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Aos que se dedicam à mineração


Ficha Técnica Texto: Cláudia Sabadini Revisão e Pesquisa: Fernando Gomes Projeto Gráfico: Dedrinkson Adame Fotografia: Márcia Leal, Dedrinkson Adame (capa, arte CGI nas páginas 50 e 60 e fotografia da empresa nas páginas 106 e 107), Edmilson Pecin (fotografia aérea nas páginas 102 e 103), acervo de família de Benjamim Zampirolli, Milanez e Milaneze (fotografia aérea página 88) e Guilherme Gaensly (Italianos em São Paulo, acervo digital, página 16) Produzido e editado de janeiro a julho de 2013

S117m Sabadini, Cláudia Memórias de um Benjamim: a história do setor de rochas contada por um desbravador / Cláudia Sabadini. – Cachoeiro de Itapemirim: [s.n.], 2013. 124p.

1. Zampirolli, Benjamim – biografia 2. Rochas ornamentais – Cachoeiro de Itapemirim I. Título. CDD: 923


Sumário Apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .8 Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 Meu filho amado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 A vinda para o Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 O encontro de José e Dozolina. . . . . . . . . . . . . . . . . 18 Bom de matemática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 Cine Santo Antônio: Lanterna Misteriosa . . . . . . . . . . . 24 Lucia: o grande amor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 Às três da tarde. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 O bem que devia ter feito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 Fé na caridade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 Um reencontro depois de vinte anos. . . . . . . . . . . . . . . 50 O time da Mineração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 O acidente que salvou minha vida. . . . . . . . . . . . . . . . 56 Um susto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59 A construção de um nome . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 Desbravando um novo setor . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 O caminho das pedras. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 Evoluir sempre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 O estilo Benjamin de administrar. . . . . . . . . . . . . . . . 81 A força das entidades do setor. . . . . . . . . . . . . . . . . 84 Benjamim é passado, presente e futuro. . . . . . . . . . . . . . 86 Um grande parceiro da Cachoeiro Stone Fair. . . . . . . . . . 89 Sustentabilidade ambiental. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90 Plantando o futuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96 Água, riqueza incalculável. . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 A Mineração Capixaba. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 Aos que virão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112 Um sonho que não acaba . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Cenas de Bastidores. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122 Bibliografia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123


Apresentação No setor de rochas ornamentais no Espírito Santo há muitas histórias de empreendedorismo e de sucesso. Ao longo de mais de cinquenta anos muitos empresários, trabalhadores e entidades deixaram suas marcas nesta linha do tempo. Vidas se cruzaram num aprendizado mútuo e constante para desbravar um setor que atualmente é destaque no mundo inteiro. Benjamim Zampirolli é um destes desbravadores. Um homem da terra, ex-lavrador, que vislumbrou um novo negócio a partir de sua ousadia e personalidade empreendedoras. Viu o setor de rochas nascer e despontar no Espírito Santo. Viu o surgimento das entidades e eventos que contribuíram para levar as rochas capixabas para além deste continente. Aprendeu com os erros e acertos. Contribuiu para a realização dos sonhos de muita gente com sua visão humanitária e, sobretudo, voltada para o desenvolvimento social do setor. A leitura deste livro é um convite a todos que desejam se tornar empreendedores naquilo que mais gostam de fazer. A vida pessoal e profissional de Benjamim é, por certo, uma grande lição de amor. Um homem que, aos oitenta e três anos, mantém o mesmo brilho nos olhos e entusiasmo pelo trabalho, sem dúvida, tem muito a ensinar para esta e as futuras gerações. Não foi fácil convencê-lo a concordar com este livro. O convite feito por Ricardo Coelho de Lima, em 2010, só foi aceito em 2012 e materializado em 2013. Tudo porque, acredite, Benjamim na sua simplicidade, não imaginava o quanto ainda poderia contribuir, “ser útil” – como prefere dizer – às pessoas. Pois Benjamim aceitou mais este desafio: dissertar sobre uma vida entrelaçada com o setor de rochas ornamentais, onde viveu boa parte de sua existência e por onde ainda afirma que vai percorrer muitos outros caminhos. Afinal, um empreendedor nunca para de sonhar. José Eugênio Vieira Superintendente do Sebrae-ES


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Prefácio

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urante toda a minha carreira profissional pude conviver com muitos empresários, dos mais variados setores da economia. Um deles sempre me saltou aos olhos: Benjamim Zampirolli. Benjamim é daquelas pessoas especiais que Deus coloca em nossas vidas para transformá-las, e, hoje, sinto-me um privilegiado por ver materializado este projeto, acalentado durante tanto tempo por todos nós da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Acredito que o exemplo de vida e as dificuldades enfrentadas por este grande homem para erguer e dar sustentação ao seu negócio precisam ser repassadas às gerações futuras. Por isso, na impossibilidade de levá-lo a uma sala de aula, nada melhor que um livro – um registro histórico –, que, multiplicado, passará de geração para geração, inspirando novos empreendedores. O texto da jornalista Cláudia Sabadini, com sua sensibilidade ímpar, traz a história do setor de rochas ornamentais na visão de um de seus pioneiros. A história de Benjamim se confunde com a de tantos outros “capitães de indústria”, que transformaram lugares trazendo o progresso. Suas intervenções em Gironda ficaram para a história do lugar: o estádio de futebol, a casa de retiro, o posto telefônico, e tantas outras obras de estrito cunho social. Como pioneiro, enfrentou as dificuldades do processo de extração com ferramentas rudimentares. Um verdadeiro garimpeiro. Incansável, e sempre com os olhos voltados para o futuro, busca continuamente as inovações tecnológicas para crescer de forma sustentável. Sua contribuição foi decisiva para a consolidação do nosso Arranjo Produtivo Local (APL) de Rochas, transformando Cachoeiro de Itapemirim no maior polo processador das Américas. Assim é Benjamim, “capitão de indústria”, como na música de Marcos Vale e Paulo Sérgio Vale: “Eu acordo pra trabalhar / Eu durmo pra trabalhar / Eu corro pra trabalhar”. Desejo, pois, a todos, uma boa leitura sobre a vida deste grande homem e que possam perceber a sua fundamental importância no processo de consolidação da mais pujante atividade econômica de Cachoeiro de Itapemirim em todos os tempos. Ricardo Coelho de Lima Secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico de Cachoeiro de Itapemirim.

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Meu Filho Amado

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asci Benjamim. Mas quase fui Vitório. Assim me contaram. Minha mãe queria que meu nome fosse Vitório. Meu pai quis Benjamim para homenagear um grande amigo dele, o Coronel Benjamim Salles. Há um tempo, o Padre Zé Prefeito, na época pároco em Boa Esperança, me indagou: “Ô Benjamim, você sabe o significado do seu nome?” Respondi, “sei não”. Ele então explicou que na Bíblia dizia que significava “meu filho amado”. O conhecimento do meu nome me revelou algumas coisas do passado. Sou o caçula dos nove filhos de Dozolina e José Zampirolli, imigrantes italianos. Fui um temporão – como dizem –; quando nasci minha mãe tinha 43 anos e não queria há tempo ter mais filhos. Vim de intrometido mesmo. Meu pai chegou ao Brasil com aproximadamente um ano de idade e minha mãe era bebê de colo. Ambos vieram de navio numa viagem muito longa, história que vou contar melhor adiante. Desde pequeno, mesmo sendo o caçula, meu pai depositava em mim enorme confiança. Às vezes eu pensava: “por que ele exige tanto de mim, sendo eu o mais novo e o menos experiente?” Seu José foi um homem de grande sabedoria. Ensinou-nos desde cedo o valor do trabalho e da família. Com pouco estudo, ensinava crianças e adultos a ler e a escrever. De forte caráter e conduta, nos deu também uma formação religiosa sólida, seguindo os rituais da Igreja Católica. A reza do terço era obrigatória em nossa casa todos os dias. E tinha que ser de joelhos! Pessoa admirável era meu pai. Quanta luta o vi passar para criar a mim e a meus irmãos. Época de poucos recursos e de muitas dificuldades. Quantos ensinamentos de vida ele deixou!

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Casa em que nasceu Benjamim Zampirolli, em Santana, Jaciguá

Ensinamentos que trago comigo e faço questão de passar para meus filhos e netos. Morreu cedo, aos 65 anos. Voltando à história do meu nome, passou a ter sentido para mim o porquê do meu pai ser tão rigoroso e, ao mesmo tempo, ter tanta segurança nas tarefas que delegava a mim. Lembro-me dos dias que antecederam a sua partida. Meu pai me chamou para conversar e sem aparentar nenhuma dor ou angústia me passou tudo o que deveria ser 14

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feito após sua morte. Queria partir com o coração pleno de que eu cuidaria para sempre de minha mãe, sua companheira de toda uma vida. Assim, coube a mim a missão da partilha dos bens entre os irmãos. Eu tinha apenas 21 anos e passaria pela primeira grande provação de minha vida: despedir-me do meu pai. Dos filhos, apenas eu fui ao velório. Confesso que também não estava preparado para aquilo, mas ainda assim permaneci ao lado de minha mãe, como prometera. Só


não consegui acompanhar o sepultamento. Seria um momento cruel demais para mim. Dessa experiência nasceu um novo Benjamim. As responsabilidades que a vida trouxe fizeram de mim um homem muito observador e cauteloso. Mesmo assim, fui pego desprevenido em muitos momentos da vida. Não lamento, pois faz parte deste aprendizado que só acaba quando a gente morre. Nunca soube falar de mim e esta também é uma experiência nova. Quis fazer isso aos 82 anos, depois de muito pensar e repensar sobre em que ainda poderia contribuir para a história de outras pessoas. Nada para mim foi fácil, como se poderá observar ao longo dessas histórias, mas tudo ajudou a formar o que sou hoje: um pai de família, um cidadão e empresário em plena atividade numa idade em que muitos se dizem incapazes de continuar sonhando, lutando e realizando. Esta energia, herdada do Seu José, um imigrante italiano muito trabalhador e que aprendeu a amar esta terra na qual nasci, é que me faz levantar cedo todos os dias com um único propósito: ser útil. Para mim, é o que dá sentido à vida, aos dias, às lutas e também à superação das dificuldades. Não construí nada sozinho. Nas próximas páginas chegarão muitos personagens que me ajudaram a amadurecer, crescer e me tornar um ser humano melhor. Muitos destes personagens estão comigo há anos. Acredito que bem antes que eu pudesse imaginar, Deus já os preparava para se juntarem a mim nesta caminhada.

Benjamim Zampirolli, nascido no ano de 1930, filho de José Zampirolli e Dozolina Dal Fior, é um dos empresários pioneiros na atividade de exploração do mármore em Cachoeiro de Itapemirim. Descendente de italianos, traz em seu caráter a têmpera obstinada de seus antepassados. É, hoje, proprietário da Mineração Capixaba, uma das empresas-modelo do setor.

Benjamim Zampirolli aos 21 anos

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A vinda para o Brasil

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s histórias dos imigrantes italianos no Brasil são sempre repletas de saudosismos, lutas e muitas dificuldades. Com a minha família não foi diferente. Meu pai, Mustolo (José) Zampirolli, chegou ao Brasil por volta de 1890, numa viagem de navio que durou cerca de 30 dias. Era filho de Giovanni (João) Zampirollo e Giacinta Grasseto. Na família, conta-se que ele veio para o país com menos de um ano de idade. Em terras brasileiras, a família Zampirolli se firmou em São José (Oriente), 16

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próximo de Jaciguá. Em 1916, meu avô João adquiriu propriedades em Santana e Gironda, sendo o primeiro a explorar a região, dedicando-se principalmente ao cultivo do café. No mesmo navio em que estava meu pai, também estava minha mãe, Dozolina Dal Fior, com poucos meses de vida. Era filha de Ferdinando Dal Fior e Maria Luigia De Paoli. Na viagem, porém, houve um fato muito triste para a família de minha mãe: seu pai ficou doente e por conta das condições precárias da embarcação, morreu e teve seu corpo lançado ao mar. Assim, minha avó


Maria chegou ao país viúva, com quatro filhos pequenos e sem dinheiro. Ficou na casa de parentes até receber do governo uma propriedade de cinco alqueires em Guiomar, Vargem Alta e nela trabalhar no cultivo de café. Imaginem a situação dessa mulher, sozinha e com tantas responsabilidades. Assim cresceu minha mãe, a caçula que não chegou a conhecer o pai. Os anos que se seguiram não foram nada fáceis. A lavoura, tal como ocorre nos dias atuais, também sofria com a ação da natureza, ora com tempo árido, ora chuvoso. Muitas vezes tudo se perdia durante enchentes ou então em meses de estiagem. Certa vez, a lavoura de café de minha avó foi totalmente devastada por uma grande enchente. A família perdeu tudo, até os pequenos animais que ficavam no quintal. Depois disso, para sustentar os filhos, minha avó foi trabalhar como “camarada” na fazenda do Sr. Caetano Ferraço, avô de Theodorico de Assis Ferraço, político de destaque no Espírito Santo. Na fazenda, minha avó trabalhou na capina e na colheita do café. Minha avó Maria foi, como muitas imigrantes italianas, um exemplo de força e coragem. Não se intimidou diante das dificuldades e trabalhou muito para continuar provendo a família. Dessa forma, com muita fé e trabalho, meus ascendentes conseguiram se firmar na região de Vargem Alta – que até o ano de 1988 pertenceu a Cachoeiro de Itapemirim – no plantio do café, a maior riqueza naquele tempo. Como se sabe, os imigrantes italianos vieram para o Brasil para substituir a mão de obra dos negros escravos nos cafezais. Com o sonho da prosperidade, muitas famílias chegaram ao país. Muitos deixaram para trás mulher, filhos, pais, irmãos e amigos, sempre com a expectativa de construir algo melhor para o futuro. Os antepassados nos deixaram esta herança de amor e respeito à nossa terra. Foram, de fato, os desbravadores que abriram caminhos quando não havia estradas, apenas trilhas. As casas eram rústicas, feitas de madeira e terra, de apenas um pavimento, mas altas, lembrando as italianas. A região era tomada por mato, sem água, sem energia elétrica. Muitos filhos, nenhum conforto. Tempos de escassez. Porém, restavam duas missões importantes: trabalho obstinado e oração constante, como vou contar ao longo destas páginas.

Os pais de Benjamim chegaram ao Brasil por volta de 1890. José e Dozolina vieram, ainda crianças, coincidentemente, no mesmo navio. Casaram-se em 1913. São ambos, dois dos milhares de italianos que emigraram e trabalharam muito para ajudar a construir este país.

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O encontro de José e Dozolina

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eus pais, José e Dozolina, eram pessoas que falavam pouco. Em casa, cada um se ocupava de suas rotinas diárias, sem muita conversa. Por conta disso, lembro-me pouco sobre passagens da vida deles. Sei que viveram bem, nunca os vi discutindo ou brigando por qualquer coisa. Da união vieram nove filhos: Maria, Jacinta, Antônio, Luiz, Affonso, Domingos, Josephina, Rosa e eu. Dos irmãos, apenas Rosa está viva. Ela tem 85 anos e vive em Jaguaré, no norte do Espírito Santo. Nasci e cresci em Santana, em Vargem Alta. Tive uma infância muito pobre, mas de muita disciplina e bons princípios. Meus pais eram severos e nos deram tudo o que poderiam dar naquela época. A escola mais próxima – em Jaciguá – ficava a oito quilômetros de onde morávamos. Íamos e voltávamos a pé, debaixo de sol ou de chuva. E descalços, já que não tínhamos sapatos. Um luxo que só fui ter aos 13 anos, quando meu pai mandou fazer um sob medida para mim numa sapataria. De nada adiantou, porque o calçado ficou pequeno e eu não conseguia usá-lo. Dispensei o sapato e adquiri uma chuteira, com a qual eu ia a todo e qualquer lugar. Estranho dizer que de tanto usar calçado com número menor que o meu, o 44, passei a calçar 42. O pé teve que se ajustar ao sapato. Da mesma forma, a roupa também era escassa. Lembro-me que minha mãe só nos deixava ir à igreja se fosse de paletó. Mas, de tanto usá-lo – já que eu só tinha um – acabou rasgando. Pois minha mãe ia

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Dozolina Dal Fior, mãe de Benjamim Zampirolli, ficou órfã de pai, ainda na viagem de navio para o Brasil. Criou-se, junto dos outros irmãos em Guiomar, Vargem Alta, sob os enormes esforços de sua mãe, Maria, que chegou a trabalhar como “camarada” na fazenda de Caetano Ferraço, avô de Theodorico Ferraço, político de destaque no Espírito Santo. Depois de enviuvar, passou a morar com a familia de seu filho Benjamim, até o final de seus dias. a história do setor de rochas contada por um desbravador

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Processo de Habilitação de Casamento de Dozolina Dal Fior e José Zampirolli

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acrescentando novos remendos, pacientemente, até que a roupa não servia mais. Meu pai, apesar do pouco estudo, ensinou muita gente a ler e a escrever. O pouco que sabia, ensinava. À noite, juntava um punhado de gente na minha casa. Adultos e crianças aprenderam com meu pai. Foi um trabalhador incansável e se dedicou a vida toda à lavoura. Minha mãe também trabalhou duro na roça, junto de meu pai, e ainda se ocupava das tarefas de dona de casa, da horta e dos pequenos animais. Era uma mulher muito simples, humilde e reservada. Gostava de usar saias compridas e um lenço na cabeça. Não admitia, em casa, conversas fora do seu agrado. Repreendia os filhos, mas sem brigas, nem mesmo num tom mais alto. Mesmo porque nem precisava, já que naquela época um simples olhar dos pais intimidava os filhos. Da convivência com meus pais e irmãos ficou um profundo sentimento de saudade, e, apesar do tempo sofrido e das grandes dificuldades, tenho boas lembranças da infância e da adolescência em Santana. Quando menino, as brincadeiras com os irmãos, o catecismo e a escola de Jaciguá. Depois, mais crescido, uma rotina simples: acordar de madrugada, ir para a roça, esperar a marmita que a mãe levava, voltar para casa no fim da tarde, rezar o terço, jantar e ficar conversando do lado de fora. Depois dormir, e começar tudo de novo. Aos domingos, a missa, e, de vez em quando um trabalho voluntário na igreja ou uma festa religiosa. No tempo bom, alegria. No tempo ruim, ainda mais disposição.

José e Dozolina tiveram nove filhos: Maria, Jacinta, Antônio, Luiz, Affonso, Domingos, Josephina, Rosa e Benjamim. Viveram o tempo do trabalho duro e incessante, mas que deixou uma saudade carinhosa de toda aquela vivência carregada de afetos familiares.

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Bom de matemática

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studei pouco. Até a quarta série primária, que era o máximo oferecido na época nas escolas do interior. Das disciplinas, a que eu mais gostava e que tinha mais facilidade, era a matemática. Sempre fui um apaixonado por números e cálculos. Até hoje quando estão pensando em ir buscar a calculadora, já tenho o resultado na ponta da língua. Sou rápido para fazer contas de cabeça. Na escola, lembro-me que a professora ditava os problemas para os alunos redigirem e depois resolverem as questões. Mas, ansioso que sou, quando

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a professora (Maria José Freitas Cunha era seu nome) terminava de ditar o problema, eu já tinha o resultado. Ela passava de carteira em carteira para acompanhar o desenvolvimento dos alunos, dar orientação e ajudar os que tinham dificuldade. Quando ela via o meu caderno, eu tinha resolvido um problema e arrumado outro. Ela ficava brava e brigava comigo porque eu não tinha escrito a questão, só tinha o cálculo com o resultado. “Benjamim, vou falar mais uma vez e que seja a última: você tem que copiar o que estou falando!”, dizia ela. Eu,


tímido que sou, ficava encabulado na hora, mas na aula seguinte tornava a repetir. Na verdade, eu não tinha paciência em copiar porque nunca gostei de redação. Gostava mesmo de cálculo. E assim, vida afora, fui resolvendo meus problemas. Uns com mais facilidade, outros exigindo mais esforço. Seja em qualquer profissão, é inevitável o aprendizado com os números. Desde cedo os pais devem ensinar a importância de saber lidar com a soma, a subtração, a multiplicação e a divisão. Na escola, os professores devem reforçar este ensinamento. Depois, a vida segue seu rumo e cada um escolhe a melhor solução. São regras básicas, mas que me serviram por toda a vida. Identificar um bom negócio não significa que ele vai dar certo. O setor do mármore e do granito, por exemplo, exige uma boa formação profissional. Não é porque estudei pouco que não vou incentivar meus filhos, netos, funcionários e parceiros a se qualificarem ainda mais. Sou de outra geração, eu sei. Lá atrás, na década de 1960, quando comecei, o processo era rústico e artesanal, mas exigia uma boa memória de cálculo. Volto à matemática para

exemplificar: todo o controle que se faz hoje pelo computador, fazíamos na cabeça. Os pioneiros do setor sabem do que estou falando. Não se tinha a organização e a logística de produção que temos hoje. Mas, ainda assim, seguimos em frente. Tanto nas pedreiras quanto nas serrarias, não se para de fazer cálculos. O bloco tem que ser milimetricamente calculado para que nada comprometa sua qualidade. De igual forma, nas serrarias, o corte tem que ser certeiro. Na administração de uma empresa é fundamental equilibrar o custo e o lucro. O que se gasta e o que se ganha. Com as contas equilibradas, o empresário pode investir em mais tecnologia e qualificação profissional. Talvez, hoje, minha professora da antiga escola primária lá de Santana não ficasse tão brava comigo. A ansiedade do tempo de menino, que me fazia adiantar à frente dos demais alunos, até que me foi útil na vida adulta. Não deixo nada para depois. Resolvo logo para já começar a pensar em outras questões, sejam elas de fácil ou difícil solução. Quem gosta de matemática, como eu, sabe que a gente só desiste quando se chega ao resultado.

A tendência natural para os cálculos já apontava para Benjamim Zampirolli o caminho do empreendedorismo. Cálculos complexos feitos por máquinas já eram familiares à cabeça do futuro empresário. Um pequeno computador trabalhando desde a adolescência.

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Primeira experiência urbana com as modernidades da época. Primeira ida ao cinema  e o involuntário protagonismo em uma cena engraçada. O lado sensível às artes no homem que passará a vida trabalhando com pedras.

Cine Santo Antônio: Lanterna Misteriosa

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or volta de 1951, quando eu tinha 21 anos, fui pela primeira vez ao cinema. A história é a seguinte: meu pai, nessa época, iniciava tratamento contra um câncer na vesícula e estava internado na Santa Casa de Misericórdia para fazer alguns exames. Eu o acompanhei certo dia ao hospital e passaria aquela noite com ele. Aproveitando o tempo que tinha, perguntei ao meu pai se eu poderia ir ao cinema, que era próximo a Santa Casa. Percebendo minha curiosidade, claro, ele me incentivou a ir. 24

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Para um jovem do interior, sem acesso a quase nada, seria uma aventura. No Cine Santo Antônio, estava em cartaz o filme “Lanterna Misteriosa”. A sala do cinema era pequena e quando cheguei já estava lotada. Sem opção, sentei mesmo no chão; melhor, numa escada atrás da última fileira. Do filme me lembro pouco. Só não me esqueço de quando saí do cinema. Não percebi, devido à escuridão, que sentara sobre uma cera ainda fresca, que manchara minha calça de um marrom escuro que não causava boa


impressão... Foi engraçado. Parecia que todos olhavam para mim. Foi a primeira e única vez que fui ao cinema na minha vida. Não pela experiência um tanto traumática, mas porque o cinema nunca me encantou. Era grandioso demais para uma realidade tão diferente como a minha. Não sei se essa seria a explicação. Já com o teatro foi diferente. Certa vez fui a Rive, em Alegre. Por conta de não haver mais horário de trem para retornar para casa, acabei dormindo por lá. Na ocasião, havia um circo na cidade e fui ver o espetáculo. Fiquei admirado com o que vi e disse para mim mesmo: “Posso fazer isso também”. E não é que fiz mesmo? Ensaiei com um grupo de pessoas, em Santana, a peça “A Casa Assombrada”, uma adaptação do que vi no circo. Eu criava o roteiro, o cenário e tudo mais. Nada por escrito, tudo era passado verbalmente. Tínhamos que decorar cada fala. O difícil era encontrar pessoas na comunidade com o dom da interpretação. Lembro-me de um rapaz, que trabalhou muito tempo comigo na lavoura e que passara um tempo na prisão, inclusive. Era bom ator, decorava o texto direitinho e ajudava os demais. Nos apresentávamos num palanque montado na Igreja Católica,

em Santana, e vinha gente de várias localidades para nos assistir. Era uma festa só. Num lugar pequeno, no interior, era um acontecimento. Mas não ficamos só no teatro, não. Realizamos muitos casamentos na roça, durante festas juninas e outros eventos da igreja. Muitos nem imaginam que um dia eu subi num palco. Sou um homem reservado e que hoje prefere estar na plateia. O tempo é implacável com a gente em muitos aspectos, mas não tira de nós a vontade de ver o outro feliz. Naquela época era o melhor que podia fazer: divertir-me, divertindo os outros. Depois me casei e assumi um lar, uma família. Foi tudo diferente. Não por causa de minha esposa Lucia, que nunca me impediu de fazer nada, mas porque vieram outras prioridades e responsabilidades. Continuo admirando o teatro, os artistas e todos os que se dedicam a levar educação e cultura para as pessoas, principalmente no interior, geralmente carente de tudo. Estou convicto de que a arte pode mudar a realidade de muita gente, como mudou a daquele homem que um dia cometeu um erro, pagou por ele numa prisão e depois voltou ao trabalho, subiu num palco e foi aplaudido.

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Lucia De Angeli: a companheira ideal. Casaram-se em 05 de julho de 1958, e é um amor para a vida inteira. Mesmo não estando mais entre nós, é a inspiração para o trabalho, para a grande união familiar e o pensamento de todos, sempre voltado para o futuro.

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Lucia: o grande amor

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empre alguém pergunta o segredo de um casamento feliz. O que mantém um casal unido por tanto tempo? Não sei ao certo se é segredo, afinal, a resposta está ao alcance de todos: é o amor. Conheci Lucia em 1952, em Jaciguá, na época, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. Moça bonita, educada, bem criada. Eu tinha 22 anos e ela 17. Filha de Marcos De Angeli e Maria Scaramussa, também descendentes de italianos. a história do setor de rochas contada por um desbravador

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Em 05 de julho de 1958, Benjamim e Lucia consagram sua união na Igreja de Jaciguá

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Namoramos cinco anos. Na época, eu era lavrador. Plantava café, milho e feijão. Nosso namoro foi como a maioria dos namoros de antigamente: nos víamos aos domingos, sempre na igreja, depois da missa. Nada de ir à casa da namorada nos dias de semana, pois de segunda a sábado era só trabalho na roça. Meu plano era de me casar depois dos 35 anos, quando eu achava que teria certa estabilidade financeira. Mas quando se encontra a pessoa certa, é melhor não adiar. Assim, aos 28 anos me casei com Lucia, no dia 5 de julho de 1958, em Jaciguá. Por toda a vida, Lucia foi assim: simples, discreta e voltada para a família. Sempre digo aos mais jovens que se não têm certeza é melhor não casar, porque as provações são muitas e o matrimônio só sobrevive se houver amor. O respeito e o companheirismo também são fundamentais. Encontrei tudo isso em Lucia. Além de cuidar de mim, nossos filhos receberam toda a atenção necessária, porque ela sempre foi muito zelosa e dedicada, mesmo com eles já crescidos e independentes. Quando iniciei as atividades no setor de rochas, lembro-me da insegurança dela. “Será que isso vai dar certo, Benjamim?”, me perguntava à noite, depois do jantar. Eu a acalmava dizendo que tudo ia bem e que não havia motivo para preocupação. Ela tinha lá seus motivos; afinal, era tudo novo e sem garantias de dar certo, mas tínhamos


Foi sempre decisivo o apoio de Lucia na construção da Mineração Capixaba

uma família. Além dos filhos, minha mãe e minha irmã mais velha, Maria, moravam conosco. A vida inteira me dediquei intensamente ao trabalho. Na lavoura, depois na extração de rochas. Não tinha fim de semana, nem feriado. Acordava cedo, sem hora para chegar em casa. Enquanto me dedicava ao trabalho, Lucia cuidava da

casa e dos filhos. Nunca questionou o excesso de horas no trabalho; ao contrário, independentemente do horário em que eu chegasse, estava sempre me esperando com sua generosidade e amor. Era preocupada, sim, com minha saúde. Vivia dizendo que eu tinha que me cuidar e descansar um pouco mais. Vivemos juntos

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As cinco meninas do casal Benjamim e Lucia

Benjamim, Lucia, filhos e netos em uma tarde de domingo

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48 anos. Há cerca de sete anos ela nos deixou, vítima de câncer. Não sei se o tempo ameniza a dor de perder um amor. Lembro-me dela todos os dias. Principalmente do exemplo que ela deixou para a família e para quem conviveu com ela. Lucia nunca deixou de ser ela mesma. Mesmo depois que alcançamos uma vida melhor, com maior patrimônio, ela continuava a ser a mesma mulher que levava a marmita para mim na hora do almoço, na lavoura de café. Sem vaidades e apegos às coisas materiais. Chegava a ser comovente seu amor ao próximo, sua vontade de ajudar sempre, independentemente de qualquer coisa:

religião, cor da pele, classe social. Sou muito grato a Lucia. Principalmente porque ela me deu o maior bem que um homem pode construir: uma família. Juntos tivemos Marlene, Helenice, Marli, Heliana, Marilucia e Helder. Até agora são onze netos: Eduardo, André, Fernando, Benjamim, Bernardo, Felipe, Gabriela, Gabriel, Yuri, Miguel e Valentina. De tudo o que conquistei na vida este é o maior tesouro. Enquanto eu estiver por aqui continuarei zelando por eles. Prometi isso a Lucia, um dia no altar e depois durante todo o tempo em que vivemos juntos.

Benjamim, Lucia e os seis filhos a história do setor de rochas contada por um desbravador

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Encontro familiar – sagrado – das três da tarde de domingo. Este com a presença do então Bispo Diocesano de Cachoeiro de Itapemirim, D. Célio Goulart, que acabou por se tornar um grande amigo da família

Às três da tarde

e

les costumam chegar por volta das três horas da tarde de domingo. Já os reconheço de longe e percebo a agitação da casa, o barulho das crianças, as risadas e o alvoroço na cozinha. São meus filhos e netos vindo na hora sagrada, aquela hora boa de reunir a todos para um café da tarde. É costume nosso nos reunirmos aos domingos à tarde. Não é uma hora marcada, estabelecida. Acredito que todos precisam deste momento e por isso vêm. Em volta da mesa, conversamos, rimos, brincamos, falamos sobre tudo. Ficamos a semana inteira longe uns dos outros, cuidando dos afazeres da casa e do trabalho. Meus filhos cuidando de seus filhos, cuidando de suas vidas. O tempo

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passando rápido demais, nos distanciando. Isso não pode acontecer. Por isso, a mesa, o café e a conversa de domingo. Aconselho a todas as famílias a ter esse tempo. Não por obrigação, mas pelo prazer de estarem juntos. Saber que naquele momento nada é mais importante do que o diálogo, a partilha ou simplesmente a presença. É tão importante, e, às vezes, nem nos damos conta. É tão bom esse encontro de domingo na minha casa, que há amigos que chegam sem avisar – de surpresa mesmo – para partilhar conosco destas horas. Dom Célio Goulart, que foi bispo diocesano de Cachoeiro, esteve conosco algumas vezes. Ele dizia: “Sabia que vocês estavam aqui, por isso eu vim!”. Gosto de família reunida, dos filhos e netos perto de mim. Mas não sou um pai controlador, que quer saber de tudo para resolver a vida dos filhos. Cada um deles tomou o rumo, o caminho que julgou melhor. Sempre

aceitei todas as decisões deles e estive ao lado quando deu certo ou errado. Minha relação com eles sempre foi a do diálogo. Não quer dizer que não tenha havido conflitos, mas foram sempre resolvidos com uma boa conversa. Também não sou de guardar mágoa ou rancor. Sei que minha franqueza muitas vezes pode tê-los magoado. É porque sou muito direto nas minhas opiniões, sem meias palavras. O certo é o certo e o errado, o errado. Não há meio termo. Aprendi a ser assim com meu pai. Recordo-me que, certa vez, caminhando com ele pela rua, vimos cair da bolsa de uma moça uma quantia em dinheiro. Um rapaz que passava logo em seguida tentou pegá-lo. Meu pai o impediu e, sendo mais rápido, passou a mão no dinheiro e o entregou à moça que seguia desavisada, mais à frente. Depois olhou para mim e disse: “Meu filho, não podemos ficar com o que não é nosso”. Estou sempre falando do

Encontro familiar às três da tarde de domingo. É sagrado, embora não obrigatório, mas já fazendo parte da rotina de todos, até mesmo dos netos. Um momento de comunhão de afetos familiares e bolos, pães, doces e alegria.

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meu pai porque ele me deixou grandes lições de vida. Coisas simples, mas que formam o caráter de uma pessoa. Um bom filho na maioria das vezes é um bom pai. E ser pai é uma responsabilidade muito grande. Não sei se sou o melhor exemplo de pai. Tento, na medida do possível, honrar esta missão que é para a vida toda. Sei que meus filhos também me honram todos os dias com respeito, carinho e dedicação. Sei também que aos domingos, às três da tarde, eles chegarão, cada qual com sua história, seu encanto ou desencanto. Mas virão. É sagrado.

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Flashes de um domingo às três da tarde

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O bem que devia ter feito

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á um sentimento que me acompanha por muito tempo. É um vazio que ainda não consegui preencher. Há um tempo, em Vargem Alta, uma pessoa me abordou pedindo para ajudar a retirar um homem da calçada. Ora, o homem era um desconhecido, e eu não sabia ao certo porque ele estava deitado ali no chão. Lembro que parecia debilitado e, por não conseguir se levantar, estava na calçada. Alguém me pediu ajuda e eu não neguei. Porém, carrego comigo o sentimento de que poderia ter feito mais por aquele cidadão. Dias depois, foram me avisar que o homem tinha morrido. Fui tomado por uma angústia muito grande. Por que não o levei para o hospital? Por que em vez de simplesmente colocá-lo num lugar aparentemente mais seguro, não o retiramos da rua e tratamos dele? Não sei explicar. Simplesmente mudamos seu frágil corpo de lugar. Não havia condução, nem mesmo hospital próximo. Era um tempo muito difícil, sem recursos.

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Casa de Retiro Santa Lucia e suas bem cuidadas depend锚ncias

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A constatação de que o bem que é feito ao próximo pode sempre estar aquém daquilo que poderia ser feito: para alguém com sólida formação religiosa, isso soou como uma revelação – a construção de todo um patrimônio edificado com precípua finalidade social.

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Mas isso não justificava não termos dado a ele um mínimo de dignidade naquele momento. Este fato ocorreu há mais de trinta anos. Depois de um tempo me martirizando, penso que me faltou iniciativa na época, não por falta de humanidade, mas por limitação mesmo. Com o tempo vamos adquirindo mais habilidade e agilidade na ajuda às pessoas. Vamos deixando de esperar pelo outro e tomamos a responsabilidade para nós mesmos, sem criarmos desculpas de que não podemos, não temos tempo ou não sabemos como fazer. Na verdade, o bem não pode esperar. “E que a mão direita não saiba o que fez a esquerda”, assim aprendemos desde cedo. Nunca fui de propagar o que faço. Entretanto, até mesmo pelas amizades que tenho na cidade, na imprensa e no setor, é difícil a conversa não debandar para o trabalho social que desenvolvemos ao longo da vida. Aliás, não considero trabalho, mas uma retribuição à comunidade onde atuo há quase 50 anos. Havia cinco casas quando cheguei ao distrito de Gironda, em Cachoeiro de Itapemirim. Não havia energia elétrica, água encanada nem ruas pavimentadas. Começamos sem qualquer

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infraestrutura, apenas com garra e coragem. Na terra herdada de meus pais, trabalhávamos no plantio do café. Só depois de um tempo é que identificamos a possibilidade de um novo negócio, com a descoberta da pedreira na propriedade. A história é bonita. Estou reservando um capítulo só para ela. Em Gironda criei minha família, construí meu patrimônio, empreguei centenas de trabalhadores do distrito, ajudando-os também na formação de suas famílias. Eu quis retribuir, mas de uma forma concreta, com obras que servirão a todos, independentemente de pertencerem ou não ao nosso grupo. Quando decidi construir o posto de saúde, policial e de correios – por exemplo –, pensei na comunidade inteira. Da mesma forma, o estádio de futebol, o ginásio e a Casa de Retiro. Não vejo nada disso como filantropia. Vejo como necessidade urgente. Não há como trabalhar, progredir e crescer sem um mínimo de investimento nas áreas da saúde, da segurança e também do esporte, do lazer e da espiritualidade. Tudo isso somado é tão-somente o básico para se viver bem e com dignidade. De todas essas obras, a que mais me orgulho de ter construído foi a Casa de Retiro Santa Lucia, que

recebeu este nome em homenagem à minha esposa. Está localizada em Gironda, ao lado da Mineração Capixaba. Participei do primeiro retiro espiritual realizado lá. Eu e mais uns 30 funcionários. Muitos momentos bonitos já aconteceram naquele lugar. Um deles conto agora: havia um casal separado há mais de quatro anos, por conta dessas coisas que acabam desunindo as pessoas. Num encontro conjugal realizado na Casa de Retiro, eles se reencontraram, retomaram o casamento e estão juntos e felizes até hoje. Esta é apenas uma das histórias de final feliz que aconteceram por lá. A agenda de retiros costuma fechar nos primeiros meses do ano, o que demonstra que o lugar é bom e as pessoas são bem recebidas. Sempre me perguntam por que faço tudo isso, como se fosse algo extraordinário. Não é. Sou apenas um homem ansioso, que não sabe esperar. Queria ter feito o mesmo por aquele homem que lá no passado precisou de alguém simplesmente mais decidido. Como não havia mais o que fazer, eu mesmo lhe fiz o caixão com madeira nobre e forro de cetim. Nunca o esqueci e talvez não fosse para esquecer mesmo. Deus é quem sabe.

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Vistas parciais do campo de futebol da Minera莽茫o Capixaba, um dos xod贸s de Benjamim Zampirolli 44

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Embora a Associação Esportiva Gironda, mais conhecida como o time da Mineração Capixaba, esteja hoje desativada, a paixão de Benjamim Zampirolli pelo futebol continua intacta. Mantém, com o maior zelo, uma escolinha de futebol para meninos da comunidade, com aproximadamente 40 garotos candidatos a atleta. Todos são devidamente treinados e assistidos por profissionais com preparo técnico específico, com todo o material necessário à boa prática do esporte, além de conservar, com o maior carinho, o gramado do campo de futebol, reconhecido como um dos melhores do estado. Tudo isso sem qualquer outro patrocínio senão o de sua plena convicção de que o esporte forma atletas na mesma proporção com que forma homens.

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Igreja do distrito de Gironda, que Benjamim ajudou a construir, junto com a inestimável participação de toda a comunidade

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Casas para funcion谩rios

Escola municipal de Gironda, construida sobre terreno doado por Benjamim Zampirolli a hist贸ria do setor de rochas contada por um desbravador

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Fé na caridade

a

Igreja tem uma profunda gratidão por Benjamim Zampirolli pelas obras sociais que ele realizou no distrito de Gironda. Não apenas as obras em si, mas também o zelo, o cuidado e a atenção que ele sempre dispensou às pessoas a sua volta, aos funcionários e à comunidade em torno da empresa. Celebrei missas algumas vezes no Ginásio de Gironda, uma das obras que ele construiu, e pude ver de perto como Benjamim faz a diferença como empresário, cidadão e cristão. Sempre muito reservado, não é de propagar o bem que faz. Porém, é importante dizer que Benjamim foi fundamental para a aquisição da Rádio Diocesana em Cachoeiro de Itapemirim. Há vinte anos, quando a Diocese assumiu a rádio, Benjamim nos ‘emprestou’ vinte e cinco mil dólares. Não exigiu prazos, nem acordos para pagamento. Quando fui nomeado arcebispo de Vitória, o procurei para acertamos a situação, ao que ele me disse que nada devíamos. Assim, com esta doação de Benjamim e de outros benfeitores, a Diocese pôde, então, iniciar um novo trabalho de evangelização por meio de uma emissora de rádio. Sabemos que a evangelização não se dá só por palavras, mas também por um conjunto de ações em favor do bem. Outro momento importante, que vale destacar, foi quando a Santa Casa de Cachoeiro passou por grandes dificuldades financeiras. Eu era o

provedor na época e ele nos ajudou prontamente com a doação de ladrilhos de mármore para a construção de novas alas no hospital. Foram três caminhões de material que contribuíram muito para a realização da obra. Benjamim Zampirolli é um exemplo de trabalhador e cuja raízes italianas demonstram a força incansável para o trabalho. É um empresário bem sucedido, mas que não está interessado apenas no lucro, mas também em proporcionar o desenvolvimento de sua região. É um cristão que nunca perdeu a fé. Deus é o alicerce de sua vida. É uma imensa alegria ver tantas obras realizadas! A Casa de Retiro, a Igreja Nossa Senhora Aparecida, o ginásio, escola, casas para os funcionários morarem... como é bom promover o bem-estar social, melhorar a vida daqueles que nos cercam. A consciência social é a mais pura expressão de fé na caridade, por meio das obras. Consciência própria de quem entende a dificuldade do outro porque também a conheceu. Entendo que todo o bem que Benjamim fez e continua a fazer é uma forma de ele agradecer a Deus tudo o que conquistou ao longo da vida. Sou admirador deste trabalho que semeia o bem, o amor de Jesus e a evangelização. Que Deus abençoe Benjamim. Dom Luiz Mancilha Vilela Arcebispo de Vitória

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Um reencontro depois de vinte anos quem não tem uma história

de feliz reencontro? Pois eu tenho uma muito interessante para contar. Comecei no setor de rochas quando nem existia maquinário próprio para extrair os blocos. Era tudo manual mesmo, na marreta, debaixo do sol e da chuva. E quando começaram a surgir os primeiros maquinários, para ajudar no beneficiamento da rocha, ainda assim era difícil. Quando quebrava uma peça, não havia como repor e muito menos quem a consertasse. Resumindo: só dificuldades. Certa vez precisei ir a Vitória para comprar uma dessas peças para consertar um tear. Fui de ônibus com o dinheiro da ida e 50

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da volta no bolso, e da peça, é claro. Já estava acostumado em ir à capital para comprar peças de reposição. Acontece que nesse dia, por distração, na volta embarquei no ônibus errado. Em vez da linha que seguia para Cachoeiro peguei uma até Guarapari. Quando o ônibus entrou no trevo que leva à cidade, dei um salto e perguntei ao motorista porque o ônibus seguia para o lugar errado, até entender que eu é que estava enganado. Saltei no trevo, sem dinheiro e com aquela peça pesada nas mãos. O que fazer senão colocá-la nas costas e seguir a pé até Gironda? Impossível acreditar, mas foi o que fiz. Segui marchando, sem pensar


a que horas chegaria em casa e de que forma chegaria, já que o peso da peça me fazia parar alguns minutos para descansar a coluna, que já dava sinais de que as consequências seriam graves. Mas quem não tem opção não pode se lamentar. A certa altura, próximo de Jaqueira, uma caminhonete para e o motorista me oferece carona. “Meu Deus! Um milagre”, pensei. Um rapaz jovem acena para eu entrar no veículo. Me pergunta para onde estou indo. Digo que para Gironda. Aí ele me diz que encurtaria o caminho até Cachoeiro, de lá eu teria que arrumar outra carona. Tudo bem, imagina eu dispensar um socorro desse. Vamos conversando até Cachoeiro, onde desembarco e tento encontrar outro meio de seguir viagem. Só que desta vez não tive a mesma sorte e segui a pé até Gironda, por aproximadamente 25 quilômetros, com a peça sobre os ombros. Cheguei em casa de madrugada, exausto, mas ainda assim satisfeito porque o percurso a pé poderia ter sido ainda maior. E, veja só, vinte anos depois, reencontro o sujeito num restaurante em Cachoeiro de Itapemirim. Eu, que esqueço com facilidade nomes mas nunca um rosto, identifiquei em poucos minutos meu benfeitor daquele dia infeliz. Ele almoçava sozinho numa mesa e eu em outra. Nunca perguntei seu nome, nem o

que faz, nem de onde é. Mas naquele dia quis lhe retribuir a generosidade. Chamei o garçom e lhe disse que o almoço daquele cliente era por minha conta. Assim, terminado o almoço, o homem se levantou e foi ao caixa, no que o garçom informou que ele nada devia, pois um outro cliente havia pagado a conta. Ele ficou curioso e veio até a mim. “Por que pagou minha conta?”, perguntou ele, todo desconfiado. Eu ri da situação e perguntei se ele não estaria me reconhecendo. O homem balançou a cabeça negativamente. “Olha só as voltas que a vida dá”, disse eu a ele. “Há uns vinte anos você me socorreu na estrada me oferecendo uma carona para Cachoeiro. Você correu um risco em me ajudar; oferecer carona pode ser perigoso. No entanto, você parou e me trouxe até aqui. Hoje faço questão de pagar o seu almoço!” O homem me olhou com espanto, se desculpou dizendo que não havia me reconhecido. Afinal, passaramse vinte anos! Mas, como disse, não esqueço um rosto, principalmente se este vier acompanhado de um gesto nobre. Despedimos-nos e não nos vimos mais. O importante foi que naquele dia, embora ele não precisasse, eu pude retribuir de alguma forma. Foi uma retribuição simbólica, eu sei.

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o ã ç a r e n i M a d e O tim

sportiva ociação E

Ass

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Gironda


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omo a maioria dos brasileiros, sou também um apaixonado por futebol. Mas essa paixão começou tarde. Tinha 20 anos quando conheci a bola, idade em que a maioria dos meninos já ensina futebol. Mas eu morava no interior e não tínhamos sequer um rádio para acompanhar as transmissões dos jogos. Era uma vida meio isolada, sem muita informação. O mais engraçado desta história é que mesmo sem ter entrado em campo uma única vez e sem ter habilidade nenhuma com a bola, fui técnico de futebol. Verdade. Minha curiosidade pelo esporte me fez comprar um livro que continha não só as regras do jogo como também as de arbitragem e condições do campo. Quando construímos o estádio José Zampirolli, em Gironda, cismaram que a metragem do campo estava maior que o padrão. Alguém apostou comigo uma grade de cerveja. Apesar da bebida não me atrair, mas movido pela certeza – afinal, estava seguindo a regra – aceitei a aposta. Tempo depois, me trouxeram a cerveja. O campo é considerado um dos melhores do Estado, com um gramado em excelentes condições, arquibancada e vestiários. Com o objetivo de fomentar o esporte na região e entre os funcionários da Mineração Capixaba, fundamos a Associação Esportiva Gironda. As cores do time eram o vermelho e o preto, para manter a

tradição flamenguista. No nosso campo, já recebemos times do exterior. Um deles foi o selecionado de uma região da Coreia do Sul. Outro momento marcante foi um amistoso que disputamos com o Estrela do Norte F.C., time de grande destaque no cenário capixaba. O jogo aconteceu no ano de 1983, no Estádio da Mineração Capixaba. Para termos o jogo transmitido pela Rádio Cachoeiro, na semana da partida fui até a Prefeitura Municipal para pedir ao então prefeito Roberto Valadão um apoio na aquisição da linha que faria o link com a emissora. Seria a primeira vez que um jogo seria transmitido ao vivo no estádio de Gironda. Imagine nossa expectativa. Valadão quis saber por que tanto alvoroço em torno daquele jogo. “É que a Mineração vai jogar contra o Estrela”, disse um de seus assessores. No final da conversa, o prefeito, convencido da vitória estrelense disparou: “Benjamim, depois você volta aqui para me contar quantos gols vocês tomaram”. Desafio posto, voltei para Gironda. Ansioso que sou, não aguentei esperar e comprei eu mesmo todos os fios e isoladores e contratei um técnico para disponibilizar a linha. No dia seguinte, funcionários da rádio testaram o link. Estava tudo certo para a transmissão do jogo. O time do Estrela, na época 53


Troféus conquistados pelo time de futebol da Mineração Capixaba

A paixão pelo futebol e a fundação de um time. A construção do estádio. O zelo com o esporte e a sua capacidade de unir as pessoas. As grandes vitórias e, claro, as cores da camisa da equipe: vermelho e preto, sua outra paixão.

comandado pelo técnico Moreia, estava com sua força total e liderou boa parte do jogo por 2 x 1; com gols de Careca e Cacá. Na Mineração Capixaba, até então apenas Manoel tinha marcado. Mas, numa virada de garra e muita raça, nosso time marcou mais dois. Um gol de Edmilson e outro de Itamar de Oliveira, sendo este um dos mais 54

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bonitos, marcado do meio do campo. No dia seguinte, o jogo foi destaque nas rádios e jornais de Cachoeiro e de Vitória. Em A Gazeta, a manchete foi “Estrela perde amistoso para equipe amadora”. Foi um jogo disputadíssimo e uma vitória muito comemorada, afinal o Estrela estava no auge, com uma das melhores equipes de sua história.


ASSOCIAÇÃO ESPORTIVA GIRONDA T TÉCNICO ÉCNICO::

P PAULINHO AULINHO (M (MORCEGO ORCEGO)) Z LUIZ UIZ (N (NENÊ ENÊ)) ZÉÉ L V ADÃO VADÃO IITAMAR TAMAR C CHIQUINHO HIQUINHO T TOBIAS OBIAS W WELLINGTON ELLINGTON (I (ITAMAR TAMAR O OLIVEIRA LIVEIRA)) É B AIANO Z ZÉ BAIANO E EDMILSON DMILSON M MANOEL ANOEL E EVALDO VALDO

No trio de arbitragem estavam o juiz Adeir Alves e os bandeirinhas José Fontainha e Wilson Ferraz.

Depois disso, nossa equipe seguiu disputando campeonatos sulinos, na categoria amador, obtendo bons resultados. Tudo isso motivava a equipe e funcionários, movimentava o distrito de Gironda e promovia o esporte em outras localidades aonde íamos disputar. Foi uma época muito boa. Atualmente, o estádio é usado pela comunidade e continua aberto para a realização de jogos. Não é cobrado qualquer tipo de taxa e os jogos são

ESTRELA DO NORTE F.C. T TÉCNICO ÉCNICO:: M MOREIA OREIA

J JOÃO OÃO L LUÍS UÍS B BETO ETO M MACAÉ ACAÉ (M (MULCA ULCA)) ULINHO (M ARCELO J JULINHO (MARCELO)) A RY (N (NENÉM ENÉM)) ARY R OGÉRIO ROGÉRIO A AMARAL MARAL N NASCIMENTO ASCIMENTO (Í (ÍNDIO NDIO)) É N ETO (E DMILSON ) Z ZÉ NETO (EDMILSON) S ERGINHO (C (CACÁ ACÁ)) SERGINHO C AMILO CAMILO C CARECA ARECA N EY NEY (E (EDMILSON DMILSON))

abertos ao público. Tenho muito orgulho e saudades do time da Mineração Capixaba. Time que meu filho Helder também chegou a jogar como ponta esquerda. Formamos uma equipe muito boa que conquistou alguns torneios amadores muito importantes. Dias depois da vitória histórica sobre o Estrela do Norte, voltei ao gabinete do prefeito Roberto Valadão. Fui lá lhe fazer uma visita. 55


O acidente que salvou minha vida De como um acidente quase fatal pode salvar a vida de algu茅m. Os desdobramentos que culminaram em um precoce e surpreendente diagn贸stico. O tratamento, a rebeldia arrependida e o elogio da paci锚ncia.

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n

unca havia dormido no banco carona durante uma viagem. Naquele verão de 1995 foi diferente. Era um domingo à tarde e eu vinha de Marataízes com meu motorista, num Subaru, veículo que havia adquirido havia pouco tempo. Dirigir nunca foi uma prioridade em minha vida, tanto que só fui aprender aos 25 anos por conta do trabalho que começava a exigir que eu perdesse o medo da direção e da estrada. Assim, depois de um tempo passei a confiar este trabalho a um funcionário da empresa. Porém, mesmo no banco carona e o volante estando em outras mãos sempre estive atento à estrada. No dia do acidente, não sei por que, dormi. Dormi de tal forma que quando acordei estava sendo resgatado pelos policiais rodoviários e pelo Corpo de Bombeiros. Contaram-me que o carro capotou várias vezes até cair numa espécie de vala à beira da estrada. Ainda que inconsciente, lembro-me de ter perguntado a um policial sobre meu motorista, se ele estava bem. Ele sofreu pequenos arranhões somente. Eu quebrei cinco costelas, o ombro direito, tive vários cortes pelo corpo, inclusive no supercílio, onde recebi 21 pontos. Fui levado diretamente para a UTI da Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro de Itapemirim, onde fui socorrido por um médico neurologista. Como tive vários cortes na cabeça, a

equipe médica realizou vários exames, entre eles, uma tomografia. No exame, um diagnóstico nada animador: um tumor que comprometia a área motora do meu corpo e que, se não fosse retirado logo, poderia deixar sequelas. Não bastasse o acidente, agora havia uma outra preocupação. Mas Deus é grande e nada é por acaso. Um exemplo bonito deste acidente: a quantidade de amigos que foi me visitar, embora eu não os tenha visto. Um dos médicos me contou que precisou colocar uma plaquinha na porta do quarto informando que eu não poderia receber visitas. Um cuidado que só fui entender depois, com o diagnóstico. Amigos são tudo na vida. O Horácio Scaramussa também esteve no hospital. Imagino a cara dele quando soube que eu já estava na pedreira trabalhando e de cadeira de rodas! Nem Lucia, minha esposa, conseguiu me segurar em casa. Dois dias depois, lá estava eu no batente, claro que enfrentando tudo com mais dificuldade, mas não me deixei abalar nem com o acidente nem com a notícia de que eu teria que enfrentar brevemente uma cirurgia muito delicada. Na rotina de trabalho, fui me recuperando do acidente. Não sou pessoa de lamentar, muito menos de questionar os desígnios de Deus. O

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diagnóstico, eu bem sabia, não era quanto teria que ser paciente e tentar tão simples como os médicos diziam. levar mais uma vez a dificuldade Sabia que a cirurgia era de risco e que da melhor forma, sem drama e eu poderia não voltar do mesmo jeito, autopiedade. mas com uma série de limitações Mais sessões de fisioterapia até eu físicas. Porém, ela era necessária, me dar “alta” ao perceber que estava até porque, mesmo sendo benigno, bom o suficiente para voltar à minha o tumor comprometia uma área rotina. Grande erro. Eu teria que ter importante do cérebro. continuado as sessões para garantir Dois meses depois eu faria a uma recuperação total. Mas não as fiz cirurgia no Hospital da Aeronáutica, e me arrependo porque as limitações no Rio de Janeiro. Minha filha que hoje tenho poderiam ser muito Marilucia, que menores. é capitã, e O acidente foi, minha esposa na verdade, um acidente foi acompanharam sinal para algo na verdade um sinal para todo o processo. mais importante. Foram dez dias Se não tivesse algo mais importante de internação, ocorrido, talvez eu mais dois meses não descobrisse a de fisioterapia tempo a existência intensa. Tudo devagar demais para do tumor, que embora benigno, uma pessoa ansiosa como eu. E, deveria ser retirado. Talvez o tumor, embora de personalidade forte, que na época com 5 centímetros, pudesse não desiste facilmente, confesso que ter evoluído para uma doença chorei muito, quando, ao voltar para maligna. Não sei, só sei que não Cachoeiro, percebi que não conseguia era a minha hora. Voltei a fazer ter a mobilidade de antes dentro de fisioterapia e sinto alguma melhora. minha própria casa. Havia muitas Este recado deixo para quem pensa escadas e degraus entre cômodos que em desobedecer ordens médicas: a temporariamente eu não conseguiria paciência ainda é o melhor caminho. transpor sozinho. Daí percebi o

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Um susto

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m fato inesperado ocorreu há cinco anos. Nunca pude imaginar que viveria uma tentativa de sequestro. Tanto que até então não me preocupava em tomar medidas de segurança contra assaltos, que dirá sequestro. Era um dia comum de trabalho, dia de semana, sol quente. Eu e meu motorista fomos fechados por um veículo com dois homens, que nos abordaram sem a menor preocupação de que poderiam ser vistos ou interceptados por policiais. Foram momentos de muita agonia. Não por medo (até fiquei bem calmo), mas porque percebi que eles estavam muito nervosos e atrapalhados. Queriam dinheiro e o carro. E planejavam também me levar com eles. Porém, havia uma dificuldade. Minha limitação física e minha altura foram empecilhos para que a dupla me colocasse dentro do porta-malas. Eu jamais caberia num porta-malas! Ansiosos, trataram de me empurrar para fora do carro e eu caí na estrada. Percebendo a movimentação e com medo de serem pegos, renderam meu motorista e o levaram com eles. Fiquei ali no chão aguardando socorro e muito aflito com o que poderia ser o desfecho daquele momento horrível. Temia pela vida do meu funcionário, se os bandidos poderiam lhe fazer alguma maldade. Temia como a notícia poderia chegar até minha família; queria avisar. O que fazer numa hora dessas? Felizmente, os homens abandonaram o carro e o motorista a poucos quilômetros do local onde estávamos. Já refeito do susto, meu funcionário voltou para me buscar. Foi só um susto. Dias depois a dupla foi presa. Para mim ficou uma lição: Deus nos protege e está sempre conosco, mas não podemos deixar tudo na mão d’Ele. Passei a ter mais cuidado e a investir em segurança, coisa que até então não fazia. a história do setor de rochas contada por um desbravador

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Uma vida em comunhão com o trabalho desde os seis anos de idade. As experiências com lavoura, alambique, marcenaria, moinhos de fubá. O aprendizado para a construção de um nome que vai virar uma marca.

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A construção de um

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nome

omecei a trabalhar na idade em que as crianças deveriam se ocupar somente de brincadeiras e aventuras. Mas, por força da necessidade de ajudar meus pais, aos seis anos já dividia meu tempo entre escola e lavoura. Pela manhã estudava e depois do almoço seguia com minha mãe e meus irmãos para a roça. Imagine, tão pequeno e já sabia manusear facão, foice, machado e enxada. Minha infância e adolescência também foram de trabalho. Certa vez um senhor, dono de um alambique em Santana (Nelo de Almeida era seu nome) me viu trabalhando na roça no fim de uma tarde muito quente, mas com a mesma disposição de quem está começando o dia. Passou lá em casa e falou com minha mãe: “Seu menino trabalha sempre assim?” Ela riu. Daí ele disse para ela: “Vai ganhar a vida”. De fato, a disposição, a ousadia e a curiosidade sempre me

acompanharam. Fiz muita coisa na vida. Muitas delas sem o menor planejamento, como, por exemplo, um alambique que produzia cachaça, a que dei o nome (ou a marca) de “Esportiva”. Fabriquei por sete anos, até desistir do negócio por conta da concorrência que crescia na região. Depois tive uma fábrica de farinha e uma serraria de madeira. Na verdade, uma pequena marcenaria, onde fazia taipá e escoramentos e vendia para uma fábrica de cimento. Tudo se formou e funcionou dentro da propriedade em Santana. Também tive um moinho de fubá, cujo produto levava cedinho no lombo de burro para vender em Cachoeiro de Itapemirim. Para os comerciantes do Mercado da Pedra, fornecia chuchu que trazia em balaios grandes, lá da roça até a cidade. Mais adiante, já de posse de um pequeno caminhão, passei a comprar cereais, feijão

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principalmente, dos produtores de Fazia isso sempre porque tinha que Córrego Alto e Prosperidade, e a adiantar o serviço para entregá-lo no vender para armazéns de Cachoeiro. dia seguinte. Foram experiências muito válidas, A fé e a força para o trabalho apesar da falta de uma melhor sempre me acompanharam na vida organização dos negócios. Tinha profissional. Estou certo de que o muitas atribuições: plantava, colhia, aprendizado que tive com meus pais embalava, vendia e fazia a entrega. muito cedo no trato com a terra, Muitas vezes eu descarregava as lições quanto à responsabilidade caminhão sozinho. com os clientes, Quando conto a importância essas histórias, de economizar fé e a força para muitos perguntam: e investir no o trabalho sempre me “Muita luta, não momento é, Benjamim?”. certo foram acompanharam na vida Interessante fundamentais para profissional que não só eu, minha formação mas muitos da empresarial. minha geração Construir um trabalhavam muitas horas por dia nome leva tempo e é preciso muita e não reclamavam do cansaço, do persistência até que as pessoas tempo dispensado ao trabalho... Nós confiem que o produto ou serviço não conhecíamos outra vida senão será entregue conforme combinado. aquela. Sou do tempo em que a palavra Lembro-me que quando tive valia mais que uma assinatura. a pequena serraria, muitas vezes, Por isso, procuro passar sempre à noite, já rendido ao sono e ao segurança para meus clientes. Não cansaço, me deitava próximo ao tem erro. Basta cumprir o tratado. trilho da máquina de serrar para que, Ensinamento que trouxe para o novo quando terminasse o processo de desafio que foi ingressar no setor de serragem da madeira, o carrinho me rochas, história que começo a contar empurrasse e, então, seria acordado. a partir de agora.

“A

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Benjamim Zampirolli aos 28 anos

Hoje, aos 83 anos.

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Este é o tear denominado G 1, responsável pelo que se pode chamar de início do Ciclo do Mármore de Cachoeiro de Itapemirim. Veio substituir os teares extremanente rudimentares, movidos a rodas d’água ou turbinas à água, antes da chegada das linhas de energia elétrica

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Desbravando um novo setor

u

m novo caminho se abriu para mim quando Mario Bataglia e Walter Bataglia, empresários italianos, desistiram de explorar a pedreira de mármore na minha propriedade em Gironda. Até então a atividade, da qual eu apenas recebia os royalties, me era totalmente indiferente. Por um tempo acompanhei de longe a extração das pedras. Enquanto cuidava da lavoura, observava o trabalho dos empresários e dos funcionários e a exploração com o limitado maquinário da época. Sabia que havia uma grande oportunidade na minha propriedade, mas não conhecia, ainda, o caminho para ingressar no setor. Porém, alguns meses antes de os empresários entregarem a pedreira, estive mais próximo da atividade. Curioso e atento como sempre fui, aprendi a identificar os locais para a extração dos blocos. Quando Mario e Walter voltaram para a Itália, deixaram algumas frentes de trabalho abertas e estradas de acesso à pedreira. Mas levaram com eles os maquinários. Assim, sem nenhuma alternativa, arregacei as mangas e retomei a extração dos blocos no

braço mesmo, com marretas e fios de aço compridos. Levava mais de quinze dias para extrair um bloco. Para se ter uma ideia, hoje (claro que com toda tecnologia que o setor oferece) extraímos nove blocos por dia. Muito longe da tecnologia dos fios diamantados, os blocos de antigamente eram cortados com fio helicoidal, algo inimaginável para esta época em que é possível cortar um bloco em menos de uma hora. O fato é que todo início é muito difícil. E começar do zero, como comecei, é para poucos. A inexperiência, somada à falta de recursos para investir em maquinário e em mão de obra, me obrigou a trabalhar dia e noite na tentativa de extrair pelo menos dois blocos por mês. Eram marretadas o dia inteiro. Não foram poucas as vezes que, após dias de trabalho, perdia o bloco, por algum erro de cálculo na extração ou durante o transporte. Logística, não havia nenhuma. Tampouco treinamento, planejamento ou apoio financeiro. Nada. Os pioneiros do mármore e do granito são homens, diria, de muita persistência e autoconfiança. Tínhamos bons

a história do setor de rochas contada por um desbravador

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O imigrante português Joaquim Bernardino instalou, em 1930, na Rua 25 de Março, no centro de Cachoeiro de Itapemirim, a primeira marmoraria da região. Apenas beneficiava peças trazidas do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Ostentava o título de “Marmoraria do Sul”. Trabalharam com ele os filhos Joaquim e Eduardo Bernardino, sendo que este último exerceu atividade comercial até o início dos anos 1970. Consta que a primeira tentativa de serragem em nossa região remonta a 1917, quando em São João do Oriente, distrito de Jaciguá, uma família de portugueses chefiada por um senhor de nome Tibúrcio, tentou o processo de serragem através de um tear de madeira, bastante rudimentar e movido à roda de água. Bem mais adiante, em 1965, Afonso Zampirolli também tentou esse mesmo processo. Ambos, cada qual a seu tempo, tornaram-se economicamente inviáveis, em virtude de sua rusticidade e da pouca qualidade conseguida no produto final.

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Memórias

de um

produtos e compradores, mas nos faltava logística, essencial em qualquer negócio. Lembro-me que um dos meus primeiros clientes foi Eduardo Bernardino, empresário português que se dedicava à compra de blocos para venda em outros Estados. Era um vendedor nato. Aliás, saber negociar é uma arte que aprendemos no dia a dia no setor de rochas. Negociar e vender. Mas, voltando ao início de tudo, quando percebi que poderia ingressar no setor, comecei a “garimpagem” por volta de 1965 e mais tarde convidei José Abrahão Altoé e José Neves para juntos formamos a Mineração Capixaba, que teve o seu primeiro contrato de constituição registrado na Junta Comercial de Cachoeiro de Itapemirim, em 05 setembro de 1967. Era uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada e tinha por finalidade a “Pesquisa e Lavra de Jazidas Minerais e a Extração e Industrialização de Produtos Minerais”. No primeiro contrato o capital era de doze milhões de cruzeiros, divididos igualitariamente entre os sócios, sendo que a gerência da firma poderia ser exercida por qualquer um dos sócios, de comum acordo, dividindo entre si os encargos da administração. A sociedade durou vinte e cinco anos. Nesse período, muitas experiências e uma constatação: prefiro acertar e errar sozinho. Esclareço: ainda que as sociedades sejam muito positivas e válidas, meu perfil é de assumir riscos, investir e ter o poder de decisão. Claro que nem sempre tomo as decisões mais acertadas, mas assumo o risco. A Mineração Capixaba passou por várias fases. Inicialmente, apenas com atividade extrativa, a empresa foi aos poucos adquirindo máquinas e equipamentos para realizar também o beneficiamento da rocha (serragem, resinagem, polimento e corte de chapas). Estão em funcionamento atualmente três teares BM de lâminas diamantadas e três convencionais que serram tanto mármore Benjamim


quanto granito. Os diamantados O mercado se torna cada vez serram um bloco a cada seis horas, mais exigente, o setor se moderniza em média. Já os convencionais a cada ano e tento acompanhar cada demoram mais. Dependendo do passo. A tecnologia foi fundamental material, um bloco pode demorar até para o crescimento do setor, aliada, é cinco dias para ser serrado. Com isso, claro, a novas técnicas de gestão e a a produção saltou para 40 mil metros capacitação profissional. A Mineração quadrados de chapas serradas e Capixaba evoluiu junto com o setor. também polidas por mês. Na linha de Isso me orgulha muito. Hoje, depois produção, o reforço no acabamento de várias alterações contratuais, com uma politriz de 16 cabeças, tenho mais flexibilidade nas tomadas que produz até 18 chapas por hora, de decisões. Para mim é primordial garante a qualidade exigida pelo esta independência, para o meu mercado externo. crescimento e o Há também uma da empresa. Volto de 20 cabeças, a dizer que as ínhamos bons produtos e mais convencional, sociedades que tive para polimento compradores mas nos faltava foram importantes tanto de mármore para meu logística essencial em quanto de granito. desenvolvimento qualquer negócio A produção é de empresarial, no máximo dez mas assim como chapas por hora. vamos crescendo e Nossa jazida tem quatro frentes de amadurecendo na vida pessoal, vamos trabalho. Além do mármore branco de igual forma nos encontrando na – nosso carro chefe –, trabalhamos vida profissional também. Muitos com o Pinta Verde, o Branco Fundo podem achar que meu perfil é Azul e Branco Acinzentado. A centralizador, mas não vejo desta produção mensal atual é 1.600 metros forma. Sou, sim, um empresário que cúbicos. É sempre muito gratificante, acompanha os processos de produção e que faz esta atividade valer a pena, da empresa, desde a extração de ver nosso produto aplicado nas mais blocos até a pós-venda. Às sete da variadas edificações e perceber que manhã estou na Mineração Capixaba. além da beleza, nosso mármore e Todos os dias. granito são valorizados pela qualidade e durabilidade.

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, ,

.”

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O caminho das pedras

é

comum as pessoas me perguntarem como chegar ao sucesso profissional. Percebo que mesmo num mundo de tantas possibilidades esta ainda é a grande dúvida do jovem, daquele que está se lançando ao mercado de trabalho: como ter sucesso fazendo o que se gosta? Claro que em muitos casos está visível a vocação e em outros o processo é mais demorado. Muitas vezes são necessárias muitas experiências para encontrar o caminho certo. Este foi o meu caso. Penso que em todas as atividades que tive, minha paixão pela venda era latente. Gosto de estar em contato com as pessoas, mostrar o produto, suas aplicações, seu valor agregado ao projeto, desde os mais simples aos mais complexos. Nesse contexto, um exemplo simples nos ensina muito. Vejam o caso dos pioneiros do mármore e do granito em Cachoeiro de Itapemirim. Homens simples que, na década de 1950, começaram a verdadeira história do setor de rochas ornamentais no Estado e que se tornaram marcos na mineração do mármore. Saberiam estes homens que décadas depois seriam referência 70

Memórias

de um

Benjamim

na história do setor? Certamente que não. Eles estavam ocupados demais, desvendando o caminho das pedras. E digo, seguramente, que esta descoberta não foi nada fácil. Justamente porque não tínhamos referências, um modelo pronto e estabelecido tal como vemos agora. E, por isso mesmo, é importante parcerias, bons relacionamentos, produto e serviço de qualidade e, sobretudo, credibilidade. Somado a isso tudo há um outro ponto igualmente importante: quem quer se dedicar à atividade de extração de rochas tem que esquecer o relógio. Ou seja, não temos hora para terminar o dia. Aliás, até hoje acordo no meio da noite para anotar alguma coisa que preciso fazer no dia seguinte. O bloco de papel e a caneta ficam ao lado da cama. Estranho? Não sei, mas é assim que venho conseguindo, ao longo da vida, colocar as ideias em ordem. Numa pedreira pode haver várias frentes de trabalho, cada uma numa etapa diferente e que exige um acompanhamento constante. Normalmente vou três vezes por dia à pedreira para checar equipamentos, condições de trabalho


dos funcionários e o material que está sendo extraído. Temos metas e prazos a cumprir. Estou na pedreira de domingo a domingo. Ao longo do dia recebo muitas informações, daí muitas vezes à noite, bem no meio do sono, a solução para algum problema surge na mente. Eu me levanto e anoto. Além de todas as questões burocráticas e administrativas, há outra preocupação – talvez a mais importante e que tira o sono da maioria dos empresários do setor de rochas –, que são os acidentes de trabalho. Bem menos do que antes, mas passíveis de acontecer a todo o momento devido ao perigo a que estamos expostos. Desde a extração até o beneficiamento e transporte dos blocos, os acidentes são – na minha opinião – um grande desafio a ser vencido todos os dias. A mineração é um dos setores de maior risco no país e é preciso investir constantemente em equipamentos de segurança e capacitação dos funcionários. Mas, ainda com todos os investimentos

que fazemos na empresa nessa área, estou diariamente na pedreira inspecionando e orientando no que for necessário. Uma sugestão que sempre dou para quem pretende se lançar no setor é se cercar de pessoas/profissionais de diferentes habilidades; compartilhar o conhecimento. Eu nunca dispenso uma ideia, principalmente se essa aprimorar a segurança e bemestar de quem trabalha comigo. Por isso, todos os dias, ao chegar à empresa, nos reunimos diante de um altar próximo ao portão de entrada e cada um, com sua crença, entrega seu trabalho e seu dia a Deus, nosso protetor e em quem devemos ter total confiança. Fazemos isso todos os dias, às vezes em grupo maior, às vezes menor. Não importa. Considero um momento importante de reflexão e união com os funcionários, os quais considero parte da família. Fazer o que se gosta é muito prazeroso, mas também exige muita dedicação, responsabilidade e renúncias. Talvez esta seja a resposta.

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O pioneirismo na extração de blocos de rocha é creditado a Horácio Scaramussa. Em 07 de abril de 1957 embarcou em um caminhão, em Prosperidade, Vargem Alta, o primeiro bloco de mármore extraído em nossa região. Outros persistentes desbravadores o seguiram nessa luta árdua, que, à época, poderia ser taxada de obsessiva: Ogg Dias de Oliveira, que acreditou que aquele material era de boa qualidade e o levou para análise em laboratórios do Rio de Janeiro, e os visionários Casemiro Costa, que aqui chegou com sua família, em 1956, e iniciou suas atividades no alvorecer dos anos 1960;  Benjamim Zampirolli, que em 1965 deu início à sua atividade extrativa com os instrumentos mais rudimentares – quase se poderia chamar de um trabalho de garimpagem; Marinho Salviano da Costa, o primeiro a perceber a importância do aprimoramento tecnológico, e, em decorrência dessa visão, encomendar o primeiro tear convencional de serragem de chapas de mármore. Outros tantos destemidos empresários ajudaram a construir a pujança desse setor que é o coração – ou a alma? – da economia de Cachoeiro de Itapemirim.


Tear Convencial


Tear Diamantado


Politriz 20 cabeรงas


Em qualquer setor produtivo da economia, deve-se, sempre, estar atento ao novo. Desde o maquinário – cada vez mais sofisticado – até a adequada preparação e reciclagem dos executivos e demais funcionários da empresa. É sempre necessário – uma obrigação permanente – que estejam receptivos aos constantes aprimoramentos técnicos e administrativos. O setor de rochas experimentou as mais radicais mudanças em toda a sua logística de produção e administração. Evoluiu-se um século em dois decênios. Não bastam mais apenas a intuição e o empirismo. O tear rústico de 1965, de Affonso Zampirolli, é, hoje, um retrato na parede a testemunhar a engenhosidade do homem na eterna busca do sucesso para os seus empreendimentos.

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Memórias

de um

Evoluir sempre

e

voluir é fundamental e as mudanças no setor de rochas ornamentais foram e ainda são constantes. Do tear movido à água com suporte de madeira ao mais moderno com motores trifásicos; dos fios de aço ao diamantado; do maquinário arcaico às politrizes automáticas, furadeiras e tratores, além de sistema informatizado para controle de custos e despesas; tudo isso faz parte das etapas de evolução do setor que deram maior agilidade aos processos de extração e beneficiamento das rochas ornamentais. Procurei, ao longo destes quase cinquenta anos, me adequar às exigências do mercado. Mas sempre com os pés no chão, sem fazer financiamentos a perder de vista, muito menos dar um passo maior que as pernas. Acompanhei cada investida em busca do novo, do que pudesse diminuir um tanto nosso esforço braçal. Nesta busca, meu irmão Affonso Benjamim

Zampirolli tentou produzir um tear de madeira, bem rústico, que em pouco tempo foi desativado por ser considerado inviável para o corte de chapas. Os primeiros teares da Mineração Capixaba, por exemplo, foram bem rústicos, adquiridos de um cliente em São Paulo em troca de uma pedreira. Mesmo rudimentares, trabalharam diuturnamente por quinze anos. No começo, a resistência ao novo era natural. Afinal, tudo era experimental. Daí era comum a troca de ideias entre os empresários. Às vezes, numa conversa, entendia-se que determinado maquinário era mais viável em detrimento de outro mais caro e com menos resultados. Ainda assim, as tentativas frustradas foram inevitáveis. Vencidas as barreiras tecnológicas, vieram as da capacitação profissional. Era preciso ensinar ao funcionário como manusear


e aproveitar ao máximo o potencial das máquinas. Bem como se fez necessária mão de obra especializada em oficinas para o conserto e manutenção das máquinas. Esta se formou dentro das próprias frentes de trabalho. O transporte dos blocos também teve que se modernizar e novos veículos e pontes rolantes foram produzidos especialmente para atender ao setor.

Vi tudo isso se concretizando e fico imensamente satisfeito em constatar a revolução tecnológica, mas, sobretudo de mentalidade do setor. Resta agora a contrapartida governamental em novos investimentos para melhoria de estradas, portos e aeroportos para auxiliar na logística das empresas e, consequentemente, no desenvolvimento econômico do estado e do país.

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Ponte Rolante


Politriz 16 cabeças

Extração na pedreira


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Mem贸rias

de um

Benjamim


O estilo Benjamim de administrar

o

estilo de administração de Benjamim é dinâmico e flexível, embora seja de personalidade forte. Não toma decisões precipitadas, sendo que cada atitude e cada decisão são precedidas de reflexão bastante cuidadosa. Sempre teve uma preocupação social muito grande, o que o levou a ser uma espécie de exemplo de empresário que se envolve com a comunidade de forma bastante efetiva. Tem grande preocupação com a segurança de trabalho de seus funcionários. A empresa já ficou mais de mil dias sem a ocorrência de um só acidente. Sua formação religiosa também o leva a atitudes de caráter humanitário, bastando para isso, observar as obras sociais e religiosas construídas às suas expensas. Sempre estimulou a prática esportiva, sendo que o time de futebol da Mineração Capixaba foi uma de suas paixões. Mantém hoje uma escolinha de educação física, com professor qualificado, para a iniciação das crianças nas práticas esportivas. A empresa congrega hoje um quadro de aproximadamente 170 funcionários. O departamento jurídico é composto por quatro advogados. É empresário de perfil

conservador em relação a aplicações e movimentações financeiras, não se expondo a riscos em investimentos de remuneração maior, porém de maior risco. Inclusive, pouco retira para capitalização em ativos financeiros, preferindo a aplicação em reinvestimento na empresa. Está sempre se atualizando em relação às práticas administrativas, assim como em relação às novas tecnologias. Hoje, a Mineração Capixaba é uma empresa absolutamente consolidada, graças ao seu perfil de administrador cauteloso e que não simpatiza com a política de crescimento através do endividamento. Incorporou às suas preocupações naturais de empresário, a preocupação com o futuro do planeta. É um empresário absolutamente consciente da necessidade de se preservar, ao máximo, as condições naturais do lugar em que se vive. Já tem mais de quinze mil mudas de árvores plantadas nos últimos cinco anos, em sua propriedade. Fez um reflorestamento cuidadoso, com espécies nativas da mata atlântica, algumas delas de madeiras nobres, hoje quase extintas em face de sua exploração predatória através dos anos. Jorge De Backer, funcionário da Mineração Capixaba desde 1970

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Ex-diretores do Cetemag: Augusto Lincoln R. Salles Luiz Henrique Toniato JosĂŠ Affonso Coelho


Ex-diretores do Sindirochas: Paschoal AraĂşjo Augusto Lincoln R. Salles JosĂŠ Affonso Coelho


A força das entidades do setor

h

á uma frase muito sábia que Esta unidade foi fundamental diz que ninguém chega sozinho a para o crescimento do setor, lugar nenhum. Para um negócio dar abrindo novas oportunidades de certo é preciso o esforço de muitas conhecimento e parcerias. Em pessoas. Em todo segmento torna1986, estive pela primeira vez na se fundamental o envolvimento de Feira de Carrara, na Itália. Foi uma gente muito comprometida, não experiência muito boa. Voltamos de só com sua empresa mas também lá com uma nova visão de mercado, com o crescimento do setor. Daí a além da troca de experiências com importância de outros expositores se juntar, formar estrangeiros. Estive parcerias e lutar por lá mais umas três um segmento torna objetivos comuns. ou quatro vezes, se fundamental o Assim nasceu, se não me falha a envolvimento de gente em 1973, o memória. Sempre Sindicato da muito comprometida não só a trabalho. Indústria da Outro marco na com sua empresa mas também Extração de história do setor Mármore, Calcários de rochas foi a com o crescimento e Pedreiras de criação do Centro do setor Cachoeiro de Tecnológico do Itapemirim, Mármore e do o Sindirochas. Minha atuação Granito (Cetemag), em 1988. Um esteve mais concentrada na busca sonho antigo e uma realização para de recursos financeiros e apoio todo o empresariado. Por meio aos projetos da entidade. Outros do Cetemag, foi realizada no ano empresários do setor ficaram seguinte a primeira Feira do Mármore com a responsabilidade de gestão, e Granito, evento reconhecido que, aliás, sempre esteve muito internacionalmente no setor de bem representada por destacadas rochas ornamentais. diretorias. Contando assim de forma

N

-

,

.

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de um

Benjamim


resumida, parece que foi fácil – mas não foi. Tanto para a criação das entidades quanto para a realização da primeira feira, foram muitos os obstáculos superados. Diversas reuniões com empresários, representantes do poder público e entidades financeiras. Alguns “nãos” e muita espera. Perseverantes que somos, continuamos firmes. Cada um contribuindo da forma que podia, revezando-se nas reuniões e mantendo o diálogo com as empresas e instituições. Participei de todas as edições da Feira do Mármore e Granito, atualmente Cachoeiro Stone Fair. Digo: a Mineração Capixaba sempre marcou presença. Nosso estande está sempre reservado. Considero a feira um excelente momento para reencontrar amigos e parceiros e fazer outros tantos. Há empresários que encontro uma vez por ano, justamente na feira. Passamos o ano inteiro mantendo contato apenas por telefone e, às vezes, nem isso. Para Cachoeiro de Itapemirim, considero uma iniciativa que deve sempre ser apoiada, já que movimenta e destaca a cidade no mundo inteiro, além de dar visibilidade aos nossos produtos, considerados de ótima qualidade. O sucesso da feira se dá pelo empenho dos organizadores e das entidades que nos representam e lutam pelo desenvolvimento do setor, oferecendo capacitação para os funcionários, inovação tecnológica na extração e beneficiamento dos blocos, além de informações adequadas para o tratamento do subproduto – ou resíduo de rochas, tão importante para a preservação do meio ambiente.

O Sindicato da Indústria de Rochas Ornamentais, Cal e Calcários do Espírito Santo, sediado em Cachoeiro de Itapemirim, SINDIROCHAS, fundado em 1973, veio unir forças no setor e consolidar um importante segmento da economia do sul do Estado, e que passou a ter importância vital na economia de todo o Espírito Santo. Foi um trabalho profícuo de muitos empresários, sendo que um deles, Paschoal Araujo, se tornou o seu primeiro presidente. De lá – 1973 – até os dias de hoje, tem desempenhado um papel de destacado protagonista no processo de crescimento de todo o setor. É um parceiro de todas as horas. Outra entidade de igual importância é o Centro Tecnológico do Mármore e Granito - CETEMAG, fundado em 1988.Tem como uma de suas atividades primordiais a busca constante do melhor aparelhamento tecnológico para o setor, bem como o aperfeiçoamento técnico de toda a sua mão de obra. Realizou a primeira Feira do Mármore e Granito em Cachoeiro de Itapemirim, em 1989, apoiado por inúmeros outros órgãos públicos e privados, tais como Bandes, Acepes, Findes e Sindicatos representativos do setor de mármore e granito do Estado. Esta feira é hoje um evento incluido na agenda internacional do setor e denonimada Cachoeiro Stone Fair.

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Benjamim é passado, presente e futuro

n

a história do setor de rochas é comum encontrarmos a palavra desbravador. Simples entender: de fato, os primeiros empreendedores do mármore e do granito foram os que desbravaram, abriram caminhos e oportunidades para os que chegariam depois. Dentre esses trabalhadores está Benjamim Zampirolli. Empresário, e, sobretudo um cidadão exemplar, Benjamim deixou sua marca no distrito de Gironda, onde está situada a sua empresa Mineração Capixaba. É admirável a forma como conduz sua empresa com dinamismo e responsabilidade social. No setor, participou e colaborou ativamente da

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criação do Sindirochas e do Cetemag, entidades que presidi nas décadas de 1980 e 1990. É um empresário que muito honra o setor pela sua inteligência, capacidade de trabalho e honestidade. Mas, dentre suas principais qualidades, destacaria a ousadia. Sabe enfrentar riscos calculados. Sabe assumir desafios, mas ao mesmo tempo mantém os pés no chão. Quando muitos estão pensando em fazer, ele faz. Qualidade importantíssima para quem deseja sobreviver no mercado cada vez mais competitivo. Falar sobre Benjamim Zampirolli é falar de passado, presente e futuro. Devido ao seu dinamismo, está sempre olhando para frente, planejando e percebendo novas oportunidades. Juntos vivemos muitos desafios e muitas conquistas. Atravessamos crises financeiras, planos de governos, elevada carga tributária e falta de incentivos. Mas, também, vivenciamos a implantação de importantes entidades como o Sindirochas e o Cetemag, a realização da Feira Internacional do Mármore e Granito – atualmente referência mundial –, a chegada de novas tecnologias para a extração e beneficiamento, que nos fizeram acreditar e continuar investindo no setor, gerando novas frentes de trabalho e desenvolvimento na região. Os esforços destes desbravadores e dos pioneiros contemporâneos não têm sido em vão. A terra e a pedra garantem o sustento de muitas famílias, a oportunidade de trabalho também para os jovens e todo o desenvolvimento que o setor proporciona para o município, para o estado e o país. Cachoeiro de Itapemirim, capital estadual do mármore, referência mundial no setor, deve se orgulhar destes desbravadores. E um homem que começou no setor extraindo pedra com as próprias mãos não deve ser esquecido. Benjamim Zampirolli será sempre um exemplo a ser seguido pelas futuras gerações do mármore e granito. José Affonso Coelho Empresário a história do setor de rochas contada por um desbravador

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Mem贸rias

de um

Benjamim


Um grande parceiro da

Cachoeiro Stone Fair n

ão há como falar da história do setor de rochas ornamentais do Espírito Santo e da Cachoeiro Stone Fair, que está prestes a completar 25 anos, sem que não me lembre do amigo Benjamim Zampirolli. Pessoa de fala mansa, de bom coração e com uma visão empreendedora de causar inveja a grandes grupos empresariais. Pioneiro nas atividades de extração de mármore, Benjamim é uma referência para o setor e, sem dúvida, quem impulsionou o reconhecimento internacional da economia do Espírito Santo. Foi ele quem deu os primeiros passos... Sinto-me orgulhosa de tê-lo sempre presente nos eventos realizados pela Milanez & Milaneze e pelas entidades do setor de rochas ornamentais. A Mineração Capixaba participa desde a primeira edição da Cachoeiro Stone Fair e Benjamim está sempre lá, atendendo pessoalmente seus clientes e futuros compradores com sua inigualável simpatia. Sempre digo que ele contribuiu muito para o sucesso da feira. Isso porque, ao extrair os primeiros blocos, a empresa atraiu uma

diversidade de fornecedores de insumos e máquinas para o evento, o que faz até hoje a feira ser diferente das demais realizadas em todo o mundo. Lembro-me das nossas primeiras conversas e do seu otimismo pelo setor, na época em que me entreguei de coração ao mundo das rochas ornamentais em Cachoeiro. A competência, a seriedade e a humildade de Benjamim são admiráveis e servem de exemplo para as futuras gerações de empresários, não somente do setor de rochas ornamentais, mas para todos aqueles que desejam se tornar empreendedores. O sucesso de um evento, como a Cachoeiro Stone Fair, se dá por meio de parcerias sólidas. E dentre estes parceiros está Benjamim Zampirolli, um empresário que tem nosso reconhecimento, admiração e aplauso. Cecília Milanez Milaneze Diretora da Milanez & Milaneze Empresa organizadora da Cachoeiro Stone Fair

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Sustentabilidade ambiental

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m dos temas mais em evidência nas últimas décadas tem sido a preservação ambiental a partir da extração e beneficiamento de rochas ornamentais. Por muitos anos o assunto foi um dos maiores desafios para os empresários do setor. Até há pouco tempo, a grande maioria – por falta de opção ou de conhecimento – optou pelos tanques de decantação, onde era jogada a lama abrasiva, ou seja, o resíduo gerado a partir do beneficiamento. Para tentar amenizar o problema, abriam-se grandes tanques na propriedade para depositar a lama, evitando-se lançá-la no meio ambiente. Sabíamos, porém, que esta não era a melhor solução. Também aí a tecnologia foi 90

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de um

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importante aliada. Para minimizar impactos causados pela lama abrasiva, empresas do setor passaram a reutilizar a água contida nessa lama em seu processo produtivo, tanto na serrada do bloco quanto no polimento das chapas. Após passar pelo tear, a água sai do processo acrescida de pó de pedra, gerando uma lama, ou seja, contaminando a água. Neste processo, é utilizado, ainda, um equipamento chamado filtro prensa que condensa a lama, fazendo-a sair do processo com apenas 30% de umidade. Há dez anos venho investindo na estação de tratamento na Mineração Capixaba, não somente para cumprir as exigências ambientais mas também


por entender que o cuidado com o meio ambiente é essencial para as gerações que virão. Além de preservar a natureza, o tratamento da lama tem sido fonte de renda para muita gente. Esse resíduo, chamado agora de subproduto, é transportado pela própria empresa para uma estação de tratamento – que também segue as normas ambientais –, uma entidade ligada ao setor onde são produzidas lajotas e telhas para aplicação na construção civil. Já a água, após processo de separação do pó de pedra, é direcionada para um tanque especial para o tratamento e volta para o processo produtivo novamente, mas, agora, limpa, sem resíduos do processo anterior. Com isso, o empresário dá sua contribuição na preservação do meio ambiente, reduz custos com consumo de água, conscientiza funcionários e a comunidade sobre a importância de cuidar do meio ambiente e incentiva novas entidades ligadas ao setor. Nessa mesma linha, a Mineração Capixaba também faz a separação de resíduos contaminados, dandolhes a destinação correta. Esses resíduos provêm de embalagens e materiais utilizados tanto nos departamentos produtivos quanto nos de manutenção, como sprays,

embalagens de resina, óleo e graxa. Para a separação do material, há lixeiras distribuídas em diversos departamentos. Já o óleo e a graxa usados são depositados em um tanque que é coletado, a cada quinze dias, por um prestador de serviço que dará o destino final a esse resíduo. O passado nos ensinou muito. O setor cresceu e exigiu dos empresários maior atenção e cuidado com questões que vão muito além do desenvolvimento econômico da região. Não há mais espaço para a falta de informação e investimentos para extração sem sustentabilidade ambiental.

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Tanque de Decantação

Depósito de Lama Abrasiva


Já de há algum tempo o tema da sustentabilidade ambiental vem sendo debatido no mundo inteiro. De início, houve reações em todos os setores das atividades econômicas, sob a argumentação de que essas novas exigências seriam altamente onerosas e de difícil aplicação prática. Mas, pouco a pouco, foram todos se convencendo da necessidade inadiável de sua implementação. O setor de rochas de Cachoeiro de Itapemirim assim se comportou, e hoje é agente de procedimentos modelares na obediência à legislação ambiental. A Mineração Capixaba esteve entre as primeiras empresas a vislumbrar a excelência da nova filosofia e tornar prática cotidiana a preocupação com o manejo dos resíduos poluentes da atividade extrativa. Instituições inteiramente voltadas à pratica da orientação de ações de desenvolvimento sustentado têm assessorado as empresas do setor. A Associação de Desenvolvimento Ambiental de Mármore e Granito - ADAMAG - e a Associação Ambiental Monte Líbano -AAMOL -, são exemplos de uma nova mentalidade se impondo como definitiva. Hoje, esses resíduos se transformam em produtos aproveitáveis em atividades secundárias, de forma rentável e segura em relação ao meio ambiente. O tempo da poluição ambiental gerada pelas atividades próprias da extração de rochas é página virada e pertencente ao passado.


Plantando o futuro

h

á quase cinquenta anos no setor, mas tentando manter a mesma visão de futuro de antes, decidi que poderia deixar uma importante contribuição para meus filhos, os filhos de meus filhos e a geração futura que – quem sabe? – poderá usufruir do que plantei no passado. Depois de algumas reflexões e orientações técnicas, adquirimos quinze mil mudas da Pastoral Ecológica de Cachoeiro de Itapemirim e de outros hortos, um deles em Linhares, que foram distribuídas em aproximadamente 6,5 hectares – em torno de 1,5 alqueires da propriedade. As árvores adquiridas da Pastoral são plantas para forração, ou seja, para sombrear. Entre as espécies compradas nos hortos estão madeiras de lei como cacunda, ipê, cedro, jacarandá, canela, além de árvores frutíferas como jaca, sapoti e jenipapo. Mantenho um funcionário para cuidar da área e construí um reservatório de água para os períodos de estiagem. No restante da propriedade em Alto Gironda e no município de Vargem Alta (Fruteiras) preservamos mais de dez alqueires de terras em reservas (florestas nativas). Neste caso, quis fazer as duas coisas: reflorestar e preservar o meio ambiente e criar uma nova oportunidade de negócio no futuro para minha família. As árvores crescerão, darão sombra e frutos, mas também darão uma nova fonte de renda a partir da produção de madeira nobre, que poderá ser uma atividade rentável se feito um reflorestamento comercial sustentável. O futuro é quem dirá. Por hora, estou fazendo minha parte. 96

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Todo empreendedor é uma espécie de estadista. Não se pode pensar uma empresa sem que se tenha a referência do futuro. O imediatista quase sempre está a um passo do insucesso. Partindo dessa premissa o empresário Benjamim Zampirolli, que já ostenta quase 50 anos como executivo da Mineração Capixaba, estende o seu olhar, pelo menos, para os próximos 50 anos. Desenvolve, então, um projeto de reflorestamento, em larga escala, no entorno da sede de sua empresa, em que mais de 15 mil árvores já foram plantadas – inclusive madeiras nobres –, tudo feito dentro das rígidas normas da ação empresarial sustentável. Essa madeira nobre, plantada alternadamente entre outras espécies, pode, no futuro, se transformar em uma atividade comercial rentável e absolutamente legal, porque implementada em estrita obediência às exigências da legislação específica.

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O empresário deve acrescentar a criatividade a todas as suas outras virtudes. Não bastam o denodo, a aplicação, a criação de um bom ambiente de trabalho. É necessário que, em alguns momentos, ele exerça a sua capacidade de criar algo novo, que seja produto de sua engenhosidade, de sua capacidade, até, de improvisar. O exemplo dada por Benjamim Zampirolli neste capítulo é bem o retrato do que acima foi exposto. E, quando se trata de água, riqueza incalculável e absolutamente indispensável para fazer girar a roda da produção do setor de rochas, é que se constata o quanto é importante otimizar a sua utilização. Uma boa dose de intuição, perseverança e astúcia  é capaz de criar uma situação nova que resulte em uma possibilidade de diminuição de custos e em uma utilização inteligente do recurso natural.

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Memórias

Água, riqueza incalculável

h

á alguns anos, quando ainda não haviam chegado as técnicas de reutilização da água no processo produtivo do setor de rochas, já pensava em como levar para a pedreira o volume de água necessário para a lavra e o corte das pedras. Até então só era possível com os reservatórios que duravam poucos dias. Imagine a trabalheira que dava. Um dia, identifiquei na propriedade um local onde possivelmente poderia achar água. Um geólogo mineiro me ajudou nesta árdua tarefa. Foram dias cavando um buraco que chegava a 100 metros de profundidade. Já convicto de que não encontraríamos nada, suspendi a operação. Ele, teimoso, quis continuar, mas não foi bem-sucedido. Um tempo se passou até que, despretensiosamente, pedi que funcionários cavassem um novo buraco próximo a um filete de de um

Benjamim

água que parecia ser uma nascente. O local fica a 800 metros da pedreira. Inviável? Não para mim. Pois ficamos dias cavando até que encontramos água em abundância. Imprópria para consumo, mas ideal para uso na pedreira. Até aí, tudo bem, mas como levar a água até as frentes de trabalho? Fiquei dias pensando. Seria um investimento alto para dar errado. Então, tinha que dar certo. Comprei metros e metros de cano e mandei instalar uma bomba que daria o impulso necessário para vencer os desníveis e chegar até a pedreira. Próximo à nascente também instalamos um gerador. Estava pronta a façanha. Isso aconteceu há aproximadamente quinze anos e a bomba funciona perfeitamente bem até hoje. Engenharia de um certo Benjamim e de sua equipe tão teimosa quanto ele. Por vezes, a teimosia, a


astúcia têm certa serventia. Imagine a quantidade de água utilizada na lavra e no corte da rocha... Com o crescimento da produção tivemos que nos adaptar à demanda e usar a criatividade utilizando o que dispúnhamos na época. Muito disseram que não daria certo. “Um filetinho de água não pode abastecer uma pedreira,

Benjamim”. E eu pensava: “A pedra, assim como a água, uma vez descobertos, basta saber usar.” É certo que da rocha extraímos o sustento, mas sem a água nada disso seria possível. Então cuidemos bem dela também. Se a natureza nos oferece inúmeras possibilidades, nada mais justo que reverter em dobro tudo o que recebemos dela.

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Vista aérea da sede da Mineração Capixaba


De como se constrói uma empresa a partir do zero. Poderia ser este o título da saga de Benjamim Zampirolli e da Mineração Capixaba. Ou, de como três familias se transformam em cento e cinquenta. De como ao redor da sede de uma empresa se constrói um distrito – Gironda – de Cachoeiro de Itapemirim. De como um produto – o Mármore Pinta-Verde – que há cinquenta anos não tinha aceitação no mercado, hoje está presente nas mais modernas edificações dos países mais distantes. De como um caráter obstinado consegue, com passos calculados, construir um pequeno mundo que não considera seu, mas que pretende legar às gerações futuras com as marcas de seu caráter.

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Memórias

A Mineração Capixaba q

uando começamos um novo caminho não temos a menor ideia para onde ele vai nos levar. A Mineração Capixaba começou com uma atividade única e atualmente abraça várias outras. Atendíamos exclusivamente ao mercado interno e agora exportamos para outros países. Inicialmente deu sustento para três famílias, a minha e de mais dois sócios, e hoje já somam mais de 150 famílias. Empregamos homens, mulheres, jovens. Muitos já são filhos dos que já se aposentaram na empresa. Famílias que vi se formarem e crescerem. Ao redor da empresa, o distrito de Gironda também cresceu. Quando lá nos fixamos, havia poucas casas, nenhum estabelecimento comercial, nem água encanada, nem luz. À medida que a empresa foi evoluindo, tudo em volta dela também cresceu. Esta é a missão do empreendedor: fazer prosperar de um

Benjamim

tudo à sua volta. Que sentido tem o lucro pelo lucro, se este não beneficiar as pessoas, as entidades, não estimular outros negócios? Há um tempo, um conceituado geólogo visitou a Mineração Capixaba e extra-oficialmente me disse que nossa jazida era a maior do país. Fiquei surpreso, já que não tinha conhecimento e, sinceramente, nunca procurei saber sobre isso. A suposta constatação fez apenas aumentar minha responsabilidade sobre a vida das pessoas que trabalham comigo e dependem do trabalho na empresa. Meus esforços nunca estiveram em tornar a Mineração Capixaba melhor do que as outras empresas, mas, sim, na busca de um crescimento mútuo entre funcionários, clientes, fornecedores, parceiros e o distrito onde atuamos. O resultado é visível na relação com as pessoas.


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Porém, a busca pela credibilidade é constante na vida de um empresário. É importante consolidar dia após dia a imagem da empresa e isso se faz cumprindo o combinado. Coisa que ou se aprende em casa ou não se aprende nunca. Talvez você se pergunte por que iniciei esta história toda contando sobre minha família e alguns relatos que marcaram profundamente minha memória. Porque essas linhas foram essenciais para formar o que sou hoje. Quando chego ao meu trabalho todos os dias, agora com 83 anos, são essas histórias que carrego comigo. Somos nada mais que nossa vivência. A Mineração Capixaba é parte da minha família. Talvez nem todos se sintam assim, mas os vejo desta forma. Cobro dos meus funcionários a postura que cobro dos meus filhos e netos. E aprendo muito com eles, afinal não sei tudo. Nem quero. A empresa – e quem trabalha comigo sabe –, é a menina dos meus olhos. Não pelo lucro que ela dá, mas porque o trabalho me mantém ativo, útil e importante. Nunca vocês irão me ouvir dizer: minha empresa. A Mineração Capixaba foi construída por muitas mãos e espero que assim continue por muitas e muitas gerações.

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Aos que virão p

assar o bastão de uma empresa é uma tarefa que requer habilidade, senso de justiça e sabedoria. Um negócio com cultura estabelecida, como a Mineração Capixaba, e tudo o que está agregado a ela, precisa de tempo e planejamento para receber uma nova gestão. A cultura de uma empresa, sabe-se bem, tem muitas vezes o perfil de seu fundador. Os funcionários se adaptam

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de um

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à sua filosofia de trabalho. O mercado interage bem com ele, com sua forma de administrar, de comprar e vender. E assim, por anos e anos vamos criando laços, formando parcerias, sólidas ou não. Não se pode exigir que a segunda ou terceira geração de uma empresa familiar siga exatamente os passos de seu fundador. Mas é essencial manter a filosofia de trabalho, principalmente


se esta deu certo. No futuro, virão novas tecnologias e formas de gestão, de tal forma que substituirão automaticamente muito do que foi realizado até agora. As mudanças são saudáveis e precisam acontecer, desde que prestigiem os valores da empresa. Está claro que até mesmo o que não deu certo e os desafios não superados são importantes que sejam ditos: as investidas equivocadas em pedreiras com produto sem valor do ponto de vista de mercado; a carga tributária no Brasil, que muitas vezes desmotiva o empresário, seja ele de qualquer setor; as barreiras tarifárias impostas ao país; e a burocracia na concessão de direitos minerários. Foram muitos prejuízos. Muitos deles incalculáveis, motivados pela inexperiência ou excesso de confiança nas pessoas. Não me fizeram desistir, mas me apresentaram a uma cautela necessária. Sempre fui comedido em investimentos. Não sou ousado quando o assunto é dinheiro. Prefiro adiar uma compra a ter que buscar financiamentos. Dívida me tira o sono. Assim, muitas vezes fico meses me capitalizando até ter o suficiente para a entrada e para duas ou três prestações no máximo. Quando olho para trás vejo que algumas coisas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse um perfil

mais “ousado” nos negócios. Mas prefiro dar um passo após outro, com tranquilidade. Na administração da empresa, agi de igual forma. Procurei me cercar de pessoas pró-ativas e dinâmicas. Gente que já conhece minha forma de trabalhar e se adianta às demandas. O grupo Mineração Capixaba é formado por mais outras três empresas: a Calcimar, voltada para a extração de blocos; a Grimar, que fabrica ladrilhos e soleiras e a Cereais Capixaba, há 25 anos no ramo de comércio varejistas para atender especialmente os funcionários e a comunidade. À medida que meus filhos foram crescendo e decidindo suas carreiras, fomos definindo os espaços de cada um nas empresas. Dos cinco, apenas Marilucia optou por uma atividade fora do setor de rochas. Fez carreira na Aeronáutica. Os netos mais crescidos estão aos poucos encontrando suas vocações. O caminho para eles é longo. Enquanto isso, e até onde Deus permitir, estou à frente do grupo, não liderando apenas, mas tentando continuar contribuindo com a experiência adquirida, sendo mais um entre os muitos que descobriram o caminho das pedras e por ele seguem construindo um futuro para os que virão mais adiante.

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Pedreira de Goiabeiras/MG


Um sonho que não acaba

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hegar aos 83 anos e continuar sonhando, planejando e empreendendo. Isso é possível quando você trabalha fazendo o que gosta e tem a consciência tranquila de que fez o melhor que podia ter feito, mesmo em condições desfavoráveis e com alguns obstáculos pelo caminho. Poderia, sim, estar usufruindo o que conquistei de outra forma. O que também não condeno. Mas escolhi continuar trabalhando, produzindo, sendo útil. Aliás, um dos objetivos deste livro foi exatamente esse: mostrar aos leitores, que conhecem ou não minha história de vida e profissional, que empreender é um exercício diário. Não basta apenas enxergar uma oportunidade; é necessário alimentá-la, regá-la todos os dias com persistência, criatividade 116

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e otimismo. Aprender com os insucessos passados e se preparar emocionalmente para os próximos. Porque, por mais estruturada que esteja, a empresa vai atravessar crises econômicas ou de mercado. É preciso prudência, paciência, e não se deixar abater. Desta forma, e pensando sempre à frente, estamos concretizando alguns projetos além das fronteiras capixabas. Há dois anos iniciamos a extração de granito em pedreira em Goiabeiras, Minas Gerais. Um negócio promissor que começou a partir de indicação de profissionais da área e oportunidade de alcançarmos novos mercados com produtos diferenciados. Foram meses de espera até a concessão do Departamento Nacional de Produção Mineral


Extração na pedreira em Conselheiro Pena/MG a história do setor de rochas contada por um desbravador

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Mem贸rias

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(DNPM) para iniciarmos a extração. tudo vai bem. Vou e volto no mesmo Cumpridas todas as exigências dia. Tudo porque não consigo perder legais, contratamos mão de obra tempo. Ainda na estrada, já retorno e investimos em maquinários. Na pensando nas próximas ações, no que fase inicial, algumas viagens a Minas precisa ser feito. Gerais para me certificar de que A verdade é que não resisto a tudo transcorria bem. Daí em diante um novo empreendimento. Se a delego as funções a funcionários intuição é boa, a oportunidade existe. da empresa. O gerente geral, que E, uma vez identificada uma boa trabalha comigo há quase vinte anos, oportunidade, não podemos deixácuida das questões burocráticas e la passar. Seja qual for a idade, se administrativas, além da contratação tivermos liderança e capacidade de de pessoal para trabalhar nas motivarmos todos a nossa volta, pedreiras. certamente as Há menos chances de dar tempo, uma outra certo serão muito verdade é que não resisto oportunidade. grandes. a um novo empreendimento Desta vez em Certeza Conselheiro Pena. absoluta de que e a intuição é boa a Uma pedreira cujo vai dar certo oportunidade existe material também é ninguém tem. bem diferenciado. Assim como Trata-se de um o tempo, que granito multicolor, para o qual ainda muda a todo instante, também não definimos um nome. Mesmo nós mudamos, o que é bom. O processo no DNPM, até tudo estar importante é, em cada nova mudança, pronto para funcionamento. Para termos a consciência de que o lá, levamos um compressor, um melhor foi feito, que crescemos gerador, rede de fios, escavadeira e e tudo a nossa volta também carregadeira. Contratamos pessoal e evoluiu, prosperou, deu bons demos início à extração dos blocos. frutos. É dessa forma que quero ser Algumas funções delego a lembrado no futuro. Como alguém colaboradores de confiança e outras – um Benjamim – que deixou bons faço questão de acompanhar de exemplos para os filhos, funcionários, perto. Não tem jeito. Muitas horas amigos e para o setor de rochas de viagem para ter a certeza de que ornamentais.

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e

ste último meio século experimentou a mais vertiginosa transição que o mundo já testemunhou. O martelo, o formão e a enxada se transformaram em aparelhos mecânicos acionados pelo simples toque da mão humana. A tração animal, substituída por tratores e empilhadeiras. O guindaste hidráulico dando conta de tonelagens insuspeitadas. Tudo isso Benjamim Zampirolli presenciou e – mais que testemunha – foi protagonista desse espetáculo promovido pela inteligência do homem. Esteve presente em cada etapa dessa engenhosa travessia e viu, com seus próprios olhos, o setor de rochas ornamentais se tornar o gigante que é nos dias de hoje. Ajudou a transformar Cachoeiro de Itapemirim no maior polo de produção e beneficiamento de pedras do país. Atravessou os períodos em que as inovações tecnológicas assustavam um pouco e lhes ensejavam uma vaga incerteza. Abriu mercados que, a princípio se mostravam relutantes, mas acabou por concorrer em espalhar pelo mundo seu qualificado produto. Contribuiu, com sua lealdade profissional, para a confiabilidade do setor. Entendeu, como poucos, a necessidade de uma interatividade efetiva com todo o quadro de 120

Memórias

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funcionários da empresa. Apostou na formação, capacitação e qualificação de seu pessoal. Acolheu, de imediato, as rigorosas exigências das novas políticas ambientais e as pôs em prática com esmero de aluno aplicado. Esteve presente, com o aval de sua confiança de pioneiro e desbravador, em todas as edições da Cachoeiro Stone Fair, e se fez irredutível apoiador do Sindirochas e do Cetemag. Como todo empreendedor, tem seus olhos voltados para os próximos cinquenta anos – no mínimo –, e entende que os homens passam mas se eternizam em seus legados. Empírico por contingência, ensinou ciência empresarial a grande parte do setor de rochas de Cachoeiro, mas nem por isso se furta em reconhecer, para as exigências do mundo de hoje, a necessidade de uma formação acadêmica apurada. Benjamim Zampirolli é pois, a síntese ideal – ainda que imperfeita, porque própria da natureza humana – do empreendedor nato, que se consolida e ajuda a consolidar um universo de negócios que faz pulsar, vigorosamente, o corpo de toda uma região. Os Editores


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Cenas dos Bastidores


Bibliografia • BRANDÃO, Giliana Pereira; DALBON, Lucas Rodrigues; NUNES, Marilei Rodrigues. Gestão de Custeios e Definição de Sistema de Custeio Aplicado ao Setor de Rochas Ornamentais. 29 páginas, Trabalho Universitário - 2012. • BUSATTO, Luiz. Nomes e Raízes Italianos, Biblioteca Pública Estadual, ES, Brasil, 2010. • CALEGÁRIO, Andreia Trevisol; RIOS, Francislane Almeida; BRANDÃO, Giliana Pereira; RIBEIRO, Hellen Costalonga; PIZETTA, Jedson Martins; DALBON, Lucas Rodrigues; NUNES, Marilei Rodrigues; SECHIM, Mayra Heinze. Processo Logístico em Indústria de Mármore e Granito. 33 páginas, Centro Universitário São Camilo - agosto/2012. • CALIMAN, Cleto. La Mérica che avemo fato - A família Caliman no Espírito Santo. ASFACALI, 2002. • CELLIN, Joelma. Piemonteses em Castelo. Aspectos Culturais - EDUFES, 2000. • COLA, Camilo. A Estrada da Vida. José Olympio Editora, 3a. edição, 1998. • COSTA, Maria Cilda da e outros. Correntes Imigratórias no Espírito Santo: italianos, alemães e libaneses. EDUFES, 1999. • INDICAÇÃO GEOGRÁFICA - MÁRMORE - CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM. Cetemag, 2012. • LORENZINI, Virgílio. Espirito Santo - Berço da Colonização Italiana. GSA Gráfica e Editora, 2007. • Material jornalístico, acervo pessoal de José Affonso Coelho. • Material jornalístico, acervo pessoal de Benjamim Zampirolli. • PUPPIN, Douglas. La Terra Promessa - Ribeirão do Christo: sua gente e sua história. IHGES, 2007. • REVISTA ROCHA DECOR. Nº 01, agosto/2012. • RIBEIRO, Lucílio da Rocha. Pequena contribuição à história da imigração italiana no sul do Espírito Santo. Artgraf Gráfica Editora Ltda, 2003. • SINDIROCHAS 40 ANOS - UMA HISTÓRIA GRAVADA NAS ROCHAS. Vitória, Gráfica JEP, 2003. • ZAMPIROLLI, Luiz. Arquivo pessoal. • Entrevista Cecília Milanez Milaneze. • Entrevista Cleto Debona. • Entrevista Dom Luiz Mancilha Vilela. • Entrevista Jorge De Backer. • Entrevista José Affonso Coelho • Entrevista Ricardo Coelho de Lima. • Entrevista Romildo Ribeiro Tavares. • Entrevista Valquimar Antonio Pereira.


Livro benjamim 10 cs55  
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