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Tessa Dare

A RENDIÇÃO DE UMA SEREIA

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Desesperada para escapar de um casamento sem amor e as restrições da sociedade, a mimada herdeira Sophia Hathaway abandona seu noivo, empacota suas pinturas e desenhos, e assume uma nova identidade, fazendo-se passar por uma governanta para garantir a sua passagem no Afrodite. Ela quer uma vida própria: Sem proteção, não convencional, sem inibições. Mas uma coisa é imaginar todas as suas fantasias mais loucas e desavergonhadas, e outra é lidar com um libertino perigosamente bonito que roubaria tanto sua virtude quanto seu ouro. Para qualquer dama bem educada, Benedict "Gray" Grayson é problema garantido. Um canalha sem consciência que sulca os mares pelo prazer e o lucro. Gray vive para a conquista até que a perspicácia e a arte de Sophia agitam seu coração. De repente, ele terá de enfrentar tubarões, incêndios, tempestades, e o mar só para mantê-la a seu lado. Ela é linda, refinada e pronta para sedução. Poderia esta falsa governanta ser a redenção de um pilantra? Ou os segredos da herdeira fugitiva poderia destruir a única chance dos dois no amor?

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Capítulo 01

Gravesend, Dezembro 1817. Ao fugir de um casamento da alta sociedade do ano, Sophia Hathaway sabia que estaria abraçando a infâmia. Esqueceu-se de considerar como cheirava a infâmia. Ela parou na porta da fétida taberna do cais. Mesmo dali, chegava até ela o fedor de cerveja azeda, fazendo com que a bílis subisse à garganta. Um homem corpulento deu-lhe uma cotovelada quando saiu pela porta. — Cuidado, amor. Ela colou-se contra o batente da porta, maravilhada na forma singular do discurso implícito "amor". O comentário do homem foi claramente direcionado para seus seios. Com um arrepio, ela envolveu-se com força em sua capa ao redor do peito. Inspirando profundamente, ela se esgueirou para dentro dessa confusão fria e úmida, cheia de bêbados, impedindo que suas saias cinza de sarja roçassem contra alguma coisa. Muito menos contra alguém. De cada canto obscuro — e como uma caixa quadrada de chá, esta taberna abundava em cantos escuros — sentia olhos seguindo-a. Olhos suspeitosos, olhando de esguelha, dentro de rostos duros e sem barbear. Era suficiente para que qualquer mulher ficasse ansiosa. Para uma mulher fugitiva, educada, viajando sozinha, sob a frágil proteção de uma capa emprestada e uma identidade falsa... Bom, era quase suficiente para fazer com que Sophia reconsiderasse todo o assunto. Alguém invisível a empurrou por trás. Seus dedos enluvados agarraram instintivamente o envelope secreto dentro de sua capa. Pensou em seus irmãos, as cartas que colocou no correio essa mesma manhã, rompendo seu compromisso e garantindo um escândalo de proporções byronianas. As sementes da ruína irrevogável, dispersadas ao vento. Uma sensação de fria predestinação se ancorou em seu estômago. Agora não havia recuo. Estava disposta a atravessar por coisas muito piores que este bar miserável, se isso significasse deixar para trás sua vida restritiva. Até mesmo estava disposta a suportar estes homens ordinários que devoravam 4


seus seios com os olhos, sempre e quando não vislumbrassem o segredo apertado entre eles. Com sua resolução reafirmada, Sophia chamou a atenção de um homem calvo que limpava uma mesa com um pano gordurento. Parecia inofensivo, ou pelo menos, muito velho para atacar rapidamente. Ela sorriu-lhe. Ele devolveu o gesto com um sorriso totalmente desdentado. Com seu próprio sorriso vacilando, ela se aventurou: — Estou procurando o capitão Grayson. — É óbvio que sim. Todas as belas o buscam — a careca brilhante se moveu. — Gray está no fundo. Ela seguiu a direção indicada, movendo-se entre a multidão nas pontas dos pés, em um esforço para manter suas saias afastadas do piso. As tábuas pegajosas do chão sugavam suas botas de meio cano. No fundo da sala, ela viu um punhado de homens e mulheres se movimentando em torno do bar. Um homem era mais alto que os outros, com o cabelo castanho parecendo mais limpo do que o daqueles que o acompanhavam. Um bem cuidado chapéu de feltro descansava no bar próximo, um adorno estranhamente refinado para este antro decadente. Quando Sophia se colocou em ângulo para uma melhor visão, uma cadeira escorregou de uma mesa próxima, atingindo seu joelho. Ela tropeçou sobre as pontas de seus pés por um momento, antes de se balançar para diante. A bainha de sua capa ficou presa em sua bota, e sua capa se abriu de um puxão, expondo seu peito e a garganta ao ar sombrio e invernal. Em sua desesperada tentativa de endireitar-se, quis agarrar-se violentamente na parede... e em vez disso, agarrou-se a um punhado de camisa de linho grosseiro. O dono da camisa se voltou para ela. — Olá, jovenzinha — disse arrastando as palavras, seu hálito rançoso. Seus olhos vidrados pelo licor deslizaram por seu corpo e fixaram sobre seus seios. — Olhe que coisinha você é. Parece que custa mais do que tenho em meu bolso, mas se você está se oferecendo... — Ele a confundiu com alguma rameira do cais? A língua de Sophia se curvou com desgosto. Talvez vestindo roupas simples, mas certamente não parecia barata. — Eu não estou me oferecendo — disse com firmeza. Ela tentou fugir, mas com um movimento rápido, ele a jogou contra o bar. — Fique aqui, querida. Vamos ver se você tem um pouco de cócegas, então. Seus dedos sujos mergulharam no vale de seus seios, e Sophia gritou. — Afaste suas mãos de mim, seu... Seu bruto repugnante! 5


O bruto soltou um de seus braços para continuar sua exploração lasciva, e Sophia usou sua mão recém liberta para golpeá-lo na cabeça. Não ajudou. Seus dedos se retorciam entre seus seios como vermes gordurentos e ávidos escavando na escuridão. — Já basta — exclamou, empunhando a mão e golpeando-o na orelha, sem sucesso. Seus esforços para se defender só divertiam seu agressor bêbado. — Tudo bem — disse ele rindo. — Eu gosto de minhas garotas com muita coragem. O desespero tomou conta de seu coração. Não era simplesmente o insulto das mãos deste idiota em seus seios o que lhe dava pânico. Havia perdido sua reputação no momento em que abandonou sua casa. Mas esses dedos exploravam cada vez mais perto da única coisa que ela não se atreveu a renunciar. Se a encontrasse, Sophia duvidava que escapasse desta taberna com sua vida intacta, e muito menos com sua virtude. Seu atacante virou a cabeça, inclinando-a para ter uma melhor visão. Sua orelha suja apenas alguns centímetros de sua boca. À distância de uma mordida. Se mordesse bastante forte, poderia assustá-lo para que a soltasse. Ela estava quase decidida a fazer, quando inalou seu suor fétido e parou. Se suas opções eram pôr sua boca sobre esta besta repulsiva ou morrer, ela quase preferiria morrer. No final, ela fez nem uma coisa nem outra. A besta repulsiva deu um grito de surpresa quando um par de grandes mãos o agarrou com força afastando-o. Levantaram-no, na realidade, como se o bruto não pesasse nada, até que se retorceu no ar sobre ela como um peixe em um anzol. — Vamos, Bains — disse um barítono suave, com confiança — você sabe que não deve fazer isto. Com um simples movimento, seu salvador jogou Bains a um lado. O bruto aterrissou alguns metros mais à frente, em um estalo de madeira estilhaçada. Com alívio, Sophia se recostou no bar, olhando para seu salvador. Era o cavalheiro alto, de cabelo castanho, que vira antes. Pelo menos, ela assumia que era um cavalheiro. Seu acento sugeria educação, e com seu casaco verde escuro, calça bege e suas botas Hessianas, ele formava uma figura na moda. Mas quando flexionou os braços, a roupa fina, feita sob medida, delineou um poder primitivo e musculoso por baixo. E não havia nada refinado em relação ao seu rosto. Seus traços eram grosseiros, sua pele bronzeada pelo sol. Era impossível não ficar olhando o tom dourado e curtido e não perguntar-se até onde desaparecia... 6


Na gravata? Na cintura? Em nenhuma parte absolutamente? Quanto mais olhava para o homem, menos sabia o que pensar dele. Ele usava roupas de um cavalheiro, o corpo de um operário... e a boca larga e sensual de um malandro. — Quantas vezes preciso dizer, Bains? Isso não é maneira de tocar uma mulher — suas palavras se dirigiram ao idiota no chão, mas seu olhar malicioso estava fixo nela. Então ele sorriu, e o gesto preguiçoso de seus lábios esticou uma fina cicatriz, que se inclinava da mandíbula até sua boca. Oh, sim, essa boca era perigosa. Nesse momento, Sophia poderia tê-la beijado. — A maneira correta de tocar uma mulher — continuou, passando por seu lado e apoiando um cotovelo no bar — é chegar até ela de um lado, deste modo. Em uma atitude de perfeita indiferença, apoiou seu peso no braço e o deslizou ao longo do bar até que seus dedos ficaram a poucos centímetros do peito dela. Da boca de um malandro, sem dúvida! O agradecimento de Sophia se transformou rapidamente em indignação. Este homem realmente a livrou do idiota só para poder ele mesmo tocá-la? Aparentemente era isso. Sua mão grande pousou muito perto de seu seio, sua pele se esquentou à sombra desses dedos. Tão perto, que sua pele se arrepiou, antecipando a textura áspera de seu toque. Ela desejava que ele a tocasse, que colocasse fim à incerteza insuportável, e lhe desse uma desculpa para apagar de um golpe o sorriso malicioso de seu rosto. — Vê? — Ele disse, abanando os seus dedos nas imediações de seu busto. — Desta maneira você não a espanta. Ásperas gargalhadas retumbaram através da multidão reunida. Retraindo a mão, o descarado elevou a voz. — Eu não estou certo, Megs? Todos os olhos se voltaram para uma ruiva curvilínea que estava juntando as canecas de cerveja. Megs mal levantou a vista de seu trabalho quando gritou: — Ninguém sabe como tocar uma mulher como Gray. As risadas voltaram a inundar a taberna, desta vez mais forte. Até mesmo Bains riu. Gray. O coração de Sophia desabou. O que foi que o homem careca havia dito, quando perguntou pelo capitão Grayson? Gray está no fundo. — Uma última coisa para recordar, Bains — continuou Gray. — O mínimo que você pode fazer é pagar uma bebida para a dama. — Quando os outros retornaram 7


para suas distrações, ele voltou seu arrogante sorriso para Sophia. — O que você quer, então? Ela piscou. O que queria? Sophia sabia exatamente o que queria. Queria que sua sorte não fosse tão colossalmente ruim. Esta montanha de insolência bem vestido, que pairava sobre ela era o capitão Grayson, do navio Afrodite. E o Afrodite era o único navio com destino à Tortola até a próxima semana. Para Sophia, na próxima semana poderia muito bem ser o próximo ano. Ela precisava ir para Tortola. Precisava partir agora. Portanto, precisava que esse homem, ou melhor, que o navio deste homem a levasse. — O que, nenhuma avalanche de gratidão? — Ele olhou para Bains, que estava se levantando pesadamente do chão. — Suponho que pensa que deveria tê-lo golpeado com mais força. Poderia ter feito. Mas eu não gosto de violência. Sempre termina me custando dinheiro. E por muito linda que seja — seus olhos saltaram sobre ela quando fez um gesto ao garçom — antes de fazer esse grande esforço, acredito que deveria pelo menos saber seu nome, senhorita...? Sophia apertou os dentes, reunindo toda sua paciência disponível. Precisava partir, recordou-se. Precisava deste homem. — Turner. Senhorita Jane Turner. — Senhorita... Jane... Turner — separou a sílabas como se as degustasse com sua língua. Sophia sempre pensou que seu segundo nome era aborrecido, mais simples, que se pudesse imaginar. Mas em seus lábios, mesmo "Jane" parecia indecente. — Bom, senhorita Jane Turner. O que bebe? — Eu não bebo nada. Estou procurando o capitão Grayson. Vim em busca de uma passagem para seu navio. — No Afrodite? Para Tortola? Por que diabos quer ir lá? — Sou uma governanta. Eu estou indo para um trabalho perto de Road Town. — as mentiras rolaram sem esforço de sua língua, como sempre. Aqueles olhos a varreram de sua touca até suas botas de meio cano, provocando um desagradável calafrio até a ponta de seus pés. — Você não parece com nenhuma governanta que eu tenha visto. Seus olhos caíram em suas mãos, e Sophia rapidamente as fechou em punhos. As luvas. Maldita fosse sua vaidade. O velho vestido de sua criada e a capa serviam como disfarce... suas dobras podiam ocultar uma multidão de pecados. Mas 8


como ela se vestiu sozinha pela primeira vez em sua vida esta manhã, seus dedos trêmulos pelo nervosismo e o frio, Sophia só conseguiu aplacar seu tremor com esta única indulgência, seu melhor par de luvas de seda negra, presas com pequenos botões de madrepérola negras e forradas com pele de Marta. Não eram luvas de uma governanta. Por um momento, Sophia temeu que ele visse a verdade. Tolices, repreendeu-se ela. Ninguém nunca a olhava e via a verdade. As pessoas viam o que queriam ver... a filha obediente, a menina inocente, a bela da sociedade, a noiva ruborizada. Este capitão mercante não era diferente. Veria um passageiro, e a promessa de uma moeda. Há muito tempo, havia aprendido a chave para o engano. Era fácil mentir, uma vez que entendeu que ninguém queria a verdade. — Bonitas, não? Foram um presente — com um ostentoso movimento enluvado, entregou-lhe a carta. O envelope trazia o desgaste e marcas de uma viagem pelo Atlântico. — Minha oferta de emprego, se deseja examiná-la — fez uma breve oração para ele não fazer isso. — Do senhor Waltham da plantação Eleanora. — Waltham? — Ele riu, rejeitando a carta com os gestos. Sophia a guardou em seu bolso rapidamente. — Senhorita Turner, não faz ideia do que enfrenta. Não importam os perigos de cruzar um oceano, a pobreza e as enfermidades tropicais... George Waltham é uma praga sobre a terra. Alguém com sua natureza delicada e luvas elegantes é muito pouco provável que sobreviva. — Você conhece a família, então? — Sophia manteve seu tom leve, mas por dentro soltou uma saraivada de maldições. Ela nunca considerou a possibilidade de que um capitão mercante pudesse conhecer os Walthams. — Oh, conheço Waltham — continuou — crescemos juntos. As plantações de nossos pais eram vizinhas. Ele era mais velho vários anos, mas para as travessuras eu o seguia bastante bem. Sophia engoliu um gemido. O capitão Grayson não só conhecia senhor Waltham, mas também eram amigos e vizinhos! Todos seus planos, todas suas mentiras cuidadosamente tecidas... esta informação a embaralhou como um baralho de cartas. Ele continuou: — E você está viajando sozinha, desacompanhada? 9


— Eu posso cuidar de mim mesma. — Ah, sim. E eu joguei Bains pelo recinto apenas para a minha própria diversão. É um pequeno jogo que nós marinheiros gostamos de jogar. — Posso cuidar de mim mesma — insistiu ela. — Se tivesse esperado mais um pouco, essa besta repugnante estaria com uma orelha a menos. Ele lançou um olhar profundo, que a fez sentir como uma luva elegante, com todas as costuras e as bordas sem terminar. Ela respirava de maneira constante, lutando contra o rubor que subia às suas faces. — Senhorita Turner — disse secamente — tenho certeza que, com imaginação fértil da mulher que é, você acha que navegar para as Índias Ocidentais será uma grande aventura romântica — ele arrastou as palavras da frase em um tom condescendente, mas Sophia não estava segura que tivesse a intenção de zombar dela. Mas bem, supôs, seu tom transmitia um cansaço geral da aventura. Que triste. — Felizmente — continuou ele — nunca conheci uma garota que não pudesse desiludir, assim agora me escute muito bem. Engana-se. Você não vai encontrar aventura e romance. No melhor dos casos, você encontrará um tédio indescritível. Na pior das hipóteses, você vai encontrar uma morte precoce. Sophia piscou. Sua descrição de Tortola a fez pensar, mas descartou qualquer preocupação rapidamente. Afinal, não era como se ela quisesse ficar ali. O capitão se moveu para recuperar seu chapéu do bar. — Por favor — ela o agarrou pelo braço. Céus. Era como agarrar um canhão coberto de lã. Ignorando a comichão quente de seu ventre, ela aumentou seus olhos e tornou sua voz suplicante. O papel de jovem inocente e indefesa era um que esteve interpretando por anos. — Por favor, precisa me levar. Não tenho outro lugar aonde ir. — Oh, eu tenho certeza que irá resolver de alguma forma. Uma coisinha bonita como você... Afinal — disse ele, arqueando uma sobrancelha — você pode cuidar de si mesma. — Capitão Grayson... — Senhorita Jane Turner — sua voz se afiou com impaciência. — Desperdiça saliva apelando a meu senso de honra e decência. Qualquer cavalheiro em meu lugar a despacharia imediatamente. — Sim, mas você não é um cavalheiro — ela agarrou seu braço de novo e olhou-o diretamente nos olhos. — Ou sim? Ele ficou paralisado. Todos esses músculos esticando-se com energia, o perfil 10


duro animado pela insolência, por um instante, tudo se converteu em pedra. Sophia prendeu a respiração, sabendo que ela apostou seu futuro nisto, a última carta que restava na manga. Mas isto era muito mais emocionante que o whist. — Não — disse ele finalmente . — Não, eu não sou. Eu sou um comerciante, e preciso obter lucro. Desde que você tenha dinheiro para pagar sua passagem, o Afrodite está no ancoradouro esperando. O alívio transpirou através de seu corpo. — Obrigada. — Tem baús? — Dois. Lá fora, com um menino. — Muito bem — sua boca se curvou em um sorriso lento, diabólico. Um sorriso cúmplice. O tipo do sorriso que uma jovem de boa criação não reconheceria, e muito menos devolveria. Assim, naturalmente, perversa como era, Sophia devolveu o sorriso. — Bom — murmurou ele — isto vai ser um desafio. — O quê? — perguntou ela, sentindo-se de repente pouco disposta a protestar muito. — Recuperar seus baús, com você agarrando meu braço. — Oh, sim — ela se agarrava a seu braço, não? Maldição. E entretanto, não estava disposta a soltá-lo. Talvez tenha sido o seu desespero com o episódio com Bains, ou a inundação de profundo alívio que acompanhou o resgate. Talvez fosse uma fascinação perversa com este enigma de homem, que possuía a força bruta para jogar longe homens adultos, e só o encanto suficiente para ser realmente perigoso. Ou talvez fosse simplesmente a sensação de seus músculos duros como pedra debaixo de sua mão, e o conhecimento que ela os fez flexionar. Sophia não podia dizer. Mas tocá-lo a fazia sentir-se eufórica. Poderosa e viva. Tudo o que esteve esperando sua vida inteira para sentir. Tudo pelo que estava disposta a cruzar meio mundo para encontrar. Na fuga, tomou a decisão de abraçar a infâmia. E aqui estava ela. A garota realmente devia soltá-lo. Esta era a viagem em que Gray se faria respeitável. E este era um começo muito ruim. Tudo era culpa dela. Esta governanta delicada e fina, com a pele de porcelana e olhos grandes, redondos elevando-se para ele como xícaras Wedgwood. Parecia que se quebraria com apenas um sopro mais forte, e esses olhos ainda rogando, 11


implorando, exigindo. Por favor, livra-me das garras deste bruto. Por favor, leve-me para seu navio e zarpemos para Tortola. Por favor, tire-me este horroroso vestido e me inicie nos prazeres da carne aqui mesmo no balcão. Bom, como a inocente senhorita que era, poderia ter carecido das palavras para expressar a terceira parte dessa maneira. Mas, como homem de mundo que era, Gray podia interpretar o pedido com toda clareza. Ele só desejava que pudesse dissuadir a resposta instintiva e positiva de seu corpo. Não sabia o que fazer com a jovem. Devia se tornar respeitável, esta viagem marcava o início de sua carreira respeitável. Mas a senhorita Turner o pegou. Não era nenhum cavalheiro, e dane-se, ele sabia o que era respeitável. Permitir que uma dama jovem, solteira, atraente viajasse sozinha, provavelmente não era. Mas então, se ele se negasse, mas então, se ele se recusasse, quem diria que ela não acabaria numa situação ainda pior? A jovem não pôde cuidar de si mesma nem por cinco minutos em uma taverna. Ele realmente ia deixá-la solta nos cais de Gravesend? O que diria a George Waltham então? Maldição. Depois de anos de farra sem rumo, Gray chegou a um ponto em sua vida que, por uma razão ou outra, realmente queria se comportar honradamente. O problema era que, em algum lugar em todos esses anos de farra sem rumo, ele havia perdido seu senso de honra. Ele poderia navegar através de um ciclone e não perder seu curso. Podia navegar o corpo de uma mulher no escuro. Mas sua bússola moral estava enferrujada por falta de uso. Entretanto... Ele nunca perdeu de vista a meta. E assim com esta governanta o colocando à prova, Gray voltou para seu método habitual para tomar decisões: optou por seu benefício. A senhorita Jane Turner era um de seus passageiros. Ele tinha um navio com cabines vazias. A decisão foi simples. Era um comerciante, e isto era um negócio. Estritamente negócios. Não tinha por que estudar a deliciosa extensão de alabastro das maçãs do seu rosto. E ela não tinha por que agarrar seu braço. — Senhorita Turner — disse com severidade, com a mesma voz que dava ordens a sua tripulação. — Sim? — Solte-me, agora. Ela liberou seu braço, corando encantadoramente e o olhou através de seus cílios 12


trêmulos. Gray suspirou. Se não era uma coisa, era outra. — Tenho um último assunto para resolver. Fique aqui. Com esta ordem imperiosa, cruzou a taverna. Bains estava sentado em uma mesa, debruçado sobre uma caneca de cerveja gelada. Gray deu-lhe um tapinha no ombro e inclinou-se para falar sobre uma orelha sem lavar. Algumas palavras mais graves, algumas moedas, e um dilema resolvido para o seu benefício. — Agora, senhorita Turner. Podemos nos pôr a caminho — agarrando-a com firmeza pelo cotovelo, moveram-se para a porta da taverna. — Você deu-lhe dinheiro? — lutando contra a pressão em seu braço, ela se torceu para olhar para trás em direção a Bains. — Depois do que ele me fez, pelo que você fez a ele... Você o pagou? Ignorando sua pergunta, ele chamou a atenção do porteiro. — Os pertences da dama — ordenou rapidamente. O rapaz envolveu com seus musculosos antebraços o maior de seus dois baús. Gray alcançou o menor, sopesando-o sobre seu ombro e segurando-o ali com uma só mão. Deu três passos antes de perceber que ela não o estava seguindo. Ele fez uma pausa longa o suficiente para lançar um comentário sobre seu ombro. — Venha, então. Vou levá-la ao Afrodite. Você vai querer encontrar o capitão.

Capítulo 02

O capitão? Sophia olhou para as costas dele atordoada. Ele acabou de dizer que a apresentaria ao capitão? Se alguém mais era o capitão, então, quem diabos era este homem? Uma coisa estava clara. Fosse quem fosse, ele estava com seus baús. E ele estava indo. Xingando baixinho, Sophia pegou suas saias e correu atrás dele, esquivando-se de barris e marinheiros e rolos de cordas sujas de alcatrão enquanto o perseguia até o cais. Um bosque de mastros altos pairava sobre suas cabeças, provocando franjas de sombras sobre o cais. Sem fôlego, ela chegou a seu lado justo quando ele se aproximava da borda do 13


cais. — Mas... Você não é o capitão Grayson? — Eu — disse, lançando seu baú menor num bote de remo que os esperava — sou o Sr. Grayson, proprietário do Afrodite e principal investidor da sua carga. O proprietário. Bom, isso era um alívio. O taberneiro se confundiu. O rapaz depositou seu baú maior junto ao primeiro, e o senhor Grayson o despediu com uma palavra e uma moeda. Ele deixou cair pesadamente uma polida Hessiana sobre o assento do bote a remo trocando para este o peso de seu corpo, fazendo ponte sobre o espaço entre o bote e o cais. Com a mão estendida, fez-lhe gestos com uma impaciente contração dos dedos. — Senhorita Turner? Sophia se aproximou mais da borda e estendeu uma mão enluvada para ele, considerando a melhor maneira de abordar a embarcação oscilante, sem perder sua dignidade para o mar. No momento em que seus dedos roçaram sua palma, ele agarrou com força sua mão. Puxou-a rapidamente, arrancando seus pés do cais e um grito de sua garganta. Um momento de leveza ... e então ela estava a bordo. De algum jeito, seu braço rodeou rapidamente sua cintura estreita, colando-a a seu peito sólido. Ele a deixou em liberdade com a mesma rapidez, mas um balanço no barco a remo lançou Sophia de novo em seus braços. — Quieta — murmurou através de um pequeno sorriso. — Eu a tenho. Uma súbita rajada de vento deixou-o sem chapéu. Ele não percebeu, mas Sophia sim. Ela percebeu tudo. Nunca em sua vida se sentiu tão agudamente consciente. Seus nervos estavam tensos como as cordas de uma harpa, e seus sentidos formigavam. O homem irradiava calor. Pelo esforço, o mais provável. Ou talvez de um excedente absoluto de vigor masculino cozendo a fogo brando. O ar ao redor deles era frio, mas ele estava quente. E enquanto a segurava apertada contra seu peito, Sophia sentia esse delicioso calor queimando através de cada camada de suas roupas: capa, vestido, espartilho, regata, saia, meias, acendendo o desejo em seu ventre. E provocando um surto de alarme. Esta era uma posição precária. Quanto mais se fundia seu torso com o dele, aumentava a possibilidade dele detectar seu segredo: o pacote frio e duro de notas e moedas por baixo de seu espartilho. Ela se afastou, caindo sobre o assento e cruzando os braços sobre o peito. Atrás dele, a brisa expulsou seu chapéu em um redemoinho de espuma. Ele ainda não havia percebido sua perda. O que notou foi seu gesto de modéstia, e deu-lhe um sorriso condescendente. 14


— Não se preocupe, senhorita Turner. Não tem nada que eu não tenha visto antes. Só por isso, ela não iria contar. Adeus, chapéu. Até certo ponto, ele estava certo. Ela provavelmente não tinha nada que já não tivesse visto antes. Ele certamente viu um soberano em sua vida, e uma nota ou duas. Talvez até tivesse visto um valor de quase seiscentas libras, todas alinhadas em uma fila ordenada. Mas provavelmente não viu nas mãos de uma governanta, porque nenhuma mulher com essa quantidade de dinheiro procuraria emprego. O ocorrido com Bains, na taverna, apenas sublinhou o risco. Precisava concentrar-se em suas tarefas imediatas. Escapar da Inglaterra e do casamento. Proteger seus segredos e sua bolsa. Sobreviver até seu vigésimo primeiro aniversário, quando poderia voltar para reclamar o resto de seu fideicomisso1. E depois de tudo isso, manter os homens longe de seu espartilho. Depois de soltar a embarcação, o senhor Grayson se encaixou sobre a prancha estreita na frente dela e reuniu os remos. — Você não tem um barqueiro? — Perguntou ela. Seus joelhos praticamente se tocavam, de tão perto que estavam sentados. Ela se ergueu um pouco, ampliando a brecha. — Não no momento — disse ele, fazendo uma alavanca com um remo, impulsionou-o afastando do cais. Ela franziu o cenho. Certamente que era incomum para o proprietário de um navio e principal investidor, remar ele mesmo para o cais. Por outro lado, certamente não era habitual para o proprietário de um navio e principal investidor, ter os ombros de um boi. Quando ele começou a remar a sério, o poder audaz e rítmico de suas remadas a hipnotizou. O splash suave dos remos cortando a água, os movimentos confiantes de suas mãos, a força do procedimento ondulando sob seu casaco uma e outra e outra vez... Sophia se sacudiu. Este era precisamente o tipo de observação que devia evitar. Com relutância, afastou o olhar de seus ombros musculosos e o depositou em uma perspectiva mais benigna. Siena queimada. Para capturar a cor de seu cabelo começaria com uma base de Siena queimada, misturada com um toque de âmbar bruto, ela adicionou mentalmente quando a embarcação flutuante atravessou um raio de sol, o mais leve tom de 1

O fideicomisso pode ser definido como espécie de substituição testamentária consubstanciada na atribuição, pelo testador, da propriedade plena de determinado bem a herdeiro ou legatário seu, denominado "fiduciário", com a imposição da obrigação de, por sua morte, a certo tempo, ou sob condição pré-determinada, transmiti-la a outrem, qualificado fideicomissário.

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vermelho vivo. Mais âmbar nas têmporas, onde as costeletas brilhavam pela pomada que as penteava para trás até as pontas ligeiramente quadradas de suas orelhas. Ali seria necessário um toque controlado, mas as ondas sobre sua cabeça, provocadas pela brisa convidavam a pinceladas soltas e sinuosas, com toques de âmbar. Amarelo indiano, decidiu, suavizado com branco e chumbo. O exercício mental acalmou seus nervos. Estas paixões selvagens, rebeldes que a governavam, Sophia nunca poderia dominá-la, mas pelo menos podia canalizá-las para sua arte. — Fugiu de um convento, senhorita Turner? — Ele girou o bote com um puxão hábil de um remo. — Fugir? — seu coração golpeou contra sua bolsa oculta. — Eu disse que sou uma governanta. Não estou fugindo de um convento nem de qualquer outro lugar. Por que pergunta? Ele riu. — Porque está me olhando como se nunca tivesse visto um homem. As faces de Sophia arderam. Ela o estava olhando. Pior, agora se viu incapaz de desviar o olhar. Com as sombras escuras da taverna e a confusão do cais, para não mencionar sua própria incerteza, ela não pôde dar uma boa e clara olhada em seus olhos até agora. Eles desafiavam sua paleta mental completamente. As pupilas estavam rodeadas por uma fina linha azul. Mais escuro que o da Prússia, no entanto, mais leve que o índigo. Talvez matizando o mais caro dos pigmentos — um que nem sequer a atribuição generosa de seu pai lhe permitia — o azul ultramarino. No entanto, dentro dessa circunferência azul movia um mar mudando de cor: um momento, verde, no próximo, cinza... nas sombras, um brilho, uma insinuação do azul. Ele riu novamente, e as faíscas de diversão os iluminaram. Sim, ela continuava olhando-o. Forçando seu olhar a mover-se para um lado, ela viu que o bote se aproximava do casco de um navio. Ele limpou a garganta e saboreou a água salgada do mar. — Desculpe-me, Sr. Grayson. Eu só estou tentando compreender. Eu entendi que você era o capitão do navio. — Bom — disse ele, segurando uma corda que jogaram a ele e fixando-a ao bote — agora sabe que não sou. — Posso ter o prazer, então, de saber o nome do capitão? — Certamente — disse ele, assegurando uma segunda corda. — É Capitão Grayson. 16


Ela ouviu o riso em sua voz, inclusive antes de girar a cabeça para confirmá-lo. Estava zombando dela? — Mas, você disse... Antes que Sophia pudesse expressar sua pergunta, ou até mesmo decidir exatamente que pergunta queria fazer, o senhor Grayson gritou para os homens a bordo do navio, e o bote se balançou para o céu. Uma lasca a feriu na palma quando se agarrou ao assento. O bote fez uma ascensão rápida, balançando-se. Ao chegar ao nível do convés, o senhor Grayson ficou de pé. Com a mesma força que exibiu no cais, agarrou-a pela cintura e a fez girar sobre a amurada do navio, depositando-a no convés e liberando-a um instante antes do tempo. Seus joelhos balançaram. Estendeu uma mão para agarrar-se na amurada enquanto dois membros da tripulação içavam seus baús a bordo. Ela, e tudo o que possuía no mundo, agora residia nesta caixa de madeira rangente. O navio se moveu por uma onda, e o enjoo a obrigou a fechar os olhos. — Senhorita Turner? Ela virou-se para enfrentar o senhor Gr... ou capitão... Ele, quem quer que fosse. Em seu lugar, encontrou-se olhando a gravata engomada de um homem diferente. Um homem muito diferente. Não era como se ela nunca tivesse visto um homem como ele. Muitas das melhores famílias da Inglaterra tinham criados negros a seu serviço. De fato, os lacaios negros estavam muito em moda na sociedade... Sua presença insinuava uma lucrativa participação estrangeira, e a pele de ébano fazia um contraste esteticamente agradável com a peruca empoada. Mas a pele deste homem não era de ébano. Em vez disso, o tom de sua pele se adequava com maior precisão ao brilho quente de uma avelã madura, ou chá forte suavizado com uma gota de leite. Não usava peruca absolutamente, mas uma cartola cinza. E sob o chapéu, seu cabelo castanho, com cachos muito apertados, estava cortado quase até o couro cabeludo. Seu casaco azul escuro era tão bem feito e elegante como o de qualquer dândi. Os olhos castanhos dourados a contemplaram de um rosto de traços finos. Era bonito, e para maior confusão de Sophia, de uma maneira vagamente familiar. — Senhorita Turner — o senhor Grayson deu um passo adiante, reduzindo o triângulo. — Permita-me apresentar o capitão Josiah Grayson. Ela desviou seu olhar do homem negro só o tempo suficiente para disparar a ele um agudo olhar. 17


— Você disse que você era o senhor Grayson. Os dois homens sorriram. Sophia apertou a mandíbula. — Eu sou o senhor Grayson. E este — deu uma palmada no ombro do homem negro — é o capitão Grayson. Ela olhou de um homem a outro, logo depois de volta outra vez. — Vocês compartilham o mesmo sobrenome? Seus sorrisos se ampliaram. — Mas, é óbvio — disse Grayson sem problemas, a fina cicatriz em seu queixo curvando-se, zombando dela. — Os irmãos geralmente o compartilham. Gray observou com satisfação como um rubor florescia através de suas suaves e delicadas faces. Talvez ele estivesse gostando um pouco demais da confusão da senhorita Turner. Mas maldição, desde que havia tirado Bains de cima dela na taverna, esteve desfrutando de tudo um pouco demais. A forma em que a circunferência da cintura dela encaixava na curva de seu braço. A sensação de seu corpo suave e frágil contra o seu no bote. Sua essência limpa, feminina: indícios de talco e água de rosas e outro aroma que não podia identificar. Algo doce. E do jeito que ficou olhando para ele. Maldição. Esquentava seu sangue, o fazia querer coisas que inclusive ele reconhecia como menos que respeitáveis. Assim era um alívio agora, deixá-la corar diante de seu irmão por um instante. — Irmãos — ela olhou de Gray a Joss e vice-versa. Seus olhos se aprofundaram, parecia ir a algum lugar atrás dele. Gray lutou contra o desejo de virar-se e olhar por cima do ombro. — Sim, é óbvio — disse ela lentamente, inclinando a cabeça para um lado. — Devia ter visto imediatamente. As pontas quadradas, o pequeno entalhe por cima do lóbulo... Ele trocou um olhar divertido com Joss. Que diabos era isso dos entalhes e pontas? — Vocês têm as mesmas orelhas — terminou, um sorriso curvou o canto de sua boca enquanto fazia uma suave reverência. Parou um instante, depois deu uma risada suave. Uma graça confiante em seus movimentos que pareciam estranhamente fascinantes, e agora entendia por que. Foi um gesto de satisfação, não deferência. Ela não fazia uma reverência para agradar, não, mas porque estava satisfeita consigo mesma. Em suma, a garota estava esperando aplausos. E maldito seja se ele não se sentiu tentado a aplaudir. Ela não nasceu para 18


trabalhar para alguém, apostaria o navio nisso. Elegante, sem dúvida, apesar dessas roupas deploráveis. De uma família rica, conjeturou, passando por tempos difíceis. As luvas finas eram apenas uma indicação sutil, foi seu comportamento que a delatou. Gray sabia discernir o verdadeiro valor das coisas sob camadas de imagens e aparências, e a senhorita Turner... a senhorita Turner era uma peça de qualidade. Ela se endireitou. — Sinto-me honrada em conhecê-lo, capitão Grayson. — A honra é minha — respondeu Joss com uma suave reverência. — Viaja sozinha, senhorita Turner? — Sim. Eu vou trabalhar perto de Road Town. — Ela vai ser a governanta dos filhotes de George Waltham — interveio Gray. — Eu tentei dissuadi-la de tomar esse ingrato posto. — Senhorita Turner — a voz de Joss assumiu um tom sério. — Como capitão deste navio, também devo questionar a prudência desta viagem. A senhorita Turner procurou dentro de sua capa. — Eu... Tenho uma carta do senhor Waltham. — Por favor, não me entenda mal — disse Joss. — Não é por seu emprego que estou preocupado, é por sua reputação. Não temos outros passageiros a bordo deste navio. Não havia outros passageiros? Gray limpou a garganta... Joss lançou um olhar para ele. — Exceto meu irmão, é claro. Uma mulher jovem, solteira, cruzando o Atlântico sem um acompanhante... Gray moveu os pés com impaciência. Do que Joss estava falando? Certamente ele não tinha a intenção de recusar sua passagem? — Talvez fosse melhor esperar. O Peregrine parte para Tortola na próxima semana. Infernos. Ele pretendia rejeitar a sua passagem. — Não — protestou ela. — Não, por favor. Capitão, eu aprecio a sua preocupação com a minha reputação. Se tivesse alguma outra possibilidade que não fosse este emprego, se tivesse alguma família ou amigos que pudessem opor-se... poderia compartilhar sua preocupação. Como estão as coisas, digo com total honestidade — ela engoliu em seco — que não há ninguém que se importe. Gray tentou, com muito esforço, fingir que não ouviu isso. E ela continuou: — Se pode garantir minha segurança, capitão Grayson, posso prometer me 19


comportar em estrita conformidade com o decoro. Suspirando com força, Joss trocou seu peso. — Senhorita Turner, sinto muito, mas... — Por favor — ela implorou, colocando uma mão suave no braço de seu irmão. — Você precisa me levar. Eu não tenho aonde ir. A expressão de Joss se suavizou. Gray se sentiu aliviado ao saber que não era o único homem que amolecia com a súplica dos grandes olhos dela. Por nenhuma razão definível, também o incomodava vê-los suplicar a outro homem. — Tenha piedade, capitão Grayson. Certamente a senhorita Turner deve estar cansada — Gray viu o velho taifeiro2 coxeando pelo convés. — Stubb, tenha a amabilidade de mostrar os camarotes das damas à senhorita Turner. O camarote sete está disponível, acredito. Stubb soltou uma gargalhada divertida. — Estão todos disponíveis, acredito. Bom, sim. Bem, sim. Mas todos estavam cheios na viagem para a Inglaterra, graças aos lucros cada vez menores das plantações de açúcar. Quase ninguém estava viajando para as Índias Ocidentais, salvo os missionários metodistas. E, ao que parece, uma ocasional e encantadora governanta. Parecendo reconhecer a derrota, Joss fez uma reverência. — Bem-vinda a bordo do Afrodite, senhorita Turner. Espero que sua viagem seja agradável. A jovem fez uma reverência uma vez mais, antes que Stubb a acompanhasse à estreita escada que conduzia ao convés inferior. Gray viu a senhorita Turner descer às entranhas do navio, sabendo que para melhor ou para pior, esta viagem se tornou muito mais interessante.. — Onde está Bains? — Perguntou Joss de repente. — O que estava fazendo remando você mesmo de volta ao navio? Segue com mais carregamento? — Não. Despedi-o. — Despediu-o? E por que diabos fez isso? — Algo está errado com a sua visão. — qualquer homem que confunda a senhorita Turner com uma prostituta do cais está perdendo a visão. Sem mencionar que Gray não queria um marinheiro que tivesse o costume de tomar o que não lhe era oferecido. Em viagens passadas, esta atitude poderia ter sido um traço desejável, não mais. Agora o Afrodite era um respeitável navio mercante. 2

é um posto ou patente militar, antigo, sendo de forma geral superior ao posto ou patente de soldado ou marinheiro "razo ou zero ou ainda grumete (esse último nas marinhas); em algumas organizações militares"; é portanto considerado historicamente o primeiro posto ou patente após o básico ou zero ou ainda razo;

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A mandíbula de Joss se contraiu. — Não pode despedi-lo. Ele é meu tripulante. — Está feito. — Não posso acreditar nisto. Desembarca durante duas horas para comercializar, e de alguma forma trocou um marinheiro experiente por uma governanta. — Bom, e as cabras. Comprei algumas cabras, o barqueiro se encarregará delas dentro de um momento. — Droga, não tente mudar de assunto. Supõe-se que a tripulação e os passageiros são minha responsabilidade. Eu sou o capitão deste navio ou não? — Sim, Joss, você é o capitão. Mas eu sou o investidor. Eu não quero Bains perto da minha carga, e eu gostaria de pelo menos um passageiro pagante nesta viagem, se posso conseguir um. Não tenho esse compartimento da proa convertido em cabine por diversão, se você perceber. — Se você acha que vou acreditar que o seu interesse nessa jovem jaz unicamente em suas seis libras esterlinas... Gray encolheu os ombros. — Uma vez que você mencionou, eu realmente admiro o seu dinheiro também. — Sabe muito bem o que quero dizer. Uma jovem, sem escolta? — olhou para Gray de soslaio. — É procurar problemas. — Procurar problemas? — repetiu Gray, com a esperança de aliviar a conversa. — Desde quando o Afrodite precisa procurar problemas? Nós arrumamos mais problemas do que carga para este navio. — se inclinou para trás, apoiando os cotovelos sobre a amurada do navio. — E se se tratar de problemas, a variedade da senhorita Turner parece muito melhor que a maioria das alternativas. Talvez um pouco de problemas para você pode ser bom. Um ano se passou, você sabe. O rosto de Joss se contraiu. — Passou um ano, dois meses e dezessete dias. Tenho suficientes problemas por minha conta, Gray. Não estou procurando mais. Ele se virou e olhou para o porto. Maldição. Gray sabia que não devia ter dito isso. Era só... bem, sentia falta do velho Joss. Sentia falta do seu irmão. Continuava tendo esperança que o velho Joss saísse à superfície algum dia, uma vez que se livrasse de toda a dor que o arrastava para baixo. Mas as possibilidades 21


disso pareciam menos prováveis, agora que Gray o havia nomeado capitão. Navegando pelo mar seria a menor das preocupações de Joss sobre este assunto, sua primeira viagem no comando. Navegando pelo equilíbrio de poder entre um capitão novato e quinze homens mais acostumados a saquear a carga que a protegê-la... agora essa era uma situação perigosa. Aqui há monstros. E Joss se preocupava — talvez com razão — que ter uma jovem solteira e atraente a bordo pudesse jogar tudo a perder. — Manterei a garota fora de problemas — disse Gray, no que parecia um gesto bastante magnânimo. — A vigiarei. — Oh, eu não tenho dúvida que fará isso. Mas quem vai ficar de olho em você? Os nervos de Gray se arrepiaram. Assim não era pela garota que Joss estava preocupado. Não, ele esperava que Gray estragasse tudo. — Bem, Joss. Eu sou um canalha lascivo, sem escrúpulos — fez uma pausa, esperando que seu irmão argumentasse o contrário. Não o fez. Gray protestou: — Ela é uma governanta, por favor. Afetada, correta, sem brilho, aborrecida. — Suave, pensou por contraste. Delicada, doce. Intrigante. — Ah. Então você flerta com qualquer criada ou garçonete que levante suas saias, mas não tolera seduzir uma governanta? — Sim. Olhe-me, homem — Gray alisou sua lapela de veludo, logo fez um gesto para cima, para as bandeiras que debruavam o arranjo recém-coberto de breu. — Olhe para este navio. Estou dizendo a você, meus dias de libertino terminaram. Tornei-me respeitável. — É fácil trocar o casaco. É muito mais difícil trocar seu modo de ser. Gray suspirou profundamente. Nunca foi um irmão modelo, e Deus sabia que não foi um santo. Mas embora Joss não acreditasse, trabalhou muito duro para iniciar este negócio. Trabalhou condenadamente duro por eles, para dar a esta remendada família um pouco de segurança, o lugar na sociedade que seu pai perdeu décadas atrás. Ele convenceu os investidores para que lhe confiassem milhares de libras, prometeu às seguradoras que podiam confiar nele para entregar o carregamento de forma segura. Entretanto, seu próprio irmão não confiava que pudesse manter-se afastado das saias de uma moça. A ironia poderia parecer engraçada, se tivesse doído menos. Se fosse o mínimo que merecia. Esfregou o rosto com uma mão e tentou novamente, todo o rastro de brincadeira fora de sua voz. 22


— Ouça, Joss. Não vou atrás dela. — Ela é linda. — Não irei atrás dela — repetiu Gray lentamente. — E pensei que não estava olhando. Joss voltou o olhar para a água. — Sou viúvo, Gray. Não cego. Não, não cego, pensou Gray. Simplesmente... dormente. Quando Joss virou-se e o surpreendeu olhando, Gray apenas sorriu e sacudiu a cabeça. — A garota tinha razão, sabe. Os dois temos as orelhas dele. — se impulsionou afastando-se da amurada e se endireitou, passando uma mão pelo cabelo. Seu cabelo descoberto, revolto pelo vento. — Maldita seja! — murmurou. Quando aconteceu isso? Joss levantou uma sobrancelha. — Sobre o que é isso? Gray se moveu a seu redor, procurando pelo convés e olhando por cima da amurada. — Perdi meu maldito chapéu. Joss se pôs a rir silenciosamente. — Não é engraçado. Acabava de comprar esse chapéu. Eu gostava desse chapéu. Custou-me uma maldita fortuna esse chapéu. Joss riu de novo, e desta vez Gray pôs-se a rir com ele. Sim, esse chapéu custou uma maldita fortuna. E agora esse chapéu lhe comprou um momento de risada despreocupada com seu irmão, no convés do Afrodite. Um eco, de algum jeito, de um tempo passado mais feliz. Gray sorriu para si mesmo. Maldição se não adorava uma boa compra.

Capítulo 03

Sem dúvida, havia um homem ali, em alguma parte, pensou Sophia. Em algum lugar sob todo aquele cabelo. O velho taifeiro inclinou-se pesadamente pela estreita escada, assobiando uma alegre melodia. Ela o seguiu, pisando cautelosamente. Quando seus olhos se adaptaram às condições de pouca luz, pôde ver o emaranhado de fios grisalhos e gordurosos, que pendurava cobrindo a metade das costas do homem, a espuma de 23


barba grisalha, que se estendia quase até ao peito, os antebraços ligeiramente peludos expostos por sua túnica frouxa xadrez. — Aqui estamos, senhorita — anunciou. — Os Camarotes das damas. — abriu uma cortina fina de tecido escuro, e entraram num pequeno aposento de teto baixo, com uma mesa redonda e cadeiras que ocupavam o centro. A luz do sol penetrava de uma claraboia do alto. Havia quatro portas na pequena sala de madeira, duas de cada lado. O taifeiro se aproximou da porta marcada "Sete" e a abriu com um gesto dramático. — Sua cabine, senhorita. — Obrigada, senhor...? — Só Stubb, senhorita. — Obrigada, Stubb. — O reservado está ali — assinalou com a cabeça para uma pequena porta. — Atravesse a cabine seguindo esta direção, e dará com a terceira classe, é onde todas as disposições são mantidas e, em seguida, o castelo de proa3. Se for à outra direção, tem as cabines dos cavalheiros, a cozinha, em seguida o camarote do capitão e dos companheiros na popa. Mas se precisar de alguma coisa, é só me pedir, senhorita. — Obrigada, Stubb. — Eu vou trazer seus baús em um instante. — então fez uma reverência extravagante, varrendo o chão com as pontas de sua barba. Sophia entrou em sua cabine e fechou a porta, depois virou em um círculo lento no local. Não havia espaço para fazer muito mais. O pequeno quarto, por falta de um termo melhor — a casa da cidade de sua família em Mayfair ostentava armários maiores que isto; consistia em uma cama estreita que se sobressaía da parede à altura do ombro, um espaço para armazenar suas coisas debaixo do beliche, e uma pequena mesa que se estendia da parede. Não havia nenhuma cadeira. Sophia tirou a touca, atou as fitas e então a pendurou num gancho na parede. Poderia ter se sentado, mas não havia onde. Poderia ter-se recostado, mas não estava segura de como saltar em cima da cama alta. Em vez disso, ela voltou para a área comum, sentou à mesa, deixando cair a cabeça entre as mãos. Já havia sucumbido aos enjoos? O suave balanço do navio ancorado não parecia razão suficiente para esta quantidade de enjoos. Todo o navio foi um conjunto de contradições. O capitão que não era um 3

Superestrutura na ponte superior de um navio e que se estende de um bordo a outro

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capitão. A governanta que não era uma governanta. Dois homens, um branco e outro negro, alegando o parentesco próximo de fraternidade. Por estranho que parecesse, ela acreditava no último. Algo a respeito de suas orelhas de ponta quadrada, e a forma em que suas mandíbulas anguladas sopesavam aqueles sorrisos arrogantes... Eram como duas peças cortados pelo mesmo padrão, mas feitos de tecido diferente. Eles eram meios-irmãos, é claro. Esta pendente compreensão do óbvio, deu a Sophia um pouco de paz. Aparentemente, seu fluxo de compreensão não se conteve por completo. Simplesmente se desacelerou ao ritmo de destilação de xarope. Ela sabia a que, ou melhor dizendo, a quem culpar por isso. A ele, e sua provocação insuportável. Vindo em seu socorro na taverna, só para humilhá-la mais tarde. Deliberadamente enganando-a sobre a identidade do capitão, simplesmente para divertir-se mais tarde com sua confusão. E tendo o descaramento absoluto de fazer tudo parecer tão bonito, com aquele sorriso maroto e zombeteiro, a cicatriz abaixo dele. Como ele conseguiu essa cicatriz? Tão fina e reta, inclinando-se da fenda do queixo ao canto de sua boca. Por uma lâmina afiada, com certeza. Talvez por um ataque às cegas de uma faca em uma briga ocorrida em um vulgar bordel. Ou talvez um homem mais honrado o havia desafiado a um duelo, para vingar seus atos cruéis de insolência por mulheres inocentes. Um giro de um sabre poderia fazer uma cicatriz assim. Mas se ele se afastou do duelo com um arranhão, o que teria sido de seu oponente? Sua imaginação voava com a ideia, imaginando uma vívida cena em sua mente. Podia visualizar o nó de músculos em seu braço, imaginar o esforço do tendão do pulso enquanto se abatia sobre seu trêmulo rival, elevando a espada para um golpe mortal? — Aqui estamos, então. A cabeça de Sophia se ergueu. Stubb reapareceu em um halo de cabelos brancos, seguido por dois marinheiros, cada um carregando um extremo de seus baús empilhados. O taifeiro indicou: — É a cabine sete o que está disposto para a encantadora senhorita. Com seus baús depositados, Sophia se levantou para agradecer. Nesse momento, entretanto, o navio deu um solavanco repentino, e se encontrou jogada de volta sobre a cadeira. — Levantem as âncoras! — o grito ecoando através da claraboia gradeada. — 25


Atenção todos! Atenção todos! Os três homens correram de volta por onde entraram, e Sophia os seguiu até a escada estreita e ao convés. Que gloriosa comoção a esperava ali, os marinheiros gritando, puxando e subindo os arranjos como aranhas escalando suas redes. Ela esticou o pescoço para ver seu progresso, protegendo os olhos com uma mão. Uma a uma, as velas quadradas se desdobraram, quatro em cada um dos dois mastros muito altos. O vento rapidamente encontrou e encheu as velas, as inflando como as gargantas de rãs. Ela chegou até a amurada e ficou ali durante horas, vendo o rio ampliando-se por debaixo deles e ao denso clamor do Gravesend esfumando-se em uma calma pastoral. Antes do que esperava, o Tâmisa cuspiu-os numa ampla baía de águas agitadas. Eles ainda não haviam chegado ao mar aberto, mas os braços de terra de ambos os lados se tornaram cada vez mais distantes, à medida que a maré devorava o Afrodite, liberando-o do abraço da Inglaterra. A luz do dia estava desaparecendo e o nevoeiro ondulava por sobre seu pescoço e diante de seus olhos, bloqueando a visão das ribeiras baixas e argilosas. Sophia lutou contra o impulso infantil de agitar uma mão em despedida. Em vez disso, elas agarraram-se à amurada de madeira procurando força e estabilidade, já que o balanço do navio foi se tornando mais violento. O navio cortou uma enorme onda, então mergulhou em um vale verde acinzentada. Um orvalho frio e salino surgiu picando seus olhos e faces. Devia ser o nevoeiro, pensou ela, apertando os olhos fechados e limpando seu rosto. Ou o balançar constante do navio, como um berço. Talvez tenha sido a escuridão invasora e o bramido silencioso do mar que a fez se sentir, pela primeira vez em muitos anos, muito pequena. E muito, muito sozinha. Mas então, de repente, não estava mais. — Já sentindo saudades? Ou simplesmente enjoada? — o Sr. Grayson, se juntou a ela na amurada. Sophia tentou não olhar para ele. Foi uma luta. Quando passaram alguns minutos sem sua resposta, ele disse: — Eu gostaria de oferecer palavras tranquilizadoras, mas só seriam mentiras. Vai piorar antes de melhorar. Ela perguntou que tipo de problemas ele queria dizer. Dois deles ela suspeitava. — As ondas são sempre grandes assim? Mas quando ela se virou para ele, tinha ido embora. Um grito chamou sua 26


atenção para o céu. Por cima dela, os marinheiros estavam gritando um com o outro, enquanto subiam o cordame novamente. Seu estômago se revolveu só de vê-los balançar-se de um lado a outro contra a cortina de fundo do céu cinza. Sophia agarrou a amurada e fechou os olhos. — Seja razoável. São apenas algumas nuvens — disse uma voz em um murmúrio à suas costas. — Sim, algumas grandes nuvens negras à oeste. Você sabe tão bem como eu que uma tempestade se aproxima. — Um pouco de vento, talvez. O Afrodite já resistiu a muito piores. Assegure as gáveas4, mantenha todos os marinheiros preparados. Houve uma pausa, densa de animosidade. — Não nas Quebradas — foi a resposta lacônica. — Não me arriscarei a quebrar nosso mastro na primeira noite no mar. Vamos jogar a âncora e enrolar as velas, e vamos esperar. — Joss, você está agindo... — Eu estou agindo como o capitão deste navio, Gray. Se você não começar a dar-me o respeito que mereço, ordenarei isso a gritos — a voz se tornou ainda mais profunda. — E se você se atrever a contradizer-me na frente da minha tripulação, jogarei seu traseiro no calabouço. Uma explosão de orvalho golpeou novamente o rosto de Sophia, surpreendendoa com os olhos abertos. Com gotas de água do mar agarrados a seus cílios, lentamente virou seu pescoço até que pôde enfocar os dois irmãos. Os homens se olharam, e a névoa que girava ao redor deles tomou a forma do carregado calor do vapor. Aparentemente, os irmãos Grayson não compartilhavam um maior afeto que Sophia e sua irmã. O capitão virou-se para a proa do navio, gritando: — Senhor Brackett! Um terceiro homem se uniu a eles. O nevoeiro e neblina escondia os traços do seu rosto, mas Sophia pôde ver que era alto e magro, de pé, apesar das ondas. — Senhor Brackett — disse o capitão — certifique-se que todos os passageiros — disparou outro olhar a seu irmão, que estava soltando fumaça — voltem para suas cabines. Enrole as gáveas e preparem-se para jogar a âncora. — Sim, sim, capitão — o senhor Brackett se adiantou, as maçãs do rosto salientes e seu nariz como uma folha cortando através da névoa. Começou a dar ordens, e a tripulação explodiu em atividade. 4

Gávea – Velas que se envergam nas vergas de gávea, as segundas a contar de baixo.

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— Venha então, senhorita Turner — Stubb pegou-a pelo cotovelo e persuadiu que se dirigisse para a escotilha da escada. Cruzaram o convés em um andar balançante, como as ondas que passavam por baixo. Uma vez que estavam seguros embaixo, Stubb a deixou sozinha, só para voltar minutos depois com um balde enroscado em seu braço. Atrás dele seguia outro dos marinheiros, um homem negro incrivelmente alto e de ombros largos, cujo tamanho o obrigava a quase dobrar-se e girar para os lados, só para introduzir o seu corpo através da entrada do compartimento. — Levi aqui colocará as tampas de combate — Stubb indicou com sua cabeça grisalha para o homem negro, que se inclinou para fixar as pernas das cadeiras sobre a base atarraxada da mesa. — Tampas de combate? — só o som da palavra deixou Sophia fria, e ela se apoiou contra a mesa para receber seu significado. — Placa fixada sobre as janelas da cabine — explicou o taifeiro. — Como proteção contra a tempestade e o mar. Levi deu-lhe uma cotovelada quando passou por ela, encurralando-a contra a sua cabine. Levava uma placa circular, perfurada ao redor com buracos para parafusos. Stubb passou o balde para Sophia. — Você vai gostar disto. Ela baixou o olhar para o balde de couro. — Devo recolher a água do mar, então? Stubb caiu na gargalhada. — Levi! A encantadora senhorita pensa que vai ser colocada para trabalhar! — Levi não respondeu ao sair de sua cabine, mas Stubb riu duas vezes mais alto para compensar a falta de resposta. — Não, senhorita. Para cuidar da água do mar temos uma bomba no porão. — Então por que o balde? — Perguntou Sophia. O navio se moveu de repente, e seu ventre rodou com ele. — Oh. Por isso. — Agora, não se preocupe com as ondas, senhorita. Guarde sua preocupação para os raios. — Os raios? — Ela não gostava do som disso. — Sim. Coisas estranhas acontecem quando um raio atinge uma embarcação. Essa energia ricocheteia por todo o casco, e ai do marinheiro que tenha um pouco de metal! — Stubb revolveu os bigodes. — Porque você acha que minha barba se tornou branca? — Ele deu um sorriso desdentado. — Tinha um conjunto inteiro de dentes de ouro. Tudo derretido ao lixo. — Você está zombando de mim. 28


— Não, senhorita — disse o taifeiro, embora tenha lançado a Sophia uma piscadela matreira. — Pergunte a Levi aqui. Não dirá uma palavra para contradizerme. Tampouco dirá uma palavra para apoiá-lo, conjeturou ela. O negro não quebrou seu silêncio desde sua entrada... Mas com os braços cruzados e o rosto pétreo, parecia capaz de suportar a ponte de Londres. — Não sabe? — continuou o idoso. — Por isso me chamam Stubb5. Antes que o raio caísse, eu tinha uma perna de pau. — De pau... — Sophia ficou olhando os pés descalços e peludos do taifeiro por um momento, antes que Stubb explodisse em uma gargalhada sem dentes. — Não, não se preocupe com um pouco de vento como este, senhorita — disse Stubb, voltando a sair da cabine. — O suportaremos muito bem. Uma vez que os homens foram embora, levando com eles a luz, Sophia foi para sua cabine tateando. Estava escuro como a boca de um lobo, e mesmo se houvesse um pouco de luz para poder se despir ou desempacotar seus baús, os movimentos turbulentos do navio tornava difícil ficar de pé. Ela acomodou-se para tirar as luvas, e, em seguida a capa, procurando entre as dobras até recuperar sua "carta de emprego". A colocou sob seu corpete, acondicionando-a em torno de sua bolsa. Procurou com os pés, até encontrar seus baús. Então, agarrou-se à beira do beliche para equilibrar-se, estendeu sua capa do outro lado da prancha, alta e plana e entre as rangentes inclinações do navio, conseguiu subir à cama. A carta. Foi um golpe de sorte que nem o capitão nem o senhor Grayson se sentissem inclinados a examiná-la. Sua obra poderia facilmente enganar alguém que não conhecesse uma das partes, mas o senhor Grayson possuía um conhecimento íntimo da família Waltham. Certamente notaria algo fora do lugar. Tudo começou como uma diversão, uma brincadeira. Enquanto estavam em uma festa na casa de campo, Sophia se divertiu com sua amiga Lucy Waltham ao redigir uma tola carta aos primos de Lucy em Tortola, a quem nunca conheceu. Nesse momento, o único motivo de Sophia foi aguilhoar Lucy em relação a seu pretendente, Jeremy Trescott, o conde de Kendall. Mas o romântico de tudo, a ideia de seus rabiscos flutuando sobre o mar, em um clima tropical, tomou conta de Sophia e se recusou a deixá-lo. Ela enviou a carta por iniciativa própria, assinando com o nome de Lucy, mas dando o seu próprio endereço em Londres. Então Lucy se casou com Jeremy, e Sophia se comprometeu, e Tortola foi 5

Em inglês quer dizer algo cortado ou atrofiado.

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esquecida. Até há uma semana, quando Sophia recebeu uma resposta. Querida prima Lucy, dizia a carta. Apesar de sua amável carta se dirigir a papai, ele disse-me que respondesse, já que se supõe que somos quase da mesma idade. Eu sou Emily, sua filha mais velha, acabo de completar dezesseis anos, e estou feliz em obedecer seu pedido. Em comparação com os tormentos que normalmente me fazem suportar, como cuidar de meus quatro incorrigíveis irmãos, escrever uma carta é uma verdadeira delícia. Em todo caso, estendo a você, de parte de toda nossa família, as felicitações por seu casamento e nossas mais queridas esperanças de felicidade. Gostaria que pudesse convidá-la, você e a seu novo marido a nos visitar aqui nas Índias Ocidentais, mas Papai ameaça diariamente que logo partiremos para a América, assim que encontrar um comprador para nossa terra. Que desolada ficarei ao me despedir de nosso querido lar, Eleanora, onde nasci, cresci e vivi tantos anos felizes. Perdoe-me por terminar. Ouço o revelador estrondo que me informa que novamente o jovem George e Harry começaram a praticar esgrima no terraço. Minhas mais queridas saudações de sua prima, Senhorita Emily Waltham Em uma primeira leitura, a carta não foi mais que uma boa fonte de diversão, durante uma semana em que a frivolidade escasseava. Mas isso foi antes que Sophia soubesse que seu dote era na realidade um fideicomisso, e só seu vigésimo primeiro aniversário se interpunha entre ela e sua completa independência econômica. Antes que vagasse pela galeria em Queen Anne Street e visse a magnífica pintura de um navio de frente para um mar tempestuoso, e ousou imaginar que ela poderia enfrentar o mundo. Antes que tudo mudasse ou, mais exatamente, antes que Sophia percebesse que nunca o faria. Então, a carta tornou-se um plano. Uma nova folha colocada sobre a original, alguns acertos na direção, e Sophia Hathaway, ou melhor, a senhorita Jane Turner tinha uma oferta de emprego. Uma fuga. E ela precisava fugir. Esteve fugindo há anos, através de mentiras inteligentes e perversas fantasias. Sem dúvida, Sophia era a única menina na escola que mantinha esboços secretos enterrados sob paisagens de aquarela. A única debutante no Almack que mentalmente despia os cavalheiros entre goles delicados de ratafia 6. Certamente nenhuma das outras jovens damas da Liga de Campeões das Jovens 6

Espécie de licor feito de cachaça, sumo de certas frutas, essência aromática e açúcar.

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Auxiliares da Caridade jaziam deitadas na cama à noite com os lençóis puxados até a cintura, sonhando com piratas e salteadores com modos grosseiros e mãos ásperas e hábeis. Ela era uma fraude perfeita. E ninguém via a verdade. E muito menos o querido e crédulo homem que queria casar-se com ela. Agora ela o fez. Ela havia fugido, da maneira mais escandalosa imaginável, assegurando-se que nunca pudesse voltar. Graças a suas notas de despedida, metade de Londres teria a impressão que ela fugiu com um professor de pintura francês chamado Gervais. Fabricada ou não, sua ruína era total. Já não era Sophia, a bonita fita que adornava um dote de vinte mil libras, uma bagatela para ser trocada por conexões e um título. Por fim, seria sua própria pessoa, livre para perseguir sua verdadeira paixão e experimentar a vida real. Bom. Se queria experimentar a vida real, conseguiu que seu desejo se tornasse realidade. Uma tempestade muito real uivava em torno dela, os trovões retumbando como uma reprimenda, como se o mundo tivesse conspirado para pôr sua valentia à prova. Aconchegou-se com sua capa e respirou lenta e profundamente, como se acalmando a tormenta interna de suas emoções, pudesse dominar a tormenta exterior. Não funcionou com nenhuma das duas. Gray fervia de raiva. Depois de ser ordenado para sair do convés de uma forma tão insultante, desceu como um redemoinho em direção as cabines dos cavalheiros. Uma vez dentro de seu pequeno camarote, lutou para tirar seu casaco. Entre o estreito tamanho da cabine e o balanço do navio, a experiência era como pular com uma garçonete em um armário, só que muito menos agradável. Um puxão particularmente impaciente em sua manga valeu os nós dos dedos sangrando quando seu punho bateu no teto baixo. Quando ele ordenou que o Afrodite fosse convertido para acomodar passageiros, o construtor deu-lhe uma opção. Queria quatro cabines de cavalheiros, semelhantes aos das damas? Ou preferia colocar seis cabines menores no mesmo espaço? A resposta de Gray... Seis, é claro. Não havia nenhuma dúvida sobre isso. Duas camas extras significavam duas taxas extras. Ele nunca sonhou que um dia usaria uma dessas cabines estreitas. Um metro e oitenta e cinco de homem zangado, arremeteu contra uma cama de um metro e cinquenta e cinco, em meio de uma tempestade impetuosa... não era a receita para uma noite de sono reparador. Gray ansiava o espaço e o conforto de suas antigas acomodações a bordo do Afrodite. O camarote do capitão. Mas, como seu irmão havia indicado 31


informalmente, Gray não era mais o capitão deste navio. Jogar seu traseiro no calabouço, o ameaçou Joss? Gray se sacudiu indignado, seu peito esticando-se contra as cordas que sustentavam à cama de tamanho infantil. O porão de um navio já não soava tão ruim agora. Ficaria com algumas barras de ferro, suportaria a água rançosa do Bilge7 e os ratos, se isso significava que podia esticar as pernas corretamente. Infernos, esta cabine era tão malditamente pequena que nem sequer conseguia tirar as botas. Ele chutou a parede de sua cabine, certamente, arranhando o brilho de suas novas Hessianas. Ele odiava o troço de qualquer jeito. Apertavam-lhe os pés. O porquê diabos pensou que era uma ideia brilhante ter tudo polido para esta viagem, Gray não podia recordar. A quem estava tentando impressionar? A Stubb? Não, não Stubb. Por Bel. Era tudo por Bel. Gray não podia esquecer o jeito que ela a olhou quando ele partiu no ano passado. A decepção brotando daqueles olhos grandes, tão escuros e pesarosos como os de qualquer ícone medieval. Por acaso ela não aprendeu a deixar de esperar tanto dele, maldição? Nunca esteve à altura do ideal de sua irmã mais nova. Não tinha certeza que alguém pudesse. Mas agora ele poderia mostrar que havia mudado. Tanto quanto estava em seu poder para mudar, em qualquer caso. Ele havia renunciado à arriscada, embora muito mais divertida vida de um pirata, para tornar-se um comerciante bem-sucedido. Proprietário de uma empresa de navios, com dois novos navios em construção, além do Afrodite, e os investidores fazendo fila para financiar mais alguns. Capaz de oferecer uma casa em Londres, uma vida confortável, o que mais ela pudesse desejar. Bel teria preferido que desenvolvesse uma consciência, em lugar de construir uma fortuna. Mas Gray sabia que não devia perder tempo. Se um canalha como ele tinha alguma esperança no céu, apoiava-se unicamente na força das orações de Isabel Grayson. A oração não ajudaria esta noite. Da experiência de Gray, a melhor proteção contra o enjoo era voltar sua mente para o pecado. Surpreendente, então, seus pensamentos desviaram-se para a senhorita Turner. Pensou que havia superado admirar o seu tipo, essas delicadas rosas inglesas. 7

O interior do casco de um navio. Também chamada de água de esgoto

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Dê a ele uma exótica orquídea. Uma mulher voluptuosa com cabelos soltos e os olhos audazes, escuros, que conhecia o jogo. Para Gray, as jovens ruborizadas, de sorriso recatado, tinha perdido o seu encanto há anos. Mas ainda assim pensava nela. Ele não podia livrar sua mente dela, mais do que poderia ordenar o afastamento da tempestade. Sacudindo-se por algum tempo em seu beliche, recordou sua beleza quase frágil, seu aroma delicado. E a sensação de seu corpo apertado contra o dele durante aqueles poucos segundos no bote. Não só a sensação incitante de seus seios suaves e pressionados contra seu peito, mas abaixo deles, um pulso acelerado como o de um pássaro, pulsando contra seu torso através de todas as camadas de pele e lã femininas. Como se algo dentro dela clamasse por escapar. Pedindo a ele para libertá-lo. Foi então que descobriu uma consequência infeliz de virar-se na cama. Uma das cordas que prendiam a cama deslocou-se ao sul, e agora rodeava seu corpo em uma latitude mais desafortunada. Maldito inferno. Livrou-se das cordas e se esforçou para sair da cama. O que diabos aconteceu? Seu irmão mais novo o havia confinado em sua cabine. Uma governanta afetada estava entre eles. E o pior... esteve fora do mar por tanto tempo, que estava perdendo seus instintos. Joss tinha razão, a tempestade estava se tornando violenta. Com os braços escorados contra cada lado do corredor, Gray fez seu caminho da cabine de cavalheiros para a escada. Precisava ver a tempestade por si mesmo, julgar como os novos arranjos e mastros do navio estavam lidando com o temporal. Mas quando chegou às escadas, seus planos mudaram. Havia uma garota em seu caminho. A senhorita Turner estava empoleirada no terceiro degrau da escada, esticandose nas pontas dos pés para olhar pela escotilha entreaberta. Se Gray fosse do tipo supersticioso, poderia ter pensado que era um fantasma. Seus dedos eram redes brancas, delicadas, que agarrava a maçaneta da porta traseira com uma mão e a escada com a outra. Lances de uma beleza luminosa alternavam com a escuridão. Cada riscar do relâmpago iluminava suas feições finamente forjadas e as gotinhas de orvalho, que se agarrava a seu cabelo e cílios. Não, não era um fantasma. Mas era uma visão igualmente. — Senhorita Turner — disse, apoiando um ombro contra a parede. Ela não se virou. Gray limpou a garganta e tentou novamente. — Senhorita Turner. Agora ela se sobressaltou, quase perdendo o controle sobre a escada. 33


— Senhor Grayson. Eu... Sua voz se obstruiu, e ela secou o rosto com a manga. — Eu queria ver a tempestade. — E o que achou? — Molhada. Gray riu, surpreso. — É bonita — continuou ela, quando outro raio ressaltou seus traços. — Aqui fora sobre a água, sem terra firme por baixo, é tão diferente. Como se não houvesse limite entre o céu e o mar, e nós estamos simplesmente à mercê da natureza. É tão selvagem e gótico. — É perigoso, é o que é. — Sim, exatamente. — Outro faiscar brilhante revelou a curva de um sorriso. Gray franziu o cenho. O que ela estava fazendo, sorrindo para ele em uma tempestade? Enviando impulsos de energia através de seu sangue com cada vislumbre de sua pálida e inquietante beleza? Ela devia estar encolhida no seu beliche, temendo por sua vida. Ele atravessou o pequeno espaço em um grande passo, segurando a escada com uma mão e oferecendo-lhe a outra, para ajudar sua descida. — Os sábios passageiros esperam o fim de uma tempestade em suas cabines. — Eles o fazem? — sussurrou ela, pegando sua mão. — E o que isso faz de nós, então? Agora bem, isto, isto era um perigo. Não passou por cima da cadência tímida em sua voz, nem o tremor de seus ombros umedecidos pela chuva, um calafrio inconsciente que quase rogava por seu abraço. Não, ela nem percebia o convite que fez, mas os sinais eram inequívocos para Gray. Ele viu esta reação, muitas vezes antes, e ele sabia que não devia sentir-se lisonjeado por ela. Era nada mais do que instinto. Qualquer porto em uma tempestade. — Não nos faz nada — disse, ajudando-a a descer. A sensação de seus dedos finos e gelados entre os seus desencadeou todos os tipos de instintos. — Faz-me um investidor preocupado. E isso faz de você uma garota com uma imaginação fértil. Volte para sua cabine. Os relâmpagos cessaram, mas seus olhos acenderam com um fogo próprio. — Mas eu... — Não estamos a salvo — ele abriu a porta da cabine das damas e fez um gesto para que entrasse. — Vá para à cama, senhorita Turner. Sim, vá para a cama, pensou, quando ela sem dizer uma palavra passou por ele e 34


fechou a porta atrás dela. Vá para a sua cama, antes que eu a leve para a minha.

Capítulo 04

Sophia acordou sobressaltada, sozinha e desorientada no escuro. Seu pulso respondeu primeiro, o pânico bombeando em suas veias em um ritmo agitado. Ela apertou a mão contra seu coração, e os dedos enrolaram em torno do pulso. A consciência retornou em uma velocidade vertiginosa. Um tênue brilho prateado filtrava através da porta de sua cabine. Era de manhã. E se era de manhã, isso queria dizer que sobreviveu à noite. Ela virou-se de lado. Cada músculo gritou de dor. A saia e a capa ainda pesadas pela umidade, resistindo as suas débeis tentativas para se levantar. Talvez ela não tivesse necessidade de mover-se, depois de tudo. Oh, mas ela precisava. Respirou fundo, e logo desejou poder cuspir. O ar estava pesado com a umidade e os odores fétidos de vômitos e esgoto. Ela saiu de sua cama, ignorando os protestos de seus membros doloridos, e abriu a porta de sua cabine. Lançou-se pela escada, subindo com as mãos e joelhos. A brisa salgada beliscou seus ouvidos quando ela enfiou a cabeça para fora na madrugada cinzenta. Respirou profundamente, tonificando-se com o ar fresco. A ideia de voltar para baixo não tinha atrativo algum. Entretanto, não podia continuar assim, a cabeça e o pescoço se sobressaindo de um buraco, no convés, como uma espécie de marmota marítima. Subiu ao convés e lutou para ficar de pé, plantando seus pés em uma postura ampla para amortecer o balanço do navio. Sophia fechou os olhos. Ou o navio foi pego em um redemoinho, ou sua cabeça estava girando como um pião. Olhou para a amurada mais próxima, a cinco passos de distância, talvez seis. Mais à frente, a costa inglesa parecia cambalear sobre uma escora. Ela inclinou a cabeça, o seu olhar centrou-se na plataforma abaixo dela, e deu um passo. Dois. Em seguida, o convés se inclinou de repente, e seus joelhos se dobraram. Ela estava caindo, girando, fora de controle. Apanharam-na. — Afirme-se — duas grandes mãos se apoderaram de seus cotovelos. Seus dedos se fecharam instintivamente sobre os dois braços fortes. Sophia mal teve tempo de registrar a sensação de uma lã muito fina e de músculos duros sob seus dedos, um breve momento para dar uma olhada em um par de olhos verde-cinza. 35


E então ela vomitou tudo sobre duas Hessianas ligeiramente arranhadas, com franjas na parte superior. — Eu... — Ela tossiu e cuspiu. O punho de ferro do senhor Grayson sobre seus cotovelos se negou a relaxar, a impedindo de afastar-se. — Senhor... solte-me, por favor. — Absolutamente não. Você não tem os pés firmes. — Desta maneira, então, a guiou de lado, a persuadindo a dar pequenos passos e girar ligeiramente à direita... a valsa mais mortificante que Sophia já suportou. Ele a apoiou contra uma pequena caixa. — Sente-se. Ela obedeceu, afundando-se agradecida nas ásperas tábuas de madeira. Ainda sustentando-a pelos cotovelos, ele abaixou-se na frente dela. Não podia suportar olhálo nos olhos. — Fique aqui — ele ordenou. — Voltarei em um momento. Oh, por favor, não. Sophia se encolheu quando suas sujas botas o levaram. No instante em que seus passos desapareceram, tirou um lenço de sua capa e secou a testa. Ela quis que a cabeça parasse de girar, para que ela pudesse levantar-se sem ajuda e escapar. Mas ele foi muito rápido para ela. No espaço de dois minutos, estava de volta, as botas lavadas com água do mar, supunha, e uma fumegante caneca na mão. — Beba isto — ele envolveu suas mãos trêmulas ao redor da caneca. Um calor delicioso infiltrou em seus dedos gelados, arrepiando-a. — O que é isso? — Chá, com melaço e limão. E um toque de rum — quando ela simplesmente ficou olhando a bebida, ele acrescentou:-Beba. Você vai se sentir melhor. Sophia levou a caneca aos lábios e bebeu com cuidado. O vapor fragrante esquentou-a de dentro para fora. A doçura melosa cobriu sua garganta, mascarando o sabor amargo da bílis. Ela bebeu outra vez. — Obrigada — ela finalmente conseguiu dizer, mantendo os olhos fixos no líquido agitando-se na caneca. — Sinto... Sinto muito por suas botas. Ele riu. — Você não deve sentir. — Ele se agachou junto a ela. Sophia continuava olhando obstinadamente sua caneca. — Eu desprezo essas botas — continuou ele. — Já considerei a ideia de tirá-las e jogá-las ao mar. Mas agora parece que devo as conservar — a surpresa atraiu seu olhar para o dele. Viu-o sorrir. — Por razões sentimentais. Não faça isso, ela disse a si mesma. Não sorria de volta. 36


Muito tarde. — Senhor Grayson... — Por favor — Seu cotovelo cutucou sua coxa. Um acidente? Ele não se desculpou. — Depois disso, acredito que você pode me chamar de Gray. O olhar dele faiscou, uma pitada de prata cintilando no verde escuro, e Sophia virou de repente, dolorosamente consciente da imagem que devia apresentar. Suja, com o vestido amassado ainda úmido na bainha, o pálido cabelo amarelo cinzento solto de suas forquilhas. A pele doentia, descolorida e macilenta. E, entretanto... Seus olhos não se limitaram a roçá-la pela superfície. Em vez disso, concentraram-se a certa distância por debaixo de sua roupa manchada, sondando as profundidades de sua aparência em uma forma mais do que desconcertante. Apesar do frio, um ligeiro brilho de transpiração floresceu sobre suas coxas. — Sr. Grayson. Agradeço pelo chá — Sophia trocou a caneca de mão e sacudiu o lenço que mantinha em sua palma. Um sopro repentino de vento o arrancou de sua mão. A mão dele saiu disparada, e agarrou o pedaço branco esvoaçante sem esforço, como se fosse uma pomba treinada para voar para sua mão. Sophia estendeu a sua. — Mais uma vez, agradeço. Ele o sacudiu fora de seu alcance. — Guarde seu agradecimento. Não o devolvi. Ele tocou o bordado do lenço. — Talvez eu decida mantê-lo. Por razões sentimentais. Veio a ela com tanta facilidade, a resposta para flertar. Só precisava olhá-la, e sua precaução se derrubava no volteio de um leque. — Não deveria zombar, senhor Grayson. Não é nada caridoso. — Ah, mas eu sou um comerciante. Estou interessado no benefício, não na caridade. E pedi que me chamasse de Gray. Ele se aproximou mais, e agora a esta pouca distância — Sophia podia jurar que seus olhos não eram verdes totalmente, mas de um azul pálido. Um azul penetrante. — Você tem dinheiro, certo? Sua boca secou. Ele sabia. Pelo lenço? Era muito fino, muito adornado. Muito ornamentado. Obviamente pertencia a uma senhora rica. Dane-se. Se ela tivesse tido mais tempo para planejar sua fuga, teria conseguido um melhor disfarce. Foi bastante difícil deixar para trás seu enxoval cuidadosamente selecionado e levar somente sua 37


roupa de todos os dias. Ela não teve tempo de montar um guarda-roupa mais comum, nem sequer fazia ideia de onde as classes mais pobres faziam compras. — Perdão? — Seus dedos apertaram a caneca, que rapidamente se esfriava. — Dinheiro. Você tem dinheiro, certo? Você não pagou sua passagem ontem. São seis libras, oito xelins. Se não tiver dinheiro, não terei mais opção senão retê-la para um resgate quando chegarmos a Tortola. Sua passagem. Sophia tomou um gole de chá com alívio. Se o senhor Grayson estava preocupado com suas seis libras, provavelmente não fazia ideia que estava abrigando uma herdeira fugitiva, com cerca de cem vezes esse valor amarrado sob seu espartilho. Ela suprimiu uma risadinha. — Sim, claro que posso pagar a minha passagem. Você terá seu dinheiro hoje, Sr. Grayson. — Gray. — Senhor Grayson — ela disse, sua voz e seus nervos mais agudo. — Eu acho que dificilmente o meu momento de ... de indisposição dá licença para fazer um pedido tão íntimo, que dirigir-me a você pelo seu nome de batismo. Certamente, não farei. Ele estalou suavemente, enrolando o lenço em seus dedos. Com sensibilidade hipnótica, estendeu a mão, passando o tecido ao longo de sua têmpora. — Agora, certamente, querida, meus pais podem ter o crédito por ter mais imaginação do que implica. Batizar-me de Gray Grayson... — Ele riu. — Todos a bordo deste navio me chamam de Gray. Lamento decepcioná-la, mas não é um privilégio particular. Só há uma mulher na terra que permito dirigir-se a mim por meu nome de batismo. — Sua mãe? Ele sorriu de novo. — Não. Ela piscou. — Oh, agora, não pareça tão decepcionada — disse ele. — É minha irmã. Sophia inclinou-se, os olhos para o colo, amaldiçoando-se por entrar no jogo de seu encanto. Se olhá-lo arrebatava-lhe o seu bom senso, a solução era simples. Não devia olhá-lo. Mas então ele pressionou o lenço em sua mão, cobrindo seus dedos com os dele, e Sophia não pôde reprimir o pequeno e derrotado suspiro, que saiu de seus lábios. Seu toque devastou sua resolução completamente. Sua mão era como o resto dele. Força bruta, cuidadosamente arrumada. Ela 38


desejou de todo coração ter colocado as luvas. Ele se inclinou mais perto, o cheiro dele invadindo através do aroma penetrante da água do mar, totalmente masculino e fracamente picante como creme e rum. — E, querida, se eu fizesse um pedido íntimo de você — seu polegar acariciou ousadamente a delicada pele de seu pulso — você saberia. Sophia conteve o fôlego. — Então, me chamam de Gray. — Ele soltou sua mão bruscamente. A decepção — uma emoção espontânea, imprudente, impensável — apertou o peito de Sophia. Distanciar-se deste homem era precisamente o que ela desejava. Bom, talvez não precisamente o que desejava, era exatamente o que precisava. Ele a olhou como se a tivesse despido de todos seus segredos, e seu corpo também. Ela empurrou a caneca para ele, deixando-o sem opção a não ser pegá-la entre suas mãos. — Eu vou continuar me dirigindo a você, conforme exigido pelas exigências de decoro, Sr. Grayson — lançou-lhe um olhar penetrante. — E certamente não está em liberdade de me chamar de "querida". Ele pôs uma expressão de inocência, arregalando os olhos. — Isso não é o que significa, então? Burlando o lenço de seu punho cerrado, ele correu o dedo sobre o monograma bordado S.H. — Você vê? — Ele riscou cada letra com a ponta de seu dedo. — Doce. Coração.8 Pensei que certamente devia ser isso. Porque sei que seu nome é Jane Turner — Seus lábios se curvaram naquele sorriso insolente. — A menos que... Não me diga. Foi um presente? Pelo menos desta vez ela conseguiu chegar ao parapeito. Sophia agarrou-se lá até que teve certeza que devia ter jogado até os restos do jantar de San Miguel fora. Até que as pisadas fortes em botas sujas disseram que ele foi embora. De volta em seu beliche, molhou um lenço limpo, sem bordado, em uma bacia de água doce. Despojada de seus calções e meias, passou uma esponja de água gelada sobre seu pescoço e rosto, depois entre os seios e braços. Depois secou-se com a toalha, espanou o corpo com pó de arroz perfumado. Ainda se sentia suja. Com dedos trêmulos, ela voltou a apertar o pesado pacote ao redor das costelas. Ela puxou uma camisa limpa sobre sua cabeça e atou o espartilho. Ela ainda se sentia exposta. 8

S. H. Sweet Heart em Inglês, ou seja, Doce Coração em Português.

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Escovou os cabelos com fortes puxões, para castigar a mente fraca fervendo sob o couro cabeludo. De todos os momentos e lugares para se distrair por um homem...! Durante a temporada, foi cortejada por nada menos que nove dos solteirões mais cobiçados na alta sociedade. Não havia duques ou condes, entre eles, para consternação de seus pais, mas ela se comprometeu com o partido mais cobiçado da sociedade, o supremamente encantador Sir Toby Aldridge. E nunca, nenhuma só vez, em todas as valsas e passeios pelo jardim e tímidas conversas, a perfeita compostura de Sophia foi abalada. Ela sabia como lidar com homens atraentes, ou melhor, como dirigir-se ao redor deles. Ela não sabia nada. Ela era uma idiota, uma imbecil, uma tonta, e uma boba. A bordo de um navio, com um nome falso, e então tirar de sua capa um lenço com um monograma? E agitá-lo? Sophia puxou e torceu o cabelo em um estilo severo, em seguida, cravou o nó em espiral com vários grampos. Garota tola, tola. Se o senhor Grayson descobrisse sobre o dinheiro, saberia imediatamente que era uma fraude. Ele poderia roubar sua bolsa ou mantê-la cativa na esperança de conseguir mais através de extorsão. Pior ainda, poderia chegar a ser um cavalheiro depois de tudo, e simplesmente devolvê-la a sua família. Fique calma, ordenou a si mesma, respirando profundamente. Dada sua amizade com os Waltham, o senhor Grayson, obrigatoriamente descobrirá sobre sua mentira. Mas quando o navio chegar a Tortola, faltariam somente algumas semanas para seu vigésimo primeiro aniversário. A poucas semanas da liberdade. Se houvesse um resquício de honra de cavalheiro no Sr. Grayson, que pudesse obrigá-lo a devolver uma debutante arruinada a Inglaterra — e Sophia duvidava que a tivesse — já seria muito tarde. Então, seu fideicomisso e seu futuro pertenceriam só a ela. Com sua ansiedade um pouco dissipada, Sophia alcançou seu vestido. Doía-lhe colocar o mesmo vestido amassado, mas não tinha escolha. Seu baú tinha só quatro vestidos, além desse que usava. Dois deles eram vestidos de musselina do verão passado, para usá-los uma vez que chegasse aos trópicos. O terceiro não era um vestido absolutamente, mas uma bata para pintura, e o quarto... o quarto era pura insensatez. Uma vez vestida, ela voltou sua atenção para o baú menor, que continha seu tesouro mais querido. Pinturas, carvão, pastel, paleta, pincéis, e centenas de folhas de 40


papel grosso, dividido em dois pacotes, cada um cuidadosamente envolto em um oleado. Uma centena de folhas para um mês, talvez mais. Apesar de que poderia ter se permitido três, Sophia retirou apenas duas folhas de papel. Ela pegou uma prancheta pequena e um pedaço de carvão antes de voltar a embalar cuidadosamente seu contrabando de artista. À medida que recolocava o pacote no oleado, sua mão roçou a capa de couro desgastada de um pequeno livro. Sorrindo, ela levantou o volume para a parte superior do baú. O Livro. Ele foi dado por sua amiga Lucy Waltham, agora a condessa de Kendall. Este pequeno volume provou ser uma fonte valiosa de informação e inspiração. As Memórias de uma Leiteira Licenciosa, era o título. Seu conteúdo, como esperado, era contos obscenos do encontro de uma leiteira com o seu cavalheiro patrão. Como um todo, Sophia achou o livro chocante, emocionante, e, infelizmente faltava ilustrações. Este último se propôs a remediar. Ela folheou a primeira metade do livro, agora cuidadosamente adornada com desenhos a pluma e tinta da leiteira licenciosa e seu cavalheiro em vários estados de nudez. Ela planejara devolvê-lo a Lucy quando terminasse, mas agora... Uma pontada de solidão a beliscou no peito. Mesmo que visse Lucy de novo, sua amiga seria obrigada a cortar qualquer relação com ela. Uma condessa não tinha relações com mulheres caídas. Uma imagem de repente surgiu em sua mente. Um turbilhão de cores, texturas, sabores... anáguas brancas como a neve erguidas ao redor da cintura. Palhas espalhadas no chão de um celeiro. O quente jorro de um balde de leite derrubado. Montes de pele macia, bronzeada. O sabor do sal na língua e o toque da barba áspera contra seu pescoço. Jogou o livro no baú e o fechou rapidamente. Podia ser uma irreprimível sonhadora, mas Sophia não era uma leiteira licenciosa. E o Sr. Grayson, como ele gostava tanto de lembrá-la, não era cavalheiro. O ar dentro da cabine se tornou desconfortavelmente pesado. Ela precisava limpar sua mente. Precisava desenhar. Recolher todas estas vagas, rebeldes sensações em seu interior e expulsá-las através da ponta de seu lápis, sobre o papel, onde poderiam ser enjauladas por quatro margens. Seguras. Colocou o carvão e o papel sob o braço e subiu a escada, com a intenção de desenhar no convés. Entretanto, no instante em que sua cabeça saiu pela escotilha, os planos de Sophia mudaram. 41


Encontrou-se cara a cara com uma cabra. Com um balido grosseiro, a cabra agarrou uma folha de papel de suas mãos e amassou entre suas mandíbulas. Sofia olhava com confusa indignação enquanto a cabra casualmente mastigava e engolia seu precioso pergaminho. Quando o animal estendeu sua língua longa e estreita com toda a indicação de comer sua segunda folha, Sophia entrou em ação. Ela pegou sua prancheta de desenho com ambas as mãos e golpeou o impertinente animal no focinho. — Acalme-se, querida — a voz profunda do senhor Grayson chegou de algum lugar acima. — É no meu investimento que você está batendo. Sophia olhou para a cabra. Ela fez uma pausa de meio segundo para imaginar que os traços bonitos do Sr. Grayson coincidiam com a cara peluda de focinho arrebitado. Então ela bateu em sua cabeça outra vez. Oh, Deus, como se sentia bem. Obviamente, a cabra não concordou. Agarrou o canto da prancheta de Sophia com os dentes e puxou. Sophia puxou em direção contrária com todas suas forças. Ela perdeu o equilíbrio e caiu de volta para a cabine. A cabra caiu com ela. Ou melhor, a cabra caiu em cima dela. Maldição. Com um balido indignado, a cabra ficou rapidamente de pé, suas patas dianteiras e traseiras a cada lado da barriga de Sophia. Ela lutou para erguer-se sobre os cotovelos. Sua saia de sarja subiu, expondo suas meias. O cheiro forte do animal de fazenda a sufocava como uma manta de pele. Duas tetas pendiam diante de seus olhos, balançando suavemente com cada movimento do navio. — Bem, bem — o tom zombador do senhor Grayson chegou pela escada. O resto da folha de papel caiu até descansar perto do cotovelo de Sophia. A cabra a ingeriu com celeridade. — Esta é uma imagem muito bonita. Que leiteira encantadora você é, senhorita Turner.

Capítulo 05

— Cabras — amaldiçoou Joss. — Por que tinham que ser cabras? — Não pode haver espaço vazio em um navio mercante — Gray arrancou seu olhar do quadro rústico no convés inferior. Agora havia uma imagem que iria 42


assombrar seus sonhos. A garota já lhe devia o descanso de uma noite. — Espaço perdido é dinheiro perdido. E vamos ter leite fresco até chegar a Tortola. Você vai me agradecer em breve. — E quando as comprou, parou para considerar onde colocaríamos os malditos animais? — Não há necessidade de ser depreciativo, Joss — puxou a orelha marrom e branca da cabra. — Estes animais são da melhor raça de Hampshire. Serão vendidas a um bom preço. E eu pensei que poderiam ficar no porão. — Evidentemente, pensou errado. — Deve ter mastigado as cordas na noite passada — Gray fez uma pausa, considerando. — As colocaremos nas cabines dos cavalheiros. As malditas cabines são muito pequenas para uma pessoa habitá-las, de qualquer maneira. — Entendo — Joss golpeou a ponta de sua bota contra o convés. — E suponho que você cuidará delas? As limpará? Ordenhará? — Não seja absurdo. Stubb e Gabriel podem compartilhar a ordenha. Quanto ao cuidado. Esse seu novato vem de uma fazenda, não? Ah, aí está — assobiou entre dentes. — Garoto! Um jovem de rosto pálido trotou pelo convés, um grosso cilindro de corda enroscado no braço. — Qual é seu nome, outra vez? — Davy Linnet, senhor. — Quantos anos tem, Davy? — Quinze, senhor. — Vem de uma fazenda, certo? O garoto arrastou os pés. Ele olhou para as cabras com cautela. — Sim, senhor. — Então, suponho que sabe como cuidar de uma cabra. O menino hesitou, olhando para Joss. — Bom — perguntou Gray. — Distingue a teta de uma cabra de sua cauda, ou não? — Quando o menino ficou em silêncio, ele acrescentou... — Fale agora, ou eu vou perguntar o mesmo das garotas. — Eu cuidei de cabras, senhor. É só que... não esperava cuidar delas no mar. Eu pensei ter terminado com isso. Gray riu. — Um homem não pode se desprender de seu passado, Davy. Eu sei. As leve para a cabine de cavalheiros, então. Há uma cabine vaga — elevou a voz e falou em direção da escotilha. 43


— E resgate à senhorita Turner desse animal sobre suas saias. Davy soltou seu rolo de corda e agarrou uma vareta de canhão da cremalheira na amurada do navio. Cravou-a no flanco da cabra com a extremidade. — Vá em frente, então. — Então, se as cabras estão nas cabines dos cavalheiros — perguntou Joss, voltando-se para o leme — onde tem a intenção de dormir? Não aconchegado ao lado de seu rebanho, imagino. — Não. Sempre existem as cabines das... — As cabines das damas? — Joss o deteve. Seus olhos se estreitaram. — Pense novamente. — Suponho que na... — E eu não vou colocar um beliche na proa. Não o terei ali de farra com a tripulação, minando minha autoridade. Gray encolheu os ombros. — Assim resta o convés, aparentemente. Estou certo de que Davy pode compartilhar comigo algum espaço entre os barris — balançou a cabeça. — Eu possuo o maldito navio, e eu vou estar dormindo no convés com o novato. — Não espere que eu tenha simpatia — disse Joss. — Eu não queria suas malditas cabras. Ou o leite. — Oh, tomará seu leite. Tomará seu leite, e me agradecerá isso — Gray estava à beira da ira, e o sorriso de seu irmão o empurrava ao limite. — Maldição, eu tomei riscos neste negócio Joss. Fiz sacrifícios. Tudo pela família... Para que você possa colher os benefícios. Eu gostaria que você parasse de jogar isso na cara. Gray soube imediatamente que foi longe demais. Ultimamente, conversar com Joss era como nadar em águas infestadas de tubarões. E o olhar de aço em seu irmão, disse que um ataque era iminente. — Você ... me dizendo ... sobre sacrifícios — Joss deu um passo para ele, sua voz áspera. — Eu colho os benefícios, verdade? Minha família colheu a cana-de-açúcar que pagou este navio. Eles viveram e morreram por isso. E você pode ser o dono do maldito navio, mas não é meu dono. Malditos infernos. Sempre que Gray pensava que tinham deixado no passado a desigualdade de seus nascimentos, encontrava-se muito e rudemente corrigido. Não era como se Gray pudesse mudar o fato de que ele foi o primeiro filho nascido, legítimo. Como irmão mais novo, Joss nunca teria as mesmas oportunidades que Gray, mesmo que tivesse nascido de uma amante, de uma esposa, ou neste caso, de uma escrava. 44


— Joss, isso é injusto. Você sabe que o fato de termos mães diferentes não importou para o nosso pai. Nunca me importou. — É importante para alguns. Eu tenho as cicatrizes para provar isso. — Igual a mim. Balançando a cabeça, Joss estudou o mastro que se erguia acima deles. — Vai para o diabo com suas cabras, Gray. — Joss. Ignorando Gray completamente, Joss se voltou para seu segundo em comando. — Senhor Wiggins! Convoque todas as mãos. Preparem-se para zarpar. Gray se foi. Não havia nada mais que pudesse dizer. Ao menos, não havia nada mais que soubesse dizer. Ele deveria ter mantido silêncio, ele supunha. Ficar quieto e cuidar do dinheiro. Não havia nenhuma maneira que pudesse mudar o passado e sobrava muito pouco a fazer no presente. Nunca teve talento para a moral, havia deixado isso para Bel com muito gosto. Mas se cuidasse do dinheiro, todo o resto ficaria em seu lugar. Até mesmo as cabras. — Senhor, você tem uma dívida comigo. Sophia esquivou o cotovelo do senhor Grayson quando ele se virou para enfrentá-la. Ela o tinha justo onde o queria. Com o mastro diretamente atrás dele, e o arranjo do outro lado, não tinha para onde escapar. — Senhor Grayson — ela respirou fundo e fechou um punho a seu lado. Levantou a outra mão no espaço entre eles, brandindo uma folha de pergaminho. — Você, e sua cabra, devem-me duas folhas de papel de alta qualidade. De uma série grossa, livre de marcas. Espero uma restituição. Ele esfregou uma palma em sua mandíbula, depois deslizou para trás para abranger seu pescoço. — Papel? — Ele arqueou uma sobrancelha enquanto reparava no aspecto desalinhado dela. — Você está toda alterada por causa de algumas folhas de papel? De repente, tímida sob seu olhar, Sophia colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Após o roubo do seu papel e da humilhação de aterrissar em um emaranhado com uma cabra, apoiou-se em sua indignação para proteger-se dos encantos do senhor Grayson. Talvez tivesse superestimado a qualidade da proteção do ressentimento. Embora ela ainda usasse as mesmas roupas desalinhadas que usava no momento de sua apresentação, ele havia trocado suas roupas. Casaco azul e calças de camurça estavam no auge da moda. As ondas rebeldes de seus rebeldes cabelos foram domesticadas com um toque 45


de creme, e o ligeiro crescimento da barba só aumentava sua aparência de vagabundo. O único defeito em sua aparência continuava sendo as botas arranhadas, que já tinham sofrido todo tipo de abusos, desde água salgada a vômitos. Parecia imperdoavelmente bonito. A folha de papel se amassou com o aperto de Sophia. Maldito, agora lhe devia três. — Papel — repetiu ele. — Sim, de papel. Pode ser apenas "algumas folhas de papel" para você, mas para mim, é... bem, é papel — Sophia estava dolorosamente consciente do quão estúpida soou. — Tenho um fornecimento muito limitado, e é simplesmente muito caro para ser desperdiçado com um rebanho. — Entendo — suas sobrancelhas se uniram enquanto olhava a folha que ela tinha em sua mão. — Não, não entende — Sophia sentia as lágrimas ardendo nos cantos de seus olhos. Justo agora sentia o desejo absurdo de chorar. Ela mesma havia dito que podia deixar tudo para trás: sua família, seus amigos, seus pertences, enquanto ela tivesse sua arte. Só que agora ela estava sentindo saudades de tudo um pouco mais do que planejou, e que sua saída criativa fosse ameaçada por esta, esta besta — por não falar de sua cabra... Ela bufou ferozmente. — É obvio, você não entende. Como poderia? Está pensando que é só um pedaço de papel, mas não é absolutamente. É... — É papel. Piscando para conter as lágrimas, Sophia virou-se para olhar resolutamente para o horizonte. — Sim, precisamente. — Agora, querida, onde está esse pequeno lenço de renda quando precisa? Depois de esfregar furtivamente os olhos, Sophia cruzou os de braços. — Ei, garoto! — uma voz forte cortou a conversa. — Suba e ajusta o sobrejoanete9 de proa. — Sim, sim, senhor Brackett. Um jovem quase da altura de Sophia correu entre eles e parou na base dos arranjos. Ela o reconheceu como o menino que havia tirado a cabra não desejada de sua cabine. — Primeira vez então, Davy? — Perguntou o senhor Grayson. O jovem engoliu audivelmente. — Primeira vez no mar, senhor. O senhor Grayson deu-lhe um tapinha no ombro. 9

s.m. Náutica Vela que se larga por cima do sobrejoanete grande.

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— Simplesmente tome seu tempo. O sobrejoanete não é tão complicado como o mastaréu do joanete10, é mais alto, mas não há necessidade de sair a verga11. Fique perto da plataforma. Mantenha seus pés nas cordas e os olhos em suas mãos, e tudo irá bem. O garoto assentiu. Montou uma parte do arranjo que formava uma escada estreita e coberta de breu e começou a subir, seu rosto sombrio. Sophia observava, sem fôlego, já que ele rapidamente alcançou as primeiras das vigas perpendiculares que sustentavam cada uma das velas com arranjo de cruz do Afrodite. Ali, cerca de vinte metros acima do deck, ele chegou a uma espécie de parapeito em torno do mastro, onde fez uma pausa antes de retomar sua escalada. — Isso, Davy — disse o senhor Grayson. — Vá em frente, então. O rapaz mudou-se para um novo conjunto de cordas com degraus e reatou a escalada. — Quanto deve subir? — Sophia colocou uma mão em concha sobre os olhos. — Até o penol do sobrejoanete — o senhor Grayson viu sua expressão de desconcerto — Até a ponta. Ela inclinou a cabeça para trás e deixou que seu olhar seguisse o mastro até o céu. Não podia discernir se na realidade podia ver o topo, ou se a coluna da torre, simplesmente se perdia na distância. A perspectiva era vertiginosa. — Mas isso é tão alto! — ela piscou de volta para o mastro outra vez. — E em seu segundo dia no mar? — Exatamente. Se vai ser um marinheiro, deve acostumar-se à sensação do arranjo e ao movimento do navio. Os oficiais não lhe fariam nenhum favor se o mimassem desde o começo. Sophia olhou para cima novamente. Davy tinha alcançado o seguinte penol. Deteve-se ali por alguns momentos, agarrando-se aos arranjos. Estava só na metade da parte superior do mastro, entretanto, tão alto que já não podia distinguir os traços de seu rosto. O mastro se balançava para trás e para frente com cada sacudida do navio. — O que acontece se ele cair? — perguntou ela, engolindo em seco. O senhor Grayson encolheu os ombros. — De onde está agora? Ficaria um tanto machucado, mas viveria. — E do penol do sobrejoanete? — Bom, então provavelmente morreria. Se caísse no convés ou no mar, não 10 11

Joanete – Vela que fica por cima da gávea. Consoante o mastro, assim têm os nomes (de proa, grande e sobregata). Verga – Peça de madeira ou metal onde é ligada a parte superior da vela.

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importa muito. Mas não se preocupe, querida. Ele não vai cair. Nesse momento, a bota de Davy deslizou de seu ponto de apoio. O garoto se refez rapidamente, mas não antes que Sophia ofegasse e levasse uma mão à boca. A folha de papel amassada caiu de suas mãos. Nunca tocou no convés. O senhor Grayson a pegou facilmente entre seu dedo indicador e polegar. Alisou a folha contra seu colete bordado antes de entrega-la. — Não quer perder outra folha de papel — disse com um leve sorriso. — Mas viu, querida, os marinheiros captam rapidamente. Um marinheiro com reflexos lentos é um marinheiro morto. Sophia levantou os olhos para o cordame. Ela e o senhor Grayson não eram os únicos em ver o progresso de Davy. A partir do mastro, da proa, leme, todos os olhos estavam fixos no garoto. A tripulação observava sua ascensão com grande interesse e sussurrando, especulativos, como se tratasse de uma corrida de cavalos ou uma luta de boxe. Quando Davy chegou à próxima verga, um clamor de aprovação se levantou do convés. — Esse é o joanete — gritou um robusto marinheiro. — Está quase lá! Quando o garoto vacilou, agarrando-se ao mastro, o senhor Grayson colocou as mãos em concha ao redor da boca. — Vá em frente, Davy! As cabras estão se sentindo sozinhas! O jovem começou a última seção, a mais perigosa de sua ascensão. Sophia não podia suportar ver mais. Em vez disso, ela se concentrou nas placas debaixo de seus pés, e depois quando o suspense se tornou grande demais para tolerar, deixou seus olhos deslizar para a mão do Sr. Grayson, que estava pendurada ao lado. Sophia manteve os olhos focados nessa mão, nos dedos fortes e esculpidos, palma calejada. Com essa mão, tinha apanhado o lenço, papel e a própria Sophia em mais de uma ocasião. Se Davy tropeçasse sem dúvida que se moveria reflexivamente para pegá-lo. Ela olhava sua mão porque sabia, sempre e quando pendesse solta ao lado do senhor Grayson, o garoto estava a salvo. Ela estava a salvo. Oh, não. De onde veio esse pensamento? Uma idiotice, essa. Ele era perigoso, recordou-se Sophia. Podia expor seus enganos e obrigá-la a voltar para uma existência miserável, e ela, que podia recitar falsidades sem esforço a duques e criados por igual, perdia todo o poder de dissimular cada vez que ele se aproximava. E, entretanto, apesar de tudo isto — ou talvez por causa disso... Ao chegar à sua sombra ampla, Sophia começou a se sentir estranhamente segura. Protegida. 48


Ela se sacudiu. Aparentemente, o enjoo ou a brincadeira do senhor Grayson, ou mais provavelmente ambos, a deixou completamente sem sentido. A lógica exigia que fugisse para a cabine nesse instante e se afastasse da influência desse potente e crédulo encanto. Mas não o fez. Em vez disso, aproximou-se um pouco mais. Ele a sentiu, sua proximidade súbita. Uma cálida proximidade feminina, que deixou em alerta todos seus nervos. Não precisava olhar. Não precisava, mas olhou. Deus, ela era verdadeiramente requintada. Até mesmo seu irmão cego pela dor havia dito que era linda, mas essa palavra não era suficiente. Havia uma espécie de retidão em seu rosto, uma qualidade que ressoava em seus ossos. Como o nítido som de um cristal fino tilintando em uma recepção, ou o eco de um sussurro em uma catedral. Requintada. Uma ruidosa alegria anunciou o êxito do jovem Davy, e Gray olhou para o penol do sobrejoanete para ver a vela quadrada desdobrando, como um lenço. O forte som metálico do sino cortou os gritos e os assobios da tripulação. O senhor Brackett estava parado no alto do convés em direção à popa do navio, com a sua expressão séria. — Isto não é um circo, idiotas! Todos ao trabalho! Os marinheiros voltaram para suas funções, resmungando entre eles. Embora Gray não pudesse culpar o oficial por enviar os marinheiros ao trabalho, pelo menos ele poderia compensar suas ausências felicitando sinceramente o jovem em sua descida. — Muito bem, rapaz — bateu a mão no trêmulo ombro do jovem. — Em breve estará no castelo da proa com os marinheiros. Talvez quando cruzarmos o Trópico. — Obrigado, senhor — o garoto secou a testa com a manga. — Como você se sente? — Acho que vou vomitar, senhor. Gray riu e se afastou rapidamente. — Só faça-me um favor, garoto. Economiza a minhas botas de um segundo batismo. Sufocando uma risada, a senhorita Turner ofereceu ao garoto um sorriso cálido. — Você é muito corajoso, senhor Linnet. Gray observou a pele branqueada e tensa sobre os nós dos seus dedos, agarrando a borda de sua capa. Ele sabia que ela esteve doente de preocupação pelo garoto. 49


Mesmo agora, ela estava lutando para ocultar suas verdadeiras emoções atrás desse sorriso amável, porque entendia, como Gray, o quão importante era para a confiança de Davy, que não visse seu medo. Mas Gray o viu. O havia sentido, quando se aproximou mais dele. Neste mesmo momento, ela estava tão perto que suas sombras se estendiam juntas no convés. Sua vulnerabilidade o desarmava, de algum jeito, e esse sorriso o fazia invejar um novato de quinze anos, como nunca tinha invejado um príncipe. Apoderou-se de Gray a absurda ideia de escalar o mastro, só para apreciar a calorosa aprovação. Davy foi cambaleando para a amurada, e Gray pôs uma mão na base da coluna da senhorita Turner, girando-a em direção oposta. Deixando de lado aquele sorriso encantador, ela mesma não parecia muito bem. Com um ligeiro, mas firme toque, conduziu-a pela escada para o convés elevado do leme. Ela não protestou. Maldição, sentia como ela se encaixava perfeitamente sob sua palma. Gray imaginava que sua mão quase poderia abranger quase a largura de sua cintura. Pôs à prova a ideia, abanando os dedos sobre a parte baixa de suas costas. Ela estremeceu sob seu toque, mas não se afastou. Na verdade, ela pareceu aproximar-se mais. — Tudo bem, querida — murmurou em seu ouvido. — O garoto agiu admiravelmente. Assim como você. Ela moveu-se para enfrentá-lo, aquelas pesadas saias de lã pesada rodando sobre suas pernas. Uma estranha onda de proteção surgiu em seu peito. Guiado por um impulso que não podia entender mais do que podia negar, Gray levou a mão dela aos lábios, pressionando um quente beijo sobre seus dedos. — Agora — murmurou — do que estávamos falando? — pela vida dele, que não podia manter um pensamento na cabeça. — De papéis. Você... você ainda me deve duas folhas de papel. — Você ainda me deve seis libras, e oito xelins — ele disse suavemente. — Para não mencionar um novo par de botas. Assim acredito que estou bastante adiantado. De fato, Gray estava perdendo terreno rapidamente. Aqueles lindos olhos, essa pele suave, o doce aroma que só se tornava mais potente à medida que o calor entre eles aumentava... Se ficassem assim muito mais tempo, não daria dois centavos por nada, exceto para envolvê-la com seus braços, cobrir seus lábios com o dele, e saquear essa descarada flor de sua boca. Não, não. O que ele estava pensando? As pessoas não saqueavam a inocência de uma governanta. Tratava-se de uma jovem que esperava ser beijada com doçura. 50


Castamente. Ternamente. Infernos. A palavra "casta" nem sequer estava em seu vocabulário. E Gray não fazia nada meigamente. — Doçura, odeio ter que dizer. Mas não importa quantas folhas de papel encha escrevendo cartas para casa, não vai passar por aqui nenhum carro de correios. — Não, não são para cartas. Você não entende. — Bem, explique-me então. — Eu... — ela o olhou outra vez, seus olhos grandes procurando os dele. Havia uma história por trás desse olhar desesperado. Uma que não caberia em duas folhas de papel, nem sequer em duzentas, supôs ele. Ele apertou sua mão. Vamos, uma parte tola dele urgiu. Conta-me tudo. Ela nunca teve a oportunidade. — Perdão, senhorita Turner — Joss parou junto ao ombro de Gray, olhando como se alguém tivesse misturado água do porão com seu chá. — Preciso falar com meu irmão, se me permitir. — Sim, é claro, capitão. O senhor Grayson estava... me explicando o funcionamento do navio — ela tentou puxar a mão do aperto de Gray, disparando um olhar dolorido quando ele se negou a renunciar seu prêmio. Gray disse suavemente: — Na verdade, nós estávamos falando sobre dívida. A senhorita Turner ainda me deve sua passagem, e eu... — E eu disse, o pagarei hoje — debaixo dessa abominação de saia, que envolvia a perna dele, ela plantou seu calcanhar em cima da ponta de sua bota e mudou todo seu peso sobre ela. Com força. Mais uma vez, Gray se arrependeu de ter trocado suas botas velhas e robustas por essas monstruosidades. Seu pequeno calcanhar apontou diretamente sobre o couro fino. Com uma careta tensa, Gray soltou sua mão. Ele estava prestes a dizer que devolveria seu lenço. Mas só por isso, não o faria. — Boa tarde, então — um doce sorriso adornou seu rosto quando ela pisou em seu pé de novo, com mais dureza. Então virou-se e se afastou indignada. Ele fez uma cara engraçada a Joss. — Eu acho que ela gosta de mim. — Na minha cabina, Gray. Gray apertou os dentes e seguiu Joss pela escotilha. Se gostava de ser meioirmão de Gray ou não, Joss tinha uma maldita sorte agora mesmo de ser. Gray não teria tolerado essa ordem arrogante de nenhum vínculo mais fraco que o sangue. 51


— Deu-me sua palavra, Gray. — Fiz? E que palavra foi essa? Joss jogou o chapéu sobre a cama de marco de madeira e tirou o casaco com movimentos nervosos. — Sabe muito bem o que quero dizer. Disse que não iria atrás da senhorita Turner. Agora está beijando sua mão e fazendo um espetáculo em frente a todo o navio. Bailey já está juntando as apostas dos marinheiros sobre quantos dias você levará para se deitar com ela. — Sério? — Gray friccionou a nuca. — Espero que estejam oferecendo até três. Dois, se ordenar que o jovem Davy suba ao mastro de novo. Isso a excitou muito. Joss o fulminou com o olhar. — Preciso recordar que isto foi ideia sua? Você queria um respeitável navio mercante. Estou tentando comandá-lo como tal, mas isso vai ser um pouco difícil, se você pretende protagonizar uma cena indecente no convés a cada manhã. Gray sorriu quando Joss se jogou na cadeira do capitão. — Tome cuidado, Joss. Acredito que quase fez uma brincadeira. As pessoas podem ficar com a ideia que você tem um senso de humor. — Eu não vejo nada de engraçado nisso. Isto não é um cruzeiro pelo Mediterrâneo. — Você acha que eu não sei? — Gray caminhou para as janelas que abrangiam a popa do navio. — Acredite, eu sei exatamente o que está em jogo aqui. São os meus investimentos, maldição. Joss fez um bufo desdenhoso. — Não há necessidade de lembrar-me de quem é o dinheiro. — Sim, é meu dinheiro e meu navio, mas confiei ambos a você. — Não, não fez. Dirige minha tripulação, questiona minhas decisões... — Então é isso. É a tempestade de ontem? — A tempestade, as cabras, Bains, a garota. Revoga minhas ordens em todo momento, e faz só um dia que deixamos a terra. Digo-lhe isso, se quiser um capitão que só pense nos lucros, sem respeito pela comodidade e a segurança das pessoas a bordo... Sem respeito pelas pessoas? Oh, agora Gray estava com raiva. Isto era tudo a respeito de seu respeito pelas pessoas. Duas pessoas muito importantes, uma das quais estava olhando para ele com o assassinato em seus olhos. A outra era a principal razão para sua presença neste navio. Ir buscar sua irmã mais nova para sua estreia em Londres era algo que ele estava esperando para fazer há anos. 52


Essa tarefa, Gray não ia delegar. — Eu quero um capitão que não vá abaixar a vela e jogar âncoras à vista de algumas nuvens — disse. — E sim, maldição, preciso de um capitão forte para aguentar algumas cabras e governantas, se isso for o que necessita para obter algum benefício — rodeou a mesa para enfrentar cara a cara com seu irmão. — O que aconteceu com você? Acostumávamos agitar estes mares como um par de tubarões. Tomávamos tudo, não temíamos nada. — Nós éramos jovens. E estúpidos. — Talvez sim, mas foi ótimo. Navegávamos o navio mais rápido do Atlântico. O Afrodite capturou mais espólio que qualquer outro corsário a serviço da Coroa, e não o fizemos por jogar seguro — Gray apoiou uma mão no ombro de Joss e baixou a voz. — A guerra terminou. E não preciso dizer quanto dinheiro se afundou nessa aventura. Temos que conquistar o comércio honesto agora. Temos que perseguir o sucesso com tudo o que temos. — Nós? O que é toda essa conversa de "nós"? Quando é que essa palavra entrou no seu vocabulário? — Joss se encolheu para desfazer-se da mão. — Quando você se torna um asno insuportável? Foi sempre "nós". Nós deveríamos ser sócios com pleno direito, até que você mudou de opinião. — Oh, vamos levar em conta de promessas quebradas agora? Vá em frente, mas fique advertido... Eu não acho que seja uma discussão que queira começar. Gray respirou lentamente, obrigando-se a manter a calma. — Deixe o passado para trás. Eu fiz o que pude, mas agora temos que fazer este trabalho. Devemos isso a Bel. E a Jacob. — Entendo. É o seu dinheiro, mas é nossa obrigação. Não se atreva a me dizer o que eu devo a meu próprio filho. Que me crucifiquem se devo tomar lições suas sobre dever familiar. Gray olhou para seu irmão. Além das orelhas de seu pai, mal reconhecia Joss. Quando não era a figura triste de um viúvo de luto, era um exímio imbecil. Por que não podia ver ele que tudo isto era pelo bem da família? Que Gray trabalhou todos estes anos, assumido todos os riscos, por ele e Bel, e agora por Jacob? — A senhorita Turner pode ser uma moça de aspecto doce — disse Joss, — mas deve olhar em outra direção. Além de minha responsabilidade como capitão para proteger sua segurança pessoal, não posso permitir o melodrama que acompanha seus romances, Gray. Você sabe muito bem que a tripulação saberá que você está dormindo com ela debaixo de seus narizes. E o que acontecerá quando se cansar 53


dela? Precisa que o recorde da viúva do capitão francês? Aquele incessante pranto fez maravilhas para a moral a bordo. — Talvez não me canse dela — protestou Gray, só para ser do contra. Porque, aparentemente, assim era como se comportavam os irmãos. — Talvez um golfinho sairá voando de seu traseiro. E aqui há um argumento que inclusive você não pode refutar. A Naval Grayson não precisa de uma reputação de entregar mercadoria danificada. Quer entregar a George Waltham uma governanta grávida? — Não a deixaria grávida. Dê-me esse crédito, pelo menos. — Não te dou crédito para qualquer coisa. Vamos tentar uma última vez, tudo bem? Você me fez capitão deste navio. Se eu sou o capitão, o que eu digo se faz. E digo que não a toque. Se não puder cumprir minhas ordens, toma você mesmo o comando deste navio e deixe-me ir para casa. — Ir para casa e fazer o quê? Desperdiçar sua fortuna e talento como um pequeno agricultor? — Ir para casa e cuidar de minha própria família. Ir para casa e fazer o que eu bem entender, por uma vez. Amaldiçoando, Gray se apoiou contra a parede. Sabia que Joss cumpriria essa ameaça, também. Não foi fácil, persuadir seu irmão que tirasse o luto. Gray recorreu diretamente à intimidação só para convencê-lo a tomar o comando do Afrodite, ameaçando cortar sua renda a menos que se apresentasse em Londres, tal como foi acordado. Mas ele precisava de Joss, para esse negócio de transporte se manter à tona. Ele tinha trabalhado duro, sacrificado muito para vê-lo fracassar. E se Joss não se tornasse um sócio disposto, tudo teria sido em vão. — Fique longe da garota, Gray. Gray suspirou. — Estamos no mesmo navio. Não posso deixar de estar perto dela. Nem prometo que de abster-me de tocá-la, porque a garota parece perder o equilíbrio quando estou perto. Mas dou minha palavra que não a beijarei de novo. Satisfeito? Joss negou com a cabeça. — Dê-me sua palavra que não se deitará com ela. — Que lenda está me fazendo! Insinuando que poderia me deitar com ela sem sequer beijá-la primeiro — Gray brincou com a unha de seu polegar enquanto 54


considerava. — Isso poderia ser um desafio divertido, agora que você sugere. Joss lançou-lhe um olhar de incredulidade. — Com alguma outra dama, e em algum outro navio — Gray ergueu as mãos em um gesto defensivo. — Não vou me deitar com ela. Você tem a minha palavra. E não pense que isso não é um grande sacrifício, porque é. Eu a teria levado em dois ou três dias no máximo. — Uma vez mais: não é divertido. — Pelo amor de Deus, Joss, é uma brincadeira. O que quer, uma desculpa? Eu sinto por ter beijado a mão da senhorita Turner, tudo bem? Joss meneou a cabeça e abriu o diário de bordo. — Não, não sente. — Sim, eu sinto — o estranho de tudo era que Gray estava dizendo a verdade. Ele sabia que estava sendo um imbecil, mas brincar era mais fácil que ser honesto. Apesar de suas brincadeiras, ele não beijou sua mão com a intenção de seduzi-la, ou para julgar se ela era tão doce como havia sonhado. Ele beijou seus dedos por uma razão. Porque eles tremiam e ele queria que se acalmassem. Era um gesto pouco característico dele, aquele beijo. Não era um gesto que considerasse que fosse prudente repetir. A moça fez algo estranho com ele. Gray tentou de novo. — Lamento ter beijado a mão da senhorita Turner — cruzou o aposento para ficar em frente da cadeira de seu irmão. — Lamento ter discutido a respeito da tempestade. Lamento ter despedido Bains. Demônios, até mesmo vou dizer que lamento pelas cabras. Lamento que você teve o grande azar de nascer de meu pai degenerado, e lamento que esteja preso a um igualmente degenerado meio-irmão também. Joss olhou para cima bruscamente. Gray disse: — Lamento que Mara tenha morrido. Joss voltou a baixar o olhar. Gray se sentou em frente a ele. — Mas não lamento tê-lo feito o capitão deste navio, Joss. Joss — esperou até que seu irmão encontrou seu olhar. — É o único no qual posso confiar. Preciso de você para comandar este navio, e não vou colocá-lo em perigo de maneira nenhuma. Não voltarei a revogar suas ordens. Afastarei-me de qualquer conflito — abanou os dedos ao longo do livro de bordo e recordou a largura da cintura da senhorita Turner. Então fechou a mão em um punho. — Você disse para não ir atrás da senhorita Turner. E eu não vou. 55


Joss soprou. — Maldição, queria que um destes dias aprendesse a confiar em mim. Seu irmão o olhou nos olhos. — Nem a metade do que eu queria que me desse uma razão para isso.

Capítulo 06

Sophia estava com fome. De repente, faminta. Um toque com o desastre podia fazer isso a uma mulher. Ela desceu as escadas para o fundo do navio. Stubb não havia mencionado que a cozinha estava por aqui em alguma parte? Ela não conseguia se lembrar onde. Fazendo uma pausa na parte inferior da escada, ela apoiou uma mão no corrimão para manter o equilíbrio. Seu coração pulsava em seu peito. O ar estava pesado demais. Sua respiração era superficial, e se sentia fraca pela fome. Ela chegou tão perto de confessar tudo. Se ao menos ele não fosse tão irritante e tão solícito, tudo ao mesmo tempo. Um ou outro, ela saberia como resisti-lo, mas a insolência e o charme era uma mistura potente na realidade. A maneira como ele havia acalmado sua preocupação com aqueles dedos ásperos, mesmo que suas palavras fossem zombadoras. A forma em que a guiou com um leve toque na parte inferior das costas, beijou seus dedos com tanta ternura... poderia ter sido em um elegante salão de bailes para dançar uma contradança. Claramente, por causa do traje bem cortado, o acento culto, o porte altivo, o estranho brilho de cortesia, o senhor Grayson era um homem capaz de mover-se nas altas esferas da sociedade inglesa, mas se deleitava em fazer precisamente o contrário. Por um momento, pensou: Se ela tivesse contado tudo, talvez ele entendesse. Talvez ele fosse um fugitivo, também. Moça tola, tola. Ele entendia de lucros. Entendia seis libras, oito xelins. O senhor Grayson não era diferente de qualquer pretendente caça dotes da sociedade. Ou para o caso, até mesmo sua própria família. Ele a olhava e via ouro, amarrado com um bonito laço. E ela lhe daria o maldito ouro e terminaria com ele... logo que encontrasse algo para comer. Em lugar de girar à esquerda, para a cabine das damas, Sophia foi para a direita. Chegou a uma cabina muito semelhante à sua na aparência, mas se distinguia pelo 56


forte cheiro de cabra. Segurando a manga contra seu nariz, atravessou o espaço comum rapidamente e saiu por uma porta no lado oposto. — Feche a maldita porta, então! — trovejou uma voz através de uma nuvem de vapor. Sophia obedeceu rapidamente. Um homem negro, alto e magro, estava parado sobre uma panela de água fervendo, esculpindo pedaços de uma batata cortada com uma faca grande. — Não há tempo para desordem agora, certo? — Disse ele sem olhar para cima. — Apenas seis sinos soaram, e não sou tão velho que não possa ouvir, nem tão estúpido que não possa contar. Assim desapareça logo, bastardo ambicioso, e volte em uma hora. Sophia teria obedecido esta petição, mas ficou momentaneamente surpreendida e imóvel. Ninguém, em todos seus vinte anos de gentil privilégio, nunca se dirigiu a ela de uma maneira tão grosseira. Muito menos um cozinheiro negro. Ela não podia nomear a sensação que se apoderou dela. Não era irritação, ou vergonha. Era mais uma sensação de completa desorientação. Como se Deus, em um ataque de tédio, tivesse pensado que poderia ser divertido dar a volta ao mundo em seu ouvido. O cozinheiro jogou a faca e limpou as mãos no avental. — Eu já disse, você pode ir para o inferno. Você não vai conseguir nada até... — Virou-se e viu Sophia, e se congelou. Ficaram ali, olhando um para o outro, sem falar, até que a panela ferveu. — Maldição — o cozinheiro agarrou um ferro, usando-o para abrir o forno de um puxão, para em seguida atiçar vigorosamente o fogo. As faíscas saíram disparadas para misturar-se com o vapor. — Perdão — disse Sophia. — Só esperava encontrar um pouco de pão. Talvez... — o cozinheiro amaldiçoou de novo quando golpeou o forno para fechá-lo, e ela saltou — Talvez um pouco de chá. — Não, eu que deveria pedir desculpas, senhorita — ele virou-se para secar as mãos no avental, deixando manchas escuras de fuligem. — Sente-se, senhorita...? — Senhorita Turner. — Sente-se então, senhorita Turner — ele aproximou um banquinho de três pernas a uma mesa quadrada de açougueiro e bateu com a mão. — Eu sou Gabriel. Sophia sentou-se rapidamente. Era um banco confortável, e um espaço confortável. Uma pequena sala quadrada cheia de armários e a cozinha a um lado. Acima, o teto pendia um pé ou mais ou menos acima do nível do convés, 57


deixando o ar fresco entrar e a luz solar de todo os lados. O cheiro da comida fez seu estômago grunhir. — Vou por o pão e chá — disse o homem. Agora que havia deixado de amaldiçoar, a cadência de sua exótica voz a intrigava. A diferença das bruscas ordens que os marinheiros trocavam dos arranjos no convés, o modo de falar de Gabriel era suave e ressoante. — Não estou acostumado a ter passageiros a bordo — ele a olhou, e um sorriso cheio de dentes brancos dividiu seu rosto. — Por um momento, pensei que era um anjo vindo me levar para o céu. Ela fez uma careta. — Não, não sou um anjo — sabia que ele tinha a intenção de ser lisonjeiro, mas também podia chamá-la de escaravelho, por todo o prazer que transmitia esse apelativo. — Sou uma governanta. Seu anjo, Toby sempre a chamou. Sua pomba inocente. Ele tornou-se quase poético sobre como ela era perfeita, o quão bela e pura. Ele não fazia nenhuma ideia. — Perdoe-me — após cada beijo ele sussurrava, engolindo com força entre respirações irregulares. — É tão linda que não posso me controlar. Mas não se assuste, meu anjo. Não vou pressioná-la para ir mais à frente. Sinto muito. Mas Sophia não se queixou, ou sentiu-se assustada, no mínimo. Ela recitava os recatados adiamentos que vinham tão naturalmente como o bordado de qualquer jovem de boa educação, mas esses encontros a deixavam sentindo-se frustrada e curiosa. Desejava ser pressionada para ir mais à frente. Pressionada com mais, e mais força, e em lugares indizivelmente íntimos. Uma vida inteira de "brincando de anjo perfeito de Toby" assomou diante dela como um inferno. Ela não tinha uso para a pureza, Sophia queria paixão. Então, ela fugiu. Fugiu do casamento dos seus sonhos e do noivo sonhado — de toda jovem da Inglaterra, com a débil esperança de encontrá-la. Mas no momento, conformaria-se com um pouco de chá e um pedaço de pão. — Peço desculpas por amaldiçoa-la dessa maneira — colocou uma panela no fogão. — Pensei que era um desses marinheiros, que vêm em busca de comida extra. Não pode lhes dar um bocado mais do que corresponde sua porção, mendigos ambiciosos. Dá-lhes uma bolacha extra, e vão esperar o mesmo todos os dias até que cheguemos ao porto — colocou um pedaço de pão diante dela — Este é o último pão, senhorita.Aproveite. Sophia o mastigou com gratidão. O pão duro nunca foi tão delicioso. — Teria todo o prazer em perdoar qualquer coisa por uma xícara de chá. Mas o 58


que teria acontecido — perguntou ela, engolindo — se tivesse sido o capitão Grayson? Ou o senhor Grayson? Gabriel fez um gesto de desprezo com a mão. — Eu venho afugentando Gray e a Joss de uma cozinha ou outra, desde que eram meninos. Eles são muito inteligentes para meter-se com o velho Gabriel — foi pegar uma lata de chá e parou. — Mas poderia ter sido o senhor Brackett. E algo me diz que não aceitaria muito bem que o tivesse mandado ao inferno — ele encolheu os ombros, tirando o chá de um pote de lata. — Muitas mudanças para um velho como eu. Não se utilizava homens do tipo de Brackett a bordo deste navio. Tampouco lindas senhoritas como você. — Mas você não pode ser velho — insistiu Sophia. Gabriel riu, e ela olhou para seu rosto através do vapor. A pele lisa e sem rugas, o brilho do mogno polido que se estendia pelas maçãs do rosto salientes e um nariz achatado. Sua risada revelou um conjunto completo de dentes brancos e retos. Apenas um pequeno pó branco em seu cabelo curto era um sinal de velhice. A chaleira assobiou. — E o que você quer dizer com não está acostumado com os passageiros? — Sophia apoiou o cotovelo sobre a mesa e descansou o queixo na mão, fascinada pelo fumegante fio de água da chaleira. — Que todas as cabinas são geralmente ocupadas com cabras, então? Gabriel riu. — Agora, não menosprezaria as cabras, senhorita Turner. Elas darão o leite para o chá, e um sabor à sopa nos domingos — colocou uma tigela de lata sobre a mesa diante dela e serviu uma generosa quantidade de melaço. — Mas estas cabinas são todas novas, senhorita. Usualmente era um entre pontes, da cozinha ao castelo de proa. O Afrodite é um navio totalmente novo por dentro. É como se fosse sua viagem inaugural. Necessitávamos de todo esse espaço durante a guerra — continuou, vertendo o chá na xícara dela. — Para membros extras da tripulação e armas. Para pólvora e balas de canhão, também. E o navio tinha que sair do porto meio vazio, pelo menos, assim haveria espaço para carregar despojos e prisioneiros. Sophia piscou para ele, ignorando o aroma delicioso do chá diante dela. — Despojos? Prisioneiros? O Afrodite era um navio de guerra, então? — Não, senhorita — ele sorriu e voltou para seu pote de batatas na cozinha. — Esta tripulação relacionando-se com a Marinha Britânica? Não, o Afrodite era um 59


navio corsário. Ganhou sessenta despojos de navios franceses e americanos. E rendeu a Gray mais dinheiro em cinco anos no mar do que o velho Sr. Grayson perdeu em 30 anos de cana-de-açúcar. A mão de Sophia caiu sobre a mesa. — Mas corsários... não são quase o mesmo que piratas? — Não, senhorita. Há um mundo de diferença entre a vida de um corsário e de um pirata. — É menos violenta? Gabriel sacudiu a cabeça. — Praticamente o mesmo nisso. — Mais honorável? — Não necessariamente. Isso dependerá do corsário e do pirata em particular. — Então, no que é diferente? — Ora, a legalidade de ser corsário, é óbvio. Autorizado pela Coroa. Não pode ser enforcado por ser um corsário. — Entendo. — É claro, a guerra terminou agora — Gabriel polvilhou o prato com pimenta antes de retirar a panela do fogão. — Não há mais atividades de corso. Assim temos que nos tornar respeitáveis, diz Gray. Era isso, ou nos tornar piratas — Gabriel piscou para ela. — E sou muito apegado ao meu pescoço. Sophia tomou um gole de chá, atônita. Ela era o único passageiro, o único passageiro do sexo feminino, na realidade, a bordo de um barco com uma tripulação composta inteiramente de homens que poderiam muito bem ser piratas, mas que não poderiam ser enforcados. E o senhor Grayson, com seu arrogante alarde e sua luxúria mercantil, era um antigo pirata. Misericórdia. Ela tomou o resto de seu chá em um longo e audível gole. — Obrigada pela bebida — ela disse, levantando-se. O sangue correu para sua cabeça, deixando-a tonta. O vapor de repente muito denso para respirar. — Eu... acredito que vou tomar um pouco de ar fresco. Enquanto caminhava rapidamente para o convés, sua mente era um turbilhão de ideias. Todo esse tempo que o senhor Grayson esteve tocando-a, zombando dela... ela esteve relacionando-se com um pirata. Se ele tivesse a menor suspeita de que carregava centenas de libras por debaixo de seu espartilho, certamente não se deteria diante de nada para consegui-lo. No 60


entanto, a cautela não poderia superar o sentimento gótico. Pelo amor de Deus, um pirata. Poderia estar em perigo, advertiu-se. Poderia ser saqueada. A possibilidade realmente deveria tê-la assustado mais do que o fez. Talvez não pudesse escapar do homem, mas ela precisava aplacar esta resposta que ele incitava nela. Só havia uma coisa para isso. Deveria ir para sua cabina e desenhar. Algo simples, inocente. Botões de rosas, maçãs, blocos de madeira. Qualquer coisa, exceto ele. Então, algo caiu no convés com um baque, surpreendendo Sophia e detendo-a em seco. Era um pedaço de corda amarrada, de apenas poucos metros de comprimento e aterrissou quase a seus pés. Um objeto bastante pequeno fazendo tanto ruído. Devia ter caído de muito alto. Protegendo os olhos com a mão, Sophia esticou o pescoço e olhou para cima. Davy Linnet descia o cordame, mão sobre mão, como um macaco. Apesar de seu nervosismo antes, agora ele parecia nascido para as cordas. Ele aterrissou a seus pés em uma descida graciosa em parafuso. — Desculpe-me, senhorita. — Ele pegou o ofensivo rolo de corda e com um sorriso tímido, fez uma torpe reverência. Sophia o honrou com seu melhor sorriso de debutante, satisfeita pela maneira em que as faces pálidas do garoto se coloriram quando o fez. Pelo menos alguém neste navio sabia como tratar a uma dama. — Senhor Linnet, pergunto-me se poderia incomodá-lo com um favor. O jovem engoliu em seco, sua expressão repentinamente séria. — Qualquer coisa, senhorita. Qualquer coisa.

Capítulo 07

Nos seguintes dias, Gray encontrou-se sendo par em um tipo absurdo de quadrilha. Estava sempre em sua mira, mas raramente, a seu alcance. E quando seus caminhos se chocavam, por vezes, tanto acidental e intencional, rapidamente girava afastando-se dele, para perder-se no baile mais uma vez . De qualquer jeito. Ele aprendeu o padrão de suas atividades. Ela aparecia no convés logo após o café da manhã, provavelmente para ter um pouco de ar fresco. Logo desaparecia 61


outra vez, geralmente até dogwatches12, ao final da tarde. O momento favorito do dia de um marinheiro, dogwatches, quando o trabalho diminuía e o sol estava baixo no céu e o jantar se aproximava com otimismo no horizonte. Era a hora do dia quando aqueles que tinham gaitas de fole as tocavam, e os que tinham cartas se reuniam para uma partida, e os homens sem talento para a música ou jogos, poderiam acender um cachimbo no local. Era natural, então, que a senhorita Turner aparecesse no convés nessa hora, atraída pelo ar de camaradagem e os sons de risos e música. Ele não conseguia imaginar como ela passava seu tempo entre a manhã e o entardecer. O que faziam as damas em uma viagem de travessia do oceano? Costuravam? Liam? A Gray dava coceira a ociosidade. Achava muito pouco o que fazer, salvo riscar a latitude religiosamente e circular pelo convés, parando para conversar com os marinheiros de vez em quando. Ocasionalmente, uma vela poderia aparecer no horizonte. E, de acordo com seu direito como capitão, Joss podia ou não cumprimentar o navio e deixar a deusa Afrodite que adornava a proa do Afrodite fizesse uma reverência. Estranho ... ver a abordagem de navios agora de bom grado, ao invés de fugir. — Diga! O grito chamou a atenção de Gray. Um grupo de marinheiros rodeava o jovem Davy, que parecia tão irritado como podia estar um novato de quinze anos. Davy estava parado com o nariz no peito de O'Shea, empurrando um dedo no peito do irlandês. — Devolva-me isso então, seu grande, feio...! — Cuida de sua boca, menino! Pense com quem está falando — O'Shea deu-lhe um empurrão com a metade de sua força, fazendo Davy cair desajeitadamente contra Quinn, um dos homens novos. Quinn gritou em sinal de protesto e lançou uma rápida cotovelada, golpeando Davy e derrubando-o sobre o convés. Gray se aproximou para unir-se ao grupo. Um trote bem-humorado não faria mal a um menino novo. Precisava aprender seu lugar entre a tripulação. Mas Gray nunca havia tolerado a crueldade em seu navio. E este, recordou-se, seguia sendo seu navio. Sem uma palavra, estendeu a mão para Davy e ajudou-o a levantar-se. A tripulação deu cotoveladas uns nos outros, silenciando o riso. 12

Dog Watch, é um termo náutico, usado para definir um turno, um período de trabalho no navio. Corresponde ao intervalo entre às 04 da tarda e 08 da noite, sendo dividido em 2 turnos: das 16 horas até 18 horas e o segundo turno das 18 até 20 horas. O nome Dog Watch (em inglês, "horário do cão), corresponde ao fato que nesse turno de serviço, a estrela Sirius é a primeira a ser vista nesse horário, e ela é a estrela principal da Constelação do Cão, visível no Hemisfério Norte.

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— Qual é o problema, O'Shea? — Gray sabia que não devia solicitar a versão de Davy primeiro. A hierarquia a bordo era sagrada. O irlandês encolheu os ombros. — O rapaz ficou irritado por um pedaço de papel. — Papel? — Gray colocou uma mão na manga de Davy. Davy lutou contra o aperto de Gray. — É meu papel, grande idiota. — E eu disse que o devolveria, não disse, pequeno idiota? — O'Shea apertou os punhos e virou-se para Gray. — Posso golpeá-lo, Gray? Deixe-me golpeá-lo. Ele insultou minha mãe, o pequeno pedaço de mer... O sino soou pelo leme. Todos giraram para ver o senhor Brackett, usando seu habitual casaco negro e a mesma expressão sombria de sempre. — Voltem para seus postos, todos vocês! — com fortes passos se dirigiu à claraboia por cima da cozinha e gritou para baixo. — Cozinheiro, nada de grog13 esta noite para a guarda de bombordo! — Sim, sim, senhor Brackett — flutuou a voz de Gabriel para cima em uma nuvem de vapor. Os homens se queixaram em coro, e a Davy chegaram alguns golpes surdos nos rins. — Ai! — É melhor deixar-me o papel, O'Shea — disse Gray. — Vou ter uma conversa com o menino aqui sobre o cuidado de seu lugar. O'Shea entregou uma amassada folha de pergaminho antes de dirigir-se para a proa do navio. Gray virou-se para o garoto. Ele limpou a garganta, convocando os tons reservados para reprimendas severas e funerais e outras ocasiões raras. — Agora, Davy. É rude, e geralmente uma má ideia entrar em conflito com O'Shea. Ou contra qualquer membro da tripulação, para o caso. Estarão juntos neste navio pelo próximo mês, se você notou. A vida no mar não é só grog e sol. Seus companheiros têm sua vida nas mãos, e você não quer dar nenhuma razão para perder seu controle. — Sim, senhor — foi a áspera resposta do garoto. — É só que... — fez um gesto para o papel amassado na mão de Gray. — Dê uma olhada, senhor. Gray sorriu. 13

grogue é uma bebida alcoólica quente feita à base de rum, água e açúcar. O almirante inglês Vernon, alcunhado de Old Grog (daqui a denominação da bebida), tornou-se célebre, em 1740, ao mandar os marinheiros aumentar a ração de rum adicionando água, mantendo a ração dos oficiais sem nenhuma mistura.

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— O que é isso? Uma carta de amor de sua menina na fazenda? — soltou a manga de Davy e alisou o papel no peito antes de olhá-lo. Quase o deixou cair. Era um desenho a carvão do jovem Davy Linnet. E era uma revelação. — A senhorita Turner o fez — disse Davy simplesmente. Ela fez isso, realmente. A semelhança do menino traduzia em traços leves, destros, e em detalhes incrivelmente fiéis. Não era nada parecido aos desenhos de colegiais que a maioria das jovens produzia: figuras humanas genéricas, parecidas com blocos, distinguíveis apenas pela tonalidade do cabelo da pessoa, ou a linha do nariz. Cada centímetro deste esboço era inimitavelmente Davy. A inesgotável energia em sua postura e as mechas revoltas de cabelo escuro. As orelhas irregulares e as mãos muito grandes, que com o tempo se adaptaria a seu tamanho. A faísca de otimismo juvenil em seus olhos, coberto pelo acanhamento, esse gesto inclinado de seus lábios, uma sombra de futura ironia. Em um único esboço, o artista — porque isto era sem dúvida a obra de um artista — capturou o garoto que Davy era e o homem em que um dia se transformaria. Não se limitando a uma semelhança, era um retrato. Fez com que Gray sentisse nostalgia de sua infância. O fez sentir-se estranhamente humilde e sozinho. Deu vontade de estrangular à maldita cabra que comeu duas folhas de papel da senhorita Turner e virar o navio só para comprar mais. E, sobretudo, fez com que Gray se sentisse muito curioso — e um pouco temeroso — de saber o que a senhorita Turner via quando o olhava. — Pensei que o guardaria para minha mãe — disse Davy — assim ela não esquecerá como me pareço. A senhorita Turner só trabalhou nele enquanto eu estava fora de guarda, senhor Grayson. Disse que eu estava lhe fazendo um favor, dando um tema para praticar. — O menino esfregou o rosto com a manga e esticou o pescoço para olhar sobre o ombro de Gray. — Nunca tive um retrato antes. Parece-se comigo bastante? — Muito parecido — disse Gray em voz baixa. Então, ele limpou a garganta e forçou um sorriso. — É um demônio de bonito, senhor Linnet. Em alguns anos, estará quebrando os corações das senhoras em dois continentes. — Oh, não — gritou Quinn do cesto da gávea. — O garoto está até o nariz apaixonado pela senhorita Turner. Não, garoto? Ela é tudo do que pode falar, Gray. Não vá tentá-lo a falar de outras garotas. Não haverá outra garota para ele... não nesta viagem, de qualquer maneira. Davy corou e gaguejou. — Eu... Isso não é... 64


Gray riu e deu uma tapinha no ombro dele. — Não se pode criticar sua escolha, Davy. Ela é uma mulher bonita e com talento além disso. Davy trocou seu peso, desconfortável. — Bem, e é claro que ela não vai olhar para mim. Eu sei, senhor. Eu só... — Não é mais que um garoto normal de quinze anos. Eu mesmo fui um. E nunca chamei a atenção de uma dama fina como a senhorita Turner — deu ao desenho um olhar mais prolongado antes de devolvê-lo a Davy. — E ela deve pensar muito em você, Davy — disse, rindo. — Ela deu-lhe uma folha inteira de papel. Quando Sophia saiu da escotilha, reconheceu imediatamente a maliciosa risada do senhor Grayson, procedente de algum lugar a sua direita. Ela girou à esquerda. A noite inteira de chuva desapareceu, da baía um céu azul brilhante e sem nuvens surgiu. O sol brilhava com coragem absoluta e mostrou a crista de cada onda. Seu brilho coletivo foi quase doloroso de se ver, como um mar de diamantes. Este deveria ter sido o dia de seu casamento. Sophia se perguntava se o sol estava brilhando em uma pequena capela pitoresca de Kent. O que teria acontecido, perguntou-se ela, com as centenas de flores de estufa, especialmente cultivadas para a ocasião? Pensou no café da manhã do casamento, tão cuidadosamente planejado, até a última colher dourada da baixela de café. O bolo com forma de pirâmide com sorvetes de sabores a amêndoa e rosas, esperando estoicamente sua volta, um monumento egípcio a sua traição... Mesmo se eles tivessem conseguido manter oculto seu desaparecimento até agora... quando ela não se apresentasse no próprio casamento, o segredo seria revelado. Os rumores de sua fuga com o misterioso Gervais saltariam de dama em dama como as pulgas em um banco de uma igreja. Ela seria a fofoca da alta sociedade, embora não exatamente da forma como os seus pais e suas aspirações sociais teria esperado. Que elaborada brincadeira tinha jogado a todos eles. Que risada. Então, por que sentia vontades de chorar? Ficando nas pontas dos pés e agarrando-se às cravelhas de madeira, ela se inclinou sobre o costado do navio, olhando fixamente as ondas intermináveis e as esteiras de espuma, semelhantes a um redemoinho. Uma única lágrima escorregou pelo canto do seu olho, caindo na água do mar 65


com todo o significado de um grão de areia espalhado no deserto. Um brilho por baixo das ondas captou seu olhar. Um dardo suave surgiu do fundo azul-verde, logo se afundou sob a superfície de novo. Sophia esperou, contendo a respiração. Apareceu uma vez mais, um raio inconstante sulcando as ondas, ajustando seu ritmo ao rápido progresso do Afrodite. Um marinheiro próximo chamou outro, e os dois homens se uniram a ela na amurada, assinalando o curso da elegante criatura. — O que é isso? — perguntou Sophia em voz alta, seus olhos nunca se afastando da água. — É apenas um dourado, senhorita — respondeu um dos membros da tripulação. A criatura saltou da água, sua forma brilhante e sedosa sulcando o ar antes de desaparecer uma vez mais sob as ondas. Saltou de novo, e então outra vez, esculpindo arcos lúdicos e exuberantes, através da névoa, deixando para trás descendentes arcoíris de prata com sua esteira. O curso do peixe se desviou, aproximando-o ainda mais ao casco do navio. Sophia admirava o focinho plano da criatura e a lâmina afiada da nadadeira, correndo toda a extensão de sua coluna. Mas o mais maravilhoso de tudo eram as cores fortes, que decoraram suas escamas iridescentes. — É lindo — disse. Um arpão saiu disparado da mão do marinheiro, trespassando o pescado com um doentio chapinho. — É o jantar — disse o tripulante alegremente. Os dois homens deixaram cair uma rede pela amurada e transportaram a bordo sua presa arpoada. Nauseada, Sophia colocou a mão na boca e se afastou. — Agora, não seja delicada, senhorita — disse o tripulante. — Vai perder as cores. As cores? Sophia olhou por cima do ombro. Agora os homens tinham o peixe completamente a bordo, e seu corpo plano golpeava em vão na coberta de tábuas. — Veja, senhorita... As cores estão começando. Enquanto o marinheiro falava, as cores audazes das escamas do pescado começaram a brilhar e a trocar. Sophia deu um passo para ele, fascinada. Seu ventre de cor azul clara se aprofundou a um verdadeiro cobalto. Uma listra de um verde forte se tornou contrastante com o dourado. Sophia nunca viu cores tão vivas, não na natureza, nem nas pinturas. 66


Nem sequer em seus sonhos. O peixe era um arco-íris vivente. Um arco-íris moribundo. Seu corpo arqueado eventualmente tornou-se pálido e fraco, tornando-se tão incolor como o convés. Depois de ter retirado o arpão, os tripulantes retornaram para procurar mais. E lá estava o peixe, eviscerado e sem vida. Sophia nunca se sentira tão decepcionada. A dura realidade da vida e da morte espirrou em seu rosto, tanto quanto a água do mar. Ela percebeu com súbita clareza, que durante toda sua vida, tinham-na criado para ver o mundo como uma coleção de objetos reunidos para sua diversão, sua admiração, seu consumo. Mas agora ela entendia... nada existia unicamente para a beleza. Inclusive um lindo peixe, mesmo na morte, ainda era comida. Ela havia saído de casa procurando experimentar a vida real, uma verdadeira paixão, uma grande aventura. Bom, isto era a vida real, e não era bonito. E cada momento parada aqui, olhando fixamente o convés e chorando lágrimas sem sentido, era um momento da vida real desperdiçado. — Aqui há outro — gritou um dos marinheiros, lançando seu arpão de novo ao mar. Um segundo mais tarde, pavoneou-se triunfante. — O apanhei de primeira. Sophia correu de volta para a amurada e olhou para fora para ver o peixe arpoado que agitava as ondas produzindo espuma. Uma emoção vertiginosa esquentou os dedos de seus pés. O tripulante começou a puxar a corda. — Posso ajudar a puxá-lo? — perguntou. — O quê? — grunhiu o marinheiro, sem perder o ritmo. — Posso? — ela indicou com o queixo ao peixe que lutava e pôs uma mão na corda, por cima dela. Ela já tinha tirado um peixe da água, claro que era uma truta bastante pequena, de um córrego no centro da Inglaterra. Mas, mesmo assim, o princípio parecia o mesmo. Ele a olhou por um momento e, em seguida encolheu de ombros. — Não vejo por que não. Sophia agarrou a corda com ambas as mãos, e ele ensinou como escorar um pé na amurada e puxar mão sobre mão, deixando cair a corda em um cuidadoso cilindro a seus pés. — Pronta para experimentar sozinha? — perguntou ele. Ela assentiu, e ele soltou a corda. — Ah! — Sophia deu um grito agudo quando vários metros de fio deslizaram através de seu agarre. O dourado era mais rápido do que esperava, e mais forte, também. Agora piorou as coisas ao lhe dar mais folga, mais espaço para lutar. 67


— Quer que a ajude, senhorita? — perguntou o marinheiro. — Não, obrigada. Eu o farei — escorando o pé e esticando seu agarre, Sophia apertou os dentes e começou a puxar, braço sobre braço. Por cada braço de comprimento da corda que puxava, parecia que o dourado levava três. O que, com toda esta luta, o peixe provavelmente se pareceria com carne picada no momento em que fosse recolhido a bordo. Mas ela o traria a bordo nem que fosse a última coisa a fazer. E ela ficaria feliz em ver peixe picado em seu prato esta noite, em vez de carne de porco salgada. Depois de um minuto, a tarefa pareceu tornar-se mais fácil, provavelmente porque o peixe enfraquecia. Mas justo quando pensava que já o tinha caçado, o dourado fez um último e desesperado impulso pela liberdade, arrastando-a alguns passos para a proa. Sua bota ficou presa na corda enrolada, e ela esteve a ponto de tropeçar. As arrumou para puxar para cima, entretanto, e recuperar o controle. Seus esforços foram recompensados com um coro de assobios e aplausos entusiasmados. — Essa é a maneira, senhorita! — Já o tem agora! Lentamente, girando a cabeça de um lado a outro, Sophia percebeu que tinha acumulado uma audiência. Evidentemente, sua batalha com o peixe era um grande entretenimento. Ah, bom. Que riam os homens. Ela estava se divertindo, também. Ela sorriu quando voltou a puxar sua presa. De fato, era o melhor momento de sua vida. Cristo Jesus. A garota ia se matar. Da popa, Gray olhou com descrença como a senhorita Turner brincava de cabode-guerra com um peixe e a tripulação assistia com alegria. Que diabos eles estavam pensando? — Que diabos estão pensando? — Joss chegou ao lado de Gray. — Senhor Wiggins — ordenou — diga aos homens... — Não se incomode — disse Gray, saltando por cima da amurada que separava o leme do tombadilho. — Vou pôr um fim nisto eu mesmo. Enquanto cruzava a grandes passos as tábuas do convés, Gray tentava manter o pânico na linha. Diabos, quando o Afrodite havia se tornado tão malditamente comprido? Acima na proa, a senhorita Turner perdeu o equilíbrio, tropeçando com a corda enrolada, e Gray a ponto de perder o café da manhã. — Malditos idiotas — murmurou, como prelúdio às piores invectivas que atravessaram sua mente. Só um tolo deixaria dessa forma um peixe arpoado no 68


extremo de uma corda, agitando a espuma, deixando uma esteira de sangue e vísceras sobre as ondas. Era uma forma idiota de apanhar um peixe, e um método infalível para atrair um... — Tubarão! E a partir daí, tudo ocorreu tão rápido. Entretanto, tão lentamente, ao mesmo tempo. Se a moça tivesse algum bom senso, teria soltado a linha imediatamente. Mas ela não tinha nenhum bom senso. Ela não fazia sentido. Era uma pálida rosa inglesa, à deriva em um deserto aquático, a caminho de um emprego exaustivo em uma ilha esquecida de Deus, quando qualquer tolo poderia ter lhe dito: uma mulher tão linda não precisava trabalhar para manter-se. Se os homens a seu redor tivessem algum bom senso, teriam cortado a corda imediatamente. Mas eram idiotas, malditos idiotas com cérebros de merda, muito fascinados pela garota bonita em perigo para pegar suas facas. Se Gray tivesse sua própria faca, a teria tirado. Mas ele não carregava uma faca, porque ele não era o capitão deste navio, certo? Nem um oficial, nem sequer parte da tripulação. Não era mais que um passageiro estúpido, bem vestido, que não atou uma maldita faca essa manhã, porque poderia arruinar as linhas de seu maldito casaco novo. Não, ele não tinha uma faca. Mas tinha suas pernas, levando-o com grande ímpeto através dos metros restantes da proa. Tinha seus braços, arremetendo ao redor da senhorita Turner justo quando as mandíbulas do tubarão arrancaram os despojos do dourado e o arrastaram sob as ondas. E tinha sua voz, esse autoritário tom de comando. A voz que usava para tempestades, e tiros e gritos de dor. — Solta a linha — agarrou seus antebraços e os sacudiu. Jesus, ela esteve sustentando a coisa por tanto tempo que o instinto a fez apertar mais ainda os dedos. Precisamente, o incorreto a fazer. À medida que o tubarão arremetia afastando-se, a corda fluía através do agarre por suas duas mãos, sem dúvida, levando a pele das palmas junto com ela. — Solte! — ordenou. — Agora! Ela o fez. Seus dedos trêmulos estavam brancos; suas palmas irritadas e em carne viva. E malditos infernos, ele ficou olhando essas mãos arruinadas por um momento muito longo. No tempo que Gray tentou removê-la da amurada, o tubarão tinha desenrolado 69


vários metros de corda. A corda que estava enrolada e presa em torno do pé dela é claro. — Cortem a maldita linha! — ordenou, apertando seus braços ao redor de sua esbelta figura e cunhando sua bota por cima da dela. A corda atava como um nó corrediço em torno de seus tornozelos, puxando o pé de debaixo deles. Ela gritou quando caíram juntos sobre o outro, e logo deslizaram para a amurada, arrastando suas pernas entrelaçadas. Em questão de segundos, ou caíam pela amurada, ou arrancavam suas pernas. Nenhuma das alternativas soava muito agradável. Gray empurrou sua bota livre contra a amurada, preparando-se para o que ele sabia que ia ser uma confrontação inútil, breve, e laboriosa com um tubarão. Apertou os dentes. — Alguém-corte-a-maldita-linha. Zás. Alguém o fez. Gray levantou a cabeça para ver a mão de Levi com o cabo de um machado, e a lâmina afundada vários centímetros na amurada. — Obrigado — soprou ele, deixando cair a cabeça contra o convés. E agora deitado na proa, mantendo a senhorita Turner como se fossem duas colheres em uma gaveta. A coroa de sua cabeça bem oculta sob seu queixo, e seu pequeno traseiro situado entre suas coxas. Ela estava molhada de suor, e sem fôlego. Gray foi golpeado com a ridícula ideia que teve um sonho na outra noite, muito parecido com isto. Salvo que estavam usando menos roupa. E não havia uma meia dúzia de marinheiros de pé olhando embevecidos. E o que ela disse, a garota de seus sonhos? Esta sereia deliciosa, com aroma de rosas, que sorria enquanto o empurrava para sua morte? — Bom — disse ela. — Isso foi muito emocionante.

Capítulo 08

— Isso — o senhor Grayson fechou de um golpe a porta da cabine do Capitão — foi a mais impressionante demonstração de estupidez que eu já presenciei em minha vida. Sophia se encolheu na cadeira enquanto ele colocava uma tigela de água sobre a mesa. O líquido transbordava, pingando no chão. Com movimentos bruscos, ele 70


retirou um frasco do bolso da frente do casaco e acrescentou um pouco de brandy. Em seguida, ele tomou um bom gole. Ela nunca o viu tão agitado. Ele levava tudo na brincadeira, ria das confrontações, desmerecia o insulto com sorriso malicioso. — Você está zangado — disse ela. — Malditamente certo que estou zangado. Eu gostaria de acorrentar cada um desses malditos idiotas no alto do mastro e gritar até deixá-los surdos. — Então por que está aqui, gritando comigo? Abriu a gaveta com um puxão e tirou uma caixa. Quando a jogou sobre a mesa e soltou o fecho, a caixa acabou por ser um estojo de primeiro socorros, repleto de frascos de vidro marrom, gesso e rolos de gaze. — Por que... — com um olhar sombrio ele se deixou cair na outra cadeira — gritar até deixar a tripulação surda é um privilégio do capitão. E eu não sou o capitão. Então, em vez disso, estou aqui, bancando a enfermeira. Dê-me suas mãos. Ela levantou suas mãos fechadas para a mesa e lentamente abriu seus dedos. Através de cada palma havia uma grande mancha vermelha e machucada. Xingando baixinho, ele cuidadosamente levantou uma das mãos e inclinou-se em uma das suas próprias. Seus dedos bronzeados e fortes faziam com que os dela parecessem minúsculos. Com a mão livre ele molhou um pedaço de trapo na tigela. — Isso vai doer. — Já dói. — Doerá mais. Sophia fez uma careta quando ele colocou o trapo na ferida. Sim, doía mais. Sim, dói muito mais. Doía mais quando ela olhava para a ferida, então em vez disso, olhou para ele. Ela não esteve tão perto dele em dias, não desde que viu Davy Linnet escalar o mastro. Agora, ela se afogou em cada detalhe de seu rosto, forte e bonito: queixo forte, com uma barba de vários dias, a fina cicatriz que traçava um caminho para os seus lábios sensuais, dobras finas nos cantos de seus olhos, resultado do tempo ou do riso, ou de ambos. Era um rosto esculpido pela própria vida e não era bonito. Era cativante. — Você se dá conta que poderia ter morrido? — perguntou ele bruscamente. Sophia mordeu o lábio. Ela entendia que, de alguma forma, juntos eles enganaram a morte. Talvez ela devesse está agitada agora, tremendo de terror, mas em vez disso, não se sentia nada exceto viva. Gloriosamente viva, e conectada a este homem, como se aquela corda ainda 71


estivesse mantendo seu tornozelo preso ao dele. Ele molhou o trapo novamente. — Por que não soltou a linha quando eu mandei? — Não sei. Não estava pensando. — Isso é óbvio. Para uma governanta, você não tem muito bom senso — soprou levemente na palma da mão, fazendo que se arrepiassem os pelos de sua nuca. Seus olhos cinza esverdeados se travaram com os dela. E agora, o arrepio a percorreu até os pés. Ele soltou sua mão e pegou a outra, apoiando um pedaço limpo de trapo. Esfregando sua ferida, disse: — É um quebra-cabeças, senhorita Turner, mas nenhuma das peças encaixam. Esse abominável traje não pôde ter sido feito para você. Suas luvas são um presente. A perda de duas folhas de papel a leva as lágrimas, e até mesmo seus lenços são bordados com o monograma de alguém. O pânico percorreu seu corpo, deixando tenso cada nervo. Ele soprou novamente sobre sua palma, e desta vez a sensação quase a desarmou. — Você esteve me evitando — disse ele. — Você também esteve me evitando. — Não mude o assunto. Não acredito tê-lo feito. Seu coração deu um salto enquanto ele enfaixava suas feridas, envolvendo as ataduras fortemente ao redor de sua palma. — Eu disse, eu... — Você me disse que pagaria sua passagem naquele dia, e esteve fugindo desde então. Eu sei por que, senhorita Turner. — Sabe? — Eu sei — ele enfaixou sua outra mão. Oh Deus. Quanto ele realmente sabe? Deveria ela se apegar a sua antiga história? Inventar uma nova? Normalmente, Sophia podia tecer toda uma teia de mentiras com a mesma facilidade que uma aranha fiando seda. Mas ele sempre a desequilibrava, desde seu primeiro encontro, e agora... Agora ela estava ferida e dolorida, e ele estava cuidando dela tão ternamente. E quando ela fechou seus olhos, viu a irritação, como nas faces de um tubarão, mas sentiu seus braços em volta dela, segurando-a com força. Protegendo-a. Tudo no que podia pensar era no quão bem se sentia, e como desejava sentir isso outra vez. — Você esteve mentindo para mim o tempo todo, não é? Ela não podia responder. Sua voz simplesmente não funcionava. — Olhe para você — disse ele, seu olhar percorrendo seu rosto. — Está branca 72


como a lona das velas. Eu sabia. Você nunca teve a intenção de pagar sua passagem. Você não tem um centavo em seu nome, não é? Sophia piscou. O que dizer? Precisava conservar seu dinheiro, o que significava que deveria mantê-lo escondido. Ele estava oferecendo um presente, com sua ridícula, equivocada, e Oh, tão masculina hipótese. Seria uma tola se não aceitasse. — Tem-no? — Repetiu ele, seu polegar pressionando seu pulso. Voltando o olhar para seu regaço, Sophia soltou um dramático e profundo suspiro. — O que você vai fazer comigo? — Eu não sei o que fazer com você — disse ele, sua voz tornando-se cortante pela irritação novamente. — Mentirosa sem vergonha, quase tenho a ideia de colocála para trabalhar ordenhando as cabras. Mas isso está fora de questão com essas mãos, certo? — Ele abriu e fechou os dedos algumas vezes, experimentando sua atadura. — Direi a Stubb que a troque algumas vezes ao dia. Não podemos nos arriscar que as feridas se infeccionem. E não use suas mãos por alguns dias pelo menos. — Não usar minhas mãos? Suponho que você vai dar-me de comer na boca então? Vestirá-me? Banhará-me? Ele inalou lentamente e fechou os olhos. — Não use suas mãos muito — seus olhos se abriram novamente. — Nada de desenhar, por exemplo. Ela puxou as mãos de suas garras. — Poderia cortar-me as mãos e jogá-las aos tubarões, e mesmo assim não deixaria de desenhar. Seguraria o lápis com meus dentes se fosse necessário. Sou uma artista. — Sério. Pensei que fosse uma governanta. — Bom, sim. Isso também. Ele guardou as coisas de seu estojo de primeiro socorros, juntando os artigos na caixa, com fúria mal controlada. — Então, comece a agir como uma. Uma governanta sabe o seu lugar. Fala quando lhe falam. Fica fora do caminho. Levantando-se, abriu a gaveta e jogou a caixa de volta dentro. — De agora em diante, não tocará numa vela, passador, corda, nenhuma condenada lasca deste navio. Não falará com a tripulação quando estiverem de guarda. Você não tem permissão de passear além do mastro de proa, e você vai ficar 73


longe do leme também. — Então isso me deixa fazendo o quê? Circulando pelo tombadilho? — Sim — ele fechou a gaveta com um golpe. — Mas apenas nas horas designadas. Meio-dia e durante as dogwatch. O resto do dia permanecerá em sua cabina. Sophia ficou indignada. Não escapou de um esquema restritivo de conduta só para cair em outro. — Quem é você para ditar onde e quando eu posso ir e o que eu posso fazer? Você não é o capitão deste navio. — Quem sou eu? — Virou-se pairando sobre ela até que seus pés se tocaram. Até que sua radiante masculinidade fez seu sangue ferver e ela teve que agarrar-se na beirada da mesa para não balançar na direção dele. — Eu vou te dizer quem eu sou — grunhiu ele. — Sou o homem a quem importa se você vive ou morre, esse sou eu. Seus joelhos amoleceram. — Sério? — Sério. Porque eu não posso ser o capitão, mas eu sou o investidor. Eu sou o homem a quem você deve seis libras e oito xelins. E agora que sei que não pode pagar sua dívida, sou o homem que sabe que não verá um maldito centavo a menos que entregue a George Waltham uma governanta inteira. Sophia o fulminou com o olhar. Como ele poderia continuar fazendo isso com ela? Desde o momento em que se encontraram na taverna em Gravesend, houve uma atração entre eles como nunca conheceu. Ela sabia que ele devia sentir também. Mas em um minuto, ele era terno e sensual; no seguinte, tão frio e calculista. Agora ele reduzia o valor de sua vida a uma soma fria e impessoal... Pelo menos em casa, seu valor esteve medido em milhares de libras, não em centavos. — Entendo — disse ela. — Tudo isto se trata de seis libras e oito xelins. Essa é a razão pela qual esteve cuidando de mim... Ele fez um bufo desdenhoso. — Eu não estive cuidando. — Olhando-me fixamente, cada momento do dia, tão intensamente que deixa minha... minha pele arrepiada e tudo o que você vê é um punhado de moedas. Lutou contra um tubarão por uma bolsa de seis libras e oito xelins. Tudo se reduz a dinheiro para você. 74


— Sim — ele estampou um punho, com os nós dos dedos para baixo, contra a mesa. Tudo na cabina balançou, do painel de vidro até os dentes de Sophia. A força bruta no gesto era pequena, mas extremamente assustadora e excitante, e ele olhou sua boca tão fulminante e duramente que ela esteve quase certa que ele iria beijá-la. Ela estava muito certa de que queria que ele fizesse. Mas então ele deu um passo atrás, dobrando a distância que havia entre eles, e encolheu os ombros preguiçosamente. Aquele sorriso, condenadamente arrogante, mandou a sombra do beijo deslizar para longe dos lábios. O canalha insolente estava de volta. — Tudo se reduz a dinheiro, doçura. Qualquer um que diga o contrário está mentindo. Se tudo não tivesse a ver com dinheiro, você não estaria partindo para assumir um posto de governanta em Tortola, não é assim? Ele a pegou com isso. — Não, suponho que não. — Trata-se de negócio. Estritamente de negócios. Eu espero que você não me dê mais problemas do que vale, ou a jogarei em alguma vila pesqueira sem olhar para trás. — Você não se atreveria. — Não acredita? — ele passeou pelo chão e levantou uma sobrancelha. — Bem, querida, em algum lugar existe uma viúva de um capitão francês que corrigiria essa presunção. Gray passou uma interminável tarde na ponte, virando as páginas de um livro, precisando da concentração necessária para ler. Não importava o quão fixo olhasse as letras impressas em negro nadando nas páginas, não podia ver as palavras. Ele só podia vê-la. Enquanto desvanecia a luz da tarde, deixou cair o livro sobre seu peito. Fechou os olhos e tentou dormir. Ele só podia vê-la. Quando os sinos tocaram para o segundo dogwatch, ele desistiu. Deixando de lado o livro com uma maldição, levantou-se de sua rede e se preparou para ir ao convés. Se a imagem de seu adorável rosto ia persegui-lo sem importar o que fizesse, bem podia sofrer a tortura em pessoa. Ah, mas não era apenas seu adorável rosto o que o perseguia. Nem o suave exuberante corpo que ele desesperadamente queria libertar daquele casulo de lã. Era a forma em que ela tão voluntariamente se agarrava à verdade. 75


A forma em que seu espírito soltou faíscas quando lhe disse que deixasse de lado sua arte. O jeito que ela praticamente fez amor, doce e inocente com seus olhos quando ele disse que se importava se ela vivia ou morria. Bom Senhor. A ironia ridícula disto. Ele havia passado semanas de sua adolescência memorizando sonetos, passou anos aperfeiçoando o sussurro de pequenas insinuações. Só para aprender a frase mais sedutora no idioma inglês que era algo semelhante a: Todas as coisas são iguais, eu prefiro não vê-la atacada por um tubarão. Negócios, admoestou a si mesmo enquanto encolhia em seu casaco. Isso era estritamente negócio. Ele havia prometido a Joss que cuidaria da garota. Depois de hoje, não havia dúvida de que precisava que cuidassem dela. E cuidar dela era um assunto muito mais fácil quando ela estava sob sua vista. Quando chegou ao convés, entretanto, encontrou-o deserto. Todos os marinheiros estavam reunidos na proa do navio. O volume de suas risadas indicou a Gray que o rum corria livremente. Os oficiais se mantinham sóbrios ao leme. No meio, não havia ninguém. Ela permanecia abaixo. Gray juntou-se ao seu irmão no convés, apoiando o cotovelo na amurada. — Há bons ventos hoje à noite. — Sim. A senhorita Turner está bem? — Estava bastante bem quando a deixei. Em silêncio, observaram o sol deslizar sobre a curva da terra. Um grito veio da tripulação do outro lado do navio. Gray balançou a cabeça. — Não posso acreditar que permitiu a bebida aos homens, depois do que fizeram hoje. — Hoje é sábado. Esposas e namoradas, você sabe. — Eu não me importo se é o aniversário do diabo. Se este navio estivesse sob o meu comando, eles não provariam uma gota até o Trópico. Joss fez um som zombador. — É uma sorte que não esteja sob seu comando então. Você sabe tão bem quanto eu, que teria sido uma decisão tola. De fato, após o que você fez hoje, você deve se juntar a eles. Gray suspirou. Ele sabia que seu irmão estava certo. Roçar a morte em um lugar ermo no oceano, um verdadeiro marinheiro sabia sacudir-lhe com uma gargalhada ou um sorriso. Em um momento um homem podia estar escalando o cordame, um movimento 76


em falso, uma onda suave, e no momento seguinte, estar desaparecido. Apostavam e perdiam vidas nos caprichos do destino. Quando a sorte trabalhava a favor de um homem e ele sobrevivia, uma má ideia era evitar o assunto. Punha à tripulação tensa, a tornava propensa aos acidentes. Não, a única maneira era continuar com a vida. Rir, brincar, beber e divertir-se. Brindar por esposas e namoradas, como faziam cada sábado. Era engraçado que Joss tivesse que recordá-lo. Ele, de todos os homens é quem precisava sorrir, rir e seguir adiante com a vida. — Venha tomar uma bebida comigo então — disse Gray, dando uma cotovelada em seu irmão. Joss sacudiu a cabeça. — Não há namorada pela qual brindar. Nem esposa. — Então, uma bebida em sua memória. — Não esta noite — Joss se afastou da amurada e se dirigiu à escotilha, parando apenas o tempo suficiente para uma última observação, uma observação que resumia quase todas as palavras que Joss havia dito a Gray desde que Mara morrera: — Vá em frente sem mim. E Gray ainda não estava sabendo como contradizê-lo. Uma vez que seu irmão desapareceu sob o convés, Gray vagou em direção à proa do navio, para se juntar à celebração semanal. Na verdade, a celebração começou um pouco antes quando deteve-se e tirou seu cantil para tomar um grande gole. Ele ficou gelado, com o frasco inclinado sobre seus lábios, quando a música parou e escutou uma leve, sedutora e claramente risada feminina proveniente da tripulação reunida. Devia ser ela. Ele sabia simplesmente porque era a única mulher a bordo, não porque reconhecesse sua risada. E isso fez com que bebesse outro gole de brandy, pensando que ele passou vários dias perto de uma bela mulher e não a fizera rir ainda. Que impróprio dele. Que deprimente. Mais alguns passos e um olhar confirmou suas suspeitas. Ali estava sentada a senhorita Jane Turner, equilibrando uma caneca entre as pontas de seus dedos, a saia de seu horrível traje afastada para um lado. Inferno, ele não disse para a garota permanecer atrás do mastro? Bailey tocou algumas notas em sua flauta, e a tripulação se lançou a outra maliciosa canção. Gray esperou uma estrofe completa antes de aproximar-se dela, dando volta a seu redor e ficando atrás de seu ombro direito. 77


Alguns homens lhe dirigiram gestos amistosos, mas a maioria estava demasiado absorvido em sua festa e música para prestar alguma atenção. — O que você está fazendo? — perguntou ela, lançando um olhar através da lanterna que balançava. — Quem? Eu? — murmurou ele. — Estou simplesmente apoiado no mastro. Você sabe, este alto pau de madeira mais à frente do qual você não devia passar. Ela tomou um gole de sua bebida. Gray se afastou do mastro e se abaixou a seu lado. Se ela virasse e o olhasse, estariam cara a cara. Mas ela não o fez. — A melhor pergunta é, que diabos você está fazendo? — Estou aproveitando — disse ligeiramente, tomando outro gole. — Sugiro que você faça o mesmo — passou a caneca a ele e aplaudiu com selvagem entusiasmo quando a canção chegou a sua toada final. Gray olhou para a caneca meio vazia, em seguida o levantou para seu nariz e cheirou. Puro, rum puro, era o que a garota estava tomando. Isso explicava o entusiasmo. Seu aplauso terminou, recuperou a caneca e bebeu um gole que faria um marinheiro se sentir orgulhoso. Demônios. Gray suspeitou que a única coisa pior que cuidar de uma afetada governanta seria cuidar de uma que estivesse bêbada. — Gray! — O'Shea empurrou entre a multidão e pôs uma transbordante caneca em sua mão. — Bem a tempo para outra rodada de brinde. — O'Shea levantou em alto sua própria caneca. — Pela linda Maureen e seus deliciosos bocados. Ela é firme no traseiro e suave em... — Na cabeça — Gray o interrompeu, golpeando o homem com seu ombro. — Tem papa no cérebro se ela andar com caras do seu tipo. Enquanto os homens riam e bebiam. — Pela linda Maureen — Gray pegou o cotovelo da senhorita Turner. — Venha comigo então. Você não pertence aqui. — Convidaram-me — disse ela entre dentes. — E não vou a lugar nenhum. — Não é um lugar para damas — ele puxou seu cotovelo com firmeza e se levantou. — Sua vez, Gray — disse O'Shea. Ele balançou a cabeça. — Não estou aqui para beber. Estou aqui para ver nossa pequena senhorita Turner voltar para sua cabine. Já passou de sua hora de deitar-se. 78


Ela o fulminou com o olhar. Ele a fulminou por sua vez. — Vamos, Gray — disse outro marinheiro. — Apenas um brinde. A senhorita Turner levantou suas sobrancelhas e se aproximou dele. — Vamos, senhor Grayson. Apenas um brinde — debochou ela, com a voz sussurrante e sedutora de uma prostituta. Era uma voz que seu corpo conhecia bem, e partes vitais dele responderam prontamente. Sereia. — Muito bem — levantou sua caneca e sua voz o tempo todo olhando para os olhos enormes e vidrados dela. — Pela mulher mais linda do mundo, e a única mulher em minha vida. A pequena descarada ficou sem fôlego. Gray desfrutava do silêncio tenso, deixando que uma grande piscada cruzasse seu rosto. — Por minha irmã Isabel. Os olhos dela se estreitaram. Os homens gemeram. — Você não é mais divertido, Gray — O'Shea reclamou. — Não, não sou. Eu tornei-me respeitável — puxou o cotovelo da senhorita Turner. — E a pequena e boa governanta precisa ir para a cama. — Não tão rápido, por favor — ela se afastou dele e se voltou para enfrentar a tripulação reunida. — Eu ainda não fiz meu brinde. Nós damas também temos nossos amores, você sabe. Murmúrios obscenos seguiram um a um até que uma onda de risadas se elevou entre eles. Gray deu um passo atrás, levantando sua caneca aos lábios. Se a garota estava determinada a humilhar-se, quem era ele para detê-la? Quem era ele realmente? Balançando-se ligeiramente em suas botas, ela levantou sua caneca. — Para Gervais. Meu único amor, mon cher petit lapin. Meu querido coelhinho? Gray balbuciou dentro de seu rum. Que fantástica imaginação tinha a garota. — Meu professor francês de pintura — continuou ela, arrastando as palavras. — E meu tutor na arte da paixão. Os homens gritaram e assobiaram, Gray golpeou a caneca no chão e puxou-a para ele. — Muito bem, senhorita Turner. Muito divertido. É brincadeira suficiente por uma noite. — Quem está brincando? — perguntou ela levando sua caneca aos lábios e olhando-o descaradamente sobre a borda. — Ele me amava. Desesperadamente. — Os franceses fazem tudo desesperadamente — murmurou ele, começando a 79


sentir-se um pouco desesperado ele mesmo. Sabia que ela se referia a histórias inocentes de colegial, mas os outros não. O humor do grupo inteiro se alterou, de uma saudável diversão a uma luxuriosa antecipação. Estes eram marinheiros depois de tudo. Solitários, famintos de mulheres, homens desesperados. E para uma garota inocente, podiam chegar a ser mais perigosos que tubarões. — Não pôde tê-la amado muito, não? — Gray pegou seu braço novamente. — Ele parece a ter deixado partir. — Suponho que sim — choramingou ela, lançou um sorriso coquete para os homens. — Acho que isso significa que preciso de um novo amor. Isso era tudo. A pequena cena chegou ao fim. Gray se abaixou, agarrou as coxas da governanta rebelde, endireitou as pernas e jogou-a por cima do ombro. Ela soltou um grito e deixou que a última gota de rum caísse pelas costas de seu casaco. — Coloque-me no chão, seu animal! — Ela se contorcia e batia com os punhos em suas costas. Gray segurou suas pernas contra seu peito com um braço e deu-lhe um tapinha no seu traseiro arredondado com a outra mão. — Muito bem, então — ele anunciou para o grupo, forçando um sorriso maroto. — Estaremos na cama. Aplausos e risadas zombadoras os seguiram enquanto Gray carregava sua presa que se retorcia, descendo pela escada e entrava na cabine das damas. Com outro ligeiro golpe em seu traseiro, que ela provavelmente nunca poderia sentir através das saias e anáguas, Gray a deslizou de seu ombro e a deixou cair sobre seus pés. Ela cambaleou para trás, e ele pegou o braço dela, revertendo seu impulso. Agora ela tropeçou para ele, lançando os braços ao redor de seu pescoço e caindo flacidamente contra seu peito. Gray somente ficou ali parado, balançando os braços a seu lado. Oh inferno! Ela olhou para ele com aqueles grandes olhos interrogadores. O brilho se devia ao rum, mas eram bonitos assim mesmo. E aqueles lábios suaves, fazendo beicinho, inchado, apenas implorando para ser beijada. Deus, ele queria beijá-la. Beijá-la longa, lenta e profundamente, até que tivesse se embebedado em seu doce hálito com aroma a rum. Ela franziu os encantadores lábios... E então ela riu. Ela inclinou a cabeça e enterrou o rosto em seu casaco e riu, muito e alto, até que seus ombros começaram a se sacudir. 80


— Isso não é engraçado — disse ele debilmente. Fracamente, porque ele realmente não queria que ela parasse. Tão estúpida, esta emoção pequena de triunfo. Finalmente, ele fez rir a garota bonita. — Oh, mas é. Esses homens aí em cima? Que acredita que pensam que estamos fazendo aqui embaixo? Levou um momento para Gray segui-la através do labirinto de sua pergunta. — Pensarão que somos amantes — ela disse em um sussurro fraco, rindo novamente. — Querida, melhor rezar para que eles pensem — ele colocou as duas mãos na cintura dela e empurrou-a para trás. Mas ela não soltava seu pescoço. Fizeram uma estranha imitação de uma dança russa enquanto ele a encaminhava para trás, até que ela se chocou contra uma parede. Ele pressionou-a contra o revestimento de madeira com suas mãos nos quadris femininos e dirigindo seu olhar mais intimidante, seus olhos penetrantes. — É melhor você rezar para que eles pensem que eu estou aqui com você, com cada centímetro de sua preciosa vida. Porque essa é a única forma de ter uma noite de sono tranquila. Não tentarão nada, se acreditarem que é minha. Ela curvou os dedos nos cachos do cabelo de sua nuca. Brincou com eles ociosamente, deixando que suas unhas se arrastassem sobre sua pele. Sua palma enfaixada roçou seu pescoço. — Pare — disse ele com voz rouca. Ela não parou. Um músculo em sua mandíbula começou a tremer. — Pare com isso — repetiu ele. — Supõe-se que não deve usar as mãos. — Não as estou usando muito — ela descansou o queixo contra seu peito e o olhou. — Quantos dentes tem um tubarão, pergunto-me? Parecem centenas. — Não faço... não faço ideia — gemeu ele enquanto ela passava os dedos pela zona sensível atrás de sua orelha. Suas pálpebras tremeram. — Não, não feche os olhos — disse ela. — Eu gosto da forma como me olha. Tão faminto. Tão perigoso. Como se fosse um pirata... e eu fosse um espólio que valesse mais de seis libras e oito xelins. — Você está bêbada, isso é o que está. — Mmm. E você é um homem. Um homem grande e forte com o mais suave, o mais encantador cabelo — ela deslizou seus dedos para cima, acariciando seu couro cabeludo até que ele se sentiu completa e terrivelmente excitado. Ela começou a rir bobamente outra vez. Gray jamais gostou muito dessas risadinhas nas mulheres, mas demônios se sua suave envolvente risada não o estava deixando louco de desejo. Ele podia deter essas risadinhas. Podia beijá-la até sossegá81


la e deixá-la sem fôlego. — Quer saber por que estou rindo? — Não. — Vamos, Gray — imitou ela descaradamente, seus quadris se contorcendo sob suas mãos. — Você já não é engraçado. — Não — grunhiu ele. — Não sou. — Tornei-me respeitável, recordou a si mesmo, a partir desta viagem. Maldito se podia recordar por que, ou qual era a maldita urgência. Por que não esperou mais um mês para se reformar? O início do novo ano teria sido uma escolha lógica. Que tipo de tolo toma decisões em dezembro? — Eu vou dizer de qualquer maneira — sussurrou ela. — É seu cabelo. Sua cor é tão bonita, esse delicioso marrom escuro com reflexos avermelhados por todos os lados. E aqui em cima — seus dedos dançaram para suas têmporas. — Pequenos fios de ouro — ela franziu o cenho com concentração, como se lhe custasse um esforço para concentrar seu olhar. — Eu me lembro de como, desde o primeiro momento que o vi, quis... Ela riu de novo. E dane-se, agora, ele queria saber o porquê. Ele queria muito, muito mesmo saber o porquê. Porque Gray não achava esta situação divertida nem um pouco. Seu corpo doía com imperiosa necessidade. Qualquer resto de determinação que ele possuía estava se desintegrando rapidamente, e seus dedos trêmulos não podiam, ou simplesmente não queriam mantê-la afastada por mais tempo. Liberando seus quadris, apoiou ambas as mãos na parede, encerrando-a entre seus braços. Isso, agora nem sequer a estava tocando. Mas ela o estava tocando. Ainda esfregando seus suaves dedos por seu cabelo, pressionando agora seu suave corpo ao dele. Sua forte ereção finalmente se encontrou com a bem-vinda fricção de seu ventre, e isso foi tudo o que pôde fazer para não esfregar-se contra ela. Devia sair. Partir diretamente da cabine sem olhar para trás. Mas ele não podia. Deus, ele simplesmente não conseguia. Ela era muito boa. Ela o desejava, e isso o fazia sentir bem também. O desejo, ele poderia resistir. Mas a sensação de ser desejado, sempre foi sua perdição. Sua pequena sereia iria levá-lo direto para sua morte, todo o caminho da condenação, e ele estava literalmente a centímetros de distância de dar e apreciando o passeio. — Eu estive desejando — suspirou ela — tanto... pintá-lo. Pintá-lo? 82


Ele riu. Oh, quanta diversão poderia ter com ela. — Querida, eu... A voz de Gray se apagou enquanto uma vívida imagem aparecia em sua mente. Não a senhorita Turner nua e retorcendo-se debaixo dele, apesar de que essa imagem certamente espreitava seus sonhos. Não, ele a viu com o retrato a carvão do jovem Davy Linnet. A percepção no desenho, a atenção dos detalhes. E, de repente, Gray formou uma visão de si mesmo através destes olhos de artista que tudo via. Ele viu um bandido de barba por fazer, a centímetros de saquear a uma inocente governanta que estava longe de casa e em completa floração. Um homem preparado para quebrar sua palavra para seu único irmão, novamente, como se esse fosse um hábito comum. Uma fraude em botas atrevidas, tentando comprar seu caminho para as graças de sua irmã e da sociedade, porque ele não tinha o mérito de ganhar o respeito deles. Em uma fração de segundo, Gray vislumbrou seu próprio retrato, e não gostou do que viu. Ele jamais poderia ser a imagem da respeitabilidade, mas maldição se o mundo se lembrasse de o que era agora. Com um duro grunhido, afastou-se da parede. Ela caiu para trás contra o painel, suas mãos enfaixadas penduradas a seus lados. — Isto não vai acontecer — disse ele, tanto para si como para ela. Afastou-se agitado e passou as mãos por seus cabelos, como se pudesse apagar a lembrança de seu toque delicado, provocante. — Por que não? Eu não quero... — Não. Não quero nada de você. Não quero que me pinte. Não quero que me toque. Não quero vê-la distraindo a tripulação. Não quero vê-la lutando com tubarões. Não quero vê-la. Para nada. Ela piscou. Sem risadinhas agora. Mas Gray não havia terminado. — Você — sacudiu um dedo em sua direção. — Você é muito estúpida. Não faz ideia de quanta maldita sorte tem. Sabe o que poderia acontecer com você, cruzando o oceano sozinha, sem dinheiro e sem acompanhante? Tem alguma noção do perigoso jogo que está fazendo se enchendo de rum e se empinando na frente da tripulação como uma puta qualquer? Ela engoliu em seco. — Se eu quisesse você — disse ele, apoiando uma mão na parede por cima de seu ombro e abatendo-se sobre ela em atitude ameaçadora — poderia tê-la tido dias atrás, na primeira noite que passou neste navio. 83


Provavelmente já teria me cansado de você neste momento. Sua inocência já teria desaparecido e você a teria jogado no lixo. Por nada. Talvez se você fosse especialmente boa, eu teria jogado um punhado de xelins como pagamento. Seus olhos se arregalaram. O brilho ébrio neles desapareceu. Bem. Talvez agora ela se comportasse com um pouco de bom senso. Não a advertiu desde o começo? Ele jamais havia conhecido uma garota que não teve uma desilusão. Gray deu um passo atrás, logo outro. Cuidadosamente indo em direção para a porta. — Assim seja uma pequena e boa governanta, senhorita Turner. Vá para a cama, tranque a porta, entre em seu beliche e faça suas orações... E agradeça a Deus Todopoderoso por eu não querer você.

Capítulo 09

A maldição do sol. As pálpebras de Sophia se abriram piscando repetidamente. Um vinco estreito da luz do dia cumprimentou-a, oscilando por debaixo da porta. Ela fechou os olhos, se contorcendo de dor. Sua cabeça latejava. Suas mãos tremiam. Seu corpo doía todo, sem dúvida pela luta laboriosa de ontem com o peixe e os homens. Oh, Deus. Os homens. Lembranças fragmentadas da noite anterior flutuaram na superfície de sua consciência, começando a juntar-se em peças para formar uma imagem. Uma imagem que a fez sentir-se doente. Procurou desesperadamente a tigela de água e vomitou ali. Que diabos fez? Anunciou a uma dúzia de marinheiros rebeldes que ela acabava de terminar um tórrido caso com um francês e estava a procura de um substituto. Então havia se agarrado ao senhor Grayson, murmurando todo tipo de estupidez e deslizando seus dedos através do seu cabelo escuro e grosso. E oh, era tão suave. Ela não sabia o que era mais humilhante: o fato dela se oferecer a ele com toda a delicadeza e o entusiasmo de uma prostituta de rua? Ou o fato de que ele a rejeitou? Eu não quero você, ele dissera. Não, isto era o fato mais humilhante: Apesar de suas dores e penúrias corporais, 84


a ferida mais grave quem sofreu foi seu orgulho. Uma jovem correta e bem educada, teria louvado a Deus que, apesar de todo seu comportamento imprudente e escandaloso, despertou esta manhã com sua virtude intacta. Mas Sophia há muito tempo havia decidido deixar para trás sua vida correta e bem educada e abraçar a infâmia. E agora, a própria infâmia não a queria. "Eu não quero você." Suas palavras tinham-na cortado como uma faca. Cada vez que ecoavam em sua mente, a faca se retorcia. Quem iria querê-la, depois da maneira que ela se comportou? Céus, se ela não tivesse nascido na riqueza e vigiada tão de perto todos estes anos, que tipo de final sórdido teria? Um que faria corar até mesmo uma leiteira licenciosa. Se Toby pudesse vê-la agora, estaria se felicitando pela sorte de ter escapado. Uma batida soou em sua porta. Sophia fez uma careta. — Quem é? — Sua voz era áspera e fraca. — É o café da manhã — disse a voz de Stubb. Ele riu. — Cortesia de seu namorado, Germaine. — Gervais — gemeu ela, afundando-se de novo sob sua manta. Bom Deus, como ela poderia enfrentá-lo novamente? Como ela poderia enfrentar qualquer um neste navio? Descobriu que não poderia, por algum tempo. Ela passou três dias inteiros trancada em sua cabina, comendo na solidão, passando as horas debruçada sobre um esboço, aventurando-se apenas na latrina, e voltando. Stubb rompia seu isolamento algumas vezes por dia, para levar as refeições e trocar o curativo das feridas. Finalmente, seu tédio eclipsou sua vergonha. Em sua estimativa, havia três semanas ou mais restantes nesta viagem. Ela não podia ficar escondida na cabina tanto tempo. Ela precisava de ar fresco e luz e inspiração para os seus olhos como artista. Na quarta manhã, Sophia tirou as ataduras das mãos e esticou cuidadosamente a nova pele rosada que cobria suas feridas. Em seguida, juntou sua prancheta de desenho e o carvão e os restos de coragem que pôde encontrar e foi para o convés. O navio estava estranhamente quieto. Embora ela olhasse para as pranchas debaixo dos seus pés, podia sentir todas as cabeças girando em sua direção. A cabeça 85


do senhor Grayson não estava entre elas. Ela teria percebido se ele estivesse ali. Ela estava muito familiarizada com o ardor de seu olhar. Respirando fundo, levantou o queixo, endireitou os ombros, e caminhou todos os cinco passos para chegar a um tamborete e sentou-se. Bem, não foi tão difícil. Ela estava vagamente consciente de que os marinheiros estavam conversando e rindo juntos. Sem dúvida, suas travessuras há quatro noites eram a fonte de suas diversões. Sophia não sabia o que fazer se um deles se aproximasse dela, na esperança de se tornar o próximo "Gervais." Apesar da humilhação de ser carregada do convés de uma forma tão bárbara, esperava que o senhor Grayson estivesse certo ao dizer que não fariam avanços se pensassem que era dele. Claro, se eles achavam que era dele, eles estavam completamente errados. "Eu não quero você." É suficiente. Esteve revivendo esses acontecimentos há dias, ruminando sobre as implicações e castigando-se e, quando os arrependimentos se tornaram tediosos, saboreando a lembrança de seu cabelo ondulado preso nas teias dos dedos, ou a sensação de suas mãos fortes rodeando sua cintura... É suficiente. Já era hora de voltar para o trabalho. Uma vez que colocou o carvão no papel, uma bolha de concentração se formou a seu redor, bloqueando todas as distrações. Desenhou um gatinho, de todas as coisas. Um gatinho, seus olhos grandes e pequenas garras afiadas, balançando suas patas traseiras, como se preparando para o ataque. Atacar o quê, ainda não decidira. Uma sombra caiu sobre seu papel, e um assobio soou por alguns metros acima dela. Sophia ficou imóvel, temerosa de olhar para cima. — Olhe para isso. Está de olho em um rato, certo? Era O'Shea. Sophia suspirou com alívio. Não sabia o nome de toda a tripulação ainda, mas o forte acento de O'Shea e seu tamanho de mamute, distinguia-o do grupo. — Ainda não tinha decidido — respondeu ela, inclinando a cabeça para um lado. — Estava pensando, talvez um grilo. Ou talvez uma serpente. — Um gatinho corajoso. Sophia sombreou os olhos com a mão e olhou para o rosto do irlandês. Os olhos duros dele vagaram da mão dela, para seu rosto, até o desenho em seu colo. Fez um ruído áspero na garganta, o tipo de ruído que os homens fazem quando estão tentando dizer algo e não sabem muito bem como, mas desejam manter a aura 86


de bruta masculinidade em meio de sua indecisão. Estava deixando Sophia nervosa. Ele queria perguntar uma coisa, e ela tinha medo de saber exatamente o que era. — Sim? — apressou ela. — A tripulação... Falamos entre nós, senhorita Turner. Houve um pouco de resistência, mas eu sou o líder — de repente ficou de cócoras diante dela, transformando sua silhueta de tronco de árvore em uma de pedra num instante. Seu rosto de feições marcadas se dividiu em uma careta diabólica. — Consegui ser o primeiro. — Nós tiramos a sorte, senhorita Turner. Agora é minha vez. — Sophia levantou a vista de sua prancheta de desenho. Quinn estava parado na frente dela, Quinn estava em pé na frente dela, torcendo o gasto boné de marinheiro nos seus punhos grandes, com uma expressão mais adequada para um funeral do que para um retrato. — Sente-se, Sr. Quinn. O homem baixou seu peso sobre uma caixa, apoiando seus braços nos joelhos. — O que eu faço? Com a unha, Sophia afiou um pedaço do carvão. — Não precisa fazer nada mais que sentar-se ali — deu-lhe um pequeno sorriso, e rapidamente olhou para baixo novamente, já que claramente o fazia sentir-se desconfortável. — Por que você não me conta alguma coisa sobre você? — dirigiu sua pergunta para o papel quando começou a esboçar seu rosto oval. Ele coçou o queixo. — Não há muito que contar. Nasci em Yorkshire. Meu pai fez com que mudássemos para Londres quando era um garoto. Obrigaram-me a entrar na Marinha quando tinha dezesseis anos, e eu não voltei para terra firme após. — Não tem uma esposa, então? Nenhuma família própria? — Sophia manteve um tom leve, lançando olhares furtivos para o nariz de falcão de Quinn e sua testa poderosa entre as perguntas. — Não no momento, senhorita. — Mas certamente tem uma namorada para os sábados? Quinn soltou uma risada áspera. — Oh, tenho uma para cada dia da semana, senhorita Turner. Sophia parou o carvão e levantou uma sobrancelha. — Que alívio saber que sua agenda está cheia, Sr. Quinn. Mas advirto-lhe, não vou cair na tentação de afastar-me de Gervais. Ele riu, e relaxou sua postura. Sophia se sentiu aliviada também. Na semana 87


transcorrida desde aquela noite, seu brinde de bêbada se tornou apenas outra piada à bordo. O senhor Grayson havia retornado para o convés com rapidez suficiente para impedir que a tripulação suspeitasse de um relacionamento. Tampouco os homens levaram o Gervais a sério, graças a Deus, e ela estava começando a entender o porquê. A maior parte dos brindes tampouco se baseava na realidade. A vida no mar era um negócio perigoso. Os homens flertavam com a morte diariamente, e riam quando conseguiam esquivá-la. Mas embora pudessem escapar da morte, não podiam escapar da solidão. Era uma sombra onipresente que eles trabalhavam para livrar-se dela através da música, bebida, e dos contos exagerados. Sophia podia compreender totalmente esse sentimento. Ela conhecia a solidão muito bem. E ter um amante de fantasia? Bem, pela primeira vez em sua vida, não fazia com que se sentisse isolada. Aqui, era como todos os outros. Ela começou a trabalhar no seu esboço, mantendo Quinn ocupado com perguntas sobre sua infância, sua casa, a respeito de seu serviço na guerra. Pedir a um homem que recordasse seu passado sempre o fazia desviar o olhar, como se suas memórias marchassem ao longo do horizonte. E enquanto Quinn se centrava nessa época longínqua, Sophia podia estudar seus traços abertamente sem fazê-lo sentir-se desconfortável. Notou a pequena fenda entre as sobrancelhas, que provavelmente se transformaria em uma ruga com o tempo. Observou o breu incrustado sob suas unhas e nas dobras das palmas, manchas que nunca sairiam com a lavagem. E quando ele falou de seu sobrinho, captou a mais leve insinuação de um sorriso no canto de seus olhos. Que diferente era desenhar às pessoas, pessoas reais, com vidas de suor e trabalho, cada uma um desafio único. Muito diferente que desenhar os velhos vasos de flores de sempre e a cópias de cópias de grandes obras-primas. Dava a Sophia uma surpreendente quantidade de prazer simplesmente conversar com os homens e ganhar sua confiança. Quando se sentavam na frente dela, confiavam nela para coletar todas as suas características e pequenas imperfeições curtidas e gravá-las no papel, para armá-las em um retrato para suas esposas, namoradas, para eles mesmos. Sentia-se de algum jeito importante. Quando entregava-lhes o desenho terminado, dava-lhes algo de valor que provinha de seu talento, não de sua fortuna ou de seu rosto bonito. É óbvio, também ajudava a passar o tempo. E impedia Sophia, nessas poucas horas do dia, pensar nele. 88


Ele estava em todas as partes do navio, nada lhe escapava. Mesmo se ela ficasse em sua cabina a maior parte do dia, a claraboia estava sempre aberta, e através dela fluíam constantes correntes de sol, ar fresco e sua voz. O senhor Grayson, como soube desde o começo, não era um homem tranquilo. Falava frequentemente. Falava em voz alta. E quando ele falava, as pessoas escutavam. Incluindo-a. Os gritos rudes dos marinheiros, suas maldições murmuradas... o periódico som metálico do sino do navio, o atrito das correntes através do convés, o rangido das juntas de madeira do navio. Todos estes sons se misturavam aos que agora flutuavam sob a consciência de Sophia. O tom de barítono do Sr. Grayson ressoava por toda parte, assediando-a nos momentos mais inoportunos. Ela podia estar se vestindo em sua cabina, nua até a cintura, amarrando seu espartilho com uma eficiência recém-adquirida, e o senhor Grayson escolhia esse momento em particular para ficar acima de sua cabina e escandalizar o jovem Davy Linnet com uma brincadeira obscena. Irritava Sophia de um modo irracional, que ele pudesse converter seus mamilos em pontas endurecidas sem nem sequer ocupar o mesmo ambiente. Sem sequer saber que o fazia. Pelo menos, rezava para que não soubesse. Às vezes tinha suas dúvidas. Ela poderia ser a única pessoa que o senhor Grayson excitava com um sorriso ou uma frase, mas certamente não era a única afetada. Quando a tripulação caía em um ócio em uma tarde calma e o silêncio indolente se tornava denso, esses eram os momentos que o senhor Grayson escolhia para cantar. Como se estivesse esperando que a natureza se aquietasse antecipando seu desempenho. Ele se lançava a uma canção, algumas indecentes, canções grosseiras de marinheiros, cantadas com toda a reverência de um hino e no momento em que chegava ao final do primeiro verso, toda a tripulação se unia a ele. O coro ressoava em cada mastro, e abaixo em sua cabina. Sophia sorria apesar de seus melhores esforços para não fazê-lo. Em outras ocasiões, acalmava uma azeda discussão com uma brincadeira feita em um tom suave e cativante. Ou algum comentário casual seu sobre o vento, era seguido por uns ajustes rápidos no cordame. Com essa voz de barítono clara, agradável, o senhor Grayson dirigia a tripulação com tanta segurança como o leme dirigia o navio. — Sei o que está pensando, Gray — o acento irlandês de O'Shea viajou 89


cadencioso através da claraboia em uma manhã quente, enquanto Sophia estava imersa em seu trabalho. O senhor Grayson respondeu, um cru desejo em sua voz. — Sim. Seria tão fácil tomá-la. Sophia quase deixou cair sua pluma. — Temos a vantagem do vento — disse O'Shea. — E o navio mais rápido — disse Gray. — Estaríamos na popa em muito pouco tempo. Navios. Sophia respirou. Estavam falando de navios. — Aqueles tempos — O'Shea assobiou baixinho. — Uma bala de canhão ao leme... — Nem sequer precisaria disso. Aceitaria nossas condições com pouco mais que o sinal de um disparo e um sorriso. Ela podia ouvir esse sorriso em sua voz. Ele continuou: — Os canhões são para amadores. Apoderar-se de um navio intacto... Tudo está na aproximação. No momento em que a vela aparece no horizonte, age como se já fosse seu. Tudo o que resta é informar ao outro capitão. Agora Sophia sorriu com ele. Sabia exatamente o que ele queria dizer. Ele sabia exatamente o que ele queria dizer. Foi a mesma atitude que ela adotou no banco aquele dia. Meia hora mais tarde, saía com seiscentas libras. Desejava poder contar ao senhor Grayson essa história. Ele acharia a divertida, sem dúvida. Quase podia escutar a ressoante risada que soltaria quando descrevesse a cara vermelha do secretário e a forma em que ela havia... Que curioso. Mal havia falado com o senhor Grayson em mais de uma semana. Como poderia, depois daquela noite horrível? Mas de algum jeito, através destas conversas escutadas por acaso e os comentários isolados, veio a conhecê-lo muito bem. E chegado a gostar dele. Chegou a pensar nele como um amigo. Ele salvou mais que sua vida esse dia. Não havia forma de negar isso agora, depois da conversa que acabava de ouvir. Ela teve que enfrentar a verdade que esteve evitando. Ele poderia tê-la tido naquela noite, com muita facilidade. Conquistar era sua especialidade, como ele acabava de dizer. Mulheres, navios... o que fosse que o senhor Grayson desejasse, ele tomava. E ele a desejou, pelo menos no sentido carnal, apesar de todos seus protestos indicando o contrário. Quando ela se apertou contra ele tão descaradamente, havia 90


sentido sua inconfundível excitação. Voluntariamente teria se entregado, se ele tivesse querido tomá-la, mas ele se afastou. É óbvio, não era a primeira pessoa a proteger sua virtude. É claro, não foi a primeira pessoa a proteger sua virtude. Sua família, seus professores, suas acompanhantes, até mesmo seu noivo, toda sua vida se cercou por uma fortaleza de pessoas, todas dedicadas a mantê-la virgem. Porque sua virtude era uma moeda, um bônus para ser trocado por conexões sociais. Algumas dessas mesmas pessoas não dariam dois centavos por sua virgindade, se Sophia fosse uma órfã humilde e sem dinheiro... Duvidava. Mas o Sr. Grayson o fez. Ele pensava que era uma governanta pobre, sem amigos, sem conexões que valessem a pena mencionar e ninguém a quem importasse. E, entretanto, protegeu sua virtude, quando em um momento de loucura embriagada, ela a teria jogado fora. Ao fugir de casa, Sophia tomou o controle de sua fortuna. Mas também tomou o controle de seu corpo. Seus pais nouveau-riche (novos ricos) estiveram desesperados para que uma de suas filhas se casasse com alguém com título. Quando sua irmã mais velha, Kitty, não conseguiu, suas esperanças mudaram para Sophia. Mas casar sem paixão ou amor, apenas por dinheiro e conexões, a tornaria no pior tipo de prostituta. Sophia não queria perder sua virgindade como um meio para completar uma transação. Sonhava com uma experiência diferente, uma paixão, emoção e romance impressionante. E ela teria perdido esse sonho, se não fosse por ele. Talvez ele estivesse certo. Talvez devesse agradecer a Deus Todo-Poderoso que ele não a quisesse. O que isso significa então, que ela não poderia... Ficando em pé, juntou sua pluma e tinta. Talvez não pudesse contar ao senhor Grayson a história de sua própria conquista. Talvez ele não quisesse falar com ela absolutamente. Mas o dia estava agradável, e havia uma vela no horizonte, e ela simplesmente não podia ficar na cabine nem um momento mais. Queria estar no centro da atividade, aproveitando os quentes raios do sol. Oh, a quem estava enganando? Queria estar perto dele. Gray se congelou quando a senhorita Turner saiu. Durante semanas, ele foi assediado. Durante o dia, sofria com os lances de sua beleza, de noite, era assombrado pelas lembranças de seu toque. 91


E justo quando pensava que conseguiu por fim dominar seu desejo, hoje ela arruinava tudo. Ela veio e trocou de vestido. Foi-se aquela mortalha de sarja, aquela séria nuvem sombria, que aparecia em sua visão periférica durante semanas. Hoje ela usava um vestido de mangas curtas de musselina, com desenhos de espigas. Ela deu um passo para o convés, com o rosto sorridente inclinado na direção do vento. Uma flor que se abre para receber o sol. Ela se balançava sobre seus pés, como se lutasse contra a tentação de girar feito uma criança. O tecido pálido e delicado de seu vestido se elevava e se inflava com o vento, ajustando-se ao contorno ondulado da panturrilha, da coxa, do relevo do quadril. Gray pensou que provavelmente era a criatura mais linda que já havia visto. Portanto, sabia que devia desviar o olhar. Fez uma tentativa honesta de encontrar nuvens no horizonte. Ele olhou para seu relógio de bolso, girando o botão uma, duas, três, quatro vezes. Limpou um pouco de sal da tampa de vidro. Pensou na Inglaterra. E na França, e em Cuba e na Espanha. Lembrou-se de seu irmão, de sua irmã e de sua tia Rosamond singularmente feia, a quem ele não via em décadas. E todo esse esforço hercúleo resultou em nada, apenas um brilho fino de suor na testa e precisamente trinta segundos de atraso para o inevitável. Ele a olhou novamente. O desejo se estendeu por seu corpo com uma intensidade surpreendente. E por debaixo dessa onda quente de luxúria, uma emoção mais profunda se inflamou. Não era algo que Gray desejasse examinar. Preferiu deixar que se afundasse de novo nas escuras profundidades de seu ser. Uma criatura sem nome das profundidades, deixada para que um aventureiro mais intrépido catalogasse. Em vez disso, ele examinou o vestido novo da senhorita Turner. O tecido era de boa qualidade, o padrão de espigas uniformemente estampado, sem variações de forma ou de cor. A costureira fez grandes esforços para que os padrões coincidissem nas costuras. As mangas do vestido se encaixam perfeitamente com os ombros. Em um momento de tranquilidade, a roda da saia dobrou mostrando os cordões de suas botas. Ao contrário da abominação de sarja cinza, este vestido era caro, e feito para ela exclusivamente. Mas não se encaixava. Quando ela se virou, Gray observou como se abria um pouco o decote, e a coluna da saia que deveria ter roçado o ondulação do quadril em 92


troca apanhava nada mais que ar. Ele franziu o cenho. E nesse instante, ela se virou para ele. Seus olhares se encontraram e se sustentaram. O sorriso dela desapareceu em uma expressão de estranheza. E porque Gray não sabia como responder à pergunta não formulada nos olhos dela, e porque ele odiava o fato de que ele havia banido o deleite vertiginoso de seu rosto, ele deu-lhe um breve aceno de cabeça e um grosseiro: — Bom dia. E depois se afastou. Gray entrou como um furacão na cozinha. — A senhorita Turner não está comendo. Esse espaço tão estreito, com a sensação de estar confinado em uma caixa, o mormaço... parecia um lugar apropriado para descarregar esta irracional onda de ressentimento. Se essa emoção pudesse se dissipar através dos ralos de ventilação tão rápido como o vapor. — E bom dia para você também. — Gabriel limpou as mãos no avental sem levantar o olhar. — Ela não está comendo — repetiu Gray sem se alterar. — Ela está se consumindo — não percebeu que sua mão se apertou em um punho até que os nós dos dedos rangeram. Flexionou-os com impaciência. — Consumindo-se? — o rosto de Gabriel se dividiu em um sorriso enquanto pegava um martelo e atacava um pedaço de carne de porco salgado. — Agora o que o faz dizer isso? — Seu vestido já não se ajusta corretamente. O decote de seu corpete fica muito solto. Gabriel parou de bater e olhou para cima e encontrou os olhos de Gray, pela primeira vez desde que ele entrou na cozinha. O arco zombeteiro das sobrancelhas do velho fez com que Gray apertasse os dentes. Eles se olharam por um segundo. Então, Gray deixou escapar um suspiro e desviou o olhar, e Gabriel explodiu em gargalhadas. — Nunca pensei que viveria para ver esse dia — finalmente disse o velho cozinheiro — em que você se queixa porque o corpete de uma bela dama está muito solto. — Não é que ela seja uma bela dama... Gabriel levantou a vista bruscamente. — Não é só que ela é uma bela dama — corrigiu Gray. — Ela é uma passageira, e tenho o dever de velar por seu bem-estar. 93


— Não seria o dever do capitão? Gray entrecerrou os olhos. — E eu conheço meu dever muito bem — continuou Gabriel. — Não é como se eu lhe negasse comida, não? Estou pensando que a senhorita Turner simplesmente não está acostumada a vida áspera a bordo de um navio. Está acostumada a uma comida mais fina que esta. Gray franziu o cenho para o pedaço de carne de porco curada sob o malho de Gabriel e as ressecadas batatas germinadas rolando de um lado para o outro com cada inclinação do navio. — É este o almoço? — Isto, e um pãozinho. — Ordenarei aos homens que façam uma pesca de arrasto. — Não seria isso o dever do capitão? — O tom de Gabriel foi malicioso. Gray não estava seguro se a coluna de vapor formando redemoinhos através da cozinha se originou do fogão ou em suas orelhas. Não importava o tom desrespeitoso de Gabriel. Tampouco importava a possibilidade de que desaparecessem as curvas exuberantes da senhorita Turner quando nunca teve uma oportunidade de apreciá-las. Frustrado além de toda razão, Gray virou para ir embora, abrindo a porta da cozinha com um puxão tão forte que as dobradiças rangeram em protesto. Ele respirou fundo para se acalmar, determinado a não bater a porta atrás dele. Gabriel parou de bater. — Sente-se, Gray. Descanse os ossos. Com outro áspero suspiro, Gray obedeceu. Retrocedeu dois passos, jogou-se sobre um banquinho, e viu como o cozinheiro tirava uma caneca de lata de um gancho na parede e a enchia, extraindo um líquido de um pequeno balde de couro. Então Gabriel deixou a caneca sobre a mesa diante dele. Leite. Gray a olhou. — Pelo amor de Deus, Gabriel. Já não tenho seis anos. O velho ergueu as sobrancelhas. — Bom, vendo que você não se cansa de fazer uma visita à cozinha quando está de mau humor, pensei que talvez devesse provar o leite também. Você comprou as cabras. Gray meneou a cabeça. Levou a caneca aos lábios e bebeu com cuidado a princípio, em seguida, rapidamente esvaziou a caneca, como se fosse rum em vez de leite de cabra. Cobriu sua língua com sabor brando, cremoso e liso. Inocente. Gray olhou para a caneca vazia com tristeza. Desejou tê-la feito durar um pouco mais. 94


Gabriel pegou o martelo e começou a bater novamente, e Gray ergueu os olhos rapidamente, a ponto de pedir ao velho que parasse e encontrasse uma ocupação mais tranquila. Uma tarefa mais propícia para... Para a reflexão de Gray, ou anseio, ou as lamentações, ou qualquer maldita estupidez que ele se sentou para fazer. Mas um vislumbre de algo que pairava por trás do ombro do cozinheiro roubou a reclamação de seus lábios. Outro esboço — este de Gabriel — pendurado na parede acima do barril de água. Girava com suavidade em uma só direção, ou melhor, o papel pendurava verticalmente com a gravidade, enquanto que todo o navio girava a seu redor. Ela tinha capturado o sorriso cheio de dentes e inofensivo de Gabriel e o brilho diabólico em seus olhos, e o efeito do sutil e constante balanço do papel fazia com que a imagem parecesse viva. Delicadamente, estranhamente, o retrato de Gabriel estava rindo. Gray se sacudiu. Rindo dele, o mais provável. — Ela vem aqui? — perguntou ele. — Sim. Todas as manhãs — Gabriel endireitou sua coluna encurvada e adotou um tom educado. — Nós tomamos chá. Gray franziu o cenho. Um lugar a ser evitado: a cozinha: à hora do chá pela manhã. — Veja se ela come alguma coisa. Ponha mais leite no chá. Faça-lhe bolacha de melaço e gengibre todos os dias, se ela gostar. Está dando uma porção diária de suco de limão? Gabriel sorriu à carne de porco salgada. — Sim, senhor. — Dobre isto. — Sim, senhor — o sorriso de Gabriel se ampliou. — E deixa de sorrir, maldição. — Sim, senhor — O velho praticamente cantou as palavras enquanto golpeava a carne. — Nunca pensei que viveria para ver o dia.

Capítulo 10

Era a manhã de véspera de Natal, e o espírito de Sophia só poderia ser descrito como mal-humorado. Ela se sentou em sua cabina, se sentia incongruente considerando o tempo quente. Papel, tinteiro, e pluma estavam em sua frente na 95


mesa. Já havia adaptado sua técnica artística ao incessante balanço do oceano. Sophia havia fixado seu tinteiro à mesa com um pouco de cera derretida, para que não se escorregasse facilmente sobre sua saia. Prendeu os papéis com correias de couro que tirou do baú e estirou sobre a superfície da mesa. Enquanto passava a pluma sobre o papel, mantinha as articulações de seu braço e seu pulso soltos para amortecer qualquer sacudida repentina do navio. Ela já havia feito três quartos do Livro, documentando meticulosamente a leiteira licenciosa e seu amor em cada uma de suas atitudes amorosas. Esta manhã, entretanto, a lascívia não a excitava. Ela passou o epílogo, onde o cavalheiro propunha casamento a sua amada, e juntos embarcavam em uma união longa e frutífera. Sem nenhum excesso de concentração, Sophia começou a desenhar a cena de um casal em um lanche campestre juntos sob a sombra de um salgueiro. A leiteira, agora vestida com a elegância de uma dama, sentada sobre uma manta, as pernas estendidas, os tornozelos cruzados, seu olhar procurando o horizonte. O cavalheiro estava com a cabeça em seu colo, olhando para o céu. Não estavam atentos um do outro, mas a intimidade fácil de suas posturas dava-lhes o ar de um casal muito apaixonado. — Navio à vista! A bombordo! Atenção todos! O navio se movimentava em atividade e Sophia reconheceu os sons familiares dos marinheiros da guarda trovejando do castelo de proa, a vela maior estirando-se contra o mastro. O navio parou e virou. Sophia tampou seu tinteiro e passou suas mãos pelo avental apressadamente. "Falar" com outro navio podia levar minutos ou horas, dependendo das circunstâncias. Às vezes, os capitães somente trocavam seus nomes e destinos de um modo amistoso, como duas damas cruzando um caminho no parque. Outras vezes, podiam ter lugar a longas conversações e entendimentos. O outro dia o senhor Grayson havia embarcado em um navio português, retornando com uma porção de mercadorias permutadas. Mesmo que o encontro durasse minutos ou horas, Sophia, como qualquer outro a bordo, não queria perder. Nada rivalizava com a visão de um navio se aproximando. Era como um reconfortante aviso de que o Afrodite não estava simplesmente flutuando sozinho pelo mundo. Uma promessa de civilização e sociedade os aguardava no final de sua viagem, em algum lugar. Sophia se apressou a subir ao convés, defendendo os olhos com sua mão e dando um grande rodeio. Não havia nenhum navio para ver, nenhuma solitária vela torcida no horizonte. Ainda assim, os homens estavam reunidos no convés, zumbindo com antecipação. Todos os marinheiros, pelo menos. O senhor Grayson estava 96


notavelmente ausente, assim como o Capitão, seus oficiais e Stubb. Confusa, Sophia se aproximou de Quinn. — Pensei que íamos falar com o outro navio. Um sorriso largo dividiu o rosto curtido de Quinn. — Isso fazemos, senhorita. — Mas... — Sophia observou novamente à distância, sua voz perdendo-se no mar. — Oh, isto não é um navio que vem pelo mar — disse Quinn. — Não, estamos esperando um visitante chegar do mar. Cruzamos o Trópico de Câncer. E isso significa que temos que apaziguar ao velho Tritão antes de seguir adiante. Sophia olhou para os tripulantes em volta. — Tritão? Subindo do mar? Eu não compreendo. — É uma tradição dos marinheiros, senhorita. — O'Shea se aproximou, seu pesado sotaque irlandês penetrando através da confusão de Sophia. — O Rei do Mar vem a bordo para se ter um pouco de entretenimento com aqueles que estão cruzando o Trópico pela primeira vez, como o novo garoto aí. — Assinalou para Davy, que estava parado ao lado, parecendo tão confuso como Sophia, mas sem querer demonstrar. Quinn cruzou seus musculosos braços sobre seu peito, empilhando-os como troncos. — E Triton sempre recolhe seus impostos, é claro. — Seus impostos? — Perguntou Sophia. O'Shea deu-lhe um olhar astuto. — Melhor estar preparada com uma moeda ou duas, senhorita Turner. Se você não puder pagar sua taxa, o velho Triton poderia arrastá-la para as profundezas com ele e mantê-la ali para sempre. Quinn riu, lançando ao irlandês um olhar conhecedor. — Conhecendo o velho Tritão, não seria surpreendente que fizesse justamente isso. O'Shea deu uma piscada ao tripulante. — Dificilmente poderia culpá-lo. O coração de Sophia saltou, e com cada batida selvagem batia contra a bolsa assegurada sob seu espartilho. Era este Tritão o equivalente marinho de um salteador de estradas então? Uma espécie de pirata? — Onde estão os oficiais? — Perguntou a Quinn. — Não tem o Capitão que cumprimentar cada veleiro que se aproxima? — O Capitão e seus companheiros tendem a permanecer fora do caminho do 97


Triton. É um assunto de marinheiros, isso é o que é. Bom, se Sophia estivesse procurando uma desculpa para fugir do convés, já havia acabado de receber uma servida. Mas antes que pudesse se mover, uma voz gritou: — Todos prestem atenção! Preparem-se para saudar seu Rei! O governante das profundezas do oceano, e com ele vem hoje sua bela amante, a rainha! Risadas zombeteiras varreram a multidão. Sophia percebeu que nenhum dos marinheiros parecia um pouco preocupado em receber o visitante. Claro que nenhum deles tinha muito a perder. Dois marinheiros atiraram algumas cordas, içando o alegre bote para o flanco do navio, revelando duas figuras apócrifas no centro da pequena embarcação. À primeira vista, Sophia só viu a mais baixa das duas, uma criatura horrível com longos cabelos crespos e rosto pintado vestindo uma saia apertada e um espartilho de estopa fabricado com escamas de peixe e conchas de moluscos. Reconheceu a Rainha do Mar, com um sorriso aquecendo suas faces enquanto a tripulação explodia em aplausos estridentes. Uma Rainha do Mar Barbuda, nada menos, que tinha uma impressionante semelhança com o taifeiro grisalho do Afrodite. Stubb. Sophia esticou o pescoço para espiar o consorte de Stubb, já que o mastro bloqueava a visão do rosto do Tritão. Ela pegou só um vislumbre de uma toga branca jogada por cima de um ombro bronzeado e nu. Ela deu um passo ao lado, quase tropeçando em um rolo de corda. — Tolos mortais! Ajoelhem-se perante seu rei! Os marinheiros reunidos ajoelharam-se na sugestão, dando a Sophia uma visão direta do Rei do Mar. E mesmo com a pintura azul que o cobria e as algas penduradas desde seu cinturão como disfarce, não havia engano em sua voz de barítono. O senhor Grayson. Lá estava ele, alto e orgulhoso, cerca de vinte metros de distância dela. De peito nu, exceto por uma faixa de linho branco atada do quadril a seu ombro. Úmidos cachos de cabelo jogados para trás de seu rosto bronzeado, o sol remarcando cada contorno dos seus braços esculpidos e peito. Um deus pagão arrogante vem para a Terra. Ele alcançou seu olhar, e seu sorriso se alargou em um gesto lupino. Nem por sua vida Sophia podia desviar o olhar dele. Ele não tinha olhado para ela assim desde... Desde aquela noite. Mal olhou em sua direção, e certamente, jamais levando um sorriso. A ousadia de seu sorriso a fez se sentir envergonhada e quase nua. Mesmo aquele ato de 98


sustentar o olhar se tornou uma experiência íntima, quase indecente. Se Sophia continuasse olhando-o, certamente sentiria seus joelhos amolecer. Se desviasse o olhar, dar-lhe-ia a vitória. Sob as circunstâncias, havia apenas uma alternativa. Com um gesto travesso de reconhecimento de sua brincadeira, Sophia olhou para baixo e fez uma reverência para o rei. O senhor Grayson riu com aprovação. Sua reverência, o gesto de lealdade da tripulação, ele aceitou a homenagem que lhe era devida. E por que não? Havia uma justiça nisto de algum modo, um entendimento sem palavras. Aqui, finalmente, era o verdadeiro líder: os homens deviam obedecer sem questionar, um entendimento sem palavras. O homem a quem deviam lealdade, inclusive ante o qual deviam ajoelhar-se. Este era seu navio. — Onde está o dono desta embarcação? — gritou o senhor Grayson. — Oh, certo, alguém me disse que ele já não era divertido. Enquanto a tripulação ria, o Rei do Mar oscilava sobre a amurada, elevando o que parecia ser uma vassoura com aspiração a parecer um tridente. — Tragam o viajante virgem! O estômago de Sophia bateu as asas em pânico. O que em nome de Deus o Sr. Grayson pretendia fazer com ela? Ela meio que temia, meio ansiava por descobrir. Em seguida, a agitação espalhou agradavelmente para baixo, e a balança se inclinou a favor da ansiedade. Mas os marinheiros não estavam atentos a ela. Em troca, empurraram o Davy Linnet para frente. — Aqui está, Sua Majestade! — Gritou Quinn. — O menino novo, cruzando o Trópico pela primeira vez. O senhor Grayson elevou seu "tridente" para o garoto. — Se você deseja cruzar o meu mar, meu jovem, você deve submeter-se a um interrogatório. E deve dizer a verdade, compreende? Ninguém mente ao Rei do Mar. Se você tentar me enganar, saberei. E então você vai afundar nas profundezas do oceano para viver entre as enguias e jamais voltará. Davy olhou a seu redor, sem estar seguro de se ria ou tremia. — Sim, senhor. — Sim, Sua Majestade — corrigiu o Tritão. Davy arrastou os pés. — Sim, Sua Majestade. Dois marinheiros arrastaram um barril contra o mastro, e fizeram parar Davy sobre ele. Alguém entre a multidão, um marinheiro, fez uma observação grosseira. 99


Os homens caíram na gargalhada. O senhor Grayson golpeou sua vassoura tridente no convés para ordenar silêncio, uma vez, duas vezes. Os homens se calaram e ele voltou-se para Davy. — Agora menino, diga-me o seu nome. — Davy Linnet, senhor. Bang! Ele voltou a bater a vassoura. — Sua Majestade. — Davy Linnet, Sua Majestade. — Que idade tem, Davy Linnet? — Quinze, senhor. Bang. Davy se sobressaltou. — Quinze, Sua Majestade. O senhor Grayson começou a caminhar ao redor do garoto preguiçosamente. — De onde vem, Davy Linnet? — De Sussex, cidade de Dunswold, Sua Majestade. — Quantos irmãos têm? — Cinco, Sua Majestade. Quatro irmãs e um irmão. — Seus pais estão vivos? — Ambos, senhor. Er, majestade. O senhor Grayson voltou lentamente sobre seus passos, seu musculoso braço flexionando-se, enquanto apoiava o tridente sobre um ombro. O nó de sua toga deslizou, e ele casualmente reposicionou o tecido com a mão livre. Mas não antes que Sophia visse uma chocante cicatriz perto de sua clavícula, um irregular círculo rosado, de carne retorcida quase do tamanho de sua palma. Ela pressionou sua própria mão sobre a garganta. — E diga-me, Davy Linnet — continuou o Senhor Grayson — se lhe dão a escolha, prefere o pão branco ou preto? — Branco, Sua Majestade. — Cerveja ou grog? — Grog, Sua Majestade — Davy começou a relaxar, um tímido sorriso jogando em seu rosto. Claramente, havia antecipado um interrogatório mais duro que este. Ele havia antecipado corretamente. — Você já roubou alguma coisa, Davy Linnet? O sorriso do rapaz desapareceu, e sua testa se enrugou. — Qu... O quê? 100


— Alguma vez — o senhor Grayson assinalou ao moço com a vassoura — roubou alguma coisa? É um ladrão? Davy se encolheu. — Bem, eu peguei um pedaço aqui e ali no meu tempo. Comida, principalmente. — Principalmente? Os olhos de Davy se endureceram. — Na maior parte. — o Sr. Grayson ficou em silêncio, mas o jovem não entrou em detalhes. Finalmente, adicionou. — Não havia muito por onde procurar na casa dos Linnet. O senhor Grayson dirigiu-lhe um olhar severo. — Então a fome desculpa o roubo? — N-não, senhor. Sua Alteza. — Roubaria a seus companheiros da tripulação? — Não — respondeu Davy, resolutamente. Olhou entre os marinheiros. — Não. Bang. — Não, Sua Majestade. O Senhor Grayson deu uma lenta volta. — O que aconteceria se tivesse com fome? — Não, Sua Majestade. Não de meus companheiros da tripulação. Não se pode roubar daqueles que compartilham tudo. Se eu estiver faminto, significa que todos os outros também estão. O senhor Grayson fez uma rígida inclinação de cabeça, obviamente satisfeito com a resposta de Davy. Fez uma pausa que durou um longo segundo. Logo sua postura mudou abruptamente enquanto se recostava para trás na amurada do navio. — Você tem uma esposa, Davy Linnet? O rapaz riu, obviamente aliviado com a mudança de tema. — Não, Sua Majestade. — Não? Espero que não seja porque não tenha tentado. Quantas namoradas teve? As faces de Davy ruborizaram. — Nenhuma, Sua Majestade. — Deitou-se com algumas garotas, Davy Linnet? O rosto de Davy se tornou vermelho. — Não — resmungou ele. Bang. — Não, Sua Majestade — se corrigiu o rapaz. — Não ainda. 101


Esta última fez com que a tripulação caísse na gargalhada e pôs um sorriso afetado no Rei do Mar. Davy relaxou sua postura. — E quanto ao amor? Alguma vez você já se apaixonou, Davy Linnet? O menino ficou rígido novamente. Seus olhos esvoaçavam para Sophia por um instante, e seu coração se apertou. Sophia sabia que o garoto abrigava sentimentos para ela — todos a bordo do navio sabiam, e ela sabia que isso não era nem de perto o que sentiria alguma vez por uma esposa. Mas ninguém podia dizer a um garoto de quinze anos que seus sentimentos não eram reais. O silêncio se tornou espesso enquanto toda a assistência esperava a resposta do jovem. Quinn sorriu e deu uma piscada a Sophia. Davy engoliu em seco. O senhor Grayson golpeou o barril, fazendo Davy cambalear. — A verdade, menino. Ou as enguias. O menino estudou seus pés por um momento. Em seguida levantou a cabeça e enfrentou diretamente o olhar do Senhor Grayson. — Sim, senhor. Estou apaixonado. As estridentes risadas se elevaram como um trovão, em seguida, tornando-se uma canção indecente. O rosto de Davy ficou vermelho como uma torta vermelha. Sophia mordeu o lábio, sofrendo por ele. Nem sequer quando ele subiu o mastro naquele primeiro dia no mar, com os nós dos dedos brancos e tremendo de medo, ela presenciou tanta coragem. A ironia ardeu nos cantos de seus olhos. Ela não podia recordar ter escutado essas palavras e realmente acreditar nelas, nem de sua família, nem de seus amigos. Ela foi cortejada por uma legião de pretendentes e até mesmo esteve comprometida, mas a primeira declaração de amor sinceramente pronunciada, provinha deste corajoso e honesto menino. A admissão de Davy devia ter afetado também o Rei do Mar. Porque embora mantivesse o rosto cuidadosamente composto, o Sr. Grayson deixou de bater seu tridente e exigir o requerido "Sua Majestade". Sophia desejava medir a reação do senhor Grayson, mas manteve seu olhar no jovem. Davy se mantinha erguido, apesar das brincadeiras de seus companheiros. Ela se preparou para compensá-lo com um gracioso sorriso se ele olhasse em sua direção, embora suspeitasse que fosse muito orgulhoso para fazer isso. E ele era. O garoto olhava teimosamente para o senhor Grayson. — Alguma outra pergunta, Sua Majestade? Outra tempestade de risos levantou-se da tripulação. Bang. Silêncio. 102


— Apenas uma, Davy Linnet. Você tem moedas para pagar sua taxa? O menino piscou. — Taxa? — Sim, o seu imposto. Há um preço para cruzar estas águas ileso. E se você não puder pagá-lo com moeda, você deve sofrer as consequências. — O senhor Grayson cabeceou para Studd, que aproximou outro barril, este aberto e transbordando com um líquido. Um aroma fétido flutuava do barril: aroma de alcatrão e peixe podre junto com o invasivo aroma da água estagnada. Davy torceu o nariz quando ele sentiu o fedor de sua altura elevada. — Eu... Eu não tenho uma moeda em meu nome, Sua Alteza. — Bom, Davy Linnet — continuou o Senhor Grayson suavemente. — Se não poder pagar a taxa, deverá ser submerso. Stubb empurrou uma correia de metal oxidado e a balançou sobre sua cabeça. — Submerso e rapado. Os homens romperam em aplausos. Levi e O'Shea pegaram Davy pelas pernas, levantando-o para o barril cheio de água podre. Sophia sabia que não deveria intervir. O menino não se machucaria, ela disse a si mesma. Era apenas um pouco de água estagnada. Claramente todos os marinheiros tinham experimentado algo semelhante em sua primeira viagem, ou não sentiria tanta alegria com a situação de Davy. Mas o menino já havia sofrido humilhação demais, e suportara muito por culpa dela. — Parem! — ela gritou. Ao mesmo tempo, todos os homens ficaram congelados. Uma dúzia de cabeças se voltaram para ela. Sophia engoliu em seco e virou-se para o Senhor Grayson. — E eu? Eu também sou um viajante virgem... O sorriso do senhor Grayson se elevou e seu olhar a varreu da cabeça aos pés e novamente para cima. — Sério? — Sim. E não tenho uma moeda em meu nome. Planeja também me inundar e rapar? — Essa é uma ideia — seu sorriso se alargou. — Talvez. Mas primeiro deve submeter-se a um interrogatório. Um nó se fez na garganta de Sophia, tornando-se impossível falar. O senhor Grayson elevou sua sonora voz de barítono, trocando o tom. — Qual é seu nome, senhorita? — Quando Sophia elevou firmemente o queixo e o olhou, ele disse de forma dramática. — Verdade ou enguias. 103


Bang. Excitados sussurros se elevaram de entre os marinheiros reunidos. Davy foi completamente esquecido, empurrado para o convés com um baque surdo. Até o vento conteve o fôlego em antecipação, e Sophia deu um pequeno salto quando um marinheiro golpeou contra o mastro. Apesar de seu coração bater em um ritmo errático de angústia, ela ordenou a sua voz permanecer calma. — Eu não tenho nenhuma intenção de me submeter a qualquer interrogatório, por Deus ou homem — elevou seu queixo e arqueou uma sobrancelha. — Não me impressiona sua posição. Fez uma pausa de vários segundos, esperando que as gargalhadas da tripulação diminuíssem. O senhor Grayson a imobilizou com seu olhar duro e firme. — Atreve-se a falar comigo dessa maneira? Eu sou Tritão — com cada palavra se aproximava mais. — Rei do Mar. Um deus entre os homens — agora só os separavam alguns passos. A fome brilhou em seu olhar. — E exijo um sacrifício. A mão de Sophia permaneceu pressionada contra sua garganta e nervosamente puxou a gola do vestido. A esta distância, ele era todo pele bronzeada estendida sobre músculos e tendões. Iridescentes gotas de água deixavam rastros brilhantes sobre seu peito, enganchando-se nas bordas de sua horrenda cicatriz, pouco visível sob sua toga. — Um sacrifício? — Sua voz era fraca. Seus joelhos ainda mais fracos. — Um sacrifício — capotou o tridente, seus bíceps flexionando-se enquanto estendia a parte arredondada para ela, enganchando-o sob seu braço. Estendeu o extremo da vassoura, tirando a mão de Sophia de sua garganta e levantando seu pulso para inspecioná-la. Sophia poderia ter puxado seu braço em qualquer momento, mas estava tão sem fôlego em antecipação como todas as outras almas no convés. Tornou-se observadora de sua própria cena, impossibilitada de alterar o drama que se desenvolvia, na borda de seu assento para ver como continuaria. Ele estudou seu braço. — Um espécime de mulher extraordinariamente magnífico — disse o senhor Grayson casualmente. — Jovem, justa, sem mancha — então retirou o pau e a mão da Sophia caiu a seu lado. — Mas insatisfatória. Ela sentiu uma aguda pontada de orgulho. Insatisfatória? Aquelas palavras ecoavam em sua mente novamente. Eu não quero você. 104


— Insatisfatória. Muito magra — ele olhou entre a tripulação, movendo seu tridente caseiro em um amplo arco. — Um sacrifício com carne em seus ossos. Exijo... Sophia ofegou quando a vassoura caiu ruidosamente a seus pés. O senhor Grayson deu-lhe uma piscadela maliciosa, colocou as mãos na cintura, num gesto de arrogância divina. — Eu exijo uma cabra.

Capítulo 11

O aroma de cabras vivas havia impregnado o Afrodite durante semanas. Agora, lutava para prevalecer o aroma agradável de cabra cozida. Gray achava uma mudança refrescante, mas o restante do rebanho parecia não concordar. Elas baliam com força em seus beliches, protestando pela repentina diminuição de seu número. Gray abriu caminho através da fazenda que antes foi a cabina dos cavalheiros, tomando cuidado de não roçar em nada. Havia acabado de tomar banho e se vestido, e não queria aparecer no jantar de Véspera de natal com esterco de cabra em suas botas. Entrou na cozinha e foi recebido por uma nuvem de aromático vapor. O aroma exótico de especiarias se misturando com o sabor da carne assada. Surpreso, Gabriel se engasgou com um gole de uma caneca. Em um canto, Stubb rapidamente escondeu alguma coisa nas costas. Os olhos dos homens brilharam com algo mais que a alegria das festas. — Feliz Natal, Gray — Gabriel estendeu — lhe uma caneca de cerveja. — Vamos. Servirei-lhe um pouco de vinho. Gray recusou com um gesto e um sorriso. — Esse é meu novo Madeira o que está servindo? Gabriel assentiu enquanto tomava outro gole. — Pensei que deveria prová-lo antes de servi-lo. Já sabe, para me assegurar de que não esteja envenenado. Esvaziou a caneca e a deixou com um sorriso. — Não, senhor. Não está envenenado. — E os figos? As azeitonas? As especiarias? Suponho que provou todos, também? Por uma questão de precaução, é claro. — É claro — disse Stubb, tirando sua própria caneca de trás das costas e 105


tomando um saudável gole. — Todo mundo sabe que não se pode confiar em um comerciante português. Gray riu. Pegou uma azeitona de um prato da mesa e a meteu na boca. O rico azeite cobriu sua língua. — Encontrou a caixa com facilidade? — Perguntou a Stubb, alcançando outra azeitona. O velho taifeiro assentiu. — Está tudo disposto com cuidado. As velas, também. — Parece como um verdadeiro Natal — Gabriel assinalou com a cabeça. — A senhorita Turner inclusive me deu um presente. Gray seguiu o movimento, olhando através do vapor. Seria condenado. Uma pequena tela apoiada no armário. Tinha uma paisagem pintada aparentemente simples. Algumas pinceladas magistrais capturavam o movimento giratório da água e a dança da brisa. A minguante luz do sol beijava as ondas com brilhantismo. E como era o caso com todos os trabalhos da senhorita Turner, Gray genuinamente se comoveu, não só pela beleza da pintura, mas também pelo cuidado de sua criação. Ela deu a Gabriel uma janela para a cozinha, com tanta segurança como se houvesse um buraco no casco do navio e tivesse instalado um painel de vidro. Ela lhe dera um presente, realmente. Stubb disse: — Ela fez um esboço de Bailey para sua esposa. Agora ele está moldando essas telas pequenas a partir de pedaços de madeira e lona. — Bailey não tem velas para reparar? — grunhiu. — Eu não estou pagando o homem para fazer telas. Gabriel deu de ombros, jogando um olhar ofendido. — Eu só dou ao homem seu pãozinho três vezes ao dia. Não o acompanho para ver como ele gasta seu tempo. Gray sabia que estava sendo um imbecil, mas era condenadamente enlouquecedor, este assalto constante da arte dela. Estes retalhos de beleza espalhados por seu navio. Deslumbrando seus olhos, atraindo-o com pequenos puxões de suas vísceras. Seu efeito coletivo deixava Gray sentindo-se mais que um pouco ressentido. Mas não tão ressentido para que deixasse de buscá-los — na esperança de encontrálos de uma forma que beirava desconfortavelmente a um hábito. Não que nenhum de seus desenhos ou pinturas fossem para ele. 106


Voltou-se para Stubb. — Será que ela lhe deu um presente, também? O homem sorriu através de sua barba grisalha. — Sim. Está na terceira classe. Uma pequena e bonita pintura de uma sereia. — Meu Deus — Gray passou a palma de sua mão sobre sua mandíbula Barbuda. O taifeiro pegou uma colher de madeira e empurrou Gray a um lado. — Eles estão esperando por você, você sabe. Entra ali, assim poderemos servir. Gray se apressou a atravessar a passagem antes que Stubb pudesse empurrá-lo de novo. Avançou pelo pequeno corredor das cabines dos oficiais e entrou na do capitão. Os homens se levantaram quando ele entrou, Joss à cabeceira estreita da mesa, flanqueado pelos outros oficiais. — Feliz Natal — disse entre dentes, repentinamente coibido. Ele assentiu com a cabeça aos homens, em seguida virou-se e se inclinou diante da senhorita Turner, antes de deslizar-se na cadeira de frente. Listras. Por costume, Gray imediatamente tomou nota da resposta a sua pergunta. Pergunta persistente, sempre presente que infestava seus dias, que vinha à mente cada vez que a via ou antecipava vê-la. Que era quase todo o tempo. Que vestido ela ia usar? Espigas ou listras? Gray abrigava uma ligeira preferência pelas listras. Não só a cor mais escura se adequava a sua pele, mas também o decote caía de uma maneira incitante, mostrando uma parte de chemise transparente. O vestido de espigas tinha um decote quadrado, mais alto e só uma renda ou duas. Mas... O vestido tinha botões minúsculos descendo pelo lado... quatorze botões, para ser exatos, e embora só os desabotoou mentalmente, foi suficiente para deixar Gray louco de frustração, esse lance de um quilômetro de comprimento de minúsculos pontos de pérolas era algum consolo. Os fechos deste vestido de listas, pelo contrário, eram completamente invisíveis. Haveria pequenos ganchos, perguntou-se ele, sob as mangas? Ocultos nas costuras em alguma parte? A senhorita Turner tossiu e se mexeu na cadeira. Querido Deus. Gray se sacudiu ao perceber que passou a maior parte do minuto olhando abertamente em direção a seus seios. A uma distância de não mais de sessenta centímetros. O que é pior, havia desperdiçado esse maldito minuto obcecado com ganchos e 107


botões, quando poderia estar procurando a sombra de uma aréola, ou bico de um mamilo. Dane-se. E agora ele não tinha mais escolha senão deixar cair os olhos e estudar os pratos. Parecia bem, a porcelana. O padrão de acanto se complementava muito bem com os adornos de prata. Estranho, beber Madeira com xícaras de chá, mas pelo menos eram melhores que a lata. A toalha branca debaixo de tudo isso não era nada de qualidade, mas a luz era tênue, e, portanto, não se notava. Gray estendeu uma mão para endireitar o garfo. — A mesa está linda — disse ela, sem se dirigir a ninguém em particular. Oh Deus. Mais uma vez, ela o trouxe de volta à realidade, e Gray percebeu agora que havia passado a maior parte de dois minutos encarando a porcelana e a toalha da mesa. Primeiro a costura, agora a mesa... Se não fosse o fato de que sua voz incitava diretamente sua virilha, Gray poderia ter começado a questionar sua masculinidade. Que diabos aconteceu? Ele a desejava. Desejava seu corpo, obviamente. O mais preocupante no momento, era que já não podia negar que ele também desejava sua aprovação. E desejava ambos, com uma intensidade que quase o paralisava, embora soubesse que nunca poderia ter um sem sacrificar o outro. Então ela estendeu o pulso fino para pegar uma xícara de chá, e Gray recordou a razão de todo este desdobramento. Queria vê-la comer. — Onde está Stubb? — Ele resmungou, irritado pela fome. Por todos os tipos de fome. — Logo atrás de você, senhores e madame — Stubb entrou arrastando os pés, carregando uma fumegante sopeira. — Primeiro prato, sopa — ele moveu-se ao redor da mesa, começando com a senhorita Turner, servindo com uma chaleira porções generosas de sopa de creme nas xícaras. Reinava o silêncio, salvo pelo ligeiro tinido da baixela de prata. Gray tomou rapidamente a sopa, mal saboreando-a, queimando a língua no processo. Então se acomodou em sua cadeira e bebeu um gole de Madeira de sua xícara de chá, tentando não olhá-la quando ela delicadamente levava a colher de sopa aos lábios. Talvez ele estivesse ficando louco. Junto a ele, Wiggins limpou a garganta. — Deve nos perdoar, senhorita Turner. Nós somos marinheiros, maus 108


companheiros de jantar, temo. Estamos acostumados à comida rápida, eficiente, com pouca conversa. E certamente não estamos acostumados à companhia de uma linda dama. Gray tossiu, colocando sua xícara de chá sobre o pires com um golpe. A senhorita Turner engoliu lentamente e deixou a colher. — Estou muito agradecida por estar em companhia esta noite, mesmo da variedade calada. Eu tampouco sou uma grande conversadora. Gray bufou. Nenhuma conversadora. A moça havia surrupiado a história da vida de cada marinheiro deste navio. Ela acabava de recolher a colher de novo quando Joss falou. — Não está achando a viagem muito tediosa, senhorita Turner? — Perguntou Joss. — Lamento que tenha que entreter a si mesma, sendo a única passageira. Ela baixou a colher. — Obrigada, capitão, mas me parece suficiente atividade ocupar minhas mãos e minha mente. Ler, desenhar, caminhar pelo convés ao ar fresco e o exercício saudável. Estou surpreendentemente contente, vivendo no mar. O coração de Gray golpeou estranhamente. — Mas é Natal, senhorita Turner. Você está longe de sua casa — a voz de Brackett era fria .- Certamente deve sentir saudades de sua família? — Sim, é claro. Eu sinto — ela apertou as mãos atrás de sua xícara meio cheia de sopa. — Eu sinto falta... Curiosamente, eu sinto falta de laranjas. Sempre tivemos laranjas no Natal, quando eu era uma menina. — Sim — disse Joss, seus lábios curvados na sugestão de um estranho sorriso. — Sim, nós também. Não, Gray? Laranjas. Eles queriam laranjas. Como se pudesse ser tão simples voltar no tempo quando a felicidade vinha em um pacote redondo e nodoso e cabia na palma da mão. E, entretanto, se houvesse laranjas disponíveis nesse momento, Gray teria trocado o navio por uma caixa delas. Observou como a senhorita Turner levava uma colherada de sopa à boca com uma lentidão agonizante. Ficou olhando, fascinado, como os lábios se afastavam, revelando a ponta da língua... — Digo, senhorita Turner... — Wiggins novamente. A colher se deteve no ar. Gray bateu o punho na mesa. — Cristo, homem! Não vê que a dama está tentando comer? — cruzando os braços, ele recostou-se na cadeira. As articulações de madeira rangeram em sinal de 109


protesto. E agora todo mundo baixou suas colheres. Gray sentiu todos os olhos sobre ele. Chutou o pé da mesa, frustrado consigo mesmo, com ela, com suas malditas botas. Ainda beliscavam seus pés. Stubb entrou arrastando os pés de novo, acompanhado por Gabriel desta vez. — Segundo prato — disse o velho taifeiro. — Há bolo de carne e rins — anunciou Gabriel com orgulho, colocando o prato no centro da mesa. — Feito da casca dos pãezinhos. Pensei que meu braço cairia de bater. — E aqui está o assado! — Stubb baixou sua oferenda à mesa, um pernil bem dourado que cheirava e parecia saboroso. Pequenas azeitonas e brancas rodelas de queijo de leite de cabra rodeavam a carne. — Obrigado, cavalheiros — Joss arrancou a faca do assado, e um fio de sucos ricos fluiu. A conversa foi suspensa, por decreto unânime. Generosas porções de carne e bolo, junto com segundas e terceiras xícaras de Madeira, fizeram muito para melhorar o estado de ânimo geral. Aparentemente, tomado pela nostalgia das festas, Wiggins tagarelava sem cessar sobre seus filhos. Durante um monólogo especialmente estúpido da pouca afinidade do senhor Wiggins por seu mestre escola, Brackett afastou-se da mesa e se desculpou para retomar seu posto no convés. Gray se serviu de mais assado, aproveitando a oportunidade para deslizar uma fatia extra no prato da senhorita Turner. Ela o olhou, sua expressão uma mistura de surpresa e recriminação. E esta foi sua recompensa por sua generosidade. Ele encolheu os ombros a modo de desculpa, então pegou novamente seu garfo e faca e se ocupou de sua própria comida. Sentiu que ela o olhava fixamente. Isso foi tudo. Se ela tinha o direito de olhá-lo, maldição, ele também a olharia. E se esta governanta ia repreendê-lo com uma acusação incorrigível... Bom, então, Gray se comportaria mal. Deixando os talheres caírem na porcelana, ele cerrou os punhos e os golpeou a cada lado de seu prato. — Você diz que sente falta de sua família, senhorita Turner? Tenho minhas dúvidas. O olhar dela foi frio. — Sério? — Você me disse em Gravesend que não tinha a quem recorrer. — Eu falei a verdade. — elevou o queixo. — Estive sentindo saudades de minha 110


família desde muito antes de sair da Inglaterra. — Então, eles estão mortos? Ela brincou com o garfo. — Alguns. — Mas não todos? Ele se inclinou na direção dela e falou em voz baixa, embora qualquer um que quisesse ouvir poderia. — Que tipo de familiares permite uma jovem atravessar um oceano sem acompanhante, para trabalhar como governanta em uma plantação? Pensaria que você estaria feliz em livrar-se deles. Ela piscou. Ele pegou o garfo e espetou em um pedaço de carne. Sua voz era um murmúrio baixo, ele dirigiu a pergunta seguinte a seu prato. — Ou talvez eles estejam felizes de livrar-se de você? Algo esmagou seu pé debaixo da mesa. Uma bota de bico fino de salto alto. Então, tão rapidamente, a pressão diminuiu. Mas o pé dela permaneceu sobre o dele. O gesto era irritante, e de alguma forma descontroladamente erótico. Ele encontrou seu olhar, e desta vez não encontrou frieza, nenhuma recriminação. Em vez disso, seus olhos estavam arregalados, implorando. Eles chamaram algo dentro dele que ele não sabia que estava lá. "Por favor", modulou ela. Não. Ela mordeu o lábio, e sentiu-o como um puxão visceral. E essa parte nova dele se esticou e doeu. E nesse instante, Gray teria jurado que eram as únicas duas almas no aposento. No mundo. Até que Wiggins falou novamente, maldito homem. — Que estranho você deve achar senhorita Turner — disse o segundo oficial, — celebrar as festas neste clima tropical. Não é um típico natal inglês, não é? Sophia limpou a garganta. — Não, de fato. — Deus abençoe o Sr. Wiggins. Ela livrou-se do olhar enigmático do senhor Grayson e pegou seu Madeira. Recusando a responder mais perguntas de qualquer tipo, passou o ônus da conversa como um prato quente. — Será que você concorda, Capitão Grayson? Debaixo da mesa, ela permitiu que seu pé deslizasse de volta para o chão. Isso foi um erro. No instante seguinte, a bota dele se fixou sobre a dela como uma armadilha. Sophia manteve o olhar centrado no capitão, cujas sobrancelhas negras e finas se elevaram. 111


— Temo que não saberia dizer, senhorita Turner. Todos os meus natais os passei no mar, ou em Tortola. Sophia retorceu o pé loucamente, mas foi inútil. A Hessiana do senhor Grayson havia cravado sua bota no chão da cabine. Ela lançou-lhe um olhar zangado, mas ele teve um súbito interesse nas profundezas de seu Madeira. — Sim, claro — respondeu Sophia ao capitão. — O senhor Grayson — ela disse incisivamente, na esperança de chamar a atenção do malandro — mencionou que seu pai é dono de uma plantação ali. Que cultivos disse-me que seu pai semeia, senhor Grayson? Ele se recusou a levantar o olhar. Encolhendo os ombros, depositou seu copo e começou a brincar com a unha do polegar. — Eu não disse. — Açúcar — respondeu o capitão. — Era uma plantação de açúcar, senhorita Turner, mas nosso pai morreu há vários anos. — Oh — Sophia forçou a voltar-se para o capitão, apesar de seu olhar querer permanecer no rosto do senhor Grayson, estudando as sombras que piscavam lá. — Eu sinto muito em ouvir isso. — Sério? — As palavras foram um murmúrio baixo, casual. Tão fraco, que Sophia se perguntou se ela as havia imaginado. Ela olhou ao redor da mesa. Se alguém ouviu o comentário, não deu nenhum sinal. Seu pé deixou de lutar sob o peso da bota, e aliviou a pressão. O contato manteve-se. — Quem administra a propriedade agora? — Ela empurrou uma azeitona ao redor de seu prato. — Tem um irmão mais velho, ou um administrador? Os dois irmãos trocaram um olhar estranho. — A terra já não está na família — disse o capitão Grayson laconicamente. — Ela foi vendida. — Oh. Isso deve ter sido uma decisão difícil, vender sua casa de infância. O capitão Grayson descansou um cotovelo sobre a mesa. — Uma vez mais, senhorita Turner, eu não saberia dizer. Foi... Gray? — Foi o quê? — o senhor Grayson claramente desejava evitar a pergunta. Sophia sabia que ele estava prestando atenção à conversa, e ela estremeceu desconfortável quando a perna dele se esticou, esmagando seus dedos uma vez mais. — Pudim! — com seu habitual floreio, Stubb atravessou a porta da cabine e adicionou o prato à mesa. Quando destampou o pudim em forma de cúpula, os aromas de figos, especiarias e aguardente misturada com o conforto familiar de melado com cheiro de vapor. Um milagre de Natal, de fato. A boca de Sophia se 112


encheu de água. — A dama fez uma pergunta, Gray — o capitão se inclinou para frente, ignorando tanto Stubb quanto o pudim. Sua voz assumiu um tom de aço. — Foi uma decisão difícil, vender nossa casa de infância? Eu disse a ela que não poderia dizer, pois não estava envolvido nessa decisão. Portanto, a questão corresponde a você. Foi difícil? O senhor Grayson apertou a mandíbula. Entrecerrou os olhos quando olhou para seu irmão. — Não. Não foi difícil, nem um pouco. Era a única via rentável. A boca do capitão se curvou em um sorriso sem humor, e se endireitou em sua cadeira. — Aí está sua resposta, senhorita Turner. As decisões nunca dão trégua a meu irmão, sempre e quando a via rentável seja clara. Ele tem sua consciência em sua conta bancária. O olhar de Sophia foi rapidamente de um irmão a outro. Os homens lutavam em silêncio, uma batalha de olhares pétreos e mandíbulas firmes e punhos apertados. Então a postura do senhor Grayson de repente relaxou, e, como Sophia o viu fazer em várias ocasiões, tomou a vantagem com um sorriso malandro. O encanto era sempre sua arma preferida. — Por isso é que Gray nunca se casou — o senhor Wiggins lançou uma risada fácil. Inclinou-se sobre a mesa para cortar o pudim, dissipando a tensão entre os irmãos. — Um homem rico pode manter sua consciência em um cofre, mas nós os pobres temos que nos casar com a nossa. O senhor Grayson fez uma demonstração de um sorriso com a piada. Mas seu sorriso era fraco, e por um momento Sophia viu o que nunca havia notado antes, nessas dúzias de ocasiões. Custava-lhe alguma coisa, aquele sorriso maroto. Atrás dele, parecia cansado... A empatia se apoderou dela antes que pudesse afastá-la. Ela havia passado muitas noites em muitos salões de baile, lutando sob o peso da leveza fingida. Enganando todo mundo, exceto a si mesma. Ele levantou a vista repentinamente e a surpreendeu olhando-o. Sophia corou, sentindo como se tivesse interrompido seu banho. E esse pensamento a fez ruborizar-se ainda mais. O senhor Wiggins a resgatou de novo. — Sem minha esposa, eu não saberia o que fazer comigo mesmo. Nem sequer posso decidir que cor de colete pedir ao alfaiate — dirigiu a Sophia um olhar lúdico, 113


seus olhos alegres com o vinho. — Diga-me, senhorita Turner, como é que decisões vêm naturalmente para o sexo frágil? Sophia sorriu. — Para você, senhor Wiggins, a escolha é clara. Com sua cor escura, um colete cor marfim definitivamente cairia melhor. O homem sorriu, atacando seu pudim. Um filete de molho de brandy escorreu na lapela. Amaldiçoando, ele limpou-o com a manga. — Mas claro, no marfim se notam as manchas mais claramente — ela olhou para seu prato, testando a textura do pudim com o garfo. — Você vê, senhor, para alguns de nós, para quem as decisões não são umas provas... Viver com essas escolhas... Agora, essa é a nossa carga — ela lançou ao Sr. Grayson um olhar cauteloso. A bota dele liberou a dela, e Sophia se sentiu estranhamente desprovida. Ela moveu os dedos dos pés dentro da meia. Depois de todo esse tempo, preocupava-lhe que não pudesse recuperar a sensibilidade. Ela não precisava ter se preocupado. Porque o senhor Grayson não retirou seu pé. Ele apenas mudou-se para o chão, para descansar ao lado dela. E então ele estendeu a perna e deslizou o pé para frente, de modo que a ponta da bota a acariciou dos pés ao calcanhar. Oh, sim. Sua sensibilidade estava intacta. E não só nos dedos de seus pés. Um quente formigamento se estendeu como uma chama ao longo de seu corpo e seu coração começou a ricochetear em seu peito. Sophia se congelou, o garfo suspenso no ar. Ficou olhando o prato, temerosa de que ele tivesse visto o carmesim tingindo suas faces. Então tocou o tornozelo dela. Seu coração subiu à garganta. E antes que ela soubesse o que estava acontecendo, o quente peso da panturrilha dele estava curvada ao redor da sua, sua perna entrelaçada com a dela em um íntimo abraço. A postura imediatamente a fez recordar sua luta com o tubarão: botas atadas, os corpos entrelaçados, peitos ofegando com a excitação do escapamento. Oh, e agora Sophia estava ruborizada por toda parte. Seus lábios, seus mamilos, a fenda entre suas pernas... Sentia cada parte rosada de seu corpo ardendo e tornandose de um vermelho profundo. — Há algo errado com seu pudim, senhorita Turner? Maldito seja o encanto arrogante em sua voz. Maldito seja seu corpo por responder. Ela fechou os olhos, em seguida, abriu-os. 114


— Não. Uma provocação, ele era um provocador. Ele a rejeitou uma vez antes, ela seria uma tola se se jogasse nele outra vez. Deveria tirar sua perna, disse Sophia a si mesma. Chutá-lo na canela; cravar o garfo em sua coxa como se fosse um pedaço do assado de cabra. Mas ela não queria fazer nenhuma dessas coisas. Queria sentar-se assim durante horas, permitindo a sua forte perna apoiar-se na dela. Sentir-se viva e excitada e desejada... E nem tão sozinha. E além deste jantar, desta noite, deste abraço secreto... Sophia queria mais. Ela queria estar tão perto dele o quanto humanamente fosse possível. Ela o desejava. Esta noite era sua oportunidade, e desta vez ela não estava assustada ou insegura ou bêbada pelo rum. Desta vez, ela não o deixaria escapar. Era fácil tomar a decisão. Viver com ela seria outro assunto. — Não — ela repetiu corajosamente, olhando para cima. Já não se importando se ele a visse corar ou notasse sua respiração irregular ou escutasse seu pulso acelerado descontroladamente. Seus olhos lançaram um desafio, e ela o enfrentou sem pestanejar, trocando com ele sorriso por sorriso — Tudo é totalmente de meu agrado.

Capítulo 12

— Que diabos foi isso? — Joss virou para ele no momento em que Gabriel limpava o último prato de porcelana. — Que diabos foi o quê? — Gray puxou um frasco do bolso e ofereceu-o a seu irmão. Joss negou com um gesto da mão. — Você sabe muito bem o que quero dizer. Algo está acontecendo entre você e a senhorita Turner, eu sei. Gray abriu o frasco e tomou um gole. — O que o faz dizer isso?-Ele circundou a mesa, discretamente examinando o ângulo da toalha da perspectiva da cadeira do capitão. Joss certamente não poderia ter visto o que havia acontecido debaixo da mesa. Mesmo que seu irmão tivesse notado, ele poderia exigir todas as respostas que quisesse. Gray não tinha nenhum desejo ou palavras para explicá-lo. Pela primeira vez desde que deixou a Inglaterra, Gray deu graças ao couro fino e prático dessas Hessianas de dândi. O toque leve da perna bem torneada dela contra a 115


sua... Ela aceitou seu contato tão facilmente, ruborizando-se tão atraentemente. Por debaixo da mesa, eles formaram uma espécie de aliança. E então ela fez esse claro convite verbal. Se ele fosse à cabine dela agora, ela estaria esperando-o. Pelo menos, ele poderia resolver o mistério do que se ocultava sob o maldito vestido listrado. Ou... simplesmente poderia arrancá-lo do seu corpo. Gray afastou de si essa imagem antes que sua virilha reagisse. Joss fez sua parte para proporcionar distração. — Como é que ela sabia sobre a plantação? — Eu disse a ela em Gravesend, antes mesmo de zarpar. No minuto em que ela mencionou Waltham. Eles olharam um para o outro. — E sobre esse assunto-continuou Gray. — O que diabos foi aquilo? Interrogando-me sobre a venda da terra? — A senhorita Turner puxou o assunto. — Você continuou. Por que esse ressentimento agora, Joss? Já passaram quase oito anos, e até M... — Gray cortou o final da frase. Joss não precisava de outra lembrança da morte de sua esposa. — Até recentemente, você nunca se queixou. Na época, você me disse que entendia. — Na época, eu tinha dezenove anos. — E eu tinha vinte e três. Não era precisamente um homem do mundo. Eu fiz o meu melhor. Eu fiz o meu melhor desde então. E se meu melhor esforço não está à altura de suas expectativas, não sei o que dizer. Exceto não me surpreende. — Não se faça de mártir comigo. Você é o único que não pode cumprir sua palavra. E falando de sua palavra e seu duvidoso valor, não mude de assunto. Vi os olhares que você e a senhorita Turner trocavam. A dama fica vermelha brilhante cada vez que você fala com ela. Pelo amor de Deus, você põe comida em seu prato sem ao menos perguntar. — E qual é o delito nisso? — Gray estava genuinamente curioso para ouvir a resposta. Ele não havia esquecido o olhar chocado que ela lhe lançou. — Vamos, Gray. Você sabe muito bem que uma pessoa não toma semelhantes liberdades com uma mera conhecida. Isso é... Isso é íntimo. Os dois são íntimos. Não o negue. — Claro que nego. Não é verdade. — Gray tomou outro gole de seu frasco e enxugou sua boca com o dorso da mão. — Maldição, Joss. Cedo ou tarde, você tem 116


que confiar em mim. Eu dei minha palavra. Cumpri-a. E era verdade, Gray disse a si mesmo. Sim, ele a havia tocado essa noite, mas ele nunca prometeu não tocá-la. Ele manteve sua palavra. Ele não foi para a cama com ela. Ele não a beijou. Deus, o que ele não daria apenas para beijá-la... Gray esfregou as palmas das mãos contra seu peito. Aquela mesma dor ficou ali... o mesmo puxão forte que havia sentido quando ela plantou o pé no chão e franziu os lábios em um apelo silencioso. Por favor, ela disse. Não. Como se ela apelasse para sua consciência. Sua consciência. De onde podia a garota ter tirado essa ideia, de que ele tinha consciência? Certamente não do modo em que ele a tratava. Uma risada amarga retumbou em seu peito, e Joss lançou-lhe um olhar cético. — Acredite em mim, eu quase não falei com a garota nas últimas semanas. Não faz ideia do longe que cheguei para evitá-la. E não é fácil, porque ela não fica confinada em sua cabine, certo? Não, ela tem que andar dando voltas por todo o navio, flertando com a tripulação, deixando seus desenhos em cada canto do navio, tomando chá com o Gabriel na cozinha. Não posso evitar vê-la. E posso ver que está malditamente magra. Ela precisa comer e eu colocar comida no prato. Não há nada mais do que isso. Joss não disse nada, apenas olhou-o como se ele tivesse uma segunda cabeça. — Droga, e agora? Você não acredita em mim? — Acredito no que está dizendo — disse seu irmão lentamente. — Só que não posso acreditar no que estou ouvindo. Gray cruzou os braços e se recostou contra a parede. — E o que é que você está ouvindo? — Perguntava-me por que você esteve fazendo tudo isto... o jantar. Agora sei. — Você sabe o quê? — Gray estava exasperado. Acima de tudo, porque ele não sabia. — Você se importa com esta garota. Joss inclinou a cabeça. — Você se importa com ela. Não é? — Importar-me com ela? A expressão de Joss era petulante. — Não é? A ideia era muito absurda para considerá-la, mas Gray disse em uma inspiração: — Digamos que me preocupo com ela. Liberar-me-ia você dessa promessa? Se minha resposta fosse sim, posso ir atrás dela? Joss balançou a cabeça. 117


— Se a resposta for sim, você pode e deve esperar mais uma semana. Não é como se ela fosse desaparecer no momento em que chegarmos ao porto. Se a resposta for sim, você vai concordar que ela merece isso. Engano, Gray pensou afundando em uma cadeira. Independentemente da resposta, ele sabia que ela merecia mais. Droga, ele nem mesmo poderia apreciar a fantasia de destruir aquele vestido listrado. Porque ele sabia que ela tinha apenas um outro para vestir, e ele estaria muito preocupado a respeito se ela teria agulha e fio para costurá-lo. Porque o desenho talvez nunca ficasse direito novamente, as listas desapareceriam e o efeito tornaria um pouco menos encantado que antes. Porque ele teria tomado algo dela, destruído algo bonito e perfeito... e nunca mais ela o olharia com aqueles olhos claros e confiantes que puxavam seu coração. Por favor. Não. Gray golpeou a coxa. Era por isso que quando ele se interessava por uma mulher, perseguia-a, saboreava-a e seguia adiante. A familiaridade arruinava tudo. Agitado, afundou um dedo sob a gola de sua roupa e a afrouxou. — Importar-me com ela — murmurou. — Como poderia isso ser possível? Mal estive perto da mulher em semanas. — Não sei como pode ser possível, mas parece que é. De fato, penso que está meio apaixonado por ela. Mais que meio, talvez. Levantando-se da cadeira, Gray se endireitou em toda sua altura. — Espere. Estou meio louco de luxúria, concedo-lhe isso. Mais que meio, talvez. Mas certamente não estou apaixonado por essa garota. Não esqueça com quem está falando, Joss. Eu tenho minha consciência em uma conta bancária, recorda? Nem sequer sei como é o amor. Joss fez uma pausa. — Eu sei como é o amor. Usando toda essa mercadoria portuguesa em uma refeição, matando uma cabra valiosa, tirando toda essa porcelana do porão de carga... se quebrar um prato, perde a metade do valor do jogo. Servindo comida no prato de uma dama. — encolheu os ombros. — O amor é algo parecido com isso. Gray passou as mãos pelos cabelos, sacudindo a ideia lunática antes que pudesse se enraizar em seu cérebro. — Eu estou dizendo, não estou apaixonado. Só estou malditamente entediado. Não tenho nada mais para fazer nesta viagem que planejar jantares. E vai ficar pior. Não há possibilidade de quebrar um prato esta noite. 118


— Assinalou com seu queixo a lanterna que pendurado num gancho, que em uma noite normal estaria balançando junto com as ondas, estava parado. — Se não notou, estamos com o mar em calmaria. — Eu notei. — Joss fez uma careta e apontou o frasco. Gray estendeu para ele. — É algo bom que tenhamos dado aos homens uma boa comida e grog esta noite. A calmaria nunca é boa para a moral da tripulação. — Tampouco é boa para a moral dos investidores. — Gray massageou suas têmporas. — Vamos esperar que não dure. A calmaria perdurou por dias. Por todo o dia de Natal e todo Boxing Day14 também. O ócio que começou como umas férias bem-vindas se tornaram um sofrimento para todos a bordo do Afrodite. Pela terceira manhã. Por volta da terceira manhã, os mesmos homens que haviam passado o Natal cantando e brincando, estavam incomodando um ao outro e reclamando em voz baixa antes de cada ordem. Sem vento, havia pouco o que eles pudessem fazer mais que reparar os arranjos e raspar as correntes. O equivalente masculino do trabalho de costura, refletiu Sophia, olhando o pino longo que os marinheiros usavam para juntar as linhas. A tripulação tinha sua simpatia. Ela sempre detestou o trabalho de costura. O céu estava sem nuvens, o ar estava apático, os homens estavam inquietos. E acima de tudo, era quente. Mais quente do que Sophia podia ter sonhado. O ar tropical a umedecia como uma grossa manta de lã. Sem brisa, a cabina se tornou em um forno. Sophia não tinha intenção de permanecer lá dentro. Os homens usaram uma vela velha para fazer um toldo, e ela se sentou em numa caixa debaixo dele. Vendo como se movia a sombra do mastro sobre o convés. Sentada absoluta e perfeitamente imóvel. O senhor Grayson, pelo contrário, estava em constante movimento. Vagava entre o porão e o convés, da proa a popa, parecia ser o homem mais inquieto a bordo. Sophia não sabia o que esperar, após sua troca furtiva debaixo da mesa. Ela havia permanecido acordada a metade da noite, contando os sinos que marcavam a meia hora. A princípio, uma excitação sensual ecoou através dela com cada agudo repique. Com o correr das horas, os zumbidos se transformaram em uma dolorosa inquietação. Então, enquanto a noite dava lugar à manhã, reinou um vazio de decepção. Homem caprichoso e zombador. Por que não veio? Certamente ele não podia ter desejado um convite mais claro. Mas ele não apareceu. Na manhã seguinte, também não. No momento em que 14

Boxing Day é o termo utilizado em numerosos países anglófonos (de língua germânica ocidental) para descrever o dia seguinte ao dia de Natal,geralmente, 26 de dezembro.

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finalmente cruzou com ele na tarde seguinte, ela sussurrou "Feliz Natal" foi todo o intercâmbio que houve. Parecia que eles haviam retornado ao silêncio. Eu não quero você. Ela tentou ignorar as palavras ecoando em sua memória. Elas não eram verdadeiras, disse a si mesma. Ela era um especialista em enganos; reconhecia uma mentira quando a escutava. Entretanto. Que mais podia acreditar quando ele a evitava tanto? Apesar que raramente o senhor Grayson falou com ela nos dois dias seguintes, Sophia, com frequência o escutou falar casualmente sobre ela. Ainda esses comentários eram meras ordens "Procurem mais água para a senhorita Turner", ou "Vejam que não se afrouxe seu toldo". Sentia-se cuidada, não muito diferente de como fariam com uma cabra. Alimentada, regada, abrigada. Talvez ela não devesse reclamar. Alimento, água e abrigo todas as coisas eram bem-vindas. Mas Sophia não era parte de um rebanho, e tinha outras necessidades mais profundas. Necessidades que ele parecia negligenciar, homem irritante. Em seu terceiro dia de calmaria, o capitão Grayson ordenou à tripulação baixar o bote. A ordem foi recebida por fortes queixa e maldições entre os marinheiros. — O que é isso? — Perguntou Sophia enquanto O'Shea passava dando fortes pisadas. — O capitão nos mandando sair no escaler e rebocar o navio. Ele espera que se nos movermos, encontraremos um pouco de vento. Mas remar com este calor? — O enorme irlandês entrecerrou os olhos e enxugou a testa com o antebraço. — Vai ser uma merda. O'Shea saiu sem sequer se desculpar por sua linguagem. Sophia não podia culpá-lo. Para ela seria uma maldição, também, se tivesse que realizar um trabalho físico duro sob este sol escaldante. Os homens fizeram três turnos, cada um com um oficial e quatro homens no escaler, remando com todas as suas forças durante uma hora para fazer algum progresso evidente. Sophia olhou-os com compaixão, mas também com fascinação. Enquanto estavam no escaler, os homens tiraram suas camisas, e ela aproveitou a oportunidade para fazer discretos esboços. Mesmo à distância, ela podia ver claramente os músculos, as suas cicatrizes e as exóticas tatuagens. Estes homens estavam muito longe de parecer as estátuas gregas que a ensinaram a copiar. Eram imperfeitos, suarentos, esforçados e, acima de tudo, reais. Mas logo o calor empapou sua diversão, quando o lápis deslizou de sua mão 120


suada e rolou para longe. Dane-se. Não podia incomodar-se em persegui-lo. Depois disso, uma hora discorreu em outra. Os homens continuaram com seus turnos, um grupo remando, outro revisando os arranjos, o terceiro descansando. O senhor Grayson tinha desaparecido sob o convés. Linnet Davy passou a seu lado e Sophia cumprimentou-o. — Boa tarde, Davy — disse ela sorrindo. Desde que cruzaram o Trópico ela fez um esforço extra em favor de Davy na frente de seus colegas de tripulação. Mesmo com este calor sufocante, a coragem tinha sua recompensa merecida. — Boa tarde, senhorita Turner — Davy inclinou a cabeça para esconder um sorriso tímido. — Você parece muito bem Davy. Eu aposto que você ganhou uma pedra15 desde que deixamos a Inglaterra. Não serão capazes de chamá-lo de "garoto" por muito mais tempo — ela inclinou sua cabeça de um modo coquete. — Já está no castelo de proa? Ele balançou a cabeça e coçou a nuca. — Ainda tenho muito que aprender, senhorita. Eu vou chegar lá em breve. — Estou segura que sim — Sophia sorriu novamente, e o rapaz ruborizou-se. Ela sabia o quanto ele desejava ser admitido no castelo de proa, onde os marinheiros dormiam. Ele esteve dormindo no terceiro piso desde que a viagem começou, e lá permaneceria até que provasse, tanto na capacidade quanto no caráter. — Homem no alto para emendar o elevador do joanete de proa! Em torno do mastro, Quinn resmungou e começou a se mover em direção aos ratlines16. — Eu vou. — Davy desviou na frente do marinheiro, fazendo-o perder o equilíbrio. Quinn apertou os dentes, mas os insultos saíram livremente entre ofegos. — Fora de meu caminho, garoto, ou vou jogá-lo aos tubarões. — Eu disse que vou fazer. — Davy estendeu uma mão. — Empreste seu passador. Quinn lançou-lhe um olhar cético. — Este é um trabalho de marinheiro, garoto. Você já emendou algum cabo antes? 15

Uma pedra (one Stone) é uma unidade de peso que equivale a 6,35kg (Naut.) ratlines — As cordas pequenas transversal ligada as mortalhas e formando os degraus de uma escada de corda.

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— Tenho praticado no convés. O homem mais velho pigarreou e empurrou o moço para um lado. Com um olhar na direção de Sophia, Davy ficou na frente dele novamente. Ele ficou irredutível, mesmo quando Quinn inflou o peito e se elevou em sua altura completa, uma cabeça inteira mais alto que o jovem. — Deixe-me fazer isso — insistiu Davy. — Como posso aprender se não me dão a oportunidade de tentar? Quinn se deteve, olhando fixamente para o mastro. Então ele enxugou a testa e olhou para o garoto. — Se você quiser subir lá em cima com este calor, não o deterei — desatou o passador de seu cinto e golpeou a agulha na palma estendida de Davy. — Não o arruíne ou o estripo. Com essas palavras de encorajamento, Davy saltou para o cordame. Ela assistiu sua ascensão por um tempo, e então ele saiu de seu campo de visão, atrás do toldo. Decidiu que sua lealdade para com Davy não chegava a tanto como para murchar-se no sol tropical enquanto ele reparava uma parte da corda. Conservaria sua energia para parabenizá-lo uma vez que ele tivesse terminado. Ela aguardou, com o queixo apoiado em suas mãos. Suas pálpebras ficaram pesadas. Ela estava dormindo... dormindo... Zás. O ruído agudo sobressaltou seu sono. — Hey Aí! Desça aqui, menino! — ela reconheceu o duro grunhido do senhor Brackett. Sophia se retorceu debaixo de seu toldo. A tripulação estava reunida ao redor do mastro, observando em um silêncio ameaçador enquanto Davy descia lentamente a ratlines. No meio do grupo reunido estava o senhor Brackett, com as mãos plantadas nos quadris e as pernas abertas em atitude de iminente ameaça. — Atenção todos! Sacudiu-se, tentando dissipar a névoa sonolenta de seu cérebro. O que poderia ter feito Davy que merecesse semelhante assembleia, que se parecia em muito a um julgamento a bordo, com o senhor Brackett como juiz e verdugo em uma mesma pessoa? Então ela viu, sobressaindo-se do convés como um dardo gigante: o passador conduzido direto para as pranchas. Esse deve ter sido o forte "zás" que ouviu. Davy o havia deixado cair do mastaréu do joanete. 122


Se tivesse golpeado um homem... Apesar do calor, Sophia sentiu um calafrio. Foi um milagre que ninguém no convés tivesse saído machucado. Ela poderia ter contado suas bênçãos muito cedo. Quando Davy finalmente alcançou o convés, a expressão do senhor Brackett era mortalmente calma. Caminhou para a ofensiva barra de ferro, plantou uma bota no convés, pegou o passador com ambas as mãos e o liberou de um forte puxão. Ele brandiu-o na frente de Davy, golpeando a ponta no centro do peito do rapaz. — Descuidado, Linnet. Muito desleixado. O moço ficou ereto, mas Sophia notou que o joelho esquerdo começava a tremer. — Desculpe, senhor. Minha mão estava suada. Apenas escorregou. Não vai acontecer novamente, senhor, — sua voz se quebrou enquanto falava. — Eu gostaria de acreditar nisso, Linnet. Mas acho que é melhor eu te ensinar uma lição. Só para ter certeza. Ensinar-lhe uma lição? O que o homem queria dizer? Sophia examinou o convés. O capitão estava no escaler. O senhor Wiggins estava presumivelmente sob o convés, descansando. No momento, o navio estava sob o comando do senhor Brackett. E Sophia podia predizer que ele não permitiria que os homens o esquecessem. O ar e a água estavam tão calmas, tão quietos, que cada palavra fazia eco no convés, como se fosse um cenário. E Brackett definitivamente tinha um ar teatral. Andou em círculos, rodeando os homens, passando seu olhar de falcão de um marinheiro a outro, deixando que suas botas soassem ameaçadoramente a cada passo lento. Tinha a sua audiência extasiada. — Esta tripulação é um bando de cães mais indolente que vi. Estive ansiando em dar-lhes uma lição de verdadeira disciplina. — Brackett se voltou para Davy. — Realmente quer ser um marinheiro, garoto? — Você acha que pode ser? Davy assentiu uma vez com a cabeça. — Bem, você não pode lidar com um passador, certo? Mas talvez possa lidar com o gosto do chicote. Sophia saltou para frente. — Não! O senhor Brackett virou-se para ela. — Senhorita Turner, este não é um espetáculo apropriado para damas. Deve retornar a sua cabina. — Não. Você não pode fazer isso. Eu não vou permitir isso. 123


No momento em que as palavras escaparam de sua boca, Sophia soube que havia cometido um engano. Se Davy tinha qualquer esperança de clemência, ela havia acabado de arruinar isso. Os olhos negros de Brackett a imobilizaram, tão escuros e inflexíveis como a obsidiana. Ele nunca iria recuar agora. Poupar Davy por causa de seu pedido equivaleria a ceder autoridade na frente de sua tripulação. Impensável. — Desculpe-me por ofender sua gentil sensibilidade, senhorita Turner. A justiça pode ser um assunto desagradável. Agora, aconselho que vá para sua cabina. — Vá, senhorita Turner — disse Davy. — Já tive minha cota de castigos. Não é nada que não tenha sentido antes. E é claro que ele não queria que ela visse, garoto corajoso.Ela lançou-lhe um olhar de desculpa. Em seguida, firmou o queixo e falou com Brackett. — Obrigada, eu vou ficar. Se você pode executar essa atrocidade, pode realizála na minha frente — talvez o homem fosse mais suave com Davy estando ela ali. Ou talvez ela pudesse desmaiar no momento oportuno e pôr fim a tudo isto. — Como quiser. — Brackett girou sobre os calcanhares, balançando o passador ao redor como se fosse à agulha de uma bússola, escolhendo finalmente Quinn como seu verdadeiro norte. — Você, aí. Pendure Linnet no penol. Surdas maldições se elevaram da tripulação reunida. Quinn acomodou seu peso incomodamente. Brackett girou novamente, fazendo outro arco ameaçador com o passador, e perdendo seu chapéu no processo. Os homens ficaram atrás em silêncio. O suor se tornou frio no pescoço da Sophia. — Remove sua camisa, Linnet. — quando o garoto simplesmente ficou quieto, Brackett enganchou a ponta do passador na gola da camisa de Davy e puxou dele, rasgando a áspera túnica do pescoço até a cintura. Então estendeu a mão livre para rasgar a camisa do torso do garoto, expondo assim um peito pálido e suave. Brackett apoiou o passador sobre seu ombro como se fosse uma pistola de duelo e virou-se para Quinn. — Pendure-o. Quinn não se moveu. Plantado em uma firme postura, os braços cruzados sobre seu peito, era tão alto como uma montanha de músculos. E recebeu a ordem de Brackett com total indiferença de uma pedra na montanha que acabava de ordenar que saltasse. Obrigue-me, dizia seu olhar. Eu gostaria de vêlo tentar. 124


Sophia queria acreditar que o homem sentia alguma lealdade por Davy, mas suspeitava que o calor era um fator importante no desafio. Se Quinn não queria subir ao mastro dez minutos atrás, dificilmente se entusiasmaria com a ideia de levantar o garoto agora. O senhor Brackett não parecia zangado pela muda negativa de Quinn. Em vez disso, Sophia achou que ele parecia muito satisfeito. Seu rosto se iluminou com um sorriso petulante e espectador. — Desobedece a uma ordem direta então, Quinn? Quinn não se moveu. — Insubordinação — disse Brackett, rodeando lentamente Quinn, — é uma séria infração. Aconselho que reconsidere. Direi somente mais uma vez, Quinn. — Brackett particularizou cada sílaba com um empurrão no peito do marinheiro. — Pen-du-re-o. Quinn ignorou os empurrões, como um cavalo que sacode de seu flanco para espantar uma mosca. Brackett o olhou com desdém, o suor escorrendo da testa. Seu cabelo negro estava empapado de suor, agarrado a sua cabeça como as plumas de um corvo. Se era o calor, o poder de comando, ou ambos, esta cena desatou algo escuro no homem. Algo aterrorizante. Seus olhos estavam selvagens, e ele empunhava o passador como um dos torturadores do diabo. — Eu ia fazer um exemplo do menino aqui, mas agora penso que você — empurrou novamente Quinn, — será de longe um melhor exemplo. Com ágil e repentina fúria, Brackett balançou o pesado passador de ferro e golpeou Quinn na parte de trás dos joelhos. As pernas do homem cederam, e ele caiu no convés com um ruído surdo. Sophia sufocou um grito com a palma de sua mão. Quinn grunhiu e ficou de joelhos. Brackett girou o passador na mão e martelouo entre as omoplatas com a extremidade sem corte, tombando-o de cara para o convés. Antes que o marinheiro pudesse se recuperar do golpe, Brackett tinha sua bota plantada no pescoço do homem, segurando-o para baixo. A tripulação reunida ficou imóvel, os homens olhando-se agitadamente uns para os outros. Sophia entendia sua indecisão. Ainda se seu capitão tolerasse semelhante violência, e Sophia estava segura que não — ultrapassar Brackett seria amotinar-se. Quinn lutou por levantar-se. Brackett esmagou seu calcanhar no pescoço do homem, sufocando todos os protestos. Sophia olhou para a proa do navio. Era impossível ver o escaler dali. Se ela pudesse fazer algum tipo de sinal... ou chamar o 125


capitão.Se tão somente pudesse fazer algum tipo de sinal... ou chamar o capitão. — Traga-me o chicote — ordenou Brackett, apontando com o passador para Davy. — E rápido, ou duplicarei os golpes. Sophia não esperou a resposta de Davy. Ela girou nos calcanhares e se lançou para as escadas sob o convés, passando correndo pela cabina das damas e entrando no porão. — Senhor Grayson! — Ela passou sobre os barris revoltos. Ele faria que tudo ficasse bem, sabia. Precisava fazer. — Senhor Grayson! Gray! Uma mão enganchou seu cotovelo. — Veio a mim, afinal, não é? Estava um calor sufocante no compartimento, e Sophia estava alterada. Ao som de sua sonolenta voz de barítono e o confortável calor de sua mão na pele, quase se derreteu. Ele se recostou sobre os barris empilhados, esfregando o sono de seus olhos com sua manga. — O que é, doçura? — Venha rápido — disse Sophia, afastando sua mão do cotovelo e arrastando-o para a escada. Ante o tremor desesperado de sua voz, ele ficou sério. Sophia puxou seu braço, mas ele não se moveu. — O que acontece? — Repetiu Gray, seus olhos procurando os dela. — É Davy. E Quinn... Ele vai açoitá-los. — Quem? — O senhor Brackett. Murmurando uma maldição, ele se soltou de seu agarre e passou a seu lado, atravessando as cabinas das damas e subindo a escada de três degraus por vez. Sophia correu atrás dele. — Que diabos está acontecendo aqui? — Exigiu saber o senhor Grayson. A cena se assemelhava muito como a que Sophia deixou. Era possível que apenas um minuto tivesse passado? Brackett ainda mantinha Quinn sob sua bota, apontando o passador. A seu redor, a tripulação estava parada em semicírculo, o suor escorrendo de suas sobrancelhas sob o sol do meio-dia. Ao ver o senhor Grayson, todos se relaxaram visivelmente. O único que faltava era Davy. — Ah, senhor Grayson. Boa tarde — saudou o senhor Brackett calmamente, seus olhos duros como pedras. — Onde está o garoto? — Enviei-o para procurar o chicote. Este — pôs seu peso sobre a nuca de Quinn, — precisa aprender quem são seus superiores. 126


— Não há nenhum chicote neste navio, Brackett. Eu não permito açoites. Nunca foi permitido. Brackett sorriu com suficiência. — Não é estranho então que sua tripulação seja tão desprezível. Estão atrasados em sua cota de disciplina. E se você não tem chicote... bem, eu tenho certeza que podemos improvisar alguma coisa. — Alô! — A chamada veio da parte da frente do navio. O escaler havia retornado. Alguns marinheiros começaram a abandonar a cena, para a proa. Olharam para o senhor Grayson pedindo permissão, e ele os despediu com um movimento de cabeça. — Esse deve ser seu capitão, Brackett. Pode retirar-se. A voz do senhor Grayson se manteve tão calma, tão autoritária; sua postura estava tão relaxada. Seu casaco e suas calças ajustadas ao acaso, em contraste com as ordenadas filas de botões do senhor Brackett, brilhantes ao sol. Estava desarmado, despenteado, sereno. Ainda assim não havia duvida na mente de ninguém sobre quem tinha vantagem. Novamente, o senhor Grayson assumiu o comando da cena sem sequer transpirar. Em troca, Sophia tremia tão violentamente que suas costelas vibravam. Sentiu um braço segurando seu cotovelo, firmando-a. Girando a cabeça, encontrou-se com Stubb parado a seu lado. — O garoto está embaixo — sussurrou. — Quando veio procurando o chicote, eu disse que permanecesse oculto. Sophia engoliu em seco e assentiu. O senhor Grayson cruzou os braços sobre seu peito. — Retire-se, Brackett. Se tiver que impor justiça, o capitão fará isso. Brackett tirou sua bota da nuca de Quinn, só para lhe dar um rápido pontapé nas costelas. O marinheiro grunhiu a seus pés, e a boca do oficial se torceu em um sorriso doente. — Sou o primeiro oficial. Eu não trabalho para o capitão. Trabalho para você. Os olhos do senhor Grayson se tornaram duros. — Já não mais. O capitão avançou pelo convés, enxugando a testa antes de colocar novamente seu chapéu. Seguiam-no quatro marinheiros, ainda sem camisa por seu trabalho no escaler. — O que está acontecendo? Ouvimos um distúrbio. — O capitão descobriu Quinn grunhindo de dor no convés e se ajoelhou a seu lado. — Bom Deus. Caiu do cordame? 127


— Não — o senhor Grayson assinalou com a cabeça para Brackett. — Capitão Grayson, você deve saber que o Sr. Brackett foi dispensado de suas funções como Primeiro Oficial do Afrodite, a partir deste momento. O modo em que disponha de sua presença neste navio durante o resto da viagem, cabe a você. Recomendo o calabouço. — Já vejo. — Joss olhou ao redor, para os marinheiros reunidos, sua expressão repentinamente séria. Ficou de pé, endireitando seus punhos. — Stubb,cuida de Quinn — se dirigiu a seus marinheiros sem camisa. — Levi, O'Shea. Mostrem ao senhor Brackett seus aposentos no porão. Gray — assinalou com a cabeça para Sophia. — Leve-a para a cabina. E mantenha-a ali. O senhor Grayson assentiu com a cabeça. Levi e O'Shea pegaram ao mal-humorado Brackett entre eles, um de cada braço, e juntos o arrastaram para o porão. Quando passavam, Sophia ofegou. As costas de Levy era uma massa retorcida de cicatrizes curada, trançadas umas sobre outras no meio, saindo em forma de ramos para seus ombros. Ela se perguntou se seriam o resultado de seu permanente silêncio, ou a causa. — Vamos, querida. Você precisa descansar. — A mão do senhor Grayson pressionou a parte baixa de suas costas. Sophia sacudiu a cabeça. Não podia afastar os olhos do horror que era as costas de Levi. Não até que ele desaparecesse sob o convés. — Pensei que havia dito que não permitia açoites. — Não os permito. Aí tem o porquê.

Capítulo 13

A senhorita Turner estava frouxa em seus braços. Gray pensou por um momento que ela havia desmaiado. Mas quando ele a olhou, encontrou apenas olhos de contornos densos devolvendo o seu olhar, nadando em confusão e lágrimas não derramadas. Ela não desmaiou absolutamente. Ela simplesmente caiu contra ele, crédula de que ele a seguraria. Atrás dele, Joss ladrava ordens à tripulação e ao senhor Wiggins, agora primeiro oficial. Os homens correram de volta a seus postos. Entretanto, os dois permaneceram ali, as costas dela plana e quente pressionando contra seu peito. Gray a envolveu com seus braços e a conduziu para a escada. Sustentando sua figura esbelta com um braço ao redor de sua cintura, conduziu à senhorita Turner pela escada e para a cabina das 128


damas. E então chegou o momento de colocá-la com cuidado em uma cadeira. Mas descobriu que não queria liberá-la. Ela encaixava tão perfeitamente contra ele, e de repente ele se permitiu sentir o quanto ele estava ansiando para fazer exatamente isso. Segurá-la perto. Abraçá-la apertado. Não deixá-la ir. Juntos, eles se encostaram ao batente da porta. Um deles estava tremendo, e Gray se preocupava que pudesse ser ele. Ela apoiou a cabeça contra seu braço. — Eu sabia que você colocaria um fim nisso. Eu tentei, mas só piorou as coisas. Mas sabia que o escutariam. Todos eles o escutam. E eu sabia que nunca permitiria que uma coisa assim continuasse. Bom Deus, pensou Gray. Aqui ele segurando uma mulher em seus braços enquanto ela achava que ele era uma espécie de... Não um santo, exatamente, mas um homem que possui um pingo de honra. E todo o tempo que ela estremecia contra o seu corpo, macio, úmido e quente, nunca suspeitando as dezenas de maneiras em que ele ansiava para desonrar os dois. Será que ela ainda permitiria que ele a segurasse desta forma, rodeada por seus braços, suas costas pressionada contra sua virilha inchada, se pudesse ler seus pensamentos? Se ela soubesse que quando inclinava a cabeça para enterrar seu rosto na manga dele, dava-lhe uma visão direta da curva de seu pescoço de alabastro, o marfim esculpido de sua clavícula, e a imagem deliciosa que atormentaria seus sonhos: o suave, com aroma de rosas, vale entre seus seios? Deus, que bastardo luxurioso ele era. Ele sentia vergonha de muitas coisas em sua vida, mas nunca antes se sentiu tão envergonhado de ser apenas um homem, uma parte desta raça de criatura brutal e violenta que davam chicotadas entre si, golpeavam garotos indefesos com passadores, e cobiçavam governantas despreparadas quando estavam transtornadas pela emoção. Esta mulher foi criada para coisas melhores, merecia coisas melhores. Melhores que este navio, esta vida. Melhor que uma criatura básica e insaciável como ele. — Você deve sentar-se. — Ele colocou as mãos em seus delicados ombros e a guiou até uma cadeira. Ela se afundou ali lentamente, dobrando as mãos sobre a mesa diante dela. Bem, e agora? É claro, não poderia deixá-la neste estado. Seus olhos estavam escuros como vãos em um rosto pálido, os lábios trêmulos. Gray passeou pela cabina. Não podia consolá-la sem machucá-la. Não podia 129


subir para o convés e arrumar os problemas da tripulação, porque não eram uma tripulação sob seu comando. Impotente. Sentia-se impotente, em mais de um sentido. Gray quase riu ao entender. Não era uma sensação que pensou que fosse experimentar, em nenhum sentido da palavra. Junto com este calor... Ficaria louco de frustração. Ele passou a mão sob a gola, em seguida, fez um punho e socou a parede. — O que vai acontecer ao senhor Brackett? — a voz dela foi sem flexão, remota. — Ele vai ficar no calabouço do navio até que atraquemos. Ela lançou-lhe um olhar vazio. — É uma prisão — explicou. — Mais como uma gaiola, realmente. No porão. — Uma gaiola? Que horror. — É por sua própria segurança, mais que nada. O que fez... não foi pior do que o que os oficiais de outros navios fazem todos os dias. Mas agora que já não é um oficial, os marinheiros poderiam ser tentados a retaliar. — Por que o destituiu de seu dever, então? Por que não deixá-lo continuar a ser um oficial até chegarmos a Tortola? — Mesmo se as ações de Brackett fossem justificadas, eu não poderia tê-lo mantido no cargo. Ele perdeu toda a autoridade com a tripulação. Minha interferência assegurou isso. — É tudo culpa minha — sua voz encolheu. — Eu sinto muito. — Não! — Ela saltou, e Gray mordeu o interior da face. Maldição. Não viu ela suficientes grosserias por hoje, sem que ele perdesse todo o senso de civilidade? Ele forçou suas emoções a recuar. — Não sinta. Você fez bem em ajudar. Fez bem em vir me buscar. Ela relaxou, e Gray retomou seu passeio pela cabina. — Que diabos Davy estava fazendo lá em cima com um passador? Isso é o que eu gostaria de saber. Isso é o dever de um marinheiro. Ela colocou a cabeça entre as mãos. — Temo que seja minha culpa, também. Estive falando com ele sobre um lugar no castelo de proa, e eu... Eu acho que ele queria me impressionar. Gray se engasgou com uma gargalhada. — Bom, é claro que sim. Você deve tomar cuidado como bate os cílios, querida. Um destes dias, é provável que você jogue um homem pela amurada. As pernas da cadeira rasparam o chão quando ela se levantou. A cor voltou ao 130


seu rosto. — Se Davy estava tentando me impressionar, é tanto sua culpa como minha. — Como é que é minha culpa? — A frustração de Gray imediatamente voltou para o estado de ebulição. Odiava-se por rosnar, mas aparentemente não conseguia parar. — Você foi quem o humilhou diante da tripulação, com todas aquelas perguntas. Você o incitou a dizer que... Bom, já sabe o que disse. — Sim, já sei o que disse — Gray deu um passo em sua direção até que apenas a mesa os separava. — Sei o que disse. E não finja que não gostou. Não finja que não utiliza os homens para alimentar sua vaidade. — Minha vaidade? O que sabe você sobre a alimentação de minha vaidade? Você nem sequer respira em minha direção. Pelo menos os marinheiros falam comigo. E se todo esse desdobramento de "Rei do Mar" não foi um longo exercício para alimentar sua própria vaidade, pois certamente não sei o que foi — ela cravou um dedo sobre a mesa e baixou a voz. — Os homens podem flertar comigo, mas eles o adoram. Você sabe. Você queria sentir. Tripudiar sobre ele. E você fez isso à custa de Davy. — Pelo menos eu só brinco com o garoto. Não sou quem está a ponto de partir seu coração. Ela piscou. — É só um capricho. Ele não está realmente apaixonado por mim. Ele bateu na mesa. — É claro que o garoto está apaixonado por você! Todos eles estão. Você fala com eles, escuta suas histórias, incluído o falatório de Wiggins, só Deus sabe o porque. Desenhou alguns esboços, fez-lhes pinturas para o Natal. Recorda-lhes tudo o que deixaram atrás, tudo o que rezam por voltar a abraçar algum dia. E você faz tudo com o aspecto de uma espécie de deusa de Botticelli, certamente a coisa mais linda que já viram. Maldição, como é que um homem pode evitar apaixonar-se por você? Silêncio. Ela o olhava fixamente. Ela piscou. Com seus lábios entreabertos, ela deu um suspiro rápido. Diga algo, Gray pediu em silêncio. Qualquer coisa. Mas ela só olhou para ele. Que diabos acabou de dizer? Realmente foi tão ruim? Franziu o cenho, revivendo o 131


minuto passado em sua mente. Oh, Deus. Gray esfregou o rosto com uma mão, em seguida, deu um puxão forte no cabelo. Foi tão ruim. Maldito inferno. Se Joss estivesse aqui, ele riria muito à suas custas. — Há...? — Fiz o que? — perguntou Gray, rapidamente dando-se chutes por fazer. Só Deus sabia o que perguntaria agora. Ou que maldita tolice, diria ele em resposta. — Você já viu um Botticelli? Uma pintura, quero dizer. Uma real, em pessoa? O fôlego que ele esteve contendo saiu como uma baforada. — Sim. — OH — ela mordeu o lábio. — Como era? — Eu... — sua mão fez um gesto inútil. — Não tenho palavras para descrevê-la. — Tente. Seus olhos eram muito claros, muito penetrantes. Ele engoliu em seco e olhou para uma mecha úmida de cabelo que se frisava em sua têmpora. — Perfeita. Luminosa. Tão linda que dói o peito. E tão suave, como de vidro. Seus dedos coçam para tocá-la. — Mas não pode. — Não — disse em voz baixa, seu olhar movendo-se de novo para encontrar o dela. — Não é permitido. — E você se importa com o que os outros permitem a você? — ela deu um passo em direção a ele, seus dedos se arrastando na mesa entalhada. — E se você estiver sozinho, e ninguém está olhando? Você a tocaria então? Gray balançou a cabeça e olhou para suas mãos. — Não ... — fez uma pausa, escolhendo suas palavras como frutas no mercado de uma ilha. Provando e descartando duas vezes enquanto as escolhia. — Há um verniz, sabe. Uma espécie de brilho. Se a tocasse com estas mãos ásperas, a danificaria de algum jeito. A tornaria um pouco menos bela. Não poderia viver comigo mesmo então. — Então... — ela inclinou um quadril contra a borda da mesa, de modo que todo o seu corpo era uma grande curva sinuosa. Gray aspirou um sopro de calor, — não são as regras que o impede. — Na realidade não. Não. Silêncio novamente. Vasto e ecoando, como as longas galerias de azulejos de

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mármore dos Uffizi17. E então, finalmente: — Ainda é sua culpa. — O quê? — Tudo. Davy. Davy. É claro que ele quer provar a si mesmo agora Como esperava que reagisse, a todas essas perguntas? Interrogando-o diante de toda a tripulação, diante de mim? — ela se sentou na cadeira. — Deveria ter pensado melhor. Deveria ter feito algo melhor. Ali estava ela de novo, apelando a seu hipotético sentido da honra. Atraindo-o para seu decote quando ela se inclinava, enviando sacudidas de desejo diretamente a sua virilha. Confirmando que ele não tinha absolutamente uma verdadeira honra. — Quero dizer, como se sentiria você com sua vida inteira exposta assim diante de todos os homens? — Os homens me respeitam porque sabem que passei por isso também. Assim como todos eles receberam o mesmo tratamento uma vez. Não há segredos entre os marinheiros, senhorita Turner. Ao contrário de alguns — ele lançou-lhe um olhar. — Eu não tenho nada a esconder. — É mesmo? — seu olhar era afiado. Gray assentiu. — Bom, então. Qual é seu nome? Ele cruzou os braços sobre o peito. Portanto, este era o seu jogo, não é? Muito bem. Se desejava interrogá-lo, ele responderia. Ela era livre para saber cada coisa vil, brutal sobre ele. Isso a ensinaria a apelar a um sentido imaginário de decência. — Benedict Adolphus Percival Grayson. Como meu pai. — Pensei que havia dito que só havia uma mulher a quem permitia dirigir-se a você por seu nome de batismo. — E ainda é a verdade. Não fique animada, querida. Não te dei permissão para usá-lo. Pode, entretanto, me chamar Gray — por favor, acrescentou em silêncio. Ela balançou a cabeça. — Quantos anos você tem, senhor Grayson? — Farei trinta e dois no próximo ano. Senhorita Turner. — De onde é? 17

Uffizi Gallery: Palácio de Florença, que contém uma das coleções de arte mais antigas e famosas do mundo. Também chamado de Uffizi, pois seu propósito original era abrigar os escritórios dos magistrados florentinos.

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Gray retrocedeu em sua cadeira. — Nasci e cresci em Tortola, como sabe. A árvore da família Grayson tem suas raízes em Wiltshire. Meu avô era um cavalheiro de certa posição, e meu pai era seu rebelde segundo filho. Por seus pecados, que eram uma legião, meu pai foi exilado para Clarendon, que era o nome de nossa plantação, para corrigir sua conduta dissoluta. — E o fez? — O que você acha? — Ele se reclinou em seu assento, apoiando uma bota sobre a mesa entre eles. Um sorriso puxou os lábios dela. — Quantos irmãos têm, senhor Grayson? — Na verdade, não saberia dizer. Número reconhecido por meu pai: três filhos. Tenho um irmão, a quem você conhece, e uma irmã. Somos todos de diferentes mães. Assim para responder a sua pergunta anterior, ao que parece, as Índias Ocidentais provou ser um remédio ineficaz para a dissolução — a olhou em busca de sinais de choque ou desprazer. Sua testa, no entanto, permaneceu tão plácida como o mar esquecido por Deus. — Eu sei que seu pai está... — Morto. Ela clareou a garganta. — Sim, morto. Sua mãe ainda vive? — Não. Ela morreu quando eu era criança. Não tenho lembranças dela absolutamente. Uma só dobra marcou sua testa. — Sinto muito. — Sério? As palavras simplesmente rolaram de sua língua, pronunciadas sem inflexão particular, ou intenção. Mas a senhorita Turner se quadrou. Gray lutou contra o impulso de mover-se inquieto sob seu escrutínio. — Sim — disse ela, uma nota de desafio em sua voz. — Desculpe. É trágico não ter lembranças da mãe. Gray encolheu os ombros. — Melhor que ter uma lembrança dela, e sentir a dor da perda. — Você realmente acha que é melhor? Ele franziu o cenho e puxou sua orelha. — Eu não acredito. Gray colocou a mão sobre o braço da cadeira e deslocou o seu peso. Talvez 134


permitir este interrogatório não foi uma brilhante ideia depois de tudo. Supunha que a senhorita Turner devia ficar desconfortável, não ele. — Preto ou branco? — Ela apoiou o queixo na mão e olhou para ele. — Perdão? — Pão, senhor Grayson. Dada a opção, você escolhe pão preto ou branco? Ele riu. — Preto, se houver manteiga. Se não, branco. — Cerveja ou grog? — Cerveja. Seguida de brandy — não é má ideia, pensou, alcançando seu casaco por seu cantil. Desenroscou a tampa e o levou aos lábios. — Você já roubou alguma coisa, Sr. Grayson? Ele ficou imóvel, olhando-a por cima do frasco. Com deliberada lentidão, inclinou-se para trás até que o líquido ardente se estendeu por sua garganta. Em seguida limpou a boca, voltou a tampar o cantil, e o recolocou com cuidado no bolso. — É claro. Ela inclinou a cabeça e elevou uma sobrancelha, convidando-o a dar detalhes. — Por onde eu começo? Com os típicos e pequenos roubos da infância? Abacaxis, frangos, o alfinete da gravata de meu pai... Poderia seguir durante vários minutos. Quer que dê detalhes das dezenas de navios que abordei, a quantidade de mercadoria preciosa da qual apreendi? Como corsário era autorizado ao roubo, talvez, mas continua sendo roubo — tamborilou um dedo ligeiramente sobre a mesa. — Eu fiz do roubo um modo de vida, senhorita Turner. Poderia continuar com o assunto durante horas. Quantos detalhes quer escutar? Ela fez uma pausa por um momento, considerando. — Você não tem vergonha de reconhecê-los, então. Seu furto. — Na maioria dos casos, não. Não estou. — Então em alguns casos sim? O que o envergonha ter roubado, senhor Grayson? Gray lutou com o claro e firme olhar dela. Atreveria-se a lhe fazer a confissão? Serviria bem a seu propósito expô-lo como o descarado que era. A garota devia saber que tipo de homem contemplava. Então talvez deixasse de olhá-lo com esses olhos confiantes, esperando coisas dele que não tinha direito a esperar. Esperando coisas que ele não tinha forma ou os meios para dar. Baixando o olhar para o chão, esfregou o polegar no lábio inferior. — Roubei a herança de meu irmão — sua própria voz soava estranha, Estranhamente vazia. Todo seu corpo se sentia estranhamente vazio. — Duas vezes. 135


— Bom — disse ela. Ele levantou a vista e descobriu que sua expressão não continha desprezo ou choque, como poderia ter esperado. Como uma admissão como essa merecia. Mas bem, parecia intrigada. — Abacaxi e galinhas, dezenas de navios ... — ela riscou um sulco na mesa com o dedo. — Tudo isso posso imaginar. Mas o roubo de uma herança... duas vezes? Como conseguiu isso? — É uma longa história. — Não tenho compromissos urgentes. — Estava na Inglaterra, tinha saído de férias de Oxford, passando o verão em Wiltshire, no imóvel de meu avô. Chegou-nos a notícia que meu pai havia morrido. Meu avô recebeu a notícia mal. Acredito que o velho sempre teve a esperança que um dia seu filho pródigo se redimisse e retornasse ao redil. Quando a esperança se extinguiu... — Gray limpou a garganta. — Ele sofreu uma apoplexia dentro de uma semana e nunca se recuperou. Ela fez um pequeno barulho no fundo de sua garganta. — Perdeu seu pai e seu avô no espaço de uma semana? — Não. Meu pai já havia morrido há dois meses. — Sim, mas ainda assim. Você tinha acabado de descobrir recentemente, — ela se abraçou. Gray franziu o cenho enquanto ela acariciava o ombro, inflamando sua própria dor, por muito tempo enterrado, enquanto ela tranquilizava a si mesma. Maldição, supunha-se que ela devia estar amaldiçoando-o, não compadecendo-o. E certamente não simpatizando com ele. — Quer que termine a história ou não? — Desculpe. Vá em frente. Ele falou com força agora, como se tratasse de uma transação comercial. — Meu avô deixou Clarendon a meu pai. No caso que meu pai não vivesse, as terras seriam dividida entre os filhos varões de meu pai. — Você e o capitão Grayson. — Sim — ele se inclinou em frente sobre a mesa. — Mas você vê, querida, Mas você vê, meu amor, eles não sabiam sobre Joss. Percebi que meu pai deixou de mencionar seu filho ilegítimo meio africano em seu relatório anual de bens. Os advogados não faziam ideia. — Mas se ele era ilegítimo... Teria herdado alguma coisa? Ele virou a palma para cima e estudou as bordas sem corte de suas unhas. — Talvez não. Não há maneira de saber sem explicar os assuntos aos 136


executores. — E você não o fez — os olhos dela se tornaram de curiosos a penetrantes. — Você aceitou as terras, e depois as vendeu. Sem consultar seu irmão. Gray assentiu com a cabeça. — Você dividiu os lucros com ele, depois dos fatos? — Não. Comprei este navio e o preparei para servir como corsário. Tudo estava em meu nome, mas prometi que dividiria os lucros depois da guerra. — E fez? Gray meneou a cabeça. — Não. Eu dei-lhe o que é devido como primeiro oficial, e nem um centavo a mais. Peguei o resto, comprei uma casa em Londres, e comecei a Naval Grayson. — Naval Grayson — repetiu ela. — Não Naval Irmãos Grayson. — Naval Grayson. Os navios, o investimento, os riscos, os benefícios, tudo me pertence. Sou o empregador de meu irmão, não seu sócio. — Meu Deus. — Ela se recostou na cadeira, ainda olhando-o com intensidade. — Sim, acredito que com toda razão você esteja envergonhado — e aí estava. O rosto afetado de censura que esteve procurando. Uma estranha sensação de satisfação desceu sobre ele. Justiça divina,talvez. Outros homens, homens melhores, confessavam seus pecados a sacerdotes e Santos, mas Gray escolheu como seu confessor esta governanta. A mulher mais bonita que já viu, em todos os seus anos de busca pelo prazer de um horizonte a outro. A única mulher que agitava este desesperado desejo em seu peito. E esta era sua penitência: vê-la recostar-se para trás em sua cadeira, e ver aqueles olhos vidrados com desconfiança quando ela por fim o reconheceu como o diabo que era. Sim, este era seu castigo. E ela ainda não havia terminado, sua pequena e austera inquisidora. Não, não havia muito ainda a ser revelado. — Vamos, então — ele a incitou. Ela deu-lhe um olhar zombeteiro. — Continua o interrogatório,querida. Tem mais pergunta afazer? Ela olhou para ele de um canto da cabina. — Você é casado, Sr. Grayson? — Não. Não sou do tipo que se casa. — Você já teve muitas ... — fez uma pausa, — muitas namoradas, então? — Sim. Muitas. Ela estremeceu, quase imperceptivelmente, mas ele sentiu como uma chicotada. Entretanto, ela virou-se para olhá-lo nos olhos de novo. Garota corajosa. 137


Pergunte, insistiu ele em silêncio. Faça a confissão completa. — E quantas amantes, senhor Grayson?

Capítulo 14

— Não saberia dizer. — Temo que essa resposta não é uma opção — Sophia sorriu e bateu na mesa com o punho, grata pela oportunidade de brincar. — Verdade ou enguias, senhor Grayson. Ele não sorriu de volta. — Eu digo sinceramente, senhorita Turner, não saberia dizer. Eu perdi a conta ao longo dos anos. Passaram-se quinze anos desde que tombei a minha primeira moça de taverna. E nesses quinze anos, naveguei três mares e quatro continentes, pegando amostras de damas em cada porto. Não posso. Sophia piscou, esperando que esse sorriso maroto e travesso aparecesse. Mas não. Ele não estava brincando absolutamente. Ela não se iludia pensando que ele tivesse levado uma vida de castidade. Mas para um perspicaz homem de negócios, que vivia sua vida segundo números e montantes, perder a conta? O número real devia ser realmente alto. O homem sentado do outro lado da mesa havia deitado com incontáveis mulheres, de cada canto do globo. O pensamento causou-lhe repulsão e, de uma maneira vergonhosa, excitou-a. Mas acima de tudo, desiludiu-a. O arrependimento a aguilhoou em algum lugar entre as omoplatas, e sua coluna se esticou. — Bom — disse Sophia finalmente, incapaz de disfarçar a amargura de sua voz. — É um milagre que não tenha morrido de sífilis. — Não é um milagre. É uma combinação de precaução e tripa de ovelha. — Algo mais a seu favor, então. E aqui está você, evidentemente são e robusto, apesar de quinze anos de um esforço tão extenuante. Uma notável façanha. Não é de se admirar que pareça tão orgulhoso de sua proeza. — Pareço? — Ele apertou sua mandíbula. — Com boa saúde, pode ter boas expectativas de décadas de libertinagem. — Querida, esse é o meu maior temor. — Que parte? A boa saúde, ou a libertinagem? 138


Sophia estudou seu rosto. Inquieto sob seu escrutínio, ele olhou para baixo e coçou a barba espessa no queixo. Ela estava equivocada, disse-se Sophia. Ele não estava nada orgulhoso de sua proeza. — E quanto ao amor? Ele não olhou para cima. — O que tem isso? — Tantos amores, incontáveis amantes... quantas delas amou, senhor Grayson? Ele colocou as mãos atrás da cabeça e olhou para o teto. — Cada uma delas, querida. Cada uma delas. Sophia revirou os olhos. — Bom, isso é o mesmo que dizer nenhuma. Ele encolheu os ombros e continuou olhando para o teto. — É? Outra questão colocou-se na ponta de sua língua. Sophia hesitou, então perguntou de qualquer maneira. — E alguma delas o amou? Ele lançou-lhe um olhar frio. — Somente as tolas — havia tanto orgulho em seus olhos, misturado com tanta dor. Então, de repente bateu com o punho na mesa. Sophia saltou em seu assento. — Acredito que é momento que eu faça as perguntas, não acha? — Ele se levantou e começou a andar na cabina.-Já sei seu nome, senhorita Jane Turner. Sophia teve o impulso de interromper e corrigi-lo. Mas não pôde. A culpa aguilhoava seu peito. Ele havia despido sua vida para ela. Por que ela não tinha a coragem de fazer o mesmo? — Qual é a sua idade, então? — Tenho vinte — pelo menos isso era verdade. — Vinte — repetiu ele, em tom de indeferimento. — Apenas vinte. Tão jovem. O que você pode conhecer do mundo? — Mais do que poderia pensar. O que você pode saber de mim, para tirar essa conclusão? Ele se balançou e apoiou uma mão na mesa. — O que posso saber de você, realmente? Quanto viu do mundo, senhorita Turner? De onde você é? Ele pairava sobre ela, seu corpo e força era intimidante. Mas a intensidade de seu olhar era de longe o mais inquietante. — Kent. 139


Ele riu e permaneceu em pé novamente. — Oh, senhorita Turner, é da selvagem Kent, não é? Conhecido por suas selvagens festas de jardim, Kent. Seus pais vivem? — Sim, ambos. — Tem irmãos? — Uma irmã. — Que família encantadora.-Sophia começou a interromper, mas ele falou antes dela. — Pão preto ou pão branco? — Branco. — Pão branco. Mas, é claro. Nada mais que o melhor para a senhorita Turner. Acho que posso pular a próxima pergunta, também. Eu estou bem ciente de seu gosto por rum. Sophia se arrepiou ante a malícia em sua voz, e a forma brutal em que sua mão cortou o ar. — Na realidade, prefiro o clarete. — Clarete — Ele sorriu. — Bom, lamento não poder acomodar seus gostos, senhorita Turner, oferecer-lhe pão branco e vinho tinto a cada refeição. — Você sabe que eu não tenho tal expectativa.-pressionando suas mãos sobre a mesa, ela levantou-se. — Por que está se comportando desta maneira? Ele se inclinou sobre a mesa, acomodando suas palmas abertas para assemelhar a postura das dela. — De que forma gostaria que eu me comportasse? Eu não posso ser de outra forma, querida. Você sabia desde o início, não sou nenhum cavalheiro. Eu sou um mentiroso, um ladrão, um libertino ... e pior. Ele se inclinou para mais perto, e ela balançou para a frente, como se puxada por um fio. Seu rosto estava a um palmo do dela. Suficientemente perto para um beijo. O olhar de Gray caiu sobre seus lábios, sua voz tornou-se um murmúrio áspero. — Você diz que não tem tais expectativas de pão branco e clarete? Querida? — A palavra rodou sobre os lábios e os olhos de Sophia tremulavam fechando-se. — Faria bem não ter expectativas de nenhum tipo. Seus olhos se abriram de repente. Ele se inclinou para trás e endireitou seu cabelo escuro. Sophia foi para trás lentamente, seu coração golpeando no peito. Um triste, embora satisfeito olhar, cruzou o rosto de Gray enquanto cruzava os braços sobre seu peito. Ele queria afastá-la. Ela entendeu isso agora. Contando a história com seu irmão, gabando-se das incontáveis mulheres. E agora, com o interrogatório implacável. Este era o mesmo homem que a pegou tão ternamente pouco tempo atrás, 140


praticamente declarando seu amor por ela em um momento de honesta irritação. O homem que a desejava tão ferozmente que ela podia sentir em seu fôlego. O homem que ela desejava tanto, pelo qual ela sofria tanto, corpo e coração. E agora ele a estava afastando. Usando seu sórdido passado para abrir uma brecha entre eles. Bom, Sophia também tinha um passado sórdido. Seus pecados poderiam não ser tão numerosos ou luxuriosos, mas eram tão negros como os dele. E ela não permitiria que outro homem a pintasse como uma espécie de anjo perfeito, acima do desejo, pura demais para ser tocada. Ela contornou a mesa, fechando a distância entre eles. — Não terminamos. — Querida, acredito que terminamos antes mesmo de começarmos. Ela balançou a cabeça, colocando a mão em seu braço. — Você tem mais perguntas a fazer-me. Sua boca contorceu-se em um meio sorriso. Desdobrando seus braços, ele pegou a mão dela na dele. Sophia desejou que o mar vítreo se movesse sob eles, lançando-a em seus braços. Mas a calmaria se manteve. — Não tente me dizer — disse ele, passando seus dedos sobre os dela, — que essas mãos suaves e delicadas cometeram um roubo. — Mas cometeram. — De quê? Fitas? Um pouco de rendas, talvez? — ele fechou-lhe os dedos em sua palma e devolveu-lhe a mão. — Talvez algumas folhas de papel? — Um tipo de papel. As notas são papel, certo? — Seja qual for o seu pequeno pecado, querida, tenho certeza que eu poderia comprar e vender com uma moeda do bolso de meu colete. Ele não fazia ideia. Baixando seu olhar, Sophia pressionou com sua mão a bolsa de moedas sob sua roupa. Certo, o dinheiro estava em seu nome. Mas não era quase de Toby, por direitos? Mesmo agora, ele poderia estar processando seus pais, exigindo o dote que lhe foi negado quando ela fugiu. O que ela fez... não era muito diferente do engano do senhor Grayson. Ela havia roubado sua própria herança. — Você ficaria surpreso com o custo dos meus pecados. Mas antes de que ela pudesse explicar, ele apontou um dedo sob seu queixo, levantando seu rosto para ele. Com a mesma rapidez, deixou cair a mão. — Não me diga que é casada? A risada borbulhou em sua garganta. — É claro que não. Não — uma onda de culpa seguiu sua risada. Ela deveria estar casada, neste momento. Ainda assim, ela quis que o sorriso perdurasse. Sua risada pareceu agradá-lo, 141


assim como sua resposta. Ele começou a parecer outra vez como sempre, e Sophia se regozijou secretamente. — Quantos namorados, então? — Vários. Gray arqueou uma sobrancelha. — Não conte os homens a bordo do navio. — Ainda sem eles... — ela lançou-lhe um sorriso coquete. — Vários. — E houve amantes? O desdém em sua voz, o sorriso petulante em seus lábios... Sophia sabia que ele esperava que sua resposta fosse uma negativa afetada. Estaria enganado. Ela não podia confirmar a impressão que ele tinha dela como intocável, inocente. Ele precisava entender que não estava por debaixo dela. Nada estava por debaixo dela, nem o roubo nem o engano. Certamente, não a paixão. Só havia uma forma de mostrar sua verdadeira natureza. E essa forma era mentindo. — Sim. Um. Ele deixou escapar um agudo suspiro entre seus dentes. Sophia virou-se, afastando-se dois passos. Ela apertou os punhos até que as unhas cravaram nas palmas, ordenando a si mesmo acalmar-se. Afinal, esta era uma mentira que havia dito antes muitas vezes. — Mas você parece tão surpreso — começou ela, olhando para o senhor Grayson por sobre o ombro. — Contei semanas atrás a respeito de Gervais. Meu professor de pintura, e meu tutor na arte da... — Na arte da paixão — terminou Gray por ela. Ele lançou-lhe um olhar de ceticismo absoluto. — Sim, eu me lembro. Não acreditei em você então. — Não importa se você acredita ou não — mentiu ela caminhando pela cabina. — Ele era alto e magro e divinamente belo, com cabelo negro azeviche, olhos de prata e longos e esculpidos dedos. E me amava desesperadamente. — Oh, eles sempre o fazem. — Ele me amava — insistiu. — Desesperadamente — tirando um cacho de cabelo de sua testa, continuou: — Oh, mas não foi o afeto que nos uniu. Foi a paixão, selvagem e animal. Rindo, ele cruzou os braços sobre o peito. — Paixão animal? O que poderia saber você de paixão animal? Ela corou sob seu olhar ousado. Esta parte não seria difícil de esquivar. Entre as lições de uma leiteira licenciosa e sua proximidade com este homem extremamente atraente, ela tinha adquirido um conhecimento ou dois a respeito da paixão animal. 142


— Tudo começou com olhares ardentes, trocado em salas lotadas — os dedos de Sophia vagaram através da mesa, aproximando-se lentamente na direção dele. — E então, pequenas desculpas para poder nos tocar. Cada toque de sua pele na minha... — ela roçou uma única ponta do dedo contra o dorso da mão de Gray — ...me fazia tremer de desejo. Ele agarrou seu pulso fortemente . Sua respiração ficou presa na garganta. — Bom — disse Sophia, — imagino que você já sabe como seguiu o resto. — Imagino que sei — Gray liberou seu pulso e algo brilhou em seus olhos. O começo de uma crença. — Então você está me dizendo que esta é a razão pela qual é obrigada a ir para Tortola, para se tornar uma governanta. Você está arruinada. Sophia assentiu ligeiramente com a cabeça. Que atencioso da parte dele, terminar a mentira por ela. As palavras de Sophia ganharam força, deixando cair no ar estagnado. — Tornamos-nos imprudentes. Uma vez que Gervais mostrou-me um pouco do paraíso, nada pôde nos separar. Escapava de minha acompanhante cada vez que podia, roubando momentos para me encontrar com ele no meio da noite. Os armários, na garagem, inclusive em uma carruagem, nossos encontros não conheciam limites. Gervais até mesmo veio ver-me em Kent, durante uma de nossas festas. — Festas? — ele sacudiu um dedo para ela. — Sabia que vinha de um ambiente de privilégio. Sabia que não foi criada para ser governanta. Ela lançou-lhe um olhar insolente. — Tampouco fui criada para ser uma licenciosa. Mas nisso me tornei. — Uma licenciosa. Você? Sophia procurou em sua memória, saltando mentalmente através dos capítulos do Livro. Detalhe, disse a si mesmo. Os detalhes o convenceriam. — Nós concordamos em nos encontrar no estábulo. Era muito arriscado para Gervais que o vissem perto da casa. Roubei um traje de leiteira e coloquei todo meu cabelo sob um chapéu de palha de asa larga. Enquanto mantivesse minha cabeça baixa, ninguém me reconheceria. Quando cheguei no estábulo, ele me surpreendeu por trás da porta. Sem uma palavra, ele agarrou-me em seus braços e me carregou para o mezanino. Ali, ele havia acendido uma dúzia de velas, e espalhado pétalas de rosa e cobertores sobre uma cama de feno cheiroso. — Uma dúzia de velas acesas em um estábulo cheio de feno seco? Tem sorte de ter sobrevivido à experiência, querida. Poderia ter incendiado. 143


Sophia ergueu as sobrancelhas e endureceu sua postura. — Nosso amor era um inferno de quente. Pensei que estava em chamas, tão glorioso era nosso prazer naquela noite. Ele cobriu os olhos com uma mão e riu, alto e longamente. — Que imaginação vívida e romântica você tem. — Não é imaginação. Eu estou lhe dizendo a verdade! — O pânico se atou em seu estômago. Se não pudesse convencê-lo agora, certamente o perderia. A opinião que ele tinha dela seria confirmada, e só a acreditaria mais inocente que nunca. Desesperada, aproximou-se firmemente dele até que seus pés se tocaram. Talvez fisicamente pudesse persuadi-lo onde as palavras não podiam. — Não acredita em mim? — cruzando seus braços, ela quadrou seus seios para sua avaliação. Os olhos de Gray morderam o anzol. Em seguida, em um orquestrado ataque de ressentimento, ela virou-se. Os homens preferiam caçar, Sophia sabia. Ela poderia ser virgem, mas entendia como atrair um homem para seu lado. Seu coração palpitante encheu o úmido silêncio. A sala já estava escura. Tão curioso aqui nos trópicos, como a noite caía como um trovão. Sem o entardecer persistentes, sem as horas místicas do crepúsculo. Apenas a luz, e depois escuro. — Pétalas de rosas — a voz de Gray se reduziu e ela contou seus passos lentos quando ele moveu-se para ficar atrás dela. Ela sentiu sua respiração sussurrando contra sua nuca, seu olhar deixando uma trilha ardente ao longo de sua nuca. Logo ele se inclinou, ficando a centímetros de seu ombro enquanto deixava escapar lenta e profundamente o fôlego. Um baixo e sedutor grunhido ressonou na garganta de Gray e reverberou na coluna de Sophia. — Acredito nas pétalas de rosa. Lentamente, ele moveu uma mecha de cabelo do ombro de Sophia. Seu dedo jamais roçou sua pele, mas a sensação do cacho sedoso passando por seu pescoço deixou Sophia tremendo. Fechou os olhos, sentindo a carícia ligeira como uma pluma, em todos lados. — Você o amava? — perguntou Gray. — Este Gervais? A última pergunta. Devia tê-la esperado, mas a pegou completamente de surpresa. — Sim, é claro — deixou escapar ela, sem pensar. Ela lentamente se virou para ele no escuro. O senhor Grayson ocultou sua reação antes que ela pudesse avaliá-la, mas Sophia soube que havia cometido um engano. Se ele estivesse pensando em compartilhar sua cama essa noite, agora pensaria duas 144


vezes. Que irônico, que não houvesse nada para esfriar o ardor de um homem como a menção do amor. E o que ele perguntaria agora? Seu pequeno script estava no fim. Sophia aguardou sem fôlego na escuridão, esperando que alguma pergunta, pedido, ou beijo, caísse de seus lábios. A porta da cabine se abriu, e uma lanterna passou lançando sua luz entre eles. Ele deu um passo atrás. Stubb entrou, lutando sob uma pesada bandeja. — Aqui está o jantar — anunciou, pendurando a lanterna num gancho acima deles. — Lamento se é tarde, mas foi um dia agitado. O senhor Grayson assentiu com a cabeça. — Vou deixá-la para sua refeição então, senhorita Turner. — Eu trouxe serviço para dois — Stubb golpeou pratos de estanho e travessas na mesa. — Todos os passageiros deverão tomar suas refeições na cabina das damas até novo aviso. Ordens do Capitão — o homem mais velho olhou para Gray. — O Capitão quer que ambos fiquem no convés inferior até que recuperemos o vento. Disse que você entenderia, Gray. — Sim — respondeu o senhor Grayson. — Eu entendo — lançou a Sophia um olhar cauteloso. — Mas a deixarei com seu jantar mesmo assim. — Você não está com fome? — Stubb levantou a tampa de uma das bandejas. Diante do cheiro do ensopado de carne-salgada chamada lobscouse18, o estômago vazio de Sophia reclamou em voz alta. — A senhorita Turner irá aproveitar melhor sua refeição sem a minha presença — respondeu o senhor Grayson, retrocedendo para o porão. — Quanto a mim, vou esperar até o café da manhã. Estou com pouco apetite esta noite. Então ele saiu. Mas não antes de lançar um último, inquisitivo e faminto olhar. Sophia sorriu. Ele era um mentiroso muito ruim.

Capítulo 15

O corpo do Gray reclamou toda a noite. Seu estômago vazio grunhiu, quando poderia tê-lo cheio no jantar. Suas articulações protestaram contra a estreita rede que o envolvia, quando poderia ter estado compartilhando um suave colchão com uma companheira ainda mais suave. E, é obvio, estava a dor sempre presente da luxúria 18

lobscouse é um ensopado de carne e legumes e bolachas que é comido por marinheiros.

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insatisfeita em sua virilha. Mas além de tudo isto, sua mente estava em um estado de confusão, e seu coração, seu coração estava completamente sem amarras. Arrancado de sua âncora e à deriva. Não fazia nem ideia de como assegurá-lo de novo. Ela não era virgem. Assim o afirmava ela. Não o questione. Por fim, com esse pedacinho de informação, tudo sobre a garota fazia sentido. A roupa fina, o ar culto, o posto de instrutora. A faísca em seus olhos, e a forma em que respondia a suas carícias. A forma em que o tocou. Ela entendia a paixão, conhecia o prazer que podiam compartilhar. Ainda assim, passou a noite sozinho. Porque ela oferecia mais que prazer. Oferecia seu coração. Oferecia sua confiança. Deus, virtualmente a impôs, e Gray não a queria. Tinha suficientes pessoas que cuidar, e já as decepcionou a todas elas. Era só questão de tempo antes de que falhasse a ela também. Mesmo assim, ao amanhecer Gray já havia se lavado e vestido. Sentou-se em uma caixa, golpeando suas botas e brincando com seu relógio de bolso até que os oito sinos soaram para a guarda da manhã. Hora do café da manhã. Já não podia passar por cima das necessidades de seu estômago. Tampouco podia ignorar esta outra crescente dor em seu interior: a necessidade de vê-la. Não fazia a menor ideia do que diria a moça; o menos possível seria o melhor. Gray alcançou um livro, colocou-o sob o braço, e se dirigiu à porta do camarote das damas. O aroma de chá recém feito o saudou. A senhorita Turner estava parada ante a mesa, organizando uma meia dúzia de pequenos potes ao lado da bandeja do café da manhã. Depois dos dramáticos acontecimentos de ontem e de uma noite agitada, Gray se surpreendeu ao vê-la ali, de pé, parecendo tão... normal. Quase doméstica. O nó de angústia em seu peito se desenredou. — Bom dia — sem levantar a vista, ela destampou um dos potes e tocou ligeiramente seu conteúdo com a ponta do dedo. — Está planejando envenenar meu chá? Gray retirou uma cadeira e se sentou, deixando seu livro sobre a mesa e servindo um pãozinho. — Nada tão terrível, elevou a vista para ele, e o brilho de flerte em seus olhos o fez tossir com sua boca cheia de comida. Sim, tudo estava como de costume. A mera visão dela, tão bela, tão perto... lhe roubou o fôlego. O que o deixou 146


completamente pouco preparado para as palavras que disse a seguir. — Vou pintá-lo. — Me pintar? Vívidas e sensuais lembranças alagaram sua mente. Os dedos dela enroscando-se em seu cabelo, seu corpo apertado contra o dele. Gray duvidava que ela sequer recordasse aquela noite, bêbada como esteve. É obvio, ele não podia esquecê-la. — Não se importa, verdade? Preciso praticar, e é algo para passar o tempo — afastando uma xícara de chá, ela começou a desenvolver um pequeno cavalete. — A menos que você tenha alguma outra atividade em mente? Gray clareou a garganta e baixou o olhar a seu livro. Tinha muitas outras atividades em mente. — Tinha planejado ler. — E ainda pode, ela trespassou os braços pelas mangas de uma camisa e a atou as costas. — Só me deixe o tempo suficiente para esboçar o contorno de suas feições e, então pode ler seu livro, enquanto completo o resto. — Não estou seguro... Ela deixou um trio de pincéis, alinhados do menor ao maior. — Estou ficando sem temas, vê. Desenhei ou pintei quase todo o resto no navio. — Percebi... Ela fez uma pausa, olhando fixamente os pincéis. — Seriamente? — Sim. Ela elevou o olhar para encontrar o seu. — E ...? E o que? O que podia dizer? Que seus esboços o enchiam de inveja e desejo? Que eles lhe revelaram qualidades ocultas dos homens com os quais trabalhou durante anos, e lhe mostraram mais do que jamais teria querido saber de seu coração feminino? Que rechaçou esta mesma petição — e a ela — semanas atrás, precisamente porque temia o momento em que pusesse sobre ele esses olhos de artista e percebesse a verdadeira qualidade de sua alma? A ironia repuxou a comissura de sua boca em um meio sorriso. Que o veja, então. Seu fornecimento de pigmento negro se esgotaria por completo. Ela nunca o curvaria com esse olhar de confiança de novo. Ele virou sua xícara de chá e a lançou para baixo como uma luva. — Muito bem. Sorrindo, ela apoiou uma tela no cavalete. — Muito bem. — O que vou fazer? 147


— Só estar a gosto... Ela lhe lançou um olhar divertido. — Por muito que me alegre sentir o mar passando por debaixo de nós, não acredito que esteja em perigo iminente de ser arrojado ao chão. Gray seguiu o olhar dela que se posou em sua mão e que apertava o braço da cadeira. Incômodo com sua própria transparência, cruzou as mãos sobre o peito, deslizando uma bota ao longo das pranchas do chão enquanto se reclinava na cadeira. — Estou muito a gosto. — Como é possível — perguntou ela, coçando-se com um lápis enquanto seu estreito olhar alternava entre ele e a tela. — Que o filho de um cavalheiro dissoluto, criado em uma plantação de açúcar das Índias Ocidentais e educado em Oxford, depois de herdar a terra e seus ganhos, decide fazer sua vida no mar? Gray a olhou. Ela deixou de desenhar, e lhe jogou um olhar espectador, colocando uma mecha de cabelo detrás da orelha. — O que? Quer conversar? Pensei que se supunha que devia permanecer quieto. — Supõe-se que deve estar relaxado. E recordar, a meu parecer, geralmente relaxa à pessoa. — Não a esta pessoa. Ela se voltou para seu desenho. — Sonhava em converter-se em marinheiro quando era menino? Gray pôs-se a rir. — Não. Nunca estive a bordo de um navio até que fui expulso de Oxford. Estive vomitando e me sentindo miserável durante toda minha primeira semana no mar. Não podia comer nada. Ao final, resultou ser um golpe de sorte, pois os marinheiros capturaram e comeram pescado estragado. Quase toda a tripulação adoeceu, quatro deles morreram. — Meu deus. Ofereci minha ajuda ao capitão. Coloquei-me a trabalhar, e simplesmente tomei o gosto de algum jeito. Quando cruzamos o Trópico, estava pondo e dobrando as velas como um marinheiro. Entre as mudanças no arranjo, inteirei-me de tudo o que o capitão tinha que ensinar a respeito da energia eólica e a navegação. Quando chegamos a Inglaterra, perguntei-lhe se podia ficar, e ele me fez segundo oficial. Não fui a Oxford por ano e meio. — Surpreende-me que se incomodasse em ir sequer. 148


— Quase não o fiz — coçou o queixo. — Mas a guerra estava se formando. E uma carta finalmente me chegou dizendo que meu pai adoeceu, isso me pôs sério. Ambos, Joss e Bel, eram ainda menores de idade, e eu sabia que não havia ninguém que cuidasse deles em caso de que falecesse. Pensei que o melhor era ficar por um tempo, dessa forma eles saberiam onde me encontrar se me necessitavam. Oxford parecia um lugar tão bom como qualquer outro. Só terminei três trimestres quando aconteceu. — Seu pai morreu — capturando o lápis entre os dentes, ela limpou as mãos no avental de sua bata. — Sim. Tirou o lápis da boca e voltou a cabeça para olhá-lo. Entretanto, seus olhos não encontraram os dele. Mas bem, Gray acreditou que estudou sua orelha, ou talvez a linha de sua mandíbula. Coçou o pescoço, inseguro, sentindo todo seu corpo acalorar-se sob essa calma inspeção. — E foi então quando vendeu a terra, disse ela, voltando sua atenção a tela. — E se converteu em um corsário? Ele assentiu com a cabeça. — Mas se estava preocupado por seu irmão e irmã, por que não simplesmente se foi a casa? Manter funcionando a plantação? Gray exalou bruscamente. — Por muitas razões. Mas todas elas tiveram que ver com o dinheiro. Os preços do açúcar estavam caindo em picada, as tarifas seguiam em aumento. As plantações das Índias Ocidentais já não eram as empresas rentáveis que foram uma vez. Teríamos estado sumidos em dívidas em um ano — meneou a cabeça. — Nunca teria funcionado. Se eu lhes houvesse dito aos executores sobre o Joss, teria significado meses de atraso, e nem sequer podia estar seguro de que ia estar de acordo para vender. Encontrei um comprador para a terra, e tive a oportunidade de comprar este navio e obter uma patente de corso, então a aproveitei. E então dei procuração de mais de sessenta naves em nome da Coroa. Gray não pôde evitar que um toque de orgulho se filtrasse em sua voz. — Nunca me arrependi de minha decisão. Foi a única rentável. Lhe deu outro olhar escrutinador, esta vez em direção de seu cabelo. Os próprios olhos do Gray rodaram para cima, como se pudessem seguir a linha de seu olhar. — Isto ocorre frequentemente, que a nave esteja em calmaria? Gray encolheu os ombros. — Não toda a viagem. Mas com bastante frequência. 149


— Quanto tempo dura? — Não há forma de saber. Horas. Dias. Uma semana. Ela afastou uma mecha de cabelo para trás da orelha. — Uma semana de atraso? Isso deve afetar negativamente à maioria de seus lucros. — Sim, sim. Levantou a vista para a claraboia, suplicante. Isto devia ser o inferno. Estava perdendo dinheiro por horas, fazia-lhe sofrer a tentação inalcançável da mulher mais formosa que jamais viu, e tudo estava malditamente quente. Sem nenhum tipo de brisa fresca para revolvê-lo, o ar dentro do camarote se tornava cada vez mais viciado à medida que o sol avançava mais alto no céu. Era apenas o meio da manhã, e já o suor gotejava sob a gravata do Gray. Voltou a olhar à senhorita Turner, admirando a graciosa curva, úmida, de seu pescoço nu quando inclinou a cabeça. A temperatura no interior do camarote aumentou outro grau. Ela se voltou para trás e jogou a cabeça para um lado, estudando a tela. — Sem dúvida não era a única via rentável, converter-se em corsário. Há tantos riscos envoltos, tantas coisas imprevisíveis. Quero dizer, poderia ter se casado. — Casado? — Sim, é obvio. Isso é o que a maioria dos cavalheiros elegíveis com apuros financeiros fazem, não? Você provém de uma boa família e tinha um pouco de terra em seu nome... seguro que poderia ter encontrado uma jovem herdeira ou uma viúva rica para casar-se, e então poderia ter feito o que quisesse. Depois de tudo disse ela, seus olhos encontraram os dele, — não é como se carecesse do encanto suficiente para atrair às damas. E você sem dúvida é bastante bonito, a seu modo. — Bastante bonito. A meu modo. Ela inclinou a cabeça outra vez. — OH, deixe de parecer tão petulante. Não estou adulando-o, estou simplesmente assinalando os fatos. Ser um corsário não era sua única via rentável de ação. Poderia ter se casado, se tivesse desejado. — Ah, mas aí está o inconveniente, já vê. Eu não queria. Ela agarrou uma escova e deu uns golpes contra sua paleta. — Não, não queria. Você queria estar no mar. Queria ir de aventuras, apoderarse de sessenta naves em nome da Coroa e ir depois de um sem-número de mulheres em quatro continentes. Foi por isso que vendeu sua terra, senhor Grayson. Porque era o que queria 150


fazer. Os lucros foram secundários. Gray puxou o punho da manga de sua jaqueta. Punha-o nervoso a facilidade com que ela via essas verdades que ele evitou olhar de frente durante anos. Assim agora era pior que um ladrão. Era um ladrão egoísta e mentiroso. E ainda ela estava sentada com ele, flertava com ele chamando-o "encantador" e "bastante bonito". Quanta escuridão teria que descobrir a garota antes de que finalmente se afastasse? — E você, senhorita Turner? Ele se inclinou para diante em sua cadeira. — por que está aqui, com destino às Índias Ocidentais para trabalhar como instrutora? Também poderia ter se casado. Tem qualidade, isso está muito claro. E inclusive se não tivesse dote, doçura... — esperou a que ela elevasse a vista. — A tua é o tipo de beleza que leva aos homens a ficar de joelhos. Ela fez um gesto desdenhoso com seu pincel. Entretanto, suas faces se obscureceram, e secou a fronte com o dorso do pulso. — Agora, não atue como uma afetada. Não te estou adulando, estou simplesmente assinalando os fatos. Ele se recostou em sua cadeira. — Por que não te casaste? — Expliquei-lhe ontem por que o matrimônio já não é uma opção para mim. Fui comprometida. Gray cruzou as mãos sobre o peito. — Ah, sim. O mestre de pintura francês. Como se chamava? Germaine? — Gervais — suspirou dramaticamente. — Ah, mas o prazer que me ensinou valeu a pena qualquer preço. Nunca me senti tão viva como em seus braços. Cada momento que compartilhamos foi um minuto roubado do paraíso. Gray soprou e chutou a perna da mesa. A garota estava tentando lhe fazer ciúmes. E maldita seja, se não estava funcionando. Por que algum tutor enjoativo pôde desfrutar dos prazeres que Gray se negava? Não tinha ajudado ao esforço de guerra só para que a senhorita mais bela da Inglaterra pudesse levantar suas saias para um maldito francês. Ela começou a mesclar o pigmento com o óleo em sua paleta. — Uma vez ele me empurrou à despensa, e tivemos uma entrevista febril entre baldes de batatas e nabos. Sustentou-me contra as prateleiras enquanto... — Posso ler meu livro agora? Senhor, ele não suportaria muito mais disto. Ela sorriu e pegou outro pincel. 151


— Se assim o desejar. Gray abriu seu livro e o olhou, incapaz de reunir a concentração para ler. De vez em quando, voltava uma página. Vívidas imagens eróticas enchiam sua mente, mas tudo o sangue se esvaziava em sua virilha. Enquanto o sol avançava mais no céu, a sombra quadriculada da claraboia deslizava pela parede do camarote e começava seu lento avanço pelo chão. Logo o sol esteve diretamente sobre suas cabeças, marcando a mesa com um tabuleiro de xadrez de sombras. Sentindo-se sonolento e preguiçoso, Gray enganchou um dedo sob sua gravata umedecida pelo suor e a puxou. Jogou uma olhada furtiva à senhorita Turner por sobre seu livro. Seu pálido vestido de musselina esmaecia com o calor, aferrando-se a sua figura de uma maneira muito atrativa. Ela girou o pescoço lentamente, estirandoo com uma ágil graça sensual. — Há um pouco mais de chá? Perguntou-lhe Gray. — Não, ela pegou um lenço e o apertou contra sua fronte, logo contra seu decote brilhante e avermelhado. Ele se moveu incômodo, sentindo uma nova fonte de acumulação de calor na virilha. — Vou procurar depois ao Stubb, para trazer água. Em um minuto — inclinou a cabeça e fechou os olhos e tentou pensar em algo interessante. Nesses gelados de muitos sabores, todos muito de moda no Mayfair, os que de seguro ia levar a Bel como amostra. No arroio de trutas do Wiltshire, onde passou o verão nos anos que frequentou a Oxford. Cerveja, gelada da adega no inverno. Na neve. Gray teve uma imagem repentina da senhorita Turner, de pé em uma paisagem invernal inglês, vestida de rico veludo e polvilhada com brancos flocos de neve. Os diminutos cristais de gelo aferrando-se a suas luvas debruadas de pele, a seu manto, a seu cabelo, a sua espessa franja de pestanas. Sua pele pálida em contraste com seus lábios carnudos e ruborizados. Uma aparição angélica. Salvo que ele não podia fazer a um anjo o que Gray viu a si mesmo fazendo com esta sereia coberta de neve. Imaginou lambendo um floco de neve de sua face, e sua língua enroscando-se ao redor de uma forte explosão de frio. Em sua mente provou outro, e outro... e eram doces. Ela era um sorvete com sabor a rosas, um manjar além de qualquer coisa que jamais provou, e ele a estava devorando, sabor por um incrivelmente pequeno sabor. Floco de neve por floco de neve. Até que a tombou de costas na neve e despiu os montículos cremosos de seus seios, os bagos cheios de seus mamilos, as curvas suculentas de seu delicioso corpo... e se deu um festim. 152


Capítulo 16

Sophia contou seis repiques de sino antes que o senhor Grayson se sacudisse, completamente acordado. Ele a olhou, sobressaltou-se e se ruborizou. Como se tivesse sido apanhado fazendo algo que não deveria. Ela sorriu. Esfregando os olhos, ficou em pé. — Assustaria-a, senhorita Turner, se removo o casaco? Sophia sentiu um ponto de desilusão. Quando deixaria ele de tratá-la com essa forçada cortesia, mantendo a distância entre eles? Quantos contos de encontros apaixonados deveria ela lançar antes de que ele finalmente entendesse que ela não era menos perversa que ele, tão somente menos experimentada? Talvez era hora de tomar medidas mais agressivas. — Adiante, tire o casaco, ela inclinou os olhos para lhe lançar um olhar insolente . Senhor Grayson, não sou uma colegial inocente. Vai ter que esforçar-se mais para me assustar. Os lábios de Gray se curvaram em um pequeno sorriso. — Tomarei isso como um aviso, ela o olhou enquanto ele sacudia a pesada capa de seus ombros e a pregava sobre seu braço. Ele deixou o casaco sobre a cadeira antes de voltar a sentar-se. O úmido tecido de sua camisa pendurava de seus ombros e braços. Um prazenteiro estremecimento baixou até os pés da Sophia. — Não lhe senta bem de todas maneiras, lhe disse ela, carregando seu pincel com pintura. Lhe lançou um olhar divertido enquanto desenredava sua gravata e a afrouxava. Ela se regozijou secretamente. Agora, se tão somente pudesse convencer o de que se desfizesse de seu colete... — O casaco, lhe explicou ela, quando suas sobrancelhas seguiram levantadas, — não lhe senta. — Por que não? É a cor equivocada? — a repentina seriedade em seu tom a surpreendeu. — Não, a cor está perfeitamente bem. O corte é que é desfavorável. O estilo está desenhado para cavalheiros brandos, magros e esbeltos. Seus ombros são muito largos para o que usa. 153


— É certo isso? — ele riu entre dentes enquanto desabotoava os punhos. Sophia o olhou fixamente enquanto ele volteava suas mangas, despindo um bronzeado e musculoso antebraço e logo o outro. — Que estilo de objetos ficaria bem, então? — Além de uma toga? — ele recompensou sua brincadeira com um ligeiro sorriso. Sophia dava pinceladas a sua tela, contente de fazer algum progresso ao fim. — Acredito que você necessita algo menos restritivo. Algo como um traje de marinheiro. Ou talvez de Capitão. — Seriamente? — seu olhar se tornou pensativo, logo perspicaz. — E ainda levando simples roupas de marinheiro, ainda me acharia bastante bonito? A meu próprio modo? — Não... ela deixou que as sobrancelhas do Gray se elevassem mais antes de continuar. — O encontraria surpreendentemente bonito. De todos os modos mesclou pintura em sua paleta lentamente e lhe lançou um olhar tímido. — E o que tem meu traje? Se fosse por você, como me vestiria? — Se fosse por mim? Não te vestiria. Um estremecimento correu pelo corpo de Sophia. Suas faces arderam, seus olhos baixaram a seu regaço. Obrigou-se a elevar o olhar para encontrar o dele. Não era momento para perder a coragem. Nada mantinha o influxo em um homem como o ciúmes. — Uma vez, Gervais me manteve nua por um dia inteiro para poder me pintar. Ele piscou. — Fez um nu teu? — Não. Me Pintou. Tirei toda a roupa e me estirei na cama enquanto ele me cobria de pintura. Gervais me chamou sua perfeita tela em branco. Pintou orquídeas, lavandas aqui... riscou um pequeno círculo sobre seus seios. — E umas pequenas uvas descendo... deslizou sua mão para baixo e notou com deleite como seus olhos seguiam a trilha. — Simulei uma gripe e me neguei a me banhar por uma semana. Desejo e um ataque de ciúmes batalharam em seu semblante, mas seguiu tão imóvel como uma das estátuas de mármore de Lorde Elgin. Que seria necessário para lançar a este homem à ação? Frustrada, soprou de seu rosto uma mecha de cabelo e assinalou com a cabeça em direção a seus braços. — Poderia me alcançar o pequeno pote de vermelho? Gray franziu o cenho para os potes dispersos de pintura. — Qual deles é o vermelho? 154


— O cobre em pó. Justo aí junto a seu cotovelo. Aí o vê. — Este? Alcançou-lhe um pote de marrom Vandyke. Sophia jogou sua paleta sobre a mesa e se estirou para alcançar o pote vermelho ela mesma. — Se não deseja me ajudar, diga-o. Não há necessidade de zombar. — Te acalme, carinho. Não estou zombando de ti. Ao que parece, não vejo as cores da forma em que a maioria das pessoas o faz. — O que quer dizer com que não vê as cores? Ele encolheu os ombros. — Vejo algumas cores. Só que não a quantidade que outra gente parece ver. Você diz "vermelho, verde, marrom"... todos parecem iguais para mim. Se uma safira estiver ao lado de uma ametista, não posso distinguir uma de outra. Aparentemente tive um tio que era igual a eu. Uma vez, meu tutor deixou de me pegar por etiquetar mal meus exercícios de latim. Nunca me importou — voltou a atenção novamente para seu livro. — Mas... isso é trágico! Ir pela vida sem cor? Sendo incapaz de apreciar a arte ou a beleza? Ele riu. — Agora, doçura. Toma seu pincel antes que me pinte com um halo de mártir. Não é como se fosse cego. Tenho uma grande avaliação pela arte, como conforme acredito já discutimos. E pela beleza... Não preciso ver se seus olhos são azuis ou verdes ou lavanda para saber que são inusualmente encantadores. — Ninguém tem olhos cor lavanda. — Não? — seu olhar apanhou o dela e se negou a soltá-la. Aproximando-se para frente, continuou. — Alguma vez esse tutor teu te disse isso? Que seus olhos estão rodeados por um perfeito círculo uns tons mais escuros que o resto do... não o chamam a íris? Sophia assentiu com a cabeça. — A íris, Gray apoiou um cotovelo sobre a mesa e se aproximou mais, seu olhar procurando o dela intensamente. — É um termo apto também. E estão esses raios mais claros que saem do centro, como pétalas. E logo suas pupilas se alargam... como isso, justo aí... seus olhos são como duas flores a ponto de florescer. Frescos. Inocentes. Ela inclinou a cabeça, mesclando um toque de branco no verde mar da paleta. Ele se aproximou ainda mais, sua voz em um hipnótico murmúrio. — Mas você se deleita em zombar de mim, me olhando através dessas espessas 155


pestanas, tão insolente e satisfeita contigo mesma... lhe lançou um olhar afiado. Ele estalou os dedos. — Aí! Justo assim. OH, doçura... então esses olhos são como duas bailarinas de ópera sorrindo por trás de seus grandes e emplumados leques. Tímidos. Expressivos. Sophia sentiu um caloroso rubor cobrindo-a do peito até a garganta. Ele sorriu e se reclinou em sua cadeira. — Não preciso saber tampouco a cor de seu cabelo para saber que é suave e brilhante como a seda. Não preciso saber se é amarelo ou laranja ou vermelho para passar uma grandemente extraordinária quantidade de tempo me perguntando como o sentiria roçando minha pele nua. Abrindo seu livro na página marcada, continuou: — E não me faça começar com seus lábios, doçura. Se tentasse descobrir o tom preciso de vermelho ou rosa ou violeta que são, jamais reuniria a concentração para nada mais. Ele volteou uma página do livro, e logo permaneceu em silêncio. Sophia olhou fixamente sua tela. Seu pulso retumbava em seus ouvidos. Uma gota de suor desceu por detrás de seu pescoço, seguindo seu caminho por entre as omoplatas, e uma quente e aguda ansiedade aninhou-se na fenda de suas pernas. Caramba. Ele soube que ela estava zombando dele com suas histórias. E agora se sentava aí, com uma atitude próxima ao aborrecimento, lhe fazendo o amor com suas provocadoras, descoloridas palavras em uma flagrante tentativa de pô-la nervosa. Era como se eles estivessem jogando um jogo de cartas, e acabassem de subir as apostas. Sophia sorriu. Ela sempre ganhava nas cartas. — Tolices, disse ela tranquilamente. Gray levantou o olhar para ela, com as sobrancelhas erguidas. — Ninguém tem lábios violetas. — Não? Ela deixou a um lado sua paleta e cruzou seus braços sobre a mesa. — O pendente de seu nariz é bastante particular. Seus lábios se curvaram em um sorriso torcido. — Certo. — Sim, ela se inclinou para frente, deixando que seus seios se derramasse sobre seus braços cruzados. O olhar do Gray baixou, mas rapidamente voltou para o dela. — A forma em que tem essa pequena protuberância na ponte... Prova ser todo um desafio. 156


— É assim? — ele baixou a cabeça e estudou seu livro. Sophia o olhou fixamente, esperando; um... dois... três pulsados antes de que Gray elevasse sua mão para tocar a ponte de seu nariz. Um progresso bastante satisfatório. Definitivamente começava a ficar nervoso. — Uma vez, durante uma de minhas lições com o Gervais, estava desenhando o Miguel Angel, do David, de uma placa em um livro. Mas, não pude captar os músculos do antebraço absolutamente. — Ele outra vez... ele lançou um aborrecido suspiro enquanto passava outra página. — Gervais ficou de pé — ela se afastou da mesa e parou. — Tirou o casaco, e subiu as mangas de sua camisa até os cotovelos — Sophia plantou sua palma sobre a mesa, diretamente em frente a Gray. — Ele pegou minha mão e arrastou meus dedos sobre cada pendente e tendão de seu braço — enquanto falava, riscou os tendões de seu próprio pulso com a mão livre. Quando roçou o vão de seu cotovelo, escutou-o conter a respiração. Bem. Mais progresso. — E depois de tocá-los, disse — não tive nenhum problema para desenhar esses músculos. Gray fechou de repente seu livro, jogou-o a um lado, e a olhou fixo desafiantemente. A escura intensidade em seus olhos, deteve um pulsar o coração da Sophia. Lentamente, ela aproximou uma mão a seu rosto. — Agora... permaneça completamente quieto . Os olhos do Gray se fecharam enquanto ela tocava com um dedo a ponte de seu nariz. Com deliberada lentidão, roçou a desigual, bronzeada colina com a ponta de seu dedo. A respiração do Gray se tornou rouca. Finalmente, interrompeu o contato. Ele manteve os olhos fechados. Sophia arrastou seu polegar através de sua sobrancelha esquerda, logo desenhou uma atrevida linha da fronte até suas maçãs do rosto. Sua pele era mais suave do que esperava, e Estranhamente fresca sob seus dedos. Levou seus dedos para baixo, ao áspero crescimento da barba em sua mandíbula, esmagando a mão para permitir que esta raspasse a pele sensível de sua palma. Gray deixou escapar um irregular fôlego que beirava um gemido, mas seus olhos permaneceram fechados. Estava completamente imóvel. Algo quente e faminto correu através das veias de Sophia. Desejo, misturado com um pesado estremecimento de poder. Ela riscou o contorno de sua fronte, roçou as suaves e vulneráveis curvas de suas pálpebras. Suas pestanas, longas e curvadas como as de um menino, tremeram sob seu toque, e uma doce pontada de ternura cresceu em seu coração. Seguiu a 157


circunferência de seu rosto, baixando a ponta de um dedo até a greta de seu queixo, subindo logo pela fina cicatriz no canto de sua boca. Ele exalou asperamente, e Sophia sentiu o calor de seu fôlego correndo por seu sangue. Encorajada, deslizou seu polegar ao longo de seu lábio inferior. A mão de Gray saiu disparada a capturar a dela, mantendo-a pressionada sobre sua face. Ele a olhou com tristeza, seu cabelo revolto e a respiração trabalhosa. OH, sim. Pô-lo nervoso, conseguido. Ela se aproximou mais, com o úmido tecido de sua camisa pendurando sobre suas coxas. Ele ficou tenso. — Não faça isto. Só te machucarei. — Não sou uma inocente, Gray. Sei o que quer. Não te dá conta que eu também o quero? Inclinou-se para sussurrar em seu ouvido. — Posso te mostrar cores. Cores que jamais sonhaste. O azul claro de meus olhos... soprou suavemente sobre seu pescoço e viu o tendão ali ficar rígido. — A seda dourada de meu cabelo; pegou um cacho em seu dedo e o arrastou sobre a face de Gray. — Doçura? Sophia se abateu sobre o Gray, deixando seus lábios a centímetros dos seus. — Posso te ensinar o sabor do perfeito e sedutor rosa pétala. Ele negou com a cabeça, quase imperceptivelmente. — Disse que não te perseguiria. — É isso? Bom, pois acontece que estou cansada de ser perseguida. Estou desfrutando bastante de ter o outro papel. — Doçura, me acredite, não valho que me persiga. E se eu... — fechou os olhos apertadamente, logo os voltou a abrir. — Se eu deixar que isto aconteça... nunca serei... Dei minha palavra, e por uma vez pretendo cumpri-la. Sou um patife, por escolha e por vocação, e sou o incorreto para uma garota como você. — Uma garota como eu? Mas eu já estou arruinada. — Arruinada? Por que conheceste o prazer? Não há nada a respeito de ti que esteja arruinado. É jovem e formosa, e está cheia de sonhos. É deliciosa — ele tocou seu rosto. — Perfeita. As lágrimas picaram os olhos de Sophia. Que palavras tão doces. Como desejava as merecer. As mãos do Gray capturaram uma mecha perdida de seu cabelo. — Este tutor que tentou te arruinar, era claramente um aficionado. Mas doçura... para minha vergonha, tive uma grande quantidade de prática. Estou tentando ser 158


respeitável. Estou tentando ser um homem melhor. — Estas tentando ser algo que não é. E isso está te fazendo miserável — ela pressionou sua mão livre contra sua outra face, emoldurando o rosto de Gray entre suas Palmas. — Você sim tem a cara de um patife... — Vê-me com clareza, então. — Mas o que há com o homem debaixo? Há muito mais de ti, sei. Sinto-o. Uma paixão pela vida. Tanta força... — enganchando os dedos sob a gola de sua camisa, deslizou sua palma para seu musculoso ombro. — E este coração — seus dedos se desviaram mais abaixo sobre seu peito, alcançando a borda de sua cicatriz. Gray fez uma careta. Com um baixo grunhido, afastou as mãos de Sophia. — Doçura, eu... — liberou um áspero suspiro e seu rosto se fechou. — Não posso. — Já vejo — Sophia se sentou, sentindo o aguilhão da derrota. — Sinto-o — ele passou uma mão por seu cabelo. — Não pode imaginar quanto o sinto. — Deveria senti-lo — Sophia pôs um braço a cada lado da cadeira do Gray e se balançou sobre ele. Se ele dobrasse o pescoço, descansaria sobre os travesseiros ofegantes de seus seios. Gray estava bem a par disso. — Te Sentir muito... muito... arrependido. Sophia voltou para sua cadeira com uma indignação brincalhona, esperando dissimular a forma em que suas coxas ainda tremiam e seu coração doía. — Está bem, então disse ligeiramente, pegando novamente sua paleta e molhando seu pincel em tinta. — Terminarei meu quadro. Você pode voltar para seu livro. Ela manteve sua atenção na tela ante ela. Com sua visão periférica, entretanto, podia ver que o livro do Gray permanecia fechado na mesa. Podia ouvir sua respiração, lenta e pesada. Mesmo neste quente camarote, podia sentir seu radiante calor masculino queimando através de seu leve traje de musselina e sua regata. A tarefa de aparentar que esta aberta luxúria não a afetava, estava tornando-se cada vez mais difícil. Depois de uns minutos, o braço lhe doía de sustentar tão apertadamente sua paleta. Sophia deixou a paleta e o pincel na mesa e começou a amassar o lugar onde seu pescoço se unia a seu ombro, massageando o dolorido nó de músculos. Os fios de cabelo contra seu pescoço estavam úmidos de transpiração. — Te toque para mim. 159


Sophia ficou gelada. Seu coração deixou de pulsar. Certamente não ouviu o que acreditou ter ... — Ouviu-me — sua cadeira se deslizou ao redor da mesa para descansar ao lado da dela. — Prometi que não te tocaria. Assim, se toque para mim. Seu pulso retornou à vida, e o som do martelar rítmico de seu coração ressonou em um surdo e forçado pulsar no vértice de suas coxas. Sophia fechou os olhos. A sugestão era chocante e emocionante e também indescritível. Impossível. Ela precisava pensar em uma resposta. Algo mordaz para jogar por terra o ardor dele. O dela. Precisava extinguir esta selvagem paixão que corria por suas veias. Mas ali não havia água fria. Só quente e líquido desejo descendo por sua fronte, escorrendo-se entre seus seios. Ela começou este jogo de aparências. Dificilmente podia retratar-se agora, quando perder o jogo significava perdê-lo. Como se se movessem por vontade própria, seus dedos abandonaram os topos de seus ombros e vagaram lentamente para o laço do decote na linha de seu pescoço. — Sim — o som sibilante da palavra deslizou sobre sua pele como uma carícia. — Sim. Toca-os para mim. Seus mamilos se franziram instantaneamente, convertendo-se em duros picos contra sua regata. Ela duvidou, seus olhos ainda firmemente fechados. A respiração se tornou pesada no peito, deixando a parte de cima de seus seios contra seus dedos com cada inalação. — Sim, doçura. Toca-os para mim. Vinte e cinco dias estivemos neste navio. Vinte e quatro noites sonhei pegando esses seios em minhas mãos. Estou sofrendo por sustentá-los, por senti-los firmes, e redondos, e suaves sob meus dedos. Deus, são tão suaves, não é assim, doçura? Tanto como suas mãos, seus pulsos, seus lábios. Você é tão suave, suave como pétalas, toda você. Sua suave voz de barítono retumbou através dela, cada palavra deixando um tremor em seu centro. Sophia mordeu o lábio inferior para que deixasse de tremer. Curvando seus dedos sobre o tecido de seu vestido e sua regata, arrastou-os sobre seu ombro e lentamente os baixou até que não pôde estirar mais seu decote. Colocou os dedos sob o tecido e elevou seu seio, liberando o úmido e pesado globo de seu sutiã. O ar quente formou redemoinhos sobre seu mamilo. Estremeceu-se, imaginando que era a respiração do Gray. Ele guardou silêncio por um momento que pareceu uma eternidade. Sophia manteve os olhos firmemente fechados, agonizando em um lento processo de exposição e vergonha. Que diabos estava ela fazendo, expondo seus seios a este homem? Tão licenciosa, tão liberada. Ele soube que ela o faria. Ele a encorajou só 160


para zombar. Para levar a dianteira. Se ela abrisse os olhos, lhe sorriria com suficiência. Mofando-se. — Deus querido, finalmente inspirou Gray. — É tão formosa. Tão perfeita. Suave e formosa e cremosa e curvilínea. E doce, OH doce. É como se pudesse te saborear. Toca seu mamilo para mim. Acreditando com muita dificuldade no que estava fazendo, Sophia arrastou seu polegar sobre o tenso pico. Luzes brancas irromperam por trás da escuridão de suas pálpebras fechadas. — Sim — grunhiu ele. — Faz-o outra vez. Ela obedeceu. — Outra vez. Deus, quero te lamber aí. Quero correr minha língua ao redor uma e outra vez e logo te colocar em minha boca e te chupar forte. Devorar ele, doce. Sim, justo assim. Quero me perder nessa suavidade e sentir seus braços a meu redor enquanto chupo até te fazer gemer. Sophia pegou seu mamilo entre o polegar e o indicador, imaginando as fortes e arrudas mãos do Gray sobre ela. Seus lábios e sua língua acariciando-a, chupando-a. Seu fôlego escapou em um suspiro comprido, lento. — Sim, mais forte. Geme para mim. Deixe-me te ouvir. Gemendo, Sophia pegou seu outro mamilo através do tecido de seu vestido brincando com o tenso e oculto broto. — Quero te tocar. Toda você. Quero ver e acariciar cada perfeito e formoso centímetro de você. Seus seios. Seu umbigo. A parte traseira de seus joelhos. Cada pé. Quero te saborear toda. Lamber o pó que usa sobre sua pele. Quero conhecer cada secreta e oculta parte de ti. Quero saber como é que você cheira como uma condenada roseira no meio do oceano. A língua de Sophia apareceu para umedecer seus lábios. Ele grunhiu. — OH, doçura. Se soubesse o que estas me fazendo. Estou ardendo por ti. Ocorreu a Sophia que ele também poderia estar tocando a si mesmo. Talvez isso devesse chocá-la. Entretanto, levou-a a um novo pico de excitação. Deslizou para baixo na cadeira, suas pernas entreabrindo-se ligeiramente. Entre seus quadris, sentia ardência e calor. Empapada de suor e desejo. — Levante a saia — foi a rouca ordem. — me Deixe verte. Preciso verte. Perdida em uma escura nuvem de paixão, Sophia estava mais além do raciocínio, além da vergonha. Suas mãos deslizaram dos seus seios até a parte superior de suas coxas. Fez um punho com suas mãos na fina musselina e lentamente recolheu o tecido, despindo seus tornozelos. Logo suas panturrilhas. 161


— Mais. Mais acima. Ela obedeceu, enrugando a musselina por cima de seus joelhos, alisando uma palma contra a sensível pele da parte interna de sua coxa. — OH, Doce, Céu. Te olhe. Sem meias, sem ligas. Sem calções tampouco... me diga que não usa calções. Sophia arqueou a coluna levemente, sua cabeça pendurando contra o respaldo da cadeira. Ela arrastou sua mão mais acima para despir a suave extensão de sua coxa. Gray deixou escapar um suspiro irregular. — Tampouco há calções. Agora jamais te levarei de volta a Inglaterra. Assim é como te quero, sempre. Aqui, no calor tropical, sem anáguas, sem meias, sem calções. Pronta para mim a todo momento. E está pronta para mim, não é assim, doçura? Está tão quente e molhada. Deus, como quero te saborear. É deliciosa, mesmo daqui. O coração de Sophia pulsava tão forte, que temia que fosse explodir. Sua cabeça girava, tonta de calor. Sua boca se abriu. Estava ofegando. Sentia-se desavergonhada e sensual e mais descaradamente feminina do que alguma vez se sentiu em sua vida. — Te toque para mim — a voz de Gray tinha uma nova urgência, tornando-se áspera e exigente. — Você sabe o lugar, eu sei que sabe. Te toque para mim. Sua voz a mantinha tão subjugada, que não estava em seu poder desobedecê-lo, mesmo que tivesse desejado fazê-lo. Mas não queria. Ela queria fazer tudo o que lhe pediu. Queria estar aqui, sempre, nesta abafadiça névoa tropical de desejo, e lhe deixar fazer o que fosse que ele queria lhe fazer. Seus dedos roçaram o ninho úmido de cachos na união de suas coxas, abrindo as dobras superficiais de seu sexo para achar o inflamado e sensível pedacinho de carne. — OH, sim, doçura. Faz-o para mim. Quero te saborear ali. Quero estar dentro de ti, te sentir apertada e fechada a meu redor. Quero que gema para mim. Debaixo de mim. Em cima de mim. Quero te ter em cada uma das formas conhecidas pelo homem, e logo inventar uma dúzia mais. Toca-o para mim. Imagina que eu estou aí, te tocando. Dentro de ti. O orgasmo rompeu através dela como uma onda estrelando-se. Arqueou-se para cima na cadeira, sua respiração apanhada em um grito estrangulado. Uma súplica que se sacudiu através dela uma e outra vez, até que ficou imóvel em suas repercussões, tremendo. Um bendito gozo se apoderou dela. Seguido de consciência. Logo depois de vergonha. OH, Deus. O que fez? Com mãos trementes, baixou suas saias por debaixo dos 162


joelhos. Levou uma mão a seu seio ainda nu e a outra a seus olhos, fechando-os apertadamente. Mas não o suficiente. Lágrimas quentes brotaram por suas trementes pestanas. — OH não, doçura. Não. Gray sussurrou tão meigamente, mas o som de sua voz só era um cruel aviso de que ele estava aí. Ele tinha visto. As lágrimas caíram mais duramente, derramando-se por suas faces. — Não, doçura, não chore — sua voz era baixa e próxima a seu ouvido. — Está... — ele se deteve, — está pensando nele? Ela negou com a cabeça. — Então por que chora? Certamente não está envergonhada? Sophia soluçou contra sua mão. — OH, doçura. Por favor, não.... Não chore, ou chorarei contigo. É a coisa mais encantadora, mais perfeita que alguma vez tenha visto em minha vida, e poderia chorar pela pureza de sua beleza — ásperos dedos afastaram seus cabelos da fronte. — Nunca esteja envergonhada, não comigo. Gray lhe tirou a mão do rosto. Ela manteve os olhos firmemente fechados enquanto ele beijava a ponta de seus dedos, um por um, logo deu volta sua mão para plantar um beijo desgarradoramente tenro sobre sua palma. Sophia abriu os olhos. Ao princípio, o teto brilhou cegadoramente sobre ela, através de uma imprecisa nuvem de lágrimas. Ela piscou e sorveu pelo nariz. Nunca em sua vida se sentiu tão vulnerável. O custoso disfarce que esteve usando toda a viagem — que usou toda sua vida, ao que parece — foi despojado. Não mais decepções, não mais fantasias. Isto era tudo o que restava: uma cansada, licenciosa, solitária garota com uma mão colada firmemente a seu seio nu e a outra pressionada contra os lábios dele. Despiu-se a si mesma diante dele, de todas as maneiras. Como nunca se atreveu a revelar-se a si mesma ante ninguém. Mais verdade surgiu entre eles nos últimos dez minutos que a que pudesse transmitir qualquer conversa, e ainda assim, ele a sustentava, acalmando-a. Poderiam ainda seus lábios formar tão tenras palavras e suaves beijos, se soubesse toda a verdade? Gray beijou sua palma novamente. — Não chore. Morreria antes de deixar que algo ou alguém te machucasse. Não poderia suportar pensar que te causei semelhante aflição — ele pressionou sua mão contra sua face por barbear. Ela sentiu seus lábios roçar sua fronte. — Doçura — suspirou ele contra seu 163


ouvido. — Está a salvo comigo. Sempre. Sophia voltou lentamente a cabeça, até que seu olhar se travou com o dele. Seus olhos, do mais puro azul cerúleo, como profundas braças. Ela acariciou sua face com o polegar. — OH, Gray.

Capítulo 17

Ela disse seu nome, e o perfurou. Igual a uma adaga, fino como uma agulha, enfiado diretamente entre suas costelas, que se incrustou em seu coração. E como qualquer ferida repentina, pegou-o totalmente de surpresa. Doeu. Deixou-o comocionado. O que havia acontecido? Ele esteve lendo, ela esteve pintando. Discutiram sobre a pintura, discutiram as cores. A provocou até que se ruborizou e ela também o provocou. Ela havia tocado seu rosto. OH, como lhe havia tocado. Então de repente, ele estava vendo o desdobramento mais erótico que jamais viu em sua vida. E isso incluía vários desdobramentos eróticos que pagou bom dinheiro para observar. Contou-lhe coisas. Fantasias selvagens, depravadas, que nunca expressou a nenhuma mulher sem lhe pagar generosamente primeiro. Possivelmente um par de coisas que nunca disse a nenhuma mulher absolutamente. E ela escutou e aceitou. Com muito prazer. Com sensual abandono e uma confiança tão doce, que fez que lhe doesse o coração. Ele dissera tudo o que lhe veio à mente, para impulsioná-la a continuar. Para levá-la a esse topo de prazer e observá-la enquanto chegava ao clímax. Tudo isso foi bom. Muito bom. Mas então ela chorou e ele dissera mais. Diria-lhe qualquer coisa, lhe prometeria tudo para acalmá-la. Agora ele olhava fixamente seus olhos vermelhos, chorosos, de repente percebendo do muito perto que esteve de fazer precisamente isso: prometerlhe tudo, e isso o assustou, fazendo-o suar frio. Passou-lhe esse suave, suave polegar pela face, e realmente lhe tremeram os joelhos. Tremeram, maldita seja! Gray não fazia ideia de que demônios estava acontecendo, mas sabia que devia ser mau. Muito mau. Ela tinha os lábios carnudos e inchados pela paixão e simplesmente rogando 164


para serem beijados longa, lenta e profundamente. Sua virilha seguia pulsando com a lembrança desses pequenos ofegos eróticos, suas costas arqueadas em êxtase. OH, Gray, disse ela. OH, Gray, realmente. Como OH, Gray, que demônios se apoderou de ti e que diabos vai fazer a respeito? Tomou a saída do covarde. Fez-se de tolo. — Pensei que estava pintando um retrato. De mim. Ela voltou a cabeça, seguindo o olhar dele a seu cavalete. Uma vasta paisagem marinha transbordava da pequena tela. Impressionantes nuvens de tormenta e um mar violento e espumoso. E um pouco fora do centro, um navio pequeno na crista de uma onda enorme. — Estou te pintando. — O que, estou no pequeno bote, então? Era um alívio brincar. O alívio durou pouco. — Não, disse ela suavemente, voltando-se para olhá-lo. — Eu estou no pequeno bote. Você é a tormenta. E o oceano. É... Gray, é tudo. E foi então quando as coisas foram de "muito más" a "piores". — Não posso levar crédito pela composição. Está inspirada em uma pintura que vi uma vez, em uma galeria no Queen Anne Street. De um senhor Turner. — Turner. Sim, conheço seu trabalho. Não há relação, não? — Não — olhou de novo a tela. — Quando o vi esse dia, tão temerário e selvagem... pude sentir a tempestade agitando-se em meu sangue. E soube ali e então, que tinha algo dentro de mim, uma paixão muito audaz, muito grande para mantê-la confinada no interior de um salão. Primeiro tentei negá-la, e logo tentei fugir dela... e logo te conheci, e vi que a tem também. Não o negue, Gray. Não fuja dela e me deixe sozinha. Ela se levantou de seu assento, ainda lhe esfregando a face com seu polegar. Agarrando a outra mão, levou-a a seu seio nu. OH, Deus. Ela era tão suave como o sonhou. Mais suave. E ali foi sua mão agora. Tremendo. — Me toque, Gray, ela se inclinou para frente, até que seus lábios se detiveram a um centímetro de distância dos seus. — Me Beije. Talvez essa adaga tinha falhado em acertar em seu coração depois de tudo, porque a maldita coisa estava martelando dentro de seu peito. E, OH, se ele pudesse provar seu doce fôlego mesclando-se com o seu. Seus lábios estavam tão perto, tão convidativos. Tão perigosos. Pânico, isso era pelo que seus joelhos estavam tremendo e seu coração pulsando e seus lábios soltando tolices. Devia ser pelo pânico. Porque algo disse ao Gray que 165


podia vê-la principalmente nua, e lhe ver os dedos dos pés curvando-se enquanto alcançava seu clímax, e até abranger com sua palma esse seio tão suave como em seus sonhos, mas de algum jeito, se seus lábios tocassem os dela, estaria perdido. — Por favor — sussurrou ela. — Me Beije. — Não posso — pela segunda vez esse dia, ele retirou a mão dela de seu rosto. Por primeira — e suspeitava com certeza angustiosa, última vez na história, deslizou a mão de seu seio. — Não posso. A dor em seus olhos o devastou. — Então, suponho que será melhor que vá. O sino soou no silêncio, insistente e incessante. Um alarme que coincidia com o tamborilar agitado do coração de Gray. O navio inteiro sabia o perigo em que se encontrava? Mas à medida que sua consciência clareava de novo, percebeu que o trovão surdo nos ouvidos não era seu pulso. Era um trovão real. E o rugido do fôlego acelerado entrando e saindo de seus pulmões, era abafado pelo uivo distante do vento. O navio sofreu uma inclinação preguiçosa, e um bastão pequeno de pigmento rodou pela mesa antes de estelar se contra o chão. Continuando, uma selvagem sacudida expulsou o resto das pinturas e os teve a ambos agarrando-se à mesa com força, para manter o equilíbrio. — Atenção todos!Atenção todos! Gray se levantou de um impulso de sua cadeira, olhando para cima, através do orifício de ventilação. Quando ele ficou de pé, outro balanço repentino arrastou a cadeira sob ele. — Doçura, eu... — Entendo, senhor Grayson — sua voz era fraca. — Vá-se. Por favor, só vá-se. E com um último olhar a seus olhos alagados... Deus o ajudasse, ele se foi. Gray emergiu da escada a uma cena Estranhamente similar a da tela da senhorita Turner. O Afrodite cercado por ondas com cúpulas brancas, e umas ameaçadoras nuvens negras no horizonte. Enquanto se dirigia ao leme, a água do mar corria por seus ombros coberto de linho, lhe recordando que deixou seu casaco sob a coberta. O pesar fez um vão em seu peito. Seu casaco era o de menos que deixou ali. O pingo de valentia ou decência que possuía. Seu coração, a coisa murcha e negra que era. E a ela. Por cima dele, um par de marinheiros habilmente estavam frisando a gavia maior. Gray os invejou. Isso era o que necessitava: precisava trabalhar. Precisava fazer um trabalho duro, físico, até que lhe intumescessem as pontas dos 166


dedos e ficasse cego de esgotamento. Precisava suá-la para fora de seu sistema. Reuniu-se com o Joss no leme da nave. — Parece que temos vento de novo. — Sim, disse Joss. — E algo mais. Eu não gosto do aspecto dessas nuvens. Uns trovões retumbaram à distância. — Nem o som delas — adicionou Gray. Joss levou uma luneta a seu olho direito, fechando com força o esquerdo. — Há uma vela aproximando-se de barlavento. Dei ordens para ir a seu encontro e saudá-la, para ver o que podem nos dizer a respeito da borrasca. Talvez acabam de atravessá-la. — Ou rodeá-la. Joss baixou a luneta para lhe dar um olhar enigmático. — O que está fazendo na coberta, de todos os modos? — O grito foi para todos. — Você não é um marinheiro. É um passageiro. — Posso não ser um marinheiro, mas tenho duas mãos em perfeito estado, e se me sento sobre elas um segundo mais, tornarei-me louco. Joss olhou com fixidez a gola aberta de Gray, onde deveria ter estado atada sua gravata. — Ela realmente está te tornando louco, não? — Não faz nem ideia — murmurou Gray. — OH, acredito que sim. Gray ignorou o tom petulante de seu irmão. — Maldita seja, Joss, só me ponha a trabalhar. Envie-me a dobrar uma vela, me ponha no porão para bombear a sentina... não me importa, só me dê algo que fazer. Joss arqueou as sobrancelhas. — Se insiste — levou a luneta ao olho e começou a esquadrinhar o horizonte outra vez. — Assegura as escotilhas, então. Gray lançou umas palavras de agradecimento por cima do ombro enquanto descia à fortaleza e foi trabalhar, colocando as lonas impermeáveis nas claraboias e as assegurando com pranchas. Enquanto trabalhava, os movimentos do navio se fizeram mais violentos, dificultando seus esforços. Deixou para o final o ralo de ventilação por cima do camarote das damas, resistindo o impulso de espiar através da grade. Em troca, primeiro assegurou um lado, logo cobriu toda a claraboia com um golpe forte sobre o velame19. 19

velame — Conjunto de velas de uma embarcação.

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— Ah do navio! Ah do navio! — Wiggins se inclinou para diante sobre a proa, saudando a nave que se aproximava, suas velas deslizando-se infladas, um forte contraste contra o céu escuro. Gray se moveu para cobrir as escadas que davam aos camarotes, chegando ao interior do enorme buraco negro e procurando o cabo para fechar a escotilha. Algo — ou alguém — media a ele também. Quando a claraboia esteve assegurada, o camarote se enegreceu imediatamente. Sophia sentiu a repentina e sufocante escuridão, apesar de que seus olhos estavam bem fechados, as palmas de suas mãos pressionadas contra eles para deter a onda de lágrimas. O que estava acontecendo? Ficou de pé com pernas trementes, alisando seu vestido por cima de seu quadril e ajustando seu sutiã no negrume. As palpadelas na escuridão, dirigiu-se para a porta do camarote e a abriu. Um quadrado de luz atravessou a escuridão por sobre sua cabeça... a escotilha da escada. Ela avançou para as escadas e colocou um pé sobre o tirante inferior. Entretanto, quando agarrou a borda da escada, sua mão se reuniu em troca com algo quente, sólido e forte. Um braço. — Doçura, disse uma voz. Uma grande mão se fechou sobre seu pulso. Sua voz. Sua mão. Esteve a ponto de chorar de novo. Ele ainda estava ali. Em algumas espetadas absurdas, muito sensíveis de auto-compaixão, ela havia se preparado para não vê-lo nunca mais. — O que está fazendo? — exigiu, seu rosto sombrio se sobressaindo através da escotilha. — Volta para seu camarote. Ah, mas é obvio que ainda estava ali. Sua presença não significava nada, dissese ela com severidade. Não era como se ele tivesse algum meio de escapar do navio. Se o tivesse, certamente o faria. Ainda assim, ela não teve a coragem de soltá-lo. Ela utilizou seu braço como alavanca, avançando a si mesmo pelas escadas, inclusive enquanto estas se inclinavam e rodavam debaixo dela. — O que está acontecendo? — a brisa salgada limpou umas mechas de cabelo soltas de seu rosto, e ela usou sua mão livre para colocá-las por trás da orelha. Agarrava o braço dele com a outra. — Aproxima-se uma tormenta — linhas profundas marcavam seu rosto. Seu cabelo se aferrava a sua fronte em grossas e úmidas mechas. — Deve permanecer 168


abaixo. — Isto não é tão mau, protestou ela, tirando o cabelo do rosto uma vez mais. — Nem sequer chove. Agarrou o seu queixo na mão e a olhou ao rosto. Por um momento sem fôlego, Sophia pensou que tinha a intenção de beijá-la. Pensou mal. — Olhe, girou sua cabeça para a proa do navio. — OH — o vento apagou o som de seus lábios tão rápido como o pronunciou. Ante eles, o céu fervia com nuvens enormes, de cor negra esverdeada. Se Sophia não tivesse padecido suficientes lições de geografia para ter um melhor conhecimento, ela teria pensado que tinha navegado até o final da terra e estavam a ponto de cair do mapa em um vazio agitado. Voltou seu rosto para si. A ameaça em seus olhos não era menos assassina que a do céu. Ela nunca o viu tão ameaçador. — Agora vá abaixo. E fique ali. — Vem comigo? Seus lábios se estreitaram. — Não. — Ah do navio! Gritos chamaram a atenção a estibordo, onde um navio mudou de direção sua vela maior em preparação para falar com o Afrodite. Olhando através do orvalho, ela mal podia distinguir o nome do navio pintado no flanco: O Kestrel. O vento se acelerou, silvando através dos arranjos por cima de suas cabeças. A superfície do oceano explodiu em um milhar de cristas de bordas brancas, como um monstro marinho carregando fileira atrás de fileira de dentes ameaçadores. — Abaixo! Gray a dirigiu de volta para a escotilha. Então o céu se rachou em um brilho branco, quando um trovão estremeceu a coberta sob seus pés. Por um momento terrível, sem fim, o mundo ficou branco. Não havia nada a vista, nenhum som, só o aroma acre do enxofre e um impacto sem peso. Com um rápido puxão de seu pulso, Gray a fez girar para seu peito, envolvendo seu braço através de seu torso e obrigando a cair na coberta. Sophia se aconchegou entre as tábuas de madeira abaixo dela e a fortaleza humana cálida e forte que a rodeava. Protegendo-a. Ela fez um inventário mental de seus próprios membros, assegurando-se de que todos estivessem ainda ali. Sim, tinha suas pernas, encolhidas torpemente contra seu ventre. Um braço ficou preso debaixo dela, com sua outra mão 169


que ainda aferrava a manga dele. Ela deslizou sua mão tremente para baixo, para esse pulso, regozijando-se ao sentir o pulso pulsando contra o vão de seu polegar. Seu coração deu um tombo em suas costelas. Uns ruídos chegaram até seus ouvidos: homens gritando, madeira estilhaçando-se. Mas os únicos sons que a Sophia importavam eram esses ritmos gêmeos: o do coração dele, e o seu. Depois de uns momentos, o peso que a pressionava contra a coberta desapareceu, e sentiu-se erguida para pô-la de pé. — Pode te levantar? Ela assentiu com a cabeça, fechando seus joelhos enquanto ela descansava as costas contra esse peito masculino. — Foi... — sua garganta se esforçou. — Foi um raio? Acertou o navio? — Sim. E não — apertou seu pulso. — Acertou o deles. Ela estirou o pescoço para olhá-lo ao rosto. Seus rasgos pálidos e gastos, que olhavam fixamente pela amurada do navio. Sophia seguiu seu olhar. No princípio, ela mal o notou, o débil resplendor vermelho na ponta do pau maior do Kestrel. O navio seguia a certa distância, e Sophia teve que entrecerrar os olhos para distingui-lo. Mas estava ali. O braço do Gray se afrouxou sobre ela, e ela deu um passo adiante. A luz pareceu desaparecer por um momento, logo faiscou fracamente e brilhou de novo, como uma brasa em um fogo que se apaga. Mas este fogo não estava se apagando. O capitão apareceu ao lado do Gray. Juntos, os dois homens ficaram olhando o resplendor vermelho. — Gray, pode ver...? — Sim. Uma língua de fogo brotava da ponta do mastro. Sophia sentiu a rigidez em todo o corpo de Gray. O fogo deslizava ao longo de uma parte de corda, acendendo uma ponta do penol superior. — Maldita seja, por que não dão o alarme? — perguntou o capitão. — Onde está sua tripulação? — Depois de uma explosão como essa... — a voz do Gray tomou o fio do aço. — Mortos, alguns deles. Aturdidos ou mutilados, pelo menos. Uma onda caiu sobre a coberta, e Sophia cambaleou para trás contra o peito dele. Seu queixo roçou o alto de sua cabeça. Eles encaixavam perfeitamente. Desde o dia em que ele a ajudou a abordar este navio, tinha caído uma e outra vez em seus braços. Para ela, a verdade era evidente. Seus braços pertenciam a seu redor. Se ele a deixasse entrar em seu coração... 170


Voltou a cabeça e apoiou a fronte contra seu ombro. — Gray — sussurrou. Ele se esticou e se tornou para trás. Mas não a soltou. O capitão fez concha com as mãos ao redor de sua boca. — Disponham os botes! — gritou para os homens na proa. — Preparem a vela maior! — Vais retroceder? — perguntou Gray. — Que outra opção temos? — o capitão esfregou seu rosto com uma mão. — Não se sabe em que direção cairá o mastro. Não podemos nos arriscar a que o fogo apanhe o Afrodite. Disporei os botes. Se houver sobreviventes, dirigir-se-ão à amurada. — Não, se estão feridos ou presos no porão não poderão. — O que propõe que façamos, Gray? Sua resposta foi tranquila, mas firme. — Abordá-lo. — O que? — Sophia se soltou de seu agarre e se voltou para ele. — O que? — a expressão do capitão refletia seu sentido do alarme. — Aconselha abordar um navio em chamas? Gray, está louco? — Atua como se nunca o tivéssemos feito antes. Este estava acostumado a ser nosso meio de vida, abordar navios em chamas. Esse mastro é uma mecha. Invadirá de fumaça toda a nave se não se apague antes que as chamas alcancem a coberta. Ele pôs uma mão sobre o ombro de seu irmão, seus lábios estreitando-se em um sorriso forçado. — Vamos, Joss. Será como nos velhos tempos. — Nos velhos tempos, qualquer incêndio ao que enfrentávamos era o resultado de nossos próprios fogos de canhões. Sabe que um raio pode provocar chamas em todo o navio. Inclusive agora, poderia haver um incêndio no porão. Se houver um barril de pólvora, um barril de rum perto... Tudo poderia voar a qualquer momento. — Então será melhor que fiquemos espertos, não? Gray se aproximou da amurada para gritar aos marinheiros. — Puxem a vela maior! Reanimem-na! Os homens obedeceram sem vacilar, e o Afrodite girou, aproximando-se de flanco à outra nave. Sophia ficou paralisada enquanto as chamas avançavam pelo penol do sobrejoanete. A vela recolhida pegou fogo como um cilindro de papel. — Voluntários! Gray levantou um rolo de corda de seu eixo. — Quem abordará comigo? Nenhum homem com esposa e filhos. Levi apareceu a seu lado de um nada, forte e silencioso como sempre. Ele e Gray intercambiaram gestos de acordo com a cabeça. 171


— Estou dentro — O'Shea desceu da verga e se deixou cair na coberta com graça felina. — Como nos velhos tempos, né, Gray? Gray lançou um olhar divertido a seu irmão. — Vê? À medida que a distância entre as naves se reduzia, os três homens testaram suas cordas. — Irei, também — Davy se impulsionou a amurada. — Não!-gritou Sophia. — Gray, não o deixe. — A nave poderia suportar minha perda mais facilmente que a da maioria — estava este moço alto, enrolando as mangas de sua túnica até seus cotovelos. — E não tenho esposa nem filhos, senhor. — Não, não os tem, disse Gray. — Muito bem, então. Os quatro homens agarraram suas cordas e subiram na amurada, preparando-se para balançar-se através da brecha do mar agitado para abordar o navio em chamas. O rosto de Gray não demonstrava nenhuma ansiedade, só uma aguda concentração e uma sombria determinação. Pelo contrário, Sophia estava consumida pelo medo. Levantou a vista. As chamas tinham alcançado o joanete agora. O temor adormeceu todo seu corpo, e o vento amargo pareceu uivar através dela, assobiando através de suas costelas e esfriando seu coração. Recordou as palavras do capitão. Podem haver chamas em todo o navio ... Um barril de pólvora, um barril de rum, e... E ele morreria. Gray — uma rajada de vento carregou seu sufocado soluço e o jogou no mar. O capitão se dirigiu para frente, procurando um rolo de corda. — Se está decidido a fazer esta tolice, irei contigo. — Não — o rosto do Gray foi duro. — Nenhum homem com esposa ou filhos — lançou um olhar a Sophia, então rapidamente o afastou. Se leu a súplica desesperada em seus olhos, ele não a reconheceu. Ela estremeceu, sentindo o significado desse olhar desdenhoso. O que fosse ela para ele, era pouco menos que uma esposa. E nunca lhe permitiria ser mais. Ela não era razão suficiente para que ele vivesse. Eu não te desejo. Algo em seu interior se dividiu e rompeu. Sophia se abraçou com força o peito, como se assim pudesse manter as peças juntas. Gray se voltou para seu irmão. — Retrocede logo que estejamos a bordo, ouve-me? Daremos um sinal quando tudo esteja livre. 172


Elevou o peso de seu corpo na corda, os poderosos músculos de seus braços e de suas costas esticando-se contra as costuras de sua camisa molhada. — Esta nave Afrodite está sob seu comando, Joss. Cuida dela por mim. — Sim, farei-o — um olhar de cumplicidade passou entre eles. — Cuidarei da nave, também.

Capítulo 18

As botas de Gray tocaram a coberta do Kestrel com um ruído surdo. Uma vez que os outros três passaram pelo corrimão, começou a dar ordens. O vento impetuoso o obrigava a gritar. — O'Shea, pega o leme. Mantém estável, apontando à tormenta. Do contrário, estará nas últimas ainda antes que pesquemos o cheiro da fumaça. — O irlandês assentiu e correu para o leme. Gray olhou ao Levi. — Encontra alguns machados e começa a cortar o mastro maior. Eu me unirei a ti. Com seus homens despachados, Gray olhou para cima, entortando os olhos para o céu escurecido transpassado por uma brilhante chama. O fogo agora estava a meio caminho do mastro. Com este vento nefasto avivando as chamas, tinham só uns minutos antes que o fogo alcançasse a coberta. Não havia tempo a perder. — irei cortar com o Levi — Davy parou a seu lado. — Sou forte. — Não, Gray olhou ao redor. Onde estavam os malditos machados? Necessitote para que reviste o navio. Veja se existe labaredas no porão. Busca feridos, ou algum preso. Se cruzar com algo inflamável: bebidas, pólvora, remédios, deve as atirar pela amurada imediatamente, compreende-me? O menino assentiu, seu rosto pálido, mas determinado. — Sip, Capitão — a voz do Davy se quebrou e Gray sentiu uma pontada de culpa. Deveria ter insistido em que o moço ficasse no Afrodite. — Não sou seu Capitão, gritou Gray atrás dele. — Neste navio, é-o — com um encolhimento de ombros, Davy se apressou para a escotilha. Gray se dirigiu a grandes pernadas para o mastro maior, procurando a Levi. Suas 173


botas esmagaram algo metálico. Ele olhou fixo a coberta. Pregos. Dobrados, fundidos uns com outros, alguns retorcidos, como raízes de árvores. Bom Senhor, ele ouviu sobre quedas de raios como estes: sacudidas o suficientemente fortes para tirar os pregos do mastro e deixá-los repicando na coberta, mas nunca havia visto semelhante coisa, nem em todos seus anos no mar. Esperava não voltar a vê-lo. Um pedaço disforme de metal rolou até parar a seus pés, ainda fumegante. Gray chutou o arredondado vulto. — Que demônios é isto? — Acredito que costumava ser um sino. Gray elevou repentinamente a cabeça e encontrou a dois desalinhados marinheiros parados em frente a ele. — O que podemos fazer? — perguntou o mais baixo dos dois, massageando o ombro como se lhe doesse. — Estão ilesos? Gray examinou aos homens da cabeça aos pés. A roupa em farrapos pendurada de suas gastas formas, e suas mãos estavam negras de alcatrão e fuligem. O cheiro acre do cabelo chamuscado assaltou suas fossas nasais. Os marinheiros assentiram. — Só sacudidos, isso é tudo — respondeu o mais alto. — Outros não foram tão afortunados — inclinou a cabeça para um monte de trapos sem vida ao outro lado da coberta. Piedosamente, os rostos dos marinheiros mortos estavam ocultos à vista, mas uma mão carbonizada se aferrava ao arranjo. Gray tragou com força, sentindo o sabor da bílis. — Onde está seu Capitão? — ele passou roçando os marinheiros. — E onde demônios estão seus machados? — Não sabemos onde está o Capitão — respondeu um dos marinheiros. — Provavelmente em seu camarote. Gostaria de pensar que o bastardo está morto, mas não somos tão afortunados. — Quanto aos machados? — o marinheiro mais alto assinalou para a amurada, e Gray seguiu seu olhar. Uma fileira de cabos de machados de madeira saltavam à vista. Os fios dos machados, entretanto, descansavam na coberta. Separados de seus cabos, ainda fumegantes, meio derretidos... e completa e totalmente inúteis. Gray amaldiçoou. Levy apareceu da galeria, com uma espécie de machadinha de carne em uma mão e um facão na outra. Foi tudo o que Gray pôde fazer para não começar a rir até chorar. 174


Iam jogar abaixo o mastro maior com uma machadinha de açougueiro? Sem dizer uma palavra, Levi lhe deu o facão e começou a atacar o mastro maior com a machadinha. Bom, aparentemente, iam tentá-lo. Gray correu para o firme arranjo, usando o facão para cortar as cordas que conectavam o mastro com o navio. Se por algum milagre Levi conseguisse cortar o mastro maior, não poderia cair limpamente com o arranjo intacto. Os dois marinheiros extraíram facas de seus cinturões e começaram a ajudar. Apesar da espuma e o vento, o corpo do Gray rapidamente se esquentou com o esforço. O suor caía por sua fronte, e o secava com as mangas entre sopros. Eventualmente, abandonava o movimento de serra com as cordas em favor de fortes golpe de facão. — Quantos tripulantes? Gritou aos marinheiros, cortando outra corda. — Mortos — Zas. — Vivos. — Somos onze. Cinco estavam no castelo de proa. Não sei como foi. Dois mortos aqui na coberta. Outros estavam feridos, mas ainda vivem. Até o momento. — O que há no porão? — seu golpe aterrissou torpemente, diretamente na amurada. A dor irrompeu em seu cotovelo. — Rum! — Davy subiu até eles, fazendo malabarismos com um pequeno barril de pólvora. Gray se deteve no meio de um golpe e olhou fixo ao moço. O terror se desenhava em seu jovem rosto. — É rum, Gray. O porão está a arrebentar dele e o... Davy tropeçou com um rolo de corda, deixando cair o barril. Gray o observou rolar novamente para o porão, deixando um fino rastro de pólvora a sua passagem. Perfeito. Malditamente maravilhoso. Gray levantou o facão novamente, com o temor provocando cãibras em seu flanco. — Há fogo abaixo? — Não que eu tenha visto. Mas há homens feridos lá abaixo. Um deles... — o peito do Davy se convulsionou com um espasmo repentino, como se estivesse a ponto de vomitar. — Um deles se queimou feio. — Botes? Gray olhou aos marinheiros. — Só um. Uma onda de calor os envolveu quando a gavia pegou fogo, elevando-se em chamas como se fossem folhas secas. Gray examinou o sulco pouco profundo do mastro maior. Apesar da força de Levi, ele mal conseguiu marcar o tronco de pinheiro. Levaria muito tempo jogá-lo abaixo. Para esse então, as chamas estariam muito baixas. 175


O fogo alcançaria a coberta, acenderia a pólvora, esparramaria-se sobre o conteúdo completo de rum, e o navio inteiro explodiria como uma granada Bonapartista. Malditos infernos. Levi continuou balançando a machadinha, enquanto o resto dos homens simplesmente olhava ao Gray. Davy tragou com força e se moveu sobre seus pés, claramente esperando ordens. — Capitão? No momento em que as palavras saíram dos lábios do Davy, Gray soube várias coisas. Soube que ele era de fato o Capitão deste abandonado navio. Abordara-o e tomou o comando, e agora devia ficar nele até o final. Sabia que podia salvar a alguns dos homens, mas não a todos. A esta altura, seriam afortunados se conseguissem baixar o bote antes que o rum explodisse, e deixar que o dano se limitasse ao porão. E sabia que não podia deixar os feridos para trás e viver consigo mesmo depois disso. O que significava que não viveria. Nunca seria capaz de voltar para a Afrodite. Nem a seus negócios. Nem a sua família. Nem a ela. Ele ia morrer. Hoje. Cristo. Passou ambas as mãos por seu cabelo, tirando o de sua fronte, logo tomou a machadinha de Levi. — Baixe o bote. Dá o alerta de abandonar o navio — uma parte de penol carbonizado caiu na coberta, a seus pés, fazendo que desse um passo atrás. — E sejam rápidos. Os homens se apressaram a baixar o bote da popa do navio, deixando ao Gray olhando fixamente ao mastro maior. O mastro dançava em chamas como uma vela gigante. Fechou sua mão em um punho e golpeou a rebelde coluna de madeira, obtendo nada mais que nódulos arranhados e uma dor aguda pelo incômodo. — Cai, maldita seja — apoiou seu ombro no mastro e empurrou, ainda sabendo que era um esforço inútil. Com os dentes apertados e os calcanhares afundados nas gretas da coberta, voltou a empurrar. — Cai. Nada. Uma voz desconhecida de marinheiro se ouviu áspera no temporal. — Abandonem o navio! Todos a bordo, abandonem o navio! Ao bote! 176


Um grupo de marinheiros empurraram a escotilha do castelo de proa, cambaleando para a popa. Se os homens notaram a um homem barbudo tentando derrubar o mastro maior com suas mãos nuas, não pararam em lhe dar um segundo olhar. — Parem com essa maldita gritaria! A sórdida e lânguida maldição levou a atenção do Gray para a popa. Viu um desajeitado homem vestido de negro, com um casaco com botões de latão, que saía do camarote do Capitão, esfregando o rosto remelento. Boquiaberto e piscando, tinha uma expressão que era uma parte desconcerto e duas partes de álcool . O Capitão olhou as invasivas chamas e franziu o cenho. — Que demônios...? Gray sacudiu a cabeça. O homem dormiu durante toda a maldita odisseia? Perdeu ao menos dois homens de sua tripulação e seu navio ia a caminho a converterse em um inferno, e esta desculpa de comandante tinha a idiotice de amaldiçoar o alarme que o tirou de seu estupor? A coberta cambaleou, e o bêbado capitão agarrou uma cavilha para sustentar-se. Com o seguinte balanço do navio, vomitou grosseiramente em suas próprias botas. Gray deu dois passos para o leme e pôs as mãos ao redor de sua boca. — O'Shea! O homem apreendeu seu olhar através da roda do leme. Gray lhe assinalou ao oficial com arcadas. — Coloca-o no bote. E você fique aí também. Diga ao Levi que comece a afastar-se. Agora. — E quanto a você, Gray? — Nadarei até vós. Agora vai ! — Sim, sim — O'Shea puxou pela manga do casaco do capitão, arrastando-o virtualmente para o bote. Ambos desapareceram sobre a amurada do navio, e Gray observou as cordas que firmavam o bote destravar-se e afrouxar-se. Partiram. Gray se afundou contra o mastro maior, sentindo que as chamas queimavam seu cabelo. Ia morrer aqui, sozinho, deixando nada que marcasse sua passagem pela terra mais que uma série de malditas expectativas e promessas quebradas. Seu legado se desvaneceria antes que a esteira de uma toninha. Algo explodiu por cima de sua cabeça, e as faíscas choveram sobre ele. Agachando-se, Gray escondeu seu rosto contra o braço. Talvez, pensou, ele poderia nadar para salvar-se. Havia homens feridos no porão, Quantos? Quatro? Cinco? Não havia forma de salvá-los agora. Mas podia se salvar. 177


Poderia nadar até ela. Nadaria quilômetros por ela se fosse preciso. Mas poderia viver consigo mesmo depois, sabendo que abandonou cinco homens a uma morte agonizante enquanto ele nadava para ficar a salvo? Uma imagem de seu encanto floresceu por trás de suas pálpebras. Gray decidiu que talvez pudesse. Tirando as costas do mastro, afundou-se na coberta e lutou por tirar as botas. As chamas já tinham alcançado os arranjos que estavam em pé. Por cima dele, o alcatrão chispou e escorreu pela superfície das cordas, gotejando na coberta como uma chuva negra e sulfurosa. Sua primeira experiência do inferno... O calor das chamas o banhou. E então, uma voz familiar congelou o sangue em suas veias. — E agora o que, Capitão? Não podia ser. A cabeça do Gray se elevou de um puxão, e uma maldição escapou de sua arruda exalação. Era Davy. — Que demônios faz ainda aqui? Supunha-se que abandonou o navio. O menino encolheu os ombros. — Não o fiz. Pensei que me necessitaria. Gray fechou os olhos e deixou cair sua bota na coberta. — Davy, suponho que não sabe nadar? — Não, Capitão. Gray amaldiçoou novamente. Chutou o mastro. Golpeou-o. Deu um passo atrás, baixou seu ombro e o empurrou com todas suas forças, tudo enquanto soltava uma violenta série de blasfêmias. Davy inclinou a cabeça e coçou a nuca. — Não acredito que esteja funcionando. — Tem a maldita razão, não está funcionando, gritou Gray. — Vamos morrer, dá-te conta disso? — Não há outra forma de derrubar o mastro? — Derrubei dúzias de mastros. Mas de meu próprio maldito navio, com o... — a voz do Gray se foi perdendo, a esperança brilhando em seu peito. A ideia era uma autêntica loucura. Mas melhor louco que morto. Girou completamente para ficar em frente ao arco, uma prece presa em sua garganta enquanto seus olhos varriam a coberta. Finalmente seu olhar deu com o objeto que procurava. Um canhão de seis libras, encastrado sob a amurada. Gray se dirigiu para ele, com o moço correndo atrás. — Davy, sabe como carregar um canhão? 178


— Não, Capitão. Depois de cortar as cordas com seu facão, Gray girou o canhão cento e oitenta graus e o apontou ao centro da fortaleza. — Está por aprender. Coloca seu polegar aqui... lhe indicou o orifício do ouvido no bojo , e aguardou até que Davy obedeceu, ...e não o mova até que eu te diga que o faça. Gray recuperou o barril que Davy deixara cair antes e o abriu com o facão, derrubando uma boa quantidade de seu conteúdo no canhão. Não havia tempo de medir a carga. Mais valia equivocar-se por excesso. Agora, buscar as balas do canhão. — Usaremos um tiro dobrado explicou ao Davy. — Só teremos uma oportunidade nisto. Gray alcançou a linha de tiro guardada no baluarte, só para voltar sua mão atrás. As malditas coisas estavam ainda abrasadoras ao tato. E pior. Seu coração se afundou ao lançar ao cordão um olhar de teste. As malditas coisas estavam coladas. Uma lava de ferro. Cada palavra profana que Gray alguma vez escutou, leu, pronunciou ou inventou saiu de sua boca. Não entre em pânico, disse-se a si mesmo, quando Davy empalideceu. Tudo pode ir em um canhão. Qualquer metal, preferencialmente redondo. O vento uivava através das velas, diáfanas entre as chamas. O navio deu uma repentina sacudida; a coberta se inclinou. E os restos fumegantes do sino do navio rolaram até descansar aos pés do Gray, como uma resposta a sua prece. Usando os punhos de sua camisa para amortecer o calor, arrojou o vulto de metal à boca do canhão. Gray fez um gesto ao Davy para que afastasse seu polegar. — Agora necessitamos uma mecha e uma faísca. — Não temos escassez disso — o gesto gracioso no rosto do Davy deu ao Gray uma repentina onda de determinação. Não ia deixar que este moço morresse. Tripulação com seu bom humor e coragem era bestialmente difícil de encontrar. Colocando-se atrás do canhão, alinhou a mira à base do mastro maior, justo debaixo das estendidas chamas. Se falhasse, ou inclusive se errasse o alvo, este único tiro podia fazer que o navio completo explodisse em chamas e cinzas. Era uma medida desesperada, para uma situação desesperada. — Proteja-se ao flanco, ordenou ao Davy. — E cubra os ouvidos. Gray se apressou a arrancar uma chamejante lasca da coberta. Aproximou-a da mecha, com as mãos se tampou os ouvidos, e se agachou. Bum. 179


O tiro saiu disparado do bojo do canhão. Uma nuvem de fumaça e pó os envolveu instantaneamente. Lascas de madeira choveram sobre eles, algumas cravando-se diretamente na camisa do Gray e alojando-se em sua carne. Cego, surdo, sufocado, e com náuseas, Gray só esperou recuperar algum de seus sentidos, que lhe indicasse se havia sobrevivido ou não. O pó clareou lentamente, e através da dissipada nuvem, Gray viu o mastro. Inclinado, mas ainda em pé. Ainda sem incendiar-se. Mas queimando-se um pouco mais. Gray ficou de pé bruscamente. — Caia, maldito. O vento se acelerou, e um horripilante chiado cortou o ar. Lentamente, cambaleando-se, o mastro maior partiu na base e se afundou torpemente no mar, com o arranjo detrás deslizando-se como uma enguia. — Nossa, Gray se deixou cair de joelhos. E logo, como se o mesmo Deus o tivesse escutado e decidido afogar sua alma blasfema e terminar com isso, os céus se abriram e vomitaram chuva. Urticantes cântaros de chuva esfregaram a coberta, apedrejando-os enquanto eles se encolhiam contra o canhão. Por um comprido tempo, esconderam-se ali, absorvendo água como esponjas. Os membros de Gray estavam pesados pela comoção. Finalmente, Davy começou a balbuciar e se sacudiu como um cão molhado, adicionando uma garoa horizontal de gotas ao dilúvio vertical. — Graças a Deus — seu sorriso infantil quebrou o gelo que cobria a própria reação do Gray. Riu. Que mais podia fazer? Deveria estar morto. Ele ia viver. Era rir ou chorar, e já estava o suficientemente encharcado com água para flutuar como um barril. — Não relaxe ainda. Ainda não terminamos. Gray pôs uma mão sob o braço do Davy e puxou o moço para pô-lo de pé. — Encontra qualquer homem são que continue a bordo e arma uma corrente de trabalho. O navio ainda não está fora de perigo. Qualquer fogo tardio poderia fazer faíscas nele. Temos que tirar esse rum do porão e atirá-lo pela amurada. Logo nos ocuparemos dos feridos. Davy se deteve enquanto se dirigiam à escotilha. — Se vamos atirar o rum pela amurada... Poderíamos beber algo antes ao menos? Viria-me bem um gole. Gray riu. — Também a mim. 180


Algum tempo depois, Gray passou suas trementes pernas pelo corrimão do Afrodite. Joss correu a seu lado. — Algum morto? — Dois. E outros três gravemente feridos. Gray tirou o cabelo úmido do rosto. — Melhor que mandemos o bote para eles. Parece não haver fogo no porão, mas você sabe tão bem como eu que ainda é muito cedo para dizê-lo. Sabe-se que estas coisas são conhecidas por explodir horas depois. Esvaziamolo de todo o combustível, só para estar seguros. Joss olhou para o céu. — Bom, com este aguaceiro parece pouco provável. — Sim. — Exausto, Gray se recostou no arranjo e enxugou sua fronte com o braço. — Todos estão bem por aqui? — tentou manter sua voz firme. Joss assentiu. — Ela está em meu camarote, Gray. Acredito que seria melhor que vá vê-la. — Não acredito que ela queira isso — depois da maneira que ele a abandonou mais cedo, assumiu que ela estaria feliz de jamais voltar a vê-lo. — Esteve doente de preocupação, Gray. Tive que lhe ordenar que permanecesse abaixo. Mesmo então, só fez caso a minhas ordens muito depois de que a chuva apagasse as chamas. Se sentirá aliviada de ver que está bem. — Só está ansiosa pelo jovem Davy — ainda assim, Gray não podia apagar a chama de esperança presa em seu peito. E não podia manter-se afastado. Lhe dando ao Joss um afetuoso golpe no braço, subiu as escadas do leme e abriu a escotilha. Lentamente desceu pela turva cabine. Apesar de que ainda era de dia, as nuvens da tormenta cobriam a maior parte dos raios do sol. Gray piscou, procurando entre as sombras. Então a viu, sua silhueta recortada contra as janelas que davam à popa. — Gray? Ele assentiu. Logo, percebendo que ela provavelmente não podia discernir o gesto na escuridão, clareou a garganta e se forçou a dizer: — Sou eu. — Está... está bem? — Sim — seus olhos começaram a adaptar-se à escuridão, e pôde distinguir a suave curva de seu ombro, seus braços cruzados sobre seu ventre. Seu cabelo estava solto, caindo até sua cintura em pesadas ondas. — Levi e O'Shea? — perguntou com voz trêmula. — Davy? — Estão a salvo também. O fogo se apagou. Tudo terminou. Ela não disse nada. Gray parou imóvel por um momento, suportando seu peso. 181


Vá a ela, urgia-o uma voz em seu interior. Toma-a em seus braços. Lhe rogue que te perdoe. Dê-lhe tudo; lhe prometa qualquer coisa. Deus, que covarde era. Na verdade, só esteve tão ansioso de abordar um navio em chamas e arriscar sua vida essa tarde. Porque era mais fácil caminhar através do fogo que enfrentar a esta pequena instrutora, e a tempestade de emoções que agitava seu coração. O silêncio zombou dele. Gray estava a ponto de ir-se quando de repente ela correu a ele, arrojando os braços ao redor de seu pescoço. — OH, Gray, estava tão assustada. Mas sabia que voltaria para mim. Precisava voltar para mim. — É obvio que o fiz. Gray se deteve em choque e imóvel enquanto ela se pendurava em seu pescoço, soluçando alto contra seu ombro. As mãos do Gray penduravam inúteis a seus flancos. — Gray — chorou ela uma e outra vez . Graças a Deus que está a salvo. Os sentimentos dela o afligiram, assim como sua suavidade, suas lágrimas. Apesar de tudo o que lhe disse, de tudo o que lhe fez, a ela ainda importava se ele vivia ou morria. Era humilhante, incompreensível. Maravilhoso. Se soubesse que esta seria sua recompensa, teria caído pela amurada semanas atrás. Finalmente, ele respirou profundamente e a envolveu com seus braços, aferrando-a fortemente contra seu peito. — Shhh, doçura — com uma mão tremente, acariciou-lhe o cabelo. Os cachos úmidos se deslizaram por seus dedos como cintas. — Não chore. Tudo está bem. Tudo terminou agora. Ela sorveu pelo nariz e elevou seu rosto para olhar o dele. Ainda estava murmurando palavras tranquilizadoras e lhe acariciando o cabelo, e a visão desse rosto perfeito a centímetros do seu... pegou-o totalmente despreparado. A beleza dela o golpeou como um raio. As mãos dela vagaram por seu pescoço, atraindo o rosto do Gray. Gray fechou os olhos, enquanto ela roçava um beijo quente e suave como uma pluma contra seu queixo. Outro aterrissou em seu pescoço. Logo a comissura de seus lábios. Ela pressionou sua face contra a dele, e Gray sentiu lagrimas quentes fundir-se com os frios restos de chuva. O coração de Gray se espremeu. Logo depois da maneira cruel em que ele a tratou, que ela o sustentasse assim e que o beijasse tão meigamente, foi o ato mais sincero de valentia que Gray já viu. Estava oferecendo-lhe seu coração, completamente preparada para que ele o 182


rompesse. E bastardo egoísta como era, Gray já não tinha mais vontade para rechaçála. Talvez... só talvez, não precisasse fazê-lo. Acabava de abordar um navio, dar de golpes a um mastro, destroçar sua carga, as mesmas ações que ele fez uma e outra vez no passado, por cobiça. Mas esta vez o fez por razões completamente diferente. Não para tomar, a não ser para proteger. Tal como tomou muitas — muitas — mulheres em seus braços anteriormente, com a mais desonrosa das intenções. Mas esta era diferente. Tão diferente. Se ele pôde apoderar-se de um navio com honra... talvez pudesse fazer isto com honra também. Não para tomar, a não ser para proteger. Para entesourar. Para amar. Ela soluçou sobre sua face novamente, e ele a afastou. — Já, doçura, lhe sussurrou Gray, pondo seu cabelo por trás da orelha. Pegou o rosto dela entre suas mãos e baixou seus lábios aos dela em um beijo suave. — Já tudo terminou. E assim era. Tudo tinha terminado. O fogo estava apagado. Os homens estavam vivos. E ela estava aqui em seus braços, onde encaixava como se fosse feita para seu abraço. Semanas de desejos frustrados chegavam a seu fim. Anos de vazio, também. Tudo tinha terminado. E Gray? Gray estava acabado. Terminado. Completa e sem esperança perdido no abraço mais suave e tenro que tivesse conhecido. Sustentou seu formoso rosto em suas mãos, deixando suaves beijos sobre seus lábios. Beijando-a lenta, cuidadosamente, como se ele só estivesse aprendendo a beijar, porque o estava. Não aprendendo como beijar, a não ser aprendendo por que beijar. Não para persuadir, não como prelúdio de maiores liberdades. Simplesmente para descobrir o sabor dela, delicado e fresco e esquisitamente doce. Para lhe dizer coisas que ele não se atrevia a expressar com palavras. Beijava-a só pelo maior prazer de beijá-la, porque nesse momento, beijá-la era o maior prazer imaginável. Gray pressionou seus lábios contra sua face, sua fronte, suas pálpebras, seu cabelo, intercalando seus beijos com pequenas expressões de carinho em cada idioma que conhecia. Logo, com os olhos fechados, apoiou sua fronte contra a dela e esperou. Deixando a decisão a ela. Com um pequeno suspiro, Sophia se derreteu em seus braços, pressionando o seu corpo ao dele. Seus seios se esfregaram contra seu peito, deliciosamente quentes 183


e suaves. O desejo ardeu através do Gray. E de repente, voltou a estar no meio do inferno. Elevou-se nas pontas dos pés, pressionando seus lábios aos dele com uma feroz urgência. E a urgência, ele a compartilhava. A desesperada energia que foi seu combustível em sua corrida contra as chamas ainda reverberava por seu corpo. Gray a sentia pulsando em seus ossos e correndo por seu sangue. E agora a derrubava toda em beijar a esta mulher, amarrando os braços a seu redor e levantando seu corpo contra o seu. Esmagando seu suave ventre contra sua crescente excitação. Seus lábios se abriram sob os do Gray, e ele aceitou ansioso o convite. Suas línguas se enredaram, saborearam, incitaram, cada uma delas dando e tomando em troca. Finalmente Gray abandonou o beijo, deslizando uma mão para pegar seu traseiro enquanto ela entrelaçava os dedos fortemente a seu cabelo. — Sinto-o tanto — disse Gray enquanto lhe dava pequenos beijos. — Pelo que disse aquela noite. Por te abandonar mais cedo. Eu nunca quis... — Sei — sussurrou ela envolvendo uma perna sobre o quadril do Gray e acendendo seu corpo. Seus lábios lhe roçaram a orelha. — Sei. Tão somente não me abandone outra vez. — Nunca. — A palavra surgiu como um juramento ou uma prece, e que Deus o ajudasse, dizia-o a sério. — Nunca — repetiu, olhando-a diretamente em seus brilhantes olhos. Logo, selou o voto com um beijo, profundo e desesperado e sincero. — OH, Deus — grunhiu ele quando seus lábios finalmente se separaram. Sophia o beijou novamente, descendo seus quentes e finos dedos sob a gola de sua camisa para acariciar a fria pele de seus ombros e costas. Ele escondeu o rosto em seu pescoço, inalando sua maravilhosa essência. Tinha esquecido como as rosas cheiravam mais doces depois da chuva. Deixando ligeiros beijos ao longo de sua clavícula, começou a levá-la para a cama. — Me faça o amor, Gray. Ela não precisava pedi-lo. Ambos sabiam o que ia acontecer. Mas Gray sentiu o significado de suas palavras. Ele poderia ter se deitado com damas e putas de todo o mundo, mas pela primeira vez em sua vida, ia fazer o amor a uma mulher. E não só a uma mulher. A sua mulher. E esta ideia que deveria ser tão impensável, tão aterradora, para sua surpresa, Gray a encontrou grosseiramente excitante. Caíram juntos na estreita cama, e ela começou a puxar sua camisa para liberá-la das calças. Ele se levantou sobre seus joelhos e impacientemente a passou sobre sua cabeça. Ele olhou seu vestido na escuridão. Demônios. Raias. 184


Gray começou a volteá-la, procurando laços ou ganchos ou algum outro ridículo mecanismo inventado pelo diabo para frustrar aos homens. Ela sacudiu a cabeça. — Na próxima vez — se retorceu debaixo dele, levantando as saias até a cintura. A erótica dança de seus quadris o deixou tremendo de necessidade. — A próxima vez iremos mais lento. Faremos tudo o que disse esta manhã, e mais. Ofegou quando ele pressionou a palma sobre seu seio através da musselina úmida. Os dedos dela se engancharam sob a cintura de suas calças e o olhou de uma forma audaz e provocadora. — Mas te necessito agora, Gray. Com um baixo grunhido, ele se inclinou para chupar um descarado mamilo através das capas de anágua e vestido. Ela gemeu e se arqueou contra ele, trabalhando com os botões com uma mão enquanto seus dedos deslizavam em sua roupa interior para acariciar a torcida cabeça de sua ereção. OH, Deus. Ele a necessitava agora, também. Necessitava-a agora, e mais tarde novamente, e talvez uma terceira vez essa noite. E amanhã, e ao dia seguinte e cada dia depois desse. Estava pulsando de necessidade, tenso sob sua carícia, e quando seus dedos se curvaram a seu redor, ambos ofegaram. Ela o acariciou com gentileza, tão docemente que ele queria chorar de alegria. Deslizou uma mão para cima em sua coxa para encontrá-la quente e molhada e pronta contra sua palma. A próxima vez, prometeu-se a si mesmo. A próxima vez, tomaria seu tempo para tocá-la e saboreá-la e aprender suas respostas e observar sua beleza desdobrar-se no pico da paixão. Mas ela o necessitava agora, e ele a necessitava agora, e agora não era um minuto, nem sequer um segundo depois. Agora era agora. Gray tirou sua mão para colocar-se nessa quente e molhada entrada, e empurrou. Ela gritou, cravando os dedos nos braços do Gray com tanta força que ele também quase gritou. OH, Deus. Ela era muito apertada. Tão apertada. Novas lágrimas desceram por essas suaves faces, apesar de que tentou parecer valente. E Gray finalmente entendeu essa doçura elusiva e inominável que sempre pendia dela, por trás do pó e a água de rosas. Era inocência. Sua pequena sereia era virgem. — Por quê...? — a respiração ficou presa no peito enquanto lutava por controlarse. — OH, doçura, devia ter-me dito a verdade. — Estou dizendo isso agora — ela tragou com força, deslizando uma mão para 185


embalar seu rosto. — Só você, Gray. Agora e sempre. Só você. — Mas o que há...? Ela o silenciou com um dedo em seus lábios, logo levou a carícia por seu queixo, e ao centro de seu peito. — Nunca houve ninguém mais. Só você. Gray sacudiu a cabeça, não sabendo no que acreditar. Suas palavras eram uma espécie de milagre, e também o eram suas coxas, embalando seus quadris, e seu cabelo que brilhava como um halo resplandecente ao redor de sua cabeça. Uma feroz e primitiva alegria alagou seu peito, de saber que ela era dele, e só dele. Sua para possuí-la; para seu prazer. Ele conteve seu peso com suas mãos, e enquanto o fazia, afundou-se outro centímetro dentro dela. Ambos se estremeceram com um ponto de dor. Sua para machucá-la. — Doçura, não posso suportar te machucar. — Está bem — disse através de lábios trementes. — Honestamente, já me sinto melhor. Ele sabia que estava mentindo. Retrocedeu seu quadril para trás com toda a intenção de retirar-se, mas ela enganchou as pernas sobre as suas. — Não — ofegou ela, seu corpo apertado ao redor dele de cada maneira imaginável. — Não pode me deixar. Prometeu-o. Grunhiu enquanto a deliciosa fricção puxava-o novamente para dentro. Apertando os dentes para conter-se, afundou-se nela lentamente. Os olhos dela se alargaram, mas lhe fez um valente gesto de ânimo. — Sim — exalou ela, enquanto ele finalmente se afundava até a base e estiveram completo e perfeitamente unidos. A sensação dela envolvendo-o, sustentando-o... era como nada que tivesse sonhado. Fechou os olhos e se balançou outra vez lentamente. Para trás e adiante, moveu suavemente os quadris, amassando-se contra ela. Até que ela o disse novamente, esta vez, liberando a palavra em um erótico suspiro. — OH, sim. Necessitou cada grama de vontade que Gray possuía para não perder o controle com que se afundava nela uma e outra vez. Mas ela acreditou que lhe faria o amor, não que a montaria. Acreditou nele para que fosse o único para ela. Agora e sempre. Assim manteve o embate de seus quadris lento e firme. Sentindo como o corpo dela acariciava o seu em cada pequeno e medido impulso. Ela fechou os olhos e jogou a cabeça para trás contra o travesseiro. 186


— OH, Gray — gemeu, arqueando-se agora contra seus sutis embates com pequenos movimentos de seus quadris. Ele se inclinou para chupar seu seio novamente, lambendo a suave ponta contra o áspero e úmido tecido. Ela se agarrou a seus ombros. Ele se congelou, resfolegando sobre ela. Suas mãos fechadas em punhos sobre as savanas, lutando pelo controle. — Está bem? Perguntou-lhe Gray. — Estou bem. — Está segura? — Sim, estou segura — respondeu, com uma nota zombadora em sua voz. Acariciou-o nos ombros. Seus dedos desceram por seu peito, e pressionou os polegares contra seus mamilos. Gray deixou escapar um grunhido rouco. — Não posso... — sua voz se desvaneceu quando ela estirou o pescoço e beijou seu peito. A varrida de sua língua contra seu pescoço levou sua restrição ao limite. — Doçura, detenha. Quero fazer isto bom para ti. — É bom. — Seus dentes arranharam sua clavícula. — Você é bom para mim — sua cabeça caiu para trás contra o travesseiro, e procurou seus olhos. — Já não há mais dor — esta vez, ele acreditou. Precisava acreditá-la, porque seu controle parecia migalhas, e não restava mais que confiar. Afundou-se nela agora, embate após desenfreado e feliz embate. E quando ela gritou e se pendurou em seu pescoço, ele soube que era por prazer, não por dor. Seu centro se convulsionou a seu redor, empurrando-o para a liberação em ondas de selvagem e cega necessidade. Logo ela tomou seu rosto em suas mãos e o benzeu com um único e doce beijo. E no final, foi esse beijo o que provocou sua ruína. Com um grito selvagem contra seus lábios, Gray se estremeceu e paralisou, bombeando seu prazer dentro dela. Os últimos tremores de prazer estavam ainda correndo por ele, e já a necessitava novamente. Novamente, agora, sempre, só ela. Ele apoiou todo o seu corpo sobre ela, encerrando-a entre seus braços. Sua respiração áspera e ofegante o deixou sem palavras, mas eles não necessitavam palavras. Não havia palavras para a transcendente e entontecida felicidade que invadia seus membros e enchia seu coração. Só beijos. Beijo após profundo, sincero e lento beijo. Passou um tempo antes que a consciência do Gray passasse do maravilhoso sabor da suave e generosa boca dela ao estranho e angular objeto pressionando sobre seu estômago. 187


Levantou-se sobre um cotovelo e deslizou uma mão a seu quadril, passando pelo glorioso Trópico onde ambos permaneciam ainda unidos, por cima do ventre dela, até o entalhe entre suas costelas. Sua mão se fechou sobre um pequeno e envolto maço, enganchado a seu torso com faixas de tecido. Ele franziu o cenho, sentindo o sólido objeto entre seus dedos, tentando adivinhar sua forma. Dinheiro, soube ele. Devia ser dinheiro. Estendeu os dedos sobre ele, comprovando seu tamanho. Maldita seja. Era uma grande quantidade de dinheiro. — Gray, posso explicá-lo.

Capítulo 19

— Estou esperando. Sophia se esticou ante o repentino endurecimento em sua voz. Certamente ele não podia estar zangado. Não depois do prazer que tinham encontrado, a conexão que ainda compartilhavam. — Gray — murmurou ela, estirando o pescoço para lhe dar um beijo onde quer que pudesse alcançar. Seu peito duro, seus ombros poderosos que abrangiam por completo os dela. Queria lhe agradecer, benzê-lo pelo presente que lhe deu. Tal ternura e tal prazer. Nas semanas prévias a suas bodas, sua mãe, sua irmã, suas amigas casadas, não houve escassez de mulheres para advertir a Sophia que sua primeira experiência na cama matrimonial seria dolorosa, incômoda, e felizmente rápida. As damas tinham diferentes opiniões sobre se a atividade melhoraria com o tempo, mas as predições de uma noite de bodas desagradável eram universais. Nenhuma delas, pensou com um sorriso secreto, conheceu ao Gray. O poder de seu corpo forte, a paixão que despertou nela, tudo moderado por tanta paciência, uma ternura inata que escondia com tanto cuidado do mundo. Houve dor, sim. Mas à dor seguiu-se um prazer indescritível, intenso e entristecedor, além de tudo o que imaginou. E a imaginação de Sophia era enorme. Brasas de desejo ainda fumegavam sob sua pele, em seus lábios, entre suas pernas. Ela se apertou em torno dele, querendo preservar este momento para sempre. Enlaçando os dedos por trás de seu pescoço, ela tentou atraí-lo para baixo por 188


um beijo. Ele não se moveu. — Estou esperando — repetiu secamente. — Se Explique. Retirou com gentileza o cabelo de seu rosto. — Prometo-te que vou contar tudo. Mas por agora... por favor, só me abrace. Ele jurou, seu tom áspero raspando contra sua nudez. — Nem sequer conheço quem estou abraçando. Ele a soltou bruscamente, e Sophia ofegou quando ele se retirou de seu corpo. De algum jeito lhe doeu mais que quando ele entrou. Ele se afastou, deixando-a vazia. Úmida por causa da água da chuva, do suor e das lágrimas. Fria. — É obvio que me conhece — sussurrou. Ninguém a fez sentir-se tão aceita como este homem. Temia que ninguém mais o faria. Ele se sentou, lhe dando as costas e deixando cair sua cabeça entre as mãos. Sophia rodou sobre seu flanco e se aproximou com cautela para acariciar suas costas. Quando a ponta de seu dedo enganchou em um pontiagudo obstáculo, ela fez uma careta. — Tem lascas nas costas. — É assim? Bom, você tem uma pequena fortuna entre seus peitos. Sophia se removeu para sentar-se e aproximar-se. — Realmente, Gray. Estas devem ser dolorosas. Me permita? — As deixe — ele se afastou. Sophia curvou sua mão e a deixou cair na cama. Com sua voz pausada, ele continuou: — Seu nome não é Jane Turner, verdade? — O nome Turner é... emprestado. Jane é meu — e era realmente dela, embora só seu segundo nome. Essa parte não poderia ser considerada como uma mentira. Minimizar o número de suas falsidades parecia de súbita importância. — Não está arruinada. — Mas estava — talvez fosse virgem até hoje, mas sua reputação estava sem dúvida pelo chão. — Não me minta — lançou um duro olhar, seus olhos alagados de ira. — Era virgem. Sophia não entendia sua ira. Sim, ela o enganou, mas não deveria estar feliz de ter sido seu primeiro amante? Seu único amante, se ela obtinha seu desejo? — Sim, mas... — Então não estava arruinada. Embora o esteja agora, graças a mim — amaldiçoou de novo. — Me mentiu. Sabia que não queria tomar sua inocência, então me enganou. Deus, que pequena intrigante é. Suas palavras a deixaram gelada até a medula. Sophia baixou o tecido de seu 189


vestido, cobrindo as pernas trementes. — Gray, não foi assim. Precisa me dar a oportunidade de expl... — Não é sequer instrutora, verdade? Ela mordeu o lábio. — Não. — É obvio que não. Nenhuma mulher com esses recursos — fez um gesto brusco para seus peitos e o dinheiro preso debaixo deles, — precisa procurar um emprego. Quanto há? Duzentas libras? Trezentas? — Quase seiscentas libras. — Maldita seja — ele passou as mãos pelo cabelo, logo as curvou ao redor da borda da cama. — Ninguém vem com essa quantidade de dinheiro honestamente. Quem é então? Uma ladra? Uma fugitiva? Uma espécie de estelionatária? Todas as anteriores. Sophia agarrou as mantas a seu redor, como se pudessem protegê-la de suas palavras iradas. Sabia que isto era um novelo que ela mesma criou, mas nunca sonhou que seria tão difícil de corrigir. Uma vez que a abraçasse, ela imaginou, estaria encantado de aceitar a verdade também. Ela esperou inclusive que se divertiria ao conhecer a história completa finalmente. Mas agora... seu desgosto evidente sugeria o contrário. O medo se formou dentro dela, rápido e traiçoeiro. — Realmente importa? Perguntou-lhe, sua voz mais fraca do que ela desejava. — depois de tudo o que compartilhamos? Ela deslizou uma perna para ele, até que a coxa lhe roçou a ponta dos dedos. — O que compartilhamos? — ele afastou sua mão. — O que compartilhaste comigo, a não ser mentiras? Como podia dizer tal coisa? Ela compartilhou tudo com ele. Sua arte, suas fantasias mais secretas. Céus, ela se havia tocado em frente dele. Agora entregou sua virtude, em um momento de paixão e ternura superando tudo que ela jamais conheceu. E ele estava rechaçando esse presente, como se não fosse nada. Rechaçando-a a ela. — Cristo — levando as calças à cintura, levantou-se e se voltou para ela. O olhar em seus olhos não era de total repugnância, mas sim uma expressão de absoluta incredulidade. — Te contei coisas. Sobre mim, sobre minha família. Disse coisas que nunca disse a outra alma. Agora me inteiro de que não é mais que uma estranha para mim — amaldiçoo de novo. — Tem que persistir em amaldiçoar? 190


— Sim, acredito que devo fazê-lo. Maldita seja, pensei que havia terminado de me deitar com mulheres sem nome. Agora Sophia se enfureceu, também. — Já vejo. E agora suponho que tem a intenção de continuar? Ficou paralisado, o braço estendido para recuperar a camisa. Durante um comprido momento, Sophia o olhou fixamente. Ele não quis olhá-la aos olhos. Finalmente jogou a camisa por seus braços e cabeça, colocando-a nas calças com movimentos que falavam de uma fúria controlada. — Tem razão — disse com frieza, grampeando a braguilha. — Depois do que acabamos de fazer... não importa. — Não importa? — Sophia tragou o nó na garganta. — A verdade? Ou eu? Ele a atravessou com um olhar frio, uma bota pousada na escada que conduzia à escotilha. — Como pode sequer me perguntar isso? Como pode ser tão cruel? Um soluço abafou a pergunta. Rodeou-se no peito com seus braços, piscando para conter as lágrimas. — Doçura — a ligeira rouquidão em sua voz fez que ela elevasse bruscamente a vista para ele. O olhar dele se aprofundou, deu força para sustentar o seu. — Neste momento, há homens mortos e moribundos lá encima, e um navio mutilado que necessita reparos. No momento, é o que importa. Fique aqui. Voltarei — subiu a escada. — Lutaremos com isto mais tarde. Então se foi. Sophia voltou a cair sobre a cama, enroscando-se em si mesma como a cabeça de uma samambaia. Lutaremos com isto mais tarde? Que odioso soava. Que final. Não queria que lutassem com ela. Queria ser consolada. Queria ser abraçada. Queria algo que não tinha sentido em tanto tempo, que mal recordava como se chamava, mas se atrevia a imaginar que ela o merecia igualmente. Ela queria ser amada. Ele não retornou essa noite. Seus únicos visitantes foram Gabriel, que cortesmente ignorou sua desalinhada aparência, manchada de lágrimas, quando trouxe o chá e bolachas de noite, e Stubb, que trouxe seus baús ao camarote do capitão. Evidentemente, os camarotes das damas tinham sido atribuídos como um improvisado hospital para os feridos do Kestrel. Vozes desconhecidas e atividades até a madrugada obscureciam a habitual sinfonia noturna do Afrodite: os sinos e o ranger da madeira e o assobio agudo da 191


brisa. Encolhida no centro da cama, Sophia entrava e saía de um sono pouco profundo, aguçando os ouvidos para recolher qualquer eco de sua rica voz de barítono, ou o ranger das dobradiças da porta traseira. Se Gray viesse a ela, queria estar acordada. Mas se manteve atenta em vão, e o esgotamento finalmente a reclamou nos primeiros raios da alvorada. Quando despertou, era plena luz do dia. Sophia se ergueu bruscamente na cama, seu coração pulsando com força. Uma discussão estava se formando diretamente sobre ela, perto do leme da nave. Inclusive com a comporta fechada, podia-se distinguir não só a voz do Gray, mas também a do capitão, assim como o forte acento de O'Shea. E umas quantas vozes desconhecidas também. Apesar de que não se dirigia a ela, o timbre da voz do Gray era tão cheia e implacável como o golpe de um sino em uma manhã de inverno, exatamente como o ouviu a última vez. Levantou-se da cama e foi até o pequeno espelho redondo colado à parede do camarote, dando-se conta com assombro que não se olhou em um espelho desde que saiu da Inglaterra. A imagem refletida não havia mudado muito. Sua pele era de um tom ou dois mais escuro — assemelhando-se mais ao osso que à porcelana — e ligeiramente sardenta pelo sol. Alguns dos ângulos se tornaram mais marcados, seus rasgos capturavam mais sombras agora. Quando entreabriu os olhos, umas linhas débeis se renderam nos cantos de seus olhos, e inclusive quando relaxou sua expressão, as linhas tiveram a audácia de ficar. Seguia sendo formosa, disse-se Sophia, sem falsa ou indevida modéstia. Mas já não era o rosto de uma debutante mimada o que lhe devolvia o olhar. Agora era uma mulher. Uma mulher caída na verdade, só no mundo, responsável por suas próprias decisões. Precisava superá-lo, devia ser forte. Não mais lágrimas, advertiu-se, pressionando as palmas das mãos contra seus olhos. Gray não podia ignorá-la para sempre. Viria a ela eventualmente, o mais provável para lhe lançar acusações mais furiosas. Quando chegasse o momento, não choraria nem daria desculpas. Certamente não rogaria. Mas Por Deus, que se veria bonita. Lavou o rosto e aplicou chá frio sob os olhos para aliviar o inchaço. Rebuscando em seus baús, encontrou sua escova para o cabelo e talco. Pelo menos o cabelo, que se havia posto rígido pelo sal durante as últimas três semanas, enxaguou-se com a tormenta de ontem. Agora seco, caiu sobre seus ombros em ondas douradas. Tinha lavado seu vestido de musselina com desenhos de espigas faz uns dias, e estava tão limpo como se podia conseguir. Entretanto, quando colocou a mão no baú 192


para tirar o vestido, seus dedos se atrasaram em um vulto no fundo. O fresco tisú rangeu sob seu tato, deslizando-se sobre a seda de debaixo. Sentiu-se tentada a desembrulhar o vestido, abrir o fino tecido sobre seus membros e banhar todo o corpo em uma elegância como não o fazia em semanas. Ela resistiu a tentação, pegando para mudar o vestido de musselina. Esse fino vestido envolto era o melhor que tinha, e ela ainda não estava segura de que Gray merecesse o melhor. Não estava convencida de que ele a quisesse. Empoeirada e vestida, seu cabelo bem enrolado e sujeito com pauzinhos no alto de sua cabeça, Sophia se olhou no espelho uma vez mais e beliscou as faces para um marcado rubor, antes de subir a escada. Os sons de homens discutindo se tornaram mais fortes. Abriu a escotilha só um pouquinho. O bastante para que ela pudesse distinguir as palavras violentas que se jogavam como adagas e para poder espionar o nível da coberta. Reconheceu as botas finas do Gray imediatamente, cobertas de fuligem como se encontravam desde o incêndio. Estava de pé perto da amurada, na popa do navio. O sol brilhava esta manhã, os homens projetavam longas sombras pela coberta. Uma voz áspera e desconhecida a atacou de algum lugar perto do leme da nave. — Digo-te, bastardo, que vais pagar por esse rum. Em ouro ou bens, não me importa com o que. — Capitão Mallory — o tom barítono do Gray era intimidador. — E aplico esse título sem muito rigor, já que não é de maneira nenhuma um capitão em minha opinião... Não tenho nenhuma intenção de compensá-lo pela perda de sua carga. Eu, entretanto, aceitaria seu agradecimento. — Meu agradecimento? Por quê? — Por quê? — agora entrou O'Shea ao grupo. — Por salvar esse montão de casco de navio e seu desprezível traseiro, encharcado de rum, por isso. — Agradecerei que todos se vão ao inferno — respondeu a voz áspera. Mallory, presumia. — Não se pode simplesmente abordar a embarcação de um homem e jogar no mar um porão cheio de licor. Montão de trapaceiros. — OH, agora somos trapaceiros, verdade? — perguntou Gray. — Deveria ter deixado que o navio explodisse junto seus ouvidos, bêbado desprezível. Trapaceiros, realmente. — Bom, se são uns cavalheiros tão virtuosos e caridosos, então como é que estou amarrado como um porco? — Sophia estirou o pescoço e empurrou a escotilha para abri-la um pouco mais. Através da coberta, viu as pontas de um par de botas atadas com uma corda. 193


Gray respondeu: — Tivemos que atá-lo a noite anterior porque estava fora de seu juízo de bêbado. E seguimos tendo-o amarrado agora porque está sóbrio e ainda fora de seu juízo. As botas fustigadas se arrastaram pela coberta, para o Gray. — Solte estas cordas, canalha, e golpearei seu crânio até a inconsciência. O'Shea respondeu com uma corrente de coloridas blasfêmias que o capitão Grayson cortou. — Capitão Mallory — disse, suas próprias botas muito polidas passeando lentamente, deliberadamente detendo-se entre o Mallory e Gray. — Entendo sua preocupação por perder sua carga. Mas certamente você ou seu investidor podem recuperar a perda com a reclamação do seguro. Não poderia ter navegado sem uma apólice contra incêndios. Gray soltou uma risada irônica. — Joss, certamente o rum não estava em nenhuma fatura de carga ou de seguros. Não pode ver que este homem não é outra coisa a não ser um contrabandista? Provavelmente não ia com destino a nenhum porto absolutamente. Qual era seu destino, Mallory? Uma baía escondida da costa de Cornualles, talvez? Estalou a língua. — Esse navio estava sobrecarregado e dizimado, e teria sido um milagre se tivesse chegado tão longe como Portugal. Quanto ao rum, eleve sua queixa ante o tribunal do Vice-almirantado depois de que siga a Tortola. Eu lhe daria a bem-vinda. — Não o vou seguir a nenhum lugar — Sophia ouviu o cenho franzido na voz do Mallory. — Então, o que pensa fazer? — perguntou o capitão Grayson. — Seu navio está em péssimas condições de navegar. Tem homens feridos em extrema necessidade de um médico, e Tortola é o porto mais próximo. Poderíamos afundar o Kestrel, se o preferir, e levá-los a todos a bordo do Afrodite. Mas isso significaria perder o que resta de sua carga. Alguém cuspiu, audível e umidamente. — Não os vou seguir a nenhum lugar — repetiu Mallory. — Não vou a porto, e que me crucifiquem se uns bandidos afundem meu navio. Repararei minha nave e seguirei adiante. Depois de receber minha indenização, é obvio. — Está louco? — a voz de O'Shea se elevou uma meia oitava. — Não conseguirá passar o Trópico. Tem um mastro e pelo menos quatro homens menos. 194


Estúpido bêbado — grunhiu. A voz do Gray de novo. — Direi-te por que o estúpido bêbado não quer ficar na Tortola. Ele sabe que eu teria o direito de resgate por salvar sua miserável embarcação. Se se atrever a me levar a corte, ficaria contudo. Seu rum ainda teria desaparecido, e o que resta do Kestrel me pertenceria. Não é assim, Mallory? Nenhuma resposta. Só a ligeira resistência de botas atadas. Sophia avançou um passo na escada e abriu a comporta uns quantos centímetros mais. — Sim, ele sabe que a nave é quase minha — as fortes pisadas de Gray sublinharam cada frase. Aproximando-se do Mallory, continuou: — E penso levá-la. — Não se atreveria — Mallory salpicou sua resposta com um cuspo e uma maldição, ambos indescritivelmente crus aos ouvidos da Sophia. — Gray — começou Joss, — não estou seguro de que possa simplesmente... — OH, asseguro-lhe isso, seria simples. Tão simples como as outras sessenta e tantas vezes que comandei um navio. O que quer que faça, Joss? Que não salve esse desprezível balde de madeira só para ver que se afunde ou navegue para sua perdição. Os feridos necessitam um médico, o Kestrel necessita um mastro adequado. Vou levar o a Tortola. Ele ia abandonar esta nave? Sophia empurrou a escotilha superior, precisando ver mais dele. As calças e a camisa penduravam frouxas e em farrapos de sua figura. Sua relaxada postura, uma amostra de esgotamento. Mas inclusive de seu furtivo ponto de vista, poderia dizer que sua expressão era totalmente séria. Seus próprios pulmões se contraíram. Não podia estar pensando em deixá-la de novo. Ele nem sequer tinha lutado com ela ainda. Mallory zombou depreciativamente. — Miserável, chorão filho de puta — cuspiu de novo, esta vez no rosto do Gray. Gray lentamente limpou a cara com seu punho destroçado. Os dois homens se olharam um ao outro, a tensão entre eles construindo-se, apinhando-se, empunhandose. Através do silêncio carregado, Sophia ouviu o rangido dos nódulos. Então, de repente, Gray se dobrou. Como sempre, tomou a vantagem com um encolhimento de ombros e um sorriso preguiçoso. Se não me importar, dizia esse olhar, não há maneira de que me machuque. Sophia estava aprendendo a odiar esse olhar. — Mallory — começou em um tom de falsa conciliação, — claro que faremos 195


as coisas da maneira fácil. Seria uma pena que isto se tornasse violento — obscureceu sua voz um tom. — Eu não gosto da violência. Voltou-se para fazer frente a Joss. — Envia um grupo de homens capazes ao Kestrel para começar a aparelhar um mastro provisório e lhe ajustar as velas. Leva os feridos a porto, e nós capengaremos atrás da melhor maneira possível. Encontraremo-nos no Road Town. — Não! — Sophia empurrou a escotilha para abri-la e apareceu na coberta dando tombos, abafando o protesto do Mallory com o seu. — Gray, não vais deixar me outra vez. Não lhe permitirei isso. Seu rosto era duro, enquanto rapidamente ele observava sua aparência. — Que diabos está fazendo na ponte? — O que estou fazendo? O que está...? — sua voz se apagou quando percebeu que o olhar lascivo do Mallory percorria seu corpo de cima abaixo. Sophia cruzou os braços sobre o peito, desgostada. Era mais jovem do que ela imaginou a partir de sua voz, e mais magro. Mas não menos repugnante. — Bem, bem — estalou ele, seus olhos muito juntos, olhando-a, seu nariz aquilino. — Se ela ficar neste navio, poderia deixar de protestar. Não posso dizer que rechaçaria uma amostra dessa rameira. Com suas faces ardendo, Sophia se voltou para o Gray. Para seu horror, viu como sua boca se curvava em uma careta zombadora. Quase um sorriso. Maldito, inclusive riu entre dentes quando se voltou pela coberta para fazer frente a Mallory. Era assim como ele a via agora, também? Como uma rameira? Só outra de suas inumeráveis amantes? Bem poderiam ter estado de volta nesse botequim de má vida no cais de Gravesend, quando ela o confundiu com um cavalheiro, e ele a olhou e viu só algo de saias. — Senhor Mallory — disse, adotando sua habitual pose de pavoneio arrogante, — eu gostaria de lhe dar as obrigado. — Por quê? — Por me dar uma desculpa para fazer isto. Gray girou o punho, pondo todo o peso de seu corpo atrás do golpe. O murro conectou com a mandíbula do Mallory, enviando-o cambaleando contra a amurada do navio. Antes que Sophia pudesse inclusive respirar, Gray o golpeou de novo, esta vez lhe dando um sólido golpe no estômago. Com um gemido sufocado, Mallory se dobrou sobre suas botas e desabou na coberta. — Já o disse, eu não gosto da violência — disse Gray com esforço, movendo a 196


mão enquanto se elevava sobre a forma retorcendo-se do Mallory. — Mas sou muito capaz de usá-la. Os joelhos de Sophia se derreteram. Aferrou-se a borda da elevada escotilha para apoiar-se. As lágrimas lhe picavam os olhos, embora não tinha nenhuma segurança de por que ou por quem chorava. — Ponha-o no calabouço, disse Gray, sem desviar sua atenção do Mallory. — Não pode — disse O'Shea. — Brackett está no calabouço. Não é o suficientemente grande para duas pessoas. — Bom, não posso ter este canalha a bordo do Kestrel. Ele conhece muito bem o navio, pode encontrar alguma maneira de influir na tripulação. Gray olhou a seu irmão. — Levarei ao Brackett comigo. Joss assentiu com a cabeça. — Necessitará uns quantos marinheiros capazes também — se voltou para O'Shea. O corpulento irlandês sorriu. — Estou dentro. — É o primeiro oficial, então — disse Gray. Esfregou a parte de trás do pescoço enquanto rodeava a figura que choramingava na coberta. — Necessitarei a Bailey, para as velas e a carpintaria. E ao Davy, se pode prescindir dele. Seu cozinheiro morreu na explosão, assim necessitarei a alguém para dirigir as dispensas e fazer circular pãezinhos de vez em quando. — Então será melhor que leve algumas das cabras também — disse Joss. — Stubb não pode fazer a ordenha ele mesmo, não com homens feridos que atender. Gray assentiu com a cabeça. Sophia se engasgou com um soluço. Aqui se encontrava ele, preparando-se para abandonar o navio, fazendo planos para levar consigo uns marinheiros e ao Davy e às cabras e inclusive ao horrível senhor Brackett... e ignorando-a por completo. Nem sequer lhe dirigiu um olhar desde o insulto do Mallory. Ela sorveu pelo nariz audivelmente, enxugando as lágrimas com o dorso de uma mão. Moça tola, repreendeu-se. Não se prometeu faz uns minutos que não ia chorar? — Desce — as palavras só poderiam ser destinadas a ela, embora Gray não voltou o olhar. — Empacota suas coisas. O capitão lançou a Sophia um olhar de preocupação, logo se dirigiu a seu irmão em tom solene. — Gray, não acredito que isso seja uma boa ideia. Ela estaria muito mais segura a bordo do Afrodite. 197


— Sei — disse Gray. — Mas não posso deixá-la — não era uma promessa de ternura ou de emoção. O ressentimento pendurava de suas palavras, as fazendo duras. Esmagadoras. — Está seguro? — perguntou Joss. — Não posso deixá-la — repetiu Gray. A ironia se apoderou de seu rosto, como a sombra de uma nuvem passageira. — Lhe dei minha palavra. Sophia deu um passo para ele. — Gray? — Baixa — seus olhos frios, exigentes finalmente encontraram os seus. — E fique ali. Esse olhar não permitia desobediência, nem tampouco o aço contundente em sua voz. Com suas mãos tremendo e a mente um torvelinho, Sophia foi abaixo. E ficou ali.

Capítulo 20

Foi no meio da guarda do quartilho quando a porta do camarote de Sophia se abriu com um som violento, sobressaltando-a em sua cadeira. Suas tensas articulações protestaram ante o movimento abrupto, e a dor formigou através de seus membros. Tinha permanecido sentada nessa cadeira durante horas. — Suas coisas estão prontas? — perguntou Gray a modo de saudação. Apoiando um ombro contra a moldura da porta, olhou os dois baús embalados e fechados. Sophia podia vê-lo pesando mentalmente a bagagem. Desabou-se um pouco mais, seu peito desinflando-se com uma lenta exalação — Talvez faça que Levi as recolha. Fuligem e sangue escorriam pelo seu rosto; as sombras formando-se sob seus olhos. Ainda usava a mesma camisa e as calças desalinhadas, com a adição incongruente de um casaco limpo de bom corte. Foi tão somente ontem pela manhã que pediu permissão para tirá-lo? Realmente assim foi. Assustaria-a, perguntou, se eu tiro o casaco? O absurdo de semelhante pergunta agora, depois do que aconteceu entre eles. Uma risada ébria borbulhou dentro dela, mas a reprimiu. Desde essa manhã, pensou cem coisas a lhe dizer quando chegasse o momento. Reduziu-as a um punhado de possibilidades, dependendo de seu comportamento 198


quando ele aparecesse. A réplica cortante, a abjeta desculpa e a indignada defesa... todas se derreteram como flocos de neve em sua língua. — Oh, Gray — disse ela. — Deve estar tão cansado. — Sim — a palavra era um áspero suspiro, dirigido para sua bota direita. — O estou. Seu olhar se levantou então para o dela, seus olhos brilhando com toda a vulnerabilidade que simplesmente estava muito cansado para disfarçar. Ela morria por abraçá-lo. E pelo desejo patente em seu rosto, ela sabia que ele morria por ser abraçado. Só o orgulho, e dois baús armados, interpunham-se entre eles. Ele se endireitou e pegou o baú menor. — Vamos, então. Estará escuro em pouco tempo. O bote de Kestrel fora içado ao corrimão do Afrodite. Era uma pequena embarcação com dois banquinhos de tábua e um só par de remos, não muito diferente do pequeno bote a remos que a transportou à Afrodite. Uma vez que Sophia e seus baús foram depositados no bote, o Capitão Grayson se aproximou para lhe oferecer umas palavras de despedida. Estendeu-lhe a mão, e ele a beijou, fazendo uma pequena reverência. O gesto a surpreendeu. Sophia pensou que ele era tão reservado e formal, em contraste com o Gray. Aparentemente, os irmãos compartilhavam uma medida de encanto, além das orelhas de seu pai. — Você foi muito amável comigo. — disse Sophia. — Obrigada. — Não precisa agradecer. Se prefere permanecer a bordo do Afrodite, só precisa dizê-lo. Gray apareceu por trás de seu irmão. Seu olhar a Sophia cintilou com um desafio silencioso. — Obrigada, Capitão. — disse Sophia. — Agradeço sua preocupação, mas Gray cuidará de mim. O Capitão sorriu. — Estou seguro que o fará. Até Tortola, então. Ele fez uma nova reverência e se afastou para que Gray pudesse subir ao bote. Os dois homens roçaram seus ombros ao cruzar-se, no que Sophia assumiu que era o aceitável substituto masculino de um abraço. Oh,quanto agradecida estava de ser mulher. — E quanto aos outros? — perguntou Sophia, enquanto o bote baixava ao mar. Sentaram-se frente a frente nas duas tábuas. — Já estão a bordo do Kestrel. — Também as cabras? 199


— Sim. — ele respondeu, com voz mal-humorada. O bote golpeou as águas do mar com um mergulho de cabeça. Alguns gritos choveram entre Gray e os homens a bordo, e logo soltaram o bote, que se balançou serenamente com as ondas. Gray pegou os remos. — Precisamos falar. Sozinhos. E talvez não tenhamos a oportunidade de fazê-lo a bordo do Kestrel. Estarei ocupado. — Então o agradecerei agora. — Pelo que? — Sobre o Capitão Mallory. — Por golpeá-lo, quer dizer? — ele sacudiu a cabeça, olhando para o horizonte. — Economize seus agradecimentos. Precisava bater em alguém. Ele estava à mão. — OH — Sophia olhou para o horizonte oposto. Para sua frustração, as lágrimas brotaram de seus olhos novamente. — Jesus — ele remou com mais força. — Jamais golpeava às pessoas. Olhe o que me fez. Esta se supunha que seria a viagem onde me converteria em respeitável. Em troca, estou dando murros, confiscando navios, desonrando virgens... Fazendo uma careta ante seu tom severo, Sophia afundou e se virou na tábua. Abruptamente, ele deixou cair os remos e começou a lutar com seu casaco. — Por que está fazendo isto? — apesar de seus sentimentos feridos, ela agarrou um extremo da manga do casaco e a segurou até que seu braço ficou livre. — É mais fácil remar sem casaco. — se retorceu até deixar livre a outra manga. — Gray — ela esperou até que ele encontrou seu olhar. — Sabe que não é isso o que quero dizer. Ele dobrou seu casaco e o entregou a Sophia. — Toma. Ela olhou o amontoado de lã. — O que faço com isto? — Sente-se sobre ele. — disse Gray, jogando-o para ela. — Deve estar... dolorida — seu olhar caiu brevemente sobre sua saia. O rosto de Sophia se acendeu. Estava realmente dolorida, e a tábua de madeira era uma tortura sob sua fina saia, mas a forma presunçosa de seu gesto picou seu orgulho. Cruzou os braços e olhou o casaco que lhe oferecia. — Posso ter sido virgem, Gray, mas nunca fui tola. Sabia que doeria, mas o queria de todas as formas — ela levantou seu queixo. — Sabia que me machucaria. O rosto de Gray se endureceu como pedra. — Sabia? — deixou cair o casaco e pegou os remos. — Diga-me — perguntou 200


enquanto fazia uma firme remada, — você parou para considerar que eu poderia machucá-la? Sophia ficou em silêncio. Tudo estava em silêncio, exceto pelos remos cortando com força as ondas. O sol era uma brasa alaranjada deslizando no horizonte, esfumando em camadas de cinzentas e estiradas nuvens. Ela inalou profundamente, deixando que a essência fresca e salina do mar enchesse seus pulmões, um alívio ao aroma salubre da água estagnada. Olhou ao homem em frente a ela. Seu amante. Seus poderosos ombros trabalhavam sob sua camisa enquanto empurrava os remos. O desdobramento de força e agilidade, estabelecido em um ritmo semelhante... Lembranças de seu ato de amor a assaltaram com uma força silenciosa. Em algum outro lugar, sob outras circunstâncias, eles poderiam ter sido um casal que se cortejava. Remando através de um lago plácido, acariciados por um ardente entardecer. A distância, este poderia ter sido o retrato de um romance. Mas a realidade era a confusão, e o ressentimento, e a dor. Lamentava ela tê-lo enganado? Refletiu Sophia. Não estava segura de que pudesse. Gray admitiu que não teria feito amor com ela se não fosse assim. E Sophia não podia lamentar esse delicioso prazer, nem podia lamentar tê-lo compartilhado com ele. Ela olhou ao atraente, forte, carismático, apaixonado, exausto homem em frente a ela. Egoísta e ardilosa, poderia ser, mas não podia lamentar-se de que agora ele estava unido a ela — para o bem ou para o mau, ele não a deixou para trás. Entretanto, Sophia lamentava inequivocamente uma só coisa. — Gray. — disse ela. — Lamento tê-lo machucado. Os olhos dele flamejaram, e houve uma ligeira pausa em sua braçada. — Economize as desculpas. Não é de mim de quem quero falar. — Então, de quem? — De Davy, é óbvio. Estaremos nesse navio uma semana ou mais, e o rapaz sofre muito por causa de ambos. Deve deixá-lo só, entende? Nada de flerte, nada de desenhos. Não será fácil para ele sabendo por que está a bordo. Seu coração se sacudiu. — Davy sabe? — Claro que sabe. Todos sabem. Não há segredos em um navio, recorda? — lançou-lhe um olhar enviesado, cauteloso. — Bom, evidentemente, há alguns. — Já falei, sinto muito — ela mordeu o lábio. — Que mais quer que te diga? Gray a olhou durante um longo momento. Sophia resistiu o impulso de afastar o 201


olhar. Ele a interrogaria completamente agora? Ela teria a coragem de lhe responder? — Nada — disse ele finalmente, sacudindo a cabeça. — Já disse, não tem importância. O que quer que tenha feito, quem quer que seja... até quanto existir a possibilidade de que esteja carregando o meu filho, não a separarei de minha vista. Ela engoliu com força. É óbvio, a possibilidade de conceber ocorreu-lhe — como não teria que ocorrer, — mas ouvi-lo dizer em voz alta era completamente diferente. — Então, é essa a razão de ter me trazido com você? Porque posso estar grávida? Ele assentiu. — Quando teve seu período pela última vez? Sophia se ruborizou. Nenhum homem falou com ela de semelhantes coisas. — Justo antes de deixar a Inglaterra. — Então devemos saber logo. — o movimento circular dos remos se abrandou, e seu olhar queimou o dela. — Se estiver esperando, advirto-lhe isso agora, se casará comigo. Não permitirei que fuja e crie o meu filho Deus sabe onde. Deixou-a com a boca aberta. Não poderia havê-la ferido mais profundamente se a tivesse atravessado com uma espada. Se estava esperando, ia obrigá-la a casar-se com ele? Porque ele assumia que de outra forma ela escaparia? E se não estava esperando, então o que? Planejava atirá-la pela amurada? Sua mandíbula e suas mãos se esforçavam em encontrar palavras para sua ira. Se tão somente pudesse pintá-la em troca, com pinceladas púrpuras e violentas salpicaduras vermelhas misturadas com negro. Finalmente, Sophia conseguiu dizer: — Não me forçarão a me casar com você, nem com nenhum outro homem. Escapei desse destino uma vez, e posso voltar a fazê-lo. Tenho os meios para cuidar de uma criança, se for necessário. — E o que significa isso para você, com sua história prodigiosa? Provavelmente tenha quantidades de bastardos, espalhados através dos continentes. — Não. Não os tenho. Meu pai trouxe suficientes bastardos a este mundo e nunca aspirei a seguir seu exemplo. É por isso que sempre fui cuidadoso. — Oh, sim. Precaução e tripa de ovelha, certo? — Precisamente. Até ontem — puxou grosseiramente o remo, dobrando-se sobre o bote enquanto se aproximavam do Kestrel. — Ontem foi a primeira vez que cometi esse engano. — Bom. — disse ela amargamente. — Que especial me faz sentir isso. Estou 202


encantada de ser seu primeira em algo, embora seja em seu primeiro engano. Gray lançou um exasperado suspiro. Da popa do Kestrel, alguém jogou uma corda. Pegou e começou a amarrar ao bote. — Ontem foi a primeira vez para mim de muitas maneiras. Deixei-me... levar. Não estava pensando. — Não estava pensando — seu coração se afundava mais rápido que uma âncora. Deus, ele poderia fazer que isso fosse pior...? O olhar de Gray encontrou o dela e o sustentou. Sophia se sentia examinada, virada do avesso. Como se ele pudesse ler alguma resposta em seus olhos em apenas olhá-la mais fixamente. — Não, não estava pensando, eu... — limpou a garganta. — Suponho que estava entusiasmado. Sophia sentiu um puxão em seu peito, apertando seus pulmões. Estirou-se para tomar a mão dele com a sua. — E quanto agora, Gray? Continua ainda entusiasmado? Outra corda caiu da popa do Kestrel ao bote. Ele pegou, interrompendo seu contato. Sacudindo a cabeça, disse-lhe: — Nem sequer sei o que pensar de você agora. — Já vejo — Sophia levantou os joelhos e os abraçou contra seu peito, escondendo seu rosto contra os braços enlaçados. Ele exalou audivelmente. — Querida — um toque suave acariciou o braço de Sophia. Ocultando as lágrimas, elevou seu olhar ao dele, — tenha ânimo pelos dois, se isso a faz sentir melhor. Neste momento, estou malditamente cansado. O bote começou a subir, prendendo um pequeno ofego em sua garganta. Os dedos de Gray se fecharam protetoramente em seu pulso. O abraço só durou um momento, logo a soltou. Quando o bote alcançou o nível da coberta, Sophia passou por sua conta por sobre a amurada do Kestrel. O suave golpe de suas sapatilhas, golpeando a coberta em todo o comprido do navio. O'Shea e os outros homens se voltaram para ela, alguns lhes dedicando amáveis palavras de saudações e gestos de assentimento. Ela elevou sua cabeça para examinar o novo mastro, um fino pau preso aos restos carbonizados do mastro maior. Dava ao navio a aparência de uma roseira podada, com esbeltos e verdes ramos nascendo de um velho tronco. Davy permanecia parado uns passos mais à frente da fortaleza, examinando o arranjo do novo mastro. Não se voltou para olhá-la. — Davy — o chamou Gray por detrás dela. 203


— Sim, Capitão — o jovem não elevou a cabeça. — Entendo que pendurou a rede no compartimento do convés. O olhar de Davy voou para eles, e lhes dirigiu um perplexo "Sim". — Vai ser transferido à proa na primeira oportunidade. — Gray rodeou Sophia e caminhou para o rapaz. — Neste navio, você é um marinheiro. Espera-se de você que faça o trabalho de um marinheiro, e dormirá onde dormem os marinheiros. Compreende? — Sim, sim, Capitão — as pálidas faces de Davy se coloriram. Com um rápido assentimento, dirigiu-se ao convés. Mas não antes de lançar a Sophia um olhar ferido que afundou uma lança de dor dentro de seu coração. Este deve ter sido um grande momento para ele, sua ascensão ao castelo de proa; um dia de celebração e orgulho. E por culpa dela, arruinou-se. O de Davy não era o primeiro coração de um homem jovem que ela quebrou. Nem Gray era o primeiro homem adulto que machucou. Sempre foi uma garota egoísta; não se enganava com respeito a isso. Mas esta era a primeira vez que se via forçada a presenciar as consequências. Ela não podia fugir deste navio como fugiu do casamento. Tampouco podia distrair a si mesma com pensamentos de novos coques ou exibições ou a partida de cartas da Duquesa de Aldonbury na próxima quarta-feira. Tinha um assento na primeira fila na pequena tragédia que provocou, e não haveria intromissões. Havia justiça nisto, precisava reconhecê-lo. — E você — Gray depositou uma mão na parte baixa de suas costas e a conduziu abaixo para o camarote do capitão, — ficará aqui. Sophia inspecionou a cabine. Uma cama metida em um canto, gabinetes apoiados sobre a outra. Um fino vidro abrangia a popa. Muito parecida com a do Afrodite, talvez um pouco mais apertada. — Foi limpa e arejada para você — seguiu Gray, com tom indiferente. — Os lençóis estão limpos, trazidos do Afrodite. — Obrigada. — se dirigiu ao centro do camarote e se voltou para enfrentar Gray. — Isso foi muita consideração. — Farei que desçam seus baús. Ficará aqui, compreende-me? Sophia assentiu com a cabeça. — Não percorrerá o navio. E manterá esta porta com fecho. — Devo temer por minha segurança? Ele negou com a cabeça. — Brackett está confinado abaixo; não a incomodará. A tripulação do Kestrel parece satisfeita com nossa mudança de curso. Mas não conheço estes homens. E não 204


posso confiar naqueles que não conheço. — Dirigiu-lhe um olhar carregado de significado enquanto se voltava para sair. — Espera — disse Sophia. Ele se deteve na porta. — Onde você vai dormir? — Quando dormir, o que imagino que não será frequentemente, atirarei-me no beliche do primeiro oficial, justo aí — assinalou para uma pequena porta justo em frente à entrada de seu camarote. — Mas estando no convés ou sob ele, nunca estarei longe. — Devo tomá-lo como uma promessa? Ou uma ameaça? Ela se aproximou a passo lento, com as mãos apoiadas em seus quadris em uma atitude provocadora. Os olhos de Gray varreram seu corpo, alagando-a com uma ira quente. Notou a sutil tensão de seus ombros, o frio crispado em sua respiração. Inclusive exausto e doído, ele ainda a desejava. Por um momento, Sophia sentiu a esperança dentro dela. Suficiente para os dois. E logo, em questão de um instante, ele a esmagou. Gray deu um passo atrás. Fez um ligeiro encolhimento de ombros e um desinteressado meio sorriso. Se não me importar, dizia seu olhar, não há maneira de que me machuque. — Toma-o como quiser. — Oh, não. Não o fará. Não tente essa jogada comigo — com dedos trementes, Sophia começou a desabotoar seu vestido. — Que diabos está fazendo? Acha que pode tão somente levantar as saias e fazer... — Não se emocione — passou a parte de cima do vestido por seus braços, logo começou a trabalhar desenredando seu espartilho. — Só estou igualando as coisas. Não posso suportar estar em dívida com você nem um minuto mais — logo ficou de regata e com as moedas de seu moedeiro presas entre seus seios. Um, dois, três, quatro e cinco... — Aqui tem. — disse, deixando os soberanos sobre a mesa, seis libras e tirou uma coroa, — dez xelins. Deve-me dois xelins de troco. Ele levantou ambas as palmas. — Bom, temo que não trago moedas comigo. Terá que confiar em mim nisto. — Não confiaria nada. Nem sequer dois xelins. Gray a olhou por um momento, logo se voltou sobre seus calcanhares e saiu do camarote, dando uma pancada ao sair. Sophia olhou a porta fixamente, perguntandose se ela se atreveria a ir atrás dele com a parte superior do vestido pendurando ao redor de seus quadris. Antes que pudesse decidir-se pela resposta afirmativa, ele irrompeu novamente. — Aqui tem — um par de moedas ressoaram na mesa. — Dois xelins. E-tirou a 205


outra mão de trás das costas, — suas duas folhas de papel. Eu tampouco quero te dever nada. — As folhas amareladas revoaram quando ele as soltou. Uma delas caiu no chão. Sophia tirou uma nota de seu decote e o jogou sobre a crescente pilha. Para sua irritação, não fez um só ruído e teve pouco valor como gesto dramático. Em compensação, levantou o tom de voz. — Compra umas botas novas. Maldito. — Já que estamos acertando as contas, deve-me vinte e tantas noites de mal dormir. — Oh, não. — disse ela, sacudindo a cabeça. — Estamos empatados nisso. — fez uma pausa, olhando um ponto na frente de Gray, debatendo-se em que tão odioso faria ela este momento. Muito. — Você tomou minha inocência. — disse friamente, e injustamente, pois ambos sabiam que ela a dera livremente. — Sim, e eu quereria ver restaurada minha aborrecida sensibilidade, mas não faz sentido perseguir o arco íris, certo? Ele tinha um ponto a seu favor nisso. — Suponho que estamos empatados então. — Suponho que o estamos. — Não há nada mais que esteja devendo a você? Os olhos de Gray eram de gelo. — Nenhuma coisa. Mas o há, queria gritar Sophia. Ainda te devo a verdade, se tão somente se importasse o suficiente para pedi-la. Se tão somente eu te importasse o suficiente, para querer saber. Mas não lhe importava. Ele chegou até a porta. — Aguarde. — disse. — Há uma última coisa. O coração de Sophia pulsava acelerado enquanto Gray procurava no bolso de sua jaqueta e tirava um pedaço de tecido branco. — Aqui tem. — disse, deixando-o sem cerimônias no topo da pilha de moedas e notas e papéis. — Estou malditamente cansado de levar isto a todos os lados. E logo saiu, deixando Sophia envolvendo seus braços ao redor de seu peito meio nu e olhando cegamente o que ele deixou. Um lenço com cós de renda, bordado com umas minuciosas letras S.H.

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Capítulo 21

Gray saiu do camarote e começou a trabalhar. Trabalhou durante vários dias. Trabalhou até que não pôde pensar, nem pôde sentir. Sua vida se converteu em volteios do relógio de areia, badalares do sino, incrementos de tempo muito breves para permitir uma ansiedade pelo futuro ou remorsos pelo passado. Era simplesmente, sempre agora. Ele se concentrava na tarefa de cada momento: a vela que necessitava eriçar, a braçadeira que se afrouxou. Que o Kestrel supere a crista da próxima onda. Ao mesmo tempo, umas profundas, insidiosas correntes puxavam seu coração. Ressentimento, confusão, medo. A incerteza, em todas suas formas mais sinistras. Por pura força de vontade as mantinha afastadas. Um simples toque de incerteza era tudo o que se requeria para manchar a autoridade de forma irrevogável. Mas apesar da intensidade de seu propósito, um mero momento em sua presença foi tudo o que se requereu para lhe dissipar o juízo por completo... temia que de forma irrevogável. No tocar de um sino, Gray se desfez. — O que está fazendo? As palavras saíram apressadas de sua boca, como uma salva de disparos de fuzil. Ela se estremeceu com cada uma. Entretanto, grande Deus, sentia-se atacado. Que demônios estava fazendo na cozinha? A cozinha não era onde deveria estar. Deveria estar no camarote do capitão, onde permaneceu com segurança nos últimos três dias. Onde ele não precisava olhar esse rosto delicioso, respirar essa fragrância embriagadora, sofrer estes pequenos terremotos no peito que o deixavam cambaleando sobre suas botas cada vez que ela se aproximava. — Estou servindo o jantar. — ela pegou um prato fundo de madeira e o encheu com uma concha de sopa fumegante. — Sempre chega tão tarde para se servir? Gray ficou olhando o prato. Logo a olhou. O que foi um engano. Porque ele estava morrendo de fome, e ela estava... deliciosa. A cozinha estava úmida e quente, como uma cozinha tende a ser. Um intenso rubor pintava as faces dela e sua garganta. Umas mechas soltas de cabelo se encrespavam em cachos muito apertados na raiz de seu cabelo. Diminutas gotas de suor brilhavam em seu decote, onde seus seios pressionavam para cima como montículos gêmeos de massa suspensa. Sua pele brilhava, e seus olhos... 207


Deus, seus olhos brilhavam absolutamente. Seus lábios grossos se curvavam em um sorriso felino, de autossatisfação. Tinha o olhar, o ar — o aroma inclusive, — de uma mulher recém-saída da cama, e que foi totalmente satisfeita. E os sentidos de Gray foram sitiados. Todo o desejo que esteve reprimindo nos últimos três dias pulou livre. Correu quente por suas veias, ardeu em sua virilha. Incomodava-o, incomodava-o este poder que tinha sobre ele. Isto era por que ela devia ficar onde a pôs, fora da vista. — O que está fazendo? — grunhiu de novo. — Não deveria estar aqui. — Estou ajudando — resmungou, seu sorriso desaparecendo em uma linha tensa. Seus olhos se apagaram no espaço de uma piscada, e ela largou o prato sobre a mesa. Gray se apoiou contra a porta com os ombros encolhidos e esfregou as têmporas com uma mão. Maldita seja, era sempre ele o que apagava esse sorriso de seu rosto, apagava essa faísca em seus olhos. Mas necessitava que ficasse nesse camarote. Não podia olhá-la, estar perto dela, pensar nela, e manter flutuando o Kestrel, ao mesmo tempo. Nenhum homem de sangue vermelho poderia. — Volta para seu camarote. — Não. — ela cruzou os braços sobre o peito. — Ficarei louca se passar um dia mais nesse camarote, sem ninguém com quem conversar e nada que fazer. — Bom, sinto que não a estejamos entretendo o suficiente, mas isto não é um cruzeiro de prazer. Busque outra forma de se divertir. Não pode encontrar algo para ocupar sua mente? — fez um gesto abrangente com a mão aberta através do vapor. — Ler um livro. — Só tenho um livro. Já o li. — Não me diga que é a Bíblia. Os cantos de seus lábios tremeram. — Não é. Ele desviou o olhar para o teto, soltando um suspiro impaciente. — Só um livro. — murmurou. — Que tipo de dama cruza um oceano com um só livro? — Não uma governanta — a voz dela continha um desafio. Gray se negou a engolir a isca, optando pelo silêncio. O silêncio era quão único podia dirigir, com esta ira atravessando-o. Doía. Fixou seus olhos em um tabuleiro quebrado por cima de sua cabeça, esforçando-se por manter sua expressão impassível. 208


Que tolo foi por acreditar nela. Acreditar que algo essencial mudara nele, que podia encontrar mais que prazer fugaz com uma mulher. Que esta flor perfeita e delicada de mulher, que conhecia todos seus atos e maldades, ofereceria-se a ele sem hesitar. No fundo, em um território inexplorado de sua alma, construiu um mundo nesse momento quando ela veio a ele de boa vontade, com confiança. Dando-lhe não só seu corpo, mas também seu coração. Certo. Nem sequer lhe deu seu nome. — Alguma vez planeja falar comigo? — perguntou ela. — Não tem perguntas que queira me fazer? — Só uma. Teve seu período? — Não. Ainda não. — Então não temos nada mais que discutir. — Ainda não. — disse ela de maneira significativa. Na verdade, Gray não estava seguro de quantas respostas queria, carregasse a seu filho ou não. Ele sabia que preferia o silêncio à mentira. Importava-lhe um ápice quem era ela, ou o que fez. Se teve amantes antes, se ela tinha seis xelins ou seis mil libras. Importava-o que lhe tivesse mentido. Que, inclusive com seus braços ao redor dele, com os lábios apertados contra sua boca, seu corpo firme, virgem rendendo-se ao dele, sempre esteve ocultando algo. Naquelas escuras e solitárias guardas de sentinela das últimas três noites, levouo silenciosamente à loucura o perguntar-se quanto dela não viu, nem abraçou.Abrindo-se a ela por completo, e esteve lhe mentindo desde o momento em que se conheceram. Durante todos esses dias a bordo do Afrodite, foi um só de seus sorrisos realmente para ele? Que fração de seu coração lhe revelou, em todas suas conversas? Quando ele a abraçou, acariciou, entrou nela, finalmente chegou a alguma camada de seu ser, onde terminavam as mentiras e começava a verdadeira mulher? Gray não queria nem perguntar. Porque ele já sabia a resposta da única coisa que lhe importava. Quanto dela era dele? Menos que tudo. E, portanto, insuficiente. — Desenhe — grasnou a palavra. Limpando a garganta, continuou: — Vá ao camarote e desenhe ou pinte. Manteve-se bastante ocupada antes. — Tentei. Não posso. — O que, não tem mais papel? — Não há mais inspiração. Eu... já não tenho o coração nisso, acredito — com um encolhimento de ombros, voltou-se de novo para a cozinha e começou a revolver 209


preguiçosamente oito vezes em uma panela borbulhante. — Gray, se zangue comigo se for necessário. Tem direito a se sentir ferido. Chame-me por nomes vis, tenha todos os pensamentos de vingança que quiser. Mas deve me permitir fazer isto. Quero ajudar. — Não necessito sua ajuda. — Sim, a necessita. — ela deixou de agitar e pôs a colher ao nível dele, esgrimindo-a como uma espada. — Há oito homens neste navio fazendo o trabalho de uma dúzia. Ouço tudo desse camarote. Acha que não sei quão duro está trabalhando? Que só descansa a cada três turnos com o sentinela e algumas vezes nem sequer isso? — sua voz perdeu o fio, e jogou a um lado a colher antes de limpar sua testa com o dorso do pulso. — Se trabalho na cozinha, libero Davy para um turno de vigília. Se Davy for capaz de montar guarda, pode descansar mais. Gray a olhou. Moveu lentamente a cabeça. — Querida... — Não — sua voz se quebrou... — Não me chame assim quando não fala a sério. — Como vou chama-la, então? Senhorita "Turner"? Jane? — Pode me chamar Cozinheira — com um impaciente bufo limpou uma mecha de cabelo do rosto. — Se eu soubesse como içar uma vela ou juntar uma linha, estaria trabalhando pelos arranjos agora mesmo. Não posso fazer o trabalho de um marinheiro, mas posso fazer isto. Passei todas as manhãs com o Gabriel desde que a Afrodite saiu da Inglaterra, e sei como triturar um pedaço de carne de porco salgada. — Não posso permitir que faça este tipo de trabalho doméstico. — Não pode esperar a que me sente de braços cruzados e leia ou desenhe no camarote, enquanto que trabalha até ficar nos ossos — tirou uma colher pequena de um gancho da parede e pelo cabo, empurrou-a para ele. — Fiz comida, e vai comê-la. Ele aceitou a colher. Era isso, ou aceitava uma colher no crânio. Ela chutou um tamborete para ele. — Agora se sente. Gray se rendeu. Ele precisava descansar, e Davyno convés seria de grande ajuda. E, seu estômago recordou audivelmente, mal provou mais que um pãozinho em dias. Evitou-a desde que abordaram o navio, mas ela percebeu estas coisas de algum jeito: seu cansaço, sua fome. Ela percebeu algo mais também. 210


Esteve dando ordens durante três dias inteiros, e é que necessitava um pouco de ordem em tudo. Com a possibilidade de escolher entre comer e trabalhar, seu dever como capitão exigia que o trabalho fosse prioridade. Não lhe deixava outra opção, então se sentou e comeu. Entretanto, não podia deixá-la se dar bem tão facilmente. — Se é a Cozinheira — disse entre bocado e bocado, — eu sou seu capitão. Não pode continuar me falando desta maneira. — Não está vestido como um capitão. Gray olhou sua simples túnica e as calças folgadas, rodeados com uma corda de nós. A roupa de um marinheiro comum, tirada de um marinheiro morto. Ele não se dava o luxo de vestir-se bem no Kestrel. Com o navio tão destroçado, precisava estar em todas as partes: subir ao mastro, descer ao porão. — Não pareça tão defensivo. Ficam bem — seu olhar ricocheteou em seu ombro, logo caiu ao chão. — Mas vejo que conserva as detestáveis botas. Ele deu de ombros, com a colher levando outro bocado de sopa. — Amaciei-as. — E eu que esperava que as conservasse por razões sentimentais. Pôs uma caneca de rum diante dele, o momento antes que percebesse sua própria sede. Gray a alcançou, sacudindo a cabeça. Um longo gole de rum aguado adicionou combustível a seu ressentimento. Permitiu a si mesmo ser tão transparente para ela, enquanto ela seguia sendo um enigma para ele. Seus talentos não se adaptavam a um padrão lógico: desenho, pintura, engano, sedução, roubo... Agora a capacidade de amassar pãezinhos e carne salgada em uma sopa de agradável sabor... Isto era suficiente para fazê-lo abandonar toda esperança de compreendê-la. Talvez nunca o fizesse. Mas foi outro pensamento o que o urgiu enquanto comia, desesperado por pôr um pouco de distância entre eles. Nunca poderia entendê-la, percebeu Gray, mas ele poderia acostumar-se perigosamente a este outro sentimento. Ser entendido. — Só mantenha-a firme, isso é tudo. Não se incline muito perto, ela pode chutar. Agora agarre com força... sua... Sophia estava começando a duvidar do brilhantismo deste trabalho que sugeriu. Limpou a garganta e adotou um tom leve, do tipo de negócios. — Sua teta? 211


— É, sim. Felizmente, havia uma cabra marrom e branca bloqueando sua visão do rosto de Davy, mas podia escutar o rubor feroz em sua voz. — Pegue sua teta. — disse vacilante. — Assim. Ela inclinou a cabeça para ver a parte inferior da cabra, onde o polegar e o indicador de Davy se enroscaram ao redor de uma teta sobressalente. Com cautela, aproximou-se de um lado para seguir o exemplo. Com o primeiro roce de seus dedos contra a úbere inchada de leite, o animal deu um incômodo calafrio. Sophia retirou a mão. — Não deixe que a assuste, senhorita Turner. Não se pode ser tímido com uma cabra. Uma risadinha nervosa lhe escapou. — Oh, asseguro-lhe isso, eu posso. Não tenho sua coragem, senhor Linnet. Seu comentário caiu no silêncio como um peso de chumbo. Davy não respondeu. Maldição. Sophia se repreendeu com um forte puxão de seu avental. Isso esteve muito mal de sua parte. Já era bastante incômodo que lhe tivesse pedido lições de ordenha, mas fazê-lo participar de um flerte era indescritivelmente insensível. Entretanto, ela precisava aprender como fazer isto. Cada hora que Davy passava na ordenha, era uma hora que não podia estar de guarda. Encorajada pelo desejo de completar esta lição rapidamente, estendeu a mão apressadamente capturando a segunda úbere da cabra com o polegar e o indicador. — Assim? — Sim, senhorita. E agora role para baixo os dedos, um por um... — ele demonstrou, e um jorro de leite golpeou o balde de lata com uma vibração aguda. Sophia imitou seus movimentos. Não aconteceu nada. Tentou-o de novo, obtendo só que a cabra arrastasse impaciente as patas traseiras. — Tente-o de novo, um pouco mais rápido desta vez. Tentou-o de novo, puxando mais forte. Nada. A cabra baliu, em aparente irritação ante sua inépcia. — Não a esprema, agora. Você quer tirar o leite, um dedo de cada vez, vê? — ele puxou uns jatos mais de leite, fazendo um som metálico no balde. Respirando profundamente, Sophia começou de novo, imitando cuidadosamente o puxão rotatório das mãos de Davy. Quando um jorro fino branco saiu disparado da teta, não pôde reprimir um grito de júbilo. Na verdade, se não tivesse temido que sobressaltaria à cabra secando-a, ela teria feito uma pequena dança. Tentou-o de novo, com maior confiança. Saiu outro jorro 212


de leite. — Bem. — disse Davy, depois que ela tirou suficiente leite amarelado da cabra para cobrir o fundo do balde. — Agora já sabe como fazê-lo — continuou ordenhando a outra úbere, e se assentaram em um ritmo tranquilo e de acompanhamento. — Fazia isto frequentemente em casa, então? — ela esperava que a conversa parecesse menos sufocante que o silêncio. — Muito frequentemente. Todos os dias, quando era um menino. Sophia sorriu para si mesma. Não, ele supunha que já não era um menino. — Quem as ordenha agora que partiu? — Minhas irmãs, espero. — Irmãs? São mais velhas ou mais novas? — Estou no meio. A mais velha já se casou. No momento em que a vir de novo, terá seu próprio pirralho, suponho — sua voz se aprofundou um grau, como se a ideia o desgostasse. — Você não gostaria de ser tio? Só pensa nos contos exóticos e os presentes que levará para casa. Será um herói ao retornar. Os meninos pularão a seu redor como abelhas. — ela infundiu à sua voz um acento tímido. — Todas as garotas estarão loucas por você. Ele ficou em silêncio outra vez. Frustrada consigo mesma, Sophia deu um duro puxão na teta da cabra e esteve a ponto de receber uma patada na coxa. Aparentemente, perdeu a capacidade de conversar em vez de flertar, se é que desenvolveu alguma vez esse talento. Qual era seu raciocínio, precisamente? Que um homem não podia se ter em alta estima, sem o benefício de sua adulação? Ou que ele não via nenhuma razão para estimá-la sem essa mesma adulação? Davy finalmente disse: — Sempre e quando chegar a casa com meu salário, não acredito que vão me rechaçar. Ela deixou que as suaves salpicaduras de leite enchessem o silêncio. Por fim, perguntou-lhe com cautela: — Não está feliz por ela, que sua irmã se casou? — Não sei por que importa como me sinto com isso. — Mas ela é sua irmã. Ela é importante para você. Ele deixou sua mão quieta na úbere. — O homem com quem se casou é muito velho para ela. Meu pai é que o arrumou. Acredito que... — espremeu outro jorro de leite. — Acredito que meu pai devia ao homem mais do que podia pagar. 213


— Já vejo. Sua consternação deve ter sido evidente. A voz de Davy se tornou forte, defensiva. — Ela não foi obrigada, entenda. Não se casou com ele contra sua vontade. — Não. Não, é óbvio que não. Só contra seu coração. Entendo-o. É a forma das coisas para as mulheres, às vezes — depois de tudo, foi quase a forma das coisas para ela. — Não suspeita que a tratará mal? — A tratará bastante bem, suponho. Meu pai não a teria deixado ir, do contrário. — Então isso é um pequeno consolo. — Sim — sacudiu as últimas gotas da teta da cabra, e logo a soltou por completo. — De todos os modos, eu não gosto. Eu não gosto de vê-la casada com um homem que não escolheu. Sophia seguiu ordenhando seu lado, estabelecendo um ritmo hipnótico. — É óbvio que não. Ela é sua irmã. Se preocupa por ela, quer vê-la bem cuidada. Se a ama, quer vê-la amada — se ela tivesse sido tão afortunada, ter um irmão que desejasse o mesmo para ela. — Sim — sua voz grasnou ligeiramente a palavra, e ele fez uma pausa. Passou um minuto antes que falasse outra vez. — É um bom homem, o capitão. A mão dela se deteve. — O capitão? — Gray. É um bom homem, senhorita Turner. Ele fará o correto com você. Doces Céus, o rapaz lhe dava sua bênção. Sophia não sabia o que dizer. Provavelmente feriria seu orgulho se lhe dizia que era o irmão carinhoso que nunca teve. Certamente, não podia lhe dizer a verdade de como estavam as coisas entre Gray e ela. Não queria diminuir a fé do rapaz nas boas intenções de seu capitão. Pelo contrário, ela queria estranhamente pedi-la emprestada. Aspirando pelo nariz, ela soltou a teta da cabra e roçou a mão em suas saias. — Acredito que está vazia. — Está segura? — ele se aproximou da cabra e deu a úbere um breve roce. Logo tomou a teta mais próxima a Sophia e lhe deu um giro. Um jorro de leite fresco saiu disparado inclinado fora da borda do balde e salpicando suas sapatilhas. — Tome cuidado!-com um pequeno grito de risada, afastou-se do lado da cabra. Davy inclinou sua mão e voltou a apertar a teta, desta vez salpicando Sophia do rosto até o peito. Balbuciando e limpando o leite do rosto, ela ficou de pé — DavyLinnet — repreendeu, elevando-se por cima do jovem e a cabra, — é um descarado. — Sou? — ele mostrou de repente um inocente meio sorriso. Dando de ombros, 214


deixou cair seu olhar e esvaziou as últimas gotas de leite no balde. — Bom, você está ruborizada. Sophia fez uma demonstração de soprar e cruzar os braços, mas ela não pôde evitar a risada em sua voz. — Nunca diga que não aprendeu nada de mim, Davy. É possível que tenha me ensinado como ordenhar, mas eu te ensinei a flertar. — Um trato justo, então. — ele ficou de pé e levou a cabra pelo pescoço. — Talvez. Isso sim, não terá que confundir os dois talentos. Oculte suas cabras de suas garotas. — Isso é fácil de fazer. — a travessura cintilou agudamente em seu olhar. — As cabras não se ruborizam. — Filho de cadela. Gray franziu o cenho ante a tinta que salpicou suas calças e se acumulava em cima da ponta de sua bota. Isto era a razão de por que os capitães tinham camarotes. Era quase impossível manter um registro adequado na cabine do primeiro oficial, com apenas um mínimo de iluminação e esta mísera superfície de escrever se sobressaindo da parede, muito estreita para dar capacidade ao diário de navegação e ao tinteiro. E, concluiu enquanto franzia o cenho ante este último, agora vazio, definitivamente era impossível manter um registro sem o benefício da tinta. Abriu a porta de sua cabine e entrou no camarote do capitão, sabendo que estava desocupado. Há esta hora, ela estaria preparando o jantar na cozinha. Jogando o diário e a pluma sobre a mesa, moveu-se para procurar as gavetas embutidas por um novo pote de tinta. Não encontrou nenhum. — Maldição. Seu olhar pousou em seus baús, empilhados cuidadosamente no canto. Sem dúvida, tinha uma fonte de tinta, e tinta de qualidade, é óbvio. Sem perder um momento para reconsiderar sua decisão, dirigiu-se aos baús e se esforçou para abrir os fechos do baú menor. Com um puxão conseguiu fazê-lo. Parecia íntimo, revelador. Como se tivesse desatado seu espartilho. E que tesouros o esperavam. Feixes de papel, cuidadosamente envoltos em ligas e atados com nós eficientes, nós que fariam sentir orgulhoso a um marinheiro. Pequenos pacotes de pincéis, cheirando ligeiramente a terebintina. E filas e filas de pequenos potes de tinta e pastas de pigmento. É obvio, ao Gray, o desdobramento de cores não o impressionou particularmente. Mas sim, foi o cuidado e a precisão com que foram empacotados o que lhe causou uma aguda espetada no peito. Neste baú, tudo era delicadeza, beleza e esmero. Tudo o que admirava nela, jazia aberto a seu exame, sem capas de mentiras para 215


obstaculizar sua vista. Olhou até saciar-se. Tocou cada artigo da bagagem, passando seus dedos de um objeto a outro. Não se atreveu a levantar um. Até que um pequeno livro, encadernado em couro, encaixado em um lado lhe chamou a atenção. Enganchando um dedo por debaixo do lombo, com cuidado levantou o volume, e um título o saudou: As Memórias de uma Leiteira Licenciosa. Sua gargalhada sacudiu as filas de potes amortecidos com palha. Assim que este era o único livro que selecionou para a viagem? Uma novela obscena? Gray inclinou o livro na mão. A união estava esticada e as páginas inchadas, como se todo o volume se inundou em água e secagem. A encadernação se abriu para revelar uma capa elaborada, representando uma leiteira roliça que usava um chapéu de palha, saias volumosas, e um sorriso de cumplicidade. Ao folhear as páginas, imediatamente se tornou evidente que a grande parte aumentada do livro podia ser creditada à adição de numerosas ilustrações a pluma e tinta. Ele reconheceu essa mão hábil e o olho para os detalhes, imediatamente. Passou através das páginas, as ilustrações da leiteira e seu cavalheiro de feições vagas ocupados em uma espécie de cortejo: um beijo na mão, um sussurro no ouvido. Na metade do livro, as saias volumosas da garota estavam ao redor de suas orelhas, e as ilustrações incluíam uma sequência de posturas muito similares em lugares diferentes. Não só na leiteria, mas também em uma carruagem, na despensa, em um palheiro iluminado com velas e coberto de... Eram pétalas de rosa? Que me crucifiquem. Gray foi rápido em adivinhar a verdadeira fonte das façanhas míticas do mestre de pintura francês. Muito mais inquietante, entretanto, enquanto ele examinava o livro, foi que notou uma sutil alteração nas feições do amante cavalheiro. Com cada ilustração sucessiva, o herói parecia mais alto, mais largo de ombros, e seu cabelo passou de um estilo muito curto a longo à altura do pescoço no espaço de duas páginas. À medida que virava mais páginas, Gray reconhecia mais ele mesmo. Era inconfundível. Ela o utilizou como modelo para estas ilustrações picantes. Desenhou-o em segredo, não uma, mas sim muitas vezes. E aqui, que havia se tornado quase louco de inveja por cada pedaço de papel que coloriu para um e outro membro da tripulação. Suas emoções padeceram uma vertiginosa progressão: da surpresa, à lisonja, a (graças a uma situação especialmente criativa em um huerto20 20

2 Loc: fig & fam (engano) passar um papo em alguém; fig & fam (sexualmente) levar para atrás da moita

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sem lugar a dúvidas, a excitação. Mas à medida que se atrasava mais neste nu estudo deste amálgama do verdadeiro ele e alguma maliciosa fantasia, começou a sentir algo completamente diferente. Sentiu-se utilizado. Ela representou sua figura com uma precisão assombrosa, tendo em conta que deve ter sido elaborado antes que ela tivesse alguma oportunidade de vê-lo em realidade nu. Não é que tivesse obtido uma imagem exata. Sua imaginação virgem era bastante generosa em alguns aspectos e um pouco mesquinha em outros, observou com uma espécie de amarga diversão. Mas ela o pôs ao descoberto nestas páginas, sem seu conhecimento ou consentimento. Deus, inclusive desenhou suas cicatrizes. Tudo ao serviço de uma fantasia erótica adolescente. E agora começou a zangar-se. Ele esteve manipulando as folhas do livro só com os dedos, ansioso de que pudesse sujar ou rasgar as páginas. Agora abandonou toda precaução e se derrubou sem reparos durante o resto do volume. Até que chegou ao final, e sua mão se congelou. Ali estavam, eles dois. Ele e ela, com a roupa posta e sem nenhuma intimidade física, mas íntimos, de uma maneira que nunca conheceu. Nunca sonhou. Sentados debaixo de um salgueiro, a cabeça dele no colo dela. Uma das mãos dela estava entrelaçada com a dele sobre o peito masculino. A outra estava apoiada na testa dele. O céu se elevava vasto e imenso por cima, ligeiras nuvens fiando-se até o infinito. O punho quente do desejo que havia se apoderado de sua virilha se afrouxou, movendo-se para cima através de seu torso, batendo o conteúdo de seu estômago no caminho. Então se aferrou a seu coração e apertou até machucá-lo. De algum jeito, esta ilustração era a mais desalentadora de todas. Tão ingênua, tão ridícula. Pelo menos as situações obscenas eram plausíveis, embora às vezes fisicamente improváveis. Isto era completamente impossível. Para ela, ele nunca foi mais que uma fantasia. A Gray ocorreu que poderia haver mais segredos embalados dentro destes baús. Se ele mexesse entre seus pertences, poderia encontrar respostas a todas suas perguntas. Talvez respostas a perguntas que nunca pensou fazer. Apesar disso, deixou que a tampa do baú se fechasse de repente e atou a correia com dedos trementes. Sofreu tantas de suas fantasias como podia suportar em um dia. Era o momento de familiarizá-la com a realidade. 217


Capítulo 22

A realidade estava golpeando Sophia duramente. Ou melhor dizendo, chutandoa duro, e deixando hematomas da forma e tamanho de um coice de cabra. A realidade o fazia doer por todos os lados, em músculos que ela não sabia que tinha. Seu primeiro dia como cozinheira do navio foi uma novidade divertida. Tinha experimentado a emoção da competência e ganho seu próprio sustento. Cada fogo aceso, cada batata cortada, cada jorro de leite jogado no balde era um triunfo. Uns poucos dias depois, estava completamente preparada para admitir a derrota. Os trabalhos manuais não eram em nada românticos, e eram só sutilmente gratificantes, na forma em que um pãozinho, que ao mastigá-lo é duro como rocha, satisfazia a própria fome, a contra gosto, e a um considerável esforço. Uma vez que assumisse o controle de sua herança, ela tinha toda a intenção de jamais voltar a ferver água ou ordenhar uma cabra outra vez. Com um pouco de prudência, seus recursos deviam ser suficientes para manter criados pelo resto de seus dias. Pelo que restava de sua viagem, trabalharia duramente ou passaria fome. Em troca, o trabalho combinava bem com Gray. Colocou-se no papel de Capitão do Kestrel mais rápido do que conseguiu emprestadas uma túnica e umas calças. A autoridade simplesmente ia bem, como uma segunda pele. Além de tudo o que aconteceu entre eles, além de sua irritação e dor, no mais profundo de seu ser, ele estava mais contente do que jamais o viu. Estava satisfeito de estar ao comando, de estar no convés trabalhando, mais que sentado no convés ociosamente, e Sophia estava satisfeita de vê-lo onde pertencia, vivendo como se supunha que devia viver. Porque o amava, tanto que doía. Ela queria que ele fosse feliz, seja que isso significasse que estivesse com ela, ou não. E se ela nunca mais voltasse a pousar seus olhos sobre ele depois que jogassem as âncoras, levaria esta imagem dele para sempre: Gray rondando pelo convés do Kestrel, todo confiança, energia e carisma, coordenando o movimento das velas e arranjos tão instintivamente como guiava os dedos de sua mão. E quanto a ela, a presente imagem era uma que tentaria esquecer. Carregando um balde de leite duramente obtido, abriu com o ombro a porta da despensa para pegar os pãezinhos e a carne salgada para a refeição da noite. Uma débil luz se derramava no barril abarrotado. 218


Pisoteou fortemente as pranchas do chão: uma, duas, três vezes. Logo contou até dez e tentou ignorar os sons dos ratos dispersando-se nas sombras. Céus, se sua mãe pudesse vê-la agora. Não haveria suficientes tônico em Bath e em Brighton juntos para rebater o ataque de nervos que esta cena, indubitavelmente, teria-lhe provocado. Quando os sons de corridas se extinguiram, entrou na despensa e se voltou para apoiar o balde de leite em uma caixa à altura de sua cintura. Uma mão bateu em seu ombro. O leite se derramou sobre as bordas do balde, ensopando sua mão e salpicando suas saias. Um grito sobressaltado escapou dela ao mesmo tempo em que um braço envolvia sua cintura. Suas costas se chocaram contra uma parede de calor e músculos. — É isto o que procurava? — o áspero murmúrio esquentou seu ouvido. — Gray — Sophia quase desmaiou de alívio. Gray a segurava apertada contra ele com um braço, sua outra mão deslizando sobre a curva de seu quadril. — Gray, que diabos está fazendo? Fez-me derrubar o leite, droga. — Não o desperdiçarei. — Apoiando o queixo no ombro de Sophia, desenredou os dedos do balde de leite. Dobrando o braço à altura do cotovelo, levantou os dedos dela à sua boca, chupando-os para limpá-los um por um. A língua de Gray percorreu cada dedo e a delicada membrana entre eles, lhe provocando arrepios que descia pela parte de trás de suas pernas. — Não era isto o que queria? — os dedos de Gray se entrelaçaram com os dela, apertando-os até fazê-los doer. — Seu amante de sonhos, espreitando nos estábulos, na cozinha... na despensa? Abandonado ao desejo por sua leiteira licenciosa? Sophia se congelou. Deus querido, ele viu o livro. Ele mordiscou a curva de seu pescoço, e ela ofegou. — Você — engoliu com força, — não tinha direito de olhá-lo. — Você não tinha direito de me colocar nele. — ela podia ouvir o fio selvagem da irritação em sua voz. Com seus dedos ainda agarrando os dela, Gray pressionou a mão de Sophia contra seus seios. — Mas não fiquemos nos acertos, querida. Não quando os erros são muito mais interessantes. A mão de Gray se flexionou, afundando os dedos de Sophia na carne de seu seio. Ela sentiu o suave montículo ardendo em sua palma, o mamilo endurecendo-se em um nó apertado. — Gray — tentou ela em um tom reprovador, retorcendo-se em seu agarre, apertado como uma prensa. Seu braço se esticou na cintura de Sophia, empurrando 219


seu traseiro,colando-o a seus quadris. A dura ponta da excitação de Gray pulsou contra a parte baixa das costas de Sophia, quente e exigente. Suas débeis tentativas de resistir desapareceram. Não esteve ela esperando isto durante dias? Desejando fervorosamente que ele a buscasse, que a tomasse em seus braços? Desejando sentir sua força ao redor dela uma vez mais? Gentil ou rude, a forma precisa em que a tocasse importava pouco. O que importava era ele. Seu calor, seu toque... sua boca... — Pensa em mim, quando está deitada em seu beliche de noite? — a mão de Gray seguia massageando os dedos de Sophia ao redor de seu seio, roçando a palma contra o dolorido bico. — Imagina estas toscas mãos tocando seu corpo? — arrastou sua mão ao outro seio, buscando-o a tatos, de modo impaciente. Os lábios de Gray riscaram o contorno da orelha de Sophia, percorrendo o sensível lóbulo com uma quente e úmida sucção. A agitação fez cócegas em sua nuca. A excitação a percorreu, estendendo-se sobre a superfície de seu corpo e chegando a toda pressa à união entre suas coxas. Fechou os olhos e viu vermelhas ondas de sensações pulsando através dela com cada lambida da língua de Gray contra sua orelha. Logo, os dentes de Gray se fecharam com dureza, criando uma aguda explosão de amarelo. Ela lançou um pequeno grito, metade de prazer, metade de dor. — Sente ânsias de mim aqui? — empurrou a mão da Sophia para baixo, impulsionando-a entre suas coxas. Através das camadas de anágua e saias, ele apertou a mão contra seu montículo. Ela se balançou para frente, gemendo suavemente. — As sentiu, não é assim? — o dedo indicador de Gray pressionou o dela dentro das suaves dobras de seu sexo. — Não é assim? — outra dentada em sua orelha particularizou sua pergunta. — Sim — a respiração de Sophia entrava e saía trabalhosamente, o ar com sabor escuro e almiscarado. — Me imaginava vindo a você, no beliche de noite? Enquanto passava o dia? Deitando-se em alguma suave superfície e levantando suas saias até a cintura? — ele desenredou sua mão de sua saia e a sujeitou à caixa em frente a ela, mantendo-a imóvel com seu próprio peso. A madeira quebradiça se cravou na palma de Sophia. Ele liberou sua cintura, e com sua outra mão tomou uma dobra de sua saia, elevandohabilmente mais e mais acima. Ela não usava meias nem calções desde que cruzaram o trópico, e o roce do tecido contra as partes traseiras de seus joelhos nus enviou estremecimentos de prazer através dela. 220


Inclinando-se para frente, Gray a dobrou pela cintura e lhe abriu as pernas com sua coxa. O ar fresco lambeu suas coxas nuas enquanto ele afrouxava a calça, e logo, seu duro comprimento saltou para encaixar-se apertadamente contra sua vagina. Ele se balançou para frente, esfregando-se lentamente contra as úmidas e inchadas dobras de seu sexo, culminando o movimento com uma doce, tortuosa e interminável carícia. Sophia gritou com alívio quando sua ponta finalmente roçou o ponto mais sensível de sua carne. Com sua mão livre, Gray removeu para cima e ao lado as saias de entre suas pernas. — Olhe — ordenou ele, inclinando-a para frente até que o queixo de Sophia se curvou para seu peito. — Olhe. Ela obedeceu, olhando para baixo onde a avermelhada e inchada cabeça da excitação de Gray aparecia entre seu ninho de curtos cachos. A visão de seus corpos travados a excitou além da razão. — É o que queria, não é assim? Olhá-lo, senti-lo pressionado contra você. Para satisfazer todas essas curiosidades de colegial sobre o corpo de um homem e como encaixaria no seu. Para viver todas as pequenas e depravadas fantasias desse seu livro. Isto é o que quis todo o tempo, verdade? — ele se retirou, arrastando seu duro pênis através de sua suavidade até que Sophia tremeu de prazer. Gray empurrou para frente novamente. — Verdade? — Sim — Sophia ofegou suavemente. Logo mais alto. — Sim. Algo parecido a um grunhido escapou de Gray. — Bom — ele respirou contra seu ouvido. — Acontece que eu também tenho algumas depravadas fantasias próprias. As palavras zumbiram em seus ouvidos, enviando descargas elétricas de excitação direto a seu centro. Sussurrou-lhe: — Me conte. O coração de Gray golpeava grosseiramente em seu peito, cada pulsado acompanhado de um pulso em sua virilha. Demônios, mas ela estava tão quente, tão molhada. Esfregou-se contra ela novamente, a fricção de seus corpos provocando um som líquido que era indescritivelmente erótico. Ele pretendia deter isto aqui. Ou, sinceramente, uns passos antes disto. Tentava fazê-la admitir que tudo o que ela queria dele era prazer, uma oportunidade de explorar suas licenciosas fantasias. E logo, planejava ir-se, que encontrasse outro homem a quem enganar e descartar. Mas se esqueceu como era deliciosa. Quão perfeita ERA. 221


— Me conte. — repetiu ela com a voz rouca. Quando ele continuou hesitando, adicionou. — Mostre-me. E Gray percebeu que negar-se estava além de seu poder. Isto era o que ela queria, disse a si mesmo. Ela queria explorar a paixão e o prazer. Por que deveria negar-se a ela, negar a si mesmo? Gray liberou essa mão delicada que descansava apoiada na caixa. Ela ficou em seu lugar, inclinada para frente, dobrada pela cintura. Ele colocou ambas as mãos sobre os quadris dela, levantando-a para cima e firmemente contra ele, e logo deslizou suas mãos para cima por seu torso, contando cada costela por cada fina listra desse condenado sem botões, sem ganchos, sem laços, impenetrável vestido de musselina. — Minhas fantasias — disse ele com voz rouca, enganchando seu dedo indicador sob a gola do decote no meio das costas, — começam aqui. Gray agarrou fortemente o tecido e o desceu até sua cintura em um único e rápido movimento. A musselina listrada caiu a um lado, revelando seu espartilho e uma regata de gaze debaixo. Ele teve os laços desatados no que durou um suspiro. Rasgar a regata foi questão de um instante e logo suas costas ficaram expostas a ele, curvas elegantes e cumes graciosos, e suave, cremosa pele. Passou seus dedos pela superfície sedosa, vendo a pele dela tremer sob seu toque. — E continuam aqui. — disse, deslizando suas mãos sobre as bordas rasgadas do vestido e ao redor de seu torso. Afastando a um lado seu espartilho solto, pegou esses seios nus em suas mãos. A respiração dela era um assobio agudo enquanto seus suaves, quentes montículos enchiam as palmas de Gray. Mediu-os faminto, acariciando com os polegares os duros mamilos enquanto cheirava a curva de seu pescoço. Ela se movia adiante e atrás contra ele, acariciando seu úmido e convidativo calor sobre sua dolorida excitação. — E logo... Ele beliscou seus mamilos, rodeando-os com seus polegares e indicadores. Ela tremeu quando Gray deslizou a língua por seu pescoço e para baixo entre suas omoplatas. Oh, ela tinha um gosto tão bom, doce e salgado ao mesmo tempo. — Logo, você geme meu nome. — Gray — a palavra foi uma súplica gutural. Suas vísceras responderam com uma vibração. — Você me diz que me deseja. — Desejo você. 222


— A mim, e a nenhum outro. — Só você, Gray, só você. Gray deslizou as mãos de seus seios até seus quadris e a levantou, posicionandose em sua entrada. — Você me diz... Ele deteve a si mesmo, sacudido pela idiotice do que quase dissera: Você me diz que me ama. Que pensamento condenadamente estúpido para ter. Isto não era amor para ela, tão somente eram fantasias e lascivas imaginações. Uma oportunidade de satisfazer sua luxúria juvenil e sua curiosidade. Ele teve vinte anos uma vez. Sabia o que era perseguir o prazer, e certamente não o confundiu com amor. Nunca contemplou o amor absolutamente. Até agora. Ela se balançou para trás, tomando-o dentro dela. Uma formosa, abrasadora sorte o envolveu. Ela era toda doçura e calor e suspiros fundidos, rodeando-o tão apertadamente que ele quase podia acreditar, nesse momento, que ela jamais o deixaria ir. Ele se agarrou a seus quadris, trazendo-a mais perto de si até que ambos estiveram completamente unidos. Deus, estava perdendo a si mesmo dentro dela, e era muito tarde para retirar-se. Não havia nada que ele pudesse fazer. Nada mais que tomar o prazer que lhe oferecia e devolvê-lo e fazer isto tão condenadamente bom que enquanto ela vivesse, sem importar quão longe se fosse dele, ela nunca, nunca, esqueceria-o. Ele a tomou com suaves, poderosos embates que não tinham fim nem princípio, mas que se sucediam um ao outro, constantes, estáveis, sem trégua. Gray tomou o topo de seu sexo com uma mão, abriu-a suavemente, e traçou o sensível casulo ali escondido. Ela gemeu. Deleitou-se. Arqueou-se contra seus embates e tomou mais profundamente. E finalmente Gray sentiu as pequenas contrações em suas coxas e em seus músculos íntimos que lhe diziam que ela estava por alcançar seu ponto máximo. Acelerou para chegar junto com ela, os gritos de ambos unindo-se enquanto o prazer os consumia a ambos. E logo, simplesmente a abraçou, portanto tempo como se atreveu a fazê-lo. — Bom — disse Gray finalmente, retirando-se de seu corpo. — Teve o que queria então — um sotaque amargo poluía os tremores persistentes do prazer que zumbiam através dele. — Ambos o tivemos. — Tivemos? — ela se voltou para enfrentá-lo, e ele se engasgou com sua 223


respiração. Que perigosa era sua beleza. Pensou que seria sua morte. Acariciou o cabelo da testa de Gray, e ele estremeceu ante a ternura do gesto. — Gray, se encontrou meu livro, certamente deve saber que este tipo de... encontros... não é tudo o que quero. Quero muito mais. E o quero com você. Ele fechou os olhos e essa imagem deles dois, descansando sob um salgueiro, apareceu por trás de suas pálpebras. Ele sacudiu a cabeça para dissipá-la. — Você quer uma fantasia, criada pela imaginação de uma garota. Quer um sonho que jamais poderá fazer-se realidade. O rubor de suas faces se desvaneceu enquanto ela examinava seu rosto. — Suponho que tem razão. Esse sonho não poderá fazer-se realidade jamais, se não o compartilhar. — Não é que... — É o suficiente sobre meus sonhos — pôs um dedo sobre os lábios dele, logo seguiu o rastro de sua carícia até seu queixo. — O que é que você realmente quer, Gray? Gray a pegou pelos ombros. — Não quero mais mentiras. Não mais contos selvagens e fantasias secretas. Quero que me conte isso tudo. Quem é, de onde vem, para onde vai. Tudo. Algo se suavizou nesses claros, encantadores olhos. — Lamento ter mentido para você, tê-lo machucado. Mas estava desesperada, não o compreende? Estava se afastando de mim, e me importa tanto. E isso não é nada, comparado com o que sinto por você agora, — pressionou sua mão contra a face de Gray. — Gray, eu... — Não quero escutar isto, quero a verdade, não desculpa. Ela ficou tensa, retirando sua carícia. — Agora, aqui há uma mentira. Ninguém quer a verdade de mim. Só querem o bonito pacote onde me veem. Se realmente queria escutar a verdade, a teria escutado. Meus sentimentos por você são uma parte tão certa de mim como meu nome ou o lugar onde nasci. Mas você jamais quer escutá-los. Você continua fugindo. Ele engoliu, inseguro sobre o que dizer. — E por sobre toda a gente que me acusa de desonestidade, aqui está o homem que me disse que eu não valia nada mais para ele que seis libras e oito centavos. O homem que me ordenou ir a meu beliche e agradecer ao Todo-poderoso que ele não me desejasse. Não tem ideia de quanto me machucaram suas mentiras. Oh, Deus. — Querida, se tão somente pudesse retirar essas palavras... — Mas não pode. Precisa viver com elas agora, tal como eu. — Com os braços 224


retorcendo-se por trás das costas, ajustou-se e prendeu seu espartilho. — Sabe o que penso? — perguntou Sophia, inclinando a cabeça e entrecerrando os olhos. — Além das mentiras, estava contente de ser meu primeiro homem. Acredito que estava condenadamente encantado de descobrir que eu era virgem. Duvido muito que teria acreditado outra coisa. Foi só quando descobriu o dinheiro que tudo se estragou — afundou um dedo no peito de Gray. — Sei exatamente o que você esperava esse dia. Esperava que sua pura e inocente virgem viesse a você, abrisse as pernas e redimisse seus pecados com sua mística virtude. Bom, surpresa, Gray. Não sou perfeita. Tenho suficientes pecados próprios com os que lutar, e não estou aqui para salvá-lo de si mesmo. Uma vez mais, deixou-o sem palavras. Estava se tornando muito boa nisso. Ajustando os cordões de suas calças, ele soltou a respiração em um esmagado suspiro. Era tão condenadamente duro discutir contra a verdade. — Querida... Segurando seu vestido com uma mão, ela voltou a pegar o balde de leite com a outra. — Tenho sonhos, Gray. Lindos sonhos. E sim, depravadas fantasias. E também tenho coração. E você está comprometido em todos eles, e pode me ignorar ou fugir de mim, mas não pode me pedir que o renegue de meus sentimentos por mais tempo. Ela se deteve e o olhou. Logo, elevou-se na ponta dos pés e plantou um beijo em sua face. Este pareceu a Gray um gesto de lástima, mas não pôde obrigar-se a rechaçá-lo. — Sei o que quer, Gray. Sei o que realmente precisa escutar. Quando estiver preparado para ouvi-lo, venha e faça-me saber. Seu beijo persistiu, até muito depois de que ela se foi. — Algo anda errado — disse Gray, impulsionando nervosamente seu queixo para frente — com o elevador de avultação de proa. O tripulante do Kestrel içou uma lanterna e vislumbrou entre a escuridão. — Onde diz? Não posso dizer que o veja.-Logo se voltou e entortou os olhos para o Gray. — Tudo se vê tão bem como um leito de rosas para mim. — Uma corda se afrouxou — com um suspiro exasperado, Gray estendeu sua mão. — Me Empreste seu passador, olharei eu mesmo. O marinheiro não discutiu, e lhe passou o passador com um encolhimento de ombros. — Você é o capitão. Gray escalou o mastro maior, subindo, mão sobre mão, passando além da vela do traquete e das vergas das gáveas de proa. Quando alcançou a avultação, colocou 225


seu braço como se fosse um cabide e descansou. Não havia nada mau com a corda nem com a vela. Soube ainda antes de começar a subir. Mas havia algo errado nele, e necessitava o espaço e a distância para examiná-lo. O ar fresco da noite o sacudiu, passando através da solta malha de sua túnica e desvanecendo o calor rançoso de sua pele. Era quase tão com como um banho decente. A pergunta que ela lhe fez essa tarde o espreitava. O que era realmente que ele queria? Para ser um libertino egoísta, tinha passado um tempo estranhamente longo desde que avaliasse essa questão. Durante os dois últimos anos, trabalhou, sangrou e suou no negócio da navegação. Suas metas eram claras. Queria que Joss se convertesse em seu sócio; queria que Bel tivesse sua apresentação em Londres; e queria prover de segurança e certo status a toda sua família em geral. Mas o que queria ele para si mesmo? Passaram-se anos desde que permitiu a si mesmo fazer rolar fantasias de um futuro feliz, não, desde que era um jovem da idade de Davy. A felicidade, decidiu, foi feita para outros homens: homens que viviam honoravelmente, que cumpriam suas promessas, que construíam fortunas honestas. Homens que a mereciam. Gray simplesmente pegava o prazer onde o encontrava, logo o deixava para trás. Para um patife como ele, era uma loucura e mais que algo perigoso sonhar com uma sorte duradoura. Mas agora ela a estava sonhando para ele. Para eles. Ela era uma coisa inocente e sonhadora, ela acreditava sinceramente que eles poderiam viver felizes para sempre. Nenhuma de suas escuras palavras ou escuras confissões a persuadiu do contrário. Surpreendente. Ele finalmente conheceu à única garota que não podia desiludir. E então, voando na escuridão, balançado pelas ondas e coberto pelas estrelas, Gray decidiu tentar um experimento. Fechou seus olhos e se atreveu a sonhar. Queria a alguém para compartilhar sua vida. Para compartilhar suas cargas, seus triunfos, sua casa e sua cama. O anseio o assolou, quase jogando-o do mastro com sua intensidade. Era como se um poço de desejos existisse dentro dele, profundo e sem limites, e ele o tivesse mantido firmemente fechado durante anos, para que não caísse dentro dele e se afogasse. E agora o alagava, correndo por suas veias como sangue vital. Ele queria... ele queria tantas coisas. Prazeres simples. Comprar uma dúzia de vestidos de musselina para substituir o que lhe destroçou hoje. Alimentá-la com frutas maduras e suculentos queijos e fatias de carnes assadas. 226


Descansar a cabeça em sua saia e sentir seus dedos percorrendo seus cabelos, e escutar todos seus contos descabelados e seus sonhos. Compartilhar pensamentos sem necessidade de conversar. Deitar-se com ela, estar dentro dela, sentir seu corpo ao seu redor tantas vezes quanto ela o permitisse. E um filho... Deus, quanto queria um filho. Esteve batalhando com esse desejo por mais de um ano, cada vez que embalava seu sobrinho recém-nascido nos braços. Este impulso de criar vida era irresistível na forma mais básica e egoísta. Um filho estaria destinado a amá-lo e admirá-lo, sem importar o que ele fizesse. Um filho estaria destinado a aceitar seu amor. Um filho o destinaria a ela, para sempre. De algum jeito, tudo se reduzia a ela. Desejava-a. Esta era a viagem em que ele tentava converter-se em um homem respeitável. Pensou que tinha perdido a oportunidade quando tomou sua virtude, logo o descobrimento de suas mentiras e do ouro preso em seu espartilho. A inutilidade de todos seus esforços incendiou um negro e fumegante buraco em sua alma. Mas talvez, isto era exatamente o que ele necessitava: uma explosão em seu coração petrificado, e este vazio resultante que só ela podia encher. Talvez, finalmente, o que ele queria e o que estava bem eram uma única e mesma coisa. Tudo o que faltava era convencê-la. Bom, nisso ele tinha a experiência ao seu lado. Ele sabia algumas pequenas coisas sobre como conquistar. Gray passou uma hora ali em cima no traquete, mergulhado na escuridão e juntando coragem do vento. Quando as oito badaladas finalmente soaram, significaram muito mais que uma mudança de guarda. Ele estava por mudar sua vida.

Capítulo 23

Sophia despertou sobressaltada. Graças ao que permitia ver a luz tênue e prateada da janela do camarote, distinguiu a silhueta de um homem parado aos pés da cama. Era alto, tão alto que sua sombra se estendia até a parede e se infiltrava nas fissuras do teto, como a tinta. Só podia ser Gray. Perguntou-se quanto tempo estaria ali. Ela se ergueu sobre o cotovelo. — O que quer, Gray? 227


— Quero você. O calor a percorreu da cabeça até os pés. Ficou ali esperando, de repente sem saber como falar nem mover-se, nem sequer respirar. Os pequenos sons das ondas contra o navio e o estalito do velame pela brisa, tornaram-se um rugido ensurdecedor. Ele se inclinou para diante, colocando uma mão a cada lado de suas pernas. A cama rangeu sob seu peso. Voltando a cair sobre o travesseiro, Sophia deixou escapar um gritinho próprio. Ele engatinhou sobre seu corpo, avançando com mãos e joelhos, até que a enjaulou por completo. Seu aroma, quente e masculino, envolveu-a. A parte frontal de sua camisa pendurava solta, e enquanto se arrastava sobre ela, o tecido roçava seu ventre, seus seios. Seus mamilos alcançaram seu ponto máximo imediatamente. A mão de Gray pegou seu queixo, o polegar e os dedos emoldurando sua mandíbula. O pulso dela pulsava com força contra a palma de sua mão. Embora seu rosto se abatesse sobre ela a só uns centímetros, mal podia distinguir seus traços. A luz da lua se refletia na ponte de seu nariz e na borda nítida e sem cortes de seus dentes. Ele inalou lentamente, e Sophia poderia ter jurado que lhe sugou o ar diretamente dos pulmões. Ele estava em todas as partes em torno dela, sua força, seu calor, seu hálito com aroma de rum. Era incapaz de fazer outra coisa além de olhá-lo, os olhos muito abertos e esforçando-se na escuridão. Seus lábios começaram a tremer. Ele os acalmou com os seus. Um breve, terno beijo que relaxou todas as articulações de seu corpo. E agora ela tremia por toda parte. Ainda segurando sua mandíbula, ele interrompeu o beijo. Uma brisa, fina como uma fita e fria como o cetim, correu entre seus lábios, só para ser perseguida por um sussurro quente, urgente: — Desejo você. Desta vez, sua boca esmagou a dela, insistente e machucando. Ele desceu sobre ela, e Sophia adorou a forma em que seu corpo instintivamente se moldou ao redor do de Gray. Os lábios dela se entreabriram para sugar sua língua, seus seios pressionando-se por seu torso, as coxas agarrando seus quadris quando ele insinuou suas pernas entre as suas. E, Oh Deus — quando seus quadris obrigaram a suas coxas a abrir-se e a saliência dura de sua excitação pressionou ali através das camadas de calça e regata — já estava suave e úmida para ele. Porque ela o desejava, também. Ele martelou os quadris contra os de Sophia, e ela gemeu em torno de sua 228


língua. Não havia nada como a sensação disto, seu corpo duro e ansioso e esmagado contra o dela. Sabendo que ela o colocou desta maneira, o havia tornado desesperado de necessidade até que nada — nem o orgulho, nem o dinheiro, nem as mentiras — pôde mantê-lo afastado. Ele se afastou de repente, elevando-se sobre seus joelhos. Sua camisa revoou sobre sua cabeça, uma vela branca apanhada na luz da lua e desaparecendo nas sombras. Colocou a mão entre eles, afrouxando o cordão de sua calça. Enquanto trabalhava o nó, o dorso de sua mão roçou seu monte, e Sophia soltou um descarado suspiro. Quando terminou, ela dobrou os joelhos e enganchou os dedos dos pés na cintura solta de suas calças. Inclinou-se sobre ela outra vez, e lentamente ela arrastou as calças para baixo por sobre seus quadris, saboreando a sensação de músculo duro e de pelo suave sob os arcos de seus pés. Ela sentiu sua ereção surgir livre e lhe roçar a coxa. Gemeram em uníssono. E essa foi a última carícia sem pressa. Agora se moveram com rapidez, aproveitando este momento, este prazer, esta oportunidade, antes que pudesse escapar na noite. Ele tirou as calças, e juntos lutaram com a regata dela, enrolando-a ao redor de seus seios e puxando-a por sobre sua cabeça. — Gray — sussurrou, alcançando-o na escuridão. — Desejo você — afundou o rosto em seu cabelo, enquanto caíam de novo sobre os travesseiros. — Meu Deus, como a desejo. Quero te beijar — pressionou os lábios contra sua orelha, seu pescoço, a pequena profundidade na base de sua garganta. — Tocá-la — suas mãos, ásperas com calos recentes, perambularam por seus seios e quadris, amassando com avidez punhados de pele. — Lambê-la. Sophia estremeceu ante as meras palavras, e quando sua língua fez um contato quente e úmido com sua pele, ficou sem fôlego. Um caminho de arrepios surgia como resultado de sua língua enquanto riscava a inclinação de sua clavícula. — Quero te chupar — murmurou contra sua pele, deslizando por seu corpo para levar o mamilo à boca. Ela se arqueou, ofegando seu nome. Ele puxou suavemente a princípio, mantendo o botão apertado firmemente entre seus lábios, sua língua revoando ligeiramente sobre a ponta. As faíscas dançavam sobre sua pele com cada carícia provocadora. Então ele sugou mais forte, capturando seu mamilo entre os dentes, e o prazer se mesclou com a dor. Sophia enredou as mãos em seu cabelo, cravando as unhas no couro cabeludo, se para afastá-lo ou para retê-lo ali para 229


sempre, ela não sabia. Logo liberou o mamilo e seu queixo áspero raspou seu seio. Ela abriu os olhos para encontrá-lo olhando-a, estudando-a com atenção na escuridão, como se contasse suas respirações entrecortadas. Os olhos azuis escuros refletiam pequenas luas de prata. Ao mesmo tempo, seus dedos brincavam com seu outro mamilo, beliscando e esfregando até que ela engoliu um gemido. — Doce — disse ele, o fio suave de sua voz crispado. — Quero te saborear. Deixe-me te saborear. Enganchando um braço em cada um de seus joelhos, deixou-se cair entre suas coxas. Sophia ficou sem fôlego quando ele levantou os ombros, empurrando seus joelhos até os quadris e deixando bem abertas suas pernas. Seus olhos se fecharam. Nunca se sentiu tão nua, tão exposta. Agradeceu pelo manto de sombras que a noite lhe proporcionava. A escuridão não foi um impedimento para Gray. Sua boca foi diretamente ao seu centro. Sophia resistiu quando sua língua entrou na fenda de seu sexo. — Shhh — a rajada de seu fôlego lhe acariciou os lugares mais íntimos. — Confia em mim. Inalando lentamente, ela se dispôs a relaxar. — Sim. Ele inclinou de novo a cabeça, aprendendo o corpo de Sophia com sua boca, procurando o centro de seu prazer. Como podia uma exploração tão suave, tão terna dar lugar a sensações tão insuportavelmente agudas? As mãos de Gray apertavam seus quadris, segurando-a enquanto seus lábios e sua língua incitavam seu ponto mais sensível. E quando essa língua se inundou em seu interior, ela gritou. O clímax explodiu através dela, onda após onda de felicidade ondulando fora de seu centro. E mesmo depois que os tremores se desvaneceram, ele seguia com seus esforços, lambendo e sugando suavemente sua carne ardente. — Gray — ofegou ela, puxando seu cabelo. — Gray, por favor. Ele desenredou os braços de suas pernas e fez um caminho de beijos subindo até seu ventre antes de sentar-se sobre os calcanhares. — Desejo você. — empurrou os joelhos para os separar ainda mais. — Quero saber que nunca abrirá estas pernas para outro homem — ele acomodou os quadris como uma cunha entre suas coxas e se introduziu dentro dela um centímetro. 230


Sophia gemeu e tentou alcançá-lo. Ele agarrou suas mãos entre as suas, entrelaçando os dedos. Os braços dela dobrados pelos cotovelos enquanto ele se inclinava para frente, segurando suas mãos contra o travesseiro. — Quero saber que nenhum outro homem jamais terá isto — ele empurrou um pouco mais. Não foi suficiente. Sophia se esticou para ele, envolvendo as pernas ao redor das suas. — Gray. Oh, Deus. Mais. Ele investiu dentro dela bruscamente, seus dedos apertando os de Sophia. — Quero saber que é minha — se retirou e investiu de novo, desta vez embainhando-se até o final. — Minha — investiu. — Minha. O corpo dela cantou sob sua terna invasão, assim como seu coração lhe doía. Desejava envolver seus braços ao redor dele, atraí-lo mais perto. Sussurrar-lhe promessas ao ouvido e abraçá-lo até que entendesse que não só ela era dele, mas também ele era dela. Ele estava se esforçando tanto para conquistá-la, mas ela sabia que tudo o que Gray queria, em seu coração, era ser reclamado. Ele segurava suas mãos com aperto de ferro enquanto empurrava dentro dela, uma e outra vez. O suor orvalhava a testa de Gray, caindo sobre seus seios e em seu pescoço. A cama protestava com cada um de seus golpes, e ela também gemeu. — Quero que você... — umas ásperas respirações interromperam suas palavras; ele particularizou cada frase com uma investida. — Quero que você... seja minha. Agora. Sempre. — Sim. — ela envolveu suas coxas firmemente sobre seus quadris, abraçando-o da única maneira que podia. — Sempre. — Quero te encher com minha semente. Quero que tenha o meu filho — seu ritmo se acelerou; seus olhos se fecharam com força. — Gray — ofegou, sentindo uma onda de prazer quando ele inclinou o quadril. Agora, sua pélvis esfregava a dela, elevando-a a um plano superior de êxtase com cada profunda investida. Sua boca se abriu quando o prazer se montou em seu interior, uma espiral em subida, em ascensão. — Quero você — grunhiu ele, apertando os dedos sobre os dela. — Quero a verdade. Ele ficou paralisado. O tempo se arrastou, cambaleou à beira de um abismo. — Quero a verdade — repetiu, empurrando em seu interior outra vez. Então se 231


deteve, completamente embainhado nela, todo seu comprimento enchendo-a, pressionando com força contra seu ventre. Soltou-lhe as mãos e se inclinou sobre ela, enterrando o rosto em seu pescoço. — Deus, doce, não o entende? Quero você. Toda você. Quero te conhecer, por dentro e por fora. Quero que você me conheça. Nada vai mudar isso, juro. Pode me contar qualquer coisa. Estou preparado para escutar. Com mãos trementes, ela envolveu sua cabeça. — Amo você. — Isso não é... — ficou rígido em seus braços e começou a retirar-se. Sophia arqueou seu corpo e o apertou contra ela, atraindo-o para dentro novamente. — Deus — gemeu, afundando-se nela outra vez. — Sabe que não é isso o que quis dizer. — Não? — trançou os dedos em seu cabelo e o beijou na orelha. — Gray, é a verdade. Amo você. Os músculos de seu pescoço ficaram rígidos sob seus dedos. As mãos de Gray se deslizaram para abranger seu traseiro, elevando os quadris. Ah, e agora ele estava tão profundo, tão sólido em seu interior. O ritmo de seus embates acelerando-se, levando-a a um impotente crescendo. Trabalhosas respirações chamuscaram sua orelha. — Diga-me isso outra vez. Diga-me a verdade. — Amo você. Mais rápido, agora. Urgente. Desesperado. Ela ascendia à liberação. — Me diga mais — exigiu ele, seus dentes raspando o ombro dela. — Você me ama, também. Seus lábios encontraram os dela, e então a verdade esteve ali, nesse beijo, em sua união, no prazer delicioso que estremecia aos dois por inteiro e as rajadas quentes que alagavam o ventre de Sophia. Derrubaram-se juntos, úmidos de suor e ofegantes. Ele ficou quieto só uns momentos antes de começar de novo, semeando ligeiros beijos ao longo de seu pescoço, abrangendo seu seio com sua palma calosa. — É tão linda. — suspirou em seu cabelo. Ela tentou controlar sua risadinha infantil, sem êxito. — Gray, está escuro como a boca de um lobo. Nem sequer pode me ver. — Até mesmo na escuridão — murmurou contra sua pele... — É a mulher mais linda que conheci, mesmo na escuridão. De repente, eram lágrimas as que Sophia lutava por reprimir. Perdeu essa batalha, também. 232


— Juro que nunca a deixarei — sussurrou ele. — O disse antes e o digo a sério ainda. Não me importa o que fez no passado, porque seu futuro está comigo. Se nunca souber seu nome, não importa. Tenho a intenção de te dar o meu. — se levantou sobre um cotovelo e lhe retirou com suavidade o cabelo da testa. Seu sorriso era um brilho branco na escuridão. — Pode ser a "senhora Grayson" para o mundo, mas para mim... para mim, sempre será "doce". Não acredito que possa te chamar de outro modo. Sophia engoliu saliva. Queria dizer o que ela pensava que queria dizer? — Está seguro? Ainda posso ter meu período. — Estou seguro. Nunca estive mais seguro. — Pensei que não era do tipo que se casa. — Não o era. E foi malditamente bom, também, ou eu estaria com alguma esposa inconveniente em lugar de estar aqui com você — sua mão perambulou até pousar em seu ventre. — Pode estar carregando meu filho. Quero nosso filho. Quero uma vida COM VOCÊ. A esperança revoou em seu peito. — Gray... — Shhh — colocou um dedo sobre seus lábios. — Não diga nada, a menos que seja sim. O silêncio era insuportável, a escuridão evidente. Gray manteve seu dedo sobre seus lábios, de repente temeroso de mover-se. Se ele a soltasse e ela não dizia que sim... A dúvida se infiltrou em sua mente, convidando o pânico a segui-la. Como chegou a querer tão profundamente a esta mulher, em só umas poucas semanas? Como chegou a querer algo tão profundamente? E como se atrevia ele a acreditar que a merecia, que merecia essa felicidade? Os lábios dela tremiam sob seu toque, ou talvez fosse seu dedo o que tremia contra seus lábios. Sentia como se um grande peso se equilibrasse sobre o eixo de seu coração. Um suspiro, uma pausa por parte dela poderia derrubá-lo. Poderia esmagá-lo. Ela engoliu, e por debaixo da ponta de seus dedos, os lábios se afinaram, entreabriram-se. Uma fina meia lua branca rasgando a escuridão. Ela estava sorrindo. Não espere, pediu a seu coração que pulsava com força. As mulheres sorriem com pesar muito frequentemente. Pouco a pouco, ele deslizou o dedo para baixo, liberando-a. O mundo se deteve. Sentia-se como um detento à espera de sua sentença, com a esperança absurda de uma cadeia perpétua. 233


— Sim. — sussurrou. — Sim? — ouvi-lo uma vez não foi suficiente. A meia lua de cor branca se inchou, como uma lua crescente. — Sim. Ele agarrou seus ombros. — Sim — apressou outra vez. Ouvi-lo duas vezes tampouco era suficiente. Ela o abraçou, estreitando-o com força, com as pernas sobre seus quadris e os braços entrelaçados ao redor de seu pescoço. Ele ainda estava em seu interior, e ela se esticou ao redor dele ali também. A excitação pulsou em sua virilha, e começou a endurecer-se uma vez mais dentro de sua vagina de veludo. Estirando o pescoço, ela o beijou. — Sim. — murmurou contra seus lábios, uma e outra vez entre demonstrações famintas. — Sim, Gray. Sim — sua cabeça caiu para trás contra o travesseiro. — Te amo. E antes que se desse conta, estava duro outra vez. Deus, nunca teria suficiente desta mulher. Sua mulher. E milagre dos milagres, ela tampouco teve suficiente dele. Sua pélvis rodou por debaixo da dele, provocando que o percorressem correntes de prazer com cada hábil inclinação. Ela acariciou suas costas, seu toque frio e ligeiro como uma pluma contra sua pele. — Doce — moveu a mão entre eles, acariciando-a onde seus corpos se uniam. — Juro que cuidarei de você. Farei você feliz — rezou para que fosse verdade. — Mmmm — gemeu ela. — OH, sim. Uma vez, duas vezes, uma dúzia de vezes. Gray não podia ouvir essa palavra o suficiente. Ele a amava lentamente, sem descanso, até que ela ofegou e suspirou as palavras "sim", "Gray" e "Deus" tantas vezes que se pareceram como votos sagrados. Logo a observou dormir aconchegada a seu lado, até que o amanhecer pintou sua nudez com traços de luz quentes e brilhantes. Fizeram amor quatro vezes já, percebeu,mas esta era sua primeira oportunidade de olhar realmente seu corpo. Ela era por inteiro tão bela como a imaginou, se não mais. Sentia-se um pouco culpado, percebendo que a castigou por desenhar sua imagem, quando ele esteve evocando uma imagem de seu corpo nu todas as noites durante semanas. A única diferença era que não levou suas fantasias ao papel. Precisaria de um mestre do Renascimento para capturar esta beleza. Seu cabelo esparramado no travesseiro e o braço estendido, um milhão de fios do fio de seda mais fino. Quando despertasse, prometeu a si mesmo, escovaria-o até 234


que brilhasse. Admirou o teso disco de sua aréola, relaxado no sono. Logo soprou sorrateiramente nele, até que se franziu em uma roseta intumescida. Seu olhar vagou mais abaixo, aonde seu umbigo subia e baixava com cada respiração, como uma cortiça pequena flutuando no ventre ligeiramente arredondado. Uma irregular marca de nascimento se destacava na ponta do quadril, como um pingo de vinho na neve. Tocou-a com um dedo, e ela se agitou. — Não olhe isso. — murmurou, esfregando o sono de seus olhos. — Sei que é horrível. — Horrível? — apesar da expressão de dor em seu rosto, teve que rir. — Querida, posso dizer honestamente que não há nada a respeito de você que seja horrível no mais mínimo. — Meu mestre de pintura não estaria de acordo. O sabor amargo da inveja lhe encheu a boca. — Sabe, é melhor que esse francês nunca espere que me encontre com ele. — Oh, não. — disse ela rapidamente. — Não Gervais. Nunca Gervais. Meu mestre de pintura era um velho pedante e calvo chamado senhor Turklethwaite. O desconcerto de Gray deve ter sido óbvio. Ela continuou: — Nunca houve nenhum Gervais. Quero dizer, sabe que eu nunca levei um homem à minha cama, mas deve entender... Tampouco nunca permiti a outro homem entrar em meu coração. — o beijou na testa, logo em seus lábios. — Amo você, só a você. Deus. Que valente era. Jogar essas palavras como se fossem plumas. Poderia suspeitar a forma em que aterrissaram em seu peito, como balas de canhão, detonando no fundo de seu coração... Lutando por permanecer equânime, perguntou-lhe casualmente: — Quando teve este mestre de pintura a ocasião de ver sua marca de nascimento? Ela se pôs a rir. — Não a viu. Mas pintei algo assim uma vez, em um retrato de Vênus. Disse a ele que pensava que lhe dava um ar de realidade. Oh, como me repreendeu. Uma dama que pinta, disse — dirigiu ao Gray um olhar zombador... — Ele não aplicaria o termo "artista" a uma mulher, já vê. — Já vejo. — Uma dama que pinta, disse ele, deveria aproximar-se da arte como o faria com qualquer outro trabalho suave. Seu propósito é agradar, seu objetivo é criar um 235


exemplo de refinamento. Uma verdadeira dama não pintaria uma imperfeição, disse, não mais do que tocaria uma nota falsa em uma sonata. A beleza não é real, e a realidade não é bela. Gray meneou a cabeça. — Notável. Acredito que desprezo a seu mestre de pintura real, inclusive mais do que odiava ao fictício. Não o teria acreditado possível. Ela se levantou sobre seus cotovelos, sua expressão de repente ansiosa. — Gray, como quer se casar comigo? Há tantas coisas que não sabe. Partes dela, na verdade, são feias. — Sei que é minha — querendo tranquilizá-la, entrelaçou os dedos com os dela. — Queria dizer cada promessa que te fiz a bordo do Afrodite. Está a salvo comigo, e nunca a deixarei. Vim a você com intenções honoráveis quando fizemos amor. Queria me casar com você então, sem saber nada mais de você do que sei agora mesmo. Talvez não conheça sua história, mas confio em que conheço seu coração. — Melhor que ninguém — um pequeno sorriso conseguiu que seus lábios se afastassem, e ele os beijou. Primeiro tomando suavemente seu lábio superior, logo saboreando o carnudo lábio inferior. — E você confia em mim? Pode me contar tudo. Acredita nisso? — Sim, é obvio. E lhe contarei tudo — entretanto, um toque de incerteza brilhou em seus olhos e mordeu o lábio. — Com o tempo. Sua resistência o feriu, mas Gray se viu obrigado a fingir paciência. Pressionando-a ainda mais poderia conseguir respostas, mas não confiança. Ele queria ter ambas as coisas. — Muito bem. Com o tempo. Ela brincava com uma mecha de seu cabelo. — Há tanto que contar, é tudo. Não estou segura por onde começar. — Bom, então. Comecemos com o essencial. É livre para se casar comigo? — exalou lentamente, em um agudo esforço por não conter a respiração. — É óbvio. Quando chegar à maioridade, é óbvio. — Me diga seu aniversário. Ela sorriu. — Em primeiro de fevereiro. — Será o dia de nossas bodas — riscou a forma da marca de nascimento de seu quadril. — Muito conveniente para mim, que seu aniversário e nosso aniversário coincidam. Será mais provável que recorde ambos. — Eu gostaria que deixasse de me tocar aí. 236


— Sim? Por quê? — Porque é feia. A odeio. Ele inclinou a cabeça, surpreso. — Eu a adoro totalmente. Isto me recorda que é imperfeitamente perfeita e minha por completo — deslizou por seu corpo e se inclinou para beijar a marca para provar o ponto. — Há um pouco de emoção ao saber que ninguém mais a viu. — Nenhum outro homem, quer dizer — a beijou ali de novo, desta vez seguindo a forma com a língua. Ela se retorceu e riu. — Quando era criança, esfregava-a no reservado. Minha babá me dizia, "Deus dá as marcas de nascimento às crianças para que não se percam" — sua boca se curvou em um sorriso agridoce. — Entretanto, aqui estou, à deriva no oceano ao outro lado do mundo. Não o chamaria uma ironia? — Acredito que o chamaria providência — ele apertou as mãos sobre sua cintura. — Você está aqui, e a encontrei. E me esforço em não perder o que é meu. Beijou-a no quadril de novo, logo deslizou sua boca para seu centro enquanto se colocava entre suas coxas. — Gray — protestou ela através de um suspiro de prazer. — É tarde. Temos que nos levantar. — Asseguro a você que estou levantado. — Há trabalho por fazer. — ela se retorcia em seu abraço. — Os homens quererão seu café da manhã. — Esperarão até que o capitão tenha terminado o seu. — Gray. — deu um grito abafado de comoção, em seguida, um de prazer. — Que patife é. Ele ficou de joelhos e levantou os quadris dela, afundando-se nela com um gemido baixo. — Doce — sussurrou enquanto começava a mover-se com ele, — não me teria de nenhuma outra maneira.

Capítulo 24

O café da manhã foi tarde. Absolutamente tarde, mas foi servido com um sorriso. E sendo que os homens já estavam ocupados em suas tarefas, Sophia foi quem levou a comida do Brackett ao porão. Com um prato de lata com bolachas e uma pequena chaleira de chá, desceu a longa e estreita escada, passou pelos camarotes e o depósito, chegando ao pequeno 237


ventre do navio. — Senhor Brackett? — ela se deteve na base das escadas, não muito segura de em que direção estava ele. — Poderia ser essa a Senhorita Turner? — sua voz muito cortês surgiu áspera de algum lugar à esquerda. Sophia sentiu a ansiedade bater as asas através dela, mas não lhe permitiu aninhar-se ali. Ele estava preso, recordou-se. E seria um tolo se tentasse lhe causar algum dano. — Trouxe-lhe seu café da manhã. — caminhou em direção a sua voz, permitindo que seus olhos se acostumassem a tênue luz do porão. Eventualmente, encontrou-o, algemado e acorrentado à bomba do porão. Parecia suficientemente sadio, embora um pouco sujo. Os traços afilados de seu rosto pareciam ainda mais sérios, e o crescimento da barba obscurecia sua mandíbula. — Senhorita Turner — disse ele, estalando a língua. — Você subiu a bordo deste navio como uma respeitável governanta, e olhe-se agora. Grayson a converteu em sua criada — ele inclinou a cabeça. — E sua puta. O rosto de Sophia se acendeu. Suas mãos tremeram, e os duros pãezinhos repicaram no prato. — Não se atreva a falar dele dessa forma. Você nem sequer serve para raspar o barro de suas botas. Ele é um homem melhor do que você alguma vez pode aspirar a ser, e mais, ele é melhor pessoa que eu. Deu-lhe proteção e o alimentou, mesmo tendo feito o que fez ao Quinn e ao Davy. Eu o teria jogado alegremente aos tubarões. E por como estão as coisas agora, jogarei seu café da manhã aos ratos. — Ela jogou o prato, com bolachas e tudo, ao canto mais afastado do porão. — Bom dia, Senhor Brackett. Tremendo, Sophia voltou a subir pelas escadas e tropeçou desordenadamente no convés. — O que aconteceu? — quis saber Gray, segurando-a em seus braços. Procurou em seu olhar e examinou seu corpo. — O que aconteceu? Ela sacudiu a cabeça, secando os olhos com as pontas de seus dedos. — O Senhor Brackett é um homem vil e odioso. — Machucou você? Matarei-o. — Não, não o faça. Me converterá em uma mentirosa — abafou um ataque de riso histérico com a mão. Gray a pegou pelos cotovelos e a levou a que se sentasse. — Não é nada — insistiu Sophia, aliviada por sua presença e sua força. — Não me machucou. Só trocamos umas palavras, isso é tudo. 238


— Não voltará a descer ali novamente. Compreende-me? — Me acredite, deixaria-o morrer de fome antes de voltar a me aventurar nesse porão outra vez. — Estaria tentado de fazer isso, deixá-lo morrer de fome. Mas infelizmente não estaremos em alto mar o tempo suficiente. Sophia ergueu o olhar, aspirando pelo nariz. — Estamos tão perto de Tortola? — não era o final, recordou a si mesma. Só o começo. Haveria outras viagens, mares e continentes inteiros a explorar. Gray assentiu com a cabeça. — Só um ou dois dias mais — a pôs de pé e a levou para a amurada do navio. — Olhe. Um cardume de peixes ladeava ao Kestrel, uma rajada de dardos prateados cortando através da espuma. Ela os viu facilmente nas águas limpas. O mar tropical, à distância, se via azul como as safiras, mas claro como um cristal de perto. Para assombro de Sophia, alguns dos peixes saltaram da água e voaram pelo ar com grandes nadadeiras em forma de asas, antes de desaparecer novamente sob as ondas. — Peixe voador. Um sinal seguro de que estamos perto. E ali há outro — ele assinalou a ponta da proa, onde uma grande gaivota branca se encarapitava serenamente. — Um pássaro. Não posso acreditar que faz um mês inteiro desde que vi um pássaro — se voltou para Gray. — E assim, não posso acreditar que passou só um mês desde que o conheço. Não posso decidir se foi o mês mais longo de minha vida, ou o mais curto. As sobrancelhas de Gray se uniram em um cenho exagerado. — Não posso decidir qual me parece o elogio mais fraco. — Nenhum. — brincou ela, enlaçando seu braço no dele. — Para te fazer um elogio, deveria te dizer que foi o melhor mês de minha vida. E o foi. — jamais havia dito palavras mais verdadeiras. — OH, bem dirigido. Meu orgulho foi resgatado. — Apesar de seu ar despreocupado, os olhos do Gray tinham uma expressão de verdadeira emoção. Hoje estavam completamente azuis, um rico azul celeste, claro e convidativo e eterno. Tal e como o mar. Sophia riu de si mesma. Como lhe escapou o óbvio? Todo este tempo, ela esteve intrigada pela cor de seus olhos. Sempre estavam trocando, do verde, ao azul ou ao cinza. E agora ela sabia por que. Sempre refletiam o mar. — Sabe — disse ele — que se continuar me olhando fixamente assim muito mais tempo, verei-me forçado a te enviar sob o convés? 239


— Seriamente o estou olhando fixamente? — ela bateu seus cílios para ele. — Logo farei uma escapada à despensa, sabe. Mas cuidado, este é o último vestido bom que tenho. — Sereia — Gray lhe deu um beliscão oculto no quadril. — Não, é o camarote o que tenho em mente para você, e você estará ali sozinha. Precisa descansar — conduziu-a para a escotilha. — Não deveria descansar comigo? — Se for com você, nenhum dos dois vai descansar. Uma corrente de prazer a golpeou direto em seu centro. Logo, misturou-se um pensamento mais prático. — Mas e quanto a refeição do meio-dia? Não se fará sozinha. Nesse instante, um peixe voador tão longo como seu braço passou por sobre a amurada do navio e caiu no convés a seus pés. Gray olhou ao lançado peixe, logo elevou as sobrancelhas para ela. — Acredito que nos arrumaremos de algum jeito. Horas mais tarde, Sophia despertou sozinha na escuridão. Seus pés mediram as pranchas do chão em busca de suas sapatilhas, e envolveu uma ligeira manta sobre seu corpo antes de dirigir-se ao convés. As estrelas a saudaram, em divinas multidões. Um milhão de luzes dançando, piscando, brilhando alegremente no firmamento. Como se algum travesso será fim estivesse arrastando-se no piso do céu, perfurando pequenos buracos com uma furadeira para permitir que a glória brilhasse através deles. Ela o espiou no leme, de costas a ela como se estivesse olhando por sobre a popa do Kestrel, com os cotovelos apoiados no corrimão. O marinheiro na roda do navio a ignorou amavelmente enquanto Sophia ia nas pontas dos pés, à luz oscilante do abajur e entrando nas sombras que envolviam Gray. Sem fazer ruído algum, Sophia pressionou seu corpo contra ele, esmagando a face contra suas costas. Gray se esticou ante o contato inicial, logo se relaxou um instante depois. Seus dedos encontraram os dela quando arrastou uma mão para sua cintura. — Deveria estar dormindo. — murmurou ele. Sua amplificada voz soou deliciosa, viajando através dos sólidos músculos de suas costas. Ela o sentiu, mais que o escutou. Sentiu-o por todos os lados. — Estava sentindo saudades sua. E porque queria senti-lo falar novamente. — acrescentou em uma sugestiva voz. — Você sentia saudades? — É óbvio. — arrastou sua mão para baixo para mostrar a ela a prova tangível 240


de quanto sentia saudades. Sophia sorriu contra suas costas. Ele sentia saudades enormemente, descobriu, com seus dedos explorando-o. Este era um desejo em grande escala, realmente. Ele falou novamente, enviando prazerosos estremecimentos através dela. — Tocaremos em terra amanhã. Pela manhã, se o vento se mantiver. Agora foi Sophia quem ficou tensa. Ele se voltou para olhá-la, atraindo-a firmemente contra seu peito. — Nada mudará amanhã entre nós. — levou a mão dela a seus lábios e a beijou. — Exceto isto. — disse Gray, esfregando a mão de Sophia contra sua barba. — A primeira coisa que farei amanhã quando tocarmos em terra é me barbear. Está me deixando louco a coceira. Ela riu, acariciando sua robusta face com seu polegar. — Então por que não se barbeou até agora? — Sente isto? — ele arrastou seus dedos sobre a fina cicatriz inclinada sobre sua face. — Isto é o que obtém quando se barbeia em alto mar. — De verdade? — ela se inclinou para trás, piscando na escuridão para distinguir seus traços. — Foi assim que se fez essa cicatriz? Cortou-se se barbeando? — não pôde evitar rir. — Alegra-me que minha ferida causada pela vaidade a divirta tanto. — Não rio de você. Rio de mim. Que se cortou se barbeando? Não é absolutamente o que imaginei. — Oh, como não, ria. Foi uma pura loucura — ele voltou seu olhar sobre as águas. — Deve ter acontecido em algum lugar perto deste canto do oceano, já que estávamos há só um dia ou dois de Tortola. Retornava da Inglaterra, depois que meu pai morreu. Estava tão preocupado por minha irmã, Bel. Era tão somente uma menina então. Não nos vimos em anos, mas desde o momento em que me saudou, queria que ela se sentisse segura. Estava tão ansioso de parecer responsável, capaz... — ela sentiu o torcido sorriso em sua voz. — Se isso não acontecesse, pelo menos bem barbeado. Estava me barbeando quando desatou a tormenta. Perdi o equilíbrio e caí, fiz-me um corte na face e me deixei um olho arroxeado, também. Em vez de barbeado e responsável, apresentei-me parecendo como se me tivessem atacado os piratas. — Ela não estava menos encantada de vê-lo, estou segura. — Sophia descansou o queixo em seu braço. — Estou ansiosa por conhecer sua irmã. Acha que gostará de mim? — Ela te amará — o suave murmúrio enfraqueceu seu coração. Logo, continuou 241


em um tom brincalhão. — A caridade é o trabalho de sua vida. É o que Bel faz melhor, dedicando-se às mais rebeldes almas. — Bem, então. Certamente gostará de mim. — Estou contando com isso — a aproximou mais a ele e logo se congelou. — Acabo de perceber algo. Ela elevou o olhar. — Seu pequeno maço já não está — sussurrou Gray, levando os dedos para o vale entre seus seios. — Não o jogou pela amurada? Ela sorriu. — Está sob o colchão. Já não queria senti-lo entre nós. Mas caso que o tivesse atirado pela amurada, e então? Realmente espero que não esteja se casando comigo por meu dinheiro. — Não — Gray riu suavemente. — Seiscentas libras não é uma soma mesquinha... mas não. Não é suficiente para persuadir a um homem de meus recursos. Se fossem seis mil, então teria razão em preocupar-se. E o que aconteceria se forem vinte mil? Deveria me preocupar então? Sophia descansou sua cabeça sobre o ombro de Gray. Sabia que ele só estava brincando, que seu dinheiro não tinha influência sobre seus sentimentos. Poderia haver-se casado por dinheiro anos atrás, se o tivesse querido. Mas ainda assim, ela duvidava em lhe confessar a magnitude de sua fortuna, tendo em conta sua reação de irritação à primeira vez. Tampouco estava ansiosa por lhe contar a respeito de Toby. Como podia lhe dizer que ela esteve prometida a outro homem solícito e paciente, a quem ela cruelmente deixou plantado e enganado? Gray poderia duvidar dela novamente, temia, e Sophia não sabia como o suportaria. Melhor esperar a que estivessem casados. Então, ele não duvidaria de seu amor. Fechou os olhos e deixou que tudo se desvanecesse. Tudo menos Gray. O polegar dele desenhou pequenos e íntimos círculos em suas costas, e o desejo disparou através de seu corpo. — Quer ir para baixo? — perguntou-lhe Sophia. Uma entusiasta parte dele saltou ante o convite, mas o resto dele permaneceu quieto. — Em um momento. — pôs um dedo sob sua face e levantou seu rosto na direção do dele. — Justo agora, quero beijar o meu amor sob as estrelas. Ela deixou seus olhos abertos enquanto Gray inclinava a cabeça sobre a dela, absorvendo o brilho azul prateado de sua pele e as inquietas sombras que o vento 242


arrancava de seu cabelo. Tão atraente, inclusive na escuridão. Primeiro o hálito de Gray acariciou seus lábios, gentil e quente. Logo seus lábios sussurraram sobre os dela, tão somente um grau mais insistente que seu fôlego. Ele lambeu suavemente o canto de sua boca, umedecendo o vulnerável canto de seus lábios. — Doce. — murmurou ele. Ela engoliu a palavra, a sentiu deslizando de sua garganta até seu ventre, e mais abaixo... fazendo-a se sentir faminta pela cálida pressão de sua língua contra a dela. Oh, mas ele era um provocador. Todo paciente arrogância e atenção devastadora. Em vez de tomar sua boca, ele deslizou uma mão por detrás de seu pescoço, embalando a cabeça de Sophia e inclinando-a para trás para estirar a coluna de sua garganta. Ele esparramou beijos ali, quentes faíscas que dançaram ao longo de sua pele exposta. Ela curvou os dedos em sua camisa e nos tensos músculos sob ela. Sobre eles, estranhas constelações formaram redemoinhos na noite. A boca de Gray ficou possessivamente sobre sua orelha, sua respiração esquentando a sensível concha enquanto sua língua desenhava seu contorno. — Você é minha — ele sussurrou contra seu ouvido. — E o mundo é nosso. Não há nenhum lugar sob este céu onde não vamos estar juntos. A língua de Gray se afundou em sua orelha, e seus joelhos se dissolveram, não ficando outra opção mais que se deixar cair contra ele. De depender dele para sua fortaleza, seu equilíbrio, e inclusive para seu próximo fôlego, e agora, finalmente, seus lábios cobriram os dela. Os olhos de Sophia bateram as asas até fechar-se, e agora as estrelas estavam dentro dela. Brilhantes constelações de desejo, faiscantes, quentes, formando redemoinhos através das partes escuras de seu ser. Glorioso. A língua de Gray estabeleceu um ritmo sutil, persuasivo, acoplando-se habilmente a dela. Com os seios necessitados e doloridos, Sophia pressionou seu corpo contra o dele. Retorceu-se em seu abraço até que a ponta dura como o ferro de Gray aninhou justo onde ela a necessitava. Onde pertencia. Ele grunhiu, profundamente em sua garganta. Ela se deleitou com o som selvagem, um cremoso e sensual domínio de Gray sobre ela. Mas Sophia só se deteve um momento para saborear o gosto do poder, antes de desejar novamente, rendendose com entusiasmo à perigosa e imprevisível necessidade que ela tinha desencadeado. Gray vagou por seu corpo, acariciando e beliscando-a por todos os lugares nos quais ela tinha ânsias dele. Suaves carícias, rudes beliscões, afiadas dentadas e suaves 243


lambidas. Ele conhecia os lugares exatos e a sequência precisa que a deixavam ofegante e molhada. — Agora-grunhiu ele agarrando-a pelos quadris, — agora vamos para baixo. Gray se alegrou de ir para baixo. A pequena sacudida de surpresa dela quando ele a beijou aí, o corcoveio instintivo de seus quadris que lançou o calor dela contra sua boca. Esse malicioso livrinho dela excluía algumas lições vitais na arte da paixão, e ele teve um grande prazer em complementar sua educação. E logo ele tomou seu próprio prazer dela. Mais tarde, suarentos e saciados, permaneceram nus sobre os lençóis, Esparramados de costas como se estivessem flutuando, deixando que o ar da noite lhes esfriasse a pele. Um contente esgotamento o animava ao sono. Despertou um pouco mais tarde, quando ela acendeu uma vela. — Sei que vi uma aqui em algum lugar... Gray mal reuniu energia para levantar a cabeça. Teve uma visão dela, vestida com camisa e remexendo nas gavetas. — O que é que está procurando? — É isso! — endireitou-se triunfante, segurando um brilhante objeto cortante em sua mão. Ele distinguiu uma navalha. — Há um afiador e uma pasta de sabão de barbear, também. Irei conseguir um pouco de água na cozinha. Antes que Gray pudesse protestar, ela já havia cruzado a porta do camarote, e ele deixou cair a cabeça sobre o travesseiro. Devia ter adormecido, porque abriu os olhos para encontrá-la sobre ele, puxando sua cabeça até a borda da cama e alisando as palmas sobre seu rosto. — Só fica quieto — ela sussurrou, guiando-o para dobrar seu corpo até que o topo de sua cabeça descansou sobre o peito dela. — Confia em mim, tenho uma mão muito estável. — Não o duvido. — ela massageou uma espuma de essência picante por suas costeletas, e o aroma se infiltrou através da bruma de seu cérebro, despertando-o um pouco mais. — Desta vez, saudará sua irmã parecendo resplandecente. Um retrato de respeitabilidade; ou ao menos de um bom esmero. Ele suspirou enquanto ela alisava a espuma por sua garganta, seu toque deslizando sobre sua pele. — Bem, necessitarei todo o esplendor que possa conseguir, para poder convencê-la. Entretanto, espero que sua presença consiga mais a esse respeito. — Convencê-la do que? 244


— De que venha conosco, é óbvio — ele fez uma pausa quando ela apoiou o fio da navalha em sua mandíbula e o arrastou lentamente em torno de sua face. — Agora que sua mãe se foi, e Mara também... não posso lhe permitir que continue vivendo ali sozinha. — Mara? — Ela fez outra lenta passada com a navalha. — A esposa de Joss. Faleceu dando a luz no ano passado. Ela fez uma pausa. — Que terrível. Sobreviveu o bebê? — Sim. Um menino, Jacob. Bel está cuidando dele agora. Depois de enxaguar a navalha, ela apoiou uma mão sobre sua face, movendo sua cabeça para o outro lado. Novamente, ela começou em sua orelha e trabalhou para dentro. — Desejaria que tivesse conhecido a meu irmão antes — continuou Gray. — Antes de Mara morrer, ele era diferente. As coisas eram diferentes entre nós. Mais... fraternais. — A dor muda as pessoas. — Assim o aprendi. Inclinou a cabeça de Gray para trás para acessar a sua garganta. Ele estabilizou sua respiração, combatendo a urgência de engolir enquanto ela raspava sobre seu pulso. A dor muda as pessoas. Como podia não fazê-lo? Ele percebia agora quão injusto foi com o Joss, negando-lhe o tempo para sofrer, o espaço para a mudança. Era só agora que podia compreendê-lo, quando a mera ideia de perder a esta mulher fazia que gotas de suor frio corressem por sua testa. Fechando os olhos, Gray se aproximou para apertar sua mão livre. — Falemos de coisas mais alegres. — Muito bem — ele sentiu o sorriso em sua voz. — Onde passaremos a lua de mel? Levará-me à Itália, para ver os Botticellis? — Levarei você a qualquer lugar a que deseje ir. Qualquer lugar sob o céu. Um beijo suave aterrissou em sua pálpebra. Logo ela permaneceu em silêncio, trabalhando para o centro de seu queixo, enxaguando a navalha em uma vasilha a seu lado entre raspadas curtas e seguras. Ela estava concentrando-se, se deu conta Gray, trabalhando cuidadosamente ao redor de sua cicatriz. Finalmente, deixou a um lado a lâmina, deixando que afundasse na vasilha com um som aquoso, logo secou seu rosto com um pano. — Fica quieto — deslizou os dedos ligeiramente pelo rosto de Gray, como se comprovasse algum ponto áspero que pudesse ter deixado. Delineou a fina cicatriz 245


desde seu queixo até sua boca. — Assim, se esta cicatriz foi auto infligida, ocasionada pela vaidade — sua mão se deslizou até a cicatriz de seu peito, — e quanto a esta? Não por vaidade, conforme acredito. Ele sacudiu a cabeça, apoiando uma mão sobre a dela. — Essa foi pura estupidez. Mas também auto infligida. — Parece como uma queimadura. — É. Silêncio. O coração de Gray golpeava na palma dela. — Não precisa me contar isso. — ela sussurrou finalmente. — Quero fazê-lo — respondeu, surpreso ao dar-se conta de que era verdade. Como podia esperar que ela compartilhasse seus próprios segredos, se ele retinha isto? — Mas é uma longa história. — Temos toda a noite — ele inclinou a cabeça e a olhou com o cenho franzido. — Quando fui à cozinha disse a O'Shea que estava doente — admitiu ela com um sorriso. — Não nos incomodará até que não avistem terra. Ele girou de lado e se apoiou sobre um cotovelo, inseguro sobre se repreendê-la ou beijá-la. Ela resolveu o dilema beijando-o primeiro, logo aconchegando-se na cama junto a ele. — Necessita descanso. — ela sussurrou, atraindo a cabeça de Gray para seu ombro. — Entre manter sentinela e manter uma amante, mal dormiu em uma semana. — Você não é minha amante, é minha futura esposa. — Não estamos casados ainda. E não arruíne minha diversão. É minha última oportunidade de ser a amante de alguém. Uma feroz alegria inchou o coração de Gray. Envolveu um braço na cintura dela. — Sim, é. Gray a abraçou em silêncio, avaliando a história que tentava lhe contar. Era uma história que mal entendia ele mesmo, e se deu conta de que estaria contando-a mais em seu próprio benefício que do dela. — Já deduziu que a mãe do Joss era a amante de meu pai. Uma de suas amantes, em qualquer caso. Ela era uma escrava. — Já vejo. — ela acariciou seu cabelo. — Desde o começo, meu pai reconheceu Joss abertamente como seu filho. Isto foi depois da morte de minha própria mãe, e antes que seus bastardos fossem tantos que se fizesse nada prático reconhecê-los. Fomos criados como irmãos, durante o dia. Brincávamos juntos, comíamos 246


juntos, recebíamos nossas lições juntos. De noite, eu ficava na casa, e Joss se ia com sua mãe às suas acomodações. Ele franziu o cenho. — É tão estranho agora, recordar como o invejava. Ele tinha todos os mesmos privilégios dos que eu desfrutava, com nenhuma das expectativas. Para mim, Joss parecia estar em sua casa em todos os lados. Foi só muito mais tarde que percebi que era justamente o contrário — fazendo uma pausa, esfregou uma mão contra sua face recém barbeada. — Não devia ter sido uma surpresa, suponho, que ele crescesse ressentido de mim. Mas foi. Quando meu pai falou de me enviar de retorno à Inglaterra, à universidade, tudo o que quis foi trocar de lugar com o Joss e ficar em casa. Tudo o que ele desejava era uma oportunidade para ir embora. Brigávamos todo o tempo, e saímos aos tapas mais de uma vez. — Mas assim são as coisas entre irmãos — interveio ela. — Minha irmã e eu brigávamos constantemente nessa idade. — Suponho que tem razão. Ao final, foi outra briga o que riscou a linha entre nós. De caminho para casa da cidade uma noite, Joss se viu no lado equivocado de uns caipiras bêbados. Decidiram que era tempo de pôr a meu irmão em seu lugar, assim que o golpearam e marcaram. A mão ficou congelada em seu cabelo. — Marcaram? — Era o que faziam aos escravos naquela época, queimando a marca do dono em seus ombros. Uma prática repulsiva, não é que a escravidão em si mesmo não seja uma prática repulsiva por direito próprio. A marca caiu em desuso em Tortola por gerações, mas os atacantes de Joss decidiram ressuscitar a tradição — uma onda de náusea o percorreu ante a lembrança de seu irmão jazendo acamado, recuperando-se durante dias finalmente. O cheiro da carne chamuscada deixando lugar ao doente aroma da infecção, logo o doce fedor do láudano ultrapassando tudo. Ele não compartilharia estas partes da história. — Deus querido — resumiu ela, acariciando seu cabelo. — Eu devia partir para a Inglaterra antes que se recuperasse completamente. Sentei-me junto a seu leito de doente e lhe prometi que, quando tivesse meu próprio dinheiro voltaria por ele e por Bel, e todos teríamos os mesmos luxos, as mesmas oportunidades. Compartilharíamos tudo. — Isso o fez se sentir melhor? 247


Gray sorriu. — Disse-me que me fosse ao demônio. Ele estava drogado e dolorido, mas ainda assim me matou. Fiquei ferozmente bêbado, grosseiramente doente, e logo ferozmente bêbado outra vez. Não sabia como convencê-lo e recordar a mim mesmo, que apesar de tudo, éramos irmãos. Ela ofegou ligeiramente. Sua mão deixou o cabelo de Gray e foi cobrir sua ferida. — Oh, Gray. Você fez isto a si mesmo? Ele deixou escapar um suspiro. — Nunca subestime o poder do licor e a suscetibilidade em um rapaz adolescente. Era tão estúpido. Arruinei todo o assunto. Devia ser meu peito, já que não podia chegar muito bem a meu próprio ombro. Não esquentei suficientemente o ferro, e é óbvio, a mão me tremia tanto como uma folha de palmeira em um furacão — ele empurrou a mão dela a um lado e delineou o impreciso e irregular desenho com seus próprios dedos. — Deus, realmente doeu. Doeu todo o caminho até a Inglaterra. Fazia-me recordar, correto. Recordar que jamais devia ter ido. Sentia-me tão malditamente culpado de tê-lo deixado para trás, que nem sequer pude ir a Oxford quando chegamos. Fiquei nesse navio por mais de um ano. Quando finalmente cheguei à Inglaterra, as coisas só pioraram. Vi a vida que a família de meu pai devia ter tido. Sociedade, fortuna, classe, privilégio. Não um exílio próximo ao bíblico em uma terra de escravos e pestilência. Eu queria, necessitava, reconstruir a fortuna que meu pai dilapidou. Não fazia nem ideia de como reparar seus defeitos morais, muito menos corrigir os meus. Mas sabia como obter benefícios, e isso foi o que fiz. Queria dar a meu irmão e irmã, todas as comodidades e seguranças que lhes foram negadas. A mão dele fechou em um punho sobre seu coração. — E como o fiz? Quebrando cada promessa que alguma vez fiz. Negando a meu irmão, tirando sua herança, vendendo a casa familiar e arrastando Joss ao mar comigo. — Para converterem-se em corsários. — Sim, tivemos uma boa época pecaminosa — os lábios de Gray se curvaram em um frio sorriso. — Éramos como crianças novamente, só que armados com armas de homens: canhões, cinismo, raiva contra o mundo. França, e Inglaterra e América podiam voar-se entre si em pedaços. Nós estávamos ali para recolher a recompensa. No final da guerra, começamos a planejar 248


a Naval dos Irmãos Grayson. Abriríamos escritórios na Inglaterra, construiríamos mais navios, traríamos Bel para a Inglaterra para sua estreia. Supunha-se que seríamos sócios iguais. — Então, o que aconteceu? — O amor, uma coisa inconveniente, isso foi o que aconteceu. Joss se casou com Mara, deixou-a grávida. Eles não quiseram viajar, então fui primeiro à Inglaterra e comecei a construir o negócio, reunindo investidores. Voltei justo para presenciar o nascimento de Jacob, logo a morte de Mara. De repente, Joss não queria ter nada a ver com o negócio da navegação. Pediu-me sua parte, para comprar algumas terras em Tortola, de entre todos os lugares, e logo a jogou no lixo. Sophia franziu o cenho. — Jogou-a no lixo? — Foi ideia de Bel, uma cooperativa açucareira. Isto é o que acontece quando as únicas amigas de uma garota são missionárias. Os Quakers e os Metodistas estiveram comprando plantações e as dividindo entre pequenos fazendeiros, para deixá-los livres para obter sua própria subsistência. A parte cooperativa foi ideia de Joss, compartilhando os custos e as tarefas de refinar o açúcar, seriam capazes de obter lucros. — Bom, isso não soa como uma má ideia. — Não, não o é. Soa como uma ideia malditamente Santa. Mas na prática... é um risco tremendo. E a vida de fazendeiro, é dura, é pobre. É menos do que merecem — amaldiçoo Gray na noite. — Depois de todo esse tempo, de todo esse trabalho e sacrifício, terminar novamente onde tínhamos começado? Não podia permitir que Joss fizesse isso. Parti. — E levou o dinheiro com você. — Ele me agradecerá a seu tempo. A morte de Mara tornou meu irmão muito cauteloso, isso é tudo. Uma vez que estiver no mar o suficiente, voltará a si — se sentou erguido na cama. — E não me importa se minha irmã proclama que é feliz vestindo farrapos e brincando de ministério Quaker. Ela irá a Londres para fazer a estreia mais extravagante que a sociedade alguma vez viu, e vestirá sedas de cada maldita cor do arco íris. Não passei os últimos dez anos mentindo, enganando e roubando só para que meu irmão e irmã pudessem continuar no mesmo miserável exílio que nos deu nosso pai. Maldição, vendi minha alma por isso. — Shhh — ela se ergueu por trás dele, envolvendo os braços ao redor de seus 249


ombros. — Tudo está bem. — Não o está. Nada está bem. Nunca fiz uma coisa boa em minha vida, aparentemente. — Isso faz um par de nós então — seus lábios pressionaram o lugar sob sua orelha. — Mas acredito que juntos estamos bem, não acha? As pessoas como nós... não temos nenhum talento para seguir as regras. Só podemos seguir a nosso coração. Eu também machuquei as pessoas, mas é horrivelmente desvirtuoso que não possa me arrepender por isso? Foi o que me trouxe para você. Gray pegou uma de suas mãos e a beijou. — É tão jovem, que não pode saber o significado do verdadeiro arrependimento. Jamais é o que fez, amor, é o que deixou sem fazer. Ele se recostou sobre ela, suspirando ante o confortável calor de seus seios. — Levarei você à Itália, querida, prometo. Ao Egito e à Índia, também, se for o que quer. Mas terá que esperar até depois da temporada de Bel. Reservei um dote para ela, suficiente para compensar nossa procedência. Nós viemos da nobreza, e sua mãe foi a segunda esposa de meu pai, assim Bel não é ilegítima. Minha tia concordou em apresentá-la. E se ser a bem dotada sobrinha de uma duquesa não é suficiente para virar cabeças, está o fato de que ela é a segunda mulher mais linda do mundo. Deslizando-se de seu abraço, Gray se voltou para enfrentá-la. Seu elogio parecia ter ricocheteado em seu rosto perplexo. — Sua tia é uma duquesa? — perguntou-lhe ela, franzindo a testa. — Qual delas? — OH, não uma da realeza. Camille Marie Augusta GlastonD'Hiver, Sua Graça a Duquesa de Aldonbury. Está perdoada por jamais ter ouvido falar dela — se inclinou para frente para beijar seu pescoço. — Com ou sem talento, é tempo de que eu comece a seguir as regras. Irei a Londres e jogarei seu pequeno jogo, assistirei a seus bailes e festas, serei anfitrião de algumas. Vestirei-me bem dos pés a cabeça, de acordo com a última moda, combinando comigo ou não. — E quanto a mim? — Oh, serei fiel a você, completamente fora de moda — roçou o elegantemente inclinado nariz com um dedo. — Não se irrite,querida. Diremos a todo mundo que você é filha de um plantador das Índias Ocidentais. Suponho que não terá dificuldades para adotar o papel. Não lhe devolveu o sorriso. 250


— Mas Gray... e se eu disser que não quero ir a Londres, que não quero jogar seu pequeno jogo? — Então a convenceria do contrário — lhe dedicando seu sorriso mais endiabrado, inclinou-se para beijá-la. Ela pôs uma mão sobre seu peito, detendo-o. — E se eu disser que não posso? — É óbvio que pode — pressionou um firme beijo sobre seus lábios, sossegando seus protestos. — E o fará, por mim, devo te pedir isto. Logo depois que Bel se estabelecer e Joss assumir sua parte na sociedade, então o mundo será nosso para explorá-lo. Mas devo ver primeiro que isto se faça, ou... — ele acariciou sua face, — ou fiz tudo para nada. Ela o olhou fixo durante um longo momento. — Não para nada, Gray. Fez por eles. E não importa o que acontecer, estou segura de que eles sabem. — Desejaria ter essa certeza. — Pode pegar emprestada a minha — ela descansou uma mão na face de Gray, seus olhos úmidos. — Estou segura que eles sabem quanto os ama. Por um momento ele temeu que ela chorasse. Por um momento, esteve mortalmente atemorizado com que se ela o fazia, ele se uniria a ela. Logo, ela inclinou a cabeça, e um sorriso conhecedor se insinuou em seu comovedor olhar. Com uma feliz inalação, sentou-se escarranchada nas pernas de Gray e o empurrou pelos ombros. — Agora — a palavra era um murmúrio prometedor enquanto o empurrava para a cama, — me deixe te mostrar quanto te amo.

Capítulo 25

O amanhecer foi cruel. Sophia olhou a desagradável luz do dia cruzando seu amado, afastando-o dela com dedos cor de rosa, um centímetro cada vez. Sentada na cadeira do capitão, as pernas dobradas sob sua camisa, ela contemplou Gray enquanto dormia. Ele jazia prostrado na cama, os lençóis retorcidos sobre seu corpo, um braço cobrindo seus olhos. Era a mesma posição com que permaneceu toda a noite, depois de dormir após ter feito amor. Quando sua semente a encheu, rogou silenciosamente que se arraigasse. Se ela 251


concebia, não restaria nenhuma opção. Não podia deixá-lo se carregasse seu filho e ela sabia que ele não a deixaria. Veria-se obrigado a reconsiderar seus planos em Londres, mas a alegria de um filho poderia mitigar sua decepção. A vida escreveria um final diferente do que imaginaram, mas poderia ter sido um final feliz. Se ela tivesse concebido... Ela o manteve em seu interior até que sentiu seus suaves roncos elevando seu peito debaixo do dela. Então, deixando-o para seu bem merecido descanso, levantouse em silêncio para realizar suas abluções. E ali foi quando começou a sangrar. Depois de gastar uma hora em soluços silenciosos e torturados, Sophia se aconchegou na cadeira e tentou pensar. O que ia fazer? Como podia começar a dizer a verdade a Gray? Talvez pudesse começar com esse conto divertido do funcionário do banco, com a cara vermelha, como ela tinha exercido seu encanto com ele para que lhe soltasse quinhentas libras de seu fideicomisso. Seguia suspeitando que riria muito com isso. Certamente, teria que lhe contar a fonte das restantes cem libras. Que as ganhou no jogo, e bastante dessas cem libras na própria mesa da duquesa de Aldonbury. Devia dizer a Gray que esteve na escola com suas primas? Que ficou como convidada na casa de sua família mais de uma vez? A estas alturas, Sua Graça já teria ouvido da sórdida, embora falsa história de sua fuga. Ela, como qualquer outra dama da alta sociedade, negaria a Sophia qualquer relação com ela como uma questão de necessidade social. Assim Sophia não podia pretender, nem adotar o papel da filha de um plantador das Índias Ocidentais. Inclusive se ela pudesse suportar a ideia de outro engano — e ela não estava segura de que pudesse, nem sequer pelo Gray, — se alguma vez retornasse a Londres, seria uma pária. Sua ruína se contagiaria a qualquer pessoa relacionada com ela. Sabia que devia dizer a verdade a Gray. Mas uma vez que o fizesse, todas as opções dependeriam dele. Poderia insistir em casar-se com ela de todos os modos, destruindo assim as perspectivas de sua irmã e a tênue respeitabilidade de sua família — tudo pelo que trabalhou tão duro, sacrificado tanto para obtê-lo. Ou... poderia deixá-la ir. Sophia afundou o rosto entre as mãos. Como ia dizer a ele? Como podia lhe dizer o inconstante, desonesta, intrigante que tinha sido, e ainda assim fazer uma chamada a sua honra? Como podia obrigá-lo a tomar esta decisão, entre seu amor por sua família e as 252


promessas que fez a ela? Como ia suportar se ele os escolhesse a eles? Que ironia. Se ao menos tivesse tido a coragem suficiente para enfrentar a seus pais, para pedir ao Toby que a liberasse de seu compromisso em lugar de fugir. Teria se produzido um escândalo, sem dúvida, mas ainda teria recebido uns convites de vez em quando de velhos amigos. E talvez na próxima temporada, teria assistido a um baile, um louco amor de uma estreia, e seu olhar se encontraria com o de um cavalheiro alto, de ombros largos, exibindo um sorriso malicioso e uma intrigante cicatriz no queixo. Talvez lhe teria pedido uma dança. A luz do sol fazia brilhar agora essa cicatriz, assim como a maior do peito. Como invejava essas cicatrizes, as marcas indeléveis que carregava por amor. Uma por seu irmão, outra por sua irmã. De algum jeito primitivo, Sophia queria marcá-lo também. Ele nunca poderia vê-lo, nunca saberia, mas em seu coração, ele sempre seria dela. Revolvendo seu baú em silêncio, encontrou um tinteiro e um pincel pequeno. Quando se instalou a seu lado na cama, ele se agitou... mas não despertou. Em troca, rodou sobre a lateral do corpo, longe dela. Perfeito. Felizmente, Sophia tinha um toque hábil e uma mão firme. E Gray se esgotou e dormiu como uma pedra. Ela trabalhou com rapidez, sigilosamente para criar sua marca. Quando ela se afastou para trás para admirar sua obra, infelizmente não permanente, uns passos retumbaram acima e um grito ressoou: — Terra à vista! — Ali está o Afrodite. — disse Gray, apertando-a junto a ele no alegre bote enquanto um membro da tripulação remava levando-os para o Road Town. É óbvio, Gray insistiu em que ela e seus baús fossem os primeiros artigos levados a terra. Ele não a teria deixado para trás. Ele indicou com a cabeça para seu navio, amarrado no outro lado do porto. — Provavelmente chegou faz uns dias, assim estarão esperando nossa chegada. Não me surpreenderia ver Bel esperando no cais. — Espero que ela não esteja ali — lhe saíram as palavras. Ela aventurou um olhar para ele, encontrando o cenho franzido que esperava. — Por quê? — perguntou. — Pensei que estava esperando com ansiedade se encontrar com ela. — Assim é — mentiu Sophia. — É só que não me sinto preparada, vestida como estou. Eu gostaria de dar uma melhor primeira impressão. Em realidade, Gray se via resplandecente esta manhã, vestido com uma fresca 253


camisa de linho, calças cinza pérola, e um casaco azul marinho que mal continha seus enormes ombros. Devia ter guardado o conjunto só para esta ocasião, sua volta triunfal. Sophia se sentia desgraciosa e comum a seu lado, usando seu atribulado vestido com desenho de pontos. Ela também tinha uma vestimenta realmente esplêndida que poderia ter usado. Mas o vestido permanecia envolto em tecido no fundo de seu baú. Se ela realmente ia fazer isto: dizer ao Gray toda a verdade e lhe dar a oportunidade de deixá-la ir, bom, parecer assim tão linda não parecia justo. — Quer que a apresente como Jane, então? — olhou-a desconcertado. — Nem sequer posso pensar em você como Jane. É o nome equivocado para você por completo. As mãos de Sophia se fecharam em punhos. Ele estava lhe dando a perfeita oportunidade. Ela também poderia tomá-la agora. — Isso é porque não é meu nome. A mandíbula de Gray ficou tensa, e seu polegar deixou de acariciar sua mão. Em um instante, um muro de gelo se formou entre eles. Sophia se obrigou a falar. — É meu segundo nome. Verá, eu... eu... — sua coragem falhou. — Minha família sempre utiliza meu segundo nome. Sua expressão dura se fundiu em um sorriso. — Outra coisa que temos em comum. Ele deslizou um braço ao redor de sua cintura, atraindo-a mais perto. Amaldiçoando sua covardia, Sophia se inclinou em seu contrário. Tão somente pensar nisso... em lhe contar tudo, observando-o lutar para escolher entre ela e seus próprios sonhos... Ela sentiu que as fitas de sua touca se apertavam ao redor de sua garganta, cortando o ar. O desespero a puxava, incitando-a a fugir. Mas isto não era Londres. Tortola era tão pequena, tão pouco concorrida, tão pouco familiar para ela e conhecida para o Gray. Do bote podia ver o assentamento de Road Town elevando-se do porto como um anfiteatro, todos os edifícios maiores e concorridos perto da água. As pessoas formavam redemoinhos pelo cais, quase todos eles com tons marrons ou ébano. Como poderia uma mulher, uma intrusa de pele branca como ela, ter a esperança de desaparecer? Onde poderia ir, se ele a deixasse livre? Os Walthams. Ela tinha esta única conexão. Talvez ainda estivessem aqui. Ela poderia afirmar sua amizade com Lucy. Melhor ainda, poderia afirmar que era Lucy. Ainda tinha a carta original, depois de tudo. Seu crédulo tom de barítono acariciou sua orelha. 254


— Não fique nervosa. É linda. Estou tão orgulhoso de você, acredito que meu casaco vai explodir por isso. — É bonito aqui. — disse ela, com vontade de trocar de assunto. — Suponho que sim, para um recém-chegado. Embora para mim, é só meu lar. Sophia não acreditava que jamais pudesse apreciar uma vista como esta com indiferença, inclusive depois de décadas. A ilha exuberante e verde com contornos de areia branca, frente a uma cortina de fundo de céu azul celeste... levaria-lhe dezenas de tentativas recriar fielmente estas brilhantes cores. — Sim, aí está — disse Gray, enquanto se aproximavam do cais. — Acredito que ela cresceu cinco centímetros desde que a vi pela última vez — soltando a cintura de Sophia, levou as mãos ao redor de sua boca e gritou: — Bel! Uma moça estava no cais. Não usava chapéu, mas encobriu os olhos com ambas as mãos. Ao saudar Gray, deixou cair uma à garganta e levantou a outra em um gesto. Da distância, Sophia não podia julgar se a senhorita Grayson puxou as orelhas de seu pai, mas sua cor era muito diferente ao de qualquer de seus irmãos. Tinha a pele olivácea e o cabelo negro azeviche, tão negro que refletia um brilho azulado do céu. Céus, pensou Sophia enquanto atracavam. A senhorita Grayson era uma verdadeira beleza. A sua era uma beleza exótica, medieval, operativa, uma beleza que irradiava de dentro. O tipo de beleza que inspirava aos homens a compor odes e guerras, e inspirava às damas a fazer comentários pouco amáveis em salas privadas. Não era de surpreender que Gray fizesse qualquer coisa por ela. Como poderia suportar Sophia uma comparação com esta criatura? Maldição. Teria que ter usado a seda depois de tudo. A jovem correu a encontrá-los no bote no extremo do cais. Sua saudação sem fôlego se adiantou a qualquer apresentação. — Oh, graças a Deus — ela engoliu saliva para tomar ar. — Graças a Deus que chegou. Vêm por você, sabe. Já levaram ao Joss — sua mão revoou como a asa de um pássaro. — Dolly, falam da forca. Querido Senhor, ela acabava de dizer... — Forca? — Gray ajudou a Sophia a sair do bote, a seguir o atou no cais. Pegou a sua irmã pelos ombros. — Bel, se acalme. Diga-me o que aconteceu. A senhorita Grayson tragou saliva. — Quando Joss chegou com o Afrodite, esse homem horrível... o outro capitão? — Mallory — completou Gray com impaciência. — Sim, ele. Foi à corte do Vice Almirantado e o acusou de atacá-lo, tomando 255


seu navio pela força. Puseram Joss no cárcere, e agora vem atrás de você — ela olhou por cima do ombro. Um trio de homens desconcertantemente avançava a grandes passos para eles. — Estão acusando a vocês dois de pirataria. Ante a palavra, Sophia sentiu náuseas. O cais se sacudiu sob ela. Estava em terra sólida agora, ou em madeira sólida, em todo caso, por que ainda sentia como se estivesse no mar? Gray não parecia perturbado no mais mínimo. — Estava esperando isto. Mallory não é mais que um mentiroso rato de esgoto, Bel. Darei um jeito nisso em um minuto, já o verá — sorriu a Sophia. — E então aqui há alguém que se alegrará de conhecer. Sophia e a senhorita Grayson mal tiveram tempo de trocar olhares confusos antes que os homens estivessem sobre eles. — Jenkins. — Gray recebeu ao homem à frente com um movimento de cabeça. Sophia reconheceu sua postura de natural autoridade. — Sempre é um prazer. — Bem-vindo de novo, Gray. Alegro-me de vê-lo, também — o olhar do homem passou a seus companheiros, logo depois de volta a Gray. — O que posso fazer por você, amigo? Minha irmã me diz que houve um malentendido sobre o Kestrel. — Parece que sim — disse Jenkins. — Gray, temo que terá que vir conosco imediatamente. Temos ordens de prendê-lo até que o juiz tenha a possibilidade de te interrogar e decidir sobre as acusações. — Não haverá nenhuma acusação — disse Gray, rindo entre dentes. — Mas será um prazer ir, logo que tenha visto meus passageiros e a minha tripulação. O homem pareceu inquieto. — Terá que ser agora, Gray — fez um gesto por volta dos dois homens a suas costas, e eles deram um passo adiante, com um par de grilhões entre eles. Gray deu um passo atrás. — Certamente não há necessidade de correntes — olhou de um soldado a outro. — Sou um patriota. Trouxe mais de sessenta pilhagens a este porto e se entregaram todos eles à Coroa. Burton sabe. — Burton se foi faz oito meses. O novo juiz se chama Fitzhugh, bom, ele quer que use as correntes publicamente. Gosta da exibição — Jenkins arrastou seus pés, — deixaremos as correntes soltas. Só venha de boa vontade, Gray. Não façamos uma feia exibição. Gray praguejou com exasperação, mas não resistiu. Retrocedendo alguns metros, estendeu as mãos. Jenkinsse dirigiu aos dois soldados mais jovens enquanto 256


ajustavam os braceletes de metal em torno de seus pulsos. Sophia tocou o ombro da senhorita Grayson. — Ele vai estar bem — sussurrou, tanto para si mesma quanto para seu acompanhante. — Não fez nada errado. — Já sei — a jovem sorveu pelo nariz. — Dolly sempre encontra uma maneira de sair destas coisas. — Quem é Dolly? — Bom, meu irmão. Sophia piscou. Havia um terceiro irmão Grayson com as pontas das orelhas quadradas? — Provavelmente você fala de Gray — continuou a jovem, lhe dirigindo um sorriso cauteloso. — Como a maioria das pessoas. Dolly era Gray? Meu deus. Não era estranho que sua irmã fosse a única mulher na terra a que permitia dirigir-se a ele por seu nome de batismo. Os soldados começaram a encadear as pernas agora, trabalhando com lerdeza para adaptar os braceletes ao redor dos tornozelos de Gray. — Pensei que se chamava Benedict — murmurou Sophia. — OH, sim, mas esse era o nome de nosso pai. Ele sempre usou seu segundo nome, Adolphus. Dolly — a senhorita Grayson se voltou para ela. — Você conhece muito bem a meu irmão, então. Perdoe-me a ausência da etiqueta, nem sequer fomos apresentadas. — se inclinou em uma pequena reverência. — Sou Isabel Grayson. Era uma passageira do Kestrel? — Não, sai da Inglaterra no Afrodite. Joss não me mencionou? A senhorita Grayson negou com a cabeça. — Não tivemos muito tempo para conversar. Mas se Dolly disser que estarei encantada de conhecê-la, tenho uma justa ideia... — de repente, ela agarrou a mão de Sophia. — Você deve ser uma das amigas do Wilson, da Liga das Missões das Índias Ocidentais. Estou tão contente de que tenha vindo. Temos muitos planos para a cooperativa açucareira. E podemos levá-la ao juiz. Inclusive se ele não acreditar em Dolly, seguro que não pode descartar o testemunho de uma missionária. Uma missionária? A mente de Sophia girou. De todos os absurdos supostos... Oh, mas se fosse verdade. Então ela poderia ser um pouco de ajuda para Gray. Mas ela, uma mulher caída, mentirosa e ladra, entrar em uma sala para falar em seu nome? Ela não podia fazer nada por sua causa, exceto dano. Oh Deus. Ele estava melhor sem ela. 257


Finalmente, os soldados terminaram sua tarefa. À vista de seu irmão com correntes, a senhorita Grayson pôs-se a chorar. — Muito bem, Jenkins — murmurou Gray, sua voz em plena ebulição. — Estou usando seus grilhões. Irei de boa vontade. Certamente pode me dar um minuto — ante a ordem de seus olhos, os homens retrocederam uns passos. Gray se voltou para sua irmã. — Bel — disse em voz baixa, — há um lenço no bolso de meu peito. Pegue-o — ela obedeceu, e secou os olhos. Ele sorriu. — Agora, é essa a forma de saudar seu irmão pródigo? Eu planejei voltar para casa como um comerciante respeitável. — olhou a Sophia — Não só isso, mas também um homem de família. Em troca, apresento-me ante você como um pirata com correntes. Ele se pôs a rir, mas Sophia quis chorar. Uma vez mais, seus melhores esforços em benefício de seus irmãos se curvou e foi curvado pelo destino. Ela podia ver em sua expressão a forma em que o feria. A ideia de poluir as perspectivas da senhorita Grayson, ser a causa dessa dor... — De todos os modos — brincou sua irmã, — eu esperava um beijo. A senhorita Grayson lhe dirigiu um sorriso trêmulo e se aproximou nas pontas dos pés para lhe plantar um beijo na face. — Isso está melhor. Agora não se preocupe. Esclarecerei isto diretamente — seus olhos iam e vinham entre a Sophia e sua irmã. — Enquanto isso, vocês duas podem chegar a se conhecer. Ele sacudiu suas correntes, acrescentando um bamboleio autocrítico de seus olhos. Logo caminhou uns passos para trás, para os homens. A tontura de Sophia aumentou, e o cais pareceu rodar sob ela. Sentia como se ela fosse adoecer, ou a cair. E com Gray acorrentado como um criminoso, quem a apanharia? Ela fechou os olhos. Se fugisse agora... ele não poderia pegá-la. Ela devia ir. Se fosse uma melhor pessoa, uma boa pessoa, ela poderia ter reunido a coragem para dizer a verdade e aceitar seu destino. Poderia ter sido inclusive capaz de ajuda-lo. Mas se fosse uma boa pessoa, não estaria aqui em primeiro lugar. Não sabia como mudar seu modo de ser, mais do que um dourado sabia como trocar suas escamas irisadas. Ela sabia como mentir. Sabia como fugir. Só havia uma maneira de como podia libertar Gray. Ela correu atrás dele enquanto ele avançava lentamente pelo cais, brincando com 258


seus captores. — Gray — sussurrou, segurando seu pulso acorrentado. — Não se inquiete, doce — murmurou, muito baixo para que só ela pudesse ouvir. — Conheço estes homens. Enchi seus bolsos durante anos. Não vão me enforcar. Vou ter tudo solucionado muito em breve. — Estou segura de que o fará — ela engoliu uma onda de náuseas. — Mas... não estarei aqui quando o fizer — ele merecia isso, saber através dela. Como Toby merecia o mesmo. Gray estava certo. Ela não se arrependia do que fez, mas sim pelo que deixou de fazer. Ele ficou tenso. — O que quer dizer? — Devo ir. Ele a olhou, seus olhos aumentados de incredulidade. — Tive meu período — sussurrou. — Não haverá nenhum filho. — Sabe que essa não é a razão... — Não, não é a razão. Não é por isso que vou. Sua expressão se endureceu pela ira. — Que diabos está dizendo? Seja forte, ela disse a si mesma. Diga-o claramente, não deixe falsas esperanças. — Só preciso ir. Gray, por favor, não faça isto mais difícil do que é. Você não entende. Sua mão lhe rodeou o pulso como um bracelete. — Tem toda a razão, não o entendo. E que me crucifiquem se for fazê-lo mais fácil. Estava mentindo para mim quando aceitou se casar comigo? Quando me disse que... — baixou a voz, — quando me disse que me amava? — Não importa se o amo. Ele praguejou com violência. — Importa-me. Disfarçadamente, ela lutou contra seu aperto. Manteve a voz baixa. — Gray, não podemos ficar juntos. Simplesmente não podemos — por fim arrancou o braço de sua mão e se afastou, deixando cair seu olhar a seus pés. Ele fez um movimento para ela, mas as correntes o contiveram. — Olhe para mim, maldição. — grunhiu. Ela o fez. — Gray, eu... — Se me deixar, seguirei você. E a encontrarei. Tenho o navio mais rápido do mar, e uma determinação sem limites. Não perco o que é meu — seus olhos arderam 259


dentro dos dela. — A encontrarei. Ela negou com a cabeça. — Por favor — sussurrou. — Não o tente. Não vai me encontrar. Nem sequer sabe meu nome. Ele estremeceu. Bem. Ela dera um golpe. Os soldados o pegaram pelos braços. Gray tentou sacudir-se. — Não terminei aqui, maldição. — Sinto muito, Gray — disse Jenkins. — É hora de o levarmos. Sua irmã pode te visitar no cárcere — dirigiu um olhar cauteloso para a Sophia. — Não sabia de sua noiva. — Não o visitarei — disse Sophia. — E não sou sua noiva — ele fez uma careta desta vez, como se tivesse atirado água salgada em uma ferida aberta. As lágrimas picaram seus olhos. Ela sussurrou: — Vá com eles. Não deixe que o arrastem pelas correntes. Não quer que Bel o veja dessa maneira. — Escute a dama, Gray. Os homens o puxaram um passo para trás e os pés de Gray se moveram sob ele. Ele vacilou, sem deixar de olhar com uma fúria fria em seus olhos. — Não terminamos. Encontrarei você — logo deu meia volta e deixou que o levassem. OH, Gray. Terminamos antes de começar. A senhorita Grayson chegou a seu lado, chorando com o lenço de seu irmão. Juntas o viram desaparecer no cais. A multidão se separou a seu redor enquanto os soldados o faziam partir em uma rua estreita e afastada. Bem, ao que parece... ela nunca o abraçaria de novo. A dor disso ameaçou dividi-la em dois. — Quer vir comigo, senhorita...? — perguntou a senhorita Grayson. — Eu sinto muito, não sei seu nome. Sophia se voltou para a jovem. A ironia retorceu seu coração. Hathaway, Turner, Waltham... Ela poderia assumir qualquer identidade que desejasse, reclamar qualquer nome como dela. Qualquer nome, quer dizer, exceto o que ela realmente queria. A senhora Sophia Grayson.

Capítulo 26

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— Joss. Que demônios está acontecendo? — Gray arrastou os pés na úmida cela. O guarda o liberou dos grilhões e se foi, fechando a porta sonoramente, trancando a formidável fechadura. Seu irmão ficou de pé para saudá-lo. — Evidentemente, somos piratas. — Segundo Mallory, suponho. — Sim. — Joss voltou a afundar-se de cócoras e se recostou contra a parede. — O porco foi até os oficiais no instante em que tocamos o porto. Devia tê-lo mantido no calabouço até que você chegasse. — E por que não o fez? Joss deu de ombros. — Ele continuava gritando e amaldiçoando. Era malditamente aborrecido — golpeou os punhos contra seu rosto. — Além disso, não pensei que lhe dariam alguma atenção. Sua reputação vale ouro aqui, quase literalmente. — Valia. Já não mais, suponho. — Uma vez que o juiz ouça seu lado da história, nos deixará livres. — Malditamente certo que o fará — e mais vale que o faça logo. Ela pensava abandoná-lo, não? Não havia nenhum lugar ao qual pudesse ir, nesta ilha ou fora dela, ao qual ele não pudesse segui-la. Com uma demora de umas horas, ou inclusive de alguns dias, localizaria-a. E quando o fizesse, desta vez exigiria algumas respostas. Gray enganchou um braço entre as barras da porta. — O que lhes disse Mallory? Sabe? — Que atacamos o Kestrel sem provocação, e destruímos sua carga. — Joss levantou uma sobrancelha. — Que atiramos em seu mastro com nosso canhão. — O descarado — Gray fechou um punho ao redor da barra. — Por que não o deixamos afundar com seu miserável navio? — Ah, suponho que estava desfrutando muitíssimo brincando de herói. É bom para impressionar as garotas, já sabe. Como está a adorável senhorita Turner, aproveitando a oportunidade? O peito de Gray se desinflou. — Não quero falar disso. — Bom Deus, homem, o que fez? — Pedi-lhe que se casasse comigo. Joss deixou escapar um baixo assobio. — E? 261


— E... — Gray apertou os barrotes com ambas as mãos e puxou para trás. — Não quero falar disso. Tampouco queria pensar nisso, mas mal podia deixar de fazê-lo. O que a assustou? Além de toda sua valente conversa, Gray estava seguro de que viu temor em seus olhos. Foi ver que o acorrentavam o que a incitou a fugir? Talvez ela tivesse suas próprias razões para evitar ser presa. — Seu nome nem sequer é Jane Turner. — disse amargamente. — Nem sequer é uma governanta. É uma espécie de pequena intrigante ladra com seiscentas libras em seu espartilho. — Pensei que não queria falar disso. Gray disparou um olhar a seu irmão. Foi então que notou as abatidas sombras no rosto de Joss, e o hematoma púrpura sob seu olho esquerdo. — Não, falemos de outra coisa. Há quanto tempo está aqui? — Dois dias. — Os guardas lhe fizeram isso? — Gray assinalou seu olho. Joss deu de ombros. Gray deixou escapar uma fileira de maldições. — Quem foi? Pagará por isso com sua vida. Juro-lhe isso. — Acalme-se, Gray. E pelo amor de Deus, não vá se golpear no olho você mesmo, só por estar à mão. Gray o olhou. — Não é divertido, Joss. — OH, sim. Sim, é. Dê-me mérito pela brincadeira quando faço uma. Não é nada, Gray. Tive piores. Você me provocou piores. E não é mais do que um homem pode esperar, suponho, quando o acusa de pirataria. — Acusações de pirataria — Gray fez estalar seu pescoço. — Que brincadeira — esta era a viagem no qual finalmente se tornaria respeitável, e o que lhe trouxe? Que o deixassem plantado e o cárcere. Nenhuma ação ficava sem castigo. Umas poucas horas mais tarde, o guarda se aproximou lentamente pelo corredor. — Têm uma visita, cavalheiros. Uma encantadora senhorita. Uma onda irracional de esperança despertou no peito de Gray. Ela retornou, sussurrou-lhe uma louca voz, ela não o abandonou. Ligeiras pegadas soaram no piso de pedra, e uma figura surgiu da escuridão. É óbvio. Era Bel. — Joss. Dolly. Ela se pendurou nos barrotes e os dois se uniram do outro lado. 262


— Como está Jacob? — a voz do Joss era contida. — Como está meu filho? — Ele está bem, Joss. Um pouco mais alto que quando o viu pela última vez, e o dobro de peralta. Um autêntico homem Grayson, de ponta a ponta. Esteve perguntando por seu papai — ela sorveu suas lágrimas. — Falei com meu amigo, o senhor Wilson — continuou Bel. — Você o recordará, Joss. É o que costumava ser advogado em Londres, antes de dedicar sua vida à caridade — seu olhar se dirigiu ao guarda e baixou a voz. — Ele fez algumas averiguações. Ele diz... ele diz que sua situação não é boa. — O que significa isso? — perguntou-lhe Joss. — Certamente, uma vez que o juiz escute a história pelo Gray, não apresentará acusações. — Esse é justo o problema — disse Bel. — É a palavra do Mallory contra a do Gray. — E a minha — disse Joss. — E a de cada marinheiro a bordo do Afrodite e do Kestrel. — Não de cada marinheiro. Há alguém... um oficial que acaba de chegar hoje, que está do lado de Mallory. — Brackett — Gray soltou um grunhido. — O bastardo. — E os outros marinheiros... o senhor Wilson diz que seu testemunho pode descartar-se facilmente, já que eles mesmos poderiam estar enfrentando acusações. — Que tipo de acusações poderiam enfrentar? — perguntou Joss. — Pirataria, para a tripulação do Afrodite. Motim, para os homens do Kestrel. Gray amaldiçoou baixinho. Não, sua situação não era boa. — Então subornaremos ao juiz. Todo homem tem seu preço. — Não podemos — Bel sacudiu a cabeça. — Bel, este não é momento para escrúpulos. É enforcamento o que estamos discutindo. — Refiro-me a que não funcionará — continuou ela. — O senhor Wilson sabe algo a respeito deste senhor Fitzhugh. O senhor Wilson diz que é ambicioso, que está ansioso de fazer um nome por si mesmo e obter um posto melhor. É por isso que ele apresentará acusações apoiado nesta exígua evidência. Quer converter Gray em um exemplo. Joss se voltou para Gray. — Por que fará um exemplo de você? Gray travou suas mandíbulas. Sabia exatamente por que. — Nem todos os corsários deixaram de abordar navios ao final da guerra. Alguns deles continuaram saqueando, mesmo sem as permissões de comércio. Agora são piratas, sem lealdade à Coroa. 263


É um problema para os comerciantes honestos. Como eu. — adicionou ironicamente. O entendimento iluminou os olhos de seu irmão. — E a melhor forma de desanimar que os corsários se convertam em piratas... — É capturar ao corsário mais bem-sucedido de todos. E enforcá-lo — Gray se virou e se afastou da porta. — Este Fitzhugh planeja construir sua carreira com meu pescoço. Maldito seja. — Dolly, por favor, não amaldiçoe — a voz de Bel se quebrou ao falar. — Necessitamos a Deus de nosso lado agora. — Parece que ninguém mais o está — adicionou Joss. — Amanhã haverá uma grande quantidade de público — disse Bel. — O juiz ouvirá testemunhas e decidirá se tem suficiente evidência para convocar uma corte de pirataria. — Uma corte de pirataria? — repetiu Joss. — Sim — disse Gray, — para poder nos imputar precisa convocar a representantes do governador de Antigua. Não é um empreendimento fácil. Não se dará ao trabalho se não tiver certeza de que nos enforcarão. — Já vejo — disse Joss. — Parece que muito dependerá de amanhã. — Tudo depende de amanhã — se ele não ficasse livre amanhã, ela estaria muito longe. Realmente poderia perdê-la. Maldição. Bel pegou sua mão através dos barrotes. Gray aceitou o consolo de seus pequenos e gelados dedos, envolvendo os seus. — O senhor Wilson tentará interceder por vocês — disse ela. — O resto de nós, rezará. Gray espremeu seus dedos. — Você rezará — se Bel rezava, Deus realmente poderia escutar. — E quanto a senhorita Turner? — a pergunta saiu de seus lábios antes que pudesse detê-la. — Quem? — um estranho olhar cruzou o rosto de Bel. — Não conheço nenhuma senhorita Turner. — A dama do porto, Bel. O que aconteceu com ela? Bel franziu o cenho. — Não sei — sussurrou, com o olhar baixo. — Disse que alguém a encontraria, e depois, o senhor Wilson me encontrou, e... — E se foi — Gray apoiou a testa nos barrotes. Cristo. De verdade se foi. De verdade o abandonou. Até esse momento, ele não acreditou que ela o faria. Ele deve ter feito algo errado. Talvez, ele deve ter exigido seus segredos. Talvez, ele devesse ter guardado alguns dos seus. Ou talvez... Deus, talvez, ela o 264


considerou um idiota todo o tempo. — Sinto muito — disse Bel. — Suponho que simplesmente escapou. — Não posso acreditar que menti para ele — disse a senhorita Grayson, abrindo as verdes janelas da plantação para permitir que entrasse a brisa marinha. — Jamais menti a meu irmão em minha vida. Morta de vergonha, Sophia se sentou na borda da cama. Como se todas suas próprias mentiras para ele não fossem suficientemente más, agora ela veio e corrompeu à irmã de Gray. — Lamento ter pedido — disse Sophia. — Mas foi para o seu próprio bem. Se meu nome chegar hoje aos ouvidos do juiz, poderia não acreditar na minha história amanhã. — Mas como poderia o juiz não acreditar na verdade? Como, realmente? As mentiras de Sophia estavam ficando tão numerosas, que nem sequer ela podia as sustentar. Mas quando a senhorita Grayson assumiu que ela era uma missionária, tinha-lhe posto na mão a forma perfeita de ajudar Gray, assim como também a fuga perfeita. Um dia mais de engano como este, seu mais desafiante papel, e teria terminado. A senhorita Grayson se sentou a seu lado. — Suponho que foi em benefício de um bem maior. Mas o olhar no rosto de Gray quando disse a ele que você se foi... Ele estava... — Furioso, imagino. — Não — disse surpreendida a senhorita Grayson. — Em nada zangado, só... desiludido, acredito. Seu rosto ficou sombrio. Com toda sua resistência inicial à cooperativa de açúcar, já devia ter-se acostumado à ideia — se aproximou de Sophia. — Deve ser sua boa influência, senhorita Turner. Sophia acreditou melhor trocar de assunto. — Esta não é sua antecâmara, não? Não queria incomodá-la, você foi tão amável. Gray não exagerou quando lhe descreveu a natureza amável de sua irmã. Realmente, Bel parecia a Sophia uma espécie de Santa. Enquanto Bel visitava seus irmãos no cárcere, havia oferecido a Sophia uma série de pequenos milagres: um banho em uma água limpa, fragrante e quente; um festim de frutas tropicais e pão levedado e carne sem salgar; um vestido recém lavado; uma suave e limpa cama nesta antecâmara brilhante e arejada. Se tão somente Gray estivesse com ela, Sophia teria se sentido recebida no Céu. — Não, esta não é minha antecâmara — lhe respondeu Bel. — Uma vez foi a de minha mãe, mas ninguém a usou em anos. 265


— Sua mãe se foi faz tanto, então? — pelo que Gray havia dito, ela pensou que a mãe de Bel havia falecido mais recentemente. — Ela morreu recentemente,pouco mais de um ano. Mas tivemos que mudá-la para longe deste quarto vários anos antes, na primeira vez que adoeceu — Bel abriu uma porta entre as janelas, e fez gestos a Sophia para que se aproximasse. — Deve jogar um olhar. Sophia saiu pela porta e se encontrou em um pórtico de telhas enquadrado entre colunas gregas. Além do corrimão, um vale verde e exuberante, estendia-se a partir da casa, as colinas cobertas de campos. À distância, duas escarpadas montanhas, formavam uma cunha no oceano azul. — Que lindo! — suspirou. — Posso ver todo o caminho até o porto. — Sim. É uma vista encantadora. Transportar mercadorias domésticas ao topo de uma montanha não é especialmente cômodo, mas a gente não pode queixar-se ante semelhante grandeza. — Por que mudaram a sua mãe a outra antecâmara? — perguntou Sophia. — Eu acredito que esta vista curaria todo tipo de enfermidades. — Talvez, para alguns. Entretanto, no caso de minha mãe, o risco era muito grande — dirigiu a Sophia um sorriso melancólico. — Ela sofreu um ataque de febre cerebral, já vê, quando eu era uma menina. Ela sobreviveu, seu corpo, mas sua mente jamais voltou a ser a mesma. Pelo resto de sua vida, ela era propensa a sofrer... imprevisibilidade. Por sua segurança, a mudamos a um quarto que dava à montanha, na planta baixa. Sophia se inclinou e espiou por cima do corrimão, à musgosa rocha no fundo. Era um longo trecho para baixo. Então, Bel cresceu preocupada de que sua mãe se jogasse desse pórtico? Se sua própria mãe estivesse nesse mesmo lugar, ela só teria pensado em pendurar cortinas. Sophia sentiu uma repentina onda de gratidão por sua aborrecida e protegida infância. — As terras que vê abaixo, costumavam ser a plantação de meu pai. Agora a família só possui a casa. — Vocês se zangaram, quando Gray a vendeu? Bel se virou para ela. — Mas como saberia você...? — seus olhos se abriram com entendimento. — Ah, posso adivinhá-lo. Meus irmãos ainda brigam? — ela sacudiu a cabeça. — Ele fez o correto vendendo a plantação. Joss faria o mesmo. Como o teria feito eu, se esses assuntos alguma vez fossem deixados as mãos das damas. 266


Sob elas, o entardecer pintava sombras púrpuras no vale. Sophia envolveu o xale emprestado sobre seus ombros. — Mas não compreendo. Se Gray e Joss estavam de acordo, por que continuam brigando agora sobre a cooperativa açucareira de Joss? — Por que os homens brigam a respeito de tudo... dando de ombros, Bel continuou. — Desejaria jamais ter sugerido utilizar o dinheiro que obtinham como corsários. Meus irmãos riscaram uma linha sobre esse tema, e agora nenhum voltará atrás. Não é mais que uma fonte de amargor. Agora a cooperativa está em vias de concretizar-se, graças às mentes missionárias cristãs como a sua e a do senhor Wilson. Sophia mordeu o lábio. E quando se revelasse que ela não era uma mente missionária cristã e a cooperativa não iria formar-se, seguiriam Gray e Joss brigando? Mas ela não podia preocupar-se por isso agora. Bel perguntou: — Está segura que não deveríamos dizer ao senhor Wilson que chegou? — Não — se sobressaltou Sophia. — Não se ele for avisar a seus irmãos. Devo parecer absolutamente imparcial, já vê — isto era o que faltava, que esta pobre senhorita Grayson contradissesse sua história, ou pior, que ficasse envolvida em uma mentira. Bel olhou fixamente as mãos, frouxamente unidas no corrimão. — Ele quer casar-se comigo. O senhor Wilson, quero dizer. Sophia sentiu uma pontada de desilusão em nome de Gray. — É óbvio que quer — disse ela, usando um tom alegre, perguntando-se como esta jovem mulher podia ser tão inconsciente de sua beleza e o poder desta sobre os homens. Não sabia ela que poderia casar-se com quem ela quisesse? — Que homem não quereria casar-se com você? — Talvez os homens me desejem, mas o desejo não é base para o matrimônio — Bel cruzou os braços sobre seus seios em um gesto afetado. Ah, não estava tão inconsciente depois de tudo. Sophia lhe perguntou: — Você quer se casar com o senhor Wilson? — Não sei. É um homem amável e decente, e compartilhamos a dedicação à caridade. Juntos, poderíamos construir uma boa vida. Não o amo, se é o que você está perguntando. Mas é que não quero me casar por amor. Sophia apoiou uma mão sobre o pulso de Bel. — Você merece ser amada. E isso é tudo o que Gray quer lhe dar. Você não 267


precisa casar-se com o primeiro homem que lhe ofereça companhia e uma casa. Seu irmão proveria encantado todas suas necessidades. Ele quer tão desesperadamente fazê-la feliz. Bel suspirou. — Quer me levar a Londres, me vestir com sedas e joias, e me exibir frente à aristocracia, essa mesma gente que se beneficia a cada momento da miséria humana nesta ilha. Como poderia isso me fazer feliz? Sophia permaneceu em silêncio por um momento, observando as nuvens se tornar em brilhantes tons de rosa e laranja na luz do entardecer. — Realmente simpatizo com você. Mais do que acredita. É óbvio, ela fugiu da Inglaterra mais ou menos pela mesma razão pela qual Bel resistia a deixar seu lar. Nenhuma delas queria ser posta em exibição, forçadas ao matrimônio a instâncias de seus tutores. Mas agora, Sophia compreendia que os planos de Gray não tinham nada a ver ganhando o favor da sociedade e tudo a ver com o profundo amor para sua irmã, e seu desejo de lhe dar o melhor que pudesse. Era impossível não perguntar se seus pais quiseram o mesmo para ela. Eram suas maquinações alpinistas e torpes, sinceramente produto do amor? Talvez. Mas agora, ela nunca saberia. — Senhorita Grayson, por favor, me prometa uma coisa. Depois de amanhã, me prometa que você se sentará com Gray e lhe dirá... — Sophia se deteve. Ela tentava dizer: "diga a ele honestamente o que me disse, conte a ele todos seus sonhos e esperanças. E logo escute-o, permita que lhe explique os sonhos que tem para você, para a família." Mas em realidade, havia só uma coisa que Gray precisava escutar, e logo o resto se acomodaria em seu lugar. As mesmas palavras podiam mudar tudo para ela. — Diga que o ama — disse Sophia. — Ele precisa ouvi-lo. — É óbvio que o farei. — Me deve prometer. Bel sorriu. — Eu prometo. — Bem — Sophia apertou o braço de Bel antes de soltá-lo. Bem. Uma sensação de alívio desceu sobre ela, enquanto a tarde se convertia em noite. Com essa promessa, sentia-se segura de que amanhã tudo se resolveria bem. Enquanto Gray soubesse que tinha o incondicional amor de sua irmã. Na hora do amanhecer, Gray soube que era um homem morto. De uma forma ou 268


outra. Caminhou o perímetro da cela toda a noite, seus pensamentos dando voltas ao mesmo tempo que seus pés. Ela se foi, ele sabia. Sentia-o. Ainda estava em seu poder rastreá-la com navios e homens e ouro ao seu dispor. Mas os homens mortos, normalmente não tinham esses recursos. O que iria fazer? Podia discutir seu caso, armar uma defesa. Moral e legalmente. Gray sabia que estava em seu direito. Mas se Fitzhugh estava realmente determinado a fazer dele um exemplo, os fatos importavam pouco. Seu destino já estaria selado. E o destino de Gray não era só dele, mas sim o de Bel, o de Jacob e o de Joss. Podia apostar o futuro de sua família completa em uma tentativa de liberdade, nesta mínima esperança de encontrá-la? Agachando-se no chão, moveu a seu irmão para despertá-lo. — Joss. Joss. Joss se remexeu e abriu os olhos. — O que quer, Gray? — Quero que me escute. Estive pensando nisto toda a noite. Quando hoje estivermos na audiência, quero que me deixe falar. — Tive escolha alguma vez? — Joss se espreguiçou. — Não espero que a nenhum de nós deem muita oportunidade de expressar-se. Não conte com que seu encanto o tire desta. — Não estou planejando que meu encanto me tire de nada. É sua pele o que estou tentando salvar. Digo-o a sério, Joss, nenhuma palavra. Há papéis, ainda redigindo-se na Inglaterra. Os negócios, os navios... Se eu morrer, meu testamento deixa isso tudo para você. Há recursos para Bel e Jacob — Gray deixou que sua cabeça caísse para trás para as pedras e massageou as têmporas. — Foram redigidos ao mesmo tempo em que os papéis da sociedade, espero que os tenha assinado este ano. — Agora estou acordado — Joss elevou uma sobrancelha. — O que está tramando? Não se faça de mártir, Gray. — Não posso me arriscar a que os dois morramos,Joss. Não o compreende? Onde deixaria isso Bel e Jacob? — Gray ficou de pé e começou a caminhar pela cela com agitação. — Um dos dois precisa sair daqui vivo, por eles. Decidi me declarar culpado em troca de sua liberdade, e da tripulação. Além disso, você jamais abordou o Kestrel, Joss. Não têm evidência contra você. Assim fique calmo e concorde comigo. 269


— Você quer dizer que me faça de idiota. Você quer dizer que brinque de ignorante negro incapaz de pensar por mim mesmo — levantou os joelhos para seu peito e apoiou os braços em cima. — É isso o que quer dizer, Gray? — Não — Gray deixou de caminhar. Olhou a seu irmão nos olhos. — Sim, Joss. Isso é exatamente o que quero dizer. Joss olhou fixo para o chão por um momento. Logo sacudiu lentamente a cabeça. — Não. — O que quer dizer... Não? Não é possível que diga não. — Asseguro-lhe que posso. E acredito que acabo de fazê-lo — Joss ficou de pé, passando as palmas pelas calças, limpando-as. — Agora, me deixe te demonstrar essa possibilidade novamente. Não. — Prefere que o enforquem? — Gray atravessou a pequena cela em dois passos, parando frente a frente com seu irmão. — Joss, você tem um filho, que o necessita. Uma irmã, que o necessita. Demônios, sou seu irmão, e o necessito também. Necessito que cuide deles. — Não o farei, Gray. — Maldição. Jamais sonhei que pudesse ser tão egoísta, que sacrificaria a segurança de seu próprio filho para salvar seu orgulho. — Não é só meu orgulho que está pedindo que sacrifique. É minha dignidade. Minha humanidade, pelo amor de Deus. Prefiro que Jacob cresça em um orfanato de piratas que como filho de um escravo. — Você nunca foi um escravo. — Você sabe o que quero dizer. Quero que meu filho faça seu próprio caminho no mundo, com suas próprias guelras e sua própria coragem. Que exemplo lhe dou, se jurar por Deus e pela Inglaterra que não posso ser considerado responsável por minhas próprias ações? Gray girou sobre seus calcanhares e partiu ao canto mais afastado da cela. Apoiou um braço contra a parede e cobriu seu rosto com a outra mão, tentando concentrar-se. Maldito seja o inferno. Joss e seu teimoso, tolo orgulho. Gray precisava convencê-lo, por algum motivo, de algum modo. Não podiam morrer ambos. Simplesmente não podia permitir que isso acontecesse. Só a ideia de Bel e Jacob, sós no mundo, fazia intumescer seus membros. Joss limpou a garganta. — Você esteve tentando dirigir minha vida por anos, Gray. Se repentinamente estiver de humor para fazer um grande sacrifício, me faça um favor: por uma vez, me 270


deixe ser meu próprio homem. A irritação na voz de seu irmão pôs tensa a coluna de Gray. — O que acredita que significa isso? — Não me deu opção em nada disto. Vendeu minha casa e me forçou a sair ao mar na primeira vez. Você sabia que eu queria me estabelecer aqui depois de... depois que Jacob nascesse, mas voltou a me arrastar novamente. Se eu for morrer, ao menos me deixe ir à tumba com algum fiapo de autonomia. Agora, Gray também estava zangado. — Você ama o mar, Joss. Sei que o ama. Ao menos, fazia-o, antes de Mara morrer e levar a melhor metade de você com ela — viu seu irmão piscar ante a menção de sua esposa. Bem — Nós tínhamos planos. Supunha-se que seríamos sócios. Você foi quem voltou atrás em sua palavra, decidindo que preferia afundar-se na imundície e incentivando este plano ridículo de Bel. — Não é um plano ridículo. — Vamos, uma cooperativa açucareira? — bufou Gray. — Uma safra e estariam em bancarrota. E então, como se supõe que seu filho respeitará a seu pai, o arrendatário? Como é que alguém vai respeitá-lo? — Tenho uma pergunta melhor. Por que meu próprio irmão não me respeita? Nem uma vez confiou em mim para que tome minhas próprias decisões. — Isso é porque toma decisões estúpidas! Joss o olhou. Respirou lentamente antes de continuar. — Não, não é por isso. É porque me está forçando a uma vida que eu não quero, só para aliviar sua própria culpa. É porque você é legítimo, e eu sou um bastardo. É porque você é branco, e eu sou negro. — Maldito seja, Joss. É porque somos irmãos. Deixa já de converter cada assunto em uma discussão a respeito de nossas diferenças. É meu irmão caçula, e tenho o direito divino de cuidar de você. — Gray passou ambas as mãos por seus cabelos. — Nos divertimos todos estes anos, perseguindo navios de carga. As coisas estavam bem entre nós, até que Mara morreu. Tínhamos planos. Você os renegou e logo me converteu no vilão. É de verdade tão terrível que queira algo melhor para você, para nossa família? Joss exalou. — Não, não o é. — Então, por que está tão malditamente zangado comigo? Por ter partido com todo o arrecadado? 271


— Por ir — Joss se dirigiu ao canto longínquo da cela. — Quando Mara morreu, foi o inferno para mim. Tampouco foi fácil para Bel. Elas eram muito unidas. Mas Bel e eu não saltamos sobre a oportunidade de ir a Londres e abandonar o único lar que conhecemos. Honestamente pode nos culpar? Estávamos de luto. Precisávamos de você, Gray. Eu o necessitava. Todo esse aborrecimento e escândalo que fez, a respeito do que era melhor para a família... Bom, sua família necessitava um irmão, e você simplesmente partiu. Gray o olhou fixamente um momento e engoliu com força. — Sabia que estava sofrendo. Não sabe que estava me matando, tão somente ficar parado e ver que a tristeza o consumia vivo? Não havia nada que eu pudesse fazer, exceto assegurar nosso futuro, provendo um lar. Talvez, tudo resultou mau, mas isso não significa que não me importava. — Sei — Joss pôs uma mão em seu rosto. — Sei. — Sabe? — Gray esperou até que seu irmão elevou o olhar. — Joss... — lhe quebrou a voz, e ele tentou novamente. — Não importa que idade temos, você é ainda meu pequeno caçula. Enquanto houver ar em meu corpo, não posso permitir que o enforquem. Não me peça isso. — Mas está bem que você me peça isso?Você não é o único capaz de ter sentimentos fraternais, sabe — Joss cruzou a cela e parou em frente a Gray. — Não é sua culpa, aconteça o que acontecer. Compreende isso? — pôs uma mão sobre o ombro de Gray. — Sei que sempre tentou fazer o melhor para mim, a sua própria insofrível e arrogante maneira. Foi um bom irmão, Gray. E um maldito bom amigo. Gray amaldiçoou. Olhou para um lado, logo novamente a seu irmão. — Justa advertência, Joss. Se não tirar a mão de cima de mim... terei que o abraçar. Joss riu. — Depois desse discurso, estarei malditamente decepcionado se não o fizer. Gray tomou a seu irmão em um rude abraço. Joss golpeou suas costas enquanto o abraçava. — O que é toda esta conversa a respeito de morrer, de todas as formas? — perguntou Joss, afastando-se, com os olhos úmidos e um sorriso torto. — Já enganamos anteriormente a morte. Calculo que ainda resta uma vida mais. Talvez a Wilson ocorra algo. Ou Bel consiga um milagre. — Talvez — Gray lançou um áspero suspiro, e deslizou pela parede, até ficar sentado no chão, com as pernas estiradas. Joss se uniu a ele. 272


— Digo-o a sério, Gray. Não mais conversas a respeito de enforcamentos ou nobres sacrifícios. Muito bem, pensou Gray. Não falarei sobre isso. — Se permita um momento de otimismo. Não só somos Bel, ou eu, ou Jacob pelo que tem que viver, já sabe. Há uma linda senhorita ali fora em algum lugar, a que partirá o coração se o enforcarem. — Há lindas mulheres ao redor de todo o mundo às quais ficarão com o coração partido se me enforcarem — disse Gray secamente. — Mas a única que me importa, partiu. — Isso não sabe. — Oh, ela se foi, sim. Sabe, disse me amar. Que idiota fui em acreditar nisso. — É isso tão difícil de acreditar? — Joss golpeou o ombro de seu irmão. — Não é como se ela fosse a única. — Que tolo é — resmungou Gray. Deixou cair sua cabeça contra a parede de pedra e ficou olhando fixamente para a única janela da cela. Fatias de um brilhante céu piscavam para ele por detrás de enferrujados barrotes de ferro. Olhá-las machucava seus olhos, mas o desconforto era preferível à escuridão. — Apaixonarme neste momento, de entre todos os momentos... depois de que o evitei por toda a vida. — Evitou-o? Ao contrário, acredito que conduziu uma meticulosa busca por todo o globo. Gray pensou nisso por um momento. Maldição, odiava quando Joss tinha razão. Estava bem que ela se foi. Ele sabia que o que devia fazer hoje, só seria mais difícil se tivesse ficado. Ainda assim, como sempre, ele se arrependia do que deixou sem fazer. Sem dizer. — Jamais disse que a amava. Que imbecil que sou. Não é estranho que se foi. Quero dizer, eu disse de uma dúzia de maneiras diferentes, mas nunca pronunciei as palavras. — São tão difíceis de pronunciar... — Sim, mas...não sei. Não deveriam sê-lo — Gray sacudiu a cabeça. — Sabe que esse rapaz de quinze anos teve a coragem de dizer em frente de toda a tripulação o que eu não consegui murmurar na escuridão? Davy Linnet será um bom oficial algum dia. Tem bolas maiores que as nossas, eu aposto. Joss bufou. — Fale por si mesmo. A risada explodiu no peito de Gray. Deus, ia sentir saudades de Joss. Esperava 273


que seu irmão pudesse perdoá-lo algum dia por trair sua confiança esta última vez. — Joss — Gray engoliu o nó que subia por sua garganta. — Eu o amo. Aconteça o que acontecer, quero que saiba disso. Joss apoiou um cotovelo no ombro de Gray. — É agradável escutá-lo. Mas já sabia; em realidade, nunca tive nenhuma dúvida sobre isso em minha mente. Imagino que ela também sabe que a ama. Terá oportunidade de pronunciar as palavras. Gray massageou as têmporas. O que podia ele dizer? Apenas restavam alguns dias neste mundo, e sem esperanças de vê-la no próximo. Mas precisava manter a ilusão de otimismo, pelo bem de Joss. — Caso a encontre, o que acontece se lhe digo que a amo, e ainda assim ela parte? — Não sei o que te dizer nesse caso. Não há garantias no amor. Sei tão bem como qualquer um o efêmero que pode ser. Gray piscou, sabendo que Joss se referia a Mara. Joss permaneceu em silencio por um momento, logo continuou em voz baixa: — Talvez não seja capaz de te prender a ela para sempre. Mas não acredito que se arrependa de tentá-lo. Eu não o faço. Gray sentiu as lágrimas queimando nos cantos de seus olhos. Aspirou e olhou para outro lado rapidamente, procurando em sua mente algo engenhoso e irreverente que dizer. Economizou o esforço quando Joss falou novamente. — Essa garota o ama, Gray. Vamos sair desta, e quando o fizermos, aposto cem soberanos contra um que Sophia estará ali esperando por você. — Sophia? Seu nome é Sophia? Joss lançou uma risadinha. — Eu tinha razão. Não sabia. — Mas... — Gray coçou a nuca. — Mas como sabia você? Desde quando sabe seu nome? Joss deu de ombros, sua expressão já composta. — Desde algum momento do dia de ontem — riu ante o ofuscado silêncio de Gray. — Quando você desceu as calças para urinar, estava pintado em seu traseiro.

Capítulo 27

— O Afrodite nos saudou, assim que nos aproximamos. Trocamos nossa vela, 274


dispostos a falar. Os bastardos nos tinham justo onde queriam. Antes que meu oficial lhes gritasse nosso porto de origem, ele — Mallory assinalou com um dedo ao Gray através da sala de audiências, — estava fazendo em pedaços nosso mastro maior. Só precisa olhar meu navio para encontrar provas suficientes disso. O Juiz Fitzhugh assentiu com gravidade. — Continue. Os dentes de Gray rilharam como pedras de moinho. A este ritmo, não haveria necessidade de uma forca. O esforço requerido para conter a língua ante estas falsidades insidiosas, provavelmente o mataria. Mas precisava manter a compostura. Discutir não serviria para nada agora. Já seja que pendesse ao final de uma corda ou lhe desse uma implosão de pura irritação, o resultado seria o mesmo. Tudo terminaria aqui. Aqui, nesta câmara asfixiante com seus painéis deteriorados e com cheiro de decadência. Nesta mesma sala em que foi premiado com dezenas de pilhagens, roubado toda a fortuna dos desafortunados comerciantes que por acaso cruzou com ele no curso do Afrodite. Tinha permutado sua alma neste tribunal. Havia uma justiça estranha em que sua vida devesse ser comercializada aqui, também. — Bom, ele abordou o Kestrel — seguiu Mallory, zombando de Gray. Debaixo da mesa, a mão de Gray se converteu em um punho. — Ele e seus homens. Ele me atou com umas cordas, tomou o comando da nau, e roubou minha carga. Fitzhugh arqueou uma sobrancelha. — E tudo isto sem provocação? — Nenhuma absolutamente. Gray apertou o punho até que seus nódulos estalaram. Atrás dele, os tripulantes do Afrodite e do Kestrel se queixaram em voz alta em sinal de protesto. Com um olhar agudo sobre seu ombro, ele sufocou a dissidência. Junto a ele, Joss deu uma cotovelada no senhor Wilson. — Mentiroso bastardo. Pergunte a ele a respeito da tormenta — sussurrou. — Do fogo. Do rum. — Não — Gray limpou a garganta. — Só dirá mais mentiras. E a este tribunal não interessa a verdade. Não mais do que lhe interessava quando trazíamos os navios que confiscávamos. Aos juízes deste tribunal só lhes importam as recompensas. — Mas não há uma recompensa em jogo aqui — argumentou Joss. 275


— Oh, sim. Só que não é um navio. O juiz terminou o interrogatório de Mallory, então se voltou para o Gray. — Senhor Grayson, fique de pé. — Joss — murmurou Gray. — Não deveria tê-lo obrigado a comandar o Afrodite. É minha culpa que esteja aqui, e eu vou arrumar isso. Pega o dinheiro, faz o que seja que o faça feliz. Vende os navios, plante cana-de-açúcar... — Do que está falando? — sussurrou Joss. — Não faça algo estúpido, Gray. — Senhor Grayson — disse Fitzhugh, impaciente. — Levante-se. Gray sussurrou a seu irmão: — Não vou fazer nada estúpido. Por uma vez, vou fazer algo bom — empurrou sua cadeira e se levantou, ficando ao mesmo nível dos olhos do juiz sentado no elevado banquinho. Fitzhugh não podia ser muito maior que Joss. Pálido, magro e suando profusamente por debaixo da peruca, parecia mal adaptado ao clima tropical. Tinha o olhar de um menino em traje de um homem, um moço que esteve no lado perdedor de muitas brigas escolares. Presumivelmente em uma tentativa de parecer maior, ou possivelmente mais sábio, assumia um semblante muito severo que correspondia a uma caricatura. Mas era a expressão dos olhos de Fitzhugh o que divertia ao Gray. Antecipação, misturada com temor. Não havia dúvida de que o juiz ouviu contos sobre ele, o êxito de Gray como corsário foi uma questão de orgulho local. Mas Gray não esperava que a quantidade de reverência no olhar de Fitzhugh funcionasse em sua vantagem. Mas bem, ele suspeitava que faria que o juiz estivesse ainda mais ansioso por ver humilhado ao Gray. Ele era o equivalente marítimo do valentão da escola, e esta era a oportunidade de Fitzhugh de finalmente dar um forte golpe. Só para provocá-lo mais, Gray falou primeiro. — Esta é uma audiência informal, entendo. Este tribunal não tem o poder de condenar por acusações de pirataria. Os olhos de Fitzhugh se estreitaram em suas redondas armações de arame. — Não sozinho, senhor Grayson. Sim, pode em conjunto com o governador. — Que estaria menos que satisfeito por ser convocado de Antigua sem uma causa suficiente. Depois de um momento de vacilação, Fitzhugh respondeu: — Esse é o propósito desta audiência de hoje, senhor Grayson. Para estabelecer uma causa suficiente — o juiz franziu o cenho para ele, e Gray quase pôs-se a rir. Apesar de sua acrobacia facial, Fitzhugh já cedera o controle da conversa. A sala 276


estava ao comando de Gray. Relaxou sua postura e se permitiu um sorriso. — É-me familiar, senhor Fitzhugh. É possível que nos conhecemos em Oxford? O juiz pigarreou. — Sinceramente o duvido. — Ah. Não é um homem de Oxford, então. Cambridge? — Edimburgo. — OH. Edimburgo. Suponho que agora que a guerra terminou, o Almirantado relaxou suas normas? — Gray o estudou. — Entretanto, seu rosto me é tão familiar. Conhecemo-nos na cidade? No White, talvez? — Não — a boca do Fitzhugh se diluiu em uma linha. — Não é que seja de alguma relevância, mas estou seguro de que nunca nos apresentaram, senhor Grayson. — Não é membro do White's então? Lástima. Bom, devo estar confundindo-o com alguém mais — ele viu um rubor escorrer-se por debaixo da peruca de Fitzhugh. — Em qualquer caso, fui amável com todos os juízes que passaram por este posto nos últimos anos, e não vejo nenhuma razão pela qual com você deva ser diferente. Confio em que possamos falar como cavalheiros, já que este é um procedimento informal. — Em realidade, este... — Entendo sua situação, senhor Fitzhugh. Uma grande parte da riqueza trocou de mãos nesta sala uma vez. Um montão de emoção, durante a guerra. Um juiz pode construir uma reputação com ela, sem falar de uma fortuna. Mas agora... que classe de assuntos têm ante vocês? Indenizações de seguros? É difícil distinguir-se com esses casos. Seus superiores tendem a esquecê-los por completo. Você pode encontrar-se neste posto pelo resto de seus dias — riu da expressão desgostosa de Fitzhugh. — OH, não se desespere. Com sorte, a febre o levará antes de morrer de aborrecimento. Risadas generalizadas na sala do tribunal. O juiz golpeou com o martelo até que a assembleia se calou. — Senhor Grayson. Você se encontra aqui diante deste tribunal acusado de pirataria, um delito que merece a forca. Se absterá de fazer discursos e me permitirá expor as perguntas. — Se vou ser enforcado, onde está o benefício do decoro? — quando a seguinte onda de risadas se desvaneceu, Gray baixou a voz e se aproximou do banquinho. O 277


desprezo brilhava nos olhos do juiz. Bem. Estaria muito desejoso de ver morto ao Gray. — Eu sei o que quer,Fitzhugh. O darei a você. Estou disposto a me declarar culpado de todas as suas acusações. Pode construir sua carreira sobre minha tumba, reclamar sua promoção, e retornar à Inglaterra. Ainda está a dúvida de se lhe permitirão entrar no White'S. Mas as perguntas, e as acusações, começam e termina comigo, nos entendemos? — Você se declara culpado? Por pirataria? Gray assentiu. — Montarei um espetáculo se quiser, para fazer as coisas interessantes. Ao final, você terá seu enforcamento. Mas só um. Uma vez que admita minha culpa, porá fim a este "procedimento informal" e todos outros na sala sairão livres. Fitzhugh sorriu. — Muito bem. — Quero sua palavra. E se me contradiz, por Deus, juro que o caçarei no inferno. — Você tem minha palavra. Tenho a sua? Gray lhe dirigiu um sorriso fácil. — Minha palavra como cavalheiro — ele deu um passo para trás longe do banquinho e se dirigiu à sala do tribunal. — Tudo o que o capitão Mallory declarou é a verdade. Um clamor se levantou entre os homens. Fitzhugh golpeou com o martelo em vão, até que Gray fez um gesto de silêncio. Levou-lhe um grande esforço ignorar o aspecto de traição nos olhos de Joss. Mas o ignorou. — Saudei o Kestrel como uma nau amistosa. Abordei o navio sem permissão. Tomei o comando de sua tripulação. Derrubei o mastro com um canhão. E destruí grande parte de sua carga — Gray enumerou os fatos com os dedos. — Todas as verdades. Se essas ações me fizerem um pirata, então sou um pirata — Gray falou sob um coro de protestos. — E nem a mim, nem ao honorável senhor Fitzhugh — varreu a sala com um olhar significativo, — interessa-nos escutar qualquer argumento do contrário. Seguem-me? Olhou a seus homens nos olhos: O'Shea, Quinn, Levi, Stubb, e todos os outros, até o Davy, até que absorveram seu significado e a obediência que exigia. Ele manteve firme a mandíbula, os ombros retos, o olhar fixo. Nem sequer uma piscada. A valentia lhe chegava com bastante facilidade, quando a morte real estava há semanas. Já haveria tempo suficiente depois para ficar 278


a tremer. Então estaria sozinho. Ele se voltou para o banquinho. — Agora bem, senhor Fitzhugh, você tem seu pirata. Acredita que podemos concluir que o procedimento... — Sim, bom... — tossiu Fitzhugh. — À luz de seu testemunho, senhor Grayson, que é apoiado não só por conta do capitão Mallory, mas também pela de seu próprio primeiro oficial, o senhor Brackett, parece-me causa suficiente para manter a acusação de pirataria, um crime contra a Coroa. Tomarão-se disposições para o julgamento. A sala ficou em silêncio, exceto pela risada maliciosa de Mallory. — Grayson, vou dançar no dia em que se balançar na forca. — Se ele se balançar, eu me balançarei com ele — Joss ficou de pé. Gray perfurou a seu irmão com um olhar. — Joss, não. — Sente-se, maldito seja. Pensa em nossa irmã. Pensa em seu filho. — Sou o capitão do Afrodite — soou a voz de Joss, através da sala do tribunal. — Sou o responsável pelas ações de seus passageiros e de sua tripulação. Se meu irmão for um pirata, então eu sou um pirata também. O coração de Gray se afundou. Ambos iriam morrer agora, ele e o idiota de seu irmão. Joss caminhou até o centro da sala de audiências, os botões dourados de seu casaco de capitão brilhando enquanto avançava através de um raio de sol. — Mas exijo um julgamento completo. Vou ser ouvido, e as provas se examinarão. Diários de navegação, a condição dos navios, as declarações de minha tripulação. Se tiver a intenção de enforcar o meu irmão, você terá que encontrar a causa para me enforcar. As sobrancelhas de Fitzhugh se elevaram até sua peruca. — Com muito prazer. — E a mim. Gray gemeu ao ouvir essa voz. Nem sequer precisava olhar para saber que era Davy Linnet o que ficou de pé. Valente, moço tolo e estúpido. — Se Gray for um pirata, sou um pirata também — disse Davy. — O ajudei a apontar e a disparar esse canhão, essa é a verdade de Deus. Se o enforcarem, terão que me enforcar. Outra cadeira raspou o piso quando seu ocupante se levantou. — E a mim. OH Deus. O'Shea agora? — Subi ao Kestrel. Tomei o controle de seu leme e ajudei a amarrar a esse 279


pedaço de merda — o irlandês apontou Mallory com seu queixo. Suponho que isso me faz um pirata também. — Muito bem — os olhos do Fitzhugh se iluminaram com alegria. — Alguém mais? Pela janela, Levi se apresentou. Sua sombra cobriu a maior parte da sala. — Eu — disse. — Agora, Levi? — Gray puxou seu cabelo. — Sete anos a meu serviço, não diz nenhuma só maldita palavra, e decide falar agora? Maldição, agora todos estavam de pé. Agitando os punhos, amaldiçoando Mallory, defendendo Gray, discutindo sobre qual deles merecia a distinção do mais sanguinário dos piratas. Teria sido uma exibição de comovedora lealdade, se todos não fossem morrer. — Vê? — Gray reconheceu a voz de Brackett. — São nada mais que bandidos fora da lei, tal e como disse! Fitzhugh golpeou seu martelo uma e outra vez, como se estivesse armando apressadamente um novo banquinho ali. — Silêncio! — sua voz se quebrou com a nota. — Silêncio, todos vocês! Ordem! Com o tempo, ocorreu um momento de calma dentro do caos produzido, não precisamente uma pausa, mas sim uma respiração coletiva, para que os gritos pudessem continuar. O juiz aproveitou o momento, saltando sobre seus pés e indiscriminadamente lançar seu martelo contra a multidão. Isto resultou ser um uso muito mais eficaz do implemento. O grito de dor de Mallory destroçou o caos, e todos giraram para fazer frente a sua fonte. — Qualquer um — Fitzhugh respirava pesadamente, e tinha a peruca torta, — que participou da tomada do Kestrel, será condenado como pirata e obrigado a pagar com sua vida. Vou enforcar a todos vocês, miseráveis e malditos caipiras! Sophia considerou isto como o momento de sua entrada. Com um apertão de despedida à mão da senhorita Grayson, entrou na sala de audiências. Levantando a voz, disse: — Então você terá que me enforcar, também. Ah, agora se fez o silêncio. Só a seda e a crinolina tinham a ousadia de sussurrar à medida que avançava para o centro da sala do tribunal. Deus, como sentiu falta disto. Fazer uma entrada. Sophia passou uma mão enluvada sobre sua saia de seda rosa, guiando-a entre o mobiliário. Estava muito contente agora de ter-se rendido a abrir um espaço em seu baú para a vaidade e trazer este vestido com ela. 280


A beleza extravagante era útil em situações de emergência como esta. Sentiu os olhares dos homens sobre ela, enquanto deslizava por entre a multidão, o queixo levantado, a postura erguida. Era tentador encontrar seus olhares, favorecer a cada um de seus amigos com um cálido sorriso. Entretanto, resistiu, guardando seu praticado rubor de debutante para o único homem que importava. O homem pálido e boquiaberto com uma peruca. — Sua senhoria — disse ela com doçura, segurando a saia com uma mão enquanto fazia uma suave reverência. — Quem... quem é você? Sophia viu imediatamente que o senhor Fitzhugh serviria perfeitamente. Jovem e pálido, pouco atrativo e desajeitado ao extremo. Um homem com pouca confiança ou experiência no que a damas se referia. Os cavalheiros de sua classe se manipulavam facilmente, enganavam-se facilmente. Mas claro, o engano já não era seu objetivo. Hoje por fim, diria a verdade. — Sou a senhorita Sophia Jane Hathaway, de Kent. E, pelo que entendo deste procedimento, parece que sou uma pirata. — Você, senhorita? Uma pirata? Sophia brincou com o decote de seu corpete. — Você disse que qualquer pessoa que participou da tomada do Kestrel seria enforcado como um pirata? O juiz engoliu, e logo assentiu. Ela moveu a mão para acariciar a delicada pele de sua garganta. — Céus. Então você terá que me enforcar também. Talvez minha execução não promova sua carreira como a de alguns outros, mas isto é de pouca importância na busca da justiça. Estou certa, senhor juiz? — Não, absolutamente — respondeu ele, incongruentemente assentindo e concordando. Seu olhar subindo rapidamente da garganta dela a seus olhos. — Er... quer dizer... Sophia inclinou a cabeça e franziu o cenho. — Será necessário que me interrogue, suponho? Obter meu testemunho? — S... sim. Quando o silêncio demonstrou que nenhuma pergunta estava próxima, ela ofereceu: — Talvez simplesmente deva começar pelo princípio? Ele suspirou agradecido. 281


— Isso seria o melhor. — Muito bem. E agora — só agora — permitiu jogar uma olhada ao Gray. Fazia todo o possível por resistir de olhar em sua direção, apesar de que sua presença a atraiu como uma força magnética desde o momento em que entrou na sala. Sentia exatamente onde ele estava, entendia exatamente quantos graus devia girar o pescoço para encontrar-se com seu olhar. Não havia contado com o difícil que seria afastar a vista. Havia uma centena de emoções agitando-se nos olhos dele: perguntas e acusações, e súplicas e promessas também, e agora os olhos de Sophia se encheram de lágrimas. Pare com isto. Tem toda uma vida por diante para chorar. Com uma forte inalação, Sophia se voltou para o juiz. — O senhor Grayson lhe deu uma informação exata, embora incompleta dos acontecimentos — tirou um lenço bordado e rapidamente secou os olhos antes de pressioná-lo contra seu decote. — Espero que sua senhoria me permita familiarizá-lo com mais fatos da verdade. Mas não absolutamente toda. — Como disse, meu nome é Sophia Jane Hathaway, embora os homens nesta sala me conhecem como Jane Turner. Meu pai, o senhor Elias Hathaway, é um cavalheiro de grande riqueza e de modesta importância. Viajei com um nome falso, porque parti da Inglaterra sem sua permissão. Ou seu conhecimento — a culpa cravou seu coração. A ansiedade que sua família devia ter sofrido. Possivelmente agora a acreditavam morta. Fitzhugh a olhou entrecerrando os olhos através de seus óculos. — Você estava fugindo? Ela assentiu com a cabeça. — Eu ia me casar, veja. Com um homem que não amava. Era evidente pela expressão do juiz de que não via. — A iriam casar contra seus desejos. Assim, logicamente, fugiu, sem escolta, com a ajuda destes bandidos, às Índias Ocidentais — ele olhou ao Gray. — Talvez tenha que adicionar o sequestro às acusações. — Oh, não! Você não entende — Sophia mordeu o lábio. Por que dizer a verdade era muito mais complicado que mentir? Ela não sabia como explicar o raciocínio que a levou de "Não posso me casar com o Toby" a "Devo abordar um navio com destino à Tortola". Nesse momento, em seu desespero, fez sentido para ela. Agora via o que ninguém em sua sã consciência podia ver: que ela deveria 282


simplesmente ter rompido seu compromisso. Mas então, como agora, a verdade foi muito mais difícil que uma mentira. — Asseguro-lhe que nem o capitão nem o senhor Grayson conheciam minha verdadeira identidade. Os fiz acreditar que eu era uma governanta, viajando para um novo trabalho — Sophia deu um passo mais para o banquinho, pôs uma mão enluvada sobre a borda da madeira e se inclinou para ele de maneira confidencial. Fitzhugh brincou com sua peruca, claramente nervoso e adulado por sua proximidade. Muito bem. Ela fez sua voz entrecortada e reverente. — Sua senhoria, tenho a sensação de que você é um homem de princípios, e com ambições. Acredito que pode entender isto, que procurasse um propósito maior para minha existência. Queria experimentar a vida real, encontrar minha verdadeira paixão. — E o fez? — engoliu. — Encontrar sua... hã, paixão? — Oh, sim — sorriu beatificamente. — O senhor Grayson me mostrou isso. Um murmúrio percorreu a sala do tribunal. Sophia aventurou um rápido olhar para Gray. Para trás ficavam as acusações e perguntas em seu olhar, tudo o que restava era a confusão em branco. Bom, isso e sua boa aparência de patife. Mas para ela, tudo esteve finalmente claro. Ela queria experimentar a vida real, mas como poderia, até que deixou de fugir? Esta era sua vida, e a de ninguém mais. Esta era sua história para contar, sua imagem para pintar. — Senhor Fitzhugh — disse. — Posso lhe contar a respeito da tomada do Kestrel? Esse dia eu observei tudo do convés do Afrodite — ao ver que ele assentia, Sophia continuou. — Havia um vento terrível. As nuvens se agitavam e estavam escuras como o mar, e justo quando os dois navios se aproximaram, o céu rachou com um raio. Este golpeou o mastro maior do Kestrel, incendiando a ponta. Sem levar em consideração sua própria segurança, o senhor Grayson e alguns de seus homens mais valentes subiram ao navio para ajudar. Seu objetivo era ajudar à aturdida tripulação do Kestrel a cortar o mastro antes que as chamas chegassem ao convés. Mas não havia tempo, e com um porão cheio de rum de contrabando, a nau ia seguramente explodir. O senhor Fitzhugh não perdia detalhe de suas palavras, embora seus olhos pareciam fixos em seu busto. — E...? — O senhor Grayson enviou a todos os homens ao bote, exceto ao senhor Linnet — descobriu o rosto suave de Davy entre a multidão. — E juntos derrubaram o mastro com o canhão do próprio Kestrel, abafando o fogo no mar. 283


— Notável — sussurrou o juiz. — Não é assim? — o orgulho trouxe um sorriso a seu rosto. — Foi o mais verdadeiro ato de valentia que jamais presenciei. O senhor Grayson salvou muitas vidas esse dia. Incluindo a vida do Capitão Mallory, que agora tem a covardia maliciosa de acusar a homens inocentes de pirataria para pedir seu próprio navio como resgate. — Sophia se aproximou mais. — Sabe você, senhor Fitzhugh, que o Capitão Mallory negou aos feridos de sua tripulação a atenção médica, quando um porto estava a só uns dias de vela de distância? Essa foi a razão de que o senhor Grayson tomasse o Kestrel, fazendo que seu próprio navio se adiantasse com os feridos. Se isso for um ato de pirataria, então ele é o pirata mais honorável que jamais viveu. E como eu também me uni à tripulação que tomou o Kestrel, sinto-me orgulhosa de me declarar uma pirata, também. — Uniu-se à tripulação? — Sim, converti-me na cozinheira da nau. Estavam dizimados, já vê — Sophia afrouxou uma luva e a tirou, deixando a descoberto sua mão calosa, marcada pela faca. — Sua senhoria, sou uma dama. Nunca realizei este tipo de trabalho em minha vida, mas estive contente de fazê-las para ajudar a estes homens. Minha vida mudou no dia da tormenta. Nunca será igual outra vez — em muitas mais formas da que você poderia suspeitar, pensou com certo regozijo. Mas a declaração era a verdade. Virou-se para Gray, que levava seu próprio meio sorriso. Era um consolo saber que ainda compartilhavam algo, embora só fosse uma brincadeira particular. — Inclusive agora, este homem inocente ia se sacrificar para salvar a seu irmão e aos homens de sua tripulação da corda do carrasco. A valentia do senhor Grayson e sua fortaleza são um exemplo para mim — disse, secando os olhos com o lenço. — Eles devem ser um exemplo para todos nós. OH, vamos, repreendeu-a o sorriso de Gray. Não o leve muito longe. — Um exemplo... — falou Fitzhugh em um tom lento de descobrimento, — de honra? — Ela é uma mentirosa! — o senhor Brackett se impulsionou à frente da sala, abrindo caminho através da assembleia com seu nariz fino como uma espada e a cotoveladas. — Ela é uma mentirosa e uma rameira. São amantes, ela e Grayson. Sua história é uma mentira, fabricada para salvar seu miserável pescoço. O coração de Sophia paralisou. O público conteve a respiração. Por favor, não o pergunte, implorou ao juiz em silêncio. Sentia-se tão bem, finalmente parar ante o 284


Gray, ante estes homens, ante o mundo, e dizer a verdade. Poderia atrever-se a negálo agora, inclusive para salvar sua vida? Por favor, só não pergunte. — Senhorita Hathaway? — o juiz ajustou os óculos e a olhou. — Qual é, precisamente, a natureza de sua relação com o senhor Grayson? — Minha relação...? — afastando a vista, Sophia fechou os olhos brevemente, e logo os voltou a abrir. Sinto muito, modulou para o Gray. Fez-lhe um gesto quase imperceptível, com uma expressão dura. Estava limpando toda a emoção de seu rosto, esperando sua negação. Precisava dizê-lo, não tinha outra opção. — Amo-o. A surpresa derreteu o gelo em seu olhar. Logo seus olhos brilharam com aprovação. Com aprovação e amor. Seu coração disparou. Por este único momento, eles se amaram, e o resto do mundo pôde ir-se à forca. — Amo-o — repetiu ela, simplesmente porque podia. Porque era a verdade. Agora a verdade estava fora, suspensa no silêncio úmido — um bosquejo da mesma, pelo menos. Ainda se mantinha dentro de Sophia a capacidade de matizá-la. Recompondo-se, aproveitou a aturdida pausa. — Como é meu dever cristão, sua senhoria. Dizer que sinto qualquer coisa menos por ele seria não só uma falsidade, mas também um sacrilégio. O juiz coçou a peruca. — Não — protestou Brackett. — Ela é uma mentirosa, digo-lhe! — Asseguro-lhe que só falo com a verdade. Que motivo teria para mentir? Sophia puxou sua luva, trabalhando os dedos nas finas pontas. — Em realidade, vim porque sinto carinho por muitos dos homens nesta sala. Mas qualquer um que insinue que dou este veraz testemunho com a esperança de reatar algum tipo de relação com o senhor Grayson, amistosa ou de outra índole, estaria em um engano. Estimo ao homem, sua senhoria. Admiro-o muito, e seu exemplo de honestidade e valentia alterou o curso de minha vida. Mas além de hoje, não espero jamais voltar a vê-lo. Gray deu um passo adiante. — Não pode querer dizer... Sophia o congelou com um olhar. — Sim, senhor Grayson, quero dizer que minha missão aqui já se completou. Ele a olhou fixamente, claramente desconcertado. Adoravelmente desconcertado. — Desde que deixei a Inglaterra, resolvi não me casar — disse, dirigindo sua 285


declaração ao juiz, — mas sim dedicar minha fortuna à caridade. Tenho vinte mil libras, o senhor veja, ou as terei em questão de dias, quando chegar a minha maioridade. Ia ser meu dote, mas esta mesma manhã a comprometi para a compra da plantação Eleanora do senhor George Waltham, para estabelecer uma cooperativa de açúcar para os escravos libertos. — Uma cooperativa de açúcar? — disseram Gray e Fitzhugh em uníssono. Bem. Agora Gray e Joss não teriam nada mais sobre o que discutir, nem disputas velhas que os separassem. Poderiam voltar a começar, sentar-se e discutir seu futuro com a mente e o coração abertos. Provavelmente fosse muito tarde para a própria família da Sophia, mas ela não podia deixar passar esta oportunidade de curar a deles. — O senhor Wilson e a senhorita Grayson lhe podem proporcionar qualquer prova que possa necessitar sobre esse assunto — dobrou o lenço. — Quanto a mim, temo que devo partir. — Partir? — uma vez mais, Gray e Fitzhugh falaram em uníssono, e cada um olhou ao outro, claramente aborrecido. — Agora que minha missão terminou, devo retornar à Inglaterra. Dei só o depósito de garantia, você vê, perto de seiscentas libras. O resto da transação deve ser completada em Londres. E eu... Devo voltar com minha família, embora não sei como me receberão. Depois desta aventura, duvido que me recebam nem sequer meus amigos mais próximos. Certamente não as pessoas da família do senhor Grayson — ele precisava entender isto, a razão pela qual deveria partir. — A família do senhor Grayson? — perguntou o juiz. — Não sabia? Sua senhoria, ele é o sobrinho de um duque. Eu jogava cartas com sua tia, a duquesa de Aldonbury, a cada terceira quarta-feira do mês — dirigiu um olhar cauteloso ao Gray. — Sua neta, Lady Clementina Morton, estava na escola comigo. Inclusive fui tão afortunada por ser uma convidada em sua casa, sua senhoria, mas isso é um prazer que jamais terei de novo. Sua graça é uma dama de classe elevada e de perdão limitado. Se eu fosse do tipo ambicioso, senhor Fitzhugh, não desejaria desgostá-la. O juiz empalideceu até a cor do pergaminho. Sophia estava ocupada com o cordão de seu vestido. — Não, eu estou arruinada aos olhos da sociedade, embora minha consciência esteja tranquila. Devo ir para casa e me jogar na misericórdia de minha família. Se me desprezarem... — ela deu de ombros. 286


— Talvez me converta em uma preceptora. Uma sensação de satisfação a encheu. Ontem, tinha previsto mentir ao entrar nesta sala de audiências e pretender ser o tipo de mulher honesta, desinteressada, que poderia ter ajudado à causa de Gray. Agora ela deu tudo: sua fortuna, sua reputação, seu futuro, pela verdade. Não só para salvar a vida de Gray, mas também para redimir a dela. Que tola foi, sempre culpando ao mundo por não ver a pessoa por baixo da grande fortuna. A verdade era que passou sua vida escondendo-se atrás do medo, de mentiras e fantasias selvagens, porque não acreditou nela mesma, em seu próprio valor. Tudo isso terminou hoje. Aqui, nesta sala, a verdade foi algo valioso. Ela foi algo valioso. O mundo era bem-vindo para rechaçá-la agora. Pela primeira vez em muito tempo, a Sophia gostou de ser ela mesma. Ela não ia lamentar nada. Virou-se em um círculo lento, deixando que seu olhar se atrasasse em cada um de seus amigos pela última vez. — Zarpo a Antigua imediatamente, onde entendo que posso abordar uma fragata inglesa — seu olhar pousou em Gray. — Assim que isto é um adeus. Gray assentiu. É óbvio, agora que ele entendia tudo — como seu passado indevidamente envenenaria o futuro de sua família — estava-a deixando ir. — Adeus, pois. A menos... — dirigiu-se ao Fitzhugh com perfeita inocência. — Mas você realmente não quis dizer que acusaria a todos de pirataria, verdade? Ele piscou. Sophia sorriu. — Isso pensei.

Capítulo 28

Seja que alguém passeie por um parque ou viagem pelo mundo, a travessia de volta para casa parece ser mais curta que a viagem de ida. Parecia que tinha passado horas desde que o Polaris cruzou o Trópico, entretanto Sophia sabia que transcorreram dias. Muito pouca fanfarra tinha acompanhado a ocasião: um pouco de canto entre os marinheiros, uma coleção de xelins em uma boina alquitranada 21, a 21

Coberta com uma substancia escura de cheiro forte.

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qual ela contribuiu com seus minguantes recursos. Talvez, a apagada celebração pudesse atribuir-se à escassez de passageiros a bordo da fragata. Ela só estava acompanhada pelos comissários de bordo do navio, e a viúva e dois filhos crescidos de um antigo plantador de Antigua. Entretanto, Sophia o atribuiu mais ao caráter do Capitão Herring. Tratando-se de sardinhas, parecia ser do tipo salgado e defumado. Não, o Polaris não era o Afrodite, nem sequer era o Kestrel. E talvez Sophia devesse sentir-se agradecida por isso. Em uma atmosfera de camaradagem e júbilo, sua melancolia teria chamado a atenção. Mas se alguém notou sua atitude longínqua ou seus olhos permanentemente úmidos, foi só para lhe sugerir algum medicamento para o resfriado. Se houvesse algum remédio para a dor do coração. Nas tardes agradáveis como esta, ela passava longas horas olhando fixamente o mar. Não tinha mais papéis ou telas; inclusive seu pequeno baú de pinturas e pincéis foi deixado para trás. Mas a serenava o fato de mesclar pigmentos em sua mente para capturar as sempre brilhantes cores das ondas: hoje, uma base de azul prussiano com uma tinta de verde cobalto. O mesmo tom se refletiria nos olhos do Gray, se ele estivesse com ela. Quase podia imaginar que ele estava. Quase. Ainda, cada vez que um navio aparecia no horizonte, uma ridícula esperança florescia em seu coração. Ela entrecerrava os olhos por sobre as ondas, ansiosa de ver a forma do navio, o estilo de seus arranjos. Qualquer navio fragata disparava uma aceleração irracional de seu pulso. Quando um olhar mais próximo, ou o desaparecimento do navio sobre a curva da terra, provava que não era o Afrodite, ela repreendia a si mesma por suas tolas lágrimas. Ele sabe a verdade agora, dizia a si mesma. Ele compreendeu tudo. E tem que deixa-la ir. Quando um navio apareceu essa tarde, seu suplício foi misericordiosamente breve. O navio que se avistava da popa, revelou rapidamente ser um veleiro, suas velas triangulares se sobressaindo sobre o mar, como uma fileira de dentes de tubarão. À medida que o navio ia se aproximando, o desconforto se estendeu pela tripulação como um contágio. — Eu não gosto disso — disse o primeiro oficial, — a forma em que está se aproximando de nós, como se estivesse nos perseguindo. Se querem falar, por que 288


não disparam um sinal? — Sob que cores navega? — perguntou o Capitão. — Esse é um navio construído em Baltimore, estou seguro. Mas poderiam ser corsários navegando sob bandeira venezuelana. — Não há bandeira de nenhuma cor, que eu possa ver — reportou o oficial, entrecerrando os olhos em sua luneta. — Está pesadamente armado, cavalgando as ondas. Não pode haver muitos oficiais para falar nesse porão. — Piratas — o Capitão deixou escapar uma fileira de pragas. Nenhuma particularmente imaginativa, mas pronunciados com convicção. Sophia se aproximou da popa, atraída pela visão das irregulares velas cortando para eles. — Tem a vantagem do vento, Capitão. Ganha velocidade. Sem cores ainda, mas quase posso ver o nome do navio. Espere... o vento está virando. Ah — baixou sua luneta. — Seu nome é Sophia. O coração de Sophia deu um rápido baque. Não. Não pode ser. Certamente é só uma das cruéis coincidências da vida. — Devo enviar o alarme, Capitão? Preparar o canhão? — Não! — gritou Sophia. O Capitão e o oficial se viraram sobre seus calcanhares para enfrentá-la. — Eu... acredito que possa conhecer esse navio, senhor — olhou para o primeiro oficial. — Posso tomar emprestada sua luneta? Ela a tirou de sua mão sem esperar sua permissão, logo a colocou sobre seu olho e olhou atentamente o horizonte. Ali estava o veleiro. Através da lente, olhou para a proa do navio. Procurando entre suas velas, no convés. O foque lhe saltou à vista, caramba!Então, eles trocaram as velas e o navio se inclinou ligeiramente. Ela quase podia distinguir a figura de um homem na fortaleza. A seu lado, o primeiro oficial trocou o peso de seu pé. — Desculpe-me, senhorita, mas... — Levi! — uma muito alta figura entrou em seu foco de visão. Devia ser Levi, tão impossivelmente alto. Ela dirigiu a luneta para cima no arranjo, procurando... procurando... Quinn. Não havia dúvida em sua mente. O homem tinha presuntos onde deveriam estar seus punhos. Um tiro explodiu nas águas, e Sophia saltou. — Não — gritou. — Não devem abrir fogo! Eles não são piratas — se virou para olhar ao primeiro oficial. — Hã... eles poderiam ser piratas, de algum tipo. Mas lhe prometo, não são uma ameaça para este navio. — Esse foi seu disparo de sinal, senhorita — o primeiro oficial falou ao Capitão: 289


— Desejamos falar com eles, senhor? O Capitão resmungou. — Desejando ou não, parece que eles estão determinados a falar conosco. Enquadramento das vergas e vejamos o que ocorre, pois. O navio inteiro começou uma lenta e torta pirueta, e Sophia ficou tonta de antecipação. Realmente ele veio por ela? Ela supôs que Levi e Quinn poderiam ter conseguido emprego em outro navio. Talvez, Gray nem sequer estivesse a bordo. Apesar de seus melhores esforços para permanecer tranquila, não pôde evitar beliscar as faces e acomodar as mechas soltas de seu cabelo. Se só houvesse tempo para trocar o vestido. Os oficiais se dirigiram para a proa do navio e Sophia correu atrás deles. O castelo de proa estava cheio de curiosos marinheiros, obstruindo sua visão do veleiro enquanto este se aproximava. — Ah do navio! — gritou um marinheiro. — A fragata inglesa Polaris, partida faz dez dias de Antigua, rumo ao Portsmouth. — Ah do navio, para vocês! — era a voz de O'Shea, com seu áspero sotaque irlandês. Sophia jamais escutou música mais doce. — Este é o veleiro Sophia, de nenhum país em particular no momento. Partida faz sete dias de Tortola, rumo a ... bom, rumo aqui. O Capitão solicita permissão para abordar. Gray. Devia ser Gray. Os oficiais do Polaris trocaram cautelosos olhares. — Oh, pelo amor de Deus — Sophia abriu caminho até a amurada do navio e pôs as mãos ao redor de sua boca, gritando, — permissão para abordar concedida! Uma ovação se elevou do convés do outro navio. — Está bem, é ela! — gritou uma voz. A de Stubb, disse Sophia a si mesma. OH, mas mal lhe importava quem estivesse no outro convés. Só lhe importava a forte figura balançando-se através da brecha de mar, enquanto os dois navios se alinhavam. Voltando-se para o centro do navio, abriu caminho entre a suarenta massa de marinheiros, desesperada por chegar a ele. Seu pé se enganchou com uma corda, e ela tropeçou... Mas não importava. Gray estava ali para segurá-la. E ele ainda usava essas botas de mar, cheias de cicatrizes do fogo. Sem dúvida era por razões sentimentais. — Cuidado aí. — murmurou Gray, tomando-a pelos cotovelos. Ela elevou o olhar para encontrar seus lindos olhos azul esverdeados. — Peguei você. — Oh, Gray — Sophia se jogou entre seus braços, pendurando-se em seu 290


pescoço, enquanto ele ria e a fazia girar. — Está aqui. — Aqui estou. E ele estava. Cada forte, sólido, atraente centímetro dele. Sophia enterrou o rosto no pescoço de Gray, respirando seu aroma. Senhor, como sentiu saudades dele. Ela se afastou, apoiando as mãos nos ombros de Gray para estudar seu rosto. — Não posso acreditar que veio por mim. — Não posso acreditar que realmente partiu — a desceu para apoiar seus pés no convés, e as mãos de Sophia deslizaram por seus braços. — Pensei que estava fazendo um blefe dizendo isso. Jamais permitiria que se fosse. Sophia sacudiu a cabeça. — Não disse uma só palavra nessa corte que não fosse verdade. Já não queria mentir mais para você, Gray. Ainda se não podermos estar juntos... não podia ir sem te dizer a verdade. — Quem diz que não podemos ficar juntos? — ele franziu a testa. — Certamente deve entender. Estou arruinada, da maneira mais acabada. Você trabalhou tanto para recuperar o lugar de sua família, tem tantas esperanças para sua irmã. Se casar comigo, todos esses planos estarão arruinados também. Não posso te pedir isso — seus olhos caíram à sua lapela, e baixou a voz. — A menos que possa ficar como sua amante, talvez. Se mantivermos o acerto com discrição, não afetará Bel. É o que a sociedade esperará de mim, agora que sou uma mulher em desgraça. Gray pegou seu queixo e lhe levantou o rosto. — Jamais fale de você dessa forma — sua voz era feroz, seu olhar intenso. — E jamais refira-se a si mesma como minha amante novamente. Terei você como minha esposa, ou nada. Ela deixou cair as mãos a seus flancos. — Então, suponho que terá que ser nada. Gray amaldiçoou. — Honestamente acha que a segui ao meio do oceano para nada? — Mas e quanto a sua tia, suas conexões? Os projetos para sua irmã? Ele sacudiu a cabeça. — O único projeto que a Bel importa são os projetos de servir nos asilos de órfãos, dos quais lhe assegurei que Londres tem de montões. Ela só aceitou vir comigo depois que prometi que não lhe faria uma apresentação. Se alguma vez se casar, certamente o fará com algum qualquer, ou talvez com um lastimoso ferido de guerra. — Ela veio com você? 291


— Veja por si mesma — Gray assinalou para o convés de seu navio. Sim, ali estava ela. A mulher de cabelo escuro lhe dirigiu uma amável saudação com a mão. Sophia se deu conta repentinamente de quanta gente os estava olhando, em ambos os navios. Ela limpou a garganta. — E quanto a seu irmão? — Joss? Ele trará o Afrodite à Inglaterra, uma vez que se ocupar de sua carga. Depois disso, está pensando em estudar leis. Eu dirigirei os negócios da naval, Bel terá suas obras de caridade. A família estará reunida; isso é o importante — sorriu. — O Senhor Wilson aceitou administrar sua cooperativa açucareira, no caso de que esteja se perguntando isso. A esperança revoou em seu peito. — Está seguro de que quer se casar comigo? Agora estou bastante na miséria, perceberá. Gray riu. — Olhe esse navio. Esse veleiro me custou o resgate de uma rainha, mesmo quando o Kestrel entrou no trato. Mas era o navio mais rápido que se podia ter — pegou as mãos de Sophia entre as suas. — Esquece o dinheiro. Esquece a sociedade. Esquece as aspirações. Nós não temos talento para seguir as regras, recorda? Nós temos que seguir a nosso coração. Você me ensinou isso. Gray a aproximou até ele, levando as mãos de Sophia a seu peito. — Deus, querida, não sabe? Tem meu coração em seu bolso desde o dia em que nos conhecemos. Seguir a meu coração significa seguir você. Eu a seguiria até o fim do mundo, se tivesse que fazê-lo — dirigiu um divertido olhar ao Capitão. — Embora espere que seu bom capitão prefira que não o faça. De fato, acredito que ele alegremente nos casaria hoje, tão somente para desfazer-se de mim. — Hoje? Mas não podemos... As sobrancelhas de Gray se elevaram. — OH, mas podemos — ele a levou para o outro lado do navio, um pouco mais longe da enorme multidão. Envolvendo os braços ao redor dela, inclinou-se mais perto para lhe murmurar ao ouvido: — Feliz aniversário, amor. Sophia se derreteu em seu abraço. Era seu aniversário, certo? O dia que esteve esperando por meses, e aqui estava ela, esquecendo-o completamente. Até que Gray apareceu no horizonte, não esteve ansiosa por nada. Mas agora o estava. Esperava ansiosa o matrimônio, filhos, e amor, e uma 292


grande aventura. Vida real e paixão verdadeira. Tudo isso, com este homem. — OH, Gray. — Por favor, diga que sim — sussurrou ele. — Sophia — o nome era uma carícia contra seu ouvido. — Eu te amo. Ele beijou a face de Sophia e se afastou. — Fui negligente ao não lhe dizer isso. Não pode saber quanto o lamentei. Mas te amo, Sophia Jane Hathaway. Amo você como nenhum homem jamais amou a uma mulher. Amo você tanto, que temo explodir com tanto amor dentro de mim. De fato, acredito que explodirei se passar outro minuto sem que a beije, assim, se tiver a intenção de dizer que sim, agradeceria que... Sophia envolveu os braços ao redor de seu pescoço e o beijou. Forte ao princípio, para acalmar ao tolo homem; logo brandamente, para saboreá-lo. OH, como amava seu sabor, como de pão recém-assado e rum. Quente e saudável e reconfortante, com um pingo justo de picante e periculosidade. — Sim — suspirou contra seus lábios. Inclinou-se para trás e o olhou nos olhos. — Sim, casarei com você. Os braços de Gray se apertaram ao redor de sua cintura. — Hoje? — Hoje. Mas primeiro deve deixar que eu troque o vestido — sorrindo, Sophia acariciou sua suave face. — Se barbeaste. — Cada dia desde que partimos de Tortola — lhe lançou um sorriso compungido. — Tenho novas cicatrizes que o demonstram. — Bem — ela o beijou. — Me alegro. E não me importa se a sociedade nos proscreve por sermos os piratas que somos, enquanto estiver com você. — OH, não sei se seremos excluídos exatamente. Definitivamente, não somos piratas. Depois de seu comovedor testemunho... — lhe deu um tapinha na face, — Fitzhugh decidiu fazer o melhor que podia com uma situação insustentável. Ou com um pirata ao que não podia enforcar, como era o caso. Se ele não podia avançar em sua carreira me condenando, acreditou que o faria me recomendando. Premiou-me com o Kestrel por tê-lo salvado e me recomendou com o Governador para uma menção especial de coragem. Até falam de me dar um título — sorriu. — Pode acreditar nisso? Eu, um herói. — Claro que acredito — cruzou os dedos atrás da nuca de Gray. — Sempre o soube, apesar de que deveria amaldiçoar a esse juiz e sua "menção a coragem". Como se você necessitasse uma nova cota de arrogância. Só recorda, o que seja que o considerem, cavalheiro ou patife, herói ou pirata, 293


você é meu. — Sim, sou. — a beijou sonoramente, apaixonadamente. — E a quem prefere esta noite? — ante o sedutor grunhido em sua voz, estremecimentos de excitação escorregaram até seus pés. — A seu cavalheiro? Seu patife? Seu herói ou seu pirata? Ela riu. — Imagino que em sua oportunidade desfrutarei dos quatro. Mas esta noite, acredito que encontrarei enorme felicidade em te chamar simplesmente "meu marido". Ele descansou sua testa contra a dela. — Meu amor. — Isso também.

Epílogo

Londres, cinco semanas mais tarde... Sophia não esperava que ninguém a visitasse hoje. Fizeram sua silenciosa chegada à casa da cidade de Gray tão somente uns dias antes, e as duas únicas cartas que ela enviou, uma a sua mãe e outra a sua irmã, até agora não foram respondidas. Era muito cedo para esperar uma resposta. Mas aí estava Hurst parado na entrada, com um cartão na bandeja. — Uma visita para você, milady. Lady Lucinda Trescott, Condessa de Kendall. — É você — Lucy rodeou ao criado, entrando no salão. — Escutei que estava de volta, mas não podia acreditar até não ter visto eu mesma. — Lady Kendall — assombrada, Sophia ficou de pé, como Bel. — Me permita que a apresente a minha cunhada, a senhorita Grayson. Mas como sabia você que eu estava aqui? — Temos que ser tão formais, então? Devo te chamar Lady Grayson? — com um gesto amável para Bel, Lucy cruzou a sala e tomou Sophia em um exuberante abraço. — Jeremy soube da menção de seu marido. Assim foi como soube que estava aqui — olhou a Sophia dos pés a cabeça. — Agora me diga, onde esteve? — Visitando seu primo, em realidade — a atenção de Sophia se voltou para o estranho vulto que obstruía seu abraço. — Lucy, está esperando um filho! 294


Sorrindo, Lucy apoiou a mão de Sophia sobre seu arredondado ventre, pressionando sua própria mão contra o ventre plano de Sophia. — E você não o está. Ao menos, não que se note. Não, não que se note. Sophia sorriu, mantendo suas suspeitas para si mesma. — Bom — disse Lucy, — isto desiludirá aos mexeriqueiros. Ante a menção dos mexeriqueiros, Sophia se encolheu. — Lucy, você nem sequer deveria estar aqui. Uma condessa não pode estar associada a semelhante escândalo. — Escândalo? Seu esposo está para ser cavalheiro. Estão o fazendo parecer como ao Lancelot, Robin Hood, e Lorde Nelson, todos em um. Serão hóspedes de honra em cada mesa de Londres — Lucy torceu o pescoço para espiar pelo corredor. — Onde está essa lenda viva, de todas maneiras? — Gray? Está em seu escritório da companhia naval — Sophia indicou a sua amiga uma cadeira. — Mas ainda se ele estiver por receber uma recomendação, certamente eu não serei bem-vinda à maioria das mesas. Estou arruinada, da forma mais completa. — Por que rompeu seu compromisso? — Porque fugi com um francês fictício! — Refere-se ao Gervais? — riu Lucy. — OH, ninguém sabe sobre isso. Seus pais disseram a todos que caiu doente e foi enviada à costa para se recuperar. Poderia ter alguns rumores indicando o contrário, mas o fato de que se apaixonasse loucamente por um heroico capitão, corrobora muito bem essa lenda. Apaixonou-se loucamente por ele, não? Sophia assentiu com a cabeça, entorpecida de assombro. Podia ser verdade? Seus pais, sua irmã, seu abandonado noivo, seus amigos... todos mantiveram em segredo sua fuga? — OH, sabia! — aplaudiu Lucy. — Deve me contar isso tudo. — Talvez outro dia — Sophia dirigiu um olhar a Bel. — Já vejo — sussurrou Lucy, seguindo seu olhar. — A história é assim de boa, não? Bom, suponho que pode ficar para outra visita — lançou a Sophia um olhar calculista. — Se é que foi arruinada, devo dizer que isso combinou com você.Parece muito bem. — E a gravidez combinou com você. Está radiante. Lucy fez um gesto com a mão, tirando importância, mas a observação era correta. Ainda quando Sophia jamais poderia ter dito antes que sua amiga era uma grande beleza, merecia o termo agora. 295


A gravidez arredondou seus afilados traços e seu cabelo marrom escuro definitivamente brilhava. A criada entrou, trazendo uma bandeja carregada com o serviço de chá e refrescos. — Isabel, seria tão amável em servir? — pediu-lhe Sophia. — Certamente. Enquanto a jovem dama se ocupava das xícaras, Sophia colocou sua cadeira mais perto da de Lucy. — Como está Toby? — sussurrou-lhe. — Não posso acreditar que jamais disse uma palavra a respeito de Gervais, quando tinha todos os motivos para me humilhar publicamente e exigir uma restituição. Sentiu-se horrivelmente magoado quando eu parti? — Qual é a resposta que espera ouvir? Que ele agonizou terrivelmente de amor por você, ou que já se esqueceu? — Lucy apoiou uma mão sobre a de Sophia. — Ele sofreu, mas acredito que a ferida de seu orgulho foi mais profunda que a de seu coração. Além disso, ele é muito bom para humilhar a alguém ou exigir restituições. Ele e Felix a procuraram por toda a Inglaterra. Os deixou bastante ansiosos, sabe? A culpa deu um baque no peito de Sophia. — Como todos vocês devem ter me odiado. Lucy deu um breve apertão em sua mão. — Quão agradecidos estamos todos de tê-la novamente em casa, a salvo. Estou segura de que sua família sentirá o mesmo. Como poderiam queixar-se? Agora terão um título na família, tal como sempre quiseram. Bel interrompeu sua conversa, uma xícara e um pires balançando-se em cada mão. — Senhorita Grayson — perguntou Lucy, aceitando sua xícara, — você fará sua apresentação nesta temporada? — Oh, não — Bel estendeu a outra xícara a Sophia. — Talvez devesse reconsiderá-lo — animou Sophia, pensando nas possibilidades. — Acreditávamos imprudente uma apresentação formal — disse a Lucy, — dada minha situação. Mas se o escândalo verdadeiramente se conteve... Bel pode aspirar tão alto como quiser. Até poderia casar-se com um Lorde, se ela o desejar. — Mas eu não quero me casar com um Lorde — protestou Bel. — Não, não o quer — Lucy pegou um pastelzinho. — Não é nem de perto tão divertido como parece. As pessoas têm tão aborrecidas expectativas. Desde que meu marido assumiu sua cadeira na Câmara dos Lordes, foi uma coisa atrás da outra. 296


Sempre estão me pedindo que apoie às damas nisto e aquilo de sociedade de beneficência ou que compre ingressos para alguma noite musical. — Seriamente? — Bel sorveu seu chá, tornando-se pensativa. — Jeremy me dá mais dinheiro de que sei o que fazer com ele, assim naturalmente apoio todas as causas. Mas pior, as pessoas permanentemente estão pedindo minha opinião em assuntos elevados, como se eu entendesse de tarifas ou essas coisas. Eu trato de sorrir e mudo de tema, mas insistem em me atribuir uma ridícula quantidade de influência, só porque meu marido se acotovela com uns antiquados membros do Parlamento. — Lucy mordeu o pastelzinho. — O que quer que você faça, não se case com um lorde. — Que conselho interessante — Bel apoiou sua xícara. Sophia tocou o pulso de Bel. — Só estamos brincando. Deve se casar por amor. Seu irmão não o aceitará de outra maneira. — Se for assim, duvido que me case em absoluto — disse Bell. — Meu coração já está tão cheio de devoção para minha família e de minha paixão pelo trabalho de Deus. Não pode haver lugar para o amor romântico também. — O coração não é o único órgão comprometido — Lucy dirigiu um sorriso torto a Sophia. — Talvez possam me persuadir a me casar — continuou Bel, — se pudesse encontrar um homem de transcendência e princípios, que possua um entusiasta senso de justiça e compartilhe minha paixão pela caridade... — Espero que encontre semelhante homem — disse Sophia. — Mas Bel... para ter um matrimônio feliz, duas pessoas devem compartilhar a paixão por algo mais que a caridade. — Seriamente? Como o que? Lucy começou a rir e Sophia não pôde evitar unir-se a ela. — Não, seriamente — insistiu Bel, passando seu olhar de uma à outra. — Me digam o que significa isso. — Senhorita Grayson, não tema — disse Lucy. — Nós ampliaremos sua educação — e olhou a Sophia. — Ainda conserva O Livro? Sophia se engasgou com seu chá. Sob nenhuma circunstância ela ia permitir que a irmã de Gray desse sequer um olhar a esse livro, não depois do que desenhou nele. — Bom — se evadiu ela, evitando o inquisitivo olhar de Lucy, — você sabe, não é... A governanta a salvou, graças a Deus. — Desculpe, milady. Há um assunto urgente que requer sua atenção — a 297


senhora Prewitt fez um gesto enigmático e desapareceu no corredor. Aliviada, Sophia se desculpou com Lucy e com Bel enquanto ficava de pé. No momento que alcançou o corredor, entretanto, a governanta tinha desaparecido. Franzindo o cenho, dirigiu-se para a parte traseira da casa. Talvez houvesse algum problema na cozinha, ou com o distribuidor de carvão. Enquanto passava pela porta do escritório de Gray, um braço familiar, musculoso, lançou-se para o corredor, agarrando-a pela cintura. Rindo, ela tropeçou para o escritório, encontrando-se rapidamente presa entre os painéis de nogueira pelas costas e um quente e sólido homem em frente a ela. Desde seu casamento, ou desde o dia na despensa do Kestrel mais exatamente, Gray parecia achar uma provocação irresistível em apanhá-la despreparada em qualquer lugar impensado e envolvê-la em um febril abraço. Sophia não tinha nenhum desejo de desanimar o hábito, mas este não era o momento ideal para um encontro. — Gray — o repreendeu Sophia entre beijos, — o que está fazendo. — A governanta disse que havia um assunto urgente que requeria minha atenção. — E assim é. Eu requeri sua atenção. Da maneira mais urgente — suas mãos deslizaram a seu traseiro, e a levantou facilmente, segurando-a contra a parede com seus quadris. As bordas do revestimento de madeira se cravaram em sua coluna. — Não acredito que tenhamos usado este cômodo ainda — murmurou Gray, mordiscando a curva de seu pescoço. — Estou entretendo — protestou Sophia. — Sim, está — disse ele, esfregando-se contra ela. — Entretendo extremamente. Sophia suspirou com prazerosa exasperação. — Refiro-me a que tenho uma convidada. Lady Kendall está na sala, com Bel — apoiou seu braço contra o peito de Gray, pondo certa distância entre eles. — E pensei que estava em seu escritório da naval. — Sim, bom... — a malícia brilhou em seus olhos. — Decidi, em troca, ir cavalgar. — Cavalgar? Onde? Afrouxando seu aperto no traseiro da Sophia, ele a deslizou até que seus pés tocaram o chão. — Por Kent. Ela conteve a respiração. Não havia nenhuma razão para que Gray fosse a Kent, não a menos que fosse visitar ... — Gray, você não o fez? — Fiz — sua expressão se tornou séria. — Não se incomode, querida. Sei que 298


os tem escrito, mas... senti que devia isto a seu pai, ir visita-lo e emendar as coisas com ele, de frente. Assim o fazem os homens, você entende? Ela assentiu, um nó de ansiedade formando-se em sua garganta. Não teria pedido que visitasse seu pai, mas entendeu por que o fez. Não era só a forma dos homens, era a coisa honorável por fazer, e portanto, ela sabia que Gray não poderia tê-lo feito de outra forma. Ele realmente era o melhor dos homens. Com dedos trementes, ela alisou a gola de seu casaco. — Posso te perguntar como o receberam? — Com receio, ao princípio. Logo, de alguma forma, beligerantes — arqueou uma sobrancelha. — Mas minha recepção melhorou notoriamente, uma vez que estendi um convite a uma festa, com jantar, na residência de minha tia. Um sorriso triste curvou os lábios de Sophia. Sim, essa teria sido a reação de seus pais. Jantariam com o próprio demônio se uma duquesa assistisse ao mesmo jantar. — São espantosos, certo? Ele deu de ombros. — Não o é a família de todos? Duvido que seu pai e eu sejamos grandes amigos, mas sim descobrimos um interesse em comum. — Qual é? — Você — uns fortes dedos pegaram seu queixo. — Ambos queremos vê-la feliz. Ambos a amamos. Por um momento, Sophia não acreditou poder falar. Alívio e alegria cresceram dentro dela, até que não houve lugar para nada mais. Os lábios de Gray acariciaram os dela em um suave beijo. — Estou perdoado por não lhe ter dito isso antes? Sim, sim. Perdoado, querido, entesourado, adorado. Amado, além da razão. — Suponho — disse ela coquetemente, riscando a linha de sua mandíbula com as pontas dos dedos. — Assim que me faça extensivo o mesmo perdão. — Por quê? — seus olhos se entrecerraram. — Esteve guardando segredos outra vez? — Só um — sorrindo, Sophia pegou a mão de Gray e a pressionou significativamente contra seu ventre ligeiramente arredondado. — Um muito, muito pequeno. *_F I M_*

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Tessa dare trilogia the wanton dairymaid 02 a rendição de uma sereia  
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