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Trabalhos Literários Davi L. Ramos

01. Edifício Solidão.......................................... argumento.................

p. 02

02. A Voz....................................................... conto..........................

p. 18

03. Obara da Floresta.........................................

conto..........................

p. 23

04. O Fim do Mundo Parte 1.................................

crônica.......................

p. 25

05. Dudu e Eu..................................................

crônica.......................

p. 29

06. Inverno......................................................

fragmento..................

p. 36

07. Sonhos......................................................

fragmento..................

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EDIFĂ?CIO SOLIDĂƒO1 por Davi Ramos

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Argumento para roteiro de longa-metragem. Premiado e executado por meio de edital de Desenvolvimento de Roteiros .(FUNCEB 2008) 2


“Edifício Solidão” Os trechos em itálico representam partes explicativas. O texto normal é a história contada por Pedro. Pedro, 25 anos, é negro, magro, de estatura mediana. Veste camisetas pouco chamativas, sem estampa, uma calça jeans desbotada e sempre o mesmo tênis. Seu andar é calmo e a fala tranqüila, quase apática. Ele nunca sorri, pois faz o tipo pensativo, que vive no mundo da lua, entre pensamentos que o consolam ao mesmo tempo em que o afastam de um mundo que ele sente como inseguro e hostil. É o nosso protagonista, e a partir de agora é ele quem vai contar essa história.

O Editor me olha pensativo, a mão no queixo, bolando bem o que vai falar. Eu já sei a resposta, mas permaneço ali, tentando parecer calmo enquanto uma gota de suor desce de minha testa e meus dentes trincados arriscam me dar uma dor de cabeça. “Olha...”, ele diz. Difícil escutar o resto. O texto é muito bom, mas o espaço está ocupado e eu devo, naturalmente, aguardar um contato em momento mais propício. Agradeço educadamente e saio. Eu moro no Edifício Solidão. O nome mesmo do prédio caiu, mas eu o chamo assim porque todo mundo que mora aqui acaba ficando sozinho. Como uma maldição. É um lugar nem muito velho nem muito novo, nem muito bom e nem muito ruim. Junto da entrada há uma abertura onde funciona uma copiadora. A menina que faz as cópias se chama Laís, tem 17 anos, mas ainda é meio criança. Ives é meu vizinho. É branco, pequeno, magro e de cabelos escuros. Seus gestos são exagerados e ele fala de forma espalhafatosa, sempre colocando uma entonação a mais para enfatizar o que diz. Usa roupas pretas e tem um spike no braço. Estamos no terraço, e de lá vemos outros prédios médios e antigos, tetos de telhado e o céu azulão de uma manhã comum em Salvador. Ele fuma cigarro e me pergunta do meu livro (“até agora nada”... eu respondo). Ele conta da mulher, Patrícia. Diz que está traindo ele com a ex-namorada. A ex dele, não dela. É complicado. 3


Samuel trabalha com arte. Ele é branco, loiro e meio gordinho. Fala trocando o som de “s” pelo de “x”, o que lhe confere um tom engraçado. Age, no entanto, de forma desembaraçada, como se não tivesse qualquer problema de fala. Nas paredes, no chão e sobre os móveis ─ em cada canto de seu pequeno apartamento há um amontoado de quadros e objetos feitos por ele. Samuel mostra seu último trabalho na técnica de ORIGAMI: uma grande corda com uma fileira de pássaros de diversas cores. Ele comenta o preço dos pincéis. Fala muito, com uma empolgação leve, juvenil. Tudo muito bonito. Eu tento mostrar interesse, mas é difícil. Samuel estudou artes plásticas e agora mora sozinho, sobrevivendo de bicos e eventuais vendas de quadros. De vez em quando vem uma senhora bem vestida, que sempre sai com um. Diz Samuel que já expôs em Moscou. Sei não. Samuel não tem cara de Moscou.

Silvana, minha namorada, é branca, alta, cabelos escuros. Quando a gente ficou junto a primeira vez eu me achei o cara mais feliz do mundo. Era a mais bonita na faculdade (depois descobri que ela pensava o mesmo). Estamos na casa dela. Ela se arruma e me pergunta se eu gostei. Digo que sim. Ela troca de roupa. “Sim, mô. Tá linda.”.

Levo Silvana ao cinema. É um filme de amor. Encosto nela, dou um beijo no pescoço e a abraço. Ela não se move ─ tem um rosto frio de mármore. Puxo assunto no ônibus. “É, o filme é legal...”, ela responde. E continua olhando pela janela, como quem procura por algo que, obviamente, não está do lado de dentro.

Seu Zé é o porteiro do Edifício. Ele é jovem, negro e usa uniforme azul clássico. Tem um violão velho meio acabado, que está sempre tentando tocar. “Boa Noite, Seu Zé”. “Noite, seu Pedro...”. Subo as escadas. Falo de Silvana para Samuel. Ela tem estado fria, distante. Me preocupo. Samuel me dá um origami, o mais bonito da mesa. Guardo no bolso.

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Vou com Ives até a lavanderia, dividindo com ele a carga de roupas. Faz calor, mas ele usa uma camisa preta de mangas longas. Mesmo com as mãos ocupadas, consegue tirar um cigarro do bolso e o acende. Fala com o cigarro na boca. Me conta sobre um amigo dele que eu não conheço (“Sabe o Igor? Aquele, do cabelo rasta?”), diz que o cara tentou se matar. “Pire aí, o cara se jogou do quinto andar, de cabeça. Jeito idiota de se matar, né? Quinto andar. Virou vegetal”. Eu concordo. “Fosse eu, não dava chance. Me jogava logo do último andar, pra não ter erro”, ele diz. Olho para Ives assustado. Chegando na lavanderia, tiramos as roupas das trouxas. Quando Ives coloca um bolo de roupas em uma máquina, a manga da camisa encurta e eu vejo que o braço dele está cheio de cortes retos e precisos. Como os que alguém faz em si mesmo. Pergunto o que é aquilo. Ele cobre o braço com a manga e não diz nada. Continua a colocar as roupas na máquina.

Vou até o trabalho de Silvana, com a desculpa de dar o ORIGAMI para ela. Ela usa um jaleco branco alvíssimo e não me olha nos olhos. Vamos até o refeitório. Faço menção de pegar o origami no bolso. Ela diz: “precisamos conversar”. Não lembro de mais nada. Só entendo muito rapidamente que aquilo é o fim, e que eu não sou mais bem vindo. Me levanto, apertando de leve o origami no bolso da camisa. No meio do caminho, me viro e volto até ela. Dou-lhe um beijo na boca, mas encontro de novo a estátua de mármore. Saio resignado.

O Edifício Solidão parece assustador, e não consigo entrar. Dou meia volta e ando pela rua, entre o meio fio e os carros. Fica de noitinha. Na contramão, me distraio com os faróis que me cegam os olhos, na esperança de me perder num clarão daqueles. Volto derrotado. Seu Zé arranha notas perdidas no violão. Subo as escadas. Do apartamento de Ives, ouço briga de casal e choro de criança. Passo direto, sem dar atenção... aquilo sempre acontece. Deito e ligo meu abajur. Não durmo. Os berros da casa de Ives são um saco.

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Acordo cedo, decidido a recuperar Silvana. Saio bem arrumado. Compro rosas, as mais caras. A dona da loja olha para mim compadecida, mas ela tem flores para vender e não vai desaconselhar meu desatino romântico. No caminho, todos reparam no idiota com o buquê de flores.

Toco várias vezes na casa dela, que fica numa rua tranqüila em estilo antigo. Silvana abre o portão e eu entro ─ ficamos na frente da casa. Está completamente bêbada. Minha sogra aparece e comenta: “como ele está bonitinho”. Silvana olha para a mãe com raiva intensa e ela entra, miúda. Sentamos na escada. Eu coloco o buquê de flores no colo dela e digo que a gente ainda pode tentar, que vale a pena, essas coisas. Mas ela não consegue completar uma frase. Passa a mão em meu rosto, sem dizer nada. Eu noto uma marca de mordida em seu pescoço. Tiro o buquê de flores do seu colo, me levanto e saio. Antes de ir, olho para trás. Ela dorme com a cabeça caída entre as pernas.

Eu, Ives e Samuel estamos bebendo em um bar de cadeiras de plástico. Estou com a mesma roupa. O buquê está amassado e escangalhado em cima da mesa. Muitas garrafas de cerveja vazias. Conversamos sobre o amor, todos com boas definições e bons argumentos, mas sempre no clímax do pensamento de um o outro interrompe com uma opinião escancaradamente esdrúxula, machista e politicamente incorreta. Além da nossa, só há mais uma mesa ocupada. Uma mulher repara em mim. Ives me convence e eu vou até ela, mas dou meia volta antes de falar qualquer coisa. A mulher fica sem entender nada.. Não sou do tipo que faz isso. Sento novamente e viro um copo de cerveja. “Essa é a noite da depressão, e eu não vou estragar”, digo. Voltamos os três completamente bêbados, falando asneiras e cantando músicas tristes até chegar em casa.

É um outro editor, mas poderia ser o mesmo. Tem a diferença de ser muito gordo, e por isso, quando levanta para me cumprimentar, eu dou um passo atrás para abrir espaço. Ele não percebe. Olha nos olhos e me pergunta se eu 6


passei por aquilo tudo que está escrito. Respondo que sim. Entra na sala um homem branco, alto. Parece uma cópia barata de Clark Kent. O cara pega meu artigo e diz, entreolhando o chefe: “Acabei de checar, e esse lugar que você falou não existe. As cenas foram roubadas de jornal, tudo que ele fez foi ligar tudo”. O Editor olha para mim, esperando uma resposta. Pego meus papéis e vou embora.

No dia seguinte, um carro de mudanças descarrega na frente do prédio. Vejo, no corredor, que os pacotes chegam para o apartamento ao lado do meu. Desço as escadas, ainda com sono. Na portaria, Seu Zé, Ives e Samuel olham a mudança chegar. Seu Zé: “tem cara de sê mulé”.

Bato no apartamento de Maria. Ela abre – tem 27 anos, é negra, muito bonita. Usa um vestido florido, de tecido. Fala de modo simples, mas correto. O tom é doce e cativante, sem traço de amargura. Não é alegre, porém. Invento uma desculpa qualquer e saio, tímido. Ives tenta conversar com ela, que o deixa entrar no apartamento. Só que ele, com seu temperamento expansivo, acaba falando tanto que não se ouve uma palavra de Maria. Ele sai, e diz, somente: “Ela é linda”.

Maria desce as escadas vestida lindamente. Samuel olha para ela, que CORRESPONDE AO OLHAR, por um longo tempo. Ela passa por nós e vamos até a porta para espiar. Chega um carro preto e Maria entra nele. Acende-se a luz interna: o motorista é RODOLFO, namorado de Maria, um homem branco, 40 anos, vestindo paletó. Se beijam. O carro sai, e nós, cães sem dono, ficamos a olhar.

Vou à copiadora fazer uma cópia do meu livro. Entrego para Laís, que pega com muito cuidado. Entre uma página e outra ela olha para mim, mas eu nem reparo. “Mais tarde eu pego”, digo sem olhar.

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Na portaria, Samuel fuma um cigarro. Ives tenta ensinar uns acordes de Trem das Onze para seu Zé, mas o resultado é pífio. Seu Zé, de modo engraçado, conta as peripécias sexuais de um caso que teve com uma mulher da rua, mas Ives não acredita (“... mas oito assim, direto? Que pilha é essa...”). Passo por eles, os cumprimento e subo as escadas lentamente. Entro em meu quarto e sento no computador para escrever um pouco. O cursor pisca sem que eu digite qualquer palavra. Me levanto, tomo um café. Sento no computador, leio o que escrevi e me levanto. Me deito e olho para o teto. Me levanto novamente, sento na cadeira, e escrevo: “Era uma noite fria...”. Tomo um gole de café. Me levanto e vou até um dicionário. Acho a palavra, me sento novamente e completo, batendo nas teclas com cuidado, como se escrevesse algo de grande importância: “Era uma noite fria e tempestuosa”. Ouço um carro se aproximando. Pela janela, eu vejo: é o Rodolfo, que traz Maria de volta. Ela entra no prédio, a ouço subir as escadas. Vou até a porta e, na hora em que ela chega, abro. Olho pra ela e peço: “sal”. Ela me olha esquisito: “Sal? Agora?”. “É, tô precisando. Eu gosto de cozinhar assim, de noite...”. Maria sorri, entra no apartamento e volta. Me entrega um saquinho de tecido amarrado com uma fita delicada. Deito e coloco o saquinho em minha cabeceira, com a certeza de que ele nunca será consumido no meio da alimentação comum.

Na portaria, Seu Zé toca os primeiros acordes de Trem das Onze, com a ajuda de Ives. Chamo ele em um lugar reservado, e confesso que estou apaixonado. “Por quem?”, ele pergunta. “Maria”, eu respondo. Ives se espanta e, depois de uma longa pausa, diz: “eu também”.

É uma reunião com um editor. Ele tem o meu livro, Edifício Solidão, 300 páginas encadernadas, em cima de sua mesa. É branco, um pouco gordo, usa terno e gravata. Me explica os motivos pelos quais não vai publicar meu livro. Diz que se trata de material muito bem escrito, de alta profundidade emocional, mas acha que é pouco vendável, muito pessoal e descritivo demais. Depois do papo furado de sempre, ele me olha nos olhos e pergunta: “Aquela 8


parte, a da estação, aconteceu mesmo?”. Eu olho para ele e, constrangido, balanço a cabeça afirmativamente. “Eu sabia, eu sabia!”, ele responde. Quando levanto, ele me pergunta: “posso ficar com esse aqui?”. “Faz como você quiser” – eu respondo, já de saco cheio, me levantando.

Passo no mercado e encho um carro de bebidas, biscoitos, salgadinhos e chocolate. Parecem as compras de uma criança alcoólatra. Chego na seção de frutas. Quando olho para o lado, vejo Silvana, de longe. Bonita e bem vestida, ela escolhe tomates. A observo por algum tempo, e percebo, em seus gestos, uma graciosidade que ainda me encanta, e é de certa forma hipnotizado que me dirijo até ela. Ela se surpreende ao me ver, e parece se condoer de meu estado: estou sujo, cansado e mal vestido. Pergunto como ela está, e ela me responde com um vago “estou bem, e você?”. Conto que meu livro acabou de ser recusado por mais um editor, e passo a enumerar os mesmos insuportáveis motivos de sempre (e que, é claro, nunca passam pela minha falta de talento). De repente, vejo chegar aquele mesmo Clark Kent, o idiota que me destratou na sala de um editor. Tento ignorar sua aproximação, continuando a destilar meu arraial de lamúrias. O Clark Kent continua se aproximando insistentemente, até que parece querer passar por onde está Silvana. De forma surpreendente, ele não só não passa como a abraça pela cintura, e pergunta, com uma caixa de leite na mão: “integral ou desnatado?”. Viro para ele, já possesso, e respondo: “é desnatado”. Silvana nos apresenta, dizendo “Esse é Tadeu”; eu dou um sorriso amarelo e saio de perto, achando que me despeço, mas na verdade resmungando e me distraindo com rótulos que não me interessam. Vou direto para o caixa e passo minhas compras. Sem saber exatamente o porquê, me escondo em um canto do estacionamento. Os vejo sair e, como quem não quer nada, vou ao encontro deles, com as compras na mão. “Encontrei você de novo”, eu digo. Silvana dá um sorriso tão amarelo quanto o meu, e eu agora os devo estar assustando. Depois de algum tempo, digo artificialmente “então tá, boa sorte. Já vou indo...”. E me afasto. No meio do caminho, porém volto para eles correndo e jogo um saco de compras em cima de Tadeu. Uma dúzia de ovos explode, misturando-se à vodka com a qual 9


dividia o saco. Ele cai no chão e eu chuto sua barriga, até que os freqüentadores do mercado começam a reparar. Vendo a aproximação dos seguranças, me dirijo para fora e saio, primeiro andando e depois correndo. Antes de ir, ainda olho para trás e vejo Silvana, agachada junto a Tadeu. Ela olha para mim, estarrecida.

Chego em casa e olho a pilha de papéis na mesa, perto de meu computador velho e vagabundo. Abro o blog e escrevo: “Fui recusado mais uma vez...”. Ouço um barulho de porta de carro batendo, e vou até a janela. Na ponta da rua, o carro de Rodolfo aparece. Maria se afasta do carro, que a segue. Não se ouve a conversa, mas percebe-se que Maria discute com Rodolfo, e ele pede que ela entre no carro. Maria chega até a frente do prédio e Rodolfo sai. Discutem. Maria tira uma jóia que usa no pescoço e joga no chão. Entra no prédio chorando. Rodolfo observa ela entrar. Olha para cima, se certificando de que ela não o vê. Pega a jóia no chão, entra no carro e sai tranqüilamente. Ouço Maria chorando pelo corredor. Ela bate a porta com força. Colo o ouvido na parede e a ouço chorar.

Acordo cedo e vejo Maria saindo com um grande saco de roupas. Ela deixa na portaria e fala algo com Seu Zé. A sigo. Pergunto pra quem é aquilo. Ela me olha friamente, e me pergunta se eu sou sempre enxerido desse jeito. Ainda assim, ela não o faz com ódio ou raiva, mas como alguém que se esforça em definir limites.

De manhã, conto a Ives que Rodolfo e Maria não estão mais juntos. Ives sobe as escadarias e entra no apartamento dela. Pelo lado de fora, ouço a voz doce de Maria. Subitamente, Ives abre a porta do apartamento e sai, andando cabisbaixo. Maria tem os olhos marejados. Balança a cabeça em negativa. Enquanto isso, Ives sobe as escadas, lento e pesaroso, olhando para o chão, a face do abatimento. Noto a ausência dele e, por intuição, vou até o terraço. Chegando lá, Ives está na borda, chorando de forma ridícula e exagerada. Ele quer se jogar. Me aproximo com cuidado, tentando convencer Ives a não fazer 10


nenhuma besteira. Ele só chora muito, sem conseguir falar. Quando estou perto, faço um movimento em sua direção. Ives se assusta e se joga, querendo fugir. Puxo ele pelo cinto e caímos os dois no chão. Maria surge no alto escada, com os olhos marejados. Ives se levanta e vai até ela, que o abraça e o conduz até seu apartamento. Anoitece. Impaciente, vigio a porta de Maria.

É dia. Converso com Ives no terraço. Estou desconfiado, com raiva contida. Ives fuma um cigarro, devagar. Peço satisfações a ele a respeito do que aconteceu na noite anterior, no quarto. Com respostas evasivas, Ives dá a entender que aconteceu algo entre ele e Maria, mas que foi tão profundo que prefere não falar. Pergunto sobre a mulher dele. Ainda mais evasivo, Ives responde que ela está em casa e não quer mais sair. Em tom de desafio, mando ele me mostrar sua mulher, já que ninguém a vê há semanas. Ives, a contragosto, me leva até o apartamento dele.

Quando Ives abre a porta, vê-se que, à exceção da TV desligada e uma poltrona, está tudo completamente vazio, sem móveis, sem nada. Ives me convida para entrar, e diz que a mulher deve estar dormindo no quarto. Olho o quarto de relance, e vejo que está igualmente vazio. Acendo uma luz e percebo que a energia foi cortada. Ives foi abandonado. Ele senta na poltrona e liga a TV. “Senta aí no sofá”, ele diz. Mas o sofá não existe. Sento no chão e assistimos à TV desligada. Ives fuma um cigarro.

Mais tarde, eu me arrumo e bato na porta de Maria. Tenho uma caixa de bombons em uma das mãos, e pergunto: “muito brega?”. Ela ri e pega a caixinha. O dia está nublado. Andamos em um parque, e ela come os bombons. Um velhinho joga pedaços de pão para os pombos, que comem. Um dos pombos pega um pedaço maior e corre dos outros, se exibindo. Maria ri e eu ESBOÇO UM SORRISO. Um casal de velhinhos anda de mãos dadas. Parecem conosco. Digo a Maria que acho aquilo lindo, duas pessoas conseguirem se agüentar e se gostar por tanto tempo. Maria olha para mim e 11


sorri. Ela fala pouco. Dou a Maria o ORIGAMI de Samuel. Ela agradece, e seus olhos brilham enquanto olha para o origami. Quando Maria me pergunta quem fez, RESPONDO QUE FUI EU, dissimulando. Quando faço isso, ele me olha, séria. É NOITE. Na chegada ao prédio, digo a Maria que foi um absurdo o que o namorado dela fez, que eu nunca faria chorar uma mulher como ela. Maria me dá um beijo fraterno e carinhoso na bochecha. Diz que é melhor não subirmos juntos. Eu concordo, a contragosto, e subo antes dela.

O “trio depressão” está de novo no bar. Bebemos em silêncio. “Eu gosto do cabelo dela. Outro dia ela passou por mim, eu me virei na hora e dei uma fungada. Que cabelos!”, eu disse. “Ela é gostosa pacas! Se eu pego uma mulher daquelas, num quero mais nada da vida!”, continua Ives. “Eu achei ela fofinha”, completa Samuel. “Fofinha? Você acha ela fofinha?”. “É. Fofinha”. Samuel traga seu cigarro. Olhamos para ele, em silêncio.

Na copiadora, Laís termina de encadernar a minha cópia. Ela me olha e pergunta: “foi você quem escreveu?”. “Eu mesmo”. “Eu li umas partes, mas outras não deu, porque eu tava copiando”. “É, eu sei como é...”, respondo. Pego o livro e agradeço. Vou até o quarto de Maria e bato à porta. Ela abre, e entrego o meu livro a ela. Maria põe o livro contra o peito e me diz que vai ler.

No supermercado, eu, Ives e Samuel compramos bebidas. Ives comenta sobre que tipo de pessoa compra bebidas num sábado à noite. Passam um casal, duas mulheres, um homem sozinho e uma mulher sozinha, todos comprando bebidas. Ives compara o tipo de pessoa com a bebida que está comprando. Começo a brincar de deslizar pelo chão. Ives desdenha e continua pegando bebidas. Pouco depois, Samuel começa a deslizar também. Eu e Samuel fazemos uma corrida de deslizamento. Ives vê uma placa de “proibido fumar” e acende um cigarro. Entramos na sessão de biscoitos e fazemos comentários sobre os produtos, relacionando-os aos hábitos das pessoas. Passamos pela sessão de salgadinhos e fazemos o mesmo. Na sessão de doces, o chão está acabando de ser encerado. Eu e Samuel tiramos os sapatos e, de meia, 12


tomamos impulso para a corrida. Corremos e deslizamos velozmente ─ tão rápido que batemos em uma senhora de meia-idade que aparece no final de uma fileira. Ives traga o cigarro, enquanto nos observa, se desculpando e saindo com o rabo entre as pernas. No caixa, conversamos sobre as calorias dos produtos light que compramos. Voltamos ao edifício. Ligamos a TV (que passa a novela das oito) no salão de festas, abrimos as bebidas e comemos.

O carro de Rodolfo está parado na porta do prédio. Reparo, desconfiado. Na portaria, Seu Zé toca Trem das Onze do início ao fim, de forma surpreendentemente competente e emocionante. Ives começa a chorar e sai soluçando. Samuel fuma um cigarro. Vai até ele, o parabeniza e sai. Vou até o apartamento de Maria, a porta está entreaberta. Rodolfo está de pé, abraçado com ela, chorando. Ela solta o abraço, ele demora mais um pouco e SAI, levando um grande saco de roupas. O rosto dele está molhado pelas lágrimas, mas resignado. Maria ainda alisa suas costas, maternalmente. Ele passa sem me ver. Maria olha para mim.

Estou numa audiência com o juiz. Tadeu está à minha frente, com o rosto machucado e cheio de curativos. Silvana, ao lado dele, olha para mim da mesma forma como no supermercado. Eles estão com um advogado. O advogado deles expõe o caso, contando em detalhes o que aconteceu no dia em que eu bati em Tadeu. O juiz olha para mim, aparentando concordar. Me encolho na cadeira. A meu lado, SEU ZÉ, O PORTEIRO, de paletó e gravata, faz as vezes de defensor. Desenvolto, e em nada lembrando seu modo de ser no Edifício, ele enumera, no perfeito linguajar jurídico, as frustrações pelas quais eu passei, me colocando em uma posição de vítima, ao mesmo tempo em que esclarece muita coisa entre eu e Silvana que não havia sido dita até então. Olho para ele, impressionado. (“Senhor Juiz, o réu vinha passando por um stress intenso, fruto, de um lado, de frustração amorosa intensa e, de outro, das dificuldades profissionais inerentes à nossa condição social contemporânea. Além disso, eu gostaria de salientar aqui o caráter humilhante da ruptura deste relacionamento, por conta tanto da frieza da antiga 13


companheira, quanto da patologia social que vitima o meu cliente.”). A partir daí, ele descreve em detalhes o final de meu relacionamento, incluindo o dia do término e minhas atitudes despropositadas (e mais algumas que eu ainda não havia contado), fazendo, nos momentos importantes, uma pausa para comentar o meu estado emocional. Ao final da fala de Seu Zé, Silvana olha para mim de outra forma. Seu olhar é compassivo, de quem subitamente reconhece algo. Ela fala com o seu advogado e com Tadeu, que balançam a cabeça afirmativamente. Na saída da audiência, eu peço para falar com Silvana. Agradeço a ela por ter resolvido tudo daquela forma. Ela responde que aquilo não foi nada de mais, e que ela não queria me ter feito sofrer. Tadeu se afasta mais, dando espaço para que conversemos. Ela explica que Tadeu foi sempre um bom amigo, e que eu não devia pensar que eles estavam juntos antes. Ela só o conheceu melhor agora, quando foi apresentar o seu livro a um editor. “Um livro?”, eu pergunto. “É, eu nunca te mostrei... ficava envergonhada”. Silvana olha para mim com carinho e sai. Eu ainda paro sua caminhada e digo: “Silvana... me desculpe”. Ela volta e me dá um abraço. Me olha nos olhos e SAI.

É noite, estamos no terraço. Maria tem o meu livro nas mãos. Em dúvida, me pergunta se eu passei por tudo aquilo mesmo. Eu digo que sim. Ela me olha e balança a cabeça. Me abraça. Eu não entendo o porquê, mas gosto. Gosto muito.

É uma noite fria na PRAIA. Usamos casacos e revezamos uma garrafa de cachaça. Conversamos sobre suicídio e o modo ideal como nos mataríamos. Conto como sempre imaginei o meu enterro ─ um lugar escuro, todos com roupas pretas e o féretro andando lentamente em direção à cova. Alguém comenta sobre como eu era uma pessoa vivaz e alegre, e do absurdo que era morrer alguém “assim tão jovem”. No meio do caminho, uma mulher (Maria) gritaria, quebrando o silêncio: “Não se vá...”. Samuel me tira do devaneio. Conta que finalmente conseguiu a bolsa que queria. Vai viajar para Alemanha,

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estudar artes plásticas. Ives acende um cigarro. Sentamos os três na areia, olhando o mar e revezando a garrafa para mais uma rodada.

O apartamento de Samuel está mais bagunçado que nunca. Eu o ajudo a arrumar as malas, o que eu faço entristecido. Ele empacota muitas tranqueiras sujas, e também muitos quadros belíssimos, com temas naturais e retratos femininos. Um deles me chama atenção: parece ser um porta-retrato de Maria.

Patrícia, a mulher de Ives, aparece na portaria. Seu Zé está dormindo e acorda. “Tarde, Dona Patrícia”. Ela sobe as escadas e bate na porta de Ives, que atende. Depois de um momento de surpresa, a convida a entrar. Patrícia o faz, um pouco relutante. Ives oferece um café, Patrícia aceita. Ives vai até a cozinha e volta sem nada. “Acabou o café”. “Tudo bem”, responde Patrícia. Ela tem alguns papéis na mão, que entrega a Ives. Ele lê, atento, olhando para ela de tempos em tempos. Patrícia estende uma caneta para Ives.

No terraço, e Ives fuma um cigarro. Está pálido, a voz fraca e depressiva. Conversamos sobre Samuel e sua viagem. Na conversa, percebemos que também não vemos Maria há um bom tempo. Desde que Samuel viajou, por sinal. Perguntamos a Seu Zé o que está acontecendo. Ele se espanta, e diz que também não vê Maria há muito tempo.

Entra a música Trem das Onze original (na voz de Adoniran Barbosa). Volta para A NOITE EM QUE MARIA E PEDRO VOLTARAM DO PARQUE. Depois que Maria fala a Pedro que é melhor eles subirem separados, Pedro sobe e Maria faz o mesmo logo depois. Em sua porta, ela encontra um origami. Pega. Nele, está escrito: “siga a pista”. Maria olha pelo chão e vê mais origamis, que a levam até a escada. Vai descendo até o subsolo, onde mora Samuel. Ela bate à porta e Samuel abre. Ambos sorriem e se beijam. Maria ENTRA no apartamento. Vemos NOVAMENTE os dois trocando olhares na escada. Depois, Samuel encontra Maria em uma loja de produtos de arte e eles conversam. Em seguida, os dois vão juntos ao cinema. Saem abraçados. Em um bar, 15


conversam animadamente. Riem. Não ouvimos nada do que dizem ─ apenas a música. Samuel leva Maria até a porta de seu apartamento. Ela entra e Samuel fica do lado de fora. Depois de algum tempo, Maria abre a porta. Samuel está lá, parado. Se beijam.

Eu, Ives e Seu Zé corremos até o apartamento de Maria e o arrombamos. Lá dentro, encontramos centenas de origamis lindíssimos, dos mais variados tipos e tamanhos. Logo percebemos que Samuel e Maria foram embora juntos.

Vemos Samuel e Maria no aeroporto, com malas em volta, sentados, esperando o avião. Se beijam com a intimidade de um casal antigo. Samuel acaricia seu rosto e olha para ela, que cochila. Vemos então o avião levantando vôo e, na pista, Ives, Pedro e Seu Zé, ali como que por mágica, com as mesmas roupas, vendo o avião passar por cima deles.

Na copiadora, me distraio vendo as mãos de Laís executarem o seu trabalho com graça e precisão. Ela está mais bonita e arrumada, com jeito de mulher. Me entrega mais uma cópia do meu livro. “Eu posso ficar com essa mais uns dias? Eu queria terminar de ler”. “Melhor não”, eu respondo. Me olha nos olhos, um pouco surpresa. “Vou fazer um negócio com esse aqui. Além do mais, tenho um melhor pra te mostrar”. Laís sorri.

É noite, estamos no terraço. Ives acende um cigarro num papel em brasas. Pergunto a se ele sabia que Seu Zé era formado em direito. “Claro”, ele responde. Uma pilha de papéis queima no chão, quebrando o escuridão da noite. São várias cópias de meu livro, “Edifício Solidão”. Aquela não era a minha história. Era a história de Ives, Samuel, Maria e de um bando de gente que eu nunca vi e nunca amei. Agora eu tenho que escrever a minha. E quem sabe eu também, um dia, não vá embora do Edifício Solidão.

Vou até a copiadora e encontro Laís. Ela continua bonita, e mais arrumada do que convêm a uma operadora de xérox. Dou a ela um bolo de papéis e peço, 16


novamente: “copia e encaderna, por favor”. Entrego a ela um grande volume de papéis. “Esse você pode ler”, eu digo. Depois de entregar, finjo me lembrar de um outro papel que eu tinha guardado. Tiro um ORIGAMI do bolso e entrego a ela. “Foi você quem fez?”, ela pergunta. “Não, foi um amigo”, respondo. “Mas o que está escrito foi”. Ela abre e lê o que eu tinha escrito. Olha para mim com um sorriso. Arruma o cabelo. SORRIO DE VERDADE. É a primeira vez em muito tempo que eu faço isso. FIM

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A Voz (conto) por Davi L. Ramos

em homenagem a Ray Bradbury

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Ivo Túlio gostava de andar próximo à pista, vendo os faróis se aproximando, crescendo e morrendo com seu gemido triste. Às vezes um auto-ar parava a seu lado. O passageiro, distraído de sua leitura noturna, ou pego de surpresa durante os comerciais da auto-tv, olhava espantado. - Bom dia, senhor. Algum problema com seu caminhante? Gostaria de uma carona? - Não, obrigado. Eu gosto de usar as pernas. Poucas pessoas andavam desde que os caminhantes passaram a ser produzidos em série. Em 2052, o pavor dos acidentes a pé era uma fobia estabelecida. O caminhante, uma geringonça circular de metal antigravidade, do tamanho de um pneu e com um nanochip que processa os impulsos cerebrais e o dirige ao caminho desejado, tinha se encarregado de acabar definitivamente com o hábito de colocar pé-ante-pé para se locomover. Recentemente, Túlio encontrara, numa antiga biblioteca, um verbete intitulado “calo”. Decidido a presenciar o nascimento de uma dessas interessantes anomalias anatômicas, achou, em uma loja de quinquilharias, um par de sapatos dois números menor que o seu. Para o prazer de Ivo, o fundo de seu calcanhar já coçava irritantemente. “Andar a pé! Daqui a pouco vai querer correr uma maratona!”, dizia a mãe. Quando entrava em um ônibus ou caminhava por ruas antigas atrás de bibelôs do século XX, Ivo Túlio, às vezes, sentia que não estava sozinho. Já tinha se acostumado. Era como se dividisse com alguém aquele gosto do passado, um alguém que ainda usava sapatos de couro e relógios de pulso, mas preferia o segredo da invisibilidade. Às vezes conversavam, em pensamento. E ouvia respostas, mas não acreditava nessas coisas. Seria ele diferente, melhor, pior, estranho? Não sabia. Mas, cada vez que entrava em algum lugar, sentia que estava interrompendo algo. Como se o mundo, secretamente, conspirasse. O tempo todo. A noite avançava madrugada adentro. Túlio chegou ao fim da pista. De vez em quando, um carro desprogramado parava pelo segundo e meio necessário para que seu computador de bordo refizesse a rota e seguia, com um clique surdo, sua trajetória robotizada, levando em seu interior passageiros sonolentos ou narcotizados. A paisagem era agradável. O lixo do mundo. O cemitério das idéias. A herança selvagem. A morte. O fedor. O mundo velho. Chamavam de muitos nomes. A Metrópole cresceu em volta daquele que um dia foi conhecido como o Berço da Civilização. Ninguém se interessou em reconstruir a cidade antiga. Aviões, helicópteros, carros a combustão, televisores, computadores não19


quânticos, todo o lixo não reciclado da última revolução tecnológica estava ali, dentro dos prédios desabitados. E havia, também, algo que Túlio não encontrava em outro lugar – livros. Não como os da biblioteca - uns quadriláteros pretos de dois milímetros de espessura, com telas de plasma e sistema automático de avanço de páginas. Mas livros de verdade, amarelados, com traças, poeira, anotações de margem e rodapé, marcadores, dedicatórias, folhas secas, bilhetes de amor, receitas médicas, dinheiro de celulose e listas de compras. Amanhecia. A descida era íngreme. No topo do monte, uma placa luminosa se apagou. Mochila apertada nas costas, avançou devagar, quase deitando no matagal que o encobria. Os edifícios, antes apoteóticos arranha-céus do século XX, agora não eram mais que um amontoado de paredes escuras e vidros quebrados. Em uma grande avenida, os carros de alumínio se enfileiravam num grande, interminável, infinito engarrafamento. Como se um dia, na hora rush, todos de repente houvessem decidido largar seus veículos pesados e poluentes para dar uma volta despreocupada pelos campos e vales que cercavam a Cidade Antiga. Ninguém perdia tempo naquele lugar. Túlio podia ouvir seus passos ecoando longe, reverberando no passado, tocando-o, fazendo-o vibrar e viver de novo por breves segundos. Vindo e indo. Nascendo e morrendo. Como os faróis na auto-estrada. Terra. Algo que não se via na Metrópole. Onde não havia concreto, a grama artificial cobria o horizonte com seu verde sintético. Sentiu vontade de tirar os sapatos – e tirou. Colocou-os na mochila. As pedrinhas pinicavam, a poeira grudava e ele precisava desviar das poças d’água – mas era bom. Sentir. Parecia vida. Adiante, um trator amarelo-ferrugem bloqueava a passagem para uma rua que se estendia à direita. Túlio quis desviar. Mas a voz, quase audível, trêmula até, lhe indicava o caminho. Em pouco tempo, o pé descalço de Ivo brigava com uma das rodas, enquanto com as mãos ele se apoiava na porta do veículo, usando a cabine como passagem para o outro lado. A rua estava estranhamente vazia. Nem sinal de carros. Nenhum entulho, lixo ou restos. Era como uma rua comum, em que todos ainda estivessem dormindo em suas camas numa manhã de domingo. Túlio podia ouvir os ecos distantes de jornais sendo jogados nas frentes das casas, pessoas saindo atrasadas para seus trabalhos, crianças fardadas andando rua acima em uma algazarra distante, que se perdia docemente no horizonte. Fechando os olhos, podia ver. Querendo, podia tocá-las. Mas, quando abriu os olhos, tudo o que viu foram casas mortas. O portão de uma delas pendia, quase solto. O muro baixo deixava ver o telhado. Marrom das telhas e negro do tempo, 20


ostentava no meio um grande buraco, que ia de parede a parede. Quando entrou, Ivo Túlio deixou para trás o portão caído. Entre os pés e o chão, a camada de folhas secas produzia um crepitar agoniante. Entrou. Era uma sala pequena, retangular, com o sofá de frente para uma estante. Sobre ela, aparelhos antigos - TV, vídeo e uma pilha de discos que Túlio conhecia apenas de museus. Um homem com o cabelo de cuia sorria em uma capa de papelão. O corredor, longo e escuro, o chamava. No meio do caminho, a porta de um quarto desviou sua atenção. Uma cama de casal, comida pelos cupins, se sustentava com restos de inércia. Na escrivaninha havia um livro. Antes de pensar, Ivo já o tinha nas mãos. Ao contrário do resto da casa, estava limpo e bem conservado. Não havia título. Depois de algum tempo ele se lembrou que, ao contrário dos livros da biblioteca, este devia ser aberto. Abriu-o cerimoniosamente, com a lentidão reflexiva dos tempos. No entanto, logo quando se pôs a ler as atraentes páginas, estas começaram a se desfazer, não obstante não houvesse naquele quarto abafado correntes de vento que justificassem que aquelas folhas se dividissem em mil partículas de pó, que produziam uma nuvem estranha e pesada que agora o envolvia. Tentou passar as folhas com mais cuidado, sem sucesso. Irritando-se, trocou-as com os dedos frenéticos, e no íntimo gostaria ter em suas mãos não um fóssil do século passado, mas um confortável nano-pc com controles mentais. As páginas, como se fugissem, também se desfaziam em velocidade crescente. Em pouco tempo, o livro todo pairava em volta de Ivo Túlio. Irritado, sentou-se na cama, a capa oca nas mãos. Levou menos de um segundo para que os pés da cama se soltassem e ele caísse junto com ela. O baque foi tão grande que, do teto, caiu uma camada de poeira. Estranhando, ele se levantou, indo até o corredor. Uma chuva de poeira caía do telhado, cobrindo Ivo Túlio de cinza e fazendo-o tossir. Andou acelerado até a porta, quando ouviu o primeiro estrondo. Na sala, a TV se espatifava no chão, enquanto o sofá deslizava para a frente. A previsão do tempo não havia mencionado terremotos, mas não havia dúvida de que a terra tremia. Desesperado, Ivo Túlio passou pela porta e cruzou o quintal, caindo muitas vezes. Cidade Antiga convulsionava - Ivo corria em desespero solitário. Passou pelo trator em um pulo desengonçado, e, subindo nos carros, cortou caminho pelo engarrafamento infinito. O tremor dava sinais de que iria parar, mas depois voltava com força redobrada. Em uma dessas, Túlio caiu de cima de um carro e, em um pára-choques, rasgou o braço direito de uma ponta a outra. O sangue misturado com a terra empapava sua camisa e o cobria com um marrom selvagem. O livro ficou para trás. A descida fácil agora se convertia em um desafio mortal. Tentando escalar o barranco sem qualquer apoio, logo Ivo Túlio estava coberto de terra, sentindo por 21


todo o corpo as pancadas ferozes que vinham das profundezas. Não podia respirar e sentia-se morrendo, quando, de repente, um baque mais forte o projetou para cima. Ele estava negro, quase desmaiado, mas agora mais próximo de subir até a pista, onde acreditava que estaria seguro. Aproveitando uma brecha no inferno, deu alguns passos certeiros e logo estava são e salvo, na pista por onde havia chegado na agora longínqua madrugada. Depois de três longas respirações, Ivo Túlio se perguntou que tipo de terremoto era aquele, que só revolvia a terra da Cidade Antiga. Intrigado, resolveu olhar para trás, quando viu as gigantescas armas sônicas da Companhia Nacional de Reconstrução posicionadas há cerca de cem metros. Levantando assustado, viu, no lugar por onde havia descido, uma grande placa luminosa que brilhava, entre piscadas defeituosas, com os dizeres “CUIDADO! ÁREA EM RECONSTRUÇÃO”. E então, ao comando do homem pequeno seguramente posicionado atrás das máquinas, toda a cidade antiga estremeceu a um só tempo. A casa veio abaixo, caindo de frente sobre o jardim. Debaixo do trator surgiu uma grande cratera, que o sugou, junto com os carros e o asfaltamento. Os arranha-céus, decrépitos e imponentes, vinham abaixo em quedas espetaculares, e o céu se cobriu de cinza. As crianças, em suas felizes estripulias, perdiam a voz e a cor, esmaeciam e se uniam à poeira e à fuligem, espalhadas pelo chão. Ao longe, uma voz rouca, triste, dolorida, uma voz que era o próprio tempo, dava seu último grito. O homem, de longe, chamava Ivo Túlio. Mas ele não queria andar. Reuniu forças e gritou, um tanto desanimado, que preferia esperar que ele trouxesse um caminhante.

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“OBARA DA FLORESTA”

Obara conta que eu nasci na ribanceira, de dentro de uma pedra, que foi formando, formando até fazê eu. Ele viu tudo, e esperou o dia pra me salvar da morte certa, balançando no cipó. Naquele tempo, Obara era forte e azul como o céu. Diz ele que foi de lá que ele veio, junto com um trovão que destruiu a floresta inteira. Obara, filho do céu, voava pela mata. Eu, diz ele, era um pedacinho de limo que ele foi criando. Até que do liminho veio uma boca, que ele amarrou pra eu não comer as pedras todas. Depois da boca veio o pescoço, e do pescoço nasceram os ombros, e dos ombros vieram os braços, que deram mais trabalho ainda para Obara, e depois as pernas, os pés e os dedinhos.

Obara teve que cobrir meus pés com lama de Aramacaia, senão eu ralava eles nas pedras até o joelho, e aí tinha que crescer tudo de novo. E daí vieram as unhas, e nessa hora eu já era adulto e Obara não conseguia me amarrar, e como diz a Lei ele me largou na mata até eu aprender. Como eu não tinha olhos para ver, nem ouvido nem nada, saí me batendo em tudo, mas Obara cuidou bem de mim. Eu era tão forte e tão duro que, se caísse da ribanceira onde eu nasci, coitada da ribanceira. Depois de um tempo nasceu um olhinho bem pequeno, que via tudo pequeno e eu me achando muito grande. Saí comendo tudo - as árvores, os bichos, as pedras.... quase como um pedacinho da ribanceira que me pariu.

Quando eu percebi, meu olho pequeno soltou um lágrima minúscula e cresceu um pouquinho, mas como eu era grande da lágrima nasceu um rio, que eu chamei de Rio da Minha Lágrima, e de vez em quando eu eu até lá tomar banho junto com Obara. Foi aí que eu percebi que não era tão grande assim, era só um pouquinho maior que ele. O resto todo é que continuava pequeno. Foi então que Obara me contou que as pedras que ele me deu, quando era criança, eram pedras de gigante, e que, ao contrário dele, eu nunca ia parar de crescer. Obara já estava um pouco velho, o azul virando cinza, mas ele ainda 23


era grande e forte pra voar pelos cipós, parando de vez em quando para descansar com seu cajado. E numa noite dessas Obara veio e me deixou um pacote com as melhores pedras que tinha para comer na floresta. Eu comia as pedras e chorava em cima delas, pois sabia era a Lei, e eu nunca mais veria Obara, que me salvou da morte, me criou e fez de mim um gigante da floresta. E agora que cresci eu sei que na verdade também sou pequeno, como o tanaiú, a folha do tanaré e o aristão. Foi então que eu percebi que, das pedras que ele me deu, um liminho começou a crescer, e eu cuidei dele, como Obara cuidou de mim, sabendo que assim como ele um dia a Lei me levaria. O meu nome? Não sei, nunca me deram. Acho que vai ser Obara também.

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“O FIM DO MUNDO PARTE 1”

- Lia? - Sim? - Eu não te amo. - Como assim não me ama? - Eu tava olhando pra você, aí deitadinha, lendo seu livro, e de repente percebi que eu não te amo. - Mas quando você disse o contrário? - Nunca. - A gente tá junto há quanto tempo? Um mês e meio? - Um mês e meio. - Não acha um pouco precipitado? - Pra dizer que não te amo? - Sim. - Talvez eu tenha pulado alguma etapa, mas não sei bem qual... - Que tal aquela parte em que você diz que me ama? - Não me pressione. Eu já disse que não... - Não precisa repetir. - Mas o que você quer que eu diga, então? - Não sei, mas não isso. - E você, me ama? - Você não tem o direito de pergunt... - Ama ou não ama? - E se eu disser que sim, o que você vai achar disso? - Eu já disse que não... - Eu sei. Eu sei. - Mas eu gosto muito de você. - Tá bom. - Adoro transar com você. - Sei. 25


- Seu corpo é o mais perfeitamente belo que já ví. - Mas você não me ama. - É. - E precisava deixar isso claro assim, na hora de dormir? - Foi. - E agora eu posso dormir? - Pode. Mas não me abrace muito. - Porquê? - Porque abraço na hora de dormir é só pra quem eu amo. E eu não te amo. - Você tinha que repetir? - Você perguntou “porquê. - O que você quer que eu faça? - Fique ali no cantinho. - Junto da parede? - É. - Mas tem uma infiltração na... - Eu sei... - Porquê eu não posso mais dormir abraçadinho? - Eu já disse... - Tá, eu já sei. Me empresta o travesseiro? - O de ganso não. - O outro. - Pode ficar. - Brigada. - Tá gostando? - É até fresco aqui. - Você está gostando? - To, sim. Brigada. - Não quero mais que você fique aí. - Porquê? - Porquê um dia eu vou amar alguém, e esse alguém é que vai ficar aí. - Mas não vai sobrar lugar nenh... 26


- Vai pro chão. - Mas tá frio. - Eu desligo o ar. - Mas... - Eu já disse. Desce. - Me empresta um lençól? - O chão tá bom? - Sabe que até gostei? Assim, com ar desligado, fica gostoso. - Sai daí. - Mas pra onde eu vou então? - Não sei. - Eu fiz alguma coisa de errado? - É claro que não. Você sabe que eu te adoro. Apenas não te amo. - Mas praonde eu vou? - Eu não sei. Vai pra junto das pessoas que eu não amo. Tem um monte delas por aí. - Mas tá tarde. - Eu sei. - Vou pra sala, tá bem? - Tá. - Tchau. - Eu to ouvindo você chorar. - Desculpe. - Pare com isso. - Mas eu... - Pare! - Eu vou pro banheiro... - Boa idéia. - O que você tá fazendo aqui? - Dá licença. Preciso urinar. - Não posso olhar? - Não. Só pode olhar quem... 27


- Eu olho pro outro lado. Tem problema não. - Tadeu? - Sim? - Eu queria te falar um negócio. - Diga. - Mesmo com tudo isso, eu queria dizer que, do fundo do meu coração, eu te amo.

Tadeu abre um sorriso.

- Mesmo mesmo? - Mesmo mesmo. - Você me ama? - Amo. - Mesmo eu fazendo isso tudo com você? - Mesmo você fazendo isso tudo comigo. - Mas porque? - Porque sim. Porque eu te amo. - Eu também te amo. - Eu sei, Tadeu. Vamos pra cama agora? - Vamos.

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“DUDU E EU”

1. O Dudu era muito meu amigo. - Dudu!, aqui! – eu disse – Puxa uma cadeira. Dudu olhou em volta e fez uma cara estranha quando me viu. Tirou a pasta tiracolo e, pedindo gentilmente (o Dudu era sempre muito gentil) ao casal do lado, pegou uma cadeira e sentou à minha frente. - Diga, rapaz! O que tem feito? - Nada de mais. Você sabe, TV. - E a mulher? - Disse que ia fazer vestibular. Ela não sabia, quando marcou, que hoje era o vestibular. - E aí você me chama, né, sacana? Eu sou o estepe. - Ainda acha que eu te chamei! - Bonito, isso. Não diz onde anda, marca encontrinho escondido com vagabunda, sai por aí com outros amigos e nem me chama... Que porra é essa? Dudu ria. - O que você quer? Nunca mais uma praia, uma viagem, um jantarzinho! Colé! Dudu riu meio sem graça. - Pedrão... - Diga. - Assim vão achar que a gente é viado. Dudu ria. - Mas sério, e a mulher?, emendei. - Vai ligar hoje. - Que horas? - Cinco. - Você vai ter que ligar de volta. - Eu sei. - É bom. Deixa ela insegura. - Mandei minha vó dizer que eu tava enchendo a cara no boteco. - Isso, garoto. - Agora eu vou ser obrigado a ir no boteco encher a cara. Eu odeio mentir pra velha. - Terrível. Simplesmente terrível. Espero que você não tenha me incluído na história. 29


Terminei a cerveja e pedi a conta, -

Porque não pagou logo? Não sei, acho que é proibido. Claro que não. Dava logo o dinheiro pro garçom. E a classe onde fica?

O garçom trouxe o livrinho com a conta. - Vou colocar o dinheiro assim, saindo pela borda, pra ele vir pegar logo. - Você é um imbecil. 2. Eu e Natália havíamos dormido juntos. Ela ronronava de seu lado da cama, coberta pelo lençol, enquanto se espreguiçava felinamente. Eu olhava para cima, com as mãos embaixo da cabeça. Não estava feliz, tampouco triste. Era bom. - Acordou tem muito tempo?, disse Natália. - Esqueci de contar – eu não durmo nunca. - Mesmo? - Fiz uma cirurgia, uns anos atrás. Arranquei meu hipotálamo. Você sabe, a parte do cérebro que faz a gente dormir. - Ah. Engraçado. A Natália nunca ria. Eu suspeitava que ela me achava um completo idiota, o que me fazia pensar que eu provavelmente transava muito bem. - Comprou os cigarros que eu te pedi? - Esqueci. Peraí que eu trago. - Não, deixa. Pego na hora do almoço. Ela quis almoçar fora. Descemos a escadas do motel no centro e saímos, em busca de comida decente. Encontramos um PF simpático. Comíamos em silêncio, quando, ao longe, vi aquela figura branca, quadrada e coberta de preto, formar-se em minha retina. Era o Dudu. - Dudu! Não sabia que andava por esses lados... Parecia preocupado. - Trabalho aqui do lado, agora. Silêncio de olhares evasivos. - Essa aqui é a Natália. Natália, esse é o Dudu. Lembra que eu te falei dele? - Muito prazer, Dudu. Ele fala muito de você. - Sério? Quem diria! Só vejo esse aí uma vez na vida outra na morte... 30


O Dudu olhava pros cantos, os olhos caídos. -

E sua vó, como está? Aquela velha escrota ainda me odeia? Morreu. Sério? Sério.

Se o mundo explodisse, tenho impressão que Natália continuaria comendo seu bife com batatas. Mas voltando. -

E de quê, assim de repente? Câncer. Mas câncer dá assim? Ela tava internada há dois meses. Ah, tá. Bem, eu já vou indo... Não vai almoçar? Não. Como no caminho. Atrasado... Tá bom então. A gente se fala. É. Tchau, Natália.

Natália deu aquele sorriso irônico que eu amo. - Tchau, Dudu. 3. De madrugada e o telefone toca. - Pedrão? - Diga, Dudu. - Sabe aquela mulher? - A do vestibular? Sei. - Terminou comigo. - Cê ligou pra dizer isso? - Fica pior. - Diga logo. - Ela tá com meu melhor amigo. - Pó, Dudu! Eu achava que seu melhor amigo era eu! - Do trabalho!, melhor amigo do trabalho! - Sim, e aí? - Não vai dizer nada? - Quer que eu diga o que? - Sei lá, qualquer coisa. - Dudu, eu vou dizer uma coisa que vai te ajudar pro resto da vida. Tá anotando? - Tô. - Mulher é puta. - Sério? - Sério. 31


-

Até minha mãe? Principalmente! Porra, Pedrão! Essa foi demais! Certo. Agora deixa eu dormir. Tá.

4. Ligaram do trabalho do Dudu. Disseram que ele não aparecia há quase uma semana e não atendia as ligações. O cara tava arrasado. - Cadê a pasta, Dudu? Não respondeu. Levantou a mão e contorceu os lábios, girando a cabeça em negativa. - Liguei em sua casa e nada. Passei lá e o porteiro disse que você tinha saído. Montei tocaia, uma hora cê ia aparecer. Você não vai acreditar, mas aqui eles têm um português de verdade. Tem bigode e tudo, e desconfio que é burro como uma porta. Acho que ele me deu troco a mais. Ele não ria. Estaria tomando aulas com a Natália? - Pô, Dudu! Assim não pode, cara! Reage, fala alguma coisa! Nem que seja pra me mandar pra puta que pariu mas fala, cacete! Ele respirava fundo. - Lembra quando foi comigo, o que você fez? Me jogou um balde de água na cara! Dudu tinha os olhos úmidos. - Manda à merda, Dudu! Manda se fuder! As lágrimas caíam. Dudu respirava rápido. - Abre essa boca e fala alguma coisa, porra! 5. O Dudu tava até bem. Não usava mais a camisa preta. Não sei se porque mudou mesmo ou porque a camisa tinha ficado na casa dela. Ria mais, fazia uma piada ou outra. Era como uma versão passada na kiboa do Dudu de antes. Comíamos bolinhos de bacalhau com cerveja. - E o escritório? - Muito bem... você sabia que lá dizem que você é minha puta? - Desconfiava. Mas puta mesmo, de programa, ou só uma vagabunda dedicada? - Vagabunda dedicada. - Ah, bom. Eles que me desrespeitassem. 32


-

Não me descontaram o salário. Legal da parte deles. É verdade. É tipo uma licença maternidade, só que pra corno. É. Licença Corno. Licença Chifres. Prefiro Corno. Que seja. Eu não sou corno, mesmo.

6. É de madrugada. Ligo pro Dudu. - Dudu? - Diga. - Ela morreu me odiando? - Quem? - A sua vó, morreu me odiando? - Como é que eu vou saber? - Sei lá, ela disse alguma coisa, assim, no leito de morte? Eu preciso saber, Dudu. - Eu não ouvi direito... eu não lembro. - Fala a verdade! - Eu nem acordei ainda... - Anda, Dudu! Eu não posso dormir com isso na cabeça! - Eu acho que foi... - Conta... - Como foi, mesmo?... - Diz logo... - Ah, lembrei! - Desembucha! - Ela falou: ”Filho da puta aquele seu amigo, hein?!” E depois morreu. - Você espera que eu acredite nisso? 7. -

Natália, eu preciso te contar uma coisa. É o quê, Pedrão? Eu amo o Dudu. Eu sei disso. Ele é seu amigo. Não, Natália. Você não entendeu. Eu AMO o Dudu. Eu sei, você ama ele muito. Quer que fique com ciúme agora? Não, Natália. É diferente. Diferente como? É que eu tô apaixonado, entende? Você tá brincando... Sério. Quando isso começou? Não sei... acho que foi quando ele perdeu a namorada. Estava tão frágil... Mas Pedrão, você nunca foi disso, o que aconteceu? Eu sei, mas aconteceu, o que eu posso fazer? Não é que eu seja viado... 33


- Não? - Não. Eu não gosto de homem. Só gosto do Dudu. - E ele, o que acha disso? Dudu estava lívido. Ele não esperava por isso, - Você sabia disso?, perguntou Natália. Ele não conseguia formar as palavras. Natália se levantou. - Depois de velho resolve virar bicha. Boa sorte, Dudu. Vou embora. Natália se levantou e saiu. - Dudu, me desculpe. Eu nem sei onde eu tava com a cabeça... Dudu tinha os olhos arregalados. - Olha, eu vou indo. Eu sei que você precisa de um tempo pra assimilar. Pensa bem, tá?

8. De madrugada o telefone toca. Está mudo, mas respirando. - Dudu, é você? - Sou eu.. A voz estava cansada. - Olha, deixa eu falar uma coisa sobre ontem... é que na verdade... - Não, deixa que eu falo, Pedro. Você sempre foi meu melhor amigo, cara... - Eu sei, mas... - Não. Você já falou muito, agora é minha vez, ok? A gente se conhece há quanto tempo? 10, 15 anos? E nunca você me deixou na mão. Não vou te mentir que me surpreendi com tudo o que você disse, mas pensei bem depois. Tudo o que você falou fez sentido. Lembro quando a gente ia no fliperama juntos, as tarde no shopping, quando não nos desgrudávamos na escola, de todas as vezes em que nos consolamos quando as mulheres sacanearam com a gente... - É verdade, Dudu, é verdade... - Então, foi pensando em tudo isso que eu tomei essa decisão. Vamos tentar, que se fodam os outros! A gente se ama, caralho. - Pô, Dudu, saquié... - Fala, Pedrão. - É que ontem... bem... você sabe que eu adoro zuar com sua cara, né? Coisa de amigo... 34


- Sei... - Pois é, é que eu tinha combinado com a Natália... - Eu sei... mas não saiu como você tinha pensado, tudo bem... - Sabe o que é, é que..., aquilo que eu te falei... bem, não sei nem como dizer isso agora, depois de tudo isso... - Fala logo. - É que era tudo brincadeira. - Como assim, brincadeira? - Pô, Dudu, vai me dizer que você não olhou no calendário? - Olhei não, porque? - Você sabe que dia hoje? - Não... A voz sumia do outro lado do telefone. - Hoje é 2 de abril, Dudu. Ontem foi primeiro de abril. Primeiro de abril, sacou? - Saquei... Silêncio. - Dudu, você é um sacana mesmo! - Oi? - Me pegou! Putaquepariu, você me pegou! - Como ass... - Touché, Dudu!, touché! Virou o feitiço contra o feiticeiro! Eu acreditei mesmo que você queria... caralho!, genial! Essa você tem que contar pro pessoal na sexta. Antológica! Depois dessa só indo dormir mesmo. Caraca... touché! - É... touché. - Té mais, Dudu. - Té. E desligamos. Engraçado... nunca mais eu vi o Dudu. Saudade do Dudu.

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“INVERNO” Sei que você gosta de pular no rio, de churrasco no quintal, ouvir músicas bacanas e esquecer que o tempo passa tudo morre e mesmo enquanto vivos nossos pensamentos são sujos e imperfeitos. Eu sei de tudo isso, inclusive que eu devia ver o lado bom das coisas e outros clichês não menos verdadeiros. Que preciso exigir menos de mim, rir mesmo sem graça e dançar danças que eu não gosto apenas pelo prazer cinético, pela completude instantânea que surge quando o corpo vaza ritmos comprimidos de vibração melódica. Acho lindo quando você conta que subia em pé Araçá, brincava de pega-pega, jogava com os moleques da rua e outras criancices com trilha sonora de MPB. Sei também algumas coisas que você não sabe, coisas de gente boba que cresceu entre livros e monitores. Aprendi que existem dois tipos de pessoas no mundo, os normais e os melancólicos. Nunca subi em pé de araçá, não brinquei de pega pega, e, mesmo quando brinquei, ainda era o estranho que sempre perdia e voltava pra casa pensando em murros e pontapés que nunca encontravam o destino. Talvez você não entenda, talvez ninguém um dia venha a entender. É que um demônio invisível me roubou a alegria aos dez anos de idade. E hoje vivo nos sorrisos que provoco, com aqueles que não se importam em compartilhar as pequenas coisas secretas... essas poucas que não me ofendem com seu brilho.

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“SONHOS” Uma vez sonhei que era um aviãozinho de papel. E voava. Me interessam os eventos capazes de romper o tecido das relações sociais. Às vezes fantasio rasgos na realidade que, por alguns segundos, me produzem grande satisfação. Andando no ônibus, vejo um exército desconhecido invadindo a orla de Salvador. Marcham sem pressa, soberanos. Abrem caminho, mas não matam ninguém. Ainda. Se dirigem talvez às sedes do governo. Aos batalhões do exército. Aos shoppings Salvador e Iguatemi. Era pior, quando criança. Tive inúmeros sonhos com discos voadores. Eu os temia, mas ao mesmo tempo desejava aquela sensação intrigante de medo e espanto. Já os vi pousar em meu colégio, num dia de aula. Outra vez, avistei um disco maravilhosamente belo de minha janela do quarto e chamei a família toda para ver. Era como se o mundo se partisse em dois, como se dali em diante tudo fosse diferente. Talvez eu quisesse ser o cara dos discos voadores, o herói do filme, o nerd que decifra o código, descobre a invasão, acha o grande palpite que vai salvar a humanidade. Hoje tudo era água. Eu morava no décimo segundo andar e tinha água em minha janela. E eu saía de barco pela cidade.

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FIM

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Textos Literários  

Portfólio com alguns trabalhos literários de Davi L. Ramos

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