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O sangue brasileiro de Thomas Mann A influência da origem latina materna na obra de um dos maiores escritores do século 20 Por Débora Backes Sua voz fraquejava no leito de morte. Os problemas de saúde obstruíam as vias respiratórias, e entoar o alemão perfeito que falara desde os sete anos de idade era uma dificuldade. Ao redor da cama, os filhos tinham dificuldade de entendê-la, devido à debilidade de sua voz e ao sotaque jamais antes escutado por eles. O “r” arrastado se assemelhava com aquele dito por espanhóis ou portugueses quando falavam o idioma. A peculiaridade na fala destoava com o alemão perfeito, misturado com o Plattdeutsch, dialeto falado na cidade de Lübeck, ao norte do país, que falara a vida inteira na frente de seus filhos. “Agora, ao morrer, reaparecia o timbre do lado de lá, da colorida terra ensolarada”, relata Viktor Mann, irmão mais novo de Thomas Mann, em seu livro Wir waren fünf (Éramos Cinco), evidenciando que provavelmente sua mãe teria se agarrado nas lembranças de sua terra natal antes de morrer. Seu pequeno paraíso, em Paraty, na Fazenda de Boa Vista. A origem brasileira da mãe de Thomas Mann (1875-1955), um dos escritores alemães mais renomados do século 20 e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1929, se tornou conhecida na década de 90 por meio da pesquisa do historiador e Presidente da Casa de Cultura de Paraty, Diuner Mello. Em 1994, Frido Mann, neto do autor alemão, veio para o Brasil em busca de informações sobre seus antepassados. Sua visita mobilizou especialistas em história e literatura. O primeiro membro da família Mann a pisar em território brasileiro recebeu, ao chegar, a certidão de nascimento de sua bisavó, o que provava, enfim, que Julia da Silva Bruhns havia nascido em Paraty. Em 14 de agosto de 1851, dentro da selva, entre macacos e papagaios, auxiliada por um grupo de negros que a transportavam de uma cidade litorânea a outra, Maria Luiza da Silva deu à luz seu quarto filho. Ela e o marido, Johann Ludwig Herman Bruhns, ou João Luiz German Bruhns, como ficara conhecido, se mudavam de Angra dos Reis para Paraty quando foram obrigados a parar para receber Julia. A descoberta de Diuner Mello comprova o exato local de nascimento da menina. Seu pai havia saído da Alemanha aos 16 anos e rumou para terras pouco conhecidas do outro lado do Atlântico, “com o objetivo de fazer fortuna com o comércio de produtos provenientes das grandes plantações”, conta Julia em suas memórias. No Brasil, conheceu a senhorinha Maria Luiza, uma jovem de 15 anos de ascendência africana e portuguesa. As origens de sua avó se tornaram mais tarde um problema para Thomas Mann. Alguns historiadores alegam que Maria Luiza poderia também ter sangue judeu devido às origens portuguesas. O professor de Língua e Literatura da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Paulo Soethe explica o porquê da desconfiança: “Como muitos portugueses que vieram para o Brasil eram cristãos novos, haveria a probabilidade de que eles teriam saído de Portugal justamente por causa dessas perseguições contra os judeus na época”. Devido a este pensamento, Thomas Mann recebe acusações públicas já em 1912 de Adolf Bartels, um ideólogo do nazismo. Segundo Soethe, Thomas Mann teria se defendido através das palavras: “Toda a herança que tenho de minha mãe se traduz em mim como latinidade”. Sua reação


revela bastante sobre a relação com a mãe. A preocupação com os dizeres de Bartels tornou a publicação das memórias de Julia algo tardio. O manuscrito Aus Dodo Kindheit (Da Infância de Dodô) recebeu esse título devido ao apelido da pequena Julia em seus primeiros anos de vida e foi publicado apenas em 1958, após a morte de Thomas, em 1955. O espelho inverso do ganhador do Nobel de Literatura era seu irmão e também escritor renomado Heinrich Mann (1871-1950). A briga motivada pelo posicionamento político de cada um influenciara a forma como se manifestaram sobre suas origens latino-americanas. O irmão mais velho de Thomas Mann tinha uma mentalidade esquerdista e liberal, que contrastava com o seu conservadorismo, e se declarava sobre sua origem estrangeira de forma aberta e orgulhosa. “Ele aproveitava o fato de ter uma origem exótica pra aparecer na sociedade como alguém diferente”, conta Paulo Soethe. Seu romance Entre as raças é a prova disso. Heinirch se baseia na vida de sua mãe para construir a personagem Lola, uma menina brasileira que vivia na Alemanha separada dos pais. O professor da Universidade Federal Fluminense Johannes Kretschmer, também envolvido com os estudos sobre Julia Mann, observa que o início do romance de Heinrich seria uma descrição quase literal da memória que Julia Mann deixou por escrito. Uma personagem tão semelhante à sua mãe, como a Lola de Heinrich, não é encontrada nas obras de Thomas. A influência da brasilidade vinda do lado materno não é explicitada ao longo de sua carreira. A descendência latina aparece no escritor em forma de sensibilidade artística, como Thomas mesmo descreve. “Ele tem essa consciência da origem, mas tem que entender que essa é também uma coisa literária, uma coisa intelectual dele. Ele entende que um lado dele, a grosso modo, seria mais sensitivo, mais sensual, e o outro veio seria mais organizado, burguês, racional. Então ele brinca que o racional é da parte do pai e o outro é da parte da mãe”, descreve a mestre em Estudos Literários pela UFPR, Sibele Paulino. Ela lembra o curto texto escrito por Thomas sobre sua mãe, Das Bild der Mutter (O retrato da mãe), no qual ele atribui à sua mãe a formação artística que recebeu ao lado de seus irmãos. “A mãe dele no fundo foi a que passou (o talento para as artes) para os filhos, que lia para eles, que tocava piano, lia as obras alemãs, lendas, obras do realismo”, afirma. Os lábios exóticos que deixavam fluir com naturalidade o dialeto Platt, do norte da Alemanha, em forma de romances e contos são lembrados por Thomas Mann neste texto. Ele atribui àquela voz suave de sua mãe a figuração do primeiro romance em sua memória, Stromtid, o qual teria inspirado seu livro Os Buddenbrocks. O gosto pela música também se associam às lembranças sobre Julia Mann: “Mas com mais prazer ainda eu acompanhava minha mãe quando ela fazia música. Seu piano de cauda Bechstein ficava no salão, uma varanda bem iluminada na qual o bom gosto e o estilo burguês pomposo de 1880 haviam selado a paz, sem vencedores nem vencidos”, descreve Thomas em seu texto O retrato da mãe. Este cenário descrito por Thomas aparece com mais frequência após a morte de seu pai, o senador Thomas Johann Heinrich Mann. Julia se muda para Munique, uma cidade mais ensolarada, símbolo da boemia alemã, onde se encontravam artistas, músicos e intelectuais do país. “Munique era mais ensolarada, era mais alegre. Quando ela se muda para lá com os filhos, ela tem uma vida mais badalada, em salões, ela abre as portas da casa dela para músicos, para artistas”, conta Sibele Paulino. O contato com diferentes personalidades do


meio cultural aguçaram a sensibilidade artística de Heinrich, Thomas, Carla, Julia e Viktor Mann. “À minha mãe devo uma familiaridade com esse glorioso universo alemão do cultivo da arte, universo que de fato equivale a uma cultura por si, na qual um mestre atira ao outro a esfera dourada”, declara Thomas Mann em seu escrito sobre Julia. De acordo com Sibele Paulino, a vida agitada que Julia passou a levar depois da morte do marido, em 1891, era um sintoma da latinidade que houvera reprimido durante os anos que vivera em Lübeck. O cinza e o frio da cidade no norte da Alemanha contrastavam com as cores vivas que a pequena Dodô via nas praias de Paraty. Sua mãe não resistira ao parto do quinto filho, que também falecera. O historiador Diuner Mello não acredita completamente nesta hipótese como motivo da saída do pai de Julia do Brasil: “O que o levou a se mudar do Brasil com todos os seus filhos e permanecer na Alemanha por dois anos foi o surto de cólera que, naquele momento, grassava em todo o país”. Johann Ludwig Herman Bruhns permanece tempo suficiente na Alemanha para colocar suas duas filhas em um pensionato, onde receberiam a educação necessária para se tornarem moças da sociedade. Julia sofre um desenraizamento, como observa Sibele, e é obrigada a se adaptar à cultura, aos costumes religiosos protestantes e, com mais dificuldade, ao idioma. Para isso, a menina e sua irmã contaram com a ajuda da dona da pensão. Uma mulher chamada Therese, que concede aulas isoladamente para as irmãs brasileiras. As palavras referentes à família e algumas canções que marcaram a sua infância não foram, todavia, esquecidas. Em seu livro de memórias escrito em alemão, Julia se refere a seus familiares como pai, mãe e mana. O professor da UFPR Paulo Soethe relata que Thomas e seus irmãos também usavam a palavra portuguesa “mãe” e aprenderam canções infantis em português, como a música Molequinha de meu pai. O aprendizado do português não seguiu em frente e, portanto, não pode se firmar como uma herança de Julia a seus filhos. O que ficou foi sua veia artística, que se fez presente em quase todos irmãos. Os três meninos se tornam escritores, e Carla atriz. Julia pode não ter se tornado escritora, artista ou compositora, mas deixou sua sensibilidade para as artes influenciar seus filhos. A declaração de Thomas em carta escrita no ano de 1943 comprova isso. Nela ele diz: “Sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista”. O Contato de Thomas Mann com o Brasil A consciência de sua origem latino-america despertou o interesse de Thomas Mann pelo Brasil. Em registro em seu diário pessoal, o autor escreve algumas observações dos poucos livros que leu sobre o país, como Brazilian Adventures (Aventuras Brasileiras), de Peter Fleming, e Brasilien, ein Land der Zukunft (Brasil, um país do futuro), de Stefan Zweig. “No fim é uma relação muito pontual e periférica dele com o Brasil. O que temos de entender é que a pouca atenção que ele deu a questões brasileiras se deve a origem brasileira dele, mas se formos imaginar o que ele poderia ter feito e não fez, o que se revela é um desinteresse”, argumenta Soethe. O contato com intelectuais brasileiros também foi fruto desse interesse, tímido de certa forma, em conhecer suas origens. Em 18 de dezembro de 1929, depois de receber o Prêmio


Nobel de Literatura, os jornalistas aguardavam para entrevistar o autor de Os Buddenbroocks. Thomas Mann escolhe um dos jornalistas que veio representar a terra ensolarada, da qual sua mãe sempre falava. Sérgio Buarque de Holanda se encontrou com Thomas em Berlim, e o autor o recebeu com a declaração: “Acho impossível dispensar o prazer de conversar com um brasileiro”. Erico Verissimo foi outra personalidade brasileira que o escritor conheceu. Os dois se encontraram em Denver, nos Estados Unidos, em 1941. Mais tarde surge de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda a idéia de trazer Thomas Mann para o Brasil. Freyre se empenhou para convidá-lo, através da Academia Brasileira de Letras. Em carta escrita, em 1947, ao dramaturgo austríaco, Lustig-Prean, que vivia como exilado em São Paulo, Thomas revela sua satisfação com relação ao possível convite: “Quase não consigo entender de que maneira a Academia Brasileira de Letras poderia atender à sua conclamação. Ela deveria nomear-me membro-correspondente? Claro que seria uma honra e uma alegria”. O convite, entretanto, não veio. “Esse convite não foi para frente devido à pressão de alguns acadêmicos que consideram Thomas Mann um comunista”, lamenta Kretschmer. Centro Cultural em Paraty À beira da praia em Paraty está a casa dos senhores, donos da Fazenda Boa Vista, onde morou Julia Mann até os sete anos de idade. Frido Mann, neto de Thomas, em 1997 idealizou transformar o local em um centro cultural. O objetivo era promover atividades para afinar a relação entre os dois lares de Julia, tão distantes um do outro. Entretanto, as complicações legais, pelas quais o imóvel passa atualmente, fizeram com que os esforços de Frido, Paulo Soethe, Johannes Kretschmer e outros estudiosos no assunto fossem abandonados. O professor Paulo Soethe explica que em 2005 a casa pertencia à empresa Serrana Empreendimentos que, segundo ele, era somente de fachada. O desejo de construir o Centro Cultural Julia Mann parecia longe devido à situação da empresa, o que fez com que seus idealizadores se afastassem do projeto por um tempo. Neste meio tempo, o terreno e a casa passaram para as mãos de Oscar Müller, dono da empresa paulista Arbeit. Outro personagem na história da Fazenda Boa Vista é o empresário Amyr Klink, arrendatário do terreno desde os anos 1990, que construiu a Marina do Engenho em frente ao prédio. Ali ele também planejava abrir uma escola de navegação para jovens carentes, o Projeto Escola Mar, que devido a impasses foi transferido para Santa Catarina. Segundo o professor da Universidade Federal Fluminense, Johannes Kretschmer, há ainda projetos de aumentar a marina. “O que pode significar a salvação da casa, quer dizer a restauração, a reforma da casa. E quem sabe um dia, teremos de fato uma Casa Julia Mann”, espera. Opinião que não é compartilhada por Soethe. Amyr Klink tenta se tornar dono absoluto do terreno por direito adquirido, o que a seu ver, se de fato acontecer, irá adiar a fundação do tão sonhado Centro Cultural. O que os deixa tranquilos é saber que a casa é patrimônio histórico, portanto não pode ser destruída. A Associação Julia Mann, existente no Brasil e na Suíça, intermedia o diálogo entre América Latina e Europa pela fundação do centro em Paraty. “É uma associação, uma sociedade sem fins lucrativos, como qualquer associação de bairro, e tem como objetivo único preservar a memória da família Mann no Brasil e aproveitar a casa para fins culturais”, explica Soethe, que já foi vice-presidente da associação no país. A rigor ela estaria, no momento, inativa.


Para que volte a suas atividades, é preciso uma assembléia dos membros e uma regularização dos papéis para que começa a operar não só como pessoa jurídica.

O Sangua brasileiro de Thomas Mann  

Reportagem escrita para disciplina de Redação e Produção em Revista de 2012/1

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