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Adoniran, aborda em tons populares a desventura de pessoas despejadas de um cortiço demolido pelas leis tiranas do progresso. Já o Samba do Arnesto, gravado por Adoniran em 1952 e popularizado pelo conjunto Demônios da Garoa (o melhor intérprete dos seus sambas) em 1955, é exemplo de como o humor espirituoso também dava o tom no repertório de João Rubinato. Na obra de Noel, a crítica às vezes foi mais direta. “Onde está a honestidade?”, já perguntava o compositor num samba de 1933 de forte conotação política. Mas em Noel toda e qualquer crítica – política, social, comportamental – passou pelo filtro da espirituosidade. Traços de ironia são identificáveis em todo o seu cancioneiro, avaliado em 259 títulos registrados de forma oficial (músicas inéditas seriam descobertas e adicionadas a essa obra que hoje já totaliza mais de 300 composições). É um humor quase sarcástico, reconhecível (em menores doses) também no cancioneiro de Adoniran. “Não reclama / Pois a chuva / Só levou a sua cama”, debocha Adoniran em versos de Aguenta a mão, João que recorrem ao humor negro para dar leveza a uma tragédia social.   Como amor desde sempre rimou mais com dor do que com humor, os repertórios de Adoniran e Noel irmanaram-se também ao expiar dores de amores. Três apitos – o samba de Noel que só veio à tona 14 anos depois da morte do compositor, em gravação feita em 1951 por Aracy de Almeida – ecoa ainda hoje como uma das obras-primas atemporais do cancioneiro da dor de cotovelo, assim como a doída Último desejo (1937). E, por irônica coincidência, foi a mesma Aracy que motivou Adoniran a criar um dos sucessos mais melancólicos de seu repertório. Ao receber do poeta Vinicius de Moraes (1913–1980) os versos de Bom dia, tristeza, com a liberdade de encaminhá-los a quem bem entendesse, a cantora elegeu Adoniran para ser o parceiro de Vinicius. Convite aceito, Adoniran musicou com brilho os versos cultos do poetinha.   Acima de quaisquer reais afinidades poéticas e ideológicas, Adoniran e Noel construíram obras que retrataram com fidelidade os mundos que habitavam. Assíduo frequentador da boemia paulistana, Adoniran conviveu com a São Paulo das favelas, dos cortiços, das malocas. A São Paulo dos trabalhadores explorados, dos vagabundos, dos marginalizados que criam nas ruas a sua própria língua – universo que inspirou a grande maioria das 151 composições de sua lavra que chegaram ao disco. Já Noel, igualmente boêmio, transitou pelos botequins, pelos morros e pelos asfaltos pavimentados de um Rio de Janeiro que começava a se industrializar e vivia o início da era dourada do rádio brasileiro – veículo para que seus sambas chegassem ao povo e fossem a trilha dos Carnavais da época.   Mesmo não sendo um compositor associado à folia, Ado-

niran conseguiu seu primeiro relativo sucesso com uma marchinha, Dona boa, vencedora em 1935 de um concurso carnavalesco promovido pela Prefeitura de São Paulo. No embalo, o cantor grava em 1936 os primeiros discos, embora sua carreira musical – estagnada nos anos 1940 – somente deslanche para valer a partir de 1951. Enquanto o sucesso como compositor não vinha, Adoniran trabalhou como ator e humorista em várias emissoras de rádio na década de 40. Do rádio, pulou para o cinema, estreando como ator em 1945 no filme Pif-Paf. Verdadeiro artista multimídia, Adoniran chegou, nos anos 1970, a trabalhar até em novelas, integrando o elenco de tramas como Mulheres de areia, exibida em 1973 pela extinta TV Tupi. Só que, nessa altura da vida, o trabalho como ator jamais ofuscaria sua produção como compositor. Ele já havia, afinal, posto nos trilhos o Trem das onze, o samba composto em 1961 e gravado três anos depois pelo conjunto Demônios da Garoa com retumbante sucesso nacional que logo atravessaria as fronteiras brasileiras. Basta dizer que em 1966, apenas dois anos depois do lançamento do compacto dos Demônios da Garoa com Trem das onze, o samba foi gravado na Itália com o título de Figlio unico, um hit na voz do cantor Riccardo del Turco.   A obra de Noel não chegou  (geograficamente) tão longe e tampouco o compositor viveu tempo suficiente para conhecer a televisão, inaugurada no Brasil somente em 1950. Mas,

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Revista Saraiva Conteúdo - 2ª edição  

Esta segunda edição optamos por trazer aos leitores uma edição mais musical, reverenciando mestres como Noel Rosa, Adoniran Barbosa e Gilber...

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Esta segunda edição optamos por trazer aos leitores uma edição mais musical, reverenciando mestres como Noel Rosa, Adoniran Barbosa e Gilber...

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