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Amor cortês: do servo autor à divina voz Compositores ainda dependem da gravação de suas obras por intérpretes para obter visibilidade e oportunidade no mundo da música Por MAURO FERREIRA

Compositor celebrado desde que entrou em cena, por conta do humor espirituoso que fazia seus sambas evocarem a verve da obra de Noel Rosa (1910 – 1937), Zeca Pagodinho deixou praticamente de lado o ofício da composição para se tornar um intérprete de sambas alheios – a ponto de o repertório de seu atual disco, Vida de minha vida, ter somente um samba da lavra própria de Zeca, Orgulho do vovô, parceria com o compadre Arlindo Cruz. É uma opção em favor de quem vive e depende do trabalho de compositor, como Zeca sempre faz questão de explicar em entrevistas. “É que as pessoas precisam ganhar dinheiro. E ter um samba gravado por Zeca Pagodinho é ganhar dinheiro, não é? Tenho essa preocupação”, explicou o sambista ao site SaraivaConteúdo.   Zeca tem razão ao se preocupar. No mundo do samba, habitado por compositores da periferia, intérpretes são sempre priorizados, pois quase nunca os autores conseguem ter voz ativa e capital para investir numa carreira de cantor, dependendo, por isso mesmo, de sambistas canários como Beth Carvalho (que projetou toda a turma surgida no Cacique de Ramos na virada dos anos 1970 para os 1980) e o recorrente Zeca Pagodinho. Um dos casos mais curiosos no gênero é o de Bezerra da Silva (1927 – 1995), cantor e ritmista pernambucano que gravou discos regularmente dos anos 1970 aos 1990, sempre dando voz a compositores marginalizados dos morros e favelas da periferia fluminense. Gente que nunca

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SARAIVACONTEÚDO DEZ. 2010 / JAN. 2011

subiu no palco e tampouco apareceu na televisão. “São compositores de verdade, sem caô”, costumava defender Bezerra em entrevistas. A postura generosa de Zeca Pagodinho joga luz para a importância dos intérpretes na propagação da obra dos compositores. Importância cada vez maior num mercado musical cada vez mais segmentado. Sem a voz de um intérprete de projeção nacional, os compositores dificilmente conseguem chamar a atenção do chamado “grande público” para suas músicas. Foi através das vozes das cantoras Maria Rita e Roberta Sá, por exemplo, que os compositores cariocas Edu Krieger e Rodrigo Maranhão conseguiram solidificar suas carreiras, no embalo dos registros delas de músicas como Novo amor (tema de Krieger, gravado por ambas) e Caminho das águas (sucesso de Maranhão na voz de Maria Rita). Eles também gravam seus discos, mas têm consciência do poder de uma intérprete de maior alcance vocal e midiático. Com a palavra, Edu Krieger, um dos compositores mais cultuados da nova geração da música brasileira:   “Acredito que haja uma relação de troca entre compositores e intérpretes, pois um grupo não viveria sem o outro. O fato de cantoras como Maria Rita e Roberta Sá terem gravado composições minhas foi fundamental para alavancar meu trabalho, pois artistas como elas despertam um grande interesse

Revista Saraiva Conteúdo - 2ª edição  

Esta segunda edição optamos por trazer aos leitores uma edição mais musical, reverenciando mestres como Noel Rosa, Adoniran Barbosa e Gilber...

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