino”. Mesmo sabendo que devia se afastar, Jules não conseguiu. – Não, você não é meu menino – dizia Rowdy, a voz calma e um pouco triste. – Mas você é a coisa mais próxima disso que já tive. E vamos usar aquela apresentação para aprender alguma coisa. – Mais tarde. – Você sabe o que causou aquilo, admita. – Não sei de nada, a não ser que tenho um rodeio para ir. – Foi por causa dela que você perdeu a concentração. E aquele maldito cavalo percebeu e tirou vantagem. – Não foi isso o que aconteceu, mas se quiser pensar assim, pode pensar. Lembre-se, porém, que fiquei em primeiro lugar. Passos pesados se seguiram ao silêncio e Rowdy saiu, abrindo a porta com força e resmungando.


Jules teve que pular para trás para não ser atingida pela porta. Sabia que as coisas não iam bem. Tanner lhe contara sobre a saída de Shawn tarde da noite com amigos que ele não simpatizava. – Não é incomum o que ele fez, Tanner – dissera ela. – Não se preocupe demais. Quando voltar para a escola... – Detestava dizer isso, mas ele precisava ouvir. – Talvez, se ele se envolvesse mais em rodeios, as coisas melhorassem. – Talvez – respondera Tanner –, mas talvez não. No momento, ele tem que esperar e sabe disso, mas está pressionando. Mas não era com Shawn que Jules estava preocupada agora. As palavras de Rowdy a magoaram profundamente. Por alguma razão, o homem não gostava dela e provavelmente jamais gostaria. Desejando não ter ouvido a discussão, soube que precisava fazer alguma coisa. Desde que chegara ao rancho, na noite anterior, percebera muito bem a crescente desaprovação de Rowdy e como isso aborrecera Tanner. Temia que a tensão entre os dois afetasse não apenas o relacionamento de Tanner com Rowdy, mas também o desempenho dele no rodeio. Dirigiu-se à porta e, quando pegou a maçaneta, Bridey a segurou pelo braço, fazendo-a parar. – São dois teimosos, Jules, mas depois tudo ficará bem. Shawn é responsabilidade de Tanner e ele e Rowdy têm ideias diferentes sobre criar um menino. Sempre tiveram, mas Rowdy cederá, depois de dizer o que pensa, e Tanner fará o melhor, não importa o que Rowdy diz. Jules sabia que Bridey estava tentando amenizar o que Rowdy dissera, mas não podia mais ignorar os sentimentos dele. – Obrigada, Bridey, mas sabemos que não é sobre Shawn. É de mim que Rowdy não gosta. – Não é sobre você também, e não é da conta dele. – Bridey se virou e saiu da varanda, tomando a direção que Rowdy tomara. Jules se encheu de coragem e abriu a porta. Precisava discutir isso com Tanner. Não que quisesse, mas precisava. Não podia apenas ficar parada como um ratinho amedrontado, enquanto a casa estava em tumulto por causa dela. Ao entrar na sala, viu Tanner andando em direção a ela, mas sabia que não a tinha visto na penumbra. – Tanner? Ele sorriu, mas os olhos continuaram preocupados. – Pronta para ir, benzinho? – Acho que vou ficar aqui dessa vez. Você vai com sua família e no outro fim de semana eu o acompanho. Ele olhou para ela com olhos frios, o queixo duro, os lábios uma linha fina. – Vai me abandonar? – Não, mas não quero ser motivo de problemas. Eu... ouvi o que Rowdy disse. Você não precisa da tensão que minha presença está causando. Ele estendeu o braço e segurou-a pela nuca, o outro braço em torno da cintura dela, puxando-a para si. – Ficarei muito mais tenso se você não for. – Mas Rowdy... – Rowdy que vá para o inferno – resmungou. – Ele não sabe de nada. Eu a convidei para ir conosco e não dou a mínima para o que ele pensa. Só o que me importa é o que quero e do que preciso. Discutir não adiantaria, Bridey estava certa. Os dois eram teimosos.


– Está bem, se você diz – sussurrou ela. – Ele vai ceder. – O beijo dele foi leve, mas lhe deu esperanças. Saíram para a varanda, o braço dele nos ombros dela. – Posso ir no meu carro e Bridey vai comigo, enquanto vocês, homens, vão na picape. Podemos ter uma conversa de mulheres sem aborrecer vocês. – Você o está deixando vencer, Jules. – Não é uma guerra, Tanner. Ele fechou a porta com força e trancou-a. Esperava ter razão e que Rowdy cedesse, mas não estava contando muito com isso. – VOCÊ ESTÁ mancando. Jules e Bridey esperaram os três homens depois da apresentação de Tanner aquela noite. Quando se aproximaram, Jules percebeu que Tanner se apoiava mais na perna direita. – Você está bem? – perguntou, depois que ele a beijou no rosto. – Não é nada, benzinho, apenas meus velhos joelhos. – Ele a pegou pela mão e levou-a até o carro dela. Jules percebeu quando ele se encolheu de dor ao ajudá-la a entrar. – Você está ferido – disse ela enquanto ele fechava a porta. – Talvez deva ir a um médico. – É apenas meu joelho – retrucou ele, rude. Então a impaciência no olhar foi substituída por remorso. – Bati com força no portão, foi só. Vou fazer uma compressa de gelo quando chegarmos ao hotel e amanhã estará ótimo. Shawn ajudou a tia a entrar no carro. – Não é nada grave, Jules, acontece o tempo todo. Mas acho que não vamos sair esta noite. – Estava claramente desapontado. Quando Shawn se juntou aos outros na picape, Tanner falou para ele: – Jules pode me fazer companhia enquanto vocês vão se divertir. O som de Rowdy limpando a garganta fez todos pararem. – Podemos comprar alguma coisa para vocês comerem antes de sairmos, assim você pode tirar logo o peso do joelho. – Obrigada, Rowdy – disse Jules com um sorriso. Ele respondeu apenas com um breve aceno, mas ela sentiu uma onda de alívio. Pelo menos, não exigira ficar com Tanner. Quando chegaram ao hotel, cada um foi para seu quarto. Shawn e Bridey foram no carro de Jules pegar gelo, enquanto os outros se trocavam. Jules vestiu uma camiseta e short e saiu para esperar por Tanner. Quando Tanner saiu do quarto, usava uma calça de moletom e uma camiseta sem mangas. – Este não pode ser Tanner O’Brien, campeão de montaria de cavalos chucros – ela brincou. Ele passou um braço pelos ombros de Jules e levou-a para a piscina, rindo. – A roupa pode ter mudado, benzinho, mas o homem é o mesmo. Sentaram-se em espreguiçadeiras lado a lado. Na piscina, três crianças reclamavam com a mãe, que queria que entrassem para dormir. A risada de Tanner com a teimosia das crianças fez Jules sorrir. – Aposto que você era bom com Shawn quando ele era pequeno. O riso morreu.


– Gostaria que fosse assim agora. Jules estendeu a mão e apertou a dele. – Você está indo muito bem, é a idade que é difícil. Observaram quando Shawn e Bridey chegaram com o gelo. Shawn entrou no quarto e em pouco tempo saía com uma bolsa de gelo, uma toalha e um copo de água. – Rowdy disse que a bolsa tem que ficar sempre cheia de gelo. – Deixou a bolsa e a toalha perto de Jules e estendeu o copo de água e alguns comprimidos para Tanner. – É para tomar uma aspirina a cada três horas. Mais tarde traremos uma refeição para vocês. – Traga também cerveja. Jules olhou para ele. – Cerveja e aspirina? Quando Shawn saiu, Tanner disse, sem olhar para ela. – Sei que mulheres têm essa coisa maternal, mas não preciso de mãe, benzinho. Para lhe mostrar que não tinha nada de maternal, Jules se levantou e pegou a toalha e a bolsa de gelo. – Tanner? Ele se virou e Jules jogou as duas coisas nele. A bolsa de gelo caiu bem no colo de Tanner e ele gritou enquanto a agarrava. Ela riu e ele olhou para ela, dobrando a toalha e pondo o saco de gelo sobre o joelho. Shawn voltou com duas latas. – Sua cerveja, tio Tanner, e uma soda para você, Jules. Rowdy chamou. – Venha, Shawn, antes que a comida acabe. Shawn acenou com a mão e voltou-se para Tanner. – Se precisar de alguma coisa... – Jules vai tomar conta de mim, divirtam-se. Observaram enquanto o grupo saía no carro. – Ele é um bom garoto – disse Tanner. – É claro que é. – Está sendo um verão difícil para ele. – Você fez um bom trabalho, Tanner, jamais pense o contrário. – Ele tem aquela tendência selvagem que Tucker tinha, e é por isso que ainda não estou preparado para deixá-lo participar de rodeios. Foi assim que perdemos Tucker, compreende? – Acho que sim. – Mas o que percebia é que Tanner se culpava pelo desaparecimento do irmão. – Mas não foi por alguma coisa errada que você fez. – Se não estivesse tão preocupado com meus interesses, isso não teria acontecido. Não queria mais nada a não ser participar de rodeios e ficar com Marlene. Ela sentiu um nó na garganta. É claro que houvera mulheres antes de conhecê-lo, mas ouvir um nome tornava a coisa mais real. – Marlene? – Esqueça. Se ao menos pudesse. Ela se levantou e estendeu a mão.


– Vou buscar mais gelo. Tanner lhe entregou a bolsa de gelo e ela sentiu que ele a observava. Com relutância, encontrou os olhos dele, inexpressivos. Sentiu um abalo dentro de si. – Quer que lhe traga outra cerveja? Ele recusou com um aceno de cabeça e ela se apressou a ir ao quarto. Talvez tivesse sido uma loucura ficar com ele. Não era o tipo de relacionamento que queria, com um cowboy que montava em rodeios, um esporte que jamais compreenderia. O amor fazia coisas estranhas com as pessoas. A mão parou no gelo. Amor? Ora, não amava Tanner! Mas enquanto enchia a bolsa com mãos que tremiam, sabia que estava mentindo para si mesma. Não importava o quanto fossem diferentes, sabia que o amava. Apesar do medo que sentia pelos riscos que corria, concordara em se juntar a ele e seguilo e aplaudi-lo. Apenas uma mulher apaixonada faria isso, e ela o fizera de todo o coração. Um pouco tonta com a descoberta, voltou para a piscina e viu que sua espreguiçadeira havia sido movida, ainda ao lado da de Tanner, mas agora em frente a ele. Entregou-lhe a bolsa em silêncio e se sentou, enquanto ele a colocava sobre o joelho. Debruçando-se para acomodar melhor a bolsa, o ombro dele bateu no dela e Jules foi tomada pelo calor que sempre sentia ao menor toque de Tanner. Quando ele terminou de acomodar a bolsa sobre o joelho, olhou para Jules e acariciou o rosto dela. – Queria poder olhar para você – disse ele, a palma da mão envolvendo o rosto dela. – Pena que não pudemos sair com os outros, mas preciso cuidar do joelho até amanhã. – Sabia que estava sofrendo mais do que admitiu. Sorrindo, ele pegou a mão de Jules. – Não é nada que não tenha tido antes. – Acariciou as costas da mão dela com o polegar e ela fechou os olhos, ouvindo os sons suaves da noite. – Acho que é hora de lhe falar sobre minha família – disse ele, a voz baixa e insegura. Surpresa, ela abriu os olhos e fitou-o. – Pensei que já tinha feito isso. – Não tudo, não sobre meus pais. – Só se você quiser me contar. – Minha mãe é uma índia cherokee. – Isso explica muita coisa. Ele sorriu. – Isso e o irlandês O’Brien. – O sorriso desapareceu enquanto continuava. – Minha avó Ayita ainda vive na reserva em Tahlequah. – Você a visita sempre? – Não. – Mas... – Ela e meu avô, Adahy... é chamado de Sam... tiveram uma filha. Salilah, ou Sally, como a chamavam. Tinha 17 anos e estava a caminho de se tornar uma campeã da corrida de barril. Então apareceu Brody O’Brien, irmão gêmeo de Bridey e meu pai. Já era famoso como peão de touro. – É evidente que rodeios são uma parte importante da sua história familiar – disse Jules. – Com certeza. Dizem que Sally era linda, mas era apenas uma criança, e Sam e Ayita deviam ter dito não quando Brody, que era oito anos mais velho do que ela, a pediu em casamento. Ele a adorava e, quando se casaram, usou o dinheiro que estava economizando de suas vitórias para comprar as terras


que agora são o rancho Rocking O. Então ele abandonou os rodeios para se estabelecer e Sally continuou a competir, mas um ano depois eu nasci. Quando ela fez 19 anos, fugiu para participar de rodeios, que era tudo o que queria. Era jovem demais para ser mãe. – Ah, Tanner – exclamou Jules. – Eu... – Ela partiu o coração de Ayita e Sam. Do meu pai também, que contratou um detetive particular para encontrá-la. Estava com um grupo de rodeio e o detetive a levou para casa. Para encurtar a história, Sally ficou grávida de Tucker, pai de Shawn e, depois que Sam morreu, alguns anos depois, ela partiu de novo, deixando Tucker e a mim com meu pai. Então Bridey, que ficara viúva, foi morar conosco, para ajudar meu pai a nos criar. Em seguida, ele nos deixou para procurar Sally. Jules percebeu que Tanner só chamava a mãe pelo nome. – Ele a encontrou? Ele balançou a cabeça. – Meu pai morreu num rodeio quando eu tinha 14 anos e não sei o que aconteceu a Sally. Sei que nunca voltou para a reserva, detestava aquilo lá. – Deve ter sido difícil para todo mundo. Tanner continuou como se ela não tivesse dito nada. – Já lhe disse que Tucker fugiu de casa quando tinha 15 anos. Shawn terá 15 anos dentro de três meses e talvez sabendo isso você compreenda por que me preocupo tanto com ele. – Sim, compreendo. – Tucker desapareceu e fiz tudo o que podia para encontrá-lo, gastei uma fortuna com detetives particulares. – Ficou calado um momento. – Acho que meu destino é ficar sozinho. Ela estendeu a mão e segurou o braço dele. – Você não está sozinho, Tanner. – Quando Tanner se virou para ela, Jules viu a desolação nos olhos dele. – Você pode não ter uma família tradicional, mas Bridey e Shawn são sua família. Acenando, ele pegou a mão de Jules e a segurou. – Alguém já lhe disse como você é bondosa? Ela sorriu e sentiu que precisava garantir a ele que não estava sozinho. – Você também é muito respeitado e querido por seus vizinhos e amigos, o que é muito importante, você sabe. Ele não respondeu por um momento, mas percebeu que compreendera. – Sou um homem de muita sorte, acho. – Deitando-se na espreguiçadeira, puxou-a para si. – Quando terminei a escola, viajei muito e tive bastante sucesso, mas percebi que precisava cuidar de Shawn. Rowdy pode não concordar, mas não me prejudica ficar mais perto de casa, em vez de viajar por todo o país. Não falta muito para eu me classificar para as Finais Nacionais de Rodeio em dezembro. – Então, se não fosse por Shawn... e Beth... nós talvez nunca nos conhecêssemos. – É isso aí, benzinho. Ela riu. – Lembre-me de agradecer a ele. – Farei isso – disse ele com uma risada sexy. – Shawn está indo bem, Tanner. Sei que você não percebe, mas está. – Acho que sim. Mas estou impaciente e quero tanta coisa para ele. – Tanner a puxou para o peito, os lábios a um centímetro dos dela. – E para mim também.


Ela se entregou ao beijo com todo o coração. QUANDO SAIU da arena depois de sua apresentação de sábado no rodeio de Coffeyville, em que ficou em primeiro lugar, o primeiro pensamento de Tanner foi encontrar Jules. Ao contrário de Rowdy, considerava-a seu amuleto da sorte. Encontrou-a finalmente, esperando por ele. O sorriso dela quando o viu fez seu coração disparar de felicidade. Como podia ter tanta sorte? – Vamos à comemoração esta noite? – perguntou ela, enquanto ele passava um braço em torno dela. – É isso que você quer? – O que você preferir. Virando-a nos braços para que ficasse de frente para ele, Tanner balançou a cabeça. – Não, esta noite é para o que você quiser. – Gostaria de ficar com você. Só nós dois. – Algum lugar especial? – Seu quarto ou o meu, não importa. O desejo nos olhos dele era evidente, mas não queria apressá-la. – Tem certeza? – Toda a certeza. Por um momento, ele não conseguiu respirar. Então debruçou-se e a beijou. Foi um beijo leve, haveria tempo para um beijo de verdade quando estivessem sozinhos. – Podemos ir no seu carro? Ela tirou a chave do carro da bolsa e entregou-a. – Desde que você dirija. Ele pegou a chave do carro e seguiram para o estacionamento. Tanner guardou o equipamento no porta-malas. – Temos duas horas – disse ele, abrindo a porta para ela. – Preciso voltar para a entrega dos prêmios. – Não perderia isso por nada. Tanner se sentou atrás do volante e deu partida no carro. Tomou a mão de Jules e enlaçou os dedos nos dela. Estava impaciente, mas não a apressaria. Estacionou na vaga diante de seu quarto, saiu do carro, abriu a porta para ela e ajudou-a a sair. Antes de abrir a porta do quarto, virou-se para ela. – Quer alguma coisa para beber antes? Jules riu e o som sexy lhe causou ondas de prazer. – Tanner, vai empacar agora? Foi a vez de ele rir. – De jeito nenhum, benzinho, estou apenas querendo bancar o cavalheiro. – Se me lembro bem, esta ideia foi minha. Assim, você já foi um cavalheiro. Eles entraram e logo que ele fechou a porta Jules começou a desabotoar sua camisa. Ele gemeu quando sentiu as mãos dela em seu peito nu. – Você está na minha frente, benzinho – murmurou ele enquanto tirava o casaco dela. Estremeceu quando ela o beijou no pescoço. Sentou-a na beirada da cama e tirou-lhe o chapéu, depois o dele. Então descalçou as botas e ajoelhou-se diante de Jules, para tirar as dela. Ergueu as mãos


e a despiu, revelando a pele de marfim. Estava sem sutiã. Levantou-se e a puxou para si. Jules estendeu a mão para a fivela do cinto. – Hã-hã, eu primeiro – sussurrou ele. Centímetro por centímetro, ele tirou a camisa, o olhar cravado na pele macia e lisa que seus dedos roçavam. Quanto mais devagar tirava a camisa, mais depressa seu coração batia. Ela jogou a camisa no chão, querendo tocar o que revelara, mas precisando prolongar o momento. O olhar nos seios perfeitos, desceu a ponta dos dedos até a fivela do cinto de Jules. Abriu-a, desabotoou o jeans e lentamente baixou o zíper. Ela fez o mesmo com ele, mas sem tocá-lo. Tirando o jeans dela, Tanner passou a ponta de um dedo sob a barra da calcinha de renda. Ela reagiu segurando-lhe o cós do jeans com os polegares e abaixando-o, junto com a cueca. Atirando-os para o lado, ele ficou em pé diante dela. – Está me passando à frente de novo, benzinho, temos a noite tod... – Ele perdeu o fôlego quando Jules o tocou. Recuperando o controle, tirou-lhe a calcinha, então deitou-a na cama. – Eu ia dizer que temos a noite toda – disse ele, a voz áspera. – Mas não temos. Beijou-a no rosto, no pescoço, na orelha, fazendo um lento caminho com a boca até os lábios de Jules, refazendo a trilha até tomar-lhe a boca com força, a língua penetrando-a, tocando a dela, e Jules respondeu com paixão. Estremeceu sob o corpo de Tanner e o controle dele diminuiu mais um pouco. Moveu-a para cima e colocou-a sobre os travesseiros. Tanner a queria sob ele, em torno dele, e pressionou-lhe o corpo devagar. – Jules? Você é...? Já esteve com outros homens, certo? Ela suspirou. – Foi há tanto tempo. – Abriu os olhos e as esmeraldas escuras o fitaram. Penetrou-a lentamente, os olhos presos nos dela. Movendo-se com cuidado, esperou até que o corpo de Jules o aceitasse, antes de beijá-la e se perder dentro dela. Quando a respiração de Jules acelerou, ele aumentou o ritmo até ela estremecer, apertando-o e puxando-o para a margem do abismo ao lado dela. Repetindo o nome de Jules, ele se soltou, corpo e alma, dentro dela. Depois que as batidas do coração diminuíram, abraçou-a com força, o hálito lhe acariciando a pele, e pensou que adormecera. – Não me deixe, Tanner. – Não até termos que ir para a arena – prometeu ele. Puxou-a para cima do peito e seu corpo reagiu aos beijos que ela espalhou por seu peito. – Benzinho... – Prendeu a respiração quando a boca de Jules desceu ainda mais e imaginou como viveria depois que deixasse de ser uma novidade para ela. Por quanto tempo a teria antes que o deixasse, como os outros?


CAPÍTULO 9

TANNER NÃO se deu ao trabalho de dizer a Rowdy o quanto Jules era boa para ele ao conquistar pontos suficientes em Coffeyville para se classificar para as Nacionais. Podia ver por si mesmo. Jamais cavalgara melhor. Enquanto ficasse entre os três melhores da temporada, iria para as finais em Las Vegas, em dezembro. Jamais se sentira tão bem, depois daquela noite com Jules. Deixaram Coffeyville bem cedo pela manhã e voltaram para o rancho. Jules planejara ficar até a noite e Tanner passara algumas horas cuidando do trabalho burocrático. Não a vira desde a manhã, mas sabia que saíra de casa com Shawn e prometera passar a tarde toda só com ele. Tanner foi para o estábulo esperar Jules, planejando selar a égua mais mansa e convencê-la a montar o animal. Quando estendeu a mão para pegar a sela, ouviu a voz de Jules. – Você talvez nunca o encontre, Shawn. Tanner viu-a entrar no estábulo ao lado de Shawn e, curioso, sem querer que percebessem sua presença, recuou para o fundo da baia. – Mesmo assim, tenho que tentar – respondeu Shawn, uma expressão teimosa na voz. – Sei que tio Tanner pensa que vou fugir como meu pai, mas não vou, a menos que seja a única maneira de encontrá-lo. Pensei tê-lo visto em Dodge City – continuou Shawn –, mas ele sumiu antes que me aproximasse. – Então foi por isso que não consegui encontrá-lo aquela noite – disse Jules. – Você quase me matou de medo, Shawn. Eu era responsável por você enquanto Tanner se apresentava. Fiquei quase louca quando você desapareceu. – Pensou que eu tinha fugido. – Eu não sabia, mas da próxima vez que pensar que viu seu pai, me conte, está bem? Talvez eu possa ajudar. – Quer dizer que me ajudaria? – É claro, mas não desapareça assim de novo. Tanner não sabia se sentia mágoa ou raiva. O que o sobrinho achava que podia fazer para encontrar Tucker, quando diversos detetives particulares muito caros não conseguiram? Não perdoava o irmão por nunca ter se interessado pelo filho, mas esperava que ele aparecesse para consertar as coisas.


Ouviu o leve relincho de um cavalo e o som da porta do estábulo sendo aberta, depois o barulho de patas, que lhe indicou que haviam levado um cavalo para fora. Em silêncio, saiu da baia e deixou o estábulo por uma porta lateral. Circulou a construção para chegar à porta da frente e parou. Jules estava montada num capão castanho, parecendo que nascera para aquilo. Uma das mãos segurava as rédeas, a outra repousava no quadril. Tanner se encheu de admiração pela coragem de Jules. – Maldição! Jules se assustou com o som da voz dele e puxou as rédeas. O cavalo se desviou para o lado. Tanner correu para acalmá-lo, mas Jules já o controlara com palavras suaves e uma leve palmada no pescoço. Sorriu para Tanner. – Queríamos lhe fazer uma surpresa. Ele colocou as mãos nos bolsos para se impedir de arrancá-la do cavalo e tomá-la nos braços. Jamais se sentira tão orgulhoso de uma pessoa. – Você com certeza fez isso, benzinho. O sorriso dela iluminou ainda mais o dia ensolarado. Sabia o quanto tinha medo de cavalgar, mas superara o trauma sem a ajuda dele. Não conseguiu encontrar palavras para demonstrar sua admiração. Shawn se aproximou, puxando o próprio cavalo. – Ela treinou enquanto você estava no escritório. Pegou depressa o jeito e relaxou quando eu disse que era como andar de bicicleta. A gente nunca esquece. Tanner assentiu, olhando para Jules. Sabia que estava sorrindo como um idiota, mas não conseguia se controlar. Era um milagre. – Shawn – disse ele, sem tirar os olhos dos de Jules –, você se importaria se eu levasse Jules para cavalgar comigo? – Claro que não. Ele pôs uma das mãos no quadril dela. – Espere que vou buscar um cavalo. Jamais selara um cavalo tão depressa. Antes de sair do estábulo, pegou dois cobertores num armário. Sabia exatamente para onde queria levá-la, seu recanto predileto junto a um regato. Passara muitas horas lá na infância, quando sua mãe fora embora. Depois, quando conquistara seu primeiro prêmio, celebrando-o sozinho com uma caixa de cerveja; quando o pai morreu; e depois quando Tucker fugiu. Jamais levara ninguém lá, nunca partilhou seu lugar especial, mas queria que Jules o conhecesse. – Para onde vamos? – perguntou ela, quando passaram pelo portão da pastagem. – Para um lugar especial. Cavalgaram em silêncio, lado a lado, e ele ficou ainda mais surpreso com a tranquilidade dela. O cavalo não era tão manso como o que escolheria, mas ela não tinha problemas em controlá-lo. Para alguém que ficava paralisada de medo apenas com a ideia de cavalgar, a coragem dela superava a de qualquer um que ele conhecia. – Acha que consegue me acompanhar? – perguntou ele, quando se aproximaram de uma colina. Sem nenhuma dúvida nos olhos, ela sorriu para ele. – Experimente. Ele apertou os calcanhares nos lados do cavalo e começou a trotar. Jules o acompanhou e logo chegaram ao topo da colina, onde pararam para olhar a paisagem. No pé da colina corria um riacho, ladeado por árvores baixas, as margens gramadas.


– É lindo – sussurrou ela. – É. – A atenção dele estava nela. Conhecia a paisagem de cor e não se comparava com a beleza dela. Ela se virou para ele. – Podemos descer? – É exatamente para lá que estamos indo. Começaram a descer e ele ficou um pouco para trás. Observá-la num lugar que significava tanto para ele o deixou sem fôlego. Via o corpo se mover naturalmente com o passo do cavalo. Os cabelos longos, presos numa trança frouxa, balançavam de um lado para outro e seus quadris se moviam num ritmo lento, sedutor, que o lembrava da noite passada, quando fizeram amor. Quando pararam, ele desmontou depressa e estendeu os braços para ela, que se deixou cair com toda a confiança. Tirou-a do cavalo e deixou-a em pé, enquanto estendia um dos cobertores sobre a grama debaixo de uma árvore. Puxou-a para o cobertor e lentamente começou a desabotoar a blusa dela. – Este é um lugar especial – disse ela. Sua voz chegou a ele rouca e macia, aquecendo-o. – Se já não fosse, agora seria, benzinho – murmurou ele. Fizeram amor, preguiçosamente, sob o dossel verde das folhas, o sol atravessando-o e criando luzes de diamante. A respiração deles se misturou com os sussurros da brisa do fim de verão, desaparecendo na calma do campo. Depois ele a puxou para cima dele, querendo apenas sentir seu cheiro até o sol se pôr e a escuridão envolvê-los. Mas precisavam voltar para o rancho, havia coisas a fazer e não queria ouvir as reclamações de Rowdy. – Teremos que voltar aqui com mais frequência – disse ele, a voz macia –, pelo menos até nevar. Ela riu suavemente. – Isso parece mais promissor do que prático. Podemos congelar aqui antes que caia a primeira nevada. – Daremos um jeito. Podia apenas ter esperanças, mas se as coisas corressem como sempre, ele a teria perdido muito antes da primeira nevada. E não sabia como impedir que isso acontecesse. Sabia apenas que a amava, e que ela também se importava com ele. Mas, embora ela o encontrasse todos os fins de semana para vê-lo competir, suspeitava que não compreendia sua necessidade de participar de rodeios. Sabia que sofreria muito quando a perdesse, mais do que quando perdera os pais e o irmão. E tudo o que podia fazer agora era ficar com ela pelo maior tempo possível. Ela se deitou de costas no cobertor e suspirou. – É tão bonito e calmo aqui que tudo parece possível. Ele se virou para olhá-la. – Como o quê, benzinho? – Ah, não sei, esperanças, sonhos, objetivos. – Virou-se para ele. – Você tem objetivos, não tem? Sentindo frio, ele puxou o outro cobertor e cobriu os dois. – Claro. – Pode me contar? Ele hesitou, perguntando-se se a resposta a faria se afastar dele mais depressa. Mas não abriria mão de seus sonhos por ninguém. Adiá-los, sim, caso necessário, mas não desistiria deles. – Ninguém na minha família chegou às Finais Nacionais de Rodeio.


– Este é o principal, certo? – O maior do país, apenas os melhores participam. – E você quer ser um deles. – Não acredito que vença, pelo menos não da primeira vez. Desde criança, sonhara em competir nas Finais Nacionais e agora se tornara um objetivo. Estava quase lá, tinha confiança de competir com os melhores dos melhores, e sabia que não desistiria até ter sua Fivela de Ouro. – Estou envelhecendo e não sei por quanto tempo meu corpo aguentará. Se não conseguir dessa vez, ou na próxima, saberei que chegou a hora de parar. Mas ainda não estou pronto para fazer isso. E há outras coisas também. Não vai demorar para Shawn começar a competir regularmente e quero estar lá com ele. Ela acariciou o rosto dele. – Você é um bom homem, Tanner. – E você? Quais são seus objetivos e sonhos? Seu olhar adquiriu uma expressão distante. – Quando eu era menina, queria ser uma saltadora de nível mundial. Só pensava nisso, mas tudo acabou quando tinha 12 anos. O período que passei no hospital me fez ver o mundo como realmente é. Nem todos são tão afortunados como fui e sou. Algumas das crianças estavam sempre sozinhas, ninguém as visitava, enquanto meus pais estavam lá todos os dias, aplaudindo cada pequena vitória que eu conquistava. – Cada um recebe cartas diferentes da vida. Não pode se culpar por ter recebido cartas boas – disse ele. – Eu sei, mas depois daqueles meses no hospital e durante a terapia, compreendi o que meus parentes queriam dizer quando falavam das muitas pessoas de todas as idades que não tinham as vantagens que tive. E foi aí que soube que também queria ajudar. – Então decidiu se tornar advogada. – Bem, não exatamente – disse ela, rindo. – Estava terminando o ensino médio quando tomei a decisão, depois de pesquisar muito. – Você leva tudo a sério, não leva? – A justiça é complicada e, agora que já sou parte dela, percebo que há outras maneiras, talvez melhores, de ajudar. Foi por isso que me tornei advogada de tribunal. – Você conhece o sistema judiciário, por isso tem uma vantagem. – Exatamente. – Ela sorriu e o dia ficou ainda mais bonito. – Está vendo como você é rápido? – E você pensando que eu era apenas mais um cowboy ignorante – disse ele brincando e passando uma mecha de cabelo para trás da orelha dela. Ela se inclinou e o beijou. – Jamais pensei que você fosse ignorante. Ficaram em silêncio por um momento e Tanner se lembrou de uma coisa que sua mãe costumava dizer. Busque a lua e aterrisse nas estrelas. Sabia qual era sua lua... sempre fora ganhar o campeonato nacional de montaria. Se pudesse apenas competir, uma vez, isso seria sua estrela. Repetiu as palavras para Jules e perguntou: – Qual é sua lua, benzinho?


– Isso é fácil. Ajudar crianças com problemas de uma forma bem mais significativa do que faço agora. Tenho feito outros cursos universitários, assim terei os diplomas e o conhecimento de que preciso para fazer isso. – Como seria essa forma bem maior? – Ter um lugar para eles, como um rancho, talvez, onde haveria profissionais dedicados e eles se sentissem aceitos. – Este é o sonho menos egoísta que já ouvi, benzinho. E acho que você o realizará. Cada palavra que dizia era sincera, mas isso também mostrava como seus objetivos eram diferentes. Como a noite e o dia. Tudo o que podia esperar era que encontrassem uma forma de superar as diferenças. Mas sabia que não havia garantias no que se referia ao amor. Não esperaria muito, mas também não desistiria. Olhando nas profundezas dos olhos verdes, ele falou lentamente, com cuidado, para não se arriscar demais. – Temos uma coisa especial, benzinho, especial como este lugar. Não sei para onde isso nos levará e tenho medo de perguntar. As coisas nem sempre funcionam para mim. Só tenho sucesso com o rancho e no lombo de cavalos. Ela pressionou os dedos nos lábios dele. – Você fez muito mais do que isso. Olhe para Shawn, olhe para o que fez por mim. – Não posso fazer promessas, Jules, um dia de cada vez é tudo o que posso oferecer agora. É o bastante? – Sim – sussurrou ela. No momento, era o bastante. TANNER SUBIU na plataforma de madeira do portão do Will Rogers Memorial Rodeo em Vinita, Oklahoma, na sexta-feira seguinte, pronto para fazer o melhor que sabia. Tivera a pouca sorte de tirar Copenhagen, o mais imprevisível da manada, no sorteio para a apresentação. Podia significar os melhores pontos da rodada e então ficaria em primeiro lugar. Mas também poderia ser sua queda. Sentia-se confiante e cheio de paz, depois das horas que passara com Jules em seu lugar especial, na semana anterior. Ela ficara para o jantar e, mais tarde, os dois se sentaram no balanço da varanda, o perfume dela o preenchendo, fazendo-o se lembrar de flores silvestres e do amor. Ela se recostara nele na escuridão e, se alguém achara aquilo estranho, ninguém comentara, nem mesmo Rowdy. Antes de ela viajar para casa, beijara-a com toda a promessa que havia em seu coração e que não conseguia traduzir em palavras. Em troca, sentira o amor dela lhe tocar a alma. Quando se despediram antes da exibição, ela lhe desejara sorte, como sempre. Agora, pronto para montar um dos cavalos mais difíceis da temporada, ele se obrigou a tirar a imagem dela da mente. A concentração era sua única arma. Montaria este animal até o toque do berrante. Por si mesmo, por seu pai, por Jules. Montado no cavalo chucro, deu o sinal para abrirem o portão. – SE ELE conseguir se segurar durante os oito segundos, ficará numa boa posição. – Jules se virou, viu Dusty se sentando ao lado dela e sorriu. – Ele vai se sair bem – disse a ela, a confiança do amigo evidente na voz. – Eu o vi antes de subir e havia determinação nos olhos dele.


– Estava nervoso? – Jamais o vi mais calmo. Ela acenou e manteve os olhos no portão, esperando e rezando para que tudo desse certo, para que Tanner não só vencesse, mas saísse ileso da competição. Então viu Tanner erguer o braço, acenar, e o portão se abriu. Oito segundos, oito longos segundos. Copenhagen saiu como um raio, Tanner firme sobre ele. Os oito longos segundos se passaram e então Dusty gritou. – É isso aí! O animal continuou a corcovear, mesmo depois de Tanner se soltar e pular no chão, caindo sobre as mãos e os joelhos. Um dos peões encarregados de controlar os cavalos depois da apresentação entrou na arena e estendeu a mão para Tanner e, ao mesmo tempo, tentou evitar que o cavalo o ferisse. Mas uma das patas erguidas atingiu a cabeça de Tanner e ele caiu, desmaiado. Jules abriu a boca para gritar, mas nada saiu. Dusty a segurou pelos ombros. – Eles vão tirá-lo de lá – garantiu ele. O tempo pareceu parar. Dois outros cowboys entraram na arena e pegaram os braços de Tanner, levando-o para a segurança. Dusty ajudou Jules a sair da arquibancada. – Vamos lá, doçura. Ela mal o ouviu, envolta numa névoa de escuridão e medo. Não teve consciência de andar apoiada pelo braço de Dusty, a mão na de Bridey, Shawn logo atrás. Conseguiram abrir caminho pela multidão, Dusty empurrando sem pedir licença. – Estamos quase lá, doçura. Alcançaram o grupo de pessoas que cercava Tanner e Dusty disse: – A equipe médica está cuidando dele. Está em boas mãos. Ela anuiu, sem perguntar sobre os médicos, apenas rezando que soubessem o que fazer. Então reconheceu uma figura familiar saindo do meio do grupo. – Tirem-na daqui – ordenou Rowdy, apontando para Jules. – Ora, Rowdy... – Não discuta comigo. – Rowdy agarrou o braço de Dusty e o empurrou. Bridey enrijeceu ao lado de Jules, segurando sua mão com força. – Bridey, está tudo bem, sei que está preocupada com Tanner. – Mas Jules queria gritar que tinha todo o direito de ficar com ele. Ela o amava e ele a amava. No entanto, tudo o que podia fazer era esperar e observar. Quando o grupo se dispersou, ela viu uma ambulância, as portas abertas. Sem pensar em mais nada, a não ser Tanner, Jules abriu caminho e viu dois paramédicos carregando uma padiola. Tanner estava deitado nela, pálido demais, imóvel demais, com uma bandagem ensanguentada na cabeça, um tubo preso na boca. E então eles o posicionaram na ambulância e fecharam as portas. Dusty aproximou-se e a segurou quando suas pernas amoleceram e a visão começou a escurecer. – Rowdy, leve Bridey para o hospital. – A voz de Dusty era longínqua. – Onde está Shawn? – Aqui – veio a voz do menino. – Vá com eles, eu levo Jules. A escuridão a envolveu e não viu mais nada.


O NARIZ de Jules queimava e ela virou a cabeça, afastando-se do cheiro horrível. – Vamos, Jules – dizia uma voz de homem. – Abra os olhos, doçura. Dusty. Sentiu o chão duro sob o corpo e lentamente abriu os olhos, vendo-o ajoelhado ao seu lado. – Ótimo – disse ele, sorrindo para ela, os olhos cheios de preocupação. Ajudou-a a se levantar. – Vamos, precisamos chegar ao hospital. Tanner está ferido. O pensamento a atingiu como uma bomba, a força fazendo-a cambalear. – Ah, Deus. Ajudando-a, Dusty a segurou pelos ombros e fitou-a nos olhos. – Jules, precisa se controlar, não pode se entregar agora. Não ajudará a você nem a Tanner. Ela respirou fundo e assentiu. – Mas Rowdy não me quer lá, quer que eu vá embora. – Os olhos se encheram de lágrimas à perspectiva de lutar contra o capataz para ficar ao lado de Tanner. Dusty sacudiu-a. – Está enganada, Jules, ele apenas não queria que você visse Tanner antes de o limparem. O pânico quase fez seu coração parar. – Tanner... vai ficar bem? O suspiro de Dusty aumentou seu medo. – O maldito cavalo abriu a cabeça dele. Estava inconsciente quando saíram, mas acho que estará gritando e brigando para sair do hospital em pouco tempo. O alívio a enfraqueceu. Ele a segurou mais uma vez pela cintura e começou a tirá-la de lá. Mas a energia a abandonara e só ficara o medo. Sabia que não suportaria passar por aquilo de novo.


CAPÍTULO 10

JULES ESPEROU perto da caminhonete de Dusty enquanto ele se informava sobre o endereço do hospital e logo estavam a caminho. – Vinte minutos, talvez, mas posso chegar antes – disse Dusty. – Não me importo com que velocidade dirige, apenas não seja parado pela polícia. Ele olhou para ela e riu. – Mas tenho uma advogada comigo, com certeza pode pagar minha fiança. – Eu o deixaria ser preso e iria para o hospital. E como pode brincar numa hora dessas? Tanner está a caminho do hospital com uma concussão. – Por que está pensando no pior? – Porque sei como um ferimento na cabeça pode ser perigoso. – Já tive mais concussões do que você pode contar. Escute, Jules, não é sensato pensar no pior até sabermos como ele está. Precisa ter esperança, porque sem ela... Sei que é difícil para você ver o Tanner montar e o que aconteceu hoje é o motivo. Você estava esperando que alguma coisa assim acontecesse, não estava? Ela não admitiria, então ficou calada. – Coisas assim acontecem – continuou Dusty –, portanto, não pense que é culpa sua. – Tentei ser um apoio para ele e estou tentando ser positiva, mas é muito difícil. – Sei que sim e estou contente. – Mas você disse... – É, sei o que disse, mas também vi como você tem tentado aceitar a carreira dele. – Olhou para ela. – Não conte a ninguém o que vou dizer, mas você é uma boa mulher. Tanner é meu melhor amigo e quero apenas o melhor para ele. Acho que encontrou isso com você, portanto não me desaponte. Ele sorriu para Jules, mas ela não conseguiu sorrir de volta, nem responder. – Eles vão fazer exames, se ele não tiver recuperado a consciência. Até terem os resultados, vamos nos concentrar no pensamento positivo, certo? – Certo – respondeu Jules e tentou ser positiva, mas não era fácil. Chegaram ao hospital e, na admissão à sala de emergência, souberam que Tanner permanecia estável e havia sido internado em um quarto particular. Dirigiram-se para lá, o coração de Jules acelerando a


cada passo. E se fosse culpa dela o que acontecera a Tanner? Se ele tivesse perdido a concentração por causa dela? A ansiedade crescia, ao lado do medo e das dúvidas que sempre tivera. Todas as diferenças entre eles enchiam sua mente. Não se acostumaria jamais à selvageria do esporte e não tinha certeza se podia continuar, por mais que amasse Tanner. Sua única esperança era de que ele desistisse. – Lá estão eles. A voz de Dusty interrompeu seus pensamentos e os passos deles aceleraram. O medo cresceu enquanto se aproximavam da família de Tanner, reunida na área de espera. SUA CABEÇA doía. Seu braço parecia um peso morto quando tentou erguê-lo para massagear a área pulsante. Abriu os olhos com cuidado e viu que o quarto era desconhecido e escuro. Sem mover a cabeça, tentou descobrir onde estava. No hospital. Sua última lembrança era de estar sendo ajudado a se levantar depois da apresentação, então uma dor intensa o atingiu. Sabia que ficara montado os oito segundos e que a exibição fora boa. Jules ficaria contente. Os olhos se fecharam e a escuridão desceu de novo. – COMO ELE está? – perguntou Dusty a Bridey quando se juntaram a ela e Shawn na sala de espera. Jules percebeu que Rowdy não estava e se sentiu aliviada. Já sentia culpa demais, sem ter que enfrentá-lo. – Vão fazer alguns exames. O médico disse que nos avisaria assim que tivesse os resultados – informou Bridey, estendendo a mão para Jules e fazendo-a se sentar ao lado. – Eles acham que é muito grave? – perguntou Jules. – O médico disse que é difícil saber. O fato de Tanner ainda estar inconsciente não é bom sinal, mas pode não ser nada. É por isso que vão fazer os exames. Shawn, sentado em frente, debruçou-se. – Quem sabe tudo sobre concussão é Dusty. – Todos os peões de touro sabem – disse Dusty –, mais do que peões de cavalos. Eles têm mais problemas com os ombros e as costas. – Virou-se para Shawn. – Não se esqueça disso. Jules estava consciente de que conversavam, mas não os ouvia, estava se lembrando de seu acidente. Antes que acontecesse, jamais tivera medo de montar um cavalo... qualquer cavalo. Conhecia os riscos de saltar, mas era uma boa amazona... uma excelente amazona, de acordo com seu treinador, que a pressionava cada vez mais. Dirigira-se para o salto com tranquilidade, mas havia sido pressionada por semanas e estava apenas um pouquinho nervosa. Por algum motivo, talvez o cavalo tivesse sentido que ela não estava cem por cento concentrada, e decidira não pular. Antes de perceber o que estava acontecendo, sentiu-se jogada no ar. Sabia que não havia garantias. Uma pessoa se concentrava ou não, continuava ou não. Ela decidira desistir. Seria Tanner como ela? Mesmo se estivesse bem quando voltasse a si, decidiria, como ela, que não valia a pena? Esperava que sim, que ele parasse de arriscar a vida. A espera pareceu durar uma eternidade, mas na verdade foram apenas alguns minutos. Quando ouviu passos, Jules se virou e seu coração ficou mais apertado quando viu Rowdy. – Como ele está?


– Pelo que sabemos, ainda está inconsciente – respondeu Dusty. – Estão fazendo alguns exames e estamos esperando... Quando ele parou de falar, todos se viraram. O médico se aproximava, parecendo cansado, mas quando se juntou a eles, sorriu. – Tem alguma notícia? – perguntou Bridey, segurando com força a mão de Jules. – Os resultados preliminares mostram que não houve dano permanente, o que é uma boa notícia. Há um pequeno inchaço no cérebro, mas acreditamos que se resolverá naturalmente, sem intervenção, com o tempo. O alívio de Jules foi quase doloroso. – Quanto tempo? – perguntou Bridey. – Acredito que algumas horas, talvez pela manhã já esteja tudo bem, mas pode levar mais tempo. Depende do paciente. Minha sugestão é que todos durmam um pouco e voltem amanhã pela manhã. O sr. O’Brien não corre nenhum risco. Se houver alguma mudança antes da manhã, alguém ligará para vocês, é só deixarem o nome e um número de telefone. – Vou fazer isso agora – disse Dusty, encaminhando-se para o balcão de recepção. – Se tiverem alguma dúvida – continuou o médico –, liguem para a enfermeira. Ela sabe onde me encontrar. O médico se despediu e se afastou. Dusty voltou do balcão. – Tanner está no quarto de novo, mas ainda inconsciente. – Ele é durão – disse Rowdy. – Ficará bem. Bridey deu uma pequena palmada na mão de Jules. – É claro que sim, os O’Brien são uma raça boa. Determinada a dizer o que precisava ser dito, Jules se soltou da mão de Bridey e se dirigiu ao capataz de Tanner. – Lamento, Rowdy. Ele a olhou com os olhos semicerrados. – Não há nada a lamentar, não tem relação nenhuma com você. Foi apenas uma dessas coisas que acontecem. – Mas... Ele passou um braço em torno dos ombros de Jules. – Espero que não esteja se culpando, Jules. Tanner já se feriu muitas vezes e não foi culpa de ninguém. Acho que é hora de admitir que Tanner está certo, que você é boa para ele. Nunca o vi cavalgar melhor ou ser tão feliz. Bridey se juntou a eles e disse a Jules: – Por que não vai vê-lo, Jules? A enfermeira disse que ele estava resmungando alguma coisa sobre joias. Tenho certeza de que estava chamando por você. Rowdy lhe deu uma palmada no braço. – Ele é um lutador, menina, e em pouco tempo estará dando ordens a todos nós. Entre por um minuto para vê-lo. Jules acenou e entrou no quarto de Tanner, que estava na penumbra. Havia apenas uma pequena e fraca lâmpada acesa acima da cama dele. Aproximou-se da figura deitada na cama. Os cabelos negros e o rosto bronzeado eram um contraste forte com as fronhas brancas dos travesseiros. A cor voltara ao rosto dele e parecia respirar com facilidade. Uma faixa de gaze estava enrolada na cabeça.


Sem querer perturbá-lo, colocou a mão levemente sobre a dele, que descansava sobre o cobertor. Podia ter sido pior, lembrou a si mesma, o ferimento não era tão grave como temiam. Mas sabia que podia estar morto, em vez de ferido. Os outros podiam ficar tranquilos agora, mas ela sabia que não ficaria, não até Tanner recobrar a consciência e se sentar na cama. Ou, melhor ainda, estar fora do hospital e de volta ao rancho. Passou uma noite inquieta, cheia de dúvidas. Sua única certeza era de que não conseguiria vê-lo se acidentar de novo e, se houvesse um futuro para eles, teriam que conversar sobre suas participações em rodeios. TANNER ESTAVA sentado, apoiado nos travesseiros da cama do hospital, esperando por Jules. Acordara ao amanhecer, o quarto banhado pela luz do sol, e seu primeiro pensamento tinha sido para Jules. Quando a enfermeira entrou, ele perguntara por Jules e soubera que ela e os outros haviam saído para tomar o café da manhã. Agora, sozinho, tentava distinguir os sons no corredor e, quando finalmente ouviu as vozes familiares, esperou, ansioso por ver todos eles, mas especialmente Jules. A porta se abriu e ela entrou. A respiração de Tanner parou ao vê-la. Temera que tivesse fugido, mas lá estava Jules, ao lado dele. Dobrou um dedo e chamou-a. – Vem cá, benzinho – sussurrou, rouco. – Todos estão esperando para vê-lo, mas insistiram que eu entrasse primeiro. Ela se aproximou cautelosamente e ele percebeu as olheiras, os olhos baços. Seu brilho desaparecera e parecia esgotada, mas ainda era a mulher mais bonita do mundo. – Eles podem esperar mais um pouco. – Bateu de leve na cama. – Chegue mais perto, benzinho, quero tocar você. Com a mesma cautela, Jules se sentou na beirada da cama, os olhos preocupados. – Como está sua cabeça? – Não sinto nada, agora que você está aqui. Ele acariciou a face dela com o dorso da mão, sentindo a maciez da pele. Ela sorriu, mas isso não fez desaparecer a preocupação na mente dele. – Você está bem? Ela desviou os olhos. – Só cansada, foi uma noite longa para todos nós. – Lamento, benzinho, não tive a intenção de preocupá-la. – O rosto dela estava inexpressivo. Tanner a enlaçou pela cintura e puxou-a para si. – Gostaria de um beijo. Ela pressionou a boca gentilmente na dele. Tanner sentiu uma reticência no beijo e achou que ela temia machucá-lo, então aprofundou-o. Quando finalmente a libertou, o rosto dela estava vermelho, os lábios levemente inchados e os olhos, escurecidos. Se sua cabeça não doesse tanto, ele se levantaria e iriam para algum lugar onde pudessem ficar sozinhos. – Todos estão ansiosos para vê-lo – disse ela, afastando-se da cama. Ele segurou a mão dela, sem querer que ela se afastasse. – Agora só quero você, benzinho. Jules se libertou, afastou-se e sorriu. – Eles estavam tão preocupados quanto eu, Tanner.


Então saiu antes que ele pudesse responder. A preocupação dela com a família dele apenas fez aumentar seu amor por ela. Mas, maldição! Queria ter ficado sozinho com ela apenas mais um pouco. Shawn e Bridey entraram primeiro, seguidos por Rowdy e Dusty, com Jules no fim da fila. A princípio, falaram em voz baixa, mas logo todos estavam em torno da cama, falando ao mesmo tempo. Tanner tentou entender as várias versões de sua apresentação. – Você certamente herdou o talento do seu pai – disse Rowdy quando todos se calaram. – Para ser atirado e pisoteado também, parece – respondeu Tanner secamente, passando os dedos na cabeça. – Mas tive sorte, sei agora o quanto tive sorte. – Olhou para Jules, que se mantinha afastada do grupo. Tê-la ali, saber que não fugira, apenas confirmava que encontrara o maior veio de ouro do mundo quando a conhecera. Precisava de tempo sozinho com ela, precisava lhe dizer o quanto a amava e queria um futuro com ela. Ela sorriu para ele. – Acho que vou sair e deixar vocês juntos. – Não fuja, benzinho – disse ele enquanto ela se virava para sair. – Vão me dar alta em algumas horas e iremos para casa. – Virou-se para Dusty. – Pretende ir a San José no próximo fim de semana? – Estas costelas já estão boas. Não perderia por nada, e você? – Estarei em Nebraska. – O Oregon Trail Rodeo? É bom. Pelo canto do olho, Tanner viu a expressão do rosto de Jules. Estava encostada na porta, observandoo. – Jules? – Não sabia o que estava errado. – Não pode estar falando sério sobre se apresentar no próximo fim de semana, Tanner. – É claro que estou, benzinho. Os outros se afastaram da cama e Tanner pôde vê-la melhor. O horror nos olhos dela o impressionou e, quando falou, a voz era tensa. – Você está com uma concussão e pontos na cabeça, e vai cavalgar de novo? Quase ter morrido não foi o bastante? – Você cai do cavalo e imediatamente monta de novo. O queixo dela se ergueu e as palavras eram geladas. – Você não caiu do cavalo, foi escoiceado por um cavalo. Aparentemente, os danos foram maiores do que os médicos pensaram. Ele segurou a barra do cobertor com força. Raiva e medo o tomaram e rezou para a voz não tremer. – Jules, benzinho, estou ótimo. Isso não é nada, não vai me impedir de cavalgar de novo. Não tenho escolha, o acidente pode ter me tirado pontos. – E é isso que é importante para você? Os pontos? – É o que sempre foi importante, benzinho, você sabe disso. – Era como se sua família e amigos tivessem desaparecido, tudo o que via era Jules. Precisava fazê-la compreender. – Vou para as Finais este ano. E, se não for, tentarei de novo no ano que vem, e no outro, até chegar lá. E quero você comigo. Ela balançou a cabeça devagar. – Eu... não posso, Tanner, não posso ver você cavalgar, sabendo que da próxima vez pode ser pior, você pode ser morto. – Virando-se, ela abriu a porta e fugiu do quarto.


Ninguém se moveu ou disse nada, até que Dusty o tocou no ombro. – Ela ficará bem. Os últimos dois dias foram difíceis para ela, mas voltará. Tanner olhou para o lugar onde ela estivera, sem acreditar no que acabara de acontecer. Incapaz de suportar mais, fechou os olhos para a sensação de ardor neles. – Não conte com isso.


CAPÍTULO 11

JULES EQUILIBROU uma caixa de objetos pessoais que trouxera do escritório e tentou abrir a porta do apartamento. Podia ouvir o telefone tocar, mas seus dedos estavam enrijecidos e nada dava certo. Finalmente sentiu a chave girar, abriu a porta e entrou. Deixou a caixa no chão e, fechando a porta com o quadril, ouviu a voz de Beth na secretária eletrônica. – Jules, se estiver aí, atenda o telefone. Jules correu para pegar o telefone. – Está bem – disse Beth. – Se não está aí... – Beth? Estou aqui, espere um minuto. – Soltou o telefone, tirou os sapatos e o casaco molhados e pegou de novo o aparelho. – Acabei de entrar, estou toda molhada. – Quer que ligue mais tarde? Posso esperar até você se trocar. – Não precisa, estou bem. – Já embalou tudo? Estava disposta a ter uma longa conversa, fazia semanas que não falava com a melhor amiga. – O escritório está vazio e a empresa de mudanças levou tudo para o depósito. – Você certamente esteve ocupada desde a última vez que nos falamos. – Mais ocupada do que jamais estive, mas estou adorando. Jules sabia que Beth não ligara para conversar sobre o fechamento de seu escritório de advocacia. Depois que contara a Beth pelo telefone sobre o acidente com Tanner e como fora incapaz de lidar com aquilo, sempre que se falavam Jules se recusava a tocar de novo no assunto. Deixara Tanner no hospital havia cinco semanas e, embora sentisse terrivelmente sua falta, não queria falar mais sobre ele. – Meus cursos são mais interessantes do que imaginava – continuou, mantendo a conversa distante de Tanner. – Jules... – Nem posso lhe dizer como a minha experiência como advogada tem ajudado. Estou com os casos de duas crianças e isso significa que não tenho muito tempo livre, mas... – Jules, estive no rancho ontem. Fechando os olhos, Jules se perguntou quando superaria aquela dor.


– Como estão todos? A exasperação de Beth ficou evidente em sua respiração. – Não pode nem perguntar por Tanner? Jules suspirou. Nas primeiras duas semanas depois que o deixara, esperara um telefonema ou uma visita de Tanner e se preparara para ficar firme em sua decisão. Mas ele não aparecera nem telefonara. Então entendeu que estava tudo acabado. – Como ele está? – Bem, ele pareceu um pouco estranho por algum tempo, com aquele lugar onde rasparam o cabelo dele, mas... – Beth, sabe o que quero dizer. – Agora que Beth tocara na ferida, queria saber tudo. – Para qualquer um, ele parece o velho Tanner de sempre, acho. Ele não parece estar sofrendo de nenhuma sequela do acidente. – Estou feliz – disse Jules, aliviada. Ficara doente de preocupação de que algo inesperado tivesse acontecido. Pensara mais de uma vez em problemas de visão ou perda de memória. – Não fique feliz demais – replicou Beth. – Isso é o que alguém que não o conheça bem pensaria. Mas eu o conheço e basta olhar para ele para saber como ficou afetado. Não pelo acidente, mas por você abandoná-lo. Jules combateu as lembranças, sem querer admitir o quanto sentia falta dele. – Ele vai superar – sussurrou. – Parece um menino perdido – continuou Beth. – É como se tivesse perdido a alma. Jules queria dizer a ela que ele não fora o único a perder alguma coisa, mas não queria que Beth lhe dissesse que, se estava sofrendo, a culpa era dela. – Dê-lhe tempo. Ele não entrou em contato comigo, então, está claro que não fui tão importante para ele como você acha que fui. – O desempenho dele nos rodeios piorou. Jules se sentiu culpada, mas se recusou a admitir. – Lamento. – Lamenta? – É claro que sim! – Jules soube que era a hora de ser honesta, não apenas com Beth, mas consigo mesma. – Sei que foi o meu medo que me fez deixá-lo, mas não consigo lidar com as competições de Tanner, Beth, simplesmente não consigo. – O quanto você tentou? – Conversei com um terapeuta. – Só isso? – Estou trabalhando nisso, Beth, mas, mesmo que supere, ainda há diferenças entre nós. Estou levando a minha vida, abandonei o Direito e agora vou em busca dos meus sonhos. – E Tanner não faz parte deles. – Não mais do que eu faço parte dos dele. – Ele alcançou o líder e todos acreditamos que ele vai a Las Vegas para as Finais Nacionais – disse Beth. – Só precisa de mais uma vitória. Jules teve que admitir que fora tola ao pensar que Tanner desistiria por causa de uma concussão e alguns pontos, ou por causa dela. Nascera para cavalgar. Podia tê-la amado, podia ainda amá-la, mas o rodeio era a sua vida. Como pudera imaginar que desistiria porque ela não conseguia lidar com isso?


– Jules, ele ama você – disse Beth, interrompendo os pensamentos dela. – Todos sabem disso. Não há uma forma de você suportar as competições por algum tempo? Está tão perto, e ele precisa de você. – Não, Beth, não posso. Pensei que pudesse, de verdade. Tentei. Mas quando vi aquela pata atingilo, achei que o havia perdido. E quando ele disse que planejava continuar, soube que não conseguiria passar por aquilo de novo. Por favor, compreenda. Enxugou as lágrimas com as costas da mão, enquanto ouvia o suspiro de Beth. – Eu compreendo, só queria que não tivesse que ser assim. Amo vocês dois e sinto tanto vê-los separados, quando pertencem um ao outro. – Somos diferentes demais. – É por isso que são perfeitos um para o outro. Vejo o quanto você mudou desde que o conheceu. – Sim, ele me fez mudar – admitiu Jules –, mas não posso me transformar na mulher de quem ele precisa, uma mulher que não morra um pouco a cada vez que ele sobe no lombo de um cavalo selvagem. JULES ESTAVA à janela, olhando sem ver a cinzenta tarde daquele dia de novembro. O dia fora mais do que deprimente. Perdera um caso importante na vara de família e estava arrasada. Gotas de chuva escorriam tristemente pelo vidro da janela e o fim de tarde era o espelho de sua tristeza. Mais do que isso, solidão. A palavra nem mesmo traduzia o vazio que sentia. Já haviam se passado três meses desde que deixara o quarto de hospital e a vida de Tanner, e a dor fora substituída por entorpecimento. Fechara seu escritório de advocacia para se dedicar apenas a casos de família e agora tinha de enfrentar a amargura de perder seu caso mais importante. Vivera por ele por mais de dois meses, e agora nada restava. Até mesmo seus sonhos pareciam distantes. O futuro se estendia à frente e nada via nele a não ser solidão. Suspirando, virou-se e foi para o quarto, determinada a combater a melancolia. Trocou seu terninho de tribunal por um jeans, um suéter de lã e meias também de lã. Sem sapatos, foi para a cozinha, sentindo-se quente no exterior, mas ainda gelada por dentro. As lembranças continuavam a atormentá-la, mas tentou afastá-las e decidiu fazer uma xícara de chá. Quando terminou, levou o chá para a sala de estar e deixou-o sobre a mesa de centro, pronta para mergulhar no sofá e chorar. O barulho da campainha a fez se lembrar que Beth prometera lhe fazer uma visita, para se divertirem num cinema. Não iria, não tinha vontade de sair. Abriu a porta e parou, assombrada. Diante dela estava Shawn O’Brien. Olhava para baixo, evitando o contato olho a olho. – Preciso falar com você. Ela verificou o corredor. – Você está sozinho? Ele assentiu e a encarou. – Posso entrar? – Claro que pode. – Pegou em sua mão e o puxou para dentro. Jules indicou a ele um lugar do sofá, enquanto se sentava ao lado. – Como chegou aqui? Shawn se sentou onde ela indicara e continuou a evitar olhar diretamente para ele.


– Vim dirigindo. – Você dirigiu? Sabia que a licença dele só permitia que dirigisse na companhia de um adulto. Também sabia que Tanner não lhe daria permissão para viajar sozinho para Wichita. – Alguém veio com você, Shawn? Ele balançou a cabeça, o olhar no chão. – Não, peguei a picape velha do rancho e vim. O primeiro pensamento de Jules era de que ele havia fugido. Tanner não precisava disso, não merecia. Ficou alarmada, mas não deixou que Shawn percebesse. Trabalhar com adolescentes com problemas a ensinara a ficar calma e descobrir os fatos antes de reagir. – Então ninguém sabe que você está aqui? – Não. – Shawn, você e seu tio brigaram? – Estou furioso com ele. – Hesitou, antes de lhe lançar um olhar acusador. – E com você. – Comigo? – Por que você fugiu? – perguntou ele. – Tudo estava finalmente ficando bom. Você cavalgou, como costumava fazer, e prometeu me ajudar a encontrar meu pai. E tio Tanner também estava indo bem. – Os olhos de repente brilharam, como se segurando as lágrimas. – Ele tem pontos suficientes para ir para as Finais e ficou diferente desde que a conheceu. Antes de irmos para Vinita, Bridey disse que nunca o vira tão feliz e bem-humorado. E Rowdy disse que ele nunca montou tão bem. E ele é um cara legal, você sabe. Então, não quer voltar? Incapaz de responder, ela sacudiu a cabeça. O desalento no rosto de Shawn lhe partiu o coração. – Lamento, Shawn, mas não posso. – Por que não? Jules obrigou-se a não chorar. Não queria que Shawn visse, não queria magoá-lo, como não queria magoar Tanner. Mas precisava fazê-lo compreender. – Fico apavorada, Shawn, não consigo vê-lo montar em rodeios. – Mas você viu! Você foi a todos aqueles rodeios e assistiu, ficou preocupada, mas foi! – Sim, fui. Mas quando vi aquela pata de cavalo descer com força sobre ele, eu só... – Fechou os olhos e se obrigou a continuar. – Não posso, Shawn, simplesmente não posso. – Isso é besteira. Você é uma das pessoas mais corajosas que conheço, Jules. Foi preciso muita coragem para voltar a montar, mas você conseguiu. Se pode fazer isso, pode fazer qualquer coisa. Ela se levantou e lhe deu as costas, para ele não ver as lágrimas. – Não é a mesma coisa, Shawn, e você compreenderá algum dia. Agora terá que acreditar em mim. Quando ele não respondeu, ela se virou e o viu parado lá, uma expressão teimosa no rosto. – Precisamos dizer à sua família onde você está – disse ela, pegando o telefone. – Vá em frente, mas diga a eles que talvez não volte por algum tempo. Ela soltou o aparelho. – O quê? – Não vou embora enquanto você não for comigo. – A voz tinha a teimosia que conhecia tão bem. – Não pode fazer isso. – Então fique esperando – disse ele, o olhar gelado.


Jules sabia que sua família deveria estar preocupada, então discou o número que sabia de cor e esperou que alguém atendesse. Por favor, que não seja Tanner. – Rocking O. Reconheceu a voz de Dusty e suspirou, aliviada. – É Jules. Shawn está aqui em Wichita comigo. – Graças a Deus. – Ouviu o alívio na voz dele. – Espere um pouco, Jules. Ela ouviu vozes ao fundo, nenhuma delas a de Tanner. – Melhor você mandá-lo para casa, Jules. – Vou mandar, só liguei para que vocês não se preocupassem. – Obrigado, estamos mesmo gratos. – Houve um momento de silêncio. – Volte com ele, Jules, você precisa acabar com a infelicidade de Tanner. – Ele vai superar. – Duvido muito. Acho que você não imagina o que isso fez com ele. Praticamente todo mundo de quem já gostou o abandonou. Primeiro a mãe, e não uma vez só, mas duas. O pai morreu procurando por ela, depois Tucker fugiu. Tanner não vai procurá-la, é orgulhoso demais. Assim, se está esperando que ele ligue ou vá aí... – Não espero nada, apenas que ele continue a montar até morrer também. – Se apenas você... – Não vai funcionar, Dusty – cortou-o. – Não quero vê-lo ser jogado ou pisoteado. Não posso me sentar calmamente e ver o homem que am... – interrompeu-se e respirou fundo. – Não posso ver um homem morrer ou ficar todo quebrado, simplesmente não posso. E foi você quem me disse para ir embora se não aguentasse. Devia ter vindo embora antes... bem, antes que chegasse tão longe. – Eu estava enganado, tendo como base minha experiência. Mas não é a mesma coisa, você não se parece nem um pouco com minha mulher. Quando se compromete, não deixa nada amedrontá-la. Tanner também é assim, e é por isso que não consigo compreender nada disso. Não tinha resposta, ele estava certo sobre ela. Mas, embora tivesse dado seu coração a Tanner, era melhor para os dois que se afastasse e cada um levasse a própria vida. – Lamento, Dusty. Shawn se levantou. – Você é tão teimosa quanto tio Tanner, mas jamais achei que fosse covarde. Enquanto ela absorvia o choque do insulto, ele a encarava fixamente. Estava tentando pensar em algo... qualquer coisa... que o ajudasse a compreender, pelo menos um pouco. Prendeu a respiração ao ouvir a voz de Tanner ao fundo, na linha telefônica... a voz que a atormentara por três meses. – Ele está na casa de Jules. – Ouviu Dusty dizer. – Dê-me o telefone. Jules segurou o aparelho com força. – Deixe-me falar com Shawnee, Jules. Incapaz de dizer uma palavra, ela passou o telefone para Shawn. – É Tanner. Ele pegou o aparelho, lançando-lhe um olhar de raiva.


– Tio Tanner... Eu só queria... – A determinação nos olhos dele diminuiu enquanto ouvia. – Certo, está bem, mas não quer falar com... – Temendo falar com ele, Jules recuou. – Está bem, vou me encontrar com ele na rua em dez minutos. Desligando o telefone, ele se virou para Jules. – Acho que vou embora. Um amigo de Dusty que mora aqui vai comigo, depois vai visitar a família em Oklahoma City. A expressão de derrota e desapontamento no rosto dele quase rompeu as defesas de Jules, mas ela se recusou a ceder. Parecia que todos a queriam de volta a Rocking O. Todos menos Tanner. Mas, se lhe pedisse para voltar, não poderia, não enquanto ele participasse de rodeios. – Lamento, Shawn, gostaria que as coisas fossem diferentes. Os olhos azuis estavam tristes. – Eu também. Ela apenas assentiu, incapaz de falar. Ele levou a mão ao bolso de trás da calça e tirou um envelope dobrado e amarrotado. – Encontrei isso no lixo. Jules o pegou e viu seu nome e endereço, escritos numa letra ousada, forte. Shawn beijou o rosto dela. – Vou sentir sua falta. Segurando um soluço, Jules acenou de novo, sabendo que não se apaixonara só por Tanner, amava toda a família dele. Com um sorriso triste, Shawn saiu e o som suave da porta se fechando ecoou na sala. Jules olhou a sala vazia, desejando de todo o coração que pudesse voltar para Tanner. Mas talvez ele não a quisesse mais, era muito orgulhoso. Seu olhar caiu no envelope que Shawn lhe entregara e o abriu com dedos trêmulos. Benzinho... Há uma passagem para Las Vegas esperando por você no aeroporto e uma reserva no hotel para as Finais. Por favor. Tanner. A menos de três horas de sua primeira exibição nas Finais Nacionais de Rodeio, Tanner passou pelo saguão do MGM Grand se sentindo mais deprimido do que nunca desde seu acidente. Todos tinham ficado preocupados algumas semanas antes, quando Shawn desaparecera com a picape do rancho. Pelo menos, deixara de pensar em Jules por algumas horas. Até entrar em casa e descobrir que Shawn tinha ido à casa dela. Menino idiota. Só quisera ajudar, mas era a última coisa de que Tanner precisava. Deveria falar com ela, mas não conseguira, nada do que dissesse a faria mudar de ideia. Ela não aceitava que ele continuasse a competir e ele não abriria mão de seu sonho de tentar conquistar o campeonato. Mas, de alguma forma, sem a mulher que amava, não parecia tão importante como no passado. Uma parte dele morrera quando ela o deixara no quarto do hospital. Sempre achara que sabia o que era solidão. Mas nada do que sofrera antes se parecia com a solidão que sentia agora sem Jules.


Aproximou-se do balcão de recepção para deixar uma mensagem para Rowdy e ouviu Dusty chamálo, e se juntou ao amigo. – Você parece muito sério, vamos tomar uma bebida. – Obrigado, mas não quero. Segurando-lhe o braço, Dusty levou Tanner para um dos bares do hotel. – Então me faça companhia, embora essa cara azeda não seja nada agradável. – Sendo assim, vou embora – disse Tanner, começando a se libertar da mão do amigo. Não tinha a energia para fingir que estava tudo bem. – Não, não, há alguém que quero que você encontre. Impaciente, Tanner o seguiu, pensando que uma bebida não lhe faria mal. E, depois da apresentação, passaria a noite no quarto com uma garrafa. Dusty levou-o para um canto escuro e Tanner não gostou. – Onde está a pessoa que você quer que eu encontre? – Bem ali. Na mesa do canto, Tanner viu um vulto feminino. – Não, obrigado. – Ora, vamos, cowboy, vai lhe fazer bem. – Dusty riu enquanto o empurrava para a mesa. – Há uma linda dama aqui que está louca para conhecer um verdadeiro campeão de rodeios. Tanner não queria se encontrar com mulher nenhuma, mas conhecia Dusty bem demais para tentar fugir. Quando chegaram mais perto, ele a viu e parou, incapaz de se mover. Com a cabeça baixa, a figura poderia ser irreconhecível se não fosse pelo chapéu preto com uma faixa prateada, sobre uma cabeça de longos cabelos louros e uma pele que brilhava como alabastro, mesmo no salão escuro. A boca de Tanner ficou seca e a mente vazia. Conhecia aquelas mãos também, haviam lhe acariciado o corpo, amorosa e ternamente, enquanto faziam amor. Com um empurrão de Dusty, Tanner se moveu sem perceber, os olhos presos ao chapéu com a faixa prateada. Seu coração gritava por alívio, mas ele o recusou. Enfrentaria a dor de revê-la, e talvez nem fosse ela. Perdera a conta das vezes em que pensara tê-la visto nos últimos três meses, apenas para descobrir que a mulher que via não era ela. Jules. Olhos verdes se ergueram para encontrar os dele e penetraram em sua alma, o sorriso suave daqueles lábios perfeitos para beijar abalando seu coração. Dusty deu outro empurrão em Tanner e disse: – Vou deixar vocês dois sozinhos. Tanner agarrou as costas da cadeira diante dele como se fosse um salva-vidas, incapaz de parar de olhar para ela. Mudara durante aqueles três meses. Na ocasião, parecera exausta, mas nada que se comparasse ao cansaço que via agora. Sentiu um remorso profundo ao pensar que talvez fosse por culpa dele. Se ao menos tivesse dito a ela como se sentia, como a amava. Mas jamais dissera, pensara apenas em chegar às Finais Nacionais. Mas ela estava aqui, bem diante dele, e isso significava alguma coisa. Precisava agir depressa, antes que desaparecesse de novo. Não conseguia pensar em nada, até que se lembrou da primeira vez em que haviam se visto. – Boa noite, benzinho.


Um sorriso iluminou o rosto de Jules e ela inclinou a cabeça bem de leve. – Sr. O’Brien. Ele puxou a cadeira, sentou-se e tentou falar, mas as palavras se atropelavam em sua mente. Então Jules disse: – Sinto muito. Intrigado por um pedido de desculpas que não entendia, estendeu a mão e tomou a dela, ganhando coragem com aquele toque. – Por quê? – Por tudo. Somos tão diferentes. A coragem se transformou em determinação. – É isso que nos torna especiais. Nós nos completamos. Sei o que você me deu e espero ter lhe dado alguma coisa de volta. – Tanner percebeu os músculos do pescoço de Jules se moverem e a demonstração de emoção lhe deu ainda mais coragem. – Você preencheu lugares em minha vida que nem sabia que existiam, benzinho. Quando não está perto de mim, nem consigo respirar direito. Ela o fitou com lágrimas nos olhos. – Foi demais, Tanner, não consegui mais suportar. Meu acidente e a morte de seu pai... – Não é a mesma coisa, benzinho. Meu pai era... bem, era um homem atormentado. Pensa que sou louco para entrar naquela arena se não soubesse o que fazer? – Não. – Eu é que devia lhe pedir desculpas por não explicar as coisas. Esperava que compreendesse tudo sobre rodeios. A culpa é toda minha, benzinho, pode me perdoar? – Só se você me perdoar. Deixei o medo governar minha vida, minhas decisões. Mas você me ajudou a aprender uma lição importante. – Qual foi, benzinho? – Aprendi que a cautela é uma coisa boa quando usada com sabedoria. Fugi da única pessoa que podia me fazer feliz porque era cautelosa demais e não estava preparada para correr riscos. E temia os riscos que você corria. – A vida é cheia de riscos, não importa quem você seja ou o que faz. – Agora compreendo. – Preciso de você, Jules. Vai ficar comigo? – Ela não respondeu de imediato e ele entrou em pânico. – Nada é tão importante para mim como você. Nem cavalgar, nem as Fivelas de Ouro que passei a vida desejando. Podemos ir embora agora, benzinho, e eu nunca... – Você tem um rodeio importante. – Você é mais importante. – Não, Tanner. Meu amor por você é maior do que meu medo. Não vou deixar você parar, não agora, não quando chegou tão longe. – Isso não tem importância, benzinho, você tem. – Tem importância, Tanner, para mim. – Está bem, mas você não precisa assistir, se não quiser. E precisa compreender que não vou montar para sempre. Mais um ano, talvez dois, e se não ganhar o campeonato, saberei que não era para ser. Mas tenho que tentar e quero você comigo, preciso de você. – Preciso de você também e ficarei do seu lado, assistirei a cada exibição até que não precise mais de mim.


Ele teve vontade de rir e de chorar. Mas não terminara. – Não, isso não é o bastante. Ela o olhou, assustada, e tentou tirar a mão, mas ele a segurou com força. – Terá que se casar comigo, benzinho, só assim saberei que é para sempre. – Tanner O’Brien! Isso é um pedido? Ele se levantou e tomou-a nos braços, fitando-a nos olhos. – Amo você, Jules Vandeveer. Quer se casar comigo? Os olhos dela brilhavam de amor. – Sim, benzinho.


EPÍLOGO

– OBRIGADO A todos vocês por estarem aqui hoje para homenagear o campeão das Finais Nacionais de Rodeio deste ano! A voz do prefeito Shinley reverberou pelo lotado campo de futebol de Desperation, Oklahoma, e levou a multidão a se levantar e aplaudir. – Depois de competir profissionalmente por 16 anos, chegou pela primeira vez às Finais no ano passado e voltou para casa com um quarto lugar. Este ano, voltou às Finais e conquistou a Fivela de Ouro, dando a todos nós, que o vimos pela TV ou pessoalmente, momentos inesquecíveis de emoção. Por favor, mostrem como estamos orgulhosos do filho de Desperation, Tanner O’Brien! O coração de Jules se encheu de orgulho e ela se debruçou para dizer: – Preste atenção, Wyoming, seu pai está lá com o prefeito. O pequeno embrulho nos braços dela balbuciou, indiferente ao barulho e às luzes, seus brilhantes olhos azuis fixos na mãe. Os pais de Jules aplaudiram com entusiasmo. Sheila Vandeveer se debruçou e disse à filha: – Estamos tão felizes por vocês! – Ele é um atleta excepcional e um grande homem – acrescentou o pai, Schulyer Vandeveer. Rowdy se debruçou sobre Shawn, sentado ao lado dela. – Jules, ele vai falar agora. Bridey, ao lado de Jules, estendeu a mão para o bebê. – Dê o bebê aqui, se não, vai perder tudo. Jules lhe entregou o filho de três meses e se levantou. – Estamos na primeira fila – disse ela rindo. – Você só quer uma desculpa para tomá-lo no colo. Rowdy olhou para as duas. – Silêncio, ele vai falar agora. E me dê aqui este menino. – Tomou Wyoming de Bridey, arrulhando para ele, então olhou severamente para as duas mulheres. – Juro que vocês mimam demais o menino. – Virou o bebê para a frente. – Agora, preste atenção, Wyoming, não ligue para sua mãe e tia Bridey. Rindo, Jules fixou o olhar no marido, ao lado do prefeito. Mas foi o prefeito quem falou, enquanto Tanner ficava ao lado dele, parecendo desconfortável.


– Como nunca tivemos um campeão das Finais Nacionais de Rodeio em Desperation, decidimos fazer uma coisa que nunca fizemos. – Pegou algo das mãos de um dos vereadores e continuou: – Tanner O’Brien, a cidade de Desperation, Oklahoma, gostaria de lhe dar a primeira chave da cidade. Enquanto a multidão aplaudia, Tanner aceitava a grande chave de ouro e se aproximava do microfone. A multidão se calou quando ele limpou a garganta. – Não estou acostumado a fazer discurso, fico mais à vontade no lombo de um cavalo ou cuidando do gado no Rocking O. – Sorrindo, contemplou a chave nas mãos. – Ano passado, quando fui a Las Vegas, era um cowboy solteiro, mas uma dama muito especial foi se juntar a mim lá. Este ano, fui com minha esposa e nosso filho. A multidão aplaudiu, calorosa, e Shawn sorriu para Jules. – Vamos fazer a conta, nove meses mais três meses. Parece que ele saiu de Las Vegas o ano passado com mais do que uma esposa. – Shawnee O’Brien! – retrucou Jules. – Tome cuidado, ou quando se formar, irá para a faculdade no lombo de um cavalo selvagem corcoveando. – Parece ótimo para mim. A multidão ficou quieta de novo e Tanner continuou: – Este ano, meu sonho se realizou e agora quero que o sonho de minha mulher se realize. Meu pai um dia me disse que um homem inteligente para enquanto está no auge e, como acho que sou inteligente, este foi meu último rodeio. Assombrada, Jules não conseguiu se mover. Não sabia da decisão dele e nada do que Tanner dissesse a faria mais feliz. – Obrigado a vocês todos – terminou Tanner. Com os olhos na esposa, ele caminhou até a frente da plataforma, tirou o chapéu e jogou-o em sua direção. Jules observou o chapéu voar e cair a seus pés, então se debruçou e o pegou. – Meu chapéu, benzinho. Ela olhou para o par dos olhos mais azuis que já vira. Debruçando-se, colocou o chapéu na cabeça de Tanner. Sem se importar com a multidão, passou os braços no pescoço dele e o beijou longamente. – Obrigada, Tanner. Ele a puxou para os braços, segurando-a com força. – Tudo o que quiser, benzinho. A multidão enlouqueceu, mas ela nem percebeu. Só via o homem que a abraçava. – Isso foi uma grande surpresa. – Nada mais de montar em rodeios, benzinho. Pelo menos, não para mim. Mas teremos que nos acostumar com a carreira de Shawn. Jules gemeu, mas havia um sorriso nos olhos dela. – E eu achando que minhas preocupações haviam terminado. Mas vou me acostumar. E sempre o amarei. – Isso é tudo o que importa, benzinho.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ P198t Palmer, Diana Tudo por um cowboy [recurso eletrônico] / Diana Palmer, Roxann Delaney; tradução Gracinda Vasconcelos, Celina Romeu. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: Justin; The rodeo rider Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1950-8 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. I. Delaney, Roxann. II. Vasconcelos, Gracinda. III. Romeu, Celina. IV. Título. 15-23552

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: JUSTIN Copyright © 1988 by Diana Palmer Originalmente publicado em 1988 por Silhouette Romance Título original: THE RODEO RIDER Copyright © 2009 by Roxann Farmer Originalmente publicado em 2009 por Harlequin American Romance Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380


Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Sumário Introdução

Sobre a autora

APRENDENDO A AMAR Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11

Sobre a autora

O CORAÇÃO DE UM COWBOY Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10


Capítulo 11 Epílogo

Créditos

(cowboy 01) tudo por um cowboy diana palmer, roxann delaney  
(cowboy 01) tudo por um cowboy diana palmer, roxann delaney  
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