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CONEXÕES NORDESTINAS


ANTONIO ESTEVAM DE ALMEIDA JÚNIOR

CONEXÕES NORDESTINAS

FORTALEZA Banco do Nordeste do Brasil 2012


Presidente: Jurandir Vieira Santiago Diretores: Fernando Passos Isidro Moraes de Siqueira José Sydrião de Alencar Júnior Luiz Carlos Everton de Farias Paulo Sérgio Rebouças Ferraro Stélio Gama Lyra Júnior Ambiente de Comunicação Social Gerente: José Maurício de Lima da Silva Editor: Ademir Costa – CE00673JP – Fenaj Ambiente de Gestão da Cultura Alcino Carvalho Brasil (Tibico) Ambiente de Responsabilidade Socioambiental José Danilo Lopes de Oliveira Área de Desenvolvimento Humano Eliane Libânio Brasil de Matos Coordenação do Programa Cultura da Gente Rosana Virgínia Gondim Pereira Revisão Vernacular: Luísa Vaz / Normalização Bibliográfica: Erlanda Maria Diagramação: Deborha Rodrigues / Ilustrações: Klévisson Viana Depósito junto à Biblioteca Nacional, conforme Lei nº 10.994, de 14/12/2004 Copyright © 2011 by Banco do Nordeste do Brasil A448c

Almeida Júnior, Antonio Estevam de. Conexões nordestinas / Antonio Estevam de Almeida Júnior. – Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 2012. 162 p. : il. ISBN 978-85-7791-192-9 1. Literatura cearense. 2. Realismo fantástico. 3. Terror. 4. Lenda urbana. 5. Literatura folclórica. Título. CDD 808.31


À minha querida Mãe: Helena Lima de Almeida (1933 – 2011)


Agradecimentos

Antes de tudo, quero agradecer a você, que irá acompanhar estas histórias e de certa forma fará parte delas, pois foi pensando em você que as contei. Esta obra, no entanto, não seria possível sem a ajuda de importantes pessoas que me forneceram material, ideias, incentivos e até mesmo recursos para que eu concretizasse este trabalho. A ordem em que passo a enumerar não se encontra relacionada à importância ou à proximidade. Alguns abaixo citados já faziam parte de minha história, outros passam a integrá-la a partir de agora, mas todos, sem exceção (e até alguns aqui não citados, mas não esquecidos), foram de grande ajuda para que você hoje esteja lendo estas linhas. Agradeço aos amigos do Cariri Cangaço, na pessoa de Manoel Severo, que mantém o Blog, e também por meio deles, à Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), ao Blog Lampião Aceso e todos que mantêm viva a chama do estudo desse movimento que marcou o Brasil.


Vai um agradecimento especial aos mossoroenses e, a partir de agora, amigos José Mendes Pereira e Geraldo Maia, que me forneceram informações sobre o País de Mossoró e me pouparam uma viagem ao local, a qual eu não dispunha de tempo para realizar. Aos colegas Gildomar Marinho e Edvaldo Coqueiro, meu forte abraço pela sugestão do capítulo relativo ao Maranhão, removendo o último entrave na conclusão da trama. O amigo Frederico Régis, prefaciador desta obra e grande incentivador para que eu me inscrevesse no Programa Cultura da Gente e ao ilustrador Klévisson Viana, que arranjou tempo entre seus inúmeros afazeres para abrilhantar minha obra com seus traços... À minha companheira de todas as horas, Fátima Sâmara, pela sua paciência e apoio, devo além do amor, um enorme reconhecimento. Finalmente, mas não menos importante, ao Banco do Nordeste, pelo apoio que representa o Programa Cultura da Gente, são merecidos os louros da existência não só deste livro, mas de vários trabalhos de colegas que, de outra forma, não teriam como publicar suas obras com recursos próprios e, principalmente Rosana Virgínia, que teve que aturar meus estouros e atrasos nos prazos de entrega (e não foram poucos): Rosana, até que enfim, ficou pronto. Meu forte abraço a todos aqui, relacionados ou não. E, de coração, meu muito obrigado.


O embarque de uma trama

A jovialidade de um espírito se mede por sua inquietude e pelo encantamento diante das coisas do mundo. O ofício de viver impõe ao homem, e a seu inexorável espanto enquanto estilhaço do todo, o exercício da participação. Assim a história tem nos mostrado sempre que nos são apresentadas genialidades inspiradoras. Aquelas pessoas que nos tiram o sossego, ajudam-nos a arregalar os olhos ocultos e revelam por sua presença e obra facetas mágicas frente a um mundo enganosamente pálido. Essa força é inegável em Antonio Júnior, artífice multimídia, homem atento em seu tempo com olhos voltados às origens. Estudioso e detentor de vasto conhecimento acerca da literatura universal, Júnior escreve prosaicamente, reproduz, sem perder a erudição, histórias da vida comum com desfechos desconcertantes. Conheço-o o suficiente para tê-lo como um cabra genial, autêntico malvado de dentro de sua descendência cangaceira e dono de imperiosa ascendência sobre as coisas do mundo digital. Acima de tudo, talentoso e detentor de enorme carisma e amizade.


Antonio Júnior vem há muito erguendo uma obra múltipla, recheada de referências e experiências, sobretudo aquelas no meio desse mundão de meu Deus. Por isso essencialmente retirante, egresso do sertão pernambucano, crescido baiano e amadurecendo nos tabuleiros cearenses, Júnior não esconde sua criatividade e desenha para os seus um legado rico – fruto da demanda por novidade de nosso tempo. Quando me apresentou a ideia das Conexões Nordestinas, pensei com meus borbotões: “Esse cara vai ter um trabalho enorme”. E teve e tem. Mas o mundo de Antonio Júnior não se limita à vigília do dia comum: ele parece ter uma rede de arrasto diuturna que a tudo capta, traduz e devolve com uma prosa preciosa, leve e rica. Seu tempo de criação roda paralelo ao tempo da normose do Dia Comercial S.A.. Dentro de suas Conexões, o leitor terá não somente acesso a encontros e viagens, reais e oníricas, de personagens pitorescos e fatos históricos. Entrará em um mundo onde o tempo é mera noção, uma vez que espaços são praças de encontro de homens e histórias emblemáticas do Nordeste. Ao lançar-se na saga dessas Conexões, o leitor conhecerá, mesmo em meio à leitura silenciosa, os arroubos de homens e mulheres que trazem a indelével nordestinidade. Mesmo que seja ela como essa nossa: franzina, severina, cabralina. Deus e Diabo parecem criar em suas Conexões um testemunho que tece tramas fantásticas de lendas, patifes e heróis entrelaçados num Nordeste peculiar. Ironicamente, diferente dos rumos do autor, o embarque se dá no Ceará e desfia-se em veredas para todos os estados da federação nordestina, dando ao leitor um sentimento misto de unidade e diversidade. Antonio Júnior nos assenta nas paisagens e nos lança ao sabor dos rios. Levanta a tampa de pedra e expõe à luz da sensatez os despojos e imbróglios da politicagem nacional. Antonio Júnior se referencia para compor sua obra na história oral e em compêndios da tradição nordestina, folheando para o


leitor um livro nunca antes aberto na história deste país. Arruma tudo, empurra a canoa e nos dá uma viagem quase pronta, na qual cabe-nos a interiorização e o despertar de valores tão necessários ao nosso povo. Povo esse, mencionado aqui além dos provincianismos e dos ruralismos, deveras diverso e essencial na formação da aprendiz sociedade brasileira. Pois bem. Na bela missão da vida, cada espírito faz o que lhe cabe. No caso de Antonio Júnior, coube-lhe a digna participação em preparar-nos a bagagem: uma rede, uma toalha de renda, algo que engendre homens, lugares e tempos. Cabe a nós seguir viagem e contemplar, só como fazem aqueles espíritos retirantes, essa curiosa amostra da história nordestina. Frederico Régis - verão de 2012 Frederico Régis é bancário, engenheiro, ciclista e, na maioria do tempo, poeta. Cearense de Fortaleza, publicou Os Países (Campanha Ultramundos) e Minutas do Caos, livros de poesia contemplados pelo Programa Cultura da Gente. Em 2012 lançará Enquanto Somos, também pelo Banco do Nordeste.


Sumário Apresentação .............................................................................. 15 Prólogo ....................................................................................... 17 Capítulo I – Ceará-Bahia Pedro .......................................................................................... 25 Capítulo II – Bahia-Sergipe A Bela .......................................................................................... 37 Capítulo III – Sergipe-Rio Grande do Norte O Santo Cangaceiro .................................................................... 51 Capítulo IV – Rio Grande do Norte-Paraíba A Família Numerada ................................................................... 65 Capítulo V – Paraíba-Piauí A Maldição ................................................................................... 77 Interlúdio ..................................................................................... 91 Capítulo VI – Piauí-Maranhão O Cabeça de Cuia ....................................................................... 97 Capítulo VII – Maranhão-Pernambuco Emaranhado ............................................................................... 111 Capítulo VIII – Pernambuco-Alagoas Nzumbe ..................................................................................... 121 Capítulo IX – Alagoas-Ceará A Cachorra da Palmeira ............................................................ 135 Epílogo ...................................................................................... 147 O Autor ...................................................................................... 151 Referências ............................................................................... 152 Apêndice ................................................................................... 155 15


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Apresentação

É comum do ser humano contar histórias. Todos nós temos alguma em nossa mente e, sempre que possível, contamos para outras pessoas e observamos suas reações aos fatos relatados. Ouvimos histórias desde pequenos, antes de entendermos o que aqueles seres estranhos e gigantes querem nos dizer. Aos poucos vamos entendendo as palavras e aprendendo também a pronunciá-las... Damos aos gigantes nomes como “pai”, “mãe”, “tia”, “avó”... Contadores de histórias que através de uma milenar tradição oral nos ensinam a fórmula que repetiremos quando formos nós mesmos pais, mães, tios e avós. A história e as estórias acontecem ao nosso redor e, as informações recebidas de nossos antepassados juntamos nossas próprias vivências, as quais passaremos adiante. Um dia, descobri que era bom contar histórias e que, mais do que isso, algumas histórias pediam para serem contadas.

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Algumas histórias eram iniciadas por mim, mas teimavam em assumir vida própria e se concluíam por si mesmas. Assim são as histórias – como a História – estão vivas! A estória que você está para ler tem algumas particularidades históricas e outras nem tanto... Alguns fatos são verídicos, outros são romanceados para tornar mais prazerosa a leitura e fazer com que a mente viaje. Igualmente, em alguns momentos usarei notas explicativas de algum termo regional, para melhor esclarecimento do assunto, porém, em outros, deixarei ao leitor a tarefa de pesquisar o significado, o que, espero, o levará a novas histórias e outras mídias. Espero que você possa encontrar as várias histórias dentro daquela que ora lhe entrego, porque também é assim: algumas histórias são feitas por várias outras que se unem para compor um todo maior. E por fim, peço que me conte a sua história com este livro: quando terminar (ou antes mesmo que acabe), diga-me o que achou – para isso use o e-mail abaixo – para que por meio do meu trabalho e de sua resposta, entremos na história um do outro: conexoesnordestinas@hotmail.com

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Prólogo

O amigo que agora lê estas linhas já deve ter passado por coisas em sua vida que lhe deixaram a marca da estranheza. Coisas que a mente teima em revisitar e o leitor acha melhor partir para outros pensamentos. Também eu, em minhas andanças vi, ouvi e vivenciei alguns acontecimentos singulares. Fatos engraçados, momentos tristonhos, aventuras instigantes... Em mais de meio século de vida, devido às minhas idas e vindas, vi coisas que os acomodados não experimentam; coisas com as quais somente os andarilhos têm a oportunidade de esbarrar. Algumas experiências eu fiz questão de esquecer e outras, de tão intrigantes, ainda hoje me povoam a mente nas noites de insônia, trazendo a dúvida se foram reais ou um sonho relembrado que sorri por trás da realidade. Uma dessas ocorrências deu-se comigo em 1989, na pequena cidade de Taperoá, no interior da Bahia. Lugarejo tranquilo, de povo hospitaleiro onde fui parar por força da profissão de engenheiro para a construção de um atracadouro. 19


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Era uma manhã de sexta-feira e o sol do Baixo Sul da Bahia mostrava o seu brilho costumeiro, que convidava para um passeio matinal. Como a obra teria que esperar até segunda-feira por falta de material, eu tinha o fim de semana livre para conhecer melhor a região e – por que não? – a própria cidade. É certo que, devido ao tamanho do lugar, sem muito esforço dava para fazer todo o reconhecimento em apenas um dia, mas eu ainda não vira nada do município, de tão concentrado no trabalho, desde que ali chegara. Andei sem pressa pelas ruas tranquilas, em direção à praça central, de onde, após pedir informações, pretendia ir conhecer uma cachoeira que soubera existir próximo à cidade. Chegando à praça, tive minha atenção capturada por um personagem interessante, que de imediato atraiu meu interesse. Sentado ao pé da escadaria de uma igreja (de São Brás, conforme me informei depois), estava um velho, de roupas surradas e ar intrigante, tocando uma viola de doze cordas. Com tal maestria cantava versos que dificilmente um nordestino convicto como eu deixaria de se aproximar para melhor apreciar. O homem tinha um olhar profundo e um linguajar claro que contrastavam com suas roupas surradas e cabelos, dentes e unhas maltratados. Sua voz tinha sonoridade forte, apesar da idade, e a forma como soltava os versos ao ar enquanto dedilhava as cordas, quase desviava a atenção do ouvinte, não deixando observar melhor a destreza de seus dedos. Fiquei ali observando até que ele terminou sua cantoria e passou um chapéu de abas roídas entre os presentes para arrecadar alguns trocados. – O senhor podia ganhar mais do que isso, se tivesse alguém para colocá-lo na mídia – falei, quando ele se aproximou de mim. – Já pensou em gravar um disco? – completei.

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O homem me direcionou um sorriso que tornou sua figura mais intrigante que qualquer Monalisa já pintada. O sorriso de quem sabe mais do que diz e muito mais do que pensam. – Meu jovem, certas coisas não são para algumas pessoas. A resposta do velho foi tranquila, mas parecia trazer naquela afirmação uma tristeza contida. – Um dom como o seu deve ser divulgado – insisti. – O senhor poderia ficar famoso e iriam respeitá-lo. – Mais famoso foi Jesus e muitos não o respeitaram – afirmou ele com sua calma enigmática para depois completar: – Nem mesmo eu... Voltei a argumentar: – Confesso que também não sou dos mais religiosos, mas uma boa posição na mídia não é de todo mau, mesmo para os homens de fé... Dá mais chance de se falar o que se pensa, de ser conhecido... – Não leve a mal, rapaz, – respondeu ele – quando a gente é jovem pode pensar que tudo se resolve do jeito que a gente quer, mas com a idade a gente vê coisas que revelam o que é a vida. Se você tiver um tempinho e estiver disposto a ouvir posso lhe contar uma história ou duas... Ouvir aquele desconhecido me chamar de muito jovem, apesar dos meus 47 anos mexeu com meus brios e, embora sem contestar sua afirmação, decidi topar o desafio e ouvir seus relatos. O velho então se acomodou novamente na escadaria e disse: – Faz muito tempo que não paro para conversar tão detalhadamente, e mais tempo ainda que não falo sobre o que vi em minha vida, mas já estava sentindo falta. Se quiser saber meu

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nome, pode me chamar de Avelino, que é tão bom quanto qualquer nome, mas o que vi e agora vou contar não é do conhecimento de muito homem. E o velho começou seu relato.

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Capítulo I

Ceará – Bahia


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Pedro

– Preste atenção, meu jovem, o mundo não é tão grande, mas tem coisas surpreendentes. Às vezes a gente escuta coisas que todos dizem verdade, mas que nunca aconteceram, e por vezes ninguém percebe a verdade que acontece sem que saibam; o mundo é mais estranho do que podemos estranhar... A voz do velho entrou em meus ouvidos provocando estranhas sensações. – Como o senhor se chama? – perguntei, mesmo já sabendo a resposta. – Alguém com a minha idade tem nomes e apelidos, mas pode me chamar de Avelino – disse ele com um sorriso. – Então, mestre Avelino, o que o senhor tem contra a fama? – arguí. – Vou lhe contar, meu jovem... – insistiu ele – vou lhe contar... “Vou te falar de Pedro, que viveu por certo tempo no Ceará, na região da Chapada do Apodi, na divisa com o Rio Grande do Norte... Era um soldado, sabia? Chegou ao Ceará, da Bahia e para a Bahia voltou, mas vou lhe dizer: nos dois lugares ficou famoso.”

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“O Pedro veio primeiro da França, quando o Brasil era jovem e queria se libertar de Portugal... de sobrenome Labatut – se fosse brasileiro era Lobato – se juntou às tropas da Bahia, onde até hoje tem fama de herói.” – Mas, isso foi em 1822 ou 1823, sei lá... – reclamei. – Calma, rapaz, – disse o velho Avelino – a gente começa pelo começo, passeia pela metade e compreende tudo no final. “Voltando ao Pedro: o homem se tornou líder do Exército brasileiro que lutou pela independência da Bahia em agosto de 1822, e perdeu o posto logo depois, chegando a ser expulso do Exército em 1829. Era famoso pela bravura e inteligência, mas também pela arrogância e crueldade.” – Espera-se que soldados sejam cruéis – ou era assim naquele tempo – argumentei. – Tem razão, era mesmo... – disse ele. O velho fez uma curta pausa, como se lembrasse do passado. Depois, com um sorriso nos lábios continuou: – A gente pode ver muita coisa se viver o bastante. Não entendi o comentário, mas não tive tempo de esclarecer, já que ele emendou: – É fácil se tornar herói, mas também é fácil se tornar vilão. “A verdade é que Pedro não é bem visto no Ceará, apesar de ter muitas homenagens na Bahia: é nome de bairro, de rua... uma celebridade.” “Na Bahia é herói e tudo, mas no Ceará, na Chapada do Apodi, as pessoas têm medo de sair e até de falar à noite.” “Em noites de lua cheia corre por lá um monstro de corpo peludo, dentes de javali e um único olho na testa. Tal criatura 28


é o Labatut.” “Todos dizem que é um monstro tão terrível que não tem comparação... é pior do que todos os monstros já conhecidos: pior do que a mula-sem-cabeça, o lobisomem e até pior do que o cão coxo.” “O monstro devora a todos que encontra, mas prefere as crianças, já que a carne é mais macia.” – O senhor não vai dizer que acredita nessas lendas. – reclamei – O imaginário popular é cheio delas... Servem para fazer as crianças ficarem quietas ou para ensinar lições de conduta. – Assim dizem – retornou o velho – mas quando muitos acreditam em alguma coisa é porque tem um fundo de verdade. “Como você sabe, Pedro Labatut retornou à França depois que foi expulso do Exército – alguns dizem que ele fez muitos inimigos no Ministério da Guerra – e só voltou ao Brasil depois que D. Pedro I abdicou do trono.” “Labatut era um homem de guerra: foi soldado das tropas de Napoleão, lutou na guerra pela independência dos Estados Unidos e ao lado de Simon Bolívar (de quem depois se tornou inimigo). Depois de sua passagem pela Bahia e retorno de período da França, ainda lutou no Ceará e também no sul do Brasil, onde foi derrotado.” “O homem se tornou famoso e até hoje é comemorado na Bahia como grande herói da Independência do Brasil, mesmo tendo usado de meios cruéis. Veja, meu rapaz: ele mandou fuzilar cinquenta homens e chicotear vinte mulheres, todos escravos, sob a acusação de estarem colaborando com o inimigo.” “Quando o General Joaquim Pinto Madeira se estabeleceu no Crato e lá fundou um governo paralelo, Pedro Labatut foi enviado para controlar a situação e foi esse curto período que ele permaneceu no Ceará: de junho de 1832 a abril de 1833. Foi o suficiente para que a fama ficasse... A fama de homem cruel.” 29


“Labatut era extremamente violento com os rebelados, tanto que Pinto Madeira não tardou a se render e, depois de preso, foi mandado ao Recife e ao Maranhão para depois retornar ao Crato, onde foi condenado à morte pelos seus inimigos políticos.” “Não se sabe ao certo como o monstro Labatut surgiu, mas algumas pessoas dizem que foi depois da morte de Pedro que sua alma tomou a forma do ser pavoroso.” “Pedro Labatut morreu na Bahia em 1849 e, dizem os nordestinos, que seu espírito retornou para a região da Chapada do Apodi, onde encarnou o ser dantesco que sai nas noites de lua, em tropel pelas vilas, à procura de vítimas.” “O assombro tem o corpo coberto com pelos, que são como os do porco-espinho; seus dentes são grandes presas, como as de um elefante, e o bicho anda descalço porque tem os pés redondos.” – Parece uma mistura de ciclope com lobisomem – comentei. – Mas dizem que é pior do que todos os seres fantásticos juntos. Ninguém que o tenha encontrado jamais escapou. “Quando eu visitei a região, há muitos e muitos anos, viajava com um companheiro que havia conhecido quando trabalhei na construção de uma igreja em Vila de São João do Jaguaribe e juntos rumávamos com destino à Vila de União, a fim de trabalhar na reforma de uma capela.” “Como viajávamos a pé e se fazia adiantada a hora, resolvemos pernoitar no povoado de Tabuleiro, onde fomos recebidos na casa de um casal de idosos sem filhos que se mostrou feliz em nos acolher.” “Depois de alguma conversa à luz do lampião, descobrimos que na verdade o casal tinha um filho, mas que o mesmo havia falecido em circunstâncias que não quiseram nos explicar. Como se tratava de um assunto muito pessoal, achamos melhor não insistir no assunto.” 30


– Alguns assuntos podem causar infelicidade... – concordei. – Isso mesmo, meu jovem – afirmou o velho e continuou: “A prosa foi evoluindo e quando percebemos, passava da meia-noite. A solidão do casal e nossa longa caminhada ajudaram a estender a conversa, de sorte que nem percebemos o avançar da noite.” “Quando tomamos ciência do horário e nos preparamos para dormir, um grande alarido foi ouvido nas ruas do povoado. Era um terrível barulho que misturava o latido dos cães, uma grande ventania e algo mais, uma espécie de uivo ou gemido que ficava meio oculto pelos outros sons.” “Os nossos anfitriões começaram a tremer. De olhos arregalados, correram para trancar as portas e janelas, passando ferrolhos e tramelas. Depois a mulher correu a um canto e começou a recitar o rosário, baixinho, como se não quisesse que ninguém ouvisse, enquanto o dono da casa armou-se de um bacamarte e sentou-se à beira da porta.” “– Tem alguma coisa errada, meu senhor? – Eu perguntei, mas o homem só me fez sinal para eu me calar.” “Meu companheiro de viagem começou a ficar encafifado com aquilo e espichava os ouvidos para tentar identificar alguma coisa. A aleivosia parecia que não ia acabar e se movimentava de um lado para outro da rua. Parecia que tinha alguma coisa no meio do barulho que estava a procurar por algo ou alguém.” “Por fim, meu colega se irritou e disse que iria sair para verificar o que era aquilo.” – Na certa era somente uma ventania mesmo – retruquei. – Antes fosse, rapaz, antes fosse... – e o velho neste momento fez uma cara de tristeza que chegou a me contagiar.

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– Os donos da casa tentaram impedir – continuou ele – mas o meu amigo era forte e voluntarioso. “Quando ele marchou para a porta, em uma última tentativa de impedi-lo, o dono da casa colocou-se à sua frente, impedindo-lhe a passagem e implorou:” “– Pela Santíssima Trindade, homem de Deus, fique aqui dentro. O bicho que está lá fora é a coisa que matou e comeu meu filho.” “Meu amigo arregalou os olhos e foi tomado por uma fúria maior ainda, dizendo:” “– Então é mais um motivo pra eu dar um fim nesse coisa ruim.” “E o dono da casa tornou a falar:” “– Voismicê não sabe com o que tá mexendo. Quem está lá fora é o Labatut. O bicho tem uma fome que nunca se acaba e sai por aí procurando o que comer nas noites de lua cheia. Ele prefere a carne macia das crianças, mas come qualquer um que atravesse seu caminho. Nossa única salvação é ficar quietinhos aqui dentro, até que ele vá embora.” “Os apelos dos donos da casa não pareciam fazer efeito para meu colega e até eu fui me contagiando pela coragem dele. Se existia uma fera assassina lá fora era bom que alguém desse um jeito nela.” “Confesso a você, meu rapaz: já vivi muito e não me assusto facilmente. Na verdade tenho a coragem daqueles que sabem seu destino e sabia que meu destino não era o de morrer nas mãos de um bicho qualquer... ainda mais de um que eu nunca tinha ouvido falar, mas eu não estava preparado para a visão que tive.” – E a fera à qual o senhor se refere é o tal de Labatut? – perguntei. – O senhor chegou a ver o bicho? 32


– Eu chego lá, meu jovem, eu chego lá – respondeu ele com paciência e continuou: “A situação era nervosa: eu e meu amigo queríamos sair para enfrentar o bicho e os donos da casa não permitiam. Imploravam que tivéssemos juízo e o dono chegou mesmo a nos ameaçar com o bacamarte.” “A dona da casa chorava como se fosse nossa mãe. Ela dizia:” “– Ninguém pode com o Labatut. Ele é a maldade encarnada. Se vocês saírem, vão morrer.” “Em determinado momento meu amigo se aproveitou de um descuido do dono da casa e tomou-lhe o bacamarte. Depois que afastamos os dois, que não paravam de chorar, ele me deu seu facão e ficou com a arma de fogo. Eu saquei a única arma que carregava comigo: um velho punhal de prata. Lado a lado saímos para as ruas desertas do povoado, meu companheiro armado com o bacamarte e eu com o punhal em uma mão e o facão na outra.” “Não havia vivalma na rua... o vento castigava, varrendo poeira em nossos olhos e os cães pareciam enlouquecidos, latindo ao longe.” Neste ponto a narrativa do velho, mesmo me parecendo fantasiosa, me encheu de suspense. Com nervosa atenção continuei escutando seu relato. – Não víamos os cães – continuou ele. – Apesar de ser noite de lua cheia havia uma escuridão que tapava a nossa visão. “De longe o uivo ou gemido continuava seu lamento e se aproximava. Ouvimos uma espécie de tropel parecido com cascos de cavalo.” “Na densa poeira que feria nossos olhos alguma coisa passou correndo por nós, como se observasse a presa antes do ataque. Eu quase pude sentir os pelos duros do bicho e o fedor de porco do mato. Nesse momento meu companheiro gritou:” 33


“– Eu vi o tinhoso... proteja minhas costas que eu vou atirar nesse excomungado.” “Tomei posição de costas coladas com o atirador e começamos a girar em busca do bicho.” “Pareceram horas os minutos que se seguiram, mas enfim ouvimos novamente o tropel vindo em nossa direção.” “Meu amigo ficou de frente para o barulho, armou o bacamarte e eu, de costas coladas com ele, podia apenas ouvir a fera se aproximando novamente.” “Em alguns segundos, veio o disparo. O tiro ecoou pelas ruas desertas e meu amigo gritou:” e...”

“– Acho que acertei, vira para cá, pra que eu possa recarregar

“Ele não terminou a frase... Enquanto trocávamos de lugar para que eu pudesse protegê-lo, alguma coisa passou por nós e o arrebatou. Eu só pude ouvir seu grito se perdendo ao longe e depois uma sequência de gritos de dor, enquanto o monstro o dilacerava.” – Não seria uma onça? – perguntei. – Essa rapidez é típica dos felinos. – Meu rapaz, uma onça não carregaria um homem daquele jeito – respondeu ele. – Era preciso ser algo muito maior. “A verdade é que agora eu estava por minha conta, e o bicho vinha em minha direção novamente.” “Preparei-me para o impacto e vi o vulto se aproximando. Quando julguei conveniente a distância, desferi um golpe com o facão que quase quebrou meu braço pela força da pancada, mas o que se quebrou na realidade foi o facão.”

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“Fiquei com o cabo da arma na mão e um pequeno pedaço da lâmina. Até pensei que tinha chegado a minha hora... O monstro já estava em cima de mim outra vez e decidi vender caro o meu couro: dei-lhe uma estocada que fez entrar o punhal até o cabo no peito do bicho.” “A fera respondeu com um terrível grito, meio animal, meio humano...” “Então, eu pude ver seu olho vermelho, no meio da testa; pude observar seus grandes dentes parecendo as presas de um javali e vi seu pelo grosso como o do porco-espinho.” “Aí aconteceu o mais engraçado: não sei se pelo ferimento ou por sentir a minha sina, o monstro deu uma fungada, virou-se de costas e sumiu na noite.” “Para não mais importunar o casal, ou para não ter que dar explicações, decidi seguir adiante e peguei o rumo da Vila de União, sem meu amigo e sem meus pertences. Até mesmo o punhal de prata ficou cravado no couro do bicho. Passei mais um período na Chapada do Apodi e ainda ouvi falar muitas vezes no Labatut. Depois saí do Ceará e por outras paragens não mais ouvi falar na besta.” – É uma história interessante – comentei com um suspiro. – Mas, o que tem isso a ver com sua aversão à fama? – Não entende, meu jovem? – respondeu ele com outra pergunta, passando a explicar: – Pedro Labatut é famoso no Ceará como o monstro que encarnou, é famoso na Bahia como um herói que se tornou, mas em cada lugar ele tem uma fama diversa e em outros estados do Brasil ninguém o conhece. “A fama pode ter muitos lados, mas uma coisa é certa: toda fama é efêmera... um dia passa e só deixa o vazio. Mais importante do que a fama é o amor, este sim: permanece até depois da morte.” – Mas o que tem tudo isso a ver com o amor? – perguntei 35


novamente – E o que o senhor quis dizer quando falou que o Labatut sentiu sua sina? – Sobre minha sina posso lhe contar depois, ou não, quem sabe, mas sobre o amor existe uma boa história. E o velho Avelino, após dedilhar algumas notas na viola, começou um novo relato.

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Capítulo II

Bahia – Sergipe


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A Bela

A escadaria da Igreja de São Brás encontrava-se vazia, a não ser por mim e pelo velho violeiro. Os transeuntes demonstravam algum interesse na dupla, mas após um rápido olhar continuavam seu trajeto sem parar para acompanhar a conversa. O público que antes estivera ouvindo as músicas do cantador havia perdido o interesse quando ele parou de cantar para me contar histórias e também já havia partido. A serenidade do meu interlocutor era impressionante! Fazia-me lembrar do meu avô materno: homem de estatura um pouco acima da média, presença forte, pele branca, porém de tom bronzeado que denotava longa exposição ao sol do Nordeste, e um enorme controle dos atos e palavras que demonstrava a grande vivência daquele personagem. Conversando com o velho Avelino me sentia como se estivesse falando com alguém da família. – Muitos já falaram sobre o amor, meu jovem – disse ele. – Muitos cantaram o amor de formas diferentes: o amor como solução para os problemas da humanidade; o amor como laço que une irmãos, como vínculo carnal entre um homem e uma mulher e até mesmo como salvação da alma humana.

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“O amor é tão importante para os humanos que no livro sagrado dos cristãos está a mais famosa afirmação a respeito do sentimento, quando Paulo escreve à Igreja em Corinto e, no capítulo 13, afirma que ‘Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine’1.” “Do lado profano, humano, um lusitano uma vez chegou a dizer que o ‘amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente’2... É engraçado como todos veem o amor como uma coisa contraditória, se o simples ato de amar não admite contradições.” “Alguns homens demonstraram o verdadeiro amor por seus irmãos, desde priscas eras... entre todos, o mais conhecido: o Nazareno, teve seu amor renegado pelo próprio povo... eu mesmo sei disso.” – São contextos e épocas diferentes – argumentei. – Hoje o amor está banalizado no sexo. Na época de Jesus, o amor da forma como era pregado por ele foi entendido como uma afronta ao poder constituído. – É verdade – respondeu o velho com um leve sorriso. – Demorou para entender o que aquele carpinteiro queria dizer... Até hoje não se faz exatamente o que ele queria. Em nome do amor de Deus o homem vem matando, explorando a fé e transformando em comércio o que deveria ser dado de graça. “Mas a história de amor que eu queria lhe contar é uma história que começa na Bahia e termina em Sergipe; a história de uma mulher bonita e decidida, que casou muito jovem e não foi feliz no primeiro casamento. Depois que encontrou sua alma gêmea, foi levada a uma vida dura, vindo a morrer com apenas trinta anos. Alguns dizem que foi ainda mais nova, com vinte e sete, já que existe uma dúvida se ela nasceu em 1908 ou em 1911, como foi registrado.” 1 I Coríntios, 13:1 2 Luiz de Camões

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“A Bela casou-se pela primeira vez com apenas quinze anos, o que era muito comum no Nordeste naqueles tempos, mas o casamento não foi bem. O marido chamava-se José e viviam brigando.” “Um outro casal com os nomes de José e Maria viveu na Galileia e sua história de amor foi também marcada por dificuldades, mas havia cumplicidade entre eles até que Maria, já sem o falecido marido, viu seu filho ser crucificado. O casamento do José com a Maria nordestinos não teve tanta harmonia.” “O José daqui era sapateiro e muito rude. Frequentemente destratava a mulher, o que fazia com que Maria procurasse refúgio na casa da mãe. Um filho talvez tivesse melhorado a vida do casal, mas José não podia deixar semente, pois era estéril.” “Numa das fugas de Maria para a casa dos seus pais, passava por aquelas paragens um homem muito temido, ao qual as autoridades chamavam ora de bandido, ora de capitão. E foi nessa oportunidade que os dois se conheceram.” “De início, o capitão não quis muito assunto com a moça. Dizia que a vida que levava não era uma boa vida e que não desejava para ninguém destino igual ao seu. Além do mais, a donzela tinha marido. Não era certo tomar a mulher de outro.” “Maria insistiu muito, tanto que o homem prometeu voltar para buscá-la dali a um ano. E assim o fez: um ano depois, o bandoleiro cumpriu sua promessa... mesmo estando Maria ainda casada com seu primo sapateiro, disse adeus a todos e pulou na garupa do cavalo do homem que amava e com ele se embrenhou na caatinga.” “Quando conheceu Maria, o capitão viu que ali estava a mulher da vida dele. Quando se juntaram se tornaram o casal mais conhecido dos sertões brasileiros. Ela o tratava por Meu Capitão e ele a chamava de Santinha. A verdade é que nos oito anos que Virgulino e Maria viveram juntos, até morrerem na Grota de Angico, na localidade de Poço Redondo, em Sergipe, os dois mostraram seu amor a todos que os cercavam.” 41


– Mas o senhor está falando de Lampião e Maria Bonita. Eles foram bandidos. Aterrorizaram o Nordeste com seus atos de violência. – retruquei. – É verdade. Mas Lampião, segundo ele próprio dizia, não entrou no banditismo por vontade própria... – respondeu o velho – certa feita ele afirmou a um jornalista: “Não vivo a vida do cangaço por maldade minha. É pela maldade dos outros. Dos homens que não têm a coragem de lutar corpo a corpo como eu e vão matando a gente na sombra, nas tocaias covardes3.” “Lampião e Maria Bonita tiveram uma vida sofrida, perseguidos pela polícia, a quem chamavam de macacos. Como você mesmo disse, meu jovem, espera-se que soldados sejam cruéis, e a crueldade que o bando de Lampião às vezes demonstrava era compreensível naquele tempo de guerra, pois era isso de que se tratava a saga daquela gente: uma guerra contra o poderio dos coronéis, ricos donos de terras que mandavam até na própria polícia.” “Virgulino Ferreira da Silva tornou-se Lampião para vingar a morte dos pais e durante sua vida no cangaço matou muita gente, mas não tolerava violência contra os mais velhos nem o ato de estuprar as donzelas de então, prática comum nos outros bandos de cangaceiros.” “Havia um certo código de honra em seu bando, que se acentuou com a entrada de Maria Bonita, a quem Lampião atendia na maioria das vezes.” “Um dos relatos dá conta de que um compadre de Maria Bonita, conhecido como José Fulô, que não tinha conhecimento de como se dera a entrada da Bela no cangaço, passou a tecer críticas sobre o procedimento de Lampião, afirmando que homem que rouba mulher casada só tem que ter uma resposta: à bala. E ainda dizia mais! Falava que Lampião ainda não tinha encontrado um macho que lhe desse um tiro na cara.” 3 Jornal O Povo, 4 jun.1928.

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“É claro que Virgulino não gostou da história e pediu para apresentarem a ele o homem, dizendo: ‘Eu quero dar uma lição nesse cabra pra nunca mais ele se meter com a vida alheia.’” “O homem foi pego um tempo depois, na fazenda de Antonio Mocó, onde ficou preso durante uma semana esperando a chegada de Lampião.” “O bando chegou à fazenda e Virgulino pediu para trazerem o homem, que foi apresentado amarrado e humilhado.” “Lampião resolveu então executar o desafeto e este vendo que iria morrer, apelou para a comadre Maria Bonita dizendo:” “– Minha comadre, pelo amor de Deus, me valha!”(CASTRO, 1976). “Maria Bonita, segundo contam, intercedeu acolhendo o homem em seus braços e gritando para Lampião:” “– Cabra, esse você não mata.” “Dizem que todos ficaram espantados e que Lampião teria perguntado:” “– Deixa de besteira, Santinha. O que é isso?” “E a resposta da Mulher, com a firmeza de quem sabe o que quer, teria vindo de pronto:” “– Besteira não, Virgulino, eu tô te falando agora com a mesma coragem daquele dia que sartei na anca do seu burro pra te acompanhar por amor. Este homem é de minha terra e é meu compadre” (CASTRO, 1976). “Lampião, então, teria deixado o homem viver, entre contrariado e emocionado, dizendo:” “– Toma a bênção de tua madrinha, peste.” 43


“Maria salvou a vida do homem, tornando-se assim sua madrinha.” – Os relatos, realmente, dizem que eles se amavam muito – concordei. – Não só se amavam, havia muito respeito entre os dois – continuou o violeiro Avelino. – Muito da história deles se perdeu no tempo, muita coisa foi inventada e atribuída a eles, mas alguns escritos ficaram. “Músicas e poesias são atribuídas a Lampião, em homenagem a Maria Bonita, como um poema que me recordo bem. O verso diz assim, conforme se falava na época:” “Cabrocha pra sê bunita. Bunita como os amô. Basta um vistido de chita, si chamá Maria Bonita. E na cabeça uma frô.” “Maria Bonita foi a primeira mulher a entrar no cangaço. Depois dela, mais ou menos duzentas mulheres também entraram... umas por opção, outras por rapto ou ameaça, mas tudo só veio a acontecer depois que Maria de Deia, como era conhecida Maria Bonita antes de Lampião, pulou na garupa do cangaceiro.” “Da união dos dois nasceu apenas uma filha. É fato que Maria teve dois abortos e que muitos dizem existirem outros filhos pelo Nordeste, mas apenas a menina que nasceu em Sergipe é reconhecida como filha do casal.” “Ironicamente, a filha Expedita nasceu no mesmo estado onde o casal viria a ser assassinado pela volante do Tenente João Bezerra.” “A menina Expedita foi criada por um vaqueiro da confiança de Lampião, de nome Manoel Severo, até completar oito anos, quando foi levada por um oficial da polícia para Salvador e posteriormente 44


resgatada pelo tio João Ferreira, irmão de Virgulino, que terminou de criá-la.” “A filha de Lampião e Maria Bonita relatou várias vezes os poucos encontros que tivera com os pais. Sempre fala de como a mãe era bonita e de como se sentia intimidada pelo porte do pai que, no entanto, era carinhoso e atencioso com ela.” “A herdeira dessa história de amor é hoje casada e mãe de quatro filhos, um homem e três mulheres, sendo que uma delas, de nome Vera, jornalista, é quem está a resgatar a história dos avós.” “As poucas fotos e imagens que existem do casal de bandoleiros foram feitas por um libanês chamado Benjamin Abrahão... Eu, particularmente, vi todo o filme antes que parte dele se perdesse.” Estranhei a afirmação do velho, já que o filme havia sido confiscado antes mesmo da morte de Lampião por ordem do Departamento Nacional de Propaganda do Ministério da Justiça, durante o governo de Getúlio Vargas. O próprio Benjamin foi assassinado em 1934, sem que nunca fosse descoberto o culpado ou o motivo do crime. Não comentei nada com o violeiro no momento, mas as referências pessoais que ele fazia ao contar as histórias começaram a me fazer pensar se não estaria ele inventando tudo. – Hoje o que resta do filme é pouco mais de um terço, já que o filme ficou anos perdido – continuou Avelino. – No pouco que resta vemos demonstrações de afeto entre Lampião e Maria Bonita, em cenas como a que ela arruma os cabelos do companheiro. “Há, no filme, cenas em que a Bela sorri, divertindo-se com a pantomima para, logo depois, franzir o cenho – talvez estranhando aquele aparato que capturou sua imagem para a eternidade.” “Há quem diga que o cangaço começou a acabar quando Lampião levou consigo Maria Bonita. Dizem que a entrada da Bela no bando fez com que o cangaceiro amolecesse. Levado 45


pelo amor, o homem passou a ficar mais tempo acampado do que em movimento pela caatinga. Era o constante mudar de lugar que tornava tão difícil a localização do bando.” “Àquela época, a polícia já não queria acabar com o banditismo; o que havia era um sentimento de vingança. Os tempos eram outros e os homens mais duros do que hoje em dia.” – Dizem que as volantes chegavam a ser mais cruéis que os cangaceiros – observei. – Alguns dizem que sim... – respondeu meu interlocutor. – Uma vez um soldado me disse: “Se a pessoa dizia que viu os cangaceiros, apanhava por não ter avisado a polícia; se dizia que não tinha visto, apanhava porque, com certeza, estava mentindo!”. “Tal era a revolta do povo com o abuso de autoridade que muitas famílias se tornaram aliadas dos cangaceiros, o que eles chamavam de coiteiros.” “Segundo relatos foi um desses coiteiros, sob tortura ou não, que traiu o casal de amantes e seus aliados.” “Era o amanhecer do dia 28 de julho. Lampião e sua tropa haviam acampado na Grota de Angico no dia anterior e pretendiam passar uma semana no local. Passava um pouco das cinco da matina quando levantaram para fazer café e rezar o ofício, o que era comum às pessoas daquele tempo... Hoje ninguém mais tem devoção à mãe de Jesus.” “O ataque foi rápido... o Tenente João Bezerra e o Sargento Aniceto Rodrigues tinham armas ainda raras naqueles tempos: duas metralhadoras portáteis.” “É certo que Maria Bonita nunca participou de um tiroteio, mas se o ataque fosse a fuzil ou carabina, a tropa de Virgulino (incluindo Maria Bonita) poderia ter resistido e, quem sabe, até vencido a contenda. Mas, contra as cuspideiras de bala não houve perdão: tombaram Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros.” 46


“Conta a história que alguns furaram o cerco e fugiram. Outros dizem que só estavam no local os que foram mortos. Outros, ainda, dizem que alguns cangaceiros conseguiram furar o cerco, mas voltaram para morrer ao lado de seu líder.” “Dizem que cerca de trinta homens conseguiram escapar com vida da emboscada e que Maria Bonita foi degolada ainda viva...” “Um conhecido me relatou que ao amanhecer daquele dia Lampião estava preocupado e teria dito à sua mulher:” – “Tem alguma coisa errada, Santinha... Tenho um pressentimento de que a gente pode ter um revés do destino.” “Maria, que também estava preocupada, teria dito:” – “Se avexe não, meu capitão, que tudo há de correr bem... esse lugar sempre foi seguro.” “Naquele dia, o lugar não foi seguro o suficiente e balas colocaram um fim a um amor que ainda hoje é lembrado.” “As cabeças dos cangaceiros – incluindo a de Maria de Deia – ficaram expostas por muitos anos... Pude ver a primeira vez que as exibiram na cidade de Piranhas... foi muito triste pra mim. Virgulino, apesar de todos os seus crimes, não merecia tal sina. Pelo que conheci dele, era uma pessoa que se viu forçada àquela vida.” – O senhor quer me dizer que conheceu Lampião? – perguntei incrédulo. – De vera, mas depois eu conto isso... – respondeu o velho. – O importante é que eu estava falando no amor de Lampião e Maria Bonita: acredito que se não tivessem colocado um fim tão drástico na vida dos dois e se o casal tivesse uma chance de se reintegrar à sociedade, veríamos um amor que iria perdurar por anos e pessoas que se ajustariam à sociedade como pai e mãe responsáveis, como fizeram outros cangaceiros.

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– Pode ser que sim... – ponderei. – Algumas pessoas só precisam de uma segunda chance ou um pouco de amor. – Algumas pessoas recebem essa chance postumamente. – De nada adianta – retruquei. – Depois de morto todo mundo é bom. – Realmente... – concordou Avelino – Mas o bando de Lampião também tem essas histórias. Como eu lhe disse, conheci Virgulino... Conheci ele antes de ele conhecer Maria Bonita. Antes de um amor mudar o homem. Fui testemunha de uma derrota de Lampião, que se tornou um marco na história. – Mestre Avelino, sem questionar o fato de o senhor conhecer ou não Lampião, ele sofreu algumas derrotas, sendo a pior delas a sua morte. – Meu jovem, existem dois bons momentos para morrer... – ponderou o velho. – Quando nada mais dá certo ou quando tudo está muito bem. Lampião morreu nos braços de sua amada e o amor do casal será lembrado para sempre. “Sergipe, onde findou a vida de Maria de Deia, foi também onde começou a vida de Expedita... o mundo gira e a vida anda em círculos e é composta de ciclos.” “O que hoje é bom, pode vir a ser mau em outra época. O que é verdade pode vir a ser mentira e quem é hoje tido como bandido pode ser, no futuro, herói.” – Não creio... O que é certo, é certo – contestei. – E o que é certo está sempre certo? – perguntou-me ele em resposta. – A história é feita pelos vencedores e nem sempre eles estão certos. Fiquei em silêncio.

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– E ainda existem as crenças populares – continuou ele. – O que você acha de um bandido vir a ser santo? – É possível algo do tipo? – questionei incrédulo. – Nunca ouvi falar a respeito. – Não estou falando de um bandido qualquer. – Avelino olhou para o vazio, denotando lembranças de tempos passados. – Estou falando de um homem que era bandido e foi torturado e morto. Continuei aguardando que ele falasse... me.

– Meu jovem, você já foi ao Rio Grande do Norte? – perguntou– Não... – respondi. – Ainda não.

– Pois saiba que lá um cangaceiro virou santo. É o que lhe contarei a seguir.

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Capítulo III

Sergipe – Rio Grande do Norte


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O Santo Cangaceiro

– Contei-lhe a respeito do amor de Lampião e Maria Bonita e de como a Bela pode ter sido responsável pelo “amolecimento” do bandoleiro – iniciou o velho. – E, de fato, antes da entrada das mulheres no cangaço os homens eram mais afoitos e arredios. – O senhor disse que um cangaceiro é tido hoje como santo? – indaguei. – Calma, meu jovem, eu chego lá – respondeu o contador de histórias, com um leve sorriso. – Os cangaceiros eram homens destemidos, valentes mesmo, alguns até muito malévolos, como já lhe relatei. Mas, sempre tinham características peculiares que os tornam personagens únicos na história do sertão. Escutei atentamente o que dizia o velho homem e o que se seguiu foi um dos relatos mais impressionantes que ouvi em minha vida. Tão interessante foi a história que não me atrevi a interromper. A narrativa mostrou-me que nem sempre podemos julgar as pessoas por suas posições, e que às vezes aqueles que deveriam representar as leis são os verdadeiros monstros, enquanto a parte mais fraca é cruelmente vilipendiada. Dentro de cada pessoa existe o bem e o mal, ambos prontos a agir caso seja-lhes permitido, e apenas o arbítrio pessoal faz com que o equilíbrio se mantenha ou se perca. 53


A história que o velho Avelino me contou passo a relatar na forma em que me foi dado conhecer e espero que ao amigo leitor seja tão interessante quanto foi para mim. Apesar de haver existido muitos cangaceiros, em épocas diferentes da história do Nordeste, o bando que ficou mais famoso foi o de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. E, no bando do Governador dos Sertões, como ele se autoproclamava, alguns homens se destacaram: Ezequiel, irmão mais velho de Lampião, que de tão bom atirador, recebeu o apelido de Ponto Fino; Corisco, o “Diabo Louro”, que após a morte de Lampião assumiu o bando em uma tentativa de vingar o chefe, vindo a morrer dois anos depois; o menino Antonio Alves de Souza, conhecido como Volta Seca, que entrou no cangaço com apenas doze anos e chegou a enfrentar Virgulino a fim de não deixar um companheiro ferido para trás, tendo sido preso após a morte do chefe e que foi o responsável por gravar as canções do cangaço ainda na prisão (é graças a ele que chegaram aos nossos ouvidos canções como “Mulher Rendeira” e “Acorda, Maria Bonita”), mas vale destaque a história daquele conhecido como Jararaca. Seu nome de batismo era José Leite de Santana e foi apelidado com o nome de cobra porque diziam que era tão furioso quanto uma jararaca e mais perigoso que a dita serpente. O cangaceiro nasceu em Buíque, no interior de Pernambuco, no primeiro ano do século XX. Dizem que não se adaptou à labuta do roçado e por causa do seu gênio ruim teve que abandonar a cidade natal alistando-se no Exército. Nossa história começa quando José Leite deserta das forças armadas, após participar junto com outros militares, de uma rebelião contra o comando do quartel no qual servia em Sergipe (CARDOSO, 2011). Abandonando o Exército, ele entra para o bando de Lampião e, por seu treinamento militar, ganha importância junto ao capitão Virgulino Ferreira. Há quem relate que foi Jararaca quem impediu 54


que Lampião abrisse a punhal a barriga da viúva do subdelegado Raimundo Luiz, morto por Ponto Fino, somente para ver como era o filho de um macaco antes de nascer. Ironicamente, Jararaca morreu pouco antes de completar três anos de sua deserção do Exército sergipano. A insurreição militar de Sergipe acompanhou os movimentos que vinham ocorrendo em todo o Brasil desde 1922. Era época da Coluna Prestes, época do Movimento Tenentista... Em todo o país os oficiais de baixa e média patente se rebelavam contra a política governista. Uma política que privilegiava os barões do café e do leite no Sul e Sudeste, e os coronéis do Nordeste. Em 13 de julho de 1924, essa revolta eclodiu em Aracaju e dela fez parte o soldado José Leite, que viria a se tornar o Jararaca. Durante vinte e um dias a cidade esteve sob o domínio dos rebeldes, que prenderam o presidente do Estado e formaram uma junta governativa militar. Nesses dias, talvez o cangaceiro tenha previsto que a situação não se sustentaria e teria abandonado as forças militares antes da tomada do quartel. Não se sabe ao certo. O que se sabe é que já em 1925 o encontramos na vida do cangaço e em princípios de 1927 se junta ao bando de Lampião levando consigo alguns companheiros. O mês de junho de 1927 começara com um mal-estar crescente em Mossoró. Lampião se encontrava no Rio Grande do Norte desde sua fuga de Pernambuco, em virtude da perseguição que lhe empreendera o governo pernambucano. Quando ficou confirmada a notícia de que Mossoró seria invadida foi um deus-nos-acuda... O prefeito Rodolfo Fernandes mandou entrincheirar as principais construções da cidade, aquelas que por sua edificação pudessem servir de fortaleza no combate ao bando. Vi os homens correndo de um lado para o outro com os fardos de algodão e também fui chamado para defender a cidade. Prefiro não atirar em ninguém, mas precisava defender minha vida. 55


Foi interessante ver naquele dia 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio, como os homens que estavam vestidos de terno branco na festa do Humaytá Futebol Clube correram para levar as mulheres vestidas de azul para casa e se afobaram a preparar a batalha. Durante toda a festa o medo tomou conta das pessoas e, se o jogo de futebol foi relativamente calmo, o mesmo não se pode dizer da comemoração. Todos só pensavam na notícia de que Lampião, depois de invadir a Vila de São Sebastião, se preparava para invadir Mossoró. A cidade não dormiu. Muita gente fugiu de trem, ainda na madrugada. Não foi por falta de aviso: o prefeito bem que vinha alertando do perigo já fazia um tempo. Mossoró era uma cidade muito rica já naquela época e lá viviam cerca de vinte mil pessoas. A ameaça de Lampião veio na forma de bilhete, pedindo quatrocentos contos de réis para não invadir a cidade, mas dizem que não era pelo dinheiro que o cangaceiro queria adentrar o município. Fala-se que ele foi convencido por Massilon a realizar o feito ao qual era contrário. Em verdade, Massilon é que teria o motivo para a invasão: a oportunidade de raptar a filha do prefeito, por quem mantinha uma paixão. Em um primeiro momento nada foi respondido ao cangaceiro e veio o segundo aviso, este em tom mais forte. Até hoje me lembro do texto e o bilhete está exposto no Instituto Histórico do Rio Grande do Norte: “Cel. Rodopho, Estando eu aqui pretendo é drº (dinheiro). Já foi um aviso, ai pª (para) o Sinhoris, si por acauso rezolver mi a mandar, será a importança que aqui nos pedi. Eu envito (evito) de Entrada ahi porem não vindo esta Emportança eu entrarei, ate ahi penço qui adeus querer eu entro e vai aver muito 56


estrago, por isto si vir o drº (dinheiro) eu não entro ahi, mas nos resposte logo. Capm Lampião”4. O Coronel Rodolfo decidiu, então, responder... Por escrito, informando que não tinha o dinheiro e que seria impossível atender o pedido: “Virgulino, lampião. A resposta: Recebi o seu bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo o que o Senhor queira fazer contra nós. A cidade acha-se, firmemente, inabalável na sua defesa, confiando na mesma. Rodolfo Fernandes Prefeito, 13.06.1927”. Há quem diga que a resposta foi ainda mais desafiadora: o prefeito teria enviado uma bala embrulhada em papel dizendo que se Lampião quisesse o dinheiro, ele próprio teria que ir buscar. Mas, creio que mesmo sendo um homem valente, o Coronel Rodolfo não teria tanta audácia. Enfim, estava pronto o problema... Em meio ao povo apavorado que corria de um lado para outro tentando fugir do local onde se daria o combate, homens colocavam fardos de algodão na entrada dos locais escolhidos para repelir os cangaceiros, preparando a defesa de Mossoró. Do outro lado, Lampião dividiu 4 Imagem do bilhete no apêndice deste livro.

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o bando em três colunas: uma comandada por Jararaca, outra por Massilon, sendo as duas coordenadas por Sabino Gório, conhecido também como Sabino Gomes ou Sabino das Abóboras (por ter nascido no Sítio das Abóboras), e a terceira coluna, comandada pelo próprio Lampião. Às quatro horas, debaixo de chuva, o bando encontra uma cidade quase deserta. Aqueles que não podiam lutar ou não possuíam armas estavam longe dali e os membros da resistência estavam escondidos, com seus fuzis apontados à espera dos invasores. As colunas de vanguarda se dirigiram à casa do prefeito, centro da resistência, e sob a chuva da tarde as balas foram o instrumento da discussão. Ninguém sabe de onde surgiu um cangaceiro com uma garrafa de gasolina e um pavio aceso. Era o homem conhecido como Colchete, e o seu intento era atear fogo aos fardos de algodão que formavam a barricada em frente à casa do prefeito. Seria a nossa derrota se ele conseguisse. Sim, eu estava entre os homens aquartelados na casa do Coronel Rodolfo Fernandes. Colchete vinha em ziguezague e não havia jeito de meterlhe uma bala de onde eu estava, mas nessa hora quem salvou o dia foi Manuel Duarte, que com pontaria certeira atingiu a cabeça do homem. Colchete tombou morto e seu companheiro Jararaca acorreu a ele. Jararaca não queria ajudar o amigo, que ele sabia estar morto, queria desarreá-lo, como se dizia no cangaço. Queria as armas e a munição que Colchete levava. Em uma batalha, não se deixa nada para o inimigo. A tentativa foi o princípio do fim de Jararaca: enquanto tentava retirar as cartucheiras do cangaceiro morto, foi atingido por dois tiros disparados pelo mesmo Manuel Duarte que matara Colchete: um atravessou-lhe o tórax e o outro acertou-lhe a coxa.

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Enquanto fugia para o mato, Jararaca pedia ajuda aos companheiros, principalmente a Massilon, mas este já ia longe. Massilon abandonou os companheiros e, depois dessa derrota, abandonou também o bando de Lampião. Contam alguns que se refugiou no Estado de Mato Grosso e nunca mais se soube dele. Existem duas versões sobre a batalha: alguns dizem que durou apenas uma hora e meia, acabando por volta das cinco e meia da tarde, antes portanto, do anoitecer; outros dizem que o tiroteio varou a noite e que, enquanto os homens repeliam os cangaceiros e as mulheres rezavam a Santo Antônio e outros santos, Jararaca aproveitou a escuridão da noite para alcançar uma casa próxima aos trilhos da estrada de ferro. Eu, pessoalmente, não me lembro muito bem como terminou. Lembro apenas do que aconteceu a seguir. Em busca de socorro, José Leite de Santana, o Jararaca, ofereceu dinheiro a um morador para que lhe comprasse pimentas malaguetas – era assim que os cangaceiros curavam seus ferimentos: colocando pimenta na ferida – mas ao invés disso, o homem avisou a polícia. Jararaca foi levado para a cadeia, onde se tornou atração da cidade. Todos queriam ver o cangaceiro preso. A resistência ao bando foi legítima e valente, assim como o humanismo do prefeito, que sabendo do prisioneiro ferido mandoulhe um médico para cuidar dos ferimentos, mas tal não foi o papel da volante que lá chegou a mando do Governador Juvenal Lamartine de Faria, homem culto, mas que odiava os cangaceiros. A volante comandada pelo Sargento Clementino Quelé chegou à cidade logo após o tiroteio e a prisão do cangaceiro. O Sargento Quelé, que antes havia sido cangaceiro, não entrou na delegacia. Ao invés disso, mandou um soldado espoliar o prisioneiro. O soldado encontrou o cangaceiro sendo atendido pelo médico e entrevistado pelo jornalista Lauro da Escóssia. Sem nenhuma cerimônia, arrancou uma corrente de ouro que José Leite tinha no 59


pescoço ordenou que lhe desse também um anel de ouro que trazia no dedo. O cangaceiro não conseguiu tirar o anel e o soldado, sacando um facão, tornou a ordenar: – Coloque a mão aqui. Eu vou cortar o dedo para tirar o anel. – Meu senhor, não faça isso – reclamou o médico. – Cortar o dedo na minha frente, não. O soldado desistiu e Jararaca falou com ironia: – Tragam Quelé aqui, que eu vou dizer quem é o cangaceiro. – Depois, dirigindo-se aos outros dois, completou: – Quelé era do nosso bando. A polícia paraibana fez dele um sargento para nos perseguir. Às vezes o cangaceiro gargalhava e o ar saía pelo furo da bala, às vezes reclamava pedindo um canudo de mamão e pimenta malagueta para soprar dentro do buraco do peito. – Arde, mas a gente fica curado – explicava. Durante cinco dias esteve preso o cangaceiro, e já dava mostras de melhora quando na sexta-feira à noite o levaram dizendo que seria encaminhado à Capital. Tudo já estava arranjado. Sob a alegação de que havia o perigo de vingança por parte do bando de Lampião, foi decidido dar um fim ao cangaceiro. Não por Rodolfo Fernandes, não pelo heroico povo de Mossoró, mas por uma minoria ofendida pelas falas de Jararaca, que expôs o nome de muitos coronéis e pessoas importantes que lucravam com o cangaço. Jararaca falou de muita gente importante e a palavra de ordem era “dar fim ao cabra”. Naquela sexta-feira, dentro do carro que alegavam levá-lo a Natal, o homem reconheceu seu destino. Sabia que seria morto. – Este não é o caminho para Natal – reclamou. 60


– Deixe que a gente sabe o que faz – responderam-lhe. O carro parou em frente ao portão do cemitério, e lá Jararaca se recusou a sair. Puxaram-lhe pela perna baleada, e na dor o cangaceiro clamou: – Valha-me Nossa Senhora! Não foi o suficiente. Levaram-no até um canto do cemitério, onde sua cova já se encontrava aberta. Lá o homem se convenceu que iria morrer. – Vocês vão me matar – afirmou ele. – Pois matem. Matem que matam o homem. Vou mostrar como morre um cangaceiro. Um gosto eu não dou: o de dizer que implorei por minha vida. Se queria dizer mais alguma coisa, não lhe deram chance. Um soldado deu-lhe uma coronhada e outro, uma punhalada. O cangaceiro soltou um urro de dor e foi jogado dentro da cova. Cova que era pequena para ele. Na pressa de cavar o buraco, haviam errado o tamanho. Sem nenhuma pena, os soldados quebraram-lhe as pernas para que coubesse no buraco e o enterraram enquanto ainda agonizava. José Leite de Santana foi enterrado vivo. Durante algum tempo o fato foi mantido em segredo e o morto ficou em uma sepultura sem nome. Somente depois o Capitão Abdon Nunes, comandante da guarnição policial de Mossoró, contou o caso em depoimento formal. Hoje o cangaceiro tem uma sepultura com o seu nome na lápide. Por ironia do destino, o sofrimento na hora da morte o redimiu perante o povo do Nordeste. Seu túmulo é um dos mais visitados do cemitério no Dia de Finado. Aos poucos a tradição oral foi consagrando o homem que tinha apelido de cobra. Hoje, acham que ele opera milagres e várias pessoas comparecem ao seu último descanso para agradecer graças alcançadas.

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O povo de Mossoró comemora a data com festa. Afinal, sem apoio tático do governo, que não mandou soldados para ajudar a defender o município, aquela população conseguiu repelir o bando mais valente dos sertões. Um feito de verdadeiros heróis. O Coronel Rodolfo Fernandes é lembrado pelos historiadores, mas menos cultuado em sua memória do que Lampião e Maria Bonita, que hoje possuem estátuas no Centro de Artesanato do município. Lampião dominou Mossoró depois de morto. Jararaca virou santo no imaginário popular. Os homens que deviam defender a lei agiram como bandidos e na calada da noite mataram uma pessoa que não tinha condição de reagir. Talvez não devamos criticar. Aquele era um tempo de bestas selvagens. No entender daqueles homens, somente uma fera para combater outra fera. A selvageria do cangaço foi causada pela selvageria do sistema, e o sistema tornou-se ainda mais selvagem para combater o cangaço... É o ciclo da violência que gera violência. Com o tempo fica a história e da história resta a lição: não teria sido crueldade muito grande o que fizeram? Pela crueldade com o cangaceiro Jararaca, hoje o povo o venera, mesmo que a igreja se mantenha silente – mas aí já é outra história. Ao final do relato do velho, eu estava pensativo. Vivendo no Nordeste, não conhecia aquela história. – As pessoas podem ser brutais, sem nenhuma justificativa – comentei. – Na verdade, buscam razões para serem brutais. – É da índole humana, meu jovem – respondeu tranquilamente o violeiro. – A história do homem na Bíblia começa com traições: Eva traiu Adão... Caim matou Abel a traição... Judas traiu Jesus. Animais não mentem: somente o homem tem essa capacidade. – É verdade, mas o ser humano também é capaz de ter honradez e clemência, como o senhor mesmo relatou quando falou 62


do prefeito de Mossoró. – Concordo, meu jovem... É esse o fato que faz o ser humano ser único. O velho permaneceu algum tempo calado, olhando-me diretamente nos olhos como se lembrasse de alguém. – Sabe, Mossoró tem histórias interessantes... – O homem estava novamente com aquela expressão que não consigo explicar, misto de lembrança e de criação. – Você sabia que lá foi o local onde as mulheres conquistaram o direito de votar pela primeira vez no Brasil, ainda em 1927? – Não... – respondi. – Não sabia. – A primeira mulher a ser eleita para um cargo público também foi do Rio Grande do Norte: Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes. É claro que os homens trataram de anular todos os votos femininos, e com isso ela foi deposta. – A política é uma coisa suja – afirmei. – É sim, quase sempre... – respondeu-me o violeiro com aquele ar de quem sabe sempre mais. – Mas, lá mesmo, em Mossoró, existiu, ou melhor existe, uma família de políticos que tem feito muito pela população e pela cultura. “O patriarca dessa família era um homem justo, pai austero, e sua história – apesar de haver nascido na Paraíba – se confunde com a história do Rio Grande do Norte”. – E quem era esse homem? – perguntei. – Seu nome era Jerônimo Rosado, sua família é uma lenda... Uma família de vinte e um filhos. – Vinte e um? – espantei-me. – Famílias numerosas eram comuns no Nordeste, mas famílias 63


numeradas não creio que existam outras, além da família Rosado. – O que o senhor quer dizer com numeradas? – É que Jerônimo tinha a mania de numerar os filhos. Eu explico. E então, enveredamos por mais uma história...

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Capítulo IV

Rio Grande do Norte – Paraíba


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A Família Numerada

− Ninguém sabe ao certo por que o farmacêutico numerou seus filhos, mas a história desse político começou em Pombal, na Paraíba, em 8 de dezembro de 1861, o mesmo dia em que nasceu, na França, Georges Méliès, um dos precursores do cinema. − Já vi o filme Le Voyage dans La Lune... – respondi – é realmente muito interessante para a sua época. − Era um tempo de grandes mudanças – continuou o velho. – Nos Estados Unidos, os americanos estavam em guerra desde abril. Uma guerra cruel na qual se mataram mais de 970 mil irmãos da mesma pátria. − As guerras são sempre terríveis – confirmei. – Ainda bem que esta nada teve a ver com o nosso Brasil. − Como não? – indagou o velho. – Esta guerra deu fim à escravidão nos Estados Unidos como parte de um movimento crescente no mundo. Um grande grupo de sulistas, defensores do regime escravagista e derrotado na guerra, migrou para o Brasil; falase de possivelmente vinte mil refugiados que se instalaram, entre outras cidades do Sudeste do Brasil, em Santa Bárbara d’Oeste e Americana, que leva este nome em virtude dos migrantes. − Não sabia deste fato... 67


− A presença dos americanos pós-guerra civil no sudoeste do Brasil também fortaleceu a religião protestante presente no país desde 1835 (INSTITUTO PRESBITERIANO MACKENZIE, 2011), já que os recém-chegados entraram em contato com suas igrejas na América para que mandassem missionários. − Os homens sempre levam seus ideais por onde vão – afirmei. − Isso mesmo – concordou ele. – E assim foi com Jerônimo Rosado. “Aqui, no Nordeste, não foi necessária tal influência... Os nordestinos têm índole própria. Como bons nordestinos, os mossoroenses não ficam para trás: além do que eu já lhe contei, de quando o povo da cidade resistiu ao bando de Lampião; do fato de que Celina Guimarães, em Mossoró, foi a primeira mulher a votar – aliás, as mulheres de Mossoró têm história e até hoje é lembrado o Motim das Mulheres.” – O que foi esse motim? – perguntei. – O motim foi uma revolta, no século XIX, em que as mães, revoltadas com a convocação de seus filhos para lutar na infame guerra do Paraguai, fizeram uma manifestação em frente à Junta Militar, queimando os papéis de convocação e provocando uma grande confusão. – Não diga... – Digo sim, e digo mais: os militares foram obrigados a capitular diante da forte resistência daquelas mulheres. “Mas, voltando ao assunto: o patriarca dos Rosado deixou sua marca na região. Dizem que ele arquitetou todo o destino dos filhos e que, quando um deles chegava à idade adulta, era chamado pelo pai para uma conversa. Conversa esta que se destinava a inserir seu herdeiro ou herdeira na política.”

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“Há quem diga que cada filho e filha de Jerônimo teve um papel definido no que se destinava a criar o que hoje chamam de País de Mossoró.” – Já ouvi o termo – comentei. – Realmente, a expressão é famosa. Culpa de Câmara Cascudo, que a usou pela primeira vez, inspirado em Fernand Braudel, que comparava Lyon, na França, a um país. “A verdade é que o povo mossoroense, progressista por natureza, a ponto de libertar os escravos cinco anos antes da assinatura da Lei Áurea, encontrou no paraibano Jerônimo e em seus filhos um referencial político.” – A família é então uma unanimidade na preferência do povo? – Não... longe de mim afirmar isso. Os Rosado têm seus opositores. Existem inimigos e adversários políticos... Ocorre que eles não são derrotados há muito tempo. “Há quem compare a família Rosado com os Buendia, criados por Gabriel Garcia Márquez para seu Cem Anos de Solidão.” “Jerônimo Rosado casou-se com Maria Rosado Maia e com ela teve três filhos: Jerônimo Rosado Filho, Laurentino Rosado Maia e Tércio Rosado Maia.” – O senhor não disse que os filhos eram numerados? – indaguei. – Tércio foi o primeiro a ser numerado e Laurentino só viveu quinze dias. – A mortalidade infantil era grande no Nordeste. Mas, e os outros filhos? – Os outros são filhos do segundo casamento de Jerônimo. Sua primeira esposa faleceu após o nascimento do terceiro filho, 69


mas antes de morrer, chamou o marido e o fez prometer que se casaria com sua irmã. “Ela disse ao farmacêutico que não queria que os filhos fossem criados por uma madrasta. ‘Estando com minha irmã, sei que ela os criará como se dela fossem’, disse-lhe a moribunda.” “Veio então Isaura, e com ela, mais dezoito filhos. Ao todo, o paraibano gerou doze homens e nove mulheres. Seus contemporâneos dizem que ele tratava da mesma forma homens e mulheres, sem distinção de sexo.” – Quando foi que esse homem saiu da Paraíba para o Rio Grande do Norte? – indaguei. – O patriarca se fixou em Mossoró no ano de 1890, o mesmo ano em que nasceu o seu primeiro filho. Dos vinte e um filhos, somente dezessete vingaram, como se dizia no sertão. – Dezessete? – sorri – Está explicado por que eles dominaram a política... É muito filho... – Nem todos se dedicaram à política, meu jovem. – sorriu o velho, em resposta – Dois Jerônimos, Dix-Sept e Dix-Huit, foram os que se destacaram na política. – Dois Jerônimos? Não entendi... – Explico: outra mania do farmacêutico, além de numerar os filhos era usar os nomes iguais. Foram sete Jerônimos e uma Jerônima; cinco Isauras e um Isauro; três Laurentinos e uma Laurentina, além de Tércio, Maria e Vicência. Façamos melhor: deixe-me lhe dar uma relação completa. O velho rabiscou, em um papel que tirou de uma sacola que estava ao seu lado, uma lista completa de todos os filhos da família Rosado5. Tomei a lista e examinei, vendo a peculiaridade da escolha dos nomes. 5 N.A.: A lista completa encontra-se no apêndice desta obra.

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– Interessante, do terceiro até o décimo filho os nomes são em latim... Da décima primeira em diante, menos o duodécimo, estão em francês. – Isso mesmo. E o primeiro filho a se engajar na política foi Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia. Conta a lenda que quando o farmacêutico vaticinou que o que ele não fizesse por Mossoró, um filho seu o faria, tinha ao seu colo o pequeno Dix-Sept, então com oito anos de idade. “Dix-Sept viveu quarenta anos. Morreu em um acidente de avião, quando se dirigia ao Estado de Sergipe, em 1951, em caminho inverso ao feito pelo cangaceiro Jararaca, morto em Mossoró e que começou a vida no cangaço após desertar do Exército em Aracaju.” “Curiosamente, Dix-Sept Rosado, assim como o pai, nasceu na Paraíba, na então Vila Federal de Catolé do Rocha, em 1911.” – O mundo dá voltas, é o que dizem – afirmei. – Dizem e é verdade – disse ele, não sem uma ponta de tristeza. – Eu sei muito bem como é... Há muito tenho dado voltas com o mundo. Outros fazem o mesmo... Você se espantaria de como existem personagens que andam por aí, ao sabor do destino. Talvez você também experimente isto um dia. O homem ficou em silêncio, com o olhar perdido a fitar o nada. Eu já estava começando a me acostumar com aquelas crises de ausência. Notei, porém, que desta vez seu olhar não estava tão perdido: do outro lado da rua um cão parecia sustentar o olhar do violeiro. Por um momento, pareceu-me que os dois se encaravam, até que, como é comum, alguma coisa chamou a atenção do vira-latas e o animalzinho negro se virou e saiu caminhando tranquilamente em direção a uma extremidade da praça. – Há quem diga que os Rosados se tornaram uma oligarquia 71


que domina Mossoró sem a força do dinheiro – continuou ele, do nada. – A prole de Jerônimo Rosado se projetou em várias áreas: medicina, farmácia, indústria, comércio... Além, logicamente, da política. Ao filho mais novo, Vignt-Un, coube o papel de baluarte da cultura, levando a cabo a consolidação de uma história que teve seu prelúdio em 1910, quando Jerônimo chegou a Mossoró vindo da Paraíba e foi vislumbrada a nomeação do forasteiro para o cargo de Intendente6 em 1917, no qual permaneceu até 1919. “Amados ou odiados, os homens que se dedicam à política deixam sua marca na sociedade, e nem sempre para melhor. Os Rosado deixaram uma marca positiva e sua história se confunde com a da cidade.” − Não seria meramente uma estratégia para conseguir o poder? – questionei. − Pode até ser. Alguns dizem que Jerônimo Ribeiro Rosado teve influência na tentativa de Lampião de invadir a cidade como forma de fragilizar Rodolfo Fernandes a fim de retornar ao poder como Intendente. Nada foi provado; os avanços que a cidade alcançou sob a batuta dos Rosados, no entanto, estão visíveis e presentes. “Talvez uma das maiores conquistas da família seja a criação da Coleção Mossoroense, uma coletânea com mais de quatro mil títulos.” – Um próspero negócio... – comentei. – Depende do ponto de vista. Se você está pensando em dinheiro, esqueça: os títulos da coleção não são vendidos. – A troco de que ele faria algo do tipo? – Veja, meu jovem, a educação recebida pelos filhos e filhas de Jerônimo Rosado tinha um quê de iluminismo. Eles eram educados seguindo padrões europeus e isso era comum na elite da época. 6 Equivalente ao cargo de prefeito.

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A diferença é que o farmacêutico incutiu em sua prole o sentido de pertencimento à terra. “Para falar a verdade, este sentido é muito comum no povo da cidade... Não sei se é natural ou adquirido do paraibano.” “Outro fato interessante é que a Coleção Mossoroense, mesmo tratando de muitos assuntos, tem duas vertentes muito fortes em sua publicação: a seca, como não poderia deixar de ser, em se tratando de uma cidade nordestina; e a própria família Rosado.” – Um instrumento de propaganda, então? – questionei. – Não deixa de ser... Embora, talvez, não intencionalmente. Acredito que o intuito era de registrar a trajetória da família, e não usar como divulgação. “Mas a coleção não é só isso: ela republica obras científicas esgotadas, dá oportunidade a novos autores de publicarem seus trabalhos, mantém e divulga as tradições e costumes daquela localidade.” “A forma como tudo começou, mais uma vez mostra como uma família com a educação correta pode seguir na direção certa: tudo foi idealizado por Dix-Sept e coordenado por Vingt-Un. De certa forma, Vingt-Un foi o responsável pela manutenção da fama do irmão.” “Quando, em 1950, Dix-Sept elegeu-se governador do Rio Grande do Norte, sucedeu-lhe seu irmão Vignt, o vigésimo... DixHuit também foi prefeito. Enfim, a família Rosado se consolidou como a elite política de Mossoró.” “A morte de Dix-Sept, em 12 de julho de 1951, foi lamentada pela população. O nome do político foi dado ao povoado de Sebastianópolis, antiga Vila de São Sebastião, que passou a se chamar Governador Dix-Sept Rosado.” – Espera aí... Não foi da Vila de São Sebastião que Lampião 73


deflagrou o ataque a Mossoró? – interrompi. – Exatamente... – respondeu ele. – Você está prestando atenção nas histórias. A vida é assim, os eventos se intercalam e se relacionam. Mais dia, menos dia, tudo passa pelo mesmo ponto de partida. – Mas nesse caso foi fácil... Os locais eram próximos. – Tem razão, mas algumas vezes as pessoas se comportam de formas diferentes em locais diferentes, ou são vistas diferentemente por pessoas de diferentes locais. – Como na história do Labatut. – Isso mesmo. Sendo a família Rosado uma formadora da cultura de Mossoró, é normal que as localidades próximas também sejam influenciadas por ela, afinal a cidade já era, àquela época, uma das mais importantes do Estado. “De resto, vemos aí um exemplo de como levar a cabo as metas de uma vida. A família, gerada por um homem da Paraíba, tornandose importante na cidade do Rio Grande do Norte, colaborou para tornar a cidade também importante partindo de uma vocação que o local já tinha.” “Eles souberam fortificar os valores que já despontavam... Seja na economia, na cultura ou na política. A família foi bem recebida na nova terra, e em troca deu também o melhor que podia, com seus vários entes numerados.” – E podia ser diferente? – Podia... Um homem pode ser capaz de construir lindas coisas em alguns lugares e, em contrapartida, amaldiçoar uma cidade. – O senhor já disse algo parecido. – Disse. Mas não contei a história. 74


– Houve algo assim em Mossoró? – Em Mossoró, não. Mas aconteceu na Paraíba. – O Estado onde nasceu Jerônimo Rosado... – falei apenas como complemento. – Exato. Mas não na mesma cidade... Você já ouviu falar da cidade de Teixeira e do Padre Ibiapina? – Não. Ele nasceu lá? – Não, meu rapaz... Ele passou por lá. Aliás, ele andou por todo o Nordeste, mas eu quero lhe contar o que aconteceu com ele em Teixeira, na Paraíba, e em Picos, no Piauí. Fiquei em silêncio, aguardando o início da nova narrativa.

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Capítulo V

Paraíba – Piauí


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A Maldição

– Conte logo a história desse padre, mestre Avelino – reclamei eu, enquanto o velho enrolava um cigarro de palha. – Calma, rapaz... Deixe eu fazer meu cigarro – respondeu ele, aumentando ainda mais a minha curiosidade. – Hábito medonho, esse meu... Aliás, de qualquer um que fume. Faz um terrível mal à saúde, mas quando se tem muito tempo para viver, a gente não se preocupa muito com isso. Na verdade, eu só comecei a fumar há pouco tempo. Coisa de uns dez anos pra cá. – E dez anos é pouco tempo? Ele deu uma longa tragada no cigarro, ignorando minha pergunta e ficou alguns segundos contemplando a fumaça. – Diga-me, meu jovem, você viaja muito? Conhece muitos lugares? A pergunta me pegou de surpresa: nada tinha a ver, ao menos aparentemente, com a história que eu esperava que o andarilho contasse. – Um pouco – respondi. – Por força da minha função, às vezes tenho que me deslocar para coordenar alguma obra.

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– E o que seria esta função? – Sou engenheiro... – Ah! Nobre profissão... Construir coisas... Alguns construtores deixaram sua marca no mundo... As pirâmides do Egito são uma prova disto. – Nunca construí nada tão majestoso. Meu trabalho se resume a pequenas pontes, prédios escolares, coisas de uso prático e, vez por outra, algum edifício de maior porte. – Não se iluda meu jovem, tudo tem valor nesta vida. Já lhe aconteceu de detestar algum lugar por onde tenha passado? Pensei um pouco sobre a pergunta do violeiro, tentando lembrar de algo, e respondi em seguida. – Não... Acredito que não. Até hoje, vi minha atividade como uma forma de adquirir novas experiências e conhecer novos lugares ao mesmo tempo em que ganho dinheiro. – Muito bem. Este é o espírito que se deve ter. Mas nem sempre é assim... Eu admiro as pessoas otimistas, para quem tudo é belo e oportuno. Vejo pessoas que leem livros de autoajuda e passam a agir como se o que foi escrito pelo autor fosse a verdade máxima. Na verdade, tudo já foi dito por outros há muito tempo, mas é mais fácil acreditar em alguém que está ficando milionário escrevendo coisas que não precisam ser ditas, apenas sentidas. “Mesmo assim, algumas vezes, a paciência nos falta, e até Jesus teve seu momento de fúria ao expulsar os vendilhões do templo.” – As emoções são inerentes ao ser humano – filosofei. − Meu jovem, o homem não precisa ser dominado pelas emoções. A idade e o conhecimento, via de regra, levam à serenidade e à razão. 80


− Isto parece filosofia Zen – argumentei. − Nos ensinamentos do Nazareno, bem como na tradição oriental, a tolerância é o cerne da iluminação – sorriu ele. – Há um texto da tradição Zen que diz o seguinte: “Um estudante de Zen foi ter com seu mestre e queixou-se: – Mestre, Tenho um temperamento ingovernável. Como posso curá-lo? – Tens uma coisa muito estranha, respondeu o mestre. Mostra-me lá então isso que tens. – Neste preciso momento não posso lhe mostrar, respondeu o outro. Acontece inesperadamente!… – Então, concluiu o mestre, não deve ser a tua verdadeira natureza. Se fosse, podias mostrar-me a qualquer tempo. Quando nasceste não o tinhas e não foram os teus pais que te deram. Pensa nisso.” − A emoção, meu rapaz − continuou ele – não é um estado natural, mas um descontrole. Qualquer um pode se descontrolar um dia, dependendo da motivação. Como eu disse, até Jesus perdeu a calma em alguns momentos. − E o que isso tem a ver com o tal Padre Ibiapina? – eu já estava perdendo a paciência com aquela conversa comprida. − Assim o foi: seu nome de batismo era José Antonio Pereira Ibiapina, nasceu na cidade de Sobral, no dia cinco de agosto de 1806, dia de Nossa Senhora das Neves, e Nossa Senhora viria a marcar a vida do José Antonio. 81


“Na primeira parte de sua vida, o garoto dedicou-se aos estudos. Esteve diretamente ligado a dois padres que participaram dos movimentos revolucionários da época: o padre Domingos da Mota Teixeira, que começou a iniciá-lo na religião, até ser preso sob acusação de participar da Revolução Emancipacionista de 1817, e o padre Antonio Manuel de Souza, que ficaria conhecido como ‘Padre Benze Cacetes’, pela sua participação no episódio da sedição de Pinto Madeira.” “Não vou falar muito sobre a vida de Antonio Ibiapina antes do sacerdócio. Basta saber que seu pai foi fuzilado em 07 de maio de 1825, por inimigos políticos, em virtude de ter tomado parte no movimento separatista republicano; seu irmão mais velho, pelo mesmo motivo, foi preso e enviado a Fernando de Noronha, onde foi assassinado, e sua mãe, àquela altura já era falecida.” – Quanta tragédia... – comentei. – Sim... – respondeu ele – José Antonio passou por muitos dissabores, mas no campo dos estudos conseguiu se graduar em Direito, com honras, em 09 de outubro de 1832, aos 26 anos. “Sua apresentação da tese na formatura fez tanto sucesso, que foi chamado a lecionar no semestre seguinte.” “Era uma época conturbada e os outros alunos do Convento São Bento, em Recife, onde Ibiapina estudava, viviam envolvidos em revoltas e movimentos estudantis. Dizem até que o futuro padre esteve para desistir do curso e só não o fez em virtude do apoio moral e financeiro de amigos.” “Uma vez graduado, Ibiapina viaja de férias ao Ceará, onde passa por mais uma decepção: ao frequentar a casa da viúva de Tristão Gonçalves, José Antonio inicia um relacionamento amoroso com a filha do casal, Carolina Clarense; ficam noivos e marcam o casamento para o fim do ano seguinte, tempo que seria necessário para o bacharel angariar fundos com seu trabalho no curso de Direito do Convento São Bento para o casamento e a manutenção do casal.” 82


– Então ele chegou a se casar antes de ser padre? – perguntei, curioso. – Aí é que está a decepção que eu havia dito: Ibiapina não chegou a se casar – respondeu ele. – Enquanto lecionava, seu nome foi indicado para concorrer à eleição para o cargo de deputado geral e representar o Ceará na Assembleia Legislativa Nacional. E ele foi eleito como o deputado mais votado. Por isso, ao final do ano letivo, pediu demissão a fim de cumprir seu mandato de 1834 a 1837 e casar-se com sua prometida. Porém, ao chegar à sua terra, soube que a amada havia fugido para casar-se com o primo. Depois deste dia, ninguém mais ouviu José Antonio falar em relacionamento amoroso. – Nada pior do que uma desilusão amorosa para atrapalhar a vida do sujeito – comentei. – Mas não para por aí... – completou ele. – Ibiapina foi nomeado, também, Juiz de Direito e Chefe de Polícia da Comarca de Campo Maior. – No Piauí? – perguntei. – Não... Ainda chegarei lá. – respondeu ele, e explicou – Estou falando da Nova Vila de Campo Maior, que depois passou a se chamar Quixeramobim... – Mas isso é no Ceará... O senhor não disse que ia falar de Piauí e Paraíba? – E vou. Calma, rapaz. É que eu preciso falar um pouco do que ocorreu antes. “Bem, o futuro padre enfrentou dissabores também na vida pública. Por conta de sua sede de justiça, teve muitos desentendimentos com pessoas da elite e ficou pouco tempo no cargo de juiz e chefe de polícia.” “Cumpriu apenas um mandato. Quando se encerrou o terceiro 83


ano de sua legislatura, encontrava-se desiludido com a política e não mais se candidatou, passando a exercer sua profissão de advogado. Para isso, mudou-se para a cidade de Recife, onde instalou seu escritório.” – E em que momento ele decidiu virar padre? – perguntei. – É justamente o que eu vou contar agora. O padre Ibiapina foi aos poucos perdendo o interesse pela advocacia; por volta de 1848, recusava-se a pegar novos casos a fim de abandonar a profissão tão logo terminasse seus casos pendentes. Finalmente, ao perder uma causa, desistiu definitivamente do direito, devolvendo os honorários ao cliente e retirou-se para um sítio nos arredores de Recife com sua irmã Ana. “Depois de alguns anos de retiro, durante os quais se dedicou ao estudo da filosofia e da teologia, o clero resolveu convidá-lo, por intermédio de um amigo, a se ordenar. E assim foi feito. Ibiapina se recusou aos exames que os jovens tinham que realizar para a ordenação, mas aceitou o convite. Sua ordenação ocorreu no dia 3 de julho de 1853 e ele celebrou a sua primeira missa no dia 26 do mesmo mês.” – Até que enfim! – exclamei. – O padre Ibiapina começou suas viagens pelo Nordeste dois anos depois, mas antes substituiu o Pereira de seu nome pelo nome da mãe de Jesus, por quem tinha grande devoção... Passou então a chamar-se José Antonio Maria Ibiapina. “O padre passou a viajar pelas cidades do Nordeste, construindo cemitérios, escolas, açudes, igrejas, hospitais e suas famosas Casas da Caridade. Uma epidemia de cólera assolava o País. Os tempos estavam ainda mais difíceis, principalmente no Nordeste.” – Em tempos remotos como aqueles deve ter demorado muito para acabar suas obras – conjecturei. – Interessante você falar isso... – sorriu ele. – As obras eram 84


concluídas rapidamente... Coisa de quinze dias até, no máximo, três meses, a depender do tamanho e da quantidade de trabalhadores. O padre conseguia juntar milhares de pessoas em mutirão. Em sua peregrinação, Ibiapina fazia sua pregação e, em seguida, conclamava a população a construir uma obra que marcasse sua passagem. A ele atendiam todos, desde as donzelas até os jagunços e cangaceiros. – Que interessante – foi tudo que consegui dizer. – Realmente. Era interessante ver como inimigos se reconciliavam e como o povo se entregava ao trabalho. Como já disse, foram muitos açudes, cemitérios, hospitais e igrejas. Das 22 casas de caridade que construiu, a mais importante foi a de Santa Fé, que pertence ao município de Solânea, onde o padre viveu seus últimos dias. Esta era a casa central de onde partia para suas missões. “Chegamos pois aos dois eventos a que me referi: a construção da igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na cidade de Picos, e a maldição que teria proferido contra a cidade de Teixeira, na Paraíba, e que, segundo os moradores, seria a causa de tudo de ruim que lá acontece.” “Apesar de ter construído a igreja de Picos depois da citada maldição, falarei primeiro da igreja. A catedral hoje existente levou vinte anos para ficar pronta, mas a igreja que existia antes foi construída pelo padre Ibiapina em apenas noventa dias, no ano de 1871.” “A igreja foi construída para abrigar a imagem de Nossa Senhora dos Remédios, que antes era venerada na capela de São José, desde sua chegada à localidade.” – Como se deu isso? – perguntei. – A imagem chegou à cidade antes de ser construída a igreja? – Essa é outra história: acontece que houve, no Maranhão, e depois estendeu-se ao Piauí, uma revolta chamada de Balaiada, 85


onde os pobres e escravos se rebelaram contra o governo português. E, nessa revolta, lutaram os filhos do coronel Victor de Barros Silva e de seu vaqueiro João das Dores. Para que os dois rapazes voltassem a salvo da guerra, os homens fizeram uma promessa de encomendar a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. – Devo entender que deu tudo certo, então... – deduzi. – Sim. Com a volta dos rapazes, o coronel adquiriu a imagem da santa, que veio de Portugal, passando pela Bahia... Vendeu dez vacas paridas para custear a compra e prometeu ao seu escravo, que a transportou desde a Bahia, a liberdade em troca da jornada. O interessante é que o povo lembra o nome do coronel, do vaqueiro, e quem sabe até o dos dois rapazes que foram objeto da promessa, mas ninguém se lembra do nome do escravo. – A humanidade tem muito que evoluir, em matéria de gratidão. – Voltemos à história: como eu disse, a imagem encontrava-se na capela de São José, desde 1847, e como era grande a devoção do povo pela santa, assim como a do padre Ibiapina, ele construiu uma igreja somente para ela. Como eu disse também, a igreja foi reconstruída em uma obra que iniciou em 1948 e só foi terminar em 1968. “Embora a primeira igreja não tivesse o mesmo tamanho que hoje tem o templo, o fato de fazer uma obra em apenas noventa dias, faz do padre Ibiapina um homem arrojado, que deixou para a cidade de Picos aquela que é o centro de sua devoção religiosa. A catedral é conhecida como um dos maiores e mais belos templos religiosos do Nordeste.” “Entretanto, o homem capaz de erigir tal beleza, anos antes teve seu momento de fúria contra o que encontrou em Teixeira.” – Teixeira não é a cidade do poeta do absurdo? – perguntei. O velho sorriu largo. 86


– Aquele era engraçado... Ainda me lembro de alguns dos seus versos. E antes que eu pudesse questionar o que ele queria dizer, começou a recitar: “Zé Limeira quando canta Estremece o Cariri As estrêla trinca os dente Leão chupa abacaxi Com trinta dias depois Estoura a guerra civí.” – Outro, muito interessante, é assim: “O Marechal Floriano Antes de entrar pra Marinha Perdeu tudo quanto tinha Numa aposta com um cigano Foi vaqueiro vinte ano Fora os dez que foi sargento Nunca saiu do convento Nem pra lavar a corveta Pimenta só malagueta Diz o Novo Testamento!” – Isso não faz sentido – reclamei. – Por isso é que Zé Limeira é o Poeta do Absurdo... – riu ele. – Dizem também que era um profeta. Eu devo admitir que ele tinha lá suas visões. – Para falar a verdade não sei muito sobre ele... – afirmei. – Bem, procure pesquisar. Apenas para aumentar sua curiosidade sobre o homem, devo lhe contar que ele tinha uma cantiga de cordel chamada O Romance da Pavoa Devoradora... Era um vaticínio de desgraças e peste do qual não existe cópia escrita. Zé Limeira dizia que não podia cantá-la antes da meia noite, nem poderia fazê-lo em sua própria casa. Sempre, antes de iniciar o 87


recital, rezava uma sextilha ao padre Cícero e durante nunca abria os olhos, para que nada de mal lhe acontecesse. – E o que poderia acontecer? – perguntei eu, incrédulo. – Bem, uma vez, na Fazenda Paraíso, região do Vale do Cariri paraibano, ao terminar o recital, desabou uma tempestade, com trovões e raios que assustaram os sertanejos a ponto de pensarem que o mundo estava se acabando. – Coincidência – retruquei. – Coincidência ou não, no dia do aniversário de sua esposa, em 1954, o poeta descumpriu seus preceitos: cantou o Romance da Pavoa em seu próprio terreiro, ante o insistente pedido dos presentes, nem mesmo lembrou de rezar ao padre Cícero, ou de esperar a meia noite. Ao terminar e colocar a viola em uma cadeira, o instrumento caiu ao chão, sem qualquer explicação. Horas depois, é o próprio Zé Limeira quem morre, inexplicavelmente. Não tive palavras para argumentar e aguardei que ele voltasse a falar, o que fez, retornando ao assunto anterior. – Ibiapina esteve em Teixeira antes da maldição. Construiu um cemitério na cidade e ao retornar à mesma, em 1864, encontrou tal situação de criminalidade, desavenças entre famílias locais e cangaceirismo, que proferiu a tão famosa maldição. “Ainda me lembro do que foi escrito pelo jornal O Teixeirense e assim dizia:” “Tivemos também a honrosa visita do Rev. Ibiapina; prestou relevantes serviços. Deixou em começo uma Casa de Caridade. Caridade nesta terra, teatro de malversações e de crimes! Procurou conciliar os espíritos, mas uns tais Dantas que aqui temos para nosso flagelo e dos habitantes do lugar,

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não quiseram conciliar. Diante disso, o Padre Ibiapina lançou o seu repto profético: ‘O estado deste termo é horrível, seu paradeiro será fatal. Por sua devassidão é uma Sodoma’. O Reverendo Ibiapina já declarou que o castigo dos céus estava iminente. Sendo convidado para vir de novo aqui missionar, recusou, declarando que em lugar, onde a virtude vive suplantada e aterrada, e o vício e o crime progredindo e florescendo, não podia assistir sem que primeiro o castigo de Deus se fizesse conhecido certo.7“ – Então houve mesmo uma maldição – argumentei. – Ao menos, existe a lenda. – respondeu ele – Há relatos de que, ao deixar Teixeira em direção a Patos, o padre tirou suas sandálias e bateu uma na outra, para não levar nem a poeira daquela terra. – Mas, o que teria feito o homem agir dessa maneira? – Padre Ibiapina, como um homem de Deus, não podia concordar com a situação que reinava no lugar: desunião entre as famílias, guerra por terras, politicagem... Tudo isso acompanhado de uma onda de assassinatos nos anos de 1862 e 1863. “Inconformado com aquilo, o sacerdote se recusou a pregar as missões e teria lançado a praga... Não sobre o povo da cidade, mas sobre a atitude criminosa.” “O certo é que, a partir daí, o povo da cidade atribui à maldição as ocorrências desastrosas ou ruins que lá sucedem.” “Dentre acontecimentos graves, posso citar um confronto entre o Exército e a polícia, no centro da cidade, em 1912, com um grande 7 N.A.: Retirado de vários sites na internet, com pequenas modificações.

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tiroteio; ou a invasão promovida por cerca de 200 cangaceiros em março de 1930; e ainda outros... Sempre citados pela população como consequência da maldição do padre.” “Dizem também que a maldição já existia e o padre somente a teria enunciado. Muita coisa misteriosa acontece em Teixeira, como a história da pedra do Tendó.” – Pedra do quê? – perguntei. – Vem da exclamação “tem dó”... É mais uma lenda do lugar. Existem algumas versões para o nome: uma dá conta de que seria o apelo de uma vítima atirada ao precipício após a luta com um inimigo; outra, relata a história dos irmãos Ramiro e Clarindo e a bela Juliana, noiva de Ramiro, que a teria encontrado em um passeio romântico com seu irmão... Assustados os dois teriam caído da pedra; outra ainda diz que Ramiro e Clarindo é que caíram, em luta pela moça, que após a morte dos dois irmãos teria enlouquecido. – Mas, isto não tem nada a ver com a maldição do padre, tem? – Não. Não tem. Mas existe uma coincidência entre a história do padre e os acontecimentos graves e estranhos. Interessante também é a devoção da cidade a Santa Maria Madalena, que até pouco tempo era considerada pela igreja católica como uma prostituta arrependida. Se Maria, venerada por Ibiapina é para a igreja católica o exemplo de mulher pura e virtuosa, Madalena, venerada pela cidade de Teixeira, seria aquela que só se salvou porque se arrependeu de seus pecados. “Madalena era uma mulher de prestígio, eu sei... Embora poucos saibam. Mesmo naqueles tempos, havia mulheres importantes, mas os homens de então, como os de hoje, se sentiam ameaçados por isso.” “Enfim, meu jovem, eu queria te dizer que sempre existem os dois lados de uma história e até mesmo de uma pessoa. Alguém que você acredita ser turrão pode ter momentos de amabilidade, 90


e aqueles de índole pacífica podem perder a calma. Tudo depende, apenas, do momento e dessa coisa inata do ser humano, chamada emoção.” “Padre Ibiapina deixou, por onde passou, seu legado de construções e benevolência, mas deixou no povo de Teixeira a eterna dúvida de um destino amaldiçoado.” “E só para não deixar de falar na morte do sacerdote: ele morreu em 19 de fevereiro de 1883. Sua sepultura já estava aberta, por sua ordem, desde janeiro do ano anterior. Contaram os que presenciaram sua morte, que ele apontava para um canto do quarto dizendo: ‘Lá está Maria, a mãe de Jesus’. Acreditam as freiras que estavam com ele nos últimos dias de sua vida, que Nossa Senhora veio buscá-lo, mas esta é apenas mais uma das belas histórias que tem o nosso Nordeste.” – Agora, meu jovem, acredito que devamos comer algo – disse ele, mais em tom de pedido. – Pela hora que se apresenta, já sinto alguma fome. Só então me dei conta de que já passava do meio-dia e, também eu, estava com muita fome.

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Interlúdio

Apesar de não ser hábito, na Bahia, que as baianas de acarajé trabalhem antes do cair da tarde, já havia um tabuleiro do outro lado da praça desde as dez horas da manhã. Pedi licença ao violeiro e atravessei a Praça da Bandeira em busca do que se costuma a chamar de sanduiche de baiano. Retornei com duas unidades fumegantes do quitute, entregando uma ao meu companheiro de conversa. Ele agradeceu e com um sorriso comentou: – Isso é comida de orixá. Se os deuses comem é porque deve ser bom. Quase não falamos enquanto devorávamos os acarajés, salvo um comentário ou outro sobre os temperos, o camarão e, principalmente, a pimenta. Ao final, o homem pegou um embornal que trazia consigo e retirou de dentro uma garrafa com vinho e alguns embrulhos. – Também tenho algo a oferecer – disse. – Vamos comer algo típico da minha terra.

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Aos poucos foi abrindo os pacotes e retirando os alimentos: um pedaço de pão artesanal, tâmaras secas, um pouco de sal, uma garrafinha de azeite... – Tenho apenas um prato e um copo, mas acredito que seja suficiente – disse ele me passando um pedaço de pão, algumas tâmaras, e depois, regando o fundo do prato com sal e azeite. Passou um pedaço do próprio pão na mistura de azeite e sal e comeu, acenando para que eu fizesse o mesmo enquanto servia um pouco do vinho no único copo que dispunha. – Isto é muito bom – falei, recebendo do velho o mesmo copo em que bebera, para também tomar um gole. O vinho era, também, artesanal. Nunca soube onde ele o conseguiu, mas tinha um excelente sabor. – Escute, mestre – disse eu, mastigando um pedaço de pão – esta história que acabou de contar, sobre a maldição do padre... O senhor acredita em maldições? – O que posso dizer? – respondeu. – Existem várias histórias de maldições... Até Jesus proferiu as suas... Algumas são verdadeiras, outras, lendas. Eu mesmo carrego a minha, mas não gostaria de falar sobre isto. – Esta dizendo que alguém o amaldiçoou? – Depende da forma que se encara o fato. – e ele mostrou seu sorriso enigmático – No princípio, achei interessante o que estava me acontecendo; com o passar do tempo, senti raiva; hoje, estou conformado e até acredito que me sirva de alguma coisa. – Do que o senhor está falando, seu Avelino? – perguntei intrigado. – Como eu disse, não quero falar sobre o assunto. Até posso contar, depois. 94


– Mas, maldição não é uma coisa ruim? Quando alguém joga uma maldição está desejando a ruína de outra pessoa. – Nem sempre. Às vezes, aquele que amaldiçoa tem o intuito de ensinar, e não de vingança. Embora, o mais comum seja a retribuição de um mal, o desejo de vingança. – Existem casos de “maldição educativa”? – sorri. – É claro! – confirmou ele. – O mundo está cheio de exemplos. Sem falar no meu caso, temos uma história interessante que aconteceu no Piauí, mas hoje se estende pelos rios Poti e Parnaíba, atingindo Teresina, do lado do Piauí e Timon, do lado maranhense. A história de um rapaz muito mau, cuja mãe tentou fazer o máximo para consertá-lo, mas não encontrou outra maneira, a não ser pela maldição. E, enquanto comíamos o restante das tâmaras, o velho limpou seus utensílios, guardou-os e começou uma nova história.

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Capítulo VI

Piauí – Maranhão


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O Cabeça de Cuia

– Aconteceu há coisa de uns oito anos – relatou o violeiro. – Eu estava na cidade de Timon, às margens do rio Parnaíba, no Estado do Maranhão, divisa com o Piauí. – Sei – respondi. – Do outro lado do rio está Teresina, capital do Piauí. – Isso mesmo. – continuou ele – O rio Parnaíba é um gigante. Nasce na Chapada da Mangabeira e vai desaguar no Oceano Atlântico. No caminho banha quarenta e dois municípios, vinte do Piauí e vinte e dois do Maranhão. “Por lá, o conhecem como Velho Monge, desde que um poeta assim o chamou em 1908, em um belo soneto que termina com os seguintes versos:” “Saudade – o Parnaíba – velho monge as barbas brancas alongando... E, ao longe, o mugido dos bois da minha terra...” (SILVA, 1908). “Nas margens do Parnaíba, vivi uma das mais interessantes experiências de minha vida. Essa experiência confirma a existência de maldições... Confirma também a existência de seres errantes 99


e de tempo de vida indefinido. Saiba, jovem, que existem seres que caminham sobre a terra há muito tempo, séculos talvez, e que ainda estarão aqui por muitas eras.” – O senhor está falando de vampiros? – perguntei com sarcasmo. – Não... Vampiros são criações da ficção – e neste ponto interrompeu por instantes a narrativa. – Pelo menos, da forma como vocês conhecem hoje, já que a lenda tem um fundo de verdade. Mas deixemos esse assunto pra lá e voltemos ao Parnaíba. “O que ali encontrei foi outra espécie de monstro. Uma figura de grande maldade, para a qual a maldição de uma mãe ainda não teve o sucesso de educar, e até que aprenda, ou que consiga praticar mais maldades para se livrar do fardo, persistirá vivendo até o fim dos tempos.” Apesar de não acreditar numa palavra do que o homem dizia, continuei escutando. Qual seria a história fantástica que ele iria inventar agora? – Como eu dizia: corria a primavera de 1981, quando eu estava de passagem por Timon... Já visitei aquelas paragens várias vezes, às vezes em Teresina, às vezes na antiga Flores, que hoje tem o nome de Timon... É um lugar que eu gosto de visitar, aquele pedaço do Nordeste. “Como de costume, o calor estava de rachar. E você sabe como faz calor naquelas terras! Ainda mais na primavera.” – Não seria no verão? – interrompi. – Engraçado isso, não é? – respondeu ele, com outra pergunta, passando a explicar. – Naquela região, o período chuvoso se dá durante o verão e o outono, quando as chuvas fazem o clima esfriar; já a primavera e o inverno são de tempo seco, o que aumenta o calor, sem deixar de existir aqui e acolá uma boa trovoada.

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“Naquela primavera, e exatamente naquele dia, a temperatura beirava os trinta e cinco graus e um grupo de pessoas resolveu tomar um banho de rio para refrescar. Juntei-me a eles e fomos todos para o Parnaíba.” “De onde estávamos podíamos ver, do outro lado do rio, os prédios de Teresina, e eu fiquei admirando aquela situação: um rio dividindo dois estados; duas cidades vizinhas – e até de alguma rivalidade – separadas pelas águas do Velho Monge.” “No grupo havia uma mulher chamada Maria e, devo admitir, era uma das mais bonitas do grupo. Se bem que não havia ali nenhuma campeã de concurso de beleza, mas ela estava acima da média.” – Notei aí algum interesse, mestre Avelino? – perguntei sorrindo. – Ora, não sou nenhum Casanova, mas também sou homem – respondeu-me prontamente. – Embora não possa ter envolvimentos definitivos com mulheres, também preciso da companhia feminina de quando em vez. – Continuemos – atalhou ele, não me dando tempo de esticar o assunto. – Como eu dizia: estávamos às margens do Parnaíba eu, com minha viola à sombra, ao meu lado, alguns que me ouviam tocar e, na água, um pequeno grupo se refrescava e entre eles estava Maria. “Maria e outras moças faziam uma tremenda algazarra... Tanto que eu me dividia entre tocar a viola e apreciar a brincadeira; quando, de repente, Maria desapareceu do meio das mulheres.” “Houve gritaria, correria e atropelo. Enquanto as mulheres saíam da água, alguns homens mergulhavam em busca da jovem. Até mesmo eu esqueci um pouco de minha idade e me atirei às águas do Parnaíba.”

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“Parnaíba quer dizer rio de águas barrentas, e é exatamente assim que são as águas do Velho Monge... Por mais que procurássemos não encontrávamos a moça, naquela pouca visibilidade que havia debaixo d’água. Até que, por um acaso da sorte, esbarrei no que me pareceu ser o braço de uma pessoa.” “Em princípio, pensei que fosse um dos meus companheiros de busca, mas percebi que a pessoa dona daquele braço estava inerte. Agarrei o braço e comecei a puxar para cima a afogada, mas qual não foi minha surpresa ao notar que havia resistência!” “Eu puxava para cima, de forma desesperada, pois já começava a me faltar fôlego, e algo tentava arrastá-la para o fundo do rio.” “Para saber do que se tratava, mergulhei seguindo o corpo, agarrado rente a ele, até chegar nas pernas, e quase perdi o resto de ar que me sobrava. Olhando para mim, estava uma terrível figura: tinha os dentes pontiagudos, a cabeça grande e arredondada, orelhas pontudas e olhos esbugalhados, cheios de ódio.” “Ao me ver, aquele ente mudou de expressão, passando do ódio à tristeza do reconhecimento e, por alguns instantes, soltou a perna da jovem Maria.” “Aproveitando-me de sua distração, arranquei-lhe o corpo da mulher e nadei rapidamente para a margem. Ninguém mais viu o que eu vi naquele dia. Enquanto as pessoas se juntavam ao redor de Maria, numa tentativa de fazê-la voltar a si, olhei na direção do rio e vi, por um breve momento, emergir a forma arredondada da cabeça do monstro. Saiu das águas até a altura dos olhos, olhoume por um átimo e desapareceu nas águas novamente.” “Nunca mais o vi, mas sei que não foi a última vez que atacou. Por sorte, a moça nada sofreu além do susto. Porém, não soube dizer a ninguém o que lhe aconteceu, e eu, que sabia, nunca contei.” – E o que foi que a atacou? – perguntei, agora interessado. – Era gente ou bicho? 102


– O Cabeça de Cuia, é claro. – respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. – E o que diabos é o Cabeça de Cuia? O velho parou um pouco, rememorando seus dias passados, e pude ver em sua face uma tristeza profunda. Havia um pesar que denunciava seu envolvimento na história em questão. – O Cabeça de Cuia já foi um rapaz. Uma pessoa de gênio forte, muitas vezes destemperado, filho de uma mulher muito humilde e amável. Não é culpa dele ser o que é... É culpa do destino e do desatino de seu comportamento... Infelizmente, fui testemunha do ocorrido e, até hoje, lamento o desfecho de um destino tão triste... “Seu nome era Crispim... Morava com a mãe em uma pequena casa da vila do Poti... Não me lembro quando se deu o fato, faz muito tempo... Foi antes de Teresina ser construída e na antiga Vila do Poti, que hoje é o bairro de Poti Velho, parte da capital do Piauí.” “Como relatei, sempre gostei daquela parte do Nordeste. Acontece que estava de passagem pela Vila do Poti, na confluência dos rios Poti e Parnaíba e, por uma pequena quantia em dinheiro, fui hospedado numa casa vizinha à casa de Crispim. A vizinhança era muito pobre, e a família de Crispim, a mais pobre de todas... Muitas vezes não tinham o que comer, e isto aborrecia muito o pescador.” – Crispim era pescador? – perguntei. – Seu trabalho não era uma forma de conseguir alimento? – Sim, meu jovem. – respondeu ele – Mas, nem sempre a vida nos dá o que queremos... Não era raro o rapaz voltar para casa sem ter conseguido nenhum pescado. “A mãe de Crispim era viúva e numa de nossas conversas me segredou: ‘Às vezes tenho medo de meu filho... ele tem um temperamento muito forte e descontrolado. Quando seu pai era 103


vivo, ainda tinha uma esperança de colocá-lo nos eixos, mas não tenho forças para fazê-lo obedecer-me’.” “A verdade é que o jovem era forte e voluntarioso. Nada lhe causava temor e tinha um grande ímpeto para trabalhar, mas ao mesmo tempo, tinha em si uma ira latente, que poucas vezes conseguia controlar... Não raro envolvia-se em brigas, as quais sempre vencia. Crispim era moldado pelo rio: braços fortes e ombros largos, a pele, curtida pelo sol, tinha o tom moreno do povo da região, e suas feições não eram feias. Julgo que, não houvesse o destino lhe pregado a peça que pregou, teria sido um partido disputado pelas beldades locais.” “Uma vez, o próprio me relatou: ‘Tenho vontade de sair dessa miséria... talvez me aventure no Pernambuco... Ouvi falar que os engenhos de açúcar precisam de homens fortes e que a paga é boa. Fazia muito gosto de ir lá ganhar dinheiro e ajudar minha velha mãe’.” – Parecia ser uma boa pessoa... – comentei. – Não era mau, o rapaz – respondeu ele. – Havia, contudo, em seu proceder, um grande problema: Crispim perdia a temperança com muita facilidade. Seus vizinhos tinham muito medo de seus descontroles. Em um momento era um cordeiro, uma pessoa de amizade e cordialidade; mas, se algo o desagradava, tornava-se uma fúria da natureza, a qual era difícil de controlar. “Quando Crispim perdia a calma transformava-se num monstro sem controle. Ninguém ousava desafiá-lo para não ter que pagar o preço. A força que demonstrava para o trabalho era multiplicada em momentos de fúria.” – E ninguém o alertava sobre isso? – perguntei. – Muitos tentaram falar-lhe, mas ele retrucava: “Não te digo como viver, portanto não se meta na minha vida”.

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“Nunca o rapaz se negou ao trabalho, mas nem sempre o esforço o valia como desejava. Não fosse por sua velha mãe, creio que não tivesse permanecido na vila do Poti. E isso fazia questão de dizer-lhe. À velha, restava chorar e fazer de tudo pelo bem do filho, o que nem sempre era suficiente.” – Mas, o que este caso tem a ver com o Cabeça de Cuia? – indaguei. – Tudo, rapaz... – respondeu ele, com tristeza – Não lhe disse que Crispim é o Cabeça de Cuia? – Mas, o senhor disse que o Cabeça de Cuia é um monstro, e Crispim, uma pessoa normal. Como seria possível? – Também lhe disse que havia uma maldição. A sina de Crispim foi selada pela sua destemperança. – E como se deu? – Pois bem. Estava eu, como lhe disse, hospedado na casa da vizinha da família de Crispim e, pela manhã, encontrei-o indo pescar no Poti. “Cumprimentei-o dizendo: ‘Bom dia, Crispim. Vai pescar?’, ao que ele me respondeu: ‘Vou, mestre... Não temos comida em casa, a não ser um pouco de feijão. Tentarei conseguir uns peixes para ajudar na refeição.’, e eu, que desejava também comer um peixe, argumentei: ‘Pois se conseguir, separe uns para mim que eu lhe pago’.” “Crispim se dirigiu para o rio e eu fui cuidar de outras coisas; entre elas, ajudar na construção de uma casa que seria usada para abrigar os pobres.” “Algumas horas depois, passando pelo açougue da vila, lá encontrei a mãe de Crispim. A mulher estava visivelmente preocupada e resolvi abordá-la.”

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“Em curta conversa, ela me relatou que o filho ainda não havia voltado do rio e que estava preocupada com sua refeição do meio dia, já que nada tinha em casa para dar-lhe no almoço, a não ser o feijão. Teria, então, ido à feira na tentativa de conseguir algum tipo de carne, mas seu dinheiro fora insuficiente.” “Ofereci-me para lhe emprestar algum capital, mas ela se recusou. ‘Não fica bem uma mulher viúva aceitar favores de estranhos.’ foi o que ela disse. Assim sendo, comprou um pedaço de osso, lá chamado de corredor, um pedaço da canela do boi e foise para casa, onde com aquele osso iria improvisar um pirão.” – Sempre gostei de pirão – comentei. – Mas não foi o suficiente para Crispim – respondeu meu interlocutor. “O pescador chegou em casa por volta do meio-dia e, para sua desesperança, não havia conseguido pescar nem uma piaba. Crispim retornou do rio cheio de ódio e com os nervos à flor da pele. Quem o viu passar pela rua dele tomou distância, pois suas feições traduziam a mais pura ira.” “Ao chegar em casa, entrou direto para a cozinha, em busca de alimento. Eu que me encontrava sentado à sombra de uma árvore, vi pela janela da cozinha o momento em que se sentou à mesa e gritou para a velha senhora: ‘Estou com fome. Traga o almoço’.” “Sua mãe, mesmo já sabendo a resposta, indagou se trouxera algum peixe e a resposta que recebeu do filho foi: ‘Está vendo algum peixe aqui?’. A mãe não respondeu e foi até o fogão, onde esquentou o feijão e serviu um prato com o corredor de boi, o feijão e um pouco de pirão.” “Crispim não ficou feliz com o que viu sobre a mesa. Esperava algo mais substancioso e aquele osso estava limpo de carnes. De onde estava pude ouvir quando gritou: ‘Mas que porcaria é esta? Por acaso eu sou algum cachorro pra ficar roendo osso?’. Sua mãe ainda tentou com toda a paciência explicar a situação ao filho: ‘Não 106


temos dinheiro, Crispim... tudo o que eu pude comprar com o que tinha em casa foi este corredor. Se você tivesse conseguido algum peixe, daria para melhorar a refeição...’. Não era o que o rapaz queria ouvir. Ante aquelas palavras, ele achou que a mãe o culpava pela falta do alimento.” “Não lembro detalhadamente de tudo que houve. Pelo menos não me lembro de toda a discussão, mas lembro que em determinado momento Crispim investiu contra a mãe, munido do corredor de boi e passou a agredi-la com o pedaço de osso.” “A fúria do rapaz era tanta que quase desisti de interferir, mas não podia deixar a velha senhora indefesa. Acorri à casa, com a máxima presteza que me foi possível, mas quando cheguei à porta dos fundos a mulher já de lá saía, com a fronte a jorrar sangue e o caminhar vacilante.” – Que horror! – exclamei. – O pior veio depois, meu jovem – redarguiu ele. – Logo atrás da mãe vinha Crispim. O brilho do ódio em seus olhos demonstrava que ele iria continuar com as agressões. Não vi outra opção senão me interpor entre eles. “‘Crispim – disse eu – tenha consciência, homem, ela é sua mãe’. Mas, a ira nos seus olhos demonstrava que ele estava fora de controle. Preparei-me, pois, para enfrentá-lo com todas as forças que tinha, mesmo que o desfecho fosse fatal. E digo, seria fatal para ele, já que ele não conseguiria me matar, mas antes que eu tivesse que fazer qualquer coisa, a mulher me segurou pela mão e dirigiu ao filho as seguintes palavras: ‘És um monstro, Crispim... Mataste a mãe que sempre te alimentou’.” “O homem não se intimidou com aquilo e respondeu em um tom de raiva que jamais vi igual: ‘Não se alimenta um homem com ossos. Não sou um cão para me contentar com isto’.” “Era pleno meio-dia, hora das maldições, e não poderia ser pior momento.” 107


– Meio-dia? Mestre, a hora dos fantasmas não é à meia noite? – perguntei. – Rapaz, você nunca leu as escrituras? – argumentou ele e citou a bíblia: “Não te assustarás do terror noturno, nem da seta que voa de dia, nem da peste que se propaga nas trevas, nem da mortandade que assola ao meio-dia”.8 – É ao meio-dia que circulam os anjos mais fortes. É ao meiodia que as forças concedem poder às maldições. “E foi ao meio-dia que a mãe de Crispim, em seus últimos momentos, lançou seu vaticínio. ‘Filho maldito, de fome que não se acaba, terás como castigo a fome eterna que não se sacia e viverás no fundo do rio, como os peixes à busca de alimento’.” “Enquanto caía ao solo, a mulher continuava a sua praga: ‘Não morrerás, viverás para sempre com teu tormento, até que devores sete mulheres virgens com o nome da mãe de nosso salvador, para que finalmente possas voltar a ser homem e descansar. Nunca retornarás à terra até que tenhas devorado sete Marias virgens’.” “Nada mais pude fazer. A mulher perdeu as forças e, virando os olhos nas órbitas, tombou morta na terra batida, diante de mim e de seu amaldiçoado filho.” “No mesmo instante em que a mãe morreu, Crispim emitiu um grito lancinante, levando as mãos à cabeça. A princípio, me pareceu que ele estava apertando as têmporas, depois percebi que era seu crânio que estava aumentando.” “Em alguns segundos, seus olhos se estenderam e incharam, como olhos de peixe; suas orelhas se alongaram na forma de barbatanas e sua cabeça se tornou enorme e arredondada. Gritando, 8 Salmos 91:5,6

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a hedionda criatura cujo corpo minguara, tornando-se esquelético, disparou em direção ao rio e se atirou nas águas.” “Ao último suspiro de sua mãe o corpo de Crispim desapareceu nas águas do rio Poti.” “Ainda fiquei por aquelas paragens por alguns meses, e nos meses seguintes houve um grande murmúrio de que várias donzelas de nome Maria haviam sido atacadas nas águas dos rios Poti e Parnaíba. De uma delas até hoje não se tem notícia.” – O senhor acha que foi o tal do Crispim que a devorou? – perguntei. – Se foi, não sei – disse ele. – Mas, até hoje, as moças com o nome de Maria evitam banhar-se nos rios até que não sejam mais virgens. “Daquele dia em diante, apenas recentemente revi Crispim. E tenho certeza de que era ele. Assim é a sina dos que não descansam.” – Mestre, é difícil acreditar que alguém possa atravessar eras sem morrer. Eu sei que existem lendas, mas não acredito nelas. – Lembre, meu jovem: as lendas baseiam-se em fatos. Nada é totalmente verdade que não possa ser contestado e nada é totalmente mentira que não possa ser considerado. – Diz-me o senhor que mentiras e verdades se misturam? – E não é assim? Numa das épocas mais negras da humanidade, Joseph Goebbels, ministro das comunicações de Hittler, disse: Uma mentira mil vezes repetida torna-se uma verdade. – Não concordo, mestre... – contestei. – Rapaz, o que você sabe da política maranhense? – Quase nada – respondi. 109


– Então tenho que lhe contar de dois homens que mandaram naquelas terras. Um, foi o representante da ditadura de Getúlio Vargas e o outro da ditadura militar, mas de uma forma ou de outra, os dois têm seus aliados e contestadores na terra que tem como sinônimo do nome mentira engenhosa. – Como é que é? – A palavra maranhão, no dicionário, pode ser também definida como mentira engenhosa. – Curioso. – Mais curiosa é a história da briga entre um pernambucano e um maranhense na política daquele Estado. – Conte-me então, mestre. De que se trata? – Agora lhe contarei sobre a briga de Vitorino Freire e José Sarney.

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Capítulo VII

Maranhão – Pernambuco


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Emaranhado

– Não vou me aprofundar neste assunto – disse o velho violeiro. – Não pretendo falar muito de um, que já está morto, nem do outro, que agora é a autoridade máxima do país9. “Acredito que você saiba que o poder político está quase sempre, e desde muito tempo, associado ao poderio econômico. Não adianta dizermos que vivemos em democracia, as sociedades jamais foram comunidades de iguais e jamais permitiram que o poder político fosse compartilhado com os não proprietários (CHAUÍ, 2000).” “Aqui e ali, surgem líderes que se fazem apenas pelo carisma, um dom natural, mas tais pessoas são duramente combatidas pelos detentores do poder econômico. Alguns desses líderes conseguem romper as formas tradicionais e mudar a história... Em geral, entra em cena outro poder: o poder da fé.” − Mas muitas vezes a religião está do lado do Estado – discordei. − Estou falando de Fé, meu jovem − arguiu ele, pacientemente – não de religião. A fé é um dom espiritual; a religião, uma invenção do homem. 9 Nota do autor: José Sarney foi presidente do Brasil de 15 de março de 1985 a 15 de março de 1990, e nossa história passa-se no ano de 1989.

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“De certa forma, a religião também é uma forma de manutenção de poder. Não foi uma religião o que o Nazareno veio pregar, mas a fé. É pena que muitos, incluindo a mim, não entenderam. Uns demoraram muito; outros, até hoje, continuam sem entender.” “Mas, voltemos ao nosso assunto: o poder político sempre foi um objetivo perseguido por muitos. No Brasil, e principalmente no Nordeste, uma patente militar foi, durante muito tempo, uma das principais portas para o poder.” “O militarismo esteve presente na vida de nossos dois personagens. Começando por Vitorino Freire ou Victorino de Britto Freire, como se escrevia naquele tempo.” “Vitorino fazia parte do movimento tenentista, do qual já falei. Na verdade ele próprio era tenente e apoiou o golpe de 1930, que pôs fim ao período da história do Brasil conhecido como República Velha, que levou Getúlio Vargas ao poder.” “Neste mesmo ano, o partido Nacional-Socialista obteve uma enorme votação na Alemanha e se tornou o segundo maior partido do país. Alguns anos depois vimos o que aconteceu: o nazismo ganhou força, veio a Segunda Guerra Mundial, a perseguição aos judeus, o holocausto.” − Uma época que esperamos que não se repita – comentei. – O governo de Getúlio era simpatizante dos nazistas. − Não só isso: o nome “Estado Novo” se baseou na ditadura fascista de Salazar, em Portugal. “Como todos os fatos que vimos até agora, Vargas esteve dos dois lados do maniqueísmo: foi chamado de pai do povo e de ditador. Na verdade, fez coisas excelentes pelo Brasil, mas também protagonizou um período de grande desrespeito aos direitos populares.” “Assim também foi com seu protegido Vitorino. Esteve para alguns como benfeitor e para outros como algoz. Chegou ao 114


Maranhão em 1933, como secretário de Antônio Martins de Almeida, interventor federal de quem era amigo; não teve muito sucesso nesta primeira investida e, a convite de Getúlio, viajou ao Rio de Janeiro para trabalhar na Câmara Federal e exercer o cargo de Ministro da Viação e Obras Públicas.” “Vitorino aproveitou, então, para preparar seu caminho para o poder no Maranhão, destinando verbas e nomeando amigos para cargos importantes no Estado. Quando, anos depois, retornou, já gozava de grande influência, que se fixou quando Gaspar Dutra sucedeu Vargas.” “Foi quando Dutra era candidato a presidente que Vitorino proferiu a famosa frase: ‘Vou ao Maranhão apertar as cangalhas’.” − Mas, isso é uma falta de respeito com a população! – indignei-me. − Assim agiam os coronéis, meu rapaz – respondeu ele com toda a calma. – Homens do poder tendem a olhar a população como se estivessem em um patamar mais alto, sendo apoiado ou não pelo povo. “Aqui mesmo, na Bahia, vemos isso: ACM, que hoje encontrase internado entre a vida e a morte, comanda este Estado há anos com mãos de ferro10. Uma parte da Bahia o ama, outra o odeia.” – Ele também tem muitas histórias para contar. – comentei. – Tem mesmo. – concordou ele – Não se pode negar que o homem tem coragem. Você sabia que um pouco antes do golpe militar de 1964, quando ainda era deputado federal, ACM saiu em defesa de seu amigo e conterrâneo Clemente Marianni, também deputado e presidente do Banco do Brasil, acusado de corrupção por Tenório Cavalcanti, e disse aos brados: “Vossa excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que vossa excelência é mesmo é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão”. 10 Nota do Autor: Antonio Carlos Magalhães sofreu um grave infarto em 1989, que deixou sequelas permanentes, causando a cardiopatia que o acompanhou até sua morte, em 20 de julho de 2007.

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– O clima deve ter esquentado – comentei. – E esquentou mesmo: Tenório sacou um revolver em meio ao plenário e gritou, apontando a arma para ACM: “Vai morrer agora mesmo!” Foi um alvoroço... Alguns corriam para sair da linha de tiro, outros corriam para tentar impedir a morte do deputado, uma confusão. – Ele não atirou, é claro... – constatei – afinal, o homem continua aí. – Verdade. Dizem que ACM tremia, mas, segurando o microfone, desafiou o desafeto: “Atira!”... Tenório não atirou. Depois, em 1964, ACM interveio para que a ditadura militar lhe apreendesse as armas e lhe cassasse os direitos políticos. – O coronel contra o pistoleiro11 – brinquei. – Bem, mas falando de Vitorino: ele também foi vítima de atentados. Em um deles, quando foi agredido por três homens, ficou gravemente ferido, sendo que dois dos agressores acabaram morrendo. – Fazia jus à fama de que pernambucano é destemido – arrematei. – Pois bem, então chegamos ao ponto interessante: vencer um homem assim seria uma demonstração de força. É isso que alegam os partidários de Sarney, embora seja uma vitória fabricada. “A bem da verdade, até o nome dele é fabricado. Seu nome de batismo era José Ribamar Ferreira de Araújo Costa. Por conta da política, como todos o conheciam como José do Sarney, por causa de seu pai, Sarney de Araújo Costa, mudou de nome em 1965, passando a se chamar José Sarney de Araújo Costa.” “Outro fato importante na vida política e na história de sua briga com Vitorino é o fato de que ele iniciou sua vida política sob a 11 Nota do Autor: Tenório Cavalcanti era conhecido por seus opositores como Deputado Pistoleiro e sua vida inspirou o filme O homem da Capa Preta, estrelado por José Wilker.

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proteção de seu pai, que era amigo de Vitorino Freire e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral. Sarney, portanto, tem suas raízes políticas no vitorinismo…” – Esses políticos são assim, uma hora brigam e na outra, fazem as pazes. – argumentei. – Concordo, mas no caso de Sarney e Vitorino, não se pode dizer que houve uma briga. Os dois nunca se enfrentaram de verdade. O que aconteceu foi que o regime antigo e desgastado de governar de um foi substituído pela proposta do outro, que se dizia modernizador. “Quando Sarney se elegeu governador do Maranhão pela primeira vez, em 1965, todos os três candidatos tinham sua raiz no Partido Social Democrático, embora estivessem então em outros partidos.” “Nesse mesmo ano, juntaram-se mais uma vez: quando a ditadura militar acabou com todos os partidos políticos, instituindo apenas dois lados, ambos ficaram do lado do governo. Tanto Sarney quanto Vitorino optaram por filiar-se à Aliança Renovadora Nacional... partido apoiado pela ditadura e que a apoiava. Todos os que se lembram o conhecem como ARENA.” “Na verdade, Vitorino favoreceu Sarney em diversas oportunidades. Aos dezenove anos, Sarney era funcionário do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão; depois, passou para a Biblioteca Pública, por intervenção de Sebastião Archer... Vê-se aí o dedo de Vitorino.” “Como eu disse, um já está morto e o outro é muito importante para que eu enfrente, por isso não desejo me alongar neste assunto.” – Mestre Avelino, antes que termine, me tire uma dúvida – pedi. – O senhor disse que Sarney foi oriundo do PSD, mas se elegeu governador do Maranhão pela oposição. Não teria sua vida política começado aí? 117


– Não, meu jovem. E mesmo essa eleição tem o dedo de Vitorino. Deixe-me ser mais claro: o primeiro cargo eletivo de Sarney foi galgado ainda no PSD, em 1954, quando conseguiu a vaga de quarto suplente para deputado estadual. Desse ano até 1958, quando finalmente rompeu com Vitorino, Ocupou várias vezes e por curtos períodos a vaga de deputado estadual pelo PSD. “Em 1965, quando se elegeu governador, o fez pela União Democrática Nacional, com o apoio dos militares que, em plena ditadura, até fizeram acordos com a oposição para que ele fosse eleito. Por outro lado, Vitorino, enfraquecido e sem candidato próprio, apoiou Renato Archer, mais para prejudicar Costa Rodrigues, que era apoiado pelo então governador, Newton Belo. Chegou mesmo a dizer que preferia Sarney a qualquer um dos outros dois12” (FREIRE, 1978). “Assim, homens apoiados por duas ditaduras diferentes governaram o Maranhão. Vitorino, pernambucano, apoiado por Vargas, permaneceu no comando do Estado, direta ou indiretamente, até 1965, quando foi substituído por Sarney, apoiado pela ditadura militar, e que permanece até hoje, também direta ou indiretamente controlando aquela terra.” “Assisti, há algum tempo, um curto documentário sobre o cangaço e a morte de Lampião e outros cangaceiros... Ao final da película aparece uma justificativa que ficou em minha memória e, em se tratando de política, pode muito bem ser recitada. Dizem os versos:” “Eu desejava senhores Fazer uma estória exata, mas como devem saber, nem tudo não se relata. E se eu souber esquecer muita vida vou viver...13“ 12 Obra rara e de difícil aquisição. 13 Memórias do Cangaço, filme de Paulo Gil Soares, lançado em 1965, no Festival Internacional do Filme, Rio de Janeiro, quando foi ganhador do prêmio Gaivota de Ouro e vários outros no mesmo ano e no seguinte.

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– Não seria muito exagero achar que por interesses próprios pessoas de visibilidade e poder possam ir longe demais? – Meu rapaz, por conta de interesses pessoais, muitos homens públicos passaram dos limites, e isso, desde o princípio dos tempos. “Os interesses sempre estão na ordem do dia: interesses políticos forjam alianças entre inimigos e fazem poderosos mudarem de lado; interesses religiosos criam dogmas que mobilizam multidões e interesses econômicos dizimam populações. Sei porque participei de uma batalha que pôs fim a uma comunidade produtiva e autossuficiente que contava com noventa e quatro anos de existência.” “Nessa batalha morreu um grande guerreiro e eu tombei ferido e fui abandonado pelos inimigos que me julgaram morto. Mal sabiam eles que não morro assim tão fácil.” – Do que o senhor está falando? – perguntei. – Estou falando da Angola Janga, comunidade fundada, segundo alguns, por uma princesa africana guerreira chamada Aqualtune, mas que ficou esquecida com o tempo. Hoje lembra-se mais de seu filho – ou neto, não se sabe – e do sucessor deste, que se transformou em herói do povo negro. – Angola Janga? Mas, o que vem a ser isso? – perguntei intrigado. – Quer dizer Pequena Angola... é o nome do refúgio que chegou a abrigar a quantia estimada de mais de vinte mil almas. Que teve em seus dias finais um governante que deixou seu nome na história e ao lado do qual eu lutei até cair ferido e vê-lo tombar morto. Falo do lugar que pertenceu a Pernambuco e hoje faz parte do Estado de Alagoas, o Quilombo dos Palmares, onde viveram e lutaram Aqualtune, Ganga Zumba, Dandara e o famoso Zumbi dos Palmares.

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Estranhei o velho se colocar em acontecimentos ocorridos no século XVII, como já havia feito em ocasiões anteriores para vários lapsos da história. Decidi, no entanto, deixá-lo continuar sua narrativa para, ao final, questioná-lo. Afinal, tratava-se de uma forma animada de contar histórias, da compulsão em mentir ou de fantasias sem nexo da cabeça de um velho? Eu iria em breve descobrir, mas agora queria ouvir sobre a Guerra dos Palmares e saber como era o homem por trás do mito.

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Capítulo VIII

Pernambuco – Alagoas


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Nzumbe

Quando eu era estudante, aprendi nas aulas de história que o Quilombo dos Palmares era o lugar para onde os negros fugidos se retiravam e de onde resistiam às investidas dos brancos para leválos de volta à escravidão. A abordagem era simplista e fazia parte de uma política pouco informativa do ensino durante os anos do regime militar. Homens como Zumbi, Antônio Conselheiro e outros insurgentes eram retratados como maníacos ou pessoas à margem da sociedade, tudo em nome da ordem estabelecida que levaria ao progresso. Aos poucos, fui ganhando senso crítico e notando que a história é escrita pelos vencedores, mas às vezes, a verdade vem à tona. Sabia, agora, que Zumbi lutou pelo que tinham tirado dele e de tantos outros trazidos da África: Liberdade; que Antônio Conselheiro queria apenas pregar a sua fé e acolher os desafortunados e que, em geral, histórias de ufanismo, a exemplo do episódio da Guerra do Paraguai, escondem atrocidades e desvalores cometidos por nossos personagens históricos, dignos de vergonha para a nação. Sabia que muito deixou de ser contado em nossa história, mas daí a aceitar que o homem que estava em minha frente lutou ao lado de Zumbi e seus companheiros na Guerra de Palmares nem poderia ser cogitado como verdade. 123


No entanto, deixei que falasse e contasse sua história. Tentaria fazer intervenções pontuais, para desmascará-lo e fazer com que se explicasse. – Olhe, meu rapaz, todos sabem que Zumbi sucedeu Ganga Zumba no comando de Angola Janga, a pequena angola, porque de certa forma o local se tornou uma nação dentro da Nação – começou ele, explicando. – Não vou falar de tudo, contar a história do lugar... isso se aprende na escola. – Já começou com ambiguidades para tentar me confundir... – pensei. – O que eu vou lhe relatar são os últimos dias do homem que se tornou referência na luta contra a desigualdade14. O nome Zumbi que vem do idioma africano Kimbundo, e quer dizer fantasma, espectro… Diziam que na batalha Zumbi se movia como um espírito, sem ser notado, e que era imortal. “Ele era de etnia Bantu e sua gente veio do Congo, nação de guerreiros. Erroneamente todos o mostram como filho de Ogum, mas essa é uma divindade Yoruba... Até o nome de Zumbi vem de outro panteão onde o pai de todos os deuses é Nzambi ou Nzambi Mpungo15, muito conhecido no Brasil por sua representação no Maracatu, o nome pelo qual também é chamado pelo povo Bantu: Kalunga, e não Olorun.” “Para aqueles que conviveram com Zumbi, ele nasceu sob a proteção e tomou o leite de Ndanda Lunda16, e carregava dentro de si a força de Nzazi17. E eu vi esta força no campo de batalha.” – O senhor é adepto do Candomblé? – perguntei. – Não. – disse ele, e completou: – Ani maamin beelohim echad18. 14 Nota do Autor: os fatos relatados neste capítulo são totalmente romanceados, exceto as referências históricas e geográficas. 15 Pronuncia-se: Zambi e Zambiapongo. 16 Dandalunga: senhora da fertilidade e da lua. 17 Zaze, Luango: na cultura Bantu o raio sagrado que leva a justiça aos homens. 18 Nota do Autor: a forma escrita é: ‫ עושיב ןימאמ ינא‬e significa: “Eu acredito em um Deus único”.

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– Não entendi, nada... que língua é essa? – É hebraico, meu rapaz... – respondeu com um sorriso leve – Eu sou judeu, mas aprendi a conviver e respeitar outras formas de fé. Principalmente as mais antigas. Acredito que já disse antes, que muitas religiões incorporam práticas de outras... No fim, a religião suplanta a fé, mas os fins são os mesmos. Todos que procuram uma religião querem “ser salvos”, mas o principal instrumento para isso, está em nós. Fui obrigado a concordar com ele: – Já falamos sobre isso antes... Praticam-se horrores em nome da fé. – Ou, por falta de fé, deixa-se de fazer o certo – o rosto do velho pareceu se carregar de extrema tristeza e eu não quis questioná-lo a respeito. Em alguns segundos, tudo passou e ele disse, quase alegremente. – Aguardo o dia em que poderei dizer: Baruch haba b’shem Adonai19. Diante de minha cara de total ignorância, ele traduziu: – Bendito aquele que vem em nome do Senhor. – Ah! Na Igreja Católica também se diz isso. – Voltemos ao assunto: Eu me lembrava de meus dias em Angola Janga, o Quilombo dos Palmares. “Houve um período de minha vida em que me cansei de andanças e resolvi fixar raízes. O lugar que escolhi foi o Quilombo. Lá as pessoas eram como eu: deslocados de sua pátria, caminhantes 19 Forma Escrita: ‫( םיהולא לש ומש לע אובי יכ אוה ירשא‬tradução no corpo do texto). Nota do Autor: Uma pequena curiosidade: os texto aqui apresentados em hebraico, na sua forma escrita, leem-se da direita para a esquerda.

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sem destino, às vezes. Assim, vivi entre eles por doze anos, e nesse período vi muitos ataques promovidos pelo Governador Geral de Pernambuco. Poucos tiveram algum sucesso em provocar danos às nossas tropas.” “O quilombo era um lugar fabuloso... sem contar as pequenas povoações, somente o mocambo de Macaco tinha mais de mil e quinhentas habitações.” – Não entendi esse negócio de mocambo – atalhei. – O Quilombo dos Palmares era dividido em várias povoações. Essas povoações tinham o nome de mocambos. Tinham esse nome por causa das casas, feitas de taipa e cobertas com palha ou sapê. As duas principais povoações eram Macaco e Subupira. O mocambo de Macaco era o centro político do quilombo, e Subupira era o centro militar. Como eu disse, era uma nação dentro da Nação.” “O Ganga Zumba estava morto. Seu irmão Ganga Zona e outros quilombolas haviam aceitado a proposta do governador e se retirado para um local onde não era possível plantar nem criar animais. Terras inférteis em uma região conhecida como Cocaú. O próprio Ganga Zumba assinara o tratado de paz. Zumbi foi contra e permaneceu em Palmares.” “Algum tempo depois, o Ganga Zumba apareceu morto, envenenado. Nunca soubemos como foi que aconteceu, mas alguns colocaram a culpa em Ganga Zona e outros disseram que foi Zumbi, ou alguém a mando dele.” A essa altura, eu já pretendia começar a confrontar o velho em sua narração. – Foi perto do final do quilombo, não é mesmo? – Bem, pode-se dizer que sim, se levarmos em consideração os quase cem anos de existência da Angola Janga, mas Zumbi

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reinou em Palmares por quinze anos. O acordo de paz foi assinado em 1678, mas o guerreiro Bantu só foi morto em 1695. – Até essa data, então, todos viveram em igualdade no Quilombo – incitei. – Novamente você está errado, meu rapaz. Não havia, naqueles tempos, a ideia de igualdade. Se voltarmos à Grécia antiga, veremos que os grandes filósofos achavam natural a escravidão; se você pensar bem na vida das tribos africanas daquele tempo, verá que eles também tinham escravos. Não foi diferente aqui... Zumbi era um rei e tinha escravos, e para ele isso era natural. O vencedor faz as regras. “Os ideais de igualdade entre os homens somente viriam à baila no século seguinte, com os iluministas. A influência desse movimento fez o homem começar a questionar valores estabelecidos à luz da razão.” “Curiosamente, a iniciativa partiu das elites pensantes. Não foi o esforço ou a revolta dos escravos que fez com que o modelo fosse repensado, foram os interesses intelectuais de um conjunto de homens da ciência que modificaram a forma de pensar. Independentemente da existência de escravos nos quilombos, o negro preferia estar lá, a estar sob o chicote do branco.” “A ruína da Angola Janga começou no ano de 1687. Vínhamos enfrentando as tropas de Fernão Carrilho desde 83, e apesar das baixas, sempre obtínhamos vitórias, mas em 87 foi feito o primeiro contato com a fera chamada Domingos Jorge Velho. A ele os livros de história se referem como um importante bandeirante, pois eu digo que era um assassino de mulheres e crianças.” – Os bandeirantes eram exploradores que desbravaram o sertão brasileiro. Ao menos, assim aprendemos – contestei. – Adentraram para o Oeste, é verdade... Mas, nesse chamado desbravamento dizimaram populações indígenas, roubaram

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riquezas naturais em proveito próprio, atacaram e saquearam até mesmo colonos portugueses. “A besta a que me refiro foi pessoalmente responsável por ataques de grande devastação aos índios Pimenteiras no Piauí; Cariris, Icós e Sucurus no Ceará e Calabaças, e Coremas na Paraíba.” “Enfim, as negociações duraram quatro anos. O acordo foi firmado em 1691 e foram necessários mais dois anos para a ratificação. Em 93, as tropas antipalmares marcharam sobre nós.” “O quilombo resistiu bravamente ao primeiro ataque.” “Em uma segunda investida, os inimigos juntaram nove mil homens, mesmo com uma seca inclemente assolando a região. O que eles queriam era destruir o refúgio dos escravos. Aquela povoação desafiava a autoridade constituída, mas não era só isso: os escravos fugidos que ali viviam constituíam uma fonte de riqueza.” “No fim daquele ano, o Exército se encontrava acampado fora das nossas fortificações.” – Estudei que o quilombo era uma verdadeira fortaleza. – Sim... Se era! Além do terreno de difícil acesso e da mata fechada, havia um fator que dificultava demasiadamente o ataque: as paliçadas. Três grandes cercas feitas com paus pontiagudos entrelaçados e preenchidos com barro. Por trás dessa defesa, que media três metros de altura e cinco quilômetros de extensão, os negros resistiam a qualquer ataque sem muita dificuldade. “Além disso, havia os buracos com espetos afiados no fundo e as torres de vigia, de onde se avistava o inimigo a distância.” “Depois de brava resistência, nos retiramos para dormir, esperando que no dia seguinte os atacantes houvessem desistido... Como estávamos enganados! O sentinela se distraiu e, cansado do 128


dia de batalha, também dormiu.” – Palmares foi então invadido! – afirmei, mais como uma pergunta. – Não, mas os inimigos usaram este descuido para lançar mão do estratagema que iria garantir a vitória. “Aproveitando-se da brecha oferecida pelo sentinela, Domingos e seus homens construíram uma paliçada de seiscentos metros, oblíqua à nossa, de forma que pudessem se aproximar sem serem vistos. Construíram tudo numa única noite!” “Ao acordarmos pela manhã do dia cinco de fevereiro de 1694, lá estava a obra. E por trás dela, as tropas do devastador de tribos se movimentavam. Traziam consigo uma novidade até então nunca utilizada em batalhas campais no Brasil: canhões. Não eram canhões muito grandes, mas eram o suficiente para fazer a diferença.” “Na pressa não foi possível ao inimigo fazer uma paliçada sem falhas e, notando uma fresta que possibilitava o ataque, Zumbi investiu contra o inimigo na madrugada do dia seis de fevereiro, à frente de quinhentos homens.” “Foi um massacre! Nem chegamos a entrar em combate corpoa-corpo... Antes de o dia raiar totalmente, muitos negros haviam morrido pelas balas do inimigo ou caído do penhasco onde se localizava a brecha da cerca adversária.” Percebi, neste instante, que havia desistido de contestar o que o velho dizia, muito mais interessado no desenrolar da história. E ele continuou: – Em debandada, os sobreviventes tentaram resistir dentro de nossas próprias muralhas, mas era tarde. Os canhões disparando sobre nós e o exército do bandeirante assassino, agora com o moral em alta, investindo contra nós já desenhavam um claro quadro do que iria acontecer.

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“Procurei por Zumbi junto aos outros líderes e tentei convencêlo a se render falando-lhe:” “��� Amigo, vamos nos render e tentar poupar a vida de nossos aliados.” “Altivo, mesmo na derrota, Zumbi olhou-me no fundo dos olhos e respondeu em voz firme:” “– Prefiro morrer lutando do que viver como escravo.” “Diante daquelas palavras, lembrei-me do meu povo. A nação de Israel foi escrava de vários senhores. O povo judeu esteve sob o jugo de assírios, babilônios, persas, gregos e, finalmente, romanos. Estes últimos, em particular, sei muito bem o que fizeram contra minha gente.” “Concordei com ele e resistimos ainda por um tempo. Não sei quantos homens acertei com meu mosquete, mas procurava atirar antes que chegasse muito perto, com a perícia que me foi dada pelo tempo de treino.” “De repente, veio o incidente que nos tirou do combate: uma bala atingiu a perna de Zumbi e ele não podia mais combater. Só havia uma coisa a ser feita, e era fugir para, de outro lugar, dar combate ao inimigo quando o rei de Palmares estivesse melhor.” “Usei então um pouco de meu conhecimento para convencê-lo:”

“– Poderoso Nzumbe, um grande general já disse que, diante de um inimigo muito forte, o melhor é fugir para poder viver e lutar outro dia. De nada vale sua morte agora. Procuremos abrigo.” “Zumbi concordou comigo e, junto com vinte bravos guerreiros, abandonamos finalmente o quilombo, dando ordens para que os demais fizessem o mesmo.” “Infelizmente muitos não o fizeram.”

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“Centenas de mortos... Mais de quinhentos negros aprisionados e escravizados novamente... Este foi o saldo da investida de Domingos Jorge Velho contra Palmares.” – Mas, o que aconteceu com Zumbi? – indaguei. – Nosso grupo sobreviveu. Durante todo o resto do ano e maior parte do ano seguinte encetamos ataques contra fazendas próximas, a fim de angariar armas e recursos para sobreviver e reiniciar a luta. Nossa resistência durou até novembro de 95. “Neste ano, entrou em cena o homem que conseguiu pôr fim à vida do líder negro: André Furtado Mendonça, homem que serviu ao Jorge Velho e deu combate a Palmares.” “Agora, André Furtado comandava cento e cinquenta homens, em busca de Zumbi. Era um homem que, como seu chefe de um ano antes, não trazia em si o charme que mostram nas pinturas sobre os bandeirantes: mulato, extremamente rude e brutal. Quase não falava português, comunicando-se quase sempre em tupiguarani (LEME, 1905).” “O intento desse outro perseguidor teve seu momento decisivo com a prisão de um de nossos companheiros, um dos líderes da resistência, Antonio Soares.” “O ano quase findava. Era dia 20 de novembro. Os homens haviam saído para caçar e estávamos escondidos, eu, Zumbi e mais cinco guerreiros.” “Sem que soubéssemos, André Furtado e seu grupo, guiados por Antonio Soares que, para preservar sua vida, havia concordado em nos entregar, estavam todos escondidos no meio do mato, com exceção do próprio Antonio, que se aproximava da gruta chamando por Zumbi.” “Saímos todos para ver o que ele queria, e Zumbi, sem suspeitar de nada, aproximou-se do homem. Não houve tempo para reação: Antonio Soares, num gesto rápido e traiçoeiro, apunhalou 131


Zumbi no estômago, ao mesmo tempo em que os mosquetes se fizeram ouvir.” “E recebi um balaço no peito e, ao tombar, pude ver que o mesmo acontecia a todos. Zumbi recebeu outros tantos tiros... Até parecia que todos queriam a honra de matar o rei dos escravos.” “Ferido e com a visão enevoada, vi André Furtado se aproximar de meu amigo e cortar-lhe fora a cabeça. Em seguida, entregou a um homem para que fosse conservada em sal para a viagem de volta.” “Eu sabia que todos os outros estavam mortos. Eu próprio também estaria, não fosse por minha especial condição. Creio que os homens de André Furtado acharam que não valia a pena me dar um tiro de misericórdia – o buraco em meu peito estava realmente feio.” “Tampouco tiveram a delicadeza de enterrar os mortos. Amontoaram-nos em um canto e enquanto jazia no meio dos outros corpos ouvi um soldado falar:” “– Esse aí morre ligeirinho... Deixa ele sofrer mais um pouco. Pena que não vai sofrer muito.” “Assim falando, se foram, e lá fiquei eu, em meio aos mortos.” “Foram necessários vários dias até que eu me recuperasse. Quando finalmente fiquei totalmente curado, abandonei aquelas paragens.” “Soube depois que a cabeça de Zumbi foi levada à capital e espetada na ponta de uma lança, para que todos vissem e temessem.” “O restante do quilombo não conseguiu se manter por muito tempo. Uma a uma, as povoações foram sendo destruídas, e por volta de 1710 nada mais restava da Angola Janga.”

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– Que história! – exclamei. – Mas uma coisa eu não entendi: como o senhor conseguiu sobreviver ao ferimento? Parece que foi coisa feia, e ainda mais no meio do mato... Como o senhor explica? O velho deu um leve sorriso e olhou com carinho para o pequeno animal negro que se aproximava. O que eu julgara antes ser um cão, era na verdade uma cadelinha vira-latas. – Digamos que não havia chegado a minha hora. Ainda tenho muito o que fazer antes de morrer. – Mestre, há de convir que é difícil acreditar que esteve presente a todos esses fatos... Pelas histórias que me contou, o senhor contaria hoje com mais de trezentos anos. O velho afagou a cabeça da cadelinha que havia se deitado ao seu lado e agora me olhava como se estivesse a me examinar. – Não lhe peço que acredite, mas vou contar uma última história, que pode servir para que você entenda. – disse ele por fim. – Assim sendo, quero ouvir – respondi e, curioso, emendei: – Essa cadelinha é sua? – Não... Ela não pertence a ninguém – respondeu com o mesmo sorriso enigmático. – É apenas uma companheira de viagem, poderá ir embora, se quiser e quando quiser. “Como eu, ela pertence ao mundo, e a história que eu vou contar agora tem a ver com isso: andar sem destino.” “É uma história que aconteceu em Alagoas, na cidade de Palmeira dos Índios, mas tem relação com fatos acontecidos no Ceará.” O velho começou a contar a história que iria mudar meu modo de ver o mundo.

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Capítulo IX

Alagoas – Ceará


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A Cachorra da Palmeira

O velho pigarreou, alisou mais uma vez a cabeça do animal ao seu lado e olhou para mim com um ar sério e concentrado. – Bem, meu rapaz... O que vou lhe contar agora é tido como uma lenda e tem muitas variantes por todo o Nordeste. De certa forma, minha própria história é parecida. As pessoas julgam que se trata de ficção, dado o estranhamento que esse relato possa provocar, mas você terá a oportunidade de verificar tais fatos por si mesmo no futuro. “Depois de nosso encontro você aprenderá a ver as coisas como realmente são, e não como se apresentam.” Não entendi o que ele queria dizer, mas aguardei pacientemente que fizesse seu relato. – Depois da morte de Jararaca, no ataque de 1927 a Mossoró, retornei ao Estado de Alagoas... Era a primeira vez que voltava por aquelas bandas depois do ocorrido em Palmares. “Dada a cortesia das pessoas daquele tempo, visto que os tempos não eram tão violentos como hoje, foi fácil arranjar pouso em um local muito agradável, um sítio muito bem cuidado e de pessoas de boa situação financeira e cultural.”

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“Não vou aqui relatar os nomes dos meus anfitriões, mas devo dizer que na cidade de Palmeira dos Índios não existia família mais bem conceituada. Tinham uma linda filha, com treze anos, que aqui chamarei de Mocinha, e ao seu pai, Coronel; a menina era educada, mas de gênio forte.” “Empreguei-me, depois, nesta mesma propriedade. Agradavame lidar com os animais, trabalhar a terra e conviver com a família. O Coronel me tratava muito bem, era justo nas incumbências e generoso no pagamento, de forma que fui ficando...” “Cheguei a Palmeira na virada de 1927 para 1928 e tive a chance de ver o grande escritor Graciliano Ramos se eleger prefeito da cidade, para depois de dois anos, renunciar ao mandato em 1930. Como relatei, nessa mesma época, ocorreu no Rio Grande do Norte o primeiro voto feminino, em Mossoró e a eleição da primeira mulher para um cargo público, em Lages. Três anos depois, Graciliano publicaria Caetés, onde iria relatar muitos fatos cotidianos de Palmeira dos Índios.” – Então o senhor chegou a conhecer Graciliano? – perguntei. – Que maravilha! Vidas Secas e Memórias do Cárcere são obras maravilhosas. – Grandes livros. Ele foi muito feliz no lançamento de Vidas Secas, dez anos após sua eleição para prefeito, mas não teve a chance de ver o lançamento de Memórias do Cárcere; na verdade, nem mesmo concluiu a obra, que ficou sem seu capítulo final. O livro foi publicado em 1953, pouco depois de sua morte, e relatava seu período na prisão, durante a ditadura de Vargas... Ao mesmo tempo em que Vitorino Freire despontava no Maranhão. – Incrível, como tudo na vida ocorre e nem percebemos – comentei. – Pois bem, mas continuemos. Mocinha era uma menina que tinha grandes dotes para os estudos e, não fosse por sua rispidez – e eu diria até soberba – poderia ter sido uma mulher de muita felicidade na vida. 138


– O que aconteceu com ela? – perguntei. – Morreu? – Longe disso. Convivi com Mocinha por sete anos e vi a transformação de uma bela criança em uma exuberante mulher. Digo mulher, porque naquele tempo, uma jovem de dezenove anos estava pronta para o casamento, senão antes. “Quando ainda no início de meus dias no sítio, presenciei a alegria de Mocinha em receber de presente de uma amiga da família, que morava em uma propriedade vizinha, uma bela cadelinha, ainda filhote. Foi amor à primeira vista. Mocinha cuidava do animal como se fosse filha e andavam juntas para todo lado.” – Crianças gostam de animais – comentei. A cadelinha deitada ao lado do violeiro soltou um profundo suspiro e eu cheguei a me assustar com a coincidência. Seus olhos estavam fechados e julguei que estivesse sonhando. O velho a acariciou mais uma vez e mais uma vez ela respirou fundo. – Os anos passaram – continuou ele. – Mocinha e a cachorrinha cresciam e ficavam cada vez mais amigas. A cachorrinha chegou, mesmo, a salvar sua vida, defendendo-a de uma cobra que estava escondida nas folhagens à beira do caminho e que Mocinha não percebeu. “Antes que a cadela matasse a cobra, sofreu uma picada e ficou um bom tempo doente. Mocinha não deixou que a sacrificassem e fez de tudo para que ela se recuperasse. Finalmente a fiel amiga se curou e todos ficaram felizes novamente.” – Ainda bem – falei, como se fosse uma pessoa chegada a mim e depois me dei conta que era bobagem... Aquilo acontecera antes de eu nascer e com pessoas que nunca conheci. – Se você se sente aliviado, imagine todos nós naquela época. 139


“As duas pareciam que eram partes de um mesmo ser. Assim, Mocinha foi crescendo e a cadelinha envelhecendo, até que chegamos ao ano de 34.” “No Ceará, o Padre Cícero Romão Batista, de quem o Capitão Virgulino Ferreira, Lampião, era devoto – juntamente com muitos outros nordestinos – havia caído doente, sendo o principal problema uma deficiência renal, e seu estado vinha-se agravando.” “Em Alagoas, as pessoas acompanhavam o desenrolar dos fatos e a situação do vigário, os mais ricos, pelo rádio; os demais, pelos jornais da época, e tentavam se manter informadas, mas as tecnologias da época não eram as mesmas de hoje e se demorava um pouco até que as notícias circulassem.” “Enquanto o povo ansiava por notícias do sacerdote, Mocinha teve o desprazer de encontrar sua cadelinha doente. Tudo foi feito para salvá-la, mas ela parecia ficar pior a cada momento. Parecia que haviam jogado veneno para que o animal padecesse.” – Quem seria capaz de tal maldade? – indignei-me. – Também pergunto, mas como eu disse, Mocinha era muito bonita e inteligente, mas também era vaidosa e prepotente... Muitas pessoas se sentiam ofendidas pelo seu modo autoritário. “Tentei fazer com que se preparasse, ou mesmo abrisse mão da esperança de salvar o animal, dizendo:” – “Mocinha... Não há forma de salvar esse animal. Ela está sofrendo, o melhor é sacrificá-la para que não sofra mais.” “Em resposta ela bradou com tal veemência e desespero, que cheguei a me assustar:” – “Nunca! Prefiro que o mundo se acabe, mas não matarei minha amiguinha.” “Passaram-se os dias e as horas e, finalmente, em 20 de julho 140


o animal morreu.” “Naquele mesmo dia, em Juazeiro do Norte, no Ceará, morria o Padre Cícero, Cícero Romão Batista ou, como dizem por lá, Padim Ciço.” – Uma grande coincidência – observei. – Uma coincidência que viria a condenar Mocinha. “Sua tristeza foi tanta que providenciou uma sentinela para a cadelinha, com direito a caixão, velas, incenso e carpideiras. Ao fim, enterrou o animal como se gente fosse.” – Mas há de se avaliar que ela gostava muito da cadelinha – argumentei. – Sim, mas mesmo o lindo sentimento do amor, era distorcido naquela menina, por sua riqueza e por não ter conhecido limites quando pequena. “De certa forma, tanto Mocinha quanto Cícero Romão Batista, tinham seu lado bom e seu lado cruel.” “O lado cruel de Padre Cícero se chamava Floro Bartolomeu da Costa, médico baiano, que chegou a Juazeiro do Norte em 1908. Anteriormente estivera na Bahia, em um lugar chamado Vila do Ventura, próximo à cidade de Morro do Chapéu.” “Floro esteve na Vila do Ventura entre 1905 e 1908, quando se mudou para Juazeiro do Norte, mas seu propósito lá não era clinicar, e sim explorar minérios e riquezas, pois naquele tempo, o Ventura era um importante centro de mineração de diamantes e carbonatos. Chegava a ser mais importante do que a própria Morro do Chapéu. Contam os habitantes da cidade que as mulheres da Vila do Ventura compravam peças de tecido para confeccionar seus vestidos e pagavam aos mascates com diamantes brutos, o que enfim pode ser um exagero.”

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“Havia, porém, uma rivalidade entre as duas localidades... A vila ainda hoje pertence a Morro do Chapéu, mas tinha sua autonomia... as filarmônicas, da sede e da vila rivalizavam e os dois locais dispunham de teatros. Floro não viu o fim dessa disputa que acabou com a Vila do Ventura quase deserta, por conta da desvalorização dos carbonatos e da decadência do garimpo. Hoje resta pouca coisa, algumas ruínas e dez ou quinze casas. O Ventura, como chamam, virou cidade fantasma. Morro do Chapéu, por outro lado, desponta para o turismo de aventura, por suas belas cachoeiras e pela Gruta dos Brejões.” “Como relatei, em 1908 Floro mudou-se para Juazeiro do Norte e já estava ao lado de Cícero Romão Batista quando este se tornou o primeiro prefeito de Juazeiro, em 1911. Em seu apoio ao Padre Cícero, protagonizou um dos eventos mais significativos da história do Ceará, que ficou conhecido como a Sedição de Juazeiro.” – Ouvi alguma coisa sobre o fato, mas confesso que não me aprofundei no assunto – relatei. – Vou contar em linhas gerais para que possamos voltar à história de Mocinha – disse ele. “Em 1912 o Presidente Hermes da Fonseca nomeou como interventor do Ceará Marcos Franco Rabelo, com a missão de combater as oligarquias dominantes da política cearense. Parte desse combate seria cassar o poder do então prefeito de Juazeiro, nesta época já conhecido como Padim Ciço pelos devotos que o julgavam milagroso.” “O Padre Cícero delega então a Floro Bartolomeu a tarefa de cuidar do caso. Homem prático, de decisão pelas armas, Floro convoca um verdadeiro exército entre seus próprios jagunços, romeiros e populares de juazeiro, dizendo: ‘As tropas de Franco Rabelo estão vindo a Juazeiro arrancar a cabeça de nosso padrinho.’” “Quando os soldados chegaram a Juazeiro, encontraram uma enorme fortificação que foi construída em uma semana: o Círculo 142


da Mãe de Deus, que consistia em um valado de nove quilômetros, circulando a cidade e uma muralha de pedra na Colina do Horto.” “Após duas batalhas – numa delas, as tropas enviadas por Franco Rabelo tentaram usar um canhão, que não funcionou – os defensores de Padre Cícero sagraram-se vencedores e marcharam rumo à capital para depor o interventor.” “Na liderança das tropas juazeirenses Floro Bartolomeu consegue apoio do senador Pinheiro Machado, de forma que enquanto os homens investem sobre Fortaleza por terra, uma esquadra da marinha providencia um bloqueio por mar.” “Só restou a Franco Rabelo a rendição.” – Homem forte, esse Floro – constatei. – Era mesmo, mas morreu pobre e solteiro na cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal, em 1926, quatorze anos após esses fatos. Era então general honorário do Exército, o que significa que vivia da fama. “Voltando a 34, alguns dias depois da morte do Padre Cícero, a notícia chegou a Palmeira dos Índios, onde o padre, mesmo excomungado pela Igreja Católica, tinha também seus devotos.” “Mocinha, como é natural às moças de pouca idade, já estava refeita da perda da cadelinha... Ou melhor, compensava a perda do animal comprando presentes para si. Compras que os pais pagavam com todo o gosto, já que a filha não estava mais deprimida.” “Em uma dessas compras na cidade, acompanhei a garota, encarregado pelo pai de que dela cuidasse. Enquanto a menina escolhia suas peças de tecido favoritas, eu lia o jornal do dia em uma cadeira, próximo à porta de entrada.” “Em determinado momento, passou por mim uma senhora, de feições tristes, olheiras profundas causadas, com certeza, por um choro constante.” 143


“A mulher foi até o balcão onde se encontrava o dono da loja e a menina Mocinha e pude ouvir quando ela fez seu pedido e o dialogo que se sucedeu:” – “Por favor, o senhor tem aí uma fazenda preta? – perguntou a mulher ao dono da loja.” “Enquanto o homem ia à procura do tecido, Mocinha interpelou a pobre mulher:” – “Preto? Que coisa mais sem graça! Para mim, o preto só serve para guardar luto e sair em dia de chuva.” “E, com ares de uma curiosidade debochada, perguntou:” – “A senhora é viúva? Morreu alguém da família?” “A mulher, meio sem jeito, respondeu em tom baixo e acanhado:” – “Era como se fosse... Morreu o meu padrinho, e por ele guardarei o luto.” – “E quem era o seu padrinho?” – “O Padre Cícero do Juazeiro, um homem santo.” “A mulher respondeu chorando, mas a reação de Mocinha foi de tal forma que me arrepiou os cabelos da nuca. Numa gargalhada escandalosa, desdenhou do sofrimento da beata, e quando conseguiu falar, disparou entre pequenos risos:” – “Luto por ele é perda de dinheiro e de estilo. Já que a senhora quer botar luto, faça isso pela minha cachorrinha... Morreu no mesmo dia que ele e se enterrou à tardinha.” “A indignação interrompeu o choro da senhora que protestou veementemente:”

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– “Não diga uma coisa dessas, senhorita! O Padim Ciço era um bom homem, nunca lhe fez mal!” – “Pois lhe digo que vale mais usar luto por minha cadelinha.” – “Falar desse jeito pode lhe atrair uma maldição, um castigo...” “A mulher falara em tom severo, com o dedo em riste, apontado para o nariz de Mocinha. A princípio pensei que a menina fosse soltar todas as pragas do mundo em cima da mulher, mas o que aconteceu foi muito estranho: Mocinha abocanhou o dedo da mulher em uma rápida dentada.” “A mulher arregalou os olhos em espanto, olhando ao redor e balbuciando as palavras como se não soubesse o que dizer:” – “Ela... Ela me mordeu...” “Neste momento voltava o dono da loja e quis interpelar Mocinha sobre o que havia acontecido:” – “O que está havendo aqui? Dona Mocinha, isto são modos?” “Novamente esperei uma resposta sagaz, porém ofensiva, de Mocinha e, para meu espanto, de sua boca saíram latidos agudos e ferozes.” “De imediato, Mocinha lançou-se a correr pela loja provocando alvoroço e chamando a atenção dos transeuntes da rua. Muita gente se prontificou a ajudar a capturar a menina enlouquecida, houve até um homem que gritou:” – “Peguei-a pelo rabo!” “Mas, pessoas não têm rabo! O homem também percebeu isso e, apavorado soltou o que quer que estivesse segurando. Na

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correria, Mocinha enfiou-se embaixo de balcões de roupa e, no escuro embaixo dos móveis, podíamos escutá-la rosnando como um animal.” “Tomei a iniciativa e pedia a todos que se acalmassem e me deixassem falar com ela. Ela me ouviria.” “As pessoas se retiraram e eu ajoelhei-me a fim de olhar embaixo do móvel e falar com a menina:” “– Venha, Mocinha... Deixe de tanta presepada. Seus pais devem estar esperando e eu vou levá-la para casa.” “Mas o que saiu de lá de baixo não foi Mocinha... O que saiu foi uma cadelinha vira-latas preta e de olhos expressivos.” “Puxando com um gancho para tecidos o que estava embaixo do móvel, resgatei apenas as roupas que Mocinha usava antes e mais nada.” – O senhor quer dizer que essa cachorrinha ao seu lado é a Mocinha? – Sim, meu jovem. Eu a devolvi para os pais, mas depois ela fugiu e nos reencontramos pelos caminhos do Nordeste. Quando a vi naquele dia, eu soube, como sei hoje, que seu destino agora é errar pelo mundo, como um ser sem caminho, até que cumpra sua maldição, ou que alguém, de alguma maneira, a libere desse fardo. “Assim é para ela; para Crispim, o Cabeça de Cuia; para o Labatut e para mim...” – Continuo sem acreditar nessas histórias – reclamei. O velho levantou-se, arrumando suas coisas, e me olhou diretamente nos olhos. Seu olhar, mais do que em qualquer momento até agora, trazia a profundidade de muitas eras.

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– Você irá acreditar... Se não agora, mas em breve. E breve é uma questão relativa, eu lhe digo. Isso você também irá descobrir. – O que o senhor está querendo dizer? – interroguei na defensiva. – Você partilhou o alimento comigo... Comemos juntos pão, vinho e sal. Há uma tradição que tal partilha também dá a quem come parte da vida do outro. Logo você saberá o que eu digo. “Por ora, deixo-lhe aqui outro presente e um conselho: Não duvide das coisas do mundo. O poeta William Shakespeare deixou isso claro em sua obra Hamlet, quando disse que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.” Falando isso, o velho tirou de dentro de sua bolsa um lenço feito de tecido rústico no qual havia uma inscrição em hebraico: ‫ׁשֹורֵוְׁשַחֲא‬. Algum tempo depois eu viria a saber o significado daquela palavra. Ainda mais uma vez, olhou-me com generosidade e falou-me antes de se voltar e ir embora acompanhado da cadelinha preta: – Uma vez eu desacatei um grande homem e sofri a desventura de ser amaldiçoado. Hoje, erro sem destino e aprendi que não se deve usar as palavras para ferir ou o conhecimento para se prevalecer. Quando contou a história da Cachorra da Palmeira em seu cordel, o poeta Moisés Matias de Moura concluiu com os seguintes versos: “Peço pelo amor de Deus que me façam esse favor, de não me falar de padre seja lá que padre for não gosto de ouvir falar de ministro do Senhor (MOURA,1950)”

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“O que acredito que ele queria dizer é que não devemos falar mal das pessoas, a fim de não carregarmos conosco maldições.” Ditas essas palavras, o velho Avelino se foi. Nunca mais cruzei o seu caminho, mas suas histórias me trouxeram ensinamentos que depois pude confirmar. Suas lições não eram para aquele momento... O aprendizado viria mais tarde, o tempo é o senhor de todos os professores.

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Epílogo

A você, que chegou até aqui, caro amigo, tenho que relatar que foi muito difícil acreditar que aquele velho, que julguei chamarse Avelino – e não era – fosse capaz de estar falando a verdade. A começar pelo seu nome. Em nenhum momento ele me disse que o nome dele fosse Avelino, como eu acreditara que tinha dito. O que ele disse foi: “Se quiser saber meu nome, pode me chamar de Avelino, que é tão bom quanto qualquer nome”, e eu julguei que esse fosse seu verdadeiro nome. Não era. Seu verdadeiro nome estava inscrito em letras hebraicas, em um pano rústico que me presenteou quando foi embora: ‫ׁשֹורֵוְׁשַחֲא‬. Algum tempo depois, consegui que me traduzissem a inscrição e fui informado que poderia ser lido como Aasvero, Assuero ou, ainda, Ahasuerus. Em qualquer das três formas de leitura o nome é usado para se referir a um personagem que, até então, eu julgava ser apenas uma lenda: o Judeu Errante. Ahasuerus, meu amigo que eu chamava de Avelino, teria sido, então, contemporâneo de Jesus. Era o homem que, em uma das versões da lenda, havia negado ao Cristo um pouco de água para matar a sede enquanto carregava a cruz, dizendo: “Se és filho de Deus, faça brotar água do chão”, sofrendo por isso a maldição do Messias. 149


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Outra versão diz que Jesus tropeçou e caiu sob o peso da cruz em frente ao curtume onde Ahasuerus trabalhava como sapateiro e, debochando ele teria dito: “Caminhe!”, recebendo então como resposta: “Em verdade, tu caminharás até que eu volte a este mundo.”, e tanto esta versão quanto a anterior poderiam explicar o fato de que o homem vagava sem destino pelo mundo por séculos. Ficou mais fácil entender sua tristeza ao se referir ao fato de “não ter feito a coisa certa” ou quando dizia que “as pessoas não entenderam a mensagem de Jesus”. Condenado a vagar pelo mundo, por não haver se portado de maneira correta diante de uma situação tão importante, ele fora testemunha de todos os fatos que me relatou e aprendeu, com o tempo, que os fatos devem ser analisados à luz da verdade, e não ao sabor das emoções. Confirmadas minhas suspeitas, Ahasuerus não teria pouco mais de trezentos anos como lhe afirmei ser impossível, mas teria, quando nos conhecemos, quase dois mil anos. Seu comportamento, a forma de falar, o local onde o encontrei – a escadaria de uma igreja – tudo se encaixava de forma impressionante. Aos poucos, após conhecer o violeiro, passei a ver que existem pessoas que convivem conosco e aparentam ser iguais a nós, mas possuem algo mais. Algumas têm uma carga sombria, um lado triste ou maligno; outras, uma essência luminosa, uma bondade profunda. E não se trata de luta entre o bem e o mal ou dualidade entre certo e errado. Não é maniqueísmo, é uma questão de escolha. Aquele que escolhe seu caminho realmente acredita nele. Esse sentido, essa percepção, despertou aos poucos desde que conheci Ahasuerus... Algo dentro de mim mudou. Alguma coisa me tornou outra pessoa e, como ele me disse, recebi um presente que ainda não consigo avaliar se foi bom ou ruim. Conheci o homem a quem chamei de Avelino em 1989, e contava então em minha idade quarenta e sete anos. Passaram151


se, desde ent達o, vinte e dois anos e apenas agora percebi o que ele dizia quando falou em comer p達o, sal e vinho e, com isso partilhar a vida. Tenho hoje sessenta e nove anos, e o homem que vejo no espelho n達o envelheceu nem um dia, desde a data em que conheci Ahasuerus. Algo me diz que ainda terei muitas hist坦rias para contar.

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O Autor

Antonio Estevam de Almeida Júnior é um apreciador da arte de ler e lê de tudo: grandes mestres da literatura internacional e brasileira, jornais, revistas, quadrinhos, panfletos e até bula de remédio. Naturalmente, do hábito de ler, surgiu a vontade de também escrever e o primeiro resultado de porte considerável é a obra que você tem em mãos. Teve uma breve passagem pela literatura poética em 1986, por meio de uma obra publicada em conjunto com os amigos Fernando Luiz de Oliveira Borges Júnior e Magno Reis Gomes Cerqueira e teve poemas publicados pelas editoras Shogun e Crisalis em virtude da participação vencedora em concursos de poesia. Apesar da crítica positiva acerca do trabalho poético, disponível em http://www.jornaltribunadosertao.com.br/colunas/ dario-cotrim/135, sob o título: A genialidade dos baianos, optou por mudar o estilo. Em 2011, foi um dos vencedores da antologia de contos Panorama da Ficção Científica no Brasil, publicada pela editora Tarja e promovida pela FCdoB – Ficção Científica do Brasil (http://www.fcdob.com.br). Entre suas influências literárias estão autores de Ficção Científica, Realismo Fantástico e Terror como Isaac Asimov, Stephen King, H.P. Lovecraft, Arthur Charles Clark e outros. 153


REFERÊNCIAS ALVES, J. C. S., Dos barões ao extermínio: uma história da violência na baixada fluminense. Duque de Caxias: APPH, CLIO, 2003. AMADO, Gilberto, Presença na política. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960. CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1962. ______. Jerônimo Rosado: uma ação brasileira na província (1861-1930). 3. ed. Natal: Fundação Vingt-un Rosado, 1999. (Coleção Mossoroense. Série C). v. 8. CÂNDIDO, Antônio. A revolução de 1930 e a cultura. São Paulo: Cebrap, 1984. CARDOSO, José Romero Araujo. O trucidamento de jararaca em Mossoró. Disponível em: <http://cariricangaco.blogspot. com/2010/06/o-trucidamento-de-jararaca-em-mossoro.html>. Acesso em: 15 fev. 2011. CASTRO,Felipe de. Derrocada do cangaço no nordeste. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1976. CHANDLER, Billy James. Lampião: o rei dos cangaceiros. São Paulo: Paz e Terra, 2003. CHAUÍ, Marilena. Filosofia. São Paulo: Ática, 2000. FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1972. FREIRE, Vitorino. A laje da raposa. Rio de Janeiro: Guavira, 1978.

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FUNARI, Pedro Paulo; CARVALHO, Aline Vieira de. Palmares, ontem e hoje. Rio de Janeiro: Jorge Sahar, 2005. INSTITUTO PRESBITERIANO MACKENZIE. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/10220.html>. Acesso em: 22 ago. 2011. MOURA, Moisés Matias de. A moça que virou cachorra porque disse uma palavra contra o padre Cícero Romão Batista. [S.l.: s.n, 1950?]. (Cordel da década de 1950 – Informações editoriais indisponíveis). PAIXÃO, Fernando. Zumbi dos palmares: cordel. Fortaleza: Tupynanquim, 2007. SILVA, Antônio Francisco da Costa e. Sangue. Recife: Franceza, 1908. SILVA, Benedito. Padre Ibiapina. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002. SILVA, Leme. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat & Comp., 1905. v. 8. TAUNAY, Afonso de Escragnolle. Grandes vultos independência brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1922.

da

Blogs: Cariri Cangaço (cariricangaco.blogspot.com.br) Blog do Mendes & Mendes (blogdomendesemendes.blogspot.com) Café História (cafehistoria.ning.com) Lampião Aceso (lampiaoaceso.blogspot.com) Carlos Escossia (www.carlosescossia.com)

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Outros sites consultados: http://pt.wikipedia org http://www.jornalpequeno.com.br http://romerocardoso.sites.uol.com.br http://www.mackenzie.br http://www.itaucultural.org.br/rumos/webreportagem http://www.natalpress.com http://super.abril.com.br http://historia.abril.com.br

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Apêndice

Algumas curiosidades que ajudarão o amigo leitor a tomar parte das histórias aqui contadas.

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Bilhete de Lampi茫o ao Prefeito de Mossor贸*

* Este documento encontra-se no acervo do Instituto Hist贸rico e Geogr谩fico do Rio Grande do Norte.

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Família Rosado

Fonte: Cascudo, 1999.

A lista completa Com Maria Rosado Maia: 01. Jerônimo Rosado Filho 02. Laurentino Rosado Maia 03. Tércio Rosado Maia

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Com Izaura Rosado Maia: 04. Izaura Rosado 05. Laurentino Rosado Maia (mesmo nome do segundo filho, que morreu poucos dias após nascer) 06. Isaura Sexta Rosado de Sá (nome de casada) 07. Jerônima Sétima Rosado Fernandes (nome de casada) 08. Maria Oitava Rosado Cantídio (nome de casada) 09. Isauro Nono Rosado Maia 10. Vicência Décima Rosado Maia 11. Laurentina Onzième Rosado Fernandes (nome de casada – a primeira com o “apelido” em francês) 12. Laurentino Duodécimo Rosado Maia 13. Isaura Trezième Rosado Maia 14. Isaura Quatorzième Rosado de Magalhães (nome de casada) 15. Jerônimo Quinzième Rosado Maia 16. Isaura Seize Rosado Coelho (nome de casada) 17. Jerônimo Dix-sept Rosado Maia 18. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia 19. Jerônimo Dix-neuf Rosado Maia 20. Jerônimo Vingt Rosado Maia 21. Jerônimo Vingt-un Rosado Maia

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Saudade Antônio Francisco da Costa e Silva

Saudade! Olhar de minha mãe rezando e o pranto lento deslizando em fio... Saudade! Amor da minha terra... O rio cantigas de águas claras soluçando.

Noites de Junho... O caboré com frio, ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando... E, ao vento, as folhas lívidas cantando A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento! Gemidos vãos de canaviais ao vento... As mortalhas da névoa sobre a serra...

Saudade! O Parnaíba – velho monge as barbas brancas alongando... E ao longe, o mugido dos bois da minha terra...

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Figura 1 - O Quilombo dos Palmares Fonte: Revista Superinteressante – Ed. 78 – set./93. Desenho de Bruna Benvegnú.

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Conexões Nordestinas (Livro)