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A
BEHANDING
IN
SPOKANE
 By
Martin
McDonagh
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Primeira
Cena
 (Quarto
de
Hotel,
América
profunda,
janela
na
parede
do
fundo,
escada
de
emergência
 visível
por
for
a.
De
um
lado
do
quarto
uma
grande,
desgastada
e
maltratada
mala
de
 viagem,
do
outro
lado
uma
pequena
cama,
encima
dessa
está
CARMICHAEL,
40
e
muitos.
A
 sua
mão
esquerda
ausente
e
na
direita
pequenos
pedaços
de
fita
adesiva
branca
a
tapar
as
 tatuagens
nas
nós
dos
dedos.
À
direita
do
palco
há
um
armário
por
trás
da
cama
do
qual
ao
 subirem
as
luzes
se
ouve
um
som
de
bater,
como
se
alguém
estivesse
a
querer
sair.
 CARMICHAEL
está
sentado
na
cama
frente
ao
armário
a
olhar
para
o
vazio;
subitamente
 levanta‐se
e
alcança
o
interior
do
seu
sobretudo
e
saca
de
uma
pistola,
suspira
levanta‐se
em
 direcção
ao
armário
agacha‐se
em
frente
ao
armário
arma
a
pistola
e
abre
a
porta,
o
bater
 no
armário
para,
aponta
a
pistola
para
o
interior
do
armário
sente‐se
uma
agitação
abafada,
 dispara
um
vez
e
a
agitação
para.)



 
 


CARMICHAEL:

 Eu
avisei,
não
avisei!



 (Pausa.
CARMICHAEL
fecha
a
porta
do
armário
e
volta
a
sentar‐se
na
cama,
arruma
a
pistola
 e
volta
a
olhar
para
o
espaço
vazio.
Agarra
de
um
cigarro
de
uma
cigarreira
de
prata
e
com
 habilidade
acende‐o
com
uma
só
mão,
guarda
a
cigarreira
de
volta
ao
bolso;
agarra
o
 telefone
e
marca
um
número.)
 
 CARMICHAEL:

 Estou
mãe,
acabo
de
chegar
a
um
hotel
num
sítio
chamado
Tarlington,
 5679029211,
quarto…
dezassete.
Está
tudo
bem
por
aqui.
Ah
espero
que
por
ai
também.
 Estou
um
bocado
preocupado
porque
já
passaram
alguns
dias
desde
que
consegui
falar
 contigo,
espero
que
esteja
tudo
ok,
liga‐me
assim
que
ouvires
isto!
O
número
é
o
 5679029211,
quarto
dezassete.
(Pausa)
Bem
é
tudo.
(Pausa)
Beijinhos.
 
 (Pousa
o
telefone
de
volta
no
descanso,
senta‐se
novamente
a
fumar
por
um
momento,
e
 ouve‐se
um
tossir
à
porta
seguido
de
alguém
a
bater;
CARMICHAEL
levanta‐se
e
espreita
 pelo
olhal
da
porta)
 
 


MERVYN:



(OFF)
Consigo
ver‐te
assombra
dos
pés
meu!


CARMICHAEL:

 (Pausa)
Hum?


MERVYN:



(OFF)
Disse
que
consigo
ver
a
sombra
dos
teus
pés!



CARMICHAEL:

 Consegues
ver
a
sombra
dos
meus
pés?


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Eu
nunca
disse
que
não
estava
aqui!


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Acho
que
ainda
posso
não
responder
quando
alguém
bate
à
porta
enquanto
 espreito
para
ver
quem
é,
não
posso!


MERVYN:



Sei
que
estás
ai!


Mas
não
respondeste
quando
bati.


Suponho
que
sim.



 (CARMICHAEL,
abre
a
porta,
e
revela‐se
MERVYN
uniforme
do
hotel,
placa
de
 identificação,
a
sorrir)
 


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Ah
o
recepcionista.


MERVYN:

 Eu
não
diria
que
sou
o
recepcionista,
sim
trabalho
na
recepção,
mas
não
diria
 que
sou
recepcionista.


CARMICHAEL:

 Sim,
fiquei
com
essa
impressão
quando
cheguei.


MERVYN:



(CARMICHAEL
penetra
para
o
interior
do
quarto,
seguido
de
MERVYN)


CARMICHAEL:

 A
tua
atitude?
Não,
nunca
tinha
era
entrado
num
hotel
onde
o
recepcionista
 estivesse
só
de
boxers,
nada
a
ver
com
atitude!


MERVYN:



CARMICHAEL:

 (Pausa)
Na
parte
de
trás?


MERVYN:



CARMICHAEL:

 (Pausa)
Queres
dizer,
“na
sala
de
trás”?


MERVYN:

 Sim,
é
onde
eu
faço
as
minhas
flexões,
por
causa
do
tapete.
Quando
acho
 que
não
vai
chegar
ninguém,
mas
tu
surpreendeste‐me,
tás
a
ver?!


CARMICHAEL:

 Suponho
que
a
recepção
está
agora
abandonada?


MERVYN:

 Sim
está
temporariamente
abandonada,
temos
uma
recepção
 temporariamente
abandonada,
neste
momento,
é
verdade.


CARMICHAEL:

 E
se
alguém
telefonar?
Vai
tocar
sem
parar
o
telefone?


MERVYN:



Sou
MERVYN,
o
gajo
do
hotel.


Ai
sim?
Porque?
Alguma
coisa
na
minha
atitude!


Bem,
eu
estava
a
fazer
umas
flexões
na
parte
de
trás!


Mm.


Aquilo
foi
um
disparo,
à
bocado?



CARMICHAEL:

 (Pausa)
Disparo?
Que
disparo?


MERVYN:


CARMICHAEL:

 Também
ouvi
qualquer
coisa,
acho
que
era
o
tubo
de
escape
de
algum
carro!


MERVYN:



CARMICHAEL:

 NÃO,
lá
fora
que
é
onde
andam
os
carros!


MERVYN:

 puto
preto?


CARMICHAEL:

 Eles
foram‐se
embora.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Eles
saíram
pela
janela.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Sei
lá,
são
uma
escumalha
de
merda!


MERVYN:

 (Pausa)
Realmente
não
sei
o
que
isso
tem
a
ver
com
eles
terem
saído
pela
 janela,
ou
com
o
quer
que
seja.



Aquele
som
de
uma
pistola
a
ser
disparada!


(Pausa)
Dentro
do
teu
quarto??


Ah!
(pausa)
Já
agora
aqueles
dois
que
chegaram
contigo,
a
miúda
branca
e
o


Mas,
não
passaram
por
mim!


COMO? PORQUÊ?


CARMICHAEL:

 Bem,
suponho
que
a
janela
e
a
saída
de
emergência
não
estejam
ao
dispor
 dos
hóspedes,
ou
estão?
 


MERVYN:



CARMICHAEL:

 E
aconteceu
alguma
de
essas
duas
coisas?
Um
incêndio,
ou
uma
simulação.


MERVYN:

 Não,
eu
sou
a
única
pessoa
que
pode
acionar
uma
simulação
de
incêndio
se
 carregar
no
botão
de
simulação
de
incêndio.


CARMICHAEL:

 Exactamente.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Exactamente,
que
eles
eram
uma
escumalha
de
merda,
saíram
pela
saída
de
 emergência
sem
que
houvesse
uma
emergência.
 MERVYN:

 essas?


Não,
excepto
se
houver
um
incêndio
ou
uma
simulação
de
incêndio.


Exactamente,
o
quê?


Bem,
…
e
porque
é
que
tu
és
amigo
de
uma
escumalha
de
uma
escumalha


CARMICHAEL:

 Eles
não
são
meus
amigos!


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Apenas
alguém
com
quem
eu
tenho
negócios.


MERVYN:



Então
o
que
é
que
são
eles?


Que
tipo
de
negócios?



CARMICHAEL:

 Do
tipo
não
tens
nada
a
ver
com
isso.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Drogas,
mas
eu
tenho
cara
de
quem
negoceia
com
drogas?


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Mas,
não.
Eu
não
tolero
esse
tipo
de
fraqueza.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Sim.


MERVYN:

 (Pausa)
Eu
achei
a
miúda
muita
gira,
mas
sinceramente
achei
o
preto
um
 bocado
suspeito.


CARMICHAEL:

 Concordo
contigo
em
relação
ao
preto.


MERVYN:



CARMICHAEL:
 
Não
tenho
nada
a
ver
com
isso.
E
tu,
já
acabaste
de
meter
o
nariz
onde
não
 és
chamado?


MERVYN:



CARMICHAEL:

 (pausa)
É
uma
longa
história.


MERVYN:


CARMICHAEL:

 Sim.
É
uma
história
comprida
como
o
caralho.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Ai
sim?
Mas
eu
não
tenho
tempo.
Eu
não
tenho
mesmo
tempo.
(Pausa)
És
 capaz
de
ir
embora
agora
MERVYN?
Parece‐me
que
a
recepção
já
esta
abandonada
há
 tempo
demais.


(Pausa)
Queres
dizer,
drogas?


Completamente.


Toleras?


Não
achaste
a
miúda
gira?


(pausa)
Porque
é
que
só
tens
uma
mão?



Ai
sim?.


(pausa)
Eu
tenho
tempo!
Aliás,
eu
tenho
muito
tempo!
Só
saio
às
seis.


MERVYN:

 Meu,
eu
sabia
que
havia
alguma
coisa
esquisita
assim
que
tu
entraste.
Tive
 uma
visão,
tás
a
ver?!
…
nem
foi
bem
uma
visão…
foi
uma
outra
coisa...
sempre
achei
que
se
 trabalhasse
aqui
durante
tempo
suficiente
e
ficasse
de
olhos
abertos,
alguma
coisa
ia
 acontecer,
percebes
meu?!
Ia
acontecer
alguma
coisa
dramática.
Como,
se
entrasse
um
 grupo
de
gajos,
todos
de
casaco
comprido
e
a
única
bagagem
que
traziam
eram
arpões.
 Onde
é
que
uma
história
dessas
iria
parar?
Um
monte
de
gajos
de
casaco
com
arpões?
Ou
 um
gajo
da
Nigéria
que
chega,
e
que
te
quer
vender
uma
montanha‐russa.
“Tu
não
tens
 nenhuma
montanha‐russa,
meu,
tu
és
da
Nigéria!”
Percebes?
Eles
não
têm
montanhas‐ russas
lá!
(pausa)
Por
acaso
não
tenho
certeza.
(pausa)
Ou
se
um
Panda
gigante
entrasse.
A
 dizer
disparates.
Onde
é
que
já
se
viu
uma
história
assim?
Um
panda
gigante
a
dizer
 disparates.
Isso
é
que
era
de
cagar
a
rir!
Ou
se
um
maneta
entrasse
com
uma
miúda
gira
e
 um
puto
preto,
e
passados
dez
minutos
ouvissem
tiros
e
a
miúda
gira
e
o
puto
preto,
bem,
 desaparecessem
de
vista.
Como
é
que
uma
história
assim
acabaria?
Imagino
(pausa)
Esta
é



mais
parecida
com
a
tua
história,
mais
do
que
as
outras.
(pausa)
Onde
é
que
vai
parar
uma
 história
destas?
 


CARMICHAEL:

 Acho
que
vamos
descobrir
assim
que
tu
saíres.


MERVYN:



CARMICHAEL:

 Não,
não
me
estás
a
chatear
nada.


MERVYN:

 Eu
estava
só
a
verificar
por
causa
do
barulho,
na
verdade.
Disseram‐me
que
 eu
devia
fazer
isso.
Em
caso
de
barulhos
estranhos.


CARMICHAEL:

 Os
escapes
dos
carros
podem
enganar,
meu.


(MERVYN
começa
a
sair,
meio
a
receio)
 Não
te
estou
a
chatear,
pois
não?


(MERVYN
APENAS
OLHA
PARA
ELE)


MERVYN:

 Claro,
bem,
eu
sei
perfeitamente
que
aquilo
não
era
o
escape
de
nenhum
 carro,
meu,
eu
não
sou
burro.
 (MERVYN
VAI
EM
DIRECÇÃO
À
PORTA,
E
OUVE‐SE
UM
BATER
SÚBITO
NESTA.
 CARMICHAEL
INDICA
MERVYN
PARA
QUE
A
ABRA,
E
MARILYN,
UMA
MIÚDA
LINDA
DE
MAIS
 OU
MENOS
22
ANOS,
ENTRA
DE
ROMPANTE,
A
TREMER,
NERVOSA,
A
CARREGAR
UM
 PACOTE
EMBRULHADO
EM
PAPEL,
FITA‐COLA
E
PANO)
 MARILYN:

 Já
a
tenho,
ok!
Já
tenho
a
merda
da
tua
mão,
ok!
Agora
deixa‐o
sair,
seu
 cabrão!
Onde
é
que
ele
está?
Quem
é
este
palhaço?
Ah,
o
gajo
dos
boxers,
que
é
que
ele
 quer?
 


(ELA
ATIRA
O
PACOTE
PARA
CIMA
DA
CAMA.
PAUSA)


MERVYN:

 lá
em
baixo.


eu
só
estava
a
verificar
por
causa
do
tiro.
Se
algum
de
vocês
precisar,
estou


(MERVYN
SAI
TRISTE)


MARILYN:



CARMICHAEL:
 
O
tiro.


MARILYN:



CARMICHAEL:

 Queres
saber
há
quanto
tempo
eu
ando
à
procura
disto,
Marilyn?


MARILYN:



MARILYN:



Ele
estava
a
verificar
o
quê?


(CARMICHAEL
AGARRA
O
PACOTE)
 (ASSUSTADA)
Onde
é
que
ele
está?
Tu
prometeste
que
não
lhe
fazias
mal!


Eu
perguntei
onde
é
que
ele
está,
seu
cabrão
maneta!


(CARMICHAEL
VIRA‐SE
LENTAMENTE
PARA
OLHAR
PARA
ELA…)
 Quero
dizer,
seu
cabrão.



(PAUSA.
CARMICHAEL
LENTAMENTE
APONTA
PARA
TRÁS
DELA,
PARA
O
ARMÁRIO
 PARA
ONDE
DISPAROU)
 


MARILYN:



Que
é
que
ele
está
ali
a
fazer?


CARMICHAEL:
 
A
dançar
é
que
não
está,
posso
te
eu
garantir!
 (ENQUANTO
CARMICHAEL
COMEÇA
A
DESEMBRULHAR
O
PACOTE
LENTAMENTE.
 MARILYN,
HORRORIZADA,
APROXIMA‐SE
DO
ARMÁRIO,
ABRE
A
PORTA
E
OLHA
PARA
 DENTRO.
ABAIXA‐SE,
COM
A
MÃO
A
TAPAR
A
BOCA.)


MARILYN:



Que
é
que
lhe
fizeste?


CARMICHAEL:

 eu
não
lhe
fiz
nada.


MARILYN:



CARMICHAEL:

 ele
não
está
nada
inconsciente.


ele
está
inconsciente.


(CARMICHAEL
APROXIMA‐SE
E
OLHA
PARA
O
INTERIOR
DO
ARMÁRIO)


CARMICHAEL:

 Tens
razão,
está
inconsciente.
Deve
ter
desmaiado
quando
eu
disparei
a
 pistola.
 


(ELA
OLHA
PARA
CARMICHAEL
À
MEDIDA
QUE
ELE
VOLTA
PARA
O
PACOTE)


CARMICHAEL:

 Eu
disparei
a
pistola,
ao
lado
da
cabeça
dele.


MARILYN:



CARMICHAEL:

 Suponho
que
sim.


MARILYN:



CARMICHAEL:
 
Ouve
lá,
a
merda
do
namorado
é
teu,
tira‐o
tu
para
fora.


Isso
é
uma
coisa
horrível
de
se
fazer.


Podes
ajudar‐me
a
tirá‐lo
daqui,
por
favor!


(MARILYN
ARRASTA‐O
PARA
FORMA,
TROPEGAMENTE,
REVELANDO
TOBY,
UM
 NEGRO
COM
27
ANOS,
AMORDAÇADO,
UMPOUCO
DE
SANGUE
NA
CABEÇA.
MARILYN
TIRA‐ LHE
A
MORDAÇA,
DÁ‐LHE
UMAS
PANCADAS
NA
FACE
E
ELE
COMEÇA
A
ACORDAR
COM
 DORES)
 


MARILYN:



Toby,
consegues
ouvir‐me?


CARMICHAEL:

 Que
paneleiro!


MARILYN:



CARMICHAEL:
 
Tem
nome
de
paneleiro.


CARMICHAEL:

 Vês?
Tá
a
chorar.
Paneleiro.


Ele
não
é
um
paneleiro!
Toby?


(TOBY
DESPERTA,
ABSORVE
O
AMBIENTE,
E
COMEÇA
A
CHORAR)



TOBY:

 


Eu
não
sou
um
paneleiro.


CARMICHAEL:

 Estás
a
chorar,
não
estás?


TOBY:

 
 As
pessoas
normais
também
choram,
não
choram?
Quando
os
trancam
 dentro
de
um
armário
e
lhes
apontam
e
disparam
à
cabeça!


CARMICHAEL:

 Tu
acabaste
de
dizer
que
eu
te
disparei
à
cabeça?


TOBY:

 


CARMICHAEL:

 Como
é
que
disparar
ao
lado
da
tua
cabeça
é
a
mesma
coisa
que
disparar
à
 tua
cabeça?


TOBY:

 


CARMICHAEL:

 Essa
era
a
intenção,
ser
assustador,
não
era?
E
funcionou.
Porque
começaste
 a
chorar
como
uma
mariquinhas.


Ao
lado
da
cabeça,
é
a
mesma
coisa!


Foi
assustador
na
mesma!


MARILYN:

 Mas
porque
esta
homofobia
toda?!
Tens
a
tua
mão,
não
tens?
Vamos
bazar
 daqui
para
fora,
TOBY.
 


TOBY:

 


Ele
deu‐te
os
quinhentos
euros?


MARILYN:



TOBY,
esquece
isso
e
vamos
mas
é
bazar
daqui.


(CARMICHAEL
 ACABA
 DE
 ABRIR
 O
 PACOTE,
 APARECE
 UMA
 MÃO
 ENRRUGADA,
 ASPECTO
 CASTANHO‐AZULADO.
 CARMICHAEL
 OLHA
 PARA
 ELA
 UM
 MOMENTO,
ABANANDO
A
CABEÇA.)
 TOBY:

 
 Não.
 Nós
 tínhamos
 um
 acordo.
 Nós
 trazíamos
 a
 mão
 dele
 de
 volta
 e
 ele
dava‐nos
a
merda
dos
quinhentos
euros.
 CARMICHAEL:

 Não
 querem
 sequer
 ouvir
 a
 história
 de
 como
 eu
 perdi
 a
 minha
 mão,
 antes
de
eu
vos
pagar
os
quinhentos
euros?
 


MARILYN:



Eu
não
quero
ouvir,
tu
queres?


TOBY:

 


Eu
só
quero
o
dinheiro.


CARMICHAEL:

 Bem,
mas
vão
ouvir
na
mesma.


TOBY:

 


CARMICHAEL:
 Porque
há
27
anos
atrás,
quase
exactos,
um
rapaz
de
mais
ou
menos
 dezassete
anos,
vivia
numa
terra
chamada
Spokane,
Washington,
estava
a
jogar
todo
 contente
à
bola
à
porta
de
casa
da
mãe,
quando
seis
trogloditas
que
ele
não
conhecia
 chegaram,
apanharam‐no
e
levaram‐no
à
força
para
uma
montanha
ali
perto,
onde
existiam

 linhas
de
caminhos
de
ferro
a
atravessar
o
rio,
e
sem
razão
aparente,
sem
dizerem
um
só
 palavra
mesmo,
eles
puseram
a
mão
dele
na
linha
de
comboio…
o
rapaz
de
quem
falo,
sou
 eu...
e
eles
seguraram‐no,
ele
gritava
e
berrava
como
qualquer
rapaz
o
faria,
à
medida
que


Já
sabia.



se
o
comboio
de
carga
se
aproximava
por
entre
os
pinheiros
e
eles
obrigaram‐no
a
ver.
Lá
no
 fundo
restava‐lhe
ainda
a
esperança
de
que
aquilo
fosse
só
uma
brincadeira,
mas
não
era
e
 com
o
aproximar
rápido
e
ruidoso
do
comboio,
ele
viu
o
comboio
a
decepar‐lhe
a
mão
pelo
 pulso.
Enquanto
ele
se
contorcia
com
dores
e
o
comboio
se
afastava
em
direcção
a
Spokane,
 eles
apanharam
a
mão,
esses
cabrões
trogloditas,
e
levaram‐na
com
eles
e
quando
já
 estavam
mais
ou
menos
a
trezentos
metros
dele,
viraram‐se,
sorriram
e
sabem
o
que
eles
 fizeram?
Disseram
adeus
ao
rapaz
com
a
sua
própria
mão.
E
foi
essa
a
última
vez
que
ele
a
 viu.
Sabem
qual
é
a
sensação?
Veres
a
tua
própria
mão
a
dizer‐te
adeus?
Conseguem
 imaginar?
 


MARILYN:


CARMICHAEL:
 Não,
não
é
agradável,
tens
razão.
Nada
agradável.
Bem,
o
rapaz,
parou
 rapidamente
de
chorar,
ele
não
era
um
mariquinhas,
e
queimou
o
pulso
para
parar
de
 sangrar,
porque
tinha
visto
num
livro
de
banda
–
desenhada.
E
funcionou,
enquanto
estava
 ali
a
pensar
que
ia
morrer,
decidiu
que
se
não
morresse
iria
dedicar
o
resto
da
sua
vida
a
 fazer
duas
coisas;
recuperar
aquilo
que
era
seu,
e
vingar‐se
daqueles
cabrões
atrasados
 mentais
que
fizeram
esta
coisa
sem
sentido
a
um
miúdo.
Bem,
os
cabrões
que
fizeram
isto,
 já
foram
há
muito
tempo
e
embora
possam
encontrar
as
suas
caveiras,
não
vão
encontrar
as
 caras,
mas
a
mão,
como
já
podem
ter
imaginado,
eles
não
a
tinham
com
eles.
Antes
de
 morrerem,
eu
consegui
que
eles
me
dissessem
o
nome
do
homem
a
quem
eles
venderam
a
 mão.
Eu
fiz
uma
visita
a
esse
senhor,
e
das
seis
mãos
que
ele
tinha
na
sua
posse,
nenhuma
 era

a
minha,
mas
ele
deu‐me
o
nome
de
um
homem
na
costa
este
que
me
poderia
ajudar,
 que
por
sua
vez
me
deu
o
nome
de
um
outro
homem
na
costa
oeste.
Isto
aconteceu
durante
 vinte
e
sete
anos,
e
eis
o
ponto
que
quero
que
vocês
compreendam,
para
que
percebam
a
 magnitude
do
que
está
aqui
a
acontecer.
Passar
uma
vida
adulta
completa
à
procura
de
algo,
 a
lidar
com
escumalha
do
pior,
a
pressionar
traficantes
de
cadáveres,
por
entre
becos
 imundos
e
caves
obscuras
neste
pais
decadente,
à
procura
de
algo
que
ele
sabe,
que
mesmo
 que
encontre,
não
lhe
vai
servir
para
nada,
ele
não
a
vai
usar,
ele
não
a
vai
reimplantar,
 agarrar
coisas
com
ela,
ele
não
é
estúpido,
no
entanto
ele
continua
à
sua
procura,
porque
foi
 sua,
e
já
não
o
é.
E
depois
de
tanto
procurar,
de
tanto
percorrer,
estar
aqui
à
vossa
frente,
 depois
de
arriscar
uma
última
vez,
e
para
que
me
depare
com
aquilo
que
é
a
mão
de
um
 preto…
Tenho
de
admitir,
que
é
um
bocado
complicado
de
aceitar.
Que
me
tragam
a
mão
de
 um
preto,
quando
aquilo
que
eu
pedi
foi
apenas
a
minha
mão,..
Para
ser
sincero,
é
um
 bocado
desconcertante.


MARILYN:



CARMICHAEL:
 Que
me
tragam
a
mão
que
cortaram
de
um
gajo
qualquer
de
cor,
quando,
o
 única
coisa
que
eu
pedi,
foi
a
mão
que
me
cortaram,
como
se
fosse
suposto
eu
não
notar.
 Sinceramente,
MAS
O
QUE
É
QUE
É
SUPOSTO
EU
FAZER
COM
ESTA
MERDA,
CARALHO
?!!!
 MARILYN:
 tempo.


Não
deve
ser
agradável?!


Essa
ah,

essa
não
é…


Essa
não
é
a
mão
de
um
preto.
É
apenas
a
tua
mão
que
escureceu
com
o



CARMICHAEL:
Aquilo
que
vocês
fizeram…
talvez
eu
não
me
tenha
feito
entender.
Aquilo
que
 vocês
fizeram
foi
trazer‐me
a
mão
de
um
preto.
(PARA
TOBY)
TU,
melhor
do
que
ninguém
 devias
saber.
Trazer‐me
a
mão
de
alguém
da
tua
cor,
como
se
eu
não
fosse
reparar.
 MARILYN:
 Eu
sei
que
estás
chateado,
mas
acho
um
bocado
ofensivo
estares
sempre
a
 usar
a
palavra
“preto”.
 


CARMICHAEL:
 É
ofensivo
que
eu
esteja
sempre
a
usar
a
palavra
“preto”?


MARILYN:


CARMICHAEL:
 Eu
não
estaria
sempre
a
dizer
a
palavra
“preto”
se
vocês
não
me
tivessem
 trazido
a
mão
de
um
preto.


É,
não
é
Toby?


MARILYN:
 “A
mão
de
uma
pessoa
de
cor”.
E
nem
sequer
é
a
mão
de
uma
pessoa
de
 cor!
É
a
tua
mão,
que
escureceu!
Isso
acontece
quando
elas
estão
separadas
do
resto

do
 corpo
durante
muito
tempo.
Acho
eu.
 CARMICHAEL:
 Com
que
então,
és
especialista?
Queres
ver
como
fica
uma
cara
cheia
de
 buracos
de
bala?
 


(Carmichael
pega
sua
arma)


MARILYN:



TOBY:

 
 Oiça,
o
que
eu
acho
que
aconteceu
aqui,
o
Sr.
Carmichael,
é
que
a
mão
que
 tem
aí,
não
é
sua
mão.


CARMICHAEL:
 
Eu
sei
que
não
é
a
minha
mão!


TOBY:
 


CARMICHAEL:
 Já
percebemos
que
esta
mão
é
de
um
preto.


TOBY:
 
 Sim,
essa
é
a
mão
do
Tyrone
Dixon.
De
onde
é
que
a
tiraste,
querida?
Eu
 disse
que
era
para
trazer
a
mão
que
estava
em
cima
do
frigorífico,
não
disse?


MARILYN:


Huh?


TOBY:
 


De
onde
tiraste
essa
mão,
querida?


MARIYLYN:


Do
quarto.
Onde
ela
estava.


TOBY:
 
 oh
não,
eu
disse
que
era
a
mão
que
estava
em
cima
do
frigorifico,
a
mão
 antiga.
Essa
mão
é
do
idiota
do
Tyrone
Dixon.
Essa
é
recente.
Ele
está
certo.
(TO
 CARMICHAEL)
Você
está
certo.


Não
estávamos
a
falar
de
caras!


Essa
mão
é
a
mão
de
um
preto.


MARILYN:

 quarto


Em
cima
do
frigorifico?
Não
percebo…
Eu
trouxe
a
que
estava
no
nosso


TOBY:
 



Sim!
Já
percebemos!



CARMICHAEL:

 Tanga.
 TOBY:
 
 Está
tubo
bem,
querida.
Enganaste‐te
em
relação
à
mão
mas,
não
te
 preocupes
com
isso
porque…
 
 MARILYN:

 Eu
trouxe
a
única
mão
que
tínhamos.
 
 TOBY:

 
 O
que
vou
fazer
é
o
seguinte…
“trouxe
a
única
mão
que
tínhamos”.
O
que
 vou
fazer
é
o
seguinte,
vou
buscar
a
mão
certa,
de
cima
do
frigorifico,
se
tu
quiseres
a
 Marilyn
fica
aqui,
até
eu
voltar
com
a
mão
certa,
como
prometido.
 
 MARILYN:

 Que
é
que
acabaste
de
dizer?
 
 TOBY:
 
 Aquilo
que
realmente
aconteceu,
simplesmente
tu
trouxeste
a
mão
errada,
é
 fácil
de
resolver.
 
 MARILYN:

 Tu
não
vais
a
lado
nenhum!
 
 TOBY:
 
 Quem
é
que
se
enganou,
querida?
Em
relação
à
mão
que
se
tinha
de
trazer?
 
 MARILYN:
 
(PARA
CARMICHAEL)
Nós
nem
temos
um
frigorifico.
 
 TOBY:
 
 
“Nós
nem
temos
um
frigorifico”.
Nos
temos
eh…
uma
arca
congeladora,
não
 temos?
 MARILYN:

 Huh?
 TOBY:
 
 Nós
temos
uma
arca
congeladora,
não
temos?
 
 MARILYN:
 Mas
a
arca
está
na
garagem.
 
 TOBY:

 
 Sim,
está
lá
for
a
na
garagem.
É
na
garagem
que
eu
guardo
as
mãos
em
 excesso.
 
 MARILYN:

 Mas
a
arca
está
avariada.
 
 TOBY:

 
 Eu
sei
que
a
arca
está
avariada.
 
 MARILYN:
 Então,
tu
guardas
um
monte
de
mãos

em
excesso
numa
arca
congeladora
 que
está
avariada?
 
 TOBY:
 
 Eu
disse
EM
CIMA
da
arca
congeladora,
não
disse?!
Eu
disse
EM
CIMA
da
 arca
congeladora.
É
completamente
IRRELEVANTE,
que
a
merda
da
arca
congeladora
esteja

 fodida,
se
vais
guardar
as
mãos
em
excesso
EM
CIMA
da
merda
da
arca
congeladora,não
é?!
 Sua
IDIOTA
DE
MERDA!
Estás

deliberadamente
a
tentar
que
nos
matem?!
É
isso?!
 
 MARILYN:



Eu
não
estou
deliberadamente
a
tentar
nada.



 TOBY:

 
 Pois
eu
estou,
estou
deliberadamente
a
tentar
salvar
as
nossas
vidas!
 Percebes
isso,
cérebro
de
galinha?!
 
 CARMICHAEL:

 Essa
mão,
que
está
na
garagem,
em
cima
da
arca
avariada…
tem
alguma
 marca
característica
que
a
distinga?



TOBY:

 
 (PAUSE)
Hanh?
 
 (
CARMICHAEL
PÕES
A
SUA
MÃO
DIREITA
ATRÁS
DAS
COSTAS
)
 
 CARMICHAEL:

 Se
tem
alguma
marca
característica?
 
 TOBY:

 
 Se
tem
alguma
marca
característica…?
 
 CARMICHAEL:

 Sim.
Se
tem
alguma
marca
que
a
distinga
das
outras
mãos
cortadas
que
tens.
 Mãos
de
pretos,
mãos
de
arménios,

que
possas
ter.
 
 TOBY:
 

 Sim,
tem
um
a
marca
característica.
Tem
uma
palavra
tatuada.
 
 CARMICHAEL:

 (UM
GOLPE)
Que
palavra
tem
tatuada?
 

 TOBY:
 
 
Eh…
Tem
a
palavra…
bem,
tem
a
palavra…
eh,
é
uma
palavra
de
quatro
 letras…
a
palavra
que
está
tatuada
na
mão
é…
é
a
palavra…
‘ÓDIO’.
 
 (
CARMICHAEL
FLEXIONA
A
SUA
MÃO
DIREITA
DE
FORMA
IMPERCEPTIVEL)
 
 TOBY:

 
 Exacto,
tem
a
palavra
‘ÓDIO’
tatuada
nas
nozes
dos
dedos.
 Já
está
um
bocado
desbotada,
mas
está
lá.
Eu
vou
buscá‐la.
Demoro
vinte
minutos.
 
 MARILYN:

 Tu
não
vais
a
lado
nenhum.
 
 TOBY:
 
 
“Eu
não
vou
a
lado
nenhum”.
Fui
eu
que
trouxe
a
mão
de
um
preto
para
a
 festa
de
um
homem
branco?
 
 MARILYN:

 (PAUSA)
Para
onde?
 
 CARMICHAEL:

 Não
comeces
a
dizer
estupidezes
agora,
Toby.
Tenho
de
pensar
um
minuto.
 (
CARMICHAEL
DIRIGE‐SE
ATÉ
À
JANELA,
PENSATIVO.
MARILYN
AND
TOBY
SUSSURAM
ALTO
 E
RÁPIDAMENTE
)
 


MARILYN:

 Tu
nem
penses
que
me
vais
deixar
aqui!
 
 TOBY:


 Não
eu
não
estou
a
pensar
em
deixar‐te
aqui.
Tu
vais
ficar
aqui
e
a
 única
coisa
que
tens
de
fazer,
é
ficar
quietinha...
está
bem?!
 
 MARILYN:

 Mas
que
raio
de
homem
és
tu?!
 
 TOBY:


 É
a
única
coisa
que
tens
que
fazer…
 
 MARILYN:
 
Vais
deixar‐me
aqui
com
este
louco!
 
 TOBY:
 
 Sossegadinha,
ok?!
Só
tens
de
ficar
sossegadinha...

 



MARILYN:

 existe?


Enquanto
tu
desapareces
à
procura
de
uma
mão
que
nem
sequer


TOBY:


 (ALTO)
Tu
não
fazes
a
minima
ideia
da
outra
mão
que
eu
tenho,
 querida
e
(BAIXO)
é
por
isso
que
é
melhor
que
estejas
sossegadinha
agora,
enquanto
 ele
pensa…
 MARILYN:

 Foda‐se,
agora
tens
mãos
secretas
por
todos
os
lados,
é
isso?
 
 TOBY:


 Blablabla,
nem
nesta
situação,
consegues
fechar
a
matraca
por
dois
 segundos,
parece
impossível.
Ou
não!
O
pior
é
que
é
mesmo
possível.
 MARILYN:



E
quem
é
que
nos
pôs
nesta
situação
de
merda
para
começar?


TOBY:


 
 MARILYN:



Não
é
mesmo
o
momento
para
esta
discussão…
 Traficantes
de
mãos
agora?!


TOBY:


 Deves
estar
naqueles
dias
do
mês
para
teres
este
desejo
de
morte…
 
 MARILYN:

 NÓS
TRAFICAMOS
ERVA!
 
 TOBY:


 Continua
a
contar‐lhe
mais
coisas
sobre
nós,
Marilyn!
Conta‐lhe
mais
 detalhes,
pode
ser
que
ele
assim
informe
os
jornais
assim
que
nos
tenha
CORTADO
A
 MERDA
DAS
CABEÇAS!
 MARILYN:
 
E
porque
é
que
tu
nem
tens
coragem
para
te
defenderes,
ele
continua
a
 chamar‐te
“preto”
a
torto
e
a
direito.



 TOBY:

 
 
 MARILYN:



(PAUSA)
Acho
que
vou
começar
a
chorar.
Vou
mesmo
começar
a
chorar…


TOBY:
 
 
 MARILYN:

 
 TOBY:

 
 momento…


Pela
segunda
vez
hoje,
este
preto
vai
mesmo
chorar
sem
parar…


MARILYN:



Quê,
estás
a
chorar
outra
vez?


TOBY:

 


É
a
única
coisa
que
tens
de
fazer…


MARILYN:



Por
amor
de
deus,
Toby…


TOBY:
 
 
 MARILYN:



Marilyn,
eu
só
quero
sair
daqui
com
vida…


E
tu
ainda
alinhaste
nisso!
Eu
não
acredito!



 Sem
falar
na
homofobia!
 (COMEÇA
A
CHORAR)
Está
calada,
é
tudo

que
tens
de
fazer
neste



 
 
 


E
achas
que
eu
não
quero
sair
daqui
com
vida?!



TOBY:

 
 Não…
 
 MARILYN:

 És
sempre
tu,
tu,
tu,
não
é?
Para
essa
choradeira!
(ELE
A
CHORAR)
Onde
está
 a
coragem
dos
panteras
negras
agora,
bebé‐chorão?
Onde
está
a
atitude
de
“lutar
contra
os
 poderes
instalados”
agora,
huh?
(ELE
A
CHORAR)
Para
de
chorar!
(ELE
A
CHORAR)

Para
de
 chorar
agora!
(ELE
A
CHORAR)
Vá
lá,
Toby…
 
 (
TOBY
FINALMENTE
CONSEGUE
PARAR
DE
CHORAR
)
 
 MARILYN:
 Meu
Deus!
Será
que
sou
a
única
pessoa
adulta
por
aqui?
 
 (
CARMICHAEL
VAI
ATÉ
AO
SEU
SACO,
TIRA
DOIS
CONJUNTOS
DE
ALGEMAS,
OLHA
À
SUA
 VOLTA
,
VAI
ATÉ
AO
AQUECEDOR
QUE
ESTÁ
NA
PAREDE
,
PRENDE‐LHE
UM
DOS
CONJUNTOS
 DE
ALGEMAS,
DEPOIS
GESTICULA
PARA
QUE
MARILYN
SE
APROXIME.
ELA
OLHA
PARA
O
 TOBY
COMO
QUE
A
PEDIR
AJUDA.
ELE
NÃO
SABE
QUE
FAZER,
APENAS
LIMPAS
AS
LÁGRIMAS

 DOS
OLHOS.
ELA
SUSPIRA,
APROXIMA‐SE
E
ALGEMA‐SE
AO
AQUECEDOR)
 
 CARMICHAEL:
 Senta‐te.
 
 (
ELAS
SENTA‐SE.
ELE
ALGEMA
O
SEGUNDO
CONJUNTO
AO
AQUECEDOR,
E
GESTICULA
AO
 TOBY
PARA
QUE
SE
CHEGUE
TAMBÉM)
 
 TOBY:

 
 Mas
,
eu
tenho
de
ir
buscar
a
tua
mão,
a
tua
mão
do
ódio.
De
cima
do
fri…
 er…
da
arca…
 
 (
CARMICHAEL
FAZ
O
GESTO
OUTRA
VEZ.
TOBY
VAI,
E
ALGEMA‐SE
AO
AQUECEDOR
)
 
 CARMICHAEL:

 Qual

é
a
tua
morada?
 
 TOBY:

 


O
quê?



 CARMICHAEL:

 Qual
é
a
tua
morada?
 
 TOBY:

 
 Pá,
nem
penses
que
te
vou
dizer
a
minha
morada.
Não,
não
vou
dizer
a
 minha
morada.
 
 CARMICHAEL:
(PARA
MARILYN)
Qual
é
a
morada
dele?
 
 MARILYN:

 1280
Sycamore.
 
 (
TOBY
OLHA
PARA
ELA
)
 
 CARMICHAEL:

 1280
Sycamore.
E
está
na
garagem
em
cima
da
arca
congeladora,
certo?
 (PAUSA)
E
está
na
garagem
em
cima
da…
 
 TOBY:

 
 Sim,
está
na
garagem
em
cima
da
merda
da
arca
congeladora.
 
 CARMICHAEL:
 E
tu
sabes
o
que
vai
acontecer
se
não
estiver,
não
sabes?
 
 TOBY:

 
 Uma
cena
muita
má,
acho
eu.



CARMICHAEL:

 E
sabes
o
que
vai
acontecer,
se
por
acaso
estiver
lá
um
gangue
de
 amiguinhos
teus,
à
minha
espera?
 
 TOBY:
 
 Hum…
Tu
morres
e
nós
escapamos
e
fica
tudo
ok?
 
 CARMICHAEL:

 Engraçadinho.
Não,
não…
Eu
posso
morrer,
mas,
não…
 
 (CARMICHAEL
VOLTA
AO
SACO,
TIRA
UMA
LATA
DE
GASOLINA,
DESAPERTA
ATAMPA
E
 COLOCA‐A

NO
CANTO
DO
QUARTO
OPOSTO
A
ELES.
TIRA
UM
TRAPO,
ENFIA‐O
NA
BOCA,
E
 TIRA
UM
ALONGA
E
FINA
VELA.)
 


CARMICHAEL:

Hey
branquela?
Quanto
tempo
é
daqui
até
1280
Sycamore?
 
 MARILYN:

 Um,
mais
ou
menos
10
minutos?
 
 (ELE
FAZ
UM
CÁLCULO
MENTAL,
PARTE
A
VELA
EM
DOIS
E
PÕE‐NA
EM
CIMA
DO
 TRAPO
QUE
ESÁ
EM
CIMA
DA
LATA
DE
GASOLINA.
FINALMENTE
SACA
DO
ISQUEIRO
 E
ACENDE
A
VELA)
 
 CARMICHAEL:

Isto
vai
demorar
quarenta
e
cinco
a
arder
até
à
gasolina,
se
eu
não
 tiver
voltado
o
quarto
explode,
sabes?
Que
mais?
Carteira,
sim,
chaves,
sim,
arma,
 sim…
 
 (ELE
OLHA
PARA
A
PROXIMIDADE
DELES
COM
A
VELA
E
TIRA
TUDO
QUE
ESTEJA
AO
 ALCANCE
DELES
QUE
POSSA
SER
USADO
PARA
ATIRAR)
 
 CARMICHAEL:

Já
nos
vemos.
 
 (CARMICHAEL
SALTA
PELA
JANELA
FECHA‐LA
E
DESAPARECE
NA
NOITE.
TOBY
AND
 MARILYN
OLHAM
UM
PARA
O
OUTRO,
VERIFICAM
PARA
TER
CERTEZA
QUE
ELE
SE
 FOI
EMBORA,
E
DEPOIS
VEEM
SE
CONSEGUEM
LIBERTAR‐SE
DO
AQUECEDOR.
NÃO
 CONSEGUEM,
ENTÃO
AMBOS
TENTARAGARRAR
ALGUMA
COISA
PARA
ATIRAR
À
 VELA
–
O
TAPETE,
LENÇOIS,
ETC,
MAS
NADA
ESTAVAAO
ALCANCE.
TOBY
TEM
UM
A
 IDEIA,
TIRA
AS
SAPATILHAS,
E
ATIRA
UMA
À
DISTANTE
VELA.
FALHA
POR
POUCO.
ELE
 APONTA
AINDA
COM
MAIS
CUIDADO
UMA
SEGUNDA
VEZ
MAS
FALHA
OUTRA
VEZ.
 MARILYN
FAZ
PONTARIA
COM
A
PRIMEIRA
DAS
SAPATILHAS
DELA,
E
ATIRA,
FALHA
 DE
TAL
MANEIRA
QUE
A
SAPATILHA
QUASE
QUE
ATERRA
NA
AUDÊNCIA.
TOBY
OLHA
 PARA
A
SAPATILHA
DE
BOCA
ABERTA,
E
ENQUANTO
ELA
TIRA
A
SEGUNDA
 SAPATILHA
E
FAZ
PONTARIA
OUTRA
VEZ.
TOBY
AGARRA‐LHE
O
BRAÇO
E
LUTA
COM
 ELA
PARA
TIRAR‐LHE
A
SAPATILHA…)
 TOBY:
 


Dá‐me
isso…!


MARILYN:

 TOBY:




Deixa…
merda….
 Atiras
como
uma…
uma
porra
de
uma
atrasada
mental…



 



(NO
CALOR
DA
LUTA
ACIDENTAL
A
SAPATILHA
ESCAPA‐LHES
DA
MÃO
E
ATERRA
NO
MEIO
 DA
SALA,
FORA
DO
ALCANCE)
 TOBY:

 


Vê
aquilo
que
fizeste!


MARILYN:

 Aquilo
que
eu
fiz?!
 
 TOBY:
 
 Agarra
a
mala!
Consegues
agarrar
a
mala?
 
 (A
MALA
DO
CARMICHAEL
ESTA
NO
LADO
DO
QUARTO
DA
MARILYN,
POSSIVELMENTE
AO
 ALCANCE.
MARILYN
DEITA‐SE
E
TENTA
ESTICAR
AS
PERNAS
ATÉ
ELA
QUASE,
QUASE
ATÉ
 CONSEGUIR
TOCAR‐LHE…)
 
 TOBY:

 
 Estica‐te
mais!
 
 MARILYN:

 Eu
estou
a
esticar‐me,
por
amor
de
deus!
 
 (ELA
TENTA
OUTRA
VEZ
DE
LADO
O
COMPLETAMENTE
–
E
COMPLETAMENTE
ESTICADA
OS
 CONSEGUE
COM
A
PONTA
DOS
PES
TOCAR
A
MALA
A
TENTAR
AGARRAR…)
 
 TOBY:

 
 


“Nós
nem
temos
um
frigorífico”.


MARILYN:

 Desculpa!
Eu
estou
aqui
a
tentar
fazer
qualquer
coisa!
 
 (PAUSA.
ELA
TENTA
OUTRA
VEZ)
 
 TOBY:

 
 (PAUSA)
“Nós
traficamos
erva”.
 (MARILYN
LEVANTA‐SE
FURIOSAMENTE)
 
 MARILYN:

 Mas,
nós
traficamos
erva!
Nós
traficamos
erva!
Nós
não
traficamos
mãos!
 Nós
não
sabemos
nada
sobre
traficar
mãos!



 TOBY:

 
 Não
tinhas
nada
que
dizer
isso
àquele
filho
da
puta!
No
meio
de
um
negocio!
 
 MARILYN:

 E
tu,
ias
deixar‐me
aqui
com
aquele
cabrão
maneta?!
 
 TOBY:
 
 Eu
ia
o
que?
Será
que
tu
és
idiota?
Era
a
única
saída
possível
que
tínhamos,
o
 gajo
apontou‐nos
uma
arma,
aos
gritos
porque
entregámos
a
mão
de
um
preto…

 
 MARILYN:
 Que
tu
nem
sequer
lhe
chamaste
a
atenção…
 
 TOBY:

 
 Eu
nem
sequer…?
Sim,
eu
tenho
alguns
problemas
em
chamar
racista,
a
um
 nazi
de
merda
que
me
esta
a
apontar
uma
pistola
a
mim
e
a
minha
namorada,
e
que
esta
a
 abanar
uma
mão
de
um
preto
com
se
fosse
um
pedaço
de
frango
pelo
ar,
sim
tenho
algum
 receio
de
meter‐me
com
esse
gajo
por
utilizar
EXPRESSOES
RACISTAS!
De
facto
tenho
 problemas
com
isso!
Tenho
algum
medo!
 
 MARILYN:

 


Ah
é?!



TOBY:

 
 Naquele
momento,
a
nossa
única
salvação
era
eu
sair
deste
quarto,
 conseguir
uma
arma
de
alguém,
voltar,
dar‐lhe
meia
dúzia
de
tiros!
O
gajo
não
e
nenhum
 tarado
sexual!
E
só
um
maneta
racista
LOUCO!
Tu
não
estavas
em
nenhum
perigo
iminente!
 Eu
sim,
estava
em
perigo!
Agora
estamos
os
dois
em
perigo!
 
 MARILYN:

 Eu
podia
ter
ido
buscar
a
arma,
e
voltar
aos
tiros.
 
 TOBY:

 
 Querida
mas
tu
nem
sequer
consegues
acertar
numa
lata
de
gasolina
a
 quatro
metros
com
um
sapato!
Será
que
agora
podemos
tentar
apagar
a
merda
desta
vela?
 Por
favor?
 
 (ELA
QUER
REFUTAR
COM
ALGO
MAS
NÃO
CONSEGUE,
ENTAO
ELA
VOLTA
ADEITAR‐SE
E
 VOLTA
A
TENTAR
COM
A
MALA.
FINALMENTE
COMECA
A
MEXER‐SE
NA
SUA
DIRECCAO…)
 
 TOBY:

 
 Estas
a
conseguir,
querida…
 
 MARILYN:

 Nós
nunca
vamos
ser
capazes
de
atirar
esta
mala,
Toby,
é
demasiado
 pesada…
 
 TOBY:

 
 Pois,
era
por
isso
que
estava
a
pensar
que
a
podíamos
abrir
e
atirar
o
que
 estivesse
ai
dentro,
sabes?
 
 MARILYN:



(ELA
PARA)
Se
continuas
com
o
sarcasmo,
Toby,
a
sério
que…


TOBY:

 


Agarra
só
a
merda
da
mala,
querida,
antes
que
acabemos
esturricados
aqui.



 MARILYN:

 (ELA
TENTA
OUTRA
VEZ)
“Dias
difíceis
do
mês“
tens
sorte
que
eu
não
dar
 cabo
de
ti,
seu
mariquinhas
chorão…
 
 TOBY:

 
 A
mala,
linda,
concentra‐te…
 MARILYN:

 E
porque
e
que
não
me
falaste
da
merda
da
outra
mão?
 
 TOBY:

 
 Que
merda
de
outra
mão?
 
 MARILYN:

 A
mão
em
cima
da
arca
congeladora.
 
 TOBY:

 


(PAUSA)
Mas
tu
estas
a
gozar
comigo?


MARILYN:



A
mão
com
a
tatuagem.



 
 TOBY:

 
 Não
há
nenhuma
mão
tatuada.
Não
há
mais
merda
de
mão
nenhuma.
 
 MARILYN:

 Ah,
então
agora
já
não
merda
de
mão
nenhuma.
 
 TOBY:

 
 A
mala,
Marilyn,
por
favor…
 
 MARILYN:

 Eu
não
volto
a
tocar
na
mala
enquanto
não
me
explicares
a
história
da
 porcaria
da
mão
tatuada,
ou
de
qualquer
outra
porcaria
de
mão.
 
 (MARILYN
SENTA‐SE.
TOBY
SUSPIRA)
 



TOBY:

 
 A
outra
mão
do
gajo
tinha
uma
série
de
pensos
a
tapar
alguma
coisa
nos
 dedos,
certo?
Eu
pensei
que
fossem
tatuagens.
Não
foi
difícil,
idiotas
racistas
como
aquele
 fazem
tatuagens,
e
não
e
preciso
ser
um
génio
para
adivinhar
aquilo
que
um
gajo
daqueles
 vai
tatuar
nas
mãos,
ele
vai
tatuar
“AMOR”
e
“ODIO”,
ok?
Porque
gajos
daqueles
não
fazem,
 tatuagens
artísticas.
Agora,
queres
perceber
como
eu
sabia
que
aquilo
que
estava
tatuado
 na
mão
que
lhe
falta
era
“ODIO”
e
não
“AMOR”…
Não
é?
 
 MARILYN:

 Sim,
como
soubeste?
 
 TOBY:

 
 Pura
e
simplesmente,
adivinhei,
agora
será
que
podemos
agarrar
a
porcaria
 da
mala?
Se
faz
favor?
 
 MARILYN:

 Então,
deixa
lá
ver
se
eu
percebi.
Ele
foi
até
nossa
casa
buscar
a
outra
mão…
 e
não
há
outra
mão.
Ele
vai
ficar
ainda
mais
chateado,
não
vai?
 
 TOBY:

 
 Agora
que
já
sabes
tudo,
podemos
tentar
agarrar
a
mala?
 
 (MARILYN
DEITA‐SE
E
TENTA
OUTRA
VEZ,
CONSEGUE
LENTAMENTE
PUXAR
A
MALA
NA
 DIRECCAO
DELES.
ASSIM
QUE
ESTA
AO
SEU
ALCANCE
O
TOBY
ESTICA‐SE
E
AGARRA‐A,
COM
 ESFORCO,
ENQUANTO
ELA
SE
LEVANTA…)
 
 TOBY:

 
 (EM
ESFORCO)
Foda‐se,
que
está
aqui
dentro?!
 
 MARILYN:
 
Eu
disse‐te,
não
disse?
Porra,
que
cheiro
pivete
nojento
é
este?
 
 TOBY:

 
 (A
TENTAR
ABRIR
A
MALA)
Que
merda
é
que
ele
tem
aqui
dentro…?
 
 (A
MALA
ABRE
DE
ROMPANTE
E
ESPALHA
PELO
CHAO
COMO
UMACENTENA
DE
MAOS
 HUMANAS
E
A
SUA
GOSMA
FEDORENTA;
ALGUMAS
VELHAS
E
ENCARQUILHADAS,
OUTRAS
 RECENTES
E
AZULADAS,
ALGUMAS
ENSANGUENTADAS,
ALGUMAS
QUASE
SO
OSSO,
OUTRAS
 COM
O
PULSO
OU
PARTE
DO
BRACO
AINDA
AGARRADO,
OUTRAS
SO
DEDOS
PRESOS
POR
 UM
BOCADO
DE
PELE,
E
ALGUMAS
APENAS
PEQUENAS
E
TRISTES
MASO
DE
CRIANCA
)
 
 MARILYN:

 Oh
oh
oh
oh
oh
oh
ohh!



 TOBY:
 


Foda‐se!
Que
nojo
uma
mala
cheia
de
mãos,
que
merda
é
esta?!



 MARILYN:

 Tambem
há
mãos
de
criança,
Toby!
Não
são
só
mãos
encarquilhadas!
 Também
há
mãos
de
criança!
 
 TOBY:

 
 Ai
ai
ai
ai
ai,
quem
é
que
anda
com
um
a
mala
cheia
de
mãos?
Se
não
for
 totalmente
doente?
 
 MARILYN:

 Agora
que
é
que
fazemos?!
 
 
 
 
 
 
 



(DE
REPENTE
O
TELEFONE
COMECA
A
TOCAR.
ELES
OLHAM
UM
PARA
O
OUTRO,
ENTAO
 TOBY
LENTAMENTE
ESTICA‐SE,
AGARRA
O
FIO
CO
TELEFONE
E
ARRASTA‐O
ATE
ELE.
 CAI
AO
LADO
DA
CAMA,
SOLTANDO‐SE
O
AUSCULTADOR,
PARANDO
DE
TOCAR.
ELE
 ARRASTA
O
TELEFONE
PARA
MAIS
PERTO,
E
AGARRA
O
AUSCULTADOR)
 
 TOBY:

 


Um,
estou
sim?



 (ELE
OUVE
A
VOZ
DO
OUTRO
LADO
DURANTE
UNS
DEZ
SEGUNDOS,
ABANADO
A
CABECA)
 
 TOBY:

 
 Um,
ok,
pode
só
aguardar
um
momento,
por
favor?
Só
um
momento.
 Obrigado…
 
 (PAUSA.
ELE
ENCOSTA
O
AUSCULTADOR
AO
PEITO,
E
VIRA‐SE
PARA
MARILYN)
 
 TOBY:

 
 Um…
ok.
Um,
é
a
mãe
dele.
(PAUSA)
Ela
está
histérica
a
chorar.
(PAUSA)
Que
 é
que
eu
lhe
digo?
 
 (ELES
OLHAM
PARA
AS
MAOS
POR
TODO
O
LADO.
FECHAR
DO
PANO)
 



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



SEGUNDA
CENA



 (UMA
IMAGEM
EM
GRANDE
PLANO
DE
UMA
VELA
A
ARDER
EM
DIRECCAO
A
UMA
LATA
DE
 GASOLINA.
MERVY
EM
PE
A
NARRAR
AO
LADO
DA
IMAGEM)
 
 MERVYN:
 Às
vezes
acho
que
gostava
de
ter
um
macaco,
e
vocês
não?
Eu
gostava!
 Um
chimpanzé
não,
preferia
assim
mais
um
gibão;
ou
talvez
outro
tipo
de
macaco.
 Que
faziam
vocês,
iriam
deixavam‐no
trepar
por
todo
lado?
Ok.
Se
calhar
compravam‐lhe
um
 camião
cheio
de
bananas?
Será
que
os
gajos
realmente
comem
muitas
bananas,
ou
será
que
 é
só
um
mito,
aposto
que
os
gajos
se
estão
a
cagar
pa
bananas
Com
os
media
hoje
nunca
se
 sabe.
 Tenho
de
admitir
que
já
não
vou
muito
ao
jardim
zoologico,
antigamente
quando
era
puto
 costumava
lá
ir
quando
não
tinha
nada
para
fazer,
mas
comecei
a
acha‐los
um
bocado
 depressivos,
tão
a
ver?!
Comecei
a
ir
bêbado,
mas
isso
também
não
era
bacano,
eu
ia
 bêbado
com
pensamentos
de
salvamento,
mas
nunca
salvei
merda
nenhuma,
era
só
o
álcool
 a
falar.
A
única
coisa
que
tinha
coragem,
era
por
vezes,
se
estivesse
um
pequeno
gibão,
 meter
o
meu
dedo
através
das
grades
e
deixa‐lo
puxar
e
brincar
com
o
meu
dedo.
Nem
tinha
 receio
pelo
meu
dedo,
até
parecia
que
o
gibão
sabia
que
eu
estava
com
uma
granda
bezana
 nos
cornos
e
perguntava‐se
a
ele
mesmo
porque
eu
estava
ali.
 Depois
punha‐me
a
falar
para
o
gibão,
“Meu,
olha
para
o
que
te
fizeram,
enfiaram‐te
numa
 jaula
onde
não
queres
estar,
onde
tens
que
brincar
com
o
meu
dedo,
quando
o
que
tu
 querias,
era
estar
em
casa,
numa
floresta
tropical,
a
brincar
com
o
que
quisesses.”
 Provavelmente
uma
banana
caída
de
uma
árvore
ou
a
cauda
de
outro
gibão.
E
então
eu
 pensava
“será
que
todos
os
macacos
em
todos
os
zoos
no
mundo
estarão
a
dormir
hoje
a
 pensar
“Eu
não
quero
estar
nesta
jaula,
a
brincar
com
os
dedos
de
um
bêbado,
quero
estar
 em
casa,
em
África,
numa
floresta
tropical,
a
baloiçar
de
ramo
em
ramo,
a
comer
uma
 banana,
ou
outra
coisa
qualquer.”
E
depois
pensava,
“
Oh
não,
provavelmente
eles
sonham
 todas
as
noites
“estou
de
volta,
de
volta
à
floresta,
estou
a
comer
uma
banana”,
e
de
 repente
pum!
Acordam
todos
os
dias
no
meio
do
jardim
zoológico
e
ainda
têm
de
levar
com
 um
bêbado.”
Foi
nessa
altura
que
deixei
de
ir
tanto
aos
zoos
e
comecei
a
tomar
speeds
 muitos
speeds.
E
foi
por
causa
de
ser
preso
com
speeds
que
tive
de
vir
trabalhar
nesta
 merda
deste
hotel,
como
parte
da
minha
liberdade
condicional
me
trouxe
a
este
momento.
 Eu
não
queria
trabalhar
num
hotel,
meus.
Quem
é
que
curte
trabalhar
num
hotel?
Só
se
for
 um
tarado
amante
de
hotéis?
E
é
por
isto
que
eu
estou
sempre
na
esperança
de
que
algo
 excitante
aconteça,
tão
a
ver?!
Tipo
uma
prostituta
seja
esfaqueada
e
eu
tenha
de
a
ir
 salvar?
Ou
umas
lésbicas?
Eu
não
me
importava
que
fossem
lésbicas,
eu
salvava‐as.
Nós
 temos
que
cuidar
das
pessoas,
tão
a
ver,
mesmo
que
sejam
diferentes
de
nós.
Talvez
 ganhasse
uma
medalha
de
alguma
associação
de
lésbicas.
Uma
medalha
de
protecção
de
 lésbicas.
Será
que
existem?
Deviam
existir.
(PAUSA)
Pois,
eu
sempre
tive
a
esperança
de
que
 no
meu
liceu
houvesse
um
daqueles
massacres
estudantis,
e
vocês?
Mas
no
meu
liceu
nunca
 acontecia
um
caralho,
só
havia
aulas.
Então
eu
passava
os
meus
dias
a
sonhar
acordado,
 imaginava
que
entravam
uns
miúdos
mentalmente
perturbados,
e
começavam
aos
tiros
a
 toda
a
gente,
só
porque
se
sentiam
mal
com
a
vida,
ou
porque
não
eram
bons
no
desporto
 ou
outra
coisa
qualquer
que
os
deixa‐se
tristes.
Eles
entravam,
vestidos
de
camuflado,
só
 para
serem
diferentes,
e
de
repente
eu
faziam
algo
corajoso
e
salvava
toda
a
gente.
Bem,
 toda
a
gente
não,
porque
então
não
seria
um
massacre,
mas
depois
de
eles
conseguirem
 matar,
eh
vá,
doze?
E
então
eu
aguentava
uma
porta
com
a
minha
perna
partida,
enquanto
 as
balas
a
atravessavam
e
eu
ficava
ali
deitado
quase
a
sangrar
até
à
morte.
Eu
nem
me
 importava
de
morrer,
desde
que
fizesse
algo
de
corajoso.
Mas
não
gostava
de
ser
um



daqueles
que
leva
um
tiro
na
cabeça
sem
fazer
a
mínima
ideia
do
que
se
passa.
Isso
era
uma
 ridículo.
Estar
so
sentado
a
fazer
um
trabalho
e
de
repente
pum.
Seria
o
desperdício
do
 massacre.
No
entanto
eu
aposto
que
a
maioria
dos
putos
que
sobreviveram,
mesmo
aqueles
 que
fizeram
alguma
coisa
corajosa,
se
lhes
perguntasse‐mos
o
que
teriam
preferido,
eles
 diriam
que
era
preferível
que
o
dia
tivesse
corrido
normalmente
e
que
tivessem
ido
para
 casa
aborrecidos
e
ninguém
tivesse
entrado
nas
salas
de
aulas,
ou
na
cantina
ou
alguma
 coisa
assim,
aos
tiros.
(PAUSA)
Quando
eu
era
puto,
a
nós
nem
nos
deixavam
entrar
na
 cantina
de
manhã,
e
a
vocês?
Nós
não,
a
cantina
era
só
para
o
almoço.
Hoje
em
dia
não
 percebo
o
que
é
que
fazem
na
cantina
às
nove
da
manhã.
(PAUSA)
Talvez
estivessem
a
 tomar
o
pequeno‐almoço?
(PAUSA)
Torna‐se
ainda
mais
triste.
(PAUSA)
Mas
como
é
que
eu
 cheguei
a
isto
de
um
massacre
no
meu
liceu?
Ah
sim,
o
maneta.
Sim,
acho
que
devia
ser
 mais
ou
menos
meia‐noite
quando
o
vi
a
saltar
pela
saída
de
emergência
e
a
correr
em
 direcção
da
noite
com
uma
pistola
na
mão.
Eu
sabia
que
ele
tinha
uma
pistola.
Eu
sabia
que
 não
era
o
escape
de
nenhum
carro.
Mentiroso.
Isso
significa
que
a
miúda
gira
ainda
está
lá
 em
cima,
a
esta
altura
possivelmente
viva
ou
morta.
Tenho
esperança
que
mais
moribunda
 que
morta,
porque
assim
talvez
eu
pudesse
limpar
o
sangue
com
a
minha
camisa
ou
algo
 assim
e
nos
puséssemos
a
conversar.
É
claro
que
se
fosse
uma
escolha
entre
ela
estar
a
 morrer
e
estar
amarrada,
eu
escolhia
que
ela
estivesse
só
amarrada,
percebem?
Não
sou
 doente.
Quanto
ao
amiguinho
dela
tou‐me
bem
a
cagar
pa
onde
ele
possa
estar.
Mas
 lembro‐me
de
onde
é
que
o
conheço.
É
o
palhaço
que
me
enganou
no
negócio
de
speed,
no
 inverno
de
há
dois
anos.
Eu
dei‐lhe
sessenta
euros
e
ele
disse‐me
para
esperar
que
já
 voltava,
mas
fugiu
e
não
voltou.
Simplesmente
não
voltou.
Fiquei
ao
frio
mais
de
uma
hora
à
 espera,
e
quem
apareceu
foi
a
bófia.
Provavelmente
eu
não
devia
ter
sido
mal
educado,
a
 culpa
não
era
deles,
mas
sabem
eu
estava
fodido.
Aquele
filho
da
puta,
provavelmente
 estava
ao
virar
da
esquina
a
espreitar
e
a
rir‐se.
O
que
me
ficou
entaladofoi
ele
nem
sequer
 me
reconhecer
na
recepção,
olhou
para
mim
como
se
nada
fosse.
Talvez
tenha
sido
pelos
 boxers,
não
sei
mas,
ficou‐me
mesmo
entalado.
(PAUSA)
Seja
como
for,
Quando
a
mãe
do
 maneta
ligou
passei‐a
directo
para
o
quarto.
Que
mais
é
que
eu
podia
fazer?
Dizer‐lhe
 “Desculpe‐me,
mas
o
seu
filho
não
está
neste
momento,
acabou
de
sair
pela
saída
de
 emergência
no
meio
da
noite
com
uma
pistola
na
mão.”
Ainda
ficava
histérica.
Por
isso
 passei‐a
directo
para
o
quarto.
Aqueles
palhaços
que
se
entendam.
 
 (BLACKOUT.
VOLTA
A
LUZ
DE
IMEDIATO
SOBRE
O
PALCO…)



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



TERCEIRA
CENA
 (QUARTO
DO
HOTEL
SEGUNDOS
DEPOIS
DA
PRIMEIRA
CENA.
O
MESMO
CENARIO;
MAOS
 ESPALHADAS
PELO
CHAO,
VELA
A
ARDER,
MARILYN
AND
TOBY
ALGEMADOS
AO
 AQUECEDOR,
TOBY
AO
TELEFONE)



 TOBY:

 
 Sim,
uh,
infelizmente
ele
não
está
aqui
neste
momento.
Uh,
quer
que
eu
lhe
 dê
algum
recado?
(PAUSA)
Uh,
sou
um
amigo
dele,
um
velho
amigo
(PAUSA)
Eu
pareço
 preto?
Sim,
eu
sou
preto.
Sim,
sou
um
homem
preto.
Sou
um
amigo
do
seu
filho
que
é
preto
 (PAUSA)
Não,
não
há
nada
de
esquisito,
sou
apenas
um
novo
amigo
preto
do
seu
filho,
eu
 disse
“velho”?
Eu
queria
dizer
“novo”.
Oiça,
porque
é
que
não
lhe
digo
apenas
que
lhe
ligue
 assim
que
ele
voltar?
(PAUSA)
O
quê?
Você
caiu
de
uma
árvore?
 
 (PAUSA.
ELE
TAPA
O
MICROFONE,
E
VIRA‐SE
PARA
MARILYN)
 
 TOBY:

 
 Ela
caiu
de
uma
árvore.
 
 (PAUSA.
ELE
VOLTA
PARA
O
TELEFONE)
 
 TOBY:

 


Um…



 MARILYN:
 Pergunta‐lhe
se
ela
esta
bem.
 
 TOBY:

 
 Você
esta
bem?
(OUVE)
Ela
caiu
omtem.
Tem
os
tornozelos
partidos
e
a
cara
 a
sangrar,
não
se
consegue
levantar.
E
porque
é
que
estava
a
trepar
a
árvore?
 
 MARILYN:

 Diz‐lhe
que
chame
uma
ambulância.
Hey!
E
diz‐lhe
que
chame
a
policia
para
 que
venham
aqui!
 
 TOBY:

 
 (PAUSA)
Um
balão?
Quem
é
que
prende
o
balão
na
árvore?
(PAUSA)
O
 vento?
(PAUSA)
Que
idade
é
que
a
senhora
tem?
(PAUSA)
Bem,
não
devia
andar
a
trepar
 árvores
com
essa
idade,
não
acha?
Isso
e
perigoso,
mesmo
para
alguém
mais
novo.
(PAUSA)
 Eu
não
lhe
estou
a
gritar.
Eu
estou
a
tentar
ajudar.
(PAUSA)
eu
não
lhe
estou
a
gritar.
 (PAUSA)
Angela,
eu
não
lhe
estou
a
gritar,
ou
estou?
(PAUSA)
Por
favor
não
chore.
Oiça,
 devia
ligar
a
uma
ambulância
e
quando
o
seu
filho
voltar
eu
digo‐lhe
que
lhe
ligue…
 (PAUSA)O
que?
As
pessoas
da
ambulância
vao
encontrar
o
quê
na
casa?(PAUSA)
Pode‐me
 dizer.
(PAUSA)
Mas
estamos
a
falar
da
sua
saúde.
Você
esta
a
sangrar
da
cara,
isso
é
mau,
 Angela.
Seja
qual
for
o
cenário,
para
não
falar
dos
seus
tornozelos.
(PAUSA)
Por
favor
 pare
de
chorar.
(PAUSA)
você
não
vai
morrer.
(PAUSA)
você
não
vai
morrer.
(PAUSA)
Esout
 sim?!
(PAUSA)
 Estou,
Angela?!
 
 (O
TELEFONE
DESLIGA‐SE.
TOBY
FICA
IMOVEL
COM
O
TELEFONE
DESLIGADO
NA
MAO)
 
 TOBY:
Parecia,
a,
uh…
parecia
que…
parecia
que
ela
estava
a
tossir
sangue
e
depois
pareceu
 que
tivesse
morrido.
Qualquer
um
dos
casos,
não
é
bom.

 
 MARILYN:

 Como
se
não
tivéssemos
coisas
suficientes
com
que
nos
preocupar!
A
vela,
 as
mãos
todas!
Agora
a
mãe
dele
também
morre!
Minha
nossa
senhora.
 
 TOBY:

 
 Uh,
ok.
Vamos,
uh,
vamos
tentar
apagar
esta
vela?



(TOBY
AGARRA
UMA
MAO
MUITO
TENEBROSA
E
VAI
ATIRA‐LA
PARA
A
VELA
QUANDO
UM
 BATER
A
PORTA
O
INTERROMPE.
ELE
ESCONDE
A
MAO
ATRAS
DAS
COSTAS
MAS
DASSE
 CONTA
QUE
NÃO
IMPORTA,
E
DEIXA‐A
CAIR
JUNTO
AO
RESTO
NO
CHAO)
 
 MARILYN:

 Quem
e?
 
 (MERVYN
ENTRA.
VE‐OS
ALGEMADOS,
E
OLHA
PARA
AS
MAOS
ESPALHADAS
PELO
CHAO)
 
 TOBY:

 
 Olha,
é
o
recepcionista!
Gracas
a
deus!
Estas
a
ver
aquela
vela
na
lata
de
 gasolina,
meu?
Podes
por
favor
apaga‐la?
Juramos
que,
não
temos
nada
que
ver
com
isso.
 
 MARILYN:

 Não
tem
nada
a
haver
conosco.
 
 (MERVYN
OBSERVA
A
LATA
POR
UNS
MOMENTOS
)
 MERVYN:
 
“O
recepcionista”?
 
 (MERVYN
AFASTA‐SE
DA
LATA,
ATRAVES
DAS
MAOS…)
 
 TOBY:

 
 Ele
não
é
o
recepcionista?
É
o
gajo
dos
boxers.
 
 MARILYN:

 Sim,
ele
é
o
idiota
dos
boxers.
 
 (MERVYN
SENTA‐SE
NA
CAMA)
 
 
 TOBY:

 
 Mas,
que
e
que
ele…
amigo?
O
seu
hotel
esta
prestes
a
explodir.
 
 MERVYN:



“O
tipo
dos
boxers.”
Hmm.



 TOBY:

 
 Bem!
Estarei
aqui
a
falar
sozinho?!
Sera
que
você
pode
fazer
o
favor
de
 apagar
o
caralho
da
vela?!
 
 MARILYN:
 E
pode
chamar
a
merda
da
policia
para
nos
tirar
daqui
para
fora
antes
que
 aquele
tarado
volte?!
Nós
estamos
completamente
presos
a
este
aquecedor!
 
 MERVYN:

 
 MARILYN:

 
 TOBY:

 
 pelo
chao?
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 
 
 MERVYN:



Bem,
vocês
tem
muitas
mãos
cortadas
aqui
espalhadas
pelo
chão.


TOBY:

 
 chamas.


(PAUSA)
Não
estava
a
ser
condescendente.
Só
quero
saber
como
é
que
te


Juro
que
essas
mãos
não
são
nossas.
 São
do
maneta.
Porque
haveríamos
nós
de
ter
um
monte
mãos
espalhadas


Eu
não
sei,
mas
vocês
devem
saber.
 Amigo,
qual
e
o
teu
nome?
 Não
sejas
condescendente.



MERVYN:



Ai
sim?
(PAUSA)
Sou
o
Mervyn.



 TOBY:

 
 Mervyn.
Pareces
um
tipo
porreiro
e
esperto,
a
usar
palavras
como
essas
e
 tudo.
Então
podes
se
por
favor
apagar
essa
vela,
para
que
possamos

falar
tranquilamente
e
 de
uma
forma
sensata?
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 


Não.


MERVYN:



Eu
sei
que
estou
no
quarto.


‘Não’?
Como
‘Não’?
 Não,
não
vou
apagar
a
vela.
 “Não
não
vai
apagar
a
vela”.
Isso
não
faz…
sentido
nenhum…
 Estou
a
supor
que
quem
pos
a
vela
aqui
o
fez
por
alguma
razão
lógica.
 Mas
tu
também
estás
no
quarto
agora.



 
 TOBY:

 
 E
compreendes
que
se
a
vela
arder
até
ao
fim,
até
à
gasolina,
a
gasolina
vai
 explodir
o
quarto
e
o
hotel
vai
arder
todo.
 
 MERVYN:

 Compreendo.
 
 TOBY:

 
 Compreendes?
Mas
não
vais
fazer
nada
para
o
impedir?
 
 MERVYN:

 Eu
nem
sequer
gosto
muito
de
este
hotel.
 
 MARILYN:

 Há
algo
de
estranho
neste
tipo,
Toby.
 
 MERVYN:

 Há
algo
de
estranho
comigo?
Bebe,
não
sou
eu
que
estou
amarrado
a
um
 aquecedor
num
quarto
de
hotel
cheio
de
mãos
pelo
chão,
com
uma
lata
de
gasolina
prestes
 a
explodir,
a
insultar
os
boxers
de
alguem.
E
há
algo
estranho
comigo?
Eu
diria
que
há
algo
 estranho,
mas
é
com
vocês
os
dois!
 
 TOBY:

 
 Marvin…
 
 MERVYN:
 
Mervyn!
Mervyn!
 
 TOBY:

 
 Mervyn!
Mesmo
que
não
gostes
deste
hotel
ou
de
trabalhar
nele,
o
mau
de
 ele
explodir
e
arder
e
que
também
vais
arder
e
morrer
conosco,
certo?
 
 MERVYN:

 Não
me
fales
como
se
eu
fosse
um
mongoloide,
meu.
 
 TOBY:

 
 Eu
não
estou
a
fazer
isso,
seria
incapaz
de
trata‐te
como
um
mongoloide,

 Mervyn.
Nunca
faria
isso…
 
 MARILYN:



Ele
é
contra
isso.


TOBY:

 


Eu
sou
contra
isso.
Eu
sou
contra
dar
a
entender
que
um
gajo
é
mongoloide.



MARILYN:

 Não,
tu
pró‐mongoloide.
 
 TOBY:

 
 Eu
sei
que
sou
pró‐mongoloide.
Eu
disse
que
era
contra
dae
a
entender
que
 um
gajo
é
mongoloide.
 
 MARILYN:

 Ahh…
 
 TOBY:

 
 Não…
(SUSPIRA
PARA
O
MERVYN)
O
que
eu
estou
a
dizer
Mervyn,..
é
 Mervyn,
certo?
O
que
eu
estou
a
dizer
é
que
tu
não
nos
conheces.
Se
calhar
ate
merecemos
 morrer
neste
momento,
ou
talvez
não.
Mesmo
não
te
conhecendo,
nos
definitivamente
não
 achamos
que
tu
devas
morrer
neste
momento,
achamos
que
és
tipo
porreiro,
e
por
isso
 achamos
que
devias
ir
ate
a
vela
e
apagá‐la,
não
para
salvar
a
nossa
vida,
mas
para
que
 salves
a
tua
que
achamos
que
é
algo
que
vale
a
pena
salvar.
 


 MERVYN:
 Foi
por
isso
que
me
roubaste
sessenta
euros
daquela
vez
quando
a
única
 coisa
que
eu
queria
era
uma
gramita
de
speed.
Fiquei
feito
palerma
uma
hora
à
neve
e
tu
 não
apareceste.
 
 TOBY:

 
 (PAUSE)
eu
não
faço
a
mínima
ideia
de
quem
é
que
tu
és.
Eu
não
faço
a
 menor
ideia
de
quem
é
este
gajo,
mas
pelo
que
o
gajo
está
a
dizer,
sobre
a
neve
e
tudo,
 pode
ser
um
deficiente
mental,
o
melhor
é
esquecermos
que
o
gajo
existe
e
apagarmos
nós
 mesmos
a
merda
da
vela,
ok?



 (TOBY
VAI
ATIRAR
UMA
MAO
PARA
A
VELA,
MAS
MERVYN
COLOCA‐SE
A
FRENTE,
MOVE
A
 LATA
PARA
UM
SITIO
SEGURO
E
COMEÇA
POR
COISAS
EM
FRENTE
DELA,
ENTAO
O
TOBY
 COMEÇA
ATIRAR‐LHE
MAOS,
VIOLENTAMENTE…)
 
 TOBY:

 
 Hey,
seu
palhaço…!
 
 (…MERVYN
ATIRA
TAMBEM
UM
MONTE
DELAS,
ACERTA
ACIDENTALMENTE
A
MARILYN)
 
 TOBY:

 
 
 MERVYN:



Hey!


TOBY:

 
 
 MARILYN:



Para
de
atirar
essa
merda
à
minha
namorada,
meu!


MERVYN:



Eu
apontei
para
ele.


MARILYN:



Meu,
isso
são
mãos
de
humanos!
Qual
é
o
teu
problema?


MERVYN:



Juro
que
apontei
para
ele.


MARILYN:



Fo‐dasse…!


TOBY:

 


(PAUSA)
Apaga
a
merda
da
vela!


MERVYN:



Não!


Hanh?!


Tas‐me
a
acertar
com
essas
mãos
nojentas,
Mervyn!



 
 
 
 
 



TOBY:

 


Seu
doente!
Vamos
todos
morrer!



 MERVYN:

 Pois,
talvez
assim
aprendas
uma
lição.
 
 TOBY:

 
 Que
lição?
Que
lição
é
que
eu
vou

aprender
depois
de
morto?
 
 MERVYN:
 Que
não
devias
fugir
com
o
dinheiro
de
outros
e
deixa‐los
como
idiotas
no
 meio
do
frio
e
da
neve.
 
 TOBY:

 
 Não
quero
aprender
nenhuma
lição,
palhaço,
voltava
a
fazer
o
mesmo
uma
e
 outra
vez!
Mesmo
não
o
tendo
FEITO
DA
PRIMEIRA
VEZ!
 
 MARILYN:

 Mervyn?
Mervyn,
olha
para
mim.
 
 (MERVYN
OLHA
DE
RELANCE
PARA
ELA)
 
 MARILYN:

 Mervyn,
assim
não
conta,
ainda
não
estás
a
olhar
para
mim,
pois
não?
 
 (PAUSA.
MERVYN
OLHA
PARA
ELA)
 
 MARILYN:

 Obrigado.
Ouve,
Mervyn
,
eu
acho‐te
muita
giro,
e
curtia
mesmo
que
 apagasses
a
vela
para
podermos
conversar
os
dois.
 
 MERVYN:

 


Ah,
tu
pensas
que
me
dás
a
volta
com
essa
história
do
giro,
não
é?


Não,
eu
não
acho
isso,
só
acho
que
és
todo
bom
e
que
gostava
mesmo
de
 falar
um
bocado
contigo.
A
vela
até
pode
ser
um
bónus.
Não
gostas
do
que
vês?
 MARILYN:



MERVYN:



namorados.


Gosto
do
que
vejo,
mas
tenho
de
te
dizer
que
tens
um
péssimo
gosto
pa



 MARILYN:



Ele
não
é
meu
namorado.
É
só
um
gajo
que
eu
conheço.


MERVYN:



(PAUSA.
PARA
O
TOBY)
É
verdade?



 


TOBY:

 
 Ya
eu
alinho
nessa.
 
 MARILYN:

 Podes
apagar
a

vela
para
mim?
 
 (PAUSA.
MERVYN
VAI
ATE
A
LATA,
E
DISFRACADAMENTE
LAMBE
OS
DEDOS,
E
APAGA
AVELA)
 
 MARILYN:

 Uau,
foi
muito
porreira
a
maneira
como
apagaste
a
vela.
Como
é
que
fizeste
 isso?
 
 MERVYN:

 É
só
um
truque.
 
 MARILYN:

 Lambeste
os
dedos
primeiro
foi?
 
 MERVYN:

 Talvez.
 



TOBY:

 
 Eu
vi,
ele
lambeu
os
dedos…
 
 MARILYN:

 Toby?
Tens
ai
contigo
sessenta
euros?
 
 TOBY:

 
 Hum?
(SUSPEITA)
Não.
Porquê?
 
 MARILYN:

 Bem,
eu
acho
que
aquela
história
de
fugires
e
o
deixares
no
meio
da
neve,
é
 um
caso
de
confusão
de
identidade
que
não
faço
a
mínima
ideia
de
como
aconteceu,
mas
 mesmo
assim
acho
que
devias
dar
ao
Mervyn
os
sessenta
euros,
só
para
demonstar
estamos
 todos
do
mesmo
lado.
O
tarado
maneta
vai
voltar
a
qualquer
momento
e
vai
desatar
a
 matar‐nos
a
todos.
Que
é
que
dizes?
 
 TOBY:

 
 mongoloide.


Que
é
que
eu
digo?
Eu
digo
que
não
vou
dar
merda
nenhuma
a
esse


MARILYN:



Toby…



 
 TOBY:

 
 O
gajo
é
um
idiota.
E
ela
á
a
minha
namorada,
por
isso
o
que
eu
vou
fazer
é…
 
 (TOBY
ESTICA‐SE
PARA
O
TELEFONE)
 
 MERVYN:

 Eu
sabia
que
eras
o
namorado
dela!
 
 TOBY:

 
 O
que
eu
vou
fazer
é
ligar
a
para
a
policia.
Eles
que
nos
prendam
a
todos
e
 nos
atirem
para
uma
cela
porque
acho
que
é
mais
fácil
explicar
a
esses
cromos
o
que
faz
um
 preto
num
quarto
cheio
de
mãos
cortadas
do
que
explicar
a
minha
mãezinha,
porque
é
que
 fiquei
sem
cabeça,
à
pala
de
um
tarado
de
um
maneta.
Que
é
que
acham?
Ó
boxers,
que
 número
é
que
tenho
de
marcar
para
uma
linha
exterior?
 
 MERVYN:

 Hein?
 
 TOBY:

 
 
 MERVYN:



Que
número
é
que
tenho
de
marcar
para
uma
linha
exterior?
 Zero.
Tens
de
passar
pelo
telefonista
para
uma
linha
exterior.



 TOBY:

 
 Obrigado.
(MARCA,
ESPERA
PELO
TON
DE
MARCAÇÃO)
O
telefonista
não
 está
a
atender.
 
 MERVYN:
 É
melhor
tentares
outra
vez,
não?
 
 (TOBY
TENTA
OUTRA
VEZ.
MERVYN
A
OLHAR
PARA
OS
DEDOS
DESCONTRAIDAMENTE.
 PAUSA)
 
 TOBY:

 
 Mervyn,
tu
é
que
és
o
telefonista
aqui,
não
és?
 
 MERVYN:
 Às
vezes
eu
faço
disso,
sim.
 
 (TOBY
ATIRA
O
TELEFONE
AO
CHÃO,
PÕES
AS
MÃOS
À
CABEÇA,
E
DESFALECE
PARA
O
CHÃO)
 
 MERVYN:

 Já
agora,
se
vocês
não
fizeram
nada
de
mal,
porque
é
que
o
maneta
vos
vai
 cortar
as
cabeças?



TOBY:

 
 Marilyn,
será
que
podes
mostrar
as
mamas
ou
qualquer
coisa
a
este
gajo,
 por
favor,
faz
com
que
ele
chame
a
bófia,
ok?
 
 MERVYN:
 Que
namorado
maravilhoso
que
tu
tens!
 
 MARILYN:

 Toby,
porque
é
que
te
estás
a
comportar
como
um
anormal?
 
 TOBY:

 
 (LACRIMOSO)
Porque
eu
não
quero
morrer
hoje,
Marilyn,
eu
só
não
quero
 morrer
hoje.
 
 MARILYN:
 Não
vais
começar
a
chorar
outra
vez!
 
 TOBY:

 


(A
CHORAR)
Vou
morrer
hoje
e
não
é
justo.


MARILYN:



Pára!



 
 (TOBY
PARA)
 
 MARILYN:
 
(PAUSA)
Mervyn?
Nós
nunca
tínhamos
visto
o
gajo
maneta
até
hoje.
O
que
 sabíamos
é
que
andava
um
gajo
pela
cidade
a
pagar
bem
a
quem
lhe
encontra‐se
a
mão,
a
 mão
que
lhe
cortaram
há
anos
atrás.
 
 TOBY:

 


São
quinhentos
Euros.



 MARILYN:

 Bem,
nós
sabíamos
quando
andávamos
no
liceu,
que
no
museu
de
história
 natural
da
cidade,
eles
tinham
em
exposição
uma
mão
humana;
ali
à
mao
de
semear
num
 simples
expositor.
Então
roubámos
a
mão,
mas
esquecemo‐nos
que
era…
vá…
um
pouco
 aborigene?
Como
se
fosse
de
um
aborígene.
Mas
nessa
altura,
nós
não
sabíamos
como
é
 que
o
maneta
era,
percebes?
Pois
então
quando
fomos
encontrarmo‐nos
com
ele
tínhamos
 a
esperança
que
ele
fosse
eh…
sabes,
preto,
e
se
não
fosse
íamos
ter
de
improvisar
um
 bocado.
 
 TOBY:

 


Iamos
improvisar.



 MARILYN:

 Iamos
pedir
o
dinheiro
adiantado,
ou
dizer
que
a
mão
tinha
escurecido
com
 o
tempo,
ou
qualquer
coisa
do
género,
mas
o
gajo
bateu
na
cabeça
do
Toby
e
fechou‐o
no
 armário.
A
partir
daí
foi
sempre
a
descambar.
 
 MERVYN:

 museu?


Esse
era
o
vosso
plano?
Um
museu?
E
depois
o
mongloide
sou
eu?
Um



 MARILYN:

 Nós
pensámos,
quão
difícil
poderá
ser
lidar
com
um
maneta.
 
 
 TOBY:

 
 Com
o
difícil
posso
eu
bem,
querida,
a
parte
de
ele
ser
um
homicida
é
que
eu
 não
estava
à
espera.
 
 MERVYN:

 (PAUSA)
Bem,
ele
vai
ficar
ainda
mais
homicida,
não
vai?
Quando
souber
que
 lhe
mataste
a
mãe?
 



TOBY:

 
 (PAUSA)
Tou
a
ver
que
ouves
os
telefonemas,
quando
estás
a
fazer
de
 telefonista,
hum?
 
 MERVYN:

 Sim
o
telefonista
pode
ouvir
as
chamadas
as
vezes,
para
garantir
que
os
 hóspedes
não
fazem
disparates.
 
 TOBY:

 
 (PREOCUPADO)
Soou
como
se
ela
tivesse
morrido,
não
soou?
 
 MERVYN:

 Bem
é
que
ela
não
parecia.
 
 MARILYN:

 (PAUSA)
Podes
chamar‐nos
a
polícia,
MERVYN?
Por
favor?
 
 
 MERVYN:
 
Para
ser
sincero,
toda
esta
situação,
meu,
faz‐me
lembrar
aquela
expressão
 popular
“Deus
escreve
certo
por
linhas
tortas”
conheces
essa
expressão?
É
mesmo
boa
para
 esta
situação.
 
 MARILYN:

 (PAUSE)
No
bom
ou
mau
sentido?
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 
 tua
analogia.
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 


No
mau
sentido.
 Como
é
que
esta
situação
é
parecida
com
isso,
meu
cromo?
Explica
lá
essa


Oh,
eu
vou
explicar
a
minha
analogia,
Sr
palavras
caras…
 OK…



 MERVYN:

 É
só
que
hoje,
prometeste
a
um
gajo
algo
que
não
tinhas,
e
tentaste
sacar‐ lhe
o
dinheiro,
como
se
ele
fosse
um
perfeito
idiota,
e
há
dois
anos,
também
prometeste
a
 um
gajo
completamente
diferente
algo
que
não
tinhas,
ou
que
talvez
tivesses,
eu
não
posso
 ter
certeza
se
tinhas
o
speed
ou
não,
mas
com
toda
a
certeza,
desapareceste
e
deixaste‐o
 pendurado
ao
frio
na
neve,
também
como
um
perfeito
idiota.
Estou
certo,
ou
não?
E
esta
 analogia?
 
 TOBY:

 
 Mervyn,
eu
não
vendo
speed.
Eu
nunca
vendi
speed.
Eu
vendo
erva.
 
 MARILYN:

 É
verdade
ele
é
traficante
de
erva,
não
é
traficante
de
speed.
 
 TOBY:

 
 Eu
nem
sequer
sei
como
conseguir
speed.
 
 MERVYN:

 Sim,
imagino.
Foi
por
isso
que
me
deixaste
lá
pendurado
mais
de
uma
hora!
 
 TOBY:

 
 Não
era
eu,
Mervyn.
Simplesmente
não
era
eu.Não
és
daqueles
que
dizem
 que
os
pretos
são
todos
iguais,
pois
não?
 
 MERVYN:

 Mais
ou
menos,
mas
tenho
quase
a
certeza
que
eras
tu.
 
 TOBY:

 
 


Ai
sim?



MERVYN:

 Sim,
tinhas
o
cabelo
diferente,
mas
tinhas
um
brinco,
com
umacaveira
pirata
 e
tinhas
uma
t‐shirt
com
o
yoda
desenhado.
 
 (TOBY
OLHA
DE
RELANCE
DE
FORMA
INCRÊDULA
PARA
MARILYN)
 
 MARILYN:

 Toby,
seu
idiota
de
merda!
 
 TOBY:

 
 Montes
de
pretos
têm
t‐shirts
com
o
yoda
desenhado!
Isso
não
prova
nada!
 Os
pretos
curtem
essa
merda!
Isso
nem
sequer
me
incriminava
em
tribunal!
 
 MARILYN:

 Pois,
mas
não
estamos
num
tribunal,
pois
não?
Estamos
numa
merda
de
um
 quarto
de
hotel
cheio
de
mãos
mortas,
prestes
a
morrer.
 
 (TOBY
TENTA
NÃO
CHORAR
MAS
NÃO
CONSEGUE.
PROCURA
NO
BOLSO
POR
DINHEIRO,
 SACA
MEIA
DUZIA
DE
NOTAS
E
UMAS
MOEDAS…)
 
 TOBY:

 
 Mervyn,
não
chega
a
sessenta,
tenho
eh…
 
 MERVYN:

 Quanto?
 
 TOBY:

 
 (A
CONTAR)
Tenho…
vinte
e
nove
euros
e
setente
e
cinco
cêntimos
e
um
 pouco
de
erva.
 
 (MERVYN
ACEITA
O
DINHEIRO
MAS
DEIXA
A
ERVA)
 
 MERVYN:

 Eu
aceito,
e
vou
fazer
a
chamada,
mas
ficas
a
saber
que
não
o
faço
por
ti.
 Estou
a
fazê‐lo
por
ela,porque
ela
é
uma
inocente
no
meio
de
esta
história
toda.
 
 MARILYN:



Obrigado,
Mervyn.



 TOBY:

 
 Obrigado,
Mervyn.
Tecnicamente
ela
está
tão
envolvida
nisto
da
mão
como
 eu
mas,
obrigado
Mervyn.
 
 MERVYN:

 Bem,
se
vamos
ao
tecnicamente,
tecnicamanete
ainda
me
deves
trinta
e

um
 euros
e
vinte
e
cinco
cêntimos,
que
achas
de
isto
para
tecnicamente?
 
 TOBY:

 
 Tecnicamente
são
trinta
euros
e
vinte
e
cinco
cêntimos,
mas
sim.
 
 (MERVYN
OLHA
ESTARRECIDO
PARA
ELE)
 
 TOBY:

 
 Não,
tens
razão,
enganei‐me
na
conta.
 
 (MERVYN
VOLTA
PARA
A
PORTA)
 
 MERVYN:

 Ok,
vou
chamar
a
policia,
e
enquanto
isso
talvez
vá
tentar
descobrir
onde
 vive
a
mãe
dele,
para
mandar‐lhe
um
médico,
para
tentar
ressuscitar
a
velha,
que
seria
o
 que
vocês
deviam
ter
feito
em
ves
de
serem
tão
egoístas,
só
levava
um
mísero
minuto.
 MARILYN:

 Podes
ir
fazer
a
chamada,
por
favor?
 
 (ELE
OLHA
PARA
ELA)
 



MARILYN:

 
 TOBY:

 


É
que
ele
pode
voltar
a
qualquer
momento,
não
pode?
 Vês?
Ela
é
tão
má
como
eu.



 MERVYN:

 Bem,
só
para
caso
de
ele
voltar
mais
cedo,
é
melhor
deixar
o
quarto
como
 encontrei,
não
é?!
 
 TOBY:

 
 O
quarto
está
como
o
encontras‐te.
 
 MERVYN:

 Bem,
ele
não
esta
como
eu
o
encontrei,
deixá‐lo
como
o
encontrei
era...
 vocês
sabem...
 
 (MERVYN
SACA
DA
VELA,
ACENDE‐A,
VAI
ATÉ
À
LATA
DE
GASOLINA)
 
 TOBY:

 


Mervyn,
baza
daqui
para
fora!


MARILYN:

 
 MERVYN:

 


Por
favor,
Mervyn,
por
favor!


Estava
no
gozo!
Calma!
Vou
fazer
a
chamada.



 (MERVYN
APAGA
A
VELA,
SORRI,
E
SAI
COM
A
VELA
E
O
ISQUEIRO,
DEIXANDO
TOBY
E
 MARILYN
ALI
,
EXAUSTOS.
PASSADO
UM
POUCO
OLHARAM
UM
PARA
O
OUTRO,
 ASSUSTADOS)
 
 TOBY:

 
 
 MARILYN:



Acho
que
voltei
a
dar
cabo
de
tudo
outra
vez,
não
foi?
 Achas?



 (SORRIEM)
 
 MARILYN:



Hey,
eu
também
tive
culpa.



 TOBY:

 
 Só
queria
o
dinheiro
para
te
levar
a
algum
lado,
sabes?
Algum
lado
giro,
 algum
lado
divertido.
Algum
lado
que
custasse
mais
ou
menos
quinhentos
euros.
E
agora
vê
 lá
como
acabámos.
No
armazém
das
mãos.
 
 MARILYN:

 Tu
achas
que
ele
comprou
todas
estas
mãos,
ou
que
as
cortou
a
pessoas?
 
 TOBY:

 
 Eu
acho
que
um
bocado
das
duas
coisas?
(PAUSA)
E
que
teria
a
mãe
em
casa
 para
não
querer
chamar
lá
a
policia.
Se
ele
anda

com
uma
mala
cheia
de
mãos,
imagina!
 
 MARILYN:

 Tu
acreditaste
naquela
história
de
Spokane?
De
como
lhe
cortaram
a
mão?
 
 TOBY:

 
 Eu
tenho
a
impressão
que
vi
isso
num
filme
uma
vez.
Em
que
entrava
o
Lee
 Majors.
Mas
se
calhar
estou
a
confundir
com
o
Bionic,
não
sei.
 
 MARILYN:

 Era
muita
mau,
não
era,
alguém
dizer‐te
adeus
com
a
tua
própria
mão?
 
 TOBY:

 
 


Isso
ia
ser
muito
mau,
mas
posso
dizer‐te
que
há
muita
gente
má
no
mundo.



MARILYN:

 Estás
a
pensar
naqueles
miúdos
que
roubaram
o
cacto
a
tua
mãe?
 
 TOBY:

 
 Miudos
não
precisam
do
cacto
de
uma
velhinha
de
sessenta
anos.
Para
que
é
 que
eles
precisam
dele?
Eles
provavelmente
deixaram‐no
numa
esquina
qualquer
no
meio
 da
rua,
a
rirem‐se
e
se
calhar
nem
o
regaram.
 
 MARILYN:

 Mas
tenho
de
dizer
isto,
não
sei
quantos
gajos
a
acenarem‐te
adeus,
com
a
 tua
própria
mão,
que
eles
cortaram?
Fazia‐te
ficar
extremamente
determinado,
meu.
 
 TOBY:

 
 Vou
te
dizer
uma
cena,
por
muito
que
eu
não
goste
do
gajo.
Ele
é
um
filho
da
 mãe
buéda
decidido.
Se
ele
se
empenhasse
em
alguma
coisa
boa,
tipo
o
ambiente,
o
caralho
 do
ambiente
ia
acabar
limpo
de
certeza.
Com
este
gajo
por
perto
não
vais
andar
a
deitar
 petróleo
numa
foca!
Porque
ele
agarra
e
mata‐te!
Não
vais
deitar
nada
na
foca.
Com
ele
não
 há
cá
merdas!
Era
cabeça
fora!
A
foca
ia
estar
sentada
a
aplaudir,
a
ver
a
tua
cabeça
a
 rebolar
pelo
chão!
E
digo‐te
mais
uma
coisa
sobre
aquele
cabrão…
 
 (SUBITAMENTE
A
JANELA
REBENTA,
POR
CAUSA
DA
BARRA
DE
FERRO
QUE
CARMICHAEL
 ATIRA
POR
ELA.
ELE
SALTA
PARA
DENTRO
PARA
AO
PÉ
DA
LATA
DE
GASOLINA.
A
TATUAGEM
 AMOR
JÁ
NÃO
ESTÁ
TAPADA
PELOS
PENSOS)
 
 CARMICHAEL:

 Onde
está
a
minha
vela?!!
 
 TOBY:

 
 O…
o
recepcionista
levou‐a!
 
 CARMICHAEL:

 E
quem
é
que
espalhou
as
minhas
mãos
pelo
chão?!!
Que
é
ainda
pior!!
 
 TOBY:

 
 Pois,
eu
sei,
o
recepcionista!
Ele
entrou,
e
perdeu
a
cabeça!
 
 CARMICHAEL:

 Hum‐um?
Eu
vou
tratar
dele
depois,
não
vou?
 
 TOBY:

 
 Trata
dele
agora!
 
 MARILYN:

 Trata
dele
agora!
 
 CARMICHAEL:

 Oh,
querem
que
eu
trate
dele
agora,
huh?
 
 TOBY:

 
 Ou
não!
Tu
é
que
sabes!
 
 MARILYN:

 Encon…
encontraste
a
tua
mão
onde
dissemos
onde
ela
estava?
 
 CARMICHAEL:

 Isto
responde
à
tua
pergunta?
 
 (CARMICHAEL
AGARRA
A
LATA
DE
GASOLINA
E
COMEÇA
A
DEITAR
A
GASOLINA
POR
CIMA
 DELES
OS
DOIS)
 
 TOBY:

 
 Um
simples
“não”
chegava!
 (ELE
CONTINUA
A
DEITAR
GASOLINA
EM
CIMA
DELES
ENQUANTO
ELES
TOSSEM
E
COSPEM)
 
 CARMICHAEL:

 Marilyn,
tu
sabes
quantas
pessoas
me
tentaram
foder
nos
últimos
vinte
e
 sete
anos?
Imaginas
quantas
pessoas
acham
engraçado,
um
gajo
só
ter
uma
mão,
e
tudo
o
 que
quer
é
a
mão
de
volta,
imaginas
quantas
pessoas
acham
engraçado
gozar
com
ele



porque
pensam
que
ele
é
ridículo,
só
porque
ele
quer
algo
que
é
dele
por
direito!?
Imaginas
 com
quantas
pessoas
ele
teve
de
lidar
neste
país
no
último
quarto
de
século?
 
 MARILYN:

 Muitas?
 
 CARMICHAEL:

 Sim,
muitas!
Demasiadas!
E
vocês
são
iguais
ao
resto!
 
 MARILYN:

 Nós
não
somos
iguais
ao
resto!
Não
achamos
que
sejas
um
palhaço!
 
 TOBY:

 
 Só
queríamos
ganhar
algum
guito,
meu!
Não
tinhamos
intenção
de
te
 chatear!
 
 CARMICHAEL:

 Mas
chatearam!
 
 MARILYN:

 Já
percebos.
É
lixado.
 
 TOBY:

 
 Mas,
normalmente
nós
não
lidamos
com
este
tipo
de
coisas…
 
 MARILYN:

 Nós
traficamos
erva!
 
 TOBY:

 
 Nós
traficamos
erva.
Nós
não
traficamos
mãos.
 
 MARILYN:

 Nós
roubámo‐la
da
secção
aborígene
de
um
museu.
 
 TOBY:

 
 Nós
não
te
queríamos
lixar
à
séria.
Estávamos
só
a
tentar
sacar‐te
uns
euros.
 
 MARILYN:

 Nós
nem
sequer
exagerámos
no
preço.
Acho
que
não
merecemos
morrer
 por
isto,
pois
não?
 
 CARMICHAEL:

 Claro
que
merecem,
senão
não
estava
a
deitar‐vos
gasolina
para
cima.
 
 MARILYN:

 Nós
merecemos
morrer
só
porque
tentámos
sacar‐te
uns
euros?
 
 CARMICHAEL:

 Exactamente!
 
 MARILYN:

 Tenho
de
te
dizer,
meu,
que
estás
a
exagerar.
(PAUSA)
Náo
está,
Toby?
 
 TOBY:

 
 Estás
um
bocadinho.
 
 (CARMICHAEL
ATIRA
A
LATA
PARA
O
LADO
E
DEAMBULA
POR
ENTRE
AS
MÃOS,
VÊ
OS
 SAPATOS
DELES)
 
 CARMICHAEL:

 Porque
é
que
vocês
tiraram
os
sapatos?
 
 TOBY:

 
 Desculpa,
estávamos
a
tentar
deitar
a
vela
a
baixo.
 
 (CARMICHAEL
APANHA
OS
SAPATOS
DELES)
 
 CARMICHAEL:

 Por
acaso
gosto
dos
vossos
sapatos.
Eu
não
tenho
muitos
pares
de
sapatos.
 Alias,
tenho
só
um.
E
de
vez
em
quando
estou
deitado
à
noite
na
cama,
a
olhar
para
os
meus
 sapatos,
deitado
no
escuro
penso,
“será
este
o
último
par
de
sapatos
que
alguma
vez
vou



usar
na
vida?”
Tão
a
ver?!
“é
este
o
par
de
sapatos
com
que
vou
morrer?”
porque
nunca
 sabemos,
pois
não,
se
quando
de
manhã
os
pomos,
os
estamos
a
pôr
pela
última
vez.
 Normalmente
ninguém
sabe.
Mas,
sabem
uma
coisa?
Vocês
os
dois
sabem.
Vocês
os
dois
 sabem.
Por
isso,
porque
é
que
não
se
calçam,
para
podermos
acabar
com
esta
fantochada?
 
 (CARMICHAEL
ATIRA‐LHES
OS
SAPATOS
E
COMEÇA
À
PROCURA
DENTRO
DOS
BOLSOS
 ENQUANTO
ELES
OS
DOIS
SE
LEVANTAM
E
TENTAM
GANHAR
TEMPO
A
OLHA
PARA
A
 JANELA
A
VER
SE
CHEGA
A
POLICIA
DE
VEZ
EM
QUANDO…)
 
 TOBY:

 
 Hum,
alguém
que
vai
cometer
suicídio,
sabe.
Um
gajo
que
vai
saltar
de
uma
 ponte
ou
uma
cena
dessas...
Sabe
com
que
sapatos
vai
morrer.
 
 CARMICHAEL:

 Sim,
alguém
que
vai
cometer
suicídio
sabe,
acho
eu.
 
 MARILYN:

 E
um
gajo
que…
Tava
a
lembrar‐me
dum
gajo
que
não
tem
pés,
mas
não
 serve.
Por
exemplo
um
gajo
que
cola
os
sapatos
aos
pés.
Sem
querer,
uma
vez,
se
fosse
uma
 cola
muito
forte…
 
 TOBY:

 
 Tipo
super
cola
3…
 
 MARILYN:

 Sim,
super‐cola
3
ou
algo
assim,
caía‐lhe
nos
pés,
ele
não
percebia,
calçava
 os
sapatos
e
logo
a
seguir
morria?
 
 CARMICHAEL:

 Ouçam,
eu
não
disse
“ninguém
sabe”.
Eu
disse
“ninguém
normalmente
 sabe”,
ok?
E
tudo
isto
dos
sapatos
foi
para
vos
assustar
antes
de
morrer,ok?
Eu
não
estava
a
 tentar
debater
sobre
sapatos.
 
 MARILYN:

 
 CARMICHAEL:

 
 MARILYN:

 
 CARMICHAEL:



Isso
não
foi
simpático?!
 Eu
não
sou
simpático,
pois
não?
 Pois!
 Algum
de
vocês
tem
um
fósforo?



 TOBY:

 
 (PAUSA)
Uh,
eu
não
tenho
um
fósforo.
Tens
um
fósforo,
querida?
 
 MARILYN:

 Um
fósforo?
 
 TOBY:

 
 Diz
só
“não”,
querida,
é
a
única
resposta
possível
neste
momento…
 
 MARILYN:

 Não,
pois,
não
tenho
um
fósforo.
Eu
estava
a
pensar
que
podíamos
dizer‐lhe
 que
ali
no
canto
há
um
sitio
onde
há
fósforos,
para
ganhar
tempo…
 
 CARMICHAEL:

 Eu
tinha
um
isqueiro
algures,
eu
sei
que
tinha.
Eu
tinha‐o
aqui
paa
acender
a
 vela.
Eu
tinha‐o
aqui
mesmo
para
acender
a
vela…
(APERCEBE‐SE)
A
quele
cabrão
do
 recepcionista!
 
 TOBY:

 
 Ele
estava
a
abrir
coisas,
ele
estava
a
roubar
coisas!
Vai
lá
baixo
e
agarra‐o!
 
 (CARMICHAEL
VAI
ATÉ
AO
TELEFONA
E
MARCA)



TOBY:

 
 Não
lhe
ligues…
 
 CARMICHAEL:

 És
o
recepcionista?
(PAUSA)
Meu,
eu
não
quero
saber
se
não
gostas
que
te
 chamem
recepcionista
ou
seja
o
que
for!
Tens
uma
coisa
minha,
que
tiraste
do
meu
quarto
 há
pouco
e
quero
isso
de
volta
já!
(PAUSA)
Tens
uma
vela
que
é
minha
e
um
isqueiro
que
é
 meu.
(PAUSA)
Bem
desculpas
não
servem,
pois
não?
Eu
gostava
de
ter
isso
de
volta
 imediatamente.
(PAUSA)
Bem…
obrigado.
(PAUSA)
Não,
não,
eu
entrei
pela
escada
de
 incêndios.
(PAUSA)
Eu
sei
que
não
é
permitido,
mas
eu
estava
irritado,
não
estava?
(PAUSA)
 Não
é
da
tua
conta
o
porquê
de
eu
estar
irritado.
Traz‐me
as
minhas
coisas,
okay?
(PAUSA)
 Obrigado.
 
 (CARMICHAEL
DESLIGA,
SENTA‐SE
NA
CAMA.
PAUSA
LONGA,
TOBY
AND
MARILYN
A
OLHAR
 PARA
ELE
E
UM
PARA
O
OUTRO…
)
 
 CARMICHAEL:

 O
que
é
que
foi?
Ah,
sim,
ele
vais
subir
com
as
minhas
coisas,
disse
que
 demorava
só
um
momento.
 
 TOBY:

 
 (PAUSA.
BAIXO)
Demora
o
que
for
preciso,
boxers,
demora
todo
o
tempo
do
 mundo.
 
 (BATEM
À
PORTA.
A
CABEÇA
DE
TOBY
CAI)
 
 MARILYN:

 Vai‐te
embora!
 
 TOBY:

 
 Vai‐te
embora!
 
 MARILYN:

 Foge!
 
 (CARMICHAEL
SACA
DA
PISTOLA,
E
ELES
CALAM‐SE
ELE
ABRE
A
PORTA
E
DEIXA
ENTRAR
 MERVYN.
MERVYN
OLHA
PARA
OS
MIUDOS
ENCHARCADOS
EM
GASOLINA…
)
 
 MERVYN:



Dasseee!
Vai
de
mal
a
pior!
[Pronunciado
‘piiior!’]



 CARMICHAEL:

 Onde
estão
as
minhas
coisas?
 
 MERVYN:

 Hanh?
 
 CARMICHAEL:
 Onde
estão
as
minhas
coisas?
 
 MERVYN:

 Ah
sim…
 
 (MERVYN
DA
A
CARMICHAEL
A
VELA
E
O
ISQUEIRO.
TOBY
FICA
DE
QUEIXO
CAIDO)
 
 TOBY:

 
 Diz‐me
só
que
falaste
com
as
pessoas
com
quem
ias
falar
lá
embaixo,
 Mervyn?
 
 MERVYN:

 
 TOBY:

 
 


Quais?
 Aquelas
pessoas
com
quem
ias
falar
de
proposito?



MERVYN:

 Eu
sabia
que
tinha
que
fazer
alguma
coisa
importante
lá
baixo!
 
 (AS
CABEÇAS
CAEM
)
 
 MERVYN:

 Pois,
não,
fui
desviado.
Fui
fazer
umas
coisas
no
computador,
e
depois
a
 outra
coisa
já
sebem…
uups.
Que
é
isso
gasolina?
 
 TOBY:

 
 Sim
é
gasolina!
 
 CARMICHAEL:

 Pois,
porque
é
que
não
vais
ali
para
o
lado
deles?
 
 MERVYN:

 Não
vou
nada
para
ao
lado
deles
ainda
fico
cheio
de
gasolina.
Que
 aconteceu?
Disseram‐lhe
aquilo
da
mãe
dele?
 
 CARMICHAEL:

 (PAUSA)
A
minha
mãe
o
quê?
 
 TOBY:

 
 Tu
continuas
a
matar‐nos,
tu
continuas
a
matar‐nos
cada
vez
que
dizes
 alguma
coisa.
 
 MERVYN:

 Nós
achamos
que
ela
morreu.
O
toby
estava
a
flar
com
ela…
é
Toby,
certo?
 Sim,
o
Toby
estava
a
falar
com
ela,
um
bocado
alterado,
diga‐se
de
passagem
e
depois,
pareceu
que
 ela
morreu.
 
 TOBY:

 
 Não
não,
eu
só
estava
a
tentar
ajudá‐la…
 
 MERVYN:

 (INTERROMPE)
Um
bocado
malcriado,
realmente
e
eu
acho
que
havia
 sangue,
ela
começou
a
tossir
e
parecia
mesmo
que
estava
a
tossir
sangue.
 
 (CARMICHAEL
AGARRA
O
TELEFONE)
 
 TOBY:

 
 Acho
que
tem
quem
passar
pelo
telefonista
para
ter
uma
linha
externa,
 Sr
Carmichael,
e
acho
que
o
telefonista
já
foi
para
casa.
 
 MERVYN:

 Não,
não,
só
tem
de
marcar
nove
para

uma
linha
externa,
você
sabe
disso…
 
 CARMICHAEL:

 Eu
sei
isso.
 
 MERVYN:

 Toda
a
gente
sabe
isso.
 
 TOBY:

 
 (PAUSA.
TO
MARILYN)
Tu
sabias
disso
do
nove?
 
 

 MARILYN:
 Nunca
estive
num
hotel
antes.
 
 TOBY:

 
 Se
nos
safarmos
desta,
é
a
cara
do
MERVYN
que
vai
pegar
fogo.
 
 CARMICHAEL:

 Shhh.
Está
a
chamar…
 
 (RING
RING.
RING
RING)
 
 MERVYN:

 Já
está
a
chamar
há
um
bocado.
(
RING
RING.
RING
RING
)
 



TOBY:

 
 Deve‐se
ter
levantado
para
ir
à
casa
de
banho,
Sr
Carmichael,
e
não
 consegue
ouvir
o
telefone
lá
dentro,
talvez?
 
 MARILYN:

 Ou
se
calhar
tem
a
música
muito
alta?
 
 MERVYN:

 Ou
não
pode
vir
ao
telefone
porque
está
morta.
 
 (RING
RING.
RING
RING
)
 
 TOBY:

 
 Senhor
Carmichael,
oiça,
a
Marilyn
não
tem
nada
a
haver
com
isto.
Eu
é
que
 a
pus
nesta
situação.
Porque
não
a
deixa
ir
embora
e
faz
o
que
quiser
comigo?
 
 MERVYN:

 Ele
só
está
a
dizer
isso,
para
que
pense
que
ele
é
boa
pessoa!
 
 CARMICHAEL:

 Shh…!
 
 (PARA
DE
TOCAR
QUANDO
ATENDEM
DO
OUTRO
LADO)
 
 CARMICHAEL:
Estou?!
Estou,
Mãe?!
(PAUSA)
Porque
é
que
demoraste
tanto
tempo
a
 atender?
Mãe,
estou
aqui
há
uma
hora
à
espera!
(PAUSA)
Uma
árvore?
Que
árvore?
(OLHA
 REPENTINAMENTE
PARA
O
TOBY)
não,
ele
não
me
disse
que
caiste
de
uma
árvore.
Deve‐se
ter
 esquecido.
(PAUSA)
Claro
que
não
tenho
amigos
pretos,
de
que
raio
estás
a
falar?
E
o
que
é
que
 estavas
a
fazer
a
trepar
uma
árvore
com
a
tua
idade?
 
 TOBY:
Isso
foi
o
que
que
disse,
não
foi?
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Um
balão?!
Mãe,
isso
é
a
coisa
mais
absurda
que
alguma
vez
ouvi,
uma
 mulher
de
setenta
anos
a
trepar
a
uma
árvore
para
apanhar
a
merda
de
um
balão.
A
única
coisa
que
 precisavas
de
fazer,
se
é
que
precisavas
de
fazer
alguma
coisa,
era
atirar
uma
pedra
para
rebentar
a
 merda
do
balão.
E
quem
é
que
se
importa
que
um
balão
de
merda
esteja
numa
árvore?
Passados
 uns
dias
o
vento
leva‐o,
ou
perdia
o
ar
sozinho.
(PAUSA)
Foi
arrastado
pelo
vento
para
a
árvore,
não
 foi?
Então
porque
é
que
não
podia
ter‐se
libertado
com
o
vento?
(PAUSA)
Preso?
(PAUSE)
Ok,
eu
 vou‐te
dizer
qual
é
o
teu
problema,
mãe,
queres
saber
qual
é
o
teu
problema?
És,
obsessiva
e
 compulsiva,
é
esse
o
teu
problema.
(PAUSA)
Sim
és
obsesso‐compulsiva.
Quem
é
que
se
importa
se
 os
vizinhos
vêm
um
balão
na
porcaria
da
árvore,
vão
pensar
mal
de
ti,
é?!
Eles
não
vao
pensar
mal
 de
ti,
eles
vao
pensar
“ah,
o
vento
arrastou
um
balão
para
a
árvore
da
senhora
Carmichael,
mas
 aposto
que
rapidamente
o
vento
vai
soltá‐lo,
porque
é
aquilo
que
o
vento
faz.
Ou
então
vai
perder
 ar
sozinho,
mas
de
qualquer
maneira
eles
não
vão
pensar
mal
de
ti,
porque
sabem
que
esse
balão
 não
tem
nada
que
ver
contigo!”
(PAUSA)
Ninguém
pensa
que
és
uma
senhora
doida.
 
 (ELE
GESTICULA
PARA
OS
TRÊS,
QUE
ABANAM
A
CABEÇA)
 
 CARMICHAEL:

 Eles
podem
pensar
isso
agora,
depois
de
te
verem
a
arrastar‐se
pelo
chão
da
 cozinha,
com
os
tornozelos
partidos,
agarrada
a
uma
merda
de
um
balão!
Agora
sim,
se
calhar
eles
 estão
a
pensar
que
és
uma
senhora
doida!
(PAUSA)
Exactamente!
Nem
sequer
conseguiste
agarrar
a
 merda
do
balão,
agora
não
te
sentes
uma
idiota?
E
porque
é
que
não
chamaste
uma
ambulância
 quando
isso
aconteceu?
Já
agora,
porque
é
que
estes
aqui
não
chamaram
uma
para,
em
vez
de
te
 terem
deixado
a
sangrar…?
(PAUSA)
O
quê?
Que
é
que
não
querias
que
os
policias
vissem?
 (PAUSA.CALMAMENTE)
Não,
diz‐me
o
que
é
que
tu
não
querias
que
os
policias
vissem?
(PAUSA,
A
 CARA
DELE
E
ATITUDE
MUDAM)
Bem,
quem
é
que
te
disse
que
podias
andar
a
vasculhar
o
meu
 quarto,
mãe?
Essa
mala
estava
trancada.
Essa
mala
estava
trancada,
Mãe.
Tu
tiveste
de
rebentar
a



mala
com
essas
mãos
gordurosas,
sua
velha
bisbilhoteira,
ouve!
A
policia
está‐se
bem
a
cagar
para
 vinte
revistas
porno,
ok
mãe?!
Os
policias
não
ligam
a
essas
coisas!
Podem‐se
comprar
em
qualquer
 quiosque!
Os
policias
provavelmente
até
as
têm!
(PAUSA)
Ah,
então
estiveste
a
ler
algumas,
não
foi?
 Além
de
bisbilhoteira,
agora
também
és
lésbica?!.
(PAUSA)
“Prontas
para
a
festa”,
Mãe.
“Prontas
 para
festa”.
A
pista
está
no
titulo,
Mãe.
Todas
essas
raparigas
são
maiores
de
18.
(PAUSA)
O
quê,
 estás
aí
deitada
a
lê‐las?!!
(PARA
OS
RAPAZES)
Ele
está
lá
deitada
a
ver
as
revistas!!
(PAUSA)
A
sério
 que
rastejaste
até
ao
meu
quarto
e
estás
ai?
Se
calhar
esses
tornozelos
não
estão
assim
tão
partidos,
 não
é
mãe?!
Sim,
se
calhar
devem
estar
só
inchados.
(PAUSA)
Ela
está
a
ver
mais
uma!
Eu
consigo
 ouvi‐la
a
virar
as
páginas!
Eu
não
me
estou
a
tentar
justificar,
mãe!
É
uma
revista,
ok?
E
sim,
eu
 considero
algumas
mulheres
negras
atraentes.
Isso
não
significa
que
eu
não
seja
racista.
É
só
uma
 revista.
Olha,
até
tenho
aqui
um
preto
algemado
a
um
aquecedor,
encharcado
em
gasolina,
isso
não
 é
de
alguém
que
acredita
na
igualdade,
pois
não?
(PAUSA)
Ele
não
é
meu
amigo.
Ele
não
é
meu
 amigo.
Porque
é
que
eu
iria
fazer
isso
a
uma
amigo,
algema‐lo
e
encharca‐lo
em
gasolina?
Que
íamos
 ganhar
com
isso?
(PAUSA)
Ele
disse
o
que?
(PAUSA.
PARA
TOBY)
Tu
disseste
À
minha
mãe
que
eras
 um
amigo
meu?
 
 TOBY:
Hum,
talvez,
sem
querer,
quando
estava
assustado.
 
 CARMICHAEL:
(SUSPIRA)
Diz‐lhe
a
verdade,
por
favor?
 
 (
CARMICHAEL
DA
O
TELEFONE
A
TOBY
)
 
 MERVYN:
Já
posso
voltar
para
a
recepção?
 
 CARMICHAEL:
Não,
não
podes
voltar
para
a
recepção.
 
 MERVYN:
Vocês
só
tão
aqui
na
conversa...

 
 TOBY:
(PARA
O
TELEFONE)
Estou,
Angela?
Pois,
olá
outra
vez,
como
está?
(PAUSA)
Bem,
ele
não
é
 realmente
meu
amigo
é
mais…
é
mais
um
oposto.
 
 (
CARMICHAEL
NODS
IN
AGREEMENT
)
 
 TOBY:
Bem,
eu
disse
isso
porque,
sabe,
eu
estava
no
quarto
dele,
você
ligou
e
eu
não
a
quis
 preocupar,
percebe,
e
a
pensar,
“quem
é
este
homem
estranho
no
quarto
do
meu
filho,
a
atender
o
 telefone
dele
quando
ele
não
está
lá”.
Especialmente
considerando
que
você
tinha
acabado
de
cair
 duma
árvore,
e
tudo
mais.
(PAUSA)
Que
é
que
eu
estaria
a
fazer
no
quarto
dele
se
não
fosse
amigo
 dele?
Uh…
 
 (
CARMICHAEL
GESTICULA
PARA
QUE
ELE
CONTINUE
A
DIZER
A
VERDADE
)
 
 TOBY:
Estava
a
tentar
vender‐lhe
uma
mão.
(PAUSE)
Não,
parece,
que
não,
não
era
a
mão
dele
 infelizmente,
e
foi
por
isso
que
toda
esta
situação
começou.
(PAUSE)
Uh,
sim,
eu
sabia
que
não
era
 dele.
Eu
roubei‐a
de
um
museu
com
a
minha
namorada.
Era
de
um
homem
aborígene
da
Austrália.
 Já
morto
há
muito
tempo.
(PAUSE)
Isso
não
foi
muito
simpático
e
eu
fui
simpático
consigo
há
 bocado,
não
fui?
(PAUSE)
Eu
fui
simpático,
eu
disse
que
devia
chamar
uma
ambulância,
não
disse?
E
 que
você
ia
ficar
bem.
(PAUSE)
oiça…
uh‐huh?
(PAUSE)
Oiça,
vou‐lhe
passar
outra
vez
ao
seu
 filho,porque
acho
que
o
que
a
Angela
está
a
dizer
não
é
construtivo,
é
bera
e
magoa,
portanto
vou
 passar‐lho.
(PAUSA)
Eu
posso
passar
o
telefone,
se
me
apatecer
passar
o
telefone!
Porra!
 
 (
TOBY
GIVES
CARMICHAEL
BACK
THE
PHONE
)



CARMICHAEL:
Que
é
que
ela
disse?
 
 TOBY:Ela,
uh,
ela
chamou‐me
escarumba
umas
poucas
vezes
e
que
espera
que
eu
morra.
 
 CARMICHAEL:
Ai
disse,
foi?
Estou,
mãe,
aqui
quem
decide
se
os
pretos
morrem
ou
não
sou
eu!
Eu
 não
preciso
das
tuas
opiniões
racistas
para
nada!
Aí
a
roçar
esse
rabo
gordo
pelas
paredes,
a
correr
 atrás
de
balões
por
todo
o
lado.
Nunca
me
ajudaste
durante
estes
vinte
e
sete
anos,
por
isso
não
 comeces
agora
a

dar
conselhos,
ok?!
Não,
tu
nunca
ajudaste,
nunca
me
encorajaste,
nunca
fizeste
 merda
nenhuma,

tive
de
procurar
sozinho,
tu
nem
sequer
fizeste
nada
para
impedir
que
eles
a
 levassem,
por
isso
não
ponhas
o
rabo
onde
não
é
chamado!
E
já
agora,
arruma
as
minhas
revistas,
e
 chama
uma
porra
de
ambulância
como
uma
pessoa
normal
que
caiu
de
uma
árvore,
está
bem?
E
diz‐ lhes
que
se
não
conseguirem
ver
o
numero
da
casa,
que
procurem
pela
merda
do
balão
pendurado
 na
árvore,
porque
ouvi
dizer
que
parece
um
farol.
E
pára
de
tossir.
Pára
de
tossir.
Não
estás
a
 morrer,
já
não
é
a
primeira
vez
que
passamos
por
isto,
não
é?
(PAUSE)
Obrigado.
(PAUSE)
Não,
eu
 não
o
vou
matar.
Não
o
vou
matar.
Não
quero
saber
que
ele
seja
preto
ou
não,
fizeste‐me
desistir
de
 tudo.
Mãe
porque
é
que
não
te
vais
deitar?
Porque
é
que
não
te
vais
deitar
de
uma
vez
por
todas?
 

 (CARMICHAEL
DESLIGA
O
TELEFONE,
ATIRA‐O
PARA
O
CHÃO
E
SENTA‐SE
NA
CAMA
COM
A
MÃO
NA
 CABEÇA,
A
SUSPIRAR)
 
 MERVYN:
Gosto
da
tua
mãe!
Tem
pelo
na
venta!
 
 CARMICHAEL:
Se
calhar
estava
a
ser
demasiado
duro
com
ela,
mas
às
vezes
ela
enerva‐me,
Tão
a
 ver?!
 
 MARILYN:
Não
foste
demasiado
duro.
Foste
tão
duro
quanto
deverias
ser,
não
achas,
Toby?
 
 (TOBY
ABANA
A
CABEÇA.
CARMICHAEL
METE
A
MÃO
AO
BOLSO,
ATIRA
AS
CHAVES
DAS
ALGEMAS
A
 TOBY
E
MARILYN.
ELES
COMEÇAM
A
LIBERTAR‐SE
RÁPIDAMENTE)
 
 MERVYN:
Que
é
que
eu
vos
disse?!
Nem
sequer
um
obrigado!
 
 TOBY:
Obrigado!
 
 MARILYN:
Obrigado!
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Desta
vez,
eu
tive
um
bom
pressentimento.
Pensei
mesmo
que
ia
correr
tudo
 bem.
E
que
finalmente
eu
podia
ir
para
casa.
(PAUSA)
Aquilo
que
vocês
os
dois
fizeram
foi
muito
 mau,
sabiam?!
 
 TOBY:
Nós
pedimos
muitas
desculpas,
nunca
mais
voltamos
a
fazer
isto!
 
 MARILYN:
Acredita,
aprendemos
a
lição!
 
 MERVYN:
Claro
que
voltariam
a
fazer.
 
 TOBY:
Ouve
lá
meu!
Eu
ainda
me
vou
vingar
daquilo
que
nos
fizeste!
Isto
ainda
não
acaba
aqui!
 
 MERVYN:
Mas
o
que
é
que
eu
fiz?
 



TOBY:
O
que
é
que
tu…?
Podiamos
começar
pelo
telefonema
que
era
suposto
teres
feito?
 
 MERVYN:
Ah
isso.
 
 TOBY:
“Ah
isso”.
 
 MARILYN:
Porque
é
que
nos
queres
mortos
com
tanta
vontade,
Mervyn?
 
 MERVYN:
Eu
não
vos
quero
mortos.
(PAUSA)
Eu
não
vos
queria
mortos.
Só
fiquei
entretido
com
as
 minhas
coisas
no
computador
lá
em
baixo.
Estava
à
procura
de
sites
sobre
gajos
que
ficaram
sem
 mãos.
 
 MARILYN:
há
sites
sobre
gajos
que
perderam
mãos?
 
 MERVYN:
Existem
seis,
mas
aquele
que
eu
estava
a
ver
só
tinha
estatisticas.
A
estatística
mais
 inacreditável,
dizia,
que
de
todas
as
pessoas
que
por
alguma
razão
maluca,
cortavam
uma
das
suas
 próprias
mãos,
83%
cortavam
a
mão
esquerda...

 
 (CARMICHAEL
OLHA
PARA
O
MERVYNDURANTE
ESTE
DIALOGO.
AO
CONTRÁRIO
DE
MERVYN,
TOBY
 REPARA
E
COMEÇA
A
FICAR
NERVOSO)
 
 MERVYN:
E
então
pensei,
wow,
é
uma
percentagem
gigante,
mas
depois
acho
que
topei
o
porquê
de
 ser
a
esquerda
e
não
a
direita.
 
 MARILYN:
Eu
também
acho
que
já
topei!
 
 MERVYN:
Então
conta
lá
a
tua
teoria.
 
 TOBY:
Ou
não!
 
 MARILYN:
No
mundo
inteiro
80
ou
90
porcento
das
pessoas
são
dextras,
certo?
 
 MERVYN:
Ah‐ha!
 
 MARILYN:
Por
isso
se
uma
pessoa
dextra
corta
uma
das
próprias
mãos,
ela
vai
cortar
a
mão
 esquerda,
certo?
Porque
ela
vai
usar
a
direita
para
segurar
o…,
tão
a
ver?!…não
é?!
 
 MERVYN:
O
cutelo…
 
 MARILYN:
Cutelo,
ou
faca,
ou
seja
o
que
for…
 
 MERVYN:
Cutelo.
 
 MARILYN:
Sim,
ou
uma
faca
ou
uma
coisa
qualquer!
 
 MERVYN:
Acho
que
acertaste
em
cheio,
Marilyn!
 
 TOBY:
Eu
sempre
detestei
estatisticas,
e
o
senhor?
Podem
sempre
ser
manipuladas.
Bem,
de
 qualquer
forma,
acho
que
está
na
hora
de
eu
a
Merilyn
irmos
andando
para
casa.
 
 CARMICHAEL:
(PARA
MERVYN)
Que
é
que
estás
a
insinuar,
meu?



MERVYN:
Hanh?
 
 CARMICHAEL:
Sim,
onde
é
que
queres
chegar?
 
 MERVYN:
Com
o
quê?
 
 (CARMICHAEL
SACA
DA
PISTOLA)
 
 CARMICHAEL:
Sobre
isso
dos
83
porcento
de
pessoas
que
cortam
a
própria
mão
esquerda?
 
 MERVYN:
Porque
foi
o
que
vi
no
computador.
 
 CARMICHAEL:
Estás
a
insinuar
que
eu
cortei
a
minha
própria
mão?
 
 TOBY:
Não,
de
maneira
alguma
ele
está
a
dizer
uma
coisa
dessas.
 
 MARILYN:
Não,
de
maneira
alguma
ele
está
a
dizer
uma
coisa
dessas.
 
 TOBY:

De
maneira
alguma,
ele
está
a
dizer
uma
coisa
dessas,
num
quarto
onde
se
houver
um
tiro
 rebenta
tudo...Não,
de
maneira
alguma
ele
está
a
dizer
uma
coisa
dessas
não
é
Mervyn
??
 
 MERVYN:
Eu…
não
estou
a
tentar
dizer
nada.
 
 TOBY:
Fantástico!
Vê?
Ele
não
está
a
tentar
dizer
nada!
 
 CARMICHAEL:
A
minha
mão
foi
cortada
por
um
bando
de
cabrões
trogloditas
nos
arredores
de
 Spokane,
Washington,
há
vinte
e
sete
anos
atrás.
E
acenaram‐me
adeus
com
ela
à
distáncia.
Estás
a
 querer
dizer,
que
agora,
depois
de
toda
esta
procura,
depois
de
todo
este…
trauma…,
…
estás
a
 tentar
dizer
que
eu
cortei
a
minha
própria
mão?
É
isso
que
está
a
querer
dizer?
 
 MERVYN:
Sr
Carmichael,
tenho
de
dizer,
que
está
a
ladrar
para
a
gente
errada.
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Estou
a
ladrar
para
a
gente
errada?
 
 MERVYN:
Voce
está
a
ladrar
para
a
gente
errada…
é
isso?
(PAUSA)
É
isso.
Estás
a
ladrar
para
a
gente
 errada.
Completamente
errada.
 
 CARMICHAEL:
Se
estou
a
fazer
algo
é
a
ladrar
para
a
árvore
errada.
 
 MERVYN:
Arvore
errada!
É
isso!
Eu
sabia
que
era
algo
assim!
Sim,
está
a
ladrar
para
a
árvore
 completamente
errada!
Como
a
sua
mãe!
(PAUSE)
Como
a
louca
da
sua
mãe.
 
 (CARMICHAEL
OLHA
DIRECTAMENTE
PARA
MERVYN,
QUE
RETRIBUI
O
OLHAR.
DE
REPENTE
OUVE‐SE
 O
SOM
E
VÊ‐SE
LUZES
DE
CARROS
DE
POLICIA
A
CHEGAR
E
A
PARAR
À
PORTA)
 
 TOBY:
Hum,…
Acho
que
é
a
polícia.
 
 (TOBY
LENTAMENTE
VAI
ATÉ
À
JANELA
ENQUANTO
ENQUANTO
O
FRENTE
A
FRENTE
CONTINUA
E
 OLHA
LA
PARA
FORA,
E
DEPOIS
OLHA
À
VOLTA
PARA
AS
MÃOS
E
A
GASOLINA
PELO
CHÃO…)
 TOBY:
Bem.
Um,…
vocês
já
não
precisam
de
nós,
certo?



(TOBY
INDICA
A
SAIDA
A
MARILYN,
E
TREPAM
PELA
JANELA.
MARILYN
OLHA
PARA
MERVYN,
TRISTE,
 E
DEPOIS
VAI
PARA
A
JANELA.
MERVYN
QUEBRA
O
FRENTE
A
FRENTE
PELA
PRIMEIRA
VEZ
MAS.
 CARMICHAEL
CONTINUA
FOCADO)
 
 MERVYN:
Vais‐te
embora?!
 
 MARILYN:
Sim,
vou‐me
embora.
 
 MERVYN:
Com
ele?
 
 MARILYN:
Sim,
com
ele.
 
 MERVYN:
Mas…
oh.
Eu
pensei
que
estava
a
começar
a
gostar
de
mim.
 
 MARILYN:
Estava,
era,
a
ficar
cada
vez
mais
assustada
contigo,
Mervyn.
 
 (TOBY
AJUDA
MARILYN
A
SAIR
PELA
ESCA
DE
EMERGENCIA)
 
 MERVYN:
Mas…
Eu
salvei
a
tua
vida.
 
 TOBY:
Também
salvaste
a
minha
vida
e
nem
por
isso
eu
vou
para
a
cama
contigo.
 
 (MARILYN
DESEJA‐LHE
SORTE,
E
ELA
E
TOBY
SAEM
PELA
ESCADA
DE
EMERGENCIA.
TRISTE,
 MERVYN
REGRESSA
A
CARMICHAEL)
 
 MERVYN:Que
cabra!
 
 CARMICHAEL:
Diz
lá
o
que
disseste
da
minha
mãe.
 
 MERVYN:
Huh?
Olha,
eu
já
não
me
interessa
ser
corajoso,
porque
já
não
há
gajas
por
aqui,
ok?
Eu
 não
disse
nada
sobre
a
tua
mãe.
Só
disse
que
ela
gosta
de
olhar
para
as
árvores,
ela
gosta
de
olhar
 para
as
árvores,
não
gosta?
Principalmente
se
houver
um
balão
nelas.
Não
gosta?
Nós
já
 estabelecemos
isso.
E
isso
não
é
mau.
E
não
estou
a
dizer
que
cortaste
a
tua
própria
mão.
Isso
faria
 de
ti
um
idiota.
“Cortar
a
própria
mão
e
depois
andar
vinte
e
sete
anos
à
procura
dela.”
Um
perfeito
 idiota,
não
era?
Quem
é
que
te
a
cortou,
mesmo?
Cabrões
trogloditas
 
 CARMICHAEL:
Cabrões
trogloditas,
sim.
 
 MERVYN:
Cabrões
trogloditas,
brancos
ou
pretos?
 
 CARMICHAEL:
Não
há
cabrões
trogloditas
pretos!
 
 MERVYN:
Não?
Mas
isso
não
é
justo.
E
o
que
é
que
eles
usaram,
um
cutelo
ou
qualquer
assim?
 
 CARMICHAEL:
Não.
Um
comboio.
 
 MERVYN:
Um
comboio?
Eles
usaram
um
comboio?
 
 CARMICHAEL:
Sim,
eles
usaram
um
comboio!
 



MERVYN:
Isso
nem
sequer
parece
possivel.
 
 CARMICHAEL:
(PAUSE)
O
quê?
 
 MERVYN:
Estás
a
dizer
que
eles
chegaram,
o
agarraram
num
comboio
e
…
 
 CARMICHAEL:
Eles
não
agarram
num
comboio.
Eles
agarraram
a
minha
não
contra
a
linha
e
um
 comboio
passou‐lhe
por
cima.
 
 MERVYN:
Ahh…
 
 CARMICHAEL:

Mas
porque
é
que
eu
estou
a
ter
esta
conversa
contigo?
Há
uma
porrada
de
policias
 prestes
a
subir
até
aqui,
meu.
 
 (CARMICHAEL
ARRUMA
A
ARMA
E
COMEÇA
A
COLOCAR
AS
MÃOS
DE
VOLTA
NA
MALA)
 
 MERVYN:
Espera,
eles
agarraram
a
tua
mão,
veio
um
comboio
e
cortou‐te
a
mão…
 
 CARMICHAEL:
(SUSPIRA)
O
comboio
corta
a
mão,
eles
agarram
na
mão…
 
 MERVYN:
Depois
do
comboio
passar…
 
 CARMICHAEL:
Depois
do
comboio
passar,
claro.
Depois
acenaram
adeus
com
a
minha
mão
à
 distância.
 
 MERVYN:
E
a
tua
mão
não
ficou
em
puré?
 
 CARMICHAEL:
A
minha
não
ficou
em
puré,
não.
A
minha
mão
ficou
cortada
completamente
normal.
 Eu
não
passaria
vinte
e
sete
anos
da
minha
vida,
à
procura
da
minha
mão,
se
estivesse
em
puré.
 
 MERVYN:
E
o
resto
do
teu
braço
não
ficou
em
papa?
 
 CARMICHAEL:
Parece‐te,
que
o
resto
do
braço
ficou
em
papa?
Olha
lá
bem.
 
 MERVYN:Estou
a
olhar
para
o
resto
do
braço.
 
 CARMICHAEL:
Parece‐te
papa?
 
 MERVYN:
Não,
não
parece
papa.
 
 CARMICHAEL:
Obrigado.
 
 MERVYN:
As
rodas
desse
comboio
eram
o
quê?
Lâminas?
 
 (CARMICHAEL
PÁRA
E
OLHA
FIXAMENTE
PARA
ELE)
 
 MERVYN:
E
a
linha
também?
 
 (CARMICHAEL
SACA
DA
PISTOLA
APONTA
A
CABEÇA
DE
MERVYN
ARMA‐A.
MERVYN
NEM
SE
MEXE.

 ALIAS
COÇA
O
NARIZ.
CARMICHAEL
OLHA
PARA
MERVYN
DURANTE
MUITO
TEMPO,
DEPOIS
 ACALMA)



CARMICHAEL:
Porque
é
que
estás
com
tanta
vontade
de
morrer,
Mervyn?
 
 MERVYN:
Hanh?
 
 CARMICHAEL:
Porque
é
que
estás
com
tanta
vontade
de
morrer?
 
 MERVYN:
Eu
não
quero
morrer.
(PAUSA.
PARA
ELE
MESMO)
Ou
será
que
quero?
(PAUSA)
 Não,
eu
não
quero
morrer.
Ou
se
calhar..
acho
que
tanto
me
faz.
 
 (CARMICHAEL
BAIXA
A
PISTOLA)
 
 CARMICHAEL:
Não
tens
ninguém
que
se
importasse
se
tu
morresses?
 
 MERVYN:
Havia
alguém,
agora
já
não.
 
 CARMICHAEL:
O
quê
Morreu?
 
 MERVYN:
(PAUSA)
Eu
cheguei
lá
uma
noite
e
ela
estava
deitada
na
parte
de
trás
da
sua
jaula.
 
 CARMICHAEL:
Na
parte
de
trás
do
quê?
 
 MERVYN:
Na
parte
de
trás
da
jaula.
Eu
tentei
que
os
empregados
do
zoo
fizessem
alguma
coisa,
mas
 eles
estavam‐se
a
cagar,
meu.
Acho
que
a
vida
não
é
assim
tão
preciosa,
na
casa
dos
macacos.
 
 CARMICHAEL:
Ouve,
eu
não
vou
perguntar
mais
coisas
sobre
tua
cena
de
macacos,
ok?
Vou
 continuar
a
arrumar
as
minhas
coisas
e
vou
bazar
daqui
para
fora,
não
preciso
desta
merda
agora,
 meu.
Eu
não
quero
ser
insensivel
nem
nada,
mas
estou
exausto
e
não
me
está
a
apetecer
levar
com
 essa
conversa
dos
macacos!
Ok?
 
 MERVYN:
Ok.
Tu
é
que
perguntaste,
mas
ok.
 
 CARMICHAEL:
Porra,
meu!
Macacos
agora?!
Nesta
altura?!
Foda‐se…
 
 (CARMICHAEL
SUSPIRA
E
COMEÇA
A
ATIRAR
AS
MÃOS
PARA
A
MALA
OUTRA
VEZ
.
MERVYN
AJUDA
 COMUMAS
POUCAS)
 
 CARMICHAEL:
(A
PARAR)
Há
uma
coisa
que
te
quero
dizer.
Curiosamente,
é
importante
para
para
 mim
que
tu
saibas..
 
 (MERVYN
ACENA)
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Levaram
a
minha
mão.
(PAUSA)
Levaram
a
minha
mão.
E
não
o
deviam
ter
 feito.
E
eu
quero‐a
de
volta.
Apenas
a
quero
de
volta.
 
 (MERVYN
ACENA)
 
 MERVYN:
Parece‐me
justo.
(PAUSA)
Tu
sabes
que
mesmo
que
a
consigas
ter
de
volta,
não
vais
 conseguir
fazer
nada
com
ela,
não
sabes?
Por
exemplo,
desenhar...
 
 CARMICHAEL:
Eu
sei.
Mas,
sabes…
é
minha.
(PAUSA)
É
minha.



(MERVYN
ACENA.
CARMICHAEL
CONTINUA
COM
AS
MÃOS,
MERVYN
AJUDA)
 
 MERVYN:
Eu
não
sei,
meu
isto
devia
ser
macabro,
estar
a
atirar
mãos
verdadeiras,
de
pessoas,
para
 uma
mala,
mas
sabes
que
mais?
Não
é,
até
é
divertido!
(PAUSA)
Excepto
as
mãos
de
criança.
São
 menos
divertidas.
São
mais
perturbadoras.
São
mesmo
mãos
de
crianças,
ou
apenas
mãos
que
 encolheram
com
o
tempo?
 
 CARMICHAEL:
Não,
são
mesmo
mãos
de
crianças
pequenas.
 
 (MERVYN
ACENA,
E
ATIRA
PARA
DENTRO
DA
MALA
TODAS
AS
MALAS.
ELE
ENCONTRA
ENTÃO
UMA
 MÃO
ESPECIFICA
E
OLHA
PARA
ELA)
 
 MERVYN:
Aqui
está
uma
engraçada.
 
 CARMICHAEL:
Que
é
que
tem
de
engraçada?
 
 MERVYN:
Tem
a
palavra
“ODIO”
tatuada
nas
nozes
dos
dedos.
 
 (MERVYN
ATIRA‐A
PARA
O
CARMICHAEL
E
CONTINUA
A
ARRUMAR
AS
OUTRAS.
CARMICHAEL
 EXAMINA‐A
COM
CUIDADO)
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Isso
não
é…
isso
não
é
uma
tatuagem.
Acho
que
isso
é
tinta
de
caneta.
 
 MERVYN:
Sim?
 
 CARMICHAEL:
Sim.
É,
uh…
Sim,
é
aquele
puto
preto
a
gozar
comigo.
 
 (CARMICHAEL
OLHA
PARA
PROXIMIDADE
ENTRE
O
AQUECEDOR
E
O
SITIO
ONDE
MERVYN
 ENCONTROU
A
MÃO,
ENQUANTO
MERVYN
OLHA
PELA
JANELA.
AINDA
SE
VE
AS
LUZES
DOS
CARROS
 DA
POLICIA)
 
 MERVYN:
Aquele
preto
de
merda.
Sabes
o
que
vou
fazer?
Vou
lá
baixo,
e
digo
aos
policias
que
acabo
 de
ver
um
puto
preto
a
fugir
pela
saída
de
emergência,
atrás
de
uma
miúda
branca.
Se
ele
acha
que
 a
noite
lhe
estava
a
correr
mal,
agoraentão...
 
 CARMICHAEL:
(DISTRAIDO)
Faz
isso,
Mervyn.
 
 MERVYN:De
qualquer
maneira,
é
melhor
apanha‐los
na
entrada.
Tenho
uma
ou
duas
plantas
e
não
 quero
que
eles
andem
a
bisbilhota‐las,
se
é
que
me
faço
entender.
 
 CARMICHAEL:
Erva?
 
 MERVYN:
Não,
é
só
um
cacto
que
eu
gamei
de
uma
janela
uma
noite
em
que
estava
bêbado,
não
 preciso
dele,
e
até
está
a
morrer,
mas
sabes,
até
gosto
dele!
 
 CARMICHAEL:
Está
a
morrer?
Pensei
que
um
cacto,
quase
não
fosse
preciso
regar.
 MERVYN:
(PAUSA)
Regar?
Ah,
ok…
 
 (CARMICHAEL
ATIRA
AS
ÚLTIMAS
MÃOS
PARA
A
MALA)
 



CARMICHAEL:
Como
vais
explicar
toda
esta
gasolina
e
sangue?
 
 MERVYN:
(PAUSA)
Digo
que
tivemos
uns
músicos.
 
 (CARMICHAEL
ACABA,
FECHA
A
MALA
DEIXANDO
A
MÃO
“ODIO”
EM
CIMA
DA
MALA)
 
 MERVYN:
Sabe
uma
coisa
senhor
Carmichael?
O
senhor
é
um
tipo
porreiro,
sabia?
 
 CARMICHAEL:
E
tu
és
um
recepcionista
corajoso,
Mervyn.
 
 (MERVYN
OLHA
DESCONFIADO
AO
DE
RECEPCIONISTA.
CARMICHAEL
SORRI,
SIMULA
UM
APISTOLA
 COM
OS
DEDOS
E
DISPARA.
MERVYN
SORRI)
 
 MERVYN:
Telvez
este
seja
o
inicio
de
uma
bela
amizade,
hum?
 
 CARMICHAEL:
Não.
Não,
vai.
 
 MERVYN:
Eu
não
queria
dizer
nada
gay,
ok…
 
 CARMICHAEL:
Eu
sei
que
não,
mas
não.
 
 MERVYN:
(PAUSA)
Achas
mesmo
que
sou
corajoso?
 
 CARMICHAEL:
Não
tenho
certeza,
se
se
pode
considerar
coragem,
quando
a
pessoa
tem
um
desejo

 morrer
tão
grande
grande
como
o
teu.

 
 MERVYN:
Mais
ou
menos,
então?
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Sim.
Mais
ou
menos.
 
 (APERTAM
AS
MÃOS
DURANTE
UM
MOMENTO,
QUANDO…)
 
 MERVYN:
(TRANQUILAMENTE)
Era
um
gibão.
Que
morreu.
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA
LONGA)
O
rei
dos
macacos.
 
 MERVYN:
São
mesmo?!
 
 CARMICHAEL:
(PAUSA)
Não
é
a
minha
área,
mas
provavelmente
são
os
gorilas.
 
 (MERVYN
ACENA
E
VAI
PARA
APORTA)
 
 MERVYN:Acho
que
vou
tratar
dos
polícias.
 
 CARMICHAEL:
Boa
sorte,
Mervyn.
 
 MERVYN:
Se
precisar
de
mim,
estou…
acho
que
vou
estar
na
recepção.
 
 
 



(MERVYN
SAI.
PAUSA.
CARMICHAEL
SENTA‐SE
NA
MALA
AO
LADO
DA
MÃO,
A
EXAMINA‐LA.
 COMPARA
CONTRA
O
SEU
PULSO
ESQUERDO.
NÃO
É
UM
ENCAIXE
PERFEITO,
MAS
QUASE.
ABANA
A
 CABEÇA,
POUSA
A
MÃO
OUTRA
VEZ
NA
MALA
AO
SEU
LADO,
VOLTA
A
OLHAR
PARA
ELA
OUTRA
VEZ,
 ABANA
A
CABEÇA
OUTRA
VEZ.
PAUSA.
OLHA
À
SUA
VOLTA
PARA
A
CONFUSAR
E
PARA
A
GASOLINA
 AOS
SEUS
PÉS.
ELE
CHEIRA
A
GASOLINA
NOS
SEUS
DEDOS,
LIMPA
NO
SOBRETUDO,
E
SENTE
 QUALQEUR
COISA
NO
BOLSO.
ELE
SACA
DA
CIGARREIRA,
OLHA
PARA
ELA
UM
MOMENTO,
E
DEPOIS
 COM
ARTE
SACA
DE
UM
CIGARRO,
PÕE‐NO
À
BOCA,
GUARDA
A
CIGARREIRA…
E
SACA
O
ISQUEIRO.
 ELE
OLHA
À
VOLTA,
ABRE
O
ISQUEIRO,
TENTA
ACENDER
UMA
OU
DUAS
VEZES.
SEM
FAISCA,
SEM
 CHAMA.
TENTA
UMA
OU
DUAS
MAIS
VEZES
ABANA‐O
PARECE
ESTAR
SEM
GAS.
TENTA
UMA
VEZ
 MAIS
NÃO
CONSEGUE.
ATIRA
O
ISQUEIRO
CONTRA
APORTA
DO
QUARTO,
SACA
O
CIGARRO
DA
 BOCA,
COLOCA
O
QUEIXO
NA
MÃO)
 
 
 (ENQUANTO
ELE
ESTÁ
SENTADO
IMOVÉL,
MÃO
NO
QUEIXO,
AS
LUZES
LENTAMENTE
VÃO‐SE
 APAGANDO,
ATÉ
SE
APAGAREM
POR
COMPLETO)


A BEHANDING IN SPOKANE GUIÃO  

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