ABSOLUT 2140 #1

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Ernesto Artillo Zander Blom André “Cardoso” Czarnobai Miguel Del Castillo Koen Delaere Boris Tellegen / Delta Inc Manuel Fernández Ismael Iglesias

Henrik Isaksson Garrell Lauren Pelc-McArthur Penique Productions David Quiles Guilló Joca Reiners Terron Alexandre Rodrigues Paulo Scott Stefan Saalfeld Braulio Tavares



O planeta Terra está dividido em dois hemisférios geográficos. Quase 9 bilhões de pessoas moram nos grandes centros urbanos. Restam apenas setenta árvores sobre a superfície do planeta. Hoje, no sétimo dia do sétimo mês do ano 2140, um vírus letal identificado como “Kinsey” atingiu a COM.

O mundo entrou em pane.


Ismael Iglesias



Ismael Iglesias


Há mais de cem anos, um apagão mundial causado pelo uso e abuso das mídias sociais marcou o nascimento da COM. Após os sistemas se reiniciarem, a rede despertou, tomou consciência de si e se transformou numa entidade a serviço de todos os conectados. Em poucos meses a COM, dirigida por seus milhões de usuários, tomou conta das instituições, de governos nacionais a locais, passando a gerenciar ABSOLUTamente tudo em nível global, incluindo comunicação, educação, recursos naturais e controle de enfermidades. Uma nova era se iniciou e hábitos ancestrais foram abandonados. Ninguém mais se comunicava verbalmente, enquanto violência e libido foram controladas. Depois de muitas gerações, o trabalho passou a ser distribuído e avaliado através da COM de modo igualitário, estabelecendo como meta a realização das tarefas com cem por cento de eficácia, ocupando o indivíduo somente alguns minutos diários. Hoje, no sétimo dia do sétimo mês do ano 2140, um vírus letal identificado como “Kinsey” atingiu a COM. Para proteger os usuários, a COM deixou uma última mensagem e se autodesligou. A população foi relegada aos próprios recursos, e aos seus principais defeitos. Entre os danos colaterais, o maior deles está relacionado ao arquivamento de dados: noventa por cento da população sofre perda de memória recente. Entre os dez por cento restantes que conseguem lembrar, a preocupação é tentar ocultar essa capacidade.



ABSOLUT 2140 São Paulo, Hemisfério sul


Ismael Iglesias



Ismael Iglesias




Zander Blom


Zander Blom


Jackson e seus jagunços mecânicos corriam atrás de nós, disparando jatos de mangueiras gigantes que foram ativadas pelos robôs-jardineiros, enquanto o carequinha de roupão e eu zuníamos pela ladeira da Memória abaixo a toda velocidade. Não sei como, os raios paralisantes não paralisaram nada, a não ser meus cílios, e apenas por poucos segundos. O plano tinha dado certo. Enquanto corria e balançava seu tico murcho pra cima pra baixo, o carequinha afastou a máscara de lado e deu outra de suas gargalhadas pavorosas: — Num esquenta que tá tudo em cima. Essa máscara aqui é a chave de acesso pra Parada ABSOLUT. Sebo nas canelas, bichô! Na esquina seguinte o idiota não lembrava mais o motivo de estar correndo. Esses Desligados são fogo, não passam cinco minutos sem esquecer de onde vieram e pra onde vão. Puxei-o pela manga e entramos dentro de um bueiro destampado. No interior da fossa a memória dele quase voltou. — Que cheiro é esse? Conheço esse bodum, que é? — Cheiro de aborrecimento, meu! O que mais poderia ser? E muito aborrecimento, já que estamos enfiados até o pescoço no meio do esgoto de São Paulo. Tapei o bueiro com o tampão de ferro e com a mão a matraca do carequinha. Ele bufou uns segundos e logo se acalmou. Com a mão livre, tapei meu nariz. Pudemos ouvir os calcanhares de aço das botas de Jackson e seus cupinchas mecânicos sapateando lá em cima até se afastarem de vez.

— Pronto, eles caíram fora.

O carequinha e eu enveredamos pelos túneis debaixo da cidade, chutando ratazanas e com aborrecimentos até a cintura. Minha preocupação era saber se eu tinha literalmente entrado pelo buraco por um bom motivo. A Parada ABSOLUT funcionava de verdade ou seria apenas mais uma loucura do maluco de roupão? Também comecei a suspeitar que Jackson era pau mandado dos Crazy Daisy. Aqueles malditos me deram uma mãe falsa e depois a roubaram de mim. Eles podiam até ter memória, mas definitivamente não tinham coração. Ao dobrarmos a primeira curva do longo túnel escuro e fedido, porém, algo inesperado aconteceu. Não era possível, aquilo ali em nossa frente seria mais um produto sintético ou uma armadilha dos Crazy Daisy? Cutuquei o carequinha com o cotovelo. Igual a mim, ele não acreditava no que via: uma árvore nascida no interior do túnel e bem no meio do esgoto. Era inacreditável. Uma árvore desconhecida que brotou no aborrecimento. Na hora tive certeza que ela não estava no mapa mundi da praça da Sé que aponta as 70 árvores sobreviventes do mundo.



Stefan Saalfeld


#018


Stefan Saalfeld

Avanço como um fantasma na alameda coberta de samambaias sintéticas de todas as cores. A alameda é longa, sombreada, e enquanto flutuo ao longo dela vai se dissipando meu calor corporal, que o medidor denuncia; daí a pouco me envolve um friozinho de floresta imaginária, carícia num membro fantasma. Joana me espera à porta. Veste um sete véus multicor que dá voltas sobre si mesmo e recobre a si mesmo como páginas translúcidas. Ela me leva para dentro. O local é pequeno, no formato de uma oca, um iglu, só que feito de pedras velhíssimas, argamassadas. Airbags bordados, jogados pelos tapetes. Um narguilê de ouro, artesanatos em chumbo derretido sobre prateleiras. Ela deita com a cabeça em meu ombro. Por trás vejo a luz das telas, retângulos de cantos arredondados, onde brilha algo como uma explosão de giz num muro de petróleo. Vídeos de Yoshi Sodeoka banhando nossos corpos com lâminas dançantes de cores saturadas, excessivas. A cicatriz deixada pelo ser no espaçotempo.



Stefan Saalfeld



Stefan Saalfeld



Estamos todos tentando inventar juntos um novo tipo de estrofe poética. Propus um modelo de quadras com rimas ABBA, BCCB, CDDC e assim por diante. Criamos uma série imensa de versos até entendermos como funcionava esse esquema – as expectativas rítmicas que gerava, o modo como certas rimas as satisfaziam e outras não. Descrevemos estepes em fúria, faíscas saltando das cimitarras, sangue escuro aos gorgolejos na areia amarelada do deserto. De onde vinham essas visões, essa psicografia? Fizemos dezenas de estrofes, rindo, desperdiçando rimas, pensando em uníssono. Vinha tudo demais, tudo em excesso, tudo fazendo transbordar aos borbotões o copo de nossa consciência, sob a catadupa poderosa dos pensamentos, que forçavam passagem por nossas mentes eufóricas, esgotadas. Depois eu estava numa espécie de bar, paredes de tijolos de barro avermelhados, iguais aos de verdade. Não parecia uma cave, parecia um armazém, Um andar aberto, com altura de dois, se elevando entre as paredes. Cabines, três tipos de cabines, de um lado. Do outro, balcão de bebidas e um espaço de dança. Uma banda transparente estava tocando no palco. Havia teclados no balcão. Autorizei com o polegar, dedilhei as notas e comecei a produzir com as minhas teclas um solo de saxofone em cima da base randômica que eles deixavam “acompanhando” a banda no palco. Isso me valeu uma noite confusa de congratulações, adulações, convites, de repente um supercarro com trepidação zero e estofamento dez me conduziu em 10 segundos a um local que me lembrou uma embaixada rica ou uma catedral pobre. Seguiu-se uma noite inexplicável, porque as relações entre causas e efeitos pareciam ter se erodido. Várias vezes tentei voltar com comando mental, sem sucesso. Naquela noite tive que tocar de novo, num salão cheio de teclados e de homens atentos. Toquei igual a antes, e eles me trataram como se eu fosse uma sumidade qualquer. Não eram muito espertos. Eu e Joana estamos procurando músicas parecidas com a Grande Muralha da China. O conceito de semelhança pode ser qualquer um, basta que seja explicado. Algumas músicas têm semelhança visual com a muralha; aquela canções de batida eletrônica massacrantemente igual, com êxtases ou clímaxes a intervalos regulares. Outras parecem com ela por causa da grandiosidade sofrida e retumbante com que se desenvolvem e deslancham. Sempre era preciso relacionar as duas coisas. Percebi que Joana (será a mesma, cada vez?) punha a música para tocar e ficava ao meu lado, movendo os lábios, sugerindo-me imagens que não estavam na música, estavam nas frases dela, e mais do que nas frases nos olhos, e mais do que nos olhos nos lábios. O tubo coleante e prateado, os mezzaninos de chão translúcido, as mesas com seus teclados piscando ao ritmo da música. Um mural de MOMO, com olhos humanos arregalados que quando vistos muito de perto mostram ser impressões digitais enormes, finíssimas, hachuriadas em paralelo como filigranas de asas de borboleta. Projeto-me pelos salões até que encontro Bruno Soares. Discutimos sobre o que ele chama halving, o particionamento da mente em subdivisões cada vez menores, exponenciais. Ele fala em compor pequenos grãos ou núcleos ou blocos (usa palavras diferentes a cada vez) de informação, de tamanho proporcional às unidades de percepção do tempo alocadas na mente. Para um milhão de nichos, um milhão de informações, para que os nichos se mantenham estáveis (se servir para algo mais, tanto melhor). Para um bilhão de nichos, um bilhão de núcleos. Pedi a todos (Bruno e o transparente casal de amigos que o acompanhava) que fizessem sua encriptação mais fechada, e acessei com eles o Gust/O. É um software sinestésico que através de um túnel de fractais coloridas desperta em nossas papilas gustativas (ou em nosso cérebro, sei lá) o sabor do respectivo drinque. Liguei o item “vodka com suco de laranja, gelo e açúcar”, e daí a poucos todos concordamos que não era exatamente a vodka que conhecíamos até então, mas que o efeito anunciado acontecia, sim. Senti-me leve, eufórico; desliguei-me de lá e deixei todos rodopiando em bug.



Stefan Saalfeld


O ser humano nasce sem alma e sem memória. A alma existe, mas é tão tipicamente humana quanto um arco-íris, que só existe nas retinas de cada um, e tão artificial quanto uma transmissão de rádio. Eu ando por estas ruas largas, arborizadas, num fim de tarde que deve ser de verão, porque o céu está limpo e uma luz dourada desce em diagonal sobre as mansões à minha volta. Cada árvore é uma estátua feita de plástico, de papel, de ráfia, de serpentinas, tudo isso esvoaçando à brisa. Cada árvore artificial desta rua é única, é diferente de todas as outras, é assinada por um artista e apadrinhada por um Clube de Sêniors. Cada árvore artística – e são bilhões no mundo inteiro – é tão única quanto uma pessoa. Melhor assim. Eu ando/deslizo por estas ruas largas, sombreadas por árvores artificiais, neste recursivo fim de tarde de verão, e é curioso, basta-me desejar que a rua esteja deserta, sem outros transeuntes, para que isto aconteça. Canso-me das árvores e as troco pelas esculturas de Tricia Keightley, a cada dez metros uma reconstituição 3D de suas contrafações rubegoldberguianas, pistões de motor plugados a mangueiras de jardim, roldanas a pistilos, antenas a campânulas, molas esticadas entre um besouro que voa e um cabide de roupas que parece se espreguiçar. Vou sozinho, meus passos (quando quero ouvi-los) ressoando no calçamento, o traçado regular das casas da vizinhança vindo ao encontro dos meus olhos. Caminho sem medo, como se aquele mundo fosse geometrizado pelo meu desejo, como se tudo que eu sou e tudo que existe fosse só virtual, e existisse apenas quando ativado por mim. É a esta rua que a mente ou o corpo me trazem, e nos encontramos às vezes no sótão de Tanja. Uma torre no alto do poço vertical de um elevador, sem mais nada; lá em cima apenas o sótão, atravessado na ponta da torre, em “T”. Essa haste horizontal tem o chão coberto por um minucioso mapa mundi, num piso de 6 metros por 15. Estão ali cada árvore, continente, oceano, montanha, rio e floresta; estão ali cada capital, megalópole, cidade grande e vilarejo anteriormente ligado à COM. Flutuamos sobre esse mundo como escafandristas nas capitais submersas. Cada ponto que ativamos com o toque produz um rosto, uma história, uma vida; ali mergulhamos; ali nos fundimos, mais outra e outra vez, com a hidra de bilhões de rostos. E recomeçamos.




Stefan Saalfeld


#034


Estou mergulhado no estudo da Neustética dos Falantes. É um loop que todos os dias faz uma emissão mental nova, com bricolagem sonora, em canais aleatórios. Quem tem sorte ouve a gravação (assinada, datada) de um texto-sinc de algum tempo atrás. Se tiver mais sorte ainda, ouve o programa novo daquele dia, cujo canal e horário estavam disfarçados em pistas que (fala-se) os aficionados percebem sem esforço excessivo, mas que para o ouvinte casual nada significam e a nada conduzem. Às vezes me conecto ali durante horas seguidas. Ouço-os sempre falar da possibilidade de um gesto estético capaz de salvar um minuto de tédio e transformá-lo num minuto de eterno êxtase. Pouco me importa quando disseram aquilo: a data, o dia, o século em que disseram aquilo. O que existe, existe o tempo inteiro, e por toda a eternidade. Tudo que existe sempre existiu, e existirá para sempre. Os Falantes existem e são onipresentes, ubíquos. Estarei me tornando um deles? Um corredor com pé direito altíssimo, piso de silent-mármore, webs coloridas pendendo do teto como grandes capuchos onde piscam em 3-D mensagens sucessivas em cores alternadas. Ao longo do corredor, caixas de som são tamboriladas num Concerto Zimoun pelo vento encanado que me conduz a um terraço. O rufar profundo das caixas fica ensurdecedor quando chego à balaustrada protegida por uma cúpula transparente. Cada vez que venho aqui entro em blank mode, para que seja sempre a primeira vez que vejo minha Cidade, daqui do alto desta Supertorre a que nem toda senha dá acesso. Quero vê-la sempre assim, para poder experimentar de novo a tontura do excessivo, o peso dos fatos consumados, o desdobramento exponencial das nossas possibilidades de divina tragédia e de comédia humana. É uma compreensão inexplicável que me assalta, e da qual, felizmente, ninguém me pede contas.



Stefan Saalfeld



Delta Inc



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Zander Blom


O carequinha olhou pra árvore recém surgida no túnel do esgoto e disse:

— Isso aí faz parte.

Olhei pra cara de louco dele. Estava mais assustadora do que antes, olhos arregalados meio trêmulos e narinas escancaradas, inalando o estranho perfume que substituíra o fedor de aborrecimento que ocupava anteriormente o ambiente. — Faz parte do destino espetacular que nos aguarda quando saírmos daqui e nos pegarem lá fora? — eu disse. Ele se virou pra mim e arrancou a máscara que escondia lá dentro de seu roupão sem fundo. — Bichô, faz parte da Parada ABSOLUT! Tava tudo previsto. Quando programei os passos que precisaria dar pra acessar novamente o becape da COM, criei alguns obstáculos. Afinal, era preciso proteger a bagaça, além disso eu poderia sofrer uma lavagem cerebral e deixar de ser eu. Se eu fosse eu, eu poderia confiar. Se eu não fosse mais eu, é claro que não podia. Mas pra saber que eu sou eu, tive de criar algumas pegadinhas, entendeu? — Não, mas quem sou eu pra entender, não é? — falei — E agora, fazemos o quê? — Deixamos a árvore quietinha aí e saímos. Ainda falta reunir outros detalhes pra Parada ABSOLUT funcionar em seu máximo efeito. E esses detalhes estão lá fora, no mundo aí de cima. Então o gordo carequinha de roupão escalou a escada que dava no buraco pelo qual nós tínhamos entrado. Apesar de não ser grande fã de altitude, lá fui eu atrás. Ao olhar pra cima, a impressão que tive era de que o carequinha estava transtornado, pois ele agarrava os degraus com tamanha ferocidade a ponto de parecer outra pessoa. Conforme as pontas de seu roupão aberto se movimentavam, eu podia ver o tico murcho do carequinha saltitando pra lá e cá, e só por meio dele pude reconhecê-lo: ainda era o mesmo gordo carequinha de roupão com seu tico rebelado. Pra falar a verdade, já era a segunda vez que via aquela paisagem de baixo pra cima e isto já começava a me cansar. A primeira vez foi quando fugimos do hospício. Da próxima vez que escapássemos eu inverteria a situação e tomaria a dianteira.



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Zander Blom


Depois de gastar alguns minutos com essas elucubrações, percebi que a escada aparentemente não tinha fim. Como era possível, se tínhamos vindo por ela e na descida parecia muito mais curta? Berrei isso ao carequinha, mas ele continuava sua subida desenfreada e não me ouviu. De repente, sumiu. Mas logo sua calva lustrada reapareceu, recortada pela saída circular do bueiro. Ele me deu a mão e sussurrou “cuidado” em meu ouvido enquanto eu subia. Quando afinal consegui ficar em pé, descobri que estávamos numa torre altíssima, de cujas janelas era possível observar o centro devastado da cidade de São Paulo. Decidi de antemão não perguntar nada ao meu comparsa, pois estava cansado de respostas absurdas. Cheguei perto do parapeito e vi que lá embaixo estava a praça da Sé, portanto nos encontrávamos em uma das torres da catedral. Do bueiro para a torre, do inferno para o céu. Aquele gordo carequinha só podia estar de brincadeira comigo.

— Ei, psiu. Não olhe agora, mas tem um Crazy Daisy bem ali — disse o carequinha.

Ao meu lado, notei um homem parado. Parecia em transe, olhando pra nós. Um som ensurdecedor ocupava o corredor com pé direito muito alto, piso de silent-mármore, webs coloridas que pendiam do teto como grandes capuchos onde piscavam em 3-D mensagens sucessivas em cores alternadas. O Crazy Daisy estava em blank mode, acessando informação proibida de alguma forma. Ele então abriu os olhos, saindo de seu delírio sonoro, e veio em nossa direção. Agarrado à máscara que o homem tentava arrancar, o gordo carequinha o empurrou pra cima de mim, que sem querer (estou biologicamente condicionado à não violência) passei-lhe uma rasteira. Após tropeçar em minha perna, o Crazy Daisy tombou pela janela da catedral da Sé, indo se espatifar lá embaixo e afugentando os loops que se reuniam na praça. Nesse instante tocou a sirene.



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#054


Delta Inc

Registro rápido dos últimos acontecimentos: Jared entrou na sala pedindo a atenção de todos. “Delta Inc”, disse. Repito com ele o que parece ser uma frase importante. — Hoje trago uma informação que coletei há pouco, em antigos arquivos — ele diz, com seu sotaque. — Quando inaugurado em 2030, o Museu Guggenheim de Abu Dhabi possuía tal esplendor — como temos visto em um número cada vez maior de fotos trazidas a esta reunião — que atraiu as multidões para uma cidade até então sem graça, sem cor. As superfícies retas, negras, cheias de pó e enferrujadas de agora são uma vaga lembrança, ruína desbotada de um edifício brilhante. — Artigos em jornais — folhas impressas num papel cinza — cunharam o termo ‘Efeito Dhabi’ para descrever o poder, embora controverso, daquela construção. Pelo que pude apurar, seus contemporâneos não a valorizaram o suficiente. Não percebiam a inteligência urbana, o vanguardismo de seus movimentos, e a desprezavam como ‘besteira’, ‘formalismo puro’, ‘aleatoriedade maldita’. Henrique, por favor traga a régua e o transferidor. Levanto-me de imediato, deixando meu bolo pessoal de imagens do museu no chão. “Vamos medir de novo, precisamente, os ângulos formados aqui deste lado.” Pelo que Jared diz, as décadas seguintes ao Efeito Dhabi foram sucessivamente desistindo daquela “aleatoriedade”. Por isso, explica ele, São Paulo está cheia de caixas de concreto, vedadas hermeticamente com vidro. Resolvi começar a anotar algumas coisas, mas agora devo acessar meu histórico de conversões de pés para metros e (...)



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Henrique chegou ao grupo não faz mais de um ano. Decidimos aceitar um membro com perda de memória recente. É irmão do Felipe. Gostaria de ajudá-lo, de alguma forma. Somos um grupo diferente, todos aqui possuem sua memória intacta. Em 2040, quando Delta Inc ganhou o concurso para o novo Museu do Ipiranga, em São Paulo, o cenário arquitetônico ficou estremecido. Aqueles que ficaram felizes com o projeto vibraram e postaram nas redes sociais fotos das maquetes eletrônicas divulgadas. Os da oposição, a maioria do Instituto de Arquitetos — que começava a propor à Câmara as leis do novo código de obras —, deram um jeito de embargar a construção. Seguiu-se uma série de equívocos que terminaram por limitar as novas edificações cada vez mais — prismas de apenas quatro faces quadrangulares, fachadas iguais, obrigatoriamente de vidro. Hoje, por acaso, Henrique parece menos confuso que o normal. Responde rápido às solicitações que lhe fazemos. Maneja o lápis — toda vez que aprende a usá-lo é assim — da mesma forma desajeitada de uma criança de seis anos. Felipe chega ao seu lado, respira um pouco, ensina o irmão a melhor maneira de segurar o instrumento. Provavelmente travam uma rápida conversa na qual o mais velho explica o sentido daquela reunião, o passado por trás de minhas palavras, o acidente em que os pais deles se envolveram. Foi um dos mais terríveis dos últimos tempos: o elevador perdeu o controle e descarrilhou, esmagando os ocupantes — apenas eles dois — no porão do prédio onde trabalhavam. Conselhos foram convocados para estudar o acidente; aparentemente, o defeito foi gerado por uma pequena peça de metal que havia trabalhado em excesso, processo que o tratamento prévio deveria ter evitado. Algo saiu do lugar. Aqui cada um tem seu lápis. São feitos de um material especial, o grafianto sintético, que se renova a cada riscada. Costumamos desenhar cópias do Guggenheim de Abu Dhabi, visto de diferentes pontos. Desenvolvemos, juntos, técnicas de sombreamento para melhor representar as retas e a sobreposição em perspectiva dos volumes prismáticos. Os membros podem se basear uma das 1240 fotos do museu que já conseguimos coletar e pregamos nas paredes. O Felipe veio agora há pouco até meu quarto. Deu-me algumas explicações: eu devo me levantar, dirigir-me à cozinha onde ele deixará meus ovos e torradas prontos, ir normalmente ao trabalho e fazer o que sei fazer. Mas depois, ao invés de seguir o fluxo normal, tenho de voltar para casa. Ele vai me ligar novamente no horário determinado para me lembrar disso. Já há alguns anos, me informa, parei de frequentar meu círculo usual, para dedicar-me aos encontros do loop Delta Inc com ele. Tudo que o Felipe me conta não deixa dúvidas: foi realmente um avanço parar de encarar, dia após dia, aqueles mesmos rostos, por instantes sem fim.



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Se pudesse recuperar alguns momentos da minha existência, voltaria à infância, quando nossos pais ainda estavam vivos e me pediam para ter paciência com o Henrique e não me irar. Ambos eram arquitetos. Nesses momentos, após me acalmar e explicar por que ele era assim, pegavam um mapa mundi dentre os muitos da nossa coleção. Eles me relatavam o que sabiam pelos seus avós: das guerras por territórios, dos limites flutuantes, de países enormes e pouco populosos como o Canadá, ou outros menores mas com gente saindo pelo ladrão como a Índia. Da ideia de lugar, que muitos arquitetos acreditavam, incorporando à sua profissão as características locais, os materiais usados por gerações e gerações antes deles. De como a arquitetura foi se tornando global, sem fronteiras, pasteurizada e padronizada, e os conflitos por causa disso, os starchitects em decadência, a resignação deles próprios à forma e a busca quase incansável que empreenderam pelo melhor detalhe, pela máxima eficiência construtiva. Cresci fissurado por essas imagens cartográficas. Podia ficar horas olhando para as antigas fronteiras dos países que existiam antes de começarem a se tornar uma ideia, e uma ideia musical, como me explicavam: cidadãos unidos não por uma fronteira, não por costumes próprios nem mesmo etnia, religião, geografia, mas por um hino em comum. As terraplanagens, os aterros, a crescente serialização, o abandono de antigas construções e a demolição de muitas torna quase impossível distinguir os países por seu aspecto físico. Os poucos edifícios que restam, abandonados como a Catedral da Sé em São Paulo, são gradualmente esquecidos, como uma memória insignificante de nossa infância, ou a vesícula, órgão do corpo humano facilmente descartável e quase sem danos, ou mesmo o dedo mindinho, cuja falta notaremos somente se for imobilizado ou amputado.


#058



Delta Inc


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Tornei-me um engenheiro de peças de construção — trabalho nada criativo, pode-se dizer. O loop Delta Inc, então, foi um alívio para mim. Já conseguimos localizar no mapa o local exato em que o Museu Guggenheim de Abu Dhabi foi construído, ver em alguns noticiários partes dele hoje em dia, já escuro, em ruínas. Dedicamo-nos basicamente a contemplá-lo, de diferentes modos. Às vezes nos arriscamos a inventar um edifício a partir de seus princípios e proporções fixadas, mas só chegamos a cópias mal feitas e desmesuradas daquele que consideramos a obra arquitetônica máxima do homem. Fora as informações truncadas sobre o Concurso do Museu Ipiranga, desconhecemos outras obras de Delta Inc. Sem saber, meus pais ajudaram na construção da cidade que os expulsaria brutalmente. O acidente foi há exatos dez anos. Trabalhavam num dos prédios “projetados” por eles — na verdade já não havia edifícios “assinados”; as assembleias arquiteturais, como eram conhecidas, reuniam cerca de trinta profissionais responsáveis por tomar algumas decisões de construção, dentro de um padrão. Uma peça com um defeito raro em um dos elevadores, segundo apuraram, foi a responsável. Agora, eu e meu irmão moramos sozinhos. Desde que aconteceu, as reuniões têm sido cada vez menos frequentes. As reservas de papel e tinta que recebi de herança e guardo comigo a sete chaves estão prestes a acabar. Perdemos muitos membros. O Felipe se foi, deve estar tentando ressituar o Henrique no mundo, em seu novo estado: sem a com, o irmão mais novo possui dificuldade de executar as tarefas mais básicas; todos estamos confusos, mas pessoas como o Henrique ficaram completamente desnorteadas. Ouço que alguns ex-participantes descobriram outras obras de Delta Inc pelo mundo e saíram à sua caça. Dizem haver um antecedente do Guggenheim de Abu Dhabi numa cidade espanhola chamada Bilbao. Acho pouco provável. Passo meus dias fazendo basicamente duas coisas: contemplando o edifício e algumas imagens dos quadros de Koen Delaere. Estes, que sempre foram tão misteriosos para mim, começam a fazer sentido: o mundo está embaralhado, o ruído predomina, nada mais é claro. Meu corpo lateja, há alguma dormência em meu abdômem. Recordo ter tido tal sensação em algum momento. Felipe me disse que não, que ontem houve uma grande mudança, a qual explicaria minha dificuldade no trabalho, a desorientação e a tontura que sinto agora. Sem a com, iniciou-se uma busca desenfreada pelas obras de arte perdidas, pelos mindinhos que, sem saber, sentimos muita falta. Um grande mapa mundi marcando apenas a distinção entre os continentes e o mar, além da localização precisa das setenta árvores restantes, foi pendurado na entrada da Catedral da Sé. Nele marcam-se essas novas descobertas artísticas. Caminho pelas vias de uma parte antiga de São Paulo, próxima à catedral, onde todos têm se reunido. Em um muro vejo o trabalho ainda inacabado de alguns restauradores: deviam estar descascando camadas e camadas de pó e tinta que escondem o que me parece ser uma das primeiras obras de MOMO na cidade. Se pudesse, chamaria alguém para fazer o mesmo comigo. Em que momento tudo parou e foi sedimentado? Quando foi que, mesmo tendo memória de elefante, como meus pais diziam, optei por ficar horas e horas desenhando um museu, esquecendo-me de todo o resto, a Isabela, a coleção de mapas, meu antigo apartamento?



Delta Inc



Delta Inc


Passo os dias juntando os desenhos dos membros que, já há mais de um ano, sumiram de vez. Penso em encaderná-los como livro e entregar à Secretaria Máxima. Sou Jared, Jared. O Gringo. Esta será minha introdução ao livro: Meu nome é Jared, sou o supremo conselheiro do loop Delta Inc. Aqui me chamam de Gringo, mas apesar da gozação sou responsável por todas as medições, impressões, todas as descobertas desse grupo. O LDi se dedicou ao estudo milimétrico e incansável do Guggenheim de Abu Dhabi. Assim começarei o livro, mas talvez o melhor seja iniciar com um agradecimento. Não, não tenho a quem agradecer, esses ingratos é que deveriam estar me dizendo obrigado por ter aberto seus olhos para a beleza verdadeira. Começarei com o sumário então. Depois a introdução, os desenhos e as imagens coletadas por mim. Sou o responsável por tudo isso aqui. Acabamos de ver uma mostra retrospectiva do grande Filippo Minelli. “Henrique!”, meu irmão gritou a certa altura, chamando a atenção dos outros visitantes, de certa forma me repreendendo pela minha distração. Explicou que a minha memória é como essa série, Silence/ Shapes, umas nuvens de cor em meio a diferentes paisagens. As coisas surgem, belas e coloridas, em diferentes contextos, mas logo se vão. O que fica é o registro. Essa paisagem não vai se repetir, a forma colorida que a câmera captou nunca vai ser a mesma. Olho novamente para as reproduções, não tinha reparado bem. É esse o motivo, ele diz, de insistir tanto para eu continuar escrevendo, sem parar, mesmo que não esteja com vontade.


Delta Inc



Zander Blom


#076


Zander Blom

Assim que o Crazy Daisy despencou pela janela, o gordo carequinha saiu abanando seu roupão desfraldado pela escadaria abaixo. Fui atrás, apesar de não aguentar mais ver degrau na frente, a sirene zoando atrás de nós. Pelo menos desta vez era pra baixo, e não precisei ver o traseiro peludo dele. Pra minha surpresa, ao dobrarmos o primeiro lance de escada deparamos com a praça da Sé: chegamos ao térreo em menos de dois segundos. Havia algo de estranho com a física, e aquele carequinha ia me explicar. Porém o bicho entrou numa construção em forma de cubo de concreto cercada de vidro no meio da praça. Eu o segui, no entanto ele não estava lá dentro: o carequinha tinha sumido, e não restara nenhum sinal dele no ar, nem mesmo um pum colorido. Olhei pra trás pensando em sair, mas pra minha total infelicidade o Crazy Daisy que despencara da torre tinha acabado de se reerguer e limpado a poeira ensanguentada do paletó como se nada tivesse acontecido. O cara havia caído de trinta metros de altura, que diacho era aquilo? Depois de se levantar, ele olhou pra mim e começou a correr em minha direção, e conforme fazia isso se multiplicava em reproduções idênticas de si mesmo, várias, diversas, muitas. E aquela multidão tinha um só alvo: euzinho da silva, o pobre-diabo.



Koen Delaere



Koen Delaere


Ernesto Artillo


Tinha os braços finos e musculosos. Tinha os cabelos louros e uma pequena tatuagem de coração no braço esquerdo. Seu rosto era pequeno e de traços delicados e numa manhã, parada na rua, sentia que a fazia estremecer, perdida nos próprios pensamentos, quando toquei de leve seu ombro. — Então você está aqui — eu disse. — Eu conheço você? — Você não vai se lembrar agora, mas somos casados. — Casados, nós dois? Tem certeza? — Toda. — Bem, isso é novidade para mim. — Posso garantir que sim. — Bem, você parece saber do que fala. — É claro que sei. Agora eu preciso de um favor. Não temos tempo nesse momento. Então eu preciso que você me faça esse favor sem pedir explicações. Você é capaz de fazer? — Fazer o quê? — Presta atenção, eu preciso que você preste atenção. — Estou prestando. — Você vai ter que me fazer esse favor, um favor importante, que é me acompanhar agora sem perguntas. Temos que ir para a catedral. — Hm. Isso não me parece bom. Afinal, não nos conhecemos. Você é um estranho pra mim. — Somos casados, já disse. Marido e mulher. Não temos tempo agora para explicações. Todas as explicações serão dadas lá dentro, mas agora, é realmente importante, precisamos ir.



Koen Delaere



Koen Delaere


Para chegar à igreja, seguimos pela praça lotada. Comigo abraçado firmemente a ela, a caminhada lembrava o momento cômico dos antigos filmes de zumbis em que as pessoas, para escapar dos zumbis, precisavam fugir pelo meio deles fingindo também ser zumbis. As pessoas que estavam por ali quando tudo aconteceu simplesmente ficaram pela rua, sem voltar para lugar algum. Deixados a vagar, lentos e sem rumo, indo e vindo das mais variadas direções sem certeza de chegar a lugar algum, homens e mulheres batiam sem querer uns nos outros numa reprodução viva de um antigo brinquedo de parque de diversão onde o mesmo podia ser feito com carros. Mas se há um momento nos antigos filmes em que os zumbis descobrem que os outros não são zumbis, não passam de humanos comuns disfarçados, e tentam comer seus cérebros, nesse caso todos apenas agiam de maneira simpática, cumprimentando uns aos outros a cada trombada mesmo quando não se tratava de um conhecido. Podia ser por causa dos inputs que antes programavam seus cérebros e, mesmo desligados, produziam ainda um resquício de informação ou um condicionamento biológico de uma vida inteira recebendo estímulos para conter os impulsos humanos considerados violentos, tornando cada um o maior exemplo de cordialidade. Ou porque não podiam ter certeza de não conhecer realmente cada pessoa. Fosse pelo que fosse, não nos impediram de atravessar. Deixando-os para trás, chegamos à porta principal da catedral só para descobrir que estava fechada. Mas, dando a volta, ela encontrou uma porta nos fundos, menor do que as portas normais, aberta.


Ernesto Artillo



Koen Delaere



Koen Delaere


Ernesto Artillo


A catedral atualmente se encontrava sob a administração da cidade de São Paulo, mas eu e ela pertencíamos ao grande país de Hipatropic Doyobi Drive in Freefall_Dinosaur Green revisited. Pena que ela também não se lembrava disso. Vinda de algum lugar, uma voz robótica alertou: — Atenção: este é um prédio público. Proibido rezar. À nossa chegada, um pequeno grupo parou de conversar. Deixei-a sentada em um banco e, me dirigindo ao lugar onde estavam, fui abraçado pelos demais. Depois de dois anos nos reunindo, eram quase todos conhecidos. Na verdade, apenas no caso do homem grande, com os braços gordos tatuados, barba rala e o cabelo espetados, podia dizer que nunca o havia visto na vida. Sentado duas fileiras atrás, ele pareceu se dar conta disso e, notando meu olhar, virou-se na minha direção. — Todos os dias — disse —, ao fechar os olhos, sou tomado pela visão dessa mulher que é a seguinte: ela é loura e tenho certeza de que é bonita, mas ao mesmo tempo não posso realmente ter certeza porque em meu sonho seu rosto é formado por pixels que não estão todos nos devidos lugares, estão deslocados, projetando-se no vazio, e ao mesmo tempo que distorce o rosto dessa bela mulher, esse efeito de alguma forma também torna sua beleza irresistível. Velho, isso é foda. Minha falta de resposta não o intimidou. Certamente era do tipo que gosta de falar. O assuntou mudou para a proibição das religiões. Apontando para o alto-falante, balançou a cabeça em um gesto de censura para reforçar o que dizia. — Veja, amigo, ninguém protesta. Ninguém. A essa altura, a religião não é assunto que mobilize paixões, como no passado. O Cristianismo e as outras religiões estão enterrados, suplantados pela nossa nova ordem como as antigas religiões e crenças que um dia eles mesmos tornaram obsoletas. Suplantamos as paixões por essa era racional e agora que pedimos tudo de volta, será que ao olharmos bem no fundo de nossas paixões encontraremos um deus? Perto de mim, outro homem jovem, baixo e precocemente calvo, com a barba por fazer, deu sinais de ter algo importante a dizer, mas antes de qualquer coisa acabou interrompido pela chegada de um casal, que irrompeu carregando bandeiras esfarrapadas e desbotadas. — Liberdade — os dois berraram e então se beijaram ruidosamente. À medida que chegavam mais pessoas, a mesma cena se repetiu e repetiu. O salão foi tomado por relatos pessoais sobre o grande pane. — Aconteceu que eu estava em um tobogã — gritou uma garota bem perto de mim. — Minhas irmãs gostam de andar no tobogã. Passam o dia inteiro andando como se fosse a primeira vez. É impressionante alguém nunca sofrer de tédio, mas elas não sentem nem por um minuto. Trágico, não?



Koen Delaere



Koen Delaere


#100


Ernesto Artillo

Não acho que a vida se move por acontecimentos fortuitos. Acho que tudo acontece por uma razão e nesse caso a razão foi na primeira vez em que a vi. Ela me pediu para segurar seus óculos. Nos encontramos muitas vezes depois disso, sempre trocando palavras amáveis e rápidas no elevador ou na portaria. Chamem de carisma, simpatia, calor humano, do que quiserem, algumas pessoas são dotadas dessa habilidade de fazer com que os outros gostem dela sem nenhum esforço. Para ela, foi meramente o trabalho de pronunciar um sem número de vezes essas duas palavras mágicas e banais: “bom” e “dia”. Mas também é verdade que bastaria ouvi-las apenas uma vez para o resultado ser o mesmo. É curioso, mas não tentei saber onde morava. Até hoje não sei o número de seu apartamento e agora provavelmente nunca vou saber. Semanas depois, usava a mesma roupa de agora quando entrou no elevador no meu andar. Achei que estava mais bonita do que o habitual, mas obviamente não fiz nenhum comentário. Descendo em silêncio até o térreo, chegamos à portaria. Cada um tomava seu rumo quando ouvi um zumbido tão forte que me fez cair de joelhos e a pior dor de cabeça que tive na vida. Ainda restaram forças para tentar abrir os olhos e seu corpo caído à minha frente foi a última coisa que pude ver antes de apagar.



Koen Delaere



Koen Delaere


Agora ela cochilava em meus braços. Acordou de repente e pela milésima, o ar surpreso e assustado, fez a mesma pergunta. — Somos vizinhos — respondi. — Moramos no mesmo prédio. — Vizinhos... Mas como? — Você desmaiou. Quando tudo aconteceu nós dois desmaiamos. Mas você levou um pouco mais de tempo para acordar. As pessoas continuaram a chegar por mais um tempo. O clima de euforia lembrava o das festas da vitória, quando havia guerras e ao final de um conflito todos achavam que podiam relaxar por um momento, imaginando que os problemas futuros jamais poderiam ser como aqueles que haviam acabado de derrotar. Então ouvimos sua voz impaciente. O homem barbudo de camisa xadrez voltou a falar. Subiu em um banco para ser melhor ouvido.

— Não vamos esquecer o principal. Virando-se para os outros: — Vocês trouxeram?

Em silêncio, todos abriram mochilas e os sacos que carregavam, retirando de dentro um objeto. Uma dezena de livros de papel surgiu de repente sobre os bancos da igreja.


Ernesto Artillo



Koen Delaere



Koen Delaere


Ernesto Artillo


— E por que você me diz que somos casados? — Por alguma razão funciona. De todas as frases que tentei, é a que funciona melhor. Não é que não tenha tentado outras coisas. Que sou seu irmão. Que somos amigos, por exemplo, ou mesmo namorados. Que sou seu chefe. Mesmo que sou um criminoso, o que também me obriga a te ameaçar. Mas só dizendo que sou teu marido consigo fazer você me obedecer. Ambos rimos. — Bem, isso talvez diga algo sobre mim. Mas e agora? Volto a esquecer de tudo? — É o que tem feito desde que estamos juntos. Mas há uma opção. Posso não mentir mais para você. Não é minha intenção te enganar. Juro. Se você disser que quer que seja assim, sempre vou te falar a verdade mesmo que a cada vez você continue a esquecer de tudo novamente.

— — — —

Está dizendo isso por dizer. Eu nunca brinco. Mas por que cuidar de mim se não nos conhecemos? Nos conhecemos de alguma maneira

— E se eu preferir a mentira? — Vou continuar a mentir que sou teu marido e te levar comigo. E se houver um tempo em essa informação de alguma maneira ficar retida, não quer dizer que vá, apenas que possa não desaparecer, e você passar a pensar que somos mesmo marido e mulher, caso pergunte sobre nosso casamento, vou dizer que naquele dia, como acontece nos casamentos de hoje, só nós dois comparecemos e depois cada um rumou para seu próprio lar com a concordância de que daquele momento em diante, estando casados, passávamos a ter obrigações especiais um com o outro, como nos vermos em certas datas e um comparecer ao enterro do outro. Direi que naquele dia, como em todos os outros casamentos, eu dei a você uma lista das minhas músicas e filmes favoritos e você me deu uma lista dos seus filmes e músicas favoritos. E que no dia seguinte, cada um acordou sozinho. Escondeu o rosto por um instante: — Espera — disse entre lágrimas. — Já sei o que dizer. Mas depois de alguns segundos, quando me olhou novamente, foi para perguntar:

— Quem é você?

Novos gritos de alegria ecoaram com a chegada dos últimos de nós. Sem dar importância a eles, segurei suas mãos e disse tudo mais uma vez.



Koen Delaere


#116


Manuel Fernรกndez


Manuel Fernรกndez



Zander Blom


Não existia outra saída pra mim, a não ser entrar de vez na grande construção de concreto revestida de vidro. O interior do lugar, porém, não correspondia à sua forma externa de cubo, lembrando o altar de uma catedral. Enquanto corria, passei por um grupo de pessoas que seguravam objetos nas mãos. Pareciam livros, mas pensei que não existissem mais. Em meio ao loop, um casal se beijava. Também achei que isso estava extinto, principalmente depois de descobrir que minha mãe é um andóide. Todos os beijinhos que ela me deu eram falsos, mecânicos. Beijos de araque. Esqueci os beijoqueiros assim que lembrei que estava em meio a uma perseguição, e por acaso o perseguido era eu. Foi quando ouvi um chamado conhecido. — Psiu, bichô! Onde você vai com tanta pressa? — era o gordo carequinha. O tico continuava murcho. — Vem ver que maravilha. Olhei pra trás e descobri que Jackson e seus robôs-jardineiros tinham saído de dentro de um belo confessionário de madeira do século… do século… ah, não interessa de que século era: Jackson e seus pimpolhos surgiram de um lugar impossível e detonaram as cópias dos Crazy Daisy com um jato de mangueira paralisante que os desintegrou completamente, esparramando estilhaços de poliuretano transparente por toda a abóbada da catedral-cubo. — Não esquenta que isso também faz parte — disse o carequinha abelhudo. — E que horas teremos o todo? — minha impaciência começou a apitar. — Afinal, tem tanta parte. — Logo, logo. Vem aqui, vem.



Manuel Fernรกndez


Manuel Fernรกndez



Eu fui. Ao me aproximar, percebi que o gordo estava diante de um imenso mapa mundi em forma de painel que se iluminou assim que tocou sua palma da mão nele. — Está programado para reconhecer todos os sulcos de minha palma da mão, não apenas as impressões digitais. — E se não reconhecesse? — Aí seria porque provavelmente eu não seria eu, e se eu não fosse eu tudo daria errado comigo e contigo. — Acho que já conheço essa história. — Podia ser também que eu não tivesse mais mãos, e daí tudo ficaria um pouco mais complicado. — E quem se interessaria em afastar esse seu corpo flácido de suas mãos, os Crazy Daisy? — Ou Jackson, vai saber. Agora chega de me atrapalhar, pois em meio minuto vou esquecer o que estava fazendo. — Certo. O gordo carequinha então retirou a flâmula que estava colada no peito de seu roupão. Era a silhueta de uma árvore, e a flâmula se soltou tão graciosamente do tecido esgarçado que parecia ter sido fabricada pra isso, pra ser destacada. No painel aceso todos os detalhes geográficos do mundo foram apagados, divisões de continentes e oceanos, de cidades e desertos, restando somente as 70 árvores iluminadas. Meu comparsa dispôs a flâmula de árvore no painel, e ela colou imediatamente, como se sempre tivesse pertencido àquele mapa mundi. O local em que a árvore estava no mapa mundi era o subterrâneo da praça da Sé, pois aquela era a árvore que acabáramos de descobrir, a 71ª do mundo. Então todas as árvores do painel começaram a brilhar intensamente até ocorrer um estrondo, o teto do cubo-catedral sair voando e as paredes que nos cercavam sumirem no espaço como se nunca tivessem existido. Quando olhei pra trás, em busca de Jackson e seus robôs-jardineiros, observei que o casal que se beijava e seus companheiros loopers tinham se transformado em estátuas de cinzas, que em segundos foram sopradas pelo vento da tempestade se aproximando e carregadas pra longe.


Zander Blom



Henrik Isaksson Garrell



Henrik Isaksson Garrell


Lauren Pelc-McArthur


Eu não sonho. Nunca sonhei. Sempre ouvi dizer que antes da COM as pessoas costumavam sonhar, mas eu não sei. Faz tanto tempo que ela saiu do ar e até agora não aconteceu. Pelo menos comigo. Eu ainda não sonhei. Não sei se outras pessoas estão sonhando agora que não tem mais COM. Eu não saio mais de casa. Se já nunca saía antes do vírus, agora mesmo é que não vou sair. Parece que voltaram a falar por aí. Às vezes, no meio da noite, fica tudo tão quieto que consigo ouvir quando passam na rua pessoas conversando. Mas não consigo. Nunca aprendi a falar. Tem gente que esqueceu. Deve ser pior. Confesso que sempre tentei. Eu abro a boca, mexo a língua, os lábios, contraio todo o pescoço, puxo o ar dos pulmões com agarganta e empurro pra cima com a barriga. Mas não sai nada. Às vezes me pergunto se algum dia vou conseguir. E às vezes me pergunto: por que tentar? Hoje, quando o entregador do Sadi Rani trouxe meu almoço (sopa de músculo picante suculenta e deliciosa), ele falou comigo. Me disse ‘bom proveito’ e também que chama farsi o idioma em que ele me disse ‘bom proveito.’ Eu, todavia, nada disse. Quando abri a tampa do pote de metal polido, vi que sobre um naco de tendão reluzente repousava um grande comprimido azul-claro, que devagarinho estava sendo consumido pelo molho quente de tomate. O comprimido era claramente artesanal, uma peça bastante rudimentar, com a figura de uma nuvem entalhada grosseiramente em alto relevo.

Naquela noite, senti um músculo retesar de forma importante no baixo ventre.

Mas não sonhei.



Henrik Isaksson Garrell


Meu pai morreu bem no dia em que a COM se autodesligou. Uma das primeiras vítimas do “vírus Kinsey”. Foi a coisa mais esquisita, porque fazia muito, mas muito tempo que ninguém morria na nossa família. Minha bisa falou que tudo bem, isso é da vida, mas eu fiquei pasmo. Parece que no começo do milênio era bem comum, e que acontecia com todo mundo. No início, pensei que o módulo dela estava mal conectado, ou tinha sido desmagnetizado por acidente. Sei lá, pra ela falar uma bobagem daquelas, pensei, ela tinha de estar com algum problema na COM. Não tinha outra explicação. Mas aí me dei conta de uma coisa: não tem mais COM. Meu pai morreu. Tem alguma coisa muito horrível acontecendo por aí. E mesmo assim tem gente comemorando. Não consigo entender. Também ainda não consegui entender direito o que foi que aconteceu, pra começar. Sei que teve o vírus, e que foi o vírus que matou meu pai. Mas não sei de mais nada. Ninguém sabe. E sem a COM eu não sei nem onde procurar. Parece que no passado era pra isso que serviam os livros, mas vai saber. Hoje em dia não tenho mais certeza de nada. Quando eu começo a ir atrás de informação, sempre acabo me esquecendo do que estava fazendo e acabo envolvido em qualquer outra coisa. Daí, em algum momento, acabo lembrando do que estava fazendo, começo a ir atrás de novo, mas na verdade eu meio que já até me esqueci do que estava falando. Era sobre o meu pai, não era?

Isso, o meu pai. Ele morreu bem no dia em que a COM se autodesligou.


Lauren Pelc-McArthur



Henrik Isaksson Garrell


#140


Lauren Pelc-McArthur

Passei por uma mulher agora ali na rua e, rapaz, que que foi aquilo? Eu nunca tinha sentido nada igual. Bati meu olho no dela e vi que o pupilão tava inchadaço. Estranho. Tou acostumado a ver mulher, mas nunca tinha visto uma com a pupila tão dilatada. Meu sangue começou a subir pra cabeça, jorrar com força no peito, no pescoço, inchando as veias, esquentando o corpo. Na barriga um frio estranho, pedras de gelo pontiagudas virando cambalhotas dentro do estômago. As pernas moles, sofrendo da síndrome da gelatina de carne. A respiração ficou curta, um nó na garganta. E ela: cada vez mais perto. A cada passo, a cada clique do sapato, a cada giro de quadril, a sensação de que aquilo ia culminar de algum jeito, nalguma coisa. Mas o que aconteceu foi isto: nada. Ela passou por mim sem nem me olhar, e eu fiquei ali à beira de um colapso completo. Tive de me escorar numa parede para não desmoronar. O que foi que aconteceu? O que tinha essa mulher? Que medo de cruzar com outra mulher na próxima esquina. As coisas andam muito estranhas desde que a COM se autodesligou.



Henrik Isaksson Garrell


Lauren Pelc-McArthur


Uma pequena janela em uma porta de ferro sem maçaneta se abre. Os olhos verdes de um homem velho e as redondezas enrugadas de sua pele negra são tudo que se vê. Há três homens do lado de fora; eu e mais dois. Um grandão toma a iniciativa. — Boa noite. Ouve-se o som de uma tranca e a porta se abre, sem fazer nenhum rangido. — Seja bem-vindo. Pode entrar. A porta volta a se fechar. O segundo homem — também um grandão — imita o primeiro. — Boa noite. — Muito bem! Pode entrar. Chega a minha vez. — Boa moich. O negro abaixa um pouco a cabeça, deixando à mostra a testa franzida. Ele me olha fixamente nos olhos e fala de uma forma calma e bem articulada — todavia ríspida e severa: — Repita mais uma vez, por favor. — Boa moite. — É quase isso. Uma última tentativa, por favor? — Boa — reuni todas as minhas forças. — ... noitche?

O velho ficou me olhando em silêncio por um instante. Em seguida, o som da tranca. — Ainda não está bom, mas já é o suficiente. Pode entrar.

Faz apenas uma semana que descobri este grupo. Eu nem sabia que isso existia. Foi um vizinho quem me indicou. Uma tarde, enquanto alongava meu corpo hirsuto em meu confortável quintal, cometi um pequeno lapso fingindo que não conseguia me lembrar de algo que claramente eu me lembrava. Meu vizinho, que não tinha problema algum com sua memória, percebeu que não havia problema algum com a minha memória. Em seguida, abriu um sorriso significativo, atravessou num trote acelerado o gramado e me alcançou um cartão com endereço e horário. Ainda não consigo pronunciar as palavras direito. Também, já fazia tanto tempo. Minhas cordas vocais certamente atrofiaram. Tem coisas que eu ainda não consigo dizer. Fonemas mais complexos, como lhé ou ã, simplesmente não saem. Também tenho dificuldades em diferenciar p de b e m de n. Meu vizinho disse que é normal, que em mais algumas semanas estarei falando tudo com perfeição. Tomara mesmo. Queria muito falar de novo. Conversar. Nossa, como é bom conversar. Que excelente a mera possibilidade de voltar a fazer isso. Essa noite o tema da conversa era “novela brasileira”. Um dos caras está explicando que é totalmente diferente da “novela mexicana” e da “soap opera americana”. Estão falando de grandes autores, de grandes atores, dos diretores, da evolução técnica que acompanhou a sofisticação do público. Eu não estou entendendo muita coisa, mas me dou por satisfeito só de estar aqui, ouvindo as pessoas falarem. Como estou feliz. Mesmo curvado, prostrado e consagrando narrativas melosas de baixíssima qualidade do começo do milênio: que saudades eu tinha do excelente som da voz humana.

Como estou feliz.



Henrik Isaksson Garrell


Quando acordei esta manhã o mundo estava exatamente igual a como eu o tinha deixado quando fui me deitar noite passada. Meu banho estava morno, meu café estava forte, minha torrada crocante. O ônibus passou na hora certa, era limpo e chegou rápido, fazendo pouco barulho. Dei bom dia a todos no corredor e eles estavam sorridentes e radiantes. Um dia ABSOLUTamente normal. Então, bem no meio do nada, e sem qualquer aviso prévio, a COM caiu. Não foi a primeira vez que isso aconteceu, é claro, mas foi a primeira que durou tanto tempo. Até demais, a essa altura. Particularmente, não acho que vá voltar. No começo até achei que ia, mas agora não sei mais. As coisas andam muito estranhas desde que tudo aconteceu. Tem uns boatos rolando sobre um vírus. Alguma coisa a ver com as 70 árvores que sobraram no planeta. Uma espécie de vingança em escala global totalmente disposta a aniquilar a humanidade de vez, nos derrotando no nosso próprio jogo. Perante essa desgraceira completa não tive alternativa além de examinar a minha própria natureza, descendo do pedestal do superhomem para regredir à condição do animal. Venho me sentindo bicho, feito de carne, o gosto de sangue nas gengivas. Venho sentido frio, dor, medo. E venho ouvindo cornetas metálicas no meio da madrugada. Primeiro a COM, agora isso. Seriam prenúncios do Apocalipse? E se o mundo estiver mesmo acabando? Eu sempre fico pensando, Não, o mundo não está acabando, tem tantos bebês nascendo e garotinhas descobrindo o balé, tanta gente mudando de emprego e de cidade e ficando pela primeira vez solteira em dez anos e começando uma viagem longa pelos confins da Terra e ganhando um campeonato importante em cima do maior rival e aprendendo a gostar de um queijo difícil depois de algum tempo e terminando de mobiliar um apartamento bem do jeito que queria e muito, mas muito longe mesmo de concluir a obra prima capaz de mudar para sempre a sua vida. O mundo não ia acabar logo agora. Bem, pode até ser que não seja logo agora, mas certamente algum dia há de acontecer. Um dia o mundo há de acabar, e vai ser bem no meio de várias coisas acontecendo. Duvido muito que o Apocalipse vá fazer algum tipo de concessão a você. Estou certo de que também não fará para mim.


Lauren Pelc-McArthur



Henrik Isaksson Garrell



Henrik Isaksson Garrell


#154


Zander Blom


Zander Blom



Zander Blom


No meio da tempestade, o gordo carequinha rodopiava com seu roupão sendo enchido pela ventania, girando e girando um bambolê invisível. Enquanto fazia isso, soltava suas gargalhadas infernais e olhava pra mim, sacudindo o tico flácido. Que chateação, só faltava ele começar a soltar gases coloridos na chuva que caía e bolhas de sabão pelas orelhas. Contudo, apesar da chuva, o céu permanecia azul. A água que caía vinha de nuvem nenhuma, parecendo se materializar assim que tocava nossa cuca. Se meu cabelo não tivesse tão escorrido e ensopado eu não acreditaria naquela chuva. O carequinha deixou de dar voltas, fechou seu roupão e colocou a mão em meu ombro. — Quanto tempo faz que eu tô dando volta, bichô, tipo uns dez minutos? — ele disse. Ao falar isso, o carequinha carregava o cenho e um brilho estranho reluzia no seu olhar, dando-lhe um aspecto ainda mais inteligente. Bem, não sei se inteligente, talvez louco. É, louco era a palavra certa. — Acho que faz mais tempo. Uns vinte minutos. Onde foram parar o teto e os robôs que nos perseguiam? Aquela árvore tem a ver com isso? — Vinte minutos? E como isso é possível? — O que é possível? — QUE EU ESTEJA LEMBRANDO DE TUDO, BICHÔ. Dito isso, o carequinha voltou a gargalhar e a girar na chuva. Ele dançava com alegria tão contagiante que cheguei a arriscar uns sapateados. — Estou lembrando do que você disse há cinco minutos, bichô, você disse “aquela árvore tem a ver com isso?” — ele disse. — Foi isso que você disse, não foi? Sim, era o que eu tinha dito. O carequinha de roupão, um Desligado, voltou a se lembrar. Aquela tempestade elétrica parecia ser milagrosa. Se aconteceu com ele, poderia acontecer com outros. Os Curtos voltariam a recordar coisas enterradas no passado de antes do Grande Desligamento, de antes do Apocalipse da COM. Os Desligados voltariam a sonhar. E Falantes como eu poderiam afinal parar de fingir de sonso. — Mas como isso é possível, sem a COM? — perguntei. Diacho, o que estava acontecendo? A 71ª árvore só podia ter alguma coisa a ver com isso. De alguma forma, apesar de já ter acabado, o mundo insistia em seguir acabando.


Zander Blom



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Penique Productions



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Escadarias. Escadarias acima. E a cada degrau um momento, uma Babel. O ar (nessa forma de respirar; como se fosse o primeiro e até o único alimento: o respirar). Cada inspirada: um momento. O odor de Morgana. Esse par em Morgana. Um momento que muda uma vida inteira, uma âncora que se desprende e muda uma geração. Corro nestes degraus, tablado por tablado do maior conjunto de escadarias que se pode encontrar na cidade; avenida Paulista, a veia, o auge, degraus erigidos desde quando a cidade era uma cidade menor em tamanho, ainda assim a maior de todas, apenas comparável a si mesma, hoje, sem dono, interminável canção desconcertada, ainda esse grande entroncamento dos contentes e dos não contentes. Interminável. De onde vem esse interminável? Há essa variação entre ser contente e estar contente. Levi Van Veluw descobre esse trânsito. [...] Levi Van Veluw. [...] O sentido é o trânsito, a força de sua imprecisão. (Talvez se eu esquecesse do que aconteceu pudesse ser mais contente ou estar preparado para ser contente na hora certa.) [...] Quando é a hora certa? [...] O que dizer? Eu lembro? Eu sabia? Eu quis? Eu, que dependo tanto desse grupo, quis mais do que tudo e todos? [...] Sou a lateral, uma das laterais dessa dupla, desse casal cruzando os espelhos nas paredes, que coisa fabulosa é um espelho, o gesto mineral, a retribuição, a vela que acende e se apaga para acender no metro seguinte. As mãos de Morgana estão suadas. As mãos de Morgana ainda mais suadas. Tudo o que envolve mãos suadas, o frio, a revelação de um sentimento guardado, improvável dispensar de palavras, parte da corrida, parte da familiaridade nova e instintiva deste momento, um momento que muda uma vida, do momento em que é preciso confiar um no outro. Mãos. As mãos dadas e a corrida como se fosse possível acelerar o tempo ou encorpá-lo, o tempo. O espelho que se encorpa e se desencorpa, encarna e nos desencarna, o movimento, a corrida. [...] Uma possibilidade de variação de limites é a incerteza, como sustenta Filippo Minelli quando demonstra que a beleza pode ser encontrada nos lugares e momentos menos improváveis, na geografia em relação à qual a primeira aparência é o caos. O etéreo, como etéreas podem ser as lembranças. [...] Até hoje (até este momento), não sei dizer com certeza se lembrar de algo por inteiro é melhor do que não se lembrar. Nuvens significando o que Filippo Minelli me demonstrou. Morgana é mais rápida do que eu. Há coisas das quais não é preciso lembrar, pelo menos não de maneira completa e de modo a que essas coisas não precisem ser reinventadas ou melhoradas. Morgana é mais bela e mais cheia de vida do que eu. Em suas mãos suadas: a corrida, a corrida mais rápida do que eu. Em suas mãos. Percebo agora que todos nós somos fragmentados, e digo fragmentados no sentido de fragmentos mesmo, porque nos fragmentamos quando nascemos e quando precisamos deixar para trás o que não é bom ou mesmo achar um lugar adequado para o que não é bom e acomodá-lo para que seja útil, ou proveitoso, mesmo que não seja bom e útil de imediato, e também quando precisamos nos desacomodar e redescobrir o que está por dentro e o que está por fora do tempo no qual nos concentramos: o tempo. Dependendo de como se passa o tempo, o tempo pode ser algo que leva à acomodação, que é quando não se descobre nada ou se descobre pouca coisa, mesmo quando, por haver tempo livre, se absorve um volume enorme de informações e se vive basicamente para absorver um volume enorme de informações.



Penique Productions


A corrida escadas acima é uma forma de brincar com o tempo, como se brinca com os dedos alternando primaveras e invernos na quentura e na esponja das mãos. Por isso é razoável e cabível que, mesmo correndo, se pense melhor como passar o tempo. A tempo. Música. Uma saída para se passar o tempo é ouvindo música. A voz de Morgana e a música. No universo da música há o subuniverso das divas da música. Amo, e posso garantir que amo com toda a minha alma, as divas da música; ainda mais agora. Escadaria acima, altura das escadas: vibração, altura e torres, a Paulista. As reverberações dos risos e dos passos, os meus e os dos outros, os risos e os passos de Morgana. Os outros neste momento, que transforma uma vida e uma geração, os outros que andam comigo nessa escolha pela música das divas. O melhor da música é a vibração (no ar que eu respiro), essa vibração primordial (que respiro). [...] Acho que nunca entendi o que poderia ser sutileza da vibração primordial antes deste momento, porque este momento é um que não se compara aos que eu já tenha vivido. É como um ciclo, mas não um ciclo do tipo interminável. A noção de ciclo depende do tempo: as coisas e as informações vão se acumulando porque eu sou do tipo de pessoa que consegue lembrar, não que eu seja melhor do que os outros que não conseguem lembrar; apenas sei melhor sobre as coisas que me interessam, como a voz de uma diva, a sutileza na voz de uma diva. [...] Morgana para e volta a segurar minha mão perguntando se chegamos a um acordo. Digo que não, que ainda penso que as divas de vozes agudas são mais impactantes do que as de vozes grave. Ela sorri e diz que bom, passando de novo à minha frente na subida da escada. Olho para baixo e vejo os outros cantando suas músicas preferidas. Somos esse loop das músicas preferidas. O ar vibra carregando a euforia e me dá essa vontade de inventar uma palavra nova, uma palavra que seja o coletivo da palavra euforia combinada com a palavra sutileza e com outras muitas palavras euforia. [...] Morgana me pergunta se tudo bem ela sentir um pouco de medo. Digo que tem sempre um pouquinho de tudo na sensação de alegria. “Alegria”, ela sempre escreve (escrever não é algo fácil para nenhum de nós), riscando com pedra nas paredes deste lugar das escadarias nessas vezes em que nos encontramos para falar de música, a música das divas. [...] É difícil soar engraçado quando se está com um pouquinho de medo, o ar perdeu o confronto das informações, está livre, estou livre. Na metade do percurso, o meio da escadaria. Tudo é meio e segredo agora. Não há redes sobre as quais eu possa cair. Não se cai enquanto se corre. Buscar as mãos suadas de Morgana, o que ela diz e escreve nas paredes. Os espelhos sobem ao lado de Morgana. Seus pares aparecem e desaparecem, espelhos a pegam e desapegam. Agora correndo ao lado. E Morgana pergunta quem eu sou, e eu sei que ela está brincando. Brincar enquanto se corre; cantar enquanto se corre; ouvir os outros lá no térreo enquanto se corre. As paredes nos separam de São Paulo. Lá fora a avenida Paulista. Neste momento a vida é novidade, respiro o cheiro de Morgana, o suor nas mãos de Morgana. O que é o tempo livre para você, Morgana me perguntou noutras vezes. Morgana pergunta outra vez. Acho que ela nem se lembra, mas eu lembro. Morgana é melhor em subir escadas do que eu.


Penique Productions



Penique Productions


Penique Productions


Ser contente e não ser contente, equilibrar e desequilibrar. A convivência que MOMO e Koen Delaere tanto falam. No topo da escadaria, Morgana me espera com a porta aberta que leva ao mirante. Quando me aproximo, ela me entrega algumas pedras, as pedras que usa para riscar na parede quando vem para nossos encontros, pede que eu escreva a letra da minha música predileta, a que refiro sempre como sendo o meu segredo, diz para eu começar da direita para a esquerda, porque ela fará o mesmo da esquerda para direita (escrever não é fácil para nenhum de nós). Os outros chegam aos poucos, cada um com um instrumento musical, cada um com sua pedra recebida de presente de Morgana. Megan Hershman assegura a todos que é exatamente como entrar no mar. O que seria mais vibrante do que escrever com pedra numa parede, digo a todos. Lena Szczesna tira do bolso do seu casaco muitas pedrinhas coloridas menores, atira para cima. Gosto do som das pedrinhas batendo na cerâmica do piso. Os outros se preparam e poderá ser um belo concerto musical. Começo a escrever a letra da música. Morgana está quase no fim. [...] As pedras se fragmentam para unir minha letra com a de Morgana. [...] Os outros já começaram: há um pouco de novo mundo, há um pouco de medo na alegria. Dentre todos, sou o que não esquece jamais. Daqui a pouco alguém também lembrará. Lá embaixo, pessoas tentando encontrar, pessoas esperando. [...] Imagino o que cada um esteja pensando. Não há lugar mais alto para subir. [...] A letra da música de Morgana é tão bonita quanto a letra da minha música; na verdade, a letra da música de Morgana é mais bonita. [...] Muito se disse que haveria violência, aqui de cima não vejo violência, vejo as pessoas conversando e sorrindo como nunca tinha visto. Eu lembro. Chamo os outros para que vejam também. Levi é o primeiro a largar o instrumento e descer. Diz que a partir deste momento não vai esquecer mais, embora todos aqui saibam que isso não vai esquecer. [...] Esquecer é bom. É possível que todos logo esqueçam como era antes. E se a maneira de estarmos conectados como antes não acontecer mais? Nem tudo estará tão à disposição. [...] Não ter tudo à disposição pode ser bom. Peço que Morgana me dê um beijo na boca antes dela descer. Todos já desceram, Morgana ficou um tempo impressionante observando as nuvens. As nuvens estão diferentes, mas ninguém ousou dizer. Um beijo é um bom começo, um beijo também pode ser uma tentativa de não esquecer. É impossível esquecer alguém que você tenha beijado na boca, é isso que a letra da canção de Morgana diz. Morgana beija minha boca, é um beijo demorado. Além do ar, o beijo. Morgana desce. Fico acompanhando ela descer. Morgana desce as escadas, desce tão rápido quanto subiu. O mundo que ela verá no térreo não é o mesmo de minutos atrás. Volto pra parede onde ela escreveu as letras da canção. Concerto. Há tantas músicas que não saem da minha cabeça, sou o que não esquece, e agora estas nuvens e as letras de Morgana na parede. Éden. Só mais um pouco, tenho certeza que daqui a minutos vou respirar fundo e também vou descer.



Penique Productions


Zander Blom

Depois que o cubo-catedral sumiu, a praça da Sé reapareceu inteira. Dava pra ver tudo ao redor, já que não havia paredes. Alguns casais começaram a se destacar da multidão de loops esparramados em pequenos grupos nos cantos e a se encaminhar pro centro da praça. Lembrava um baile vazio no qual de repente todos se decidissem a dançar. Acompanhando o girar de bambolê do carequinha de roupão, os casais rodopiavam. Eu nunca tinha visto pessoas se tocarem com tanta paixão, ou ao menos não lembrava disso. Algo muito inesperado estava acontecendo. Fazia uns minutos o carequinha começara a lembrar. A tal Parada ABSOLUT era mesmo firmeza. Então os casais começaram a se beijar. Mulher com homem, mulher com mulher, homem com homem. Sacudindo seu roupão amarfanhado, o carequinha começou a lançar uns olhares meio esquisitos pra mim e veio em minha direção, gritando, “quem beija não esquece, quem beija não esquece”. Ao dizer isso, ele esticava os beiços pro meu lado. Eu, hein. Mas antes que chegasse em mim, uma velha conhecida surgiu do nada, estendendo seus bigodes no meio dos casas dançantes e dispersando os loopers. Um gancho ameaçador se ergueu acima das cabeças, apontando pra máscara da Parada ABSOLUT que o carequinha usava. Era mamãe. Minha mamãe-robô. Pelo visto, ela queria nos matar. Pegando meu braço como se fosse me tirar pra dançar, o carequinha disse:

— Sebo nas canelas, bichô.

Então corremos.


#181


Ismael Iglesias



Ismael Iglesias



Ismael Iglesias





Ismael Iglesias para ABSOLUT VODKA



Ismael Iglesias



Artistas

Textos

#001

David Quiles Guilló

#006 (Elche, 1973)

Empreendedor renacentista, realiza conceitos e projetos nos quais outros artistas mostram seu talento. No comando de ABSOLUT 2140, criou uma nova forma de contar histórias, que ele nomeia de “Stereo-Storytelling”.

Ismael Iglesias

(Durango, 1974)

Vive e trabalha em Bilbao (País Basco). Iglesias participou do projeto Espacio Abisal e residiu na Fundação Delfina em Londres. Ele é um artista multidisciplinar que soube construir uma obra plural com seu próprio estilo. Suas propostas, a meio caminho entre pintura e instalação foram mostradas em várias exposições coletivas e individuais em Bilbao, Barcelona, Madrid, Londres, Basel, Los Angeles e Pequim.

#018

Joca Reiners Terron

(Cuiabá, 1968)

Escritor, publicou os romances Não há nada lá (2001, reeditado em 2011), Hotel Hell (2003), Do fundo do poço se vê a lua (Prêmio Machado de Assis-FBN, 2010), Guia de ruas sem saída (2012), entre outros livros.

#022

Braulio Tavares (Campina Grande, 1950) Escritor, roteirista e compositor, publicou “A Espinha Dorsal da Memória” (1889, Prêmio Editorial Caminho de Ficção Científica) e “Mundo Fantasmo” (1994), entre outros livros.

#054

Miguel Del Castillo

(Rio de Janeiro, 1987)

Escritor e editor, formou-se em arquitetura pela FAU-PUC. Atualmente trabalha em seu livro de estréia, a ser publicado em 2013. Foi um dos vinte autores selecionados pela revista “Granta – Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” (2012).

#102

Alexandre Rodrigues

#016

Zander Blom

(Pretoria, 1982)

Zander Blom explora diferentes configurações de linhas e formas em suas pinturas, desenhos e distintas fotos de montagens abstratas. Muitas vezes, usando a arquitetura de seu trabalho de estúdio como tela - especialmente espaços definidos como cantos e paredes - Blom cria padrões com papelão, tintas, fita e outros materiais. Em seguida, ele fotografa as construções temporárias antes de destruí-las. Blom explora a imagem de abstração modernista para suas composições lúdicas, com formas repetidas ritmicamente por todo o plano da imagem. Em suas pinturas, pinceladas modulares de tinta e linhas precisas criam diferentes relações formais

#021

Stefan Saalfeld (Munique, 1962) Pintor e artista digital. A maioria de suas obras abstratas são uma mistura / montagem de diferentes materiais visuais. Ele está interessado numa complexa variedade de elementos, e tenta combinar aspectos técnicos com formas orgânicas. A série ABTRACTS remete a uma uma tela quebrada, refletindo cores vivas e formando uma espacialidade única: “A intenção é ter fortes energias visuais nas minhas fotos e mantê-las em uma espécie de equilíbrio, num estado de incerteza

(Rio de Janeiro, 1967)

Escritor, publicou os livros “Veja se Você Responde Essa Pergunta” (2009) e “Aquilae Non Gerunt Columbas” (2011). Edita o blog http://gabinetedentario.wordpress.com.

#040

#135

Boris Tellegen aka DELTA é reconhecido como um dos pioneiros europeus da cena do grafite. Depois de meados dos anos noventa, ele evoluiu para um estilo de arte mais sofisticada e experimental. Desde então, Tellegen tornou-se um nome estabelecido no cenário da arte contemporânea, com diversas exposições internacionais.

André “Cardoso” Czarnobai

(Porto Alegre, 1979)

Escritor e tradutor, formado em jornalismo na UFRGS, está desde 2012 em São Paulo. Editou o “CardosOnLine”, fanzine por email com mais de 280 edições (1998-2001). Publicou o livro “Cavernas & Concubinas” (2005).

Boris Tellegen / Delta Inc

(Amsterdam, 1968)

#078

Koen Delaere (Brugge, 1970)

#156

Paul Scott

(Porto Alegre, 1966)

Poeta e escritor, vive desde 2008 no Rio de Janeiro. Publicou os romances “Voláteis” (2005) e “Habitante Irreal” (Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, 2011), entre outros. “Ainda Orangotangos” (2004) foi levado ao cinema por Gustavo Spolidoro

A abordagem de Koen Delaere à pintura se assemelha ao momento performático da música. Como em produções musicais, em suas obras também se percebe uma performance “ao vivo”. Num concerto existe espontaneidade, aleatoriedade, improvisação e um caos controlado. Encontramos vestígios desses elementos em suas pinturas, assim como o frescor de uma performance ao vivo. Suas obras vivem em uma extensão do presente.


Créditos

Artistas

#082

Ernesto Artillo

(Málaga, 1987)

Ernesto Artillo cresceu vendo o pai fazendo colagem, mas ele realmente começou a desenvolver sua criatividade na infância com a pintura. Mais tarde, durante os seus estudos de publicidade, começou a tirar fotos, com foco em moda. Agora, todas essas disciplinas compõe sua colagem. Ernesto tem colaborado com marcas de moda, como Dolce & Gabbana, Rabaneda ou Planet Palmer. Ele é publicado em várias revistas e exibiu sua arte em exposições individuais e coletivas.

Graziela Calfat (São Paulo, 1969) Diretora executiva e de comunicação. Joca Reiners Terron

Coordenação editorial.

(Málaga, 1977)

Artista espanhol baseado em Madrid. Sua prática artística começa no cruzamento da arte, cultura popular e Internet. Ele trabalha com uma ampla gama de mídias, incluindo: pintura, website, gif animado, instalação, fotografia, vídeo e impressão. Suas obras notáveis incluem: Two Hundred and Sixteen Colors, On Kawara Time Machine, Ants, Broken Gradients e Recognition. Fernández é o fundador e curador do Domain Gallery uma galeria virtual focada em arte digital.

(Cuiabá, 1968)

Ros Dolan Studio

(Barcelona, 2001)

Fernanda Alvares

(São Bernardo do Campo,1971)

Diagramação.

#117

Manuel Fernández

David Quiles Guilló (Elche, 1973) Ideia original, edição “stereo-storytelling” e curadoria.

Correção de textos.

Guilherme Brandão

Distribuição e logística.

(São Paulo, 1981)

Pancrom

(São Paulo, 1949) Impresão e finalização.

#128

Henrik Isaksson Garrell (Estocolmo, 1987) Mora e trabalha numa casa na floresta nos arredores de Estocolmo. As obras de Henrik, esculturais e científicas, tentam dar vida a objetos inanimados e constroem novas formas de vida. Ele encena sonhos e pesadelos, enquanto trabalha atualmente com diferentes paisagens.

#132

Uma publicação

Lauren Pelc-McArthur

(Toronto, 1989)

Uma artista multi-disciplinar que vive em Toronto, no Canadá. Ela predominantemente trabalha com um processo que oscila entre a pintura a óleo, modelagem 3-D e manipulação digital. Ao combinar essas diferentes práticas, ela está interessada em examinar as distorções entre as realidades virtuais e o mundo tangível.

Um projeto

#164

Penique Productions

(Barcelona, 2007)

Penique Productions é Sergi Arbusà, Pablo Baqué, Pol Clusella e Chamo San. O trabalho de Penique começou como uma apropriação do espaço arquitetônico, invadindo-o através de instalações infláveis efêmeras. Cada instalação modifica a textura, cor e iluminação do espaço que está sendo ocupado. Além disso, mantém a estrutura original, muitas vezes alterada por novas formas, mantendo-a reconhecível. As instalações são criadas exclusivamente para cada local, e são geralmente monocromáticas, realçando volumes e texturas. Do lado de fora, a instalação é apresentada como um inflável invasivo. No entanto, a partir do interior, mostra as formas originais da arquitetura ou móveis, criando novas tensões e rugas por sua embalagem. A peça é tanto cheia e vazia, ao mesmo tempo.

2013 ©SINTONISON SL

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Ismael Iglesias