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dentro ĂŠ lugar longe rudinei borges

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A tessitura de Dentro é lugar longe, texto dramatúrgico de Rudinei Borges (uma das mais proeminentes vozes da poesia e da dramaturgia contemporânea brasileira), é perpassada, sobretudo, por memórias da meninice. Lembranças de nascimento e morte são contadas compondo a metáfora da vida como estirada, estrada longa. Neste novo livro, pós Chão de terra batida (2009), o poeta acende fagulhas da vida como viagem, caminhada das distâncias, num itinerário em que malas vazias e abarrotadas são carregadas como presentificação de conquistas e de pelejas. Em um texto de cortes secos, marcado pela brevidade da palavra, o autor desvela novos caminhos para a dramaturgia numa composição poética de raro alcance (um roteiro de repentes que lembra a fragmentação do filme A idade da terra de Glauber Rocha) e evoca sussurros de meninos da pintura de Cândido Portinari. Da fotografia de Antanas Sutkus e Henri Cartier-Bresson. Do cinema de François Truffaut. E da presença do menino na obra de grandes autores como Adélia Prado, Alberto Soffredini, Carlos Drummond, Cora Coralina, Dalcídio Jurandir, Guimarães Rosa, Herta Müller, Juan Ramón Jiménez, Manoel de Barros, Manuel Bandeira e Mário Quintana. A palavra na dramaturgia de Rudinei Borges é artesanato poético, conjunção de vozes tantas, em que tempo e espaço são reinventados à mercê do jogo de narração. Neste sentido, é significativo notar que os narradores da peça sejam meninos à volta da fogueira, todos diante do chão imenso. Com isso, é difícil dizer, com alguma certeza, se está no passado ou no presente o fato narrado. Se estamos no espaço evocado pela memória ou se somos passageiros duma andança sem destino certeiro. Entretanto, é possível perceber logo de imediato, que é a lembrança a matéria árdua que compõe Dentro é lugar longe. Já no início da peça, a menina de cabelos negros longos diz, meio à cantoria: “a gente vive para contar”. Contar é o modo que o ser humano criou de partilhar lembranças. “A gente vive para contar o que fez: não fez: o que viu: não viu: a gente vive para acocorar os pés sobre o chão e andar por azinhagas”, diz a menina. Dentro é lugar longe é o chamamento para um teatro que manifesta a completude da ação cênica no ordinário da existência humana. E é exatamente nesta ação de se debruçar sobre o corpus da vida ordinária que o ser humano lembra o que foi (e é) e se dispõe a narrar. São as coisas simples, movidas pelo tempo presente, que reavivam as lembranças do passado. Neste reavivar, pouco importa se são verdadeiras ou imaginadas as lembranças, porque, neste caso, – como afirma Manoel de Barros – só 10% é mentira, o resto é invenção. Dentro é lugar longe é invenção-reinvenção da vida vivida/não vivida. [Alfredo Diaz, poeta]

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Borges, Rudinei Dentro é lugar longe / Rudinei Borges. – São Paulo: Cooperativa Paulista de Teatro, 2013. Referências Bibliográficas ISBN 978-85-61343-10-1 1. Teatro. 2. Literatura brasileira. I. Título. II. Borges, Rudinei.

DENTRO É LUGAR LONGE Peça escrita a partir de história oral dos atores Alessandra Della Santa, Junior Docini, Maria Alencar, Priscila Reis e Tatiane Lustoza. O conteúdo desta obra é de responsabilidade do autor, proprietário do Direito Autoral. Proibida a venda e reprodução parcial ou total sem autorização.

realização cultural TRUPE SINHÁ ZÓZIMA www.sinhazozima.com.br contato@sinhazozima.com.br 55 (11) 96292-0447 concepção, edição e organização – rudinei borges arte, capa e projeto gráfico – deborah erê fotografia – christhiane forcinito & danilo dantas pesquisa de imagens – anderson maurício


Para Eva, mãe de Alzira, avó de Rosalva, Rosenilde, Rosaldina, Ismerina, Rosenice, Rosângela, Carlindo, Carmelio, Carlito, Carlos e Cláudio.


Para Anderson MaurĂ­cio, Alessandra Della Santa, Junior Docini, Maria Alencar, Priscila Reis e Tatiane Lustoza.

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Cenário do espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito

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A peça de teatro deve ser antes de tudo um poema. [Maeterlink]

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No chão imenso de dentro é lugar longe ou quase um testamento rupestre – 10 Dentro é lugar longe – 20 Prólogo – onde o sol nasce em fagulhas – 24 Breviário 1 – tempo é caos em forma de vento – 34 Breviário 2 – carne febril das tardes – 51 Breviário 3 – volteadura das valentias – 56 Breviário 4 – pássaro ente luzeiros – 62 Breviário 5 – campo retilíneo – 70 Epílogo – corpo ávido no coração do tempo – 78

Notas críticas – 88 No chão imenso de rudinei borges - 100

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No chão imenso, meninos narram o ir e vir da vida, do nascimento à morte, da peleja à conquista. Entre vindas e partidas, no ônibus em movimento onde é encenada a peça, são contadas histórias tantas. Num ato de valentia, são desveladas, com sagacidade poética invejável, memórias de dor e contentamento. A Atriz Maria Alencar no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Danilo Dantas

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A Atriz Maria Alencar no experimento “Estirada” em uma chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

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no chĂŁo imenso de dentro ĂŠ lugar longe

ou quase um testamento rupestre [Rudinei Borges]

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Testamento n. 17 – O chão como procura Algumas pessoas – como eu – são enveredadas para a meninice de maneira tão sagaz que é quase impossível o distanciamento de lembranças que, tomadas de boniteza, permeiam o presente quase como se tivessem sido vividas ontem mesmo ou há duas horas. Assim, o que muitos tratam como passado eu entendo como ofício: acocorar-se diante da meninice é um ofício dos mais ardorosos. Não julgo a meninice com base na ideia de felicidade. Não penso se tive uma meninice alegre ou triste. Não penso nada disto quando as imagens antigas tomam conta dos meus olhos e rejuvenescem diante do meu corpo: todas as paisagens e rostos reaparecem e acordo com o velho cheiro do tempo de menino. E o que é mais antigo naquilo que lembro? Não sei ao certo, mas quando vasculho a terra úmida da memória, reencontro uma casa de barro e telhas de taipas no fundo de uma fazenda do interior do interior do Pará, 12 | Dentro é lugar longe


Ensaio aberto do espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito no norte do Brasil, lá onde o vento faz a curva. Uma casa grande, porque tudo na meninice é grande, de bancos grandes e outros poucos móveis. Uma colina ao longe, um monte de árvores ao redor e um riacho pequeno, um igarapé perdido no meio do mato. Se quero alguma coisa agora-agora é investigar – e isto é ofício – esta casa antiga de barro e telhas de taipas, esta fotografia ensolarada que parece vívida em mim. Por que o rupestre, silencioso, acocora nesta lembrança primeira? E não quero encontrar nada especial, nenhuma descoberta psicológica, nenhum tratado de filosofia – ao contrário. Quero descobrir que diacho de matéria é esta, que poesia acocorouse ali de tal maneira que quando lembro aquela casa vejo que eu mesmo sou aquela morada, que estou ali – de corpo presente – naquele barro amarelado e esparramado nas paredes, que eu mesmo sou aquele barro e me disperso em terra ligada ao chão, terra amanhada das gentes todas que estão em mim – tão distantes e tão próximas. Dentro é lugar longe |

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Testamento n. 41 – O desamparo como procura Lembro uma vez, quando menino, estávamos sozinhos: meus irmãos e eu. Começava a escurecer. E nossa mãe nunca que chegava em casa. Mas nossa mãe nunca chegava depois do escurecer. Sem saber o que fazer começamos a chorar. Subimos em tamboretes e ficamos debruçados sobre a janela enquanto olhávamos a rua à espera de nossa mãe. Naquele dia pensamos que nossa mãe nunca voltaria. Mas nossa mãe voltou. Talvez seja esta uma das imagens mais antigas que tenho do desamparo na meninice: questão cara à tessitura dramatúrgica de “Dentro é lugar longe”, peça de teatro que escrevi entre 2012 e 2013. Fico com os ouvidos atentos quando as pessoas começaram a narrar as suas histórias de vida. Entre travessuras de menino, viagens, afagos e brincadeiras, sempre aparecem os irmãos e os adultos: o pai, a mãe, a avó, o avô e os tios. E, sobretudo, o apego que temos a estas pessoas todas. Quando elas vão embora, parece-me que algo desaba em sua total completude, resta o desamparo. Imagino que a pior forma de desamparo para um menino seja a perda, e a pior forma de perda seja a morte. Ouso, então, afirmar que o tema central de “Dentro é lugar longe” é o enfretamento da morte em tempos de meninice. Neste sentido, a morte é compreendida como a forma mais cruel de desamparo, porque implica a ausência total. Não há mais retorno. Foi com isso que os fios da manhã se cruzaram. Todos nós, quando narramos, contamos lembranças de perdas tantas. Não raro a questão da perda vem à tona. Por isso, foi preciso olhar com carinho este tema caro ao que tenho escrito em dramaturgia até hoje. Noutra peça que escrevi no mesmo período, “Agruras: ensaio sobre o desamparo”, encenada pelo Núcleo Macabéa, a primeira e a última fala entoam sussurros de um “volta, pai!”. Acredito que a dor da perda ocorra exatamente porque não desejamos perder. E a primeira reação ao perder é o desejo de retorno. Ou a negação. Rememorar é a tentativa de presentificar aquilo que perdemos. Talvez “Dentro é lugar longe” seja a despretensiosa tentativa de reaver o que perdi.

Testamento n. 29 – A meninice como procura Retornei faz pouco tempo de Itaituba, no Pará, terra onde nasci. Ontem, fui ao ensaio de “Dentro é lugar longe”, nova montagem cênica da Trupe Sinhá Zózima, com texto de minha autoria e encenação de Anderson Maurício. O ensaio aconteceu numa garagem de ônibus, no Brás, próximo à região

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central da cidade de São Paulo, onde moro por dez longos anos. O projeto desta peça foi gestado no primeiro semestre de 2011, quando numa conversa disse ao diretor Anderson Maurício que um teatro no ônibus é, sobretudo, um teatro de proximidade com as pessoas e ele me respondeu que a Trupe Sinhá Zózima tece um teatro do encontro. A partir desta conversa, contemplamos a memória e a história de vida, manifestadas em história oral, como mote duma pesquisa cênica corajosa. Era preciso ouvir as pessoas. Já nos fins de 2011 para começos de 2012, iniciei a tessitura duma peça que se chama “No tempo que andávamos a pé”, texto não concluído, que anda perdido em alguma gaveta de algum armário da casa que não tenho. Esta peça adentra o que chamo (ainda sem pretensões maiores) de Teatro rupestre, algo vivo que vem da presença do menino e da trajetória da meninice na literatura brasileira e mundial, nos escritos de Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Dalcídio Jurandir, Cora Coralina, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Adélia Prado. Ou em escritos como “Depressões” de Herta Müller: aí a meninice é tomada pela dor. Ou a voz poética da meninice em “Platero e eu” de Juan Ramón Jiménez. Um teatro que pretende reaver coisas simples e a relação das pessoas com estas coisas simples: a concretude dum formigueiro nas palavras dum menino. Porém, tempos depois, quando iniciamos, no grupo, os estudos de história oral, surgiu a inusitada proposta dum processo de criação que levasse à tessitura dum novo texto a partir de narrativas de vida dos integrantes da Trupe Sinhá Zózima. Meio incerto, aceitei a proposta e fomos, todos nós do grupo, para uma chácara nas proximidades de São Paulo, onde realizamos um experimento: contamos a nossa jovem história de vida em 24h ininterruptas, duma madrugada à outra e da alvorada à noite. Relacionamos horas do dia com ofícios, momento em que narramos a vida vivida/não vivida: Ofício da alvorada, da manhã, do meio dia, da tarde, do entardecer, da noite, da meia noite e da madrugada. Cada ofício foi vivenciado numa parte da casa da chácara para onde fomos: sótão, quintal, cozinha, estrada de barro, sala, quarto, cabana e porão. Neste tempo-espaço dizíamos coisas e coisas. Num ato sagaz – que nos convidava a falar e ouvir –, Anderson Maurício, Alessandra Della Santa, Junior Docini, Maria Alencar, Priscila Reis, Tatiane Lustoza e eu partilhamos lembranças da meninice à idade adulta, das conquistas às pelejas, dos sonhos aos fracassos. Todas estas falas foram gravadas, transcritas, textualizadas e transcriadas até que chegaram às minhas mãos para que, mediante os exercícios cênicos, se tornassem dramaturgia. Até que ganhasse corpo e, numa decisão coletiva, fosse batizado o processo de “Dentro é lugar longe”, frase-viva fincada no coração do texto. Dentro é lugar longe |

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Agora, com o texto de “Dentro é lugar longe” em mãos, acontecem ensaios num ônibus, onde será encenada a peça. E o que vi ontem é chamamento para o que, ainda não sei dizer ao certo o que é, um teatro rupestre, em que é manifestado na completude da ação cênica o ordinário da existência humana. E é exatamente quando nos debruçamos sobre o corpus da vida ordinária que lembramos o que éramos e nos dispomos a narrar. São as coisas simples que remontam a um passado, movido pelo presente, em que pouco importa se é ele verdadeiro ou imaginário, porque, neste caso, – como afirma Manoel de Barros – só 10% é mentira, o resto é invenção. E neste sentido, dum teatro rupestre calcado no ordinário da vida, que lembro as páginas iniciais de Marcel Proust no primeiro volume de “Em busca do tempo perdido”, o livro “No caminho de Swann”. Neste texto, o narrador ao tomar chá com bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas, põe-se a lembrar de sua meninice, dos domingos de manhã em Combray. Foi no ato ordinário de tomar chá com bolinhos que a vida vivida reapareceu como memória do que ele era. O sabor faz o narrador-protagonista reviver a meninice passada em Combray. Tudo que ficara escondido pela memória já na fase adulta foi reencontrado e vivenciado. É como se o chá fosse a passagem para encontrar a cidade e os personagens que fizeram parte de sua meninice.

Arquivo pessoal da Atriz Tatiane Lustoza

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Creio que a dramaturgia da peça ‘Dentro é lugar longe” segue por estas azinhagas, por estes caminhos da presentificação cênica do que é, de fato, o simples (na voz do menino) e do seu real significado para a constituição do humano.

Testamento n. 36 – A saudade como procura Estou diante do turbilhão da cidade. Em pleno centro antigo de São Paulo escrevo. Olho o mundo e ouço os sons tantos do mundo diante de um edifício em construção. O edifício é gigantesco. Mas os meus olhos voltam quase sempre para uma árvore diante da varanda de meu apartamento. A árvore resiste ao lado do edifício. Tem flores lilases entre folhas verdes. A cidade não está totalmente perdida, penso. Por que penso na cidade neste instante? Não sei ao certo. Talvez porque lembre, em paradoxo, os dois dias de ensaio aberto de “Dentro é lugar longe”. Talvez porque a peça será encenada em um ônibus em movimento que circulará pelo centro velho e, decerto, circundará a cidade envelhecida como as flores lilases da árvore ao lado do edifício. Todavia, fico meio acanhado: quem fala em flor diz de menos, explica o poeta Ferreira Gullar em um verso. Lembro-me: “Dentro é lugar longe” diz da dor de modo sagaz. E, outra vez, volto ao poeta: quem fala em dor diz de mais. É assim: “Dentro é lugar longe” diz de mais e de menos da história humana que se coloca, em vozes tantas, diante do espectador. E me faz chorar, sem lágrimas, como as pessoas tantas que compareceram ao ensaio aberto. A encenação da peça funde palavra e imagem de modo comprometido. Digo disto o seguinte: há a procura por uma estética do simples, marcada pela presença arrebatadora do ator em cena e da cidade que se move, em luzes, dentro do ônibus. Não consigo desvincular desta estética a força da palavra e a força da imagem que se circunscreve no espaço do ônibus. Há mesmo uma procura por tornar o espaço um ninho ou sala de casa de avó, casa do interior do Brasil. É uma estética da saudade que exala da sanfona do ator Junior Docini, da cantoria de Priscila Reis, do choro de Alessandra Della Santa, da narrativa de Maria Alencar e da sensibilidade de Tatiane Lustoza. Creio que o teatro não pode ter medo do poético, porque reside aí uma armadura política poderosa de transformação do mundo. Ainda sou utópico o suficiente quando creio que o teatro contribui com a transformação. Agora mesmo dou uma olhadela para as flores lilases da árvore defronte de minha casa. Este monstro tenebroso que brota da terra, este edifício, construção feia e acre, nunca será maior que as flores daquela árvore. Não creio no edifício. Creio na árvore. Dentro é lugar longe |

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Testamento n. 93 – O poema como procura Reaver os escritos de “Dentro é lugar longe” depois de encenada a peça e de sua significativa repercussão é, sobretudo, olhar para o texto como um poema que se anuncia na voz de cinco meninos: são eles, senão, espelhos remendados do que fui e sou. Agora-agora o que se publica é o texto na íntegra, esboço do que poderia, por ventura, ser uma peça de teatro, todavia é um poema atrás do voile, obsceno: fragmentos de noites em claro: androginia da vida. Eis um fio nas mãos dos que desbravam o campo incerto da aventura de narrar lembranças doutros. De resto, fica a saudade dum poeta que se pôs a escrever com os olhos cheios d’água, entre soluços. “Dentro é lugar longe” é a peça de teatro de um poeta que aprendeu a chorar.

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Cenário do espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito Dentro é lugar longe |

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Da direita para esquerda – O ator Junior Docini e as atrizes Priscila Reis, Tatiane Lustoza e Alessandra Della Santa no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Danilo Dantas

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A coisa mais preciosa é a vida, alguma coisa que voa, que passa. A vida é uma corrida. Aquilo que fica para trás, mesmo que se transforme em mitos, atrapalha esta corrida. Apenas aquilo que acompanha a vida, (...) apenas isso é precioso. [Tadeusz Kantor]

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Em Dentro é lugar longe se entrecruzam fios de narrativas da meninice. Quatro meninas e um menino, acocorados à volta da fogueira, no chão imenso, contam o que viram & não viram, o que foi & não foi. Vozes de nascimento & morte tecem a mesma fagulha. A peça pode ser encenada por vários narradores & a ordem das histórias pode ganhar outras tessituras, conforme os contadores desejarem. O nome dos meninos remete a títulos de pinturas. E remete à feição das figuras que os meninos representam. Aconselha-se o uso de sanfonas, gaitas, maracás, rabecas & outros instrumentos para que seja vívida a narração. A peça pode ser encenada em um círculo, à volta da fogueira, ou em outros espaços. É valioso que as pessoas que acompanham a peça também possam contar as suas lembranças. [Rudinei Borges]

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meninos

menina com voile acocorada no chão imenso menina com cântaros diante do poço menina de cabelos negros longos menina com lamparina no oratório menino

Da direita para esquerda – O ator Junior Docini e as atrizes Priscila Reis, Tatiane Lustoza e Alessandra Della Santa no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito

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Da direita para esquerda – O dramaturgo Rudinei Borges, as atriz Alessandra Della Santa, Maria Alencar, Priscila Reis, Tatiane Lustoza, o ator Junior Docini e o diretor Anderson Maurício no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

Prólogo

onde o sol nasce em fagulhas

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Assim é que começo, terminando. Com o olho feito uma lagoa – cheio d’água: com a luz das estrelas no céu da boca. É que ontem faz parte do hoje. & hoje faz parte do amanhã. Tudo que foi-vem, tudo é estirada: caminhada das distâncias. Perco-me nas distâncias. Mas confesso: perder-se é encontrar-se. [Sussurros] Só aquele que se perde encontra andorinhas.

Arquivo pessoal do dramaturgo Rudinei Borges

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[Choro de menino que nasce] [O menino toca gaita nas distâncias] [As meninas acocoradas no chão imenso, à volta da fogueira, anunciam que vão contar histórias tantas: a procura pela terra d’onde vim: dentro] Dentro é lugar longe |

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MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS aqui:

aqui:

o que vou dizer: é muncado de coisas: digo muncado: porque muncado é quantidade que não podemos calcular ao certo: não é como dizer ummais-um é dois: porque um-mais-um nunca será três-ou-quatro-oucinco: o que vou dizer: é muncado de coisas: porque meu ofício é dizer: é contar: é debruçar olhos sobre estiradas: caminhada longa: mergulhar firme na tessitura da vida: & rezar-lhes o que vi: vida não tem começo nem fim: vida é só meio: sempre-sempre par-ti-da: vez ou outra chegada: vida é modo de acocarar-se no mundo: adentrar o mundo sem contrições: vida é coisa que a gente não sabe ao certo que é: mas viver...: [Suspensão] sobre isto tenho minhas divagações: a gente vive para contar: para contar o que fez: não fez: o que viu: não viu: a gente vive para acocorar os pés sobre o chão & andar por azinhagas estreitas: largas: azinhagas que nem sabemos em que terras dão: é que viver é coisa que a gente só sabe quando finda: é alumiação de raridade desmedida: não creio que viver seja coisa para uns e outros não: viver não é coisa para poucos: viver é multidão: é amanhar dentro das coisas canteiros de jacintos: é correr mundo a dentro: MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO

dentro é terra imensa: terra vermelha: terra amarela: dentro é mato de cipó enredado: cipoada: cipoal: dentro

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é cipó-bravo: cipó-azougue: cipó-caboclo: cipó-bela-flor: cipó-café: cipóchumbo: cipó-cravo: cipó-cruz: dentro é cipozinho-do-campo: cipó-violeta: cipó-trindade: cipó-tracuá: cipó-timbó: cipó-suma: dentro é cipó-seco: cipó-mil-homens: cipó-jatubá: cipó-imbé: cipóescada: cipó-do-reino: cipó-timbó: dentro é cipó-seda: cipó-de-sapo: cipó-desão-joão: cipó-de-mucuna: cipó-de-leite: cipó-de-jabuti: dentro é cipó-de-cobra: cipó-de-carijó: cipó-de-boi: cipó-de-beiramar: cipó-d’alho: cipó-d’água: dentro é cipó-amargo: por isso é difícil saber onde dentro começa: onde dentro termina: dentro é emanharado: dentro é lugar onde Deus & o cão vivem em peleja: dentro é menino acanhado aos pés do trapiche: dentro é menino que espera barcos todas as tardes no cais: dentro é rua de asfalto esburacado em Itaquera: igrejinha da Conceição em Mauriti: igrejinha de Santa Rosa na Vicinal do 21: dentro é rosto de gente que lida: luta: labuta: escapa: dentro é valentia: [Olha para o menino] menino, para que onde você vai, menino? dentro é passagem: travessia: dentro é coisa que a gente ainda não viu: dentro é coisa que vai nascer: está por vir: dentro é o dia deitado em terra firme: é várzea: dentro é lugar longe: [Os meninos entoam cantiga de bendizer a chegada & receber a aurora] MENINO [O menino caminha devagar. Vem das distâncias, coberto de pó. Olhar entristecido] Assim é que começo, terminando. Com o olho feito uma lagoa – cheio d’água: com a luz das estrelas no céu da boca. É que ontem faz parte do hoje. & hoje faz parte do amanhã. Tudo que foi-vem, tudo é estirada: caminhada das distâncias. Perco-me nas distâncias. Mas confesso: perder-se é encontrar-se. [Sussurros] Só aquele que se perde encontra andorinhas. [Suspensão] Dentro é lugar longe |

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A atriz Maria Alencar e o ator Junior Docini no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Danilo Dantas

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Só aquele que se perde encontra andorinhas no céu: no cume das montanhas: nas árvores de raízes fundas: no brilho que dorme nas poças d’água. Porque perder-se em azinhagas é dançar os rios & os barcos no rio & os peixes & o fundo do rio: uma lagoa: olho de lágrima que vem de dentro da gente. [O menino volta para as distâncias] VOZEARIA [Sussurros] Partir. [Ventania] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO Não sei ao certo que é partir, porém digo: é preciso preparar o voile, o alforje, a mala, o cântaro, os sapatos & o pão, o pão de farinha arizintinhada dos campos de trigo. É preciso preparar o óleo, a lamparina & o oratório. É preciso preparar o semblante, as mãos & os pés. É preciso preparar o café, a mesa e a toalha de mesa. É preciso arrumar a casa para as visitas que acabaram de chegar e ainda estão na sala. É preciso preparar o bolo, o cuscuz & a farofa. É que hoje vai nascer o menino. [O menino toca gaita nas distâncias] Não contem para ninguém, mas hoje vai nascer o menino. É dia de festa. É preciso varrer o terreiro, buscar água no poço & colher milho novo na plantação. É preciso deixar viva a fogueira, porque quando for boca da noite vamos evocar acalantos. A menina vai dizer d’onde veio. O menino vai dizer para onde vai. Vamos lembrar nomes de mães e pais, avós e avôs. Gente de longe & de perto. De todas as partes. Por isso, é preciso arrumar toda a casa com valentia, de modo que tudo seja tomado de boniteza. Só assim todo mundo ficará à vontade na noite longa que se anuncia, na noite longa de histórias tantas. Nesta procura aturada pela estrela da manhã.

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MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO [Olha as distâncias] longe: só fagulhas: o céu fica escurecido: o dia se reparte: quer ser noite: quer ser dia: mas o dia é tardinha: quando os sinos tocam: porque a luz vai definhando: o breu vem chegando: a ventania dança sobre cicatrizes do corpo: sino de catedrais: hora de ave-marias: sino de catedrais: instante que as almas passeiam no mundo: sino de catedrais: ninguém sabe se o sol voltará: sino de catedrais: que o menino que vem terá valentia de se criar: sino de catedrais: impor-se à vida famigerada: sino de catedrais: dizer com coragem & brandura: quero viver: sino de catedrais: ninguém sabe se o mundo deixará o menino ser: sino de catedrais: se o mundo deixará o menino ser o que quiser ser: sino de catedrais: ninguém sabe se o menino vai deveras viver: sino de catedrais: como se deve viver: sino de catedrais: tomado pelo chão imenso da vida: sino de catedrais: [Choro de menino que nasce] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS O menino lutará, em pé, sob distâncias, entre areais, caatingas & campos secos. Será devoto do breu & da luz o menino. MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO O menino caminhará do beco ao oratório com um estandarte. Será poeta, carpinteiro, anunciará esperanças aos homens & mulheres de lida

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o menino. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO O menino atravessará desertos tomados de serpentes. Com árduo fardo sobre os ombros chegará às terras fartas, de plantações tantas o menino. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO O menino colherá & debulhará o trigo com o corpo tomado de gana. Voltará para casa dourado como o trigo o menino. MENINO [Olha as distâncias] O menino amará o mundo & o caos do mundo. Acordará, por vezes, marés de peleja. Mas será livre o menino. [O menino toca gaita nas distâncias] [Breu] [Choro de menino que nasce]

O diretor Anderson Maurício e seu filho, Theo Maurício Lustoza, no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito Dentro é lugar longe |

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As atriz Alessandra Della Santa no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

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Breviário 1

tempo é caos em forma de vento

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Vou atravessar este trajeto por outros caminhos. Que minhas lembranças são minhas & doutros. Que minhas lembranças vão pelas estradas & me perco-encontro. Isto tudo para olhar os vossos olhos & dizer, neste instante, que quem conta, conta por que tem coragem. & coragem é coisa rara. Porque coragem, vos digo, coragem não é braveza. Coragem é danação. & danação é ter peito & pé para deixar rastros fundos no mundo.

Arquivo pessoal do diretor Anderson Maurício

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[Os meninos caminham & contam histórias tantas] MENINO vou começar a contar assim ao contrário vou começar a contar como se fosse cantar uma cantiga que começa pelo fim ou não o contrário, vos digo, o contrário é aquilo que está em direção oposta azinhagas outras-tantas & vos digo também o que é azinhaga azinhaga é caminho estreito & rústico entre muros uns outros dizem que é córrego & vos digo também o que é córrego olhe, córrego é um corpo de água c r o r n e t e coisa menor que rio menor que riacho fio d’água bicho pequenino

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Vou atravessar este trajeto por outros caminhos. Que minhas lembranças são minhas & doutros. Que minhas lembranças vão pelas estradas & me perco-encontro. Isto tudo para olhar os vossos olhos & dizer, neste instante, que quem conta, conta por que tem coragem. & coragem é coisa rara. Porque coragem, vos digo, coragem não é braveza. Coragem é danação. & danação é ter peito & pé para deixar rastros fundos no mundo. [Suspensão] [A menina de cabelos negros longos caminha com uma mala surrada] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS O que guardo nesta mala – vos digo. São sonhos. Mas sonho, Sonho ninguém guarda, vive. Sonho é coisa para vivermos. Soltar no mundo como se solta pipa & pluma & bolha de sabão. Bolha que nasce de água cristalina. Também guardo nesta mala lembranças tantas – vos digo. Recordações da vida que vivi/não vivi até agora, porque estou viva & tenho tanto para viver/não viver. Guardo nesta mala esta fotografia de minha mãe (morena). Esta fotografia de meu pai (moreno). De meu irmão. (moreno). De minha irmã. (morena). De minha avó. (morena). Mulher corajosa & lutadora. (Ela não está mais aqui).

[Suspensão]

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As atrizes Alessandra Della Santa e Priscila Reis no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Danilo Dantas Um dia me tornei mulher. Corajosa & lutadora. Um dia me tornei mãe. Corajosa & lutadora. Um dia me tornarei avó. Corajosa & lutadora. Como minha avó. (morena). [Suspensão] Minha estirada é pranto-riso. Miudinha-imensa como estrela no céu. A vida é isto. Se for outra coisa me diga. Depois de anos tantos o que lembramos: cheiro de goiaba branca duma fazenda distante no norte do Brasil. Cheiro de coentro, salsa, pimenta. Tempero de comida na cozinha. A temperatura quente da água na banheira onde preparamos o banho do menino (recém-nascido). [Suspensão] Dentro é lugar longe |

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MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO [Segura uma lamparina] Onde nasci não havia energia elétrica. Vi energia elétrica só aos onze anos. Fios & torres & lâmpadas & postes & tomadas só vi aos onze anos. Assistíamos televisão na casa de meu avô que era dono duma tevê preto & branco à bateira com um botão que girava quando escolhíamos os canais. Assistíamos somente o que meu avô gostava. Quando vinha o intervalo para comercial, comum nos canais de tevê, meu avô desligava o aparelho para economizar a bateria que era coisa de grande carestia na época. Às vezes, a bateria pifava no meio da novela. No momento de maior comoção da trama. Voltávamos para casa com o coração acelerado. Não sabíamos o que aconteceria a mocinha, ao vilão. Não sabíamos. Na casa do meu avô juntavam-se todos os primos, um magote de meninos. Havia uma prima com sérios problemas no coração. Ela passava mal quando os meninos soltavam peidos aparatosos. Era uma peidorrada na sala. Morríamos de medo que nossa prima morresse quando os meninos soltavam peidos aparatosos. Nossa prima morreu do coração. A primeira casa onde meus pais moraram logo que se casaram. Esta é a lembrança mais antiga que tenho (de quando fui menina). Às vezes, minha irmã me levava lá. Achava aquela casa cheia de mistérios. (Era misteriosa como esta casa onde estamos agora). Casa de poeira & vento. Portas largas. & janelas (pequenas) que nos faziam olhar as luzes da cidade. Casa escura, de breu-imenso. Casa escura

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(nenhuma lamparina alumiava).


MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO gostava muito de brincar com flores de minha mãe

lembro que minha mãe tinha um jardim eu cuidava do jardim fazia uma igrejinha no jardim lembro que o jardim era tomado de lírios e rosas

regava flores fazia um ritual de oferta depois cantava quem dá com alegria lá no céu brilhará & Deus recompensará

Arquivo pessoal da Atriz Alessandra Della Santa Dentro é lugar longe |

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MENINO minhas primeiras lembranças são lembranças de meu pai

eu não tenho pai [Choro de menino que nasce] eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai

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eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não tenho pai eu não Dentro é lugar longe |

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É assim: Sempre quis saber como era meu pai. Cresci com uma vontade de saber como seria se ele estivesse aqui. [Suspensão] Minha mãe era muito nova quando conheceu meu pai. Ele era um homem muito bonito. (Gosto de contar isto porque não tem nada a ver comigo). Minha mãe ficou apaixonada. Tiveram o primeiro filho (fruto não planejado). Mas depois minha mãe & meu pai casaram, foram à igreja. Houve um reboliço naquela época. Imaginem só: minha avó era mãe de cinco filhas. A caçula não podia ser mãe solteira. Precisava casar. Minha casou. & tempos depois nasci.

Fruto planejado.

MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Nasci de sete meses. Fui apressada. [Suspensão] Minha mãe era muito jovem quando nasci. [Suspensão] Ah, meu pai era bombeiro. Era um rapaz moreno muito bonito. (Gosto de contar isto porque não tem nada a ver comigo). Houve até uma mulher que se jogou no rio Tietê, porque era apaixonada pelo meu pai. Meu pai resgatou a mulher. A mulher queria casar com meu pai. Mas meu pai não queria casar com a mulher. Minha mãe descambou a mulher louca do Tietê. [Suspensão] Sou a primeira filha. Minha mãe tinha um sono pesado. Eu chorava à noite. Chorava muito. Minha mãe não acordava. A vizinha ouvia o choro & batia à porta. Acordava minha mãe. VIZINHA Vizinha, vizinha. A menina está chorando. Acorda, vizinha.

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Acorda, a menina está chorando. MENINO Quando menina, a menina chorava muito-muito-muito. A mãe da menina tinha um sono pesado. A vizinha ouvia o choro & batia à porta. Acordava a mãe da menina. VIZINHA Vizinha, vizinha. A menina está chorando. Acorda, vizinha. Acorda, a menina está chorando. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO nos primeiros meses de gravidez minha mãe fez uma viagem foi a primeira viagem que fiz na vida foi uma viagem de São Paulo para a Bahia foi uma viagem num caminhão meu pai era caminhoneiro demorei para nascer não queria nascer estava tão bom lá dentro [Sussurro] Dentro é lugar longe. nasci praticamente surda só não nasci vesga nasci com as pernas tortas Hoje não sou surda nem vesga nem tenho as pernas tortas

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MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO Uma lembrança que tenho muito forte de quando menina é que passei boa parte da infância no hospital. Fui uma menina muito doente. Tinha bronquite alérgica. & sempre que lembro sinto cheiro de álcool. Lembro-me das enfermeiras que falavam muito. Crianças choravam. O mais interessante é que adorava ir para lá. Gostava de conversar com pessoas diferentes. Brincava com aquele negócio de soro. Também vomitava muito. Tinha disenteria. Tinha tudo. [Suspensão] A coisa mais gostosa era a sopa. Aquele caldinho. [Suspensão] Não podia tomar aquele caldinho. Como muitas pessoas ficavam no quarto, o cardápio era diferente. A minha comida era sempre a pior. Aquele caldo encorpado, gostoso e cheiroso eu não podia tomar. O máximo que podia fazer era tomar uma colherzinha para não ficar mal. [Suspensão] Por causa dos vermes. Quando vinham as crises de garganta vomitava. Se não me levassem ao hospital ficaria desnutrida-raquítica-magrela. [Suspensão] Em verdade, fui muito magra. Não comia. Não havia cão que me fizesse comer. Lembro que uma vez minha mãe me levou ao hospital. Tive febre tão alta que tremia. Tremia muito. Sentia cada calafrio. & me levavam ao hospital para que pudesse voltar ao normal. Numa madrugada, tomei um remédio porque estava a vomitar muito. Tomei soro. O médico disse que eu não podia comer nada. Mas acordei com uma fome desgraçada. Queria comer de qualquer jeito. Minha mãe, que via meu desespero, saiu & voltou com um copinho americano de leite. Tomei aquele leite. Nossa! Depois, disse: quero mais! Minha mãe falou que não tinha mais. Insisti muito. Minha mãe (depois) disse que era leite de peito, duma mulher que estava com o bebê ao lado. Quando ela falou isso, queria morrer. Era muito nojento tomar leite de peito. [Suspensão] Queria mesmo vomitar. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO [Ventania] lembro de ir para Minas Gerais num Fiat 147: a família inteira viajava para Minas: minha avó morava lá: meu pai nasceu lá: um primo nosso viajava conosco no fundo do bagageiro: era preciso que coubesse todo mundo no Fiat 147: íamos no bagageiro sobre as malas: lembro de olhar o céu & as estrelas: amanhávamos o céu & as estrelas do céu:

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[Sussurro] era noite: MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO Queria viajar para São Paulo aos quinze anos. Minha mãe não deixou. Fiquei revoltada. Raspei a cabeça. Saí de casa. Tomei coragem tempos depois. Disse para minha mãe: vou ficar trinta dias em São Paulo. Nunca mais voltei. Só para passear. Aqui o teatro abarcou-me como coisa entranhada no corpo. Tornei-me atriz. [Suspensão] Tive medo da morte. Não entendia a morte.

[Olha o chão imenso]

Em minha terra, fui a muitos velórios. Serviam sopa. Tomávamos sopa enquanto pessoas e pessoas choravam. Não entendia a morte. Quando morreu minha avó, estava em São Paulo. Não pude vê-la. Não pude ir ao enterro. Não pude me despedir. Depois de cinco dias, senti um vazio sem nome, um vazio do tamanho do mar. Nunca mais veria minha avó. Nunca mais estaria ao lado de minha avó. Nestas paragens, entendi o que é a morte. [Sussurro] A morte é ausência. Arquivo pessoal da Atriz Priscila Reis

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MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO minha avó tinha um bombonière: comíamos os doces do bombonière de minha avó: meu avô era sorveteiro: meu avô era dono de carrinhos de picolé: íamos poucas vezes a Minas: por isso o meu avô nos dava todos os sorvetes do mundo: íamos para o lago: nadávamos no lago: meu pai dizia – dentro do lago: Filha, pula. O PAI O pai da menina dizia – dentro do lago: Filha, pula. Eu vou protegê-la. Você não vai se afogar. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS a menina pulava de cima duma árvore a menina pulava no rio de cima duma árvore MENINO Quando a menina pulava, o pai da menina se distanciava. Ficava ao longe. De soslaio. Mesmo assim a menina pulava. Foi assim que a menina aprendeu a nadar. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO era Fumal o nome do lugar nunca vou esquecer era Fumal o nome do lugar onde aprendi a nadar MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO Viajei para Minas. Para o Paraná. & outra vez para a Bahia. Fiquei três meses na casa dos meus avôs. Voltei para São Paulo & até falava mainha, painho.

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[Suspensão] Era interior, mainha. Eu subia em todos os pés de árvores possíveis, painho. Subi num pé de umbu no meio do pasto, mainha. O tio esqueceu a porteira aberta, painho. O gado veio para o pasto, mainha. Eram bois bravos. Grandes, painho. Fiquei lá no pé de umbu com os outros meninos, mainha. Como ia descer dali, painho? Como ia enfrentar aquele gado todo, mainha? Desci devagarzinho, painho. Depois corri pelo pasto, mainha. Até escapar daqueles bois, painho. Escapei daqueles bois, mainha. [Suspensão] MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO lembro duma imagem (que guardo dentro do peito) quando estávamos indo embora de Minas [Suspensão]

Vamos pedir mangas, pai. Vamos pedir mangas aos donos das mangas, pai. Vamos dizer que só queremos mangas do chão lotado & nada mais. Vamos encher o carro de mangas, pai. Depois vamos partir pela estrada, pai. Depois vamos para casa, pai.

era uma estrada (dessas estradas de terra) encontramos uma fazenda tomada de pés de manga eram mangas tantas era dezembro o chão estava lotado

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MENINO Quando o dono das mangas, quando o dono das mangas aparecer... será que o dono vai deixar a menina levar todas as mangas que ela quer, todas as mangas para dentro do carro? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Quando o dono das mangas aparecer o pai da menina vai pedir vai pedir todas as mangas que a menina quer. O DONO DAS MANGAS O dono das mangas disse (quando o pai da menina foi pedir mangas a ele) o dono das mangas disse: leva, leva todas as mangas que a menina quer. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO quando disseram que podíamos levar mangas: quando disseram isto: todos os meninos do carro: todos os meninos saíram correndo do carro: pegaram todas as mangas que puderam: encheram o carro de mangas: & foram embora com todas as mangas do mundo: Deus, decerto, estava muito feliz quando criou a manga: Deus, decerto, estava a rir no céu quando criou a manga: Deus, decerto, é uma pessoa muito alegre para criar estas coisas: mangas:

[Breu] [Choro de menino que nasce]

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A atriz Alessandra Della Santa no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

Breviário 2

carne febril das tardes Dentro é lugar longe |

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& só nascerá outra estrela quando a mãe for ao alpendre, quando o menino deitar no colo da mãe, quando a mãe tecer cafunés, quando o menino chorar, quando o menino bradar aos ventos: mãe, encontrei. Encontrei a claridão.

Arquivo pessoal do dramaturgo Rudinei Borges

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[A menina abre a mala surrada e mostra a fotografia da avó] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Minha avó morreu num dia bonito. Era um domingo chuvoso. Eu não tinha ninguém para me acompanhar até o hospital. Não sabia andar de ônibus. Mesmo assim fiz uma viagem até o hospital. Fui lá & conversei com minha avó. Foi a primeira vez que eu disse: Vó, eu te amo. Arrumei o cabelinho da minha avó. Dei um abraço forte em minha avó. Levei minha avó até a cama. Tinha certeza que minha avó sairia do hospital no dia seguinte. Fiquei o tempo que podia no hospital. Quando fui embora, ao me despedir, minha avó perguntou: A AVÓ – Que horas são, filha? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Dezesseis horas, vó. A AVÓ – Quanto tempo você vai demorar para chegar em casa, filha? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Duas horas, vó. A AVÓ – Então, vai logo. Sua viagem é longa, filha. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Sei, vó. Está muito longe, vó. A AVÓ – Apaga a luz que agora eu vou descansar, filha. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Quando cheguei em casa, às dezoito horas, quando cheguei em casa, o telefone tocou. Minha avó havia falecido, às dezoito horas. Não estava mais comigo. MENINO – Quando a menina chegou em casa, às dezoito horas, quando a menina chegou em casa, o telefone tocou. A avó da menina havia falecido, às dezoito horas. A avó da menina não estava mais com a menina. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – A minha avó resolveu repousar como quem dorme no céu entre estrelas. Como quem brilha miudinha no céu entre estrelas. Como quem brilha miudinha sobre o mar. Minha avó-menina, minha avó resolveu repousar. [Suspensão] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – lembrar é acocorar-se dentro da vida como quem acocora na ventania como quem olha o céu & as estrelas do céu como quem guarda nos olhos uma estrela miudinha entre MUNDARÉU de estrelas lembrar é guardar o lugar certo onde esta estrela Dentro é lugar longe |

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brilha lembrar é cultivar com o olhar esta estrela todas as noites é enamorar-se desta estrela de tal modo que esta estrela só dormirá miudinha no céu depois de olharmos para ela [Suspensão. Surge um menino com uma estrela dentro duma garrafa] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – [Sussurra] Menino Onde você encontrou esta estrela Menino? [com o olhar entristecido] MENINO – na minha terra. Encontrei esta estrela na minha terra. Sempre que as mães seguem para o alpendre das casas & fazem cafuné nos filhos, nos meninos, surge uma estrela no céu. Ando com esta estrela numa garrafa para não esquecer de onde vim, o que fui, o que sou. [Todos aparecem com estrelas dentro de garrafas] Para não me perder na noite escuraescura. Muitos já se perderam no caminho. No breu do mundão. Não quero me perder. Mas agora-agora estou na estrada: de volta. De volta para casa. Para reaver nossa mãe, nosso pai (que já foi) & os meninos que corriam comigo nos campos de asfalto. & quando eu chegar, chegar outra vez na terra de onde vim, vou soltar esta estrela. Esta estrela vai brilhar no céu, sobre nossa casa. & só nascerá outra estrela quando a mãe for ao alpendre, quando o menino deitar no colo da mãe, quando a mãe tecer cafunés, quando o menino chorar, quando o menino bradar aos ventos: mãe, encontrei. Encontrei a claridão. [Suspensão] Só nascerá outra estrela quando a mãe do menino disser: A MÃE – Filho, se tens claridão, mostra a tua claridade. [Surge uma multidão levando estrelas dentro de garrafas. As estrelas brilham. A menina com voile acocorada diante do chão imenso acende uma lamparina & cobre-se com um tecido leve e fino] MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – [Entristecida] sempre tenho labutado tanto sempre tenho vivido vazantes tantas sempre tenho curado cicatrizes tantas s sempre 54 | Dentro é lugar longe


tenho amado tanto sempre tenho vestido voiles tantos sempre tenho acendido lamparinas tantas sempre tenho colhido estrelas tantas sempre estrelas feito alvoradas tantas sempre estrelas feito acalantos tantos sempre estrelas feito marÊs tantas sempre tenho rezado pelo mundo sempre tenho rezado por meu pai sempre tenho rezado por minha mãe sempre tenho rezado por meus irmãos sempre tenho rezado por mim sempre a vida Ê andança sempre a vida Ê estirada sempre [Breu longo] [Choro de menino que nasce]

Dentro ĂŠ lugar longe |

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Experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

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BreviĂĄrio 3

volteadura das valentias Dentro ĂŠ lugar longe |

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Brincávamos na parte detrás da igreja. Criávamos casamentos imaginários. Um dia casei-me com um menino. Vesti-me de noiva. Levei padrinhos & damas de honra. Fiz-me a mais bela noiva da parte detrás da igreja.

Arquivo pessoal da Atriz Alessandra Della Santa

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[Conversa entre meninos] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – [Oferece chá para a Menina com voile acocorada no chão imenso] Menina, [Suspensão] tome chá. Minha mãe sempre diz que tomar chá alivia tudo quanto é fardo na vida. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – O que é fardo, menina? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Fardo é peso, menina. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – & o que não é fardo, menina? Diz-me, menina, que é contrário de fardo? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – É leveza, menina. Sabe, lembro-me: vivi a leveza um dia quando minha mãe foi à escola onde eu estudava & levou chá. Minha escola era precária. As janelas eram abertas. Fazia frio. Era um dia especial. Fiquei tão feliz àquele dia. MENINO – [Olha para a Menina de cabelos negros longos]. Por quê? Por que, menina, você ficou feliz? MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Eu era a irmã mais velha & minha mãe dava maior atenção aos irmãos menores, mas naquele dia minha mãe me deu atenção. Naquele dia tomei chá com prazer. Eu era uma aluna muito estudiosa. Tive uma professora de língua portuguesa muito carinhosa, que sempre acreditou no meu esforço. Lembro-me com leveza de minha professora. MENINO – [Olha para a Menina com lamparina no oratório] Você lembra? Lembra, menina, quando íamos todos juntos para a escola? MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO – Lembro. Claro que lembro. Fui para a escola muito tarde. Por volta dos sete ou oito anos comecei a estudar. Lembro-me de minha primeira professora. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – & qual era o nome dela, menina? MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO – Ela se chamava Dona Tica. Ela nos ensinou as vogais durante dois anos. Durante intermináveis dois anos só aprendíamos a-e-i-o-u. Nada mais. Quando me perguntavam o que aprendi na aula, só tinha uma resposta: a-e-i-o-u. Sentava-me na carteira quando chegava à escola. Punha um caderno & um lápis sobre a mesa. Olhava firme aquelas letras: a-e-i-o-u. Queria entender o que eram, para que serviam aquelas letras, que palavras poderia criar com elas. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – [Olha para a menina com lamparina no oratório] Depois de anos tantos – vos digo – o que lembramos – vos digo – são [Sussurra] pa-la-vras. [Os meninos garatujam palavras com giz] VOZEARIA – A palavra saudade. A palavra aurora. A palavra cantoria. A palavra mãe. A palavra pai. A palavra perda. A palavra rua. A palavra cidade. A palavra janela. A palavra porta. A palavra rosto. A palavra breu. A palavra cisco. A palavra tamborete. A palavra trapiche. A palavra cais. A palavra caminho. A palavra menino. [Suspensão] MENINO – [Sussurra] As palavras não servem para nada. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Olha, eu me recordo da professora Maria Marcelina que recitava poemas de Cecília Meirelles & textos de Clarice Lispector na sala de aula. Recordo minha professora a recitar aquele poema de Cecília estampado na nota de cem cruzeiros, antiga moeda do Brasil. MENINO – [Olha para a menina com cântaro diante do poço]. Um Dentro é lugar longe |

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poema, menina? O que dizia o poema? MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Não me lembro ao certo, mas o rosto de Cecília... O rosto de Cecília Meirelles era risonho & terno. A professora pedia que fechássemos os olhos & só depois dizia-nos poesias. Ela cantava. Era cuidadosa com todos os alunos. Lembro-me duma menina que tinha muito piolhos. Nós a apelidamos de “A piolhenta”. CORO – Piolhenta? MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Sim, piolhenta. Quando a professora Maria Marcelina chegava à sala sempre dizia: Temos que ter cuidado conosco mesmo. Tenho certeza que a mãe da Maísa (que era a menina com piolhos) cuida bem dela. A partir deste dia a menina começou a cuidar de sua higiene. Assim, esta professora nunca nos magoava. Dizia o que precisava ser dito, mas nunca nos magoava. Foi a professora mais linda que tive na vida. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – Éramos tão pobres àquela época. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Quando menina eu não sabia que era pobre. Todas as casas de minha rua eram de alvenaria, mas a minha casa era um barraco. Um dia uma vizinha disse em alto e bom som. CORO – Você é pobre, menina. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Pobre. O que é pobre, menino? MENINO – Pobre é aquele que não tem nada. Sem eira nem beira, menina. Mísero. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Agora entendo. Eu disse a minha mãe. Disse que a vizinha me chamou de pobre. Em seguida minha mãe me contou: MÃE – Filha, a nossa vizinha também é pobre. Ela ocupou o terreno onde mora. O terreno não é dela. É ocupado. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Um dia quando, outra vez, a vizinha me chamou de pobre eu disse: pobre é a senhora que mora em terreno ocupado, a senhora que não tem eira nem beira. Abri bem a boca e disse: CORO – Mísera. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – A vizinha nunca mais me chamou de pobre. Eu não queria ser pobre. Mas éramos tão pobres que brincávamos com pregadores de roupa. Minhas irmãs & eu sonhávamos com bonecas. Mas não tínhamos dinheiro para comprá-las. Nossa mãe só nos presenteou com bonecas quando teve condições de compra-las para todas nós. Construíamos castelos com areia de construção. Eram as casas de nossas bonecas. Os sapatos grandes de nossa mãe eram os carros de nossas bonecas. Era assim: brincávamos juntas. Brincávamos na rua. Fazíamos desfiles sobre o caminhão do meu tio. Eu levava um monte de roupas para desfilar. Brincávamos nos túneis próximos à Avenida Lauro Gomes. Brincávamos na parte detrás da igreja. Criávamos casamentos imaginários. Um dia casei-me com um menino. Vesti-me de noiva. Levei padrinhos e damas de honra. Fiz-me a mais bela noiva da parte detrás da igreja. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – Lembro-me duma casa antiga em construção. Havia areias tantas naquela casa que aquelas areias tantas se tornaram a nossa alegria. Ficávamos naquelas areias durante horas. Construímos um parque diversão. Imenso. O melhor parque de diversão que vi na vida. Manhã e tarde nos perdíamos naqueles grãozinhos, pedras diminutas. Era um parque com carrossel e roda gigante. O chapéu mexicano dava volta pelas alturas & víamos as estrelas começarem

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a surgir no céu. & a montanha-russa era a maior de todo o planeta. Só os corajosos embarcavam naquela montanha-russa. Mas quando findou a construção, findou também o nosso parque de diversões. [Suspensão] Agora aquele carrossel, aquela roda gigante, aquele chapéu mexicano e aquela montanha-russa, construídos entre areias tantas, vivem em mim. Para sempre. Eu os encontro sempre-sempre quando vou dormir. MENINO – Eu brincava com bonequinhos. Tinha um quarto só para mim na época. Guardava lá toda a minha coleção de bonequinhos de cavaleiros dos zodíacos. Brincava muito com eles. Mas fui crescendo & ganhei um irmão. Anos depois o meu irmão também foi crescendo & desejava os meus brinquedos. Dei todos os bonecos para ele. Achava que ele iria brincar & cuidar. Que nada. Ele quebrou tudo. Os braços foram arrancados. & as pecinhas dos bonecos se perderam em pouco tempo. Ah que dó. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO – Brinquei de boneca. A infância toda brinquei de boneca. Até os doze anos de idade. Fiquei com muita raiva quando minha mãe disse que eu já era moça & não podia mais brincar de boneca. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Lembro-me quando fui à casa duma tia. Cheguei lá & vi no quarto da minha prima uma estante de brinquedos de barro. Eram potes, vasos & pratos de barro. Achei tudo muito lindo. Mas minha tia disse que não deixava minha prima brincar, porque ela quebrava tudo. Minha mãe logo tratou de contar que eu era muito cuidadosa com os meus brinquedos. Então, minha tia me deu tudo de presente. Fiquei muito feliz. Mas na hora de guardar joguei todos os brinquedos num saco. & claro que tudo quebrou. No outro dia, pela manhã, minha tia veio em minha casa. Fiquei apavorada. Não queria que ela soubesse que eu tinha quebrado tudo. Vasculhei o saco & achei um vasinho de barro inteiro & fiquei segurando o tempo todo para mostrar à minha tia que eu era cuidadosa. Não via a hora que ela fosse embora. MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO – Eu também gostava de brinquedos de barro. Ia à feira com minha mãe & via um monte de panelinhas de barro & não podia comprar nem uma. Quando chegava em casa ia para o quintal & massarocava barro com água & nunca conseguia fazer uma panelinha igual à que via na feira. Dava uma tristeza. Eu tinha uma vizinha que morava numa casa de barro. Ela lambia a parede de barro com tanto gosto que me deu vontade de provar. Provei. Provei também areia, pois dava para encher a mão. Fiquei com areia na língua a semana inteira. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO – Minha irmã adorava comer barro. Ela comia tijolos. Porém, o pior não era que ela comesse tijolos, o pior era me obrigar a comer também. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS – Nossa, lembro que o meu irmão adorava cavoucar as paredes com minhas panelinhas de brinquedo. Uma vez vi aquilo & fiquei espantada. Gritei: Mãe, o Lipe está comendo os cantos da parede. Aí nossa mãe disse: Não liga, menina. É a giárdia. [Breu] [Choro de menino que nasce] Dentro é lugar longe |

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Experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

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Breviário 4

pássaro entre luzeiros

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Minha vida sempre foi cheia de doces. Meu pai era padeiro & preparava alguns doces em casa: cocada, doce de leite & geleia de mocotó. Ficávamos assistindo meu pai a preparar doces. Pensávamos conosco mesmo: Meu Deus, quando vai ficar pronto? Quando os doces ficavam prontos, era festa em nossa casa.

Arquivo pessoal do diretor Anderson Maurício

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[o menino toca gaita ao longe] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Vivi uma infância de muitas responsabilidades. Brinquei como toda criança, mas antes tinha que limpar a casa, banhar os meus irmãos & preparar a refeição deles. Aprendi a cozinhar muito cedo. Sempre gostei de cozinhar. Quando menina, eu trabalhava. Lavava quintal de outras pessoas. Limpava a casa da minha avó & do meu tio. Sempre-sempre – vos digo – trabalhei para juntar dinheiro. Sempre-sempre tive um dinheirinho para comprar o leite. A minha avó me dava uns trocados para que eu fizesse massagem nas costas dela. As pessoas me pagavam porque eu era muito esforçada. Sonhei em seguir a carreira de dentista quando menina. Uma vez fui ao consultório & a dentista me disse que minha dentição era muito boa. Colocou flúor nos meus dentes. Eu achei o flúor a coisa mais maravilhosa do mundo. Aquele cheiro & aquele consultório infantil eram lindos. Fiquei apaixonada por tudo aquilo & decidi ser dentista. Quando cheguei em casa contei a todos a minha decisão de menina. CORO Quero ser dentista. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Minha tia, então, me disse que ser dentista era algo nojento, pois dentista cuida de dentes podres, cuida do bafo dos outros. Fiquei desiludia. Falavam que eu devia ser modelo, pois era muito magrinha. Mas decidi que não ia ser modelo. [Suspensão] Hoje, sou atriz. & isto não foi uma escolha. Aconteceu naturalmente. Aos 12 anos, eu era atriz no meu quintal. Chamei até um professor para ensinar teatro. Estudei. Tornei-me atriz. Inclusive conheci o amor da minha vida no teatro. [Suspensão]

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MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO Nunca sabia ao certo o que seria da vida. Pensei comigo: Não terei nenhuma profissão. Vou desencanar, porque pobre faz o que aparece para fazer. Trabalhei num posto de gasolina por um tempo. Depois fui para outra cidade com a esperança de encontrar algo melhor por lá. Quando cheguei nesta cidade fui roubada & tive que voltar para casa. Ainda bem que minha mãe disse que eu poderia voltar, se não ficaria na rua. Neste retorno, perguntavame o que ia fazer da vida. Lembrei-me que na igreja eu gostava de cantar & preparar coreografias. Veio-me um amigo e me contou sobre uma escola de teatro. Fui para lá no último dia de inscrição para um curso. Inscrevi-me na hora. Fiz um teste. Passei. Estudei. Sofri. Labutei. Hoje sou atriz. [Suspensão] Minha infância foi permeada pela religião. Não podíamos assistir tevê. Nem jogos de futebol. Porém, o meu pai torcia para um grande time do Brasil, o Corinthians. & eu também. Nunca fui a um jogo de futebol, mas um dia escrevi ao jornal de minha cidade, contei que pretendia me corresponder com pessoas que torcessem para este time. Queria montar um fã-clube. Logo depois, o mesmo jornal perguntou se eu queria participar de uma matéria sobre o Corinthians. Aceitei com alegria. Era preciso que eu fizesse tudo isto escondido, pois na igreja e em minha casa ninguém poderia saber. Futebol não é coisa de Deus, diziam. É coisa do diabo. Não houve jeito, quando a matéria foi publicada no jornal todos souberam. Minha mãe brigou comigo & até o pastor deu-me conselhos. No fim das contas, fiquei muito orgulhosa em ser conhecida como a menina do Corinthians. Meu pai também. Minha vida sempre foi cheia de doces. Meu pai era padeiro & preparava alguns doces em casa: cocada, doce de leite & geleia de mocotó. Ficávamos assistindo meu pai a preparar doces. Pensávamos conosco mesmo: Meu Deus, quando vai ficar pronto? Quando os doces ficavam prontos, era festa em nossa casa. [Suspensão] MENINO Meu pai tinha um problema no coração Meu pai fez a primeira cirurgia aos tinha trinta anos. Quase morreu. Na época não havia essas condições sofisticadas de cirurgia. [Sussurra] É sempre muito perigoso mexer no coração. Um ano depois, um ano depois da cirurgia, [Suspensão] meu pai morreu.

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Guardo lembranças do que contam. É sempre muito perigoso mexer no coração. Dizem que meu pai era muito carinhoso. É sempre muito perigoso mexer no coração. Ele trabalhava o dia inteiro. É sempre muito perigoso mexer no coração. Mas quando chegava à noite, ele me acordava. É sempre muito perigoso mexer no coração. Acordava o meu irmão para jogar vídeo game. É sempre muito perigoso mexer no coração. Ele acordava os filhos para brincar. É sempre muito perigoso mexer no coração. Ele fazia uma grande festa na casa. É sempre muito perigoso mexer no coração. Vira e mexe ele fazia festas e festas. [Suspensão] Contam que no dia do velório do meu pai eu estava muito feliz. Brincava muito. Corria muito por debaixo do caixão e gritava: [Sussurros] VOZEARIA acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar acorda pai acorda vamos brincar [Suspensão] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Contam que no dia do velório do pai o menino estava muito feliz. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO Brincava muito. Corria muito. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO Corria muito por debaixo do caixão. Dentro é lugar longe |

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MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO O menino corria por debaixo do caixão & gritava: [Sussurros] Acorda, pai. Acorda. Vamos brincar. [Suspensão] MENINO era só um menino que não sabia o que é a morte [Breu] [Choro de menino que nasce]

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Experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito Dentro é lugar longe |

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Da direita para esquerda – As atrizes Priscila Reis e Alessandra Della Santa; o dramaturgo Rudinei Borges; a atriz Maria Alencar; o diretor Anderson Maurício e o ator Junior Docini no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

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Breviário 5

campo retilíneo Dentro é lugar longe |

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Pula, filha. Pula que não deixo você se afogar, filha. Pula de cima da árvore, filha. Pula no lago que a água é cristalina, filha. Que os peixes são mansos, filha. Que a manhã não finda, filha. Que as tardes são imensas, filha. Que à noite o céu é tomado de estrelas para a gente olhar do bagageiro do carro, filha. Pula, filha.

Arquivo pessoal da atriz Tatiane Lustoza

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[Os meninos cantam à volta da fogueira] [Suspensão] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Quando menina tinha verrugas nos olhos. Nenhum remédio curava aquelas verrugas. Minha mãe amarrava fio de cabelo. Uma vez acordei com o olho inchado porque inflamou. Nada curava aquelas verrugas. [Sussurro] Tive uma conversa muito séria com Deus. As verrugas desapareceram. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO Da minha janela avistava um piano Era a coisa mais linda do mundo Uma mulher tocava o piano Era a coisa mais linda do mundo Pedi à minha mãe Quero aprender a tocar piano Minha disse que era impossível Pois não tínhamos como pagar Já pagávamos o médico Não pude aprender a tocar piano Era a coisa mais linda do mundo [Suspensão] Mas um dia Vou tocar piano Um dia vou tocar piano Como aquela mulher Que tocava piano Quando eu tinha Sete anos MENINO Um dia A menina vai tocar piano Um dia a menina vai tocar piano Como aquela mulher Que tocava piano Quando a menina tinha Sete anos Dentro é lugar longe |

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MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO O meu maior desgosto quando menina: ser muito doente. Não podia tomar nada gelado. Tive vontades tantas. Principalmente de tomar sorvete. [Suspensão] Só podia tomar sorvete uma vez por ano. Minha mãe só permitia que eu tomasse sorvete na festa da padroeira de Mauriti: Nossa Senhora da Conceição. Tomava sorvete na missa e no outro dia estava doente. [Suspensão] Só comecei a ficar menos doente entre dez e onze anos de idade. Lembro que meus irmãos mais velhos & eu ganhávamos roupas novas apenas uma vez ao ano. Nossa mãe comprava o tecido & fazia a roupa. Íamos às festas sempre com a mesma roupa. Conjuntinhos combinando. Era engraçado. Usávamos a roupa até rasgar. O meu maior sonho era ser dama-de-honra. [Suspensão] Nunca fui chamada para ser dama-de-honra. Acreditava que era culpa de minha mãe que não permitia. [Suspensão] Minha prima foi dama-de-honra vezes-e-vezes. Ela tinha um vestido e usava em todos os casamentos. [Suspensão] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Com uns três ou quatro anos fui a dama de honra do casamento do meu tio. Levei as alianças. O casamento demorou muito, sentei no altar & comecei a dormir. Na hora que o padre perguntou pelas alianças ninguém conseguia encontrá-las. Depois disso nunca mais me chamaram para ser dama de honra. Quando menina o meu sonho era ter uma irmã. Tempos depois minha mãe ficou grávida. Uma vez minha mãe foi ao médico & consegui ouvir o coraçãozinho do bebê. Não sabíamos se era menino ou menina. Quando disseram que nasceria um menino, fiquei muito triste. Fiz um escândalo. Não sei o que minha família fez para me convencer que um irmão, & não uma irmã como eu queria, era a melhor coisa do mundo. Porém, anos mais tarde, quando nasceu a minha irmã, foi uma felicidade. Queria que o nome dela fosse Carolina para chamá-la de Carol. Quando o meu pai voltou do cartório, fiquei triste outra vez, porque minha irmã foi registrada com o nome Ja-que-li-ne. Meu pai disse que Jaqueline era nome de rainha. Depois acostumei com o nome Jaqueline. MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO Outro sonho imenso era vestir-me de anjo. Ser anjo para coroar Nossa Senhora no mês de

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maio. Para coroar a Virgem Maria em novenas de maio. O meu sonho era usar aquele vestidinho de seda cor-de-rosa, pôr aquelas asas grandes & ficar lá no altar. [Suspensão] Ao lado de Nossa Senhora. Uma vez fui chamada para ser anjo minha mãe não deixou Fiquei doente. Chorei o mês inteiro. Perdi a grande chance de minha vida. Era lindo ver aquele altar. Aquela multidão rezando. As pessoas olhavam para aquele mundaréu de anjinhos cantando. Perdi a grande chance de minha vida. Uma vez fui chamada para ser anjo minha mãe não deixou só de raiva: me escondi durante horas até que mãe quase enlouqueceu à minha procura: fui até diante do poço (fundo-fundo): deixei algumas pegadas por lá: depois sumi sem deixar rastros: voltei para casa: me escondi no quarto (dentro de uma mala de viagem): minha mãe ficou desesperada: me procurou em lugares tantos: chamou vizinhos tantos para procurar: ela chegou a pensar que eu havia caído dentro do poço (fundo-fundo): foi uma confusão: quando me encontrou ficou muito brava: brigou comigo: foi muito severa: Herdei este lado espoleta do meu pai. [Suspensão]

A atriz Tatiane Lustoza no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito Dentro é lugar longe |

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MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO íamos toda quinta-feira: toda quinta-feira íamos para o círculo de oração: escolhíamos cantigas para cantar na igreja: aos domingos também íamos à igreja: a igreja era pequenina: [Suspensão] as minhas roupas eram as últimas roupas: porque sou a terceira filha: ficava com as roupas que sobravam: meu pai: meu pai queria ter um filho: mas teve quatro filhas: sou a terceira filha: minha mãe: minha mãe era contadora de histórias da Bíblia: ficávamos todas deitadas na cama e minha mãe contava histórias da Bíblia: : minha mãe: minha mãe conheceu o meu pai na igreja: ele esqueceu a Bíblia de propósito na igreja: a minha mãe encontrou a Bíblia e foi entregar ao meu pai: assim eles se conheceram: começaram a namorar: se casaram: [Suspensão] meu pai: meu pai deixou a igreja logo que nasci: meu pai era homem forte: meu pai ficou doente: meu pai só voltou para a igreja quando estava para morrer: meu pai morreu: [Suspensão] Morri tantas vezes. A morte é uma passagem, é o que dizem. Acredito nisto. Meu pai morreu quando eu tinha onze anos. Sofreu um acidente de carro no dia do meu aniversário. No dia em que comemorávamos a data do meu nascimento, meu pai começou a se preparar para partir. Partiu um ano depois. Arrependeu-se de erros tantos. Pediu-nos perdão. Naquele dia, quando meu pai morreu, foi uma vizinha que nos avisou. Não tínhamos telefone. Não aceitei aquela notícia. Era muito próxima do meu pai. Ele partiu uma hora & quinze da madrugada. Fiquei acordada a noite inteira. Não consegui pensar noutra coisa. Precisava ficar com o meu pai até o último instante. Meu pai era a pessoa mais importante da minha vida. Meu pai pedia músicas para que eu cantasse. Meu pai gostava de me ouvir cantar. [Suspensão] [O pai caminha pelo chão imenso. Olha para a filha]

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O PAI Pula, filha. Pula que não deixo você se afogar, filha. Pula de cima da árvore, filha. Pula no lago que a água é cristalina, filha. Que os peixes são mansos, filha. Que a manhã não finda, filha. Que as tardes são imensas, filha. Que à noite o céu é tomado de estrelas para a gente olhar do bagageiro do carro, filha. Pula, filha. MENINA COM CÂNTAROS DIANTE DO POÇO [A menina do alto olha para o pai no chão imenso] Pulo sim, pai. Que não me afoguei nem vou me afogar, pai. Que a árvore é segurança passageira, pai. Que a água cristalina é que é liberdade, pai. Que não tenho medo dos peixes valentes, pai. Que a manhã não finda, pai. Que as tardes são imensas, pai. Que à noite o céu é tomado de estrelas para a gente olhar do bagageiro do carro, pai. Pulo sim, pai.

[A Menina com cântaros diante do poço parte pelo chão imenso] [Ao longe acena adeus aos outros meninos] [Breu] [Choro de menino que nasce] Dentro é lugar longe |

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A atriz Alessandra Della Santa no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito

Epílogo

corpo ávido no coração do tempo 78 | Dentro é lugar longe


Menina, não esquece este “bendito”: é preciso viver coisas pequeninas da vida. Esta é a chave. [Entrega a mala para uma das meninas] Grande é o mundão. Vida é andorinha: bicho pequenininho. [O menino parte, à volta da fogueira, pelo chão imenso & grita ao longe] Vida é andorinha: bicho pequenininho. Vida é andorinha: bicho pequenininho. Vida é andorinha: bicho pequenininho.

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[Os meninos acenam para a menina com cântaros diante do poço que parte pelo chão imenso] [As estrelas brilham] MENINO Sentir saudades é tomar-se rodeado por claridão sem fim. Lembro aqueles que vieram antes de mim, aqueles que foram/não foram/parti-ram. Aqueles que voltaram. Aqueles que estão aqui. Aqueles que nunca mais vi. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS [Olha para a Menina com voile acocorada no chão imenso] A menina lembra agora, não sei por quais razões, de uma irmã que morreu com sete dias de vida. [As estrelas se apagam] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Uma irmã que não conheceu. Uma irmã que não quis ficar aqui por muito tempo. Só sete dias. MENINA COM VOILE ACOCORADA NO CHÃO IMENSO [Ventania]

A atriz Maria Alencar no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito

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[A menina caminha diante de malas surradas] Sete dias é tempo suficiente para olhar marés & âncoras & barcos que partem do cais & nunca mais voltam. É tempo suficiente para olhar o mundo & se despir do mundo como quem se despe dos raios do sol e dos males do mundo. Sete dias é tempo suficiente para perceber que o mundo não é mar de rosas. Mas em sete dias é possível plantar jacintos & colher jacintos. Porque sete dias é tempo suficiente para colher acalantos dos olhos da mãe & do pai. É tempo suficiente para lembrar-esquecer. Perder-ganhar. Sete dias é tempo suficiente para e nveredar-se pelo breu & pela luz. E deitar-se no chão imenso. Sentir no chão imenso raízes fundas de árvores que crescem pelo pasto. Ver brotar do chão plantações de arroz & trigo. Ver o milho ser colhido, cozido, assado, posto à mesa à noite. Sete dias é tempo suficiente para colher o barro, tecer tijolos & construir casas. Desenhar alicerces, alpendres, varandas, salas, telhados, portas, janelas, fechaduras, escadas, ruas, quintais, sótãos, cabanas & porões. Sete dias é tempo suficiente para amar-odiar. Acreditardesacreditar. Adentrar a carne febril das tardes. Desnudar avenidas & becos. Pôr abaixo a cidade como quem desvela ranhuras com a planta dos pés. Sete dias ou dois dias ou cinco dias ou um dia é tempo suficiente para entender que o tempo é caos em forma de vento. Que estaremos sempre acordados no fim do dia, quando o sol se fragmenta em vermelhidão no céu, quando a escuridão se põe sobre o corpo das gentes e os sinos tocam & os pássaros rezam a passagem das horas. Sete dias não é muito nem pouco. São somente sete dias que se perdem como outros sete dias que estão por vir. Ou não. Sete dias não é coisa a que possamos ter apego. Sete dias é tempo suficiente para não fazer absolutamente nada. Ou só olhar o campo que se compõe retilíneo pelo espaço & passeia longínquo defronte de nossos olhos. Sete dias é tempo suficiente para aclararmos ao mundo que não estamos aqui por razão alguma: para viver apenas. & viver não é coisa que possamos aclarar. Sete dias é tempo suficiente para isto & outras vazões tantas. Porque sete dias é tempo suficiente inclusive para que se diga: não, não quero ficar aqui. Não quero viver. Sete dias é tempo suficiente inclusive para partir. & nunca mais voltar. [A Menina de cabelos negros longos olha para a Menina com voile acocorada no chão imenso e entrega a chave que carrega num cordão pendurado no pescoço] Dentro é lugar longe |

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MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS olhe para fora: as janelas estão abertas: mesmo as cortinas de voile permitem adentrar pedaços de luz na casa: a cidade imensa arde em chamas e as fagulhas dormem nos olhos entristecidas: temos outras lembranças tantas para contar: ficaríamos aqui uma noite: um dia e mais uma noite e ainda teríamos histórias: [Suspensão] tudo está guardado nesta chave que carreguei no peito durante anos: porque o que tenho para contar arde-dorme-acorda dentro de mim como âncora dum barco pronto para navegar num rio afoito: o que tenho para contar é alegre-triste: voz que vem e parte para os campos de erva doce/ erva amarga: é vozearia que se consome em silêncio numa estrada que vai a lugar nenhum: é dor/pranto/agonia: sussurro de Deus e dos homens: sussurro de mulheres de vestidos longos e brancos que lavam roupas em córregos: fio miúdo d’água: [Suspensão] o que tenho para contar é parte de mim e do mundo: ranhura em muralha antiga: portão que abre e fecha e esmorece com a ferrugem dos tempos: o que tenho para contar é segredo: mas quando eu contar continuará sendo secreto: sagaz como o breu e a tarde: sagaz como pingos que se espalham com a chuva e o vento: [Suspensão] não tenho segredo algum: [Suspensão] mentira: tenho todos os segredos: não digo dos meus segredos porque não posso e não quero: vivo-morro com meus segredos: e canto o acalanto das mães que choram escondidas no quarto escuro: o meu porão é canto de andorinha: as minhas cicatrizes estão expostas como rugas coladas ao rosto: tenho medo e sede: quero um copo d’água: um chá: quero um pouco de veneno e açúcar: tenho vontade de morrer às vezes: tenho vontade de viver sempre-sempre: a verdade – vos digo: nem tudo se conta: há lembranças tantas que trancamos num baú sem chaves: o nome disso é passado: acorde adormecido nos tímpanos: pássaro que some no céu entre nuvens: a minha multidão de fantasmas é veloz: há rostos e mais rostos: não esqueço nenhum: nem o mais velho nem o mais novo: não conto aquilo que dói: [Suspensão] veja: longe: naquela janela: há alguém ali que guarda um segredo: [Suspensão] uma vez olhei firme os olhos dum menino que sentava todas as manhãs num banco diante do cais entre barcos: uma vez olhei firme o menino e disse a ele: CORO [Olham para o menino] Conta-me o teu segredo. [Ao longe o menino escreve uma carta]

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MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS o menino desviou o olhar: caminhou pelas terras: demorou anos noutros lugares: foi embora: tempos depois o menino retornou ao cais e trouxe esta carta que diz: MENINO [Abre a carta] o meu segredo é que um dia – diante do cais – olhei firme a correnteza do rio/era noite/vi-me com lágrimas nos olhos/olhei firme a correnteza do rio/quis jogar-me na correnteza/ quis jogar fora minha vida & meus sonhos/quis morrer/o meu segredo é que não há um só dia em que não pense em morrer/mas por covardia ou coragem nunca atentei contra a minha vida/por covardia ou coragem continuo com os dias encravados no corpo/& vivo/& nalgum lugar/quando adentro os rodeios mais distantes desta casa/& abro baús & malas tantas/com esta chave miúda/uma espécie de esperança-menina/como uma andorinha/vem para dentro de mim/& me faz viver sempre-sempre/pelo chão imenso [Fecha a carta] MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS foi isto que escreveu o menino: [Senta-se e escreve uma carta] e é isto que escrevo agora: por covardia ou coragem não conto o meu segredo: não mostro a marca acocorada no meu corpo de ponta a ponta por baixo do voile: por covardia ou coragem não digo coisas outras: lembranças outras da menina que se debruçava na janela & olhava o movimento da rua como quem olha distante o movimento da vida: [Suspensão] o que você lembra antes de dormir?: o que você lembra ao acordar?: o que você não quer lembrar?: [Olha o menino] acorda, filho: acorda, filho: acorda: o mundo é coisa tão antiga: [Som de riso de meninos] MENINO [Olha as distâncias] Menina, olha. MENINA DE CABELOS NEGROS LONGOS Que é? Não vejo nada. Dentro é lugar longe |

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MENINO Aqui [Toca o peito com a mão] Aqui é a terra de onde vim. [Olha para todas as meninas] Agora eu conto: o menino nasceu. Aqui dentro o menino crescerá livre pelos campos. Poderá plantar e colher. Poderá apanhar, nas fazendas, todas as mangas do mundo. Aqui dentro o menino deitará com a peleja & vencerá a labuta. Aqui [Toca o peito com a mão] as terras não são partidas. Não há cercas de arame farpado. Não há senhor. Não há escravos. & os córregos vão cheios d’água em direção aos rios. & os rios vão cheios d’água em direção ao mar. O nome desta terra é Travessia. [Os meninos contemplam o chão imenso, a menina com lamparina no oratório se compadece do menino e anuncia tempos novos]

Arquivo pessoal da Atriz Priscila Reis

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MENINA COM LAMPARINA NO ORATÓRIO Sou cria duma terra: Travessia. De sol latente, menina-menina, terra distante, ao norte do norte de tudo: cafundó. Uma terra: Mauriti. Uma terra: Itaituba. Uma terra: Aracaré. Uma terra: lugar nenhum: de casas juntas, casas baixas, telhas (de barro) e calçadas grandes. Quintal ao fundo. Terreiro à frente. Terreiro imenso. Sou cria duma terra de poços fundos, gangorras-tantas. Carregávamos água em potes (de barro) a manhã inteira. Água para germinar o mar dentro da sala, da cozinha, da panela de pressão. E colocávamos sal na água doce. Sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal e sal em colheres de pau. Só assim o mar cresceria. Só assim o sertão viraria mar. Mar de peixes e areias e algas e ondas. E barcos que partem para o Ceará. Belém do Pará. Barcos (azuzins-azuzins) que voltam-vão no Solimões, no Rio São Francisco, no Mar Morto, no Mar Vermelho, no Rio Nilo, no Missipi. Sou cria duma terra de ladainhas, de Cíceropadre-mestre, secura, fundura: volteadura das valentias. Sou de repente, porque o mundo é de repente, porque o sertão é de repente, porque o mar é de repente, porque o coração é de repente. Sou bocejo que se transforma em vento e acocora (dentro de si) a tempestade. Sou tempestade das marés, das cordilheiras e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou. [Suspensão] É manhazinha. [Fala como se conversasse com alguém] Já vou, mãezinha, já vou buscar água no poço, encher pote d’água, colocar sal n’água até água virar-mar. Espera não, mãezinha. Já vou. E vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou e vou. Vou varrer terreiro até o dia escurecer. [Suspensão] Nossa Senhora nunca que ia deixar a gente sofrer. Tanto. Nossa Senhora vem me visitar toda manhazinha. Hoje mesmo Nossa Senhora trouxe dos campos esta rosa. [Coloca a rosa entre os cabelos] Foi Deus que mandou esta rosa para que eu colocasse nos cabelos e bonita corresse pelos campos agora mesmo. [Suspensão] Quando menina queria saber se Deus tinha barba longa, se morava numa casa grande, se era bravo. Queria saber se Deus era andorinha. Queria saber se Deus sabia voar. [Suspensão] Deus ainda não aprendeu a voar. [Suspensão] Aprendi a voar aos treze anos. [A menina com cântaros diante do poço aparece, ao longe. Aos poucos se aproxima dos outros meninos] Aprendi a voar nos campos, em tempos de festa de São João. Aprendi a voar com andorinhas do campo que se espalhavam pelo mundéu, nas árvores, no céu, nas nuvens. Ganhei asas de anjo. Asas de alva penugem como a brancura do algodão. Foi quando olhei o mar pela primeira vez. Voei sobre mar e sertão. Vi ao longe Mauriti pequenina. A casa de Dentro é lugar longe |

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minha mãe, de minha avó, a torre da igreja matriz, caminhões que partem para a Bahia, ônibus que partem para Minas Gerais, estradas que dão em Passos, barcos que vão para Cametá. Caminhos dentro da mata que dão em Fumal, Buritizinho, São Paulo, Belterra, Trairão, Jacareacanga, São Luis do Tapajós, Boim, São Caetano do Sul, Cachoeira Porteira, Itaquera, Barreiras e Aldeia Sai-Cinza. Nunca mais deixei de voar. Tornei-me bicho voante. Rasante de fagulhas nos olhos do deserto. [Suspensão] Não sou mais gente. Sou andorinha. [O menino olha a terra imensa. Contempla, ao longe, as quatro meninas no chão imenso, ao redor da fogueira] MENINO É assim que termino: começando. Com os olhos cheios de poeira, feito uma estrada. Certo de que lhes disse do meu ofício com inteireza. O meu ofício é contar. É que contar é estrada árdua onde a gente caminha e segue e retorna e chega e não chega. Eu sei: aqui dentro é a terra de onde vim. Por isso, digo sempre-sempre: [Olha para a Menina com lamparina no oratório] Menina, segue a estirada. Toma estas estrelas e espalha estas estrelas pelo céu destas terras. Assim estas terras serão tomadas de claridão sempre-sempre. Não haverá mais opressão. Menina, olhe: Segue pelos campos. Segue por azinhagas tantas. A saudade fica em algum lugar do corpo. [O menino tira poeira do bolso & assopra] Na palma da mão. É que a gente sente saudades do que já foi, do que aconteceu longe, noutras paragens. A gente sente saudades porque lembra, guarda no peito coisas tantas. É preciso uma chavezinha. [Mostra a chavezinha] Basta girá-la & de repente, defronte, reencontramos cheiros, terreiros, gestos, cantigas de ninar, brincadeiras de todo o tempo. Uma reza, uma ave-maria, um padre-nosso. [Sussurra] Deus é criatura tão bonita.

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Olhe lá nos campos: o pai, a mãe & os irmãos do menino caminham para um lugar longe. Eu vos digo que lugar é este: dentro. & eu parto para dentro do mundão com o que guardo: saudades. Com o que sou: lembranças. Com o que tenho nos bolsos: memórias. & vou nesta viagem com os olhos na janela, rezando acalantos: Menina, não esquece este “bendito”: é preciso viver coisas pequeninas da vida. Esta é a chave. [Entrega a mala para uma das meninas] Grande é o mundão. Vida é andorinha: bicho pequenininho. [O menino parte, à volta da fogueira, pelo chão imenso & grita ao longe] Vida é andorinha: bicho pequenininho. Vida é andorinha: bicho pequenininho. Vida é andorinha: bicho pequenininho. [O menino, ao longe, toca gaita] [Choro de menino que nasce] [Breu] [Fim]

As atrizes Alessandra Della Santa, Priscila Reis e Tatiane Lustoza no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito Dentro é lugar longe |

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Cenário do espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito

notas críticas 88 | Dentro é lugar longe


Dentro é lugar longe é um dos textos mais bonitos apresentados neste ano pelo teatro paulistano. É poético, fluído e tocante. [Miguel Arcanjo Prado – R7 /Associação Paulista de Críticos de Artes]

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Em chave lírica, Dentro é lugar longe trata essencialmente do sentido de perda provocado pela morte em contraponto com o enfrentamento do risco como condição intrínseca à vida, ao menos quando vivida em sua plenitude. [Beth Néspoli – jornalista e crítica de teatro]

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Dentro é lugar longe (...) desperta o sentido da existência de cada um. Criar empatia a partir de histórias tão cotidianas talvez seja o grande charme desta peça não linear, em que a poesia é o filtro de toda a narrativa e o componente que costura a trama. Os personagens, que não necessariamente estabelecem relações entre si, lançam um olhar ingênuo e belo sobre a infância, os pais, e relembram as dores que a morte de entes queridos lhes trouxe. [Gislaine Gutierre – Folha de São Paulo]

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Dentro é lugar longe é um roteiro eminentemente afetivo, filtrado pelo universo das emoções infantis que, como sabemos, ainda não são vulneráveis aos contratempos da existência adulta. Ou seja, a narrativa de eventos e reminiscências do passado emerge hoje envolta na bruma da sensibilidade, da espontaneidade, transfigurada. É uma espécie de fábula, na qual o importante é o que ela reve-la e ao mesmo tempo esconde ou dissimula. [Edgar Olimpio de Souza – Revista Stravaganza]

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O contraste entre o texto delicadíssimo e a boca dentada da cidade é digno de nota. [Kil Abreu – jornalista, crítico e pesquisador de teatro]

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Dentro é lugar longe nos permite reviver nossas próprias vidas a partir das vidas de seus personagens. [Marcela Boni – Fala Escrita/Núcleo de Estudos em História Oral USP]

A atriz Priscila Reis no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Christiane Forcinito

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Dentro é lugar longe passa por memórias da infância dos narradores, em que lembranças de nascimento e morte são contadas. [Catraca Livre]

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Apresentação do espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima para motoristas e cobradores de ônibus no dia 1º de maio, Dia do Trabalhador. Foto por Christiane Forcinito

Em Dentro é lugar longe o texto flui e é leve. A peça mostra que o povo é, sobretudo, rico pela coragem com que encara a existência. [Elizangela Marques - Balaio Cultural SP]

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A peça não linear de Rudinei Borges investe no homem comum, suas saudades, no enfrentamento da vida, na luta contra a morte. [Thiago Mariano - Diário do Grande ABC] Dentro é lugar longe |

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A menina que queria ser atriz, o menino que não sabia o que era a morte, a avó que pediu à neta para apagar a luz no último descanso, a viagem em família em um carro com o dobro da capacidade de passageiros. A perda. (...) A poesia de Dentro é lugar longe transcende do poético ao humor e do drama à liberdade em questão de um ato. [Rafael Carvalho – Linhas Líricas]

O ator Junior Docini no espetáculo “Dentro é lugar longe” da Trupe Sinhá Zózima. Foto por Danilo Dantas

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Dentro é lugar longe é um texto forte, poético, seco, popular e rebuscado”. [Emerson Alcalde – dramaturgo]

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no chĂŁo imenso de rudinei borges

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Arquivo pessoal do dramaturgo Rudinei Borges Dentro ĂŠ lugar longe | 101


O primeiro livro de Rudinei Borges, “Chão de terra batida” (publicado em 2009), foi recebido com entusiasmo por críticos como Afonso Romano de Santana e a pesquisadora Iná Camargo, da Universidade de São Paulo. A atriz Juliana Galdino considera o livro “um intenso depoimento, um testemunho que pode já ser considerado um testamento”. Para Carlos Alberto Rodrigues Pereira, mestre em Literatura Brasileira pela PUC/SP, “os poemas de Rudinei Borges possuem uma propriedade peculiar: conseguem nos impregnar da mesma nostalgia de seu autor, como se odores, sabores e outras sensações que percorrem a sua poesia se integrassem às lembranças de cada leitor. Epifanias que eclodem de cenas cotidianas revelam um universo repleto de singelas riquezas, para o qual somos transportados, por força do claro estilo do escritor. A propósito deste estilo, afirma o pesquisador, o rigor de quem procura a palavra exata e a simplicidade derivada da opção por prescindir de efeitos vazios se encontram em medidas precisas na escrita de Rudinei, o que nos faz crer estarmos diante de um poeta destinado a se consolidar entre os melhores”. Por meio de uma prosa memorialista, algo que transita entre o regional e o universal, Rudinei Borges, apresenta-nos uma revisitação de seu espaço primeiro, no caso, o interior da Amazônia brasileira. Para Edner Morelli, poeta e também mestre em Literatura Brasileira pela PUC/SP, os poemas e textos de Rudinei guardam uma potencialidade infindável de sugestões poéticas, que vai do tom impressionista-cotidiano à surpreendente reflexão existencial-filosófica. Rudinei cria, ou melhor, re-cria sua própria mitologia, ao recuperar as figuras familiares mais íntimas, os espaços mais longínquos de sua infância-raiz, apontando para um movimento curioso de representação, que abrange o lado interior e exterior do poeta. Para Edilson Pantoja, romancista e mestre em Estudos Literários pela UFPA, “Chão de terra batida” é um livro mítico. Ele remonta ao barro primitivo para tocar no mistério da gênese. Não da phýsys enquanto mundo objetivo, mas do cosmos subjetivo da poesia de Rudinei Borges. Narrativa em que as principais referências são femininas: a mãe, a vó, a Amazônia, grande ventre do qual aquelas parecem constituir figura. Para Carlos Eduardo Marcos Bonfá, escritor e mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista, a cotidianidade da poesia de Rudinei Borges chama atenção. Uma cotidianidade singela, mas mesclada com elementos fantásticos, atingindo, por meio de algumas imagens e metáforas, os limiares de uma surrealidade distante da visão de mundo mais ortodoxa propagada pelos surrealistas franceses e também distante da violência e do erotismo típico deles. Trata-se de um cotidiano envolvido pelo fantástico com toda sua comoção singela, em que Deus é menino, em que Deus é palpável, comunicável e participa de nossa vida como mais um vivente perambulando por aí. Esta singeleza dá espaço a alguns mais ásperos e intensos momentos, como o poema “Catedral de Sant´Ana.” Rudinei “tem a mão e o pulso do poema, seja ele texto, silêncio, vazio, chão, sangue, rios, árvores ou barro”, comenta o escritor Daniel da Rocha Leite. Para o poeta paranaense Rodrigo Domit, “Chão de terra batida” é, como

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o título já sugere, literatura sem reboco. Não tem rodeios nem rodopios, nem temperos ou condimentos, é literatura pura e simples, crua. Não se trata da poesia teorizada e lapidada para atingir a perfeição, trata-se da perfeição da poesia vivida”. Para a escritora Lunna Guedes “não há pressa em suas linhas. Os versos cantam a saudade de um tempo distante do nosso. Até parece que não é real”. Segundo o pesquisador Lou Caffani, Rudinei Borges não fala das reminiscências de sua vida, as faz cantar. “Chão de terra batida” não é uma recordação de sua infância e de seu povo, é um devir-canto dessas potências que (re)fazem uma potência viva.

O dramaturgo Rudinei Borges no experimento “Estirada” em chácara no interior de São Paulo. Foto por Christiane Forcinito Dentro é lugar longe | 103


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A criação literária, teatral e filosófica de Rudinei Borges notabiliza-se, sobretudo, pela investigação do encontro como categoria existencial. A partir deste parâmetro, a memória surge marcadamente como a matéria mais relevante na tessitura da obra deste autor. Epifanias que eclodem de lembranças, as mais antigas, desvelam composições poéticas advindas de narrativas de vida: autobiográficas ou não. É o que ocorre desde o lançamento de seu primeiro livro “Chão de terra batida” (2009), que despertou o interesse de críticos como Affonso Romano de Sant’Anna. Rudinei Borges é dramaturgo, poeta e ficcionista. Ator e diretor de teatro. Nasceu em Itaituba, interior do Pará, onde iniciou a sua formação teatral e formou-se ator, integrando cursos oferecidos pela Secretaria de Cultura, e participando de movimentos sociais e comunidades de base. Em São Paulo, integrou o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e cursos do Teatro Escola Macunaíma e da SP Escola de Teatro. Coordenou montagens cênicas em comunidades periféricas como Casa Blanca e com moradores de rua. Formou-se em Filosofia no Centro Universitário Assunção e pós graduou-se em Comunicação e Mídia. Atualmente, conclui o curso de mestrado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) com pesquisa em Filosofia do Encontro em Martin Buber. Em 2010, escreveu e dirigiu a peça “Poetas de vidro” e, no ano seguinte, foi contemplado pelo Concurso de Texto Inédito de Dramaturgia do Programa de Ação Cultural (ProAC) do Governo do Estado de São Paulo. Em 2012, com o apoio do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Prefeitura de São Paulo, escreveu e dirigiu a peça “Chão e Silêncio”, pesquisa poéticomemorialista do Núcleo Macabéa, grupo de teatro com residência artística na favela do Boqueirão, na zona sul. Em 2013, também com apoio do VAI dirige a montagem de “Agruras: ensaio sobre o desamparo”, peça de sua autoria. É de sua autoria também textos ainda não publicados como: “Alzira”, “Rosalva”, “Eva”, “Dois meninos e uma lamparina”, “Memorial do cais”, “Pássaros sem foices”, “O livro da embriaguez”, “Olhos do menino saathan” e “O menino morto em Sarajevo”. Rudinei Borges atuou de 2011 a 2013 como pesquisador e dramaturgo na Trupe Sinhá Zózima, trabalho que resultou na feitura do livro “Teatro no ônibus: pesquisa cênica da Trupe Sinhá Zózima” e no texto dramatúrgico da peça “Dentro é lugar longe” e na organização do livro “Fagulhas”, ações contempladas pelo Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo.

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A tessitura poética de Dentro é lugar longe [dramaturgia de Rudinei Borges] foi composta a partir de narrativas de vida de atores da Trupe Sinhá Zózima, proeminente grupo de teatro do Brasil. A peça, com encenação do diretor Anderson Maurício [projeto contemplado pelo Programa de Fomento ao Teatro] foi apresentada em um ônibus em movimento que partia do Terminal Parque Dom Pedro II, no centro antigo de São Paulo; e resultou de estudos em parceria com o Núcleo de Estudos em História Oral [NEHO] da Universidade de São Paulo [USP]. Dentro é lugar longe é um dos textos mais bonitos apresentados neste ano pelo teatro paulistano. É poético, fluído e tocante. [Miguel Arcanjo Prado – R7 /Associação Paulista de Críticos de Artes]

Em chave lírica, Dentro é lugar longe trata essencialmente do sentido de perda provocado pela morte em contraponto com o enfrentamento do risco como condição intrínseca à vida, ao menos quando vivida em sua plenitude. [Beth Néspoli – jornalista e crítica de teatro]

Dentro é lugar longe (...) desperta o sentido da existência de cada um. Criar empatia a partir de histórias tão cotidianas talvez seja o grande charme desta peça não linear, em que a poesia é o filtro de toda a narrativa e o componente que costura a trama. Os personagens, que não necessariamente estabelecem relações entre si, lançam um olhar ingênuo e belo sobre a infância, os pais, e relembram as dores que a morte de entes queridos lhes trouxe. [Gislaine Gutierre – Folha de São Paulo]

Dentro é lugar longe é um roteiro eminentemente afetivo, filtrado pelo universo das emoções infantis que, como sabemos, ainda não são vulneráveis aos contratempos da existência adulta. Ou seja, a narrativa de eventos e reminiscências do passado emerge hoje envolta na bruma da sensibilidade, da espontaneidade, transfigurada. É uma espécie de fábula, na qual o importante é o que ela revela e ao mesmo tempo esconde ou dissimula. [Edgar Olimpio de Souza – Revista Stravaganza]

O contraste entre o texto delicadíssimo e a boca dentada da cidade é digno de nota. [Kil Abreu – jornalista, crítico e pesquisador de teatro]

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A tessitura poética de "Dentro é lugar longe" [dramaturgia de Rudinei Borges] foi composta a partir de narrativas de vida de atores da Trupe...