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Felipe Dalla Valle/ Hiper

hiper Jornal dos alunos

da Famecos/PUCRS

Porto Alegre, Maio 2010, Ano 12 – Nº 79

EXCLUSIVO

Koff desafia a vontade do rei e vence

Presidente do Clube dos 13 abre o jogo pela primeira vez em entrevista ao Hipertexto

Páginas 8 e 9 Gabrielle Toson/ Hiper

No hipismo, cavaleiro e animal formam uma forte unidade

Um único

“Foi uma briga de cachorro grande”, contabiliza Fábio Koff após o embate

Mariana Fontoura/ Hiper

Mariana Fontoura/ Hiper

corpo

Felipe Dalla Valle/ Hiper

Profissionais apontam caminhos do jornalismo Famecos provoca debate Páginas 2 e 3 Mobilização: professores e alunos

Rosane, uma apaixonada

Solano e o direito da fonte

Página 6


imprensa

hipersider

Por Cláudio Rabin

Alegro... Como parece ser o hábito do PSB nessas eleições, a candidatura de Beto Albuquerque, como antes ocorreu com Ciro Gomes, naufragou. E se o hábito se confirmar, o apoio ao PT deve estar garantido. No pacote vem o PC do B, que tenta trocar seu passe pelo apoio à candidatura da deputada Manuela nas próximas eleições municipais. Mas alguém aí acredita que os comunistas se uniriam a outra candidatura?

...ma non troppo O fim de Beto prejudicou PP e PPS. Ambos ficaram ainda mais sem opções depois que a candidatura de Lara foi abalada pela acusação de corrupção do presidente municipal do partido. Resultado: bastou Serra baixar no Estado para que os progressistas confirmassem o apoio a Yeda Crusius. Ao que parece, Lara continuará fazendo figuração.

Bolsa ditadura Não vou definir surpresa, mas posso dar um exemplo bem concreto. No site do Ministério da Justiça, nos relatórios da Comissão de Anistia, consta o nome de um conhecido jornalista do Estado. Na 29ª sessão do dia 04/12/2009, requerimento número 2008.01.61474, consta como parcialmente deferido o resultado do pedido de Políbio Adolfo Braga.

Famequianas 1 A mesma pergunta foi feita repetidas vezes pelos corredores da Famecos: onde está a professora Carolina Fillmann? Resposta: está dando aula em outras paragens.

Famequianas 2

O twitter sempre pareceu uma rede social um pouco sem sentido. Agora, mudou. Paulo Francis escapou do mundo dos mortos para voltar a nos divertir em 140 caracteres. O que impressiona é a capacidade de imitar o estilo do velho polemista. O perfil é @paulofrancis_.

Rosane de Oliveira, jornalista do Grupo RBS, conversou com alunos da Famecos sobre o jornalismo, novas tecnologias e mercado profissional

A editora comentou a decisão do STF e deixou claro que na sua equipe todos são formados Por Jéssica Wolff

Três perguntas para... Mauri Panitz*

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paixão

Todos sabem que o nosso DA não serve para nada. Ano passado, porém, uma locadora abriu no local oferecendo bons filmes a R$ 2. Agora que ela fechou, não há mais razão para chegar perto do CAAP.

Paulo Francis voltou

Hipertexto: Já passa de 600 o número de pessoas mortas no trânsito gaúcho em 2010. O dado te espanta? Mauri Panitz: O número está acima do que era esperado. Os motoristas e os carros são os mesmos. As estradas estão cada vez piores. H: Pardais e lombadas eletrônicas realmente ajudam a evitar acidentes? MP: Pouco tem ajudado. É mais uma forma de arrecadação. Os governos têm usado para fazer caixa.

Jornalismo como

H: Em termos estruturais, qual a primeira medida para melhorar o trânsito da Capital? MP: Proibir estacionamentos nos dois lados das avenidas arteriais, pequenas obras de alargamentos de grandes avenidas. Políticos querem obras grandes para mostrar trabalho. Eles não têm interesse em medidas pequenas e funcionais.

* Mauri Panitz é engenheiro de tráfego terrestre e consultor em análise de acidentes.

Porto Alegre, maio 2010

NASCIDA em Campos Borges, região noroeste do Rio Grande do Sul, a jovem então com 17 anos veio para a Capital, em 1978, para estudar Jornalismo. “A minha vida se divide entre antes e depois da Famecos. Era tudo tão fascinante, lembro que já sentei onde vocês estão”, contou a colunista Rosane de Oliveira em encontro com alunos da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, na noite de 4 de maio. O evento era comemorativo aos 46 anos do jornal Zero Hora, que promoveu palestras para estudantes, com seus principais jornalistas, em várias universidades do Estado. A editora de Política iniciou o diálogo na Famecos com uma pergunta: “Vale a pena ser jornalista?” Ela mesma respondeu sim, que começaria tudo outra vez, pois é apaixonada pelo o que faz. Nos primeiros anos de faculdade, tinha muitos motivos para desistir da profissão. Era uma época de desencanto, pois o Correio do Povo estava em crise financeira e o Diário de Notícias havia fechado em 1979. “Nossos professores nos desa-

fiavam. Sempre falavam que a nossa profissão não tinha futuro, mas eu sempre pensava que para os bons sempre haverá lugar”, comentou. No início dos anos 80, Rosane dividiu suas atividades entre uma

“Acho que ninguém é ex-Famecos. Quem passou por lá guarda tão boas lembranças que se emociona na volta. Encontrei o Tibério, meu professor.” (Rosane postou no twitter, na saída da palestra) assessoria de imprensa e a Rádio Guaíba. Após essa fase, ocorreu sua grande frustração profissional. Ela trabalhou no jornal O Estado do Rio Grande, em 1985, que durou apenas 12 edições. “Estava no fim da ditadura e Tancredo Neves seria eleito presidente da República, mas adoeceu. O período de internação e da morte de Tancredo foi um grande

marco para a história brasileira. E eu não tinha nenhum veículo para trabalhar”, recordou. Em 1992, entrou na RBS. Rosane reconhece ter enfrentado momentos difíceis, mas hoje está em um cargo importante e gosta muito do que faz.

Diploma e tecnologia: A editora comentou a decisão do STF que aboliu a obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercer a profissão e deixou claro que na sua equipe todos são formados. Argumentou que para desempenhar o ofício são necessárias especialização e técnica que a faculdade pode proporcionar, ao contrário dos que pensam que jornalismo é apenas saber escrever. No entanto, Rosane não se considera radical. Não vê problemas no fato do programa Fantástico (TV Globo) apresentar um quadro com o médico Dráuzio Varella sobre medicina. “Certamente, eu não faria melhor que ele”, confessa. A colunista brincou se apresentando como uma velhinha sem medo de experimentar tanto que já passou por fases diferentes. “Teve época em que buscavam jornalistas especializados em apenas uma área.


imprensa Mariana Fontoura/hiper

Livro discute o trabalho investigativo da imprensa Pluralidade na produção jornalística é apresentada como quesito básico para qualidade das reportagens Por Gabriela Boni

Atualmente, procuramos alguém completo”, comentou. Recomendou aos estudantes ter cabeça aberta a inovações. Na RBS, Rosane começou escrevendo no jornal e passou a atuar também no rádio e na televisão. Hoje é uma das âncoras do programa Gaúcha Atualidade (Rádio Gaúcha) e faz comentários diários na TVCOM. Na Internet, escreve em seu blog e no twitter. No mundo online, ela enfrenta alguns problemas como internautas que não se identificam e a acusam de ser vendida ao Partido dos Trabalhadores (PT) ou de proteger a governador Yeda Crisius.

Política e eleição: Como editora e colunista de política, Rosane de Oliveira salientou que trabalha com independência. Lidar com opinião significa dizer o que se pensa sobre os acontecimentos, mesmo se for contra ou não a algum candidato. Em ano de eleição, há cobrança dos partidos e a colunista deixou claro que escreve para os leitores e não para os políticos. “O que me alegra em meu trabalho é escrever algo que faz as pessoas sentirem-se representadas.”

Na opinião dela, os jornalistas devem ajudar o eleitor a escolher em quem votar. Quando perguntada se, como Ana Amélia Lemos, um dia iria ser candidata, respondeu que não. “Meu negócio é jornalismo. Passar para o outro lado do balcão nem está nos meus planos”. A editora acredita que a eleição de jornalista para cargo público não implica na redução de credibilidade nos noticiários políticos. O que ela considera errado é exercer o ofício de jornalista na área de política e estar filiado a algum partido. Em tempos de eleições, Rosane explicou como são deitadas as páginas de política da Zero Hora para evitar acusações de favorecimentos. “As fotos e textos precisam ser do mesmo tamanho quando há dois indivíduos na disputa”, alertou. Claro, se o candidato fizer algo que atrapalhe sua campanha, a culpa não é do jornal, mas dele. Depois de quase 30 anos de carreira, ela não tem dúvidas que exerce a profissão certa. “O jornalismo exige muito sangue, suor e lágrimas. Temos um mundo em nossa frente, mas cada um precisa buscar o seu lugar.”

Ao iniciar um texto, o repórter tem diante de si o mesmo que o artista: uma tela branca. Preenchê-la da melhor maneira é o desafio para os que procuram se pautar sem depender do factual. Assim pensa Solano Nascimento. Jornalista e professor universitário em Brasília, tem uma visão crítica quando o assunto é jornalismo investigativo. Para ele, a imprensa brasileira possui a tendência de se acomodar diante dos desafios inerentes a pautas envolvendo denúncias. Interessado em compreender o porquê de tal acomodação, desenvolveu, a partir de sua tese de doutorado, um livro que sugere caminhos possíveis para uma nova postura no exercício da profissão. O livro “Os Novos Escribas” conduziu o debate “Direto da Fonte”, que ocorreu na Faculdade de Comunicação da PUCRS em abril. Simulando uma coletiva de imprensa, os alunos estiveram próximos das experiências de Solano Nascimento e da ideia central incentivada no livro: investigar sem depender em excesso de fontes oficiais. Os escribas seriam os jornalistas que copiam uma informação alheia, adotando-a como

sua. Nascimento demonstra que o jornalista fica mais vulnerável ao risco de perder o controle sobre o próprio trabalho e, para exemplificar o contrário, aponta o cruzamento de dados para obtenção de informações novas como uma atitude assertiva do repórter. “É bom que hoje nós tenhamos uma oferta maior na divulgação de dados oficiais. A Internet também fornece muita informação, mas é preciso ser criterioso. A audiência não distingue uma investigação oficial de uma iniciada à parte, por um jornalista. Mesmo assim, é nossa tarefa fazer o melhor trabalho possível, senão a imprensa dependerá demais do Ministério Público e da polícia, por exemplo”, afirma Solano. Ter cuidado neste processo é o que também alerta Marco Antonio Vargas Villalobos, jornalista e professor da Famecos: “Não sou contra o uso de fontes oficiais se realmente ajudam a fazer o bom texto. Mas o profissional não pode receber esses dados como um prato-feito. Todas as informações devem ser checadas”, considera. Para ele, o rótulo “investigativo” isolado é dispensável: “Se não há investigação, não há jornalismo”, afirma. Cid Martins, jornalista da Rá-

dio Gaúcha, tem a experiência em investigação refletida nas 67 premiações de trabalhos. Ele aponta que uma grande reportagem não precisa ser algo espetacular: “Pode ser um congestionamento diário”, exemplifica. “Tudo é importante se tiver um grande interesse social. A diferença é que a história obscura tem que ser revelada com provas e flagrantes, ao contrário da investigação social ou ambiental. Infelizmente, parece que uma matéria sobre casos de exploração sexual de crianças e adolescentes rende menos do que uma fraude no Detran”, opina. Despertar este espírito crítico é o que propõe “Novos Escribas”. A adaptação permite uma leitura rápida para atrair jovens jornalistas. Solano Nacimento teme que um trabalho de averiguação mais profundo se torne residual se o interesse por isso continuar diminuindo. Acredita, porém, que estudantes e recém-formados representam a possibilidade de alguma mudança ser concretizada. “Quero que os veteranos fiquem incomodados e até envergonhados pelo que deixam passar. Também quero chamar atenção para que os estudantes saibam discernir os dois tipos de investigação”, conclui. Felipe Dalla Valle/hiper

Cristiane Finger e Solano Nascimento no diálogo com estudantes sobre pauta e investigação Porto Alegre, maio 2010

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Opinião EDITORIAL

ARTIGO

Mergulharam na lama Da Redação

Ar puro, cheiro de mato, o cantar de pássaros, o ruído de animais silvestres, picadas íngremes, barro, muita lama, cenário absolutamente novo para os guris e gurias de apartamento que participaram do Acampamento da Fotografia, em um fim de semana chuvoso de maio. Na volta, trouxeram orgulhosos mais de 600 fotografias para comprovar que participaram da aventura. Muito bala! Acostumados ao conforto de almofadas e meias soquetes, o universo virtual na tela do laptop, estudantes de jornalismo da Famecos foram convencidos pelo professor de fotografia Elson Sempé Pedroso a embarcarem em dois carros na direção da Serra do Mar. Na bagagem, quatro barracas e máquinas

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fotográficas digitais de última geração. Música, sorrisos, asfalto, as curvas da BR 101. Em Maquiné, pegam a estrada de chão. Passam pela lagoa dos Barros. Os pneus deslizam no barro. Diante do parabrisa, a Mata Atlântica. Antes de chegarem no rio Maquiné, um dos carros atola. Uau! Prova de lama para liberá-lo. Enfim, chegam na reserva de proteção ambiental de Itaporã. Avisada com antecedência, a zeladora dona Edir espera com comida caseira o professor e os alunos Mariana Fontoura, Lívia Auler, Lívia Stumpf, Nicole Pandolfo, Maurício Krahn, Bolívar Abascal Oberto, Bruno Todeschini e Thiago Couto. Tudo preparado em fogão a lenha, conhecem o sabor de maionese de inhame e salada

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Por Débora Fogliatto

sanções comerciais como forma de pressionar o governo iraniaO Brasil deu um passo à fren- no a desistir da produção de te da comunidade internacional. armas nucleares. Agora, com a Ao fechar acordo com a Turquia conquista do acordo, novas mee o Irã para afastar qualquer didas repressivas não seriam nepossibilidade de produção de ar- cessárias. Por algum motivo, a mas nucleares por parte do país palavra de Ahmadinejad a Lula dos aiatolás, o presidente Luiz e Erdogan não é suficiente para Inácio Lula da Silva estendeu a cessar a desconfiança mundial a mão a Mahmoud Ahmadinejad. respeito das intenções do país. O Irã, que tem grande abunTalvez se o acordo assinadância de urânio e capacidade do no dia 17 de maio tivesse de enriquecê-lo, é temido pelas sido firmado pela Inglaterra grandes potências pela possi- e Alemanha, em vez de Brasil bilidade de fabrie Turquia, as recar uma bomba percussões seriam “Não será fácil para as atômica. Ano pasdiferentes. Talvez sado, o Conselho grandes potências aceitar se o Irã não fosse de Segurança da inimigo histórico que Lula e Erdogan Organização das dos Estados UniNações Unidas tenham conseguido algo dos, a comunidasem necessitar da ajuda (ONU) já havia de internacional tentado fazer um acreditasse em de Obama ou Sarkozy.” acordo com o Mahmoud Ahmapaís, sem sucesso. dinejad. Talvez a Agora, Lula e o descrença dos paprimeiro-ministro da Turquia, íses ricos se deva ao fato de que Recep Tayyip Erdogan, conse- emergentes tenham conseguido guiram uma resposta positiva negociar com o Irã. Não será do presidente iraniano. difícil para as grandes potênO acordo determina que o cias aceitar que Lula e Erdogan Irã envie 1.200 quilos de urâ- tenham conseguido algo sem nio pouco enriquecido (3,5%) necessitar da ajuda de Obama em troca de combustível para a ou Sarkozy? produção de isótopos médicos O ceticismo internacional em seus reatores, enriqueci- gera mais motivos para que a do em 20%. Para construir população e os líderes iranianos uma bomba, seria necessário se sintam ameaçados. Ninguém enriquecê-lo a 90%, o que as parece pensar que o Irã só esautoridades iranianas assegu- teja querendo ser aceito e não ram não ter interesse em fazer. temido como tem sido por anos. Mas as afirmações pacifistas não Ahmadinejad fez o que a ONU convenceram o Conselho de Se- não está se propondo a fazer: gurança da ONU, liderado pelos negociou e assinou um comproEstados Unidos, que defende misso que representaria o fim novas sanções ao Irã. Em 2006, de acusações e conflitos para 2007 e 2008 o país foi alvo de ambos os lados.

Apoio cultural: Zero Hora. Impressão: Pioneiro, Caxias do Sul. Tiragem 5.000

Jornal mensal dos alunos do Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social (Famecos), da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Avenida Ipiranga 6681, Jardim Botânico, Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: hipertexto@pucrs.br Site: http:// www.pucrs.br/ famecos/ hipertexto/ 045/ index.php Reitor: Ir. Joaquim Clotet Vice-reitor: Ir. Evilázio Teixeira Diretora da Famecos: Mágda Cunha Coordenadora de Jornalismo: Cristiane Finger

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de mamão verde. Montam as barracas, passeiam pela mata, abraçam-se a uma figueira de 400 anos, as raízes a descerem a serra no meio das pedras. A chuva não para. Uma carne assada à noite. Um círculo em volta do fogo no acampamento. Histórias sem fim, licor de bergamota para espantar o frio e a umidade. A volta para Porto Alegre domingo, depois do almoço em panelas de ferro. Recostados nas almofadas, quentinhas meias soquetes, as fotos digitalizadas se sobrepõem no laptop sobre os joelhos dos guris e gurias de apartamento. Maravilhas. Ele e os colegas na lama, escalam árvores, cruzam pinguelas. Ainda guardam nas narinas o cheiro do mato. Inacreditável, muito massa!

Acordo Brasil e Irã sob desconfiança

Porto Alegre,maio 2010

Produção dos Laboratórios de Jornalismo Gráfico e de Fotografia. Professores Responsáveis: Celso Schröder, Elson Sempé Pedroso, Ivone Cassol, Juan Domingues, Luiz Adolfo Lino de Souza e Tibério Vargas Ramos. Estagiários matriculados e voluntários Editoras e diagramação: Ana Maria Bicca e Thais Longaray. Editora de texto: Denise Frizzo Diagramadores: Pedro de Souza Palaoro, Gabriela Boni e Gabriela Carpes.

Editores de Fotografia: Bruno Todeschini e Lívia Stumpf. Redação: Ana Maria Bicca, Camila Kaufmann, Camila Torrada Pereira, Cláudio Rabin, Débora Fogliatto, Deborah Cattani, Denise Frizzo, Gabriela Boni, Gabriela Carpes, Gabriela Dal Bosco Sitta, Jéssica B. Wolff, João Veppo Neto, João Henrique Willrich, José Luiz Dalchiavon, Luiz Antônio A. Bruno, Mariana Amaro, Marco Antônio Mello de Souza, Natália Otto, Nicole Pandolfo, Paola Rebelo, Pedro Henrique Arruda Faustini e Thais Monteiro Longaray.

Repórteres Fotográficos: Bruno Todeschini, Bruna Martins, Bolívar Abascal Oberto, Camila Guimarães Cunha, Caroline Corso de Carvalho, Daniela Grimberg, Felipe Dalla Valle, Guilherme Santos, Gabrielle Toson, Jonathan Heckler, Lívia Auler, Lívia Stumpf, Luíza Lorenz, Manoela Ribas, Maria Helena Sponchiado, Mariana Amaro, Mariana Gomes da Fontoura, Maurício Krahn, Nicole Pandolfo, Nicole Morello, Paola Rebelo, Pedro B. Garcia, Pedro Henrique Tavares, Pedro Sampaio, Raquel Damo, Renata Ferreira, Sabrina Ribas, Tracy Anne e Vanessa Freitas.


Reabilitação

Cidade contra as drogas

Bolívar Oberto/Hiper

Cachoeirinha promove projeto de reabilitação Por Jéssica Wolff “Boa noite a todos!” Assim começa uma das cinco reuniões semanais destinadas à recuperação de usuários de drogas. Das 31 cadeiras que formam um grande círculo, 20 foram ocupadas por pessoas que buscam restaurar suas vidas. “O que fazemos é uma troca de experiências”, diz um dos coordenadores do encontro e ex-viciado, Joelson Oliveira, de 45 anos. O projeto “Cara Limpa” é realizado há 11 anos no município de Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A idéia surgiu de uma pessoa que estava em processo de reabilitação: Vicente Pires, atual prefeito da cidade. Os participantes das reuniões contam com o apoio da Prefeitura para a recuperação. Aqueles que assumi-

rem a dependência química podem se candidatar a uma das 50 vagas destinadas a moradores de Cachoeirinha em uma comunidade terapêutica na cidade de Montenegro. O encontro começa com a leitura da Bíblia para que cada um encontre sua espiritualidade, independente de religião. Em seguida, ocorre a apresentação e a expressão de sentimentos dos usuários e de seus familiares. Alguns não consomem algum tipo de drogas há mais de sete anos e são exemplo para aqueles que estão sóbrios por apenas um dia. O terceiro momento e o mais importante é quando os participantes que estão há mais tempo em recuperação aconselham os mais novos no grupo. Ibaru Barbosa, 48 anos, está em recuperação há nove anos. Hoje, é secretário adjunto de Serviços Ur-

banos e participa como voluntário do programa “Cara Limpa”. “O consumo de drogas é algo progressivo e fatal. Evolui para a quantidade e para a potencialidade”, afirma. Lembra que entrou no mundo das drogas aos 10 anos fumando maconha, aos 15 estava na cocaína e aos 20 usava crack. Quando jovem, não se preocupava com ninguém além de si próprio e de seu vício. Ele conta que a principal característica de um usuário é a mentira e relembra momentos em que criou situações falsas para encobrir o vício. Ibaru concordou em ir à comunidade terapêutica – a fazenda, como é chamada – quando já estava com 39 anos. Ficou lá nove meses. Após o retorno, conseguiu manter-se em um emprego por um ano e ganhou suas primeiras férias, o que simbolizou uma grande vitória.

História de Pires incentiva a busca pela superação

O prefeito é exemplo de superação do vício

Prefeitura de Cachoeirinha se mobiliza no combate às drogas na cidade

Espiritualidade e trabalho em comunidade terapêutica Localizada em Montenegro, a comunidade é considerada um retiro espiritual. Antes de ir para a fazenda, os pacientes fazem uma desintoxicação de três meses. Depois, seguem a rotina da fazenda: acordam sempre no mesmo horário, fazem as refeições juntos e precisam respeitar certas regras. Ao acordar, homens, mulheres, adolescentes e crianças participam do “Bom dia comunidade”, momento de espiritualidade que, na opinião dos recuperados, significa cerca de 70% da reabilitação. No café da manhã não é consumido

café, pois contém cafeína e o objetivo é manter uma alimentação totalmente saudável. Na metade da manhã, começa a terapia ocupacional. Os residentes são divididos em setores para trabalhar na horta, limpeza, cozinha e coordenação. Cada indivíduo fica em torno de 21 dias em cada setor. Três horas depois, acontece a segunda reunião do dia, momento em que todos falam o que estão sentindo por estar naquele local. “É quando sucede a mágica da nossa reparação”, comenta Ibaru. O dia segue com

os trabalhos encarregados para cada um e o terceiro encontro inicia no fim da tarde. Os pacientes aprendem a manter a sobriedade e conversam, entre outros assuntos, sobre filosofia, motivados pela leitura de livros. Nas quartas-feiras e nos sábados, os moradores da comunidade se dedicam aos esportes e ao lazer. Nestas ocasiões, o grupo é dividido por sexo e idade. “O objetivo do programa é devolver a sanidade para o usuário e fazê-lo despertar para a vida real”, explica o secretário Ibaru Barbosa.

Vicente Pires, 47 anos e prefeito de Cachoeirinha, teve uma vida tão conturbada quanto a dos que estão em reabilitação. Começou a usar drogas com 16 anos e só foi encontrar a liberdade com 33. Conta que os principais motivos para a procura dos narcóticos são o desencantamento pela vida, a fuga da realidade e o sentimento de rejeição. Ele lembra da época em que era dominado pela dependência: “Eu consumia para dormir e dormia para consumir”, confessa. Acredita que o viciado não aceita sua própria derrota e, assim, não vê uma saída por achar que não possui força para sair de seu mundo decadente. O início da melhoria do prefeito ocorreu quando ele aceitou o convite de uma prima para ir a uma igreja onde um grupo

de Narcóticos Anônimos (NA) costumava se reunir. No encontro, sua espiritualidade foi despertada. Pires foi para a comunidade terapêutica, onde o tratamento continuou por nove meses. Ao retornar para Cachoeirinha, foi preso e permaneceu na cadeia por dois anos e nove meses, condenado por estelionato devido às dívidas não pagas e acumuladas. A reviravolta aconteceu e ele criou o projeto “Cara Limpa”, em 1999. Em abril deste ano, o prefeito Vicente Pires assinou a escritura de uma área de 11 hectares reservada para uma comunidade popular municipal de Cachoeirinha. Para ele, a construção de uma fazenda de reabilitação na cidade será como uma vitória para todos.

“Eu consumia para dormir e dormia para consumir” (Vicente Pires)

Porto Alegre,maio 2010

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esporte

Amazonas e cavaleiros acariciam as montarias antes da competição

Hipismo reforça união homem e cavalo Lívia Stumpf/Hiper

Por Pedro Tavares O hipismo, que todos conhecem, mas só ganha mídia nos Jogos Olímpicos, cria uma relação muito forte entre o homem e o cavalo. É isso que se observa ao andar pelos estábulos da Sociedade Hípica Porto-Alegrense, no bairro Belém Novo, zona sul da Capital. Tudo fica claro para quem vê amazonas e cavaleiros acariciando e conversando com suas montarias antes de entrar na pista de competição para saltos em obstáculos. Ana Laura Jardim, que monta desde os nove anos, destaca que o bom relacionamento com os animais pode trazer resultados positivos na hora da competição. ‘O cavalo sente quando estamos nervosos, principalmente se as pernas não estão firmes e as mãos muito

Cavaleiros conversam com os animais antes de montar soltas na rédea, nestes casos, muitas vezes o cavalo acaba não saltando”, conta a menina, hoje com 15 anos. Ana Laura também revela ser importante mostrar a pista ao cavalo antes de começar o percurso. Felipe Dalla Valle/Hiper

O animal pode se assustar com obstáculos temáticos (como aqueles que têm formato de muro), assim como com as barreiras coloridas demais. “Algumas vezes eles sentem medo antes de saltar obstáculos

diferentes dos convencionais. Eu caí algumas vezes e, por isso procuro sempre levar o cavalo até esses obstáculos para mostrar que não há perigo. Até dou uma conversadinha com ele”, confessa. O hipismo é um esporte em que corpo e mente trabalham de maneira simultânea. Vai muito além das pistas, mostra que existe uma preparação maior do que o simples ato de montar sobre a cela. De Elite? Não: O hipismo é considerado uma prática da classe alta. Ao contrário do que muita gente pensa, não é preciso ser proprietário de cavalo para praticar o esporte. Existem escolas em Porto Alegre, inclusive na Hípica, para essa prática. A mensalidade varia de R$ 100 a 300, sendo possível aprender a montar sem maiores preocupações.

A professora do Centro Hípico Recanto do Pinheiro, Cláudia Vargas, reconhece que faltam informações corretas sobre o esporte. “Fazer hipismo não é um bicho de sete cabeças como todo mundo pensa, existem muitas escolas no Brasil inteiro, onde se pode aprender a montar por um preço relativamente acessível”, relata. A professora, formada em Educação Física, explica que as escolas fornecem os cavalos para as aulas, não havendo necessidade de ser proprietário de um animal. “É só pagar a mensalidade que a escola providencia a estrutura. Os únicos gastos adicionais necessários são a aquisição do equipamento (botas e capacete) e eventualmente o pagamento de inscrições nas competições e do transporte dos cavalos”, completa.

Regra simples: pular os obstáculos Diferente do futebol, do vôlei, ou do basquete, o hipismo é um esporte que não exige nenhum tipo de planejamento tático para percorrer os obstáculos. Os treinos se baseiam na pura repetição de saltos sobre as barreiras, que variam de 60 centímetros a um metro e 50 centímetros. Na prática diária, pode-se observar que o que mais se exercita são questões técnicas, como o posicionamento de mãos e pés,

a postura e o tempo de salto de cada animal. “Cada um tem um jeito diferente de pular”, observa a amazona Ana Laura Jardim. O hipismo é uma repetição constante da técnica para que ocorra tudo perfeito na hora da prova. “Aí não tem mistério, é só chegar lá e transpor cada obstáculo de uma vez’, assegura a jovem. As regras do hipismo não exigem grande raciocínio para o seu entendimento. A única curiosidade

consiste no fato de que, quem soma mais pontos na pista de competição, amarga a última colocação. Antes da prova há um reconhecimento da pista, para que se conheça a ordem dos obstáculos. Cada obstáculo derrubado contabiliza pontos para o conjunto (cavaleiro-cavalo). O tempo também pode penalizar caso o conjunto exceda o limite fixado pelos juízes. Erros de percurso e quedas também contam no escore final.

UMA TRADIÇÃO NA HÍPICA

The Best Jump é realizado em Porto Alegre há 42 anos

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Porto Alegre,maio 2010

Entre os dias 29 de abril e 2 de maio aconteceu o The Best Jump na Sociedade Hípica PortoAlegrense. O evento, realizado há 42 anos, reuniu conjuntos de toda a América Latina em provas nas pistas de areia e de grama da Hípica. A abertura foi na quarta-feira, 28 de abril, com a prova carrocavalo. Nos dias subseqüentes aconteceram provas nacionais e internacionais,como os Concursos de Saltos Nacional e de Saltos Internacional. No domingo, 2 de maio, foi a vez do Grande Prêmio Cidade de Porto Alegre, que reuniu os 57

melhores conjuntos da atualidade no Brasil, incluindo participantes de países da América Latina. O grande vencedor foi Fábio Leivas, montando Lancelot. Em segundo lugar ficou a venezuelana Loisse Garcia, seguida de André Oliveira Campos Freire, na terceira colocação. O campeão Fábio Leivas destaca a conquista do Grande Prêmio como essencial para sua carreira. “Já havia vencido os GP’s no Rio, São Paulo e Minas, só faltava aqui’, festeja. O cavaleiro carioca, que monta desde os 11 anos de idade, reconhece o evento como um

dos mais importantes no cenário latino-americano. O prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, também esteve no local para prestigiar o evento. Ele comentou a respeito de como a possível ampliação do Aeroporto Salgado Filho pode ajudar a expandir eventos como o The Best Jump. As obras no aeroporto trariam a possibilidade de pouso de aviões de grande porte, que poderiam trazer cavalos de outros continentes para o evento. “A importância dessa ampliação seria imensa para o The Best Jump. A vinda de cavaleiros de outros continentes credenciaria o evento como um dos cinco maiores do mundo”, orgulha-se Fortunati.


esporte

Copa dá esperança para bom futebol Por Marco Antonio Souza Pela primeira vez, uma copa do mundo será realizada no continente africano. A África do Sul receberá, no mês de junho, as 32 seleções classificadas para a disputa que começará no dia 11. A seleção brasileira estreia contra a Coréia do Norte no dia 15 de junho. O nível técnico da competição credencia o evento a possibilidade de um mundial cheio de bons jogos. Todas as seleções apontadas como favoritas ao título têm como destaques as peças ofensivas de seus esquemas táticos. O continente europeu serve de termômetro para saber como os principais times irão jogar. O 4-3-3, esquema que melhor privilegia o ataque, é comum nos grandes clubes, principalmente as que venceram as competições de destaque em 2010. Se em 2002 e 2006 a FIFA selecionou um goleiro e um zagueiro, respectivamente, como melhor jogador do mundial, é grande a possibilidade de que essa edição premie um atleta com caracterís-

ticas ofensivas. O diretor de redação da Revista Placar, Sergio Xavier Filho, divide em três grupos as seleções favoritas para a conquista da taça. O Brasil é o time mais forte na

competição, o que se deve à maneira de jogar armada pelo técnico Dunga. A trajetória vitoriosa na Copa América e na Copa das Confederações foi outro aspecto que Xavier colocou como diferencial.

A Espanha é outra seleção apontada como favorita. Segundo Xavier, que esteve na Famecos em maio, a Espanha possui jogadores mais técnicos, mas teve muitos problemas de lesões com alguns de Fabrice Coffrini/ AFP

Kaká, Nilmar e Juan são armas do Brasil na Copa da África do Sul

seus principais jogadores, casos do meia do Arsenal, Cesc Fabregas, e do atacante do Liverpool, Fernando Torres. Equipes com tradição como Itália e Argentina estão abaixo das líderes do ranking da FIFA. A seleção da Holanda também vai se destacar. Conta com os jogadores Arjen Robben e Wesley Sneijder, que levaram, respectivamente, o Bayern de Munique, e Inter, de Milão, à final da Champions League, competição de maior nível técnico entre clubes do planeta. O repórter Eduardo Cecconi, do site Clicrbs e do blog Preleção, fez uma análise das 32 equipes participantes e acredita que as seleções com maiores possibilidades de conquista da Copa são Espanha e Brasil. A Inglaterra também é apontada como um time muito forte, mas depende da solução dos problemas de lesão que atingem seus principais jogadores. Outra candidata, na opinião de Cecconi, é a Argentina, apesar da instabilidade atribuída ao técnico Maradona, mas que conta com um elenco de qualidade. Felipe Dalla Vale/Hiper

Basquetebol e bom humor na Capital Harlem Globetrotters: show e diversão

Por Pedro Tavares Você já foi a um jogo sabendo qual time irá ganhar? É isso que os Harlem Globetrotters levam para o mundo inteiro: jogos de basquete roteirizados e com muito bom humor. O melhor time de basquetebol do mundo, como é chamado, nunca obteve uma derrota. Se existe futebol arte, o basquetebol não deixa por menos. Os Harlem Globetrotters, time de basquete que existe há 84 anos, contabiliza mais de 25 mil jogos, todos vencidos por eles. As apresentações dos Globetrotters não são simples jogos de basquete, na verdade se caracterizam por ser verdadeiros espetáculos. Comandados por Special K, o capitão, estes “jogadoresmalabaristas” fazem verdadeiras acrobacias com a bola, incluindo rápidas trocas de passe e sensacionais enterradas, como fizeram em Porto Alegre, em 29 de abril. “Boa noite Gigantinho”, as-

sim saudou o público o anfitrião Manoel Soares, que junto com ele trouxe à quadra a equipe Gaúcha de Basquete de Rua, apoiada pela Cufa (Central Única de Favelas). O time veio para um pré-jogo contra a Seleção Gaúcha de Basquete, da categoria juvenil, que serviu de aquecimento para a entrada do time norte-americano. O jogo é parado, a todo momento, para brincadeiras inusitadas, incluindo entradas esporádicas na quadra do treinador do time adversário, o Washington Generals. As cenas mais curiosas do “jogo-show” que aconteceu no Gigantinho eram protagonizadas pelo excêntrico técnico do Washington, que trajava um espalhafatoso terno vermelho. Ele entrava em quadra com seu guarda-chuva preto e branco com o objetivo de hipnotizar um dos jogadores do Globetrotters. O escolhido acabava por passar a bola aos adversários que convertiam a cesta. O transe do jogador era interrompido

quando o melhor time de basquete do mundo realizava uma jogada sensacional. Globie e Big-G, os mascotes do Harlem Globetrotters, também roubaram a cena, criando um clima de descontração com o público presente. Enquanto Globie entrou antes da partida para fazer uma dança das cadeiras com a garotada, Big-G apareceu no decorrer da partida para que o mesmo fosse feito com os jogadores americanos. Os espectadores são chamados para interagir o tempo todo, principalmente as crianças. Special K usa um microfone de lapela para se comunicar com a platéia. Música e dança também fazem parte do show. Incluindo a performance da música Ymca, os Globetrotters adoram dançar, até mesmo com a partida em andamento. Muito mais do que um jogo de basquete, os Harlem Globetrotters trouxeram a Porto Alegre alegria e diversão para o público de todas as idades.

Malabarismos com bolas fazem parte do show na quadra Porto Alegre,maio 2010

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esporte

Fábio Koff vence uma briga de cachorro grande

fotos: Gabriele Toson/Hiper

Foi a sexta eleição do dirigente para presidência do Clube dos 13 Por Fernando Soares

Na sede do Clube dos 13, em um luxuoso prédio do bairro Moinhos Ele enfrentou o poder central de Vento, Fábio Koff conversou e “desafiou a vontade do rei”. Os com o Hipertexto. No escritório é termos são de Fábio André Koff, 80 possível constatar que seu vínculo anos, e se referem à Confederação com o Grêmio continua forte. O Brasileira de Futebol (CBF) e seu local é uma espécie de relicário presidente, Ricardo Teixeira. Em gremista, repleto de recordações abril, o dirigente saiu vitorioso de das suas passagens pelo tricolor. um processo eleitoral turbulento e Ele foi presidente do clube em recheado de inferências externas. duas oportunidades e conquistou, entre vários títulos, Para garantir o sexduas Libertadores to mandato à frente “O presidente e um Mundial. Até do Clube dos 13, ele da CBF é um dos mesmo a placa azul precisou derrotar Klecom a inscrição de homens mais ber Leite e o poder político da CBF. “Foi poderosos do país” “presidente”, sobre a mesa, é a mesma uma briga de cachorro que ele tinha no seu grande”, reconhece gabinete no Estádio Olímpico. Koff. Durante a disputa, Teixeira se Reeleição:“Essa eleição do C13 transformou em cabo eleitoral da foi um desafio para mim. Ela me oposição e pressionou os clubes remoçou. Eu estava cansado, exausalinhados com Fábio Koff a mudar to. Não queria mais nada. Pensava: o voto. A eleição, programada para vou ficar em casa, ver filmes com a dezembro, foi antecipada a pedido minha mulher, passear e usufruir dos opositores. Pela primeira vez o tempo que me resta. Mas querer desde que assumiu a presidência me botar pra fora da entidade que do C13, em 1996, Koff teve seu ajudei a fundar e crescer pela porta cargo ameaçado. A vitória na urna dos fundos, não vão não. Agora, foi apertada, 12 a 8. Quatro clubes vou sair quando eu quiser. O que que o apoiavam cederam à pressão prometi, vou cumprir.” e mudaram de lado. “Ao final, eles Antecipação da eleição: “Se me cumprimentaram e disseram fosse em dezembro, talvez nem que sempre estiveram comigo”, diz fosse candidato. Eu não estava interessado. A antecipação foi feita a com sorriso irônico. Nesse que deverá ser seu últi- pedido da candidatura de oposição mo mandato, Koff terá pela frente e eu entendi como normal. Fizemos uma tarefa árdua. Apesar de negar a eleição e, se quiserem vir de novo, a existência de racha no C13, ele eu faço e tenho certeza que ganho precisa reagrupar os filiados nova- novamente.” mente. A reformulação do estatuto Interferência:“Ao intervir no da entidade é o primeiro passo a ser processo eleitoral, a CBF tentou todado. A formação de uma liga, nos mar conta do C13. Então, os clubes moldes europeus, segue sendo uma se reuniram e entenderam que o das metas do dirigente. No entanto, nome mais forte para fazer frente à a criação do campeonato esbarra vontade do rei era o meu. Era prana omissão dos clubes junto à CBF. ticamente uma exigência para que

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Porto Alegre,maio 2010

Presidente campeão do mundo pelo Grêmio, Fábio Koff representa os clubes brasileiros o C13 lutasse por sua sobrevivência. Eles acreditavam que eu não poderia desertar nesta hora. 16 clubes me apresentaram como candidato. Ao final, 12 votaram em mim. Outros quatro preferiram se incorporar à outra candidatura, atendendo ao assédio da CBF.” Pressão da CBF na eleição “Houve pressão com relação aos clubes, a pressão de quem detém o poder. Só que esse excesso de poder na pessoa às vezes coloca viseira, ela acha que pode fazer o que quer. ‘Eu faço, eu mando, eu arrebento’. Não é bem assim. Hoje, felizmente, há o contraditório. Há pessoas com independência, coragem para discutir seus interesses e que não se submetem. Eu não quero que todos os clubes pensem como eu. Agora, eu quero que todos tenham uma posição, um lado. Não me importo que não seja o meu. Acredito que as decisões certas nascem do contraditório. Vamos debater, ver o que é melhor.” Ricardo Teixeira: ‘Eu tinha uma relação formal com o Ricardo Teixeira, mas de respeito recíproco. Tanto é que ele me distinguiu com a chefia da delegação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da França, em 1998. Mesmo a contragosto, fui devido à quantidade de convites anteriores que eu não aceitara. Minha relação com ele era boa, tanto que, no fim do ano passado, houve por bem selar um pacto de convivência respeitosa

entre o C13 e a CBF. Quando, em março, fomos surpreendidos com uma candidatura posta na rua para uma eleição marcada para dezembro de 2010.” Teixeira e a oposição: “No colégio eleitoral que elege o presidente da CBF, o C13 representa 20 votos, enquanto 27 presidentes de federações equivalem a um voto cada. O Ricardo Teixeira é candidato, pelo menos nunca negou, à presidência da Fifa. Se ele vai ser antes ou depois da Copa do Mundo de 2014 é questão de tempo. Evidentemente ele já está preocupado em fazer seu sucessor. Eu acredito que, por intermédio do Kleber Leite, seria mais fácil ele ter controle sobre o C13 do que com um presidente independente, como eu. Não vou fazer conjecturas e imaginar outros aspectos que não sejam de natureza política.” Poder político: “O presidente da CBF é um dos homens mais poderosos do país. A exploração de todos os segmentos envolvidos com a Copa do Mundo, como clubes, estádios, municípios e turismo, dependem dele. Ele é o homem de ligação com a Fifa. Evidente que o poder dele envolve todos os demais. Eu senti esse forte poder político na eleição. Houve envolvimento de deputados, senadores e prefeitos interessados em ser sub-sede da Copa do Mundo, que falavam com os clubes acionados pelo presidente da CBF.”

Retaliação aos clubes: “Não tem como isso acontecer. O poder do presidente da CBF não vai a tanto. Nem há como fazer. Acredito que não seja do temperamento dele, pois seria muito mesquinho.” Taça das bolinhas “Aí é uma situação que envolvia diretamente a presidente Patrícia Amorim, que na eleição do Flamengo foi opositora ao Kleber Leite e ganhou dele. Tentaram cooptá-la e ela honrou o compromisso que havia assumido, de ocupar uma das vicepresidências do C13. Ela não cedeu à pressão, então tentaram desgastá-la junto ao seu clube com essa história de Taça das Bolinhas. Levaram 18 anos pra decidir com quem ficaria a taça. Eu acho que vão levar mais 20 pra entregar.” Liga: “Os clubes já pleitearam, há alguns anos, a formação de uma Liga. Chegaram a elaborar os estatutos e houve até pedido de registro de CNPJ. Quando surgiu, provida pela CBF, uma rebelião das federações alterando totalmente o quadro. A criação da Liga foi sepultada. Em face da legislação, essa não é uma tarefa fácil. A lei retira os poderes quando atribui à CBF a criação do calendário. Enquanto a CBF for dona do calendário, não tem como formar uma Liga. Tu vais jogar como, em conflito com os jogos marcados pela CBF? Os clubes caem fora do sistema todo. Tu perdes o registro dos atletas, crias um conflito... Não tem como solucionar.


cidade Sabrina Ribas/ Hiper

Só há a possibilidade de formação pela representação do clube junto da Liga se forem compatibilizados à mídia e o número de torcedores. os interesses da Liga com os da Estes dados são obtidos através de CBF, o que tem se tornado difícil. pesquisa de mercado permanente. Não dá para comparar com as Cada grupo tem uma cota fixa. ligas europeias. Até porque nós Ainda há os valores variáveis cortemos 27 estados e 27 federações. respondentes às vendas de pay-perLá, cada federação tem uma com- view. Nos países onde a negociação petição. O número de clubes e a dos contratos de TV é coletiva, eles quantidade de jogos no Brasil são estão copiando o modelo do C13.” maiores que em qualquer lugar do mundo. E formar uma liga eliti- Enfraquecimento dos pequezada, tu não podes. Tem de haver nos: “Nenhum clube brasileiro, acesso e descenso. Para isso, tu principalmente os grandes, tem vocação para ser Robin Hood. tens que reunir 50 ou 60 clubes, Eles não dividem a parte deles. até para poder negociar o produto.” Os conflitos são tremendos, com Clubes X CBF: “Com a experi- relação à repartição do produto da ência que tive até agora, eu digo, venda das competições. O que se com pesar: acho que os clubes não pretende fazer é uma melhor negoenfrentariam a CBF para criar a ciação desses contratos das Séries Liga. Eu vou lutar por isso, mas não B e C. O contrato atual da Série sei se vou ter êxito e nem tempo de B, aderido pelos clubes e firmado fazer. O problema é complexo. Por até 2014, representa 6% do que é exemplo, o Clube dos 13 estimulou o da Série A. Está muito mal feito. a criação das ligas regionais. Durou Alguma coisa está errada. Tem que lutar por um novo contrato, pois o um ano e elas foram eliminadas. valor é ínfimo. A Série C não recebe Era um processo progressivo de nada. Está ocorrendo um extermídiminuir as datas dos campeonatos nio de clubes pequenos no Brasil. estaduais, que são deficitários para Rivalidades entre clubes da mestodos. Até para os ma comunidade não pequenos, que reexistem mais. Os “Nós, talvez, grandes estão ficancebem os grandes e têm prejuízo. No tenhamos a divisão do cada vez maiores na comparação com Rio Grande do Sul, mais justa e os pequenos.” os clubes pequenos democrática entre Renovação do são sazonais. Tertodas as ligas de contrato televimina o Gauchão e todo mundo vai futebol no mundo” sivo: “Espero que embora. As ligas apareçam tantos regionais sofreram oposição interessados quanto tiverem. Acho Adoção do calendário euro- que o futebol brasileiro é um propeu: “Eu tenho as minhas dúvidas. duto ótimo. Aí há de se reconhecer Confesso que não tenho uma opi- os méritos da CBF na organização nião formada. Há prós e contras. da competição, que hoje tem datas Não só com relação à época em e horários determinados. Isso é um que é disputada a competição, avanço. Com a Copa do Mundo de com jogos no verão e competindo 2014, o Brasil e seu futebol vão ficar com eventos importantes, como o em exposição permanente na mídia carnaval. Essa dissimetria com o esportiva internacional. Nós temos calendário europeu é boa no pro- um contrato que vence em 2011 e cesso de internacionalização do será negociado no final do ano. Hoje produto, porque corresponde a um o valor é de R$ 1,5 bilhão. Acredito período que não há jogos nas ligas que nós vamos ultrapassar dos R$ europeias. Assim, fica mais fácil de 2 bilhões no novo contrato.” comprarem a nossa competição. Sucessão:“O Fernando Carvalho Mas seria bom na questão referente é um nome forte, mas em razão do às janelas de transferências, pois seu envolvimento e retorno à linha diminuiria a especulação e o des- de frente do Internacional isso manche de clubes.” cria conflitos com outros clubes. Rateio das cotas: “Nós, talvez, Ele deve ter sofrido um pequeno tenhamos a divisão mais justa e desgaste, mas não o suficiente democrática entre todas as ligas de para alijá-lo do próximo processo futebol no mundo. Por isso que o eleitoral. Eu não tenho dúvida de Campeonato Brasileiro inicia com que ele seria um grande candidato 10 ou 12 postulantes ao título. Es- à presidência do Clube dos 13, pela tabelecemos um limite de grupos, sua experiência e competência.

Apenas principais linhas de ônibus na capital têm acesso para cadeirantes

Acessibilidade, a luta continua

Daniela Grimberg/ Hiper

Porto Alegre ainda apresenta desnível em calçadas e falta transporte para as pessoas com dificuldades de locomoção Por João Henrique Willrich e Débora Fogliatto Calçadas em estado precário, ônibus sem suporte para cadeirantes. Esses são alguns dos problemas de longa data da cidade de Porto Alegre quando o assunto é infraestrutura. Antigas questões persistem e causam transtorno para as pessoas com deficiência. Estimativas indicam que em torno de 25 milhões de pessoas no País possuem algum tipo de necessidade especial. No Rio Grande do Sul, esse número chega a quase 200 mil. Apesar de Porto Alegre ser uma das capitais que melhor atende necessidades dos deficientes, as reclamações continuam. O jornalista Gustavo Trevisi do Nascimento, 36 anos, teve paralisia cerebral, o que resultou em limitações motoras. Para se locomover no bairro Mont’Serrat, em Porto Alegre, onde mora, ele encontra dificuldades. Como não consegue levantar muito os pés, acaba tropeçando em buracos e falhas nas calçadas. Ao atravessar a rua, precisa utilizar rampas, devido à altura dos meio-fios. Quando estas não existem, ele demora e até mesmo cai tentando alcançar o outro lado. Raízes altas, mudanças de piso, revestimentos irregulares também o atrapalham e já ocasionaram diversos deslizes e quedas. “Preciso

caminhar olhando constantemente para o chão, pois nunca sei quando haverá algum obstáculo em meu caminho”, queixa-se. Gustavo expressa essas e outras críticas ao poder público em sua página na Internet, chamada Blog da Acessibilidade. “Poucas pessoas possuem a autonomia que eu tenho. Não apenas os deficientes sofrem com essa situação, mas também as pessoas idosas que enfrentam grande dificuldade de locomoção”, alerta Gustavo. Outro cidadão que sofre devido aos mesmos problemas é João da Silva, 32 anos. A sua principal reclamação é a falta de ônibus coletivos com equipamento adequado ao ingresso de pessoas em cadeira de rodas. “Um cadeirante demora muito mais para se locomover pela cidade, pois os ônibus que possuem o suporte adequado, são poucos frente a toda frota. Às vezes passam três ônibus que não podem nos receber, então acabamos nos atrasando”, lamenta João. Em Porto Alegre, apenas as principais linhas oferecem aporte para cadeirante. Mas não é só na Capital gaúcha que estes problemas persistem. Mesmo apresentando lacunas nos serviços oferecidos aos deficientes, Porto Alegre é uma cidade modelo nesse âmbito. De acordo com a prefeitura, 27% da frota de ônibus está

Gustavo Trevisi é jornalista preparada para receber deficientes, enquanto a legislação cobra apenas 10%. As lotações, ainda esse ano, sairão de fábrica com adaptação para cadeirante. Há projetos encaminhados para melhorar a área central de Porto Alegre. Cerca de 180 novos rebaixamentos de calçadas estão previstos na área. “Esses serão facilitadores para circulação e travessia de rua segura de todos os pedestres, em especial aqueles com deficiência e mobilidade reduzida”, afirma João de Toledo, arquiteto e urbanista da Secretaria Especial de Acessibilidade e Inclusão Social (Seacis). Está para ser votado na Câmara de Vereadores um projeto de lei chamado “Plano diretor de Acessibilidade”, criado pelo ex-prefeito José Fogaça. Essa lei viabilizará rotas acessíveis e caminhos sem obstáculos para qualquer cidadão. No final do ano passado, Porto Alegre foi a primeira candidata a sede da Copa do Mundo de 2014 a assumir compromisso com a campanha de acessibilidade, promovida pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade). O projeto exige construções, de acordo com o conceito de acessibilidade universal.

Porto Alegre,maio 2010

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Cultura Nenhum e todos cantam Beatles juntos Daniela Grimberg/Hiper

Conjunto gaúcho interpreta sucessos da banda britânica no bar Opinião Por Júlia Rombaldi

Thedy Corrêa, Sady Homrich, João Vicenti e Carlos Stein levantaram o público

Música e bom humor, a receita do grupo Móveis Coloniais de Acaju Por José Luiz Dalchiavon Surgida em 1998, a banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju parece ver o Rio Grande do Sul como uma segunda casa. E o público gaúcho a acolhe como se realmente fosse. O grito ensurdecedor de “Móveis! Móveis!” cada vez que surge um segundo de silêncio é prova disso. A banda ganhou reconhecimento com a participação no programa Som Brasil, da TV Globo, quando interpretaram faixas de Raul Seixas. O primeiro disco foi lançado em 2004, “Idem”. O segundo veio com o nome de “C_MPL_TE”, lançado em 2009. Na turnê do disco “C_MPL_ TE”, a banda mostrou, em 29 de abril, em Porto Alegre, a energia de seus nove integrantes e dos instrumentos pouco comuns em um show de rock. Das básicas bateria e guitarra até a gaita e a flauta, o som é diferente de outros grupos famosos de Brasília, como Raimundos e Capital Inicial. Segundo os seus integrantes, a mistura de rock com outros

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Maria Helena Sponchiato/Hiper

Maria Helena Sponchiato/Hiper

ritmos (brasileiros e europeus) pode ser resumida em uma frase: uma feijoada búlgara. O bom humor sem escracho das letras e melodias também está presente no show, na coreografia ou em uma simples explosão de diversão, tanto de quem apresenta quanto de quem assiste. O nome da banda, aliás, reflete esse bom humor. Móveis Coloniais de Acaju teria sido escolhido como uma homenagem à revolta do Acaju, que seria inclusive tema de uma tese de mestrado de um período pouco conhecido na História do Brasil, sobre um conflito envolvendo índios e portugueses contra a Eles fazem uma “feijoada búlgara” invasão dos ingleses à Ilha do instrumentos foi para a Europa, Bananal, na região que hoje é o Tocantins. Pura balela, como em uma turnê de poucos shows, eles mesmo reconhecem em seu e voltou a Porto Alegre menos de site. A real origem do nome não seis meses depois da última apretem uma explicação correta. A sentação no Estado. As músicas história toda foi inventada ape- do último CD, como Seria o Ronas para soar importante quando lex?, Adeus e Copacabana podem ouvissem a pergunta “De onde ser baixadas gratuitamente pelo site http://albumvirtual.trama. veio o nome do grupo?” Essa mistura de ritmos e uol.com.br.

Porto Alegre,maio 2010

Apesar do nome sugerir ideia contrária, o show “Nenhum de Nós canta Beatles” põe todo mundo para cantar com vontade os maiores sucessos do quarteto britânico. Foi o que aconteceu na noite de 11 de maio no Bar Opinião (José do Patrocínio, 834), quando o grupo se apresentou para um público reduzido, mas fiel. A banda, formada por Thedy Corrêa no vocal, Sady Homrich na bateria, João Vicenti no acordeão e teclados, e Velo Marques e Carlos Stein nos violões e guitarras, abriu o show com Can’t Buy Me Love, seguida por Something. O repertório contou ainda com Don’t Let Me Down, While My Guitar Gently Weeps, Strawberry Fields Forever, Revolution, entre tantas outras. Algumas músicas, porém, tiveram execução especial e animaram ainda mais o público. O baterista Sady impressionou ao assumir o

microfone para cantar a divertida Yellow Submarine, enquanto Thedy comandava a bateria. Across The Universe, interpretada com o uso de um sitar (instrumento de cordas de origem indiana que ficou conhecido no ocidente com a ajuda dos Beatles), tocado por Veco Marques, foi outro motivo para muitos aplausos. Lucy In The Sky With Diamonds também teve um diferencial: Thedy usou um megafone para recriar alguns efeitos da versão original. O auge da noite aconteceu durante a execução de Hey Jude. O público entoou a canção junto, dando continuidade à música mesmo quando os instrumentos já haviam parado de tocar. Isso foi o suficiente para provar que, sim, todos nós cantamos Beatles. Formada em 1986, em Porto Alegre, a “Nenhum de Nós” já foram lançou 13 CD’s e dois DVD’s e seus maiores sucessos foram Camila, Você vai lembrar de mim e Amanhã ou depois.

Grupo de Brasília mistura rock com outros ritmos


Fotos: Vanessa Freitas/Hiper

Fronteiras do Pensamento em 2010

Power Pop, a vez dos coloridos

Por Deborah Cattani

É novo gênero do rock que sucede o Emocore Por Vanessa Freitas e Gabrielle Toson O monótono preto e branco dos emos está em crise com a nova sensação do momento, o Power Pop. O Emocore, gênero do rock com música baixo-astral, que trata, basicamente, de decepções amorosas e dos sofrimentos dos adolescentes perde espaço para o Power Pop, que mistura visual divertido com guitarras pesadas, bateria acentuada, muitos teclados e sintetizadores, resultando no rock dançante. Os temas do Power Pop são completamente diferentes do Emocore. Enquanto um fala de problemas, o outro prefere as maravilhas da adolescência, como festas, curtição e amores de uma noite. O visual das bandas Power Pop, porém, chama mais atenção que a própria música: calças jeans amarelas, vermelhas, roxas, verdes, pinks, ou de qualquer outra cor forte, óculos de todos os tipos e com armações muito coloridas, tênis verde-limão e rosa, azul e amarelo e camisetas que mais parecem um arco-íris. Você já deve ter visto jovens assim. Agora, a tendência é não combinar, ser colorido como os ídolos das bandas de Power Pop que ganham fãs enlouquecidos por toda parte. Uma das últimas demonstrações do fenômeno ocorreu em Porto Alegre, dia 7 de maio, na segunda edição do festival College Rock. A paulistana Cine é considerada a principal banda nacional de Power Pop. Criada em 2007, é formada por DH, Bruno, David, Pedro e Danilo. A maior comunidade dedicada à banda no site de relacionamentos Orkut conta com quase 200 mil membros. Outra banda do gênero é Restart, de São Paulo. Pedro Lanza (baixo e vocal), Pedro Lucas (guitarra e vocal), Koba (guitarra) e Thomas (bateria), todos com menos de 20 anos, definem o estilo do grupo como “happy rock” (rock feliz). Os rapazes vestem roupas e acessórios multicoloridos e tocam músicas alegres. A banda já está confirmada

para a próxima edição do College Rock – totalmente adaptado à moda colo- Power Pop destaca temas que lembram rida –, em 27 de junho, tradicionais, mas a produção optou no Bar Opinião. Mariana da Silva Ferraz, 17 pela divulgação online pelo simples anos, esteve na última edição do fato de que é mais provável que os College para assistir aos shows das jovens estejam na frente do compubandas Poppin e Área Restrita. tador do que ouvindo rádio, vendo Ela não costuma se vestir como os TV ou lendo jornal. Com estrutura e organização membros da banda, mas gosta do estilo. “Eu curto o som deles, acho impecáveis, a última edição do uma música alegre, sem muitas College Rock mostrou que o festival lamentações. Não uso muito o veio para ficar. Produzida pela Opiestilo de roupas e de vida que eles nião Produtora em parceria com a têm. Acho que é mais um estilo Olelê, a edição de 7 de maio, no Pepde modinha e tudo mais, mas eu si on Stage, foi uma demonstração curto bastante, acho bem alegre”, da força do fenômeno Power Pop. A banda Forever The Sickest Kids, explicou. principal atração da noite, veio ao College Rock: O Festival Col- Brasil para quatro shows, entre lege Rock foi criado em 2009 e visa eles o de Porto Alegre. As bandas o público adolescente que gosta de Poppin e Cine e as gaúchas Área ouvir música na internet. O projeto Restrita e Tópaz fizeram a abertura surgiu como um festival de bandas do espetáculo. Quem ficou para ver a atração voltado para o público de 12 a 17 anos, que normalmente não pode principal da noite não se arrepenfrequentar outros lugares justa- deu. A FTSK, formada em Dallas mente pela idade. A ideia original (Texas), por Jonathan Cook (vocal), era divulgar o evento em meios Caleb Turman (guitarra e vocal),

Agenda

“coisas boas” da vida Marc Stewart (guitarra), Kent Garrison (teclado), Austin Bello (baixo) e Kyle Burns (bateria), começou o show com “She Likes”, do EP mais recente, “The Weekend: Friday”. A partir daí a animação do público se manteve até o final. O baterista Kyle Burns comentou que a tour no país era uma “festa de quatro dias”, já que nas últimas 48 horas eles haviam dormido muito pouco e, durante os shows, não pretendiam tocar nenhuma música mais calma. “Não tocaremos ‘Coffee Break’por que viemos para arrebentar e essa música é muito paradinha”, afirmou. O ápice do show foi quando a banda voltou ao palco para tocar uma de suas músicas mais famosas: “Whoa Oh (Me vs. Everyone)”. Na plateia, alguns comentários sobre os meninos da FTSK não deixaram dúvidas: “Conhecia só uma ou duas músicas deles, mas esse show foi bom demais!”

Avanços tecnológicos, ambientais, culturais e socioeconômicos são alguns dos fatores essenciais para mudar o mundo. O programa Fronteiras do Pensamento traz para o debate esse ano o tema “Para Compreender o Século XXI”, cujo objetivo é aprender com o passado da humanidade em busca de um futuro melhor. Dez palestrantes serão responsáveis por analisar a atual década visando um olhar crítico sobre a contemporaneidade. Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2004 e professor do Instituto de Letras da UFRGS, Donaldo Schüler esclarece o tópico escolhido: “Já que passamos 10 anos do século 21, refletir sobre nosso compromisso global, que vai se ampliando de ano para ano, é da mais nobre importância.” Schüler faz parte do grupo de consultores do Fronteiras e, segundo ele, a aceitação de certos paradigmas é necessária para melhorar a qualidade de vida. “Nos opormos à globalização, hoje, é um contra-senso. Pelas facilidades de comunicação e pela facilidade também de nos deslocarmos de um lugar para outro.” O programa, constituído por seminários internacionais com temas transdisciplinares na forma de conferências, foi concebido em 2006 pela Telos Empreendimentos Culturais, juntamente com a Companhia Petroquímica do Sul (Copesul). Referência mundial no assunto, o Fronteiras já recebeu, no palco do Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conferencistas como Win Wenders, Steven Pinker e Tom Wolfe. Miguel Nicolelis, neurologista e cientista, foi convidado para abrir esta quarta edição do ciclo de estudos, no dia 3 de maio, com a mediação do médico e reitor da UFRGS, Carlos Alexandre Neto.

Conferências vão até novembro: A edição do Fron-

Festival College Rock mostra que o estilo Power Pop está ganhando espaço entre os jovens

teiras se estenderá até o final de novembro desse ano e terá comos palestrantes: Raymond Kurzweil, Denis Mukwege, Jean-Michel Cousteau, Terry Eagleton, Eduardo Giannetti, Mario Vargas Llosa, Daniel Dennett e Carlo Ginzburg. Passaporte para o evento no Studio Clio (José do Patrocínio 698) ou nas livrarias Palavraria (Vasco da Gama 165) e Zouk (Garibaldi 1333). Informações: (51) 3019-2326 ou e-mail relacionamento@fronteirasdopensamento.com.br.

Porto Alegre,maio 2010

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12 ponto final

Porto Alegre, maio 2010

Crônica

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Aluna do 6ºsemestre de Jornalismo

Vai uma pipoquinha? Nicole Pandolfo “Com licença, senhoras e senhores. Gostaria de pedir a atenção de vocês por alguns minutos. Meu nome é Roger e eu vendo pipoquinha no ônibus pra ajudar no sustento da minha família. Quem quiser colaborar, é um pacotinho por trinta e cinco, dois por setenta, e três por um real!” Aquela voz aveludada e adulta demais para o menino que aparentava 14 ou 15 anos tirou por completa a minha atenção da leitura que já havia sido comprometida quando ele escorregou por debaixo da roleta. Por mais que insistisse em manter os olhos grudados do livro, não podia evitar

de perceber a maneira pausada e cheia de exclamações do texto decorado que o menino recitava. Àquela hora da noite, é provável que Roger realizava uma das suas últimas viagens do dia, apesar do saco em que carregava os pacotinhos de pipoca ainda estivesse cheio. Os tênis encharcados acusavam a chuva que caia do lado de fora do ônibus e a calça e o blusão exibiam as marcas que as muitas roletas deixaram durante o dia. Mas o rosto moreno ainda era forte. E determinado. Depois do discurso de saudação, era hora de oferecer as “pipoquinhas” banco em banco, enquanto pronunciava uma frase

estranha que nem as tantas repetições, de passageiro a passageiro, foram suficientes para que eu a compreendesse. Quanto tempo pulando de uma linha de ônibus à outra foi necessário para que as próprias palavras saíssem da sua boca tão autônomas? Capaz de não perceber as sílabas se entrelaçando, como se as últimas tentassem sair antes mesmo que as primeiras! Aposto que esse guri tem talento. Não é possível que os tantos sacos de pipoca vendidos não tenham implantado nele o jeito para o comércio e o gosto por empreender. Quem sabe Roger só precise de um assessor de comunicação. Alguém que o ensine sobre impostação de voz, postura

diante do público e, principalmente, o ajude a pronunciar melhor as palavras. Quem sabe um blog na Internet não ajudasse a promover suas pipoquinhas. Pobre Roger. Nem imagina como foi ser a cobaia em pensamento de uma estudante de jornalismo sedenta por colocar em prática as teorias que aprende em sala de aula. Com assessor ou sem, as vendas dessa viagem foram boas. Deve ser o horário. As pessoas estão indo para casa depois de um dia de trabalho. Uma pipoca cai bem. Sua missão nessa linha está cumprida. Aponta para o motorista a próxima parada e anuncia em sua comunicação confusa que vai desembarcar. “Desce lá, motorinha!”

Terapia para devedores compulsivos Camila Cunha/Hiper

Mulheres são as mais afetadas pela oneomania, doença que provoca o endividamento compulsivo Por Gabriela Dal Bosco Sitta Uma sala nos fundos da Cruz Vermelha de Porto Alegre é o lugar onde se encontram cerca de oito mulheres semanalmente. Elas fazem parte da irmandade Devedores Anônimos (DA), que reúne portadores de uma doença chamada oneomania. O grupo DA está constituído há um ano e nove meses no Rio Grande do Sul e ainda procura vencer preconceitos. Criado em 1967, nos Estados Unidos, os Devedores Anônimos têm o objetivo de auxiliar os Reuniões portadores da oneomania, caracterizada pelo endividamento compulsivo das pessoas. A doença atinge principalmente mulheres e pode ter consequências graves, que vão desde problemas financeiros até a depressão. As reuniões do grupo são baseadas nos princípios dos Alcoólicos Anônimos (AA), são utilizados os 12 passos, as 12 tradições e o anonimato. Nas sessões, cada participante tem um tempo de dez minutos para fazer seu depoimento, expondo as dificuldades e os avanços que fez na última semana.

do grupo são semelhantes aos encontros dos Alcoólicos Anônimos (AA), 12 passos, 12 tradições Uma das coordenadoras e fundadoras do DA no Rio Grande do Sul é Vera Regina Bueno, que afirma haver dificuldades em assumir a doença. O grupo já teve 12 membros, mas hoje o número varia de seis a oito pessoas por encontro. Segundo ela, muitos chegam, mas poucos permanecem. Além disso, Vera ressalta que o incentivo publicitário às compras dificulta o processo de recuperação dos portadores da oneomania. Os anúncios “são mais fortes do que a gente”, conclui.

No Brasil, além do grupo existir no Rio Grande do Sul, os Devedores Anônimos estão em São Paulo, Rio de Janeiro e no Paraná. Vera lamenta que não haja nenhum acompanhamento de psicólogos ou psiquiatras no grupo de Porto Alegre. Segundo ela, a Cruz Vermelha havia se responsabilizado por ceder um profissional, o que não aconteceu até hoje. Ainda assim, muitos membros têm conseguido êxito comparecendo aos encontros. Neli (que pede para não publicar nome completo), por exemplo, diz que

sentia necessidade de voltar para casa com alguma coisa que tivesse comprado, sacolas que “possuíssem volume”. Com o apoio que recebe nas reuniões, ela já controla muito melhor os gastos, no final de cada mês faz um balanço e procura descobrir onde extrapolou. As reuniões dos Devedores acontecem todas as quintas-feiras das 10h às 12h nas dependências da Cruz Vermelha (Rua Independência, 993 – fundos). Para participar, os interessados não precisam se inscrever. É só chegar, sentar e fazer seu depoimento.

HIPERTEXTO  

abril/maio