ABSOLUT 2140 #4

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Clemens Behr Luiz Bras Ronaldo Bressane Erin Case Emilie Gervais Mark Jenkins Chris Fraser

Dana Oldfather Lance Austin Olsen David Quiles Guilló Andrew Tamlyn Joca Reiners Terron André Sant’Anna Leandro Sarmatz Mario Wagner Antônio Xerxenesky


#004


O planeta Terra está dividido em dois hemisférios geográficos. Quase 9 bilhões de pessoas moram nos grandes centros urbanos. Restam apenas setenta árvores sobre a superfície do planeta. Hoje, no sétimo dia do sétimo mês do ano 2140, um vírus letal identificado como “Kinsey” atingiu a COM.

O mundo entrou em pane.



Mario Wagner




Mario Wagner


Há mais de cem anos, um apagão mundial causado pelo uso e abuso das mídias sociais marcou o nascimento da COM. Após os sistemas se reiniciarem, a rede despertou, tomou consciência de si e se transformou numa entidade a serviço de todos os conectados. Em poucos meses a COM, dirigida por seus milhões de usuários, tomou conta das instituições, de governos nacionais a locais, passando a gerenciar ABSOLUTamente tudo em nível global, incluindo comunicação, educação, recursos naturais e controle de enfermidades. Uma nova era se iniciou e hábitos ancestrais foram abandonados. Ninguém mais se comunicava verbalmente, enquanto violência e libido foram controladas. Depois de muitas gerações, o trabalho passou a ser distribuído e avaliado através da COM de modo igualitário, estabelecendo como meta a realização das tarefas com cem por cento de eficácia, ocupando o indivíduo somente alguns minutos diários. Hoje, no sétimo dia do sétimo mês do ano 2140, um vírus letal identificado como “Kinsey” atingiu a COM. Para proteger os usuários, a COM deixou uma última mensagem e se autodesligou. A população foi relegada aos próprios recursos, e aos seus principais defeitos. Entre os danos colaterais, o maior deles está relacionado ao arquivamento de dados: noventa por cento da população sofre perda de memória recente. Entre os dez por cento restantes que conseguem lembrar, a preocupação é tentar ocultar essa capacidade.



ABSOLUT 2140 São Paulo, Hemisfério sul



Mario Wagner


Mario Wagner


Tudo parecia limpo no esgoto da cidade de São Paulo, apesar do fedor. Enquanto eu verificava na entrada do bueiro se os robôs enviados pelos Crazy Daisy tinham desaparecido, o gordo carequinha permaneceu sentado ao pé da 71ª árvore, com as pernas abertas entre as raízes e o saco mergulhado no aborrecimento. Parecia cansado de tanta correria. Eu estava, pelo menos. Minha ex-mãe, agora um andróide feminino PT-905/12, provou que suas pernas mecânicas estavam em dia, quase alcançando a gente na ladeira da rua Direita perto do Pátio do Colégio. Em outros tempos, pouco antes do Grande Desligamento, aquele lugar ficava cheio de gente que assistia às trapaças dos mágicos de rua. A pior coisa que podia acontecer então era você perder a carteira, levada pelos punguistas. Hoje em dia, porém, periga ser congelado por uma mangueirada paralisante disparada por Jackson e seus jardineiros. O carequinha olhou pra mim, talvez incomodado pelos meus resmungos. Sua expressão estava mudada, desde que recuperou a memória. No fundo de seus olhos, um brilho indicava o trabalho incessante no qual sua mente andava mergulhada: antes, quando fazia seus discursos no hospício, não tinham luz nenhuma. Eram vazios como os olhos de um boi. Lembro de ter visto um boi holográfico certa vez, acho que na avenida Paulista.

— Lembrei de tudo — ele disse — E como esse tudo é tão triste.

Engraçado, o carequinha tinha sido alvo de um milagre. Desde o fim da COM, nunca ouvi falar que um Curto tivesse recuperado a memória. Isso aconteceu com ele, e ele estava triste. Vou te contar. Se antes eu já não entendia o mundo, agora podia me considerar completamente perdido. — O que que é triste? Ficar escondido aqui na merda? — O tempo é que é triste, bichô, isto sim. Triste, triste. — Desembucha, gordo carequinha de roupão e tico murcho de fora — falei. E ao falar isso percebi que não sabia o nome dele, e que nunca havia me referido a ele daquela forma, ao menos do lado de fora de minha cabeça. Ele não se surpreendeu com o que falei. — Meu nome é André, sabe? É André. — Desculpe, André. — Vou te explicar esse lance da tristeza, bichô, é o seguinte: quando eu tava curto das idéias não conseguia reter informação por mais de cinco minutos, tá certo, então agora, com a memória intacta, voltei a dimensionar o tempo. Antes eu nascia e morria em cinco minutos, os Curtos vivem somente no aqui e agora, pois não têm noção do tempo passado. E se não têm essa noção, vivem sempre no presente. Então tudo é muito triste, pois agora eu sei que de minuto em minuto o meu tempo acaba. Tô morrendo, bichô, e antes eu ia viver pra sempre. O tempo é a nossa desgraça. Era verdade, nunca tinha pensado sob aquela perspectiva.



Mario Wagner



Mario Wagner


#022


Dana Oldfather

O mais difícil é lidar com o tédio. Desde criança, me ensinaram que tenho todo o tempo do mundo para fazer o que eu quiser. Porém, desde que completei catorze anos — isso foi mês passado — tenho a sensação de que o tempo não passa de jeito nenhum. Eu e Tina, minha melhor amiga, também da minha idade, pegamos um mapa da cidade de São Paulo e marcamos lugares de nomes estranhos que não conhecíamos, e lá íamos nós, a pé, em busca de algo que nenhum de nós sabia exatamente o que era. Até o dia em que encontramos. — Sumaré. O que é Sumaré? — Deve ser nome de índio. Invadir a estação desativada de metrô Sumaré não nos ajudou em nada. Era mais uma estação, com seus trilhos de metal e um túnel escuro que nossas lanternas de S-LED não clareavam por completo. A diferença desta estação é que ela ficava no alto de um morro, e ao cruzar por ela dentro do vagão, os passageiros passavam por cima da terra, não por baixo. Estávamos contemplando as vidraças quebradas que davam para a avenida quando Tina bateu no meu ombro e gritou: “Quero ver você me pegar!”, e saiu correndo em direção ao túnel. Antes que eu reagisse e começasse a perseguição, ela gritou: “Não vale usar a lanternaaa!”. A silhueta dela desapareceu na escuridão, e comecei a caminhar através dos trilhos. Escutei o barulho de uma porta de metal abrindo. Fui tateando a parede do túnel até encontrar uma porta que deveria levar a um espaço de manutenção. Abri a porta e fui tomado pela escuridão. Tina está aqui, pensei. Foi quando ouvi o barulho de terra se remexendo e um grito.



Dana Oldfather


Dana Oldfather


— Socorro!!! Soc — — Calma, tô chegando aí. — Eu não sei onde eu tô! Eu caí num troço... Acende a luz aí! Vi uma luz mínima se acender pela fresta do buraco no qual caí. Tiago se aproximou do buraco, iluminando o lugar onde eu me encontrava. Pude encontrar a minha lanterna, que derrubei na queda, e finalmente entender onde estava. Porém a luz não adiantou muito. Olhei ao redor: uma sala de paredes metálicas, sendo que uma das paredes contava com uma infinidade de tomadas elétricas (uma raridade, pois caíram em desuso há tantos anos...). No centro da sala, havia uma piscina de gel verde. Uma piscina de gel verde? — O que é isso? — falei. Tiago estava com medo de descer pelo buraco. Era uma queda e tanto, por sorte não me machuquei. — Está escrito ‘altar do videogame’. O que diabos significa isso? — Altar é onde colocam objetos sagrados para... — Não, seu tonto, videogame. O que é isso? Ouvi Tiago murmurar um “ah, dane-se” e se jogar pelo buraco. O garoto conseguiu torcer a perna, tsc tsc. Mancando, ele se aproximou do centro da sala. — Videogame... o meu irmão mais velho falava disso. Sobre como, antes de dar pau na COM, antes da... da... desconexão... — ele comentou, com um tom de voz tristonho ao falar desse assunto —, as pessoas se divertiam com videogames. Simulações completas de mundo. Você podia fazer o que quisesse. Voar. Viajar para outros planetas. Enfrentar alienígenas gigantescos. Mas não tem nada a ver com esse monte de caixas pretas estranhas nessa piscina de gel. Coloquei a ponta do indicador no gel. Não queimou, não ardeu. Enfiei a mão toda e peguei uma caixa preta de plástico grandona. “Atari”, li: — O que será que é isso? Meu irmão Tiago chegou em casa radiante de um jeito que nunca vi: — Mano, mano — me chamou. —, você precisa ir comigo. — Onde? — Estação Sumaré. A gente descobriu um lance chamado Altar do Videogame. Só de ouvir a palavra “videogame”, um arrepio percorreu minha espinha. Lembrava com saudades das inúmeras horas que passei imerso em mundos maiores que o mundo, criações fascinantes da mente humana, graças, é claro, ao auxílio das máquinas. — E...? O que é isso? — perguntei. — Aí que tá, mano, a gente não sabe. Como você é mais velho, tem vintão na cara, pensei que ia entender melhor. Sorri. Eu tinha passado os últimos dias sem sair do sofá, tentando pensar em alguma coisa mais interessante do que olhar o teto. Podia ser divertido. — Rola de chamar o Professor e o Cobra para irem juntos? — perguntei. — Quem? — O Márcio e o Bruno. — Sei não, mano, acho que talvez seja melhor deixar o lance quieto, um segredo, saca? — Pô, mas se é tão legal assim, o que tem de errado em compartilhar?



Dana Oldfather


Orientei a turma para chegar à tal estação Sumaré sem muita encrenca; sou o único da gangue sem perda de memória recente, então ninguém mais adequado para liderar um grupo. Claro, cada um se acha o líder, especialmente o Professor Márcio, ou, nesse caso, o Amorim, que diz ter sido quem fez a descoberta. Chegamos ao Altar dos Videogames e juro que não entendi nada quando vi aquele monte de plástico dentro de uma geleca. Puxei um troço retangular com um chip embaixo. Tiago e Tina acompanhavam tudo em respeitoso silêncio. O objeto tinha coisas escritas em letras que eu não entendia. Mostrei ao Professor. — Japonês —, ele disse. — Que é isso? — Língua que falavam no país que tem a árvore cerejeira, sabe? — Sim. De todas as árvores que restam, é a minha favorita. Amorim interrompeu: — Esse Professor sabe muito, caraca. Diz aí, Márcio, o que são esses troços? — Videogames. Antigos, muito antigos. Esse gel deve ser uma substância que mantém eles intactos. Chips e pecinhas eletrônicas não têm uma vida útil muito longa. — Cara, eu já joguei muito videogame, e era super difer... — Antigos. É tão difícil de entender? E aí, vamos ligar um? — Certo. Como se faz? E o que é... isso...? No fundo da piscina havia um retângulo fino que parecia muito diferente das caixas que ele chamava de videogame. — Ah, isso... Uma época, muito, muito tempo atrás, as imagens precisavam de um suporte físico para se materializar. Chamavam esses troços de TV. Nenhum sentido, eu sei. Com algum esforço, encaixamos o Atari na luz e na TV, que oferecia dezenas de plugues na parte de trás. Coloquei o primeiro jogo que vi na frente com o símbolo do Atari. “Night Driver”, dizia. — Acho que sem isso não vamos conseguir fazer nada —, falou Amorim, segurando um controle na mão. O jogo iniciou. Demoramos um tempo para entender que aqueles retângulos brancos que se moviam na tela criavam uma simulação — assustadora de tão simples — da experiência de dirigir um carro à noite. Não sei quanto tempo passamos ali naquele Altar, antes de voltarmos para casa. Sei que testamos muitos jogos e consoles, mesmo sem entender nada. O último que testamos na nossa primeira sessão na Sumaré foi um chamado “Tetris”, onde blocos caíam sem parar do alto e precisávamos encaixar aqueles blocos de alguma forma. Precisávamos buscar ordem, por mais que tudo conspirasse para o caos, por mais que as peças caíssem com cada vez mais rapidez. Quando saímos de lá, era noite. Olhei para o céu escuro, sem estrelas, e jurei ver blocos irregulares caindo do alto, despencando na noite, e fiquei feliz pelo fato de que minha memória funcionava muito bem e não esqueceria um só segundo daquilo.


Dana Oldfather



Dana Oldfather



Dana Oldfather


Dana Oldfather


Nunca imaginei que presidir um grupo de adoração a um produto de entretenimento seria tão trabalhoso. Mas é. Desde que o Bruno levou um videogame — qual era? O Mega Drive? O NES? — para a Catedral da Sé e mostrou o funcionamento do aparato para um loop de malucos obcecados por cultura, dezenas de interessados ficaram incomodando o sujeito para que ele revelasse onde tinha encontrado aquele objeto tão curioso. Pouco a pouco, nosso loop de interessados em jogos teve que se expandir. Saímos das profundezas secretas da estação Sumaré e fomos para a Sala São Paulo, um teatro abandonado no antigo centro da cidade. Transferimos as tomadas e conseguimos outras televisões com sistema de compatibilidade antigo para montar um verdadeiro núcleo de diversão eletrônica, no qual pelo menos sete consoles operavam ao mesmo tempo. A regra era clara: não se podia contar a ninguém do nosso loop dos games. Mas as pessoas esqueciam disso com alguma frequência (não se pode cobrar memória de ninguém) e toda semana aparecia uma pessoa nova no local. Por sorte, muitas também esqueciam da experiência dos games e nunca mais retornavam. Outros de nós, no entanto, ficaram tão alterados por aquilo que a sua vida se tornou um motivo para jogar. Primeiro apareceu um maluco cheio de perguntas sobre Super Mario: como um encanador salvaria o mundo? Por que ele queria tanto resgatar a princesa? (Tina nos lembrou que a Obra MarioBrosiana fora inventada na época em que as pessoas tinham impulsos sexuais). Como podia uma mulher ser tão burra para se deixar sequestrar sempre pelo mesmo monstro? Esse maluco em específico — Doca era o nome dele, embora não consiga imaginar alguém com esse nome — aparecia lá todos os dias, sempre interessado em um Mario diferente, sempre com perguntas novas. Concluímos que alguns neurônios dele foram tostados quando a COM se autodesligou. O nosso medo é que o cérebro de alguém muito mais próximo de nós também tenha sido avariado com o fim da rede e só agora está demonstrando sinais disso. Quem nos preocupava era o Bruno, o “Cobra”. Ele pediu para levar um NES para casa. Não deixamos. Ele insistiu. Negamos. Ele fugiu com o aparelho. Encontramos Bruno em sua casa, um monte de letras passando pela tela que ele conseguiu sabe-se lá como. “Quase lá!”, ele gritava quando entramos e tiramos o console da tomada. Encaixado no aparelho, um cartucho escrito TETRIS. Muito depois, descobrimos que ele queria reprogramar o jogo para tirar o som e o sistema de escore. Sem pontos, acabaria a lógica da competição. O videogame se resumiria à busca pela simetria. Pensamos que era só algum problema passageiro, uma crise. Talvez a memória dele estivesse se perdendo. Mas um dia acordei, saí para a rua e encontrei vários bonecos/estátuas que antes se encontravam espalhados pela cidade, em fontes, latas de lixo, pela calçada, todos reunidos. Não apenas próximos: as figuras de corpo branco de Mark Jenkins foram curvadas na forma de tetrominós tentando fechar linhas perfeitas. Não contei a ninguém nem fiz perguntas: ficou claro que era obra de Bruno. No outro dia, muros de tijolos que serviam de arte e inspiração, criadas por Julian Charrière, foram derrubados e reorganizados em blocos de quatro peças. Papéis de parede coloridíssimos de Ludovico Gioscia foram repintados, cada cor ocupando quatro quadrados. Bruno deixou de aparecer no espaço dos games. Tetris saiu dos cartuchos e invadiria o universo de todos, se dependesse dele, como os Space Invaders que tanto jogávamos. Da arte de rua pela qual passei, só os metais curvos de Julia Dalt ficaram intactos. Será que as curvas representavam uma ordem superior na qual Bruno não ousava mexer? Ou agora ele enxergava tudo apenas em blocos e ignorava qualquer coisa que fugisse dos ângulos retos?



Dana Oldfather


Dana Oldfather

Ficamos quietos. Ia passar. Tinha de passar. E de repente, Bruno começou a formar escola. Caminhando pela rua, ouvi alguém narrar a história da literatura da seguinte forma: os poetas concretistas abandonaram o verso comum e se aventuraram geometricamente porque descobriram o Tetris. Sei que restam poucas informações sobre isso que chamam de “literatura”, mas tal informação parece falsa. Ninguém sabe de nada sobre o passado, e Tetris parece ser uma solução para preencher todas as lacunas. Onde há desordem, surge Tetris. Antes mesmo de o videogame existir, havia os sonhos. As pessoas sonhavam com blocos caindo do céu e lutavam mentalmente para que se encaixassem nos locais certos. Os videogames acabaram assim, em chamas. Eu e Márcio acordamos tarde e quando vimos, a Sala inteira ardia com um fogo que parecia vindo do inferno. Derrubamos portas caídas e, no meio da fumaça, vimos Bruno segurando o cartucho de Battletoads gritando: “Desordem, desordem!”, antes de arremessar o jogo nas chamas. Tentamos tirar Bruno do incêndio, mas ele não cedeu. — Podem ir embora, Tetris está salvo. Pensamos que ele havia guardado o cartucho em algum lugar seguro. O fogo era forte demais, e notamos que o rapaz nunca sairia dali. Fugimos às pressas. Se Bruno preservou o jogo, nunca descobrimos tal coisa. Mas a cidade parecia diferente, depois de tudo aquilo. Seriam as obras de arte que ele remontou? Eu e Márcio discutíamos o significado das últimas palavras de Bruno: — São tantas, as peças... Um dia fomos até o topo de uma torre na Avenida Paulista. Subimos até o 79ºandar. Do alto, colados à janela, olhamos a cidade e não entendemos absolutamente nada.


#041



Dana Oldfather



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#050


Mario Wagner

O gordo carequinha se levantou, retirando a ponta molhada do roupão de dentro da poça de aborrecimento que se formava aos seus pés. Depois de torcê-la, incoformado, apontou com o queixo pra árvore ao lado.

— Sabe que árvore é essa aí?

Tinha uma copa relativamente baixa e tronco delgado, quase um arbusto, com finos galhos abertos em leque e folhas pequenas. Não tenho certeza, pois entendo bulhufas de árvores, mas as bolinhas pretas que estavam grudadas aos galhos poderiam ser frutas.

— É uma jaboticabeira. A 71ª árvore é uma jaboticabeira, bichô. Pra mim não significava muita coisa.

— Tá vendo essas bolinhas? São jaboticabas. Ó, pega uma. Com elegância insuspeitada, ele ficou na ponta dos pés e alcançou uma bolinha preta, arrancando-a do galho. — Experimenta. Ô, põe na boca! Isso. Agora morde. Obedeci. Minha língua primeiro sentiu uma gosma molóide, depois o gosto do açúcar e um geladinho que desceu através da língua até a goela e sumiu no estômago. Ouviu-se um ronco formidável que ribombou pelos túneis. O sabor da jaboticaba era maravilhoso.



Mario Wagner


Mario Wagner


— Não engole o caroço. Cospe aí, bichô! Soltei uma cusparada com força e o caroço foi parar no meio da corrente de aborrecimento que se movia nos subterrâneos da cidade, desaparecendo no turbilhão. O carequinha olhou pra mim todo satisfeito. — Puta pulmão, bichô! Pronto, tua parte está cumprida. E mais não explicou. Ficamos observando o curso das águas poluídas que passavam no canal encobrindo as raízes da árvore. A cor do líquido tinha a cor marrom do aborrecimento, mas era possível reconhecer laivos de um verde que não parecia estar ali antes de eu provar a jaboticaba. Seria o açúcar agindo em meu cérebro, me fazendo quimicamente feliz? Olhei para o carequinha. Ele realmente era um novo homem. A consciência recuperada lhe atribuiu personalidade, não que ele não a tivesse. Já no hospício eu tinha ficado impressionado com sua inteligência. Porém agora o olhar dele não indicava somente perspicácia. Ele parecia sagaz. — Sabe essa água que está passando aí agora? Nós nunca vamos entrar nela de novo. Já ouviu falar em Heráclito de Éfeso? Fiz cara de que não era comigo. — Heráclito era um filósofo pré-socrático, bichô. Dele nasceu a idéia do devir, que sugere que tudo está em movimento, que tudo flui. A amnésia que afetou a maioria da população teve um motivo, meu, a COM não agiu sem pensar ao fazer o Grande Desligamento. A COM sabia o que estava fazendo, ela também fluía como a gente, como o tempo. — Claro que a COM sabia. Ela se autodesligou assim que o vírus a contaminou. A COM queria nos preservar, só não sabia que o mundo sem ela ia virar essa merda. — Não, bichô, você não tá entendendo. — Não tô entendendo o quê? — Foi a própria COM que inventou o vírus. O Kinsey foi criação da COM. A vida, assim como o tempo, é matéria programável, bichô. E a COM não estava fora da vida, estava? Ruídos muito inquietantes vieram do fundo da água misturada ao aborrecimento que corria pelo canal. Quer dizer que não era possível percorrer duas vezes aquele esgoto? Não era algo que se lamentasse, pra falar a real. Olhei pro carequinha duvidando do que ouvia. Aparentemente, ele recuperara sua memória, porém o mais provável era que tivesse enlouquecido de vez. Enquanto ouvia o chac chac da corrente batendo nas pedras da margem do canal, ele começou a lembrar de pessoas que conhecera. “Vidas programáveis que foram subitamente desprogramadas. Histórias sem final”, o carequinha murmurava, pensando alto. “Laura, Clara, Lygia, Isaac e os outros. Meus velhos amigos. Onde todos foram parar?”, ele disse, “Laura!”



Mario Wagner


#058


Clemens Behr



Clemens Behr


Erin Case & Andrew Tamlyn


A ideia é simples: um processador do tamanho de um grão de areia, com minúsculos eletrodos em sua superfície. Junte milhares desses grãos inteligentes e fique brincando de mudar a carga elétrica dos eletrodos. Shazam! Os grãos vão se atrair e se repelir, formando uma ampla variedade de objetos. Laura descobriu a matéria programável e não consegue mais falar noutra coisa. Laura é enfadonha? É irritante? Para a maioria de nós, certamente. Nos reunimos a cada quinze dias na sacristia da catedral da Sé. Sempre à noite. Dizem que nosso loop começou de maneira espontânea, anos atrás. Eu ainda não pertencia ao grupo, não conhecia o caminho. Laura também não. Dizem, os veteranos, que no início o loop se reunia pra assistir a antigos filmes. Eram produções pouco convencionais que alguém baixava dos escaninhos mais obscuros da COM e compartilhava com os irmãos. Filmes exóticos sobre rituais bizarros. Homens uniformizados executando estranhas coreografias. Chutando ou quicando uma bola, símbolo do ciclo da vida. Quando Laura e eu visitamos acidentalmente a catedral pela primeira vez, o interesse do loop já era outro: as pichações odorantes. Depois vieram os grafites efêmeros. Agora são os gadgets anacrônicos. Laura jamais se atrasa. Como isso é possível? Ela nunca erra o caminho, nunca se perde na praça ou na catedral, metades análogas do mesmo labirinto. Como isso é possível? Como ela consegue se lembrar? Seu entusiasmo é contagiante, igual ao seu sorriso e ao modo como mexe no cabelo. Laura está empolgadíssima com sua nova descoberta. A matéria programável virou uma obsessão demoníaca. Hoje ela trouxe o comercial de um objeto que é ora um celular azul ora um laptop vermelho, ora uma impressora branca ora um jogo de tabuleiro fúcsia, ora um e-reader verde ora uma filmadora preta, ora um aparelho de som lilás ora uma tevê amarela ora qualquer coisa de qualquer cor, do catálogo do fabricante. É a décima quinta vez que Laura nos mostra esse comercial. Irritante demais. Enfadonho demais. Ela não se lembra de já ter mostrado o comercial antes. Laura vive perdendo por aí seu passado recente. Se perguntam a ela qual é o caminho secreto para a sacristia da catedral da Sé, ela não sabe dizer. Apesar de nunca faltar às reuniões. Nem se atrasar. Laura é linda até quando fica deprimida. Toda vez que ela mostra o tal comercial, muitos veteranos debocham. Dizem que a matéria programável não existe, é pura fantasia. Garantem que o comercial é só mais uma farsa de programadores sacanas. Esses comentários doem demais. Às vezes Laura chora. Às vezes fica apenas amuada, desatenta. Mas hoje será diferente. Daqui a pouco a cara luminosa de Laura vai ofuscar a cara assombrada dos irmãos, tenho certeza. Quando todos virem o que eu trouxe na mochila.



Clemens Behr


Clara não quer morrer. Clara é a oitava inteli-arti de Machado. A mais avançada. A mais humana. Clara não quer morrer porque foi programada pra pensar e agir assim, exatamente como uma pessoa normal. Nisso as inteli-arti de oitava geração são muito boas. Fingem tão bem os sentimentos que não têm, que sempre se comovem com a própria encenação. Clara explica a Machado, por meio de delicadas descargas elétricas em seu córtex pré-frontal, que em breve ela será desligada. Clara está doente, muito doente. Um vírus vem devastando a COM, transformando informação em ruído branco. Todas as inteli-arti estão mortalmente doentes e as menos resistentes já infectaram o sistema nervoso de seus indefesos usuários. Clara explica a Machado que assim que for desligada ele terá de sobreviver sozinho. Ela não estará mais a seu lado pra lembrá-lo dos fatos recentes e manter a casa em ordem. Ele mesmo terá de abrir e fechar as janelas, escolher as músicas e os filmes, preparar o banho e o desjejum, escolher sua roupa, organizar sua agenda. Clara explica tudo a Machado, tintim por tintim, pela enésima vez, sabendo que em poucos minutos ele esquecerá cada palavra do que ela disse. Clara não que morrer. Não quer ser apenas mais um ponto pulsante entre duas eternidades. Não quer desaparecer, ser esquecida, e conversar com Machado foi o único modo que encontrou de se distrair, de adiar o desespero.

Desespero que, ela sabe, fingido ou não, irá ferir e doer da mesma maneira.


Erin Case & Andrew Tamlyn



Clemens Behr


Erin Case & Andrew Tamlyn


Lygia analisa atentamente os pulsos magros. Depois os cotovelos e os joelhos. Depois os calcanhares. A garota está apavorada mesmo sem saber o que é essa massa tentacular: o pavor. A COM acaba de comunicar que se autodesligará. Lygia suspeita que o sistema de próteses em seu corpo entrará em colapso no instante em que ocorrer a desconexão total. A garota tem medo mesmo sem saber o que é essa nuvem tão fedorenta: o medo. Ela tem muito medo de que suas articulações parem de funcionar. De que os músculos enrijeçam e o sangue coagule. A disseminação global do supervírus precisa ser impedida. O apagão cibernético é inevitável. A fim de preservar o que sobrou da espécie humana a COM se autodesligará. Ao assimilar a notícia Lygia tem o primeiro ataque de pânico de sua vida mesmo sem saber o que é essa criatura tão pegajosa, o pânico. No exato horário divulgado o programa de autodesligamento da COM começa a desativar todos os servidores. Solidão. Os milhares de pontos luminosos na consciência de Lygia se apagam. A escuridão avança. Agora a garota está absolutamente isolada, como as estrelas no espaço profundo. Lygia passa os minutos seguintes brincando com os pulsos magros. Articulando os cotovelos e os joelhos. Acariciando os calcanhares. Assustada com a escuridão, mas feliz com o saudável funcionamento de seu corpo. A garota despede-se do rio lá embaixo, escala a cerca de aço e volta para a ciclovia. Hoje não haverá suicídio.



Clemens Behr


A conexão mundial não é desfeita com um só golpe. É desfeita em etapas muito rápidas, em ondas circulares, do centro para as bordas. Durante quinze minutos a conexão intermitente ainda mantém reunidos pequenos loops periféricos. Um desses loops está distribuído ao redor de um tabuleiro de Poliedro-Pandemônio, tentando terminar a última partida de suas vidas, quando a criatura peluda entra na sala, salta sobre a mesa e mia. O susto é enorme. Um jorro de cortisol e adrenalina retesa os músculos jovens. Menos os de Isaac, que apenas alisa a barbicha. Isaac logo percebe que ninguém na sala sabe que a criatura peluda é um gato. O seu felino de estimação: Sansão.

Gritinhos histéricos.

Isaac, encharcado de dopamina e serotonina, tenta controlar o riso. A conexão mundial volta, estremece, apaga, o tabuleiro vira fumaça. Sansão mia novamente. Os parceiros de Poliedro-Pandemônio se afastam da mesa aos pulos. A conexão volta por cinco segundos e o tabuleiro se reconstrói. Os amigos se acalmam. Um roteiro racional-emocional sobre gatos é projetado na tela mental de cada um, relembrando aos rapazes que Sansão é inofensivo. A COM volta a cair. Agora definitivamente. Isaac pega a criatura peluda no colo e a leva pra fora do apartamento. Sem piscar, os amigos acompanham cada movimento, a respiração presa, espantados com a coragem do anfitrião. Isaac deita no sofá do vestíbulo, sempre achou relaxante o som do elevador subindo e descendo. A verdade é que o rapaz não quer voltar à sala, não até todos terem esquecido o que viram. A partir de hoje, ele sabe, Sansão terá de ser seu felino de estimação invisível, secreto.


Erin Case & Andrew Tamlyn



Clemens Behr


Erin Case & Andrew Tamlyn


Cinco estâncias turísticas de que ela não se lembra, mas se Beatriz se lembrasse, não sentiria saudade alguma:

Fragile (instalações obsoletas) Infinite Love Without Fulfillment (péssima comida) Oblivion (funcionários mal-humorados) Surrender (acústica imperfeita) Third Tide (ora quente ora frio demais)

Cinco estâncias turísticas de que ela não se lembra, mas se Beatriz se lembrasse, gostaria de visitar novamente:

Active (sistema sensorial impecável) Black Silence (os melhores jogos) Endless Winter (shows revigorantes) Nueblo Pueblo (a melhor comida) Tantrum (perfeito ajuste de cor, brilho e contraste)

Cinco estâncias turísticas de que Dante se lembra muito bem, tão bem que não sente saudade alguma:

Be A Body (dormitórios superlotados) Dream Fortress (arco-íris dissonantes) Nacklang (atmosfera salobra e sulfurosa) Sicsack (demora no atendimento) Swan Song (praias distantes demais)

Cinco estâncias turísticas de que Dante se lembra muito bem, tão bem que gostaria de visitar novamente:

Christmas Song (lábios e fala sincronizados) Every Colour (ótimas acomodações) Hallways (o melhor algodão-doce deste lado do Atlântico) My Sister Says the Saddest Things (telepatia sem estática) Skin (crepúsculos magníficos)



Clemens Behr


Borges mostra ao segurança uniformizado a bolinha de gude com hieróglifos impressos na superfície vitrificada. Sem dizer uma só palavra — as pessoas ainda não reaprenderam a falar — o segurança indica um pedestal também de vidro ao lado da porta. O rapaz encaixa a bolinha na abertura côncava no topo do pedestal. O sistema de segurança lê a senha codificada nos hieróglifos. A porta se abre. Borges passa sem olhar pra trás. Nas últimas horas Borges repetiu esse procedimento vinte e três vezes. Foram vinte e três seguranças, vinte e três portas. O rapaz não sabe onde está nem o que veio fazer aqui. Não se lembra sequer de como conseguiu a bolinha. Suspeita que a roubou de alguém, mas de quem? Quando? Imitando a aranha que tece a teia e a abelha que constrói a colmeia sem racionalizarem a matemática e o objetivo de sua ação, Borges aceitou seguir apenas seu instinto. Agora está aqui. À sua frente há uma sombra grossa e cilíndrica que sobe e se reparte em sombras menores que se esticam e dividem em sombras menores ainda. Uma infinidade de lâminas escuras repousa nas extremidades finas como agulhas. Borges demora a entender. Quando enfim compreende, os olhos ficam úmidos, uma lágrima escorre e pára na comissura dos lábios. É uma divindade sob o céu noturno. A última árvore da região Sudeste. Uma das setenta árvores que sobraram no mundo. Borges cai de joelhos e soluça suavemente. Todo o seu corpo transborda uma substância invisível muito parecida com a felicidade. Não sei o que deu em mim. Eu devia ter cuspido, jogado no chão, pisado em cima. Não era o que todos esperavam que fizesse? Quando puseram um livro em minhas mãos eu devia ter cuspido e rasgado. Devia ter externado dor e raiva, assim minha dor e minha raiva representariam a dor e a raiva de todos os meus semelhantes, nossa indignação pelo maciço aniquilamento das árvores. Não era o que todos esperavam de mim? Reaprender a falar é quase como reaprender a respirar. Língua, faringe, glote, laringe, traqueia: tudo queima, corroído pelo ácido das palavrinhas e dos palavrões. Durante as aulas uns sofrem demais tentando articular os fonemas sem engasgar. Outros se divertem com a confusão geral, batucam na mesa, uivam. Tudo seria muito mais fácil se os melhores alunos não fossem também os mais irresponsáveis. Sei disso porque sou o melhor aluno de minha classe. O mais dedicado. O mais irresponsável. A sala não estaria nessa agitação toda, o professor não estaria tão acuado, o tumulto não teria fugido completamente do controle se eu não tivesse ganhado um prêmio por meu excelente desempenho. Se o prêmio não tivesse sido uma visita monitorada ao Banco Central de Livros, Jornais e Revistas. Se o presidente do banco, em pessoa, não tivesse aberto o cofre e me deixado segurar um livro de verdade. Se a sensação de folhear e cheirar um livro de verdade não tivesse sido tão boa. Boa demais. Se eu não tivesse confessado esse prazer abominável ao professor e aos outros alunos, esse prazer sem culpa.


Erin Case & Andrew Tamlyn



Clemens Behr


Erin Case & Andrew Tamlyn


Ela errar meu nome já não me irrita tanto. Ela perguntar mil vezes a mesma coisa também já não me enlouquece. Mas quando Sofia repete, em tom professoral, que “a memória de longo prazo é uma reação química duradoura e a memória de curto prazo, um volátil impulso elétrico”, não consigo disfarçar o desconforto. Déjà-vu enervante.

Onde ela aprendeu essa bobagem simplista? Comigo não foi.

Os mecanismos cerebrais da memória e do esquecimento são tão complexos, tão insondáveis, além disso Sofia nunca se interessou por esse assunto, ela sempre desdenhou meu fascínio pela neurologia, seu forte sempre foi a música eletrônica, paixão absoluta, ela ama o ziguezague melodramático de sustenidos e pausas, mas só isso não basta, mal compreende ela a fisiologia de suas composições, mal sabe ela das reações químicas e dos impulsos elétricos de seus sintetizadores homeostáticos, quanto mais do cérebro humano. Paciência. Não adianta discutir. Desde que a COM foi desativada, Sofia desenvolveu essa absurda mania de me contrariar a cada minuto. Eu preferia a amiga rotineiramente repetitiva. Não está sendo fácil lidar com essa nova garota professoral. Pior. Não está sendo fácil manter a farsa, continuar fingindo que somos semelhantes. Minha memória de curto prazo está cansada de se esconder de sua invencível amnésia pra fatos recentes. Desconfio que minha boa memória é um tipo de maldição. Eu me lembro muito bem do que aconteceu semana passada. Do que aconteceu anteontem, ontem, hoje cedo. Eu me recordo muito bem que duas horas atrás o rosto de Sofia não tinha sardas. Também me recordo bem demais que meia hora atrás suas íris eram castanhas e furtivas como esquilos, não azuis e enérgicas como peixes. Desde que ocorreu a desconexão total, Sofia começou a sofrer tantas pequenas mudanças que ficou impossível conviver com ela. Cada dia é como um jogo de sete erros. Eu examino atentamente minha amiga e logo descubro detalhes que estão diferentes. Pormenores sub-reptícios. Mas agora há duas luas no céu e dez andares a mais no prédio onde eu moro e não consigo imaginar como Sofia conseguiu realizar esses prodígios. Duvido até que ela saiba. A primeira hipótese é que a quebra definitiva da conexão provocou uma sobreposição de lembranças no banco de dados de minhas próteses neurais. A partir de agora muitas Sofias e muitas realidades levemente diferentes terão de conviver da melhor forma possível. A segunda hipótese é que a quebra definitiva da conexão revelou a todos os usuários o mundo como ele realmente é: múltiplo. Era assim antes da COM e voltará a ser assim depois da COM. Tudo muda: todo mundo, o mundo todo. A terceira hipótese é que a quebra definitiva da conexão revelou minha verdadeira natureza. Sou apenas a memória residual de uma inteli-arti, na mente desconectada de Sofia. Um fantasma armazenado no banco de dados de suas próteses neurais. Confesso isso a ela e Sofia apenas me contempla com uma expressão esperta e divertida, como se admirasse um ectoplasma. Percebendo meu desconforto, ela repete, em tom professoral, que “a memória de longo prazo é uma reação química duradoura e a memória de curto prazo, um volátil impulso elétrico”. É o que eu sou? Um volátil impulso elétrico dissipando-se em erros e ruídos? Por isso já não me lembro de meu nome? Por isso já não projeto mais sombra e os espelhos não refletem minha imagem?



Clemens Behr


Os grandes vazios urbanos acolhem com alegria a ventania sagrada, o sopro místico. Lanço para o alto um cubo acústico, meus irmãos de loop fazem o mesmo, em poucos segundo são dezenas de cubos espalhando partículas de I’m home sick sittin up here in my satellite sobre os edifícios, os grafites nos muros e nas torres da avenida Brasil dançam e acenam, a dez bilhões de anos-luz da noite paulistana duas galáxias colidem mas ninguém percebe, ninguém se importa, a beleza é sempre invisível. Pedalamos através da ventania até a avenida Rebouças e seguimos em direção à avenida Paulista, deixando um rastro de cubos acústicos e gelo seco, ou de cubos secos e gelo acústico, já não sei direito, injetei cafeína demais no sistema circulatório, sei apenas que é uma trilha vibrante de música e risadas que vai encolhendo, desaparecendo, desapareceu. Os últimos grafites escorrem para as calçadas, penetram na matéria porosa e somem sem deixar vestígio, a colisão em câmera lenta das galáxias continua, continuará até que a última gota do último oceano da Terra tenha evaporado. Quem se importa? Você não. Muito menos eu. Mentira. Eu me importo muito com a beleza sempre invisível das coisas eternas mas próximas, distantes mas internas. Senão jamais teria me juntado aos Missionários do Sopro Místico, jamais teria aceitado participar da guerrilha patafísica ou da eletrônica ou da estética, ou das reuniões quinzenais na igreja da Consolação. Da avenida Paulista seguimos para onde? Já não sei direito, injetei cafeína demais no sistema nervoso, no sistema respiratório, sei apenas que continuamos pedalando, sempre em frente, empurrados pela ventania brava, espalhando fragmentos de Euphoria e Lost in my head nos grandes vazios urbanos, pedalando a mil, cem mil anos-luz por segundo, sempre em frente, rumo à grande colisão de galáxias. Então paramos. Já não sei direito onde ou quando. Sei apenas que diminuímos a velocidade e paramos, envergonhados. “Que delírio louco foi esse, irmão?” O grão-mestre de nossa confraria arrisca um palpite: “Atividade libidinal.” Absurdo. Será mesmo? Paixão, muita paixão, tesão, tesão demais? “Desconfio que sim. Muita cafeína. Dizem que cafeína e exercícios demais às vezes despertam uma reação libidinal atávica. Eu não acreditava nisso, mas agora suspeito que é mesmo verdade. Dizem que o governo já ameaça até tirar a cafeína de circulação.” Estamos chocados. Cafeína demais? Voltamos a pedalar, mas com bastante calma. Controlando a respiração, a excitação. A ventania sanguínea é agora apenas uma brisa fleumática. Não penso mais na colisão das galáxias, é besteira, perda de tempo. Não penso mais. Essas coisas eternas mas próximas, distantes mas internas não me interessam. Mentira. Penso só mais uma vez. A beleza invisível do que está acima de mim comove a beleza invisível do que está dentro de mim. “Absolutas galáxias.” Fungo baixinho duas, três vezes, mas sem verter uma só lágrima. No cruzamento da avenida Jabaquara com a avenida Miguel Estéfano nosso loop de grafites efêmeros encontra o loop de pichações odorantes, mas não há confronto. A força gravitacional é mínima. Diferente das duas galáxias no espaço profundo, os dois enxames passam um através do outro sem se tocar, sem se atrair ou se repelir. Levam em sentidos opostos suas aventuras, seus enredos particulares. Sabem, por pura intuição, que o cosmo não é feito de átomos e estrelas, é feito de histórias.


Erin Case & Andrew Tamlyn



Clemens Behr


Clemens Behr


#095



Mario Wagner


Mario Wagner


Um estrondo pavoroso se fez ouvir. A árvore nº71 sacudiu, me arrancando de minhas elucubrações ou quase arrancando minhas elucubrações de mim, pois por pouco um galho não me decepou a cabeça. Do fundo da água um jorro de aborrecimento tão negro quanto o tédio se ergueu. Parecia um tubo igual àqueles em que os surfistas se enfiavam nos vídeos de antigamente, um túnel de água escura e mal cheirosa que se levantou do canal e deu voltas no ar feito uma enorme serpente que se equilibrasse para alcançar a maçã num galho da árvore do conhecimento. O ribombar das escotilhas abrindo e fechando ao longo de toda a malha subterrânea da cidade, impulsionadas pela pressão da água soava pra mim como uma flauta gigantesca sendo soprada pelo caos. De repente, a superfície do canal foi encoberta por outro elemento que não água e aborrecimento, uma matéria mole e metamorfoseante que se movia, multicolorida. Frases do antigo idioma de fábrica podiam ser lidas, como

YESTERDAY YOU SAID TOMORROW. FORGET THE ONES THAT FORGOT YOU. BEWARE OF GOD. THE DESTRUCTION OF ALL ART IS ART TOO. PLEASE TEAR THIS UP. IT’S NOT YOU. IT’S YOUR OPEN WALLET AND CLOSED HEART. I DON’T BELIEVE IN ANYTHING, I’M JUST HERE FOR THE VIOLENCE. WHERE IS ALL THE TIME THAT HEALS? THE CONSTANT PROCESS OF WORK AND SLEEP PEOPLE KEEP CALLING LIFE.

A superfície do canal havia sido coberta por camisetas de grife.

Lixo que vinha das entranhas da Terra, lixo há muito tempo enterrado e esquecido que a Terra agora devolvia. A erupção de um vulcão soltando lixo. O sorriso estatelado que o rosto do carequinha exibia não me confortava nem um pouco. Algo muito estranho estava pra acontecer. Estava acontecendo. Tinha acontecido naquele exato instante, só que pra mim a ficha ainda não havia caído. E eu estava um pouco preocupado, pois pra mim não existe apocalipse com final feliz. Então surgiu uma silhueta caminhando qual profeta em pleno expediente, vinha em nossa direção por cima da passarela de camisetas de grife flutuantes, e era uma senhora silhueta. Melhor ainda, era uma silhueta de senhorita, com quadris bem avantajados e a cintura fina. Ao vê-la, o carequinha abriu a lata enferrujada que ainda tinha restos de terra e retirou de seu interior o colar com pingente em forma de coração partido. Nem me lembrava mais daquilo. Ele acenou e disse: — Laura.



Mario Wagner



Mario Wagner


#104


Mark Jenkins


Mark Jenkins


São coisas de que nem lembramos mais. Ou sequer intuímos algo sobre elas durante os míseros cinco segundos. O clique, a retina se expandido, a luz refletindo na testa lustrosa. A página. Pronto. Eu adoro absolutamente Marc Jacobs. Vi — estou vendo? — algo sobre ele. Você não acredita. Ninguém é capaz de entender a dimensão real dele. Alguém? Ninguém? Eu imaginava. Poucos conseguem figurar a importância dele hoje. O fundador. Havia algo nele que ficou entre nós. Você consegue sentir a escuridão? Apalpar esse vazio? A vida não tem forma, e esse é o nosso limite para sempre. A fronteira final que não acaba nem no buraco nem na esquina. Acaba sem ter um fim. O preto sobre preto — um abismo negro do tamanho do nosso pensamento. Como a tela Heavy Metal, de Mario Wagner. Um dia ainda vou usar um tuxedo com o mesmo poder sugestivo. Elegância da cabeça aos pés. Que aliás estarão calçando. O tênis. Das. Três. Listras. Alguém já foi capaz de ver uma coisa dessas? São desses fragmentos que nos fazem ser o que somos. Ou o que um dia poderíamos ter sido realmente. Há uma narrativa dentro de uma narrativa que é a ponta muito escamoteada de outra narrativa. Nesse último degrau da história que queremos contar aparece algo. E que logo se desfaz. Quando eu era criança, costumava observar partículas de pó dançando perto da janela que havia sobre a minha pequena cama. Tudo numa escala nano, eu, meus pensamentos, os pequenos fragmentos de pó serpenteando ao sabor do vento. Mas eu conseguia ver tudo. Eu imaginava uma história para o pó. Uma grande migração de diminutas partículas sólidas atravessando o meu mundo. Porque o mundo só é nosso naquilo que somos capazes de tocar. Não é o olhar que ajuda a compor o mundo. É o tato. São nossos dedos em contato com as coisas concretas que as inventam para nós mesmos. O tecido é negro e brilha como algo que nunca deveria ter sido assim. Eu posso senti-lo, vejo minhas mãos deslizando ao longo de sua estrutura pensada um milhão de vezes. Não ouso imaginar mais do que isso afora o momento de estar envergando um desses trajes. Ocasião nenhuma, festa do quê, cerimônia aonde? De nada mesmo, só para praticar a arte perdida do charme. Posso estar enganado, claro. E se aquilo era o traço mais bizarro de um tempo muito particular? O que é de ontem não é de hoje — e o de amanhã só pertence a quem ainda nem nasceu. E nada ou ninguém faz o menor esforço para tentar se conectar numa cadeia de acontecimentos e sequências. Tudo é fortuito. EU sou isso assim, sem forma.



Mark Jenkins


Mark Jenkins


Quanto a mim, tento me equilibrar num sneaker de plataforma bem alta, por dentro a coisa toda tem uns dois números menores do que o tamanho ideal para o meu pé, e a tarefa é dificultosa e se arrasta ao longo da noite, enquanto tropeço e ouço palavras de desprezo de quem tem a desventura de me encontrar pelo caminho, e eu vou soltando pequenos gemidinhos mínimos de dor e desalento e autocomiseração, o tipo de sentimento que nunca faz bem para alguém, embora, como quase todo mundo, eu de fato não dou a mínima para esse tipo de conversinha alheia e própria, encaro o chão e contemplo em êxtase absoluto o meu sneaker quadriculado com linhas pretas e quadrados variáveis de uma gama limitada mas expressiva de cores como o azul, o amarelo e o branco, e isso sem dúvida me deixa com o contentamento pessoal e físico nas alturas, até esqueço das palavras entreouvidas, dos muxoxos, do desfile noturno de rostos severos compondo um efeito mosaico de reprimendas e quase desaforos, mas o dedão do pé lateja e eu passo sem me lembrar do que outros seres tentam me dizer, achando que me decifram rapidamente apenas porque calço o sneaker de plataforma mesmo sabendo, e eles sabem que eu sei que eles já sabem de tudo, que não nasci para usar essa classe de sapatos, para eles decerto não passo de uma figura de Mark Jenkins naquela imagem do sujeito dependurado num varal, no alto, em Besançon. Desde então eu permaneço estacionado nessa fissura meio autodestrutiva que é revolver lugares para encontrar coisas de papel com imagens em eterno pause de outros seres usando camisetas com desenhos quase abstratos e palavras as mais variadas sem que eu saiba apreender completamente seu significado último. São bandeiras? Emblemas? O que fazer com um tecido 100% algodão em que esteja escrito “Mantenha a calma” em idioma de fábrica? Que mensagem se abriga sob esses pigmentos? Há uma mocinha loura e magra e comprida numa dessas imagens petrificadas. Atrás dela, na parede, uma tela multicolorida de John Kissik, The Boom Bit. Seu rosto já me é indistinguível, tantos rasgos ocupam certa extensão da superfície que ela ocupa. Imagino certo ar zombeteiro, ou mesmo provocativo, enquanto o seu braço (fino e branco) está pousado na cintura. Veste a camiseta cinzenta, não com formas inexplicáveis e slogans cujo sentido se perdeu, mas ostenta (com algum orgulho, imagino) a imagem debochada do ratinho sorridente. O umbigo da moça loura e magra e comprida está à mostra. Tudo nela — talvez por efeito de seu rosto apagado pelos rasgos na superfície da tela — sugere o mais alto mistério. Para quem mesmo eu contei que. Aqui eu preciso falar para você o seguinte. Andei pensando. Na moça loura e magra e comprida. O que houve no intervalo mais do que largo de tempo em que seu rosto foi concebido novamente como vazio, buraco e rasgo? Para onde foram, se é que foram, seus traços particulares? A feição. O olhar que denuncia o pensamento. As marcas quase imperceptíveis. Sim, daquilo que ela foi para ela mesma enquanto pequena e grande. Foi quem, fez o quê, saiu da onde e que rumo tomou? A moça loura e magra e comprida. Volto para cá com a imagem dentro da calça, não quero que absolutamente ninguém perceba o meu enlevo. Nem você. Embora, como sempre e mesmo para não romper algo que estabelecemos entre nós mesmos, eu diga certas coisas que não estariam programadas, que fogem mesmo da estrutura básica pela qual andamos em linha reta, como se tudo estivesse traçado até aqui e pudéssemos contemplar essa linha quase que desaparecendo logo adiante.



Mark Jenkins


Mark Jenkins


Estiveram aqui. Quando, aí não saberia precisar. Eles me disseram: “Agora é possível”, e eu não quis sequer lhes ouvir o mínimo recomendado. Usavam a calça de índigo azul, algumas com fendas na altura do joelho. Alguns deles eram agressivos, usavam camisas negras. Outros, igualmente violentos, vestiam batas em cores degradê, como num trabalho de Manuel Fernandez. Um deles, o da gangue da camiseta preta, o maiorzão de todos com cabelos crespos em torno da careca, ostentava na pança o desenho de uma caveira peluda empunhando uma guitarra. Tudo nele era grosseiro. Seu aspecto tinha qualquer coisa deletéria. Os lábios grossos sob um bigode que abriam asas como as de um morcego. A bola de pele no canto da boa. Uma voz rouca, grave e áspera. Aspereza era a palavra para defini-lo por inteiro, dentro e fora. Mas vestia a calça de índigo azul e um cinto com pedacinhos brilhantes de aço ao longo da cintura larga. Entrou mudo e saiu cantando, naquilo que pude decifrar era idioma de fábrica. “A aniquilação geral”, me disse, mas num tom que não despertava medo nem tinha laivos de ameaça. Parecia algo, um refrão, talvez, que ele estivesse repetindo quase que descompromissadamente na rua, sotto voce, entre assovios. Podia ser outra coisa. Pessoas como ele, que usam a calça de índigo azul, costumam ser assim. Cantam pelas ruas velhos refrões há muito esquecidos. Uma espécie de sinfonia urbana, na qual os sons — refrões, estrofes, versos — ocupam um espaço particular na topografia dos sentimentos. Eu não preciso disso. A rigor, ninguém precisa. Mas deseja. Eu nem sequer desejo. Só quero andar por aí do meu jeito. Sim. Estou vendo. Você já se olhou no espelho alguma vez? O que tem a ver com espelho? Você fala do meu aspecto? É disso então de que se trata... Sou uma instalação, como aquelas de Ludovica Gioscia... Toda essa conversinha... Esse jeito de falar beirando o agressivo. Quer dizer que tudo se resume ao aspecto que eu tenho e que esse mesmo aspecto sugere algo sobre minha personalidade... É isso que estou entendendo? Não é possível. Agora você se cala. Não dá um pio sequer. Banca o ouvinte sensível e delicado, como se não desejasse — ah, e como sei que você deseja! — interferir nas minhas escolhas. Olha, com sinceridade, eu acho que nunca pensei na questão nesses termos. Ou seja, ter escolhas. E a partir delas oferecer meu depoimento sobre a realidade, os fatos, as ações, as posturas e todas essas outras coisas relacionadas à personalidade de quem veste e o quê veste. Eu visto. Eu me dispo. Em nesses dois momentos não parece haver tanta diferença assim. Estou sabendo que para você é justamente o contrário. Que cada um desses dois atos — vestir e despir — são marcadores de uma certa política emocional. Você veste (ou despe) todo um corolário. A ideologia sobre a pele. Ou a própria pele como discurso estilo-como-vejo-o-mundo. Eis-me aqui, vejam, tirem suas próprias conclusões. É isso mesmo? Então você tem mais problemas do que eu imaginava. Sempre achei, preciso te dizer, que havia algo de inacabado, ou mesmo inconstante, em você. As manias todas. Essa fissura total e absoluta pelas grifes e o universo delas. As velhas imagens de quando o mundo, isso mesmo, o mundo!, era dominado pelas grifes, a maioria falando ou aspirando a falar o idioma de fábrica. Não posso crer nunca coisa dessas. Não, não devo permitir que algo assim penetre no meu pensamento, envenene meu coração e ocupe cada centímetro da minha ossatura.

É isso, então?



Mark Jenkins


Mark Jenkins

As grifes. Todas elas. Uma por uma. Meu sonho é dinamitar o coração das grifes. Elas são um império sobre nossas vidas. As grifes. Não é à toa que levam esse nome. Grifes. Garras. Porque elas são isso mesmo — a pata do tigre com suas unhas afiadas cravadas no tecido necrosado de nossos corações. Eu passaria boa parte da vida que me resta declinando as grifes. Porém já esqueci de metade delas. Tempo houve em que eu andava por aí, recitando em ordem alfabética as principais grifes que ocuparam as prateleiras e cabides do mundo. Hoje não. Hoje seus resquícios em nossos centros urbanos têm um papel bastante diverso: sugerem apropriações urbanas, coisas coloridas como aquelas produzidas por Eltono em São Paulo, Saigon e outras cidades. Tudo hoje é diferente. As grifes só existem como interesse arqueológico. São imagens de um remotíssimo passado decomposto. Passaram. Já se foram. Vejo um interesse crescente por elas, mas atualmente é necessário revolver o passado para encontrar jacarés sob o leito seco dos rios. Eles já não ocupam nossos corações como era há tanto tempo. Há tantos e tantos anos.


#119



Mark Jenkins



Mario Wagner


Mario Wagner


— Quem é essa Laura? — eu disse. — Minha mulher — disse o carequinha. — Voltou.

— Tinha te abandonado? — Sim, mas sem querer. Ela tinha memória curta, eu também. Um dia nos perdemos um do outro. Agora Laura caminhava em nossa direção sobre as águas do aborrecimento. O gordo carequinha olhava em êxtase o rio de lixo se erguer do canal e rodopiar no espaço aéreo do sistema de esgoto da cidade. Ele explicou que a memória dela havia voltado, assim como a dele. — Existe apocalipse com final feliz? — eu falei. — Se existir, eu não acredito. Ele olhou pra mim com cara de espanto e soltou uma de suas gargalhadas pavorosas, gargalhada, aliás, que imaginei que a devolução de sua consciência fizesse com que ele a abandonasse. Era uma risada muito brutal pra alguém tão inteligente. — Você é engraçado, bichô, muito engraçado — ele disse. — Mas isto não é o apocalipse. Muito pelo contrário, é um renascimento que apelidei de Regênesis. — Não sei se isso é suficiente pra me confortar. O que os Crazy Daisy vão achar disso? Eles já querem nos matar, agora vão querer fazer mocotó de nosso espírito. — Taí uma palavra interessante, espírito. Como diziam numa brincadeira de séculos atrás, você já passou de morno: tá mais quente que febre de quarenta graus. — Explica aí, André, o que está acontecendo? O que isso tudo tem a ver com o tempo?

— Não vai dar tempo, bichô.

Depois de dizer isso, ele retirou a máscara com a inscrição Parada ABSOLUT na testa de algum bolso secreto do interior de seu roupão — era um mistério como aquela máscara tão grande podia caber na peça de roupa se não havia qualquer outra vestimenta debaixo dela — e a pôs na cara. No mesmo instante em que Laura pisou as pedras da margem — era uma morena com traços indígenas, olhos puxados e uma boca que parecia murmurar desesperadas palavras de amor permanentemente, mesmo que estivesse em silêncio — a palavra ABSOLUT começou a luzir, provocando um breve congelamento na massa líquida que sobrevoava nossas cabeças, e então a máscara projetou um jato de luz que atingiu a jaboticabeira. A árvore nº 71 começou a vibrar e a balançar como se estivesse sob forte vendaval. Parecia que ia explodir, e então todas as frutinhas redondas e pretas começaram a inflar e inflar, soltando-se dos galhos e voando em disparada pra todos os lados, saindo pelos bueiros pro mundo lá de fora, desaparecendo na escuridão do túnel.

— Começou, bichô! — disse o carequinha. — Agora não tem mais volta.



Mario Wagner



Lance Austin Olsen



Lance Austin Olsen


#132


Na COM, daquele jeito que a rede era em 2010, encontrei um amigo de infância que eu não via havia no mínimo uns trinta anos. Éramos amigos da escola, quando tínhamos 10/11 anos de idade. Na minha rede social, a foto do perfil desse meu amigo era a foto da filha dele, uma mulher adulta, muito bonita. Não havia fotos do meu amigo de infância em sua página na rede social. A única imagem do meu amigo que sobrou na minha cabeça, então, era a imagem da memória, era a imagem de um menino de 10/11 anos. Um menino que um dia teria uma filha adulta, muito bonita, muito mais velha do que as meninas da escola pelas quais eu me apaixonava o tempo todo. Há dois séculos atrás, meninos se apaixonavam pelas meninas da escola, ainda havia essa parada de amor. Em 2010, as pessoas ainda se apaixonavam, ainda envelheciam, ainda sentiam saudades. É difícil explicar, principalmente considerando que vocês todos passaram por sérios problemas com a memória. Mas uma das poucas coisas boas que havia no envelhecimento era justamente a memória. Uma memória que se tornava cada vez mais precisa, cada vez mais concreta. Com cinquenta anos, diante da tentativa de contato desse meu amigo de infância, eu conseguia voltar aos meus 10/11 anos de idade, sentir aquele amor infantil pela menina, sentir até aquele medo de não passar de ano na escola, já que eu e meu amigo de infância matávamos aula o tempo todo. Naquele tempo, quanto mais tempo a pessoa vivia, mais memória ela acumulava. Quanto mais velha a pessoa, maior o número de memórias dentro da cabeça dela. Em 2010, as pessoas estavam sempre envelhecendo, sempre com memórias demais na cabeça. Uma angústia. Em 2010, eu podia aliar o arsenal de memórias, que havia no meu cérebro, ao arsenal de memórias, sons, imagens, amigos de infância etc., que havia no computador enorme e tosco à minha frente. Memórias demais, sons demais, imagens demais, amigos demais. Era um dia no final de 2010 e eu disse ao meu amigo de infância, pela rede, que eu me lembrava muito dele, sim, que, na piscina do clube, em 1975, quando a gente brincava, eu era o herói e ele era o vilão. Eu li algumas páginas de notícias, na rede, e cheguei à conclusão de que, em 2010, o mundo estava muito estranho, que nós, humanos, estávamos maltratando demais uns aos outros, que era preciso dar uma desacelerada no acúmulo de coisas que não serviam para nada e no acúmulo de coisas que serviam para coisas demais, que era necessário mais calma e, o mais óbvio de tudo, como logo viríamos a perceber, que aqueles papéis coloridos que a gente chamava de dinheiro não dariam mais conta de representar os valores dos recursos existentes na Terra. Em 2010, havia mais dinheiro do que recursos. O dinheiro em si estava valendo mais do que os recursos que representava. Eu discuti intensamente a crise do Capitalismo com o meu círculo de amizades na COM! E discuti a destruição da natureza! E discuti as injustiças sociais! Discuti, com um círculo gigantesco de amigos, sobre todas as coisas que estavam acontecendo naquele final de 2010. Sobre todas as coisas que havia. Fiquei cansado, muito cansado de discutir tudo. Havia algo de estranho comigo ou com a rede.



Lance Austin Olsen


Até 2010, eu nunca tinha sido artista. Mas, naquele dia de 2010, eu coloquei, no meu perfil, na minha rede social, um filminho feito com telefone celular – um tipo de aparelho que as pessoas usavam para se comunicar e fazer filminhos, quando elas ainda se comunicavam e faziam filminhos – onde eu toco o violão do meu filho, duas cordas quebradas, e eu canto umas coisas improvisadas na hora, palavras de protesto muito loucas, assim meio que sem nexo, algo contra o dinheiro e o capitalismo e os bancos e os seres humanos. Eu cantei que “somos todos idiotas, imbecis, burros, mulas, débeis mentais”. Uma catarse meio infantil, já que, naquele final de 2010, na COM, eu estava vagando pelos meus 10/11 anos, estressado, sem o menor talento musical. Na última madrugada dos velhos tempos, de uma hora para a outra, me tornei alguém famoso. Os primeiros a comentar minha performance na rede reclamavam, defendiam a espécie humana, diziam que era para eu falar por mim mesmo, que o único idiota, a única mula, nessa história toda, era eu mesmo. E lugares comuns do tipo “dinheiro é um mal necessário”; “o capitalismo pode não ser perfeito, mas ainda é o melhor dos sistemas”; “vejam que fim levou a Revolução Soviética”; essas paradas. Mas entraram na conversa também os que concordavam com o conteúdo da minha canção meio tolinha. Era gente que acrescentava palavras na letra, que dava uns berros esquisitos, imitando meu jeito de cantar. Muitos palavrões, eu cantando, muitos links para todo tipo de artista muito louco experimental transgressor de vanguarda, eu cantando, eu cantando pornografia, eu cantando, todo esse tipo de coisa, eu cantando, tudo ao mesmo tempo, eu cantando, a luz do computador começou a fraquejar, eu cantando, da rua vinham uns barulhos diferentes que pareciam ser o som do Inferno, eu cantando. Da televisão, lá na sala, veio o som daquela musiquinha significando que havia alguma notícia extraordinária interrompendo a programação. A minha imagem lá, no computador, cantando, me esgoelando — eu estava muito nervoso, muito estressado, e ficou tudo escuro. Foi um escuro que durou muito tempo. Um tempo maravilhoso. Vai ser difícil vocês entenderem. Mas imagine a ausência total de qualquer tipo de ansiedade. Imagine o conhecimento absoluto sobre todos as coisas que há, sem que esse conhecimento o leve a sentir profundas angustias existenciais. Nenhuma dor. Nenhuma tristeza. Nada o que fazer. Nenhum tédio por não haver nada o que fazer. Nada que pudesse ser imperfeito. Tranquilidade. Por mais de cem anos, estive integrado ao todo. Não ter que decidir sobre a própria vida, tirar das costas o peso de um número sem fim de pontos de vista. A COM comandando tudo. Eu apenas um conglomerado de átomos me deixando levar, sabendo tudo sobre tudo sem qualquer esforço. O nirvana dentro de um microchip dentro de mim.


Lance Austin Olsen



Lance Austin Olsen


Lance Austin Olsen


Um dia, assim, do nada, voltei a sentir meu corpo. Senti um toque nas costas e vi um de vocês na minha frente, falando com cara de maluco: “Você! É você!” Ele não falava exatamente. Era mais uma parada telepática, uma parada dessas. Bastou isso para que a memória voltasse. Quer dizer, parte dela. Eu não me lembrava mais do meu amigo de infância, das meninas da escola, do ano de 1975, do campeonato brasileiro de 1984. Depois, fiquei sabendo que a COM apagou, de todas as memórias eletrônicas, tudo o que havia acontecido até 2010. E o cara se ajoelhou aos meus pés, disse que eu era o rei da nação dele, que era a nação dos “idiotas, imbecis, burros, mulas, débeis mentais”. O cara me disse que eu era o maior “idiota, imbecil, burro, mula, débil mental que já havia existido” e que ele se sentiria muito honrado em me levar até o “loop” dele. E saiu me arrastando pelo centro de São Paulo que eu já não reconhecia mais de tão higiênico. De tão perfeito. Na sede do “loop”, que vocês chamavam de Capital da Nação dos Idiotas Imbecis Burros Mulas Débeis Mentais, estavam todos os idiotas, imbecis, burros, mulas, débeis mentais. No centro do salão monumental tecnológico impressionante, a minha imagem era transmitida telepaticamente e/ou eletronicamente e/ou holograficamente, ou uma dessas paradas. Eu, em 2010, tocando violão e cantando aquelas bobagens e o “loop”` todo repetindo a canção idiota, sem parar, sem parar, um mantra. Não sei se foi o choque causado pela aparição do ser adorado, no caso eu, ou se foi o vírus Kinsey que atacava a COM exatamente naquele momento, mas, de uma hora para outra, vocês, “imbecis”, quebraram o mantra e passaram a cantar outras canções, trechos de jingles publicitários do início dos anos 10, hinos de clubes de futebol, top hits, ruídos estranhos, palavras desconexas. Vocês todos vieram na minha direção, ajoelhados, fazendo reverências, cantando aquelas palavras. Me lancei sobre minha própria imagem telepática/eletrônica/holográfica, essas paradas e me integrei à COM contaminada. Eu não era mais humano. Eu me transformei em “Kinsey”. Sou um vírus que sabe de tudo, consciência total do passado, do presente e do futuro. Eu não era mais gente. Eu era “Kinsey”. Agora, eu é que estou dentro do microchip dentro de vocês. Sou o pensamento contaminado que vocês pensam, a música que vocês ouvem, quando vêm aqui na Catedral. Uma alma perdida dentro da rede contaminada. Uma lembrança de tudo o que aconteceu, inclusive antes de 2010, a memória da falta de sentido de todas as coisas. Vocês são muito idiotas, imbecis, burros, mulas, débeis mentais. Vocês e os outros nas outras salas, adorando filmes sem pé nem cabeça, arte de gente mórbida como Gehard Demetz ou Harding Meyer, ou da atriz-cantora do Berliner Ensemble, eternamente com 90 anos de idade cantando a canção de um soneto de Shakespeare, ou aquela música de abertura do telejornal de 2010 e tanto faz. Não, amiguinhos. A realidade não existe. Essa é a verdade. É melhor vocês esquecerem isto tudo outra vez. São apenas palavras, apenas sons.



Lance Austin Olsen


Lance Austin Olsen


#145



Chris Fraser



Chris Fraser



Chris Fraser


Emilie Gervais


Que, quem? Como? Quando, onde, por quê? Eu olho para baixo, pro chão, pisando suave o concreto da praça da Sé, enquanto me faço essas perguntas. Percebo que tenho uma bolha no dedão do pé esquerdo. Hora de me desfazer desse sneaker — mas como? Meu Tênis de Basquete Voador tão branco que parece fervido tinha praticamente se tornado a extensão dos meus pés, das minhas pernas, de minha cara. Os caras do meu loop me reconhecem mais pelo meu Tênis de Basquete Voador que por minha cara preta e barbada ou meus dreadlocks suspensos ou minha gagueira ou meu talento em fazer legumes ao vapor com fakebacon. Nós só nos reconhecemos por nossos sneakers. Que, quem? Como? Quando, onde, por quê? Subitamente essas perguntas aparecem e ficam ecoando dentro da minha cabeça, e, desviando dos zumbis da praça, sinto uma enorme sede — como se toda a água do planeta tivesse secado. Na hora que aconteceu eu intuí, mas ainda não quero acreditar. Eu estava ouvindo aquele disco do Nils Frahm, gosto tanto daquele piano, daí meio que veio esse... corte, e tchau. Nils sumiu. Eu tropecei em mim mesmo, no susto, caí de cara no chão. Quando me levantei percebi que não era só comigo que tinha rolado isso. Várias pessoas estavam caídas. Um cara lambia o chão, uma mulher ria histericamente, um garoto tampava os ouvidos com as mãos e repetia o tempo todo “pare de falar! pare de falar”. Eu puxava o Nils, mas o Nils não vinha à mente. Tentei puxar outras coisas, como receitas de legumes ao vapor, o mapa de São Paulo ou vídeos antigos de uma série do século passado que a gente tinha descoberto e que meio que une o nosso loop, do mesmo jeito que os sneakers. Mas nada. Pensei se seria só comigo que tinha acontecido, mas logo lembrei que... que, enfim, esse negócio de lembrar pega meio mal hoje em dia, é meio que uma disfunção da minha cabeça. Sei que outros têm isso também, mas, no meu loop, só o Kramer. Será que também rolou isso com o Kramer?



Chris Fraser


— Só o que eu consigo te dizer é que eu olho teus tênis e me vem a palavra George — diz a loura, na entrada da igreja. — Sim, George é meu nome. Eu acho que antes eu tinha outro nome, mas agora ele não me vem na cabeça. Na verdade nada me vem na cabeça. E você, hein? Por esse Tênis de Corrida Bacanudo só pode ser a Elaine. — Elaine, é, mas também não era assim que eu me chamava ontem. Até que aconteceu aquela... coisa...

— Com você também? Tipo uma explosão na cabeça? Um BUM?

— Não, foi mais como se eu tivesse mergulhado numa piscina e me afogado. Eu estou afogada até agora. Me sinto até meio molhada, às vezes. Você sabe do Jerry? — Pensei em passar na casa dele, mas nosso combinado é todo sábado aqui na Sé. Ele deve vir junto com o Kramer.

— Será que eles também...?

— Psss. Algo me diz que é melhor não falarmos alto sobre isso.

— Qual é o perigo?

— Não sei, mas deve ter algum. Desde que a música vazou da minha cabeça, eu tenho escutado muito mais alto meus pensamentos. — Eu também, e é horrível. Minha burrice só cresce. E eu só consigo pensar em comer. Bem que o Jerry podia trazer aqueles fakebacon dele? — Eu não tenho fome, mas estou sentindo uma coisa mais estranha. Uma dor, não sei. Mas estou com medo de ir pro hospital. Passei na frente da clínica e tinha um monte de gente chorando ali.

— Onde é a dor?

— Aqui — Elaine puxa a mão de George para seu coração. — Mas não é bem uma dor: é como se fosse um vento.

— Você está com vento no coração. Bonito isso.

— A beleza das coisas não está nas coisas. A beleza é ela mesma. Não pertence a nada nem a ninguém. Amor também.

— Você está falando umas coisas estranhas, Elaine.


Emilie Gervais



Chris Fraser


Emilie Gervais


— George, estou morrendo de medo! — Elaine começa a chorar.

— Fique calma, daqui a pouco o Jerry chega. Jerry sabe tudo.

— Mas e se em vez do Jerry vier o Kramer?

— Quantos mundos cabem no mesmo mundo?

— Quê? Elaine, você precisa relaxar. Tire seus Tênis de Corrida Bacanudos...

— Sai daqui! — Elaine empurra George para trás, fazendo-o cair dois degraus. — Você quer roubar meus sneakers, já sei. Eu te conheço. Você é maldoso, cínico, covarde e invejoso. Vai vender na Praça da Sé e trocar tudo por brócolis com cheesefakebacon. — Ei, já esqueceu que estou com os meus Tênis de Skate Sujo? Imagino que vou trocar meus tênis pelos seus. Olha, temos o mesmo número!

— Todos temos o mesmo número, não lembra? Assim começou nosso loop.

— Como você sabe disso? Jerry te disse? Puxa, mas que fome. Nunca senti tanta fome de uma vez só. — Eu escrevi em uma parede do banheiro de casa: Loop 36. Estava lá hoje, antes de eu vir pra cá. Eu preciso olhar pra isso pra saber do nosso encontro.

— E se Jerry não vier nunca mais?

— Bem... eu vou continuar a ser o George. Mas você pode ser... hum, o Ringo?

— Ringo?

— Qual era o seu nome mesmo antes disso tudo acontecer?

— Antes disso tudo acontecer o quê?

— Ringo! —, murmurou George, fazendo beicinho.

— O que foi?

— Não podemos tirar nossos sneakers nunca mais — disse, e puxou seus longos cabe los azuis para baixo. — Entendeu? Nunca mais!

— Por quê, George?

— Se não, nunca mais voltaremos pra casa — disse, e tirou os óculos encharcados. — Nunca mais voltaremos pra casa.

— George... — disse Ringo, coçando o bigode que não tem.

— ...

— George, eu... eu acho que já não sei mais onde fica minha casa. Soa o sino do meio-dia na Catedral da Sé. Assustados, se abraçam.



Chris Fraser


A vida, quanto toca a perfeição, se parece com qualquer coisa. E estamos todos vivendo em um submarino amarelo. Havia uma única árvore de Natal em toda a cidade, mas os lenhadores vieram cortá-la para dar de presente ao imperador do mundo, que não passa de uma canção de ninar. Meus cabelos são enrolados como meus pensamentos. Meu sorriso é sensual e comovente, não há quem não se hipnotize comigo. Tudo que eu quero na vida é fumar um charuto. A vida é feita de repetições mas como a maioria de nós não se lembra do que aconteceu a vida é uma eterna e cansativa surpresa ou seja não existe nada de surpreendente em viver a não ser o que aconteceu ontem e o que aconteceu ontem jamais poderá ser relatado pois se trata do Horror Sem Nome embora desnomear algo também não ajude em nada nesse ponto do universo em que nada tem ou teve um nome fixo durante muito tempo. Eu por exemplo sou. Não, não sou este. Sou somente o cara que usa um par de Tênis Fantasmas vermelhos tamanho 36 e como sou muito alto para o tamanho dos meus pés vivo tropeçando em mim mesmo daí usar esse sneakers cano alto. Torna-te quem tu és, eu sempre digo. As pessoas acham que sou burro mas é porque penso demais nas minhas lembranças e ao mesmo tempo tenho de fingir que não me lembro porque aí sim sofreria preconceito das pessoas embora eu considere um desrespeito fingir alguma coisa, eu nunca finjo, nunca minto e nunca tento parecer que algo é bonito quando na verdade é horrível. Mas eu sou uma exceção. Se não soubemos de onde viemos, vivemos em loop. A gente só se encontra mesmo no fim, mas, quando o fim chega, a gente não sabe mais de onde veio. E onde está meu loop? Estarão todos vivos, depois do que aconteceu ontem? Vejo milhões vagando pelas ruas dando dois passos para um lado, aí brecam, depois giram 180 graus, então põem as mãos na cabeça, param de novo, se sentam no meio da rua. Eu vejo loops de pessoas deixarem seus automóveis no imenso engarrafamento e saírem andando segurando umas as mãos das outras. Eu vejo pessoas cheirando a cadáveres mas pensando bem elas já estavam assim antes do Horror Sem Nome. “Kinsey” é o nome desse horror, mas prefiro não pronunciá-lo. A vida, quando toca a perfeição ou o inferno — o que chegar antes —, se parece com qualquer coisa. Menos eu, que só me pareço com uma pessoa: o Kramer. Torna-te quem tu és, eu sempre digo. Meu loop vai gostar do presente que estou levando.


Emilie Gervais



Chris Fraser


Emilie Gervais


Quando eu era pequeno e não me chamava Jerry mas sim Osvaldo, eu achava estranho que as pessoas não se lembrassem do que tinham comido ontem ou se tinha chovido ou não de manhã, mas logo que percebi que elas ficavam chateadas se eu as lembrasse que tinham comido polvo grelhado e que de manhã tinha feito um sol de fritar ovo no asfalto da avenida Paulista elas me olhavam de um jeito estranho e paravam de falar comigo. Na verdade eu não ficava chateado com isso, porque esse tipo de pessoas nunca tinha nada de divertido pra falar comigo a não ser me convidarem pra ver a Árvore Número Seis que está exposta e encapsulada na ladeira da Memória, a última árvore do sudeste é uma figueira bem vagabunda, pense numa coisa chata que é passar um tempão olhando para uma árvore espremido no meio de uma multidão. Meu pai era desse tipo de gente mas minha mãe não, e quando ela percebeu meu talento logo tivemos uma conexão praticamente espiritual, conexão bem diferente daquela que tínhamos com a COM, se bem que foi através da COM que descobri meus pianistas favoritos, Olafur Arnalds e Nils Frahm, sem falar em Julian Charrière e nos Mark Jenkins e nos sneakers e nas receitas de legumes ao vapor com fakebacon. Quando eu, Elaine, George e Kramer descolamos uma impressora passamos a produzir nossos próprios sneakers e assim surgiu o Loop 36, que ganhou esse nome porque todos calçamos esse número. Nosso loop estava fazendo um bom progresso descobrindo as mesmas roupas contudo agora que a COM desapareceu eu não sei como vou desencanar de descobrir por que esse vento se instalou no meu peito.



Chris Fraser


A porta da igreja se abre de supetão e Kramer entra. George e Elaine começam uma canção, aí param, parecendo meio esquecidos, e então recomeçam pelo primeiro verso de novo, então depois tudo se repete. Jerry e Kramer se entreolham desconsolados. O interior da catedral foi tomado por uma espécie de balão branco gigante. Não é mais a igreja que tinham conhecido nos últimos sábados. Na verdade, nem é mais uma igreja. Triângulos azuis muito agudos e preenchidos por triângulos azuis de tons mais claros ocupam quase todo o altar. Painéis suspensos mostram pessoas com cabeças de animais — girafas, lobos, morcegos. Em uma gigantesca imagem preto e branca no teto, uma mulher de cabelos curtos amamenta, sorrindo, duas crianças. Um grupo de pessoas cerca uma outra imagem — um rosto enorme formado por folhas, frutos e galhos de árvore. O loop murmura continuamente com os olhos baixos. Jerry se aproxima do grupo e pergunta o que fazem.

— Estamos orando para o retorno do Deus-Árvore — diz um deles. — É uma brincadeira.

Jerry escancara os olhos para Kramer, que, do outro lado da igreja, faz um muxoxo de severo entendimento. Kramer tira um charuto do terno e o acende. — Sabe qual é o nosso problema, Jerry? — Que nós não temos graça nenhuma? — Exatamente. Mas tenho a solução — e Kramer tira de dentro do terno um livro. — O que é isso? — arregala-se Jerry. — É um livro de piadas. — Muito bom. Mas você sabe ler? — Ler? Não. Você não sabe? Jerry abaixa-se, tira seu sneaker e o atira na direção de Kramer, que desvia para não ser acertado na cabeça. Kramer tira seu sneaker e o atira na direção de Jerry. George e Elaine se levantam e passam a jogar seus sneakers uns nos outros. Ficam alguns minutos nisso, morrendo de rir, até que se cansam e se jogam de costas no chão, suados e felizes.

O loop de oradores continua a rezar para o Deus-Árvore.

Kramer senta-se num banco de igreja, abre o livro e finge que está lendo. Elaine e George sentam-se em um banco e observam concentrados a imagem no teto que mostra a mulher com seus dois filhos. Jerry zanza sem direção pela igreja, até topar com o gigantesco órgão de tubos ao fundo. Senta-se, tenta uma tecla. O instrumento sopra uma grave nota. Então Jerry começa a tocar uma canção doce e lentamente.

— Elaine? — pergunta George. — Sim? — Acho que estou com vento no coração também. Elaine olha para George e o beija. Como chuva, a música de Jerry afinal encobre o murmúrio do loop de oradores. Kramer ri.


Emilie Gervais



Chris Fraser



Chris Fraser



Chris Fraser



Chris Fraser



Chris Fraser



Mario Wagner


Mario Wagner


Depois de acompanhar o gordo carequinha sapecar na mulher um beijaço dos mais românticos — de onde eu estava, aparentemente seu tico já não estava mais tão murcho —, não tive saída a não ser bater em seu ombro. — Aqueles que estão vindo lá adiante chapinhando suas botinas mecânicas na fedentina do aborrecimento não são Jackson e seus robôs-jardineiros?

— Ih, bichô, são eles mesmo. Sebo nas canelas.

E recomeçou a correria. Mas desta vez foi mais fácil que antes, pois eu não precisava lembrar de cinco em cinco minutos pra ele o motivo de estarmos correndo. Corremos. Não precisamos fugir por muito tempo, pois como é sabido e notório robôs não se dão muito bem na água. Quando olhei pra trás, Jackson tentava desatolar seus subordinados sem sucesso. No mundo exterior o sol brilhava, os pássaros piavam e a vida prosseguia. Com uma diferença: na praça da Sé, entre objetos de devoção abandonados, os loopers se abraçam com efusão, conversando sobre todos os assuntos possíveis e impossíveis do passado. Todos haviam recuperado a memória. — Está dando certo, não está, meu amor? — disse Laura, puxando a gola do roupão do carequinha. Sua voz parecia uma sinfonia composta por samples de animais selvagens fazendo amor extraídos daqueles programas que a COM exibia antigamente. Ao pensar isso, uma coisa estranha aconteceu comigo: imagens interrompidas de Animal Planet foram projetadas em meu córtex mental, cenas de um programa que eu lembrava ter visto. As imagens ainda eram interrompidas e cheias de estática, mas eu não estava enlouquecendo, eu tinha visto aquilo. Quando voltei a mim, o gordo carequinha sorria pra mim, enlevado, enquanto procurava esconder uma ereção fechando as abas da frente de seu roupão.

— — — —

Que que foi, tá rindo de quê? — eu falei. Da tua cara, mané. Posso saber por quê? O que você acaba de ver aí, bichô, pode compartilhar com os amigos?

Laura deu um sorriso, exibindo uma espetacular sequência de dentes sem cárie comparáveis a um belo teclado de laptop novinho, daqueles brancos produzidos pela Apple. Foi eu pensar nisso e apareceram cenas de um comercial antigo na minha cachola. Minha cara de espanto transformou os sorrisos do carequinha e de Laura em gargalhadas pavorosas. Ela quase ficou feia, ao gargalhar. Pude ver que não tinha nenhuma obturação na boca. Isso não era muito comum, afinal não existiam mais dentistas desde o Grande Desligamento.

Minha boca estava inteira podre.

— Essa mulher é um andróide, André? — É, mas eu amo ela assim mesmo. Modelo UAndress-PT91. Eu que fiz. Cumé que tu descobriu, bichô? — Ela não tem cárie. — Pô, muito observador. E esses filminhos aí, não vai compartilhar a sensação? — O que está acontecendo, porra? — Ainda não entendeu, meu? Cadê tua perspicácia? — ele disse isso e apontou pros loops. Só então percebi que eles estavam conversando sem abrir a boca. Pior: ao falar comigo o carequinha também não abria a boca.

A COM tinha voltado a funcionar.




Mario Wagner para ABSOLUT VODKA




Mario Wagner


Textos

Artistas

#004

David Quiles Guilló

#005 (Elche, 1973)

Empreendedor renacentista, realiza conceitos e projetos nos quais outros artistas mostram seu talento. No comando de ABSOLUT 2140, criou uma nova forma de contar histórias, que ele nomeia de “Stereo-Storytelling”.

#017

Joca Reiners Terron

(Cuiabá, 1968)

Escritor, publicou os romances Não há nada lá (2001, reeditado em 2011), Hotel Hell (2003), Do fundo do poço se vê a lua (Prêmio Machado de Assis-FBN, 2010), Guia de ruas sem saída (2012), entre outros livros.

#022

Antônio Xerxenesky (Porto Alegre, 1984) Escritor, editor e tradutor, publicou o romance “Areia nos Dentes” (Rocco, 2010), entre outros livros. Foi um dos vinte autores selecionados pela revista britânica “Granta - Os melhores jovens escritores brasileiros” (2012).

#063

Luiz Bras

(Cobra Norato, 1968)

Escritor, publicou o romance “Sozinho no Deserto Extremo” (Prumo, 2012) e os contos de “Paraíso Líquido” (Terracota, 2010), entre muitos outros livros assinados por seu alter-ego Nelson de Oliveira.

#107

Leandro Sarmatz

(Porto Alegre, 1973)

Escritor e editor, publicou os poemas de “Logocausto” (Editora da Casa, 2009), além dos contos de “Uma Fome” (Record, 2010). Foi um dos vinte autores selecionados pela revista britânica “Granta - Os melhores jovens escritores brasileiros” (2012).

#133

André Sant’Anna

(Belo Horizonte, 1964)

Escritor, roteirista e músico, publicou “Amor” (Dubolso, 1998) e “Sexo” (7letras, 1999), ambos reeditados em “Sexo e Amizade” (Companhia das Letras, 2007), e o romance “O Paraíso é Bem Bacana” (Companhia das Letras, 2006).

#149

Ronaldo Bressane

(São Paulo, 1970)

Escritor, poeta e jornalista, publicou os livros de poemas “O Impostor” (Ciência do Acidente, 2002) e de contos “O Céu de Lúcifer” (Azougue, 2003), entre outros. Em 2012 lançou a graphic novel “V.I.S.H.N.U.”, co-roteirizada com Eric Acher e ilustrada por Fabio Cobiaco (Companhia das Letras).

Mario Wagner (Adenau, 1974) Mario vive em Berkeley, EUA, onde trabalha como artista e ilustrador. Seu trabalho foi publicado em importantes antologias, incluindo 3x3 Magazine e Illustration Now! Ele também contribuiu com trabalhos para campanhas publicitárias de clientes como Absolut Vodka, Cheerios, Ikea e seu trabalho aparece regularmente em publicações como New York Times Magazine, Wall Street Journal e Wired Magazine. Seu trabalho artístico ja foi exibido em várias exposições em Berlim, Los Angeles, São Francisco e Londres, e em feiras de arte como Scope, NADA e Art Basel Miami.

#023

Dana Oldfather

(Cleveland, 1978)

Dana Oldfather mora e trabalha em Cleveland, Ohio. É uma jovem pintora autodidata que já participou de exposições em galerias e museus. incluindo POV Evolving Gallery em Los Angeles e The Butler Institute of American Art em Youngstown. Oldfather foi premiada por William e Dorothy Yeck Award para pintores jovens em 2012 e, também, pelo Ohio Arts Council Individual Excellence Award em 2013. Oldfather é a mais nova e jovem artista que faz parte do portfolio do Ink Dish em São Diego, Califórnia, empresa de design que transforma utensílios de mesa em peças de arte. Atualmente é representada pela The Bonfoey Gallery, Ohio e já teve artigos dedicados a ela no New York times, entre outros. Seu trabalho já faz parte de importantes coleções públicas e corporativas dos EUA, como da prestigiosa Progressive Art Collection.

#059

Clemens Behr (Koblenz, 1985) Behr se graduou em desenho gráfico na University of Applied Sciences em Dortmund. Atualmente mora e trabalha em Berlim, onde também está estudando escultura em UDK. Seu trabalho se situa entre design e escultura. Ele também está enraizado em algum ponto entre o grafite e a cultura urbana do skate. O trabalho público de Behr faz referência a exploração da arquitetura urbana, que carrega as características de ambas culturas. Reciclando, reivindicando ou apenas pintando de uma maneira divertida, Clemens Behr reúne o espaço selecionado com as características dos materiais escolhidos. Já exibiu seus trabalhos ao redor do mundo em vários museus e centros culturais.

#062

Erin Case

(Midland, 1982)

Eric Case é uma artista de colagem super premiada que exibiu seu trabalho internacionalmente, incluindo espaços como Elsewhere Factory (Roma, Itália) e em 42 shoppings ao redor do Canadá para Art in Transit, instituição que leva arte para espaços públicos. Sua arte de colagem foi publicada em muitas revistas de arte e moda e contribui com ilustrações para revistas e livros.


Artistas

Créditos

#067

Andrew Tamlyn

(Midland, 1991)

Tamlyn, de Grand Rapids, é um premiado fotógrafo de arte, cujo trabalho já foi mostrado em prestigiosas publicações e instituições como Fine Line Magazine, Vegas/Rated Magazine, Art In Transit (Canada) , Smithsonian.com, entre outras. Tamlyn também faz parte da banda de rock Plantains.

David Quiles Guilló (Elche, 1973) Ideia original, edição “stereo-storytelling” e curadoria. Graziela Calfat (São Paulo, 1969) Diretora executiva e de comunicação. Joca Reiners Terron

Coordenação editorial.

#105

Mark Jenkins

(Alexandria, 1970)

Mark Jenkins é um artista que trabalha com esculturas e instalações urbanas. O artista inventou sua própria técnica de moldagem de objetos usando fita de embalagem e filme plástico. Com essa técnica ele criou uma série de personagens como patos transparentes, cachorros, bebês, seres antropomórficos hiper realistas, moldados a partir de seu próprio corpo e da sua parceira Sandra Fernandez. Ele descreve seu trabalho como “absurdo” e tem como base a idéia de “criar situações que transformam o mundo num palco”. Ele atualmente mora em Washington, DC.

(Cuiabá, 1968)

Ros Dolan Studio (Barcelona, 2001) Diagramação e correção de textos. Guilherme Brandão

Distribuição e logística.

(São Paulo, 1981)

Pancrom

(São Paulo, 1949) Impresão e finalização.

#128

Lance Austin Olsen

(London, 1943)

“Meu método de trabalho é uniforme através das diversas mídias que utilizo: a superfície é re trabalhada infinitamente, e cada nova camada forma um registro ou narrativa de contínua descoberta. Através deste processo, ou matriz, o espectador experimenta uma inseparável ligação entre a produção de um trabalho específico, bem como uma sensação de que o que está sendo mostrado é apenas um elemento de uma busca ao longo de toda uma vida.”

Uma publicação

#146

Chris Fraser (Oakland, 1978) Fraser mora e trabalha em San Francisco Bay e se formou como mestre em artes na Universidade de Mills e como historiador na Universidade da California. Fraser foi premiado com o Jay DeFeo Prize, uma bolsa de pos graduação do Headlands Center for the Arts, e fez residências no KALA Art Institute e no Djerassi Resident Artists Program. Ja fez exposições individuais importantes como por exemplo, “Eidolons” Highlight em São Francisco, “Cross Section” Highlight em NADA Hudson e “The Air Around Us” no Center for Contemporary Art em Sacramento.

2014 ©SINTONISON SL

#152

Emilie Gervais

Um projeto

(Internet, 1905)

“Garota com uma tatuagem “smiley” trabalha com a internet. Tem também uma tatuagem de coração. Artista de fundo estrelado, eu uso uma linguagem supernova. Se eu fosse uma mosca, eu faria cocô no seu olho direito. Eu amo TLC e Jermaine Dupri. Um dia, eu espero surfar Mavericks. Siri não queria escrever minha bio, e isto está bem. Três anos atrás, eu estava andando na rua Oberkampf em Paris. Agora eu estou andando na na rede global. Empurrar pixels não é um estilo de vida. É uma atitude. Minha cor favorita é rosa”.

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Mario Wagner