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no limiar incurs천es e devaneios na fronteira de linguagens Paulo Neves


Índice Limiar Página Computador e poesia Sideração Primeiras estórias “Ah! o que é isto?” Noemi Canções que marcaram Porto sem navios Cérebro e coração Poema das cores Uma árvore de Dürer A primeira e última das artes Crônicas anacrônicas A palavra saudade Usos de passar Labirinto A ponte Despertar Pessoa Passarinhos Macacos Esculturas vivas Cada um com seu cinema Anoitecer Borges Benevolência Ponto equidistante Eclosão O se que semeia Aquecimento global Pensar Lampejos de Paris Emily Dickinson Primavera Coisa-palavra Gárgula Em trânsito Insônia Esfinge Sísifo Menina que passa Canto de muro A verdadeira ciência Dias de novembro À procura de um tema Catálogo Jogo do dicionário O isolamento do internauta Discos voadores No ônibus Plenitude Arouchka

O nome próprio Ideia-flor Canções que marcaram, 2 Secreto harmônico Solstício Natal Cumplicidade Em volta da mesa Ano novo Davi Amizade Amoroso Ovo indiano O riso Surdos-mudos Guerra O anel de Moebius Fabulação Uma borboleta O poema que faltou escrever Vendedor de livros Seu Zé Água: seis indefinições Aventura no mar Tarde em Itapuã A gaivota e as ondas Ver, imaginar Paintbrush Grão-Mogol O reino é de uma criança (G)astronomia Aroma Os gatos Tarde da noite Aquário A energia do Carnaval Um silêncio que anota O livro por vir Na livraria A ideia e o afeto Espiritismo Tio Lupi Dignidade Café à brasileira No ônibus, 2 Cidade sertão O corpo e a alma O dedo do ET Medicina Trecho de um sonho Famílias pequenas O mistério da evolução A ação no mundo Caminhada Riobaldo Eco


Uma carta de Van Gogh Miró As cores na pintura Rainha egípcia Fantasia animista Outono Monk O piano Haquira Escrito e oral Como viver junto Doença Fotografia Sonho com Mário Quintana A criança e a chuva Recordação de Paris Espelhos rapidamente virados Tocar um instrumento O Andantino de Mozart Vento A folha e o vento Ah! Fonologia Inverno São João História No ônibus, 3 Relógio social Ponteiro Haicai O que é um poema? A prosa e o sangue Multipessoalidade Razão do verso Impressões de viagem Correspondência A carta O convívio com as coisas Rever Restos Nachbar A fluência francesa Empatia O estrangeiro Perna alucinante Contiguidades Til Roupa e cidade A escrita, a cidade e o “apagão” Alfabeto No meio

Música sem som O morcego No ônibus, 4 Anúncio da primavera Cantos da casa Salistre Trauma E tu? Sobre a crença O Grande Rebote O artista da fome Arte e religião Tempo Teses sobre a vida O peso do mundo Sentimento Crianças A mesa Alta-costura Cestinho de palha O lixo e o luxo Incidente no trânsito Velar O vagalume Agitação na primavera Pedras de Ouro Preto Os mortos Por que não nós? Forma e fundo Onda Amor, humor A concisão do inglês O que é um poema?, 2 Caixa preta Do diabo e da sorte No ônibus, 5 Viagem virtual Identidade Manolo Pange, língua Dezembro O cheiro da amendoeira Feito pra caber no mar Pot-pourri (para Mirian) Caminhada, 2 Guaíba Nuvens douradas O chamado e a chama Apólogo Fim


01/08/10 LIMIAR A palavra limiar: soleira, passagem, abertura, entrada num novo espaço. Começo de um experimento na blogosfera. Limiar da palavra: antes retraída e guardada em cadernos manuscritos, agora oferecida a uma leitura mais convivial, comentada. Limiar de época, de gerações, em que tento uma ultradução do que vejo, sinto, leio do mundo. Limiar-lugar: “um lugar / onde quero levar você / e eu não sei / que lugar pode ser”, como escrevi na letra de uma música do Guile. No limiar, enfim, palavras apenas portadoras de ar. 02/08/10 PÁGINA Página luminosa e vertical, como dialogar contigo? No teu silêncio transparente, largo, onde pôr o meu canto antigo? Não és mais a página sobre a qual debruçavam-se os sonhadores. Agora és tu que me sonhas, num pago indiferente às minhas dores.


04/08/10 COMPUTADOR E POESIA A mudança da folha horizontal para a tela vertical implica mudanças na atitude, no ato de escrever – menos devaneio, menos tempo de reflexão, mais objetividade, mais atenção ao aspecto gráfico das palavras. A poesia concreta triunfa, evidentemente, no computador, favorecida pelos dispositivos de movimento e transformação que ele permite e que ficavam apenas sugeridos no papel. Mas a invenção está menos nela do que nesses dispositivos “mágicos”, nas suas imensas possibilidades de animação e interconexão de textos (clica-se sobre uma palavra, aparecem outras), no caráter exploratório e polimórfico da escrita. Esse experimento com a linguagem ainda não é poesia. Pode ser que daí surjam poemas, textos realmente bons. Mas é uma possibilidade tão rara como a que continua existindo na forma tradicional da escrita. Novos meios tecnológicos nunca ajudaram a fazer melhor poesia, a não ser pelas provocações e reações que suscitaram nos antigos. O fundo vivo e permanente da poesia não se deixa moldar por nenhum avanço, por nenhuma época. Porque poesia é coisa de


linguagem que está um pouco além de tudo que a linguagem pode efetuar.

07/08/10 SIDERAÇÃO Por lazer ou profissionalmente, somos cada vez mais tomados pela tela do computador, estamos siderados por ela. Siderados é o termo exato: fulminados, estarrecidos, perplexos, admirados. Ele vem do grego sidus, astro, que formou os verbos latinos siderari (sofrer ação funesta dos astros) e considerare (examinar com cuidado e respeito religioso os astros), segundo o Houaiss. Sempre remontando ao espaço sideral. Curioso observar que a conquista espacial e o conhecimento mais detalhado do universo coincidem com essa sideração na tela (também porque as luzes da cidade nos impedem de contemplar um céu noturno). Sideração que o cinema preparou. E foi um filme já nos anos sessenta, o 2001 de Stanley Kubrick, que melhor mostrou a sideração profunda que nos esperava, naquelas imagens que se desenvolvem lenta e vertiginosamente, naquela viagem imóvel dos astronautas, dos quais só vemos os olhos se mexerem. Recentemente vi um belo filme que se passa no interior do Rio Grande do Sul, Os famosos e os


duendes da morte, que me evocou essas imagens de 2001, por combinar de um modo muito inventivo o mundo da Internet e o mundo rural, assim como Kubrick imaginou sua estação espacial na forma de uma roda de carreta. No filme de Esmir Filho e de Ismael Canepelle, a imagem arquetípica é a de uma ponte e a cena final mostra o menino, que sonha ser Bob Dylan e vive num mundo real ainda rústico, se lançando e sumindo do outro lado dessa ponte para não ser um “prisioneiro da passagem” (como lembrou meu amigo Flávio Aguiar, usando uma expressão de Foucault), que é a ameaça que pesa sobre os siderados.

09/08/10 NOITE ANTIGA Em volta da fogueira, homens contando histórias de deuses e animais. Sobem ao céu fagulhas e as estrelas se fixam num canto da memória. Sírius, Aldebarã, Hidra, Pavão, Centauro... Os nomes ardem mais.


11/08/10 PRIMEIRAS ESTÓRIAS Esse livro de Guimarães Rosa: minha primeira alegria, primeira surpresa em literatura. Acho que comecei a gostar de escrever quando o li aos dezessete ou dezoito anos. Mais do que ver que a linguagem podia ter formas diferentes das usuais, pressenti vagamente que ia gostar desse livro para sempre, que ele era um acontecimento marcante na minha vida, uma epifania, como a que aparece na primeira e na última dessas estórias, “As margens da alegria” e “Os cimos”. Pois acabo de ler um estudo do Luiz Tatit, Semiótica à luz de Guimarães Rosa, que me renovou esse sentimento e acrescentou muita compreensão dos processos narrativos dessas estórias. Luiz analisa seis delas, mostra o quanto elas contêm em filigrana de sabedoria, de compreensão profunda das relações humanas. Destaca o que é talvez o mais importante na sua mensagem, a importância do “fazer de conta” nos embates com as decepções do real. Na estória “Nada e a nossa condição”, a filha pergunta ao pai: “A vida é feita só de traiçoeiros altos-e-baixos? Não haverá, para a gente, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?” E o pai responde só isto: “Faz de conta,


minha filha... Faz de conta”. Luiz comenta: “Não havendo segurança conjuntiva, há pelo menos uma segurança juntiva que alterna disjunção e conjunção”. Apesar do instrumental teórico às vezes árduo para o leigo, vale a pena ler esse livro onde o Luiz não só amplia sua trajetória de estudioso das canções e cancionista, mas reafirma por outros caminhos sua própria “filosofia” cifrada na letra de “A Companheira”, uma de suas também inesquecíveis canções.

13/08/10 “AH! O QUE É ISTO?”

O mistério da linguagem é que precisamos viver, ouvir e mesmo escrever muitas histórias para reencontrar uma pergunta muito simples, que certamente passou por nossos lábios em criança. A pergunta que faz Miguilim à sua mãe, no “Campo Geral” de Guimarães Rosa (“Mãe, mas por que é, então, para que é que acontece tudo?!”). A pergunta que faz Caetano Veloso em “Cajuína” (“existirmos, a que será que se destina?”). Sempre há uma perda por trás dessa pergunta e, por trás dessa perda, um mistério.


O conto “O Canário”, de Katherine Mansfield (em Felicidade e outros contos, tradução de Julieta Cupertino), fala de uma perda: um canário alegrava com seu canto uma mulher, era uma companhia para ela, e agora não está mais aí. É com um índice de ausência que o conto começa, a narradora indicando um grande prego junto à porta e dizendo imaginar que as pessoas, no futuro, poderão observar: “Deve ter havido uma gaiola pendurada ali”. É o que lhe dá o conforto de que o pássaro não será esquecido. À medida que ela recorda, porém, e fala de um vago anseio ou lamento que acompanha sua vida, muito embora diga não ter queixas, pelo contrário, tenha muitos motivos para ser grata, percebe-se nessa perda uma tristeza maior e sem nome que a morte vem apenas assinalar, e que já estava lá quando o canário ainda vivia, cantava e alegrava. “Não me refiro à tristeza que todos conhecemos, como a doença, a pobreza e a morte. Não, é algo diferente. É lá no fundo, bem no fundo, faz parte da gente como a respiração. Por mais que trabalhe, por mais que me canse, basta parar para sentir que essa coisa está lá, esperando. Muitas vezes me pergunto se todo o mundo sente do mesmo jeito. Nunca se pode saber. Mas não é extraordinário que dentro do seu canto alegre, doce, tudo o que eu ouvia era: tristeza? ah! o que é isto?”


14/08/10 NOEMI Não tenho a mesma espontaneidade que ela ao escrever num blog. Reflito, digo indiretamente, cito. Ela vai dizendo o que aparece, vai catando ninharias e altas questões metafísicas do chão, vai transfigurando a linguagem em poesia sem que a gente perceba, quando parece que nada está acontecendo, e às vezes se surpreende com a palavra “ou”, por exemplo, e diz que “era um sonho que perambulava em busca de alguém que o sonhara”, ou então, ouvindo Chopin, sente as notas seguindo umas às outras “como se cada uma estivesse sozinha e a outra só viesse para lhe fazer companhia”. Ela escreve em fuga, em contraponto, em polifonia, escreve musicalmente.

16/08/10 CANÇÕES QUE MARCARAM Um grupo de amigos se reuniu há pouco para apresentar dez canções que marcaram suas vidas, e que cada um individualmente escolheu: não necessariamente as que consideram as melhores, mas as mais emocionantes. Não estive presente, mas participei de uma reunião preparatória em que foram discutidos os critérios da seleção. Emoção abrange


muita coisa e varia enormemente conforme cada um. A gente pode se emocionar com canções que fizeram sucesso ou não, com uma canção de ninar da infância (o Acalanto de Caymmi, por exemplo) ou com um rock contagiante dos Beatles, com um samba sutil do Paulinho da Viola ou com uma balada meio brega do Cassiano... Entram em jogo elementos estéticos, alguns dos quais dependem muito do intérprete, e outros puramente circunstanciais: gostamos de certas canções apenas porque se ligaram a um momento feliz de nossas vidas. Em suma, mesmo entre pessoas cujos gostos são mais ou menos próximos, as marcas da emoção podem variar muito, e a conclusão a que chegamos é que importavam menos os critérios do que as narrativas que cada um faria sobre a razão de sua escolha. Como se cada canção deixasse um halo em torno dela, e fosse esse halo que alguém captou que quiséssemos ouvir. Não cheguei a fazer minha lista, mas uma das que eu certamente incluiria é Captain of her heart, interpretada pelo grupo inglês Double (composta por Randy Crawford, uma cantora americana de jazz e R&B). Sucesso dos anos 80 que nunca me interessei em ouvir em disco, essa canção se associou a um tempo em que eu praticava o que chamei de “pescaria no rádio”, uma escuta distraída que às vezes sentia certas fisgadas, e ela sempre me tocou por seu fundo de cordas contínuo e modulado sobre o qual


sobressaíam os timbres metálico do piano e um pouco abafado da voz e da bateria. Era um pouco como os súbitos desvios e cintilações nas escamas prateadas de um cardume de peixes. Falei de pescaria, mas nesse caso se tratava mais de mergulho, de pesca submarina, e acho que a emoção profunda, musical ou não, sempre evoca um oceano.

20/08/10 PORTO SEM NAVIOS Visita ao cais do porto, agora sem navios, sem guindastes, sem comércio. Nas paredes dos armazéns cresce o musgo, plantas medram nas rachaduras. Peças de máquinas enferrujadas descansam nos cantos e os suportes de bronze para prender as cordas parecem esculturas modernas. Paisagem inútil que recebe em cheio o amarelo radioso do poente. Nesse lugar onde os barcos aportavam, agora são algumas almas que aportam para despejar a carga de seus olhares, e o rio lhes paga com o ouro inegociável do sol. Tomara que nenhum projeto de revitalização urbana ou de reaproveitamento comercial venha desfigurar essas trocas. Que o porto continue assim, sendo simplesmente um limiar.


22/08/10 CÉREBRO E CORAÇÃO O cérebro, como a cidade, é uma zona de aceleração das trocas. Nele as experiências possíveis se multiplicam, muitas imagens se formam e se dissolvem numa fração de segundo. E a velocidade do cérebro, quando plenamente desenvolvida, também se parece com a do corpo, com seus metabolismos ininterruptos. Corpo e cérebro são feitos para funcionar à base de trocas, de emulação, de dinamismo, e se dispõem como dois circuitos complementares e paralelos, mas que só se harmonizam se entre os dois intervier, moderando um e outro, um terceiro elemento, que lhes serve de ponte e de tradução. Esse elemento é o coração, que é o que sempre retarda, restitui o que foi trocado, devolve a cada experiência seu lugar de origem.

28/08/10 POEMA DAS CORES Ele vê uma nuvem branca e pensa no coração vermelho e negro da terra. Compreende que o azul do céu


é verde, verde das folhas, e que o sabor da laranja é amarelo como o sol. As cores se correspondem? Ele quer amar, amar, quer ser o elo, a palavra.

31/08/10 UMA ÁRVORE DE DÜRER Roland Barthes escreveu que a árvore é talvez o objeto mais representado na pintura, passando por todas as variações de época e estilo. Penso que é porque ela acolhe, na sua figura marcada pela verticalidade, um movimento do olhar não só para o alto (o caule, a copa), mas também para os interstícios dos ramos e das folhas que deixam entrever uma profundidade tão misteriosa como a das raízes. É o que encontro numa aquarela de Dürer, “Os moinhos de vimeiro nas margens do rio Pegnitz”, feita em 1498: uma árvore ocupa o lado direito da cena, volumosa mas discreta, enquanto à esquerda vê-se o tema propriamente representado, o rio, a ponte, os moinhos. Mas somente observando-se à lupa é que se perceberia a minúcia com que essa árvore foi pintada,


matizes e detalhes à primeira vista invisíveis na massa verde da folhagem. Os pintores sempre foram sensíveis a formas que aparentemente nada significam e que poderiam passar por monocromas. Na animação secreta desse espaço eles talvez reconheçam os elementos fundamentais da sua arte (e as cores, afinal, se originam em parte dos vegetais). Além disso, a árvore parece ser, como nessa aquarela de Dürer, uma testemunha silenciosa do que passa – as águas do rio e as obras dos homens.

02/09/10 A PRIMEIRA E ÚLTIMA DAS ARTES Arte mais primitiva, arte das cavernas e das crianças, à pintura estaria também reservado ser a última, a mais livre de todas as pompas deste mundo, a mais arte pela arte? E isto precisamente por ser aquela que viu seu campo invadido e tomado, nos últimos cem anos, por outras técnicas – fotografia, cinema, televisão, holografia, computação gráfica etc. Diante delas, o que pode a pintura ainda pretender? Só lhe resta ser uma arte.


05/09/10 CRÔNICAS ANACRÔNICAS As crônicas de viagem de Cecília Meireles já deviam ser anacrônicas na época em que foram escritas, anos 1940-50. Anacrônicas porque essencialmente líricas, ou porque a lírica já é essencialmente anacrônica. Essa voz que nos descreve suas viagens, não sabemos a quem pertence, a quem se dirige, onde está. Sabemos apenas que está encantada. Numa “Evocação lírica de Lisboa”, ela escreve: “Acordas num lugar de brumas... percebes à beira do rio aquele caramujo enrodilhado...” A imagem inicial vai imantando outras: “Vês a praça do mercado, e juras que tudo isto nasceu das águas; não é orvalho nem chuva (...) que escorre pelo caprichoso mármore das abóboras: é uma água mais longa”. No roteiro de um dia, nos diversos pontos da cidade, é convocada a história inteira de “reis, degredados, descobridores, mártires, gente afogada em cataclismos, esquartejada em forcas, festejada com esplendor que jamais se repetirá”. E o olhar é puxado em direções opostas, para as ruas novas (“alardeando falsidades”) e as ruas sombrias com suas mansardas misteriosas (“onde não consegues saber se há uma velhinha cosendo roupa para o neto que anda num barco, ou um neto querendo entender nos livros a razão da morte e da vida”).


Nessa crônica escrita em 1947, reconstituo de outro modo a viagem que fiz a Lisboa em 1972, viajo para trás da minha recordação nessas gaivotas “com seu peito de alabastro, suas asas finamente lavradas”, vou mais fundo num querer que nem é meu, sou esse tu que ela nomeia e desperta.

07/09/10 A PALAVRA SAUDADE Saudade formou-se por corruptela do espanhol soledad e, imagino, por uma modulação do seu sentido. O que descrevia um estado físico ou moral do indivíduo passou a designar uma vaga orientação dos seus sentimentos. Os portugueses reconheceram aí, talvez, uma diferença em relação a seus vizinhos ibéricos: enquanto estes tendiam a marcar nitidamente os sentimentos, os portugueses preferiam aproximálos, misturá-los, ver matizes em vez de cores definidas. Opunham assim uma atitude mais branda, maleável, à impetuosa voluntad dos espanhóis. Algo como os temperamentos opostos e complementares de irmãos. O fato é que a palavra saudade tornou-se exclusiva do português, intraduzível noutras línguas. Mas com o uso ela perdeu a sutileza de origem, passando a significar uma simples evocação do passado. Waly Salomão tem razão quando diz não gostar do


“enxurro” dessa palavra na língua portuguesa desde o romantismo, desde Casimiro de Abreu (“Ah que saudade que eu tenho / da aurora da minha vida...”). Essa saudade não exprime mais diferenças nem matizes, virou um lugar-comum do sentimento. Para reativar seu sentido original, seria preciso lembrar que o que a saudade exprime é a busca de um nome para o que se perdeu, para o que se situa num tempo ou num lugar indeterminados, ou para o que ainda não se realizou. A saudade pode ser tanto do passado quanto do futuro, mas é sempre um movimento vago em busca de um nome, de uma diferença, no presente da linguagem.

09/09/10 USOS DE PASSAR Passaram-me esta: “Passe aqui para lhe passarmos a pomada e sua dor passará.” Já se passaram três dias e nada. Passei por bobo. E são só algumas das acepções de passar (o Houaiss registra 77, fora as expressões idiomáticas), um verbo que é muito mais do que auxiliar: funciona como um expediente ou um passe para qualquer situação em que surge um obstáculo. Provém do latim passus, passo, o afastamento das pernas ao andar, que é também a imagem escolhida pelos chineses para representar o


ideograma do ser humano. Dar um passo e passar: eis aí uma representação para o viandante que somos e para o nosso viático.

12/09/10 LABIRINTO A imensa disponibilidade de informação na Internet, esse lugar onde as coisas mais se passam hoje, me causa perplexidade e desorientação. É como uma enorme biblioteca dirigida pelos serventes que são os usuários. Claro que ainda não aprendi a percorrer as pistas certas, mas suspeito que o labirinto é inerente à rede, criada para fazer proliferar as ramificações. Diferente de uma lista telefônica na qual se demorava a encontrar um nome procurado, agora se obtém de imediato uma fantástica lista de nomes não procurados. Todo o trabalho consiste então em formular o que se deseja saber à ignorância de uma infinidade de mestres. Às vezes sinto que a Internet é um aprendizado zen generalizado (respostas absurdas para perguntas mal formuladas) que nos ajuda a mapear mais velozmente o labirinto onde nos movemos e do qual podemos vir a saber quase tudo, exceto a entrada e a saída.


16/09/10 A PONTE O desastre é a matéria-prima das narrativas, porque desastres acontecem e voltam a acontecer na vida das sociedades, dos indivíduos. Ninguém deseja os desastres, mas eles estão sempre no horizonte, prontos para serem narrados. Antes ou depois. Nunca durante, que é o momento insuportável, inominável, e sobre o qual a narrativa lança uma ponte, restituindo o que aconteceu, apelando a um salvamento qualquer, do outro lado. Pois na narrativa há sempre uma necessidade de continuação, ou um ouvinte que pede explicações. Mas a ponte, ela, não fala. Deve ser quase invisível para que a narrativa se sustente e prossiga. A menos que se imagine essa ponte silenciosa caindo, caindo indefinidamente. Só então, amplificada mil vezes nessa queda, é que ela se conheceria e diria a si mesma: entre o lado de mim de cá e o lado de mim de lá, sou a ponte onde passo e onde passam por mim.


19/09/10 DESPERTAR No alto de uma página em branco, Edgar Braga escreveu este poema de um único verso: Acordei de rolar brancura que corresponde a este outro igualmente breve de Ungaretti, Mattina: M’illummino d’immenso e a este texto em prosa de Roland Barthes (em O Neutro) que, no seu desdobramento, contrapõe ao despertar o Cuidado: O despertar branco, neutro: durante alguns segundos, seja qual for o Cuidado com que se tenha adormecido, momento puro sem Cuidado, esquecimento do mal, vício no estado puro, espécie de alegria clara em dó maior; depois o Cuidado desaba sobre nós como um grande pássaro negro: o dia começa.


20/09/10 PESSOA Há uma página do Livro do desassossego (436) em que Bernardo Soares também fala do despertar, numa manhã de chuva: “É outra vez o horror de sempre – o dia, a vida, a utilidade fictícia, a atividade sem remédio...” Fala do corpo que resiste a deixar o seu refúgio de abandono, do chamado cada vez mais insistente do dia que o faz primeiro encolher-se e chorar, para enfim erguer-se e ir até a janela: “E num gesto brusco, como quem enfim se matasse, arrojo de sobre o corpo duro as roupas profundas da cama que me abriga. Despertei. O som da chuva esbate-se para mais alto no exterior indefinido. Sinto-me mais feliz. Cumpri uma coisa que ignoro. (...) Abro as próprias janelas de vidro. O ar fresco humedece-me a pele quente. Chove, sim, mas ainda que seja o mesmo é afinal tão menos! Quero refrescar-me, viver, e inclino o pescoço à vida, como a uma canga imensa.” Essa página é bastante excepcional num livro marcado pelo desencanto e a monotonia, mas ela contém uma intuição decisiva, não importa o que foi escrito antes, o que será escrito depois. Toda a obra de Fernando Pessoa ilumina-se para além dela a partir desse ponto, como entreviu meu falecido amigo Haquira Osakabe, com sua visão tão profunda da poesia.


22/09/10 PASSARINHOS Passarinhos pousados num fio. Um descanso matinal, talvez. Alguns se ocupam com a limpeza das penas. Estão próximos, mas não se comunicam. Um tenta se aproximar um pouco mais, o outro se afasta abrindo as asas. Os dois esvoaçam juntos, voltam, se aquietam de novo. Há uma vibração eletrizada, silenciosa no fio, onde os passarinhos são como nós atados. De repente todos se soltam ao mesmo tempo, voam para a copa de uma árvore e desaparecem na folhagem. O fio fica pulsando sem os passarinhos.

24/09/10 MACACOS Eles são a principal atração dos zoológicos e sabem disso. Sobretudo os jovens, mais dispostos a se exibir ao público. A movimentação é constante: escaladas rápidas, saltos, cambalhotas, brigas simuladas, artimanhas para catar pipocas do lado de fora da grade. Num canto uma dupla se concentra na prática solidária e mútua de catar piolhos. Já os mais velhos, talvez conscientes da reclusão e da repetição forçada, não


escondem o tédio. Um esboço de humanidade se encena nesse pequeno palco para os que observam de fora, com assombro, certamente por se reconhecerem nesses atores experientes que, como no cinema mudo, divertem sem rir e sem falar.

26/09/10 ESCULTURAS VIVAS Hoje é comum encontrar nas ruas centrais da cidade um ator isolado praticando uma forma estranha de teatro, imóvel e em silêncio: tingido como uma estátua, ele representa alguma figura (um anjo, um animal, um homem apressado colhido no instantâneo do seu movimento...) e permanece horas na mesma posição, faça frio ou calor. Lembro uma dessas esculturas, uma espécie de fênix renascendo das cinzas, diante da qual os passantes, sobretudo as crianças, muito se espantavam. O ator agradecia com gentis salamaleques as moedas lançadas num pequeno vaso de bronze. Há algo de radical nessa forma solitária, efêmera e anônima de fazer teatro, nessa maneira inesperada de interagir com o público, de surpreendê-lo. É como se o teatro, que sempre foi a irrupção de um espaço mágico no cotidiano, se aproximasse aí de um grau zero da representação, cujo extremo seria um ator, vestido


como um homem comum, postar-se simplesmente imóvel durante horas na rua. Mas as esculturas vivas não chegam nem devem chegar a esse ponto: o momento mais belo é quando o ator agradece e individualiza o público no ato de agradecimento.

29/09/10 CADA UM COM SEU CINEMA Como toda a minha geração, fui formado pelo cinema. Posso dizer que o horizonte do que eu vivia, quando jovem, era o que eu via na tela. Foi a minha geração que recebeu em cheio o choque do cinema, pois para a dos meus pais ele ainda era uma raridade, e a dos meus filhos já nasceu vendo televisão. Posso dizer também que essa experiência original sofreu uma transformação profunda quando o cinema começou a migrar para outros meios e espaços a partir dos anos 90, e que desde então frequento cada vez menos as salas. Mas quero mencionar um episódio ocorrido há dois anos. Trata-se de um filme que reunia 34 diretores da atualidade, de vários países, cada um apresentando um curta-metragem de 3 minutos sobre a experiência de ver cinema. O primeiro mostrava pessoas aguardando o anoitecer para ver um filme ao ar livre. Curiosamente, a sala onde eu estava mantinha as luzes


acesas enquanto o filme ia sendo projetado. Houve reclamações do público, assobios, os mais exaltados já se levantavam para exigir uma providência. Resignado, e imaginando que as projeções nos shoppings são hoje totalmente automatizadas, não havendo a quem reclamar, eu começava a aceitar esse estorvo quando vi que as luzes da sala, bem no momento em que escurecia na tela, se apagavam lentamente. Era uma gag interativa que fazia coincidir em tempo real o espaço da ficção e o espaço da sala de cinema. Se recordo esse episódio, aliás de um filme muito significativamente intitulado Cada um com seu cinema, é para dizer que a minha experiência do cinema, hoje dispersa e ramificada em outros meios, perdeu sua “aura”, mas ainda encontra surpresas.

02/10/10 ANOITECER Dobrando ruas ao anoitecer observo ao longe o morro com as luzes dos barracos na encosta. Falsa visão que me comove: a de um céu constelado caído no horizonte da cidade.


04/10/10 BORGES Numa página chamada “A morte vivida”, de 1928, Borges descreve uma visão que teve, aos 30 anos, durante uma caminhada nos arrabaldes de um vilarejo argentino. Fala de uma rua de terra, de casas baixas com seus portões, de uma “taipa rosada” que parecia conter uma luz íntima e que o lançou num outro tempo (já vi algo parecido ou sonhei com essas “penúltimas ruas”, como ele diz, “quase tão ignoradas quanto os soterrados alicerces da nossa casa ou nosso invisível esqueleto”). Esse texto, incluído num ensaio posterior sobre a refutação do tempo, desmente, de certo modo, o que ele afirma no prefácio da sua Antologia pessoal: “Meus deuses não me concedem mais que a alusão ou a menção”. Pois, embora também figure ali como menção, o seu poder de reverberação é irrecusável. Borges vivenciou momentos poéticos na juventude e escreveu alguns poemas de grande beleza nos seus primeiros livros. Depois, talvez por causa da cegueira ou por se julgar incapaz de reaver momentos como aqueles, dissimulou sua genuína visão de poeta sob as habilidades do prosador e do erudito. O mundo reconheceu e venerou esse Borges memorioso, mas aquele, que ainda se aventurava no sensível, é o que mais me toca.


06/10/10 BENEVOLÊNCIA Sobrecarregada de estímulos, de informação, a cidade só é legível num estado de benevolência. De outro modo as fachadas, os cartazes, as roupas e os gestos, tudo que se vê e quer ser visto ficaria tão cindido na percepção que esta logo se cansaria, se refugiaria na lembrança, ou então elegeria um único aspecto deixando o resto de lado. A benevolência, porém, compatibiliza tudo; percebe-se algo de contínuo, de homogêneo entre as coisas, que se derrama sobre elas como um certo tom de luz da tarde, ou um delicioso perfume cujo portador não se consegue identificar entre os passageiros do ônibus.

09/10/10 PONTO EQUIDISTANTE Fixar a atenção num ponto equidistante, não importa em relação a quê, seja qual for a situação: entre familiares ou estranhos, na intimidade com alguém ou numa conversa em grupo, ocupado com tarefas práticas ou com questões filosóficas. Girar em torno desse ponto como um planeta em torno do sol, o sol


em torno do centro da galáxia, sem se aproximar nem se afastar demais. Manter essa distância requer um estado que também não pode ser muito tenso nem muito frouxo. Isto soa um pouco como o justo meiotermo aristotélico. Mas o que me faz pensar assim é um sentimento da urgência de cada minuto, de cada dia, como se fossem os últimos e esse ponto só pudesse ser mantido num vértice da atenção.

10/10/10 ECLOSÃO A eclosão, na primavera, da flor amarela do ipê. Bruscamente a flor culmina um longo processo invisível na árvore desfolhada que a preparou e que a obriga a sair. Eclosão e conclusão. É desse modo fulminante, também, que aparece a existência de uma pessoa quando se recebe a notícia da sua morte.

13/10/2010 O SE QUE SEMEIA No filme A felicidade não se compra, de Frank Capra, um homem tem a oportunidade de experimentar, graças à astúcia de um anjo, o que seria o mundo se ele não tivesse existido. Vivenciar ou


imaginar tal (im)possibilidade faz que esse homem descubra que sua simples existência afetou a de muitos outros e que, sem ela, o mundo teria sido bem diferente do que é (no caso, para pior). Ou seja, ele descobre que uma simples existência ou um simples ato influem sobre o destino do universo. Mesmo anteposto ao que parece consumado, o se é um possível que semeia.

15/10/10 AQUECIMENTO GLOBAL Os cientistas discutem se o aquecimento global é causado pela ação humana ou se é só uma variação periódica na longa história do clima da Terra. Mas o ponto importante não é esse: é que o fenômeno se combinou com a consciência de que pequenos atos têm um efeito de longo alcance. Isso também não pode ser provado, no entanto parece evidente num mundo globalizado em que os indivíduos percebem e sofrem os efeitos (financeiros, por exemplo) de instabilidades produzidas a grande distância. É evidentemente um exagero responsabilizar os humanos pelos desastres climáticos, o que lembra um pouco aquele poeta europeu que se culpava de não ter conseguido impedir a deflagração da Segunda Guerra mundial. Mas Elias Canetti, que menciona esse fato,


assinala que não é tão absurdo o que o poeta sentia. Afinal, se as palavras é que haviam levado o mundo à guerra, diz ele, por que não se teria podido com as palavras evitá-la? Na discussão atual do clima, a velha questão de acreditar na fatalidade do Destino ou na decisão humana ganhou um elemento novo, introduzido talvez pela física quântica: sabe-se que a consciência individual tem um peso quase nulo como a massa de um elétron, mas agora ela pesa quanticamente mais.

17/10/10 PENSAR Consultando o dicionário, descubro que pensar é pesar, é suspender as coisas, fazê-las depender e se compensar entre si. Descubro que a família do pensar é ampla e disseminada, pois além desses cognatos, derivados da raiz latina pend, há muitos outros surpreendentes, ela já nasce como um verdadeiro compêndio, onde não faltam sequer apêndices, pendões, penduricalhos, pendengas. Nela já está contido todo o peso do pensar e também o imponderável.


19/10/10 LAMPEJOS DE PARIS Ocupado ultimamente em traduzir novelas policiais de Georges Simenon para a editora L&PM, sinto-me transportado, no meu cotidiano, ao espaço imaginário de Paris, cidade onde estive só uma vez, por poucos dias, em 1972. E isso através de lampejos, de menções de lugares, de rápidas descrições da paisagem e do clima. São detalhes de uma vida física e corporal que se conservaram como vestígios na minha lembrança da cidade. Nas novelas de Simenon, que se aprofunda no cotidiano através do olhar distanciado e compassivo do comissário Maigret, Paris é a personagem sem história na qual se depositam todas as histórias.

22/10/10 EMILY DICKINSON Isolada numa cidadezinha americana do século XIX, ela se manteve em permanente diálogo com a natureza e escreveu ao longo da vida, sem publicar, poemas como este, que traduzo: The Sky is low – the clouds are mean. A traveling Flake of Snow Across a Barn or through a Rut


Debates if it will go. A Narrow Wind complains all Day How someone treated him. Nature, like Us, is sometimes caught Without her Diadem.

Céu cinza, nuvens baixas. Um floco de neve oscilante Cruza a vala e o celeiro, Não sabe se vai adiante. Um vento estreito o dia todo Se queixa... A natureza Às vezes sofre como nós Sem o seu diadema.

24/10/10 PRIMAVERA Estão começando os dias lindos da primavera, aqueles dias tão esperados e que agora quase nem se percebe que chegaram. São sensações que o corpo desfruta discretamente, uma brisa fresca e ligeira que passa pela face dando apenas o sinal de sua passagem,


o roçar de uma felicidade corporal que não dá ânsia de buscá-la, como se bastasse a proximidade dela. É o vento moderado que produz essa ocasião do sentir, esse vento que devaneia na pele, nas árvores, nas nuvens e deixa a alma ociosa, quase sem desejos, a não ser o de se encostar numa palavra que lhe dê a dimensão finita disso que acontece sem palavras. Num momento assim se descobre que a escrita é somente um meio de colher um vestígio da sensação e de saudar o que é próximo. Os dias lindos da primavera são os dias próximos.

26/10/10 COISA-PALAVRA Até que ponto as palavras e as coisas são duas coisas (duas palavras) diferentes? Há, por um lado, as palavras, o sentido delas, as frases; por outro, há o papel ou a tela que suportam, transmitem a um leitor essas palavras (sem contar a mesa, a lâmpada, a casa, a cidade, o mundo, a noite, enfim, coisas infindáveis que não cabem nas palavras). Portanto, há palavras e coisas que no fundo se confundem num único movimento de expressão da existência que se expande com as coisas e em direção a outras coisas. Basta considerar o mundo da publicidade e da informação que hoje nos comprime:


onde o limite entre palavra e coisa? E a linguagem mesma o que é, senão uma coisa que nos ajuda a fazer (ou a desfazer) outras coisas? A diferença que persiste não é entre palavra e coisa (mesmo a consciência da linguagem não escapa à coisificação), é entre palavra “sinal do que não está aí” (e é o lado carente, irônico da linguagem) e palavra “sinal do que aí revive” (e é o seu lado pletórico, poético) que restitui às vezes, momentaneamente, a experiência original da coisa-palavra que nos criou.

29/10/10 GÁRGULA Sabem a gárgula? Aquela figura mitológica angelical ou monstruosa que faz jorrar água pela boca nas fontes, como existem várias no parque da Redenção? Bachelard (em A água e os sonhos) diz algo precioso a respeito dela: “A gárgula [em francês, gargouille] era um som antes de ser uma imagem, ou, pelo menos, um som que imediatamente encontrou sua imagem na pedra.” A gárgula gorgoleja. Foi o gorgolejo da água que deu nome à figura, como acontece com outras palavras, mais comuns, que usamos sem perceber que são transposições dos sons da natureza e que pertencem à mesma família linguística: gargarejo,


gargalo, garganta, gargalhada, por exemplo. E notem que a palavra portuguesa gárgula já esconde dentro dela água, essa água cujos sons podem variar imensamente e que é, ainda segundo Bachelard, “o mais fiel espelho da voz”.

30/10/10 EM TRÂNSITO Alberto Martins, o Betito, acaba de lançar um livro de poemas chamado Em trânsito, dedicado ao leitor “comum, usuário / que neste mundo engarrafado / usa o poema / como meio de transporte”. Em “Apartamento na noite”, ele pergunta: “A quem pertence / a cidade? Quem fala / por ela quando ninguém / fala por ela? O espaço / entre aquele prédio / e a casa em frente / a quem pertence? / a água que empoça na calçada / as vozes / na esquina / de madrugada / o calor do asfalto / sob os carros / as folhas na sarjeta / os galhos o pó a fuligem / que penetram cada vão / quem são?” Esses aspectos mínimos do cotidiano, colhidos por um olhar insone que tateia uma espécie de geografia do trabalho, pessoal e coletiva, percorrem o livro inteiro, junto com outras tantas inscrições de leituras. É a nossa experiência fragmentada e dispersa nas cidades que Betito retrata, com uma intensidade rara e


pungente. Como nestes versos de “Poema sem nome”: “O dia transcorre / entre as manchetes do jornal / e os cafés na padaria // enquanto alguma coisa / feroz / funda / e imprecisa // foge – // sem que eu consiga / apanhá-la pelo nome”.

03/11/10 INSÔNIA É o dia sem fim que não me deixa dormir? Chamo alguém, alguma coisa, uma palavra que me anoiteça na aurora quase a surgir.

05/11/10 ESFINGE Um cão de pelagem cor de areia, descansando, solitário, numa área deserta do parque. Com as patas dianteiras estendidas e a cabeça imóvel, mirando não sei que indefinível distância, parecia uma verdadeira Esfinge, imponente, absorta, que não se virou sequer para me ver passar.


09/11/10 SÍSIFO Sísifo levava ao alto de um monte uma pesada pedra que de lá rolava monte abaixo, e a fazia subir outra vez, interminavelmente. Homero diz que Sísifo era justo, que encadeou a Morte para evitar a guerra, e que os deuses o teriam punido por revelar seus segredos. Outros dizem que foi castigado por ser um príncipe ambicioso que alimentava em sua cabeça propósitos não executados (não se sabe quais seriam, mas, de todo modo, não executar um propósito é condenar-se a executá-lo sempre). Camus vê em Sísifo o herói trágico, absurdo, “que nega os deuses e ergue rochas”, que aceita a fatalidade e sabe que o homem é a medida de todas as coisas. “Deve-se imaginar Sísifo feliz”, diz Camus. Mas prefiro uma interpretação mais ampla e mais prosaica desse mito, sem levar em conta punição, causa ou finalidade: Sísifo simboliza a vida nadando contra a maré da entropia. Ele faz simplesmente o que precisa ser feito.

14/11/10 MENINA QUE PASSA Capto o sorriso de uma menina que passa, andando de bicicleta.


“Momento de puro amor” (como diz Caetano Veloso em “Joia”), apesar do “intervalo infinito que nos separa” (como disse Hugo de São Vítor, no século XII, sobre a relação com o divino). Pois foi um encontro momentâneo e ela não olhava para mim (nossos olhares só se cruzaram parcialmente e se prolongaram por caminhos diversos). Mas a alegria que vi nos olhos dela (inalcançável para mim) me lançou numa outra alegria (inalcançável para ela). Ou seja: havia um intervalo infinito entre nós, mas a alegria se propagou.

16/11/10 CANTO DE MURO Da minha janela avisto um jardim onde as plantas crescem sem muito cuidado, onde os passarinhos estão sempre a bicar os frutos que apodrecem no chão. É um jardim que ninguém frequenta, nos fundos de uma casa. O jardineiro só vem de vez em quando podar uns galhos, passar cal no tronco das árvores. O resto fica por conta das estações, da visita diária dos pardais, bem-te-vis, beija-flores, da ronda matinal dos insetos, da ronda noturna dos morcegos em agosto, quando as ameixas amadurecem. Há uma atividade constante, periódica, nesse jardim quase sempre sombreado, que


imagino semelhante ao “Canto de muro” que Luís da Câmara Cascudo descreveu, porque nele toda uma história natural também espera para ser contada ou inventada.

18/11/10 A VERDADEIRA CIÊNCIA Numa passagem de La peau de chagrin, Balzac ridiculariza um zoólogo ocupado em descrever e catalogar pormenores (ele o compara a Sancho Pança falando das cabras a Dom Quixote), em contraposição a um físico matemático que formula questões “fundamentais” sobre o movimento, a energia, a criação do universo. Balzac incorre num preconceito que ainda vigora em nossos dias, o de colocar no topo das ciências as que mais se aproximam da metafísica e de Deus, as que tentam decifrar o universo ou construir máquinas fantásticas. A botânica e a zoologia seriam ciências menores, ocupadas com descrições e nomenclatura, enquanto a física e a química dariam explicações de tudo. É verdade que a biologia, reagindo a esse estigma, vem tentando há mais de meio século provar que é uma ciência adulta, capaz de explicar a vida e de lançar projetos, como a engenharia genética, mais ambiciosos que os foguetes espaciais. Para a biologia contemporânea, a antiga história


natural é um anacronismo. No entanto, ainda hoje qualquer estudante aprende e se deleita muito mais com uma descrição inteligente da vida dos animais e das plantas do que com os cálculos complicados da genética. Saber observar e surpreender-se com a diversidade da vida será sempre muito mais importante do que buscar explicações ou controle. Mas a vontade de potência do espírito científico baniu a curiosidade dos primeiros naturalistas, que sabiam ver e interpretar as coisas a olhos nus. E assim a verdadeira ciência é agora (mas talvez tenha sido sempre) uma tarefa para poetas.

19/11/10 DIAS DE NOVEMBRO O branco reverberante das nuvens, o verde novo da folhagem. Sibipirunas, guapuruvus, jacarandás floridos. Na relva, margaridinhas e dentes-de-leão. Os dias vão ficando compridos, as noites já dispensam cobertores e ainda não há mosquitos. Momento ideal do clima e da pele, o corpo equilibrando na cabeça um balaio de sensações.


21/11/10 À PROCURA DE UM TEMA Velho tema de quem escreve, estar à procura de um tema. Concentro-me e não encontro. Desconcentrome, também não encontro. Se sou o centro desse tema, por que procurá-lo então? As palavras brincando de enganar o pensamento. As palavras são mulheres fingidas, gostam de afligir o pensamento, de vê-lo em palpos de aranha. Mulheres-aranhas, as palavras. E o pensamento sistematicamente enredado em suas teias. Pensamento: o homem-mosca.

23/11/10 CATÁLOGO catadura em catadupa catástrofe em cataplasma o catatau e a catacumba o catacego e a catarata catamorfismo? catacústica? catar catarse catástase o cata-vento a catapulta e o catálogo à cata de


25/11/10 JOGO DO DICIONÁRIO Há muito tempo inventei um jogo que consistia em abrir ao acaso o dicionário e propor um termo raro que ninguém conhecia. Cada participante devia então inventar e redigir um verbete para esse termo, caso não o conhecesse, da forma mais verossímil possível. Todos eram entregues ao proponente e lidos por ele anonimamente, inclusive o correto. Quem o indicasse ganhava um ponto; se ninguém o descobrisse, o proponente é que ganhava (para isso era importante que o termo já sugerisse uma certa inverossimilhança, toda a habilidade sendo encontrar no dicionário justamente um verbete desse tipo, que despistasse). Não lembro se havia também a regra de premiar com um ponto um verbete inventado que induzisse todos os outros participantes a indicarem-no como o correto. O fato é que o jogo fez sucesso em certa época e foi recebido como um velho jogo redescoberto, a ponto de eu duvidar que fora uma invenção minha. Aliás, hoje acredito mais é que inventei que o teria inventado. 28/11/10 O ISOLAMENTO DO INTERNAUTA Com a Internet ficou tão fácil buscar interesses ou estabelecer relações à distância que as formas


anteriores de convívio (visitar ou receber amigos, participar de jogos em grupo ou mesmo assistir juntos a um programa de TV) vão sendo rapidamente abandonadas. E o fato de ser usada por muitos ao mesmo tempo não significa que é uma rede pública: ela é uma rede de comunicações pontuais entre indivíduos ou no máximo dentro de um pequeno grupo. Com esta característica importante: a interação claramente se protege das demandas (boas ou más, agradáveis ou inconvenientes) que a exposição num ambiente público acarreta. Mesmo com o acesso liberado, a rede é controlada pelo usuário, e nisso ela se diferencia dos contatos públicos, sempre mais imprevisíveis. Assim criou-se uma forma nova de isolamento. Antes, isolar-se era privar-se de trocas; no melhor dos casos, era um meio de produzir algo que depois seria dado ao público. Já para o internauta, me parece às vezes que o isolamento é aquilo mesmo que é trocado com os outros.

30/11/10 DISCOS VOADORES Faz tempo que os discos voadores não dão notícia. Nos anos 60 e 70, todo mundo sabia de alguém que já tinha visto um. Depois vieram os filmes do Spielberg, ET e Contatos imediatos, que sem querer acabaram


reduzindo os discos voadores a objetos folclóricos. E assim, como índios aculturados, eles perderam seu interesse. Isso coincidiu com um sequestro do nosso olhar. O que antes ainda se podia imaginar, conceber ou sonhar como um desafio às leis da física, tudo que era visão de iluminados, loucos e crianças, passou a ser produzido a toda hora e em todo lugar por máquinas de programação visual, por efeitos especiais que, de tão repetidos, já não causam espanto e sugam os olhos humanos ao intoxicá-los de maravilhas. Recentemente fiquei sabendo de um grupo de artistas americanos que se diverte em simular, em diferentes lugares do mundo, marcas no chão tais como poderiam ser deixadas por naves extraterrestres (aqui perto, em Sobradinho, já apareceram inexplicáveis círculos num campo de trigo que podem ter sido traçados por esses artistas). É uma tentativa, pelo menos, de indicar outra direção ao nosso olhar que não seja a Tela.

02/12/10 NO ÔNIBUS Sento ao lado de uma mãe com um bebê no ônibus. A criança me olha longamente em silêncio. Não lhe dirijo palavras nem gracinhas, apenas dou a entender


que seu olhar me agrada. Ela pega então a tampa da mamadeira, põe diante da boca e começa a emitir sons, uns longos, outros breves, num exercício espontâneo e maravilhoso de técnica vocal. Ela explorava a tampa como um instrumento, percebia sua própria voz modificada e comprazia-se em ouvir-se, sem nenhuma estridência, sem parecer mesmo querer chamar minha atenção para o que fazia. Estava simplesmente concentrada em produzir sons, como antes estivera em olhar-me. Durante alguns minutos, eu soube o que é estar ao lado de um anjo.

06/12/10 PLENITUDE Se os meus pensamentos não tivessem retaguarda, se a minha memória se incorporasse nos gestos e eu só agisse em função do presente, mas guiado por alguma oculta e milenar sabedoria, minha vida conheceria uma espécie de plenitude, mesmo dispersa e ocupada, como hoje, somente em miúdas tarefas cotidianas. 08/12/10 AROUCHKA Remexendo em cartas e papéis antigos, recupero este achado perdido: Arouchka, que diz ter-me conhecido a


bordo do Giulio Cesare, me escreve uma carta em francês postada no Rio de Janeiro, onde ela (“j´étais amie de Cristobal”) desembarcou (mas quem era Cristobal?). Fala de suas primeiras frustrações no Brasil (“je n´ai jusqu´à présent rencontré que des gens à mentalité incroyablement bourgeoise”) e diz que aos poucos vai se habituando “à cette nouvelle forme de solitude”. Pede-me que lhe escreva: “Tu serais vachement gentil de m´écrire un petit mot”. Eu, negligente, não me lembro de ter respondido. Mas tão inutilmente quanto seu pedido, registro aqui seu nome, Arouchka, qual um Moal da ilha da Páscoa, monumento de língua estranha, nuvem mais do que passageira, puro vestígio datado, precisamente, de 6 de junho de 1972.

10/12/10 O NOME PRÓPRIO Fóssil da língua, mas fóssil em permanente atividade e mutação: assim é o nome próprio, sempre chamado e chamado a intervir, nome cujo sentido, mais do que esquecido, não cessa de ser dobrado, forrado de novas camadas de uso. O significado de um nome é um enigma no qual se condensam sua origem etimológica e todos os valores que lhe foram agregados. Cada nome é um complexo, uma constelação, um totem. “O


totem mais próximo de nós”, na bela expressão de Kleinpaul, citada no Dicionário Etimológico de Nomes e Sobrenomes de Mansur Guérios. O nome próprio seria originalmente homenagem (como a nomeação em geral, que é reconhecimento da existência ao ser nomeado) e expressão de um voto ou desejo religioso (como ilustram dois de nossos nomes mais usuais, João e Maria). Mas esse caráter sagrado estaria sempre associado a circunstâncias profanas, em primeiro lugar à circunstância do nascimento (modo, tempo, lugar), de que procede um nome como César (“nascido de um corte”, donde a cesariana), depois a circunstâncias ou façanhas da vida que vão acrescentar qualidades ao nome original ou mesmo substituí-lo. Assim, Percival é “o que atravessa o vale” (perce le val) em busca de aventura, e Romeu, “o peregrino que vai a Roma”. É por deslocamento e condensação, como as imagens nos sonhos, que os nomes em geral se formam e se disseminam. Um surge a partir do outro, por ignorância da qualidade própria do que surge. E é natural que seja assim: antes de se poder designar o novo, é preciso dar-lhe um nome. O nome antecede o sentido, é nome de referência. A bem dizer não existe nome próprio, todo nome (das pessoas e das coisas) é uma impropriedade consentida, necessária para que os nomes existam. Se o significado é o uso, como queria Wittgenstein, primeiro há um abuso. Por abuso os


nomes são dados, pelo uso eles são apenas confirmados.

13/12/10 IDEIA-FLOR Este enfeite despretensioso que ela fez (e que lhe restituo neste escrito, no dia do seu aniversário): tecido colado numa tampa e sobre a tampa um arranjo de filó imitando pétalas de flor, preso por uma miçanga, no fundo, como um pistilo quase invisível. Flor em transparência. Ela fez, sem saber, um poema da flor. maravilhosa ideia-flor flor de filó do meu amor

15/12/10 CANÇÕES QUE MARCARAM, 2 Participo enfim de um encontro sobre as canções que marcaram. Fomos em grupo até a praia, para tornar mais solene esse encontro. Oito participantes. Durante seis horas seguidas, ouvimos as cinco músicas que cada um escolheu, os outros tentando adivinhar quem


as escolhera. Jogo divertido, às vezes surpreendente, e sempre emocionante por esses pequenos segredos da alma compartilhados. Aqui estão as minhas cinco, escolhidas entre dezenas de outras possíveis e guiadas pelo critério de representar um determinado tipo de emoção: 1) o Acalanto de Dorival Caymmi, cantada por ele e sua filha Nana – a emoção mais primitiva, maravilhosa canção de ninar e bálsamo da humanidade; 2) O leãozinho de Caetano Veloso – alegria da infância redescoberta pelo homem maduro e já um pouco triste, alegria que senti e ainda sinto ao ver meus filhos; 3) Walrus dos Beatles – essa escolha se deve mais a uma circunstância: eu saía pela primeira vez do Brasil em 1968 e, num bar à beira de estrada entre Montevidéu e Colônia, descobri e ouvi num jukebox essa canção que não só me pareceu uma das mais estranhas dos Beatles, mas que ficou sendo a marca do estrangeiro, a emoção da estranheza; 4) Miragem de Djavan – a euforia rítmica que essa canção me provoca (comparável à de Isn’t she lovely? de Stevie Wonder, por exemplo) é uma prova do poder dionisíaco da música; 5) enfim, A lua e eu de Cassiano – me dá vontade de chorar quando ele canta com uma voz quase cômica: “Quando olho no espelho / estou ficando velho e acabado...”; é a emoção brega, sentimental.


Amigos, deem-me um presente de Natal: indiquem cinco das músicas (populares ou clássicas, não importa) que mais os emocionaram na vida. Não é só por curiosidade. É que assim eu teria um pequeno retrato da alma dos que me leem para me consolar de não tê-los ao meu lado.

18/12/10 SECRETO HARMÔNICO

Certa vez encontrei numa loja que vende artigos de Bali um curioso vaso de metal. Friccionado nas bordas, mesmo com o dedo, ele produzia uma série harmônica de longa duração. O efeito mágico deve-se a uma liga de metais cuja fórmula, disseram-me, é um segredo milenar dos alquimistas. Algum tempo depois sonhei com esse vaso. Era tocado numa estranha cerimônia no mundo dos mortos, onde uma multidão, envolta numa bruma vermelha, reunia-se para adorar o Som. A imagem desse sonho me acompanhou durante o dia como um zumbido, um enxame de possibilidades fugazes. No meu corpo que roçava a multidão nas ruas, um pequeno atrito também teria bastado para produzir um secreto harmônico.


20/12/10 SOLSTÍCIO O sol interrompe amanhã sua marcha aparente ao sul e inicia seu lento retorno ao norte, mas deixando aqui um rastro de calor. Apogeu do sol no hemisfério sul que, para os meus sentidos, é o apogeu do verão, mais florido e perfumado do que nunca, embora esteja apenas começando. Beleza desse movimento cósmico que nos conduz sem que o saibamos. Há um poema da portuguesa Fiama Brandão, intitulado “O sistema solar”, que diz na sua última estrofe: “E o Sol tramonta sobre as nossas casas / e os montes e vales e o nosso mar. / Quando um verso marca o lugar das coisas / elas aí ficam para sempre. O Sol / que perpassa em cumes e em cristas / nasce nas arestas serranas do nascente / e vai até o mar em sete versos.”

24/12/10 NATAL Esqueçam tudo, Papai Noel, presentes, ceia com peru, esqueçam liturgia e religião. Lembrem somente a história daquela noite em Belém, Maria, José e o burrinho, o burrinho que leva Maria que leva o menino que vai nascer.


27/12/10 CUMPLICIDADE Eu viajava de trem pelo sertão e cantava em voz alta, como um repentista, tudo que percebia ao meu redor. De repente, no sonho, o trem é invadido por cangaceiros que agridem e assaltam os passageiros. Mas, ao chegar minha vez, eles não só me poupam como também me oferecem comida, dando a entender que eu devia seguir cantando seus feitos.

29/12/10 EM VOLTA DA MESA Terminada a refeição, começamos a conversar sobre viagens no tempo, sobre a existência de mundos paralelos, sobre o eterno retorno de seres sonhados como nas Ruínas circulares de Borges, e me ocorreu que esse instante (esse instante em que conversávamos em volta da mesa como tantas outras vezes) poderia estar inscrito desde sempre em nossos destinos ou poderia estar sendo criado ali por algum feliz acaso. As duas possibilidades se equivaliam rigorosamente e convergiam no interesse suscitado por essa conversa,


que acendia um brilho antigo e tão novo nos meus olhos e nos olhos dos meus filhos.

31/12/10 ANO NOVO com vinho velho brindar o novo que não adivinho

01/01/11 DAVI Inaugurar caminho, conciliar água e vento, fazer do corpo a vela, dar vela ao pensamento: isso é o que quer dizer Navegar é preciso.

03/01/11 AMIZADE A amizade nasce à noite, no passeio de dois amigos que vão conversando à noite pela rua. Vulneráveis,


expostos, eles sentem que começa ali a troca de algo indeterminado que é a própria alma da noite agindo, fermentando dentro deles. A confluência de gostos, de interesses, precisa dessa abertura à noite sem a qual haverá apenas admiração pelo outro, jamais uma amizade. E é a razão também por que as verdadeiras amizades raramente se formam depois da juventude. Mas não é a idade que impede que elas se formem. É a falta de disponibilidade para a noite, para a longa conversa noite adentro.

05/01/11 AMOROSO Estava guardado na estante há muito tempo, ao fazer uma limpeza o redescobri: Amoroso, um dos menores livros que já folheei, cabe na palma da mão. Não conheci seu autor, Devanir Luiz Ferreira, o Deva, amigo do Álvaro, que foi quem me deu esse livrinho nos anos 70. Maravilhosa história de amor que, por ser narrada graficamente, não tenho como reproduzir (eu precisaria de um scanner). Mas imaginem as letras a e o formando desenhos, constelações na página, com a invenção e a beleza de um sentimento verdadeiro. Se a poesia concreta tem uma razão de ser, Amoroso é uma prova.


Deva o dedica a Rita, cujo rosto ele diz que pescou “em rios de afeto”, com quem ele passeou por ruas e avenidas, os dois “abraçadinhos”, até que, num “tempo do amor devanescente”, “o amor separa – separa por amor” e “o coração parte junto”. Breve roteiro de um amor encontrado, perdido, guardado: “O amor ficará guardado, tão bem guardado que parecerá esquecido.” Olho a capa já amarelecida, o cordão azul que prende as folhas. Reponho o livrinho na estante como quem guarda uma joia do tempo.

07/01/11 OVO INDIANO No ovo estão pintados animais herbívoros – cabra, coelho ou veado – que saltam ou passeiam entre tufos de ervas e cogumelos azuis. A vida animal e vegetal se concentra na parte inferior, mais bojuda, e parece girar em torno de uma espécie de umbigo, sobre o qual, com cuidado, o ovo se equilibra. No lado superior, mais estreito e puramente instável, a cena se rarefaz: somente pontos dourados sobre o fundo azul escuro. Ovo que contém a visão indiana do universo, ovo cuja beleza percorro com o olhar por fora, cuja leveza sinto com a mão, sem imaginar o que há por dentro.


12/01/11 O RISO Só o ser humano ri. E ri, essencialmente, para aplacar o medo que lhe vem do fato de viver premido pela natureza ou pela sociedade. O riso, na sua origem, é um choro modificado. Isso se aplica tanto ao riso que estabelece normas de convívio (o riso de congraçamento, de cortesia) quanto ao cômico em suas diversas formas. Este seria sempre, segundo Bergson, uma anestesia momentânea da emoção, praticada pelo intelecto para corrigir o que há de rigidez mecânica e de distração nos comportamentos. Também aí o riso seria uma forma de aplacar o medo diante do que é singular e anômalo, mediante um nivelamento que sempre relaxa e rebaixa o que é tenso. Ao contrário, a emoção causada por medo, desejo, ódio, piedade, entusiasmo, nunca se presta ao riso justamente porque tensiona ou eleva o espírito. Assim também o sagrado – e o trágico. Bergson assinala que não se concebe outra postura dos heróis trágicos senão de pé, e cita um comentário mordaz de Napoleão segundo o qual basta sentar-se para passar rapidamente do trágico ao cômico.


14/01/11 SURDOS-MUDOS A performance fantástica de uma intérprete para surdos-mudos, magnetizando também o olhar dos que ouvem uma palestra. Com sua mímica veloz, sintética, ela rouba literalmente a palavra do palestrante. Eis aí a afirmação de um grupo minoritário que, a exemplo de outros – alguns muito mais estigmatizados, como os homossexuais –, eram antes forçados a se curvar às normas da maioria. Em vez de tentar a oralidade como lhes era incutido (já que são privados de audição mas têm voz), os surdos-mudos orgulhosamente optaram pela linguagem de sinais, constituindo uma sociedade fechada e autônoma. E não é assim que toda sociedade e toda língua se formam, por isolamento e autoexclusão? O intercâmbio com os não-surdos é uma escolha posterior e voluntária; primeiro os surdos-mudos precisavam se reconhecer entre si. Além do mais, nada impede que os outros possam e queiram aprender a linguagem de sinais para interagir com eles. Afinal, vivemos desde sempre num universo atomizado e as verdadeiras trocas, muito raras, só ocorrem quando são mutuamente desejadas.


17/01/11 GUERRA Preciso falar de um assunto que me mortifica e que o livro que estou traduzindo reavivou: a Segunda Guerra mundial. O livro se concentra num episódio de 1942, o atentado cometido em Praga por dois tchecoslovacos contra um alto dirigente da SS, mas consegue traçar um quadro amplo e penetrante do terror nazista e das forças que o combateram. Como o autor é um francês bem mais jovem que eu, vejo que nas novas gerações há quem continue sensível a essa hecatombe. Eu disse que o assunto me mortifica porque desde a infância ele ocupa meu imaginário, desde os filmes de guerra que foram os primeiros que vi no cinema, desde o seriado “Memórias de Churchill”, no começo da televisão, que eu seguia com fascínio e horror. O passar do tempo não mitigou esse sentimento, periodicamente realimentado por filmes e leituras. Há cerca de um ano passou na TV a cabo um documentário mais atualizado, de sete horas seguidas de duração, que acompanhei, exausto e um pouco morbidamente, até o final. Morbidamente porque as imagens desses milhões de mortos, das cidades destruídas, do Holocausto, da bomba sobre Hiroshima, continuam a se abater sobre mim como o peso da História, com uma violência que continuo sem compreender e que certamente nunca compreenderei.


É como se a geração anterior tivesse deixado à minha, a primeira a imaginar o que foi essa guerra, a marca de um sofrimento que não se pode mais esquecer.

19/01/11 O ANEL DE MOEBIUS Reencontro com Julio Cortazar, o gigante manietado por suas microscópicas criaturas, cronópios, famas e esperanças. Desta vez um conto em Orientação dos gatos, “O anel de Moebius”, que tem uma epígrafe de Clarice Lispector. História baseada num estupro ocorrido na Borgonha (a dedicatória in memoriam resgata a vítima e o criminoso justiçado, Janet e Robert, do efêmero escândalo nos jornais). Duas histórias, na verdade, e seu inevitável choque (mas por que inevitável, se “não precisava ser assim”?), para depois divergirem e se encontrarem num outro plano, uma história entrando na outra (como o anel de Moebius, que é uma fita de um único lado, em forma de oito). Cortazar constrói a trama através de blocos de significados que ele denomina reptação, febre, estadoonda, estado-cubo. Trata-se de uma montagem literária, como nos contos de Clarice, com os fios invisíveis de sentimentos brutos que descrevem uma espécie de viagem cósmica, de migração do espírito na


matéria ou da matéria no espírito, em busca do que seria uma regeneração – regenerar, gerar de novo, desviar da sua fatalidade um momento que poderia ter sido de “verdade e prazer”.

21/01/11 FABULAÇÃO Você é uma bola, uma bola de plástico toda colorida. Está quieta na grama, não há meninos por perto. E então sente uma vontade louca de correr, de saltar e, ajudada pelo vento, consegue rolar alguns metros até uma árvore, onde fica dando uns pulinhos, desajeitada, mas com uma alegria desproporcional, prematura, até que um menino a enxerga e começa a duvidar de você, começa a duvidar da sua alegria, da sua existência plástica e redonda, da sua utilidade como brinquedo ou como mistério.

23/01/11 UMA BORBOLETA Uma pequena borboleta de asas pretas com um ponto branco, caída no chão. Coloco-a na minha palma, as asas ainda se mexem levemente. Mas é só a lembrança de terem voado, de terem existido, uma lembrança


motora que ainda pulsa no corpo da borboleta morta. Coloco-a de volta no chão, as asas continuam se mexendo. Mais tarde passo no mesmo lugar onde a deixei. A borboleta não está mais.

25/01/11 O POEMA QUE FALTOU ESCREVER Não tinha nome, nem tema, nem uma única palavra formada. Mas senti tão claramente, tão fisicamente que me colocava na disposição exata de um poema que só faltava escrever, que tive o gozo antecipado da sua realização. Isso durou quanto tempo? Talvez só um segundo. Mas foi o bastante para que eu depusesse a caneta e esse poema entrasse gloriosamente no limbo, de onde agora me contempla com majestosa irrisão.

28/01/11 VENDEDOR DE LIVROS Jorge Luiz, nordestino franzino de pele escura e olhos vivos. Ex-menino de rua. Vende livros para pagar seus estudos (quer ser advogado). Adquiri dele um Manual de testes para concursos, inútil e dispendioso, como um meio de investir na bolsa do rapaz (que irradiava tanta vivacidade que era


impossível não apostar na alta de suas ações). Em troca, convidou-me a comer caranguejos com ele em Aracaju.

30/01/11 SEU ZÉ Seu Zé, o meu vizinho mansamente apocalíptico, teve a água cortada por causa da inadimplência da casa abandonada da qual foi caseiro e onde vive até hoje numa dependência dos fundos. Nosso prédio concordou em suprir o fornecimento até que a situação se resolva, o que já se prolonga há mais de ano. Ele não cessa de exprimir sua gratidão por algo que, na verdade, nos custa muito pouco. Mas seu Zé é um homem religioso, que reconhece na água o que está acima das intervenções e vontades humanas. Por isso compreendo bem o que ele me disse: “Depois de Deus, o que a gente mais precisa é de água”. A água dá a vida, mas Deus é que dá a água.

01/02/11 ÁGUA: SEIS INDEFINIÇÕES O estado interessante da matéria. Reminiscência que aflora embebida.


Leito por onde corre a nossa sede. A transformadora que se evapora. Imagem restante da transparência. Meio e caminho do meio da vida.

11/02/11 AVENTURA NO MAR A água está fria mas límpida, o sol e a brisa convidam a entrar no mar. Quebram as primeiras ondas. Provocação juvenil para que o corpo responda com vigor, aceite o combate. E ele avança. Com a memória da pele, vai vencendo uma por uma, vai rejuvenescendo a cada mergulho, a cada crista perfurada. Mas, de repente, um repuxo traiçoeiro o faz perder o pé. Em vão tenta nadar de volta. Sozinho com o deus, sem recurso, sua única chance é essa última onda que se aproxima e se eleva. Se der algumas braçadas fortes, pegará um jacaré, será impulsionado como um torpedo, filho de Netuno que retorna coroado de espuma. Conseguirá? Sim, mas não triunfalmente. Embolado na onda, chacoalhado, braços e pernas em rodopio, rola como um calhau ou um destroço de navio até encalhar na praia.


12/02/11 TARDE EM ITAPUÃ Alguns dias junto ao mar me puseram na frequência e no espírito da Tarde em Itapuã, essa canção de Toquinho e Vinícius que é como um velho calção de banho que não pode faltar na bagagem. Com relaxada riqueza, as estrofes rimam “Caymmi” com “esteira de vime”, “verde novinho em folha” com “cachaça de rolha”, falam da “preguiça no corpo”, do “olhar esquecido”, para culminar num refrão de quatro versos aparentemente redundantes, mas com um detalhe que pela primeira vez me chamou a atenção: Passar uma tarde em Itapuã Ao sol que arde em Itapuã Ouvindo o mar de Itapuã Falar de amor em Itapuã Enquanto “Itapuã” se repete no final de cada verso, a palavra “tarde” se decompõe para indicar não só uma experiência física, mas todo um processo de criação de linguagem. Primeiro a pele sente, na tarde, o sol que “arde”, depois o ouvido desmembra/relembra o “mar de” Itapuã, para que a voz passe enfim a “falar de” amor. E notem que aqui a posição muda, está agora na abertura da frase, o que fará o acento do verso recair em “amor”. Minha observação é só um esboço do que


Vinícius intuiu. Para os que pensam que no fim da vida ele relaxou o cuidado com a poesia, esses quatro versos, realçados pela melodia do Toquinho, são uma prova inegável de precisão acústica e mental.

14/02/11 A GAIVOTA E AS ONDAS Uma gaivota sobrevoa o mar depois da chuva. Vai devagar e acompanha a curva de um arco-íris. Vai e volta e as asas vão marcando o ritmo das ondas ondas ondas ondas...

16/02/11 VER, IMAGINAR Ver não é só captar imagens, mas produzi-las na imaginação. É valer-se de sensações táteis, deslocamentos corporais, para ter acesso a ângulos e aberturas de visão inusitados. Foi o que pensei ao ver o filme Onde vivem os monstros – o menino construindo e movendo-se dentro de espaços nos quais encena suas fantasias – que o meu filho Nik, desenhista e ilustrador, me recomendou. Acho que ele reconheceu nesse filme suas primeiras experiências “visionárias” em miniatura, com um boneco, o Feijãozinho. É um


pouco, imagino, o que toda criança faz ao mover-se no chão entre as pernas ou suspensa nos braços de um adulto. Só a criança dispõe dessa variedade de pontos de vista que se restringem quando ela cresce e a posição do olhar se estabiliza. O desenho foi para o Nik um prolongamento dessa experiência primária carregada de afetos, que a linha no papel procura conter e direcionar. Embora eu também goste de imaginar cenas, nunca me apliquei ao desenho, o que sinto hoje como uma deficiência, pois a palavra escrita não tem a mesma elasticidade, é um sucedâneo arrefecido e tardio dos movimentos do corpo e do olhar. O Nik possuía e ainda possui uma aguda percepção óptica e háptica – seus olhos ágeis, penetrantes, que já me impressionavam tanto quando ele era menino.

18/02/11 PAINTBRUSH Um tempo atrás desenhei no Paintbrush, do Windows, uma criança pulando corda, manejada por dois adultos. Uma árvore inclinava-se à direita. Pus algumas flores embaixo. No momento de escolher e clicar sobre a cor de fundo, um azul-cobalto, aconteceu um pequeno milagre: as cores se acenderam magicamente como num quadro de Chagall.


Esse efeito inesperado se deveu em parte à minha ignorância dos recursos (aliás, muito limitados) que o programa oferece. Mas isso também aconteceu quando, numa outra vez, pintei com guache. A intenção inicial do desenho ou da pintura contou, no meu caso, com intervenções do acaso para prosseguir. Não levei muito adiante a experiência, mas posso dizer que tive, nessas ocasiões, a ilusão fascinante de ser pintor.

20/02/11 GRÃO-MOGOL O que diferencia o verdadeiro pintor do amador é que este descobre as cores, enquanto aquele as secreta. Sim, é por secreção que ele pinta, as cores se acumularam tanto dentro dele que precisam extravasar. É o que percebo numa aquarela (pintada pelo meu amigo Zé Tatit e agora disponível no seu blog) na qual o verde carbonizado das montanhas, de um lugarejo de Minas chamado Grão-Mogol, possui uma estranha densidade. Ele me explicou, quando a vi pela primeira vez na parede da sua casa, que para chegar a esse resultado aplicou muitas e muitas camadas sobrepostas de aquarela (justamente a água que dissolve, mas também penetra e deixa resíduos). E, de fato, parece que ali se depositaram camadas de noites inumeráveis,


de chuvas que a terra absorveu. Camadas que o pintor foi secretando e que dão agora a impressão de que o longe é perto, e de que a paisagem se vê por dentro.

22/02/11 O REINO É DE UMA CRIANÇA A frase de Heráclito, “o tempo é uma criança jogando dados”, exprime menos o acaso, que é um mero efeito do jogo, do que uma doação completa e gratuita ao acontecimento, que é a atitude da criança ao jogar. A criança não espera um resultado, qualquer um lhe serve. Sua atenção muda facilmente de objeto, mas permanece intensivamente a mesma. Por isso Heráclito acrescenta que “o reino é de uma criança”. (Comentando o mesmo aforismo em Heráclito e seu (dis)curso, editado pela L&PM Pocket, Donaldo Schüler faz uma observação que não posso deixar de citar aqui: “O velho que ousa jogar rejuvenesce. O futuro volta a lhe sorrir. Mesmo no velho que joga, o reino é do jovem. Depois que se viveu muito, difícil é reconhecer que não se sabe. A experiência ensina, mas não deixa prever o resultado. Quem joga ignora. A possibilidade de realizar o imprevisto aproxima poesia e jogo.”)


24/02/11 (G)ASTRONOMIA Se há uma relação de origem entre as palavras gregas áster (estrela) e gáster (ventre), a primeira contida na segunda, como astronomia em gastronomia, imagino que os gregos quiseram significar que a estrela nasce no ventre da noite vasta. Para os gregos antigos, que eram trágicos alegres e gostavam de comer, beber e filosofar, o sabor dos alimentos não estaria muito distante do saber dos céus. Eles talvez falassem da luz picante das estrelas.

26/02/11 AROMA O aroma de café recém torrado e moído que aspirei na madrugada: vinha de um lugar indefinido como um prenúncio do sol que um grão da noite exalasse.


01/03/11 OS GATOS Os olhos em brasa na penumbra. No corpo quieto, um rio de lava invisível, crepitante. O andar macio quando se aproxima, rabo eriçado. Quer e não quer intimidades. O gato, sempre desconfiado. Exceto quando se deixa afagar e domesticar como um cachorro e então se torna pachorrento, gato de madame. O gato engatilhado quando se cruza com ele numa rua deserta. Ao menor passo em falso dispara, não tolera intenções, amistosas ou não. Quer um puro duelo de olhar com o passante, que é uma forma de ambos medirem forças e secretamente se honrarem. Fingir não vê-lo, por desvelo, não diminui seu temor, que é parte integrante do gato como o ronrom e os bigodes. Dois mistérios: onde nascem e onde morrem os gatos? E um terceiro: onde vivem exatamente? Conhecendo tantas passagens secretas e improváveis pelos muros e os telhados, certamente vêm ao mundo por uma delas, a mesma por onde retornam. Pois um gato morto não prova que os gatos morrem. O que vi com a cabeça encostada no meio-fio da calçada parecia apenas um gato finalmente descansado.


03/03/11 TARDE DA NOITE A casa abandonada na esquina, com seus dois ciprestes altos: parece ainda mais fantasmagórica quando, tarde da noite, o ônibus urbano dobra a esquina e desce em silêncio a rua, vazio e iluminado.

05/03/11 AQUÁRIO Um galeão afundado e corais dividem o espaço – de um metro de largura por meio de altura – com peixes de vários tamanhos, alguns velozes, outros lentos, mas todos com os visíveis sinais neuróticos de animal confinado. Um deles tenta demarcar, num canto, suas águas territoriais, girando sobre si mesmo para expulsar os intrusos que vão e voltam. Parece não haver descanso nem verdadeiros combates nesse aquário, onde a luz constante impede que os peixes insones, próximos demais entre si, possam se amar ou se odiar. Eles se limitam a emitir sinais de alerta e a simular um rito de pura sobrevivência, atrás do vidro, para os meus olhos cúmplices e consternados.


07/03/11 A ENERGIA DO CARNAVAL Energia dos corpos, dos maquinismos alegóricos, da infraestrutura montada para esse espetáculo gigantesco. A cada ano fico assombrado com o contraste entre essa explosiva energia material e simbólica e a minha, aparentemente nula, de espectador, mas que vibra como a pele esticada de um tambor percutido pela multidão, o que não deixa de ser uma forma compatível de participar da festa. Tanta energia posta para fora não requer que alguém capte e registre seu avesso, sua memória? Segundo o Houaiss, energia quer dizer originalmente, em grego, “uma ação, um movimento dentro”.

09/03/11 UM SILÊNCIO QUE ANOTA Aos noventa e três anos de idade, minha mãe tem um caderno onde registra, para não esquecer, tudo o que fez no dia. Com a letra trêmula, ela anota as refeições, os horários dos remédios, as visitas, as notícias que recebeu. Faz isso para si mesma e pelo gosto de escrever, que para ela sempre consistiu, desde o tempo em que me enviava cartas, numa simples notação dos fatos. Hoje vejo nessa escrita uma transcrição exata,


também, dos seus afetos – reservados, contidos, puramente ofertados como o seu jeito de ser. Certamente ela traz embutido em sua vida um tumultuado romance familiar. Quantos dramas não presenciou, quantas histórias teria a contar se fosse do seu feitio contar histórias! Mas ela prefere ser apenas um olhar, um silêncio que anota.

14/03/11 O LIVRO POR VIR Eu o tive em mãos, em 1968. O original em francês chamava-se Le livre à venir, um formato bolso de capa verde, e seu autor, Maurice Blanchot, me pareceu uma espécie de sacerdote da literatura, embora eu estivesse então muito longe de poder acompanhá-lo no ofício quase sagrado de suas palavras. Depois o livro se extraviou, talvez emprestado, e só recentemente voltei a lê-lo, agora em português, numa excelente tradução de Leyla Perrone-Moisés publicada pela Martins Fontes. O que mais impressiona nesses ensaios escritos na década de 1950, abordando de Proust a Borges, de Mallarmé a Beckett, é que eles podem ser lidos como um romance. Num estilo ao mesmo tempo aliciante e sombrio, que parece costear permanentemente um abismo, movendo-se com seu objeto de análise numa


conversa infinita com ele, captando os dilemas dos escritores numa região próxima do silêncio, Blanchot antecipa questões que se acentuaram nas últimas décadas e que ele vê, ou melhor, que ele vive como um drama, para além das circunstâncias tecnológicas e culturais que pesam sobre a literatura. É o drama literário interior, cuja gravidade pode parecer hoje um tanto excessiva, que ainda me toca nesse autor e me faz querer falar dele aqui: sua insistência em afirmar a “extrema solidão de nosso trabalho literário, que tem ao menos o mérito de não desejar nem o poder nem a glória”, como ele diz no final do livro, antes de citar estes versos proféticos de René Char: “Na explosão do universo que experimentamos, prodígio! Os pedaços que se abatem estão vivos.”

16/03/11 NA LIVRARIA Ao folhear livros numa livraria, me dou conta de tudo o que nunca lerei, ainda que o pudesse ou quisesse. Recoloco-os então piedosamente na estante, com esta ideia em mente: que a renúncia à minha curiosidade seja o reconhecimento do que permanece virtual nos livros – esse poder que eles têm de influir sobre nós mesmo estando fechados.


18/03/11 A IDEIA E O AFETO Enquanto ela me falava de um caso de reencarnação mostrado na TV e eu pontuava sua credulidade com observações teóricas sobre o inconsciente, contrapondo àquela descrição uma outra que estabelecia entre nossas falas um desnível, mas também uma passagem de nível, o meu olhar periférico se comprazia, enquanto ela me falava, com o desenho do seu corpo no umbral da porta, onde uma folhagem pendia sobre seu ombro quase imperceptivelmente – fosse minha mão a tocá-la num plano indiscernível de outras vidas, no qual a ideia e o afeto se encontrassem.

20/03/11 ESPIRITISMO A comunicação espírita como comunicação poética: é num estado de dupla abertura, daquele que sofre e vai procurar um médium, do médium capaz de sintonizar-se com o sofrimento alheio, ambos indefesos, que as mensagens dos mortos circulam. O mundo sobrenatural de onde eles falam seria uma


criação dos vivos quando expostos a uma dor profunda e compartilhada. Assim se compreende que as mensagens espíritas sejam pacificadoras, sejam um alívio à dor. Medicina das almas – essa é a razão de ser essencial do espiritismo que, a meu ver, independe da crença numa vida após a morte ou em reencarnações futuras (crenças elaboradas fora da situação criadora). Quando nos oferecemos como um vaso vazio a outrem, mensagens de todo o universo afluem e os mortos podem viver dentro de nós. É nesse sentido que há vida eterna.

22/03/11 TIO LUPI Em 21 de março do ano passado, quando teria chegado aos cem anos, eu e meus irmãos nos reunimos para relembrar episódios da vida desse tio solteirão, viajante, que nos divertia tanto com suas histórias. Mistura de devoto e bon-vivant, ele não perdia os carnavais do Rio, mas dizia que os passava no mosteiro de são Bento. Depois que se aposentou como funcionário público, e numa época em que poucos viajavam, dedicou-se a percorrer o mundo – e a anotar por escrito cada detalhe das viagens. Eu já sabia, pelas cartas que nos enviava, desse gosto minucioso da escrita, mas ele já havia falecido quando tomei


conhecimento dos seus vários volumes de “Descrições de viagens”, datilografados e encadernados, nos quais registrava tudo o que via, ouvia e fazia, com olhos inocentes e ouvidos abertos à babel das línguas. Hoje vejo nesses relatos espontâneos, quase sem filtro narrativo, com algumas passagens líricas, outras hilárias, outras puramente fatuais, uma genuína e desconhecida vocação literária. Seleciono abaixo três momentos de uma das viagens do tio. (Embarque no Enrico C, 20/03/74): “...O táxi leva-me à Estação Marítima. Corrida Cr$ 10,00. Atende o carregador 50. Vou registrar a câmera e o transístor. O funcionário da Alfândega, um moço dos seus 50, suspira de inveja – ele gostaria de embarcar assim num navio desses que, dizia, vai cheio de garotas, mais de 300!...” (A caminho de Paris): “...Anunciam o départ para 3 h, mas somente às 3 h 10 a composição deixa lenta e silenciosamente a gare. Pego no sono e deixo que passem as conhecidas cidades de Bayonne, Biarritz. Acordo justamente quando o trem está entrando debaixo da enorme estrutura metálica da Estação de Bordeaux. A minha voiture fica fora da gare. Sorte minha, os passageiros embarcam nas voitures da frente. Anunciam: Attention au départ! En voiture s’il vous plaît! Uma francesinha com aquele seu passinho


curto e elegante dá uma corridinha e pega o penúltimo vagão. (...) Atingimos o Loire. St. Pierre des Corps. Tours. Região de muito progresso. Altas torres com cabos de alta tensão elétrica. A planície encanta com a enorme área verde. E assim vamos indo até nos aproximar de Paris...” (Noite na ópera, em Veneza): “...Comprei a segunda galeria e tive de subir muitas escadas. Ali em cima lembrava-me a galeria do nosso [teatro] São Pedro (...) Espiei o cenário tradicional e voltei à minha posição obstruída para me enlevar somente com a encantadora música que envolve a sala de magnífica acústica. Entram porém, nesse momento, os ocupantes de duas cadeiras e o senhor reclama de duas robustas e idosas americanas os seus postos, mas o faz em italiano. Elas não compreendem ou se fazem de desentendidas, mesmo à vista dos bilhetes à mão do italiano, que batia neles. Signori, questi non sono i suoi posti! Sussurra um psiu, um pouco adiante, pois já entrara Pinkerton acompanhado de Goro e cantavam as arietas com os embalos suaves e melódicos da excelente orquestra. O italiano se impacientava e insistia e achei melhor dizer em inglês à senhora que he ask for its seat. Ela abre a bolsa e mostra, igual ao meu, o Ingreso Posto in Piedi. Esclareço logo: It’s stand up. Wait for the next intermission. E expliquei para esperar uma folga na cena da entrada da Butterfly...”


24/03/11 DIGNIDADE Dignidade dos rostos com sua dor contida – foi o que mais me impressionou nas recentes imagens do desastre no Japão. Esse povo, que sabe apreciar tão bem a flor de cerejeira e já viu se erguer a onda de Hokusai, parece conhecer segredos íntimos da terra. É por isso que aceita viver, com dignidade, na crista do perigo? Minha irmã lembrou o que disse o filósofo Gilles Deleuze: dignidade é estar à altura do acontecimento.

26/03/11 CAFÉ À BRASILEIRA Uma antiga urbanidade resiste nesse café da rua Uruguai. Os cabelos brancos, a fumaça dos cigarros, o rumor não estridente das conversas, tudo recorda o ambiente um pouco ocioso e febril dos cafés tradicionais. Meu pai frequentou esse café no fim da vida e desde então, quando vou ao centro, passo por lá. Não conheço ninguém, mas todos os frequentadores me parecem velhos conhecidos, entre os quais me


sento, absorto no marulho de vozes, sorvendo meu café e brindando com eles em silêncio.

28/03/11 NO ÔNIBUS, 2 Em nenhum outro meio de transporte se pode estar tão à vontade entre desconhecidos quanto no ônibus urbano. É que ali reinam condições especiais de convívio: a discreta observação, um certo alheamento que a paisagem móvel propicia, o entra-e-sai dos passageiros. Além disso, não há as regras e o confinamento que se observam no metrô e no avião, a multidão se apascentando geralmente numa obediência espontânea, usufruindo com calma esse intervalo no tempo da vida urbana. Sobretudo porque os desconhecidos que se aproximam, ao longo do trajeto conhecido, são ali mais do que nunca semelhantes – semelhantes às nuvens vistas pela janela e levadas pelo vento.

30/03/11 CIDADE SERTÃO É o luar sobre a cidade ou são luzes de neon?


Paira no ar qualquer coisa de irmandade e solidão: memória turva, leitosa, do interior de cada um ali fora, junto às árvores, como um luar do sertão.

02/04/11 O CORPO E A ALMA O corpo, tão imperativamente nosso, tão próprio, tão inacessível ao sentir de outrem, mesmo assim não nos pertence. Julgamos que ele obedece à nossa vontade, mas é muito mais à vontade dele que obedecemos. Sono, fome, sexo, dores, humores: quem pode dizer que conhece ou mesmo adivinha os fluxos secretos e as interações do corpo com tudo o que acontece? Uma prova de que o corpo não nos pertence é que ele continua a existir quando morremos: é enterrado, apodrece, se desfaz, se transforma em outros corpos. O espírito é um prestidigitador que faz o corpo momentaneamente realizar obras. Já a alma se deixa levar pelo corpo, buscando fazer exalar, dos estados e das ações dele, um vago entendimento, uma espécie de metacompreensão sensível. A alma é talvez o corpo virado ao avesso.


04/04/11 O DEDO DO ET Um dedo como o do ET, que estancasse o sangue, sarasse a dor e até mesmo ressuscitasse os corpos, é um milagre concebível? Mas a aspirina, à qual João Cabral dedicou um “monumento”, já não é um pequeno milagre dessa ordem? Isto sem falar das intervenções cada vez mais sofisticadas da medicina – sondas, fibras óticas, contrastes e outras técnicas que são uma forma indireta mas muito concreta de tocar os pontos de dor do corpo. Se a ciência é hoje virtualmente capaz de produzir corpos em laboratório, o corpo e suas dores não representam mistério para ela. Há remédios que podem curar até males psíquicos como a ansiedade e a depressão. Mas são milagres irrisórios, além de terem por contrapartida a proliferação das drogas, já que estas também buscam um alívio para a dor. Haveria então um dedo que estancasse a ambição, a inveja, o rancor, todas as paixões tristes que nos dividem interiormente e produzem tanto sofrimento desnecessário? O verdadeiro milagre, diria Epicuro, seria um dedo que fizesse brotar, mesmo na dor, a certeza de um prazer maior.


06/04/11 MEDICINA Lendo um livro sobre as maiores descobertas da medicina (vacinação, anestesia, antibióticos...), penso na dificuldade de distinguir, nesse esforço milenar para fazer a vida menos dolorosa, o quanto devemos ser gratos à medicina e o quanto podemos, mesmo assim ou por isso mesmo, usá-la com discriminação. Muitos dos males do corpo que se deviam à nossa ignorância foram superados, a ciência médica avançou, mas acreditar que as novas tecnologias lhe prometem poderes quase ilimitados é abusivo e ilusório. Nos seus Aforismos, Hipócrates, o fundador da medicina, escreveu: “A vida é breve, a arte é longa [ela demora a se formar], o momento oportuno, fugidio, a prova, vacilante, e o juízo [o diagnóstico], difícil.” Fundar a arte médica na consciência dessas limitações é um exemplo de clarividência insuperável.

10/04/11 TRECHO DE UM SONHO Recebo em meu quarto colegas do ginásio. Conversamos sobre a história, sobre a decadência da cultura, o consumo e a transformação inevitável de


tudo o que é bom em algo ruim. Alguém pergunta por que ocorre essa perda e degeneração, e um dos meus colegas mais velhos, que no sonho se chamava Erasmo e tinha as feições do ator de cinema Charlton Heston, responde que é natural o melhor ser consumido pelo pior, e que absurdo seria o contrário – o pior ser consumido pelo melhor.

13/04/11 FAMÍLIAS PEQUENAS A superpopulação e a nova condição da mulher explicam que as famílias sejam hoje pequenas. Menos bocas para alimentar, atenção mais individualizada a cada filho – é o argumento razoável das sociedades ricas. Somente os pobres ainda procriam irresponsavelmente. Mas como é antinatural esse argumento! Pois que alegria maior pode haver do que uma casa com muitas crianças, filhos de todas as idades e mesmo concebidos até uma idade avançada? Tanto é verdade que as famílias dos ricos, para compensar sua tristeza, se cercam de uma prole imensa de objetos de consumo ou de cachorros. Em Homem lento, o personagem de Coetzee se pergunta: “Como o céu vai se encher se a terra para de mandar suas cargas?”


15/04/11 O MISTÉRIO DA EVOLUÇÃO Sabe-se hoje que a vida evolui numa complexidade crescente, seja por transposição de patamares, seja por irradiação adaptativa, e que isso acontece de forma descontínua e sem uma direção predeterminada. A única coisa certa na evolução é que há mudança... e conservação. Por que conservação? É que quando uma espécie transpõe um patamar e toma um novo caminho irreversível, o momento da mudança, necessariamente instável e breve, logo tende a se estabilizar para assegurar sua sobrevivência, sem contar que essa espécie continuará tendo, queira ou não, relações de interdependência com as outras que não a acompanharam. Esse padrão também se aplica à nossa evolução cultural. Apesar de suas conquistas tecnológicas, a espécie humana continua sujeita às mesmas pressões ambientais que regem todas as outras espécies e está fadada, como elas, à extinção – a menos que um novo patamar evolutivo seja alcançado através de uma evasão (ou invasão) extraterrestre. Mas não há necessidade de especular sobre esse misterioso futuro. Nós já habitamos o mistério. A demanda de um novo salto evolutivo já está presente no coração da linguagem e Laozi (ou Lao-Tsé) a formulou há muito


tempo quando falou, no Dao De Jing (ou Tao Te King), do “mistério que se renova no mistério”.

17/04/11 A AÇÃO NO MUNDO Não basta a concentração nem a calma, não basta visar com uma intenção certeira e desprendida o resultado. Como no futebol, é preciso contar também com a marcação cerrada, a provocação, o aplauso, os erros de arbitragem e principalmente a sorte, para que a ação se complete no mundo ou não.

19/04/11 CAMINHADA Caminhada até o ex-estaleiro Só, no fim da tarde. Contraste entre o movimento dos carros a essa hora e os raros transeuntes que circulam pelo caminho de terra junto ao rio. Contraste ainda maior entre as sombras dos que passam e a luz dourada sobre o rio, mesmo depois que o sol se pôs. O rio absorvendo esse resto de luz quando tudo em volta escurece.


21/04/11 RIOBALDO A estranha posição de Riobaldo no Grande Sertão: os percalços da sua linguagem de narrador (rodeios, dúvidas, pedidos de anuência, de desculpa) reproduzem os percalços da sua busca de um lugar, dentro ou fora do sertão. Ele habita as margens. Meio instruído, meio ignorante, quer entender o sertão e a si mesmo, entender o seu amor proibido por Diadorim. Marcado pela diferença que o isola mas que não o exime da ação (bom atirador e “fugidor” ao mesmo tempo), é o homem da culpa e da reflexão infinitas. Expia-se narrando, sobrevive na tensão de narrar a obscuridade e a pureza do seu sentimento. É o que faz a força da sua narração do começo ao fim. Mas o que sustenta essa força é a escuta do interlocutor silencioso que o julga, pois fica implícito ao longo de toda a história que Riobaldo está sendo julgado (e a certa altura Zé Bebelo, um dos seus intercessores, dirá que ser julgado é não ter medo).

23/04/11 ECO “Todo dia: caio, levanto, caio...” Verso escrito num momento de queda (e só nesse momento poderia ser


escrito) quando o sentimento é incapaz de se alçar à compreensão da circularidade que ele enuncia, e que só alcança ao receber de volta o seu eco.

25/04/11 UMA CARTA DE VAN GOGH Numa das Cartas a Théo, Van Gogh diz que “os tempos andam pouco alegres, a menos que encontremos a felicidade no próprio trabalho”. Adiante há uma outra que pode ser lida como complemento e contraste: “O amor pela arte faz perdermos o verdadeiro amor”. E o tema ainda retorna algumas páginas depois, modulado e aprofundado, estendendose à amizade: “Ah, parece-me cada vez mais que as pessoas são a raiz de tudo e, embora seja eternamente melancólico não viver a verdadeira vida, no sentido de que valeria mais trabalhar a própria carne que a cor ou o gesso, no sentido de que valeria mais fabricar crianças que quadros ou fazer negócios, ainda assim sentimo-nos vivendo quando pensamos que temos amigos entre os que também não estão na verdadeira vida.” Essas palavras me fazem pensar na vibração do vermelho quando justaposto à sua complementar, o verde. Curto-circuito de cores, como no oxímoro o inconsolável consolo da arte.


27/04/11 MIRÓ É raro encontrar um quadro que expresse tão bem uma transição – menos pelo tema, O trilho dos carros, do que pela perfeita compatibilidade entre imagens realistas e oníricas ou abstratas (nas Imagens do Google podem ser encontradas reproduções desse quadro). Cada pincelada parece ter sido guiada por um duplo encantamento, diante do real e do possível. Miró pintou esse quadro aos 25 anos, ainda na trilha dos impressionistas e de Van Gogh, mas o detalhe dos talos de erva no primeiro plano, o traçado das linhas e as cores já anunciam o estilo, a marca que o consagrou como pintor. No entanto é esse pré-Miró, esse Miró aprendiz de Miró, é esse momento quase impessoal de transição que melhor exprime, assim me parece hoje, algo como a eterna juventude da pintura.

29/04/11 AS CORES NA PINTURA É por serem extratos de substâncias minerais e vegetais que as cores na pintura, sobretudo a óleo, sugerem uma carnação das coisas e têm esse aspecto


visceral que se observa mesmo nas suas mais delicadas representações. No sorriso da Mona Lisa, por exemplo, o pequeno ríctus no canto da boca não trai uma pulsão do baixo-ventre? (E cabe lembrar que os tecidos da face e do ventre têm a mesma origem embriológica; empalidecemos ou coramos de medo ou de prazer, que são emoções viscerais.) É talvez porque as cores vêm das vísceras, das entranhas das coisas, que elas suscitam, quando as vemos, uma espécie de nostalgia – nostalgia de um reconhecimento imediato, total das sensações. Essa nostalgia parece dizer: Fui feliz, fui feliz lá onde nunca serei outra vez.

02/05/11 RAINHA EGÍPCIA Ainda vou pintar o retrato dessa rainha egípcia, de pescoço longo e olhar altivo, com o cabelo coberto pela touca higiênica projetando-se num fuso extravagante de fada ou feiticeira, que desmente a condição humilde de ser somente a moça que trabalha na padaria. Quando me aproximo na fila para pedir quatro, cinco, seis pãezinhos, ela me atende como a um escravo que vem contemplar sua beleza e é logo despachado. “O seguinte!” – é tudo o que ouço dos seus lábios.


04/05/11 FANTASIA ANIMISTA Deixo-me levar por uma fantasia animista enquanto caminho, dando voltas na pista de atletismo. O gramado central, com tufos de relva mais claros, outros mais escuros, pareceu-me a selva amazônica vista do alto; nela sobressaíam, como estranhos dinossauros, os quero-queros que estavam ali pousados. As árvores ao redor da pista se inclinavam para me espiar, e o sol quase a se pôr, acentuando as sombras e avolumando as coisas, dizia à imaginação sem limites de uma criança: A morte quer apenas nos apressar a viver de novo, no eterno retorno das coisas boas.

06/05/11 OUTONO Dizer que as folhas caem, que a luz declina, é descrever, não é traduzir o outono. Pois a decadência do significado corresponde, nessa estação, à emergência do significante, ao suspiro amarelo das folhas, ao aspecto vaporoso da luz que se enlaça nas coisas e se conforma como a voz num canto, canto de cisne – anual e puramente atual.


09/05/11 MONK O piano solo de Thelonius Monk (Monk alone): um passeio pelas teclas em que a mão esquerda brinca pontuando as notas graves, enquanto a direita faz arabescos. Ora é a pulsação rítmica, ora é a digressão melódica que prevalece. Improviso sobre os temas (alguns se repetem duas ou três vezes) sem linha de progressão definida. A música como uma série de descontinuidades que às vezes dá a impressão de se interromper, de buscar um novo alento na quebra de um compasso, na introdução súbita de um acorde dissonante, para então prosseguir. Exercício lúdico e aparentemente simples ao piano, mas no qual se percebe a quintessência do jazz. Acrescento estas imagens muito concretas de um ouvinte afinadíssimo de Monk, o jovem Raul Ruas, que assina um livro chamado Em torno dos 26 anos do qual elas foram extraídas: “Thelonius Monk transforma o piano numa bateria, numa máquina, na topografia de Nova York, num encontro a dois numa escada de incêndio em um prédio em Manhattan, numa praia cinza que surge de repente na cidade e, por fim, num piano.”


11/05/11 O PIANO Oitenta e oito teclas, brancas, pretas: parece um livro aberto. E que distância para os dedos, quantos saltos, quantas surpresas! A música expõe suas vértebras, seus austeros encantamentos, e mesmo a mão despreparada responde ao chamado e procura em cada acorde adivinhado a construção de um outro plano: algo como um conhecimento ao simples toque do piano.

13/05/11 HAQUIRA Hoje faz três anos que faleceu Haquira Osakabe. Ainda recordo a manhã em que recebi por telefone a notícia da sua morte. Com o olhar parado na folhagem quieta sob o sol, não consegui, no primeiro instante, dimensionar o que significava a perda desse amigo


querido. Só pude responder com um silêncio de espanto que se estendia mais além de todo pesar e de toda tristeza. Fazia dois anos que não nos víamos, ele estivera em minha casa e desde então nos comunicávamos só por cartas, mas com uma intensidade crescente que parecia adivinhar esse fim. Depois escrevi uns versos que eu quis dizer a ele, em reconhecimento da atração sutil que exerceu sobre todos os que estiveram à sua volta, como por emanação da sua presença atenta, benfazeja, tutelar. Mostro aqui esses versos para renovar sua memória neste dia, para reatar o que nos uniu e nos une. amigo irmão você guardou tanto mistério tanta bondade no coração e foi o guia que nos mostrou como acolher e ser fiel à poesia


16/05/11 ESCRITO E ORAL Curiosamente, e bem ou mal, a humanidade nunca se confiou tanto à palavra escrita como hoje. O correio eletrônico, por exemplo, revive de outro modo o que foram as trocas epistolares do passado – podendo ser às vezes uma conversa refletida à distância. É o silêncio, quase insustentável nas trocas orais (ao vivo ou por telefone), que potencializa as trocas por escrito, aprofundando a leitura e dando tempo para explorar reflexivamente os traços emitidos pelo outro – hábitos textuais, certas marcas, pontuações... – que na conversa oral só se captam subliminarmente. Assim entendo a primazia do escrito sobre o oral defendida por Derrida. O escrito não é só conservação mas sublimação do que é dito, sua abertura a um desejado, a um possível que somente se abre em silêncio. Isso não quer dizer, porém, que o oral não seja capaz de uma revanche, que acontece quando o canto da fala abole toda intenção de comunicar para dizer-se (ouvir-se) plenamente. Glosando um verso famoso de René Char, que diz isso a propósito do amor, o oral seria então o ainda mais desejado, o possível realizado que permanece possível.


18/05/11 COMO VIVER JUNTO Transcrição de um dos últimos cursos de Roland Barthes no Collège de France (1977), esse livro explora várias figuras do que ele chama a tensão utópica de viver com parceiros numa “distância que não quebre o afeto”. A escolha do tema tem a ver com a situação ambivalente do Barthes professor e escritor, e ele no final dirá que só a escrita dá conta dessa utopia do viver-junto, porque nela “há um acordo entre o indireto da expressão e a verdade do sujeito – acordo impossível no plano da fala que é sempre, queira-se ou não, ao mesmo tempo direto e teatral.” Mas ele observa que, como os animais, nos juntamos em caso de perigo e que, passado o perigo, cada indivíduo retoma sua distância territorial. Viver junto, ele diz, “talvez somente para enfrentar juntos a tristeza do anoitecer (num campo retirado onde o cair da noite é uma verdadeira ameaça do obscuro). Sermos estrangeiros é inevitável, necessário, exceto quando a noite cai.” Exceção importante, pois faz do ajuntamento da fala e do recolhimento da escrita dois polos complementares. E Barthes reconheceu de fato essa dualidade ao manter-se até o fim da vida escritor e professor.


24/05/11 DOENÇA No começo, quando dores, febre, tremores vão aumentando, a mente, ameaçada, reage aumentando também sua atividade: pensamentos se aceleram e se aguçam como não o fariam num estado normal de consciência. Mas chega um momento em que ela sucumbe e à extrema lucidez sucede um torpor extremo. Passagem abrupta a partir da qual nada mais se passa então. A mente é uma pedra incrustada, vitrificada, num corpo que se esforça por expeli-la. Quando finalmente o consegue, é como acordar de um sono sem sonhos.

26/05/11 FOTOGRAFIA Num leito de hospital, um menino de face abatida olha para a câmera sem sorrir, mas faz com o polegar o gesto de “positivo”. Ao lado o pai faz o mesmo gesto e seus olhos sorriem com dificuldade. O menino sofre de leucemia e necessita um transplante de medula bastante improvável. Eles solicitam doadores. A imagem foi colhida expressamente com a finalidade de sensibilizar o público, mas sensibiliza mais do que pretende sensibilizar. O sofrimento que há nos olhos


do menino e do pai vaza na fotografia, no esforço mesmo de dissimulação diante da câmera. É um sofrimento verdadeiro demais para ser representado, e o espectador se vê diante não de um apelo, mas do que há de inapelável e trágico na expressão humana.

28/05/11 SONHO COM MÁRIO QUINTANA Uma exposição modesta, na sala anexa de um escritório também modesto. Com balões, palhaço de circo de arrabalde, ele mesmo fazia a propaganda, atraindo a criançada da rua.Vejo objetos diversos nas paredes, miscelânea de quadros, pertences, inclusive uma camisa de goleiro, mau goleiro que ele dizia ter sido na juventude. O amarelo da tarde (era um sábado) punha uma tonalidade tão densa naquelas coisas ingênuas que elas pareciam sábias. À saída, num caderno, numa lista de pedidos que os visitantes faziam ao poeta, leio: bolas, pandorgas, bicicletas... e hesito, monstruoso, em formular o meu. Pondo com carinho a mão no braço dele, me afasto, desterrado e mudo, cúmplice secreto.


30/05/11 A CRIANÇA E A CHUVA A criança olha a chuva, as gotas de chuva escorrendo na vidraça, e pressente o que é a tristeza, pressente uma continuidade, uma indefinível e incurável tristeza que marcará talvez sua vida. Mas a chuva passa e a criança esquece. Muitos anos depois, essa imagem lhe retorna como lembrança involuntária num momento de grande melancolia. Curiosamente, porém, ela aparece agora como um bálsamo, por romper a continuidade do presente e por fazer pressentir alguma coisa, na infelicidade atual, que poderá ser recordada com gratidão no futuro.

01/06/11 RECORDAÇÃO DE PARIS Eu tinha 25 anos. Cheguei numa noite de inverno, de trem, subterraneamente. Na estação Odéon emergi em pleno Quartier latin, com uma pesada mala na mão, e Paris me esperava com um beijo frio. Lembro a luz de um bistrô, meus passos à procura de hotel, um rapaz que me ofereceu acide... Lembro tão clara essa noite, mas se apagaram quase todas as imagens posteriores, cinzas, dos poucos dias que lá passei: vista esfumada da Notre Dame, vago passeio junto ao Sena,


caminhada pelo Marais, antigo bairro em demolição... Onde andavam meus olhos, que não visitaram museus nem monumentos? Nenhuma fotografia, nenhum postal, nenhuma lembrança concreta. Mais tarde, nos livros que traduzi, eu voltaria várias vezes a percorrer as ruas dessa cidade que nunca mais tornei a ver, e que retorna como o lampejo real de um sonho.

03/06/11 ESPELHOS RAPIDAMENTE VIRADOS “Lugares, paisagens, animais, coisas. Atravessamos tudo isso como uma imagem atravessa o espelho. Atravessamos: essa é toda a nossa relação, e o mundo está fechado como uma imagem, não entramos em lugar algum. Mas é justamente por essa razão que tudo isso nos ajuda tanto: a paisagem, essa árvore agitada pelo vento, essa coisa rodeada pela tarde, (...) não podemos arrastar nada disso conosco para nossa incerteza, nosso perigo, nosso coração não esclarecido (...) E você nunca notou que essa é a mágica de toda arte: que ela (...) põe nosso sofrimento nas coisas e lança a inocência das coisas em nosso interior a partir de espelhos rapidamente virados?” (Rilke, Cartas do poeta sobre a vida, Martins Fontes, tradução de Milton Camargo Mota.)


08/06/11 TOCAR UM INSTRUMENTO Não dizer: tudo está dito, ou: nem tudo pode ser dito, mas: como é bom, de vez em quando, poder tocar um instrumento.

10/06/11 O ANDANTINO DE MOZART Encantamento e surpresa ao ouvir o 2º movimento do Concerto para flauta, harpa e orquestra de Mozart, chamado Andantino. Nessa peça de uma beleza singela, bucólica, os dois timbres, o agudo da flauta e o dedilhado envolvente da harpa, são como pássaro e nuvem, enlaçados numa dança aérea em torno de um mesmo tema – são realmente flauta e harpa eólicas. Mas quase no final do desenrolar dessa dança há um momento dramático: após alguns compassos acelerados, a flauta põe-se a lançar gritos solitários, enquanto os dedos correm atônitos pela harpa. Como se um abismo se abrisse nessa melodia de cadências simples e calmas. A tensão dura alguns instantes até se produzir um salto, um maravilhoso enjambement melódico que faz a música recomeçar seu voo lindo,


infindo, a partir do auge da crise. (Curiosamente, descobri que há interpretações da mesma peça que não mostram essa crise. Teria Mozart composto duas versões diferentes? Mas a que escutei, da Orquestra de Câmara da Eslováquia, é com certeza mais bela, pelo menos mais condizente com a alma simples e complexa, trágica e maravilhosa de Mozart.)

13/06/11 VENTO Há dois sentidos de vento: o ar que exerce uma força, uma influência em determinada direção – e aqui o vento se aproxima da ideia de espírito, de ânimo (do grego ánemos, vento) –, ou então o que se agita, rodopia, entra e sai e corre em todas as direções (aos quatro ventos). O primeiro, consequente, tem uma conotação simbólica; mas é o segundo, cujo sentido não se aventa, que exprime melhor o evento do vento.

15/06/11 A FOLHA E O VENTO Olha a folha! diz o vento, balançando a folha. Olha o vento! diz a folha,


balançada ao vento. E ouvindo o que diz o vento abraçado à folha, eu vejo o que diz a folha e uma dança invento.

17/06/11 AH! Este simples fonema, o mais simples da língua (escrito com um “h” e eventualmente um ponto de exclamação para identificá-lo como interjeição), pode significar alegria, tristeza, admiração, espanto, lamento, aprovação, dúvida, raiva, ironia... enfim, pode significar quase tudo. Mas tudo depende da situação em que ocorre e do modo de pronúncia, mais longo, mais breve, mais agudo, mais grave etc. É como na música: são as variações de altura, duração, intensidade e timbre que especificam esse ah e as interjeições de um modo geral, as quais, por traduzirem um estado emocional do falante (embora algumas já tenham uso convencional), são com certeza os elementos mais primitivos da linguagem. No seu Ensaio sobre a origem das línguas, Rousseau assinala que “o amor, o ódio, a piedade, a cólera é que arrancaram [aos humanos] suas primeiras vozes”, e


por isso as primeiras línguas foram “cantantes e apaixonadas”, como quer ser ainda a poesia, mesmo escrita, em todas as línguas.

19/06/11 FONOLOGIA Na língua portuguesa, as cinco vogais (a-e-i-o-u) pronunciam-se, na verdade, de oito maneiras (a-ã-ê-éi-ó-ô-u). As consoantes podem ser de seis tipos: bilabiais (p-b-m), labiodentais (f-v), linguodentais (t-dn), alveolares (s-z-l-rr), palatais (x-j-nh-lh) e velares (k-g-r), mas sua emissão se reduz a duas formas: há as oclusivas que retêm a passagem do ar (p-b-m, t-d-n, kg-r) e as fricativas que o soltam, mas restringindo-o de diversas maneiras (f-v, s-z-l-rr, x-j-nh-lh). Falar é soltar e reter o ar, torcendo a língua contra os dentes e o céu da boca. Fonologicamente, já existe no falar um certo paradoxo, uma certa aberração.

22/06/11 INVERNO Se há uma alegria para cada estação, qual seria a do inverno? Sim, aquecer-se. Mas aquecer-se interiormente. O que exige concentrar-se num


exercício, num trabalho manual, num estudo, na contemplação do fogo... E sem nenhuma pressa, até mesmo sem finalidade. Como a semente que se protege no solo, aparentemente esquecida. O frio incita a concentrar-se como ela, no recolhimento de uma secreta e ainda não sabida alegria.

24/06/11 SÃO JOÃO Ninguém pulando a fogueira, Ninguém soltando balão. Grande festa de Ninguém no dia de são João.

26/06/11 HISTÓRIA O que faziam os antigos egípcios quando não estavam carregando pedras para os templos e as pirâmides? Certamente se recolhiam em suas pequenas comunidades, pescavam, colhiam frutas, olhavam o sol e a lua, esperavam e temiam as cheias do Nilo. Mas esse cotidiano à margem do Estado, esse convívio com a natureza, é o que a História mais esquece.


A História com H só conserva monumentos (e ruínas) que exprimiram a grandeza e a exploração do trabalho coletivo. Trabalho com a pedra no passado, com as máquinas inteligentes hoje. O monumento quer suprir (e justificar) uma perda que tanto as sociedades despóticas do passado quanto as sociedades liberais de hoje impõem a seus indivíduos: perda da sua simplicidade primitiva. Essa perda é irremediável, mas nunca deixou de suscitar indagações à medida que as sociedades se tornavam mais complexas. Quando Rousseau evocou o “estado de natureza” no seu Discurso sobre a origem da desigualdade, ele já dizia tratar-se de “um estado que não existe mais, que talvez nunca tenha existido, que provavelmente nunca existirá, mas sobre o qual é necessário ter noções justas para avaliar bem o nosso estado presente.” Jean Starobinski dirá, dois séculos mais tarde, que o que está em nosso poder é “despertar e manter viva a memória desse estado.”

29/06/11 NO ÔNIBUS, 3 Obedecendo rigidamente à norma que proíbe abrir a porta fora do ponto, mesmo que o ônibus esteja parado, o motorista não responde à súplica de uma mulher que quer descer. Surdo! ela grita. E no ônibus


nenhuma voz, nem a minha, se junta a esse protesto mínimo que, um tempo atrás, causaria reações. Quando as normas parecem lógicas e bem estabelecidas, ninguém percebe mais que elas podem ser estúpidas.

01/07/11 RELÓGIO SOCIAL Enquanto esperava na longa fila do banco, eu refletia sobre o controle do tempo que a sociedade, isto é, cada um, exerce sobre todos. Isto se aplica a qualquer forma de relógio – de sol, mecânico, digital: sua precisão só faz aumentar o controle. Sociedade é equivalência do tempo, a mesma hora marcada para todos. Na fila do banco fico impaciente porque me fazem esperar. Estou preso à minha própria exigência de reciprocidade: se cumpro meus horários, espero que os outros cumpram os seus. Para não me impacientar, eu teria que desativar o relógio social dentro de mim, aceitando esperar sem esperar contrapartida de ninguém. Mas como isso é difícil!


02/07/11 PONTEIRO O ponteiro do relógio: é quando ele para que aparece um vestígio real do tempo.

05/07/11 HAICAI O haicai não é só a forma capturada do instante: é o vazio da forma que aparece no instante. Sua brevidade não é só condensação da experiência: é a manifestação do que excede as palavras na experiência. O haicai diz o intervalo que há entre os termos. Pois os termos, como disse Alan Watts, “são terminais, marcam o fim das coisas, seus polos, e negligenciam o que se encontra entre eles.” Entre os termos existem brancos, e dentro dos termos, gritos. Um haicai de Bashô diz assim (numa versão de Octavio Paz): o mar já escuro: os gritos dos patos apenas brancos.


07/07/11 O QUE É UM POEMA? Poemas podem ser líricos, épicos, dramáticos; reflexivos, sentimentais, humorísticos... Mas, para mim, o poema é essencialmente o encontro feliz, numa frase, de uma imagem e de uma emoção. Uma pequena surpresa. E, por ser raro e imprevisível, esse encontro me parece quase necessariamente breve. Querer prolongá-lo é forçá-lo a ser outra coisa além de feliz. Só que a brevidade, expressa tão exemplarmente no haicai, não é uma regra em poesia. O encontro inesperado também subentende uma longa espera, muitas tentativas e aproximações que formam um campo propiciatório no qual o encontro, se não se realiza pontualmente, de certo modo se irradia por tudo. Assim um poema longo ou fragmentos de prosa não são menos desejáveis que um poema breve, muito pelo contrário: são o desejável em ação e em reelaboração constantes.

09/07/11 A PROSA E O SANGUE “Quando escreve poesia, o indivíduo é sempre apoiado e até mesmo arrastado pelo ritmo das coisas externas; pois a cadência lírica é a da natureza: da


água, do vento, da noite. Mas, para formar a prosa de modo rítmico, é preciso aprofundar-se em si mesmo e encontrar o ritmo anônimo e variado do sangue.” (Rilke, Cartas do poeta sobre a vida). Nessa palavra sangue, que Rilke relaciona à prosa, entendo aquelas marcas de sofrimento (mas também manias, pequenas obsessões) que se manifestam como sintomas na carne de quem escreve. E a razão essencial de se escrever prosa não seria esta? Deixar a linguagem sangrar seus sintomas para além da cristalização de nomes, imagens e conceitos, trazer à superfície os fenômenos multiformes que se processam anonimamente na carne – nem que seja apenas para lhes indicar a presença?

13/07/11 MULTIPESSOALIDADE Fernando Pessoa disse que o lirismo é a feição predominante da língua portuguesa: “Somos ternos e pouco intensos” (predomínio da emoção sobre a paixão). Mas via essa feição como inferior à dramática e à épica, inferioridade que ele superou criando um drama entre seus personagens líricos, os heterônimos. Ele acreditava que somente um poeta multipessoal – dramático como Shakespeare, lírico como Whitman e,


evidentemente, lírico e dramático como ele – pode sobreviver. A observação é feita a propósito do gênio, mas se aplica também a poetas menores, a todo aquele que busca a expressão poética. Ele não sobrevive (interiormente) sem o concurso de vários eus. Pessoa encontrou no drama uma forma de sobrevivência da lírica. Que outras formas poderiam ser encontradas? Pode-se dizer que na lírica brasileira o humor – em Oswald, Bandeira, Drummond, por exemplo – substitui o drama como fator de multipessoalidade?

15/07/11 RAZÃO DO VERSO saltar saltar as linhas escandir, dizer mais nas entrelinhas brincar brincar com a língua do céu da boca ao céu da amarelinha


amar amar o verso livre antigo diverso paixão medida

27/07/11 IMPRESSÕES DE VIAGEM Praia do Leme, cinco e meia da tarde. – O sol se põe e a luz filtrada pela bruma desenha ao longe o Corcovado, a Pedra da Gávea, os Dois Irmãos, atravessa a orla já sombreada dos edifícios e resplandece mais branca na espuma das ondas. Essa visão dura somente alguns minutos, mas é a quintessência do que sempre sonhei ser o Rio de Janeiro, cidade película dos jogos de luz entre o mar e os rochedos. Metrô. – Seu ruído branco quase ofuscante, ruído de lixa desbastando o lixo sonoro da cidade. Torpor. Obediência a um imperativo fisiológico da vida urbana moderna. Os viajantes transidos no vácuo da locomoção. Vejo rostos, vejo olhares que divergem e só readquirem força expressiva naquele que os observa. Vejo um anjo beijando a fronte de um homem adormecido. Os anjos não são muito diferentes das


máquinas, contanto que estas, como as estrelas, nos ensinem algo sobre a consideração humana. A igreja do mosteiro de são Bento, em São Paulo. – Espaço silencioso onde as estátuas graves dos apóstolos, os vitrais, as pinturas e inscrições nas paredes, todas em latim, são vestígios que nos observam e emitem mensagens a serem decifradas, como esta que li num canto obscuro: Quam terribilis est locus iste, non est hic aliud nisi domus dei et porta coeli (Quão terrível é este lugar, e é nada menos que a casa de Deus e a porta do céu). Amigos. – Rever amigos distantes. Por alguns dias, por algumas horas tentar compor um diálogo que só pode ser fragmentário, inconcluso, porque a presença mesma, real, é necessariamente opaca e serve apenas para nos fazer pressentir uma transparência, no silêncio de dois corpos que se abraçam.

29/07/11 CORRESPONDÊNCIA Guimarães Rosa e seu tradutor italiano Edoardo Bizarri se corresponderam sem nunca terem se encontrado. As promessas de encontro, sempre renovadas, nunca se cumpriram (e se interromperam


com a morte de Rosa). Lendo a correspondência entre os dois, tem-se a impressão de que eles no fundo não queriam ou não precisavam se encontrar, a afinidade com que se escreviam dispensando qualquer outra aproximação. Ainda mais que a correspondência entre escritor e tradutor pressupõe uma compenetração invisível, uma simbiose à distância. É o que se percebe nesta frase de Bizarri (em carta de 02/04/64) que, ao falar de prazos editoriais, compromissos e encontros, conclui com palavras de Rosa: “Agora, você e Miguilim e eu sabemos que nada é pesado demais, se a gente puder ir devagarinho como precisa, e sem ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais.”

31/07/11 A CARTA Durante 25 anos praticamos, Zé Tatit e eu, o anacrônico exercício da correspondência por escrito. Temos hoje, cada um, centenas de cartas guardadas em várias pastas ou gavetas. Recentemente resolvemos adotar, depois de muitas hesitações (principalmente da parte dele), o email como um meio suplementar de correspondência, mais ágil, instantâneo, mas que acabou tendo o efeito de abandonarmos nossas cartas de um ano para cá. E só agora começamos a avaliar


essa perda. Pois ainda que o email seja inegavelmente um meio de comunicação mais prático, com ele se perde todo um ritual, todo um percurso, todo um encanto material que faziam da carta, apesar da sua demora, um verdadeiro meio que nos aproximava. Um tempo atrás escrevi um poema, A carta, que falava justamente disso. Apresento-o aqui com a esperança de algum dia retomar esse ritual, mas também com a suspeita de que o estou traindo ainda mais.

De longe reconheço o envelope laranja esperado. A marca do carimbo, os selos coloridos, a letra cursiva do amigo e o meu nome escrito por ele formam como a inscrição de um monumento à amizade. Não me apresso a abrir a carta, finjo que sou o carteiro como foi meu avô materno e deixo que sua viagem se prolongue em minhas mãos. Uma carta se entende antes de ler como um ritmo que atravessa o tempo, a distância, o silêncio.


02/08/11 O CONVÍVIO COM AS COISAS A dedicação e a presteza admiráveis dos jovens no convívio com as coisas eletrônicas: eles não se perguntam como elas estão moldando seus atos, aceitam essa determinação como se aceita que uma casa tenha portas, janelas, paredes. Faz parte do ambiente e isso não precisa ser questionado. Os jovens têm razão – até certo ponto. As coisas existem para ser usadas, basta que funcionem, e com a eletrônica elas parecem funcionar magicamente. Mas eis aí um primeiro ponto: esse funcionamento tornouse praticamente inacessível (escreve-se numa tela sem a menor noção de como isso se processa). Não é mais como quando um operário, ao usar uma ferramenta, podia aprender a produzir essa ferramenta. Há agora especialistas que produzem esse ou aquele elemento da ferramenta sem saber como vão se combinar, delegando a uma mão invisível a tarefa de montá-los e fazê-los funcionar. Esse trabalho de muitos dirigido por ninguém é que faz hoje a atividade humana se assemelhar tanto à de uma colmeia. Há também um segundo ponto, bastante óbvio: é que, ao contrário das abelhas totalmente dedicadas à colmeia, os seres humanos conservam uma realidade


interior não necessariamente submetida a ela. Saul Bellow escreveu que “nos concentramos com imensa determinação naquilo que nos forma exteriormente, mas que não precisa de fato nos governar interiormente”, e isso é uma verdade que o avanço técnico não vai mudar. As coisas estarão sempre aí nos impondo suas determinações de época, induzindo e formando novos hábitos, o que não impede que dentro de cada indivíduo continue a germinar a possibilidade, secreta ou escandalosa, de interromper-se, de olhar de um jeito estranho o objeto que tem nas mãos e de perguntar-se: Mas afinal o que é isso, o que estou fazendo, que mundo é este, o que vim fazer neste mundo? E é dessa pergunta, mesmo raramente formulada, que o convívio humano com as coisas obtém seu sentido.

04/08/11 REVER Está certo, tudo passa, tudo é mudança, nunca nos banhamos duas vezes nas mesmas águas do rio etc. Mas isso não explica a impressão que temos, não importa se ilusória, de tocar às vezes o centro imóvel de uma esfera em perpétuo movimento. Não me refiro à flecha de Zenão, nem à corrida de Aquiles e da tartaruga, que são apenas exercícios lúdicos da razão.


Refiro-me àquele sentimento de alguma coisa iminente que retorna ou parece retornar, como no déjà-vu, impressão momentânea de rever o nunca visto, ou como no sonho, que nos faz rever um momento, um lugar que não existem mais. Sim, rever é sonhar, que em francês se diz “rêver”. E sonhar é reversível como o verbo rever (um palíndromo). No sonho a mudança nos surpreende com elementos que não mudam. Talvez porque temos o desejo impenitente de rever (não de reaver) o que alguma vez encheu nosso coração de espanto ou de alegria. E não venham dizer que só existem trocas, traduções, palavras. No coração de um poeta existem coisas que não se trocam, não se traduzem nem mesmo se dizem, e que ele sonha rever.

06/08/11 RESTOS Tenho sonhado ultimamente com versos cujas palavras se apagam à medida que as escrevo, restando só uma última (a palavra viático, esta noite) que não sei mais a que se refere. Outra noite o que restou foi a palavra acaecía, do verbo espanhol acaecer. Durante o dia continuei a me sentir acaecido, também sem saber muito bem o que isso significava, o que acontecia comigo.


08/08/11 NACHBAR Marina me enviou de Munique um texto que funde uma experiência sensorial (atravessar um corredor escuro ao chegar em casa) com o aprendizado do alemão, descobrindo que a preposição nach (já próxima de nacht, noite, e que significa “na direção de”) comparece em nachbar, vizinho (bar significando “possível”, “passível de”), de modo que o vizinho seria quem ela sente, ao avançar no corredor escuro, como “passível de aproximação”.

10/08/11 A FLUÊNCIA FRANCESA Hans Störig (em A aventura das línguas) assinala esta diferença entre o alemão e o francês: ao dizer Es ist drei Uhr (são três horas), o alemão precisa dar uma ligeira pausa entre drei e Uhr, enquanto no francês Il est trois heures há uma fusão sonora que resulta numa pronúncia sem interrupção, mais “fluente” (ilétroazer). Ou este outro exemplo: em Er hat es mir nicht gesagt (ele não me disse isto), as consoantes são pronunciadas com clareza, mas a dicção é um pouco pesada; já no


francês Il ne me l’a pas dit a frase soa como uma única palavra (ilnemelapadi), mais elegante e fluente que no alemão, mas com uma certa confusão fonética (e justamente numa língua que preza acima de tudo a clareza). Essa fluência na pronúncia é o que produz, me parece, o aspecto rumorejante, aliciante da fala francesa, e seu gosto, na escrita, de discorrer interminavelmente – que eu conheço bem como tradutor!

12/08/11 EMPATIA A empatia é condição indispensável de uma boa tradução. Não importa qual autor, suas qualidades, seus defeitos, as eventuais discordâncias com seus pontos de vista: o tradutor tem de estar sempre ao seu lado sustentando o que ele diz, como um leito aparentemente passivo onde a escrita do autor escoa, mas justamente por causa da sustentação ativa desse leito. Essa atitude é necessária ao tradutor não só para fazer o autor compreendido, mas para que ele compreenda seu próprio trabalho. A fidelidade à letra é secundária. Primeiro vem a empatia do espírito, a aceitação total do outro tal como ele se diz e se faz ouvir parcialmente.


14/08/11 O ESTRANGEIRO O estrangeiro sentado à minha mesa. Tentativa de uma conversa no truncamento das línguas. Troca de frases banais arrancadas como um segredo. Adivinham-se geografias, histórias imaginárias, num rastro apenas traçado pela curiosa simpatia. Os olhos dizem mais do que as palavras.

17/08/11 PERNA ALUCINANTE Uma mulher aproxima a perna flexionada do balcão de madeira do café que reflete a claridade da rua, e a sombra dessa perna é estranhamente modificada e distorcida pelos passantes que interceptam a luz vinda de fora, produzindo uma aparente sucessão de movimentos (como se a perna andasse, parasse, corresse, fosse velozmente o fantasma de muitas pernas, de muitas mulheres). Efeito que ainda não vi


explorado no cinema, talvez porque as condições do fenômeno sejam raras. Elas exigem certa claridade exterior a certa hora do dia, uma superfície refletora opaca, uma distância e uma posição precisas do objeto refletido... Sem contar o simples ato de olhar detidamente a perna de uma mulher.

19/08/11 CONTIGUIDADES Um filme já antigo de Agnès Varda, Cléo das 5 às 7 (1962), explora bem as contiguidades espaciais e temporais possibilitadas pelo cinema. Imagens fixas cindidas e multiplicadas por jogos de espelhos. Imagens em movimento captando detalhes fugazes de cenas de rua. A cidade de Paris, nos anos 1950-60, vista como um animado mosaico. Em certo momento, ao experimentar chapéus numa loja, a personagem diz: “Tudo me cai bem, quero provar de tudo”, e a frase parece sair de um sonho ou descrever um sonho. Não é um filme extraordinário, mas ele desperta aquela sensação onírica que o cinema produz quando não está interessado em contar histórias, quando o olhar pode se deter, por exemplo, no aspecto de um chapéu.


20/08/11 TIL Imagine o til liberado de sua função auxiliar da fonética, um til ícone colocado não acima mas entre as letras de um nome (letras que guardam entre si restos do mar do indizível), como onda inter~calada, como água permeando uma cidade, assim: V~E~N~E~Z~A.

22/08/11 ROUPA E CIDADE Uma roupa é um tecido e um corte, uma necessidade e uma invenção, um tempo do corpo: tempo da moda ou tempo do uso, dependendo do tipo de afinidade que a roupa mantém com o corpo. Uma cidade é a mesma coisa, só que menos imediata. O corpo precisa de um tempo mais longo para se ajustar à cidade, ou precisa de muitas cidades para encontrar seu tempo.

25/08/11 A ESCRITA, A CIDADE E O “APAGÃO” No início desta semana estive em Passo Fundo, participando da 14ª Jornada Nacional de Literatura.


Com outros escritores gaúchos, fui convidado a falar sobre o tema “Escrever a cidade”, e escolhi abordá-lo de uma maneira ampla, relacionando muito sinteticamente aspectos da minha experiência ao que se poderia chamar o destino antropológico da vida nas cidades, relatando desde o mito de Cadmo, considerado o fundador de Tebas e introdutor do alfabeto na Grécia, até a convergência atual da escrita e da cidade na Tela, nesta tela que se apresenta hoje como se tudo devesse caber dentro dela. Eu não dizia nada de original, hoje se fala que a cidade absorveu o campo e que a Tela absorve a cidade. Mas acrescentei no final que somente um apagão, uma espécie de apagão dentro de quem escreve e de quem lê (como a poesia sempre buscou fazer), poderia manter a escrita aberta ao que chamei o fora da Tela. Também aí eu não dizia nada de novo, são frases que às vezes se lançam com o intuito de provocação, e a impressão que tenho agora é de que falar de apagão num evento cultural é algo que prontamente será apagado – com razão. Eu pensava nisso no caminho de volta de Passo Fundo a Porto Alegre, enquanto o ônibus percorria os campos do planalto, campos lavrados por máquinas e fertilizantes, já absorvidos pela cidade. No entanto o verde, um verde tão lindo, e o céu azul com nuvens brancas, e mesmo um homenzinho que eu vi num trator vermelho, pareciam não estar nem aí, ou melhor,


pareciam estar sempre aí quaisquer que fossem os destinos da cultura.

27/08/11 ALFABETO Inventado pelos gregos há mais de 2500 anos, o alfabeto levou dois mil anos para começar a ser difundido através da imprensa e do livro no começo da era moderna, e mais 500 para produzir plenamente seus efeitos universais, democratizantes, individualizantes, hoje espalhados na Internet. O truque dessa lenta e inexorável invenção é relativamente simples: os gregos aperfeiçoaram a escrita fenícia introduzindo a representação das vogais, e assim puderam não só fazer uma transcrição fonética precisa de sua própria língua mas também das outras, permitindo, pela primeira vez na história, que elas fossem traduzidas. Foi esse germe de universalidade que levou o alfabeto a se impor. Ao contrário de uma escrita como a chinesa, que requer a atenção para o seu aspecto gráfico, ele foi inventado para ser apenas um instrumento neutro e eficiente de leitura. Ou seja: a transparência funcional do alfabeto acarretou uma cegueira para a dimensão estética dos signos, o que os meios audiovisuais da atualidade buscam de algum


modo compensar, sem deixar de reafirmar sua hegemonia. São ideias que me vieram a propósito da leitura de A revolução da escrita na Grécia de Eric Havelock (UNESP/Paz e Terra, 1996), estudo esclarecedor que recomendo para quem quiser se aventurar nas origens dessa matriz tecnológica.

31/08/11 NO MEIO A consciência sempre se percebe situada no meio de duas coisas, de duas grandezas extremas. Entre o muito grande e o muito pequeno, o macro e o microcosmo. Entre a insciência do vegetal e a onisciência divina. Não há consciência no fim, assim como não há no começo. Mesmo a consciência de si, que se poderia pensar como situada num polo que abrange a consciência do outro (sou eu que penso que os outros existem), não pode prescindir da linguagem, que repõe a consciência na sua devida metade.

05/09/11 MÚSICA SEM SOM Executo uma sequência de acordes ao violão com uma agilidade surpreendente, considerando o longo


tempo em que não toco esse instrumento. Depois silencio, mas a música esboçada prossegue mentalmente e se desdobra, quase vertiginosa, em variações e improvisos que eu jamais saberia executar a não ser em sonho. Um pouco exausto, desperto desse enlevo com os dedos inertes pousados nas cordas, enquanto na minha cabeça os sons vão se apagando até só restar a lembrança inalcançável dessa música sem som.

07/09/11 O MORCEGO A mancha escura de um voo à noite, ao redor da ameixeira. Um espasmo agita as folhas, parece um eco do pavor do animal que quase não pousa e segue rondando, cego, buscando quem sabe exprimir uma vergonha? um amor? Mas ninguém ama o morcego, asqueroso, avesso à luz, e seu grito certeiro e surdo ouve-se só nele mesmo.


09/09/11 NO ÔNIBUS, 4 Chove. Através do vidro embaçado do ônibus, olho a cidade, vejo manchas de pessoas, guarda-chuvas, árvores, carros, edifícios... E tudo o que me aparece menos nitidamente vai se transformando na imagem confusa do meu passado, enquanto meu dedo, num gesto infantil, involuntário, roça o vidro com a ponta da unha.

12/09/11 ANÚNCIO DA PRIMAVERA A lua cheia entre os ramos de uma árvore desfolhada. Assim despida, ao luar, se anuncia a primavera. Sombras no chão a germinar.

14/09/11 CANTOS DA CASA A casa que habitamos, com suas áreas de circulação traçadas pelo hábito e seus cantos invisíveis. Lugar onde as recordações vão se empilhando e se apagando


umas sobre as outras, como num palimpsesto. Assim as várias casas que habitei, a casa que foi a da minha infância e é hoje uma carcaça vazia. Casas que o corpo percorreu e que se afundam na memória. Como esta que habito agora, que percorro tanto mas ignoro tanto, e da qual me sinto prisioneiro, querendo às vezes subir pelas paredes – para me observar de um canto, lá no alto, onde uma aranha faz a teia.

16/09/11 SALISTRE Quando meus filhos eram pequenos, criei um personagem misterioso, Salistre, que deixava seu nome inscrito em lugares escondidos da casa e que eles às vezes descobriam com espanto, intrigados e um pouco assustados. Talvez desconfiassem que fosse eu o autor da brincadeira. Mas nunca me identifiquei e fingia com eles o mesmo espanto. Agora que o tempo passou e eles são adultos, posso enfim fazer esta confissão: Moro no ermo das casas, atrás das portas, no vão entre os móveis e a parede. Ali esquecido, à socapa, mais pertinaz que a poeira,


escrevo, impenitente, em traços de giz ou de bistre, meu nome medonho, SALISTRE.

19/09/11 TRAUMA Uma mulher sofreu um trauma que a fez perder o contato com a realidade. Para se restabelecer, passou a construir pacientemente, no quintal da sua casa, a miniatura da cidade em torno dessa mesma casa onde ela mora e que vejo se erguer muito frágil, em tijolinhos de madeira empilhados, exposta a um vento forte ou a um gesto estabanado que a poriam abaixo. Mas ela não parece preocupada e sorri, com as gengivas à mostra, do meu espanto e do meu temor. Ao despertar desse sonho, pensei nas minhas brincadeiras de infância com as peças do “Pequeno engenheiro”, pensei nas manias criativas, nos objetos feitos de sucata com que o Bispo do Rosário, internado num manicômio durante 50 anos, queria construir “a nave que vai me levar ao céu”, ele dizia, pensei nas pontes lançadas sobre o abismo que separa loucura e arte, pontes de neve sobre as quais, diz Merleau-Ponty, também se assenta a própria linguagem, pensei enfim na curiosa convergência (puramente acidental na evolução das línguas, segundo me explicou o Flávio)


entre a palavra “trauma”, de origem grega, e a alemã “traum”, que significa sonho.

21/09/11 E TU? Outro sonho, este em permanente contato com a realidade de um corpo adormecido ao meu lado, por isso sonho atiçado de desejo e contido ao mesmo tempo – para não despertar esse outro corpo ou talvez para não despertar o sonhador. Nessa fronteira desdobra-se um momento de afirmação – um homem crê (crê no seu próprio sonho?), mas os que estão à sua volta duvidam, e ele pergunta ao mais próximo, ao mais amado, que parece ser o mais indeciso: E tu? Não havia determinante na pergunta, mas o seu conteúdo afetivo era: tu me amas? tu crês em mim? E quem fazia essa pergunta era também o sonho ao sonhador, que desperta num pranto, como se a água represada do sonho rompesse enfim a barreira que o separava da realidade.


23/09/11 SOBRE A CRENÇA Posso dizer que isto é uma crença: creio nesta imagem de revista que tenho sob os olhos, mostrando uma figura humana pequenina suspensa numa corda ante a abertura enorme da gruta da Ilusão (no Vale do Ribeira, em São Paulo). Na verdade, creio no poder da fotografia que me transporta a lugares onde não estou, creio como quem participa de uma aventura alheia apenas com os olhos e não obstante vive de outro modo o que vê. (Também os crentes que vi fazerem uma oferenda a Iemanjá não acreditavam como eu, que acreditava vendo-os.) Mas a crença é mais que isso, é crer também no desejo de me lançar numa aventura, é crer que não basta ver e que preciso crer no que ainda não vejo. Creio então nos que são movidos por suas crenças, nos que levam oferendas a uma divindade que estaria além, nos espeleólogos que vão medir com precisão a abertura da gruta. Creio nessa devoção, da religião e da ciência, que implica uma prática, um querer-fazer. Só que isso me traz de volta ao ponto de partida. Crer não é também um querer-fazer-ver o que sou e o lugar onde estou? Crer nesta sala, nesta tela onde escrevo, plano que intuo ser o único possível para mim neste momento e sem o qual eu seria escravo dos devaneios, sem o qual não escreveria mas também não


sairia desta sala, plano de escritor sem planos que desfaz o que vê e acredita no que descobre ao escrever.

26/09/11 O GRANDE REBOTE Gosto de pensar que o universo é um fole: ele se expande, se contrai até quase desaparecer, depois se expande de novo e assim sucessivamente. Em vez de Big Bang, acho mais bonito o que chamam de Big Bounce, o Grande Rebote. O universo não surgiu do nada ou de Deus: ele se fingia de morto, deu um salto e recomeçou. Um universo desbanca outro (como fazem, aliás, as teorias da física com as anteriores). Para que invocar Deus ou o nada antes do universo? O universo existe, o universo é Deus, é o Tao, isso basta. Sua lei é a mudança, a transformação dos opostos. Essa, me parece, é a única constante física e mental do universo. Dizer que a velocidade da luz não pode ser superada é uma constante local, da ciência de uma época. Numa outra época da ciência, o neutrino pode ser mais veloz que o fóton.


28/09/11 O ARTISTA DA FOME O final intrigante do conto Um artista da fome de Kafka. Depois que o jejuador confessa que só jejuava porque nunca encontrou o alimento que lhe agradava, sendo então retirado da jaula e enterrado junto com a palha, o último parágrafo introduz uma jovem pantera que passa a habitar a jaula vazia. E ali, ao contrário do jejuador, ela dispõe do alimento que lhe agrada e que os vigilantes lhe trazem. “Nada lhe faltava, (...) nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.” (Tradução de Modesto Carone.) Assim termina o conto, abruptamente, deixando só perguntas no ar. Que figura é essa da pantera? Que espécie de fartura ela exprime e que descreve um círculo contrário ao do jejuador, ambos dados em espetáculo na jaula? Teria Kafka, ao escrever esse conto no fim da vida, já doente e só podendo comer com grande dificuldade, querido devorar-se,


transformar-se, lançar uma última parábola do destino do artista?

30/09/11 ARTE E RELIGIÃO Arte é transposição e bálsamo, como a religião – mas com uma diferença fundamental: enquanto a religião oferece os meios prontos, o artista deve elaborar os seus solitária e interminavelmente.

03/10/11 TEMPO Quanto tempo vive a rã? Quantas manhãs vê nascer um mosquito, um elefante? Quantas vidas há no tempo? Pode um homem compreender que o tempo tem coração? E se é um coração mortal, quanto tempo vive o tempo?


05/10/11 TESES SOBRE A VIDA Uma tese diz que a vida é um evento altamente improvável na Terra e mesmo no universo, como supõe Edgar Morin (suposição temerária, dada a imensidão do cosmos e da nossa ignorância a respeito dele, mas que conta a seu favor com um argumento forte: se existem outras formas de vida no universo, elas não poderiam ser percebidas ou conhecidas por nós, a nossa seria a única pensável). Outra tese fala da inevitabilidade química da vida na Terra (o que explicaria seu surgimento precoce há 3,5 bilhões de anos) e, portanto, sua alta probabilidade, talvez igualmente no universo. Mas o mais interessante nessa ideia de inevitabilidade, defendida por Stephen Jay Gould, é que uma necessidade inicial teria gerado uma história contingente e imprevisível da vida, conduzida em grande parte pelo acaso (numa inversão dos termos propostos por Jacques Monod em O acaso e a necessidade). São os cataclismos, as catástrofes, as extinções em massa de espécies que comandam o curso da evolução, no sentido de que favorecem mudanças e adaptações inesperadas e jamais garantidas ou predeterminadas, pois mesmo uma evolução no sentido da complexidade não seria geral e inevitável. Os organismos mais simples, os


vírus, provavelmente permanecerão depois que os mais complexos tiverem desaparecido.

07/10/11 O PESO DO MUNDO Não são as desgraças nem as calamidades que fazem pesar o mundo: é a vida normal, normativa da razão. A razão faz pesar o mundo porque quer explicar, dirigir, circunscrever o tempo, e assim se torna estável, repetitiva, pesada. Então só um grande choque, parece, pode nos aliviar desse peso. No entanto a leveza também é possível na razão. Pois a razão, afinal, é boa, como é boa a vida em sociedade. Ela nos provê o abrigo, a comida, um mínimo de conforto, o melhor resultado com os meios mais simples. E isso para que tenhamos tempo de nos dedicar à teoria, à contemplação do que existe na sua particular estranheza ou beleza. (Quanta variação entre duas manhãs, duas nuvens, entre uma fala e outra, entre dois ritmos, dois pensamentos...) O luxo da razão é contemplar as diferenças do mundo, interferindo o menos possível no seu curso feito de pequenos choques – nascimentos, alegrias, sofrimentos, mortes... Quando a razão se sabe e se quer pequena diante da infinita realidade em transformação, basta-lhe o desafio de uma hora, basta-lhe evitar que a repetição a


imobilize. Essa razão oferece o antídoto dela, o poema de cada dia, o alívio diário do peso do mundo.

10/10/11 SENTIMENTO O sentimento é a raiz, é a luz que se curva à gravidade. O sentimento é grave, triste, mesmo nas pessoas alegres. Ele gosta de conceber, mas não gosta de conceitos. Apraz-lhe uma certeza, contanto que particular. E a particularidade do sentimento é esta: de todas as coisas ele guarda uma parte. Por isso lhe pesa a bagagem. Quando as flores brotam na primavera, lá embaixo, na raiz, o sentimento suspira de saudade: do que foi, do que será, do que poderia ter sido. O sentimento geme e lambe as próprias feridas para saber-lhes o mal. E o mal do sentimento é não saber o que quer. Mas o sentimento sabe. Como sabe do sol a raiz que nunca viu a luz do sol.

12/10/11 CRIANÇAS As crianças descobrem muito cedo que vivem num mundo pantanoso, mas, ao contrário dos adultos que aprendem a pisar com cuidado, elas sentem – porque


estão começando, porque amam o desafio e a aventura – que devem avançar um pouco temerariamente se não quiserem ser tragadas. Fazem isso por instinto, para elas não há um retrospecto sobre o qual firmar seus passos. São iniciantes absolutas da vida.

14/10/11 A MESA A mesa é sempre a mesma. Cenário de enquadramento da vida em grupo. A mesa é como a linguagem, decreto e dádiva. Lugar de aprender e repetir, falar e comer. A mesa tem muitas formas, muitos pratos, muitos participantes. Mas toda mesa é plana e, tenha a forma que tiver, será sempre um esforço de quadratura do círculo, de unificar o que é múltiplo. Estar à mesa, primeira forma ostensiva de hierarquia que a criança percebe. Os pais à cabeceira. A ordem dos pratos, por último a sobremesa. A criança percebe os lugares e o seu lugar à mesa. Há quem pense em virar a mesa ou tente eludi-la nos restaurantes, nas lanchonetes. Mas é forte a lembrança da mesa, da primeira ceia, prazer ou repulsa, fatalidade ou felicidade súbita (um dia, comendo arroz com feijão, sentir o gosto do próprio Sol!).


Há uma utopia da mesa, situada em algum ponto entre o falar e o comer, a palavra e o alimento. Tudo porque, para o homem, não basta a fome. Ele deve nomear o que come. “Tomai e comei, este é o meu corpo.” Tal é o sentido sagrado que o dia-a-dia da mesa devora.

17/10/11 ALTA-COSTURA Ela passou a noite cortando e costurando um tecido barato para fazer uma bata com manguinhas japonesas e um bolso bem bolado onde pousar a mão direita. (Tecer, costurar: atividade sempre associada à mulher. A mulher tece o quê? Um invólucro. Não só a roupa, mas seu próprio casulo invisível, sua obra de concentração e paciência.) Eu estava escrevendo a seu lado e havia uma semelhança flagrante entre mim e ela: nós dois sentados em silêncio, diversamente ocupados, opostos e coincidentes.


19/10/11 CESTINHO DE PALHA Pequeno objeto de palha trançada, verde, laranja, branca, violeta. Pode servir para se pôr canetas, um arranjo de flor ou mesmo nada. Índios o vendem a cinco reais na cidade, como um cestinho reles. Ou como se o fino trabalho deles valesse menos porque vale mais.

21/10/11 O LIXO E O LUXO Catadores de lixo organizados, até mesmo disciplinados, com seus carrinhos e carroças, vasculhando todo dia a sucata deixada na rua, recolhendo o máximo que podem (e não são poucos os que também procuram restos de comida). Essa ocupação dos pobres, dos desempregados, já não surpreende. Como não surpreende ver mocinhas falando sozinhas, na rua, com celulares. O lixo e o luxo, lado a lado. O trabalho mais servil costeando o consumo mais supérfluo, monstruosamente díspares e normais.


24/10/11 INCIDENTE NO TRÂNSITO Eu havia preparado uma postagem sobre um incidente que presenciei (um jovem saindo de um carro para agredir o motorista de outro carro) e que me perturbou. Eu recordava que, quando via brigas de rua na infância, me afastava sem querer olhar. Mas aí se abriam portas atrás de portas: o tema da agressividade me pareceu uma reação em cadeia, um pequeno incidente no trânsito trazia à tona toda a história do medo, minha e da humanidade. Vi então que certas coisas não se pode e nem se deve querer abordar; são um abismo onde a gente só para de cair quando começa a esquecer.

25/10/11 VELAR O verbo velar, sua sonoridade, sua dupla acepção de vigília e ocultamento. Escrevo essa palavra, coloco-me dentro dela e sinto a relação imediata com a noite que me envolve. Velar a noite, velar como se vela por alguém, velar o que não se revela a ninguém...


27/10/11 O VAGALUME O inseto vago, noctívago. Seu trajeto intermitente nos lugares imprecisos. Foi por aqui, por ali... É um vagalume ou são vários? Os olhos verdes da noite.

29/10/11 AGITAÇÃO NA PRIMAVERA Folhas ávidas de sol, verde-claras, folhas novas brotando sem parar, traduzindo a luz em seiva, multiplicando as ramagens. No alto da árvore prossegue a secreta alquimia que produz também a sombra. O olhar se enleia nessas folhas que são seu descanso e que agora se agitam na manhã. Quer perpassá-las como o vento, conhecer seus interstícios que se abrem aos insetos e aos pássaros, todos buscando se acasalar loucamente. É primavera, e o clima temperado parece que acelera a vida. Conosco não é assim também? Sentimos o bem-estar físico como um momento de equilíbrio, quando na verdade nossas forças internas estão em grande agitação.


31/10/11 PEDRAS DE OURO PRETO É estranho falar de opulência no reino mineral. Mas foi o que vi, algum tempo atrás, reunido e resumido no Museu de mineralogia de Ouro Preto. Pedras maravilhosas, de todas as formas e cores, algumas cujos nomes já fazem sonhar, como jaspe, topázio, ônix, obsidiana... Foi essa riqueza que possibilitou, com o trabalho escravo, com o ouro garimpado pelos pretos, a realização de obras destinadas a não evoluir, a marcar simplesmente sua presença no tempo em Ouro Preto. Lá o dobre dos sinos das igrejas parece menos um chamado do espírito que o pulsar imemorial das pedras e dos ossos.

02/11/11 OS MORTOS Um poema para ser lido especialmente neste dia: The dead, de Billy Collins, traduzido por Maria Lúcia M. Martins e extraído de uma antologia de poetas norteamericanos contemporâneos. “Os mortos estão sempre nos observando, dizem,


enquanto calçamos os sapatos ou fazemos um sanduíche, olham pelo fundo de vidro dos barcos do céu enquanto remam lentamente pela eternidade. Veem o topo de nossas cabeças mexendo embaixo na terra e quando deitamos num campo ou sofá, drogados talvez pelo zunido da tarde quente, pensam que talvez voltamos os olhos para eles, o que os faz suspender os remos e calar e esperar, como pais, que fechemos nossos olhos.”

05/11/11 POR QUE NÃO NÓS? Numa narrativa breve e pungente intitulada “Era a guerra” (em Naquele exato momento), Dino Buzzati fala de uma geração que, tendo perdido na guerra os melhores anos da juventude, e vendo a seguir seus filhos gozarem a vida inocentes e felizes, se perguntará um dia, “com repentino furor”: “E por que não nós?” Mas o que permanecia aberto nessa pergunta, e era força contida de sentimento mais do que ressentimento, fecha-se num último parágrafo, amargo, que ironiza sobre a felicidade apenas sonhada. E então é a vez de o leitor perguntar, enfurecido: Mas por que essa conclusão? Por que não nós, leitores, concluirmos?


07/11/11 FORMA E FUNDO Um texto com a forma estilística daquilo que é o seu objeto. Ao descrever a aproximação de um gato, por exemplo, as frases se enroscam e dão voltas, sinuosas, imitando os movimentos do animal e os sentimentos que eles provocam – que vão do receio à aceitação. Aliás, as interações humanas também se incluem em sua maior parte nesse tipo: poderiam ser descritas como um vaivém entre o convite e o limite. Falamos quase sempre por circunlóquios, quase nunca ousamos exprimir diretamente um afeto. É que mesmo os afetos mais sinceros precisam de um intervalo, de um rodeio para ser eficazes. Precisam de um pouco de literatura – que é mais eficaz, justamente, quando forma e fundo se assemelham.

09/11/11 ONDAS Navegar pelas opiniões alheias sem seguir-lhes o curso. Pelo simples prazer de sentir o embate das ondas, da vela, do leme, e com o único propósito de não naufragar. Para onde conduziriam as opiniões alheias, como as próprias, senão de volta ao imenso mar que é o mesmo em toda parte?


Isto vale para todas as leituras, mesmo as que parecem influir mais decisivamente sobre o que somos e o que pensamos. Abrimos um livro e ele parece descrever exatamente o que sentimos. Mas antes de fechá-lo já pressentimos que fomos atraídos pelo estilo, não pelo que ele descreve. É o que reconheço sempre em Bernardo Soares (Livro do desassossego), o heterônimo mais próximo de Fernando Pessoa. Há nele um sentimento constante de mágoa, tédio, indiferença que me cansa, mas nunca me canso da sua precisão, do seu estilo regular como as ondas. Pessoa não escrevia tanto para falar do que sentia, mas para sentir que o ritmo da sua fala não era diferente do das ondas.

11/11/11 AMOR, HUMOR Muito já se falou desse poema de Oswald de Andrade feito de uma só palavra (humor) em contraponto ao título (amor). Seria uma resposta chistosa à visão romântica ou passional do amor. Mas me parece que ele é mais que isso. Pelo menos é como o entendo hoje (e todo poema é recriado a cada leitura): leio aí a síntese de uma longa experiência, conquistada após muitos desastres ou enganos amorosos. Não é dito que amor é humor: é dito apenas


humor, que completa a palavra amor. E esse humor, no meu entender, precisa ser dito com amor para que o poema faça sentido, para que não seja só uma piada. Amor e humor são complementares.

14/11/11 A CONCISÃO DO INGLÊS Língua feita de palavras curtas, de vogais contidas pelas consoantes, com uma sintaxe imperiosa que precipita os efeitos sonoros e imagísticos das palavras, por isso muito apta para a poesia. “Quick, said the bird, find them, find them”, diz um verso de Eliot, evocando tempos desaparecidos. Que língua latina captaria esse chamado com a mesma rapidez? Daí também o wit, traço breve e irônico do humor inglês, que é um modo hábil de retrair-se, de apenas insinuar o que se quer dizer (ao contrário do humor dos latinos em geral, mais dispostos a criar cumplicidade e envolvimento). E isso confirma o caráter isolante (maior autonomia das palavras, menos flexões) da língua inglesa, sem a abertura e a generalidade inclusiva que oferecem as línguas latinas mais prosaicas.


16/11/11 O QUE É UM POEMA, 2 Venho observando que uma das postagens mais visitadas deste blog é a que se intitula “O que é um poema?” (07/07/11). Atribuo as visitas a estudantes ou curiosos que, ao digitarem essa pergunta na Internet, deparam com o que escrevi e que não é de modo algum uma definição, mas uma visão muito pessoal do que entendo ser um poema e sua relação com a prosa. Dou prosseguimento àquela postagem, mais pela satisfação de ver que alguns se fazem essa pergunta tão difícil de responder. Primeiro porque o poema, pode-se dizer que por definição, não pode ser definido. É um objeto de linguagem único e que admite muitas formas, sobretudo na modernidade. Talvez se possa caracterizá-lo como uma mensagem inovadora, surpreendente, voltada sobre si mesma. Mas isso ainda não explica seu motivo, seu arranjo particular e em que situação acontece. O poema pode ser a descoberta de um momento ou o resultado de uma longa elaboração, sem falar que também depende da maneira como é lido. Por isso a pergunta que importa não é tanto “O que é um poema?”, mas “Como nasce um poema?” E aqui só se pode partir de um que a gente leu e gostaria de ter escrito.


18/11/11 CAIXA PRETA A câmara escura é uma caixa hermeticamente fechada com somente um furo deixando entrar a luz de fora para compor uma imagem que antecipa a fotografia: é como ver o futuro. O poema é também uma caixa preta, mas é som e ideia que entram pelo furo, e o traçado das letras compõe como em sonho uma paisagem que o leitor deve percorrer no escuro. (Isto não é propriamente um poema, mas um texto em prosa versificado.)

21/11/11 DO DIABO E DA SORTE Entre as inúmeras denominações do Diabo (belzebu, capeta, cão, cujo, demo, tinhoso etc. etc.) figura a de


rabudo. O termo denota “o de rabo comprido”, propriedade que por metonímia designa o Diabo, donde a conotação de rabudo como “sujeito malvado, cruel”. Mas, curiosamente (por um lapso diabólico?), os dicionários Aurélio e Houaiss não consignam uma acepção de rabudo muito mais disseminada: a de “sortudo”, que suponho também derivada do Diabo e do seu rabo comprido, visto agora como uma propriedade anômala e rara como a sorte. Rabudosortudo conotaria não mais o Diabo-Maligno, mas o Diabo-Imprevisível que comporta, como em toda imprevisibilidade, um elemento de sorte. Acontece que sorte é também uma palavra ambivalente, podendo designar tanto o acaso feliz quanto o azar, a má fortuna. Palavra diabólica que se instalou até mesmo numa locução aparentemente inócua – de sorte que...

23/11/11 NO ÔNIBUS, 5 Mais uma vez transportado, no ônibus urbano, a um estado de pura fruição sensível, absorto num perfume de jasmim. De onde ele vem? Dessa mulher sentada ao meu lado e que olha para fora? Ela parece também se entregar a esse limiar, a esse estado flutuante, transitório, que acontece no trânsito quando um coletivo nos transporta.


28/11/11 VIAGEM VIRTUAL Entro num programa do Google Maps que permite viajar por dentro de cidades distantes. Passeio pelas ruas de Praga, onde nunca estive. Só eu me locomovo, as pessoas e as coisas estão imóveis como à minha espera. É uma viagem sem cheiros, sem sol nem vento, mas a simples experiência de ver é fascinante e perturbadora, como a de percorrer quadros num museu (e neles também não há cheiros, nem sol nem vento, mas sentimos às vezes algo de mágico que nos emociona). Isso já havia acontecido com a fotografia e o cinema: o Google apenas multiplica e acelera essa desterritorialização do olhar (o próprio Google, empresa sem sede nem lugar, que não se sabe onde armazena seus fantásticos dados de memória). Ouvi dizer que esse mapeamento está sendo feito agora nas principais capitais brasileiras. Em breve não precisaremos mais sair de casa? Seremos apenas olhos que viajam virtualmente? Mas é o que já nos acontecia antes do Google, é o que nos acontece sempre nos sonhos: em algum momento acabamos por despertar.


30/11/11 IDENTIDADE O lugar onde nasci e onde vivo. Fronteira entre as duas línguas que colonizaram os pampas. Fronteira estranha, na qual a paisagem une o que a língua separa, e que levou o gaúcho a se diferenciar em relação ao país, a representar o papel de guardião quando a vastidão do espaço lhe soprava o desejo de se deslocar livremente ou de simplesmente ficar quieto no seu canto. Nunca me identifiquei com os traços marcados e imperativos da cultura gaúcha. Meus pais não tinham o hábito do chimarrão e Porto Alegre já é uma cidade com ares cosmopolitas. Mas a ideia de fronteira me acompanha e me inspira, mesmo sendo simples lugar de passagem. Não me ufano de ser gaúcho (como tampouco de ser brasileiro), apenas aceito e acho bom viver aqui (apesar do frio), e confesso que me identifico profundamente com as paisagens deste lugar (mesmo suas praias monótonas) que me transmitem desde a infância um sentimento inexplicável de beleza.


02/12/11 MANOLO Conheci Manolo Elias em 1970, em São Paulo. Ele chegava a essa cidade sem projeto definido ou, pelo menos, nunca falou do que fazia ali e que supus relacionado a alguma espécie de clandestinidade. Reservado, de aspecto soturno, mas com rompantes de entusiasmo, sua origem mesma é obscura. Nascido na província de Sacramento, no Uruguai, não conheceu o pai e perdeu a mãe muito cedo. Em Montevidéu tentou sem êxito, entre estudos abandonados, participar de uma expedição ao Polo Sul. Nessa existência sem rumo, pude perceber apenas um gosto pelas aventuras marítimas. Após dois anos de convivência, durante os quais ele me fez conhecer e apreciar Julio Cortazar, de quem era um leitor assíduo, Manolo anunciou que partiria com a tripulação de um navio mercante com destino ao Japão. Na despedida me confiou alguns escritos lacunares que indicavam um veio poético arrebatado e contido ao mesmo tempo. Desde então não tive mais notícias dele. Muitos anos depois, fiquei sabendo que Manolo se envolvera com o contrabando na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, mas seu paradeiro continuava incerto. Só recentemente descobri que voltara a Sacramento e decidi visitá-lo num sítio onde vive agora com Carmencita, sua mulher. Nesse encontro quase não falamos de


literatura, mas no final ele me mostrou um poema, que copiei e reproduzo abaixo, que é talvez o retrato maduro e o mais inalcançável desse poeta bissexto e desconhecido. “Así se pasó conmigo. En las claras mañanas ya me cobría una extraña mancha de oscuridad. Poco a poco en mis ojos creció la yerma distancia de los campos no labrados, la tan difícil hermosura de los espacios desiertos, y no quise más que mirarlos como los mira un caballo o un buey. Todo el paisaje del Sur se aniñó en mi: la hierba, el agua, el viento, yo me puse a escucharlos. El cielo raso es un techo de radiosa desolación pairando sobre mi casa. Soy un hombre rústico, me gusta el labor diario y la muda contemplación del numinoso en lo nimio. Mi cuerpo sueña por mí.”


05/12/11 PANGE, LINGUA Comentando os sentidos do verbo latino pangere (fincar, pregar, prometer, ajustar, convencionar, passando daí a escrever, consignar, louvar, sentidos de que derivam pagus, o limite fixado na terra e a página, e também paganus, o aldeão e o pagão), Michel Serres observa que esta frase de um hino medieval – Pange, lingua, gloriosi corporis mysterium (Canta, ó língua, o mistério do corpo glorioso) – começa com uma declaração pagã que vem antes da língua, antes do Verbo que revestiu universalmente as páginas, fazendo a paisagem e o pago recuarem a um lugar anterior à língua, lugar da antiguidade propriamente. Mas hoje começamos a perder a linguagem na codificação da ciência, diz ele, e “a antiguidade [dos sentidos, da paisagem] volta a aparecer sob o revestimento transparente do Verbo”.

07/12/11 DEZEMBRO Alta luz, nuvens palpáveis, o cheiro e o sabor da manga, do melão gaúcho. E o canto matutino da cigarra anunciando o fim das aulas, o tempo todo para


os brinquedos. É assim que os meus sentidos reconheciam e reconhecem ainda este mês, quando o ano parece atingir o esplendor antes de morrer.

09/12/11 O CHEIRO DA AMENDOEIRA Drummond criou a expressão “fala, amendoeira”, à qual Guimarães Rosa retorquiu com “cala, amendoeira”. Mas o que sempre me tocou, antes de conhecer o tema, antes mesmo de identificar essa árvore, também chamada chapéu-de-sol, é o cheiro dela. Cheiro que de início eu nem sequer associava a uma árvore, mas a alguma emanação misteriosa da terra. Porque a amendoeira, comum em cidades litorâneas tropicais como Rio de Janeiro e Santos, é rara em Porto Alegre. E mais raro ainda é localizá-la quando, só de vez em quando, exala. Acontece no verão ou em dias quentes. Vou andando pela rua e de súbito o cheiro vem (de onde? de perto? de longe?) e me impregna com seu teor de resina, que não sei se é da folha, do tronco ou do fruto. Olho ao redor e não vejo a árvore. Mas imediatamente reconheço esse cheiro a uma só vez terroso, tenaz, indomesticável. Aspirá-lo é sentir um quê de selvagem no ar civilizado. Assim: feito a fórmula química de uma experiência total e única, quase inacessível às


palavras, pura sensação e pura evocação, que fala e cala. E experiência sempre breve, da qual espero apenas que volte a acontecer.

11/12/11 FEITO PRA CABER NO MAR Releio a Experiência de Ralph Valdo Emerson, poeta e ensaísta americano (1803-1882), e retenho, entre as muitas passagens desse pequeno ensaio escritas com tanta sabedoria, apenas esta que me toca mais particularmente: “Fica sabendo que tua vida é um estado fugidio, uma tenda para uma noite, e, com ou sem saúde, termina tua tarefa. Estás enfermo e não ficarás pior, e o universo, que te quer bem, ficará melhor. (...) Que baste, para a alegria do universo, que não tenhamos chegado a uma parede, mas a intermináveis oceanos.” Sim, Emerson, sim, queridos parceiros Marcelo e Zé Miguel: a gente é feito pra acabar, a gente é feito pra dizer que sim, a gente é feito pra caber no mar e isso nunca vai ter fim...

13/12/11 POT-POURRI (PARA MIRIAN) quando eu vi


você parecia vir a ser... como que tocada assim de leve pluma revelando-se na bruma da manhã... contigo eu vou ao léu a estrada o céu azul verde a perder de ver... vejo teu passo na correnteza deixando um rastro só de beleza... com cantar fiz do tempo um castelo de amor pra nós dois, mesmo que meu motivo não soubesses... luz de poesia razão do meu erro meu berro na escuridão... no eterno movimento da separação e do encontro... algo em nós já se despedia mas querendo voltar junto com o sol outro dia... andar onde eu quiser querendo a tua companhia...


eu jogo ao fogo todo o meu sonhar e o cego amor entrego ao deus-dará...

21/12/11 CAMINHADA, 2 Marcha sem sobressaltos no piso uniforme e sintético da pista de atletismo. Como os ponteiros de um relógio, todos ou quase todos marcham no sentido anti-horário. Desligado da atenção imediata aos próprios passos, o caminhante sintoniza com os que giram ao redor. Uns vão mais depressa, outros mais devagar, uns entram, outros saem; há homens, mulheres, velhos e jovens, todos perfazendo um conjunto que se renova e é sempre o mesmo. Apesar ou talvez por causa do seu aspecto banal, a experiência favorece a compreensão do que há de cósmico e coletivo, cíclico e nivelador na existência. Depois de muitas voltas, começa a escurecer, a visão se desfaz, não há mais noção de lugar. Ao caminhante só restam agora a sensação e o ritmo dos seus passos.


23/12/11 GUAÍBA rio lago rio companheiro rio mar aprisionado rio afora rio adentro rio da cidade ao lado rio definido limite rio aberto ilimitado rio horizonte poente rio reflexo dourado rio enfeixando rios rio liso rugoso vário rio e arredores vadios rio veleiro solitário rio abandono lento rio sem dono sem idade rio miragem pensamento rio ir porvir saudade rio guaíba rio biguá rio de repouso e asa rio sonoro silencioso rio palavra seio água


26/12/11 NUVENS DOURADAS Um breve prelúdio anuncia uma primeira frase feita de uma nota só doze vezes repetida. Segue-se, num salto, uma segunda frase idêntica à primeira, uma terça acima, e depois outra que eleva ainda mais essa sequência de patamares, mas lançando sua última nota a um ápice melódico quase pungente; para fechar o período, uma quarta frase repete um pouco abaixo, em menor intensidade e já um pouco instável, o desenho da anterior. O esquema melódico recomeça, abre-se um novo período, mas não exatamente igual: as notas repetidas das frases estão agora meio tom acima; se as passagens são as mesmas, não há mais o clímax vertical no final da terceira frase, e sim uma efusão horizontal na quarta, que se completa e se dissolve numa quinta, ausente no período anterior e gravemente retomada pela tônica, como a assentar a música no seu leito. Retorna então o prelúdio e tem início um terceiro período semelhante aos outros dois. Mas em vez do empuxo vertical, no primeiro, ou da expansão horizontal, no segundo, ocorre agora uma rápida oscilação das notas a partir da quarta frase, num movimento ascendente, febril, que por fim cessa e mansamente decai. E a música expira com um acorde


que se estende numa espécie de exalação, deixando ouvir no final, levemente pontuada, uma última nota só. Melodia feita de camadas de duração e cujo desenho, sempre acrescido, se repete com variações; melodia intimamente matizada pela harmonia que vai tingindo de cores e de afetos seu lento desenrolar modulado; melodia que combina a percussão insistente do piano e o devaneio langoroso das cordas: Nuvens douradas, de Tom Jobim, é isso e também um encontro entre som e imagem, entre a música e o seu tema – as nuvens, que parecem iguais e estão sempre variando, que são os sonhos da terra, seu hálito, sua face mais abstrata.

28/12/11 O CHAMADO E A CHAMA O músico e a música: a relação não é a mesma que entre o poeta e a poesia. Parece que lá não há distância, o músico está sempre na música. Está ou não está, é tudo ou nada. Há um mergulho no som (com sua exigência de um longo treinamento, de uma longa repetição), enquanto o poeta se mantém na linha d’água, na mediação do sentido. O poeta interpreta, o músico intervém. A poesia é um chamado, a música uma chama.


30/12/11 APÓLOGO O tumulto e o túmulo discutiam à beira de um descampado sem fim. – Eu vou ligeiro. – Eu vou ao fundo. – A vida é breve. – É só vaidade. – Fogo e mudança. – Resta o silêncio. E enquanto argumentavam não viam que o descampado se enchia de borboletas azuis.

31/12/11 FIM Esta é a última postagem do ano e também a última deste blog. No limiar chega ao fim. Sei que alguns poderão estranhar, lamentar ou considerar a decisão precipitada. Mas adianto que não se trata de um abandono: penso criar em breve um novo blog para continuar próximo dos que me acompanham.


O horizonte temático que me propus de início, a fronteira de linguagens, poderia, é verdade, ser explorado indefinidamente. Mas a partir de certo ponto notei que as postagens começavam a formar uma espécie de livro, um livro de horas, com seus capítulos, retornos e marcas de calendário, e que isso exigia uma suspensão, um fim provisório e talvez um pouco arbitrário. Também porque meus recursos não são ilimitados. Para quem sempre escreveu com lentidão, ainda que movido por uma urgência diária, a natureza interativa e a velocidade do blog requerem outro tipo de disposição ou de abordagem. É para me reabastecer e me renovar, portanto, que eu paro aqui. Neste último dia do ano, quero saudar os amigos e leitores invisíveis que durante dezessete meses me estimularam e fizeram que essa experiência se tornasse tão gratificante para mim quanto pode ter sido para eles. Desejo a todos um feliz ano novo, lembrando o que este fim significa: recomeçar.

no limiar  

incursões e devaneios na fronteira de linguagens