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saraiva A FESTA DE

MARIA

GADÚ

Adélia

Prado:

“Eu vou fazer um livro só a minha vida inteira”

João

Wainer:

Um olhar por detrás da fumaça

Literatura e Games: uma parceria inusitada

Adoniran E NOEL Andrucha Waddington Eduardo SpoHr João Tordo

GILBERTO

GIL Nosso Artista Viramundo DEZ 2010 • Ano 1 • Nº 2 • Distribuição Gratuita


editorial

É um prazer apresentar o segundo número da revista SaraivaConteúdo. Depois da edição de lançamento na Festa Literária de Paraty (FLIP 2010), com ênfase em matérias sobre literatura e poesia, e uma carinhosa homenagem aos 80 anos do grande poeta Ferreira Gullar, optamos por trazer aos leitores uma edição mais musical, reverenciando mestres como Noel Rosa e Adoniran Barbosa – que este ano completariam 100 anos – e Gilberto Gil, nosso artista viramundo que acaba de ter sua produção audiovisual reunida em uma caixa que é uma síntese não só da sua obra, mas especialmente do diálogo entre o Brasil e outras culturas. Tal qual Chico Buarque, que encerra sua canção Paratodos com a frase “Evoé, jovens à vista!”, festejamos com Maria Gadú o sucesso do ano de 2010, que viu seu álbum de estreia alcançar mais de 100 mil cópias vendidas, conquistou prêmios e prestígio no meio musical. Esse feito acabou se refletindo nos acessos ao site SaraivaConteúdo, e o vídeo que registra a nossa primeira conversa, ocorrida em agosto de 2009, tornou-se campeão de views, e nos motivou a filmar nova conversa, com direito a uma Maria Gadú descontraída, em casa, contando casos e tocando com exclusividade a canção O quereres, de Caetano Veloso. O pesquisador Mauro Ferreira, que assina o blog de música do site SaraivaConteúdo, debruçou-se sobre as relações entre compositores e intérpretes, trazendo um panorama histórico dessa simbiose musical que desde os anos 1930, quando a indústria do disco e o rádio se estabeleceram no Brasil, abastecem o nosso repertório afetivo de canções. Já o jornalista Bolivar Torres, resolveu investigar uma espécie de parceria ainda um tanto inesperada: literatura e games. Como se expressam as novas gerações criadas sob influência conjunta dos games e da literatura? Jogos eletrônicos são uma forma de arte? Que impacto podem exercer no nosso imaginário? Em meio a essas questões ainda difíceis de serem respondidas, uma ode à simplicidade: a preciosa entrevista que Adélia Prado concedeu ao jornalista e poeta Ramon Mello, falando de assuntos como experiência poética, religiosidade e morte. Tudo tratado com absoluto lirismo, numa conversa mansa e suave, típica dos melhores mineiros.

Nosso editor, Bruno Dorigatti, fã inveterado de quadrinhos, dedicou-se a investigar o crescente gosto pelo gênero no Brasil, e aproveitou para indicar uma seleção dos melhores lançamentos recentes e clássicos imperdíveis. Além disso, com alguns cliques, você ainda pode assistir e ler no site Saraiva Conteúdo entrevistas com bambas como Robert Crumb, Aline Crumb, Gilbert Shelton, André Dahmer, Rafael Coutinho, Gabriel Bá e Fábio Moon. O fotojornalista e documentarista João Wainer nos emprestou seu olhar para uma jornada do Carandiru à África, da luta livre mexicana aos motoboys paulistanos, do terremoto no Chile ao fenômeno cinematográfico conhecido como Nollywood, na Nigéria, das FARCs colombianas aos pichadores da periferia de São Paulo. O passeio pelos diferentes universos se completa a partir de uma conversa com o cineasta Andrucha Waddington sobre seu novo filme Lope, focado na vida do famoso poeta espanhol Lope de Vega. Com este pretexto, fomos conduzidos a questões relacionadas não só ao cinema, mas também ao teatro, à música, à poesia, e à constituição cultural brasileira. Com tudo isso, mandar a revista para a gráfica foi como chegar em casa depois de uma longa viagem, felizes e revigorados por tantas novidades e por termos partilhado da sensibilidade de pessoas que se dedicam a tornar a vida bem mais interessante. Torcemos para que este sentimento se multiplique por cada um de vocês. Velas ao vento e boa leitura!

Equipe SaraivaConteúdo


Livraria Saraiva

Diretor de compras Frederico Indiani Diretor de marketing Jaime Chaves Gerente de comunicação Vera Esaú

Revista SaraivaConteúdo

Publisher Marcio Debellian Edição Bruno Dorigatti, Claudia Barbosa e Marcio Debellian Produção e coordenação comercial Flavia Paulo Colaboradores desta edição Bolivar Torres, Mauro Ferreira e Ramon Mello

TWITTER @saraivaconteudo @saraivaonline

Fotografia Acervo Adoniran Barbosa, Instituto Moreira Salles, João Wainer, Marcos Dantas, Teresa Isasi e Tomás Rangel. Projeto gráfico e diagramação Rodrigo Rodrigues/ Duat Design Planejamento Claudia Barbosa Edição de vídeos João Pedro Bittencourt

FACEBOOK /saraivaconteudo /Saraiva Online - Oficial

Revisão Maria de Fátima Fernandes e Talita Denardi

Impressão Ibep Gráfica YOUTUBE Realização

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Debê Produções Rua Jardim Botânico, 674 / sala 123 Jardim Botânico CEP: 22461-000 Rio de Janeiro – RJ contato@debe.com.br www.debe.com.br

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LINKS www.saraiva.com.br www.saraiva.com.br/digital www.saraivaconteudo.com.br


DEZ.2o1o/JAN.2O11 06

Adélia Prado:

A simplicidade de um estilo

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Gilberto

GIL Nosso artista viramundo

10 Adoniran Barbosa e Noel Rosa – 100 anos

16 Compositores e intérpretes,

um casamento musical

22 Literatura fantástica! 26 Literatura e games:

uma parceria cada vez maior

52 João Wainer: Um olhar por detrás da fumaça

58 As três vidas, de João Tordo

Andrucha Waddington e o filme sobre o poeta Lope de Vega

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A festa de

MARIA

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A nova onda de histórias em quadrinhos www.SARAIVACONTEUDO.com.br

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entrevista

ADÉLIA PRADO,

a simplicidade de um estilo Por RAMON MELLO Foto MARCOS DANTAS

A poeta Adélia Prado tem profundo respeito pela criação, principalmente no que se refere a sua produção poética. Há dez anos sem publicar um livro de poemas, Adélia lança A duração do dia (Record, 2010), marcado por versos que transmitem desejos, frustrações, sonhos e amor. Para a autora de 75 anos, nascida em Divinópolis, interior de Minas Gerais, a poesia e a fé são manifestações de revelação da realidade através de um processo divino, a mesma fonte da graça. "O poeta é o cavalo da poesia", já afirmou. A lírica de Adélia Prado ao mesmo tempo encontra e rompe com a imagem que se possa ter de uma pacata mulher do interior. Como ela chega ao âmago desta misteriosa naturalidade, nos percebemos diante de rara intelectual, que, ao seu modo íntegro e apaixonado, estuda, reflete acerca de ideias. Uma lente muito pessoal, que conquista pela simplicidade de uma bagagem de vida inteira.

EXAUSTO Eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. Quero o que antes da vida foi o profundo sono das espécies, a graça de um estado. Semente. Muito mais que raízes. Bagagem (Imago, 1976)

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entrevista: Adélia Prado

CONSAGUÍNEOS Não há culpados para a dor que eu sinto. É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse. Se me ajudar um remédio a respirar melhor, obteremos clemência, Ele e eu. Jungidos como estamos em formidável parelha, enquanto Ele não dorme eu não descanso. A duração do dia (Record, 2010) A duração do dia, seu novo livro, acaba de ser lançado pela editora Record. Por que dez anos sem publicar um livro de poemas? Como funciona sua experiência poética com a escrita? Adélia Prado Não tem mistério nenhum e tem todo mistério, porque passo dez anos sem fazer poesia. Mas nesse intervalo eu fiz prosa, fiz um livro infantil... E também acho que é um processo natural, quer dizer, a musa está dormindo. [risos] Nesses dez anos, o que eu estava fazendo? Tratando de viver o melhor possível. Você estreou com Bagagem (Imago), em 1976, depois de enviar os originais para o poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, que repassou para o poeta Carlos Drummond de Andrade... Adélia Prado Pois é. Aos 40 anos fiz Bagagem. Então tinha muita coisa. Depois de Bagagem veio Solte os cachorros (1979), O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981). Depois o vulcão dá uma pausa. Mas fiquei feliz por ele não estar extinto. Você encontra alguma relação entre Bagagem (1976) e A duração do dia (2010)?

vida inteira. Eu quero escrever Bagagem a vida inteira, a vida inteira. Por causa do limite da gente, né? Eu só tenho essa "vozinha", eu só tenho esse quadradinho para olhar o mundo. É com essa lente limitada, finita, que eu vou, enfim, experimentando o mundo. E, naquilo que ele tem de beleza, vira poesia. Às vezes. Essa experimentação surge diretamente da religiosidade. Em entrevista ao Caderno de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, você declarou: “Deus quer falar e me usa, no caso sou eu o oráculo”. Adélia Prado Toda obra, o objetivo dela é atingir o momento poético. Seja escultura, teatro, cinema, música. Ela só acontece quando vibra poeticamente, numa revelação absolutamente original, singular e única. Nesse sentido, você ou eu, qualquer autor é instrumento de algo que o suplanta, que é maior que ele. Você é realmente uma boquinha, um oráculo, para algo que está se dizendo, se expressando, através de você. Em nosso caso, através da palavra. Se eu for cineasta, vou fazer um filme de arrasar. [risos] Vontade de escrever poesia um dia sim outro também. Mas não tem jeito, é quando Ele quer, quando Ela quer. Você saberia dizer o que é Deus?

Adélia Prado Absolutamente, encontro sim. O Bagagem é um livro solar, feliz, alegre. A própria dor em Bagagem tem um ritmo diferente, uma percussão diferente. Esse aí [A duração do dia], nessa altura da vida eu sinto que é – do ponto de vista da fundação poética, e de fazer um livro de poesia – a mesma alegria de fundação que a gente sente. É absolutamente igual. Eu vou fazer um livro só a minha

Leia a entrevista na íntegra e assista ao vídeo do encontro no site www.saraivaconteudo.com.br

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Adélia Prado Não, não sei, não! Nossa Senhora! Nó! Nó! O que é D... Não... Você se sente atraído para uma coisa inominável, inefável. A alma quer adorar, ela quer prostrar-se, ela quer reverenciar algo maior do que nós. Tem graça eu me curvar diante de alguém do mesmo tamanho meu? Que tem o mesmo medo? [risos] O mesmo limite!? Eu preciso de algo maior do que eu, é isso que me dá segurança, que me consola, que me conforta... É por isso que falo: "Dá para esperar, dá para aguentar, né?"


A Bíblia é poesia? Adélia Prado Pura. Ela é uma metáfora. É um discurso religioso vazado em metáforas. Só por isso ela tem a duração que tem, dura até hoje. Todos os grandes livros, fundadores das grandes religiões, são vazados em poesia. Porque fora dessa linguagem o religioso não se apresenta, ele é poético por natureza. Você não aceita a fé, você adere. A arte é a mesma coisa. A natureza do religioso e da experiência poética é absolutamente igual. Você tem um versículo preferido? Adélia Prado É um versículo de um texto evangélico. Prefiro todos porque são maravilhosos demais. Mas tem um que ultimamente tem me acompanhado, que é uma fala de Cristo, não sei em qual dos Evangelhos: "Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino" (Lucas 12, 32-48). Olha que maravilha! [risos] Você fica em pé de novo. Você fica em pé nas pedras. E diz: “Eu vou dar conta. Eu vou dar conta!”

“Não quero morrer nunca, porque temo perder o que desta janela se desdobra em tesouros” está escrito no poema Viação São Cristóvão, do livro Oráculos de maio. Adélia Prado Não quero morrer nunca. De vez em quando ainda acredito que não vou morrer. [risos] Lá no fundo, lá no substrato do microcosmo da alma [risos] eu acredito que não. Porque acho que tem um sentido também, a aspiração humana de viver. O que quero é viver. Ninguém quer morrer. Isso aliado a uma fé que aceito, abraço e que me consola profundamente, que é a vida eterna. Acreditar na vida eterna. Porque se estou viva agora é evidente que posso viver o resto da vida. Isso é absolutamente consolador. E poético até não poder mais.

A duração do dia Record, 2010

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O Trem das onze de Adoniran Barbosa (1910–1982) nunca cruzou as ruas da Vila Isabel de Noel Rosa (1910–1937), mas o samba paulistano do  Poeta do Bexiga  molda o retrato de um Brasil pré-moderno com os mesmos traços precisos do samba carioca do Poeta da Vila. Hábeis cronistas de seus tempos e lugares, Adoniran e Noel nunca se conheceram por conta da distância geográfica que os separou e pela morte precoce do compositor de Feitio de oração, aos 27 anos, mas as afinidades de suas obras urdidas na malandragem sadia ficam mais perceptíveis neste ano de 2010, em que estão sendo festejados os centenários de nascimento de Adoniran e Noel, que faria 100 anos em dezembro.   Nascido João Rubinato em 6 de agosto de 1910, na interiorana Valinhos, o paulistano Adoniran construiu obra de assinatura inimitável. Seu samba é uma das mais perfeitas traduções de Sampa. Mas, assim como Noel de Medeiros Rosa situou seu samba na zona norte carioca, distante dos cartõespostais dos bairros nobres do Rio de Janeiro, Adoniran fez através de sua obra a crônica dos bairros populares da grande São Paulo, distantes da ostentação e do luxo da capital financeira do Brasil. Ambos falaram a língua do povo com o humor aprendido na escola da vida.  

Adoniran e Noel, 100 ANOS E AINDA NA BOCA DO POVO Separados pela distância geográfica, o samba paulistano do Poeta do Bexiga e o samba carioca do Poeta da Vila são perenes retratos sociais de um Brasil pré-moderno Por MAURO FERREIRA FotoS NOEL ROSA: INSTITUTO MOREIRA SALLES FotoS ADONIRAN BARBOSA: ACERVO ADONIRAN BARBOSA

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A ironia é que foi cantando um samba de Noel (Filosofia, parceria com André Filho de 1933) que Adoniran conseguiu sua primeira chance no mundo da música. Ao defender Filosofia em 1934 no programa Calouros do Rádio, atração da Rádio Cruzeiro do Sul, o aspirante a cantor conseguiu uma vaga na emissora. Foi quando João Rubinato virou, definitivamente, Adoniran Barbosa. Juntando o nome de um amigo de boemia (Adoniran Alves) com o sobrenome de um cantor carioca em evidência na época (Luís Barbosa), Adoniran batizou a persona artística que lhe garantiria vaga vitalícia na galeria dos nobres do samba.   Vindo ao mundo em 11 de dezembro de 1910, na capital do Rio de Janeiro, Noel de Medeiros Rosa nasceu, viveu e morreu na Vila Isabel que ele imortalizaria em sambas como Palpite infeliz e Feitiço da Vila. Ao contrário de Adoniran, que somente iria fazer real sucesso como compositor na década de 1950, Noel não precisou de muito tempo para tornar-se conhecido no meio musical carioca com seu samba que derrubou as fronteiras entre morro e asfalto. Ao firmar parcerias com bambas como Cartola (1908–1980) e Ismael Silva (1905–1978), Noel desenvolveu, com grande personalidade, um samba mais urbano que, contudo, nunca renegou ou combateu as tradições herdadas do samba propagado nos morros, mas, sim, as deglutiu antropofagicamente. E o fato é que, para Noel, tudo aconteceu rápido demais – como se todo mundo soubesse ou intuísse que uma tuberculose ceifaria sua vida aos 27 anos incompletos. Enquanto Adoniran ainda tentava a sorte como calouro, em 1934, Noel já era famoso – ao menos desde 1931, quando seu samba Com que roupa? foi um dos grandes sucessos do Carnaval daquele ano.   Contudo, por acaso ou coincidência, Noel ficaria esquecido ao longo dos anos 1940 até ser (re)descoberto na década de 1950 por uma série de gravações feitas por Aracy de Almeida (1914–1988), a cantora que, na opinião de muitos, foi sua me-

Dez clássicos de Noel Rosa Feitiço da Vila Feitio de oração Três apitos O 'x' do problema Último desejo Com que roupa? Filosofia Fita amarela Palpite infeliz O orvalho vem caindo

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lhor intérprete – embora o próprio Noel preferisse ouvir suas criações na voz de Marília Batista (1918–1990). Preferências à parte, foi Aracy que revitalizou o samba de Noel na mesma década que testemunhou o primeiro apogeu de Adoniran. O  Poeta do Bexiga  já havia feito suas primeiras gravações em 1936, mas, na ocasião, não conseguiu imprimir sua assinatura nas parcerias feitas com o maestro José Nicolini. Foi somente nos anos 1950 que o samba de Adoniran adquiriu a cara e a voz do dono. No caso, uma voz que criou um idioma todo particular com seu sotaque caipira e italianado, herdado dos pais, imigrantes italianos. Mas a Itália de Adoniran se situava em São Paulo, em bairros como o Bexiga, celeiro dos imigrantes que desembarcavam na capital paulista em busca de melhores condições de vida.   Na geografia popular dos sambas de Adoniran Barbosa e Noel Rosa, dois traços fundamentais – o humor e a crítica social – irmanam as obras dos compositores. Saudosa maloca (1951), por exemplo, um dos clássicos do repertório de


Adoniran, aborda em tons populares a desventura de pessoas despejadas de um cortiço demolido pelas leis tiranas do progresso. Já o Samba do Arnesto, gravado por Adoniran em 1952 e popularizado pelo conjunto Demônios da Garoa (o melhor intérprete dos seus sambas) em 1955, é exemplo de como o humor espirituoso também dava o tom no repertório de João Rubinato.   Na obra de Noel, a crítica às vezes foi mais direta. “Onde está a honestidade?”, já perguntava o compositor num samba de 1933 de forte conotação política. Mas em Noel toda e qualquer crítica – política, social, comportamental – passou pelo filtro da espirituosidade. Traços de ironia são identificáveis em todo o seu cancioneiro, avaliado em 259 títulos registrados de forma oficial (músicas inéditas seriam descobertas e adicionadas a essa obra que hoje já totaliza mais de 300 composições). É um humor quase sarcástico, reconhecível (em menores doses) também no cancioneiro de Adoniran. “Não reclama / Pois a chuva / Só levou a sua cama”, debocha Adoniran em versos de Aguenta a mão, João que recorrem ao humor negro para dar leveza a uma tragédia social.   Como amor desde sempre rimou mais com dor do que com humor, os repertórios de Adoniran e Noel irmanaram-se também ao expiar dores de amores. Três apitos – o samba de Noel que só veio à tona 14 anos depois da morte do compositor, em gravação feita em 1951 por Aracy de Almeida – ecoa ainda hoje como uma das obras-primas atemporais do cancioneiro da dor de cotovelo, assim como a doída Último desejo (1937). E, por irônica coincidência, foi a mesma Aracy que motivou Adoniran a criar um dos sucessos mais melancólicos de seu repertório. Ao receber do poeta Vinicius de Moraes (1913–1980) os versos de Bom dia, tristeza, com a liberdade de encaminhá-los a quem bem entendesse, a cantora elegeu Adoniran para ser o parceiro de Vinicius. Convite aceito, Adoniran musicou com brilho os versos cultos do poetinha.   Acima de quaisquer reais afinidades poéticas e ideológicas, Adoniran e Noel construíram obras que retrataram com fidelidade os mundos que habitavam. Assíduo frequentador da boemia paulistana, Adoniran conviveu com a São Paulo das favelas, dos cortiços, das malocas. A São Paulo dos trabalhadores explorados, dos vagabundos, dos marginalizados que criam nas ruas a sua própria língua – universo que inspirou a grande maioria das 151 composições de sua lavra que chegaram ao disco. Já Noel, igualmente boêmio, transitou pelos botequins, pelos morros e pelos asfaltos pavimentados de um Rio de Janeiro que começava a se industrializar e vivia o início da era dourada do rádio brasileiro – veículo para que seus sambas chegassem ao povo e fossem a trilha dos Carnavais da época.   Mesmo não sendo um compositor associado à folia, Ado-

niran conseguiu seu primeiro relativo sucesso com uma marchinha, Dona boa, vencedora em 1935 de um concurso carnavalesco promovido pela Prefeitura de São Paulo. No embalo, o cantor grava em 1936 os primeiros discos, embora sua carreira musical – estagnada nos anos 1940 – somente deslanche para valer a partir de 1951. Enquanto o sucesso como compositor não vinha, Adoniran trabalhou como ator e humorista em várias emissoras de rádio na década de 40. Do rádio, pulou para o cinema, estreando como ator em 1945 no filme Pif-Paf. Verdadeiro artista multimídia, Adoniran chegou, nos anos 1970, a trabalhar até em novelas, integrando o elenco de tramas como Mulheres de areia, exibida em 1973 pela extinta TV Tupi. Só que, nessa altura da vida, o trabalho como ator jamais ofuscaria sua produção como compositor. Ele já havia, afinal, posto nos trilhos o Trem das onze, o samba composto em 1961 e gravado três anos depois pelo conjunto Demônios da Garoa com retumbante sucesso nacional que logo atravessaria as fronteiras brasileiras. Basta dizer que em 1966, apenas dois anos depois do lançamento do compacto dos Demônios da Garoa com Trem das onze, o samba foi gravado na Itália com o título de Figlio unico, um hit na voz do cantor Riccardo del Turco.   A obra de Noel não chegou  (geograficamente) tão longe e tampouco o compositor viveu tempo suficiente para conhecer a televisão, inaugurada no Brasil somente em 1950. Mas,

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artigo

Dez clássicos de Adoniran Barbosa Abrigo de vagabundos Bom dia, tristeza Saudosa maloca Trem das onze Samba do Arnesto Iracema Apaga o fogo, mané As mariposas Samba italiano Tiro ao Álvaro

como Adoniran, Noel também cumpriu expediente nas emissoras de rádio onde, ao escrever piadas para programas de humor, exercitou a veia humorística que aflorou em boa parte de suas composições. Com sua habitual verve, o  Poeta da Vila alfinetou desde os estrangeirismos difundidos pelo cinema da época (Não tem tradução) até a hipocrisia da sociedade (Filosofia). Em contrapartida, crente de que um tapinha não dói, Noel foi também fiel à moral machista da época em sambas como O maior castigo que eu te dou, de versos hoje inaceitáveis (“O maior castigo que eu te dou / É não te bater / Pois sei que gostas de apanhar”).   Descontados alguns versos realmente datados, as obras de Adoniran e Noel resistem bem ao tempo – a ponto de continuarem sendo regularmente regravadas décadas após décadas e de serem objeto de análise e culto no ano em que são celebrados os centenários de nascimento de seus respectivos autores. Noel continua influenciando gerações de sambistas, tendo seu DNA autoral sido identificado logo nos primeiros

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sambas feitos nos anos 1960 por Chico Buarque – admirador assumido do colega – e também na primeira fase da obra de Zeca Pagodinho. Já o repertório de Adoniran permanece tão original e único que, à exceção de Paulo Vanzolini, o samba de São Paulo ainda continua à espera de um outro compositor que traduza tão bem o espírito da cidade.   Curiosamente, tal perenidade é fruto do trabalho de vozes alheias. Adoniran e Noel chegaram a  registrar em disco,  eles mesmos, boa parte de seus cancioneiros autorais – sobretudo Adoniran, que chegou à era dos LPs e gravou discos regularmente até sair de cena em 1982. Em sua permanência na gravadora Odeon (hoje EMI Music), Adoniran chegou a regravar seus principais sucessos em dueto com cantoras como Elis Regina (1945–1982) e Clara Nunes (1942–1983). Só que, assim como a voz de Noel, a voz rouca e  acaipirada  do  Poeta do Bexiga  não era exatamente talhada para o canto. E o fato é que coube mesmo ao conjunto paulistano Demônios da Garoa fazer, a partir dos anos 1950, as gravações definitivas de músicas como Saudosa maloca e Samba do Arnesto. Da mesma forma, ouve-se desde sempre Noel mais em vozes alheias (a de Aracy de Almeida, a de Marília Batista, a do discípulo Martinho da Vila e mesmo a de Maria Bethânia, que, no início de sua carreira, em 1966, chegou a gravar compacto triplo somente com músicas do Poeta da Vila) do que na própria voz miúda do compositor.    Em qualquer voz ou em qualquer tempo, as obras de Adoniran Barbosa e Noel Rosa continuam sedutoras porque, guardadas as devidas diferenças, ambas montam abrangente painel da sociedade que as inspirou e moldou. Ambas têm traços melódicos originais e uma poética diferenciada. Ambas falam a língua do povo. Por isso, o Trem das onze não iria sair dos trilhos se transitasse pela Vila de Noel. Por isso também, muito provavelmente ainda se falará de Adoniran Barbosa e de Noel Rosa daqui a 100 anos.


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Amor cortês: do servo autor à divina voz Compositores ainda dependem da gravação de suas obras por intérpretes para obter visibilidade e oportunidade no mundo da música Por MAURO FERREIRA

Compositor celebrado desde que entrou em cena, por conta do humor espirituoso que fazia seus sambas evocarem a verve da obra de Noel Rosa (1910 – 1937), Zeca Pagodinho deixou praticamente de lado o ofício da composição para se tornar um intérprete de sambas alheios – a ponto de o repertório de seu atual disco, Vida de minha vida, ter somente um samba da lavra própria de Zeca, Orgulho do vovô, parceria com o compadre Arlindo Cruz. É uma opção em favor de quem vive e depende do trabalho de compositor, como Zeca sempre faz questão de explicar em entrevistas. “É que as pessoas precisam ganhar dinheiro. E ter um samba gravado por Zeca Pagodinho é ganhar dinheiro, não é? Tenho essa preocupação”, explicou o sambista ao site SaraivaConteúdo.   Zeca tem razão ao se preocupar. No mundo do samba, habitado por compositores da periferia, intérpretes são sempre priorizados, pois quase nunca os autores conseguem ter voz ativa e capital para investir numa carreira de cantor, dependendo, por isso mesmo, de sambistas canários como Beth Carvalho (que projetou toda a turma surgida no Cacique de Ramos na virada dos anos 1970 para os 1980) e o recorrente Zeca Pagodinho. Um dos casos mais curiosos no gênero é o de Bezerra da Silva (1927 – 1995), cantor e ritmista pernambucano que gravou discos regularmente dos anos 1970 aos 1990, sempre dando voz a compositores marginalizados dos morros e favelas da periferia fluminense. Gente que nunca

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subiu no palco e tampouco apareceu na televisão. “São compositores de verdade, sem caô”, costumava defender Bezerra em entrevistas.   A postura generosa de Zeca Pagodinho joga luz para a importância dos intérpretes na propagação da obra dos compositores. Importância cada vez maior num mercado musical cada vez mais segmentado. Sem a voz de um intérprete de projeção nacional, os compositores dificilmente conseguem chamar a atenção do chamado “grande público” para suas músicas. Foi através das vozes das cantoras Maria Rita e Roberta Sá, por exemplo, que os compositores cariocas Edu Krieger e Rodrigo Maranhão conseguiram solidificar suas carreiras, no embalo dos registros delas de músicas como Novo amor (tema de Krieger, gravado por ambas) e Caminho das águas (sucesso de Maranhão na voz de Maria Rita). Eles também gravam seus discos, mas têm consciência do poder de uma intérprete de maior alcance vocal e midiático. Com a palavra, Edu Krieger, um dos compositores mais cultuados da nova geração da música brasileira:   “Acredito que haja uma relação de troca entre compositores e intérpretes, pois um grupo não viveria sem o outro. O fato de cantoras como Maria Rita e Roberta Sá terem gravado composições minhas foi fundamental para alavancar meu trabalho, pois artistas como elas despertam um grande interesse


TOMÁS RANGEL

Roberta Sá: ao gravar Edu Krieger e Rodrigo Maranhão, ajudou a impulsionar a carreira dos compositores do público e da crítica especializada sobre os autores que constam em suas fichas técnicas. Há uma espécie de glamour em relação às cantoras, parece que as músicas costumam ganhar mais importância na voz de uma grande intérprete. De certa forma, isso gera benefícios para o compositor, que passa a ser mais valorizado”, entende Krieger, que promove atualmente seu segundo disco autoral, Correnteza.   Da mesma celebrada turma de Krieger, Rodrigo Maranhão lança seu segundo disco, Passatempo, e  faz coro com seu colega de geração, com a ressalva de que o obscurantismo de um compositor não é necessariamente um obstáculo para a evolução de seu processo de criação. “Ser gravado por uma grande intérprete é uma forma de batismo para o compositor. A canção passa a existir para o mundo e você vira uma pessoa bem-sucedida da noite para o dia. Mas o universo interno de um compositor é comprometido com sua obra. E ele é capaz de continuar fazendo canção, mesmo no obscurantismo, como quem joga garrafas ao mar. Minhas garrafas, por sorte

ou merecimento, foram encontradas por pessoas de muita luz”, celebra Maranhão.   A rigor, garrafas são jogadas ao mar desde a criação do mercado musical brasileiro. Nos anos 1930, quando a indústria do disco e o rádio começavam a se estabelecer no Brasil, cantoras como Carmen Miranda (1909 – 1955) encarregavam-se de gravar e popularizar as criações de compositores como Dorival Caymmi (1914 – 1998), Ary Barroso (1903 – 1964) e Assis Valente (1911 – 1958). Com a expansão do rádio no Brasil, ao longo dos anos 1940 e 1950, passaram a dominar a cena os chamados cantores de dó de peito – entre eles, Francisco Alves (1898 – 1952), Sílvio Caldas (1908 – 1998), Orlando Silva (1915 – 1978) e Nelson Gonçalves (1919 – 1998), para citar somente alguns dos mais expressivos intérpretes de grande poder vocal. Juntamente com esse time masculino, adepto do canto exacerbado, o Brasil ouviu nessa era de ouro do rádio cantoras como Dalva de Oliveira (1917 – 1972) e Ângela Maria, entre ou-

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DIVULGAÇÃO / UNIVERSAL MUSIC

Bethânia. Teixeira já militava na cena musical brasileira desde a época dos festivais da canção da segunda metade dos anos 1960, mas foi somente quando uma cantora de muita luz – Elis, mãe de Maria Rita – encontrou sua garrafa, que a carreira do compositor realmente decolou. O ano era 1977. E a garrafa jogada ao mar por Teixeira se chamava Romaria.   “O sucesso da gravação de Romaria por Elis viabilizou minha carreira como compositor e intérprete. Na hora em que a música começou a fazer sucesso, as gravadoras começaram a me procurar para eu gravar meus discos. Mas o maior presente que a Elis me deu foi a perenidade de Romaria. A música se consagrou em todo o Brasil. Mérito dela, que garimpava bem seu repertório. Lembro que a Elis falava: ‘eu quero e busco a música que me sirva’. Infelizmente, a maioria dos intérpretes não procura mais os compositores”, lamenta Renato Teixeira, que, em 1990, teve propagada na voz de Maria Bethânia sua toada Tocando em frente, feita com Almir Sater. O compositor de Romaria lembra que ia gravar Tocando em frente, mas, diante do apelo de Bethânia, entusiasmada com a música, cedeu a composição à intérprete baiana. “O autor deve servir ao intérprete. A prioridade é sempre do intérprete”, entende Renato Teixeira, que revive tanto Romaria como Tocando em frente no DVD Amizade sincera, gravado este ano em parceria com Sérgio Reis.

Rodrigo Maranhão: “Ser gravado por uma grande intérprete é uma forma de batismo para o compositor” tras rainhas do rádio. Mas uma batida diferente iria mudar o panorama. Ao irromper como vulcão represado em 1958, a Bossa Nova instantaneamente tornou ultrapassada a estética vocal propagada pelas ondas do rádio, impondo outros padrões estéticos ao canto brasileiro – escola, a rigor, que já vinha sendo seguida um pouco antes por cantores de voz macia como Dick Farney (1921 – 1987) e Lúcio Alves (1927 – 1993). Liberados pela estética da Bossa Nova, os próprios compositores começaram a entrar em cena para apresentar, eles mesmos, suas músicas.   Plataformas de lançamento de muitos cantautores (o termo em espanhol identifica os cantores que interpretam basicamente músicas de sua própria autoria), como Caetano Veloso e Gilberto Gil, os festivais da canção dos anos 1960 foram, sob esse prisma, efeitos das conquistas estéticas obtidas pela Bossa Nova. Os festivais deram voz aos compositores. Alguns, mesmo não tendo exatamente o dom do canto, conseguiram projeção por força da obra autoral – caso de Geraldo Vandré, autor de Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando). Outros, como Renato Teixeira, até tentaram, mas precisaram do aval de cantoras como Elis Regina (1945 – 1982) e Maria

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Elis Regina

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TOMÁS RANGEL

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Beth Carvalho é festejada por ter dado projeção a sambistas surgidos no Cacique de Ramos, inclusive Zeca Pagodinho  A voz de Elis Regina, de fato, funcionou como uma bússola que iluminou os nomes de grandes compositores nacionais. Foi Elis que deu projeção a Fagner e a Belchior, dois ilustres desconhecidos em 1972, ano em que a Pimentinha pôs voz em Mucuripe. Foi Elis, também, que gravou Milton Nascimento (Canção do sal) em 1966, um ano antes de o compositor ser conhecido em todo o Brasil pelo êxito de Travessia no I Festival Internacional da Canção. “Eu era apaixonado pela Elis e ela ter me gravado deu no que deu”, resume Milton à revista SaraivaConteúdo. A diferença, no caso de Milton, é que – com sua voz metálica que a própria Elis classificou de divina – o autor de Ponta de areia poderia ter feito carreira apenas como intérprete se não fosse o extraordinário compositor de harmonias inventivas que abriu novos caminhos na MPB.   Depois de Elis, Maria Bethânia é a intérprete que mais mostrou poder para impulsionar a carreira de um compositor em ascensão – ou mesmo novato – na cena brasileira. “Ela é das poucas intérpretes que ainda procuram os compositores”, confirma Renato Teixeira. Chico César sabe disso. Quando tinha apenas um sucesso nas rádios, Mama África, o compositor paraibano foi gravado por Bethânia e, no embalo, por Elba Ramalho, Zizi Possi e Daniela Mercury, entre outras vozes. Todas em 1996. Quartoze anos depois, quando a MZA

Music relança o disco de seu apogeu, Cuscuz clã (1996), Chico César reconhece o mérito dessas vozes na consolidação e popularização de sua obra. “O fato de ter sido gravado por elas e de as canções terem alcançado destaque radiofônico nas vozes delas foi uma surpresa para mim. No começo, isso me causava espanto. Eu me considerava muito autoral, dono de uma obra em que era tudo muito particular. O sucesso alcançado com várias canções gravadas por cantoras me deu um alcance que eu nunca havia imaginado ser possível e que nunca havia ambicionado. O intérprete é o outro. E as intérpretes levaram isso ao extremo: a revelação desse outro que havia nas canções e eu não sabia. A própria Bethânia fez um disco, o Âmbar (1996), com vários autores novos ou emergentes naquele momento: Adriana Calcanhotto, Carlinhos Brown, eu. Ali, ela, como intérprete consagrada, lançou sua luz e contribuiu muito para que nossa obra se tornasse não apenas mais conhecida, mas também mais duradoura. Elba fez isso com Lenine, por exemplo, desde o começo da carreira dela. Comigo acontece algo curioso: só tenho duas músicas gravadas por Daniela Mercury: À primeira vista e Pensar em você. São os meus maiores sucessos em se tratando de canções de amor e, depois de Mama África, são mesmo os meus maiores sucessos. É bacana quando a obra de um compositor fica assim associada à carreira de uma

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cantora, algo com vida própria, como muitas coisas de João Bosco e Aldir Blanc ficaram associadas a Elis Regina”, historia Chico César.   Para o autor de Dona do dom, música dada por Chico César a Bethânia para o álbum Maricotinha (2001), o maior prazer é descobrir sutilezas de suas músicas nas vozes dos intérpretes. “Ser tocado por uma nuvem de poeira já nos transforma. Imagine ser tocado pelo brilho de todas essas estrelas! Primeiro, muda a relação que parte do público delas passa a ter com o nosso trabalho. As pessoas sabem que Bethânia ou Zizi, por exemplo, não compõem e muitas vezes querem saber quem são os autores e, em alguns casos, tornam-se também seguidoras destes. Claro que é sempre uma minoria, mas elas dão visibilidade e beneficiam-se mais dessa visibilidade os compositores que também cantam, os cantautores, que amealham uma parte desse público. Mas encontrar as surpresas que os intérpretes nos apresentam é que é o grande barato do ponto de vista artístico. Eles nos mostram caminhos novos que estavam ali insuspeitos. Essa é a magia da criação”, resume Chico, encerrando uma história que ainda vai ganhar muitos capítulos sempre que um intérprete, como Zeca Pagodinho ou Maria Bethânia, for selecionar o repertório de um disco.

Chico César

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Assista às entrevistas com Beth Carvalho, Edu Krieger, Maria Bethânia, Roberta Sá, Rodrigo Maranhão e Zeca Pagodinho no site www.saraivaconteudo.com.br


literatura

YO NO CREO EN BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY. Autores brasileiros de livros de fantasia se destacam no mercado editorial Por RAMON MELLO

Quem acompanhou a lista de livros de ficção mais vendidos no Brasil, nos últimos meses, se deparou com o nome de um escritor brasileiro até então desconhecido. Acredite ou não, trata-se de um estreante: Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse (Verus/Record, 2010). Já ouviu falar? Então, guarde o nome desse escritor carioca de 34 anos que tem atraído o interesse de leitores de livros fantásticos como Crepúsculo, Harry Potter e Senhor dos Anéis.

Esse acordo tácito entre a fantasia e a imaginação parece ser o ingresso para que o impossível adentre a realidade. Se assim for, podemos dizer que velhos conhecidos nossos do chamado Realismo Fantástico, como Gabriel Garcia Marquez e Jorge Luis Borges estariam incluídos. Certo? Talvez?! Neste espectro que vai do real ao imaginário parecem caber todos. A literatura será generosa, desde que o leitor se doe sem restrições.

Grosso modo, entende-se literatura fantástica como histórias de ficção científica, fantasia e horror. Dentre inúmeras, uma definição aparentemente óbvia, mas instigadora é do escritor americano H. P. Lovecraft (1890 – 1937): “Fantástica é toda história em que alguma coisa impossível acontece”. Se o dito fantástico é gênero que se consolidou a partir do século XIX, com o Romantismo, monstros como feiticeiros, bruxas, vampiros, lobisomens, além de animais e elementais sujeitos a transformações, habitam a literatura desde a Antiguidade Clássica. Ao ler uma história de fantasia, concorda-se em deixar de lado os preconceitos para mergulhar na narrativa.

A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, conta a história de anjos como super-heróis, num instigante confronto entre anjos caídos e exércitos celestes, durante os últimos dias da Terra, antes do Apocalipse. Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano, das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval, acompanhamos um épico repleto de lutas heroicas, magia, romance e suspense. Apropriando-se do conhecimento da mitologia, da Bíblia e da cultura nerd, Spohr encoraja jovens leitores (em sua maioria homens) a encarar um calhamaço de 558 páginas e letras diminutas.

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“Eu tinha a história na cabeça há mais de dez anos. Quando parei para escrever, fiz um roteiro antes, já estava mais ou menos pronto. Em 2003 eu estava desempregado, o livro só ficou pronto em 2005. Sou muito disciplinado, levei dois anos escrevendo, aproveitei o ócio do desemprego. Star Wars foi um filme que me ajudou a gostar de mitologia. Vertigo, a série de quadrinhos, e o filme Anjos rebeldes são duas grandes influências marcantes. Além disso, li muito RPG, o que me ajudou bastante no livro. Como não sou gênio, tive de arrumar um esquema de trabalho. Sempre gostei de escrever, sempre fui fascinado por história, mitologia e religião”, conta Spohr, que também dá aulas na Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso), na zona sul do Rio de Janeiro, em um curso sobre a jornada do herói no cinema e na literatura. Não por acaso, esse herói tem mil faces. Trata-se do conceito de jornada cíclica introduzido por Joseph Campbell, autor de um dos livros mais influentes do século XX: O herói de mil faces. Esse antropólogo norte-americano, profundo conhecedor da mitologia, respalda-se em arquétipos jungianos para mostrar que a narração da história universal, de Cristo a Buda, passando por Maomé e Moisés, é sempre a mesma. Segundo ele, seria possível estruturar qualquer história a partir do roteiro básico da jornada do herói ou desconstruir as histórias, entendendo os elementos que constituem a jornada. A obra de 1949 vem influenciando escritores, dramaturgos, autores e mestres do RPG e, no cinema, foi fundamental para nomes como Coppola, George Lucas e Spielberg. Para Spohr, a trajetória foi longa até chegar ao êxito no mercado editorial. Primeiro ganhou o Prêmio Fábrica de Livros, na Bienal do Livro 2007. Tudo começou com 100 cópias cedidas pela vitória do concurso. Em dezembro de 2009, foram vendidos – graças aos nerds – mais de 4.500 exemplares impressos pela Nerdbooks, selo independente criado por Alexandre Ottoni e Deive Pazos, responsáveis pelo bem-sucedido site Jovem Nerd, que possui mais de 800 mil acessos únicos por mês. O sucesso na internet foi tanto que atraiu a atenção da editora Raissa Castro, que procurava livros do gênero fantástico. Uma semana após o lançamento pela Verus, que tinha acabado de se integrar ao Grupo Record, A Batalha do Apocalipse estava na lista de mais vendidos nas revistas Veja e Época. “Eu soube do livro através do meu genro, que acompanhava o site Jovem Nerd. Ele me disse o título e eu gostei: A Batalha do Apocalipse. Em seguida entrei em contato com Eduardo, mas ele ficou meio desconfiado, me mandou comprar o livro. [risos] Comprei o livro e enviei para duas mulheres – que, na teoria, não seriam o público dele – analisarem: uma delas era especialista em mitologia e a outra, nerd. Elas ficaram muito

Star Wars foi um filme que me ajudou a gostar de mitologia. Vertigo, a série de quadrinhos, e o filme Anjos rebeldes, são duas influências marcantes. Eduardo Spohr

impressionadas! E eu devorei o livro. Publicar sempre é um risco, mas no caso do Eduardo Spohr eu estava confiante porque ele já tinha um público cativo na internet. O que me surpreendeu foi a rapidez nas vendas, já editamos mais de 40 mil exemplares do livro. Antes de transformar em filme, a ideia é correr para fazer a publicação internacional. Um passo de cada vez”, comemora a editora, que prepara uma edição especial de A Batalha do Apocalipse com ilustração de Andres Ramos e uma espécie de dicionário da história, um universo expandido. O sucesso de Eduardo Spohr, além de abrir caminho para outros escritores do gênero fantástico, também coloca em pauta uma literatura que se estabelece cada vez mais em constante diálogo com os leitores, principalmente os jovens, através da web. Os leitores Qual é o ingrediente para fazer um livro de sucesso entre jovens? Para Rosa Gens, professora e doutora do Departamento de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, há elementos fundamentais para atrair o público leitor em questão. “Primeiro, a ideia de aventura que está em todos os livros. Em segundo, o amor, não qualquer tipo de amor, mas o amor romântico. E terceiro, a mitologia. O jovem é interessado em leitura? A tendência é dizer não. Mas eles leem muitas

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literatura

“De acordo com um mito islâmico, Kujata é um grande touro dotado de quatro mil olhos, quatro mil orelhas, quatro mil narizes, quatro mil bocas, quatro mil línguas e quatro mil pés. Para locomover-se de um olho a outro ou de uma orelha a outra, bastam quinhentos anos. Kujata se apoia no peixe Bahamut; sobre o lombo do touro há uma rocha de rubi, sobre a rocha um anjo e sobre o anjo nossa terra.” J. Luis Borges, O livro dos seres imaginários, tradução Heloísa Jahn, Cia das Letras.

narrativas na web. Eu não acho que seja escape a leitura de histórias fantásticas, os jovens tentam entender o mundo a partir da fantasia. Esse universo é muito bom para o jovem porque ele quer ‘dominar o mundo’. Tudo é uma questão de entender o mundo simbolicamente. Ainda não li o Eduardo Spohr, mas sei que o André Vianco, por exemplo, faz uma literatura interessante. Ele sabe contar bem uma história, manter o suspense. Velhos ingredientes que são utilizados de maneira boa”, explica Rosa. Não é à toa que a história de amor entre vampiros já rendeu tantos desdobramentos. Os quatro livros da série da escritora americana Stephenie Meyer – Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer – já venderam 77 milhões de cópias no mundo, sendo 2,2 milhões de exemplares só no Brasil. Para Ana Lima, editora do Selo Galera, criado em 2007 pela editora Record para atender ao público juvenil, as histórias (de amor) têm de ser bem contadas, acima de tudo, para que o leitor se divirta. “Os leitores gostam de ser transportados para outro mundo. Já vi meninas dizerem: ‘Não tem amor? Então, não gosto’. É uma geração que quer se apaixonar. O amor romântico é o que está presente nessa febre do Crepúsculo, por exemplo. É algo que ocorre com os livros da nossa autora Cassandra Clare, de 37 anos, autora da série Os instrumentos mortais, uma febre entre as meninas. Ela é muito participativa no Twitter [@cassieclare], o que é importante. Os leitores desse livro interagem muito, eles se relacionam na web e promovem encontros fisicamente. O Twitter da Galera [@galerarecord], por exemplo, já atingiu mais de sete mil seguidores, sempre fazemos promoções. A interatividade com o leitor, a relação

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interpessoal, é mais importante do que a matéria de jornal”, afirma Ana Lima, que também acompanhou os encontros de fãs de Cassandra Clare para falar do livro Cidade dos Ossos em 12 cidades do Brasil. Editoras brasileiras No Brasil, o escritor Bráulio Tavares é o grande responsável por divulgar textos fantásticos que estavam soterrados nas obras de autores canônicos, entre os títulos Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005) e Freud e O Estranho: contos fantásticos do inconsciente (2007), Contos obscuros de Edgar Allan Poe (2010), todos pela editora Casa da Palavra. A editora Intrínseca é a responsável pela publicação de algumas das séries mais famosas de literatura fantástica: Os imortais, de Alyson Noël; Hush, hush (Sussurro), de Becca Fitzpatrick; Percy Jackson e Olimpianos, de Rick Riordan; Como treinar o seu dragão, de Cressida Cowell; e Crepúsculo, de Stephenie Meyer – a mais bem-sucedida autora do gênero, seguida por Riordan e Noel. No entanto, a Intrínseca ainda não publica autores nacionais. A Rocco também possui muitos títulos em literatura fantástica, mas em sua maioria autores estrangeiros. Contudo, recentemente, um dos mais bem-sucedidos autores brasileiros de histórias de vampiros, o paulista André Vianco, que já vendeu mais de 700 mil exemplares, fechou contrato com a Rocco para lançar o livro O caso Laura, um policial de atmosfera dark. Além disso, ele continua a publicar pela Novo Século – editora brasileira especializada no gênero fantástico, que investe em autores nacionais. Hoje em dia, André Vianco – que pagou a edição do seu primeiro livro, Os Sete, com a verba do FGTS, quando estava desempregado – tem um público fiel, 14 títulos publicados, dois livros a caminho e uma trilogia prevista para 2011, além de um piloto para adaptar os volumes de O Turno da Noite para a televisão. Além de Vianco e Spohr, a relação de brasileiros que têm se firmado no mercado com suas histórias fantásticas é enorme; entre eles destacam-se Carolina Munhoz, Raphael Draccon, Leonel Caldela, Martha Argel, Nelson Magrini, Roberto de Sousa Causo, Laura Elias, Flávia Muniz, Gerson Lodi-Ribeiro, Eric Novello e Giulia Moon. Preconceito? Se há preconceito, principalmente no meio intelectual, com autores de best-sellers, imagine quando o livro é do gênero


“O Tecido da Realidade tremeu, e um trovão correu pelas nuvens. A membrana mística, a película invisível que separa o Mundo Físico do Espiritual, fora abalada, lançando ao Plano Material dois visitantes, duas entidades tão fortes quanto o general exilado. Uma delas se materializara à distância, e permanecia parada sobre a grade de ferro que circulava a base da estátua. Emanava uma aura terrível, maléfica, cheia de ódio e furor. O segundo era amistoso, e não desejava combate. Apareceu ali perto, por cima do ombro do Cristo, próximo ao anfitrião renegado. Coxo, ele caminhou ao encontro do anjo guerreiro, apoiado em uma bengala afiada.” Eduardo Spohr, A Batalha do Apocalipse, Verus/ Record.

fantástico. Embora a cultura oral tupiniquim (curupiras, sacis, ipupiaras, m’bois) seja repleta de fantasia, o preconceito se perpetua devido à falta de tradição do gênero e poucos estudos na área. Ana Paula Costa, editora-chefe de ficção da Record, pondera: “É um público muito diferente. Os autores que escrevem para jovens têm muita qualidade, não é fácil cativar esses leitores. Talvez os adultos tenham vergonha de ler livros de jovens.” Já a professora Rosa Gens é categórica sobre o assunto: “Literatura policial, terror e literatura amorosa estão na mesma prateleira do preconceito. Na verdade esses autores são formadores de leitores, ensinam a ler e a pensar. Ler por prazer e para aprender a ler bem”, defende. Percebe-se que, com ou sem preconceito, além de um bom negócio para autores e editores, a literatura fantástica – em todas as suas vertentes – pode ser promissora para o despertar de novos leitores. E a internet, de fato, é uma grande aliada.

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comportamento

Literatura

e games,

parceria cada vez maior Para acadêmicos e críticos mais conservadores, trata-se, certamente, de uma parceria inesperada. De um lado, a literatura, expressão tida como “difícil”, associada em geral às esferas da alta cultura; do outro, o videogame, visto por muitos como um mero produto industrial baseado na diversão frívola e na violência gratuita. Pois não é que as duas linguagens, aparentemente tão distantes entre si, andaram criando laços fortes nos últimos anos? Por Bolívar Torres

Se no exterior jornais e revistas já dedicam longos e elaborados artigos que legitimam os jogos eletrônicos como arte, no Brasil partiram dos escritores as mais consistentes tentativas de diálogo entre os games e as demais formas de expressão. São, em sua maior parte, autores nascidos e criados na era do Atari, do Sega e dos computadores domésticos, e que hoje tentam, de alguma forma, absorver e projetar em seus escritos as experiências vividas em frente às telas. Nessas obras, o universo dos games pode aparecer em uma referência superficial ou explícita, como nos romances Mãos de cavalo (Companhia das Letras, 2006), de Daniel Galera, ou Nerdquest (7Letras, 2008), de Pedro Vieira. Mas a relação também pode ir além, fazendo com que a própria linguagem narrativa dos games (sim, afinal, eles contam uma “história”) influencie diretamente a obra literária.   É o caso da carioca Simone Campos. Celebrada aos 17 anos por seu primeiro romance – No shopping (7Letras, 2000), a jovem autora está terminando de escrever Owned!, livro-jogo

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interativo em que se pode escolher a própria aventura, exatamente como em um videogame. O leitor, no caso, assume o controle de um personagem – André, um técnico de informática viciado em games que vai tentar conquistar pelo menos uma dentre sete garotas. Basta clicar em uma das opções no final de cada trecho de história, dando rumo à vida do herói. Dependendo das suas escolhas, é possível salvar o jogo e ler/ jogar quantas vezes quiser.    “Quando veio a ideia, tive um pouco de medo de parecer invencionice barata, mas percebi que certas coisas só podiam ser ditas usando esse formato e comecei a trabalhar nele”, conta Simone. Exemplo típico de uma geração “educada” tanto pelos games quanto pela literatura, Simone foi estimulada desde cedo a entrelaçar os dois universos. Aos 7 anos, quando o seu pai adquiriu o primeiro XT, aprendeu a processar texto e a jogar. Sua escola também tinha a mente aberta: sentava os alunos na frente de computadores com a vaga desculpa de “aprender inglês” ou ensaiar rudimentos de programação.


“Eu sabia que queria ser escritora desde criança”, conta ela. “Eu era séria, muito séria. E tinha padrões. Sempre li muito. De repente, no meio da adolescência, passei uns três anos quase sem ler, só jogando. Tem um limbo entre livros inteligentes de criança e livros inteligentes de adulto que eu só consegui preencher jogando videogames de todo tipo, todo dia, por horas e horas a fio. Diria que nessa época comecei a usar os videogames para suprir (ou gastar) aquela pulsão destruidora que, dizem, é o lado B da criação. No fim desse período, no 2º e 3º ano do ensino médio, voltei a ler e a escrever, mas sem parar de jogar. Foi quando saiu No shopping, meu primeiro livro.”    Simone já fizera outras tabelinhas com o mundo dos games – tem conto, Campo minado, e romance, A feia noite (7Letras, 2006) repleto de referências a ele. Mas Owned! é um mergulho muito mais radical na experimentação, já que é o primeiro a colocar o formato de um jogo eletrônico no centro da própria narrativa. O conceito inovador está reservando grandes surpresas no processo de escrita.   “É um formato que oferece uma dimensão bem interessante de identidade: se você é moldado pelas suas escolhas ou tem um Destino com D maiúsculo”, explica Simone. “Tive, por exemplo, que produzir trechos-curinga, que se encaixassem em mais de uma situação. A negociação de informações novas ao leitor é difícil, tenho que medir muito bem o que vou dar a cada momento; e brinco com isso. Preparo ciladas; às vezes, falsas ciladas. Como há vários finais, escondo informações a respeito de um final no caminho para outro final. É uma forma de obrigar, ou de condicionar, o leitor a jogar mais de uma vez o jogo – se possível, a exaurir os caminhos oferecidos. Despertar uma sede de saber mais.”   Gamer inveterado, o gaúcho Antônio Xerxenesky também estabeleceu uma relação frutífera com os jogos. A premissa de seu primeiro romance, Areia nos dentes (Não Editora, 2008, 1.

ed.; Rocco, 2010, 2. ed.), uma espécie de faroeste com zumbis, veio do survival horror Alone in the dark 3, terceiro opus de uma série de games que viraram mania nos anos 1990 – e ela própria inspirada em um conto do autor de ficção científica britânico H.P. Lovecraft.   “Joguei o primeiro Alone in the dark aos 10 anos, e o jogo literalmente me tirou o sono”, recorda Xerxenesky. “Como sou um gamer nostálgico, lá pelos 20 e poucos anos revisitei a série. O terceiro jogo me chamou a atenção por ser uma mescla completamente absurda de elementos que eu adorava no cinema – o faroeste e o terror. Caubóis zumbis, rituais xamânicos, o jogo tem de tudo. É um verdadeiro caos. E essa redescoberta do jogo plantou um desafio na minha cabeça: como seria possível escrever, nos dias de hoje, no Brasil, um faroeste com zumbis? Como fazer desse livro algo além de uma bobagem trash? Como, a partir desse cenário fantástico, criar uma narrativa de impacto emocional?”   Para um novo grupo de escritores, a força de um game pode causar tanto impacto no imaginário quanto o acorde de uma música, a cena de um filme ou o verso de um poema. Colega de Xerxenesky na Não Editora, Samir Machado de Machado escreveu um capítulo inteiro de sua novela O professor de botânica (Não Editora, 2008) sob a forte influência de uma das fases de Metal gear solid 3.   “Indiretamente, o impacto que a enxurrada de referências pós-modernas de um jogo como Fallout 2 me provocou só teve paralelos comigo quando li Thomas Pynchon pela primeira vez”, compara Machado. “Em termos narrativos, uma coisa que costumo dizer, é que jogos de mundo aberto como Fallout, Assassins creed ou Red dead redemption me dão uma sensação de ser e estar num espaço físico ou contexto histórico que, para um escritor, são tão valiosas quanto uma pesquisa.”  

Daniel Galera “Impossível citar um só. The Secret of Monkey Island 2, Beyond Good and Evil, Super Mario Bros. 3, Shadow of the Colossus, Return Fire (do 3DO) e Secret of Mana são alguns que vêm à mente de imediato, mas a lista completa teria dezenas ou centenas de títulos.”

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Não mais simples produtos de consumo, e sim autênticas obras de arte Super Mario é o “Diderot dos games”? E Morrowind, “um animal monstruoso e dificilmente domesticado”? E que tal discutir o “saneamento de linguagem” de Shadow of the colossus ou a “reflexão pop art alucinada”  de No more heroes 2?  Para os franceses da revista multimídia Chronic’Art, falar sobre videogame é quase um compromisso filosófico. Nas bancas desde 2001, a publicação quinzenal foi pioneira em tratar os jogos eletrônicos não mais como simples produtos de consumo, e sim como autênticas obras de arte. A Chronic’Art trocou os limitados testes de jogabilidade dos veículos especializados por elaboradas análises sobre as possibilidades estéticas e narrativas dos games. Tanto em sua versão eletrônica (www.chronicart.com) quanto na impressa, seus críticos comentam o último lançamento de empresas eletrônicas como Sega ou Konami com a mesma seriedade com que criticam o filme tailandês  Apichatpong Weerasethakul, resenham um romance de Don de Lillo ou um álbum da banda indie El Perro del Mar. O que no início poderia ser visto como uma excentricidade isolada acabou virando tendência na França. Hoje, alguns jornais como o Libération já possuem os seus especialistas, e até a tradicional revista de cinema Cahiers du Cinéma chegou a dedicar um número especial ao assunto. “Somos de uma geração que cresceu com os videogames, antes mesmo da chegada da internet”, explica o editor Cyril De Graeve. “Como é parte integrante da nossa cultura, tratamos e teorizamos os games da mesma forma que os outros territórios já conhecidos, como cinema, literatura, música ou HQ.” A turma da Chronic’Art identifica na figura do programador um verdadeiro artista – um criador capaz de imprimir sua marca pessoal em cada um de seus jogos, com suas obsessões e visões de mundo. Como muitos cineastas de grandes estúdios, ou

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escritores sujeitos às revisões editoriais, penam para driblar as limitações criativas impostas pelas convenções do mercado. “Os videogames são realizados por autores que até hoje não foram colocados na dianteira da política dos editores, que sempre privilegiou a marca e não os seus criadores de fato”, analisa De Graeve. “Mas essa situação começa a mudar: alguns nomes já começam a ser destacados nessa indústria suculenta que é o videogame.”   Nos últimos anos, a revista tratou de revelar os métodos e o temperamento artístico dos grandes gênios da programação, como o criador da série Metal gear solid, Hideo Kojima – um personagem atípico, cujos jogos estão perfeitamente ligados à sua forte personalidade. A lista de entrevistados inclui outros nomes celebrados, como Shigeru Miyamoto (Zelda, Mario Bros.), Peter Molyneux (Populous, Black & White) ou Will Wright (The Sims, Sim City). Com seus textos repletos de termos sofisticados, a Chronic’Art ajudou a quebrar a visão estereotipada sobre o consumidor padrão dos games. Sai o nerd que joga de modo automático devorando fases sem espírito crítico, e entra o consumidor capaz de apreciar as experiências estéticas oferecidas pelos melhores jogos. “As possibilidades de imersão, implicação e identificação do espectador-jogador são únicas no videogame”, compara De Graeve. “Passamos 1h30 em um filme enquanto é possível ficar mais de 50 horas em um jogo. Claro que isso depende da qualidade do jogo, da exigência dos autores, mas podemos colocar em um jogo muito mais de nós mesmos do que num filme. Podemos ir muito mais longe no território da experimentação sabendo que cada jogador pode, por definição, absorver de forma diferente a obra em questão de acordo com a sua maneira de jogar. É então, no absoluto, um território artístico muito mais aberto, complexo, promissor e interativo.”


Simone Campos Prince of Persia | “O primeiro, de plataforma, do Jordan Mechner. Montanha-russa de emoções. Quando não me angustiava até a úlcera, me fazia perder por excesso de poesia. Tem vários jogos com esse ‘defeito’: Sonic, Castlevania, Quackshot, até Myst. Depois me davam pesadelos bem bizarros e interativos.”

Incorporados no cotidiano, os games já fazem parte da cultura. Por isso, o escritor que quiser retratar com fidelidade o período em que vive encontrará na relação dos jovens com os jogos digitais um contexto fascinante. Em uma cena de  Mãos de cavalo, bildungsroman (romance de formação) contemporâneo do escritor Daniel Galera, três amigos jogam Stunts, jogo emblemático que permite disputar corridas de carros em pistas delirantes, repletas de loops, zigue-zagues e circuitos em forma de saca-rolhas. A citação não era gratuita: símbolo no imaginário de uma geração, a disputa eletrônica funcionava, na cena, como simulacro dos rumos que a amizade dos três amigos iria tomar. Elemento marcante na vida dos personagens, o game é usado por Galera como uma tradução preciosa de seus estados de espírito.   Não por acaso, o autor é um dos principais embaixadores dos

games. Galera diz que os jogos entraram em sua vida bem no início da infância, ao mesmo tempo em que a música, o cinema e os livros, e que nunca os viu como uma modalidade muito diferente das outras mídias e artes. Autor de ensaios sobre o tema, chegou a criar um blog para debatê-los.    “Não creio que os videogames tenham influenciado minha literatura no nível estético ou da linguagem”, avalia Galera. “O diálogo possível entre as duas linguagens não é algo que me interessa muito. Todavia, os videogames me interessam muito como tema, pois são um componente importante da formação cultural da minha geração. Em outras palavras, as pessoas jogam videogame, assim como leem livros, trepam, trabalham e se apaixonam. É parte da vida e tem significado pra minha geração e todas que a sucedem. Assim, muitos de meus personagens jogam videogames e têm suas vidas marcadas por eles.”

Samir Machado de Machado The Dig | “De todos os adventures da LucasArts, este sempre foi meu favorito, talvez por ser o mais sério (o roteiro era de Orson Scott Card, se não me engano). E, fora a questão de deslumbre estético com os cenários e as geometrias alienígenas, foi o primeiro jogo que me prendeu simplesmente por ter uma história muito boa.”

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A nova onda das histórias em quadrinhos As histórias em quadrinhos vivem novamente um bom momento. Editoras e selos dedicados à nona arte continuam a surgir país afora, inundando as livrarias com novos títulos e clássicos nacionais e estrangeiros. brasileiros conseguem publicar trabalhos autorais fora do país, e a revolução tecnológica continua facilitando a autopublicação online, conectando os interessados em produzir e ler as narrativas gráficas. Por Bruno Dorigatti

É desnecessário dizer que os quadrinhos, outrora considerados formas degenerativas para a nossa infância e juventude, há muito deixaram de ser algo feito exclusivamente para crianças, ou de apresentar personagens com superpoderes e mundos distantes, como os clássicos Super Homem, Batman e Homem Aranha, e outros heróis mais recentes, como os X-Men. No entanto, ainda é para esse público infanto-juvenil e adolescente que se concentra a produção de massa e de onde vem o maior faturamento do setor. Porém, hoje, os adultos consomem avidamente um número crescente de graphic novels, histórias autobiográficas, adaptações de clássicos da literatura, reedições luxuosas de personagens icônicos como Peanuts e Calvin & Haroldo ou de álbuns de mestres como Will Eisner, Guido Crepax e Robert Crumb. Crumb – que esteve no Brasil participando da Flip, em agosto passado – é um dos responsáveis por essa atenção maior que os quadrinhos vêm tendo desde os anos 1960 como coisa de gente grande, por conta das HQs underground que estouraram no final daquela década na Califórnia, a partir da sua Zap Comix e de outros cartunistas como seu amigo Gilbert Shelton, pai dos Freak Brothers e criador da Rip Off Press, editora que publicou muitos daquela geração. Os quadrinhos underground pela primeira vez abordaram de forma clara e direta temas até então tabus nas HQs norte-americanas, como a crescente liberdade

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sexual e o uso de drogas, e ajudaram a moldar, junto com os hippies e o flower power, a psicodelia e o rock n´ roll, a então nascente contracultura. O pai de personagens clássicos como Mr. Natural e Fritz the Cat e que, em 2009, lançou a sua versão do Gênesis, acabou por tornar-se um dos ícones dos quadrinhos, impulsionado também pela forma como registrou com seu traço peculiar toda a sua admiração pela música negra norte-americana, e deu vida às mulheres rechonchudas, outra obsessão sua. Sua atual esposa, Aline Crumb, também começou a publicar seus primeiros quadrinhos (ainda que toscos e feios) naqueles frenéticos anos, e certamente ajudou a abrir o caminho para outras mulheres quadrinistas como a norte-americana Alison Bechdel, autora de Fun Home, que conta a sua dura e difícil relação com o pai, e a iraniana Marjane Satrapi, que fez Persépolis, retrato de sua infância e adolescência entre o Irã e a França nos anos da Revolução Islâmica, que já vendeu mais de um milhão de exemplares mundo afora.

Lourenço Mutarelli escreveu e protagonizou O astronauta ou livre associação de um homem no espaço (Zarabatana Books), parceria com Flavio Morais, Fernando Saiki e Olavo Costa. A Zarabatana tem lançado excelentes livros, como a série Macanudo, do argentino Liniers, Bando de dois, de Danilo Beiruth, Vida boa, de Fábio Zimbres, além da revista argentina Fierro.


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El Cerdo e Stêvz, da Beleléu e o segundo número da Samba. Quadrinistas autorais e independentes voltam a cavar o seu espaço ao sol.

Rio Comicon No Brasil, a Rio Comicon, dedicada sobretudo aos quadrinhos ditos autorais e realizada em novembro passado no Rio de Janeiro, deu a mostra mais recente do vigor pelo qual passamos quando se fala em contar história reunindo desenho e texto. O evento organizado pela Editora Casa XXI, responsável há seis anos pelo Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte (MG), reuniu na capital fluminense alguns dos principais e variados nomes dos quadrinhos no país, como Ziraldo, Mauricio de Sousa, Laerte, Angeli, Fábio Zimbres, Lourenço Mutarelli, Fábio Moon e Gabriel Bá, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, André Dahmer e Rafael Sica, além de atrair importantes nomes do cenário independente, como o pessoal das revistas Beleléu, do Rio, e Samba, de Brasília, e do coletivo Quarto Mundo. Sem falar nos convidados internacionais, como o italiano Milo Manara, referência quando se fala em quadrinhos eróticos, o inglês Kevin O’ Neill e a norte-americana Melinda Gebbie, parceiros do inglês Alan Moore, criador de Sandman. Durante seis dias, dezenas de milhares de pessoas compareceram à antiga Estação Leopoldina para assistir debates e palestras, fazer filas para conseguir um desenho exclusivo dos seus ídolos, comprar revistas independentes como

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Có! e Taxi, de Gustavo Duarte, e conferir lançamentos como Memória de elefante, do paulista Caeto, ou 676 aparições de Killofer, ambas graphic novels autobiográficas que figuram entre os melhores lançamentos do ano. Além disso, foi possível deleitar-se com a exposição de Manara, com originais de sua parceria com o diretor italiano Fellini e de sua História da Arte contada pela ótica das modelos, sem falar na dezena de painéis com trabalhos dos convidados, além de um espaço dedicado aos quadrinhos independentes com curadoria de El Cerdo, da Beleléu. Ziraldo e Mauricio Mas quando se fala no grande mercado de quadrinhos nacionais, dois nomes se destacam: Ziraldo, criador da primeira revista nacional dedicada à nona arte, Turma do Pererê, em 1964, e pai do Menino Maluquinho; e Mauricio de Sousa, pai do Bidu e da Turma da Mônica, lançada em 1970, já com tiragem de 200 mil exemplares. Ziraldo comemorou recentemente a centésima edição de O Menino Maluquinho, que já vendeu 2,8 milhões de livros e foi traduzido até em coreano. Além da série do Maluquinho, que se desdobrou em vários livros, ele segue produzindo muitas cartilhas educacionais. E ainda publica em seu blog cartuns


inéditos e históricos, além de ter acabado de expor em telas grandes seus Zeróis, que satirizam os super-heróis norteamericanos. “Tem 60 anos que eu não paro de fazer coisas. Então vou continuar fazendo”, conta. Mauricio foi ainda mais longe. Hoje suas histórias alcançam 120 países, produzidas no maior estúdio de animação do Brasil. Já foram adaptadas para desenho animado nos anos 1980, e viraram um parque temático nos 1990. Em 2008, seu estúdio lançou a Turma da Mônica Jovem, com os personagens crescidos em versão mangá. As quatro primeiras edições venderam 1,5 milhão de exemplares. E recentemente, o governo da China o convidou a produzir com histórias da turma o material didático de um programa de alfabetização para 180 milhões de crianças. Exceções, porém. Brasil, hoje No Brasil, o cenário para quem produz quadrinhos autorais independentes é outro. O gaúcho Fábio Zimbres alcançou a liberdade de que precisa para fazer suas histórias por nunca ter pensado em “viver de quadrinhos”. Designer e ilustrador, seus traços que provocam certo estranhamento e os quadrinhos sempre foram o lugar que encontrou para exprimir aquilo que não cabia no trabalho feito para os outros. Zimbres viveu e participou do boom das HQs nos anos 1980, quando

Ao coração da tempestade (Quadrinhos na Cia.), do mestre Will Eisner, é inspirado em sua história familiar, que se confunde com a história dos judeus na América e na Europa na primeira metade do século XX, quando o antissemitismo mostrava a sua cara sem pudores.

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Kafka de Crumb O universo claustrofóbico, labiríntico e autodepreciativo de Franz Kafka, um dos principais escritores do século XX, é a matéria desta biografia em quadrinhos. Entremeando a vida do tcheco, com comentários sobre livros e contos seus, Kafka de Crumb (Desiderata) reúne o excelente texto de David Mairowitz com o inconfundível traço de um dos mais importantes quadrinistas da segunda metade do século passado.

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676 aparições de Killofer (BarbaNegra/LeYaCult) e Taxi, de Gustavo Duarte, entre os melhores lançamentos dos ano. Ambos dispensam os diálogos e balões para narrar suas histórias.

revistas como Chiclete com Banana circulavam em bancas e tiravam mais de 100 mil exemplares por mês. Editada por Angeli, a revista foi ideia de Toninho Mendes¸ que depois do sucesso da publicação com histórias de Bob Cuspe, Rê Bordosa e Os Skrotinhos, bancou Geraldão, de Glauco, e Piratas do Tietê, de Laerte, quadrinistas e amigos que iriam desenhar juntos os emblemáticos Los 3 Amigos. Com outras revistas como Circo e Animal, duraram até o começo dos anos 1990, quando arrebatavam leitores os mais diversos, dos 12 aos 80 anos, das mais variadas classes sociais. E foi onde se produziu algumas das melhores histórias, onde surgiram personagens emblemáticos e onde se abriu espaço para nomes como Zimbres poderem mostrar seu trabalho para um público maior. Atualmente, temos a internet como espaço infinito para essa experimentação e vitrine. E quando esbarramos com quadrinhos como os dos gêmeos Moon e Bá e de Rafael Grampá, que muito se utilizaram e se utilizam da rede para mostrar suas histórias e alcançar seu público, é gratificante saber que hoje publicam seus excelentes quadrinhos autorais nos Estados Unidos, como Daytripper, série da dupla lançada este ano pela Vertigo, uma das grandes editoras de lá, ou Mesmo Delivery, impactante graphic novel de Grampá. Hoje, alguns dos que compravam a Chiclete com Banana leem estas crescentes publicações em livros bem acabados, com excelente papel, tamanho e capa dura. E a maioria dos

que fazem quadrinhos quase sempre citam Los 3 Amigos e suas revistas como determinante na vontade de fazer quadrinhos. Outro tanto dos que curtem vai descobrindo a nova geração e os clássicos nos blogs e sites de quadrinistas ou naqueles dedicados ao tema. Mas muitos ficaram pelo caminho, já que hoje as tiragens não passam de 3 mil exemplares, ou 3% do que imprimiam as revistas há três décadas. “É triste e emocionante encontrar os amigos aqui na Rio Comicon, gente que batalhou a vida inteira nos quadrinhos e ainda continua tentando: eles não desistiram”, comentou Mutarelli, hoje conhecido por romances como O cheiro do ralo e Natimorto, ambos adaptados ao cinema, mas que começou nos quadrinhos nos anos 1980 nas publicações acima e lançou álbuns como Transubstanciação e O dobro de cinco no começo da década seguinte. O romancista e quadrinista voltou a desenhar depois de um longo inverno, primeiro, gráficos abstratos que apareceram em seu romance A arte de produzir efeito sem causa, de 2008, e agora, histórias de página inteira, que saem em 2011, mas que ainda não lhe agradam. Segundo ele, os quadrinhos sempre foram tratados como algo menor por aqui e a experiência sugere prudência ao analisar o atual momento. O que pode indicar mais um ciclo que caminha para o seu auge antes de arrefecer. A arte e esses artistas, porém, ficam. Assista às entrevistas com os quadrinistas André Dahmer, Aline Crumb, Fábio Moon, Gabriel Bá, Gilbert Shelton, Mauricio de Sousa, Rafael Coutinho e Ziraldo no site www.saraivaconteudo.com.br

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LOPE DE ANDRUCHA Diretor REALIZA sua primeira coprodução internacional, um filme sobre o poeta espanhol Lope de Vega, e faz um balanço da carreira. Por BRUNO DORIGATTI FOTO TOMÁS RANGEL

Era tarde de entrevistas sobre o seu novo filme, Lope, focado na vida do famoso poeta espanhol Lope de Vega, na sede da Conspiração Filmes, em Botafogo, Rio de Janeiro, onde Andrucha Waddington é um dos sócios. Fumante inveterado, ele dá duas profundas tragadas antes de começarmos a conversa. Avisado de que poderia continuar fumando, ele diz: “Não, tô na boa. Costumo fumar só um terço do cigarro”. Magro, a barba curta e o cabelo começando a ficar grisalho, Andrucha tem a voz rouca e demonstra simpatia. E logo começa a falar sobre seu novo filme, primeira coprodução internacional que dirige. Voltemos, porém, um pouco no tempo para recordar sua trajetória. Carioca de 40 anos, Andrucha na verdade nasceu Andrew e o apelido foi dado pela mãe, a psicanalista Irina Popow. Diretor reconhecido pela atuação na publicidade, estreou no cinema com Gêmeas, adaptação de uma história de Nelson Rodrigues, meio que por acaso. A Conspiração Filmes, produtora da qual viria a tornar-se sócio, tinha feito Traição, série com três episódios baseados em crônicas de Nelson onde o adultério é o tema central. “Quando entrei para a Conspiração, falei para todo mundo: ‘Olha, estou vindo para cá, mas quero fazer um longa’. E aí, na verdade, Gêmeas ia ser o quarto episódio, só que a gente não levantou dinheiro. Depois que Traição foi feito conseguimos levantar dinheiro, e transformei Gêmeas, que a princípio seria um média-metragem, em um longa”, relembra. Inspirado em um conto de duas páginas, o filme traz a história das gêmeas Iara e Marilena, impecavelmente interpretadas por Fernanda Torres, que se apaixonam pelo mesmo homem e passam a disputá-lo. O elenco conta ainda com Fernanda Montenegro, Francisco Cuoco, Evandro Mesquita e Matheus Nachtergaele. O filme prima pelo suspense e o humor negro e consegue reproduzir o clima de tensão, traição, sem falsos moralismos, que Nelson Rodrigues se esmerava em retratar em suas peças, contos e crônicas. “A ficção te permite mergulhar em mundos muito distintos. O desafio de você não se repetir no próximo filme, fazer uma coisa totalmente diferente, é uma coisa que busco”, completa.

O Nordeste tem sido um cenário recorrente nos filmes de Andrucha, onde foram filmados Eu, tu, eles e Casa de areia. E alguns dos seus documentários abordam a vida de nordestinos, caso de Outros (Doces) Bárbaros e Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda, além de Viva São João!, que celebra a festa popular originária da região. “Na verdade, Casa de areia não é Nordeste. Foi feito no Maranhão, mas poderia ser qualquer lugar. É um labirinto de areia, um lugar, teoricamente, mágico. E tinha uma brincadeira ali de falar um pouco da fundação do Brasil. Você só não tem o índio, mas tem o europeu, o imigrante, o português, o negro. E o único que pode se dizer 100% brasileiro é o índio.” Já Viva São João! é filho de Eu, tu, eles. “Quando o Gil fez a turnê do show com as canções do filme, era São João. E foi tão legal que sugeri a ele fazermos o documentário. Ele lançou as canções de Eu, tu, eles ao vivo e rodou com o show pelo Nordeste. E eu fui na paralela, foi um documentário feito em nove dias, durante o São João”, diz. E Pedrinha de Aruanda traz Bethânia, natural de Santo Amaro da Purificação (Bahia), apresentando seu mundo, seu universo, sua origem. Lope O projeto teve início em 2005, quando o diretor fez uma sessão de Casa de areia (2005) no escritório da Columbia, produtora do filme, em Madri, Espanha. Os direitos de Lope pertenciam à Columbia, o roteirista Jordi Gasull trabalhava lá, assim como Iona de Macedo, produtora executiva do filme. “Eles me mandaram o roteiro, e adorei. Achei que tinha uma pegada contemporânea, por falar da fundação de um artista, tinha história de amor, é um jovem virando adulto, acreditando no seu sonho. Isso era uma temática muito contemporânea, que me interessava, usar um personagem de época para falar de uma coisa atual”, diz Andrucha. Lope de Vega é considerado um dos principais nomes da poesia e do teatro espanhol. Contemporâneo de Cervantes, por quem era invejado e o definiu como o Monstro da Natureza. Lope produziu de forma absurda, tendo deixado em

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torno de 4 mil poemas. Sem falar na revolução que causou no teatro, ao misturar trágico e cômico, dividir a obra em três atos (apresentação da trama, desenvolvimento e desenlace), desenvolver enredos paralelos, compor em versos e romper com as noções de tempo e lugar. Andrucha conhecia pouco de Lope e topou o desafio de aprofundar-se e estudar o Século de Ouro, como era o teatro naquela época, as peças do dramaturgo, sua biografia, os poemas. “Foram quatro anos mergulhando nesse universo.” Em 2006, a Columbia fechou o escritório de produção em Madri. Mas o roteirista, junto com um produtor que já estava no projeto, Edmon Roch, comprou os direitos e a Conspiração se associou. Em 2008, entraria a Antena3 Films. “Na poesia, ele tinha um dom com a palavra, fez mais de 4 mil poemas. Era um cara que escrevia como ninguém. E no teatro, foi o primeiro a juntar comédia e tragédia, fundou o teatro clássico espanhol, quebrando as regras que existiam até aquele momento. E fez isso antes de Shakespeare, que veio 20 anos depois. Só que Shakespeare morreu jovem, nasceu depois de Lope e morreu antes. O inglês foi muito influenciado por Lope, que teve a ousadia de misturar gêneros. E ele tinha uma pegada muito popular”, conta o diretor.

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Cervantes, considerado hoje o maior autor de todos os tempos na Espanha, morreu pobre, ninguém o conhecia. “E tinha uma coisa curiosa: Cervantes queria ter a habilidade que Lope tinha de falar com o povo, ser popular, e Lope queria ser erudito como Cervantes. Até tem uma piada sobre isso no filme, quando Lope corrige uma peça de Cervantes. Isso nunca aconteceu, é uma piada que botamos no filme”, explica. Filmar lá fora, aqui, em qualquer lugar Para Andrucha, cinema é uma linguagem universal. “Os elementos que precisam estar prontos para você filmar são os mesmos, e não interessa se você está na Argentina, no Chile, nos Estados Unidos, na Espanha, no Marrocos. Existe uma diferença cultural, de sistema de trabalho, e se você está em outro país precisa se adaptar a ele, mas a equipe tem as mesmas funções, o cenário tem de estar pronto, a ambientação e a caracterização tem de estar feitas. Em se tratando de um filme de época, onde estas questões são muito importantes, a preparação é fundamental para você, na hora de rodar, estar preparado, concentrado só na dramaturgia. Todas as questões estéticas precisam ser resolvidas antes, para que, na hora de rodar, você esteja a serviço da dramaturgia.” Filmar fora do Brasil, para ele, foi adaptar-se ao sistema de trabalho dos europeus. “Depois vira uma equipe, uma família rapidinho.”


especial

A LA NOCHE Noche, fabricadora de embelecos, loca, imaginativa, quimerista, que muestras al que en ti su bien conquista los montes llanos y los mares secos; habitadora de cerebros huecos, mecánica, filósofa, alquimista, encubridora vil, lince sin vista, espantadiza de tus mismos ecos: la sombra, el miedo, el mal se te atribuya, solícita, poeta, enferma, fría, manos del bravo y pies del fugitivo. Que vele o duerma, media vida es tuya: si velo, te lo pago con el día, y si duermo, no siento lo que vivo.

de Lisboa foi filmado em Essaouira, e depois aplicamos a cidade por trás”, explica. A formação de Lope A vida de Lope de Vega é conhecida a partir do momento em que o filme acaba. Nas biografias do poeta e dramaturgo há poucos registros sobre a fase da vida dele que o filme aborda. Ele passou a ser conhecido quando foi exilado. “Foi uma opção por retratar um Lope desconhecido, mas sendo muito fiel ao que ele virou depois: um cara irreverente, mulherengo, absolutamente hábil com as palavras para conseguir o que queria, revolucionário no teatro.” O filme apresenta a fundação desse personagem quase mítico da cultura espanhola, do jovem que deseja seguir carreira no teatro, envolve-se com a filha de um dos principais dramaturgos e, por não ser da mesma classe que ela, vai pagar um preço por isso, ao criticar e revelar a hipocrisia da sociedade daquela época. “É um assunto tão universal, o rito de passagem, onde você vira adulto, escolhe uma profissão, é reconhecido pelo seu trabalho, lida com os seus primeiros dilemas amorosos, se funda como homem, artista. Isso, para mim, era algo muito interessante”, acrescenta Andrucha.

E o fato de ser uma grande produção muda algo? “Cara, sabe que não? Engraçado, porque, quando o projeto foi crescendo, achei que isso seria uma questão, mas, na verdade, o que tem de estar pronto, tem de estar pronto. A diferença é que a preparação de um filme de época é muito maior, a quantidade de detalhes... Na verdade, nada do que é de hoje serve. Uma reprodução de um prato de época em Madri custava 49 euros, por exemplo. E um artesão fazia estes mesmos pratos no Marrocos a 50 centavos. A produção do filme fez três contêineres de objetos de cena, que foram mandados do Marrocos para a Espanha para rodar o filme”.

Ao lançar o filme na Espanha, em meados do ano, o diretor falou com mais de 100 jornalistas e praticamente todos eles tinham uma questão: Por que um brasileiro dirigir um filme sobre um dos mais importantes espanhóis? “Já estava respondendo com humor. O cinema americano importa diretores desde que criou a indústria [nos anos 1940]. Considerome um contador de histórias. Se for fazer um filme no Ceará sobre padre Cícero, vou ter de estudar a vida dele. E ainda mais sendo uma língua que eu falo. Se fosse um filme em japonês, talvez fosse mais difícil. E o Vicente Amorim acabou de fazer o filme Corações sujos, inspirado no livro-reportagem de mesmo nome, de Fernando Morais, sobre os imigrantes japoneses durante a II Guerra. Falo espanhol, então para mim é mergulhar naquele mundo para poder falar com propriedade sobre ele. Era uma pauta boba, mas também natural. Não é normal aqui no Brasil você trazer um diretor de fora para contar uma história brasileira. Acho que talvez a única

A arquitetura das ruas de Madri na época de Lope, o século XVI, não existe mais. O que foi preservado foram as cidades medievais. Madri, na época, não era uma cidade medieval, ela tinha uma arquitetura típica do Século de Ouro, que foi destruída por conta da expansão imobiliária enorme. “Descobrimos essa cidade, Essaouira, no Marrocos, que foi um ponto de parada na Rota das Índias naquela época e tinha influência ibérica enorme na arquitetura de toda a Medina (região do Marrocos). E isso foi mantido, essa região é exatamente como era há 500 anos. Então fizemos as ruas de Madri lá. O porto

“Foi uma opção por retratar um Lope desconhecido, mas sendo muito fiel ao que ele virou depois: um cara irreverente, mulherengo, absolutamente hábil com as palavras para conseguir o que queria, revolucionário no teatro.”

Soneto de Lope dedicado à noite, o CXXXVII de Rimas Humanas (1609).

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cultura cinematográfica mundial que tenha isso no DNA é o cinema americano. É natural que isso aconteça. O fato hoje de as coproduções serem a salvação do cinema independente vai fazer com que isso aconteça cada vez mais, e acho isso muito saudável”, prevê. Entre a ficção e o documentário Com o trânsito entre a ficção e o documentário, como estas linguagens dialogam, o que uma acrescenta à outra? “O documentário ajuda muito a não se prender tanto ao que você se programou. Porque quando você faz cinema, constrói uma realidade. No documentário, você tenta interferir o mínimo possível. E isso lhe dá um jogo de cintura, de perceber coisas que estão acontecendo na hora, no set de filmagem.” Em Lope, por exemplo, ele fez o storyboard do filme inteiro, mas jogou no lixo. “Fiz pra mim, para ver como filmaria cada cena, mais de 1.500 desenhos, e nunca levei para o set, porque eu trabalho a partir do que os atores me dão. Chego no set de manhã e, antes de os atores irem se maquiar e se vestir, passo as cenas do dia. Enquanto eles vão para a maquiagem e o figurino, fecho como vou filmar cada cena. Quer dizer, eu tinha uma coisa preparada, mas que nem revisito. Porque, a partir do que os atores dão, vou servir à dramaturgia. E não a dramaturgia servir ao preconcebido. Isso é algo que o documentário me deu.” Andrucha tem intercalado, ainda que não intencionalmente, longas ficcionais e documentários. “É que para você levantar um filme, apaixonar-se por ele, achar que ele está maduro para ser feito, demora. Não consigo ser operação padaria,

fazer um filme por ano. Tenho filmado longas de cinco em cinco anos. E no meio você vai se exercitando. Preciso filmar comercial para pagar as minhas contas, adoro fazer documentário. Vou trabalhando, sempre com o norte sagrado no cinema, mas deixando que as coisas realmente fiquem maduras para fazer”. Recentemente, finalizou o DVD Ao vivo lá em casa, gravado na residência de Arnaldo Antunes e baseado no excelente álbum Iê iê iê, lançado em 2009. Em seu quintal e na laje em cima da biblioteca, Arnaldo reuniu os amigos, a família, além de convidados como os Demônios da Garoa, Fernando Catatau, Jorge Benjor e Erasmo Carlos. Andrucha e sua equipe registraram, além do show, a montagem do cenário e dos equipamentos de filmagem, a transformação do terraço em palco, a passagem de som com os convidados. Outro projeto de que Andrucha participa e chega às lojas agora é A conspiração de Gilberto Gil, caixa que reúne sete DVDs com shows e documentários do músico baiano filmados entre 1996 e 2009, junto com Lula Buarque de Hollanda, como Viva São João! e Banda Dois, com Gil e o filho Bem em show acústico. E os próximos projetos? “Estão andando. Sou muito supersticioso, tenho quatro projetos em andamento, não gosto de falar quais são, mas posso adiantar que são dois fora do Brasil e dois aqui. E quero ver qual fica maduro primeiro, viável, na verve. Você vai maturando, maturando e na hora um pula e fala: ‘Sou eu!’”, conclui.

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Gilberto

GIL Tempo e espaço navegando em todos os sentidos.

Por MARCIO DEBELLIAN FOTOS TOMÁS RANGEL

De volta ao estúdio para finalizar os últimos retoques no álbum Fé na Festa, ao vivo, que sai ainda no mês de dezembro, e recém-premiado pelo Grammy Latino em duas categorias - Melhor Álbum de Música Popular Brasileira por Banda Dois e Melhor Álbum de Músicas de Raízes Brasileiras por Fé na Festa - o fim de ano de Gil (e de seus fãs) reservou mais um bom motivo para festejos: o lançamento da caixa A Conspiração de Gilberto Gil, com a reunião de sete filmes que os cineastas Andrucha Waddington e Lula Buarque de Hollanda, da Conspiração Filmes, realizaram com o artista entre 1996 e 2009. A reunião desses filmes nos leva a uma viagem que parte de um Brasil profundo, um nordeste bruto que se amalgama (para usar um termo de Jorge Mautner, parceiro e amigo de Gil) com a África, Índia e Jamaica, e nos remete à “profecia” da canção Viramundo, presente no álbum de estreia do artista, em que prometia: “Ainda viro este mundo, em festa, trabalho e pão”. Visitamos Gil na varanda de seu estúdio, no alto da Gávea, com bela vista para o abraço do Cristo Redentor, para uma conversa pontuada por serenidade e doçura, tempo e espaço navegando em todos os sentidos.

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Vendo a reunião destes DVDs, fico pensando que assim como na música, em que você tem vários parceiros constantes ao longo do tempo, no cinema você também encontrou parcerias duradouras, não é? Gilberto Gil Os meninos da Conspiração, Andrucha, Lula, Pedro, todos eles, foram se aproximando a partir de produções, projetos e foram ficando amigos. Foi-se criando uma afinidade. Tenho impressão de que pelo jeito deles, jovens, entusiastas da cultura, sempre foram grandes bate-papos e, portanto, tornaram-se também grandes companheiros de trabalho. E vai, vai, conta um ano, dois anos, três anos, dez anos, vai ver já tem sete filmes. Muitos interessantes pela temática, alguns que requereram produções não diria complicadas, mas empenhadas, em que nós tivemos de fazer viagens longas, no espaço e no tempo. A África, a Índia, a Bahia, o Nordeste brasileiro, todos esses territórios culturais e geográficos foram “desbravados” por nós em viagens memoráveis, importantes, interessantes. O que resultou disso em filme está na caixa. Você cultiva o hábito de se reassistir? Gilberto Gil Não, não. Mas por acaso às vezes acontece. Outro dia eu vi na televisão o Verger. Outro dia vi também o Tempo rei, que é um dos mais exibidos, muita gente me diz “Olha, vi de novo Tempo rei na televisão”, é muito solicitado, é muito reprisado. Nessas oportunidades, em geral, eu vejo. Assim em casa, para pegar e botar para ver, ultimamente não tenho feito isso não. Agora com a caixa, possivelmente né? Para os netos, os filhos. Agora vem o verão, as férias e, possivelmente eu vá rever alguns deles a partir da própria caixa. É verdade que você foi a última pessoa a entrevistar o Pierre Verger? Gilberto Gil Fui. Aquela entrevista, que deu motivo inclusive ao filme, foi feita por Andrucha e Lula, na véspera da morte dele. Ele nos concedeu a entrevista, nós fomos à casa dele, lá na Fundação Pierre Verger, num bairro muito popular de Salvador. Ficamos com ele durante umas duas ou três horas e gravamos a entrevista. No dia seguinte pela manhã, recebemos a notícia de que durante a noite, ou nas primeiras horas da manhã, ele tinha falecido. Aí os meninos correram para editar o material, ver o material, e se surpreenderam com a extensão do campo de interesse dele, pela África, pela Bahia, pelos negros e todas as culturas de uma certa forma secun-

darizadas, nesse mundo de hegemonia western, de hegemonia ocidental a partir de Europa e EUA. Então, eles ficaram com esse sentimento de que ali tinha um material para uma coisa sul, para um diálogo sul-sul, para incrementar todas essas interações entre África, Brasil, América do Sul, tudo isso que se considera e é chamado de Sul, do ponto de vista cultural e mesmo político e econômico. E a motivação para a filmagem de Filhos de Gandhi? Gilberto Gil Filhos de Gandhi veio primeiro pelo meu afeto profundo pelo grupo e minha ligação histórica com eles, já datando de minha infância, depois na minha volta do exílio em Londres, quando eu realmente me associei a eles, passei a ser integrante, a fazer parte do grupo. Os meninos da Conspiração também se interessaram por esse tema, e a gente acabou fazendo um filme que nos levou também à Índia, para encontrar o território do Gandhi, para encontrar o território daquela cultura que é uma das fontes básicas de inspiração da própria criação do grupo, da própria dimensão estética do grupo. Todas essas coisas têm a ver com o Oriente Médio e essa passagem pela Índia. Toda aquela coisa da cultura muçulmana que vai para a Índia e encontra lá o seu território específico. Os elefantes, os camelos, os turbantes, aquela coisa colorida extraordinária. Tudo isso a gente teve que ir lá para poder capturar para o filme. Depois de ter rodado o mundo como artista e também representando o Brasil como Ministro da Cultura, um pouco como diz a sua canção Viramundo, que visão você traz do deslocamento desse eixo western, existe uma percepção diferente? O que mudou na sua percepção desse tempo para cá? Gilberto Gil Olha, meu interesse pelo Brasil, no sentido de acreditar na redenção brasileira, para o seu povo e seu país, com a solução de problemas históricos graves, com a reparação necessária que se tem de fazer, a inserção do Brasil no mundo dos países desenvolvidos, avançados, vem da crença numa civilização brasileira própria, específica, peculiar, com elementos importantes da origem portuguesa; uma origem já ela própria original, porque ela é diferente de todos os outros resultados da colonização, das navegações. Isso aqui era um empreendimento templário, ligado à ideia do quinto império, à ideia do reino do Espírito Santo, todas essas coisas, a palavra “Brasil” já encontrada séculos antes do descobrimento, em mapas europeus com o significado de terra encantada.

Ao longo da minha vida de artista e de gestor público, militante político, o que quer que a gente queira usar como denominação para definir isso, meu amor pelo Brasil cresceu muito. 44

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A CONSPIRAÇÃO DE GIL Tempo rei Passeio musical pela obra, vida e geografia íntima de Gilberto Gil, celebrando os 30 anos de sua carreira, com a participação especial de Stevie Wonder, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, incluindo grandes sucessos como Madalena, Cores vivas, Vamos fugir e Procissão. Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos Uma viagem pela África, França e Bahia, narrada por Gil, seguindo a trajetória do fotógrafo, etnógrafo e babalaô Frances Pierre Fatumbi Verger (1902 - 1996), um dos mais importantes pesquisadores do candomblé e da cultura afro-brasileira. Eu, tu, eles A insólita e comovente história de Darlene de Lima Linhares e seus três maridos, ambientada no sertão do Ceará. Um filme baseado em fatos reais, com a atuação magistral de Regina Casé, Lima Duarte, Stenio Garcia e Luiz Carlos Vasconcellos, e a trilha sonora de Gilberto Gil. Refavela (1977), o disco "xodó" de Gilberto Gil

Filhos de Gandhi Afoxé Filhos de Gandhi visto na intimidade de seus membros e fundadores, durante as comemorações dos 50 anos de existência, com entrevistas, cenas do Carnaval da Bahia e um desfile surpreendente pelas ruas de Udaipur, na Índia, no encalço do líder espiritual e político que inspirou o nome da agremiação carnavalesca. Viva São João! Durante a turnê de Gilberto Gil pelo circuito das festas juninas do Nordeste, um mosaico de tradições, personalidades e estilos musicais vai se tecendo, com depoimentos, cenas de shows, procissões, cantorias, arrasta-pés, fogos de artifício e muito forró. Kaya N´gan daya - O tributo de Gil ao rei do reggae, Bob Marley Show e documentário, com cenas da viagem à Jamaica e da gravação do disco homônimo, no lendário Tuff Gong. Banda Dois Gilberto Gil, ao violão, passeia por seus grandes sucessos, acompanhado por seu filho Bem Gil, num show acústico filmado com requinte, contando ainda com a participação especial de Maria Rita e do caçula José Gil. A Conspiração de Gilberto Gil: produto exclusivo Saraiva.

Então essa ideia do encantamento a ser produzido por um Brasil redimido, isso tudo sempre foi uma coisa que me interessou. Minhas andanças pelo mundo como artista, e também já consolidadas pelo período como Ministro - porque nesse período ministerial foram andanças muito qualificadas nesse sentido de estabelecimento de relações entre o Brasil e o mundo, foram missões diplomáticas, missões comerciais, culturais especialmente, que me deram um reforço da crença da imagem de um Brasil do mundo, para o mundo, com o mundo, contribuindo para uma reciclagem do processo civilizatório. Uma adesão de aspectos mais amenos e profundamente espirituais nessa civilização ocidental. Ao longo da minha vida de artista e de gestor público, militante político, o que quer que a gente queira usar como denominação para definir isso, meu amor pelo Brasil cresceu muito. Eu ficava vendo de fora, você ministro, e daqui a gente tem uma visão de Brasília, que é mais de relações políticas, compromissos, reuniões, ternos... Gilberto Gil Chamam de uma cidade escritório-dormitório. Uma cidade em que a gente está ali para trabalhar de dia, dormir e voltar a trabalhar no dia seguinte. No caso dos políticos e dos gestores, também viajar, pelo Brasil em alguns casos, como era o meu, viajar pelo mundo. Então Brasília é uma cidade assim... Tinha saudade do artista, de você estar mais presente fazendo shows, compondo... Mas ao mesmo tempo, ficava imaginando que você tem a formação de administrador, chegou a trabalhar com isso na Gessy Lever, de certo modo também

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Nós (artistas) somos uma comunidade, nos constituímos como tal, nos inter-relacionamos, nos intercambiamos, a partir de um senso comunitário importante, invejado aliás por outras gentes, em outros lugares do mundo. deve ter sido uma espécie de reconciliação com esse lado seu que ficou para trás porque o artista falou mais alto. Gilberto Gil Claro, claro, claro. A oportunidade de poder efetivamente gerir uma instituição grande, com relevância para o país, com articulações necessárias com todos os estados, todos os municípios, com quase 3 mil pessoas formando os quadros funcionais, na sede e em todas as regionais do ministério, nos órgãos acoplados ao ministério. Enfim, tudo isso era um pouco aquele desejo mesmo: “Olha, eu me formei em administração, eu fiz isso, eu quis isso”. É um dos aspectos também, uma das faces do poliedro da minha pedra profissional. Então foi muito isso também: eu quis ali resgatar um pouco essa coisa que eu tinha podido exercer muito brevemente na Gessy Lever, quando terminei o curso de administração na Bahia e fiquei um ano em São Paulo trabalhando. Mas logo depois veio a vida artística e nunca mais eu tinha voltado a... Não, nunca mais não, porque todo o processo de criação da minha estrutura empresarial, aqui a GeGe, a formação da GeGe nos primeiros tempos, a chegada da Flora, a ampliação, isso tudo já era uma permanência na vida de administrador. O Ministério deu a isso uma ampliação muito grande. Das realizações como ministro tem as sementes de que você tem mais orgulho de ter plantado, tem aquelas realizações de que você fala “puxa, isso valeu”, tem coisas que te orgulham mais nesse período de ministério? Gilberto Gil Muitas coisas, as que mais me interessaram foram as que estiveram propriamente ligadas ao sentido geral do governo do presidente Lula. Governo que queria e, acabou de fato, se caracterizando como um governo de resgate das obrigações do Estado com o conjunto geral da população brasileira, especialmente os segmentos menos protegidos dessa população. Ou seja, as políticas sociais. O governo do presidente Lula insistiu nas políticas sociais e o nosso ministério também, a partir desse governo. Então, as políticas de empoderamento de setores populares do país inteiro, através de programas como o Mais Cultura, programas na área do cinema, do patrimônio histórico. O samba de roda como patrimônio da humanidade. O registro do acarajé, do bumbameu-boi, do frevo, como patrimônios importantes. O uso das novas possibilidades da cultura digital para fortalecer processos culturais em comunidades ao largo do Brasil inteiro, dando a eles possibilidades de novas formas de conexão via internet, televisão, telefone celular, todo esse novo mundo. Possibilidade de encontro desse povo todo no ciberespa-

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ço, tudo isso foram coisas muito interessantes. E mais, para além disso, o grande trabalho diplomático que o Ministério da Cultura ajudou o Brasil a fazer junto à Unesco na questão da Convenção da Diversidade Cultural, junto à Organização Internacional da Propriedade Intelectual, discutindo questões de como tratar os saberes antigos, os saberes indígenas, os saberes tradicionais. Enfim, muita coisa, como a reestruturação das relações culturais do Brasil com os países do Cone Sul, da faixa andina, da faixa atlântica norte: com a África, reingresso mais profundo do Brasil, com os países de língua portuguesa, que são diretamente irmãos e primos e depois com o conjunto dos países de língua francesa, os países da faixa mediterrânea, do mundo árabe. Enfim, muita coisa, muita coisa... E na carreira artística, aos 68 anos, tem filhos (discos) preferidos? Gilberto Gil Refavela (1977) é um disco pelo qual eu tenho um xodó especial. Pelo disco ao vivo gravado em Montreux, tenho também um xodó especial. Louvação, primeiro disco gravado, por isso, por ser o primeiro, por reunir ali o primeiro roteiro de canções, Procissão, Louvação, Viramundo, a que você se referiu agora há pouco, Roda, enfim, as primeiras canções. Eu começando a compor e a gravar, tem uma importância muito grande, acaba ganhando um nichozinho, acaba sendo entronizado na obra. E tem outros, meus discos ao vivo, dois deles me deram prêmios Grammy internacionais, que são formas importantes de reconhecimento mundial do trabalho. Mas o que mais eu ponho assim num cantinho é o Refavela (1977). E tem os discos em parceria, você dividiu o palco com muita gente boa. Gilberto Gil É, tem vários, tenho um disco com Jorge Ben, que é um desses discos importantíssimos na minha carreira. Disco que ganhou uma reputação enorme como um disco especial para muita gente. E ele, Jorge, um artista pelo qual eu tenho uma afeição muito grande, sem falar nos meus mais próximos, Caetano, Gal, Bethânia. Tanta gente. Essa é uma das coisas gratificantes do trabalho do artista, é esse suporte comunitário fundamental. Nós somos uma comunidade, nos constituímos como tal, nos interrelacionamos, nos inter-cambiamos, a partir de um senso comunitário importante, invejado aliás por outras gentes, em outros lugares do mundo. Gentes que dizem sempre assim: “Puxa, no Brasil vocês são incrivelmente afetuosos,


têm um processo de troca incrível, toda hora vocês estão nos discos de todos, todos nos palcos de todos”. Isso é uma coisa que foi até inspiradora para certos grupos europeus e americanos que passaram também a adotar esse estilo de vida artística. Isso é muito bom, muito bom. O show que você fez no Fashion Rio, no Cais do Porto, foi o último que vi, e eu me emocionei muito com a sua canção sobre o medo da morte. Foi aquele silêncio, criou aquela atmosfera coletiva, todo mundo ficou envolvido... Gilberto Gil Ainda hoje eu cantei essa música sozinho em casa, antes de vir aqui, para a entrevista. Porque fazia tempo, e eu me dizia assim: “Será que eu me lembro da letra toda?”. Aí comecei a cantar sozinho, em frente ao computador em que eu estava trabalhando para uma palestra que eu vou fazer daqui a alguns dias, que é sobre mercado musical, cultura e política, então eu fiquei pensando, lá no momento me veio essa coisa da morte. Fiquei me lembrando como a música foi feita na Espanha, em Sevilha, onde eu estava participando de um seminário sobre cultura digital e cultura da informação e políticas culturais para o mundo, com Manuel Castells, John Perry Barlow e António Damásio, neurocientista português, que escreveu O erro de Descartes (Companhia das Letras). Foi lá nesse contexto, nesse ambiente que fiz essa música. Por causa dessas interligações com o computador, me lembrei dela hoje.

E fica mais bonito ainda de ver você cantando acompanhado pelo seu filho Bem. Gilberto Gil Símbolo da continuidade da nossa vida, o filho fazendo a mesma coisa que eu, tocando violão, fazendo música, dividindo o mesmo ambiente de trabalho comigo. Isso tudo é muito bonito e além disso um momento esteticamente tão bonito, como o Andrucha fez daquilo, como ele instalou o palco e os elementos de cena e tudo. É um dos vídeos mais bonitos, independente de mim [risos]. Você faria um trechinho dessa música para a gente? [Gil canta] Não tenho medo da morte Mas sim medo de morrer Qual seria a diferença? Você há de perguntar É que a morte já é depois Que eu deixar de respirar Morrer ainda é aqui Na vida, no sol, no ar Ainda pode haver dor Ou vontade de mijar. Assista à entrevista com Gilberto Gil no site www.saraivaconteudo.com.br.

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A FESTA DE

GADÚ Por MARCIO DEBELLIAN FOTOS TOMÁS RANGEL ESTILO BEATRIZ DALE

Revelada ao grande público no início de 2009, na minissérie Maysa, da Rede Globo, Mayra Corrêa Aygadoux, a Maria Gadú, lançou seu primeiro disco em junho desse mesmo ano pela Som Livre. Nessa época, fizemos uma primeira entrevista com ela, que então morava com a mãe e Cuíca, um labrador de quatro meses, e fazia temporada no Posto 8, uma pequena casa em Ipanema, que já nem existe mais. De lá pra cá, o vídeo com o registro da nossa conversa tornou-se recordista de acessos no site SaraivaConteúdo, seu disco vendeu mais de 100 mil cópias e ganhou o Prêmio Multishow de Melhor Álbum de 2010, e a cantora passou a lotar casas do porte do HSBC Brasil, onde gravou o CD e DVD Multishow ao vivo, que acaba de chegar às lojas. Suas músicas viraram presença constante nas novelas: a canção Shimbalaiê, que compôs aos 10 anos de idade, estourou de vez ao ser incluída na trilha de Viver a vida e, mais recentemente, atendendo a um pedido especial, gravou Rapte-me camaleoa – canção que Caetano Veloso fez em homenagem a Regina Casé – para a novela Ti-ti-ti.

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“Shimbalaiê foi um susto. Veio do nada. Eu era muito pequenininha, mas sempre fui meio nerdzinha, lia muito. E, na verdade, não tem nada demais na música, eu estava descrevendo uma paisagem. Criança adora inventar palavra, né?”, explica Gadú. Ela toca violão desde criança, mas antes veio o piano. “Eu ouvia muita música clássica quando era pequena, era meio viciada, e ficava experimentando no piano. Só que eu queria sair tocando nos lugares onde eu estava, sair treinando. E aí o violão é mais móvel”, conta ela. Sua mãe a colocou em uma escola de iniciação artística, chamada Demia, em São Paulo, onde teve contato com todos os instrumentos – flauta, bateria, percussão, piano – além de aprender a fabricar instrumentos. Foi lá onde realmente aprendeu a tocar violão. Tocava tudo o que ouvia junto com os discos.  Aos 24 anos, comemorados em 04 de dezembro, dia de Santa Bárbara, Gadú mudou de casa e de cão. Foi morar sozinha, e Cuíca, o labrador, ficou com a mãe. Agora ela cuida de Cachaça, um pug endiabrado, de apenas dois meses. O pescoço ficou repleto de patuás. “Foram me dando patuás, eu fui pondo, agora não cabe mais nada, é um embolado de coisas. Não posso cortar porque senão arrumo briga com metade do céu.” A vida ficou corrida, mas cheia de momentos que a fazem duvidar da própria realidade. “Claro que a vida mudou. A rotina virou pauleira. Desde que gravei o CD tem sido assim. No começo fazia muito trabalho de divulgação para a imprensa e agora tem esse lance de viajar, sair de casa, não voltar nunca. É estranho, fazia um show no Posto 8 para 200 pessoas, e de repente tem 7 mil gritando meu nome. O que é isso? Que coisa maluca!” Maria Gadú com os amigos Toni Ferreira e Dani Black, que participam do DVD.

Além da rotina de shows pelo Brasil e um público cada vez mais apaixonado, Gadú ganhou prestígio no meio musical, incluindo indicação para o Grammy Latino em duas categorias: Artista Revelação e Melhor Álbum de Cantor-Compositor. Foi convidada para gravar com Ana Carolina e Moska, ganhou elogios rasgados de Milton Nascimento – “Música, simpatia, tudo de bom. Canta lindamente e traz amigos para repartir o palco” – e agora se prepara para uma turnê com Caetano Veloso. Apesar das novas amizades, Gadú fez questão de contar com os amigos de sempre na hora de dividir o palco e gravar o DVD – a banda é a mesma dos primeiros shows: Cesinha (bateria), Doga (percussão), Maycon (teclados), Gastão Villeroy (baixo) e Fernando Caneca (guitarra) – e os extras trazem canções e participações, em sua maioria, desconhecidas do grande público: Toni Ferreira em Reflexo de nós, Dani Black em Só sorriso, Manuh em You’ve got a believe, e uma participação família (Philippe Gadú, Bernard Gadú, Marc Gadú e Patrick Gadú) em I can see clearly now.

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“Isso de gravar com os amigos é muito verdadeiro. São os meus mesmos amigos, de hoje e de sempre. A gente é amigo, divide música, chora, ri, e por que não dividir o palco? É um instante maravilhoso, um lugar em que todo mundo gosta de estar. Cantamos as músicas deles, pra galera conhecer. É gente que faz música porque gosta. Só presta pra isso, só sabe fazer isso, vive pra isso. Todo mundo é meio sozinho na vida, e a maravilha tem que ser dividida. Solidão nessas horas não é legal. Fizemos do modo como fazemos em casa, com intimidade e conforto, só que desta vez com um puta equipamento de som. Não podia privar os amigos disso.” De participação “ilustre” no DVD, apenas Sandy, que chegou de forma inusitada. “Ela foi assistir ao show com seus pais, o Xororó e a Noeli. Eu sou muito fã da Sandy e do Junior, e sempre canto Quando você passa nos shows. Aliás, eu acho a família toda muito doce, um berço de elegância e educação. Quando o show acabou, perguntei se era necessário regravar


Às vezes, olho pro lado, me vejo tocando com o Caetano e penso que estou louca! alguma coisa para o DVD e disseram que não, que eu poderia fazer o bis que quisesse, e o público começou a cantar essa canção. Achei lindo, porque a Sandy estava lá, vendo aquilo, uma galera puxando a música que ela gravou. No meio da música, ela, que já estava no backstage esperando para me cumprimentar no camarim, entrou no palco! Eu chorei! A Sandy aqui! Foi muito legal, não estava previsto. Fiquei muito feliz.” Caetano viu Maria Gadú pela primeira vez em sua estreia no Cinemathèque (infelizmente, outra casa carioca que já não existe mais): “Achavam que era a nova Cássia Eller, mas a voz me lembrava mais a Marisa Monte. Fiquei encantado com a naturalidade, a presença, a fluência da musicalidade e da figura. Parecia um garotinho com voz de princesa.”, definiu Caetano em recente entrevista ao Jornal O Globo. A turnê em parceria com Caetano surgiu depois que se apresentaram juntos em duas ocasiões: “Chamaram a gente para um show fechado, um duo em 4 músicas, e em seguida, fizemos a participação no Prêmio Multishow cantando Rap-

te-me camaleoa. Depois veio a ideia de fazermos esta turnê. Vai ter show no Rio no dia seguinte ao meu aniversário, não tem presente melhor! Se eu morrer no dia seguinte ao show, pode ter certeza de que eu subo (ou desço, vai saber!) feliz! [risos] Faremos canções que ele não tocava há muito tempo, que têm aquelas frases que eu tatuaria. O que é a letra de O quereres? Às vezes, olho pro lado, me vejo tocando com o Caetano e penso que estou louca!” Pedimos então para que Gadú dê uma canja de O quereres no violão. Ela pede um favor: “Vocês podem fechar a porta da cozinha?”. Pensamos ser por conta de algum possível barulho, mas não: a porta da cozinha de Gadú está toda escrita com a letra da música. É parte de seu processo para decorar a letra (e a casa, talvez!). E como se diz que o melhor da festa sempre acontece na cozinha, o que se quer, com uma porta dessas, é que a festa de Gadú ainda vire muitas madrugadas. Ah, bruta flor, bela flor! Assista às entrevistas com Maria Gadú no site www.saraivaconteudo.com.br.

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Fachada de edifício abandonado em Lagos, na Nigéria.

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fotografia

João Wainer Um olhar por detrás da fumaça

Por Bruno Dorigatti

Do Carandiru à África, da luta livre mexicana aos motoboys paulistanos, do terremoto no Chile ao fenômeno cinematográfico conhecido como Nollywood, na Nigéria, das FARC colombianas aos pichadores da periferia de São Paulo. O fotojornalista e documentarista João Wainer vem, desde 1992, buscando apresentar “a fumaça das ruas na sua cara”, como ele mesmo define o trabalho em seu site. Uma busca incessante por retratar, registrar, dar voz a personagens que vivem do lado de lá da ponte, outra expressão sua, que nomeia seu primeiro documentário. “A ponte do Rio Pinheiros virou um Muro de Berlim, só que em São Paulo divide o pobre do rico”, afirma Mano Brown no documentário A ponte, lançado em 2008, junto com Roberto T. Oliveira, com quem também dirigiu Pixo, contundente retrato dos pichadores da maior cidade da América Latina, de 2009. O trabalho de João, que hoje chega ao documentário, começou com a fotografia, com um estágio no Jornal da Tarde, aos 16 anos. Mas isso não importa muito para ele. “O que importa são os assuntos que fotografo. A fotografia pela fotografia, a mim, não interessa tanto assim. Interessa mais o que e de que jeito aquilo está sendo fotografado. Gosto muito mais das pautas do que da fotografia em si. Se curtir o assunto, a maneira com a qual vou abordá-lo é o menos importante, pode ser em vídeo, em foto, em texto, em sinal de fumaça. Não importa, o que vale é o que você está registrando”, ressalta.

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Homem acende sinalizador durante baile funk na cidade de Santos, litoral de São Paulo.

Logo soube que era isso que queria para a sua vida. “Foi uma coisa muito natural pra mim. Foi muito rápido, rápido até demais”, recorda. No JT, conheceu o fotógrafo Bob Wolfenson numa matéria e passou a trabalhar como assistente dele. “A partir dali, fui embora, fui para a Folha de S. Paulo e não parei mais.” Para ele, o fotojornalismo é a melhor escola que há, “a melhor base que eu poderia ter. Hoje em dia me sinto preparado para fotografar qualquer coisa mesmo”. “O mais legal do fotojornalismo diário é que há um exercício constante da sua ignorância. Cada pauta que você pega é um assunto do qual não sabe nada. E quando você começa a tentar entender o máximo de coisas possíveis em cada pauta que vai cobrir, aí começa a ficar gostoso, porque são lugares muitos diferentes, alguns deles a que qualquer pessoa jamais iria se não fosse a trabalho”, acrescenta João, que viajou o Brasil inteiro e conheceu vários lugares assim. À margem João passou por situações que muitos não teriam estômago nem fígado para tanto. Muito por conta do trabalho como fotojornalista, mas também por opção. “Meu trabalho pessoal, desde que comecei a fotografar, sempre esteve voltado

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para a margem, a periferia, pessoas que vivem do lado de lá da ponte, tanto nos aspectos ruins como nos aspectos bons.” Ele diz que nunca conseguiu entender muito bem por quê, mas é desde moleque que tem esse interesse e vontade de conhecer mais. “Tenho impressão de que às vezes sentia um pouco de medo quando era mais novo”, ele que nasceu num bairro de classe média, Perdizes. “Tinha um pouco de medo da minha cidade, de circular em determinados lugares. E acho que essa busca por entender foi algo para enfrentar os meus medos e a cidade em que morava, até perder o medo dela, sabe? Até entender como tudo aquilo funcionava. Porque eu ficava muito assustado. Um negócio que nunca entrou na minha cabeça são as pessoas que moram em São Paulo e nunca atravessaram para o lado de lá da ponte. As pessoas simplesmente ignoram que aquilo tudo existe. E aquilo, para mim, era tão forte, que não conseguia ignorar, fazer como as outras pessoas faziam. Então fui atrás.” Nunca é demais lembrar que São Paulo concentra a maior pobreza das Américas. São 3 milhões de pessoas pobres, mais 1,4 milhão de pessoas miseráveis, que vivem abaixo da linha da pobreza. Do lado de cá da ponte, a mesma cidade é terceira do mundo em venda


Fachada interna do Pavilhão 8 do Carandiru, o maior presídio da América Latina em São Paulo.

Luta livre entre Cholas (indígenas bolivianos) na cidade de El Alto, na Bolívia. www.SARAIVACONTEUDO.com.br

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Mulher aguarda retirada do corpo do marido, que foi assassinado na sala de sua casa na zona sul de São Paulo.

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Apresentação da dançarina Juliette Dragon no bar Lucha Libre, no Quartier Latin, em Paris.

Ser fotógrafo foi uma desculpa que encontrei para me aproximar de temas onde queria chegar. de veículos blindados, num país que não está em guerra civil, nos recorda em A ponte Floriano Pesaro, ex-secretário de Desenvolvimento Social e atualmente vereador do município pelo PSDB. No Carandiru, João entrou para participar do Talentos Aprisionados, projeto criado pela atriz Sofia Bisilliat, que resolveu levar cursos e oficinas para tentar ressocializar os presos através da arte. Ficou quatro anos fotografando a penitenciária. Com o tempo, o jornalista André Caramante, e a fotógrafa Maureen Bisilliat, mãe de Sofia, entraram para o projeto. “A Maureen acabou coordenando e tocando até o final, quando virou livro (Aqui dentro – Páginas de uma memória: Carandiru, Imprensa Oficial, 2003). Foi uma experiência demais, eu era super novo, aprendi muita coisa nesse período”, diz. Ele também trabalhou um tempo no Notícias Populares, finado jornal sensacionalista do Grupo Folha. “Sempre tive predileção por esse tema. Brinco até

que escolhi o tema antes de escolher ser fotógrafo. Ser fotógrafo foi uma desculpa que encontrei para me aproximar de temas onde queria chegar.” Tanto A ponte como Pixo são trabalhos que estão nessa mesma pegada. “Pixo é feito pela molecada da periferia de São Paulo, a contestação bem típica. E A ponte também, é um documentário que fala dos problemas e das dificuldades que as pessoas têm na periferia, mas de uma maneira positiva e que acaba oferecendo uma solução possível. A gente vê que é possível mudar, melhorar. Os documentários são a continuação natural de um caminho que venho trilhando desde o começo”, resume. E com Pixo, João Wainer acredita ter chegado a uma síntese de tudo. “De tudo que andei olhando, correndo atrás, Pixo é a síntese. Tudo o que fiz antes foi para chegar ali. Também pelo fato de ser o último, fiz com mais maturidade, mais cuidado, com um entendimento um pouquinho maior”, acredita.

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CERTO GAJO CONTADOR DE HISTÓRIAS “Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como espetáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.” Este é o início de Três vidas, romance do premiado escritor português João Tordo. De imediato nos identificamos com este equilibrista e tentamos percorrer as inexatas linhas, desenhadas em escrita simples, sem artifícios de linguagem, mas com trama que segu-

ra firme o hesitante leitor. Se a “melancolia crônica” é o que ameaça o narrador, é também ela que o impulsiona a seguir e compor a vida (ou as vidas). Cair ou escapar da queda? Não se trata de escolha, mas percurso do funâmbulo Tordo. Esta história, que trazemos em breve excerto, foi publicada recentemente no Brasil pela Língua Geral, primeira editora brasileira dedicada a autores lusófonos.

AS TRÊS VIDAS, DE JOÃO TORDO Pouco tempo depois do leilão, uma jornalista do Diário de Notícias que fazia uma reportagem sobre os casos em aberto da Polícia Judiciária interessou-se pela história oculta deste homem e, através de fontes que não quis desvelar, veio ter comigo, abordando-me à maneira petulante e lisonjeira dos repórteres, efeito da profissão pelo qual não a posso julgar. Agora que o homem está morto, disse-lhe, não vejo qualquer problema em contar-lhe tudo, e assim o fiz. Falamos durante três horas, e dei por mim a desbobinar a história dos últimos anos da sua vida que estava, compreendi então, indissociavelmente ligada à minha, à sua família, a Camila, a Gustavo, a Nina, a Artur e à viagem que, em 1982, acabou por selar aquilo de que eu vinha suspeitando há tanto tempo, isto é, a nossa inaptidão para continuar a viver a vida de todos os dias depois de certas coisas acontecerem. Não me parece que a jornalista — que era uma rapariga nova, com a curiosidade dos aprendizes — tenha acreditado na maior parte das coisas que lhe contei. Perguntou-me constantemente se podia apresentar provas, mas, como irão descobrir, não foi possível conservar quaisquer documentos desses dias — para além daqueles que se encontram em lugar e mãos desconhecidos — e respondi-lhe que, a ser publicada a história, teria de o fazer de boa-fé. Passaram-se

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SARAIVACONTEÚDO DEZ. 2010 / JAN. 2011

dois anos, comprei o jornal todos os dias, e nem uma linha apareceu sobre o assunto. Fui compreendendo, no tempo que passou desde a entrevista, que deixar um relato da minha experiência era uma necessidade. O que foi verdade e o que é, inevitavelmente, ficcionado, devido aos limites da memória, não importa; em última análise, a própria realidade é objeto de ficção. O mais importante é libertar-me dos fantasmas, pois acarreto com as sombras de todas as coisas a que não tive coragem para colocar um fim. Isso refletese, sobretudo, nos meus sonhos: ao contrário da crença habitual, não me parece que os sonhos sejam o espelho dos nossos desejos; cá para mim, acho que os sonhos são o espelho dos nossos horrores, dos nossos piores medos, da vida que poderíamos ter tido se, numa altura ou noutra, não fôssemos incomensuravelmente covardes.

João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Formou-se em filosofia e estudou jornalismo e escrita criativa em Londres e Nova Iorque. Trabalha como roteirista e publicou dois romances, O livro dos homens sem luz (2004) e Hotel Memória (2007), ambos bem recebidos pela crítica. O presente romance recebeu o Prêmio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores em 2009. João Tordo mantém um blog em joaotordo.blogs.sapo.pt.


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Revista Saraiva Conteúdo - 2ª edição