Page 27

“Eu sabia que queria ser escritora desde criança”, conta ela. “Eu era séria, muito séria. E tinha padrões. Sempre li muito. De repente, no meio da adolescência, passei uns três anos quase sem ler, só jogando. Tem um limbo entre livros inteligentes de criança e livros inteligentes de adulto que eu só consegui preencher jogando videogames de todo tipo, todo dia, por horas e horas a fio. Diria que nessa época comecei a usar os videogames para suprir (ou gastar) aquela pulsão destruidora que, dizem, é o lado B da criação. No fim desse período, no 2º e 3º ano do ensino médio, voltei a ler e a escrever, mas sem parar de jogar. Foi quando saiu No shopping, meu primeiro livro.”    Simone já fizera outras tabelinhas com o mundo dos games – tem conto, Campo minado, e romance, A feia noite (7Letras, 2006) repleto de referências a ele. Mas Owned! é um mergulho muito mais radical na experimentação, já que é o primeiro a colocar o formato de um jogo eletrônico no centro da própria narrativa. O conceito inovador está reservando grandes surpresas no processo de escrita.   “É um formato que oferece uma dimensão bem interessante de identidade: se você é moldado pelas suas escolhas ou tem um Destino com D maiúsculo”, explica Simone. “Tive, por exemplo, que produzir trechos-curinga, que se encaixassem em mais de uma situação. A negociação de informações novas ao leitor é difícil, tenho que medir muito bem o que vou dar a cada momento; e brinco com isso. Preparo ciladas; às vezes, falsas ciladas. Como há vários finais, escondo informações a respeito de um final no caminho para outro final. É uma forma de obrigar, ou de condicionar, o leitor a jogar mais de uma vez o jogo – se possível, a exaurir os caminhos oferecidos. Despertar uma sede de saber mais.”   Gamer inveterado, o gaúcho Antônio Xerxenesky também estabeleceu uma relação frutífera com os jogos. A premissa de seu primeiro romance, Areia nos dentes (Não Editora, 2008, 1.

ed.; Rocco, 2010, 2. ed.), uma espécie de faroeste com zumbis, veio do survival horror Alone in the dark 3, terceiro opus de uma série de games que viraram mania nos anos 1990 – e ela própria inspirada em um conto do autor de ficção científica britânico H.P. Lovecraft.   “Joguei o primeiro Alone in the dark aos 10 anos, e o jogo literalmente me tirou o sono”, recorda Xerxenesky. “Como sou um gamer nostálgico, lá pelos 20 e poucos anos revisitei a série. O terceiro jogo me chamou a atenção por ser uma mescla completamente absurda de elementos que eu adorava no cinema – o faroeste e o terror. Caubóis zumbis, rituais xamânicos, o jogo tem de tudo. É um verdadeiro caos. E essa redescoberta do jogo plantou um desafio na minha cabeça: como seria possível escrever, nos dias de hoje, no Brasil, um faroeste com zumbis? Como fazer desse livro algo além de uma bobagem trash? Como, a partir desse cenário fantástico, criar uma narrativa de impacto emocional?”   Para um novo grupo de escritores, a força de um game pode causar tanto impacto no imaginário quanto o acorde de uma música, a cena de um filme ou o verso de um poema. Colega de Xerxenesky na Não Editora, Samir Machado de Machado escreveu um capítulo inteiro de sua novela O professor de botânica (Não Editora, 2008) sob a forte influência de uma das fases de Metal gear solid 3.   “Indiretamente, o impacto que a enxurrada de referências pós-modernas de um jogo como Fallout 2 me provocou só teve paralelos comigo quando li Thomas Pynchon pela primeira vez”, compara Machado. “Em termos narrativos, uma coisa que costumo dizer, é que jogos de mundo aberto como Fallout, Assassins creed ou Red dead redemption me dão uma sensação de ser e estar num espaço físico ou contexto histórico que, para um escritor, são tão valiosas quanto uma pesquisa.”  

Daniel Galera “Impossível citar um só. The Secret of Monkey Island 2, Beyond Good and Evil, Super Mario Bros. 3, Shadow of the Colossus, Return Fire (do 3DO) e Secret of Mana são alguns que vêm à mente de imediato, mas a lista completa teria dezenas ou centenas de títulos.”

www.SARAIVACONTEUDO.com.br

27

Revista Saraiva Conteúdo - 2ª edição  

Esta segunda edição optamos por trazer aos leitores uma edição mais musical, reverenciando mestres como Noel Rosa, Adoniran Barbosa e Gilber...

Revista Saraiva Conteúdo - 2ª edição  

Esta segunda edição optamos por trazer aos leitores uma edição mais musical, reverenciando mestres como Noel Rosa, Adoniran Barbosa e Gilber...

Advertisement