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Negócios e Prazer The bride means business

Anne Marie Winston

Momentos Íntimos 59 NEGÓCIOS E PRAZER Sócios ou marido e mulher? Jillian Kerr não esperava ver o ex-noivo Dax Piersall nunca mais... muito menos casar-se com ele. Mas quando Dax ofereceu a ela sociedade nos negócios em troca de um casamento, tentou recusar... porém não pôde escapar do efeito produzido por aqueles olhos sedutores. Dax lembrava-se que Jillian tinha um talento natural para os negócios... e um corpo feito para o pecado, e planejou manter o coração fora do acordo. Mas a mulher vibrante e segura que estava diante dele despertava em seu espírito a vontade de ser um homem melhor. Poderia essas duas almas apaixonadas perceber que o que faltava em suas vidas era... um ao outro?

Digitalização: Akeru Revisão: Simone Chagas


Momentos Íntimos 59 - Negócios e Prazer – Anne Marie Winston

Querida leitora, O amor está no ar... e todos os pensamentos se voltam para o romance. E os romances estão comemorando vinte anos de sucesso e muito amor. Escreva e conte por que você lê os Romances Nova Cultural, há quanto tempo você lê e que tipo de história você mais gosta. E não deixe de participar do concurso "Uma História de Amor que Vale Ouro". Veja o regulamento nas páginas finais deste livro. Esperamos sua carta! Janice Florido - Editora Executiva

Copyright © 1999 by Anne Marie Rodgers Originalmente publicado em 1999 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá. Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: The bride means business Tradução: Débora da Silva Guimarães Isidoro Editor: Janice Florido Chefe de Arte: Ana Suely Dobón Paginador: Nair Fernandes da Silva EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Rua Paes Leme, 524 – 10º andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 1999 Editora Nova Cultural Ltda. Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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CAPÍTULO I

Uma gota de suor escorreu por suas costas. Jillian Kerr equilibrava-se nos saltos altos e caminhava pelo terreno irregular. O tecido fino do traje negro parecia ter se transformado em lã. O sol brilhava forte, e sob seus dedos a manga do paletó do homem que a acompanhava parecia ainda mais quente. Depois de uma semana de chuva, Baltimore tivera três dias de tempo perfeito, o clima de verão que tornara famosos os meses de setembro no meio Atlântico. O solo secara, a grama era verde e fresca, e as aves entoavam seu canto de alegria e esperança. Jillian não notava nada disso. Os túmulos vizinhos eram como cicatrizes gêmeas no gramado exuberante, e ela contornou-os para seguir até a área coberta onde seria realizado o serviço religioso. Soltou o braço do amigo, que foi reunir-se a outros amigos de lojas vizinhas à dela no fundo do quadrilátero, enquanto ela ocupava seu lugar em uma das cadeiras dobráveis reservadas para a família. Mas não havia uma família. Ela e Charles haviam crescido juntos, eram como irmãos, mas não existia um laço de sangue que os ligasse de fato como parentes. E Alma, a esposa de Charles, havia sido filha única de pais falecidos, o que significava que também não havia ninguém para pranteá-la. Jillian era a única pessoa mais próxima que restara para chorar a morte dos dois queridos amigos. Bem, não era verdade; havia um outro familiar. Enviara uma mensagem cortês e correta anunciando o triste episódio, mas sabia que ninguém responderia ao comunicado. Cautelosa, desviou-se das minas espalhadas por esse terreno da mente e concentrou-se no que o padre estava dizendo. Os olhos ardiam, e ela piscou várias vezes, jogando os cabelos louros para trás e evitando olhar para os caixões idênticos deixados sob as árvores mais próximas dos túmulos. Não ia chorar. Não chorava nunca. Repetiu as palavras para si mesma dezenas de vezes enquanto o clérigo elogiava Alma Bender Piersall e Charles Edward Piersall, empresário local, incansável voluntário da comunidade, membro ativo da igreja, generoso contribuinte para muitas causas de caridade e seu mais querido amigo de infância. Charles Edward Piersall também fora responsável pela devastadora sequência de eventos que arruinara sua única chance no amor e a transformara na mulher que era. E no entanto, embora devesse odiá-lo, as lembranças que guardava do amigo eram doces e repletas de carinho. Haviam pedalado triciclos e bicicletas juntos, jogado bola e subido em árvores. Nadaram nus no riacho quando adolescentes, até o pai dele descobrir e ameaçar castigálos com uma boa surra, criticaram os namorados um do outro e entraram de braços dados na cerimônia de formatura do colégio. Trocaram confidencias e apoio nos períodos mais sombrios de suas vidas. E apesar de não tê-lo visto com muita frequência nos últimos anos, saber que Charles estava do outro lado da cidade era uma espécie de tábua de salvação, uma âncora quando a solidão ameaçara sufocá-la. Vozes abafadas no fundo do quadrilátero coberto chamaram sua atenção e ela se

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virou, pronta para censurá-los com os olhos. Um movimento atraiu seu olhar. Era... não podia ser! Ao reconhecer a cabeça morena destacando-se do grupo, teve a impressão de que o chão se abria sob seus pés e recostou-se na cadeira, respirando fundo para recuperar o senso de realidade. Olhou para frente no mesmo instante que o irmão mais velho de Charles, Dax, ou Travers Daxon Piersall Quarto, sentou-se na cadeira a seu lado. Oh! Céus. Ele não devia estar ali. O pânico a invadiu. Quase saltou do assento antes de lembrar-se de onde estava, e então forçou os músculos a permaneceram imóveis. Fugir não era uma opção. Além do mais, disse a si mesma, não era ela quem tinha o hábito de fugir. Pensar nisso provocou uma onda de ressentimento tão intensa que teve de cerrar os punhos, lutando contra o ressentimento e a dor que haviam se transformado em puro ódio anos atrás. Não permitiria que a chegada inesperada e indesejada de Dax a afugentasse. Maldição! Se ao menos ele houvesse engordado! Ou se caminhasse com uma bengala, ou se tivesse cabelos brancos... Qualquer pequeno defeito teria servido. Não precisara de mais que um simples olhar para identificá-lo e perceber que Dax não perdera seu poder de atração. Os ombros pareciam mais largos que nunca, e a coxa relaxada tão perto da dela ainda era forte, musculosa e definida sob o tecido fino da calça. A lembrança daquela perna invadindo o espaço entre as dela e provocando um prazer intenso tentou invadir sua mente, mas ela a destruiu com determinação. Felizmente também mantivera a forma. Sabia que ainda era atraente, talvez mais que antes. O corpo era esguio, cortesia da interminável contagem de calorias, das horas que passava na academia e dos caríssimos cremes hidratantes que costumava comprar. Os cabelos estavam bem cortados, as unhas, bem feitas, e o conjunto de seda negra comprado em uma liquidação especial realçava cada curva do corpo de maneira sedutora. Se o menos Dax tivesse algumas rugas! Teria sido maravilhoso olhar para aquele homem que amara e com quem pretendera casar-se e perguntar-se o que vira nele, afinal. Em vez disso, mal podia respirar, e o coração disparava, arrastando o resto do corpo em sua alucinada viagem ao passado. A multidão começou a se movimentar e ela compreendeu que o serviço religioso chegara ao fim. O ministro afastou-se e ela se levantou para partir. Dax também ficou em pé. Quando Jillian adiantou-se com duas rosas amarelas nas mãos, um último e singelo presente para os queridos amigos, ele segurou seu braço e manteve-a a seu lado. . Fitando-o com expressão furiosa, tentou soltar-se, mas foi inútil. Pela primeira vez os olhos se encontraram, e o humor cínico que viu nos dele a encheu de ressentimento. Se Dax achava que a forçaria a fazer uma cena no funeral de Charles e Alma, estava enganado. Estava ali para prestar uma última homenagem ao seu irmão caçula... Charles. Oh, céus, Charles e Alma! Sem forças, teve de apoiar um joelho no outro para vencer a fraqueza que ameaçava derrubá-la. A razão para a presença de Dax explodiu em sua mente mais uma vez. Charles estava morto. Jazia no abandono silencioso de um caixão. Ele havia sido a única pessoa no mundo a conhecer tudo que havia para saber sobre Jillian Elizabeth Kerr, e precisava dele. Necessitava de sua amizade incondicional, do apoio que ele sempre oferecera, do ombro onde tantas vezes chorara. E Alma. A boa e doce Alma. Charles jamais imaginara amá-la, unir-se a ela havia

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sido a melhor coisa que podia ter acontecido ao amigo, aceitara o lugar de Jillian em sua vida com toda a generosidade de seu coração. O ombro de Alma também ficara úmido com suas lágrimas, embora Jillian tivesse deixado de chorar há anos. Mas aquelas lágrimas ameaçavam vencer a barreira que conseguira construir. Pressionou os lábios para impedir que tremessem, permanecendo em silêncio por alguns instantes antes de adiantar-se para depositar a oferenda sobre cada um dos esquifes. Em seguida, afastou-se para que os outros pudessem prestar suas homenagens. Os dedos de Dax queimavam sua pele através do tecido fino, e assim que teve certeza de que ninguém a observava, obrigou-o a soltá-la. — Tire as mãos de mim, Dax, a menos que queira perder os dedos. Os cabelos negros brilhavam intensamente sob o sol. Ele era a imagem do americano bem-sucedido. Dax riu ao ouvir suas palavras, e o som rouco afetou seus nervos. — É bom saber que continua encantadora como antes, favo de mel. Acabei de chegar à cidade. Não vai se atirar em meus braços e me dar as boas-vindas? — Está atrasado, Dax. Sete anos. — Gostaria de cortar a própria língua por pronunciado as palavras. Ultima coisa que queria era dar a impressão de que ainda incomodava com sua partida. Mas o antigo tratamento a abalara, fazendo com que lembranças tentassem novamente arrombar a porta com que isolara aquele capítulo sua vida.

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Os olhos negros brilharam, exibindo uma emoção que quase a fez recuar um passo. Mas não daria a ele tal satisfação. Dax olhou para os caixões sob as árvores. — Lamento por Charles. E pela esposa dele. Não cheguei a conhecê-la, mas deve ter sido uma mulher muito especial, para fazê-lo desistir de você tão depressa. Monstro! Como podia falar com tanta frieza sobre o próprio irmão? A dor se tornou mais intensa, mas tudo que ela disse foi: — Alma era realmente especial. Charles a adorava. — Aposto que ficou desconsertada. Ou ele a manteve por perto para garantir um pouco de ação quando as coisas se tornassem aborrecidas? — Bastardo! Não se atreva a tirar conclusões a respeito de minha vida! Você não imagina o que Charles e eu sentíamos um pelo outro. Oh, desculpe-me... — E mudou o tom de voz, assumindo uma falsa doçura. — Esqueci que prefere ferir a assumir compromissos. O olhar de Dax traía um ressentimento tão profundo quanto o dela. , — Jill? — A voz feminina indicava preocupação. — Algum problema? Jillian virou-se. Sua irmã Marina aproximava-se, praticamente arrastando o marido Ben pela mão. — Nenhum. Quero dizer, o único problema é que acabamos de participar do funeral de duas pessoas que eram jovens demais para partir.— Suspirou, consciente da presença de Dax às suas costas, mas tentando ignorá-lo. — Marina. Será que mudei tanto assim? Devia saber que ele não se deixaria ignorar. Dax deu um passo à frente e sorriu com carinho.

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Jillian percebeu que a irmã a encarava em busca de ajuda, o rosto delicado perturbado pela certeza de que aquele homem era alguém que devia ter reconhecido. — Marina, este é Dax Piersall, irmão de Charles. — E virou-se para o recémchegado. — Marina sofreu um acidente há alguns anos e ainda enfrenta problemas de memória. Ela esqueceu quase toda a infância. — Irmão de Charles? — Os olhos azuis de Marina se encheram de lágrimas quando ela segurou as mãos de Dax. — Não sabia que Charles tinha parentes. Sinto muito... — Não se incomode. — As palavras dele cortaram o fluxo emocionado que quase vertera dos lábios dela. — Não nos víamos há anos. Não éramos próximos. — Os olhos buscaram o rosto de Jillian e um sorriso gelado distendeu seus lábios. — Não como Charles e Jillian. — Pare com isso, Dax. Pode me atacar, se quiser, mas tente não ser um incômodo para o resto da humanidade. Houve um silêncio tenso, constrangido. Depois Dax olhou para Marina e, mais uma vez, Jillian notou a ternura em sua expressão. — Lamento que não se lembre de mim. Tivemos bons momentos juntos quando éramos crianças. — Também sinto muito. Este é meu marido, Ben Bradford. Ben, Dax Piersall, aparentemente um dos meus amigos de infância. O cunhado de Jillian apertou a mão de Dax sem sorrir. Depois recuou um passo e olhou para Jill. — Vou levar Marina para casa. Ela precisa sair deste calor e repousar. — Repousar — Marina repetiu com ironia. — O bebê vai estar chorando de fome quando chegarmos em casa, e passarei pelo menos uma hora amamentando e trocando a fralda do pequeno tirano. Oh, sim, posso imaginar que tipo de descanso terei. Ben sorriu e segurou a mão dela. — Até mais tarde — disse para a cunhada. — Também estou indo embora — ela respondeu, reconhecendo a oportunidade de escapar de Dax. Mas ele segurou sua mão antes que pudesse afastar-se, apertando os dedos com tanta força que foi difícil conter um gemido de dor. — Não pode ir embora. Ainda temos muito o que recordar. — Solte-a — Ben ordenou, dando um passo à frente com expressão agressiva. — Não se preocupe, Ben — Jill cortou apressada. — Dax e eu temos realmente alguns assuntos a discutir. — O coração havia disparado quando ele a tocara, e o corpo todo antecipava um novo contato. Podia odiá-lo, mas ele ainda tinha o poder de afetá-la fisicamente. Tentando não demonstrar o que sentia, moveu os dedos e verificou que ainda era prisioneira. Não queria tocá-lo, mas também não se deixaria intimidar. Era melhor deixar claro desde o início que era capaz de retribuir cada golpe com a mesma intensidade, decidiu com satisfação perversa. Aproximando-se, pressionou o corpo contra o dele, deslizando a mão livre por seu peito e brincando com a gravata. Embora houvesse se preparado para o momento, teve

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de fechar os olhos para esconder o impacto provocado pelo contato. Dax encarou-a por um momento, intrigado. Depois a mão soltou a dela para tocar suas costas, enlaçando-a de maneira familiar. O arrepio que a percorreu quase a fez perder os sentidos. Concentrada, forçou-se a ignorar as pequenas explosões de excitação que a abalavam, reunindo forças para coordenar as ideias e as palavras. — Entre os assuntos que precisamos discutir está a Indústria Piersall... agora que somos os maiores acionistas da companhia. Podem ir. Não desviou os olhos dos dele enquanto falava, e embora ele não revelasse o menor sinal de surpresa, notou o choque na tensão que apoderou-se dos músculos quando ela mencionou a empresa. Então Dax não sabia que Charles havia deixado para ela todas as suas ações. E como saberia, se ela mesma só tomara conhecimento da herança naquela manhã? Sentiu a hesitação da irmã. Conhecia o temperamento do cunhado, e sabia que tinha de livrar-se dele, ou em alguns minutos estaria ocupada separando uma briga violenta entre os dois homens Por isso conservou o sorriso nos lábios, esperando, até que, pelo canto do olho, viu o casal afastar-se. Só então voltou a falar. — Nunca mais faça isso. De minha parte, é como se nosso noivado jamais houvesse existido. Não vou admitir que intimide meus amigos e hostilize minha família. Dax encolheu os ombros com expressão indecifrável. — Foi divertido. — Saia da minha vida. Já fez isso antes. Não vai ser difícil lembrar onde fica a saída da cidade. — Voltarei a fazer parte de sua vida por um bom tempo, favo de mel. Portanto, é melhor ir se acostumando com minha presença. E antes que pudesse responder, ele a soltou e partiu.

Quatro horas mais tarde, os últimos amigos de Charles e Alma deixaram o salão da igreja. Jillian confortara mais gente do que podia contar, usara o equivalente a dez caixas de lenços de papel, e deixara os sapatos de salto alto sob uma mesa em algum lugar. Recebera cinco convites para beber até embriagar-se, dois para passar a noite em casa de amigos, e um para jantar com um rapaz silencioso e tímido que dissera ser amigo de Charles. A proposta mais tentadora havia sido a primeira. Deixando o trabalho de limpeza aos cuidados do comitê da igreja, dirigiu os poucos quilômetros que a separavam de casa e estacionou na garagem. Estava exausta. Abrir a porta do automóvel e caminhar até a entrada da varanda foi um esforço supremo, e a mente estava entorpecida como se houvesse sido envolvida por um casulo que a mantinha separada da realidade. Qualquer que fosse ela. A realidade saíra de férias no dia em que recebera aquele telefonema desesperado da governanta, contatada pela polícia pouco antes. Não havia ninguém para identificar os corpos de Charles e Alma, e ela tivera de aceitar a dura missão.

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Os amigos haviam morrido instantaneamente quando o carro em que viajavam fora atingido por um motorista embriagado. Nada podia ser comparado à dor de examinar os restos de duas pessoas que amara. Diante disso, ser abandonada pelo noivo tornara-se mais suportável. Procurando as chaves dentro da bolsa, subiu o primeiro degrau da varanda e suspirou. Tudo que queria era cair na cama e esquecer o mundo por dez dias, até que... — O que... — O grito escapou de sua garganta quando ela viu uma silhueta poderosa erguendo-se da cadeira de balanço. O coração disparou, e quanto reconheceu o invasor, a velocidade se tornou ainda maior. — Dax! Quer me matar de susto? — Desculpe-me. — Vá embora. Estou cansada e não me lembro de tê-lo convidado. — Eu me convidei. Temos muitas coisas a discutir. Jante comigo amanhã à noite. Virei buscá-la às sete. — Vá sonhando, garotão! — Se ao menos não tivesse de ficar tão perto dele... — Tenho planos para amanhã à noite. E minha agenda está lotada até o ano dois mil e vinte e cinco. Sendo assim... Lamento, mas não tenho tempo para você. Encontrou as chaves e virou-se de costas para ele. — O contrato de aluguel da Kid's Place termina no mês que vem. As palavras calmas e confiantes a detiveram antes que inserisse a chave na fechadura. — Vejo que fez o dever de casa. — O contrato da Sugais termina em novembro, como o da Cotton Gin's. — E o que tudo isso tem a ver comigo? — A Sugais e a Cotton Gin's eram duas lojas vizinhas às dela no shopping center local. — Por que está falando sobre contratos de aluguel? — Porque sou o novo proprietário do Downington Plaza, e posso me recusar a renovar os contratos. Era demais. Depois do dia horrível que tivera, não conseguia compreender o significado do que ouvia. Aturdida, sentou-se na cadeira de balanço quando finalmente se deu conta das implicações do que acabara de ouvir. Ele era o dono do shopping. E não renovaria o contrato de aluguel de sua loja. — Por quê? — perguntou com um fio de voz, tentando esconder a dor. — Por que está fazendo isso comigo? Já fez o bastante... — Eu fiz o bastante? — As palavras eram uma explosão vulcânica e ela se encolheu na cadeira. — E quanto ao que você fez? O que acha que senti quando descobri que estava sendo traído por minha noiva e meu único irmão? O que imagina que aconteceu em minha alma quando os surpreendi trocando declarações de amor na mesma cama em que eu havia estado horas antes? — Inclinou-se e apoiou as mãos nos braços da cadeira, encurralando-a contra o encosto. — Para azar de vocês, naquela noite voltei para casa mais cedo. Sorte minha. Pelo menos descobri quem você era antes de colocar uma aliança em seu dedo. O silêncio estalava com os remanescentes da ira. Os rostos estavam próximos, e ela esperava estar exibindo uma expressão tão hostil quanto a dele. O esforço para controlar as mãos trêmulas era tão grande, que não podia ter certeza de mais nada.

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Com um movimento brusco, Dax afastou-se da cadeira. De costas para ela, apoiou um braço na parede e encostou a cabeça nele. Apesar do medo e da fúria que fervilhavam em seu peito, parte dela queria aproximar-se e massagear os músculos tensos de seus ombros, abraçá-lo até que o último sinal de sofrimento houvesse desaparecido. Talvez fosse hora de procurar um bom psiquiatra. Injetando desprezo à voz, disse: — Vamos ver se entendi bem. Devo jantar com você amanhã, ou arruinará meu negócio e os de outras pessoas inocentes. É isso? Ele ergueu o corpo. — Exatamente. — E respirou fundo. — Estive com o advogado de minha família depois do funeral. Ele confirmou que as ações de Charles agora pertencem a você. — Havia amargura na voz dele. —Pagamento por serviços prestados? Jillian contou até dez, sentindo que devia controlar o temperamento antes que provocasse algum evento de que se arrependeria mais tarde. — Não tenho a menor ideia quanto aos motivos que levaram seu irmão a deixar para mim suas ações na companhia. Elas teriam sido de Alma, caso ela não houvesse morrido. Mais um silêncio tenso. Como se fosse imune a toda e qualquer emoção, Dax disse apenas: — Como agora é acionista da companhia, precisa saber que a Indústria Piersall vai mal. — O que quer dizer com mal? — As ações que você tem não valerão o papel em que foram impressas, caso não aconteça alguma coisa para reverter o atual panorama financeiro da empresa. — Alguma coisa... o quê? -— Não estava interessada nas ações, nem no lucro que poderia obter com elas; havia construído uma vida bastante confortável antes de recebêlas. Mas, como empresária e comerciante, a ideia de fechar uma empresa e deixar desempregadas centenas de pessoas era intolerável. E aquele era o único laço que restara entre ela e Charles; não estava preparada para abrir mão dele, apesar de Dax. Sem responder à pergunta, ele disse: — Amanhã à noite. As sete. — Determinado, tirou as chaves da mão dela e abriu a porta da casa, retirando-as da fechadura para jogá-las em seu colo. — Vá dormir. Você está horrível. Não podia ficar ali sentada engolindo todos os insultos; havia muito tempo decidira que nenhum homem levaria a melhor num confronto com ela, e não mudaria de ideia justamente agora. — Se estou horrível, deve ser pelo infortúnio de descobrir que estamos novamente na mesma cidade! Ainda estava sentada na cadeira quando as luzes do carro desapareceram além dos portões do condomínio fechado.

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CAPÍTULO II

Dax apoiou a cabeça no encosto do banco, adiando o momento de tocar a campainha da casa de Jillian e deparar-se com o gelo naqueles olhos azuis. Preparara-se bem para o encontro do dia anterior... ou pensara ter se preparado. Até tomar conhecimento da novidade. Era difícil acreditar que ela controlava vinte e três por cento das ações da companhia, ações que conferiam inclusive o direito ao voto em todas as assembleias deliberativas. Desde que recebera a mensagem curta e formal anunciando a morte de Charles, imaginara o momento do reencontro com Jillian. Ficara chocado ao ver o nome dela no cabeçalho do documento. Até então, raramente pensava em sua cidade e nas pessoas que lá deixara. Especialmente nela. Como a odiava! Levara anos para deixar de pensar nela todos os minutos do dia, e com um único pedaço de papel ela invadira novamente sua memória como jamais houvesse sido tirada de lá. Antes de embarcar no voo que o levara de volta para casa, ainda no aeroporto de Atlanta, encontrara o detetive que havia contratado para investigá-la e fora informado sobre as conclusões de sua pesquisa. E ao ler o relatório sobre os últimos sete anos de vida de Jillian Kerr, decidiu que não a deixaria escapar sem antes dar todas as respostas que buscava. Talvez, quando soubesse por que ela o aceitara, se na verdade seu escolhido era Charles, talvez então pudesse esquecer. Mais alguns telefonemas o colocaram na posição desejada, e dirigira-se ao funeral no dia anterior sentindo-se bastante satisfeito com ele mesmo e pronto para uma briga. Quando atravessara a multidão, estivera preparado para devastá-la, exatamente como ela havia feito com seu coração no passado. Mas não contara com a intensa reação do corpo e com as emoções que experimentara ao sentar-se ao lado dela. Não olhara para seu rosto de imediato, mas não havia feito diferença. Estivera tão hipnotizado pela visão das pernas longas sob a saia curta e negra, que não teria sido capaz de falar, se quisesse. As lembranças o invadiram. Havia sido como se pudesse sentir novamente o corpo esguio sob o dele, ouvir seus gemidos e vê-la contorcer-se sob suas mãos. Fora preciso uma enorme força de vontade para conter a resposta inesperada e poderosa, impedir que as mãos a buscassem e a puxassem para mais perto. E então, quando ela se levantara e a encarara pela primeira vez, fora atingido em cheio por sua aparência jovem e radiante. A mulher tinha trinta e dois anos de idade, mas ainda parecia fresca como uma flor em uma manhã de primavera. E mal parecera notá-lo. Pudera sentir sua tristeza e a determinação com que mantinha o controle. E a percepção só servira para enfurecê-lo ainda mais. Aparentemente, mantivera-se próxima de Charles durante todos aqueles anos. Duvidava que ela houvesse reagido com o mesmo desespero se fosse seu corpo que ocupasse aquele caixão. O caixão. O remorso invadiu seus pensamentos. De alguma forma, sempre

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imaginara que ele e Charles conversariam algum dia. Jamais perdoaria Jillian, mas Charles era outra história. Sempre soubera que ela podia ser sedutora e irresistível. Quando jovem, ainda inundado pelos hormônios, sentira um ciúme arrasador da ligação existente entre Jillian e seu irmão! Charles e ela eram unidos, cúmplices e amigos desde que atingiram a idade suficiente para pedalarem suas bicicletas de uma casa até a outra. Tocavam-se casualmente, com facilidade, e embora ela houvesse pertencido a Dax desde o primeiro beijo, havia um relacionamento entre Jillian e Charles que era maior que tudo, mais puro o profundo, uma relação da qual sempre havia sido excluído. A proximidade o incomodava mais do que pudera admitir, inclusive para si mesmo. Mesmo assim, gostaria de ter tido tempo para entrar em contato com Charles nos anos mais recentes, quando pensara nele com frequência crescente. Não comparecera sequer ao funeral da própria mãe, quatro anos atrás, uma decisão que ainda lamentava. E sempre tivera a intenção de procurar Charles. Considerara a hipótese dezenas de vezes, dissera a si mesmo que teria tempo suficiente para isso no dia seguinte. Mas o amanhã chegara e seu tempo havia acabado. Charles... seu irmão caçula. Morto. Teria gostado de conhecer a cunhada. Teria aprovado qualquer mulher capaz de roubá-lo ao domínio exclusivo de Jillian. Saiu do pequeno automóvel que fora deixado na casa desde a morte de sua mãe e aproximou-se da porta. Jillian a abriu no primeiro toque da campainha, como se estivesse do outro lado esperando por ele. Ótimo. Esperava que ela houvesse passado um bom tempo ali. Uma resposta indesejável o dominou quando deparou-se com o rosto angelical, e embora estivesse esperando vê-la, por um instante limitou-se a encará-la em silêncio, analisando a beleza de porcelana que um dia fora dele. Ela usava um twin set e calça de corte reto, um tipo de roupa que não combinava com seu estilo. Desde a adolescência, sempre vestira-se para excitar e seduzir. Mas os anos deviam ter mudado essa tendência. Lembrou-se da saia curta que ela usara no funeral. Do carro, vira quando ela havia atravessado a entrada do cemitério de braço dado com um homem, e tivera de conter-se para não ceder ao impulso de destruição que o invadira naquele momento. E depois, quando apresentara-se à família de Jillian, ficara chocado ao senti-la pressionando o corpo contra o dele. Sabia que o movimento havia sido tático, uma maneira de impedir que trocasse mais palavras ríspidas com seu cunhado, mas nem assim fora capaz de conter o impulso de tocá-la e saborear o momento de intimidade. Desconfiava de que as roupas conservadoras haviam sido uma escolha provocada por sua presença. Seria capaz de apostar que ela havia saído para comprá-las naquela tarde. A ideia o fez sorrir. Deu um passo à frente, mas ela se colocou no meio da passagem. — Estou pronta. A perversidade que ela provocava com seu comportamento distante surgiu novamente, impelindo-o a agir sem a cortesia característica. — Convide-me para entrar. — Não. Você me convidou para jantar. Como já estou pronta, podemos sair imediatamente. — Ah, vamos lá, favo de mel. — No dia anterior havia notado que a forma de tratamento empregada no passado, quando ainda eram apaixonados, provocava nela uma reação parecida com o eriçar de pêlos de um gato ameaçado, e por isso decidiu usá-

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la novamente. — É natural que eu queira conhecer a casa de minha ex-noiva. Afinal, se houvéssemos nos casado, eu teria passado o resto da vida atrelado ao seu gosto com relação à decoração.— Segurando-a pela cintura, empurrou-a para o lado e entrou, olhando em volta numa demonstração exagerada de interesse. Mas o corpo agia novamente como uma entidade independente, e foi preciso uma enorme força de vontade para conter o furor provocado pelo rápido contato físico. Era irritante. Conhecera dúzias... Não, centenas de mulheres lindas e sensuais ao longo dos últimos anos, e nenhuma delas fora capaz de despertar nele o desejo que o invadia quando pensava em Jillian. — Vamos acabar com isso de uma vez. Caso não saiba, amanhã é dia de trabalho, e costumo me levantar muito cedo. — Para ir abrir sua loja. — Sem pressa, atravessou a cozinha moderna e clara que parecia nunca ter sido usada. Inspecionou a sala de estar com sua mesa de vidro e metal cromado e notou que o ambiente era dominado por um quadro de... — O que é aquilo? Ela levantou as duas mãos e encolheu os ombros. — Não sei. Em alguns dias parece ser um tigre usando meias verdes, em outros, um jardim de lírios cor de laranja. Foi presente de um artista e não quis ferir seus sentimentos. — Um artista? — Exatamente. Um. Homem. Sexo masculino. Sei que é difícil de acreditar, mas continuei vivendo depois de sua partida, e tenho levado uma vida completa e satisfatória, inclusive com alguns... Pasme! Relacionamentos. Ele ignorou o sarcasmo e seguiu para a sala seguinte, provavelmente sua sala de estar. Um enorme piano ocupava um canto do aposento, e sobre ele havia uma partitura com um arranjo bastante complexo para o tema de amor de Titanic. Jillian sempre gostara de tocar. Aparentemente, pelo menos isso não mudara. Passou pelo piano e analisou a mobília moderna e arrojada composta por poltronas de couro branco, um sofá e um canapé agrupados diante da lareira. Com quem ela se sentaria naquele canapé? Racionalmente, sabia que ela não tivera razões para interromper sua vida depois do fim do noivado, mas quando pensava em Jillian com outro homem, sua porção racional desejava atirar algumas peças de sua valiosa coleção Lladro contra a parede mais próxima. Algumas fotos sobre a lareira chamaram sua atenção, e ele se aproximou. A família da irmã dela sorria para a câmera no primeiro retrato. Havia uma menina de cabelos escuros no colo de Ben Bradford, e ao lado dele Marina, grávida e radiante, era a imagem da felicidade. Um estranho sentimento o invadiu diante da cena familiar, mas ele o sufocou e passou para a foto seguinte. Nela, Marina mantinha o rosto colado ao de um homem louro e musculoso. Antes que pudesse formular a pergunta, Jillian explicou: — É seu primeiro marido. Ele morreu em um acidente. A terceira foto prendeu sua atenção, como as duas que vinham logo depois dela. O fotógrafo estivera preparado para entrar em ação, ou não teria obtido a sequência perfeita. As cenas aconteceram em uma piscina, num dia de sol forte e céu azul. Na primeira, um grandalhão vestindo apenas uma calça jeans cortada e exibindo músculos poderosos pousava atrás de Jillian, que parecia ignorar sua presença. Enquanto isso, um outro rapaz moreno e igualmente musculoso vestindo calção de banho permanecia ao

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lado dela, com um braço em torno de sua cintura. Jillian exibia o menor biquíni que já havia visto em toda sua vida, e embora a mão do sujeito estivesse apenas em sua cintura, Dax sentiu a pressão sanguínea subir. Na segunda foto, o sujeito que antes estivera atrás dela a segurava nos braços, apertando-a junto ao peito. Estavam mais próximos da piscina e ela segurava as orelhas do rapaz, a cabeça jogada para trás e a boca aberta num grito silencioso. A terceira fotografia era simplesmente perfeita, retratando o momento em que os dois caíam na água espalhando um jato que chegava bem perto da lente da câmera. Jillian estava parada atrás dele, e estendeu a mão para tocar o vidro do porta retrato, como se assim pudesse acariciar o grandalhão. — Alguém especial? — perguntou, mesmo sabendo que caíra em uma armadilha. — Sim, os dois são muito especiais. Depois de meu cunhado, Jack e Ronan são os homens que mais amo. Mesmo quando conspiram para me jogar na piscina. Dax rangeu os dentes e permaneceu imóvel, sabendo que um movimento seria suficiente para levar suas mãos àquele pescoço infiel. — Nunca pôde satisfazer-se com um só — disse. Só percebeu que o comentário aplicava-se ao passado quando a encarou. Sexo para eles sempre havia sido uma experiência intensa e primitiva, e cada encontro retratara a exuberância e a luxúria de dois jovens apaixonados. Um único episódio nunca fora suficiente para ela. Ainda podia ouvir a voz rouca incentivando-o a continuar, implorando por mais uma vez, gemendo e sussurrando quando ele finalmente cedia e voltava a acariciá-la. Olhou para os lábios de Jillian. Estavam entreabertos, exibindo as pontas dos dentes perfeitos obtidos depois de muitos anos de uso de aparelhos. Sua respiração era rápida, ofegante. Podia praticamente sentir o cheiro de sua excitação, e a ereção que o rondava desde que a vira abrir a porta finalmente aconteceu, pulsando em sua exuberância. A mão buscou a dela, os olhos se encontraram numa troca silenciosa, porém intensa. Devagar, levou os dedos delicados ao peito. Ela respirou fundo e olhou para as mãos unidas. E a fúria que o invadia sempre que pensava como ela deixara seus braços para correr para os de Charles o dominou, derrubando todas as barreiras que conseguira erguer ao longo dos anos. — Quantos homens estas mãos tocaram? — perguntou, empurrando-a como se temesse ser contaminado por alguma doença fatal. Por um instante, pensou ter visto a angústia estampada em seu rosto. Depois, como se jamais houvesse existido, a emoção desapareceu. Jogando a cabeça para trás como se quisesse ajeitar os cabelos, ela sorriu. — Dúzias. E todos eles elogiaram meu talento. Todos juraram que fui a melhor amante que tiveram. Seria capaz de matá-la. Lendo a mensagem em seus olhos, ela recuou um passo. Mas se recusou a calar. — Você pediu por isso, Dax. Além do mais, mesmo que dissesse a verdade, você me acusaria de estar mentindo. — Você é incapaz de dizer a verdade.

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Que verdade? Impelido pelo instinto de autopreservação, passou para a foto seguinte. E por um momento ficou chocado, sem fala. Era uma fotografia do rosto de Jillian. Ela segurava um bebê nos braços, um recém-nascido que parecia absolutamente satisfeito aninhado contra sua face. Jillian sorria, e a ternura em sua expressão o atingiu como uma lâmina afiada. As mãos tremiam e ele as pôs no bolso. Seria dela? Onde estaria? A visão havia provocado ondas de dor que pareciam não ter fim. Aquele devia ter sido seu filho. Mas ela não o amara o bastante para concebê-lo. Como se pudesse ler seus pensamentos, ela comentou: — Esse é o primeiro filho de minha amiga Deirdre. Atualmente ele é bem maior, muito mais esperto e agitado, mas nessa época era a criatura mais doce que ainda podia ter nos braços. Os ombros caíram como se houvessem se libertado de um peso esmagador, e com um suspiro pelo que poderia ter sido e jamais seria, Dax desistiu da inspeção e dirigiu-se à porta.

Ao ver que ele subia a encosta e estacionava na frente da casa de Charles e Alma, a casa que agora era dele, Jillian foi tomada por um súbito terror. Estivera ali pela última vez no dia seguinte à morte dos amigos, quando fora buscar as roupas com que seriam enterrados. Deus a poupasse de algum dia ter de escolher o último traje de outro ente querido. — Por que paramos aqui? Dax desligou o motor. — Vamos jantar aqui. — Espero que esteja brincando. — Pareço estar brincando? — E a encarou com expressão séria. Não poderia comer ali. De jeito nenhum. — Dax, a última vez em que estive nesta casa foi muito triste. Traumática. Se soubesse que pretendia me trazer aqui, jamais teria aceito o convite para jantar. Ele saiu do carro e o contornou para ir abrir a porta do passageiro. — Desça. Estava disposto a transformar sua vida num inferno. Não devia ter revelado que entrar na casa de Charles era algo que a perturbava; agora ele usaria a informação como uma arma para feri-la. — Desça, ou serei forçado a tirá-la daí . O tom de ameaça a fez compreender que estava falando sério. Devagar, saiu do carro e ficou em pé no meio do jardim, ignorando a mão estendida em sua direção. De cabeça erguida, caminhou até a escada da varanda e subiu os degraus com passos firmes, temendo que ele a tocasse ao perceber alguma hesitação. Dax a seguiu e estendeu o braço para abrir a porta. Ao girar a maçaneta, hesitou e

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fitou-a. Jillian desviou os olhos. Não permitiria que ele descobrisse a dor que estava sentindo. Depois de um momento, ele abriu a porta e convidou-a a precedê-lo. A sra. Bowley, a governanta que trabalhava na casa desde que os dois irmãos eram apenas garotos, surgiu na porta da cozinha e correu até o hall, limpando as mãos no avental. — Jillian! — O abraço com aroma de canela foi como uma passagem de volta no tempo. Engraçado como alguns cheiros sempre despertam lembranças. A fragrância da sra. Bowley exercia um efeito relaxante, despertando sentimentos de segurança e aconchego que havia conhecido na infância. Quando a governanta afastou-se, seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Como tem passado, meu bem? — Bem. Mas estava preocupada. Tem se alimentado corretamente? Dormido bem? A mulher ofereceu um sorriso trêmulo. — Tem sido muito difícil. As vezes me surpreendo esperando que Alma desça a escada, ou que Charles saia do escritório com o nariz enterrado no jornal. — Posso imaginar. Também não consigo me conformar. — A volta de Dax tem sido um bálsamo para o meu sofrimento. Sem falar em... — Sra. Bowley. — A voz de Dax era terna, porém firme. — Pode servir os canapés, por favor'? — Imediatamente, querido. Dax atravessou o hall e abriu a porta do escritório de Charles. Ou melhor, do escritório que agora devia ser dele. Jillian aceitou o convite silencioso e o drinque que ele ofereceu. Enquanto Dax ia buscar as bebidas, ela deixou a bolsa sobre uma cadeira e foi até a janela, olhando para o cenário familiar sem realmente vê-lo. Cruzando os braços, levou as mãos aos ombros para uma massagem rápida. Se passasse muito mais tempo em companhia de Dax, acabaria precisando de um massagista em tempo integral. A sra. Bowley entrou com a bandeja de canapés, e segundos depois Dax retornou com as bebidas. — Sente-se — convidou-a. — Quero lhe fazer algumas perguntas. — Esperou que ela se acomodasse e formulou a primeira questão sem rodeios. — O que sabe sobre a Indústria Piersall? Surpresa, ela teve de considerar por um instante. — Bem... sei que é uma empresa familiar que se dedica à manufatura de vigas de aço para a construção civil. Só isso. Se esperava contar com minha ajuda para entender as finanças da companhia, vai ter de procurar outra solução para o problema. — E não pôde deixar de acrescentar. — Charles e eu nunca falávamos sobre negócios quando estávamos juntos. — Não seja infantil. Não precisa provar nada. Já sei sobre sua imensa e eterna afeição por meu irmão. O que quero saber é se pode ou não me explicar como Charles levou a companhia para o fundo de um buraco tão grande que talvez eu não seja capaz de tirá-la de lá. — Dax, francamente, deve estar havendo algum mal-entendido. A empresa deve estar em grande forma, ou Charles não teria passado tanto tempo procurando por causas

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filantrópicas que o ajudassem a diminuir a fatia dos rendimentos levada pelo imposto de renda. Ele foi patrono de dezenas de causas em Baltimore. — É mesmo? Bem, parece que Charles exagerou na generosidade. Infelizmente, ainda vou precisar de algum tempo para ter certeza dos números. Além de generoso, Charles também foi bastante confuso em seus registros contábeis. — Ele odiava essa parte do negócio — Jillian admitiu. — Mas Charles tinha empregados que cuidavam da administração financeira. Já conversou com Roger Wingerd? — Ainda não. Quero familiarizar-me com o ambiente antes de começar a questionar o pessoal. — Dax apanhou um maço de papéis sobre a mesa. — Duvido que entenda o que está escrito aqui, mas esta é uma cópia do relatório financeiro trimestral. E as conclusões não são nada boas. — Estudei contabilidade, lembra-se? — disse, estendendo a mão para o relatório e examinando as páginas rapidamente. — Tenho um diploma, embora não exerça mais a profissão. — Alguma vez a exerceu? — Trabalhei para Arthur Andersen por quase cinco anos antes de abrir a loja com Marina. — Impressionante — ele devolveu com tom debochado. Recusando-se a responder à provocação, Jillian devolveu o relatório. — Teria de examinar esses números com calma antes de tirar uma conclusão mais concreta, mas parece que a Piersall está mesmo encrencada. — Encrencada? Se algo não for feito imediatamente, a companhia terá de declarar falência antes do final do ano. Chocada, por um minuto ela não pôde fazer nada além de encará-lo. — Meu Deus, Dax. Tem ideia de quantas pessoas perderão seus empregos se a Piersall falir? Ele se virou e apanhou outra folha de papel sobre a mesa. — Quatrocentos funcionários. — Eu não sabia... — Aparentemente, nem Charles. Esperava que você pudesse me dar alguma explicação. Jillian balançou a cabeça, mas depois arregalou os olhos com se compreendesse algo importante. — Não, Dax. O problema é que não viu meu nome na lista de empregados, e queria saber se eu havia ajudado Charles a dizimar o capital da empresa. Seu canalha! Levantando-se da cadeira, dirigiu-se à porta, mas havia esquecido que Dax podia ser muito rápido. Ele ria quando a segurou pelo braço e levou-a para a sala de jantar. — Pego por uma especialista em mentiras. O que posso dizer? — Ora, seu... — Acalme-se, favo de mel. Não me lembro de ter feito acusações. — Então deve estar com algum problema de memória.

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— De qualquer maneira, pode relaxar. Não acredito que tenha alguma participação nos problemas da companhia. — Quanta generosidade! Infelizmente, teve de verificar minha reação antes de chegar a tão magnânima conclusão. — Não importa. Preciso de sua ajuda para solucionar esses problemas. Tem havido uma pequena movimentação no valor das ações da companhia desde que Charles morreu. Sei que é uma reação normal do mercado, mas temos de estar atentos. Estive analisando as minutas das últimas reuniões do conselho e não gostei do que vi. — E naturalmente, já tem uma ideia de como realizar diversas mudanças. — Tenho. Mas duvido que o conselho de acionistas aceite minhas ideias, a menos que possa forçá-los a engoli-las através de uma derrota democrática. Preciso vencê-los pelo voto. — Quantas ações você possui, Dax? — Minha família sempre manteve cinquenta e um por cento das ações. Agora que Charles deixou a parte dele para você, eu ainda possuo vinte e oito por cento. — Então... sem meus votos, não pode contar com poder suficiente para controlar o conselho. — Exatamente. — Que interessante! — Eu não usaria essa palavra. Meu Deus, se Charles não estivesse morto, eu mesmo o mataria por ter criado essa confusão. Toda a satisfação que Jillian experimentava com a batalha verbal desapareceu. A tristeza a invadiu. Trabalhara duro para construir a própria vida depois da partida de Dax, e de repente tinha a sensação de ter recuado no tempo, como se apenas algumas horas houvessem transcorrido desde o momento em que ele a deixara. Deprimida, olhou em volta e notou que a mesa havia sido posta para três pessoas, e apesar da irritação que experimentava, ficou emocionada. Sabia que Charles e Alma costumavam fazer as refeições na cozinha com a sra. Bowley, e Dax havia sido generoso ao incluir a governanta. Tentando manter-se afastada dele, atravessou a sala e foi colocar-se ao lado da porta que dava para a varanda. Uma brisa agradável soprava do pátio de pedras. Além do gramado exuberante, a piscina refletia o céu estrelado em sua superfície plácida. A visão da piscina despertou recordações... lembranças de momentos felizes da infância, da adolescente que estava sempre tentando atrair a atenção de Dax com um biquíni novo e ousado... e memórias mais recentes e picantes, cenas que preferia manter enterradas em algum recanto obscuro da mente. Virou-se para apagar a imagem, desesperada em busca de algo que a distraísse. Dax estava atrás dela. Jillian colidiu com a parede de músculos e deixou escapar uma exclamação de espanto; as mãos agarraram seus braços para impedi-la de cair. Mas quando tentou recuar, ele a segurou junto ao peito. Aquilo era o que sempre existira entre eles. Desde a primeira vez em que ele a tomara nos braços para dançar em seu décimos sétimo aniversário. Ainda podia lembrar a expressão em seu rosto naquela noite, a surpresa que acompanhara a inconfundível reação do corpo. E lembrava com nitidez o calor que a invadira, o poderoso sentimento de poder quando os lábios cobriram os dela ali mesmo na pista de dança.

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— Você é jovem demais — ele havia resmungado. E apesar de todos os protestos, mantivera-se afastado, chegando ao ponto de partir para a Europa para concluir sua graduação em uma universidade de lá. Não a convidara para sair até o verão em que ele completara vinte e quatro anos. Dax a procurara em sua casa ao chegar da Europa, e naquele dia o relacionamento começara. Dois meses haviam se passado antes que fizessem amor pela primeira vez. Dois longos meses durante os quais a única coisa que salvara sua virgindade fora o controle de Dax. Jillian não tivera nenhum. E era bastante desagradável reconhecer que isso não mudara. Podia ter passado o dia todo ali. A dignidade não tinha importância. Um reconhecimento elementar brotou entre eles. Ele era sua metade perdida, a resposta para a equação não resolvida em sua vida. Dax murmurou alguma coisa e ela o encarou. — O quê? — Eu disse droga! Minha vida seria muito mais simples sem isso. Ao ouvi-lo falar, Julian observou, fascinada, o movimento dos lábios formando cada palavra. Sabia o que ele queria dizer. — Muito mais simples — concordou. — De todos os homens do mundo, por que tinha de ser o único? — Porque você foi feita para mim — reconheceu, enquanto inclinava a cabeça em sua direção. Sabia que não estava sendo sensata ou cautelosa, mas não pôde conter a resposta instintiva que a fez oferecer os lábios. As bocas encontraram-se. Arrepios de excitação conectaram o ponto de contato com dezenas de outros pontos, todos levando à junção onde as pernas se encontravam. Em um instante, esqueceu todas as lições dolorosas que aprendera com aquele homem. Os braços o enlaçaram pelo pescoço como se tivessem vontade própria. Era um graveto levado pela força de um furacão, um seixo impotente no caminho de uma avalanche. Quando Dax levou os lábios até seu pescoço, ela se inclinou numa rendição silenciosa. — Lembra-se da nossa primeira vez? As palavras foram intercaladas por beijos que se espalhavam do queixo até o alto dos seios. A mão deixou suas costas para tocar um deles. Ela gemeu. — Na piscina... Dax sorriu e livrou o suéter da cintura da calça, deslizando a mão sob o tecido para tocar a pele macia e quente. Os dedos deixavam uma trilha de fogo enquanto viajavam para cima, e ela pressionou os lábios contra a seda negra de seus cabelos. — Papai? Dax afastou-se de um salto, removendo a mão de seu corpo num movimento chocado. Rápido, virou-se e a escondeu com o próprio corpo. — Só um minuto, Christine. — A voz era rouca, Um tremor a sacudiu.

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A voz infantil persistiu: — Quem é ela, papai? Dax suspirou e afastou-se. Jillian ajeitou as roupas com mãos trêmulas, Devagar, forçou-se a virar-se. Ele deu um passo para o lado, e se antes estivera chocado, todas as emoções haviam desaparecido de seu rosto. — Christine, esta é minha amiga Jillian. A menina era clara, com cabelos lisos tão louros quanto os de Jillian. Não havia como deixar de ver no rosto delicado os traços paternos. Olhos escuros sob sobrancelhas idênticas, unidas numa expressão intrigada e ressentida. Era alta e esguia, e exibia pernas que, no futuro, seriam longas e bem torneadas. Por que sentia uma dor tão grande? Deixara Dax no passado, enterrara todos os sonhos de ter uma família na mesma cova em que soterrara os restos de um homem que não confiara nela o bastante para ouvi-la. Agora compreendia que ao se manter distante das possibilidades de outro amor, estivera-se punindo-se durante todo o tempo. Havia sido ela quem passara sete anos sozinha, enquanto Dax não perdera um único instante de sua vida lamentando o passado. Um soluço brotou de seu peito, e ela só conseguiu sufocar o segundo pressionando a mão contra a boca. Dax virou-se para ampará-la, mas Jillian recuou como se os dedos fossem serpentes venenosas. Ele parou e levantou os braços como se quisesse demonstrar que não chegaria mais perto, e Jill o encarou, lutando inutilmente contra uma agonia tão profunda quanto a que conhecera no dia em que ele a fitara com ódio antes de partir para sempre. Abaixou a cabeça e fechou os olhos, respirando fundo como fizera no funeral de Charles e Alma e milhares de outros momentos de aflição e sofrimento ao longo dos anos. A parede de autoproteção havia sido erguida. Um torpor abençoado a invadiu, um sentimento pelo qual sentia-se grata. Emoção, sentimento... tudo desapareceu. Nada mais poderia feri-la. Mais tarde, talvez, pensaria naquilo, mas no momento queria apenas assimilar o golpe que ameaçava parti-la em centenas de pedaços de desolação. Forçando o que esperava ser um sorriso distante, caminhou na direção da menina. Ao estender a mão como um autômato, olhou para Dax revelando desprezo e rancor. — Meu nome é Jillian Kerr. A garota olhou para a mão estendida como se não soubesse o que fazer. Finalmente aceitou o cumprimento e respondeu: — O meu é Christine. — Conheci seu pai quando éramos crianças, ainda menores que você. E apesar do que acabou de ver, hoje em dia não somos mais amigos. Tínhamos alguns negócios a discutir, mas já estou indo embora. Passando pela menina, atravessou a sala de jantar com sua mesa posta para três pessoas e dirigiu-se ao hall. Lá usou o telefone para chamar um táxi, dizendo que pagaria o dobro da tarifa por um atendimento imediato. Quando abriu a porta da frente, ouviu Dax chamando seu nome. Fechou a porta e continuou andando. Estava quase no portão quando ele a alcançou. — Jillian?

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Ela não respondeu, Não poderia. Lágrimas queimavam no fundo de seus olhos; toda a energia de que dispunha estava concentrada no esforço de retê-las. Silenciosa, continuou caminhando e contando os passos. Ao passar pelo portão, virou à esquerda, na direção de onde viria o táxi. — Jillian, precisamos conversar. Ela apressou o passo, levando a mão à boca para sufocar mais um soluço. — Não pode ir embora a pé, meu bem. Deixe-me levá-la para casa. A voz era surpreendentemente gentil, mas supunha que ele podia se dar ao luxo de demonstrar generosidade naquele momento. O táxi surgiu na esquina e ela parou para esperá-lo. Dax também parou e colocouse diante dela. — Pretendia falar sobre Christine. Queria que a conhecesse esta noite, mas não... — E eu a conheci. — Os olhos encontraram os dele e Jill imaginou a parede que julgara ter colocado entre o presente e o passado. — Se voltou para castigar-me, Dax, considere a missão cumprida. E se eu tivesse direito a um pedido, gostaria que você fosse o Piersall naquele carro destruído na semana passada. Os traços de Dax passaram da preocupação ao estoicismo, O carro parou ao vê-la fazendo um sinal aflito e Jillian acomodou-se no banco traseiro. Depois fechou os olhos, apoiou a cabeça no encosto, deu seu endereço ao motorista e concentrou-se novamente no esforço de conter as lágrimas.

CAPÍTULO III

Dax estava sentado na beirada da piscina, tentando encontrar algum sentido na vida. Continuava abalado com a reação de Jillian à presença de sua filha algumas horas antes. Como tudo mudara de repente? Haviam sido felizes no passado. Desde a primeira vez em que a beijara até o dia em que a surpreendera na cama com seu irmão, haviam sido felizes. E nunca mais encontrara uma mulher capaz de ocupar o lugar que fora dela. Nem mesmo alguém com quem pudesse compartilhar as coisas mais simples da vida. Com Libby, havia sido simplesmente atropelado pelas circunstâncias. Casaram-se para dar legitimidade a Christine, mas não tiveram tempo para desfrutar da intimidade do casamento. Honestamente, não podia culpar a ex-esposa. Ela jamais tivera chance contra suas recordações. Seria ótimo se pelo menos uma vez pudesse se deitar com uma mulher sem pensar em Jillian. Quando crianças, Jill havia sido apenas uma espécie de irmã caçula. Marina fora

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sua grande amiga, até o segundo grau, quando começaram a namorar pessoas diferentes. Fisicamente, as duas irmãs poderiam ter sido gêmeas, se tivessem a mesma idade. Mas em termos de personalidade, eram diferentes como água e vinho. Marina era calma, Jillian, cheia de vida e energia. Marina era quieta; Jillian levava a excitação a todos os lugares onde via. Marina era equilibrada; Jillian era exuberante e explosiva. Com ela não existia meio termo. Era o amor ou o ódio. Marina vestia-se com elegância, preferindo roupas discretas e simples, mas Jillian era incapaz de entrar em um ambiente sem fazer todos os homens virarem a cabeça para segui-la com os olhos. Para implementar seu poder de atração, ela dava preferência a roupas extravagantes e sensuais. No funeral, chegara a pensar em usar o paletó para cobrir a imensa porção de coxas exposta pela saia preta e curta que ela havia usado, mas acabara hipnotizado demais para fazer qualquer coisa além de olhar. Por que nunca se sentira atraído por Marina? Tinham a mesma idade, interesses parecidos, os mesmos amigos... Mas nunca sentira mais que uma profunda e singela amizade por ela. Com Jillian, por outro lado... Desde os quatorze anos, quando a vira pela primeira vez com os olhos de um adolescente dominado pelos hormônios, fora tomado pela luxúria. E depois de tanto tempo, ainda sentia a mesma coisa quando se aproximava dela. Poderia odiá-la por isso. Fizeram amor pela primeira vez naquela piscina, na grama sob uma árvore. Namoravam havia dois meses, desde quando voltara da Europa e fora procurá-la em sua casa. Passavam todo o tempo juntos, e embora houvessem adquirido o hábito de embaçar os vidros de seu carro, sempre recuara quando ela pedira. E mesmo quando ela não pedia, o que havia sido bastante comum. Decidira esperar até que pudesse pedi-la em casamento e colocar uma aliança em seu dedo. Todas as vezes em que resistira à tentação, sentira-se nobre pelo sacrifício. Mas na noite em que Marina completara vinte e três anos, havia esquecido todas as promessas que fizera a si mesmo. Os pais das meninas haviam organizado um jantar para celebrar o aniversário da filha mais nova, e mais tarde o grupo de amigos decidira ir nadar na piscina dos Piersall. Um a um, todos foram embora, até que restaram apenas ele, Jillian, Marina e seu namorado. Então os dois também partiram, deixando-os a sós. Lembrava-se de como ficara excitado ao perceber que teriam completa privacidade. Passavam pouco tempo sozinhos, porque estavam sempre em companhia dos amigos e porque, reconhecendo a tentação representada pela jovem namorada, sempre tivera o cuidado de garantir um mínimo possível de risco. Ao ver a irmã desaparecer além do portão, Jillian o desafiara para uma corrida. Quando chegaram ao extremo oposto da piscina, Dax a agarrara pelo tornozelo e a puxara para baixo, beijando-a sob a superfície da água. Ficara excitado no instante em que a tocara. A privacidade inesperada agira como um poderoso afrodisíaco, e quando ela o enlaçara e pressionara os seios contra seu peito, quase enlouquecera. Trocaram carícias e beijos ousados, explorando e tocando com a avidez dos jovens apaixonados. Gemeram, suspiraram e mergulharam nas sensações provocadas pelas mãos sobre a pele quente. — Dax? — ela sussurrara. — O que é? — Conseguira descer o maio que ela usava até a altura da cintura, e estava sugando um seio enquanto ela afagava seus ombros. — Por favor... podemos... fazer aquilo?

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A pergunta o fez parar e levantar a cabeça. Fitara o rosto angelical, vira os mamilos rígidos próximos de seu peito, e o corpo respondera por ele. Mas a mente insistia em lembrar que era um rapaz honrado, e que fizera promessas a si mesmo que gostaria de poder cumprir. — Podemos, mas não somos forçados a nada. Se quiser, continuaremos apenas... brincando. Dax só compreendera que havia perdido a batalha quando ela sorrira, friccionara o ventre contra sua ereção e murmurara: — Mas eu quero. Agora... O sangue inundara seu cérebro. Sem dizer mais nada, ele a tomara nos braços e subira a escada da piscina, deixando-a no chão para estender uma toalha sobre a grama protegida por árvores frondosas. Momentos mais tarde já a desnudara, e tocava cada polegada daquele corpo firme e sedutor. Vê-la nua, com os braços abertos numa súplica silenciosa e envolvente, o levara à loucuras. Ficara tão excitado que despir-se fora uma tarefa complicada, e não havia sido capaz de conter-se para esperar por ela. Mesmo assim, Jill o recebera sem hesitar e emitira apenas alguns gemidos provocados pelo desconforto da primeira penetração, correspondendo aos beijos e às carícias ardentes com uma satisfação que o cegava para tudo que não fosse a necessidade de possui-la. Mudando de posição na beirada da piscina, Dax ajeitou a sunga para diminuir o desconforto provocado pela ereção que as recordações haviam causado. O que acontecera com eles? De repente, a viagem ao passado chegou ao fim e ele lembrou nitidamente o que, havia acontecido quando Christine surgira na sala. A excitação desapareceu depois dessa lembrança. Precisava descobrir o que estava passando pela cabeça de Jillian. Vira a devastação em seu rosto quando ela se deparara com a menina. Naqueles primeiros instantes de choque e surpresa, tivera a oportunidade de identificar diversas emoções em seus olhos: espanto, incredulidade, ressentimento, tristeza... e uma agonia que o devastara como se pudesse senti-la em seu peito. Ela fechara os olhos e, por um momento, chegara a temer que a indestrutível Jillian desmaiasse. Quando tentara tocá-la, sua reação havia sido tão chocante quanto a dor silenciosa. Ela recuara em pânico, o rosto desprovido de cor e os olhos arregalados, assombrados. A mensagem fora clara. E recuara para não feri-la ainda mais. Porque a ferira, disso estava certo. Mas não havia sido intencional. Como o beijo não fora premeditado. Planejara falar sobre Christine pouco antes do jantar, antes de sua filha aparecer, mas conversar perdera a importância quando a tocara e fora sacudido pelo desejo potente e envolvente. Inicialmente, também ficara chocado ao ouvir a voz infantil interrompendo o que havia acontecido de melhor em sua vida desde... há muito tempo. Não pensaria nas implicações do prazer que sentira ao tomá-la nos braços. Aparentemente, ela se sentira melhor nos braços de seu irmão. O pensamento não provocou a costumeira onda de ódio; as palavras de Jillian ainda ecoavam em sua mente. Se voltou para castigar-me, Dax, considere a missão cumprida.

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Sim, quisera puni-la e castigá-la. Mas o sucesso fora muito além do imaginado; a intensidade da dor que vira nos olhos dela deixara em sua boca o gosto amargo de uma vitória vazia. Há algumas horas, ainda sentia a fúria que o fizera ir embora anos atrás. Mas no momento não conseguia experimentar mais que um profundo pesar. Talvez a sede de vingança houvesse sido saciada. Odiava pensar que pudesse ser tão superficial, tão mesquinho. Nunca mais raciocinara com clareza desde que ficara parado na porta do quarto de Jillian, Ouvindo Charles dizer o quanto a amava. De repente podia identificar com nitidez: os sentimentos mais violentos e destrutivos haviam desaparecido. Sabia que ela jamais aceitaria um pedido de desculpas. Não depois de como quase perdera a compostura e desmoronara diante dele. Seu castigo. Mas então ela fizera algo incrível, algo de que muitos homens mais fortes não teriam sido capazes depois de um golpe tão violento. Quando imaginava que teria de consolá-la, ela havia se recuperado. Observara o retraimento, a maneira como escondera as emoções em algum recanto sombrio da alma para ressurgir fortalecida. Quando voltara a fitá-lo, a agonia havia desaparecido de seus olhos. A aparência calma sobrevivera apenas o suficiente para que saísse da sala. Tinha certeza de que ela não esperava vê-lo novamente naquela noite, e talvez por isso houvesse sido incapaz de projetar mais uma vez aquela fachada calma e controlada. Era como se duas pessoas habitassem seu corpo, e Dax não sabia qual delas havia amado no passado, a velha Jillian teria jogado um vaso em sua cabeça. Teria gritado, esperneado e praguejado, assustando a pequena Christine sem se dar ao trabalho sequer de pedir desculpas. Quando a vira no cemitério, tivera certeza dê que a mulher que tanto amara não havia mudado com o passar do tempo, exceto pelo verniz de sofisticação conferido pela maturidade. Ela se esquivara de seus golpes verbais e retribuíra com palavras igualmente ferinas, e sentira nela o espírito de combate. Mas não havia espírito na mulher devastada que deixara sua casa horas antes. A nova Jillian quase havia chorado. Não via Jillian chorar desde que o velho Crinckles, o Sharpei que havia sido seu companheiro de infância, morrera. E isso acontecera quando ela tinha quinze anos. A culpa o inundou como uma onda destruidora. Conhecia aquele sentimento. Experimentava-o frequentemente desde o dia em que Libby Garrison surgira na porta do pequeno apartamento em Atlanta anunciando a gravidez... menos de um ano depois de ter deixado Butler County e sua ex-noiva. Era inútil dizer a si mesmo que estivera perturbado, louco de ódio e dor, tentando apagar da mente a imagem de Jill e buscando em outra mulher o prazer que só havia encontrado com ela. O que fizera havia sido errado. Traíra Jillian, enganara Libby e, acima de tudo, prejudicara uma inocente. Sua filha. Christine merecia um lar feliz e seguro e a companhia de dois pais que a amassem e se amassem... um pai que amasse a mãe dela. Dax jamais se imaginara tendo um filho que não fosse de Jillian. Milhares de vezes surpreendera-se comparando Libby e a exnoiva, desejando algo que jamais teria. Sim, a culpa era sua companheira íntima há anos. E agora tinha um novo motivo para sentir-se culpado. Jillian havia ficado mais que simplesmente magoada ao descobrir sobre a existência de sua filha; ficara dizimada. Houve um tempo em que sonhara esfregar a infidelidade em seu rosto. A única coisa que

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o detivera fora a incerteza. Se não o amava, por que se importaria com o fato de ter se deitado com outra mulher? Naquela noite, sem ter planejado, realizara a crueldade desse sonho. E depois de sete anos, ela quase chorara... por que ele fora infiel? Não fazia sentido. Não depois de tê-la surpreendido com seu irmão. Descobriria a razão do sofrimento que vira em seus olhos nem que para isso tivesse de persegui-la até completar cem anos. Ainda queria saber por que ela o aceitara, quando na verdade era Charles que desejava, e descobriria a verdade, mas pela primeira vez desde que a deixara, não se sentia compelido pela necessidade de feri-la. Já alcançara esse objetivo. Não, não queria mais fazê-la sofrer. Mas precisava salvar a empresa da família, a herança da filha. E Jillian teria de cooperar. Faria tudo que estivesse ao seu alcance para obter essa colaboração. Ela arrumava algumas bonecas na vitrine quando o viu no corredor do shopping. Através do vidro, os olhos se encontraram e Jillian sustentou o olhar. O que estaria fazendo ali? Havia ido jogar sal na ferida? Cada vez que pensava naquela noite, duas semanas atrás, o nó que se formara no estômago subia até a garganta, ameaçando sufocá-la. Como ele fora capaz de exibir a filha daquela maneira? Por outro lado, por que a esconderia? Na opinião de Dax, era culpada de coisas horríveis. Apesar dos protestos, tinha certeza de que ele planejara o encontro pretensamente casual. Sua filha. Dax não podia imaginar como a descoberta a afetara. Não havia sido o único a sofrer com a insistência do relógio biológico anunciando o momento de multiplicarse. E o sentimento de vazio se tornara muito mais intenso depois de ter visto a evidência de que a vida dele não havia parado depois de deixá-la. Dax entrou na loja. Jillian saiu da vitrine e ajeitou a saia curta de couro cor de rosa. — Olá. — Olá — respondeu, levando as bonecas para trás do balcão. — Está procurando alguma coisa? — Para o diabo com a cortesia. Há muito aprendera que o ataque era a melhor defesa. — Talvez um presente para a garotinha de que tanto se orgulha? — Gostaria de conversar com você. Aqui, se preferir, ou em outro lugar de sua escolha. — Não. Temos apenas interesses comerciais em comum, mas podemos tratar desse assunto nas assembleias de acionistas. Não temos mais nada a discutir. — Já almoçou? Ignorar aquilo que não queria ouvir era uma atitude típica de Dax Piersall. — Não tenho tempo para comer no meio do dia. — Por que não? Pensei que sua irmã trabalhasse com você. São sócias na loja, não? — Refere-se à minha irmã que teve um bebê há quatro semanas e passa o dia todo amamentando?

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— Não tem funcionários para ajudá-la? — Duas garotas que trabalham em regime de meio período. Se era só isso que queria saber, pode ir embora. — Quer salvar a Indústria Piersall? A pergunta a fez parar para encará-lo. — É claro que sim. Mas já disse que não tenho nada a ver com... — Acho que posso evitar a falência, mas preciso de sua ajuda. — Está brincando! — Não. Quero que me ajude a salvar a empresa da falência. — Esqueça. Pode montar no seu cavalo branco e partir na nobre missão de salvamento, mas não conte comigo. Tenho uma vida para administrar. — Se não me ajudar, duvido que possa impedir o desastre. — Não precisa de mim. para salvar seu império financeiro. — Preciso. — E como acha que posso ajudá-lo? — Casando-se comigo. Juntos, teremos o controle acionário e a certeza de que a companhia será administrada como eu quero. Jillian perdeu a capacidade de falar. Aturdida, encarou-o com um misto de ira e incredulidade. — Posso interpretar sua reação como uma resposta afirmativa? — Devia estar internado em um manicômio! — Com o retorno da voz surgiram o ultraje, a revolta, o ódio. Maldito Dax Piersall! Ninguém mais conseguia fazê-la perder o controle tão depressa. — Não era boa o bastante para me casar com você quando decidiu que seu irmão e eu mantínhamos um caso, mas agora que sou dona de parte da sua empresa, tornei-me subitamente aceitável? — Pegou um livro que havia deixado sobre o balcão. — Se atirar isso contra mim, juro que irei buscá-la atrás desse balcão. — Ao vê-la abandonar a arma improvisada, prosseguiu: — Está zangada por que a deixei, ou por que retornei com uma filha? — Nenhum dos dois! Não estou zangada! Para me zangar teria de me importar com você, certo? E a única coisa com que me importo é que tirou conclusões precipitadas e fez seu irmão sofrer, sem jamais ter se dado ao trabalho de admitir que estava errado. Agora ele está morto e é tarde demais para reparar seu erro. Dax encolheu-se como se houvesse levado uma chicotada. Quando falou, a voz era abafada, oprimida sob o peso da dor. — Como posso ter me enganado? Sei o que vi? E o que ouvi. Está dizendo que errei ao deduzir o óbvio? — Você? O que nunca erra? — A pergunta era carregada de sarcasmo. Houve um silêncio tenso por um momento. Dax a estudava com uma expressão pensativa que a incomodava mais do que gostaria de admitir. Então o ar indecifrável retornou, escondendo dela seus verdadeiros pensamentos. — Quando gostaria de se casar? Precisamos apressar os preparativos? Existem

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algumas coisas que não podem esperar. — Já disse que minha resposta é não! — Quero que se mude para minha casa, porque vou precisar de sua ajuda e tudo será muito mais fácil se estiver por perto. Terá seu próprio quarto, e a sra. Bowley continuará cuidando de todas as tarefas domésticas. Não quero que Christine fique mais perturbada do que já está. — Lamento, Dax, mas não estou interessada. Deve haver alguma mulher disposta a aceitá-lo. — Oh, sim, existem muitas, favo de mel. — O sorriso que iluminava seu rosto era ameaçador. — Se me lembro bem, você já foi uma delas. Mas estamos falando de algo mais importante que prazer físico. Charles deixou um negócio à beira da falência, e para impedi-la, vou ter de dedicar muito tempo ao trabalho, e para isso preciso de sua ajuda. Além do mais, também tenho uma empresa para administrar. — Que empresa? Ele ignorou a pergunta. — Já estou negociando uma nova conta para a Piersall, e se tudo der certo, em breve estaremos manufaturando um novo produto. Preciso de uma anfitriã. Infelizmente, metade dos relacionamentos comerciais acontece em ambientes sociais. Você tem o verniz e o conhecimento para ser uma importante aquisição nessa esfera das negociações. — Estou lisonjeada! — E sabe como manipular os homens para que façam qualquer coisa. — Oh, céus! Em um segundo passei de anfitriã a prostituta. — Estaremos casados. Espero que se comporte de acordo, pelo menos em público. — Uma bola de neve no inferno seria mais provável. — Com sua formação, também poderá ser útil no aspecto financeiro do negócio, Existem algumas coisas estranhas nos livros fiscais, e gostaria de ouvir sua opinião sobre os dados. É claro que conto com empregados competentes em Atlanta, mas não posso misturar as duas empresas. — Existem profissionais competentes aqui em Baltimore. Só precisa contratar dois ou três deles. — É o que estou tentando fazer. Quero realizar mudanças na estrutura de gerenciamento, mas não posso alterar nada contra a vontade dos outros acionistas. A menos que me ajude: Juntos, seremos capazes de organizar a empresa o suficiente para entregá-la em bom estado nas mãos de um administrador de nossa escolha. — Caso tenha esquecido, também tenho um negócio para gerenciar. Não preciso de outro emprego. — Pode trabalhar comigo à noite, em casa. Não teria de ir à empresa. — Deve estar enfrentando sérias dificuldades para administrar duas companhias. — Sim, estou enlouquecendo, mas... — É claro que sim. Você é surdo! — E ergueu a voz. — Não! — Christine precisa de uma mãe. Você vai servir:

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Estava perplexa. Chegara a acreditar que ele não poderia feri-la ainda mais, mas enganara-se. — Por que não deixa a mãe dela cuidar disso? Ou também fugiu dela? — A dor que sentia era tão intensa, que não se preocupou em escondê-la ou disfarçá-la sob uma fachada de generosidade. — Não tenho a menor intenção de fingir para demonstrar afeição por sua... — Pare imediatamente. — A voz sugeria autoridade e ela parou, surpresa. Jamais o ouvira falar daquela maneira quando eram jovens. — A mãe de Christine não a quer. Ela me odeia e acha que minha filha é uma lembrança de um casamento que ela preferia não ter vivido. Jillian sabia o que era ser rejeitada. Mas esmagou a simpatia com um golpe certeiro. Não podia ser uma substituta para a mãe da filha que ele tivera com outra mulher. — Por que eu? — disparou furiosa, piscando para conter as lágrimas. Não vou chorar. — Por que não você? Praticamente vivemos juntos no passado. Já conheço seus hábitos e vícios. — Você não me conhece! Não sou mais a garota estúpida que se deixava fascinar por cada palavra que você pronunciava. — Sei que não é mais uma menina. — Os olhos cravaram-se em sua boca e ele começou a contornar o balcão. — E existem algumas coisas sobre as quais tenho certeza absoluta. Ao perceber que ele pretendia tocá-la, recuou e buscou refúgio na pequena alcova onde ela e as funcionárias guardavam bolsas e casacos e preparavam café, chá e sucos. — Não quero... — O corpo desmentia as palavras que a mente tentava tornar convincentes. Não podia sentir-se atraída por um homem que a odiava. — Lamento, mas é a única maneira que conheço para silenciá-la. Jillian levantou as mãos para empurrá-lo, mas ele a segurou pelos punhos e levouos à parede na altura de sua cabeça. O corpo tocou o dela e foi como se todo o ar deixasse seus pulmões. Como aquilo podia parecer tão certo, tão perfeito? — Beije-me — Dax ordenou. Sabia que lutar seria inútil, mas virou o rosto para o lado. — Nunca! Ele levantou seus pulsos e os imobilizou com uma única mão, usando a outra para tocar seu queixo e obrigá-la a encará-lo. Em seguida beijou-a. Os corpos encaixavam-se como peças de um quebra-cabeça. Podia senti-lo excitado, e a boca devorava a dela como se fosse uma sobremesa deliciosa e suculenta. Odiava-o; não reagiria. Mas o corpo, há muito privado do único homem que possuíra seu coração, negava-se a cooperar. Depois de um momento de resistência rígida, a boca se abriu e ela desistiu de lutar. Dax soltou seus pulsos e entrelaçou os dedos nos dela, abaixando as mãos até tocar as laterais dos corpos colados. Jillian soltou-se e tocou seu braço sobre a manga do paletó, sentindo a musculatura rígida e definida.

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Por alguns minutos ficaram ali, mergulhados no beijo sensual que despertava sensações incontroláveis, as mãos buscando recordações que ambos julgavam enterradas para sempre, as bocas sentindo novamente o sabor do prazer. De repente Dax afastou-se e puxou a cabeça dela sobre seu ombro. — Pare — disse com voz estrangulada. — Jill, temos de parar. As palavras eram um eco do passado. Como se aos poucos voltasse a superfície depois de um mergulho muito profundo, Jillian processou o significado do que ouvira. O corpo ainda buscava o dele, mas Dax a segurava pela cintura e a mantinha afastada. Balançando a cabeça, tentou pensar com um mínimo de clareza, e quando conseguiu recuperar o raciocínio, empurrou-o e virou-se de costas, abraçando-se como se a temperatura no interior da loja houvesse caído abaixo de zero. Dax respirou fundo. — Maldição! Isso não fazia parte do plano. Jillian não se deu ao trabalho de responder. Estava envergonhada. Odiava-se. E o odiava também. O homem acreditava sempre no pior a seu respeito, abandonara-a e se mantivera afastado até ser obrigado a voltar... e no minuto em que se aproximava novamente, ela derretia como cera sob sua chama ardente. — Não quero desejá-lo — disse. — Esse é um sentimento inútil. A verdade, favo de mel, é que não conseguimos nos manter longe um do outro. Nunca pudemos, e nunca poderemos. Ela se virou para encará-lo, os olhos iluminados por uma fúria tão intensa quanto a vergonha que sentira pouco antes. — Pois bem, aqui vai outra verdade: essa é uma das razões pelas quais não vou me casar com você. Uma entre muitas, todas igualmente válidas. — Se recusar minha proposta, a Piersall irá à falência e centenas de pessoas perderão seus empregos. — Isso é o que você diz. Por que acha que vou acreditar em sua palavra? Afinal, nós dois sabemos que ela não vale nada. — A culpa foi sua. — Minha? Foi você quem partiu sem olhar para trás. Não sabia nada sobre o que existia entre mim e Charles. Tirou suas conclusões e foi embora sem esperar para ouvir a verdade. — De repente se deu conta do que estava dizendo e parou. Não tinha a menor intenção de explicar-se, porque isso seria o mesmo que confessar que se importava com sua opinião. Dax a encarava em silêncio, incapaz de esconder a curiosidade. Sabia que ele refletia sobre o que acabara de ouvir, e a última coisa que desejava era ser submetida a um interrogatório. — Bem, como já disse antes, não temos mais nada a conversar. Pode ir embora. — Vai se casar comigo? — Não! — Muito bem, a escolha foi sua. Algum recado para seu vizinho da Sugar's? Estou indo para lá.

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— O que vai fazer na Sugar's? — Discutir o contrato de aluguel. Ou melhor notificar o proprietário sobre a necessidade de encontrarem outro lugar, já que não pretendo renová-lo. Aliás, não renovarei nenhum contrato de aluguel deste edifício. — Não! Dax, não pode fazer isso! — Vai se casar comigo? — Não posso! — Não quer — corrigiu, abrindo a porta para sair. Jillian o seguiu. — Se eu concordar com sua proposta... — Ninguém terá com o que se preocupar neste edifício. — Seu... verme! Está sendo baixo e mesquinho. — Eu sei. Estava derrotada. Não suportaria saber que dezenas de amigos haviam perdido seus negócios por sua causa. — Quando devo me mudar? — Amanhã. Era impossível esconder o pavor. Como poderia estar preparada em um dia? — Escute — Dax suspirou, interpretando o silêncio como uma possibilidade de Jillian ter mudado de ideia. — Faremos um acordo. Seis meses, está bem? Se até lá a empresa estiver salva, você poderá partir. Seis meses. Era uma luz distante no final de um túnel escuro. Jill assentiu resignada. — Está bem, mas tenho duas condições a impor — disse. — Quais são elas? — Primeiro, quero um acordo pré-nupcial com todos os pontos que estabelecemos aqui. Incluindo uma promessa de manter os aluguéis congelados pelos próximos três anos. — Certo. Qual é a segunda condição? — Almoçaremos juntos amanhã e você me contará tudo sobre sua filha. — Minha filha? — Se vou ter de conviver com essa criança, quero saber tudo sobre ela. Tudo, ouviu bem? Dax fez um movimento afirmativo com a cabeça e sorriu. — Será como você quer — disse. Mas Jillian sabia que nada seria como ela queria.

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CAPÍTULO IV

Ele a levou ao clube, e Jill imaginou como Dax havia conseguido tornar-se sócio tão depressa. Então lembrou que os Piersall haviam sido membros fundadores, o que provavelmente conferia certos direitos. A garçonete ofereceu o cardápio, e ela escolheu a entrada de lagosta, a mais cara do restaurante. Duvidava de que a refeição pudesse causar grande diferença ao bolso de Dax, a julgar por suas roupas e sapatos. Os drinques foram servidos, e um silêncio estranho caiu sobre eles. Dax respirou fundo, e ela o encarou com as sobrancelhas erguidas. — Isto... não é fácil. Não me orgulho do que fiz. Ótimo! Não queria que a situação fosse fácil para ele. Dax a fizera sofrer muito; saber que agora era obrigado a engolir um pouco do próprio remédio causava uma certa satisfação. — Quero ouvir a verdade — disse. — É claro. Depois de você... — Parou e bebeu um gole da cerveja importada que pedira. — Depois que parti, vaguei pelo mundo durante algum tempo. Mamãe implorava para que voltasse para casa, mas não queria vir para cá. Tinha o fundo de pensão para manter-me, e viajei um pouco. Mas depois de um mês, viajar sozinho perdeu o encanto. Estava em Atlanta, e simplesmente decidi ficar. Usei o nome Piersall para abrir algumas portas e comecei a pensar em como poderia arrumar um emprego em alguma empresa local. Foi quando me deparei com a oportunidade de comprar uma pequena empresa. — Que tipo de empresa? — Dax não mencionara onde havia conseguido ganhar tanto dinheiro, e estava curiosa desde que vira seus sapatos italianos no funeral. Ele hesitou. — Promete que não vai rir? — Por que eu riria? — Promete? Jillian suspirou impaciente. — Está bem, prometo. — Caixões Travers. — Caixões? Você faz... caixões? — As pessoas envelhecem e morrem. O mercado é promissor e está em franco crescimento. — Faz sentido. — Você prometeu que não riria. — Desculpe, mas... — Parou para conter-se. —: Não esperava ouvir isso.

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— Também não esperava entrar nesse ramo. Mas, como disse, foi uma excelente oportunidade. E usei parte do meu fundo de pensão para efetuar o negócio. Contratei dois empregados imediatamente, e mais tarde admiti mais algumas pessoas. Minha primeira assistente foi uma garota... uma mulher chamada Olívia Garrison. Libby. Ela era jovem, como eu, recém-saída da faculdade de economia e muito perspicaz. Tivemos um caso. Cautelosa, tratou de manter a expressão neutra. Os romances de Dax não eram de sua conta. Se disser a mesma coisa centenas de vezes, talvez consiga convencer-se. — Certa noite, depois de um jantar de negócios com alguns fornecedores, deixei-a na porta do restaurante enquanto fui buscar o carro. Quando voltei, ela estava de perfil e... bem, por um minuto tive a impressão de vê-la. Então me dei conta de que havia escolhido Libby porque ela era parecida com você. É claro que foi um movimento inconsciente, mas devo ter registrado a semelhança e decidido substituí-la em meus sonhos. Nosso caso não durou muito tempo... e não foi o único naquele período. Infelizmente; os Deuses do controle da natalidade estavam de folga, e naquele mês de fevereiro, Libby anunciou que estava grávida. Fevereiro. Jill respirou fundo, tentando ignorar o zumbido nos ouvidos. Dax engravidara outra mulher menos de um ano depois de tê-la deixado. Se ainda tinha alguma dúvida sobre como representara pouco para ele, agora obtivera a confirmação. Ele prosseguiu: — Christine nasceu no dia três de outubro. Libby e eu nos casamos alguns meses antes desta data. Jillian sentia-se inundada pela tristeza. Incapaz de pensar ou agir, olhava para a mão que segurava a dela sobre a mesa. E de repente teve a sensação de que entrava em um túnel escuro, as imagens se distanciando e perdendo as formas e cores, até que registrasse apenas um ponto brilhante que ia se alastrando e dominando toda a paisagem. — Jillian! — Tonta, percebeu que Dax a segurava. Queria empurrá-lo, mas uma estranha letargia dominava seus músculos. Ele pôs uma das mãos em sua nuca e segurou sua cabeça baixa, entre os joelhos. — Respire fundo! A visão começou a retornar e aos poucos ela levantou a cabeça. As pessoas acompanhavam a cena com interesse, mas um olhar de Dax foi suficiente para que todos abandonassem o exame curioso. — Beba um gole de água — ele ordenou, aproximando o copo de seus lábios. Jill obedeceu, e só então se deu conta de que estava no colo dele. — Nunca desmaio — protestou com voz fraca, tentando afastar-se. O corpo sob o dela era firme, e se não o odiasse tanto, teria buscado o aconchego daquele peito musculoso. Depois de um ou dois minutos, Dax ajudou-a a sentar-se novamente em sua cadeira. — Nunca desmaio! — ela repetiu com mais ênfase. — Tudo bem, você não desmaia. Dax sorriu, e havia calor em seus olhos. Não queria que ele a tratasse com ternura ou gentileza. Era mais fácil odiá-lo quando se mostrava rude e hostil. — Deve ter sido o efeito do álcool no estômago vazio. Dê-me aquelas torradas — pediu, apontando para o prato de torradas e queijo que nenhum deles tocara. Ele atendeu ao pedido e disse: — Se isso a faz sentir-se melhor, o casamento foi um desastre desde o primeiro

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dia. Libby só precisou de cinco minutos para compreender que estava sendo usada para substituí-la. Esperava amargura, e foi pega de surpresa pelo desconforto em seu rosto. — Se me odiava tanto, por que falou com ela a meu respeito? — Eu não falei. Mas murmurar seu nome no meio da noite, e em outros momentos, foi uma indicação mais do que óbvia. 'Não era justo. Devia haver alguma satisfação em saber que ele também fora infeliz. Mas imagens de Dax com outra mulher invadiram sua mente, e foi preciso lutar contra o nó que se formava em sua garganta. Para combatê-lo, lançou mão da velha estratégia de ataque. — Deixe-me adivinhar — disse, erguendo uma sobrancelha. — Ela o deixou antes que pudesse explicar o que realmente havia acontecido. — Não. Ela não me abandonou. Levei quase quatro anos para decidir que estávamos arruinando a vida de Christine com nossas brigas constantes. Então saí de casa e pedi o divórcio. Libby logo encontrou um substituto para mim, mas o sujeito não queria a filha de outro homem por perto. E Libby só consegue ver Christine como uma lembrança do tempo que perdeu a meu lado. — E a menina veio passar um período com você. Quanto tempo? Um mês? Dois? — Tinha de ignorar a dor no peito. Não queria gostar da filha de Dax, mas a história trágica despertava seu instinto maternal. Como alguém podia deixar de amar um filho, quaisquer que fossem as circunstâncias? Depois da partida de Dax, quando percebera que ele não voltaria, chorara todas as noites por meses seguidos. Deus, como sonhara ter os filhos dele... Ele balançou a cabeça. — Fui premiado com a custódia de Christine há um ano — disse. — E desde então, Libby nunca mais a procurou, nem mesmo por telefone. Minha menina só tem o pai... e de agora em diante, você. Afinal, será sua madrasta. Madrasta. Respirar era quase impossível. — Sim, dentro de alguns dias você será a madrasta de Christine. E espero que não a deixe ainda mais traumatizada. — Não posso aceitar essa responsabilidade. — Você já concordou. — Fui coagida. — Jillian, você é a única culpada por tudo que está vivendo. — Eu? — murmurou desesperada. — Não fui eu que parti. E nunca o enganei com seu irmão... Eu amava você, Dax! E confiava em você, mais do que você confiou em mim. Ele cruzou os braços e recostou-se na cadeira, fitando-a com interesse distante. — Creio que finalmente vai contar sua versão sobre como você e Charles acabaram na cama, trocando juras de amor, enquanto era minha noiva. Dax jamais acreditaria em uma palavra do que dissesse, e há muito desistira de sonhar com uma eventual solução para o mal-entendido que os separara. — Sabe de uma coisa? — disse. — Estamos perdemos tempo. Vamos fingir que terminamos de almoçar e sair daqui.

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— Não vai comer a lagosta? — Não. Estou indo embora. Dax se levantou e fez um sinal pedindo a conta, segurando-a pelo braço para impedir que o deixasse ali sozinho. — Um dia — disse, ajudando-a a entrar no BMW. — Um dia será sua vez de falar. E já comecei a fazer uma lista de perguntas. Ao vê-lo bater a porta e contornar o carro para ir sentar-se atrás do volante, Jill desejou poder estalar os dedos e estar em casa, encerrando assim a tarde miserável. Um movimento no estacionamento chamou sua atenção e ela reconheceu Roger Wingerd acompanhando uma mulher. Os dois caminhavam na direção do clube, mas ele a viu e parou. Uma expressão estranha tomou conta de seu rosto por alguns instantes, mas logo ele alterou o curso e aproximou-se do automóvel luxuoso. — Olá, Roger — Jill cumprimentou-o através da janela aberta. — Olá, Jillian. Sr. Piersall. — Como vai, Wingerd? Vamos nos encontrar na reunião do conselho na próxima terça-feira, não? — Oh, sim. Pretende assumir um papel ativo na companhia? Charles estava sempre de acordo com o restante do conselho... — Li os relatórios — Dax interrompeu —, e francamente, duvido que minha postura seja tão passiva quanto a de meu irmão. Não fiquei impressionado com a maneira como a empresa está sendo administrada. — Os outros acionistas estão satisfeitos, mas tenho certeza de que ouvirão suas ideias com atenção. — Ótimo. — Dax girou a chave e ligou o motor. — Será um prazer expô-las. — E sem esperar pela resposta ou despedir-se, ele partiu. — Já ouviu dizer que é possível pegar mais moscas com açúcar do que com... qualquer outra substância? — Jillian perguntou. — Podia ao menos fingir um mínimo de cortesia com seus empregados. — Wingerd não será meu empregado por muito tempo. Pretendo fazer grandes mudanças na estrutura da companhia. — Não pode demitir as pessoas como se fossem árvores cortadas com um machado! Roger sempre foi leal à empresa. O resto do conselho não apoiará decisões desse tipo. — Talvez não. Mas a opinião dos outros acionistas não importa. Disponho da maioria dos votos, e pretendo empurrar a companhia na direção que julgo mais adequada. — Quer dizer que vai entrar na indústria e começar a dar ordens? E vai demitir empregados? — E por que imaginava que o casamento asseguraria a maioria dos votos? — Não tenho planos para demissões em massa. Não gosto dessa ideia. Mas se não enxugarmos as finanças, logo todos estarão desempregados. É isso que quer? A Piersall foi fundada por meu avô, e gostaria de entregá-la a Christine algum dia. Não vou permitir que os problemas que estamos enfrentando se tornem maiores ou mais graves. Jill não respondeu. Mas uma ideia começara a se formar em sua cabeça. A reunião dos acionistas seria mais interessante do que Dax imaginava.

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O resto da semana passou depressa demais para a paz de espírito de Jill. . Dax marcou a cerimônia civil para a sexta-feira no cartório de paz. Na quinta, encontraram-se no escritório do advogado para assinarem o acordo pré-nupcial com os termos que ela impusera. No dia seguinte encontraram-se no cartório, porque Jill insistira em ir sozinha da loja. Marcara um almoço com as amigas mais próximas e não via motivo algum para fingir que a associação era mais que um arranjo de negócios. Garantir o máximo possível de distanciamento era a única forma de sobreviver à farsa. — Não quer que sua irmã esteja presente? — Dax perguntou enquanto esperavam do lado de fora da sala do juiz. — Podemos telefonar... — Para quê? Não quero incomodar as pessoas com um casamento de mentira. — Mas nosso casamento é verdadeiro, favo de mel. Um compromisso sério que terá de honrar e respeitar, e espero que se lembre disso. — Ou? — devolveu com tom de desafio. — Na última vez em que ficou zangado comigo você pegou seus brinquedos e foi embora da cidade. Posso contar com a mesma sorte dessa vez? — Agora sou mais velho e mais sensato. E se surpreender mais uma infidelidade, juro que vai se arrepender do dia em que nasceu. A ameaça quieta em sua voz a fez calar a resposta ferina que gostaria de ter dado, e mais uma vez ela se deu conta de como não conhecia o homem em que ele se transformara. Não tinha importância. Só teria de suportá-lo por seis meses, e quando Dax finalmente terminasse de salvar a empresa da família, estaria livre para sair de sua vida com a mesma rapidez e eficiência com que ele a deixara sete anos atrás. Logo o juiz os chamou, e antes que pudesse piscar já estava casada com Dax. Surpreendente como sempre, ele tirou uma caixa do bolso do paletó e exibiu duas alianças e um anel. Assustada, cruzou os braços. — Não preciso disso. — Eu acho que precisa — ele argumentou, puxando seu braço para segurar a mão esquerda e colocar o anel e uma das alianças em seu dedo. Depois deixou a outra aliança em sua mão e estendeu o dedo, deixando-a sem outra alternativa se não imitar seu gesto. O juiz pediu que assinassem o livro de registro. — Manterei meu nome — Jill anunciou. — Discutiremos essa questão mais tarde. — Não há nada a discutir. Dax não respondeu, o que despertou suas suspeitas. Normalmente não se deixava convencer com tanta facilidade, e o silêncio levou-a a imaginar o que poderia estar tramando. Quando saíram do cartório, Dax segurou seu braço para atravessarem a rua, e ela só esperou que estivessem na calçada, perto dos automóveis estacionados, para anunciar: — Tire as mãos de mim. O casamento não confere mais privilégios do que tinha antes. — Por que fica tão perturbada quando a toco?

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— Está enganado. Seu toque é tão insignificante que algumas vezes nem o percebo — mentiu. — Insignificante? — Completamente. — Bem, então acho que não vai se incomodar com isto. — E beijou-a Jillian enrijeceu todos os músculos do corpo numa negação desesperada. Não! Não queria seus beijos. Não o queria. Mas, enquanto tentava convencer-se, uma resposta mais primitiva dominou seu corpo. Era como se mudasse de personalidade cada vez que sentia aquelas mãos em sua pele. Tornava-se uma mulher ardente e ousada, movendo-se em busca de um melhor encaixe e de novas experiências, abrindo a boca para aceitar a invasão e derretendo-se sob o calor de suas carícias. Quando Dax ergueu a cabeça, sentia-se tão aturdida que teve de segurar-se nele para não cair. Sabia que estava zangado, mas também notava em seus olhos um brilho diferente, e a respiração era tão ofegante quanto a dela. Se havia tentado puni-la, perdera o controle da situação e também fora castigado. — Não — disse com voz trêmula, empurrando o peito musculoso. — Se chegar perto de mim novamente, juro que deixarei a cidade. O que quer que faça, não vai conseguir me obrigar a dormir com você. — Oh, eu não teria de obrigá-la. Nós dois sabemos que não haveria a menor necessidade do uso de força física. — Talvez não. Mas ainda assim, estaria me forçando, porque não é isso que eu quero. Se acha que pode conviver com essa ideia, a escolha é sua. Os músculos dos braços que ainda a seguravam ficaram tensos por um momento. Depois de alguns segundos ele a soltou e deixou escapar uma gargalhada rouca. — Você sabe como tirar todo o prazer de uma noite de núpcias, favo de mel. Ao vê-lo afastar-se, Jill levou os dedos aos lábios como se ainda pudesse senti-lo em sua boca. Viver na mesma casa com Dax seria a coisa mais difícil que já fizera em sua vida. Porque, por mais que protestasse, ainda ardia por ele. Odiava-o e amava-o, e não sabia se seria capaz de resistir se ele decidisse tê-la. Chegou ao restaurante um pouco atrasada para o encontro com as amigas, e encontrou Deirdre e Frannie sentadas em uma mesa de canto. A tentação de não mencionar o casamento com Dax era grande, mas logo chegaria o Natal, e não sabia como contornaria a situação. Se fossem apenas ela e o marido tudo seria diferente, mas tinha de pensar em Christine. Seria estranho cuidar de todos os preparativos para a festa e ainda esconder de todos, seu novo estado civil. Pela primeira vez permitiu-se pensar na criança que havia conhecido na casa de Dax. De acordo com o que ele dissera posteriormente, a menina devia ter seis... sete anos no próximo mês. Era alta para a idade. Loura, esguia, com grandes olhos azuis. Dax fizera um bom trabalho tentando substituí-la com outra mulher. Encontrara alguém tão semelhante que Christine poderia ter sido sua filha. Os homens eram idiotas. Não se casara, nunca tivera filhos, e tudo porque sabia

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que jamais haveria outro homem tão importante quanto Dax em sua vida, e não se sentira disposta a conformar-se com menos. Lamentara a falta de um filho, mas nunca fora capaz de se casar com um homem que não amasse simplesmente pelo desejo de ter uma família. Ele, por outro lado... Não permitiria que Dax arruinasse o resto do seu dia. Já seria ruim o bastante quando ele soubesse que não pretendia dormir em sua casa naquela noite, nem em qualquer outra noite enquanto não fizesse sua mudança. Nesse momento, tentaria relaxar e explicar os fatos às amigas. Frannie Ferris e Dee Sullivan, suas duas melhores amigas, acenaram ao vê-la atravessando o salão. Ambas se levantaram para abraçá-la. — Olá, olá. Deixem-me ver. — Jill afastou-se para encará-las. — Parecem ter dormido a noite toda. Não vejo círculos escuros em torno de seus olhos. As três se sentaram e Frannie riu. — Sim, finalmente a família Ferris pôde dormir a noite toda. Ficamos tão malacostumados com Alexa e Ian que Britanny foi um verdadeiro choque. A filha mais nova de Frannie completaria um ano no mês de dezembro e havia sido o bebê mais inquieto da história da cidade. Assim que os pais aceitaram que a pequena Britanny precisava gritar e chorar algumas horas todos os dias, Frannie e o marido Jackie relaxaram e deixaram de pensar que algo de mais sério podia estar incomodando a menina. — Em nossa casa tudo vai bem — Dee confessou, rindo ao ver Frannie mostrar a língua. A caçula de Dee, Maureen, tinha apenas quatro meses de idade e já dormia por muitas horas seguidas. — Lee adora o primeiro ano e Tommy está igualmente encantado com o jardim-de-infância. — É bom saber disso — Jillian respondeu. Sabia que Deirdre ficara apreensiva com a adaptação dos filhos na escola. — Também tenho novidades. Alguém quer tentar adivinhar? As duas se mostraram intrigadas. — Vai abrir um novo negócio — Frannie arriscou com ar satisfeito. — Errado. — Vai viajar? Ou se mudar? — Vou alugar minha casa. — O quê? — Frannie reagiu espantada. — Por que vai alugar a casa? Onde vai morar? — É uma longa história, mas acho que podemos começar por... isto. — E mostrou a mão com o anel e a aliança, fingindo estar encantada com os presentes. — Um diamante! — Dee exclamou. — É... uma aliança de casamento? — Frannie completou surpresa. — Por acaso quer apresentar-nos a alguém? — Sim, mas... não é o tipo de história que estão esperando ouvir. — Bem, é uma história de amor — Dee suspirou com ar sonhador. — Isso é tudo que importa.

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— Não, não é. — O quê? Jill, agora está falando coisas sem sentido. — Muito bem, vou tentar ser mais clara. Casei-me esta manhã. — Ignorou as exclamações espantadas das amigas e continuou. — O nome dele é Dax Piersall e nós crescemos juntos. Ele é o irmão mais velho de Charles. — Mas como... — Dee tentou interromper. — Charles deixou para mim suas ações na companhia. Dax e eu formamos uma sociedade porque a empresa está enfrentando alguns problemas que temos de solucionar. — Quer dizer que se casou temporariamente? — Frannie parecia perplexa. — Não entendo. .Estou certa de que poderiam ter encontrado uma solução fora do casamento. — Não. Acredite, esse era o único caminho. — Recusava-se a revelar os detalhes sórdidos de seu passado com Dax ou a maneira como ele a coagira a aceitar a imposição. Se tinha de engolir a humilhação, tentaria digeri-la quando estivesse sozinha. — Por quanto tempo ficarão casados? — Dee quis saber. — E onde vão morar? — Vou me mudar para a casa de Dax do outro lado de Butler County. Nosso acordo será válido por seis meses. — Girou o anel no dedo, forçando um sorriso para tentar amenizar a tensão que pairava no ar. —Ele ainda não disse se vou poder ficar com o anel quando tudo terminar. Acho que ainda terei de esclarecer algumas... cláusulas. — Está escondendo alguma coisa — Frannie acusou-a. — O que deixou de nos contar? — Apenas alguns detalhes aborrecidos. Trata-se de um acordo muito simples. Oh, sim, e Dax tem uma filha, o que significa que me tornarei madrasta. — Oh, céus, o enredo começa a ficar complicado. Quantos anos tem essa menina? — perguntou Dee. — Ela é um pouco mais velha que Lee. Imagino que também esteja no primeiro ano. — Onde se casaram? — No cartório, Frannie. Há cerca de duas horas. Agora uso esta aliança e sou casada. É simples. Não precisamos nem de padrinhos, porque convidamos um funcionário do cartório para ser testemunha. — Exatamente como um acordo comercial — Dee suspirou. — Isso mesmo. Em seis meses, serei uma mulher livre novamente, e espero estar mais rica, também. E prometo, Frannie, que se algum dia decidir me casar de verdade, você terá carta branca para fazer meu vestido em sua loja. Frannie sorriu com tristeza. — Que tipo de promessa é essa? Sabemos que você dá mais valor a sua liberdade do que muitos solteirões que conhecemos. — Vou encarar o comentário como um elogio. E agora, que tal brindarmos ao meu novo estado civil?

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As duas amigas ergueram seus copos e celebraram, mas quando o garçom aproximou-se para anotar os pedidos, Jill teve a impressão de que nenhuma das amigas estava satisfeita com a ilusão que criara.

CAPÍTULO V

Dax estava parado ao lado da janela do escritório, olhando para a entrada da casa. Só acreditou que ela cumpriria a palavra quando a viu entrar. Jillian dissera que precisava de tempo para arrumar a mudança e, em vez de argumentar e protestar, como sabia que ela esperava, concordara imediatamente e até sugerira que ela só se mudasse no sábado, porque assim poderia arrumar as malas sem pressa. Mas Jill se recusara a abrir mão da casa, onde deixara boa parte de seus pertences. Havia preferido alugá-la por seis meses... uma recordação nada sutil sobre o estúpido limite que havia imposto quando pensara que ela recusaria toda e qualquer coação. Fora forçado a ameaçá-la e estendera a ameaça aos amigos dela para convencê-la, e era horrível constatar que Jill o transformara em uma espécie de homem das cavernas. Não o conhecia o bastante para saber que jamais realizaria as ameaças? A inimizade contínua estava começando a perturbá-lo de verdade. Desde o dia em que ela conhecera Chris, quando vira a máscara cair, expondo a mulher sofrida e intensa que existia por trás dela, deixara de imaginar todas as maneiras possíveis para esganá-la. E depois de como ela reagira no restaurante, tivera certeza de que Jill sofria. Só não sabia porquê? Ainda. No momento, estava mais concentrado no aspecto físico daquela intrigante personalidade. Cansara-se de lutar contra a atração, de fingir que não queria tocá-la e beijar cada centímetro de seu corpo. Não precisava amá-la, nem mesmo gostar dela, para desejá-la. Sabia que ela concordara com o casamento, certa de que dormiriam em quartos separados, e era melhor assim. Teriam duas camas disponíveis. Três vans entraram na propriedade e pararam diante da casa. Apressado, Dax abandonou o posto ao lado da janela e sentou-se atrás da escrivaninha. Não queria que ela o visse e pensasse que estava esperando por sua chegada. Ouviu o som da porta e vozes masculinas e femininas. A porta do escritório estava entreaberta, e pela fresta viu Jillian vestindo alguma coisa rosa choque e muito justa. Ela começou a subir a escada e a pequena tropa a seguiu. Eram dois homens e duas mulheres, e todos pareciam muito animados e bem-humorados, pois trocavam provocações debochadas e riam do esforço que faziam para realizar a mudança.

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Curioso, Dax levantou-se e foi até a porta. — Aqui. — Jillian arrastava uma mala enorme. — Leve isto para cima enquanto vou buscar outras coisas no automóvel. Podia ter se recusado, mas participar da mudança era a melhor maneira de saciar a curiosidade. Quando chegou ao quarto e deixou a mala em um canto, percebeu que também estava sendo examinado com interesse e virou-se para um dos homens, um louro musculoso que se apressou em estender a mão. — Olá — disse, aceitando o cumprimento. — Sou Dax Piersall, marido de Jillian. — Jack Ferris. E esta é minha esposa, Frannie. — Gomo vai? — Além de pernas longas e bem torneadas, ela tinha cabelos castanhos com reflexos dourados criados pelas longas horas de exposição ao sol e enormes olhos escuros.— E amiga de Jillian? A mulher sorriu, fez um movimento afirmativo com a cabeça, e Dax se deu conta de que aquelas pessoas consideravam-se protetores de Jillian. Virou-se para o segundo casal e estendeu a mão novamente. — Sou Dax. Mais amigos de Jill? O homem parecia mais civilizado e simpático que Jack Ferris. — Ronan Sullivan. E amigo é uma palavra muito forte. Jill apenas me suporta. Minha esposa, Deirdre, é sua verdadeira amiga. — É um prazer conhecê-lo, Dax — a mulher comentou com um sorriso divertido. Era linda, dona de uma voz sensual e dos olhos mais verdes que já vira. Os cabelos negros e encaracolados iam até a cintura, e o corpo era uma espécie de escultura. Então Jillian apareceu e todos os outros pensamentos desapareceram de sua mente. Ela vestia uma espécie de sutiã de ginástica e bermuda de ciclista rosa-choque, e os pés estavam escondidos em tênis muito velhos que pareciam confortáveis sobre as meias grossas. O impacto do corpo bem definido e rígido o atingiu como um soco violento no estômago. — Já se apresentaram? — ela perguntou. Ao ver os amigos assentirem, virou-se para um deles em especial. — Sei que não é um homem modesto, e se ainda não disse quem realmente é, deve ter sido por falta de tempo. — Olhando para Dax, anunciou: — Ronan é R. A. Sullivan. R. A Sullivan! Reconheceu o nome do escritor imediatamente. — Está brincando! — disse. -— Adoro seus livros! Tenho todas as edições em capa dura. — Mais dinheiro nos bolsos dele -— Jack intercedeu. — Eu prefiro esperar para comprá-los naquelas edições mais baratas. — Sovina — Ronan acusou-o. — Ainda há muita coisa nos automóveis? — Dax perguntou. — Nem queira saber — Jack respondeu. Ele olhou para Jill e notou que a máscara de confiança voltara a esconder o rosto até então incerto. — Ainda há alguma coisa que queira ir buscar em sua casa?

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— Não. Trouxe tudo de que preciso para os próximos seis meses. O silêncio invadiu o quarto. Era como se todos prendessem o fôlego esperando por sua reação. A única sorridente era Jillian., Teria gostado de arrastá-la para o corredor para uma conversa em particular, mas tinha medo de tocar sua pele e perder o controle. Por isso pôs as mãos nos bolsos e encolheu os ombros, virando-se para o grupo de amigos. . — Ela sempre fica agressiva quando se sente ameaçada, e no momento minha presença a deixa muito nervosa. Jack abriu a boca e Ronan emitiu um assobio longo, mas as palavras tiveram o efeito previsto em Jill. Podia praticamente ver o sangue fervendo em suas veias. Mais um minuto e ela estaria gritando e atirando objetos no chão. Ao vê-la abrir a boca para dar início ao ataque, disse: — Vá em frente e me xingue de todas aquelas coisas horríveis, favo de mel. Mais tarde vai me pedir desculpas... quando estivermos sozinhos. Se os olhos azuis e cintilantes pudessem lançar dardos envenenados, já estaria morto. Jillian respirou fundo, comprimiu os lábios para conter as palavras que gostaria de ter dito e, furiosa, saiu do quarto. — Ei, favo de mel, espere por mim — Jack a seguiu sentindo a presença de Ronan em seus calcanhares. — Precisa dizer aos rapazes onde quer aquela pequena mesa de canto. Dax ainda saboreava a vitória quando Deirdre aproximou-se. — Jillian nos disse que vocês tinham apenas um acordo comercial. — Bem, essa é uma maneira de explicar a situação. — Gostaria de ouvir a sua versão para os fatos. — Ela cruzou os braços. Dax estava surpreso com a ousadia da mulher. — Creio que esse é um assunto que só interessa a mim e a minha esposa. — Quando Jillian nos contou, essa ideia de casamento soou como uma simples manobra financeira, uma estratégia empresarial. — Frannie havia se juntado a eles. — Mas agora que os vimos juntos, nada mais parece tão simples. — Nós nos conhecemos há muito tempo. — Jill não é tão dura quanto quer parecer — Deirdre revelou em tom de confidencia. — Não sei por que voltou ou o que os levou a se casarem, mas, por favor, não a faça sofrer. — Mais... — Frannie acrescentou. Dax gostaria de saber o que Jillian havia dito sobre ele. — Ei, quem disse que eu a fiz sofrer? Frannie permanecia séria. — Ninguém disse nada. Mas se não foi você, alguém a marcou profundamente no passado. Pode afirmar que não tem culpa nenhuma? — Escutem, Jillian e eu temos uma história juntos, e algumas coisas a esclarecer. Eu não... — Não podia mentir. Voltara para feri-la, e conseguira alcançar seu objetivo, mas o sucesso despertara mais dúvidas do que havia antecipado. — Eu a fiz sofrer —

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confessou, massageando a nuca para livrar-se da tensão. — E não sei se não a magoarei novamente. Mas não vou feri-la de propósito. E isso é tudo que posso garantir. — Gostaria que não me embaraçasse diante dos meus amigos. — Jillian estava parada na porta, procurando briga. Mudara-se há vinte e quatro horas e aquela era a primeira vez que falava com Dax depois do confronto diante de Frannie, Deirdre e seus maridos. Dax estava sentado em uma poltrona da sala íntima, assistindo a um jogo de beisebol pela televisão, e levantou os olhos ao ouvi-la. — Então não me provoque. Jill consultou o relógio, notou que Christine brincava na sala e decidiu abandonar o ataque. — O que vai querer para o jantar? Espera que eu prepare as refeições quando a sra. Bowley estiver de folga? — É claro que não. Pode cozinhar, se quiser, mas a sra. Bowley sempre deixa alguma coisa pronta. A menina, que havia abandonado as bonecas para acompanhar a conversa, decidiu interferir: — Oh, papai, ela deixou macarrão com atum, e eu detesto atum. — Sedutora, foi sentar-se no colo do pai. — Por que não pedimos pizza? Dax riu. — Nada disso, mocinha. Macarrão com atum é um prato nutritivo e saboroso. — Então pode comê-lo sozinho, porque eu não suporto macarrão com atum. — Jill virou-se para sair da sala. Era horrível sentir ciúme de uma criança, mas não suportara ver a adoração com que Christine fitara o pai, nem a ternura com que ele a abraçara. — Vou ver o que posso improvisar para o jantar. E congelarei o macarrão. Um dia, quando Christine e eu estivermos fora, você poderá comê-lo sozinho. Na cozinha, encontrou tomates maduros no refrigerador e decidiu preparar espaguete. Havia posto a água para ferver e reunido todos os temperos quando Christine entrou na cozinha. A menina encolheu-se num canto, como se quisesse passar despercebida, e Jillian decidiu que era melhor fingir que não a vira entrar. Cortou uma cebola, e estava começando a jogar os tomates na água fervente, quando Christine aproximou-se curiosa. — O que está fazendo? — Molho de macarrão. — Os tomates mergulharam na água fervente e ela os transferiu para uma vasilha com água gelada, de onde os retirou para remover as peles com imensa facilidade. — Gosto de espaguete com molho — Christine informou. — Papai contou que agora você é minha madrasta. — É, acho que sou. — Devo chamá-la de madrasta? Jillian não conteve o riso. — Não, ou vou me sentir na história de Branca de Neve. Pode me chamar de Jill,

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se quiser. É assim que os amigos me tratam. — Eu não tenho amigos. Não queria gostar daquela criança, mas o coração não resistiu à solidão na voz dela. Conhecia o sentimento, e não queria nem imaginar que tipo de efeito devastador ele podia causar em uma criatura tão pequena e indefesa. Deixando a faca sobre a pia, ajoelhou-se diante da menina. Christine recuou assustada, mas ela fingiu não notar. — Na segunda-feira iremos visitar sua nova escola. Aposto que vai fazer muitos amigos por lá. Seu pai disse alguma coisa sobre minha família? A criança balançou a cabeça. — Agora você tem alguns primos, uma tia e um tio. — De repente parou, dominada pela incerteza. Seria errado deixá-la conhecer sua família? Dax havia contado à filha que o arranjo só sobreviveria por seis meses? Por alguma razão, acreditava que não. — Primos? — A pequena estava interessada. — Exatamente. — Ela se levantou, terminou de tirar as peles dos tomates e jogouos no processador de alimentos. — Jenny tem quase quatro anos. Ela faz aniversário no mês que vem, depois de você, e tem um irmão caçula. Um bebê. Seu nome é John Benjamin, mas nós o chamamos de J.B. — Posso conhecê-los? — É claro que sim. Fomos convidados para jantar com eles na semana que vem. — O que vai fazer agora? — Christine apontava para os tomates. Parecia ter perdido o interesse em sua história familiar, e Jillian sentiu-se aliviada. — Vou transformá-los em purê. Depois o molho irá para a panela e ficará fervendo com os temperos. Gosta de almôndegas? — Gosto. — Eu também. Acho que vou preparar algumas enquanto o molho estiver fervendo. — Posso ajudar? Era óbvio que a menina esperava ser rejeitada. — É claro que sim. Quanto mais cedo aprender a cozinhar, mais depressa eu me verei livre da cozinha. Christine sorriu, uma expressão contida que revelava toda sua timidez. Tentando imaginar o que a mãe daquela criança havia feito para deixá-la tão ansiosa e insegura, Jillian decidiu pedir mais detalhes a Dax na primeira oportunidade que tivesse. — Nunca me contou que sabia cozinhar. — A voz profunda as assustou. — Você nunca me perguntou. — Consciente da atenção com que eram ouvidos, procurou manter a voz baixa e calma. — Sou uma cozinheira bem razoável. É claro que só preparei jantares íntimos para duas pessoas... — provocou. — Pois de agora, em diante, sua experiência culinária vai se resumir a refeições familiares. — Oh, é mesmo? E por que está tão preocupado em lembrar meus deveres de esposa?

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— Não me provoque, Jill! — Quem está provocando? Pode deixar a cozinha quando quiser. Aliás, não me lembro de tê-lo chamado aqui e... — Parem com isso! — O grito aflito soou no canto da cozinha e os dois se viraram, chocados com a agonia contida no pedido. — Querida, está tudo bem. Papai e Jillian... — Mas Dax não conseguiu concluir a sentença. Com os olhos cheios de lágrimas, a menina saiu correndo e subiu a escada que levava aos quartos. Os soluços podiam ser ouvidos de onde estavam. Jillian olhou para Dax e respirou fundo. — Vamos acabar enlouquecendo por causa dessa sua ideia absurda. — Queria consolar a menina, mas o problema não era dela. Não devia envolver-se. — Christine costuma ser mais pacata, mas acho que ficou assustada por pensar que estávamos brigando. Nos últimos anos, o marido de Libby passava o tempo todo gritando e fazendo ameaças. — Ele gritava com Christine? Meu Deus! Devia ter me contado, Dax! Eu teria sido mais sensata. — Sinto muito. Devia tê-la prevenido. — O rosto exibia tristeza e preocupação. — Vou ver o que posso fazer por minha filha. — Não, deixe que eu fale com ela. Christine já sabe que você a ama. Sou eu quem devo assegurá-la neste momento. — Ao vê-lo levantar a cabeça para encará-la, não soube quem estava mais surpreso. Por que havia dito tal coisa? Não queria a responsabilidade que acabara de assumir. No entanto, preferia ser torturada a admitir que cometera um engano. — Jillian? — O que é? — Desculpe-me. Não devia ter provocado uma discussão. — Também sinto muito. Prometo que jamais vou alterar o tom de voz com ela. E manteremos nossas diferenças sob controle até termos privacidade para discuti-las. Ele sorriu. — Não estou preocupado com o tratamento que vai dar à minha filha. Sei que jamais faria qualquer coisa para magoá-la. Jillian deixou a cozinha tentando conter o entusiasmo provocado pelo comentário. A reunião mensal dos acionistas da Piersall havia sido marcada para a terça-feira. Dax chegou cedo e fechou-se no escritório para revisar o material que pretendia apresentar. Passara a semana anterior conhecendo a equipe de Charles e estudando procedimentos, verificando o inventário e atualizando seus conhecimentos no processo de manufatura de vigas de aço produzidas pela companhia. Crescera ali, fora preparado para assumir uma posição de comando dentro da empresa, mas o pai havia morrido quando ele tinha dezessete anos, e um executivo contratado assumira o posto até que ele completasse o curso superior. Dax ficara na universidade por mais dois anos para terminar a graduação e planejara voltar para casa e

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assumir as rédeas dos negócios depois disso. Também fizera planos para se casar com Jillian, mas nenhum de seus projetos havia se concretizado. Quando fora traído pelo irmão e a noiva, simplesmente abandonara a cidade. Charles devia ter sido nomeado presidente, mas pelo que pudera ver até agora, não passara de uma figura decorativa, deixando a maior parte das decisões e a administração diária nas mãos dos diretores e empregados. Lera quase todas as minutas das reuniões de acionistas realizadas nos últimos três anos, e constatara que o irmão raramente estivera presente. Ele, Dax, não tinha a intenção ser uma presença invisível. Quando entrou na sala de reuniões, encontrou mais de meia dúzia de homens e uma mulher de cabelos grisalhos sentados em torno da mesa. Todos se levantaram ao vê-lo e as apresentações começaram. Roger Wingerd estava lá, e havia uma pilha de papéis diante dele para serem distribuídos pelo grupo. Vários homens eram acionistas que ele conhecera antes de partir, e um deles, Gerard Kelvey, havia sido amigo de seu pai. Dois outros eram jovens, aparentemente ambiciosos, e a mulher era outra pessoa que reconhecia. O marido de Naomi Stell comprara ações, e Dax soubera que desde sua morte, três anos antes, Naomi tornara-se ativa no grupo. O presidente do conselho deu início à reunião. E então a porta se abriu. Todos se viraram para ver quem acabara de chegar. E ninguém desviou os olhos quando Jillian surgiu na soleira. Dax prendeu o fôlego, e só voltou a respirar quando constatou que ela havia escolhido um traje adequado à ocasião, apesar da saia curta demais sob a jaqueta discreta. Controlado, levantou-se e puxou uma cadeira para que ela se sentasse. O cérebro voltava a funcionar depois da surpresa inicial, e ele se deu conta de que a presença inesperada da esposa podia ser sinônimo de problemas. Por isso queria mantê-la em uma posição onde pudesse controlá-la, caso fosse necessário. — Srta. Kerr! Que prazer inesperado! — O presidente do conselho sorriu e, como se de repente se lembrasse de onde estava, recobrou a postura séria e profissional. — Em que podemos ajudá-la? — Oh, continuem como se eu não estivesse aqui — ela respondeu relaxada. — Só quero observar e aprender. Charles deixou suas ações para mim, e de hoje em diante passarei a fazer parte das reuniões. Houve um silêncio súbito e tenso na sala. O presidente tossiu. Depois olhou para Roger Wingerd, que abriu os braços num gesto de impotência. — Sempre imaginamos que a família Piersall ficaria com a maior parte das ações — o presidente apontou constrangido. — E acertaram — Dax anunciou. — Jillian e eu nos casamos na semana passada. — E meu marido sempre soube que eu gostaria de ter uma participação ativa na política de decisões da companhia. — Bem, em nome de todos os acionistas, quero lhes dar os parabéns e desejar muita felicidade para essa união. — O homem recolocou os óculos e voltou à agenda. Dax permaneceu tenso durante toda a reunião, tentando imaginar o que Jill pretendia fazer. Ela formulava perguntas inteligentes, ouvia com atenção a todas as explicações, e podia quase vê-la arquivando as informações em algum recanto do cérebro. Concluída a fase inicial do encontro, Dax decidiu que era hora de entrar em cena. Expôs suas preocupações com a precária situação financeira da empresa e explicou as

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propostas para retomar a solidez anterior. Respondeu às perguntas dos outros acionistas, ignorando Roger, que parecia bastante perturbado com a possibilidade de ser demitido. — Mas não podemos simplesmente demitir os empregados — Naomi protestou. — Não tenho a intenção de simplesmente demitir. Mas existe a necessidade de colocarmos em prática um plano de contenção de despesas, e para isso a redução no quadro de funcionários é fundamental. Gostaria de assumir uma posição de liderança dentro da companhia. Na verdade, quero o cargo de presidente anteriormente ocupado por meu avô, meu pai, e mais recentemente, por meu irmão Charles. — Sabia que a votação era uma mera formalidade, já que ele e Jillian possuíam mais de cinquenta por cento das ações. Então uma horrível suspeita surgiu em sua mente. Olhou para Jill, que ouvia atentamente a seu lado. Ela dissera ao conselho que havia herdado as ações de Charles. Estaria disposta a votar por elas? Enquanto os acionistas discutiam o que acabaram de ouvir, Dax chutou-a por baixo da mesa. Ela se virou e fitou-o com um sorriso paciente, uma expressão que confirmava seus piores temores. — Presumi que votaria por toda a família — ele murmurou. Jillian hesitou como se nunca houvesse considerado tal possibilidade. — Oh, eu não sei. Charles confiou em mim quando me deixou parte de sua empresa. Sinto-me no dever de participar ativamente de todas as decisões tomadas pelo conselho. — Maldição! — Queria esmurrar a mesa, tal a intensidade de sua frustração. — Se não tomarmos uma atitude imediatamente, será tarde demais para salvar a companhia. Vai ter de me apoiar com seus votos. — Dax, não sou obrigada a fazer tudo que você quer. — Parou e sorriu, exibindo uma confiança que o enfurecia. — Mas fique tranquilo. Acho que posso concordar com você. A Piersall precisa de uma liderança forte e assertiva e... você tem essas qualidades. Ele segurou a mão dela sobre a mesa e afagou-a, sentindo que a tensão deixava seu corpo. — Obrigado. Quando chegou o momento de votarem a proposta, Dax ficou satisfeito ao constatar que mais de oitenta por cento dos acionistas o apoiavam. Naomi Stell votou contra e, para sua surpresa, Gerard Kelvey também. Mesmo assim, quando a reunião chegou ao fim e ele acompanhou Jillian para fora da sala, Dax experimentava um certo prazer. Ela o apoiara! Confiara em seu julgamento e reforçara sua posição diante do restante do conselho. A alegria desapareceu quando lembrou que não a brindara com a mesma confiança.

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CAPÍTULO VI

Setembro passou depressa, e Dax ficou feliz ao ver que Christine perdia parte da timidez. Ela gostava da escola e fizera alguns novos amigos, crianças com quem brincava frequentemente e que estavam sempre visitando sua casa. Jillian também se mostrava mais acomodada desde sua chegada, duas semanas atrás. Passava a maior parte das noites com Christine, e saía todas as manhãs logo depois de acordar a menina e pentear seus cabelos, deixando para ele as tarefas de preparar o café da manhã e levá-la para a escola. Era um arranjo que funcionava bem. Mas Jill não falava com ele em particular há mais de uma semana, e suspeitava de que o estivesse evitando de propósito. Três vezes por semana ela saía de casa às sete e meia da manhã para ir à academia, de onde seguia diretamente para o trabalho. Nas outras três ela recusava o café, comendo apenas uma torrada enquanto se dirigia ao Porsche vermelho e desaparecia, deixando-o com a impressão de ter sido atropelado por um furacão de pernas longas e corpo perfeito, e com uma excitação incômoda sobre a qual pretendia fazer algo em breve. No sábado de manhã, decidiu esperá-la no corredor. — Quero falar com você — disse ao vê-la fechar a porta do quarto. Jillian deu um pulo e levou a mão ao peito. — Vai acabar me deixando de cabelos brancos com todos esses sustos! — Você? Nunca! Vai morrer loura, mesmo que seja com o auxílio de uma boa tintura. Ela relaxou e sorriu. — Tem razão. — Depois olhou para o relógio. — Estou atrasada. O que quer? Você. — Duas coisas. Quero que organize um jantar para o próximo sábado à noite. Acha que é conveniente? — Já convidou as pessoas, não? Por que pergunta se é conveniente? — É verdade, já os convidei. Mas se não puder recebê-los, levarei o grupo ao clube. — Esqueça. Não foi para isso que me contratou? Eu cuido do jantar. Descubra apenas se algum dos seus convidados é alérgico a frutos do mar, e certifique-se de me dizer todos os nomes com antecedência. — Obrigado. — Não me agradeça. Qual é o segundo pedido? — O aniversário de Christine é no dia treze. — Treze de outubro? Daqui a duas semanas?

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— Isso mesmo. Estava pensando se poderia me ajudar a organizar uma comemoração e escolher os presentes. — É claro que sim. Podemos falar sobre isso mais tarde. Faremos todos os planos depois que Chrissy for para a cama, está bem? — Obrigado. Sou realmente grato por tudo que tem feito. Houve um silêncio estranho. Ela usava uma calça de ginástica e o sutiã colorido sob uma camiseta larga com a gola cortada. O decote generoso deixava entrever a curva superior dos seios, e por um momento Dax sentiu-se perdido. — Mais alguma coisa? — Jill perguntou, ajeitando a sacola que levava pendurada em um ombro. — Oh, eu... Sobre a companhia... Descobri coisas estranhas nos livros fiscais e gostaria que desse uma olhada neles. Se os trouxer para casa esta noite, acha que poderá examiná-los e me dar sua opinião? — Creio que sim. O que acha de jantarmos juntos? Manterei o jantar quente. — Boa ideia. Nossa primeira refeição em família. — Esperava que ela não visse a emoção em seus olhos. Seria impróprio admitir que estava encantado com a ideia de voltar para casa e encontrar uma esposa, uma filha e uma refeição quente? — Preciso ir. Até mais tarde. Ao vê-la descer a escada, Dax pensou em como Jillian chamara sua filha. Chrissy. Como a mãe dela costumava tratá-la em seus primeiros anos de vida. Se Jill partisse, Christine ficaria devastada. E não seria a única. A menina fora convidada para ir a um parque de diversões com a família de uma amiga, e Dax foi levá-la à casa da outra criança. Depois voltou para trabalhar um pouco. Salvar a Piersall era uma missão envolvente e desgastante, e a cada dia dependia mais de seu gerente em Atlanta para tomar as decisões rotineiras relativas à operação da fábrica de caixões. Por uma boa oferta, poderia vendê-la e desistir do projeto de enlouquecer. Mas... estaria mesmo pensando em vender o negócio em Atlanta e voltar para casa... definitivamente? E quando voltara a pensar em Butler County como sua casa? Precisava tomar cuidado, ou acabaria perdendo o controle da situação. Jillian o esperou com o jantar pronto, e a refeição transcorreu tranquila. Se não tivesse de passar o tempo todo lutando contra a reação física provocada pela presença da esposa, a ocasião teria sido até relaxante. Ela trocara as roupas de trabalho por um short e uma camiseta larga e velha. Em qualquer outra mulher, o conjunto teria parecido disforme e sem atrativos, mas nela... O tecido desbotado realçava o formato dos seios rígidos, e o short era tão curto que mal aparecia sob a barra da blusa, expondo as pernas nuas como se ela não usasse nada além da camiseta. Christine falava sobre o dia no parque, e a culpa o invadiu quando percebeu que não ouvira uma palavra do que a filha dissera. Devia estar convivendo com ela mais frequentemente, dando mais atenção e afeto, mas fora necessária a presença de uma terceira pessoa em sua casa para que se desse conta de suas falhas como pai. A culpa era um sentimento que podia dominar seus dias, se permitisse. Esqueça, disse a si mesmo. Não pode voltar ao passado, mas pode seguir em frente e agir de maneira mais correta dessa vez.

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Terminaram de comer e todos ajudaram com a arrumação. Enquanto Jillian ligava a lavadora, Dax pousou as mãos sobre os ombros dá filha e sorriu. — Prometo que vou tentar voltar para casa mais vezes a tempo de jantar com minhas garotas. Foi muito divertido. Um som agudo chamou a atenção da menina e, sorrindo, ela olhou para um pequeno objeto oval pendurado em sua cintura. — O que é isso? — Dax perguntou espantado. — É um bichinho virtual — Jill explicou. — Um o quê? Christine contou ao pai como funcionava o brinquedo, e depois de ouvi-la ele sorriu surpreso. — Nunca vi nada mais absurdo. Não tínhamos esse tipo de jogo quando éramos crianças. — Na nossa época, o máximo em matéria de inovação eram os bonecos do Homem Aranha — Jillian riu. — E você tinha aquelas bonecas idiotas que viviam perdendo os cabelos. — Elas não eram idiotas! E ver uma boneca perdendo os cabelos era uma experiência bastante traumática. Na verdade, o evento me marcou para toda a vida. — É claro. Lembro-me de que era muito mais cuidadosa com Barbie e Ken. Eram eles que você operava. Jamais esquecerei o dia em que sua mãe explicou que a perna da Barbie não cicatrizaria depois de tê-la cortado. — Vocês falam como se soubessem tudo a respeito um do outro — Christine observou inocente. Silêncio. Jillian foi a primeira a recuperar-se. — É sério que sabemos, não é? A menina parecia não notar a súbita tensão. — Tenho de ir terminar meu dever de matemática. Odeio lição de casa! — E saiu da cozinha. O silêncio voltou a reinar. — Bem — Jillian suspirou —, acho melhor ir ver se Chrissy precisa de ajuda. — Favo de mel... O tratamento carinhoso a fez encará-lo. — O que é? — Sabe do que mais senti falta enquanto estive longe? — Do quê? — De raízes. De lembranças e pessoas com quem pudesse dividi-las. Ninguém me conhecia em Atlanta. Pode compreender o que digo? — Sim, acho que posso. Havia uma profunda tristeza em sua voz, e ele se lembrou do acidente de sua irmã

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e da consequente perda de memória. — Também se sentiu sozinha, não é? — Ainda sinto a solidão. — Jillian... — É melhor esquecermos, Dax. — Não quero esquecer nada. — Aproximou-se e parou atrás dela, sem tocá-la. — Descobri que gosto de lembrar. — Mas eu não gosto. Certas coisas se tornam menos incômodas quando esquecidas, mesmo que temporariamente. Havia tanta desolação na voz dela, que Dax segurou-a pelos ombros e virou-a. Devagar, puxou-a de encontro ao corpo. Jill não resistiu, embora também não correspondesse ao abraço. E apesar de todas as reações provocadas pelo contato, sabia que sexo não era o que ela queria naquele momento. Carinhoso, fez com que ela apoiasse a cabeça em seu ombro, experimentando uma profunda satisfação ao perceber que a tensão a abandonava. Os braços o enlaçaram pela cintura e ele tocou seus cabelos com os lábios. Por alguns instantes, ficaram parados no meio da cozinha, abraçados e silenciosos. E pela primeira vez desde que voltara a pisar em Butler County, sentiu-se realmente em casa. O silêncio foi interrompido pelo chiado do interfone. — Jillian? Pode vir até aqui, por favor? Não consigo entender essa história de subtração. Afastaram-se devagar, relutantes. — Eu vou — Dax anunciou. — Preciso passar mais tempo com minha filha. — Ela vai ficar muito feliz com isso. Queria dizer mais, falar sobre os sentimentos que o invadiam, mas era como se tivesse um talento especial para dizer as coisas erradas quando estava perto de Jillian. Por isso virou-se para sair. — Dax. — O que é? — Marina nos convidou para jantar na sexta-feira. — Pode dizer a sua irmã que estaremos presentes. Quando ele desceu, Christine havia concluído o dever de casa e já estava na cama, pronta para dormir. Seguiram para o escritório, e Dax indicou os relatórios empilhados sobre a mesa. — Aqui estão os balanços do último ano. Dê uma olhada. Jillian examinou rapidamente os números. Quando ergueu a cabeça, os olhos eram o retrato da preocupação. — É como se os preços desses produtos houvessem sido mantidos baixos de propósito. Não sou a favor de explorar o consumidor, mas também não sei como a Piersall pôde ter obtido algum lucro com margens tão reduzidas. Ele se aproximou para apontar um dado em especial, e ao estender o braço, tocou-

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a sem querer. Ela o encarou... E não desviou os olhos. Incapaz de conter-se, Dax tomou-a nos braços e a fez levantar-se, puxando-a de encontro ao peito. A intensidade da reação provocada pelo contato o assustou. Eram casados. Por que não podiam viver os prazeres do leito conjugai? — Favo de mel... Eu quero você. — Eu sei. — Vamos subir. — Não. Eu não quero, Dax. — Mentirosa! — E beijou-a. — Você me quer tanto quanto eu a quero. — Talvez. — E afastou-se do abraço. — Mas não pratico sexo casual. — Nunca tivemos sexo casual em toda nossa vida! — ele explodiu irritado. — Não se lembra... — Lembro-me de tudo. — Virou-se de costas para ele e cruzou os braços, exibindo uma vulnerabilidade que o tocou profundamente. — Posso esperar um pouco mais, favo de mel. Mas não me faça esperar por muito. Você agora é minha esposa, e eu a quero em minha cama. Jillian o encarou, e a tristeza em seus olhos foi como uma lâmina cravada no coração de Dax. — Não sou um objeto de que pode se apoderar. Sou uma pessoa. E tenho sentimentos. Ele a viu sair e ficou ali parado, o corpo clamando para que fosse atrás dela enquanto a mente refletia sobre suas palavras. Por que toda aquela tristeza? Fora ela quem o enganara. Ela provocara todos os problemas. Mas não fugira, nem tivera urna filha com outra pessoa. Nunca se casara com outro homem. Seria possível que ainda sentisse alguma coisa por ele? Sempre acreditara que Jill amava seu irmão. Mas... talvez também o amasse. Na quarta-feira seguinte, Jillian foi visitar a loja de Frannie. A pequena confecção de vestidos de noiva florescia rapidamente, e a proprietária decidira ampliar o negócio oferecendo tudo que uma noiva podia precisar, e algumas coisas desnecessárias, mas encantadoras. Dentre esses artigos estavam o casal de bonecos vestidos de noivos. Um cartaz anunciava a beleza de ter o vestido do casamento reproduzido em miniatura como uma eterna lembrança do dia especial. Que noiva não ficaria encantada com a sugestão? Seu vestido de noiva estava bem guardado e preservado em algum lugar da mansão Piersall. Sua casa. Nunca mais quisera vê-lo depois do rompimento, mas a mãe de Dax insistira em ir buscá-lo no estilista e o guardara dizendo que a vida dava muitas voltas, e que um dia poderia precisar dele. — Qual é a graça?

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A voz de Frannie interrompeu o fluxo de recordações. — Olá, querida. Como vão os negócios? — Bem, felizmente. Mas a rotina doméstica é outra história. Já teve catapora? — Sim, quando tinha cinco anos. Elisa pegou a doença na escola e levou-a para casa. Pensei que hoje em dia existissem vacinas para prevenir esses quadros. — Existem, mas não são cem por cento eficientes. O médico avisou que as crianças poderiam contrair a doença, embora mais fraca. Alexa foi contaminada na escola, e agora Ian e o bebê também estão expostos. Felizmente minha cunhada veio me ajudar. Ela está lá em cima, dando banho em Alexa. Ian e Brittany estão dormindo. — Sabe que não gosto de perder nossos almoços semanais. Contratei mais uma funcionária para suprir a falta de Elisa, mas ainda estou trabalhando muito. Estes são meus únicos momentos de folga. — O que Dax pensa desse seu horário maluco? — Eu... não sei. Nunca discutimos a questão. Ele também vive ocupado, e raramente tem tempo para Christine. Muito menos para a esposa. — Christine parece ser uma criança adorável. — Frannie a conhecera no final de semana anterior, quando aparecera para uma visita rápida. — Sim, ela é. Estamos nos dando muito bem. — A mãe dela e Dax são divorciados? — Sim. A mulher se casou novamente, e o segundo marido não quer Chrissy por perto. — Oh, céus! Christine sabe disso? — A mãe dela não se preocupou em fazer segredo. De acordo com Dax, mal podia esperar para se ver livre da menina. — Jill... No dia em que a ajudamos com a mudança, você disse que só ficaria naquela casa por seis meses. É verdade? — Sim Dax tem negócios em Butler County, e só estou trabalhando com ele enquanto sou necessária e ajudando com Christine. — Está me dizendo que o casamento é realmente uma transação comercial? — Exatamente. — Mas... vi como ele olha para você. Cheguei a ter certeza de que havia algum sentimento envolvido. Desculpe-me por estar metendo meu nariz onde não fui chamada, mas nunca vi um homem acendê-la como Dax. — Acender? — Se não doesse tanto, a imagem seria hilária. — Se pareço acesa perto dele, é porque o sujeito me deixa tão furiosa que começo a soltar faíscas. — Foi o que eu quis dizer. Ninguém mais consegue provocar emoções tão fortes em você. Tem uma coleção de admiradores, mas eles vêm e vão e você nem pisca. Mas se Dax for, tenho a impressão de que fará mais do que piscar. — Ele já foi... há sete anos. Um mês antes do nosso casamento. Houve um instante de silêncio chocado. Então Frannie a segurou pela mão e levou para o fundo da loja, onde havia uma pequena cozinha. Jill sentou-se e ela segurou sua cabeça junto ao ventre numa tentativa de confortá-la.

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— Meu Deus! Pode chorar, minha amiga. Jillian balançou a cabeça mortificada. :

— Eu nunca choro — disse, usando o tecido da blusa de Frannie para secar uma ou duas lágrimas que ameaçavam desmenti-la. — É verdade, você jamais chora. — E recuou para encará-la, fitando-a como se pudesse ler até o recanto mais escondido de sua alma. — Conte-me o que aconteceu. Jillian suspirou. — Você é persistente. Jack não estava exagerando quando disse que se havia casado com uma goteira pingando sobre uma rocha. Frannie sorriu e sentou-se diante da amiga, mas não a deixou mudar de assunto. — Por que ele a deixou? — Foi um estúpido mal-entendido. Dax pensou ter me surpreendido com Charles em uma posição comprometedora. E claro que estava enganado, mas ele não esperou para descobrir a verdade. — Simplesmente partiu? Há quanto tempo? — Sete anos. — E só agora voltou? — Por causa da morte do irmão. Acho que foi melhor assim — suspirou, engolindo o nó emocionado que se formara em sua garganta. — Se Dax não confiava em mim, nosso casamento não teria sobrevivido. — Mas... mas... Christine tem quase sete anos! — Prova de todo o esforço que ele fez para esquecer-me. Frannie balançou a cabeça, sem tentar esconder as lágrimas que ameaçavam transbordar de seus olhos. — Pare com isso! Sou uma verdadeira profissional com vasta experiência no controle das minhas emoções, e se começar a chorar agora, vai arruinar anos de esforço e dedicação. — Se não houvesse me contado nada, eu continuaria acreditando na possibilidade de uma reconciliação. Vocês dois provocam faíscas, mas também parecem muito... ligados. — Nós nos conhecemos há décadas. O que está descrevendo é familiaridade, mais nada. Mas quando mudou de assunto, sabia a que Frannie se referia. Havia realmente uma forte conexão entre ela e Dax. Reconciliação era uma palavra muito forte para a frágil relação que começavam a se formar novamente, mas sob toda a dor, o rancor e o pesar, havia um pequeno espaço onde a esperança começava a renascer. E o abraço terno que haviam trocado na noite anterior revolvera os escombros até expor essa esperança, que só esperava por um mínimo de nutrientes para crescer forte e vital mais uma vez. Na noite de sexta-feira eles foram jantar na casa de Marina. Os Bradford moravam em uma sólida construção rural numa vizinhança antiga e tranquila. O lugar era sereno, pacífico e silencioso, como a própria Marina, Dax pensou. Mas então passaram pela porta

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e as semelhanças terminaram. O pandemônio reinava absoluto. Pelo menos, era o que parecia. Foram recepcionados por um feijão saltador de cerca de cinco anos que Ben apresentou como Jenny. Uma imensa bola de pelos castanhos e brancos que se parecia vagamente com um cachorro dançava entre todas as pernas. Christine, que nunca convivera com animais, recuou assustada quando o cão correu em sua direção, e Jillian o agarrou pela coleira e obrigou-o a se afastar. — Major, seu idiota grandalhão! Espere ao menos que ela se acostume com você. Marina, venha buscar, seu cachorro! Marina apareceu na soleira com os olhos brilhantes e o rosto iluminado por um sorriso. Ela carregava um bebê nos braços, e o pequenino parecia estar submetendo os pobres pulmões a um teste de resistência. Depois de entregá-lo a Ben, ela os cumprimentou e desapareceu com o animal. Christine acompanhava a tudo com um misto de espanto e fascínio. — Uau! — ela exclamou em voz baixa. — Uma família de verdade! — Pode apostar nisso — Jill respondeu com um suspiro resignado. Dax riu do tom exagerado e aproveitou para observá-la. Jenny pulava na frente dela, falando sem parar enquanto a tia seguia para a sala de estar a convite de Ben. Quando passou pelo cunhado, Jill pegou o bebê e o acalmou com uma suave massagem nas costas enquanto ouvia o estridente relato de Jenny. Quando finalmente conseguiu sentar-se no sofá, ela aninhou o bebê com o rosto colado ao dela e fechou os olhos por um instante, como se saboreasse o momento. Era evidente que adorava crianças, pensou, vendo como ela apresentava Jenny a Christine e como incentivava sua filha a aceitar o convite para ir brincar no quarto da menina. Por que nunca se casara e tivera filhos? Não podia ter sido por falta de oportunidade. Pensar nela nos braços de outro homem provocou uma tensão tão grande, que teve de respirar fundo para relaxar as mandíbulas. A noite foi muito agradável. Apesar da hostilidade demonstrada por Ben no primeiro encontro, os dois beberam cerveja e discutiram futebol. Depois do jantar, as duas meninas foram para o quintal. Jenny garantiu a Christine que o cachorro era manso, e Dax surpreendeu-se ao ver com que facilidade a filha aceitava a acolhida de pessoas estranhas. — Jillian nos disse que voltou para resolver problemas relativos aos negócios de sua família — Ben comentou enquanto servia o café. — Digamos que essa é uma versão amena para um complexo conjunto de fatos. — O que a Piersall produz? — Manufaturamos aço. Quando meu avô fundou a companhia, o maior cliente era o Estaleiro Baltimore. Mas com o passar do tempo, os estaleiros passaram a construir cada vez menos, e meu pai assumiu a presidência da empresa disposto a diversificar. — Como? — Entrando no ramo da construção civil. Temos diversos distribuidores espalhados pela Costa Leste, sem abrir mão dos estaleiros que ainda restam. O mercado é forte... e a

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companhia devia estar indo bem. — Mas não está — Jill contou. — Examinamos os relatórios financeiros. Não há nada de errado ou ilegal, mas houve uma queda constante nos lucros durante os últimos cinco anos. — Como resultado, as ações também são desvalorizadas. Estou começando a imaginar se não pode haver uma única pessoa ou corporação comprando todas as ações disponíveis no mercado. — Para quê? — Ben estava intrigado. — A estratégia não faria bem a ninguém — Jillian apontou. — Nós dois temos cinquenta e um por cento, o que nos dá o controle acionário. — Eu sei, e isso é o que mais me incomoda. Não faz sentido. Houve um estranho silêncio em torno da mesa. De repente o bebê começou a chorar e, vendo a irmã se levantar, Jillian também pôs-se em pé. — Bem, obrigada pelo convite. O jantar estava ótimo, mas é melhor irmos embora, ou não vai conseguir colocar as crianças na cama. Quando foram chamar Christine, descobriram que ela estava em seu elemento. Dax jamais havia pensado em como a filha era solitária, mas, ao vê-lo desempenhando o papel de mãe na brincadeira infantil, teve certeza de jamais tê-la visto tão feliz. Christine seria ótima com os irmãos menores. Irmãos menores? Primeiro habituara-se à presença de Jillian em sua vida outra vez. Depois a levara para sua casa, e agora estava começando a pensar em bebês! O que havia acontecido com todo o bom senso armazenado ao longo de sete longos anos? Temia conhecer a resposta. Seu nome era Jillian Elizabeth Kerr. Piersall! Jillian Piersall. Nunca mais confiaria nela, e jamais voltaria a amá-la como antes, mas desde que não a deixasse dominá-lo como fazia com todos os homens que se aproximavam, poderia tirar proveito da convivência. E tinha certeza de que era capaz de manobrá-la.

CAPÍTULO VII

No sábado seguinte, Jill saiu para comprar um vestido novo para o jantar de negócios de Dax e decidiu levar Christine com ela. A menina precisava mesmo de algumas roupas, e a oportunidade era excelente. Ao convidá-la durante o café da manhã, soube que a mãe dela costumava costurar seus vestidos e, notando a tristeza em seus olhos, ofereceu-se para embalá-los em papel especial, de forma que fossem preservados para que um dia ela pudesse vesti-los em sua filha.

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— Está falando sério? — Chrissy perguntou emocionada. — É claro que sim. Além dos vestidos, terá recordações maravilhosas para dividir com seus filhos. — É estranho falar sobre um futuro distante — a menina riu.— Mas aceito sua oferta. Odeio a ideia de desfazer-me daqueles vestidos, E Jill... Sempre pensei que odiaria ter uma madrasta, mas hoje sei que estava enganada. — É bom saber disso. — Foi difícil engolir o nó que se formou em sua garganta. — Também pensei que odiaria ser madrasta de alguém, mas até agora a experiência tem sido muito boa. Virou-se para sair da cozinha antes que as lágrimas finalmente vencessem a barreira construída ao longo dos anos, e já estava alcançado a porta quando viu Dax parado na soleira. Ele sorria satisfeito, como se dissesse a si mesmo que forçá-la a aceitar o casamento fora uma ótima ideia. Esbofeteá-lo era um impulso quase irresistível, mas conseguiu superá-lo. — Vamos sair para fazer compras — anunciou. — Precisa de alguma coisa? Notei que suas calças estão ficando apertadas na cintura. — Não o esbofeteara, mas sentia necessidade de atingi-lo de alguma maneira. — Não há nada de errado com a cintura das minhas calças. Mas tem razão, elas têm estado bem apertadas. — Rápido, enlaçou-a pela cintura e puxou-a para o outro lado da porta, pressionando-a contra o corpo para fazê-la sentir a ereção de que parecia se orgulhar. — Dax, pare com isso! Chrissy pode entrar a qualquer momento! Além do mais, não sou seu brinquedo sexual. — Por que era tão difícil fazer o corpo aceitar o que o cérebro compreendia com facilidade? Rindo, Dax soltou-a. — Eu nunca disse que era. — E não vou dormir com você. — Tudo bem, não vamos dormir. Nunca fomos de dormir muito quando nos deitávamos juntos. As imagens criadas pelas palavras provocaram uma onda de excitação que bombardeou sua resistência. Se não tomasse uma atitude drástica, acabaria exatamente onde ele a queria, e recusava-se a fazer amor com Dax sabendo o que ele pensava a seu respeito. Sabendo o que ele pensava a seu respeito. De repente, resistir deixou de ser um problema. — Você acredita que dormi com seu irmão. O sorriso se transformou numa máscara fria e ameaçadora. — Você disse que eu estava enganado. — Não importa o que eu disse. O que importa é que julgou-me capaz de traí-lo. Pois bem, vou ajudá-lo a solucionar os problemas da Piersall, mas no dia em que completarmos seis meses de casados, sairei desta casa sem olhar para trás. Não gosto de viver na mesma cidade que você. E não vou. Determinada, passou por ele e atravessou a sala de jantar. Estava subindo a

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escada quando ouviu a voz de Christine. — O que disse a ela, pai? Foi preciso um grande esforço, mas conseguiu acalmar-se. Vinte minutos mais tarde, totalmente recomposta e mantendo as emoções sob rígido controle, parou perto da porta da casa e anunciou: — O trem das compras vai partir. Todos os passageiros a bordo! Dax estava nervoso. Os homens que havia convidado para o jantar poderiam representar o sucesso ou o fracasso da Indústria Piersall. Cortara todos os custos, cobrara clientes devedores e negociara novos contratos com os credores, mas ainda precisava fechar um grande negócio e conquistar o apoio de banqueiros influentes para ter certeza de que cumprira sua missão. Oh, podia vender a companhia de Atlanta por seis milhões de dólares num piscar de olhos, mas injetar mais capital na empresa da família não era a resposta. Queria resolver os problemas com esforço e determinação, seguindo o plano que traçara inicialmente, qualquer outra alternativa significaria um fracasso pessoal. Fracasso era uma palavra que preferia não pronunciar. De fato, o rompimento do noivado e o casamento com a mulher errada haviam sido os maiores erros que cometera, e não pretendia errar novamente. Pensar no noivado o fez lembrar o confronto daquela manhã. Por que Jillian estava sempre tão zangada? Havia sido traído, mas ela conseguia distorcer os fatos e fazê-lo sentir-se como o vilão da história. E não era um vilão. Era? Pela primeira vez desde os vinte e sete anos de idade, uma sombra de incerteza venceu a muralha que construíra com os tijolos das lembranças. Teria errado ao julgá-la naquela noite? Era cada vez mais difícil conciliar a mulher terna e honesta que encontrara sob o verniz frio e contido com a jovem que o traíra com seu próprio irmão. Mas não podia pensar nisso. Eram sete da noite, e logo os convidados estariam chegando. — Olá, papai. A voz de Christine interrompeu a sombria reflexão e ele se virou para a escada. Sua filha usava um vestido de cintura baixa com mangas bufantes e uma saia ampla que parecia dançar a cada movimento das pernas. Os cabelos claros haviam sido encaracolados e eram mantidos longe do rosto por uma fita de veludo. Ela parecia tão... crescida! Para onde fora seu bebê? — Gostou do meu vestido? A pergunta revelava uma insegurança própria da idade, e de repente ele respirou aliviado. — Você está linda, meu amor. Vejo que vou ter de mantê-la trancada no quarto para afastá-la dos garotos. — Papai!! — Ela ria, mas era evidente que estava orgulhosa. — Espere só para ver o que Jill comprou.

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Uma sombra azul dançou num canto de seu campo visual e ele levantou a cabeça. Jillian estava descendo a escada, a figura esguia movendo-se com graça e agilidade, apesar do salto alto das sandálias de tiras muito finas. A pressão sanguínea de Dax subiu como um foguete. Adoraria poder acomodar-se melhor dentro da calça, mas sabia que tinha de conter-se, especialmente diante da filha. O vestido era azul, como as sandálias, e o tecido fino aderia a cada curva como uma segunda pele. Uma aplicação de renda cobria o espaço entre o decote ousado e o pescoço, e a mesma renda havia sido usada para formar as mangas justas e uma barra de alguns centímetros na saia curta, oferecendo visões provocantes das pernas bem torneadas e bronzeadas. Encantado, adiantou-se para estender a mão. Ela a tocou com suavidade e encarou-o, sorrindo ao vê-lo levar seus dedos aos lábios para um beijo galante. — A anfitriã não deve ofuscar os convidados. — Só quis causar uma boa impressão. A propósito, tudo que você pediu foi providenciado — disse com frieza, levando-o a lembrar que naquela manhã ela o tratara com verdadeira fúria. Também lembrou o motivo de sua ira. — Peço desculpas por hoje cedo — murmurou. Não sabia por que estava pedindo desculpas, mas tinha de fazer alguma coisa. — Está perdoado. Vamos esquecer o episódio. — Você é ótima nisso. — É o que me faz sobreviver. Dax abriu a boca para responder, mas o som da campainha interrompeu a conversa. Minutos depois a sala estava cheia, e todos se mostravam encantados com a simpatia de Jillian, a beleza de sua filha e a recepção em geral. Depois da refeição, quando tomavam café e licor, ele olhou para Christine sentada ao lado da madrasta e teve de admitir que se preocupara por nada. Jillian podia ter arruinado a noite, se quisesse, mas comportara-se como uma dama e cativara todos os convidados, homens e mulheres. O empréstimo com que tanto sonhara nos últimos dias havia sido garantido, e finalmente podia começar a respirar. Naquela noite estivera diante do mais fiel retrato de Jillian. Ela era capaz de flertar de maneira ultrajante, depois ria de si mesma, enviando a mensagem de que não devia ser levada a sério. Fascinava os homens sem despertar a ira ou a inveja de suas mulheres, conquistando a amizade de esposas e filhas com a mesma facilidade com que atraía os olhares de maridos e irmãos. E como se não bastasse, desempenhara o papel de mãe com perfeição surpreendente. Jill gostava realmente de Christine. Podia ver o sentimento no cuidado com que a ajudara a escolher o vestido para o jantar, na atenção com que ouvia os relatos sobre seus dias na escola e na delicadeza com que a corrigia sempre que era necessário. Vários convidados haviam elogiado a beleza da menina, e alguns afirmaram que, quando crescesse, ela seria tão atraente quanto a mãe. Um engano fácil de ser cometido, uma vez que as duas, eram realmente muito parecidas. Pensar na razão de tão grande semelhança ofuscou o brilho da alegria que experimentava. Christine devia ter sido filha de Jillian. Em vez disso, nascera de uma mulher que nunca fora mais uma substituta, um instrumento que o pai havia usado para

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atravessar o período mais sombrio de sua vida. Naquela noite, tentaria obter algumas respostas sobre esse período. Depois de despedir-se do último convidado, Jillian seguiu diretamente para o quarto, ansiosa para livrar-se dos saltos que ameaçavam matá-la. Lá chegando, despiuse e foi para o banheiro, onde encheu a banheira com água morna e óleos perfumados, sem se preocupar com as roupas que deixara jogadas no chão. No dia seguinte teria tempo de sobra para recolhê-las. Enquanto esperava que a banheira ficasse realmente cheia, escovou os dentes e removeu a maquiagem do rosto. Pronta para mergulhar no prazer de um banho demorado, fechou as torneiras e estava entrando na banheira quando um movimento no espelho chamou sua atenção. Dax estava parado na porta do banheiro, segurando a calcinha que ela havia deixado no chão do quarto e sorrindo. O primeiro impulso foi o de cobrir-se com a toalha, mas não daria a ele o prazer de constatar que ainda podia afetá-la tão intensamente. Os olhos dele devoravam seu corpo nu, e o peito arfava visivelmente sob a camisa branca. — Venha cá. Venha cá. Estava oferecendo a ela a oportunidade de escolher. Jillian sabia o que Dax queria. Não havia mais amor no coração daquele homem. Seria um encontro estritamente sexual, embora legalizado pelos votos do casamento. Se, atravessasse o piso de ladrilhos e mergulhasse nos braços de Dax, estaria se comprometendo da maneira mais íntima possível, sabendo o que ele pensava a seu respeito.. Dax jamais saberia, mas estaria abrindo o coração novamente, oferecendo um amor que jamais seria correspondido. Nunca deixara de amá-lo. A admissão levou-a a dar o primeiro passo, e quando percebeu já estava em seus braços. As roupas em contato com seu corpo nu eram fonte de grande erotismo, criando uma espécie de vulnerabilidade que a deixava tão ofegante quanto ele. Devagar, levantou os braços para enlaçá-lo pelo pescoço. — Sou toda sua... — murmurou. A boca apoderou-se da dela e os braços a apertaram com força, como se o comentário em voz baixa houvesse dado vazão à paixão represada por muito tempo. Os lábios viajavam por seu rosto, alcançando o pescoço, os ombros e o colo, buscando um seio rígido que logo foi tragado pela boca úmida e quente. Jill gritou e inclinou a cabeça para trás numa oferta incondicional. Os joelhos tremiam, e ele a empurrou até o console de mármore em torno da pia, erguendo-a para sentá-la sobre a pedra. As sensações se multiplicavam na velocidade da luz, provocando uma ânsia que nenhum deles podia conter. As mãos e os lábios de Dax estavam em todas as partes, afagando, beijando, acariciando e sugando. Os dedos encontraram o vale entre suas coxas e invadiram o centro de sua feminilidade, e ele emitiu um gemido primitivo ao tocá-la de maneira tão íntima e comprovar sua excitação. Ansioso, fez com que ela abrisse as pernas e, beijando-a, desceu o zíper da calça, colocando-se bem próximo de seu corpo.

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Desejando, precisando da intimidade completa que um dia haviam vivido, Jillian deslizou a mão por seu peito até encontrar a coluna rígida que ela acariciou através do tecido. Dax inclinou-se para trás, os olhos fechados e a boca entreaberta num sorriso de prazer. Sua respiração se tornou mais rápida e barulhenta no silêncio do banheiro, e Jill sentiu sob os dedos o rápido progresso da urgência que o dominava. A certa altura ele segurou sua cabeça entre as mãos e beijou-a, antecipando com a língua o ato sexual. Enquanto a beijava, terminou de afastar as camadas de tecido que o mantinham distante da realização do desejo, e de repente Jillian o sentiu, quente, pulsante e dominador, invadindo seu corpo com a certeza de quem já havia invadido seu coração. Os movimentos foram se tornando mais rápidos, impelidos pela febre que os consumia, até que explodiram juntos num êxtase tão intenso que foi impossível conter os sons que brotavam de seus lábios. Dax gemia, sacudido por espasmos sucessivos, e Jill tentava sufocar os gritos mantendo a boca pressionada contra um ombro musculoso. Ofegantes, permaneceram naquela posição por alguns minutos. Os braços dele tremiam em função do esforço de sustentar o próprio peso e o dela, mas quando percebeu que Jillian tentava afastar-se, ele a abraçou com mais força. Passando os braços sobre suas nádegas, levou-a para a cama sem permitir que o contato íntimo se desfizesse, e deitou-se de costas deixando-a aterrissar sobre seu peito. Jillian beijou a porção de pele bronzeada que podia ser vista acima do colarinho branco. — Isto vai ter de desaparecer — disse, começando a abrir os botões. Dax levantou a cabeça e viu-se totalmente vestido, penetrando uma mulher nua cujo corpo lembrava uma fornalha. — Tem razão — disse com um sorriso divertido. Depois deitou-se de lado e, encerrando o contato íntimo, levantou-se para se livrar das roupas. Deitada, Jillian acompanhava todos os movimentos com atenção e prazer, deliciando-se com a visão dos músculos esculpidos sob a pele firme. Um instante mais tarde ele estava novamente a seu lado. Suspirando, Jill abraçouo e deixou-se invadir pela alegria de sentir novamente o corpo nu em contato com o dela depois de longos sete anos. Fizeram amor mais uma vez, sem pressa, redescobrindo a doçura de estarem juntos, saciando uma fome que quase os levara à loucura. Quando terminaram, Dax fitou-a. — Por que tenho a sensação de que só você pode me satisfazer? Você esteve em meus pensamentos todas as vezes em que me deitei com outra mulher. O comentário a atingiu como uma chicotada, e ela fechou os olhos para esconder a dor. Tivera dois amantes, menos do que o mundo supunha, nos anos que se seguiram ao rompimento do noivado, e nenhum deles deixara marcas. Mas pensar nele com outro alguém... — Nunca houve ninguém além de você — Dax sussurrou. — Não realmente. Tentei esquecê-la, mas sempre sonhei que um dia estaríamos juntos novamente. As palavras eram um bálsamo sobre a ferida, e ela ergueu as mãos para traçar os contornos do rosto que tantas vezes lembrara. — Eu sei — disse com simplicidade. — Senti a mesma coisa.

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Jillian adormeceu pouco antes do amanhecer, deixando-o sozinho com seus pensamentos. Não devia ter mencionado outras mulheres. Havia sido como apagar a luz que até então iluminara os olhos dela, colocando em seu lugar uma dor tão intensa que pudera quase senti-la no próprio corpo. Sabia o que era sofrer. Teria falado sobre as outras para puni-la? Não havia sido intencional. Mas... Carregara a amargura por tanto tempo que não podia mais julgar suas ações e intenções com clareza. O que significava fazer amor com Jillian? Alquimia, decidiu. Pura química. Por alguma razão, ela era a única mulher capaz de pressionar todos os botões corretos. Sempre fora, sempre seria. Não queria passar o resto da vida numa cama vazia, sonhando com o corpo e as mãos que podiam incendiá-lo em menos de um minuto. Era melhor encarar a realidade. Queria tê-la a seu lado para sempre, apesar do passado. Mas de repente a imagem que tanto odiava invadiu sua mente. Jillian e Charles. A lembrança provocou um ódio tão intenso que pensou em acordá-la e gritar meia dúzia de adjetivos que sempre conseguira engolir, apesar do ressentimento. Para quê? Para assustá-la e expulsá-la de sua vida novamente 1? Não, Dax. Se não pode tê-la por inteiro, contente-se com o corpo. Afinal, é só isso mesmo que quer. Ou não era? Tentou não pensar no abraço terno na cozinha, e o fato de Jillian ter escolhido exatamente aquele momento para acordar não o ajudou em nada. Os grandes olhos azuis eram como luzes iluminando o quarto, espalhando calor num ambiente antes gelado. — Não consegue dormir? — Não. — Abraçou-a e puxou-a de encontro ao corpo, fazendo com que sentisse sua ereção. — Acho que vou precisar de ajuda para relaxar. — Nunca vi um caso tão grave de insônia — ela riu. Não? E quanto ao meu irmão? — Nunca me contou por que estava na cama com Charles. As palavras saíram do nada, surpreendendo-o tanto quanto a ela. Antes que pudesse contê-la, Jill livrou-se do abraço e abandonou a cama de um salto. Em silêncio, foi até o armário, de onde tirou um robe de seda com que se cobriu Dax levantou-se e esperou, ignorando a própria nudez. — Era essa sua intenção? — Jill disparou com tom furioso, o rosto expressando uma fúria assustadora. — Queria me seduzir para convencer-me a confessar todos os meus pecados? — É claro que não! Mas acho que mereço uma resposta. Sempre me perguntei por que aceitou meu pedido de casamento, se era Charles que queria. — Você nunca esteve interessado em ouvir minha versão sobre os fatos, Dax. Por que incomodar-se agora? — Você sabe porquê. — Por que acabamos de fazer sexo? Não sou estúpida a ponto de imaginar que isso muda alguma coisa.

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— Para mim isso muda tudo. — Não planejara abrir a caixa de Pandora. Dissera a si mesmo que seria melhor contentar-se com o que tinha. Mas algo o impelira a falar, como se tivesse de encerrar um capítulo do livro de sua vida para começar a escrever o futuro. — Houve um tempo em que eu teria dito tudo. Um tempo durante o qual esperei demais por sua volta. Mas você não voltou, Dax. Nunca. — Não pude... Estava tão cheio de ódio que teria sido capaz de matá-los se os encontrasse. Levei anos para superar o rancor. E ainda fico furioso quando penso naquela cena. — Não tente me convencer de nada, Dax.Nós dois sabemos que o amor que dizia sentir por mim morreu diante da primeira tempestade que se abateu sobre nossa relação. Não voltou porque estava ocupado demais se deitando com outra mulher e fazendo uma filha! — Não, Jill. Mantive-me afastado porque você havia dilacerado meu coração, e levei tanto tempo para colar os pedaços que desde então ele não voltou a funcionar. Não podemos mudar o passado. Mas podemos esquecê-lo. — Não, Dax. Ignorar o passado é o maior erro que um ser humano pode cometer. Temos de encará-lo. — Não. — Determinado, aproximou-se e tomou-a nos braços, fitando-a com verdadeiro desespero. — Vamos recomeçar como se nunca houvesse existido um passado. Como se jamais nos houvéssemos encontrado antes deste momento. Jillian ficou em silêncio. Depois de alguns instantes estremeceu, como se realmente estivesse sacudindo dos ombros o peso de um passado amargurado. E quando voltou a encará-lo, o brilho excitado iluminava novamente seus olhos. Devagar, deslizou a mão por seu peito até encontrar uma porção de sua anatomia que parecia sempre pronta a reagir, e Dax fechou os olhos e gemeu. — Para duas pessoas que acabaram de se conhecer, conseguimos alcançar um nível de intimidade surpreendente.

CAPÍTULO VIII

Na quinta-feira, Jillian colocou o bolo decorado sobre a mesa e verificou os últimos detalhes da festa de aniversário de Christine. Tomara o cuidado de marcar a comemoração para logo depois da escola, e em breve as crianças estariam chegando. — Vá buscar os presentes! — ela disse a Dax, que terminava de pendurar os balões. Ao vê-lo sair da sala, Jill suspirou. Dormira na cama dele nas últimas cinco noites, e se estivesse interessada apenas em gratificação física, seria a mais feliz das mulheres. Mas tão intensa e devastadora quanto o prazer que experimentava com ele era a dor que

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se recusava a abandoná-la. Haviam discutido dezenas de assuntos nos dias anteriores. Uma viagem surpresa a Disney, a reforma da cozinha e a contratação de um novo gerente administrativo para substituir o antigo, que se demitira ao constatar que as mudanças em sua rotina eram maiores do que poderia suportar, A única coisa que não haviam discutido era aquela que mais importava. E por não terem falado sobre sentimentos, Jillian tomava o cuidado de não fazer planos para o futuro ao lado dele. Dia após dia. Isso era tudo que podia esperar. Dax não permitia que ela contasse o que havia acontecido na noite em que o noivado fora rompido. Por maior que fosse a ternura entre eles, Jillian sabia que jamais haveria possibilidade de uma relação verdadeira sem antes exorcizarem o passado. Ele se dissera disposto a esquecer e perdoar. Seu primeiro impulso fora deixá-lo, mas amava-o, e por isso ficara. Conhecera a vida sem Dax, e não suportaria o mesmo tormento novamente. Mas dessa vez, prometeu a si mesma, não teria expectativas. Fizera uma escolha. Embora ele não a amasse e não confiasse nela, decidira ficar. Não sonharia com o amor de Dax. Em vez disso, partiria dentro de seis meses com lembranças que a manteriam pelo resto da vida. Dax desceu a escada, carregado de pacotes, e Jillian foi ao encontro dele para ajudá-lo. — Não acha que exagerou um pouco? — ele perguntou. — Você disse que eu devia seguir minha intuição — Jill protestou sorrindo — Se não queria uma montanha de presentes, não devia ter me mandado ao shopping sozinha. Dax sorriu e tomou-a nos braços, provocando uma reação tão imediata e intensa que ela sentiu vontade de gritar. Não era justo que somente um homem em todo o mundo a fizesse reagir daquela maneira! O fato de exercer o mesmo efeito sobre ele estava fora de discussão. — Obrigado por ter planejado tudo isso — ele disse. — Nunca soube como comemorar o aniversário de Christine. Minutos depois a campainha soou e as crianças começaram a chegar. Na sexta-feira, Jillian chegou do trabalho mais cedo. Para sua surpresa, o carro de Dax já estava na garagem. Correu pela porta dos fundos para ir encontrá-lo, e havia acabado de entrar na cozinha quando o telefone tocou. — Alô. — Jillian? — Sim, sou eu. — Aqui é Roger. Roger Wingerd. — Oh, olá. — Gostava de Roger. Ele fora um amigo para Charles, e aceitara seus convites para sair algumas vezes. Ficara feliz ao saber que Dax desistira de demiti-lo da empresa. — Jillian, aceitaria tomar um drinque ou jantar comigo amanhã? — Amanhã? Mas é sábado! E Roger, agora que estou casada com Dax, não creio

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que... — Trata-se de uma reunião de negócios. É claro que lamentei seu casamento com ele, mas espero que sejam felizes. — Obrigada. — Preciso realmente conversar com você. Como acionista. — Lamento, mas durante o final de semana será impossível. Se puder adiar essa conversa para a quarta-feira no final da tarde, tomaremos um drinque e discutiremos o que o preocupa. Dax tem mais ações que eu. Devo levá-lo também? — Não é necessário. Posso conversar com ele no escritório. — Roger suspirou com exagero. — Por favor, não arruíne meus últimos instantes de glória com a mulher dos meus sonhos. Ela riu. Combinaram o local e a hora para o encontro, e depois Jillian foi procurar o marido. Ele estava no escritório, e levantou a cabeça com ar surpreso ao ouvi-la entrar. — Deve ser telepata. Você é justamente a pessoa que eu queria ver. — O que está fazendo em casa? Ele apontou para os papéis que cobriam a mesa. — Trouxe trabalho atrasado. Na verdade, não queria que mais ninguém visse o que estou analisando. Ela atravessou a sala e colocou-se ao lado de Dax, apoiando um braço sobre seus ombros e debruçando-se sobre a mesa. — E o que está analisando? — Esta é a lista das ações que foram compradas e vendidas nas últimas semanas. Tinha um pressentimento sobre as negociações, e o que acabei de ver só serviu para aumentar minhas suspeitas. — Afastou a cadeira e puxou-a sobre uma perna, apontando para a folha de papel. — Creio que grandes transações aconteceram ao longo das duas semanas passadas. Pensei que fosse apenas uma flutuação do mercado, uma reação à morte de Charles e à minha nomeação para a presidência. — E o que o faz pensar que pode ser mais do que isso? — Aqui está o nome da corporação que comprou nove por cento das ações na semana passada. — Shallot Limitada. — E veja esta aqui. — Apontou para outra coluna na folha. — Transações efetivadas na última semana de setembro. — Shallot Inc. Sete por cento. Não estou entendo. São nomes similares, ou... — Também não conseguia entender, até ver isto aqui. — Mostrou outra página. — Esta é a maior transação da semana, realizada hoje durante a hora do almoço. — Shallot L. L. G. — O nome saltava aos olhos como um alerta vermelho, Haviam comprado cinco por cento. — Acha que a mesma corporação está por trás desses três nomes? — A diferença foi suficiente para que eu passasse os olhos pelo relatório diversas vezes antes de identificar algo de estranho.

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— Então, quem quer que seja essa pessoa ou empresa, atualmente possui vinte e um por cento da companhia. — No mínimo. Não sabemos se eles compraram ações com outros nomes. — Mesmo assim, Dax, não entendo por que se preocupa. Temos cinquenta e um por cento das ações, e isso nos dá o controle da empresa. — Eu sei. Mas a maneira como as negociações têm sido realizadas é inquietante. Por que tanto segredo? Alguém não quer que eu saiba o que está acontecendo. — Provavelmente porque conseguiu apavorar todas as pessoas envolvidas na administração da Piersall durante o tempo em que esteve fora daqui. — Lamento, mas eu não teria sido obrigado a assumir o comando se não me houvesse deparado com uma situação financeira desastrosa. Falando em situações... posições... Jillian o encarou, e o brilho nos olhos dele telegrafou uma mensagem clara e imediata para o seu corpo. Era como derreter. Levantou os braços e enlaçou-o pelo pescoço, pressionando os seios contra o peito musculoso, dizendo sem palavras que seu lugar era ali, com ele. Sem dizer nada, Dax levantou-se com ela nos braços. Subiu a escada e levou-a para o quarto que haviam passado a dividir. O sol ainda brilhava lá fora, e logo Christine chegaria da escola. Ele parou no meio do quarto e deixou-a escorregar até o chão, mantendo as mãos em suas costas para não interromper o contato entre os corpos. Devagar, inclinou a cabeça e beijou-a, despertando cada célula de seu ser com uma facilidade que era ao mesmo tempo espantosa e assustadora. — Isto tudo ainda parece um sonho. Perdi as contas de quantas vezes me imaginei abraçando-a, beijando-a... — É real — Jillian sussurrou. Os sentimentos inundavam, e era melhor não falar demais. Terna, beijou-o nos lábios, traçando o contorno da boca com a ponta da língua enquanto sentia que a respiração dele se tornava mais rápida. Dax deixou que ela se mantivesse no comando por algum tempo, até que, arfante, assumiu o controle e transformou o beijo em algo muito parecido com o que pretendia fazer em breve. Jillian o despia devagar, saboreando a visão dos músculos esculpidos e beijando cada porção de pele exposta. Enquanto isso, Dax ia aos poucos removendo suas roupas. — Queria que você fosse gordo e careca — ela comentou com voz rouca. Ao ouvi-la, não pôde conter uma gargalhada e, afastando-se para observá-la, respondeu. — Também queria que fosse gorda. Mas quando a vi no funeral e descobri que ainda era linda e atraente como antes, fiquei furioso. — Não percebi. Jillian riu. Mas então Dax a fez tirar o sutiã, e o riso morreu na garganta diante da intensa urgência em seus olhos. Ele tocou um seio, acariciando-o com suavidade provocante. Jillian abriu o zíper da calça masculina, consciente do volume que pressionava o tecido como se quisesse romper barreiras. Dax prendeu o fôlego e soltou-o devagar,

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esperando pelo contato que sempre o enlouquecia, mas ela o surpreendeu. Devagar, deslizou as duas mãos, até a parte inferior de suas costas e continuou descendo, empurrando a calça e a cueca ao mesmo tempo em que tocava suas nádegas com um misto de firmeza e suavidade. Dax terminou de despir-se e a fez remover as últimas peças de roupa. Depois ajoelhou-se diante dela. As mãos encontraram a parte posterior das coxas, desceram até as panturrilhas, os tornozelos e os pés, retornando pelo mesmo caminho. — Não imagina como suas pernas me excitam — disse, segurando uma delas e apoiando a parte posterior do joelho sobre seu ombro. A ação a deixou vulnerável de um jeito que só uma mulher pode compreender, e Jillian sentiu o calor brotar em seu rosto. Em seguida Dax encontrou o ponto sensível e secreto cujo único objetivo era proporcionar prazer, e ela esqueceu o constrangimento, a timidez e a vulnerabilidade. Ele se inclinou para beijar a parte mais alta de uma coxa, bem perto da junção entre as pernas, e o hálito quente a enlouqueceu. A sensação era tão íntima, que tinha a impressão de estar sendo invadida, penetrada, possuída. Percebendo que ela começava a ficar cansada da posição incômoda, apoiou seu pé no chão e a fez ajoelhar-se também. Estavam próximos, os corpos quase se tocando, e Jillian podia sentir o pulsar da ereção firme contra seu ventre. Então ele a abraçou e buscou sua boca num beijo sensual e demorado. — Por favor... — ela murmurou quando conseguiu respirar. — Por favor o quê? — A voz era profunda e rouca. Dax a deitou sobre o tapete e acomodou-se entre suas pernas. — Por favor... isto? — E tocou-a com a ponta de um dedo. — Ou isto? — Acomodou-se melhor e penetrou-a lentamente. Jillian estava totalmente perdida, incapaz de oferecer uma resposta coerente. Sua única resposta foi um gemido e um movimento dos quadris, uma inclinação que o convidou a mover-se dentro dela, primeiro devagar, depois mais depressa, chocando-se contra seu corpo com uma doce violência que incitava uma reação igualmente poderosa no interior de seu abdome. Tinha a impressão de que forças incontroláveis se reuniam em um ponto central do corpo, preparando-se para um ataque que atingiria cada célula e terminação nervosa. Instantes depois a explosão aconteceu e ela gritou, erguendo as costas e entregando-se às demandas físicas numa maratona alucinante de cores e sensações. Logo depois Dax também se entregou ao êxtase sem conter os gemidos roucos que traduziam a intensidade do que estava sentindo. — Meu Deus — ele disse ao recuperar o ritmo da respiração. — Como pude viver sem você? — Eu não vivi. Apenas existi. — Vamos voltar a viver juntos. E desta vez, quero fazê-la feliz. As palavras provocaram um certo desconforto. Entrara no relacionamento disposta a não alimentar expectativas, e não queria esperar nada, nem mesmo consideração, porque assim não correria o risco de se desiludir. Para mudar de assunto, Jillian levantou o braço e consultou o relógio de pulso. — É melhor nos apressarmos. Christine está saindo da escola neste momento, e prefiro não ser surpreendida neste estado constrangedor. Temos quinze minutos.

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— Quinze? — Dax acariciou seu ventre e sorriu. — Ou dez. E como não almocei, estou simplesmente faminta. — Vejo que não é uma dessas pessoas capaz de sobreviver de amor. — E levantou-se, estendendo a mão para ajudá-la a fazer o mesmo. — Acho que não. — As palavras aumentaram o desconforto. Era a primeira vez que o amor era mencionado entre eles. Dax devia ter usado o termo no sentido figurativo, mas não se sentia com disposição para brincar quando tinha o coração inundado por sentimentos verdadeiros e profundos. Começou a recolher as roupas espalhadas pelo chão e dirigiu-se à porta. — Vou tomar uma ducha. Passei o dia todo conferindo a mercadoria que recebi ontem à tarde, e a poeira das caixas sempre me faz sentir suja. Descerei em alguns minutos. Depois de um banho rápido, foi encontrá-lo na cozinha. A sra. Bowley deixava o trabalho às três e meia na sexta-feira, e estava vestindo a jaqueta quando Jillian entrou. — Ele está fazendo omelete — disse, piscando para a nova patroa. — Não o deixe sujar minha cozinha. — Eu nunca sujo a cozinha — Dax protestou. — Sempre tive de limpá-la sozinho, e por isso aprendi a não criar mais confusão do que o necessário. Houve um estranho momento de silêncio. Depois a sra. Bowley apanhou sua sacola de tricô e o livro de bolso. — Sua mãe ficaria feliz se ouvisse isso — disse. — Ela sempre teve certeza de que Jillian o ensinaria a viver com um mínimo de decência depois que se casassem, e parece que estava certa. Bem, tenham um bom final de semana. — E caminhou até a porta. — Oh, ia me esquecendo! — Apontou para um pedaço de papel ao lado do telefone. — Um homem chamado Sullivan ligou para convidá-la para um jogo de futebol. Ele pediu para retornar a ligação — disse a Jillian. — Obrigada. — Assim que a governanta saiu, Jill apanhou o telefone. — Deixe-me ligar agora mesmo, antes que esqueça e... — Não vai a lugar nenhum com ele. — O que disse? — Virou-se para encará-lo, surpresa com o tom agressivo. — Disse que não vai... — Ouvi perfeitamente o que você falou. — Sabia que estava gritando, mas a raiva e a mágoa cresciam rapidamente, ameaçando sua capacidade de controle. — Só quero saber por quê disse isso. — Você é minha esposa. Não sou um desses homens modernos que fingem não perceber as ligações secretas de suas mulheres. — Ligações secretas? Para sua informação, sujeito ridículo e estúpido, o convite de Ronan deve ter sido extensivo a você, e a esposa dele certamente faria parte do grupo. Deve ter sido apenas um gesto de simpatia instigado por Deirdre. Houve um silêncio súbito que fez o ar parecer mais pesado, carregado de tensão. Finalmente Dax respirou fundo. — Droga! — Parecia mais inseguro do que jamais o vira. — Creio que devo um pedido de desculpas, não é?

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— Acho que sim. Nunca me envolvi com Ronan como sugeriu há pouco. Só o conheço há alguns anos. De fato, Deirdre e eu somos amigas desde que nos conhecemos em um seminário de administração empresarial há seis anos. Ronan e ela se conheceram quando Deirdre ainda era casada com o primeiro marido, e começaram a se encontrar depois que ela se divorciou. Acho que se casaram dois meses mais tarde. — Eu... peço desculpas. A expressão arrependida era tão diferente de tudo que vira antes, que Jillian não conseguiu sustentar a raiva. — Isso foi uma demonstração de ciúme? — perguntou. Dax deixou os pratos sobre a mesa e aproximou-se dela. Parou antes de tocá-la, suspirando ao ver que Jill não recuava. Enlaçando-a pela cintura e puxando-a em sua direção, disse: — Digamos que não gosto de pensar nos outros homens que passaram por sua vida. — Não foram muitos. — Era importante que ele entendesse e acreditasse. — Saí com alguns, mas nenhum foi realmente importante. — Melhor assim. — Beijou-a, e sentiu que ela reagia ao desespero em seu toque, reconhecendo o mesmo sentimento. Doía pensar em Dax com outras mulheres. Aprendera a amar Christine, mas ainda não conseguia aceitar a maneira como a criança entrara na vida dele. Tinha a sensação de que o plano de Dax para ignorar o passado corria um grande risco. O jantar havia sido melhor do que esperava, Dax concluiu quando se dirigiram aos seus lugares no Camden Yards na noite seguinte. Havia esperado uma certa hostilidade por parte dos amigos de Jillian, mas Ronan e Deirdre Sullivan se mostravam relaxados e simpáticos. Soubera que eles tinham dois filhos e uma filha, e que os garotos eram frutos do primeiro casamento de Deirdre. O rosto de Ronan era inundado pela emoção sempre que ele falava sobre os enteados, e de repente Dax lembrou o sorriso com que Jillian anunciara a nota máxima obtida por Christine na prova de matemática da semana anterior. Perceber que ela abrira o coração de maneira tão completa para sua filha era tocante. Compreendia o que ela devia sentir ao conviver diariamente com a prova viva de sua infidelidade, e quando se colocava em seu lugar... Bem, não tinha certeza de ter um coração tão grandioso. Durante o intervalo da partida, as duas amigas pediram licença para ir ao banheiro, e Ronan acomodou-se na cadeira que Jillian deixara vaga ao lado de Dax. — E então? Está sé divertindo? — perguntou. — Muito. Mas estaria mais satisfeito se a vitória fosse garantida — respondeu, referindo-se à pressão exercida pelo time adversário. — Notei que Jillian está radiante. Deve estar fazendo bem a ela. Dax ergueu uma sobrancelha.

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— Talvez seja justamente o contrário. — Esse seria um caso típico de justiça poética. — Por quê? — A conversa se tornava interessante. Ronan encolheu os ombros, os lábios comprimidos numa linha fina. — Digamos que Jill não hesita em entrar em ação quando acredita que um dos amigos foi magoado. — Devo deduzir que você já serviu de saco de pancadas? — Em uma ocasião inesquecível. Deirdre e eu não... bem, não correspondemos às regras do jogo por algum tempo depois de nos conhecermos. Jillian tentou me explicar quais as eram as regras com clareza espantosa, e teria usado um método didático bem violento se Frannie não estivesse presente para contê-la. Dax riu. — Posso imaginar. — Por outro lado, uma vez que consegue conquistar sua amizade, pode ter certeza de que a terá para sempre. Hoje em dia faço parte da lista dos favoritos. Por isso ficamos tão chocados quando soubemos que ela havia se casado de maneira tão repentina. — Não foi exatamente repentino. Fomos noivos no passado houve um malentendido e eu deixei a cidade. Quando voltei... Bem, nunca houve ninguém como ela. — Agora entendo por que ela nunca permitiu a aproximação de todos aqueles pretendentes. Só não sei como conseguiu conservar todos eles como amigos depois de recusar as ofertas de casamento e namoro. Creio que a experiência de vida de Jillian daria um livro muito interessante. — Ela sempre foi capaz de dominar os homens com facilidade espantosa. — Não queria pensar na legião de admiradores que ela parecia ter conquistado durante sua ausência. — Exceto você. — Sim, eu sou uma exceção. — Não discutiria o relacionamento que mantinha com a esposa no meio de um estádio de futebol lotado. — Deirdre tem estado preocupada. Não tivemos mais notícias de Jillian desde que ela foi morar em sua casa. — Ela está ótima. Pergunte a ela, se quiser. — Vou perguntar. — Ronan voltou para a cadeira que havia ocupado durante o primeiro tempo da partida. — Ela passou muito tempo sozinha. Gostaria de vê-la com alguém que a respeitasse e protegesse como faço com minha esposa. As mulheres voltaram e a conversa chegou ao fim. Mas Dax ainda podia sentir as farpas lançadas pelas palavras cautelosas de Ronan. Respeitava Jillian. E a protegia. Mais do que ele podia imaginar. Havia levado algum tempo para perceber, mas o passado já não importava. Charles estava morto, e esse capítulo de suas vidas fora definitivamente encerrado. Queria passar o resto de seus dias com ela, descobrir a felicidade que deviam ter encontrado sete anos atrás. Queria que tudo voltasse a ser como havia sido antes de partir, e Jillian parecia desejar a mesma coisa.

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CAPÍTULO IX

Naquela noite, estavam deitados depois de fazerem amor quando Dax ouviu o suspiro profundo. — O que foi? — perguntou. Jillian respirou fundo. — Pensei que isso seria o bastante, mas estava enganada. — Do que está falando? — Não posso ignorar o passado. O fato de nunca ter me deixado explicar na noite em que você partiu ainda me incomoda muito. — Por favor, Jill! Já disse que isso não importa mais. Não é suficiente estarmos juntos outra vez? — Não. — Odiava a ideia de ser considerada infiel, quando tudo que fizera na vida havia sido amá-lo e respeitá-lo, mesmo quando estavam separados. — Se é tão importante assim, estou disposto a ouvi-la — ele anunciou em voz baixa. — O que você viu... ou pensou ter visto naquela noite... não era o que parecia ser. Ouviu Charles dizer que me amava, mas não ouviu o que levou a isso. Charles estava envolvido com alguém, mas não comigo. — Com quem, então? — Com a esposa do governador. — A... esposa do governador? — Ele se sentou e encarou-a. — Espera que eu acredite nisso? — Espero que me escute — respondeu controlada. — O governador os surpreendeu. Sua mãe ficou furiosa porque estava trabalhando para obter a aprovação de uma lei que garantiria menor carga de impostos para grandes corporações como a Piersall, e temia que Charles houvesse arruinado suas chances de conquistar o apoio do governador. — Uma reação compreensível, se isso for verdade. Se for verdade. Ainda duvidava de cada palavra que saía de sua boca. — Sua mãe decidiu assumir o controle da situação e reduzir a extensão dos danos ao mínimo possível. Ela insistiu para que Charles se casasse com Alma Bender, uma garota de Butler County cuja família ela conhecia. Charles e Alma haviam saído juntos algumas vezes, e aparentemente ela o adorava. Infelizmente, o idiota do seu irmão não conseguia reconhecer o valor daquela mulher. — Até você apontá-lo, é claro. — Havia sarcasmo em sua voz, mas Jill decidiu

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ignorá-lo. — Não exatamente. Na noite em que foi pego, Charles me procurou para se lamentar e contar toda a história. Lembra-se de como comparávamos nossos namorados? — Lembro. Vocês dois compartilhavam todos os detalhes de suas vidas. — Nem tudo. Eu nunca falei sobre nós. Ele não respondeu. — Enfim, Charles me procurou naquela noite depois de ser informado sobre a decisão de sua mãe. Sabia que você estava para chegar, e não pensei que ele pudesse se incomodar com sua presença ou que tentasse esconder a história do próprio irmão. Charles estava deitado em minha cama como sempre fazia... — Com você nela. — Eu estava sob as cobertas, e ele permaneceu sobre elas. Estávamos apenas abraçados. E isso não vem ao caso. Você sempre soube sobre nossas conversas de fim de noite. Era uma rotina que mantínhamos havia anos. Charles esperava contar com minha simpatia, mas eu o censurei, disse que devia crescer e assumir a responsabilidade por seus atos. — E foi então que a ouvi dizer que o amava. — Sim, você ouviu. Eu realmente amava seu irmão. Não como o amava, mas ele era meu amigo mais querido. Dax não disse nada. Jillian notou que ele mantinha os olhos fixos na parede do quarto, evitando encará-la. — Charles me disse que amava Alma como amiga, mas que não queria se casar com ela. Disse que a amava da mesma maneira que me amava. Dax, juro que nunca senti nada além de amizade por seu irmão. Mas no final ele acabou se casando com Alma, e mais tarde, começou a se interessar por ela de maneira mais romântica. Sei que ele a amou intensamente até o fim de suas vidas. O que mais havia para dizer? Dax não se moveu. Ainda não acreditava nela. Havia sido loucura imaginar que revelar a verdade seria o bastante para convencê-lo. Um suspiro derrotado escapou de seu peito. Furiosa, decidiu que esperaria até ele apagar a luz e deixaria o quarto. E até lá, não derramaria uma única lágrima. Deitada, virou-se de costas para ele e esperou. Instantes depois sentiu o corpo pressionado contra o dela e o braço em torno de sua cintura. A dor que acompanhava o abraço era tão intensa, que Jill acreditou pela primeira vez que um ser humano podia morrer de tristeza. — Favo de mel... — O que é? — Sente-se melhor agora? — O quê? — Há muito tempo queria me contar o que acabou de revelar. Sente-se melhor agora? — A mão tocou seu quadril. — Podemos considerar o assunto encerrado e recomeçarmos do zero.

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— Você não acredita em mim. Dax suspirou. — Não sei. Mas também não me importa. Tudo aconteceu há muito tempo. Só quero esquecer o passado e viver o que temos agora. Gosto de você, mais do que jamais gostei de outra mulher. Não é o suficiente? Orgulho e integridade lutavam contra o sentimento. Queria que ele acreditasse nela. Era mais importante que tudo, e sabia que jamais teria essa certeza. Se queria viver com Dax, teria de abandonar o sonho de esclarecer o malentendido. Poderia conformar-se com menos do que sempre sonhara? — Por favor, não me deixe — ele sussurrou, tocando seu rosto com um desespero que a assustou. — Preciso de você. Jillian soube que estava perdida. Se o rejeitasse, passaria o resto da vida sozinha, como havia estado nos últimos sete anos. Tinha um coração partido, a autoestima sofrerá um golpe violento que jamais poderia superar, mas Dax precisava dela. E amava-o demais para deixá-lo.

Na quarta-feira, Jill foi ao encontro de Roger Wingerd conforme combinaram. Ele a esperava em uma mesa afastada da porta do bar, e levantou-se para beijá-la no rosto ao vê-la aproximar-se. — Como vai, Roger? — Não muito bem, se quer saber a verdade. — Algum problema? — Sim... seu marido. — Dax? — perguntou espantada. — Do que está falando? — Já examinou os registros financeiros da companhia? — Sim, eu li os relatórios, mas... — Então deve ter percebido... é tudo muito claro para quem decifrar. — O que é claro? — Percebeu que Roger não tinha ideia de seu envolvimento nas decisões tomadas por Dax, e achou melhor não revelar que participava diretamente da administração da companhia. — Oh, Jillian, odeio perturbá-la com isso. Se não estivesse tão perturbado com a Piersall, simplesmente esqueceria o assunto. — Roger, você sabe que nada me perturba por muito tempo. Por que não fala de uma vez e acaba com o mistério? — Bem... — Ele dava a impressão de estar pesando as palavras. Finalmente fez um movimento afirmativo com a cabeça. — Como acionista, você tem o direito de saber. Acho que seu marido está tentando arruinar a companhia. — O quê? Como? — Quando alguém detém o controle acionário, é muito fácil tomar decisões unilaterais que não são necessariamente a expressão dos interesses da maioria. Seu marido tem destruído todas as práticas comerciais estabelecidas na Piersall ao longo dos

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últimos anos. Logo a companhia não será mais capaz de suportar o escoamento de recursos, e como as dificuldades já começam a aparecer em nossos balancetes, o preço das ações vai despencar no mercado. Acho que ele quer mostrar ao mundo que a empresa é frágil para poder comprar mais ações por preços baixos. Então era ele! Roger acusava Dax de estar realizando a manobra que ele repetia desde a morte de Charles. Além de trair um amigo, Roger estava tentando destruir sua família, anular os esforços de Dax e dilapidar o patrimônio que um dia seria de Christine. Controlando o ódio, disse: — Não entendo. Se a companhia vai mal, as ações não valem nada, certo? Roger deu um sorriso indulgente. — Sim, mas é assim que tudo funciona. Se as ações valem pouco, alguém, no caso Dax, pode comprá-las por uma ninharia. Depois ele contrata novos empregados, recupera a saúde financeira da empresa, e vende as ações por um preço muito mais alto. Possuir uma boa porção delas é essencial para que possa vender o suficiente para ganhar uma pequena fortuna sem abrir mão do controle acionário. — Está dizendo... que Dax quer ganhar dinheiro à nossa custa? — Exatamente. Mas não se preocupe. Isso não vai afetá-la. Afinal, está do lado dele, não é? — Quer que eu finja que não há nada errado? — Lamento ter sido o portador de tão horrível notícia. — Mas... não pode fazer nada para impedir o desastre? Se me contou tudo que sabe, é porque acredita que ainda existe um jeito de detê-lo. — Pena não ter levado um gravador portátil na bolsa. Mas quem teria suspeitado? — Só existe uma saída, minha querida menina. Na próxima reunião do conselho, vai ter de votar contra ele. Sei que estou pedindo demais... — Roger, Jillian! Que surpresa! Posso me sentar com vocês? — Gerard Kelvey estava parado ao lado da mesa. O alívio no rosto de Roger foi tão óbvio, que Jill teve certeza de que os dois estavam juntos no plano de traição. Assim que o recém-chegado sentou-se, Roger encarou-o. — Foi bom ter aparecido. Estava conversando com Jillian sobre nossas preocupações com a empresa. — E? — Estou chocada — ela disse, escondendo a repulsa que sentia pelos dois traidores. — Também fiquei chocado — Gerard suspirou. — E eu, então! — o outro o apoiou. — No entanto, duvido que estejamos chocados pelas mesmas razões. Os dois trocaram um olhar surpreso. Ela continuou. — Tenho um diploma de contabilidade. Dax tem me mostrado todos os balancetes e as coisas interessantes que encontrou neles. Qual de vocês é Shallot? Ou encontraram outro nome fictício para as operações desta semana? Pensaram que Dax não seria esperto o bastante para perceber a manobra? Ele sempre soube que alguém estava

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forçando a queda das ações, mas não nos preocupamos, porque nossa família detém o controle acionário. Odeio perder tempo, cavalheiros, por isso serei direta. Minha família vai permanecer no comando da Piersall. Meus votos serão sempre a favor de Dax. Gerard olhou para Roger com ar contrariado. — Você disse que seria capaz de controlá-la. Tudo isso foi uma grande perda de tempo. — E saiu. Houve um momento de silêncio depois de sua partida. Jillian olhou para o rosto pálido de Roger. — Gerard tem razão. Você me fez perder tempo com esse truque patético. Jamais trairia Dax, porque ele é meu único amor. No carro, decidiu que contaria tudo ao marido assim que superasse a raiva e o choque. Mas... ele não acreditara quando revelara a verdade sobre o episódio com Charles, e era provável que também não levasse em conta suas palavras a respeito da Piersall. Além do mais, tudo perderia a importância com o passar do tempo, uma vez que o controle acionário estava garantido, e Dax esqueceria que um dia se preocupara com a movimentação das ações no mercado. Sim, era melhor esquecer. Na sexta-feira, Dax subiu a escada para o quarto com passos determinados. Não estava de bom humor. Três grandes acionistas haviam vendido papéis da companhia na última semana. Um deles telefonara para explicar que recebera uma proposta irrecusável, e mais alguns telefonemas foram suficientes para descobrir que outros dois também haviam negociado. Naomi Stell informara que também fora procurada, mas recusara-se a vender, e não podia revelar o nome do proponente, porque tudo fora feito através de um corretor e as informações eram confidenciais. Nem ela sabia quem tentara convencê-la a vender. Se a tal empresa Shallot, ou quem quer que fosse de verdade, comprara as ações negociadas na semana anterior, podiam deter cerca de trinta e quatro por cento dos votos. Tecnicamente, não devia estar preocupado, já que sempre teriam a maioria, mas estava intrigado com a atitude de Jillian. Ela jamais acenara com a possibilidade de transferir para ele seu direito de voto. E não correria o risco de aborrecê-la, especialmente depois da estranha e quieta atmosfera que se instalara depois da noite do domingo anterior, quando ela o forçara a ouvir sua versão sobre o episódio com Charles. O que esperava dele? Por que não se contentava em saber que estava disposto a perdoá-la e esquecer? Queria acreditar nela. Mas não tinha certeza... O que realmente queria era esquecer que aqueles sete anos existiram. — Papai? A voz de Christine interrompeu a sombria reflexão. — Olá, meu bem. — Tia Marina telefonou para saber se posso ir dormir na casa dela esta noite. Amanhã é sábado, e ela disse que posso passar o dia todo com Jenny.

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— Bem, creio que você pode ir, se quiser. — É claro que eu quero! Obrigada, papai. — E virou-se para sair. — Vou brincar no quintal com Elizabeth. — Quem é Elizabeth? — Minha nova boneca. Rindo da inusitada alegria da filha, Dax foi procurar pela esposa, certo de que casar-se com ela havia sido o passo mais acertado de sua vida. Se Jill tinha o poder de fazer Christine feliz, o que mais poderia querer? Jillian estava no quarto, guardando algumas roupas nas gavetas. Parecia triste. Mais que triste. Pesarosa. Então ela o viu e ofereceu o sorriso habitual. — Olá, bonitão! Dax atravessou o quarto e tomou-a nos braços para um beijo. — Humm. Passei o dia todo esperando por isto. — A porta está aberta e Chrissy está em casa — ela o preveniu sorrindo. — Vai ter de esperar um pouco mais. Ele não retribuiu o sorriso. — Favo de mel, você está feliz? A tensão que dominou seu corpo podia ser sentida a quilômetros. — Não pareço feliz? — Acho que sim... mas gostaria de ter certeza. — Estou feliz. Na verdade, todas as manhãs, quando acordo, belisco meu braço para me certificar de que não estou sonhando. — É melhor parar de beliscar-se, ou vai acabar coberta de hematomas, porque pretendo ser uma realidade em sua vida até o último dos meus dias. — Prefiro viver um dia de cada vez. A afirmação o incomodou, e ele percebeu que Jillian nunca mencionara o futuro. Mas ela o abraçava, pressionando os seios contra seu peito e despertando sensações deliciosas. Por que procurar problemas? Afastou-se dela para ir fechar a porta do quarto. — Agora temos toda a privacidade de que precisamos— disse. — comprovar mais uma vez que não está sonhando?

Que tal

— Dax, meu querido, não sou uma mulher fácil de convencer. Saiba que vai ter muito trabalho — ela riu. Duas horas mais tarde, Jillian levou Christine à casa de Marina. Assim que as duas saíram, Dax foi para o escritório. Tinha de estudar os relatórios e tentar entender aqueles números absurdos antes que Jill voltasse para casa e o levasse de volta ao quarto. Já podia vê-los na banheira de hidromassagem com uma garrafa de champanhe... Vinte minutos mais tarde, o som da campainha interrompeu sua concentração. Era Gerard Kelvey.

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— Gerard! Entre. O que posso fazer por você? — O homem havia sido amigo de seu pai, mas nunca gostara muito dele. E suspeitava de que o sentimento era mútuo. Sabia que ele não aprovava suas decisões comerciais, ou não teria votado contra elas em todas as reuniões do conselho. — Eu... preciso falar com você, Dax. Sobre negócios. — Vamos nos sentar no escritório. Assim que se acomodaram, ele perguntou: — Qual é o problema? — Deve ter percebido que houve uma contínua movimentação das ações durante as últimas semanas. Soube que examinou os balancetes. — Sim, é verdade. Você é um dos compradores? — Fui. — Por quê? — perguntou, fingindo não notado que ele falava no passado. — Mesmo que compre todas as ações disponíveis, jamais terá o controle dos votos. Quem mais está envolvido? — Roger. A ideia foi dele. Não devia tê-lo ouvido. Seu pai era meu amigo. Ele me ofereceu a oportunidade de investir na Piersall há trinta anos, e traí sua confiança. Espero que me desculpe. Se quiser comprar minhas ações para tirar-me da empresa, saberei compreendê-lo. Então Roger Wingerd havia enganado Charles. Devia ter sido fácil, em vista da confiança cega que o irmão depositara no sujeito. Dax levantou-se e estendeu a mão para Kelvey. — Obrigado por ter vindo. Nenhum dano foi causado. Como disse, Wingerd não poderá comprar o suficiente para afetar minha política administrativa. — Poderia, se Jillian estivesse disposta a apoiá-lo. Jillian? Não. Ela jamais faria isso. Havia prometido apoiá-lo em todas as decisões, não? E também dissera que não havia dormido com seu irmão. E ficara a seu lado mesmo quando não pudera dizer que acreditava nela. Teria agido como uma mulher culpada? Jillian o amava. Jamais o teria traído intencionalmente. A enormidade do erro que cometera o atingiu como um relâmpago, queimando o que ainda restava do rancor e todas as suspeitas e ressentimentos. Ela havia dito a verdade... sempre... sobre tudo... e recusara-se a acreditar em sua palavra. O que havia feito? Ao ouvir passos na escada, correu até a porta do escritório e a viu subindo para o quarto. — Favo de mel! — Dax — ela respondeu surpresa, sem tentar esconder a palidez ou a tristeza. — Pensou que eu estivesse envolvida. — O que... — Cheguei há alguns minutos. Ouvi parte de sua conversa com Gerard e vi a

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surpresa em seu rosto quando ele mencionou meu nome. Esqueceu de fechar a porta, Dax. Pensou que eu fizesse parte do plano para traí-lo. — Não, eu... só por um instante. — Deu alguns passos com a intenção de abraçála, mas Jill virou-se e correu para o quarto. — Droga! Apressado, acompanhou Kelvey até a saída, sem dar a ele uma chance de contar sobre o encontro que Roger marcara com Jill. Depois subiu a escada aos saltos. Sabia o que ela devia estar pensando. E era verdade.

CAPÍTULO X

Dax tentou falar com ela, mas Jill havia se trancado no quarto de hóspedes, recusando-se a atender seus apelos. Sozinha, compreendeu que passara boa parte da vida tentando explicar-se, sem nunca convencê-lo de sua honestidade. De que adiantava insistir? Jamais conquistaria a confiança do homem que amava. O melhor que tinha a fazer era desistir de uma vez por todas. Na manhã seguinte deixaria a casa dele para sempre. Preferia viver sozinha a seguir carregando sobre os ombros o peso de uma cruel injustiça. Dax acordou e viu que Jillian não estava em seus braços. Tomado por um pânico súbito, levantou a cabeça do travesseiro e olhou para o lado. Os números luminosos do relógio digital marcavam seis horas. Duvidava de que ela houvesse partido tão cedo. No banheiro, lembrou que Chris havia dormido na casa de Marina. Como era sábado, a sra. Bowley não iria trabalhar. Eram só os dois. Perfeito. Passara a noite toda acordado, lembrando as coisas estúpidas que dissera a Jillian. Não poderia culpá-la se ela houvesse deixado de amá-lo. Uma pedra de gelo tomou o lugar de seu coração. Já havia descoberto que a generosidade de Jill não tinha precedentes. Só esperava poder despertar esse mesmo sentimento no momento que mais precisava dela, ou estaria perdido. A vida sem ela seria o mesmo que a morte. Determinado, atravessou o corredor e foi até o quarto de hóspedes. A porta não estava trancada, como na noite anterior. Como havia imaginado, encontrou-a fazendo as malas, triste, como se a luz houvesse se apagado de seus olhos. Ela nem reagiu ao vê-lo, e isso foi o que mais o assustou. Devagar, mas inexoravelmente, a mulher que havia amado estava desaparecendo. — Vai fugir? — Escolheu as palavras com cuidado, pois queria provocá-la e obrigá-

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la a reagir. Onde estava a mulher que o enfrentava sem medo, encarando-o como se tivessem a mesma força física? De repente sentiu raiva de si mesmo. Como pudera esmagar seu espírito de maneira tão cruel e egoísta? — Não. Estou apenas partindo. — Fugindo. — Ao contrário de você, nunca fugi de nada. — Pois parece que vai começar a agora. — Talvez esteja certo. Afinal, é um especialista na arte de abandonar as pessoas que ama. E pouco provável que se engane nesse aspecto. O rosto começava a adquirir alguma cor, e tinha a impressão de ver as primeiras centelhas de fúria em seus olhos. Ótimo. Certo de estar no caminho adequado, sorriu com uma frieza que estava longe de sentir. — Boa desculpa. Vai continuar me culpando por tudo que aconteceu de errado em sua vida desde que parti? — Eu nunca o culpei por nada. — Nunca se casou, nunca teve filhos, e ficou furiosa quando descobriu sobre a existência de Christine. E ter de dividir seu marido com a filha de outra mulher é outra coisa de que me acusa. — Tudo bem, admito. Tentei odiar sua filha. Mas não consegui. — A voz ganhou força repentinamente, e agora ela estava gritando. — Christine não é apenas uma combinação de seus genes com a mulher que gosta de atirar em meu rosto. Ela é uma pessoa, um ser humano com todos os direitos, e amo essa criatura! Quer saber o que realmente me aborrece? Não é Christine. Pensei que houvesse amor entre nós, Dax. Íamos nos casar porque nos amávamos. E na primeira chance que teve, estava caindo na cama com outra mulher. Isso mostra o quanto signifiquei para você naquele tempo. — Já expliquei porque me envolvi com Libby. — Tentara trazê-la de volta à vida, mas não contara com a agressividade que havia despertado. — E está enganada. Você sempre foi muito importante para mim. — Não me interessa. Abandonar-me foi uma coisa. Mas mal havia saído da cidade e já havia encontrado alguém para substituir-me. Fiquei vagando pela vida como um animalzinho de estimação abandonado, uma criatura patética esperando ser perdoada por algo que nunca fiz. E ontem à noite, descobri exatamente o que pensa a meu respeito. Foi uma lição inesquecível, Dax. — Sempre soube que jamais votaria contra mim. E estava certo. Gerard me contou sobre seu encontro com Roger. Ele disse que sou um felizardo por ter uma mulher que me ama tanto. . — Eu não o amo mais. Não o amaria nem que fosse o último homem do mundo. — Mentirosa. — Contava com isso. Começou a caminhar na direção dela, pensando em acalmá-la. Foi então que Jillian pegou o relógio sobre o criado-mudo. — Ei, espere um mi... — Só teve tempo para abaixar-se antes de ouvir o estrondo do relógio se chocando contra a parede. — Favo de mel, eu... — Não se atreva a me chamar por esse apelido estúpido!

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Um livro atingiu a porta. Ao vê-la abaixar-se para apanhar um inofensivo travesseiro, Dax correu para imobilizá-la antes que ela pudesse encontrar algo realmente letal. — Solte-me, seu grosseirão arrogante! — O apelido não é estúpido. — Como alguém aparentemente tão frágil podia dispor daquela impressionante força física? Agarrou-a pelos pulsos antes que ela o arranhasse, e desviou o corpo um segundo antes de um joelho atingi-lo na parte de seu corpo que odiava joelhos. — É estúpido e ridículo. — Favo de mel, favo de mel, favo de mel. — Finalmente conseguiu deitá-la sobre o tapete e prendê-la sob o peso de seu corpo. — Pare com isso, Dax. Vá praticar sua técnica de sedução em outra idiota qualquer. Quero ir embora. — Temos um acordo. — Esqueça. Pode ficar com minhas ações, se quiser. — Não estou interessado, obrigado. A única coisa que quero é você. Tem mais alguma coisa a dizer? Um desabafo, um acerto de contas... — Por que tem sempre de apelar para esse tipo de argumento? Se não fosse maior que eu, se não conseguisse me fazer derreter com o calor de suas mãos, já teria esquecido que você existe há muitos anos. — E não é esse o ponto? Não acha que devia pensar por que estamos sempre voltando um para o outro? — Sexo! Simplesmente sexo! — É mais que isso. Você é a outra metade da minha alma. E eu sou sua outra metade. Separados, somos apenas sobreviventes. Você mesma disse, lembra-se? — A essa altura, existir seria uma bênção. Adoraria poder arrancar meu coração do peito, porque assim me livraria de você! — Perdoe-me. — Por quê? Por ter nascido? — Por ser o cretino desconfiado que abandonou a única mulher que amou. Ontem à noite descobri que confio em você. Acredito que nunca teve mais que uma bela amizade com Charles. O único culpado pelos anos que perdemos sou eu. E ainda amo você, Jillian. Vou amá-la até o último de meus dias. Os olhos dela se encheram de lágrimas. O peito era uma espécie de parede ameaçando desmoronar sob a fúria dos soluços.. — Tem ideia de como quis ouvir isso? Sabe quantos anos esperei para ouvi-lo dizer que me ama? Seu... canalha! — Diga que não vai me deixar. — Por que acha que devemos continuar juntos? — Não quero viver sem você, Jill. E se insistir em nos separar, estará cometendo um erro tão monstruoso quanto o que eu cometi há sete anos. — Oh, Dax! Gostaria de acreditar que é possível...

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— É possível. Por favor, acredite. — Também não quero viver sem você, mas... — Eu errei ao afirmar que podemos esquecer o passado. É mentira, Mas podemos aceitá-lo e superá-lo. E sei que você sempre gostou de um desafio. — Pela primeira vez desde que entrara no quarto, arriscou um sorriso. — Você me conhece melhor do que eu mesma. Está bem, eu me rendo. — E beijou-o. Conseguira! O futuro era novamente uma estrela brilhante no céu.

EPÍLOGO

Setembro foi quente outra vez. Que diferença fazia um ano, Jillian pensou, vendo o marido levantar-se da espreguiçadeira que colocara na grama e cantar o hino do time. O locutor anunciou o final da partida, e Dax, Ronan e Ben festejaram a vitória do Orioles. Jack batia no peito e gritava numa imitação grotesca de Tarzan. Estavam todos reunidos no jardim da casa de Jillian. Christine brincava com Brittany, e Frannie preparava um sanduíche na grande mesa preparada com diversos tipos de guloseimas à sombra de uma árvore. Chrissy sentiria falta das crianças quando as aulas recomeçassem, dentro de uma semana. Atenta, ela interceptou um abraço mais entusiasmado de Maureen na pequena Brittany. Maureen, a caçula dos Sullivan, estava com dois anos e meio e falava sem parar enquanto aproximava-se da mesa que Deirdre dividia com Frannie e Marina. Ronan alcançou a filha instantes antes da pequena escalar o banco para pesquisar o prato da mãe, colocando-a sobre os ombros e fazendo-a rir antes que ela protestasse chorando. O adorável Ronan. Ele havia sido capaz de curar as feridas do coração de Deirdre e a cercara de amor e ternura, convencendo Jillian a perdoá-lo por todos os erros que cometera no início do relacionamento com sua grande amiga. E quem era ela para julgar? Ainda lembrada os primeiros meses depois do casamento com Dax. Haviam agido como trogloditas, incapaz de trocarem duas palavras civilizadas sem se agredirem, mas os corpos sempre haviam descoberto o caminho para a reconciliação. Não podia censurar Ronan. Além do mais, ele era um homem decente. Aceitara os enteados como se fossem seus filhos, e bastava vê-lo com Tommy e Lee, que haviam acabado de sacudir uma lata de refrigerante e se preparavam para abri-la nas costas de Jack, para descobrir que o pobre coitado merecia uma medalha de bravura e um lugar no paraíso. Ben preveniu Jack sobre o perigo iminente e ele se levantou para perseguir os garotos, que correram como loucos. Ben ria, mas o bom humor desapareceu quando ele viu que Jack havia resgatado a lata e puxava o anel metálico da tampa com toda a delicadeza permitida por seu tamanho avantajado. Rápido, conseguiu esquivar-se da

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ducha açucarada é pegou o filho de treze meses no colo, girando-o para distraí-lo até que Marina aproximou-se correndo, dizendo que John B. Acabaria vomitando a mamadeira se ele não parasse de sacudi-lo. Marina tivera sorte por encontrar um homem como Ben logo depois de ter ficado viúva. A princípio Jillian o julgara autoritário e presunçoso, e ainda o considerava um tanto quanto arrogante em alguns momentos, mas as semelhanças entre ele e seu marido eram impressionantes. Os dois haviam nascido no mesmo ano! Os adultos reuniram as crianças para o tão esperado sorvete. Dax abandonou o grupo e aproximou-se da cadeira onde Jillian permanecia sentada, virada de lado para o grupo. — Como vai indo? — ele perguntou, inclinando-se para afagar a testa do bebê de dois meses que sugava o seio materno. — Cansada? Posso cuidar de tudo por aqui, se quiser entrar e cochilar um pouco. Jillian balançou a cabeça e sorriu, mudando o pequeno Charlie de posição. O coração transbordava de amor sempre que estava perto dos dois homens de sua vida. Dax pegou o bebê e o colocou apoiado sobre um ombro, massageando suas costas com movimentos circulares muito suaves. — Ele está ótimo :— Jillian garantiu enquanto fechava a blusa. — E eu também. Nós dois adoramos uma festa! — Como se eu não soubesse! — Dax estendeu a mão livre e ajudou-a a levantarse, enlaçando-a pela cintura. Quando caminharam na direção do grupo de amigos e parentes, ela percebeu que dissera a verdade. Estava realmente muito bem. Sua vida atingira um estágio de satisfação completa. E embora soubesse que sempre lamentaria os anos perdidos, tinha de seguir em frente. Depois de anos olhando para trás e cobrindo o passado com camadas de escombros e ressentimentos, estava polindo sua capacidade de amar. E descobrira que podia obter um brilho tão intenso quanto o do sol.

FIM

ANNE MARIE WINSTON sempre acreditou em finais felizes. Ter a oportunidade de compartilhá-los com seus leitores é motivo de grande alegria. Arme Marie aprecia patinação artística e gosta de trabalhar no jardim de sua casa na Pennsylvania.

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Anne marie winston negócios e prazer (mom int novo 59)  

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